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FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

CAPITALISMO E ESCRAVIDÃO NO BRASIL MERIDIONAL

o NEGRO NA SOCIEDADE ESCRAVOCRATA DO RIO GRANDE DO SUL

HENRIQUE CARDOSO CAPITALISMO E ESCRAVIDÃO NO BRASIL MERIDIONAL o NEGRO NA SOCIEDADE ESCRAVOCRATA DO RIO GRANDE
HENRIQUE CARDOSO CAPITALISMO E ESCRAVIDÃO NO BRASIL MERIDIONAL o NEGRO NA SOCIEDADE ESCRAVOCRATA DO RIO GRANDE

Fernando Henrique Cardoso nasceu no

Rio de Janeiro em 1931. Foi Presidente do Brasil por dois mandatos consecuti- vos, de 1995 a 2003, vencendo ambos os pleitos por maioria absoluta de votos. Sociólogo graduado na Universidade de São Paulo, afirmou-se desde o final dos anos sessenta como um dos mais influen- tes intelectuais latino-americanos na

análise de temas como os processos de mudança social, o desenvolvimento e a dependência, a democracia e a reforma do Estado. A partir de sua carreira aca- dêmica e intelectual, teve importante

papel na luta pela redemocratização do Brasil. Senador por São Paulo, participou da fundação do Partido da Social Demo- cracia Brasileira (PSDB) em 1988 e lide-

rou sua bancada no Senado até outubro de 1992. Foi ministro das Relações Exte- riores e da Fazenda no governo Itamar Franco.

Ex-professor catedrático de Ciência

Política e atual professor emérito da Universidade de São Paulo, foi diretor associado de Estudos na École des Hau-

tes Études en Sciences Sociales, em Paris, e professor visitante no College de Fran- ce e na Universidade de Paris-Nanterre. Ocupou a cátedra Simón Bolivar na Uni- versidade de Cambridge e ensinou nas universidades de Stanford e de Berkeley. Entre suas funções atuais, Fernando Henrique Cardoso é Presidente do Clube de Madri, co-Presidente do Inter-Ame- rican Dialogue, Presidente do Painel de Personalidades Ilustres das Nações Uni- das sobre a relação entre essa organiza- ção e a sociedade civil, e Coordenador

do grupo de trabalho responsável pela revísão do sistema de Cúpulas Ibero- Americanas. Foi ainda nomeado Mem- bro dos Conselhos Consultivos do Insti-

tute for Advanced Study, Princeton, e da Fundação Rockefeller, Nova York. Entre seus livros publicados

tute for Advanced Study, Princeton, e da Fundação Rockefeller, Nova York. Entre seus livros publicados no Brasil, os principais títulos são: Capitalismo e escravidão no Brasil meridional (1962), Empresário industrial e desenvolvimen- to econômico no Brasil (1964), Mudan- ças sociais na América Latina (1969), Po- lítíca e desenvolvímento em sociedades dependentes (1971), O modelo político brasileiro (1972), Autorítarísmo e demo- cratização (1975), Democracia para mu- dar (1978), As idéias e seu lugar (1980), Perspectivas: idéias e atuação política (1983), A democracia necessária (1985),

A construção da democracia (1993), Ne-

gros em Florianópolis: relações sociais e econômicas (2000). É também co-autor de: Dependência e desenvolvimento na América Latina (com Enzo Faletto, 1969), Os partidos e

as eleições no Brasil (com B. Lamouníer,

1975), São Paulo 1975: crescimento e po- breza (et alii, 1975), Amazônia: expan- são do capitalismo (com G. Muller, 1977), O Presidente segundo o sociólogo. En- trevista a Roberto Pompeu de Toledo (1998), O mundo em português. Um diá- logo (com Mário Soares, 1998).

Capitalismo e escravidão no Brasil meridional

Fernando Henrique Cardoso

Capitalismo e escravidão no Brasil meridional

o negro na sociedade escravocrata do Rio Grande do Sul

edição revista

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA

Rio de Janelfo

2003

COPYRIG HT © Fernando Henrique Cardoso, 2003

CAPA

Rl'gina Fl'rraz

PROJETO GRÁFICO

El'e/)'n Grumach e João de Souza Ll'itl'

IMAGEM DE CAPA

Foto de Victor Frond

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONfE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

C262c

Cardoso, Fernando Henrique, 1931- Capitalismo e escravidão no Brasil meridional: o negro na sociedade escravocrata do Rio Grande do Sul 1 Fernando Henrique Cardoso. - Rio de Janeiro: Civiliza- ção Brasileira, 2003.

Inclui bibliografia ISBN 85 -200-0635-3

1. Escravidão - Aspectos sociais - Brasil. 2. Negros - Rio Grande do Sul - Condições sociais. 3. Rio Grande do Sul- Condições sociais. I. Título.

03-0227

CDD - 326.098165 CDU - 326(816.5)

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, armazenamento ou transmissão de panes deste livro, através de quaisquer meios, sem prévia alltorização por escrito.

Direitos desta edição adquiridos pela EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA Um selo da DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A. Rua Argentina 171 - 20921-380 Rio de Janeiro, RJ - Tel.: 2585-2000

PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL Caixa Postal 23.052 - Rio de Janeiro, RJ - 20922-970

Impresso no Brasil

2003

Para

FLORESTAN FERNANDES

pela influência construtiva que exerce no desenvolvimento da sociologia no Brasil

com reconhecimento e amizade

tipos contrários, e no fundo

os mesmos: o escravo e o senhor."

JOAQUIM NABUCO, O mandato da raça negra.

" dois

Sumário

PREFÁCIO À 5" EDIÇÃO

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PREFÁCIO À EDIÇÃO

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PREFÁCIO À 1" EDIÇÃO

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INTRODUÇÃO

27

CApíTULO I

O escravo na formação do Rio Grande do Sul

CAP[TUlO 11

A Sociedade Escravista (realidade e mito)

CApíTULO 111

Senhores e escravos

159

105

55

CApíTULO IV

Estrutura econômica e política da sociedade escravocrata

CApíTULO V

A desintegração da ordem escravocrata

239

CApiTULO VI

O negro na sociedade de classes em formação

CONCLUSÕES

345

BIBLIOGRAFIA

355

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305

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Prefácio à sa Edição

Relendo papéis antigos

Não costumo reler o que escrevi. Tampouco é certo que haja alguma vez repudiado em bloco o que publiquei. Nunca disse, nem penso assim, que é melhor "esquecer tudo que escrevi". Essa insinuação maldosa (até porque exagerada, com o "tudo" correu mundo mas não é verdadeira. Pois bem, curiosamente, um dos primeiros livros que publiquei, alids o segundo, este Capitalismo e escravidão no Brasil meridional, foi relido por mim em 1977, quinze anos depois da primeira edição, e novamente agora, quarenta anos depois. A primeira releitura foi feita porque eu me incomo- dava com a Introdução, que me parecia abstrata e de difícil compreensão. Tentei explicd-la no novo Prefdcio. Agora reli porque a editora acredita que um texto novo de um sociólo- go (e ex-presidente) jâna fase mais que madura da vida pode atrair leito- res. Não o fiz, portanto, por amor egocêntrico à obra produzida. Confesso, entretanto, que o livro surpreendeu-me. Ele foi talvez o fruto final da juventude: a pesquisa foi feita quando eu tinha vinte e cinco anos, até completar a redação aos trinta anos. A volúpia com que lia os documentos, com que devorava a bibliografia e com que entre- vistava a comunidade negra gaúcha requer uma energia da qual sinto saudades. Mas o livro ressente-se também desta juventude: demasiadas citações, uma certa insegurança quanto à força das andlises e das interpretações que leva à repetição, a falta de coragem para cortar e simplificar. Ainda assim, como tese de doutoramento que foi, parece-me que o li- vro "pdra em pé".

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Isto não quer dizer que ele, se fosse escrito hoje, seria igual. Se o fosse, eu não teria aprendido com a vida nem com quarenta anos de estudos e reflexões. Mas desiludam-se os caçadores de incongruências e de contradições, pois o método de análise não mudaria fundamentalmente, nem a visão apaixonada da questão do negro como ser humano perderia força na aná- lise da escravidão. Aliás, creio que um dos pontos fortes do livro foi a revisão da questão do negro no Brasil, com a análise da produção do preconceito como forma de manter o negro como um ser "naturalmente" inferior e não apenas so- cialmente. Somente Florestan Fernandes (e peço perdão aos autores que desco- nheço que eventualmente também contribuíram para a renovação da aná- lise da questão do negro) havia colocado com força a mesma perspectiva, analisando a situação dos negros paulistas. Por trás desta revisão estava o horror da "escola paulista de sociolo- gia" à mistificação sociológica que abrandava os efeitos negativos do patriarcalismo escravista e insistia na existência, entre nós, de uma "de_ mocracia racial". Talvez a leitura dos capítulos finais deste livro ofereça argumentos para uma melhor compreensão do "racismo anti-racista" dos negros, tema em voga nos tempos em que Sartre e Senghor reivindicavam a "negritude". Não quero deixar a impressão, entretanto, de que reproduziria hoje, cem por cento, as interpretações do livro. Sobretudo a parte relativa às idéias lukacsianas de "consciência adequada", de "falsa consciência da si- tuação de classe", que me pareceram, na releitura, um tanto metafísicas e beirando a analogia com a caracterização do proletariado. Hoje, eu seria mais cuidadoso na transposição da visão marxista- lukacsiana sobre a impossibilidade do escravo compreender o modo de funcionamento da sociedade escravocrata (a "totalidade social") a partir de sua "perspectiva de casta". Por trás desta afirmação está a idéia de que só o proletariado pode entender criticamente o funcionamento da sociedade capitalista, lançan- do mão dos conceitos que a desvendem e demistifiquem. Isso porque, ao entendê-la a partir da consciência de sua posição de classe (compreendendo

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como o capitalismo se baseia na exploração do que Marx chama de mais- valia relativa), o proletariado pode ao mesmo tempo agir para mudar sua posição na sociedade, e mudar a de todos. Não propondo uma sociedade na qual ele domine, mas na qual desapareça a dominação de classe. Assim, seu interesse particular motiva a ação política que pode criar uma socie- dade melhor para todos. Enquanto o escravo não deseja a generalização da condição de escra- vo, mas sim identificar-se com a condição de seu dominador, a de homem livre, sem tocar nas bases de sustentação da sociedade capitalista. Embora a comparação esclareça algo do processo histórico ocorrido, talvez a insistência nas diferenças entre a situação de escravo e a de prole- tário (aliás, óbvia) possa ter ficado um tanto confusa com a reiteração dos conceitos de Lukacs. Não por acaso, Florestan Fernandes temia, quando iniciamos o "Se- minário de Marx", que a leitura de Lukacs distorcesse as "análises em- píricas" que ele tanto prezava. Na ocasião, as observações do mestre surpreenderam-me. Hoje, entendo sua apreensão: o brilhantismo filosófi- co de Lukacs poderia levar-nos a análises mais abstratas e conceituais do que à reconstrução histórico-estrutural dos processos que pretendíamos esclarecer. Na época, entretanto, tanto Lukacs como Sartre foram o oásis que nos permitiu escapar do marxismo vulgar cujo mecanicismo nos assustava. Neste sentido, o livro foi bem-sucedido: as ideologias, os projetos sociais, os valores não foram deixados de lado. Se não fundamentavam a explicação (que necessita de análises de estrutura social e dos interes- ses reais), não desapareceram como "mera" superestrutura, como ilu- são e deformação ideológica. Todo o tempo ressalto que não é bem assim. As ideologias e as estruturas, antes de serem consolidadas pela repeti- ção de crenças, de práticas e até de instituições que as difundem e prote- gem, aparecem na história como opções, como alternativas. As próprias estruturas sociais são construídas pela ação humana. A preocupação de evitar a análise das estruturas (a sociedade escra- vocrata, a sociedade capitalista em formação etc.) como forças cegas que atuam mecanicamente está presente nos capítulos iniciais do livro. Nestes,

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sobretudo no segundo capítulo, fiz a análise das ideologias "humaniza- doras" e descrevi de forma direta e crua o fundamento último da escravi- dão: a violência. a "escola paulista" foi objetiva neste aspecto e desnudou completamente a violência do sistema escravocrata. Não quero transformar este novo Prefácio em algo ainda mais pesado para o leitor do que a Introdução original. Mas vale a pena salientar ainda alguns pontos sobre a escolha dos procedimentos de análise. Caio Prado Júnior foi o primeiro autor a fazer uma análise histórico- estrutural em seu livro sobre a formação do Brasil. Se eu fosse analisar de novo a escravidão gaúcha, utilizaria o mesmo método básico. Assim como fiz com os empresários em livro que publiquei em 1964 e com o que veio a ser chamado, contra minha vontade, de "teoria da dependência" em li- vro que escrevi com Enzo Faletto. Entretanto, para mim a ferramenta histórico-estrutural - ou seja, a referência necessária ao modo como historicamente se estabelecem as re- lações de produção e de dominação entre as classes ou os segmentos sociais

- exige a redefinição de conceitos e de seus conteúdos em cada época his-

tórica. Assim, para analisar o capitalismo contemporâneo, em época de globalização tecnológica e financeira, é preciso recriar conceitos. É preciso voltar a perguntar: "E hoje, como se produz o excedente financeiro? Que papel joga, se joga, a idéia de mais-valía relativa?" Mais ainda, na análise de situações concretas a perspectiva histórico- estrutural é insuficiente para explicar todos os aspectos da vida social. Este último ponto foi ressaltado, indiretamente, por Roger Bastide em resenha que escreveu sobre este livro no L'Année sociologique. Bastide dis- se que seria difícil para um marxista europeu lançar mão das análises funciona listas de Talcott Parsons ou de Merton. Quando escrevi este livro, eu já havia lido muito Parsons, Merton (que eram funcionalistas) e Weber. Minha leitura de Marx foi posterior a estes autores, e eu não poderia desprezar a contribuição de seus modos de aná- lise para obter uma visão mais diferenciada da sociedade escravocrata. A idéia do patriarcalismo escravista vem de Weber. A análise de "ajustamen- to entre expectativas", de papel social ou da socialização incompleta vem dos funcionalistas. E, assim como essas, muitas outras análises e concei- tos não provêm de Marx.

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Isto, que pode parecer "ecletismo" aos marxistas teológicos, era usual entre os que foram alunos e trabalharam com Florestan Fernandes. A pai- xão pelo conhecimento, a pachorra da análise, os tormentos da síntese não respeitavam as "escolas" político-filosóficas. Podíamos até tê-las, mas éra- mos, como sou em quase tudo hoje, heréticos e antifundamentalistas. Em um tempo como o nosso, no qual o fundamentalismo (religioso ou secular, político ou científico, pouco importa) está levando o mundo a guerras de conseqüências incalculáveis, acredito que, mais do que nunca, é preciso ser mais tolerante e ter menos a pretensão à pedra filosofaI, tanto no método de análise como na vida. Mais valem o pluralismo eclético e o diálogo democrático de pontos de vista (ainda que na mesma pessoa) do que as certezas e as crenças absolutas que não levam ao conhecimento mais amplo e freqüentemente levam, sim, à negação da Razão.

Fernando Henrique Cardoso São Paulo, 7 de abril de 2003

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Prefácio 2 a Edição

Quinze anos depois da publicação deste livro, sai nova edição sem qualquer mudança no texto. Uma releitura cuidadosa permitiria fazer modificações em algumas das interpretações propostas e, especialmente, aconselharia aliviar o livro das muitas notas de pé de página e de algumas complicações desnecessá- rias. Achei, contudo, que seria melhor deixar os defeitos (e eventuais qualida- des) da edição original. Um livro, se possui estrutura mais ou menos sólida, ressente modificações parciais. Elas freqüentemente o tornam capenga. Não participo do ponto de vista dos que preferem dar injeções de óleo canforado em textos antigos para ver se eles caminham melhor: ou bem se escreve outro trabalho, ou não se autoriza a reedição. Alterações menores são sempre possí- veis e podem ser úteis. Em regra, entretanto, prefiro deixar que os enganos de interpretação posteriormente descobertos continuem nas reedições para mos- trar que na vida intelectual o percurso é tão importante quanto o resultado. Além disto, eu ainda gosto deste livro. Escrevê-lo custou-me enorme tra- balho e eu o fiz quando vivia totalmente dedicado às atividades da Universi- dade de São Paulo. Não havia saído do país e meu horizonte intelectual limitava-se à antiga Rua Maria Antônia de nossa Faculdade de Filosofia, Ciên- cias e Letras. Nela, o debate intenso, especialmente o de um pequeno grupo - hoje em grande parte distante da Universidade por imposições de força -, tentava acompanhar o debate cultural contemporâneo a duras penas. A gera- ção anterior à minha, de Florestan Fernandes, Antônio Cândido, Gioconda Mussolini, Mário Wagner Vieira da Cunha, Lourival Gomes Machado e tan- tos outros, havia renovado a vida universitária, sob influência direta dos pro- fessores estrangeiros e de homens como Fernando de Azevedo. A busca contínua de um «padrão de trabalho científico", a disciplina da pesquisa histórica e de campo, os muitos anos de contato com professores como Roger Bastide,

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Fernand Braudel, Pierre Monbeig, Lévi-Strauss, Emílio Willems e inúmeros mais haviam criado um modelo para a carreira universitária e para a produção in- telectual. A presença de alguns dos professores estrangeiros mais o ardor dos que haviam sido formados por eles e dos que, por conta própria, fizeram es- forços para substituir a tradição ensaística brasileira pela sociologia transmi- tiram-nos um sentido de responsabilidade intelectual que impunha trabalho árduo para a feitura das teses de mestrado e de doutoramento. No final dos anos cinqüenta - muito antes que a "leitura do Capital" se transformasse na coqueluche universitária mundial - um grupo de assisten- tes da Universidade de São Paulo e de alunos mais amadurecidos intelectual- mente dedicou-se à pachorrenta tarefa de ler integralmente, durante anos, aquela magna obra. Não lemos O capital, entretanto, com os olhos ingênuos dos que nada leram antes, nem com a beatífica benevolência dos conversos. Lêmo-Io depois de muito Weber, Descartes, Durkheim, Dilthey, Mannheim, Husserl, alguma antropologia, história e economia. Os autores de predileção de cada um dos participantes do "seminário de Marx" e o grau de conheci- mento que cada um de nós possuía destes e de outros autores variava. Mas nos debates acabávamos por aprender de tanto escutar as discussões acaloradas. Havia os que, sob a influência de Sartre, procuravam uma "antropologia fundante", para explicar a história, e os que, brandindo Husserl ou Hegel, mas querendo libertar-se da fenomenologia e do idealismo, acreditavam ter desco- berto como ancorar a Lógica no trabalho social, dispensando a "problemáti- ca do sujeito" como passo requerido para completar a dialética marxista. Bons tempos. A Introdução deste livro, pedante, titubeante às vezes, confusa em muitas partes e quase sempre justificativa: ela visava mostrar à "comunidade cientí- fica" que o método dialético sustenta-se como alternativa de conhecimento. Deixei-a tal qual a publiquei há quinze anos porque ela documenta o esforço teórico e a carga pesada que era, então, afirmar a opção pela dialética marxis- ta. Esta tinha de fazer-se como uma escolha à altura de uma tradição univer- sitária de nível. Florestan Fernandes, atormentado pela obsessão de desenvolver uma sociologia que não fosse constatação positiva da ordem predominante, abrira uma possibilidade de justificaçãO da dialética como um dos três méto- dos fundamentais: o funcionalista, o weberiano e o dialético. A maioria dos

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participantes do "seminário de Marx" atribuía à dialética um status teórico mais abrangente, aceitando a utilização dos outros métodos em forma subor- dinada. Por certo, entre os historiadores e entre os militantes políticos - nestes como crença - a discussão destas questões colocava-se de outro modo. Mas nós éramos ou quiséramos ser cientistas sociais. Havíamos recebido um trei- namento em técnicas de estatística e de investigação de campo. No caso espe- cífico da pesquisa sobre relações raciais no Sul estávamos estendendo àquela área uma pesquisa que já havia sido feita em São Paulo por Bastide e Florestan e na qual trabalháramos como ajudantes. Alguns de nós, embora sem compe- tência específica, éramos sensíveis à moderna metodologia de pesquisa. Stouffer, Lazarsfeld, a invenção de novas escalas de atitudes para analisar os compor- tamentos sociais codificadas no manual de Kresch e Crutchfield estavam en- trando em nossas tentativas de melhorar o padrão de pesquisa. Não podíamos contentar-nos, portanto, com a aceitação de um marxis- mo ritual e indolente que escondia em conceitos muito gerais e filosofantes a pobreza do espírito analítico ou a ignorância dos caminhos sem graça mas necessários da pesquisa. E não podíamos jogar pela janela, simplesmente, um século de trabalhos sociológicos alheios a Marx. Não aceitávamos, por outro lado, o bê-a-bá do stalinismo teórico: a infra- estrutura, dinamizada pelo avanço das forças produtivas, que entra em con- tradição com a superestrutura (a política e a ideologia) e impõe uma ação, que é mais uma "resultante", do que uma "práxis". Quando Sartre publicou as Questions de Méthode e em 1960 saiu a tradução francesa de Histoire et Conscience de Classe de Lukacs, vislumbramos alguma saída para nossos impasses. Curiosamente, foi a partir de interpretações não baseadas na eco- nomia e na história, mas sim na filosofia, que fomos buscar elementos para uma análise dialética de processos sociais reais. Na Introdução da edição de 1962 tento juntar o que lera em O Capital com a inspiração sartreana de como tornar a dialética utilizável na análise sociológica (sem comprometer-me com as teses da Critique de la Raison Dialectique) e com a reivindicação lukacsiana da possibilidade de usar a no- ção de "consciência adequada", talvez algo weberiana e até mesmo (quanto adjetivo!) kantiana.

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Eu sei, hoje, que tudo isto é problemático. Imagino que os filósofos conti- nuem esgrimindo-se por causa da incompatibilidade entre a interpretação lukacsiana de Marx e o materialismo histórico. Sei também que a noção de "projeto" de Sartre introduz a temática da consciência pela porta dos fundos na discussão dialética. Poderia até dizer que epistemologicamente Sartre está mais próximo de Descartes do que de Marx. Apesar disto, foi com aquelas ferramentas teóricas - ou melhor, com

aquela inspiração - que tentei utilizar a dialética marxista para reconstituir

a sociedade escravocrata do Sul sem apenas repetir o bê-á-bá e sem conten-

tar-me com formulações que, sob a aparência de síntese, escondem do leitor

a ignorância da história. Tentei usar a dialética de modo heurístico e não

dogmático, e não escrevi como se nunca tivesse lido Weber, Parson e os de- mais sociólogos. E tinha bem próximo a mim o modelo e o esforço de Florestan Fernandes que sempre insistiu na relação entre ciência e história, pesquisa e reflexão.

Alguns intelectuais das gerações posteriores leram Marx pela mão de Althusser. Sem resquícios, talvez, de uma problemática do sujeito e do

historicismo. Estritamente científicos e materialistas. Talvez mais materialis- tas do que dialetas. Apesar disto - ou quem sabe até por isto - não creio que

a leitura althusseriana de Marx leve alguém a analisar de verdade um processo

histórico. Vai ser preciso que da sombra de Gramsci ou de algum outro mar- xista não seminarista renasça um momento de liberdade para permitir, como Sartre e Lukacs permitiram, apesar ou talvez até por causa de seus pecados, que o marxismo deixe de ser um catecismo e volte a ser forma inspirada, e mesmo apaixonada, de conhecimento da vida. Por sorte, pelo menos no Bra- sil, muitos continuaram lendo Marx buscando inspirar-se para entender a rea- lidade contemporânea e não apenas para repetir o já sabido com um jargão de versículo de bíblia, conforme a moda. O esforço da pesquisa nas ciências so- ciais cresceu e o número de teses criadoras feitas pelas novas gerações é consi- derável. A persistência do esforço de pesquisa ao lado do intenso debate metodológico, apesar dos anos de repressão que a Universidade enfrentou no Brasil, é prova da vitalidade das novas gerações, que lutam contra o ranço burocrático conformista.

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Quando se passa a limpo o que eu disse sobre o método dialético na Intro-

dução deste livro, deixando de lado as citações, pois elas já estão lá, o que

sobra?

Como "regra" mais geral- ou melhor, como sinal de alerta à imaginação

e à razão - indico a necessidade de relacionar as estruturas com a história de

sua formação e, conseqüentemente, com a possibilidade de sua transforma- ção. Como, entretanto, relacionar o que se repete por força das estruturas com a transformação delas? Através de movimentos sociais historicamente situa- dos que estão contidos como possibilidades estruturais. Não se supõe uma estrutura estática e uma dinâmica independente. A escravidão moderna com- põe-se de um conjunto de relações (de propriedade e de produção, de técnicas, de instituições e de valores) que se formou num horizonte histórico determi- nado, o da expansão do capitalismo mercantil. Essas relações baseiam-se no domínio que a camada senhorial exerce, pela violência, sobre os escravos. Suas formas só se explicam quando se analisa a formação do sistema capitalista- escravista. Este é dinâmico (obedece, no caso, à dinâmica do capitalismo) e é contraditório (as transformações do capitalismo tornam a própria relação servil um tropeço para o sistema produtivo avançar). O caráter contraditório e di- nâmico sobre o qual assenta o capitalismo escravista está dado desde sua ins- tauração, mas ele só se apresenta como algo historicamente determinante de opções quando, através das transformações efetivas, o sistema todo começa a decompor-se. É neste momento que os movimentos sociais de negação da or- dem servil se tornam possíveis e que a consciência social apresenta suas facetas críticas ou conservadoras de forma mais pura. A ação humana coletiva - e

não um fator técnico qualquer em si mesmo - passa a contrapor-se às estru- turas vigentes e surge a possibilidade de uma ordem alternativa. Esta im- plementa-se quando a ação política transformadora tem êxito e na medida em que o tem. Reclamo, portanto, a autonomia relativa do político ao nível das classes

e de sua luta. Mostrei no livro que algumas alternativas políticas e econômi-

cas que existiam para as classes dominantes não foram efetivadas a tempo oportuno. Mostrei também situações nas quais as soluções encontradas aca- baram por parecer necessárias e inevitáveis, condicionando ações futuras. En- tretanto, a "necessidade" e a "inevitabilidade" só aparecem com este caráter ex-post facto. Antes, surgem como opção, luta, criação socialmente aberta

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aos homens. Não hd, pois, resquício de mecanicismo ou de determinismo no esquema de andlise proposto. Nem se aceita, no outro pólo, um estilo volun·

tarista e subjetivista de interpretação histórica, baseado na crença de que esta

só se explica pela ação de sujeitos particulares: se é certo que a história depen.

de da ação concreta dos homens (que podem falhar), as opções se fazem em condições socialmente determinadas. Na andlise dialética, a explicação das relações estruturais e da dinâmica de sua transformação implica um esforço metodológico para estabelecer a hierarquia de vínculos entre cada situação particular e o conjunto do sistema social (a noção de totalidade). Para constituir dialeticamente esta noção é preciso elaborar conceitos que permitam explicar as estruturas de dominação no duplo sentido de como se mantêm e quais são as oposições que animam o movimento, a história, que as move. Por outro lado, sem estes conceitos, a própria ação transformadora fica

aquém de suas virtualidades. É por isto que existe uma relação direta entre ciência e prdxis: a ação transformadora (crítica ou revoluciondria) requer cons- ciência teórica. Entretanto, dialeticamente, tampouco existe uma "consciên- cia teórica em si" decorrente de uma prdtica puramente intelectual: o sentido

e os limites da escravidão, por exemplo, só puderam ser vislumbrados critica-

mente (com todas as limitações que as condições estruturais peculiares da es- cravidão impunham à consciência abolicionista, como mostro no livro) quando o sistema escravista estava se decompondo e quando existia não só uma alter- nativa econômica para a escravidão, mas uma luta concreta pelo seu fim. Os conceitos que permitem explicar o escravismo não se deduzem abstratamente através da pura crítica teórica: eles estão parcialmente elaborados na própria história concreta, e o trabalho do intelectual exige um mergulho analítico e

crítico naquela. Este trabalho, entretanto, é necessdrio para os próprios movi- mentos sociais transformadores. No caso da escravidão e, mormente, no caso do Sul, o movimento global do sistema não decorreu da dinâmica interna do sistema capitalista-escravista brasileiro apenas. Foi o fim do trdfico do escravos que pôs um limite à condi- ção bdsica da reprodução do sistema (o abastecimento contínuo e economica- mente vidvel da mão-de-obra). Aquele, por sua vez, decorreu da vitória política

e econômica dos setores capitalistas-industriais manchesterianos contra o

capitalismo mercantil-escravista inglês e mundial. Existiu, portanto, uma

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sobredeterminação ao escravismo brasileiro no sistema capitalista mundial. Esta sobredeterminação impede buscar no escravismo brasileiro isoladamen-

te a explicação de seu destino histórico. A pesquisa, portanto, tem de recorrer

a artifícios analíticos indiretos: a comparação entre a charqueada escravista e

os "saladeros" capitalistas do Rio da Prata permite mostrar os limites intrín- secos à escravidão como forma produtiva sob o capitalismo moderno. E pode mostrar também que existia um limite estrutural ao desenvolvimento do ca- pitalismo imposto pelas relações escravistas de produção. Se é certo que o re- gime produtivo não era feudal, não seria correto, entretanto, supor que ele fosse idêntico ao sistema capitalista pleno. Desta verificação decorre que não é possível analisar a situação do senhor

e do escravo como se lidássemos com empresários e operários. Tampouco a

consciência possível dos senhores e dos escravos, bem como o sentido do movimento abolicionista, podem ser analisados utilizando-se o símile da re- volução burguesa ou proletária. As noções de "luta de classes" e de consciên- cia de classe têm que redefinir-se em função das condições estruturais globais que as determinam e em função do tipo particular de sociedade (escravista e patrimonialista) que dá vigência ao capitalismo escravista. A esta altura, a outra reivindicação metodológica que faço na Introdução torna-se mais clara: a análise dialética não se pode contentar com a reafirmação da existência de oposições gerais (dominadores e dominados, senhores e es- cravos, patrões e operários); ela deve buscar na particularização destas for- mas o sentido preciso e as possibilidades de ação (dos movimentos sociais, da práxis) que explicam a qualidade diferencial de cada grande situação históri- ca. Para caracterizar dialeticamente uma "totalidade histórica" concreta é

preciso relacionar o geral com O singular e ver as relações estruturadas e hierarquizadas que as ligam e diferenciam, ao mesmo tempo. O problema teórico central para qualificara sociedade capitalista-escravista brasileira é portanto o da relação entre a forma capitalista (mercantil) do sis- tema econômico mundial com a base escravista das relações de produção. Não

é correto supor que se trata pura e simplesmente de uma sociedade capitalista, nem dizer que se trata de uma sociedade feudal (que manifestante não era o caso, como mostro no livro). Para explicar esta particularização do capitalis- mo mercantil-escravista utilizo tanto o conceito de patrimonialismo (que qualifica a camada dos senhores de escravo) como de casta escrava. Ambos

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funcionando num contexto capitalista-mercantil e redefinidos pela dinâmica deste. Por fim, não sei se sou capaz de explicar de forma mais simples do que fiz na Introdução: a relação entre os conceitos e o desenrolar dos acontecimen- tos. Preferiria, em todo caso, retirar a possível conotação metafísica da oposi- ção entre essência e aparência e dizer, simplesmente, que é necessário submeter cada sistema de exploração (o capitalismo, o escravismo, o feudalismo etc., e suas variantes históricas) a um processo analítico capaz de determinar seus elementos constitutivos fundamentais. Neste esforço é preciso estabelecerquais são os elementos e relações mais simples e mais gerais (abstratos) comuns a várias situações, mas é preciso fazer o caminho inverso para articulá-los e para especificar as formas diferenciais (concretas) destas articulações. Num e nou- tro movimento metodológico - através da análise e da síntese, indo do abs- trato (simples e geral) ao concreto (articulado) - é necessário estabelecer os conceitos que permitem explicar como se constituem e se mantém as relações de exploração e como se delineiam as oposições a partir das quais as estrutu- ras são dotadas de um movimento. Os conceitos que a análise científica estabelece não devem confundir-se com as noções correntes que servem de justificação à ordem existente. Estas noções - ideológicas - formam parte do real, são eficazes, motivam e justi- ficam a ação etc. Nesta medida, são indicadores para chegar-se aos conceitos. Entretanto, o trabalho da ciência consiste em desmistificar as representações correntes, mostrando que elas encobrem as relações fundamentais de explora- ção e dominação. Os alcances das noções ideológicas e seu sentido real só aparecem quando, através da análise, chega-se a determinar os conceitos explicativos. Um conceito só é explicativo quando mostra as tendências de transformação contidas pelas oposições que caracterizam, num dado momen- to, as situações de dominação existentes. Ao explicar os choques de interesse, as contradições e as bases sociais para a transformação das sociedades, os conceitos explicativos permitem a articulação das representações correntes (a ideologia) com os interesses e permitem que se explicitem os fundamentos sociais destes. Foi neste sentido que fiz a discussão sobre lucro e mais-valia na Introdução, adotando o exemplo usual neste tipo de discussão. O modo pelo qual propus a relação entre conceito e história, ciência e ideologia é bem diferente daquele que levou Althusser a reivindicar o pri-

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mado da "práxis teórica" e a ver nas estruturas mais "reprodução" do que transformação e nas ideologias suportes significativos das relações sociais 1. Niio cabe, nesta nota, voltar ao assunto, aliás já amplamente debatido entre nós por Giannottil. Anoto, apenas, que noutro contexto e quando estas questões ainda não possuíam "respeitabilidade acadêmica" internacional elas haviam sido intensamente discutidas em nosso meio, não como dis- curso filosófico em si, mas como possível caminho para explicar processos históricos. Tampouco utilizei a distinção entre "modo de produção" e formação his- tórico-social seguindo o figurino atual. De fato, este livro mostra como a de- terminação dos conceitos fundamentais que explicam a sociedade escravista (ou o "modo de produção escravista") podem ser garimpados no fluxo da pró- pria análise histórica. A separação entre o nível do conceito (da teoria ou do "modo de produção") e o da história (a formação social), se tem a vantagem didática de simplificar e ordenar cartesianamente o pensamento, tem o in- conveniente de bloquear a compreensão da relação dialética entre consciência e história e acaba por impor uma noção estática da ciência que se confunde com a do "regard de l'esprit" sobre a vida. Com esta nova metafísica vem tam- bém a busca do "purismo" categorial que separa radicalmente a produção ci- entífica das lutas concretas e da ideologia. Na maneira como eu entendo que se deva utilizar heuristicamente a dialética evita-se a formalização que torna as categorias classificatórias e evi- ta-se a ilusão de que existe um corte radical entre o mundo da "práxis cientí- fica" e o mundo da política e da história. Evita-se por conseqüência o cientificismo marxista (contraditório nos termos) que dá a ilusão tran- qüilizadora de que há os que sabem de ciência certa como a história e a polí- tica devem ser, pois conhecem o verdadeiro Conceito, e os que, enredados na ação mas desprovidos da Suma Teológica, outra coisa não respiram do que a falsa consciência e os constantes desvios ideológicos. Sei que tirando do espírito estas muletas da crença muitos se desesperam ao vislumbrar que o mundo do conhecimento está cheio de ilusões e incerte- zas e que o mundo da ação contém um horizonte dentro do qual as opções e os "erros" são sempre possíveis e, portanto, que ciência e vida não diferem tão radicalmente um do outro neste aspecto; noutros termos, que existe política na história e não movimento de astros obedecendo às leis da gravitação. Mas

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que fazer? A ciência social (histórica) não dá paz aos espíritos que precisam crer em verdades incontestáveis para sobreviver. Algumas outras questões foram abordadas na Introdução. Não creio que seja oportuno repeti-las ou esclarecê-las. Com boa vontade e paciência o lei- tor poderá traduzir os sinais hieroglíficos com que as expus a uma linguagem mais simples, referida a problemas menos abstratos. Cometi também algu- mas injustiças, especialmente no caso de Lévi-Strauss quando me referi ao modo como os estruturalistas fazem as análises de sentido (de conteúdo). Diga-se, a título de desculpa, que quando escrevi o Prefácio só estavam publicados a

Anthopologie Structurale, Les Structures Élémentaires de la Parenté eLes

Tristes Tropiques. E dei a impressão, quando me referi a Mannheim e a Freyer, de que faziam análises dialéticas não ideológicas, o que não é o caso. Pecados veniais, espero, para quem partia com tanta ambição, compartida por vários colegas, para mostrar que justificava-se intelectualmente utilizar a dialética para algo mais do que a mera racionalização ideológica. Continuo, por certo, pensando assim.

Fernando Henrique Cardoso Clare College, Cambridge, 7 de abril de 1977.

NOTAS

1. Ver, em português, Louis Althusser, Ideologia e Aparelhos Ideológicos do Estado, Biblioteca de Ciências Humanas, Editorial Presença, Lisboa, 1974. 2. Giannotti, J. A., "Contra Althusser", in Seleções Cebrap nO 2. Exercícios de Filoso- fia, Editora Brasiliense, São Paulo, 1975.

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Prefácio à 1a Edição

Este livro reúne resultados parciais de um programa de investigações sobre a sociedade escravocrata e o negro no Brasil Meridional (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), executado entre 1955 e 1960 como parte das ativida- des regulares de pesquisa da cadeira de Sociologia I da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. O programa foi inicialmente proposto por Florestan Fernandes para ampliar o conhecimento sociológico sobre o preconceito racial no Brasil alcançado em trabalhos anteriores de sua autoria e de Roger Bastide. Durante cinco anos, aproximadamente, Octávio Ianni e o autor deste livro, com a colaboração, nos dois primeiros anos, de Renato Jardim Moreira, empreenderam o levantamento de dados sobre a si- tuação social dos negros no Brasil Meridional, tanto no passado como no presente. As pesquisas de campo concentraram-se em quatro comunidades da área investigada - Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre e Pelotas - selecionadas em função de características sociais relevantes para a compreensão das variá- veis que podem interferir no ajustamento dos negros à ordem social, como, por exemplo, o grau variável de urbanização e industrialização das áreas con- sideradas, o coeficiente de negros na população e a porcentagem de imigran- tes. No decorrer da investigação, a problemática e a forma de integração do material coligido modificaram-se consideravelmente com relação ao plano inicial das pesquisas. Assim, apenas o primeiro trabalho relativo a este progra-

ma, publicado com o título de Cor e Mobilidade Social em Florianópolis,

discute sistematicamente a situação social do negro no presente e no passado. Tanto o livro de Octávio Ianni publicado nesta coleção, As Metamorfoses do Escravo, quanto o presente volume tratam somente do período escravocrata no Paraná e no Rio Grande do Sul, respectivamente. É verdade que a problemá-

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tica fundamental da integração dos negros à sociedade de classes formada depois da Abolição estd delineada nos capítulos finais dos dois livros. Entre- tanto, os resultados gerais do programa de investigações sobre o negro no Bra- sil Meridional só ficarão completos com a publicação posterior de trabalhos sobre a ascensão social dos negros. Este volume, em que discuto a formação da sociedade escravocrata no Rio Grande do Sul ea situação social do negro, foi preparado entre janeiro de 1960 e junho de 1961, para ser apresentado como tese de doutoramento na Univer- sidade de São Paulo, o que explica o aspecto formal do trabalho, com discus- são de fontes e notas de rodapé um tanto excessivas para um livro. Na elaboração da tese tive a orientação de Florestan Fernandes, que além de pro- por e incentivar a realização geral do programa fez a crítica minuciosa e percuciente dos originais, tendo sido sua colaboração de grande valia para mim. Ao defender a tese, pude colher sugestões e reparos, levados em conta no texto que ora é publicado, dos professores Laudelino de Medeiros, Lourival Gomes Machado, Sérgio Buarque de Holanda e Thales de Azevedo, aos quais renovo meus agradecimentos. Os originais também foram lidos e criticados por Bento Prado Júnior, Fernando Antônio Novais, José Arthur Giannotti, Marialice Forachi, Octdvio Ianni e Ruth Corrêa Leite Cardoso, colegas da Universidade de São Paulo, amigos e companheiros de trabalho intelectual. A eles devo a consideração maior que se pode prestar ao trabalho científico: a crítica simpdtica que, sem esconder objeções, permite a correção de enganos e o fortalecimento das con- vicções intelectuais.

Fernando Henrique Cardoso São Paulo, junho de 1962.

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Introdução

"Ser radical é tomar as coisas pela raiz. Ora, para o homem, a raiz é o próprio homem."

MARX, Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel.

o tema deste trabalho refere-se aos processos de constituição e desagre- gação da sociedade escravocrata rio-grandense, vistos a partir da situação social que o negro nela assumia. Procura-se analisar a formação de um tipo determinado de sociedade e verificar os efeitos exercidos por seus padrões estruturais sobre o comportamento dos agentes sociais que ocu- pavam as posições polares do sistema: os senhores e os escravos. Simulta- neamente, consideram-se os padrões estruturais que constituíam esse tipo de sociedade, bem como sua dinâmica, como resultantes de um conjunto de ações e relações humanas desenvolvidas em condições histórico-sociais concretas. Em termos sucintos: o livro visa analisar a totalidade social concreta que resultou da interação entre senhores e escravos na sociedade gaúcha. Contudo, o tema da investigação e os problemas selecionados para discussão não se esclarecem simplesmente pelo enunciado. É necessário mencionar que o trabalho é uma tentativa de utilização da interpretação dialética na sociologia. O método escolhido para a interpretação possui, como todos os outros métodos, implicações sobre o tipo de problemas selecionados para a análise, bem como sobre a forma de sua explicação e apresentação na monografia. Por esses motivos convém discutir as impli-

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cações metodológicas mais gerais do emprego da interpretação dialética na sociologia, como tentarei fazer na primeira parte da Introdução, para depois expor, esclarecidos em função da perspectiva de análise adotada, os temas e a problemática da tese. A discussão dos pressupostos metodológicos da investigação foi feita em nível abstrato e com certo grau de complexidade, como a natureza dos problemas versados impunha. Entretanto, o leitor sem interesse espe- cial em questões desse tipo poderá, sem graves prejuízos para a compre- ensão do trabalho, iniciar a leitura pela segunda parte da Introdução, que, como o resto do livro, refere-se a questões concretas, passíveis de serem explicadas de forma mais simples e clara.

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Em primeiro lugar, é necessário precisar a significação metodológica implícita na afirmação de que é possível reconstruir interpretativamente, através do método dialético, uma "totalidade concreta". Os propósitos teóricos sinteticamente definidos nestes termos possuem uma série de implicações metodológicas que devem ser explicitadas para que se deli- mitem, sucintamente, as possibilidades e o alcance da interpretação dialética na sociologia. Essa discussão se impõe porque, graças a motivos que não cabe esclarecer aqui, a sociologia constituiu-se, como ciência, a partir de trabalhos de investigação e de esforços de elaboração teórica que, em regra, aproveitaram muito pouco da contribuição de Marx e de ou- tros autores que tentaram utilizar o método dialético na análise dos fenô- menos sociais. Antes ao contrário, nos círculos acadêmicos mais conspícuos formou-se a convicção de que a interpretação dialética, por estar imedia- tamente vinculada a um ponto de vista filosófico e a uma atitude definida diante dos problemas sociais, não é capaz de adequar-se aos cânones da explicação científica que impõem a ausência de juízos de valor nas análi- ses sociológicas. Entretanto, nos trabalhos de Marx, como em algumas obras de exegese e em certos trabalhos de investigação (principalmente de história) e mes- mo de elaboração teórica (basta citar Freyer e Mannheim), a análise dialética não se confunde com a crítica da sociedade a partir de posições

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valorativas previamente assumidas, nem se reduz à técnica do desmas- caramento ideológico. Do ponto de vista científico, portanto, o problema para a utilização da interpretação dialética estaria na determinação dos procedimentos metodológicos requeridos por esse tipo de abordagem e na discussão da compatibilidade desses procedimentos com a problemáti- ca sociológica. Tentarei discutir esses problemas em suas implicações mais gerais partindo da análise do conceito de totalidade. Para esse fim, recor- ri, comparativamente, a outras modalidades de interpretação sociológica que também lançam mão de procedimentos totalizadores, procurando ressaltar a especificidade e as condições de utilização legítima da inter- pretação dialética na sociologia. O conceito de totalidade não se refere, ou pelo menos não se resume, na dialética, à reprodução de todas as condições, fatores, mecanismos e efeitos sociais que interferem na produção de um fenômeno, processo ou situação social. Na explicação dialética o conceito de totalidade é utiliza- do como um recurso interpretativo pelo qual se visa compreender, como Marx escreveu explicitamente no posfácio da Contribuição à Crítica da Economia Política, não a identidade, o padrão da invariância, mas as dife- renças em uma unidade, tal como são engendradas numa totalidade de- terminada. Desse ângulo, portanto, a importância metodológica do conceito de totalidade não diz respeito apenas à necessidade que ele su- põe da retenção e explicação de situações sociais globais; a abordagem totalizadora transforma-se numa perspectiva de interpretação para a aná- lise de cada um e de todos os fenômenos sociais. A totalidade assim en- tendida pressupõe não apenas a existência de diferenças numa unidade, mas também a existência de "conexões orgânicas" que explicam, ao mes- mo tempo, o modo de inter-relacionamento existente entre as determina- ções que constituem as totalidades e o próprio processo de constituição das totalidades. Noutros termos, quando se afirma que a análise dialética na sociologia assume uma perspectiva totalizadora, diz-se, implicitamen- te, que ela visa descobrir as determinações essenciais, capazes de explicar tanto a formação dos padrões que regem as formas de interação social quanto as condições e os efeitos de sua manifestação. A perspectiva totalizadora tem, portanto, na interpretação dialética, uma intenção heurística. Por certo, também noutras modalidades de

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explicação sociológica, recorre-se à noção de totalidade, e, em algumas delas, isso é feito com propósitos explicativos e não meramente descritivos. Entretanto, o problema não está em saber se a dialética, como a interpre- tação funcionalista ou a abordagem "estruturalista" etc., utiliza a noção de todo, mas está em determinar como, ou seja, mediante que requisitos metodológicos e com que intenções cognitivas constroem-se as totalida- des nas diversas formas de interpretação. Como o objetivo da presente discussão se restringe à caracterização do procedimento totalizador na interpretação dialética, resumir-se-á a análise à comparação desse proce- dimento com uma ou outra técnica diversa de interpretação, para salien- tar a peculiaridade dessa forma de conceber e explicar teoricamente a realidade social. Assim, também na análise funcionalista a noção de "todo" desempe- nha um papel de primeira importância. Para muitos funcionalistas as aná- lises ao nível dos sistemas sociais globais, ou das unidades funcionais totais, transformaram-se mesmo em postulado para a determinação das funções sociais. Os autores que redefiniram os procedimentos interpretativos da análise funcional, querendo evitar as associações imediatas entre a análise das funções sociais, necessárias para a manutenção de uma totalidade so- cial, com os pressupostos conservadores de equilíbrio natural do sistema e de necessidade mecânica, tanto dos componentes do sistema como de suas funções, não deixaram de sublinhar a importância da definição pre- cisa das diversas totalidades ou "unidades funcionais":

"Do estudo crítico deste postulado ("postulado da unidade funcional") decorre que uma teoria de análise funcional precisa começar pela defini- ção das unidades sociais servidas por funções sociais dadas, e reconhecer aos elementos culturais a possibilidade de possuir múltiplas conseqüên- cias, algumas delas funcionais e outras, talvez, disfuncionais"; "(

conexões funcionais, que eram descritas apenas parcialmente nas concep- ções teleológica e mecanicista, são descritas sinteticamente na concepção positiva de função social. Por meio desta, é possível chegar-se, portanto, à determinação completa da função dos fenômenos sociais, o que tem uma enorme importância para o estabelecimento da rede total de rami- ficações e de influências de uma ação, relação ou instituições sociais, como muito bem o demonstrou Malinowski"l.

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Porém, pelas próprias condições metodológicas da abordagem fun- cionalista, as "unidades funcionais" são definidas de modo a possibilitar a análise das relações de coexistência ou de interdependência nas condições empíricas em que as "unidades funcionais" consideradas se manifestam. Esse procedimento se impõe porque a abstração das relações evidencia- das pelo método funcionalista depende da definição precisa do universo empírico em que se inclui o objeto da análise. Esta implicação metodológica faz com que as totalidades requeridas pela análise funcionalista, mesmo quando a investigação não seja de orientação empiricista, caracterizem-se pela tentativa de reter as condições empíricas de produção dos fenôme- nos sociais. Procedimentos globalizadores têm sido empregados, por outro lado, em grande parte nas tentativas de investigação sistemática de situações, processos ou fenômenos sociais, sejam funcionalistas ou não os autores. Uma das preocupações dominantes nas investigações de campo nas ciên- cias sociais tem sido exatamente a descrição de situações globais, seja atra- vés da análise de um sistema social inclusivo (como em grande parte dos "estudos de comunidade"), seja na explanação descritiva de processos sociais, instituições ou grupos determinados. A antropologia social ingle- sa, por exemplo, desenvolveu uma série de trabalhos clássicos sobre gru- pos tribais, como The Andaman Islanders, de Radcliffe-Brown, em que são reproduzidas as condições globais da existência social, descritas e empiricamente explicadas na sua complexidade, unidade e diversidade.

Noutras obras, como emArgonauts ofthe Western Pacific, de Malinowski,

são discutidos todos os efeitos de uma determinada instituição sobre o conjunto de cada um dos aspectos particulares da cultura e da organiza- ção social de um pov0 2 Entretanto, a preocupação de explicar a realida- de social nas condições de suas manifestações empíricas é, em geral, dominante neste tipo de trabalho. Na interpretação dialética, as relações que se procura determinar numa totalidade também estão referidas de maneira imediata aos processos so- ciais reais, e também existe o escopo de reproduzir o real como concreto. Porém, neste caso, o concreto aparece como o resultado de um processo de conhecimento marcado por um movimento da razão que implica uma elaboração muito mais complexa do que a abstração dos padrões gerais,

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ainda que essenciais, que regulam a interação nas condições empíricas de sua manifestação. Mesmo a descoberta que se obtém nas explorações des- critivas das condições e fatores cujos efeitos resultam na produção, numa determinada "ordem", de um sistema integrado ou de uma situação social dada, é insuficiente para os propósitos cognitivos da interpretação dialética. Neste último tipo de explicação, para que as relações que se procura de- terminar numa totalidade assumam sentido heurístico, não devem ser retidas conceptualmente como simples reprodução no pensamento de relações empíricas, nem basta que a teoria seja capaz de descobrir os pa- drões que regem as conexões entre essas relações. O ponto de partida imediato, o real, transfigura-se na análise dialética numa série de media- ções pelas quais as determinações imediatas e simples (e por isso mesmo parciais, abstratas) alcançam inteligibilidade, ao circunscreverem-se em constelações globais (concretas). Por isso o concreto foi definido em co- nhecida frase de Marx como "a síntese de muitas determinações, a unida- de do diverso". Mas a operação intelectual pela qual se obtém a "totalidade concreta" implica que o movimento da razão e o movimento da realidade sejam vistos através de relações recíprocas, e determinados em sua cone- xão total. Por isso, a interpretação totalizadora na dialética faz-se através da elaboração de categorias capazes de reter, ao mesmo tempo, as contra- dições do real em termos dos fatores histórico-sociais efetivos de sua pro- dução (e, neste sentido, categorias "saturadas historicamente", empíricas) e de categorias não definidas empiricamente, capazes de desvendar as re- lações essenciais que aparecem de imediato, como afirmava Marx, "mis-

tificadas"3.

Sociologicamente isso significa que a interpretação dialética opera com relações que se manisfestam em dois planos. Existem motivos, fins e con- dições sociais que os agentes sociais se representam em função das mani- festações que assumem empiricamente. É evidente que, tanto como representações sociais quanto como resultados efetivos de representações, esses fenômenos se exprimem através de regularidades objetivas que podem ser verificadas e explicadas sociologicamente (em termos de conexões estruturais, funcionais ou de sentido). Porém a explicação científica deve passar da análise desse plano para a descoberta das conexões que as regu- laridades empíricas mantêm com as condições, fatores e efeitos essenciais

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que determinam realmente a dinâmica e o sentido do processo social. É óbvio que os motivos e fatores que operam no plano das relações essenciais não caem necessariamente no nível de consciência social, ou aparecem deformados. Entretanto, os dois planos da totalidade concreta não são concebidos teoricamente como se um fosse a conseqüência irreversível ou mecânica do outro, nem, muito menos, como se os processos sociais tal qual os agentes sociais os representam se constituíssem como meros "invólucros" sem eficácia sobre as condições que determinam verdadeiramente o pro- cesso social. Ao contrário, as relações entre os dois planos são dialéticas, e, na construção das totalidades sociais, é necessário elucidar as conexões recíprocas que os mantêm como uma unidade entre pólos opostos, diver- sos, mas integrados. Esse procedimento metodológico explicita-se na análise da sociedade capitalista em O Capital. Por um lado, há um movimento da razão para a determinação das relações essenciais e a revelação conseqüente da forma imediata que essas relações assumem na realidade: determina-se a mais- valia como conceito básico do sistema capitalista e ipso facto desvenda-se sua aparência empírica sob a forma de lucro, o mesmo sucedendo no que diz respeito à taxa de mais-valia e à taxa de lucro:

"ainda que a taxa de lucro difira numericamente da taxa de mais-valia enquanto mais-valia e lucro são realmente o mesmo e iguais numerica- mente, o lucro é, contudo, uma forma transfigurada de mais-valia, for- ma na qual se delineiam e se obscurecem sua origem e o segredo de sua existência. Na realidade o lucro não é outra coisa senão a forma sob a qual se manifesta a mais-valia, que só pode desnudar-se através da análi- se que a despoja daquelas vestes. Na mais-valia põe-se a nu a relação entre o capital e o trabalho. Ao contrário, na relação entre o capital e o lucro, quer dizer, entre o capital e a mais-valia tal como aparece como o rema- nescente sobre o preço de custo da mercadoria realizado no processo de circulação e, de outro lado, como remanescente que há de terminar-se mais concretamente por sua relação com o capital total, o capital apare- ce como uma relação consigo mesmo, relação que se distingue como soma originária de valor do valor novo acrescido por ele mesmo. Existe a cons- ciência de que este valor novo é engendrado pelo capital no decorrer do

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processo de produção e do processo de circulação. Mas o modo como isto ocorre aparece mistificado e como fruto de qualidades inerentes ao próprio capital."4

A mais-valia não se inscreve como um dado da realidade empírica, como o lucro. Entretanto, só a partir daquele conceito é possível entender o siste- ma capitalista como uma totalidade concreta: como num movimento de determinações essenciais (classe capitalista e classe proletária produzindo mais-valia em condições determinadas de organização das forças produti- vas) que se objetivam sob formas que ao mesmo tempo as negam e expri- mem (o lucro, o mercado, a circulação e distribuição de mercadorias etc.). Por outro lado, o real fenomênico não possui a significação de uma construção do espírito destituída de conteúdo, sentido e eficácia. Ao con- trário, ele é um modo de ser determinado que exprime um dos níveis da totalidade concreta e mantém relações dialéticas com as relações essenciais que não se objetivam empiricamente. Por isso, a concorrência e as leis do mercado no sistema capitalista não são analisadas como simples formas mistificadas de existir e de ter consciência da vida capitalista, mas como formas reais, que surgem num dos níveis do movimento do capital consi- derado um processo total:

"Aqui, no Livro 111, não se trata de formular reflexões gerais sobre esta unidade (a unidade do processo de produção e do processo de circula- ção), mas, pelo contrário, de descobrir e expor as formas concretas que surgem do processo de movimento do capital considerado como um todo. Em seu movimento real os capitais se enfrentam sob estas formas con- cretas, nas quais tanto o perfil do capital no processo direto de produção como seu perfil no processo de circulação não são mais do que dois momentos específicos e determinados. As manifestações do capital, tal como se desenvolvem neste livro, vão-se aproximando, pois, gradualmen- te, da forma sob a qual se apresentam na própria superfície da socieda- de, através da ação mútua dos diversos capitais, através da concorrência, e tal como se refletem na consciência habitual dos agentes da produção."5

o movimento da razão ao elevar-se do particular para o geral percor- re, pois, um circuito no qual se desenvolve uma dialética entre o abstrato

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e o concreto. É assim, e não pelo recurso a um procedimento metodológico

empirista, que se constitui uma totalidade concreta. Por isso Marx diz que

o concreto aparece como o ponto de chegada quando é o verdadeiro ponto

de partida: não há mediação sem o imediato e vice-versa. Entretanto, se o real, como imediato, reaparece, mediatizado pela teoria, na totalidade que o circunscreve, e se as categorias são expressões de relações históricas 6 , disso não decorre que o ponto de partida e o ponto de chegada definem- se por relações de identidade, ou que seja possível pensar o objeto inde- pendente da teoria. Com efeito, a mercadoria que é o ponto de partida para a análise do capitalismo é também o ponto de chegada. Mas, no pri- meiro momento, ela é, como a forma elementar de riqueza nas socieda- des capitalistas, um "objeto exterior, uma coisa apta para satisfazer qualquer tipo de necessidade humana"7; percorrido o circuito de consti- tuição e explicitação do "sistema capitalista", a mercadoria redefine-se como categoria histórico-social, nega a forma inicial que assumira e se revela, depois de explicitados os elos que a vinculam à totalidade do siste- ma, como uma forma de manifestação da mais-valia:

"A mercadoria se apresenta à primeira vista como um valor de utilidade, como um conjunto de propriedades desfrutáveis. Em virtude de sua serventia social, entra um jogo de trocas, adquirindo deste modo novas

). O origi-

Essa substância,

chamada valor, não é nada em si mesma, mas é pelo contrário constituí- da pela própria relação de troca como um ser autônomo, que nega enfim a diversidade ilimitada de suas aparências. Em suma, parte-se da aparên- cia sensível para, numa série de negações das etapas anteriores, atingir uma entidade que em si mesma não possui nenhuma das propriedades das qualidades dos momentos constitutivos"8.

nário é negado no fenômeno constituído por ele (

propriedades e uma nova forma de valor de uso originário (

).

Em análises deste tipo, o real como ponto de partida não é um objeto empírico sobre o qual se debruça o espírito, concebidas metafisicamente razão e realidade, de forma estanque. Ele é dado, como representação, através de um esquema de significações que, por sua vez, tem sentido com referência a uma realidade determinada 9

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Em certo sentido, portanto, a análise das totalidades na dialética pos- sui um ponto de contato com as correntes "estruturalistas" que procuram elaborar, através do conceito de estrutura concebido como um modelo, um instrumento conceptual-metodológico para a determinação (e conse- qüente explicação) das condições básicas ou nucleares que definem as possibilidades de interação numa sociedade dada. O procedimento metó- dico para a análise estrutural, tal como é entendida, por exemplo, por Lévi- Strauss e Nadei, leva à construção de uma matriz, pela qual são ordenados teoricamente os padrões e combinações possíveis de padrões de compor- tamento 10 Entretanto, a semelhança no procedimento é formal: num e noutro caso os requisitos metodológicos para a generalização dependem da elaboração interpretativa de categorias capazes de exprimir determi- nações gerais. Nisso, contudo, cessa a analogia. Na verdade, a técnica de elaboração e representação das totalidades através do método dialético difere da técnica utilizada pelos estruturalistas. Estes elaboram modelos que exprimem relações vazias de conteúdo significativo, para assim reter interpretativamente, como padrões, quaisquer tipos de ação social con- creta. Já a análise dialética procura sintetizar com seu procedimento totalizador tanto o que Marx chamava de determinações gerais (os pro- cessos sociais recorrentes) como as determinações particulares (os processos emergentes), vislumbrando nestas o elemento explicativo do sentido das totalidades sociais 11 Graças a esse procedimento é possível explicar os fenômenos sociais nas condições reais de sua produção sem que, ao mesmo tempo, a técni- ca interpretativa imponha, como condição de validade, que a análise se circunscreva de maneira estreita às condições sociais empiricamente dadas. Com efeito, a explicação dialética é obtida quando, no mesmo movimento da razão, os fenômenos são concebidos e analisados com referência ao singular e ao geral, com relação ao qual o particular não é senão sua diferenciação. Noutras palavras, ao mesmo tempo que a in- terpretação dialética na sociologia visa explicar os fenômenos sociais em termos de hic et nunc, alcança este tipo de conhecimento dialeti- camente quando é capaz de ultrapassar, através da razão, as limitações do fato, compreendendo-o através de um padrão. Isto é feito, porém, sem que a explicação se resuma à pesquisa das determinações gerais e

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sem que, muito menos, se transformem os fatos em conseqüências de padrões gerais. Tal técnica interpretativa não deixa, é certo, de limitar as possibilidades de generalização do conhecimento obtido àquelas situações que tendam a reproduzir o mesmo tipo de vinculação concreta entre as determinações essenciais (particulares) e as determinações gerais, e, por outro lado, não deixa de infletir o foco de análise para os processos de diferenciação dos sistemas sociais, pois é nas determinações particulares que o método vai buscar o nexo explicativo das totalidades concretas. Não obstante, essas limitações garantem a possibilidade de alcançar-se, ao mesmo tempo, uma explicação que transcenda os limites do conhecimento factual, sem ape- lar para formas de análise que impliquem logicamente a eliminação das condições efetivas de produção das atividades sociais. Chega-se, dessa forma, ao resultado fundamental sobre as possibilida- des de aplicação do método dialético na sociologia. Através dele é possí- vellidar com os fenômenos sociais tanto em função do que possuem de singular e concreto como em função das normas gerais que se exprimem, como diferenças, nas singularidades. Por isso, o método dialético permite

a análise dos processos sociais recorrentes em conexão com os mecanis-

mos regulares de mudança. Como a interpretação dialética lida, simulta- neamente, com o particular e o geral, pode-se, sem o risco de transformar a explicação obtida numa forma ideográfica de análise, explicar as rela-

ções, regularidades e modificações dos fenômenos sociais nas condições efetivas de sua produção, concretamente situados. Por isso é possível reter

nas totalidades construídas dialeticamente as relações de significação: não se torna logicamente necessário que os esquemas que explicam o encadea- mento das ações sociais sejam vazios de conteúdo. Noutras palavras, a técnica interpretativa dialética permite representar conceptualmente a ação social sem despojá-la de seus atributos reais. Ao contrário, a análise evi- dencia tanto o sentido que é inerente à ação humana como a representa com a qualidade que possui de transformar a si e à natureza pela negação da realidade constituída. No que diz respeito às possibilidades gerais de utilização da dialética na sociologia, cabe salientar ainda que os pressupostos metodológicos alu- didos acima mostram que este método focaliza os processos sociais de

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forma a determinar as relações entre os processos sociais emergentes e os produtos sociais objetivados em formas já estabelecidas pela atividade social recorrente. Por isso, os fenômenos sociais podem ser captados interpre- tativamente tanto como resultados incessantemente renovados da ativi- dade humana criadora quanto como efeitos de normas estáveis que resultaram da atividade humana anterior. O método dialético permite, portanto, a análise da interação social a partir de situações, condições, fatores e efeitos sociais recorrentes que produzem configurações sociais estáveis, fixando padrões de inter-rela- ções. Desse ângulo a análise torna-se estrutural. Porém, mesmo neste caso não se confunde com a abordagem "estruturalista". Esta, por imposições lógico-metodológicas, ordena os elementos que integram os modelos es- truturais em sistemas abstratos de relações. Graças a este artifício, é pos- sível prever todas as possibilidades de interação reguladas por padrões estruturais, independentemente do conteúdo e do tipo particular de ação que concretamente se desenrola num grupo dado. Assim, todos os fatos observados que exprimem normas estruturais podem ser explicados, for- malmente, através do modelo. Entretanto, os modelos, por causa dos re- quisitos metodológicos de sua construção, não retêm os conteúdos significativos das ações sociais. A análise estrutural na interpretação dialética parte de intuitos ex- plicativos e de pressupostos sobre a realidade social diversos. Sua legi- timação metodológica depende da explicação concomitante do processo de constituição dos padrões de integração estrutural. Com essa explica- ção desvenda-se o sentido que os agentes sociais emprestam às normas e se evidencia a qualidade de produto da atividade social concreta que ca- racteriza toda estrutura. A análise não resulta nunca na determinação de condições formais que regulam a ação, mas na determinação de uma cons- telação de significados expressos em normas sociais. As conexões estrutu- rais devem, portanto, ser representadas ao mesmo tempo como produtos "objetivados" da atividade social, e nesse sentido como um conjunto de padrões que motivam a ação humana (sistema cuja inteligibilidade se en- cerra nas relações recíprocas entre normas dadas), e como "processo", isto é, como algo que se está criando pela atividade humana através da nega- ção de um dado estado de coisas e da projeção de um vir-a-ser ainda não

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configurado socialmente (o que, neste caso, torna explicável em termos

de sentido o sistema produzido e o que se está produzindo).

A explanação sobre a possibilidade de análises estruturais nos traba- lhos sociológicos que utilizam o método dialético leva à compreensão dos limites da aplicação das pesquisas de conexões funcionais nesse tipo de trabalho. Sem o recurso às relações de interdependência entre uma "ativi- dade parcial" e uma "atividade total" ou entre os componentes da estru- tura social e sua continuidade, não é possível representar a atividade social humana organizada em sistemas sociais, nem portanto explicá-la, como em parte ela é, enquanto resultado de condições sociais dadas. Entretan-

to, também nesse caso a representação da atividade social vista em cone- xão com o "funcionamento" de um sistema de interação já constituído só

se completa dialeticamente quando se retoma ao pólo oposto, que é a

atividade social que constitui os padrões de integração funcional. Só as- sim se entende por que a atividade social recorrente diferencia-se no pró- prio processo de repetir-se. Essa discussão nos leva, finalmente, à consideração das condições pe- las quais o processo de mudança social é representado na interpretação dialética. Na abordagem estruturalista e entre os funcionalistas que ape- lam para a noção de desequilíbrio funcional ou para a idéia de "disfunção" para explicar o processo de mudança, este acabou sendo visto em termos mecanicistas ou através do artifício metodológico que consiste na repre- sentação da estática e da dinâmica social como dois estados do fluxo sociaP2. Na interpretação dialética, ao contrário, o fluxo social é repre-

sentado como um contínuo. Sociologicamente o contínuo pode ser expli- cado porque a ação é vista ao mesmo tempo como resultado motivado por condições exteriores e como práxis 13 , e porque os sistemas sociais não são concebidos como "sistemas fechados", mas como "sistemas abertos".

O curso das modificações sociais, na medida em que a ação também é

práxis, vai depender dos propósitos socialmente definidos pelos grupos

sociais e da capacidade de organização e de modificação que os agentes sociais forem capazes de desenvolver. A mudança estrutural não é repre- sentada, pois, como um momento de desequilíbrio de um sistema dado

na direção da recuperação do equilíbrio em outro tipo de sistema. Con-

trariamente, ela decorre da tensão entre ações humanas criadoras e das

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contradições que se formam no interior da própria estrutura social. Essa é sempre encarada, dessa forma, como estrutura que está em modificação graças às contradições sobre as quais repousa e graças à ação humana criadora. Os processos de mudança são dialeticamente analisados, portanto, como resultantes da própria atividade humana concreta que, no processo incessante de realizar os padrões estruturais e funcionais de integração, nega-os, provocando tensões e contradições sociais cuja resolução (supe- ração) consiste na criação de novas formas de existência social.

II

No presente trabalho procurei guiar-me por estes cânones gerais da dialética marxista. Apenas, como o livro diz respeito à análise de um pro- cesso histórico-social, a estrutura do trabalho não é lógico-sistemática. Parte-se do que é dado imediatamente como realidade: a mão-de-obra escrava como base da economia exportadora do Rio Grande do Sul (Ca- pítulo I: "O escravo na formação do Rio Grande do Sul"). Neste capítulo, porém, a problemática real da tese aparece sob forma transfigurada. Ex- põe-se a participação do escravo no "sistema de produção", encarando-se este como algo constituído, e aquele como uma peça na engrenagem eco- nômica, quando o tema que se procura desenvolver no livro é o processo de constituição de uma totalidade histórica que implicou a dupla aliena- ção de senhores e escravos. O ponto de partida do trabalho é, portanto, na verdade, o momento final de um processo histórico. Por outro lado, se as determinações contidas no primeiro capítulo são, num sentido, as mais "concretas", porque objetivadas como fatos históricos, noutro sentido são as mais abstratas, pois desenvolvem-se no nível mais superficial da totalidade concreta: os escravos aparecem como coisas, como mercadorias, reguladas pelo processo econômico, sem que na análise do capítulo se revelem, entretanto, as vinculações com a prática social global que nos faziam aparecer sob esta forma e, menos ainda, as tensões derivadas da condição de homem da merca- doria-escravo.

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No segundo capítulo ("A sociedade escravista, 'realidade e mito"'), o andamento metódico mantém-se o mesmo, envolvendo apenas maior conhecimento e extensão: a análise da camada senhorial tal qual ela se inseria na realidade histórica como um modo determinado, e também alie- nado, de existência é o reverso da medalha da análise da mão-de-obra escrava. Os requisitos e as condições de funcionamento da sociedade escravocrata-senhorial, bem como as modalidades de personalidades-status necessárias numa sociedade deste tipo, foram analisados em termos de produtos sociais, como condições dadas de existência social. Apenas no segundo capítulo as determinações a que se chega tornam-se mais concre- tas (no duplo sentido) porque é possível defini-las através de correlações- funcionais-de-sentido e de oposições que envolvem vários planos de objetivação da história. Noutros termos, as condições estruturais e funcio- nais que regulavam as ações da camada senhorial são definidas tanto em oposição às decorrências (implícitas) da existência de escravos como em função das condições variáveis de funcionamento da sociedade escravista no que diz respeito às modalidades de exploração econômica e de formas de poder que historicamente se configuraram. Assim, o senhor não é vis- to como um tipo invariavelmente definido, ou como resíduo de várias encarnações históricas do comportamento senhorial, mas como o resul- tado variável e específico de constelações histórico-sociais determinadas. Por isso, esboça-se nesse capítulo uma análise que é, ao mesmo tempo, diacrônica. A noção de momento passa a ser decisiva nele para a caracte- rização sociológica: as categorias são válidas para constelações histórico- sociais precisas 14 Entretanto, só nos capítulos terceiro e quarto alcança-se realmente a perspectiva totalizadora. No capítulo terceiro ("Senhores e escravos") procura-se definir as relações entre os senhores e os escravos tanto em função de suas determinações gerais (abstratas) como em função das de- terminações particulares que eram engendradas pelos modos concretos de interação entre ambos nas diversas condições particulares de produ- ção social da sociedade rio-grandense. Neste capítulo, a análise é, simul- taneamente, particular e geral: a caracterização formal das relações entre senhores e escravos (como relações de violência e de alienação mantida pelos efeitos da violência) exprime-se de forma particular em cada situação

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singular, e cada situação singular (a estância, a família, a charqueada, o mercado urbano) revela, em sua unicidade, as determinações gerais mediatizadas pelas formas particulares de existência. Nenhum dos dois pólos, contudo, dissolve-se um no noutro. No capítulo quarto ("Estrutura econômica e política da sociedade escravocrata"), por fim, o sentido da escravidão na sociedade gaúcha de- fine-se em sua totalidade. A práxis escravocrata que aparecia nos dois primeiros capítulos como um conjunto de ações operando num sistema composto por padrões já constituídos de comportamento e no terceiro capítulo começou a delinear-se como relações de tensão entre seres hu- manos, é vista em função de uma situação histórico-social determinada de produção da existência. A sociedade escravocrata gaúcha constituiu-se como uma tentativa para organizar a produção mercantil capitalista numa área onde havia escassez de mão-de-obra. Desde o início, contudo, o sis- tema assim constituído trazia em seu bojo um conjunto de contradições que definiam o travejamento básico de suas possibilidades de existência.

A escravidão fora o recurso escolhido para organizar a produção em grande

escala visando o mercado e o lucro (formação do sistema capitalista), mas

o desenvolvimento pleno do capitalismo (a exploração da mais-valia rela-

tiva) era, em si mesmo, incompatível com a utilização da mão-de-obra escrava através da qual não é possível organizar técnica e socialmente a produção para obter a intensificação da exploração da mais-valia relati- va. Essas contradições se aguçaram e evidenciaram desde o momento em que a produção escravocrata gaúcha entrou em relações de competição com a produção assalariada no rio da Prata, que acelerou sua desagrega- ção. A partir desse momento torna-se possível descrever e explicar a socie- dade escravocrata gaúcha na sua diversidade e unidade, como sistema e como práxis objetivada. A ação social, em sua singularidade e criatividade, passa a ser compreensível porque se explicitaram as condições gerais de possibilidade da ação, e as condições gerais (o sistema escravista de pro- dução e a sociedade escravocrata), por sua vez, podem ser teoricamente analisadas como resultantes de tensões, contradições e opções humanas concretas, historicamente situadas. O jogo dialético do particular e do geral (mediatizado pelo movimento da razão que determinou as categorias es- senciais de sistema capitalista e escravidão) permite a compreensão da

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totalidade como concreto. Por isso, neste e nos dois capítulos subseqüen- tes, a análise passa do nível da discussão das condições funcionais e estru- turais de manutenção do sistema escravocrata para a análise da atividade social concreta, vista, a um tempo, como resultado social e como proce- dimento de invenção da história. Com efeito, a partir do quarto capítulo e, principalmente, no quinto ("A desintegração da ordem escravocrata") e no sexto ("O negro na soci- edade de classes em formação"), o andamento da exposição se altera: a história é vista "en se faisant". A problemática se enriquece graças à dis- cussão das questões relativas à "consciência da situação", que se torna indispensável para explicar, já agora sem o risco de ser mera análise mistificadora, as condições particulare,s pelas quais a situação social se apresenta historicamente aos agentes sociais e para determinar as linhas de alternativas possíveis que se abriam para a ação, entendida como práxis. No quinto capítulo analisam-se tanto os requisitos de funcionamento do sistema servil como o processo de desagregação da ordem escravocrata (em termos dos interesses sociais em jogo e da consciência da situação). Retoma-se a discussão sobre o sistema escravocrata porque só na desa- gregação do sistema revelam-se de forma nítida as condições, fatores, processos e mecanismos que interferem no seu funcionamento: a violên- cia como vínculo básico da relação escravista aparece claramente na antiviolência, também violenta, do escravo que se rebela; e, por outro lado, a consciência das condições de funcionamento do sistema evidencia-se, para os coevos, nos momentos de sua desagregação: a impraticabilidade de o capitalismo expandir-se além de certos limites através da escravidão demonstra-se no esforço ingente de criação de formas de retribuição pecuniária aos escravos no período de dissolução do regime. A discussão sobre a desagregação do sistema foi feita através da análise dos dois pro- cessos que diretamente abalaram a escravidão no sul: a imigração e a abo- lição. No quinto capítulo e no capítulo final a exposição se desenvolve de forma a lidar com os vários níveis da totalidade concreta: analisam-se, simultaneamente, nas condições da ação (estruturais e organizatórias), a consciência real e possível da situação social e a ação como práxis. Vêem- se, a um tempo, os efeitos sobre o comportamento do negro livre exercidos

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pela escravidão e pelas representações dos brancos sobre os escravos (a so- cialização parcial do escravo, as expectativas assimétricas nas relações en- tre brancos e negros etc., resultando na anomia e na desmoralização do grupo negro) e as possibilidades abertas pela consciência possível e efetiva deste estado de coisas e pela ação do negro para a transformação da situação his- tórico-social. Paralelamente, os problemas discutidos deixam de ser relati- vos às condições gerais da práxis do negro para circunscreverem-se à temática da transformação dessas condições pela práxis do homem-negro. Chega-se assim ao termo, tendo partido da análise do escravo como mercadoria com a análise do negro enquanto homem, evidenciando-se com isso o propósito mais geral do presente trabalho, que é o de estudar um momento da histó- ria da luta do homem contra a alienação. A indicação sumária da temática e da perspectiva de abordagem deste trabalho sugere, pois, que a sociedade escravocrata gaúcha foi analisada, simultaneamente, tanto em termos das condições de coexistência e de mudança como em termos da práxis social e da objetivação desta práxis num conjunto de regras relativamente estáveis e integradas de interação. Entretanto, a análise não pode ser qualificada nem de estrutural nem de funcionalista, e isto se evidencia ao explicitar-se a historicidade suposta pela noção dialética de totalidade social. Em certo sentido seria possível, sem dúvida, analisar processos sociais históricos ou diacrônicos do ponto de vista estruturalista e do ponto de vista funcionalista. Sabe-se que Lévi-Strauss, por exemplo, acredita que "o método histórico não é incompatível, de forma alguma, com a atitude estrutural", apesar de os fenômenos sincrônicos oferecerem uma homo- geneidade relativa que os torna mais fáceis de estudar que os fenômenos diacrônicos 15 Por outro lado, graças aos esforços de investigação e de sis- tematização teórica de autores como Merton, Florestan Fernandes e Talcott Parsons, a moderna teoria funcionalista redefiniu os procedimentos de análise e interpretação utilizados por seus precursores, que a haviam cons- tituído como um meio de investigação adequado apenas para a análise de fenômenos sincrônicos 16 , sendo capaz, modernamente, de analisar, den- tro de certos limites 1 ?, fenômenos de seqüência. Contudo, na análise das seqüências funcionais e na construção dos modelos estruturais, se é possível reter, logicamente, as condições de

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redefinição dos sistemas e se, portanto, cabem análises diacrônicas, em nenhuma circunstância o próprio processo de modificação das condições estruturais e funcionais é representado de forma que se entenda ação so- cial humana como práxis que transforma pela negação e que, ao transfor- mar, necessariamente atribui e nega sentido a um universo determinado. Por isso mesmo, a validade das explicações funcionais e estruturais res- tringe-se àquelas situações nas quais existe um universo de significações sociais dado e um padrão definido de integração social totaps. Noutros termos, a análise funcionalista e a análise estrutural, tanto ao definir a integração estrutural e funcional quanto ao lidar com os proces- sos de alteração de uma ordem social qualquer, acabam por tornar a ação social (de indivíduos ou de grupos) isenta de tensões dialéticas. É-lhes estranha a idéia de uma ação "que se faz a si mesma", através da nega- tividade, em condições concretas e determinadas, e, ipso facto, não cabe a discussão, naquelas perspectivas, sobre o sentido das ações e sobre as trans- formações de sentido. Os estruturalistas mais lúcidos, como Lévi-Strauss, sabem que, "em mitologia como em lingüística, a análise formal coloca imediatamente uma questão: sentido"19. Mas, neste caso, há uma cisão metodológica entre o momento da análise formal e o momento da análise de sentido. Da mesma forma, os funcionalistas, pretendendo escapar às críticas que tornam o funcionalismo solidário com uma visão conserva- dora do mundo, estabeleceram categorias capazes de redefinir a noção de equilíbrio através do recurso à idéia de funções que se neutralizam por disfunções. Porém, umas e outras são concebidas como "forças", exter- nas à atividade negadora do homem, de cujo jogo aparece uma resultante:

"Em qualquer caso, um elemento pode ter, ao mesmo tempo, conse- qüências funcionais e disfuncionais; isto dá lugar ao aparecimento do pro- blema importante e difícil de estabelecer o padrão de resultado líquido do feixe de conseqüências. "10

Na análise dialética, ao contrário, os requisitos metodológicos permitem, como é óbvio, explicar a atividade social em termos de conexões de senti- do. Além disso, neste tipo de interpretação não há necessidade, logicamente, de operar em termos de processos estanques ou mecânicos quando se trata

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da passagem de fenômenos sincrônicos para diacrônicos. De fato, a sincronia e a diacronia inserem-se, na dialética, como pólos cujo circuito incessante- mente refeito produz, ao mesmo tempo, a simultaneidade e a sucessão:

"Considerando em seu conjunto, o capital aparece, pois, simultaneamente e coexistindo no espaço em suas diferentes fases. Mas cada uma de suas partes passa constantemente, e por turno, de uma fase a outra, de uma a outra forma funcional, funcionando sucessivamente através de todas. Estas formas são portanto formas fluidas, cuja simultaneidade acha-se deter-

"estes processos especiais não são mais do

minada por sua sucessão (

que momentos simultâneos e sucessivos do processo total. É a unidade dos três ciclos, e não a interrupção de que falamos acima, que realiza a

continuidade do processo total. O capital global da sociedade possui sem- pre esta continuidade e seu processo representa sempre a unidade dos

três ciclos. "'21

)

É a reprodução das formas de interação que leva à transformação (basta pensar no ciclo do capital total em conexão com as crises). Isto fica evidente quando se relembra que o circuito dialético não se resolve numa identidade e quando se pensa a mudança não em função de forças opostas que produzem uma resultante, mas em função de "tensões" en- tre determinações humanas que, ao permutarem incessantemente e si- multaneamente o sentido que possuem, transformam reciprocamente suas qualidades, recriando-se. Por isso, a análise das condições de coe- xistência através do método dialético é, ao mesmo tempo, a análise das condições de sucessão. Diante dessas possibilidades, o artifício metodológico funcionalista parece pobre para interpretar as conexões funcionais que se estabelecem na mesma sociedade quando esta sociedade se configura em constelações sociais diversas em momentos distintos. Ele se resume à pesquisa de gru- pos de conexões válidos para cada fase histórico-social, vistas descon- tinuamente. Entre um padrão estrutural ou organizatório e outro há um hiato: o método funcionalista é cego para compreender a transformação em suas implicações globais. Supõe requisitos para a elaboração meto- dológica, que retiram a historicidade peculiar do comportamento huma- no (a negatividade), e não é capaz de representar as vinculações recíprocas

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e contraditórias entre a simultaneidade e a sucessão, que exprimem o

movimento da história. Finalmente, procurou-se reconstruir as totalidades sociais neste tra- balho como totalidades singulares:

"O marxismo aborda o processo histórico com esquemas universalizantes

e totalizadores (

perspectiva pretende impedir ou tornar inútil a apreciação do processo como totalidade singular. Quando ele estuda, por exemplo, a breve e trágica história da República de 1848, não se limita - como far-se-ia hoje - a declarar que a pequena burguesia republicana traiu o proleta- riado, seu aliado. Ao contrário, ele tenta mostrar esta tragédia no por- menor e no conjunto. Se ele subordina os fatos anedóticos à totalidade (de um movimento, de uma atitude), é através daqueles que pretende descobrir esta. Noutros termos, o marxismo empresta a cada aconteci-

Mas em nenhum caso, nos trabalhos de Marx, esta

)

mento, além de sua significação particular, um papel de revelador: como o princípio que domina a pesquisa é o da procura do conjunto sintético,

cada fato, uma vez estabelecido, é interrogado e decifrado como parte de um todo; é sobre ele, pelo estudo de suas falhas e de suas 'sobre-signi- ficações' que se determina, a título de hipótese, a totalidade no interior da qual ele reencontra sua verdade. Assim, o marxismo vivo é heurístico:

com relação à pesquisa concreta, seus princípios e seu saber anterior aparecem como reguladores. Jamais, em Marx, encontram-se entidades:

as totalidades (por exemplo, 'a pequena burguesia' em 018 Brumdrio)

são vivas; definem-se por elas mesmas, nos quadros da

pesquisa. "22

As implicações desse procedimento no presente trabalho atingem des- de a forma expositiva adotada até as modalidades de investigação utiliza- das e as técnicas interpretativas empregadas. Em termos simples, a partir desta perspectiva é possível a utilização do método dialético de forma

heurística porque o real não é dado a priori, mas constitui-se pelo esforço analítico da investigação. Com isso evita-se a criação de novos Fran- kensteins que, em caso contrário, acabariam sendo criados, como muitas vezes foram, em nome de um método que desejava acabar com eles. Nes-

se ponto o paradigma pode ser tanto Marx quanto Max Weber na Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Em qualquer dos dois casos, o

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método não é empiricista, mas em ambos a interpretação prende-se a um momento analítico, que condiciona as possibilidades de globalização. Sem sólida base empírica a análise dialética na sociologia desfaz-se, enquanto análise criadora, num formalismo abstrato tão lastimável quanto qualquer tipo de escolástica e acaba por transformar "a significação em intenção, o resultado em objetivo realmente visado". Fica patente portanto que, se por um lado a interpretação dialética na sociologia parte de uma atitude totalizadora e universalizante, por outro lado, em nome desses princípios, nada justifica as tentativas de muitos mar- xistas de transformar o processo de conhecimento em mera procura de fa- tos e situações empíricas capazes de provar a verdade contida nos esquemas abstratos de determinações gerais. É claro que existem determinações co· muns e elas desempenham funções definidas na análise dialética. Porém, o conhecimento dos processos históricos sociais depende, como é sabido, não dessas determinações em si mesmas ou de sua verificação particular (que suporia a identidade entre o comum e o singular), mas das relações entre o geral e o particular numa totalidade concreta. Neste processo dialético são exatamente as determinações específicas que, na medida em que diferenci- am as totalidades, se constituem como chave da interpretação:

"Para atingir esse fim explicativo, precisa o especialista pôr em evidên-

cia o caráter essencial do fenômeno investigado. (

pesquisa de relações que operam causalmente mas que se alteram conti- nuamente em sua configuração e atividade, em determinados períodos de tempo, é naturalmente algo que permita explicar como e por que se produzem determinadas alterações da ordem social. Precisa ser, forçosa- mente, um fator construtivo e operativo, que contenha aquilo que Marx chamava de 'determinações comuns' (na linguagem sociológica moderna:

as condições elementares e os processos sociais que se repetem ou recor- rentes) e aquilo que ele entendia como as 'determinações particulares' (e que nós chamamos, atualmente, de condições sociais emergentes e pro- cessos sociais in flux), de maneira tal que as segundas possibilitem uma elaboração interpretativa causal."23

)

O essencial, numa

Por esses motivos, procurei encarar os eventos particulares através de uma perspectiva capaz de torná-los fatores criadores na interpreta-

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ção sociológica. Não tentei iluminar exteriormente os processos histó- rico-sociais analisados com a utilização de esquemas interpretativos ela- borados sobre o negro, a sociedade escravocrata, o capitalismo ou a sociedade de classes a partir de situações concretas de outras áreas. É evidente que cada uma dessas categorias possui determinações comuns e que essas, nesta qualidade, não foram relegadas a segundo plano. Não obstante, no esforço de fazer análises concretas, as referências sobre os escravos, os negros e a sociedade escravocrata do Brasil em geral não contaram para a reconstrução da sociedade escravocrata gaúcha, não havendo no texto qualquer referência empírica que não diga respeito expressamente à região considerada, e em nenhum caso as interpreta- ções são analógicas. A comparação foi utilizada, porém, como recurso interpretativo, para ressaltar as características diferenciais da área estu- dada, como, por exemplo, na discussão sobre a produção mercantil nas charqueadas ou na análise das condições particulares pelas quais se fez no sul a Abolição. É óbvio que muitos processos sociais e econômicos que operavam no Rio Grande do Sul não podem ser explicados tendo- se em vista apenas a situação local; neste caso, indiquei os limites im- postos à explicação pela natureza do fenômeno, e a interpretação só foi tentada quando se dispunha de evidências gerais suficientes para com- preender o processo em causa como uma totalidade. O cuidado na determinação precisa dos fatos ou situações e na cons- trução "analítica"24 das totalidades sociais permitiu que os requisitos de aplicação do método dialético relativos à natureza dessas totalidades como "totalidades em processo de produção", constituídas através da práxis social, fossem preenchidos nas descrições e interpretações levadas a efei- to. Tentei explicar os processos sociais, as situações e os sistemas sociais não do ponto de vista da história já decorrida, quando tudo parece ter-se dirigido na direção de finalidades engendradas por condições dadas, mas do ponto de vista da história como realização da atividade humana cole- tiva. Realização, é certo, na qual os fins visados e os resultados consegui- dos não são coincidentes, e onde a necessidade criada pelos fatos já estabelecidos indica, nas grandes linhas, o curso provável da ação, mas que sem a referência direta à atividade significante dos homens agindo em comum torna-se opaca para a compreensão científica.

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Devo advertir, ainda, que não se tentou explicar a relação entre fins desejados, condições de realização das ações e resultados obtidos, como uma sucessão de fatores externos uns aos outros, ou opostos pela própria natureza (como condições subjetivas individuais, por um lado, e fatores independentes da ação humana particular, por outro). Desses equívocos procurei guardar-me nas interpretações, graças à utilização do conceito de práxis, que nada mais é, com efeito, senão:

"uma passagem de objetivo a objetivo pela interiorização; o projeto, como superação subjetiva da objetividade na direção da objetividade, enlaça- do entre as condições objetivas do meio e as estruturas objetivas do cam- po dos possíveis, representa, em si mesmo, a unidade em movimento da subjetividade e da objetividade, determinações cardeais da atividade. O subjetivo aparece, então, como um momento necessário do processo objetivo. Para tornarem-se condições reais da prdxis, as condições mate- riais que governam as relações humanas devem ser vividas na particula-

ridade das situações particulares (

)"25

NOTAS

1. O primeiro texto é de Merton, R. K., "Manifest and Latent Functions", Social Theory and Social Structure, The Free Press, Glencoe, pág. 37; o segundo é de Fernandes, Florestan, "O método de interpretação funcionalista na sociologia", Fundamentos Empíricos da Explicação Sociológica, Companhia Editora Nacio- nal, São Paulo, 1959, pág. 260. A própria concepção positiva de função social, como F. Fernandes a define, supõe a necessidade metodológica da análise de uma totalidade: "A função é entendida, logicamente, como uma relação de interdependência entre uma atividade parcial e uma atividade total ou entre um componente estrutural e a continuidade de estrutura, em suas partes ou como um todo, representando-se os elementos dessa relação, de modos diver- sos e em graus variáveis, quer como determinados, quer como determinantes" (pág. 255). Para estes autores, as "totalidades sociais" são vistas em termos de graus variáveis de integração social, o que evita a noção conservadora de siste- mas em equilíbrio.

5

O

CAPITALISMO

E

ESCRAVIDÃO

NO

BRASIL

MERIDIONAL

2. Sobre o grau de generalização que se obtém neste tipo de investigação, ver Florestan Fernandes, "A reconstrução da Realidade nas Ciências Sociais", Fundamentos

Empíricos da Explicação Sociológica, op. cit., págs. 33-34.

3. Estas explanações fundam-se nos seguintes trabalhos de Marx:

a) El Capital, crítica de la economía política, trad. de Wenceslao Roces, Fondo de

Cultura Económica, México, 1946, 3 tomos.

b) Contribuição à Crítica da Economia Política, trad. de Florestan Fernandes,

Editora Flama, S. Paulo, 1946. c) Misere de la Philosophie, Éditions Sociales, Paris, 1947.

4. Marx, El Capital, op. cit., tomo m, voI. I, pág. 79. Os capítulos I e 11 deste volume são essenciais para a compreensão do problema metodológico aqui indicado. En- quanto "realidade" (com aparência) a mais-valia não é; enquanto conceito ela nega

a aparência que assume como realidade mistificada: "Partindo de uma taxa de mais-

valia dada e de uma magnitude desta taxa, a taxa de mais-valia não expressa senão

o que em realidade é; uma medida distinta da mais-valia na qual se toma como

base o valor do capital em seu conjunto e não simplesmente o valor da parte do capital de que nasce diretamente (o capital variável- F.H.) mediante a troca com

o trabalho. Mas na realidade (quer dizer, no mundo dos fenômenos) as coisas ocor-

rem inversamente (

)",

pág. 78.

5. Marx, El Capital, tomo m, voI. I, pág. 57.

6. A própria noção de valor, se, no sistema capitalista desenvolvido, parece um con- ceito que desempenha, logicamente, uma função básica, é a expressão consciente de um processo histórico que, como tal, aparece historicamente antes do pleno desenvolvimento do sistema capitalista (na economia de trocas diretas).

7. Marx, El Capital, op. cit., tomo I, voI. I, pág. 39.

8. Giannotti, J. Arthur, "Notas para uma análise metodológica de O Capital", Revis- ta Brasiliense, nO 29, São Paulo, maio-junho de 1960, pág. 65. Ver também, sobre

o mesmo problema, pág. 69.

9. "A própria ciência histórica burguesa visa, é verdade, estudos concretos; ela acusa

mesmo o materialismo histórico de violar a unicidade concreta dos acontecimen- tos históricos. Seu erro está em pretender encontrar esse concreto no indivíduo histórico empírico (trate-se de um homem, de uma classe ou de um povo) e na consciência que é dada empiricamente (quer dizer, dada pela psicologia individual ou pela psicologia das massas). Porém, quando ela crê ter encontrado o que há de mais concreto, está o mais longe possível desse concreto: a sociedade como totali- dade concreta, a organização da produção num nível determinado do desenvolvi-

mento social e a divisão em classes que ela opera na sociedade". Lukacs, G., Histoire et Conscience de Classe, Les Éditions de Minuit, Paris, 1960. O trabalho de Lukacs aqui referido, especialmente o artigo sobre consciência de classe, do mesmo livro,

é fundamental para a análise de conceito de totalidade na dialética.

5

1

FERNANDO

HENRIQUE

CARDOSO

10.

Lévi-Strauss, Claude, "La Notion de Structure en Ethnologie", Anthropologie

Structurale, Librairie Plon, Paris, 1958; Nadel, S. F., The Theory ofSocial Structure,

Cohen & West, Londres, 1957. Existem diferenças, que não cabe analisar aqui, na maneira como estes autores caracterizam o conceito de estrutura e quanto ao va- lor heurístico e metodológico da abordagem "estruturalista". Sobre o conceito de estrutura em geral, ver Firth, Raymond, "The Meaning of Social Anthropology",

Elements of Social Organization, Watts & Co., Londres, 1961.

11.

Sobre as determinações gerais e as determinações particulares que operam nas to- talidades, bem como sobre a explicação a partir destas últimas, ver, especialmen-

te, Marx, Contribuição à Crítica da Economia Eblítica, trad. de F. Fernandes, Editora

Flama, S. Paulo, 1946, págs. 203-204. Ver ainda O Capital, já citado, tomo lI, capítulos 1 a 4, e F. Fernandes, "Os Problemas da Produção na Sociologia", Fun-

damentos Empíricos da Explicação Sociológica, op. cit., capo VI, esp. pág. 136.

12.

Para a crítica, do ponto de vista do próprio método funcionalista, dessa represen- tação da dinâmica social, ver F. Fernandes, "O Método de Interpretação Fun- cionalista na Sociologia", já citado.

13.

Sobre o conceito de práxis ver Karl Marx, "Thêses sur Feuerbach", in Marx, Karl e Engels, Friedrich, Études Philosophiques, Éditions Sociales, Paris, 1951, especial. mente as teses I e m.

14.

No primeiro capítulo a análise é histórica, no sentido de que se ordenam os even- tos conforme sua sucessão temporal. Começa-se a distinguir, é certo, um "tempo social" (como, por exemplo, quando se relacionam, como um momento, as for- mas de ocupação e exploração econômica com a quantidade de mão-de-obra es· crava utilizada), mas esse só se concretiza como passo metodológico no segundo capítulo.

15.

Lévi-Strauss, Claude, "La Notion de structure etc.", op. cit., pág. 319.

16.

Quanto às possibilidades de utilização do método funcionalista na análise de pro- blemas de mudança social e de fenômenos sociais diacrônicos, ver, especialmente,

F.

Fernandes, "O método de interpretação funcionalista na sociologia", Funda-

mentos Empíricos da Explicação Sociológica, já citado, esp. págs. 284 e segs. So-

bre a neutralidade ideológica do funcionalismo, ver Merton, R. K., op. cit., esp. págs. 38-47.

17.

A "manipulação de séries causais contínuas em relações de seqüência", por exem- plo, está excluída das análises funcionais, o que explica a razão pela qual, inde- pendentemente de outros motivos metodológicos, estaria excluído o recurso sistemático à análise funcionalista neste trabalho. Cf. F. Fernandes, op. cit., pág. 284.

18.

F.

Fernandes, op. cit., págs. 271-272, discute de uma perspectiva correta a elabo-

ração do fator tempo na análise funcionalista. Explica também por que a análise funcionalista só pode lidar com significações dadas: "ela toma sociedades já cons-

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2

CAPITALISMO

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BRASIL

MERIDIONAL

tituídas como objeto de investigação e as estuda de modo a reter como se processa atualmente (ou seja, no lapso de tempo considerado) o exercício das atividades vitais para a existência das coletividades humanas" (pág. 272).

19. Lévi-Strauss, Claude, "Magie et Religion", Anthropologie Structurale, op. cit.,

pág.266.

20. Merton, R. K., op. cit., pág. 51.

21. Marx, El Capital, op. cit., tomo lI, pág. 112.

22. Sartre, J.-P., "Question de Méthode", Critique de la Raison Dialectique, Librairie Gallimard, Paris, 1960, pág. 27.

23. Fernandes, F., "Os problemas da indução na sociologia", Fundamentos Empíricos da Explicação Sociológica, op. cit., pág. 124.

24. Está claro que a referência à construção "analítica" das totalidades é relativa. Todo o procedimento dialético de interpretação ou de análise supõe a realização do cir- cuito abstrato-concreto já indicado. Refiro-me apenas ao procedimento heurístico que evita a "dedução" do real a partir de totalidades abstratas, definidas a priori.

25. Sartre, J.-P., op. cit., pág. 66.

5

3

CApíTULO I

O escravo na formação do Rio Grande do Sul

A importância relativamente pequena do escravo na organização do tra- balho do Brasil Meridional tem sido acentuada por todos os autores que se preocuparam com o problema. A existência generalizada de escravos também tem sido ressaltada, por outro lado, por quase todos. Cumpre,

entretanto, distinguir áreas e momentos históricos da região que se desig- na comumente como o Brasil Meridional (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) para que estas afirmações ganhem sentido.

noutro trabalho l que a compreensão do processo de de-

senvolvimento da economia sulina depende da análise das funções eco- nômicas que ela desempenhou, graças à maneira peculiar pela qual se articulou com o que se poderia designar como a economia propriamente colonial do Brasil, isto é, com o setor exportador da economia. Esta aná- lise mostra que houve áreas do Brasil Meridional cuja produção, em de- terminados momentos históricos, articulou-se com a economia colonial

como uma economia subsidiária, mas de vital importância para seu de- senvolvimento. Outras áreas, entretanto, povoaram-se e mantiveram-se

organizadas em torno de padrões de "economia de subsistência", ligan- do-se apenas ocasionalmente às áreas da economia exportadora do país, mantendo-se, em regra, fechadas sobre si próprias.

O escravo foi utilizado de forma variável no Brasil Meridional con-

forme a área considerada se inserisse, num dado momento histórico, no plano da economia mercantil organizada para atender os estímulos das áreas mais desenvolvidas do país ou da região do Prata (isto é, para aten- der o mercado que se formava graças à atividade da economia de expor- tação), ou se organizasse nos moldes da economia de subsistência. No primeiro caso havia a utilização regular do braço escravo, no segundo caso a utilização do escravo tendia a ser insignificante.

Já salientei

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FERNANDO

HENRIQUE

CARDOSO

Entretanto, todas as vezes que se criavam condições no mercado geral do país para a articulação de qualquer das áreas sulinas onde se praticava a economia de subsistência com as áreas de economia exportadora, empre- gava-se também, mas de forma intermitente, o braço escravo. Estas condi- ções dependiam da impossibilidades eventual de verem as áreas de economia exportadora suas necessidades de subsistência supridas localmente. Isto acontecia graças a duas condições principais: ou porque a rentabilidade do produto colonial que sustentava a economia das áreas de exportação cres- cia de forma a compensar a utilização de todos os recursos de mão-de-obra daquelas áreas na sua produção, forçando a importação de víveres de ou- tras áreas 2 ; ou porque alguma contingência (pestes, más condições de clima num ano etc.) obrigava as áreas de economia exportadora a importar das áreas de economia de subsistência os gêneros necessários à vida. Do ponto de vista econômico, a razão da utilização decrescente da mão- de-obra escrava, conforme se tratasse de áreas de economia exportadora, de economia mercantil subsidiária desta, ou de economia de subsistência, é sobejamente conhecida. Prende-se a que a produtividade média desses três tipos de economia também é decrescente, variando com ela as possi- bilidades de produção e utilização de excedentes econômicos 3 Ora, a apli- cação do capital tende a distribuir-se na proporção direta do lucro que pode ser gerado por unidade de capital. No período escravocrata a maior parte das inversões, considerando-se a precariedade das condições técni- cas da produção, fazia-se sob a forma de mão-de-obra escrava. Essa, as- sim, era mais ou menos abundante conforme se tratasse de uma região de economia para a exportação, de economia mercantil visando o mercado interno, ou de economia de subsistência. Por esses motivos a análise da participação do negro na formação do Rio Grande do Sul depende da compreensão do processo histórico de desenvolvimento econômico desta área do Brasil Meridional.

1. os ESCRAVOS NA ECONOMIA PREDATÓRIA E NA PRODUÇÃO PARA O CONSUMO LOCAL

Inicialmente, convém reafirmar que a integração da região sulina ao do- mínio português deveu-se, concomitantemente, a razões políticas e mili-

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tares, que obedeceram à estratégia da expansão colonial portuguesa, e a razões econômicas, que diziam respeito ao comércio de mulas e cavalos feito pelos "paulistas" para o suprimento da área mineradora do Brasil 4 Disto resultou que o povoamento do Rio Grande processou-se apoiado em duas formas básicas de ocupação da terra: a vila fortificada, núcleo militar estável, e a estância de criação, que não deixou de constituir-se como um ponto de apoio para a penetração militar na direção sul. A es- tância, entretanto, antes de organizar-se como uma forma estável de pro- priedade e de gerar um tipo definido de organização do trabalho e de poder, foi antecedida por formas bastante mais precárias e provisórias de ocupa- ção e povoamento. No período da preia ao gado, que, no dizer de Olivei- ra Vianna, criava-se no regime de compáscuos, havia meros pontos de apoio para a atividade dos comerciantes do gado. Estes pontos de apoio eram os "currais", onde se concentrava o gado pilhado nas campanhas sulinas 5 O escravo foi utilizado apenas em escala restrita na economia das vi- las fortificadas e nos currais que retinham o gado preado. Esta afirmação é verdadeira tanto para o período inicial da penetração do Sul, isto é, para o período da ocupação da zona entre a costa e as lagoas, como para os momentos posteriores da penetração luso-brasileira na direção do sul, do sudoeste e do oeste, pois a penetração se fez, em regra, através de pontos fortificados e de estâncias de pilhagem. Às vezes estas últimas assumiam a dupla característica que marcou o processo de penetração no sul, trans- formando-se em núcleos de guerreiros pilhadores de gado, ou melhor, de saqueadores de gado militarizados. Isto significa que houve negros escravos desde a primeira metade do século XVIII, no início do processo de formação do Rio Grande. Basta lembrar a composição da Frota de João Magalhães (1725), formada na maior parte por homens pardos, escravos de Brito Peixoto, povoador de Laguna. A referência à qualidade de pardos atribuída a acompanhantes dos primeiros conquistadores, povoadores e preadores de gado é comum nos documentos relativos ao antigo Continente de São Pedro. A corres- pondência dos governadores do Rio Grande, desde a do fundador do Pre- sídio histórico, aponta, algumas vezes, a presença de escravos. Da mesma maneira, as atas das "vereanças" de Viamão e Porto Alegre falam em negros

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FERNANDO

HENRIQUE

CARDOSO

escravos 6 O comércio de negros escravos com o Rio da Prata - ou me-

lhor, seu contrabando -, da mesma maneira, foi persistente, embora os dados para avaliar a importância numérica dessa atividade sejam escassos

e precários 7 Também não há dúvida que continuou havendo a utilização do es- cravo negro, mas em escala reduzida, nas áreas das fronteiras móveis, que se iam incorporando ao domínio luso. No século XIX os viajantes que percorreram as áreas recém-incorporadas à Província ou à Capi-

tania registraram a presença dos negros nas atividades econômicas. Estas observações são válidas mesmo para as regiões missioneiras e para as fronteiras de Corrientes e do Uruguai, onde a abundância da mão- de-obra indígena tornava praticamente desnecessária a escravidão ne- gra. Arsene Isabelle indica que, entre o pessoal regular de uma tropa de carretas que fazia o comércio entre as Missões e o Rio Pardo, havia dois negros e um índio, e que os viajantes que desta mesma direção demandavam Porto Alegre abrigavam-se nas casas de hóspedes das es- tâncias, onde eram servidos por um negro ou um índios. Saint-Hilaire refere-se insistentemente a criados negros nas estâncias da fronteira, na região das Missões na direção do Rio Pardo; Luccock, viajando, é verdade, em área de povoamento mais antigo, também menciona a presença de escravos nas estâncias, trabalhando como domésticos para

atender aos forasteiros 9

Contudo, mormente no século XVIII, a utilização de negros nos cur- rais foi reduzida e ocasional. Apenas nas povoações e vilas que cresceram em torno dos pontos fortificados a utilização de escravos nos misteres domésticos e nos serviços urbanos foi maior. Para comprovar a utilização de escravos pelos portugueses nas vilas militarizadas, basta mencionar que depois da rendição da Colônia do Sacramento, quando os habitantes des- ta praça forte foram levados para Buenos Aires, carregaram consigo 342 escravos, "entre negros, mulatos y pardos"lO. Todavia, a existência ocasional de negros nos currais e sua presença nas povoações e vilas, mesmo que em número maior do que a bibliografia histórica registra, como as informações acima parecem mostrar, não ex- plica a proporção de negros na população no Rio Grande, tal como apa- rece nos mapas de população de 1780. Neste levantamento, conhecido

6 o

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pelo nome de seu autor, Tenente Córdova l !, a distribuição provável da população segundo a origem racial nas diversas freguesias continentinas seria a seguinte:

Freguesia

Brancos

Índios

Negros

Total

Madre de Deus Rio Grande Estreito Mostardas Viamão Santo Antônio Conceição do Arroio Aldeia dos Anjos Vacaria Triunfo Taquari Santo Amaro Rio Pardo Cachoeira

871

96

545

1.512

1.643

182

596

2.421

880

97

277

1.254

360

40

191

591

1.028

114

749

1.891

828

91

270

1.189

234

25

158

417

210

1.890

255

2.355

291

32

248

571

637

- 640

1.277

580

- 109

689

512

- 208

720

1.317

438

619

2.374

42

383

237

662

Totais

9.433

3.388

5.102

17.923

Aurélio Pôrto calcula que em 1787 havia 526 brancos, 285 negros e 189 índios para cada mil habitantes. Os livros de registro de batismo de Jesus-Maria-José mostram que, em 1738, houve o batismo de 2 negros e 2 índios para 4 brancos. Dos 350 batizados que Aurélio Pôrto compu- tou entre 1747 e 1758,21 foram de negros, 21 de índios e 303 de bran- cos 12 É conhecida a inconsistência das informações sobre as populações coloniais, principalmente sobre a composição dessas populações segun- do a cor ou a condição. Mesmo assim, a proporção entre brancos e ne- gros em muitas freguesias do Rio Grande parece não deixar margem a dúvidas sobre a importância do coeficiente de negros no conjunto da população. Além disso, o recenseamento de 1814, transcrito do Apenso ao quadro estatístico de 1868 organizado por Antonio Eleutherio de Camargo, confirma as indicações do levantamento de 178 O, ampliando as informações desse mapa pela determinação da condição da popula- ção negra:

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FERNANDO

HENRIQUE

CARDOSO

CENSO DA POPULAÇÃO DO RIO GRANDE DO SUL, POR ZONAS,

SEGUNDO

A CONDIÇÃO DA POPULAçÃO

PRESENTE EM 1814 1J

 

Brancos

Indígenas

Livres

Escravos

Recém-

Total

nascidos

Freguesia de Viamão Santo Antônio da Patrulha (freguesia) Conceição do Arroio São Luiz de Mostardas (freguesia) N. S. dos Anjos (aldeia) Porto Alegre (cidade) S. Bom Jesus de Triunfo (vila) Santo Amaro (vila) São José do Taquari (fazenda) Rio Pardo (cidade) Cachoeira (vila) Piratini (vila) Pelotas Rio Grande (cidade) Missões (povos)

1.545

11

188

908

160

2.812

1.706

8

330

961

98

3.103

837

19

180

538

74

1.648

723

5

68

281

74

1.151

1.292

256

233

716

156

2.653

2.746

34

588

2.312

431

6.111

1.760

55

240

1.208

193

3.456

953

27

66

773

65

1.884

1.092

42

67

433

80

1.714

5.931

818

969

2.429

298

10.445

4.576

425

398

2.622

204

8.225

1.439

182

335

1.535

182

3.673

712

105

232

1.226

144

2.419

2.047

38

160

1.119

226

3.590

824

6.395

77

252

403

7.951

Total da província

32.300

8.655

5.399

20.611

3.691

70.656

N.B.: Santo Amaro, hoje é General Câmara; N. S. dos Anjos é Gravataí; e São Luiz de Mostardas, São José do Norte.

Os dados acima sugerem que a participação do escravo negro na po- pulação do Rio Grande do Sul, pelo menos a partir do último quartel do século XVIII, foi bastante acentuada. Como explicar isto diante das afir- mações iniciais sobre o papel do negro nas estâncias pioneiras e nas vilas fortificadas do Continente de São Pedro? Cumpre, desde logo, afirmar o que havia inicialmente insinuado: não é certo que o coeficiente de negros na atividade das vilas e estâncias sulinas tenha sido tão pequeno quanto geralmente se acredita. Para explicar a presença do número acentuado de negros na população do Rio Grande durante o período colonial não basta, porém, considerar as atividades econômicas até aqui apontadas. É certo que houve o emprego de mão-de-

6 2

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obra escrava nas vilas que se desenvolveram, exigindo alguma diferenciação econômica e a organização de meios regulares de manutenção da vida ur- bana, pois as fontes são claras a esse respeito 14 Entretanto, os núcleos urbanos cujo crescimento justificava a utilização de escravos em propor- ções consideráveis eram apenas Rio Grande, Porto Alegre e Rio Pardo. Da mesma maneira, sabe-se que houve emprego de negros nas estâncias, onde os misteres domésticos, ao que parece, reservavam-se a eles. Porém, o pessoal ocupado no trabalho das estâncias sempre foi reduzido 1s Como, por outro lado, no período colonial a população urbana do Rio Grande era bem menor do que a rural, só é possível explicar os altos coeficientes de população negra sugeridos pelos recenseamentos coloniais pela deter- minação de alguma outra forma de atividade rural capaz de permitir a importação de escravos. As interpretações correntes sobre a formação do Rio Grande insis- tem apenas na importância da estância e da economia do gado para o desenvolvimento da região. Caracterizam assim de forma um tanto su- mária o processo de organização da vida econômica do sul. Nas mo- nografias sobre a conquista e a organização da economia do Rio Grande, os historiadores, para serem fiéis às fontes, substituem a esquematização corrente das obras de síntese por análises nas quais ressaltam a varieda- de de formas econômicas de produção que existiram no sul. Entretanto, os mesmos autores, nos trabalhos em que discutem as condições gerais de formação da província, concentram a atenção quase exclusivamente nas estâncias. Não o fazem, está claro, por desconhecimento da realida- de, mas porque esta é a imagem que se projeta no processo da autocons- ciência do Rio Grande transparecendo no que chamaria de "a ideologia gaúcha". Na realidade, todavia, desde muito cedo na história do Rio Grande do Sul, desde a época chamada pelos historiadores de o "feliz período patriarcal", que vai do período da fixação dos lagunistas nos campos de Viamão até a invasão de 1763, a economia da região repousou sobre a criação de gado e sobre a agricultura. Agricultores foram os açorianos, agricultores eram também os criadores de gado. Não os criadores das es- tâncias da "campanha gaúcha" (embora, mesmo aí, as chácaras existissem ao lado das estâncias), mas os criadores do Rio Grande histórico, daquele

6

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HENRIQUE

CARDOSO

compreendido entre a "fronteira do Rio Pardo", a "fronteira do Rio Gran- de" e o litoral. Nos pedidos de sesmarias feitos pelos lagunistas ou seus descendentes há referências aos campos de criação e às lavouras 16 Parece que as lavou- ras constituíam, na maior parte do antigo Continente, atividade comple- mentar das estâncias. Não se pode, por isso, exagerar sua importância. Entretanto, na área de ocupação mais antiga, a atividade agrícola não era tão restrita. Quando chegaram os casais açorianos sua importância tor- nou-se acentuada. A desorganização da lavoura causada pela invasão castelhana mostra bem, por contraste, a importância que esta atividade teve nos anos anteriores. As providências reclamadas pelas Câmaras para

o

atendimento dos agricultores expulsos do Rio Grande indicam o vulto

e

o caráter regular que as plantações haviam assumido. A correspondên-

cia do Marquês do Lavradio com o General João Henrique de Bõhm, encarregado da expulsão dos invasores do Rio Grande, confirma ampla- mente aqueles documentos. Nela se vê a preocupação constante do vice- rei do Brasil com a crise de suprimentos que se esboçava por causa dos estragos feitos nas lavouras pelos espanhóis. As conseqüências dos danos agravaram-se devido à maior demanda de alimentos acarretada pela pre- sença de grandes contingentes militares portugueses na região. O Marquês do Lavradio insistia com o general para que ele procurasse obter, por to-

dos os meios, a volta ao campo dos antigos agricultores: "A mim me pare- cia q' V. Exa. por conta da fazenda Real fizesse dar a estes homens, algum gado, e instrumentos precizos, para el1es principiarem as suas lavouras, obrigando-se elles a irem satisfazendo, pelos rendimentos da sua fazenda, este emprestimo, o socorro com q' se lhe houver assistido" (14-8 -1776). As providências, entretanto, não foram tomadas a tempo de evitar a crise de abastecimento: "Pelo q' respeita a farinha ainda q' pareça incrivel, q' seja precizo, q' eu do Rio de Janeiro esteja provendo athe deste genero

a hum continente tão extenso, e tão fertil e q' ama gente, q' tem nelle, o podia fazer m. to abundante, se a tropa q'esta no mesmo Continente em parte do tempo q' tem tido de descanso, o tivessem aproveitado em tra- balhar para a sua sustentação, como eu por muitas vezes tenho insinuado; sem embargo disto, venho q' tudo se deixa cahyr só sobre os meos om- bros, tenho sempre remetido as farinhas q' tenho podido" (1-12-1777)17.

64

CAPITALISMO

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NO

BRASIL

MERIDIONAL

A subsistência das populações locais em condições normais era provi-

da, portanto, pela agricultura da região. Na agricultura empregava-se mão- de-obra escrava. Sobre este ponto - se não bastassem os dados referentes à composição da população - seria possível acrescentar outros documen- tos, como os testamentos dos povoadores, açorianos ou lagunistas. En- tretanto, para os objetivos do presente trabalho, parece-me desnecessário

juntar esse tipo de documentação. É preciso ressaltar, contudo, que não

deve ter havido concentração de escravos nas mãos de poucos agricultores

poderosos. Dito noutras palavras: a riqueza não se concentrou no perío- do inicial da formação do Rio Grande. É verdade que houve senhores de muitas sesmarias, proprietários de grandes rebanhos. Todavia, os estanciei- ros do Rio Grande realmente ricos e poderosos no período aqui conside- rado basearam sua riqueza muito mais no comércio dos gados que na posse das terras ou de animálias. Cristóvão Pereira, figura do período do desbravamento dos caminhos das tropas, continuava a servir para exem- plificar o homem rico da segunda metade do século XVIII. Além disso, a posse da terra e do gado sem o domínio correspondente do braço huma- no transforma-se em mera condição potencial de riqueza. O diálogo que Luccock travou com um rico proprietário ilustra muito bem esta afirma- ção. O proprietário de terras e gados queria comprar algumas mercadorias levadas pelo viajante inglês. Como não possuísse dinheiro, ofereceu-lhe a ilha em que se encontravam na Lagoa dos Patos (que media de 18 a 20 milhas quadradas, segundo a avaliação de Luccock) com os edifícios e gado (mais de mil cabeças). O viajante propôs-lhe outro negócio: dar-lhe-ia soma igual pelos couros, entregues em São Paulo, dentro de um mês, prontos para embarque. "Isto ele recusou, alegando que, se os encontrasse, o tra- balho e salários lhe trariam despesa maior que o preço oferecido, por onde se evidenciou o baixo valor das terras e do gado e o como era falha de população uma zona de solo tão rico e fértil"18.

O proprietário da "zona velha" do Rio Grande nos meados e na se-

gunda metade do século XVIII, com mais forte razão, lutava com a escas- sez de mão-de-obra. Isto equivale a dizer que não havia um tipo de atividade econômica compensadora para a importação de mão-de-obra. Assim, os lagunistas e os açorianos - criadores ou lavradores 19 - valeram-se,

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inicialmente, do trabalho próprio e do trabalho dos agregados, com al- gum auxílio de escravos 20 .

2. A MERCANTILlZAÇÃO DA ECONOMIA E A ESCRAVIDÃO

A. Crescimento econômico e escravidão

Este quadro modificou-se completamente quando, depois das invasões castelhanas, a agricultura concentrou-se sobre um effeito, capaz de pro- vocar um fluxo de trocas entre a área sulina e mercados externos a ela. Refiro-me às plantações de trigo. O último quartel do século XVIII e os primeiros anos do século XIX foram, graças à exploração do trigo, um período próspero para a agricultura do Rio Grande. As estatísticas exis-

tentes, apesar de inseguras e discrepantes 21 , indicam o aumento contínuo da exportação de trigo neste período. Gonçalves Chaves ainda menciona o trigo como um cereal que até 1814 era bastante produzido. Desde en- tão, por causa da ferrugem, segundo pensava o mesmo autor, a produção

decrescera. Em 1822

Neste ínterim, contudo, houve o aproveitamento regular de escravos ne- gros na lavoura. As lavouras de trigo, que pertenciam sobretudo aos açorianos, não ti- veram condições contínuas de prosperidade. As informações de Pizarro, Ayres de Casal, do General Bõhm, e muitas outras, dão conta das dificul- dades enfrentadas pelas plantações gaúchas. Os malogros neste período (último quartel do século XVIII) deveram-se quase sempre aos efeitos desastrosos da política colonial, como bem ilustra a carta enviada em 28-6-1787, pelo governador Veiga Cabral da Câmara ao vice-rei: "O terreno é muito necessitado e desanimador pela grande quantidade de gêneros que lhes tem tirado a Fazenda Real, sem se lhes pagar, e que por isto os tem animado com assegurar-lhes que daqui em diante lhes não há de tirar senão com dinheiro à vista, e que fica nesta resolução"23. Além dos embargos, o recrutamento constituía um obstáculo permanente à agri- cultura da região. Já mostrei noutro trabalho como esta política levou uma

consumia trigo americano no Rio Grande 22 .

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área do Brasil Meridional ao retrocesso econômico e à estagnação. De fato, quando isto ocorria numa região como a Ilha de Santa Catarina, cuja agri- cultura era meramente de subsistência, os danos eram quase irreperáveis 24 . Outra coisa, entretanto, sucedia no Rio Grande do Sul: graças ao trigo, ao comércio de gado e, mormente, à exploração de couros e do charque, a economia da região pôde suportar com mais êxito a sobrecarga da polí- tica colonial. Por causa destes ramos da atividade econômica houve a ar- ticulação regular da economia sulina com os mercados de outras áreas coloniais, e mesmo com a Metrópole. Do comércio resultou a acumula- ção de alguma riqueza e a vitalidade necessária para que, apesar dos desmandos e das invasões, a economia do extremo sul pudesse, na quadra colonial, manter-se e expandir-se 25 . Aurélio Pôrto, comentando a carta de Veiga Cabral da Câmara, afir- ma que '~pesarde todos esses contratempos o Rio Grande remetia largos sobejos de sua produção de trigo até para Lisboa, em navios que vinham se abastecer em nossos mercados. Há uma estatística interessante de ex- portação desse cereal de 1793 a 1822 de que consta que foram exporta- dos para o Rio de Janeiro, em 1793, 8.040 alqueires, em 1794,43.114 alqueires, em 1795, 12.878 alqueires, em 1796, 13.436 alqueires, em 1797, 16.810 alqueires, em 1798, 13.028 alqueires, em 1799,22.070 alqueires, em 1800,58.726. Em 1808 sobe a exportação a 200.859 alqueires e 5.001 arrôbas de farinha. Em 1807 foram exportados para Lisboa 132.795 alqueires de trigo"26. Os dados apresentados por Gonçalves Chaves mos- tram que a exportação continuou até o período da Independência, sofrendo queda acentuada a partir de 1814, para atingir, logo depois, a decadência completa. As freguesias nas quais se registrou maior concentração de escravos, no mapa do Tenente Córdova, foram exatamente aquelas onde houve produção de trigo. Muitas delas, como lembra Dante de Laytano, eram povoações ou vilas que se tinham originado como sedes de distritos pecuá- rios e, mais tarde, receberam populações açoritas. Noutras, os próprios fazendeiros de gado "tentaram a agricultura com o plantio de trigo, malgrado a deficiência de braços"27. Esta "deficiência de braços" era, real- mente, deficiência de capitais. Desde o momento em que do fluxo de trocas

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entre o Continente de São Pedro e os mercados internos, da Colônia, ou externos, do Prata e mesmo da Europa, resultou uma massa de renda re- lativamente apreciável, inverteram-se os termos do problema. Na econo- mia colonial somente os produtos de exportação podiam criar condições

e estímulos para o impulso de crescimento, isto é, para o aumento da ren-

da por unidade de produção e seu contínuo reinvestimento. No sul esse processo realizou-se através das exportações de trigo, gado, couros e charque. Com efeito, a massa de renda gerada pelos trigais sulinos, soma- da à renda produzida pela mercantilização da economia do gado, permi- tiu que o quadro econômico da região fosse alterado. A tal ponto que as descrições da economia preadora do gado, reproduzidas e endossadas por Oliveira Vianna, e os depoimentos sobre a vida aventurosa nas fronteiras sulinas, generalizados como "fatos típicos" da sociedade pastoril rio- grandense por autores que não fizeram a crítica cuidadosa das fontes, deixam de ter sentido no novo período da economia gaúcha inaugurado quando o fluxo das trocas comerciais permitiu o incremento da renda monetária no sistema econômico local. A partir deste momento a deman- da de braços, incrementada pela expansão da economia, pôde ser atendi- da pela compra de escravos. Entretanto, a economia do trigo não permitiu a concentração de ri- quezas nos moldes, por exemplo, da economia açucareira ou cafeeira. A base social da produção, na fase inicial da mercantilização, era a família açoriana possuidora de lotes de terra relativamente acanhados. Tecnica- mente a produçãO, tal como no-la descrevem Dreys e Saint-Hilaire, era precaríssima 28 E, economicamente, a demanda do trigo sujeitava-se a um mercado altamente competitivo para as condições da época. Por estas ra- zões, não houve a mesma concentração espantosa de riqueza que caracte- rizou a produção brasileira tipicamente colonial. Não obstante, sempre que a exportação de trigo permitia lucros, havia tendência para acrescer os campos e utilizar mão-de-obra escrava. Noutros termos, processava-se

a ampliação do capital através do reinvestimento dos lucros. Não é válida, portanto, a explicação de que os fazendeiros tentaram a agricultura "malgrado a deficiência de braços", pois o que havia era defi- ciência de condições de mercado e de recursos monetários. Logo que a agricultura proporcionou-os, o problema da mão-de-obra pôde ser resol-

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vido pela importação de escravos. Perde sentido também a afirmação de que, iniciando "o trabalho agrícola, os açorianos não poderiam contar consigo mesmos e apelariam para os negros"29, porque iniciando o traba- lho agrícola os açorianos só podiam contar consigo, e não "apelaram" para os negros, mas reinvestiram, sob a forma de mão-de-obra escrava, o exce- dente gerado por seu trabalho, logo que a expansão do comércio de trigo permitiu que esse excedente assumisse forma monetária pela qual era possível adquirir escravos 30

B. A exploração sistemática da empresa agro pastoril e o problema da mão-de-obra

Os trigais gaúchos foram, pois, trabalhados pela mão-de-obra escrava. Ainda assim não se explica a proporção tão acentuada de negros na popu- lação do Rio Grande no começo do século XIX. Essa só pode ser compre- endida quando se considera que, além da lavoura do trigo e da utilização do escravo em toda a sorte de serviços domésticos e ofícios urbanos, hou- ve outro canal regular de absorção da mão-de-obra escrava na economia gaúcha: a estância e o charque. A economia do Rio Grande do Sul sofreu intensa transformação no início do século XIX por causa das possibilidades que a ela se abriram com o aproveitamento mais intenso e regular do gado. No fim do século XVIII, o regime dos currais, dos compáscuos, das razias dos pilhadores e comerciantes de gado da fase heróica da expansão portuguesa, estava prestes a terminar como processo básico de apropriação e exploração eco- nômica. Bettamio, nas suas imprecações de homem urbano, assinala, po- ssivelmente, um estado de espírito que, se não era geral, começava a impor-se nas áreas de povoamento mais antigo, onde a criação, como a agricultura, não constituía mais aventura. Diz o cronista, referindo-se ao Rio Pardo: "Nesta povoação ou nas suas vizinhanças, é que por estudo vivem muitos homens separados de comunicações para estarem mais ap- tos a poder sahir ao campo fazer os roubos de gados (a que chamão arre- adas) sendo estes homens de qualquer empresa; mas quanto a mim são uma peste que ali reside, e uns perturbadores da paz, e socego publico, que para se conservar, me parecia ser o melhor meio, tiral-os a todos das

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fronteiras, e dar-lhes suas moradas no interior do paiz, e até conceder- lhes terrenos equivalentes aos que lá possuirem"3!. Na verdade os homens que faziam as arreadas tão fustigadas por Bettamio continuaram a existir durante boa parte do século XIX, não só na fronteira do Rio Pardo como nas demais do antigo Continente. Estes homens, os "gaúchos", que foram, nos primórdios da história rio-gran- dense, a mola da economia do gado e da defesa militar - o que teria sido Rafael Pinto Bandeira senão pilhador destemido, que a argúcia dos vice- reis transformou, depois, em grande estancieiro e num pilar da ordem colonial portuguesa? - passariam a ser, mais tarde, instrumentos dos gran- des proprietários na luta contra outros grandes proprietários, freqüen- temente de além-fronteira, para a manutenção de uma riqueza obtida e mantida já por mecanismos básicos que não se assentavam mais no roubo sem rebuços. O novo período da economia rio-grandense foi, pois, o do gaúcho, do tropeiro, do militar, do antigo colono ou do administrador colonial - freqüentemente uns e outros tipos sociais representados pelo mesmo ho- mem - que se transformou em estancieiro. No tempo de Bettamio, que coincide com o início do período das charqueadas (1780), o estancieiro ainda era, em larga medida, alguém que se apropriava da terra e das manadas sem a elas ajuntar grande trabalho que as transformasse:

"A irregularidade com que se tem morto o gado no Continente ajuda muito à causa do diminuto número que hoje tem; porque mata-se sem attenção a serem vacas, e ainda sem repararem se estão prenhes, o que continuando será acabar de todo o Continente, ou o meio das riquezas

delle"32.

Em 1808, a estância gaúcha, conforme o depoimento de Manoel An- tônio de Magalhães, ainda partilhava da condição de empresa de coleta e pilhagem, que havia destruído vastas reservas animais para manter o ritmo de exportação da indústria do charque e da exportação dos cou- ros, ao mesmo tempo que começava a organizar-se como uma empresa mais racionalizada. De mulas, não havia "maior necessidade, pela abun- dância que ha na capitania"; mas o gado vacum precisava ser, ainda, importado do Prata para os charqueadores, por serem melhores os de

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lá, diz o Almanak. E acrescenta: "Não ha duvida que esta capitania póde pelo tempo adiante ter gados para toda a América, e ainda para expor- tar muitas carnes salgadas para fóra, mas é preciso que o governo, mu- nido de ordens superiores, obrigue todos os fazendeiros a fazerem nas suas fazendas os precisos rodeios nos seus gados, e apezar de grandes despezas que se precisam fazer, os façam amansar e chegar todas as se- manas aos curraes, porque ha muitas fazendas, todas alçadas, e a maior parte dos fazendeiros, ainda os mais ricos, apenas têm a quarta parte do gado manso, e ainda vem aos curraes e rodeios, que se costumam fazer; todo o mais é tão bravo como os touros de Portugal que vêm aos

curros"33.

Em 1820 já não deveria ser tão generalizada a ausência de rodeios, pois mesmo nos campos de Ibicuí, nas fronteiras do Rio Uruguai, havia rodeios regularmente, segundo o testemunho de Saint-Hilaire: "aqui, dis- se-me meu hospedeiro, pode-se marcar anualmente, um quarto do reba- nho existente. Quando um estancieiro possui 4.000 bovinos pode marcar anualmente 1.000 novos, donde saem 100 para os dizimeiros. Dos 900 restantes as vacas (cêrca de 450) ocuparão os lugares das que são abatidas ou morrem. Dos 450 machos são deduzidos 50 que morrem de moléstias naturais, ou por acidente de castração"34. Ainda assim, a atividade pasto- ril desenvolvia-se mais como uma mercê da natureza que como fruto do trabalho humano: "Os homens ricos desta Capitania são os possuidores de rebanhos, aos quais não dão cuidado algum e que se multiplicam facil- mente", registrou o naturalista judiciosamenté s . Persistia na década de 1820, portanto, a situação de uma economia que mais se apropriava dos dons da natureza do que criava, com o trabalho humano, a riqueza. Em suas Memórias, Gonçalves Chaves relata a freqüência com que se roubava ou abatia gado alheio de forma generalizada no Rio Grande do Sul: "Cada homem mata as rezes de seu vizinho para gasto da sua casa, sem procurar paga-la, ainda que sempre se cobre com o pretexto de pagar com outra. Quasi geral ha muito pouco escrupulo em matar rezes para comer, an- dando em viagem, e tomar cavalios sem consentimento de seu dono"36. Este costume indica que, até então, a economia criatória do sul são se moldava como uma empresa organizada para obter lucros e tão-somente para isso.

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Em 1834, depois do período de transição por que passou a econo- mia gaúcha, entre a mera apropriação de um bem natural e a produção do gado, já surpreendemos a estância, conforme o testemunho de Dreys, como uma empresa econômica organizada, da qual o mesmo Dreys foi

o ideolóco mais que o analista. De fato, Dreys define a estância, como

faz com as charqueadas, descreve-a, mostra as condições da "estância

perfeita", que, no seu dizer, "mais segurança offerece aos interesses do especulador", e exalta-a como exalta os gados que nela apascentam e os homens que a possuem. A rotina da vida econômica organizada substi- tuíra, nessa época, o período das "arreadas" ousadas, da perseguição à alimária "alçada". "Todos os seis meses dá-se hum rodeio, cujo fim he reunir todos os animais n'hum centro commum, para os reconhecer, e marcar os recem-

nascidos. (

gado que não se quer conservar para a propagação". "(

toma a denominação de novilho, e são os novilhos que se vendem para as charqueadas, tendo de 5 annos para cima: poucos são os touros e as vacas que para lá se mandão"37.

Percebe-se na descrição a engrenagem de um mecanismo econômico mais complexo em funcionamento. Produzia-se o gado para as char- queadas, ou para a exportação em pé. Num e noutro caso, mercadorias que eram, atendia-se aos requisitos do mercado que os consumia, ao qual, na verdade, sujeitava-se a economia da estância. A partir desse período

a estância passou a organizar-se como uma empresa capaz de produzir

lucros. Na estância assim organizada havia o problema da mão-de-obra. Os autores afirmam, em geral, que se utilizava mão-de-obra livre. Não creio, firmado na documentação coeva, que a utilização do escravo nas fazendas de criação tenha sido tão restrita quanto se supõe. Os depo- imentos de Saint-Hilaire sobre a presença de negros na atividade criatória são constantes. Na região dos campos de Viamão dormiu numa estância onde, ao lado da "casinha mal construída, de pau-a-pique e barro, mas coberta de telhas, que era a do estancieiro, viam-se algu- mas casas de negros" (pág. 17). Em Pitangueiras, viu "alguns negros escravos" (pág. 20). Em Boa Vista diz que "nas estâncias desta região,

) O gado capado

)

Nessa mesma occasião de rodeio, opera-se a castração do

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quase puramente pastoril, não são precisos tão numerosos escravos como acontece nas regiões açucareiras ou na exploração de minérios" (pág. 21). Depois de uma permanência em Porto Alegre, o naturalista retoma viagem, voltando a Boa Vista e seguindo para Rio Grande. No

caminho, fica numa estância em Palmares, de aparência pobre, mas cujo proprietário possuía algum gado "além de ser senhor de muitos escra- vos e ter grande número de cavalos". Ainda em Rio Grande, reafirma

a observação que fizera nos campos de Viamão: "várias pastagens com-

portando uma imensidão de gado não exigem dos estancieiros grandes despesas com os escravos; como acontece nas regiões de mineração ou indústria açucareira" (pág. 70). Mas, na freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Estreito Norte de São Pedro do Rio Grande, chama-

da Norte, havia 2.000 almas, "das quais 2/3 são homens de côr, negros

e mulatos, livres e escravos. A metade dessa população é rural e o res-

to habita na aldeia Norte (

mados "campos neutrais" da fronteira do Xuí, o viajante volta a percorrer, como fizera nos campos de Viamão, extensa zona de cria- ção. Na estância que visita, registra que a areia da região obriga o es- tancieiro "a pôr continuamente negros a desentulhar seu jardim" (pág. 104). Adiante, na "estância do Silvério", empregavam-se 12 negros para cuidar do pomar (pág. 105). Ao sair da "Estância Caiova", refere-se de novo a um negro (pág. 109). Em Tahim, que fora já ponto extremo

(pág. 72). Demandando os então cha-

)"

da posse portuguesa, diz que pousou "em uma estância cujo proprie- tário está ausente, e onde apenas encontrei um negro. Êsse homem alimenta-se somente de carne, sem farinha e sem pão, conforme é useiro tratar-se os escravos nesta região", confirmando, assim, a existência regular de escravos na região. Mais adiante, pousa numa estância "cer- cada de algumas senzalas" (pág. 114). Descrevendo a Estância de José Bernardes diz que se compõe "como tôdas as outras, da casa do dono

e algumas casas de negros" (pág. 114). Saint-Hilaire continuou a indi- car a presença de negros até quase Angostura, donde passa para terri- tório uruguaio. Depois que Saint-Hilaire visitou a Cisplatina, retornou ao Brasil pela fronteira do Rio Uruguai, marginando-o acima do Ibicuí. Nesta região, demandando as Missões, não registra a presença de negros nas estâncias.

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Essas estâncias eram formas de ocupação muito mais precárias que as visitadas pelo naturalista nos campos de Viamão e na região da estreita faixa entre a Lagoa Mirim e o Atlântico. Compartilhavam mais do anti- go padrão da empresa de pilhagem dos áureos tempos. O naturalista explica como procuravam os estancieiros resolver o problema da mão- de-obra na área: "os estancieiros desta região, não tendo escravos, apro- veitam a imigração dos índios para conseguir alguns que possam servir de peões" (pág. 150). Nas margens do Uruguai e nas Missões os peões eram, pois, índios. Utilizavam-se os índios, algumas vezes a troco de salários que variavam de oito a doze patacas por mês 38 Entretanto, na época de Saint-Hilaire, o roubo de crianças indígenas, a coerção e a espoliação dos índios constituíam a regra: "os roubos dos indiozinhos são abusos dos mais terríveis que se praticam aqui. São levados a trabalhar como escravos, e se utilizam para o povoamento do solo, visto como longe de suas terras não encontram mulheres com que se possam casar" (pág. 220). A tal ponto ocorria isto que foi preciso instalar uma guarda para evitar que saíssem das Missões crianças índias roubadas pelos brancos (pág. 238). Os índios eram trata- dos, em geral, como escravos: "Creio não ser muito de se estranhar o pouco afeto dos índios pelos patrões, uma vez que eles são tratados como ani- mais" (pág. 240). Não apenas índios serviam às estâncias: muitos brancos fugidos de Corrientes também se transformavam em peões e capatazes dos portugueses, como se pode verificar pela referência expressa de Saint- Hilaire (pág. 187). À medida que o naturalista se distancia das Missões no caminho para Santa Maria, volta a registrar a presença de negros escravos, até mesmo na condição de zeladores de estância (cf. pág. 239). Porém, nesta região (da capela de Santa Maria) a mão-de-obra básica na estância era indígena. Apenas, nas áreas de Santa Maria, onde além da criação praticava-se a agricultura (as terras da região eram divididas entre muitos proprietários), havia o emprego de escravos negros, ao lado do trabalho dos brancos proprietários: "O dono da casa e seus filhos cuidam do gado e os negros tratam da plantação: contudo, nesta região ninguém se envergonha de trabalhar. Os homens menos ricos possuem vacas de leite e cultivam a terra por suas próprias mãos" (página 257).

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Depois de Santa Maria, Saint-Hilaire penetra no coração da antiga fronteira do Rio Pard0 39 , seguindo desta localidade para Porto Alegre, por via fluvial. Pouca coisa diz, então, sobre a utilização dos negros, mesmo porque, como acentua Lallemant, "embora tenha grandes pastagens, a região entre Rio Pardo e Taquari perde a aparência de pampa"40. A presença de escravos nas atividades pastoris e agrárias, registrada tão minuciosamente por Saint-Hilaire, encontra confirmação em depo- imentos de viajantes e observadores que se referem a épocas anteriores e posteriores à viagem do naturalista. Assim, Mawe, para justificar a tese de que os "campeiros" rio-grandenses eram superiores aos platinos, es- creveu: "Mas deve-se compreender que os espanhóis têm peões nas suas fazendas, que estão mais ligados às índias do que a eles, enquanto os portugueses possuem crioulos, criados nos negócios, ou negros experi- mentados, que não são inferiores a ninguém neste trabalho"41. Dreys, 35 anos depois, reafirmava a utilização regular de negros nas estâncias:

"A estância é servida ordinàriamente por um capataz e por peões, debai- xo da direção d'aquelle; às vêzes os peões são negros escravos, outras vêzes e mais commumente são índios ou gaúchos assalariados; sua ocu- pação consiste em velar sobre os animais, conte-los nos limites da estancia, reuni-los, quando he mister"42. O mesmo autor, falando sobre as condições do trabalho escravo, repete a informação de que os negros participavam das atividades criatórias: "Os negros do Rio Grande não estão n'huma posição excepcional senão porque pertencem às estancias e às charqueadas; os negros domésticos são os mesmos em todas as par- tes: ora, nas estancias, pouco tem que fazer o negro, excepto na ocasião

rara

Além disso, a economia das estâncias, excluindo-se os períodos de excepcional valorização dos produtos do gado, quando havia abandono das atividades agrárias - até mesmo dos produtos necessários para a subsistência - não se resumia à criação, mesmo na área predominante- mente pastoril 44 Ao lado da "estância gaúcha", havia a "chácara", na acepção originária da palavra, que abastecia as populações locais. E, sem que se designassem como "chácaras"45, havia as plantações para a sub- sistência em quase todas as estâncias do Rio Grande do Su1 46 . Predomi-

d

d

os ro elOs;

·

()"43

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nava a criação do gado, mas a estância, na medida em que tendia para o padrão de organização de unidade econômica autárquica, produzia para

o autoconsumo. Não só para o consumo alimentar, como para o consu-

mo dos utensílios necessários à vida, incluindo-se o vestuário corriquei- ro da campanha e os objetos necessários para a faina rústica 47 Também nas atividades acessórias da estância houve a utilização de escravos ne-

gros como se pode ver nos depoimentos de Saint-Hilaire e na memória existente sobre uma estância de Piratini. Nessa, o autor afirma que a propriedade como "quase todas desse tipo" constituía "uma espécie de povoado perdido como um oásis na solidão dos campos, pois precisava de quase tudo". Os escravos, segundo este depoimento, haviam sido empregados desde os trabalhos de ereção das divisas até a agricultura, os trabalhos de campeiro, as atividades artesanais de fiação, de pedrei- ro, carpintaria, ferraria, alfaiataria etc. A necessidade de escravos com alguma habilidade artesanal nas estâncias fazia com que seu preço fosse maior 48 Tais informações confirmam-se tanto pelo noticiário de compra e venda de escravos dos jornais de Pelotas e Porto Alegre, como adiante se verá, como pelos dados contidos na pasta "Correspondência e Papéis Avulsos" do Arquivo Vieira Braga (visconde de Piratini) da Biblioteca Rio-Gran- dense. A correspondência mostra que nas estâncias desse proprietário (na segunda metade do século XIX) além dos escravos domésticos e dos

campeiros havia escravos utilizados na agricultura e nos serviços ar- tesanais 49 Noutros documentos da mesma coleção verifica-se que anterior- mente (1832) os escravos negros também eram empregados em toda sorte de misteres so Em suma, os dados indicados parecem confirmar que o escravo negro supriu basicamente o mercado de trabalho nas zonas de povoamento an- tigo. Nessas, tanto nas lides urbanas como na agricultura S1 e na atividade pastoril- a partir do momento em que a criação se transformou em fai- na rotineira que se contrapunha às antigas arreadas impetuosas - houve

o aproveitamento regular da mão-de-obra escrava. Nas áreas que se in-

corporaram à economia rio-grandense nos fins do século XVIII e pri- mórdios do século XIX, onde se repetia, neste período, a aventura da conquista e da preia ao gado, a presença do negro foi mais ocasional que

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rotineira, sendo mais aproveitado na qualidade de doméstico que na de peão. Excetuam-se deste quadro, finalmente, a zona missioneira e as fron- teiras do Uruguai e da Argentina (tão móveis, então) onde a influência das reduções jesuíticas havia sido dominante. Nesta última área, à me- dida que as diversas regiões que a compuseram foram sendo incorpo- radas à economia luso-brasileira, uma espécie de escravidão dissimulada sujeitava os indígenas ao trabalho nas estâncias. Posteriormente, a partir do segundo quartel do século XIX, o desenvolvimento da economia pastoril e a incorporação efetiva das "zonas fonteiriças" (não de limi- tes, é claro, pois estes, muitas vezes, ficavam bem além - na direção do atual Uruguai ou da Argentina - das zonas que aqui designo como fronteiriças) ao sistema político e administrativo do Rio Grande redefiniram o padrão de organização da atividade econômica das es- tâncias da região, no sentido do emprego de mão-de-obra indígena na condição de assalariada 52 No conjunto pode-se, pois, afirmar que, sem ter sido exclusiva ou predominante e variando de importância relativa conforme as diver- sas áreas e períodos da economia de criação, houve a utilização do escravo negro na vida pastoril gaúcha desde quando a estância substi- tuiu os currais.

c. Produção escravista: as charqueadas

Foi a indústria do charque, todavia, que tornou a exploração do escravo regular e intensa no Rio Grande do Sul. O aproveitamento da carne atra- vés da salga e do curtimento data de 1780 53 Antes dessa época abatia-se o gado somente para o aproveitamento do couro. A salga e subseqüente secagem das carnes existiam apenas para o uso das estâncias. Só a partir do estabelecimento de Pinto Martins (1780) houve a comercialização re- gular do produto. Entretanto (se bem que nos fins do século essa ativida- de já fosse florescente na área de Pelotas, às margens do rio do mesmo nome e do São Gonçalo, e na área próxima a Porto Alegre, às margens do Jacuí), só no segundo decênio do século XIX as charqueadas tiveram um impulso realmente acentuado. Em 1822 havia, apenas nos arredores de

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Pelotas, 22 charqueadas 5 4, e no início do século havia na própria vila de Porto Alegre dois estabelecimentos de salga, além dos que existiam às margens do Jacuí 55 . Sabe-se que as charqueadas, bem como as atividades paralelas de ex- ploração dos sebos, graxas, couros etc., nem sempre foram prósperas. A concorrência dos saladeiros do Rio da Prata era intensa e a produção platina possuía condições favoráveis para vencer a competição. A eco- nomia platina do charque levava vantagem por causa da melhor quali- dade do gado, das taxas mais baixas a que estava sujeita a exportação, do mais fácil acesso aos portos, das relações que mantinha com os ingle- ses e, sobretudo, como veremos noutro capítulo, por causa do tipo de organização do trabalho que possuía. Houve tempo no Rio Grande do Sul em que a exportação era tão reduzida que os couros, por exemplo, serviam apenas como surrões para conter o trigo que se comerciava, para fazer pelotas (pequenas e precárias embarcações), para o uso no vestuá- rio e para o emprego nas lides do campo e nos serviços domésticos. As descrições dos hábitos da campanha gaúcha mostram que para fazer a maior parte destas mercadorias os animais eram abatidos a esmo, sem constituírem objeto de exploração econômica regular. Todavia, depois que o mercado platino começou a ressentir-se das guerras e das lutas pela independência, houve alguma prosperidade nas charqueadas rio- grandenses. Luccock, com a perspicácia de comerciante, notara as trans- formações favoráveis que, por esta razão, a economia gaúcha começava

a sofrer: "A procura de couros e de sebo encontrava oferta principal- mente aqui (na cidade do Rio Grande) e em Buenos Aires, e a admissão da navegação britânica no último destes lugares produzira efeitos ime- diatos e notáveis nesses artigos. Montevidéu, sua rival, achava-se em apuros e quanto à Espanha já não podia nem suprir as necessidades nem comprar os produtos do país. Por isso tudo, o comércio interior, de além das fronteiras, o mais lucrativo de que São Pedro gozava, achava-se em

progresso"56.

O viajante não podia notar, porém, que o maior benefício advindo para

a economia gaúcha das complicações internas da política do Prata e das

disputas dos portugueses na Cisplatina estava na expansão da indústria do charque 57 . Doze anos depois de Luccock, Saint-Hilaire teve o ensejo

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de registrar o fato: "Como a barra é muito perigosa e a carne-sêca destas cercanias inferior à de Buenos Aires e Montevidéu, era nestes portos que mais a procuravam antigamente. Mas, depois da guerra, Rio Grande tor- nou-se o centro dêsse comércio e por isso um importante pôrto para o Brasil "58. Por isso a exportação do charque e dos couros teve grande incremen- to no primeiro quartel do século XIX e, conseqüentemente, houve enor- me afluxo de escravos negros para as zonas das charqueadas. Não se possui os número dos escravos importados para exploração do charque, mas sabe- se - pelas estatísticas demográficas - que nas áreas das charqueadas a população escrava era considerável. Cada charqueada ocupava, em mé- dia, 80 escravos, como se depreende da leitura de Saint-Hilaire 59 Couty confirma a indicação, referindo-se ao período do fim do século: "As boas charqueadas de Pelotas têm de 60 a 90 escravos: tôdas possuem, além disso,

alguns trabalhadores livres"6o. Em 1833 havia, fora os pardos livres, 5.000 negros nas charqueadas de Pelotas 61 . O rendimento e a produção das charqueadas não foi constante du- rante o século XIX. De modo geral, a taxa de lucro obtida pelos charqueadores nos primeiros trinta anos só se repetiu no último quar- tel do sécul0 62 . Contudo, as flutuações do valor da produção interferi- am muito pouco sobre a quantidade de produtos e menos ainda sobre

o volume da mão-de-obra escrava ocupada, por causa da própria na- tureza do regime escravocrata de produção que, como se verá adiante, mantém relativamente constantes os disponíveis de mão-de-obra e o ritmo da produção. Sendo assim, a indústria do charque, apesar dos longos períodos de crise por que passou, constituiu durante todo o século XIX o setor da economia gaúcha que mais absorveu trabalho escravo. Na metade do século, a tal ponto o pastoreiro e a salga 63 ha- viam dominado a economia que o presidente da Província dizia sobre

a agricultura: "He este ramo quasi desconhecido na Provincia. Ha lu- gares não interrompidos de terreno em que não existe uma só arvore plantada, e em que nenhuma semente tem sido lançada à terra; e o terreno presta-se a quasi tudo"64. Constituíra-se já, portanto, a sociedade rural gaúcha, latifundiária e escravista, dos criadores de gado e charqueadores.

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D. A mão-de-obra escrava nas atividades comerciais e urbanas

Além do charque, o comércio de mulas para a região paulista e minei- ra permitiu ingressos relativamente consideráveis de recursos em espécie. Este desenvolvimento é atestado pelos viajantes e pela intensificação cres- cente do intercâmbio de bens de consumo entre os grandes empórios co- merciais da Província (Rio Grande, Porto Alegre, Rio Pardo) e a zona rural. Quando em 1858 Lallemant percorreu o interior, notou, diversamente do que ocorria na época de Saint-Hillaire, que o comércio aumentara a tal ponto que entre os grandes empórios comerciais da Província e os com- pradores rurais surgiam, por toda parte, núcleos de redistribuição das mercadorias, como Cachoeira, Santa Maria, Itaqui, Uruguaiana, Alegrete

e São Gabriel. O viajante não compreendia como as vilas, de pouca popu- lação, tinham tamanha importância comercial: é que estes núcleos es-

pelhavam a prosperidade das estâncias da zona da campanha gaúcha e das Missões, donde saíam as muladas para São Paulo, Minas e Rio de Janeiro

e o gado

Nas cidades (Rio Grande, Pelotas, Porto Alegre e Rio Pardo) havia também alguma atividade de transformação, sobressaindo, além do apro- veitamento dos derivados do gado nos arredores de Pelotas e Porto Ale- gre, as oficinas de construção naval 66 Sobrepondo-se a todas estas atividades, o comércio importador e exportador criava sólidas fortunas urbanas. Desde o início do século XIX o comércio desempenhava nas vilas e cidades o mesmo papel que as estâncias exerciam na economia rural: cons- tituía-se no núcleo dinâmico de acumulação de riqueza. Já indiquei que Luccock, em 1810, encontrara um comércio razoável na cidade do Rio Grande, com boas perspectivas de futuro. Antes disso, em 1804, Mawe observava que muitas e rápidas fortunas fizeram-se com o contrabando de mercadorias na mesma cidade6 7 Na região do Rio Pardo, como nos campos de Santa Maria e Alegrete, naturalmente em menor escala, a ati- vidade que mais impressionou os viajantes foi a comercial. As vilas dessa área eram empórios donde se redistribuíam os gêneros necessários para as estâncias da região e para a Província das Missões 68 Nos serviços aces- sórios do comércio, como os transportes, utilizavam-se negros. Os navios

para as charqueadas 65

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que subiam o Jacuí, assim como as carretas que demandavam os campos69, encontraram na mão-de-obra escrava o recurso regular para manter o tra- balho braçal. Com o desenvolvimento da economia pastoril e do charque, a ativi- dade comercial intensificou-se extremamente na Província. Porto Ale- gre, Rio Grande e Pelotas tornaram-se os grandes empórios do Rio Grande do Sul. A primeira cidade, por causa de sua posição realmente privilegiada, que não escapou à argúcia dos viajantes, tornou-se o entreposto básico para as áreas da bacia do Jacuí e da região de Viamão; Rio Grande, por ser o único porto de mar da Província, manteve-se durante o século XIX como praça comercial de importância; e Pelotas, sendo o núcleo dos charqueadores, não podia deixar de ser também (ape- sar da proximidade com o Rio Grande) um forte centro de negociantes. Em 1833, quando os efeitos da economia do charque já se faziam sentir plenamente, Isabelle descreve nestes termos a "vida comercial" daque- las cidades: "O comércio é ativo em Porto Alegre; vi sempre uns cin- qüenta barcos, tanto nacionais como estrangeiros, ocuparem a barra, independentemente de uma grande quantidade de pirogas de todos os tamanhos, chalanas destinadas ao transporte das mercadorias, facilitan-

) A maior parte

do admiravelmente as comunicações com o interior (

dos barcos que vão a Porto Alegre são norte-americanos, brasileiros, ita- lianos e alguns ingleses. Vê-se, de tempo em tempo, algum navio fran-