Você está na página 1de 3

Marcos Beltramin

Encontros

Livros são amigos para sempre

LITERATURA Uma visita ao mundo encantado de Tatiana Belinky, uma das maiores escritoras infantis da atualidade

Marcos Beltramin

T atiana Belinky vive em uma casa ampla em uma rua tranquila e arborizada de

São Paulo, no bairro do Pa­ caembu. Ela mesma atende o inter­ fone e abre a porta. Acompanha­me para um cantinho aconchegante da sala de estar, onde se encontram uma poltrona verde e uma pequena estante com seus livros e pertences:

um quadro com a foto de seu pai e uma boneca de pano, a Emília, do Sítio do Picapau Amarelo. Esse can­ tinho é onde Tatiana passa a maior parte do seu tempo. Ela relem­ bra o passado e revela o seu maior tesouro: os livros. Além de ser uma pessoa encantadora, é uma das mais importantes escritoras contemporâ­ neas. Escreveu mais de 120 livros e é responsável pela primeira adapta­ ção do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, para a televisão. No mês em que ela completa 93 anos, Cidade Nova publica uma en­ trevista exclusiva.

Cidade Nova – Embora tenha nascido na Rússia, a senhora vive no Brasil há mais de 80 anos. Como chegou aqui?

Tatiana Belinky – As crianças costumam me perguntar: “Por que você veio ao Brasil?” Eu respondo:

Porque me trouxeram. Eu tinha dez

ao Brasil?” Eu respondo: Porque me trouxeram. Eu tinha dez anos. Eram tempos difíceis em São

anos. Eram tempos difíceis em São Petersburgo, na Rússia, quando meus pais escolheram morar no

Brasil. Na época o meu pai era mui­ to jovem e não conseguiu terminar

o curso de psicologia. A minha mãe

já era dentista. Ela era feminista e

comunista. Meus pais foram pre­ sos porque eram burgueses, filhos de gente rica. Com a perseguição aos judeus na Rússia Soviética, os meus avós perderam tudo durante

a guerra. Foi assim que a família Be­

linky resolveu viajar para o Brasil, em 1929. Éramos papai, mamãe, eu

e mais dois irmãos, Abram e Benja­

min. Hoje só sobrei eu para relem­ brar a minha história.

Quando foi que desabrochou o seu talento para escrever?

Eu sempre quis escrever e na ver­ dade sempre escrevi. Comecei com quatro anos, o que não é nenhuma novidade. Porque se deixarem e não atrapalharem e se não mandarem, uma criança de quatro anos aprende a escrever sozinha. Criança dessa idade vê anúncios em revistas, reconhece coisas escritas e impressas. Para mim tudo isso acontecia naturalmente. Na Letônia, onde morávamos, as placas

c

Encontros de ruas eram escritas em três línguas: russo, alemão e letão. Eu sabia, desde
Encontros
de ruas eram escritas em três línguas:
russo, alemão e letão. Eu sabia, desde
pequena, essas três línguas. E o por­
tuguês foi para mim a quarta língua.
Eu comecei a ler brincando, com qua­
tro anos. Meu pai comprou uma cai­
xinha de bloquinhos de letras e me
deu de presente. Disse: “Isso é para
você brincar”. Em poucas semanas
eu estava lendo letras de fôrma e for­
mando pequenas palavras.
A senhora se encantou com a
Emília, do Sítio. Por quê?
Quando era pequena, eu queria
ser bruxa. Quando a minha mãe fi­
cava muito brava, ela me chamava de
bruxa, porque eu não chorava e não
A primeira adaptação televisi-
va que a senhora fez foi o “Sítio
do Picapau Amarelo”. Como foi
essa experiência?
protestava, não dava o braço a torcer.
Quando eu conheci a Emília, me en­
cantei, ser a Emília era muito melhor
do que ser bruxa. A Emília é muito
melhor, muito engraçada e tem sen­
so de humor. Eu não conheço bru­
xa com senso de humor. A Emília
é
contestadora, é valente e também
Juntamente com o meu marido,
Júlio Gouveia, que era médico, psi­
quiatra, psicólogo clínico e também
professor, começamos essa aventura
de fazer adaptações de histórias in­
malcriada, quando quer. Se me per­
guntam qual a figura feminina da li­
teratura brasileira que eu mais gosto,
eu sempre digo: “A Emília”.
Uma das suas características são
os limeriques…
fantis, primeiro para o teatro e de­
pois para a TV. Eu fazia o roteiro e o
Júlio, a direção. O Monteiro Lobato
já tinha morrido nessa época e não
chegou a ver a adaptação do Sítio do
Picapau Amarelo para a TV. Eu nun­
ca teria coragem de procurá­lo, pois
eu o admirava demais. Posso contar
como foi o meu primeiro contato
com ele? Ele tinha lido um artigo do
Júlio e gostou muito. Então ligou para
Sim. O limerique é um estilo
de verso inspirado numa cidade
da Irlanda, Limerick, e desenvol­
vido pelo poeta Edward Lear. É
uma fórmula de verso com cinco
a
nossa casa procurando o Júlio e eu
linhas: as duas primeiras formam
rima entre si. A terceira e a quarta
também rimam entre elas. A última
linha rima com as duas primeiras.
Eu achei uma graça e pensei que se
poderia brincar e fazer também este
tipo de rimas para crianças. Tentei
atendi ao telefonema. “Aí é da casa do
Júlio Gouveia?”. “Sim! Quem está fa­
lando”. “Aqui é o Monteiro Lobato”.
Lembro­me como se fosse hoje, eu
dei uma boa gargalhada, e respondi
e
deu certo.
Por que a senhora escolheu o
público infanto-juvenil?
ao telefone: “E aqui quem fala é o Rei
George”. Percebi que era mesmo o
Monteiro Lobato, que estava falando,
foi a minha primeira gafe. É curioso
que o primeiro texto em português
que caiu em minhas mãos, quando
cheguei ao Brasil, não foi um livro,
Não fui eu que escolhi, foram as
crianças que me descobriram. Eu co­
mecei com o meu irmãozinho, Ben­
jamin, que me ensinou mais do que
muitos livros. Eu ajudei a minha mãe
a
criar o Benja, que era uma criança
e
sim um folheto de propaganda do
Laboratório Fontoura. Pelas figuras
percebi que era um conto engraçado
e
interessante. Então já fiquei conhe­
cendo o nome de um escritor brasilei­
ro: Monteiro Lobato.
muito esperta e inteligente. Aliás, to­
das as crianças são inteligentes, são
os adultos que às vezes atrapalham,
dizendo o que pode e o que não pode
ser feito. Quando eu era pequena não
aceitava a moral das fábulas. Foi por
isso que – como eu disse – me identi­
fiquei logo com a Emília.
Divulgação(4)

Qual o segredo para escrever uma história infantil?

Antes de mais nada, tem que ser uma boa história. Tem que ter começo, meio e fim. Pode­se fazer uma variação em que nem sempre o final seja feliz. E se o final não é fe­ liz as crianças ficam desapontadas. Eu sempre digo a elas: “Escreva ou­ tra história, faça outra história. Não precisa engolir aquilo que você não gosta”. Quando não tiver um final feliz, também é bom. Faz parte.

Há alguns livros que toda crian- ça deveria ler?

A criança pode ler o que quiser. Para indicar uma leitura, depende da criança. Na escola há a divisão de faixa etária. Até hoje eu não sei o que é faixa etária… As crianças são

tão espertas, tão inteligentes que elas entendem. Um dia eu estava fazen­ do uma palestra e me perguntaram:

“Por que a criança não gosta de estu­ dar?” Na hora eu respondi: a criança não quer estudar, ela gosta de apren­ der. Estudar vem depois. A criança estuda o tempo todo: o ambiente, a vida, o mundo, ela estuda sem saber, mas o que a criança gosta mesmo é de aprender. Livro não é castigo, não

é tarefa, não é chateação. É uma de­

lícia quando você o descobre. Quan­ do uma criança descobre o livro, não desiste mais. Tenho experiên­ cias com os meus netos e também com muitas outras crianças. Quan­ do meu bisneto fez seis anos eu saí de última hora, peguei um livro e levei para ele. Quando cheguei à fes­ ta, ele estava sentado no chão com muitos presentes ao seu redor. Pen­ sei comigo: ele não vai nem notar o meu presente. E para mim foi uma grande surpresa: ele abriu o pacote

e não largou mais o livro. Deixou

todos os outros brinquedos e foi fo­ lhear o livro, já se inteirou. O livro é fascinante mesmo, ele não acaba, é um amigo para sempre.

De que maneira podemos in- centivar as crianças e os ado- lescentes à leitura?

Deixando­os expostos ao fascí­ nio dos livros. Muitas escolas dei­ xam as bibliotecas fechadas para que as crianças não estraguem os livros. Se deixar, a criança pega o livro para abrir, ela vai se interes­ sar, tem curiosidade. O interesse da criança pequena pelo livro será pela ilustração bem colorida e vistosa.

A senhora acha que os meios de que dispomos hoje (TV, in- ternet, redes sociais) influen- ciam o processo da leitura?

Para alguns [esses meios] tiram o interesse e para a maioria não. Outros se interessam por uma coisa e por outra. A criança felizmente é muito curiosa, esperta e muito “exigente”. Quando ela não gosta, ela larga; por isso, não obrigue.

Livro não é castigo,

não é tarefa, não é chateação.

É uma delícia quando

você o descobre

Um dos grandes sucessos edito- riais dos últimos anos foi Harry Potter. Qual a sua opinião?

Quando saiu o primeiro livro no Brasil, eu trabalhava no jornal “O Estado de São Paulo”. Eu também tenho carteira de jornalista. Ime­ diatamente me chamaram para dar uma opinião sobre o livro, junta­ mente com outros críticos. Eu achei interessante, uma história bem contada. Para mim não tinha nada de novo, era uma história que eu

já conhecia com outra roupagem. Mas, para o público brasileiro, era uma novidade. Claro que foi muito bom, crianças que não costumavam ler muito texto começaram a ler. O

livro não tinha ilustrações. Interes­ saram­se pela história e começaram

a ler. Foi uma virada para o leitor jovem, que descobriu que poderia ler textos mais facilitados.

A senhora recebeu vários prê-

mios. O que sentiu ao ingressar

na Academia Paulista de Letras?

De fato recebi alguns prêmios, entre eles: Mérito Educacional e Ja­ buti de Personalidade Literária do ano, concedidos pela Câmara Brasi­ leira do Livro; dois Monteiro Lobato

de Tradução, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Em 1979, pelos 30 anos de atividades em Tea­ tro e Literatura infanto­juvenil, pela Associação Paulista de Críticos de Arte. E quando recebi o convite para participar da Academia Paulis­

ta de Letras para mim foi uma gran­

de surpresa. Nunca pensei, nunca pedi… Um dia recebi um telefone­ ma do presidente da Academia Pau­ lista de Letras, que queria conversar comigo. Ele veio pessoalmente para pedir que eu aceitasse me candida­ tar à Academia. Desde aquele tem­ po eu comecei a ficar conhecida demais. Eu nunca pedi autógrafo e agora sou eu quem dou muitos au­ tógrafos para as pessoas.

A senhora tem alguma suges-

tão a dar para os leitores da

Revista Cidade Nova?

Leiam bastante. Prestem atenção em tudo. Abram os olhos para ver e não só para enxergar, pois são coi­ sas diferentes. Sejam curiosos. Não aceitem nada sem explicação. Não aceitem proibição sem saber o por­ quê. Na Revista Cidade Nova vi que também tem o Espaço Criança, pa­ rabéns pelo trabalho!

Cidade Nova vi que também tem o Espaço Criança, pa­ rabéns pelo trabalho! Cidade Nova •