HISTORIA
DA

i

LITTERATURA PORTUGUEZA

ROMANTISMO

HISTORIA
DO

ROMANTISMO
EM PORTUGAL
POR

THEOPHILO BRAGA
IDEIA GERAL DO ROMANTISMO

GARRETT - HERCULANO - CASTILHO

"\hwy"

LISBOA
NOVA LIVRARIA INTERNACIONAL
2G,

Rua do Arsenal,

%

1880

ilBi^

Imprensa de

J.

G. de Sousa Neves

—Rua da

Atalaia, 61»

De mais. bito. para isso.A (lifficuldade de escrever a Historia da Litterattira por- tugueza moderna nâo está em manter a imparcialidade no juizo que se emitle sobre cada escriptor. para não ousar fazer da historia um tribunal de resentimentos pessoaes. basta ter sempre presente que se dá uma prova de probidade diante do tempo que julga todos. Esta opinião está atrazada mais de meio século e em des- accorjo com o estado actual da critica. tem sobre a histo- máxima vantagem de possuir e poder mostrar os objectos que pretende fazer conhecer. porém. subsiste uma forte diíliculdade. Tendo de analysar e auc- aqui reputações que se nos loridade não discutida. . a historia litteraria. ria geral a como disse Guizot. assim está tam- bém menos sujeita a aberrar da verdade. Para nós. impozeram por costume e que vemos respeitadas por ha- quando procurámos o fundamento d'essas admirações. que nâo será possivel vencer: n'este periodo da historia moderna da litteratura portugueza temos de pé com todo o seu persligio a opinião fundada sobre as primeiras emoções produzidas pelas tentativas românticas de 1824 e de 1838.

podeis sem receio publicaI-o.só achamos a com pasmo talentos sem disciplina entregues um humanismo em insciente e sem intuitos philosophicos. apresentamos a j se julgarem offendidos por violarraoa o cullo dos seus idolos litmáxima de Paulo Luiz Courier. publicae sempre os vossos pensamentos. obrigaçilo reslricla c para todos os que lem ideias. em uma No Adam Smith: «Nada produz uma maior presumpção de falsidade do que assentimento da multidão. Este livro vae de enconlro a muitos preconceitos e será por isso bastante atacadO.» dia em que nos cercassem os applausos unanimes julgavamo-nos perdidos. o communical-as aos outros para o bem commum. vos condemnem. é antes um dever. Foi por isso que essas reputações só produziram admira- dores vez de continuadores do seu espirito. vos prendam e vos enforquem. tolice conseguiu-se tudo estamos na situa- ção dito em que alguma se achava Phocion. O fazel-o nilo é um direito. 1 Aos que fterarios. mas conseguindo agitar a opinião *. deixaría- mos de escrever. que suspeitava sempre ter quando se via applaudido pelo vulgo. porque nos provam a cada carta a instante a phrase de Hume. A verdade inteira pertence a lodos: o que entenderdes que é útil.> . que resume a nossa disciplina moral: «Embora vos accusera. que se im- mobilisa em dogma. As fcriticas acerbas e pessoaes com que temos arrostado em (vinte e três annos de actividade litteraria (1857-1880) têm"•nos fortalecido profundamente.

uma natural fecundi- bem como o seu destino social. se decaiu no cesarismo do século do século civil XVI. que constituo por o trama da moderna. onde encontrariam dade. e em que as litteraturas da Europa se exerceram em falso. porque não se inspiravam das suas ori- gens tradicionaes. até que o Romantismo se servisse d'elles para exprimirem conscienlemente as cadesenvolvimento das litteraturas. até que a Revolução veiu sacudir este pe- sadello de morte. que durou seis séculos. racteristicas nacionaes. e o espirito da nova civilisaçao xjue os produziu. imitando as obras da cultura greco-latina. e que influiu profundamente no modo de Desde que os dialectos românicos receberam forma escripta. houve um profundo esquecimento da Edade Media. no despotismo xvuí.HISTORIA DO ROMNTISMO EM PORTUGAL Como das luctas communaes e burguezas do século xiii. historia uma si solução de continuidade. aíTirmando a independência da sociedade e generalisando as immunidades locaes da eis communa tenebrosa na Declaração dos Direitos do homem. . no absolutismo do século xvn. depois de anullado o feudalismo.

transformação das litteraturas modernas. p. fazendo prevalecer a ideia sobre a forma.*» A me- romanesca do fim do século xviii. renovando assim as theorias dramáticas. estes dois factos resumem-se na dupla expressão do génio e da vontade naciofranceza iniciara na nal. por critério J. provocou phase espontânea do romantismo.8 HISTORIA DO KOMANTISMO EM POKTUGAI. du XIX siècle. Gervinus explica por outra forma a interrupção: «Esta primeira phase de um romantismo inconsciente e ainda não denominado. uma O phenomeno social da revolução franceza foi pre- cedido por um extraordinário sentimentalismo e paixão pela naturesa. a espontaneidade á imitação. Gervinus conheceu a importância d'esta dade morai. a simplicidade ábelleza affectada. Existe factos. e uma mais vasta communicação com o sentimento humano. é que pue em evidencia a connexão histórica com esse período inconsciente. trazendo ao da naturesa a noção do estado. ou protolancolia 1 Jlist. que apparece na Allemanha e Inglaterra. xix. que principiou pela litteratura até penetrar nos costumes. da arte e da educação. ao passo que a Allemanha insistiu mais em querer realisar a sua emancipação intellectual. iniciada por Montesquiea como consequência com o seu enthusiasmo pela constituição ingleza. 141. um tal exagero. a que chamaremos Proto-Romantico. pela revolução franceza. foi interrompida e atrazada A França só se occupou da inde- pendência politica. encetou no mundo intellectual o que a Revolução A ordem politica. proveniente de uma nova a activi- condemnação do falso idylio. A ' este periodo. que predominou em- quanto se manteve o regimen espectaculoso e mentido do primeiro Império. . suc- |cedeu-se uma reacção pseudo-classica. ou o Romaníismo. pelo individualismo da inspiração e pela universalidade relação histórica entre esses dois do suffragio. por Diderot recompondo philosóphicamente as paixões. t. Jacques Rousseau.

a emancipação intelleclual conduzia logicamente ao progresso moral iniciado na independência politica. rellectiu Na sua vacillação doutrinaria. para a Itália. for- * Essais philosophiqucs. llespa- O Romantismo. e da pliilosophia materialista. Leon Simon). t. S. a França. p. que revive na sensiblerie da época da Restauração. vendo que essa aspira- ção á independência politica se manifestava simultanea- mente em todos os estados da Europa. os reis do di- reito divino co!ligaram-se para extirparem os fermentos de liberdade deixados pela Revolução. suspeitaram na sua insensatez egoísta. A Europa solTreu essa estupenda vergonha e atraso systematico restauração. completando a sua educação intellectual. '^ antes de realisar a transformação politica. que essa aspiração era produzida por uma immensa liga secreta. . Mas. dizendo. allemães e inglezes. (Trad. 2 Ilist. que a Allemanha áttinge o desenvolvi- mento nacional. o infligido pela realesa mori- bunda. que o impulso do Romantismo veiu dos povos germânicos. alheio a doutrinas philoso- phicas. propagando se do novo centro de elaboração. Depois da queda do império napoleónico. » Gervinus chega á mesma conclusão. p. o philosoptio inglez Mackintosh o sentiu: «A iitteratura alte- rna foi apontada como cúmplice da * politica revolucionaria. du X/X sièdc. Foi por isto. do mesmo modo que as novas instituições politicas se haviam elevado sobre as ruinas do regimen ca- tholico feudal. e ligaram-se lambem na chamada Santa-Alliaiiça para restabelecerem na sua integridade o antigo regimen. •nha e Poi^tugal. para os novo-latinos. o Romantismo todos os movimentos reaccionários e liberaes da osci Ilação politica. xix. 20 í. N'este periodo histórico conhecido pelo nome de Romantismo serviu a causa reaccionária. rompia com o passado. sem uma intenção clara do que pretendia.IDEIA GEBÃL romântico.

como Shelley. também conhecido por duas manifestações distluctas. histórico. a idealisaçâo cavalheiresca. cuja exaltação sentimental é conhecida pelo nome ne. in- génuas e fortes protestaram contra o obscurantismo da Santa como Byron. falta-lhe ainda o Intuito phllo- sophlco. as revoluções li- beraes nos diversos estados. e formaram o grupo dos incomprehendldos. que subsiste identificando os seus processos descriptlvos com a disciplina da sciencia. de UUra-Romantísmo. ou pugnaram pela Independência nacomo Thomaz Moore. empregada no drarfia e no romance em breve se achou transformada lico o em critica scientifica no estudo das Can- ções de Gesta da Edade media. que em deram o nome de emanuelico. cional. e a medieval e cavalhei- em Garrett. os satânicos. predominando a feição religiosa resca em Herculano. acha-se representado em Chateaubriand e Lamartine. O fim do Romantismo na Allemanha a . fizeram renascer nos espíritos mais intelligentes os princípios de 1789. e essa outra eschola que se distingue por ter sabido introduzir na Idealisaçâo lltteraria os inte- resses reaes da vida moderna. as agitações da Inglaterra provocando a implantação do regimen constitucional. É esta a ultima phase do Romantismo. e idealisando o ritual cavalheiresco da Edade França media para lisongear a aristocracia que julgava recuperar a os seus foros. Foi o romantismo emanue- que entrou tardiamente em Portugal. como uma espécie de Ducis. ou o processo deductlvo. ou perderam a esperança na causa da justiça. ou Micklevik. Espronceda. re- presentava o pseudo-clacissimo post-revolucionario. As tor- pesas da Restauração. Castilho. Este periodo romântico.10 HISTORIA DO ROMANTISMO EM POETDGAL a exaltação mystica talecendo a propaganda clerical com do christianismo. as naturesas Alliança. para poder tomar como foi objecto da arte o condicionalismo da actividade e das rela- ções humanas. a que se deu tardiamente o nome de Realismo. Leopardl e Hei- É este propriamente o período do romantismo liberal.

^ 1 Cp. bem como formação lilteraria. . e com a concepção realista na arte. o Romantismo relujioso (christao e medieval) beral (nacional. e reconcentraram-se cada vez mais no França. p.. 109. a verdade 6i como o ProRomantismo li- a sua Dissolução resulta do estudo eslabelece-se por mesmo. como conseguiu descoibril-as.IDEIA GERAL 11 sua dissolução fine: em E trabalhos de sciencia. cuja vida se prolongara até aos novos tempos. os Goélhe. niesmo a Portugal chegou essa corrente de disso- lução critica do Romantismo. os Riickert e os Uliland. seio da sciencia. só se explica pela complexidade dos factos contidos sob esta designação. taes o to-Romantismo. que obedeciam inconscientemente a uma neceísidade resultante da transformação social. seguiram a grande direc- ção d'esta época. 3 A (iiíBculclade tismo. que Gervinus de- «transição da poesia para a sciencia e do romantismo critica J» para a accrescenta: «Os próprios mestres da poesia. que todoá os críticos experimentara em definir o Romana incertesa de doutrinas dos escriptoros d'essa época de trans- 2 Ibidem. comprehendel-as e renovar n'esse conhecimento as litterarias <^suas instituições politicas. Dccompondo-a nos seus elementos. tal é a que julgamos indispensável para a intelligencia ida Historia do Romantismo em Portuí^al. Expor as causas que levaram a Europa a esquecer-se das :suas relações com a Edade Media. com a erudição cri- da poesia da Edade Media. p. 'ideia geral. 107. e arlislicas. que comparativo da politica e da lilleratura moderna. ^j Egual dissolução se operou em com tica a renovação dos estudos históricos. o satânico ou ullra-romantico) e por ultimo (realismo e disciplina scientifica) depois d'esla analyse. cil. que ainda persiste como no seu ultimo reducto em Hespanha.

— — — B) — — — O) — — COMO A EUROPA SE ESQUECEU DA EDADE MEDIA. deíinidas as formas sociaes.— IDEIA GERAL DO ROMANTISMO § 1. 1>) Estado das ideias philosophicas sobre Arte. 6. Como foi comíirebendiilo o Romantismo em Portugal: a. § 2. in- ventada a poesia sobre tradições próprias. As revoluções nacionaes entre os povos modernos. e a realesa fortalecendo a sua dependência sobre os códigos imperiaes. § 4. c) O elemento bárbaro ou germânico. violaram a marcha histórica dos tempos modernos a instituições particulares. Marcha da renascença românica. CoDsequeocias coDlradicturias.) A erudição medieval dos historiadores modernos: a) O que se deve ao elemento romano.. quando estava terminado J 1. Quando a Edade media acabava de sair da elaboração syncretica e lenta de uma civilisação. tudo isto foi des- viado do seu curso natural. quando lhe competia dar largas a uma plena actividade. pelos dois grandes poderes que dirigiam o tempo. torceram a corrente. Causas do Romantismo: A. criadas as línguas vulgares. fizeram como estes proprietários das margens dos rios tornados inavega- veis por causa dos açudes. § 3. c) Renascimento de um espirito nacional phantastico. Como a Europa se esqueceu da edade media. bem das suas No meado do século xv a Europa . §. a administração A egreja modelando a sua unidade sobre in- romana. l>) O que se deve ao elemento christão. caracterisadas as nacionalidades. o cyclo das invasões.) Estado da sciencia histórica. A creação da Esthetica pelos metaphysico?. Porque chegou o Romantismo tâo tarde a Portugal. § 5.

IDEIA GEBAL 13 estava quasi esquecida de que provinha da Edade media. que terminaram no extenuado idylico do paiz de Tendrc. A epopea da Edade media. o diíeilo communal. Camões imita a . e das imitações de Fénelon. como nas mãos do exploração litteraria. imbuídos dos typos linguisticos dos escriptores do século de Augusto. perde o seu espirito para calcar-se sobre os moldes de Virgílio. inspirada pela obra da consolidação das nacionalidades. chamafactos jurídicos dá-so á ram a ás construcções mais peculiares e originaes das novas linguas. serviu de modelo para a codificação. Ariosto ridicularisa o fundo épico das principaes Gestas. por esta dependência constante da aucto^ ridade do latim. espontâneas e recivili- passadas das tradições mais vivas das luctas para a sação moderna. foram substituídas pelos feitos dos gregos e romanos. é um problema histórico de alta importância: as linguas vulgares foram bani- das da participação litúrgica. e dos embellesados polvilhos de Tressan. idiotismos! Se observamos nos mesma violação. passado forma escripla no meio das grandes luctas das classes servas que se levantaram á altura de povo. foi de repente substituído pela vontade ou arbítrio real. O modo como o conhecimento das relações da civihsaçâo moderna com a Edade media se obliterou. o renascimento do direito ro- mano interessava a realesa e por isso voltou ao seu vigor. dos intermináveis romances de Brutus e Cldia. os granmiaticos. e o latim a pretexto da uni- versahdade tornado a lingua relações official da egreja e das suas clero estava a com os estados. As lin- guas românicas. as Canções de Gesta. por um habito inveterado o latim tora nou-se até ao fim do século passado linguagem exclusiva da sciencia. soíTreram uma aproximação artificial da aíTectada urbanidade. D'aqui uma impo:ísivel vulgarisação. Em quanto á poesia a mesma deturpação. no século xvi era essa edade considerada um estádio tene- broso pelo qual se passara como provação providencial.

a architectura go- é despresada pelas ordens gregas. A unidade papal foi quebrada pela Reforma. cortes. nas trage- dias chegou-se a ignorar completamente a existência do em vez de crear. ligado á vida nova por esta augusta tradição da crença e da liberdade. foi banido das construcçôes para seguir-se a louca parodia de uma arte que nada tinha de ria. A histo- escripta sobre a pauta rhetorica de Tito-Livio. tellectual pelo perstigio A critica tornou-se uma bello simples comparação material ou craveira dos typos do da Grécia e de Roma. Mas o estado de atraso em que . e assimilava á sua Índole aryana o christianismo semita. no Concilio de Trento. creado ao mesmo tempo em que o povo assegurava a sua independência de terceiro estado. original pela sua raça forte. obras de rhetoricos. difíicil- A Allemanha. e torna-se cesarista. com um . Tasso se- gue a lidade.14: HISTORIA DO EOMANTISMO EM PORTUGAL Eneida. Imitou se o theatro romano. o estylo ogival. durou mais algum tempo. com uma lingua de radicaes. a realesa. As consequências palpáveis d'esta longa desnaturação vêem-se no século xvi: A egreja proclama-se aristocralica. a meride das povo. as ideias por mente se recebem. loreíTe- nou-se por essa falsidade da narração declamatória. desnorteados do seu fim. traduziu-se e commentou-se labo- riosamente os escriptos que nenhumas ideias trouxeram á civilisação. ainda rica de ia- mythos próprios. mesma corrente erudita para cantar o feito que as- segurou indirectamente á sociedade medieval a sua estabi- Na íhica arte repete-se a mesma violação. que empeceram o labor inda auctoridade. isso que vão mais longe. o cesarismo foi sentenciado e executado pela Revolução. commum com o estado actual. cria os exércitos permanentes. os factos de prompto se tornam con- summados. isto é.ficaram os espirites. corrompendo para dominar com segurança. para cantar a nacionalidade portugaeza.

IDEIA GERAL

15

dividualismo espontâneo e bellas tradições épicas, desnatura-se ante o catholicismo, fica imitadora da poesia da Pro-

vença, esquece as suas epopèas, adopta a Biblia
gasta as suas forças

em

latim,

em uma

phantastica reconstrucção do

Santo Império, e por fim anulla-se na imitação servil da
litteralura official

da corte de Luiz xiv.

Na

Inglaterra^..o

normando abafa por vezes a genuina impetuosidade predominam os imitadores clássicos, os Pope, os Dryden, os lyricos' lakistas. Mas n^estes dois povos havia
veio

saxónica;

um

núcleo de tradições vigorosas resultantes da vitalidade

da raça; esta força natural havia de impellil-as á originalidade.

De

facto

a Allemanha,

resgata-se

da subserviência da

França, e imitando provisoriamente a litteralura ingleza,

achou de prompto a sua feição nacional.

A

França, a nação que provocou a creaçâo da poesia mo-

derna

em

todos os povos, pelo enthusiasmo que produziam

as canções dos seus trovadores, pelo interesse

que se

li-

gava ás Gestas dos jograes, esqueceu este passado esplendido, para contar a actividade litteraria desde Malherbe.
Itália,

A

tornada a sede da erudição, venceu muitas vezes a

corrente deletéria, pelo encyclopedismo dos seus grandes
I

génios que presentiram e
a pintura,

aspiraram a unidade nacional;
perfeição; a musica, pro-

como nâo

teve que imitar da antiguidade, atlin-

giu logo no século xv a
l

máxima

curando os modos gregos, e querendo harmonisar-se
a tradição gregoriana da egreja, jazeu

com

i

embryonaria até ao

í

século xvHi.

A

]

ceiro, já extincta

Hespanha, perdeu a creação do seu Romanno século xv; os poetas traduziram e iminão só porque sob a pressão catholica

i

taram a antiguidade, como Santilhaua ou Vilhena, mas o
Ihealro
foi original,

era o único órgão da opinião publica,

mas porque

se ba-

seava sob o fundo tradicional e histórico da nacionalidade.

Portugal nunca dera forma ás tradições, que possuia; a sua

16
litleratura,

HISTORIA DO ROMANTISMO

EM PORTU G AL
teve de imitar sempre,

como o notou Wolf,

attingindo por isso

uma
paiz,

perfeição de

uma quem

prioridade de

quem nâo

elabora, e

só reproduz mechanicamente;

em

vista d'este caracter o

Romantismo só podia apparecer n'este
auctorisado, e se admittisse cofoi

quando

elle estivesse

mo

imitação. Logicamente

Portugal o ultimo paiz onde

penetrou o Romantismo. Por
funda,

uma connexão

evolutiva pro-

em

todos os paizes onde se estava operando

uma

nova ordem na forma politica, seguiu-se egualmente essa crise litteraria, que fazia com que se procurasse reflectir a
expressão ou caracter nacional nas creações da litteratura.

Por

isso durante as luctas

do Romantismo, muitas vezes os

partidários dos novos princípios litterarios foram accusados

de perturbadores da ordem publica, como
até assassinados

em

França, e
Itália.

como demagogos pelo despotismo na

§ 2.

MARCHA DA RENASCENÇA ROMÂNICA.

— CompCtia

á

Allemanha, que iniciara com a Reforma a liberdade de consciência, completar a obra

proclamando a liberdade do

senti-

mento.

O movimento

do Romantismo partiu da Allemanha,

porque era a nação que pelos seus hábitos philosophicos
mais depressa podia chegar á verdade de
racional, e

uma

concepção

porque os thesouros das suas tradições, apesar.
tal

dos séculos que se immolou ao catholicismo, eram por

forma ainda

ricos,

que ao primeiro trabalho de Graaf, re-

constituiu-se a velha lingua allemã, pelo trabalho de Jacob

Grimm,

a mythologia e o symbolismo germânico, pelo tra^

balho de Guilherme

Grimm

e

Lachmann,

as

Epopêas da

Al-

lemanha, a ponto de

um

Stein levar o espirito nacional

para a independência, e Bismarck aproveitar esta mesma
corrente da renovação das tradições e fundir todas as con-

federações

em uma

absurda unificação imperial.
provenientes das suas in

Depois da Allemanha, era

á Inglaterra, pelas condiçõeíf

de independência

civil e politica

IDEIA QEBAli

17

stituiçôes,

que se podia

ir

procurar o segredo da originali-

dade

litteraria.

Pela justa coexistência entre

uma

aristocra-

cia territorial e as classes industriaes,

a realesa

nâo pôde

usar as forças sociaes segundo o seu arbitrio; a crise religiosa

provocada por Henrique vni, e

a

revolução politica
dis-

de Cromwel, foram dois dos maiores impulsos para a
solução do regimen catholico-feudal.

Uma

sociedade traba-

lhada pelas emoções de tão importanies movimentos, não

podia deixar de se inspirar da sua actividade orgânica; os
escriptos de

um

Shakespeare, de Ben-Jonhson, de Marlow,

de De

Foii,

de Fielding, de Swift, de Richardson,

tém

to-

dos os caracteres da litteralura moderna: a vida subjectiva
da consciência individual aproximada da generalidade hu-

mana, os interesses e situações de
funda

uma

vida social que se

em

deveres domésticos ou de Hmiilia.

Os romances
grande docu-

de Walter Scott serão sempre bellos e

um

mento para extremar

as litteratuias

modernas das antigas,
artísti-

em
ca;

que a vida publica era o objecto da idealisação

por esta clara concepção de Gomte, é que entendemos
facto

que a palavra Romantismo exprime cabalmente o
culo.

da

renovação das litteraturas da Europa no principio d'este sé-

A

verdade existe quando a theoria condiz com o
renovação

facto;

efectivamente a Allemanha recebeu da Inglaterra o pri-

meiro impulso para

a

litteraria

que se propagou

aos povos do meio dia.

Temos

até aqui

mostrado como

a

Europa perdeu o co-

nhecimento das suas relações com a Edade media, e quaes
os povos que estavam

em

condições mais favoráveis para

as descobrir. Falta ainda seguir o trabalho d'essa renovação; é a esta parte que chamaremos causas do Romantismo. Desde o começo este século assignalou-se por um novo critério histórico; a erudição quebrou as estreitas faixas em qoe a envolveram os commentadores das obras da antiguidade, e exerceu-se sobre as instituições da Edade media.

18

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

O

cliristianismo, tido até

ali

como único mediador da

civi-

lisação,

teve de ceder a maior parte de seus titulos ao fecivilisação gre-

cundo elemento germânico modificado pela
nicas, e

co-romana. Diez cria a granimatica geral das linguas româ-

assim se descobre a unidade dos povos românicos.

Desde que Kant enceta a renovação philosophica, o problema da esthetica, ou philosophia da arte, nunca mais foi
abandonado; por seu turno
Ficlite, Schelling e

Hegel levam

á altura de sciencia a critica das creaçôes sentimentaes.

A

estas duas causas, accresce o dar-se

em

quasi todos os po-

vos da Europa,

em

consequência da revolução franceza,

uma

aspiração nacional

em

virtude da qual a realesa despótica

leve de acceitar as cartas constitucionaes: ou também, no

periodo das insensatas invasões napoleónicas, os povos

ti-

veram de

resistir pela defensiva,

reconhecendo assim pelo
litteratu-

seu esforço o gráo de vida da nacionalidade. As
ras tiveram aqui

um

ensejo para se tornarem

uma

expres-

são viva do tempo.
Sciencia complexa,

como

todas as que analysam e se fun-

dam

sobre factos passados dentro da sociedade e provocaella,

dos por

a historia lilteraria só podia ser*creada

em

uma

época

em que

o

homem

dotado de faculdades menos

inventivas, está

comtudo

fortalecido

com

o poder de obser-

var-se e de conhecer o gráo de consciência ou de fataUdade

que teve nos seus actos
3.°

*.

I

dos historiadares modernos.— A^^esâv da

Causas do rojviantismo. a..) Erudição medieval immensa elaboração
modernn; pertence mesmo em grande

1 €

A

bisloria da lilleralura é de origem

quasi recente.» (ílallim, Inlrod.^ p. i, l. i.) Era esta também a ideia de Bacon, no livro De augmcnlis scientiarum; elle considerava a historia litleraria, 'como a luz da historia universal; o seu plano para uma verparle a

uma época

dadeira historia era, investigar a origem de cada sciencia, a direcção que seguiu, as controvérsias que motivou, as escolas que desenvolveu, as suas relacOes cora a sociedade civil, e influencia mutua que exerceram entre si.

IDEIA GERAL

19

económica e

scientifica,

o século xix distingue-se princiintellectual par-

palmente pelo génio histórico: a renovação
tiu

da abslraçao metapliysica para a

critica,

das Iiypotheses

gratuitas para a sciencia das origens, do purismo rhetorico

para a philologia, oppoz aos designios providenciaes o individualismo, deu ás sciencias académicas, que serviam para
alardear erudição, iim intuito serio indagando nos factos mais

accidentaes os esforços do
liberdade; só

homem

na sua aspiração para a

em um

periodo assim positivo é que se podia

achar a unidade de tamanha renovação; essa unidade é a Historia.

Quebraram-se as velhas divisões da historia sagrada

e profana, de historia antiga e moderna', todas as creaçijes

do homem, por mais fortuitas merecem hoje que sejam estudadas nos documentos (pie restam; as instituições sociaes, as industrias, os dogmas, o direito, as línguas, as invasões,
<is

obras inspiradas pelo sentimento, os costumes, superobjecto de outras tantas sciencias, separadas

stições, são

por methodo para melhor exame, mas comparadas e unidas,

cm um

único fim

a

sciencia

do homem.

Em

todas estas

creações da actividade humana, o fatalismo supplanta nos períodos primitivos a liberdade, o sentimento suppre a
falta

do desenvolvimento da rasão,
ao

a

auctoridade impõc-se á con-

sciência e á responsabilidade mora!,

emfim

a paixão

não

deix.i

homem

a

posse plena de

si

mesmo, o

acto praticado re-

vela quasi

sempre ura paciente

em

vez de ura órgão activo.

A

historía religiosa ou politica, a historia das invenções, a

historia

da linguagem, mostram-nos o

homem

n'este estado

secundário, n'esta dependência de espirito; terror sagrado

e auctoridade, acaso, e formação anonyma provocada pela

necessidade de
violentos

uma communicação innnediata, são moveis que arrastam o homem em vez de serem exercique entra

dos e dirígidos pela sua liberdade. Nas condições senti-

mentaes

em

um

elemento de rasão não acon-

tece assim: as creações arlisiicas

não são provocadas pelo

20

HISTORIA DO ROMANTISMO

EM PORTUGAL

interesse, não

têm

um

fim calculado, nâo se

impõem do-

gmaticamente, nâo se exigem,
sárias. Isto

nem

são fatalmente neces-

prova o seu grande valor, a sua proximidade dos

resultados finaes d'esta grande e unitária sciencia do ho-

mem. É por isso que no século que soube conceber
e das linguas, das i'aças e dos climas
rior,

a philosophia

da historia, que soube deduzir da discordância das religiões

uma harmonia

supe-

a tendência para a perfectibilidade indefinida do ho-

mem,

só a esse século competia lançar as bases positivas

da historia das litteraturas. Dá-se aqui

uma coincidência que

explica este facto; o primeiro que formulou o principio—

achou

O homem é obra de si mesmo, que, na Scienza Ntiova uma lei racional da vida coUectiva do homem sobre
mesmo, o
inaiigurador da philosophia da hiscri-

a terra, esse
toria, Viço,

propoz do modo mais racional as bases da

tica homérica e a verdadeira theoria da evolução do thea-

tro grego. N'estes dois processos

estavam implicitos os molitte-

dos como a moderna historia procede no exame das
raturas. Foi

também

Schlegel, o que primeiro fez sentir a

unidade das linguas indo-europêas, o

mesmo que

deter-

minou

a

lei

orgânica que dirigiu a elaboração das Littera-

turas novo-latinas. Repetimos, a historia das litteraturas é

uma

creação moderna; quando Aristóteles ou Quintiliano

observaram o modo de revelar os sentimentos nas obras da litteratura grega, achavam n'ellas, é verdade, um producto vivo,
turesa,

mas não pi^ocuravam

a espontaneidade

da naella

procuravam o cânon rhetorico dentro do qual

devia ficar restricta todas as vezes que precisasse exprimir

sentimentos análogos. Eusthato e Donato, estudando

Homero

ou

Virgílio,

não iam mais longe do que

a colligir as tradi-

ções da escola que bordaram a vida dos poetas, separados

da sua obra e peior ainda da sua nacionalidade. Os trabalhos

de Struvio e Fabrício reduziram-se a vastas indagações

IDEIA GERAL

21
antigui-

bibliographicas dos

monumentos que restavam da

dade. Os jurisconsultos da escola cujaciana, animados

com

o espirito

critico

da Renascença, tiveram por isso

mesmo

um
ria

vislumbre mais verdadeiro do que viria a ser a histodas litteraturas; clles foram ás obras litterarias do thea-

íro romano, ás satyras de Juvenal e Horácio procurar a collisâo

dos interesses sociaes para recomporem o sentido dos
leis

fragmentos das

que se haviam perdido n'esta renovatheologico, cofata-

ção da Europa chamada os tempos modernos.
Depois de havermos passado pelo periodo

mo

diz

admiravelmente Augusto Comte, sentimental,

lista, auctoritario, e

impondo-se no afferro da tradição; de-

pois de exhausto o periodo artislico, ou metaphysico, já

com
que

o sentimento alliado á
pertencemos,

um elemento racional e por isso mesmo
sciejitifico,

dignamente creador, succedeu-se o periodo

a

em que

o

homem tomando
si,

por meio único

do conhecimento
meio

—a

rasâo, procura ter a consciência de

tudo quanto se passa

em

na collectividade humana, e no

em que

existe.

Segundo
minado por

esta direcção positiva, a litteratura fórmà

um

todo orgânico, cujo valor histórico consiste

em

não ser do-

um

critério individual; analysada a obra litte-

raria sob o ponto de vista esthetico, é preciso conhecer o

génio do artista, o estado do seu espirito, para ver
foi

como

impressionado e como soube imprimir ao que era

uma

particularidade do seu pathos

uma

generalidade humana.

Porém

a historia

não procura

isto;

vae considerar essa obra
intelligencia,

connexa com todas as outras manifestações da
procurar
n'ella

mais do que o espirito do individuo, as ideias

e as tradições da sua época, mais do que o caracter do artista,

o génio da sua raça, todos os accidentes do meio concebida, o

em

que

foi

modo como acomprehenderam,
objectiva. Mas, dirão, para

a acção

ou

influencia

que exerceu. Aqui

a esthetica é especulativa,

a historia

puramente

que

fa-

22

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

zer depender a historia das lilteraturas de

uma

tal

comple-

xidade de processos, não separando a obra prima, pela sua

mesma
cial?

perfeição individualista, da fatalidade do meio so-

Não será querer deduzir muito de uma observação que devia ser restricta? Não será difficultar o problema com o que lhe é accessorio e immanente? Não. A necessidade d'esta ordem de processos está na importância excepcional da obra litteraria; vimos que era a creação

em que

a

liberdade

humana apparecia menos compromettida

pela pai-

xão interessada e pela violência da auctoridade. Diante de taes documentos, procederá com verdadeiro critério o que

poder
aquillo
toria

ler

melhor todos os sentidos que exprime,

mesma

que mais inconscientemente se repetiu. Assim a hislitteraria no século xix procura de preferencia as obras

espontâneas, de formação anonyma, aquellas

em que me-

nos se accusa a individualidade; para

ella

acabaram os mo-

delos clássicos, os typos do bello, os cânones rhetoricos,

e todas as obras são bellas, por mais informes, por mais
rudes, quando no seu esforço para attingir

uma forma com-

municativa se aproximem mais da verdade.

como

Vejamos agora o methodo positivo na historia litteraria, se formula sobre o que temos dito. Primeiramente

apparece-nos o facto: é o estudo da obra

em

si,

tal

como

chegou á nossa observação; offerece-nos no seu primeiro
aspecto
á sua

um estudo comparativo, uma classificação em quanto forma, em quanto aos sentimentos que exprime, em

quanto aos processos empregados para esse resultado. Depois do factOy o meio dentro do qual se effectuou; é o es^

tudo da época
reflecte

em
a

que

foi

sentida e realisada a obra,

que

em

si

tradição,

que é a parte fatalmente imita-

tiva, e a aspiração

moral, que é a parte que constitue a

verdadeira originalidade. Depois do facto e do meio, segue-se

o conhecermos o agente; ó o

artista,

o pensador,

em

que,

pelo gráo de consciência moral que a obra revela, vamos

IDEIA GERAL

23

reconstruir o

homem,

restituil-o á

sua individualidade per-

manente.

methodo positivo somos levados a conhecer lambem o caracter experimental ou objectivo da historia
Assim
d'este
litteraria.

Uma

vez considerada a obra inteilectual

como

ex-

tranha a toda a arbitrariedade pessoal, a todo o capricho

ou aberração, por isso que a sua generalidade provém da
sua própria racionalidade, o conjunto de obras que

formam

uma litteratura, só pôde ser bem comprehendido quando através das suas multiplices formas podermos fixar como
o génio privativo de
las,

uma raça

se revelou n'ellas,

como

elli-

apesar d'esta corrente

fatal,

tiveram

um

elcm.ento

vre para exprimirem a consciência da nacionalidade^
se aíTirmou por essas obras, e

que*
sua

com

ellas fortaleceu a

unidade, e finalmente, quando n'esse todo orgânico poder-

mos

discriminar áâ diversas correntes da civilisação trans-

mittida.

Exemplifiquemos estas ideias: o estudo da obra

em

si

vô-se nos processos de exegese praticados

com

a Di-

vina Comedia,

com

o

Dom

Quixote, ou

com o

Fausto.

Do

estudo do meio
parlicularisado

em

que

ella foi

concebida, temos o estudo

de certas épocas, como a Renascença, de

certas instituições,

narchia;

com

relação ao

como a do Terceiro Estado ou da mohomem, temos o trabalho psycholo-

gico das biographias, fundadas sobre as duas relações ante-

cedentes,

como a vida de Dante, de Raphael, de Gorneille ou de Saint Simon. Só assim, com todos estes elementos^
Quando Jacob Grimm
reconstituiu os velhos dialectos ger-

se chega ao pleno conhecimento da historia litteraria.

mânicos na sua assombrosa Grammatica allemã, quando
reconstruiu os elementos de vida ethnica das raças
ger-

mânicas na sua Mijthologia teutonica e nas Antiguidades
do Direito, a importância das raças começava a occupar a

Sob o apparato formal da unificação calholica que destruiu durante séculos o que o génio allemão estava insciencia.

24

HISTORIA DO ROMANTISMO

EM PORTUGAL

trodiizindo na historia, foi o inexcedivel Grimra, unicamente

ajudado pela linguagem vulgar, pelas locuções, pelos anexins,
civis,

pelos vestigios dos velhos poemas, pelos contratos

pelas chronicas, lendas e contos, que tornou a dar vida

a essa raça violada por

uma

doutrina que lhe

foi

imposta.

Desde que se
ça, é

viu

que

existia

uma

manifestação

fatal

da ra-

que o typo histórico de Luthero foi comprchendido. Immediatamente o critério novo trouxe novos documentos
á
historia

das litteraturas; o incansável Saint Pelaye La
á custa da sua vida, pelas bihliothecas eu-

Gurne procurava,

ropêas as velhas Canções de gesta francezas, que até então
só haviam merecido o despreso dos sábios. Todos os po-

lvos concorreram para este novo estudo com os seus cantos nacionaes, como o que havia de mais caracteristico da
sua individualidade. Foi assim que se chegou
a

perceber o

sentido 'das canções provençaes, onde o sentimento de nacionalidade 6 de independência, se serviu d'essa forma
lit-

teraria para apostolar a liberdade municipal contra a ab-

sorpção prepotente do feudalismo do norte da França. Sob
este critério da nacionalidade é que os Liiziadas foram

considerados a única epopêa erudita dos tempos modernos.
D'este

modo

as obras mais aproximadas dos typos bellos

da Grécia, mais pautadas pelas poéticas de escola, quasi

nada signiflcam diante da

historia em comparação de um uma tradição local, de um auto hierático das festas nacionaes. O caracter da civilisação vè-se também contraprovado na historia da litteratura a Allema-

velho canto de guerra, de

;

nha que desde

a

Reforma começou

a revolver-se sob o

jugo

da unidade catholica a ponto de a quebrar, continuou este
esforço nos fins do século xvni, sacudindo as formas da
vilisação
ci-

que recebia da França, para inspirar-se unicamente
litteraturas

do seu génio nacional. No corpo geral das
€toritariameate pelas novas nacionalidades,

mo-

dernas, o confronto da civilisação convencional recebida au-

com

a direcção

admittida. os novos sentimeulos davam origem a outras paixões. nada mais natural do que segui- rem esta espontaneidade na sua creação. restabelecida e possue com o amor de quem acha um thesouro. Mas este grupo importante constitue-se por : caracteres mais positivos teraturas escriptas nicaSy em primeiro logar. o es- pirito leigo. são essas lit- em línguas congénitas. o francez. o hespa- nhol. nas jurandas. o portuguez. saxões. â collisão de interesses de outra ordem . que se encontra nas luclas da burguezia. estavam aptos para exprimirem as necessidades da iulelligencia. e demais a mais. lei Esta grande histórica. Assim na civilisação moderna. bastava para demarcar a área das litteraturas novo-latinas. achada nas litteraturas dos po- vos calholicos. reconhecida. Portanto n'este grupo de litteraturas modernas não ap- parece esse espirito implacável e cosmogonico das mytholo- . : Não aconteceu assim a tradição latina era forte. o catalão. Depois da lingua os sentimentos: a bondade e brandura céltica que abraçou facilmente o christianismo. chamadas roma- que são o italiano. Não aconteceu assim com os povos do norte. é esta lucta da naturesa que segue a sua marcha espontânea. indica também ao historiador a concatenação das litteraturas. o seu desenvolvimento tos. que estava na vida e na nova ordem conílicto constante : mostra-nos um os dialectos vulgares tornados indepen- dentes do latim disciplinar e urbano. A que constitue hoje um dos elementos mais fortes da unidade nacional.IDEIA GERAL 25 social. scandinavos e slavos. nas communas. unicamente nas antinomias da civilisação. por Schlegel. facilmente esqueceu os seus dogmas druidicos pelas máximas do Evangelho. o gallego e o românico. nas universidades. o provençal. nos parlamen- na Renascença e Reforma. contra a pressão auctorilaria e clássica do dogmatismo da egreja. próprio e individual. germânicos. lingua.

ha ele- mentos communs. Roma mundo . como as canções . a castelhana. Em todas estas litteraturas meridionaes. e a secaracterístico mais forte das nacionalidades. a portugueza. e d'onde se deriva o que ha de mais original e independente n'estas litteraturas. Pois litteraturas moderna-s cias bem. a fran- ceza. que elles. no ponto em que uma nova raça entrou na invasões germânicas. O estudo da historia das litteraturas modernas. a gallega e a românica. é que dá ao hespanhol o typo espada. o elemento germânico. do organismo de nacionalidades feitas. comprehende a litteratura itahana. e mo. esse individualismo forte. principalmente depois que foi abraçada pelo catholicismo. a provençal. que tanto custou tãos. que foram aproveitados ou se impozeram á nova civilisação. Onde começaremos este estudo? justamente historia. É por isso que antes de estudar em cada uma das litteraturas novo-latinas. meçam rem o a ser reconhecidos no uso e pelo -seu desen- volvimento virão a fazer esquecer o latim clássico. a ser penetrada pelos sentimentos chris- O theatro hespanhol. temos de expor esses elementos já formados. o estudo das deve começar se afíirma- mesmo rem si antes da constituição novas nacionalidades. ao italiano a improvisação da comedia dei ao inglez a tremenda tragedia histórica do génio sa- xão. em vista d'estes princípios. a tradição gre- em grande parte atrasou a originalidade d'estes povos meridionaes. os dialectos vulgares cocivil. que eram coexistentes ao tempo da formação das nacion. nunca poderia confundir-se com um dialogo de Sigurd.ilidades. pelo seu imponente catholicis- Esse individualismo nacional da capa arte. são co-romana. que foram o resul- tado e são a contraprova da autonomia. resultado das invasões.26 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL gias do norte. quebra-se a unidade deixa de ser a arbitra do Com as imperial. no ^momento em que novas raças trabalham para historicamente. essa tenacidade.

c sobretudo. emquanto se não estudaram as migrações indo-europôas. De ordinário um Poggio ou de confundem-se estas duas feições. por isso que importância era já des- conhecida durante os dois séculos que succederam a essa grande época de esplendor. os do século de Augusto estavam mais a sua monumentos litterarios do que perdidos. deduzindo-as de uma origem commum. que vae desde a mudança da sede do império do Occidente para Byzancio até ao tempo de Carlos Magno. meramente individuaes. temos a distinguir o que pertence ás imitações forçadas. I *) o QOE SE DKVE AO ELEMENTO ROMANO Ao procurar nas litteraturas modernas o elemento romano. sem discernirem que os conhecimentos da antiguidade clássica de i um Imola não existiam na época de labor escuro da con- sciência. se coexistisse com a formação das linguas vulgares. o elemento nas se conserva o mais obliterado.IDEIA GERAL 27 céltico. das épocas eruditas chamadas de Renascença.uropa. N'este longo periodo. de gesta ou os romanceiros. em vagas superstições populares tal. Se a tradição da litteratura tina fosse transmitlida la- como uma coisa viva. porque constituia o fundo primitivo. depois que a moderna sciencia da philologia. a unidade das linguas da F. com Bopp. que ape- em um cyclo poético quasi erudito. chamado da baixa edade media. e . tada pelo védico. modernas nacionalidades que procuravam não . e o encadeamento tradicional dos contos populares determinado por IJenfey. e as formas de civilisação transmittidas de de um modo natural e aproveitadas como primeiro núcleo um trabalho intellectual que as antecedeu. finalmente o elemento orien- desconhecido na historia. actualmente represendescobriu. provado materialmente nas re- lações da Europa com o Oriente no tempo das cruzadas. e com o espirito das constituir-se.

usados até nos actos juridicos . da paixão. a nomia entre o classicismo dos modelos rheloricos meiras tentativas litterarias. um lethargo de espanto. desabar de um sumptuoso cheio de apparatosas columnas. sendo as nações modersolici- nas os espectadores d'esta calastrophe. os fragmentos dispersos d'esta grandesa que foi. Toma-se de ordinário como ideia de decadência do império romano. for- çada modificação da loquella estrangeira porém o segundo phenomeno zia revela-nos precisamente que o estrangeiro tra- uma nova ordem de ideias.^. precisamos propor a questão em outros . apesar de significar que a vastidão das colónias romanas fazia com que a urbanidade latina fosse invadida pela . de maravilhas depois de artísticas. para os Aldos. 2. livres manifestações da lingua. litte- Para discernirmos esse elemento latino nas origens rarias da Europa. em quanto á sua manifestação. que é o que produz essa antinomia entre a sua expressão litteraria e os modelos impostos da civilisação romana. a prompta dissoprofunda antie as pri- lução do latim urbano e preponderância dos dialectos rústicos. que os não deixa nunca chegar á verdade. e os obriga a um sys- tema de perpetuas conciliações. que correm tas.°. faziam a collação dos diíTerentes manuscriptos de um Cicero. Assim Michelet. os Etiennes. do interesse e da vida própria dos povos novo-latinos. a acção do elemento latino no período de elaboração que ultrapassa o século obedecem a uma miragem. um espirito em tudo desconhecido.28 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL se teriam dado os seguintes factos: 1. como aconteceu em d'esta impressão para julgarem França. a colligirem com religioso respeito as venerandas relíquias. O primeiro phenomeno ainda se poderá julgar sem solução de continuidade. o edifício. essa moderna antiguidade. em que as como lhes chama próprias mulheres. Os que partem ix. foi para os eruditos do século xvi. um outro estado de con- sciência.

uma de poetas e de panegyrisofficiaes. recuperavam . e da queda morta já a litteratura latina estava em Roma que . que exprime as necessidades intimas de a sua parte na vida histórica da um povo. procurar de preferencia as causas moraes. Antes das invasões dos bárbaros na do império do Occidente. Incapazes de comprehender que a litteratura é uma synthese do génio nacional. xar os característicos d'essa decadência. Por este processo chegamos a salier o que entrou como elemento Itafia. como aconteceu com o ignorado Cornelio Frontonio. de rhetoricos e de chronistas laureados nas recitações publicas. assassinado por Caracalla. vendidos ao louvor das arbitrariedades imperiaes. á custa da corrupção que espalhavam no povo. vér o que esta vilisação extincta ria. O cesarismo affrontoso dos imperadores que subiram ao throno depois de Marco Aurélio. ao passo que a Egreja successiva e calculadamente adoptando a tradição romana. e victimas d'ellas. que representava fatal- mente o estado moral em que se cairá.IDEIA GERAL 29 termos cia : determinar o ponto em que começa a decadênfi- romana. e lisongeando a proter- via dos soldados pretorianos. esta arte de firmar o poder sobre a degradação moral. o cesarismo. que n'um grito de embria- guez lhe conferiam a soberania acclamando-os. como succedeu com Se- renus Saramonicus. esses desgra- çados declamadores. nâo era preciso que estes dois cataclysmos viesevidencia esse grande collapso intellcctual. que lhe assignala humanidade. por sem pòr em elle já se estava dando em consequência de causas im- manentes da própria litteratura. dando -lhe panem et circenses. creou litteratura por necessidade tas. or- gânico na civilisúção moderna. o ideal da sua revolução. as violações da sua justiça. elevados acima de Cicero. admittidos nos banquetes dos impera- dores. e explicar ci- deu ás novas raças que entram na histo- finalmente como o chrislianismo combateu a foi fitteratura latina.

mas prestes a submergil-o ao mais leve signal de temor. A historia. levantado por Tácito no meio da publica degra- dação. adoptaram um deplorável syncretismo de ideias. ou como nos salões das preciosas ridículas pouco antes da Revolução franceza. começado pelos eclécticos gregos. o seu império. acha-se sempre o symptoma intimo da de- cadência. estava reduzida a regras. Era a negação do sentimento poético. sobre a caça. propriedade de tropos. sob Galliano. tes versejadores cem d'es- appareceram celebrando em outros tantos epilhalamios o nascimento de um neto do imperador. proporções ensi- nadas nas escolas dos declamadores cia-se na parte pratica. Por qualquer aspecto que interroguemos os monumentos litteràrios. ultrajantes da justiça para captar nário. que no seu tempo só o gram- matico Sulpicius Apollinarius entendia em Roma Sallustioí Emquanto novas tavam em ideias moraes entravam no mundo. como n'uma enchente terrível se levanvolta de Roma. Em philosophia succe- mesma incapacidade para investigar. na ca[)ital em Roma. A eloqueucia romana. dia a e escrevendo na sua lingua pátria. do mesmo modo que em Byzancio nas vésperas da sua ruina se ventilavam questões theologicas. sobre a astronomia. e poa discutir vos desconhecidos.30 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL a perda do pudor compondo poemas didácticos e instructi- vos sobre a pesca. Para a historia merecer ainda alguma importância foi preciso que os rhetoricos gregos que estavam em Roma. ou o imperador sangui- Aulo Gellio declara. a pequenas intrigas de camarilha desenvolvidas nas suas mínimas parti- cularidades. os grammaticos si occupavam a attenrao publica debatendo entre municias de syntaxe. esse tribunal severo da consciência e da critica. . bellezas de gradações. um patrício influente. cxer- em immodestos panegyricos. sem se atreverem das gentes. ensinassem a verdadeira importância dos factos. essa máxima virtude do fórum. reduzia-se a ephemérides do paço. a justas .

Como dissemos. e por um apa- uma illusão fácil de se incutir. com as assembléas fácil foi com a liberdade de escolher patrono. bastam-nos aquellas que eram emergentes na índole d'essa civilisarâo. a civihsação romana começou.IDEIA GERAL 31 Quando urna de. abstrahimos das causas interiores e exteriores. Em Roma o desenvolvimento dos direitos lado. sem um meio de participar da auctori- dade e de a dirigir reclamando. o cidadão romano só podia testar morrendo em Roma. é litteratura chega a este estado de inanida- mesmo na sua decadência uma prova do abaixamento do nivel moral de um povo. isto é recebia um direito unicamente pelo facto de ler morrido no ponto em que a auctoridade publica podia manter-lhe esse privilegio. desenvolver esse outro principio dissolvente do cesarismo. que tantas vezes tem reappa- . romano calje o ter creado essa ordem nova de sentimentos chamados virtudes civicas. as causas véem-se atravez do esquecimento que Roma linha de si mesmo. estava no génio romano a comprehensao da causa publica. Sem um prolesto. a arbi- Irariedade substitue o dever. a decair antes de Constantino. a e ao garantia do facto tar. o poder lorna-se nágio divino. que mereceram ser chamados ao cabo de tantos séculos a rcumo escripta . Isto era apenas a consequência. civil não passou de O aphorismo de Bacon civili. elemento social que os povos germânicos e scandinavos trouxeram ao ár livre. Uma vez esquecido este principio da indepen- dência politica. Creado o cesarismo romano. formulando que o direito de testar era uma graça concedida peradores. Mas o direito politico. — jus privatum um estado rudimenlatet sub íutdla júris é a grande lei da decadência achada por Guizot individuo era nada na civilisaçâo romana. civis. No tempo dos impelos im- peradores levaram mais longe esta violação. com o seu jury. foi de tal forma formu- que produzia esses códigos eternos. a graça antepíje-se á justiça. O cm frente do principio da aucloridade.

Roma fundada desde os seus primórdios sobre rídico. que veiu desnaturar o verso saturnino. cujas collisões dão a acção dramática. a creação litteraria que melhor presenta a sociedade. Niebuhr mostra que as tradições romanas são em grande parte copiadas da Grécia. sem ideia. O nal era theatro. a metrificação era bém de origem baseada sobre a quantidade. Para o romano. as descripçoes didácticas. As tribus errantes vinham espontaneamente sub- metter-se á sua disciplina. como é que o sentimento vago. e as noções scientificas se libertariam dos modelos gregos? A . ses. que era estrangeiro. desde os seus tempos mais antigos. esquecido o principio fundamental que o romano foi introduziu na civilisação. attingiu mais depressa do que nenhum outro povo a comprehensão da ideia do direito. antigo e nacional. a expressão do sentimento do quasi bello foi-lhe um luxo exterior. como a lenda das Doze Tábuas. uma artificiosa imitação das forre- mas gregas. não havia característico romano. um accidente secundário. e n'uraa larga e forte administração. Foi então que a falta de uma originalidade or- gânica na litteratura latina se tornou mais evidente. de Virgínia. a corrente litteraria veia exprimir estes sentimentos egoístas da bajulação ao prepotente. Passando rapidamente pelo período poético do symbolismo. pedir a sua legislação municipal. não chegou a ter uma feição nacio- Roma. Uma vez lidade. É por isso que a sua poesia não tem um visível caracter de naciona- lidade. de Tarquinio Prisco. — a litteratura tor- nou-se estéril. e que o vigor da sua naciona- — a comprehensão da justiça. occupado n'uma laboriosa conquista. elevou-se muito cedo á forma abstracta e quasi geométrica da lei.32 HISTORIA DO KOMANTISMO EM PORTUGAIí recido sob outras formas. na historia. de Mnenio Agrippa. se nos interesses civis. privativa da língua grega. um contrato ju- um commum accordo entre os três povos luceren- ticienses e ramnenses. as danças populares eram tamgrega.

reconhecida e nunca discutida. Dois séculos antes de Christo. já o colonato estava intro- duzido nos costumes romanos. A todas estas causas. accusavam desde longo tempo na fatal.IDEIA GEBAL 33 mesma gia falta de caracter nacional se encontra na mylholoitálicos a to- romana. De facto o ro- mano jiias estava adiantadíssimo na agricultura. íicial. pres- realidade desde que se tentasse Temos na historia um exemplo que explica este momento critico da vida de um grande povo. Este syncretismo que vimos nos systemas philosophicos. o edito de António Caracalla uma consequência forçada desse desenvolvimento. As tri- bus errantes vinham ollerecer-se á administração romana paia receberem a sua con(|uislas. para se lixarem nas suas a defenderem sob sua égide. foi unitária ci- na vertigem da impotência. teve unicamente liienzi caiu 3 a força (. inteiro. constitueo pantlieon romano. foi cresciam espantosamente. abstracta. as novas povoações leva- vam á sua frente os Trknniviri ducendan coloniae. governava pelo perstigio. das suas alturas de tribuno de Roma. d este trabalho. do- minando pela fascinação gloriosa. civilisação uma dis- solução veiu accrescer o desenvolvimento do colonato. que facilmente associou os deuses das as divindades dos povos vencidos.le uma tradição colhida nos livros. as coio- tanto conquistadas como voluntárias. uma sem força phanlastica. dando ao orbe o direito de O seu poder tornou-^e puramente moral. Roma. pela aucloridade tradicional. no eccletismo. ao mais leve ataque. Kin Jor- nandes vemos repelidos factos d'esta ordem. e scienliíico foi o primeiro povo que teve o estudo estrangeiras. e por isso incapaz de ser- vir (jue de vinculo de unificarão nacional. quando Jíienzi (juiz restabelecer a velha auctoridade imperial. A religião era uma instituição of- separada do sentimento. e a um . Era tes a reconhecer-se resistir. para se lei colonial. na impossibili- dade de manter sob o jugo o mundo dade. Com o seu gonio unitário e centralisador.

Por uma mas dos Roma saiu da vida histórica desde que realisou a ideia do direito. eram as feras da jaula que recuam diante da vara vermelha do domador. um grande collapso em que a natureza precisava de um repouso profundo para entrar em uma evolução nova. Não se atreviam a invadir a Cidade eterna. que mais depresterrível. vêm buscar um bocado do espolio do velho mundo. as tribus irrequietas illusões duram pouconheceram que o jugo romano era apenas um simulacro risivel do antigo ferro em brasa. . se ecchpsaram os grandes faz-nos europçus. A mudança lei da sede do um erro politico. na véspera de uma transformação social. em volta d'ella agglomeravam-se as numerosas tribus germânicas. desfez-se o phantasma da pelos Frankos. co- mo os abutres sobre um campo de matança. a mediocridade da litteratura e a extincçâo do espirito publico. Mas as co . nullidade para a livre espontaneidade na sua deter- É o que se está dando hoje. Roma estava n'estas circumstancias do seu ex- temporâneo tribuno. depois dos Lombardos. império do Occidente fora sa fez sentir a inanidade inevitável. Ao primeiro arremesso de uma ti:'ibu germânica na com a irupção dos Hunos. a arbitrariedade imperial. Itália. de Roma. vei superior foram a consequência da falta de um mo- que desse vigor á consciência da nacionalidade. Todos os historiadores são conformes desde a decadência de em aííirmar o con- tagio invencível de mediocridade da inielligencia humana era Roma alo ao século vii . As tribus. era a coná demnação das individuahdades caprichosas deixarem á natureza minação. a Hespanha a Africa aucto- ridade. Este parallehsmo comprehender esse momento tremendo em que as raças germânicas iam entrar na historia. em que por uma políticos lei providencial. a Gallia romana é invadida romana é occupada pelos Godos. romana é senhoreada pelos Vândalos. a devassidão pretorianos.34 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL sopro casual se esvaiu esse sonho que tanto embevecia Petrarcha.

IDEIA GKRAL 35 Traziam á civilisaçlío na sua corrente indefinida.» Depois do individualismo. vos germânicos doscenlralisaram as accunnilações immensas das grandes cidades. condenmou com o nome de condemnando o seu tempo. o germano estabeleceu o estatuto pessoal sobre o direito territorial. por lhe [carecerem prisões e sepulchros. o factor estranho. esses dois elementos de força moral e material. Os romanos corrigiram-se ros pelo a dominação dos vândalos. começaram a formar-se os e os Vici. quando os íírandes senhores constituiram a sua hierarchia pelo molde da hierarchia ecclesiastica. corromper ou succuinbir. individualismo mana. das povoações visitihas que se defendiam. que por si imitara a unidade romana. i> O mesmo repetia ainda no século v o sacerdote Sal- viano. Successo incrivel! prodígio inaudito! Os bárba- amor da puresa dos costumes e pela severidade da sua disciplina. se em Roma a lei era oo que agradava á vontade do principe» nas povoações germani- . Onde quer que os godos são os dosol) minadores. que o christianismo pogrmisjno. que tirava todo o seu vigor da puresa de costumes. são crimes que se nâo perdoam com dizer: Tal sendo. E admirável o modo como Tácito de- screve esta raça. homens vestiam as armas como a unjca túnica as cidades para romanas causavam horror. quando diz dos povos germânicos: «Ali. cuja denciencia produziu a ruina da unidade ro. e das tradições populares. como diz quem Ammiano Os poPagi Marcellino. tornaram castos os próprios romanos. é Com que vigor falia Tácito. não se encontra desordem senão entre os ro- manos. e em que as crianças ao tornarem-se viril. deiMarselha: «Envergonhemo-nos e corramo-nos com uma salutar confusão. mas ò inegável que foi esta nova phase da consciência himiana que cooperou no que ha de mais esplendido na civiiisnção moderna. traziam o individualismo germânico. Mais tarde este foi absorvido no poder feudal.

quando lucla entre os barões e as no século xu começou a munas. os nobres ou iverhman. Corre na sciencia. de mais vigor. quer isto dizer. o germano não tinha crime todas as vezes que o nâo commettesse dentro da sua garantia. A questão propõe-se Ha no município moderno de* 'garantias civis. dos typos de legislação e de instituições que conheceram no tempo da sua conquista a classe dos lites adoptou e transformou o miinicipio romano.36 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM POIITUGAL cas era o que se estatuía na asseiiibléa ao ár livre. á metestar era para o . se o direito de romano um privilegio concedido pelo imperador. os seus magistrados eram electivos. que a tradição municipal nunca se perdeu. Este problema histórico tem sido sempre proposto de uma maneira absoluta. porque em ambas n'èstes termos: impossível de chegar-se as theorias ha documen- tos e factos egualmente convincentes. parti- cipando todos egualmente da auctoridade. deu-se o conflicto d'estas duas for- mas de direito colonial e de cidade ou codificado. e como tal a uma verdade. constituindo-se em feudalismo. porque acabou a des- . apropriaram-se dos códigos roma- nos do Baixo Império. caracteres de uma No instituição Esta feição apparecç entre lodos os poseu período Pro- vos que obedeceram á dominação romana. sustentando a segunda que o município é germânico. Mas em contacta com os restos da civilisaçâo romana os povos germânicos deixaram-se penetrar. nO edito de Cara- decáe a instituição municipal. no meio da incerlesa de direito. a unificação do direito romano. mulgada calla. ha mesmo duas escolas contrarias. que o colonato germânico a adoptou e a transformou até ao século mais tarde no século xii vii. Que era este com- conflicto senão a absorvente unidade romana que queria anullar a independência colonial? Mas sustenta-se que o município é todo de origem romana. dida que iam dando a forma hierarchica ao poder.

a Fará. Fora d'csta adopção jurídica as raças germânicas nada tinham a receber da cultura romana. que é também mais frequente o regimen communaL. formando romana. uma instituição de garantias cial. para tornar-se esse grande elemento social. nome. e fica principalmente politico o Foral era estaluido c piocessado pelos homens bons no malltim ou assembléa feição É então que o caracter electivo reapparece sob a acção do génio germânico. as povoaçijes ruConfundir a velha forma municipal raes adquirem importância. rural da antiga Alsacia. que li- a Cominiina. é n'este momento que perde o caracter electivo. conciliam-se as duas escolas dissidentes dnndo a cada uma sua verdade. segundo o profundo verso de Dante: . e fácil foi com a garantia local. o terceiro estado. Em consequência da nova ordem so- produzida pelas invasões germânicas. livre. e a Com- muna é uma imitação doghild scandinavo. d'onde havia sair No nordeste da França o municipio é de origem gallo-romana. direito rural. é n'esse ponto da França. recebendo de novo esta nha perdido. assim os seus funccionarios foram escolhidos onlre os nobres ou entre os que o nâo eram. a juntos o tribunal. é imitado A communa Colonge. e ficaram com a sua (!sponlaneidade até que o christianismo se tornou por sua vez romano. é o municipio das garantias politicas creado por a primeira forma exclusiva e das* estas quem ignorou vez detei'mina- Uma duas características.IDEIA GERAL 37 «gnaldade civil que a motivava. Concelhos Os em Portugal sâo esta tradição romana. nas Origens do do Vogt das tribus germânicas. onde foram mais intactas e mantidas as franquias ger- mânicas. tendo reinfluencia cesarista. a colónia tem vida própria c independente. O municipio romano perde o . nascido por lia uma no município moderno caracteres de politicas. O Defensor segundo Boulhers. civitatis. e seguindo a condição mais ou menos importante do colonato. conhecida pelo nome de com lei commum.

No meio em Roma uma do philosophia admitlida pela necessidade de protesto. e rhetoricos gaulezes ou hespanhoes. e as investigações da rasão não en- contravam respeito . N'este periodo que permaneceu intaclo è que creou o grande cyclo das epopéas do mundo moderno. Havia uma grande incapacidade para os as leis imperiaes lançavam de vez estudos philosophicos. perdido o sentimento da dignidade cia com a perda da constituição republicana.38 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Queila Roma oude Cristo é romano. a lógica. no momento em que o uma consequência dos caracteres que esboçámos no quadro da decadência da civilisaçâo romana. é em Roma. Foi o Stoicismo. espécie de páreas da conquista. vale- ram mas nâo tinham communicação com a alma germânica. em quando interdictos sobre os philosophos. Perdida a existência politica da Grécia. Baseava-se sobre estes três grandes factos espirito. controversistas ecclesiasticos. a physiolo- gia e a moral. No meio do cgoismo da grande capital. A litteratura n'estes . como Lucullo ou Sylla. os philosophos trazidos para Roma eram tidos como seres extranhos. e os grandes po- formavam bibliothecas para alardearem as suas riquezas. appareceu milagres. da observação e da acção. que as levou ao feudalismo. d'onde resultou o ser-lhes mais tarde iaiposta essa crua unidade. caupossivel telosos jurisconsultos. b) O ELEMENTO CHRlSTÃO O estado dos espiritos christianismo se radicou no occidente. fauma qualquer doutrina que tivesse pelo com o menos pelo lado pratico certos pontos de analogia . cilmente acceitava O grupo que abraçava estas doutrinas. e do syncretismo in-' tentados diíTerente de todas as rehgiôes. primeiros cinco séculos nada tinha que transmittir tos infini- grammaticos muito. a scien- tornou-se uma curiosidade absurda da theurgia e dos d'esta dissolução.

antes uma forma dogmáde receber uma for- nia tlieologica na controvérsia e nos concilios. controversistas. Eusébio. Na lógica. Arnobio. pelo menos litterarias. ibi Uberlas. os padres da egreja com- deste novo meio. que os stoicos haviam formulado. e usaram-no. Athanasio. e só quando acabaram as grandes inteUigencias . consideraram a rasão e a sua actividade lógica como um meio de defeza da doutrina de Jesus. foram polémicos. A medida que esta necessidade foi desappa- recendo. oppozeram a simplicidade da moral às caducas e contradictorias escolas philosophicas. Antes de attingir tica no christianismo hellenico. Ambrósio. Hilário. os dois Gregorios. propagou Ubi domi- uma como espécie de rehabilitarão da em que os stoicos sentiam em um estado de immanencia. Justino. Alinucio Félix. Não é sem fundamento que nasceu das relações. Lactancio. Bastava este prinpaí-a commum. condemnou a natureza. Agostinho e Chrysostomo. como refutação das heresias. o christianismo achar ecco em Roma era elle que vinha aproveitar a base systematlca. Terluliano. os stoicos tomavam a rasão como o meio consequente de chegar á verdade . de Niceia e Nazianzeno. linalmente foram racionalistas do sobrenatural. O Stoicismo condemnava a es- cravidão como contra a natureza. como vemos no principio da ascese mystica do monachismo. Basilio. entre o stoico Séneca e o apostolisador Paulo. Quando o christianismo recebeu o vicio da unidade romana. Foi natureza. o christianismo evange- lisando a egualdade diaute de Deus. como elemento disci[)linar e formulislico dos dogmas da fé. trataram de propagar a prehendeiam a força doutrina á força de argumentos. o mesmo que os christãos na correlação dos um. Os afamados doutores dos primeiros séculos da egreja foram terríveis dialécticos.. eífeitos para a causa primaria. IDEIA GEHAXi 39 a tradição Stoicismo. como o melhor escudo [)ara a polemica. a doutrina de Christo cipio tinlia por fundamento a moral.

Justino ia encontrar o mysterio da encarnação no paga- nismo. se tor- nou a scientia mundana. um outro sentimento. que é senão o rudimento da abnegação da indivi- duahdade. S. levou á severidade de diante da decadência mas ram tiradas Tertuliano. o chrisliani^mo venceu o a apathia do stoicismo. á condemnação dos monumentos litterarios da antiguidade como seducções pec- caminosas dos sentidos. que formas de arte não conceberiam se a necessidade da polemica. ferventes. que S. o panegyrico eloquente lhes não tivesse absorvido e em grande parte annullado a actividade? As formas que seguiriam es- . O principio moral de vencer as paixões. Foi por este trabalho de racionalismo sobrenatural. e com que arrependimento quando no se accusa a si pró- prio Santo Agostinho. a ancilla theologian. a isempção do cismo porque trocou a divagação philosophica pela pratica homem justo das paixões. a controvérsia aggressiva. a ponto de derramar uma la- grima sobre o episodio dos amores da rainha Dido. isto indicava uma ordem nova. já annunciada por Vir- romana as conclusões foprematuramente. e que Clemente de Alexandria considerava a philosophia paga como um primeiro esboço das doutrinas do stoi- Evangelho. livro das Confissões de- screve o peccado que commetteu deixando-se impressionar pelo quarto livro da Eneida. Na parte moral. tornou mais completa a decadência da teratura romana. de as extinguir em si. como os primei los padres da egreja. exaltados.. 40 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL d'este cyclo militante da egreja. á amputação de Orjgenes. por. Jo- ronymo também condemnou a leitura dos livros proíimos. é que a pliilosophia.isso que estavam possuídos de entliusiastas. Salisbury accusa o papa Gregório de ter queimado uma bibliotheca de auctores pagãos. na controvérsia religiosa escrevia-se contra a leitura dos livros dos infleis. capazes de crear lii- uma litteratura. do nihiUsmo desenvolvido pelo christianismo? Tudo gílio. Esta direcção de espíritos tão potentes.

original e forte. porque não precisavam d'esse cunho religioso romano para comprehenderem a grandeza do sacrificio. te- nazes e sinceros na sua crença. Assim a decadência romana incutia este se appellidavam christãos. disciplinar- necessidade de condenmar as suas mais bellas con- cepções senlimentaes. que formaram os Evangelhos aporryphos. É . ao vicio doutrina da egreja. O concilio de Niceia estabeleceu a primeira unidade na centralisação administrativa. abraçando o chrislianismo reduziram-o. estava recente na memoria degradante da apotheose dos imperadores. Mas polemica recebia o vicio dos sophistas da civi- lisação decadente. e os bárbaros do norte. O aria- nismo não é mais do que esta modificação raclerisada pela negação do instinctiva ca- dogma da divindade de a abjecção Jesus. os que até ao da forçada unidade á religião nova. revelado na Roma quiz centralisar o dogma segundo o celebre verso de Dante. preferiu perder a espontaneidade da natureza. . abraçara o chrislianismo. fecunda. teve procurou deíinir-se. por uma unidade vicio da formal. o bispo de Roma lornou-se o ápice de uma hierarchia unitária. não accèitavam a ãmnisação de Jesus. Demais. impassivel e calculada. a egreja se. adaplaram-no ao seu sentimento individual. . e a tendência apaixonararase pela humanidade de Jesus. os bárbaros do norte deram a essa doutrina a feição do seu caracter racionalista. As raças germânicas. en'essa Iheoria do amor myslico exposla na allegoiia do paslor Hermas. Era o principal decadência romana. Christo lornou-se lambem romano d'entre a egualdade dos bispos. tempo de Theodosio verem assumir o poder imi)eradores dominados por seitas philosophicas adoptaram essa formula geral. Até ao fim do século v quasi lodos os príncipes eram arianos. uma raça lambera nova na historia.IDEIA GEBAL 41 tão indicadas n'essa assombrosa fecundidade de tradiçíjes populares.

de herdar. condemnando-os até á morte. A serie dos imperadores do Oriente foi em grande parte ac- clauiada pelo catholicismo. no tempo de Theodosio que começa a introduzir-se nas o nome de catholicismo differente de christianismo. provinha de um O grande principio foi da tolerância inaugurado pelas raças germânicas. consulto Triboniano junto do imperador. prohi- bindo aos christãos não catholicos o direito de testemunhar. representante do christianismo hel- lenico. Antes dos Árabes trazerem á Europa no século vn o sentimento humanitário da tolerância. metropolita- nos. O estado adopta uma cluía que se torna uma forma politica. com mais garan- pelo facto de uma religião de estado. Justino interrompeu a succes- são de Athanasio seduzindo os catholicos tias.iinava como uma provocação a Justiniano. de succeder. Como chefe do estado Justiniano intervinha na eleição e na inamovibilidade da gerarchia ecclesiastica. prometteu aos catholicos o privilegio dos empregos públicos. . Anastácio antes de ser impera- dor foi patriarcha de Antiochia. tam- bém injuriou Origenes. mesmo contra os ca- Justiniano. a ideia unitária Icvava-o a ser injusto ífiolicos. um partido. religiosos. reli- Gosroes abriu a todos os que professassem qualquer gião o accesso aos cargos públicos. a influencia de João de Capadócia e do calculado catholicismo. violado por Justi- niano por causa da unidade da religião do estado. hymnos como IJeuriquc vni. e para se fortalecer contra a revolta de Vitaliauo. de doar. também compoz e como o antagonista de Luthero. que exdos empregos todos os que a não professassem. e depondo outros a seu bel prazer.42 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL. leis este mesmo facto assignala o momento em que a egreja começa religião a abraçar a unidade romana. já imi ramo senntico da Pérsia a procl. nomeando patriarchas. convo- cou um synodo em Byzancio para destituir um patriarcha juris- não cathoUco. Justiniano. bispos e abbades.

em controvérsia estéril. esta devassa alTrontosa da consciência. que tinha o lov. d'onde os imperadores queriam renovar a tradição cesarista. ponliíice próprio Jus- da religião de estado. ignorando a simples leitura das pre- comprando as diíTerentes dignidades da gerarcliia ecclesiastica. tia-se qual a em Byzancio discu- natureza da luz que envolvia Jesus no Thabor ii ao passo que Mahomel pla. des- appareceu o génio fecundo dos prinieiros doutores da egreja ([ue estabeleceram a sua disciplina. destruía o poder de Constantino- Uma vez tornado religião de esladOy o christianismo pa- . que não deixou aos espíritos essa serenidade necessária para a concepção da obra d'arte.IDEIA GEKAL 43 Depois de abrasar. Como na decadência romana. disputava com o papa Agapito. quando creou o funccionario encarregado da perseguição dos heréticos. tiniano. a ponto que nas revoltas que procuravam desllironal-o refugiava-se entre os sacerdotes antigos doliciando-se com a controvérsia. O ultimo acto legislativo de Justi- niano.se este vicio da civiiisação roniana. e esses poéticos medida do seu alcance e do que gastou-se sua fecun- didade. de 56í. aconteceu por consequência que no século ces religiosas. estava-se seguro que Justiniano fazia pelas suas multiplicadas leis e extorsões a favor da egreja. faz o retrato d'esta profunda decadência da nova litleratura ecclesiastica. a litteratiira que vae até ao século vii tornou-se nulla. A a nova ordem de sentimentos que inspirou o pastor Hérevangelhos apocryphos. nome de koiais^ Sob esta pressão oílicial a lavor do ramo cathoUco. o que nos dá teria sido a nias. em O polemica tempestuosa. o estado consultava o agouro das aves quando a invasão germânica rompia as portas de Roma. e os negócios politicos eram para elle acci- dentaes diante das suas polemicas dogmáticas. o que a prédica fervente não alcançava Ião de [)roinpto. Foi elle o inventor da inquisição. e vi o cleio era estúpido.

um polytheismo e lan- çou a formula só Deus Estes factos descobertos pe- . Todos estes da unidade romana abraçados pelo ca- Iholicismo vieram encontrar um correctivo salutar. Mahomet seria Incapaz de fundar tivesse encontrado as tendências de uma uma religião. com mais poder. Justiniano. reproduzindo os velhos mythos do. e como taes servindo-se mais comprehensão. con- tra os quaes o judeu reagira com o principio abstracto do Jehovismo. assim é que foi recebido em Roma. se não raça que recla- mava uma dissolução. Os Árabes formavam um dos ramos mais vastos da grande raça semítica. essa necessidade de fallar aos sentidos. O christianismo deixava fez-se de ser semita ao entrar na Europa. Guizot considera a egreja derna. Por um lado os theologos hellenistas. foram elles que reagiram contra esta desnaturação da Ideia da divindade nua e absoluta. deram ao christianismo essa dependência da imagem material. comp tendo sido o typo das formas da sociedade momas esse typo reproduziu-seemum estado cujo prinpôde considerar depois do século vii. invasão e. análogo ao da graça. principio que tanto tem custado a extingir da vida vicios o Feudalismo. social. de monotheista tritheista. parecimento do Mahometismo na Nascido no seio de uma poderosa raça semítica. latria. por outro o caracter transfor- mador e sentimental dos bárbaros. viu é Deus. ambos como indo-eurodo sentimento para a peus. d'onde procedeu a arte moderna. não conseguiu mais do que O genlo semita temia que se fosse cair na ido- proscreveu a Imagem.44 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL rodiou a velha legislação romana nónico.Oriente. que o reduzia aos limites de um uma philosophia. no aphistoria. o christianismo trouxe caracter de abstracção. permanente da sociedade e modelo da incerteza das jurisdicçues feudaes. cipio se cipio que foi o prin- da arbitrariedade senhorial. Inllulndo despoticamente nos concílios. e direcção. creou o seu direito cacivil.

IDEIA GEBÂL 45 los novos processos da historia. (p. e o ve- hiculo do que havia de pratico e ulil na civilisarão grega. achara-se fortalecidos pela authenticidadc dos documentos. da tlieologia byzantina com Doeste capricho cesarista. historiador do Baixo Império. Uma lisada vez possuída do espirito da unidade romana. modo inconsciente o desenvolvimento que SC estava dando no latim fàllado nas colónias e nas classes da sociedade. considera nas suas Anedocta. á\z Isambert. o árabe errante conheceu o porquê da sua existência. a sua lingua como o latim. na Histoire de Justinien.» As consequências do apparecimento do islamismo seriam nullas s« esse protesto monolheista nâo passasse á acção. veiu preen- cher o vácuo deixado pela extincção do império romano. a egreja adoptou a liturgia. e dos do seu tempo. que ditaram Deus é Mahomet a forma simples o verdadeira Deus. um grande povo pelo vinculo de uma mesma cstende-se tanto é então que os Ára- bes se apossam do Oriente e do Occidente. o appareciraento de Mahomet como uma consequência das aberrações (pie Justiniano tanto se alegrava. gusto. É este o espíritos esclarecidos pensamento de Procopio. e entrou na historia. lin- gua latina para a expressão universal da sua já Ia de encontro á corrente natural. vtd- pedeslris. as comedias de Planto. É este segundo momenU) da sua vida histórica que va- mos expor como um correctivo aos defeitos recebidos pela ogreja quando adoptou na sua tradição os exemplares de uma litteratura decadente. avassalou o mundo. um algumas phrases de Cicero. xxvin) «não o temos por estranho aos fundadoa res do islamismo. qne se ia estendendo a todas as íiecessida- . desde o século de Au- accusavam de iiilimas <f(U'ís. Procopio. torna-se lilteraria. para assim pòr cobro ás esta- reis controvérsias Iheologicas do Baixo Império. erA bch^miiòo sermontstictis. Em menos de um século o islamismo conslitue ideia . rea- na summa hierarchiâ papal.

á medida que o latim m^bano se redazia aos artifícios dos rhetoricos.) Foi contra esta corrente da formação das linguas vulgares que co . que o próprio legislador Justiniano. Isto que vemos na parle litteraria é uma consequência do que já apresen- . o do povo na hymno deixou de ser comprehendi- do. Santo Agostinho falia com assombro do facto de existir uma lingua tão conhecida como o latim. ao ditar as suas introduzia sem querer o elle latim bárbaro. incommuní- €aveis para o povo. e o latim erudito hido para penumbra. traduzir em lingua vulgar os Evangelhos. p. o enthusiasmo religioso extinguiu-sc a ponto de se não encontrar na Baixa Kdade Media.. em latim dialectal cit. leis. a Reforma do século xvi. em que novas necessidades moraes faziam valer uma linguagem até então desprezível. xlvi. sustentando o uso do latim clássi- as forças vivas venceram. fazendo um es- forço para se afastarem da corrente da dicção popular e aproximarem-se dos modelos cicerorianos. o minimo vesligio de conhecimento de Deus nos monumenforam traduzidos tos iconographicos. coincide tica com a este O apparecimento dos bárbaros momento critico em qne a linguagem rúsfica retra- occupa o primeiro plano. da d'onde era natural. Os padres da egreja adoptaram a língua latina para a controvérsia. Jeronymo. Dava-se a profunda revolução so- cial. (Isamb. A força da corrente dialectal era tão violenta. diz que o imperador escrevia as cartas Ilyria. como provou Didron. destinada por Deus para servir de meio geral de communicação dade. Os livros bíblicos em latim por S. perdeu-se o uso primitivo da participação liturgia. op. até que uma revolução moral que quebrou fez a unidade do calholícismo. segundo o historiador Procopio. e a egreja restringiu as suas pretenções á universalidade da lingua litúrgica.. a egreja se oppoz.46 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL des da vida. e Ludewig. a uma doutrina da humani- Mas as consequências d'esta pretendida unidade fo- ram funestas. e ficaram letra morta.

o vi- carius. onde se reprodu- ziram as scenas dos concílios byzantinos. nascido em Roma. que uma isto justa esperança su- stente o vosso coração. os Lollards. Assim. o Concilio de Trento. em cinco livros. foi n'estas condições que escreveu o Tratado mezes de da Comolação. O sentimento que inspirou este livro pertence á doutrina dos toicos vicio de Roma. quebrada pela Allemanlia. a lendo até con- demnado metter os monumentos d'essa lilteratura. escolheu aquelles livros mais l']vangelica. e tendo vencido o caracter terrível de Theodorico. a egreja foi recebendo uma forma arjstocratica. depois de seis prisão. Boecio morreu no martyrio. com formas de propriedade suas. e que vossas humildes supplicas se elevem até ao Eterno.» Bastava para fazer de Boecio um santo. o clérigo das povoações ruraes tornou-se servo. foi Um dos principaes (íscriptores adoptados pela egreja Boecio. mixto de prosa e verso. os bispos. de uma família consular. Os cantos vulgares foram banidos do templo. uma alfaia os grandes abbades. como relata Sarpi. per- tencendo ao dono ou patrono da egreja como d'ella. os Bollandistas o accolheram nos seus in-folios. com giada de uma prescrii)rão privile- cem annos. clero. teve de com- uma contradicção para os admiltir e estudar. como se ve por esta phrase: «Evitae o e cuUívae a virtude. com foi o direito de mão-morta. para rivalisar com o feudalismo . que formavam o alto in- tinham o seu corpo de direito canónico. atirados ás fogueiras. Virgílio tornou-se em harmonia com a doutrina um propheta. . foi víctima da reacção (jue os godos provocaram no caracter d'este monarcha contra os roma- nos. lido sob esse pretexto nos claustros da Edade Media. e n'esta incommunicabilidade do latim. Desde o momento que a egreja cumprebendeu que ali lhe pertencia a tradição da unidade romana. 47 támos na parte politica. O ultimo esforço para manter esta unidade aristocrática.IDEIA GERAL. com o foro dependente. como a ado- pção da emphyteuse romana.

O Tratado da Consola- ção de Boecio.» Rebentou no século ou n'estes objectos. . S. Um dos principaes monumentos escriptos nas lín- guas românicas é a Consolação de Boecio. Gilbert de la Poré. sentimental. contra o qual se esgotaram Boscelin e Guilherme de Ghampeaux. dizer lambem a traduziu para Phileitura lippe o Bello. Boecio commentou esta ceiebre passagem de Prophyrio. Thomaz de Aquino é Duns ros de fé. publicada no principio d'este século por M. e fácil foi aos doutores da escola bellenica contirar as al- fundirem a lenda da Descida aos infernos para mas dos patriarchas. Abailard e Santo An- selmo. a egreja ado- plou de Boecio o commentario á Iraducção da Isagoge de Prophyrio. d'e[les. que Boecio leria exerfoi com esse livro De Consolatiom philosophm. e não só exerceu os dialectos vulgares na sua versão. pela primeira vez exposta no Evangelho de Nicodemus. 48 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL e nas egrejas de Itália o adoraram. e no caso em que elles existam por si. ou constituindo uma parte xi este problema trazido da decadência através de Boecio. feita pelo rhetorico Victorino. se são corpóreos ou incorpóreos. Podemos que pela entrou na egreja o mytho grego de Orpheu e Etuijdke o christianismo abraçou-o para symbolisar o doguia da re- dempção. na parte anullada na parte intellectual . mentario que saiu esse problema a intelligencia que tanto esgotou a lucta humana na Edade Media. &cott. er- e esterilidade philosophica. de Boecio o auctor do Roman de la Rose. se existem separados dos objectos sensíveis. cido com o velho mytho pythagorico. renovada Mas a acção fecundante. como influiu sobre as lendas poéticas do christianismo. intervindo concílios tempestuosos. lido e decorado. Foi d'este cominútil. Raynouard . foi acceito por todos os povos da Europa. por Boecio. João de Meung.. que deu origem á questão: «Se os géneros e as espécies existem por si ou somente na intelligencia. João de Salisbury. dos Nomi- nalistas e dos Realistas.

para com o seu positivismo as aberrações auctoritarias da tradição da decadência. no século IX era seguido nas escolas de Paris no século x en- contra mais três commentadores.» Depois que os Abas- procuraram introduzir en- árabes as sciencias da Grécia. Isidoro de Sevilha adoptou-o também. As ideias de Marciano Capella não tinham originalidade. sem base dogmá- tica. eram um ecco das observações de Varro. pralogar para se esgotar sobre a cassislica dos dogmas. tre os tico. a lógica e a rhetorica (trivimn) sica. o aagunáo comprehendia a arilhmetica. ensinando por . As sciencias estavam divididas em dois grupos arbitrários. a mu- geometria e a astronomia (quadrivium). um génio superior ao seu e mais dignos de serem estudados. sem 4 lançou-se ao estudo das sciencias experimentaes. e no século xi é traduzido em allemão. o espirito semita. lethargia inlellectual É n'esta da Europa que torna a apparJcer corrigir em todo o esplendor o novo elemento árabe. dei- xando o logar aos modelos de sidas e principalmente Al-Manon. a . elle No século VI o rhetorico Félix aggravou mais o livro de Mar- ciano Capella com um commentario. contiecida pelo nome de Tri- vium e Quadriviíwi. O primeiro comprehendia a grammatica. Sobre este ponto diz Jourdan «A influencia de Capella dura até á época em que as obras de Aristóteles e dos Árabes se vulgarisaram no Occidente. d'este ultimo saiu para as escolas da Edade Media essa absurda classificação das sciencias. intitulado Satyricon. Plinio e Solino. que é precedido pelo pequeno romance de prosa e verso Das Núpcias de Mercúrio e da Philologia. a intelligencia fora do qual os eruditos da humana contenlou-se com este horisonte.: IDEIA GEBAL 49 Um outro livro guardado pela egreja dos despojos da defoi cadência romana o livro de Marciano Capella. em Auvergne. Assim clas- sificados os conhecimentos sem correlação. chamados as sele artes Uberaes. Edade Media nada mais viram. como a .

tendo anteriormente provocado a expansão do rismo provençal. Este nome de Bárbaros dado aos povos germânicos. Ippocrate. vi) os philosophos gree Alberto Thomaz de Aquino foi Magno procuravam n'elles a direcção scientifica.50 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL . . cuja primeira e principal manifestação o apparecimento de Galileo e de ly- Bacon. (Inf. os Árabes oppo- zeram-lhe Euclides. que em Marciano Capella resumia uma sciencia. os judeus traduziram para latim as obras trazi- das pelos Árabes. que communicaram á Eu- ropa as obras de Aristóteles. Dante egualava no seu poema gos e os árabes. Coincide com o tempo de Justiniano o trabalho das primeiras traducções do grego para syriaco. Estudamol-o n'esta relação percaria. Dante exalta esta direcção positiva symbolisada na influencia de Averoes: Euclide geometra e Tolommeo. e astronomia Aristóteles foi o que mais lhes satisfez esta tendência. Averrois che'l gran comento feo. a pbysica. Pelo conflicto entre o vivo e o morto. S. A cada magro capitulo de duas laudas. as Cathegorias de Aristóteles. explica-nos o modo como elles vieram de encontro ao Império. é que apparece na historia o poderoso elemento germânico. para assim caracterisarmos melhor a decadência. medicina. e a sciencia pela primeira vez abandonou a orthodoxia. e das tendências para a tradição unitária do calholicismo. vistas até então através das lacónicas e não comprehendidas allusôes dos declamadores da decadência. e Galieno. é que se vê soffrer. Avicena. e a naturesa da lucta que o génio germânico leve de por isso mes- mo se vê o alcance da sua força. a Poética. C) o ELEMENTO BÁRBARO No meio da influencia da cadente civilisação romana. a álgebra. a Politica. Foram os Árabes.

IDEIA GEBAL 51 as grandes cidades. da vingança hereditária. deixando ás mulheres o trabalho da agricultura. que é uma raça pura.» Bunsen. e que sò se parece comsigo mesmo. Este estado prevalecia pelo menos ainda no tempo oito ana sua de Tácito. como o instincto da hospita- como assolaram o direito. a crueldade dos Saxões horrorisa. mas pudicos. eu o digo com lagrimas. que escrevia acerca da Germânia cento e nos depois que Drusus avançou com esquadra até ao promontório dos Cimbros. pelo exclusivo emprego da actividade nas armas.. Vós conheceis a lei e a violaes. mas hospitaleiros. como tornaram incerto como afrouxaram o seu Ímpeto ante a disciplina moral do calliolicisaioi eram Bárbaros^ pelos caracteres primitivos que apresentavam. um facto providencial. E nós es- pantamo-nos por Deus ter entregado as nossas províncias aos Bárbaros. lidade. mas reconhecem-na como um castigo de Deus. os Alanos voluptuosos. mas somos peores. porém Tácito comprehendeu o alcance do vigor d'essa raça.. quando tava a puresa da raça germânica: «Sou de opinião d'aquelles que pensam. Tácito linha o sentimento prophetico. condemna o sea tempo dizendo: «Vós pensaes ser melhores que os Bárbaros. que eslava isolada dos vicios do Império para vir insullar na vida social as suas novas exal- forças. aceita estas palavras como a primeira comprehensão do desegual. Os Godos são pérfidos.. pela nossa vida. tino histórico das raças germânicas. con- demnam-a. sem mescla. os Frankos mentirosos. No catholicismo encontramos uma comprehensão os padres da egreja soffrem o desastre da invasão. da paixão ardente pelo jogo e pelas hebidas fermentadas. ao menos elles peccam por ignorância. mas fieis. Respondo que somos melhores emquanto á fé. que o sangue dos germanos nunca foi al- terado pelos casamentos estrangeiros. no livro quarto De Gubernalione Dei. mas louva-se a sua castidade. Salviano. quando o seu pudor purifica a terra aiuda ..

Paulo Orosio. tamescreve. pela pri- o que elle significa não bem o que está nas palavras. outros os victtíria. não se attribuiria a sua infiuencia unicamente ao christianisrao. não se ligaria ao seu nome somente a ideia de barbárie. muitos louvarão também o tempo presente. — Responderei. dir- me-heis : destroem. tal rudeza. conselhos que segue a Os macedonios começaram se. talvez que um dia a posteridade sau- dasse com o titulo de grandes reis aquelles que agora não foi sabemos ver senão como inimigos. asTácito.» Este texto meira vez produzido por Ozanam é . fazendo sentir os destinos providenciaes das bém invasões: «Se as conquistas de Alexandre vos parecem gloriosas por causa do heroísmo com que submetteu tantos impérios. Salviano e Paulo Orosio. para assim caractcrisar os vicios a humanidade aos tempos modernos. e cora as feições profundas como ellas estavam na sua ^ue ainda transparecem povos modernos. como no francez. exaltarão os vencedores. dir-se-ha : — Os Bárbaros são os inimigos do que todo o Oriente pensava o es- mesmo de Alexandre. os germanos os — Outros são os estragos da guerra. Mas.» Aqui se caracteri- sam nt)s as raças germânicas. mas que não) el- acabassem por ficar senhores e por governar segundo os seus costumes. e que os romanos não pareceram melhor aos povos ignorados cujo repouso iam quebrar. e tomarão as nossas desgraças por benefítado. se vós não detestaes n'elle o perturbador das nações. Se as raças germânicas. fos- sim caracterisadas por sem consideradas como um instrumento providencial. não se obliteraria o conhecimento da sua acção na historia. (oxalá por domar os povos que depois policiaram. Mas. Os germanos agora lançam tudo por terra les . — Os gregos fundavam impérios.52 HISTOBIA DO BOMANTISMO EM PORTUGAL conspurcada das devassidões romanas. e seria o espirito da tes 'civilisação moderna comprehendido an- de Ilegal mostrar que o individualismo germânico trouxe paixão de colorista. Na phrase de Tácito ha uma . cios.

a religião popnRir. na Arte. mesmo modo que os patriotas mais sinceros chamavam defeitos as raças errantes á traição para castigarem os terra. do romana pondo-a em contraste cora essa na* em Salviano. achou n'essa grande elaboração que . afQrmaçôes declamatórias Mas os fados estão em manifesta contradição com as n'este grande periodo da Edade Media crearamse as linguas e nacionalidades modernas. mou os tempos modernos mais uma coníirmação da theoria por onde a humasi. ao nihilismo da inlelhgencia. as communicaçôes inlcrnacio. códigos jaziam sob as ruinas da grande catastrophe o es- paço que vae do século v á Renascença do século xvr. as industrias. e na Natureza. as formas de arte. A contradição entre os reoutra origem . a historia era a narração das vicissitudes 1 ' nidade passava para chegar a alcançar a consciência de . á suppressão da vontade como o supremo ideal da perfeição. Bárbaros. e contentaram-se com a supposiçâo gratuita de que o chrislianismo fora a luz salvadora n'esta procella tremenda. sultados e a força. porque cedo recebeu a direcção mystica. era conside- um periodo de lelhargo da intelligencia e da consciência humana. lisado nos factos. uma actividade orgânica e fecunda. levava a achar uma quando ou for- Hegel veiu applicar á historia o subjectivismo do logos rea. a independência individual. Para elle. que não podia provir unicamente do chrislianismo. que leva á aniquilação da personalidade. dizia-se banalmente que as instituições e os .IDEIA QERAL 53 da civilisação luresa primitiva çâo calholica. Foi Em Paulo Orosio ha ura mixto de por isso que o periodo da elaboração das raças germânicas teve o nome de terrível noite da Edade Media . em que se desenvolveu rado como a civilisação germânica. naes. — em summa. 'verificada no Direito. e elevando-se por elles á synthese ! consciência da lei. ha o espirito de condemnaexaltando acima da decadência romana os . do governo da sua ironia.

Vejamos qual o estado das raças germânicas antes de entrarem na historia. em seguida confirmada na unidade das linguas na unidade das tradições religiosas (Creuzer. veiu encontrar na civilisação greco-romana.54 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL e como o espirito chegava á posse da liberdade. a consciência elevando-se na philosophia e a liberdade fortalecendo-se na justiça. se vê Ião claro este esforço. As consequências grande restituição de Hegel fo- ram uma revolução completa no critério histórico. Em nenhum período. ou antes de prestarem ás luctas da humanidade os esforços para que estavam aptas. Benfey). baseada nos dogmas religiosos. . N'esse dia acaa revelação divina para ser substituída pela demonstra- ção scientifica. chamou-lhe ex- — tensivamente pelo civilisação nome do elemento que d'esta a universahsou germânica. achou-se (Bopp) . que é a sua essência. Burlit- nouf) e presentida na unidade das tradições e formas terarias (Goethe. No tempo em que Tácito escrevia. assim pela primeira vez se comprehendea o problema das raças para a vida da historia. e a liberdade esmagada pela auctoridade tradicional. os Cimbros e Teutones extinguiam-se. Depois de estudar a civilisação oriental. Póde-se dizer. mas ge- neralisada. o que desde que a teve homem também uma bou posse mais profunda da consciência. historia entrou n'esta alta direcção. como na Edade Media com tantos documentos vivos. e finalmente encon- trando esta conquista parcial no mundo moderno. a humanidade conheceu-se melhor ao encontrar os representantes da sua civilisação e das suas luctas. eram os Suevos os principaes senhores da Germânia. A unidade das raças indo-germanicas. em que a consciência estava oppressa pelo principio divino. tâo perto de nós. viu-se que o elemento germânico era migrações indo-europeas. e produzindo o individualismo. e um dos últimos ramos das um dos que apresentava os caracteres mais aproximados da sua origem.

em que os Frankos são chamados para expulsarem os Godos. Estas ideias religiosas da theologia odinica foram não só um dos moveis que determinaram as migrações das ra- ças germânicas. como os Frisões . com a civilisação que são.IDEIA OBBAL 55 OS Anglos eram apenas conhecidos. d'outro o procurarem terras mais férteis. Os motivos que levaram os bárbaros á migração e invasão. Fácil era dar-se o mesmo syncretismo que se operou nas superstições. foram despresadas pelos novos bárbaros. onde o sentimento e os Burgundios. Foi ao contacto d'este taleceu e não foi logo supplantado pelos Godos que o inva" diam. saltos foram de um lado para evitar os as- do oceano. mas também as tornaram aptas para rece- berem a doutrina mystica do christianismo. vinham oíferecer-se ao colonato romano. além do seu instincto errante e an- tipathico ás cidades. d'onde as raças haviam sido expulsas. que o ramo suevico se forWalhalla. communicaram romana e que se modificaram com ella. outras vezes rem eram á invasão dos Suevos. como os Cimbros. os Lombardos novo. a religião odinica. os Gépidas. Vândalos e Burguinhões. porque estava de posse de um dogma da immortalidade se propagava pelo symbolo sensual do dogma novo. como es Godos para se defenderem contra eram assoldadados pelos romanos como mercenários para combaterem contra os inimigos do império. c depois que se recusaram a seguir o christia- . Taes as relações que os germanos tinham com o Império todas estas raças que antes do século v. outras vezes para se defenderem dos ataques mútuos. a primeira camada sobre a qual assentou a grande invasão. e os Frankos estavam sem força pela desunião. o ramo go- thico. De todas estas raças. que deu vigor ao naturalismo dos Saxões. O Walhalla aproxima-se das descripções da bemaventurança christã. por assim dizer. que comprehende os Jutes. e para se oppôos Hunos . Asgard era o typo do Éden. era o mais forte. como aconteceu nas Galhas.

As longas extorsões e protestavam íiscaes romanas nas Gallias. distinguiam-se tam- bém pelo predomínio dos chefes militares.l-a ella. tidos como bichos medonhos. condemnadas pelos magistrados romanos. quizeram apparentar-se com lui. reconsti- e julgarem-se continuadores do Império. Depois que Theodorico se tornou senhor da as raças germânicas se encontraram Itália em 493. e Ravena ficou a capital .5S HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL nismo. que formavam o principal ramo germânico. que seguiam o colonato. que abraça- ram os incolores mylhos gregos antes de acceitarem o chris- tianismo. as classes obedeciam pela dedicação da fidelidade. a Compagnonage. refugiados nas florestas. re- pellidos pela força armada. assim a mythologia odinica desappareceu da memoria dos nobres. Em frente da civilisação romana as classes aristocráticas quizeram imitar a gran- desa decahida. e crea- ram para se fortalecerem a banda guerreira ou comitatm. Á-goth. e como a parte viva da raça lhe soube resistir e oppôr creação fecunda. desco- nhecidas pelos novos invasores. É esta uma hoje se usa o seu deri- das origens das raças malditas. que tinham ge- neologias aristocráticas inferiores como os AmaU e os Balti . que veiu no decurso da Edade Media a produzir esse órgão de resistência. Theodorico havia sido educado no Baixo Império. em assembleia (bagad). motivaram luctas violentas das classes servas. estes também. é que a civihsação romana. e por muitos séculos conhecidas pelo nome de Ca-goths. Os godos. ficaram como malditas e vivendo sem direitos. foram chamados por despreso Ba- gaudesy do vado pejorativo mesmo modo que ainda higot. forças deletérias que atacavam o seu vigor original. Veja- mos como cada uma a si doestas forças inertes tentou absorver este poderoso elemento.dos imperadores godos. e perseguidas pelo catholicismo por causa das suas velhas tradições. e como dominadoras ante o novo espirito calholico eram duas . que lhes seduziu os sentidos com as exteriorida- .

o juiz pedaneo ou inferior era o vicarhts. mesma extensão. conhecidas com o nome romano de consistia o Vici . que não tinham o espirito aristo- crático dos Amali e Balti. o direito de msbihança vem prescrito como uma foi conquista que se defende com annthemas- Esta lucta provocada pela absorpção dos Vici pelo poder senhorial (jue se prevalecia da jurisdicção do comitatus. Adoptaram também tico a velha litteratiira romana . como confessa Gregório de Tonrs. romano.: IDEIA GERAL 57 des do culto. o ajuntamento das pe- quenas localidades que acendiam ao apellido para mutua defesa se chamava vicinancia. Mas a parte vital da raça não desceu a esta degradação. deixou as cidades pelos cam- As povoações ruraes. tendo constituido condados «A maior parte dos do mesmo nome. que administrava a Vicana justitia. formuladas nas lu- ctas burguezas. se chamava vkariare. Cassiodoro. e quasi sempre. o tributo que pagavam pela sua independência. conservaram a antiga instituição gótica do comitatus. e deixam aos vencidos o uso romanas degradam a mulher (frau) á mesma condição que ella tem nos haréns da Ásia. um . absorvem a si a propriedade. e usam do nome de romanos para designarem aquelles que das leis tem pos. o principio da alliança. dos seus validos. substituindo a emphyteuse pela infeudaçâo. Todos estes sentidos nos apparecem nos documentos consultados por Du Gange eram . e Boecio. á troca dos géneros. em que commercio d'estas povoações. gramma- e copista. um foro privilegiado. a divisão por sobretudo no começo. que se deixara seduzir pela uni- dade romana . Conservam a legis- lação dos códigos romanos. da condados (comitatus) sem . Diz Guerard pagiis. Onde se en- contra este meio de resistir á prepotência dos nobres é n'essas povoações. era o principal ministro de Theodorico. era o vicanale . nas cartas communaes. os Vici que melhor correspondiam ao gé- nio individual germânico.

contra o catholicismo. tina. e que conservavam pela rudesa dos seus caracteres. com a unidade senhorial e com a unidade cacida- que as raças germânicas que não' viviam nas a integridade des.» * Foi contra estes condes que se deram as revoltas das com- munas. para a realisação da propriedade livre ou o alodium. A Vicí. Prospero. foi ou usada concorrentemente com ella. levavam a duas vias diíTerentes. para do direito consuetudi- nário. a substituiu muitas vezes. chegando algumas até ficarem a noite. . mundo Diz: «Roma. constituídas por colónias romanas. viii. Estas povoações ruraes ou vicanas.58 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL abolir a divisão por paizes. para a existência das tradições germânicas e das jurandas. tiveram de sustentar até á elevação do Terceiro Estado. a ser conhecidas entre nós pelo nome de aldeias. tinha de dar-se também S. ainda que pertencendo aos problemas da instituição social é indispensável para conhecer esse gráo de liberdade que foi preciso para a formação das novas lína constituição guas românicas. porque elle tinha a disputar a posse do i Cartulaire de Chartres. e imitador da poesia la* exalta a unidade do catholicismo recebida em Roma. por lites germânicos e por aldhis vieram tam- bém tus. tens pela religião. x p. poeta christão. tornada a cabeça do pela dignidade apostólica. o que já não possues pelas armas. t.» D'esta lucta tholica. N'esta nova forma a cultura inlellectual e de religião. que se moldara sobre a unidade ro- mana. Mas esta lucta entre as classes obreiras e os chefes do comita' que absorviam a propriedade. sede de Pedro. ou importância dos a prohibirem aos nobres o mesmo a entrarem nos seus burgos. escreve Gervinus: «A aristocríicia da christandade dividia-se em dois campos separados. que é o christianismo. Não somente os esforços tentados pelo povo eram reprimidos. os progressos operados na sciencia militar.

as tradições germânicas e romanas.. e com o mes- mo sentido de pátria. era talvez para assim fazerem um syncrelismo ou não crearem incompitibilidades com os sentimentos religiosos. conservou em virtude da sua cons- tituição independente. O Pagm. como vemos pelos Culdècs em Inglaterra. com os elementos theogonicos germânicos. Era uma dupla revolução contra o poder tra o ecclesiastico e con17. com as suas ju- randas leigas. davam logo os mesmos nomes mais fácil. como llespanha finalmente. mas tinha a luctar também pela cul- tura intellectual com a cultura de uma nobresa p. o baixo clero. impoz as suas santificações e lendas locaes contra a admiração dos heroes da antiguidade.» (Introd. lhes com . que para elles eram dependentes dos planos políticos. intelligenle. no Mosarabismo em ensino das Collegiadas o livre Assim como vimos as povoações dos Vici resistirem por essa sua organisação á auctoridade absorvente dos barões. também encontramos nos Pagi riva o as condições para resistir ao canonismo unitário da egreja. não somente li- nha a experimentar a força das armas contra as armas de uma nobresa secular. architectos religiosos. d'onde se de- nome paiz. liturgia mas o povo venceu o latim da com os seus cantos fareis. Um dos motivos da persistência de tradições religiosas con- trarias ao christianismo no Pagus. creou a emancipação das egrejas nacionaes. ven- ceu os pontífex. constantemente absorvido pelo predominaram as abbadias sobre o clero secular. era o encontro dos res- tos da mythologia romana dos antigos colonos. . É sabido que os romanos ao encontrarem nas divindades estrangeiras analogias os seus deuses. como no Pelagianismo em França. dado a toda a terra natal.. á VHist.) poder secular. . oppozeram ao exame das Universidades. tâo importantes. foi As conse- quências d'esta lucta contra a auctoridade ecclçsiastica fo- ram como as dadas contra a aristocracia alto clero. IDEIA GERAL 59 poder a estes dois ramos da aristocracia.

na cidade de Ruão . 115. Além Pagns tinha os seus direitos consuetudinários. e um modo continuo na condemnação do Escreve Ramé. bispo de Ruão em 02(5. Nethon na Península também comparado e confundido com Hercu- Com este processo de assimilação. dos imperado- res do Baixo Império e o christianismo ariano das raças germânicas. e até efíeito o um dedicado a Vénus. paganismiis. Caux era cheio de idolatras. reflectiu-se nas conquistas de Africa e lentamente e de Pagiis. a ApoHo. foi Roman. .) egrejas foi em Berry e nos seus arO uso das imagens nas uma preponderância exercida pelo costume do paganismo. e ao mesmo tempo dogmas uma certa tolerância. de 205. tirado de uma forma da sociedade civil. que os definidos nâo catholicos canonicad'isso o mente podiam conceder. terra de pagãos. Arch. O concilio de Elvira. p. Pa. Havia-os consagrados a Júpiter. S. declara-se contra . o que está sem direitos. seguir o costume e su- perstição do pagão. le- vado por uma apparenle analogia hispânica era les. c com paganismo subsistia ainda pelos princípios do mesmo século redores. o prédio . e nâo se incommo. . A veiu a comprehender sob este nome. e o que não recrutado pagaegreja num. Itália. dava a adoptor as subtilesas dos códigos ronianos nos do- cumentos da Edade Media consultados por ganus. As luctas entre o christianismo catholico. todos aquelles que não abraçavam o catholicismo.» (Ramé. o germano do Pase chegava a gus achava facilidade em conformar a sua crença com a das povoações preexistentes. sobre documentos citados por Lebeuf: «É que certo que ainda no século vii havia infiéis em muitas partes de França.60 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Diz Tácito. paganisare. que Hercules era adorado pelos germanos. encontrou no seu território templos e idolos que destruiu. nome dado rústico ao que não foi baptisado foi pagamis. é o Du Cange. todo e qualquer não baptisado. a Mercúrio.

IDEIA GEEáL 61 este uso. xandre Severo. só se encontra nas cartas mais amigas. de Alfred Maury. diocese. sob Luiz xvi as divisões civis da Gallia sob os romanos. O instincto conservador da egreja éncontra-se também no modo como até á moderna Revolução. deixou prevalecer na parte ecclesiastica as velhas divisões do Pagus. Segui- mos Gerard. é que o introduziram cratianos tóteles. por meio de analo- Na chroiiica dos slavos. mulliplicaram-se cada vez mais pela elevação de paizes . como Ale. a conservou. os gnósticos capo- coUocavam a imagem de Jesus entre Platão e ArisQuando Clóvis se converteu foi preciso usar as ricas esplendor no culto para trazer pelos sentidos ao . vi. cit. de Helmodus.» (Op. com prudência forma que a maior parte das divisões diocesanas rede presentavam ainda lidelissimamente.. na lutroducção ao Cartulario da Abbadia de Chartres: «A antiga divisão territorial da Gallia em Pagi. arciprestado ou o deado. com os seus processos de apropriação analógica. p. a egreja querendo convertel-os. proliibindo que se os que eram iníieis e acreditaram adorem pinturas nas paredes em Christo. adoravam alii um deus chamado Zwanthe Wilh. alfaias e catholicismo as raças germânicas por outro lado foi pre- ciso acceitar os costumes e tradições inveteradas do Pagiis e dar-lhes apenas gias sensíveis. modificando-a tal — A egreja somente até á Revolução. sem excluir o deus chamou-lhe Santo Vito. e a n'este ultimo mais das vezes a uma parte doesse território caso formava de ordinário uma subdivisão diocesana tal como o arcediaconato. Os pagi^ muito mais numerosos que as cidades. «o pagus correspondia algumas vezes ao território de uma cidade ou de uma . um sentido cliristão. e lhe dava o seu nome.) Se- gundo o mesmo Gerard. Innumeros processos d'esla ordem se podem vèr no Ensaio sobre as lendas piedosas lui Edade Media. se lè que a ilha de Rugen era um dos principaes focos do paganismo.

que erigia muitas vezes os seus tribunaes. que as tradições que vieram fundar as litteraturas modernas conservaram nos pagi. que seguiram d^ preferencia o arianismo. que despontou pela primeira vez no tempo de Theodorico. pagelli. ca ao chrislianismo.62 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL a paizes secundários. lombardos.)) Era d'esta elevação de povoações inferiores. os godos. que o clero aproveitou para os seus interesses dando forma escripta. de primeira ordem. N'este pe. deram forma artísti. pagi. celebrava as reconciliações. foram tudo conse- quências da vida independente do 'pagus. crearam uma architectura. As lín- predicas começaram a ser feitas no sermo vidgaris. a manifestação civjl da communa. ríodo de liberdade se creoa o espirito leigo o povo torali nou a egreja o centro dos seus interesses. mais tarde con- demna-das como superstições do paganismo. nome genérico de godos. caracte- risada pela ogivas o symbolo da arte leiga. traduziram na pedra o sentimento. e além d'isso pela decadência das egrejas parochiaes. á tradição que tornava mais sympathica qualquer imagem. como os bourguinhões. Ali impoz ções locaes. ariano as raças que tinham o . Itália e llespanha. qualquer peregrinação. deixaram pelos estados meridionaes da Allemanha. em que os monges tomavam a se si a influencia dos padres seculares. depois . a Legenda. vândalos. os banquetes sobre as sepulturas e as danças em volta d'ellas. França. paixão de Jesus. cumpria os ordalios. as vigílias e representações dramáticas na egreja. guardava as escripturas de contratos. essa architectura. ou gua rústica. O drama da commoveu estes povos crentes pelo que havia de doloroso no lado humano assim. As festas populares do Asno. consultava as sortes dos santos. era que' fazia as suas compras. cujo predomínio foi a creação dos novos diaas santifica- lectos em linguas independentes. pela absorpção das Abbadias. ou dos Tollos. cujo appareci- mento coincide com do século X.

apenas falladas. O Romantismo encerra a con- nexão histórica com os dialectos românicos da Edade Media . designação estabelecida nas discussões Schiller. ne li raison. revela-nos um feliz achado. Mas o que era vivo Iriumpliou . as linguas. a arte e as litteraturas modernas. partidas do inspiradas pelo espirito aristocrático da unidade romana. que era obrigatório na predica. Romance.IDEIA GEKAL G3 alto clero. mesme. chegou a vencer a tendência aristocrática da egreja. Psalmos : cita este trecho de uma traducção ainda «Et pour ceu que nulz ne tient en son parleir ne si rigle certenne. como nas vidraças. criticas entre Goethe e e propagada pelos Schle- gel. che- gou a vencer o despotismo senhorial. e Nas constituições episcopaes. As novas linguas. et . nas illunnnuras. fixando as suas formas grammaticaes no uso escriplo. pela indisciplina das suas formas com relação ao latim. e a força da tradição e do génio popular conservador nos Pagi. foram reduzidas á imagem. tornaram-se litteraturas. a lingua rústica sup- plantou o latim. que commungava também sacerdote. Assim a força da visitihanca dos IVcí. est loingue ro- mance corrumpue qu'a poinne uns entend Taultre. para caracterisar o movimento das litteraturas modernas e dilTerencial-as das litteraturas antigas ou clássicas. e egualmente as parábolas. e na estatuária. a doutrina abstracta do Evangelho. ap- parecem as condemnações mais duras contra as creaçôes do génio popular que invadia a egreja. com o como na egreja do Oriente. cujo valor importa conhe- cher. Du Méril. creando os elementos sobre que se fundaram a sociedade. esses dialectos. a liymnologia da egreja foi versificada sobre a . para o não abandonar. accentuação da poética vulgar a missa chegou a ser dita na linguagem do povo. A facilidade com que se vulgarisou por toda a Europa a designação de Romanlico. eram chamadas pelos Edelestand inédita dos eruditos da Edade Media. desenvolvendo-se em linguas nacio- naes.

apontavam a independência absoluta dos cânones rhetoricos. que revelavam na civilisaçâo do mundo moderno uma classe desconhecida nas sociedades antigas. porque nenhuma ou- como realismo ou ma^mo positivismo. .» em Hespanha mesmo com- no século xv pelo erudito Mar- quez de Santillana. Tal tem sido o trabalho da historia construir perante a critica a moderna para reEdade Media. Os criticos allemaes ao caracterisarem o Romantismo. ou a inspiração como a verdade do tir modo de sen- individual. A i Doe. Sigamol-a. y». P. porque accentua na civilisaçâo moderno entre do as Occidental a relação achada pelo espirito suas Hnguas e as suas litteraturas. e as obras litterarias baseadas sobre as tra- dições nacionaes de cada povo. do geculo xiv.64 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL a poiíine peut on trouveir aujourd'ieu personne qui saiche escrire. anleir nieire. a significação estreita caduco e transitório de byronismo. fa- que o Romantismo adquirisse cto tra palavra. que chama romance aos cantares «sin regia ni cuento. o povo. Rcvuc Coniemporainej t.» A essa espontaneidade de linguagem correspon- dia a espontaneidade de novos sentimentos. É realmente lamentável. ne pronoiícier en une meisme semblant maet * mais escript. e por isso escriptas não para as academias. timento. mas para actuarem no conílicto das transformações sociaes.641. caracter foi et li aultre prehenclido me aullre. de que la gente baja è de servil condicion se alegra. pôde ex- primir este grande phenomeno histórico e ao mesmo tempo as suas vastas relações. A par d'estes processos de erudição. Ap. a Philosophia procurava os princípios fundamentaes da Arte o de todas as creações do sen- marcha d'esta segunda evolução não è menos esplendida do que a dos medievistas. o individualismo do senti- mento. ante eri prononce Este li nns en une guise. tido A palavra Romantismo tem este sencomplexo e profundo.

e só uma ordem de phenomenos que nos levam a um estado de passividade agradável.IDEIA QERÁL 65 B) A CREAÇÃO DA ESTHETICA PELA PHILOSOPHIA METAPHYSIGA Independeiitemenle de todas as Iheorias. quanto é o desen- volvimento que atlingimos dentro da civilisação. que leva á concepção da unidade do universo. sempre a uma synthese. Para Baumgarten. de todas as escolas. ideia positioista da relação connexa. Estes factos sensoriaes. idealista . de descobrlr-lhe a vasta complexidade. ba- automatismo do elemento tradição. a Esthetica foi smsualista em Baura- em Schelling e Hegel. superior partindo uni- camente de relações particulares. e de agrupar os factos mais característicos em um dominio á parte ten. en- vagamente Baumgarten cOmpetia-lhe crear a Esou a Philosophia da Arte. agrupados e submet- tidos á analyse scientifica. ou que correspondem aos sentimentos de que estamos possuidos. . constituem a Esthetica. neralisaçôes. o Bella 5 . Baumgar- mundo novo da treviu-a thetica observação. foi ella que creou a relações — definia a Philosophia a sciencia das causas e das que podem ser concebidas sem intervenção da fé achou por essa concepção justa o fio conductor para essa que — A Esthetica. que nos eleva ás maiores ge. a sua historia é a evolução do pensamento procurando reduzir a processos lógicos os phenomenos da impressionabilidade. e principalmente creados pela actividade intelligencia da no seu momento mais livre. e descobrir o flm racional das crea- ções do sentimento garten. a feição positiva. produzindefinitivo — que ha no campo da observação chega-se ao resultado do-nos impressões tanto mais profundas. A Philosophia sensualista tinha fatalmente de tocar os problemas da sensação. em parte recebidos pela communicação directa com a natureza. subor- dinado a um intuito individual. Sciencia muito moderna. scientitica dada pela renovação seia-se sobre o do fim do nosso século.

A este uma noção modo de vêr. século XIX foi ella que lhes imprimiu uma unidade impo. a noção da unida- de. o hello foi por elle essencialmente analysta e criti- bem observado no campo dos factos bello. como Foi como immobilisar-se. scientifico O desenvolvimento dos problemas da Esthe- tica saiu da renovação metaphysica da primeira metade do . ficar sem pro- gresso. porque opera sobre as . o Bello não está na natureza. que ha uma certa unidade era esta unidade. allia como espirito. a perfeição. O defeito da escola sensualista foi o rebaixar a ideia da perfeição á con- venção arbitraria e consuetudinária da moral. a própria moral. nente. era no campo da generalisação pouco viu. desde o momento que essa concepção da unidade.. o ac- imaginação e uma certa norma tornava-o subjectivo. o Bello é um sentimento. o conhecimento não adquiriu toda a por consequência a perfeição é vaga. o facto da ideia do Bello. 66 HISTOEIA DO ROMANTISMO EM POBTDGAL confuso. A intelligencia é que aproxima as diversas . o elle para um problema cordo entre do senso do-o commum um producto da commum e gosto. Baumgarten outros este : princípios rigorosos na sua theoria. não forma lógica. Pouco deve a Kant co. derivan- d' esta correlação passada no espirito. . e resulta de uma analyse parcial das relações. a em Schil- concepção da Arte. fundada no accordo da sensibilidefinitiva dade e dá rasão. solução mais do que a concilia- ção entre a imaginação e o gosto. o que elle chama res. conformando-a com o bem. Ainda assim este a impbrtancia de haver suscitado modo de vêr tem ier. mas no nosso relações. revelada sentimentalmente pela perfeição. á psychologia e á lógica. em parte concebida sem grandes processos analyticos.» Esta con- era «a perfeição concebida de um modo fusão resulta do fraco conhecimento das relações particula- que não é indispensável para descobrir através d'ellas. que se- paradamente nada exprimiam a descoberta de e d'esta aproximação resulta um principio superior.

na lucta da liberdade contra a fatalidade da natureza e contra a ridade. como o faziam Lessing e Winkelmann. A par de uma corrente positiva. para Fichte. critério histórico. A o instrumento doesta lucta . só se comprehendem.IDEIA GESAI. esse rigor le- vou-o ao assombroso exagero. que vae Fi- realisando o seu poder como creador. (na archeolo- gia e na critica) recebeu a influencia directa da verdade dos . mas admirável. Fichte foi infallibilidade da tradição e da aucto- levado a este verdadeiro fim da Arte. para assimilal-a a si. com a vontade de perceber as civilisações antigas. paixões. único conhecimento de cto provado no acto da consciência. o Eu procura-lhe o seu Arte. chte tratasse accidentalmente d'este problema. na inanidade da abstracção teve fortalecer-se de com esse terrivel rigor lógico . o realisam e o com- municam. na de- terminação do fim da Esthetica como sciencia. o fim da Arte corresponde a esta actividade do Eu. acabou essa sensualista. de todas as civiUsações. a natureza coarcta-lhe a liberdade. era fim racional. 67 faculdades que comprehendem o Bello. as creações falsa ideia que lhe dava como fim a imitação. porque em volta d'elle se estudava as obras de arte da an- tiguidade. A foi elaboração metaphysica. da concentração do universo no Eu. tivesse que o não da escola bem definido á sua intelligencia uma vez determi- nado este fim da Arte. Quando Ficbte succedeu a Kant. Que importa que . levada aos mais extraordinários poQtos de vista. com o amor do antiquário. e por isso um fa- tomado para servir de norma á realidade do universo. as suas ideias mal e a perpetuar as suas aspirações. Na philosophia de Fichte ha um eterno antagonismo entre a natureza e o Eu. Dentro do da Arte de todos os povos. com a audácia da abstracção. quando se descobre através d'ellas o esforço que o homem fez para com os objectos desconnexos da natureza exprimir as suas definidas. é pelos productos da Arte.

é mas pela sua origem. intel- porque d'essas obras concluia-se esta verdade para a ligencia. HISTOEIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL e sem o sentir determinou para sempre esta con- clusão geral. Os artistas mais completos. pelas obras de arte chegaram a realisar o bello. em permanente actualidade.68 factos. mas o seu alcance vê-se nas obras d'arte que escreveu. profunda não pelos seus resultados. aproximando ções. Os nossos fracos órgãos. ou a traduz ou lhe serve de equivalente. na um som corresponde a uma cor um estado moral. não ha em um phenomeno solução de continuidade. isto é. tudo é um desdobramento seriario. mas que é creada pela intelligencia por meio de um contraste directo entre ideia e ideia. uma das for- mas da verdade. falsificado o critério da Foram as organisaçoes artísticas as primeiras que sentiram essa continuidade. que se lança á creação do bello. D'esta philosophia do individualismo saiu umst das formas mais originaes da Arte. acha-se realisado nas obras de João Paulo. é o phenomeno da associação de dominio lógico. do- uma sensibilidade ex- cessiva faz descobrir o lado ou a feição por onde uma dada forma se assemelha ou faz lembrar outra. a dependência do tempo. . ideias. tornado objectivo. O pnncipio positivo. as mais impensadas rela- A organisação do artista caracterisa-se pelo poder de^ achar o maior numero de relações entre ás diversas formas da natureza. a ironia. por isso que uma relação que não existe na natureza. uma certa paisagem a facto authentico. a necessidade de dividir para comprehender é que nos têm natureza. (Fechner). João Paulo Richter formulou em systema este problema isolado. É este o evolução do universo não existe um úniseja fatalmente correlativo ao antece- co momento que não dente e ao consequente. de que nao existe ne- nhum conhecimento fora das relações que nos aproximam mais ou menos da verdade. omniprestente. essa trama inteira da phenomenalidade . os que têm uma.

relações na natureza : Miguel Angelo. que conduz o todo a uma certa unidade. vemos uma perfeita descripção do artista: «Espirito tâo do. que define perpetuamente o tista é artista. os olhos forme os meios que empregam para vèr. o que precisa tel-as. melhor caracterisada. Elle não fundou uma Esthetica..) Depois d'esta ideia de Goethe. elle cria as relações as mais estranhas. No dia em que se serviu dos problemas da Arte para exempfificar praticamente o seu systema philosophico da identidade. Nas palavras de Goethe sobre João Paulo. mas nunca uma sciencia foi mais bem definida. espécie historia. para vêr mais através da variedade a unidade. o esar- tatuário Prcault. 7). lança sobre este munuma maneira verdadeiramente oriental. tiveram o poder de abranger e achar maior numero de tatuário. o facto da creação na . archi tecto. olhares cheios de atrevimento e de veracidade. vamos achar em um pratico. (Hist. elevou-se do modo mais franco e a Philosophia lúcido a este ponto de vista. mais alto e mais claro do que os outros homens. I. mais sublimemente evangelisada. pintor. porque necessitavam de todas as formas palpáveis para lhe exprimirem a comprehensâo (l'essas relações estranhas que alcançavam. é o que pôde ter maiores relações com . de João Paulo na cessos críticos. concorda também com o fim positivo nos seus pro- superior que se deduz do conhecimento d'essas relações mais intimas: objecto ha tEm vêem cada con- uma inexgotavel significação . p. de bem dotado. IDEIA GEBAL 69 maior receptividade. a mesma noção d'esta capacidade: «O o que vò maior. es- poeta. ou Leonardo de Vinci ou Raphael. da Rev. combina as cousas as mais incompatíveis mas de tal sorte que ahi se mistura secretamente um fio moral. » (Notas so- bre o Diwan.» t. Este sentido inexgotavel das cousas.» Quer dizer.. só pôde ser achado pela Arte. foram vastos. quando Schelling fez para a Philoso- phia de Fichte. o mesmo que Fichte fez para de Kant. o mundo exterior. Carlyle.

mesmo no estado de rudeza primitiva dos povos. o Eu é a intelligencia. No seu Systema de Philosophia transcendental. e o subjectivo. ou o Eu. resultante da audácia de aproximar as relações das cousas e de fixar as mais recônditas analogias. se está operar com sempre em permanente descoberta. e elle foi um exemplo pal- encontrar nos phenomenos da Arte uma . é necessário que se dê o accordo entre o objectivo ou a Natureza. e adquiriu a altura e serenidade de um órgão que serve para nos des- cobrir ao sentimento e á intelligencia as múltiplas relações do universo. trata de mostrar que para con- seguir o conhecimento. a Natureza é o facto ou o producto. O syncretismo. Elle próprio obedecia á verdade que alcançava. por isso que não trabalha sobre factos reaes. e quando essa manifestação revelar a lei superior que a produz.70 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Arte perdeu esse caracter de lucta de Ajax. com o syncretismo psycho- logico e natural das épocas primitivas. é um estado de syncretismo produzido voluntariamente. Vejamos como Schelling foi levado a uma ideia tão sublime da Arte existir . é fecundo. as ideias combmam-se. A abstracção transcendental. então a intelligencia identifica-se em uma suprema harmonia. levam a conclusões ori- ginaes e extraordinárias. do mesmo modo que fácil acontece na valores ab- Álgebra. partindo do ponta ser fundada que nenhuma Philosophia pôde sem em um conhecimento completo. caracterisa-se pela invenção. ou da abstração. mas simplesmente aproxima ideias. fixar as suas analogias secretas e dar-nos a consciência da harmonia ou identificação do universo physico e moral. ScheUing corrigiu d'este modo o exagero individualista de Fichte. onde por ser mais stractos. o seu systema da identi- dade precisava de ser contraprovado com pável. relacionam-se. Schelling chegou a identificar o syncretismo philosophico. es- tes dois termos existem separados antes da comprehensão da verdade.

entre a reali- dade e o pensamento. comprehendia-o diante de uma obra d'arte.» (Systetna de Idealismo transcendental. na consciência. na sua forma ainda a mais particular. tal. sendo ao mesmo tempo o documento que con^ firma sempre e sem cessar o que a philosophia não pôde . Ouçamos as suas palavras: «Trata-se de mostrar no subjectivo. é preciso que se considere como d'esta actividade. em vez de a fundar foi em bases solidas. por meio de um mero accidente material de combinações de tintas. a na- uma eterna poesia e a' actividade da intelligencia um sublime poema. como com- a actividade esthetica. Schel- porém. p. e toda a obra de arte para ser um producto O mundo ideal da Arte. levado pelo transporte da abstração sacrificou o seu systema. uma harmonia intima a que chamam Bello.IDEIA OEBAL 71 demonstração pratica e brilhante. tendo e não tendo consciência. dade. o encontro d'estas duas actividades. Não ha actividade prehendida. de codificar-lhe os factos. são productos de uma única e mundo ideal mesma activiesthetico. consegue exprimir o sentimento moral o mais delicado. a palheta de um Raphael. objectivo com vem consciência no mundo O então a ser a poesia primitiva do es- que não tem outra consciência. entre o mundo physico e o mundo moral. O órgão geral da Philosophia e o fecho da abobada de todo o edifício é a Philosophia da Arte. e o dos objectos. sem consciência no mundo real. tureza a a arrebatado aos últimos exa- geros. porque não deu forma scientifica a esta concepção da Esthetica .) E fortalece outra vez o seu systema meta- physico com esta theoria da Arte: «Se a intuição esthetica não é senão a intuição transcendental tornada objectiva. eivei O principio qiiasi incoer-» da identificação entre o infinito e o finito. mundo pirito. reduzindo toda a Philosophia a uma Arte final. é evidente que a Arte é o único e verdadeiro órgão d'esta philosophia. esta actividade. e n'esta justa conciliação da forma com a ideia reahsa ling. 349 a 368.

limitando-se na Antithese. o veiu substituir génio metaphysico. as lín- guas estudaram-se sob o ponto de vista comparativo. 366. sobre postulados gratuitos com todo o rigor dos processos lógicos. isto ó.» (Ib. p. representando o principio creador. as obras de arte da antiguidade appareceram com um sentido recôndito . em vez de ser sobre ima- gens da natureza. logicamente architectados.. que mais tarde levaram ao seguro principio da filiação histórica. a que pertencem. a elevação outra vez á ideia pela realidade com que communicamos. que pelo facto da sua existência tende a realisar-se. essas dades poéticas da raça ariana. o que ha de inconsciente na actividade e na productividade. Após Schelling veiu Hegel corrigir as Iheorias metaphysicas. jque inventou pela abstracção estes vastos systemas. creou-se a pedagogia. expor exteriormente. em que noção da sciencia se fim sagrado da exis- tornou para todas as intelligencias um tência. teve consequências prascientifica profundas na actividade do século xix. o que ha de verdade n'ella não se perde mais. Ás epopeas theogonicas que se tornaram históricas. succederam-se as epopeas metaphysicas. os mythos dos diversos povos foram aproximados nas suas apparentes analogias. e sua identidade primitiva com o que ticas e n'ella ha de consciente. a força no seu estado immanente sob a designação' de ideia.) Esta apo- theose da Arte feita por Schelling. produziu uma em volta de si uma commoção a senti- mental. a imaginação trabalha. que crea- ram no seu primeiro syncretismo os immensos poemas do Mahabharata e do Ramayana.72 mSTOBIA DO EOMANTISMO EM PORTUGAL isto é. Schelling deu este grande impulso cora a sua vaga abstracção. as litteraturas sob o critério das nacionalidades. religiosa. d'este modo dentro das raças germânicas e em uma época facul- de alta civilisação. mystica. porque a perfectibilidade tornou-se o dogma da educação individual. Se Schelling nâo construiu Esthetica. é ao que elle chama a synthese. ou . pela fatalidade do atavismo.

ponto negação da que é a sua pção da ideia antithese. os maiores críticos. até certo sua infmitividade. Esthetica. as galerias. tinha para a pintura esse saber ver innato. exci- tavam o seu amor pelas artes até ao mais curava com um encanto insaciável e sem se cançar.IDEIA GERAL 73 a plenitude do ser pela consciência. por meio d'essa forma. as exposiçijes. os con- certos. quasi inexcedivel. e é por esta evolução fatal que o ser precisa passar para attingir a plena existência na consciência de si mesmo. as Exposições de lodo o género. fortalecer o systema de Hegel. Tinha para a esculplura a capacidade a mais evidente. explica-se gel. porque não é a historia que o leva a uma theo- mas é a theoria que interpreta os factos submet- tendo-os ás suas formulas abstractas. . Pro- de Berlim. Rosenkrantz artísticos O lado positivo da também pela própria biographia de He- escreve a seu respeito: «Os thesouros alto gráo. os Iheatros. embora Hegel vá acomnhando a theoria transcendente com a evolução histórica dos factos ria final. Vejamos a rasão do Hegel corregiu Schelling fortalecendo a especulação critério po- metaphysica com a investigação histórica. não segue o melhodo positivo. Os problemas da Esthetica também vieram Bello. obra prima. como Standenmaier. isto é. Fazia ex- tractos e notas para a historia das Bellas Artes. que o levou á verdade. A Esthetica tem sido considerada o reducto onde melhor se defende a philosophia de Hegel. exteriorisando-se na forma limitada e palpável . precisa sair do seu estado de immanencia e communicar-se. Este livro. foi essa realidade.. que elle . Na poesia era em toda ella familiar. insensivelmente e sem o querer. a ideia do para existir completamente. Amava apaixonadamente a musica. que torna apreciável a sua Esthetica. porém. ou Tierscb jiilgam-na fa- uma cto.. essa observação immediata so- bre as creaçôes dos diversos povos. é que nos elevamos outra vez á conce- do Bello. abandonou o seu raethodo pelo sitivista.

que separadamente cooperaram para levantar o . systematisada por Augusto Comte. a reito constituido. chegar a tiga e da sem mesmo terem rigor lógico. que se impunha fatalmente pelo seu formuhsmo dogmático.se na Linguistica e na Philologia a estéril Moral. segundo scientifico o processo ou philosophico. com os progressos que se vão . que a Philosophia já não pôde ser uma concepção individual e dogmática ella é um resultado geral. e pretender uma verdade ? O velho edifício da philosophia an- Edade Media. a um Bichat. a Politica do empirismo. Desde Hume que as ideias metaphysicas haviam levado um terrivel golpe . o encadeamento da Economia politica. sem realidade. Cada uma d'estas nivel intellectual do século sciencias teve os seus obreiros especiaes. a gasta Theodicea tornou-se a Sciencia das Religiões tica . a um Bopp e Grimm. agruparam-se como phenosciencia superior. transformou. cuja uma renovação synthese se chama o positi- vismo. foi expellido do mesmo modo que o que é organisado rereno- pelle o corpo extranho. Já vimos qual o logar que a Esthetica occupa nos systemas metaphysicos . a Socio- menos dynamicos de uma nova logia . a todos os que reconcentraram as suas forças na comprehensão exacta dos phenomenos. a um Creuzer. o Di- comparada Historia. a Gramma- geral. A organisação le- a direcção transcenden- das escolas allemães attraia-o para as syntheses a priori. durante essa elaboração intellectual deu-se scientifica. a Arte.74 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL procurava constantemente aperfeiçoar. a Litteratura. se deve a renovação scientifica. veia var-se na atmosphera experimental da Biologia. . pelas suas cathegorias sacramentaes. onde se harmonisam todas as concepções parciaes da intelligencia.» vava-o para o campo experimental tal . A velha Psychologia. Pelos elementos constitutivos d'essa renovação se ve claramente. a Lógica tornou-se inductiva ou deductiva. i \ . como operar sobre vagos termos.

politica produzida pela Revolu- ção franceza se reflectiu entre todas as nações. o nome de Clássico. i. esse 1 Na revisla de philosophia O PositivismOy n. o arsenal dos cânones académicos recebeu o manifestação do sentimento na arte. em ironias auctoritarias. esboçamos um estado sobre a Constituição da Esthetica postíita. vol. e como as na sua phase romântica. ha muito mais segurança de ched'ella quanto fôr possí- C) A REACÇÃO NACIONAL ENTRE OS POVOS MODERNOS a originalidade das littera^uras Assim como se conhece pelo fundo de tradições populares em que se baseam.» 6. devem como a grande commoção moral e litteraturas. Falta agora vèr. do mesmo modo moral ou se contraprova a sua vitalidade pela aspiração politica de que ellas são a expressão. Pelo conhe- cimento erudito da Edade Media descobriu-se quaes eram as fontes das litteraturas modernas . dentro do meio em que vive.IDEIA GEBAL 75 realisando. e a livre nome de Romântico. Sem os perigos da paixão egoista os da theoria individual. e dirigindo gar á verdade. em que se procurava a verdade no typo e espontaneidade da natureza. Foi n'este momento de enthusiasmo. em que desenvolvemos o novo crilelio. . dava-se en- tre todos os povos esse estado moral da aspiração. * processos lógicos pela evolução histórica. se tornaram a expres- são viva da nova aspiração á liberdade. é mente um methodo uma sem uma conclusão que qualquer ser génio pôde tirar. de se aproximar vel. Estabeleceu-se a lucta de preceitos e preconceitos de escola . se vè é que o Positivismo não é sosynthese permanente. Em quanto se debatiam em estéreis objecções. pela especulação phi- losophica chegou-se a formular o critério por onde ae julgar as creaçôes do sentimento. que as Litteraturas moder- nas proscreveram a imitação da antiguidade. Por isto . em acrobatismos phraseurgicos.

Sactmtala. queria realisar o sonho de Carlos constituiu a unidade europea sobre a incoherencia do Magno quando mundo do bárbaro. bem da sua pes- mas a corrente de liberdade que ella insuflara na in- telligencia tica moderna não foi extincta. e a Buí' chenschajf. repassados do anceio pela liberdade e d'essa vaga melancholia do génio vem descobrir ao mundo um novo ideal de poesia Goethe apaixona-se por esse novo lyrismo. O interesse que a cri- impassível de Kant mostrava pela Revolução. Foi n'esta corrente que se temperou o génio de gaelicos Schiller . Grimm descobria õ fragmento da Cantilena de Hildebrand e Hadebrand. era para os artistas uma paixão vehemente que os inspirava. Na Allemanha. leão tempestuava na Europa No entanto Napo- com o capricho das suas in- vasões . uma harmonia da mesma origem. . como a Tu- gendbund. e da con- tinuidade da vida. e influe no lyrismo inglez da escola dos lakistas. A marcha da Revolução franceza foi desviada por Napoleão do seu destino a soa . que trouxe as litteraturas á sua manifestação de verdade. . e que em todas as creaçôes humanas existe uma unidade superior. A discussão da authenticidade dos poemas pu- blicados por Mac-Pherson leva a descobrir o problema da concepção da poesia nacional. do bardo Ossian. da qual Fichte um dos fundadores. a Re- volução reconheceu-o mandando-lhe o diploma de cidadão francez. da sohdariedade das civilisações. os poetas e os homens de sciencia. dá a conhecer que para attingir-se o bello não era preciso moldar as paixões pelas receitas de Quintiliano . e Napoleão prefere essas narrativas ossianicas ás epopêas de Homero.76 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL anceio pela liberdade. A Allemanha para resistir ás arbitrariedades prepotente organisou-se em sociedades foi secretas. traduzido por Schlegel. A revelação do drama indiano de Kali- dasa. Neste tempo os poemas céltico. que levava ao estudo da poesia nacional germânica. ás quaes pertenciam os estudantes.

que vieram mostrar á consciência do nosso tempo como a unidade de politica de um culo povo e a sua liberdade se funda e renova sobre o vin- commum uma tradição. a Grécia. que organisaram a chamada com o Gm de assegurarem á Europa a estabilidade pertur- bada não pelos exércitos e guerras napoleónicas. fundou a associação secreta Hetai» d'onde prorompeu a insurreição da Grécia. aproveitam-se os velhos caducos. Byron. O poeta Righas. os diplomatas oppunham-se á heróica regeneração da Grécia. luctava contra a Turquia esse jugo de séculos. Em quanto a Santa Alliança talhava a Europa conforme ura apanágio do cesarismo que renascia. per- seguem-se as sociedades secretas. porque viam instincto reaccionário n'este facto com o seu assombroso uma das ca- beças da hydra revolucionaria.IDEIA GERAL 77 Era n'esta crise violenta em que se luctava pela indepen- dência da pátria. mas pelas ideias da Revolução francezal As Restaurações forçaram o tempo para imporem estupidamente o Statu quo do antigo regimen que passara . leão succedeu a Aos desvarios audaciosos de Naporeacção tenebrosa e não menos funesta dos Santa Alliança. que deixou a voluptuosidade da vida italiana para ir offerecer o seu sangue pela indepen- . Mas no congresso da Santa Alliança. Ali se viu uma poesia popular levantar o espirito nacional. dinário. e dar forças para a resistência tantas vezes frustrada. Fauriel colligiu os Cantos populares da Grécia moderna. qiie o génio nacional facilmente se manifestava pela litteratura. o antigo acceita-se como convenção. diplomatas. abandonada por todas as potencias para sacudir de si politicas. espirito Bem haja esse génio extraorlitteraturas e que synthetisa a nova feição das do moderno. e considera-se como conspirador contra a pátria todo aquelle que não exprimir os seus sentimentos segundo as obras primas da Grécia. feclia-se a porta para os cargos públicos a toda a mocidade revolucionaria. como na AUemanha reiay fizera Fichte.

O Globo inicia o publico no conhecimento das sessões da Academia das Sciencias. e a sua morte deu dinário aos cantos. Becombate Restauração ranger a do absolutismo faminto e ligar os seus cantos ás aspirações obcecado em canções cheias de malicia. liberta do antigo regimen. chega garantia da di- a pedir a banição dos 'românticos como uma segurança publica. O exemplo em de Byron impressionou todos os novos talentos. No órgão jornalístico o Globo^ sob a recção severa do radical Dubois. De 1824 a 1830 o Globo exerce uma . Na lucta do Romantismo. cuja fundação se deveu em parte a Thiers. actividade intellectual que influe sobr^ o espirito publico antes da coroação de Carlos x e quando o partido liberal se desorientava com a invasão da Hespanha. estabelece os novos princípios de critica. e o titulo a Pierre Leroux. varios reaccionários e attentados contra os povos feitos pela Santa Alliança. apparece o primeiro numero do jornal. a mocidade que se affirma oriunda dos princípios da Revolução franceza. intentava alliar-lhe a liberdade da imprensa ingleza e o espirito scientiíico allemão. e Victor Hugo ele- va-se á phas€ byroniana. O . um como em Alfred Musset. um relevo extraor- que tanto protestara contra os desliberal tornou-se byroniano. em França o mesmo facto que na Itália Baour-Lormiant. Por efifeito d'essa suppressão a joven França congrega-se n'esse centro de elaboração mental. O Romantismo que os dedassés da Restauração imitaram na forma de scepticismo affectado. na critica theatral. na Philologia e na Sciencia das Religiões afíirmando a superioridade politica da França . esforço da Grécia para recuperar a sua independência o desenvolvimento do Romantismo liberal influiu para o poeta enten- deu do seu tempo. como que em substituição das Tablettes universelles^ supprimidas pelo ministro reaccionário Villèlle. Gui- . e Goethe acompanha teresse com in- esse movimento disciplinado. dá-se . na archeologia da Edade Media.78 HISTORIA DO ROMANTISMO BM PORTUGAL dencia da Grécia.

mand Garrei. Vitet. com elles Damiron. que a Revolução que elles atacavam dera-se menos nas ruas do aos catholicos. ella constantemente desconhecia e punha todo o seu orgulho em desconhecer a realidade e a profundidade da Revolução nas ideias. e que os nossos constantes esforços tinham por fim caracterizar e esclarecer como o mais forte obstáculo aos planos da Restaoracão e a mais forte objecção ás suas doutrinas porque. apesar da sagacidade dos seus illustres defensoréâ. taes como Charles de Rómusat. Passe et Present. . Pa. J.' IDEIA GEBAL 79i zot. coUaborando tin. t. Stapfer. 408. o primeiro. os normalistas Sainte Beuve. Tal era o facto que nós considerávamos sob todos os aspectos. facto poderoso que continha todos os outros. Ampere.» Ch. Esta geração forte. á frente dos quaes estava Dubois. Farcy. e ainda Ar. Ella queria tudo altribair âs paixões individuaes. Villemain e Cousin.que passara da phase emanudica para o satã* em Victor Hugo. e no res- tabelecimento do critério politico. Remusat. filhos dos homens da Republica e do Império. e d'aqúi também a vaidade dos seiís esforços. * lecer o obscurantismo medieval com uma grande altura moral as leis psychologicas e históricas pelas quaes os dogmas se extinguem. p. Era preciso substituir a macaquea- 1 «o estado geral dos espíritos Doesta época era o assumpto iDexgotavel dos nossos artigos. Trognon. D'aqui a esperança insensata de tudo reparar a seu modo. e Theodoro Jouííroy. ás illusões de um momento e representar como um mal passageiro uma renovação social. ou- sava dizer aos políticos reaccionários da Restauração. que pretendiam restabeexplicava-lhes que nas ideias. . desviaram por algum tempo a elaboração litteraria da direcção e solução scientifica que lhe imprimira o Globo. Agostinho Thierry e Lerminier o segundo grupo * era formado por mancebos. pela sua poderosa iniciativa. ii. Merimée. mas contribuíam n'essa com communicaçôes penhavam três grupos se emempresa de renovação mental. As transformações do Ro- nismo byroniano mantismo. era o dos universatarios. J. pela bocca de JouíTroy. centro das nossas investigações. . não pertenciam á redacção do Globo. pela critica phi- losophica. Duvergier de Hauranne e Duchatel o terceiro grupo era formado pela mocidade mais lúcida das escolas. .

seguiu-se o profundo estudo encetado pelos philologos allemães e francezes sobre as poesias lyricas dos co. o segunda pela Revolução franceza. cuja confusão primitiva se ob- serva ainda na Rússia . pela sciencia das origens. que os erros phantasticos E no meio de alguns escriptores embaraçam. terminava com a dissolução do regimen cathohco-feudal. que o nosso tempo tem reaUsado pela philologia e pela historia reza se repetem . também uma das causas d'esta transfor- mação litteraria. 80 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL ção da Edade Media.. Madame de Staèl. não temos a receiar os inconvenientes que parecem resultar d'esta tendência. Mackintosh. um novo progresso. Edade Media. chegou á formula. a separação do poder tem- poral do poder espiritual. : «Nem a arte. caracterisa assim o movimento novo: «A Litteratura inspira por toda a pjyj-te d'esta época. a Edade Media conside- rada como tuições uma evolução histórica d'onde provieram as insti. As questões vagas de escola foram-se abandonando diante da renovação scientifica a rehabilitação histórica da Edade Media. É. representava modernas com relação á civiUsaçao greco-romana. do norte da Çrança. nem a natu- o que importa no silencio actual do bom senso. desde pouco. riosidade geral. Muitas aífeição aos uma cuuma nova com nações regressaram interesse particular e um monumentos do génio dos seus antepassados» das circumstancias. que pertence a esta época de lucta liberal na politica e na litteratura.» Pela systematisaçâo da Sofoi por Augusto Comte. e Trovadores da Provença e do occidente români- sobre as Canções de Gesta. . a da primeiro atacado na época do Protestantismo. com relação á sociedade moderna. Existiam os ele- mentos para esta dissolução do Romantismo. Além d'esta concepção lúcida philosophia positiva. cuja importância era ainda ignorada. determinada pelo foi Romantismo. é desviar o despreso que se pretende lançar sobre as concepções da ciologia. que consistia em um guarda roupa cavalheiresco.

persegui- i*am as intelligencias superiores. e intentavam servir de expressão a um novo Ideal. Mickievicz é internado espíritos ingénuos pelo governo russo. mas a Revolução estava nas consciências. e a litteratura torna-se testo e umi linguagem de pro- de revivescência nacional. Simoo. aspirando o advento da liber- dade politica no seu paiz. todos os paizes da Europa appareceram relacionados os dois movimentos tólidos . que. 43. e pelas suas composições lyricas soíTriam os desterros e os cárceres.IDEIA GEBAL 81 sobretudo. se a Revolução franceza é o ponto culminante da dissolução do regimen catholico-feudal. .» * A transformação do Romantismo provinha de uma transformação social em que ellas . abraçavam a nova poesia. Acentuemos rapidamente esse duplo mo- vimento antes de nos lixarmos ' em Portugal. na época em tomaram um novo impulso porque é isto que faz comprehender os caracteres nacionaes.) 6 . emfim o byronianismo lançava os na 1 Essais fhilosophiques. politica. reuniam-se em sociedades secre- tas. (trad. e com as qualidades originaes que distinguem os primeiros esforços litterarios de cada uma. É por isso que as Litteraturas procuravam outras formas. p. quizeram restabelecer as formas exteriores do antigo regimen. os cantos dos trovadores nas luctas da França muni- vinha agora proclamar o grito das nacionalidades. um modo com ulil por onde se familiarisam os sécu- los esclarecidos as bellezas e graças próprias a cada lingua. os esforços es- da Restauração e da Santa Alliança nada poderam con- tra a aspiração moderna . esmagaram os povos. Zaleski inspira-se nos cantos populares. L. acordando-as para a independência Em volta de Adam Mickievicz reunem-se os estudantes da Lithuania e da Ukrania. como cipal. como-Puchkine. roniana os jovens talentos. Os paizes escravisados. ISa Rússia o Romantismo manifestou-se pela exaltação by. como a Polónia ou a Finlândia.

e guerrilheiro junto de Bem. Mackinlosh resume em uma cara- cteristica fundamental o espirito da litteratura italiana: Alíieri. 81. como Mickievicz e o Conde Krasinski. uma forma épica do génio tu- em 1819 Yon Schrõters publica as Finische Runen. revela-se esplendidamente no hallucinado Alexandre arrasta apoz si poeta que o povo. (Trad. e Rosseti é banido por ter tomado parte na revolta de Nápoles. Símoo). que conservam na geração nova o espirito de resistência pela independência nacional. p. o Romantismo acordava o sentimento separatista da Irlanda o da Escossia em Tho- maz Moore e nos quadros novellescos de Walter Scott. os novos escripto- são encarcerados. tanto abandonado pelos seus compatrio- mais faliam d'elle com enlevo.82 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL revolta pela independência da pátria e no patíbulo. L. desenvolve-se a paixão pelas origens nacionaes. fluem longe da pátria com os seus cantos. que O mesmo facto psychologico se repete organisa o Kalevala. Um movimento nacional com que apparecesse essa extra- ordinária epopêa do Kalevala. Berchet refu- gia-se na Grécia.» * Na lucta do Ro- 1 Ensaios philosophicos. vivendo nas lendas da aspiração nacional depois de ter desappareci- do em uma batalha. espirito nacional fortalece-se na própria tradição em 1806 a Finlândia deixa de pertencer fez á Suécia para ser submettida por conquista ao Império russo. Pellico e Maroncelli eloquente. . Até na Finlândia o . paiz é Quanto mais esse tas. encontra na litteratura romântica o seu protesto res. Lõnnrot. Na Inglaterra. aDesde Pelrarcha a|^ lia o sentimento nacional da Itá- parece ter-se refugiado no coração dos seus escriptores. A Itália tyrannisada pela Áustria. e que Lenormant examina como raniano. na Hungria quando tentou sacudir o jugo austríaco. o génio magyar Petõfi. tas Os poein- no desterro. paixão continuada em 1828 pelo Dr. que Jacob Grimm considerava comparável ás epopêas indianas pela riqueza dos mythos.

para triumpharem dos seus adversários. foi como * diz Salíi: «Acciísado de ex- citar os seus leitores á independência politica por meio da independência litteraria. que atacava os homens superiores para matar com elles o fermento do liberalismo. depois de ter realisado a sua aspiração de séculos ou a unidade nacional. as suas comedias de capa e espada. ambos porém com um profundo sentimento activi- nacional. A Ilespanha não podia perder a feição nacional da sua litteratura sem solTior primeiro uma decadência orgânica infligida pela monarchia. A Itália. como o caracterisa Gervinus. as suas redondilhas espontâneas. e o esquecimento das suas origens imposto pelo obscurantismo catholico. Para que a Ilespanha tornasse a achar os seus Ro- manceiros. as suas novellas picarescas. os Clássicos. e de satanismo em Leopardi. que põe esse povo ao lado da Allemanha e da Inglaterra venção e em in- em trabalho. 199. e de em demência. durante o domínio do partido apostólico. que condemnava tudo quanto provinha do génio árabe ou do arianismo germânico.IDEIA GEBAL 83 mantismo. 1820 a 1823.» O Romantismo italiano apresenta as suas phases distin- ctas de christianismo mystico em Manzoni. o Romantismo dissolveu-se em um regimen mental. deu-se essa pressão nas duas terríveis épocas de 1814 a 18:20. ii. serviram-se do despotismo auslriaco. completa a sua dade com uma pasmosa elaboração scientifica e philosophica. O Romantismo em 1 Ilespanha devia de ser mais uma direc- Resume de V lUsloire de la Litterature tía/icn«. a plêiada romântica proclamava os novos princípios íitlerarios no ConciUalove. Este jornal. foi pre- ciso que as perseguições politicas do absolutismo lançassem nos cárceres e na emigração esses escriptores que até então imitavam os modelos latinos e o pseudo-classicismo sob o governo da camarilha francez. .

em que com o le- os escriptores se viam separados da communicaçâo povo. Depois da invasão da Hespanha pelo exercito francez. a é que mocidade. que o despotismo descobriu. O movimento nalit- cional contra a invasão napoleonica não achou ecco na teratura . e é atacar os seus velhos inimigos. a mocidade. prendendo os jovens poetas Es- cossura e Espronceda. se sentiu inspi. Só depois que a nação tomou conta da sua soberania na Revolução de 1820. Em Portugal vemos repetir-se com os mesmos caracte- res o primeiro impulso do Romantismo. vigorava a antiga semsaboria das arcádias. mas a ausência da pátria. não se elevando acima do Romantismo religioso. estava morta pela censura regia e clerical. que veiu comprometter a causa da liberdade com a falsa miragem de que a Hespa- nha fora grande na época do poder absoluto da monarchia e do catholicismo. havia perto de oito mil proscriptos. os desalentos pessoaes nos prolongados desterros.84 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL ção do que uma forma. que seguia os novos princípios litterarios foi espontaneamente ?i arrastada para a independência politica. Os que viam mais longe caíam no des- como Espronceda. o mais elevado representante do Romantismo liberal da phase byroniana. A censura dramática estava a cargo do boçal padre litteraria Carrillo. varam-os para a imitação das novas formas. convertendo Aca- demia dei Mirto na sociedade secreta dos Numantinos. a monarchia e n'este mysticismo mental que o génio hespanhol se con- sem o clericalismo com o critério scientifico. mandado por Ghateaubriand. não menos faccioso que o padre José Agostinho. e foi sobre um solo ex- tranho que desabrochou a nova litteratura . os emigrados preferiram quasi todos a Inglaterra. alento. á frente da qual surgiu Garrett. de philosophia no humanitarismo krausista. mesmo tempo exercia a censura O Romantismo religioso propagou-se em forma serva. rada pela liberdade o despotismo da Santa Alliança apoia . que pelo em Portugal.

Não é uma coincidência casual o facto de Edade serem os primeiros iniciadores do Romantismo em Portugal esses dois homens. . Miguel 1826 proclamasse absoluto. que na Harpa do Crente soube inspirar-se das luctas pela liberdade nacional. o cacete. todas as phases da litteratura portu- gueza. vê-se que d'esse fundo ella nunca tirou os elementos de creação fecundo e sempre collectivo das tradivez de apresentar a originalidade que ções nacionaes. e os homens que adheriram ás bases da constituição sof- frem as masmorras ou refugiam-se em França e principal- mente em Inglaterra. Depois que o par- de Ilespanha. § 4. no século xv imitámos o lyrisnio castelhano. só teve em mira imitar as grandes correntes litterarias dos ou- tros povos da Europa. A palavra imitação resume a syn- these histórica da litteratura portugueza. perseguindo os liberaes com as forcas. no secuioxyi o lyrisnao itahano. tico no século xviii de Boiieau. do século xn a XIV imitámos o lyrismo provençal. de 1829 a 1831 a esta segunda corrente pertence Alexandre Herculano. e que conheceu quanto era necessário fundar a Historia de Portugal sobre o estudo das instituições sociaes da nossa Media. — CorrCUdo vital. Em resulta da elaboração artística das próprias tradições. que pela ideia politica da constituição liberal tiveram de procurar asylo no estrangeiro. João vi.IDEIA GERAL 8Õ liberal a traição de D. Quando no século xix viesse a prevalecer . começou outra emigração. e o conlisco. do Roman- que Almeida Garrett observou tido apostólico a transformação tismo e achou a orientação do seu génio. Foi na emigração de 1823 e 1824. no imitámos o regimen poé- século XVII as aberrações castelhanas e italianas de Gongoristas e Marinistas. fez tucional de com que D. PORQUE CHEGOU O ROMANTISMO TAO TARDE A POR- TUGAL. qne rasga a Carta em 1823. servindo-se da furiosa Carlota rasgasse a Carta constie se Joaquina.

mas ao procu- rarem este caracter. desconheceram o valor da tradição. no século xvii espremem-se estes velhos recursos e alarga-se o systema de empréstimo lia-se o . é o que se intellcctual. no século xv exploramos a riqueza das descobertas de Africa e Açores. litteraturas arte. foram levados pelo que tinham ouvido discutir. no século xix recorremos aos bens dos frades. que foram sempre provisórias : do século xii xiv Portugal tira os seus recursos da reconquista sobre colonial os árabes. Ve-se e nunca se tornaram orgânicas isto nas a condições económicas doesta nação. e exploramos o colono que regressa rico do Rrazil. Nenhum dos elementos que constituía esta nação podia ser levada . no século xvi explora-se a índia e o Rrazil e expoliâmos os capitães do Ju- deu. porque estas foram a expressão de vigorosas nacionalidades. nunca os escriptores receberam inspiração das tradições nacionaes. por plicar: um motivo muito fácil de ex- porque não tivemos nacionalidade. que se nâo revelava pela historia. dramas e poemas. em Portugal havíamos também imitar o Romantismo.86 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAli na Europa a nova comprehensão das litteraturas sob o seu aspecto nacional. com a rica litteratura com a forte litteratura ingleza. e quer na ordem quer na ordem económica nada levava a desEsta noção estava espirito publico. sobre que fizeram romances. e seria pertar em Portugal essa consciência. Em Portugal. Essa consciência intima que dência. Comprehende-se que o Romantismo exemplificasse a sua nova concepção das obras de hespanhola. e inventaram tradições a capricho. a compor obras de litteratura portugueza com caracter de nacionalidade. no século xviii expo- opulento jesuita e fazem-se confiscações a suppos- tos conspiradores. um povo tem da sua indepen- chama nacionalidade. De facto os homens que primeiro entre nós proclamaram as ideias do Romantismo. mui lo longe do um prodígio achal-a formulada synthetícamente na nossa litteratura.

. 2 F. n. a propósito do casamento de Luiz xv. nunca pôde libertar a Academia d'esse estado de immobilidade. a realesa e o próprio povo. Como é que estes sábios podiam des- cer a investigar essa frivola cousa chamada espirito nacio- nal? Pelo seu lado a nobresa deu a sua prova de altura. p. se discutiam os differentes projectos. a aristocracia. e o faria de uma £popêa. poderem os seus sócios «demoque só dista um palmo da outra em que até aqui eram admittidos.» 4. Porto. que apesar de todos os seus esforços. D'esta futilidade fez a Academia o assumpto de uma medalha. disputando santo fervor quaes se agarrariam á lança para pucharem o d'esta ^monarcha até Lisboa 1 Elles comprehenderam o valor traição nos destinos d'este povo. se não se achasse azurrar — empenhada em sair da palavra — (o braire da lingua franceza) na qual desde lon- gos annos amuou. Apontamentoa para a Historia contemporânea. desatrellaram do carro os cavallos.IDEIA GERAL 8t a encontrar na sua actividade esse recôndito caracter de nacionalidade. 29. tentando compor o Diccionario clássico da lingua!» * Este artigo tem o grande valor de ser refe- rendado por Alexandre Herculano. porque alguns vieram re- jclamar e disputar na imprensa periódica a posse d'essa extraordinária honra. escrevia Mathieu quando du 1 Repositório litterario. consultemos os sábios. 1831. Martin3 de Carvalho. Os sábios occupavam-se creto de 31 em inventar medalhas para eter- nisarem o insoHtum dccus com que Sciencias a prerogativa de rar-se Dom Miguel por de- de julho de 1828 concedera á Academia das em uma sala. ^ A realesa achava-se desprestigiada entre as potencias es- trangeiras. e envergaram os tirantes. quando enthusiaslicamente pelo acto heróico em que Dom com João VI rasgou a Constituição de 1822.

» N'es'a : mesma «Nenhuns mendigos egualain os de Portugal. allude a Beckford pela antonomásia da sua obra originalissima o Califa de Vaihek. refugiando-se no Brazil. sem distribuir por elles esmolas consideraves. 173. M.» real esse (iii. ulceras. algumas centenas de mandriões bem disposaprendem a manejar as muletas em logar do exercício da espingarda. porque a Revolução de 1820. é uma mãe muito indulgente para estes robuse nunca entra na carruagem tos filhos da priguiça. O povo recebe o seu rei com lagrimas. pela abundâncarta accrescenta Beckford cia das suas ulceras. João vi: «Legiões de mendigos desembocavam de todos os bairros.88 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Marais : «On ne veut pas Finfant de Portugal. . dizendo que era tempo de voltar a Portugal. e em- plastros com a mais repellente perfeição. em que a expedição Dom manda impedir do Barão de Humboldt na America. para se postarem ás portas do palácio e esperarem a saida da rainha. ethnologicas e geographicas o intuito de encobrirem ideias novas que iam perturbar a tranquillidade dos seus fieis vassallos.. mal entendida. e a arte de fabricar chagas. e pela preseverança vencivel. parceque le père est un peu fou. fieis vassallos. O rei achava-se tão vinculado aos seus que no momento em que os exércitos de Napoleão caminhavam sobre Portugal. attribuindo ás suas investigações botânicas.) É emanado da João vi chancella documento de vergonha scientifica nacional. pela profusão dos bichos.. depois que os seus conselheiros o acordaram da apathia habitual. onde continuou os disvellos do governo paternal. a Carta regia de 2 de junho de 1800.» Byron ao visitar Portugal. por- que S. abandonou o seu povo ás arbitrariedades de Junot e depois ás prepotências de Beresford. pela força dos seus pulmões. Graças á caridade tos. pela variein- dade e arranjo de seus farrapos. O povo era ainda o mesmo que Lord Beckford retratara na menoridade de D.

cant. p. commina-se a excommunhão maior aos quo lerem o Retrato í/s Vénus. e fi- cavam sem de . N'estas condições. 28 de Janeiro de 1824. . o estrangeiro era consihostis Iderado como o jvamos incommunicaveis com Portugal em do mundo antigo - . ter a ideia censura. de . Garrett enij^ál ivado aos Iribunaos por íor osciipto o Urtraío dr Vcnus. Portugal realisava na Europa o ideal de fundar uma lit- teraíura para servir de expressão ao caracter nacional.cs (k* Liiiinciín pur collaboom uma gazeta que era previamente appiovada pela do Japão ou da China. que bellezas Lisboa ostenta! !a sua imagem i reílecte-se trémula n'este nobre rio que os poetas mentirosos faziam correr sobre areias de ouro. escrevia José : Eslevam. xiv a xxxiii. erra-se tristemente en- uma multidão de objectos peniveis á vista do estran- geiro: choças e palácios são egualmente immundos. e por toda a parte os habitantes patinham na lama. est.. esta- a Europa. » * Herculano traduziu nas Jjcndas Narrativas guns d'esles versos. se- 1 C7íiíd ílarold. JMas se se penetra no interior d'esta cidade. se alterar nos seus andrajos e ascorosidaal- . com o terror das /ideias liheraes. do Cnnservalorio. atacasse-os a lepra do Egyplo. IDEIA GERAL 89 uojlhjld Harold Byron retrata a emoção que lhe produziu /Lisboa: «Ao primeiro relance. um altentado contra a moral publica. adoptando-os na sua verdade. uma fraquesa imperdoável. a confiança da inferioridade das nossas coisas. i. a crença no poder estrangeiro um insulto ao nosso pundonor. e existia a censura prévia foi le- ípara toda e qualquer publicação.» 3 Mem. o emprego dos capitães fora do sólio pátrio. 21. Ma Pastoral do Patriarcha de Lisboa. 2 Do grande iniciador induílrinl José Ferreira Pinto Ilaslo.. que vista de longe parece tre uma habitação celeste. e ^ rar em 1827 soflVcii (pialro intv. Os livros francezes. iuglezes ou allemães jsó entravam como contrabando. ninguém se preoccupa com a limpesa da sua roupa ou das camisas. Antes Ida primeira emigração em 1823. no seu Elogio histórico «As viagens pareceram-Ihe sempre ingratidão ao paiz. Seja de que gerarchia for.

emprega- .90 ria realisar HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL o impossível. e ao mesmo tempo. defníitivamente a causa con- stitucional mas as ambições polilicas fizeram com que os melhores espíritos tratassem das questões de litteratura accídentylmente. Para que o Romantismo fosse comprehendido e se radicasse naturalmente em Portugal. coincidindo com a reacção em todos os povos. o velho habito portuguez preferiu a es- tabilidade e acceitou o Romantismo como mais um modelo para exercer a sua imitação. Emquanto ás doutrinas litterarias. TUGAL. em que triumphou . O estado em que se achava a sciencia da historia era quasí deplorável cas e além de Chronícas monástimemorias académicas. pela das verdadeiras ideias da Arte e da nacional dada critica litteraria creação philosophica da Esthetica. já pelo espirito da Revo- lução franceza. quadro completo da Historia de Portugal. em Portugal tinha de ser cúmplice esta força se revelava social. Francisco Freire de Carvalho glosava Quintiliano em quanto á renascença do espiformar um . nunca ninguém se lembrara de . era preciso que a reno- vação artística encontrasse algum d'estes elementos em que lit- se baseasse. fabricavam-se lendas phantasíosas. teraria só Os trabalhos de organisação scientifica e começaram depois de terminado o cerco do Porto em 1833. entrar ção. reconhece-se que esta uma consequência lógica da nova comprehensão da Edade Media pela escola histórica do século xix. e O movimento do Romantismo para com a Revolucomo mas quando um agente dynamico do corpo como tal capaz de fecundar as creaçíjes artislicas. já pelos esforços contra o calculado obscu- rantismo da Santa AUiança e das Restaurações absolutas. rito nacional. I 5. COMO FOI COMPREHENDIDO O ROMANTISMO EM PORAo indicar as causas fundamentaes que provoca- — ram o apparecimento do génio românico nas litteraturas crise dos espirilos foi modernas.

IDEIA GKnAI.

iJi

vam-se archaismos para simular o sabor da antiguidade, reagia-se contra o uso dos gallicismos com um terror de
purista, e o chauvinismo era a base essencial de todo o estylo vernáculo.

Como

poderia ser compreliendido

em

Por-

tugal o
tos

Romantismo com

esta carência absoluta de elemen-

que dirigissem o
a)

critério?

Estado da sgiencia histórica

Em 1839, dando conta da publicação de duas Memorias de Frei Francisco de S. Luiz, escrevia Herculano: «Duas
chaves únicas, entendemos, abrem hoje o rico thesouro da
Historia portugueza: guarda

uma

o respcitavelJoão Pedro

Ribeiro; outra o illustre auctor das Memorias... Todavia

essas

mãos robustissimas, que

a edade grave

não enfraque-

ceu, já por entre o bulicio d'esta geração que vae passando

ufana da sua ignorância, buscam apoiar-se na borda da sepultura (tarde a

achem

elles) e

quando

a providencia

hou-

ver de consentir que a encontrem, podemos ter por averi-

guado, que a Historia nacional ficará por muito
estado

Umpo no
rectifi-

cm que

estes dois sábios

a deixaram. 9 Pelo trabalho que apuraram datas, compilaram sem nexo,

d'estes dois escriptores se vò

caram alguns
isto tar,

factos secundários,

deixando quando muito monographias subsidiarias; sobre
continua Herculano «Não podemos deixar de lamenque os dois modernos luminares da Historia portugue:

za ... se
líticos
. .

tenham
.

visto obrigados a apurar datas e factos po-

gastando

em

indagações de

tal

natureza aquelle

tempo, que com mais proveito teriam talvez empregado
tirar a

em

lume

a substancia

do passado,

isto é, os

fados rela-

tivos ao

progresso da civilisaçHo entre nós, etc.» Entre este

espirito compilador,

que Herculano lamenta, e as especula-

ções philosophicas de Viço e de Herder, não se conhecia
entre nós meio termo
:

«Bem persuadidos estamos de que

;

92

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

um

OU dois homens nâo bastam para

colligir

tudo o que é

necessário para que se haja de escrever (cremos que tarde
será)

uma

Historia de Portugal, segundo o systema de Viço
historia da civilisaçâo e

ou Herder: uma

não unicamente

das batalhas, de casamentos, de nascimentos e de óbitos

uma

historia

que alevante do

silencio

do passado as gera-

ções extinctas, e que as faça, (para dizermos tudo

em

bre-

ves palavras) viver diante de nós.» Decididamente Herculano não formava a minima ideia da concepção histórica de

Viço e de Herder, que se funda unicamente sobre as causaes

dos factos; e por isso condemnando os velhos historiadores portuguezes, diz que o único manancial histórico está

«nas chronicas dos diversos institutos monásticos. Sabemos

que gravíssimo peccado
perdão.»

é n'este século

de luzes

fallar

em

chronicas de frades; mas d'isso pedimos humilissimamente

E

depois de poetisar a missão do monge, prose-

gue: «Podíamos levar mais longe as reflexões acerca da
utilidade histórica d'esses annacs das corporações rehgiosas, que ignorantes presumidos despresam,
les

porque para
*

el-

só têm mérito palavras ocas de philosophanles ;)•>

ele.

Tal era o critério histórico que

em 1839

se estava

formando

para succeder ao espirito compilador e estreito de João Pe-

^ro
ria

Ribeiro e Frei Francisco de S. Luiz.

A

ideia da histo-

moderna não
sciencia;

foi

comprehendida por Herculano como

uma
;

tendo somente

em

vista levantar

do pó as

gerações extinctas visou ao

effeilo

dramático, preferindo o

/Romance

«Vá aqui mais uma humilde opinião nossa. Parece-nos que n'esta cousa chamada
histórico á própria historia:

hoje romance-historico, ha maior historia do que nos graves e inteiriçados escriptos dos historiadores. Dizem pessoas entendidas que mais se conhecem as cousas escossezas lendo
as Chronicas de Canongate de Walter Scott, do que a sua

1

Panorama^

t.

iii,

p. 6.

IDEIA OEBAli

93

Historia de Escossia.

Também

ha quem diga que no mais

grado quarteirão de historias de França, escriplas até o amio de 1800, não tinha apparecido ainda a época de Luiz
i'l.°

como appareceu depois na Notre Dame de
*

Victor Hu-

go.»

Em outro

logar exprime Herculano este contra-senso

com maior

fervor ainda: d^Novella ou Historia, qual d'estas

duas cousas é mais verdadeira? Nenhuma, se o affirmar-

mos absohitamente de qualquer

d'ellas.

Quando o caracter

dos indivíduos ou das nações é suííicientemente conhecido,

quando os monumentos, as tradições, e as chronicas desenharam esse caracter com pincel firme, o novelleiro pôde
ser mais verídico do que o historiador; porque está mais

habituado a recompor o coração do que é morto pelo cora-

ção do que vive, o génio do povo que passou pelo do povo

um dito ou de muitos ditos elle deduz pensamento ou muitos pensamentos, não reduzidos á lembrança positiva, não traduzidos, até, materialmente; de
que passa. Então de

um
um

facto

affectos,

ou de muitos factos deduz um afifecto ou muitos que se não revelaram. Essa é a historia intima dos

homens que
sabe fazer

não são: esta

é a novella

do passado.

Quem

isto

chama-se Scott, Hugo ou De Vigny, e vale
estes recolhem

mais e conta mais verdades que boa meia dúzia de bons
historiadores.

—Porque

e

apuram monu-

mentos e documentos, què muitas vezes foram levantados ou exarados com o intuito de mentir á posteridade,

em

quanto a historia da alma do

homem

deduzida logica-

mente da somma das suas acções incontestáveis não pôde
falhar, salvo se a natureza

podesse mentir e contradizer-se,
hisfei-

como mentem e se contradizem os monumentos.» * Até aqui vemos a falta de um critério scienlifico da
toria
;

outras descobertas

f undamentaes já

tinham sido

1

2

Panorama, Panorama,

l.
l.

iii,

p.

iv, p.

306. 243.

94
tas

HISTORIA DO llOJklANTISMO

EM PORTUGAL

na Europa, e que nos revelavam
taes

em

toda a sua luz a

Edade Media,

como

a

importância dos raanuscriptos

dos Trovadores e dos Troveiros, do lyrismo provençal e
das epopéas gallo-frankas, e sobre tudo o problema da
for-

mação das

linguas novo-latinas.

Em

Portugal nada d'isto

havia penetrado ainda. Os dois luminares da historia por-

tugueza, João Pedro Ribeiro e Frei Francisco de S. Luiz,

acreditavam que a lingua portugueza não tinha conuexão
histórica

com o latim e era uma derivação do celta estavam com o velho sonho de Bullet. João Pedro Ribeiro em uma polemica com Frei Fortunato de S. Boaventura (1830)
;

escreve

:

«Quanto

á auctoridade ...

do conselheiro António

Ribeiro dos Santos, principio por dizer, que sempre o respeitei
foi

no numero dos philologos do meu tempo

;

mas não
opi-

por cegueira, antes por convicção que segui a sua

nião contra o

commum, negando á
*

nossa lingua a filiação

com

o latim.

y>

Pela sua parte Frei Francisco de S. Luiz

pubhcava em 1837 a Memoria em que se pretende provar que a Lingua portugueza não é filha da Latina. Confrontemos estas duas datas, 1830 e 1837 com os grandes
trabalhos da philologia românica
havia^
;

em

1827, Frederik Diez

pubhcadp.p seu

livro

sobre os Trovadores, onde lanfor-

,çou as primeiras bases inabaláveis para o problema da

mação

das linguas românicas, e logo

publicar essa obra extraordinária a

1836, começou a Grammatica das Línlatinas o

em

guas românicas, onde applicava ás linguas novo
critério
I

comparativo de Bopp. Muito depois d'estas datas,

Herculano evitava os celtomanos, e acosta va-se a outra hypothese gratuita de Bonamy sobre a desmembração de ura
dialecto geral vulgar

que coexistia

a par

do latim.

Quanto ao conhecimento da poesia da Edade Media, as
publicações de Raynouard não foram conhecidas

em

Portu-

*

Reflexões á brevíssima resposta, p. 6.

;

IDEIA GEBAL

95

gal, nem tão pouco se estudou o Cancioneiro publicado por Lord Sluart, onde estava o principal monumento da poesia

lyrica

portugueza dp_sjcjilo xiJ.a

xiv? Tal era

o estado dos

conhecimentos históricos n'este período do Romantismo
era portanto impossivel comprehender a importância de

uma

tradição nacional, e o poder trazer a litteratura ás fontes

da sua originalidade. Herculano reconhecia esta verdade,

quando escreveu: «Ao passo porém, que
struía, reconstruia-se a Historia.
ler,

a

Arte se recon-

Ao

lado de Goethe e Schil-

apparecia Uerder e Muller; ao lado de Hugo, Guizote
*

Thierry.»

b)

Estado das ideias philosopiiicas soiire arte

Em

Portugal reinou sempre e de
;

um modo

absoluto

uma

só escola philosophica

a doutrina

de Aristóteles no seu
en-

periodo avcrroista preponderou desde a fundação da monarchia até ao tempo

em que

a instrucçâo publica

foi

tregue aos Jesnitas; houve apenas
lismo platónico

um

intervallo de idea-

em

alguns poetas do século xvi, e caimos

outra vez sob a férula aristotélica do periodo akxandrista.

As reformas
cartes,

philosoí)liicas

de Pedro Uamos, Bacon, Des-

Gassendi,

as novas theorias

de Nicole, Malebran-

Le Clerc e Wolfio nao poderam penetrar em Portugal, como vemos pelos grandes
che, Mariotte, Thomasio, Lock,

esforços de reacção da Kscholastica do Gollegio das Artes. ^

Dom

João V escreveu por via do Conde da Ericeira para

Inglaterra a Jacob de Castro Sarmento para que traduzisse
as obras de Bacon, que elle propuzera

Portugal a primeira folha do

em 1735 veiu para Novum Organum, mas os que
;

tinham o monopólio da instrucçâo obstaram a que se abrisse

>

Memorias do Conservaíorio,

p.

136. (Ann. 18i2.)
n.*»

2 Compendio hialorico do estado da Universidade,

1C3.

96

HISTORIA DO ROMANTISMO

EM PORTUGAL

este novo horisonte á intelligencia. Ficámos amarrados ao

poste da Lógica Barreta oa da Lógica Carvalha

; tal

era o

campo que encontrava em Portugal
ca,

a

doutrina da Esthetilitteratura

que desde Schelling

influirá

no esplendor da

allema, e levara á verdadeira

comprehensão da antiguidade.
tenta-

Em

1835 é que se publicou pela primeira vez uma

tiva sobre Philosophia

tação

— Bello — Unidade;
uma educação

da Arte,
^

com

o titulo de Poesia: Imi-

infelizmente o seu auctor tinha

recebido

fradesca, e a Logica-Carvalha

com

grande custo se empaveza com a nomenclatura da philosophia allemã. Esla prioridade pertence a Alexandre Herculano, que depois veiu a possuir-se da mais entranhavel aver-

são

ás

especulações metaphysicas.

Em

todo o caso

elle

percebeu, que o Romantismo partia de
sophica. Escreve Herculano
:

uma renovação philo-

«Na torrente de opiniões conque na presente época com:

trarias sobre a critica litteraria

batem, morrem, ou nascem, também nós ternos a nossa
vera a ser parecer-nos que da
pios

e

falta de exame dos fundam os diíferenles systemas procedem essas questões que se tem tornado intermináveis talvez por esse único motivo. O génio impellido a produzir no meio

princí-

em que

se

de

ideias vagas e controvertidas sobre as formas, as condi-

ções da poesia, julga que todas ellas são indifferentes e desvairado se despenha
tos,
;

e o engenho dominado pelos precei-

que muitos séculos por assim dizer santificaram, con-

trafaz e apouca as suas producçôes,

temendo
é

cair n'aquillo

que julga monstruoso e absurdo. Tal
da litteratura.

geralmente o estado
let-

—Os

que conhecem o estado actual das

tras fora de Portugal, na França, na Inglaterra e ainda na
Itália,

sabem ao que alludimos. Trememos ao pronunciar
ou definidas erradamente, que somente tôm gerado

as denominações de Clássicos e Românticos, palavras indefinidas

*

Bepositorio litterario, d.« 7.

:

IDEIA

GEBAL

97

sarcasmos, insultos, nliseriàs, é nenhuma instrucçâo verdadeira, e que
tes

também teriam produzido

como

as dos

estragos e morNominaes e Reaes se estivéssemos no xvj

século. Infelizmente

em

nossa pátria a Litteralura ha já an-

nos que adormeceu ao som dos gemidos da desgraça pur
l)lica;

mas agora

ella

deve despertar e despertar no meio

de

uma

transição de ideias. Esta situação é violenta e muito

mais para nós que lemos de pass£|r de salto sobre

um

longo

praso de progressão intellectual para emparelharmos o nosso

andamento com o do

século.

Se as

o[)iuiões estivessem de-

terminadas, o mal ainda não seria tão grande;

mas

é

n'um

cahos que nos vamos mergulhar, do qual nos tiraremos
talvez

muito depois de outras nações.»

*

Ao

escrever o ^ea

estudo de esthelica, Herculano linha
cer

em

visla: aeslabele-

uma

Ihcoria segura que prefina tanto o delirio

á\\mà
lin-

liceiiça

absurda, como a submissão abjecta que exige certo
lilterario.»

bando

Vejamos essa theoria através de uma

guagem incongruente de quem não sabia proseguir uma ideia e muito menos fonnulal-a; Herculano considera o Bello o
objecto da poesia; considera-o
critério é a nkctiipbysica, e ao

um

principio absoluto, cujo

mesmo tempo

redul-o a

uma

inera relação, por isso

que dependo da nossa existência
a

«Para nós a sua existôucia depende da nossa; e
physica
objecto
revela
iníluií-á

meta-

sempre em qualquer systema que sobre tal venhamos a adoptar.» Depois d' esta contradicção que
exiranhesa dos processos philosophicos, cae

uma

em
flu-

outra ainda mais IJagraiile; diz que
tes

sem

philosophia as ar-

não

llorescertí, e

dá essa philosophia como causa da

ctuação dos priiicipios:

«Sem

levar o facho da philosophia
a essência d'eslas, as tlieo-

ao seio das artes,
rias

sem examinar

formaes íicam sem fumlameulos, e é justamente o que

tem acontecido. E quando aqui ou acolá se tem tentado sob-

1

Rtposilorio lilterario, p. 54.

7

;

98

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

pôr-lhe esses alicerces, é á philosophia que os
car.
via

tem

ido bus-

Este nietbodo é quanto a nós o inverso do que se deseguir, e

um

grande mal d'ahi resultou: a fluctuaçâo
crilicos.»

dos principies e consequentemente dos juizos

Gomo

entender estes três periodos que se repugnam? N'esta trepidação não podendo avançar, agarra-se ás velhas controvérsias de Boileau e Perrault, de Lamolhe, Fontenelle e

Huet, e braveja colérico porque Boileau comparou o

Tele-

maço ao romance de Theagenes

e

Charidea, de Heliodoro;

por fmi faz-se árbitro da polemica dos aniigos e modernos

em

do século xvn, com a phrase conciliadora: «Nós devemos seria uma ingrande parte aos antigos o que sabemos

gratidão negal-o. Elles

crearam as

lettras e as

levaram a
tudo ou

um

ponto de esplendor admirável; mas por as crear e aper-

feiçoar

não se deve concluir, que acertaram

em

que tudo sabiam.» O modo de discutir é de. uma ingenuidade primitiva; sustenta que o Bello é absoluto, porque:

«O europeu, o chim, o
relativo,

hottentote sentirão egualmente que

o Apollo de Belvedere é bello.»

E

pela contraria, que não é

porque se podia então equiparar os Luziadas ou a Ulyssea, ao Alfonso ou ao Viriato trágico: «Se dissermos que o Bello é relativo e resultado do nosso modo de ver,

da relação particular dos objectos comnosco, da harmonia ou desharmonia dos factos com as nossas ideias moraes,
n'esse caso não poderemos affirmar que os Luziadas ou a
Ulyssea sejam absolutamente superiores ao Álfomo ou ao
Viriato
trágico,
h

Depois de exaltar a poesia

celeste

dos

hymnos
ler,

solitários

áe Lamartine, o terror

delicioso

de Monti,
Schil-

a anciedade

que causa a despedida de Picolomini de
«Tal é o Bello

conclue:

— para

modalidade necessário e absoluto;

quem o julga em sua uma ideia opposta repulo-

gna e nos

afilige:

nós queremos que todos os tempos,
fôr

dos os homens o julguem e gosem como nós, e diremos

sem hesitar— o que não

do nosso sentir ou carecerá de

IDEIA QERAT.

99

gosto OU O terá pervertido.
<l'islo

»

Herculano formava

em vista

uma

ideia

do absoluto metaphysico pelo absolutismo

politico.

Depois veudo que precisava de phraseologia melaphysica, aproveita-se

da nomenclatura de Fichle para mosunidade e o movimento
.

trar:

«que o bello das imagens, o bello chamado physico
íi

não existe nos objectos porque
<la

sua existência seriam destruídas;

.

.

l5

pois

mundo

das ideias, que o devemos buscar
existir,

— Um typo indecom
o qual
a fa-

em

nós, no

pendente do que nos cerca, deve

f nldade ,de julgar possa comi)arar o bello de
particular.

uma imagem
ad-

Eu, Não-eu,

eis

o circulo das existências, os dois

nomenos,
nos rodeia

fora dos qu:ies nada

concebemos

— mas nós
em
nós

millimos o necessário c o uno sem o encontrarmos no que

— cumpre

pois que elles residam

como

formas da intelligencia.»
niou exemplificando
tole

Como

o próprio ilerculano o aíBr-

com

o Apollo do Belvedere, o Hotten-

lambem

dirige o seu juizo por este

nomeno do Eu

e

Não-eu.

A

aversão

com que Herculano

ficou á metapliysica

allemã, prova que elle jogou inconscientemente

com

estas

phrases, e que nunca mais viu nos profundos trabalhos de

abstracção senão

uma reproducção

d'este seu capricho.
á critica

Herculano applica esse typo do bello
logia;

da mylho-

«Com

elTeito

onde existem as

ficções dos antigos

monstros da mytbologia?
vallo aliado

Quem

viu

como o Amor ou o Pegasso?

um homem ou um ca^ — Nem se diga
;

que

a

crença popular lhes tinha dado existência

isto são

palavras que soam,

mas sem

sentido ... Se a phantasia pro-

duzia estas creações, ellas não foram imitadas, logo não têm

modelo, logo não são bellas; etc.»
vastos do que as explicações de
cta,

Quem

cx)ncobia assim a

crcação poética das mythologias, nunca vira borisontes mais

um

padre-mestre de selejá

e isto

quando Crcuzer, Voss e Lobeck

tinham fun-

dado

a sciencia

das mythologias comparadas.

100

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

Depois de todo este pandemonium,
procurado derribar, cumpria
elle

diz:

«Tendo até aqui
etc.»

edificar agora;

vae edificar tem

em

vista

— conformar uma theoria

O quo
ra-

soavel da unidade
rios.

com

os grandes melhoramentos littera-

A theoria

rasoavel resume-se nos seguintes aphorismos

sem alcance: «A Poesia
«O

é a expressão sensível

do

Bello,

por meio de
faculda-

uma linguagem

harmoniosa.

Bello é o resultado da relação das nossas

des, manifestada

como jogo da sua

actividade reciproca.

«A condição

pois do Bello é a concordância da variedade

da ideia particular

com

a

unidade do geral; etc.»

Depois vae applicar estes princípios á Ilíada, Eneida, Orlando Furioso yLuziadas e Jerusalém Libertada, por

um modo

Iliada,

que chega a causar pena: «Se assim examinarmos toda a acharemos sempre a ideia de gloria pátria servindo de nó a este admirável poema que hoje se despresa por moda,
y>

crendo-se que nHsso consiste o Romantismo.

O

juizo sobre

Virgílio é «que sabia mendigar as migalhas de

um

tyranno

e nutrir ideias generosas.»

A

unidade da Eneida ficou pre-

enchida desde que Eneas «escondesse o covil de Rómulo

com o geu escudo
satisfeito,

celeste,

o fim da sua existência estava

e o poeta podia na serie das variedades buscar
lhe

bem accorde com
as

que

parecessem para com

ellas tirar

um som

a ideia

que o dominava.»

A

applicação da theo-

ria eslhetica

de Herculano aos Lnziadas dá esse logar comnecessidade de recorrer a

mum

de todas as rhetoricas: «Os Lnziadas são o poema
a

onde mais apparece
de ..

uma

ideia

independente da acção para achar
.

a imprescriptivel

unida-

Não

foi,

quanto

<!

nós, o descobrimento da Índia, que

produziu este poema;
e

foi

sim a

gloria nacional.»

De

Ariosto

de Tasso

limita-se a dizer

que cantam,

um

a cavallaria,

o

outro as cruzadas, isto é «o espirito

humano modificado de

ura certo

modo»

e «a réplica da Cruz á terrível pergunta

. (Mem. abolindo o direito divino symbolialiar. por taes. pelo e ex-plica-se mesmo pensamento íTestas. » Era com esta segurança de doutrinas que o Romantismo este fazia ecco em Portugal. 31. o resultado de gas cogitações. o apparecimento do Romantismo entre nós foi um esforço artilicial.) p. .» Terminando este temerário esforço de querer pliilosophar sobre arte.IDEIA GEBÂL 101 do islamismo. nâo litteraria em 1831.» «Mas pretendendo destruir o systema da nâo somos nós Românticos ? Alguém nos terá E reclama: anão somos nem esperámos sél-o . do Cons. veiu com as revoluções sociaes. redigindo a sua Carta conforme a imitação ingleza. os Em concepção da Aite influir na commoçâo politica. Esta phase po- litica precedeu o movimenlo litterario. vemos o espirito nacional despertado pela nova todos. se a uma completa ausên- de trabalhos históricos accrescia uma incapacidade para a minima especulação philosophica? c) Renascimento de hm espirito nacional puantastico povos onde se deu a renovação litteraria do Romantismo.i> * Portugal também atraves- sou a sua crise politica. Herculano remata cilante pergunta: com esta va- escola clássica. Herculano descreve em poucas linhas esta época de lucta: «A época de 1833 foi a única época revolucionaria porque tem pas- sado Portugal n'este século. que esteve fora de Portugal na época da segunda emigração. nunca. .'. porfoi que só então substituída a vida interina da sociedade * Elogio histórico de Sebastião Xavier Botelho. e sado na divisa do ihrono e constitucional. Herculano. como podia sercomprehendido facto esplendido cia do nosso século. no esforço para a hberdade. dra tal Nem antes nem depois qua- epUheto aos successos políticos do nosso paiz. reconheceu osla inlar- que a geração actual foi foi instincto. verdade: «A revolução tentou e concluiu.

. os elementos tuação. nova existência. suslen- fazendo a natural desintegração religiosas. uma industria própria.» dia. destruiram-se classes crearam-se novos interesses que substiluiram os que se aniquilaram. O I estado de atraso a que chegou Portugal sob o regimen fdo cesarisnio e do obscurantismo religioso. Os que haviam regressado do estrangeiro. indiíTerente á lucta de dois bandos. p. úteis: t A nação portugueza. foi um Mousinho da . sem comprehender mais do que uma simples questão de logradouro que se disputavam dois irmãos. o habito de viver sob a tutella do despotismo fièou no animo publico e vé-se a cada momento na prepotência ainda dos mais pequenos funccionarios. vô-se por esta confissão feita em 1837 pela Sociedade Propagadora dos j Conhecimentos ísal-o. que estava atrophiado. foram extraordinariamente organisadoras o povo estava espirito nacional mas o mudo. Portugal entrava sob a bandeira de liberal uma revolução em uma outra phase económica da sua historia. Fizeram-se tentativas individuaes para levantar o nosso nivel intellectual. Silveira As reformas decretadas por não existia.102 HISTOKIA DO ROMANTISMO EM PQUTUGAl. e as * politicos mudaram de si- Infelizmente. tendo sempre vivido sem tou-se. Pôde-se affirmar que a revolução que triumphou em 1833 foi ex- tranha ao espirito nacional. traziam os elementos bastantes para conhecerem o nosso incalculável atraso. O nosso povo ignora immen- * Ibidem. 33. o enthu- siasmo pela liberdade substituído pela avidez da rapina no momento das indemnisaçôes. esta revolução partiu da classe me- reformas decretadas implantaram-se pelo seu lado exterior. cumpre confes- é uma das que menos tem seguido este movimento progressivo da humanidade. por uma . dos bens enorliberaes jazeram mes das ordens As garantias no papel. As forças sociaes antigas desap- pareceram para dar logar a novas forças.

Pedro o heroe. iMiguel o povo cantava-lhe hymnos obscenos. que ganha diariamente no meio das outras nações. e a sciencia em Portugal está ainda longe de ter aquelle * caracter de unidade. devendo ser o D. i. Fundou-se em 1835 Ami- gos das Lettras j e em 1837 a Sociedade Propagadora dos Conhecimentos úteis. a que deram o nome lin- de clássicos.» "^ poema em um ou mais rava a liberdade. t. n. fabricaram lendas nacionaes e inventaram- nas a bel-prazer. que muito lhe importava conhecer. estabeleceram um purismo atlectado na gua. Procuraram realisar este nobre pensa- mento por meios livros artiflciaes. p. 4. No momento om que se respicantos. era a inspiração do terror.IDEIA GEBAIi 103 sas cousas. O primeiro esforço para sairmos d'esta tentou-se no Porto. O poeta pode- rá escolher o metro que mais lhe agradar e a divisão do Sob o despotismo ferrenho de D. deviam ser ilkistradas. e esta falta de instrucção senle-se até nas classes que pela sua posição social. inaugurando-se em iU de De- zembro de 1833 a Sociedade das Liltcratura. renovaram archaismos e bravejaram contra a corrente dos gallicismos. protestaram 1 Panorama.» atonia. incluiase: «Um Poema O Sitio escri- pto em com iv o titulo do Poito. só Scicncias vwdicas e de em i5 de Outubro de 1834 é que se deu á publicidade o jornal que representava os trabalhos d'essa associação.» 1. inventaram cantos populares . propagando a monomania dos poituguezes do século xvi e xvn. Entre os assumptos escolhidos para serem tra- tados na parte lilleraria. tinham ambas em vista fazer resurgir o espirito nacional. Entre os mesmos homens da- dos ás lettras se acha falharem repetidas vezes as noções elementares de tudo que não ò objecto do seu especial estudo. não apparecia nenhum Ímpeto espontâneo a Sociedade dos que a glorihcasse. lingua portugueza sr. 2 Repositório. .

e os costumes e opi- niões que foram: o mesmo fazetn a Inglaterra de hoje á : velha Inglaterra. e interrogam com religioso respeito as pedras runicas cobertas . ignoramos quaes sejam os da própria. se os tam.104 HISTOBIA DO ROMANTISMO KM PORTUGAL contra as ruínas dos monumentos que o governo allienava ou deixava derrocar. A propósito do amor que se devia aos livros clássicos. Sabemos assim quaes são os documentos em que conhecemos. ou. viciando-os quasi sempre. Desenterra a Allemanha do pò dos car- tórios e bibliothecas seus velhos chronicões. as tradições popuhi- as antigas glorias germânicas» . porque a 6 tal da decadência da nacionalidade. e a Françía de hoje á velha França os po- \ vos do Norte saúdam o Edda e os Sagas da Islândia. os escriptores encarnam na poesia. herdados de avoengos? Nãol — Vamos todos os dias ás lojas dos h- vreiros saber se chegou alguma nova semsaboria de Paul de Kock. as os usos. res. querem alimentar-se e viver da própria subsistência. é porque extranhos nol-os aponterrível estribam glorias alheias. as crenças. e por fim deixaram-se ir com a indifferença publica e atiraram-se á orgia das ambições do poder representativo. escrevia Herculano em 1839: «Assusal- tam os livros pesados e volumosos do tempo passado as : mas do débeis da geração presente a- asperesa e severidade estylo e linguagem de nossos velhos escriptores offende o paladar mimoso dos affeitos ao polido e suave dos livros francezes. no drama e na novella actual. ou a quando um despotismo ferrenho poz os homens ao livel dos brutos. os Uvros. seus poemas 'dos NiebelungoSi e Mínnesingen . E nós? Reimprimimos leis. a peor de todas. os nossos chronistas? Pu- blicámos os nossos numerosos inéditos? Estudámos os mo- numentos. Symptoma dência de da deca- uma nação é este. alguma exageração novelleira do pseudonymo . de musgos e somidas no aniago das selvas: Iodas as nações emíit». porque symptoma só apponto de dissol- parece no corpo social quando este está ver-se..

âiii vae a resposta: Não es- tudeis noite e dia essas cbronicasde frades com que zom- beteaes. • sempre os talentos dos escriptores.uiz de Sousa. reclamava desde 48i^7 a admira- ção dos clássicos: «Ninguém acreditará que é o mesmo lin- Portuguez em que hoje se ora e escreve. t. p. e loihi a sua vida fui sacrifielle cada á vernaculidade. quem assim me mas a vossa ^rilicair. IDEIA GEUAL 105 Alichel Masson. Dea converter pois corremos a trinas derrubar monumentos.: • Apoz a questão dos clássicos levantaram os puristas a questão dos gallícismos: «A leitura frequente dos livros lin- francezes. .- . iii. vol... Esta exaltação desvairada carece de correctivo o. tem corrompido a nossa * Panorama.' por onde i . que uientís desfaçadamente. pag. aquelle idioma tão doce. Mas .. . tão genlihnente! voltadas do nosso Lucena. algum libello anti-social de Larnennais. ou tabernas os logares consagrados pela historia ou E depois se vos perguntarem: De que na* ção sois? respondereis: Portuguezes. mas quem se atreverá a receital-o? Já por alii me chamalam antiquário e Aflbnsinho que tanlu íallo em vidas de santos e chronicas de frades. de Frei os peiiodos estroipeaek)S e boursou/lés Thomé de com que Jesus. Pela sua parte Castilho to- mou a isério esta superstição. riqui^simo. que ninguém pôde lèr. nem hoje se ar- ripiam os ouvidos. para..» Pelo seu lado Garrett. Depois dos clássicos é o complemento do remédio. em la- pela religião . dúzia de bonecos e bonecas. porque mais não entendem. estudo . Callae-vos. •. o purismo rhetorico. a quem agrada. prosegue Herculano.» ?. aquolla fluida guagem de Frei natural e porém i. 67 2 O Chronista. para a arte só teve um lim. i. . aííeriu . mascavada linguagem morrerá com- vosco e ca ia meia. sâo nem sequer longes d'aquellas ora- ções tão redondas. 196.

o mal que 1 Panorama. aproveitando de todas. rias. pregam sermões sem uncção. aos ^quinhentistas. i. Este nlmlo respeito e consideração em que tomámos pois os Portuguezes a lltteratura franceza. D'abl me parece que se devem empenhar todos os que amam a lltteratura portugueza e desejam sou augmento. p.» * Garrett leratura também attribue a falta de originalidade da lit- portugueza á imitação franceza: nossa perdeu-se. as formas e os elementos do discurso. e o modo. «Vulgarlsou-se esta língua entre nós. combinal-as umas com outras.» a causa ^ — Tanto do mal como o remédio proposto. aos seiscentistas e aos árcades. tudo o que era nacional desappareceu. . essa lição dos auctores . que já hoje (1837) é impossível . amam a pureza . lomou-se por molde e exemplar para o* espirito. fraii- em esquecimento os portuguezes . . aos poetas palacianos do século xv.. sem fazer escola de nenhuma. descrevem usanças monásticas. 103 HISTORIA DO ROMANTISMO KM PORTUGAL guagem por cezes pez tal maneira. e quando muito pintam pelejas dos nossos maiores em que ordinariamente já de antemão Hies sabemos das victoeste século. . pela falta de conversar os escriptores nacionaes encurtámos e empobre- cemos gua. 52. p. t. Sabemos que da lín- muita gente escarnece dos que . em estudar também a das outras nações. desinçal-a dos gallícismos . a o génio. e tão rapidamente como por ericanto. 2 O Chronisla. 10 e 17. mas sem delir ou confundir o caracter da nossa própria e nacional. vol.» E descrevendo os clássicos: «estes versam mui- tas vezes sobre matérias áridas e pouco importantes para Contam milagres de santos por vezes incríveis. tudo . Esse caracter faltou aos trovadores portuguezes do século XII a xiv. damnou e empeceu a nossa. provam a nenhuma comprehensão que então havia do que era caracter nacional. i.

iii. Herculano inventou a tra- dição do convento da Batalha onde também forjou um canto lòa popular dito pelos reis Magos. o^ do de Segura.i> 2 Bellermann. t. Por isso em vez de estudarem essas tra- dições. 101. apegar do seu profundo senso /como popular critico.» Por isso que os lidos e o livros dos escriptores naciouaes não eram trata- povo estava sem tradições. p. tinha acompanhado sem- pre a htteratura porlugueza. os novos escriptores foram imitar as outras littera- turas para contrabalançarem a iníluencia da franceza: «o único. que se dizia ter sido escripto na par- » Ibid. Ignacio Pisarro de Moraes Sarmento escreveu um Romanceiro pelo gosto artilicio litlerario. o árcade Castilho fabricava um Atito pelo gosto da es- cola de Gil Vicente. é i o fomentar a applicaçâo ás outras litteraturas e idiomas por onde dividida stigios. dava^se agora com maior força n'esta supposta renascença do espirito na- cional. excluf>iva's Assim poderá formar-se uma Escola * mais ecclelica. IDEIA GERAL 107 se lhes tornou patente era 1827. os escriptores ram de inventar lendas e cantos populares. 2 Panorama. ainda que incerto correctivo que vejo a este mal. a attenção. Este génio in- ventivo que levava os escriptores do século xvi a fiUsiíica- •rem os monumentos históricos e poéticos. que apresenta íiobra como mui prima de certo leigo affamado jogral (Vaquelle U'mpo. . e a hngua e a Htteratura pátria não colherão pouco fruclo se assim se conseguir. Onde estava pois a causa d'esta (constante falta de originalidade? Disse-o Wolf: na falta de uma base de tradições sobre que se desenvolvessem as crea- çôes individuaes. acceitou esla contrafacção de Herculano. e quebrada a forca dos per- revertamos a sentimentos mais rasoaveis e menos opiniíjes. \).. mas sem dissimular o mesmo fez Serpa coni os Soldos. 239. no seyi Portugiesische Wolkslicdcr und Romanzcn.

pelo guarda-mór da Torre do Tombo António de Castilho. A renascença do espirito nacional limitou-se a esta titilação exterior. a intervenção estrangeira chamada por D. que deixara de pensar havia dois séculos. dizia frontispício do romance o Arco de SanfAnna. contrafazendo a poesia popular. o estandarte das Quinas. Sebastião para Africa. Manuel. inspiradas pelo uma vida imprevista brilhava em obras es- amor e pela tradição nacional. os galeões da ín- mares nunca d^antes navegados. que achara essa memoria em um manuscripto do Convento dos Grillos na cidade do Porto. t. Edgar Quinet. necessá- rios para se crear essa linguagem emphatica e patriótica do e de todos os sias. Maria ii em 18i7 contra Portugal. * Ma- em numero de cinco mil exem- os poucos factos da historia portugueza. 53 . de todos os discursos. Pelo seu lado se vê no pri- Garrett. explica a mutua solidariedade entre as tranformações politicas e a renovação litteraria: «Portugal não se contentava com uma imitação estéril. p. as terras do Gama de Pacheco. como se julga. livros.108 tida HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL de el-rei D. 1. e os D . De todos estes inúteis esforços só se conseguiu divulgar (por via do Panorama. t. as façanhas dos Alhuquerques e D. de iodas as poee o berço de Camões. que o a poli- burguez facilmente adoptou para expressão do seu patriotismo e como esconjuro eloquente e definitivo contra tica de iberismo. N'este paiz. ii. p. jornal litterario imitado do Penny \gazine e que se publicava plares. que todos á uma fortaleciam o seu génio no * Panorama. o século do venturoso dia. Numerosos criptores surgiam. a espada de Affonso Henriques Condestavel. no seu eloquente protesto contra. como no meiro volume do seu Romanceiro. . João de Castro. i. o re- nascimento politico fundava-se sobre o renascimento do próprio espirito portuguez.

se nâo fosse bem rio? os últimos quinze annos produziram mais obras origi- naes do que os dois séculos passados. quando se.i> Em em seguida Qui- net explica a rasão do movimento: «Se alguma vez houve que se operava plena clari- movimento dade. Arco de SanCAuna^ Garielt combatia a reacção e segundo ouvimos dizer fazia no typo do Bispo a satyra de li- Frei Francisco de S. nacionnl. o deputado na sua cadeira. Inglaterra e França contra o levantamento nacional que repellia o absolutismo de D.» a De facto. t. não é prever as con- sequências. exclama: «A nação queria governar reviver. e poi' isso um certo relevo de realidade. era o O escriptor conspirava nos seus livros. a vida moral da nação acabou depois que monarchia braganlina chamou para so manter no arbítrio a intervenção estrangeira. a rainha acha mais legitimo o * um cadáver. concebidas n'este periodo de trans- formações politicas em que têm revivesceu a nacionalidade por- tugueza. segundo a ex- uma homem cuja auctoridade ninguém negará. 5:^ a 61. As obras de Garrett. (Almeida Garrett) nunca se vira no espirito publico um moespe- vimento lâo profundo. Luiz.» E condemnando então a inlervenção armada da Hespanha. Uma dência bastara para dar ás almas energia levantava-se. Quando está assim feito o accordo entre a intelligencia do pequeno nudiílicil mero e a conscieficia de todos. no Alfageme de Saníareniy * Obras completas^ de Edgar Quinot. tão verdadeira.IDEIA GEBAL 109 mesmo sentimento da pátria restaurada. . A gedia de Calão liga-se ás aspirações revolucionarias de 1820. inspiram-se dos sentimentos e agitações do motra- mento. côr de indepen- a civilisação morta notó- Quem o acreditaria. pressão de e. proclamou o principio da soberania nacional. uma uma emoção uma inspiração tão indií^ena desde a época dos Luziadas. um esforço tão sincero. no clerical. x. o povo no fundo das províncias. p. Maria u. . rança tâo viva.

Herculano rea- gia contra a auctoriJade da tradição romana. Emile veiu justificar-se. |ou da realesa por graça de Deus). que os Cartistas ameaçavam que haviam do ir pateal-a e insultar o auctor e a peça. trepidaram no i. Netos dos Celtas.. de condemnação. que primeiro presentiram a necessidade de romper com a tradição arcadica. 110 ^-rava o HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL em movimento dramático das paixões que se debatiam Í8i2 entre os setembristas (partidários da soberania * Miacional) e cabralistas (partidários do favoritismo do paço. visto acerca das condições — DepoiS dO qUO temos em que estávamos para abraçar o Romantismo. Os mesmos escriplores. modernas estavam reagindo: que viva e possante não alcançara subjugar inteira- mente este cantinho da Kuropa. as palavras lhos históricos da philosophicas sobre Arle e Litteratura. cadáver já profanado pelos pés de muitas raças barbaras. da Santarém ora uma satyra dos últimos acontecimentos que restauraram aliaria constitucional. como pelas especulações como pela vitalidade do espirito nacional. c dos Árabes. nos veíu á noticia que bro de ISíl o notório dircclor do tlicatro da Rua dos Condes (Emile Doux) depois de Ires niezes de ensaios demorados e preparativos que nunca acabavam." fi4 do Correio Porluquet (22 de fevereiro de 184Í) se Jê acerca da demora (J«t rcprfiíciílaçao do Alfaqcme de Santarém. do as litleraturas mesmo «7^)- modo que iwa. I C. éramos incapazes de comprehender esse movimento. e vociferaram contra o Romantismo. co)\quistou-nos com o esplen- dor da sua cmlisarão que res urgira triumphante. Doux . íôra dizer á empreza que o Alfarjcnir. se ella fosse á scena : — e que era forçoso por tanto reliral-a infallivelmenle. CONSEQUÊNCIAS CONTRADICTORIAS. Garrett como em Herculano. dos Godos.» No n. lido em fins do setem«por iiiformaçõc? que temos por seguras. os protestos de respeito aos modelos constituídos estão em contradição com as obras.eu intuito. esquecemo-nos de toda^ as tradições d' avós para pedirmos ás cinzas de um império morto 1 No n. tanto em. Garrett era eíTeclivamenle setembrista." 67. conclne-se que. tanto pelos traba- Edade Media.

comprehenderia foi a liberdade de movimento do Ro- mantismo. génio emfim. Falíamos de Byron.°. Herculano considerava: «a anciã a misantropia. p. desterrar os numes gregos I3 subslituin- doos pela nossa mijtliologia nacional na porsia narrativa e pela ix3ligião.IDEIA GEBAL 111 e extranhOf até o génio da própria linrjua. e que seus exagerado^ admiradores apenas têm pretendido macaquear.) Repositório lilterario. i2. e cujo fogo minou os campos da poesia e os deixou como o area| do deserto. p. declarámos que o 7mo sumos. p. limitava-se: pátria. :. 88.^ nunra. os crimes. l. Não assim. era verso.— Qual é. ou o que é o mes- — mo.^^ * Parece que lei quem applicava assim pela primeira vez a Portugal a de Sctilegel. (1837. que nunca o terá talvez. do Conservatório. ii. que não tem com quem comparar-so.» 2 Herculano entendia. E da intran- sigência desta sua thcoria.n a ^ amar a em aproveitar os tempos heróicos do christianismo. * um scepticismo absoluto. nem espiramos Para Herculano q ílomanlismo.^. romântica accrescenla: «Nossa theoria fora a primeira a cair por terra diante da barbaria d'essa seita miíeiavel que apenas enlre os seus conta um génio —e foi o que a croou — geuio sem duvida um e insondável. com eíTeito a ideia dominante nos seus poemas? Nenhuma. 28. a negação de todas as ideias 2 3 Mem. .]. philosophia e moral na rica. 123. credulidade dos monstros de Byron são o transumplo me- donho e sublime d'este século de exagerações e de renovação social. Panorama. que a palavra Romantismo era usada acom o fito dn encobrir a falia de grnio e e de fazer e amor a abjecto irreligiãoy a ipwioralidade r> quanto lia de 7}egro no coração humano e por isso aCcrescenta: vnõs sel-o 1. a in- da liberdade descomedida. mas similhante aos immenso abysmos dos mares temrelâmpago infer- pestuosos que saudou em seus bymnos de desesperação: — génio áridos que passou pela terra como nal.

. o género humano tende á perfectibilidade. como cremos. que se travavam em combates e derramavam séa sangue por causa das questões entre as escolas a que. enfurecidos a es- uma queda eminente. e se o homem mas nâo nasceu para correr na vida um campo de lagri- e depenhar-se na morte nos abysmos do nada. se apressara gotar sobre os povos os thesouros da sua barbaridade. t. llii. o combale de séculos os hymnos do desespero soam accordes com as dores moraes. emquanto dura o grande combate. ninguém olhará sem compahvão ou horror os desvarios litterarios do nosso século. poemas ô canções ropa volvendo a si. p. na época pela perspectiva de em que os tyrannos. » E depois de muito logar comraum de : um catholico chateaubrianico. p. que elles farão com seus dra- mas. pertenciam. Herculano remata restará elle.» ^ em Philosophia. Dos seus imitadores diremos só. mas. prorompem lhe dòs lábios palavras de irrisão contra os esforços para resolver os problemas da Arte «Rimos hoje com uma ipaixão linsultuosa d'aquelles' pobres philosophos realistas e nominalistas. HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Com um sorriso espantoso elle escarneceu de tu- do . dentro tdlvez de pouco tempo os nossos descendentes não tirão de nós porque seguimos' differeules seitas e credos tes. em LeUraSj Depois d'estes anatl>emas contra o espirito em Armoderno -e 1 Repositório lilíerario. em honra dos crimes. 2 Panorama. iii.-» * Não contente enr con- — demnar tresloucadamente o trabalho da creação das litteraturas modernas. 88.. cipicios «De sua escola apenas mas como um monumento espantoso dos pre- do génio quando desacompanhado da virtude. quando algum dia a Europa jazer livro etranquilla. que hoje tanto applaude. No meio das revoluções. se. . Nossa prophecia se verificará. que a Eu- amaldiçoe um dia esta litteratura.— : 112 positivas. mas' teoips nós por bem demonstrado que.

auctorilario nas suas admirações por próprio era antigui- Pope e pela dade . procurando em si mesmo uma noção de justiça. de jjraa transformaelle ção do ideal poético moderno? Não linha. Sem ser um génio. apesar da condemnação de Hercu- lano. toda a Europa foi imitada. de que tanto se aproveitava o clericalismo. . Qualquer outro individuo succumbiria . pela Itesto da consciência contra as violências praticadas pelo sys- {'tema de restauração do antigo regimen em ^Byron rompeu com esse positivo. jcomo expressão da beatitudc christã. acha-se como um out-law no mundo moral e pro- cura equilibrar-se. offendido nas suas relações com a sociedade ingleza. impressionou pro- fundamente as novas intelligencias. e deu á poesia um destino coníli- de aspiração da liberdade. mas a sua obra não teve uma ideia fundamental. não podia succjmbir. Desde que achou essa noção sentiu o nobre lord força a necessidade do protesto. forlalecer-se. mas a nova concepção provinha de um estado exce- pcional da sua personalidade. no a sociedade clo do individuo contra atrasada. porque tinha na mão 8 uma que actua poderosamente ^as sociedades burguezas — o dinhei- . O byronismo. achou-se na situação em que se revela a espontaneidade creadora: offendido no orgulho pela sua primeira manifestação intellectual. offendido nos seus sentimentos pela dissolução forçada da familia. não educou uma geração. chamada pelos escriptores académicos satanismo. e imporia por isso julgal-o. e em. prevaleceu na litteratura. não teve um plano. provocando a manifestação de novos talentos. Teria Byron a consciência ou o intuito. a Byron essa snh- jStituição que se immobilisára linguagem de protoda a Europa. na revolta di- das nações opprimidas contra a colligação obcecada da plomacia da Santa Alliança. fèl-a o grito ideal de convenção.IDEIA CIERAL 113 Herculano continuou a escrever. e teve a eloquência da procla- mação. A concepção deByron. deve-se do sentimentalismo idylico. Na evolução do Romantismo.

mas seguindo a Emília. nias não tiveram o ponto de Byron — o prisma assombroso das cem que explica a influencia . por um aspecto impreByron pintou as cousas como as viu. Demoustier mimoso. no desdém superior do desalento. do Elysío! Oh vem meus versos bafejar Traze um soiriso alTavel Da tua doce Emilia.* O insulso idyUco de Demoustier é excedido por Garrett. p. imitaram-no no traço pittoresco. mais gentil que Emilia È mais seosivel inda a minha Lilia. * O Chronisía. os moldes pueris das Cartas em vista introduzir entre nós — o tão engra- çado quanto proveitoso methodo de Demoustier para ensinar divertindo. vêr assombrou. no sacro manto de immortaes verdores. as so- ciedades por esse prisma tão particular. 109. É isto o que elle diz do Bello.114 ro. os homens. Torna com elle amável O tosco eelyle m«u. nas Lições de Poesia e de Littera- tura a uma joven tinha senhora. HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Um homem que se acha com cem mil libras esterlinas de rendimento. adquiria um ponto de vista original sobre o universo. onde se adoece e se morre pela monomania do byronismo extemporâneo. (1827. mil libras de renda. e que ainda subsiste em Portugal e no Brasil. na phrase de imprecação. e o seu modo de em tudo. Para nos explicar o fim das Bellas Artes.» invoca o: Cantor das graças. a reclinar-selhe no seu peito com os braços enlaçados. Pela sua parte Garrett.) . que convida a sua Lilia ao prazer. também propõe os altos proble- mas da esthetica. para comprehen- der as acções de visto. de vista exclusivo alé na dissolução da vida dissipada. um outro modo. É isto o homem sem ter sido na realidade um génio influencia do que se tornou doentia para os outros imitadores medianos. bastava contemplar as paixões. e sem querer «viajar nos intermundios das abstrações chimericas. Mais linda que ella.

Vénus e amores. de todos os hoje seguido na Ásia. Dos nossos portuguezes também aíiguns aíinaram a lyra no modo romântico. Por essas palavras vimos como Garrett mofava do Rosacudia de si os cânones rhetoricos que re- í Chronisia. Mas os moder- amoldaram ao clássico e muitos d'elles têm progredido admiravelmente. E tom achar Ossian melLor (jue Homero. Garrett depoz as regras e escreveu o Camões. livros da Biblia. dizendo então. graças o cupidos Já muito viiílos são. porém poucos. já muito lidos. — Os poetas hespanlioes antigos escreveram quasi todos no género romântico. e em todos os seus livros chasqueou sempre da revolução mantismo. De Patis os modernos elegantes Deixam Racine para iérem Schiller. viu também esta nova phase do sentimento moderno como uma batalha palavrosa de nominalistas. que nem era clássico nem romântico. e ainda O segundo é o de Milton. ou n'aquelle que outras regras não tem mais que a imaginação e phantasia. . de Tasso o de Racine.IDEIA GERAL 115 É depois d'isto que Garrett descreve as diversas escolas litterarias: «E estes são os Ires géneros de poesia mais dis- tinctos e conhecidos. Cbamam vil servilismo ás regras d'arte. c finura. romântico e clássico. p. 180. o elle litteraria. O terceiro finaUiiente é o de Homero e Sophocies. E as risonhas ficções da culta Grécia Áureos numes d'Ascreu sédiços dizem. pedante a Horácio. que pouco tempo depois d'isto. Gabar Shackespear. Como Herculano. Só goítam de Irminsulf e do Teutates. Obscuros soobos do Escocez sombrio. nos já se Hoje é moda o romântico. de Shacal- kespear. e de quasi todos os inglezes e lemâes. de Virgilio e Horácio.» ^ É certo. oriental. Antiquário a Itoileau. desdenliar Corueiile. de Klopstock. O pri- meiro é o dos Psalmos. de Camões e de Fihnto.

Quando ve- mos a imponente amisade entre um Goethe e um Schiller. tos litteraríos. em quem a opinião publica via os seus Quadros históricos. mas esses livros não tiveram em vista realisar uma these superior. separaram-se por pequenos re- •sentimentos pessoaes. A falta de comprehensao d'este fa- que symbolisa a liberdade do sentimento. Esftísmò três tes homens. imitava-os. e Garrett ria-se d'elle chamando-lhe compadre. Pelo seu lado o árcade Castilho no prologo dos com phrases mais duras ainda Romanque veíu perturbar-lhe o seu mundo idylico. e os es- forços d'estes dois se inutilisaram pela homens longe de se coadjuvarem. não obstou a que Herculano e Garrett escrevessem livros que se desvia- ram do trilho batido até ao seu tempo. nenhum teve o dom su- blime de ver robustecer-se em volta de si uma mocidade prestante. mas protestava lia que não era romântico. e rompia contracto de propriedade litteraria com Garrett por causa do com a França. esse gallego do chafariz da Ajuda. cedo desmembração. Garrett e Castilho não tanto pelo caracter de cada um. o que se não teria feito se estes três homens fossem um . por seu turno Herculano feriu Castilho chamando-lhe cego de corpo e de alma. só podemos expli- car a dissensão entre Herculano. e quanto pôde a bem do desenvolvimento de uma ideia a acção continua de um centro litterario. eram os representantes em Portugal. pela circumstancia do tempo. maldiz ido que as de Herculano essa espontaneidade do ! : representantes lilterarios. dava-se uma cto época nova na litteratura modernos monumencomo o inaugurador de portugueza.116 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL os cebera na educação de seu tio. Castilho chamara a Herculano. Com a boa vontade que os poderes públicos tinham então pelo desenvolvimento intellectual d'esta terra. se- gundo corre oralmente. como pela falta de comprehen- sao da crise litteraria que se passava na Europa e da qual elles. Castilho disputava a Garrett a antonomásia de príncipe da lyra.

Maria se-lhe todos os archivos. estabelece prémios. como pè testemunho de um esforço de regeneração ahi estão de ii. . abraçou essas doutrinas desde o momento sem plano na sua que viu que lisongeava assim a opinião publica. Se mais se não tivesse menos nâo se veriam em breve esterilisados todos os esforços que cada um tentou parcialmente. mas nâo apparece uma mocidade vigorosa e actie apenas dramas nacionaes não se escreveram. collocaram-no Herculano procura fundar a historia portugueza abriram- em um logar privi- legiado libertando-o dos cuidados da vida. ideia capital e sem uma por isso até hoje Pelo seu lado. deserta do commercio das lettras e entrega-se á cultura e negocio do azeite. os edifício digno. mas nunca o soube exercer. nada lhes deve. Da renovação dos estudos illegiveis. somente as paredes do theatro de D. Castilho não teve outro plano litterario se- não glorificar por todas as formas a sua pessoa. funda o Conservatório. . Ninguém teve ainda um maior em poder espiritual sobre este paiz como Herculano. históricos Portugal apenas restam volumes fragmentários. e mais feito. dá direito de os . nunca manifestou uma origi- nalidade qualquer. e lançou-se a traduzir a esmo. A mocidade que surge por si. actividade. eil-o que simula desgostos. e julgar cora impassibilidade. faz uma cru- zada fervorosa para que o governo dote a arte dramaMca com um va. este contribuiu fortemente para corromper as ideias litterarias do seu tempo. Se os dois escriptores antecedentes não levantaram uma geração. Garrett chega a fundar o theatro portuguez. Inimigo da liberdade do Romantismo.IDEIA GERAL 117 pouco mais intelligentes para se proporem elevados para se não odiarem pelo I um plano. e se faz forte pelo es isto lhe tudo Je pela moral.

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comprehendeu que de . nâo porque tivesse uma consciência plena do facto moral e social que se passara na Europa e se reflectira em Portugal.LIVRO I ALMEIDA GARRETT (17 99 — 18 54) Na obra da nossa revolução lilteraria que se seguiu á re- volução politica de 1832. nava nir a maior parle com esse tino que se tordas vezes uma intuição. Um accidente da sua vida determinou esta elevafoi ção do critério: a emigração para França e Inglaterra lá em 1823. que o levou a comprehender as obras primas da arte moderna e a procurar penetrar-se do seu espirito. Sem possuir a erudição indispensável para fundar a época moderna da lilteratura portugueza. mas porque possuia essa intuição artística. cabe a Garrett o primeiro Jogar. dirigiu-se caprichosamente pelo seu goslo. com que suppria o estudo. conseguiu ba- si o resto das impresst3es clássicas ou académicas que lhe haviam incutido na mocidade. justamente quando se debatiam as doutrinas do Romantismo.

encobria a falta de educação philosophica com procurava era volta de um christianismo á Chateau- briand. Faltou-lhe a individualidade que lucta. a verdade natural traduzia-a no sentimentalismo apaixonado. os titulos. decidindo-se sempre pelas ideias generosas. á única tratada como uma predilecção de artista. attingindo a bellesa da phrase pelos hábitos da elegância. elegante da época da Restauração. apresentar-lhe uma ideia fundamental emfim.120 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL O pOYO portuguez também tinha um génio nacional^ que era preciso delerminal-o na poesia e no theatro. e mesmo tempo ambicionou litlerato. a unidade da obra. A sua vida é o commentario do ficou que escreveu. Dá ao seu estylo uma calculada mas no intimo era verdadeiro e sincero. Pensador nullo. sem- pre frivolo e sensual. reduziu-se triotismo. e o de uma the^ philosophica. e a base foi scienli- por isso a poesia do povo theatro. traçar-lhe mas o gosto que adivinhava não pôde um plano. moda não creou as obras primas de com os hábitos anachronicos regimen succurabiu exhausto sem passar pela ve- . por ter vivido do antigo lhice. faltou-lhe esta. as honras para dar realce ao desatíeclação e familiaridade. sem corda o vigor diO pa- Comprehendeu que na litteratura portugueza es- tava ludo para crear. as fitas. debalde si uma mocidade em quem elle influísse» Seduzido finalmente pelas ambições politicas do constitucionalismo a obra d'arte tornou-se para ao um accidente. Esse gosto ou intuição levou-o até onde era necessário íica. por ter ido com a corrente da que era capaz.

do Frei Luiz de Sousa. Seu casamento cora D.— I. que imprimiu á litteratura portugueza direcção nova. assim o andor inimitável do poema Camões. começou por ser uma um reverente imitador dos árcades quando se chamou Jonio Duriense. cumpre pesada fatalitiade de resumir em si. e não é a menor prova da superioridade reconhecida. os velhos preconceitos contra os quaes reagiu. até à emigração em 1823. Os ensaios de Abraça os princípios da RevoIurAo de 1820. poéticos. e do ardente lyrismo das Folhas cahidas. (I8H a 1823) Direrção clássica impressa por Frei Tendência liberal do espirito de Garrett. como Camões.Midosi. Ha portanto na homem su- perior duas biographias contradictorias. que são o resultado do meio d'onde surgiu e do meio que pôde fundar pela sua individualidade.— Educação clássica de Garrclt. Luiza. e até os próprios erros e aberrações que ajudou vida do a extinguir pela sua missão genial. urn frívolo a^ . Dá-se isto com Garrett. as dissolventes influencias que procurou anullar.lo elmanista e depois philiolista. que seguiu nas suas lyricas a pauta da medida velha ou da redondilha peninsular antes de abraçar o subjectivismo petrarchista da escola italiana. Reage contra o meio absolutista da sua Alexandre da Sagrada Família. — — — — — — — O homem a superior. Oaiao no theatro do Bairro Alto. par das aspirações de que foi o órgão. que representa uma a época. A vida da Universidade e as tragedia» pliilosopbÍMs e OulfiroB família. Sua vida em Lisboa Sua primeira imilaç.

e finalmente philintista. em um Coimbra e meticuloso quando o estudo da lingua portugueza se lhe tornou raria. uma necessidade para uma fecunda actividade litteO estudo d'esta phase primeira das manifestações da inútil. como o revelou reagindo contra a invasão napoleonica. que o obra A em que Garrett accentuou a sua individualidade nunca será bem comprehendida em quanto se não conhecer o período em que todas as deletérias tradições académicas. forçaram as reacções politicas do regimen absoluto. estes fa- exerceram na sua vida uma orientação fundamental. de uma . até vir frequentar os estudos superiores na Universidade de Coimbra em 1814. em 183 i a mocidade de . O Porto distingue-se pelo seu grande espirito de independência. e desde 1810 viveu na ctos ilha Terceira. Garrett nasceu no Porto a 4 de fevereiro de 1799. Foi esse o fructo das duas emigrações de 4823 e de 1829. xviii quando imitou Demôustier no Lysala um rhetorico elmanista quando versejou nos Outeiros poéticos da dos Capellos nos abbadeçados de Odivellas. e ié por elles que explicaremos esse instincto de liberdade Santa 'que o fez protestar contra as forcas do Campo de Anna e abraçar o principio da soberania nacional procla- mado na Revolução de era 1820. pasloraes 6 senlimentaHstas do século xvin o absorveram e o domina- ram. as ilhas sâo sempre ani- madas de um sentimento separatista.122 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL miscarado do século ceu das Damas. aspiração á liberdade. sua vocação seria negativo e se n'esse acervo de pre- tenciosas vulgaridades arcadicas se não descobrissem os esforços latentes de um claro espirito contrafeito pelos res- peitos auctoritarios de que só pôde emancipar-se quando se a achou de repente em um mais vasto meio mental. e a Terceira provou-o abrindo asylo e fazendo-se reducto dos emigrados liberaes. e contra as forcas miguelinas no seu memorando cerco de 1832. como o manifestou quando um simples burgo industrial.

na quinta ilha Terceira. que foi bispo de Angra. que fo- ram cónegos da Sé de Angra. Frei Ale- xandre da Sagrada Familia. que procurou incutir-lhe na sua primeira educação. no Porto. onde predominava o espirito de reacção clerical. que só ad- mittia actividade intellectual para fechar os seus productos na gaveta. casado com D. na soltura do campo recebeu a communicação das tradições populares que lhe acordavam uma nova intuição poética. Na contacto em com o erudito bispo e com os cónegos seus tios obedecia á educação clássica. que escrevia Odes e traduzia Metastasio em segredo. e por isso achou-se muito cedo em conflicto com a familia. de quem o poeta foi o segundo genito. segundo o preceito do venusino. das Contas para as Secretarias do inlondenle Manique. Anna Augusta Leilão. parte junto na da cidade do Porto. António Bernardo casara no Porto com D. natural do Russillon) teve os seguintes filhos: Alexandre da Sagrada Familia. representava nos seus passatempos escolares as lia tra- gedias philoçophicas de Voltaire. natural da ilha do Faval. Garrett não podia deixar de de- um tanto jacobino. 300 1799) acha-se indiciado corao pedreiro livre um tal David Gar- . assim a sua infância decorreu parte ilha Terceira. este venerável ancião.ALMEIDA GARRETT 123 Coimbra. e mais dois * filhos. pedislas as obras dos Encyclo- mau grado as queixas da Intendência da policia. António Bernardo da Silva de Almeida Garrett. do Castello e na quinta do Sardâo. dirigiu os pri- 1 No livro V abril do (12 de rett. e a saudava com enthusiasmo obra do Synedrio. que foi pae do poeta. Antónia Margarida de Bernardo Garrett. N'este meio em que clarar-se se achou sempre. 11. quando o obscurantismo monachal esUipedecia este paiz. Para bem comprehender este conflicto entrare- mos em algumas Garrett (filha particularidades: José Ferreira de Sousa. Passou Garrett a puerícia junto de seu tio D.

pelo conspiração de facto de se ter manifestado a favor da As palavras sublinhadas intencionalmente por Garrett levam a suppòr que alguém na familia teve interesse em afastal-o da sympathia do Freire.» ^ O des- peito que transparece sob estas palavras. de seus parentes que de tuna : ex. intitulada X sepultura do bem feitor. Sabemos que foi o iinico s. p. p. Tu em minha alma tenra As sementes primeiras despar/isle Das leltras.. onde professou a 13 de junho de 1762. l. xvii. queixa-se Garrett de nâo ter sido contemplado em 1821 no testamento de seu tio: aO sábio e virtuoso prelado cuja sos. da virtude.) 3 lindem. 4 Consignaremos aqui algumas datas sobre Frei Alexandre da Sagrada Familia.. é apenas produ- zido pelo desgosto de haver descontentado aquelle velho que o educou. (ÍmI. não rfíorresle meu singelo peito Me avigoraste da constância tua. 99. era Coimbra. Gomes octogenário bispo. licenciado em Philesophia (humanidades) em 17f{9. ainda no meu peito .^ não recebeu dons de for- elle julga porém dever-lhe mais que nenhum pelo amor da yjrtude e das lelíras que na infância lhe inspirou com exemplo e conselho nos primeiros rudimentos de educação que d'aquelle insigne e illustre varão recebeu. escreve Garrett: varSo extremado. 2 Era uma nota a esta poesia. Que á sombra augusta do teu nobre exemplo Tenras desabrochando Cresceram quanto são: infante ainda Oh Nao. nasceu na ilha do Fayal a 23 de maio de 1737.124 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL meiros estudos do sobrinho e as prematuras tentativas terarias. 94. lit- que datam de 1814. entra para o Mosteiro de Brancanee em Setúbal. 1829. Frei Alexandre cul- 2 Lyrira de . memoria celebram estes verera próximo parente do auctor. (Obras.) João Mínimo. '' Na divisão da familia portugueza em 1 FabulaSy p. 19Í. * Em uma Ode á morte do velho tio.

e na eloquência parlamentar da es"l Iquerda constitucional selembrista. referindo-se ás vantagens da educação hu- manista para os homens que hão de no futuro tomar parte no regimen parlamentar.) . Paulo de Loanda. que parecia leval-o para a vida clerical. Morreu a 22 de abril de 1818 1 Tratado de Educação. eremita de Santo Agostinho. na Sc de Angra. uma unidade de plano na sua actividade litteraria. os padres Manuel Ignacio e Ignacio da Sil?a. Deixar fallar modernos emo- dernices. A educação religiosa e ('humanista de Garrett deu-llie uma grande indilTerença pe- los trabalhos da renovação scientifica do século xix. do sãos elementos de jinstrucção. sólida Uuna de receber uma educação portugueza de Jbons princípios de religião. Em 24 do outubro de 1781 foi eleito bi. As primei- ras revelações do talento de Garrett foram no púlpito a (jue subiu por uma travessura infantil. que tanto carece de uma palavrosa actividade: «O grego e o latim são os necessários ele- mentos d'esta educação nobre. das mefho- |res que se dão. sendo transferido para Angra em 181^. ninguém presenlia que esse fervor precoce. residiu por Ires aonos na diocese de Angola. não direi em Portugal.'po de Malaca. seria posto ao serviço da liberdade na Oração á morte de Manuel Fernandes Tbomaz.» * E mais adiante. sendo sagrado a âi de fevereiro de 1783. petimetres e neologistas de toda a espécie: o ho- mem que se destina ou o destinou o seu merecimento a tiyou a poesia erudita o académica. 4. Transferido anles da posse do bispado para S. conhecido pelo com ar- nome cadico de Silvio. Almeida Garrett foi o único que em sua casa se sacrificoii á causa da liberdade. de Loudres. cónego e arcediago. e cora quanto fosse mal aproveitada. julgámos que por isso o confundem Frei Alexandre da Silva. p. e por isso não teve um pensamento. mas pela Europa. seus primeiros estudos ^espirito No Tratado de Educação descreve os com um certo orgulho.ALMEIDA GARUETT 125 absolulislas e liberaes. por onde começaram as suas perseguições politicas. quando dizem que elle pertencera ú Arcádia de Lisboa. de moral. Tinha mais dois irmilos. que para um philosophico seria um protesto: «Eu tive a boa forvelha. (Ed.

12(5 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL uma vocação publica. como A Lyra. 2 Flores 3 Ibid. A Pombinha.» Nos prólogos dos seus livros. Ainda embalado pelo fausto da Regência.' p. nâo pôde sem vergonha ignorar as * bellas-lettras e as clássicas. p. crifido. Garrett espalhou com certo desvanecimento todas as particularidades com que se lhe pôde reconstituir Alexandre foi a biographia. A espada dopoeta..» ^ lilleraes quanto o génio das duas N^esta parte o bom de Joaquim Al- 1 Tratado de Educação. critica cuja leitura lhe teria sido susci- tada pelas ponderações admirativas de Joaquim Alves. ç. 225.) . que se conservou em Portugal como as velhas modas nas aldeias.» 2 em Paris. A Rosa. A uma influencia de D. Frei corroborada por outra pezada auclori- dade do hellenista terceirense Joaquim Alves. Esta disciplina de grecismo á Joaquim Alves. A força da imãher. Goso da vida. levou-o ^ò á imitambém para de a admiração dos lyricos. que adoçava as escabrosidades dos versos da Grammatica de Port-Royal fez. não decidiu o talento da criança tação inconsciente da tragedia grega.. que não teve a bastante de lhe explicar como a maior parte d'essas odes lascivas são fidsiíicaçôes da época ale- xandrina. e como Bellesa e bondade. 1845. 22G. Nas Flores sem fructo acham-se bastantes odesinhas de Sapho. Garrett declara-nos a fonte por onde houve o conhecimento de Sapho: «Na elegante collecçãosinha publicada nos lins do século passado plío . como o Inverno. o Sa- de Anacreonte. (Ed.» com «a melhor marmeliada que ainda se como se des- creve no prologo da Mérope. e de Alceo.. das peças eróticas de Alcoo e Sapho. 34. sem fructo. que traduziu. com o titulo de Oeuvres de Sa- Da traducção de Anacreonte diz com certa ja- ctância pueril: «os presentes estudos sobre Anacreonte são traduções tão severamente linguas o permitte.

É escri- pto em verso solto.ALMEIDA GABRETT 127 ves serviu de Pae-velho. de A maOdes uma esmerada a (1814 a 1823) do qual diz o herdeiro do poeta no Catalogo dos Aittog rap/ws: os assumptos escolhidos. exemglo: 1 Helena. como espécie de voltas de velho can- cioneiro. xxvi. rasgadas muitas das folhas em que estavam escriptos. atrophiada pela mecha- nica poética dos fazedores de poemas épicos pela pauta de Le Bossu. que acceitava os apocryphos alexandrinos. zido sobre o assucarado francez das edições destinadas para as damas da afastava Garrett para muito esta época pertence esse calligraphia. 2 Ib. que le fez crear essa poesia simples e ardente das Folhas ca- hidas. foi essa mesma tra- dição que le fez sentir o colorido das cantigas soltas.» ^ Pobre alma. as tradições populares lia com que te embalaram a mulata Rosa de Lima e a Brigida.» D'este autographo se no citado Catalogo: «Ficou incompleto. de Burro. mil e seiscentos versos. ao lodo. é que le conservaram accesa a alampada de Eros. [). com que Psyche se salvou da obscuridade do modiocre! Foi essa luz que le revelou a existência dos cantos heróicos d'este povo. e tradualta sociedade. parte do quarto canto. . contendo. que nunca as arcádias senti- ram. Nas Flores sem friwlo intercala Garrett por vezes doestas cantigas populares. ou segundo o velho calão das escolas.» * Pertence lambem a esta influencia clássica a •Alfonsaida ou Funda1814 e ção do Impcrio Lusitano. consta dos três primeiros cantos. nuscripto. p. d'esse lyrismo único. poema heróico lé — Angra. 1815. acham-se muito inutilisados pelo auctor. XXV. Estes criptos O Índice mostra terem sido cincoenta porém nem todos foram es • ou não foram traslados para aqui. intitulado longe da verdadeira poesia. e d'aquelles que o foram. O lyrismo grego conhecido através d'esla fonte.

. Estas referencias populares do primeiro lyrismo de GarfTéi sâo um presentimenlo genial. ensaia va-se em outras quadras em um lyrismo novo. Trago npgro o coração. 190. á (lôr dos lábios morreu Coração que o não entende Que . p. de que Garrett tanto se riu sempre. Garrett interpretando estas cantigas do povo. I)c tanto pedir-lbe araores elles .. Não o quero para meu. negros. porque o sentimento restringe-se á personalidade do poeta. '^ p. Garrell romanismo . i Suspiro que nasce d'alma. produziu-lhe do pesado esse estado marasmatico do sentimento. . . Cbristovam Falcão. a parte jviva da tradição provençal. A catadura se annos o lyrannica dos lentes. ridicularisa os lentes de direito e o seu estúpido 2/6.: . os cantares guaya^dos e de ledino. cit. se tornaram os primeiros lyri- Quando Garrett entrou em Coimbra perdeu durante dois dom da poesia. ^ ^ Nunca a linguagem individual pôde achar estas expres- sões profundas. as serranilhas. acceitando cos portuguezes. E a dizer que nilo. (1814a 1810) é como as aves que esquecem do canto ao mudarem de terra. 128 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Por teus olhos negros. que o conservou silencioso. já nas lições de direito. que Sá de Miranda. Garrett vivia na intimidade litteraria 1 Op. e Francisco Rodrigues Lobo. ^ já de mathematica. Foi esta influencia domestica quem conservou no espirito de Garrett a feição e sentir nacional que o libertou mais tarde das mais auctoritarias convenções. do mesmo modo que a mão que lança as primeiras lettras segue os traços que tem á vista. . 153. foi glosando e commen- tando os cantos do povo. Nas Fabulas. K^ Camões.

Voltaire e Alfieri foram elle annullados. Fui preso por Verdeae?. Luiz. Corneillc. Mas que doutor fiquei eu. . p. em Coimbra a monomania das eram único meio o que os estudantes tinham que mau grado a intolerância para exprimir sentimentos liberaes. faltando-lhe apena»? para o triumpho completo vencer Maiiiucl José de Paiva e Manuel Caetano Pimenta de Aguiar. cit.ALMEIDA GARBRTT 129 Frei Francisco de S. Em toda a sociedade d'esle Por força bade reger famoso direito de accrescer. dois medíocres es- criptoreí dramáticos porluguczcá inteiramente obscuros: Victorioso o padre a Branca ostenta. Francisco de Lemos. Racine.. em que 273. despótica do Bispo-Gonde-reilor-reformador D. fJ9 ) Em caç. Só para vencer lhe restara dois Mas temíveis rivaes — Paiva e Pimeutal maganos. dizendo Em um /por ique Soplioclcs. os trabalhos de Verdade é. 8c o que soube da Instituía E do Digesto 1 esqueci? {Op. me ensinava homem discreto mundo E de saber profundo. * do pedagogo Joaquim Al- Mis o fervor liberal que agitava os estudantes de Pois FOf^ondo nioi douto Meu Dieíliõ . p. Reinava tragedias. Wommsen.rave9 a expli- romani^mo um do^ poDloB das causas de direito. Crebillon. {Op. cit. So nunca o Martini li.io nota accreeccnta: d'est0 «No meu primeiro anno da Universidade era atais |.lo?ò Vaz. que escangalhava os theatros. ei. como veremos no Retrato de Vénus.) Esta sciencia da sebenta calhedratica perpetua-se até hoje. no Quebra -Costas Minha vez escorrcpuei. Garrett chasqutiia da tragedia do padre José Agostinho de Macedo intitulada liranca de Ros-ii. 77. Macqiiardt e Lange ainda ali sSo desconhecidos. e lio -c velha influencia clássica de seu ves. que o arrastou insensivelmente para a erudição e para o género didáctico. Ciarrelt deixou nos seus versos alguns traços caracteriilicos da vida académica. Euripedes.. que ainda enconlráatos: cit.) soneto datado de Coimlira de 1819. p. (Op. (1817 a i818) (jarrett sacrihcou em parle o lyrismo á imitação das tragepoi: tanto vollou á dias de Voltaire e de Grébiiton. E á IN)[ta Férrea m.

vivo e natural. e Garrett atacou-o de frente. outras vezes debaixo das construcçôes archaicas de Filinto. Garrett caracterisa-o como: co mais atrabiliário escriptor que ainda creio que tivesse a lingua portugueza. p. e a techno- logia das artes. no século xvni. em que a poesia a pobre vem servir as banaes regras» de moral. faz Orientes e baptisa Gamas. Nem o furioso e sanguinário quo foi cm seu partido nem a perseguição politica de que a mim próprio me fez victima. em que a falta de sentimento procura acobertar-se com o fim . 271. o que ha de acceitavel na Lyrica de João Mínimo vem do calor revolucionário. repete-se o poesia mesmo phenomeno.130 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Coimbra foi o que deu aos versos de Garrett.) José Agostinho de Macedo. lempo. que reagia contra o eslylo inquisitorial da Universidade. poemas didácticos multiplicam-se ao ^passo que a ideia do bello se oblitera sob o cesarismo que i aproximava Roma do Baixo Império. que in- spirava o grotesco das Fabulas. saudou em Castilho o espirito arcadico que reoascia. Sai que no auctor do Retrato de Yenus^ no redactor principal do PortuyueZy elle perseguia principalmente o ainda mais odioso auctor do poema Camfies. que attacava Garrett. XVII. poderam mover me a desacatar n'elle o homem de lettras que todavia líonro ainda. no soneto supracitado e nos versos: ram a um Quo tal poeta lá da tua terra. t. Um dos característicos mais pronunciados nas épocas de (/decadência litteraria é o género didáctico.. O rancor que toda a vida professou a quantos professaram as lettras no seu tempo. na •edade da corrupção politica e do convencionalismo senti- mental.. Todas as suas oíTensas porém foram só politicas. José Agostinho de Macedo era o pontifico litterario do primeiro quartel do como os dissidentes de Coimbra fizeCastilho mais tarde. Era essa aspiração da liberdade. Em uma nota. e que todos os funccionarios po- pcculo XIX. escriptos n'este lado. uma inveja imprópria de talento tilo verdadeiramente superior o arrastou a desvarios qne deslustraram o seu nome c mancharam a sua fama. que podia mais que a erudição e que o pedantismo calhedratico. esse que se sente esmagado limas vezes debaixo do mechanismo bocagiano. .na litteratura latina os scientifico.» (Obras de Garrett. Era esta que não encommodava os ócios da auctoridade.

que * me As honrou a mim e a este opúsculo com Gar- suas correcções. ler e até escrever. fraco ousei tomar divino emprego. . como as notas e ensaio minha infância poética. 18G7). j)oemeiQ_enijiuat ro cantos dedjçadoj. sr. em que conto vinte j certo que desde e dois. e Jonio DuriensCj quiz também fa- um poema n'esse diapasão. datada áaáic^iiovh Aos pintores por tu- do Porto de 1818. p.ALMEIDA OARUETT 131 {^raça diam real. 2 Garrett assignando-se então Jcnio Duriense revelava a influencia da Nova Arcádia a que obedecia. N'este periodo eslava Garrett As primícias do canto. É esse tempo até agora. que m'o viram começar e acabar então. os 8ons primeiros Que a furlo. Tal é a origem do gg/m/o de Vénus. xvii. Esmenard. Suppriu arrojo tanto o bom desejo: Valba a matéria. a medo balbuciou na lyra. Nas débeis azas mal despontam plumas. Mas do monte nas quebras descansando. como o ex. Vinga d'um voo o Pindo a altiva águia. Darwin. com uma dominado pelo furor \dmanisla. e a*té submetlido á censura de pesfoi ' soas doutas e de conhecida pliilologia. (Ed. 1G4. as emendas d'esla t Uelrato de Fenws. Merecieis Camões. sem perigo de decaírem da Garrett viu apenas a manifestação exterior doeste fa- cto. são: a copia três correcções de que aqui fulla constando apenas de três cantos. Isto nâo é impostura: sobejas pessoas lia ahi.» rett. José Agostinh(t compii- zeram peças zer didaclicas. De Lille."'** Sam Luiz. Camões faltaram.^lorifica'sâo da <3P da Pintura: «tanto o poema. por Ires vezes o tenho corrigido. como se pôde vèr pela dedicatória do poema: guezes. oli vales. sâo compostos na edade de dezescte atinas. * Catalogo dos Autographos^ p. se não vale o canto. O E vale implume vos consagra. Também lá cbegará rasteira pomba.

a mestra ánlíguidade o diga. . Fabula gcnlil.l'i}2 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL primeira redacção consistiram era despojal-a de todo o me- chanismo poético elmanista» A segunda copia data de 18^1. mas diíTerente ainda da que serviu para a edição de i8il. O manuas notas e com Ensaio sobre a Historia da Pintura. Essas no canto me áesparze agora. i. por um pro- um Ilbello do promotor fiscal contra João Baptista da Silva Leitão de hXiiíjerdade meida Garrett accusado de abuso de de imprensa no poema do Retrato de Vénus! Lido o innocente poemasinhò custa a crer como a intolerância politica se servia de escrúpulos religiosos da mais refalsada orthodoxia para descobrir intenções revolucionarias em uma innocente citação de Voltaire ou da Nova ções do Ileloisa. que os encyclopedistas haviam j-ehabilitado. e áureas ficções desdenba o gabio? douia. Mão. e que deu causa ^'?li9Ji:LÍÍíHlL^^^ outubro d'esse anno. mas não é aos dezesete annos que se chega á compreheusão moral do es- tado de scepticismo a que as revoluções de Roma e as bi- elas entre Mário e Scylla arrastaram Lucrécio.) ( O poemeto descreve vagamente e olíicial com as ideias syncre- flicas do ensino a decadência de Roma. xvii.» scripto já constava então de quatro cantos. . . A terceira redacção é a a que corre impressa desde i82i. na fabula de que elle se ia des- \iaudo pela leitura de Chateaubriand e de Madame de Stacl: A Ficções! . * «mais atigmentada do que a antecedente. Garrett imita o poema na parte exterior. Orna -me a lyra c'os feslóes de rosas. Que ás margens coilies da Castalia pura: Flores que outr'ora do Epicuro ao valo Co austero assumpto lhe entrauçaste amenas. ' O Retrato de Vénus procura repassar-se do es- pi ri lo poético do poema De Natura rerum. (c. rolve a meus versos. o renasci- * Catalogo dos Âuíoyraphos. p. e nas apaixonadas imita- poema de Lucrécio.

de 1821. segue-se da sem a minima luz nm quadro histórico da pintura portuinlellectual gueza. de que já falíamos. glosado de Lanzi e de outros. pag. É natural que esta mesma causa trpga ainda â publicidade o poemeto do Roubo das Sabi7ms. foi atraz d'este programma pomposo. o animo de lucro da parte do quem se devera importar da reputação do poeta. estudava a quando Arte portugueza. e muito controvertido sobre a pintura portugucza e sua historia. das obras dos nossos artistas a ideia me suscitou de entrar com o facho da philosophia n'este cahos informe. onde 1 com uma doce miragem avança: «Tem-se escripto muito. própria. Didionaire histórico -art-slique du Portugal. dois cantos.ALMEIDA GARUKTT 133 a mento das Artes. fez com que o Retrato de Ve7ius entrasse na collecção das obras completas de Garrett. 108.. foi A autojatria que Almeida Garrett professava a causa de não ter inutili- * 2 Catalogo dos Atitographos. mas. a Alfo?isaida. e não pôde conter este delicado epigramma: oL'auteur consacre ensuite quinze pages à Texamen de cette matiòre. escripto em de que somente escreveu o primeiro titulado e segundo cantos. p. e desembaraçar quanto em mim fosse com o fio da critica este inextricável labyrinto.» Raczynski. e em seguida enumeração dos nomes dos pintores italianos caraclerisados com o seu conveniente epitheto. A intenção erudita do poeHistoria meto defme-se meltior em iim Ensaio sobre a Pintura. a tomada de Constantinopla. tanto nacionaes como estrangeiros (aíToitamente o digo) sem critica. xxv.. . ^ in- O X ou A Incógnita. e o poemeto heroi-comico em quatro cantos. o quarto cnnto é de- dicado aos pintores portuguezes. O exame de seus escriptos. Garrett pediu aos livreiros Bertrands que retirassem da venda o poema. mas renta versos.» * Annos depois. cm em verso solto em numero de oitocentos e qua- 1820. et cite bon nombre de peintres I(?s plus connus .

o noção republicana mesclada liberalismo. em A marcha da politica europea produzia entre nós esta espécie de phenomeno das marés pohticas. essa vaga com 4817 o indefinido systema constitucional. entre os estu- dantes que erigiram o theatro do Collegio das Artes 1813. Garrett. porque o estudo das sciencias naturaes lhes dava uma e certa independência intellectual que faltava aos thcologos 1 Garrelí c os Dramas romaníicos. 133. estudante do segundo anno medico. Os theatros académicos surgiram para da- rem expansão aos generosos sentimentos. por isso também sujeito á triste eventualidade de nos mostrar meios como venceu a corrente da mediocridade do seu das correntes mais forles que iam inutilisando o gefoi tempo que por vezes o envolveu. quem tragedias na época da diria ^sua formatura em que o admirador |de Racine. Joaquim Larcher e José Maria Grande. jfestação que os [ A tragedia philosophica êra a única mani- tugal para homens illustrados tinham então em Porcommunicarem os seus sentimentos liberaes. traduzido por João Eloy Nunes Cardoso. que fazia os papeis de dama. . preponderava a 1818. Os médicos eram os principaes cultores da tragedia philosophica. e agitava os estudantes. que datava de 18H. apparecia agora em um novo enthusiasta. de Voltaire e de Grebillon. e ahi representaram de 1817 para 1818. seria o auctor do Frei \Luiz de Sousa. Uma /nio de Gacrett a monomania das Coimbra. Fundaram um novc^ theatro na rua dos Coutinhos. isto é. João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett. p. representou-se o Rhadamisto. Garrett compraz-se em citar este nome do seu contemporâneo nas Fahtdas e no Romanceiro. de Aldeia Gallega. Lucrécia e Xerxes refundição dos Persas. * Entre outras tragedias de Grebillon.134 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL sado estes esboços de fica os uma vocação que se define. Para este Iheatrinho escreveu Garrett duas tragedias.

o lente da cadeira 135 de Anatomia verso. Garrett alíirmou os seus sentimentos de iberdade recitando ^dece reito uma ode enlhusiastica. quando a revolução levada a cabo pelos treze beneméritos. em agosto e setembro d'esse anno. os Árabes ou o Crime virtuoso.ALMEIDA GARRETT juristas da Universidade. M. (Conimbricense. e o lente da cadeira de Instituições raedico-ci- rurgicas José Feliciano de Castilho fazia representar casa tragedias. principio de acto de El-rei Se- uma comedia em ^ dois actos. Em 'Charel : em 30 de junho de 18i0 recebe Garrett o gráo ^e badireito. p. drama de 1821. Elle sae outra ^vez da sua ilha tranquilla para as tempestades da capital. cança-o. do que resta parte do primeiro acto. foi jcelebrada nos Outeiros poéticos da sala dos Capellos. o projecto e esboço das primeiras scenas de rapião.» Trabalhava-se para a reunião das Cortes constituintes e discutiara-se as bases da nova Constituição de 1822. por F. regressando á Terceira nos mezes de maio. o socego da casa materna a que regressou. Sae de Coimbra formado ilha em di- em 1821. D. João vi * o Thealro em Coimbra.) 2 Calaloijo dos Auíographos. * foi n'este intervallo que Almeida Garrett refundiu a sua Merope. e principio do primeiro. de Carvalho. em que ainda obe- á imitação elmanista. o empenho de um despacho fèlo n'esse mesmo anuo partir para Lisboa. intitulado Ignez de Castro. Ide em 22 li- novembro."> 2:353 . n. Francisco Soares Franco escrevia tragedias em como sua a Hermínia. projecto de um drama em Ires actos. escreveu o primeiro e parle do segundo acto lona. em como as de Monti. xy e xvi. que os filhos traduziam e desempenhavam. Desde Í8I8 a 1824 suspenderam-se os divertimentos theatraes. e 2:356. de em verso solto da tragedia Édipo em Co- 1820. intitulada Cifrão. Diz elle no prologo das Fabulas: abril e /"«Os cinco annos da vida de Coimbra passaram.

pela decepção e pela morte. a de Manlio por Carlos Morato Roma. diante da prepotência dos nobres. . Roque no logar occupado hoje pela Companhia de carruagens lisbonenses. diante do poder fa- natisador das ordens monásticas. e entre dez e vinte dias deu por completa a tragedia Catão. deviam ser anullados pelo ludibrio. * O theatro do Bairro Alto era construído no largo de S. como Manuel Borges Carneiro ou o coronel Sepúlveda. com A duas uma varanda corrida sobre a se- 1 Merecera lêr-se os artigos publicados pelo sr. onde se represensala continha taram as celebres comedias do Judeu. publicados em seis íolhelins do Piano de Noticias. por conterem bastantes fados desconhecidos. e de um exercito ao ser- viço da realesa. taes como a casa opulentíssima de Cadaval. e Paulo Midosi o primeiro a propor uma recita de curiosos no theatro do Bairro Alto. offerecendo a sua casa no Chiado para os ensaios. Este facto foi um dos mais fundamenlaes da vida de Garrett. Paulo Midosi com o lilulo Os ensaios do Catão. Quando Garrett pliilofci chegou a Lisboa encontrou os amigos da Universidade. O Catão foi posto em scena em 29 de setembro de 18:21.136 HISTOHIA DO ROMANTISMO KM PORTUGAL obstinára-se a permanecer no Rio de Janeiro. sendo a parte de Catão desempenhada por Joaquim Larcher. convém distin- guil-o do antigo theatro do Bairro Alto. Era um assumpto conforme com o estado do espirito publico. a de Sempronio por Mí thias Carneiro Leão. porque determinou o seu casamento. coaio José Ferreira Borges. e os partidários da liberdade debalde aspiravam a uma jiislissima so- lução republicana. e a de Dccio por José Frederico Pereira Marecos. ordens de camarotes. a de Porcio por Netto. lembraram-se das suas representações de tragedias sophicas nos divertimentos escolares. a de Marco Bruto pelo próprio Garrett. N'estas condições os grandes talentos e as mais heróicas vontades de homens como Manuel Fernandes Thomaz. Garrett encarregou-se de fornecer a composição dra- mática.

Era proprietário do inaugurou-se o theatro theatro do Bairro Alto o escrivão do crime d'esse bairro Dyonisio José Monteiro de Mendonça pelos fins de 1815. Ajrepresenlação da tragedia o Catão. Quando vendo esta companhia retirou para o theatro do do theatro do Bairro Alto foi foi Salitre. conservam grata memoria d'esta récita. que durou da paschoa até aos acontecimentos de 15 de se- tembro de 18á(). abrir. Vivia u'esta época um negociante por nome Luiz Midosi. que vivem.g sapateiro João dos Santos Matta. e que todas se apresentariam de chapéos. 1 Citados folhetins do Paulo Midosi. rett. em 29 p sr. mas teve de estar um anno fechado por i. de uma farça O Corcunda por amor.» * de treze annos por nome Na segunda representação em 2 de outusr. em que o emprezario se resolveu a volali tar para o Salitre. diz Midosi: «Convencíonou-se entre as senhoras que a toilclte seria mo- As poucas pessoas da minha família. revi- em 1820 com o regresso dos seus actores. ficando depois d isto o theatro para sempre chado.. porém onde a parte principal coube a Gardesta. filha que tinha uma formosíssima Luiza Midosi.ALMEIDA OARKETT 137 gnnda. a actividade diminuta. e que foi tão bem acceita que a 2 de outubro de 1821 representou-se. inaugurou-se com a Quando se torcomedia o Principe Prr- e era uma das principaes glorias da companhia. causa do luto forçado pela morte de D. . curioso que veiíi mais tarde a fa^er parte da companhia. Maria vés que pertuiboa para sempre a empreza. fura construído pela direcção do pintor Joaquim da Costa e do carpinteiro Vicente Romano. . trouxe ao abandonado theatro do Bairro Alto as principaes familias de Lisboa. sondo emprezario Evaristo José Pereira. Foi um re- nou a feito. o Catão. de se- tembro de 1821. em que coUaborou meu pae. ephemera esta vida. Apenas funccionou uma companhia fe- hespanhola. que fazia de primeiro gala. mas acompanhado.

anachronicamente a galanteria á Luiz xv: «Con- não pelo que vale. *. que revela as relações especiaes d'essa época em que reprodu- zíamos servo já isto. dando intenção aos vermimo. o encanto 'i'ella. * A data do casamento Gxa-se em 11 de noTombro de 1822. da casa das . Garrett ajuntou a este manuscripto a seguinte nota. partindo em burrinhos. estava ella da segunda ordem toda vestida de branco. que contava treze annos e meio. O Impromptu de Cintra ficou inédito. Depois do casamento D. na companhia de amigos. mas para memoria d'esles de Cintra. a 8 de abril de 1822. que de ingénua. Oh perdoa se a pátria te não deixa primeiro legar em nossas scenas. formado de vinte pessoas.''' estylo satyrisado por Tolentino. Garrett escreveu para essa jquinta da Cabeça. . mas a felicidade não correspon- deu ao enthusiasmo do coiip de foudre. delicias. a i 1 O casamento effectuou-se de novembro de 1822. o Itra. passei no delicioso sitio Logo em 26 de maio se represenem outros trabalhos. em um camarote xom um chapéo de setim cor de rosa. Garrett recitou o prologo de Catão com sos: os oltios fitos onde ella estava. Luiza projectou um pic-nic monstro em Cinlra. xv.138 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL bro de 1821 é que Garrett se apaixonou por Luiza Midosi.. no velho sr. Fricks de Campolide. e pelo sogro. ! Afago da existência Estes versos foram gravados em uma caixa com tampa de oiro e com o retrato de Luiza como se achava vestida na noite de 2 de outubro de i821. 2 Catalogo dos Aulographos. ali festa passada na Jmpromptude Cin- representado por seu cunhado Luiz Francisco Mifazia idosi. que fazia de graagosto d'este fcioso.Em 12 de ofíicial mesmo anno foi Garrett despachado j da secretaria do ministério do reino. E tu sexo gonlil.» ^ saudosos dias que. p.

p. e o enredar-se em dispender o seu talento a em odes coníldenciaes. vieste-nos supprir os Amorinhos lúbricos do pincel de Watleau e de Boucher com as luas allegorias mythologicas. Ali. Annalia. 1. onde a mulher cumpriu nosso vellio á. 2 e á parte a insuííiciencia d'essa hendenos o encontrar no plano de reproducção das obras * Lyrica de João Mínimo. antes da emigração em completamente representadas no Lyceu das Da- 1823.ALMEIDA GARRETT 139 dois actos tou outra vez em Cintra o drama de Garrett em foi fácil Os Namorados Extravagantes. if. 2 Vol. 109. parir e fiar. ^ Enlbusiasta e cálido. que agora férias succediam ás Delmiras e Mareias. suave Demoustier e empoa a cabeça a esta gente. 39. p. 175. . dos íinos requebros e intercortados sus- piros. e cora a tua elegância de braço dado dez. quatro d'estas lições foram publicadas 18á7 no jornal o Chrocomposição. em de Qarrett. ^ As ideias litterarias /'I8i3. que até hoje só conheceu a cinza da tristosa biblica.risca o anexim: Chorar. das grato emprego do Porto. a Lilia. em que dá Lições de Poe- perfumado e empoado DemoustierI até cá este canto beato e triste se estendeu o teu siblerie mundo da sen- equivoca. hade respirar satisfeita com as tuas Cartas a Emilia.en senhora. Do um rapaz amador do bello sexo. a tua des- envoltura liade-llie parecer mais pura que os ditos sujos ! das comedias do Judeu Entra. D^aqui n'essas intrigas de alcova. com a insipi- A boa sociedade portugueza. com os teus versos alliados em doce conimbio com a prosa. 177. a Júlia. 1IÍ2. e vol. estão mas — Lições de Poesia a uma jm. surpre- hiista. p. Este estado moral e intellectual está cabalmente reflectido n'essa outra obrinlia insignificante sia a Júlia.

primeiro elemento da .poesia moderna. ' 1 Prospecto. 11 Sophocles. . LuciOy Lucrécio. Co\^1 rina. seus vários géneros. e D. — Livro 'ú\ III. encontra-se o elenco d'eslas Lições de Poesia a uma Fim joven senhora. Eschylo. 5 Homero. eic. etc. com ção litteraria do bello sexo. Scipião. 22 Poesia do Norte 23 Troele- vadores. dividiam-se raes. Meia edade. etc. Poesia latina: cap. Catullo. contendo: lição 1 em três livros: I Princípios geBeijo. das línguas vivas. de Demoustier. quarto elemento da poe- Formaçàa da poesia moderna. Euripides. 3 Poesia. 17 Horácio. Branca? Para que voltar a este passado mesquinho da falsa imitação de Demoustier? j Garrett \ • lambem . 16 Aperfeiçoamento da poesia latina pela conquista Virgi- da Grécia. 25 Árabes. 20 sia moderna. a que procedeu seu genro. diplomas. 18 lio. se servia da litleratura como meio de ga- lanteria pertencia á época da Restauração. sua antiguidade. 10 Thespis. Aris^ 13 Poesia na Sicilia. etc. prazer e instrucção. em 1839. que lhe inspi/rára os poemas Camões. Conclusão. 2 Apud romance Helena. 24 Bardos. ^11 Bíblia. na 7 Sapho. 8 Anacreonte.» Pois não progredira visivel- ! mente o poeta depois da emigração de Portugal. 4 Poesia antiga até Homero. ainda annunciado o nLyceu o fim de aperfeiçoar a educa* das Damas (inédito) no estylo e pela forma das Cartas a Emilía. da casa Berlrand. formação e Meio-dia. "2 Principio das Artes —o das Artes. e por isso não quiz anuilar esse livrinho que o tornaria sympalhico ao bello sexo. p. xxxiii : Catalogo dos Autographos. 19 Phedro. 15 Planto j Sci- pião. Pérsio. suas divisões. terceiro mento da poesia moderna.140 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL completas de Garrett. 14 Poesia Itália f Enio. ~ Alceu. 9 Pindaro. G Hesiodo tophanes. segundo elemento da poesia moderna. do- cumentes políticos e lilterarios. Poesia moderna: lição ^0 Invasão dos Bárbaros. — Liwo II. No inventario dos seus papeis.

p. eu l'o peço. . Nem isso. como esse incolor e insipido Demoustier. apesar bello. F. Sempre é lingua de trapos viva a nossa por. Benan ao estudar o livro de Creuzer sobre a Symbolica.xou um documento incontroverso do seu talento. amesquinhando-nos na sua estolidez! Se Garrett dei.ALMEIDA GARRETT lál Quem lòr este simples esboço suspeita (embora se des- cubra á primeira vista ausência de e sobre tudo do espirito da historia existir uma noção litteraria) synthetica que devem n'essas paginas algumas d'essas observações com que Garrett revelou mais tarde a sua intuição artistica. tu já lòstc a elegante tradução de suas lindas Cartas. cuja tradução portugueza tanto encarece. tem todavia uma certa aíTectação em que forçosamente cae a lingua franceza apenas a desviam do seu trilho natural e chão. Que estado deplorável esle em que traduzíamos Demoustier em Portugal. com quo brindou a nossa lingua o sr. como o modelo que feita se pro- poz imitar. Ferreira Borges: pelo seu patrício «A proposiio do amante de Emilia. i. gosto mais d'elles assim: acho mais pilhéria ao padre Apollo dando ás gambias atraz de Daphne e gritando com derretida lamuria: Cruel.tugueza. iiida mal! para se fa- zer n'uma arvore. foi o ter vencido esta falsa direcção em que se achou arrastado. É tão bonita esta fabula emportuguez: causou-me dobrado prazer do que no original. e foi correndo. é tudo chato e pueril. dá a Demoustier a importância de citar-lhe as Cartas a Enih o ^ Clirunista. «Mas ella não parou. 155. pára. que. vol. que é outra' casta de idioma!» * É assim quo de : ensina a sua Lilia e lhe procura desenvolver o gosto. B? Não te parece que lhe ficam tão bem os trajos porttiguezes áquella sucia de deu- ses e deusas. que estavam arlequinados á parisiense? Eu por mim.

101. Trata-se da Historia da poesia antiga: Garrett ataca o assumpto «Ha poucos modos de tor: e se vida tão fáceis. de Maury. e que os velhos mythos que desabrocharam da imaginação primitiva perderam muito cedo a sua significação. é tas tolices pretenciosas. * Essais de critique et d'Histoirc.'» bert. accrescenla para o julgamento de Demoustier: «Para um homem de senso e de gosto. Léo Jou- ao estudar a Historia das Religiões da Greda antiga. tolas e pretenciosas. . N\a- quelle estado de espirito. o haver folheado as um desagradável accidente que se nâo deve repetir. p. as Lições de «fazer amável Poesia a iimajoven senhora. rrinca pôde dar á sua obra ventura aquella. p. lição iv. a sair d'este meio chilro e sensivel. estava perdido para a litteratura.forçado a emigrar de Portugal. um em cair plano philosophico. estava mais seguro de na banalidade. com este tom: como o de impos- ha coisa então em que este oílicio seja facílimo. uma livro es- pécie de historia divertida e conveniente. que procuravam lettras.» ^ Esta é a verdade. Nâo se arrosta duas vezes com o tédio d'esCartas a Emiiia. que ape- sar de ler realisado perfeitas creações artísticas. para ensinar como o seu modelo. e ainda assim a frivolidade da época penetrou-o tão intimamente. 9. se Garrett se não tivesse visto . nâo data de Boccacio ou de Demoustier: Ovídio reahsou-a em um * um pouco menos máo do que as Cartas a Emilia. é em 1 litteraluras e antiguidades: Études d'Histoire religieuse. Extractaremos aqui algumas passagens da por que tendo de expor mais factos. e introduzir entre o estudo das vertindo» são nós o tão engraçado di- quanto proveitoso methodo de Demoustier. A ideia de fazer doestas fabulas venerandas um todo chronologico.142 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL lia sobre a Mythologia: «É evidente que a própria antiguidade cessou de coníiprehender a sua religião.

. Domina Do meu bem. os Hebreus. Pbilisleus. dos quaes custa pouco a dizer. do meu amor Só quero gloria o louvor. tutus ero. e lél-a quero Apocrypba on genuína? . «eu por mim contento-me de te dizer. um collector de trovas. que nos vieram com esse outro de Ilesiodo. ALMEIDA OÂBRETT € 143 Os Egypcios Oá Porsaa e K depoi» os Queres tu vèr como eu cito e Cbaldeus.. e cujo fim é dar á minha discípula: «Fáceis lições do roeu saber ingénuo. e assim enfiando qualquer agora. se Homero foi tão somente metlo um traductor. porém que nada sabefaria mos d'elles? «Assim fazem quasi todos. Os Gregos foram provavelmente os povos europeus que pri- meiro cultivaram as bellas-artes. «e outros mais qne acabam em eus. e o que me imporia. . Se a risonha e engenhosa Mythologia dos antigos a houveram elles do Eg)'pto ou da índia ou de ambas as partes. Se cu gúslo quando a leio. Mohabilas. n'isso não me eu: o que sei. que foram grandes homens. são as mais completas e antigas que na Europa se conhecem: «E que me imporia a mim que o grego Ilomero Nao seja o auetor da lllíada divina. Que a doutora ccbenta carapuça. Jamais oa li»a frente Encaixei doutamente «eu que adoptei a lettra do elegante Procopio: jndirc. que em poesia o mais antigo que conheço são as composições gregas e hebraicas. um rosário de inúteis conjecturas antes que chefa- gasse a entrar em matéria. Chananeui). é que as obras que nos as chegaram com o seu nome. Eu que pretendo pouco da ma.

.i cidade.ubaros eusina A erguer. palpa-o o tacto. E alias questões travarem Subré o nome do au tor? «Sinijoles.nieira ((t.» Lino é caraclerisado fez cm poucos traços: «Lino lambem so nomeado na' Grécia pelo primor sons da \oz aos da lyra. e a lempo engraçada mimosa. morta a mulher. mas quanto mais foi difíicil de pintar!» Depois disto passa a fallar de Ilesiodo: bem nao muito mais antigo. um. Co'os magos sons da lyra. delicada.» Bellaperipbrasepara não fallar nas cordas de tripa. a fora ao . encordoada então com que associava os com simples fios de linlio. Se o» Perd« acaso de sua formosura critico» em duvidas entrarem. AoSi liomcns rude.144 HISTORIA DO ROMANTISMO RM PORTUGAL Podem espas questões dos antiquários Fazer menos formosa Andromacba íaudosa Quando Vera dar ás por' as de Troya assediada Co' — till»inbo nos braços talvez os últimos abraços Ao seu querido Ueitor? Poesia.» E percorre assim a dos aedos gre- gos: «D'estes cantores divinos ou divinisados. é para assim dizer o Dante lista dí poesia clássica. Toda meif^uicc' o amor. sempre elegaute.^. Modelo é e será de toda a poesia clássica. languida. natura] é essa poesia grega. M sua bruta fereza Co'as brenbas a deixar na soledade. grave e subliaie a e tempo.. Toda arrobadi. Toda elia é sen- tidos. Ampliion 6 o primeiro cuja data é pouco mais ou menos certa. tudo o que pinta véeni-no os olhos. Co'a eloiiuencia divina Que a branda persuaçlo no peito inspira. «Foi grande impostor Orelle bu^:car pheu. aos quaes clle substituiu as cordas muito mais barmoniosas que ainda boje se usam. b. ternura. inventou que. t.lo sensivel.Hn- metapliysicas. tudo n'ella lisongeia suavemente: nao tem as nossas delicada e é essa m.

senão pela influencia do seu mestre de grego Joae pela disciplina auctoritaria quim Alves. justamente no periodo em que as doutrinas do Romantismo se discutiam nos theatros rias criticas. As ella entâQ alcançará vencer esses vapores carregados do pedantismo pedagógico. moral sâ. que o ambsquinHaram ao ponto de eleger por Demoustier? A este organismo viciado.» Como se pôde explicar este acervo de frivolidades em um liomem que mais tarde deu provas de talento e de tino artístico. voltaria á pátria readquirir o sensQ {\. Tu sabes esta linda e mui terna historia. circunistancias favoreceram o desenvolvia restauração mento áé Garrett. para respirar na atmospher. Sc clle curado da mononiania de escriptor e tornado homem pratico. e que Plutão lh'a restituirá. que se tornara umi monomania admirar a naturalista do fim do século xvui. quando ainda estava em Coimbra. só_otQ: uma viagem ao estrangeiro. nos jornaes em theoem poemas inspirados por um intuito philojá Garrett absorvido pela imitação sophico. mas professou iraia sim . ALMEIDA GARRETT 145 inferno. do absolutismo em Portu- gal obrigou-o a procurar asylo no estrangeiro. e transluzirá na sua naturalidade. ecom o sí'«///72e/?/a//5moidylico pro- pagado por João Jacques Rousseau. se dentro d'aquelle cérebro falseado existia hlguma centelha d'esse estado a que se chnma génio. como uma paisagem de Watteau. Garrett nas- cera n'este meio falso.]> iiiciís. modelo nico de a do seu tio frei Alexandre. . em 1820. não te enfadarei a repetir-t'a aqui asOrpheu foi um hábil impostor.. o Jardim Rotanico seduzia Garrett como recinto sagrado a Flora: 10 um almo . Em 1820 estava das formas deFilinloElysio. era natureza. estabeleceu na Grécia as cerimonias religiosas que trouxera do Egypto. moda mas a natureza convencional. e obedeceu-lhe fatalmente.i não tivesse talento. e em novos dramas. . para commum.

os bispos. os seqniosos pulmões. convalescença de perigosa moléstia. toasts. que amava Gessner e Florian.dio]e substituído pelos discursos académicos. escrevi estas rett linhas. Castilho. se celebrou um Ou- como signal de regosijo nacional por se ter inglez. que os desembargadores. um desalinhado Dilhyrambo o Chronisla. Eu e éramos os únicos viventes de* spertos. Como Que sinto Em De embeber>8e-me a existência cada trago d'estes. Ali. fui de madrugada pirar o puríssimo ár do silio chamado em Coimbra dois ou três trabalhadores reslóra — de portas. Achei aberto o Jardim Botânico: entrei. orações de recepção. vol. onde o perfume saudável Respiro de mil flores. E com Ao remédio trabalhado. enfraquecido peito. debaixo da palmeira que está no ultimo plano no Jardim. era um poucochinho mais do que o bucolismo do século xvi. que via as coisas através de epithetos variados. os lentes e generaes nâo dai-iam prova plena da sua gravidade se nâo soubessem metrificar uma campanuda Ode 1 epódica. elle o D'este suave e puro ávidos sorvem. e era tal o perstigio d'este uso. acabado o protectorado dade. 69. etc. . N'aquelle tempo os metriíicadores eram parte obrigada de todas as funcções publi- cas ou familiares. ultimo resto de O seu collcga da Universin'este Outeiro calhe- também bateu palmas um costume portuguez completa- mente extincto. Ao mui pausado sangue 1 Era este o estylo naturalista.146 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Aqui. quando teiro poético. té qui só fartos ár pestileulo e máo. Garrett commenla esta ode ao Passeio de madrugada no Jare na dim Botânico de Coimbra: «Em 20 de junho de 1820.» D'esta doença falia Gar- nos versos recitados na sala dos Capellos na noite de ali 22 de novembro de 1820. dratico. p. ii.

Ante VÓ9. consistia n'esle a admiração tempo eram característicos. como exige a musica vários tons A mesma medida sempre. niodilicou a corrente porque tinha individualidade Castilho só abandonava uma influencia. a que peores effeitos causou. Felizmente Garrett contrabalançou esta desastrada iníluencia pelo estudo das riquíssimas conslrucções dos versos de jFilinto. embora afinado. porém não são es- ses os únicos defeitos dos versos. Garrett educado lambem para este género de tertúlias tinha fatalmente de admirar Bocage. que o fez produzir o insulso poe ma das Cartas de Ecoo. E laes são os versos de Bocage. se o mundo miiilia voz ouvirem. Isto basta para discriminar a diíTerença entre os dois escriptores. Não fez um verso duro. quando outra lhe apresentava melhor vantagem de imitação. e cadencias. mal soante. julgam-na sua melhor qualidade.— ALMEIDA GARRETT 147 OU pelo menos uma conceiluosa Decima. o mesmo tom. Castilho obedeceu mais tempo ao elmanismo. Se 08 fdoí. o a mesma harmonia. escreve Garrett. embora mesmo compasso embora exacto. de mil outras coisas variada medida exigem. as di- versas paixões e aíTectos. ante os ecos. na composição da sala dos Capellos: Erqo lardi. Gairelt descreve a lucta entre a influencia da poética clmanista e phihntista: «A eu elle metrilicação de Bocage. . em imital-o usando os tropos que lhe e em que residia o segredo da harmodo Outeiro nia clmanista.i voz. um meio litterariamente absurdo porém Garrett artística. ante o nniverso. a peor. ao menos. embora cheia e boa. que nos pertendem . frouxo. as distinctas posições e circumstancias do assumpto. As varias ideias. fazem monó- tona e insupporlavel a mais bella peça de musica ou de poesia. do objecto. o deus dos Outeiros poéticos. ambos escreveram as suas primeiras obras dentro de e corrupto. perfeita. mas ergo a livre.

único representante da exilio.» tilho. todos os outros vicios que iam de- vorando a litteratura nacional.» (ib. a incapacidade de creação original fazia preferir tudo o que se traduzisse. . estocada de morte que nos jogaram os estrangeiros . traduzir. Reinava também em Portugal a monomania das tradu- ções. Ao Pardal- 1 Escripto em 182C. Garrett caracterisa este estado dissolvente: «Mas de traduções estamos nós gafos e com tradu: ções levou o ultimo golpe a litteratura portugueza. e savam o grande escola de Garção. contendo as seguintes odes : A Cornelio Nepote. . Garrett teve esta corrente. Vid. prologo do Parnaso lusitano. 2 Ibid. e nas notas da Primavera ataca Bocage e os defeitos áo elmanismo a que tanto tempo obedecera. a vaidade. cujas innumeras cabeças eram o gallicismo. Esta mania de traduzir subiu a ponto em Portugal. digo cegos.» ^ Castilho. gemia no de lá. e venfoi ar- também de luctar algum tempo contra ceu-a oppondo-lhe bellas creações originaes. Francisco Manuel. a ignorância. etc. traduzir. nSíS Excavações pocticas arrepende-se de ler declamado contra Filinto. mas allusão directa a Cas- que metrificava então Garrett: em pleno elmanismo? Continua «Mas emquanto Bocage e seus discípulos lyrannigosto. Bocage e Filinto haviam dispendido as suas faculdades em traduzir.) D'esta época (18'20-18:24) existe em poder dos herdeiros de Garrett. o CatullOj traduzido e annotado. n'esse numero qne Não haverá aqui uma conto) que o sâo. dar para lypo seus apaixonados cegos. se preparava para luctar contra a enor- me hydra. mas quasi não entendia os bons originaes portuguezes. ficou totalmente n'ella e morreu traduzindo. e de tal modo estragou o gosto do publico. porque muitos tem elle (e * não cegos. Castilho rastado pela mesma absorpção. que não só lhe não agrada- ram. foi a . EM PORTUGAI. com os olhos fitos na pátria.148 HISTORIA DO ROMANTISMO.

! ao meu amigável Aristarco) no sentido sar a verdade. 29 de abril de 1824. levar mesmo anno e na curta residência em Londres. Este manuscripto traz a seguinte nota autobiographica: aEmpreliendi esta versão no meu ultimo anno de Coimbra.» A lubriciprimavera do Em fevereiro de 1824. a Flá- A si mesmo. os teus {versos não sei que lhes falta: não te digo que são máos. Havre. mas o numero incalculável de obras primas do Romantismo cedo o desviou do culto exclusivo da antiguidade. em uma nota a uma ode saphica sobre o descreve Garrett este seu esforço: «Dizia-me . sentimento artístico de Garrett já antes de 4823 luctava para se emancipar da subserviência da mylhologia. mas nunca feitos 1 Catalogo dos Autographos . p. e é n'esse anno de i824 que se operou a profunda revolução psychologica que lhe deu a sua superioridade artística. Ganio nupcial e Epithalamio de Peleu e de Thelis. e de dezembro a janeiro d'esse anno. a Asinio. nem Vésem my- nem Apollo: não sei como podes fazer versos Se tu és poeta. (respondi lhologia. . na rainha viagem á ilha Ter- ceira na que lá fiz. obra. 18:. a Calvo Licinio. mas.nhecido dos meus tempos de estudante: ! — Amor maternal um certo coHomem. íiz o que também pelo mar. commum. continuei a e agora me cinjo a ella com mais flrmes tenções de ao cabo. ahi traduzi alguns d'esses poemetos. tão pouca riqueza da fabula nus. * dade da época da Restauração é que prendeu Garrett â tradução de Catullo. a Furio e Aurélio. vio.^0 a i8ál. Nem Júpiter. a Fabullo. A Lésbia. Pinto cVaprès natiire o que posso nas minhas regrinhas curtas e compridas. xxvi. A confesnem me lembra assim de cór de quatro no- mes de deuses da fabula. apud Helena. á Península de Sirmion. que fazes dúzias de odes sem invocar uma só vez as Musas —Eu não sou poeta. depois de chegar a Inglaterra e França. A morte do Pardalsinho.ALMEIDA GARBETT 149 sinho de Lésbia.

» A viagem á ilha Terceira em não deixou de desper- tar-lhe o sentimento. Da poesia (p. em portuguez e portuguezmente. i. Elies e eu temos pouco que haver com Martes e Saturnos.erdòa-me) cá da mi- nha poesia: nâo não entendo fallo da outra que é moda por entender. fizeram-me perder a devoção aos Santos de Hesiodo. Os versos que escreveu por esta occasião lembram lancholicos do já aquelles naturalissimos e me- poema Camões. e muito com a natureza e o coração. (jue assim se chamava o poeta filiado no estado pastoral do Mémnidc Egynense. aos Pindos e á convivência do Pégaso. Além de que.) para mim só e para os meus amigos os faço. vol. de que nem quero me cheira sufli- —O cientemente á Phenix Renascida. meu critico sorriu-se e eu fiz o mesmo. porque ahi. únicas e verdadeiras fontes da poesia e de todas as bellas-artes. se tilho) ficaria o contacto com o não arrancasse aos Ménalos.» * Fixamos «Boa a data d'esta descripção autobiographica antes de 1823. ainda me recordo eu) tinha a mesma mania que tu mas depois certos Allemães e Inglezes que li. a atmosphera do estran- 1 o Chronista. .150 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL palavra. mas a tempo e horas. o pobre Jonio Diiriense. O muito recheio da mylhologia dá ás composições modernas um ár de affectação e desnacionalidade pedantescamente ridículo. falsificado pelo convencionalismo ár- cadico. e ao Conde da Ericeira. (Casmais annos atrophiado no insulso a natureza idyfio. 65. por que da Ode que parte d'esla Ode ella foi commenta traz a seguinte nota: e publicada roubada ao seu auctor com outras coisas que a desfiguram em uma 18-21 brochurasinha im- pressa em Coimbra em 1823. Nao reprovo o uso da fabula. que pag. (como cem vezes te tenho dito. Quero fazer versos portuguezes. entendi em ser poeta no rigor e certa valia da Quando comecei a babiijar a tal fonte de Aganipe (d'este nome tens.

intitulado X ou a Incógnita^ allusivo aos successos de 1821. ALMEIDA GARRETT 151 geiro lhe havia de inspirar. . Veiu-se a fallar em Ou- 1 o Chronista. e. influenciada pelo lia Reino da Estupidez. que se bastante em Coimbra. falia No fragmento da poesia O Mar. . e a sua vivacidade de rapaz attraiu-o para elles. . eram ainda moda os Outeiros poéticos. brida - era mais uma concepção hy- como a Benteida ou a Santarmaida. volta á . i. segundo canto. com uma sucia de rapazes. Co'a ponta do alvo roanto ameiga a face Que o acre ardor do pranto me ha crestado. que me encontrei no conhefilhos cido café do M. saudosas: das laí^rimas O" Que a fio d'este5 olhos se deslisara. 78. leaes é natural. vol. que nâo chegou a passar do. e Coimbra e das : flores tios jardins do Mondego. No prologo da Ljjrica de João Minimo descreve um Outeiro poético de Odivellas. p. saia do banco das escolas onde por isso ao recordar-se de dominava dição a chateza arcadica. e que para sua gloria íicou inédito. Na sua vinda para Lisboa. É O mesmo timbre do canto v do poema Camões. succedeu uma tarde de junho. xxv. i Sempre pessoal em toda a contemplação artística. tra- Por ventura o meu Jonio passeando. Garrett veiu encontrar accesa >a tradição arcadica. mas Garrett estava em 1821. em que tomou parte: «No verão de 182. 2 Calalogo dos Auiographos.. como animada conversação en- trou logo pelos districtos poéticos. Garacompanha esse fragmento com anota: «Este fragmento foi escripto no mar em longa e penosa viagem nos mezes ret de abril e maio de 1821.. .. p. a nossa de Apollo.» Era ainda a influencia arcadica que o fazia escrever um poema heroi-comico em quatro cantos.

perdido hoje na barafunda das malditas e mal avaliado por despresado uma mocidade estragada e libertina que excommungado tem o descôco de preferir as cartas da Nova Heloísa e do St. e . quasi politicas. esfregou-se a afinal unhas até ao sabugo. que parecia uma voz flaumesmo de um cherubim— de que não está costumado a coisas doeste mundo: Aroor seu facho n'esta noíle apaga. E brados de Mote! Mote.de coisas bonitas. e a luzir pelas rotulas. Era electricidade que se estava esperdiçando:— Vamos Ijzes! foi a isto. pelas e os feiticeiros véos. que servem para todo o mogrades as airosas toucas Começaram logo a illuminar-sc as janellas das frei- ras. João. depois de breve silencio. 1 . — palmas: Lá vae. roe'ram-se a phalange. . . Preux ás Eglogas do pastor Albano e da pastora Damiana. o as ladinas das comedias de cordel rccilaTam. * que ousan) antepor os descompostos versos de Francisco Manuel e suas Odes hyerogliphicas — . quoFilinlo como sabida de cór pelas peixeiras do seu tempo. que hão-de aterrar tudo com sonetos e col- ' chêas. . de matadores olhos inflammavam a imaginação dos nossos jovens poetas e lhes faziam dizer milhares.— aos quaes. . aos retumbantes. e já levam provisão de quartetos e consoantes. Vamos a Odivellas ao Outeiro faz . certamente pouco avaros. . 1Õ2 teiros.. a isto rapa- a voz unanime.. respondeu tada e sonora. que de vez em quando o lampejo de um lindo rosto. d'isto que chamam te. Seguiram-se colchèas e mais so- * Elysío citava Garrett refere-so a uma composiçáo de Jpuo Xavier de Mattos. . «Debandou toda testa. passeou-se. HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL alegre e engenhoso passatempo de nossos pães. altisonantes e nunca assas louvados sonetos da escola elmanista! . . [de S. N. e saiu o soneto . . 7iariz de cera. e N. ha mais de dez annos que se nâo Vae N.

Mas a melancholia romântica facil- mente se apossava de Garrett.^umes do século xvm mantiveram entre nós até á epoça do Uomanlismo. das aventuras de Fingal e das festas de Selma? ^SiSFlôrM &em. quando forte Goethe. e para sempre. que Vrevelou a Garrett a melodia do poema Camões. etc. inspiradas pela leitura do ideal um desenvolto abbade Casti. asestrophes \ em endecasyllabos com os seus hemisticom um sentimentalismo de quem abriu os ollios aos horisontes de Rousseau. valetudinário c timido. A^ íLjjrica de João *^cas MinimOj que encerra as composições poeti- de Garrett desde 1815 a 1823.ALMEIDA GARRETT 1Ô3 netos e muitas versalhadas outeiraes de toda a espécie e calibre. cantar humano. com uma introdução em verso calcado sobre o mesmo eslylo. ao menos para mim. resentem-se dcsteesíylo arcadico» modificado por intelligente estudo iiuliiih aiTio de 1 ilintoElysio. a infância. com muito e mui guloso doce que fica as tavam. e as Flores senijruçtq está colligida 'em que uma grande <l. e que. Carlos Moralo Roma. os desejos. /Paulo xMidosi. que os co. Quando são quasi sempre cliios. como é que o ténue Garrett deix*aria de ser impressionado.» Aqui uma completa do que era um Onuiro poético. essa concepção de uma individualidade./rMClQ vem uma tra- dução de uns trechos do poema de Oscar. Os poetas que então viviam na intimidade de Garrett eram José Frederico Pereira Marecos. As Fabulas são egualmente um producto do espirito poético do século xvni. ao escrever o Werther. cujas obras se perderam. limita-se a estas theses de Academia. Larcher. da qual diz: «fil-a eu para me exercitar n'um género que nos meus pri- . como são o amor maternal. a soledade. Garrett se (juer elevar á generalidade do sentimento. não se pôde eximir á fascinação dos poemas de Ossian. e com a personalidade de quem ainda respira na atmosphera sodalitia de lloratio. e alguns outros.i parle do que escreveu em um 1823. nâo foi a madres nos deimenos agradável descripção I circumstancia da noite.

» Garrett conservou toda a sua vida essa melancbolia ossianica. A pois historia politica da primeira metade d'este século é o mais flagrante documento da imbecilidade de um povo. Se Garrett tugal. me parecia o sublime dos sublimes . . João vi conheceu que o império do Brazil lhe escapava. níio saisse de Pore. não teria em 1824 escripto o poema Camões. Foi esta melancbolia. p. Miguel para coraman- dante em chefe do exercito é a prova evidente da sua má 1 Flores sem frucío. de voltara Portugal. jurou a Carta constitucional. co- mo Castilho.romantico. a sabendo coisa alguma da situação pretexto de um empréstimo mandou a Lisboa o negociante Pereira de Almeida para informal-o secretamente se poderia ainda entrar em Portugal. tista com o qual tornou-se o centro da reacção absolu- contra todas as reformas inauguradas pela revolução D*.154 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL * meiros annos. para não perder tudo. lembrou-se. digna irmã do infame Fernando vn. vendo liberal. Carlota Joaquina.. posto que simulava attender mais os a consellios dos liberaes. Não politica. antes que as Cortes constituintes o destituissem. talvez nunca houvesse comprehendido o espirito da litteratura moderna. que o levou a sentir o passado e a descobrir as- 'Sim o sentimento nacional. No dia 3 de julho de 1821 entrava no Tejo a frota com a familia Bragança. 226. que devia produzir o nosso pri- meiro movimento. d'onde o rei só desem- barcou depois de receber auctorisação das cortes. que precisou empregar-se em uma saudade ^i qualquer. mas nomeação de seu fdho o infante D. passou por todas as humilhações e terrores para conseguir apoderar-se do poder executivo. De- que D. de 1820. João vi não era extranho a estes manejos. que não podia apoderar-se do partido o rei se conciliara. em todas as suas obras predomina o vago scismar de quem lira o ideal de um passado que não torna..

oito mezes depois do seu casa- mento. No prologo das Fabulas e Folhas cahidas escreve o poeta elle não a aban«A causa do povo é trahida. Miguel foge do i)alacioda Bemposti para Santarém. suble- também á voz do seu coronel era um plano concer- tado. por 30 de agosto de 1823. o grande Manuel Fernandes Thomaz succumbiu. D. D. onde rece- beu o ordenado de 2:000 francos por fazer a correspondência estrangeira. xvii. Quando o regimento vinte e três de infanteria saiu de Lisboa para as provincias do norte ceio dos em observação com re- movimenlos do exercito do conde de Amarante su- blevado contra a Constituição. e a constância 1 indómita do auctor do Catão. e obri* gou-o a abandonar a pátria. pretendendo João a vi retira-se contra a rebelliâo de seu ca. o vou-se mesmo regimento .: ALMEIDA GARRETT 155 fé. as suas saudades. Em 23 de agosto d'este anno regressou ainda a Portugal. mas a hitendencia geral da policia houve por bem consideral-o perigoso para a ordem publica. e o infante D. . I). ir d'onde proclama contra os pedreiros-livres que usurpavam os mau ferireis direitos de seu pae. íillio. Para resistir na sua nova situação acceitou o logar de caixeiro na casa do banqueiro Laflitte. para Villa Fran- d'onde é trazido para capital pelos lidalgos que se substituíram ás cavalgaduras. deu-lhe a honra do desterro. Foi a estrangulaçãonos cárceres refugiaram-se nos paizes estran- em julho de 18^3. . Os que recearam geiros. prefere o exilio. j* (p.) decreto de Demillido do seu logar de official da secretaria do Ministério do Reino. dona. abandonada . Miguel commandante em chefe do exercito. Começaram as perseguições contra os partidários da Re- volução de d8:í0 e da Carta constitucional de 182^. João vi rasgou a Constituição e acceitou o poder absoluto. e em terra estrangeira o ouvimos cantar as suas imprecações. que Garrett emigrou para o Ilavre acompanhado por sua mulher. como premio do movi- mento o Conde de Amarante foi feito iMar(}uez de Chaves. .

Condições em que foi escripto o poema D.» E accrescenta: «Que extranho espectáculo é este Congresso! parece destinado aggregar fallo todas as incoberencias.— liifiiiencia o da cmimçao de 1823 a 1827 Congresso de Verona exlinguindo a fórraa constitucional em Hespanba. Branca. mas os belfurinheiros que fazem dançar os bonifrates e pucham dade do que estes rombos monarchas. Byron sentenceia Estado politico de Portugal. Camões torna-se para os portuguezes uma expressão da paíria Origens do ideal camoniano. O typo de Frei Gil mal compreliendido. Garrett perde a sua' actividade poética. dae vivas! fazei inscripções! levantae ultrajan- monumentos para dizer á tyrannia que o mundo a acceita o seu jugo com satisfação. parecem-se todos como peças balidas no pelos cordéis. . generaes. — — — — — — — — — : O poemeto de Byron intitulado a Edade de bronze resume nas suas eslroplies repassadas de sarcasmos eternos a in- dignação que os homens liberaes da Europa sentiram ao vér decidir-se no Congresso de Verona a ruina das novas gaque a sua santa presen- rantias constitucionaes: «Três vezes feliz Verona! desde a monarchica trindade fez luzir sobre ça. Caracter lyrico-elegiaco d'esle poema. intrigam ante da face da Europa as- . pelo seu quadro da Morte de Camões.. tes . Ánalyse da sua eslructura. Condições moraes era que foi escriplo o poema Camões. imperfeita comprehenísão das íradições nacionaes. apresentam mais varie- mesmo cunho. Judeus. — — da litteratura antes da emigração. ti Sim. . inferior á poesia da realidade histórica. — Estado a pátria. impróprio da sua feição épica. . determina a queda da Consliluição em Portugal em 1823. Relações com Garrett. falta de acção. . Em 1827. Como Garrett comprehendia o Romantismo. charlatães. A lenda do trovador João Soares de 'Paiva superior em verdade e poesia á phanlasmagoria de Aben-Afan. todos os contrastes! Já nâo dos soberanos. — O grande Sequeira abandona — : plomáticas de Lord Uolland. A composição do poema Ádozinda sentido lillerario. segundo as reminiscências diChateaubriand.— 156 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 2. auctores.

. tomou á lettra o symbolo da espada. quece a guerra. i. Edade de brome. tendo de lançar-se na opposiçâo liberal para combater os que o destituíram. est. McUernich. o priali meiro parasita do poder. convencendo ciso nal. Ali.. João vi.» lí profiindissima a ironia d'esta allusão a Chaleaubriand. capêa a todos. A trindade satânica da Santa Alliança vira na constituição hespanhola de 1820 um abysmo para a causa dos bons tempos de outr'ora. quebrou todas as amnistias prometlidas em presença da Europa. Empecinado. se elevou ao seu a cabilda diplomática olympo. o perigo dos seus interesses dynasticos fez convocar o Congresso de Verona. Fernando vn. o general francez ajoelhou em terra Fernando vii. Foi alii que Chateaubriand. para conseguir o quê? o chorar mais ainda. Edade de bronze. que era do estofo dos seus contemporâneos D. ali Wellington es- Chaleaubriand accrescenla novos cantos * aos seus Martyrcs . Chateaubriand caiu do po- der. de que era pre- esmagar na Península a obra da liberdade constitucio- O duque de Angoulème veiu á Península.» Estes prantos partiram também de Portugal. esse Tartufo de génio. a nossa primeira Carta constitucional alcançada ' Byron. . e depois da e entregou a sua espada a tomada de Trocadero. esUncia ix e xvi. vii. orgulhoso com a sua giieira de Ilespatiha. e mandou trucidar Riego.ALMEIDA GARRETT 157 sombrada de Ião vastos desígnios. como signal de consummada a hecatomba da libeidade. Bessieres. sobre o Congresso: «Eu não os os anjos choram. É eloquente este grito de Byron ainda sei se . este apparatoso calholico susten- tou no Congresso de Verona que era preciso invadir a Hes- panha e restabelecer no throno o despótico Fernando assim aconteceu. mas homens choraram bastante ^ . Foi então que à França comprehendeu a sua vergonha . emfim lo- dos os que trabalharam pelo regimen parlamentar. . ou Gui- lherme III. 2 Byron.

Na realidade. nham uma aversão natural um pelo outro. tinha um tal medo de ser governado pelos seus ministros ostena victima siveis. D'ahi a seis annos estava vingada a injuria da liberdade peninsular. Assas tenho das minhas. nada havia de rei era commum bem entre elles a não ser a fealdade re- pugnante das suas pessoas e as suas maneiras canhotas. 158 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL pela revolução de i820. Largo aos mares. i. D. muito ti- contrários de principios. O mas fraco e timido. Basta-nos extrair das Reminiscências diplomáticas de Lord Holland algumas linhas: «Pouco sei acerca de Portugal e dos portuguezes. de caracter. começou Em 5 de junho de i823 a obra de Chaleaubriand tinha produzido o seu effeito a emigração. D. O rei e a rainha. Taes magoas como alii vão poupa a meus olhos. que possa ter o interesse da novidade. de procedimento. ! Em nota accrescenta Garrett: «Quando se escreviam es- tes versos. seguiu a sorte da de Hespanha. Foi então que escripto n'estas No poema Camões. c.» * Para se comprehender como estes successos que hallucínavam a França se reproduziriam em Portugal com todas as suas vergonhas. o nosso Trocadero foi Villa Franca. e em França era thema de todas as vaidades da Restauração o imbelle Iriumpho do Trocadero. João vi e sua mulher Carlota Joaquina. lodos os horrores da reacção absolutista de 1824 assolavam Hespanha. basta conhecer o caracter dos dois actores d'este periodo. Garrett allude á sorte Eia vamos Deixa o caminho da infeliz Pyrene. de Hespanha 1 crises. muito intencionado. que se tornava de baixas e obscuras intri- 1 Poema Camões. nol. Eram naturezas fadadas para a cataslrophe. em Portugal. . .: . onde não correu sangue mas o lodo do mais baixo dos esgotos — a falta de dignidade humana.

Conde do Funchal. cap. conseguiu gastando a sua vida balas em ca- com os reformistas e em perseguil-os. de Lord Hollaod. mas. ambiciosa. p. fazendo macaquices á Inglaterra e á França illudiria os projectos de ambas. Souvenirs diplomatiques. metteu-se indirectas em vias pouco judiciosas e muito para as realisar. São animados de pequenas invejas e cheios de perfídias. eram sempre O zelo exagerado da rainha pela causa do as- despotismo impropriamente designado pelo nome de legiti- midade. empregam mais astúcia nas negociações com os estados poderosos do que prudência no governo do seu paiz. que escrevera o elogio do H6. — Em geral os homens nem de de inlluen- de Portugal não são privados de talento instrucpatrio- çáo. . Com- tudo as suas ideias eram justas e esclarecidas. vm. com boas intenções. e foi-lhe preciso toda a sua jovialidade natural e a sua soltura na conversação para se consolar de todas as decepções pohiicas e pessoaes a que se viu exposto. parecia ter atenuado sembléa representativa e verno. esperava que. e tinha uma tes incnnação pronunciadissima por toda a espécie de in- trigas politicas ou amorosas. Araújo (o Conde da Barca) um homem com- petente. Sousa. Garrett. o perder as boas graças do seu soberano recusando o posto que o poderia pôr em condições de executar os seus planos. irreso- gas. desejoso de assimilar no seu paiz as instituições de Inglaterra. Naufragou completamente. e sinceramente aííeiçoado á casa de Bragança. e acabou por dei- xar Portugal na subserviência de uma e por abandonar o seu soberano e o Brazil inteiramente ao capricho da outra.ALMEIDA GARRETT 159 vacillantes.» * N'estas condições começaram em 1823 as perseguições aos constitucionaes. e os seus conselhos lutos e incertos. a aversão do rei por uma uma íórma constitucional de go- A rainha era vingativa. egoista. mas a vaidade substitue n'elles a acção um tismo mais illustrado.

*"° e ex. c um declarado inimigo' da religião e dos ihroftos. e onde é constante que estabelecera duas Lojas^ d'elles. a que dá o titulo de — — para que do producto das assignaturas que ali concorrera possa supprir a sua subsistência e de sua numerosa família. que acabou de sor provedor em Portalegre. jus- maram Iriar-se. e assim para evitar que com esto titulo se estabeleça alguma Sociedade secreta. 19 de julho d6 1823."'» e ex.) . no Ministério do reino em 20 de agosto de 1823. — 38.™" sr. a sociedade porlugueza. 28. XXII. fx.* (Contas para — as Secretarias. e o gigante estadista José Xavier Mousinho da Silveira. ex. Liv.'"'' e ex. — Liv. tem por íim conceder-se ao supplicante licença para continuar na pratica Philarmonica de admitlir em sua casa a sociedade. Manuel iMarinho Falcão de Castro. que faz o objecto do requerimento incluso. «Ainda que seja certo que á la! sociedade costuma concorrer j^rande parte das pessoas da maior gcrarchia c consideração d'esta capital. O intendente geral da policia da côrle Joaquim P»ídro Gomes de Oliveira.^ em data de f) do corrente. Simão da Silva Ferraz de Lima e Castro. V. e reino.'"» sr. (1 36. sem que sollirite de v. e foi ha pouco Secretario de Estado. xxir. que assim como o supplicante não merecem o melhor conceito na policia. por isso mesmo que a titulo de Ensaios mais a miúdo se reúnem. teve de refugiar-se em Inglaterdemitlido do seu emprego ra. juizo da sua correição se pital.» (Contas para as Secretarias. O intendente geral da III. Simão da Sihm fcnaz de lima e Castro."'" sr. e entro olles o administrador geral da Alfandega grande d'csta ca- Xavier Mousinho da Silveira. compositor de musica. 2 II. O * grande artista portuguez João Domingos Bomtem^ po. José Communicando-mc o corregedor de Portalegre.^ a resolução do que sua magcstade queira se pratique a seu respeito. e mandei |)rooeder á prisAo dos qutros réos i|UO se tinham refugiado para esta capital. Deus guarde a • ex. v. Deus guarde a v. 10 de julho de 1823. aonde propagou a seita dos Pedreiros livres. 4ccrescenlanda ser um libertino de primeira ordem. sobre o qual íua Uiegestade é servido mandar-me informar por aviso de v.* Lisboa. Revê1 «111. e tão e:. ex. que no achavam pronunciados por associaçj^es secretas uns indivíduos. Sua mageslade porém ordenará o que fòr servido.) •IH. quo tinha plantado e promovido em Sotubal quando ali foi juiz da íóra. politicas o que lançou as bases das reformas que transfor1827. a ella também concorrem muitos indivíduos. porém oão me delibero a mandar egualmenlc proceder á prisão do dito Jdsé Xavier. natural ih Castello do Vide. policia da côrle e reino. annuí ao quo aquelle ministro requeria.candaloso que nunca ali ouvia mi*sa.^ Lisboa. Ill ""» e ex. viram-se forçados a expa- Durou esta perseguição politica até foi tamente o período mais fecundo da vida de Garrett.""» sr. entendo que convirá se faça persuadir ao recorrente que tal pratica devo immediatamentc cessar. A pretenção de João Domingos Bomtempo.160 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL grande revolucionário politico Manuel Fernandes Thomaz. e poucas vezes a familia.. por isso que n'elle concorre a circumslancia de enjpregado de tal graduação.

A musa de cteres Garrett foi a melancholia. a . e a sua eloquência cididas. Esta melancholia nâo era uma feição privativa do seu organismo. mascára-se e pede esmola. O povo portuguez sempre quando a cgreja lhe fixa o entrudo para ter uma breve expansão. A esta ma- nifestação da vida publica.ALMEIDA GABBETT v 161 laram*se faculdades novas. com as ideias mais genero- Com rasão o próprio Garrett o confessa. que tiveram a audácia de crear um parla- mento constituinte em 182^. nem uma e da consequência dos desastres políticos. era uma fatalidade do meio em que se em que nascera foi educação que lhe imprimiram. admirando-se como aquellas caras alvares e grotescas. como esses ho- mens feios. Este tão longo estado de extorção moral jão physico. e d'aqui 11 usual de fazer testamento antes de se raetter á jornada. viu envolvido. pela falta de illuminação. a sua mudez foi veiu-lhe do terror da pes- quisa inquisitorial e da mordaça da rasão de estado. possuíram intelligencias rectas. l? com o trabalho casual e de simples distraçâo d'estes quatro annos. um novo modo de sentir. que produziu o aleiri- quem vè hoje os retratos d'esses homens jos e corajosos. para se impressionar sas. o único efTeito dos seus quadros. a única expressão dos cara- que concebeu. convictas e detodos physionomias tristes. depois de 4827 foi nunca mais poeta. triste. as tropelias dos valentoes-fidalgos e a excessiva sordidez das ruas. Têm corresponde-lhes na rudesa lúgubre mas forte. ajuntemos-lhe a escuridão das cidades pela estreitesa das ruas. a falta feita pela voracidade dos cães de communicação entre os diversos pontos a necessidade Ho paiz por não existirem estradas. Não se passa debalde por três séculos de queimadeiro fanático e de garrote cesarista. é este o único sen- timento das suas obras de arie. que Garrett abre um novo horisonte á poesia portugueza. cuja limpesa era vadios. fica assombrado. a sua organisação estava apta para receber as impressões mais delicadas.

lhe dêem mais alguma além da masticação dos Pa- ter-noster. que assim não é muito grande a injustiça do nobre lord. caracterisado um horror a tudo quanto era estrana irrisória expressão com de modernisa au- mo. justa Lei . que dirigia as consciências e se tornava o santo casamenteiro. QuA a Jura seguir. Para que se erigiu a Real mesa censória do século xviii? Para que o livro não viesse ira- zer-nos ímpetos de sedição contra o paternal governo. a faisca revolucionaria. Mas a Modinha não bastava para alimentar a vida sentimental da nossa classe dia. a attracção do abysmo? Para que se inventaram os índices expurgatorios do século XVI e xvii? Para não deixar que o livro nos viesse perturbar as consciências. Era assim que se recebia o ultraje nacional com que o monarcha rasgava a Constituição. mas tenha paciência. em correr aos domingos a via-sacra ..» as ouvira ás * Em 1823 ainda se cantavam nos serões de famiUa as modinhas soturnas do tempo em que vi Beckford damas do paço. ctoridade paternal fundada sobre o terror. e Garrett reconheceu essa triste justiça dizendo que: «não é muito para lisongear o amor próprio nacional. a meque imaginação também precisa que tratem coisa. e o amor da fi- occultar hypocritamente os vicios precoces do Byron teve rasão quando nos chamou povo de escra- vos. Sen^ . João era o Jonio d'estes descantes em falsete: Louvemos todos O grande R«i. um livro. a ignorância completa de todo o movimento politico que se passava na Europa» e geiro. os divertimentos domésticos reduzidos a resar-se o terço e em commum mãe em lho. 162 infallivel HISTORIA DO BOMANTISMO EM PORTUGAL intimidade na familia de um parente frade. d'ella. mas D. por exemplo. Um livro? Não é isso a mina de pólvora.

Este habito constante tornou o senti- . a tristesa era vencia os Ímpetos dos filhos chorando. era á que melhor quadrava nossa sociedade. O honrado pae de fanão dava palavra em casa. só se escriptos enchia o cesto barreleilivros dos poetas são pôde lêr n'um púlpito. Amélia de Mansfeld eram os coníidentes de muitas lagrimas ingénuas. o livro maldito. sobre tudo a litteratura feminina e sensível. tocante e frágil apparentemente. como o caracterisa Carlyle ao fallar da Genlis. Malvina. são obras de occasião e ignoram que existe um sentimento eterno que vibra com todas as aspirações da justiça. homens e mulheres devoraram os romances de Madame Cottin. no estado geral de idiotismo e chlorose. chorava-se por um nada. Um livro. lis. e de reconhecidos sacrifícios á causa das dynastias. As Noites do Madame GenCasfello.ALMEIDA OÂBRETT 163 pre O livro negro. um livro qual- quer qíle a distraísse. Era esta a afinação da alma portugueza. e só por ro. as clironicas dos frades e dos monarchas oíTerecem bons exemplos de liberaes fundações e legados piedosos. Clara ifAlba. a ternura era o nexo de todas as relações. a ternura era distinção e mília uma uma prova de moralidade. aua somnolencia. os Contos de Trancoso e o Feliz Imlependente aggravaram-lhe o mal que soíTria. A Madame Cottin succedeu com a sua Adélia e Theodoro. uma boa mãe educava e um signal de educação fina . Os em panegyrico de todas as ephemerides do paço. Mas o chronicão não cabe si no açafate da costura. e sobretudo com esse sentimentafrio. gmentaram-lhe a A litteratura franceza da corte de Luiz XV. o pesadello do Qualificador do Santo Officio e do Intendente da policia í Mas era preciso deixar a imaginação portugueza repastar-se em al- gum livro. lismo calculado e insensível e secco no intimo. sentimentalismo de sete fôlegos. Mathilde. A so- ciedade portugueza precisava de um livro. com a Menina de Clermont. senão morre-se de tédio. e toda a sua litteratura de sete sé- culos nada teve que dar-lhe.

Demittido do seu logar de d oíTicial da Secretaria do Reino em 30 de agosto de 823. uma provação. a Europa começava a sair do tal fal- mesmo estado sentimen- em que estávamos. si era falso.164 HISTORIA DO ROMANTISMO BM PORTUGAL mentalisrao. TiDdo de Inglaterra. mas chorava-se muita lagrima doce. e que os escriptores nunca haviam escripto na lingua que o povo fallava. era um sentimento sem convenção. Garrett viu-se forçado a emigrar para Inglaterra. uma cousa postiça e me- Os pães levavam os filhos a vêr as execuções na forca da praça. Ah! Paulo Luiz Courier. pela queda da Constituição. pelo facto de ter escripto o elogio do constituinte Fernandes Thomaz. * familia. escangalha este beatifico sentimentalismo. Garrett estremeceu ante o espectáculo novo do Romantismo e nao o acceitou francamente. e suspeito ao absolu- tismo restaurado. Garrett viu-se forçado. e de estar . mas a sua antiga melancholia tordi também mais verdadeira com saudade da pátria. descarrega o teu magnetismo sobre estes versos marasmadosl Mas estes verbos da intelligencia ainda não tinham lado. acorda o senso n'esta commum gente! Carlyle. Jo3o Baptista L«ít3o Garrett. regressou foi momentaneamente 1 d'onde immediatamente «Tendo chegado bontem á capital o officíal da secretaria de estado dos oe- gocios do reiso. mal com a o clima de Inglaterra era-lhe a Portugal. a caridade abria as crianças rejeitadas pelas íilhas-familias. Era preciso que Portugal respirasse o ár livre da rasão e da verdade. nou-se mais funda. que era a pri- meira a condemnar o seu liberalismo. a refugiar-se no estrangeiro. muito dolorido suspiro ao ler a historia de Zélia no deserto. esta immobilidade tradicional! Michelet. Fraco e valetudinário. que já de chanica. Ao menos era já um ideal com realidade. era uma revelação da vida. Rodas para esconder as ninguém se levan- tava ao vêr um rei abandonar-nos ao invasor e voltar para o seu povo depois do perigo passado. foi pela emigração que o poeta conheceu que havia horison- tes mais largos do que a rhetorica.

Simão da Silva Ferraz de Uma e Cav/ro. julpo dever ponderar a v. o anno de 1823 estéril para elle. onde encontrou outros foragidos. soffrendo a dura acclimação. seria conveniente faxcl o sair do reino. lendo-se enthusiasmado pela revolução de 1820. 262. XXII. por isso que estou convencido que a sua presença. G'J v. .'"" sr.j> (Papeis da Intendência. laes como os que se evadiram. e o grande pintor Domingos António Sequeira. Garreti expulso então de Portugal veiu para França como o erudito José Victorino Barreto Feio. Deus guarde . especialmente n'esla capital. brandt. e entretendo-se a limpo os em Birmingham no outubro em passar vertera. p. V. . morta a pretender dar vida A França tornou-se como a Inglaterra um asylo para os emigrados portugue- zes. e o ministro teve de zer-se depois a um caudilho da liberdade para tornar forte sua opposição ao governo. fl. ex. o nosso século viu a tradição á liberdade. entendeu que não eslava seguro em Portugal. nilo obstante elle estar debaixo das \i-[:\fi da policia. a quem Baczynski compara com Ram1821. sinhas de que em tempo de toda a concepção a litleraria. havendo até trazido cartas. pôde sor nociva ali á segurança publica. Mas fa- França comprehendeu o erro. de 1823.) 2 Dictionaire hisiorico-artisiique du Portugal. que. com indivíduos porluguezes gummamenle suspeitosos. O intendente geral da policia da côrle e reino. ex. nostálgico. Eslava longe cadernos da sua viagem e a rever algumas odeCatullo. das quaes aprepenlou duas : e sendo o sobredito por si mesmo assas suspe loso. tom. e abraçado francamente as ideias da Constituição.'"° e ex. .ALMEIDA GAKRETT 165 mandado foi sair pela Intendência da policia.indo na consideraçilo devida esta minha ponderaçilo s-e servirá communicar-me o que el rei nosso senhor determina 111. * em Sequeira.". João vi. por este acto da França expirara também a Constituição de vinte e dois a a um bocejo de D. quando. Manuel Marinho Falcio de a este rcipcilo.^ Lisboa 2í de agosto. por occasião da restauração d'e?te reino. contente porque a estullici#i que elle chamava a sua guerra de Hespanha matara a nossa Constituição hespanhola restabelecendo o bestial Fernando vii. Castro. Liv. A Edade Media inventou o fablieau do diabo pregador.» porém. Em França dardejava na olympica vaidade Ghateaubriand.

71. era O quadro que Sequeira pinuma composição simples e rembrandtesca: o poeta deitado. de repente chega ao ponto em que se el- descreve a derrota do exercito portuguez e a morte de 1 Flores sem fructo. Garrett deveu bastante á communicaçâo com Sequeira. mas a ignominia humana da jornada de Villa Franca. a primeira foi o espectáculo da actividade que observava. illuslre. N'estes versos de Garrett já se vê que duas ideias novas lhe revolucionaram a mente. bem vindo sejas. sobre a sua pobre enxerga agita-se ao ouvir ler as novas que chegam da batalha de Alcacer-kibir. Onde cruciõcou a Liberdade Povo de ingraros aerVos. ^ Aqui celebrarás antigas glorias Da que foi nossa pátria. o nobre pincel d3o polluido No louvor dos tyrannos.. e a segunda. p.166 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL depois de Ghateaubriand ter restaurado o absolutismo em uma derrota da liberdade como no Trocadero. Tu. . Filho de Raphael. A Com este asylo santo. que os louros de Vasco e de Campello Reverdecer fazias. que gal lhe fez reconhecer Portu- como um maninho 'priguiçoso. Por aquelle maninho priguiçoso Que foi terra de Lysia. aconteceu aqui. oh Sequeira D'essa terra maldita. não litus em avariim! Bem vin<io sejas. Sequeira obteve pela influencia com o Duque de Palmella o passaporte e refugiou-se em Paris. o valor das tradições nacionaes para fundar sobre ellas a obra de arte. tava era a Morte de Camões. o pintor trabalhava para a Ex- posição de 1824. Garrett dedicou-lhe nma ode com a epigraphe de Virgílio: Fuge Hespanba 1823. nas- ceu-lhe a paixão pelo bello. . e Garrett começou a trabalhar também sobre o seu ideal de saudade.

que dos cárceres De Fez a escreve. p. Da eternidade só a perde o impio e Deus virtude restam: consolae-vos . Mas resignado e plácido. palavras de brandura. bem sabia concentrar todas essas tremenda em um único vulto. . > Catalogo dos Autographos. em quanto eu cá de Ião longe. De As allivio e de esperança :» Extinclo é tudo N'esta mansão de lagrimas e dores. lidão. Que coisas terra. mas a palria . e 167 possuído do dom prophetico da suprema li- angustia expira bemdizendo o céo por não sobreviver á berdade da sua mas o Final. Ai. não iam por minha com tão afadigada vida. — Havre.) Perdido tudo pois! . xtiii. cavalleiro.ALMEIDA GABBETT rei D. sonhava com as memorias de suas antigas venturas I» de 1824 é commum poema. tristes. . por occupar e que distrahir o atribulado espirito. não sei eu como ainda são em 9 de junho de 18á4. Garrett pôe em palavras os traços de Sequeira. se lè esta nota: «Comepoema em i3 de maio de 1824. Ibe manda Consolações. DVsta carta que vos trago Sabereis tudo. Saudoso e triste. epistola fatal lhe cae. . Do Missionário era.» — «Ohl A £ consolar-me? (exclama. > No peito a voz Ibe Gca . — Ao vate a caria entrega. cei este No manuscripto do poema Camões. e das mãos tremulas . Sebastião. representando no íim do poema Camões também em um pobre leito: Voltastes ? Por aqui se vô que a mesma data ao quadro da Morte de Camões e ao * E que novas Me trazeis? — Tristes novas. lettras dizem tudo. . pincel Que movinriento para um quadro! que tratava com mestria inexcedivel o Juizo pátria. e tão alheio a taes barulhos. . e em tanto desterro e so- o conservo. O quadro da agonias da hora Morte de Camões influenciou inevitavelmente sobre a imaginação de Garrett.

n. D. Fecha languidameote os olhos tristes. . ao menos. o Sequeira immortaUsava em Paris o seu nome e o da sua nação com o quadro magnifico que este anno passado de 1824 expoz no Louvre.. Depois d'estes rápidos versos que nos dão uma justa ideia da Moi'te de Camões do protentoso Sequeira. bem entendido. — «Pátria. . eu. que haja ainda portuguezes como o sr. not. rabiscava estes versi- nhos para descrever os últimos momentos de Camões. Nos membros devorados pela velhice e miséria.» * A ceza: obra de Sequeira foi assim julgada pela imprensa fran- «Daremos . Dcscripcao feita por Serrurs. as honras do Louvre ao Camões do sr. esta tela encerra o com singelesa e energia. bellesa poética. despido de to- das as seduções da arte. e como se passara. Anciado o nobre conde se aproxima Ai! tarde vens. ao menos. que resuscitem. de 1826. Garrett escre- veu a seguinte nota: «Ê notável coincidência. avis- lam-se ainda os signaes da grandeza de alma. E já no arranco extremo: .° 264. auxíMo do homem. que emquanto sr. Do leito. Os ollios turvos para o céo levanta. humilde e desconhecido poeta.° 13. o adormecido ecco da nossa antiga fama. Juntos morremos. Se- queira . tra- duzida na Carta. . de quando em quando. Emque o que lodos os pintores devem procu- rar. No Correio francez. por entre a barba desgrenhada. arrebata muito além do ordinário.168 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL £ de tamanho golpe amortecido loclina a frente.» E expirou co'a pátria. o assumpto é representado ílm. O rosto do velho poeta n'este quadro é bello. n. e que muito lisongeia o meu pequenino amor próprio. em o qual pintou a mesma scena. Este quadro. . e os vestígios da organisação superior que fazia juntamente o grande poeta. de 1824. Valha^nos. Sequeira.— a verdade 1 e o pathetico. descahidos e esquecidos como estamos. canto x.» ^ Podemos aíTirmar. e o guerreiro valoroso. 2 Poema Camões.

e foi na ausência da pátria que adquiriu esse amor que empregou na revisão dos Luziadas em 1031. que se desculpa da relação accidental entre essas duas maravilhas da arte portugueza. animado pelos conselhos de alguns litteratos fiancezes mais «que havia encetado . que ahi compoz a sua Missa de Hequiem dedicada a Camões. Os fados são por eloquentes: em i007. emprebendia e publicava aos oitenta annos de edade outra versão latina dos Luziadas dedicada á nação portugueza. que em 1644 estava na corte de Luiz xni. a ponto de adoçarem as suas saudasi des estudando os Luziadas. é que o Duque de Palmella se distrahia diz: em traduzir para verso írancez os Luziadas.ALMEIDA GARRETT 169 sentimento que suscitou ao assombroso pintor Sequeira o assumpto da Morte de Camões foi o mesmo que actuou mesmo em Garrett. e que foi a occupação da sua vida. Durante a sua ausência de Portugal. que estava extincta. na corte de Castella. c os criticos do jaez de Manuel Pires. Esse sentimento que inspirou os três génios refugiados ao mesmo tempo em Paris vae-nos ser revelado pela historia. o padre André Bayão. traduzia os Luziadas para latim. era no estran- geiro que os portuguiezcs conheciam a profunda relação entre a pátria e Camões. e em Domingos Bomtempo. Em quanto na pátria Camões morria abandonado. da qual em 1806 no verdor da mocidade. onde fora em 16ii com o embaixador Francisco de Mello. bispo de Targa. João Franco Barreto vae á restauração da Ba- hia. que estava por mestre de rhetorica em Roma. depois que regressou de Paris. Durante a sua assistência em Paris. Frei Francisco de Santo Agostinho Macedo. é que Faria e Sousa se occupára na coordena- ção dos Commentarios da grande epopéa. João o que levantou o grito da independência Pinto Ribeiro. Verney e José Agos- tinho ultrajavam a epopéa da nacionalidade. em IG2i. em 1640. traduz tírrnbem para latim o poema dos Luziadas. commentava os Luziadas. em lOáá Frei Thomé de Faria.

que por pudor nada ousa. que nas suas obras fizeram sentir a importância moderna e o sentido actual da epopêa portugueza. . es- timulado principalmente pelas solicitações de * Madame de Os litteratos que fortaleciam o Duque de Pal- mella no seu intento. Mas nunca o infeliz destino seu. um génio immenso. senhora.» me achava ligado de amisade. Em Não coisa alguma egualas esses pobres entes . eu penso.. querida este livro é ah. outra vez em Paris. e os dois Schlegel. apparece o projecto de um 1 2 Garrett cíta-a Apud.^ Obras de Camões.. £ E Hâo-de achal-o um abysmo a frivola invejosa. Lê. no seu poema. seriam Bouterweck. Chateaubriand. Ah. N'este cas do mesmo anno o espirito nacio- nal agita-se contra o protectorado inglez. que ha-de ser sempre uma maravilha da imprensa moderna. 203. vão que peço anceios teus vehementes Para o grande Camões cm tanta desventura. São cânticos de amor de O thema eterno sempre — ura ideal sublime. que exprime O puro aíFecto meu. que íicam para tias a pupilla gentil. . A ode de Raynouard sobre Camões ' foi logo conhecida em Portugal. Byron escrevia essas mimosíssimas: Stanzas a uma joven acompanhando as Rimas de Camões.. em Camões era em verdade um bardo. 240. darás valor por isso . lê-o com ternura. 170 HISTORIA DO ROMAKTISMO EM PORTUGAL eminentes com os quaes Staèl . . caral por ventura á dádiva. p. i. em 4847. Sismondi. que o Morgado de Matheus fez a opulenta edição dos Luziadas. Que em fria solidão conta dias e dias. mas foi longe de Portugal. Jur. Nada tem de fictícia a chamma que o devora Um amor como o d'elle bas-de encontrar. e depois das for- Campo de Santa Anna. as solteiras também. p. o éden « o abysso. N'esse mesmo anno de 1806.

e Garrett escrevia o seu poema. Garrett não teve consciência de que obedecia mais a uma > Joaquim de Vasconcellos. aíTirmando que depois de Homero. t. a gloria de Camões. Por tudo isto vemos. vivendo em Paris.» escripta para a festa da inauguração do mallogrado monumento. . Já no fim do século portuguezes Benito Caldeira e Henri- que Garcez traduziam para castelhano os Luziadas. que os Luziadas suppriam uma litteratura inteira. celebram em odes ou traduzindo os Luziadas. nenhum poeta excedia Camões na intuição poética das tradições nacionaes. Thimoteo Lecussan Verdier. Todos os grandes creadores da nova phase doBomantismo.ALMEIDA GARRETT 171 monumento da a Camões. publica em 1820 as suas Memorias de Camões. para communicarem aos extranhos entre quem viviam o seu senti» mento nacional. Millié. interpre- taram a epopêa de Camijes como a prova mais eloquente da sua doutrina philosopliica. i. Os Músicos portuguezes. Tudo conspirava para acordar na alma do exilado essa ideia poética em que o symbolo mais vivo da pátria se via concentrado em Camões. Em 1820 o primeiro compositor portuguez João Domin- gos Bomtempo. Schlegel. concluiu superiormente. D. Inglaterra John em França. que nâo foi levado a cabo por cansa má vontade dos governadores do reino na ausência de VI. ao exemplificarem como a obra de arte é tanto mais bella e eterna quanto se funda sobre o caracter nacional. Baynouard. 21. como è que em 1823 também em Paris pintava o quadro da XVI os dois Morte de Camões. Balbi caracterisa Bomtempo de presentava talento extraordinário. Em Adamson. João Nâo é acaso esta serie de factos. * e era esse mesmo ta- lento que o fazia comprehender como o ideal da pátria se re- Sequeira em Camíjes. p. amigo intimo de Garrett. publica a celebre Missa de Requiem aouvrage consacré à la memoire de Ca/nões. onde flzera a sua educa- ção musical.

Este paragrapho ó omisso no prologo de todas as edições do jiocma Camões. nomes de cidades ou de reis serviam para titulos de poe- mas. Por tanto as excentricidades e cstravagancias de Le- mercier notadas por Garrett. sei todavia que o seu plano é diverso.» * A obra de Lemercier. (1801) que foram publicados com o revolucionário Atlântida em 18!á3. meu poemeto quasi aca- vi extractos de uma composição de Lemercier. p. xix. . tanto no espirito como na cadeira da Acade- mia. juntos com poema Moysés. que algum longe de analogia poderá ter com esta: é sobre Homero. porque confessando que não acceitava o Romantismo. a e Alexandre. a quem succedeu Victor Hugo Pinto. cuidava que a concepção do poema Camões era puramente pessoal e não uma consequência das novas ideias litterarias que viu rea- 1 Catalogo dos Autograplws. são os ex- tractos dos poemas sobre Homero. Lemercier.172 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL corrente lilteraria do que a está um affecto patriótico. elle eslá ligado á nossa historia Hlteraria pelo seu bello é heroe o drama em que grande revolucionário de 1640. a prova em que depois de defender a originalidade do poema Camões das reminiscências do quadro de Sequeira. segundo vejo de outras obras suas. Porém é tão excêntrico e extravagante em suas coisas e modo o tal Mr. e que a característica do heroe consistia na individualidade. que pelos poemas de Lemercier. em quatro cantos. denotam-nos que o poeta emi- grado ainda tinha certos pontos de vista em que dominava É cçrto porém. e que nenhuma luz podia dar-me no meu intento. a que allude Garrett. Lemercier foi um da litteratura moderna. continuou a defender-se de não ter imitado Lemercier. Garrett defendia a sua originalidade. nem Ferdinand Denis: «Depois de ter o bado. viu Garrett que nem só os a personalidade arcadica de Jonio Duriense. que nem procurei lêl-a.

Foi por causa d'islo. Dois annos antes. 610. que mais outra vez defende a sua originalidade da prioridade de um tra- balho do benemérito Ferdinand Denis intitulado: de la natiire sur Poesie.ente mal as minhas palavras. tive eu a honra de lèr o meu episodio em presença de uma numerosa assembléa. caoto ix. e declaro a minha con- vicção intima de que. et de leur injluence sur la et de— Camões Joseph índio. em casa de M. e por isso em poesia. publicado em Pa- em 1824. nem a vira antes de publicar a minha. oot. que appareceu só depois de mim. asme deixo ir por 1 Poema Op.ALMEIDA OABRETT lisadas 173 em volta de si. mas que seis mezes antes.» - A causa d'estes equívocos enconlra-se no estado intelleclual que estas palavras de Garrett descobrem: «Não sou clássico nem romântico.. é verdade. suivie ris les Scènes tropiqucs. seoíTendeu d'el- Peço-lhe aqui solemne desculpa. que ^ois No Uesumô de VHistoire Litteraire du Portugal. I. não tenho seita nem partido sim como em coisa nenhuma. nâo tinha nada minha compo- com a do Denis. um dos professores do Collegio de França. 2 cit. Garrett escreve mais tarde. de I82G. que entendendo pro- vavelm. escrevia Mr. nas quaes se acha episodio sobre a vida do grande poeta. Thurot. que lambem tem merecido da nossa las. Ferdinand Denis: «Lemmezes depois da publicação das Scenas da Natureza sob os trópicos. Deixo a ou- o cuidado de decidir acerca do mérito da obra. íiz meu poema Ca- a semsaboria de a me pôr a dar explicações sição em como sr. o seu trabalho estava composto. arrependido das suas reclamações: «Na primeira edicâo do mõeSf que é doesse anno. assim como eu não sabia de sua obra. o auctor confessa. litteratiira. . aquelle escriptor. o * mesmo estou certo que lhe acontecesse. p. Camões. Consta-me. appareceu um por- em tugaez tros um poema anonymo intitulado Camões.» brarei aqui.

procura Universidade de Coimbra. E. como as desgraças generosas de Camões. volve para Lisboa. o assumpto o mais poético. ó illuminado das Sciencias. em que Faria e Sousa con- centrou todas as situações da vida do grande épico é tam- bém uma obra clássica. etc. 21 . 4. guardam entre os Manuscriptos da Academia das basta lêr os argumentos: «Canto falla-se i. Part. O que o temos criptos era o poema Camões xvii tratado por um clássico. exprime um novo estado do sentimento. que se Sciencias. a matéria.» ^ a força do amor. referem-se os amores que teve com uma do dama do paço. . Mas vejamos agora como Garrett foi arrebatado inconscientemente pelo romantismo. es- no fim do século por Manuel Lopes Franco. Sahe Camões a á luz e celebra-se o seu nascimento. o sentimento natural pelo molde já auctorisado. nem inverter as minhas nas d'el- Em 1825.» me * levam minhas ideias boas ou más. Expõe-se com o heroe que se celebra. tanto d'aquelles em politica como em decisivos Utteratura es- tava-se n'um de momentos em que todo o homem bem linha fatalmente de ter uma opinião e de a sustentar. ahi bem claro n'esses dois cantos em oitava rima. Trocar a vida real pela vazia alle- goria mythologica.174 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL onde les. pondera-se seu desterro. p. descreve-se a delerminação. implora-se Caiiope. só serviu para oitavas e éclogas banaes. e nem procuro converter as dos outros. a liberdade obrigava o absolutismo a fazer con- cessões. a linguagem de dentro pelo epitlielo rhelorico. xx. mostra-se Camões vaticinado faz-se Concilio no Pindo para sahir á luz. 2 Academia das Sciencias (G. O poema Camões.) . por um processo assim. 5 . e a verdade atacava as falsas macaqueações das obras da antiguidade. origerjj toda A écloga Cintra. — Canto u. Garrett começou por tirar 1 Catalogo dos Autographcs.

Os críticos comprehenderam muito cedo esta verdade his- tórica.» ' Encantado N'estes' versos. se a sciencia da historia não viesse cor- roborar a aspiração ao natural. em que Garrett allude á impressão receelle bida das obras de Walter Scott e de Shakespeare. se vé a concepção exterior que formava do Romantismo. Como o subtil Aríel. Todo o rito. Murmurei os tremendos esconjures Do Scaldo sabedor. Que as tranças d'ouro penteando ao vento. . era a uma espécie de guarda-roupa da Edade Media e não con- tinuação d'essa lucta dos dialectos que procuraram fazer-se valer contra o uso exclusivo do latim clássico. O poema * Camões. A alma enlevada Nos romaniicos sonhos.ALMEIDA GARRETT a inspiração 175 Olhou em do meio e das circumstancias que o tocavam. — Canta as canções dos tempos que passaram Ao som da harpa invisível. Errante Eu Pela terra eitrangeira. volta de si. a perguntar ás obras da milo do homem Pelo bomem que as ergueu. em vez de correr atrás dos Faunos: vi sobre as cumíádas das montanhas D'Albion soberba as torres elevadas Inda feudaes memorias recordando Dos Brilòes semibarbaros. — fallei aos ecoo? Das ruínas a lingua consagrada Perfiz solemnemente Dos menestréis. procurava Áureas ficções realisar dos bardos. como escreve Garrett em uma nota Poema Camões^ c. por invisivel feitiço. as aérias Vagas formas da virgem de alvas roupas. os artistas não. e agora continuar essa lucta na expressão livre do sentimento moderno. e teriam inutilisado o problema no ultra-romantismo. invoquei firme e sem medo Os génios mysteriosos. vn. que lhe tangera Os domados espíritos que a servem. peregrino Nas solidões do exílio fui senlar-me Na barbacan ruinosa dos caslellos A £ conversar co'as pedras solitárias.

que não é a fdha de D.. auxiliindo com os dinheiros da casa as edições de Camões e de Gil Vicente emprehendidas por Barreto Feio. n'este tempo estudava na Bibliothèque meu Camões. tido. * foi quasi lodo composto no verão de 1824 em IngonvJIle ao pè do Havre de Grace. elle trabalhando no seu Sallustio. abandonou o terceiro anno jurídico da Universidade. influiu n'essa parte do poema em que ter Garrett acceita a errada tradição de ter sido o grande épico perseguido pelo Conde da Castanheira. ede amado uma latina. Ed. e com esperanças largas no futuro. na a Paris margem a direita do Sena. em Hamburgo fez elle apaixonar um negociante portuguez de secos e molhados pela reprodução suia o segredo de produzir enthusiasmo pelos nossos do theatro de Gil Vicente! ^ A amisade de Barreto Feio e 1 Ibxd. Catherina de Athayde. que por occasiâo do assassinato dos lentes de Coimbra em 1828.» A amisade de Barreto Feio teve uma decidida influencia sobre a creaçâo do poema Camões. i. D'ali partiu para Hamburgo onde cbcgou a associar-ee com o cônsul e negociante porluguei José Ribeiro dos Santos. indo-o acabar no inverno de !8i24 1825. e viveu sempre no estrangeiro como cônsul portuguez. nol. emigrando para Inglaterra. de 1831. regressar a Portugal. Estes dois negociantes foram escriptores e merecem aqui uma indicação biograpbica. 3 . Barreto Feio. D. Reíerimo-nos a José Gomes Monteiro. D. de Hamburgo.mados ao presente. Barreto Feio. eu e o meu velho amigo o sr. I. porque lhe permit- em virtude de novas alterações politicas. o d'elle resta um Tratado consular. V. encetada Didot. c. nasceu em >4lla Nova de Gaia em 1798. apesar da sua erudição monumentos nacionaes. t. mas ambos resi<.176 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL aulobiographica. «n'uma agua-fiirtada da rua Coq-St. José Ribeiro dos Santos. sem remorso do passado. J. estabelecido era Ilamburgo com 2 Obras do Camões. ambos Royal o exemplar da edição de 1572 para fazer ção critica das obras do poeta. uma ediem 1820 na casa foi mas que não 2 foi por diante.-Honoré. passávamos com os pés cosidos no fogo. eu lidando no proscriptos. o estudo critico de Barreto Feio para a biogra- phia de Camões. xsii. António pos- de Lima. ambos pobres. p.

tendo por esse motivo do defender uma tradução portugueza do Fausto feita por Castilho. Não tinha a illustração sufficienle para cooperar nas ediçõc. No cemitério do Père Lachaise se encontravam junto da sepultura de triado. Coll. : Nacion. Eccos da l.de Gil Vicente e de Camões. A. Bibl.xa de poesias allemãs. Os seus trabalhos litterarios re:umirara-se a uma tradução frou. a sua biographia no 13. Na sua ausência. e ao receber em Angola esta noticia. onde exerceu algum tenppo o cargo de recebedor de fazenda no bairro de Cedofeita. tem logia uma certa ana- com a digressão de Lacurne de Sainte Pelaye e do Itália. o opulento editor dos Lu- ziadas. por José Feliciano de Castilho. de jornaes. em 1828. o poeta Filinto uma poderosa casa commercial de secos e molhados. na época em que cilas appareceram.. fugindo de Portugal. (Vid. baseada sobro um critério errado. n.° Gama. como já dissemos. res. i8-24. pelo iAIorgado em Paris em de Matheus. e n'cste caso só eslava o erudito Barreto Feio n'e8sas edições foi . voltou ao Porto. 130. Attribue-se-lhe uma novella em prosa intitulada Crisfal e Maria. Feio an- Sallusíio. e um volume inédito sobre a realidade historico-allcgorica da novella do Amadis Gaula. ao passo que Garrett compenetrava-se do espirito da nossa epopèa nacional. uma Carta a Thomaz Northon sobro a Situarão da Ilha dos Amores. depois da fallencia de Hamburgo. A publicação da versão critica portugueza das celebres Cartas amorosas de Marianna Alcoforado. um outro expa- mas pelo intoleranlismo religioso. morreu fulminado a bordo do seu navio Vasco da 27 de José Janeiro.) Gomes Monteiro nascera também no Porto. que chegámos a vêr. Falde leccu a 12 do julho de 1870. acabada Hamburgo suspendeu pagamentos com um passivo de mais de duzentos contos de réis. presidente de Brosses na como de Brosses. emprebendeu uma expe- dição scientiQca e commercial á Africa. como Lacurne desenterrava dos velhos archivos dava preoccupado com o estudo do seu as Gestas francezas. Josc uma como compensação por tanto o nome de José á sua coadjuvação Gomes Monteiro. que em outro logar apreciámos. Gomes Monteiro pecuniária. Do trabalho sobre os Luziadas falia Garrett referindo se a Barreto Feio no trabalho sobre Gil Vicente o auctor allude a outros escriptos anterioseis .ALMEIDA GARRETT 177 de Garrett n'estc período da emigração. era um lacto que contribuía para acordar nos emi- grados o sentimento nacional. mas não tem o menor merecimento. Dizia possuir bastantes cartas de Garrett. de ISíá. era 1807 entrou aos dezeannos para os cursos de leis e cânones da IJoiversidade. Foi nos Uns da sua vida gerente da livraria More. a 13 de fevereiro de 1842.yra tcutonica. Porto. que mereceu ser historiada em um livro por um escriptor allcmão que o acompanhava. 12 .

me atrasavam com benigna . im- primiram no poema Camões um tom elegíaco tâo constante. entram no escaler os passageiros. que lhe dá o movimento subjectivo de uma longa ode. Entre estes dois extremos. era António. em Garrett chama: Certo amigo na aiifíuslia. 178 Elysio. Quando o escaler larga. O poeta insta com o . Camões e um missionário. Garrett preferiu inventar todas as situações do poema. o jáo. anoa á custa de António Joaquim Freire Marreco. adoas agruras do desterro fazendo investigações nas bi- çavam nários ali bliothecas de Paris e Londres para copiarem os extraordi- monumentos da litteratura e da historia de Portugal archivados. gia. . . Esta realidade excede toda a poesia. Como o fez elle? A sua ten- dência lyrica o explica melancholica. A ti minhas endeixas mal cantadas. que lhe é narrativa. que aos tormentos Mirradore?. Garrett trabalha sobre dois factos que a vida de ministra: a Camões chegada a Portugal em 1570 depois de dezesete annos de ausência. qi publicou-se em 1825.. O poema Camões nymamente. A sua feição lyrica obríga-o a divagar nas descripções. e Dextra cravaste a roda do infortúnio Cravo que o gyro bárbaro Ibe empeça. António Nunes de Carvalho. em vez de seguir a marcha natural do poema. em Paris. que ella tinha ção começa com a chegada do galeão. é que se notam os choros de um escravo que ficara a bordo. recolheu-se na estéril contemplação em de vez de procurar a realidade para ver o ideal. que a vida Adoçaste o amargor. As condições particulares em que Garrett escrevia. ao porto de Lisboa. e a sua morte depois do desastre de Alcacer-kibir. . Sigamos a marcha do poema: a em que o poeta acre- gressa. mSTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL que Lamartine celebrara em uma sentidíssima ele- Outros. amigo de Camões. como o Dr.

» Tal é o bello canto que a realidade histórica nos revela ter sido este momento da vida de Camões. e o missionário intervém com a sua doçura e consegue que o escravo seja trazido para terra. todo dispendido em elTusões lyricas. crú o abandono do jáo na cidade para elle desconhecida. seguem-se bravatas entre ambos. mas o missionário não o consente. o seu grande amigo e poeta. onde encontra ainda viva sua mãe. por medonho. e quasi vista de Lisboa. o mestre alterca. as procissões de penitencia e de acção de graças. e Camões embrenhando-se pela cidade com o escravo ao acaso. apesar de toda a sua elevação O canto II do poema Camões é theatral. e com gritos fervorosos e resas hallucinadas. arrastado a si um inexplicável sabbath. é um doestes qua- . Lisboa estava quasi deserta. que o poeta pergunta mesmo se desembarcou em Lisboa. e vão todos caminho do mosteiro. E comtudo a rea- lidade histórica excede a maior epopêa: á pátria. Pelas ruas marchavam lugubremente. (ímuito velha e muito pobre. e as portas da cidade estavam guardadas pelos honrados da terra para que não entrasse nin- guém doente. Os passageiros chegara a terra. apesar de estar enfraquecida a immensa mortandade da chamada Paste qrande de 15G9. e vae ao acaso a ver' se descobre a antiga casa humilde de seus pães no bairro da Mouraria.ALMEIDA OARBETT 179 mestre para que atraque de novo para tomar o seu escravo. Não tem recursos épi- cos. É entre esse ruido que Caé entre esse tropel mões desembarca. depois Camões chegava á de ter perdido no mar. é falsa a scena do desembarque. cada qual se dispersa. é convidado pelo mis- sionário para pernoitar no mosteiro da sua ordem. Ca- mões dá alguns pardáos ao jáo para procurar albergue. Ê esta a diminutissima acção do primeiro canto. O canto de Gar- rett é ténue e descolorido. o valente Heitor da Silveira. lyrica.

180 HISTORIA DO BOMÁNTISMO EM PORTUGAL dros de libretto. «Ah! a minha * bella Ophelia! Eu amava Ophelia. Catherina de Athayde era morta. amorta- em vestes cândidas. mas não é descrevendo. confunde-se na multidão para quem era. mas aqui a realidade uUnipassa em bellesa todos os artiíi- cios da imaginação: Caniõ(3s ao chegar a Lisboa. o filho tam- 1 Hamlet. Camões aproxiquem seja. encon- tra viva sua velha e pobre mãe D. resente-se das impres- sões que em Inglaterra recebera Garrett ao vêr represen- tar as tragedias de Shakespeare. sentimento aziago entra no mosteiro. Camões entra em Lisboa. é essa que aqui rola da cabeça de Natércia e vera cair aos pés de Camões. nalda de rosas que Camões por um precom um movimenta desencontrado do féretro. e o poeta cae sem sentidos em terra. Anna de Sá. A grinalda que Ophelia tecia ao cair na corrente. tem a liberdade do anachronismo.» É então que Hamlet cae em um mysterioso accesso de fúria. Natércia! Os eccos do templo repetem o nome de Natércia. como Hamlet no vêr cemitério. Quando os três se dirigiam para o mosteiro. O é sabido. como 1556 que D. vae para ver lhada uma gri- vem cair a seus pés. ouvem dobre de sinos. Hamlet vê aproximar-se um saimento rico e apparaloso.. as aíílições de quarenta mil irmãos todas juntas não egualavam a minha. porque lhe tava o apoio histórico. desprende-se do cadáver ma-se. ais carpidos. caracter theatral doeste canto.. e Garrett falias em de dar aos seus personagens essas que são relâmfal- pagos da consciência. . é uma donzella. poeta. e brandões fu- néreos rompem a escuridade da noite. O jáo toma como máo agouro o encontro do saimento. limitou-se ao verso descriptivo. acto v. Póde-se imitar uma vez scena d'estas. Garrett pairava no vago da imaginação. e desde Camões chegava á pátria em 1570.

Quando ia n'esta parte da nar- ração. o poeta volta a e acha-se recolhido na cella do com o jáo velando-lhe cuidadoso. como perdeu um olho baten- do-se contra os piratas e defendendo seu pae. É o missionário lhe e Camões reconhecido promette desmaio. João m. era da formosíssima D. interrompe-o leriosa e cavalleiro tra. um thesouro eterno. narra-lhe os naufrágios como no meio de todos índia os desastres esperava trazer da para a sua pátria o maior thesouro. lh'o quiz tirar. Francisca de Aragão. A e mâe conta-lhe os longos terrores da peste grande. recolhe-se pultura de D. conhece a letlra. Volta á corte e apaixona-se por uma rível valido filha do Conde da Castanheira. Tral-o comsigo. pensando em merecel-a entra no Mosteiro de Belém. e como ella mesmo lhe pe- . É o poema dos Lu- A boa mãe sorri-se amargamente d'aquella alma e imaginativa. os seus desalentos. e mal tem onde recolher o bom António. e o poeta e prisões. o escravo jáo. um mensageiro com uma carta mysanonyma.ALMEIDA GARRETT 181 bem se lhe apresenta pobre e exhaiislo de forças pelos ru- des trabalhos da guerra e dos mares. que nos tempos em que frequentava a corte lhe pedia versos. hora e em um dado sitio em Cin- No canto prosegue a narração até chegar á historia dos seus amores com Natércia. Manuel. falia. Foi a primeira ideia que teve do poema. o ter- de D. através de todos os accidentes ino- pinados da sorte que ziadas. este elenco rigorosamente histórico. para ficção de Garrett. e em contemplação junto á se- foi ali que o génio da pátria lhe ali inspirou a empreza que encheu a sua vida. No canto si do poema então que Camões. Narra-lhe os com- €ontar-lhe o motivo do seu bates em Ceuta e no Estreito. Dias depois sempre generosa Camões recebe um bilhete de uma dama do paço. O que ni será? Mas deixemos proseguirmos na missionário. que o convida para comparecer como em uma dada iv. A casa é humilde.

talvez sus- citada pelo episodio da vida de Dante. é este canto o que senta. a acção resume-se no empenho de D. e todos os sitios recordam as horas dos seus amores. O canto VI é uma longa divagação descriptiva baseada em emoções da historia de Portugal. a viagem tempestuosa. o livro? t corte commigo o trouxe. lhe confiou á sua guarda o deposito da Divina Come- dia. dizendo que lhe obteve uma audiência de el-rei D. consolando-o. que o interrompe a voz do missionário. principalmente pelo retornello: Rosa de amor. mas vendo ao mesmo tempo o naufrágio de todas as siias esperanças. Esta situação faz lembrar. O . e o menos acção apre- que é mais lido e repetido. o desterro de Macáo. rosa purpúrea e bella. Antes de partir para o praso mysterioso de Cintra. soídão quetristesa. as passadas illusões. exalta onde o poeta passou doces horas de Cintra. ou. Ê no meio d'este desalento. Sebastião: — tMas Vim por elle e por vós . narra a partida. O canto V é todo subjectivo e elegiaco.182 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL diu que fosse engrandecer-se nas armas. Aleixo de Menezes conseguir do joven monarcha uma audiência ao poeta para lhe ler os Luziadas. e depois de ter ali encontrado a paz no bom prior Fra Hi- lário. uma prosopopea á gruta de Macáo. Quem entre os goivos le esfolbou da campa? Depois de rida. Camões perde aqui o seu typo enérgico da lucta e declama como um scismador melancholico. Camões vae a Cin- tra. e como está finalmente na pátria tendo realisado a obra do seu pensa- mento. quando desterrado de Florença entrou no Mosteiro de Santa Croce-del-Corvo. como estancia amena e throno da vecejante primavera. entrega o seu lli'o poema ao missionário para foi guardar.

Camões volta a Lisboa. porque é um legado de honra os ódios tor- que ella lhe pediu antes de morrer. e Camões despede-se sobre a praia do missionário que se tornara o seu maior amigo. o Conde declara que não pôde erguer ferro para o homem que foi amado pela mulher que elle adorou. No canto x descreve-se Camões na mais atroz indigência. porque em 1827 Garrett escrevia no Chronista. e pede ao poeia que torne a vèl-o. Diante de tamanho ca- valheirismo. e como o monarcha e a corte vão ouvir lêr o leitura é narrada poema em uma gruta de Cintra. que pede esmola. que se torna a frente eíTectiva a carta mysleriosa: Camões vé-se Xrente clara seu inimigo e qlie o com um Conde. Depois da partida da expedição. que d'Arlincourt era a segunda celebridade da Europa depois de Walter Scott. que se deodeia como rival! Quando Ca- mões ia para cruzar a espada. com um ou outro centão mais pittoresco. descreve a anciedade dos pretendentes. as forças alquebram-se-lhe. Camões restitue-lhe o retrato. narra-se a falsa tradição da morte de Bernardim Ribeiro divagando e é n'estas alturas solitário na serra de Cintra. onde já corre entre doutos e indoutos o seu livro. o dizemos. Aleixo de Menezes fluencia na corte. D. Camões sae. nam-se choram juntos o objecto que ambos amaram. sem outro movimento. O canto vuí enclie-se com este mesmo processo. o poeta caminha com o seu escravo António. nâo sabe como reconhecer esse prodigio. que o convidou para vir ali paia lhe entregar o retraio de Natércia. Esta ideia do legado ali em convicta amisade. e de honra é perfeitamente á dArlincourt. a minuciosamente pondo em verso a sum- ma e dos cantos dos Liiziadas. vem-lhe o tédio . O canto ix é egualmente pobre de acção: o rei íica maravilhado com os Luziadas. era que Garrett esboça os sentimentos do romantismo. á d'Arlincourt. vê-se a faina da partida já não tem indo exercito para Africa.ALMEIDA GARKETT 183 canto VII é uma effusão lyrica sobre o bon vieux temps.

Tudo o mais é obra de occasião. a tradição nacional. Camões ouve quando chega ao ponto cul- minante da catastrophe expira. que está no captiveiro de conta os pormenores da derrota de Allêr. se chamava o chauvinismo. se O seu in- por veníura o poema direcção errada. telligencia. ratificação A verdadeira obra do génio é a que resiste á do sentir de cada individuo e de cada época. e ligadas por um interesse scenico. era . é o Conde. È n'esta situação que um mensageiro o procura.184 HISTORIA DO-ROMANTISMO EM PORTUGAL da vida e adoece. O poema Camões é só isto. levou uma verteu-se n'isso que em França. n'este plano um accidente na historia da in- secundado. Mas não. o poema Camões é do melhor que entre nós produziu o Romantismo. nos surprehendemos da differença que vae do nosso pasmo 4859 á nossa ratificação presente das antigas impressões. que têm dominado as novas opiniões até religioso de hoje. Interrompemo-nos no momento em que o poeta recebe a carta de D. (Vid. dizendo que — ao menos morre com a pátria. intercortadas por poucos diálogos. Francisca de Aragão. Este lance sublime na verdade da tra- dição histórica. apresentando as condições vitaes para uma outra idealisação. Os juízos Htterarios que existem sobre este poema são ainda Nós mesmo as primeiras impressões produzidas pelas leituras de 4825.) Depois de ter feito notar a deficiência de acção no criticar a tragedia poema Camões. torna-se convencional e recortado. que fora outr'ora seu inimigo. para dar um certo movimento á descripção e encobrir a immobilidade da acção. está aqui apoucado ás molas theatraes. perde a sua grandeza. p. e cacer-kibir. n'esta mesma época dos Românticos. 80. façamos como Fauriel ao de Car- magnola de Manzoni. con- tivesse propagado o ideal da pátria. com versos frequentissimamente quebrados nos seus hemistychios. tuito nacional tornal-o-ia sagrado. é como uma serie de odes de Philinto. o amor da pátria. que lhe traz Fez. e uma carta do em que lhe missionário.

As intrigas trabalham contra o poeta. Manuel de Portugal. como se conta também de Miguel Angelo. e que o seu amor a matava.ALMEIDA GARRETT esta 185 dama formosíssima e princeza a que mais distirignira Camões na época em que floresceu na corte de D. é o poeta que vella á sua cabeceira. D. engrandecel-o. Emijuanlo o poeta está doente visitam-no os seus antigos inimigos disfarçados e roubamllie o Panmsso. Vencidas âs delongas do Santo Olíicio. e é então que o poeta expira para não ver a pátria escrava. que lhe ouvira antes delia morrer no paço: que se um dia Gamões voltasse á pátria. Francisca de Aragão. Camões recolhe-se dilacerado e adoece. sa- bendo da sua intimidade com D. e decidida a expedição de Africa. Mas o exercito de Philippe ii caminha sobre Portugal. elle e despresando todes os outros illustre Camões cumpre o mandado da dama. era para communicar-lhe algumas palavras de D. Quando Camões dá pelo roubo. Sebastião para dedicar-lhe o poema. disseram-lhe que morrera proclamando que acompanhava a pátria. agrupam-se em volta d'elle to- dos os que seguiam o partido da independência nacional. pensando que lhe subtraiam os Luziadas. Manuel de Portugal encontra-o e acompanha-o. D. Chegada a noticia da derrota de Alcacer- Camões cae doente. reata a antiga amisade e promette aprescntal-o a D. lhe dissesse que sem- pre o tinha amado. Fhilippe u ao entrar triumphante em Portugal. emquanlo o poeta o ia revendo. pedindo versos somente a poetas. ergue-se a custo e caminha trémulo para o paço: ia offcrecer o seu poema ao rei para o salvaguardar. a sua morte hade perturbar para sempre aquelle triumpho. É isto o que dá o simples esqueleto da historia com leves «lodificações que pertencem á Uberdade artística. o jáo cae doente de nostalgia. Esta se- . quer ver Ca- mões. Morrera como Sadi. Catherina de Athayde. a Camões para escrever a epopêa do futuro triumpho. João iii. Bernardes é preferido kibir. ap- parecem os Luziadas.

e não os Adolphos e um que apathico e melancholico scismador. escreve Garrett: «Passei ali cerca de dois annos da minha primeira emigração. seguidamente e sem interrupção. avec une inlroduction et notes par Henri Faure. Para já Garrett teve em vista imitar o digressivo byroniano. É uma ediçio primorissima. do canto i. eis a parte essencial: uma «Agora las em linguagem chã e corrente: lembra-se d'aquel- nossas conversas sobre antigualhas portuguezas e o d'ellas se podia aproveitar. 1880. vestil-as dos adornos poéticos Acaba de publicarse em Paris unia tradução em prosa do poema. Branca. . completando-a antes do Camões. * A historia convence-nos de uma realidade. que é. porque épico na sua individualidade. tão mesma distracção de escrever. que a o mesmo triste gosto que achava trabalho: e dei-me. D. os Obermans do Romantismo. a poesia é real. com o Camões.» - No poema de D. me quebrava a saúde e destemperava mais os nervos. que fiz. esta sua feição poética não é menos bem a conhecer temos algumas notas au- tobiographicas publicadas pelo actual possuidor do Catalogo dos Autographos de Garrett. em recordor as desgraças do nosso grande génio. e que o ideal é a generali- dade do A melancholia vaga do typo de Camões de Garrett ex- plicase também pela relação intima da obra com o auctor. desde julho até outubro ção d'esse anno de 1824. io 8. como indicação hygienica. em que Garrett escreveu.186 ria a acção HISTORIA DO BOMANTISHO EM PORTUGAL verdadeiramente epica do elle foi um poema como sobre Ca- mões. fallando dos annos da emigração. . Paris. puêmc traduit du portuyais. São os fragmentos de carta a Duarte Lessa.'^de xr. Fui obrigado a interromper o meu só e tão consummido. ' . A linguagem em prosa dá um grande re1 titulo : — levo á sensiblerie du época 2 Nol. a composimenos grave. muito que quem de nossas le- gendas e velhas historias e tradições fizesse o que tem feito Inglezes e Allemães. Essa foi a origem de D. Branca interessante. ouvrage orne du fortrait di Garrett.v 221.

e fazer d'ahi poema. se esperdiçam e andam a monte por desacerto de leltrados e barbaridade de ignorantes. de tão ricos que somos. . e lendo e escrevinhando. Branca. Payo. «Histórica é em boa prosa. e que pelas nossas. que foi senhora do mosteiro de Lorvão. segundo é que. dilatei de Silves. . rei mestre de Santiago. Eram as Chronicas de Duarte Nunes: apesar de hdas e relidas. e verso. D. .. romance. porque de nomes não nos de nomes dos meus rapazes. . em mui — que palavras. Nem me siada Hcença poética. que para mim foi achado aqui já . e não menos o são D. (e já de mais tempo me geito fervia isto na cabeça) não fiz senão pensar no se com que me haveria para armar assim uma coisa que parecesse. . ALMEIDA GARKETT 187 e sacadir-lhes a poeira do esquecimento cora assisada escolha e apropriado modo? Pois desde então. meu achacom a relação concisas da conquista do Algarve. Hespanha do qual Com esta infante teve amores ura cavalleiro pariu um filho . me- «Ora tanto eis ahi um o argumento e origem. a historia da infante D. . me deitei a ellas como esfaimado. e Aben-Afan. cujo reino pareceu demadias. e sibilidade poética. assentei de a ligar como lhe não vi imposcom a conquista do disputo. íilha daquelle rei mandada para abbadeça do mosteiro de Holgas de Burgos. e muito Algarve. eu por todo o Algarve. que entre diversos reisinhos e princip. deparei na Chronica de D. mormente em nossos que muito maiores as estamos vendo. que não em também a caçada e fatal combate das Antas. «Acertou de vir ás minhas mãos um livro portuguez. . donde foi h o mais nobre e mais rico mosteiro de freiras que ha em . . ou o que mais quei- ram chamar-lhe. mas que de longe. . e ao pé logo. «Deu-me no goto esta historia. com tanta coisa boa que por cá ha por estas terras de Christo.esínhos estava repartido. Branca é porpersonagem histórico. AÍTonso ni.

Affon. e mais coisas. ou antes de A concepção do poema saiu de uma leium paragrapho da Ghronica de D. defendendo-se até á ultima como homens que eram. menos phantasiar á vontade tecendo suppos- A arte interpreta as tradições nacionaes inspi- 1 Catalogo dos Autographos. até as brucharias de Frei Gil não são fabu- pelo menos da minha cabeça. bruxos. e muito tas lendas. que Deus permitia sirva de exemplo a todos os nicromantes. versão e exemplar penitencia. xxii. «Não ha lá princezas mouras. mas é pura verdade. os fragmentos da carta a Duarte Lessa deixam-nos claro a origem do poema I).188 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL em que ficaram mortos os seis cavalleiros de Santiago e o mercador Garcia Rodrigues. nem se deixavam insultar de cavalleiros com medo de fanfarronadas ou calotear de senhoras a troco de cortezias.» Á parte este estylo da graça portugueza. so in de Duarte Nunes é pôr mas tratar uma tradição nacional não em verso o que está na prosa ingénua dos chroni- cons. se os poetas. nos refere miudamente suas feiticerias. . mi- nha casa. no que diz a Ghronica. que servem de fundamento ás que imaginei: finalmente sua milagrosa conHistoria de S. las. feiticeiros e en* cantadores. que também sou chronista em . a Gastella para a concessão rica. A ida da rainha D. e uns por outros. se os chronistas. po- rém metti-lh'as eu. p. pacto com o diabo. tal qual a conta Duarte Nunes. Deus sabe quem mais mente. e bem o creio eu. que os nossos mercadores d'aquelle tempo. Beatriz do Algarve é igualmente históe emfim. que ainda se prende com os dichotes de António José. Frei Luiz de Sousa. . tura. Branca. na Domingos. . sabiam tanto do covado como da espada. os seus elementos tradicionaes e poéticos e a intenção do auctor. Por ventura haverá ahi quem ache este caso ainda mais poético.

Garrett leu essas linhas maliciosas da Chronica e pul-as em verso á sua guisa. Sancho n. era este um melhor pro- togonista para o poema de D. AlTonso iii: «Avia otras (obras) de cl qual. . Para que inventar uns amores com o mouro Aben-Afan? Na corte de AíTonso ni estava em moda ali o gosto poético provençalesco da corte de S. . restituindo-lhes a vida primitiva. fazendo-nos solidários com o pas- sado. como o compositor que no repente melomanico submette ao contraponto as rubricas da opera. Que mundo de sentimentos se lhe revelava só n'esta palavra trovador! Esses receios e segredos do na- morado. trovador da corte de D. . em França o tinham aprendido. interessando-nos.ALMEIDA GAREETT 189 rando-se d'ellas. encontramos essas notáveis palavras do Marquez de Santillana acerca de João Soares de Paiva. se dice aver muerto en Gauna infanta de Portugal. 101 c 102. Branca. mais verdadeiro. ao Condestavel. Eram estes tro- vadores os que se apaixonavam pelas princezas. mais nacional. res Com esta infante teve amoa ver- um cavalleiro . com o exemplo recente do Conde de Champngne por Branca de Casiella. Luiz. I)'aqui saia completamente toda dade e toda a vida da tradição. Vendo com esta luz a tradição portugueza. as suas cores. que apren- deram a imitar os fidalgos por occasiâo das luclas que se refugiaram em França com D. era preciso esludal-a antes de interpretal-a. essas lendas ter- 1 2 Carta Trovadores gakcio-portuguezeSy p. essas remotas allegorias á dama dos seus pensamentos e occultando sempre o seu nome. ^ João Johan Soares de Pavia yy Soares de Paiva é esse trovador da corte de D. AÍTonso nr. em que consiste o vinculo mais forte da na- Era assim que Oelensgleger e Rúkert trataram as tradições suecas e germânicas. ^ Como prolida por amores de vámos no estudo da escola provençal portugueza. que é cionalidade. Com a tendência lyrica de Garrett. § xv.

;

190
riveis

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

como da dama de Fayel ou de Cabestaing;
;

esses votos

denodados

emfim todas

as aventuras da terra santa e das
Ilhas

biographias do

Monge das

de Ouro

!

Este é que seria
iii,

o poema nacional, do tempo de D. Affonso
restituiria á vida

o que nos

uma

época e a tornaria conhecida e amada

fora do dominio da erudição. Ignorando esta reahdado poética,

Garrett estragou as tradições épicas da conquista do

Algarve
gida.

com
está

o syncretismo de

uma

imaginação mal

diri-

O

episodio de Frei Gil, o typo do nosso Fausto por-

tiiguez,

também mal

aproveitado no poema; Garrett
si

não comprehendeu esta lenda, que por

dava

um

bello e

grande poema, e

inutilisou-a

em um

episodio. Basta lem-

brarmo-nos de que o Fausto se perde irremediavelmente
nas lendas allemães, inglezas, francezas, italianas e hespanholas, e que se salva na tradição portugueza por interces-

são da Virgem, esse feminino eterno de Goethe,

com que

salva o Doutor pelo pantheismo da arle no fim do século xviii.

É

inútil dizer aqui

o

modo de

reconstruir sob a intelligen-

cia

da philosophia e da arte a tradição do Fausto portuguez

este titulo mostra até

que ponto Garrett não soube com*

prehendel-a. Levado ainda pelo respeito de Filinto,

e im-

pressionado pelo Oberon de Wieland, traduzido pelo foragido

do Santo

Oííicio,

imitou a procissão grotesca dos frades e

das nonas no cerimonial disciplinar da distribuição da pósla

de toucinho chamada a Tremenda. Qualquer dos contos populares de frades lhe dava uma peripécia mais caracteristica

dos velhos costumes. Foi justamente este o episodio

que mais quadrou ao gosto do publico e o lado por onde
todos conhecem o

poema de

/>.

Branca.

comprehendeu que se não soubera aproveitar da lenda de Frei Gil; nas Viagens nu miJá no fim da vida, Garrett

í A primeira edição de D. Branca traz as iniciaes F. E., com a inlençSo de submelter o gosto autoritário do publico a esta obra attribuida a Filinto Elisio.


.

ALMEIDA GABBETT

191

nha terra escreve: «Algures
Fausto: e ò

lhe

chamei

o nosso Dr.
.

com

elfeilo.

Não

lhe falta senão o seu Goethe

.

Nós precisamos de quem nos cante as admiráveis luctas ora cómicas, ora tremendas do nosso Frei Gil de Santarém com o diabo. O que eu fiz na D. Branca é pouco e mal esboçado á pressa. O grande mago lusitano não apparece
prologonista de
teiro,
ali

senão episodicamente; e é necessário que appareça como

uma grande
luz,

acção, pintado

em

corpo
.

in-

na primeira

em
S.

toda a luz do quadro
isto

.

.

Lem-

bra-me que sempre entrevi
faziam ler a
liisloria

desde pequeno, quando

me

de

Domingos, tão rabujenta e sem-

sabor ás vezes, apesar do encantado estylo do nosso melhor prosador; e eu que deixava os outros capítulos para
lèr e reler

somente as aventuras do santo
*

feiticeiro

que

tanto rne interessavam.»

Estas revelações mostram-nos até que ponto o ter sido

embalado com as tradições nacionaes fecunda o génio e
a

predisposição artística.

Á

medida que Garrett avançava
pelas tradições portugue-

na sua carreira da emigração

litteraria o

amor

zas afervorava-se n'elle.
foi

É por

a Ádozinda,

que a sua terceira obra poemeto trabalhado sobre o
isso

lho,

romance popular da Sf/lvaninha. As condições d'este trabaintimamente ligado á vida do auctor, encerram a me-

lhor parte da sua educação intellectual. Discutindo o valor
poético das tradições nacionaes
fortalecia

com Duarte

Lessa, que o

no plano de

tirar d'esses

elementos perfeitas obras
da Syl-

de

arte, Garrett dedicou-lhe a sua primeira tentativa

vaninha.

Em uma

carta,

em que expõe algumas

observa-

ções superficiaes sobre as phases da poesia popular portugueza, faz

uma pequena

recapitulação dos seus trabalhos

tentados segundo o novo espirito romântico: «No

meu poe-

masinho de Camões, aventurei alguns toques, alguns longes

*

Viagens na minha terra,

t.

ii,

p.

141.

192

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

de estylo e pensamentos, annunciei para assim dizer, a possibilidade da restauração d'este género,

que tanto tem

dis-

putado na Europa

litteraria

com

aquell'outro, e que hoje

coroado dos louros de Scott, de Byron e de Lamartine, vae de par com elie, e, não direi vencedor, mas também não
vencido.
«Z>.

Branca, essa mais decididamente entrou na

lice,

e

com

o alahude do trovador desafiou a lyra dos vates; ou-

tros dirão, não eu, se

com

feliz

ou

infeliz

successo.»

*

Do

intuito

da Sylvaninha,

diz: «Creio

que é esta a
faz

pri-

meira tentativa que ha dois séculos se

em

portuguez,

de escrever poema ou romance, ou coisa assim de maior
extensão, n'este género de versos pequenos, octosyllabos

sos.»
rior,

ou de redondilhas, como lhe chamavam d'antes os nos2 Via a poesia popular por este caracteristico extee

em

vez de a estudar explicando-a pela ethnologia
já a

da raça, tratou de contrafazel-a na Adozinda. Garrett
este

tempo citava os trabalhos de Grimm, mas não comprehendeu esta profunda observação d'esse sábio: «O homem que quer fazer isoladamente e tirar poesia popular do seu
sentimento próprio, erra quasi sempre, poder-se-ia dizer
inevitavelmente, n'esta empreza que se propoz desempe-

nhar; raramente ou não

fica

áquem ou além da

justa

me-

1

se era

um

artigo do Ilarculíuio, Qual o estado da nossa Litteralura
niio

:

coubo o figurar n'esta lide (do Romantismo): A parlo Iheorica da litteralura ha vinte ânuos que é entre nós quasi nulla O movimento intelleclur.l da Europa não passou a raia de um paiz ondo toda^i as altençOes, todos os cuidado:^ estavam apiilicados ás misérias publicas, e aos meios de as remover. Os poemas de I). lírairAi e Camões, appareceram um dia nas paginas da nossa historia litteraria sem pieccdcnles que os annunciem; um representando a poesia nacional, o romântico; outro a moderna poesia senlimcntal do norte, ainda que descobrindo ás vezes o caracter meridional de seu auclor. Náo é para este lugar o exame dos méritos ou deméritos d'estos dous poemas; mas o que devemos lembrar é que clles são para nós os primeiros e até agora os únicos monumentos de uma poesia mais liberal do que a dos nossos maiores.» {Heposilorio littcrario, de 1;> de outubro de 1834.)
:

wMas a Portugal

2 liomanceiro,

t.

i,

p.

4.

Ed. IHJiíí.

ALMEIDA GARRETT

193

dida das cousas; ou nâo a alcança ou a ultrapassa.» As ex-

pressões d'essa insondável eloquência do povo, reduziranase na Adozinda á phrase elegante e conceitugsa
;

os breves

mas fundos

traços

com que na Sylvaninha

se colloca a ac-

ção, na Adozinda converteram-se no descriptivo

demorado,

paysagista, supprindo por estes retratos do
a impossibilidade
cia.

de ver para dentro

mundo exterior do mundo da consciên-

As narrações, que sâo

a acção e a explicam, ampliam-se
effeito.

no dialogo Ihcatral e de

Portanto, a Sylvanififia é

uma
ficio,

temivel pedra de toque para a Adozinda;

uma
.^

é a ver-

dade, a outra a convenção,

uma

a natureza, a outra o arti-

uma

a espontaneidade e a outra o esforço

O que ha

de bello na Adozinda, pertence ao fundo popular; mas a
ingenuidade popular nunca pôde ser contrafeita, por isso
Garrett não attingiu essa justa medida de que
falia

Grimm.

*

Almeida Garrett

vivia

com parcos meios durante

a pri-

meira emigração, sem se aproveitar do indulto de 5 de juentendeu requerer

nho de 1824; porém sua mulher D. Luiza Cândida Midosi em fevereiro de 1825 em nome do marido para que lhe fosse concedido regressar a Portugal. Foi

o requerimento a informar á Intendência geral da policia,
e na morosidade da informação

teriosamenle o sórdido D. João

vi, a

morreu repentina e mys10 de março de 18i5,

deixando a regência a sua fUha D. Isabel Maria; só
havia inconveniente

em 24

de maio de 1826, é que a Intendência respondeu que não

em

permiltir a entrada do proscripto,
as phrases da mais degradante

referindO'Se a Garrett

com

compaixão. Garrett desconheceu esses documentos secretos

da

policia,
^

senão nunca teria acceitado

um

tão ultrajante

perdão;

a única cousa

que seria a honra do poeta, ellepro-

Kála parle do trabalho de (larrcll, coulinuada no Ronxanceiro, flcou estu-

dada no cap. vil da3 Epopcas Mosarabes. 2 Koproduzimos aqui esses ignorados documentos copiados do Archivo da Policia, hoje na Torre do Tombo: «Por aviso de 2í2 do fevereiro do anno próximo passado (182o) foi sua ma13

194

HISTORIA DO ROMANTISMO

EM PORTUGAL

prio

foi

o primeiro a contradital-a n'esse docamento datado
;

de 24 de maio, se

lê:

«O bacharel João Baptista da

Silva

Leitão de Alipeida Garrett, arrebatado pelas ideias do tem-

po, pela verdura dos annos e pelos excessos de

uma

ima-

Deus tem era gloria, servido mandar ouvir esta Intendência sobre o requerimento do bacharel João Baptista da Silva Leilão d'Alraeida Garrett, em que pretendia voltar a este reino, d'onde por motivos politicos se achava expatriado. Pela informação que inclusa levo por copia á presença do v. ex.=* foi julgado incompatível com a publica segurança o regresso do supplicanle, considerando-se perigosa pelos motivos na mesma informação ponderados, a sua existência em Portugal: Continua por tanlo o seu exlerminio até agora em que apparece de novo sua desgraçada consorte, implorando a regia clemência de sua magestade, e invocando a sempre saudosa e respeitável memoria da beneficência do fallecido soberano sobre a sua desventurada situação: fundamenta o seu direito á consideração de sua magestade, em princípios que as circumstancias do tempo e mesmo as do supplicanle hoje fazem mudar de figura
geslade, que

a sua pertenção. O bacharel João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, arrebatado pelas idéas do tempo, pela verdura dos annos, e pelos excessos de uma imaginação ardente, foi como outros muitos (hoje restituidos aos pátrios lares) um sectário fogoso dos principies democráticos, que vogaram durante o faial periodo da Revolução, e que infelizmente hallucinaram as cabeças dos incautos e inexpertos: restaurada porém a monarchia, se retirou de Po*rlugal iramedialamente, temendo que uma vingança sanguinária surgisse d'entre nós, sacrificando tantas victiraas, quantas os sectários do systema constitucional desvanecido porém este terror á vista das indubitáveis demonstrações de clemência e piedade cora que o augusto soberano, que Deus lera, procurou conciliar os ânimos dos seus vassallos, olhando mais como eíTeito de erro do que da maldade, 05 desvarios da maior parte d'elles. O supplicanle regressou por isso á sua pátria, donde depois da insinuação da policia, que o julgou perigoso, foi obrigado a sair; e isto antes do régio indulto de 5 de junho de 1824: apparecendo porém este, não foi o supplicanle comprehendido nas suas excessOes; e não tendo os seus anteriores excessos feito objecto de processo que o condemnasse, foi o supplicanle, como muitos, perdoado, e foram portanto relevados 08 seus desvarios pelo dito decreto de amnistia, em que foi incluido, procedendo unicamente de caulellas da policia a sua expalriação depois do mencionado indulto. K tendo por isso experimentado até agora como castigo dos seus erros, todos os rigores do exlerminio e da indigência; á vista de cujos soffrimentos únicos fruclos que o supplicanle tem colhido e visto colher a Europa inteira das desorgunisadas theorias de que foi sectário, é de esperar que desenganado pela experiência e atenuado de trabalhos, haja mudado de principies, filhos da inexperiência e fogo da mocidade, como bera persuade o silencio que elle na sua eraigração tem guardado, abslendo-se do imitar e seguir o systema dos outros que não tem cessado de escrever e propagar princípios sediciosos; e então não ha motivo para que o supplicanle seja excluído da regia clemência, de cujos eíTeitos ainda não ha gosado, quando outros, pelo menos em idênticas circumslancias, tem aproveitado; não sendo por isso tanto para
:

ALUEIDA GARBETT

195
(hoje restituidos aos

ginação ardente
pátrios lares)
cos,

foi

como outros muitos
fatal

um

sectário fogoso dos principios democráti-

que vogaram durante o

periodo da Revolução ...»

No

fim da sua vida escrevia Garrett esta deplorável pagina

temor o seu regresso, quando em oulro tempo se julgou na informação inclusa, nao só pela mudança muito provável do supplicante, mas até mesmo pelo estado actual dos povos, em cuja maioria existe a convicçilo dos perigos e males certos que as Revoluções constantemente acarretam sobre elles; sendo mui difíicil que um homem sem preponderância c sem fortuna Ibe pudesse fazer reviver principios contra os quaes a experiência tanto os ha prevenido. Â vista pois das rasOes expostas, julgando mudadas as circum^tancias que ditaram a primeira citada informaç.lo, parece-mo não ser o supplicante indigno da real clemência, para obter o regresso que implora, depois de longos soffrimentos; julgando entre tanto útil medida da policia o obrigar a assignar termo de conformar á ordem legitimamente estabelecida a sua conducta e o» seus principios, ficando por isso debaixo da vigilante inspecção da policia, para contra clle proceder irremissivelmenlo logo que afastando-se dos seus deveres se torne por isso indigno da regia beneficência, a que se acolhe, e merecedor de severa justiça, que deverá punir qualquer reincidência dos seus excessos. E quanto se me oíTerece informar a v. ex." sobre o reqMerimento do D. Luiza Cândida Midoso do Almeida Garrett, em cumprimento do aviso de 9 do corrente. O que tenho a honra de levar á presença de v. ex.' para o fazer presente ao governo d'esles reinos, que determinará o que for servido. Deus guarde ele. III.'"" o ex.'"<» sr. Fernando Luiz Pereira de Sousa Barradas, 24 de maio de 1826. (Papeis da Intendência; Contas para as secretarias, Liv. xxiv, fl. Ii3. Satisfazendo ao que o governo d'esle3 reinos ordena no aviso, que de v. ex.' recebi datado do 22 do corrente, pelo qual sou mandado informar se haverá algum motivo que deva embaraçar, que João Bapti*ta da Silva Leitão d'Almcida G irrelt regresse a estes reinos d'onde foi mandado sair por ordem d'esla mesma Intendência; incumbe-mc expor a v. ex.", que os motivos que occasionaram aquella medida da policia, se acham mencionados na Conta da copia inclusa, que subiu á presença de vosía magestade em 7 de março de 1825, na qu.-vj se produziram as causas porque na referida época se julgou perigosa a sua presença n'eãte8 reinos, attcnlo o estado de agitação em que se achavam os espirites em matérias e opiniões politicas que os dividia; mas sendo recentemtjnte mandado informar um requerimento de D. Maria Midosi de Almeida, €m que pedia a sua magestade licença para seu marido voltar á sua casa, eu expuz na Conta, que dirigi á presença do mesmo augusto senhor, pelo ministério dos negócios da justiça em 24 d'este mesmo raez as rasões que me pareceram próprias para se haver contemplação e equidade com o mencionado Garrett, permiltindo-se-lhe o seu regresso a e*sta corte, mediante as cautellas e providencias, que apontei na dita informação; .igora porém devo accrescentar, que depois da data d'aquella primeira informação nada mais consta na policia contra ,0 supplicante que obste o seu regresso. X vista do que, sua magestade se dignará resolver o que bera lhe aprouver. Deus guardo etc. 26 de maio do 1826. 111.™» e ex."'» sr. Conde de Porto Santo (Papeis da Intendência: Contas para
fi

as secretarias, Liv.

jtxiv,

11.

151.

196

mSTORIA DO BOMANTISMO EM POBTUGAI.

para refutar, talvez, a imputação mais gloriosa da sua vida:

«É um sophisma de calumnia, por ventura admissível como epigramma se, republicano e demagogo, o auctor do Camões, de Gil Vicente e de Frei Luiz de Sousa, houvesse al-

guma hora

professado as hypocritas doutrinas do nivelaei-

mento social, que tão poucos acclamam com sinceridade menos ainda com perseverança. Mas a tribuna, a imprensa e o Conselho o viram sustentar sempre com denodo e dedicação a causa da monarchia, sustental-a como inseparável da

causa da liberdade do povo, da qual é não menos zeloso e
strenuo defensor.»
^

Pouco depois de regressar á pátria Garrett foi reintegrado no seu antigo logar por decreto de 26 de agosto de 1826. Conferida a regência a D. Miguel a 3 de julho de 1827,

recomeçaram
rett esteve

as perseguições politicas. Foi então

que Gar-

preso no Limoeiro, por

um

processo intentada

contra o jornal o Portuguez, redigido por Paulo Midosi, Luií
Midosi, Carlos Morato

Roma, António Maria Couceiro,

Joa-

quim Larcher,
allivio

e Garrett.

A composição

da Adozinda

foi

um

para as suas horas de prisão: «esteve por espaço de
ter tido

três

mezes preso sem mais pretexto do que o de

parte

em uma

publicaçãa censurada e impressa

com

todas
pro-

as licenças necessárias.

Não

foi

preso o censor,

nem

hibida a publicação,

nem no

fim de Ires mezes se achou

matéria de culpa!

^

O

late*go

do absolutismo

já se agitava

no ár, e para escapar á arbitrariedade só havia o refugio

mas

do desterro. Garrett emigrou novamente para Inglaterra, esta segunda emigração não foi nada fecunda para as
nos seus trinla annos, relacionado

lettras; estava enlão

com

algumas famílias inglezas,
e

adaptado á vida estrangeira
só procurou

tomando

a emigração

como uma excursão,

1

Fabulas e Folhas cahidas,
t.
i,

p. xi.

2 Romanceiro,

p.

19.

ALMEIDA GABBETT
divertir-se, flartar e ver

197
isso

mundo. É por
escreve:

que era uraa
poética,

nota do

poema Camões

«Realmente desde esta

época, (1825) nâo tornei a emprehender

uma obra
.

nâo tornei propriamente
anteriores,

a fazer versos

. .

Coisas vellias e

emendei e conclui muitas.»

*

Esta esterilidade

poética

foi

um

terrivel

symptòma;

a vida sensual da Res-

tauração allraia-o, levou-llie a ingenuidade moral; a sau-

dade da

pátria,

que tanto o inspirara, não o accommettia

agora, envolvido nas pequenas paixões dos outros sos emigrados que viviam á solta,
cia,

numeroresistên-

sem plano de
forte

nem

ideal politico.

Era preciso a

lidade da vida para Garrett sòr outra vez

emoção da reachamado ao amor
faria

da Arte;

diz elle, depois
á victoria

de contar a sua longa esterilidade:
poeta
dois

«A canção

da Terceira, assumpto que

a burra de Ralaam do mais prosaico jornalista,

com

ou três peccadilhos mais, se tanto, são os únicos (versos)
de que

me

accuso.» Isto nos está indicando qual será o

mo-

vei da sua terceira e ultima

phase

litteraria.

Ainda
pou-se

ji'essa

primeira época da emigração, Garrett occu-

em

fazer

uma

synlhese histórica da lilteratura por-

tugueza, que muito lhe devia servir para determinal-o no

caminho da renovação romântica. O Bosquejo da historia da Poesia e da língua portugueza, devia revelar-lhe o espirito
nacional nas creaçôes litterarias, mostrar-lhe até que ponto
as correntes clássicas e auctoritarias da imitação o atrophia-

ram, e revelar-lhe

as condições mais sí^uras para restituir
foi

a esse espirito a sua expressão viva; não
d'esse trabalho destinado unicamente a
vraria.

este o intuito
li-

uma empreza de

Apesar dos muitos erros do Bosquejo da historia da Poesia e lingua portugueza, publicado

em

Paris

em

1827

em

frente de uraa selecta de excerplos da litteratura portugueza,

* Camões, nota F. do canto x.

198

raSTOBIA DO ROMANTISMO

EM PORTUGAL

este rápido esboço devia considerar-se

um

grande génio

critico,

uma revelação de porque não tinha precedentes, por-

que nunca nenhum escriptor nosso presentira o minimo vislumbre de unidade philosophica n'esla descurada litteratura.
Garrett determinava-lhe a sua evolução histórica, caracterisava-lhe os principaes escriptores, as feições de cada epoca^

mas, tudo

isto estava feito já

com uma
a

valentia niexcedi-

vel por estrangeiros.

De 1805

1829 o grande philologo

Bouíerweck, publicava na Historia da Poesia e da Eloquência

dos povos modernos a Historia da Litteratura portti-

gueza, accentuando os traços por forma que ficarão para

sempre

definitivos; ainda

em 1819 o

grande historiador Sis-

monde de Sismondi, nas

Litteratiiras do Meio

Dia da Eu-

ropa, historiava a vida moral e artística da litteratura por-

tugueza, seguro nos seus juízos sobretudo quando se en-

1825 o erudito viajante Ferdinand Denis publicava o seu Resume de VHistoire litteraire du Portugal^ com aquella lucidez vulgarisadora do espirito
costa a Bouterweck.
*

Em

francez. Conhecidos estes livros e as condiçijes

em que

fo-

ram

escriplos, e a superioridade intellectual d'aquelles

que

souberam achar a unidade philosophica da litteratura portugueza e a sua connexão com o grupo das litteraturas românicas que a explicam, 6 que se conhece o mediano valor do Bosquejo de Garrett,

composto sobre estes valiosos

recursos. Garrett parte ainda dos seguintes preconceitos:

da existência de ugaa lingua romance, que era o provençal d'onde sairam as outras linguas novo-la tinas; da formação

do portuguez pela mescla das linguas de todos os povos que
invadiram a Península, sem comprehender que não pode

1

Bouterweck,

foi

auxiliado

com

os subsídios malcriaes para a Historia da

Litteratura porlugueza, por uni sábio portuguez seu amipo, inodiDcando assina

o seu plano, que era tratal-a como

um

supplcmento da Litteratura espanhola;

suppômos com algum fundamento que eate sábio será António de Araújo, o Conde da Barca, amigo o protector de Filinto.

ALMEIDA GABBBTT
existir

199

uma

lingua

sem unidade

syntaxica,

embora no

lé-

xico tenha os mais desligados elementos; ignora a relação
dialectal entre o

portuguez e o gallego

;

ignora o periodo da

poesia provençal portugueza, e da imitação castelhana, e

nem remotamente

faz entrar

o elemento tradicional na con-

stituição da litteralura. Ainda assim, o Bosquejo pertence á

primeira época da emigração de Garrett, quando a sua

acti-

vidade intellectual se exerceu motivada pela necessidade de
consolar-se pensando e escrevendo acerca da pátria.
^

*

o

dr.

copiar

os

Anlonio Nunes de Carvalho era o que eolão se occupava mais de monumentos porluguezes dispersos pelas bibliolhecas eslrangeiras

as lyrica cahidas. Autolatria carteira. em casal-os.200 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL § 3. pela imbecilidade de D. deixa- D. — Chama supposta perda de — A expedição Arco SanfAnna a — Durante do Porto — O romance —A ambições desenfreadas em FcrnSo lenda — Nas Viagens para a homens da tempo a primeira victima dos na minha das Folhas commendas. o cerco histórico ds e de Lopes. e fez-se-lhe o como príncipe herdeiro casamento com D. Pedro morreu. Na corte do Rio de Janeiro foram os dois príncipes criados á dos á espontaneidade de instinctos brutaes. deixando-nos entregues uma defeza heróica sem recursos. últimos Garrett. — Garrett descreve — Conhece consequências da reacçSo chateaubrianesca do Romantismo guerras do ao Romantismo. pelo seu Conclusões. Pedro e D. — mentos de os seus Inglaterra. de todos esses males não dos seus dois filhos foi talvez o menor o nascimento solta. inéditos: o brasileiro Helena. e inutilisa-os litteratura. com duas princezas da familia Por um accidente imprevisto a princeza destinada para D. Miguel. De todos os males accumulados sobre a nação portugueza vi. Caracter da segunda emigraçSo em as e atlribue-a as luclas alecrim e raangerona. — A ultima phase época: — romance —Relações com a sua — Os a de geracSo que Garrett condemna a — — Os modeduzida da sua organisar admirador Gomes de Amorim. vida politica desperta todos os prestantes. que era a destinada para D.— Da segunda emigração era 1828 ale á morle de Garrett amores em 1828. Leopoldina. e como premio d'ella escravisando-nos ao protectorado degradante de Inglaterra. fraca dirige e sento impossibilidade - escola. terra satyrisa o seu e é erros o titulo. ódio alimentado pela mãe D. Carlota . • dos Açores. João qne provocou a invasão franceza e nos abandonou depois ao inimigo fugindo para o Brazil a com as riquezas publicas. inéditos. para trazer os dois príncipes á disciplina moral pensou-se e negociou-se os casamentos real da Áustria. Miguel. D'aqui se originou o ódio profundo entre os dois irmãos. vida. em exercícios de forças c em seduçíjes das damas do paço.

e mandou to- para cá a Constituição de 182G. do poder executivo. Elle entendia que isto era lambem seu. D. Começou o terror da legitimidade. Sob o suave governo da regência de D. conhecido pela policia como partidário das ideias democráticas. refugiou-se em Inglaterra. a emigração. e a re- gência do reino. Isabel Maria. o infante D. Maria da (lloria. Miguel. soffrendo a morte. para cima de quarenta e seis mil e seiscentas pessoas. João VI. Pedro nâo se sentia seguro no throno de lá. dissolve as camarás. e depois de jurar a Constituição para tomar conta tria. chegou a fazer d'elle o instrumento cego do seu esfamilia. Garrett. D. agora com . João trophes. o desterro. que durou até ao anno de 18I]3. deixada em testamento a uma filha do mo- narcha.ALMEIDA OAnBETT 201 in- Joaquina. que. Miguel seu logar-lenente no reino e abdica o throno de Portugal em sua filha D. e desembarca em Lisboa a 22 de fevereiro de 1828. D. D. as cousas se encaminhavam para tremendas catas- como imperador. mandou-o cumprimentar e pedir-lhe as suas ordens. Pedro para de encontro ao mal nomeia o infante D. e declarou-se rei absoluto em 30 de junho de 1828. Levanta-se então um partido chamado ir reair- excitado por Carlota Joaquina e auxiliado por seu mão o miserável Fernando vii. logo que viu levantadas as forcas e atulhadas as enxovias. conta d'isto. havia Garrett soffrido três mezes de cadeia como redactor do Portugiwz. Pedro estava no Brazil em 10 de maio de I8á0. diz-se pirito reaccionário. simula uma convocação dos Ires estados da sociedade antiga. Nas tradições byzanlinas da si que para vincular a D. Carlota Joaquina clle o ameaçava de declarar â nação que não era filho de Emfim estes factos revelam como depois da vi morte inesperada e mysteriosa de D. como meio para vir a mar lista. sem fallarmos no confisco dos bens. Miguel é chamado da corte de Yienna de Áus- onde estivera desterrado. pela preferencia exclusiva que dava ao fante.

por- que a inveja que lhe tinha o padre José Agostinho de Macedo. D'este periodo da emigração é também o livro intitulado Portugal na balança da Europa. e sem sciencia falta pedagógica. a de philosophia no critério do auctor é supprida por muita religião e muita moral e em phrases vagas com citações auctoritarias. I Sciencias que descrevem os objectos da naturesa /Botânica. abaixo do que já então se ^ conhecia de Bacon ou de D'Alembert. formado com artigos soltos da época em que redigia o Portuguez. Agricultara ele. como a dama dos pensamentos dos e na preoccupação d'este pensamento Garrett e publicou emprehendeu destinado em Inglaterra um livro ou Tratado de Educação. base de uma methodologia. e em que con- 1 Segunda vez demillído do seu logar por decrelo de 18 de agosto de 1828. Garrett viveu como artista ao trabalho da reno- vação do Romantismo. jZoologia. o auctor da Besta esfolada e da Tripa virada. Tratando da educação scienti- fica. Anatomia. Em em era quanto se organisou o exercito Inglaterra assistindo liberal. íPysica. ( l*hysiologia. 'Mineralogia. nyo hesitaria em fazer-lhe uma tre* menda accLisaçâo publica paca o brindar com o garrote. Maria da Gloria voluntários liberaes. A joven rainha D. que açulava com os seus desregramentos de linguagem os fu- rores dos legitimistas. II Sciencias que analysam suas propriedades ^CbittIica. Bastava para tanto o seu talento litterario. O hvro é pueril.: 202 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL as forcas miguelinas arvoradas era-lhe impossível evitar a morte. 2 Eis o sclieuia d'essa classíGcação Geologia. Í Architeclura. Garrett apresenta também uma classiíicaçâo das scien- cias. a uma princeza. Medicina. .

coramandante dos foluntarios. Marquez de Loulé. ciiconlra-se uraa em janeiro de 1829: tÉ para aqui memorar muitas das nossas illustracões militares. como pôde terra. José Maria Baldy. para l<S7í. Ali se viam Alexandre Herculano. general Pisarro. as incertezas da suppôr-se pelos episódios contados por Garrett no romance digressivo das Viagens na minha causa liberal. e outros mais. que relaçSo d'esla recita do Calão. tudo levava aquelle es- pirito a procurar nos trabalhos litterarios uma verdadeira consolação moral. . Miguel ao embarcar na expedição para o Porto. em 27 de junho de 1832. cgualmente executada com toda a mestria. Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque. Carlos Mascarenhas. Bernardo do Sá Negueira. Júlio Gomes da Silva Sanches. via. Cândido José Xavier. José Victorino Damásio. Balthazar de Almeida Pimentel. Luiz Pinto de Mendonça Arraes. D. «Segueiu-sc á representação da tragedia a jocosa farça inliulada Os Doidos. José da Silva Carvalho. coronel Xaxier. bem própria para disperlar a expansiva e contagiosa hilaridade. em geral se manifestou. Vellez Caldeira. António Cabral do Sá Nogueira. que intitulou Lyrica de João Mínimo. uns deixados na ilha de S. A par de Almeida Garrett. Joaquim Bento Pereira. marquez de Ficalho. Júlio Máximo de Oliveira Pimentel. Pertence ao anno de 1828 a primeira colleccionação dos seus versos. A outros trabalhos se refere Garrett. Januário Vicente Camacho. Joaquim António de Magalhães. João Nepomuceno de Lacerda. e sobretudo com inexcedivol veia eomica.» Pag. quo se encontravam no concurso dos espectadores. como um poema sobre os Doze de Inglaterra. estavam sentados Passos Manuel c Passos José. António Cesfar oc Vasconcellos Corrêa. as traições. Joaquim António de Aguiar.ALMEIliA GARRETT 203 clue pela necessidade do regimen constitucional. politicas e litterarias. * era uma recordação saudosa da grande época libe- 1 No Xlmanach insulano para Açores e Madeira. em que se acham reunidos os primeiros ensaios comprehendidos até á época decisiva de d824. perdidos na barra do Porto vida em um em navio meltido a pique pelas balas miguelistas. outros. Inglaterra nâo foi A de simples galanteria. a apathia. No mesmo banco com José Estevam e major Menezes. major Pacheco. Os emigrados portuguezes representaram-lhe em Plymoulh a tragedia Catão. que não occorrem de momento á nossa reminiscência. Agostinho José Freire. a quem n'esta narrativa cumpre prestar a primeira homenagem. uma tragedia do Infante Santo e um poema so- bre a genealogia dos Menezes.se o grande general Condo de Villa-Flor. Bartholomeu dos Martyres. Simão José da Luz. 2â9.

2 Os ensaim do Catão. o Anacreonte que zom- bava com o prazer. alistado guiu para esse único reducto aberto aos liberaes. Pedro a beneficio de sua Pela sua parte D.204 ral HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL de 1821. Midosi. xxi. Fechado no cerco do Porto. e a si em uma ode a victoria de Villa da mesmo se confere o titulo de Tyrteo: «Que é do Alceo que bramia liberdade. nos prólogos dos seus hvros allude ás mil difficuldades que emba- raçavam a expedição e que compromettiam a causa da filha. diz que o povo portuguez não da liberdade. na ultima emigração. Prefacio diis Fabulas c Folhas cahidas. p. se- ilha Terceira. Garrett celebrou Praia. . Pedro em cartas que escrevia ao Marfaz caso quez de Rezende. e livros falia com saudade das amisades e dos que ahi deixou. liberdade. o Tyrteo que precedia as pkalanges da Terceira ao pé do pendão azul e branco dajoven RUinha dos exilados?» ^ Durante a campanha na ilha Terceira. em cuja casa se fizeram os primeiros ensaios da tragedia inaugurada no theatro do Bairro Alto. Miguel. aproveitada por D. em 27 to- de junho de 1832. só as reiteradas instan- cias de meu pae. Garrett foi apro- veitado pelo governo da Regência para redigir os decretos de reformas judiciacs e administrativas.» * á leitura Isle. e que o seu pensamento é constitucionalisal-o á força. O poeta eslava em uma grande elaboraçcío artistica. Garrett. Os emigrados portuguezes reuniram-se na bahia de Belle d'onde embarcaram a 2 de fevereiro de 1832. onde 1 P. que precedeu a esplendida revelação do seu génio dramático: «Em Londres. (Paulo Midosi) do marquez de Ficalho e do que escre- de Jervis de Athouguia o forçaram via. para a no batalhão académico. Junto de Garrett vivia o seu antigo compa- nheiro Paulo Midosi. Garrett descreve a partida da expedição liberal da ilha de S.

desvestiu-se logo e (içou era uma saia d'escarlala. a lenda Com um grandíssimo tino artístico aproveitou do bispo do Porto azurragado por Pedro i. e que ainda que alguns do conselho viessem. e ante que chegasse. e per sua mão tirou ao bispo todas suas vestidura-t. vol. que nio leixasaem entrar nenhum dentro mas que lhe dissessem que se fossem para as pousadas. com espanto d'ameaças de morte que lhe o bispo mandava poer. e que elle não era ousado d» tornar a elle.»se ao paro que o havia mister por causas de seu serviço. que el-rei parlindo-se d'Anlre Doiro c 2 «Ccrlo e nom ponhaes Minho por foi informado que o bispo d'csse logar (Porlo) que então tinha grande fama de fazenda e honra. . assombroso heroísmo ás forças accnmuladas pelo poder absoluto coHigado em volta d'ella com o fanatismo a canibalesco dos frades. entrou na camera onde el-rei estava. El-rei como foi adeparle com o bispo. que jhe confessasse u verdade d'aquel maleGcio em que isso era culpado . em que nilo queria que fossem presenlei. que elle desde * Comprehendeu perfeitamente o seu modelo. no campo do romance histórico. que depois que o bispo entrasse na caraera. No momento em que a cidade do Porto resistia com o mais. Garrett occupava-se nas horas de desenfado elaborando o seu lindo romance histórico época memorável. nom via o dia que estivesse com elle para lh'o haver de perguntar. culano considerava-o infundadamente como seu discipulo. lançasse toJos fora do paço. o om lhe . Garrett teve a intuição histórica das antigas luctas do burgo independente contra prepotência feudal do seu bispo.ALMEIDA GARBETT 205 dos foram dignamente heroes. também os do bispo. depois que chegou ao logar e houve comido. * por ventura estimulado pela festa popular que aunualmente 1 o Chronlsla. dortnia com uma mulher de um cidadão dos bons que bavia na dita cidade. Garrett enlhusiasmara-se commantambém com os romances históricos de Watter Scott. O bispo como veiu. el-roi quando cslo ouviu. e logo sem muita tardança. mâo de el-rei D. íallou com seus porteiros. e começou de o requerer. que só acabou dez annos depois d'essa O romance é dedicado ao seu dante o coronel Luna. p. cá elle tinha de fazer uma cousa. por saber do que guisa era. O Arco de SanfAnna. e os porteiros fizeram logo sair todos os seus e outros em vir á cidade do Porto. mandou dizer ao bispo que fo. e occupado especialmente em trabalhos de secretaria. na prosa pittoresca de Fernão Lopes. foi ii. 87. duvida. guisa ([ue no paço nom hcou nenhum e foi livre toda a gente. o Justiceiro. Her- 1827 recommendava á imitação. como quaes(|uer outros.

de D. e foram-se á pressa ao Condo Velho. Nuno Freire. e começaram de dizer que. passados annos poz a ultima Anna para ainda com mâo no Arco de Sanfo mesmo espirito de combate. ChroD. na parte velha da cidade. vii. e nom lh'o podiam já tirar das mãos. Garrett inspira-se da tradição nacional. que disse que queria entrar por lhe mostrar cartas que sobscrevcram del-rei de gram pressa. nom lhe guardando suajurdição. co- na railo una grande açoute para o brandir com elle. cap. fosse sua morcè de nom pocr mão em elle. e ao mestre de Ghrislus D. Pedro i. pelo que sabiam que o bispo flizendo isto. o que nom convinha a el de fazer por rauilo malfeitores que fossem. logo suspeitaram que ol-rei lhe queria jogar algum mão jogo. porque o dilue em excesso e enfraquece o andamento da acção. Garrett possuia o talento dramático. acha-se impropriamente empregado no romance.) Castella a . fl. o a outros privados do seu conselho.! (Collecção de Livros inéditos da Historia poriugueza^ t. Em 24 de julho de 1833 entrava em Lisboa o Duque da Terceira. linha fazia.206 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL se celebrava diante do nicho junto do Arco de SanfAnna. arrefeceu el-rei de sua brava sanha. Quando terminal-o.21 a 23. c per tal azo e fingimento ouveram entrada dentro na camera. iv. subUme da causa hberal ficava de- Garrett foi então pela segunda vez reintegrado no seu logar de official por decreto de 28 de julho de i833. Com estas e outras taes razoes. cá por tal feito. que acorressem asinha ao bispo. e o bispo se partiu dante elle com semblante triste o torvado coração. e isso mesmo o outros todos e que nenhum nom ousara lá d'ir. que per seu corpo justiçava os homens. dcsi juntando a esto a condição d'eh"ei. para acordar o espirito publico contra os meneios doclericalismo. foi Garrett. e logo lostemcnenle veheram a el-rei e nom ousaram de entrar na caraera por a deíeza que el-rei linha posto. e por isso o Arco de SanfAnna é animado nos diálo- gos e cheio de interesse nas situações. se nom fora Gonçalo Vasques de Góes seu escrivjlo da Puridade. não para a diluir em prosa archaica. o seu inimitável estylo digressivo. e acharam el-rei cora o bispo em razões da guisa que havemos dito. mas para tor- nal-a um meio de expressão por onde a aspiração moderna se pôde tornar sympathica. Os cria dos do bispo quando no começo viram que os deitavam fora. demais que o seu povo lhe chamava algoz. e a maneira que em tacs feitos tinha. Aqui se vô a diíferença entre o processo de Garrett e o de Herculano. e o triumpho finitivo. com que aligeira o processo descriptivo. haveria o l*apa sanha d'elle.

Tudo quanto Garrett poempregado na consecussão d'esla alta empreza. estava no esplendor do génio. antiquíssimo escrivão da segunda instancia commercial. dizia-lhe «—Oh tos? . e era o primeiro a íixar os typos das novas formas draas l)ellas concepções do Auto de Gil Vicente. se deslituiam e se apoderavam das pastas ministeriaes. que fez reviver a ideia da soberania nacional pondo em vigor a Carta consti- tucional de 18áá. Francisco! que queres que ponha aqui nos au- «—Ponha 1 V. Garrett seguiu o partido setembrista. Philippa de N'esta generosa aspiração foi Garrett surprehendido muitas vezes pelas grandes agitações politicas dos setembristas de 183C e dos dia cabralistas de 18 W. Como antigo partidário da Revolução de 18^0. e e a creação de dia e valia foi uma das primeiras preoccutlieatro pações de Garrett era a restauração do portuguez Conservatório. Historia do Theatro portuguez. Havia um fer- vor de renascença nacional. (Yid. qoe foi em um livro especial intilalado Garrett e os Dramas românticos. mas o seu pensamento foi realisado integralmente. iv. Iratada Esta parle da actividade lilteraria de Garrett é tão itnportaDte. quando lhe levava os autos. já fallecido. fiel de feitos de João Carlos Vieira da Cruz. Garrett proseguia no empenho desinteressado da fundação do theatro nacional. vol.* Vista ás partes. Emquanto os seus companheiros das lides um do Porto se degladiavam no parlamento. que ao ve- lho Francisco. e no periodo da mais brilliante fecundidade. á custa do enthusiasrao que infun- em volta de si. Garrett por decreto de i4 de novembro d'esle anno foi nomeado juiz de segunda instancia commercial: aGarrett tão pouco caso fazia das suas funcções de juiz. Vilhena. * máticas com do Alfageme de Santarém e da D.: ALMEIDA GARRETT 207 meçando para elle uma éra nova de trabalho. ex. de que era ^ relator.) .

como elle a o pariato. No catalogo dos seus autographos encontram-se umas Memorias de João Cõradinho. e lamentando-se ^ sempre da fatalidade das revoluções. Nas terríveis oscilações politicas de 1836. e es- «Não obstante tamanha repugnância á magistratura e quizilia á jurisprudência. prova-nos que elle fez algumas conces- sões das suas doutrinas da soberania nacional. xxx. Ensaios do Calão. (Viil. admira-nos o não ter blicado pu- Memorias ou qualquer outra relação da época fecunda de luctas moraes por que a Europa passava no tempo em que esteve fora de Portugal. conhe- cida pelo titulo de Discurso de Porto Pireii. vindo por essa via a entrar em um ministério de conciliação na época regeneradora de 1852. OíTicio de 12 de novembro de 1841. 18'(6 e 1852. Misturando Garrett quasi sempre a sua personalidade ás elle obras hlterarias que escrevia. ás retrucava ainda Garrett. . Garrett soube conservar-se entre o partido nacional c o partido do governo pessoal da rai- nha. recebendo todas as honras. em 10 de juibo. o torgada do Cartismo. — Vista partes. como ministro na Bélgica e em Copenhague. 1841 proferiu Na celebre legislatura de resposta ao Discurso da coroa. de 1825. que o seu actual possuidor caracterisa de «rascunha em que trcs capítulos foi de ^ um conto satyrico allusivo á época em escripto. Garrett foi demittído do logar de Chronislamór do reino.» No mesmo catalogo se encontra citado um Diário da minha viagem a Inglaterra — 1823.208 « HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL crevia — Lá vae por tua conta. lendo-sc a seguinte nota logo na primeira folha: «Os primeiros cadernos d'este Diário são copiados d'outros que Paulo Widosi. a Associação dos Advogados chamou-o * desde logo para o seu grémio. Birmin- gham.) Na reacção cabralina de 1841. ou partido da Carla ou- em 1826. p. ^ 2 3 A[)ud Uekna. 1842.» A profunda admiração que Garrett consagrava ao Duque cliefe de Palmella.

xxxii. prologo. I 14 . 1843). Espero começar a publical-o no fim d'este anno. mas interrompido muitas meça em vezes. talvez despeitado pela sua demissão de Chronista-múr do reino. ou antes d'elles diz Garrett. Agora para os juntar ao que vou escrevendo e lhes dar egual formato. Na litteratura portugueza não existem re- memorias tempo. históricas. Birmingham. suspensão indefinida propriamente dita. em nome com que estava «receioso de arrosde hi^to^iador con- a audaciosa responsabilidade temporâneo. e nenhum tempo ou ' logar me gou tar sobrará portanto para mais nada. em 1839. t. Beminiscencias da emigração e Memorias do cerco do Porto. os trasladei para este livro. r> Ainda em 18'a3 escrevia Garrett. a ioda a occupação litleraria para absolutamente á conclusão me dedicar. p. segundo os editores. porque no Catalogo dos au- tographos e inéditos de Garrett não se acha o minimo vestigio d'esta obra. i. que agora jurei de acabar: são Vinte annos da historia de Portugal. p. livre porque os nossos escriptores não a ceberam essa educação que nos ensina julgar o nosso A historia geral da Europa. porque.» * No prospecto da edição completa das obras de Garrett publi- cado pela casa Bertrand. como sobre * os documentos. outubro 5 de 1823. \xi\\ (ed. de um trabalho antigo. O mais que tivemos foram as Apod Helena. de íG de julho de 1841: «Eu tenho posto termo ou pelo menos. periodo que co18:20 e chega aos dias de hoje. desde a Edade Media até hoje.ALMEIDA GARRETT 20^ escrevi na minha primeira viagem. * Romanceiro. mas que não sei se já anda mais enredado e confuso do que o dos mais antigos e obscuros séculos da monarchia. funda-se tanto sobre as memorias particulares.» Nós cremos que os Vinte annos da historia de Portugal nunca foram escriptos. ai se cita como devendo formar o novo volume da collecçâo o seguinte: ^Dois annos da minha vida.» Esta obra não che- a ser publicada. em- quanto posso e valho.

por onde Garrett co- meçou. deu emfim algumas horas de mais zer a la- repassar as composições de sua infância litteraria. . N'este período da vida de Garrett é que coUocámos essa tardia paixão amorosa que transparece no exaltado lyrismo 1'atal. das Folhas cahidas. Nada ha de mais elegância artis ardente na poesia portugueza do que essas estrophes re passadas de sensualidade velada por tica. que em 1841 acabou de desilludir todos os verdadeiros partidários da Carta consti- tucional de 1826. e entregar-se á revisão dos seus trabalhos litterarios: «N'esse anno. Garrett entendeu dever retirar-se por algum tempo da politica. ideal. paixão absorvente e que lhe exau riu o vigor physico e o levou á sepultura. mas não pôde passar além nacional. lhe a irre- com amigos. e a escolher as principaes das que. em lucta com a decepção e com o tédio A mulher de Garrett vivia em Paris.210 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL foi Relações de viagem e os Roteiros. desillusão que Herculano descreve com amargura no novo prologo da Voz do Propheta. c ortal gulhosas por acordarem uma paixão no dehcado poeta. p. uma sensualidade excitada pela posição social dos amantes e ambos casados da edade. retirado a descansar no campo de grandes fadigas de corpo e de espirito. no emtanto o coração do poeta era disputado por duas tocracia lisbonense. pelo vicio da educação No começo da reacção cabralina. Resmas e resmas de papel lho vimos destruir e queimar ao fazer d'esta escolha. vi.» * D'este trabalho resultou a refundição definitiva da Lyvica de João MinimOy das Flores sem fructo e das Fabulas. e de serem cantadas como o seu * Prologo das Fabulas e Folhas cahlias. tinha arrancado a condescendência sistível inspiração em mais feita edade. ou de algum objecto ou circumstancia da vida que mais o impressionara. ávidas damas da aris- de emoções romanescas.

: Que penetra. Couio o facho do destino. não seduz. Tinha o poder da rasão.. 167. era luz Que mandava ao corarSo. eterno. cheia a da eloquência a mais descreve o seu des- abundante. 189. p. Que aos meus suspiros E toda reluz do aoior? so intlanima 2 . cu descrido. £ o ncu sêr se dividia.a eu u'essa cruz — / Minha alma que renascia. Cravei. Ingénuo e quasi vulgar. o fogo que a ateou Vivaz. e é ifeste conflicto que vem o esgotamento physico Pois cs?a luz scintillanle Que brilha no teu semblante D'onde lhe vem o esplendor? Nilo sentes no peito a chanima. 2 Ibid. E eu niorlo. Não era fogo. I . ^ 3 E n'cssa outra ode Seus olhos: Seus olhos — se eu sei pintar O E (jue os meus olhos cegou brilhar. — Não tinham luz de Era chamma de queimar. Eu tive o arrojo atrevido De amar um anjo sem luz.: ALMEIDA GABBETT 211 faz os Na odesinha o Anjo cahído. e da realidade mais ideal. Ii2. * Folhas cahidas. p. divino. Era assim o seu faltar. ^ Mas uma paixão vence lhe a outra.. Garrett nomes occultos d'essas damas: um trocadilho com Eu só. p. Que toda em »ua alma puz. Na pequena ode Não alento: és tu. « Ibid.

um só momento que a Queimar toda a alma senti Nem ficou mais do meu sêr. ou pe- novas occupações pela sua chamada ao ministério. prelo las em mas ou pelo receio da inconfidência. em li de abril de 1852. Garrett tirou livro. Visconde. de 1852. que gosto mais d'elle5 do que nenhuns outros que fizesse.. Ibid. ousamos affirmal-o. metteu-o no 1851. eterno e suave. intitula-se Cascaes . em 27 de março de 1852 do Nichan Iftiar da Turquia. Que. IX. que. em 4 de agosto de 1852. : 212 HISTORIA DO ROMANTISMO Divino. i O poema admirável d'esta paixão. 116. mas é verdade. SenSo a cinza em que ardi. da ordem de Leopoldo. E de tão fatal poder. em 19 dejunbo. p. da Estreita Polar da Suécia.. 3 Folhas cahidas. . em que se condecorou com varias gram-cru- zes. que sB tornaram um pequeno escândalo «Em poucos dias porém desappareceram as Folhas. voaram. Balioegramcruz do Hospital.s3iO oito estrophes em verso de redondilha maior. em 9 de de- 2 Ibid. Depois d'esses dramas de alcova. Grara-Cruz da ordem da Rosa. de uma ar- dência e profundidade subjectiva. 218. p.* a inanição atacou-o 1 morrendo em Lisboa.» ^ Com a febre do amor. . Porque? É impos- sível dizel-o. como partido das suas decepções um a que deu o nome de Folhas cahidas. p. era a febre da representação e do poder. em 2 de julho de 1852. por de- creto de ^5 de junho de 1851. uma outra febre acabava de consummir Garrett. : EM PORTUGAL 1 Ao mesmo tempo mas grave vi. . D'esses versos escreve o poeta: «Não sei se são bons ou máos estes versos. . as Fo- lhas cahidas só appareceram na publicidade sei em principios de janeiro de 1853. 4 . par do reino por decreto de 13 de janeiro de 1852. em nenhuma litteratura antiga ou moderna poderá achar-se cousa que lhe seja comparável. ministro dos estrangeiros n'esse mesmo anno. e de — \q- vada^de bons máos ventos .. .» ^ O publico leu com avidez as Folhas cahidas.

. o grande amigo e sarcástico Rodrigo da Fonseca Magalhães descrevia assim o passamento: «Morreu como luz. diz elle: «eu escrevo uma . O estado de espirito em que estava Garrett pouco antes de morrer. abraçado á cruz. vô-se no romance Helena. debruçado nos balcões ideiaes de e imaginário eslylo . . devorado pelo verme roedor dos etc. expirou. Os seus mauuscriptos Gearam a uma Olha natural do poeta. com os olhos na Eram estas phrases o commentario perpetuo das Fo- lhas ca/lidas. . o Centro Commercial. que. e não sei se a Academia depois de regenerada. com três ver- sos na mesma rima seguida. xxix. sem uma ção sensata se lançara nos exaggeros do Ultra-Romantismo.) N'este romance ha uma confissão ingénua da nenhuma influencia que Garrett direc- exercia na mocidade do seu tempo. onde procurou tratar-se da sua doença. etc. cujo ultimo caderno tem a data de 3 de setembro de 1853. descreve no Archko Pitto- com que a solidão Garrett mobilou a casa da rua de Santa Içabel.ALMEIDA GABRETT 213 p zembro de '18o4. descreve lambem em que morreu * o poeta.» bom christão. e um . porque as damas que o recebiam não queriam Depois que Garrett seu que as tomassem por suas amantes. uma creação caprichosa . historia. agudo depois . solidão explicável. que deixara incompleto e inédito. negros pensamentos que balouçam tristemente ao vento da solidão no crepúsculo da noite .» (p. que o acompanhou até aos seus últimos resco as minúcias momentos. Gomes de Amorim. e apodava a mallograda reforma da Academia das * A sua i^iuva casou em Paris com o ncgocianlc Luiz d'Etrillac. em ão.) Garrett referia-se e de Palmei- ao lyrismo banal da escola de João de Lemos rim. e quando já se attribuía publicamente o titulo de chefe da iitteratnra. . desesperação ou similhantes e imbasbacadofica o Grémio Litterario. 50. coração. (p. não faço versos á lua.

que se apoiava nas resistências de 1836. além de um nome de be- gónia. apenas vinda do collegio. dentro ainda do século xvni. por ventura o seu enlevo de espirito quando recebeu a derradeira decepção politica. Era essa a também preoccupação com que se instalara na residência dizia de Santa Isabel. Arranjou um tas. para rehaver o favori- tismo da rainha. 1846 e 1847. compunha uma meio. Depois que se lêem os romances de tavo um Gabriel Ferry. tão píagiados por Mendes Leal no Calabar e Bandeirantes. de um sabiá ou de um macisso de palmeiras nada mais lhe pôde representar da grande vida da America. herdou talmente a sensiblerie idylica.214 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Sciencias de Lisboa. é que se vê bem a aca- nhada organisação dos nossos preconisados rett rica. de que fôra vogal na commissâo Helena or- ganisada em 28 de junho de ISod. para desenhar á vontade. e só conseguiu cudil-a uma vez sa- com um Ímpeto natural no Frei Luiz de Sonsa e nas . Garrett não nascera impune- mente em 1799. fundo de quadro falso. n'essa febre papelistica do primeiro momento da Regeneração. novella com mais esforço vida. o conforto inglez e a galanteria franceza. Gus- Aymard ou Paul du Plessis. Gar- conhecendo a impossibilidade ali de pintar a vida da Ame- transportou para as paisagens da Escossia. graça e invenção do que elle próprio com Entra aqui por muito a acção do O sentimento da Helena é também aífeclado e de uma fa- tenuidade que chega ao fade. O romance é localisado a algumas léguas da Bahia. Garrett em duas linhas. A foi a ul- tima obra de Garrett. na disposição da mobilia. talentos. não longe do semicírculo do Recôncavo. vendo Saldanha atraiçoar o movimento da Regeneração. faz isto apenas tral. Garrett com desespero. As suas descripçoes resumem-se nas minúcias das vestimen- do serviço de mesa. da Suissa. que qualquer ignorada miss ingleza. á maneira de rubrica thea- porque a sua imaginação.

de Bressac. uma entidade moral. e filha. incapaz de desenhar um typo. o surprehendido por um prelo. e desgostoso se retirara entre- gando-se diletlantescamenle ao amor da botânica. O desenlace da Helena é cto o Visconde fácil do prever. com quem o Visconde projecta o casamento de n'isto a dona da casa morre de inanição. obrar. a edade. É recebido na intimidade pelo Visconde de Itahe. segundo a situação já revelada nas Folhas cahidas. No meio d'esle devaneio botanico-paternal. de Bressac para a sua pupilla. N'este viajante francez o sr. Em consequência d'isto o de Bressac persuade o Visconde de itahe a fazer uma viagem até á Europa. romance ha um que estivera nas luctas da independência da Grécia. pelas palavras vagas e presentimentos do fragmento: de fa- vem com a fdha á Europa. chamada Isabel.I ALMEIDA GARRETT 215 Folhas cahidas. e que julgava seu futuro genro. chamado Spiridião Cassiano de INIello o xMatlos. sr. o Visconde de Itahe. a ir uma quem criança de nove annos que ado- puzera o nome de America brou-se de um dia herborisar á Lemcom a recommendava a um tio. Aqui licou interrompido o romance pelo falleci- mento do Garrett. no seu periodo bellico. Helena morre de romanlis- . as posturas. Tra- va-se aqui o confliclo de duas paixões. e começam a discutil-a. e partiu ptara como sua. pias sabe que o sobrinho que tanto amava. typo ridículo. A situação começa com um. á qual poz o nome da sua pupilla mysteriosa. monologo de contemplação do Conde de Bressac por uma passiflora que encontrou próximo da Bahia. que tem uma filha muito linda. e salvara com um mancebo Helena. descreve- Hie o fato. tivera intima amisade brazileiro. que com outros prelos o veiu buscar em uma canoa para casa de seu amo. que o . A Helena lem uma acção sem movimento e faltam-lhe caracteres. em sua Paris. é pretendido pelo sr. em vez de a fazer fallar. e uma esposa muito doente chamada Maria Thereza falla-se do primo que está carta do seu amigo.

os factos superficialmente citados n'esse artigo foram traduzidos por Garrett formando o texto original do seu Opúsculo acerca da Origem da língua por- tugueza. dizia compungido mas glorioso — Elles são aster ideias. Além de por falta outros peccados litterarios. traduziram como quem quer fazer livros sem quando chegaram cia a exercer acção não tiveram de um destino. é quando comprehendemos até que . a bella organisação litteraria de Vil- Quando nós vemos politica. Citaremos o conhecido do artigo de bibliographia sobre o Rowancero espagnol de Damas-Hinard. plagiaram. para supprir as- sim a falta de estudo ou de ideias. pecialistas. para ser dirigente possuia a generalidade de vistas. em Lisboa. imitaram. como o elogio em bocca própria. e a consciên- sim. lemain ser quasi completamente aniquilada pela ambição como o provou Littré no seu Discurso de recepção na Academia franceza. paraphrasearam. Esta phrase caracterisa bem os escriptores portugue- zes do Romantismo. publicado na Ilhistratíon de 16 de novembro de 1844. publicado ainda em 1844. O grande talento artístico de Garrett não tinha outras bases scientificas além das suas primeiras faltava-lhe leituras do tempo de Coim- bra. o erudito exclusivo e Os velhos espíritos esmaçudo. infeliz algumas facto bera vezes caiu no acto do plagiato. É esta a consequência o espirito lógica em harmonia com do romance e com a orientação do romantismo emanuelico. e a fillia do Visconde regressa á pátria sem querer gélica e casar. sacrificando a vida á propagação evan- emancipação dos escravos. que Garrett usa em todos os seus prólogos de consciência da acção que exercia. reagiam contra a seducção do seu brilhantismo. mas uma especialidade.216 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL mo. e o cardeal Saraiva ao vèr a leviandade em que caiu Garrett plagiando esse pobre ar- tigo francez. de Bressac consola-se escrevendo monographias sobre a sua passiflora.

ser ministro. dispor de in- fluencia. os que o queriam afastar triste da politica chamavam-lhe poeta. Her- culano observa a inlUieucia do periodo politico constitucional na esterilidade dos talentos: «os bons engenhos. absorvidos pelos partidos políticos. ções imperfeitas. e elle tantos terrível verdade estava incurso eminentes espíritos como Rodrigo da Fonseca Magalhães. porque essa intervenção dá ao talento o relevo da realidade e de uma philosophia pratica. embaixadores. dizia Gomte. o prazer de mandar tem lismo que dura pouco. porque da poesia! perdeu o o dom O prazer da creaçâo artística eleva homem e dá-lhe o primado entre todas as gerações. os que Doestes últimos tempos a nossa terra tem indubitavelmente pro- duzido. em 18iG. que nas- estéreis: corromperam a arte e corromperam a po- No prologo da Historia de Portugal. um desenfado. Manuel Passos. ria esterilisado se O próprio Herculano fica- um despeito profundo o não fizesse aco- Iher-se á tranquillidade consoladora do estudo.» N'esta Garrett. a A politica partici- que Herculano se refere não pode ser o facto da pação de um homem ás funcçôes sociaes do seu paiz. José Estevam. vocações frustadas. persidentes de republicas.ALMEIDA GARRETT 217 ponto Garrett foi inulilisado pelo desejo de participar tamter bém tal. O trabalho litierario lornoií-se para elle acciden- uma distracção. ou a exercitarem cargos públicos. mas sim o conflicto de pequenos interesses de grupos que aspiram á governação. abortivas. e a que Augusto Comte chamou com tanta lucidez os parti- dos médios. que consommem com o tempo e acanham por íim as faculdades do entendimento. medalhas. do poder. são como ceram litica. são forçados a viverem na almosphera mirradora do mundo lhes politico. e é já vèr o poeta dejá clarar que pôde ser almolacé do seu bairro. e dictadores momentâneos. . uma certa sensualidade de canibamas que fascina muito as organisa- E esses poetas ministros.

e o torna o primeiro n'essa época de reno- vação litteraria. Esta relação superior entre o tempo. e Costa Cabral pela pressão arbitraria e Rodrigo da Fonseca iMagalliães pela dissolução. hoje.218 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL As mais Catão gração liberal foi bellas inspirações de Garrett são aquellas que se ligam á participação directa da politica de princípios: o escripto sobre as emoções democráticas da Revo- lução de 1820. Não havia ideal de liberdade. é que accendeu por vezes em Gar- do génio. depois de rasgada pelo absolutismo a Carta de 1822. o desterro o o cárcere despertam-lhe em 1827 a comprehensão da poesia popular e tradicional. é concebido dentro do cerco do Porto em 1832. . o Arco de SanfAnna. realesa como a glândula pineal Foi por isso que a politica esterilisou os talentos. outros pelo despeito de vaidades não satisfeitas. nos desalentos da emi- em 1824. era o meio de exercer a auctoridade. foram os dois pólos da nossa vida parlamentar. como no Frei Luiz de Sousa e nas Folhas cahidas. uns pelo excesso da importância individual. a politica Desde o fim do côrco do Porto em 1834 até em Portugal não foi mais do que a agitação : egoista de partidos médios intimidar ou corromper. o Alfageme de Sanfoi tarém escripto entre as luctas do elemento constitucio- nal puro contra o facciosismo da rainha na época da dicta- dura cabralina espirito e o seu rett a faisca em 1842. n'esse contagio de heroísmo. o poema Camões. eram todos roíiformes em considerara da vida da nacionalidade.

protestaram como consequência da mas não foram ouvidos. Aquolles que pensavam que a circulação das ideias é o estimulo vital de todo o progresso em uma socie- dade. dando-lhe conhecer as questões fundamentaes do nosso século na sciencia. na lilteralura c na historia. na politica. e por intimação Conferencias. e sç organisaram as Conferencias democratkns. c a im- prensa jornalistica na espectativa de dientes. um ministro constitucional vio- lou o exercicio da liherdade do pensamento.LIVRO II ALEXANDRE HERCULANO (1810— 1 877) Quando Portugal um dia a geração moderna procurou relacionar a com o movimento estrangeiro. O parlamento sem reparo estava fechado. Havia em Portugal um homem que era . da coroa. mandando por prohibir essas uma geral portaria fundada sobre uma consulta do procurador policial. e que explicavam tria a decadência e o atraso da sua páapathia mental. deixou passar uma politica de expedignidade esse ultraje á de um povo livre.

em que dizia que as grandes questões do tempo eram o infallibilismo e o marianismo! que para elle a Democracia eram os miguelistas do cerco do Porto. que os que o idolatraram em vida se esquea subscri- ceram do fetiche quando os convidaram para pção de um monumento. — . * Herculano conhecimento do espirito perante a critica. Nunca ninguém exerceu um poder tão grande. Hoje. ftste o pensamento do nosso artigo da Bibliographia critica. que pedras atiradas á janelia de Herculano. as opiniões entrega vam-se á sua affirmação.220 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL ouvido como um oráculo. e a sua voz acostumada á energia do protesto. 193 a cumprimos um dever moral a despeito das admirações inconscientes. p. e a esta a ge- competia retirar-lhe o pocritico der espiritual. Desde esse dia em diante Herculano rompeu com ração nova do seu paiz. mas a morte eliminou esse factor que pela sua immensa aucloridade e pelo estacionamento em que se deixara íicar começava a exercer uma acção ne- gativa. hoje sem paixões. deve-se revisar a obra de Herculano cora justiça e trazer á verdade o homem legendário. quando andavam munidos de sacos para o mo- mento em que podessem entrar na cidade. appellaram para em ta- manha iniquidade. Aquelies que foram violados no elle seu direito consultaram-no. nem violências de combate. Alexandre Herculano ao cabo de muito tempo publicou uma Carta. como es- um povo se entrega a a um salvador. na forma a mais espontaneamente reco- nhecida. de severidade que o chamava social. nos brindaram com a plirase 1 Foi 203 . fazendo o processo e da missão da intelligencia ainda teve do grande homem. Herculano era considerado como uma consciência inquebrantável. Tinha o poder piritual sobre nação. quando se pronunciava fortalecia-se com o assentimento dos espiritos.

1830. luto em 1828. n. refugia-se na esquadra franceza. recebedor da antiga Junta de Juros. Nasceu em Lisboa a 28 de março de 1810. — (De 1810 a — — — — — — — — — — O lypo de Herculano indicava a sua naturalidade. e a revolta de iníauteria 4 a favor dos liberaes. de Carvalho por um em d'a- que se exaltam as suas virtudes como dignas da eternidade. e parte depois para Plymouth. O embarque de Belle Isde. Herculano decide se pelo íjove. Como estes successos ioDuiram no seu caracter e talento litlerario. Primeira educarão no Mosteiro da? Necessidades. * que per- tenceu á livraria do bibliographo Innocencio Francisco da acha-se uma Epistola dedicada a Theodoro Cândido fraco poeta José Peixoto do Valle. que recebeu na para a aula de comxviii. e alguma cousa quella honradez tradicional se conservou na independência de caracter do filho.ALMEIDA GARRETT 221 § I. culo até á revolucJo de 1820. O pae de Herculano ficou totalmente desconhecido. sobretudo quando as biographias são consideradas por Maudsley como um dos mais importantes subsidios da psycho- » Caía%o. versos do século mas em um manuscrípto de Silva. A Epistola é realmente extraordinária. Isto não foi sem inlluencia na educação destino Academia Real de Marinha com mercio. A expedição franceza ao Tejo em 1831. . havia na sua physionomia e no trato pessoal a secura do saloio.) Estado do espirito publico desde o principio do séHereditariedade e alaviénio de Herculano. Herculano acba-se envolvido n'esse movimento. Os*caceteiro9 miguelistas e a anedocla do gilvar. filho de Theo- doro Cândido de Araújo. O curío de commercio na Academia real de Marinha.-^no absoVersos contra a Carla constitucional.» 1:803. A hereditariedade moral é um dosphe- nomenos que mais deve interessar a critica moderna.

no Brado a á demolição os mosteilei favor dos Monumentos. Vertendo o sangue humano os seus triumphos Wo meio do terror e da carriagem : São bárbaros. assolam. como escri- ptor Herculano conservou sempre uma predilecção pela ter- minologia architeclonica. dcshumanos. Carvalho. que a violência dos definir. inspirou-se do amor da architectura no pequeno romance a protestar nos seus artitos A Abobada. e pirito entre a causa a oscillação a do seu es- de D. Vivendo entre grandezas e gosando que nwo merece. desvalido. Sem dar um real do esmola ao pobre alflicto. da timida donzella. e foi o primeiro do Panorama. * E eni sórdida ambição sempre inquieto Dorme éobre>allad() em montes do ouro. Thcodoro Cunditllo epístola.222 logia. Kão c hcroí! o avaro que faminto vil Em seu thcsouro ceva a cobiça. atrozes.) . se compadeça do pranto acerbo Do triste orphão. acontecimentos e a pressão dos partidos obrigou a 1 Ao Hv. só [)rocura Augmoíitar (|uanio pode. do< ais. a dura eorto i)os bens Do <ie?graçido o triste Sem que d uma só vez Dos gemidos. contra a indifferença do governo constitucional que deixava expostos ros e collegiadas secularisados pela que extinguiu as or- dens religiosas em 1834. era pedreiro e mestre de obras da casa real. «Ic Carvalho JNio são lieroes. Pedro era o re- sultado de uma affeição indistincta. # Pae de Alexandre UcrculaDO. * HISTOBIA DO EOMANTISMO EM PORTUGAL O avô de Herculano. os que na guerra Cerrados esquadrões rompem. Jorge Rodrigues de Carvalho. Miguel ou de D. Núo é heroe atiuclle que cercado De dourada haixclla em lauta mesa. O valimento de Herculano no paço e a sua sympathia pela familia dos Braganças tinha raizès nas antigas funcções de seu avô. (Nota de loDOcencío.

Geraram-se as naturezas descontentes. Cal. os teus cdsUinics. Em'alnia bemfazcja o coo benigno ti Em Que depositou: tenção brilbant*) lodos fazer. foi a 'data do nascimenlo de Herculano fica-se conhecendo o desgraçado meio moral em em que orientado o seu espirito. esses iyriíiinos Que na Hyicania ou mo Caucaj^o noailos Nunca cessam de obrar acções ifífames. te Esta é a Carvalbo. Yivia-se na incertesa. a par da eternidade. propagavanj-se as ideias á cacetada. A nação. e depois da fuga de D. Carvalbo Estas as ({unlidades que adornam Estes 08 dotes teus. tismo Ibi a lucta do constitucionalismo com o despo- ferrenha e cannibalcsca. depois da entrada dos francezes. de lei. estava na mais in- Nao Silo ficrocs. (Inédito — Ms. no jugo uma constituinte. a Rasão. que guia bem. João vi.: : ALMEIDA GARBETT 223 Ao determinar 1810. callavam-se os desconlontamenlos era normal o confisco dos bens dos (pie com a forca. do protectorado de Inglaterra. Era teu formoso peito se agasalbam As virtudes gentis do Eterno lilbas A Justiça. n. nspirava-se á liberdade em sophismava-se essa aspiração com uma mo- narchia parlamentar para tornar a cair no absolutismo crasso. p. e seguiam principios oppostos aos dos que usavam do podei".803 . Carvallio. Ouo desbonrartí a terna bumanidude: lleroe é só aquellc que a virluilc A dillicil virtude scfiue bonrado. os typos azedos e mal humorados. Kslc o caracter teu. illtislre. de Poesi:3 varias. que levâia comsigo para o Brazil todos os dinheiros dos cofres públicos. só passo nAo torce na carreira Que um Da magestosa estrada da alta te {floria. rege os passos teus e que preside teu A todas as acções que tu praticas. Em niveo jaspe. Costumes sãos da edade de Saturno.» 1. E que devem gravar grande nome José Peiaoto do Valle. De a amar a lodos. que saquearam o paiz. a Honra e o lirio. 397.

mas com um instincto de verdade dei. entregue a uma Junta que governava era nome do monarcha que abandonou o seu povo ao inimigo recommendando-lhe obediência cega. D. de 13 de janeiro de 1817.^íou retratado este pe- ríodo de degradação em um pasquim. João musica aos pretos. apoderavam-se das inlelligencias educando-as no sentido das doutrinas que mais convinham á sua associação egoista. Os inglezes. de vez tugal vi entregue á preoccupação de organisar a capella real mandando ensinar em quando enviava para Por- uma Carta regia. Liv. 271. abafado pela Inten- dência da policia: — Quem «O — Quem sancciona a «O — Quem executores? perde Poríugal ? Mareclial. fl. Para o Hei ? A Lei. e em Herculano no seu escripto de Jersey e Granville conserva-se essa nota de patriótica hostilidade.224 HISTORIA DO ROMANTISMO BM PORTUGAL sondavel miséria. Para o Marechal ? Um punhal. As ordens religiosas. xvi. O espirito de revolta que precipitou Go- mes Freire. Reinava a mediocridade nos espíritos e a estupidez ms multidões. absorvendo cada vez mais a riquesa territorial pelas doações do fanatismo. para nâo desacostumar o povo da sua paternal soberania. povo portuguez sabe pouco ou nada da sua historia. lei? Hei. o Ckilcl mesm© contra Byron e o Harold. i são os «Qs Governadores. e iam introduzindo nos commandos militares oííiciaes exclusiva- mente ria inglezes. Para os Governadores? Os Executores. . 1 ^ ArchíTo da Inlendeucia da policia. infiltravam-se no paiz. e a um leve golpe de circumstancias Beresford convertia mão provocado Portugal em uma pelas feito- de Inglaterra. existia na nação contra os inglezes que nos tra- tavam peior do que os exércitos de Napoleão.

dispendendo o seu. inimigos dos Jesuítas no fervor pedagógico. acharam nas reformas de Pombal o ensejo de desenvolverem a sua actividade. ficava para toda uma erudição theologica e casuista. auctor do Novo Methodo. João líl. e o padre Theodoro de Almeida. Este regimen conservou-se até á abolição dos conventos. lèem-íre estas palavras aiitobiographicas : «essa congrefracfio celebre. de Frei Luiz de Sousa. os Padres do Oratório. que se mostrou sempre versado no conhecimento dos Concilios. a quem as leiras portupuezas laiilo deTcm. e longe de prejudical-o causoii-lhe a autonomia da intelligen- um grande rigor de critica e de melhodo. o da Recreação philosophica e do insulso romance do Feliz Independente do inundo e da fortuna. . Quem escapava ao prurido a vida eivado da seducção da vida claustral. todos passavam na sua educação pela de fieira dos frades. 15 ix.t p. vigor nas ques- tões clericaes da Concordata sobre o Padroado do Oriente. c a guet» nós mesmos devemos parle da nossa educação íilleraria. pub'icados por Auvandro llt-rculano. Elle frequentara até aos quatorze annos as aulas dos Padres do Espirito Santo no mosteiro das Necessidades. Assjm aconteceu a Herculano.ALEXANDRE HEBCtJLANO 225 isto Os estudos de Herculano foram incompletos. para cair e da Rhetorica de Quintiliano. ficou-lhe comtudo essa feição auctoritaria. que a educação catholica pela leitura da Biblia amoldou a um tom parabólico. mas cia. sobre as Irmãs da caridade e soibre o Casamento civil. se a evolução do espirito um dia a emigração para França não puzesse Herculano em*contacto com a sciencia com moderno. e com a emphase do psalmo. e ao Oratório pertenciam o grammalico António Pereira de Figueiredo. * da Lógica de Genuense. Isto bastava em um e pedantismo invencível. 1 No prolopo da ediçilo dos Annaes de D. Floresceram acreditados como mestres. cursando as disciplinas da Grammatica latina. das Bulias. Depois de Pombal ter expulso os Jesuítas o ensino publico Geou a cargo de outras ordens religiosas.

e feito o exame do segundo anno obteve da Junta de Commercio uma espécie de diploma. e a das modinhas brazileiras era applicado aos hymnos em lou- vor do monarcha pela Constituição que jurara. na Torre dirigida da pelo paleographo Francisco Ribeiro Guima- Estava-se n'essa terrível época de indecisão politica» em que o sophisma do constitucionalismo pela monástico liga do partido com o absolutismo se via exposto a um acto de violência. D.! 226 HISTOEIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL De 1825 a 1826 frequentou Herculano o primeiro anno do curso malhemalico da Academia Real de Marinha. o que equivalia a ter de repetir o anno caso quizesse proseguir no Curso de Mathe- matica. a frequência da aula de diplomática. seguiu a direcção em que o impelliram. durante sema- nas muitos titulares e militares de altas graduações recla- maram pela imprensa o serem incluídos na hsta dos que real. despótico ou simples presidente de Republica. foram buscal-o a Villa Franca de Xira. haviam puchado o coche Quem se achar n'um meio as- . espalhando o pasquim: Álerla I alerta Que o rei deserta. estava por tudo. tanto se lhe dava ser constitucional. o estylo pudor a Portugal. com- tanto que o deixassem reinar. João vi rasgasse a Constituição e se proclamasse absoluto. com despara a aula de Commercio. e para manifestação monarcha. E tudo assim. a de adhesão entranhavel á pessoa do nobresa tirou os cavallos do coche real e pu- chou-o até Lisboa. Deu-se a Villafrancada. o povo comprehendeu o prejurio do monarcha. João vi. A nobresa exigiu que D. sendo tino approvado segundo a classificação d'esse tempo. espécie de Vitellio levado em triumpho. Entre os seus estudos regulares cita-se lambem Tombo. D. João vi regressara sem nação ainda mais degradada recebeu-o com festas. Foi uma honra inaudita . rães.

cantado ao um retor- compasso de cacetadas. sua irmã Isabel Mapode- que occupava a regência. Rei chegou. Em 1828.itk Acompanhava-se cada copla desenxaibida com nello estridente. Miguel de Portugal. perro. quem ousará culpar uma criança saida da escola dos Padres das Necessidades. Miguel chegou á barra. a Lisboa. e que se Ibe não obedecesse em tudo o desaucto- . Herculano seguiu primeiramente o absolutismo. João VI. declinou n'elle os seus res. a 22 de fevereiro. A torpe Carlota Joaquina. Em Belcm Desembarcoa. O homem é também alguma cousa feito pelos acontecimentos. Herculano tinha então quinze annos. Miguel chegou ria. para tornar o filho um instrumento passivo da elle reacção absolutista. revelou-Ihe que não era filho de D. e começou então o regimen do terror. cantavam-se hymnos exaltados e parodias picarescas: D. um partido.— : : ALEXAUDEE HERCULANO 227 sim degradado. Logo que D. antes de ter constituído o seu caracter. Miguel em Vienna de Áustria. se nâo é uma naturesa moralmente robusta. gritavam pelo Terreiro do rei absoluto Paço Viíxi D. sem outros conheci- mentos além de umas vagas humanidades? A corrente era para o absolutismo e na aula do Commercio os aluranos açulados pelos que se sentiam despeitados com o desterro de D. panhol Rei chegou. e por isso não nos ad- mira que. fica perdido. e como do hymno constitucional hes- uma réplica ao trágala. Sua mile Ibe deu a mão Vem cá GIbo da miuba alma. fará a handa do arrocho. elle pendesse. em uma época em que como era forçosa a decisão por se diz na phrase vulgar. chegou D. — Não jures Constituiçiio. Miguel a Lisboa.

Pedro. eram chamados oS Realistas. Que lá está embalsamado Para sempre. os Corcundas^ os Caipiras. Mi- guel. o facto da independência doBra?^ por D. rei. azul e vermelho para os absolutistas. pessoa do rei os que só reconheciam a soberania na por investidura divina. distinguiam-se por affrontosas alcunhas. Não existe na nossa 2il. Miguel por general. » Nome tirado dos cavallos que viraram a carruagem em que andava D. ameo Jesus. as violências dos caceteiros.: 228 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL rava declarando o seu adultério á nação! Os liberaes viam no estouvado Miguel apenas o Ramalhão. os Orelhudos. azul e branco para os liberaes. Vacillava-se na onda dos acontecimentos. Os que pretendiam uma Carta constitucional * como base dos direitos políticos eram os Malhados. Oh Porto ladrão. e as cantigas provocadoras. lançou muitos homens sinceros e ingénuos patriotas na usur- pação miguelista. Pois agora ahi o lôm Feito rei de Portugal. as prisões por denuncias secretas e os enforcamentos converteram muitos pretendidos legitimistas em liberaes. os ros. que se fizera patrono da causa liberal. . sem civil. de iferte a parte como: Os Malhados nSo queriam D. civil Bur- ou Miguelistas. filho do feitor da quinta do historia uma época de maior degradação e insensatez. Oh Braga fiel. a cujo desastre se (ez esta cantiga Quereis vér o vosso Ide v61-o a Queluz. uma clara noção da independência os partidos. Vieram ainda azedar mais o conflicto as insígnias de cores distinctívas. á falta de ideias que os delimitassem. Villa Nova jura A Constituição.

nosso senhor! Quem não correspon- dia a este salve era amachucado. Apenas do Porto reagia contra esta monstruosidade. em odes e sonetos emphaticos. Esta phase da sua vida absoluto seria completamente desconhecida. Acabou-se a guerra I D. com os seus dezoito annos estava então no vigor da edade. percorrendo as ruas a todas as horas do dia. que rei legitimo e a 3 de maio D. cantando o estribilho: Fora. e no meio da estupidez publica ententicas. Desde a proclamação de D. Miguel i. Todos os biographos de Herculano guardaram um . derrubavam-no á cacetada. dia-se que Portugal só podia e existir entregando-se á liga do throno do altar. Onde encontravam ura Viva el-rei liberal conhecido. a liberdade era considerada como uma perder a desmoralisação do século. Os mais ballucinados partidários do throno e do altar formavam ranchos de caceteiros. fomentada pelo. Alexandre Herculano. logo a 13 de março de 1828 dissolveu a camará dos deputados. nobresa e o povo. começou o systema de propaganda absolutista pelo espancamento pelas ruas.ALEXANDRE HERCULANO 229 Effectivamente. a em 1 1 de julho o declararam único a cidade de Portugal. aos gritos: D. que lhe ia depositar nas reaes mãos a Queluz. com o clero. e não contente de exaltar o rei como seu senhor. iMiguel inveslin-se da soberania convocando as cortes á antiga. Miguel. e como tendo já feito Portugal a sua colónia mais rica. filiou-se também n'um bando de caceteiros. fanatismo das ordens monachaes e pela imbecilidade das casas aristocrá- Os municípios fizeram manifestações de adhesão ao monarcha absoluto. se lhe não ficasse im- pressa na face uma cicatriz. cuja historia se repete oral- mente. Malhado Chucha! Judeu. Miguel é rei. ou que ttJiha cara de ser malhado.

dando-lhe uma navalhada no rosto. setembro de 1877. ali se encontravam os ranchos dos caceteiros mie se batiam guelistas. Herculano incensou o atrabiliário Miguel com va- 1 «Alexandre Herculano tinha na face uma cicatriz. Os talentos litterarios de Herculano achavam-se também elle atrophiados pela persistência das formas arcádicas. como se dizia na linguagem do tempo. ás Aguas Livres. seallude á cicatriz. ou caminho da emigraCastilho. lhe atiraram a segurar.) — . Ma- lhado! Fora. No seu fervor reaccionário.» (Actualidade. quando vieram ás mãos ao anoitecer. resultado de um ferimento em 1828 por um individuo com quem tivera uma contenda por causa de uma questão nascida de divergência de principios politicos. Corcunda! E em seguida: trabalhava o caceie. * biographia que appareceu na Actualidade. Diz-se que o grande escriptor fora nos primeiros annos da vida ardente defensor dos principios por — um que se regia a antiga monarcbia. se nâo se visse ção. Foi talvez por esta circumstancia de haver na sua mocidade pertencido ao partido do absolutismo. e era valente e por isso que. o Galhardo. e accrescenta-se que o auctor d'esse ferimento oÈcial de marinha foi depois geu companheiro de emigraçào e seu iotimo amigo. rixa com outro pequeno grupo de estudantes liberaes destimido. seria ceria um dia forçado a seguir o e Silva. na feira annual das Amoreiras. que Herculano nunca escreveu a historia d'esse heróico cerco do Porto. e cujos heroes conhecia. apenas' • em uma reiras.230 HISTOEIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL silencio systemalico sobre esta phase da sua vida. Dizia-se que lh'a dera um official de marinha. Insultavam-se também alentados do com ditos: Fora. com outros campo constitucional. Alexandre Herculano pertencia a um foi grupo de rapazes que andava de . conhecida peio nome de gil-vaz da feira das Amo- Conta-se que a scena se passara por occasiao da festa do Espirito Santo. nâo exer- como Costa como uma acção tão profunda na renovação da litteratura portugueza da época do Romantismo. de que elle foi tes- temunha. de quem veiu a ser parente e amigo.

. D. que elle levava ao beija-mão de Queluz.. infame e danada. cujas copias ainda se 231 conservam por mãos de ali curiosos. trazendo em remunera- ção cédulas de mil e duzentos e dois mil e quatrocentos réis em papel. antigo legilimista também conservava outras peças d'esta phase litteraria bem como o curioso bibliophilo Rodrigo José de Lima Felner. patife da marca. . meio deprimente em que as intelligencias mais robustas mal se podiam elevar acima dos preconceitos mantidos pela . por ^ P Sluart brejeiro. Jurado inimigo do nosso monarcha. e que em Lisboa mandou co- piar o celebre Cancioneiro do Collegio dos Nobres. e os poetastros iam recer-lhe as suas em caravana oíTe- Odes e Epistolas. ALEXANDRE HEBCULANO rios sonetos. onde ficara D. a sua rica das bibliotheca era extremamente mais preciosas rari- dades da bibliographia portugueza. Este periodo da vida de Alexandre Herculano servindo para caracterisar o meio social anterior ao cerco do Porto. que negociou o tratado da independência do Brazil. em que D. Pedro. . jà foi tosquiada . Innocencio Francisco da Silva mostrou-nos por lettra de Herculano uma d'estas Epistolas. que pu- bhcou em Paris quando ali esteve por embaixador. qual burro. e Sousa Monteiro. trazida do Rio de Janeiro. Mi- guel dissolveu o parlamento e se tornou absoluto. em que se apodavam os liberaes da ruina da pátria. N'essa Satyra fazia Herculano a historia da Carta constitucional. Ainda se repetem de memoria alguns versos de uma virulenta Satyra intitulada Os Pedreiros. Que já nos fizera perder o Brazil Por mio de um tratado vergonhoso e vil. e se atacava a Carta: A Que em março Carla maldita. Referia-se a Lord Charles Stuart. Miguel dava audiências ás quintas feiras nos paços de Queluz. Referia-se ao acto de 13 de março de 1828.

estudo litterario. Não é esta a primeira das mi- nhas contradições. Se hoje de quinhentos versos acerca me dissessem: Fazei um poema da Semana Santa.232 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL educação monachal. entre tanto eu mesmo ha nove annos realisei este absurdo. pela hberdade. sâo a prova de que era um espirito profunda- mente poético. e espero em Deus e na minha sincera consciência. Engánava-me: a Semana Santa do poetíi não saiu semelhante á Semana Santa da re- 1 Adiante veremos como destruio estes seus primeiros ensaios. . porque estava doutrinas. A Harpa do publicada em três fascículos na primeira edição de 1838. dedicado ao Marquez de Rezende e O poemeto lyrico em tes- temunho de amisade veneração. que desabrochou aos primeiros soffriaientos Crente. que não seja a ultima. nada mundo deixava para mim de respirar poesia. ainda possuía toda a vigorosa ignorância da ju- ventude. xandre Herculano acha-se esboçada como reminiscência nos seus versos . eu olharia ao primeiro aspecto esta proposição como um absurdo. e seria um em continuador de José Agostinho de Macedo. A Semana Santa. que reuniu com a Harpa do Crente. — Quando eu compuz esa tes versos. * homem em elle grande parte da sua ulterior acti- Por se vê que Herculano seguia em littera- tura as velhas pautas académicas. n'este em que. Uma grande parte da vida moral da mocidade de Alee essas composições. traz algumas notas de va- lor autobíograpliico: «Eis o poema da minha mocidade: são os únicos versos que conservo d'esse tempo. este período tem a particularidade de nos explicar o vidade. accordo de Como venceu Herculano este meio deprimente? Eis a base d'esta. e que a minha harpa estava afinada para cantar um tal objecto. ainda queria conceber toda magnificência do grande drama do christianismo. encerra curiosas revelações omittidas nas edições subsequentes em oitavo.

não acompanharam estes versos os outros da primeira mocidade no caminho da fo- gueira? Porque publico um poema falho na mesmissima es- sência da sua concepção? — Porque * terího a consciência de que ahi ha poesia. Na bella composição lyrica Moei-' Morte. tendo essa consciência. sacrificar-se pela causa Herculano era intelligente e novo. até certo ponto em contradição com os mas cheio de dignidade: Eu nunca Oz soar meus pobres cantos Nos paços (los ícnliores! liymiio mentido Eu jamais consagrei Da terra aos oppresfores. Era uma illusão do sentimento. factos.» 233 Em seguida. e foi uma orientação prematura do seu espi- que as suas tentativas de tradução da Messiada eram os restos de uma preoccupação da mocidade. que.» Determinada pelo próprio Her1820. exclama. primeira serie. pois. vé-se que o christia- culano esta composição em nismo idealisado rito. amoroso e honrado. Pedro V o ia tornando no seu animo um rei absoluto. 32. ^. porque mais tarde o soldado do cerco do Porto declara que na sua amisade por D. tomando os mylhos do sacrifício o maior fado do universo. Outras recordações da mocidade vigorosa de Herculano transparecem nas suas Poesias. e que até á consummaçâo dos séculos talvez nâo appareça outro: «Porque. e por isso não podia deixar de tiça. diz que só como houve no mundo um Klopstock. que animam o seu passado com uma dade e luz sympalhica. descrê í llaTfa do Crente. para salvação d'este. da jus- Na sublime poesia A Victoria c a Piedade. Ed. consinta de bom grado em deixar nas trevas o fruclo das suas vigilias. que o seria em todo o paiz. e porque não ha poeta. . de 1838-. uma das jóias da poesia portugueza. p.ÂLEXAKDBE HERCULANO ligião. se chegasse aos trinta annos.

Que gelada. l Responde horrível. edif. PuF essas faces Olhae. dando mais relevo á sensibiUdade do poeta. D'esta crise resultou uma transformação intellectual. Meu engenho tornou -se um myslerio Que ninguém n'este mundo entendia. 63. p. . . Na poesia A Felicidade retrata esse primeiro desalento e desorientação da sua vida: Triste o dom do poeta ! No seio Tem vulcão que E a mulher que Nem sequer um as entranhas lhe accende. É que É que É qae nas veias lhe circula a febre. E. como todos os portuguezes. os olhos filos. e maior poder de reaUdade á expres- são subjectiva do sentimento. As magras mãos cruzadas sobre o peito. Seg. e passado de angustias. . tão moço. que inútil corria. Do coração os éstoà barmonisam. e surgiu um homem novo. e esses primeiros amores foram também cheios de decepção. Estes versos são uma revelação fundamental do caracter 1 Poesias. Vede o. quebrada. em fio as lagrimas deslisam. lá dentro á dor que o vae roendo. que se liga á febre trau- mática resultante da aventura da feira das Amoreiras: Solevantado o corpo. Pela alta noite em solitário leito.234 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL ve-se essa grave crise pathologica. vestiu de seus sonhos olhar lhe comprehende! E trahido. Um véo qegro cubriu-me a existência. prematuramente. intimo cicio . Ao amor este peito cerrara. no tronco do cedro A minha harpa infeliz pendurara. Herculano amara. que apressado bate. velador de angustias. E com o pulso. pallidas. a fronte lhe alaga o suor frio. cavadas.

que próprio confessa.. Essa poesia é datada de maio de 1837. para justificar as suas queixas de desalento. . ^ Se o coibia. negro. o truncarem a sua carreira histórica. mas aproximados de outros despeitos. aos foi trinta e dois annos o seu baixel ou esquife. Como com que forte. Fernando o acolher-se a porto seguro. e ! neceu irreconciliável com Castilho • Essa brandura revela-se Pag. fugía-me erabreabei-me por entre os deleites o goso ele. p. Apoz essas quadras tão cheias de espontaneidade. vê-se que Herculano precisava de um pretexto imaginário. um véo um amor trahido que lhe cubriu a existência. o véo negro e o esquife foram substituídos por uma outra cousa. A transformação d'estes motivos mos- tra a tendência melancholica um dia havia de leval-o ao isolamento (na quinta de Vai de Lobos) e ao tédio (motivo da publicação dos Opiisculos. revelou-o sempre na complacência aturou Bulhão Pato e Silva Túlio. devendo a D. como se yê na Illustração. de um romântico incomprehendido. 2 r . 218. ALEXANDRE HERCULANO 235 I de Herculano. a única elle ambição de sua existência. durava um momento Apoz vinba o remorso amargoso .) Voltemos ao pe- ríodo do primeiro desalento. e as mudanças foi nos seus planos de trabalho. 51. Poesias. finalmente aos quarenta e quatro annos. Aos vinte annos. deixando a gloria litteraria. segue se uma estrophe em que explica a turbulência dos seus primeialurdir-se da desesperança: ros annos como quem procurou £ Mas tocando-o. Herculano era de uma indole ao mesmo tempo como perma- amoravel e rancorosa. como do caracter. uma catastrophe moral. que esteve a afundar-se nos parcéis da politica. * mas as recordações mais antigas de que trata ó que nos interessam. lidos isoladamente podem tomar-se como uma rajada á Manfredo.

flores. clara i Que Sb pendura sobre a lympha Lá no meu Portugal 1 Poesiasj p. e deixaria tudo. que eu Como viveis sem mim? Nas longas Que vou seguindo. 17y. Que por cuidados meus vos educara. Sob este rude céo. E os perfumes de abril que eile derrama. o fogo da desdita Faça pender. nos hábitos da sua mocidade. Ai pobres flores. Esse bosque o pomar da minha terra. Tristesas do desterro. E eu? talvez n'e9tes campos estrangeiros Minha existência. para ir fazer-se trabalhador da terra. E as brancas flores. peregrino e pobre. entre o ruido Dos odiosos folgares do Sicambro. para seguir através de uma illusão antiga.: : 236 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL flores. e os dourados fructos. Um dia esse eram para as flores as suas primeiras saudades. Pelas horas da tarde. . Sem que torne a abraçar a arvore annosa. a admiração. os amigos. amor da mocidade iiavia de apoderar-se do velho. Do monótono som da lingua sua. Herculano allude ás suas çôes que vieram affei- com a edade a tornar-se absorventes amava tanto. era apaixonado pelas e quando se deixava impressionar pelos desalentos da emigração. proprietário rural na quinta de Vai de Lobos. E vem-rae á ideia o laranjal viçoso. murchar. Aproximo-rae o sonho de um momento Então se troca em acordar bem triste. Mirradas folhas para o chão fervente Ninguém se condoeu secou -se a seiva. vias. Morrestes sobre a terra. Arvores. os Hvros. ! : E morrestes. em várzea extensa E ás bordas do ribeiro que murmura. em distancia um bosque De arvoredo onde bate o sol cadento. . Diviso ás vezes. E illudo-me : essa várzea é do meu rio. Sem que torne a vôr mais «sses que amava. Por certo nRo viveis sol pendeu-vos. ir-se mirrando. Na poesia tão repassada de melancholia e de verdade. que eu amava tanto.

! . . e que saudara Desde além do oceano em seu delírio. Uma das paixões mais prematuras de Herculano elle foi a aspiração litteraria. 2 Ibid. Que engenho. o revelou com toda a franquesa no prologo da terceira edição da Historia de Portugal^ mas já nos seus versos escriptos no período da emigração faz vibrar com eloquência esse sentimento. que era o resultado e de uma vocação que se defmia. torna a alliidir a essa paixão pelas flores que cultivava: Conta se que o seu amor fôra trahído. Que t5o fagueiros sonhos me tecias. morte sede de um nome glorioso. Que deixara viçoso. tudo devoras SÓ faltava um impulso para que esta vocação abafada pela acção deprimente do meio em que se achava. ALEXANDRE HEBCULANO 237 I Em outra poesia A volta do Proschpto. Que entre angustias já mais esquecera .. e meu Deus um anno meu sepulcbro cerra ! ao menos I . p.. e só me resta a pobre herança . que mirrado achou de amor o myrto. Fugiste. . . p. e que penso. ^ o arbusto que oulr'ora plantara.. I £ serei leu. gloria. 207. Dizer posso : Existi que a dôr conheço Do goío a taça só provei por horas . . . 204. calado cemitério. De vêr a luz do sol mais alguns dias Eu que Irei tilo existo. amor. oh .. podesse de- sabrochar. 2 E Ga Que por mim cultivado crescera. egualmente bella pela realidade do sentimento. Assim na Mocidade exclama: Oh.. cedo repousar na terra ? Oh meu Deus. esse impulso foi a necessidade forçada da emi- í Ibid. e fallo e títo. tu.. Um louro só .

e santo. que era uma das expressões de ver- dade na sua poesia.circumstancias em que se achou envolvido. junto do teixo Da montanha Que natal. quo emfim. Com amorosa timidez os moços Saudam-n'o qual pae Assim do velho Pelejador. as tra- dições heróicas da resistência de Portugal contra as hostes napoleónicas. 238 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL graçao para Inglaterra e França. Adiante explicaremos essas. Vem assentar-sc á luz meiga da tarde. Na ode A juventude Felicidade. retrata com toques tão vivos esse typo do veterano das guerras peninsulares desde a lucta desarrasoada contra os exércitos da Republica franceza até ao triumpho dos exércitos imperiaes. os velhos A mão que os protegeu apertam gratos teclo. os derradeiros dias Derivara para o tumulo suaves Rodeiados de alTeelos * Quando um 12i>. o seu paiz querido Já não ousam calcar os pés de extranhos. O . devem lhe todos a liberdade. erí esse um ideal da sua velhice: Cansado. Ao vêr. Ao perpassar do veterano. p. incendiavam-lhe a imaginação e inspiravam-lhe o sentimento nacional. Na tarde do viver.: . Na fronte calva. Ha um como íulgor sereno Da aldeia semideus. Em Na poesia a Cruz mutilada. que a existência Desgastou no volver de cem combates. . A par da gloria litteraria sorria-lhe também a gloria militar. a honra e vida. que esta harpa fallava de amores Era bello quando o estro accendiam Em minha alma da guerra os terrores. o sol tostou c que enrugaram annos. dia este sentimento nacional se fortificasse * Poesias. o ancião guerreiro. descreve esta Era phase ideal da sua bello esse tempo da vida.

se mentem as theorias dos políticos . e que vimos as lagrimas do povo. italiana Assim como nos escriptores da Renascença em Portugal existem vestígios da sua antiga adhesão á Escola hespanhola.. d'onde se despren- deram pelo facto de assistirem no tempo da emigração á renovação das litteraturas românicas. assim também nos dois chefes do movimento romântico se conservam os signaes da sua maneira arcádica. Herculano. iri. p. que n'elles encontrava os soccorros da doença e o pão na decrepitude. vol. Mas esse desenvolvimento foi mais tarde paralysado pela tendência contemplativa de uma exaggerada educação catholica. e á medida que os annos o faziam estacionar. 2 Ibid. que assistimos á suppressão de uma parte dos velhos mosteiros do Minho. não comprehendeu logo a verdade das doutrinas politicas que mais tarde veiu a seguir. não sabemos se aquellas lagrimas mentiam. . que escrevem no reflectiu-se silencio do seu gabinete suas obras. comprehensão da liberdade nunca se elevou » > Panorama. Assim aconteceu. Garrett precipilou-se no vigor dos annos e contra o sentimento da sua familia no movimento liberal. revelando-se como uma naturesa descontente.ALEXANDRE HEBCXJLANO 239 com O desenvolvimento da rasão. . o poeta tornar-se-ia es- pontaneamente historiador. como não tinha em volta de si o estimulo d'essa geração enthusiastica da Universidade de Coimbra. I. a educação fradesca em todas as A yoI. : 66 (1836). umas vezes escrevia: «esta geração vae perdida. ou dos versos de redondilha. Herculano con- servou até ao fim da vida um certo despeito contra esta marcha dos primeiros passos políticos. p. voltava instinctivamente para a preconisação do regimen absoluto. outras vezes avivava o passado da: com uma saudade irreflecti- «Nós. .» * e mostrava-se partidário das velhas ideias. ^ Este ficou o typo do sentimentalismo de Herculano. 212 O Minho romântico.

240 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL no seu cial. Carlos v. aliás sempre sincero. a civilizarem a Europa? fascinação pelo principio do direito divino. . de Leopoldo. Manuel. No seu opúsculo O Clero 1 Ibid.» (pag. Miguel. por isso que fora possível ao II. parecia radicar-se. o clero começou a ser verdadeiramente christão. patroci- nada pelos governos reaccionários de Inglaterra. que elle mostrava secretamente aos amigos. o seu espirito veiu com o tempo a essa orientação primeira. p. essa de uma desorganisaçâo moral: «a anciã de liberdade a descommedida. explica elle assim a miss5o histórica da monarchia absoluta: «Veiu o século xvi com elle veiu a monarcbia absoluta a nobresa essa grande civilisadora e moralisadora das nacòes modernas: : e como a cicivilisaram-se. os crimes. \o\. com a nobresa da — — — — prostituição iBto 8Ó por uma palaciana e com o clero do qucimadeiro. der espiritual que se tem concentrado nem a incapacidade de dirigir a geração moderna que lhe concedeu o maior po- em um homem. É assim que se tornam explicáveis todas as contradições d'aquelle caracter. Este periodo da vida de Herculano andava biographado por Innocencio Francisco da Silva em um caderno manuscripto com o titulo de Aleixo Fagundes Bezerro. Henrique* VIII. Philippe II. misanthropia. publicado em ISil. 3. absolutismo dos primeiros annos de Herculano nao é tradicional . — a conversão aos princi- A causa de D.. Nâo nos admirará encontrar no fim da vida Herculano julgando a Democracia moderna como um bando de ladrões.» Sem este passado de Herculano a situação não se poderia comprelitterato. ^ Não devemos terminar esta época da vida de Herculano sem explicar as circumstancias que determinaram uma re- volução fundamental na sua vida pies ou ao partido liberal. como se lê no prologo que poz á Voz da Propheta. a grande moralisadora das nações modernasl As monarchias de D. 123 : Novellas de camllaria. França e Áustria. espirito acima de e para o homem que uma causa de grande perigo soem Portugal propagou as formas renovação era a consequên- da cia litteratura romântica. assim fechou a rolacilo do seu espirito. 2 O portuguez. hender de espirito do nem o retra- himento e despeito contra o seu tempo. e o clero modilicaram-se pelo seu influxo viJisação nada mais é que a íórmula profana do christianismj.) A monarchia absoluta. a incredulidade dos monstros de Byron sâo o transumpto medonho e su* blime d'este século de exaggeração e de renovação social. Luiz xiv e Luiz xv.

o governo absolutista de D.. onde se installou o Conselho de Regência. Herculano entendeu dever abandonar a causa que estava perdida perante a moral e a humanidade. sem soldo. A queda um mi- em Inglaterra. revoltou-se 1 N'e8te9 tempos as notícias da resislencia liberal na ilha Terceira acirraselTageria miguelioa. do gabinete de Wellington e o advento ao poder de nistério hberal. bem explicada. que se exarcebaram entre G de fevereiro e 16 de maçço de 1831. d'onde resultou o ter de emigrar escondidamente de Portugal. Miguel redobrava de barbaridade. deram á resistência liberal novas condições de vigor. Ou peio trabalho gratuito e forçado das Ordenanças. e por isso insistiremos Ás 9 horas da noite de 21 de agosto de 1831. atropellando com uma incrível imbecihdade os princípios mais intuitivos do direito internacional. em 3 de março de 1830. um empréstimo no estran- Em fins de 1830 e começo de 1831 créaram-se em Lisboa uns regimentos e terços chamados Ordenanças. espécie de tropa de terceira linha. por outro lado a reclamação da França contra o attentado de que foram victimas Saurinet e Bonhomme. Herculano nomeado tenente de um d'esses terços. que se havia rebaixado pelas mais estupendas atrocidades. a que nas províncias cor- respondiam os Milicianos. Á medida que se foi organisava a resistência dos liberaes na ilha Terceira. ALEXAHDBE HERCULANO 241 governo absolutista contractar geiro. acabara de * desacreditar perante a Europa o governo absolutista. ou pela repugnância dos assassinatos contra os liberaes. Herculano achou-se envolvido no pronunciamento militar de 21 de agosto de 1831. Esta circumslancia da sua vida nao anda n'ella. apenas com o direito de usar uma farda verde e chapéo de bicos. que o povo resumiu no ram a aoexím: Chegou 16 o paquete Trabalha o cacete T .

e a esta orientação dos espíritos se deve at- tribuir a revolta de infanteria n. e Maria da que as infantas. e o acto inconsiderado do Visconde de Santarém. Bento. foi correndo as ruas da cidade. á Praça da também se escondera n'essa tivera o con- noite o liberal Galhardo. (n'um pateo á direita da rua de S. e essa curiosidade que levou Herculano a seguil-a até ao Rocio. ISo paço da Ajuda corria entre as ria. iOnvolvido na onda de povo que acompanhava o regimento. o regimento foi atacado por outras forças absolutistas que sairam para abafar o movimento. ao chegarem ao Rocio. recusan- do-se a todas as explicações. Mouti- nho de Sousa. Herculano morava então em uma casa próximo do Largo do Rato. Ali ficaram ambos escondi- dos. também poeta de gosto arcadico e conhecido na litteratura do primeiro quartel d'este século pelo nome de Morgado de casa de Assentis Assentis. aquartelado no Ourique. Isabel MaAssumpção seriam levadas .242 HISTOKIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL O regimento de infanteria n. damas e açafatas Anna de Jesus. em communicaçâo ao Diário de Noticias) e saiu para ver a passagem do regimento de infanteria n. Francisco de Paula Cardoso. morava elle em uma casa contigua ao chafariz da Alegria. Miguel desfazia-se pelas provas manifestas da insensatez . Em Mâe d'Agua. indo bater á porta do antigo amigo de Bocage. até poderem transportar-se para bordo ^a esquadra frauceza do almirante Roussin. ao nal! Viva D. Maria 11. pela uma hora da madrugada. como averiguou o sr. desfilando pelas ruas da cidade de Lisboa. A inti- mação do governo francez fora feita em 9 de julho de 1831. determinou o bombardeamento no dia seguinte á uma hora da tarde.° 4. Herculano conse- guiu evadir-se. O perstigio do governo absoluto de D. Pedro Campo de som de musicas marciaes e gritando: Viva a Carta constitucioIV e D. flicto com quem Herculano na feira das Amoreiras.° 4. resultando mortes e prisões numerosas. que tinha o Tejo bloqueado em virtude de uma reclamação do governo francez.° 4.

Herculano tomou causa parte n'esta terceira phase. esta peripécia da sua vida tratou-a das e elle em um pequeno escripto das Len- Narrativas. passou Herculano para um paquete inglez com o lente da Academia de Marinha Albino de Figueiredo. 243. iv. desembarcou em Plymouth. La Marengo. vol. que veiu a morrer reformado. que recebia todos os que quizessem emigrar de Lisboa. quando já as agonias do desterro se achavam temperadas pela protecção a uma moralmente triumphante. com a patente de gene- Envolvido na corrente da emigração portugueza começada em 18íá4 e continuada em 1828 e i831. vindo depois para Jersey. e com o então ral seu amigo Joaquim Rodri- gues Galhardo. Didon. Logo que desembarvoluntário da rainha. A esquadra constava dos baixeis Le Ville Su/fren. que conhecera nos seus primeiros estudos. até onde se demorou era o 1832 em que tomou parte na expe- dição de Belle-Isle. com o capitão de cavalleria Chrisjá lovam Bravo. porque esperavam continuar os de Queluz e de Caxias com a of- idylios das quintas reaes ficialidade franceza. cou na Terceira alistou-se como circumstancia a que allude na sua prosa poética A Velhice. Palias. que se dirigia para a ilha Terceira. de Granville transportou-se a Rennes. onde fò^ da ilha resistência dos hberaes. Foi a bordo da fragata Melpomene. Marseille. p. com quem se De bordo da Melpomene. Êgle. e dos brigues Endymion e Dragov. * Como o governo de D. Miguel era ludibriado pelo senso commum 1 europeu. . arribando a Granville. (jue Alexandre Herculano se refugiou do partido que servira c achava em casual hostilidade. e das fragatas Melpomene.ALEXANDRE HEBCULANO 243 reféns. VAlgesiraSy La de VAlger. Le Trident. das corvetas Perle. pode vêr-se em uma carta do grande Panorama. e as infan- para bordo da esquadra franceza tas como pulavam de contentes.

é as delicias do publico. foi migo. tenho algumas. e cheio de jubilo se lança aos pés d'elle. Miguel Ibe bota as ra5os. em pleno theatro. Miguel de theatro causa-nos o raaior pra?er. 308 (Leltre Como se vê i) trad. e em quanto o guitarrista conhece que tem em caía D. que é o realista mais dedicado possivel. que era a primeira a protestar contra o passado. é meia noite. Miguel íqtroduz-se em casa d'ella pela janella. que não deixa escapar nem um gesto. é natural que os emigrados porluguozes que se achavam em Paris assistissem a esta representação que atraia orna coDCorrencia continua ao Gymoasíu. que entre tan- tas qualidades ruins de que a natureza nâo tal é. Miguel. Pelo menos assim escassa com- se caracterisou a si próprio: «Louvado Deus. e além d^outras. diz: «N5o nada mais prosaico. Miguel. Mendelssohn. cantar diante d'elle. caràcterisaodo o género litlerario do Vaudeville. demais a roais dá a entender que é rei. Miguel tem um terrível medo por causa da sua bravura e do seu amor pela liberdade. ^e a mulher nâo agarrasse uma faca. bastante inquieta: D. excellentes. *de Rolland. e pede ao rei. porque quer para si a mulher e Gear em logar d'elle. e arrasta-a bastantes vezes de um a outro lado da scena. a auxiliai o e a mandar cortar a cabeça ao marido: Com toda a vontade responde-lhe D. Assim acaba o primeiro acto. Vâhíi dansar. A peça nova que mantém a voga ao Gymnasio é o Guitarrista de Lisboa. e eis aqui a peça» Quanto mais o desconhecido procede de uma maneira estúpida. a mulher não o pôde aturar. que chegou no meio d'este arranjo. A cada nova barbaridade que commette. e assigna também a do favorito. Assim se termina a peca com geral satisfação. . * tudo impellia Herculano para abraçar os principies politicos. maior é a alegria do publico. e percebe-se que o actor imita alé á illusão D. nos hábitos e era todos os seus gestos. datada de Paris de 11 de janeiro de 1832. que a civiiisaçâo de Inglaterra e França. Miguel forcou esta mulher a encontrar-se com elle na próxima noite. d'este desgraçado. No segundo acto. a de uma consciência de tão fino tacto e tão sem cerimonia. o rei asgigna a sentença de morte. Um dos favoritos de D. mas que tem a desgraça de ser marido de uma mulher bonita. a mulher bonita está sósinha. mas apenas elle entra em scena. Miguel nas suas maneiras. lhe impunham á consciência. esta composição do Luthier de Lisbonne versava sobre os suc- cessos que motivaram a expedição franceza de 1831. e se n'e3te momento nilo batessem á poria. e de que D. ignóbil e barbara. nós rimos. por roais de um signal. O cartaz annuncia um personagem desconhecido. observadas de perto. as cousas poderiam sair-lhe mais desagradáveis.lhe o amor. nós applaudimos. todos riem e applaudem. e comtudo o effeito é absorvente.244: HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL compositor allemão Mendelssohn. franc. No desenlace o guitarrista salva ainda uma vez o rei dos soldados francezes que acabam de chegar. até que D. pede-lhe de joelhos que a deixe.» Lettres de Mendelêsohn^ 1 sei de — ! p. nenhuma palavra. e este estúpido D. Uma revolta forçou-o a refugiar-se era casa d'efte guitarrista. e emprega mil recursos. para captar.

surgiu um homem foi novo. é também este o signal da «sua falta de disciplina philosophica. mas uma cousa ficou profundamente portugueza. os que o cercaram de admirações como historiador. que * um solemnissinio tolo. o Camões de Garrett em 1824. esse sentimento exclusivo cora que nos tornámos conhecidos na Europa. um grande poeta. o mesmo arranjo de phrase. Nas amarguras do vidír. e bem podia ser um dos estímulos * da sua nova Panorama. iv. Em verdade Herculano superiorie Piedade. nunca escreveu senão prosa poética quer na historia quer na polemica sionavel politica. desconheceram ineptamente a e alta dade do auctor da Mocidade e por isso não morte e da Vkloria poderam explicar porque é que Herculano critica. ensinaram-lhe a tentar novas formas strophicas. As Poesias de Herculano trazem impressas as emoções novas da situação em que se achava ao sair de Portugal escravo. que tanto impressionaram Garrett. Uma cousa nos surprehende na leitura dos versos soltos de Herculano. desterro o sentimento estimulado pela realidade da e é eil-o que surge um grande poeta. e isto bas- tava para que a sua bella organisação poética se desligasse para sempre do convencionalismo arcadico. de modo que sempre tem a habilidade de me fazer titubear e quasi sempre a de sou me fazer confessar com exemplar humildade. p. das canções de Beranger. dos versos de Lamartine e de Casimir Delavigne. 242.» foi A emigração para Herculano uma transfiguração da intelligencia. de Garmesmo rythmo. O conhecimento dos poemas de Ossian. vol. a intima analogia que rett . fora escripto a mesma vaga saudade. a sente e expõe com uma admirável claresa e convincente lógica. é ha n'elles o têm com os do poema Camões. . a linguagem da saudade. e como sendo este o lado impres- com que se impoz ao publico.ÂLEXANDBE HERCULANO 245 que apenas digo ou faço uma parvoíce.

o tédio do desalento em França. que inauguraram entre nós as formas litterarias do Romantismo. Garrett e Herculano. litte- No poemeto subjectivo Tristesas do desterro. foram adoptados no estudo sempre profícuo das obras de Filinto Elysio. a saudade que o devorava ilhas em Inglaterra. Herculano deixa entrever esta circumstancia: . Centre as dores do exilio. Sobre as aguas d'Âlbion nas ribas escabrosas Vera marulhando branquear de escuma A negra rocha em promontório erguido D'onde o insulano audaz contempla o immenso Império seu. e a impressão nova dos phenomenos vulcânicos das dos Açores. e ainda em mez seguiu caminho da emigração para Ingla- terra. aos olhos turvos Nilo sentida uma lagrima fugiu-me. Mais que os homens piedosa. as indicações do espirito clássico para a transformação evolutiva da ratura moderna. HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Mas um facto nos revela que ambos estudaram essa versificação diííicil em uma fonte commum: os archais- mos. em que se reconhece a cadencia garrettiana. acharam no estudo de Filinto. Esses versos têm a bellesa do que é vivo: Terra cara da pátria. eu te hei saudado. E devorou-a o mar. a revolta militar foi em que Herculano se achou compromettido fins d'esse em 21 de agosto de i83l. A vaga incerta. descreve Her- culano as primeiras emoções ao deixar a pátria. irá depól-a. Pelas ondas Do irrequieto mar mandei-te o choro saudade longínqua. Da Que Que rola livre. que ás vezes dão tanto relevo poético á phrase. Minha terra natal. e que Herculano empregou sempre nas suas reconstrucçôes poéticas do passado no romance histórico. que no fim da vida traduziu o Oberon de Wieland. Como vimos.246 idealisação. peregrina eterna. : Essa lagrima acceita é Do desterro enviar-te um quanto pôde pobre Olho. nas praias luas. o abysmo. quando foi reunir-se ao exercito liberal na Terceira.

como elle. Que no peiío ao cravar-se. o ferro Da ferida occulto . como a memoria reflecte. o éden nativo e perdi mais. . rijo E Da palria vinha: Seu sopro refrescou-nie as veias. d'ell8 o embora adeje Ao redor medo dos tyrannos? A nostalgia da sua natureza de meridional com uma commovente anciedade: Onde haja o sol da é expressa Oh. de amante e filho. Quem. o bom do velho As bcnçSos paternacs de Deus co'as bênçãos Sobre minha cabeça derramava. Pelas antenas. prófugo. nunca. : azas Pelo dorso das vagas rugidoras Eu corri além mar por eslas plagas. . Onde encontravam filial piedade. a saudade dos seus torna-se miia paixão que á linguagem: dá mais intensidade subjectiva Eu. Regtam-mo na alma qual buida frecha. esquece O tecto paternal. Perdi . Despedaçados Os affectos de irmão. e a vinha e o cedro E a larangeira em flor. estala e deixa.. Caindo. Por entro um véo de involuntário pranto! Qu5o triste cogitar em mim desperta A imagem cara Á noite. oh meu pae. em nublada noilo Ouvi o vento sul. Oh meu Me pae. dae-me um valle minha pátria. ALEXANDRE HERCULANO Já se acercava o tenebroso inverno 2á7 I 9( Vinha fugindo a rápida andorinha. a tua imagem. Para um abrigo le ir pedir. e a brisa Matutina c da tarde. Em cujos valles nunca alveja a neve Junto de mim passou em suas Também mandei o filial suspiro. : . e as harmonias Que a natureza em vozes mil murmura Na terra em que nasci (p- 160. alta noito.) A pátria era para elle então llie um éden. que assobiava de ouvil-o folguei. oh palria. 1 E A um ao começar o dia e ellas desciam coraçilo isempto de remorsos .

é o paiz da franca e sincera hospitalidade. havia-se encarregado de nos prepa- rar a comida. mediante a ba- gatella de três shellings semanaes por cabeça.248 msTOBiA DO romantismo em pobtdgai. ! Dorme Saciado talvez de dôr e aíFrontas já sob a campa o somoo eterno? Ah se um dia raiar para o proscripto O suspirado alvor do sol da pátria. 2 Lendas e Narrativas. mezes n'aquella cidade. em Plymouth. era uma donde sessenta annos. .» ed. podia servir de modelo ás outras ninhadas de emigrados que ain- da viviam Plymouth. ai d'elle 1 ai d'elle * 1 descreve No pequeno escripto De Jersey a Granville. Herculano com certa graça e humorismo. Éramos ahi nove portuguezes. em que levássemos a nossa matalotagem. dirigida por Miss Parker. e os seus lodgings eram a pérola das albergarias de A principio. mas poucos dias podemos resistir aos abofoi mináveis temperos do paiz. Seria pela t Poesias. 173. u. na minha estada em quando partimos para Jerum cabazinho. devi sey. Ninguém tinha uma patroa como nós. em seis camas e três aposentos. Qual o seu. E agora É-lhe mysterio o meu destino. Eis o quadro da sua vida de emigrado em Plymouth: «Miss Parker. excellente creatura que nos dera e luz por dois zella cama terra. Inglaterra. os dias terriveis acostumada da emi- gração de 1831.» «Abandonámos emfim o sólo de Inglaterra. transcripto em todas as Selectas das escolas. E se entre nós da um impio as mãos ergueram A barreira da morte. p. — Durante a permanência em Ply- mouth Herculano entregava-se á poesia. 4. o que dava certo ár pythagorico e mysterioso á familia. que. p. A Ingla- como todos sabem. e derramou algumas lagrimas ao despedir-se de beneficio: ^ um nós. deu-nos — Miss Parker o único fô- lego vivo da Gram-Bretanha a quem. para mim o exilio occulla. de Plymouth. 288. e ahi escreveu em setembro de 1831 o bymno intitulado Deus. a que não estava a lingua portugueza.

testável jangada para passarmos á França. a pocilga tacto. destinado a transportar gado de França para as de areia. . e sair uma libra maior que podia da bocca das nossas bolsas rumo do tinha Nós seguimos. mais enxuto que esse Ao menos tínhamos um leito. posto que ameaçadora. —O chasse-marée havia-se posto já O vento não consentia que surdíssemos avante. como uma linha negra lançada ao través dos á capa. pouco mais ou menos. ia em lastro. em que nos achávamos poderia passar ao utilidade n'aquella situação. lançados para uma extre- midade do areal fluctuante. senão macio. e por isso o seu arfar se tornava mais suave. de- pois de breve conferencia á proa com o seu companheiro. porque embarcação havia no porto de da passagem era apenas esterlina era o fôlego nenhuma outra com destino im- mediato para a costa fronteira. a segunda. divisávamos ainda o promontório de Noirmont. o mudança do vento. com que contávamos. . No horisonte. sido momentaneamente uma vantagem de commodi. . e o arraes. quasi pela popa. porque o preço uma libra esterlina. e Saint-Ilélier isto por duas rasôes urgentissimas: a primeira. e dirigirmo-nos a Granville. O chasse-mailhas rée. e pela nossa esquerda prolongavam-se quasi imperceplivelmente as costas de França. veiu declarar-nos que seria impossível seguir o rumo de Saint-Maló. por único sentido de uma praia deserta. Depois de apalparmos por longo tetnpo em volta de nós. e o lastro era Se não fos- sem os terríveis balanços da embarcação. atravessando aquella estreita porção do canal que nos separava da França. sul. do Canal. Comera necessário aproveitar aquella de- moda ou incommoda. que era necessário pôr a proa nas costas da Nor- mandia. achámos por fim uma vela e alguns cabos. que finalmente ahi po- deríamos tocar em terra na manhã seguinte.iXEXANDBB HEBCULÂNO volta 249 do meio dia quando saltámos no chasse-marée que de- via conduzir-nos de Jersey a Saint-Malò. e a dade: o chasse-marée corria á bolina. mares.

eram. mas de re- pente saiu da sua prestação nostálgica. e de allusôes satyricas aos ministros da Restauração. também designou os com o nome ethnico de Sicambros: Sob este rude céo.» a saida extremamente d'ali a entrada havia sido extraordinária partiram já como com o soJ alto. visinho das cosdifficil. Os folgares odiosos. algumas braleito. que já citámos. . Mais chamar-te teu Glbo não sei: Desterrado. A saudade da pátria era para o poeta desterrado a preoccupaçâo absoluta. e em poucas horas aportaram a Granville.. cheios de cotiplets engraçadíssimos. delssohn. entre o ruido Dos odiosos folgares do sicambro Do monótono som da lingua sua . mendigo serei De outra terra meus ossos serão 1 Mas a escravo. Que herdará deshonrada memoria. com as trevas que nos ro- deavam n'esse momento.. e esta situa- ção moral aggravava mais o desalento dos emigrados portuguezes.. ilhéu. Herculano francezes. como se sabe pela carta de Meneram os Vaudevilles políticos. 250 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Uma de pouca de areia húmida por pavimento. quo pugna por ferros. toda a nossa consolação e abrigo. Nunca mais darei nome de irmão. de Normandia. onde ambos se refugiaram. e perguntou a si mesmo se uma terra escrava podia ser pátria do poeta: ! Terra iníame do servos aprisco. ^ 1 Poesias. 104.» No meio de uma borrasca nocturna foram lançados por cima de restingas «no tas recife de foi um . Miguel. Renegando da torra sem gloria. Para todos os emigrados era incerta a sorte dos parentes sob o regimen canibalesco de D. ças de lona por e por agasalho e cobertura a tolda um miserável barco. p. Gomo Garrett.

esse facto uma fatalidade imposta pelo meio social á inconsciência dos dezoito annos. e o embarque na expedição para a ilha Terceira em 183á: vida. descreve outra vez o mo- do desterro forçado. na idade da esperança Da pátria a sua sorte Esta alma encaneceu e antes de tempo Ergueu bymnos k morlA . O . D'elle leve piedade. solo do desterro. «Armas! — bradaram no desterro os fortes. e o ral I começo da campanha libe- Pela primeira vez a lilteratura portugúeza se inspirava dos conflictos da vida nacional: Mas quando o pranto mo sulcava as faces. quanto ingrato É para Ennevoado o adormecido! Eu lá chorei. 112. o coração do rapaz de vinte e dois annos palpitava com ver- dade: «Onde é livre tem pátria o poeta. ai. i rio . cingem ferros. Indissolúvel nó.» se foi um dia Her- culano incensou a tyrannia. e o embarque em Belle Isle. eco. o foragido. árido o prado. Que alento n''essas estrophes com que descreve o mento dos voluntários. 1 /Wd. fevereiro de 1832. cinge-os Com seus irmãos as sacrosantas juras Beijando a cruz da espada.: ALEXANDRE HERCULANO 251 São vigorissimas estas estrophes da poesia O Soldado. : Como bradar de um só Erguem -se. e' alista- 2 de no dia iO a partida da armada. voam. Pranto de atroz saudade. para a a expedição da ilha Terceira. Deus escutou do vagabundo as preces. . do infortuDÍo .. partamos 1 Ao mar !» Partia a armada. : Repetiu o poeta — «Eia. No desponfar da E Murchou-rae o sopro ardente saudades curli em longas terras Da minlia lerra ausente. p. Na tivo bella ode Yictoria e Piedade. .

. deixando Só d'elÍG a côr em lascas arrancadas Das entranhas dos montes penhascosos. entre os dois mundos. escumando. . Nobresa o ser cruel. eorrendo aíToutos As praias demandámos Do velho Portugal. A £ enguliu e passou. entre affumadas Pedras que em parte amarellece o enxofre. que pensam poeta. Herculano vas que vae recebendo . no dia em que. Restos informes de metaes fundidos Pelas chammas do abysmo. e ao desembarcar na restos dos vulcões extinctos dão-lhe a trata o estado imagem com que re- da sua alma: Eu Ás já vi n'ama ilha arremessada solidões do mar..j p. nunca ter feito esque- cer Herculano como temperaram na realidade por isso procuram da vida as suas tintas impressionistas. Scinlillam Aqui e ali. 2 Jbid. Da cratera fervente. em que o golpe mortal descia envolto Das maldições no fel. Onde espinhosas sarças só vegetam. á voz do Eterno. A natureza é morta em lodo o espaço Em Que ella correu. 252 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Pelas ondas azues. p. Desceu ao mar turbado. e o vigor da estrophe na violência das anlitheses e no relevo das imagens. nos areientos plainos. Da Os nossos lyricos modernos. Bera como a lava o desterro ao trovador. Tal ó meu coraçSo. 2 As viagens para Inglaterra e França. Que a lava em rios dispersou. * Vestígios de vulcões que hão sido extinctos nSo sabidos séculos. 113. para os Açores e í Poesias. i guerra. 177. tira as imagens das impressões noilha Terceira os a natureza vulcânica das ilhas dos Açores assombra-o. qual sumiria De soçobrada náo celeuma inútil. rugindo. e elle. e o balsSo negro Da E guerra despregámos em que era infâmia o ser piedoso.

Eu. 1 Poesias. Santas inspirações morrer sentindo Do coração no fundo. Entre escarcéos erguidos. Solta. eu te invoco. Âos pés do Omnipotente. e aos pés calcado De quanto ha vil no mundo. e leve a sua parte n'essa epopêa do cerco do Porto. converte o terror da morte em esperança: Oh Que morte. Que ella possa voar. 89. e jà oSo sonho Nem gloria. Na ode bem uma enérgica A Tempestade. no fragor da metralha não podia deixar de ser foi um valente soldado. na bahia da Biscaya. e estourando a esmague. Sobre u náo. dos tufões ludibrio.n ALEXANDBB HEBCULAKO 253 para as cosias de Portugal. eu que velo na vida. a prenhe nuvem £ Desça. a grossa proa. foram para o talento poético de Herculano o mesmo que a viagem do Oriente para Camões e Bocage. amiga morte c sobre as vagas. vagabundo e pobre. Porque seguir. p. esta poesia traz a seguinte nota « A bordo da Juno. sem rumo vague. que a natureza Lançou a esta alma ardente. 91. —Março de Era uma Herculano 1832. Sem achar no desterro uma harmonia De alma. um dos sete mil e quinhentos bravos desem- barcados no Mindello. que a minha entenda. que esgotei tão cedo até ás fezes cálix da amargura : £ Eu. curvado ante a desgraça Esta espinhosa senda? ^ • Na primeira edição da : Harpa do Crente. por entre os orbes. alma de Tyrteu que se interrogava. deram-lhe um grande poder descriptivo. pedindo -te feneçam ! Meus dias aborridos: Quebra duras prisões. . que me estreita. nem ventura.

litterario. bora dirigida pelos interesses dynasticos de D. D. Passos Manuel. Missão d'este jornal. uma condição mesologica de todas as ilhas. redacção do Diário do Governo. e sua dissidência. Alexandre Herculano nomeado em 1833. tem inicial. O archipelago dos Açores foi o primeiro núcleo da resistência dos poucos hoe é essa mens Hvres que usavam o nome de portuguezes. Miguel a 22. Impressão produzida pelos seus romances históricos. e relira-se da politica. espirito em que iv predo- mina o de independência. — Sociedade : de Jurisprudência. No meio dos grandes combates . faziam com que os mais ob- scuros ainda se portassem como heroes. Logar que occopa até 1836 Trabalhos depois do cerco : — — — — — Repositório Jornal da Sociedade dos Amigos das Lettras (Lisboa 1836. não o fazem ministro da Instrucção publica. segundo bibliolhecario da Bibl.) O cerco do Porto nos versos de Herculano: Harpa do Crente. Cartas sobre a Historia de Portugal.) Durante o cerco do Porto: Bernardino António Gomes. e desembarcou na ilha Terceira a 3 de março d'esse mesmo anno. Pedro aproveitou esse primeiro núcleo e dirigiu-se de Belle Isle para os Açores a 40 de fevereiro de 4832. do Porto.254 HISTORIA DO ROMANTISMO EM POBTUGAL § II. a expedição chegou á ilha de S. do lado liberal esses espectáculos de degradação hu- mana (la Justiça das Alçadas. Necessidades. Vinda de Herculano para Lisboa em 1836 . Boleto. Relações com Garrett e Castilho. como base da Historia de Portugal. Dependência da casa real e seus estudos históricos do Panorama. o quer que seja de grandioso pelo motivo Se do lado absolutista o povo era fanatisado para praticar as carnifici- nas. António Fortunato Martins da Cruz e José Carneiro da Silva. Os romances históricos (Sociedade Propagadora dos Conhecimentos uleis. emiv. na Revista Universal Lisbonense. (De 1832 a 1846.) 1840 deputado pelo Porto. Conílicto das ambições pohticas. Época brilhante de Herculano. A revolução setembrista: 1836. ú maneira de Thierry. Entra para a Academia das Scicncia? de Lisboa. A Voz do Propheta. Nomeado bibliolhecario da Ajuda e das Fundação do Panorama. Pedro coadjuvada por e uma parte da aristocracia despeitada. — — — — — — — — — — — — — — — — A liicta pela liberdade inaugurada na ilha Terceira.

que insurgiam mais do que todas as proclamações. D. havia a anarchia das opiniões. lano pinta * Hercu- com delicadas cores esta situação moral dos emi- 1 Na primeira ediçSo da Harpa do Crente. perfeitamente explicado por Agostinho José Freire. ló-se : t^Porto — Julho de 1832. Pedro iv entregou ao batalhão de voluntários a ban- deira que lhe fura offerecida pelas senhoras da ilha do Fayal. o Porto tinha em 1829 abandonado ás atrocidades do governo insensato de D. Miguel. dia 9 entraram no Porto os soldados li- e o povo arrancou immediatamente as forcas da Praça Nova. no dia 8 de julho. depois da adliesâo do archipelago ao regimen beral. Foi ficado quiz que se dirigissem para o continente isso a vista do génio. n . li- que saíssem iv em expedição para a ilha da Madeira. Foi sobre a praia que D. que se fez em menos de quatro horas. Na poesia O Soldado. procedendo ao embarque ás duas horas da tarde do dia 27 de junho. e depois de uma intimação inútil ao commandante das tropas absolutistas da província. Miguel 20 de abril de i832. Pedro. que funccionavam havia quatro annos para man- terem o terror miguelino. a armada dirigiu-se para as costas do norte de Portugal. contava vinte e dois annos. que havia mudado a a sede do governo da ali ilha Terceira para S. reuniu as tropas na planície do Relvão. Na madrugada do beraes. ainda não tinha ma- nuscriptos. uns queriam. que pertencia ao batalhão dos voluntários. começou o desembarque na praia do Mindello. e existiam ahi profundas feridas. Por «m motivo estratégico. Garrett alhide a esta despedida solemne dos amigos da ali ilha de S. e já admirava o auctor do Camões. mas D. Miguel. e do abandono dos seus inanuscriptos. ALEXANDRE HERCULANO 255 e de falta de recursos. Pedro do reino. Herculano.. avistaram terra entre Vianna e Villa do Conde em 7 de julho. organisou a expedição com que projectava fazer o desembarque no continente.

o triumpho de Souto Redondo em A 7 de agosto seguido de uma inexphcavel retirada em de* até aos Carvallios. dorme tranquilio Deu-lhe repouso a morte. A E No o velho e amigo cedro valle ainda abracei. e a saudade convertida em sanha de irmãos: Do meu paiz querido praia ainda beijei. E o grito: Ai do vencido! Nos montes retumbara. As linhas fecharam-se no dia 8 de setembro pelo ala- 1 Poesias.: 256 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL grados ao chegarem á pátria. como suprema táctica: eram 8:544 soldados e 2:100 voluntários. p. se se não hmilavam as operações á defensiva. contra mais de 80:000 homens de todas as armas da parte dos absolutistas. n'estes campos Sepulchro conquistou. fez convencer que a causa estava As eram diminutas e convinha poupal-as. Cahiu. além de mais de 40:000 sitiantes em volta do Porto. Que o vento some á tarde: Facho de guerra acceso Em Do labaredas arde! fralricidio a luva Irmão a irmão lançara. Foi a esperança nuvem. E o adro dos extranhos Seus ossos não guardou. 101. perdida. * Já era um bem em para o emigrado o poder ao menos ser sepultado chão portuguez. Ao menos. As armas se hão cruzado O pé mordeu o forte. . meçava por sordem forças um campanha da hberdade corevés.

publicado no Pan. Era uma lucta desegual e des- esperada. escreve estas linhas de rea- lidade que explicam os seus versos: «Assim vi morrer al- guns soldados do 5 de caçadores e de voluntários da rainha no temerário reconhecimento de Vallongo. t. em um prefacio com que precedeu a edição definitiva da Voz do Propheta. Oh. E as pragas Do vencedor E a pallidez . nas do norte e á Serra do Pilar. E a dôr. sangreulo.ALEZXKDBB HEBCULANO 257 fortificações que dos miguelistas no Alto da Bandeira. 16. torna a referir-se au combate de Ponte Ferreira em 23 de julba de 1832. que trasbordava. Nu. o trom da artillieriai a luba clamorosa Que oâ peil06 acccndia. Opúsculos. IV. — No A vida soldadesca. Sonho do accesa Scena tremenda. do vencido. p. p. retrata essas emoções da campanha em que era infâmia o ser humano. E os gritos de furor. Eram um Em caos de dores. incrivel! E suspirei: nos olhos Me borbulhava o pranto.. 17 . Herculano. sim! maldisse o instante Em que buscar viera. E as ameaças torvas. referindo-se a uma carga de baioneta. os livres foram grandes. 91. I. convulsão horrível. que precedeu a batalha de Ponte Ferreira. E d'e?ses que expiravam. terra em que artigo nascera.» * Eis o quadro poético: E £ E a bala sibilando. do morto. insepulto. Som cavo de exterior. Pediu-me infernal canto. então obscuro voluntário. o insulto. febre. Por entre tempestades A 1 i.

. Pedro iv era novo e brioso. Irmãos. cederam.. . como o tinham feito em 1829. Contrários ainda ha pouco. nâo bastavam os combates nas linhas e as granadas chovendo dia e noite sobre a cidade. . em fraternas lides Ura canto de victoria? É É delirar maldito. na juventude É o dormil-o amargo. Que me tingia tudo De sanguinosa cor. Quando a mente accendida Crê na ventura e gloria Quando o presente é tudo. 106. índa nada a memorial 2 Ibid. mandou picar as amarras para a esqua- dra se fazer ao largo. Maldito era o triumpho Que rodeava borror. Porém. 102. Oh Quando na vida nasce Esta mimosa flor. 258 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Que é. eraflm. lá eram! O seu thesouro de ódio. ' £ os fortes lã jaziam Co'a face ao céo voltada Sorria a noite aos mortos Passando socegada. nâo quiz. Como a cecém suave. Os generaes projectaram abandonar a cidade. o somno teu Só é somno mais largo. a fome appareeeu com o seu terrivel séquito da cholera morbus e do desalento. . A refrega era dura. mas D. Na poesia de Herculano transparece este desalento: morte. E 1 Poesias. p. . Delicioso amor. Mordendo o 2 pó. triumphar sem gloria. p.

Peões. A E i o globo incendido Um Poesias. ALEXAITDBE REBCULANO Morrer. De agudas A baionetas renque brilhante Treinenle avançava Ao brado de — avante I E ao baço Dos ruido leves ginetes. 108. Da Os ferros cruzados Luctavam tinindo. E E a férrea granada Nos ares zumbia. terra cxpirrava. cavaiieiros De iovolta ruindo.. morrer. p. . pouco se alçava. qac imporia? Final suspiro ouvil-o 25d Ha-de a Irei pátria. ^ Em rolos ondeando Nas azas do vento. No plaino calcando relva os tapetes. aos seios das alas Qual raio descia. dos canhões. traz mais um quadro de bata- lha com traços de realidade que raras vezes entram na idealisaçâo litteraria: E á voz Ao trom das trombetas. tra a como se viu na guerra dos curas con- Republica hespanhola. de trabuco e cruz alçada. Ao som das passadas De vJDte esquadrões E em meio do fogo. E aos árcs. N'essa outra poesia O Mosteiro deserto. Na terra l dormir tranquillo. Do fumo alvacento. o poeta descre- vendo o abandono dos conventos pelos frades que andavam capitaneando em volta do Porto os povos fanatisados. revolta.

190. uns vultos vaguear se viam : A cruz do Salvador na esquerda erguida. do soberano. P. por officio que ao intendente geral da poda corte e reino dirigiu o corregedor da comarca de Braga. açulando os irmãos segundo o espirito do versiculo de S. Negros. traça Herculano esto protesto: gargaíita da serra ou sobre o outeiro.» O que elles interpreta- vam nos Ira.: : . 260 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL E prenhe Com fero de estragos.» tA . Matheus. aqui cumpriam-no á let- Na poesia do Na Mosteiro deserto. P. Ueverendíssima para sua inlelligencia e execução. p. e vim trazer a desunião entre o pae e o filho. resolveram que. Pelo pinhal da encosta ou da campina. preces blasphcmando perdoeis a fileiras «Nào um só!» feros bradando. 2 t Secretaria d'Estado dos Negócios Ecclesiastico» e de Justiça. Reverendissima. Mandava mil golpes Em rochas partido. Luiz de Paula Furtado de Castro do Rio deMendóça. Na dextra o ferro. i No raeio do tropel avisíavam-se os frades animando os que combatiam contra a liberdade. P. e tendo merecido a approvaçJo de sua magestade a louvável deliberação destes bons religiosos e fieis vassallos que n'isto mostraram conhecer que ninguém deve deixar de expor-se aos trabalhos e aos perigos para um fim tão justo e tão importante: Determina que Y. ^ estampido. era o Monge. palácio de Queluz em 22 de dezembro de 1831. que diz «eu trouxe a espada. era o . que os religiosos do convento de S. Reverendíssima assim lh'o faça constar: quo de ordem do mesmo senhor communico a V. 2 púlpitos com allegorias. e os outros se apresentassem armados e se unissem aos mais defensores da religião. licia El-rei Nosso Senhor constou. N'esse dia de atroz carnificina. Senhor Ministro Provincial dos Religiosos Menores reformados da Província da Soledade. Fructuoso da dita cidade. e da palria. andavam com a cruz erguida. Monge que corria. Deus guarde a Y. 1 Poesias. se as circumstancias o exigissem. ficassem dois d'elles. entre o irmão e o irmão vim metter a guerra entre elles. que se achavam enfermos. que blasphemo Preces vãs a Deus fazia. quando viram que se faziam preparativos para a defeza do reino contra os rebeldes. guardando o convento. Entre as rápidos corriam E E E era o Monge que bradava.

sem gloria £ssas scenas de pranto e de luto Quem as trouxe a e:ta terra querida? Foi o Monge. ^ mar avaro. e d'esse trium- pho resultou da liberdade em todo o paiz. em que entraram em parada 8:384 beraes. ^ Uma das batalhas mais decisivas do cerco 183í2. apesar de nega- devemos todos os fructos que nos ligam ainda á civilisação moderna. as turbas De inúmeros soldados Comprar com sangue o pão. Eis contra o que. f */6t(i. p. que á tarde. Aterrados. de toda a obra do Constitucionalismo tiva. ódio fraterno. cadáver só do exlioclo.. Em Nos regelado inverno . miserandos A uma guerra impia. lembra esses grandes lances: Fanatismo brutal. com sangue fome. 1 Poesias p. e a ella. £m desordenada fuga Betiravara-se os vencidos. 199. e dentro da cidade 7:140 contra 35:000 miguelis- venceram os que luclavam pela a força moral da causa iv vida. perseguidos. ALEXANDRE HESCULANO Vis. foi a de 29 de 11- setembro de tas. já no fim do cerco. foi essa a maior reforma. que em ânimos rudes Inslallou o furor fratricida. D. a peste. 191. Pedro conheceu que um dos seus primeiros actos depois da victoria seria a extincção do Monachismo em Portugal. n'esse plaiao de irmãos retíalo 261 No sangue o moribundo. o A o lume. . nação atrophiada por esse parasita que a ata- cou desde a sua origem. Do fogo céos toldados. £ por gandras e por montes. Na bella ode A Victoria e a Piedadey Herculano.. Só reslava O £ os vencidos eram esses vicloria ^ Que a esperança da Arrastara. por dias de amargura fez luctar o inferno.

Entre os soldados de D. Onde o canhão troou por mais de um anno Contra invencíveis muros. do Camões. irei sentar-me. Pedir inspirações Á noite queda. Todos nós temos vendido a nossa alma ao espirito immundo do 1 Poesias. mas a politica engodou todos os engenhos e levou-os comsigo. a esplenA Victoria e a Piedade. emfim. o mais obscuro de todos. Pedro havia poetas: militava comnosco o auctor de D. não flque esmagado e sumido debaixo do Leviathan da politica. tomando o alaúde. os sete mil do Mindello não tiveram apenas eu. mas de que só alguns capítulos estão trasla- dados no papel. da embriaguez da guerra Bem triste é o acordar! N'essa alta encosta. Lopes de Lima. jornalismo. e que servirá para intelligencia dos pre- um livro já todo escripto no entendimento. colhéraos A Que a c'rôa de cypreste fronte ao vencedor veste.. A guerra da Restauração de 1832 a 1833 é o acontecimento mais espantoso e mais poético d'este século. torvo soltarei ura liymno Depois de triumphar. p. ainda que de pouca valia. Harpa do Crente. acha-se datada do Porto. Branca. Eu. salvei milde prosa um cantor. que segue. offerecida Á Roem testemunho de sincera ami- sade. ao génio que me ensina Segredos das canções. i Como Na segunda serie da drigo da Fonseca Magalhães. pertence a mento. em agosto de 1833. Os homens de bronze. . de João Minimo. Herculano acompanha-a dida ode de uma nota omittida nas edições ulteriores: «Este fragcedentes versos. sobranceira aos campos De sangue ainda impuros. 262 rasTOBiA DO romantismo em poktdgal Mas da íéra victoria. Oh meus irmãos. mesmo trabalho. o sr. e em minha hu- Oxalá que esse uma diminuta porção de tanta riqueza poética. E o mais é que poucos conhecem 111. em impia lucta Só essa c'rôa cila. e outros.

que ainda por ahi jaziam. oh crença do Evangelho. por via de regra. tornando o livro menos va- .» A intuição do artista não o enganou n'este juizo. entre as affrontas da cruz. o sibilar das bailas. : meditação cap. o som das armas final o gemido doloroso e longo da sua agonia. e Jesus Christo perdoara. «O combate da ante-vespera estava ainda vivo na minha imaginação: eu cria vêr ainda os cadáveres dos meus amigos e camaradas. a que dava o . porém pareceu-me que bra-te de que elles se aievanlavam e me diziam:— Lemtambém fomos saldados: lembra-te de que fomos vencidos E eu bem sabia que inferno lhes devia ter sido. A ideia de perdão parecia me consolava da perda ideia torren- de tantos e tão valentes amigos. e o arranco do morrer. o estertor dos moribundos. o grito dos feridos. ajunta Herculano o fragmento do livro que andava Da minha Mocidade — Poesia em e esboço. . Havia n'essa tes de poesia. espalhados ao redor do fatal reducto em que estava assentado: ainda me soavam aos ouvidos o seu clacaindo-lhes das mãos. antes de irmão de armas eu tinha sido christão. como poesia de esta nota. Então orei a Deus por elles. Os dentes me ran- geram de cólera. as ideias de soldado e de vencimento conglobadas n'uma só. como tremenda e indeí — lével ignominia. aos seus assassinos. talvez a melhor das minhas pobres canções. estampada na fronte do que ia transpor os umbraes do outro mundo.ALEXANDEB HEBCULANO uma tanto cousa: que politica de poetas vale. e a lagrima envergonhada de soldado me mas escorregou pelas faces. no momento de expirarem. * A 1 Nao podemos explicar porque é que Herculano na ediç5o definiliva dos seus versos cortou todas as reíerebcias pessoaes. quantos valentes caíram n'esse dial Eu ia amaldiçoar os cadáveres dos vencidos.» A titulo um pouco despeitada. mor de enthusiasmo ao accommeltel-o. . e eu te devi então. já politicos. O Porto estava descercado.

Estava então aquartelado em uma casa do Largo da Fabrica (hoje Largo do Correio) . José Carneiro da Silva. mais do que a gloria das ar- mas presava tempo a gloria das lettras. conhecido afectuosamente entre estes condiscípulos da Universidade pelo Leitãosinho. sendo nomeado segundo bibliothecario. 2. Dr.° bibliothesal.*. Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo. e do estabeleci- mento do regimen parlamentar. e outros com quem cooperou na fundação da e Socie- dade das Sciencias medicas de Litteratura. apparecia de vez em quando n'este pequeno cenáculo Almeida Garrett. Branca. Herculano desde mais fora passado á segunda linha. Sr. Herculano. todos os espirilos comprehenderam a necessidade de reformar a instrucção geral do paiz. e impedido no serviço da Bibliotheca publica do Porto. que continua desde dando-lhe agua. 2 de outubro de 1833. seria causa cl'esla amputação de fado Rodrigo da Fonseca Magalhães. Em 5 de julho de 1833 eslava já a causa liberal triumphante. e Ânlonio Feliciano de Caslilho. eslJo no caso supposlo. O ronopimento com alguns personagens.— 264 HISTORIA DO BOMANTISMO KM PORTUGAL génio novo. coronel de 2. Mello. lenha. Aquartelará o sr. meio de se exercitar a liberdade e a mais inspirados. luz e cama. desenvolver o gosto pela leitura. e promover os hábitos da associação. Eiit o Boleio de aquarlelamenlo de Uerculano: n. Narciso José de Oliveira. a quem dedicou a terceira serie da líoso por ioinlellígivel nos trechos . e collaborou no Repositório litterario. Harpa do 1 Crente.* na rua dos Loyos. Depois do triumpho do cerco do Porto. — 13 de maio — Porto. Bernardino António Gomes. Tida da guerra fizera-lhe desabrochar ura era essa a poesia por onde devia de começar a transforma- ção da litteratura. António Fortunato Martins da Cruz."" «Rua do Largo da Fabrica."a> . 120 a 130. L. Herculano conheceu-o aqui de perto e foi o primeiro a julgar com justiça a influencia dos poemas Camões e D. cario da Real Bibliotheca d'esta cidade. na casa do contraste do ouro se encontrava com os seus Íntimos amigos e camaradas Dr.

rugindo nólo furioso Passou um dia. e depois reunida nas suas sessões em uma sala da Academia de Marinha a publicação de e Commercio * (hoje Academia Po- lytechnica). António Carlos de Mello e Silva. Pedro iv em 24 de setembro de 183'j. em casa do Dr. arremessando á lerra cedro mais frondoso 1 Repositório. Luiz offer- tou á Sociedade uma memoria biographica sobre Jacob de Castro Sarmento. José de Urcullu. mas primeira ediçJo. que viviam na maior intimidade. e Frei Francisco histó- de S. no meio dos seus trabalhos de organisação. 41. e João Pedro Ribeiro também contribuíram com algumas communicaçôes ricas para o Repositório. da Harpa do Crente.. de 1838. foi ommillida sem fundamento nas subsequente* edições. ^ inspirada pelo sentimento geral da morte de D. D. n'essa poesia acham-se tre- chos bastante eloquentes. históricos e rio. José Carneiro da Silva. inaugurada em 13 de de- zembro de 1833. onde se in- seriram os trabalhos dos sócios. A primeira redacção publicada do Repositório litterario diverge fundamentalmente da re- . vem com o tilulo D. Á Sociedade das Sciencias medicas e de Litteratura pertenciam Agostinho Albano da Silveira Pinto. 2 Na Pedro. e é uma d'essas A Elegia do Soldado. ALEXANDRE HERCDLAKO iniciativa 265 particular. António Fortunato Martins da Cruz e Alexandre Herculano. formada da Livraria do Bispo que abandonara a cidade á entrada dos liberaes. Herculano era então segundo bibliothecario da Bibliotheca do Porto. Fundou-se no Porto a Sociedade das Sciencias medicas e de Litteratura. a contar de 15 de outubro de 1834 começaram um jornal. Herculano contribuiu sempre com estudos críticos. o Repositório lilterario. p. com a cadencia solemne dos threnos bíblicos: Sobre a encosta do Libano. com poesias para o Repositório littera- Algumas poesias não foram mais tarde colligidas na Harpa do Crente.

. O final da Elegia traz suprimida a ultima estrophe que está substituída por do Oriente outros se voltem. . Fugisle. Envolto em maldiçòe?. subindo ao céo. em crimes. chorae lhe a morte! e — E dirigindo-se a D. Plante-se a acácia Eile foi Rei — o liberal arbusto : Junto ás cinzas do forte combateu lyrannos. . cujas variantes aqui apresentamos com referencia aos excerptos intercalados no texto acima: Pela encosta Plante-se a acácia. ouviu só queixas E um choro não comprado. Morreu teu vencedor. a prostituta. . Que eu pelo bello sol que jaz no occaso sol esta outra Para o Calor Cá ficarei chorando. Miguel. Folga com 03 hypocritas iniquos. ouviu só queixas em crimes. era susto. Folga. Fugiste. lança-lhe uma imprecação ultra- Nas orgias de Roma. 266 HISTORIA DO ROMANTISMO Assim te EM PORTUGAL sacudiu da morte o sopro tu sorrias Do carro da vicloria. . Envolto era maldições. Folga vil oppressor Folga com os hy|)ocrilas do Tibre Morreu teu vencedor. Nas orgias de Roma. o symbolo do livre . e luz buscando. É pena que seja desconhecida. desgraçado. vil cora teus sócios oppressor. Chorae. Esla poesia vem datada do Porto cm novembro dcl83i. miserável. Elle. daccSo de 1838. em susto. e que ande desmembrada das Poesias de Ilerculano.. Quando cheio de esperanças Filbo caro da gloria. E um choro lamentável. Elle subindo no céo. — que só veia a morrer a 14 de novembro de jante: 1866.

e a divisão do poema em um ou mais cantos. Não faltava poético e enthusiasmo pela liberdade. ALEXANDRE HERCULANO 267 O final da Elegia traz um traço pessoal que Dão deixa de ter hoje para nós um certo encanto: Eu também combali : — Das louro pátrias lides . Faltava littera- ignoravam-se as obras primas das outras Foi Alexandre Herculano o que melhor comprehen- (leu a necessidade de uma renovação do critério litterario.°: escolhidos pela Sociedade das Sciencias medicas e de Litleratura.. ^ • No programma dos assumptos 4. que não seriam tratados de uma maneira uma ::alisfatoria. p. nos versos de Her- culano estão as provas eloquentes de como a vida do sol- dado n'essa grande a critica.° «A tulo de aUm poema Historia das campanhas. lucta era já por si um poema.iro adulou Augusto Cantor humilde louvará «em mancha Depois da morte o justo. até do Usurpador e seus partidários. acha-se sob o n. . nenhum memsentimento bro da Sociedade de Lilteratura emprehendeu o poema projectado nos moldes de Pedreira. 3..° escripto em lingua portugueza com o tiO sitio do Porto. devendo ser o sr. Também coibi um prantear o companheiro extinclo Kâo me será desdouro. M. liiras. depois do desemá total aniquilação barque nas praias do Mindello. 2 Ibid. uos artigos Qual é o estado da nossa Lilteratura? — Qual é i fíeposiíorio lillerario. e portanto.» 5.» - O modo como estes assumptos estão formulados revelam o critério inferior que os concebeu. O poeta poderá escolher o melro que mais lhe agradar. Pedro o heroe do poema. Sagra a vileza adoração aos vivos. 23. sitio do Porto e mais feitos do exercito libertador em Portugal e Algarves. D. p.

e a este critério deveu Herculano a sua superioridade.268 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL * O trilho que ella hoje deve seguir? tica intitulados e nos estudos de esthe^ Imitação. ou. a historia e para a é por isso que em uma carta a Soares 1 Repositório litterario. Schiller O Cavalleiro de Torifjenbiirgo.» em nota accrescenta: «teremos occasião de apresentar mais ex- tensamente esta verdade tantas vezes menoscabada. ^ 71. . esquecida ou ignorada. a cujas obras Burger era familiar e de que mesmo traduziu alguns trechos. ás. Unidade. p. p. dos preconceitos e dos sentimentos das ultimas classes da sociedade. se pôde considerar como a histo» ria dos terrores e das esperanças. 3 Nas Poesias de Uerculano. Era a Leonor. 2 Ibid. A leitura de Homero. como a historia intellectual do povo. f>3 e seg. tim caracter de nacionalidade sem o qual nenhum * povo se' pôde gabar de ter uma litteratura própria. e é a elle e a Voss. que devemos a renovação d'este género inteiramente extincto na Europa depois do xvi século. além do bello de todos os tempos.» Aqui estavam as bases para a transfor- mação da litteratura. As ideias de Her- culano estavam ainda bastante confusas. o convenceu de que a poetro sia deve ter. p. por ou- modo. e a O exemplo fazia mais do que a Iheoria. Repositório litterario. de todos os paizes. mas o seu conheSchiller. o qual na collecçâo. 4 e 13. exprime o verdadeiro caracter da litteratura moderna pela obra do poeta allemâo: «JBurger empregou admiravelmente a poesia nas tradições nacionaes. p.. nSo vem a bailada de publicada no Repositório. publicada depois por Herder. Bello. Passado esse estado moral que lhe suggeriu tão bellas composições lyricas. a vida da paz levou-o do estudo das tradições nacionaes para polemica erudita . ^ cimento da lingua allemã e ingleza ievavam-no a traduzir algumas bailadas allemães de Burger e de imitar Lewis. um pequeno prologo com que precede de Burger.

mas a solução pro- posta para a reforma é capital: «Um Curso de Litteratura remediaria os damnos que devemos temer. escrevia: «Fui poeta até aos vinte e cinco anDOS. p.» * No ensino da Eloquência. . sugger*e tamponto de vista sensato. ALEXANDRE HEBCTJLAKO 269 de Passos. mas attribue a decadência da littera- tura do fim do século xvi e xvu ao abuso das metaphoras recebido da Itália. o logar da Bibliotheca e se fixou em Lisboa. quando em 1836 abandonou graphia. Para a primeira parte era-lhe indispen- sável fazer a exposição histórica da litteratura portugueza fal-a a traços largos. que só veiu a ser rea- lisado vinte e cinco annos mais tarde no Curso superior de Lettras. e so- moldou um plano rasoavel. e serviria ao mesmo tempo bre elles de dar impulso ás leltras. a sua paixão era a historia no romance e na mono- Entre as theses propostas para serem discutidas na Sociedade das Sciencias medicas e de Litteratura. Nâo admira esta débil comprehensão em quem tinha só vinte e quatro annos. que julga necessário para nm povo que entrou no regimen parlamentar.» Esses vinte e cinco annos estão com toda a sua pujança ua Harpa do Crente. bém um se fez uma compilação dos dis- cursos dos deputados da Constituinte «á maneira da que em França das orações dos representantes nacionaes * Râposilorio litterario.» Herculano já co- nhecia os cursos de litteratura moderna de Villemain. appareceu este assumpto: Qual o estado da vossa litteratura? Qual o trilho que ella hoje deve seguir? i Coube a Herculano o «en- cargo difllcultoso» de ralar por escriplo esta questão urinstitui- gente no meio da actividade da transformação das ções de um povo. 6. e foram completados no Porto. diz elle: «encontraríamos finahnenle o espirito de liberdade e nacionalidade da actual litteratura.. por esse meio.

No meio da transformação mental que se operava no paiz. deve actuar poderosamente na oratória! Assim aconteceu. 14. pelo abbade Corrêa da seus membros eslerilisaram-se no momento em 1 Repositório UUerario. podemos inferil-o da fundação de as- como a Sociedade de Sciencias medicas e de Lit- teratura.270 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL * desde o principio da Revolução. Este espiportugue- de . iniciativa era uma novidade nos costumes zes era o fructo das três emigrações do elemento liberal em 1823. os Duque de Lafões. res. Mirabeau. Sheri- dan. Mackintosk. a von- tade nacional no voto. i829 e 1831. Pitt. falseando a sua tradição revolucionaria conscientemente desempenhada pelo fundador o Serra. e a sua manifestação na maioria do parlamento. as reformas decretadas oíFicialmente precisavam da coope- ração de todas as energias individuaes e collectivas. p. Costa Cabral. mas o systema parlamentar era-lhe pouco conhecido. mas surgiram os grandes oradoEstevam. de Lis- boa. a Sociedade de Jurisprudência. nâo houve quem tornasse a achar o espirito dos revolucionários de 1820. rito e da Universidade de Coimbra.» ricas queria o Em vez de regras theo- exame dos monumentos de Demosthenes. Burdett. conselho era salutar. a Socie- dade dos Amigos das Lellras. a Sociedade de propagação dos e Associação dos Advogados. José em concessão perpetua com a monarchia. Conhecimentos úteis. os estabelecimentos iitterarios propunham as suas reformas. do Porto. os Passos. e bem se vê que Herculano ad- quirira pontos de vista novos durante esse anno tormentoso da emigração. Burke. Cicero. . o que os indivíduos faziam sociações. discutindo os professores a reorganisação da Escola medica do Porto. Canning e Fox. Uma corporação pjersistiu na estabili- dade. a Academia Real das Sciencias de Lisboa. Um systema em que tudo se sophisma.

in- * 2 Nas Fabulas Repositório litterario. em que collaborava o in- signe João Pedro Ribeiro. Miguel official á concedeu uma recepção interior Academia graça especial permitliu que entrassem para no palácio. Cousa estupenda ideia. 23.ALEXANDRE HEBCULAlíO 271 que procuraram viver do favor oíTicial. . mas contigua áquella em pezo. data zurrar. pelo a circulação menos. escrevem Herculano e José Carneiro: «o fim do auctor foi ludibriar uma fracção d'este corpo respeitável. e o faria de uma epopèa se não se achasse empenhada em sair da palavra a^íírrar (o hrairc da — — lingua franceza) na qual desde longos annos amuou. e por uma sala mais em que costumaI vam ser recebidos os académicos. e de 1818. Discutiu-se por muito tempo a inscripção latina e a allegoria. e depois de mil vacillaçôes appareceu a medalha gravada pelo francez Dubois. que nem sabia escrever o seu nome. Miguel como legitimo monarcha e a tomal-o como seu protector. p. ^ da anedocta: A Academia ficou a No fim do artigo chasqueando a medalha da Aca- demia. e de Trigoso. proteslou-se contra esta bajulação da inépcia: «D'esta futilidade de fez a Academia o assumpto uma medalha. o segando inlitula-se Pelo zurro o burro. em i829. No Repositório Ullerario. e já succumbia á sua degrada- ção interna: a Academia das Sciencias adheriu ao obscu- rantismo sendo a primeira a reconhecer D. assignando as sentenças de morte com o horriílco gatafunho AJigel! D. e Contos de Garrett. Elle. de António Caetano do Amaral. Ainda era vivo o grande medievista portuguez João Pedro Ribeiro. A Aca- demia teve uma mandou cunhar uma medalha para perpetuar essa insoUtum decm. o fundador da critica diplomática. * tenfacto tando compor o Diccionario clássico da lingua!» De o primeiro e ultimo volume publicado do grande Diccionario da Academia acaba na palavra azurrar. ainda a Academia das Sciencias era respeitada pelos trabalhos doeste.

ter- minada guerra civil e logo que a desejada paz começasse a sarar as profundas feridas de tão sanguinosa e profiada lucta. . ousou tecer criminosa e ao uma pagina mesmo tempo * ridicula para a historia d'a- quella Academia. e digno de formar parte que amparada pelo estúpido poderio do governo d'essa época. se podesse offerecer á mocidade portugueza uma in- strucção regular e methodica e ao par da instrucção euro- e n'elle se descreve cora as cores as mais picarescas a Academia Real das Sciencias de Lisboa : Que Quanio Ob quanto deus maligno Inimigo de guapos académicos produções.. 45. Quanio seria mais. que produções seria maií. e fora bem con- veniente ter sido já de antemão preparada. Das — Obras de Garreífy ^ t. Em i834 o ataque a esse reducto do pedantismo tinha ser. e é — também a necessário que seja prompta . grossos. p. Deixando só memorias e memorias .. quanto fulgira Em gordos. Repositório litterario. Se os novos sábios no começo á erapreza. p. 24. mas foi-lhe impossivel incutir vigor a essa estabilidade filha da apathia idiotica. . grandeá calhamaços A portugueza. Não encontrassem por desgraça nossa Co'um pérfido azurrar zurrar maldito!. uma rasão de sarcasmo que se podia estimular. e era peio isso.. 272 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL d'elle. A reforma pois da instrucção publica é necessária.» Passados annos Herculano veiu a ser vice-presidente da Academia. magestosa lingua. xvii. se ! um Ires que Deus nos deu potencias d'alraa Lbes não sacasse duas â surrelfa. lê-se este bello princi- «Ha cento e quarenta annos que Leibnitz disse que aquelle que fôr senhor da educação pôde mudar a face do mundo. A antigas manhas não perdendo o allinco. para que. hoje nem Em um artigo de Agostinho Albano da Silveira Pinto Sobre a instrucção publica pio: em geral. Ficaram no azurrar sempre zurrando.

nunca mais estudou e apresentou o a publicar phenomeno do estacionamento inlellectual. e a ambição politica do parlameiílarisrao absorvia todas as vocações. 9. p. 18 .. 2i6í(i.ALEXANDRE HEBCULAKO 273 instituições pèa. empregado publico.» Para fazer as reformas era preciso estudar. porque quando ção do um dia se deixou levar lambem pela ambição politica e se retraiu pelo despeito. a qual tem de ser o apoio mais flrme das * politicas . O piimeiro estudo é uma noticia de uma recensão mais antiga do livro de Duarte Barbosa. total elles poderam escapar de um naufrágio á força de incessantes cuidados que se lhes dedicaram. —Salvos por assim dizer no meio do estrondo das armas. Herculano achou-se por . da qual constituem uma das grandes ri- quezas.. talentos. No Repositório littcrario começou Herculano «ma noticia sobre os Mufníscriptos da Bibliothvca publica da tarde tanto influiu cidade do Porto. em (jue appurece já o lypo dos estudos históricos e biographicus com que mais para a popularidade do Pamrania. Em um pequeno preambulo re-se ainda aos passados dias do cerco: «Os manuscriptos que se encontram n'este estabelecimento nascente. já formam uma collecção preciosa. que o saber especial com que mais tarde se revelou na redacPanorama e na Historia de Portugal. Espalhados por dilferentes partes se reuniranj n'esta Bibliotheca. apoderava-se dos. Esta orientação dos cé- rebros passou de pães a filhos na forma da única preoccu- pação dos que estudam d'este prurido geral — ser vida no Porto. 110.. para ser comparada l»iiblicado com o texto de 1358 refe- por Trigoso.» ^ O segundo estudo versa sobre as Ghrouicas manuscriptas * Repositório liiierariOf p. Póde-se dizer. de 1529. Na sua algum tempo fora ai foi aí que teve a concentração para os adquiriu primeiros estudos históricos.

e que até hoje têm influído sempre na transformação da sociedade portugueza. a geração portugueza afundava-se na imbecilidade. 142 e luO. e não obstante o immenso trabaliio de organisação riu a histórica.274 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL de D. depois da estincção das ordens monásticas.. É esta uma phase ia nova que convém historiar. se achava n'aquella Bibliotheca. p. Ckcumstancias imprevistas o embaraça- ram. e na qual Herculano ascen- dendo intellectualmente. Sebastião *. sema abolição dos frades. foram as duas únicas medidas radicaes que o systema constitucional executou. citado por Barbosa Machado. cujo original. foi n'esses três annos que Herculano adquia melhor parte do saber que determinou sua vocação Foi em uma Bibliotheca que o insigne erudito Muratori pôde levar a cabo os seus espantosos trabalhos de erudi- ção medieval. . achou-se envol- vido nos ódios e despeitos políticos. a sua nomeação para as Bibliothecas da Ajuda e Necessidades a veiu restituir-lhe as condições indispensáveis para re- construcção histórica que se tornara o ideal da sua vida. e determinação do manuscripto de Frei Bernardo da Cruz. A abolição das Ordens monásticas e a extincção dos Di- zimes. e o regimen liberal caía por não achar apoio 1 JHd. invadido por elevadíssimos importunos que o queriam honrar tirando-lhe o tempo. quando um dia Herculano por uma intransi- gência politica se demittiu da Bibliotheca do Porto. Fructuoso titulados in- Monumenta rerum mamorabilium ah anno 1569. Para a Bibliotheca do Porto fez recolher Herculano os principaes thesouros litterarios da hvraria de Santa Cruz de Coimbra e dos mosteiros do Minho. Herculano contava examinar uma serie de apontamentos manuscriptos do cruzio D. peado com as transi- gências do paço. mas faltava-lhe já a tranquiUidade moral.

Se ndo treme ante as nuas caveiras . da exlincção dos Foraes. n'um momento de resolução D. e Joaquim António de na imprensa á sua composição e impressão. sem que isso os seus collegas do ministério o soubessem. mesmo Pedro jaez. Pedro da extincção das Ordens Aguiar assistiu iv assignou o decreto religiosas. . Pedro iv ao elle Marquez de Re- zende se que havia de dar liberdade a este povo. Depois de lavrado o decrelo que é a gloria de Joaquim António de Aguiar. não queria que se extinguissem as Ordens religiosas. Que insepultas verá branquejar. que nistros de revogada por mi- uma aristocracia reaccionária. onde mostra o monge dirigindo as carnificinas da lucta fratricida: Caia em pó o Mosteiro e maldilo O que erguel-o ouira vez inlenlar. se os frades seriam ou não postos fora de Portugal. esses sophistas do constitucionalismo eram o ardiloso Palmella. esteve para acon- tecer á lei que extinguia os frades. ^ Manuscriptos depositados na Academia das Scicocias. * que não queria saber o que A victo indecis^ão no espirito publico. não se comprehende como empregou o seu estvio poético fazendo reviver o scnfimento de saudade pelas Ordens monásticas. Foi n'essas iv adquiriu a hy- perthrophia de coração a que succumbia em poucos mezes. isso era. o interesseiro Saldanha. sem a abolição dos Dízimos o trabaliio continuava com o caracter de servidão ecclesiastica. 2 Depois d'estcs versos eloquentes de Herculano. o Conselho de Estado recusou-se a approvar o decreto. revela-sé n'este protesto conde Herculano O Mosteiro deserto. carta de D. 200. e outros do luctas contra as perfídias qfié D. 2 Poesias. É por que em uma lè. \). que era a foi lei O que da li- aconteceu á lei bertação da propriedade territorial.ALEXANDRE BEBCULAKO 275 nas consciências.

Em 1834. Herculano foi mandado a Coimbra para proceder á arrecadação da opulenta Livraria de Santa Cruz. ^ como o seu único amigo. e o alimentar o falso ideal do monachismo a um povo atrophiado por elle elle era vinculal-o para sempre a esse esteio do obscurantismo. p. giosas. que chilreava em uma gaiola.» * Em outro pequeno artigo os Egressos. expropriação de thesouros do culto. Estava-se n'esta indecisão sentimental. 149. o paiz estava extremamente pobre. l. e a anedocta de ter ficado no convento oitenfa annos de edade. D'este facto dá elle conta no seu artigo a favor dos MonuCoimbra em 1834 obrigações do serviço publico. A obra sentimental de Herculano. . 21. Mas. Residimos ahi quando foi supprimido o convento de Santa Cruz. p. um frade entrevado sair re- com quando o mandaram ir. I. para que? Para a camará o arrasar e fazer uma praça. leso. a que ces históricos. Herculano declara que saiu apres- sadamente e que não pôde reter as bagadas de pranto. II. l. a imaginação do povo portuguez tanto precisava esquecer esses bonzos que o ha- A hquidação dos bens das Ordens relir. o octogenário passarinho.. bibliothecas objectos de arte de pintura e escul[)lura. e os que 1 Opúsculos.276 HISTORIA DO BOMÁKTISMO EM POBTUOAL Era uma d'essas contradições Ião frequentes nos caracteres que não possuem uma disciplina philosophicã em que apoiem as suas opiniões. fez-se de um modo tumultuado. leve o grave defeito de chamou romanideaUsação do uma monachismo no momento em que viam bcstialisado. Herculano relata a retirada dos monges de Santa Cruz. para casa de um algum amigo. 2 Ibid. spondeu que estava apontou para que não tinha para onde quando lhe retorquiram. Correu então a noticia de que se pre- mentos: «Levaram-nos a tendia pedir ao governo que esse bello edifício fosse dado ao Municipio.

que deu em chorar os frades nos seus versos e em prosas poéticas. As leis de indemnisação provocaram coníliclos. a expansão sentimental communicou-se em fervor. Como poderia dirigir o sea tempo? 2 Panorama. Herculano. e os templos veneráveis da Edade Modia te derrubaram para em logar d'elleà se alevanlarcm salas ou armazéns. p.) . sem nunca * saí- rem d'entre o bulicio das grandes cidades. ticos. Era esta a ideia fixa do espirito de Herculano ao tratar da educação publica. p. porque esse despreso dos monumentos provinha de que a nação ignorava a sua historia. Portanto em vez chitectonicos. 2. i. onde nada respira uma ideia religiosa. vol. Esta seria a direc- ção scientiíica . de um brado de sentimentahsmo patriótico. que actue por um cri- tério justo sobre a consciência da nação. de mais ou menos âmbito. Herculano queria a reforma e não a extincção dos frades. e os brados patrió- permaneceram elle estéreis. Foi isso o fez. l. crystalisou-se ticos em phrases feitas. para a ordem dos Benedictinos devia ser poupada: «Ainda hoje não ousaremos affirmar que a sua conservação fosse inteiramente desvantajosa: deixaremos decidir esta questão gravíssima por aquelles que. porém onde nem uma pedra falia do passado. que se agrava- ram com a revolução chamada de Setembro. com as theorias dos polí- Foi por lisongear estes sentimentos de espíritos fa- 1 «Os velhos mosteiros do Minho o da Beira eslâo ha rauilo convertidos em casarias semelhantes a alojamentos de soldados. contra a estupidez lição que os entregava * dos municipios provinciaes. e que se não de uma um simples resumo Historia popular de Portugal. ao ver os frades deixarem os conventos. e das questões philoãopbicas ou politicas. mais força teria ainda hoje não existe uma simples vulgarisação da historia nacional. 212 (1837.» Panorama. reclamou com energia a favor dos monumentos ar- á demoMas o brado nunca foi ouvido.ALEXANDRE HERCULANO 277 haviam batalhado pela liberdade queriam recompensas.» culano põe aqui em confronto as lagrimas do povo. i. julgam os monHer- ges dos campos pelos frades viciosos das povoações.

2 3 Ibid. a figura do passado.» A sociedade nova é que era as- sassinada pela velha sociedade do monachismo e do absolutismo.» dito é a substancia «O que levámos tade de do que temos escriplo tirado senão dois annos. Md. . nos criminaram de obscurantismo. 111. Herculano inverteu as condições do phenomeno. t. Pedro iv elle fora a a causa da reacção absolutista de i824. agora tirava partido dessa mesma Carta para se acobertar com ella e monopolisar a 1 Jbid. Elle descreve esta situação inter- média: «Reprehendendo o passado em mos taxados de impiedade: affrontando-nos com o presente * em ha seus desvarios. já nas imagens dos romances. 115 (1839. o Duque de . torelle nando-se sempre descontente. que Herculano começou a exercer a sua primeira influencia moral.» D'aqui um caracter exacerbado.) G7. p. em uma época de trans- condemnados estamos ^ deixar escoar a nossa vida no meio da lucta da antiga sociedade que morre e da nova sociedade que assassina. Pedro iv. fo- campo temiam-no.. Depois da morte de D. como sa: «nós. p. que só precisava ser posta na evidencia do processo histórico. t. e de que não havemos má von- homens exclusivos. m. e os do seus absurdos. elle julgava complicando o presente que precisava transfor- mar-se apresentando-ihe já nos protestos do iibello.. postoque nos fique a paz da 2 nossa consciência. próprio o confes- homens de velhos hábitos a e velhas ideias (sômol-o ainda que o não queiramos acreditar) ição. Palmeila era o senhor do machinismo constitucional tada por D. occultando Carta decre- em 1826. e insensivelmente se achou do partido da que victima.278 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL natisados que se achavam perturbados com o golpe funda- mental do ministro Joaquim António de Aguiar. os do campo liberal absolutista d'onde saíra poupavam-o.

e a minavam para marcha dos negócios era impossivel um ministério que não pertencesse á facção. cujos indivíduos se mesmos artigos da Carta constituciona camará dos pares tinlia-se crcado uma maioria presença de a si em feito dos seus Íntimos . o mesmo acontecia no Conselho de Estado. um movimento a re- Ninguém conspirou. uma facção. .ALEXANDRE HERCULANO 279 poder. as maiorias dotudo. foi um a'cto espontâneo da população de Lisboa o seu íim principal era aniquilar a facção que nos dominava.. demilte o ministério popular desembarcar da esquadra ingleza surta no Tejo uns setecentos soldados com que procura defenou Setembrista. de 24 de janeiro de 1837. e nos logares do poder judiciário tinham investido pela maior parte creaturas suas. Em 4 bristas.. a rainha foge do paço das Necessidades para o paço da Ajuda.. . e não comprehendia cousa alguma do regi- men liberal. mas ^ como ella tinha feito da Carta constitucional (de 182()>um escudo ao abrigo do qual escarnecia de toda a força moral. e que provocou a revolução de 9 de setembro de Taipa na camará dos pares: 1836 resume-se n'esta3 palavras proferidas pelo Conde da «A experiência tinha mos- trado que era impossivel sustentar-se qualquer governo patriótico tinliam nal. era preciso ferir o escudo para ferir o fim: a revqlução re- vogou a Carta constitucional. Todos os amigos da boa ordem viam com pesar que revolucionário era necessário. (Sessão de 21 de janeiro . representadas na força moral dos Setem- entendeu que devia impòr-se á nação tornando os Cartistas (partidários da Carta de 1826. e ella de novembro de 1836. : volução de 9 de setembro appareceu pela força das cousas. a facção" de Palmella intimidou-a com as exi- gências do povo. A situação politica começada com o parlamento de 1834. Maria ii era facciosa. e faz 1 Diário do Governo.» * A joven rainha D. da facção Palmella) os favoritos da independência do tlirono.

morto. gundo onde se fixou de vez. Pedro A Carta de 1822 era mais liberal e prestava-se a servara com foi a menos sophismas. e glorificando os grandes miseráveis de avidez sór- dida e de paixões sanguinárias. com as foi ella mandada ju- rar em todo o reino em substituição da Carta constitucioiv. dizia lar o para não vio- seu primeiro juramento. Os como Mousinho da Silveira. viam n'estas luctas de facções partidárias o gérmen de dis- . A nação estava n'um gráo bem Ín- fimo de inconsciência animal. Era um estado transitório da pratica do systema sem raízes tradicionaes nas instituições portuguezas. Edgar Quinet. soffreu tudo adorando a sua rainha. foi que se potismo aggravando até descambar no mais franco des1842. e e.se. nal de 1826. que a cidade lhe deixou a impressão de um povo uma rainha saída do tumulo como continuando a sorte de Ignez de Castro. e partiu para Lisboa. a opinião exercía-se na forma de sedição. dada por D. quando entregou a nação ao arbitrio do em seu valido Costa Cabral.280 der. como se obde 1826 nas mãos de Palmella. que se adaptava artificialmente á nossa vida nacioespíritos mais lúcidos. que hoje figuram no nosso pantheon constitucional. HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Era uma doudice da mulher boçal e mal aconselhada. a polemica tomava o caracter de accusação. que passou por este tempo pela cidade de Lisboa. e os partidos perseguiam-se entre si como se o decahido esti- vesse fora da lei.n vez da discussão franca e da modificação das opiniões. governado por diz nas suas Vacances en Es- pagne. Alexandre dos funccionarios que não quiz jurar a elle. como esti- mulo normal do poder. Herculano um Carta imposta pelos Setembristas. e nal. 4836 fizeram restabelecer a Constituição de 1822. Depois que os homens da Revolução de Setembro de modificações que as cortes lhe fizessem. requereu a demissão de sebibliothecario. N'esta primeira pratica do regimen parlamentar ainda se não conhecia a necessidade das opposições.

. com nada percebeu do que se passava e protestou contra a abolição da Carta de 1820 com dois folhetos intitulados a Voz do Propheta.. Na poesia A volia do Proscrípto. achou todos os mesmas impressões: Conta. . em pequenos períodos imi- tando a linguagem biblica. sítios.se que o seu amor fora trahido E que mirrado achou de amor o myrlo . usa esta forma dythirambica. (que Castilho por este tempo traduziu do francez) e Livro do Povo. Eis o dia da ventura! . Herculano.. descreve essa nova situação da sua alma. Ibid.. S07. na poesia Felicidade. e repetia-se. mas modelados sobre os escriptos revolucionários de Lamennais. e vigorosamente poeta. tão expressiva: Eis IS plagas da saudade Eis a terra de seus sonhos. A chamada Revolução de Setembro produzia em Herculano um desalento moral. p. 206. ^ O proscripto. mas não as como o Dirceu das Lyras. Ris a fonte qne murmura Eis o céo puro da pátria . apenas \inte e seis annos de edade. Eis os gestos tão lembrados Eis os . * Herculano como verdadeiro peninsular consolou-se da decepção inesperada idealisando novos amores. esse estado sentimental é só o que se acha na biblica fez A prosa impressão sobre os conservadores Cartistas. I campos tão risonhos Eis da infância o tecto amigo. Palavras de um Crente. creu dos destinos da pátria. ALEXANDRE HERCULANO 281 solução do systema constitucional. p.. . em prosa cadenciadn. que lhe Poesias. veiu então para Lisboa o nome de Herculano em fins de 1830. . e pela primeira vez desVoz do Propheta e mais nada.

e $19. introduzido no código. do pobre. teve a sua hora de ambição. Herculano redigiu-o apenas alguns mezes. Quem virá a minha harpa acordar. . veiu a casar catliolicamente com D. Serás tu. oh milagre de amor! . 220. p. 2 Ibid. e só quando em 1867 o auctor do titulo do casa- mento civil. eu te acbei. isto 1 Poesias. * Seguem-se a estas outras eslrophes egualmenle apaixo- nadas. serviu o seu grupo. Marianna líerminia Meira. da ventura. em que o governo se defendia. o seu tiklio politicos entre Setembris- por esses confliclos não o ac- commetteu de repente. oh liilia dos céos. Em fins de junho de 1837 foi-lhe confiada a redacção áo^Diario do Governo. era um jornal de discussão politica como qualquer outro. ambos sexagenários. eras tu que eu sonhava tu quem cu já adorei. até que deixou ir para diante a bacchanal. cantor. Eu direi ao Senhor : lu m'a deste Em ti creio por ella. Adorando-te. virgem pura dos campos.. emfim. transcrevemos esses traços au- tobiographicos Mas. . oh meu Deus !» 2 Para Herculano o amor fora um motivo de idealisação no melo dos disparatados conQictos tas e Cartistas. esses amores foram longos annos envolvidos no segredo. é que se pôde bem explicar a verdade d'esta estrophe: No silencio do amor. p. que então não era o órgão da publicação official dos documentos legislativos. meu consolo Eu te achei. 282 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL durou até ao fim da vida. Quando aos pés da mulhçr enganosa Meu alento era canções derramei. Outra vez vibrará um suspiro No alahude Eras Eras tu.: . Se na terra este amor de poeta Coração ha que o possa pagar.

do Porto. e aquelle em que influenciou no espirito por- tuguez. acha-se inscripta a assignatura do Penny Magazine. fatiando dos periódicos inglezes. José de Urcullu. como semanalmente. apaixonando-o pelo seu passado tradicional e histórico. No Panorama. explicar-se pelo facto da queda do ministério setem- em junho de 1837. Era um fructo da emigração. Foi este o seu período fecundo. então em grande voga em Inglaterra. p. numero de exemplares (200:000) que deve excitar a admiração geral dos nossos leitores. que se bem como no Museu piltoresco. reproduziu-se typographicamente as formas do Penny Magazine. Este jornal teve tugal na época do uma grande livro influencia em Por- Romantismo. faz esteja fora da politica. no Repositório litierario.» * 1 Repositório liíterario. 80.ALEXANDRE HERCCLAKO 283 pôde brista ciaes. no das contas da So- ciedade das Sciencias medicas e de Lilter atura. provocando-lhe o respeito pelos seus monumentos e a admiração pelos seus escriptores esquecidos. é que Her- culano disseminou os elementos que lhe deram mais tarde esse extraordinário poder espiritual que exerceu inconscien- temente sobre distribuía a nação portugueza. . N'este periodo. propagador de Íitteratura entre o povo. cito. consta de 8 paginas tas gravuras abertas com bastante delicadesa em 4/ com muiem páo. do Porto. e em um artigo de D. que começa em 1837 com a fundação do Panorama pela Sociedade propagadora dos Conhecimentos titeis. escreve: «Resta-nos dizer alguma cousa de ^tligioso um periódico que pela sua baratesa e prose publica. que teve principio no dia 31 de março de 1832. e se entregue A com que Herculano totalmente aos trabalhos de íitteratura. até 1839. e se publica todos os sabbados por 20 réis cada numero. acompanhada de revoltas par- conspirações de despeitados e movimentos do exerpersistência do governo setembrista. Este periódico é o Pennfj Magazine.

A fusão dos dois partidos temporária. taes como os chefes Manuel da Silva Passos. Maria ii um pouco mais desafogada na sua soberania discri- cionária. como se vé na Época. A sua saida da redacção deve buir-se á participação mais activa que tomou na politica militante. Ar- chivo universal.° 115. os Cartistas faziam-se valer por este favoritismo do paço. Semana. Casada então com o príncipe allemão D. 1 ^ N'esle meio Herculano nada tinha a fa- 2 Panorama. in.284 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL O Panorama reproduziu materialmente em Portugal o Pennp cli- Magazine. e a este facto se deve atlribuir a eleição de Alexandre Herculano como deputado foi pelo Porto em 1840. hlterario tal ficou até hoje o lypo do jornal em Portugal. que Herculano saiu nomeado por D. t. Foi por real das suas livrarias dos palácios tanto em 1839. mas continuou a contribuir sempre para atlri- essa interessante revista durante as duas séries mais notáveis d'essa publicação. p. e a rainha D. e na parle das gravuras serviu-se dos velhos chés do jornal londrino. Acerca d'esla época. * da invenção Herculano foi redactor do Panorama até ao n. fez-se Em 26 de novembro uma liga ou espécie de fusão temporária entre os Setembristas e Cartistas. Pela liga de todos os elementos reaccionários caiu em 1839 viu-se o ministério setembrista. mas do lado dos Cartistas estava a argúcia e a violência material. escreveu Herculano na Carta sobre a Propriedade . Almeida Garrett e José Estevam. este não podia olhar com indifferença os partidários da independência pessoal da rainha. que então se perseguiam cortando-se mutuamente os viveres. do lado dos Setembristas estavam os principaes oradores. Herculano considerou esta graça como tendo-o posto cia a coberto nos seus meios de subsistên- das vacinações dos partidos. Fer- nando bibliothecario da Ajuda e das Necessidades. 2i1. Revista universal lisbonense e Archivo pittoresco. Fernando Saxe-Cobourgo. Estes moldes balidos esterilisaram-se pela atrophia iitteraria.

Tinliam-ihe os seus correligionários promettido a creação de blica. e isto por argumen- tos bistorícos: «Este estado indicava até onde a reacção po- camará dos deputados na legisapresentado um projecto de lei sobre aíjuella matéria. ii. e no seu zelo por fazer passar uma providencia. 5.*. que devem perdoar- nos. Pertencia éu á minoria da camará. dos srs. d'onde resultou que em 184! Herculano abandonou para sempre o parlamento. o ultimo dos quaes reluclou antes de acceder aos desejos de v. a Posteridade á nossa me- moria.) Herculano entendia que bastava uma re- forma nos frades. finceraraente o creio. que. não sabia fallar 285 em publico. ex. extremamente raro. com a audácia de estudante de Coimbra. V. rccordo-me de quatro. linha .» (Opuc. elle preoccupa-se outra vez com a questão das em Portugal: «De- pois. que só pensava em fusionar os partidos. ex. ex. e nós os homens do povo batemos as palmas — digâmol-o em boa consciência Ê por isso sem saber o que fazíamos.» (Pag. e quando o tenlou pela primeira vez estribando-se nos seus apontamentos. e um ministério de instrucção pu- Rodrigo da Fonseca Magalhães. O clero ílcou litteralmente aniquilado. em vez da extincção. Este chegou. I)'entre os indivíduos com quem v. e a cólera po- pular foi cega e bruta como são todas as grandes cóleras. COJ lUteraria: testando eu e v." latura de 1840. (propriedade lilteraria). e a enlhesourar a sua má von- tade para o dia da vingança." (Garrett) na v. Soure. Ferrer. O Clero por tiiguez. para que mio a fizéssemos a esse projecto sobre que ia delibcrar-se. as gerações continuaram a dar o preço do seu suor para as pompas do clero. não attendeu ao seu comprommisso. reputava útil c justa. ex. ex. ou dissolvendo-os com favores ou ra- ptando-lbes as principaes individualidades. Deus á nossa inlelligencía. José Es- tevam. publicado Ordens monásticas em i841 por Herculano.» tratou o assumpto. Mareca e Seabra.— ÁLEXASDRE HERCULAJTO zer. ficou despeitado No folheto. soltou-ihe o terrível aparte: «Largue a cebental» Herculano callou-se e não pôde proseguir. e da politica." teve a bondade de fallar commigo e com outros membros da opposiçao.

ii. condemnane cheio de pezadas do-o a viver das esmolas da côngrua. no opúsculo do Clero portiiguez. e ao contrario de Chateaubriand deslumbrado pelas egreja. Nao se atrevendo a pronunciar-se sobre a questão dos Dízimos. o templo do Crucificado cairá em rhinas. é hoje philosopho. voltou-se para o typo descripío por La- pompas da raartine nos Deveres civis do Cura. cava assim os inimigos selembristas.. Ai dos que abominam a cruz. cuja essência não era se- não o resumo da perseguição etc. i5. o mais forte da sociedade. — Então appareceu uma mas feita lei. Herculano idealisava então o christianismo sentimental. reformal-as era dar-lhes força para nos atropliiarem mais. por causa do regulamento do jornal. que vós nastes. y> (Ibid. As conclusões do opúsculo emphatico lano. o sacerdociOy desapparecerá. se as Ordens monásticas persistissem. onde havia democra- .» anteriormente ao clero ata- Abraçando esta causa poética do clero secular. 283 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL pular devia chegar a'esta parte. quando sobreveiu a Revolução de 1836. p.. porque a cruz é eterna. indicava que era necessária uma reforma e não uma nhum progresso poderia aniquilação.) Ne- introduzir-se em Portugal. entende que essa suppressão do rendimento eccle- siastico foi ferir os interesses do clero rural. desenhava com ternura o typo dos parochos ruraes.) Senle-se aqui outra vez o tom cavernoso da Voz do Propheta. d'aquella philosophia da ignorância e de corrupção. vestidos de estamenha grosseira como um verdadeiro operário da granja religiosa. latra figuras bíblicas. revelam a falsa direcção mental de Hercu- que impreca assim contra os políticos: «o povo. mas a nação ficará esmagada debaixo d'ellas. idó- ha dois dias. d'esses cérebros boçaes diz: «a classe mais respeitável do nosso paiz morria litteralmentc de fome. p.» (IMd. — Se continuarmos lio e só vós lhe ensi- a caminhar assim por esta estrada de perdição. no Panorama.. cujo fim parecia remediar este mal.

Ora. por mais mal que alguém . de vergonha com que os podepolitico. Foi n'esla corrente clerical de idealisaçSo que em 1844 veiu a escrever o pequeno romance Aldina. Pedia ao António. porque não havia ideias. António Bernardo da Costa Cabral logo em 184^ appellou para a força bruta. A marcha dos acontecimentos politicos seguiu o seu rumo disparatado.ALEXANDRE HEBCULAKO / 287 tas e livres pensadores. Se ainda reinassem os Cabraes. acerca da necessidade de pedir a favor dos inundados de Vallada: «Pedia a todos os governos possíveis. e que só pôde ser derrubado por meio nome de de uma revolução bastante séria 11 em 184G. é que levou Herculano a fazer sentir a sua falta reclamando a favor dos tos monumen- abandonados. Mais: pedia ao José. até a esses pedia. os Cartistas torna- ram-se Cabralistas. ninguém se entendia. restabeleceu a Carta de teiro I8Í2J6. do Parodio da licismo o em que fez pretende fazer para o cathoo Vigaria de Wakefield na que Goldsmith com família protestante.. começou a exercer então sobre o paiz in- um systema de pressão que ficou na historia com o Cabralismo. em Torres Novas. e a tomar os monges como os lieroes principaes dos seus romances históricos. e pela res públicos. Como o valido de D. dando o extraordinário espectáculo de ir ao Porto como e ministro revolucionar a guarnição militar. Maria perseguia duramente os Setembristas. A preoccupação saudosa dos frades. póde-se inferir por este trecho Do que foi de uma carta de Herculano escripta ao fim de trinta annos. ríodo é A historia da vida nacional d"este pe- commovenle pelo estado de falta cretinisação em que se achava o povo. sem critério algum reclamavam a in- tervenção estrangeira da Quadrupla allíança. Seguro da força e do favoritismo da rainha. que sempre desconfiei que fosse o peior dos três. que já estavam iden- tificados com a nação portugueza. este systema. que se haviam insurgido. Mais ainda: pedia ao João.

para quem a melan- cholia romântica tomou foi a forma do descontentamento. EUe a creou para mim espontânea e generosamente: espontânea e generosamente m'a conservou. n° 1.» trinta annos. porque sou navegante assas rude e inhabil das tempestades. Quando Herculano veiu para Lisboa em 183G e tomou conta por alguns mezes da redação do Diário do Governo.s trabalhos lilicrarios o nio occupcm. 1 A Renascença. Foi durante estes quatro annos que reuniu os materiaes. 51) li promoLlendo a sua collaboranio quando oulry. devo-a a sua magestade el-rei. elle também tdtra na appreheasão <Je perseguin'este ções á sua pessoa.» ^ Qm evitar com arte a fúria Por aqui se vê que durante esses terriveis quatro ana coberto nos do despotismo cabralista. 3 p.) 2 Hist. i.288 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL pense dos ministros actuaes. xiv. Na Ulustrarão. * Tal era a impressão d'esse tempo ao fim de Da «situação tranquilla em que se collocado» escrevia Herculano na advertência da sua Historia de Portugal: aEsta situação vantajosa e excepcional. de 1853 converteu-se em outra ailusão egualmente tene- brosa contra os que truncaram a sua actividade histórica. e raelleu mãos á obra da Historia de Portugal. de Portugal. a despeito de mais de tima proccUa violenta.» (Fag. ^ que o fez abandonar a politica. Porlo. (ISíG. joniul lilterario de 184I>. 1878. diz que só ura caso o fará faltar á promessa. Yillemain viveu como Herculano estado psychologico. que tem ameaçado afundar o meu débd esquife. a que allude aqui de um modo depois vago e mysterioso. Herculano esteve com o favor do paço. espécie de vesânia hereditária iransmittida sob o terror do regimen absoluto. . tom. Iraz Herculano uma caria em (jue acccnlúa esta se^'unila phasc (\q (les[)cilo: «não mo imporia o que vae pelo mundo social. Cheguei a obler a Iriále Iranquillidade de incrédulo politico. a procella violenta. ninguém de certo os compara com via aquelles amigos. em quanto a geração que lhe succedeu seguiu o UlLra-Uoniantismo. e é ee a IIlustraçáo ge tornar politica. Era uma natureza poética e violenta.

*' 5. conhecia franceza. p. se acha falha- rem repetidas vezes as noções mais elementares de tudo quanto não ò objecto do seu especial estudo. falta O nosso povo ignora immensas cousas que muito lhe imde instrucção senle-se até nas portava conhecer. achou-secom bastantes recursos pecuniários. que motivava o esforço iiteis: «A na- uma das que menos tem seguido este movimento progressivo da humanidade. e a sciencia em Portugal está ainda longe de ter aquelle caracter de uni- <lade. taes as Uejlexões sobre como.ALEXANDBB HERCULANO 289 não achoQ logo as condições para o desenvolvimento da sua actividade litteraiia. n. e a Vida do Cardeal-Rei. Herculano estava então em todo o seu vigor inlellectual. 1 que ganha diariamente no meio das outras nações. sabia inglez e allemão. 63. patrocinada pela rainha. e emprehendeu a obra da elevação do nivel intelleclual do paiz. A Sociedade dos Amigos das Lellras.» 2 do Jornal àa Sociedade dos Amigos das Leltras. 19 . 2 Jornal da Sociedade dos Amigos das Leliras. Entre os mesmos homens dados ás leltras. é esta descri- pção do estado intellectual do paiz. e á qual pertenciam todos €s -homens importantes do constitucionahsmo. No primeiro numero do Panorama acha-se da Sociedade propagadora dos Conhecimentos ção portugueza. Collaborou no n. a * que Herculano pertencera. 160. e esta classes que pela sua posição social deviam ser illustradas. cias imperiosas dissolveu-se por drcurnsiari' ^ em sessão de 45 de novembro de 183G. a fundação da Sociedade propagadora dos Conhecimentos itteis. e comprehendia que as tradições nacionaes são o elemento mais sympalhico das lit- teraturas que se renovam com o intuito de estabelecer uma relação entre a sociedade e o escriptor. a Língua portugueza do árcade Francisco a litteratura José Freire. Esta Sociedade fundou o Panorama em 1837. tantos séculos atra- sado pelo obscurantismo monachal.» p. e começou a publicação de alguns inéditos da historia e da litteratura portugueza. cumpre conCessal-o.

incalculável: O effeito do Pa- «logo ao 5.» Entre essas se distinguem Cunha Rivara. 1. este começou apparecer nada mais era.» (Pan.. que dava a rasão de serem as viagens do Brazil mais de- moradas de lá para cá.290 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL No segundo volume do Panorama vem uma anedocta que dá ideia do estado dos nossos professores da Universidade de Coimbra: «e outro professor de certa Academia célebre. e para cá sóbe-se. p.. accommodando-o ao estado de atraso em que ainda nos achamos. a Vi. fazendo publicar um jornal que derramasse uma instrucção ci- variada. ii. lá desce-se. Sinceramente confessamos a nossa decadência intellectual . serviu apenas para ensaiar os habilidosos do jornalismo constitucional. . Maria ii protectora da Sociedade. vol. i. 6 de janeiro de i838. formada por accionistas. Em uma circular de 1839. e que podesse aproveitar a todas as classes de dadãos..) Fizeram D. do que uma imitação do Penny Magazine p. . e outros. caso único periódicas jornal em a historia das pubHcaçôes em Portugal. 53. 2 1837. 2. fallando-se da prosperilê-se: dade do Panorama.» {Pan. t.. porque para II.*^ numero se tiravam 5:000 exemplares. . um certo numero de norama foi havendo uma assembléa geral e uma direcção para a administração do capital. quanto á forma. porque além de continuar a ministrar-nos os seus interessantes artigos.. do que de cá para lá. * F. forçosamente assim hade aconte- — cer.. Silva Leal * Era 1839 creou-se ora Lisboa a Sociedade Escholastico-Philomatica^ cujo órgão de estudos foi o Cosmorama litterario. x> t. cipal redactor o sr. algumas pes- soas zelosas da instrucção publica nos têm presenteado com o fructo dos seus estudos .) «Quando {Pan. Adolpho Varnhagen. do seguinte modo: Meus senhores. p. p.) «Assim a Sociedade propagadora dos Conhecimentos titeis julgou dever seguir o exemplo dos paizes mais illustrados. Trigoso. «nem obsta o deixar de ser o prin- Herculano. . .) . » (Pan.

em 1844.» foram publicados oa ^ivista universal lisbonense. de ll:87GÍ(o20. Panorama. de Frei Bernardo da Cruz. que estava enlâo em moda por toda Europa. pelos correspondentes das provincias. «A batalha de Chrysas. Seguindo o typo do Penny Magazine. el-rei Da Escola Pohjtechnica e em 1844. o opúsculo do Collegio dos Nobres. * e em bem \S^\y e o romance histórico o assim a edição da Chronica de D. esta circumstancia poderosamente na forma da sua actividade mental. el-rei em 1839. de 1842-1843. é que Herculano pu- em i838 em Ires series as suas Poesias com o titulo de Harpa do Crente. sendo o principal educador da classe media em Portugal e o agente que mais desper- tou o sentimento patriótico. Herculano cumpriu á risca este plano. basta detalharmos algumas parcellas significativas. Em IC de agosto de 1839 os Estatutos da Sociedade capital então foram reformados. tendo a a quantia Sociedade em valores era 30 de julho de 1839. e o Panorama seguiu sempre o mesmo systema. Eurico. A prosperidade económica era também excellenle. 2:. lit- a monographia. Com os recursos da Sociedade propagadora dos Conhecimentos blicou nteis. sendo o dividido de 10:000^000. vendas avulsas réis.H3^4I5 l:G90fSijG0. João III. em t2:000 acções de 5á>000 réis. era-lhe preciso redigir o pequeno artigo archeologico sobre cousas porluguezas. . O periodo da sua actividade artística está separado I ! 2 Alguns íragmonfos do Emtxco. Sebastião. a biographia histórica e teraria. taes como: Prestações dos 1:405^700. accionistas. de Frei Luiz de Sousa. foi Herculano encarregado da redacção do Panorama iníluiu desde 1837. o excerpto clássico. assignaturas do do Panorama^ l:532(!ÍGá3. assignaturas e vendas avulsas do Panorama.ALEXANDBE HERCULANO 291 foi Por portaria de 2G de julho de 1838 permittido á Sc* ciedade o poder imprimir inéditos da Bibliolheca da Corte. e o romance a histórico. e os Annaes de D.

Não tinha tica. porque Portugal estava inteiramente esquecido do seu passado. O pri- meiro. como aquelle a deixara a Byron. em 1859. o segundo período começa com os estudos para a Historia de Portugal. Foi o campo da que aconteceu. Os romances históricos de Waller Scott exerciam por toda a Europa uma fascinação pasmosa.292 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL do período da sua actividade histórica por soífreu um em despeito que no conílicto dos partidos políticos 1842. deixando a poesia a Garrett. comprehende a serie de todas as suas tentativas de introducgão do romance hístorico em e Portugal. que vae de 1837 a 1840. tentativas reunidas sob o titulo de Len- das Narra4ivas. coincide esta transformação da sua capaci- dade litteraria com o regresso para Lisboa 183G. Era esta uma forma iria de acti- vidade compatível os trabalhos da erudição. e com a natureza especial da actividade exigida para a redacção do Diário do Governo e depois do Panorama. o conflicto já o ócio de espirito indispensável para toda a ideahsaçao poé- da soberania nacional da Revolução de Se- tembro lançou-o no temor da liberdade. em e condições que pouco o coadjuvavam. Herculano em Portugal a imitação das novellas de Waller Scott. cujo primeiro volume data de 1846 e termina com o ultimo volume da Origem e estabelecimento da Inquisição em Portugal. e entregou-se com boa fé á causa pessoal da rainha. para se entregar exclusivamente ás narrativas novellescas em com prosa. Her- culano debaixo d'essa impressão. e os primeiros esboços dós dois roman- ces que formam o Monasticon. seguiu o exemplo do auctor de Waverley. e até certo attraindo para ini- ponto o ciou um estímulo de curiosidade que o historia. não estava fortale- . não tinha uma vida um sentimento nacional a avivar. então acobertada com o nome de Cartismo. Herculano escreveu a foi poeta até aos vinte e cinco annosyj como com grande rigor biographico em uma em Carta a Soares Passos.

dom . que fizeram que devorasse com encanto todos os velhos roman- ces de cavalleria e novellas da litteratura ambulante. (de cordel) e assim adquirisse essa qualidade que já nos pas- satempos escolares o tornava um extraordinário narrador. nA forma pálida e sem relevo dos romances toricos de Herculano.ALBXANDBE HBSCULÍlNO eido 292L com o estudo das tradiç<3es. era que o eíTeilo artistico está prejudicado por un^ esforço. avô a seu neto sobre a Historia de Escócia. com que observava os vivos no romance. c faltava-lhe esse talento desoriptivo. d. O estudo da philosophia escoceza nos cursos tão fecundos de Dugald Stewart. romance histórico era um grande elemento para determinar a originalidade nas litteraturas modernas.esde o Waverley Contos de em 1814 até aos um O de 18i8. O poder de Walter família Scott no romance histórico provinha espirito. estabelecendo a ideahsação da vida social da Edade Media. e o interesse scientifico pelas tradições populares.. o amor eolligia as tradições locaes. que o estylo rbetorico não coose- gue encobrir. deram-lhe a disciplina da observação psychologica.maravilhoso do Tudo hiS'- dialogo cora que vivifica peripécias menQS-fecundas. e pelos contos da gente do campo sobre as atrocidades do exercito deCumberland. actuavam no seu na ainda persistiam as tradições das luclas pela in- dependência escoceza. de muitas drcumstancias que. e as suas descripções pittores- lypos do vulgo. É isto o que ex- impressão immensa produzida por Walter Scott na imaginação europèa. a infância fora embalada pelns canções jacobitas de uma velha tia. i^ne aiada não haviam sida exploradas. com que nassem plica a As suas viagens pelas montanhas da Escócia. coadjuvando o poder de reconstrucção subjectiva a que não se poderia chegar se fi- . separava-a assim da vida moderna. fizeram que os seus personagens se tor- cas deixassem a impressão da realidade.de ScQtt que era por isto influiu elle próprio excedido oo as.

Ramalho e Sousa. nem realidade descriptiva. Icanhoe Sousa. e que conhecia o dialecto escocez.294 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL litterarios cassemos constantemente parodiando os modelos foram imitados histórica da antiguidade greco-romana. ou egualado como na Notre Danie de Paris. Herculano tornára-se o grande amigo de d'elle veiu a Ramalho herdar os apontamentos do Diccionaá que mais tarde vendeu Academia das Sciencias. p. p. ou o desenvolvimento prolixo de uma lenda. (I83i) as imitações eram pálidos recortes de personagens conhecidos volta de em uma acção imaginaria. começou com menos recursos a romantisar a historia de Portugal. no Panorama publicou alguns pequenos roman- ces baseados sobre a tradição colligida nas chronicas e no- 1 Panorama. iv. Os romances de Walter Scott em todas as litteraturas da Europa. . tentou traduzir alguns dos principaes ro- mances de Walter Durward. 306 . * Os romances de Walter Scott foram lidos em Portugal pelas traduções francezas de Defautcom4)ré.. e foram grias domesticas da sociedade uma das principaes ale- que saía da atonia mental do ascetismo monástico. taes e como o Wavcrkt/. e se ás vezes o mestre era excedido na comprehensâo da época como nos Noivos de Manzoni. e rio Scott. Ibid. 243. que mais tarde tinha de abandonar. e tor- uma monoraania. de i830. t. m. e como o bibliophilo Jacob com relação á historia de Fiança. t. Herculano obedeceu a esta tendênestabelecendo o parallelo entre o romance his- cia geral. de Victor Hugo. chega a dar a primazia ao romance. Her- culano não pôde resistir ao prurido do romance histórico. e tórico e a historia. ou ás vezes a localisaçao de uma aventura de phantasia em uma determinada época. Era uma fascinao ção. Quintino Anna do Gierstein. que vera também esti- em Inglaterra durante a emigração. mas sem relação alguma tradicional. O romance nou-se histórico decaiu até ao pasticbe inconsciente.

e. e de fazer íinir os personagens. e esta inferioridade explica-nos a sua incapacidade' para as composições dramáticas. como á época de D. é a amostra do esforço violento do espirito de Herculano para ter graça. tão'necessaria nas linhas descriptivas. A falta de verdade^no sentimento. do Monge de Cister. 295 como o Bispo Negro. Faltava um trabalho prévio de erudição sobre os Costumes e vida domestica porlugueza. João como ao periodo das navega- ções do oriente. e ao mesmo tempo O essa falta de graça. os romances históricos tanto podiam pertencer i. e de Paul Lacroix em França. em que Garrett era tão eminente. em este acção as lendas. dres das Necessidades. de os de- pela lógica ou condicionalismo dos caracteres. É o lado inferior dos seus romances. análogo ao de Thomaz Whrigt em Inglaterra. levava Hercu- lano a reproduzir os sentimentos romanescos que então . abusou dos archaismos excessivamente. plina philosophica espirito. e as tradições populares. Mater-Galla ou o Doutor Pataburro. de fina ironia. por isso vida e nunca leve uma discialém da lógica dos Pafaltava-lhe o poder de dar de metter movimento psychologico fallar ás paixões. effeito exagerava as minúcias para altingir o da realidade. tão indispensável na invenção dos typos. por impossibilidade de exercer a analyse psychologica. a Dama Pé de Cabra. com a como um pintor de natureza morta. á época neo-golhica. Faltava a Herculano o contado directo tradição viva do povo. Apenas Garrett começara uma pequena exploração acerca dos Cantos populares portuguezes no seu ceiro. pondo em circula- ção no romance a nomenclatura que seria melhor empre- gada como complemento do Elucidaria de Viterbo. assim. e as particularidades da vida provincial estavam bem longe de serem exploradas e observadas. Roman- Como observaremos no seu nas consequências de toda a actielle vidade litteraria de Herculano.ALEXANDRE HERCULANO biliarios. A his- toria de Portugal não era conhecida. e a Morte do Lidador.

Vivaldo a imitação de Phebus.) O amor des- peitado de Vasco é ainda uma reprodução de Cláudio Frollo'. e Não comludo os elles se seus romances foram immensamente lidos. O pro- blema do celibato clerical. desde que se deu um passo. A leitura da Notre Dame^ de Paris. que reverteu em pouco tempo em um exerceram ta- poder espiritual sobre a sociedade portugueza. como romance revelação da vida moral e intima dos indivíduos. como a soltura de D. No prologo da quarta edição das Lendas c Narrativas.296 HISTORIA DO ROMAKTISMO EM PORTUGAL predominavam nas formas exageradas do Ultra-Romantismo. foi a acção do seu na bella egreja de Notre Dame. ou a collisao do amor na alma de Cláudio Frollo. ou como emoções da Europa Frei Vasco. collocou-a Herculano na alma de um presbytero imaginário de uma época social tão pouco co- nhecida como a sociedade gothica da Península. que tomou de assalto as em i831. á Sá de Miranda. Herculano retrata as condições em que se achava a sociedade portugueza quando appareceram os seus romances. o despeito. para quebrar as tradições do Allivio de Tristes e do Feliz Inde- pendente. como homem de um só parecer. uma influencia profunda na litteratura. porque todos os lentos que appareceram vieram orientados no sentido do romance histórico. de Victor Hugo. tyrannos que reinavam sem émulos sem conspi- . e sobre baseou a sua gloria. e ao mesmo tempo a extensão da sua influencia: «Quinze a vinte annos são decorridos. e todos os seus personagens são individualidades isoladas do seu meio pelo despeito. Herculano conhecia só uma paixão. a paixão pelos monumentos architectonicos da Edade Media. como Eurico. era esta a forma do talento de Herculano. e que expõe theoricamente no capitulo Ceei tuera lambem seguida por Hercu- lano no pequeno romance a Abobada (1839. que Victor Hugo exprime fazendo passar cela. bem que e débil. veiu sobrepôr-se no espirito de Herculano á influencia de Walter Scott. em que se esgotaram.

referindo-se ao facto da a Ilude de um género novo na litteratura es- cola do romance histórico: «A critica para ser justa não hade porém attender só a essas circumstancias hade considerar também. os resultados foram histórico e monomania do romance do drama que esgotou a quasi totalidade dos escriptores por- tuguezes do Romantismo. vin. {Lendas e Narcas tentativas. Mendes Leal. como por exem: plo os Irmãos Carvajales e O que foram Portuguezes. romance de que já se imprimiram algumas paginas admiráveis. Corvo. vasta concepção. o auctor da Mocidade de D. os resultados de taes tentativas. um emulo de Walter Emfim o Conde de Castella. do sr.. inspiraram outras análogas. que é quasl Scott. João V. e o Ódio velho não cansa. que a principio. do incitaram a maioria dos gradualmente sr. Um anno na Corte. tudo. históricos Os romances de Herculano são parodiados com facilidade. údiS para ser justa deve pon- suas tentativas. e . do sr. Rebello da Silva . I..» E em á mesmo prologo. e que as emprezas editoras exploram lisongeando com phantasmagorias insen- satas esta orientação da curiosiadde publica. nos promette mas que na parte inédita. do sr.) critica Herculano reclama que a derar os resultados^ essa dupla histórico. cujo ultimo volume acaba de imprimir o primeiro poeta portuguez (l'esle século. é licito suppôr. Oliveira Marreca. Poucos escaparam a essa falsa e tardia corrente. inspirado pelo exemplo d*estas fra- dimensões maiores o auctor emprehendeu no Eurico e Monge de Cister.ALEXANDRE HERCULANO 297 rações na província do romance portuguez. e dos que )y em rativas. posto que incompleta. que ainda hoje domina. e pôde dizer-se que nâo ha anno que não lhe traga um progresso. Todos conhecem o Arco de SanfAnna. e talentos da nossa litteratura a emprehenderem composições análogas de mais largas dimensões e melhor delineadas e vestidas. N'estes quinze ou vinte annos creou-se outra passagem do iniciação uma litteratura.

por in- quem perguntar por tuito preparação philosophica para a analyse das paixões. 137. segundo de escrever. sentimento e intuição da historia. Andrade Corvo e Marreca pecpelas mesmas qualidades. por na relação da obra com o seu tempo. que abandonou a advocacia. — Ponham-se . .298 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL servem de. mais ou a fiíria menos bem servida. a época accentua-se com o nome de um rei. as paixões uma construcção redundante. o dialogo destaca-se materialmente por meio de um risco significaá reduzem-se a aventuras sem nexo ma- neira dos imbróglios improvisados do theatro italiano. e n'este sentido servem para condemnação da obra de Herculano. » * mesmo se deve repetir para cita com o romance histórico: as imitações que Herculano de Men- des Leal. como resultados d'ella. Herculano conheceu este vicio desgraçado com relação ao drama histórico: «Que resulta de se escolherem para objectos de composições dramáticas successos e indivíduos pertencentes a e uma geração e a uma sociedade cuja indoie modo de existir se ignora? Resulta cair-se no vicio do theatro antigo: fazer abstracções e desmentir a verdadeira arte. segundo a preoccupação do estylo.ahi em vez d'esses nomes tão conhecito- dos do fim do XIV século. Eis aqui está a receita. p. nao é compre- hendido e repellem triumpbanteraenle estas questões como theorias allemãs. Para algims escriptores o romance histórico tornou-se uma paixão exclusiva. como em Arnaldo Gama. morrendo no conflicto de uma sociedade mer- cam a cantil como a do Porto. a linguagem simula-se com archaismos e com tivo. Rebello da Silva. e o das as allusões aos acontecimentos políticos ou pessoas no- drama pertencerá Isto á época e ao paiz que nos aprouver. signaes algébricos: cortem-se táveis de então.typo para todas as épocas. esgotado em fazer romances segundo 1 Mm. do Conservalorio.

como i. e entremeando reviver ter. effeito para se julgar quanto Herculano andava longe do da realidade. ^ de D.ALEXANDRE HERCULANO 299 O typo fixado por Herculano. no Mestre GiL ii O que terrível corte de D. nem invenção. De facto são esses os priucipaes romances históricos produzidos depois das tentativas de Herculano. Luiz Lobo da Silveira acerca do e de Fernam da Silveira. outros não tinham philosophia. a linguagem de archaismos. porque uns não tinham talento. superstições. e á parte o de Garrett. no Monge de Cisera a vida na e a de D. usos. M2S como podia Her- culano inspirar-se das tradições portuguezas. nos caracteres. a de D. . João do que as pretendidas scenas da tavolagem. se não as conhecia. c depois é que as creações li Itera- desenvolveriam esses assumptos. João n. costumes locaes) como rias fez Jacob Grimm. no sentimento. João pôde vér-se nas relações do Nobiliário Coudel Mór. vivo a época de D. sem vida subjectiva como os do mestre. João * fíizia uma época. as cantigas do povo em volta da sepultura do Condestavel pintam-nos mais ao i. todos os outros sâo falsos no estylo. Herculano conservava profundas illusões acerca da sua aptidão no romance histórico. anexins. diz -se que Herculano o retocou íundaoieutal- mente. Duarte. pensando que pondo alguns nomes históricos conversando á maneira dos antigos diálogos dos mortos. contos. romances. e interpretal-as litterariamente. 2 Vid Poetas palacianos. Anles de fazer romances históricos convinha es- tudar as tradições nacionaes e populares (lendas. como os amores se comprehenderão nas aventuras de Juan Rodrigues dei Padron com a filha de el-roi D. e superiores em talento aos supracitados. descria do futuro da pátria? Eis as suas palavras cheias de illusão pessoal e de desalento: «Nós procurámos desentra- > Este romance é altribuido a Ignacio Pizarro de Moraes Sarmento nos ^5- boços de apreciações lilterarias. sem vida. se elle já em 1831).

porque leva um de renovação. É uma sociedade a immobilisar-se na contemplação do passado. Isto que Herculano escrevia aos vinte e nove annos. A tradição é o húmus d'onde floresce toda a concepção liga artística. w. é pela tradição que a obra individual se ao sentimento da multidão. nem ao menos lem esforço ou virtude para * morrer sem infâmia. abraçava-se a ella como um refugio. mas nunca arte ou littêratura. sem que contrafazer o passado na sua rudeza ou ingenuidade.» samento Civil. é uma habilidade estéril. Os romances e as pequenas novellas de Herculano são esta estreita reproducção imitativa do passado. já ou já não vive.. Para Herculano a concepção raria foi uma querella de antigos e modernos. Já se vê o ponto de vista falso em que considerava a tradição. em vez de interpretal-a como litte- um estimulo de renovação do espirito nacional. 306. repetiu-o em 1866 sete na polemica do Caterra. . ou se vive. chamada nação portugueza. Fortalecemos este ponto de vista com o pensamento de Guizot: «Não ha 'de- 1 o Chronisla (Viver e crôr de oulro tempo) Panorama. já se acham também em verso na Harpa do Crente. nobre e generosa nação que houve a qual no mundo. siste A verdadeira missão do génio con- em vivificar com a aspiração a Iradicionaes sempre sympathicas uma nova as velhas formas nacionalidade. Não comprehendeu o lado vivo do elemento tradicional. desalentam em vez de impulsionar.800 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL nhar do esquecimento a poesia nacional e popular dos nossos maiores: trabaltiámos por ser historiadores da vida in- tima de uma grande. sem tirar d'esse culto o estimulo perigo. metrificar o conto solarengo. Pôr outro intuito mais do em romance a lenda antiga. apoiava-se no passado contra o presente que se demolia pela nova pratica do regimen parlamentar. reproduzir o velho archaismo. assim como os palmos de que es- perava não lhe negariam.

ALEXANDRE HERCULANO 301 cadencia quando as ideias se agitara. que No fim da òomeçára por descrer do presente por de novos factos positi- uma doença moral. des Origines du Gouvern. é então que a decadência é verdadeira. e as algaradas contra os mou- ros e as bravatas dos senliores feudaes. desmorona-se sante. vida.« leç. quando em vez de avançar para o futuro ella não invoca senâò as lembranças e imagens do passado. im- 1 Ilist. como erudito. em que a classe a compartilhar com a realeza media era chamada pela eleição uma parte da soberania. Adheriado á iniciação do regimen parlamentar em Portugal. fez-se o escriptor predilecto da nação portugueza. pelo triumpho do systema representativo no cerco do Porto em 1833. considerando vos como uma outra forma de gongorismo! Não faltava a Herculano a comprehensão das formas do romance histórico. abâbou por duvidar da sciencia do séa notnenclatura culo. pouco importa o tempo que sociedade leva a cair. tremos lâo anlinomicos seria a litteralura a imagem do pas- sado seria o symbolo querido por meio do qual se vulgarisassem as ideias novas. 2. que se sente opprimida e doente. . e idealisando á vida clauslral. nâo concebe alguma grande e nobre esperança. a vida rompimento brusco com quem nos esclarecesse o quem nos força social revestisse de cores saudosas o pas- A única que poderia conciliar estes dois ex. mas quando em um grande império a sociedade.» * uma com uma ruina inces- Na renovação da sociedade portugueza da nacionalidade dependia d'este o passado. precisávamos mais de futuro do que sado. mas immobilisou a moci- dade de duas gerações que nada comprehenderam d'esse grande periodo de renovação intellectual que vae desde a descoberta do homem^lmte-historico até hoje. faltava-lhe o talento como artista. Herculano. Herculano não compreliendeu isto. representatif.

como os que deviam de cos. as cousas. e. e existia robusto. como foi se extinguiram as cortes. e como o munici- palismo o único esteio da vida local. João testavelmente a mais dramática da historia é incon- portugueza. as A nobreza era chegada ao apogeu da sua grandeza. Sâo-no os factos políticos e a vida pessoas e as cousas. Fernando e de D. porque as instituições feudaes que se haviam misturado com latada agonia a nossa priuiitiva índole social. N'estes dois reinados operou-se transformação social: o fim do século xiv foi uma como um período re- volucionário. diríamos quasi homéri- dos. aqui o erudito foi superior ao artista: i que exerceria uma acção saudável no exercício das novas formas «A época dos reinados de D. e a politicas. resto quasi apa- gado da existência nacional abafada pelo cesarismo. os elementos da vida social foram então chamados a uma grande lucla. tanto os que deviam ser venci- — ficar vencedores combateram Os grandes energicamente. Herculano teve historia um vago instincto da época mais eloquente da de Portugal para ser vivificada pelo romance. como acontece sempre em similhantes situações. fazendo sentir como o terceiro estado surgiu das classes servas. vultos históricos d'esse tempo os personagens extraordinários. tinham já a to- cado então a meta do seu predomínio. civil d'esse tempo. que então surgiram — os caracteres profundamente disquer pela negrura.302 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL portava manter o respeito d'essa nova conquista da liber- dade politica estabelecendo a sua continuidade histórica. revolucionário não tanto para as pessoas para. e cipio ao duello de morte para que que devia durar cem annos. formosura moral— todos nasceram . quer pela da situação social do tinctos e altamente poelicos. a mo- narchia esgotava a sua generosidade e os testemunhos do seu temor para com a aristocracia na véspera de dar prinia reptal-a. quando sua di- começava no resto da Europa: o povo dava signaes exteriores de que existia.

em desenhos de morte-côr.. consequência d'essa evolução primitiva. de em que pinia D. Na Abobada falta esse espirito da liga secreta das confra- ternidades obreiras. 2 Ibid.» * Eis a achada época em que surge á vida civil a classe popular. etc. 135. avaliar e eicplicar. contra os amores tresloucados de D. foram o resultado e o 303 resumo d'esta. e por ella somente se podem comprehender. Fernando. 36. Em com enlhusiasmo no estudo IVledia Abobada. a Cister. e perderão os seus lineamentos característicos popular. forem arrancadas do quadro cujo chão e luz apropriados a ellas. dirigido apeisso póde-se di- quando se exerceu na actividade novellesca era nas por um vago instincto e sem plano. entrava histórico das institui- ções da Edade portugueza e abandonava o romance. Na península 1 Mem. sem o que artística se não com- prehende o deposito da tradição conservado por Affonso Domingues. com relações profundas com a época de inauguração do re- gimen parlamentar. unicamente se em devem contemplar. de D. que na Europa inventou os fa- serão abstracções. 134. o Monge i842. Leonor Telles.»^ Nas Arrhas por foro de Hespa- nha falta a malicia bliauXy e que em Portugal vemos revelar-se n'esse rifam de escarnho. Chr. p. p. é n'esle campo que Herculano coUoca os seus principaes romances históricos como Arrhas por foro de fíespanho. Por zer dos seus romances históricos. 3 Fernão Lopes. das Jurandas. O Chronista e Mestre Gd. quando Her- culano escrevia esse quadro do advento do terceiro estado.: ALEXANDRE HERCULANO paiz. . cap. Ferníindo: Ex voUo vai. o que elle escrevia dos dramalhões Ultra-Romanticos: «Se porém essas imagens tão aproveitáveis para a arte. ficam convertidas o que mais é. do Conservatório. ex toIIo vem 3 de Lixboa para Santarém. o architecto da Batalha.

revelam a intima poesia dos costumes e da vida popular do terceiro estado. Duarte colligiu Cister. píritos italianos. ou da Compagno- nage. mantendo-se apenas a tradição nas classes industriaes. (n. Falta este elemento no Monge de Foram dade a estes processos críticos elle que deram a superioridiz Walter Scolt. que ainda se conservam nos livros populares allemães estudados por Goôrres e pelos irmãos Grimm. vida. falla-se já da decadência das Irmandades.) O talento de evocação do passado era proveniente d'esta communicação poética com a Edade Me- da qual foi um dos reveladores no seu estudo do Tm- .° 4oS. e que D. Tanto na Abobada como no 31estre Gil. nem já non anda na Yrmaidade. que a verdade tal guysa se foi a perder que nem podemos en novas aver. na sua bibliotheca. ellas dissolviam-se. dizendo.» dia. Affonso ni.304 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL as Irmandades foram o primeiro núcleo de organisação vil. que o génio doesta na- ção elegante e voluptuosa produziu pelo modelo do Deca(cap. ci- e á medida que as garantias politicas eram reconheci- das pela realesa. que o citava aos seus companheiros de el-rei armas comparando-se a Arthur. por isso os seus romances ficaram sem de D.) ca de As cerimonias symbolicas das Mestrias. ui. Herculano não tocou esta fonte originai de poesia. mesmo de si no Waverley: «Elle tinha lido os a época de Pulei. numerosos romances poéticos. Os hábitos palacianos da corte rei precisavam primeiramente ser comprehendi- dos pela leitura dos poemas da Tavola Redonda. que desde foram o exercício predilecto dos bons esprocurado Novelle. que o Condestavel imitava seguindo quixotesas virtudes de camente Galaaz. e havia um divertimento nos in- numeraveis reportorios de meron. Em uma canção do tempo de D. e de que ainda nos séculos xvi e xvii existiam restos nos emblemas dos oíTicios da procissão de Corpus era Portugal. João i.

uma realidade na collisão dos amores do arcebispo de Toledo. deixan- do-se arrastar pela declamação do UIlra-Romantismo. incitando-lhe essa pasmosa intuição histórica dos Recits Mérovwgiens. Esta falta sente-se especialmente no Eurico de Ale- xandra Herculano. Herculano quiz fazer também um poema era prosa. Berle aux graíids pies. os elementos para a vida social e domestica das raças germânicas existiam já bem accessiveis nas Canções de Gesta. e morrendo theatralmente. em em 1833. Â ma- neira dos Martyres. No meio do 20 seu fervor romântico. meditando phrases rhetoricas. como em 1810 revelara a Agostinho Thierry o génio dos frankos. preoc- cupando-se com a Ihese social do celibato clerical. Garin le Loherain. que a converte ao christianismo. e nos escriptores árabes citados por Dozy. transportada para um quadro da Edade Media. da Notre Dame de Paris. no meio de uma sociedade em conflicto de raça e de crença. metteu-se no subjectivismo phantasista.ALEXANDRE HERCULANO 305 tem. que se Herculano se daria ao tra- estudasse esse assumpto tradicional não balho de inventar um Eurico ultra-romantico. emíim a sublime vez de recompor a vida collecliva. a historia dos amores de Eulogio é tão bella. temos uma base de comparação perfeita. Chamou de Roland. Nos escriptores christãos como Álvaro de Córdova. a sociedade hispano golhica e árabe do século ix está tão viva. e sem ideal. por Paulin Paris. em 1832. Eulogio. como o FierabraF. publicado por Immanuel Bekker desde 1829. O modo como Herculano comprehendeu esse conflicto é débil. com uma donzella aralje Leocricia. O Eurico c uma imitação do Cláudio Frollo. Herculano escreveu e fez representar no theatro do Salitre em 1838 o drama em . refugiando-se ambos no amor mystico e morrendo ao mesmo tempo pelo martyrio. em 183G. A leitura dos Martyres de Chateaubriand revelou a Her- culano a poesia da raça golhica. apagado.

falta-lhe a linguagem. Ha pois em cada obra d'essa só. como podia liga a esse manifestal-o no theatro? O facto da composição do Fronteiro de Africa é que é digno de reparo. o pintor do quadro entre os doutores. a forma. Eis uma amostra «O siibstractnm da arte é um sões é que são varias. porque se fervoroso movimento produzido por Garrett para a fundação de um Conservatório geral da Arte dramática. o archite- clo da Batalha. (fragmentos) Tohu- Bohu. p. dependentes do mundo material. o segundo as condições absolutas. 2 Jcrnal do Conservatório. O drama não lem importância artistica. o poeta da epopéa nacional os Luziadas. Dá-lhe o primeiro a substancia. e com extensos pareceres A Casa de Gonçalo e o drama D. 108. Herculano coUaborou com guns escriptos metaphysicos tórico Da Arte. acervo de phrases de uma visão al- em que contempla Affonso Domingues.303 HISTORIA DO ROMANTISl^O EM POKTUGAL * prosa O Fronteiro de África. e todavia inseparáveis: o idealj o poela. artistica Ires — as miragem intellectual: As suas expresformas. também Herculano ^ como al- No Jornal do Conservatório. onde . Maria Este quadro da renascença da litteratura dramática ficou tratado no livro Garrett e os Dramas. ou três noites aziagas. Eraquanto Herculano philosophou disse deploráveis banalidades. ao qual pertenceu censor. românticos. elementos distinctos. O ideal é o mys- * Impresso fraudulosaraente no Rio de Janeiro em 1862. Grão-Vasco. começado a publicar em 8 de dezembro de 1839. e O Menino Camões. o ideal. emfim o desenlio dos caracteres se Herculano não tinha este dom da visão subjectiva no romance. a parte descriptiva supre em grande parte o movimento das paixões. como nos escriptos legorica Da Arte. um elogio his- de Sebastião Xavier Botelho. a terceira as condições relativas. . as situações. e nas Memorias do Conservatório com sobre a comedia Telles.

45. p. .» * Não admira que Herculano viesse — a detestar a philosophia. ao qual se ligavam todos os espíritos posthumos da Arcádia. parte em prosa e parte em verso. Herculano replicou com um artigo sarcástico Tohu-Bohii. que reagia contra representou o elemento as novas doutrinas lilterarias recebidas da admiração das obras primas do romantismo. lyrico. nem tanto em contacto com artístico e scientifico o movimento da Europa. que começa por umas considerações históricas justas. p. 307 o poeta é o vidente. a cuja sombra crf. gem da ideia. com uma graça «Estamos As considerações merecem ser citadas: em Portugal n'uma posição pouco vantajosa para a nossa ratura: litte- trados naes á nem tão isolados dos outros povos. as- signada por Um Quem Te defensor de Horácio: profana o aliar. Md. que. que a tempo 6 compasso entremos nas grandes harmonias do coro ge- í 2 /ornai do Conservatório. phantastico pelo Doutor in ntroqiie Ichheit.. E és Sem tu quem me ao menos pensar nilo lenho aliares? Onde achaste a trindade do meu culto? esses moldes tão sublimes vazar luas ideias? Esses moldes quaes sJo? a Natureza. elle da reacção clássica. a forma é a revelação escripta. se rasão ouvir quizeres.ALEXANDRE HERCULAUO terio. 2 O «Defensor de Horácio» era Castilho. Te bradará com voz que tu desprésas Onde achaste Para n'elles — A rasio. 29.ueí-te sacerdote do n)eu ciillo? insulla despiedado. mas termina lorpa. Sonho abphomelico. Os pedantes da Philosophia disseram á Trindade do Evangelho— Mentira!— Os pedantes das Poéticas dirão á minha trindade Anathema. todos enem nós mesmos e nas nossas cousas sejamos origiforça de nacionalidade. Appareceu porque nâo sabia discernira imaem seguida no Jornal do Conser- vatório uma réplica.

O trabalho fundamental deveria começar por uma renovação 1 Jornal do Conservatório.» Italianos. exagerámos quanto nos dizem que é moda na capital. emphafalta tica e cheia de epithetos.308 ral HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL de civilisaçâo que de toda a parte se alevanta. em que o archaismo da linguagem suppria a falta de evocação da época ou a intelligencia da tradição que desenvolvia. e como tafúlos de fallar provinda imitamos ás cegas. accrescenta: «e nós. que obedeciam ainda aos cônsules de Roma quando já Alarico reinava em Roma. como se viu na Allemanha com Herder e Miiller ao lado de Goethe e Schiller. cabia-lhe como auctor dos romances históricos. e de de imaginação para recompor syntheticamente os caracteres. taes como como o considerar a transformação da litteratura portugueza resultante das transformações sociaes de i833. sem vermos primeiro se nos fica bem a moda. que já aproveitámos na Historia do T/ieatro. nós religiosamente nos curvávamos ainda diante da sombra de colónias iongiquas dos uma auctoridade que já não existia. proveniente de uma certa inca- pacidade philosophica para analysar as paixões. na França Guizot e Thierry ao lado de Victor Hugo. a im- perfeição dos dramas históricos por falta de um trabalho de erudição histórica a par da idealisação artística. D'aqui a sincera devoção com que pri- meiro copiámos os fim os Francezes. (1 de março de 1840. p. depois os Castelhanos e por E depois de indicar a propagação do a movimento romântico da Inglaterra para Allemanha e da AUemanha para a França. O que Herculano dizia com tanto acerto dos dramas ultra-romanlicos apresentados ao Conservatório de 1840 a 184Í2. finalmente. acham-se considerações bastante justas.) . Ouvimos de longe no que vae pelo mundo. 101. como estas Romanos. a falsa linguagem figurada.» * Nos outros três tra- balhos que citámos da collaboração de Herculano nas Me- morias do Conservatório.

acha-se elle um enfatuamento auctoritario galeria de Typos porte- Herculano. como frades. politico ali no seu remanso de naufrago procuravam-no os no- vos escriptores. e Herculano deixava-se adorar. que inespe- radamente declama rigo de dizer a favor dos frades: «arrosta com o pe- mal dos mudos. em casa independente destinada ao bibliothecario real. Elle n'esta phrase era bem quer ser irónico. imagine-se uma das mais hirtas e insulsas caricaturas de Nogueira da sos da Silva.» Mas o gallego é que é lamentável. na edição de Tolentino. emprehende uma tuguezes. e por ultimo na Historia. os des- peitos e as separações inutilisaram muitos esforços. que se concentrou no trabalho da Historia de Portugal. debaixo da campa do te monachismo. deveu a parte mais justificável do seu desalento á falta de uma compreliensão e julgamento da critica sobre a direcção da sua obra. vivia Herculano na Ajuda. Retirado da politica desde I8i2. quando Herculano se dignava collaborar em alguma das suas ephemeras revistas litterarias. protestando que nós typos nacionaes dá-nos o intuito do Parocho da Aldéa: uma experiência. ella ficava com importância garantida. mas cáe na imprecação. nos longos discurVida. que só responderão com uma . que provocando a actividade mental influiria na critica doutrinaria e comparativa. na politica e pratica- mente nas reformas que d'ella derivam. e essa no estylo de an- tigos hábitos mentaes. como processo do nosso passado. e Herculano.ALEXANDRK HERCULANO 309 philosophica. e dos padres. A falta não fecundou nem disciplinou os escriptores. A mocidade em vez de trazer doutrina vinha pasmada de admiração. só assim é que se pôde imaginar a graça de Herculano. a começar pelo gallego. Faltou esta condição primaria. e por isso foram descoordenados lodos os movimentos de transformação de critica politica e intellectual. ditos e feitos de Lazaro Thomé. Na lllustração (jornal universal) publicada já em em mos «foi abril de 1845.

Guizot. Os que assistiam a esse desempenho. prestou a esta ultima um serviço que a nação não poderá bastantemente reconhe- Rackzynski demorou-se em Portugal até 1845. emprezario da Companhia italiana fêl-o cantar na noite de 31 de abril de 1845. assim levo ao romance. 2) * A anctoridade romântica de Herculano crescia nal o . 131. de uma imaginação ardente. que fora o primeiro a reclamar a favor dos nos- monumentos destruidos por falta da sua comprehensão. no momento em que os > Cartistas se tornavam Cabralistas. quando.310 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL lagrima furtiva. escreve de Herculano estas linhas: «É gos da verdade. O Conde de Rackzynski. e o Conde de Farrobo. p. 157. de uma grande vivacidade de espirito. que veiu a Portugal (13 de maio a de i842) e estudou com tanto interesse não podia deixar de achar-se sos Arte d'este paiz.. ^ 2 lllustração. eruditíssimo. Aban- donando cer. despeitado da politica. escreveu para a creaçâo da Opera nacio- drama lyrico os Infantes de Ceuta. lllustração.» 3 a politica pela sciencia. em contacto com Alexandre Herculano. dos homens mais ami- O illustre fundador da historia da Arte portugueza. Q (Jqq^ da graça anda sempre ligado ao talento dramático. p. conheceu portanto Herculano no seu período de fervor litterario..» (Cap. Foi já deputado ás cortes. cheio de zelo e infatigável. . e já em Paris durante o anno de 1817 é que escreveu esse juizo sobre Heroílano. 4. p. posto em musica por Miro expressamente para a Academia Philarmonica.. escriptor de rito um mé- geralmente reconhecido. que eu conheço um em Portugal. escreveram: «A poesia percebia-se pou» 2 co .ar tiítique du Portugal. e Herculano não tendo possuído esta qualidade como não pôde dar retambém em historia nunca poderia sair dos moldes severos mas mortos em que escrevia Hallam ou tão característica de Garrett. * Dictionaire histórico.

Herculano reconcentravase cada vez mais no campo da historia especial. sem duvida será uma obra de alta importância para as sciencias. Herculano veiu desilludir os que esperavam ainda uma Historia de Portugal completa pondo no frontespicio da terceira edição «afó ao reinado de . que a Historia de Portugal em que tra- balhava Herculano.» N'esla phrase de Rackzyushi contém-se u^ia revelação im- portantíssima. João úteis achados na Bibliotlieca real das Ne- cessidades.ALEXANDRE HERCI7LAN0 311 voltou a sua poderosa organisação para a litteratura. e mais particularmente para o seu paiz. colligir romances que veiu a sob o titulo de Lendas e Narrativas. III. (1842-1846) se limitava desde a sua con- cepção primitiva ao periodo medieval: durante a Edade Media. Em 1843 e 1844 já Herculano abandonava o campo do romance histórico. recebeu as suas primeiras emoções dos romances históricos de Herculano. embora o Monge de Cister só apparecesse em 1848. e na Illustração. o Presbytero. por isso escrevia Rackzynski. Annaes de D. A sua imaginação era apreciada pelos pequenos romances históricos publicados no Panorama. e Feliz In- dependente. a parte principal havia muitos annos que íicára incompleta no Panorama. que a Sociedade propagadora dos Conhecimentos mandou publicar lyrico em 48i4. talvez sobre notas levadas de Lisboa: «Elle escreve uma Historia de Portugal durante a Edade Media^ que. ainda em 1844 publicou o á custa pequeno drama Os Infantes de Ceuta. Occupava-se em organisar o texto do manuscripto de Frei Luiz de Sousa. Parle Cister. A imaginação portugueza narcotisada pelas insípidas novellas do Allivio de Tristes. As primeiras impressões sâo sempre as mais indeléveis. e da supracitada associação o romance histórico da sociedade gothica na península Eurico. Quando mais tarde em 1863. do padre Matheus Ribeiro. de que fora redactor exclusivo até junho de 1839. e é. do padre Theodoro de Almeida. já era do Monge de conhecido por fragmentos no Panorama.

de 1853. Durante sua permanência n'aquclla capital. ficou o hmitte irrevogável do seu trabalho. publica- dos ao fim de cruza m-se um longo intervallo. Houve por tanto n'estes desgostos uma certa phan- tasmagoria theatral. pequena aldôa do Grâo-Durado de Hcsse. vol. foi ali em 1846. War«estuda nbagen. formando parte de um vasto é corpo de Historia dos Estados europeus. da cilada collecçáo. formou-se no seminário histórico de Giessen. F. Sendo depois nomeado professor de historia na Universidade de Giespen. só se publicou o segundo volume.312 HISTOBIA DO BOMANTISMO EM PORTUGAL D. diz da obra de Scliaeffer : profundamente os factos e desassombrado de preoccupações. Bens da coroa e Classes servas. Desde seus primeiros trabalhos. Affonso Ilh não fez mais do que definir com verdade o plano do seu trabalho. o primeiro volume da sua bella Historia de Portugal. com * os livros da Historia de Herculano. Em uns artigos publicados na Gazeta de Colónia intitulados Portvgal na AUemanha. 1852 e 1854. Foi ali que publicou duas obras que fundaram sua . Schaeffer começou a occupar-se da peninsula ibérica. os três volumes restantes. 23. a 25 de abril de 1794. e acceitou em 181G o logar de preceptor em uma família aris- tocrática de Darmstadt. que era admirador de Herculano. por Hardung.j> Revista universal lisbonense. Cremos que o complemento total do trabalho de 1 A Historia de Portugal de Schaeffer foi interrompida era 1839 para o se» auclor melter mios à Ilisloria de IJespanha. p. embora continuasse dizendo que contrariedades innumeras lhe haviam truncado o seu lavor histórico. Herculano era romanesco. o joven aurtor excitou geral admiraci\o por seus profundos conhecimentos da historia de Ilespaniia e de Portugal. taes como Foraes. Em 1836 publicou o professor de historia da Universi- dade de Giezen. acham-se algumas indicações biographicas acerca de SchaelTrir : «Nasceu csle deslincto bisloriador em Sclililz. Ad. cujo quarto volume. Henri Schaeffer. já a aproveitada pela segurança da sua Foram estes dois volumes de Schaeffer os únicos traduzidos em francez. em 1839 que A obra foi conhecida em Lisboa. esta posição vantajosa lhe proporcionou os meios de emprehender maiores trabalhos. em 1850. e cremos que não sem influencia na determina- ção de Herculano em concentrar os seus estudos dispersos sobre as instituições sociaes portuguezas. i. Quando o primeiro volume da Historia de Herculano appareceu á luz obra de Schaeffer critica.

estudos é que o relacionou A especialisação doestes com Luigi Cibrario. Se a Historia de Portugal não passou além de ACfonso é porque essa obra. germânicas. desalentou Herculano. y. que vae até ao mez de agosto de 1820. e sobre tudo o seu intuito revela-se no nobre orgulho com que entende ler ino. a Historia de Vortuqal de llenrique Scbaeffer. auctor da Economia riava. luz ral e de João Pedro Ribeiro. em Portugal. o único trabalbo verdadeiramente scientitico que abrange toda a historia portugueza desde asorigeoâ da monarcbía até aos tempos modernos. vado esta ordem de estudos: «matérias de historia social cujo estudo não receiâmos dizel-o. era preciso esboçar as transformações históricas da península para se comprehenderem essas justificações de formas sociaes romanas. iy. Foi o que fez Herculano.. . das instituições municipaes. eram os únicos subsídios para sem a critica repulaçílo lilteria. árabes e frankas. em Portugal. p.. a Actualidade. de 1873. é. nascera cujo titulo define nos moldes de uma monographia. da propriedade. materiaes de erudição. e o Elucidário de Viterbo. das formas tributarias. fronto da superioridade de SchaeíTer para o enfraquecer. principalmente a parte que trata do estado ?ocial do reino nos primeiros tempos da mouarchia. da comparativa.) A ílist. é muito estimado. t. bem o intuito primitivo de Herculano. 313 truncaram o seu trabalho. é quasi inteiramente novo . com cuja amisade se gloa Garrett. de Portugal. Estas duds obras formam uma parte da vasta collerçío da Historia dos Estados Europeus de Ueeren e Uckerl.. «O livro de SchaefTer. ALEXANDRE HERCULANO Schaeíler. que não pretendia passar além da Edaãe Media portugueza.» * Os trabalhos de António Caetano do Amaa historia social portugueza. Como Alexandre Herculano náo quer continuar a sua — obra monumental e vive em relrabimento philosophico. como o revelou Rackzynski. etc* (Vid. mas se elle diz que lhe nunca ninguém se serviu do coniir. rinda boje. como o revela na Carta Nós julgamos. politica na Edade Media. a Historia de fíespanha. occupado com a agricultura e alegrando se quando o azeite dos olivaes de Vai de Lobos pertence ás melhores marcas do paiz. da penalidade. e a Historia de Portugal. que :para fazer a historia do estado das pessoas.

redigida por umas * cinco Cartas sobre a Historia de Portugal. . mas não cial. Na Carta reja. T. publi- cou Herculano na Revista universal Castilho. discute a questão dos nossos foi antigos chronistas.314 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Herculano excedeu-os em critica de particularidades. Theod-mir. 564. 661. discussão iii. 953. e á imitação das Cartas sobre a Historia de França. >i. ou adscripto aos árabes. foi mais longe na recomposição synthetica da vida so- faltava-lhe o talento narrador de um Thierry ou de um Michelet. e cita directa- mente a obra de Agostinho Thierry. universal lisbonense: 591 IV. como Theoderich. e é por isso que sendo importantes os dois volumes em que trata largamente da sociedade portugueza. em que A levou ideia de servir as doutrinas politicas conslitucionaes Agostinho Thierry a publicar no Coiirrier em 1820 français as suas celebres Cartas sobre a Historia de França. lisbonense. 316. 262 i. imitando puerilmente na Carta o sys- tema empregado por Agostinho Thierry para restabelecer a ortographia dos nomes germânicos. que Nodier satyrisou acremenle. Já se falia dos Mosarabes. p. são quasi illegiveis pela forma de allegação jurídica estão escriptos. A Portugal também se estendeu a acção de Agostinho Thierry. se Portugal dado em dote a D. arl. 973. 502. 637. que exerceram uma acção profunda na renovação dos estudos históricos e sobretudo no espirito democrático cado á critica appli- das instituiç(3es sociaes da Edade Media. Dez annos de Estudos 1 Na . Leud-vi-ghild. 911. 934. por 1842. 879. . iii. mas cuja adscripção não pôde explicar porque descreve os Árabes como ainda no barbarismo. na Carta iv discute a necessidade de nova divisão das épocas da historia portugueza. . que deriva da palavra árabe At- mostárabe. Ta- que foi aproveitada para a nota sexta úr His- toria de Portugal. Rev. 197 848. Estas Cartas mal revelam a seriedade do hisii toriador de 1846.

Pelo seu mo- narchismo o ideal da emancipação do municipio ficou infe- cundo por incompleto. No prologo da sua modo bem doloroso as Historia.ao processo analytico e doutrinário de Gul- Em todo o caso á primeira influencia da critica histó- rica de Agostinho Thierry deveu Herculano a comprehen- sâo da independência das instituições municipaes na Edade Media.ALEXANDRE HERCULANO históricos. e por isso esta influencia do grande historiador do Terceiro Estado zot. Faltava a Herculano esse poder de recomfez por a vida moral que tanto admirar era toda a Europa as Cartas de Agostinho Thierry. ás vezes. a Carla v encerra 315 algumas anedoctas sobre os costumes da sociedade portugueza. que levou alguns escriptores contemporâneos a illudirem-se com os seus sentimentos democráticos. Documentos avulsos. submettendo-se. pelo errado da sua leitura e por se históricos. . derramados por obras escriptas em épocas nas quaes as luzes diplomáticas quasi que nâo existiam. e mais tarde contradictorio pelas suas afíirmaçôes anti-democraticas. monumentos acharem confundidos com diplomas forjados. Foi de Agostinho Thierry que Herculano aprendeu o seu municipalismo. ser acceitos como aucloridades seguras. materialmente extractados e mais nada. e os seus constantes protestos contra a absorpçâo do systema de centralisaçâo administrativa empregado pela monarchia constitucional contra essa instituição destinada a renlisar na sociedade moderna o self-gouvernemcnt. mal podem. Herculano descreve de um condições em que se acha historia todo aquelle que emprehender escrever uma collecções impressas de de Portugal: «As que todos ou quasi todos os paizes possuem. faltam n'este nosso. mas Herculano era exclusivamente monarchico. Outro caracter lèm os que se encontram nas Memorias da Academia real das Sciencias. e por isso para elle o municipio nunca poderia ter outro desenvolvimento a liberdade mais do que dos impostos locaes. foi passageira.

hade ser paleographo. Herculano achoudifficil com monumentos se em uma : posição excepcionai. dos municípios e dos mosteiros. e descobrir entre milha- res de pergaminhos. bibliographo. mas toda esta boa vontade converteu-se facilmente em bajulação. e se preoccupa a Academia das Sciencias não históricos. que eu . sem influencia. mas esses documentos.» (Hisc. os archi- vos estão sem inventario. natureza forte tornando-o systematicamente A diíTi- culdade e o sacrifício eram o estimulo d'aquella natureza. como convém aos fins que se propõem os auctores que os citam.) Ainda hoje esta situação de qualquer historiador portuguez é rigorosamente a mesma . cathedraes e collegiadas do paiz. referindo-se cado. de ferro. sem uma saúde vel. para tratar esta em- preza todos o serviram com boa vontade. demiltiram-se os empregados com que embirrava. conhecer os cartórios particulares das cathedraes.316 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL OU nas obras publicadas pelos seus sócios. I. e assim enervaram aquella estéril. frequentemente difficeis de decifrar. na maior parle reduzem-se a simples extractos. tudo. nunca protecção que acceitou do paço: aFóra da situação tranquilla me teria abalançado em que me vejo colloa uma empreza. biblio- thecario das Necessidades e obteve assim os fa- meios de subsistência para poder dedicar-se ao estudo. imprimiram-se os documentos que serviram de illustração ou apparato ao seu livro. e recursos para explorar todos os cartórios dos mosteiros. viajante. aplanaram-lhe o caminho. cultando-se-lhe a Torre do Tombo. Assim. a tão grande empreza? Fora impossí- XI. t. quem se occupar da historia portugueza. foi como quebrar-lhe á os braços. hade sepultar-se nos archivos públicos. Nomeado da Ajuda. aquelle que faz ao seu intento: hade indagar nos tos estrangeiros monumenil- onde é que se encontram passagens que lustrem a historia do seu paiz: hade avivar as inscripçôes. Diz Herculano. antiquário. Como bastaria um individuo sem abundantes recursos pecuniários.

que nada significam. de povo.) Foi esta tranquillidade o que inuli- lisou Herculano. AíTonso v II. . «Averiguar qual foi a existência das gerações que passat. tratam a historia uma caracterislica bem profunda: «Elcomo uma questão de partido littera(Ib. p. verdade? De D. a existência u^o mas pelo condicionalismo do meio. a sua magestade mais que a (Ib. Herculano sepára-se d'elles por les rio. ria — Se este livro não fôr inteiramente inútil para a glo- da pátria. ram. ponto de vista o que deu segurança ao cri- tério de Herculano. consultando as fontes directas dos dona»- cumentos.» .) Foi este I. Duarte. eu apenas a considero como maleria de sciencia. João iv. xiv. de nacionalidade. de gente. e pelas circumstancias que a modiíicam.y> X. Port.. fazendo a historia do reinado de D. Introd. tendo especialmente familista. t. Esta sitiiação vantajosa e excepcional devo-a tade el-rei. e dando pelo fervor do eslylo imaginoso a medida do seu patriotismo. ALEXANDRE HERCULANO 317 próprio reconheço merecer a imputação de atrevida . Fallava-lhe o estimulo do protesto. de D. D. Elle a a sua mages- creoa para mim espontânea e generosa- mente. e as gerações é uma palavra que não encerra a ideia de raça. ao paço deve a nação altribuir a interrupção do mo- numento: como e D. Caracte* risando os antigos historiadores que faziam paginas rhetoricas sobre a Historia de Portugal appensando-lhe falsas tra- dições á maneira dos agiographos. porque se comprehende só por si. sem falsear a ii.. eis o mister da historia. . João Affoíiso \\ é que Herculano seria grato aos Braganças. i. e D. Pedro sem se insurgir contra essa dy- nastia dissolvente? Abandonaria a Historia para ficar agra- decido. mim o agradeça a nação. um sentido que é o que sob foi a forma de divisões dynasticas e biographias de reis seguido por Herculano. 1.) Phrases vagas.. 1. e pretendendo explicar as phases sociaes da ção portugueza.» (Hist. fazendo-o estacar no limiar da sua construc- ção.

que termina na revolução nacio- nal de 1820.318 HISTORIA DO BOMANTISMO EM PORTUGAL Quando Herculano emprehendeu a Historia de Portugal^ começada a publicar em 1846. publicada em 1836. o ponto de vista geral segundo o espirito scientifico moderno já estava de- terminado. Herculano não se elevaria acima da erudição fragmentaria das monographias. tinha o defeito de tirar o perstigio ao historiador portuguez. . porém. de Frei Francisco de S. Este trabalho. Luiz e de António Caetano do Amaral. sem a Historia de Portugal de Schaeffer. o verdadeiro serviço á pátria teria sido o traduzir com fran- queza a obra de Scbaeffer. e se possível fosse amplial-a até ao Cerco do Porto e estabelecimento do regimen parlamentar. e de orientar a nova geração n'essa or- dem de trabalhos. nâo existiam somente as monographias de João Pedro Ribeiro. Desde o momento que Her- culano sentiu que lhe era impossível levar a cabo a sua obra. esclarecel-a com notas ou additamentos dos seus estudos.

toria do Direito romano na Edade Media. critica de Masdeu. InQuencia da morte de D. na Es- pana Sagrada. A visita do imperador do Brazil. Roussew Saint-Hilaire applicava os novos methodos históricos á constituição da unidade hespanliola. A Historia das Origens da Inquincno em Portugal. e publicados os documentos que in- teressam directamente as origens nacionaes.) Aualyse da Historia de Portugal de HercuDesconhece a etimologia da peninsola. Os Portagalia^ Monumenta. na Historia Espana. de desmembraçâo e de autonomia politica explicam-se pelos accidentes de unificação ou desmembraçâo dos outros estados peninsulares. tinha publicado os principaes Chronicôes.~(De 1846 a 1806. A queèiao do Casamento civil cm 18(10. lano. discutia com profun- didade a ethnologia peninsular. Pedro v noestado de espirito de Herculano. e para o conheci- . e o fullecimento de Herculano. e o porque da desmembraAs luctas polennieas da Historia de Portuçâo do território portupuez. as relações de dependência. Florez. O trabalho de Hercu- lano consistiu na severidade do methodo scientifico. conlradictada pelos actos. Por tanto o periodo dos primeiros séculos da monarchia portu- gueza é realmente o mais fácil para o historiador. e a queslfio da Situação da Academia das Scicncias. — — — — Para fazer a Historia de Portugal estavam traçados os principaes lineamentos. Analyee geral das formas da sua actividade Conclusão. aban- a donando a credulidade dos nossos chronistas beatos.ALEXANDRE HERCULANO 319 llI. Para comprehensão moderna da qrganisaçâo romana na penínexistiam os bellos trabalhos de Savigny sobre a His- sula. por causa dos inúmeros recursos estrangeiros. onde encontra novos desalentos. Concordata. Abstenção da actividade litteraria e silencio systematico de Herculano. — — — — — — — — — — Uetira-se para a vida rural. dos germanos e dos árabes. plicitamente tratada A Historia de Portugal estava im- como um capitulo da historia de Hes- panha. O Eu e o Clero. gal orientam o espirito de Uosculano no sentido aoti-clerical. e as épocas históricas dos romanos.

contida nas Inquirições de D. Não será este também que não quiz avançar? um motivo por Herculano. Não intelligente compila- era preciso talento para tratar os primeiros séculos de Portugal. para a civilisaçâo árabe. e era de força caminhar sósinho. Desde que Herculano teve de entrar na vida intima do povo portuguez. para justificar o abandono das origens dos primitivos povos que habitaram o território portuguez. desde que achou nma renascença na época de D. Também sistência de qualidades elhnicas. o trabalho desliga- va-se dos subsídios da historia de Hespanha. existiam os vastos estudos de Hammer e de Dozy.320 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL mento da organisação da sociedade germânica os luminosos Ensaios de Guizol e a sua Historiada CivilisaçãoemFrança. condemnada pelos chronistas peninsulares. e por isso toda "a investigação deveria consistir quando muito em entender bem os geographos antigos. Diniz. como um -da conhecimento sem proveito para a explicação do facto unidade nacional. Affonso ni. bastava a capacidade para uma ção de tão abundantes e preciosas fontes. para a constitui- ção das povoações segundo as cartas communaes. ainda não estavam determinados pela Antropologia. raça nem tão pouco se conhecia ainda a ibérica. existiam os ricos documentos publicados por Munoz y Homero. Mas quando estes eruditos escreveram ainda não eslava creada a linguistica ou a philoJogia comparada. mas rehabilitada pela critica de hoje. António Caetano do Amaral e Paschoal José de Mello. ou de recorrência aos pos primitivos. que é a verdadeira chave para reduzir os nomes de logares ás formas conhecidas das lingtias d'essas differentes raças. funda-se nos erros de methodo que prejudicaram as investigações de Frei Bernardo de Brito e nos preconceitos que até certo ponto viciaram as Memorias de António Pereira de Figueiredo. chamada turaniana ou que precedeu na Euos phenomenos de perty- ropa as migrações áricas. .

conhece que o facto da unificação d'esle paiz. Itinerácorrigir-lhes os de Antonino. carthagine- mouros e árabes. 21 . O erro de melhodo as épocas consistiu em que em fazer como syntheses prematui'as. 1^) mas a sua' abstenção proveiu da ignorância da cri- linguistica. porque essa apparente revolução estava na ordem das cousas. Se esse facto de unificação se fez tão com pouco ruido. e Silio Itálico.» Como ex- plicar esse enigma? Tal é a missão do historiador. textos viciados dos manuscriptos anligos. Ptolomeu. é porque era favorecido por condições na- turaes. que fizeram «malbaratar tantos estudos e tantos talentos históricos verdadei- ros» (i. e organisar os dif- ferentes mappas da peninsula segundo cada um escreveu. que se dá na penin- que sula. subordinando a evolução das raças da peninsula á antropologia mosaica.ALEXANDRE HEBCULANO 321 como Strabão. Pomponio rio Mella. sula é A falta da ethnographia das raças antigas da penin- este fez com que Herculano não tivesse comprehendido phenomeno de oscillação social. e este facto é de importância para dirigir a investigação das raças que se integraram no nosso typo nacional. tir O cosmopolitismo semita (phenicios. com relação assim chamada pelos Plienicios. ria ferenles desmembração e na unificação politica dos seus difestados. Avieno. fixando a tribu Liizitana. como o typo originário e ideal da nossa raça. entre os outros estados ainda desagi^regados. SchaeíTer começando a sua Historia de o «enigma de Portugal. Plínio. zes. da antropologia e tica da falta de applicação da moderna á interpretação dos geographos gregos e ro- manos. e mesmo os judeus) não se fez sen- nos povos que se tornaram independentes sobre o solo alta portuguez. e a Portugal. Herculano fugiu d'estas investigações. e a so- lução só a poderá encontrar nos caracteres ethnicos que distinguem as raças. e determinando persistente através de tudo o typo ibérico. é uma revolução que se fez com bem pouco ruido.

a Itália. e o saber restabelecer a cadeia da evolução é o que caracterisa a capacidade do historiador. existem nações tria. ou abandonando o seu território originário. mesmo nacionalidades sem tercomo o Judeu. e diíTerenle é a consi- deração dos phenomenos ethnicos de recorrência. assim como nos phenomenos de ordem physica. Não nos admira. e a prova com que os povos conquistados adoptam a como a lingua dos conquistadores. em aggregação. a obra de Herculano nas- sem mesmo uma clara exposição dos geo- graphos gregos e romanos. e dos eruditos do século xvni. cesse atrasada. que podem quaes variar de uns para outros povos. segundo os historiadores do século XVI. Os caracleristicos de nacionalidade lixados por Herculano são illusorios: as raças sem o cruzamento com outras não produzem aggregado nacional com consistência e vida histórica. de tradição e de orientação peculiar. Expondo as suas ideias acerca do organismo collectivo de uma nacionalidade. e do Árabe na península e entre os Persas. como a Áus- a Suissa. como se viu antes da unificação da Itá- ritório. como as nações formadas da corrente das migrações germânicas. É este ultimo ponto de vista o que se deriva da sciencia moderna. com diversas linguas. pelos commumente se aprecia a unidade ou identidade nacional de diversas ge- . mas ha três.322 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Nos phenomenos históricos. Differente é a immobilidade persistente do Luzitano. Herculano vacillava na determinação dos caracteres de um povo e do condicionalismo que o mantém vacilvista. extensão da lingua latina nos dialectos românicos. nenhuma energia se extingue. portanto que na parte e da Allemanha. a lingua é o producto que é a promptidão uma raça mais facilmente abandona. a sua historia devia de ser lambem lante e sem um ponto de Diz Herculano: aiMuitos e diversos são estes caracteres. existem da geographia antiga de Portugal. e a circumstancia do território é também lia accidental.

Condado portugiiez se separa aulonomicamente. descrevendo em mais de volume e meio structura dos municípios romanos. a nação moderna senle-se tão perfeitamente extranha á nação antiga. de Herculano. mente a essência da sua Depois de tratar dos i conflictos dynasticos até D. das classes servas. fora d'eslas três condições. do colonato. da condição civil das classes populares. i..) Com estes princípios. lypos foraleiros. ten- dência que produzia a independência de Portugal. 13.)) {Uisi. A dissolução do domínio árabe não a explica.ALEXANDRE HERCULANO 323 terri- rações successivas. (Livro vii. Sâo elles— a tório. como a raça dos Lnzilanos teve diversos cruzamentos. poi-que se lhe fosse accessivel esse problema comparado com a dissolução da unidade romana e da unidade golhica na península. qne mostrare- mos contradiclados pelos factos. cuja con- servação como individualidade nacional conslilue propriahistoria. a Historia social portita gueza. raça— a lingua— o E na verdade. é qne Herculano se dirigia na investigação do passado histórico de Portugal. A falia errada arcbitectura da Historia de Portugal. e emfim o systema joô\cia\ e tributário. Herculano concluiu cpie desapparecee ram degeneraram tolalmenle. e como os dialectos raros ves- d'essas tribus célticas apenas se conservam tigios em toponymicos. origens dos concelhos. descobriria a tendência separatista dos povos peninsulares. como â que nas mais longiqiias regiões vive afastada d'ella. (Livro a vi) Her- culano enceta um novo trabalho. Alfonso in. P. que começa até que o a sua narrativa pela morosa e quasi illegivtl exposição do domínio árabe e da reconquista neo-gothica. da dívisiio territorial administrativa. e que nada influíram na dos estudos de etimologia peninsular influiu na orientação do aggregado nacional. e território da Luzitania variou como o ter- segundo as épocas da con- quista e administração ritório romana não condizendo-com o sobre que se fixou Portugal. i a .

saxões . não comprehendia o que elle considerava formas Herculano havia também francez. P. para um único typo de feudalismo. o porque o não via rigorosamente egual na peninsula. provenientes do mesmo tronca díonde esses povos se destacaram. conseguintemente. Ilenriqufi. frankos. porque ora a altribue ao Conde D. uma decadência dos homens livres germas por uma elevação do escravo antigo. sem conhecer o desenvolvimento . e burguinhões. i a iii. e critério historico-compa- sem a prévia preparação do estado de civilisação da peninsula e das condições que determinaram a separação da nova nacionalidade portugueza. aos planos superiores com que defende D. HISTORIA DO ROMANTISMO BM PORTUGAL isto é feito. Na exposição das instituições germânicas. Aftonsa Henriques.324 III. desmembração de Portugal da unidade momentânea Asturoleoneza é incomprehensivel. desconheceu os resultados históricos determinados por Savigny acerca da unidade das instituições sociaes dos godos. e por tanto nem conheceu não comprehenderia o seu caracter de resistência. e Livro viii. torna-se de aridez invencível e uma a sem intuito para a comprehensão da origem das nossas instituições. Assim para Herculano. (Arimania) e se as conhecesse lenuou o seu estado pela servidão da gleba. que motivavam a sua desmembração. Na explicação das instituições romanas. ora crê nas forças immanentes ao próprio Condado. que atas Irmandades. quando tem pos similhantes e idênticos. e accidentaes do feudalismo. sem a luz do rativo. Thereza pela perspicácia politica. instituições que variaram depois segundo a época e território do seu estabelecimento definitivo classes servas por em na- cionalidades. não explicou a origem das mânicos.) O modo como me- ramente descriptivo. e a seu filho D. d'aqui a impossibilidade de comprehender os municípios e o colonato. ignora as conclusões sobre as ori- gens da civilisação árica. lombardos. e separa essas instituições como ty- diíTerentes da constituição social germânica.

principalmente por Slrabão. Outra parle estendia-se desde o Douro até ao Tejo. {ab Ana ad Sacrum Turditani. Herculano não soube destacar o elemento mauresco. (Opinião c) lambem recebida por Ptolomeu. que provocava a revivescência de qualidades ibérico. e era Plin. e Ptol.ALEXANDRE HERCULANO (la 325 banda guerreira sobre a banda agrícola dos germanos. mas sem raízes senão a do encontro de duas crença sociedades que se odiavam. Pelo território se explica um dos porquê da nacionalidade por- lugueza. som corrigil-os. nem tirar do ter- ritório as deducçôes do methodo tão severo de Ritter. por isso a coHig:ição e € unilicação das monarcliias com o catholicismo servindoIhe de regimen policial. era ao que propriamente se chaou o território mava b) a Galliza dos Callaecos.) Outra estendia-se desde o Ana até ao Sacrum. esse território acha-se dividido pelos geographos antigos. e na península a sua dependência das cortes. e limila-se 'dos a transcrever os dados geographos antigos. e d'este rio até ao Guadiana. nas seguintes zonas: a) Uma parte estendia-se desde o Cabo Nerio ou de Fi- pisterra até ao Douro. nunca lhe appareceria como a causa de se não terem formado Estados federaes na península. a que os escriptores hespanhoes rabCf <:to foi chamaram Mosa- vagamente esboçada por Herculano como um la- existente. . não pôde explicar a realeza com caracter electivo. O ponto de vista chríslão falsificava-lhe na historia a comprehensão pliilosophica. ou propriamente o território da Luzitania. 6 por tanto de terem produzido tes povos.) a Turdelanía. a sociedade árabe tríumpbante e a sociedade gothica decaída mas e fortificada pela chríslã. Com relação aos Árabes. e elhnicas do antigo elemento por isso a definição das origens do elemento po- pular. a decadência inevitável does- Descrevendo os caracteres de uma nacionalidade Herculano indica o território. a sua tendência para tornar-se heriditaria.

e em um grande e como notaram Hoquemont Rac- zynski. a tendência de aggregação nacional começou a organisar-se na região de Entre Douro e Minho. de Vianna. «que corre pelo terreno dos Gravios.323 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL facto Tiremos as deducções para o da nacionalidade. um facto bem si- que só pelas colónias gregas do norte se pôde comprehender. como se vè pelo regimen emphyteutico da propriedade. Segundo os geographos antigos desde o Douro Cabo de Finisterra o território era totalmente habi- tado por colónias gregas.» E um pouco adiante: «Os Lusitanos ou Gallegos. para assim se acharem de frente os phenicios com nos determinam-se no ponto em que os phenicios na occu- pação da península ibérica. Diz Strabão.» o Também Plí- nio diz «grccorum soboks omnia. até que pela stituir violência da sua situação os gregos íizeram-se sut|. já então por causa d'esse nova povo chamada Span.. os gregos e phenicios andaram sempre em conflicto nas suas expedições mariíimas e commerciaes. de muitas povoações das costas do norte. apparece em muitos usos populares privativamente gregos. onde existia um elemento ethnico de raça árica (distingue-se pela cohesão nacional) sobretudo as colónias gregas e romanas. até ao A importância d'este facto 'exige uma maior com- provação. Este fado que ainda hoje se authentica na belleza esculpiural das mulheres da Maia.» A fronteira luzitanica fixada pelos geoé graphos antigos nas margens do Douro gnificativo. se encontraram com as colónias gre- . fazem seus casamentos aa estylo dos gregos.. (trigo grelado) em um grande numera de inscripçôes lapidares talento architeclonico. Portanto os limites dos luzita- suas colónias. diz Silio Itálico. coma os Jardins de Adónis. que ainda prevalece no Minho. na lucta chamando os romanos e entregando-lhe as esse novo poder. a deuses hellenicos. fallando do Rio Lima. na descripção da Hespanha: «Nos que vivem junto ao Douro observam-se muitos rasgos da vida e costumes dos Spartanos ou Laconios.

determinado pelo antropologista Paul Broca como anáfá- logo ao berber da Africa. e conservou-se a aggregação pela acção vigilante das ordens de cavalleria. das colónias mauritanas. do lado de Portugal estabeleceu-se um certo cosmopolitismo. uma fácil assimilação de raças progressi- vas (ex. Do vando lado da Hespanha dava-se também o phenomeno da ou estacionaria (Bascos differenciação ethnica pelo apoio dos Pyremieos. a persistência dos caracteres ethnicos primitivos. do elemento carthaginez. em que o génio da nova nação se manifestava com uma certa consciência histórica na conquista dos Ahjarves d^além-mar (em Africa) no reinado de D. e os romanos. foi Por ultimo a terceira região. E isto que se deduz do antagonismo dos dois povos. Sobre a persistência dos caracteres ethnicos primitivos de um povo através dos seus diversos cruzamentos e trans- . vèm-nos explicar a rasão da cil cohabilitação dos phenicios. com -. Esse minio árabe propagou-se facilmente sobre o território onde existira a dominação phenicia. Aqui lemos os elementos heterogéneos bem caraclerisados para se estabelecer uma aggregação nacional. era uma revivescência se- mita. a formação do t^po ou raça Mosarabe. como refugio dos árabes conquistada pelas incursões marítimas. das colónias scythicas administradas pelos romanos. Assimilou-se facilmente a refoi gião central (vid b) a titulo de libertação do dominio árabe. e pelo grande numero de povoações maurescas que acompanharam a in- vasão sarracena. verifica-se na conquista árabe» em que o dominio do- sarraceno se não elevou lambem acima do Douro. dos Alanos (elemento scylhico que acompanhou os germanos) da fácil conquista árabe. conser- a raça primitiva mais pura e Aquitanios). O typo ibérico hespa- nhol. João i. também o mais diíTicil de conquistar tanto para como para os neo-godos. normandos e frankos) e capazes de aproveitarem os estímulos da visinhança do mar.ALEXANDRE HERCULAMO 327 gas da norte.

. se tinha inoculado de povo a povo. a administração e a cultura existis- foram recebidos pelos povos peninsulares.. o mesmo antropologista chega á seguinte conclusão: «O que se es- palhara por toda a Europa nâo era vilisação. mas ás vezes recordam-se. í Ibid.328 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL » formações históricas. 868. como o provam os Celto-Scytbas mencionados por Plutarcho hispânica. um facto análogo. cujos caracteres physicos continuam por tanto a predominar no seu seio. em que os caracteres exteriores da o direito. adopôde esquecer com o andar do tempo até a exis- ptando a lingua. i.»^ Esta af- firmação reforça extraordinariamente o primeiro facto da persistência dos caracteres elhnicos do Celtibero. e que estas repetidas con- Mem. a lingua. mas ainda de uma forma mais abstracta se dá com ci- o dominio romano. d' Antropologia. que. 1 t. o que prova o seu caracter eminentemente progressivo. os costumes. porque o bem inocula-se como o mal. sem que sem famílias romanas na península mas sim colonos sub- mettidos ao império. vilisaçâo. no colonato ro- mano.» * e os Celtibericos da península Das migrações e elementos célticos que entraillustre ram na população dos estados da Europa. tência dos seus antepassados autoclhones. diz o Broca: illustre antropologista Paulo «A nação cruzada que resulta d'este mixto. adoptando a cultura céltica^ phenicia. p. p. pelo lado antropológico vemos apparecerem condições de persistência e revivescência do seu typo ibérico pos elementos scy- ticos dos Celtas. mas uma ci- por assim dizer. que os caracteres physicos persistem no Celtibero. wisigothica e árabe. Se vemos do lado ethnico dar-se uma transformação constante nos povos ibéricos. 370. uma raça. romana. a nacionalidade da raça estrangeira. Aqui podemos repetir com Paulo Broca. nos alanos dos wisigodos e nos mouros dos árabes. no turaniano do phenicio.

Espana antigua. neses. 2 Slrabao. teriam podido dominal-os. Slrabâo explica por esta causa dominação dos Iberos por outros povos invasores: aEste mal. e conleutando-se em fazerem-se invasores' de propriedades alheias. Nem depois dos Tyrios os Celtas.» Ibiderrij p. a porque ao seu caracter emprelinndedor unem desconfiança que tèm uns para com os outros. tuirá a e cujo conhecimento e disciplina constideíiuitiva d'esles povos. de comvi- municação e sem nem tão pouco o modo de * o illustre antropologista ainda adlrma: «Ora a ob:. e nem do terreno é para reunir muitas cidades por ser d'elle está fora porque uma grande parle civilisação.»- E explicando o génio separatista pela influencia do território. e propriamente salteadores.ALEXANDRE HERCULANO 329 diçôes de revivescência fizeram com que o Cellibero não se esquecesse da sua origem. conservando sempre o seu typo a despeito mesmo dos crusamenlos que o\periD)ontaram. 383. Diccior. que é o caracter fundamental da sua historia polilica. pois. .ervaç. 104. * Por consequência è no génio ethnico que se deve procurar a tendência separatista dos povos peninsulares. que invadiram a sua re- gião apresentando forças superiores. versão Cortês y Lopes.lo prova. nenhuma cousa eniprehendiam em giande. nem depois d'estes o salteador Viriato. que são chamados Celtiberos e Borones. não reunido se tendo em grandes communidades. Porque é certo que se conseguissem sustentar-se nuituamente. nem Sertório. como fizeram de uma grande parte. forma da civilisaçâo Comparando os pequenos estados da península aos a esta- dos independentes da Grécia. nem os Carthagi nem anies d'elles os Tyrios. atrevidos somente para pequenas emprezas.ario geographico y histórico de la i. continua Strabão: «Porque a natureza estéril. actuou com mais intensidade entre os Iberos. qoe as línguas se extinguem sempre mui lei)tan)entc e que a maior parte tios povo? da Europa occidcntal tem muitas vezes unidade de lingua. nem nenhum outro intentaria nem conceberia a ambiciosa pretenção de dominai os.

p. e em todos os accidentes da sua historia nacional. o despreso pelos trabalhos agrícolas. 2/6/rf. nas guerrilhas das guerras napoleónicas. desenvolvida nas guerras contra os romanos. nas suas revoltas mentos. e assim nâo podem ser indicio de grande numero de cidades. nem os costumes de Ioda a Ibéria são como os que se observam em toda a costa marítima do nosso mar. e neste estado se acha a maior parte dos Iberos. p. 3í6kí. hoje Bascos. os que vivem em pequenos povoados costumam ser bravios. Pois em geral. . ou como os gene- raes carlistas. de modo que nem as próprias cidades suavisam os seus costumes a não ser com diíficuldade. por isso que as montanhas da Ibéria trabalho agricola. 115.330 ver.. a Índole de salteador.» No povo hespanhol persistem ainda hoje todos estes ca- racteres. A tendência separatista. etc. p. e por ceita espécie de furor próprio das feras. e o descuido do futuro. reapparecem como o Cid.» A persistência do espirito separatista é o caracter quasi 113.. povoas ou aldeias. senão ^ também por suas crueldades. HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL . explica profundae pronuncia- mente o génio hespanhol. reappareceu na lucta contra os árabes. » Ibid. e os cabecilhas como Viriato. que se criam sem pre^ caver as necessidades^ antes vivem pessimamente á maneira de feras attendendo só á necessidade presente.» máxima ou Dos Iberos do norte. os ódios locaes. 114.. falia e as suas muitas brenhas offerecem * ensejo para se atacarem uns aos outros. como se vê pela adagio popular: «Quem vier atraz que feche a porta.» Da sua falta de Strabão referindo-se outra vez ao gé- nio indomável dos Iberos: «homens. Ainda persiste o costume das povoações isoladas. diz Strabão: «pois aqui não só se differenciam por seu valor.

Um sysa lema natural se estabelecer nas Confederações. que debalde se tem querido converter em raça. os Romanos deram-llie a sua pri- meira unificação politica. Murcia.ALEXANDRE HERCULANO 331 exclusivo da historia dos povos peninsulares. cuja tradição se conservou na cul- tura hispano-romana. organisação do colonato. quando estes no fim do século vn determinaram uma nova desmembração da peninsula. e a Hespanlia desmembra-se outra vez em estados autónomos dos Vândalos. como as entre Leão. nunca poderam desmembrando-se nos reinos de Toledo. Opera-se outra vez uma segunda unificaçiko (642- 6i9) pela acção preponderante dos Godos. Cantabros e os Bascos. jungindo . Almeria. Circumstancias especiaes determinaram a in- vasão germânica da peninsula. desmembração das AsGalliza. os Árabes. povos em quem persistia mais puro o caracter ettmico pri- mitivo. coexistindo com túrias e reino tella. Badajoz. Sevilha. Começa attingir a unificação politica. mas resistem a essa força unificadora os Asturos. Castella e Navarra. Denia e Baleares. apesar de se assenhorearem profundamente da peninsula. no de Aragão. como acabámos de notar. ligando a e Navarra com o Aragão. prevalecendo a desmem- bração. como a de Sancho Magno. viviam em pequenas communidades. no condado de do século XI Galliza e ia no condado de Barcelona. no de Portugal. Suevos e Alanos. a unificação outra vez com o esforço da reconquista christa a ou neo-gothica. As raças que e pela acção administrativa e precederam os Romanos. Valência. no reino de Castella. Navarra e Castella.dynasticas. Granada. Portugal e Cas- de Leão. Málaga. sendo por isso os primeiros que resistiram aos Ára- bes. e no século xiii entre Aragão. mas appareceram am- bições monarchicas e as preoccupaçôes . As a ambiçíjes monarchicas. pertur- bando a organisação racional dos estados da peninsula. sob a forma de conquista fizeram unificações violentas. Como semitas. que oscilla no movimento de unificação e desme mb ração.

a Fernando deixa Gastella ao primogénito Sancho. a Fer- nando. todo o trabalho a deve visar pôr em relevo este grande destino em quanto â consciência nacional.332 HISTORIA DO KOMANTISMO EM POUTUGAL a Navarra. e como Fer- nando com a Gastella. mogénito. Leão. Gastella e parte de Leão. Toro. como Toro a Elvira. Leão. desmembravam outra vez os povos unificados. Leão e condado de Gastella ao segundo íilho. Sanclio Magno faz em 1035 a desmembração deixando a Navarra ao seu primentária. Aragão é repartido por Jayme Gonquistador entre seus dois filhos. Galliza a Garcia. Leão. como a de Affonso vii. Navarra e os condados de Barcelona. a mediocridade fortalece-se no methodo exclusivo do nihil praeter fada. Galliza. pelas formas da vontade testa- como vemos nos mesmos monarchas citados. o senhorio de Sobrarbe e Ribagorza ao quarto. Eis aqui o pital da vida histórica do povo portuguez. e a deduzir a necessidade da funda- ção do Federalismo peninsular emquanlo á constituição politica. Foix. como se os factos desconnexos po^ . Toda a erudição que não vise a uma demonstração é estéril. (situação separa- como tista até Fernando e Isabel) como ao estimulo da proximifacto ca- dade do mar. que pelas navegações nos trouxe as condições económicas da independência nacional. deve attribur-se árico isto não só á preponderância de elemento em á Portugal facilmente aggregado ao Gclta marilimo. as usurpações de Sancho (Gastella. Zamora a Urraca? As usurpações monarchicas entre irmãos também foram uma causa transitória de unificação. Urgel. circumstancia do meio histórico. Portugal altingiu muito mais cedo as suas condições de estabilidade. Leão Affonso. Aragão. As preocciípações dynasticas. Affonso ^ vii deixa Gastella a Sancho. Leão e Galliza. Palias e Montpellier. Em quanto os estados peninsulares fluctuaramn'esta oscillação politica de tmificaçcio e desmembração. "fundindo Gastella. Zamora e Toro. Za- mora) unificadas (il57) em seu irmão Affonso até Affonso vn. Aragão ao terceiro.

sem comtudo o histo- riador querer corrigir o seu texto. de ii xm das kai. 44 e 45) e de grande significação social. qne estes factos Civilis. simul. t. de Portugal. p. diz Herculano: «Do mesmo modo que doeste rescripto ponti- succede com outros documentos capitães para a historia d'este reinado. se repetem Portugal em Ha como reflexos no reinado de D. Afuí. diz Herculano: «Aqui observamos somente que em França data do reinado de S. AtTonso ni.) in. tão necessária para a inlelligencia das Cortes portuguezas. celcslia Julii.ALEXANOBG HEBCULANO 833 dessem perceber-se mais do que as lettras baralhadas de um alphabeto. Julii. ignora-sc fício a existência que deferiu d supplica.* ed ) * Collecç. pos- toque então de menos importância pratica. II. 2.» * Estes documentos estavam pu^ blicados pelo visconde da Carreira. lect. 52 (ed. Se Herculano. (2. : 73.*) . já no tempo de Carlos Maguo e seus successores se convocavam os estados. zes aos parlamentos. ano. p..» xlvi. ann. na direc- ção dos Monumentos históricos da Academia empregasse a sua extraordinária influencia para a acquisição do Cancioneiro da Vaticana. iir. Luiz a convocação dos delegados burgueen Franc. e a modificação do direito de reviudicta ou guerra privada (Guizot. costume que se obliterou com í Ilisl. de Portugal. toria aí acharia grandes elementos para a his- da conjuração aristocrática que deu o throno a D. Mas o rigorismo dos factos não obsla a que se não erre ou na particularidade ou no ponto de vista. t.» ^ aqui a distinguir dois factos fundamentaes. apenas sabemos indirectamente ella que não foi baldada. 3 Hist. fonso Em quanto aos erros de ponto de vista indicaremos politica a comprehensão da vida do Terceiro Estado. iii Qui Non. n. Beatriz tendo ainda viva sua niullier a condessa Malhilde. é fácil o exemplificar estes dois casos pontificio em Herculano: acerca do rescripto Aífonso in que legitimou o casamento de D. com D. que Herculano confunde. (liG2. Bulias e In nostro proposuislis.

e Boularic. desde que a realeza se separou do feudalismo pelo facto da hcr editar iedaãe. La France sous Phit. viu Her- culano n'esse fado apenas um meio de obslar aos impedirefere-se mentos canónicos. real. Drolt municipal au Mayen-Age. e constituindo esse a Philippe o Bello.^ insiste em querer achar n'essa situação servil uma modificação benéfica da escravidão.unlo-se os cadastros da no- breza.Luiz o costume de chamar á participação do governo a nobreza.334 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL a preponderância do regimen feudal. dizendo e zelo pela sciencia «aquelle que só conhece abnegação que n'esse duro lavor deixou passar os melhores dias da sua 1 Bechard. Herculano. este facto ac- cidental da convocação simultânea dos Estados geraes ficaria infecundo para a liberdade moderna. em i857. como as classes servas eram os homens-livres germânicos decaídos pelo de- senvolvimento das instituições feudaes. á sua situação desalentada. havia apoiar-se n^estas classes restituindo-lhes as suas anti- gas garantias. No conHiclo da realeza com o poder senhorial. o clero e o terceiro estado avivava-se segundo o augmento do poder voto. Do tado das classes servas na Peninsula desde o VI! até ao XII século. poder novo dos Estados geroes. stituições É isto o que nos explica a evolução das ines- modernas. Se as ciasses servas que se tornaram povo surgissem á vida politica por se elevarem da escravidão. lippe le hei. No estudo das Classes servas. 381. via politica. em um ensaio de Herculano. no tempo de S. reunidos em commum para deliberarem. unicamente para subiu et ter essa classe altiva d nobreza do foro de el-rei. pertence (1302)* que encetou esta cida nas monarchias. (18o7). fund. . chamados Livros de Linhagens. até então desconhe- mas com origens no mallum germâ- nico. 2 Ánnaes das Sciencias e das Leltras^ i. p. mas essas três ordens eram convocadas se- paradamente e era em separado que cada uma emittia o seu A ideia da convocação simultânea dos três estados.

aptidão dos seus com- patriotas para tomar parte no progresso litterario e scientifico da moderna Europa. n. a revolução movimento de 1836. como um Jacob Grimm. i829 e 1832. pequeno povo? O seu competiam-lhe essas palavras. e que.^» Herculano projectou este seu eoitaphio em i857. a edade de ambições. e a velhice de vaidades. não obstante infeliz a tarefa e o êxito até hoje das suas instituições liberaes.ALBXANDBE HERCULANO vida. de fevereiro de 1847. para a Historia.» critico inglez referia-se aqui aos O grandes esforços dispendi- dos em implantar as instituições liberaes políticos em ISáO. Mas que verdades históricas achou. 182G. e aos erros cional. Os escriplores estrangeiros scientiíica. viril 335 sem saber o que a mocidade tem de gozos. da monarchia constitu- que pela tendência para o absolutismo provocou o 184:2. algumas importantes verdades.° 100. a Historia de Portugal do Herculano foi perfeitamente comprehendida. como a Herculano é uma prova da . as reacções de ^87 (reproduzido nos Opúsculos.) de 1 Ibid. o são juizo e as opiniões illustradas vão fazendo progressos. attende-se ai em primeiro logar á iníluencia das instituições liberaes sobreoescriptor: existe «Quando reflectimos que c somente ha poucos annos que alguma cousa que se assimilhe á liberdade de fallar tal ou de escrever. o apparecimento de uma obra do sr. se tivesse renovado o metliodo da eru- dição histórica como um Savlgny. .^ p. no yv^ov dos qua* renta e sele annos. Na The Dublin Universilg Magazine. mesmo com relação a este christianismo e o seu monarchismo lhe perturbaram sem- pre a boa vontade do critério. reconhecendo-lhe a sua probidade consideram-no livies ini- apenas como o primeiro producto das inslituições ciadas em um revista paiz morto. e cuja recom- pensa única será escrever-lhe na campa: Aqui dorme um homem que conquistou para a grande mestra do futuro.

damenlaes: «nós reputamos o Herculano inquestionaBarros velmente o primeiro dos historiadores portuguezes.. e até talvez lhe não seja superior em em energia e profundi- dade de saber . mas era verdade. nem sobre a onomatologia phenicia e céltica d'este territó- rio. dos em Portugal . tão importantes para determinar as raças que o habila- taram. No juizo da citada revista acham-se estas phrases funsr. e Hes- k Historia de Portugal ficou stereotypica e ella ficou a scien- cia progrediu. e se assimi- obra de Herculano.» Isto chocou profundamente o escriptor. Citamos plo um exem- com relação á decadência romana e invasões germani- . Na Grammatica de Diez teria achado a verdade para ratificar a sua ideia sobre a formação dialectos românicos fallados actualmente [)anha. não quiz aproveitar-se do Corpo das ínscripções tinas publicado por Hiibner. a Historia de Portugal ficou atrasada por incúria do seu auctor. que derramam tanta luz sobre as divisões administrativas da península. (1846- 1877) n'essa obra nada se historica falia sobre a antiguidade pre- da península. como prova do estacionamento falta de um espirito. tinha aos olhos da Europa o grande valor de demonstrar como qualquer cousa que Ihe á liberdade de fallar ou escrever transforma os espiritos. nem tão pouco dos grandes trabalhos de Waitz sobre os povos germânicos e sua constituição social. nem nos bellos trabalhos sobre os Iberos publicados nas Memorias da Academia de Vienna.336 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1846 e a intervenção armada de 1847. Herculano não podia julgar com verdade a as grandes épocas da civilisação humana d'onde nossa pe- quena nacionalidade portugueza surgira.. não esquecendo nunca de que é inferior a eloquência. Pelo seu espirito catholico e pela sitivo de um critério po- da historia. Embora escripta com o critério scientificq. Effeclivamente tudo isto atrasava a manifestação a da intelligencia portugueza.

* se essa civilisação soíTreu foi mais por causa dochris- lianismo. 22 . que a persirasio de existência para uma JegisLiçao sem objecto. onde o pensador procura as causas complexas e inlimameníe relacionadas dos movimentos que se operam nas sociedades humanas.lo haveria nem necessidade nem. que desviou o curso da actividade humana para um estéril myslicismo. n. não : — . e-oús n^o podemos admiltir a persistência do direito sem conf^talar previamente a fièrsistencia da nacionalidade • da «dmini:^trar. Por Hltimo. 1 Diz admiravelmente Savigny. senos apparece Deus não como uma metáphoro. renovaram quasi inteiramente as sociedades decrépitas. Introd. não comprehendido por Iiercul«DU «A questão da duração d« direito roínano Iraz comsigo a necessidade d» examinar a durarJo do próprio povo em quem e para quem o direito existiu. Em uma primeiro logar procura o grandioso. do que das próprias invasões barba- ras. antiga.ão romama. que se não pôde equiparar um aggregado material. mas nunca era melápliora demetáphora. descendo do septemtriâopara o Meio Dia da Europa. e os códigos romanos continuaram a ficar em vigor. porque continuou a escrever-se em latim. Se a nacãt) ron^ana dei^apparcceu sob as ruinas do Império do Occidcnle.) Este período representa um systema completo de coma rhetorica falsa só prehensâo histórica. a civilisação romana não se extinguiu. D'aquella revo- lução immensa nasceram as nações modernas.possibilidade de conservar a legislação romana.ALEXANDRE HERCULAMO cas: 337 a civilisação «Foi um mundo que desabou com toda n'elle. em que soltando a torrente das invasões é boa para o púlpito e não para a historia. sem se preoccupar de que os mundos não desabam. e estas.» {Historia de Portugal. fanatisadas por esse mesmo christianismo. resumida e contida Deus soltou a torrente das novas migrações. stência da legida^ao presuppCe a persistência da orgaaisaç&o jadiciariA. Essa noção de Bossuet. O mesnro aconteceria pouco mais ou menos se os vencidos tivessem perdido a liberdade pessoal ou a sua inteira propriedade nenhuma Ajuntae. depois de demolirem e de arrasarem quasi tudo o que representava o passado. e islo revela o critério da escola histórica. e que sociedade é a um conjuncto moral.

que foram applicados íundamenlalmcDle nos grandes trabalhos de Savigny. Ita- e germânica era relação histórica. porque o feudalismo produziu e por sua vez a se communa produziu pôde pôr com mais claresa as communa. e na possibilidade d'esses povos bárbaros ainda inventarem formas sociaes mais perfeitas. Assim uma solução feu- dal estava na natureza das cousas mais do que se tende a acreditar. attríbuindo á Pbilosophia positiva a inlerprelaçáo de um progresso. que acreditava na demolição da sociedade antiga pelos invasores germânicos. afíirmar que elle se eífectuaria pelos ricos. Herculano imitava apenas o processo da mana sem escola hiBlorica de Savigny no estudo das inçlituições sociaes..« ed. depois do desenvolpóde-se vimento religioso e do christianismo houvesse o tempo bas- um desenvolvimento politico.» 338 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Na sua obra Estudos sobre os Bárbaros e a Edade Media. que teriam reclamado e exigido direitos políticos e intervenção no governo. respondem aos que pretendem pintar a Edade Media como uma éra de decadência. . cuja sendo possível admitlir nos reinos da conquiíta a adminislraçiSo da lei rojuizes e tribunaes romanos. que esta solução não prejudicou em cousa alguma a a evolução total. * Op. O conDíclo entre a escola histórica (Savigny) e a eíco/a philosophica (Gans) acabou desde que a metapbysíca foi apeada por Âuguste Gomle completando a eyolbese scientiGca pela creaçUo da Sociologia. como necessidade de provar a doutrina da continuidade histórica. cit. mas sem coraprehender o seu espirito. que era o interpretar os factos pela lei de continuidade. * Não duas sociedades romana a democracia. p.» Estes princípios. Littré restabelece a correlação das phases da sociedade moderna de- duzindo-a dos elementos romanos: «Se a vida do império não fosse truncada pelos bárbaros. Isto é tão ver- dadeiro. pelos aristocratas. e bem longe de espantarmo-nos da instituição n'ella o do feudalismo é preciso vêr officiaes producto de condições desde longo tempo determinadas. Littré unicamente dirigido pelo critério da continuidade histórica chega a um resultado opposto ao de Herculano. tante para operar-se se. pelos poderosos. na primeira o desenvol- vimento da grande propriedade (latifundía perdidere liam) formava o gérmen de um novo poder senhorial. XII. 2.

e consequentemente a reacção das classes servas contra o feu- dalismo. ficio abandonando a Historia de Portugal falta como um edifalta interrompido não pela de material mas pela de destino. quando . civilisaçâo d'esta grande raça semítica. mas a conquista conservou o systema da grande propriedade. e deixou-se inércia. Não se conhecia em Portugal a critica histórica. Com íi princípios tão falsos de critério histórico como é que Herculano havia de considerar a invasão árabe da península. se- não como cousas explicáveis por um providencialismo su- perior aos destinos humanos.ALEXANDRE HERCULANO 339 evolução foi interrompida pelas invasões germânicas. em vez de achar o facto [)Ositivo da decadência dos homcns-livres durante o desenvolvimento do feudalismo. e as monstruosi- dades e devastações praticadas pela reconquista christã. a sua organisaçâo administrativa o reconhecimento do seu poder politico em communas e em democracia. a historia na- um certo numero de tradições claus- sem a poesia da elaboração anonyma. Herculano emprehendeu a sua grande obra cional baseava-se sobre traes. Herculano obedeceu do na estimulo que vem de ura pensamento. continuar seria sim dizer automática. e quando pretende entrar no funccionalismo das instituições sociaes não sabe achar o seu nexo e fica na mo- nographia particularista nam quasi illegiveis. e falseadas pe- los intuitos de um destino privilegiado reservado pela pro- . porque no seu estudo sobre As Classes servas da Península. isto é. Por isso a Historia de Portugal deriva-se da chronica. jnlgava-as cravos que se elevaram. em que os factos sem luz se torUma vez perdido o pensamento da uma violência por asa essa falta ficar Historia. não achado o princípio philosophico da Historia de Portugal. como es- Herculano nada viu d'esla evolução. conservando o seu espirito nos pequenos factos accidentaes das biographias dos monarchas.

340 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL vidência a este povo. e Martinri de Freitas. não . como Arlhur da ilha de Avalon. A critica. Herculano fortaleceu-se na concepção moderna consia historia derando «como matéria de falsidades. como o Sonho do Quinto Império do Mundo. a fidelidade de zes. Fiados no perstigio d'estas tradições que já no meado do século xvi eram conhecidas. na côrle de D. dizem elles.» mas exag- gerou a severidade da as tradições tura: critica repellindo incondicionalmente como Diz elle «Nâo ignoro o risco da situação com uma certa alem que me colloquei. mata a poesia das antigas eras. Sebas- tião da ilha encantada. as lamhem respeitáveis. seguros de que a providencia manteria por meios divinos o nosso destino no futuro da humanidade. Ha muitos para quem dynastias nascidas de os séculos legitimam e santificam todo o género de fabulas. ignorava-se que estávamos já envoltos na catastrophe. o pacto das cortes de Lamego. esta ultima. já Quando o exercito francez occupava o território portuguez. como legitimam e santificam todo as uma usurpação. e que o padre Vieira tentou explorar na época da Restauração de 1640. sobretudo. espécie de Carta Magna dos portugue- uma invencivel credulidade na vinda de D. sciencia. como se a poesia de qualquer época estivesse nas patranhas mui posteriormente cãs da mentira são inventadas. os po- deres públicos muitas vezes abandonaram a defeza da na- ção á eventualidade dos acontecimentos. tendo o seu quartel general em Abrantes. eram a pa- rodia do lábaro de Constantino ou o apparecimento de Christo a Affonso Henriques assegorando-lhe a victoria na batalha de Ourique. Reagindo contra este estado mental. João vi estava tudo como d'anteSf como disse o proloquio popular. São excellentes talvez as suas intenções.' Aos olhos d'estes. é que tinha profundas ramificações po- pulares por se ligar aos restos mysticos do culto solar do polytheismo indo-europeu. As tradições mais queridas dos eruditos d'este paiz obcecado pelo catholicismo.

iy p. e de applicaçSo. se ella representa o atraso dos estudos históricos em Portu- tugal?.) Para que citar essa folhelada estéril e illegivel. a propósito de Egas Moniz. de boa fé.. e com falta todas as mais classificações que se costu- mam aggregar ao nome de qualquer escriptor moderno.» Eram estes os únicos tópicos da accusação 1 Portugal. gravissimos. . com as in- jurias.ALEXANDBE HERCULANO sei se 34i o -estes o mesmo se poderá dizer da sua intelligencia. Para meu livro será um grande escândalo. porque acha que a língua portugueza deriva do latim. pro- fundos. porque elimina os sonhos e milagres. i)orque pretende quo a batalha de Ourique nào foi uma grande batalha. Pedro iv. No vol. hão-de estribar-se na opinião de his- toriadores e antiquários.» 2 Pôde vôr-se no Diccionario de Innoceocio essa lista de folhetos que os cu. não viram acatadas com auctoridade legal as Cortes de Lamego. X. a severidade do melhodo fez lél-o com interesse.» I. as chroiiicas e a tradição. quando. e insurgiram-se contra o escriptor e contra o livro.. veiu o volume a pubhco. que escrevia em 1847. illusfrcs. e melhor fora (Iíist. ix. que os partidários do absolutismo miguehno consideraram o palladio a que não resistia o conslitucionahsmo de D. até. por isso que Raczynski considerava o primeiro volume como «um exemplo de critica sã. e não adopta.» Herculano previu a tem- pestade. conto. no seu D iccicnario histórico artístico de tBaslanles pessoas accusara o sr. iii dos Opúsculos encontram-se os libei- los e róplic&i de Herculano. Choveram opúsculos por * vários padres e eruditos monacaes do theor e forma que Her- -culano definira no prologo da sua obra: «Muitas destas re- futações. riosos colligem com sacrifício. diz: contra a Historia de Herculano a resposta era continuar a applicar o mesmo critério scienlifico.Os pregadores serviram-se do púlpito lançando á Raczynfki. querem sustentar opiniões absurdas ou infundadas. na de monumentos ou diplomas legítimos se (llist. p.» Assim aconteceu.) deixarem de olor. já o prevejo. llerculano de ler procurado diminuir a gloria de Portugal. porque conhecia ohorisonteintellectualportuguez. armados com um grande apparalo de patrologia. não encontraram n'elle a narração do apparecimento deChristo a AíTonso Henriques. não acharam dramalisada a lenda gratuita de Marlim de Freitas. eruditos. <liz elle: «Conto com as refutações.

Foram os absolutistas que fizeram Herculano ral.342 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL execração publica o nome de a Herculano. que se prendem á jornada de Ourique fora processo infinito. em ânimos sagrados? Herculano poucas palavras já citadas Além <i'essas do prologo. e ao mesmo tempo uma crise da consciência. que pela sua tor- propaganda estúpida contra o sensato historiador. levando-a a atacar a egreja no Concilio de Trento. Eu Clero. A apparição de Christo ao principe antes da batalha estriba-se . assim n'esse espirito de combate anti-clerical que historiou a parte diplomática das Origens da Inquisição em Poitugal. determinou uma foi tendência theologica nas suas questões históricas. que para elle foi moda historia. apenas es- creveu nas notas da obra: «Discutir todas as fabulas. Podia-se applicar o verso de Virgílio á polemica levantada pelos padres contra o auctor da Historia de Portugal: Tantae ne animis lera celestibus irae! Cabe por ventura tanta cófizera tão pouco. que veiu pouco depois a ter a gloria de ser inseri pto como livre pensador pela Congregação do Index. foi ral e philosophia poesia e foi sciencia. Foi melhor recommendação para Herculano n'esle recanto da península ser recebido como egual na phalange dos homens de sciencia da Europa. Herculano era catholico. o mesmo se pôde dizer do catholico clericalismo. Herculano fechouse em um christianismo tradicional. e encommodou-secom essa lucta clerical. que desvendou ao paiz a torpeza da Concordata de 24 de julho de 1854 sobre o Padroado do Oriente. foi liberdade e emancipação racionalista. como e o se vê pelos seus virulentos opúsculos de réplica e a Solenmia verba. e civil que por ultio mredigiu os artigos sobre o Casamento e os Opúsculos com que os fundalibe- menta. o naram de ferrenho em christão semi-deista. De facto esse encommodo representava ainda uma subserviência intellectual. Esta crise. que luctou contra a inlroducção das irmãs de caridade francezas no seu Manifesto ao partido liberal.

são accidentalmente alludidas.) monarchia. da primeira. remonta ção mais antiga do Livro velho das Linhagens do século XIV. tão mal forjado. como se viu nas palavras do Siglo futuro. e Herculano de Portugal. uma vez desviado do seu tra- balho e perturbado. O odium vor do Milagre de Ourique.) Parece. lhes investigar as fontes mais remotas. assim a crença nas Ilhas encantadas ou . A severidade da critica histórica não exclue itfha clara interpretação do fundo de realidade que existe nas lendas e tradições..» Padres e miguelistas reagiram com força de impropérios. Herculano exaggerou essa severidade com pre- juízo do effeito pittoresco que falta na aridez das suas dis- cussões e argumentações ínnumeras. por occasião da sua morte.» {Hist. Existem tradições análogas na historia de ouque merecem ser comparadas. e assim qne acabou de concentrar-se n'elle theologicum. A lenda de Egas Mo- de Martim de Freitas. tros paízes. da segunda redul-a ao mylho da lealdade dos antigos cavalleiros. que dirigiu a polemica a fa- o grande poder espiritual de que se achoíi espontaneamente investido. Se Herculano proseguisse na sua historia. que o menos instruído aliimno de diplomática o regeitará como falso ao primeiro aspecto (o que facilmente poderá qualquer verificar no Archivo nacional. na verdade impossível que tâo grosseira falsidade servisse de assumpto a discussões graves. p. sem sem interpreá redac- tar os vestígios symbolícos. quando tratar- mos da historia das instituições e legislação do berço da (Ib. ainda latejava ao fim de vinte annos. onde hoje se acha. 486. i. de Madrid. eliminaria outras tradições que chegaram a influir profundamente na forma da nossa acti- vidade histórica. niz. não continuou a publicação da Historia foi foi esta posição que o tornou sympathico ao paiz inteiro.ALEXANDRE HERCULANO 343 em um documento.) a Das Cortes de La- mego diz de passagem: «Faremos devida justiça a esta invenção de alguns falsarios do século xvi.

um dos grandes estímulos das nossas expedições marítimas. para quem a sabe uma parte accessoria sem duvida. tantas doações regias. mas que chegaram a exer- cer acção sobre o espirito publico. o historiador não portante. foi da existência de um reino lambem um dos motores que levaram emprehenderem a os nossos viajantes do século xv a em- preza do caminho da índia. não aos factos. que apparece em é. 169. N'esle caso se acharam muitas letidas forjadas.344 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL foi encobertas. «A lenda nada lira á dignidade da com toda a certesa. Herculano prometef- teu discutil-as porque desde o século xvn foram a base fectiva da Constituição politica de Portugal. a lenda do Preste João. Foi Jacob Grimm que com a sua extraordinária erudição e intuição poética comprehendeu o quanto ha de verdade nas tradições. p. Apesar de reconhecer e demon- strar a falsidade das Cortes de Lamego. rejeital-as por maravilhosas e embusteiras é lúcida uma critica estreita sem uma comprehensão philosophica. tar ças. o ideal de a porém que nem as concepções. mas imlenda. onde as tradições e as lendas são totalmente eliminadas nem sequer discutidas. Com e felação ao caracter critico da Historia de Portugal. Acceitar as tradições como historia é um syncretismo de incapacidade mental. e apreciar. í .»* a sua Historia de Herculano viu discutida ineptaraente 1 Études sur les Bárbaros. Sem a pôde represen- nem o nem aspecto moral. isto christâo na Ásia. nem as crenuma época antiga. bastava a nossa actividade histórica ter sido determinada por algumas d'essas lendas tradicionaes para merecerem ser discutidas. com a condição não tomará por uma historia real. podemos applicar o seguinte penLittré: samento de historia. ella é mesmo. mas por que diz respeito aos sentimentos e ás uma historia ficlicia ideias.

Na lucla contra a restauração subrepticia do governo caii. avillando-o. Em 1^5 1 quebrou o seu a em que se declarara permanecer na triste Iranquillidade de incrédulo politico. que decidiu o seu rompimento definitivo com a politica. apesar de ser profundamenle admirado. no qual Herculano teve uma collabp. com um pro- gramma 1 negativo. protesto de 1845. mas descobriu logo a perfidia d'esse movimento. Agilâmo-nos no circulo estreito de revoluções incessantes e estéreis. bralista identificado com o poder pessoal de D. e sentiu que a sua actividade litleraria desde 1836 não exercia acção alguma sobre o espirito publico. a historia d'este ludi- a que succedeu um outro. Herculano brio.ração activa.» Herculano. do cabralismo: «facção saida do partido Cargloria.ALEXANDRE HERCULANO 315 Portugal. appareceu o primeiro numero em 23 de julho. N'este anno fundou o professor João de Andrade Corvo o jornal politico O Paiz. a legalidade tornou-se um impossível. com o nome de Regeneração. em que apparecem algumas das ideias o />a»>. em 1851 reconheceu que tinha sido ludibriada a sua boa fé. o cartismo transformára-se na violência pessoal tista. a acção governativa um prol)lema insolúvel. 24 de julho de 1851. Herculano acompanhou Salnha no primeiro pensamento da Regeneração. que em i83tí se decidira sinceramente contra a soberania nacional pela Carta outorgada. o Duque de Saldanha foi ô chefe do mo- vimento paiz liberal que venceu e tomou posse da situação do em 1851.» e que ainda hoje conserva. esse nome que já leve alguma * No prologo da faz ultima edição da Voz do Prophela. Maria restauração que se fez a despeito dos lamantaveis aconte- cimentos de 1847. que elle escrevia em em 24 de julho de 4851: '<Em civilisação estamos dois furos abaixo da Turquia e outros tantos acima dos Holtentoles.» o que se passava volta de Herculano era tão lamentável. .

mesmo anno.34 i HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL exclusivas de Herculano: não quer a centralisação admi- nistrativa. etc. quer nacional. justo. Em um artigo intitulado A Desegualdade e a Democracia (Paiz. uma exclusiva acção executiva nos minis- nem contractadores -dos rendimentos públicos. esta a causa da ter- minação do jornal no fim d'este culano professava. Os artigos Hercu- lano conhecem-se materialmente pelos longos períodos cheios de incidentes. que ás vezes dão alguma solidez á sua critica.^ Considerava o coipo diplomático como inútil/' qu(3 desde que na Europa acabaram os segredos de estado. em que Herculano se confessa desilludido foi de Saldanha. e a liberdade se fundava. pela polemica imprecativa e pelo desvaneci-^' mento da erudição histórica. pela entrega do mandato a individualidades locaes.° por preconceitos de edu- cação e de hábitos mentaes que as tornavam inefficazesiP A restauração das formas munici- como meio de Nada mais reagir coutra a centralisação adminisfoi trativa. 30 de agosto de 1851) . A estes princípios tão justos. e por este lado que ao manifoi festar-se em Portugal o espirito republicano. quer internacional- mente no regimen da publicidade. na forma de dissertação pe-' zada. Era um vago presentimento da forma mais clara do mandato impe"ralivo. Acham-se ali paginas preciosas para a historia politica desde a Revolução de Setembro de 183Ô até á Regeneração em 18o I. Herculano por algum tempo considerado como 2. que ludibriou o paiz. nem o excesso do funccionalismo. cujos privilégios e corpo fiscal sâo um estado no estado. A leitura dos artigos do Paiz revela-nos as doutrinas politicas que Her- algumas sendo profundamente justas espirito estavam viciadas no seu Herculano queria: pães. allia-lhes preconceitos invencíveis de um espirito desequilibrado. nena tros. nem o abandono do Padroado politicos de portuguez do Orienie. d.'' Que as eleições fossem a representação das localidades. 1.° um dos seus esteios.

) . * - Com o tempo o seu espirito retrocedia.» 81. e corollario do principio anterior. ^Jais tarde. podemos consideral-a mas nâo com valor Iheorico. Outra ideia deprimente. entre o clero opulento e os parochos ruraes. Pecomo uma noção pratica para ainda do que a apotlieosc a negação da Democracia e do que cons-derava da Monar- cbia. Herculano tirou partido d'esta aííirma- çao atrasadora.» e fareli- zendo consistir a actividade futura da humanidade na (jiosidade. Fernando e D. era: que a Monarcliia era a única condição de or- dem e de progresso para Portugal. Estas ideias. (1851. peor com D. para educar o povo e para regenerar o destino da nacionalidade. e pelas suas sympatbias pessoaes dro elle.ALEXANDRE HERCULANO 347 sustenta como inexequível a egualdade politica. vivendo encostado ao i)aço desde 1831). enlevando-se em uma * idealisação da confraternidade evangélica. no prologo á Voz do Propheta Her- culano examinou outra vez o que era a Democracia. que propaga nos primeiros annos da redacção do Panorama^ em 1851 chegaram a actuar mais intimamente no seu espirito. e que nas dilíerentes revoluções observara sempre a identificação do povo com a causa do tlirono. Paiz. censurando como de vistas sem alcance as doutrinas de Tocqueville. conside- rando as doutrinas democráticas como utopias individuaes. N'este campo foi estabelecendo uma divisão entre o Christianismo e o Catholicismo. u. e 2 o O Clero PoríuQucZj p. v. Mas. considerando «a Civilisação como a forma profana do Christianismo. e sobre vinte e quatro annos de reflexão concluiu que era a la- droeira. é a sua consagração constante da causa da religião. porque analysando o estado de decadência da insti ucção popular propõe como meio de da verda- elevação do nivel intellectual ^padres viriuosos que propa- guem os principios suaves c eminentemente liberaes y> deira religião. que elle como base essencial para refundir a geração futura. 3.

o ligiosa. mesmo phenomeno se dá com a preoccupação em 1871 como questões vitaes do culo XIX o Immaculatismo e o Infallibilismo. Durou a expedição scientifica de Herculano dois annos. n. se o seu amor da Momanifestar-se em 1863 na confissão de que elle Pedro v vivesse mais tempo se tornava para considerando abresé- soluto. teria sido dez vezes foi. priíicipal mente relativas á Agricultura. os que os ás suas dotações. e tendo verda- deiro pezar de nao encontrar no pequeno oratório do lar a delicia espiritual de uma crença nunca discutida. atirava para o mercado ou desbaratava sem tino e sem previsão um enorme cumulo de propriedade territorial. collegiadas e ligirem-se os diversos documentos históricos dispersos nas camarás municipaes.'' 47. Em um artigo publicado no Paiz em 7 de outubro de 1851. que. nos cartórios das corporações extinctas.) «Movia á piedade a situação do clero regular. por exemplo. 1856. fazendo archivar na Torre do Tombo àquelles que interessassem á historia pátria.» Ib. a extincção das Em cas: 1856 ainda lamenta ordens monásti- «A extincção. na .348 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL se a sua negação da Democracia elle nos sacos dos ladrões na rchia chega a se D. em 1851 se tornou para em 1873. das ordens monásticas.» mais útil á prosperidade geral do que realmente Estudos so- bre algumas questões sociaes. foi encarregado pelo governo de visitar todos os ar- chivos do paiz^ com plenos poderes para colligir e reclamar tudo o que entendesse a bem dos monumentos históricos. ao mesmo tempo que monges tinham despresava direitos legítimos. Esta sugestão foi attendida. cuja Historia de Por- tugal estava interrompida no seu terceiro volume desde 1849. propoz Herculano. e o próprio Herculano. que era um serviço patriótico o colsés. alienada por um systema sensato e previdente. e condemnava á miséria muitos indivíduos innocentes e respeitáveis. {A Pátria. causava graves apprehensões a desorganisação do secular.

do 22 de maio de 18a8 (/ornai do Commcrcio. dos contos." 1. pelo conheci- mento directo dos vários typos da etimologia nacional. do paiz e gaa como descen^ tralisação administrativa é a garantia da liberdade real. volta Na da sua viagem das províncias. que o espirito moderno em Portugal na sua phase metaphysica se enganou conferindo a Herculano esse immenso poder espiritual.) . (1853. de tudo quanto ó preciso para apresentar um povo vivo na historia.399. dos symbolos jurídicos. e quando o publico se interessava já pelo * 2 Carla. e o quadro lugubre- mente pezado das misérias publicas. é que Herculano pubhcou o seu quarto volume da Historia de Portugal. Carla acerca das freiras do Lorvío. pela interrogação das tradições poéticas dos romances. das supersti» ções vulgares.» N'esta viagem tao instructiva para um iiistoriador. n. tive de vagar pelos districtos centraes e septemtrionaes do reino. de ISTiS. Her- culano nada viu senão os Chronicões. das diíferenciações dialectaes. dos anexins.» Foi por esta opinião histórica. que o absolutismo nos deixara.» D'essa viagem de dois annos e do trabalho histórico.) Quando estava mais habilitado com documentos. da que os christãos senlimenlaes o reconheceram mesma fòima também como um vidente. — que com a sua a restauração da vida municipal é «a expressão da vida publica rantia da descentralisação administrativa.ALEXAMDRB HERCULANO 349 Carta aos Eleitores de Cintra allude a esta época. que poderia ser útil se elle a não viciasse a li- preoccupação monarchico-religiosa. pela confrontação dos usos. pela persistência dos costumes. * de que ivpenas transcreveremos essas linhas que se ligam á sua paixão histórica: «Vi definhados e moribundos os restos das instituições municipaes. ao fim de dois annos. tirou Herculano ção. que poderia ter sido saudável e fecunda para a sua intelligencia: «Durante mezes no decurso de dois annos.

) «Assim elle commetteu um dupli- cado erro (cumpre coníessal-o aqui) malbaratando o seu tempo. . e de retardar assim a continuação do seu trabalho. Herculano resolve truncar o seu trabalho. de Port. p. de vendido aos estrangeiros. considerando como um erro o ter perdido tempo em refutação de libellos sem sciencia. t. e dando vulto tórica a cousas. teve a fraqueza de repellír €ssas aggressões. ou mal interpretados. . consideradas á luz his- e lilieraria eram insignilicanlissimas. p. 2 Ilist. de inimigo da pátria.» * À parte os eííeilos de estylo. de ignorante. António Caetano Pereira. Um novo motivo veiu azedar o seu descontentamento. Da primeira polemica. Herculano descreve a tempestade contra o primeiro volume da Historia como uma cousa passada. ou não existiam. que. elle se estribava . escreve elle: «O auctor do livro foi accu- sado de tudo: de impio. esse.. l.. de que sempre abusa. propriamente não foi accusadodenada. de orgulhoso.350 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL conhecimento do passado nacional. a publicação do quarto volume da Historia de Portugal eva conciliação com as lettras: lit- «IHusões de terarias a um momento o affastaram das occupaçôes affeclo. por tanto não foi a po- lemica passada que o fez depor a penna de historiador. ou eram falsos. v. iv. iv. cumpria pro- porque para haver accusação contra o livro. . fal- O livro. var (ou tental-o ao menos) que taes ou taes entre milhares de monumentos çm que é.» E mais adiante: «Como homem que o auctor. e até de sario. de Port. vii. discipulo de Frei João de 1 Hist. Já vimos as condições politica em que uma Herculano se separou da em fins de 1851 .» (184()-i8tí).» ^ Os textos árabes apresentados pelo professor de árabe do Lyceu de Lisboa. que se dedicara com intimo mas ásperos desenganos o reconduziram ao tranquillo retiro d'onde não devera talvez ter saldo.

sendo dada zes a Augusto Soromenho. que o oITerlou a Gayangos. cit. poz-so trabalho histórico. Paschoal de Gayangos. escrevera Herculano no primeiro vo- lume da Historia: «Muito devi ao conselheiro Macedo. de que Herculano cias.» O con- Joaquim José da Costa Macedo. prin* em trabalhos históricos modernos . p. secretario perpetuo da Academia. Sini- baldo de Mas. Herculano achava-^ repente surge em 1853 em toda a sua gloria. não podia honra lheiro ali entrar com ati- em quanto se achasse como guarda-mór o conse- Macedo! Que fazer? D'este homem. um pretexto para inter- romper a obra.. acharam-se sem au- thenticidade diante da critica compelenlissima do arabista hespanhol D. era um dos funda- dores da historia da Cosmographia e Geographia da Edade ' Op. O opúsculo de Antó- nio Caetano Pereira fora levado para Madrid por D. por onde queria demonstrar que a escaramuça de Ourique fora uma grande batalha campal. como o seu livro era estimado e se julgava indispensável para a elevação do paiz. e como trium- atropellou os textos para servir o seu intuito. XII. Foi um pho completo.. Procura-se o motivo. António tirou todas as consequên- Caetano Pereira perdeu a cadeira de árabe. De um novo embaraço.. facultando-me sem restricção o uso da sua cipalmente selheiro livraria. tao rica e escolhida em tudo. es- perava-se que proseguiria na publicação da Historia.ALEXANDRE HERCULANO 351 Sousa.- em elle greve no mas próprio declarou terminaniemente que sendo-iho indispensável pro- seguir na investigação de documentos para a sua Historia no Archivo da Torre do Tombo. que estivera seis me- em Madrid junto de Gayangos como stibsidiado do go- verno. I. e este janeiro de 1852 escreveu em ^ de uma longa carta a Herculano pro- vando a ignorância que Pereira tinha do árabe. contra quem rava um repto mortal. .

3 Esla opinião demonetrámol-a na Historia do Direito portuguezj 18681 í . ainda imprimiu Em 185i uma pequena dissertação sobre a Origem provável dos Livros de Linhagens. crendo que os livros de Linhagens se orgaiiisaiam para libertar as relações da vida social do^ ataques dos impedimentos canónicos quô iam luz até ao sexto grão critério d43 parentesco. que mais tarde serviu de prologo á edição d'esses livros nos Portugalice histórica^ Mommenta publicados X custa da Academia das Sciencias. citado com altos elogios por Avezac. 196. Trai. de Linhagens nasceram cofii a quando o direito de ooiiferir nobresa se tornou um dos di- reitos exclusivos da soberania no século xm. no prologo da edição dé' 1803. IlcnriquCy p.^ já se vé que a confissão de Herculano não era de favor. Academia das Sciencias secundou os esforços de Herculano. para que a Historia de Portugal pocedo foi pois demittido de guarda-mór da Torre do e n'este intuito a desse ser continuada.352 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Media. Herculatiò confessava aos que D licaria admiravam que o trabalho irrevogavelmente truncado! Tudo se moveu para o D. Herculano confessa que até o rei foi ao pé d'elle pedir-lhe para continuar a Historia. pelo Visconde de Santarém e por Major. da Fazenda publica nos primeiros tempos da Monarchia. ao passo que pela do comparativo se vé que os Livros independência do poder real. soal. port. que lhe chama eminente sábio portuguez. n'essa dissertação segue um errado caminho. se contra Macedo se não apresentassem factos análogos aos que a paixão bibliographica fez praticar ao sábio italiano Libri. (fragmentos da Parte i do Livro mas desde 1853 em diante tudo ficou suspenso. Pedro v demover daquella tyrauna resolução. O conselheiro Ma- Tombo. O rompimento de Herculano puramente pes- não deveria ser altendido. lamen- tando-se da dissolução social. das cousas e dos homens. os materiaes para o quintt) volume chegaram ix)- a ser colligidos. ^ Por este es- 2 Historia Vida do Infante D.

184G-18ÍÍ)) pessoal em conflicto com o secretario perpetuo da Academia requereu para ser omiltido do catalogo dos sócios. um espirito que se jul- Os despeitos de Herculano contra litteratura e historia. politicas e Bellas Lettras) pela comuiissão encarregada por decreto de 7 de janeiro de 1852 dos trabalhos preparatórios para se consLituirem as secções das classes de que se compõe 23 a Academia. sendo-lhe satisfeita a vontade em votação da assembléa geral de 19 de fevereiro de 18i)l. em 21 de fe- vereiro de 1844. que trabalhava já na época nova de transfor- mação n'esse politica do reinado de D.ALEXANDRE HERCULANO 353 tudo se deduz. dizendo cara no trabalho do Diccionario a Azmrar. Pertenceu durante sete annos á Academia. revela lambem que despeito profundo o íizera tornar esse assumpto histó- como um ataque aos seus inimigos. para a qual nada trabalhou. Em 13 de fevereiro de 185^2 foi novamente eleito sócio eílectivo da quarta sec- ção (Historia e Antiguidades) da segunda classe (Sciencias moraes. e que o clerica- lismo na sua forma particular de jesuitismo é que se tor- nava a preoccupação exclusiva de gava perseguido. Vimos como em que fi- 1835 escrevera da Acaden]^ das Sciencias. a politica ou contra a observam-se claramente nas suas re- lações com a der esse estado de Academia das Sciencias. a Academia elegeu-o seu sócio correspon- dente da Classe de Sciencias moraes e Bellas Lettras. porque andava occupado com ( a publicação dos três volumes da Historia de Portugal. mas a publicação livro mesmo anno de 1854 do sobre a Origem do es- tabelecimenlo um rico da Inquisição em Portugal. Foi durante este anno que collaborou activamente na redacção do Paiz. estava-se então no fervor admirativo do Eurico. voltando por desillusão politica outra vez ao remanso litterario. Nomeado sócio da Acade- . e isto faz comprehenum temperamento bilioso que lhe dava ao caracter a forma do descontentamento. Diniz.

mas infelizmente Herculano preoccupou se mais com a publicação dos documentos que illustravam a sua Historia do que com as necessidades dos que de futuro trabalhassem n'este mesmo campo. esta collecção era moldada sobre as for- mas seguidas por Pertz. e os litterarios. nos Monumenta germânica da Academia de Berhn. um acadées- mico perguntou pelo estado da publicação. em assembléa de 14 de annual de duzentos junho do mil réis. comprehendendo os documentos documentos jurídicos. Tendo já abandonado a continuação da Historia de Portugal. pelo trabalho dos pequenos prólogos que preceos monumentos históricos. emprehendeu á cusg da Academia a publicação de um corpo de documentos históricos. é indicio de que se demittira antes de tempo. Herculano nâo havia trabalhado na Aca- demia até este tempo. a entrada de Herculano em 1852 foi uma graça.354 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL mia de Turim drid em 1851. quando se trabalhava na sua reforma. em que . a reeleição para vice-presidente da Academia em 27 de de- zembro de 1855. e declarado sócio de mérito. e a sua elevação a sócio de mérito. A publicação começou em dem 1856. que pezou sobre a Academia. Herculano creveu despeitado á Academia e mandou demittir-se. Em 31 de janeiro e" em 8 de março de 1855 foi eleito vice-presidente da Aca- demia. pequenos chronicons e monumen- tos de litteratura. códigos e leis consuetudinárias. fundou em 1856 a expensas e com um subsi- dio mensal da Academia das Sciencias essa vasta compila- ção de Documentos para a Historia de Portugal. embora merecida. com a quantia Em rigor. tendo Herculano o subsidio mensal de quarenta mil réis. Desde que Herculano resolveu suspender o trabalho da Historia de Portugal. era um favor pessoal para conlêl-o. quando um dia. mesmo anno. era em I80O uma e da Academia de Historia de Ma- vergonha que estivesse de fora da Academia das Sciencias de Lisboa. ao íim de alguns annos de interrupção dos monumentos.

como a VV- mo S(T * e a Historia de Barlaam Josaphat. n. Herculano não empregou a sua extraordinária influencia prira se proceder á publicação d'esse pasmoso monumento do Cancioneiro da Vaticana. D. Ernesto Monaci nos restituísse o grande hvro das nossas origens lillerarias. Oulra vcrâio. preciso que um joven philologo. e o grande Cancioneiro da Bihliotheca do Vaticano completado pelo Cancioneiro da Ajuda. Sancho n por seu irmão D. para a vida intellectual da aristocracia das cortes de D. parte principal. AlTonso IV.) ALEXANDRE HERCULANO 355 a parte da obra 31o- Tisava principalmente fortalecer com provas qne deixara escripta. que se julgava perdido. onde se encerra a vida moral e imporlantissimas allusões históricas a essa revolução de palácio que fez substituir foi D. nologia da nossa historia.^ que acham entre os Afanuscriplos da Livraria de Alcobaça. parte na Torre do Tombo.° 26C : Barlaam e Josaphat^ no Cod. Diniz e D. Cod. 2 Historia do Cavalleiro Catalogo da Livraria de Alcobaça. Cod. iir. litterario com c as inapreciáveis íraducçôes das grandes lendas da Edade Media. A parle iiâo publicada é que deveria ter sido entregue aos que esa orientação tudam. a tractos. AíTonso completando este corpo de Tundal. n.° 26C.» 244 Hisloria do Cavalleiro Tubuli. e as Ordenações de D. como são os Obiturarios. liga-se já ao estado melancholico do seu espirito na vida do campo. parte na Bibliolheca nacional. as Inquirições de Affonso para o conhecimento do estado e vida social no século xiu. os Foraes e os Diplomas de conque representa um verdadeiro serviço. é pequenos Chronicons. (Na Torre do Tombo . o Dr. os Livros de Linha- gens. : 1 Tunguli. d. Vivia na catas trophe. base da descoberta do texto aulhentico. alguns Duarte. Esta segunda phase de descontentamento com a Academia. uma grande parte d'esse trabalho dis- pendeu-se improficuamente conliecidos em reproduzir documentos já como o Código Wisigothico. Tal é a origem dos Portiigaliae mmimla histórica. Af- fonso Hi. para da cbroiii.

Em um para o governo de 13 de outubro.356 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Em líticos 1855 era Herculano presidente da Gamara municipaF e de Belém. só resta encerrar-se no sanctuario da vida privada e deplorar a ruina da republica. não pôde ser invadido pela auctoridade administrativa de- balde lhe representaram que a dissolução da Gamara era uma inconveniência. 2 A Pátria.'' conflicto entre os trabalhadores sentinella da porta do quartel de i. Publicado no jornal A Pátria. as ideias que havia exposto nos seus artigos po- no exame das antigas instituições municipaes fa- ziam crer que lhe seria sympathico o exercicio d'esta magistratura electiva. Deu-se da Gaarli- porém um pequeno mara municipal e a Iheria n.» 25'. mas inhabilitado pela sua condição social para obstar a esses abusos extremos. la- ços da vida ao homem honesto. sobretudo quando se propagavam no publico os terríveis boatos da febre amarella. casiâo em uma oc- em que os intelligentes esforços eram precisos. . o que levado a effeito por decreto oílicio de 31 de outubro de civil.'>. quando se tolera que os instrumentos da ordem publica se convertam impunemente em instrumentos de anarchia. Herculano civil officiou immediatameríle ao governador de Lisboa. Prestou-se-lhe esta homenagem. de impedir os trabalhadores. acerca da collocaçâo de um columnello para^ií illuminc\ção do concelho. além de outros com- mentarios pejorativos.» t ^ Não era caso para tanto. d. lança estas phrases. ISori. O que tem elle exigia era inex- porque a classe militar um foro especial. Herculano. para que ou dissolvesse a o official que dera á sentinella a * Gamara ou punisse equível. á custa OOicio n. quando assim estalam os civil. de 18o. que são variante da sua preoccupação de catastrophes: altas regiões uma «Quando nas as regras do poder se desmente por tal modo mais triviaes do bom governo. O presidente com os demais vereadores insistiram pela foi iTis- solução da Gamara. ordem que .« ey.

* edição da Hist. que pinta o diz elle.* voltou outra vez ao remanso litterario da Ajuda. no desejo de lhe comprazer que achei alentos para galgar de novo a Íngreme ladeira d'onde foi animado por elle que prosegui me tinham precipitado. lambem preoccupado com velleidades lb'o litterarias. final da Mas a intimidade de D. Pedro v. porém. Pintavam- como um homem intratável por um entranhado e des- medido orgulho. Outros sentimentos me impelliram a isso. o tentei confesso ingenuamente que não foi para servir o paiz. que tentou homem theatralmente catoniano. Foi na affeição de D. e que a parte da organisação da fazenda publica é que era o remate obra. e pela linguagem brusca de um caracter indisciplinado. D. um ultimo esforço para retomar os há- bitos litterarios em 1855: «Se. mas sem vantagem para o seu espirito. de 18ti3.ALEXANDRE UEUCULANO (l'este conílicto.de Portugal. revelam 2 um certo alarde que andava a par da sua modéstia. se libertou Hercu- lano dos encargos da presidência municipal. passado 1 A publícaçilo dos documentos d'esle conQicto am aono no jornal A Palria. Herculano descreve estas relações pessoaes com o jovcn monarcha com um des- vanecimento.» - Por aqui se ve que a Historia estava planeada sómen(^ dentro dos hmites da Edade Media portugueza. D. Começou por lhe pedir que tornasse a metter mãos ao trabalho da Historia de Portugal. aggcavado por pbrases. Pedro v foi para Herculano uma paixão exclusiva que lhe absorveu o tempo: «Era uma d'estas affeiçôes individuaes. não para levar a cabo os ambiciosos desígnios concebidos na edade das audácias. conbecia os traba- lhos de Herculano. Prologo da 3. para deixar no mundo um livro em vez de um fragmento. e quiz conliecel-o de perto. modestas e desinteressadas. mas para concluir o quadro sincero da época mais obscura da nossa deturpada historia. que o paiz inteiro consagrara. em ajuntar materiaes. Pedro. . Pedro v foi procural-o ao seu gabinete de trabalho e travou com elle uma intimidade louvável.

^ nhos dourados da ambição único dos vãos Ídolos do mundo a que fiz sacrifícios» estava concentrado no plano da Historia de Portugal. que atro- 1 Todos 08 extracloa aulobiographicos quo seguem s5o de 1863.» edição da Ilisl.» cair: * E accrescenta ao lyrismo em que se deixava «nem m^ o- pejo de confessar que elle começava a exercer já sobre meu espirito aquella espécie de absolutismo moral. porque lhe tirou o estimulo de es- crever a historia de Portugal para os portuguezes. destinava o encetada' trabalho ao estudo de um príncipe. singular espécie de absolutismo. 358 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL que nascem como uma flor singela. ou Herculano fechava o circuito das suas ideias politicas voltando por sentimento ás ideias que nos seus primeiros annos abraçara pelo perstigio da tradição. de Portugal. . O pensamento fundamental da vida de Herculano «solitteraria. isto é condemnando a realesa ligada com o catholícismo. a qual me tornava possível dedicar a maior e melhor parte do tempo ao duro e longo lavor que hoje exige sição histórica. a única esperança da manutenção da nossa autonomia e da nossa liberdade. qne. pagava assim uma divida contraída com o pae. se vivesse. então na puerícia .» Ou estas palavras tèm um sentido mystico. Se elle o não confessasse mas uma divida com uma ab- soluta franquesa não ousaríamos suspeital-o. e conseguiu temente. Escreve Her- culano na citada prefação: «Quando ha dezesete annos publiquei a primeira edição d'este volume. provavelmente. Fora a este que eu devera uma situação isempta de pesados encargos. nos pedregaes da vida. 2 Prefacio de 1863 na 3. havia de exercer. que encerrava a esperança da regeneração dos costumes públicos. etc.. porém este trabalho não era para servir a sua nação pessoal á realeza 1 nem a sua época.» a compoNós hoje entendemos que os seiscentos mil réis de ordenado de bíbliothecario da Ajuda foram paia Herculano um desastre. . no geral dos ânimos.

iManuel. João m.ALEXANDRE HERCULANO 359 lo- phiou este povo extingiiindo-lhe a sua vida autónoma e cal pela reforma dos Foraes no tempo de D. A historia ad usitm Delphini foi não podia ser isto. mas alma era incompleto. completava-se malquistando o cidadão cona o soberano. João vi. de paixões impetuosas de que lhe fallavam com susto. tentativa falhou. era nobre. Pedro v de Herculano.» — «A do Buscou-me e desceu. A aproximação de D. fragou o calumniado.» a uma sinceridade talvez rude. . Malquistar com o cidadão Infelizmente a d'essas. porque nunca inquiriu se para chegar do throno ás regiijes do dever ou da justiça era preciso descer ou subir. de ódios implacáveis. associado aos satellites da reacção. de impiedade. Henrique. de facto o orgulho inson- dável transparece nas suas palavras. ó que se não conhecia a si. Movia-o.» Depois accrescenta: «o rei achara que todas estas negruras de feroz ple- beu se reduziam impensado. como diria o mundo. além d'isso. tinha para elle o attrativo do novo. relata essas intrigas na alludida prefação: «Na procella em que nau- meu pobre livro. ainda rude. era grande. finalmente a sua vida nacional. como o tinha de ser depois o soberano . o nome do soberano fora murmurado em voz baixa. a sua vida intelleUual enlregando-nos aos Jesuítas e aos Inquisi- dores no tempo de D. Senão veja-se como . submettendo-nos aos hespanhoes no tempo do Cardeal D. e a since- ridade. o inslincto próprio da sua edade e da sua Índole. . do elle Os que estavam em volta de Herculano conheciam-no. para pintar a amisado que trazia para elle o monarclia. Queria sondar o abysmo rei era de orgulho. a justilicar-se. ou aos exércitos de Napoleão pelos absurdos diplomáticos de D. Herculano. também que resultado do uma reacção contra as intrigas palacianas procuravam affastal-o de um espirito intransigente no meio das tergiversões da politica constitucional.

Os motivos do de Herculano..» * São extraordinariamente assombrosas estas palavras. um estado psycholo- que se repetia periodicamente. mas um relâmpago para dentro de um caracter. á sua. mas á primeira oppunha-se o seu exclusivo humafe- nismo. Ed.. 1863. Pedro v: «Não tinha ciúme de uma soberania superior razão. que chava as suas syntheses em eíTusóes poéticas. como explica- subindo n'este diapsâo. e chega a contrapor á soberania do rei a soberania ção da intima familiaridade que lhe dispensava D. ellas nos explicarão tantos factos de modéstia theatral revelados na imprensa pelo próprio Herculano. e porque tudo quanto desejou arrisca.360 elle julga HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL a- sua rudesa Iheatral pelo effeiío de atlralivo que eíTeito produzia no animo do monarclia. em to- embora elle o diga. foi mosempre cumprido A critica exercia no espirito de Herculano uma ac- i Prefação. para nós esse despeito litterario de Herculano era gico.» Mas inconscientemente vae da sua própria intelligencia. do applauso gros- que vale o insulto . é inacreditável. mas isto. p. resn- mem-se na phrase brusca mas verdadeira de Diderot~um escriptor só se cala quando não tem ideias. a da nem o humilhava a dignidade humana. xiii. que equivale â no súbdito são magestade do rei. e pelo salutar: es- «Achava onde retemperar o animo lasso do incessante seiro pectáculo da condescendência interessada. porque dispunha da amisade intima do narcha. Só poderia ter disciplinado o seu espirito pela educação scientifica e philosophica. Herculano imaginou-se tracasseado pelo jesuitismo acobertado das as repartições do estado. que assim augmentava a esphera do seu poder espiritual sobre a sociedade porsilencio systematico tugueza. e á segunda o fervor das crenças christãs. . como vimos na sua situação lyrica e na sua phase politica.

Para o escriptor que visa ao fim social. esse poder é para ser empregado a favor da maior eflicacia das ideias propagadas. e nas réplicas lerunia Verba. não é um um ho- mem. porque. nem um impressionismo doentio e esterilisador. nascerá o conflicto das opiniões. emfim. o seu trabalho está sempre fora segue por do alcance da violação moral. o desgosto da censura clerical foi um pretexto que se tornou pose de eíTeito. e dissolve-se lento. também de um modo Todos os que pensam e escre- vem deviam ter sobre estes accidentes da vida litteraria uma completa disciplina de espirito. nem um despreso obcecado de despeito pessoal. enervante pela bajulação feticbista. se o deprimem. nem impor á admiração qual- nullo. opinião com duas palavras de despeito pôde dirigir a de uma collectividade. o assim lhe augmen- mais se estabelecerá a necessidade de verificar a accu^ação. levou Herculano á hallucinação na carta ao patriarcha de Lisboa. Eu e o Clero. e assim se con- meio indirecto uma certa actividade mental em que se produz a maior somma de ideias. A opinião fórma-se lentamente. ou demolidora espirito intelligente fé Um pela má e pela perversão calculada. por ter excluído a lenda milaí^n-eira de Ourique provoca a exnihil! clamação sincera: Oh tam magna A Historia ficou in- terrompida porque nascera limitada ás instituições sociaes da Edade Media. louvam e tam o seu poder espiritual sobre o seu tempo. Acima de tudo.ALEXANDRE HERCULANO 361 ção perturbadora. ab- negação. quanto mais flagrante íòr a escriptor serve as ideias. quer que. se o injustiça. como o próprio auctor o dá a entender no prologo de 18G3. mesmo nos seus actos publicados de. systema tâo peculiar em Herculano. o fado de apparecerem dois disparates escriptos pelo padre Recreio contra a Historia de Portugal. a evolução do seu seja ella que procura actuar sobre tempo nunca succumbe diante da critica. A polemica sobre- a Historia de tremebundas da SoPortugal. .

tanto pelo compasso dos annos. Herculano attribuía a suspensão da sua Hisloria a machinaçôes clericaes: «Excedendo pouco a edade de trinta annos quando delineei os primeiros traços de tes uma erapreza ousada. A sua sorte. dotado de organisação robusta. um perigo uma das mais negras pagi- nas da sua genealogia e que. e que. 362 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Herculano abandonara a ção aos cargos públicos politica em 1851. e apoderar-se outra vez dos destinos da nacionalidade. introduzir-se nos conselhos da coroa. na collecção dos materiaes para a vasta edificação que emprehendera.lhe o remate. elle via lavrar em Portugal o jesuitismo. «Em toda a parte e com todos encontrei a reacção in- fluente (jue me sem reduzia ao silencio e á inacção. se recompozera para a sociedade. como pela intensidade dos esforços de que me sentia capaz. devia de ser diversa da que eu previra. . Os importante para a solução da lucta que agita a Europa. antigo. tinha firme tura. tive a íinal de ceder e de char a preza. na qual fosse fé em que o subiria fácil a uma al- comparativamente a a outrem. medindo oshorison- da existência não. Inhibido de o sacriíicio completo da dignidade e proseguir. po- rém.» Era seguida refere-se ás animadversões que a obra suscitara. Tal foi origem d'este livro. bem curta distancia os limites da imprudente em- .. hade ser a sua eterna condemnação perante Deus volumes da Historia do i stabekcimento da Inquisição provaram sem réplica possivel. e a participa- em i855. trouxe á luz com elementos novos. uma verdade e os três homens. um que Vendo no partido que engrossava a occultas. mas a preoccupaçâo re- ligiosa absorvia-a. e revela clerical: a tinha. pôr. se não é o seu eterno re- morso. que o seu objectivo na réplica foi o partido «Ao hvro sem intenção politica íiz seguir. sem fe- risco certo da honra. se ali- duvidei de que chegasse a completar o edifício cujos cerces lançava.

não se leu. sobretudo entre a mocidade das provincias mais inlelligentes e enérgicas.* dizer. desejei e já não sabia que- Esta ideia o fazia pòr em relevo as intrigas diplomáticas li- para o Estabdmmenlo da Inquisição em Portugal. uma descia do throno. «Do mesmo modo que por meios foi-me indirectos me fora ti- rada a possibilidade de continuar a Historia de Porlugalr. Um príncipe extranho que presa mais e conhece melhor os dias de grandesa o de gloria d'este paiz do que a maior parte dos filhos d'elle. Quanto a um 2. -— I)'além do Atlântico mais de uma voz amiga procurou con- solar o maldito da reacção e dos poderes públicos. foi tiravam todos os vislumbres porque ainda esperava que não podesúltimos sete palmos de terra pátria a sem privar-me dos que todos temos direito. Se a nao acceitei a oíferta. emfim indirectamente restituída.» N'este despeito é que se demittiu de vicepresidente da Academia das Sciencias. N'essa lucla achei sympalhias e allianras por todo o paiz. e das negociações diplomáticas com a cúria. que a serviam. «Era tarde.ALEXANDRE HERCULANO 363 a «Nâo O fiz sem luctá: disputei palmo palmo a minha vida intcllectual.^* ponto de vista superior so- 1 Carta ao minislro do Reino pela classe da Academia. d'ai demora de quatro annos para o ultimo volume. * «Quiz proseguir e não pude. apressou-se a oíTerecer oo perseguido um asylo junto de si. ou para melhor rer. a que leila a fraternidade litteraria e nobre maneira porque era de humilhação. A Origem da Inquisição em Portugal é uma dis- 'histoiia da cussão de attribuições canónicas dos bispos. e. talvez a foi lançado como um repto mas ficou sem ecco. 1856. .^ítraidas de documentos de refalsado espirito. Algumas d'essas vozes saíam do seio do sacerdócio. este vro interrompido desde i85o ao parlido clerical. as provincias do norte.

que á sombra d'estes movimentos começa a reacção mo- ou propriamente o ultramontanismo. A agitação socialista e apprehensijes da bur- guezia que acceitou as tropelias monarchicas pelo terror das novas aspirações «abriu caminho e subministrou pretextos por toda a Europa a uma reacção deplorável. e deviam ter passado para o mundo da tra- dição. a obra era um repto fal- contra o partido clerical e contra a reacção pessoal que sificava o constitucionalismo. nada processos do Santo officio. um exaltado artigo de fundo jor- mas é precioso para a revelação do estado de es- pirito de Herculano sobre os acontecimentos da Europa de- pois de 1848. A Historia das origens e estabelecimento foi da Inquisição em Portugal começada antes de 1852. Po- Herculano um . e á custa das maiores monstruosidades ral. A parte dramática. e estado da sociedade portugueza através d'esses documentos. o da maior degradação moral. em que como se deu a alliança da monarchia e do clericalismo.— a defeza da A Historia da Inquisição em Portugal era da parte de aviso contra a reacção do clericalismo. que é. a revelação dos costumes e vida domestica. encarregada' nominalmente de cumprir deixar de ser lerra natal. foi á parte morta e esté. que não pôde commum a todos os cidadãos. mostrandonos o século xvi. o seu livro era destinado a salvaguardar-nos do perigo futuro.'i da diplomacia. ril nada d'isso tocou Herculano. O prologo d'este livro tem a desconnexão e o estylo de nalístico. do indifferentismo ge- D 'esse com passado Herculano vê ainda um resto nos exér- citos permanentes «nascidos com o absolutismo e só para elle elle. e deixou o largo campo do funccionamento instituição da que alrophiou esta desgraçada nacionalidade.» Contra este erro politico oppõe Herculano uma ideia justissima «aniquilamento d'essa força bruta. os com as grandes catastrophes dos Autos de fé.364 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUaAL ! bre esta tremenda instituição.» um dever.» Herculano diz ral.

d'es- ses quarenta mil archivados. A simples leitura de um processo inquisitória!. de atrocidades sem exemplo. Conhecermos a corte de na época em que a monarchia pura estava um rei absoluto em todo o seu na conjun- vigor e brilho. Herculano saiu a terreiro culo com o seu opús- A Reacção tiltramontana. encerra mais lição do que to- dos esses três volumes. de heresia. mas do assumpto em que revelava a sua erufoi dição dos cânones. confessando os seus anteriores desvios. porque logo em i857 se deu a usurpação do Padroado portuguez no Oriente pela cúria romana. e poderisso tudo mos comparar com a os tempos modernos de liber- dade. com a predilecção em prosa desalentada. Não qui- zemos. Os vinte annos de lucla entre D. uma discussão pe- zadamente canónica contra bispos a causas. conhecermos a corte de ctura Roma em que. ella dizia ter entrado na senda da própria reformarão. Perto de quarenta mil processos restam ainda para darem testemunho de scenas medonhas. que difíicilmente se podem ler. Ao fim de tanto trabalho Herculano in- terrompeu-se e só depois de quatro annos é que terminou a obra. para lhe obstarem. xm. de longas agonias. offerecem matéria mais ampla a graves cogilações.) Eis aqui está o livro. como ria fez essa Historia? «Podíamos escrever flagícios da Inquisição. d'esse drama de que se protrahe terrível tribunal por mais de dois séculos. elles elle lu e os seus súbditos de raça para estabelecer definitivamente a Inquisição. João iíi com a Guria para introduzir no seu reino o novo tribunal do Santo Oílicio.» (Pag. o eITeito do protesto também nullo . Era mais monótono e menos instruclivo. e usurpação da jurisdicção dos quem competia exclusivamente o julgamento das em seguida uma exposição intrincadamente diplomática das negociações de D. Os archivos do ai existem quasi intactos. da obra de Herculano.ALEXANDRE HERCULANO 365 a Htsto- rém. O livro não produziu impressão. cônscio da sua ineíTicacia. João hebrea.

Fez um gninde sobre o paiz esta abstenção de Herculano. Thiago. em desalento sobre o fntnro da nação. fez ainda mais ecco a rejeição de e Espada. O mesmo onde processo diz e pelo Jornal do Commer cio dá a saber ao paiz que recu- sou o diploma de deputado por Cintra. do 23 de maio de 1858. na carta aos eleitores de Cintra dá-lhes a saber que rejeitou o diploma de deputado por um circulo da Beira. e que não acceita agora o mandato dos eleitores de Cintra.366 HisTOniA DO romantismo em Portugal nas regiões do poder. procurava-se nas um sentido mystagogico. de Cintra. influíam sobre a sua lenda pessoal. Foi assim que os do circulo 26. segue na rejeição da grã-cruz de S. resignando o mandato de deputado por Cintra. Herculano estava suas palavras eleitores já estado de mytho. se próprio não fizesse alarde da sua modesta superioridade acima das honras. Pedro uma medalha da Torre v. Quanto distava Her- culano da ideia tão clara e tão justa do mandato imperativo! Era isto o que elle queria effeito sem o saber dizer. porque não pertence a essa terra. porque todo o talento que nascesse insignificante só podia ser A ideia é abem um sitio deputado local adaptando-se pela longa permanência a essa localidade. Era uma abelle negação catoniana. em em estylo semi-biblico. . que ninguém saberia. e a sua opinião é que só existem deputados locaes (de campanário) capazes de satisfazerem as ne- cessidades dos circulos junto do parlamento. porque logo testar em 1858 teve de pro- em um Manifesto ao Partido liberal contra a intro- dncçâo das irmãs da caridade francezas. que lhe quiz conferir D.° 1:399. Estes protestos. se lembraram votar 2í2 em Herculano nas eleições de 1858. * Carta. tam- 1N. Herculano escreveu então uma cio. de de maio. por meio do Jornal do Commer- em que declara ter recusado essa honra do mandato que lhe quiz conferir um circulo da Beira. surda.

Aquelle grande espirito. dizia Commeiída da Torre um favor. Era o de ac- e Espada. Thiago. mercê Procedi n'essa hypothese do el-rei mesmo modo a heróica que procedi com D. Pedro v. e que fizesse eu me ditasse. talvez demasiado rudes. «El- o sr. que Deus tem comsigo. as ponderafiz. fazem-nos tomar a sério estas palavras irónicas do próprio Herculano honras civicas: a propósito do seu despreso pelas se está fazendo.AI. Fiz o 18t)2. paia o mérito scientifico. não era honra que se não tivesse do commercio. complexo de extrema doçura. de alta comprehensâo e de profundo sentir. Recusei. Concluiu por me elle que cada um de nós podia proceder n'aquelle asas próprias convicções.° 2:7i)2): bem em rei carta ao Jorjial do Commcrdo elle. Pedro. Na carta alludida diz: «Deixo de parte a historia da recusa do pariato. Por carta régia de 17 de maio de dado a mercieiros retirados 18()1. Tinha motivos para crer que el-rei. ções. proctirou-me nm dia ceitar a para me pedir. e com a sinceridade que elle encontrou em mim.» * Esta necessidade de explicações diante do publico.<* 1 Jornal do Commercio 2:752. expuz-llie amplamente os motivos da minha recusa. Nem mais nem a iniciativa da menos. D.» Por fim. debateu sem se irritar. Luiz subiu ao Ihrono quiz honrar o amigo intimo de seu irmão com a grã-cruz de e S. e recusou tam- bém.EXANDRK HERCULANO oG7 (n. Thiago. foi noníieado Herculano par do reino. sumpto em harmonia com cumpria o que reputava o que a consciência graphica é Que um dever de rei. . de 7 de dezeiubro de 1863. que pasmou com abnegação. «NVimmenso consummo que n. que lhe dizer. litterario em Herculano escreveu ao Jornal do Commercio: «Veiu depois a Grã-Cruz de S.» Esta revelação aulobioluz para a um relâmpago de modéstia e abne- gação theatral. fizera a respeito mesmo que vinha de da Commenda. instituída arlistico. logo que D.

^ espanta-se de que eu nada escrevesse morte de D. de 7 de dezembro de 1862. como nunca ninguém achou em elle era-o. e nunca ninguém em Portugal chegara como elle a esse gráo de celebridade que se torna uma gloria nacional. A es- espontaneamente a um morte de D. de fitas. e onde muitas podia escon- vezes o não encontrava. s. nâo me me custou a d'aquefie pobre rapaz. Não cré e v. Com a morte do joven monarcha. Pedro v era o amigo intimo de Herculano. Pedro v acabou de aggravar o estado psychologico de Herculano. s. Era commigo. escreve-lhe a respeito da logo depois da perda do seu amigo: «V. admira- vam-se mutuamente. homem do povo. Em uma caria a monsenhor Pinto de Campos. aqui. que esta terra nem comprehendia nem med'elle do que recia. y>^ Herculano contava cínde rótulos nobiliários.^ que aquelle marlyr. para deixar o emprego do paço. Se este século pôde produzir santos. de tratamentos. . e o reconhecimento do piritual conferido máximo poder indivíduo. títulos. mas as admirações foram estéreis. n'este mesmo humilde aposento onde escrevo a v.^ na profundidade da aíilicção do pae que pôde escrever sobre o tumulo do filho? Se eu tivesse custava mais a morte um filho me morresse. Pedro começava a degenerar A miem pai- * Jornal do Commerrio n. de insígnias. Era uma amisade desinteressada como nunca teve rei. nha aífeição por D. rei nenhum. Pedro v. de de graduações. Herculano achou-se soe isso influiu litário. de far- das bordadas.fundo do que o d'elle. vinha muitas vezes buscar lenitivo. deve adquirir em menos de meio século extrema celebr idade. que queira e possa morrer sem esta classificação. s. porque der-lhe que o nem sempre meu desalento acerca do futuro era mais pro- . D. o coenta e dois annos.338 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL que se tem feito ha trinta annos. que rompeu com a relação da capital refugi a ndo-se em Vai de Lobos.» 2:752.

e que se es- condem. Pedro v era eminentemente sympalhico á nação pela sua moralidade e aspiração de justiça. Desconfio de que se continuasse a viver chegaria a fazer de mina o que quizesse. hão de espirito dirigente. Esperava-se do joven monarcha 24 uma . o desalento de Herculano era ainda mais profundo.» Estas palavras denotam uma boa alma. cousa que se dá poucos. uma nação condemnada moro a si- Era uma espécie de profanação dizer em um livro que eu sinto a respeito d'elle. Fez-me commeiídador da Torre e Esa pada. Felizmente aqueíla alma pura. D. como quando D. e se Pedro v estava desalentado no seu governo (como se prova pelas notas comparativas ao livro Grèce contempor a ine. não lh'o acceitei. e se este tivesse ideias e conhecimento dos grandes progressos do seu tempo. in- intelligencia felizmente Deus não quiz que esta ultima luz da esperança a alumiasse os horisonles de rer. mas Herculano estava despeitado com o seu tempo. Pedro é para mim uma d'aquellas ai recordações que se levam até ao tumulo. como o perfeito avaro leva o seu ouro e o enterra n'um logar solitário. Pedro v ia fumar o seu cigarro junto de Her- culano na vivenda da Ajuda. o joven monarcha poria em obra to- das as sugestões do mestre. com o seu paiz e com a sociedade que o cercava. aquella grande não podia querer senão o justo e honesto. anuotado elle. de Abont. mas revelam a incapacidade para me cabem na cova. a coragem e abne- gação que revelou por occasião da febre amarella de Lis- boa fanatisou o povo. e eu a perceber como se pôde ser fanático. Deu-mo um por retrato seu e o Ancien Regime de Tocqueville. nunca se achou em uma tão perfeita har- monia o poder o joven rei espiritual com o poder temporal. e não servia senão para enfraquecel-o. D.ALEXANDRE HERCULANO 369 xâo. Não se alinham phrases milhante propósito. era um doente moral. Pedro v admirava Herculano. acceitei-os e guardo-os. São cousas pequenas que ir commigo.

estava n'esse estado de espirito. facto ex- traordinário. Nas suas intel- boas intenções D. por algumas cartas de Herculano. * Sem sair d'esta orientação religiosa dada por Herculano. de 10 de dezembro de 1859. D. em CoimA geração nova. O seu estado de es- resume-se n'esta phrase estylosa. não nos admira a sua consequente esterilidade. acha-se o fallava-l^he retrato de D. . Descreve com 1 Carta de 17 de dezembro de 1876. Pedro v o mais que podia ser era metaphysico. Pedro V rei absoluto. o ser meta- physico era o cumulo da superioridade. que era a synthese «O calor parece ir-se retirando chamado o coração humano. a esperança futura. o embaixador hespanhol. que aspirava a exercer o poder de justo e fecundo? Herculano desalentou-o catholico e estreito. e exterior que se costuma entre nós dar a com a educação um príncipe sim- plesmente para figurar em recepções oííiciaes. afixaram até cartazes procla- mando: Viva D. acção profunda sobre a transformação nalistas ibéricos os jorunifi- sonhavam n'elle a personificação da cação dynasticá da peninsula. Pedro v como metaphysico. Pedro v cercava-se das primeiras ligencias do paiz. sabe-se que o joven monarcha ia bastantes vezes conversar e fupara o quarto de estudo do seu régio bibliothecario e mar historiagrapho. Como aproveitou Herculano esta situação excepcional para dirigir a consciência de um rei. Em um despacho secreto do embaixador hespanhol Pas- tor Diaz. para captar-lhe as boas graças cendental que no de entrar en colóquios con «de filosofia trans- es possible eludir este cuando tf se tiene el honor tra- soberano.370 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL cl'este paiz. Yimol-os bra. á medida que y> o Christianismo se vae alongando das consciências. ainda esfrangalhados pelas esquinas em 1861. e um modo com um pessia servil-o mismo pirito nunca se prestou na propagação dos estudos philosophica a que chegara: d'este musculo scientificos.

na qual o «habia dicho con las el mayor los caminos de hierro paralizaban primeras industrias. y raza latina habia dado de si todo lo que podia . para a renovação intellectual.. que viciava os seus poJ3res aphorismos económicos. 2. nem a julgar os que o cercavam. D. prejudi- cava-o a indisciplina metaphysica.» Em seguida Pastor Diaz resume as ideias fundamenlaes da metaphysica do joven monarcha» el «que mediodia de la Europa eran pueblos caídos y gasque la tados que ya no servian para nada. ni iniciativa. ni comercio. Isto anullava toda a sua boa vontade. Foi por esta forma que mandou fundar o Curso Superior de Lettras como uma fa- culdade humanista. Pedro aplomo. . para a renovação politica obstavam os seus respeitos religiosos. que v. destinada para Herculano. que no tenian actividad. as conveniências de camarilha ataram-no. critica para saber Da sua dotação tirava todos os annos era trinta contos de réis para as urgências do estado. Pedro v via os resultados de uma certa decadência. 204.ALEXANDRB HERCULANO 371 ços picarescos uma conversa entre o eraprezario Salamanca rei e D. y que Portugal y Espaiia no tenian industria. mas era-lhe impossí- vel reconhecer as causas históricas.. p. não tinha a edade e experiência bastante para poder harmonisar-se com a Carla. que se daba demasiada importância á Ia civili- zacion que podian aumentar. Mi Mission en Portugal.» Pastor Diaz explica em * parte estas afirmações porque «cm hijo de un alleman» mas não sabia explical-as como a obra da exploração catholicomonarchica sobre os povos raeridionaes. uma medida de expediente. composta de três cadeiras para aproveitar as aptidões dos homens que elle intellectualmente mais considerava. as cadeiras eram: 1. ni entusiasmos.* Litleraturas grega e * Ap.* Historia geral e pátria. ni necessidades para soste- ner los ferro carriles. Por fim as formas constie tucionaes envolviam-no.

* Herculano pertencia como sócio correspondente ao tuto de França. Dantas conseguiu essa distincção scientiíica para o nosso paiz. No seu íelichismo pelo monarcba. que se dislribue lilhographada pelos so-. Na caria a monsenhor Pinto de Cam- 1 Este joven monarcba linha a velleidaile lilteraria. Essa honra tada pelo sr. relações Pelas suas com Prosper Merimé e com outros escriptores francezes. e a fundação tornou-se um arsenal de rhetorica espectaculosa. em quanto os outros dormiam! Com uma malícia natural. Insti- mas estava illudido foi solici- acerca do motivo da sua nomeação. 3.3T2 latina. Ilerculano exclamava com uncçào palriarchal Perdia as noites a escrever. a portugueza. quando pertencia á embaixada portuelle gueza de Paris. e merecia essa honra. . e o sr. recusou-se formalmente a esse trabalho. o sr. poderia levantar uma geração ensino oral. Era o melhor que o joven rei podia conceber. quando morreu. Pedro v! Cas- bém a não quiz ser menos do que Herculano. dizendo que empregava melhor a sua capacidade fazendo traducções paraphrasticas. apesar da insistência sublime de D. para fazer dormir os outros. e cios próprio escreveu a pequena biogra- phia do escriptor. HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL latina para o seu antigo perceptor de grammaticfi e portugiieza Viale. Assim flcou atrophiado na origem um pensamento generoso. em geral os fiancezes igno- ram o movimento intellectual dos outros povos. correu a tradição que deixara Irinla volumes tio esciiptos iniviitos. Dantas. sem acção sobre a nossa transfor- mação intellectual. que : era uma das formas do bom senso de C-isiilbo. nome de Herculano era-lhes exlrauho. De facto Herculano não tendo feito disci pulitte- com raria com o los tilho os seus livros.* e especialmente rista de Litteraturas modernas da Europa. do Instituto para fundamento da proposta e da votação. e recusou tamnomeação de professor de Litteratura.» J)e reslo «sses pretendidos inédito» nunca appareceram. esto parodiou o dilo de Herculano: «Coitado! passava as noites sem dormir. reservava-se para o grande pue rhetorico Castilho. se o Dantas não pro- vasse o seu alto valor.

Herculano fallava em deixar a penna. como se pôde fazer ideia pela predilecção dos estudos de agricultura pubHcados por Herculano na Pavia. o seu espirito olhava para a vida dos campos um idylio de tranquillidade moral.ALEXANDRE HERCULANO 373 pos. Herculano era systematicamente abstemio.» Para a em mas conclue-se de tudo que verdade Herculano era extranho a estas solicisem a legenda dos amigos o caminho na vida. e asa pneumonia dupla. e que hoje me sâo pouco affectos. Sabendo da chegada do imperador do Brazil a Lisboa. que em poucos dias o levou uma á sepultura. mas nâo é impunemente que se condemna a sciencia de um século. d*essa imperícia. quando ainda se achava meio convalescente de uma sim começou falso consti- pação. de 2 de junho de Í862. Herculano escrevia ingenuaInstituto de França ha homens que me estimaram. Foi victima da sua própria condemnaçâo. leis geraes da tel-o-iam fortalecido coiii um regimen saudável que lhe prolongaria a vida até um alto cume. para agar- rar-se á charrua. e que sem eu solicitar me associaram áqucUa corporação illiístre. Fernando. a etiqueta palaciana obrigou-o a descobrir-se. Desde 1855. Elle laborava n'esse preconceito económico* . de 2 de junho de 1862. empenhava-se el-rei D. porque nâa pen- mente: «No sam como seguiu. este preconceito hygienico levou-o gradualmente a profunda anemia que o fez succumbir ao primeiro ataque inflammatorio. chamando-lhe gongorismo de phrases. falia adas poíitiialidades cortezãs em que sou fraco olficial. Academia de Berhm admitlir Herculano.:o de facto era-o. mas nada se coneu. Como um Gincinato ir como mo- derno. tações. 6 dos fanáticos admiradores nunca o verdadeiro mérito con- segue abrir por si Na sua carta a monsenhor Pinto de Campos. porque a sua morte proveiu depois da viagem de recreio pela Europa. veiu immediatamente da sua quinta para cumprimental-o. Uns leves conhecimentos das biologia.

nenhum conhecia as relações do saloio com a terra. É por isso que o que adquire propriedades logo por dispender em volta de Lisboa. Um. que se desgosta vendendo-a a quem tenha ainda illusôes sobre o rendimento da agricultura. Mas a terra não venda fez-se. Ramalho A Herculano a receber o juro de dez contos. nar o logar de bibliothecario produzido pelos seus refugiando-se na sua quinta de Vai de Lobos. ficando lhe levava lambem só os meios produzidos pela litleratura. com o pequeno cafoi se- O mesmo exemplo real e guido pelo medico do paço o Dr. da solidão. zer-se a vez de colher. homem de lettras. comprou também próximo de Santarém. e quando essa está já bem esterilisada. para começar a reparação dos estragos do saloio. abandonando-a ao pro- prietário. ou seiscentos mil réis por anno. Herculano resolveu abandoreal. effeilo produzia-lhe profundos desalentos. outro. até hoje abandona- das á espontaneidade popular e á persistência tradicional. precisou logo de dinheiro. Isto influiu na sua actividade. passa para outra. propondo á Academia das Sciencias a compra dos apontamentos para um Diccionario portuguez. Pedro v. Bernardino António Go- mes. que lhe deixara em testamento e Sousa. de . o finado traductor de Walter Scott. que adquirira pital livros. sâo o verdadeiro elemento da formação de valores capazes de se augmentarem pela troca com os produclos estrangeiros. e como nunca pôde toma como resolução ultima o desfatempo de bens que só trazem desgostos. que egualmente se despediu do serviço a quinta de Ladeiras. lhe deve advir exclusivamente sem se lembrar que o desenvolvi- mento das pequenas industrias locaes. A situafoi em ção de Herculano como proprietário agrícola assim. Com a morte de D. e com o despeito contra a sociedade do seu tempo. para o saloio a terra hade sustental-o sem trabalhar. homem de sciencia.374 HISTORIA DO EOMAKTISMO EM PORTUGAL que a riqueza de Portugal da producção agricola. começa ressarcir as perdas.

na quinta. ha na existência uma condição que todos os annos lhe prostra o animo por alguns mezes. Semana. Revista Universal lisbonense. É o tédio das longas noites de inverno. dispersos trinta em um trabalho de annos pelos diversos jornaes. das horas es- téreis em que o pezo do silencio e da soledade cáe com duplicada força sobre o espirito. Ânnaes das Sciencias e das Leltras. etc. — Nas noites de inverno. N'esta extremidade. o quer que seja da cellula circular e no qual ha por esmeradamente branqueada onde o grande criminoso é entregue. Til. es- A leitura raramente o acariintermináveis porque os hvros novos são raros. também o atacou no isoviu na visita do lamento do campo. no casal. Pá- O descontentamento que o fez romper com a pocom a litteratura e historia. I. A confissão d'este tédio é uma curiosa pagina psychologica: «Para o velho que vive na granja. é que emprebendeu a compilação dos seus peque- nos escriptos ou Opúsculos. Paiz. tria. cia. como se zil imperador do Bra- a Vai de Lobos. por 1 opúsculos. litica. como que perdidos por entre as collinas e serras do nosso anfractuoso paiz. a inércia da intelligencia. a corrente impetuosa do tempo parece chegar de súbito a pego dormente e praiar-se pela sua superficie. n'esses intervallos da vida exterior. á euménide da própria consciência. tormento fim. t. sósinho. vae-se convertendo no pouco a pouco em intolerável tormento. Para o velho do ermo.ÁLBXÁin>BB HERCULANO 375 modo que do o vácuo inlellectual revelava-se pelo tédio dos * longos serões de inverno. onde as mil scducções da sua gloria o iam provocar. Repositório. que vaguéa indefinito sem o norte da realidade. e ao Para sair d'este estado doentio para acudir ás urgências mesmo tempo da terra. p. espirito. . mo- mancha negra na vida rústica. doença ral. fácil de evitar nas cida- des. Panorama. Illustração. Revista peninsular.

236) e abor- também o tédio da vida campestre.» O tédio das 1 Opúsculos.» «No estudo da lingua allemã andava sr. Vencido o primeiro inverno. como ainda hoje. a corrigir. . a accrescentar. datada de 20 de dezembro de 1830. as suas horas de desenfadamento eram dispendidas em cavar e jardinar. ainda uma vez. todo e na sociedade do Assentiz fazia ás noites leitura ^ da sua Iraducção do Phantasma de Schiller. faço. I. ao fluctuar indeciso no vácuo. pela cultura das flores. assim mental como corporal. VII e IX. — Foi por que comecei a ajuntar os parte do membra de uma grande vi meu passado in- tellectual. cem vezes isso preferível. na sua mocidade Herculano revela a paixão pelo tra- balho da terra. ha esta preciosa referencia á predilec- ção agrícola de Herculano: Larga o sacho ao frenético Alexandre. ainda o mais árido. Em uma Epistola de Castilho.» Estas palavras encerram o desalento de uma ultima illu- sao. p. na republica das lettras. nota accrescenta: «O nosso amigo Alexandre Hera esse tempo. em principio de estudos ainda em quem já se admirava o infatigável mas fervor do trabalho. a completar. Que esta con- fissão ingénua sirva para ser absolvido da espécie de cor* reria que. é disjecta preferível. Se Scbiller e o Phantasma o deixam livre E em culano. l. porque já então. 376 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL mais somnolenta e obscurecida que esteja a mente.. p. tasse ao cabo de cada desapparecerem os marcos negros junto dos quaes cumpria que longamente me assen- um dos poucos estádios que ainda me restam a transitar pela estrada da vida. por mais que ella ame o repouso.) * Excaoações poéticas^ p. recido da gloria htteraria encontrou (vid. 16. apesar dos mais firmes propósitos. a cortar. o trabalho do espirito. (1873.

Marquez de Resende. voltava-se para o passado. avivava a tradição do monachismo. infe- Mas esse descontentamento era o testemunho da sua rioridade. Castilho. isto aca- bou de o definir. Herculano vivia em continuo descontentamento. tria. . e o progresso social pelo que ha de mais retardatário —o in- fluxo religioso. que não acreditava no futuro da páque não servia o seu paiz. a falta de disciplina mental revela-se n'elle d« um modo vida. a nação atrasada conferiu-lhe por isso o po- der espiritual.ALEXAin>BE HERCULANO 377 longas noites de inverno veia-lhe destruir a ultima illusâo que o acariciara —o remanso da vida campestre. um génio. involuntário pelas contradições de toda a sua conflicto que o punham em com os seus maiores ami- gos. Diderot definiu profundamente o génio se n'essa ])\\rase — ime áme qui tourmente. explicava a historia pela vontade dos indivíduos. taes como Garrett. e se este estado de espirito proviesse da apprehensão do futuro. Filho da ultima época do absolutismo. Rodrigo dá Fonseca Maga- lhães. Escrevendo sempre em todos os momentos graves da historia contemporânea. seria proclamado apesar de todos os seus erros. Esse desconten- tamento. e perturbava a emanci- pação da sociedade acobertava a falta civil com um deismo christão com que osten- de critério philosophico. que se traduzia ás vezes por siva. e foi isso talvez o que exerceu uma acção fasci- nadora sobre o espirito dos seus admiradores: nunca se mostrou satisfeito. mas de que não soube usar. de que ello se sentia investido. Era uma natureza descontente. que a geração ia perdida. rejeitando uma modéstia com apparato as honras sociaes. Oliveira Marreca e Seabra. Uma do cousa parecia caraclerisar em Herculano a centelha génio. da febre da iniciação. era era geral um estado de despeito de um espirito que não sabia deduzir dos actos descoordenados das pessoas a marcha progressiva das cousas. de quem se afastou irreconciliável.

calou-se para sempre. Herculano nâo o entendeu assim. o grande compositor da escola italiana. nâo se quiz empenhar em uma lucta do génio creador. fosse qual fosse a duração que a minha obra alcançasse a vida do historiador de ora em diante seria breve e porcaria. Mesmo. considerando-se a injustiça elle próprio filho da sua obra. O meu orgulho abateu-se logo. Para Her- culano o trabalho não foi nada d'isto. ali o sentimento foge ás emo- a rasão se exerce. é o apoio moral mais seali guro que se pôde descobrir. ao acabar a sua Historia de França. Quem .» A mesma emoção se dá com Michelet. quando co- nheceu a profundidade de pensamento da escola allema que começava a preponderar na musica nloderna. Rossini. tirando d'el]a própria o estimulo para o trabalho. e uma humilde melancholia se apoderou de mim.378 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL O silencio de Herculano na litteratura fora também um systema de celebridade mythica. postoque declare que a gloria litteraria foi a sua única ambição no mundo. e que. um dos grandes espíritos do século xvni. mantendo o equilíbrio contra as violências exteriores que a perturbam. Desgraçado do escriptor que nâo se apaixona pela sua obra. Em Portugal ninguém se alevantára acima de Herculano. e o silencio do escriptor tornou-se uma das formas do despreso pela sua sociedade. quando ou os desastres nos assaltam. um pensamento dominante. ções doentias. a preoccupaçâo de um trabalho que se tornou uma manifestação da nossa vida. Mas aqui a efficacia da acção augmentava com o isolamento individual do iniciador. declara: «Não dissimularei que tive uma primeira emoção de alegria n'esse momento em que me achava desembaraçado. ao lembrar-me que me separava do antigo e agradável compa- nheiro da minha vida. e que ia talvez firmar a minha reputação. ao terminar a sua Historia da Decadência do Império romano. era um protesto como o do miUtar que quebra a espada no meio de uma campanha sem bravura.

a ir de encontro aos erros. do seu antigo amigo António Luiz de Seabra. a carta Em 1865 escreveu no Jornal do Commercio dando rela- parte ao publico de que redigira no Código a tiva ao emenda Casamento civil a propósito de umas iuepcias do Duque de Saldanha. de quem estava separado desde 1851. d'essa polemica que se agitou na imprensa. Era a ultima honra que lhe essa mesma o procurou para envolvel-o no nimbo de um livre pensador. a littera- fundar disciplina moral. nâo pôde aspirar á gloria ria. para obtêl-a é necessário lisongear a época que só me- rece cautério.ALEXANDRE HERCULANO \'isar 379 a dirigir o seu tempo. consignada nas Ordenações . Herculano conseguiu a admiração fetichista. questão do Casamento em 18G5 uma foi aproveitada por Herculano para lançar aos ventos epistola prophe- Vejamos que relações existiam entre Herculano e esta conquista do civilismo. e desde 22 de dezembro d'esse anno livros prohibidos pela inscriptos no Index dos Congregação faltava. que não era.i> O seu silencio era sybilino e a nação queria ouvil-o. lettras. pu- em 18G6.. e que paga a lisonja lançando-se na admira- ção feíichista. fo- ram perturbal-o com uma nova honra. sem eslimulos men- Contra esta admiração publica oppoz Herculano lencio syslemalico. e do alongo sique espero continuar a guarTbiago falia dar acerca das questões politicas e das questões litterarias. A legislação civil portuguezn eslava lia mais profunda immobilidade. fura nomeado para a revisão da redacção litteraria dos artigos. e isso cortou-Ihe a actividade.. nomeando-o para a Commissão revisora do Projecto de Código Civil. resultaram os opúsculos intitulados Estudos sobre o Casamento blicados civil. deixou-o taes. um si- abandonando as de S. que tenho guardado . na carta em que em 186iá recusa a grâ-cruz lencio. mas cabe-lhe a gloria de ter feito a redacção do titulo sobre aguas. de exame de Roma. civil A tica.

. . assim se fez por d'essa alta missão um processo absurdo encarregando e submettendo depois a um jurisconsulto. imperativa dos artigos. uma das diíTiculdades da redacção Herculano complicou o trabalho e introduzindo provincia- com a paixão dos archaismos. não í> foi para servir o paiz. . pensámos nós que fora para servir a pátria com as suas luzes históricas acerca das do passado para se fazer evolutivamente a trans- ição para o civilismo moderno. » O jurisconsulto António Luiz de Seabra pediu a assistência de Herculano para a questão de linguagem. era fácil apropriarmo-nos d'elles confeccionando uma cousa. Como existiam có- digos civis europeus. mas o historiador não deixa na celebre carta ao de dezembro de !865: «Fui illusões sobre os seus actos. D'aqui resultou entre o redactor do Código um constante conflicto revisora. em que diz que a pátria não lhe deve nada. e como o francez e o sardo. um grande facto histórico. obra a uma commissão sem sem capacidade philo- sophica e histórica. 462. nismos particulares na redacção de artigos de auctoridade geral. Diz elle. escripta para uso do príncipe. * A final o Código civil saiu estropeado da comCW. civil. Depois continua na carta: «Acceitei. civil e a Commissão e um producto mórbido filho de emendas. Herculano fora nomeado officialmente como membro da Commissão instituições revisora. de i memSe bro da Commissão revisora do projecto do Código acceitei esse longo e laborioso encargo. mas é glosal-os.dou HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL do Reino dadas a este paiz sob o dominio hespanhol ! É pas- moso. Jornal do Commercio. supre- soes e toda a qualidade de accidentes que provoca o par- lamentarismo. porque m'o pediu o próprio auctor do projecto primitivo do Código. Isto òpasmoso. plano. O paiz não precisa dos meus serviços.* do Cod. alterações. sobretudo quando se aproxima d'essa outra declaração acerca da Historia de Portugal. 1 Citaremos as palavras gaivagem e alcorcasj do art.

vim encontrar a opinião pu- da capital singularmente agitada.ALEXANDQE HEBCUIxlNO 881 missão. que desde a falsificação do movimento da Re-. e de campo assaz remoto blica e solitário para não chegar até lá o ruido dos negócios do estado. referida carta ao Jornal do um Na Commercio. iniciativa uma bem poucas disposições se contenham do e. e a lei devia reconhecer esta antinomia. era quasi impossivel que não reproduzisse alguma das grandes conquistas do espirito civil moderno. Herculano uma proposta. e de contracto civil para os nâo catholicos. e em pratica essa disposição nova do Código o recurso de um so- phisma addiando esse progresso pela dependência de regulamento.» Ninguém coexistir triste consequência d'esto erro de fazer dois princípios antinomicos. acatar a usurpação da egreja. Herculano. que alterou capi- talmente essa ideia moderna: o casamento conservaria um duplo caracter de sacramento para os catholicos. embora no de- senvolvimento legislativo que devia tornar essa divisão cousa pratica. que se tornara o caudilho do clericalismo. voltando do campo. Herculano cáe na ingenuidade de declarar: «de a divisão do casamento uma proposta que fiz derivou em religioso e civil. foi assim inconscientemente que se introduziu n'elle a ideia do casamento reduzido á sua base histórica e philosophica de complicou o problema com um contracto. viu a alguns desse voto em contrario. Fallava-se por toda a parte na legislação relativa ao casamento contida no pro- . compilado dos códigos modernos. tornando o contracto licos. saiu com um folheto a favor do sacramento. generação de 1851 rompera com o militar empavezado. ir- ritou-se contra essa theologia da caserna. o marechal Saldanha. civil de natureza excepcional. para os não catho- D'aqui resultou a impossibilidade de pôr civil. e na alludida carta exclama: «Ha dois ou três dias. o no mesmo Código contracto civil e o sacramento. que só appareceu ao fim de doze annos. até a minha. levantou-se a polemica na imprensa.

— Expurgando-o das asquerosidades de que vinha polluido. a deplorável ideia de que o contracto perante civil do ca- a única concepção universal e sublime pela continuicivilisaçôes. cercando-o. insuflando nos espíritos samento.. Assim proce- dia o grande rio. o prinmonarchia absoluta. das condições dos contractos. em que os cânones se de- batem atrapalhadamente com para mostrar que o casamento á altura de dignidade jurídica lado. cipio perfilhado pela — A commissão acceilou.» se conservou. é. políticos. De que modo? Par- tindo de que o acto do casamento civil se achava já legiti- mado na Ordenação. pois. .» Herculano nao podia perder este ensejo para trovejar propheticamente: «Alheio e indifferente ha muito a todos os debates lettras.^. de- conservar-me extranho a este singular debate . em que se dava á mancebia a sancção jurídica! Monstruoso. das formulas. a gravidade e a auctorídade moral . Liv. dade historíca das sitória. «Na Ordenação o que o absolutismo fizera fora elevar a mancebia á digni- dade de matrímonio. . cheia uma religião tran- de mythos atrasados e de supersiições degralegitimação inicial dantes.. desenganado até das e ultima illusâo. § 2. que foram a minha primeira não esperando veria nem crendo no futuro da terra onde nasci. veiu explicar a sua doutrina.382 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL jecto de Código civil .. tit. uma da mancebia. porque era Mas não um momento t> espectacu- loso. iv. dava-lhe aquillo de que carecia. A theologia encostava-se ás hombrei- ras dos quartéis .» Herculano para justificar esta triste comprehensão da lei civil. civil é a elevação da mancebia Mais lhe valera ter ficado ca- do que vir assim perverter o critério publico.. como contracto civil- das garantias... escreveu três opúsculos Estudos sobre o Casamento civil. 46. dizendo que tentara (^pôr de accôrdo o sacerdócio e o império. o mais pasmoso é a illusão do espirito publico que julgou vêr em Herculano um . I a legislação consuetudinária. homem na conciliação do sacerdócio e do impéiniciador da liberdade de consciência.

quando a nação imbecilisada soffrera a invasão estrangeira narchia: «Com. mas as que ficam bastam para explicar tanto no homem como na sua obra. Seu mister é apaa gar todos os santos aífectos da alma e incarnar no coração. contra as doutrinas da ne- gação da propriedade que sustentara contra Gar- em 1851. mandou ao mundo como mandou Attila ou como um verbo de morte. que só em 1878 pôde ser regulamentada. casando em 1867 pobre catliolicamente. que elle suppriu no seu falta espirito por um vago sentimento religioso. e por syllogismo o camartello. * Isto nSo foi sem influencia na falta de vigor em qoe ficou esta parte do Código civil. que tendo por lógica o escarneo. se chama Philosophia. de 1848. e o que fizera civil fél-o com relação á emancipação rei também litleraria. corre por todos os ângulos de Portugal e encasa-se em todos os po- voados uma cousa hedionda e torpe. e pela solvem. A missão da Philosophia acha-se assim descripta no pro- logo do Monge de Cister. A maior força na propagação dos princí- consiste no exemplo. e essa encobre-a por uma naturahdade simuladamente rude mas no fundo emphase de ura es ty lo figurado. inimiga do pas- sado e do futuro. vendendo á Academia das Sciencias os apon- tamentos de um Diccionario portuguez que lhe legara o traductor portuguez de \yalter Scott. Deus a Inquisição. que. se chama illustração. a chamada pela sua morapidez da choiera ou da peste. Outras contradições e antinomias de caracter poderíamos expor. André Joaquim Ra- malho e Sousa. á para padrinho * um que encontrou sé. que provinham da falta de uma disciplina philosophica. .ALEXANDBB HEBCULANO 383 Herculano contradictou immediatamente as doutrinas sobre o casamento escolhendo porta da pios civil. que visa a impressionar pela condemnação do presente e pela recomposição poética das crenças que se distheatral.

384

HISTORIA DO KOMANTISMO

EM PORTUGAL

em

logar d'elles,

um

cancro para o qual nossos avós nao

tinham nome, e que extranbos designaram pela palavra
egoismo.» Estas palavras authenticam
ciplina mental, e

umq

completa indis-

nm

enfatuamento que tornava incapaz de
annos a Philosophia
cousa medonha,

subordinal-a.
foi

De

facto durante muitos

para o espirito publico portuguez
fallava a

uma

de que se

medo, e era synonimo de abjecção, como

Republica era synonimo de anarchia. Assim se pervertiam
as ideias fundamentaes, e o resultado foi o ter a nação des-

cido até ao ultimo gráo da inconsciência,

como

se vê pela
espíritos

pratica dos sophismas do Constitucionalismo.

Os

dirigentes

iam com
de

a onda.

A

falta

uma

philosophia que* lhe dirigisse o critério,

resente-se

em

todos os pontos de vista históricos de Her-

culano; testemunha de
e litteraria, renovada

uma profunda

transformação social

em 1830

depois da queda da reacção

systematica da Santa Alliança, que pretendia abafar os princípios da

Revolução franceza, Herculano vè n'esse grande

facto a consequência de

um

individualismo criminoso, de

um um

egoismo selvagem, que só pôde ser temperado pela

abnegação do christianismo:
egoismo.

«O

caracter

estampado na

frente do século actual é o individualismo, ou mais claro, o

O

furor dos diversos bandos civis, que pelejam

por sustentar umas formas de governo ou por derrubar outras, e as luclas das opiniões litterarias, scientificas e reli-

giosas, não são por certo resultado de convicções profun-

das,

como eram

as Cruzadas, ou as
fé viva.»
*

Reformas protestantes
restabelecer a ver-

nos tempos de
dade.
facto das

uma

Convém

Cruzadas

foi

uma doença
feiticeria

de hallucinação

si-

milhante ao millenario, á

e aos semeadores de

peste; quando a Europa entrou na corrente do criticismo

1

Panorama,

t.

ii,

p.

107.

ALEXANDRE HEBCULANO

385

protestante, decaiu nas consciências o poder catholico-feudal, cuja dissolução se

completou na

politica pela

grande Re-

volução de 17^89. Todos os factos que se seguiram depois,

vieram d'este impulso, e Herculano não podendo estabelecer a sua intima continuidade não conseguiu comprehendel-os;

quando o regimen da

sciencia se generalisava pela

fundação da chimica, da biologia e das descobertas industriaes

como

a applicação

do vapor, da

telegraptiia e

de oudo ho-

tras

que multiplicaram as relações e
o impulso da
fé já

a actividade

mem,

não podia motivar as determinaas convicções demonstradas. Foi

ções humanas,

mas sim

assim que esse individualismo, que preponderou durante o
largo periodo da dissolução do regimen catbolico-feudal,

veiu a ser

também

disciplinado,

quando a Sociologia, systecollecti-

matisando os complexos factores sociaes, estabeleceu o accordo entre as forças staticas da sociedade ou o
vismo, e as forças dynamicas ou o individualismo, ou melhor,

na coexistência da conservação e da revolução como condição do progresso. As instituições modernas surgiram d'esta
dissolução, não comprehendida pelo nosso historiador.

Herculano apoiando-se unicamente na estabilidade do passado, linha

medo da

liberdade, e mostrava sentir a falta

do absolutismo
da ordem:

e da superstição,

porque eram as garantias

tempos de servidão, o poder absoluto dos reis è ministros era para o homem o que para a criança fora o pae, o aio ou o mestre— o temor ficava sendo ainda
elemento de vida publica; então o clero continha o povo

«Em

no aprisco da superstição; e a superstição também então se julgava elemento social. Quebradas as antigas formas de
governo, não por nós mas pelo século, achámo-nos geração
livre,

cora a educação e

com

todas as reminiscências do

passado: corrompeu se o povo não porque a sua Índole fosse

má, mas porque forçosamente se havia de corromper. Qual
é o

homem
25

que nascido

em

ferros e

em

ferros levado atè

386

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

á educação

viril,

se não torne licencioso, restituído de salto
*

á liberdade natural?»

O que vemos com

relação á politica reflec]e-se

também
civi-

nas concepções de Herculano acerca da litteratura: a
lisaçâo sendo para elle a fórmula profana

do Christianismo,

o Romantismo só podia

significar a

Arte christã. Aqui o

erro é desculpável, porque esta ideia prevaleceu algum

tempo na Europa.

Em
sitivas

geral dá-se

também ao Romantismo

o

nome de

Arte

christã; os críticos especiaes, desajudados das noções po-

da Sciencia das Religiões, suppozeram que a espe-

culação moral e subjectiva que se exprime no Romantismo

pela complexidade de sentimentos, era
consciência

um

novo estado da

humana provocado

pela elevação religiosa do

Christianismo; d'aqui determinaram

como

característico da

Arte romântica o vago, o indefirddo, como esforço para definir

morphologicamente essas entidades metaphysicas da
infinito,

immortalidade, na alma, e do

em

Peus. Sobre es-

tas bases ocas fizeram-se theorias criticas,

chamando ao
phase acha-se

Romantismo o Christianismo na

arte; esta

bem
ções,

representada pela escola cmanuelica dos românticos

francezes, e aquelles que generalisaram mais estas abstrac-

como

os poetas da Allemanha, fizeram

um

ultra-ema-

nuelismo, foram pantheistas. Para restabelecer a verdade

no problema, convém ter presente, que o Christianismo é um factor que se não pôde eliminar, mas que ainda não está compreliendido. O que representa o Christianismo como religião moderna? Uma consequência reflexa do estado dos
espíritos, e

não

uma

acção directa; por isso Christianismo

e Romantismo são manifestações simultâneas d'esse estado. As religiões antigas, como o polytheismo védico e grecoromano, eram formadas sobre mythos tradicionaes; esses

*

Panorama,

t.

ii,

p.

211.

ALEXANDRE HEBCULANO

387

mythos foram elaborados"
tos,

em

personificações, allegorias,

symbolos, e as suas formas foram decaindo

em

lendas, con-

epopêas e outras formas tradicionaes das lilteraturas

d'esses povos.

Á

medida que os mythos iam decahindo do

respeito sagrado, as religiões foram perdendo a sua base,

e dissolvendo-se; é por isso que o brahmanismo soííre no

seu seio

uma

transformação profunda, o buddhismo, e o
facilmente
substituído pelo

polytheismo greco-romano é

cbristianismo. Eis o grande facto: importa explical-o.

Em

vez da base mythicay o espirito

humano procurou para a
é o

sua crença

uma

base moral;

tal

pensamento d'essas

duas

religiões,

buddhismo

e cbristianismo, tão análogas nas

suas formas dogmáticas e cultuaes.

O desenvolvimento das

especulações moraes fez triumphar o cbristianismo sobre o

polytheismo mythico da civilisação greco-romana, e essa

mesma

especulação na forma de subjectivismo sentimental
litterarias

desenvolveu as manifestações

do Romantismo,
Cbristia-

differenciadas por esse caracter das litteraturas clássicas.

Por

tanto, a critica explicando o
factos,

Romantismo pelo

nismo syncretisoy os

elevando a causa aquillo que
passividade myslica do cbrissi-

também

era

um

resultado.

A

tianismo, que recebeu nos claustros a forma litteraria, é

milhante a essa impressionabilidade doentia da escola byroniana das litteraturas românticas; differem apenas no fim
individual.

Os que sentiram essa impressionabilidade,

e pra-

ticaram a especulação subjectiva do sentimento, como Petrarcha, Dante, Miguel Angelo, Shakespeare, Diderot,

tém

todos os caracteres de Românticos, postoque a consciência
d'esla renovação só apparecesse no século xix.

Havia
ciphnar

em
uma

Herculano

uma

incapacidade philosophica para

julgar bera o seu meio social, e sobretudo para poder dis-

geração.

A

exclusiva educação clerical deu-lhe

a comprehensão ascética sobre o mundo exterior; o retrato

que

faz

da sociedade porlugueza, immensamente carregada

dSo

HISTOBIA DO ROMANTISMO

EM FOBTUOAI.

em

1839, mais carregado ainda

em 18ol

nos artigos da

Paiz, ainda mais desalentado no prologo do quarto volume

da Historia
repete-se
civil

em

1853, e no prologo de despedida de 1863,
violência na carta sobre o
a

com mais

de 18651 Sempre

condemnação, e nunca

Casamento um ár de

esperança; era para quebrar todas as energias.

No

artigo

sobre o Ghristianismo escreve,
«Portugal converte-se

em

13 de julho de 1839:

em

paiz de bárbaros; o assassínio é

ura desafogo; a dobrez

um

mérito, o prejurio

um

calcula

de interesses, e apenas o parricidio será
rendo, nâo abominável, nâo maldito,

um

feito,

não horse re-

mas digno de

prehender nos jornaes.»
car a geração nova

*

Proclamava a necessidade de eduvia directa

como

para a transformação

do futuro, e apresentava o Ghristianismo como a panacêa exclusiva: «julgámos poder alevantar a voz em favor da religião,

que tão esquecida anda
falta

em

o nosso Portugal.

«>

E em

seguida lança sobre o futuro este olhar de previsão, que

denota a

de critério: «Ainda está occulto no provir

qual será o symbolo universal do Ghristianismo;

mas

a

missão do presente é

a religiosidade.
foi

y>

^

D'este

feitio a

sua

direcção sobre us espirites

uma

calamidade.

Em

1851,

em

artigo de

29 de outubro, no Paiz, escreve estes traços

sobre o estado de Portugal:

«A

historia politica é

uma

serie

de desconchavos, de tor-

pezas, de inepcias, de incnherencias indesculpáveis; ligados

comtudo por

um

pensamento constante, o de se enriquece-

rem

os chefes de partido! Ideias, não se encontram

em

toda
li-

essa historia,

senão as que esses homens beberam nos

vros francezes mais vulgares e banaes. Hoje achal-os-eis

amanhã reaccionários; hoje conservadores, amanhã reformadores olhae porém com attenção e encontral-os-eis sempre nullos.
progressistas,
;

1 Panorama,

t.

in, p.

219.
108.

2 Panorama,

t. ii,

p.

.

ALEXANDEE HEBCULANO

«A historia da nossa industria é a historia da lucta entre o trabalho e a administração. Quando o tem querido proteger os governos só lêm sabido contrarial-o. Lede a pauta
da alfandega, as
leis

dos foraes, esse calios de

leis

incohe-

rentes e parvas que se têm feito, e vereis sempre a

mesma

ignorância dos princípios económicos geraes, ignorância da
Índole e necessidade do paiz
. .

«A

historia da instrucçâo publica é similhante ás outras.

As escolas superiores tèm de estar em defesa permanentemente contra as aggressões dos politicos ignorantes, que as consideram como inimigas suas irreconciliáveis. As

escolas primarias, a instrucçâo do povo, a mais essencial

de Iodas para o bem da nação,
cida,

essa, abandonada, esque-

perseguida pelos tartufos politicos e não lendo força
elles

para luctar com

succumbiu ...»

remédio que apresenta, é derivado da

mesma

preoc-

cupação religiosa, quer (upadres virtuosos, para propagarem
os princípios suaves e eminentemente liberaes da verdadeira
religião.»* E ha que numero de annos havia já Augusto Comte demonstrado que os progressos têm uma evolução normal, primeiramente scientificos, depois moraes e conse-

quentemente económicos?

Quem

quizer

transformar

um

povo, antes de refrear-lhe coactivamente os costumes dôIhe noções verdadeiras das cousas, isto é, sciencia, que a

moral e

a industria brotarão d'essa energia mental.

Por fim,

Herculano

comparava Portugal aos últimos dias da decacomparava-se aos anachore-

dência do império romano,
tas,

e

comparava Lisboa a Nicéa discutindo subtilezas

theologicas quando os devastadores lhe
ros.

demoliam os mu-

Uma

cousa attenúa estas jeremiadas; eram parte obriestylo,

gada do seu

que precisava de metáphoras

violentas,.

1

Paiz, D.» 84, de 1851.

390

HISTORIA DO ROMANTISMO

EM PORTUGAL
para encobrirem a
falta

de paradigmas históricos de

eíTeito,

de abstracção e de analyse subjectiva.

No prologo da
que a

terceira edição da Historia de Portugal,

espécie de testamento litterario de Herculano, declara elle
gloria litteraria fora a única

ambição que o movera

e a ultima que o abandonara.

A

nação inteira reconheceu

unanimemente essa
a

gloria,

quando o escriptor se entregava

uma

absoluta abstenção de actividade intellectual; essa

descrença era a posse de
a que se visa, é

um

poder sem destino.

A

gloria,

um
;

estimulo diverso da vocação.

outro logar dissemos: «A vocação litteraria

Como em resulta de uma
que leva

organisação especial

é essa sacrosanta fatalidade

um homem
Du

a usar e gastar o seu corpo sacrificando -o á adi*
litteraria

vidade da intelligencia; a vocação

levava Anquetil
ir servir

Pérron a sentar praça por dinheiro e a

na ín-

dia, para lá descobrir o zend, resistindo a todas as seduc-

çôes das bayaderas, affrontando os chmas inhospitos da Ásia,

para estudar os dogmas das religiões da índia, e enriquecer a sciencia da Europa

com o
morrer
foi

livro

do Atesta;

foi

a vo-

cação

litteraria,

que

fez

Ottffried Mijller debaixo

do ardente

sol

de Delphos;

também

a vocação Htteraria,

que levou Agostinho Thierry a cegar sobre os monumentos
da Historia de França, e que o
fazia dizer, ante o Instituto,

quando
morrer:
via

não podia continuar o seu trabalho, perto da
fiz, e o que eu faria se tivesse minha carreira; eu tornaria a tomar aqueila

— Eis aqui o que eu
a

de recomeçar

que

me

trouxe a este estado. Cego, e soffrendo
allivio,

sem

esperança e quasi sem

eu posso dar este testemu-

nho, que da minha parte não será suspeito. Ha alguma

cousa que vale mais do que os gosos materiaes, que é melhor do que a fortuna, melhor do que a saúde, 6 o sacrifício pela sciencia.

— Para

o progresso do

homem

sobre a

terra, estas palavras valem mais do que o achado da mais

pura moral. Que diríamos de

um

Littré, d'esses dois san-

ALEXANDBE HEBCULÁKO
tos obreiros Jacob e

391

Guilherme Griram, de

um Pedro

José

Proudhon, ou de

um

Raspail, e-de tantos outros? Veneran-

das sombras que passaram imprimindo direcção ao seu

tempo; mas não se queixaram, e trabalhavam por

isso
*

mesmo que
conflicto

havia

quem

divergisse das suas opiniões.»

A

vocação não se preoccupa com a gloria, pelo contrario o

com o meio

social,

com

as opiniões estacionarias, é

com as ideias preconcebidas, uma condição natural para

o desenvolvimento da sua energia. Natureza melancholica,

um

pouco tendendo para

a

vesânia periódica da perseguiirritável,

ção, o

que se explica pelo temperamento

que se

caracterisava vulgarmente

como orgulho,

e pelo resto

de

orientação da tremenda crise do absolutismo, Herculano não
sentia na sua actividade o apoio inabalável de

Depois da polemica do Milagre de Ourique,

um destino. em que dera

um

relevo

pasmoso

ás inepcias de alguns padres obtusos^

julgou-se victima de
a qual

uma

vasta conspiração clerical, contra

nem

o próprio governo tinha força para o proteger!

Resolveu não progredir nos seus estudos históricos, dizendo

que lhe haviam quebrado a penna nas mãos. No prologo dos Opúsculos explica o seu isolamento: «Após largos annos consummidos na vida agitada das
baixel mais de
letlras,

em que o meu
do

uma

vez fora açoutado por violentas tempes-

tades, tinha, emfim, ancorado no porto tranquillo e feliz
silencio

e da obscuridade.

Herculano gosava os effeitos

thcatraes d'esta abdicação
a própria decadência.»

em

que «o

espirito sentia

bem
falta-

Para Herculano proseguir na Historia de Portugal
va-lhe

um

ponto de vista; escrever para apurar datas de

casamentos, de bulias e rescriptos que regularisavam os interesses de príncipes, é

um

mister

bem

ingrato.

Compreo pas-

hende-se que, nas luctas politicas da França

em que

1

Bibliographia critica, p. 196. (1878.)

392

HISTORIA DO ROMANTISMO

EM PORTUGAL

sado reagia pela Restauração contra os princípios de 1789

que se expandiam na sociedade moderna, Agostinho Thierry se lance ao estudo da historia como a um campo de batalha,

para sustentar que a Democracia de hoje era nascida

d'essas classes servas que luctaram contra os barões feu-

daes.

É

assim que se acha vida na historia, que se recon-

struo o passado.

Gomo
de

é

que Herculano podia comprehenpovo atrophiado pelo catholicismo,

der a vida

politica

um

se elle era

um

christão fervoroso e poético?

Como

julgar

a instituição da realeza, que atacou as garantias locaes foraleiras, se elle era sinceramente

monarchico? Como, apreadmi-

ciar os Municípios, se elle acceitava a centralisação

nistrativa

do constitucionalismo com

pequenas restricçôes?

Sem
•o

o intuito de

um

processo, de

um

inquérito, de

um
té-

protesto,

mesmo, não

se faz historia; Herculano tinha só

ponto de vista da veracidade diplomática, e por isso o

que produz essa obra fundamental, que ninguém lê, porque nâo tem encanto, atacou-o também a elle, aborredio

ceu-se do trabalho e abandonou-o.
nico,

No seu
a

desalento chro-

Herculano chegou

também

perder as esperanças

sobre a marcha progressiva do século xix: «Na minha decadência intellectual

vem-me

ás vezes ao espirito a suspeita

de que este século vae acabar nos braços do gongorismo scientificOf como o xvi expirou nos braços do gongorismo
das phrases e das imagens.»* Os grandes problemas da
atomicidade, da equivalência mechanica do calor, da analyse
spectral, da physica sideral, da synthese chimica, da histo-

chimia, da physiologia e pathologia cellular, do transfor-

mismo, da evolução orgânica, da psychologia experimental,
a constituição scientiíica dos factos sociológicos, na linguistica,

nas religiões comparadas, na archeclogia pre-historica,

na antropologia, ethnologia, na mesologia, elementos con-

^

Carla a Andrade Ferreira, de 15 de juobo de 1872.

ALEXANDRE HERCULANO

393

cretos de

uma

nova sciencia

— a Sociologia, toda esta somma
homem uma
nova consciên-

de esforços que asseguram ao
cia,

eram para

aquelle espirito dirigente os

symptomas de
de
es*

gongorismo
foi

scienlificol

A

consequência d'este estado mental

a impossibilidade de actuar sobre o seu tempo, e

educar
crever

uma
uma

geração.
vista,

Acceitando o ponto de

que Herculano tentava

vasta Historia de Portugal, e não

uma mono-

graphia das Instituições sociaes da Edade Media portugueza,
as proporções

que delineara, e o processo extremamente

analytico seguido, não só tornavam a sua realisação incompativel

com

a acanhada vida de

um

navam

essa obra gigante absolutamente illegivel,

homem, como torsem ac-

ção sobre o espirito e a educação publica, valendo unica-

mente para ser consultada de um modo parcial e sempre com menos vantagens do que qualquer monographia. aPortugal,

como

em

outro logar dissemos, é o paiz que mais

desconhece a sua historia; d'aqui resulta o abandono da
tradição nacional na arte, o despreso pelos seus
tos, a

monumen-

separação lamentável entre os escriptores e o povo,

a falta de convergência e de plano na actividade politica

dos que exercem a aucloridade,

e,

o que é mais

triste,

da

parte da nação a incapacidade de julgar as instituições abusivas

que atrophiaram a sua energia, e a apathia com que

se submetleu sempre a toda a
leza,

ordem de

tropelias da rea-

que ainda

em

1847 chamou sobre Portugal

uma

in-

vasão ou intervenção estrangeira para manter-se na sua

posse dynastica.

O maior

serviço que se pôde fazer a esta
d'ella se

nação é recordar-lhe a sua historia;

derivam todos

os estimulos de renovação intellectual, moral e económica,

porque os

factos

do seu passado são

bem

eloquentes para

convencerem de que, pela

influencia secular

do jesuitismo

se atacou mortalmente a manifestação da intelligencia por-

tugueza, pela extincção das cortes se abafou a vida nacional

394 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL partindo a orientação da vida publica da devassidão palaciana. Se os tribunos têm acção sobre n'uma dada hora. é só porque exprimem com maior clareza a ideia que está na consciência de todos. em faustos e fundações estú- em tratados que e arrumaram para sempre a nossa industria. 140. em grande parte alheio ás conquistas do seu tempo. que de se procurarem os chefes se procurassem as ideias que sugeriam esse movi- mento. em um systema administrativo das colónias cujo fim era o engrandecimento dos governadores ou fidal- gos arruinados. a lição mais agradável e persuasiva é a da sua historia. todos os esforços para o seu desenvolvimento serão improficuos elle em quanto não adquirir as ideias que hão de ser o estimulo ou o determinismo da sua própria acção. a rasão da sua independência para luctar por perce- berá como reduzido a beneficio de lisou uma familia se immobi- em feudo. ii. nem os agitadores têm esse poder fascinador que arrasta as multidões tr'ora se julgava. . e sacudir todas as invasões da esphera simplificar os serviços pú* blicos. e pelo regimen do absolutismo-cesarista dispende- ram-se as riquezas nacionaes pidas. Para fallar a este povo sem interesses. encadeiem-se-lhe os factos e elle comprehenderá ella. official desempenhar «Pôr em relevo a historia d'esta pequena nacionalidade. os povos não se movem pela vontade dos tribunos. é fornecer-lhe as noções que hão-de determinar os seus actos de transformação e de progresso. p. politica. É por isso que em um povo um povo apathico. e explorar as fontes vivas da sua riqueza. como o portuguez. que iam pela rapina as suas casas. e saberá pela expressão da sua soberania fundar um regimen de liberdade civil. Dizia como ou- um ministro francez. a propósito aYites dos levantamentos populares. vol.» 1 o Positivismo.e atrasado.

mo. a dictadura perpetua atacada em 1836. segundo as condições emprehender o resumo ou condensação accessivel ao tempo e á intelligencia do vulgo. fez á nação. prevalecendo sobre a vontade nacional o arbítrio de D. e não tratou de emancipar a sua consciência d'esse deismo estreito que o fazia considerar a clvilisação humana como que não a formula profana do christianissi. acima de tudo. ouvido com adhesão espontânea. o terror miguelino de 1828. ou em que cessos modernos para a antiguidade. Todo esse miserável reinado de D. tinha sido testemunha ímmediata dos successos. Isto. Era. que eloquentes factos para darem á nação a resistência que torna um povo livre e cmprehen- dedor! Estava Herculano em estado de emprehender este trabalho tão profícuo? Possuía todos os elementos concretos. também o não fez para . para conseguir este fim. Porque não fez esse grande serviço nacional? Porque se deixou amputar pela dependência. e essa obra tivemos porque as chronicas monáscatholi- fundamental nunca ticas e oíficiaes só a consignaram o que convinha ao cismo e â monarchia conciliados em explorar os povos pe- ninsulares. co- nhecia os homens. a falsiíicação do movimento sublime de 18^0. a epopéa do cerco do Porto. o historiador tem dois caminhos. Para se fazer resumo é indispensável as provas dos factos um bom uma obra fundamental onde fiquem com toda a sua amplitude. ou começar as suas investigações partindo dos suctrabalha.ALEXANDRE HEBCTJLANO 395 Este deve ser o critério do historiador. acceitou o faévor do paço em 1839. os caracteres. investigando a causa da transformação do regimen absolutista em liberal desde a introducção das ideias francezas ou jacobinismo até á transigência provisória' do constitucionalismo inglez. João vi. e sentia as grandea indi- gnações da justiça. '1817 e 1851. Maria n. em quanto á sua acção pratica e emquanto ao intuito philosophico. Sob o ponto de vista de lição era pela historia moderna que se devia começar. 1846.

396 HISTORIA DO ROMANTISMO EM POBTUGAI.« ed. e pelo exemplo de Schaeffer. ao empre- hender a Historia de Portugal «destinava lho ao estudo de um principe então na sua puericia . de Port. de Guizot. como em Gujacio.. 3. O conhecimento da renovação histórica da primeira metade d'este século tentou-o. na Historia 1 Bist. da Academia das Sciencias moldados pela collecção dos Monumenta Geí'manica de Pertz. de Frei Luiz de Sousa. e teria dos estudos his'oricos em educado-coma feti- severidade scientifica a geração que o admirou até ao chismo.» «Ad usum Delphinil» também tem ás vezes a importância das manifestações do génio. em La Gurne de Sainte Pelaye. e se elle se houvesse limitado ao campo da erudi- çãe histórica teria sido o mais digno continuador dos tra- balhos críticos e paleographicos de João Pedro Ribeiro. que escrevera toria de Portugal. João III. Sebastião. e por ultimo o plano dos Portugalice Monumenta histórica. de Frei Bernardo da Cruz. i. e achar-se-ia cer- cado de discípulos formados na pratica das recensões dos inéditos.. a edição do Roteiro de Vasco da Gama. o encetado traba* Preferindo refugiar-se no passado mais remoto. a edição da Chronica de D. t. a educação Significa: A erudição autodidacta de Herculano encaminhava-o para este ideal. . n'este campo elle teria exer- cido a sua actividade até ao fim da vida. A discussão da Chronica de D. Havia muito que fazer. monumentos portuguezes seduzido pelas vistas de Agostinho Thyerry.. e nunca a Herculano faltaram os recursos para a publicidade. consignando as suas Memorias. _e uma bella His- de Roussew Sainte Hilaire. em Jacob Grimm. Assim leria exercido uma acção profunda sobre a renovação Portugal. revelam a capacidade biblioiogica de Herculano. que seriam de uma im- mensa luz para a historia do constitucionalismo portuguez. em Muratori.

porque não tinha uma comprehensão phi- losophica das necessidades d'este povo. Dirksen. Henle.ALIiXANDlU: HERCULANO 397 de Hespanha. os seus trabalhos de erudição. Assim ficou em tudo a meio caminho. Virchow eHaeckel! O grande philologo Boeckh levanta o génio de Otifried ler e Miil- de Dissen. os espíritos supe- riores conhecem-se pela sua influencia. influencia que se al- numero e grandeza dos discípulos. Schwan. Para isto tinha apenas a severidade critica. Os verdadeiros homens de avalia pelo sciencia. quiz também a aptidão ser historiador. guns exemplos: João derna. a superioridade de Savigny faz desenvol- ver a capacidade extraordinária de Jacob Grimm e os emi- nentes Guilherme Grimm. essa impossibilidade foi de dirigir os que se lhe encausas do seu retraimento. Unterholzner. é ter sido in- . nem as transformações politicas da península e synthetica para relacionar a nacionalidade portugueza com com o movimento como ós de geral europeu. um Darwin n'uma individualidade tempo. tregavam também uma das e do ostracismo voluntário a que se condemnou. mas isolar-se theatral. Eickhorn. Póde-se dizer que quando é um Herder. e essa esterilidade de vistas. como Herculano. um homem influe sobre o seu um Lessing. de cujos moldes pretendeu desligar-se. mas nenhum poder de evocação do passado. e quando um dia se achou investido acima de inconscientemente de poder espiritual sobre esie paiz. quiz metter em obra as suas Memorias sobre as amigas instituições sociaes portuguezas. não soube exercel-o. Koeliker. ou um Meyer. não espantam Florez ou de um um Muratori. e a sua Historia pouco se eleva uma monographia. tem o creador da Physiologia mo- como discípulos Bischoff. Citemos Miiller. etc. Nasse. recebendo as bajulações de mediocridades que' nem sabiam avaliar o seu methodo histórico. O seu trabalho não influenciou o bastante para educar uma geração. Reichert. Hasse. Dubois-Reymond.

398 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL fecundo. Outros ainda mais obscuros captaram a complacência do Mestre^ cujos ditos escreviam em notas e propagavam com uncção. tiram a sua originalidade da direcção do abbade Vogler. Weber. plos são Emflm os exem- sem numero. quando Herculano morreu estava n'esse estado mental que só se define pela palavra moderna. sugerindo-lhe a venda á Academia do manuscripto do Vocabulário de Ramalho. frequentava-o Rebello da Silva. Em que serviu Herculano a sociedade portugueza. as suas obras eram lidas com recolhimento e orgulho. fortificando por meio d'essas legendas da amisade deslumbrada o poder espiritual que elle já possuia. aturava Bulhão Paio. dedicou-Ihe o seu romance histórico Ódio velho não cansa. de Musset e de Byron. com Mendes Leal enganou-se elle tomando os Homens de Mármore como original. que . que ou- um dia parodiar o estylo digressivo Silva Tullio. e todo o Portugal e Brazil era considerado como o limáximo da capacidade portugueza. Infallibilidade. que exprime uma cousa moderna. o apparecimento dos gran- des compositores allemães. um dos compositores mais originaes da Allemanha. em Era uma emoção que se não discutia. para Iriarchal quem era de uma inesgotável complacência. se tornou sem um dos seus mais Ín- timos commensaes. Em volta de Herculano só se agru- param mediocridades. Mayerbeer e Poizl. mas nem por isso deixou de escre- ver esse vergonhoso livro dos Fastos da Egreja. sem ad- methodo scientiflco na historia. emfim. como um assommite bro. A acção de fatalmente sobre uma robusta individualidade reflecte-se uma geração. Herculano vivia na lenda. no retiro pada Ajuda. elle quirir a severidade do que sou foi em tudo um rhapsodista. e julgando-o um génio dramático. saudando-o pelo insulso poema da Paquíta. até o próprio que sem se saber como se elevou a sócio de mérito da Academia das Sciencias ter escripto cousa alguma.

fallou-lhe das resistências heróicas contra os mouros da fronteira. turaes. Todos amaram e respeitaram ilerculano. melteu-se em um gou systema de despeito pejorativo. fechou-se em um humanismo romântico com que deslumbrou a mocidade. Em vez de proclamar a ne- cessidade do conhecimento da renovação plnlosophica que se operava na Europa em 183á. meio poético e meio heterodoxo. Leiam-se os seys livros. esterilisou-nos na contem- plação de um christianismo pessoal. qual a ideia que d'ai saiu fecundando o espirito moderno? Nada. se é que tivesse a comprehensão do poder espiritual investido. fallou-lhes dos frades. debaixo d'essa acumulação de factos concretos e de processos polémicos a que elle chamou historia. em vez da acção directa. as obras poéticas. máximo poder espiritual sobre a nação porlumas não soube usal-o para dirigir uma época. nenhuma noção iniciadora para a consciência. Poucos serão os cérebros capazes de resistir a essa aura inebrialite da consagração publica. mas patriótica. fallou-lhe do cava- lheirismo dos capitães da Africa. único em vez de provocar o estudo das sciencias na- meio de fazer progredir e fecundar uma geração. esse poder espiritual era o resultado do fetichismo por um homem. Chea ter o gueza. . e outros o históricas. É que esse poder não tinha uma origem racional e orgânica. litterarias ou autolatria inconsciente. altivez uma que uns chamavam caracter. e extinguiu a sua capacidade politica tornando-se apaniguado do paço. Herculano caiu em de cumulo da vaidade.ALEXANDBB HERCULANO 399 tanto precisava de impulso para se reorganisar desde que entrou no regimen do parlamentarismo? Revocou-a ao seu passado. que arredava o espirito publico da corrente das ideias modernas. Ninguém poderia de que se achava impulsionar mais a evolução da nacionalidade. mas ninguém lhe deveu uma ideia. emfim inspirou-lhe um patriotismo negativo. debaixo d'essa rhetorica emphatica.

apesar posições. condemnam pelo descon- tentamento da edade as gerações que entram no conflicto da vida. elogiando a geração dos ultra-romanticos: «E todavia.400 HISTORIA DO BOMANTISMO EM POETUOAL estacionamento intellectiial dá-se também nos cérebros os mais disciplinados pela participação scientifica. . Foi caso de Herculano. a morte é para gração da gloria. e principalmente contra o transformismo darwi- niano. podem dizer como sa- saudando os novos obreiros da philologiá em França: que «Quando se tisfação ó velho. p . D'onde se vê que é preciso que passe esta geração estacionaria para que as novas theorias entrem na circula- ção do ensino pratico. e. Préíace de la Gramm. por isso Comte e com elle Maudsley entendem que maior poder a morte é um factor natural do progresso. e á obra dos em novosi»* e Em 1858 escrevia Herculano no prologo das Lenda^ Narrativas. que sabem julgar-se e julgar as condições do meio social. todos os antigos professores e naturalistas da escola taxonomica de Cuvier são de um desdém intolerante contra a philosophia zoológica. historique de la Langue frai^çaise. e prestes a deixar a carreira. Só os espíritos dirigidos por uma perfeita educação philosophica. porque é a consa- a sociedade uma causa de pro- gresso. prestar em voltarmo-nos bom testemunho para aquelles que vêm. é que Littré. porque cessa de actuar uma força dissolvente. E quando essas individualidades se acham investidas de um inimenso poder espiritual sobre a sociedade do seu tempo. xix. do immenso talento que se revela nas mais recentes comquem sabe se. e para este o elles um bem. pela eliminação d'aquellas individualidades que possuem o social na edade em que já não avançam. sem saber usar d'esse poder. não virá em breve alguém que offusque os que nos deixaram para nós somente um bem modesto 1 logar?» Aos quarenta e oito annos de edade. entre os nomes que despontam apenas nos horisontes lilterarios.

» estacionamento. maior poder espiritual que as novéis intelligencias existiu n'esle paiz desauthorando que fallavam em cousas novas. caindo-me a mente cansada e gasta. 26 Demographia. enojaram-n'o. Mesologia. segundo o sentido antigo quando passou o periodo da sua actividade litteraria no romance e na erudição histórica ficou-lhe um despreso profundo pelas sciencias modernamente constituídas. Mylho- graphia. que o enfraqueceram. como Prehisloria. Para elle a linguagem philosophica era scienti- apenas períodos sonoros. Ethnologia. «Ando é o que se lê em uma fre- carta: tão alongado da litteratura actual e está este espirito tão velho.ALEXANDBE HERCULAKO 401 Herculano ainda acreditava na possibilidade de se manifestar uma geração mais forte. gongorismo como o xvi expirou nos braços Isto já do é o gongorismo das phrases e das imagens. na sin- gular illusão de não achar senão períodos. e as modernas doutrinas íicas uma nova forma de gongorismo.— Na minha decadência intellectual. modificada por uma reorganisação mental scien- era simples humanista. é o passado não é o condemnando o presente. e uma orientad'esta palavra. ção intellectual no sentido da Iheologia dos seus primeiros annos claustraes. foi a que allude mais de uma vez. porque elle mesmo ainda se sentia progressivo. e elle envolveu no seu despreso soberano os novos que mais tarde appareceram sem o apoio das correntes otBciaes. aliás sonoros ou moldados pelas fórmulas de uma obscura philosophia. de que não pôde tomar conhecimento. vem-me ás vezes ao espirito a suspeita de que este século vae acabar nos braços do scientifico. Eslhetica. mas os que o cercavam tantas home- nagens lhe deram. Simbolismo comparativo e origens poéticas ou Paleontologia sentimental. . (mais velho aiuda que o corpo) que quentemente ai me escapa o sentido de muitas cousas que por se escrevem. A teiro educação fradesca de Alexandre Herculano no Mosdas Necessidades. nunca tifica.. Linguistica ou Glotlologia.

já que nâo podia ser dirigida por E o que elle fez. Herculano não se elevou acima da metaphysica cbristã. e três capítulos Sobre a conversão dos Godos ao catholicismo. (1854 a 1859) na polemica da Reacção ultramontana. reappareceu esse estado no motivo da composição do livro sobre as Origens e estahelecimento da Inquisição. repetiu-o reprovando o novo critério politico da Democracia na carta sobre as Conferencias do Ca- sino e no prologo em que precede nos Opúsculos a Voz do Propheta.402 HISTORIA DO ROMANTISMO KM PORTUGAL Sociologia. Herculano caíra na primitiva orientação theologica. declarando lios com longas demonstrações dos conci- que as questões vitaes do nosso século eram o Immamlatismo e o Infallihilismo. e que a imprensa reaccionária de Hespanha escrevesse isto por occasião da sua morte: «Nós. condemnando as tentativas de renovação mental. e entre os seus papeis acha- ram-se como últimos escriptos quatro cartas contendo uma extensa discussão sobre assumpto religioso. e n'este estado de espirito com uma simples noção de cri- tica histórica omittira por simples bom senso a r. porque não dizel-o?— quando vemos quebrada pela morte a penna de um impio.) Ficou n'esse theologismo. e outros elementos da pro- funda renovação Herculano. A geração nova precisava ser fortalecida. Realismo na Arte. como se vê.elação do milagre de Ourique na Historia de Portugal. chegou a mandar construir na sua vivenda de Valle de Lobos uma affirmações deistas capella. (1857) no Manifesto ao Partido ral. (1858) e libe- nos Estudos sobre o Casamento civil (1865 e 1866. Herculano continuou acredi- tando na divindade de Jesus. Foi quanto bastou para que o clero portuguez lhe fizesse uma guerra dos púlpitos e da imprensa reaccionária. mas ape- sar de tudo. atacando-o co- mo se fosse um Feuerbach. os seus actos de caridade evangélica e as suas não obstaram a que algumas obras suas fossem incluídas no Index. louvámos a misericórdia . scientifica d'este século.

dizendo: «M. Ap. porque Herculano não foi um livre-pensador. ^ e isto será bem bom para a Egreja e para o Estado. Diário de Noticias. e nos últimos annos de Valle * El Siglo futuro. mia a falta de hygiene na vida do campo. de 21 de setembro de 1877. nem acompanhou a evolução da ideia revolucionaria depois de 1833. não de primeira ordem.» Estas palavras tem o grande valor de gico. . de Madrid. — um padre da Por um capricho de caracter. e pedimos * aò céo pela alma do desgraçado que mallogrou seus talentos sacrificando-os á revolução. As phrases contra Herculano são acima de tudo nma prova de estupidez. mas de- um incrédulo amável e um perigosíssimo sujeito. Na morte de Stuart do também os catholicos procederam J. 2 D'um Ecclesiastico com vinte e oito annos de exercido. que lhe fizesse uma extrema presumpçâo. um facto psycholo- porque demonstram que a moral do christianismo já Mill hoje é ineílicaz para dirigir as paixijes dos seus adeptos. se não enten- dêssemos que o deprimíamos com a conhecer chamar-lhe-iamos isso. Herculano quiz ser abste- mo.» São estes os chei- ros que escapam involuntariamente da gangrena da hypocrisia. teria sido si um escri- ptor inglez notável. junta a as suas contas. para melhor dal -o egreja. Bem pressa estes «luminares do pensamento» que compartilham as suas opiniões se irão encontrar com elle. se a consciência de próprio. porque era um incrédulo. mesmo modo em Inglaterra. que livra a sociedade de iim inimigo.39â tirou a luz que âe encerra Doesto facto. e pela predilecção dos seus estudos canónicos e de historia ecclesiastica. (No Church-Herald de 14 do maio de 1873.ALEXANDRE HERCnLANO 403 de Deus. aggravou a ane- em que se deixara cair. dVlle um biltre litterario A sua morte não ó perda para ninguém. Stuart Mill. mal acobertados com o almíscar beato e sensual de todas as sacristias.) Spencer na sua Introducção á Sciênda social^ p. que acaba de prestar era innata.

1. entrando na agonia ás cinco horas da tarde até ás dez em que succumbiu. que se rompeu por alguns signatários reclamarem o seu dinheiro quando notaram que Estes factos encerram tudo em nada. e no dia i3 aggravou-se progressivamente o seu estado. Em uma 1 sociedade apathica intellectualmente e^economi- A a Emigração. caindo immediatamente na consumpçâo adynamica. Fallou-se abrirara-se subscripções. Aquelle amor que Herculano revefoi lava nos seus versos. o rodeavam que lhe abrissem a janella A noticia da sua morte causou uma impressão immensa. a sympaihia pelas plantas. * ir comprimenlar o amigo que lhe offerecera o asylo do seu desacostumado das etiquetas palacianas arrefeceu dupla. official se Iodas as celebridades do mundo que dirigiram a San- tarém.404 HISTOBIA DO BOMANTISMO EM POSTUGAL de Lobos soffria por vezes febres sezonaticas. fez-se em um monumento. Na segunda viagem do imperador do Brazil a Portugal. os médicos em conferencia julgaram-n'o irremediavelmente perdido. pedido do imperador consta que Herculano escrevera a sua Carla sobre yid. que o enfra- queciam profundamente. Herculano entendeu do seu dever império. um silencio em volta do ficara mytho. uma significação profunda. para irem ao cemitério da Azoia acompanhar o ul- timo despojo do homem em Portugal foi mais admi- rado. emo- mas nenhum dos admiradores do typo lendário mostrou haver estudado as obras de Herculano. que po- remos em relevo como a conclusão do presente estudo. no dia 12 de setembro de 1877. sabendo que ia morrer pediu aos que para vèr as arvores. . 17. Opúsculos. nenhuma voz se levantou explicando o homem com a severidade que compete aos que ficam na historia. Durante dias a imprensa jornalistica explorou a ção. á meia noite. a sua ultima preoccupação. durante a espectativa da audiência e recolheu-se a casa com uma pneumonia Não tinha o sufficiente vigor para ser tratado.

a eslimular-se para a acção. A actividade de Herculano examinada com um intuito philosophico leva a deduzir uma illusão que fazia conclusão importante acerca da missão do escriptor: As sociedades humanas compõem-se de forças de conservação. e nos lembramos que a Herculano ella con- feriu indisputavelmente um absoluto poder a cri- espiritual. com intimas relações de favor com o paço. com uma erudi- ção de canonistas e santos padres.ALBXANDBR HERCULANO 405 camente. o ter poder espi/iiual sobre em sophismar as uma sociedade n'estas condições deploráveis é claro um symptoma lisoa- de mediocridade. as quaes deixadas a mesmas ten- . dizendo que a instrucção só podia alcançar-se á custa de padres instruídos. é porque cora o seu trabalho não incommodou a apalhia mental incutindoIhe ideias. que cessa a achar no illusão que perverte homem uma superioridade reconhecida unanimemente. É porque essa inteiligencia stalicas geou de algum modo as forças de conservação que preponderavam na sociedade portugueza. e por isso como vez historiador ao estudar as instituições portuguezas. e por isso a analyse histórica scrviu-lhe para manter a veneração im- niovel do passado. fallando contra a extincrão das ordens monásticas. Herculano era também um catholico. obrigando-a a pensar. Herculano era monarchíco. a ter opiniões. declarando que ella nação nada lhe devia porque não fora para a sua obra. em de procurar n'csse problema das origens os elementos de evolução para as transformações iniciadas pelo regimen beral. si naturaes e instinctivas. é então tica. Quando téril se observa nos viajantes e diplomatas estrangei- ros o quadro da sociedade portugueza d'esta época tão es- do constitucionalismo. submettida a todas as trope- uma realeza parasitica occupada garantias consLitucionaes. como lias dtí a portugueza. escreveu para uso de a li- um príncipe. prognosticando que o futuro da civilisação era a religiosidade. a discutir.

o artista. tomando-as apenas como factos reaes que modiQcam as concepções subjectivas. inventando. emíim todos os que pensam por si devem ser revolucionários. todo o homem capaz de ter ideias.406 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL dem para uma espontânea iramobilidade. ou quem não comprehende e põe as suas forças intellectuaes ao serviço do passado. escrevendo. fallando. Só assim é que essas forças de conservação se podem aproveitar como ba- ses de ordem. deve ter em vista impulsionar es- sas forças staticas. é por isso que o escriptor. só pôde ser admirado pelos que estiverem do lado da inconsciência. co- mo impulsos individuaes contrabalançados pela conectiviestável. exercendo uma acção improgressiva. dade Quem não cumpriu a esta missão por instincto próprio. phantasiando^ imaginando. .

LIVRO III A. o século xix. serviu-se da antiga rhetorica para envernisar as banalidades que supprissem a falta das ideias. F. O sçculo xvu em Portugal foi o século da rhetorica e dos oradores. para communical-as. e se exerce a palavra em phra- sem sentido. Comprehende-se que o secula . sobre tudo aquellas que têm a ses sonoras apoio da auctoridade oflicial. uma incapacidade de formar juizos. DE CASTILHO (1800—1875) A superstição do estylo. nos artigos de fundo do jornalismo e nas obras de litteratura. e acceitava-se submissa- mente a opinião apoiada por uma auctoridade ofQcial do inundo politico ou litterario. ou não existe liberdade intellectual para poder ter ideias. Fez-se estylo nos relatórios. e se adoptam opiniões preestabelecidas. ou realmente domina' uma atonia mental. o culto e admiração pelas pomsocie- pas rhetoricas são um symptoma terrível em uma dade. em que o constitucionalismo deu importância á burguezia pela necessidade das maiorias.

Foi n'este sidade e da instrucção elementar. um grande escriptor pelo essabor quinhentista. bastava o estylo para a reputação e futuro de um homem. a que se deu o nome de Elo^ .40S HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL do gongorismo fosse rhetorico. a palavra servia unicamente de objecto e fim do discurso. que precisa ler í alguma cousa que admirar. em que o cérebro humano desceu aos maiores contrasensos. O exagerado humanismo da Univerda palavra. I fácil lhe foi converter-se em /'pontífice litterario. pelas pela vernaculidade. O talento oratório gastou-se todo em Sermões. nâo havendo entre nós liberdade intellectual quando ella se exercia com vigor nas Academias da Euro- pa. virava-se. A morte de Garrett em 1854. o vulgo acceitava essas consagrações. porque nada havia a dizer. A inca- pacidade da analyse scientifica e da concepção subjectiva conhece-se n'esse falso Jyrisrao seiscentista. pelo iphrases arredondadas de locuções obsoletas. persistiu na sociedade portugueza reorganisada pelo constitucionalismo. impor á burguezia. Esta situação mental. porque diante das fogueiras da Inquisição. conservada durante lodo o século xvui. ninguém se oc- cupava com as ideias. deixaram Castilho em campo como o luminar dos novos. e os medíocres cerca- vam-no. e na predilecção exclusiva dos poemas-chronicas. os seus juizos conferiam talento. reputações sem funda- mento. contornava-se. que os dispensava das duras provas da vocação. e o silencio systematico /de Herculano em 1859. atacar a liberdade í do Romantismo pre- ferindo a convenção arcádica. Achou-se assim fundada uma pedantocracia. até ás primeiras communicações com a Europa em 18á4 e i828. glorificavam-no para alcançarem a vénia. O vicio palavroso do regimen parlamentar manteve a necessidade da rhetorica na litteratura. uma vez re- conhecido como auctoridade. manteve o habito de dis- pensar as ideias preferindo os effeitos meio que Castilho se tornou ítylo.

As primeiras ideias que circularam perturbando este éden da idiotia pareceram igiu um attentado. em que ponderava a scien- e a philosophia.CASTILHO 409 gio mutuo. Entrava-se em um vos outro regimen mental. a critica scienlifica apeou-o. focos de ideias que collocaram os no- em dissidência com um passado que se prolongara muito além do seu momento histórico. Castilho trans- com o Romantisrpo traduzindo Goethe e Shakespeare. . mas cia já era tarde.

João vi em 1817. da virtude se ia sublimando até á predestinação dos O mesmo se deu com António Feliciano de Castilho. e pela constituição de novas sciencias. veiu á luz com o despontar do século. Domicilia Máxima de Castilho. comprehender o século nas suas 11 u- ctuações de princípios e de crenças. mas esses dois poderes que se dissolviam. nascendo em Lisboa. que tendiam a fazer terminar o regimen revolucionário. lente da faculdade de medicina e principal redactor do Jornal de Coimbra. Influencia do poemeto de Ecco e Narciso na sua vida. Primeiros estudos. da egualdade. que se achavam sem destino em a nova era scientiílca o industrial. Em 1820 celebra no Outeiro da Sala dos Capellos em Coimbra a conquista da soberania nacional. Retiro no priorado de S. O século surgiu impul- sionado por novas doutrinas politicas. adheriu ao lado statico . — — acclanoaçílo de D. persistência da tradição I. a 26 de janeiro de 1800. e a monarchia en- trou na renovação das grandes guerras. assum- Castilho maldiz os principies da liberdade e — — — Quasi todos os agiographos encetam a vida dos santos dando-lhes sempre pães honrados. a poesia abafada pela rhetorica. José Feliciano de Castilho.— loQuencia do accidente desgraçado da cegueira sobre o seu talento e caracter. A piedosa confraternidade de Augusto Frederico de Castilho.Nascimento e lendas da infância de Castilho.410 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL § (De 1800 a 1834. Em 1824 exalta nos mesmos Outeiros poéticos a restauração do absolutismo. Castilho não querendo Amedrontado pelo ecco das luctas sociaes. segundo o intuito da sua laboriosa genealogia appensada á versão do drama Camões. o catholicismo e a monarchia. e o catholicismo n'essa coUigação obscurantista que desceu até ao absurdo da infallibilidade. do Dr. perturbaram com medonhas reacções a evolução da Europa. e de sua mulher D. —A pto do seu primeiro poema. em quem a propensão filiios. Mamede da Castanheira do Vouga desde 1826 até 1834. — — arcádica nos seus ensaios.)-.

coloridas e animadas pelo suavíssimo ese de que exerceram uma grande acção na * forma d'aquella individualidade. thema de admirações e de rtiputação de Castilho foi felizes ^ prognósticos para os parentes e amigos da familia.» gio de (iraça Barreto. apesar de cego. 67. também cegos. Nas Excavações poéticas produz-se um testemunho de Joa- quim Machado de Castro em que o insigne esculptor da Estatua equestre fica tão assombrado com os talentos do menino cego para a escolptura. ora se conta a sua fraqueza valetudinária. ua Chave do Enigma. relirou-se de corpo e alma para a admiração dos exemplares antigos cuja predilecção adquirira nos seus primeiros estudos. que o ouvirem-me verem-me formar caracteres.» A um producto d'essas lendas domesticas propagadas por seus irmãos. adquirida cora facilidade* sem critica por parecer desacato a estranhos o quebrar. p. tão menino. e tão já ler e menino. Embalado nos frocos da lenda onde Castilho viveu comparado também a Homero c a Milton. e a Salinas. jã a precocidade da sua retentiva. e á nação para que aproveite aquelle prodígio.CASTILHO 411 das instituições. A questão du Fausto. em que cila poderia assentar o edifício de uma escola litteraria inleirameule sua. quando saiu * «Adquirida uma certa aura de rcpulação pelas insinuações llsongeirasqueos membros da familia llie dispensavam pela imprensa. retratado por Diderot. que escreve pedir a uma jaculatória a Deus pela sua saúde. tobiograpliico: Eis um precioso dado au- «Encetava eu a carreira do estudo. apaixonando-se pelo geometria. 204 do Amor . Comparam-n'o ao génio extraordinário de Sam- derson. tradições pirito sempre família. cantou a monarcliia absoluta. 2 Castilho. na supposta biographia hespanhola de Cadiz exalla-se o talento de Castilho para as Mathematicas. e preferiu sempre a imitação á invenção. e Melancholia. A sua infância está ornada com as doces lendas domesticas. era (nunca a minha vaidade o esqueceu) um . p. a familia Castilbo assegurou-se em breve da solidez c fortaleza das basee.se o perstipróprios uma adoração ccjía e inconsciente cimentada por aíleições domesticas.

natural do Porto.412 d'ella HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL para ser analysado pela critica desprevenida só dei- xou a Dú uma inconsciente mediocridade. convalescendo em fol- guedos innocentes. * Os primeiros annos do poeta correram esquecidos na amenidade campestre. Maria em «O auctor caiu por uma grande escada. e alguns an- nos teve tosse convulsiva pela edade de quatro annos. se tivesse ^irmãos que o proclamassem génio seria um segundo Casmiliares e Uilho.í<le um pêlo verdura. . contribuíram bastante para lhe darem uma Sideia mesquinha da natureza. e na de dezenove ân- uos em que agora se acha. padeceu de vermes muito. Castilho cita em um dos seus livros este metrlGcador. esta pobresa de seiva. i Em uma ^'1816. e quasi octogenário António Joaquim de Mesquita e Mello. e á força da qual deitou grande quanti- /dade de sangue pela bocca. tendo um anno de odade. quando por uma calamidade lamentável veiu a perder relações uma das suas mais immediatas com ella. É certo porém que estes campos áridos. (1815) soffre ainda aquella triste sorte. que ^Ihe durou muito. nas crises perigosas Vlã uma que atravessou.» Mesquita e Mello vivia improvisando em saráos fa- morreu desconhecido depois de 1875.» Os cuidados assíduos de Ião atribulada infância. distraído á sombra das arvores de quinta dos arredores de Lisboa (Lumiar) . lê-se: nota ao Epicedio á morte de D. Mesquita e Mello: «O auctor teve a desgraça de cegar quando contava apenas um anno de edade. No seu diz poema em oitava rima O Porto invadido e libertado. O que Castilho seria sem as lendas fraternas podemos descobril-o pelo typo de um outro poeta também cego. esta devastação systemalica do saloio que esgota a terra nâo lhe consentindo . uma ali disfruclou a sau- dável liberdade e soltura da meninice. que se pulverisam com as ventanias constantes de julho e agosto.

d'este accidente pathologico sem considerar a influencia a que modifica profundamente lé: natureza moral. prodígio. e dureza de pedra tal ganharam volume maior que um ovo de pomba.» exlractada. Na alludida nota do Epicedio de 1816 se iNa edade [de seis annos teve sarampâo. que começando a sair se lhe jrecolheu. sabendo apenas se era dia ou noite. e começaram olhos. lit- É impossivel poder julgar com inteira justiça o mérito terario de Castilho. mas conservando-se sempre fazia ás escuras. nem tem let- máo estado o auctor tem em seus irmãos. de que está absolutamente cego. e terá sempre alguma adherencia da pálpebra ao globo no olho direito. as vontades adivinhadas. e que fora educado por . cicatrizes e opacidade no olho esquerdo. começou a melhorar de quasi todos os incommodos. acintoso. foi como para chamar a attenção sobre o pequeno quem se dizia que aos sete annos compuzera um^oemasinho sobre as Flores.CASTILHO 413 OS carinhos e condescendências para com uma criancinha doente. N'este mas não objectos mais pequenos. que es- se applicam egualmente que elle. a beneficio de banhos de mar. de lettras a que seus pães o se vé pela nota A publicação do Epicedio. incharam-lhe as capellas superiores dos olhos.causa de uma fatalidade. quem lhe leia. tras. comprehender a sua individualidade e dar a rasão dos seus defeitos. por onde distingue apenas vultos e cores. e em todo o tempo esteve cego havendo : aperto das capellas sobre os bugalhos dos olhos. dezeseis annos de edade. Passados os dois annos. que foi pelo espaço de dois annos não possível descobrir um único ponto d'estes. restou-lhe a desinchar as capellas dos porém até hoje. Começaram então ciiagas grandes mui doridas fpor todo o corpo. e perança de continuar na vida de dedicam. os caprichos satisfeitos. fizeram-n'o impertinente. porque a luz lhe dores horrorosas. a cegueira. qualidades que mais tarde se desenvolveram por .

paixões de si vãs. uma brandura que paíicou . mas agradável. e brincara com uma primita da mesma edade.414 niSTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL uma mestra D. todos lhe occultavam essa infelicidade.A graça. dar-liie as falias mais meigas. pela situação já descripla. como a preienção litteraria. . Criança e cego! faz lembrar aquella dolorida e sentidíssima lenda allemã da filha de um rei. e é este o característico por onde se determinam todas as suas bellezas e defeitos. Assim estava aquella pobre alma no meio de tantas caricias e mei- guices da família. a alma. modo rece ingenuidade. a frescura. histórico de seu No Elogio irmão Augusto Frederico de havia ferido e derribado: eu escreve o poeta estas linhas autobiographicas: cruel «Uma enfermidade me . É este o momento mais poético da sua vida! Quem não hade protegel-o. estenderIhe a mão. e que não sabia que o era. Escholastica. amparal-o. e assim viveu não conhecendo a profun- didade da catastrophe. a imaginação que reconslitue as cousas e que procura adivinhar e lhe ram completamente temos o primeiro motivo do as intenções ensinou-lhe essa prosa digressiva e cheia de incidentes. o absorve- povoaram a obscuridade. í gnação. cega de nas- cença. mesmo os Ímpetos indomáveis da indi- . a acuidade de outros sentidos deu-lhè a harmonia quasi sempre irreprehensivel dos seus versos. A situação excepcioplano. a promptidão. Cegou em uma edade em que elle mesmo nem sabia o que perdia. Um dia foi o seu noivo que lhe descobriu o se- gredo e a infeliz princeza morreu de melancholia. quando a fatalidade lhe cerrou a porta para todas as alegrias. até que distracções mais intensas. e mante- nal do seu espirito não lhe deixou ter um ve-o além do termo natural D'este em uma prolongada puerilidade. o animo reservado e rancoroso. o tempo desenvolveu a pericia. abrir-lhe o seio. sempre criança. sem ideias. Aqui litterato. não foram mais do que as qualidades peculiares dos tempos infantis fixadas no \ homem Castilho.

» 2 «os dois annos que eu demais contava tinham de o seu quarto pôr forçosamente no principio tre as nossas comprehensôes. renunciava os seus pas. a meus pães Desde essa hora até á uUima da sua existência terrestre. como que já de dentro da sepultura. como os outros (contam-n'o quantos admiraram mas cercava-me de aíTagos.» 3 «O trato assíduo das chamadas humanidades. 38... retratando Augusto Frederico.CASTILHO 415 pendia mais de meio para a sepultura. . de ca. para logo zeram desapparecer d'entre nós toda * a diíferença de an- Mem. 37. de disvellos quasi maternos. satempos para estar commigo. passou a morte. 2 Ibid. tão frequente enlrò ir- mãos.. foi uma diíTerença de alcance endisciplinas elle Nas primeiras o meu livro. e litterarios: contando os seus mútuos estudos para «Dois annos contava eu apenas na vida. eu o seu mestre. a philosophia racional e moral. quando junto de mim. e eu levantei.. os braços de meu irmão me apertaram disserta Castilho e eu não vi meu irmão!» * Sobre esta dedicação sympalhica. assim entre nós as aprendemos sob a direcção de mestres abali- sados .. fi- o commum das nossas occupaçôes e passatempos. a poética. Emfim.. nâo só chorava aquella criança sublime) ricias. p. o latim. p. a eloquência. levantei-a. O meu selimo anno parecia nao dever completar-se: as lagrimas maternas e muitas outras caíam abundantes sobre mim. e mais mim do que para todo o mundo. o que era ser amigo. e o que fosse morrer. esta ca- beça fadada a muitos mais longos infortúnios. do Conservatório. que só por instincto podia adivinhar o que era ser irmão. . mas lá dentro tinha-me ficado a melhor parte d'ella: os meus olhos se voltaram para o céo e nâo n'o viram. p. 3 Ibid. eu fui o seu companheiro inseparável . 39. nasceu filho. e a con- fraternídade ou identidade dos nossos gostos. e as linguas. e uma pobre criancinha.

que. . por mais que estude dissimuílaçôes. 40. senão o corpo da phrase. para jos habituados a vér pelos ouvidos. nos. e o habito constante de uma ironia. é lar- mister haver por necessidade e por espaço de tão gos annos. .» Frederico foi * litterarias tão do nosso Casta- Depois da formatura S. até ao triumpho da causa liberal. não é somente. do Conservatório. . Para comprehender bem feito a fundo esta verdade. difficilmente se achará icorlezão ou comediante. uma interprete dos pensamentos. porque assim o digamos. e os gestos o seu trage. e Castilho acompanhou-o. como ao vulgo parece. como eu. lhe possa dar trocados tos. Castilho deu-nos a chave do seu caracter desconfiado e malicioso. 416 mSTOBIA DO ROMANTISMO EM POBTUQAL . p.. ella o é principalmente das affeições e movimentos inarticulados do nosso animo as palavras não são. elle não ouvia somente a linguagem das palavras. que tinhamos de cursar inseparáveis até o fim. Entrados no mesmo dia e hora alumnos ás escolas de Direito da Universidade de Coimbra. adivinharão muitas viri tudes e não vilanias pelo 1 menos vicios. Aquelles a nem distraido quem sua des- graça houver iniciado n'esta sciencia. mas o calor e a alma do discurso é o tom que o acompanha. sentimos a forçosa necessi- dade de dar de mão ás amenidades uso e natureza. uma espécie de perfídia. vivendo elle n'esse retiro durante oito annos. e d'aqui instincti- vas más vontades. em cânones Augusto Mamede da com despachado prior de nheira do Vouga. muitas excellencias e não menos mero som e modulação da voz humana. Diz elle: «A Voz humana. que lh'os elle ou falsificados os sentimennão conheça. mais indeíinivel e mais sem nome que o repassa. um não interrompido estudo sobre a expressão fallada. que ise tornou como habitual. e alguma outra cousa ainda mais subtil. interpretava também as intonações. permilti-me pois a triste 1 Mem.

Castilho mesmo que todos os que tinham poetado. progredindo-se evolutivamente de um para o outro. idpar os vãos * Mem. as exigências da vaidade foram-n'o identificando a [Homero e a Milton. Só um uma espontaneidade fervente pôde emancomeçou por fazer versos muito harmoniosos. que dava communhão e convivência com os eápiritos elevados. Castilho era eloquente não pela espontaneidade mas pela precisão e correcção descriptiva. a sciencia philologia descobriu que antes da linguagem fallada. 39. 27 p. os outros ijeclivos disputaram em esmero de correcção. e o que estes tinham de 'fluência. cipar a imaginação da mechanica aborrecivel da metrifica- ^continuavam a toada bocagiana.CASTILHO 417 vaidade de me julgar n'esla matéria bom juiz . rio dava-lhe ao crité- uma tendência pejorativa. ou da palavra.. o poder de comprehender as mullimodas intonações da palavra. os serviam para colorir e fechar o endecasyllabo. Começou por comprehender a lilteratura como uma no/bre ociosidade. e deixados pela deficiência do pensamento. . do Conservalorio.» * É im- portantissimo este facto psychologico. cuja biographia psychologica < foi escripta admiravelmente por Diderot. referindo-nos á ce^ gueira áe Castilho nunca tivemos outro intuito a nâo ser a deducçâo das modificações que este da intellectualidade. uma desconfiança. existiu o periodo da intonaçãOj e o periodo da gesticulação. Na sua mocidade compararam-n'o ao celebre cego inglez Samderson. que reve- lava em ditos profundamente^ sarcásticos. bastava-lhe constância e pachorra para fazer o grande habito ou '(ção. facto exerce nas formas É pasmosa moderna da a intuição como Castilho descreve essa outra linguagem de que a palavra é o corpo material. As naturezas que reú- nem eslas três linguagens possuem o dom da eloquência.. Com a repetição d'estas cousas tomou-as Icomo uma realidade effectiva.

e a que nós fazemos a apotheose. aã sodales. Por jeile j nunca se esqueceu de se fazer passar por isso. o génio é como uma harpa eólia. que assombra. em todos os logares. a consciência das formas. nem o decurso si. pro- vocando os seus amigos para que o proclamassem príncipe [dos poetas contemporâneos. que invejamos sem saber que fogo lento gera essa febre de inspiração. applaudia-se. deslumbram a imaginação dos que se acham feri- dos pela sorte.418 HISTORIA DO EOMANTISMO EM PORTUGAL Conversava-se sobre a habilidade da criança. também eleitos. é ! um aleijão que opprime o que o traz. e columnas de fogo no deserto da vida. mando o Eil-o nos estudos da boa latinidade. para virem dar forma e impulso ao tempo que precisa renovarse. Castilho não teve o horóscopo do génio. Estes são almas de excepção e não nascem presepe. O génio é a falta de consciência das forças que se agitam dentro do individuo. qualquer. pelo habito machinal pôde chegar a dominal-as. através da qual perpassam as ondas sodos seus desejos. os encómios foram-n'o soprando em ambições. tornar-se independente d'essa attenção que attenúa as fa- culdades inventivas. que a humanidade admira em creações eter- inas. 'com uma intuição prophetica. a habilidade chega a fazer-se adfoi for- É sobre estes dados psychologicos que se talento de Castilho. nem vem ao mundo pelo acaso de em uma qualquer noite lú- apparecem quando as circumstancias os evocam. brica. e ao mesmo tempo a afllicção sâo |d'essa lucta. louva va-se. e consolam-os assim persuadindo-os que .da sua vida lhe deu essa transfiguração sublinie. dos noras das gerações. O talento é o poder realisador. Aqui mirar. essa hallucinação de luz faz vêr 1 jque o em todos os tempos. tristezas. que a \ão ferindo e desferindo para ouvirem o canto das suas seus sentimentos. recebendo o pó sa- . Muitas vezes as desgraças que assignalam os génios. .

e con- servam a tradição do quietismo religioso*. A intolerância fanática. Sciencia dos Quintilianos declamadores. a certas com minúcias de etymologista.CASTILHO 419 cudido da cabelleira do supersticioso cultor que se extasia ante as bellezas dos exemplares que vae descobrindo ás noveis intelligencias. Da leitura dos es- criptores da pura antiguidade formaram-se os gordos com- raentarios que abafavam os textos. e as intelligencias do Meio Dia. torna a admiração habitual. era elle que fornecia todo o apparato de citações. que distingue todos os mestres de la- O seu mestre José Peixoto ensinava e brandia a férula nos Geraes. dá-lhe uma continuidade de repetir os dia. e mais nada. tim. principalmente na peninsula. que não precisava de censura. dos transportes. Esta era a sciencia que não compromettia. e de tudo isto saiu sciencia formal uma chamada Uhetorica. as notas. . em que se gas- tava muito engenho. horas do mesmos trechos. sem carecer de fundamento. as controvérsias. era indispensável pensar. com as quaes se graduava a intensi- dade das emoções. e que fazia retumbar as salas das academias. na rua da Rosa. que tanta influencia teve sobre o talento do traductor de Ovidio. quem dá a um ou possue uma válvula de segurança! Era esta . os argumentos. era uma casuistica da arte. espécie de Lyceu que havia ao Cunhal das Bollas.Castilho retraia este importante personagem. entendia-se que o privilegio do latim dava direito a ignorar tudo o mais. A corrente das ideias que abri- lhantam o século xvni acha-se anathematisada entre nós em todos os escriptores contemporâneos d'ellas. Para comprehendel-as. tia A única apreciação consis- em desentranhar das palavras sentidos que o auctor nunca tivera. são morosas.) Latino Coelho no seu panegyrico de. como registo. Isto se chamava a edu- cação clássica. os scholios. (Outubro de 1810 a 1815. firmava-se em bases convencionaes.

triumphou Castilho foi frequentar. quanta é possivel em mestres de oratória. como aquelle reluziam visíveis mais lumes de poesia. e achacado da enfermi- dade de fazer versos. de que lavra. pobríssimos de engenho e invenção. edade media para as academias do século espirito clássico. catriviaes e fami- lumniando de sublime as expressões mais pos de vida litteraria que o orador escrevia sem pretenção. juntava Maximiano perfeições. odes genelhliacas no nascimento dos príncipes. não havia chino . não Ihavia desembargador que não poetasse. que liares próprio esquadrinhava. como diz o seu panegyrista: «Nos geraes do Bairro Alto a Rhetorica Araújo Ribeiro. que um elle simples mortal hade achar desprevenido nos discursos do celeberrimo orador. que impoz na lucta da edade media o latim ao uso das linguas nacionaes. ficou pouca memoria. Westes ditosos tempos matavam-se as horas compondo íepistolas sobre a amisade^ aos annos felizes dos conheci- {dos. ora originaes. bom humanista. nal. Calculava rhetoricamente os seus enthusiasmos em odes pindáricas. em quem A Castilho tomava por confidente dos seus desafogos métricos.420 raSTORIA DO EOMANTISMO EM POBTUQAL uma O parte da educação liberal. Traduziu Pérsio e Juvenal. em Portugal. e a elle elegia por auditório o Pindaro ephemero do Cunhal das Bollas. ora versões de escri- ptores da antiguidade. Ás bellezas nativas. com tanto esplendor e eloquência. Era Maximiano um cultor apaixonado do velho Quintiliano.» É chistoso este retrato escapado da penna do habil es- tyllista Latino Coelho. trazida do giiadrivitm da xviii. que ali a com Maximiano Pedro de professava. quasi sempre opulentos de exemplares. Escrevia comedias de própria de que não resta hoje recordação no theatro nacio- Era Castilho o seu discípulo amado. A estes tem- pertencem os primeiros versos por- tuguezes de Castilho. Tinha por Cicero^um amor que raiava em adoração.

bem esteiados ia e en- gommados com emfim elle epithetos. mas um meio de entreter os intervallos das palestras famiUares. com Yiu na poesia o que todos os demais viram. curvou-se a ella. Os poetas não sabiam o que era a dignidade do pensa- . Quita. do mesmo f modo que as charadas e adivinhações. tornaram insensivelmente a poesia uma cousa j oíficial. Garção. * sem a tutella da auctoridade. não alcançava não teve paredes da Rhetorica. Primavera. por falta de individualidade. e Filinto. A em que também a desgraça o colloincessante de uma mão que o guiasse. mais conhecido pelo nome arcadico de Elpino Duriense. a turba vatum nas pegadas de Horácio como os bons carneiros de Panurgio. mesmo na Primavera descreve-nos a amisade e admi- ração que tributava ao sábio António Ribeiro dos Santos.CASTILHO 421 tâo bem ajustado debaixo do qual se não fosse aninhar um soneto. é . empenhavam todo o seu esforço em cantar os gran- jdes á sombra dos quaes iam vivendo. Castilho seguiu o movimento. Os versos eram bera medidos.menlo. das festas da corte. não era a expressão profunda e séria das paixões humanas. como torres de cartas. havia admirações de transportes. Foi levado na torrente. cerimoniosa. a necessidade dependência continua em que nasceram. este defeito macula |as melhores composições de Diniz. foi reconheceu-a. Dias GoÍ'mes. > Vid. uma primeira consequência do seu caracter de infância força para resistir. progredir como carecia de amnão concebia como o espirito podesse os mestres. . do mundo fora das estreitas mesmo modo que as crianças li- mitam o universo ao cára. paro quando seguia. isto se vê nos volumes das composições dos sócios da Academia dos Obsequiosos do logar de Sacavém. quintal da casa tiraram-lhe a energia da viriUdade. um brin- quedo infantil.

o vive le roi no . um serviço lembrado á magnani- i^aidade Reinava n'este tempo também despoticamente o petulante padre José Agostinho de Macedo. para nol-o apresentarem como a epopêa única que acompanha o movimento da Eur ropa moderna na Renascença. depois do roi est mort. Pela defeza do poeta nacional. cantou-a com toda a ingenuidade Ida sua alma. foi embalado na doce illusão da origem divina da realeza. odes á Rousseau. com o seu Epicedio chorado e miserado. um Espectador portugiiez para fustigar os que se rebellavam contra a sua theocracia. não sabia que o atiravam á cara de um . fundara á maneira de Adisson.que o elevavam comparando-o a Pie de la Mirandela. tragedias racinianas. Lera no Ensaio sobre os Épicos. voltairiano orthodoxo. atacava em tudo e por . como criança. poemas didácticos á imitação do insonso Delille.422 HISTORIA DO EOítá^NTISMO EM PORTUGAL Castilho.do século xvm. e tratou de os repelir em Portugal. vê-se que nenhum lado o comprehendia. os seus primeiros crelitteratura por- e póde-se dizer que conservou na P. Castilho não comprehendeu o fim para ^. na morte de D.» 1816. a jTasso e a Pascal.Poema extenso á coroação de D. n. com to- :dos os poetas. procurou aviltal-o demonstrando Ique o seu Epicedio á morte de D. dois desacertos sobre Campes. Era do rei. Maria i concorreu. não se esquece ide lembrar que já cantou ou carpiu a defunta rainha na 'sua urna cineraria. 2. José Agostinho de Macedo era tão vingativo como orgulhoso.bom homem. Maria i era inferior ao ide uma criança. João vi. . Schlegell e Quinet. Assim começaram iditos.tudo o pobre Pato Moniz. Levantou-se a polemica com Pato Moniz. le * Quando cantou. Representava entre nós a litteratura franceza. 1 No /ornai de Coimbra. o atrevido padre aíTectava em tudo uma erudição de encyclopedista. de Voltaire. era preciso que surgissem Humboldt.» i.

vol. que José Agostinho de I Macedo sustentara nos sermões e nos libellos politicos. * abaixo de um pudor conveniente. nem ad- mirava pelas suas acções. nem interessava pelas suas des- A sua corte podia ser uma comedia de intriga. queseacclima 1 Jornal de Coimbra de 1817. quando desce enfadar os mesmos que Nunca reos.^ João VI. mas repellia infelizmente para a nação todas as ambições da tragedia purpurada. de quantos se lém assentado no throno portuguez. Medíocre na prosperidade. João passar esta noticia vi. ao throno: Poema dedicado ao mesmo senhor por seu auctor AnA bajulação chega tambcm a tónio Feliciano de Castilho. D. e uma errada comprehensâo dos mo- delos antigos. parte n. . xt. o auctor da Besta esfolada e das analyses dos Lusiadas transmittiu o seu espirito ao auctor da Tosquia de um camélia e da Pream^ Ihular do poema D. Só uma falsa ideia do sen- timento e da poesia. próprio panegyrista Latino Coelho. ao todo.sicismo doutrinário e impertinente. escoltado pelos seus corlezes alliados. podia delinear assim um ediíicio composto de três pilhas de seiscentos e sessenta e três versos. que reina antes de o ser. que indireita para o Brazil. Um rei.° 59 . n. setecentos e sessenta e seis.CASTILHO ^^^3 lugueza esse espirito de reacção acobertado com um clas- . não pôde deixar sem uns laivos maliciosos de verdade: «Mas D. D. embarca ao estrépito dos francezes. venturas. procura engrandecer. João vi era o rei mais bondosamente prosaico. Se '" |as individualidades se continuam na historia. Jayme. e medíocre ainda no infortúnio. mil setecentos e trinta e dois versos para cantar o mais su- pinamente alvar de todos os heroes. a lyra desceu tão baixo na mão dos poetas cesácomo no poema em três cantos: Á faustissíma acclamação de sua magestade fidelíssima o sr. e mais seiscentos e cincoenta e três com outros cincoenta versos da dedicatória.

um canto sublimado ao Grande. nos seus receios dynasticos.» * Eis o digno ideal para o interprete da dor pungente e da acerba magoa que rasgou o peito da infeliz Lysia. vol. é por isso que não lhe pôde negar seu canto. e pede. Este poema á coroação do monarcha é um mixto de al- legorias mythologicas. vi 2 '«Jean — gal. Tel ost le sujei d'une peiíUure qui se voit dans» la eale d'au(iíence. reparte o seu animo entre condescendência e terrores. um rei assim é um exem- mas é o péssimo dos assum- ptos para poetas. . que desconhece com um cosmomenor assomo de nostalgia. Tal é o espirito d'essa poesia. Oa no peut rien voir de plus ridicule. com a melodia soturna do canto- châo. tornada cinzas funéreas. 178. e depois com monachal sinceridade as anulla sem azedume e sem pezar. o esplendor das Musas. Cest Fo-chíni qui d'est rendu coupable de ce crime de lèse-majesté. João dentro de vi levado pelos tritões uma concha. ainda não disse tudo. que depois ouvindo rugir ao longe o tigre popular. (1860). Les Artes en Portu- 1 Revista Contemporânea de Portugal e Rrazil. não ii. ao Nume d'ella.424 á HISTORIA DO ROMANTISMO BM PORTUGAL sombra dos coqueiros. sur une coquille. Quer remontar-se ab jove principmm. que acceita as bases da Constituição. quando viu Maria excelsa. .» Raczynski. qui represente le retour de ce souvcraín du Brcsil eo 1821. ao Pae da Pátria. com a sinceridade de um Manuel Borges.^ Segundo a Lyra de Castilho o magnânimo João só devia suster as rédeas do Império Universal. 268. et il est acorapagné de sa iiorabreuse famille. p. ainda abaixo das pinturas das salas da Ajuda que representam D. um rei que a si decreta a coroa de imperador. a toga de presidente da republica plo seguro para moralistas. Le roi se tient debout sur une conque. que prosegue em se deliciar no Rio. como d'anpolitismo verdadeiramente assustador o tes na pavorosa Mafra. p. É a burguezia coroada com todos os ac- cidentes afortunados ou adversos da sua despoetisada condição. ao Augusto Heroe.

O nascimento do monarcha é brilhante de despejo: viu a luz primeira no suave maio. para exaltar até aos astros a camará municipal de Elvas por mandar deitar quatro gatos de ferro Castilho se em um sino mostrou um génio foi rachado. V. re- quebrados. começou pansa da bandurra. CÀNT. o engenho humano lodos o louvor jamais tecera: Cem boccas. porque natureza não dá cem boccas. V. ao Nume d'ella. ao Pae da Pátria. I. * nem uma voz de ferro. linguas cento. cuja harmonia é dada por aquella inspiração que o poeta Waller descobriu quando cantou a morte de Cromwell. e a elevação ao throno de Carlos ii. em que inconscientemente se eleva ao mais alto cómico. Isto faz lembrar o canto de Vidigal no poema do Hys- sopé. 70. nem um cento de linguas. depois de escarrar e pôr os olhos a beliscar na em alva. se larpando o lulo No Ihrono assenta dos Avos herdado Magnânimo João. o bem da Pátria Se a Pátria exulta. quando a esposa de Tilâo saiu mais bella dia Lampso soberbo derramando orvalho no carro d'ouro. campanudos. E mais que ao Pae da Pátria. que só devia Do Império Universal suster as rédeas. O poema vae-se desdobrando em myriades de versos. e voz de ferro Natureza não dá. n'esse e Phaetonte ufano. ' A mente De do mortal. e Scylla e Charybides astros 1 Dos vassallos o bem. 87. o A mente engenho da espécie humana não poa derão tecer todos os louvores. limitada de mortal. CASTILHO 425 sabe cl'onde começará a dar principio ao canto. e foram assim pisando o Esquadrão dos com mais vaidade. Nâo podéra eu lambem negar meu canto Ao grande. surgiram com garbo novo do Oriente. . Se alguma vez n'este poema. que o assumpto egualem. Augusto Heroe. etc. quando.. até as Pleyadas refulgentes se adornaram com novos resplendores. que egualem o assumpto.

para que fu- nâo podesse escurecera) briho e a gloria das • turas acções. que a teus pós. mais alta sempre Ao Globo. Que o sangue em ondas faz rever nas faces. justiça.'^ martellado n'este diapsâo. só teu nome de um dos lusos rcsoando Basta a accender d'amor Vesúvio intenso. {Poesias. affavel. V. No averno pararam os supplicios. Que Crcalda a mente. no até 170. Sagaz prudência. da guerra o V. e que alvorota os pulsos. João Sexto. teu mundo roda. eixo inconcusso. Na bocca É 1 eixo d'ouro. Y. O poema vae todo Nasceste Grande já: Teus Altos Feitos Fizeram-te maior: a Gloria herdada D'outra gloria immortal cobrir soubeste.426 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL deram tréguas ao mar. ódio. As Graças tomaram-n'o em seus braços seus níveos peitos. Ura gcnio liberal. p. dos quaes leite d'ellas e o nutriram aos bebeu os nobres bem que do fecundo gérmen bro- tam mil feitos immortaes. JoSo vi só encontramos o melrifiEvangelista* de Moraes Sarmento (1773-1826) do qual |transcrevemos para aqui alguos versos como termo de comparação: Teu nome. . e as da Noite nos rios infernaes tinham suspendido os hórridos flagellos. rectidão. 121. l'ara affrontar por li mil mortes juntas. parecia que mostrava ao sal mundo uma univerfillias primavera. que servem de honra á pátria e de brazão e de esmalte ao Throno. A idf^la de quem és. 104.) Canto I. brando Da santa paz o amor. eterno. e no puro sentimentos. r Jcador portuense João Egual a Castilho n'esta idealisaçSo de D. Ao inundo ostentas piedade augusta. A ideia do quem és sopra em nós outros. na montanha de Encetado cessaram as labaredas. Faisca que electrisa os seios d'alraa. 130. Esquecia dizer que o Fado sobre o molle berço bafejou o ao cingir a fronte a inveja com frondosos nardos.

2 Revista citada. pcdia-se esmola em verso. Castilho recebeu uma rendosa mercê em paga da sua oblata. 5. seodo pessoa apta e approvada pela mesa do de3 . nas satyras de Tolentino.* Isto parece uma caricatura grotesca em vez de um encómio para apregoar os feitos de D. João rapé n'um vi.lo com que se dedica ao estudo das sciencias na Universidndc de Coimbra. não tendo ficado filhos legítimos do ultimo proprietário. faz-nos lembrar A leitura d'este poema uma estampa do frontispício das grossas edições da Academia da Historia porw. brade e rompa o silencio.» que o força para que surja. e soa outrosim servido conceder lhe íacul^iade para nomear serventuário. João vi remunerou burguezmente aquella inspiração burgueza que o fazia seu Nume. e levante nas azas do louvor os Grandes Feitos do Monarcha Excelso. Uei por bera fazer. de quatro mil cruzados. 179. e desentranhar frangãos assados das algibeiras do casaco. conseguia a magra pensão do poeta cesáreo. como Beranger. que nâo passou de escavar dos bolsos do coUete.lhe merco da propriedade de um dos oíBcios de Escrivão e Chanccller da Correceuo de Coimbra. gloria.» 2 D.CASTILHO 427 A falsidade Deosa que lhe appareceu n'um dextra do ideal disputa competência com aquella extasis sublime sustendo na um brilhante facho similhante ao da Tocha Oriental «a formosa e cândida Verdade. p. N'este tempo a poesia descera ao mister de pregão mer- cenário.gueza. Sobre este ponto diz o testemunho insuspeito de Latino Coelho: «Quando o poeta canta o povo. v. 2. isto vemos nos sonetos de Garção. lícia ^ com a renda annual e vitaartista. Estes factos defmem o caracterisam a sua feição. recebe a moeda do povo. 20. ou os frescos estúpidos que estão nas salas do palácio da Ajuda. que se acba vago. e despachou o poeta para o logar de escrivão. e á grande applicaç. ^ Dedicatória do poema. a quando se lembrava outr'ora de cantar os reis. Decreto da niercé: «Por effeito da minha real munificência. á similhança de Boileau. cora attenç5o ao dislinclo talento que tem manifestado António Feliciano de Castilho.

1819. e lhe sar os despachos necessários. não se fazendo alteração na ordem normal e chancellaria. Diplomas. e alguns versos que stitucionalismo. já o engrandece por fazer no logar da Azinhaga. com dois ou trez folhetins. Provisões. Portarias. Avisos da Secretaria. e assi^ gnar por ella durante o seu notório impedimento. termo de Santa- rém.» (Publicado nas Excafl. canta-se a fugida do rei al- para o Brazii. João i o pagamento dos encómios dos poetas. 26. e o temporal que a esquadra soffreu na tura das ilhas. Editaes. Registadi» a íl. e uão ha litlerato. todos os papeis officiaes expedidos durante o reinado do monarcha celebrado. um bairro Os obreiros das Cortes de Vinte. Isto tornou inefficazesse sublime movimento nacional.428 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL N'este poema. auclor do Almocreve das Pelas. foi-lhe também dado o oflicio de escrivão em Portalet gre. Nas notas ao poema. que não ' É d'aqui que tira a já o exalta marli- tem acção. 64.) Desde este decreto data a annullação da sentença formulada por Garção: — em 8 Álmotacé que queiras ser de Excluído serás sendo poeta. vações poéticas. por dar a herdade aos presos pelo nascimento da princeza. jcha do poema. o maior monumento da sua decadência. i. Cartas regias. e a mande pasde junho de tvor dos expostos e mestras de meninas sembargo do paço. Palácio do Rio de Janeiro. foram levados para a inauguração do con- mãos das mediocridades lítterarias e dos palavreadores melaphysicos. as paginas vem recheadas de De- cretos. e providenciar a faem Lisboa. i. A mesma mesa o tenha assim entendido. 2 Verso 350. A tensa da propriedadõ de um officio de escrivão tornou-se no longo reinado e regência de D. João pacho dos Negócios vi resolveu assistir e prover o des- em nome da rainha sua mâe. um deposito de rezes vacuns. que é nm aviltamento da arte. que se havia de perder nas não tenha sido ou não queira ser ministro. Alaria a José Daniel Rodrigues da Costa. . Alvarás. Resoluções. e protegido do Intendente Manique.* canta-se o Decreto de 10 de fevereiro de 1792 em que D. de D. Rubrica de sua magestade. Officios. por crear a companhia de veteranos e o monte pio hlterario. i Verso 27-2. Regulamentos.

CASTILHO 329 barra de Aveiro. reas- sumiu os seus destinos. Abatido as Nações ao jugo. e deixou-se levar pelos que lhe aconselharam este meio de tornar-se protegido. e prebendas com que assignalou vários individaos. tinha a fraqueza de criança. acha-se assim descripta nesta paÓ criminoso orgulho. invernaes Celenas. pondo termo ao domínio inglez de Beresford. que o levou a figurar nos improvisos do Outeiro poético da Sala dos Capellos em quando a nação por- tugueza. desdobrada aos olhos munificentes do soberano. sâo o ecco das palestras domesticas que ouvia. Toda a insistência sobre poema. ú morte. e diz que a egualdade e a liberdade são um criminoso orgulho. A nova comprehensão da 18i20. V. Ha porém um um lado que defende Castilho. os teos princípios Tena desterrado a paz do inteiro Mundo. e os livros dos encyclopedistas operaram uma moliber- mentânea visão de Saulo. nâo deixa ver a minima parle dos seus ridicu- los e degradações. e as commendas. e a diligencia entre Coimbra e Lisboa. que veloz se alonga Lá junto ás altas. tudo isto forma este uma espécie de Chronica em verso. dade. era isto zas. e o encanamento do Cávado. maldiz a Constituição hespanhola por querer estabelecer a responsabilidade real. 299. Be sangue as Régias Purpuras manchado. * manchado de sangue as purpuao que se chamava ideias franceter escripto esse protesto con- Pouco depois de Castilho tra a liberdade moderna. deu-se uma tranformação no seu espirito. nem tâo pouco deixa bem patente exemplo para fugirem os futuros escriptores. litulos. 291. . Canto I. O modo como elle julga os factos da sua época. Bebido tinha da corrente escura Do Gallo insano. Quem primeiro sonhou louca egualdade^ E livres quiz deixar de lodo os homens. cujos princípios têm desterrado a paz do mundo inteiro e ras dos reis.

á luz do sol de Deus. entoei. apparecem os taes ingénuos fructos de perdição. pareciam. ao primeiro sopro do céo. «O suão da philosophia do ultimo como por todos. e a vei em todos os seus benefícios. crueza não menor. por então eram nullas: perdoo eu a quem ou nos entregou foi a taes livros desalmados nos entregou. mais um arrimo a suas impiedades. e saboreando-se doe. digo. aos que. que seri«o na historia Dias douradoâ. Deus lhe perle- mim. E lá as crenças da nossa infância pareciam estar secas. se pôde. que arrastado de seu exemplo. e ás vezes com melhomas emfim.» sias recitadas tas que celebraram os acontecimentos do^ dia 17. . ções de Moysés. mais um enxerto iia immensa arvore da insipiência para * Na Collecção de Poena Sala dos Actos grandes da Universidade de Coimbra. sotterradas raizes^ que. p. respirando o seu ár. sem si terem por a desculpa de ignorância. havia passado. reproduzem e renovam o perdido.430 gina HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL autobiographica : século também por nós. quaes viu Grécia e Roma? 1 Memorias do Conservatório. nas noites de 21 e 22 de novembro de 1820. 43. senão muito mais ás feras que a de lançar crianças do monte. entre os poe- d'elle brotarem fructos de perdição. vaidosas e insensatas parodias dos Livros Santos. figura António Feliciano de Castilho cora alguns Sonetos e Odes contra o despotismo: Despótico poder já nos n3o doma: Anle taes feitos. como victima ao horrendo altar do nada. se põem a escrever taes livros. fiz em ridículos versos um passatempo de presumpçosos e néscios. também meu pequeno engenho. e Deus perdoe. les antes a el- de corroborado o entendimento. atroz. perante quem os maiores edas sublimes inspirahomens acurvam o joelho. como hymnos á razão. porque de crenças taes sempre ficam vivas al- gumas ria.

que de todo passou de moda. não podia deixar de se conservar sempre vivo em outras lyras. a multidão apinhava-se no adro. de 1835. Fernando José Lopes de Andrade. artigo transcripto do n. Os mirantes. 41. que celebrava as bases da Constituição portugueza tomadas da hespanhola. attribuindo-a á auctoridade paternal e a uma prevenção de segurança. este culto intenso pelas Musas. alentada pelas clássicas e in- fatuadas tradições de todas as arcádias.. e João Baptista da rett. cit. José Maria Grande. José Maria de Andrade. pela eleição de alguma nova abbadessa. reconhece a sua lamentá* vel contradicção. e levado a recitar poesias n'este desgraçado Ou- nas Excavações poéticas. lá se escutava uma 1 Op. e deixou ao abandono os poetas que ficaram hoje a suspirar pelas brisas. figuraram Au- gusto Frederico de Castilho. e quando em 1823 D. p.CASTILHO 431 N'este afamado Outeiro. . Castilho ia com a corrente. velha usança. foi Castilho teiro. proclamado na Revolução de 1820. Pedro Joaquim de Menezes. celebrando teiro um novo Ou- poético para exaltar a restauração do despotismo. com seu irmão. a Universidade foi de Coimbra. Castilho come- çou a ser então festejado nos Outeiros poéticos. que se apaixonavam pelo principio da soberania nacional. explicando* se acerca dos que o exprobavam de hayer saudado a reacção absolutista de 1823. a primeira a saudar a reacção do absolutismo. e ao som de escarros constipativos e maliciosos. como reducto da estabilidade. e de véos alvejantes que fluctuavam nas rações da noite. e que liam as obras dos encyclopedistas.« 17 da Guarda Avançada. estudantes do quarto anno de Cânones. bordavam-se vi- de luminárias. Silva Leilão de Almeida Gar- Eram estes os novos espíritos. João vi ras- gou brutalmente a Constituição de 1822. N'este correr da inspiração. o padre Emygdio. José Frederico Pereira Marrecos. nove senhoras muito respeitáveis e condescen- dentes ao appello do cantor palaciano.

Os poetas apressavam-se com ár. que declamava docemente no ár a terna divisa do a glosal-os. que seguia as pi- sadas de Monli. e os repentes sarcásticos do Lobo da MadraEstes versos dos Outeiros políticos explicam-nos Castilho íbi como I irresistivelmente arrebatado para as composi- \ çôes dramáticas. drama em dois actos. também inédito. a tragedia voltairiana era o meio subrepticio de dar largas ao sentimento da liberdade. onde ò hoje o club. traduziu d'este poeta a tragedia Aristodemo. resumia-se em um in- bom cera. com mais um prolongamento bons versos de Bocage e de na intonação da voz. Castilho. provimento de rimas. fizeram-se bastantes representações particulares de 1824 a i82o. e Joaquim Oli- José Dias Lopes de Vasconcellos. para salvar nos acasos da si lá spiração. ^. veira. e actualmente ainda juiz do Supremo tribunal de justiça. e A festa do Amor fdial. Lá vae a mote. com António Dias de que foi ministro em 1837. . temperadas com todas as figuras e tropos do elmanismo. d'este modo.— 432 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL VOZ afflautada e argentina. em verso. José Feliciano de Castilho. Castilho escreveu depois cinco actos. O theatro n'esta crise politica adquire certo interesse entre os estudantes e os filhotes. tomavam parte n'estas representações os filhos do cathedratico. mesma presteza de quem sabe apanhar mosquitos no A poesia. Pertencem gôa. intitulada Canace. Em casa do Dr. que o absolutismo reinante procurava abafar por todos os modos. em que ficou ignorada. derico de Castilho. cujo typo era desempenhado por Augusto Frepadre. a esta escola os João Xavier. Castilho também escreveu d'essas tragedias á João Baptista Gomes. que então morava ao Arco de Almedina. que estavam no maior furor da moda em Coimbra desde 1816 até 1^2d. que foi outra tragedia em verso. o verso por se endireitava com um nariz de com mais uma palavra.

Que o mar balia. a tragedia de La Molhe. que não era então outra cousa mais do que o artificio da metrificação. . e na parte métrica por António Feliciano de Castilho. hombro com hombro com Walter Scott. confli- ctos Íntimos dissolveram a sociedade dramática. agar- rada á musica da Semiramis ^ Rossini. aon.) 28 .* o estylo da modinha do século xvni predominava despoticameulo. e uma nova Tamancomo se organisou para levar á scena a opera cómica Os qiieiros. sabemos pela confissão de Garrett no Chronista. a ponto de algu- mas chegarem Sobre até nossos dias. O lente de musica da Uni- versidade e mestre da capella da sé. a sua opera cómica foi traduzida na parte da prosa por António Ferreira de Seabra. os Machabeos. casamentos. xxxn. nio Rodrigues Trovão. etc. um rochedo. uma Ode de Feitas estas representações.CASTILHO 433 De 1825 para 1826 arranjou-se um em novo Iheatrinho na casa de José Antó- roa do Sargenlo-Mór. em uma d'estas récitas é que um tal Francisco Ignacio de Almeida veiu á scena recitar Castilho. escripta por Pigault Lebrun. nas festas religiosas. lornou-se uma parte obrigada das festas reaes. com frente paia o cães. a musica da opera era arranjada pelo organista João José Borges. A poesia. e as comedias de Goldoni. (1550-1830) por Francisco Martios de Carvalho. Em Hespa- nha este habito servil tomara o nome de Certamm. Pigault Lebrun era considerado em Portugal como o terceiro ho- mem de génio do século. N'este tempo. e um aulo moderno de Santo António for- maram o principal reportório. como a Joven Ldia. ou a de Garrett. 1870.4 mulher amorosay O Pae de família. anniversarios. traduzida poF João Baptista Gomes. e em Portugal chamava-se-lhe Outeiro. eis os assumptos obrigados das Musas. em Coimbra. como 1 i o Tluatro enx Coimbra. coroações. Francisco da Boa- Morte regia a orchestra. (Coriimliricense. exé- Í quias.

Elogio dramático aos annos do sereníssimo Pedro. e nos iv. . O Outeiro.434 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL milagres. se intitula A t. 39 Lis- 2 Carias do ea:. mas quem nos que ao pé do vossp Bocage resuscitado. Dr. era quanto a juventude era e a politica nos não tinha a todos o de todo diz juventude. foi introduzido pela educação dirigida pelos que impozeram á Europa um absoluto humanis- mo. e uma Ode á morte forma de Gomes Freire.»^ como O sr. I). di- vertimento Hespa- Jesuítas. não poderiam. Uberdade. de Castilho e da Camará de Selubal. O sua frequência na uso desle Itália. padroeiros. <jue ainda sito em J 867 propunha a sua restauração^ a propó- da estatua a Bocage: «Vão longe aquelles dias dos tão já também agonimas eram donosa occupação afamados Outeiros poéticos de Portugal. d'elle documentos littcrarios. era uma cerimonia in- dispensável o congresso dos poetastros.. foi usado [também ide Deus. pela uma Academia. 10. de varia Ilisíoria. como no celebre Outeiro da sala dos Capellos em Coimbra em 1822. Tejo. nha e Portugal. conservou quasi sempre esse caracter e era essencialmente freira tico. e d^essa época restam príncipe real. dessalgado. a que se chamava também á maneira italiana litterario. a primeira victima da liberdade portngueza. boa. no dia ou no triduo do anni versado do monumento? E se re- suscitassem. se os evocásseis vós. 1867. pela sua origem religiosa.. A. serf via para celebrar as eleições dos abbadeçados. canonisaçoes. p. não seria es^ um facto bem fecundo?. e nos regosijos pompas budhicas da procissão do Corpo políticos. F. O ultimo represenlanle dos Outeiros poéticos foi Castilho. savam quando os eu e alcancei. em 1820. p. resuscitar egualmente aquelles certames nocturnos dos engenhos."*» sr. Também pa- gou homenagem gios dramáticos. Castilho seguira a primeira vibração liberal de 1820. Ribeiro GuimarSes. > a essa deplorável litteraria dos Elo- em um que Summ. 5 entre as * desde 1719. bom estimulo de engenhos.

João vi do Brazil. c soou. depois de largas as solações por todas as outras partes começaram também de ameaçar mios . Doesta época da sua vida o poeta au- tobiographicamente: ócios quasi «Emquanto nós ai disfructámos era sempre estudiosos as delicias da natureza. meu irmão. Pedro N'este anno Augusto Frederico de Castilho. que por tão inaccessivel lhes houvera- e íVucto «De oito irmãos que ao todo éramos. amargo. Castilho refugion-se da transformação constitucional junto de seu irmão. e a gosa. D. onde se conservou até ao fim do falia cerco do Porto. no Arsenal de ^Marinha em commemoração do dia 24 de agosto de 4820. por meio de uma conciliação da soberania nacional cx)m a raonarchia da graça de DeuSj com esse produclo hybrido da Carta outorgada por iv. só dois. que a tempo a presentiu. Ê lambem d'este mesmo anno i o Canto: Agora que dos Céos o longo espaço. que se distri- Cantata : Emquanto a palria dikemenie buiu no jantar Constitucional dado na Sala do Risco. da €onfraternidade. — A hora da perseguição era pois inevitável p. fora despachado parocho da egroja de S.. A morte de D. ordenado de jpresbytero. desampara commigo Memorias do Conservatório. em 1821.. mas indispensável das grandes crises dos estados.CASTILHO 435 versos que se distribuíam pelos theatros nos espectáculos de gala. taes como a Cantata: Os ais do povo luso emfim venceram. que se espalhou uo Iheatro da Rua dos Condes por occasião do regresso de D. eu permanecíamos ainda intactos das perseguições. do bispado de Aveiro.» ollc um * monte. no qual faz a descripção das festas pelo an- niversario da Revolução de 5 de setembro de 18iO. I . Mamede da Castanheira do Vouga. e de geral estima. João vi em I82G veiu truncar repentinamente os planos do despotismo. as nuvens das temj)estades politicas amontoadas ao longe. 48.

p. escrevia no ^ Templo das Musas.436 EISTOBIA DO BOMANTISHO EM PORTUGAL O seu remanso de oito amios. traduzindo Ovídio. 10^ Jjot. que era uma palhoça no Alto da Pedra Branca. Mamede. Mamede da Cas- Vouga «dormia descansado. á beira do sobreiral de S. Noite do Casi> e os Ciúmes do Bardo. 3Í9. . Felicidade | 1 D'e5te criado o caeeiro de S. (1826-1834) a araisade entranhada de todo um povo.. j Namorado da Ecco mysteriosa do convento de VaiCastilho identificava-se com a atitiguidade. 2 3 Amor e Melancholia. ficava sob a luz perpetua sempre chorado de nosso pae nos da alampada . aprendeu Castilho esse sabor vernáculo da sua linguagem. muitas das bagatellas tello encorporadas nas Excavações poetkas.» A vida na residência de S. 204: Chave do enigma.. pendendo para a frivolidade. * O campo influiu no caracter elle idylico do escriptor. e o confessa: «todas quantas aspirações benévolas eu tim a pa- tentear nos dois livrinlios que ainda hoje amo. fora do passal. Mamede da Castanheira do seu criado Francisco * Vouga tilho foi um periodo de remanso mental que confinou Casidylio. Ibid. e o templo onde o cadáver. p. p. 10.. aprendendo do quando se plantavam as couves ... 4 Jbid. como já n'outras partes declarei. Sebastião. Francisco Gomes. partiu no mundo do de Coimbra para a serra com seu irmão padre em 23 de outubro de 1826. 3 ] estava inteiramente occupado em fazer Iraducçôes dos clássicos latinos: «A esses annos da serra pertencem pois. rão..» Era uma vida perfeitamente arcádica «catechisado pagão por Chompré.» Na vida tanheira do solitária de S. as traducçôes das Meíamorphoses e dos Amores de Ovidio. romatisando. fazendo os seus castellos retiro o vinho da frasqueira de — bebendo n'esse um cónego. 348. qoe ás vezes chegava ao plcbeismo. grande borda d'agua. indo ha- bitar o passal na antiga quinta das Limeiras dos Condes da Feira. Excav. p. que havia enterrado Ires priores.

lambem Usurpa- publicando um opúsculo com a Epistola ao dor na saída de Portugal. lem- . Ma- mede da tiro Castanheira do Vouga. O vate plebeu encarregou-se de desmentir estas palavras organisando uma remotíssima genealogia no drama Camões^ e fazendo-se no íim da vida visconde do seu nome. Este opúsculo vendia-se a 60 réis. N'esta Epistola 'Castilho indica ao povo em quem hade votar.» Era no retiro do Templo das Musas. Castilho saia do seu repara acompanhar o irmão padre que se envolvera na poHlica parlamentar. Sequioso o cadafalso le pedia Mas foi lei do Senhor na infância do homem: Nio matarás Caim! —^ Deram-le a vida.. ob rei sem jugos. Vate plebeu. pelo seu lado proclamoii-se liberal. onde mimosea o vencido íis phrases: com es- Em bora má. e ao leme a parca. que de plebeu se presa Te envia o pensamento. o poemeto da Noite do Castello traz a assignatura da «Residência parochial de S. CASTILHO 437 pela Agricultura e Felicidade pela Imtrucção nâo são senão re- miniscências d'aquelle praso da minha vida. o amor. Oommetta o mar. 4 de junho de 1830. Por galerno os tufões. onde proclama: Povo. n'esse mesmo anno publicou outra Epistola ao Povo nas Eleições de 1834. . Porque enchentes de sangue generoso Co'um pouco sangue vil se nilo remiam. que Castilho escutava o ruido da arlilheria na acção da Ponte do Marnel.» Com o triumpho da causa dos hberaes. ob nobre sem fausto. do porlo ó príncipe das trevas Em trea vezes desafierres má bora a proa infanda co'a8 Fúrias por Nereydas. os sustos. e o bombardeamento continuo do cerco do Porto. .

O trajo. . cuino infantil. Ou suppondo polir-se Punham no perverter o único estudo seus pátrios modos. Ou com o feio de acções nos desluziam. es outros amem Que amaram só do Extranho Nunca o seu jugo! o que nos sirva. Castilho. quando os Outeiros passaram para o theatro. Vejamos agora como Castilho sente e ama deve-lhe apparecer com aquella transparência e graça dos sete annos. que influenciou m sua vida. e no Transito do sr. o amor se e a lingua Estes. filiou-se na es- para a qual tinha já tao bons preparativos. Nos andaram sciencia enthesourando. Longe do pensamento. Já dos trabalhos anteriores se descrimina qual hade ser o género de assumptos da sua predilecção. Acredi- tou-se nos Outeiros de Santa Clara e Therezinhas. A fabula um brinco pha por desenha-se-lhe á phantasia graciosamente. que deu começo ao poemasinho florianesco das Cartas de sumptos—o amor nâo um [Ecco e Narciso. o somno. a mesa. D. parece que se jurara ou encartara poeta cesáreo da casa Bragança-Bourbon. Emquanto os mais ou fofos volteavam. 438 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL brando que fujam d'aquelles que trouxeram da emigração o estrangeirismo: Procura os que Mais dos ferros Procura os que Peregrinos por já bons. pelo que vemos do Tributo saudoso d memoria do Libertador. que se desdobra em uma prolixidade de fructos.cola. entrando em ferros no horror se acrisolaram deixando os pátrios muros. exaltando a grandeza vi com que D. tamfoi bém como lá colher seus louros.. Tudo verduras de uma infância perpetua. . do chão natal profanadores.tarde. escolhe o mais infantil de todos os as- ^ correspondido de uma terna nymmancebo cruel. Pedro F. João jurou as bases da Constituição e em seguida as rasgou. Foi n'umas férias de Coimbra. terras de estrangeiros. mais '. no lirocinio da Universidade. a natureza. .

e uma corrupção ameaçada pelo dio. Era e tilho um foi pósinho calcinado assim que Cas- comprehendeu a antiguidade. e pelo decurso do tempo perdida a memoria d'elle e conservada apenas a forma que o lembra. jogos. Um falso conhecimento das formas e das imagens falsiíicou-lhe a expressão do sentimento. de ordenados e de humano. o modo de per- petuar um successo. Xenophanes e Thales procuraram interpretar. Empédocles. umas vezes o simples nome de um facto É um phenomeno constitnia-se em realidade independente pela lei audácia da metáphora: Nomen. numen. A mythologia é uma phase dos symbolos maleriaes que exprimem o sentimento determinada a unidade sciente. tudo isto encerra as causas de transformação e o sentido do polytheismo grego. Demoustier. scenas lascivas. para divertir uma soté- ciedade sem crenças. peior ainda que as seccas e absurdas indicações do Diccionario de Chompré. O sentimento do maravilhoso é o primeiro que se manifesta no á sua poesia. através de Ovidio que só procurava engraçadas aventuras. religioso. inconque Pythagoros. transformações de amores. o systema . as differentes inter- um mesmo uma facto considerado em civilisações differentes dão-lhe existência múltipla. Outras vezes a dos phenomenos naturaes véla-se sob pretações de uma forma dramática. depois d'elles. é o primeiro vellio Esses typos do também que dá forma olympo são como con- chas sem pérola para os que só conhecem a mythologia pela rotina das Academias. brincos. homem. O orphismo de Pythagoras. a mythologia peias Cartas um a Emília é uma thema para requebros de phrase e ternos versinhos de galanteria. no fogo da inspiração o muito que consegue é deixar-nos somente que qualquer sopro espalha.CASTILHO 439 A mythologia é de todas as creações a que tem menos ella recursos poéticos. sacramental dos mysterios eleusinos. quando se ignora a concepção que traduzia.

Mo Gzestc exprimir na palria lingua. da apparencia das realidades. Os sons da lyra. na Grécia. os altos versos de Virgílio. Do Lacio Pindo interpreto facundo! Tu foste.* . Nome poético de Castilho Da Arcádia do 2 Graças. a da primeira impressão do mundo. IO. Olha com brando rosto os fructos d'e!le. seu mestre de latim e de poesia «e muito bom poeta latino e portuguez. É o que não sa* bem "os tilho poetas das Arcádias. uma um deus ex machina para valer aos seus heroes nos lances difificeis.440 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL evhemerista. 1 Ensinou-lhe a conhecer a antiguiKoma. p. vate. Em Oh cantos que inda entilo soltava a custo. 4. e os ternos quei- xumes do amante de Corina. Peixolo oximio. de Ecco. que lhe excitou n'alma o pri- meiro amor das Musas da sábia Roma. e esses typos ideados na índia. do regosijo da vida. cuja mão plantou meu estro. na Etruria exprimem uma poesia. e ©s sons da lyra venushia. eximio Peixoto. fructo das de José Peixoto. os Mémnides Eginenses. Do amante de Corina as ternas queixa:^. A mythologia comparada tem encontrado nos symbolos religiosos de todos os povos uma unidade que leva á lei da sua formação. graças a ti. o exclusivismo de Dupuis e de Creiízer. Ohl ^ bem hajas interprete fa- cundo. um sentimento puro não viciado por ne- nhuma theologia convencional e arbitraria. elevaram cia antropológica isto á altura de uma scien- que para alguns desasisados parece ficção divertida creada pelos poetas. foi elle que lhe fez exprimir na pátria lingua.» Foi esse eximio interprete do Lacio Pindo. quem primeiro o amor daa Musas Da sábia lloma me excitaste ii'al(i)a! Os altos versos do cantor de Eneas. o cantor de Eneas. ed. a eru- dição de Voss e de Lobeck. Cart. As Cartas lições de Ecco e Narciso! a primeira obra que Cas- escreveu intencionalmente para o publico. que afamou Venusa. na Pérsia. uma como curiosidade.

á A escolha da acção mede o artista: Eccoè a alma solitária. de Biblis. É esta a tendência infantil. Creuzer. a Heloísa. ama o ali fraco. ella só apresenta uma serie de puerilidades engenhosas. que se prestavam facilmente á mechanica do verso. O forte. finos tropos. e as tradições clás- sicas da escola não o deixavam comprehender as cousas. Ecco entra também no coro das suas irmãs prostradas pelo amor. Andava n'este tempo em voga o chato e assucarado o. artista. cartas a Sophia. um sentimento vulgar. . d'elle. Castilho procurou reprodu- zil-as. livro de Demoiistier intitulado Cartas Emilia sobre a Mythologia. a mulher conserva ainda o seu ideal indiano de perfeição a fraqueza. restos a Olhada mythologia por outra qualquer face. fried Muller como o achamos na pede- não o podia fazer sentir o José Peixoto. nâo seguir os trabalhos de Vossio.CASTILHO 441 dade. Aquelles vultos serenos de Olympo hellenico desenharam-se-lhe na phanlasia como figurinhas recortadas. é amor com um caracter de fatalidade in- um destino diante do qual se verga. ou Otfried Múller. rastia. indefinível. é o que explica as uniões desnaturaes de Pasiphae. como quem aviva uns traços mal debuchados que se apagam. Preller. é ella que é vencida pelo amor. os ímpetos vertiginosos de Phedra. visualidades capri- chosas do paganismo. do poeta. Ha na my- thologia hellenica o vencível. de Sapho. Gui- gniaut. nâo tendo no mundo quem lhe responda a natureza expansão que a lança para Castilho tinha que se lhe esconde. o heroe triumpha não o conhece. O amor grego. Esta é a base de todos os raythos. Era também do moda o systema de século a xviii. ainda Otnão tinha encetado esse trabalho. Dupuis. que deleitam a imagi- nação e nos desenfadam dos cuidados da vida. aquelle não sabe resistir e se deixa ferir. homens pri- como engraçadas allegorias. as nobres e vetustissimas tradições dos mitivos.

particular- mente esculptural. pulares. e isto variado segundo as exigências da metrificação. e os mesmos poetas illudiram-n'o. está tuída substi- com um colorido de adjectivos — de gentil. já O Ovidio. scismador. (1836) apresenta va-lhe a serie d'estes violen- tos amores. das cores. tem- pestuoso. A lard. não como um accesso natural e franco da alma licenciosos. forma de Carta linha sido adoptada por Pope. terno. para os insulsos anhelos que poz na bocca de Heloisa e Abai- A Carta presta-se ao monologo vago. achadas pela ciitica moderna. a ali suavidade. a tulella forçada em que gistral. como é a poesia romântica. Os mestres. a natureza espontânea e simples. e que nos poemas homéricos nem uma só vez é claramente citada. verdade da alma da Grécia transparecia brilhante nas creações po- A educação litteraria de Castilho. concebeu abstrusamente Ecco pelo tom da pastoral a escrever os seus de Longus. formoso. amável. acreditou n'elles com a boa fé de criança. e pôl-a requebrados galan- teios pela casca das arvores do bosque. tyranno. A serenidade da arte clássica. ingrato. nada. mas como enredos devaneios lúbricos dialogados declamatoriamente para excitar a sensualidade das damas romanas em quanto âs escravas ham no touca- dor d'ellas. cujas Metamorphoses estava traduzindo. era a forma menos grega que podia escolher. Na paixão de Ecco e Narciso é que apparece o pathos. a frescura primitiva. se achava sob a virga férrea da auctoridade ma- empeciam-no de descobrir estas cousas.442 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAí. a harmonia de todas as partes absorvendo-se na perfeição do conjuncto. bello. a que só se encontra mais tarde nas obras' de arte. a nitidez dos traços. nada d'isto se encontra n'esse m- nocente livro das Cartas cVEcco. antiga. juvenil. . Sem se lembrar de que nos tempos ante-homericos era desconhecida a escripta. lindo. deixando predo- minar em todas as creações um aspecto visível. cruel. doirado.

CASTILHO 443 Os versos nem uma vez se quebram. faz ideia da vida. até á puerilidade. pelo arranjo domestico. o mais com- pleto de todos os alarves. ameaças. formosos lodos . ediç. faz esco- Tem um ideal burguez de commodidade. e ornar as florestas É uma comparação de maior para menor. ella No delido da paixão. o que filhos formosos como com novas Nymphas que ven* çam as Nymphas suas rivaes. as circumstancias foram-lhe prolongando a infância. Narciso. Desculpe-se pela candura e ingenuidade da alma do poeta. não se esquece das figuras da rhelorica do mestre Maximiano para medir as emoções: Etn lagrimas. em em ais consuramo os dias. ais as noites vólo. Depois começa a tirar-lhe da cabeça essa ^ Tu que podes encher os nossos campos De tiilios. que estas Nymphas vençam. é rojos e esperanças são ainda de uma alma isso tado pelas fernas lagrimas que chora. enfeita-o como um typo de um quadro ílamengo. não sei porque influição amorosa. quarta. mas não importa. de preferencia por Mecenas D. que cresce nas verdes margens de um sereno rio augmeninfantil. Tu. o rei dos animaes não se enverlhe lança. Aquellas iras. 34. privado da vista nunca pôde abandonar o lar. gonha de arrastar os grilhões que o amor Ecco aspira é encher os campos com Narciso. como tu. . ao fazer da resposta. ar- por que o assumpto se esgota depois da primeira carta. Ecco escreve no tronco de um choupo. tola foi lèr a epis- da sua incógnita Amadora. Esta gloria a ti mesmo basde ncgar-te? Pag. estão inteiriçados pela promplidão dos epithetos. João vi. que podes ornar estas florestas De Nymphas novas. ama-o. Era lagrima?. que lhe lher. e invocando o exemplo dos ani- maes que também amam. Ecco vae queixando-se. e lhe envia paz e saúde.

metaphorisados. ção d'elle. . o poeta convtiníia os monólogos como uma criança inquieta. ca- [denciados. A carta que o auctor recebeu de uma senhora. citar os o Monstro. faz do somno pacifico nma guerra. que só tem alegria em que cravar fundas settas. Foi este o livro que lhe deu nome em Portugal e no Brazil. a bém com sua figurinha de rhetorica: o mundo para mim é todo graças. e anda acompanhado do refilho ceio. são como a linguagem de uma criança que dá uma lição bem sabida. tem uma doçura ique nausêa. pelo cor- 1 Pag. 42. regrados. gira sempre no mesmo eixo. do ódio e do ciúme voraz. porque desconhece o amor. HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Dá graças ao céo. e faz murchar os prazeres. nem Uãô pouco adivinhada. t elmanismo. 165. 2 Pag. e aquelle que serve sempre de antonomásia. em um assobio de feira O poema ali é todo d'este feitio do mais teimoso O amor é uma cousa ainda não sentida. o auctor ousou chamar-lhe romance. bárbaros ef- Pede-lhe que não se fie n'elle. O amor é da rocha caucasea. de cujo facho tem ouvido feitos. adjectivados. foi por isso que nos demorámos na apreciaa Apesar de toda mythologia académica d'este ^ livro. do tigre hyrcano e de Megeras. O resto do li- vro é digno de compaixão pelas futilidades da puerícia. O esmero dos versos. tudo o mais não tem movimento.* N'este ponto está esgotado o assumpto. que é pequeno infante mas é boliçoso e amigo de brincar. Angustias para ti é todo o mundo. Á d'isto pede-lhe vista que se deixe de imaginações: e para mosnão se esquece de retorquir tam- trar em factos a verdade. que se não |cansa de assoprar freneticamente |até quebral-o. da inveja.444 iiallucinaçâo. Elle gera cuidados. e exulta com o pranto e os ais arranca.

declara que o accusado está innocenle. vem accusal-o. e como tal determina que o seu credito pu- blico lhe seja reslituido por todo o Império de Amor: ora accusadora convencida. servindo de representante das Senho- ras portuguezas toca o ridículo. Era mais um passo além do Piolho Viajante e do Feliz Independente.— Os Prazeres. Foi uma boa sociedade ças fizeram as delicias dos serões nas familias. forma uma lenda revelada na Chave do Enigma.» a doçura e subli- . e nunca mais seja vista por Mancebo algum durante resultado de — Vénus. por isso a sua poesia linha «por objecto apresentar-nos os mais risonhos quadros campestres animados com toda midade do sentimento. Castilho não concebia a poesia ctiva como a expressão subje- dos sentimentos. O Processo de Cythera. estava privado de contemplar o mundo exterior. assim como a sua defeza apresentada pela sua iMusa. e tendia constantemente para elle. defendendo o seu sexo atacado nas Cartas (TEcco. do Amor e Melancholia. estas gra- se ri. Não faltaram imitações dos poetastros do reino. denando egualmente. seja por Ires dias privada de tomar parte a sua estada no banho. contra o Poeta Auctor das Cartas d'Ecco e Narciso.— Os Jogos. Imagi- nava a natureza como a vira aos sete annos.CASTILHO 445 reio de Lisboa. é esta a causa de tudo aquillo de que a gente hoje d'esses tempos. como o da calumnia. que foi. Cythera. Aglaia. 1 de abril.» um espirito Eis o que não pôde soltar-se a livre das fjjxas. Sobre este pedestal o proclamaram génio. em que a mais nova das graças.— Os Amores. o auctor defende-se em ou- tro discurso. nas Festas de Cythera. Mareias e Branderinos escrevendo suas confidencias. e depois escuta a sentença concebida n'estes 5 termos: «O Supremo tribunal de Cythera depois de haver atten- /tamente ouvido o discurso recitado por Aglaia.

Os primeiros cantos que ella inspirou. * em faz Quem esta ideia da poesia nâo podia elevar-se acima das Carias d^Ecco uma grande e piegas. o ideal movimento roma/i//6'o. Finge valles Cartas d'Ecco. saudade da natu- reza que se lhe furta. insipid(^ Castilho sente de vez em quando uma ella. cresceu nas cabanas simplices dos primeiros homens. 19. tiveram por objecto descrever o amor em to- das as suas differentes situações. quem offereceu a primeira flauta aos pastores. sem affectaçao de magestade. Foi ella e não Pan. impossível. d'ella quem lhes ensinou a tirar sons fáceis e harmoniosos.» e iVarmo. um pastor coroando com murta e rosas as tranças da sua 1 bella pastora. é um género falso. valle. que vira Castilho já então aconselhava á mocidade que evitasse o «cantae a ternura. o seu ár elegante.446 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Castilho não imagina a differença na ordem de factos que exprimem o táphoras e sia ou que exprimem o sublime. é a «Primogénita das Musas. agora ouve as flores ramo em ramo ou por entre além vê como ellas. fronte A sua sempre risonha e serena . p. o seu trajo ura véo transpafrente.» Eis o estafado das pastoraes calcadas sobre a do bucolismo e Daphne Chloe de Longus. assim a poebello. dizendo-lhe: amor. nâo se coroou de louros. sonha em re- Ioda a parte um rio que corta os prados ao longe. . ridículo. vae parq e engana-se. O poemeto affectado^^p emoção na sociedade portugueza. e pintar os campos todos os seus pontos de vista mais agradáveis. um banho que pasce no as aves a saltar de tão gentis um bosque extensíssimo e fron- doso cujas cimas sao meneadas por um zephyro. mas de rosas e de murtas os seus passos eram ligeiros. atrazada sempre na leitura um perigo. entre os Amores ao seio da Natureza. o prazer e a felicidade. Dá-nos meimagens de similhança por ideias. nasceu no meio das flocreoii-se restas.

Faço um rio correr por entre um bosque.lo me é dado. Finjo mil vailes. e d'onde cheiro as Oôres. gosar prazeres. . E um beijo em premio docemente furta. Agora entendem-se melhor as har- monias brandas. Co'a8 Musas meditando eu sinto e góso Novas scenas. É poesia chamada pastoril. que bailam em uma 1 Se a natureza me negou seus quadros. Vendo um rio. Que cm si retrata a abobada pendente. risonhas. que violetas ornara. phanlastieas. Planto florestas. ab vêr quanto é grande a Natureza. ! Que o tolda e guarda. £ graça a todo o mundo. Vendo como um pastor de murta e rosas Coroa as trancas da pastora bella. Se de uma rocha no elevado cume Nâo me é dado sentir.CASTILHO 447 ornados de violetas. o aroma dos festões. Vendo as aves voar de um ramo em outro Por entre as ílAres tão gentis como ellas. e dos idylios ar- lificiaes e de uma ingenuidade florida tola de Gessner. florestas onde as nymphas estão juntas. e mil Faunos que habitam as grutas. p. aonde ajunte as Nymphas. Se os fracos olhos meus não descorlinam O sublime espectáculo dos campos. contemplando o 'mundo Vór. de Gessner que se pôde o até ao A falta de iadividuahdade facilita-lhe fallar pela bocca dos ternos pastores. Se n. que ao longe os prados corta. * Depois dos sete aonos Castilho nâo tornou a communicar com a natureza senão através de Florian. Dou rebanhos ao campo. Cartas d^Ecco. Vendo um bo?q«e extensíssimo e frondoso. melifluas da su a Primavera. que no valie gira. Vendo um rebanho. aves á relva. É um como doestes li vi os que tra zem o sellofiQ esquecimento^ os insectos de nm dia de calor. não é preciso sentir quando o som das frautas. Cujas cimas um Zephiro mcnêa. e luz ás sombras. 16. Elle nos diz ir que é pela estrada seio da natureza. Mando mil Faunos habitar as grutas. os gemidos das grutas vem tudo quanto pôde dar a encher sonorosamente o verso.

e deu causa ao seu casamento com uma senhora le reclusa do con- vento de Vairâo. • el afortunado ciego quien era ai que se habia pagado * hasta que cabo de mucho tiempo hubo de descubrir . para que queria le dirigiese la respuesta .) . . la [saber :del. e o nome verdadeiro D. Maria Isabel de Baena Coimbra Portugal. Narciso um lado Este hvro liga-se á historia intima de Castilho. . (p. . . (p.. a caria recebida por (Castilho fura de 27 de selemhro do 182í. G e 7. 2*22. 254. . Vivió con ella poço mas de dos anos . real. Murió su esposa en 10 de febrero de 1837. Ha nas Cartas de Ecco que tornou sympathico o poemeto. no obstante vários la iobstaculos en que no tuvo parte alguua vohintad. remefida de Azurara. a qual. é uma Primavera não se ataca teve breve e duvidosa como a de um paiz sem vida.) Foi na constância d'este matri- . correio (le Villa do Condo. retar- idaron su himeneo hasta ano i834 . a gloria homem desmerecendo e o livro que uma influencia funesta sobre o gosto de todos e é pre- ciso modifical-a.448 HISTORIA DO ROMANTISMO EM POETUGAL restea do sol vinda por entre a folhagem do arvoredo. La respuesta fué cuai asi lisongeaba el merecia una declaracion que amor próprio sin dei poeta. . es- Uas palabras: «Si se os presenlase una Ecco «Iniitarieis voí a vuestro Narciso?» «puso despues una firma supuesta y jsi í las senas.) O nome supposto eia Maria da Expectação Silva Carvalho. como se na biographia hespa- nhola: «se arrojo á escribirle á Coimbra donde residia... y él ha prometido escribir un libro-entero dedicado á su memoria. Este successo co- meçado pela puerilidade innocente das Cartas de Ecco a * Na Chave do enigma explicara se mflhor eslas allugões. entablaron los dos amantes correspondência.» (p.monio que escreveu os Ciúmes do Bardo. Cita-se por ser uma do das coroas da gloria de Castilho.el nombre de su embozada amiga el .

e cuido estar ven. da philosophia. Branca e da inspiração que logos referem-se ao á litteralura nacional.» O renascimento da critica. apenas o mar os cuspir. que se aproveita dos sentimentos novos da edade as suas creações arlisticas. terminou com uma cerimonia também hecatombe da correspondência amorosa. minas. enthesoura conchas e forma lagôasinhas na praia. as invenções. sempre teme aventurar-se pelos mundos da litleratura subjectiva do Romantismo. pasmam. porém rio-me. Elle fante eram olho mesmo se sente in- no meio d'esle ruido de cyclopes: «quando a brincar me e me vejo em redor com flores e cordeiros. emquanío andam e na com os elementos. 43.CASTILHO 449 pueril da Narciso.y p. moderna paia Todas as ailusôes dos seus pró- movimento de Garrett no impulso dado Fazendo profissão de fé mythologica. pag. n'esse mundosi- » Primavera. outros se aterram. lembra-se da invocação da D. tudo paia o poeta dos idylios loucuras. Castilho guardou fielmente a tradição arcádica. do direito politico. não me em mim próprio lastimo. é ai.) 2 lbid.» ^ Fique embora na á vista galeões alterosos á lucta mesma praia uns doce illusâo da sua poesia pastoril. e de passo tibio e mal seguro. 41. 29 . outros suspiram pelo instante do naufrágio para se arremessarem aos despojos. que por um de tempestade. abjurava os «Áureos numes de Ascreo. íicções risonhos alista — * da culta Grécia amável» e diz que nâo se «debaixo das bandeiras triumphaes dos modernos espanca-numes. sobre as cinzas ih qual mandou pôr uma pequena lápide que está era um quintal de uma casa de aluguer em Lisboa. ao tempo que de mim estão no choco tão grandes destinos do mundo.lo dia um menino. o livro promete tido reduziu-se ás prosas piegas do Amor Melancholia. da historia. as revoluções que agitaram o século que se abria. criança. desvairamentos. (1837.

ples uma aposta. sudra que o ouvisse livre. 30. . ler. conservando-a „ tal como cantara o poeta tor- aos vinte e cinco annos. profundo. os successos de uma vida tão sim- como Suppoz-se assim uma edade de ouro. e dando expressão a esse sentimento. a intima poesia da natureza só se encon- tra reproduzida na primeira impressão virginal nos poemas da índia. mal diz o tempo. avivando as saudades do passado. dá vontade de limpar o rosto d'essas falsas caracterisaçôes. A poesia veiu revelal-o na sua forma mais in- génua. assim. compunham pacifica. o sceptro era o cajado desfolhado. o boi. reminiscência da quinta ajardinada dos arrabaldes de elle se Lisboa onde lhe correu a infância. Paris do monte Ida. beatifica o que o escuta. ficava n'esse instante Na Grécia. porque se não volta para as cabanas das serranias. os rudimentos do theatro alguns personagens da tragedia clássica são o 1 Primavera. violentando a que o admirem. sobre os a alegria das cearas. pag. os heroes derrubam os monstros que andam roubando os bois. as torrentes. rebanhos. que mostra aos amigos. Stesichoro ou Theocrito. hellenico. as calmas. cantado nas theogonias orientaes. ^aiJPrimavera úiz que teve a intenção de retratar-se na sua face moral. Assim foram as velhas lendas de uma vida que passara. entra nas legendas da vida pastoricia dos reis da edade heróica. Quando o género bucólico era deslavado mas innocente. hylitteraria pothese gratuita que deu origem á tradição colismo. a poesia da natureza não foi achada nem por ali Daphnis. A verdadeira. do bu- O poema de Hesiodo. a vida pastoral tem também um caracter aryano. supporta- va-se. O divino poema do Eamayana eleva. um dialogo de pastores sobre a lavoura. na-se intolerante * De vez em quando com o seu bucolismo. Anchises era pastor da Troada.450 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL nlio.

e já de si Com cesá- uma alma sempre infantil. Estes diálogos de pastores absorviam sempre a I musa dos poetas cesáreos. também poeta reo. nas Memorias de lilteratura antiga. I O próprio Salomão Gessner. Theocrilo obedece a toda a. infehespanhola e portu- ctando a lilteratura gueza. elle confessa abertamente essa predilecção pelo género. no bulício de Alexandria. metralha de preceitos impostos pelos grammaticos. Elle não copia directamente da natureza. cit. poeta da côrle de Hieron e de Ptolomeu. idylios. Racan. com as trage- com as epopèas. é accusado pelos seus de ter imitado os francezes. pag. com que o vate de Syracusa chega. Deshoulières e Fontenelle çam . com os outros poetas a lographo chama melros fechados quem Timon o Sil- em uma gaiola. Bernardim lUbeiro domina o bucolismo os poetas france. canta sobre as reminiscências da Sicilia. a tocar a brandura e amenidade campestre. serviram-se do mesmo molde. e no meio das adulações. . á custa de muito esforço. 267.. Castilho não podia faltar á tradição bucólica. o génio pas- toril da Allemanha. as balisas ao género pastoral. aspirando a vida desassombrada dos campos. italiana. por chega a formar um género dominante. zes imitam os antigos e fazem dos quadros campestres uma liltelaii- aguarella descorada que serve de typo n'esta tradição raria . Todos os nossos poetas lhe sagraram suis lyras. Mad. franceza. viram a natureza através do prisma baço dos seus Na renascença dos modelos da dias. Egger. Sagrais. vem aliviar-se e desabafar. antiguidade. floresceu também o idylio.CASTILHO 451 fundamento da arte de Theocrilo! arte convencional e estreita. si com a comedia. Todos os poetas pastoris segui- ram as pisadas de Theocrito. no palácio dos Plolomeus. que também o reproduziram mais tarde. e declara » Obr. diz que é favor demasiado o chamar-lhc * génio pelos seus idylios.

» Estes poetas pastoris têm uma innocencia de leite. nem o dizia. 10.) . vêm uma deosa em cada senão individuo presente. digno de o louvar pelo mui bem que o sabia compreliender e seguir. levam-nos elles uma infinita vantagem: amam-n'a mais deveras. moral pura e fácil. um nem já as suas obras * nuvem. bem 1 o sabem. Gessner não era para mim um nome.— 452 HISTORIA DO BOMANTISMO EM PORTUGAL todo O desvanecimento que tem pelos seus mestres Florian e Gessner: «Alguma cousa porque farão para aqui palavras do meu Florian. mas realidade. d'eile são. todas minhas parochianas castas. mais virtuoso que antes da lição. que como homem sim. sem já se sentir mais soffrido. havia de aos lêr e reler Gessner meus freguezes: e por certissimo tenho que todos meus aldeões se fariam probos. os Idylios ou Daphnis. Não respira senão que logo vem aldeia. Ninguém jamais fecha a Morte de Abel. e virtude d'aquella tra- zendo bemaventuranças. (1837. que. um suavíssimo contubernal. e porque tudo diga. mas amplamente o sentia n'esse bom tempo que já lá vae. enlevar-nos-ia a tanta singeleza. Isto dizia de Gessner Florian. Castilho descreve a influencia de tão miríficos modelos: «Muito aproveitei em tão boa escola: leitores. as verterei de muito boa- mente. mais terno. retratam-n'a com tintas mais fieis. — Oh. meus como poeta não. pag. se nós podessemos lêr em seu original texta os bons auctores d'essa Allemanha. mais mavioso. e ninguém me havia de ao sermão adormecer. e especialmente a natureza campezina. Fosse eu parocho de que sempre á estação da missa. Todos os nossos poetas pastoris nada têm que vêr com as meras traducçôes de Gessner. me eram livros. vida e mundo. navegam em mar de rosas. a tanta doçura por onde de todas as outras se extremam suas obras! Em conhecer a natureza. que d'issa Primavera. Isto não o escrevia eu.

foi então que Schiller verso: pode abrir o seu poema da Resignação com este «E eu também nasci na Arcádia» não menos enér- gico que o «E eu também sou pintor» de Gorregio. pag. t. 2. Elle não tirou dos Alpes. Obras completas. n'uma monotonia. bas mui brancas e cordeiros Florian fosse pommui nédios. então é que poderam haver escriptos como Hermann e Dorothea de Goethe. Quando se concebeu que a poesia do não consistia em frescas fontes.» Que engraçada de infância! prolongada ainda até aos trinta e cinco annos edade do poeta! Mas Florian é Gessner . um ecco amortecido de o mesmo poeta pastoril da Allemanha." parle. O primeiro erro de todos estes poetas bucólicos estava em não collocar o mundo pastoral fora da decantada edade de ouro. pag. sentia-me palpitar no um coração da edade d'ouro. estavam fora da sociedade beatifica idylio civil. II. mas na simplicidade e no remanso da vida. segundo João Paulo é uma espécie de requeijão fresco da aldeia. nem das bozinas dos pas- tores o delicioso colorido da natureza. compunha todo o meu económico futuro de uma choupana. 142. Dat. esvoaçava-me na cainteira beça uma alma de Árcade. na opinião do profundo Herder.CASTILHO 453 tive mui cabal e experimentada certeza. Poética. penções benéficas se arraigaram minha interior aspereza. Estas são as creaçôes puras do Romantismo. esconsos valles. nem das cabanas. propôr-me-ia nas suas homilias como um santo da sua bemaventurança. fron- dentes arvoredos. 1 mas Gastilho desa- 2 3 3 Primavera. Minhas nativas pro. que os fran^ cezes acclimaram ao pé do superfino idylico de Fonlenclle. II. que todos de peito si a têm. em summa. . se pomarinho e * um meu parocho. líO. e de João Paulo Richter não dá pelas plantas de Theocrito. e ter- nas queixas de enamoradas pastoras. sem paixão. ciciosos regatos. 127. liO pag. se amolleceu. fissipide armento. ^ de Augusto Schlegell. 1 i.

a expan. odeiava-o de morte. a vi- bração da mesma corda. II. As qualidades de criança. pela monotonia da felicidade é sempre o mesmo tom. e o poeta teve o intuito a com de imitar Fiorian e Gessner. são e alegria. na França explica- se pelo exaggerado sentimentalismo propagado por João Jac- > Primavera. Auliso. e os dos seus imitadores estafam . possa dizer na sinceridade da sua alma: — Se fosse paro- dio. a esfeliz. para tor- nar castas e probas as minhas ovelhas?* A immensa feli- cidade cansa.454 tou HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL com elle. em que o poeta se mostra mais criança. é como estas caricias forçadas . Até disse: «Quando será laia e que outro homem. e encontradissimas impressões que se passam no individuo. a graça. deviam realçar n'este assumpto a força de dominar todos estes instinctos. Josino. deixou apparecer somente loquacidade e a indiscrição. Anfrizo. da costumes dos nossos velhos. a frescura. agitações. pag. Causa lèl dó X) lembrar que foi. . Salicio. Os idylios gessnericos. É n'este dos. nos de Castilho este defeito tor- na-se insuportável pela prolixidade e abundância dos versos e minúcias dos detalhes. é preciso contrastes. para que a creaçâo do artista corresponda ás multímodas volições. aquelle livro. Minha morreu ensoado no violão do padre Leitão. A predilecção por Gessner e Fiorian. Fran- que ornavam de grinaldas e festões entre o descante da a cabeça do Lilia Mémde to- nide Eginense. basta para ficar odiando para sempre o género pastoril. Albano. leria Byron ou Schiller á estação da missa. pontaneidade e uma ignorância a candidez. uma pagina avulsa qual- quer.preciso o. Primavei^a foi escripta (I82á) sob o influxo dos pasto- res Elmiro. A zino. uma pessoa que nos está encommodando mata uma sede vivíssima das calmas com um de é como quem copo de agua morna.

Favonios subtis. p. Na sua ingenuidade infantU.» Taine. 1 Olympe restaure non par sympalbie arcbeologique. mais par convenanie. exaggerou ainda mais todos estesdefeitos. todo o sacro povo morador do Olympo.CASTILHO 455 a Voltaire. 2 Primavera. comme aujourd'hui. com os dons de Pomôna enfeitam a natureza inteira. elle mesmo se transporta esse «On mundo: «Metti-me pythagorico aos vinte e três de vil alors le spectacle le plus extraordinaire el le plus ridicule. . p. Ali a natureza está revestida de páphias allegorias poá escuta pelos ar- voara Faunos os montes. amorosa Vénus. 2 si um estiramento de per io. ou employa Appolion et les Musses comme rbemisticbe el la cei-ure. como nem com o espirito archeologico giria moderno. A inspiração de Castilho alentava-se exclusivamente da tradição do século xvur. Nayades. la Fonlaine et sts Fables. não se contenta só em acon- selhar o leite e o mel dourado. la séparée de la religion. pour remplir un cadre vide el ajouler une parada de plus à 1 poésie II y eut une sori de jargon grec et convenable au méníie limbre qu'une perruque. que fazia dizer que o auctor da Nova Heloísa desejava andar de quatro pés. lalin Graces comme les cédrats confiis el les billels doux. a Aumez das flores. elle próprio nota era dos. na ebulição do pleno século xix. a soffridos. 36. era uma espécie de grega e latina lâo necessária como as um chino. nascença. Vertumnos in- Silvanos. e as graças. e era logar d'ella fa- bricado um Olympo. dont cUe esl le fond naturel el Telement ínlime. voredos. como quem * faz cartinhas de namocódigo rado havia um diccionario mythologico como um de pragmática palaciana. on niil en a?u?re TÂmour el Ics toutes celles donl ce siécle s'étail affublé. o poeta procura cha- mar para íi o mundo dos idylios. Hamadriades. Foi quando se viu a poesia separada da religião. os ledos Eisos. nâo com a sympathia sensual da Rediz Taine. Castalias fontes. mas por conveniência. 22í. com que. citavara-se musas . il y eul un diclioncaire mylhologiqne comme un code du tavoir-vivre el les pauvres dieux anliques arriverent á celle bumilialion exlrôme de servir de pasliches et de paraveuts. brinca andam Dryadas rora abre o roxo com Flora um Zephiro inconstante. ques Rousseau.

três cavallos. tilho faz uma infinidade de auroras: Cas- também e o seu inventario. fessar. 44. o conjugal.» - dura! Fiquem por Sempre uma nauseabunda doçura. flores. em acabar de me resolver e appareliiar para tão grande façanha.» * e em logar de pro- A impossibilidade da vida aconselhava. cidade. o paterno. Castilho é como um d'estes poetas da decadência clássica na litteratura do Império pertence á escola descriptiva. agosto do anno de 18^2. companheiras nossas n'este mundo.456 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGA!. e mais vem de envolta com a recreação. quatro cães. Acabei o noviciado. que amisade. uma lymphatica branuma vez destruídas estas funestas in- ílaencias dos poetas didácticos do Império. A sua Primavera é uma bemaventurança de têl-a fátuos. o materno. com uma procu- rada melodia de versificação embala os ouvidos para não ouvirem. e em França. A Primavera deveu o acolhimento á falta de leitura que soffreu a nossa 1 Primavera. passava em levista todas as descripçôes e ufanava-se de ter feito doze ^amellos. se como pôde um livro que se compõe de feli- «Todos os amores de que se urde e tece a domestica acham aqui representados por um modo que se recommendam e d'elles se embae de mui bom grado o animo: o amor filial. 284. e permaneci na observância do voto até vinte e três de agosto do seguinte anno. que desde a feitura do Poema decorreram alé esse. as pequeninas comparações de cousas fúteis. p. o mestre de todos estes pseudo-poeias. muitos invernos. didáctica. eincoenta e seis occasos. p. não lem acção. lendo sido gastos os mezes. innumeras primaveras. seis tigres. a creaturas de Deus. immensos estios. arvores. despedi-me. 2 llid. até o affecto aos animaes. tornava evidente a falsidade do ideal.. dois gatos. Delille. .

e se cantarolavam em Modinhas. e nas faltas suppria rum ou traga va-se a Biblia em família. que viajou gal em Portu- em 1827. como n'este tempo estavam ainda em todo o seu vigor Castilho. As leitoras amáveis uma noites. parecem sortes da noite de S. descreve que hoje são para nós zileiras. Kinsey. exprimem á scismalicos enlevos e bran- dos queixumes que levavam (los piedade os meigos corações quinze annos. Kinsey. ou d'estes ternos dísticos que então era de costume bordar nos lenços de assoar ou pôr no papel dos rebuçados.CASTILHO 457 sociedade. que julgou Castilho mesticas. mas com- . no livro que escreveu d'esta viagem. pre- cioso pela grande quantidade de informações coUigidas. senão. enternecidos. Tínhamos apenas chronicas succulentas de fra- des! O pobre livrinho era ura manná. capellão de lord Aukland. ás estavam restrictas ás Mil Novellas e em que nâo appa- recia uma dada vogal. o Fios Saneio- Foi isto o que deu largas ao poeta: festejaram-n'o com cartas anonymas. de Rossini. a ponto de nâo poder sustentar o papel do Narciso. ao pé dos romances moraes. e mal feito. Depressa mereceu as honras de occupar um logar no çafatinho de costura. adaptando-a a as Modinhas bra- cantava-se a letra da Joven Lilia abandonada. João. e andavam em moda. Castilho não conhecia a Heloísa da legenda. na prosa que acompanha as insonsasguadrinhas. falia sem a influencia das lendas do- d'este costume da sociedade portugueza: até pela «As modinhas portuguezas são peregrinamente bellas e simples. graciosos da Colin e da Montoheu. não só emquanto ás palavras. ao Grandisson. que então se traduziam por cá. históricas. (1828) que o auctor mais tarde ex- 'plica loquaz e puerihnente na Chave do Enigma. É este caso a origem do Amor e MelaiichoUa ou a Novissima Heloísa. a baplisar frio nem com o livro de Rousseau. de uma ária da Semiramis. esse titulo comprommettedor as quadrinhas não se atreveria um livro banal.

mas e tendia já para a sua decadência pela confusão das árias tradicionaes com lia as fioritiires das operas italianas. devastadora. . terno ou melancholico. uma lenda engraçada. que a realidade o humilha. fizeram reviver a Modinha brazileira. chegam a arrancar lagrimas dos ouvintes. quando bem acom- panhadas pela voz á guitarra. que se vulgarisou na sociedade burgueza' por ter apparecido n'esta corrente de extinguia.» Este mesmo enlhusiasmo achamos nos viajantes com re- lação aos cantos lyricos peruanos. havia um ex- cesso de Vida que elle não sentia. e seu effeito é tal que. O Amor Melancho- de Castilho é uma serie de quadras amorosas em es- tylo de modinha. o seu fumo formar em um vago nebuloso. Mas em roda do poeta le- vantava-se uma arte turbulenta. de desespero ou esperança. um género que se Melhor lhe fora ces cartas a volta do auctor já ter subido á pyra fumegante com as doiria que respondia. era o Romantismo.453 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL posição da musica. Sâo geralmente expressão de algum sentimento amoroso. As relações de Portugal com João a còrle VI do Rio de Janeiro durante o governo de D. apesar de acostumados á sua frequente repetição.

lucta travada.) — Castilho faz Castello. — Caslilbo regressa de novo aos estudos OiQuã' dros — As Metamorphoses de Ovidio traduzidas. setembrista chasquéa o movimento luanlismo: (1836 a 1831. renhida. como provocam sempre as ideias novas. Yae ao Brazil em 1854. livre. Não XIX vale apresentar novameiíle o quadro litteraluras do renascimeoto de todas as . assignala uma transformação brilhante de que a humanidade só teve consciência nas suascreações. Nomeio das perturbações politicas de 1847 v<ie á Ilha de S. anlitro 184G no opúsculo cómico da Chronica certa de Maria da Fonte. e que é causa de tantas . Polemicas virulentas. Miguel Fundação da Sociedade dos Amigos das Leiras. era essencialmente naciomlisar-se. O. O Drama Cainõe. A Noite do lillerarias históricos. e íunda a pedaulocraciaportugueza do Llogiomuluu. ao cabo viu-se ao sol da verdade que os que debatiam contra eram velhos académicos. —X propaganda da Leitura repentina. e subjectiva. — A poesia arcàdica nas Excavações — Castilho. uma transigência provisória cora o Roclássicos. Fp] jti§A3í Jiberdade que cada litteratura tirou forras para Romantismo não se implantou sem lacta. da Europa na al)ertura do século Seciiol si era preciso o hymno do rinuova. 11- A grande individualidade alcançada pelas revoluções beraes e pelo desenvolvimento dos estutlos scientiOcos. que já se não podiam desacostumar da senda aristotélica. realisando sentimentos (]ue se cujos impulsos não podem ser calculados nem medidos. : terminação da poesia clássica e da poesia romântica. que agora se adopta por esse mundo. Consequências da morte do Garrett: Castilho impõe de — — — — — ustraducções do latim. Como não previnem. — na litteratura. a Arte romântica não leve modelos. Estes se chama- ram 'Goethe. Diz Goethe na sua correspondência com Eckermann «A deos clássicos.i e Felicidade pela Agricultura.— 459 § 11 — Imprecaçõeá contra as doulrioaii do Romantismo. não com o nobre sentido que lhe deu mas como simples contraposição aos românticos. poéticas.

é. de scepticismo moral. Schiller. É. Vejamos o pavoroso quadro d'essa invasão nos tal valles e amenidades do seu idylio. e que talvez por isso mesmo. No prologo da segunda ediçílo das Viagens na minha Terra. ern quem a faz. foram as primeiras disposições para q Romantismo. a traducção do Oberon de Wielland por Filinto e pela marqueza de Alorna. passarani por assim dizer desapercebidas. ^ outros grandes peccados de scepticismo religioso o que in- mais forte e indisculpavel è. Poelira. Os Schlegell apoderaram-se d'esta tende por todo o mundo. de forma que hoje se es- As bellas traducçôes dos romances de Walter Scott por André Joaquim Ramalho e Sousa. ou grande ignorância ou grande mú fé. t. mi- nha e de Schiller. p. no que respeita á essência. como nol-o descreve clr- €umstanciadamenle no prologo dos Quadros Históricos de Portugal (1838): «A actual litteratura (onde a ha) em desconto de seus e. dormente da Roma pagã que acorda na Roma do christianismo. que pelo contrario. ii. nem de Schiller o que Florian dizia de Gessner. €ssa leitura não podia tornar castas e probas as suas ovelhas.460 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL discussões e dissenções. João Paulo. Castilho viu-se no meio d'este espirito novo. cônscio do seu poder. procedia de julgou seu methodo melhor. respondeu a [eBta allusão Garrett com as seguintes linhas: «Tem sido accusado de x cep tico.» * tincção e 'levaram-n'a mais longe. é uma accusaçilo mais absurda. Quando o nosso auclor ((iarreK) lança mSo da /cortante e destruidora arnaa do sarcasmo.. que escreveu o seu tratado da poesia sentimental e dis- da poesia simples. 1 / Ejespraeche unt Eckermann. que elle maneja com tanta força e 2 ( dextridade. todo subjectivo.'e um modo para se defender contra mim. tem 436. As suas primeiras palavras foram de maldição aos perturbadores da serenidade da velha Arcádia. Eu tinha adoptado para a poesia o pro- cesso objectivo. como o. que só denuncia. elle rara vez . o único que me foi pareceu bom. 203.3 Almeida Garrett que se deve a renovação da moderna litteratura portugueza. Viu que não podia di- zer d'elles.

depois que disse na sua nobre ou delirante ambição: Tudo émeu. não ae dirige nunca contra individues: vè se que dtspréza a fácil vingança que. contra o? sophisque elle o faz. — Francisca. como as suas obras. Ainda bem que o nào faz! mais importantes são as suas obras. Âs mesmas suas ironias que tanto ferem. de Frei Luiz de e aqui n'esta obra (Viagens) os de Fiei Diniz.) «Depois que a Musa se chrismou depois que em Natureza.» p. e quanto a nós. remontada pelos céos. e disse ao Presente: Dança ao redor de mim. de Joanninba^da Irm& Sousa. caracteres de crenças tão fortes como de Catão. para que entendam a verdade que me abafa. para banquetes de cynicos sobre a lamagem nas ta- bernas. e a quem. e d'ahi nos ter ex- premido para o coração uma quinta essência mui pura de interesse e aíTecto universal. veja. e cravou no meio do mundo espantado bandeira livre de conquistadora que. . por cada dicterio insulso e ephemero com que o tem pertendido injuriar elle podia condemnar ao eterno opprobrio do um pelouriubo immoital. para a adoração profunda do Eterno. e lhe cuspiu na face e riu. misturada com uma decima sei essência sublilissima de egoismo esterelisador (não a como diga. tre todos os seus ministros te abri o magestoso —e riu. ou voar pelos alcantis e espinhos de todas as diííiculdades ou de todas as virtudes. porque sempre contra a hypocrisia. porque eu manancial de todas as dores Ímpias. e contra os bypocritas e sopbistas de todas as cores.se toma nas mãos — que é mas. e em si achou rores com que pintou tão vivos. sentimento?. re^pfiiaos sempre. de invejosos que o calumniam. podia tomar de inimigos que o Dão poupara. ainda dizemos que não pôde ser scepHco o espirito que concebeu. para o embrião do Futuro. se fez cosmopolita. para dançar núa com as prostitutas. com tão poderosas armas. de Camões. e largou falia por velhos os graves cothurnos e fidalga do seu tempo. vii. Crenças.— CASTILHO 461 troduzido e refinado muito conhecimento de relações das partes e indivíduos do mundo entre si. vae tremular por cima da cabeça de Deus. mais puDidos Geara os seus cmulos com esse desprezo do bomem superior que se não apercebe de sua malignidade insulsa e insignilicante. e lhe atirou veneno e riu. liberal e plcboa^ prestes para tudo. opiniões. depois que olhou para o espectro do Passado. «Voltando á accusação de scepticismo. levantou-se en- uma grande confusão.

disseram —Nós assignalaremos as rodas do nosso : carro sobre estes três cadáveres do Tempo. Outros. alheias «O povo. para verdade. o de]cid]o.» falso Aqui a jumenta de Balaam obrigou o propheta a fallar um ouvido um demónio lhe inspira como se embotam os punhaes^ para que a ferida seja mais vagarosa como se farpam. com preten- ç5o a estylo biblico. lábios. o incesto. almas generosas nascidas para amar. por onde se hão de embeber e quanto sangue hade manar.. almas indomáveis nascidas para o triumpho. o infanticídio. Appareceram sophismas do parricidio nos Salteadores de Schiller (este não podia tor- . disse: E a poesia lhe —Ide e os bafejou a todos. o perjúrio. para lhes prevenir penas em suas leis. palavras de agouro e maldição. os lamentos do Passado.» É com estas mesmas palavras que o clero tem amotinado as turbas contra todos os progres«O mesmo povo abre livros. disseram: Nós procuraremos salvar tudo — isto pelo amor. horrores que o grande Solon nem qui- zera se julgassem possíveis. o regicídio. que só das palavras compõe a sua sa- bedoria. «Uns. explica e defende o adultério. no amar sem outro fim á porfia os senão o próprio amar. com que sorrisos e palavras se hade desesperar a agonia. quantos gemidos e arrancos ouvir-se. e n'elles se encontra com a os mais formosos quadros de toda imaginável brandura. como se consumma. nunca haviam sair de humanos fanático sos. (absurdo) corre aos theatros a aprender. um anjo lhe insinua que a felicidade toda assenta na paz interior. a paz interior na virtude. a trai- ção. como é que o pé se lhe hade por sobre os olhos para que não veja o céo. quantas fibras descozer-se. que semelhantes ás que uma antiga religião defendia. as blasphemias do Presente. «Por . a virtude no amar sempre a todos e a tudo. para que mais dôa como se hervara. No outro ouvido. com que gestos. o falricidio. o parricidio. 462 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL se ouviram os gemidos do Provir. que não sare.» — Estes dislates. enojam.

! porque o contacto d'e5le deenterrasse esle morto.e do Mau Principio: sâo os dois extremos do mente amarrados entre pelo génio do homem. não inventasles outro para a vossa própria consciência. uma Juslina. a espantosa litleratura da nossa edadel como Oh quem porque soltasse esle vivo. inventado por um antigo rei de chama Virgiho. e por uma fama sele vezes mais alta do que a vossa. não quizera ser o que sois. mundo. desconhecido do mais pequeno recanto do cujas galas poéticas são . teme- . muitas vezes combina estas repugnan- cias: o (h: famoso monstro Nossa Senhora Paris. por thesou- ros sete vezes mais fartos de que vos rendem as vossas phrases magicas. (admirava-se. e juntamente a lucta perpetua um Evan- gelho do amor materno.CASTILHO 463 e castas as ovelhas de nar com os seus poemas mais probas Florian) e os extremos da affeição a um pobre câo no Je- icelyn de Lamartine. d'aquelle supplicio. por Victor Hugo. Que digo? o mesmo litterario intitulado livro. infernaes. É si do Bpm. imagem Itália. nefandahomem. o vivo abraçado com um cadáver. os lábios que respiram e gemem pregados n'uns beiços mudos que exhalam morte. lhe a incomprehensivel. porque entendia christâo que os cães como devem ser tratados como os tratava Malebranche) os horrores de . da alma e da fé. e os olhos que vem sobre dois globos que olham sem verem. que assim como inventastes um veneno infallivel para cada virtude. Calherina Hotvard e as j Prisões de Sihio Péllico. é um libello diffamalorio e in- fernal contra a natureza humana. e quasi mesmo momento. sublimes. mesquinhas que por minhas mãos as rasgo sem dó eu vos desprezo. eu escriptor eu. Ramanticosj algozes do coração. e as piedosas magoas de o um Leproso de Aoste. Esla é o desprezador dos Deoses. functo o nâo contaminasse Oh quem a presença d'este vivo lhe não aggravasse a con- demnaçãoí Homens innovadores. que resplandeceis na vossa gloria como Satanaz em seu throno de tão fogo.

que corre atraz de sua mãe e que a segura pela saia. evidente em mesmo. pelo mal que tu tica me fizeste. 5. tendem constantemente a mostrar-nos que a na- nem produz aleijões. o que ha de mau é uma creação nossa. parentes. como uma criança que ainda não sabe fallar. . que formam o processo artistico do Roman- tismo. 2 Jlliada. das nossas circumstancias. XTI.» ptor tivesse consciência do que os cominastes que Se o escri- diz. Oxalá que a minha cólera e o nem meu coração me levassem a dilacerar e a comer a tua carne crua. explica Victor Hugo o pensamais mento feia . 3 lá. e dotae esta alma seja com o sentimento mais puro dado a homens. d'este modo: «Tomae a disformidade physica a illuminae por todos os lados. nâo são filhos de quintilianesca. 4. agoureiro. onde existirem^ ainda alguns vestígios da natureza. um systema exclusivo de elocução Achilles apresenta esta os contrastes apparecem sempre onde ha verdade na arte. a collo. 345. Patroclo. como se acham principalmente em Victor clássico Hugo. o sentimento paternal. e depois dae-lhe uma que 1 alma. . pelo clarão sinistro dos contrastes. não tèm este fim immoral que lhe acha o tureza não conhece o feio.464 HISTORIA DO B0MANTI8M0 BM PORTUGAL * rosa tem de ser a vossa ultima hora na vida.» ^ Os contrastes na poé- moderna. Mesmo em Homero. bello.» detém ^ e a contempla cho- rando para que a leve ao E pelos o mesmo meus heroe diante de Heitor mostra esta impetuo- sidade indomável: «Cão. Fallando do Roi samuse. Quadros históricos^ p. doçura de caracter: «Porque choras tu. não me suppliques de joelhos. osêrdisEdic5o brazileira. . responder-se-lhe-ia. esta miserável creatura. XXII. emsi quanto o bonito é um ideal immediato. 6. lá pôde transluzir o É a isto o que se chama um ideal de reflexão. e por isso no fundo das cousas repugnantes.

aos discípulos de La llarpe. 30 . que aniigem a banalidade com as penas do fogo eterno e com a agoda hora da morte. Quando Castilho proscrevia Schiller folhetinista francez. Contra a ella prevalecerá. o degradado bobo. fallarido por não servir para tornar probas e castas as suas ovelhas. clássicos. um iro de Schiller. entre nós Castilho enlhronisada. as digressões sarcásticas de Ryron. a bello. foram confirmando aquelle aphorismo orienlal: «A verdade é grande. que ainda se regulavam nas suas composições pelo código épico padre Lc Bossou. dizia que quem escreve desdenhosamente do theaa DonzcUa dOr- leons merecia ser açoitado no pelourinho. a proscrij)ção do Romantismo. ali apresentou Victor os esmaga com o pezo da do ignorância d'elles. C. as xenias de Goethe e Schiller. que os mostrou lhes que o gosto * Quadros historicon. denominado por Victor Hugx) o lilteraturg. vão apagando já puiverisaudo o sèr próprio de tantas cousas.CASTILHO 465 forme tornar-se-ha ral.gsenç^ por. los X. nia ameaça os Românticos. e traziam presentes taire. sempre verdadeiro. e mais que tudo mal compn hendidas pelos que se arrogaram o nome de Hugo o prologo de Cromweil. mesmo interpretado na musica por Verdi? O rno Romantismo. Jouy. a definição de Vol- que o gpsto não é para a poesia outra cousa mais do enfeites para as mulheres.» bagagem de regras desligadas como os ossos de um esqueleto. os epigrammas de Victor Hugo.Cas- lilho: «A liberdade e egualdadc que.) /?6era//5- na foi^condemnado na_s^ua„ç. pedirem ao rei Car- janeiro. pag.» E quem negará a perfeição mo- sublimidade da alma de Triboulet. Em toda a parte o Romantismo soíTreu uma lucta assim ridícula. para nivellar a face a figura e da terra. ra.» ^ invadiram e senhorearam a lilteratn- Em em França a lucta do Romantismo linha levado Baoura Lormian. Arnault e Etiénne.

pag. d'onde não volverá. o aferro dos usos e modas pátrias. que o novo quebrou a ponte que os juntava. D. Castilho descrevia os es- tragos do Romantismo n'este tom: «A poesia amável. que o inundo velho tinha produzido. a veneração ás cãs. o respeito aos finados e a seus sepulchros. Cister. o quasi culto ás mulheres. e o 1 Cromwell. foi recUnar-se á espera na beira da torrente dos dias. e assim como outras muitas boas artes e prendas. de 1580. que nós dissipámos cora as leituras ephémeras. Renascerão sas? por tanto da própria natureza da terra. ou do sopro do céo renascerão tarde. estas cousas do E quaes são Mu- mundo passado cuja perda tanto dóe ás sas e á Virtude? são as formosuras e magnificências da religião. renascerão talvez diversas. e riu de ufania vendo abysmar-se fabrica que assim parecia eterna. mas renascerão. com a alma que se renovava. a benevolência e sociabilidade. consolações. aítastou-se d'entre nós. da indole da alma : humana que já uma vez as produziu. ediç. o Harpa do Eurico e Monge de com a Crente de Alexandre Herculano. quando a nossa lite qne vinha disputar competências de mocidade * neirada. arrebicada. sem que primeiro se restaurem muitas óptimas cousas e todas suas. já velha no século teratura havia sido enriquecida com um theatro nacional^ com com o Camões. Mas d'onde virão estas cou- Do mesmo mundo velho? mal o creio. o amor do es- tudo. que se revoltava contra a poesia ama- xvm.466 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL era a rasão do génio. Kí. empolvilhada. Branca. ás obras dos antigos homens. Em i837. ás lições da experiência. amores nos olhos. quando o Romantismo' eniva nós tinha sido implantadq por Garrett. . fructos no regaço. onde ainda a alguns poderia aproveitar. renascerão quando nós já não formos. e nas falias a que nas mãos e seio nos vinha of- ferecendo ramilhetes. e estava em elaboração o Al- •fageme.

poderes. e sem de permanecer. e porque vê que paftsadas obras não occupam meia hora o$ homens gravrs c Noite do Ccstello e no creve com as exigências f/. pag. Castilho conl:>nos assim a primeira teigiversão da sua Musa «Saíram a Noite do Castello e Ciúmes do Bardo muito mais contraídos e apanhados tos a tos em cousas e palavras (sujeiisto) um plano. declara-se alfim romântico no poema da poemeto dos Ciúmes do Bardo. p.: CASTILHO 467 íiraor do torrão natal. o poeta. a que chama estiramento do periodo. ediç. supr. . Esdo publico. fecundíssimo sentimento." Hercuuno também concebia assim a pb b- Vid. estas palavras são malevolentas. Tudo isto se perdeu para nós aldeias se revolta o firme e não * que bens haja em seu logar posto a Philosoplua. vesano. astuto. que aca- bava de enganar o honrado burguez commerciante. os. nobre. as creaçoes românticas cas. Conhecendo que as suas obras tinham o defeito da prolixidade desconnexa. Demais. 3S3. por fim sem ííis[)i- aação própria não sabe como contentar a todos. como immoraes e scepli- Em verdade. 2.i.r» K cl'este modo que nas povo contra qual- quer ministério. O género pastoral absorvera-llie todas as predilecções. pela innocencia imbecil do tilho sustenlal-o mundo dos ídylíos. o partido horaciano e caturra dos contubernaes pede que torne ao seu primeiro caminho. 20.s* òons juizes. mas impossível onde se vive certeza sei sem muila brandura. falto lodos. solerle ímde o typo do camponez AgneloL chega a pregar um logro ao trapasseiro Advogado. como se pôde observar na velha farça do Advogado Patelin. o género pastoril leva a este refinamento. quer dizer com do que estos poeme- (Primavera e as Cartas de Ecco) pois comludo muitos Prlmavara i. quando menos se esde individualidade. procurou Casin- delatando ao publico fanático e nada struído. a isto os idylios do Levam com campo. e transigindo perava.

»^ E no prologo do Amor cido. outro que não . da edição de i86i accrescenta: «Nas- creado. 2 Ed. de 1864. mais depressa como explorador os entrei. como o triste. No prologo da compor Não sou Noite do Caslello. que estas ultimas obras se nâo lêem jsenão de escasso numero. O o que faz o gosto. e a dependência dos modelos para imitar. mina e educa o seu tempo. que para expiação talvez de algum grande peccado. 9. e Melancholia. do rapaz e do burro. como os velhos poetas palacianos. de íá9 de novembro de Í833. João VL) A cada hora me diz torne ao meu primeiro caminho. fanatisado pe- 1 Primavera. houve e ha. d'este modo o mola o que pede es- em verso. ora me levarem. mas não abjurei o clássico. . A arte assim dá só estiramentos de períodos. e o culio das tradições artista ò de escola com o que dotacteando andri que se proteger. que as passadas não oc- ícupam meia hora os olhos dos homens graves zes. vallo. a mediocridade as conveniências. evitando ir contra as rajadas que lhe po- dem arrancar as pennas fingidas com que se empavona. 36.entrega e desampara a publico os partos do seu tinteiro! Pois que não pôde ser contentar a todos. segundo o exige o gosto artista é ainda do publico. que o á Acclamação de D. pag. Maria e poema um.463 • HISTORIA DO ROMANTISMO EU PORTUGAL ficaram preferindo os ani.»* A arte d'este modo não nem um fim sério. tem elevação. confessa a sua deserção litteraria: aCommetti sim um poema romântico. é um caminhar ora a ca- com um burro ás costas.desampare o novo: uns. devendo só a ella o primeiro favor que achei no publico.. outros. ir-me-hei gosto e natureza como e por onde o meu juízo. traiisfuga dos velhos para os novos arraiaes. pag. e bons jui- Ohl quem reconheceu nunca a verdade da fabula do Velho. que por isso mesmo tigos e até os velhos opúsculos (Epicedios a D. ajuramentado na escola clássica.

inspirado pelos diclames da propria rasân. pag. Heine. 2 Quadros li. em vez de tomar uma forma natural e sublime. Espronceda e todos os da escola cha- mada satânica! Castilho deu justamente. o que significa que o i seu romantismo em litteratura correspondia ao setembrismo [ em politica. e a Liberpolitica. só cheguei mais larde a j fazer justiça a este livre e creador movimento da nossa jéra. o primeiro é uma edade media recortada. e a poesia tumultuosa.- CASTILHO 469 Jos velhos génios da antiguidade. não se vè a offensa pessoal. l Rendi-me fascinado pelos seus perstigios. sem o saber. o sentimento que procura communicar. um poema romanesco. os Ciúmes do Bardo.» ^ l É de 1836 a traducção das Palavras de um Crente. elle vinga não a affronta própria. de Lamennais. 9. a litteratura moderna. deu Shakespeare. alllictiva. pag 21. como uma causa de minas. No ciúme do Olhello. * e diz que os que sonham com liberdade mentem ou deliram. por Castilho. . a poesia suave e crente de Lamartine e dos lakistas. A Philosophia íDO que hoje tem ou a independência intellectual. ^ Vejamos quem assim pensa como pôde contrafazer a poeCastilho olha a philosophia sia de um século agitado pelas conquistas dos eternos prin- cípios. a Noite do Caslello. esvae-se em imprecações e pragas e monologos de fraqueza. desoladora. pelas grandes applicações nas maravilhas das des- cobertas: a poesia das almas fortes e das almas doentes. vertiginosa de Al fred iMusset. os Ciúmes sâo uma pagina intima e sem grandeza. como o comprehen. . arrastado pelo caudaloso exemplo. mas a jus- ^ Primavera. cujos sentimentos sâo inspirados pela impressão que então exerciam os romances de Ma- dame de Radcliffe. e um poemeto impetuoso.sloricvs. dade ou a independência levantaram ao brilhaiilis- em toda a Europa. byroaiano.

traça o manto de vem uma malhe neira chateaubrianesca e vae bravejar aos ventos. vendo o talvez o merecia. honras de historiographa ie outras achegas. João Monti Vaz-se o poeta dos successos da corte imperial. bem contra sua vontade. 7v . que se chama elmanísmo^ Monti Icelebra a morte do republicano Bassevllle. d'ahí lhe vem o acolhimento do segunda vez desfazem-se como um papel doirado que se descolla. Monti depois de amai- 1 A falsidade d'esle poemeto pôde e\plicar-se por este facto da Biograpbia he?panliola de Castilho attribiiida a Thomaz Gome^. impressa em Cadiz. e reproduzida na fíweta de Madrid.. * que tomara. mas obedece a uma força moral que da consciência. e no Eco dei Commercio: «en este corto espaíio (1831-1837) goso Castilho de lodos lo3 atrativns de la vida de los tle aman- tes.. elle foi conquistas da liberdade e da intelligencia. a sua elegância e correcção a tém o Iqucr que é de receita. Castdho recebe também de D. O pobre mundo Bardo. através de um vexame que em parle Os Ciúmes do Dardo. celebrando todos os pequenos interesses dos epithalamios ^xlos altos personagens. obtendo por lassas bajulações pingues tenças. Castilho é o ultimo representante da Arcádia. a litleratura de as- Nas luctas da escola ramantica existe lento. para tirar d'ai icondemnações contra V a França. um liomem de ta- que empregou a sua auctoridade a favor dos cânones antigos. léem-se publico. turno a revolução franceza para exaltar D. pela sonoridade do verso. ter O defeito provém todo de o auctor renegado da catholica religião do classicismo é transi- gir 'com a seita dissidente salto. lí em ponto grande o que é Castilho em proporções mais acanhadas. ameaçar os ares. e veiu depois queimar os incensos do seu estro ás Moiiti.í 470 tiça e HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL é executor O dever que foram ultrajados . Castilho maldiz por seu vi. de forma alindada.» Pag. Como lAIonti. de amiga y hasta de maestro. João vi a '^pensão de uma rendosa escrevaninha. com um idylio assucarado. lidos uma vez. £u efpoía le sirvió madre.

O génio da revolla.CASTILHO 471 diçoar a republica. mas Bonaparte triurapha em Marengo. «Â característica da edade media em litteratura. é a lucla entre o espirito antigo. que transparece nas linguas nacioníies. e o espirito novo.» .is se deu htteraturas modernas da Europa. e depois do triumpho do cerco do Porto. sin que gobierno actual le haya indemnizacion que se acoslumbra en casos tales. a puristas das convicçíjes e do caracter. Pela sua nos versos a parte Castilho depois de prebendado pelo despotismo.mythologia. Monti arrepende-se de ter adoptado a melancholia de Ossian despresando os deo- ses da.) Na sua velhice. a sua e já o poeta saúda o rival do Jupiler. um exagerado subjectivismo. chorando o maior dos reis e o rei mais dócej revolta-se contra o sangue do vil CapetOy sugado nas veias dos filhos da França. no principio foi d'este século. obriga Musa a cantar também a liberda-le. no Tributo saudoso d morte do Libertador. segundo Frederico Schlegel. el a nuestro poeta la se abolió. 5. Castilho titulo systema Juan liberal ficou com a queda dos privilégios no também sem a tença. refugiado na lingua latina. como um renascimento do espirito livre. oppozeram-se com todas as ças á nova manifestação do sentimento. Os for- escriptores servis.» (p. Monti perde o seu historiographo. Monli e Castilho primam pelo bem acabado da forma e pela versatilidade das ideias. Gomes de Freire. O Romantismo. Castilho as pastoraes para traduzir também na com alTectada velhice abandona vernaculidade as obras capitães do romantismo. espontâneo e creador da edade media. que inspirava os fabliaux reapparecen na forma de e as grandes legendas seculares. limita- dos á imitação do clássico. pela pretençâo da lingua e pela incapacidade de tratarem scienlificamente os problemas da philologia. aííerrados ás praxes académicas. como se lè na el oficio sua biographia VI em dado hespanhol: «pues dado por D. ou a revolução moral e sentimental que n.

como quem tem os fios com que se fazem saltar os bonifrates. não se passava das formas pautadas. dos panegyricos. de sentimentos convenientes.4T2 HISTORIA DO KOMANTISMO EM POBTUQAL . Quem por via a litteratura d'este modo fazia uma ideia falsa. uma nobre ociosidade. de deleitar. como por ter apadrinhado uma geração de medíocres que tanto custa Hoje a litteratura não é já parato brilhante. Os embaraços para do Romantismo em Portugíil acham-se resumidos em Castilho. serviam. fins Travou se a lucta na Allemanha nos do século xvhí. é a liberdade do sen- ^timento. da tragedias regulares não ultrapassando as três unidades. os tempos um certo numero de meláphoras ooavenciovia-se naes. das dissertações fúteis. tugal o ?cco do que ia lá ejó chegou fóxajmiitQ depois da emigração. melhores escriptores. a rhelorica velha e cansada pela philosophia. quando a definia como uma distracção liberal. um consolo intimo. í No Romantismo dá-se a mesma lucta mas em vez de ser ia emancipação das linguas vulgares. mais clássicos por assim tinham o segredo de mover. de ap- com que se entretém a pompa das acade- mias. condemnando o ideal da arte determiiiado É por isso que lhe cabem algumas paginas n'este livro. como ao que mais contribuiu para a decadência e esterilidade da litteraíura portugueza^não só pelos seus constan- tes protestos académicos. domestico. de arrebatar. e . um Deus ex machina para os poemas apenas os as formas externas. da archeologia de curiosidade. que procura manifestar-se j sem convenção. havia com saudade . a extinguir. e se engrandece o luxo das cortes dos mona^-chas magnânimos. não é também aquillo que Cicero julgava. a introducção \em J83o.€omniunicou-se á Inglaterra e á França. os processos mechanicos com que dizer. a Por- .se da erudição homérica para já invocava demonstrar que Mentor antigos. Em quanto se pensou assim. discutia se o mérito comparativo dos antigos e modernos.

saxonia e normanda. que inventaram uma theologia no século XVI. batalhadora. a outra branda. anonymos. imitador. Marlow. delatam os crimes mais escondidos á posteridade pela influencia que sentem. determina las duas raças. e uma moral no século xvii. a Eslhe- lica veiu dar-lhe altura e consciência.CASTILHO 473 falsas isso todas as suas creações viu-se eram na origem. o . e como -tinha sentido. violenta. faliam mais alto do que todas as op- pressõtís. A litteratura tem hoje esta importância. infunde um a])aixamento da dignidade. Ben Johnson.caracter impetuoso do norlo acha-o n^presen- íado em Shakespeare. As obras de arle têm o poder maravilhoso de nâo pode- rem ser falsificadas. na Historia da Litteratura ingleza. Hoje era que a liUeralura era mais tal do que isto. Pela litteratura chega a defmir-se o caracter histórico de uma época. Sob esle ponto de vista. o estudo dos mythos. que procura constanteos seus actos conscientes. abiiu este plano. com tendências sicas. como diz Michelet. Milton e Byclás- ron. uma terrível. Os jesuítas. as formações das legendas. a litteratura esluda-se p:jra sa- tisfazer a necessidade do espirito. yfazendo as applicaçijes das descobertas recentes. ÀdJissoUj Dryden. mente descobrir o homem tornando \Taine. uma crea- ção humana. a philosophia da arte. não produziram apesar dos maiores esforços uma obra de arte. susceptível de todas as modificações. os poemas seculares. o caracter normando. reflecte-se em Pope. revelava o caracter do povo que a Esta comprehensão nota-se na tendência geespíritos ral de todos os os livros em voltarem-se ao estudo de todos em ciue o génio do homem apparece mais inde- pendente das regras artiíiciaes. muitas ve- zes melhor do quQ pelas chronicas oíTiciaes que mentiam á verdade para não divulgarem as intrigas que formavam as ephemerides da corte. acanha o vòo espontâneo da . O despotismo de Carlos v e de Philippe n.

espiritualisa as aspirações vagas na poesia. todos os den'eile dos últimos escriptores acham-se particulares da arte em gérmen. delação da atrocidade politica contra o desenvolvi- mento social. o colorido ó como o dos méticos que purpureavam a face das velhas marquezas que provocavam acintosamente a sensualidade do monarcha. as a Academia respeil. o Constitucionalismo l)ragantino. depois de esculptor descobre a pintura.474 HISTORIA DO ROMANTISMO BM PORTUGAL inspiração. . EUe apparece-nos como Lebruu na brun tem a inspiração corte de Luiz xiv. Assim a lltleratura ò como o templo onde íi/cam impressas as pegadas dos falsos sacerdotes que entram ide noite e ás escondidas para comerem as viandas postas ^diante dos Ídolos de barro. na architectura. esculptura. pintura. va-o. Le- do século do monarcha que se dava o sol por symbolo. e é por fim architecto. É pela litteratura que procura- vmos a decadência successiva do caracter portuguez. lèm uôia analogia intima ^èntre si. local como )uma manifestação de um grande mal orgânico. musica e poe- a lei das transformações de as outras. a tempo è como um aleijão que sae da polé e se ri para desarmar os lilteratura picaresca não é mais do que isto. elle borda e entretece cora as ílôres fingidas da sua palheta esta festa lúgubre e forçada do des- potismo devasso. A corte admirava-o. e a lilteratura do seu de é um homem uma seus algozes. uma explicam a transfor- 4 mação de todas em Miguel Angelo se encontra ía successão natural e lógica na marcha ascendente da sua •inspiração.^- tapeçarias pediam-lhe rascunhos. os estofos. É por isso que nos serviremos de um exemplo da pinde Castilho tura. no meio de uma pompa fictícia as suas cos- creações são lambem falsas . as composições tém o arranjo de uma pequena intriga de amores de alcova. As formas sia. para fazer comprehender qual é a posição n'este ultimo periodo da litteratura portuguoza. Para este fim basta-nos to- mar como feitos typo o poeta e prosador Castilho.

e abjurarem da auctori- dade. Mas sobem de ponto cada vez mais as analogias da ^comparação. Não era para aquelles olhos cos- tumados ás trevas das pequenas intrigas o verem o «máretiqueta. como litterato. conservadora da rotma. Lebrun ao menos sabia condescender nias. com uma grandeza ou supenão tiveram ao menos a rioridadc apparente. que ao vél-o disse somente libertada por Perseu. O grupo de Andromeda -Cuja belleza consiste nas formas delicadas. j apreciado por uma mulher. o Milào de Crolona sò — coitado! \ mulher. alma de Miguel Angelo baldeada na côrle de Luiz xiv. era com as villa- por isso o inimigo nato de Puget. o que faz illudir algum tanto . foi per- seguido porque as suas composições tinham forte e enérgico um quê de no meio da mollicia que o despotismo do monarcha gerara. nâo em que cairá. dava-lhe rendimen- tos pingues. . era elle monumentos eram segundo o seu rigia os planos. Puget.» Assim a arte convencional de Lebrun. que cor« A época não via no artista a despertava da lethargia moral uma única reprehensâo. Em paga d'esta transigência. Todos estes caracteres se en- em Castilho Lebrun como pintor. de peitadora dos usos constituidoS. antes a lisonjeava. pequeninas da foi desdenhado justamente no que elle tinha de mais bello e de verdade. e a Castilho como poeta e prosador. res- more de uma alvura de neve. e força para renegarem os mestres. Aquelle génio terrivel. Uma foi sociedade decadente não pôde comprehender a alta inspiração de um verdadeiro artista. é a pequeneza e vulgaridade d'aquel- Íles que se deixaram influenciar. de creação profunda. e o despotismo sobre os outros artisla^i que queriam competir com contram reproduzidos Tanto a elle. Luiz xiv chamava-lhe um obreiro mui caro. não a ene lhe acerava os desejos. a gloria e commodava.CASTILHO 475 alvitre.

como o estylío é o mais alto gráo a que o como comprehendeu a antiguidade que litteratura. Ella lucta para apoucar os génios firmes de Lorrain e Poussin. era ^ uma maldição continua a toda a innovaçâo. qual o seu ideal da poesia. qu'elle «'accordait Irop bion avec los instinots du la foulepour ne paá concourir à raiiinier ce peuple. a liberdade da moderna Europa. parece-se cora esses não envere- monges bretãos que tmham \cebido o bastão do peregrino que dava uma perpetua 1 Efta misíío parece ler sido adivinhada admiravelmente por Qiiinet ao descrever o mfvim^^filo de inspiraçAo nacional. as qualidades que o fize- ram estyllista. à moins quM ne sa Irouvái à point nomnné quelque grand uaeurlrier pour Tassassiner au préalablo.í 476 HISTORIA ©O ROMANTISMO EM PORTUGAL immobilisadora de todas as tendências. qual a sua primeira inspira- ção. 5í). Glande franceza tem de mais As transformações no seio de artisticas levam aos mesmos resul- tados. mais un cri d'e?pi. curado formação do seu talento como e em que tempo appareceu nas lettras. o que a arte bello. Castilho. determina-se a influencia que exerceu na mediocridade dos discípulos. Tendo prolitterario. t. procla- flia-se o pontiíice da immobilidade e da rotina. como es- tes espirilos inertes e tros. Le Sueur. depois de todos os esforços para a formação de litteratura uma um povo que aspirava. elevou o esforço. Assim cabe perfeitamente na litteratura a Castilho a parte que tomou ini- moderna. íos caracteres d'aquella infância de sua alma yihece. p. — .ranco. ser o ultimo e mais declarado migo da revolução moral chamada Romantismo. e tempo o que mais corrompeu a geração moderna pela sua 4 ao mesmo falta de consciência litteraria. apresentaremos os symptomas de uma de- generação lenta que se operou de dia para dia em Portugal. renegando as ideias do seu tempo. a todo o espirito independente. * Em todas as composições de Castilho apparecem sempre . na litteratura porluguoza de 182 a 18iG: tque cetio lilleralure n'étail pas une oeuvre d'académie. x. sem coragem que desanimam resume em a si todos os caracteres de Lebrun. ao cabo da os ou- lucta. e pela adoptara.» Oeuores.

As suas Heroides. wlio lliough blínd from bis cradio. M Kinsey. are monolonous. bem o conhece e defende-se ella. de Vasconcellos O consummado Gcrmanisfa. ou melhor. A mesma m- fancia nunca lhe deixou ter uma com individualidade própria. He dispiaysi considerable tapoels of Porlupal lent in sonr.) Exiraimos e-<ta cilaçào do livro de J. bas nevertbeiess ioces-santiy applied bimseif (o lho belles-lellres and lhe culiivation of tbe Muses. as good. .-s. é imitador e de preferencia traduclor. nunca nos deixou vêr Como criança sempre desbaratada» mais que os seus ama o descriptivo e o excesso de d'ella colorido. se tem todavia incessantemente applicado ás bellas-lettrns e ao cultivo das Musas. são talvez monótonas. p.ima habilmente torneadas. que Casnão tinha o sentimento da natureza e que a pintava mal. por isso que o Iítío de Kinsey é extremamenle raro. 1829.e olher pieces of poeiry 1 W. and il is only to lhe barmony of his versos Uial be is indebted for bis poetical fame.CASTILHO 47T foi mocidade. bowever. respondendo a este juizo de um estrangeiro: «Entre os poetas hoje vivos em Portugal (18^0) notare- mos Castilho. no eslylo de Ovidio. de facto é muito po- bre de originalidade. London. não forma plano. Dá provas de notável talento em em á geral considerados como bons. are nol generally re^jarded in originality. and bis mode of colouiing is though ibey are bappily lur.dien.» * a como disse. o poeta defendese d'este modo: «este descriptivo é tilho Portugal illustrated. in faot be is very deGcient liis nol afler lhe truih of nalure. Porém esta infância defeitos. vae ao acaso da inspiração. a dependência de amparo tornou-o também moralmente fraco.t Review of the litteraryh'st(^ryofPoit/gal (p. «Among the living Quando no Portugal lUustrado. His Ileroidcs. que apesar de cego desde a meninice. 25. Kinsey whick. M. as suas phrases. e é apenas á harmonia dos seus versos que deve poeta.ied. in aserics o{ I. per- baps. í)23864. postoque sua f. in lhe style oí Ovidis one araong lhe mo?l remarkable of bis woik. e o seu modo de colorir não é con- forme verdade da natureza. ó alguns outros trechos poéticos. ó digressivo e interrompido de incidentes do discurso o estylo. que todavia não uma são das suas obras mais notáveis. linee. may be remarked C-tíJilho.

e o uso dos versos com leira pequena. O Methodo repentino é nobre na intenção. ou o seu ponto (informador) não houvessem de se me avantajar muito. anjo. 2 ^ Quadros IJiníoricos. Já pôde ser que padre Kinsey.478 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL desbotado e de cores pouco vivas e próprias se com o de Gessner ou Kleist se compara. fazendo-o apaixonar por bagatellinhas como um Tratado de Metrificação. como um toda boa. paj». mas piegas. cerca-me de continuo. . mas é o melhor que eu soube eu que nem podia ir-me pelos campos fazendo. deixandoIhe o eslylo e a poesia. pag. . ou quasi. tomou unicamente. tes todos.» Nos Quadros históricos (1S30) lamenta a morte de um modelo de irmãos. íizeram-n'o pirito pueril. p atr. a peito o vingar-me da natureza. nem dis- corremos como Gessner. bem como se esvaíram muitos. 21)0 'í't'ò. de si dizia Kleist. apurar e digerir todos os successos. de lápis na mao. entretido 1 Primavera. na sua vida domestica parecia vêr-se aquelle quadro de interior. caçadas poéticas de imagens. como . se lhes coubesse tirar ás escuras. o maior infortú- nio da sua vida. empresta -me olhos para eu ver o mundo e as obras dos séculos. an- meus projectos. um es- com combinações de Mnenwíiica. Milton entretido pela leitura de suas filhas: «Uma mulher. que o coadjuvava no que dizia respeito ao revolver. o retrato da natureza:»* Castilho descobre em toda a parte esta fraqueza. que é o quem tem principal inenle a obra. A diz perda de sua esposa (1 de fevereiro de 1837) foi como o em um post scriptum de um prologo. ^ Todas estas circumstancias o privaram da virtude masculina e superior da individualidade.»'^ . 40. com uma simplicidade que desarma. toda extremosa. Primavera. uma perda de que em nenhum tempo coração se poderá consolar: aQuebraram-se as forças para continuar no trabalho. de amor e de luz.

porque li- . ca- sualmente. e é a prosa que dá a mais ampla berdade ao pensamento. acceilao texto ircéta forraa: Adde quod Edilis pompa qui funeris irent Arlifices solos jusscrgt eese decem. Para traduzir uma obra de arte é i preciso sentil-a novamente. a tornal-o o seu dilecto. e enterter o vazio do espirito e com o acinte de quem pensa a solidão do isolamento. vi. Com esta esterilidaJe de alma e sem recursos de imagi. Todas as traducções modernas sao . versando-o com mão diurna e nocturna chegou a apaixonar-se por elle. á x Tabula) ée restituiu o le\lo bisioricamente: Adde qucd Edictis pompa qui funeris irent Arliíices solos jus evat Case decena. * um grammatico sem ver o intimo das pa- começa por não comprehender o poeta que traduz. not. Ovidio foi o primeiro que lhe veiu á mão. v. ia-as baralhando pacientemente.CASTILHO 479 Por toda a parte as traducçôes occupara dário na litteralura. 6C0. É e«ta a critica que falia nas traducções de Castilho. Castilho lançou-se aos poetas antigos serviu-se d'esla /abundância de phrases que trazia de memoria ordenadas em forma de vocabulário. expressos nas diííerenles lin- cambiantes das palavras e formas prosódicas de outra gua. Traduziu. trasladar um valor secun- reconheceu-se a impossibilidade de com uma si precisão geométrica para uma lingua os ^sentimentos. seguia ora verso a verso o poeta que torturava. c c por isso que o reconhecem cumo um verboso parapliraseador. em prosa. quando desde e lempo de Golhofredo (Fontes qualor Júris. e inventa por si. ora ^ lhe dava tratos de polé na redundância de parophrases. e quem sabe sentir é creador lambem. nação.servem para estudo. pur isso que se referiam ao direito consuetudinário das Doze Tábuas. sem escolha. lib. Para os 1 Nn traducçãO que fez dos Faslos de Ovidio. como lavras. . por : indefinidos.

d'onde extraíam todos os troposvulgares. era lhe fácil pôr em vulgar essas personificações allegoricas. diz um profundo critico moderno. ne- nhum a livro melhor do que ellas mostra quanto se ignorava antiguidade heróica e divina. Castilho começou pelas Metamorphoses em i84l. epodicas. . Castilho diluindo cada hexametro do Sulmouense em três endecasyllabos portuguezes. mesmo não comprehende mais mesmas palavras são do' que as palavras e essas como senhas as- sacramentaes cujo valor não alcançam os profanos que repelem. cujo processo de poelisação já estava ensinado pela rotina da estafada rhetorica das Aca- demias do século xvn e xvin. p. 17. da epopèa germânica. e a reduzissem a ura ar- mazém de meíâphoras percebe-se.r 480 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM FOKTUGAL que não sâo latinistas. alcaicas. to- das animadas de vagas ideias philosophicas. pag. para lerem Ovidio bastava-lhes qual- quer traclucção ou de Panckouke ou da collecçâo Nisard. Que esses poetas académicos não comprehendessem a fabula. 436) não vendo mais do que brilhantes nadas das imaginações antigas que adoravam falsos numes. porque. perfumados de que uma dama romana dispenderia* voluntariamente no seu toucador.» Agora comprehende-se a fabula como Castilho obedeceu á sympathia que o uniu a Ovidio espirito futd. das Iheogonias do norte. da mais larga e da mais pura poesia. não po- diam por isso partir da unidade das tradições para a lei da 1 Tame. intelligencias em frivolidades. tornará mais conhecido o exemplar antigo? Se elle . tornaram se nas mãos de Ovidio lindos contos ornados de felizes anlitheses. não tinham assistido descoberta dos grandes poemas da índia. «As Metamorphoses. factos que engrandecem o século. Eifai sur TiU-lÀve. espirito e galanteria. sem profundidade. Estas nobres legendas. (Vid. desbaratadas á para as suas odes saphicas. conhecendo pelas explicações do Diccionario de Chompré. pindaricas.

a opinião de Taine sobre Ovídio não precisa de demonstração. das notas dos scholiastes. de Prelsobre a mythologia. Oma Leitão. todos o interprelãram mal. como o povo de meio de ler Roma se riu dos dormentes que despertaram em uma sociedade nova. a moderna antigitU dade. como simples pagão. . quando só se achava ca- paz de traduzir melhor os termos da lavoura. tirado de Jacou. a Arte de Amar é uma composição erótica sem valor. se em Portucem se escriptores lé é ali para commentarem o texto . Castilho insulta-os. as descobertas. Castilho convidou mais de em nenhum livro. até se tornar goslo convencional. muila citação. E CÁ)mo poderia elle comprehendel-o. Castilho vive sente e amaldiçôa-o. legendas e my- thos. ignora o preO espirito moderno ri-se d'elle. n'um mundo phantastico. O século xvi. ne- moderna. Na traducção dos Fastos. Depois dos trabaltios de Kreulzer. e em menor nu- mero de versos? 31 Virgilio não é isto que entre nós se pensa.CASTILHO 481 sua formação. Castilho maldiz todos os traductores de Virgilio: João Franco Barreto. uma lisonja á depravação romana. e tratou de apural-o com commentarios eru- no século xix este homem esforçou-se em voltar ao passado. Leonel da Costa. os successos creações espontâneas de symbolos. Odorico 3Iendes. ainda cá não chegara esse movimento. Barreto Feio. e ameaça nos com uma nova traducção. ha muita minúcia. mas faltara só vistas novas. nenhuma apreciação da philosophia de nhuma interpretação da moderna sciencia da Mythologia. não apparece um único resultado da critica arte. de Guigniaut. deprime o trabalho d'estes homens. nem descobrir como os povos perpetuam os dogmas n' essas religiosos. o direito. tudo o que ou tra- duzido das encyclopedias. pela inclinação De um sente-se do caracter um litlcralo byzantino. um ihetorico da decadência. comprehendeu Ovidio de lhe salvar o texto e ditos. com outros usos e costumes. melhor do que encontra o gráo de ignorância dos homens que gal escrevem.

Depois de se haver estudado a Renascença é que se achou desenvol- vido n'ella o génio de Virgílio. res. Castilho não formou ideia do que seja a Renascença moderna. uma legenda grotesca de Vir- gílio na meia edade. díz-Ihe que um espelho não reflectiria melhor á face.mSTOBIA DO ROMAKTISMO EM PORTUGAL É preciso uma alma pura de avalial-o. Sérvio ou Despauterío. um que o parodia em palavras men- O sentimento de Virgílio só pôde ser comprehendido de- ^pois de se conhecer ^refrescou a alma ^àez tbeologica. Até somente com a bondade natural se comprehende me- . boa por natureza para de raelancholia que nismo. que formam o decurso da edade media. o espelho vem É a alma da Renas- em que se viu representada. simples. todas as emoções que lhe cença. ficou d'este modo privado de lêr o melhor e o mais profundo commenlario de Virgílio. foi. Uma palavra de Dante. Paulo ter como elle alimentou e por assim dizer humana durante todo este perindo de aride sevícias feudaes. um co- nhecimento a posteriori. fazem-no-Po comprehender melhor do que lodos os scholíos de Donato. nem da acção que ella teve na Europa. e chora por nâo chegado mais cedo. tinha mais alma para comprehendel-o do que tidas. por assim dizer. tão apta para receber a doutrina do chrístianismo. A egreja chegou quasi a levantar-lhe alta- vem ao tumulo de Virgílio. toda a inveja. por ti eu fui chris- E Virgílio adiante. para salvar uma alma tâo pura. Como é que a arle é para aspirar aquelle perfume elle presentisse fez com que o cliristia- grammatico pôde traduzir este hemistichio divino: «Sunt lacrimae rerum» quando para el!e um um mister e Baixo Império? uma Ao menos lisonja á corrupção de um novo o grammatico de Ravena. que jurava pela infallibilidade de Virgílio. vendo o perturbado e querendo fortalecel-o.» eu fui poeta. S. Dante diz n'um dos tercetos da Divina Comedia. diriginti do-se ao seu guia: «por tâo.

não conhecia amigos. do que com toda a ferramenta de palavras e synonymias. Castilho modernamente represenla-nos o mesmo que Pope na lítleratura ingleza. verdadeiro moem que as lendas TÍrgilianas são explicadas sob o ponto de visla das origens. Que melhor commenlario de dade céltica. p. os versos de lettra pequena. nem aííeição diante do seu orgulho e vaidade lilleraría para elle a poesia não é mais do que uma gymnaslica de palavras.* é um tra- e tanto como estes pintores chinezes que enten- dem que a verdade da pintura está em saber o numero de Muitas vezes nevruras que tem uma folha. c o apresentarem isto I jque é uma incapacidade como faculdades superiores. com apparencias de propriedade de expressão. e limitam toda a sua arte a servil. um processo meihanico de reproducção as analogias dos caracteres fazem com que conheçamos melhor o que estudamos. em nota. o delo de erudiçio Vide p arlmiravel livro fie Comparelli Virgilio nel mcdio eco. o sr. é por isso que a iodicamos. procurando conlornal-o para o metter dentro do engaste da rhetoríca mesquinha. . feminina. da lima que desgasta as saliências do diamante. linha uma maledicência de homem racliy- tico e descontente. o Cérebro arA B C repentino. Na Quesião Ao Faiisto. Castilho. Virgílio incompatível com 6 acerada por uma inveja incessante. 1 . acba-se a pag. o traductor (io Homero. de 1805. taes tificialy '^ lil- o como o tratado de Mnemónica. 69. 136 da Noite do Castello. critério para avaliar Virgílio. Como a raça céltica o comprehendeu! do que esta bona índole vaidosa. em que. Causas fataes e irremediáveis obrigaram Castilho a per- manecer em uma perpetua infância.CASTILHO 485 Ihor Virgílio. 2 Ksta invenção. Graça Barreio queixa-se de nun^a ter encontrado eaa novidade nas obras de Caslilbo. encobre o vazio do artiílcio. entre nós tem lambem a perfeição da symetria. Quem o accusa por isso? o que obriga a pòl-as em relevo. Do seu génio pueril e infante provêm todas as suas obras terarias. Castilho ficou pri- vado do melhor ductor íiel. Ed.

No remanso da ilha. onde escreveu umas prosas poéticas intituladas Felicidade pela Agricultura. que motivaram folhetos. No meio d'eslas agifoi tações Castilho residir na ilha de a S. contra o qual a rainha champii uma intervenção armada estrangeira em 1847. o homem quem a cultura açoriana mais deveu. e sobretudo lações. tio. As profundas perturbações iniciara pela facção cabralista causadas pelas ten- dências absolutistas de D. D'esta época de permanência na ilha de S. ou o Castilho em zero.— e se- tempestade do absolutismo desencadeou-se com o golpe de estado chamado a— emboscada guiu-se o levantamento nacional. politicas ii. hoje desconhecidos. conhecido pelo nome de Maria da Fonte. O meio influiu uma necessidade absoluta de adutambém na sua mediocridade. em Ponta Delgada. a idyllico. para cujas escolas escreleitura.484 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL ira-- seu anachronismo ductor. sendo a musica de alguns composta pelo amador João Luiz de Moraes Pereira. por convite do Visconde da Praia. Maria que de 1842 a 1846 violência. Miguel. l3 um folhetim politico. que sou seu sapateiro do Pezo o Mestre Manuel da Fonte. dada á luz por iim cidadão depara tudo. Castilho occupou-se em collaborar no Agricultor michaeleme. rudimen- Hymnos. e a virulenta réplica Ou eUf Qu elks. pro- um regimen de duziram Castilho um levantamento popular nas provindas do norte. . a abundância estéril do seu estylo. mittido que tem tempo da Regoa. e as Noções veu os Primeiros exercidos de tares. Logo em 4848 levantaram-se em volta de Castilho ruidosos confliclos Jilterarios. a tendência irresistível para ir necessidade de pela mâo de quem teve primeiro o trabalho de pensar. isto é. co- operou para a fundação da Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes. A de 6 de outubro. vários com como o Thcccl. É uma das infâmias da monarchia. crevida por mim. Por este tempo es- escreveu e um opúsculo de 57 paginas intitulado Chronica certa muito verdadeira de Maria da Fonte.

em intercalar na sua paraphrase uma pequena em redondilhas.. Armand Dumesnil. António de Castilho. guarda-mòr da e sob o \ ' Torre do nome do Tombo amigo do quinhentista António Ferreira.CASTILHO 485 Miguel resíilton a tradncção ou apropriação do drama fran- c^z Camões de Victor Perrot e tijhogiiiz fazer passar por original al6 18i9.» Chama-se a impor como opinião uma primeira emoção critico irreflectida.4 dignidade das Letlras e as Litte- acha-se iim extraordinário juizo critico d'este trabalho.. como se vé no artigo criticOy O Dr. do Ensaio biographico o Auto da boa estréa foi então intercalado na paraphrase do drama ' Op. composto Dr. O drama Camões não conhece sua mãe. que excede muito o Camões de Garrett no estudo da época..nhêira. salas amplas e luminosas de isto um maravilhoso palácio de poesia. 43. Castilho e a única admirável e —o drama Camões. na interpretação do verdadeiro caracter do heroe. Confrontou o lugueza? o texto írancez com a paraphrase por- Nem suspeitava da existência do drama de Perde Castilho paI rot e Dumesnil. e no grande espirito poético e * dramático que anima todas as scenas. ama uma filha do Conde da CaslaI que ainda encontra viva no regresso da índia re- cebe esmola de tentou-se uma preta. Icomposição que fingiu achada por Luiz Filippe Leite e que Iservia para illudir a boa fé critica de José iMaria da Costa le Silva. na intelligencia intuitiva do génio da nação. p. que o sustenta. Castilho con- comedia . Conseguido este fim. Nunca se dirá bastante d'esse livro surprehendente. suppondo-o orignial: «K um dos mais for- mosos dramas do theatro portuguez inatacável obra do sr. . . António de Castilho. O Auto da boa estrêa. cit. qne CasNo opúsculo de Aiilhero do Quental roturas officiaes. e por isso as deturpações receram lhe surprehendentes intuições de génio é falso diante da historia: que morrera de parto! .

cia. Da. 2 Chave do Enigma. governos e padres. são os pri- meiros a impedirem tudo quanto possa embaraçar a emancipação intellectual e moral. Castilho fez Leitura repentina. a leitura ficará sempre arte estéril e uma uma aptidão sem destino. envolveu-se um grande ruido sobre a em poleniicas virulentissiem apostolo indo mas^ como nha) a Tosquia de nm camello (José Crispim da Cu- em 1853. LeJmare. ilha Durante os dois annos de residência na de S.486 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Camões. Romcro Ortiz no livro La literalura en el siglo xix. ^ e conseguindo por fim ser nomeada Commissario geral das escolas do Methodo repentino. arvorou-se ao Brazil em 1854. Jse é que não vale mais. o que não vale menos. p.» '^ Infelizmente Castilho sobreviveu inefficacia jo bastante para vêr provada a da apregoada ma- (ravilha. no seu pequeno livro intitulado Leitura repentina. a critica de Herbert Spencer contra a superstição usual que faz julgar a leitura como o fim da instrucção. Miguei /é que Castilho se apaixonou pelas questões de pedagogia.e»mo engano. pelo que recebeu até á sua morte um conto de réis de ordenado annual. por que houvesse portuguezes futuros. \Methodo para em poucas lições se ensinar a ler com recreacão de Mestres e Discipulos. i»55 e iSoG. Mas aproveitando a superstição usual. e notando que os Lusiadas continuavam a ser o * Ainda em 1870 o sr. ie em Í8o0 iy^nsíoymsi o Methode de Lcctiirej de Mr. 212. Nós seguimos í . * Eis aqui a única obra inatacável de Castilho. se os que dirigem a instrucção publica.^sua invenção dizia Castilho: «Também eu mas forcejei íiz uns Lusiadas. se- gundo a critica de Anthero do Quental. Com o tempo Castilho persuadiu-se da propiia originalidade. e a sua tentativa começou a ser chamada Melhodo portuguez Castilho. sò uns. foi esla carta de alforria da puerí- Não cantei os portuguezes passados. . ^ CarU de 29 de março de 18C7 á Gamara municipal de Selubal. • caiu no n.

António Feliciano de Castilho. atacado como imitador do methodo de Castilho n'estas phrases: «Faremos ver que tudo. porque a nossa infância foi passada sob nossas escolas. é essencialmente filho do Methodo por tugiiez. Cas- }tilho visou a uma acção directa sobre a litteralura portu- 'jgueza. Quando em cima o páo lhes vem Mas vilo quasi calarlinhas Quando carapuça lôm. Jayme. / Conseguido o Commissariado do methodo repentino. Tozeiam . . 9 João de Deus replicou com uma fina ironia. que ainda sob outras formas se conserva nas A pancada passou de moda. u. mais vezes incomparavelmente. (sem páo. e resto persistente da tradição do ensino jesuítico. como sem páo em cima. o.) e não indo quasi caladinhas quando têm carapuça. que era parte obrigada da pe- dagogia portugueza. atacou o poema como não servindo nem sequer para cartilha de escola. * João de Deus. i. a pressão d'esse terror branco da disciplina das primeiras lettras. que «Do Methodo apenas uma um dia me recitou com admiração um fervoroso apostolo do celebre pedagogo: • A. que por aí tem apparecido de methodico e racional. achava-se só em campo. é certo que vtzeando as vogaes tanto com páo. eloquente nos protestos contra a pancada.i «Sem querer por esta particularidade julgar da analyse que presidiu ao trabalho do sr. le desde 1859 Herculano fechára-se em um silencio syste- 1 Carta preambular do poema D. que s#tornou foí também um apostolo da leitura. e. Garrett fallecera em 1854.» Castifoi lho no meio da sua estéril propaganda.CASTILHO 487 que eram. e não foi pequeno progresso. que encerra a critica do prosei cesso para a leitura repentina: regra. nem a íórma nem a ideia me convidavam a utilisar-rae.

da» Lendas c Narrativas Herculano reclama para Garrett e&la primazia. Faltava-Ihe tudo para ser dirigente. tendo fatalmente de produzir • em dado tempo os seus resultados. Ovidio. uma ou breve da lido infallibilidade do mes- ninguém podia ser sem trazer a chancella sacro- santa só obtida por bajulações e negação absoluta de novi- dade. um pontífice litterario. como quem sabe que se lhe disputa arteirameole o seu logar. em 1861 foi Coimbra visitar os sitios poéticos da sua mocidade. (1866) Georgicas de (1867) l sem a mínima acçSo sobre o espirito publico. Virgilio. (186^) J (1862) Lyrica de Anacreonte. Cas- o seu rebanho todos conformes em dar e receber o incenso de apparatosos duetos. (1858) Arte de amar. e novos . que era elle e nao Garrett o verdaillusSo deiro príncipe da poesia moderna. . Reinava a doce paz no santo tilho e mundo das lettras. de livros atrasados. pas- sando bullys de indulgência aos que se apresentavam nas Era moda trazerem todos os carta livros que se publicavam tre. Comtudo a lilteratura da Europa avançava. como Os Amores de Fastos de Ovidio. e rio ^^ em um saráo littera- no theatro académico recebeu as homenagens da nova litteraria geração. e com a anedocta philantropica que se a liga á Epis- i tola á Imperatriz do Brazil. o trabalho da |sua ultima época (1858 a 1875) foi exclusivamente de } Iraducçôes. Um dos seides que o cercava chegou a sustentar na Re- vista Contemporânea.« vol. odiando todas as manifestações litterarias.* por uma doce da edade veiu a considerar-se lides da imprensa. Foi então que appareceram alguns escriplores desconheci- 1 No l. j ' Com a propagÉida a favor do monumento a Bocage em Setúbal em si 4857. princípios foram introduzidos no mundo pelos pensadores.488 HISTOEIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL malico. Uma : cousa lhe restava para impor a sua supremacia litteraria em ambos os hemispherios —o estylo. o nome de Castilho avocava a ^ a admiração dos novos.

se nâo podiam fazer accusaçôes de galUcistas. descobriram outra zir — de nebulosos. as sciencias naturaes. que o principal trabalho dos philologos francezes. tem experimentado um impulso brilhante. pela lingua- gem vernáculíi. como tal incomprehensivel ao vulgo. a critica sobretudo. os sá- bios de Alem-do-Hheno deixaram a lingua latina. Introd. que pensavam e escreviam com independência.CASTILHO 489 dos. dedicam-se a esta obra de interpretação e de iniciação. exaltam-lhes o valor pela clareza e com essa forma * com que as revestem. tem necessidade de ser seria- mente preparada. antes de curar em con- tinuar esta corrente de estudos. e que * Bistoi^a da Litter. Grandes talentos que pareciam destinados a abrir vias novas. Accusaram-os do crime de introdu- o e«:pirito allemão na litleratura. inglezes e italianos será cora effeito o de implantar e aclimar nas suas patiias as con- quistas positivas da sciencia allemã. por isso se pensava. ha mais de sessenta annos. É o que se comprehendeu. franca e altamente se reconheceu ha alguns annos para cá. Crime estupendo. mais susceptível de exprimir todas as biantes do pensamento. .» Estas palavras de Hildebrand exprimem o facto que caracterisa a transformação do Romantismo na Europa. usada nos trabalhos eruditos pelos Scaligeros e Wolíius. N'um estudo sobre Otfried Múller. diz Ilildebrand. e a vereda que ainda se y^ conhece lâo imperfeitamente. greg. estendendo á Europa civilisada riquezas que só pertenciam a um povo. era já preciso delel-os nos seus Ímpetos iconoclaslicos (18G")). e o de que se occupam com um notável desinteresse. A Allemanha. a philosophia. o tradaclor da Historia da Litleratura (grega: «Por muito tempo ainda. tornou-se camque era aquella em que uma espécie de álgebra. de que tèm sós o segredo. tem-se tornado a iniciadora da actividade intellectual da Europa. xxvi.. os estudos históricos.

sem com tylo o meio social. mas sem nos darem uma commu- . mas de perverter nhar os talentos provados. É por que pôde já ser historiado nas suas três phases critica. democrática e phiíosophica. agarrava-se ao primeiro vro qne lhe caia debaixo da mão. e a synthese do talento resumia-se n'esta phrase: um es- á procura de foi novo uma ideia. Como tência se todos os a media da existornam retardatários nas suas opiniões. que o RomanPortugal o primeiro ataque tismo emanueiicq recebeu em poesia a primeira aproximação da sciencia e da' philosophia. um intuito. na lucta litteraria conhecida pelo nome de relação Escola de Coimbra. Tudo quanto era medíonão com o inluilo de animar o juizo e amesqui- os talentos indecisos. Diante litteraria. como não indifferença pubhca e das conspiisso provinha dos indivíduos mas da época.490 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAI. cre achou apoio em Castilho. e dos que se lhe se- guiram só deixou cair equívocos monosyllabos. Hoje era espalmado Anecreonte de uma traducção franceza em prosa para sonoro- sos versos portuguezes. Castilho a manifestação homens que ultrapassam condemnou da moderna intelligencia portu- gueza. desde Í8G5 até 1875. e arvorou-se em chefe. um qualquer li- espirito de revelação artística. dos impulsos de iniciação tornou-se mais ferrenho tra- ductor. e traduclor na forma quasi inútil de paraphrasta. o seu triumpho consummou-se apesar da rações do silencio. Estavam acostumados entre nós a considerar a litleratura como um divertimento. como o vimos nas palavras de Gervinus: «transição da poesia para a sciencia e do Romantismo para da critica. O movimento d'esse espirito acompanhado em quanto deu escândalo.» Foijem J8G5. do grande grupo dos auctoritarios que consti- tuem a Pedantocracia portugueza. escrevia-se por uma liabil curiosidade. As traducções não tinham um íim. mais cedo se operou na Allemanha. e a a critica. Castilho nunca disse uma palavra do grande J}TÍco João de Deus. em que morreu.

amanhã atacava de Molière recebendo da Academia das Sciencias os proventos jde metade das edições. a escola revolucionaria esmagou-o. e que a mocidade o evitava.CASTILHO 491 as comedias nicação . O juizo acerca do seu mérito resume em uma palavra. e uma qualquer edição franceza. Sonho de de S. \ d'essa concepção baseada sobre as tradições celto- saxonicas! Castilho sentiu perder-se-lhe o seu poder espiritual. a sua morte teve essa opportunidade. com o ideal da Grécia. sem a com a mais ingénua conQssão nova ' de ininteiligencia da obra. . que Augusto Comle considera necessária de todo o progresso uma condição humano. imagine se convento. c a todos os seus defensores. e para aíFirmar que também tinha o sentimento romântico. que se conservará como a fórmula delinitiva da sua individuahdade litteraria — era um árcade poslhumo. que se es{)all)avam com abatimento por lodos os alfarrabistas. abalançou-se á Iraducção do drama de Shakespeare. traduz o Fausto de \ Díjinima preparação prévia. Não se querendo dar por vencido. João. Esta versão foi-liie fatal. por íim lembra-se de Goethe. lislica i uma noite i como um acanhado humanista de comprehenderia a elevação ar- l sem saber inglez. na l chamada Questão fausiiaíM» a q^^e adiante alludi- remos.

e rio. nos estudos históricos contentavam-se com phrases de flectiu um patriotismo banal. Andrade Corvo. e sna presistencia Periodo de critica histórica e comparativa. e em philoso- phia contentavam-se tão. e disciplina ena opinião positiva. A Sociedade Philomatica teve o vicio orgânico da emphase rhelorica. poesias pelo gosto da escola do \ Trovador de Coimbra. (De 1863 a 1872. mas eleva- . continuou-se a escrever ro- jmqnçes ] históricos.) lho. á qual pertenceram Rebello da I Silva. trataram de /seguir as pizadas dos mestres. á maneira de líerculano. e uma clara comprehensâo das necessidades moraes da sociedade porlugueza. propagado ao Poractual. criticas littera- rias á maneira de Castilho. António de Serpa. Luiz Augusto Palmeirim. a apatliia ineotal do atrazado meio romântico —Pliases da Escola dissidente de Coimbra: a) Período da indisciplina poeiica na Universidade. Latino Coelho. c) — — Periodo Sob a influencia dos três principaes vultos da transformação romântica da litteratiira porlugueza. Em vez de se porem ao corrente do movimento scientiQco da Europa. A esta mesma phalange pertenceram os jornaes Uitterarios A Época e a Semana. que se re- essencialmente no lyrismo d'esse tempo. do fetichismo liltera- nâo tratou nenhum 'socio de adquirir para o seu es- pirito uma qualquer politica disciplina philosophica. formou-se em I 1 Lisboa uma sociedade com o titulo de Philomatica. com o theologismo-metaphysico chrise idolatravam em eram todos monarchicos sem motivo a casa de Bragança. enlao ainda jovens. 6. e cheios de I esperanças.492 HISTOaiA DO romantismo km PORTUGAL g Hl. Lopes de Men- i j donça.) — A pedantocracia portogueza — — Dissolução metaphysica da Escola de Coimbra contra dirigida por CasU* de sentimentalismo democrático em Lisboa. to. Mendes Leal.— O advento da Pbilosopbia positiva. os jovens escriptores nSo a elevaram. Faltou á Sociedade Philomatica o conflicto de opiniões.

Rebello da Silva publicava umsi Historia de Portugal subsidiada pelo gover- no. Latino Coelho seguiu a mesma vereda pelo ministério da guerra. A Sociedade Philomatica converteu-se liga espontaneamente n'uma de ambições politicas pessoaes. tornam-se jornalistas do mesmo partido moque narchico. etc. Todos os movimentos sociaes provêm na maior parle das noções que motivam os actos da vontade individual. O periodo do Elogio mutuo corria sem protestos. era o legitimo and Draiig do romantismo. o publico costumou se ás celebridades nâo discutidas. se se uma fornia de governo se es- terilisa. Quando um dia a província reagiu contra este foi marasmo mental. dissolvendo as admirações. uma lilteratura decae na corrente da mediocrilittera- dade. esteriiisando-se nas transigências da ambição do poder. essa tura nâo têm ideias. o facto repellido em Lisboa com uma virulência desesperada. e representantes do povo por chancella official. e sem trabalho scientifico apodera- ram-se de todas as commissões rendosas da Academia das Sciencias e dos differenles ministérios. Todos se si julgaram grandes homens e talharam-se entre purpuras do génio. Como provocar n'estas condições moSturm interesse ou curiondade pelas ideias? Agitando os espíritos.CASTILHO 493 ram-se a si. . quebrando os velhos delos ligados a ideaes de convenção. e inspirada por aspiração da com uma litteratura banal e sem inuma ignorância absoluta de qualquer sociedade. é porque essa sociedade. se uma sociedade estaciona. porque a imprensa de Lisboa illudia systematica- mente a província. É o que se observava em Portugal. perante o paiz fez-se por muitos annos um simulacro de opposição parlamentar. vi- clima de um constitucionalismo conservado pela ausência de critério tuito. Mendes Leil continuava na Academia as collecções encetadas pelo Visconde de Santarém. politico. escalaram por turno. esse governo.

em que preponderava ainda lilisar-se a indisciplina metaphysica. a terceira phase. acaa perturbação revolucionaria. 122. que foi inu- no mysticismo societário. trada exclusivamente poética e metaphysica. 2 lleíerimonos a ura discurso do sr. ' Primeiros Principies. em Coimbra. critica dogmática moral. Divide-se rísticas esse em três phases caracte- critério intellectual: foi movimento inaugurado pela renovação de a primeira phase. contra a ordem politica e até contra a Spencer: «Nenhuma revolução nas ideias se lacera. que levou os phenomenos apparentemente desvairados da politica a subordinarem-se ao critério da Sociologia. contradiclar a litterarios.çâo» ./ bando com O único ponto do paiz onde se julgaria encontrar algu- ma actividade mental. que se converteram e em polemicas acerbas em violências maleriaes. concen- em Coimbra. segunda phase. p. Diz dos parallelos era como um atlentado contra a pátria. manifeslou-se no Porto tóricos com a propagação de trabalhos hiscritica em que se applicavam os novos processos da comparativa. que começa a um em 1865. e que por algum tempo conhecido pelo nome de Escola de Coimbra. chegando até a eccoar no par- lamento portugnez os presagios por esse symptoma de dissolução 1^ Ê tempo de foi se estudar este movimento de dissi- dência. iniciada em Lisboa peias Conferencias democráticas do Casino.494 HISTORIA DO BOMÁKTISMO EM FOBTUdAL intel- Proclamar qualquer ideia no meio d'esta beatitude lectual do Elogio mutuo. . data de 187 J. alguma aspiração generosa. originado pela inlroducçâo de um espirito novo em Portugal. até que começa a nova orientação mental pela propagação da Philosophia positiva. que começa em 1808. era n'esse foco de mocidade e de eíilorescencia moral. Thomaz Ribeiro. faz sem di- por isso algumas aílirmações dos escriptores dissidentes de Coimbra em 1805 provocaram sarcasmos dos * velhos mestres.

foi-lhe entregue uma Felicitação filhos assombrosas palavras: «Os paiz.. vinte annos. em um tal gráo de inconsciência. e das phra- com as mãos ses incisivas era estylo de canlo de papagaio. e aflirmava a sua aíTeirão ani- quilando o fuluro. um braço e uma ideia para vir depor como oblata n'esse trajecto. João vi: «Saem do coração as manifestações da vossa dedicação. que tem uma crença. arvorando-se em antigo poder pa- do velho estylo da chancellaria de D. formadas do que ha de mais vigor e de mais fuluro em cada provinda. aos pés da sua Rainha e do seu Rei!» parates. e o anciado estremecimento dos grandes júbilos! Passa o Hei e a Hainiia de Poriugal!. o seu successor passou por Coimbra. e por uma commis- são composta além de outros estudantes.CASTILHO 495 entre as gerações académicas. A Academia O rei respondeu á Felicitação. A mocidade percebia assim a historia. Logar pois á Academia de Coimbra. Do coração as agradeço e retribuo. onde se lêem estas da Universidade de Coima bra. de Vieira de Castro. ao tactearem n'esta hora com mâo o solo do seu sentem lá dentro no coração de lodo elle a febre ver- tiginosa do enlhusiasmo. que aos mais invejáveis titulos . Quando depois da morte de D.. a Minha grande família como Rei. Infelizmente a morte politica infligida a Portugal com a intervenção armada em 1847. Pedro V absoluto. quanto mais espontâneas.y> E antes de concluir airirma. mica jazia a mocidade acadé- então na mesma insensatez. alma de alma também enamorada. Pedro v. da Academia A baixeza excede os dispelo chão. de Coimbra estava ternal. quando entrámos era Coimbra em 1801. quanto abrangem ludo o que no mundo Me disvella— a Mmha família como homem. ainda che- gámos a ver coladas pelas paredes proclamações impres- sas que diziam: Viva D. tanto melhor.— Retribuo-as e agradeço as tanto mais. trocista e sem compreliensão das necessidades do seu tempo. pezava também sobre a mocidade de Coimbra.

e compreheodia-se a historia pelas narrativas emocionaes de Michelet. Essa reacção manifestava -se pelo protesto. e Carlos. a tudo. com o seguinte íuiidametilo: «Voar depressa ao centro da familia para juntos orarmos a Deus pela áiialarão das vidas do Bei e da Rainha de Portugal. Carla Dom senso e bom gosto escrevia Anlhero do Quental atacando a pedantocracia: «Refundem-se as crenças antigas. em uma atmosphera de ideias recebidas de Proudhon e de Hegel. pela formação de sociedades a de livres*pensadores como do Raio. re- do Quental. que se applicava á critica litteraria. confundindo as novas ideias versatarios que com os disparates de linguagem dos uni- «tacteavam o solo do seu paiz. para o céo dtijar cair orvalho benéfico sobre a existência tão rara e tão necessária do prín- cipe I).» Os poderes puldicos n<1o se achavam enlào n'eálc grão do idioa Keprc«eolaçào nào foi allendida. tjnha ainda a incoerência de ideias e preoccupação do eslylo. tia. de que nunca se Jibertou. por uma linguagem cheia de aspirações servidas por uma metaphysica. destituindo os nebtdosos. Desmoro- nam-se as velhas religiões. e que reagiam ousadamente contra a dissolução d'esse deplorável meio. e a poesia pela audácia Vivia-se descriptiva de Victor Hugo. e lançou-lhe um raio da sua cólera clássica.y>*- amigos do seu d'esta geração Ninguém poderia suspeitar que no meio nulla. As instituições do passado aba- 1 Um documento ainda rriais vergonhoso para a mocidade académica.» Anlhero intuitos litterarios. Geram-se com esforço novas ideias. é esía RepresenlaçAo de abril de 186Í ao Kei. Castilho presenliu que não podia ser adorado n'esse meio mental.496 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL e dos soberanos são hoje (1863!) os de pães povo. pedindo-lhe o perdão de acto. pretextando abstenção de plicou de um modo directo aos apodos de Castilho. á politica. existiam consciências isoladas que se insurgiam. . á poesia. mas essa produziu jNa réplica em forma de caria uma grande impressão sobre o publico. como o da inquisilorial Sala dos Capellos em !802 contra a disciplina da Universidade.

das. E. sã.CA8TILH0 497 lam-se. entre estas duviabalos. nada ha mais eíficaz para estimular a apathia mental do que a seducção artística. mais toda tristes. das e. e n'ellas se dispenderam os primeiros esforços. E nilo nos percaiuod em especulaçòeg philosopbícas sobre as origens. das. de que na confecção arlifícial dos nosí^os systemas. menos ambiciosas de bem. íla traliir uma Humanidade em dissolução. de que é preciso exuma Humanidade viva. crente e formosa. das rendosas conezias das prebendas. as almas sentem-se menores. as causas ou os antecedentes d^e." serie. 1. Para — este Iraballio é que se querem os grandes homens. as «fperançiis que d'aqui podem advir. Sairão esses heroes das Academias lilterarias? das arcádias? das sinc-curas opulentas? dos corrilhos do elogio as águias das capoeiras? Saltarão as ideias salvadoras mutuo? Sairão do choque das maledicências e dos doestos? Nascerão as dedicações do crusameulo das vaidades? Darão a grande novidade os ledores de Horácio? Inventarão as novas formulas os que decoram as phrases rabugentas dos livros bolo- rentos que chamam clássicos? E os Sócrates e os Epicte- los descerão para as suas missões das cadeiras almofadalitterarias. é mais provável encontrarem-se as condições que precisam para viver e crescer os pirito homens úteis e necessários ás transformações do es- humano. menos dispostas ao sacriGcio e ás abnegações da consciência. nem sobre os perigos.^te facto. Corroa Barata. O futuro não apparece ainda.» A Carta produziu um grande effeito pelo que linha de brante vaí?as generalidades envoltas em uma deslum- pompa oratória. era a edade das expansões lyricas. e como a edade heróica do pensamento. 1 * o creve ^ohre esta época: Dr. Enlio degladiavam-ce 32 ao- .° 1. quando não corrupta pelo menos esterilisadora. Tinha o seu lanlo de evolutivo. 1879) es«Em quo psze a muitos é forçoso reconhecer e^la grande rnelan)orpho!=e. estes estas incertezas. Estejamos certos de que na determinação serial do futuro que ^e prepara ba mais lógica. na Revista de Coimbra {n. «Eu jà quasi não cot fui de uma época que era considerada entre os academi* escolas. explorações?— Fora d'essa atmosphera corrupta.

que fnão sabia converter a sua aspiração revolucionaria irresponsavelmente essa aspiração. como a Polónia e a Irlanda. republica- na-vermelha. cantaram-se as revoluções sociaes. para dar-lhe formas mais espontâneas e vigorosas. e o em opi- nião democrática. humanitária. Para luma mocidade que não estava acostumada a pensar.» . imagens mais profundas. Anthero do Quental. o erotismo amoroso substituiu-se pela pela hallucinação e enthusiasmo pela paixão do sacrifício. que estes pliilosophos lambem foram no seu paiz como que os semi-deuses de uma era mythologica. que precedeu ás ideias democráticas. emfim alargarIhe os espaços da idealisação. para tirar a poesia do sentimentalismo egoista. Assim ficou a poesia transal- formada nas suas normas para receber as sugestões truístas provenientes da moderna concepção positiva do dava em voga a philosophía dos Kant. Cantaram-se as dores dos povos oppressos. pela primeira vez na litteratura por- lugueza deixou a poesia de inspirar-se do ideal do christianismo. D'es8e tempo são. verdadeiras e pittorescas. liberdade. Diz Jules Soury. provisória. já aoffreram e?ta transfiguração que os aproxima do positivismo das concepções hodiernas. O lyrismo pessoal envergonhou-se das pequenas emoções do individuo e vibrou os grandes protestos humanos . foi rasgadamente anti-clerical. os srs. a phase dia deixar de sêl-o. os quaes. se me não engano. e nem po- mas exerceu a acção fecunda de um im- pulso novo. entre outros. e Jas novas formas politicas da Hespanha e da França. dos Hegel e dos Fichle. a poesia era o único meio de exprimir modo mais efficaz intuito. socialista. Dos brilhantes espirilos que sairam então da Universidade. Cá como lá passaram essas imaginosas theorias do mundo.498 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL A indisciplina metaphysica iniciada pela escola de Coim- bra na forma de aspiração revolucionaria accentuou-se principalmente na poesia. alguns ai eslâo bem conhecidos. de orientar os sentimentos no sentido de um mais elevado No Parnaso portuguez moderno esià representada esta phase^volucionaria mas importantíssima da poesia a adliesão consciente e positiva foi portugueza. e etc. do homem e das cousas.

e o seu destino real de fé. não se pôde ficar inertemenle rapaz de esperanças. e foi por essa via. com colorido. era fundar uma disciplina critica para dissolver a falsa admiração. inlelleclunl. com vigor. e só lhe se fortifiquem por falta que os talentos que a modulam uma educação intellectual. metrifica-se bem. e era preciso aproveitar certa hostilidade da opinião publica para lhe fallar a verdade sem rodeios. A sia. depois d'essa phase revolucionaria. uma das priíicipaes causas d'esle século. As Odes modernas de Anlhero de Quental representam o pri- meiro impulso revolucionário. ambos são accorem negar a mentira.CASTILHO 499 universo. comprehendeu primeiro do que ninguém a necessidade de dirigir o senso critico. com audácia. A primeira cousa a fazer. parte d'este seguro ponto de vista: tico ligado ao senso moral por liames profundos. Francis Jeífrey.» Na historia intellectual da Allemanha^ como o observa Gervinus. historiando a vida d'esse em Inglaterra. a elaboração poética do romã naio dissolveu-se em critica e sciencia. . da nossa decadência No começo quando os factos da Revolução franceza tinham desorien- tado os espíritos. amar o que merece ou impõe o amor. emfim dar á vida humana o seu fim serio. revistas litterarias se já mesma corda sem mocom uma certa uncção mystica de justiça. acreditar no que merece crença. sendo des um o modo intellectual do outro. homem extraor«O senso cri- dinário. e a elle se deve o deliberal senvolvimento e triumpho do partido Philarète Chasles. muitos outros livros e inuu- meras poesias dispersas pelas ephemeras dos últimos quinze annos. o fundador da Revista de Edinbourg. a poesia paira em vez de arrastar-se. ou antes. pulsam a notonia. inaugurada na poeestava sujeita a uma grande responsabilidade— uma o tra- balho sério. Escola revolucionaria de Coimbra. e pódedizer com alguma influencia sobre o espirito publico. de pensamento e de acção. para que cada um possa assegu- rar as bases do verdadeiro.

dirigi- da por Dubois e Jouífroy. lilteraria e scientifica n'este paiz como que aífastado das 1 Tal foi o pensamento da colleccionaçao do Cancioneiro e Romanceiro gera^ portuguez (18G7-1869) da realisaçao da Historia da Litleratura portugueza (1869 a 1871) e da crítica comparativa na revista Biblíogrnpbia da Historia e Litteratura. e ver até que ponto está de accordo com as ideias. a base critica consiste em começar o seu estudo pelo elemento tra- dicional. histórico. comtanto que se descubra o determinismo dos seus actos. para as Litteraturas. que esse espirito orientado pelos princípios de 1789 pôde manter as conquistas da leis liber- dade civil. uma distancia conveniente para serem bem comprehendidos em quanta a pedanlocracia portugueza atacava com a sua longa auctoridade os esforços d^aquelles que tentavam uma renovação Os factos são como os objectos. partindo d'aí para avaliar as concepções individuaes segundo a mais alta comprehensão d'e3se elemento. precisam de . As psychologicas exercem-se com a mesma fatalidade. o processo critico consiste em seguir o s} slema empregado por Eckermann. foi pelos dade processos críticos iniciados pela mocidade do Globo. a disciplina consiste em restabelecer o encadea- mento povos. des. que pretendia restabelecer na sua forma exterior o antigo regimen. 2 No desenvolvimento das doutrinas democráticas interrompidas com 8 morte de Henriques Nogueira. muitas vezes realisadas nas instituições de outros ^ Para reagir contra o felichismo das individualida- que exercem sobre a opinião publica um poder de perversão. Na lucta do espirito moderno contra a reacção estúpida da Restauração em França. o restabelecimento da continuidade bistorica faz preTftlecer o critério etboico do Federalismo. cial Depois da transformação da poesia. A Escola de Coimbra manifestou-se no Porto em uma phase exclusivamente critica. pintar o individuo no que elle tenha de mais intimo ainda.500 HISTORIA DO ROMANTISMO KM PORTUGAL que o po