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Nostalgia (da Infância) de um bem perdido

Pessoa sentia grande saudade e consequentemente falta da „Infância‟, mas trata-se de uma saudade, e de uma nostalgia imaginada, intelectualmente trabalhada e literalmente sentida. Pessoa, afirma numa carta redigida a Gaspar Simões (11/12/1931), que a saudade é uma “atitude literária”, símbolo de pureza, inconsciência, sonho, paraíso perdido.. etc.

O menino de sua mãe
o sujeito poético parte da imagem de um soldado morto e abandonado no campo de batalha, de modo a exprimir o dramatismo de uma vivência familiar:

- o contraste entre as expectativas da mãe da criada velha e da realidade; - a precocidade da morte - a intemporalidade da situação dramática evocada - a fugicidade dos momentos de felicidade

Raia-lhe a farda o sangue. A brancura embainhada De um lenço… deu-lho a criada Velha que o trouxe ao colo. alada Ponta a roçar o solo. Dera-lhe a mãe. exangue. Lá longe. a mãe lhe dera Um nome e o mantivera: «O menino de sua mãe. Ele é que já não serve. Está inteira E boa a cigarreira. de lado a lado-. e bem!” (Malhas que o Império tece!) Jaz morto e apodrece O menino da sua mãe Fernando Pessoa . em casa. De balas trespassadoDuas. *2ª PARTE * Tão jovem! Que jovem era! (agora que idade tem?) Filho unico. há a prece: “Que volte cedo. Jaz morto.*1ª PARTE* No plaino abandonado Que a morna brisa aquece. e arrefece. Fita com olhar langue E cego os céus perdidos. louro. Alvo. De braços estendidos. De outra algibeira.» Caiu-lhe da algibeira A cigarreira breve.

Com a passagem para a terceira e última parte do poema encontramos um discurso parentético no verso “(Malhas que o Império tece!)” onde se pretende fazer uma acusação revoltosa ao império em questão. pretende reforçar-se o sentimento que o narrador sente ao observar o lado negro dos momentos da guerra.Esta composição poética é constituída por seis quintilhas de versos de seis sílabas métricas (hexassílabos). e que se encontra em casa – um ambiente oposto ao que se sentia no “plaino” -. a mãe que simboliza a esperança. encontra-se a primeira hipálage da composição – “no plaino abandonado” – para transportar o conceito de abandono do menino para o “plaino”. Nas duas primeiras estrofes. O facto de o poema terminar com reticências pode simbolizar o facto de apesar de o menino já ter falecido. É também aqui que surge. a saudade. finalmente. o sujeito lírico enuncia que naquele terreno se encontra o corpo do “menino de sua mãe” que vai arrefecendo apesar da “morna brisa” que atravessa o espaço. Por fim. . O último verso remonta também ao ambiente familiar da casa. pouco duradouro* É também utilizada uma expressão de cariz terno e carinhoso para expressar o que a mãe chamava ao seu menino e para representar todos os jovens que morreram precocemente na mesma guerra. sendo que esta é a própria temática do poema. que constituem a primeira parte do poema. No primeiro verso. . Ao surgimento deste substantivo vem agregada uma hipálage no verso “A cigarreira breve” que representa a brevidade da vida do menino pois este não teve tempo de utilizar a “cigarreira” oferecida pela sua mãe. ainda está presente alguma . *Algo passageiro. predominam as frases do tipo declarativo para demonstrar que a temática é suficientemente profunda pois retrata o desabar dos sonhos. o carinho e o amor.Análise . no penúltimo verso da composição encontramos a gradação positiva – “Jaz morto e apodrece” – que se iniciou no último verso da primeira estrofe – “Jaz morto e arrefece” – e que pretende traduzir a ideia de que a decomposição do corpo do menino é o único lucro do absurdo da guerra. Com esta primeira estrofe.Inicialmente. A repetição do nome “jovem” relaciona-se com a expressividade das frases exclamativas pois estas também pretendem demonstrar a emoção da juventude do menino quando este morreu. A expressão “O menino de sua mãe” já presente na terceira estrofe não é mais do que a forma como a mãe chamava o menino. A quarta quintilha apresenta um dos objectos que efectua a ligação entre os dois espaços e personagens presentes na composição – a “cigarreira” -. A segunda parte do poema termina com a quinta quintilha onde surgem uma outra hipálage – “a brancura embainhada” – que se relaciona com a anterior devido à reduzida duração da vida do menino e o outro objecto que faz a ligação “menino – casa” – o lenço.A segunda parte do poema inicia-se com duas frases do tipo exclamativo utilizadas pelo sujeito poético para reforçar a efemeridade da vida do menino.

na realidade. vem acentuar a revolta e o sentimentalismo contido em todo o poema.Processo de valorização estilística que consiste na atribuição a um objecto de uma característica que. . NOTAS: *Hipálage* . pertence a outro com o qual está relacionado.esperança e por terminar com a expressão referida acima.

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