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A CORRENTE MARXISTA LIBERTÁRIA: FRANÇA, ITÁLIA, BRASIL E MUNDO

Michel Antony

Uma corrente marxista libertária, provavelmente inspirada pelos escritos de Maximilien RUBEL (1905-1996 - tradutor de MARX e marxólogo), de posições de determinadas escolas alemãs (Karl KORSCH: 1886-1961 e Escola de Frankfurt:

Herbert Marcuse, especialmente) e pelas reflexões de movimentos situacionistas, conselhistas e marxistas críticos, é desenvolvida pelo escritor Daniel GUÉRIN em 1969, em seu livro Por um marxismo libertário. Na Itália, seu amigo Roberto MASSARI retomou muitas análises de GUÉRIN e republicou seu livro 1 . Também na Itália, o siciliano Domenico DEMMA, também próximo de GUÉRIN, é um dos principais divulgadores do seu pensamento, visando mantê-lo apesar da confusão terminológica ao utilizar, às vezes, a noção de comunismo libertário, discutido anteriormente*. Muitos pesquisadores e ativistas do movimento se inspiraram nos escritos do jovem Marx ou seu texto mais antiestatal, A Guerra Civil em França, sobre a Comuna de Paris; em LÊNIN e seu texto mais soviético (literalmente) e de aparência libertária**, O Estado e a Revolução, escrito em 1917 e publicado em 1918. RUBEL – tal como seu discípulo Louis JANOVER – busca livrar Marx dos marxistas, especialmente dos marxistas "políticos", por o situar na corrente anarquista, profundamente associacionista e antiestatista, e promotor da ideia de autoemancipação 2 . Mas esta abordagem libertária das obras marxistas frequentemente funciona, como fala Giuseppe ROSE, como "aporia do marxismo libertário" 3 .

Na Itália Andrea CAFFI (1886-1955) ainda tenta, desde os anos 1930 até hoje, conciliar Marx e Proudhon em um "socialismo libertário" que é compartilhado por muitos membros da Giustizia e Libertà. CAFFI retoma, neste ponto, alguns escritos Saverio MERLINO. Outros ativistas e pensadores podem ser ligados a esta vasta corrente, pelo menos por um período de sua vida militante: o franco-alemão Daniel

1 GUÉRIN, Daniel. Per un marxismo libertario, Bolsena: Massari, 304p, 2008.

2 JANOVER, Louis. Lire RUBEL aujourd'hui. Contre la feinte dissidence d'hier et de demain, -in-Les Temps Maudits, Paris: CNT, n°15, 160p, p.99-145, janvier-avril 2003.

3 ROSE,Giuseppe. Le aporie del marxismo libertario, Pistoia (?) : RL, 63p, 1971.

COHN-BENDIT, o alemão Rudi DUTSCHKE (membro do anarcocomunista

Subversive Aktion, em Berlim em 1963), o costarriquenho J. Nestór MOURELO

AGUÍLAR ou o espanhol Abraham GUILLÉN, em 1960. Em seu livro de 1969, Fidel

MIRÓ 4 lhe consagra um capítulo inteiro. Muitos marxistas desapontados ou críticos,

assimilando a onda autogestionária, (re)descobre certos aspectos libertários e

antiautoritários, como Yvon Bourdet e tentar encontrar suas fontes no próprio Marx 5 .

Na Suíça, um dos fundadores dessa corrente de pensamento é Fritz BRUPBACHER

(1874-1945), socialista, anarquista, comunista e novamente libertário após a sua

exclusão do Partido Comunista Suíço, em 1933.

Na sequência de Socialismo ou Barbárie e da Internacional Situacionista, outros

teóricos foram igualmente marcados por este esforço de reconciliação: eu penso

especialmente em Cornelius CASTORIADIS no final de sua vida. No mundo anglo-

saxão, os recentes pronunciamentos de Sean SHEEHAN 6 para uma retomada das ideias

marxistas à luz do anarquismo, é uma proposta ligeiramente inovadora, mas abandona o

aspecto de "sistema" do pensamento de Marx, embora seja este aspecto que tem atraído

os intelectuais e revolucionários profissionais, que possuem um pensamento totalizante,

para não dizer totalitário.

No Brasil, o atual e muito prolífico sociólogo Nildo VIANA (nascido em 1965)

reabilita Marx, os libertários e a corrente conselhista (PANNEKOEK, Karl

Na Itália, meus amigos da Utopia Rossa, grupo animado, entre outros,

KORSCH

por Roberto MASSARI, o prolífico e interessante editor de Bolsena, ou o escritor

libertário, Pier Francesco ZARCONE, retomando as ideias de Daniel GUÉRIN. Em

suma, há uma nebulosa marxista libertária muito complexa e que não é fácil de

classificar, assim como as mudanças pessoais às vezes são muito contraditórias.

).

NOTAS DO TRADUTOR

* Este texto é um extrato de uma obra maior, intitulada Utopia e Anarquismo. ** Uma crítica ao suposto caráter libertário da obra O Estado e a Revolução de Lênin pode ser encontrada no seguinte link:

http://www.revistas.ufg.br/index.php/historia/article/view/18146/10827

4 MIRÓ, Fidel. El anarquismo, los estudiantes y la violencia, México : 1969.

5 BOURDET, Yvon. Autogestion et spontanéité, -in-Autogestion, Autogestion et la révolution de Mai, Paris: Anthropos, n°5-6, 218p, p.95-124, mars-juin 1968.

6 SHEEHAN, Seán. M. Ripartire dall’anarchia. Attualità delle idee e delle pratiche libertarie, Milano :

Elèuthera, 176p, 2004.