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Sobre gênero e preconceitos: Estudos em análise crítica do discurso – ST 2 Jória Motta Scolforo UFV Palavras-chave: Morte – Gênero – Jornais impressos

Hierarquias de Gênero no Discurso Sobre a Morte

Este trabalho é parte da minha monografia de conclusão de curso na qual analisei os discursos

sobre a morte no periódico semanal Jornal de Viçosa na década de 1920. Nesse jornal impresso, que

circulava no município de Viçosa, na Zona da Mata mineira, estudei como os seus editores e

colaboradores construíram um discurso sobre a morte no contexto social e histórico de Viçosa. É

importante ressaltar que o objetivo do trabalho foi um estudo da morte para compreender a vida, ou

seja, saber como as atitudes e sentimentos relacionados à finitude humana influenciam os vivos. E

dentro desta proposta, analisei as notícias que tratam dos falecimentos de homens e de mulheres.

No Jornal de Viçosa havia uma relação de proximidade com a morte, escrevia-se sobre a

finitude da vida e os falecimentos eram lamentados. Na pesquisa analisei as notícias sobre a morte de

pessoas da comunidade de Viçosa nos jornais que foram publicados entre os anos de 1922 a 1928. Com

isso, tem-se que o periódico circulou no contexto da Primeira República, período compreendido entre

1889 a 1930.

Pode-se dizer que os representes da política mineira e das elites agrárias tinham como uma das

formas de poder a participação na imprensa. No Jornal de Viçosa a situação não era diferente. O

periódico tinha uma postura conservadora e governista e seu Diretor, assim como os colaboradores,

eram homens ligados à política e ao poder. Assim, tem-se que o jornal era escrito por homens da elite

local com interesses em mostrar as suas qualidades de maneira exaltada e em maior espaço, ou seja, o

jornal por meio de práticas cotidianas contribuía para a manutenção da ordem coronelística e

oligárquica da região e da política nacional.

Na pesquisa que deu origem a este trabalho mostrei que as notícias sobre mortes recebiam

maior espaço e demonstrações de sentimentos se os mortos fossem considerados relevantes

socialmente. Nas matérias, dizia-se o quanto foi grandiosa a passagem do falecido, o quão intensa

foram suas realizações e o tanto que seria sentida a sua falta. Indubitavelmente, as classificações

sociais, políticas e econômicas condicionavam o espaço, os sentimentos e a nobreza da personalidade

dos mortos nas notícias dos jornais.

Considerando esses sentimentos despertados de modo desigual nas matérias sobre falecimentos

percebe-se que não apenas as relações de poder político e econômico influenciavam no tratamento dado

aos mortos. As questões de gênero marcam uma outra dimensão das relações de poder nas notícias de óbitos.

Segundo Joan Scott (1990) as relações de gênero são um tipo de relação de poder que se constroem ao longo da história e do dia a dia, entre mulheres e homens, mulheres e mulheres, homens e homens. Para chegar a essa definição a autora partiu da idéia de haver uma conexão integral entre duas proposições: a de que o gênero é um elemento constitutivo de relações baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos e que o gênero é uma forma primária de dar significado às relações de poder. Para a autora é necessário que se examinem as formas pelas quais as identidades generificadas são substantivamente construídas por normas, valores, símbolos e funcionamento das instituições, e que formam o que ela chama de identidade subjetiva. Sendo assim, o gênero consiste na construção social que define as características de um indivíduo de determinado sexo, dividindo os componentes da sociedade em feminino e masculino. Pode-se afirmar que é a construção da diferença e sua hierarquização a partir das características biológicas dos corpos dos indivíduos. Nas notícias sobre a morte no Jornal de Viçosa, essa divisão construída a partir do corpo biológico do que é ser homem e o que é ser mulher é marcante. De acordo com Tânia Navarro Swain (2000), as representações sociais do ser humano utilizam as diferenças biológicas entre os corpos e lhes dá um lugar e função. No Jornal de Viçosa a percepção do que se entende por ser mulher, está estritamente ligada à família. Às mulheres são destinados os papéis de mães, filhas e esposas, funções femininas valorizadas pelo periódico. O jornal utilizava características como idolatrada filhinha, meiga, digna esposa, inocente, exemplo de graça e de candura para defini-las.

No trecho a seguir, retirado da notícia da morte de Maria de Lourdes M. Rolla, falecida aos 22

anos, tem-se um exemplo de como essa atribuição de valores acontecia: (

coração cheio de amor caridade, esposa dedicada, filha extremosa, irmã de affeição acrisolada, tal

era Nita desde creança até hoje. Era mais santa do que mulher. (JORNAL DE VIÇOSA, 1924:1).

)

Alma pura e comunicativa,

Para Swain (2000), a divisão binária da sociedade segundo o sexo tornou-se uma evidência, uma verdade inquestionável, algo natural por sua constante repetição, não se considerando o plural e múltiplo do ser humano. Com isso, surgem as representações da verdadeira mulher, aquela que vive em função da família e a ela dedica sua atenção e tempo, e do verdadeiro homem, que é aquele que zela pela pátria, pela família e pela religião.

Nos jornais tem-se essa construção generificada do mundo social, ou seja, a valorização da mulher como mãe. As notícias dos falecimentos femininos começam com a informação de quem elas eram progenitoras, como no exemplo: Repercutiu dolorosamente pela cidade a noticia do fallecimento

da exma. sra.d. Virginia de Oliveira Jardim, progenitora do deputado Emilio Jardim de Resende e occorido nesta cidade à tardinha do dia 25 do corrente. (JORNAL DE VIÇOSA, 1926:1).

Outras mulheres podem ser citadas, como a Sra. Caetana Ferreira: Falleceu nesta cidade, no dia 15 do corrente a exma. Sra d. Caetana Ferreira, veneranda progenitora do nosso amigo e assignante Antonio Caetano Ferreira da Silva, fasendeiro e capitalista, residente neste districto. (JORNAL DE VIÇOSA, 1926:2). Como aponta a historiadora Susan Besse (1999), as rápidas transformações urbanas, econômicas e industriais pelas quais o Brasil passou nas primeiras décadas do século XX modificaram os hábitos cotidianos, comportamentos sociais e possibilitaram um maior acesso da mulher à educação e ao trabalho. Porém, isso não garantiu uma verdadeira igualdade de gênero, apenas modernizou as desigualdades existentes. Com isso, o modelo de família baseado na dominação masculina permaneceu. De acordo com a autora, as décadas de 1920 e 1930 são marcadas pela busca de subsídios para a manutenção da ordem e da racionalidade em um momento de grandes progressos. As comunidades profissionais e intelectuais urbanas do Brasil lutavam por regenerar a família e elevá-la como a instituição fundamental que possibilitaria promover a modernização econômica preservando a ordem social. Com isso, tem-se que no período analisado por este trabalho, existiu um consenso de que o triunfo da civilização e do progresso na esfera pública dependia da valorização da família. Como afirma Susan Besse (1999), exigiam-se intensos sacrifícios das mulheres para que estas se tornassem as esposas e mães desejadas pelo progresso. De acordo com a autora, a realização mais elevada a que podia aspirar uma mulher era um casamento feliz que lhe possibilitaria um verdadeiro e completo florescer. Na notícia da morte de Maria de Lourdes M. Rolla mostra-se essa idéia do casamento como caminho para a felicidade: Casou-se em 20 de outubro do anno passado com o sr. José Rolla, moço de excellentes sentimentos. O casamento não fora uma curiosidade para ela, mas sim o mesmo sonho de felicidade que é para todos nós. Assim, infelizmente não aconteceu. (JORNAL DE VIÇOSA, 1924:1) Nos jornais, a valorização da mulher se dava pelo seu parentesco com algum homem de destaque na comunidade local; quando não se falava de seu papel de mãe, destacava-se o de esposa, com adjetivos como digna, virtuosa ou extremosa esposa. Pouco, ou praticamente nada - o que era mais comum - falava-se sobre as suas vidas. Não se diz se estudavam, se realizavam alguma atividade ou quais eram as suas principais características, o que se falava era o quanto elas exerciam bem a função de educar cidadãos respeitáveis.

De acordo com Susan Besse: as mulheres foram encarregadas da responsabilidade primordial de inculcar os valores e habilidades que fariam de seus filhos membros bem sucedidos e produtivos da sociedade burguesa. (BESSE, 1999:108). Na nota de falecimento da senhora Leonor de Freitas, por

exemplo, é notória essa valorização das relações de parentesco: (

d. Leonor de Freitas, esposa do sr. Sebastião Rodrigues. A finada deixa seis filhos menores, era filha do tenente Manuel de Freitas Pinto e nora do capitão Antonio José Rodrigues Junior, ambos fazendeiros neste districto. (JORNAL DE VIÇOSA, 1924:2). De modo semelhante, outras mulheres eram mostradas apenas como progenitoras, filhas e esposas de alguém. Como foi o caso de dona Maria José da Soledade. Sobre ela diz o jornal: Falleceu nesta cidade no dia 30 do mez p. passado a exma. sra. dona Maria José da Saledade, progenitora dos nossos amigos Almiro de Paula Andrade, inspector de vehiculos. Francisco de Paula Andrade porteiro do grupo Escolar e José Sant´Anna guarda livros da casa commercial Soares Cardoso & Cia desta

)

falleceu, nesta cidade, a exma sra.

praça. (JORNAL DE VIÇOSA, 1926:1).

O que vemos no Jornal de Viçosa é a representação de mulheres que parecem não ter nada de especial para ser contado, com exceção de seus parentescos com homens. Se de um lado, as mulheres são mostradas no periódico como mães, esposas e filhas, de outro, os homens, são mostrados como

laboriosos e honrados chefes de famílias, modelos de cidadãos, caridosos e exemplares. O que se percebe é que características de cidadão, trabalhador e chefe de família são exclusivas dos homens, as notícias de suas mortes mantinham uma regularidade discursiva destinava a exaltar de modo positivo as suas personalidades. No Jornal de Viçosa é nítida a valorização dessa elite formada por homens, que são mostrados como pessoas exemplares, com os mais nobres sentimentos. Como no caso do médico Dr. João Baptista Britto, sobre o qual o periódico afirma: Caridoso, modesto ao extremo, amigo de todos e, sobretudo, dos pobres e dos humildes, desprovido de ambição e de vaidade, o Dr. Britto teve, na sua pobreza evangélica, a vida serena e cheia de dignidade e de nobreza, dos que podem olhar para traz

sem receio (

Na notícia do falecimento do juiz Dr. Francisco Machado de Magalhães Filho, também é perceptível esse esforço do jornal em mostrar o quão impressionante era a personalidade e as atitudes desses homens, que não cometiam erros e eram importantes exemplos a serem seguidos. O que nos mostra o trecho a seguir: Rectidão de caracter, impavidez moral, senso de organisação e responsabilidade, resolução nos bons propósitos até a temeridade mesma, que essas qualidades

(JORNAL DE VIÇOSA,

).

(JORNAL DE VIÇOSA, 1924:1).

provocam nos meios envenenados pela corrupção e pela anarchia (

).

1927:1)

Com isso, o jornal mostra o distanciamento existente entre os seres humanos comuns e os homens que são, de alguma forma, especiais. Esses últimos não cedem ao pecado e estão acima das

tentações terrenas. Exemplo desse comportamento é o coronel Mário Vaz de Mello: (

ventura dos que não vivem para essa vida louca de fausto e vacuidade, nem para si mesmos, mas vivem para a colletividade, para a sociedade, para Deus, que labutam pelo direito, pela justiça, pelo bem comum. (JORNAL DE VIÇOSA, 1924:1). Ao dizer que alguém viveu para a collectividade, para a sociedade e para Deus a morte dessa pessoa é utilizada para mostrar o comportamento correto desse cidadão exemplar, servindo de modelo para que outros sigam suas atitudes e a moral seja mantida.

)

risonha

Esse discurso pode ser encontrado em outros exemplos, como o do coronel Francisco Alves Torres, sobre o qual o periódico afirma: O coronel Torres viveu para a collectividade, para a sociedade, para Deus, amou a mocidade e trabalhou pelo direito, pela justiça e pelo bem comum. (JORNAL DE VIÇOSA, 1927:1). O que se nota é que os textos são parecidos em sua estrutura, mostrando que existe o interesse de reafirmar constantemente uma idéia, que no caso, é a de que a família, a pátria e a religião devem ser respeitadas, itens considerados a base da ordem social. Essa atitude de respeito era seguida pelos grandes homens mostrados pelo periódico e que deviam servir de exemplo para a conduta dos demais membros da comunidade.

A amizade também é instigante para pensar o discurso sobre a morte que se tem no Jornal de Viçosa, por ser constantemente lembrada pelo periódico como uma importante característica das relações afetivas entre os homens. Somente eles podiam ser amigos entre si, à mulher restava ser graciosa, doce, meiga, alegre, caridosa e bela, adjetivos utilizados pelo jornal para defini-las. Com isso, as notícias de falecimentos, ao mostrarem a relevância das amizades masculinas e ausência feminina nesse círculo intersubjetivo reforçam as relações de poder, em especial as de gênero.

Sobre a amizade, Susan Besse (1999) nos diz que não era permitido à mulher ter contato com outros homens que não fossem de sua família. Dessa forma, é o casamento a fonte de realização feminina e não a amizade, ao invés de ter suas glórias pessoais, à mulher cabia auxiliar as glórias do marido e filhos. A amizade com outros homens poderia denegrir a sua imagem diante da sociedade e a amizade com outras mulheres desviaria o tempo e a atenção que deveria ser exclusivamente destinadas à família.

Segundo a historiadora Marilda Aparecida Ionta (2004), essa interdição das mulheres à amizade se dá por uma série de crenças difundidas no imaginário social ocidental que postulam a incapacidade

das mulheres para a amizade. Nesse sentido, os modelos conhecidos de amizade são as experiências

masculinas. Para a autora, essas crenças possuem ampla significação política, na medida em que

excluem as mulheres do espaço público.

Os discursos sobre a morte, tanto relacionados à amizade quanto aos outros fatores analisados,

confirmam que à mulher cabia a tarefa de zelar por seu marido e seus filhos e os seus principais valores

estavam ligados ao parentesco com homens considerados importantes. Para o homem, era destinado o

cuidado com a ordem, a manutenção da moral e a chefia da família. Nas notícias sobre a morte de

homens era comum haver uma biografia do morto, com as suas realizações em vida e as principais

características - sempre positivas - do seu caráter. Em nenhuma notícia sobre a morte de mulheres

contém biografia. Ao ocultarem a vida das mulheres, tirando-lhes uma história e seu passado e dando-

lhes como principais funções o casamento e a maternidade, as notícias de óbitos reafirmam os

consensos existentes de que os papéis sociais dos indivíduos devam estar relacionados ao seu corpo

biológico.

Assim, o jornal reproduz e produz simultaneamente, mediante gestos corriqueiros, uma forma

autoritária de pensar e de ver o mundo, a dominação masculina, os tradicionais papéis de gênero e o

encarceramento do feminino.

Referências

BESSE, Susan K. Modernizando a Desigualdade: Reestruturação da Ideologia de Gênero no Brasil 1914-1940; tradução por Lólio Lourenço de Oliveira. São Paulo: Edusp, 1999.

IONTA, Marilda Aparecida. As cores da amizade na escrita epistolar de Anita Malfatti, Oneyda Alvarenga, Henriqueta Lisboa e Mário Andrade. 2004. Dissertação (Doutorado em história). Universidade Estadual de Campinas, São Paulo: [s.n.], 2004.

MARTINS, José de Souza (Org.). A morte e os mortos na sociedade brasileira. São paulo: Hhucitec,

1983.

RESENDE, Maria Efigênia Lage de. O Brasil republicano. O tempo do liberalismo Excludente da Proclamação da República à Revolução de 1930. Rio de Janeiro: civilização brasileira, 2003.

RODRIGUES, José Carlos. Tabu da morte. Rio de Janeiro: Achiamé, 1983.

SCOTT, Joan. Gênero: categoria útil de análise histórica. in Educação e Realidade. Porto Alegre,

1990.

SWAIN, Tania Navarro. A invenção do corpo feminino ou a hora e a vez do nomadismo identitário. In:

SWAIN, Tania Naverro (org.). Feminismos: teorias e perspectivas. Revista do pograma de pós- graduação em história da UnB, 2000, vol 8, n. 1/2

Fontes

Coronel Francisco Alves Torres. Jornal de Viçosa, 29 de janeiro de 1927, N.20, Ano IV

Coronel Mario Vaz de Melo.Jornal de Viçosa, 22 de novembro de 1923, N.17, Ano I

D. Maria Cândida da Silva. Jornal de Viçosa, 18 de abril de 1925, N.20, Ano II

Dr Francisco Machado de Magalhães Filho. Jornal de Viçosa, 10 de dezembro de 1927, N.21, Ano V

Fallecimentos. Jornal de Viçosa, 21 de março de 1925, N.17, Ano II

Fallecimentos. Jornal de Viçosa, 29 de novembro de 1924, N.4, Ano II

Fallecimentos. Jornal de Viçosa, 29 de novembro de 1924, N.4, Ano II

Fallecimentos. Jornal de Viçosa, 30 de outubro de 1926, N.10, Ano IV

Fallecimento. Jornal de Viçosa, 16 de janeiro de 1926, N.16, Ano IV

Fallecimentos. Jornal de Viçosa, 20 de fevereiro de 1926, N.19, Ano IV

Fallecimentos.Jornal de Viçosa, 2 de outubro de 1926, N.7, Ano IV