HISTORIA
DA

i

LITTERATURA PORTUGUEZA

ROMANTISMO

HISTORIA
DO

ROMANTISMO
EM PORTUGAL
POR

THEOPHILO BRAGA
IDEIA GERAL DO ROMANTISMO

GARRETT - HERCULANO - CASTILHO

"\hwy"

LISBOA
NOVA LIVRARIA INTERNACIONAL
2G,

Rua do Arsenal,

%

1880

ilBi^

Imprensa de

J.

G. de Sousa Neves

—Rua da

Atalaia, 61»

subsiste uma forte diíliculdade. Tendo de analysar e auc- aqui reputações que se nos loridade não discutida. ria geral a como disse Guizot. bito. tem sobre a histo- máxima vantagem de possuir e poder mostrar os objectos que pretende fazer conhecer. que nâo será possivel vencer: n'este periodo da historia moderna da litteratura portugueza temos de pé com todo o seu persligio a opinião fundada sobre as primeiras emoções produzidas pelas tentativas românticas de 1824 e de 1838. . Para nós. assim está tam- bém menos sujeita a aberrar da verdade. para não ousar fazer da historia um tribunal de resentimentos pessoaes. De mais. para isso. impozeram por costume e que vemos respeitadas por ha- quando procurámos o fundamento d'essas admirações. Esta opinião está atrazada mais de meio século e em des- accorjo com o estado actual da critica. a historia litteraria.A (lifficuldade de escrever a Historia da Litterattira por- tugueza moderna nâo está em manter a imparcialidade no juizo que se emitle sobre cada escriptor. basta ter sempre presente que se dá uma prova de probidade diante do tempo que julga todos. porém.

apresentamos a j se julgarem offendidos por violarraoa o cullo dos seus idolos litmáxima de Paulo Luiz Courier. é antes um dever. que suspeitava sempre ter quando se via applaudido pelo vulgo. vos prendam e vos enforquem. obrigaçilo reslricla c para todos os que lem ideias. deixaría- mos de escrever.só achamos a com pasmo talentos sem disciplina entregues um humanismo em insciente e sem intuitos philosophicos. As fcriticas acerbas e pessoaes com que temos arrostado em (vinte e três annos de actividade litteraria (1857-1880) têm"•nos fortalecido profundamente. que resume a nossa disciplina moral: «Embora vos accusera.» dia em que nos cercassem os applausos unanimes julgavamo-nos perdidos. o communical-as aos outros para o bem commum. mas conseguindo agitar a opinião *. podeis sem receio publicaI-o. que se im- mobilisa em dogma. publicae sempre os vossos pensamentos. vos condemnem. O fazel-o nilo é um direito. em uma No Adam Smith: «Nada produz uma maior presumpção de falsidade do que assentimento da multidão. tolice conseguiu-se tudo estamos na situa- ção dito em que alguma se achava Phocion. Este livro vae de enconlro a muitos preconceitos e será por isso bastante atacadO. 1 Aos que fterarios.> . porque nos provam a cada carta a instante a phrase de Hume. Foi por isso que essas reputações só produziram admira- dores vez de continuadores do seu espirito. A verdade inteira pertence a lodos: o que entenderdes que é útil.

porque não se inspiravam das suas ori- gens tradicionaes. uma natural fecundi- bem como o seu destino social. que constituo por o trama da moderna. até que a Revolução veiu sacudir este pe- sadello de morte. que durou seis séculos. no despotismo xvuí. no absolutismo do século xvn. . aíTirmando a independência da sociedade e generalisando as immunidades locaes da eis communa tenebrosa na Declaração dos Direitos do homem. houve um profundo esquecimento da Edade Media. se decaiu no cesarismo do século do século civil XVI. historia uma si solução de continuidade. e o espirito da nova civilisaçao xjue os produziu. até que o Romantismo se servisse d'elles para exprimirem conscienlemente as cadesenvolvimento das litteraturas. racteristicas nacionaes. e em que as litteraturas da Europa se exerceram em falso. imitando as obras da cultura greco-latina. e que influiu profundamente no modo de Desde que os dialectos românicos receberam forma escripta.HISTORIA DO ROMNTISMO EM PORTUGAL Como das luctas communaes e burguezas do século xiii. depois de anullado o feudalismo. onde encontrariam dade.

por critério J. que apparece na Allemanha e Inglaterra. du XIX siècle. ou o Romaníismo. trazendo ao da naturesa a noção do estado. Gervinus explica por outra forma a interrupção: «Esta primeira phase de um romantismo inconsciente e ainda não denominado. é que pue em evidencia a connexão histórica com esse período inconsciente. p. Gervinus conheceu a importância d'esta dade morai. a que chamaremos Proto-Romantico. um tal exagero. encetou no mundo intellectual o que a Revolução A ordem politica.8 HISTORIA DO KOMANTISMO EM POKTUGAI. que principiou pela litteratura até penetrar nos costumes. renovando assim as theorias dramáticas. fazendo prevalecer a ideia sobre a forma. xix. pela revolução franceza. da arte e da educação. uma O phenomeno social da revolução franceza foi pre- cedido por um extraordinário sentimentalismo e paixão pela naturesa. Jacques Rousseau. estes dois factos resumem-se na dupla expressão do génio e da vontade naciofranceza iniciara na nal. ao passo que a Allemanha insistiu mais em querer realisar a sua emancipação intellectual. provocou phase espontânea do romantismo. que predominou em- quanto se manteve o regimen espectaculoso e mentido do primeiro Império. ou protolancolia 1 Jlist. proveniente de uma nova a activi- condemnação do falso idylio. e uma mais vasta communicação com o sentimento humano. 141. a simplicidade ábelleza affectada. pelo individualismo da inspiração e pela universalidade relação histórica entre esses dois do suffragio. foi interrompida e atrazada A França só se occupou da inde- pendência politica. transformação das litteraturas modernas. .*» A me- romanesca do fim do século xviii. a espontaneidade á imitação. t. A ' este periodo. por Diderot recompondo philosóphicamente as paixões. Existe factos. suc- |cedeu-se uma reacção pseudo-classica. iniciada por Montesquiea como consequência com o seu enthusiasmo pela constituição ingleza.

» Gervinus chega á mesma conclusão. dizendo. o infligido pela realesa mori- bunda. que revive na sensiblerie da época da Restauração. allemães e inglezes. para os novo-latinos. A Europa solTreu essa estupenda vergonha e atraso systematico restauração. do mesmo modo que as novas instituições politicas se haviam elevado sobre as ruinas do regimen ca- tholico feudal. p. o philosoptio inglez Mackintosh o sentiu: «A iitteratura alte- rna foi apontada como cúmplice da * politica revolucionaria. 20 í. os reis do di- reito divino co!ligaram-se para extirparem os fermentos de liberdade deixados pela Revolução. completando a sua educação intellectual. que essa aspiração era produzida por uma immensa liga secreta. e ligaram-se lambem na chamada Santa-Alliaiiça para restabelecerem na sua integridade o antigo regimen. para a Itália. suspeitaram na sua insensatez egoísta. S. o Romantismo todos os movimentos reaccionários e liberaes da osci Ilação politica. xix. alheio a doutrinas philoso- phicas. t. que o impulso do Romantismo veiu dos povos germânicos. Leon Simon). '^ antes de realisar a transformação politica. p. Foi por isto. que a Allemanha áttinge o desenvolvi- mento nacional. a França. N'este periodo histórico conhecido pelo nome de Romantismo serviu a causa reaccionária. rompia com o passado. rellectiu Na sua vacillação doutrinaria. Depois da queda do império napoleónico. du X/X sièdc. vendo que essa aspira- ção á independência politica se manifestava simultanea- mente em todos os estados da Europa. a emancipação intelleclual conduzia logicamente ao progresso moral iniciado na independência politica. 2 Ilist. •nha e Poi^tugal. propagando se do novo centro de elaboração. for- * Essais philosophiqucs. .IDEIA GEBÃL romântico. sem uma intenção clara do que pretendia. e da pliilosophia materialista. Mas. (Trad. llespa- O Romantismo.

e formaram o grupo dos incomprehendldos. As tor- pesas da Restauração. a que se deu tardiamente o nome de Realismo. para poder tomar como foi objecto da arte o condicionalismo da actividade e das rela- ções humanas. a idealisaçâo cavalheiresca. fizeram renascer nos espíritos mais intelligentes os princípios de 1789. ou pugnaram pela Independência nacomo Thomaz Moore. de UUra-Romantísmo. os satânicos. e essa outra eschola que se distingue por ter sabido introduzir na Idealisaçâo lltteraria os inte- resses reaes da vida moderna. que em deram o nome de emanuelico. Este periodo romântico. cional. Foi o romantismo emanue- que entrou tardiamente em Portugal. e a medieval e cavalhei- em Garrett. e idealisando o ritual cavalheiresco da Edade França media para lisongear a aristocracia que julgava recuperar a os seus foros. como Shelley. Castilho. cuja exaltação sentimental é conhecida pelo nome ne. O fim do Romantismo na Allemanha a . empregada no drarfia e no romance em breve se achou transformada lico o em critica scientifica no estudo das Can- ções de Gesta da Edade media. como uma espécie de Ducis. também conhecido por duas manifestações distluctas. ou o processo deductlvo.10 HISTORIA DO ROMANTISMO EM POETDGAL a exaltação mystica talecendo a propaganda clerical com do christianismo. predominando a feição religiosa resca em Herculano. É esta a ultima phase do Romantismo. que subsiste identificando os seus processos descriptlvos com a disciplina da sciencia. falta-lhe ainda o Intuito phllo- sophlco. histórico. acha-se representado em Chateaubriand e Lamartine. Espronceda. as revoluções li- beraes nos diversos estados. re- presentava o pseudo-clacissimo post-revolucionario. in- génuas e fortes protestaram contra o obscurantismo da Santa como Byron. ou perderam a esperança na causa da justiça. Leopardl e Hei- É este propriamente o período do romantismo liberal. ou Micklevik. as agitações da Inglaterra provocando a implantação do regimen constitucional. as naturesas Alliança.

109. 107.IDEIA GERAL 11 sua dissolução fine: em E trabalhos de sciencia. tal é a que julgamos indispensável para a intelligencia ida Historia do Romantismo em Portuí^al. p. seio da sciencia. niesmo a Portugal chegou essa corrente de disso- lução critica do Romantismo. os Riickert e os Uliland. cil. que Gervinus de- «transição da poesia para a sciencia e do romantismo critica J» para a accrescenta: «Os próprios mestres da poesia. só se explica pela complexidade dos factos contidos sob esta designação. 'ideia geral. taes o to-Romantismo. e reconcentraram-se cada vez mais no França. e com a concepção realista na arte. seguiram a grande direc- ção d'esta época. comprehendel-as e renovar n'esse conhecimento as litterarias <^suas instituições politicas. Dccompondo-a nos seus elementos. Expor as causas que levaram a Europa a esquecer-se das :suas relações com a Edade Media. que todoá os críticos experimentara em definir o Romana incertesa de doutrinas dos escriptoros d'essa época de trans- 2 Ibidem. . que obedeciam inconscientemente a uma neceísidade resultante da transformação social. que comparativo da politica e da lilleratura moderna. os Goélhe. com a erudição cri- da poesia da Edade Media. ^j Egual dissolução se operou em com tica a renovação dos estudos históricos.. 3 A (iiíBculclade tismo. o satânico ou ullra-romantico) e por ultimo (realismo e disciplina scientifica) depois d'esla analyse. o Romantismo relujioso (christao e medieval) beral (nacional.^ 1 Cp. bem como formação lilteraria. p. e arlislicas. como conseguiu descoibril-as. que ainda persiste como no seu ultimo reducto em Hespanha. cuja vida se prolongara até aos novos tempos. a verdade 6i como o ProRomantismo li- a sua Dissolução resulta do estudo eslabelece-se por mesmo.

c) O elemento bárbaro ou germânico. §. pelos dois grandes poderes que dirigiam o tempo. Porque chegou o Romantismo tâo tarde a Portugal. torceram a corrente. criadas as línguas vulgares. Como a Europa se esqueceu da edade media. a administração A egreja modelando a sua unidade sobre in- romana. l>) O que se deve ao elemento christão. As revoluções nacionaes entre os povos modernos. CoDsequeocias coDlradicturias. bem das suas No meado do século xv a Europa .— IDEIA GERAL DO ROMANTISMO § 1. o cyclo das invasões. § 2. deíinidas as formas sociaes. § 4. caracterisadas as nacionalidades. c) Renascimento de um espirito nacional phantastico. in- ventada a poesia sobre tradições próprias. Como foi comíirebendiilo o Romantismo em Portugal: a. Marcha da renascença românica. quando lhe competia dar largas a uma plena actividade. tudo isto foi des- viado do seu curso natural.) Estado da sciencia histórica. Quando a Edade media acabava de sair da elaboração syncretica e lenta de uma civilisação. 6. fizeram como estes proprietários das margens dos rios tornados inavega- veis por causa dos açudes. Causas do Romantismo: A. § 3. § 5. e a realesa fortalecendo a sua dependência sobre os códigos imperiaes..) A erudição medieval dos historiadores modernos: a) O que se deve ao elemento romano. violaram a marcha histórica dos tempos modernos a instituições particulares. quando estava terminado J 1. 1>) Estado das ideias philosophicas sobre Arte. — — — B) — — — O) — — COMO A EUROPA SE ESQUECEU DA EDADE MEDIA. A creação da Esthetica pelos metaphysico?.

Camões imita a . espontâneas e recivili- passadas das tradições mais vivas das luctas para a sação moderna. o renascimento do direito ro- mano interessava a realesa e por isso voltou ao seu vigor. e o latim a pretexto da uni- versahdade tornado a lingua relações official da egreja e das suas clero estava a com os estados. foi de repente substituído pela vontade ou arbítrio real. D'aqui uma impo:ísivel vulgarisação. chamafactos jurídicos dá-so á ram a ás construcções mais peculiares e originaes das novas linguas.IDEIA GEBAL 13 estava quasi esquecida de que provinha da Edade media. passado forma escripla no meio das grandes luctas das classes servas que se levantaram á altura de povo. soíTreram uma aproximação artificial da aíTectada urbanidade. é um problema histórico de alta importância: as linguas vulgares foram bani- das da participação litúrgica. e das imitações de Fénelon. Ariosto ridicularisa o fundo épico das principaes Gestas. que terminaram no extenuado idylico do paiz de Tendrc. os granmiaticos. e dos embellesados polvilhos de Tressan. as Canções de Gesta. Em quanto á poesia a mesma deturpação. As lin- guas românicas. A epopea da Edade media. por um habito inveterado o latim tora nou-se até ao fim do século passado linguagem exclusiva da sciencia. por esta dependência constante da aucto^ ridade do latim. inspirada pela obra da consolidação das nacionalidades. o diíeilo communal. no século xvi era essa edade considerada um estádio tene- broso pelo qual se passara como provação providencial. foram substituídas pelos feitos dos gregos e romanos. perde o seu espirito para calcar-se sobre os moldes de Virgílio. dos intermináveis romances de Brutus e Cldia. imbuídos dos typos linguisticos dos escriptores do século de Augusto. O modo como o conhecimento das relações da civihsaçâo moderna com a Edade media se obliterou. serviu de modelo para a codificação. como nas mãos do exploração litteraria. idiotismos! Se observamos nos mesma violação.

traduziu-se e commentou-se labo- riosamente os escriptos que nenhumas ideias trouxeram á civilisação. com um . difíicil- A Allemanha. mesma corrente erudita para cantar o feito que as- segurou indirectamente á sociedade medieval a sua estabi- Na íhica arte repete-se a mesma violação. a architectura go- é despresada pelas ordens gregas. e assimilava á sua Índole aryana o christianismo semita. A unidade papal foi quebrada pela Reforma. os factos de prompto se tornam con- summados. desnorteados do seu fim. as ideias por mente se recebem. cortes. Imitou se o theatro romano. As consequências palpáveis d'esta longa desnaturação vêem-se no século xvi: A egreja proclama-se aristocralica. tellectual pelo perstigio A critica tornou-se uma bello simples comparação material ou craveira dos typos do da Grécia e de Roma. creado ao mesmo tempo em que o povo assegurava a sua independência de terceiro estado. nas trage- dias chegou-se a ignorar completamente a existência do em vez de crear.14: HISTORIA DO EOMANTISMO EM PORTUGAL Eneida.ficaram os espirites. a meride das povo. no Concilio de Trento. o cesarismo foi sentenciado e executado pela Revolução. loreíTe- nou-se por essa falsidade da narração declamatória. com uma lingua de radicaes. o estylo ogival. para cantar a nacionalidade portugaeza. foi banido das construcçôes para seguir-se a louca parodia de uma arte que nada tinha de ria. corrompendo para dominar com segurança. isso que vão mais longe. isto é. e torna-se cesarista. commum com o estado actual. ainda rica de ia- mythos próprios. Mas o estado de atraso em que . que empeceram o labor inda auctoridade. obras de rhetoricos. a realesa. A histo- escripta sobre a pauta rhetorica de Tito-Livio. Tasso se- gue a lidade. cria os exércitos permanentes. durou mais algum tempo. ligado á vida nova por esta augusta tradição da crença e da liberdade. original pela sua raça forte.

IDEIA GERAL

15

dividualismo espontâneo e bellas tradições épicas, desnatura-se ante o catholicismo, fica imitadora da poesia da Pro-

vença, esquece as suas epopèas, adopta a Biblia
gasta as suas forças

em

latim,

em uma

phantastica reconstrucção do

Santo Império, e por fim anulla-se na imitação servil da
litteralura official

da corte de Luiz xiv.

Na

Inglaterra^..o

normando abafa por vezes a genuina impetuosidade predominam os imitadores clássicos, os Pope, os Dryden, os lyricos' lakistas. Mas n^estes dois povos havia
veio

saxónica;

um

núcleo de tradições vigorosas resultantes da vitalidade

da raça; esta força natural havia de impellil-as á originalidade.

De

facto

a Allemanha,

resgata-se

da subserviência da

França, e imitando provisoriamente a litteralura ingleza,

achou de prompto a sua feição nacional.

A

França, a nação que provocou a creaçâo da poesia mo-

derna

em

todos os povos, pelo enthusiasmo que produziam

as canções dos seus trovadores, pelo interesse

que se

li-

gava ás Gestas dos jograes, esqueceu este passado esplendido, para contar a actividade litteraria desde Malherbe.
Itália,

A

tornada a sede da erudição, venceu muitas vezes a

corrente deletéria, pelo encyclopedismo dos seus grandes
I

génios que presentiram e
a pintura,

aspiraram a unidade nacional;
perfeição; a musica, pro-

como nâo

teve que imitar da antiguidade, atlin-

giu logo no século xv a
l

máxima

curando os modos gregos, e querendo harmonisar-se
a tradição gregoriana da egreja, jazeu

com

i

embryonaria até ao

í

século xvHi.

A

]

ceiro, já extincta

Hespanha, perdeu a creação do seu Romanno século xv; os poetas traduziram e iminão só porque sob a pressão catholica

i

taram a antiguidade, como Santilhaua ou Vilhena, mas o
Ihealro
foi original,

era o único órgão da opinião publica,

mas porque

se ba-

seava sob o fundo tradicional e histórico da nacionalidade.

Portugal nunca dera forma ás tradições, que possuia; a sua

16
litleratura,

HISTORIA DO ROMANTISMO

EM PORTU G AL
teve de imitar sempre,

como o notou Wolf,

attingindo por isso

uma
paiz,

perfeição de

uma quem

prioridade de

quem nâo

elabora, e

só reproduz mechanicamente;

em

vista d'este caracter o

Romantismo só podia apparecer n'este
auctorisado, e se admittisse cofoi

quando

elle estivesse

mo

imitação. Logicamente

Portugal o ultimo paiz onde

penetrou o Romantismo. Por
funda,

uma connexão

evolutiva pro-

em

todos os paizes onde se estava operando

uma

nova ordem na forma politica, seguiu-se egualmente essa crise litteraria, que fazia com que se procurasse reflectir a
expressão ou caracter nacional nas creações da litteratura.

Por

isso durante as luctas

do Romantismo, muitas vezes os

partidários dos novos princípios litterarios foram accusados

de perturbadores da ordem publica, como
até assassinados

em

França, e
Itália.

como demagogos pelo despotismo na

§ 2.

MARCHA DA RENASCENÇA ROMÂNICA.

— CompCtia

á

Allemanha, que iniciara com a Reforma a liberdade de consciência, completar a obra

proclamando a liberdade do

senti-

mento.

O movimento

do Romantismo partiu da Allemanha,

porque era a nação que pelos seus hábitos philosophicos
mais depressa podia chegar á verdade de
racional, e

uma

concepção

porque os thesouros das suas tradições, apesar.
tal

dos séculos que se immolou ao catholicismo, eram por

forma ainda

ricos,

que ao primeiro trabalho de Graaf, re-

constituiu-se a velha lingua allemã, pelo trabalho de Jacob

Grimm,

a mythologia e o symbolismo germânico, pelo tra^

balho de Guilherme

Grimm

e

Lachmann,

as

Epopêas da

Al-

lemanha, a ponto de

um

Stein levar o espirito nacional

para a independência, e Bismarck aproveitar esta mesma
corrente da renovação das tradições e fundir todas as con-

federações

em uma

absurda unificação imperial.
provenientes das suas in

Depois da Allemanha, era

á Inglaterra, pelas condiçõeíf

de independência

civil e politica

IDEIA QEBAli

17

stituiçôes,

que se podia

ir

procurar o segredo da originali-

dade

litteraria.

Pela justa coexistência entre

uma

aristocra-

cia territorial e as classes industriaes,

a realesa

nâo pôde

usar as forças sociaes segundo o seu arbitrio; a crise religiosa

provocada por Henrique vni, e

a

revolução politica
dis-

de Cromwel, foram dois dos maiores impulsos para a
solução do regimen catholico-feudal.

Uma

sociedade traba-

lhada pelas emoções de tão importanies movimentos, não

podia deixar de se inspirar da sua actividade orgânica; os
escriptos de

um

Shakespeare, de Ben-Jonhson, de Marlow,

de De

Foii,

de Fielding, de Swift, de Richardson,

tém

to-

dos os caracteres da litteralura moderna: a vida subjectiva
da consciência individual aproximada da generalidade hu-

mana, os interesses e situações de
funda

uma

vida social que se

em

deveres domésticos ou de Hmiilia.

Os romances
grande docu-

de Walter Scott serão sempre bellos e

um

mento para extremar

as litteratuias

modernas das antigas,
artísti-

em
ca;

que a vida publica era o objecto da idealisação

por esta clara concepção de Gomte, é que entendemos
facto

que a palavra Romantismo exprime cabalmente o
culo.

da

renovação das litteraturas da Europa no principio d'este sé-

A

verdade existe quando a theoria condiz com o
renovação

facto;

efectivamente a Allemanha recebeu da Inglaterra o pri-

meiro impulso para

a

litteraria

que se propagou

aos povos do meio dia.

Temos

até aqui

mostrado como

a

Europa perdeu o co-

nhecimento das suas relações com a Edade media, e quaes
os povos que estavam

em

condições mais favoráveis para

as descobrir. Falta ainda seguir o trabalho d'essa renovação; é a esta parte que chamaremos causas do Romantismo. Desde o começo este século assignalou-se por um novo critério histórico; a erudição quebrou as estreitas faixas em qoe a envolveram os commentadores das obras da antiguidade, e exerceu-se sobre as instituições da Edade media.

18

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

O

cliristianismo, tido até

ali

como único mediador da

civi-

lisação,

teve de ceder a maior parte de seus titulos ao fecivilisação gre-

cundo elemento germânico modificado pela
nicas, e

co-romana. Diez cria a granimatica geral das linguas româ-

assim se descobre a unidade dos povos românicos.

Desde que Kant enceta a renovação philosophica, o problema da esthetica, ou philosophia da arte, nunca mais foi
abandonado; por seu turno
Ficlite, Schelling e

Hegel levam

á altura de sciencia a critica das creaçôes sentimentaes.

A

estas duas causas, accresce o dar-se

em

quasi todos os po-

vos da Europa,

em

consequência da revolução franceza,

uma

aspiração nacional

em

virtude da qual a realesa despótica

leve de acceitar as cartas constitucionaes: ou também, no

periodo das insensatas invasões napoleónicas, os povos

ti-

veram de

resistir pela defensiva,

reconhecendo assim pelo
litteratu-

seu esforço o gráo de vida da nacionalidade. As
ras tiveram aqui

um

ensejo para se tornarem

uma

expres-

são viva do tempo.
Sciencia complexa,

como

todas as que analysam e se fun-

dam

sobre factos passados dentro da sociedade e provocaella,

dos por

a historia lilteraria só podia ser*creada

em

uma

época

em que

o

homem

dotado de faculdades menos

inventivas, está

comtudo

fortalecido

com

o poder de obser-

var-se e de conhecer o gráo de consciência ou de fataUdade

que teve nos seus actos
3.°

*.

I

dos historiadares modernos.— A^^esâv da

Causas do rojviantismo. a..) Erudição medieval immensa elaboração
modernn; pertence mesmo em grande

1 €

A

bisloria da lilleralura é de origem

quasi recente.» (ílallim, Inlrod.^ p. i, l. i.) Era esta também a ideia de Bacon, no livro De augmcnlis scientiarum; elle considerava a historia litleraria, 'como a luz da historia universal; o seu plano para uma verparle a

uma época

dadeira historia era, investigar a origem de cada sciencia, a direcção que seguiu, as controvérsias que motivou, as escolas que desenvolveu, as suas relacOes cora a sociedade civil, e influencia mutua que exerceram entre si.

IDEIA GERAL

19

económica e

scientifica,

o século xix distingue-se princiintellectual par-

palmente pelo génio histórico: a renovação
tiu

da abslraçao metapliysica para a

critica,

das Iiypotheses

gratuitas para a sciencia das origens, do purismo rhetorico

para a philologia, oppoz aos designios providenciaes o individualismo, deu ás sciencias académicas, que serviam para
alardear erudição, iim intuito serio indagando nos factos mais

accidentaes os esforços do
liberdade; só

homem

na sua aspiração para a

em um

periodo assim positivo é que se podia

achar a unidade de tamanha renovação; essa unidade é a Historia.

Quebraram-se as velhas divisões da historia sagrada

e profana, de historia antiga e moderna', todas as creaçijes

do homem, por mais fortuitas merecem hoje que sejam estudadas nos documentos (pie restam; as instituições sociaes, as industrias, os dogmas, o direito, as línguas, as invasões,
<is

obras inspiradas pelo sentimento, os costumes, superobjecto de outras tantas sciencias, separadas

stições, são

por methodo para melhor exame, mas comparadas e unidas,

cm um

único fim

a

sciencia

do homem.

Em

todas estas

creações da actividade humana, o fatalismo supplanta nos períodos primitivos a liberdade, o sentimento suppre a
falta

do desenvolvimento da rasão,
ao

a

auctoridade impõc-se á con-

sciência e á responsabilidade mora!,

emfim

a paixão

não

deix.i

homem

a

posse plena de

si

mesmo, o

acto praticado re-

vela quasi

sempre ura paciente

em

vez de ura órgão activo.

A

historía religiosa ou politica, a historia das invenções, a

historia

da linguagem, mostram-nos o

homem

n'este estado

secundário, n'esta dependência de espirito; terror sagrado

e auctoridade, acaso, e formação anonyma provocada pela

necessidade de
violentos

uma communicação innnediata, são moveis que arrastam o homem em vez de serem exercique entra

dos e dirígidos pela sua liberdade. Nas condições senti-

mentaes

em

um

elemento de rasão não acon-

tece assim: as creações arlisiicas

não são provocadas pelo

20

HISTORIA DO ROMANTISMO

EM PORTUGAL

interesse, não

têm

um

fim calculado, nâo se

impõem do-

gmaticamente, nâo se exigem,
sárias. Isto

nem

são fatalmente neces-

prova o seu grande valor, a sua proximidade dos

resultados finaes d'esta grande e unitária sciencia do ho-

mem. É por isso que no século que soube conceber
e das linguas, das i'aças e dos climas
rior,

a philosophia

da historia, que soube deduzir da discordância das religiões

uma harmonia

supe-

a tendência para a perfectibilidade indefinida do ho-

mem,

só a esse século competia lançar as bases positivas

da historia das litteraturas. Dá-se aqui

uma coincidência que

explica este facto; o primeiro que formulou o principio—

achou

O homem é obra de si mesmo, que, na Scienza Ntiova uma lei racional da vida coUectiva do homem sobre
mesmo, o
inaiigurador da philosophia da hiscri-

a terra, esse
toria, Viço,

propoz do modo mais racional as bases da

tica homérica e a verdadeira theoria da evolução do thea-

tro grego. N'estes dois processos

estavam implicitos os molitte-

dos como a moderna historia procede no exame das
raturas. Foi

também

Schlegel, o que primeiro fez sentir a

unidade das linguas indo-europêas, o

mesmo que

deter-

minou

a

lei

orgânica que dirigiu a elaboração das Littera-

turas novo-latinas. Repetimos, a historia das litteraturas é

uma

creação moderna; quando Aristóteles ou Quintiliano

observaram o modo de revelar os sentimentos nas obras da litteratura grega, achavam n'ellas, é verdade, um producto vivo,
turesa,

mas não pi^ocuravam

a espontaneidade

da naella

procuravam o cânon rhetorico dentro do qual

devia ficar restricta todas as vezes que precisasse exprimir

sentimentos análogos. Eusthato e Donato, estudando

Homero

ou

Virgílio,

não iam mais longe do que

a colligir as tradi-

ções da escola que bordaram a vida dos poetas, separados

da sua obra e peior ainda da sua nacionalidade. Os trabalhos

de Struvio e Fabrício reduziram-se a vastas indagações

IDEIA GERAL

21
antigui-

bibliographicas dos

monumentos que restavam da

dade. Os jurisconsultos da escola cujaciana, animados

com

o espirito

critico

da Renascença, tiveram por isso

mesmo

um
ria

vislumbre mais verdadeiro do que viria a ser a histodas litteraturas; clles foram ás obras litterarias do thea-

íro romano, ás satyras de Juvenal e Horácio procurar a collisâo

dos interesses sociaes para recomporem o sentido dos
leis

fragmentos das

que se haviam perdido n'esta renovatheologico, cofata-

ção da Europa chamada os tempos modernos.
Depois de havermos passado pelo periodo

mo

diz

admiravelmente Augusto Comte, sentimental,

lista, auctoritario, e

impondo-se no afferro da tradição; de-

pois de exhausto o periodo artislico, ou metaphysico, já

com
que

o sentimento alliado á
pertencemos,

um elemento racional e por isso mesmo
sciejitifico,

dignamente creador, succedeu-se o periodo

a

em que

o

homem tomando
si,

por meio único

do conhecimento
meio

—a

rasâo, procura ter a consciência de

tudo quanto se passa

em

na collectividade humana, e no

em que

existe.

Segundo
minado por

esta direcção positiva, a litteratura fórmà

um

todo orgânico, cujo valor histórico consiste

em

não ser do-

um

critério individual; analysada a obra litte-

raria sob o ponto de vista esthetico, é preciso conhecer o

génio do artista, o estado do seu espirito, para ver
foi

como

impressionado e como soube imprimir ao que era

uma

particularidade do seu pathos

uma

generalidade humana.

Porém

a historia

não procura

isto;

vae considerar essa obra
intelligencia,

connexa com todas as outras manifestações da
procurar
n'ella

mais do que o espirito do individuo, as ideias

e as tradições da sua época, mais do que o caracter do artista,

o génio da sua raça, todos os accidentes do meio concebida, o

em

que

foi

modo como acomprehenderam,
objectiva. Mas, dirão, para

a acção

ou

influencia

que exerceu. Aqui

a esthetica é especulativa,

a historia

puramente

que

fa-

22

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

zer depender a historia das lilteraturas de

uma

tal

comple-

xidade de processos, não separando a obra prima, pela sua

mesma
cial?

perfeição individualista, da fatalidade do meio so-

Não será querer deduzir muito de uma observação que devia ser restricta? Não será difficultar o problema com o que lhe é accessorio e immanente? Não. A necessidade d'esta ordem de processos está na importância excepcional da obra litteraria; vimos que era a creação

em que

a

liberdade

humana apparecia menos compromettida

pela pai-

xão interessada e pela violência da auctoridade. Diante de taes documentos, procederá com verdadeiro critério o que

poder
aquillo
toria

ler

melhor todos os sentidos que exprime,

mesma

que mais inconscientemente se repetiu. Assim a hislitteraria no século xix procura de preferencia as obras

espontâneas, de formação anonyma, aquellas

em que me-

nos se accusa a individualidade; para

ella

acabaram os mo-

delos clássicos, os typos do bello, os cânones rhetoricos,

e todas as obras são bellas, por mais informes, por mais
rudes, quando no seu esforço para attingir

uma forma com-

municativa se aproximem mais da verdade.

como

Vejamos agora o methodo positivo na historia litteraria, se formula sobre o que temos dito. Primeiramente

apparece-nos o facto: é o estudo da obra

em

si,

tal

como

chegou á nossa observação; offerece-nos no seu primeiro
aspecto
á sua

um estudo comparativo, uma classificação em quanto forma, em quanto aos sentimentos que exprime, em

quanto aos processos empregados para esse resultado. Depois do factOy o meio dentro do qual se effectuou; é o es^

tudo da época
reflecte

em
a

que

foi

sentida e realisada a obra,

que

em

si

tradição,

que é a parte fatalmente imita-

tiva, e a aspiração

moral, que é a parte que constitue a

verdadeira originalidade. Depois do facto e do meio, segue-se

o conhecermos o agente; ó o

artista,

o pensador,

em

que,

pelo gráo de consciência moral que a obra revela, vamos

IDEIA GERAL

23

reconstruir o

homem,

restituil-o á

sua individualidade per-

manente.

methodo positivo somos levados a conhecer lambem o caracter experimental ou objectivo da historia
Assim
d'este
litteraria.

Uma

vez considerada a obra inteilectual

como

ex-

tranha a toda a arbitrariedade pessoal, a todo o capricho

ou aberração, por isso que a sua generalidade provém da
sua própria racionalidade, o conjunto de obras que

formam

uma litteratura, só pôde ser bem comprehendido quando através das suas multiplices formas podermos fixar como
o génio privativo de
las,

uma raça

se revelou n'ellas,

como

elli-

apesar d'esta corrente

fatal,

tiveram

um

elcm.ento

vre para exprimirem a consciência da nacionalidade^
se aíTirmou por essas obras, e

que*
sua

com

ellas fortaleceu a

unidade, e finalmente, quando n'esse todo orgânico poder-

mos

discriminar áâ diversas correntes da civilisação trans-

mittida.

Exemplifiquemos estas ideias: o estudo da obra

em

si

vô-se nos processos de exegese praticados

com

a Di-

vina Comedia,

com

o

Dom

Quixote, ou

com o

Fausto.

Do

estudo do meio
parlicularisado

em

que

ella foi

concebida, temos o estudo

de certas épocas, como a Renascença, de

certas instituições,

narchia;

com

relação ao

como a do Terceiro Estado ou da mohomem, temos o trabalho psycholo-

gico das biographias, fundadas sobre as duas relações ante-

cedentes,

como a vida de Dante, de Raphael, de Gorneille ou de Saint Simon. Só assim, com todos estes elementos^
Quando Jacob Grimm
reconstituiu os velhos dialectos ger-

se chega ao pleno conhecimento da historia litteraria.

mânicos na sua assombrosa Grammatica allemã, quando
reconstruiu os elementos de vida ethnica das raças
ger-

mânicas na sua Mijthologia teutonica e nas Antiguidades
do Direito, a importância das raças começava a occupar a

Sob o apparato formal da unificação calholica que destruiu durante séculos o que o génio allemão estava insciencia.

24

HISTORIA DO ROMANTISMO

EM PORTUGAL

trodiizindo na historia, foi o inexcedivel Grimra, unicamente

ajudado pela linguagem vulgar, pelas locuções, pelos anexins,
civis,

pelos vestigios dos velhos poemas, pelos contratos

pelas chronicas, lendas e contos, que tornou a dar vida

a essa raça violada por

uma

doutrina que lhe

foi

imposta.

Desde que se
ça, é

viu

que

existia

uma

manifestação

fatal

da ra-

que o typo histórico de Luthero foi comprchendido. Immediatamente o critério novo trouxe novos documentos
á
historia

das litteraturas; o incansável Saint Pelaye La
á custa da sua vida, pelas bihliothecas eu-

Gurne procurava,

ropêas as velhas Canções de gesta francezas, que até então
só haviam merecido o despreso dos sábios. Todos os po-

lvos concorreram para este novo estudo com os seus cantos nacionaes, como o que havia de mais caracteristico da
sua individualidade. Foi assim que se chegou
a

perceber o

sentido 'das canções provençaes, onde o sentimento de nacionalidade 6 de independência, se serviu d'essa forma
lit-

teraria para apostolar a liberdade municipal contra a ab-

sorpção prepotente do feudalismo do norte da França. Sob
este critério da nacionalidade é que os Liiziadas foram

considerados a única epopêa erudita dos tempos modernos.
D'este

modo

as obras mais aproximadas dos typos bellos

da Grécia, mais pautadas pelas poéticas de escola, quasi

nada signiflcam diante da

historia em comparação de um uma tradição local, de um auto hierático das festas nacionaes. O caracter da civilisação vè-se também contraprovado na historia da litteratura a Allema-

velho canto de guerra, de

;

nha que desde

a

Reforma começou

a revolver-se sob o

jugo

da unidade catholica a ponto de a quebrar, continuou este
esforço nos fins do século xvni, sacudindo as formas da
vilisação
ci-

que recebia da França, para inspirar-se unicamente
litteraturas

do seu génio nacional. No corpo geral das
€toritariameate pelas novas nacionalidades,

mo-

dernas, o confronto da civilisação convencional recebida au-

com

a direcção

â collisão de interesses de outra ordem . o hespa- nhol. nas universidades. germânicos. o seu desenvolvimento tos. que estava na vida e na nova ordem conílicto constante : mostra-nos um os dialectos vulgares tornados indepen- dentes do latim disciplinar e urbano. nos parlamen- na Renascença e Reforma. e demais a mais. bastava para demarcar a área das litteraturas novo-latinas. unicamente nas antinomias da civilisação. A que constitue hoje um dos elementos mais fortes da unidade nacional. o catalão. próprio e individual. saxões. o es- pirito leigo. é esta lucta da naturesa que segue a sua marcha espontânea. achada nas litteraturas dos po- vos calholicos. chamadas roma- que são o italiano. estavam aptos para exprimirem as necessidades da iulelligencia. scandinavos e slavos. Portanto n'este grupo de litteraturas modernas não ap- parece esse espirito implacável e cosmogonico das mytholo- . por Schlegel. indica também ao historiador a concatenação das litteraturas. Assim na civilisação moderna. o gallego e o românico. nada mais natural do que segui- rem esta espontaneidade na sua creação. são essas lit- em línguas congénitas. nas jurandas. o provençal.IDEIA GERAL 25 social. admittida. : Não aconteceu assim a tradição latina era forte. nas communas. os novos sentimeulos davam origem a outras paixões. lei Esta grande histórica. Depois da lingua os sentimentos: a bondade e brandura céltica que abraçou facilmente o christianismo. Não aconteceu assim com os povos do norte. facilmente esqueceu os seus dogmas druidicos pelas máximas do Evangelho. contra a pressão auctorilaria e clássica do dogmatismo da egreja. reconhecida. Mas este grupo importante constitue-se por : caracteres mais positivos teraturas escriptas nicaSy em primeiro logar. o francez. o portuguez. restabelecida e possue com o amor de quem acha um thesouro. lingua. que se encontra nas luclas da burguezia.

são co-romana. no ponto em que uma nova raça entrou na invasões germânicas. a tradição gre- em grande parte atrasou a originalidade d'estes povos meridionaes. do organismo de nacionalidades feitas. que eram coexistentes ao tempo da formação das nacion. como as canções . e a secaracterístico mais forte das nacionalidades. a castelhana. que tanto custou tãos. que foram o resul- tado e são a contraprova da autonomia. a fran- ceza. ha ele- mentos communs. o estudo das deve começar se afíirma- mesmo rem si antes da constituição novas nacionalidades. temos de expor esses elementos já formados. é que dá ao hespanhol o typo espada.ilidades. a provençal. a gallega e a românica. resultado das invasões. que elles. Onde começaremos este estudo? justamente historia. Em todas estas litteraturas meridionaes. quebra-se a unidade deixa de ser a arbitra do Com as imperial. principalmente depois que foi abraçada pelo catholicismo. em vista d'estes princípios. É por isso que antes de estudar em cada uma das litteraturas novo-latinas. no ^momento em que novas raças trabalham para historicamente.26 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL gias do norte. que foram aproveitados ou se impozeram á nova civilisação. nunca poderia confundir-se com um dialogo de Sigurd. ao italiano a improvisação da comedia dei ao inglez a tremenda tragedia histórica do génio sa- xão. pelo seu imponente catholicis- Esse individualismo nacional da capa arte. essa tenacidade. O estudo da historia das litteraturas modernas. Pois litteraturas moderna-s cias bem. o elemento germânico. a ser penetrada pelos sentimentos chris- O theatro hespanhol. e d'onde se deriva o que ha de mais original e independente n'estas litteraturas. meçam rem o a ser reconhecidos no uso e pelo -seu desen- volvimento virão a fazer esquecer o latim clássico. Roma mundo . e mo. esse individualismo forte. comprehende a litteratura itahana. a portugueza. os dialectos vulgares cocivil.

que vae desde a mudança da sede do império do Occidente para Byzancio até ao tempo de Carlos Magno.uropa. os do século de Augusto estavam mais a sua monumentos litterarios do que perdidos. porque constituia o fundo primitivo. com Bopp. finalmente o elemento orien- desconhecido na historia. temos a distinguir o que pertence ás imitações forçadas. o elemento nas se conserva o mais obliterado. e o encadeamento tradicional dos contos populares determinado por IJenfey. sem discernirem que os conhecimentos da antiguidade clássica de i um Imola não existiam na época de labor escuro da con- sciência. tada pelo védico. e as formas de civilisação transmittidas de de um modo natural e aproveitadas como primeiro núcleo um trabalho intellectual que as antecedeu. emquanto se não estudaram as migrações indo-europôas. modernas nacionalidades que procuravam não . deduzindo-as de uma origem commum. se coexistisse com a formação das linguas vulgares. meramente individuaes. provado materialmente nas re- lações da Europa com o Oriente no tempo das cruzadas. a unidade das linguas da F. das épocas eruditas chamadas de Renascença. De ordinário um Poggio ou de confundem-se estas duas feições.IDEIA GERAL 27 céltico. em vagas superstições populares tal. e . de gesta ou os romanceiros. que ape- em um cyclo poético quasi erudito. N'este longo periodo. depois que a moderna sciencia da philologia. Se a tradição da litteratura tina fosse transmitlida la- como uma coisa viva. actualmente represendescobriu. c sobretudo. por isso que importância era já des- conhecida durante os dois séculos que succederam a essa grande época de esplendor. e com o espirito das constituir-se. I *) o QOE SE DKVE AO ELEMENTO ROMANO Ao procurar nas litteraturas modernas o elemento romano. chamado da baixa edade media.

Assim Michelet. desabar de um sumptuoso cheio de apparatosas columnas. O primeiro phenomeno ainda se poderá julgar sem solução de continuidade. em que as como lhes chama próprias mulheres. de maravilhas depois de artísticas.^. faziam a collação dos diíTerentes manuscriptos de um Cicero. 2. for- çada modificação da loquella estrangeira porém o segundo phenomeno zia revela-nos precisamente que o estrangeiro tra- uma nova ordem de ideias.28 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL se teriam dado os seguintes factos: 1.°. foi para os eruditos do século xvi. que correm tas. o edifício. e os obriga a um sys- tema de perpetuas conciliações. do interesse e da vida própria dos povos novo-latinos. os fragmentos dispersos d'esta grandesa que foi. para os Aldos. sendo as nações modersolici- nas os espectadores d'esta calastrophe. Os que partem ix. livres manifestações da lingua. essa moderna antiguidade. que os não deixa nunca chegar á verdade. em quanto á sua manifestação. apesar de significar que a vastidão das colónias romanas fazia com que a urbanidade latina fosse invadida pela . da paixão. que é o que produz essa antinomia entre a sua expressão litteraria e os modelos impostos da civilisação romana. os Etiennes. a prompta dissoprofunda antie as pri- lução do latim urbano e preponderância dos dialectos rústicos. a nomia entre o classicismo dos modelos rheloricos meiras tentativas litterarias. Toma-se de ordinário como ideia de decadência do império romano. a acção do elemento latino no período de elaboração que ultrapassa o século obedecem a uma miragem. um lethargo de espanto. usados até nos actos juridicos . precisamos propor a questão em outros . a colligirem com religioso respeito as venerandas relíquias. um outro estado de con- sciência. como aconteceu em d'esta impressão para julgarem França. litte- Para discernirmos esse elemento latino nas origens rarias da Europa. um espirito em tudo desconhecido.

elevados acima de Cicero. e explicar ci- deu ás novas raças que entram na histo- finalmente como o chrislianismo combateu a foi fitteratura latina. e victimas d'ellas. Por este processo chegamos a salier o que entrou como elemento Itafia. Antes das invasões dos bárbaros na do império do Occidente. xar os característicos d'essa decadência. vér o que esta vilisação extincta ria. nâo era preciso que estes dois cataclysmos viesevidencia esse grande collapso intellcctual. e da queda morta já a litteratura latina estava em Roma que . uma de poetas e de panegyrisofficiaes. que exprime as necessidades intimas de a sua parte na vida histórica da um povo. o cesarismo. assassinado por Caracalla. O cesarismo affrontoso dos imperadores que subiram ao throno depois de Marco Aurélio. creou litteratura por necessidade tas. as violações da sua justiça. que representava fatal- mente o estado moral em que se cairá. que lhe assignala humanidade. Incapazes de comprehender que a litteratura é uma synthese do génio nacional. á custa da corrupção que espalhavam no povo. como aconteceu com o ignorado Cornelio Frontonio. ao passo que a Egreja successiva e calculadamente adoptando a tradição romana. admittidos nos banquetes dos impera- dores. por sem pòr em elle já se estava dando em consequência de causas im- manentes da própria litteratura. esta arte de firmar o poder sobre a degradação moral. de rhetoricos e de chronistas laureados nas recitações publicas. or- gânico na civilisúção moderna. como succedeu com Se- renus Saramonicus. o ideal da sua revolução. que n'um grito de embria- guez lhe conferiam a soberania acclamando-os. dando -lhe panem et circenses. esses desgra- çados declamadores. vendidos ao louvor das arbitrariedades imperiaes.IDEIA GERAL 29 termos cia : determinar o ponto em que começa a decadênfi- romana. e lisongeando a proter- via dos soldados pretorianos. procurar de preferencia as causas moraes. recuperavam .

começado pelos eclécticos gregos. estava reduzida a regras. Para a historia merecer ainda alguma importância foi preciso que os rhetoricos gregos que estavam em Roma. levantado por Tácito no meio da publica degra- dação. ou o imperador sangui- Aulo Gellio declara. . um patrício influente. Em philosophia succe- mesma incapacidade para investigar. como n'uma enchente terrível se levanvolta de Roma. reduzia-se a ephemérides do paço. os grammaticos si occupavam a attenrao publica debatendo entre municias de syntaxe. na ca[)ital em Roma. ou como nos salões das preciosas ridículas pouco antes da Revolução franceza. mas prestes a submergil-o ao mais leve signal de temor. o seu império. essa máxima virtude do fórum. ensinassem a verdadeira importância dos factos. sem se atreverem das gentes. a pequenas intrigas de camarilha desenvolvidas nas suas mínimas parti- cularidades. bellezas de gradações. dia a e escrevendo na sua lingua pátria. Por qualquer aspecto que interroguemos os monumentos litteràrios. e poa discutir vos desconhecidos. sobre a astronomia. ultrajantes da justiça para captar nário. sob Galliano. adoptaram um deplorável syncretismo de ideias. acha-se sempre o symptoma intimo da de- cadência. Era a negação do sentimento poético. proporções ensi- nadas nas escolas dos declamadores cia-se na parte pratica. sobre a caça. propriedade de tropos. tes versejadores cem d'es- appareceram celebrando em outros tantos epilhalamios o nascimento de um neto do imperador. que no seu tempo só o gram- matico Sulpicius Apollinarius entendia em Roma Sallustioí Emquanto novas tavam em ideias moraes entravam no mundo. esse tribunal severo da consciência e da critica. A eloqueucia romana. a justas .30 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL a perda do pudor compondo poemas didácticos e instructi- vos sobre a pesca. A historia. cxer- em immodestos panegyricos. do mesmo modo que em Byzancio nas vésperas da sua ruina se ventilavam questões theologicas.

a graça antepíje-se á justiça. Sem um prolesto. a decair antes de Constantino. civis. — jus privatum um estado rudimenlatet sub íutdla júris é a grande lei da decadência achada por Guizot individuo era nada na civilisaçâo romana. com o seu jury. o poder lorna-se nágio divino. abstrahimos das causas interiores e exteriores. romano calje o ter creado essa ordem nova de sentimentos chamados virtudes civicas. a e ao garantia do facto tar. Creado o cesarismo romano. com as assembléas fácil foi com a liberdade de escolher patrono. a civihsação romana começou. Como dissemos. bastam-nos aquellas que eram emergentes na índole d'essa civilisarâo. as causas véem-se atravez do esquecimento que Roma linha de si mesmo. civil não passou de O aphorismo de Bacon civili. é litteratura chega a este estado de inanida- mesmo na sua decadência uma prova do abaixamento do nivel moral de um povo. sem um meio de participar da auctori- dade e de a dirigir reclamando. desenvolver esse outro principio dissolvente do cesarismo. a arbi- Irariedade substitue o dever. Isto era apenas a consequência. Em Roma o desenvolvimento dos direitos lado. Uma vez esquecido este principio da indepen- dência politica. o cidadão romano só podia testar morrendo em Roma. e por um apa- uma illusão fácil de se incutir. que tantas vezes tem reappa- . foi de tal forma formu- que produzia esses códigos eternos.IDEIA GERAL 31 Quando urna de. isto é recebia um direito unicamente pelo facto de ler morrido no ponto em que a auctoridade publica podia manter-lhe esse privilegio. Mas o direito politico. que mereceram ser chamados ao cabo de tantos séculos a rcumo escripta . elemento social que os povos germânicos e scandinavos trouxeram ao ár livre. No tempo dos impelos im- peradores levaram mais longe esta violação. estava no génio romano a comprehensao da causa publica. formulando que o direito de testar era uma graça concedida peradores. O cm frente do principio da aucloridade.

como a lenda das Doze Tábuas. sem ideia. privativa da língua grega. desde os seus tempos mais antigos. que era estrangeiro. cujas collisões dão a acção dramática. a expressão do sentimento do quasi bello foi-lhe um luxo exterior. É por isso que a sua poesia não tem um visível caracter de naciona- lidade. um accidente secundário. de Tarquinio Prisco. Roma fundada desde os seus primórdios sobre rídico. occupado n'uma laboriosa conquista. ses. a metrificação era bém de origem baseada sobre a quantidade. se nos interesses civis. não havia característico romano. pedir a sua legislação municipal. a creação litteraria que melhor presenta a sociedade. de Mnenio Agrippa. e n'uraa larga e forte administração. Niebuhr mostra que as tradições romanas são em grande parte copiadas da Grécia. como é que o sentimento vago. O nal era theatro. Passando rapidamente pelo período poético do symbolismo. as descripçoes didácticas. — a litteratura tor- nou-se estéril. na historia. Uma vez lidade. elevou-se muito cedo á forma abstracta e quasi geométrica da lei. Foi então que a falta de uma originalidade or- gânica na litteratura latina se tornou mais evidente. um contrato ju- um commum accordo entre os três povos luceren- ticienses e ramnenses. as danças populares eram tamgrega. e as noções scientificas se libertariam dos modelos gregos? A . que veiu desnaturar o verso saturnino. esquecido o principio fundamental que o romano foi introduziu na civilisação. de Virgínia. attingiu mais depressa do que nenhum outro povo a comprehensão da ideia do direito. antigo e nacional. uma artificiosa imitação das forre- mas gregas. e que o vigor da sua naciona- — a comprehensão da justiça.32 HISTORIA DO KOMANTISMO EM PORTUGAIí recido sob outras formas. As tribus errantes vinham espontaneamente sub- metter-se á sua disciplina. a corrente litteraria veia exprimir estes sentimentos egoístas da bajulação ao prepotente. não chegou a ter uma feição nacio- Roma. Para o romano.

o edito de António Caracalla uma consequência forçada desse desenvolvimento. foi cresciam espantosamente. na impossibili- dade de manter sob o jugo o mundo dade. abstracta. das suas alturas de tribuno de Roma. accusavam desde longo tempo na fatal. ao mais leve ataque. as novas povoações leva- vam á sua frente os Trknniviri ducendan coloniae. A religião era uma instituição of- separada do sentimento. que facilmente associou os deuses das as divindades dos povos vencidos. inteiro. Este syncretismo que vimos nos systemas philosophicos. foi unitária ci- na vertigem da impotência. pres- realidade desde que se tentasse Temos na historia um exemplo que explica este momento critico da vida de um grande povo. do- minando pela fascinação gloriosa. d este trabalho. quando Jíienzi (juiz restabelecer a velha auctoridade imperial. teve unicamente liienzi caiu 3 a força (. e scienliíico foi o primeiro povo que teve o estudo estrangeiras. civilisação uma dis- solução veiu accrescer o desenvolvimento do colonato. As tri- bus errantes vinham ollerecer-se á administração romana paia receberem a sua con(|uislas.le uma tradição colhida nos livros. A todas estas causas. pela aucloridade tradicional. para se lei colonial. reconhecida e nunca discutida. Kin Jor- nandes vemos repelidos factos d'esta ordem. uma sem força phanlastica. para se lixarem nas suas a defenderem sob sua égide. Com o seu gonio unitário e centralisador. De facto o ro- mano jiias estava adiantadíssimo na agricultura. no eccletismo. Era tes a reconhecer-se resistir. as coio- tanto conquistadas como voluntárias. Dois séculos antes de Christo. governava pelo perstigio. e a um .IDEIA GEBAL 33 mesma gia falta de caracter nacional se encontra na mylholoitálicos a to- romana. constitueo pantlieon romano. Roma. e por isso incapaz de ser- vir (jue de vinculo de unificarão nacional. dando ao orbe o direito de O seu poder tornou-^e puramente moral. já o colonato estava intro- duzido nos costumes romanos. íicial.

na véspera de uma transformação social. a Hespanha a Africa aucto- ridade. em volta d'ella agglomeravam-se as numerosas tribus germânicas. Mas as co . Este parallehsmo comprehender esse momento tremendo em que as raças germânicas iam entrar na historia. depois dos Lombardos. Não se atreviam a invadir a Cidade eterna. co- mo os abutres sobre um campo de matança. Por uma mas dos Roma saiu da vida histórica desde que realisou a ideia do direito. A mudança lei da sede do um erro politico. Ao primeiro arremesso de uma ti:'ibu germânica na com a irupção dos Hunos. romana é senhoreada pelos Vândalos. de Roma. um grande collapso em que a natureza precisava de um repouso profundo para entrar em uma evolução nova. Roma estava n'estas circumstancias do seu ex- temporâneo tribuno. se ecchpsaram os grandes faz-nos europçus. que mais depresterrível. vêm buscar um bocado do espolio do velho mundo. a arbitrariedade imperial. nullidade para a livre espontaneidade na sua deter- É o que se está dando hoje. império do Occidente fora sa fez sentir a inanidade inevitável. As tribus. eram as feras da jaula que recuam diante da vara vermelha do domador.34 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL sopro casual se esvaiu esse sonho que tanto embevecia Petrarcha. desfez-se o phantasma da pelos Frankos. em que por uma políticos lei providencial. Itália. vei superior foram a consequência da falta de um mo- que desse vigor á consciência da nacionalidade. a mediocridade da litteratura e a extincçâo do espirito publico. a Gallia romana é invadida romana é occupada pelos Godos. a devassidão pretorianos. . era a coná demnação das individuahdades caprichosas deixarem á natureza minação. Todos os historiadores são conformes desde a decadência de em aííirmar o con- tagio invencível de mediocridade da inielligencia humana era Roma alo ao século vii . as tribus irrequietas illusões duram pouconheceram que o jugo romano era apenas um simulacro risivel do antigo ferro em brasa.

corromper ou succuinbir. Mais tarde este foi absorvido no poder feudal. das povoações visitihas que se defendiam. o factor estranho. Onde quer que os godos são os dosol) minadores. quando os íírandes senhores constituiram a sua hierarchia pelo molde da hierarchia ecclesiastica. é Com que vigor falia Tácito. começaram a formar-se os e os Vici. não se encontra desordem senão entre os ro- manos. Os romanos corrigiram-se ros pelo a dominação dos vândalos. e das tradições populares. homens vestiam as armas como a unjca túnica as cidades para romanas causavam horror.IDEIA GKRAL 35 Traziam á civilisaçlío na sua corrente indefinida. esses dois elementos de força moral e material. por lhe [carecerem prisões e sepulchros. mas ò inegável que foi esta nova phase da consciência himiana que cooperou no que ha de mais esplendido na civiiisnção moderna. traziam o individualismo germânico. que por si imitara a unidade romana. como diz quem Ammiano Os poPagi Marcellino. e em que as crianças ao tornarem-se viril. deiMarselha: «Envergonhemo-nos e corramo-nos com uma salutar confusão. cuja denciencia produziu a ruina da unidade ro. o germano estabeleceu o estatuto pessoal sobre o direito territorial. i> O mesmo repetia ainda no século v o sacerdote Sal- viano. quando diz dos povos germânicos: «Ali. se em Roma a lei era oo que agradava á vontade do principe» nas povoações germani- . vos germânicos doscenlralisaram as accunnilações immensas das grandes cidades. condenmou com o nome de condemnando o seu tempo. tornaram castos os próprios romanos. são crimes que se nâo perdoam com dizer: Tal sendo. Successo incrivel! prodígio inaudito! Os bárba- amor da puresa dos costumes e pela severidade da sua disciplina. individualismo mana. que o christianismo pogrmisjno. E admirável o modo como Tácito de- screve esta raça. que tirava todo o seu vigor da puresa de costumes.» Depois do individualismo.

os seus magistrados eram electivos. Que era este com- conflicto senão a absorvente unidade romana que queria anullar a independência colonial? Mas sustenta-se que o município é todo de origem romana. quer isto dizer. constituindo-se em feudalismo. a unificação do direito romano. nO edito de Cara- decáe a instituição municipal. mulgada calla. Mas em contacta com os restos da civilisaçâo romana os povos germânicos deixaram-se penetrar. se o direito de romano um privilegio concedido pelo imperador. Corre na sciencia. que o colonato germânico a adoptou e a transformou até ao século mais tarde no século xii vii. sustentando a segunda que o município é germânico. de mais vigor. o germano não tinha crime todas as vezes que o nâo commettesse dentro da sua garantia. caracteres de uma No instituição Esta feição apparecç entre lodos os poseu período Pro- vos que obedeceram á dominação romana. dos typos de legislação e de instituições que conheceram no tempo da sua conquista a classe dos lites adoptou e transformou o miinicipio romano. A questão propõe-se Ha no município moderno de* 'garantias civis. que a tradição municipal nunca se perdeu. á metestar era para o . quando lucla entre os barões e as no século xu começou a munas. porque em ambas n'èstes termos: impossível de chegar-se as theorias ha documen- tos e factos egualmente convincentes. apropriaram-se dos códigos roma- nos do Baixo Império. dida que iam dando a forma hierarchica ao poder.36 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM POIITUGAL cas era o que se estatuía na asseiiibléa ao ár livre. deu-se o conflicto d'estas duas for- mas de direito colonial e de cidade ou codificado. e como tal a uma verdade. ha mesmo duas escolas contrarias. porque acabou a des- . parti- cipando todos egualmente da auctoridade. Este problema histórico tem sido sempre proposto de uma maneira absoluta. os nobres ou iverhman. no meio da incerlesa de direito.

Fora d'csta adopção jurídica as raças germânicas nada tinham a receber da cultura romana. Em consequência da nova ordem so- produzida pelas invasões germânicas. tendo reinfluencia cesarista. onde foram mais intactas e mantidas as franquias ger- mânicas. e ficaram com a sua (!sponlaneidade até que o christianismo se tornou por sua vez romano. e seguindo a condição mais ou menos importante do colonato. e fácil foi com a garantia local. conciliam-se as duas escolas dissidentes dnndo a cada uma sua verdade. conhecida pelo nome de com lei commum. civitatis. que li- a Cominiina. e a Com- muna é uma imitação doghild scandinavo. O municipio romano perde o . direito rural.IDEIA GERAL 37 «gnaldade civil que a motivava. para tornar-se esse grande elemento social. e fica principalmente politico o Foral era estaluido c piocessado pelos homens bons no malltim ou assembléa feição É então que o caracter electivo reapparece sob a acção do génio germânico. o terceiro estado. é imitado A communa Colonge. que é também mais frequente o regimen communaL. O Defensor segundo Boulhers. é n'este momento que perde o caracter electivo. nome. livre. d'onde havia sair No nordeste da França o municipio é de origem gallo-romana. rural da antiga Alsacia. uma instituição de garantias cial. segundo o profundo verso de Dante: . recebendo de novo esta nha perdido. a colónia tem vida própria c independente. nascido por lia uma no município moderno caracteres de politicas. Concelhos Os em Portugal sâo esta tradição romana. é o municipio das garantias politicas creado por a primeira forma exclusiva e das* estas quem ignorou vez detei'mina- Uma duas características. a juntos o tribunal. nas Origens do do Vogt das tribus germânicas. a Fará. as povoaçijes ruConfundir a velha forma municipal raes adquirem importância. formando romana. é n'esse ponto da França. assim os seus funccionarios foram escolhidos onlre os nobres ou entre os que o nâo eram.

d'onde resultou o ser-lhes mais tarde iaiposta essa crua unidade. Foi o Stoicismo. no momento em que o uma consequência dos caracteres que esboçámos no quadro da decadência da civilisaçâo romana. vale- ram mas nâo tinham communicação com a alma germânica. que as levou ao feudalismo. em quando interdictos sobre os philosophos. e os grandes po- formavam bibliothecas para alardearem as suas riquezas. N'este periodo que permaneceu intaclo è que creou o grande cyclo das epopéas do mundo moderno. é em Roma. a scien- tornou-se uma curiosidade absurda da theurgia e dos d'esta dissolução. a physiolo- gia e a moral. Perdida a existência politica da Grécia. a lógica. appareceu milagres. fauma qualquer doutrina que tivesse pelo com o menos pelo lado pratico certos pontos de analogia . controversistas ecclesiasticos. A litteratura n'estes . No meio do cgoismo da grande capital. Havia uma grande incapacidade para os as leis imperiaes lançavam de vez estudos philosophicos. primeiros cinco séculos nada tinha que transmittir tos infini- grammaticos muito. cilmente acceitava O grupo que abraçava estas doutrinas. No meio em Roma uma do philosophia admitlida pela necessidade de protesto. perdido o sentimento da dignidade cia com a perda da constituição republicana. Baseava-se sobre estes três grandes factos espirito. os philosophos trazidos para Roma eram tidos como seres extranhos. e do syncretismo in-' tentados diíTerente de todas as rehgiôes. e rhetoricos gaulezes ou hespanhoes. e as investigações da rasão não en- contravam respeito . b) O ELEMENTO CHRlSTÃO O estado dos espiritos christianismo se radicou no occidente. espécie de páreas da conquista. da observação e da acção. como Lucullo ou Sylla. caupossivel telosos jurisconsultos.38 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Queila Roma oude Cristo é romano.

pelo menos litterarias. antes uma forma dogmáde receber uma for- nia tlieologica na controvérsia e nos concilios. os stoicos tomavam a rasão como o meio consequente de chegar á verdade . Lactancio. Athanasio. controversistas. oppozeram a simplicidade da moral às caducas e contradictorias escolas philosophicas. Arnobio. Bastava este prinpaí-a commum. Justino. os padres da egreja com- deste novo meio. como o melhor escudo [)ara a polemica. Terluliano. o christianismo achar ecco em Roma era elle que vinha aproveitar a base systematlca. Eusébio. que os stoicos haviam formulado. de Niceia e Nazianzeno. como vemos no principio da ascese mystica do monachismo. IDEIA GEHAXi 39 a tradição Stoicismo. entre o stoico Séneca e o apostolisador Paulo. condemnou a natureza. Foi natureza. A medida que esta necessidade foi desappa- recendo. Basilio. eífeitos para a causa primaria. consideraram a rasão e a sua actividade lógica como um meio de defeza da doutrina de Jesus. o christianismo evange- lisando a egualdade diaute de Deus. Alinucio Félix. Quando o christianismo recebeu o vicio da unidade romana. e só quando acabaram as grandes inteUigencias . os dois Gregorios. trataram de propagar a prehendeiam a força doutrina á força de argumentos. Hilário. foram polémicos. Agostinho e Chrysostomo. linalmente foram racionalistas do sobrenatural. O Stoicismo condemnava a es- cravidão como contra a natureza. ibi Uberlas. o mesmo que os christãos na correlação dos um.. como refutação das heresias. como elemento disci[)linar e formulislico dos dogmas da fé. propagou Ubi domi- uma como espécie de rehabilitarão da em que os stoicos sentiam em um estado de immanencia. Os afamados doutores dos primeiros séculos da egreja foram terríveis dialécticos. Não é sem fundamento que nasceu das relações. a doutrina de Christo cipio tinlia por fundamento a moral. Antes de attingir tica no christianismo hellenico. Ambrósio. Na lógica. e usaram-no.

Justino ia encontrar o mysterio da encarnação no paga- nismo. um outro sentimento. Esta direcção de espíritos tão potentes. por. Jo- ronymo também condemnou a leitura dos livros proíimos. capazes de crear lii- uma litteratura. e que Clemente de Alexandria considerava a philosophia paga como um primeiro esboço das doutrinas do stoi- Evangelho. já annunciada por Vir- romana as conclusões foprematuramente. á condemnação dos monumentos litterarios da antiguidade como seducções pec- caminosas dos sentidos. do nihiUsmo desenvolvido pelo christianismo? Tudo gílio. que é senão o rudimento da abnegação da indivi- duahdade. é que a pliilosophia.. isto indicava uma ordem nova. á amputação de Orjgenes. e com que arrependimento quando no se accusa a si pró- prio Santo Agostinho. S. a ponto de derramar uma la- grima sobre o episodio dos amores da rainha Dido. como os primei los padres da egreja. levou á severidade de diante da decadência mas ram tiradas Tertuliano. O principio moral de vencer as paixões. livro das Confissões de- screve o peccado que commetteu deixando-se impressionar pelo quarto livro da Eneida. Na parte moral. exaltados. se tor- nou a scientia mundana. de as extinguir em si. 40 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL d'este cyclo militante da egreja. a ancilla theologian. Foi por este trabalho de racionalismo sobrenatural. a controvérsia aggressiva. que S. tornou mais completa a decadência da teratura romana. o panegyrico eloquente lhes não tivesse absorvido e em grande parte annullado a actividade? As formas que seguiriam es- . a isempção do cismo porque trocou a divagação philosophica pela pratica homem justo das paixões. ferventes.isso que estavam possuídos de entliusiastas. o chrisliani^mo venceu o a apathia do stoicismo. na controvérsia religiosa escrevia-se contra a leitura dos livros dos infleis. Salisbury accusa o papa Gregório de ter queimado uma bibliotheca de auctores pagãos. que formas de arte não conceberiam se a necessidade da polemica.

Assim a decadência romana incutia este se appellidavam christãos. Mas polemica recebia o vicio dos sophistas da civi- lisação decadente. impassivel e calculada. O concilio de Niceia estabeleceu a primeira unidade na centralisação administrativa. e os bárbaros do norte. os bárbaros do norte deram a essa doutrina a feição do seu caracter racionalista. As raças germânicas. fecunda. ao vicio doutrina da egreja. que formaram os Evangelhos aporryphos. Christo lornou-se lambem romano d'entre a egualdade dos bispos. original e forte. e a tendência apaixonararase pela humanidade de Jesus. disciplinar- necessidade de condenmar as suas mais bellas con- cepções senlimentaes. abraçando o chrislianismo reduziram-o.IDEIA GEBAL 41 tão indicadas n'essa assombrosa fecundidade de tradiçíjes populares. adaplaram-no ao seu sentimento individual. . en'essa Iheoria do amor myslico exposla na allegoiia do paslor Hermas. os que até ao da forçada unidade á religião nova. Demais. a egreja se. Até ao fim do século v quasi lodos os príncipes eram arianos. tempo de Theodosio verem assumir o poder imi)eradores dominados por seitas philosophicas adoptaram essa formula geral. por uma unidade vicio da formal. não accèitavam a ãmnisação de Jesus. o bispo de Roma lornou-se o ápice de uma hierarchia unitária. abraçara o chrislianismo. preferiu perder a espontaneidade da natureza. Era o principal decadência romana. É . estava recente na memoria degradante da apotheose dos imperadores. porque não precisavam d'esse cunho religioso romano para comprehenderem a grandeza do sacrificio. te- nazes e sinceros na sua crença. . teve procurou deíinir-se. revelado na Roma quiz centralisar o dogma segundo o celebre verso de Dante. uma raça lambera nova na historia. O aria- nismo não é mais do que esta modificação raclerisada pela negação do instinctiva ca- dogma da divindade de a abjecção Jesus.

metropolita- nos. um partido. de herdar. que exdos empregos todos os que a não professassem. provinha de um O grande principio foi da tolerância inaugurado pelas raças germânicas. nomeando patriarchas. Antes dos Árabes trazerem á Europa no século vn o sentimento humanitário da tolerância. também compoz e como o antagonista de Luthero.42 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL. leis este mesmo facto assignala o momento em que a egreja começa religião a abraçar a unidade romana. religiosos. consulto Triboniano junto do imperador. violado por Justi- niano por causa da unidade da religião do estado. A serie dos imperadores do Oriente foi em grande parte ac- clauiada pelo catholicismo. a influencia de João de Capadócia e do calculado catholicismo. prohi- bindo aos christãos não catholicos o direito de testemunhar. Como chefe do estado Justiniano intervinha na eleição e na inamovibilidade da gerarchia ecclesiastica. prometteu aos catholicos o privilegio dos empregos públicos. mesmo contra os ca- Justiniano. condemnando-os até á morte. hymnos como IJeuriquc vni.iinava como uma provocação a Justiniano. Justino interrompeu a succes- são de Athanasio seduzindo os catholicos tias. já imi ramo senntico da Pérsia a procl. e depondo outros a seu bel prazer. bispos e abbades. de succeder. com mais garan- pelo facto de uma religião de estado. Justiniano. e para se fortalecer contra a revolta de Vitaliauo. O estado adopta uma cluía que se torna uma forma politica. tam- bém injuriou Origenes. no tempo de Theodosio que começa a introduzir-se nas o nome de catholicismo differente de christianismo. reli- Gosroes abriu a todos os que professassem qualquer gião o accesso aos cargos públicos. convo- cou um synodo em Byzancio para destituir um patriarcha juris- não cathoUco. . de doar. a ideia unitária Icvava-o a ser injusto ífiolicos. Anastácio antes de ser impera- dor foi patriarcha de Antiochia. representante do christianismo hel- lenico.

o estado consultava o agouro das aves quando a invasão germânica rompia as portas de Roma. disputava com o papa Agapito. A a nova ordem de sentimentos que inspirou o pastor Hérevangelhos apocryphos. o que nos dá teria sido a nias. O ultimo acto legislativo de Justi- niano. nome de koiais^ Sob esta pressão oílicial a lavor do ramo cathoUco. o que a prédica fervente não alcançava Ião de [)roinpto. ponliíice próprio Jus- da religião de estado. destruía o poder de Constantino- Uma vez tornado religião de esladOy o christianismo pa- . e esses poéticos medida do seu alcance e do que gastou-se sua fecun- didade. tia-se qual a em Byzancio discu- natureza da luz que envolvia Jesus no Thabor ii ao passo que Mahomel pla. quando creou o funccionario encarregado da perseguição dos heréticos. Como na decadência romana. ignorando a simples leitura das pre- comprando as diíTerentes dignidades da gerarcliia ecclesiastica. tiniano.se este vicio da civiiisação roniana. de 56í. d'onde os imperadores queriam renovar a tradição cesarista. a litteratiira que vae até ao século vii tornou-se nulla. e vi o cleio era estúpido. que não deixou aos espíritos essa serenidade necessária para a concepção da obra d'arte. Foi elle o inventor da inquisição. e os negócios politicos eram para elle acci- dentaes diante das suas polemicas dogmáticas. em O polemica tempestuosa. faz o retrato d'esta profunda decadência da nova litleratura ecclesiastica. estava-se seguro que Justiniano fazia pelas suas multiplicadas leis e extorsões a favor da egreja. que tinha o lov. des- appareceu o génio fecundo dos prinieiros doutores da egreja ([ue estabeleceram a sua disciplina. esta devassa alTrontosa da consciência.IDEIA GEKAL 43 Depois de abrasar. a ponto que nas revoltas que procuravam desllironal-o refugiava-se entre os sacerdotes antigos doliciando-se com a controvérsia. em controvérsia estéril. aconteceu por consequência que no século ces religiosas.

Justiniano. principio que tanto tem custado a extingir da vida vicios o Feudalismo. O christianismo deixava fez-se de ser semita ao entrar na Europa. que o reduzia aos limites de um uma philosophia. comp tendo sido o typo das formas da sociedade momas esse typo reproduziu-seemum estado cujo prinpôde considerar depois do século vii. essa necessidade de fallar aos sentidos. viu é Deus. latria. se não raça que recla- mava uma dissolução. Os Árabes formavam um dos ramos mais vastos da grande raça semítica. e como taes servindo-se mais comprehensão.44 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL rodiou a velha legislação romana nónico. d'onde procedeu a arte moderna. Por um lado os theologos hellenistas. Mahomet seria Incapaz de fundar tivesse encontrado as tendências de uma uma religião. não conseguiu mais do que O genlo semita temia que se fosse cair na ido- proscreveu a Imagem.Oriente. por outro o caracter transfor- mador e sentimental dos bárbaros. parecimento do Mahometismo na Nascido no seio de uma poderosa raça semítica. com mais poder. análogo ao da graça. cipio se cipio que foi o prin- da arbitrariedade senhorial. de monotheista tritheista. creou o seu direito cacivil. deram ao christianismo essa dependência da imagem material. Guizot considera a egreja derna. social. foram elles que reagiram contra esta desnaturação da Ideia da divindade nua e absoluta. e direcção. Todos estes da unidade romana abraçados pelo ca- Iholicismo vieram encontrar um correctivo salutar. permanente da sociedade e modelo da incerteza das jurisdicçues feudaes. con- tra os quaes o judeu reagira com o principio abstracto do Jehovismo. ambos como indo-eurodo sentimento para a peus. assim é que foi recebido em Roma. um polytheismo e lan- çou a formula só Deus Estes factos descobertos pe- . no aphistoria. invasão e. Inllulndo despoticamente nos concílios. o christianismo trouxe caracter de abstracção. reproduzindo os velhos mythos do.

historiador do Baixo Império. achara-se fortalecidos pela authenticidadc dos documentos. É este segundo momenU) da sua vida histórica que va- mos expor como um correctivo aos defeitos recebidos pela ogreja quando adoptou na sua tradição os exemplares de uma litteratura decadente. as comedias de Planto. Procopio.IDEIA GEBÂL 45 los novos processos da historia. e dos do seu tempo. um algumas phrases de Cicero. gusto. Uma lisada vez possuída do espirito da unidade romana. a sua lingua como o latim. modo inconsciente o desenvolvimento que SC estava dando no latim fàllado nas colónias e nas classes da sociedade. vtd- pedeslris. considera nas suas Anedocta. torna-se lilteraria. avassalou o mundo. qne se ia estendendo a todas as íiecessida- .» As consequências do apparecimento do islamismo seriam nullas s« esse protesto monolheista nâo passasse á acção. á\z Isambert. e o ve- hiculo do que havia de pratico e ulil na civilisarão grega. (p. um grande povo pelo vinculo de uma mesma cstende-se tanto é então que os Ára- bes se apossam do Oriente e do Occidente. Em menos de um século o islamismo conslitue ideia . desde o século de Au- accusavam de iiilimas <f(U'ís. e entrou na historia. que ditaram Deus é Mahomet a forma simples o verdadeira Deus. É este o espíritos esclarecidos pensamento de Procopio. a egreja adoptou a liturgia. erA bch^miiòo sermontstictis. xxvin) «não o temos por estranho aos fundadoa res do islamismo. o árabe errante conheceu o porquê da sua existência. o appareciraento de Mahomet como uma consequência das aberrações (pie Justiniano tanto se alegrava. rea- na summa hierarchiâ papal. na Histoire de Justinien. veiu preen- cher o vácuo deixado pela extincção do império romano. para assim pòr cobro ás esta- reis controvérsias Iheologicas do Baixo Império. lin- gua latina para a expressão universal da sua já Ia de encontro á corrente natural. da tlieologia byzantina com Doeste capricho cesarista.

fazendo um es- forço para se afastarem da corrente da dicção popular e aproximarem-se dos modelos cicerorianos. e Ludewig. até que uma revolução moral que quebrou fez a unidade do calholícismo. perdeu-se o uso primitivo da participação liturgia. traduzir em lingua vulgar os Evangelhos. que o próprio legislador Justiniano. o enthusiasmo religioso extinguiu-sc a ponto de se não encontrar na Baixa Kdade Media.46 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL des da vida. em que novas necessidades moraes faziam valer uma linguagem até então desprezível. o do povo na hymno deixou de ser comprehendi- do. a egreja se oppoz. coincide tica com a este O apparecimento dos bárbaros momento critico em qne a linguagem rúsfica retra- occupa o primeiro plano. e ficaram letra morta. segundo o historiador Procopio.) Foi contra esta corrente da formação das linguas vulgares que co . e a egreja restringiu as suas pretenções á universalidade da lingua litúrgica. leis. Os livros bíblicos em latim por S. A força da corrente dialectal era tão violenta... a uma doutrina da humani- Mas as consequências d'esta pretendida unidade fo- ram funestas. p. ao ditar as suas introduzia sem querer o elle latim bárbaro. op. destinada por Deus para servir de meio geral de communicação dade. a Reforma do século xvi. Isto que vemos na parle litteraria é uma consequência do que já apresen- . da d'onde era natural. diz que o imperador escrevia as cartas Ilyria. á medida que o latim m^bano se redazia aos artifícios dos rhetoricos. sustentando o uso do latim clássi- as forças vivas venceram. Os padres da egreja adoptaram a língua latina para a controvérsia. incommuní- €aveis para o povo. como provou Didron. Santo Agostinho falia com assombro do facto de existir uma lingua tão conhecida como o latim. em latim dialectal cit. Dava-se a profunda revolução so- cial. (Isamb. xlvi. e o latim erudito hido para penumbra. o minimo vesligio de conhecimento de Deus nos monumenforam traduzidos tos iconographicos. Jeronymo.

Boecio morreu no martyrio. que formavam o alto in- tinham o seu corpo de direito canónico. e tendo vencido o caracter terrível de Theodorico. onde se reprodu- ziram as scenas dos concílios byzantinos.IDEIA GERAL. com o foro dependente. os bispos. com foi o direito de mão-morta. O ultimo esforço para manter esta unidade aristocrática. em cinco livros. nascido em Roma. e n'esta incommunicabilidade do latim. foi Um dos principaes (íscriptores adoptados pela egreja Boecio. foi n'estas condições que escreveu o Tratado mezes de da Comolação. atirados ás fogueiras. uma alfaia os grandes abbades. o vi- carius. per- tencendo ao dono ou patrono da egreja como d'ella. quebrada pela Allemanlia. . lido sob esse pretexto nos claustros da Edade Media. para rivalisar com o feudalismo . depois de seis prisão. escolheu aquelles livros mais l']vangelica. como a ado- pção da emphyteuse romana. os Lollards. Os cantos vulgares foram banidos do templo. 47 támos na parte politica. clero. como relata Sarpi. que uma isto justa esperança su- stente o vosso coração. Desde o momento que a egreja cumprebendeu que ali lhe pertencia a tradição da unidade romana.» Bastava para fazer de Boecio um santo. O sentimento que inspirou este livro pertence á doutrina dos toicos vicio de Roma. a egreja foi recebendo uma forma arjstocratica. mixto de prosa e verso. o clérigo das povoações ruraes tornou-se servo. Virgílio tornou-se em harmonia com a doutrina um propheta. foi víctima da reacção (jue os godos provocaram no caracter d'este monarcha contra os roma- nos. como se ve por esta phrase: «Evitae o e cuUívae a virtude. teve de com- uma contradicção para os admiltir e estudar. os Bollandistas o accolheram nos seus in-folios. com giada de uma prescrii)rão privile- cem annos. Assim. e que vossas humildes supplicas se elevem até ao Eterno. a lendo até con- demnado metter os monumentos d'essa lilteratura. o Concilio de Trento. com formas de propriedade suas. de uma família consular.

cido com o velho mytho pythagorico. Thomaz de Aquino é Duns ros de fé. como influiu sobre as lendas poéticas do christianismo. Abailard e Santo An- selmo. foi acceito por todos os povos da Europa.» Rebentou no século ou n'estes objectos. e não só exerceu os dialectos vulgares na sua versão. Um dos principaes monumentos escriptos nas lín- guas românicas é a Consolação de Boecio. mentario que saiu esse problema a intelligencia que tanto esgotou a lucta humana na Edade Media. se existem separados dos objectos sensíveis. se são corpóreos ou incorpóreos. &cott. a egreja ado- plou de Boecio o commentario á Iraducção da Isagoge de Prophyrio. dos Nomi- nalistas e dos Realistas. lido e decorado. Boecio commentou esta ceiebre passagem de Prophyrio. ou constituindo uma parte xi este problema trazido da decadência através de Boecio. feita pelo rhetorico Victorino. O Tratado da Consola- ção de Boecio. publicada no principio d'este século por M. Podemos que pela entrou na egreja o mytho grego de Orpheu e Etuijdke o christianismo abraçou-o para symbolisar o doguia da re- dempção. S. na parte anullada na parte intellectual . Foi d'este cominútil. João de Salisbury. João de Meung. contra o qual se esgotaram Boscelin e Guilherme de Ghampeaux. dizer lambem a traduziu para Phileitura lippe o Bello. intervindo concílios tempestuosos. que Boecio leria exerfoi com esse livro De Consolatiom philosophm. de Boecio o auctor do Roman de la Rose. er- e esterilidade philosophica. d'e[les. que deu origem á questão: «Se os géneros e as espécies existem por si ou somente na intelligencia.. 48 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL e nas egrejas de Itália o adoraram. por Boecio. e fácil foi aos doutores da escola bellenica contirar as al- fundirem a lenda da Descida aos infernos para mas dos patriarchas. renovada Mas a acção fecundante. pela primeira vez exposta no Evangelho de Nicodemus. Raynouard . e no caso em que elles existam por si. sentimental. Gilbert de la Poré. .

o aagunáo comprehendia a arilhmetica. no século IX era seguido nas escolas de Paris no século x en- contra mais três commentadores. intitulado Satyricon. O primeiro comprehendia a grammatica. As ideias de Marciano Capella não tinham originalidade. chamados as sele artes Uberaes. o espirito semita. e no século xi é traduzido em allemão. um génio superior ao seu e mais dignos de serem estudados. d'este ultimo saiu para as escolas da Edade Media essa absurda classificação das sciencias. a intelligencia fora do qual os eruditos da humana contenlou-se com este horisonte. lethargia inlellectual É n'esta da Europa que torna a apparJcer corrigir em todo o esplendor o novo elemento árabe. Sobre este ponto diz Jourdan «A influencia de Capella dura até á época em que as obras de Aristóteles e dos Árabes se vulgarisaram no Occidente. dei- xando o logar aos modelos de sidas e principalmente Al-Manon. sem 4 lançou-se ao estudo das sciencias experimentaes. Edade Media nada mais viram. Plinio e Solino. a mu- geometria e a astronomia (quadrivium). ensinando por . As sciencias estavam divididas em dois grupos arbitrários.» Depois que os Abas- procuraram introduzir en- árabes as sciencias da Grécia. eram um ecco das observações de Varro. elle No século VI o rhetorico Félix aggravou mais o livro de Mar- ciano Capella com um commentario. para com o seu positivismo as aberrações auctoritarias da tradição da decadência. sem base dogmá- tica. em Auvergne. contiecida pelo nome de Tri- vium e Quadriviíwi. a lógica e a rhetorica (trivimn) sica. Assim clas- sificados os conhecimentos sem correlação. pralogar para se esgotar sobre a cassislica dos dogmas.: IDEIA GEBAL 49 Um outro livro guardado pela egreja dos despojos da defoi cadência romana o livro de Marciano Capella. como a . tre os tico. que é precedido pelo pequeno romance de prosa e verso Das Núpcias de Mercúrio e da Philologia. a . Isidoro de Sevilha adoptou-o também.

Dante egualava no seu poema gos e os árabes. os judeus traduziram para latim as obras trazi- das pelos Árabes. a pbysica. Avicena. é que apparece na historia o poderoso elemento germânico. C) o ELEMENTO BÁRBARO No meio da influencia da cadente civilisação romana. vistas até então através das lacónicas e não comprehendidas allusôes dos declamadores da decadência. as Cathegorias de Aristóteles. e a naturesa da lucta que o génio germânico leve de por isso mes- mo se vê o alcance da sua força. os Árabes oppo- zeram-lhe Euclides. explica-nos o modo como elles vieram de encontro ao Império. Foram os Árabes. Estudamol-o n'esta relação percaria. que communicaram á Eu- ropa as obras de Aristóteles. cuja primeira e principal manifestação o apparecimento de Galileo e de ly- Bacon. que em Marciano Capella resumia uma sciencia. A cada magro capitulo de duas laudas. para assim caracterisarmos melhor a decadência. S. a álgebra. Averrois che'l gran comento feo.50 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL . é que se vê soffrer. medicina. Coincide com o tempo de Justiniano o trabalho das primeiras traducções do grego para syriaco. e a sciencia pela primeira vez abandonou a orthodoxia. e Galieno. a Politica. Dante exalta esta direcção positiva symbolisada na influencia de Averoes: Euclide geometra e Tolommeo. a Poética. . e das tendências para a tradição unitária do calholicismo. Pelo conflicto entre o vivo e o morto. Este nome de Bárbaros dado aos povos germânicos. (Inf. tendo anteriormente provocado a expansão do rismo provençal. vi) os philosophos gree Alberto Thomaz de Aquino foi Magno procuravam n'elles a direcção scientifica. Ippocrate. e astronomia Aristóteles foi o que mais lhes satisfez esta tendência.

E nós es- pantamo-nos por Deus ter entregado as nossas províncias aos Bárbaros. Os Godos são pérfidos. deixando ás mulheres o trabalho da agricultura. que escrevia acerca da Germânia cento e nos depois que Drusus avançou com esquadra até ao promontório dos Cimbros.» Bunsen. como o instincto da hospita- como assolaram o direito.. porém Tácito comprehendeu o alcance do vigor d'essa raça. da paixão ardente pelo jogo e pelas hebidas fermentadas. con- demnam-a.IDEIA GEBAL 51 as grandes cidades. lidade. pela nossa vida. a crueldade dos Saxões horrorisa. mas reconhecem-na como um castigo de Deus. da vingança hereditária. pelo exclusivo emprego da actividade nas armas. tino histórico das raças germânicas. no livro quarto De Gubernalione Dei. mas pudicos. mas hospitaleiros. que eslava isolada dos vicios do Império para vir insullar na vida social as suas novas exal- forças. Este estado prevalecia pelo menos ainda no tempo oito ana sua de Tácito. e que sò se parece comsigo mesmo. sem mescla. eu o digo com lagrimas. quando tava a puresa da raça germânica: «Sou de opinião d'aquelles que pensam. um facto providencial. que o sangue dos germanos nunca foi al- terado pelos casamentos estrangeiros. como tornaram incerto como afrouxaram o seu Ímpeto ante a disciplina moral do calliolicisaioi eram Bárbaros^ pelos caracteres primitivos que apresentavam. que é uma raça pura. mas fieis. aceita estas palavras como a primeira comprehensão do desegual. ao menos elles peccam por ignorância. mas somos peores. Salviano. os Alanos voluptuosos. Vós conheceis a lei e a violaes. os Frankos mentirosos. condemna o sea tempo dizendo: «Vós pensaes ser melhores que os Bárbaros. Respondo que somos melhores emquanto á fé. Tácito linha o sentimento prophetico. quando o seu pudor purifica a terra aiuda .. mas louva-se a sua castidade. No catholicismo encontramos uma comprehensão os padres da egreja soffrem o desastre da invasão...

talvez que um dia a posteridade sau- dasse com o titulo de grandes reis aquelles que agora não foi sabemos ver senão como inimigos.52 HISTOBIA DO BOMANTISMO EM PORTUGAL conspurcada das devassidões romanas. fazendo sentir os destinos providenciaes das bém invasões: «Se as conquistas de Alexandre vos parecem gloriosas por causa do heroísmo com que submetteu tantos impérios. se vós não detestaes n'elle o perturbador das nações. (oxalá por domar os povos que depois policiaram. conselhos que segue a Os macedonios começaram se. e tomarão as nossas desgraças por benefítado. — Responderei. como no francez. Mas. tal rudeza. Mas. não se obliteraria o conhecimento da sua acção na historia. os germanos os — Outros são os estragos da guerra. não se attribuiria a sua infiuencia unicamente ao christianisrao. para assim caractcrisar os vicios a humanidade aos tempos modernos. asTácito. Salviano e Paulo Orosio. exaltarão os vencedores. dir- me-heis : destroem. e seria o espirito da tes 'civilisação moderna comprehendido an- de Ilegal mostrar que o individualismo germânico trouxe paixão de colorista. dir-se-ha : — Os Bárbaros são os inimigos do que todo o Oriente pensava o es- mesmo de Alexandre. — Os gregos fundavam impérios. Os germanos agora lançam tudo por terra les .» Este texto meira vez produzido por Ozanam é . cios. mas que não) el- acabassem por ficar senhores e por governar segundo os seus costumes. pela pri- o que elle significa não bem o que está nas palavras. Na phrase de Tácito ha uma . e cora as feições profundas como ellas estavam na sua ^ue ainda transparecem povos modernos. Paulo Orosio. e que os romanos não pareceram melhor aos povos ignorados cujo repouso iam quebrar. fos- sim caracterisadas por sem consideradas como um instrumento providencial. muitos louvarão também o tempo presente. Se as raças germânicas. outros os victtíria.» Aqui se caracteri- sam nt)s as raças germânicas. tamescreve. não se ligaria ao seu nome somente a ideia de barbárie.

na Arte. as formas de arte. Bárbaros. as communicaçôes inlcrnacio. A contradição entre os reoutra origem . códigos jaziam sob as ruinas da grande catastrophe o es- paço que vae do século v á Renascença do século xvr. ha o espirito de condemnaexaltando acima da decadência romana os . uma actividade orgânica e fecunda. afQrmaçôes declamatórias Mas os fados estão em manifesta contradição com as n'este grande periodo da Edade Media crearamse as linguas e nacionalidades modernas. naes. á suppressão da vontade como o supremo ideal da perfeição. mesmo modo que os patriotas mais sinceros chamavam defeitos as raças errantes á traição para castigarem os terra. do romana pondo-a em contraste cora essa na* em Salviano. e contentaram-se com a supposiçâo gratuita de que o chrislianismo fora a luz salvadora n'esta procella tremenda. do governo da sua ironia. — em summa. era conside- um periodo de lelhargo da intelligencia e da consciência humana. achou n'essa grande elaboração que . que não podia provir unicamente do chrislianismo. a independência individual. mou os tempos modernos mais uma coníirmação da theoria por onde a humasi. levava a achar uma quando ou for- Hegel veiu applicar á historia o subjectivismo do logos rea. em que se desenvolveu rado como a civilisação germânica. 'verificada no Direito. as industrias. sultados e a força. Para elle. a historia era a narração das vicissitudes 1 ' nidade passava para chegar a alcançar a consciência de . e elevando-se por elles á synthese ! consciência da lei. que leva á aniquilação da personalidade.IDEIA QERAL 53 da civilisação luresa primitiva çâo calholica. Foi Em Paulo Orosio ha ura mixto de por isso que o periodo da elaboração das raças germânicas teve o nome de terrível noite da Edade Media . a religião popnRir. lisado nos factos. porque cedo recebeu a direcção mystica. e na Natureza. ao nihilismo da inlelhgencia. dizia-se banalmente que as instituições e os .

Depois de estudar a civilisação oriental.54 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL e como o espirito chegava á posse da liberdade. e produzindo o individualismo. mas ge- neralisada. e finalmente encon- trando esta conquista parcial no mundo moderno. ou antes de prestarem ás luctas da humanidade os esforços para que estavam aptas. A unidade das raças indo-germanicas. o que desde que a teve homem também uma bou posse mais profunda da consciência. viu-se que o elemento germânico era migrações indo-europeas. Vejamos qual o estado das raças germânicas antes de entrarem na historia. assim pela primeira vez se comprehendea o problema das raças para a vida da historia. Benfey). e um dos últimos ramos das um dos que apresentava os caracteres mais aproximados da sua origem. tâo perto de nós. Burlit- nouf) e presentida na unidade das tradições e formas terarias (Goethe. chamou-lhe ex- — tensivamente pelo civilisação nome do elemento que d'esta a universahsou germânica. e a liberdade esmagada pela auctoridade tradicional. a humanidade conheceu-se melhor ao encontrar os representantes da sua civilisação e das suas luctas. em que a consciência estava oppressa pelo principio divino. Póde-se dizer. historia entrou n'esta alta direcção. achou-se (Bopp) . eram os Suevos os principaes senhores da Germânia. N'esse dia acaa revelação divina para ser substituída pela demonstra- ção scientifica. veiu encontrar na civilisação greco-romana. se vê Ião claro este esforço. os Cimbros e Teutones extinguiam-se. . As consequências grande restituição de Hegel fo- ram uma revolução completa no critério histórico. que é a sua essência. a consciência elevando-se na philosophia e a liberdade fortalecendo-se na justiça. em seguida confirmada na unidade das linguas na unidade das tradições religiosas (Creuzer. como na Edade Media com tantos documentos vivos. Em nenhum período. No tempo em que Tácito escrevia. baseada nos dogmas religiosos.

que comprehende os Jutes. Asgard era o typo do Éden. onde o sentimento e os Burgundios. O Walhalla aproxima-se das descripções da bemaventurança christã. outras vezes rem eram á invasão dos Suevos. d'onde as raças haviam sido expulsas. como os Cimbros. que deu vigor ao naturalismo dos Saxões. De todas estas raças. os Lombardos novo. como es Godos para se defenderem contra eram assoldadados pelos romanos como mercenários para combaterem contra os inimigos do império. em que os Frankos são chamados para expulsarem os Godos. o ramo go- thico. como os Frisões . c depois que se recusaram a seguir o christia- . mas também as tornaram aptas para rece- berem a doutrina mystica do christianismo. outras vezes para se defenderem dos ataques mútuos. porque estava de posse de um dogma da immortalidade se propagava pelo symbolo sensual do dogma novo. Foi ao contacto d'este taleceu e não foi logo supplantado pelos Godos que o inva" diam. por assim dizer. como aconteceu nas Galhas. os Gépidas.IDEIA OBBAL 55 OS Anglos eram apenas conhecidos. communicaram romana e que se modificaram com ella. foram despresadas pelos novos bárbaros. Os motivos que levaram os bárbaros á migração e invasão. Fácil era dar-se o mesmo syncretismo que se operou nas superstições. e para se oppôos Hunos . Taes as relações que os germanos tinham com o Império todas estas raças que antes do século v. com a civilisação que são. d'outro o procurarem terras mais férteis. Estas ideias religiosas da theologia odinica foram não só um dos moveis que determinaram as migrações das ra- ças germânicas. a religião odinica. vinham oíferecer-se ao colonato romano. a primeira camada sobre a qual assentou a grande invasão. que o ramo suevico se forWalhalla. era o mais forte. Vândalos e Burguinhões. além do seu instincto errante e an- tipathico ás cidades. e os Frankos estavam sem força pela desunião. saltos foram de um lado para evitar os as- do oceano.

foram chamados por despreso Ba- gaudesy do vado pejorativo mesmo modo que ainda higot. refugiados nas florestas. Veja- mos como cada uma a si doestas forças inertes tentou absorver este poderoso elemento. que abraça- ram os incolores mylhos gregos antes de acceitarem o chris- tianismo. estes também. É esta uma hoje se usa o seu deri- das origens das raças malditas. em assembleia (bagad). Theodorico havia sido educado no Baixo Império. reconsti- e julgarem-se continuadores do Império. que tinham ge- neologias aristocráticas inferiores como os AmaU e os Balti . forças deletérias que atacavam o seu vigor original. e crea- ram para se fortalecerem a banda guerreira ou comitatm. e como dominadoras ante o novo espirito calholico eram duas . e por muitos séculos conhecidas pelo nome de Ca-goths. distinguiam-se tam- bém pelo predomínio dos chefes militares. e como a parte viva da raça lhe soube resistir e oppôr creação fecunda. e perseguidas pelo catholicismo por causa das suas velhas tradições. condemnadas pelos magistrados romanos. que seguiam o colonato. quizeram apparentar-se com lui. e Ravena ficou a capital . que formavam o principal ramo germânico. as classes obedeciam pela dedicação da fidelidade.l-a ella. é que a civihsação romana. As longas extorsões e protestavam íiscaes romanas nas Gallias. Á-goth. re- pellidos pela força armada. a Compagnonage.5S HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL nismo. motivaram luctas violentas das classes servas. Em frente da civilisação romana as classes aristocráticas quizeram imitar a gran- desa decahida. assim a mythologia odinica desappareceu da memoria dos nobres. que veiu no decurso da Edade Media a produzir esse órgão de resistência.dos imperadores godos. ficaram como malditas e vivendo sem direitos. Os godos. Depois que Theodorico se tornou senhor da as raças germânicas se encontraram Itália em 493. desco- nhecidas pelos novos invasores. tidos como bichos medonhos. que lhes seduziu os sentidos com as exteriorida- .

da condados (comitatus) sem . era o principal ministro de Theodorico. conhecidas com o nome romano de consistia o Vici . substituindo a emphyteuse pela infeudaçâo. o principio da alliança. que se deixara seduzir pela uni- dade romana . e usam do nome de romanos para designarem aquelles que das leis tem pos. Mas a parte vital da raça não desceu a esta degradação.: IDEIA GERAL 57 des do culto. que não tinham o espirito aristo- crático dos Amali e Balti. em que commercio d'estas povoações. um . formuladas nas lu- ctas burguezas. como confessa Gregório de Tonrs. Diz Guerard pagiis. nas cartas communaes. a divisão por sobretudo no começo. gramma- e copista. conservaram a antiga instituição gótica do comitatus. e Boecio. Cassiodoro. o ajuntamento das pe- quenas localidades que acendiam ao apellido para mutua defesa se chamava vicinancia. se chamava vkariare. tendo constituido condados «A maior parte dos do mesmo nome. Adoptaram também tico a velha litteratiira romana . e deixam aos vencidos o uso romanas degradam a mulher (frau) á mesma condição que ella tem nos haréns da Ásia. absorvem a si a propriedade. era o vicanale . Todos estes sentidos nos apparecem nos documentos consultados por Du Gange eram . o direito de msbihança vem prescrito como uma foi conquista que se defende com annthemas- Esta lucta provocada pela absorpção dos Vici pelo poder senhorial (jue se prevalecia da jurisdicção do comitatus. á troca dos géneros. e quasi sempre. o juiz pedaneo ou inferior era o vicarhts. dos seus validos. o tributo que pagavam pela sua independência. que administrava a Vicana justitia. Onde se en- contra este meio de resistir á prepotência dos nobres é n'essas povoações. deixou as cidades pelos cam- As povoações ruraes. romano. Conservam a legis- lação dos códigos romanos. um foro privilegiado. mesma extensão. os Vici que melhor correspondiam ao gé- nio individual germânico.

58 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL abolir a divisão por paizes. tina. que se moldara sobre a unidade ro- mana. por lites germânicos e por aldhis vieram tam- bém tus. N'esta nova forma a cultura inlellectual e de religião. tinha de dar-se também S. e que conservavam pela rudesa dos seus caracteres. para do direito consuetudi- nário. que é o christianismo. constituídas por colónias romanas. mundo Diz: «Roma. . chegando algumas até ficarem a noite. t. ou importância dos a prohibirem aos nobres o mesmo a entrarem nos seus burgos. sede de Pedro.» D'esta lucta tholica. tens pela religião. a ser conhecidas entre nós pelo nome de aldeias. x p. Não somente os esforços tentados pelo povo eram reprimidos. poeta christão.» * Foi contra estes condes que se deram as revoltas das com- munas. para a existência das tradições germânicas e das jurandas. escreve Gervinus: «A aristocríicia da christandade dividia-se em dois campos separados. Estas povoações ruraes ou vicanas. contra o catholicismo. A Vicí. com a unidade senhorial e com a unidade cacida- que as raças germânicas que não' viviam nas a integridade des. porque elle tinha a disputar a posse do i Cartulaire de Chartres. tiveram de sustentar até á elevação do Terceiro Estado. tornada a cabeça do pela dignidade apostólica. ainda que pertencendo aos problemas da instituição social é indispensável para conhecer esse gráo de liberdade que foi preciso para a formação das novas lína constituição guas românicas. e imitador da poesia la* exalta a unidade do catholicismo recebida em Roma. levavam a duas vias diíTerentes. os progressos operados na sciencia militar. Prospero. Mas esta lucta entre as classes obreiras e os chefes do comita' que absorviam a propriedade. foi ou usada concorrentemente com ella. a substituiu muitas vezes. para a realisação da propriedade livre ou o alodium. o que já não possues pelas armas. viii.

era talvez para assim fazerem um syncrelismo ou não crearem incompitibilidades com os sentimentos religiosos. constantemente absorvido pelo predominaram as abbadias sobre o clero secular. mas tinha a luctar também pela cul- tura intellectual com a cultura de uma nobresa p. dado a toda a terra natal. intelligenle. como no Pelagianismo em França. d'onde se de- nome paiz. que para elles eram dependentes dos planos políticos.» (Introd. Um dos motivos da persistência de tradições religiosas con- trarias ao christianismo no Pagus. as tradições germânicas e romanas. impoz as suas santificações e lendas locaes contra a admiração dos heroes da antiguidade. no Mosarabismo em ensino das Collegiadas o livre Assim como vimos as povoações dos Vici resistirem por essa sua organisação á auctoridade absorvente dos barões. Era uma dupla revolução contra o poder tra o ecclesiastico e con17. davam logo os mesmos nomes mais fácil. tâo importantes. IDEIA GERAL 59 poder a estes dois ramos da aristocracia. e com o mes- mo sentido de pátria. . conservou em virtude da sua cons- tituição independente. liturgia mas o povo venceu o latim da com os seus cantos fareis. era o encontro dos res- tos da mythologia romana dos antigos colonos.. com os elementos theogonicos germânicos. o baixo clero. também encontramos nos Pagi riva o as condições para resistir ao canonismo unitário da egreja. ven- ceu os pontífex. á VHist. É sabido que os romanos ao encontrarem nas divindades estrangeiras analogias os seus deuses.. lhes com . creou a emancipação das egrejas nacionaes. foi As conse- quências d'esta lucta contra a auctoridade ecclçsiastica fo- ram como as dadas contra a aristocracia alto clero. não somente li- nha a experimentar a força das armas contra as armas de uma nobresa secular. como llespanha finalmente. O Pagm. oppozeram ao exame das Universidades. com as suas ju- randas leigas. architectos religiosos. como vemos pelos Culdècs em Inglaterra.) poder secular. .

e até efíeito o um dedicado a Vénus. é o Du Cange. nome dado rústico ao que não foi baptisado foi pagamis. Havia-os consagrados a Júpiter. o que está sem direitos. Pa. e um modo continuo na condemnação do Escreve Ramé. tirado de uma forma da sociedade civil. declara-se contra .) egrejas foi em Berry e nos seus arO uso das imagens nas uma preponderância exercida pelo costume do paganismo. na cidade de Ruão . paganisare. . . Caux era cheio de idolatras. A veiu a comprehender sob este nome.» (Ramé. todo e qualquer não baptisado. Itália. p. As luctas entre o christianismo catholico. o prédio . foi Roman. que os definidos nâo catholicos canonicad'isso o mente podiam conceder. paganismiis. e o que não recrutado pagaegreja num. Além Pagns tinha os seus direitos consuetudinários. le- vado por uma apparenle analogia hispânica era les. de 205. S. sobre documentos citados por Lebeuf: «É que certo que ainda no século vii havia infiéis em muitas partes de França. e nâo se incommo. O concilio de Elvira. encontrou no seu território templos e idolos que destruiu. seguir o costume e su- perstição do pagão. o germano do Pase chegava a gus achava facilidade em conformar a sua crença com a das povoações preexistentes. Nethon na Península também comparado e confundido com Hercu- Com este processo de assimilação. dava a adoptor as subtilesas dos códigos ronianos nos do- cumentos da Edade Media consultados por ganus. reflectiu-se nas conquistas de Africa e lentamente e de Pagiis. a ApoHo. Arch. que Hercules era adorado pelos germanos. todos aquelles que não abraçavam o catholicismo. a Mercúrio. c com paganismo subsistia ainda pelos princípios do mesmo século redores. terra de pagãos. e ao mesmo tempo dogmas uma certa tolerância. 115.60 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Diz Tácito. bispo de Ruão em 02(5. dos imperado- res do Baixo Império e o christianismo ariano das raças germânicas.

) Se- gundo o mesmo Gerard. xandre Severo. O instincto conservador da egreja éncontra-se também no modo como até á moderna Revolução. vi. com prudência forma que a maior parte das divisões diocesanas rede presentavam ainda lidelissimamente. diocese. com os seus processos de apropriação analógica. os gnósticos capo- coUocavam a imagem de Jesus entre Platão e ArisQuando Clóvis se converteu foi preciso usar as ricas esplendor no culto para trazer pelos sentidos ao . é que o introduziram cratianos tóteles. cit. como Ale.. arciprestado ou o deado. de Helmodus. alfaias e catholicismo as raças germânicas por outro lado foi pre- ciso acceitar os costumes e tradições inveteradas do Pagiis e dar-lhes apenas gias sensíveis.» (Op. sob Luiz xvi as divisões civis da Gallia sob os romanos. Os pagi^ muito mais numerosos que as cidades. de Alfred Maury. p. e a n'este ultimo mais das vezes a uma parte doesse território caso formava de ordinário uma subdivisão diocesana tal como o arcediaconato. e lhe dava o seu nome. «o pagus correspondia algumas vezes ao território de uma cidade ou de uma . a conservou. só se encontra nas cartas mais amigas. sem excluir o deus chamou-lhe Santo Vito. modificando-a tal — A egreja somente até á Revolução. um sentido cliristão. Innumeros processos d'esla ordem se podem vèr no Ensaio sobre as lendas piedosas lui Edade Media. se lè que a ilha de Rugen era um dos principaes focos do paganismo. na lutroducção ao Cartulario da Abbadia de Chartres: «A antiga divisão territorial da Gallia em Pagi. a egreja querendo convertel-os. adoravam alii um deus chamado Zwanthe Wilh. Segui- mos Gerard. mulliplicaram-se cada vez mais pela elevação de paizes . por meio de analo- Na chroiiica dos slavos. proliibindo que se os que eram iníieis e acreditaram adorem pinturas nas paredes em Christo. deixou prevalecer na parte ecclesiastica as velhas divisões do Pagus. IDEIA GEEáL 61 este uso.

como os bourguinhões. traduziram na pedra o sentimento. que despontou pela primeira vez no tempo de Theodorico. essa architectura. que erigia muitas vezes os seus tribunaes. que o clero aproveitou para os seus interesses dando forma escripta. Itália e llespanha. celebrava as reconciliações.62 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL a paizes secundários. França. paixão de Jesus. As lín- predicas começaram a ser feitas no sermo vidgaris. cumpria os ordalios. ariano as raças que tinham o . Ali impoz ções locaes. a manifestação civjl da communa. consultava as sortes dos santos. ríodo de liberdade se creoa o espirito leigo o povo torali nou a egreja o centro dos seus interesses. de primeira ordem. N'este pe. O drama da commoveu estes povos crentes pelo que havia de doloroso no lado humano assim. á tradição que tornava mais sympathica qualquer imagem. cujo predomínio foi a creação dos novos diaas santifica- lectos em linguas independentes. As festas populares do Asno. pagi. nome genérico de godos. mais tarde con- demna-das como superstições do paganismo. qualquer peregrinação. vândalos. guardava as escripturas de contratos. deram forma artísti. os godos. em que os monges tomavam a se si a influencia dos padres seculares. lombardos. ou dos Tollos. pagelli. deixaram pelos estados meridionaes da Allemanha. a Legenda. que seguiram d^ preferencia o arianismo. que as tradições que vieram fundar as litteraturas modernas conservaram nos pagi.)) Era d'esta elevação de povoações inferiores. caracte- risada pela ogivas o symbolo da arte leiga. crearam uma architectura. as vigílias e representações dramáticas na egreja. depois . era que' fazia as suas compras. e além d'isso pela decadência das egrejas parochiaes. pela absorpção das Abbadias. os banquetes sobre as sepulturas e as danças em volta d'ellas. cujo appareci- mento coincide com do século X. ca ao chrislianismo. ou gua rústica. foram tudo conse- quências da vida independente do 'pagus.

che- gou a vencer o despotismo senhorial. Du Méril. a liymnologia da egreja foi versificada sobre a . que commungava também sacerdote. que era obrigatório na predica. esses dialectos. para caracterisar o movimento das litteraturas modernas e dilTerencial-as das litteraturas antigas ou clássicas. e na estatuária. partidas do inspiradas pelo espirito aristocrático da unidade romana. nas illunnnuras. a lingua rústica sup- plantou o latim. e egualmente as parábolas. cujo valor importa conhe- cher. mesme. desenvolvendo-se em linguas nacio- naes. a doutrina abstracta do Evangelho. accentuação da poética vulgar a missa chegou a ser dita na linguagem do povo. Assim a força da visitihanca dos IVcí. ap- parecem as condemnações mais duras contra as creaçôes do génio popular que invadia a egreja. revela-nos um feliz achado. com o como na egreja do Oriente. As novas linguas. para o não abandonar. ne li raison. O Romantismo encerra a con- nexão histórica com os dialectos românicos da Edade Media . e Nas constituições episcopaes. as linguas. e a força da tradição e do génio popular conservador nos Pagi. Mas o que era vivo Iriumpliou . creando os elementos sobre que se fundaram a sociedade. designação estabelecida nas discussões Schiller. A facilidade com que se vulgarisou por toda a Europa a designação de Romanlico. apenas falladas. chegou a vencer a tendência aristocrática da egreja.IDEIA GEKAL G3 alto clero. pela indisciplina das suas formas com relação ao latim. fixando as suas formas grammaticaes no uso escriplo. Romance. a arte e as litteraturas modernas. criticas entre Goethe e e propagada pelos Schle- gel. foram reduzidas á imagem. est loingue ro- mance corrumpue qu'a poinne uns entend Taultre. tornaram-se litteraturas. como nas vidraças. Psalmos : cita este trecho de uma traducção ainda «Et pour ceu que nulz ne tient en son parleir ne si rigle certenne. et . eram chamadas pelos Edelestand inédita dos eruditos da Edade Media.

A i Doe. do geculo xiv. Ap. A par d'estes processos de erudição. ou a inspiração como a verdade do tir modo de sen- individual. Os criticos allemaes ao caracterisarem o Romantismo. mas para actuarem no conílicto das transformações sociaes. porque accentua na civilisaçâo moderno entre do as Occidental a relação achada pelo espirito suas Hnguas e as suas litteraturas. anleir nieire. e por isso escriptas não para as academias. ne pronoiícier en une meisme semblant maet * mais escript. apontavam a independência absoluta dos cânones rhetoricos. pôde ex- primir este grande phenomeno histórico e ao mesmo tempo as suas vastas relações.» em Hespanha mesmo com- no século xv pelo erudito Mar- quez de Santillana. a significação estreita caduco e transitório de byronismo. a Philosophia procurava os princípios fundamentaes da Arte o de todas as creações do sen- marcha d'esta segunda evolução não è menos esplendida do que a dos medievistas. tido A palavra Romantismo tem este sencomplexo e profundo. Rcvuc Coniemporainej t. o individualismo do senti- mento.64 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL a poiíine peut on trouveir aujourd'ieu personne qui saiche escrire. que revelavam na civilisaçâo do mundo moderno uma classe desconhecida nas sociedades antigas. . ante eri prononce Este li nns en une guise.» A essa espontaneidade de linguagem correspon- dia a espontaneidade de novos sentimentos. Tal tem sido o trabalho da historia construir perante a critica a moderna para reEdade Media. porque nenhuma ou- como realismo ou ma^mo positivismo.641. caracter foi et li aultre prehenclido me aullre. P. fa- que o Romantismo adquirisse cto tra palavra. timento. o povo. y». É realmente lamentável. e as obras litterarias baseadas sobre as tra- dições nacionaes de cada povo. que chama romance aos cantares «sin regia ni cuento. de que la gente baja è de servil condicion se alegra. Sigamol-a.

ou que correspondem aos sentimentos de que estamos possuidos. superior partindo uni- camente de relações particulares. A Philosophia sensualista tinha fatalmente de tocar os problemas da sensação. agrupados e submet- tidos á analyse scientifica. a feição positiva. en- vagamente Baumgarten cOmpetia-lhe crear a Esou a Philosophia da Arte. Para Baumgarten. Sciencia muito moderna. que leva á concepção da unidade do universo. produzindefinitivo — que ha no campo da observação chega-se ao resultado do-nos impressões tanto mais profundas. neralisaçôes. e de agrupar os factos mais característicos em um dominio á parte ten. a Esthetica foi smsualista em Baura- em Schelling e Hegel. ba- automatismo do elemento tradição. subor- dinado a um intuito individual. e só uma ordem de phenomenos que nos levam a um estado de passividade agradável. ideia positioista da relação connexa. que nos eleva ás maiores ge. constituem a Esthetica. quanto é o desen- volvimento que atlingimos dentro da civilisação. de descobrlr-lhe a vasta complexidade. a sua historia é a evolução do pensamento procurando reduzir a processos lógicos os phenomenos da impressionabilidade. Baumgar- mundo novo da treviu-a thetica observação. scientitica dada pela renovação seia-se sobre o do fim do nosso século. Estes factos sensoriaes.IDEIA QERÁL 65 B) A CREAÇÃO DA ESTHETICA PELA PHILOSOPHIA METAPHYSIGA Independeiitemenle de todas as Iheorias. e descobrir o flm racional das crea- ções do sentimento garten. idealista . de todas as escolas. o Bella 5 . foi ella que creou a relações — definia a Philosophia a sciencia das causas e das que podem ser concebidas sem intervenção da fé achou por essa concepção justa o fio conductor para essa que — A Esthetica. em parte recebidos pela communicação directa com a natureza. e principalmente creados pela actividade intelligencia da no seu momento mais livre. sempre a uma synthese. .

A este uma noção modo de vêr. que ha uma certa unidade era esta unidade.» Esta con- era «a perfeição concebida de um modo fusão resulta do fraco conhecimento das relações particula- que não é indispensável para descobrir através d'ellas. derivan- d' esta correlação passada no espirito.. Ainda assim este a impbrtancia de haver suscitado modo de vêr tem ier. o conhecimento não adquiriu toda a por consequência a perfeição é vaga. porque opera sobre as . o Bello é um sentimento. a noção da unida- de. revelada sentimentalmente pela perfeição. . o facto da ideia do Bello. que se- paradamente nada exprimiam a descoberta de e d'esta aproximação resulta um principio superior. não forma lógica. a em Schil- concepção da Arte. conformando-a com o bem. ficar sem pro- gresso. desde o momento que essa concepção da unidade. solução mais do que a concilia- ção entre a imaginação e o gosto. allia como espirito. o que elle chama res. o elle para um problema cordo entre do senso do-o commum um producto da commum e gosto. em parte concebida sem grandes processos analyticos. século XIX foi ella que lhes imprimiu uma unidade impo. a própria moral. o hello foi por elle essencialmente analysta e criti- bem observado no campo dos factos bello. o ac- imaginação e uma certa norma tornava-o subjectivo. como Foi como immobilisar-se. mas no nosso relações. 66 HISTOEIA DO ROMANTISMO EM POBTDGAL confuso. fundada no accordo da sensibilidefinitiva dade e dá rasão. era no campo da generalisação pouco viu. Baumgarten outros este : princípios rigorosos na sua theoria. A intelligencia é que aproxima as diversas . á psychologia e á lógica. Pouco deve a Kant co. O defeito da escola sensualista foi o rebaixar a ideia da perfeição á con- venção arbitraria e consuetudinária da moral. e resulta de uma analyse parcial das relações. o Bello não está na natureza. nente. a perfeição. scientifico O desenvolvimento dos problemas da Esthe- tica saiu da renovação metaphysica da primeira metade do .

esse rigor le- vou-o ao assombroso exagero. na lucta da liberdade contra a fatalidade da natureza e contra a ridade. as creações falsa ideia que lhe dava como fim a imitação. o fim da Arte corresponde a esta actividade do Eu. que vae Fi- realisando o seu poder como creador. a natureza coarcta-lhe a liberdade. para Fichte. critério histórico. o Eu procura-lhe o seu Arte. como o faziam Lessing e Winkelmann. único conhecimento de cto provado no acto da consciência. era fim racional. paixões. é pelos productos da Arte. (na archeolo- gia e na critica) recebeu a influencia directa da verdade dos . e por isso um fa- tomado para servir de norma á realidade do universo. Na philosophia de Fichte ha um eterno antagonismo entre a natureza e o Eu. A par de uma corrente positiva. 67 faculdades que comprehendem o Bello. Dentro do da Arte de todos os povos. porque em volta d'elle se estudava as obras de arte da an- tiguidade. chte tratasse accidentalmente d'este problema. Quando Ficbte succedeu a Kant. na inanidade da abstracção teve fortalecer-se de com esse terrivel rigor lógico . na de- terminação do fim da Esthetica como sciencia. Fichte foi infallibilidade da tradição e da aucto- levado a este verdadeiro fim da Arte. tivesse que o não da escola bem definido á sua intelligencia uma vez determi- nado este fim da Arte. só se comprehendem. levada aos mais extraordinários poQtos de vista.IDEIA GESAI. quando se descobre através d'ellas o esforço que o homem fez para com os objectos desconnexos da natureza exprimir as suas definidas. o realisam e o com- municam. com a vontade de perceber as civilisações antigas. com o amor do antiquário. acabou essa sensualista. mas admirável. A foi elaboração metaphysica. Que importa que . A o instrumento doesta lucta . de todas as civiUsações. da concentração do universo no Eu. para assimilal-a a si. as suas ideias mal e a perpetuar as suas aspirações. com a audácia da abstracção.

tornado objectivo. é o phenomeno da associação de dominio lógico. omniprestente. na um som corresponde a uma cor um estado moral. de que nao existe ne- nhum conhecimento fora das relações que nos aproximam mais ou menos da verdade. em permanente actualidade. profunda não pelos seus resultados. É este o evolução do universo não existe um úniseja fatalmente correlativo ao antece- co momento que não dente e ao consequente. aproximando ções. (Fechner). as mais impensadas rela- A organisação do artista caracterisa-se pelo poder de^ achar o maior numero de relações entre ás diversas formas da natureza. ideias. acha-se realisado nas obras de João Paulo. intel- porque d'essas obras concluia-se esta verdade para a ligencia. uma das for- mas da verdade. a dependência do tempo. O pnncipio positivo. ou a traduz ou lhe serve de equivalente. isto é. mas o seu alcance vê-se nas obras d'arte que escreveu. que se lança á creação do bello. Os nossos fracos órgãos. falsificado o critério da Foram as organisaçoes artísticas as primeiras que sentiram essa continuidade. a necessidade de dividir para comprehender é que nos têm natureza.68 factos. . João Paulo Richter formulou em systema este problema isolado. pelas obras de arte chegaram a realisar o bello. Os artistas mais completos. por isso que uma relação que não existe na natureza. mas que é creada pela intelligencia por meio de um contraste directo entre ideia e ideia. a ironia. essa trama inteira da phenomenalidade . HISTOEIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL e sem o sentir determinou para sempre esta con- clusão geral. não ha em um phenomeno solução de continuidade. uma certa paisagem a facto authentico. D'esta philosophia do individualismo saiu umst das formas mais originaes da Arte. os que têm uma. é mas pela sua origem. do- uma sensibilidade ex- cessiva faz descobrir o lado ou a feição por onde uma dada forma se assemelha ou faz lembrar outra. tudo é um desdobramento seriario.

) Depois d'esta ideia de Goethe. que define perpetuamente o tista é artista. es- poeta. mas nunca uma sciencia foi mais bem definida. melhor caracterisada. mais alto e mais claro do que os outros homens. para vêr mais através da variedade a unidade. pintor. elevou-se do modo mais franco e a Philosophia lúcido a este ponto de vista. o mesmo que Fichte fez para de Kant. quando Schelling fez para a Philoso- phia de Fichte. concorda também com o fim positivo nos seus pro- superior que se deduz do conhecimento d'essas relações mais intimas: objecto ha tEm vêem cada con- uma inexgotavel significação . archi tecto. vamos achar em um pratico. I. lança sobre este munuma maneira verdadeiramente oriental... elle cria as relações as mais estranhas. mais sublimemente evangelisada.» Quer dizer. vemos uma perfeita descripção do artista: «Espirito tâo do.» t. tiveram o poder de abranger e achar maior numero de tatuário. Carlyle. que conduz o todo a uma certa unidade. espécie historia. porque necessitavam de todas as formas palpáveis para lhe exprimirem a comprehensâo (l'essas relações estranhas que alcançavam. Nas palavras de Goethe sobre João Paulo. ou Leonardo de Vinci ou Raphael. é o que pôde ter maiores relações com . Elle não fundou uma Esthetica. só pôde ser achado pela Arte. 7). de João Paulo na cessos críticos. os olhos forme os meios que empregam para vèr. p. de bem dotado. a mesma noção d'esta capacidade: «O o que vò maior. o facto da creação na . olhares cheios de atrevimento e de veracidade. combina as cousas as mais incompatíveis mas de tal sorte que ahi se mistura secretamente um fio moral. relações na natureza : Miguel Angelo. » (Notas so- bre o Diwan. foram vastos. Este sentido inexgotavel das cousas. (Hist. No dia em que se serviu dos problemas da Arte para exempfificar praticamente o seu systema philosophico da identidade. o esar- tatuário Prcault. IDEIA GEBAL 69 maior receptividade. o que precisa tel-as. o mundo exterior. da Rev.

Elle próprio obedecia á verdade que alcançava. resultante da audácia de aproximar as relações das cousas e de fixar as mais recônditas analogias. ou o Eu. partindo do ponta ser fundada que nenhuma Philosophia pôde sem em um conhecimento completo. do mesmo modo que fácil acontece na valores ab- Álgebra. e o subjectivo. e quando essa manifestação revelar a lei superior que a produz. mesmo no estado de rudeza primitiva dos povos. as ideias combmam-se. caracterisa-se pela invenção. levam a conclusões ori- ginaes e extraordinárias. A abstracção transcendental. O syncretismo. o Eu é a intelligencia. ScheUing corrigiu d'este modo o exagero individualista de Fichte. com o syncretismo psycho- logico e natural das épocas primitivas. por isso que não trabalha sobre factos reaes. es- tes dois termos existem separados antes da comprehensão da verdade. mas simplesmente aproxima ideias. trata de mostrar que para con- seguir o conhecimento. Schelling chegou a identificar o syncretismo philosophico. o seu systema da identi- dade precisava de ser contraprovado com pável. onde por ser mais stractos. fixar as suas analogias secretas e dar-nos a consciência da harmonia ou identificação do universo physico e moral. Vejamos como Schelling foi levado a uma ideia tão sublime da Arte existir . a Natureza é o facto ou o producto. então a intelligencia identifica-se em uma suprema harmonia. e adquiriu a altura e serenidade de um órgão que serve para nos des- cobrir ao sentimento e á intelligencia as múltiplas relações do universo. e elle foi um exemplo pal- encontrar nos phenomenos da Arte uma . é necessário que se dê o accordo entre o objectivo ou a Natureza.70 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Arte perdeu esse caracter de lucta de Ajax. relacionam-se. é um estado de syncretismo produzido voluntariamente. ou da abstração. se está operar com sempre em permanente descoberta. é fecundo. No seu Systema de Philosophia transcendental.

é evidente que a Arte é o único e verdadeiro órgão d'esta philosophia. Schel- porém. p. sem consciência no mundo real. tal. comprehendia-o diante de uma obra d'arte. entre a reali- dade e o pensamento.) E fortalece outra vez o seu systema meta- physico com esta theoria da Arte: «Se a intuição esthetica não é senão a intuição transcendental tornada objectiva.» (Systetna de Idealismo transcendental. dade. em vez de a fundar foi em bases solidas. como com- a actividade esthetica. objectivo com vem consciência no mundo O então a ser a poesia primitiva do es- que não tem outra consciência. a na- uma eterna poesia e a' actividade da intelligencia um sublime poema. Ouçamos as suas palavras: «Trata-se de mostrar no subjectivo. na sua forma ainda a mais particular. sendo ao mesmo tempo o documento que con^ firma sempre e sem cessar o que a philosophia não pôde . e n'esta justa conciliação da forma com a ideia reahsa ling. mundo pirito. de codificar-lhe os factos. tendo e não tendo consciência. são productos de uma única e mundo ideal mesma activiesthetico. a palheta de um Raphael. e o dos objectos. reduzindo toda a Philosophia a uma Arte final.IDEIA OEBAL 71 demonstração pratica e brilhante. 349 a 368. levado pelo transporte da abstração sacrificou o seu systema. O órgão geral da Philosophia e o fecho da abobada de todo o edifício é a Philosophia da Arte. na consciência. o encontro d'estas duas actividades. é preciso que se considere como d'esta actividade. eivei O principio qiiasi incoer-» da identificação entre o infinito e o finito. porque não deu forma scientifica a esta concepção da Esthetica . e toda a obra de arte para ser um producto O mundo ideal da Arte. Não ha actividade prehendida. esta actividade. uma harmonia intima a que chamam Bello. entre o mundo physico e o mundo moral. por meio de um mero accidente material de combinações de tintas. consegue exprimir o sentimento moral o mais delicado. tureza a a arrebatado aos últimos exa- geros.

é ao que elle chama a synthese. essas dades poéticas da raça ariana.. pela fatalidade do atavismo. representando o principio creador. que pelo facto da sua existência tende a realisar-se. religiosa. a que pertencem. sobre postulados gratuitos com todo o rigor dos processos lógicos. teve consequências prascientifica profundas na actividade do século xix. em vez de ser sobre ima- gens da natureza. Após Schelling veiu Hegel corrigir as Iheorias metaphysicas. jque inventou pela abstracção estes vastos systemas. porque a perfectibilidade tornou-se o dogma da educação individual. em que noção da sciencia se fim sagrado da exis- tornou para todas as intelligencias um tência. succederam-se as epopeas metaphysicas. as obras de arte da antiguidade appareceram com um sentido recôndito . os mythos dos diversos povos foram aproximados nas suas apparentes analogias. Se Schelling nâo construiu Esthetica. Schelling deu este grande impulso cora a sua vaga abstracção. isto ó. logicamente architectados. as lín- guas estudaram-se sob o ponto de vista comparativo. ou . as litteraturas sob o critério das nacionalidades. p. a imaginação trabalha.» (Ib. que mais tarde levaram ao seguro principio da filiação histórica. a elevação outra vez á ideia pela realidade com que communicamos. que crea- ram no seu primeiro syncretismo os immensos poemas do Mahabharata e do Ramayana.) Esta apo- theose da Arte feita por Schelling. expor exteriormente. limitando-se na Antithese. e sua identidade primitiva com o que ticas e n'ella ha de consciente. o que ha de inconsciente na actividade e na productividade. creou-se a pedagogia. Ás epopeas theogonicas que se tornaram históricas. o que ha de verdade n'ella não se perde mais. 366. a força no seu estado immanente sob a designação' de ideia.72 mSTOBIA DO EOMANTISMO EM PORTUGAL isto é. mystica. d'este modo dentro das raças germânicas e em uma época facul- de alta civilisação. o veiu substituir génio metaphysico. produziu uma em volta de si uma commoção a senti- mental.

que o levou á verdade. exci- tavam o seu amor pelas artes até ao mais curava com um encanto insaciável e sem se cançar. até certo sua infmitividade. os con- certos. embora Hegel vá acomnhando a theoria transcendente com a evolução histórica dos factos ria final. Pro- de Berlim. ou Tierscb jiilgam-na fa- uma cto. insensivelmente e sem o querer. Fazia ex- tractos e notas para a historia das Bellas Artes. as Exposições de lodo o género. não segue o melhodo positivo. obra prima. a ideia do para existir completamente. os Iheatros. Na poesia era em toda ella familiar. Rosenkrantz artísticos O lado positivo da também pela própria biographia de He- escreve a seu respeito: «Os thesouros alto gráo.. porém. por meio d'essa forma. quasi inexcedivel. . Tinha para a esculplura a capacidade a mais evidente. Amava apaixonadamente a musica. precisa sair do seu estado de immanencia e communicar-se. e é por esta evolução fatal que o ser precisa passar para attingir a plena existência na consciência de si mesmo. as exposiçijes. fortalecer o systema de Hegel. Esthetica.. porque não é a historia que o leva a uma theo- mas é a theoria que interpreta os factos submet- tendo-os ás suas formulas abstractas. A Esthetica tem sido considerada o reducto onde melhor se defende a philosophia de Hegel. explica-se gel. tinha para a pintura esse saber ver innato. como Standenmaier. os maiores críticos. abandonou o seu raethodo pelo sitivista. Os problemas da Esthetica também vieram Bello. é que nos elevamos outra vez á conce- do Bello. que torna apreciável a sua Esthetica. foi essa realidade. isto é. Este livro. essa observação immediata so- bre as creaçôes dos diversos povos. as galerias. ponto negação da que é a sua pção da ideia antithese. que elle . exteriorisando-se na forma limitada e palpável .IDEIA GERAL 73 a plenitude do ser pela consciência. Vejamos a rasão do Hegel corregiu Schelling fortalecendo a especulação critério po- metaphysica com a investigação histórica.

pelas suas cathegorias sacramentaes. a Lógica tornou-se inductiva ou deductiva. que se impunha fatalmente pelo seu formuhsmo dogmático. a Socio- menos dynamicos de uma nova logia . i \ . onde se harmonisam todas as concepções parciaes da intelligencia. durante essa elaboração intellectual deu-se scientifica. a Politica do empirismo. veia var-se na atmosphera experimental da Biologia.se na Linguistica e na Philologia a estéril Moral. agruparam-se como phenosciencia superior. Cada uma d'estas nivel intellectual do século sciencias teve os seus obreiros especiaes. segundo scientifico o processo ou philosophico. A velha Psychologia. Pelos elementos constitutivos d'essa renovação se ve claramente. a Gramma- geral. o encadeamento da Economia politica. como operar sobre vagos termos. a Arte. a Litteratura. A organisação le- a direcção transcenden- das escolas allemães attraia-o para as syntheses a priori. Desde Hume que as ideias metaphysicas haviam levado um terrivel golpe . Já vimos qual o logar que a Esthetica occupa nos systemas metaphysicos . a um Bichat. cuja uma renovação synthese se chama o positi- vismo. sem realidade. a um Bopp e Grimm. se deve a renovação scientifica. que a Philosophia já não pôde ser uma concepção individual e dogmática ella é um resultado geral. chegar a tiga e da sem mesmo terem rigor lógico.74 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL procurava constantemente aperfeiçoar. transformou. a um Creuzer. o Di- comparada Historia. foi expellido do mesmo modo que o que é organisado rereno- pelle o corpo extranho. systematisada por Augusto Comte. que separadamente cooperaram para levantar o .» vava-o para o campo experimental tal . a reito constituido. . com os progressos que se vão . e pretender uma verdade ? O velho edifício da philosophia an- Edade Media. a todos os que reconcentraram as suas forças na comprehensão exacta dos phenomenos. a gasta Theodicea tornou-se a Sciencia das Religiões tica .

dentro do meio em que vive. o nome de Clássico. e dirigindo gar á verdade. de se aproximar vel. devem como a grande commoção moral e litteraturas. em que desenvolvemos o novo crilelio. esse 1 Na revisla de philosophia O PositivismOy n. ha muito mais segurança de ched'ella quanto fôr possí- C) A REACÇÃO NACIONAL ENTRE OS POVOS MODERNOS a originalidade das littera^uras Assim como se conhece pelo fundo de tradições populares em que se baseam. * processos lógicos pela evolução histórica. pela especulação phi- losophica chegou-se a formular o critério por onde ae julgar as creaçôes do sentimento. o arsenal dos cânones académicos recebeu o manifestação do sentimento na arte. vol. i. Em quanto se debatiam em estéreis objecções.IDEIA GEBAL 75 realisando. em ironias auctoritarias. e a livre nome de Romântico. em que se procurava a verdade no typo e espontaneidade da natureza. .» 6. politica produzida pela Revolu- ção franceza se reflectiu entre todas as nações. em acrobatismos phraseurgicos. e como as na sua phase romântica. Falta agora vèr. Sem os perigos da paixão egoista os da theoria individual. Foi n'este momento de enthusiasmo. Pelo conhe- cimento erudito da Edade Media descobriu-se quaes eram as fontes das litteraturas modernas . dava-se en- tre todos os povos esse estado moral da aspiração. é mente um methodo uma sem uma conclusão que qualquer ser génio pôde tirar. esboçamos um estado sobre a Constituição da Esthetica postíita. Por isto . se vè é que o Positivismo não é sosynthese permanente. do mesmo modo moral ou se contraprova a sua vitalidade pela aspiração politica de que ellas são a expressão. que as Litteraturas moder- nas proscreveram a imitação da antiguidade. se tornaram a expres- são viva da nova aspiração á liberdade. Estabeleceu-se a lucta de preceitos e preconceitos de escola .

bem da sua pes- mas a corrente de liberdade que ella insuflara na in- telligencia tica moderna não foi extincta. A Allemanha para resistir ás arbitrariedades prepotente organisou-se em sociedades foi secretas. Na Allemanha. e da con- tinuidade da vida. traduzido por Schlegel. leão tempestuava na Europa No entanto Napo- com o capricho das suas in- vasões . da qual Fichte um dos fundadores. os poetas e os homens de sciencia.76 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL anceio pela liberdade. A revelação do drama indiano de Kali- dasa. repassados do anceio pela liberdade e d'essa vaga melancholia do génio vem descobrir ao mundo um novo ideal de poesia Goethe apaixona-se por esse novo lyrismo. e a Buí' chenschajf. . e que em todas as creaçôes humanas existe uma unidade superior. uma harmonia da mesma origem. A marcha da Revolução franceza foi desviada por Napoleão do seu destino a soa . como a Tu- gendbund. queria realisar o sonho de Carlos constituiu a unidade europea sobre a incoherencia do Magno quando mundo do bárbaro. e influe no lyrismo inglez da escola dos lakistas. ás quaes pertenciam os estudantes. . Neste tempo os poemas céltico. A discussão da authenticidade dos poemas pu- blicados por Mac-Pherson leva a descobrir o problema da concepção da poesia nacional. Foi n'esta corrente que se temperou o génio de gaelicos Schiller . O interesse que a cri- impassível de Kant mostrava pela Revolução. que levava ao estudo da poesia nacional germânica. era para os artistas uma paixão vehemente que os inspirava. a Re- volução reconheceu-o mandando-lhe o diploma de cidadão francez. dá a conhecer que para attingir-se o bello não era preciso moldar as paixões pelas receitas de Quintiliano . Sactmtala. do bardo Ossian. e Napoleão prefere essas narrativas ossianicas ás epopêas de Homero. Grimm descobria õ fragmento da Cantilena de Hildebrand e Hadebrand. que trouxe as litteraturas á sua manifestação de verdade. da sohdariedade das civilisações.

e considera-se como conspirador contra a pátria todo aquelle que não exprimir os seus sentimentos segundo as obras primas da Grécia. dinário.IDEIA GERAL 77 Era n'esta crise violenta em que se luctava pela indepen- dência da pátria. que organisaram a chamada com o Gm de assegurarem á Europa a estabilidade pertur- bada não pelos exércitos e guerras napoleónicas. que deixou a voluptuosidade da vida italiana para ir offerecer o seu sangue pela indepen- . Byron. o antigo acceita-se como convenção. qiie o génio nacional facilmente se manifestava pela litteratura. Fauriel colligiu os Cantos populares da Grécia moderna. feclia-se a porta para os cargos públicos a toda a mocidade revolucionaria. fundou a associação secreta Hetai» d'onde prorompeu a insurreição da Grécia. espirito Bem haja esse génio extraorlitteraturas e que synthetisa a nova feição das do moderno. Em quanto a Santa Alliança talhava a Europa conforme ura apanágio do cesarismo que renascia. os diplomatas oppunham-se á heróica regeneração da Grécia. mas pelas ideias da Revolução francezal As Restaurações forçaram o tempo para imporem estupidamente o Statu quo do antigo regimen que passara . porque viam instincto reaccionário n'este facto com o seu assombroso uma das ca- beças da hydra revolucionaria. leão succedeu a Aos desvarios audaciosos de Naporeacção tenebrosa e não menos funesta dos Santa Alliança. e dar forças para a resistência tantas vezes frustrada. Ali se viu uma poesia popular levantar o espirito nacional. Mas no congresso da Santa Alliança. que vieram mostrar á consciência do nosso tempo como a unidade de politica de um culo povo e a sua liberdade se funda e renova sobre o vin- commum uma tradição. como na AUemanha reiay fizera Fichte. abandonada por todas as potencias para sacudir de si politicas. O poeta Righas. a Grécia. per- seguem-se as sociedades secretas. aproveitam-se os velhos caducos. luctava contra a Turquia esse jugo de séculos. diplomatas.

e Victor Hugo ele- va-se á phas€ byroniana. No órgão jornalístico o Globo^ sob a recção severa do radical Dubois. chega garantia da di- a pedir a banição dos 'românticos como uma segurança publica. e Goethe acompanha teresse com in- esse movimento disciplinado. em França o mesmo facto que na Itália Baour-Lormiant. um relevo extraor- que tanto protestara contra os desliberal tornou-se byroniano. Na lucta do Romantismo. Becombate Restauração ranger a do absolutismo faminto e ligar os seus cantos ás aspirações obcecado em canções cheias de malicia. Gui- . O Romantismo que os dedassés da Restauração imitaram na forma de scepticismo affectado. estabelece os novos princípios de critica. dá-se . um como em Alfred Musset. na critica theatral.78 HISTORIA DO ROMANTISMO BM PORTUGAL dencia da Grécia. esforço da Grécia para recuperar a sua independência o desenvolvimento do Romantismo liberal influiu para o poeta enten- deu do seu tempo. O . O exemplo em de Byron impressionou todos os novos talentos. a mocidade que se affirma oriunda dos princípios da Revolução franceza. cuja fundação se deveu em parte a Thiers. apparece o primeiro numero do jornal. na archeologia da Edade Media. De 1824 a 1830 o Globo exerce uma . na Philologia e na Sciencia das Religiões afíirmando a superioridade politica da França . liberta do antigo regimen. e o titulo a Pierre Leroux. actividade intellectual que influe sobr^ o espirito publico antes da coroação de Carlos x e quando o partido liberal se desorientava com a invasão da Hespanha. como que em substituição das Tablettes universelles^ supprimidas pelo ministro reaccionário Villèlle. O Globo inicia o publico no conhecimento das sessões da Academia das Sciencias. e a sua morte deu dinário aos cantos. varios reaccionários e attentados contra os povos feitos pela Santa Alliança. Por efifeito d'essa suppressão a joven França congrega-se n'esse centro de elaboração mental. intentava alliar-lhe a liberdade da imprensa ingleza e o espirito scientiíico allemão.

e d'aqúi também a vaidade dos seiís esforços. e ainda Ar. centro das nossas investigações. desviaram por algum tempo a elaboração litteraria da direcção e solução scientifica que lhe imprimira o Globo. Farcy.» Ch.que passara da phase emanudica para o satã* em Victor Hugo. filhos dos homens da Republica e do Império. Tal era o facto que nós considerávamos sob todos os aspectos. Trognon. Passe et Present. pela sua poderosa iniciativa. D'aqui a esperança insensata de tudo reparar a seu modo. Merimée. que a Revolução que elles atacavam dera-se menos nas ruas do aos catholicos. mas contribuíam n'essa com communicaçôes penhavam três grupos se emempresa de renovação mental. Villemain e Cousin. . e Theodoro Jouííroy. apesar da sagacidade dos seus illustres defensoréâ. As transformações do Ro- nismo byroniano mantismo. Agostinho Thierry e Lerminier o segundo grupo * era formado por mancebos. Esta geração forte. o primeiro. * lecer o obscurantismo medieval com uma grande altura moral as leis psychologicas e históricas pelas quaes os dogmas se extinguem. que pretendiam restabeexplicava-lhes que nas ideias. mand Garrei. taes como Charles de Rómusat. não pertenciam á redacção do Globo. á frente dos quaes estava Dubois. coUaborando tin. Ella queria tudo altribair âs paixões individuaes. ou- sava dizer aos políticos reaccionários da Restauração. e no res- tabelecimento do critério politico. pela bocca de JouíTroy. Era preciso substituir a macaquea- 1 «o estado geral dos espíritos Doesta época era o assumpto iDexgotavel dos nossos artigos. Stapfer. . t. Duvergier de Hauranne e Duchatel o terceiro grupo era formado pela mocidade mais lúcida das escolas. ás illusões de um momento e representar como um mal passageiro uma renovação social.' IDEIA GEBAL 79i zot. 408. Pa. os normalistas Sainte Beuve. J. . J. pela critica phi- losophica. Remusat. Vitet. . e que os nossos constantes esforços tinham por fim caracterizar e esclarecer como o mais forte obstáculo aos planos da Restaoracão e a mais forte objecção ás suas doutrinas porque. ii. ella constantemente desconhecia e punha todo o seu orgulho em desconhecer a realidade e a profundidade da Revolução nas ideias. era o dos universatarios. p. facto poderoso que continha todos os outros. Ampere. com elles Damiron.

nem a natu- o que importa no silencio actual do bom senso. com relação á sociedade moderna. que o nosso tempo tem reaUsado pela philologia e pela historia reza se repetem . a separação do poder tem- poral do poder espiritual.. As questões vagas de escola foram-se abandonando diante da renovação scientifica a rehabilitação histórica da Edade Media. e Trovadores da Provença e do occidente români- sobre as Canções de Gesta. determinada pelo foi Romantismo. que consistia em um guarda roupa cavalheiresco.» Pela systematisaçâo da Sofoi por Augusto Comte. É. que os erros phantasticos E no meio de alguns escriptores embaraçam. do norte da Çrança. riosidade geral. desde pouco. terminava com a dissolução do regimen cathohco-feudal. não temos a receiar os inconvenientes que parecem resultar d'esta tendência. Mackintosh. : «Nem a arte. Além d'esta concepção lúcida philosophia positiva. a da primeiro atacado na época do Protestantismo. Edade Media. 80 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL ção da Edade Media. Madame de Staèl. . seguiu-se o profundo estudo encetado pelos philologos allemães e francezes sobre as poesias lyricas dos co. um novo progresso. pela sciencia das origens. cuja confusão primitiva se ob- serva ainda na Rússia . também uma das causas d'esta transfor- mação litteraria. é desviar o despreso que se pretende lançar sobre as concepções da ciologia. o segunda pela Revolução franceza. Existiam os ele- mentos para esta dissolução do Romantismo. Muitas aífeição aos uma cuuma nova com nações regressaram interesse particular e um monumentos do génio dos seus antepassados» das circumstancias. caracterisa assim o movimento novo: «A Litteratura inspira por toda a pjyj-te d'esta época. que pertence a esta época de lucta liberal na politica e na litteratura. representava modernas com relação á civiUsaçao greco-romana. chegou á formula. cuja importância era ainda ignorada. a Edade Media conside- rada como tuições uma evolução histórica d'onde provieram as insti.

como-Puchkine. mas a Revolução estava nas consciências. esmagaram os povos. Zaleski inspira-se nos cantos populares. reuniam-se em sociedades secre- tas. na época em tomaram um novo impulso porque é isto que faz comprehender os caracteres nacionaes. Simoo. ISa Rússia o Romantismo manifestou-se pela exaltação by. aspirando o advento da liber- dade politica no seu paiz. quizeram restabelecer as formas exteriores do antigo regimen. e pelas suas composições lyricas soíTriam os desterros e os cárceres. (trad. 43. acordando-as para a independência Em volta de Adam Mickievicz reunem-se os estudantes da Lithuania e da Ukrania. Os paizes escravisados. L.) 6 . se a Revolução franceza é o ponto culminante da dissolução do regimen catholico-feudal. e intentavam servir de expressão a um novo Ideal. que. persegui- i*am as intelligencias superiores. como cipal. Mickievicz é internado espíritos ingénuos pelo governo russo. um modo com ulil por onde se familiarisam os sécu- los esclarecidos as bellezas e graças próprias a cada lingua. e a litteratura torna-se testo e umi linguagem de pro- de revivescência nacional. Acentuemos rapidamente esse duplo mo- vimento antes de nos lixarmos ' em Portugal. . abraçavam a nova poesia. os cantos dos trovadores nas luctas da França muni- vinha agora proclamar o grito das nacionalidades. como a Polónia ou a Finlândia. p. emfim o byronianismo lançava os na 1 Essais fhilosophiques.» * A transformação do Romantismo provinha de uma transformação social em que ellas . politica.IDEIA GEBAL 81 sobretudo. todos os paizes da Europa appareceram relacionados os dois movimentos tólidos . e com as qualidades originaes que distinguem os primeiros esforços litterarios de cada uma. os esforços es- da Restauração e da Santa Alliança nada poderam con- tra a aspiração moderna . É por isso que as Litteraturas procuravam outras formas. roniana os jovens talentos.

espirito nacional fortalece-se na própria tradição em 1806 a Finlândia deixa de pertencer fez á Suécia para ser submettida por conquista ao Império russo. os novos escripto- são encarcerados. Mackinlosh resume em uma cara- cteristica fundamental o espirito da litteratura italiana: Alíieri. Na Inglaterra. aDesde Pelrarcha a|^ lia o sentimento nacional da Itá- parece ter-se refugiado no coração dos seus escriptores. L. o génio magyar Petõfi. Símoo). paixão continuada em 1828 pelo Dr. desenvolve-se a paixão pelas origens nacionaes.» * Na lucta do Ro- 1 Ensaios philosophicos. (Trad. 81. vivendo nas lendas da aspiração nacional depois de ter desappareci- do em uma batalha. que O mesmo facto psychologico se repete organisa o Kalevala. Até na Finlândia o . que conservam na geração nova o espirito de resistência pela independência nacional. e guerrilheiro junto de Bem. paiz é Quanto mais esse tas. e que Lenormant examina como raniano. o Romantismo acordava o sentimento separatista da Irlanda o da Escossia em Tho- maz Moore e nos quadros novellescos de Walter Scott. uma forma épica do génio tu- em 1819 Yon Schrõters publica as Finische Runen. A Itália tyrannisada pela Áustria. tas Os poein- no desterro. que Jacob Grimm considerava comparável ás epopêas indianas pela riqueza dos mythos. p. e Rosseti é banido por ter tomado parte na revolta de Nápoles. como Mickievicz e o Conde Krasinski. fluem longe da pátria com os seus cantos. revela-se esplendidamente no hallucinado Alexandre arrasta apoz si poeta que o povo. Pellico e Maroncelli eloquente. .82 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL revolta pela independência da pátria e no patíbulo. na Hungria quando tentou sacudir o jugo austríaco. Lõnnrot. Berchet refu- gia-se na Grécia. encontra na litteratura romântica o seu protesto res. tanto abandonado pelos seus compatrio- mais faliam d'elle com enlevo. Um movimento nacional com que apparecesse essa extra- ordinária epopêa do Kalevala.

o Romantismo dissolveu-se em um regimen mental. as suas redondilhas espontâneas.» O Romantismo italiano apresenta as suas phases distin- ctas de christianismo mystico em Manzoni. O Romantismo em 1 Ilespanha devia de ser mais uma direc- Resume de V lUsloire de la Litterature tía/icn«. A Itália.IDEIA GEBAL 83 mantismo. que atacava os homens superiores para matar com elles o fermento do liberalismo. para triumpharem dos seus adversários. como o caracterisa Gervinus. e de satanismo em Leopardi. completa a sua dade com uma pasmosa elaboração scientifica e philosophica. e de em demência. A Ilespanha não podia perder a feição nacional da sua litteratura sem solTior primeiro uma decadência orgânica infligida pela monarchia. as suas comedias de capa e espada. ii. que condemnava tudo quanto provinha do génio árabe ou do arianismo germânico. as suas novellas picarescas. durante o domínio do partido apostólico. serviram-se do despotismo auslriaco. deu-se essa pressão nas duas terríveis épocas de 1814 a 18:20. foi pre- ciso que as perseguições politicas do absolutismo lançassem nos cárceres e na emigração esses escriptores que até então imitavam os modelos latinos e o pseudo-classicismo sob o governo da camarilha francez. que põe esse povo ao lado da Allemanha e da Inglaterra venção e em in- em trabalho. ambos porém com um profundo sentimento activi- nacional. Este jornal. 1820 a 1823. e o esquecimento das suas origens imposto pelo obscurantismo catholico. depois de ter realisado a sua aspiração de séculos ou a unidade nacional. foi como * diz Salíi: «Acciísado de ex- citar os seus leitores á independência politica por meio da independência litteraria. a plêiada romântica proclamava os novos princípios íitlerarios no ConciUalove. os Clássicos. 199. . Para que a Ilespanha tornasse a achar os seus Ro- manceiros.

Depois da invasão da Hespanha pelo exercito francez. O movimento nalit- cional contra a invasão napoleonica não achou ecco na teratura . mas a ausência da pátria. a mocidade. á frente da qual surgiu Garrett. Os que viam mais longe caíam no des- como Espronceda. estava morta pela censura regia e clerical. varam-os para a imitação das novas formas. mesmo tempo exercia a censura O Romantismo religioso propagou-se em forma serva. se sentiu inspi. Só depois que a nação tomou conta da sua soberania na Revolução de 1820. não se elevando acima do Romantismo religioso. A censura dramática estava a cargo do boçal padre litteraria Carrillo. os emigrados preferiram quasi todos a Inglaterra. de philosophia no humanitarismo krausista. vigorava a antiga semsaboria das arcádias. rada pela liberdade o despotismo da Santa Alliança apoia . e é atacar os seus velhos inimigos. Em Portugal vemos repetir-se com os mesmos caracte- res o primeiro impulso do Romantismo. os desalentos pessoaes nos prolongados desterros. alento. não menos faccioso que o padre José Agostinho. convertendo Aca- demia dei Mirto na sociedade secreta dos Numantinos. que veiu comprometter a causa da liberdade com a falsa miragem de que a Hespa- nha fora grande na época do poder absoluto da monarchia e do catholicismo. prendendo os jovens poetas Es- cossura e Espronceda. a é que mocidade. e foi sobre um solo ex- tranho que desabrochou a nova litteratura . que pelo em Portugal. a monarchia e n'este mysticismo mental que o génio hespanhol se con- sem o clericalismo com o critério scientifico. em que com o le- os escriptores se viam separados da communicaçâo povo. mandado por Ghateaubriand.84 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL ção do que uma forma. o mais elevado representante do Romantismo liberal da phase byroniana. havia perto de oito mil proscriptos. que seguia os novos princípios litterarios foi espontaneamente ?i arrastada para a independência politica. que o despotismo descobriu.

no século xv imitámos o lyrisnio castelhano. João vi. do Roman- que Almeida Garrett observou tido apostólico a transformação tismo e achou a orientação do seu génio. só teve em mira imitar as grandes correntes litterarias dos ou- tros povos da Europa. no secuioxyi o lyrisnao itahano. A palavra imitação resume a syn- these histórica da litteratura portugueza. começou outra emigração. PORQUE CHEGOU O ROMANTISMO TAO TARDE A POR- TUGAL. e o conlisco. de 1829 a 1831 a esta segunda corrente pertence Alexandre Herculano. Miguel 1826 proclamasse absoluto. Não é uma coincidência casual o facto de Edade serem os primeiros iniciadores do Romantismo em Portugal esses dois homens. e que conheceu quanto era necessário fundar a Historia de Portugal sobre o estudo das instituições sociaes da nossa Media. servindo-se da furiosa Carlota rasgasse a Carta constie se Joaquina. que pela ideia politica da constituição liberal tiveram de procurar asylo no estrangeiro. perseguindo os liberaes com as forcas. Foi na emigração de 1823 e 1824. e os homens que adheriram ás bases da constituição sof- frem as masmorras ou refugiam-se em França e principal- mente em Inglaterra. todas as phases da litteratura portu- gueza.IDEIA GERAL 8Õ liberal a traição de D. vê-se que d'esse fundo ella nunca tirou os elementos de creação fecundo e sempre collectivo das tradivez de apresentar a originalidade que ções nacionaes. § 4. qne rasga a Carta em 1823. . fez tucional de com que D. do século xn a XIV imitámos o lyrismo provençal. que na Harpa do Crente soube inspirar-se das luctas pela liberdade nacional. — CorrCUdo vital. tico no século xviii de Boiieau. Quando no século xix viesse a prevalecer . Depois que o par- de Ilespanha. Em resulta da elaboração artística das próprias tradições. no imitámos o regimen poé- século XVII as aberrações castelhanas e italianas de Gongoristas e Marinistas. o cacete.

e inventaram tradições a capricho. Em Portugal. Ve-se e nunca se tornaram orgânicas isto nas a condições económicas doesta nação. a compor obras de litteratura portugueza com caracter de nacionalidade. no século xv exploramos a riqueza das descobertas de Africa e Açores. e quer na ordem quer na ordem económica nada levava a desEsta noção estava espirito publico. mas ao procu- rarem este caracter. De facto os homens que primeiro entre nós proclamaram as ideias do Romantismo. um povo tem da sua indepen- chama nacionalidade. por plicar: um motivo muito fácil de ex- porque não tivemos nacionalidade. no século xvi explora-se a índia e o Rrazil e expoliâmos os capitães do Ju- deu. Essa consciência intima que dência. no século xvii espremem-se estes velhos recursos e alarga-se o systema de empréstimo lia-se o . e exploramos o colono que regressa rico do Rrazil. nunca os escriptores receberam inspiração das tradições nacionaes. Nenhum dos elementos que constituía esta nação podia ser levada . dramas e poemas. e seria pertar em Portugal essa consciência. é o que se intellcctual. que se nâo revelava pela historia. litteraturas arte. sobre que fizeram romances. Comprehende-se que o Romantismo exemplificasse a sua nova concepção das obras de hespanhola. que foram sempre provisórias : do século xii xiv Portugal tira os seus recursos da reconquista sobre colonial os árabes. mui lo longe do um prodígio achal-a formulada synthetícamente na nossa litteratura. desconheceram o valor da tradição. com a rica litteratura com a forte litteratura ingleza.86 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAli na Europa a nova comprehensão das litteraturas sob o seu aspecto nacional. no século xviii expo- opulento jesuita e fazem-se confiscações a suppos- tos conspiradores. em Portugal havíamos também imitar o Romantismo. foram levados pelo que tinham ouvido discutir. no século xix recorremos aos bens dos frades. porque estas foram a expressão de vigorosas nacionalidades.

nunca pôde libertar a Academia d'esse estado de immobilidade. quando enthusiaslicamente pelo acto heróico em que Dom com João VI rasgou a Constituição de 1822. 2 F. Como é que estes sábios podiam des- cer a investigar essa frivola cousa chamada espirito nacio- nal? Pelo seu lado a nobresa deu a sua prova de altura.IDEIA GERAL 8t a encontrar na sua actividade esse recôndito caracter de nacionalidade. escrevia Mathieu quando du 1 Repositório litterario. 29. a propósito do casamento de Luiz xv. D'esta futilidade fez a Academia o assumpto de uma medalha. Apontamentoa para a Historia contemporânea. Porto.» 4. Martin3 de Carvalho. se discutiam os differentes projectos. a realesa e o próprio povo. porque alguns vieram re- jclamar e disputar na imprensa periódica a posse d'essa extraordinária honra. desatrellaram do carro os cavallos. Os sábios occupavam-se creto de 31 em inventar medalhas para eter- nisarem o insoHtum dccus com que Sciencias a prerogativa de rar-se Dom Miguel por de- de julho de 1828 concedera á Academia das em uma sala. e o faria de uma £popêa. que apesar de todos os seus esforços. tentando compor o Diccionario clássico da lingua!» * Este artigo tem o grande valor de ser refe- rendado por Alexandre Herculano. se não se achasse azurrar — empenhada em sair da palavra — (o braire da lingua franceza) na qual desde lon- gos annos amuou. ^ A realesa achava-se desprestigiada entre as potencias es- trangeiras. poderem os seus sócios «demoque só dista um palmo da outra em que até aqui eram admittidos. . disputando santo fervor quaes se agarrariam á lança para pucharem o d'esta ^monarcha até Lisboa 1 Elles comprehenderam o valor traição nos destinos d'este povo. a aristocracia. 1831. n. consultemos os sábios. p. e envergaram os tirantes.

attribuindo ás suas investigações botânicas. porque a Revolução de 1820. pela variein- dade e arranjo de seus farrapos. O povo recebe o seu rei com lagrimas. em que a expedição Dom manda impedir do Barão de Humboldt na America.» N'es'a : mesma «Nenhuns mendigos egualain os de Portugal. parceque le père est un peu fou. 173. ethnologicas e geographicas o intuito de encobrirem ideias novas que iam perturbar a tranquillidade dos seus fieis vassallos. depois que os seus conselheiros o acordaram da apathia habitual. M. sem distribuir por elles esmolas consideraves. algumas centenas de mandriões bem disposaprendem a manejar as muletas em logar do exercício da espingarda. é uma mãe muito indulgente para estes robuse nunca entra na carruagem tos filhos da priguiça. dizendo que era tempo de voltar a Portugal. para se postarem ás portas do palácio e esperarem a saida da rainha.. por- que S. pela profusão dos bichos. e a arte de fabricar chagas.. Graças á caridade tos. abandonou o seu povo ás arbitrariedades de Junot e depois ás prepotências de Beresford. O rei achava-se tão vinculado aos seus que no momento em que os exércitos de Napoleão caminhavam sobre Portugal. allude a Beckford pela antonomásia da sua obra originalissima o Califa de Vaihek.» Byron ao visitar Portugal.88 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Marais : «On ne veut pas Finfant de Portugal. onde continuou os disvellos do governo paternal. João vi: «Legiões de mendigos desembocavam de todos os bairros. refugiando-se no Brazil. ulceras. pela força dos seus pulmões. e em- plastros com a mais repellente perfeição. pela abundâncarta accrescenta Beckford cia das suas ulceras. mal entendida.) É emanado da João vi chancella documento de vergonha scientifica nacional. a Carta regia de 2 de junho de 1800.» real esse (iii. O povo era ainda o mesmo que Lord Beckford retratara na menoridade de D. e pela preseverança vencivel. fieis vassallos. .

e ^ rar em 1827 soflVcii (pialro intv. commina-se a excommunhão maior aos quo lerem o Retrato í/s Vénus. uma fraquesa imperdoável. do Cnnservalorio. adoptando-os na sua verdade. Seja de que gerarchia for. » * Herculano traduziu nas Jjcndas Narrativas guns d'esles versos. esta- a Europa. JMas se se penetra no interior d'esta cidade. se- 1 C7íiíd ílarold. Antes Ida primeira emigração em 1823. atacasse-os a lepra do Egyplo.cs (k* Liiiinciín pur collaboom uma gazeta que era previamente appiovada pela do Japão ou da China.. ter a ideia censura.. N'estas condições. que bellezas Lisboa ostenta! !a sua imagem i reílecte-se trémula n'este nobre rio que os poetas mentirosos faziam correr sobre areias de ouro. xiv a xxxiii. se alterar nos seus andrajos e ascorosidaal- . p. est. iuglezes ou allemães jsó entravam como contrabando. Portugal realisava na Europa o ideal de fundar uma lit- teraíura para servir de expressão ao caracter nacional. e por toda a parte os habitantes patinham na lama. . cant. e existia a censura prévia foi le- ípara toda e qualquer publicação. de . Garrett enij^ál ivado aos Iribunaos por íor osciipto o Urtraío dr Vcnus. Ma Pastoral do Patriarcha de Lisboa. um altentado contra a moral publica. 21. no seu Elogio histórico «As viagens pareceram-Ihe sempre ingratidão ao paiz. com o terror das /ideias liheraes. Os livros francezes. i. escrevia José : Eslevam.» 3 Mem. a crença no poder estrangeiro um insulto ao nosso pundonor. IDEIA GERAL 89 uojlhjld Harold Byron retrata a emoção que lhe produziu /Lisboa: «Ao primeiro relance. erra-se tristemente en- uma multidão de objectos peniveis á vista do estran- geiro: choças e palácios são egualmente immundos. o emprego dos capitães fora do sólio pátrio. que vista de longe parece tre uma habitação celeste. e fi- cavam sem de . o estrangeiro era consihostis Iderado como o jvamos incommunicaveis com Portugal em do mundo antigo - . 28 de Janeiro de 1824. a confiança da inferioridade das nossas coisas. ninguém se preoccupa com a limpesa da sua roupa ou das camisas. 2 Do grande iniciador induílrinl José Ferreira Pinto Ilaslo.

em Portugal tinha de ser cúmplice esta força se revelava social. entrar ção. já pelos esforços contra o calculado obscu- rantismo da Santa AUiança e das Restaurações absolutas. defníitivamente a causa con- stitucional mas as ambições polilicas fizeram com que os melhores espíritos tratassem das questões de litteratura accídentylmente. rito nacional. emprega- . coincidindo com a reacção em todos os povos. o velho habito portuguez preferiu a es- tabilidade e acceitou o Romantismo como mais um modelo para exercer a sua imitação. TUGAL. Francisco Freire de Carvalho glosava Quintiliano em quanto á renascença do espiformar um . Emquanto ás doutrinas litterarias. era preciso que a reno- vação artística encontrasse algum d'estes elementos em que lit- se baseasse. pela das verdadeiras ideias da Arte e da nacional dada critica litteraria creação philosophica da Esthetica. COMO FOI COMPREHENDIDO O ROMANTISMO EM PORAo indicar as causas fundamentaes que provoca- — ram o apparecimento do génio românico nas litteraturas crise dos espirilos foi modernas. já pelo espirito da Revo- lução franceza. e O movimento do Romantismo para com a Revolucomo mas quando um agente dynamico do corpo como tal capaz de fecundar as creaçíjes artislicas. Para que o Romantismo fosse comprehendido e se radicasse naturalmente em Portugal. em que triumphou . quadro completo da Historia de Portugal. e ao mesmo tempo. O estado em que se achava a sciencia da historia era quasí deplorável cas e além de Chronícas monástimemorias académicas. I 5. teraria só Os trabalhos de organisação scientifica e começaram depois de terminado o cerco do Porto em 1833. nunca ninguém se lembrara de . reconhece-se que esta uma consequência lógica da nova comprehensão da Edade Media pela escola histórica do século xix. fabricavam-se lendas phantasíosas.90 ria realisar HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL o impossível.

IDEIA GKnAI.

iJi

vam-se archaismos para simular o sabor da antiguidade, reagia-se contra o uso dos gallicismos com um terror de
purista, e o chauvinismo era a base essencial de todo o estylo vernáculo.

Como

poderia ser compreliendido

em

Por-

tugal o
tos

Romantismo com

esta carência absoluta de elemen-

que dirigissem o
a)

critério?

Estado da sgiencia histórica

Em 1839, dando conta da publicação de duas Memorias de Frei Francisco de S. Luiz, escrevia Herculano: «Duas
chaves únicas, entendemos, abrem hoje o rico thesouro da
Historia portugueza: guarda

uma

o respcitavelJoão Pedro

Ribeiro; outra o illustre auctor das Memorias... Todavia

essas

mãos robustissimas, que

a edade grave

não enfraque-

ceu, já por entre o bulicio d'esta geração que vae passando

ufana da sua ignorância, buscam apoiar-se na borda da sepultura (tarde a

achem

elles) e

quando

a providencia

hou-

ver de consentir que a encontrem, podemos ter por averi-

guado, que a Historia nacional ficará por muito
estado

Umpo no
rectifi-

cm que

estes dois sábios

a deixaram. 9 Pelo trabalho que apuraram datas, compilaram sem nexo,

d'estes dois escriptores se vò

caram alguns
isto tar,

factos secundários,

deixando quando muito monographias subsidiarias; sobre
continua Herculano «Não podemos deixar de lamenque os dois modernos luminares da Historia portugue:

za ... se
líticos
. .

tenham
.

visto obrigados a apurar datas e factos po-

gastando

em

indagações de

tal

natureza aquelle

tempo, que com mais proveito teriam talvez empregado
tirar a

em

lume

a substancia

do passado,

isto é, os

fados rela-

tivos ao

progresso da civilisaçHo entre nós, etc.» Entre este

espirito compilador,

que Herculano lamenta, e as especula-

ções philosophicas de Viço e de Herder, não se conhecia
entre nós meio termo
:

«Bem persuadidos estamos de que

;

92

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

um

OU dois homens nâo bastam para

colligir

tudo o que é

necessário para que se haja de escrever (cremos que tarde
será)

uma

Historia de Portugal, segundo o systema de Viço
historia da civilisaçâo e

ou Herder: uma

não unicamente

das batalhas, de casamentos, de nascimentos e de óbitos

uma

historia

que alevante do

silencio

do passado as gera-

ções extinctas, e que as faça, (para dizermos tudo

em

bre-

ves palavras) viver diante de nós.» Decididamente Herculano não formava a minima ideia da concepção histórica de

Viço e de Herder, que se funda unicamente sobre as causaes

dos factos; e por isso condemnando os velhos historiadores portuguezes, diz que o único manancial histórico está

«nas chronicas dos diversos institutos monásticos. Sabemos

que gravíssimo peccado
perdão.»

é n'este século

de luzes

fallar

em

chronicas de frades; mas d'isso pedimos humilissimamente

E

depois de poetisar a missão do monge, prose-

gue: «Podíamos levar mais longe as reflexões acerca da
utilidade histórica d'esses annacs das corporações rehgiosas, que ignorantes presumidos despresam,
les

porque para
*

el-

só têm mérito palavras ocas de philosophanles ;)•>

ele.

Tal era o critério histórico que

em 1839

se estava

formando

para succeder ao espirito compilador e estreito de João Pe-

^ro
ria

Ribeiro e Frei Francisco de S. Luiz.

A

ideia da histo-

moderna não
sciencia;

foi

comprehendida por Herculano como

uma
;

tendo somente

em

vista levantar

do pó as

gerações extinctas visou ao

effeilo

dramático, preferindo o

/Romance

«Vá aqui mais uma humilde opinião nossa. Parece-nos que n'esta cousa chamada
histórico á própria historia:

hoje romance-historico, ha maior historia do que nos graves e inteiriçados escriptos dos historiadores. Dizem pessoas entendidas que mais se conhecem as cousas escossezas lendo
as Chronicas de Canongate de Walter Scott, do que a sua

1

Panorama^

t.

iii,

p. 6.

IDEIA OEBAli

93

Historia de Escossia.

Também

ha quem diga que no mais

grado quarteirão de historias de França, escriplas até o amio de 1800, não tinha apparecido ainda a época de Luiz
i'l.°

como appareceu depois na Notre Dame de
*

Victor Hu-

go.»

Em outro

logar exprime Herculano este contra-senso

com maior

fervor ainda: d^Novella ou Historia, qual d'estas

duas cousas é mais verdadeira? Nenhuma, se o affirmar-

mos absohitamente de qualquer

d'ellas.

Quando o caracter

dos indivíduos ou das nações é suííicientemente conhecido,

quando os monumentos, as tradições, e as chronicas desenharam esse caracter com pincel firme, o novelleiro pôde
ser mais verídico do que o historiador; porque está mais

habituado a recompor o coração do que é morto pelo cora-

ção do que vive, o génio do povo que passou pelo do povo

um dito ou de muitos ditos elle deduz pensamento ou muitos pensamentos, não reduzidos á lembrança positiva, não traduzidos, até, materialmente; de
que passa. Então de

um
um

facto

affectos,

ou de muitos factos deduz um afifecto ou muitos que se não revelaram. Essa é a historia intima dos

homens que
sabe fazer

não são: esta

é a novella

do passado.

Quem

isto

chama-se Scott, Hugo ou De Vigny, e vale
estes recolhem

mais e conta mais verdades que boa meia dúzia de bons
historiadores.

—Porque

e

apuram monu-

mentos e documentos, què muitas vezes foram levantados ou exarados com o intuito de mentir á posteridade,

em

quanto a historia da alma do

homem

deduzida logica-

mente da somma das suas acções incontestáveis não pôde
falhar, salvo se a natureza

podesse mentir e contradizer-se,
hisfei-

como mentem e se contradizem os monumentos.» * Até aqui vemos a falta de um critério scienlifico da
toria
;

outras descobertas

f undamentaes já

tinham sido

1

2

Panorama, Panorama,

l.
l.

iii,

p.

iv, p.

306. 243.

94
tas

HISTORIA DO llOJklANTISMO

EM PORTUGAL

na Europa, e que nos revelavam
taes

em

toda a sua luz a

Edade Media,

como

a

importância dos raanuscriptos

dos Trovadores e dos Troveiros, do lyrismo provençal e
das epopéas gallo-frankas, e sobre tudo o problema da
for-

mação das

linguas novo-latinas.

Em

Portugal nada d'isto

havia penetrado ainda. Os dois luminares da historia por-

tugueza, João Pedro Ribeiro e Frei Francisco de S. Luiz,

acreditavam que a lingua portugueza não tinha conuexão
histórica

com o latim e era uma derivação do celta estavam com o velho sonho de Bullet. João Pedro Ribeiro em uma polemica com Frei Fortunato de S. Boaventura (1830)
;

escreve

:

«Quanto

á auctoridade ...

do conselheiro António

Ribeiro dos Santos, principio por dizer, que sempre o respeitei
foi

no numero dos philologos do meu tempo

;

mas não
opi-

por cegueira, antes por convicção que segui a sua

nião contra o

commum, negando á
*

nossa lingua a filiação

com

o latim.

y>

Pela sua parte Frei Francisco de S. Luiz

pubhcava em 1837 a Memoria em que se pretende provar que a Lingua portugueza não é filha da Latina. Confrontemos estas duas datas, 1830 e 1837 com os grandes
trabalhos da philologia românica
havia^
;

em

1827, Frederik Diez

pubhcadp.p seu

livro

sobre os Trovadores, onde lanfor-

,çou as primeiras bases inabaláveis para o problema da

mação

das linguas românicas, e logo

publicar essa obra extraordinária a

1836, começou a Grammatica das Línlatinas o

em

guas românicas, onde applicava ás linguas novo
critério
I

comparativo de Bopp. Muito depois d'estas datas,

Herculano evitava os celtomanos, e acosta va-se a outra hypothese gratuita de Bonamy sobre a desmembração de ura
dialecto geral vulgar

que coexistia

a par

do latim.

Quanto ao conhecimento da poesia da Edade Media, as
publicações de Raynouard não foram conhecidas

em

Portu-

*

Reflexões á brevíssima resposta, p. 6.

;

IDEIA GEBAL

95

gal, nem tão pouco se estudou o Cancioneiro publicado por Lord Sluart, onde estava o principal monumento da poesia

lyrica

portugueza dp_sjcjilo xiJ.a

xiv? Tal era

o estado dos

conhecimentos históricos n'este período do Romantismo
era portanto impossivel comprehender a importância de

uma

tradição nacional, e o poder trazer a litteratura ás fontes

da sua originalidade. Herculano reconhecia esta verdade,

quando escreveu: «Ao passo porém, que
struía, reconstruia-se a Historia.
ler,

a

Arte se recon-

Ao

lado de Goethe e Schil-

apparecia Uerder e Muller; ao lado de Hugo, Guizote
*

Thierry.»

b)

Estado das ideias philosopiiicas soiire arte

Em

Portugal reinou sempre e de
;

um modo

absoluto

uma

só escola philosophica

a doutrina

de Aristóteles no seu
en-

periodo avcrroista preponderou desde a fundação da monarchia até ao tempo

em que

a instrucçâo publica

foi

tregue aos Jesnitas; houve apenas
lismo platónico

um

intervallo de idea-

em

alguns poetas do século xvi, e caimos

outra vez sob a férula aristotélica do periodo akxandrista.

As reformas
cartes,

philosoí)liicas

de Pedro Uamos, Bacon, Des-

Gassendi,

as novas theorias

de Nicole, Malebran-

Le Clerc e Wolfio nao poderam penetrar em Portugal, como vemos pelos grandes
che, Mariotte, Thomasio, Lock,

esforços de reacção da Kscholastica do Gollegio das Artes. ^

Dom

João V escreveu por via do Conde da Ericeira para

Inglaterra a Jacob de Castro Sarmento para que traduzisse
as obras de Bacon, que elle propuzera

Portugal a primeira folha do

em 1735 veiu para Novum Organum, mas os que
;

tinham o monopólio da instrucçâo obstaram a que se abrisse

>

Memorias do Conservaíorio,

p.

136. (Ann. 18i2.)
n.*»

2 Compendio hialorico do estado da Universidade,

1C3.

96

HISTORIA DO ROMANTISMO

EM PORTUGAL

este novo horisonte á intelligencia. Ficámos amarrados ao

poste da Lógica Barreta oa da Lógica Carvalha

; tal

era o

campo que encontrava em Portugal
ca,

a

doutrina da Esthetilitteratura

que desde Schelling

influirá

no esplendor da

allema, e levara á verdadeira

comprehensão da antiguidade.
tenta-

Em

1835 é que se publicou pela primeira vez uma

tiva sobre Philosophia

tação

— Bello — Unidade;
uma educação

da Arte,
^

com

o titulo de Poesia: Imi-

infelizmente o seu auctor tinha

recebido

fradesca, e a Logica-Carvalha

com

grande custo se empaveza com a nomenclatura da philosophia allemã. Esla prioridade pertence a Alexandre Herculano, que depois veiu a possuir-se da mais entranhavel aver-

são

ás

especulações metaphysicas.

Em

todo o caso

elle

percebeu, que o Romantismo partia de
sophica. Escreve Herculano
:

uma renovação philo-

«Na torrente de opiniões conque na presente época com:

trarias sobre a critica litteraria

batem, morrem, ou nascem, também nós ternos a nossa
vera a ser parecer-nos que da
pios

e

falta de exame dos fundam os diíferenles systemas procedem essas questões que se tem tornado intermináveis talvez por esse único motivo. O génio impellido a produzir no meio

princí-

em que

se

de

ideias vagas e controvertidas sobre as formas, as condi-

ções da poesia, julga que todas ellas são indifferentes e desvairado se despenha
tos,
;

e o engenho dominado pelos precei-

que muitos séculos por assim dizer santificaram, con-

trafaz e apouca as suas producçôes,

temendo
é

cair n'aquillo

que julga monstruoso e absurdo. Tal
da litteratura.

geralmente o estado
let-

—Os

que conhecem o estado actual das

tras fora de Portugal, na França, na Inglaterra e ainda na
Itália,

sabem ao que alludimos. Trememos ao pronunciar
ou definidas erradamente, que somente tôm gerado

as denominações de Clássicos e Românticos, palavras indefinidas

*

Bepositorio litterario, d.« 7.

:

IDEIA

GEBAL

97

sarcasmos, insultos, nliseriàs, é nenhuma instrucçâo verdadeira, e que
tes

também teriam produzido

como

as dos

estragos e morNominaes e Reaes se estivéssemos no xvj

século. Infelizmente

em

nossa pátria a Litteralura ha já an-

nos que adormeceu ao som dos gemidos da desgraça pur
l)lica;

mas agora

ella

deve despertar e despertar no meio

de

uma

transição de ideias. Esta situação é violenta e muito

mais para nós que lemos de pass£|r de salto sobre

um

longo

praso de progressão intellectual para emparelharmos o nosso

andamento com o do

século.

Se as

o[)iuiões estivessem de-

terminadas, o mal ainda não seria tão grande;

mas

é

n'um

cahos que nos vamos mergulhar, do qual nos tiraremos
talvez

muito depois de outras nações.»

*

Ao

escrever o ^ea

estudo de esthelica, Herculano linha
cer

em

visla: aeslabele-

uma

Ihcoria segura que prefina tanto o delirio

á\\mà
lin-

liceiiça

absurda, como a submissão abjecta que exige certo
lilterario.»

bando

Vejamos essa theoria através de uma

guagem incongruente de quem não sabia proseguir uma ideia e muito menos fonnulal-a; Herculano considera o Bello o
objecto da poesia; considera-o
critério é a nkctiipbysica, e ao

um

principio absoluto, cujo

mesmo tempo

redul-o a

uma

inera relação, por isso

que dependo da nossa existência
a

«Para nós a sua existôucia depende da nossa; e
physica
objecto
revela
iníluií-á

meta-

sempre em qualquer systema que sobre tal venhamos a adoptar.» Depois d' esta contradicção que
exiranhesa dos processos philosophicos, cae

uma

em
flu-

outra ainda mais IJagraiile; diz que
tes

sem

philosophia as ar-

não

llorescertí, e

dá essa philosophia como causa da

ctuação dos priiicipios:

«Sem

levar o facho da philosophia
a essência d'eslas, as tlieo-

ao seio das artes,
rias

sem examinar

formaes íicam sem fumlameulos, e é justamente o que

tem acontecido. E quando aqui ou acolá se tem tentado sob-

1

Rtposilorio lilterario, p. 54.

7

;

98

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

pôr-lhe esses alicerces, é á philosophia que os
car.
via

tem

ido bus-

Este nietbodo é quanto a nós o inverso do que se deseguir, e

um

grande mal d'ahi resultou: a fluctuaçâo
crilicos.»

dos principies e consequentemente dos juizos

Gomo

entender estes três periodos que se repugnam? N'esta trepidação não podendo avançar, agarra-se ás velhas controvérsias de Boileau e Perrault, de Lamolhe, Fontenelle e

Huet, e braveja colérico porque Boileau comparou o

Tele-

maço ao romance de Theagenes

e

Charidea, de Heliodoro;

por fmi faz-se árbitro da polemica dos aniigos e modernos

em

do século xvn, com a phrase conciliadora: «Nós devemos seria uma ingrande parte aos antigos o que sabemos

gratidão negal-o. Elles

crearam as

lettras e as

levaram a
tudo ou

um

ponto de esplendor admirável; mas por as crear e aper-

feiçoar

não se deve concluir, que acertaram

em

que tudo sabiam.» O modo de discutir é de. uma ingenuidade primitiva; sustenta que o Bello é absoluto, porque:

«O europeu, o chim, o
relativo,

hottentote sentirão egualmente que

o Apollo de Belvedere é bello.»

E

pela contraria, que não é

porque se podia então equiparar os Luziadas ou a Ulyssea, ao Alfonso ou ao Viriato trágico: «Se dissermos que o Bello é relativo e resultado do nosso modo de ver,

da relação particular dos objectos comnosco, da harmonia ou desharmonia dos factos com as nossas ideias moraes,
n'esse caso não poderemos affirmar que os Luziadas ou a
Ulyssea sejam absolutamente superiores ao Álfomo ou ao
Viriato
trágico,
h

Depois de exaltar a poesia

celeste

dos

hymnos
ler,

solitários

áe Lamartine, o terror

delicioso

de Monti,
Schil-

a anciedade

que causa a despedida de Picolomini de
«Tal é o Bello

conclue:

— para

modalidade necessário e absoluto;

quem o julga em sua uma ideia opposta repulo-

gna e nos

afilige:

nós queremos que todos os tempos,
fôr

dos os homens o julguem e gosem como nós, e diremos

sem hesitar— o que não

do nosso sentir ou carecerá de

IDEIA QERAT.

99

gosto OU O terá pervertido.
<l'islo

»

Herculano formava

em vista

uma

ideia

do absoluto metaphysico pelo absolutismo

politico.

Depois veudo que precisava de phraseologia melaphysica, aproveita-se

da nomenclatura de Fichle para mosunidade e o movimento
.

trar:

«que o bello das imagens, o bello chamado physico
íi

não existe nos objectos porque
<la

sua existência seriam destruídas;

.

.

l5

pois

mundo

das ideias, que o devemos buscar
existir,

— Um typo indecom
o qual
a fa-

em

nós, no

pendente do que nos cerca, deve

f nldade ,de julgar possa comi)arar o bello de
particular.

uma imagem
ad-

Eu, Não-eu,

eis

o circulo das existências, os dois

nomenos,
nos rodeia

fora dos qu:ies nada

concebemos

— mas nós
em
nós

millimos o necessário c o uno sem o encontrarmos no que

— cumpre

pois que elles residam

como

formas da intelligencia.»
niou exemplificando
tole

Como

o próprio ilerculano o aíBr-

com

o Apollo do Belvedere, o Hotten-

lambem

dirige o seu juizo por este

nomeno do Eu

e

Não-eu.

A

aversão

com que Herculano

ficou á metapliysica

allemã, prova que elle jogou inconscientemente

com

estas

phrases, e que nunca mais viu nos profundos trabalhos de

abstracção senão

uma reproducção

d'este seu capricho.
á critica

Herculano applica esse typo do bello
logia;

da mylho-

«Com

elTeito

onde existem as

ficções dos antigos

monstros da mytbologia?
vallo aliado

Quem

viu

como o Amor ou o Pegasso?

um homem ou um ca^ — Nem se diga
;

que

a

crença popular lhes tinha dado existência

isto são

palavras que soam,

mas sem

sentido ... Se a phantasia pro-

duzia estas creações, ellas não foram imitadas, logo não têm

modelo, logo não são bellas; etc.»
vastos do que as explicações de
cta,

Quem

cx)ncobia assim a

crcação poética das mythologias, nunca vira borisontes mais

um

padre-mestre de selejá

e isto

quando Crcuzer, Voss e Lobeck

tinham fun-

dado

a sciencia

das mythologias comparadas.

100

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

Depois de todo este pandemonium,
procurado derribar, cumpria
elle

diz:

«Tendo até aqui
etc.»

edificar agora;

vae edificar tem

em

vista

— conformar uma theoria

O quo
ra-

soavel da unidade
rios.

com

os grandes melhoramentos littera-

A theoria

rasoavel resume-se nos seguintes aphorismos

sem alcance: «A Poesia
«O

é a expressão sensível

do

Bello,

por meio de
faculda-

uma linguagem

harmoniosa.

Bello é o resultado da relação das nossas

des, manifestada

como jogo da sua

actividade reciproca.

«A condição

pois do Bello é a concordância da variedade

da ideia particular

com

a

unidade do geral; etc.»

Depois vae applicar estes princípios á Ilíada, Eneida, Orlando Furioso yLuziadas e Jerusalém Libertada, por

um modo

Iliada,

que chega a causar pena: «Se assim examinarmos toda a acharemos sempre a ideia de gloria pátria servindo de nó a este admirável poema que hoje se despresa por moda,
y>

crendo-se que nHsso consiste o Romantismo.

O

juizo sobre

Virgílio é «que sabia mendigar as migalhas de

um

tyranno

e nutrir ideias generosas.»

A

unidade da Eneida ficou pre-

enchida desde que Eneas «escondesse o covil de Rómulo

com o geu escudo
satisfeito,

celeste,

o fim da sua existência estava

e o poeta podia na serie das variedades buscar
lhe

bem accorde com
as

que

parecessem para com

ellas tirar

um som

a ideia

que o dominava.»

A

applicação da theo-

ria eslhetica

de Herculano aos Lnziadas dá esse logar comnecessidade de recorrer a

mum

de todas as rhetoricas: «Os Lnziadas são o poema
a

onde mais apparece
de ..

uma

ideia

independente da acção para achar
.

a imprescriptivel

unida-

Não

foi,

quanto

<!

nós, o descobrimento da Índia, que

produziu este poema;
e

foi

sim a

gloria nacional.»

De

Ariosto

de Tasso

limita-se a dizer

que cantam,

um

a cavallaria,

o

outro as cruzadas, isto é «o espirito

humano modificado de

ura certo

modo»

e «a réplica da Cruz á terrível pergunta

verdade: «A revolução tentou e concluiu. Herculano remata cilante pergunta: com esta va- escola clássica.» «Mas pretendendo destruir o systema da nâo somos nós Românticos ? Alguém nos terá E reclama: anão somos nem esperámos sél-o . nunca. e sado na divisa do ihrono e constitucional.'. abolindo o direito divino symbolialiar. os Em concepção da Aite influir na commoçâo politica.i> * Portugal também atraves- sou a sua crise politica. porfoi que só então substituída a vida interina da sociedade * Elogio histórico de Sebastião Xavier Botelho. dra tal Nem antes nem depois qua- epUheto aos successos políticos do nosso paiz. nâo litteraria em 1831. (Mem.) p. Herculano. Herculano descreve em poucas linhas esta época de lucta: «A época de 1833 foi a única época revolucionaria porque tem pas- sado Portugal n'este século. o resultado de gas cogitações. 31. redigindo a sua Carta conforme a imitação ingleza. que esteve fora de Portugal na época da segunda emigração. no esforço para a hberdade. por taes.IDEIA GEBÂL 101 do islamismo. se a uma completa ausên- de trabalhos históricos accrescia uma incapacidade para a minima especulação philosophica? c) Renascimento de hm espirito nacional puantastico povos onde se deu a renovação litteraria do Romantismo. pelo e ex-plica-se mesmo pensamento íTestas. veiu com as revoluções sociaes. . vemos o espirito nacional despertado pela nova todos. do Cons. » Era com esta segurança de doutrinas que o Romantismo este fazia ecco em Portugal.» Terminando este temerário esforço de querer pliilosophar sobre arte. como podia sercomprehendido facto esplendido cia do nosso século. reconheceu osla inlar- que a geração actual foi foi instincto. . . Esta phase po- litica precedeu o movimenlo litterario. o apparecimento do Romantismo entre nós foi um esforço artilicial.

cumpre confes- é uma das que menos tem seguido este movimento progressivo da humanidade. 33. o enthu- siasmo pela liberdade substituído pela avidez da rapina no momento das indemnisaçôes. Silveira As reformas decretadas por não existia. uma industria própria. nova existência. vô-se por esta confissão feita em 1837 pela Sociedade Propagadora dos j Conhecimentos ísal-o. que estava atrophiado. p. por uma . Pôde-se affirmar que a revolução que triumphou em 1833 foi ex- tranha ao espirito nacional. sem comprehender mais do que uma simples questão de logradouro que se disputavam dois irmãos. O I estado de atraso a que chegou Portugal sob o regimen fdo cesarisnio e do obscurantismo religioso. O nosso povo ignora immen- * Ibidem. Os que haviam regressado do estrangeiro. e as * politicos mudaram de si- Infelizmente. foram extraordinariamente organisadoras o povo estava espirito nacional mas o mudo. .» dia. dos bens enorliberaes jazeram mes das ordens As garantias no papel. os elementos tuação. As forças sociaes antigas desap- pareceram para dar logar a novas forças. úteis: t A nação portugueza. destruiram-se classes crearam-se novos interesses que substiluiram os que se aniquilaram.102 HISTOKIA DO ROMANTISMO EM PQUTUGAl. indiíTerente á lucta de dois bandos. o habito de viver sob a tutella do despotismo fièou no animo publico e vé-se a cada momento na prepotência ainda dos mais pequenos funccionarios. tendo sempre vivido sem tou-se. Portugal entrava sob a bandeira de liberal uma revolução em uma outra phase económica da sua historia. Fizeram-se tentativas individuaes para levantar o nosso nivel intellectual. suslen- fazendo a natural desintegração religiosas. traziam os elementos bastantes para conhecerem o nosso incalculável atraso. esta revolução partiu da classe me- reformas decretadas implantaram-se pelo seu lado exterior. foi um Mousinho da .

que muito lhe importava conhecer. p.» "^ poema em um ou mais rava a liberdade.» 1. tinham ambas em vista fazer resurgir o espirito nacional. 2 Repositório. 4. O primeiro esforço para sairmos d'esta tentou-se no Porto. Entre os mesmos homens da- dos ás lettras se acha falharem repetidas vezes as noções elementares de tudo que não ò objecto do seu especial estudo. Entre os assumptos escolhidos para serem tra- tados na parte lilleraria. propagando a monomania dos poituguezes do século xvi e xvn. não apparecia nenhum Ímpeto espontâneo a Sociedade dos que a glorihcasse. Fundou-se em 1835 Ami- gos das Lettras j e em 1837 a Sociedade Propagadora dos Conhecimentos úteis. inventaram cantos populares . i. e a sciencia em Portugal está ainda longe de ter aquelle * caracter de unidade. a que deram o nome lin- de clássicos. que ganha diariamente no meio das outras nações. só Scicncias vwdicas e de em i5 de Outubro de 1834 é que se deu á publicidade o jornal que representava os trabalhos d'essa associação. estabeleceram um purismo atlectado na gua. e esta falta de instrucção senle-se até nas classes que pela sua posição social. n.IDEIA GEBAIi 103 sas cousas. Procuraram realisar este nobre pensa- mento por meios livros artiflciaes. devendo ser o D. O poeta pode- rá escolher o metro que mais lhe agradar e a divisão do Sob o despotismo ferrenho de D. lingua portugueza sr. protestaram 1 Panorama. fabricaram lendas nacionaes e inventaram- nas a bel-prazer. era a inspiração do terror. inaugurando-se em iU de De- zembro de 1833 a Sociedade das Liltcratura. iMiguel o povo cantava-lhe hymnos obscenos.» atonia. Pedro o heroe. No momento om que se respicantos. renovaram archaismos e bravejaram contra a corrente dos gallicismos. t. incluiase: «Um Poema O Sitio escri- pto em com iv o titulo do Poito. deviam ser ilkistradas. .

E nós? Reimprimimos leis. ou. seus poemas 'dos NiebelungoSi e Mínnesingen . a peor de todas. os Uvros. viciando-os quasi sempre. res. herdados de avoengos? Nãol — Vamos todos os dias ás lojas dos h- vreiros saber se chegou alguma nova semsaboria de Paul de Kock. as os usos. porque a 6 tal da decadência da nacionalidade.104 HISTOBIA DO ROMANTISMO KM PORTUGAL contra as ruínas dos monumentos que o governo allienava ou deixava derrocar. Sabemos assim quaes são os documentos em que conhecemos. querem alimentar-se e viver da própria subsistência. escrevia Herculano em 1839: «Assusal- tam os livros pesados e volumosos do tempo passado as : mas do débeis da geração presente a- asperesa e severidade estylo e linguagem de nossos velhos escriptores offende o paladar mimoso dos affeitos ao polido e suave dos livros francezes. e a Françía de hoje á velha França os po- \ vos do Norte saúdam o Edda e os Sagas da Islândia.. ignoramos quaes sejam os da própria. ou a quando um despotismo ferrenho poz os homens ao livel dos brutos. alguma exageração novelleira do pseudonymo . os nossos chronistas? Pu- blicámos os nossos numerosos inéditos? Estudámos os mo- numentos. é porque extranhos nol-os aponterrível estribam glorias alheias. Symptoma dência de da deca- uma nação é este. e por fim deixaram-se ir com a indifferença publica e atiraram-se á orgia das ambições do poder representativo. as crenças.e os costumes e opi- niões que foram: o mesmo fazetn a Inglaterra de hoje á : velha Inglaterra. e interrogam com religioso respeito as pedras runicas cobertas . se os tam. Desenterra a Allemanha do pò dos car- tórios e bibliothecas seus velhos chronicões. porque symptoma só apponto de dissol- parece no corpo social quando este está ver-se. os escriptores encarnam na poesia. no drama e na novella actual. as tradições popuhi- as antigas glorias germânicas» . A propósito do amor que se devia aos livros clássicos. de musgos e somidas no aniago das selvas: Iodas as nações emíit».

para a arte só teve um lim. estudo . dúzia de bonecos e bonecas. Esta exaltação desvairada carece de correctivo o. . vol. Callae-vos.: • Apoz a questão dos clássicos levantaram os puristas a questão dos gallícismos: «A leitura frequente dos livros lin- francezes. mas quem se atreverá a receital-o? Já por alii me chamalam antiquário e Aflbnsinho que tanlu íallo em vidas de santos e chronicas de frades. em la- pela religião . e loihi a sua vida fui sacrifielle cada á vernaculidade.. reclamava desde 48i^7 a admira- ção dos clássicos: «Ninguém acreditará que é o mesmo lin- Portuguez em que hoje se ora e escreve. i. IDEIA GEUAL 105 Alichel Masson. quem assim me mas a vossa ^rilicair.' por onde i . •. pag. Depois dos clássicos é o complemento do remédio.» Pelo seu lado Garrett.. que ninguém pôde lèr. iii. para. âiii vae a resposta: Não es- tudeis noite e dia essas cbronicasde frades com que zom- beteaes. 196.. aquelle idioma tão doce. tem corrompido a nossa * Panorama. 67 2 O Chronista.» ?. • sempre os talentos dos escriptores. porque mais não entendem. ou tabernas os logares consagrados pela historia ou E depois se vos perguntarem: De que na* ção sois? respondereis: Portuguezes. Pela sua parte Castilho to- mou a isério esta superstição. nem hoje se ar- ripiam os ouvidos. de Frei os peiiodos estroipeaek)S e boursou/lés Thomé de com que Jesus. que uientís desfaçadamente. Mas . aííeriu . . a quem agrada. Dea converter pois corremos a trinas derrubar monumentos. prosegue Herculano. tão genlihnente! voltadas do nosso Lucena. p.- . aquolla fluida guagem de Frei natural e porém i.. riqui^simo. t. algum libello anti-social de Larnennais. o purismo rhetorico.uiz de Sousa. mascavada linguagem morrerá com- vosco e ca ia meia. sâo nem sequer longes d'aquellas ora- ções tão redondas. .

» * Garrett leratura também attribue a falta de originalidade da lit- portugueza á imitação franceza: nossa perdeu-se.. sem fazer escola de nenhuma. «Vulgarlsou-se esta língua entre nós. i. . pregam sermões sem uncção. que já hoje (1837) é impossível . aos seiscentistas e aos árcades.» a causa ^ — Tanto do mal como o remédio proposto. essa lição dos auctores . descrevem usanças monásticas. a o génio. o mal que 1 Panorama. lomou-se por molde e exemplar para o* espirito. 2 O Chronisla. mas sem delir ou confundir o caracter da nossa própria e nacional. aos poetas palacianos do século xv. aproveitando de todas. Este nlmlo respeito e consideração em que tomámos pois os Portuguezes a lltteratura franceza. amam a pureza . e quando muito pintam pelejas dos nossos maiores em que ordinariamente já de antemão Hies sabemos das victoeste século. 52. damnou e empeceu a nossa. . Sabemos que da lín- muita gente escarnece dos que . Esse caracter faltou aos trovadores portuguezes do século XII a xiv. . 10 e 17. i. tudo . aos ^quinhentistas. 103 HISTORIA DO ROMANTISMO KM PORTUGAL guagem por cezes pez tal maneira. as formas e os elementos do discurso. e tão rapidamente como por ericanto. combinal-as umas com outras. rias. D'abl me parece que se devem empenhar todos os que amam a lltteratura portugueza e desejam sou augmento. vol. provam a nenhuma comprehensão que então havia do que era caracter nacional. t. em estudar também a das outras nações. tudo o que era nacional desappareceu. p. desinçal-a dos gallícismos . e o modo. p. pela falta de conversar os escriptores nacionaes encurtámos e empobre- cemos gua.» E descrevendo os clássicos: «estes versam mui- tas vezes sobre matérias áridas e pouco importantes para Contam milagres de santos por vezes incríveis. fraii- em esquecimento os portuguezes .

ainda que incerto correctivo que vejo a este mal. o^ do de Segura. Este génio in- ventivo que levava os escriptores do século xvi a fiUsiíica- •rem os monumentos históricos e poéticos. \). acceitou esla contrafacção de Herculano. . no seyi Portugiesische Wolkslicdcr und Romanzcn. Herculano inventou a tra- dição do convento da Batalha onde também forjou um canto lòa popular dito pelos reis Magos. os novos escriptores foram imitar as outras littera- turas para contrabalançarem a iníluencia da franceza: «o único. a attenção. Ignacio Pisarro de Moraes Sarmento escreveu um Romanceiro pelo gosto artilicio litlerario. é i o fomentar a applicaçâo ás outras litteraturas e idiomas por onde dividida stigios. 2 Panorama. Por isso em vez de estudarem essas tra- dições. o árcade Castilho fabricava um Atito pelo gosto da es- cola de Gil Vicente.i> 2 Bellermann. mas sem dissimular o mesmo fez Serpa coni os Soldos. 239.. iii. tinha acompanhado sem- pre a htteratura porlugueza. 101. os escriptores ram de inventar lendas e cantos populares. apegar do seu profundo senso /como popular critico. t.» Por isso que os lidos e o livros dos escriptores naciouaes não eram trata- povo estava sem tradições. que apresenta íiobra como mui prima de certo leigo affamado jogral (Vaquelle U'mpo. p. e a hngua e a Htteratura pátria não colherão pouco fruclo se assim se conseguir. que se dizia ter sido escripto na par- » Ibid. IDEIA GERAL 107 se lhes tornou patente era 1827. e quebrada a forca dos per- revertamos a sentimentos mais rasoaveis e menos opiniíjes. Onde estava pois a causa d'esta (constante falta de originalidade? Disse-o Wolf: na falta de uma base de tradições sobre que se desenvolvessem as crea- çôes individuaes. excluf>iva's Assim poderá formar-se uma Escola * mais ecclelica. dava^se agora com maior força n'esta supposta renascença do espirito na- cional.

. inspiradas pelo uma vida imprevista brilhava em obras es- amor e pela tradição nacional. que o a poli- burguez facilmente adoptou para expressão do seu patriotismo e como esconjuro eloquente e definitivo contra tica de iberismo. Sebastião para Africa. jornal litterario imitado do Penny \gazine e que se publicava plares. que deixara de pensar havia dois séculos. t.108 tida HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL de el-rei D. o século do venturoso dia. contrafazendo a poesia popular. A renascença do espirito nacional limitou-se a esta titilação exterior. que achara essa memoria em um manuscripto do Convento dos Grillos na cidade do Porto. livros. t. Manuel. i. de iodas as poee o berço de Camões. necessá- rios para se crear essa linguagem emphatica e patriótica do e de todos os sias. as terras do Gama de Pacheco. a espada de Affonso Henriques Condestavel. a intervenção estrangeira chamada por D. pelo guarda-mór da Torre do Tombo António de Castilho. 53 . dizia frontispício do romance o Arco de SanfAnna. que todos á uma fortaleciam o seu génio no * Panorama. o re- nascimento politico fundava-se sobre o renascimento do próprio espirito portuguez. 1. Pelo seu lado se vê no pri- Garrett. ii. p. * Ma- em numero de cinco mil exem- os poucos factos da historia portugueza. De todos estes inúteis esforços só se conseguiu divulgar (por via do Panorama. N'este paiz. no seu eloquente protesto contra. de todos os discursos. Maria ii em 18i7 contra Portugal. as façanhas dos Alhuquerques e D. como no meiro volume do seu Romanceiro. os galeões da ín- mares nunca d^antes navegados. Numerosos criptores surgiam. como se julga. o estandarte das Quinas. p. e os D . explica a mutua solidariedade entre as tranformações politicas e a renovação litteraria: «Portugal não se contentava com uma imitação estéril. Edgar Quinet. João de Castro.

(Almeida Garrett) nunca se vira no espirito publico um moespe- vimento lâo profundo. Maria u. não é prever as con- sequências. segundo a ex- uma homem cuja auctoridade ninguém negará. Uma dência bastara para dar ás almas energia levantava-se. Arco de SanCAuna^ Garielt combatia a reacção e segundo ouvimos dizer fazia no typo do Bispo a satyra de li- Frei Francisco de S. concebidas n'este periodo de trans- formações politicas em que têm revivesceu a nacionalidade por- tugueza. . x. a vida moral da nação acabou depois que monarchia braganlina chamou para so manter no arbítrio a intervenção estrangeira. tão verdadeira. nacionnl. no Alfageme de Saníareniy * Obras completas^ de Edgar Quinot. côr de indepen- a civilisação morta notó- Quem o acreditaria. no clerical. o deputado na sua cadeira. A gedia de Calão liga-se ás aspirações revolucionarias de 1820. o povo no fundo das províncias. rança tâo viva. era o O escriptor conspirava nos seus livros. uma uma emoção uma inspiração tão indií^ena desde a época dos Luziadas. proclamou o principio da soberania nacional. Luiz. a rainha acha mais legitimo o * um cadáver. As obras de Garrett.IDEIA GEBAL 109 mesmo sentimento da pátria restaurada. Quando está assim feito o accordo entre a intelligencia do pequeno nudiílicil mero e a conscieficia de todos. Inglaterra e França contra o levantamento nacional que repellia o absolutismo de D. quando se. pressão de e. p. t. se nâo fosse bem rio? os últimos quinze annos produziram mais obras origi- naes do que os dois séculos passados.» E condemnando então a inlervenção armada da Hespanha. exclama: «A nação queria governar reviver.» a De facto.i> Em em seguida Qui- net explica a rasão do movimento: «Se alguma vez houve que se operava plena clari- movimento dade. um esforço tão sincero. . e poi' isso um certo relevo de realidade. 5:^ a 61. inspiram-se dos sentimentos e agitações do motra- mento.

esquecemo-nos de toda^ as tradições d' avós para pedirmos ás cinzas de um império morto 1 No n. modernas estavam reagindo: que viva e possante não alcançara subjugar inteira- mente este cantinho da Kuropa. co)\quistou-nos com o esplen- dor da sua cmlisarão que res urgira triumphante. visto acerca das condições — DepoiS dO qUO temos em que estávamos para abraçar o Romantismo.» No n. da Santarém ora uma satyra dos últimos acontecimentos que restauraram aliaria constitucional. íôra dizer á empreza que o Alfarjcnir. Netos dos Celtas. lido em fins do setem«por iiiformaçõc? que temos por seguras.eu intuito. e vociferaram contra o Romantismo. de condemnação. que primeiro presentiram a necessidade de romper com a tradição arcadica. conclne-se que. Os mesmos escriplores. as palavras lhos históricos da philosophicas sobre Arle e Litteratura.. c dos Árabes." fi4 do Correio Porluquet (22 de fevereiro de 184Í) se Jê acerca da demora (J«t rcprfiíciílaçao do Alfaqcme de Santarém. Garrett era eíTeclivamenle setembrista. nos veíu á noticia que bro de ISíl o notório dircclor do tlicatro da Rua dos Condes (Emile Doux) depois de Ires niezes de ensaios demorados e preparativos que nunca acabavam. Herculano rea- gia contra a auctoriJade da tradição romana. cadáver já profanado pelos pés de muitas raças barbaras. CONSEQUÊNCIAS CONTRADICTORIAS. como pelas especulações como pela vitalidade do espirito nacional. éramos incapazes de comprehender esse movimento. tanto em. dos Godos. os protestos de respeito aos modelos constituídos estão em contradição com as obras. |ou da realesa por graça de Deus). Doux . trepidaram no i. que os Cartistas ameaçavam que haviam do ir pateal-a e insultar o auctor e a peça. se ella fosse á scena : — e que era forçoso por tanto reliral-a infallivelmenle. Garrett como em Herculano. 110 ^-rava o HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL em movimento dramático das paixões que se debatiam Í8i2 entre os setembristas (partidários da soberania * Miacional) e cabralistas (partidários do favoritismo do paço. I C. do as litleraturas mesmo «7^)- modo que iwa. tanto pelos traba- Edade Media." 67. Emile veiu justificar-se.

. E da intran- sigência desta sua thcoria.n a ^ amar a em aproveitar os tempos heróicos do christianismo. 123. mas similhante aos immenso abysmos dos mares temrelâmpago infer- pestuosos que saudou em seus bymnos de desesperação: — génio áridos que passou pela terra como nal.]. e cujo fogo minou os campos da poesia e os deixou como o area| do deserto. que a palavra Romantismo era usada acom o fito dn encobrir a falia de grnio e e de fazer e amor a abjecto irreligiãoy a ipwioralidade r> quanto lia de 7}egro no coração humano e por isso aCcrescenta: vnõs sel-o 1.IDEIA GEBAL 111 e extranhOf até o génio da própria linrjua. Não assim. ii. os crimes.^ nunra.^^ * Parece que lei quem applicava assim pela primeira vez a Portugal a de Sctilegel. do Conservatório. Herculano considerava: «a anciã a misantropia. a in- da liberdade descomedida.— Qual é.°. credulidade dos monstros de Byron são o transumplo me- donho e sublime d'este século de exagerações e de renovação social. p.) Repositório lilterario. p. génio emfim. nem espiramos Para Herculano q ílomanlismo. com eíTeito a ideia dominante nos seus poemas? Nenhuma. ou o que é o mes- — mo. i2. romântica accrescenla: «Nossa theoria fora a primeira a cair por terra diante da barbaria d'essa seita miíeiavel que apenas enlre os seus conta um génio —e foi o que a croou — geuio sem duvida um e insondável.» 2 Herculano entendia. que não tem com quem comparar-so. 88. philosophia e moral na rica. era verso. Falíamos de Byron. que nunca o terá talvez. * um scepticismo absoluto.^. desterrar os numes gregos I3 subslituin- doos pela nossa mijtliologia nacional na porsia narrativa e pela ix3ligião. a negação de todas as ideias 2 3 Mem. p. 28. limitava-se: pátria. declarámos que o 7mo sumos. Panorama. (1837. e que seus exagerado^ admiradores apenas têm pretendido macaquear. comprehenderia foi a liberdade de movimento do Ro- mantismo. l. :.

88. emquanto dura o grande combate. enfurecidos a es- uma queda eminente.-» * Não contente enr con- — demnar tresloucadamente o trabalho da creação das litteraturas modernas. que a Eu- amaldiçoe um dia esta litteratura. » E depois de muito logar comraum de : um catholico chateaubrianico. llii. No meio das revoluções. t. pertenciam. em honra dos crimes. Herculano remata restará elle. mas' teoips nós por bem demonstrado que. p. quando algum dia a Europa jazer livro etranquilla. na época pela perspectiva de em que os tyrannos. poemas ô canções ropa volvendo a si. que se travavam em combates e derramavam séa sangue por causa das questões entre as escolas a que. Dos seus imitadores diremos só. iii. em LeUraSj Depois d'estes anatl>emas contra o espirito em Armoderno -e 1 Repositório lilíerario. que hoje tanto applaude. p. cipicios «De sua escola apenas mas como um monumento espantoso dos pre- do génio quando desacompanhado da virtude. prorompem lhe dòs lábios palavras de irrisão contra os esforços para resolver os problemas da Arte «Rimos hoje com uma ipaixão linsultuosa d'aquelles' pobres philosophos realistas e nominalistas. dentro tdlvez de pouco tempo os nossos descendentes não tirão de nós porque seguimos' differeules seitas e credos tes... ninguém olhará sem compahvão ou horror os desvarios litterarios do nosso século.— : 112 positivas. HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Com um sorriso espantoso elle escarneceu de tu- do . se apressara gotar sobre os povos os thesouros da sua barbaridade. que elles farão com seus dra- mas.» ^ em Philosophia. como cremos. o género humano tende á perfectibilidade. Nossa prophecia se verificará. e se o homem mas nâo nasceu para correr na vida um campo de lagri- e depenhar-se na morte nos abysmos do nada. o combale de séculos os hymnos do desespero soam accordes com as dores moraes. mas. . se. 2 Panorama.

provocando a manifestação de novos talentos. apesar da condemnação de Hercu- lano. forlalecer-se. de que tanto se aproveitava o clericalismo. . e teve a eloquência da procla- mação. Desde que achou essa noção sentiu o nobre lord força a necessidade do protesto. a Byron essa snh- jStituição que se immobilisára linguagem de protoda a Europa. achou-se na situação em que se revela a espontaneidade creadora: offendido no orgulho pela sua primeira manifestação intellectual. prevaleceu na litteratura. não teve um plano. chamada pelos escriptores académicos satanismo. acha-se como um out-law no mundo moral e pro- cura equilibrar-se. mas a nova concepção provinha de um estado exce- pcional da sua personalidade. auctorilario nas suas admirações por próprio era antigui- Pope e pela dade . Sem ser um génio. toda a Europa foi imitada. Qualquer outro individuo succumbiria . e deu á poesia um destino coníli- de aspiração da liberdade. e em. e imporia por isso julgal-o. procurando em si mesmo uma noção de justiça. não podia succjmbir. offendido nas suas relações com a sociedade ingleza. mas a sua obra não teve uma ideia fundamental. jcomo expressão da beatitudc christã.IDEIA CIERAL 113 Herculano continuou a escrever. na revolta di- das nações opprimidas contra a colligação obcecada da plomacia da Santa Alliança. porque tinha na mão 8 uma que actua poderosamente ^as sociedades burguezas — o dinhei- . Teria Byron a consciência ou o intuito. offendido nos seus sentimentos pela dissolução forçada da familia. Na evolução do Romantismo. fèl-a o grito ideal de convenção. impressionou pro- fundamente as novas intelligencias. deve-se do sentimentalismo idylico. O byronismo. pela Itesto da consciência contra as violências praticadas pelo sys- {'tema de restauração do antigo regimen em ^Byron rompeu com esse positivo. A concepção deByron. no a sociedade clo do individuo contra atrasada. não educou uma geração. de jjraa transformaelle ção do ideal poético moderno? Não linha.

no sacro manto de immortaes verdores. nias não tiveram o ponto de Byron — o prisma assombroso das cem que explica a influencia . para comprehen- der as acções de visto. um outro modo.114 ro. do Elysío! Oh vem meus versos bafejar Traze um soiriso alTavel Da tua doce Emilia. HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Um homem que se acha com cem mil libras esterlinas de rendimento. 109. É isto o que elle diz do Bello.* O insulso idyUco de Demoustier é excedido por Garrett. na phrase de imprecação.» invoca o: Cantor das graças. também propõe os altos proble- mas da esthetica. Para nos explicar o fim das Bellas Artes. * O Chronisía. nas Lições de Poesia e de Littera- tura a uma joven tinha senhora. Torna com elle amável O tosco eelyle m«u. p. por um aspecto impreByron pintou as cousas como as viu. Mais linda que ella. (1827. imitaram-no no traço pittoresco. os homens. as so- ciedades por esse prisma tão particular.) . onde se adoece e se morre pela monomania do byronismo extemporâneo. que convida a sua Lilia ao prazer. adquiria um ponto de vista original sobre o universo. no desdém superior do desalento. mas seguindo a Emília. mil libras de renda. e que ainda subsiste em Portugal e no Brasil. de vista exclusivo alé na dissolução da vida dissipada. mais gentil que Emilia È mais seosivel inda a minha Lilia. os moldes pueris das Cartas em vista introduzir entre nós — o tão engra- çado quanto proveitoso methodo de Demoustier para ensinar divertindo. e sem querer «viajar nos intermundios das abstrações chimericas. e o seu modo de em tudo. bastava contemplar as paixões. vêr assombrou. Pela sua parte Garrett. Demoustier mimoso. a reclinar-selhe no seu peito com os braços enlaçados. É isto o homem sem ter sido na realidade um génio influencia do que se tornou doentia para os outros imitadores medianos.

E tom achar Ossian melLor (jue Homero. p. c finura. de Klopstock. Obscuros soobos do Escocez sombrio. Garrett depoz as regras e escreveu o Camões. — Os poetas hespanlioes antigos escreveram quasi todos no género romântico. já muito lidos. oriental.» ^ É certo. e de quasi todos os inglezes e lemâes. Só goítam de Irminsulf e do Teutates. ou n'aquelle que outras regras não tem mais que a imaginação e phantasia. viu também esta nova phase do sentimento moderno como uma batalha palavrosa de nominalistas. O pri- meiro é o dos Psalmos. de todos os hoje seguido na Ásia. O terceiro finaUiiente é o de Homero e Sophocies. que nem era clássico nem romântico. . 180. de Tasso o de Racine. e ainda O segundo é o de Milton. livros da Biblia. e em todos os seus livros chasqueou sempre da revolução mantismo. Mas os moder- amoldaram ao clássico e muitos d'elles têm progredido admiravelmente. graças o cupidos Já muito viiílos são. De Patis os modernos elegantes Deixam Racine para iérem Schiller. de Camões e de Fihnto. desdenliar Corueiile. Como Herculano. pedante a Horácio. porém poucos. Cbamam vil servilismo ás regras d'arte. nos já se Hoje é moda o romântico. o elle litteraria. Antiquário a Itoileau. Vénus e amores. Gabar Shackespear. E as risonhas ficções da culta Grécia Áureos numes d'Ascreu sédiços dizem. Por essas palavras vimos como Garrett mofava do Rosacudia de si os cânones rhetoricos que re- í Chronisia. que pouco tempo depois d'isto.IDEIA GERAL 115 É depois d'isto que Garrett descreve as diversas escolas litterarias: «E estes são os Ires géneros de poesia mais dis- tinctos e conhecidos. romântico e clássico. de Shacal- kespear. de Virgilio e Horácio. dizendo então. Dos nossos portuguezes também aíiguns aíinaram a lyra no modo romântico.

Quando ve- mos a imponente amisade entre um Goethe e um Schiller. nenhum teve o dom su- blime de ver robustecer-se em volta de si uma mocidade prestante. Castilho chamara a Herculano. e quanto pôde a bem do desenvolvimento de uma ideia a acção continua de um centro litterario. só podemos expli- car a dissensão entre Herculano. Pelo seu lado o árcade Castilho no prologo dos com phrases mais duras ainda Romanque veíu perturbar-lhe o seu mundo idylico. por seu turno Herculano feriu Castilho chamando-lhe cego de corpo e de alma. dava-se uma cto época nova na litteratura modernos monumencomo o inaugurador de portugueza. maldiz ido que as de Herculano essa espontaneidade do ! : representantes lilterarios. e Garrett ria-se d'elle chamando-lhe compadre. A falta de comprehensao d'este fa- que symbolisa a liberdade do sentimento. Castilho disputava a Garrett a antonomásia de príncipe da lyra. se- gundo corre oralmente. tos litteraríos. esse gallego do chafariz da Ajuda. em quem a opinião publica via os seus Quadros históricos. mas protestava lia que não era romântico. eram os representantes em Portugal. e os es- forços d'estes dois se inutilisaram pela homens longe de se coadjuvarem. imitava-os. o que se não teria feito se estes três homens fossem um .116 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL os cebera na educação de seu tio. Esftísmò três tes homens. não obstou a que Herculano e Garrett escrevessem livros que se desvia- ram do trilho batido até ao seu tempo. Com a boa vontade que os poderes públicos tinham então pelo desenvolvimento intellectual d'esta terra. como pela falta de comprehen- sao da crise litteraria que se passava na Europa e da qual elles. pela circumstancia do tempo. e rompia contracto de propriedade litteraria com Garrett por causa do com a França. separaram-se por pequenos re- •sentimentos pessoaes. cedo desmembração. Garrett e Castilho não tanto pelo caracter de cada um. mas esses livros não tiveram em vista realisar uma these superior.

e se faz forte pelo es isto lhe tudo Je pela moral. actividade. mas nâo apparece uma mocidade vigorosa e actie apenas dramas nacionaes não se escreveram. Se mais se não tivesse menos nâo se veriam em breve esterilisados todos os esforços que cada um tentou parcialmente. . e lançou-se a traduzir a esmo. . Maria se-lhe todos os archivos. somente as paredes do theatro de D. mas nunca o soube exercer. Se os dois escriptores antecedentes não levantaram uma geração. abraçou essas doutrinas desde o momento sem plano na sua que viu que lisongeava assim a opinião publica. Castilho não teve outro plano litterario se- não glorificar por todas as formas a sua pessoa. este contribuiu fortemente para corromper as ideias litterarias do seu tempo. Da renovação dos estudos illegiveis. ideia capital e sem uma por isso até hoje Pelo seu lado. eil-o que simula desgostos. Ninguém teve ainda um maior em poder espiritual sobre este paiz como Herculano. funda o Conservatório. estabelece prémios. Garrett chega a fundar o theatro portuguez. Inimigo da liberdade do Romantismo. nada lhes deve. nunca manifestou uma origi- nalidade qualquer. collocaram-no Herculano procura fundar a historia portugueza abriram- em um logar privi- legiado libertando-o dos cuidados da vida. faz uma cru- zada fervorosa para que o governo dote a arte dramaMca com um va. e mais feito. deserta do commercio das lettras e entrega-se á cultura e negocio do azeite. A mocidade que surge por si. os edifício digno. dá direito de os . e julgar cora impassibilidade.IDEIA GERAL 117 pouco mais intelligentes para se proporem elevados para se não odiarem pelo I um plano. como pè testemunho de um esforço de regeneração ahi estão de ii. históricos Portugal apenas restam volumes fragmentários.

.

cabe a Garrett o primeiro Jogar. mas porque possuia essa intuição artística. nâo porque tivesse uma consciência plena do facto moral e social que se passara na Europa e se reflectira em Portugal. dirigiu-se caprichosamente pelo seu goslo. que o levou a comprehender as obras primas da arte moderna e a procurar penetrar-se do seu espirito. Um accidente da sua vida determinou esta elevafoi ção do critério: a emigração para França e Inglaterra lá em 1823. conseguiu ba- si o resto das impresst3es clássicas ou académicas que lhe haviam incutido na mocidade.LIVRO I ALMEIDA GARRETT (17 99 — 18 54) Na obra da nossa revolução lilteraria que se seguiu á re- volução politica de 1832. justamente quando se debatiam as doutrinas do Romantismo. Sem possuir a erudição indispensável para fundar a época moderna da lilteratura portugueza. comprehendeu que de . com que suppria o estudo. nava nir a maior parle com esse tino que se tordas vezes uma intuição.

apresentar-lhe uma ideia fundamental emfim. a unidade da obra. traçar-lhe mas o gosto que adivinhava não pôde um plano. A sua vida é o commentario do ficou que escreveu. as fitas. faltou-lhe esta. attingindo a bellesa da phrase pelos hábitos da elegância. sem- pre frivolo e sensual. as honras para dar realce ao desatíeclação e familiaridade. debalde si uma mocidade em quem elle influísse» Seduzido finalmente pelas ambições politicas do constitucionalismo a obra d'arte tornou-se para ao um accidente. por ter vivido do antigo lhice. e a base foi scienli- por isso a poesia do povo theatro. os titulos. Faltou-lhe a individualidade que lucta. por ter ido com a corrente da que era capaz. á única tratada como uma predilecção de artista. reduziu-se triotismo. a verdade natural traduzia-a no sentimentalismo apaixonado. e o de uma the^ philosophica. e mesmo tempo ambicionou litlerato. Dá ao seu estylo uma calculada mas no intimo era verdadeiro e sincero. moda não creou as obras primas de com os hábitos anachronicos regimen succurabiu exhausto sem passar pela ve- . sem corda o vigor diO pa- Comprehendeu que na litteratura portugueza es- tava ludo para crear.120 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL O pOYO portuguez também tinha um génio nacional^ que era preciso delerminal-o na poesia e no theatro. encobria a falta de educação philosophica com procurava era volta de um christianismo á Chateau- briand. Pensador nullo. Esse gosto ou intuição levou-o até onde era necessário íica. elegante da época da Restauração. decidindo-se sempre pelas ideias generosas.

Dá-se isto com Garrett. — — — — — — — O homem a superior.lo elmanista e depois philiolista. que representa uma a época. e até os próprios erros e aberrações que ajudou vida do a extinguir pela sua missão genial. assim o andor inimitável do poema Camões. A vida da Universidade e as tragedia» pliilosopbÍMs e OulfiroB família. Oaiao no theatro do Bairro Alto. começou por ser uma um reverente imitador dos árcades quando se chamou Jonio Duriense. Ha portanto na homem su- perior duas biographias contradictorias.Midosi. Luiza. do Frei Luiz de Sousa. par das aspirações de que foi o órgão. Seu casamento cora D. que são o resultado do meio d'onde surgiu e do meio que pôde fundar pela sua individualidade. as dissolventes influencias que procurou anullar. cumpre pesada fatalitiade de resumir em si. os velhos preconceitos contra os quaes reagiu. (I8H a 1823) Direrção clássica impressa por Frei Tendência liberal do espirito de Garrett. e não é a menor prova da superioridade reconhecida. Sua vida em Lisboa Sua primeira imilaç. até à emigração em 1823. e do ardente lyrismo das Folhas cahidas. como Camões. poéticos. Reage contra o meio absolutista da sua Alexandre da Sagrada Família. urn frívolo a^ . que seguiu nas suas lyricas a pauta da medida velha ou da redondilha peninsular antes de abraçar o subjectivismo petrarchista da escola italiana. que imprimiu á litteratura portugueza direcção nova.— I.— Educação clássica de Garrclt. Os ensaios de Abraça os princípios da RevoIurAo de 1820.

122 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL miscarado do século ceu das Damas. que o obra A em que Garrett accentuou a sua individualidade nunca será bem comprehendida em quanto se não conhecer o período em que todas as deletérias tradições académicas. aspiração á liberdade. O Porto distingue-se pelo seu grande espirito de independência. de uma . sua vocação seria negativo e se n'esse acervo de pre- tenciosas vulgaridades arcadicas se não descobrissem os esforços latentes de um claro espirito contrafeito pelos res- peitos auctoritarios de que só pôde emancipar-se quando se a achou de repente em um mais vasto meio mental. e a Terceira provou-o abrindo asylo e fazendo-se reducto dos emigrados liberaes. uma necessidade para uma fecunda actividade litteO estudo d'esta phase primeira das manifestações da inútil. e ié por elles que explicaremos esse instincto de liberdade Santa 'que o fez protestar contra as forcas do Campo de Anna e abraçar o principio da soberania nacional procla- mado na Revolução de era 1820. as ilhas sâo sempre ani- madas de um sentimento separatista. xviii quando imitou Demôustier no Lysala um rhetorico elmanista quando versejou nos Outeiros poéticos da dos Capellos nos abbadeçados de Odivellas. em um Coimbra e meticuloso quando o estudo da lingua portugueza se lhe tornou raria. forçaram as reacções politicas do regimen absoluto. e finalmente philintista. Foi esse o fructo das duas emigrações de 4823 e de 1829. em 183 i a mocidade de . e contra as forcas miguelinas no seu memorando cerco de 1832. como o revelou reagindo contra a invasão napoleonica. Garrett nasceu no Porto a 4 de fevereiro de 1799. como o manifestou quando um simples burgo industrial. até vir frequentar os estudos superiores na Universidade de Coimbra em 1814. e desde 1810 viveu na ctos ilha Terceira. pasloraes 6 senlimentaHstas do século xvin o absorveram e o domina- ram. estes fa- exerceram na sua vida uma orientação fundamental.

na soltura do campo recebeu a communicação das tradições populares que lhe acordavam uma nova intuição poética. António Bernardo da Silva de Almeida Garrett. e por isso achou-se muito cedo em conflicto com a familia. natural do Russillon) teve os seguintes filhos: Alexandre da Sagrada Familia. quando o obscurantismo monachal esUipedecia este paiz. que foi bispo de Angra. este venerável ancião. Para bem comprehender este conflicto entrare- mos em algumas Garrett (filha particularidades: José Ferreira de Sousa. que só ad- mittia actividade intellectual para fechar os seus productos na gaveta. Na contacto em com o erudito bispo e com os cónegos seus tios obedecia á educação clássica. na quinta ilha Terceira. N'este meio em que clarar-se se achou sempre. assim a sua infância decorreu parte ilha Terceira. no Porto. que procurou incutir-lhe na sua primeira educação. parte junto na da cidade do Porto. e a saudava com enthusiasmo obra do Synedrio. 300 1799) acha-se indiciado corao pedreiro livre um tal David Gar- . dirigiu os pri- 1 No livro V abril do (12 de rett. e mais dois * filhos. de quem o poeta foi o segundo genito. do Castello e na quinta do Sardâo. onde predominava o espirito de reacção clerical. que fo- ram cónegos da Sé de Angra.ALMEIDA GARRETT 123 Coimbra. Frei Ale- xandre da Sagrada Familia. segundo o preceito do venusino. que escrevia Odes e traduzia Metastasio em segredo. casado com D. 11. António Bernardo casara no Porto com D. Antónia Margarida de Bernardo Garrett. natural da ilha do Faval. Garrett não podia deixar de de- um tanto jacobino. que foi pae do poeta. das Contas para as Secretarias do inlondenle Manique. Passou Garrett a puerícia junto de seu tio D. representava nos seus passatempos escolares as lia tra- gedias philoçophicas de Voltaire. Anna Augusta Leilão. pedislas as obras dos Encyclo- mau grado as queixas da Intendência da policia.

é apenas produ- zido pelo desgosto de haver descontentado aquelle velho que o educou. memoria celebram estes verera próximo parente do auctor. Frei Alexandre cul- 2 Lyrira de . da virtude. 4 Consignaremos aqui algumas datas sobre Frei Alexandre da Sagrada Familia.^ não recebeu dons de for- elle julga porém dever-lhe mais que nenhum pelo amor da yjrtude e das lelíras que na infância lhe inspirou com exemplo e conselho nos primeiros rudimentos de educação que d'aquelle insigne e illustre varão recebeu. Que á sombra augusta do teu nobre exemplo Tenras desabrochando Cresceram quanto são: infante ainda Oh Nao. nasceu na ilha do Fayal a 23 de maio de 1737. pelo conspiração de facto de se ter manifestado a favor da As palavras sublinhadas intencionalmente por Garrett levam a suppòr que alguém na familia teve interesse em afastal-o da sympathia do Freire.) João Mínimo. '' Na divisão da familia portugueza em 1 FabulaSy p. intitulada X sepultura do bem feitor. (ÍmI. não rfíorresle meu singelo peito Me avigoraste da constância tua. escreve Garrett: varSo extremado. 1829.» ^ O des- peito que transparece sob estas palavras. licenciado em Philesophia (humanidades) em 17f{9. entra para o Mosteiro de Brancanee em Setúbal.) 3 lindem. xvii.. 2 Era uma nota a esta poesia. Sabemos que foi o iinico s. lit- que datam de 1814. de seus parentes que de tuna : ex.. p. * Em uma Ode á morte do velho tio. ainda no meu peito . 19Í. onde professou a 13 de junho de 1762. era Coimbra. (Obras. l.124 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL meiros estudos do sobrinho e as prematuras tentativas terarias. Gomes octogenário bispo. 94. queixa-se Garrett de nâo ter sido contemplado em 1821 no testamento de seu tio: aO sábio e virtuoso prelado cuja sos. 99. p. Tu em minha alma tenra As sementes primeiras despar/isle Das leltras.

e por isso não teve um pensamento. não direi em Portugal. Morreu a 22 de abril de 1818 1 Tratado de Educação. seria posto ao serviço da liberdade na Oração á morte de Manuel Fernandes Tbomaz. Tinha mais dois irmilos. residiu por Ires aonos na diocese de Angola. Deixar fallar modernos emo- dernices. sendo sagrado a âi de fevereiro de 1783.) . os padres Manuel Ignacio e Ignacio da Sil?a.» * E mais adiante. cónego e arcediago. 4. ninguém presenlia que esse fervor precoce. na Sc de Angra. Paulo de Loanda. mas pela Europa. As primei- ras revelações do talento de Garrett foram no púlpito a (jue subiu por uma travessura infantil. e na eloquência parlamentar da es"l Iquerda constitucional selembrista. p. (Ed.'po de Malaca. seus primeiros estudos ^espirito No Tratado de Educação descreve os com um certo orgulho. referindo-se ás vantagens da educação hu- manista para os homens que hão de no futuro tomar parte no regimen parlamentar. por onde começaram as suas perseguições politicas. Almeida Garrett foi o único que em sua casa se sacrificoii á causa da liberdade. Transferido anles da posse do bispado para S. julgámos que por isso o confundem Frei Alexandre da Silva. petimetres e neologistas de toda a espécie: o ho- mem que se destina ou o destinou o seu merecimento a tiyou a poesia erudita o académica.ALMEIDA GARUETT 125 absolulislas e liberaes. que parecia leval-o para a vida clerical. de moral. do sãos elementos de jinstrucção. que para um philosophico seria um protesto: «Eu tive a boa forvelha. A educação religiosa e ('humanista de Garrett deu-llie uma grande indilTerença pe- los trabalhos da renovação scientifica do século xix. que tanto carece de uma palavrosa actividade: «O grego e o latim são os necessários ele- mentos d'esta educação nobre. uma unidade de plano na sua actividade litteraria. sendo transferido para Angra em 181^. e cora quanto fosse mal aproveitada. Em 24 do outubro de 1781 foi eleito bi. eremita de Santo Agostinho. quando dizem que elle pertencera ú Arcádia de Lisboa. de Loudres. conhecido pelo com ar- nome cadico de Silvio. das mefho- |res que se dão. sólida Uuna de receber uma educação portugueza de Jbons princípios de religião.

p. e de Alceo. sem fructo. (Ed. Frei corroborada por outra pezada auclori- dade do hellenista terceirense Joaquim Alves. levou-o ^ò á imitambém para de a admiração dos lyricos. e como Bellesa e bondade. 225. A força da imãher.. o Sa- de Anacreonte.) . não decidiu o talento da criança tação inconsciente da tragedia grega. Ainda embalado pelo fausto da Regência. A Rosa. das peças eróticas de Alcoo e Sapho. nâo pôde sem vergonha ignorar as * bellas-lettras e as clássicas.' p. Garrett espalhou com certo desvanecimento todas as particularidades com que se lhe pôde reconstituir Alexandre foi a biographia. critica cuja leitura lhe teria sido susci- tada pelas ponderações admirativas de Joaquim Alves..» com «a melhor marmeliada que ainda se como se des- creve no prologo da Mérope. 34. 1845. A uma influencia de D. Goso da vida.. A Pombinha. ç. que se conservou em Portugal como as velhas modas nas aldeias.» ^ lilleraes quanto o génio das duas N^esta parte o bom de Joaquim Al- 1 Tratado de Educação.» 2 em Paris.» Nos prólogos dos seus livros. que não teve a bastante de lhe explicar como a maior parte d'essas odes lascivas são fidsiíicaçôes da época ale- xandrina. A espada dopoeta. crifido. que adoçava as escabrosidades dos versos da Grammatica de Port-Royal fez. com o titulo de Oeuvres de Sa- Da traducção de Anacreonte diz com certa ja- ctância pueril: «os presentes estudos sobre Anacreonte são traduções tão severamente linguas o permitte.12(5 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL uma vocação publica. que traduziu. como o Inverno. 22G. Garrett declara-nos a fonte por onde houve o conhecimento de Sapho: «Na elegante collecçãosinha publicada nos lins do século passado plío . Esta disciplina de grecismo á Joaquim Alves. Nas Flores sem fructo acham-se bastantes odesinhas de Sapho. 2 Flores 3 Ibid. como A Lyra.

como espécie de voltas de velho can- cioneiro. poema heróico lé — Angra. que le fez crear essa poesia simples e ardente das Folhas ca- hidas. de A maOdes uma esmerada a (1814 a 1823) do qual diz o herdeiro do poeta no Catalogo dos Aittog rap/ws: os assumptos escolhidos. as tradições populares lia com que te embalaram a mulata Rosa de Lima e a Brigida.» D'este autographo se no citado Catalogo: «Ficou incompleto. 1815. que acceitava os apocryphos alexandrinos.» ^ Pobre alma. p. atrophiada pela mecha- nica poética dos fazedores de poemas épicos pela pauta de Le Bossu. é que le conservaram accesa a alampada de Eros. consta dos três primeiros cantos. que nunca as arcádias senti- ram. . É escri- pto em verso solto. XXV. intitulado longe da verdadeira poesia. foi essa mesma tra- dição que le fez sentir o colorido das cantigas soltas. parte do quarto canto. nuscripto. mil e seiscentos versos. com que Psyche se salvou da obscuridade do modiocre! Foi essa luz que le revelou a existência dos cantos heróicos d'este povo. [). contendo. e d'aquelles que o foram. exemglo: 1 Helena. zido sobre o assucarado francez das edições destinadas para as damas da afastava Garrett para muito esta época pertence esse calligraphia. Estes criptos O Índice mostra terem sido cincoenta porém nem todos foram es • ou não foram traslados para aqui. 2 Ib. e tradualta sociedade. xxvi.ALMEIDA GABRETT 127 ves serviu de Pae-velho. de Burro. ao lodo. d'esse lyrismo único. Nas Flores sem friwlo intercala Garrett por vezes doestas cantigas populares. acham-se muito inutilisados pelo auctor.» * Pertence lambem a esta influencia clássica a •Alfonsaida ou Funda1814 e ção do Impcrio Lusitano. ou segundo o velho calão das escolas. O lyrismo grego conhecido através d'esla fonte. rasgadas muitas das folhas em que estavam escriptos.

Garrell romanismo . que Sá de Miranda. p. ^ já de mathematica. '^ p. E a dizer que nilo. ^ ^ Nunca a linguagem individual pôde achar estas expres- sões profundas. á (lôr dos lábios morreu Coração que o não entende Que . . Cbristovam Falcão. as serranilhas. 153. os cantares guaya^dos e de ledino.: . K^ Camões. Garrett interpretando estas cantigas do povo. ensaia va-se em outras quadras em um lyrismo novo. Foi esta influencia domestica quem conservou no espirito de Garrett a feição e sentir nacional que o libertou mais tarde das mais auctoritarias convenções. negros. Estas referencias populares do primeiro lyrismo de GarfTéi sâo um presentimenlo genial. produziu-lhe do pesado esse estado marasmatico do sentimento.. ridicularisa os lentes de direito e o seu estúpido 2/6. porque o sentimento restringe-se á personalidade do poeta. Trago npgro o coração. (1814a 1810) é como as aves que esquecem do canto ao mudarem de terra. foi glosando e commen- tando os cantos do povo. cit. Não o quero para meu. 190. I)c tanto pedir-lbe araores elles . já nas lições de direito. . . e Francisco Rodrigues Lobo. do mesmo modo que a mão que lança as primeiras lettras segue os traços que tem á vista. 128 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Por teus olhos negros. Nas Fabulas. i Suspiro que nasce d'alma. a parte jviva da tradição provençal. A catadura se annos o lyrannica dos lentes. de que Garrett tanto se riu sempre. acceitando cos portuguezes. Garrett vivia na intimidade litteraria 1 Op. se tornaram os primeiros lyri- Quando Garrett entrou em Coimbra perdeu durante dois dom da poesia. que o conservou silencioso..

despótica do Bispo-Gonde-reilor-reformador D. .. Reinava tragedias. Wommsen. que escangalhava os theatros. como veremos no Retrato de Vénus. Racine. {Op.) Esta sciencia da sebenta calhedratica perpetua-se até hoje.lo?ò Vaz. So nunca o Martini li. que ainda enconlráatos: cit. Mas que doutor fiquei eu. (Op. no Quebra -Costas Minha vez escorrcpuei. Em toda a sociedade d'esle Por força bade reger famoso direito de accrescer. dois medíocres es- criptoreí dramáticos porluguczcá inteiramente obscuros: Victorioso o padre a Branca ostenta. Ciarrelt deixou nos seus versos alguns traços caracteriilicos da vida académica. Crebillon.ALMEIDA GARBRTT 129 Frei Francisco de S. 77. Garrett chasqutiia da tragedia do padre José Agostinho de Macedo intitulada liranca de Ros-ii. me ensinava homem discreto mundo E de saber profundo. p. Euripedes. Macqiiardt e Lange ainda ali sSo desconhecidos. E á IN)[ta Férrea m. * do pedagogo Joaquim Al- Mis o fervor liberal que agitava os estudantes de Pois FOf^ondo nioi douto Meu Dieíliõ . os trabalhos de Verdade é. e lio -c velha influencia clássica de seu ves. que o arrastou insensivelmente para a erudição e para o género didáctico.) soneto datado de Coimlira de 1819. Francisco de Lemos. Só para vencer lhe restara dois Mas temíveis rivaes — Paiva e Pimeutal maganos. em que 273. (1817 a i818) (jarrett sacrihcou em parle o lyrismo á imitação das tragepoi: tanto vollou á dias de Voltaire e de Grébiiton. Voltaire e Alfieri foram elle annullados. p.rave9 a expli- romani^mo um do^ poDloB das causas de direito. ei. fJ9 ) Em caç. Luiz.. Corneillc. dizendo Em um /por ique Soplioclcs. em Coimbra a monomania das eram único meio o que os estudantes tinham que mau grado a intolerância para exprimir sentimentos liberaes. cit.io nota accreeccnta: d'est0 «No meu primeiro anno da Universidade era atais |. faltando-lhe apena»? para o triumpho completo vencer Maiiiucl José de Paiva e Manuel Caetano Pimenta de Aguiar. Fui preso por Verdeae?. p. cit. 8c o que soube da Instituía E do Digesto 1 esqueci? {Op.

Era essa aspiração da liberdade. poemas didácticos multiplicam-se ao ^passo que a ideia do bello se oblitera sob o cesarismo que i aproximava Roma do Baixo Império. Todas as suas oíTensas porém foram só politicas. em que a poesia a pobre vem servir as banaes regras» de moral. no soneto supracitado e nos versos: ram a um Quo tal poeta lá da tua terra. Nem o furioso e sanguinário quo foi cm seu partido nem a perseguição politica de que a mim próprio me fez victima. escriptos n'este lado. e que todos os funccionarios po- pcculo XIX. poderam mover me a desacatar n'elle o homem de lettras que todavia líonro ainda. que reagia contra o eslylo inquisitorial da Universidade. faz Orientes e baptisa Gamas. O rancor que toda a vida professou a quantos professaram as lettras no seu tempo. que podia mais que a erudição e que o pedantismo calhedratico.na litteratura latina os scientifico. e Garrett atacou-o de frente.vivo e natural. o que ha de acceitavel na Lyrica de João Mínimo vem do calor revolucionário. repete-se o poesia mesmo phenomeno. XVII. Um dos característicos mais pronunciados nas épocas de (/decadência litteraria é o género didáctico. que in- spirava o grotesco das Fabulas.) José Agostinho de Macedo. saudou em Castilho o espirito arcadico que reoascia. Em uma nota. lempo. p. ..130 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Coimbra foi o que deu aos versos de Garrett. esse que se sente esmagado limas vezes debaixo do mechanismo bocagiano. no século xvni. e a techno- logia das artes.. outras vezes debaixo das construcçôes archaicas de Filinto. em que a falta de sentimento procura acobertar-se com o fim . 271.» (Obras de Garrett. Garrett caracterisa-o como: co mais atrabiliário escriptor que ainda creio que tivesse a lingua portugueza. José Agostinho de Macedo era o pontifico litterario do primeiro quartel do como os dissidentes de Coimbra fizeCastilho mais tarde. t. Sai que no auctor do Retrato de Yenus^ no redactor principal do PortuyueZy elle perseguia principalmente o ainda mais odioso auctor do poema Camfies. na •edade da corrupção politica e do convencionalismo senti- mental. que attacava Garrett. Era esta que não encommodava os ócios da auctoridade. uma inveja imprópria de talento tilo verdadeiramente superior o arrastou a desvarios qne deslustraram o seu nome c mancharam a sua fama.

José Agostinh(t compii- zeram peças zer didaclicas. xvii. como as notas e ensaio minha infância poética. Suppriu arrojo tanto o bom desejo: Valba a matéria. Tal é a origem do gg/m/o de Vénus. oli vales. Merecieis Camões. j)oemeiQ_enijiuat ro cantos dedjçadoj. como o ex. * Catalogo dos Autographos^ p. Vinga d'um voo o Pindo a altiva águia.ALMEIDA OARUETT 131 {^raça diam real. a medo balbuciou na lyra. 1G4.» rett. se não vale o canto. De Lille.^lorifica'sâo da <3P da Pintura: «tanto o poema. por Ires vezes o tenho corrigido. datada áaáic^iiovh Aos pintores por tu- do Porto de 1818. (Ed. N'este periodo eslava Garrett As primícias do canto. e Jonio DuriensCj quiz também fa- um poema n'esse diapasão. como se pôde vèr pela dedicatória do poema: guezes. os 8ons primeiros Que a furlo. ler e até escrever. sem perigo de decaírem da Garrett viu apenas a manifestação exterior doeste fa- cto. 2 Garrett assignando-se então Jcnio Duriense revelava a influencia da Nova Arcádia a que obedecia. que m'o viram começar e acabar então. Nas débeis azas mal despontam plumas. Também lá cbegará rasteira pomba. sr. em que conto vinte j certo que desde e dois. 18G7). Mas do monte nas quebras descansando."'** Sam Luiz. são: a copia três correcções de que aqui fulla constando apenas de três cantos. p. O E vale implume vos consagra. . Isto nâo é impostura: sobejas pessoas lia ahi. sâo compostos na edade de dezescte atinas. É esse tempo até agora. Esmenard. que * me As honrou a mim e a este opúsculo com Gar- suas correcções. as emendas d'esla t Uelrato de Fenws. com uma dominado pelo furor \dmanisla. Darwin. fraco ousei tomar divino emprego. e a*té submetlido á censura de pesfoi ' soas doutas e de conhecida pliilologia. Camões faltaram.

i.l'i}2 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL primeira redacção consistiram era despojal-a de todo o me- chanismo poético elmanista» A segunda copia data de 18^1. Fabula gcnlil.) ( O poemeto descreve vagamente e olíicial com as ideias syncre- flicas do ensino a decadência de Roma. * «mais atigmentada do que a antecedente. xvii. mas não é aos dezesete annos que se chega á compreheusão moral do es- tado de scepticismo a que as revoluções de Roma e as bi- elas entre Mário e Scylla arrastaram Lucrécio. mas diíTerente ainda da que serviu para a edição de i8il. Garrett imita o poema na parte exterior. o renasci- * Catalogo dos Âuíoyraphos. na fabula de que elle se ia des- \iaudo pela leitura de Chateaubriand e de Madame de Stacl: A Ficções! . . Que ás margens coilies da Castalia pura: Flores que outr'ora do Epicuro ao valo Co austero assumpto lhe entrauçaste amenas. A terceira redacção é a a que corre impressa desde i82i. Orna -me a lyra c'os feslóes de rosas. que os encyclopedistas haviam j-ehabilitado. Essas no canto me áesparze agora. (c. e que deu causa ^'?li9Ji:LÍÍíHlL^^^ outubro d'esse anno. ' O Retrato de Vénus procura repassar-se do es- pi ri lo poético do poema De Natura rerum. por um pro- um Ilbello do promotor fiscal contra João Baptista da Silva Leitão de hXiiíjerdade meida Garrett accusado de abuso de de imprensa no poema do Retrato de Vénus! Lido o innocente poemasinhò custa a crer como a intolerância politica se servia de escrúpulos religiosos da mais refalsada orthodoxia para descobrir intenções revolucionarias em uma innocente citação de Voltaire ou da Nova ções do Ileloisa. O manuas notas e com Ensaio sobre a Historia da Pintura. . . e nas apaixonadas imita- poema de Lucrécio. p. a mestra ánlíguidade o diga. Mão. e áureas ficções desdenba o gabio? douia.» scripto já constava então de quatro cantos. rolve a meus versos.

o quarto cnnto é de- dicado aos pintores portuguezes. cm em verso solto em numero de oitocentos e qua- 1820. xxv.. e não pôde conter este delicado epigramma: oL'auteur consacre ensuite quinze pages à Texamen de cette matiòre. escripto em de que somente escreveu o primeiro titulado e segundo cantos. onde 1 com uma doce miragem avança: «Tem-se escripto muito. Didionaire histórico -art-slique du Portugal. das obras dos nossos artistas a ideia me suscitou de entrar com o facho da philosophia n'este cahos informe. a Alfo?isaida. p.» Raczynski. . e em seguida enumeração dos nomes dos pintores italianos caraclerisados com o seu conveniente epitheto. e desembaraçar quanto em mim fosse com o fio da critica este inextricável labyrinto. mas renta versos. glosado de Lanzi e de outros.. de que já falíamos. O exame de seus escriptos. A intenção erudita do poeHistoria meto defme-se meltior em iim Ensaio sobre a Pintura. pag. de 1821. dois cantos. mas. o animo de lucro da parte do quem se devera importar da reputação do poeta. É natural que esta mesma causa trpga ainda â publicidade o poemeto do Roubo das Sabi7ms.ALMEIDA GARUKTT 133 a mento das Artes. a tomada de Constantinopla. e o poemeto heroi-comico em quatro cantos. foi atraz d'este programma pomposo. 108. estudava a quando Arte portugueza.» * Annos depois. tanto nacionaes como estrangeiros (aíToitamente o digo) sem critica. et cite bon nombre de peintres I(?s plus connus . foi A autojatria que Almeida Garrett professava a causa de não ter inutili- * 2 Catalogo dos Atitographos. ^ in- O X ou A Incógnita. Garrett pediu aos livreiros Bertrands que retirassem da venda o poema. segue-se da sem a minima luz nm quadro histórico da pintura portuinlellectual gueza. própria. e muito controvertido sobre a pintura portugucza e sua historia. fez com que o Retrato de Ve7ius entrasse na collecção das obras completas de Garrett.

em A marcha da politica europea produzia entre nós esta espécie de phenomeno das marés pohticas. que fazia os papeis de dama. essa vaga com 4817 o indefinido systema constitucional. entre os estu- dantes que erigiram o theatro do Collegio das Artes 1813. por isso também sujeito á triste eventualidade de nos mostrar meios como venceu a corrente da mediocridade do seu das correntes mais forles que iam inutilisando o gefoi tempo que por vezes o envolveu. e ahi representaram de 1817 para 1818. 133. p. Uma /nio de Gacrett a monomania das Coimbra. de Voltaire e de Grebillon. Joaquim Larcher e José Maria Grande. João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett. Os theatros académicos surgiram para da- rem expansão aos generosos sentimentos. o noção republicana mesclada liberalismo. Lucrécia e Xerxes refundição dos Persas. jfestação que os [ A tragedia philosophica êra a única mani- tugal para homens illustrados tinham então em Porcommunicarem os seus sentimentos liberaes. seria o auctor do Frei \Luiz de Sousa. isto é. Para este Iheatrinho escreveu Garrett duas tragedias.134 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL sado estes esboços de fica os uma vocação que se define. Garrett compraz-se em citar este nome do seu contemporâneo nas Fahtdas e no Romanceiro. Os médicos eram os principaes cultores da tragedia philosophica. porque o estudo das sciencias naturaes lhes dava uma e certa independência intellectual que faltava aos thcologos 1 Garrelí c os Dramas romaníicos. representou-se o Rhadamisto. quem tragedias na época da diria ^sua formatura em que o admirador |de Racine. de Aldeia Gallega. Fundaram um novc^ theatro na rua dos Coutinhos. Garrett. e agitava os estudantes. . preponderava a 1818. traduzido por João Eloy Nunes Cardoso. que datava de 18H. estudante do segundo anno medico. * Entre outras tragedias de Grebillon. apparecia agora em um novo enthusiasta.

"> 2:353 . os Árabes ou o Crime virtuoso. * foi n'este intervallo que Almeida Garrett refundiu a sua Merope. João vi * o Thealro em Coimbra. projecto de um drama em Ires actos. por F. escreveu o primeiro e parle do segundo acto lona. Em 'Charel : em 30 de junho de 18i0 recebe Garrett o gráo ^e badireito. n. cança-o. em que ainda obe- á imitação elmanista. o lente da cadeira 135 de Anatomia verso. intitulado Ignez de Castro. intitulada Cifrão. em agosto e setembro d'esse anno.ALMEIDA GARRETT juristas da Universidade. o empenho de um despacho fèlo n'esse mesmo anuo partir para Lisboa. que os filhos traduziam e desempenhavam. Francisco Soares Franco escrevia tragedias em como sua a Hermínia. Sae de Coimbra formado ilha em di- em 1821.) 2 Calaloijo dos Auíographos. e o lente da cadeira de Instituições raedico-ci- rurgicas José Feliciano de Castilho fazia representar casa tragedias. drama de 1821. de Carvalho. Elle sae outra ^vez da sua ilha tranquilla para as tempestades da capital. D. regressando á Terceira nos mezes de maio. o projecto e esboço das primeiras scenas de rapião. Diz elle no prologo das Fabulas: abril e /"«Os cinco annos da vida de Coimbra passaram. quando a revolução levada a cabo pelos treze beneméritos. Desde Í8I8 a 1824 suspenderam-se os divertimentos theatraes. p. Garrett alíirmou os seus sentimentos de iberdade recitando ^dece reito uma ode enlhusiastica. do que resta parte do primeiro acto. em como as de Monti. Ide em 22 li- novembro. xy e xvi. foi jcelebrada nos Outeiros poéticos da sala dos Capellos. e 2:356. principio de acto de El-rei Se- uma comedia em ^ dois actos. de em verso solto da tragedia Édipo em Co- 1820. M.» Trabalhava-se para a reunião das Cortes constituintes e discutiara-se as bases da nova Constituição de 1822. o socego da casa materna a que regressou. (Conimbricense. e principio do primeiro.

coaio José Ferreira Borges. lembraram-se das suas representações de tragedias sophicas nos divertimentos escolares. porque determinou o seu casamento. e Paulo Midosi o primeiro a propor uma recita de curiosos no theatro do Bairro Alto. publicados em seis íolhelins do Piano de Noticias. Paulo Midosi com o lilulo Os ensaios do Catão. O Catão foi posto em scena em 29 de setembro de 18:21. por conterem bastantes fados desconhecidos. Este facto foi um dos mais fundamenlaes da vida de Garrett. como Manuel Borges Carneiro ou o coronel Sepúlveda. a de Marco Bruto pelo próprio Garrett. pela decepção e pela morte. e de um exercito ao ser- viço da realesa. * O theatro do Bairro Alto era construído no largo de S. diante do poder fa- natisador das ordens monásticas. deviam ser anullados pelo ludibrio. Garrett encarregou-se de fornecer a composição dra- mática. a de Porcio por Netto. offerecendo a sua casa no Chiado para os ensaios. Quando Garrett pliilofci chegou a Lisboa encontrou os amigos da Universidade. a de Manlio por Carlos Morato Roma. e a de Dccio por José Frederico Pereira Marecos. Era um assumpto conforme com o estado do espirito publico. . convém distin- guil-o do antigo theatro do Bairro Alto. onde se represensala continha taram as celebres comedias do Judeu. N'estas condições os grandes talentos e as mais heróicas vontades de homens como Manuel Fernandes Thomaz. Roque no logar occupado hoje pela Companhia de carruagens lisbonenses. e os partidários da liberdade debalde aspiravam a uma jiislissima so- lução republicana. e entre dez e vinte dias deu por completa a tragedia Catão. taes como a casa opulentíssima de Cadaval. ordens de camarotes. sendo a parte de Catão desempenhada por Joaquim Larcher.136 HISTOHIA DO ROMANTISMO KM PORTUGAL obstinára-se a permanecer no Rio de Janeiro. com A duas uma varanda corrida sobre a se- 1 Merecera lêr-se os artigos publicados pelo sr. diante da prepotência dos nobres. a de Sempronio por Mí thias Carneiro Leão.

curioso que veiíi mais tarde a fa^er parte da companhia. Ajrepresenlação da tragedia o Catão. conservam grata memoria d'esta récita. Vivia u'esta época um negociante por nome Luiz Midosi. que durou da paschoa até aos acontecimentos de 15 de se- tembro de 18á(). Maria vés que pertuiboa para sempre a empreza.» * de treze annos por nome Na segunda representação em 2 de outusr. diz Midosi: «Convencíonou-se entre as senhoras que a toilclte seria mo- As poucas pessoas da minha família. ephemera esta vida. inaugurou-se com a Quando se torcomedia o Principe Prr- e era uma das principaes glorias da companhia. e que foi tão bem acceita que a 2 de outubro de 1821 representou-se.. de uma farça O Corcunda por amor. abrir. trouxe ao abandonado theatro do Bairro Alto as principaes familias de Lisboa. rett. sondo emprezario Evaristo José Pereira. em 29 p sr. revi- em 1820 com o regresso dos seus actores. Foi um re- nou a feito. Era proprietário do inaugurou-se o theatro theatro do Bairro Alto o escrivão do crime d'esse bairro Dyonisio José Monteiro de Mendonça pelos fins de 1815.g sapateiro João dos Santos Matta. a actividade diminuta. que vivem. mas teve de estar um anno fechado por i.ALMEIDA OARKETT 137 gnnda. que fazia de primeiro gala. porém onde a parte principal coube a Gardesta. fura construído pela direcção do pintor Joaquim da Costa e do carpinteiro Vicente Romano. filha que tinha uma formosíssima Luiza Midosi. mas acompanhado. Apenas funccionou uma companhia fe- hespanhola. de se- tembro de 1821. o Catão. . e que todas se apresentariam de chapéos. . em que coUaborou meu pae. causa do luto forçado pela morte de D. em que o emprezario se resolveu a volali tar para o Salitre. ficando depois d isto o theatro para sempre chado. Quando vendo esta companhia retirou para o theatro do do theatro do Bairro Alto foi foi Salitre. 1 Citados folhetins do Paulo Midosi.

xv. mas para memoria d'esles de Cintra. que de ingénua. passei no delicioso sitio Logo em 26 de maio se represenem outros trabalhos.''' estylo satyrisado por Tolentino. que revela as relações especiaes d'essa época em que reprodu- zíamos servo já isto. partindo em burrinhos. que fazia de graagosto d'este fcioso. E tu sexo gonlil. Depois do casamento D.138 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL bro de 1821 é que Garrett se apaixonou por Luiza Midosi. ! Afago da existência Estes versos foram gravados em uma caixa com tampa de oiro e com o retrato de Luiza como se achava vestida na noite de 2 de outubro de i821. * A data do casamento Gxa-se em 11 de noTombro de 1822. Fricks de Campolide. p. *. a 8 de abril de 1822. o Itra. Oh perdoa se a pátria te não deixa primeiro legar em nossas scenas. da casa das .Em 12 de ofíicial mesmo anno foi Garrett despachado j da secretaria do ministério do reino. formado de vinte pessoas. 2 Catalogo dos Aulographos. dando intenção aos vermimo. . O Impromptu de Cintra ficou inédito. Garrett escreveu para essa jquinta da Cabeça.» ^ saudosos dias que. Luiza projectou um pic-nic monstro em Cinlra. mas a felicidade não correspon- deu ao enthusiasmo do coiip de foudre. o encanto 'i'ella. anachronicamente a galanteria á Luiz xv: «Con- não pelo que vale. Garrett recitou o prologo de Catão com sos: os oltios fitos onde ella estava. na companhia de amigos. Garrett ajuntou a este manuscripto a seguinte nota. e pelo sogro. delicias. ali festa passada na Jmpromptude Cin- representado por seu cunhado Luiz Francisco Mifazia idosi. estava ella da segunda ordem toda vestida de branco.. que contava treze annos e meio. a i 1 O casamento effectuou-se de novembro de 1822. no velho sr. em um camarote xom um chapéo de setim cor de rosa.

estão mas — Lições de Poesia a uma jm. e vol. 177. vieste-nos supprir os Amorinhos lúbricos do pincel de Watleau e de Boucher com as luas allegorias mythologicas. em de Qarrett. 109. p. a Lilia. a tua des- envoltura liade-llie parecer mais pura que os ditos sujos ! das comedias do Judeu Entra. 1. hade respirar satisfeita com as tuas Cartas a Emilia. com a insipi- A boa sociedade portugueza. 2 Vol. 1IÍ2. Este estado moral e intellectual está cabalmente reflectido n'essa outra obrinlia insignificante sia a Júlia. suave Demoustier e empoa a cabeça a esta gente. Do um rapaz amador do bello sexo. que até hoje só conheceu a cinza da tristosa biblica. a Júlia. que agora férias succediam ás Delmiras e Mareias. p. if. parir e fiar. dos íinos requebros e intercortados sus- piros. Annalia. Ali. e cora a tua elegância de braço dado dez. ^ Enlbusiasta e cálido. das grato emprego do Porto. . surpre- hiista. antes da emigração em completamente representadas no Lyceu das Da- 1823. p.en senhora. quatro d'estas lições foram publicadas 18á7 no jornal o Chrocomposição. 39. ^ As ideias litterarias /'I8i3. 175. onde a mulher cumpriu nosso vellio á. com os teus versos alliados em doce conimbio com a prosa. em que dá Lições de Poe- perfumado e empoado DemoustierI até cá este canto beato e triste se estendeu o teu siblerie mundo da sen- equivoca. e o enredar-se em dispender o seu talento a em odes coníldenciaes.risca o anexim: Chorar. 2 e á parte a insuííiciencia d'essa hendenos o encontrar no plano de reproducção das obras * Lyrica de João Mínimo.ALMEIDA GARRETT 139 dois actos tou outra vez em Cintra o drama de Garrett em foi fácil Os Namorados Extravagantes. D^aqui n'essas intrigas de alcova.

4 Poesia antiga até Homero. do- cumentes políticos e lilterarios. 22 Poesia do Norte 23 Troele- vadores. 19 Phedro. eic. Scipião. prazer e instrucção. 3 Poesia. Aris^ 13 Poesia na Sicilia. primeiro elemento da . terceiro mento da poesia moderna. dividiam-se raes. Poesia latina: cap. 8 Anacreonte. — Liwo II. G Hesiodo tophanes. da casa Berlrand. Pérsio. suas divisões. . e por isso não quiz anuilar esse livrinho que o tornaria sympalhico ao bello sexo. 25 Árabes. na 7 Sapho. 18 lio.» Pois não progredira visivel- ! mente o poeta depois da emigração de Portugal. Conclusão. quarto elemento da poe- Formaçàa da poesia moderna. sua antiguidade. 20 sia moderna.140 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL completas de Garrett. 2 Apud romance Helena. etc. No inventario dos seus papeis. 10 Thespis. etc. xxxiii : Catalogo dos Autographos. 9 Pindaro. que lhe inspi/rára os poemas Camões. ' 1 Prospecto. ^11 Bíblia. Branca? Para que voltar a este passado mesquinho da falsa imitação de Demoustier? j Garrett \ • lambem . a que procedeu seu genro. LuciOy Lucrécio. e D. 11 Sophocles. de Demoustier. 5 Homero. contendo: lição 1 em três livros: I Princípios geBeijo. ~ Alceu. 24 Bardos. "2 Principio das Artes —o das Artes. diplomas. Euripides. em 1839. com ção litteraria do bello sexo. Eschylo. p. etc. encontra-se o elenco d'eslas Lições de Poesia a uma Fim joven senhora. 15 Planto j Sci- pião. segundo elemento da poesia moderna. se servia da litleratura como meio de ga- lanteria pertencia á época da Restauração. das línguas vivas. Co\^1 rina. Catullo. seus vários géneros. Poesia moderna: lição ^0 Invasão dos Bárbaros. Meia edade. — Livro 'ú\ III. formação e Meio-dia. 14 Poesia Itália f Enio. 16 Aperfeiçoamento da poesia latina pela conquista Virgi- da Grécia.poesia moderna. ainda annunciado o nLyceu o fim de aperfeiçoar a educa* das Damas (inédito) no estylo e pela forma das Cartas a Emilía. 17 Horácio.

Ferreira Borges: pelo seu patrício «A proposiio do amante de Emilia. 155. cuja tradução portugueza tanto encarece. dá a Demoustier a importância de citar-lhe as Cartas a Enih o ^ Clirunista.xou um documento incontroverso do seu talento. que estavam arlequinados á parisiense? Eu por mim. gosto mais d'elles assim: acho mais pilhéria ao padre Apollo dando ás gambias atraz de Daphne e gritando com derretida lamuria: Cruel. Benan ao estudar o livro de Creuzer sobre a Symbolica. é tudo chato e pueril. foi o ter vencido esta falsa direcção em que se achou arrastado. F. como esse incolor e insipido Demoustier. que. como o modelo que feita se pro- poz imitar. eu l'o peço. apesar bello. pára. iiida mal! para se fa- zer n'uma arvore. B? Não te parece que lhe ficam tão bem os trajos porttiguezes áquella sucia de deu- ses e deusas. e foi correndo. com quo brindou a nossa lingua o sr. «Mas ella não parou. Sempre é lingua de trapos viva a nossa por. amesquinhando-nos na sua estolidez! Se Garrett dei. vol. i. tem todavia uma certa aíTectação em que forçosamente cae a lingua franceza apenas a desviam do seu trilho natural e chão. . tu já lòstc a elegante tradução de suas lindas Cartas. Que estado deplorável esle em que traduzíamos Demoustier em Portugal. É tão bonita esta fabula emportuguez: causou-me dobrado prazer do que no original. Nem isso. p. que é outra' casta de idioma!» * É assim quo de : ensina a sua Lilia e lhe procura desenvolver o gosto.tugueza.ALMEIDA GARRETT lál Quem lòr este simples esboço suspeita (embora se des- cubra á primeira vista ausência de e sobre tudo do espirito da historia existir uma noção litteraria) synthetica que devem n'essas paginas algumas d'essas observações com que Garrett revelou mais tarde a sua intuição artistica.

Extractaremos aqui algumas passagens da por que tendo de expor mais factos.forçado a emigrar de Portugal. que procuravam lettras.» ^ Esta é a verdade. uma livro es- pécie de historia divertida e conveniente.'» bert. A ideia de fazer doestas fabulas venerandas um todo chronologico. * Essais de critique et d'Histoirc. estava perdido para a litteratura. de Maury. se Garrett se não tivesse visto . . p. Nâo se arrosta duas vezes com o tédio d'esCartas a Emiiia. o haver folheado as um desagradável accidente que se nâo deve repetir. 101. lição iv. é em 1 litteraluras e antiguidades: Études d'Histoire religieuse. p. é tas tolices pretenciosas. que ape- sar de ler realisado perfeitas creações artísticas. 9. com este tom: como o de impos- ha coisa então em que este oílicio seja facílimo. e ainda assim a frivolidade da época penetrou-o tão intimamente. para ensinar como o seu modelo. a sair d'este meio chilro e sensivel. e introduzir entre o estudo das vertindo» são nós o tão engraçado di- quanto proveitoso methodo de Demoustier. tolas e pretenciosas. e que os velhos mythos que desabrocharam da imaginação primitiva perderam muito cedo a sua significação. estava mais seguro de na banalidade. N\a- quelle estado de espirito.142 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL lia sobre a Mythologia: «É evidente que a própria antiguidade cessou de coníiprehender a sua religião. as Lições de «fazer amável Poesia a iimajoven senhora. accrescenla para o julgamento de Demoustier: «Para um homem de senso e de gosto. Léo Jou- ao estudar a Historia das Religiões da Greda antiga. nâo data de Boccacio ou de Demoustier: Ovídio reahsou-a em um * um pouco menos máo do que as Cartas a Emilia. um em cair plano philosophico. rrinca pôde dar á sua obra ventura aquella. Trata-se da Historia da poesia antiga: Garrett ataca o assumpto «Ha poucos modos de tor: e se vida tão fáceis.

«eu por mim contento-me de te dizer. se Homero foi tão somente metlo um traductor. um rosário de inúteis conjecturas antes que chefa- gasse a entrar em matéria.. os Hebreus. . Os Gregos foram provavelmente os povos europeus que pri- meiro cultivaram as bellas-artes. e lél-a quero Apocrypba on genuína? . . Se a risonha e engenhosa Mythologia dos antigos a houveram elles do Eg)'pto ou da índia ou de ambas as partes. dos quaes custa pouco a dizer. Pbilisleus. Eu que pretendo pouco da ma. e cujo fim é dar á minha discípula: «Fáceis lições do roeu saber ingénuo. n'isso não me eu: o que sei. um collector de trovas. Mohabilas. Que a doutora ccbenta carapuça. Domina Do meu bem. Chananeui). tutus ero. Se cu gúslo quando a leio. é que as obras que nos as chegaram com o seu nome. e assim enfiando qualquer agora. que nos vieram com esse outro de Ilesiodo. «e outros mais qne acabam em eus. que em poesia o mais antigo que conheço são as composições gregas e hebraicas. Jamais oa li»a frente Encaixei doutamente «eu que adoptei a lettra do elegante Procopio: jndirc. do meu amor Só quero gloria o louvor. e o que me imporia. porém que nada sabefaria mos d'elles? «Assim fazem quasi todos. são as mais completas e antigas que na Europa se conhecem: «E que me imporia a mim que o grego Ilomero Nao seja o auetor da lllíada divina. ALMEIDA OÂBRETT € 143 Os Egypcios Oá Porsaa e K depoi» os Queres tu vèr como eu cito e Cbaldeus. que foram grandes homens.

. é para assim dizer o Dante lista dí poesia clássica. Co'a eloiiuencia divina Que a branda persuaçlo no peito inspira.» E percorre assim a dos aedos gre- gos: «D'estes cantores divinos ou divinisados. mas quanto mais foi difíicil de pintar!» Depois disto passa a fallar de Ilesiodo: bem nao muito mais antigo.^.ubaros eusina A erguer.» Lino é caraclerisado fez cm poucos traços: «Lino lambem so nomeado na' Grécia pelo primor sons da \oz aos da lyra. AoSi liomcns rude.lo sensivel. M sua bruta fereza Co'as brenbas a deixar na soledade. Ampliion 6 o primeiro cuja data é pouco mais ou menos certa. grave e subliaie a e tempo. morta a mulher.nieira ((t. tudo n'ella lisongeia suavemente: nao tem as nossas delicada e é essa m. Toda arrobadi. aos quaes clle substituiu as cordas muito mais barmoniosas que ainda boje se usam.144 HISTORIA DO ROMANTISMO RM PORTUGAL Podem espas questões dos antiquários Fazer menos formosa Andromacba íaudosa Quando Vera dar ás por' as de Troya assediada Co' — till»inbo nos braços talvez os últimos abraços Ao seu querido Ueitor? Poesia. encordoada então com que associava os com simples fios de linlio.» Bellaperipbrasepara não fallar nas cordas de tripa. natura] é essa poesia grega. E alias questões travarem Subré o nome do au tor? «Sinijoles. «Foi grande impostor Orelle bu^:car pheu.. um. t. a fora ao . Modelo é e será de toda a poesia clássica.Hn- metapliysicas. palpa-o o tacto.i cidade. Toda meif^uicc' o amor. languida. tudo o que pinta véeni-no os olhos. b. inventou que. sempre elegaute. Se o» Perd« acaso de sua formosura critico» em duvidas entrarem. delicada. Toda elia é sen- tidos. e a lempo engraçada mimosa. Co'os magos sons da lyra. ternura.

para respirar na atmospher. que se tornara umi monomania admirar a naturalista do fim do século xvui. estabeleceu na Grécia as cerimonias religiosas que trouxera do Egypto. moda mas a natureza convencional. senão pela influencia do seu mestre de grego Joae pela disciplina auctoritaria quim Alves. do absolutismo em Portu- gal obrigou-o a procurar asylo no estrangeiro. ..]> iiiciís. nos jornaes em theoem poemas inspirados por um intuito philojá Garrett absorvido pela imitação sophico. que o ambsquinHaram ao ponto de eleger por Demoustier? A este organismo viciado. circunistancias favoreceram o desenvolvia restauração mento áé Garrett.i não tivesse talento. quando ainda estava em Coimbra. só_otQ: uma viagem ao estrangeiro. e em novos dramas. e transluzirá na sua naturalidade. mas professou iraia sim . era natureza. voltaria á pátria readquirir o sensQ {\. em 1820. Sc clle curado da mononiania de escriptor e tornado homem pratico. para commum. Em 1820 estava das formas deFilinloElysio. justamente no periodo em que as doutrinas do Romantismo se discutiam nos theatros rias criticas. como uma paisagem de Watteau. modelo nico de a do seu tio frei Alexandre. moral sâ. não te enfadarei a repetir-t'a aqui asOrpheu foi um hábil impostor. e obedeceu-lhe fatalmente.» Como se pôde explicar este acervo de frivolidades em um liomem que mais tarde deu provas de talento e de tino artístico. Garrett nas- cera n'este meio falso. . e que Plutão lh'a restituirá. o Jardim Rotanico seduzia Garrett como recinto sagrado a Flora: 10 um almo . As ella entâQ alcançará vencer esses vapores carregados do pedantismo pedagógico. se dentro d'aquelle cérebro falseado existia hlguma centelha d'esse estado a que se chnma génio. Tu sabes esta linda e mui terna historia. ALMEIDA GARRETT 145 inferno. ecom o sí'«///72e/?/a//5moidylico pro- pagado por João Jacques Rousseau.

Achei aberto o Jardim Botânico: entrei. os bispos. um desalinhado Dilhyrambo o Chronisla. convalescença de perigosa moléstia. se celebrou um Ou- como signal de regosijo nacional por se ter inglez.146 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Aqui.» D'esta doença falia Gar- nos versos recitados na sala dos Capellos na noite de ali 22 de novembro de 1820. que os desembargadores. acabado o protectorado dade. debaixo da palmeira que está no ultimo plano no Jardim. enfraquecido peito. Ao mui pausado sangue 1 Era este o estylo naturalista. toasts. que amava Gessner e Florian. ultimo resto de O seu collcga da Universin'este Outeiro calhe- também bateu palmas um costume portuguez completa- mente extincto. ii. elle o D'este suave e puro ávidos sorvem. os lentes e generaes nâo dai-iam prova plena da sua gravidade se nâo soubessem metrificar uma campanuda Ode 1 epódica. . era um poucochinho mais do que o bucolismo do século xvi. onde o perfume saudável Respiro de mil flores. dratico. vol. orações de recepção. fui de madrugada pirar o puríssimo ár do silio chamado em Coimbra dois ou três trabalhadores reslóra — de portas. que via as coisas através de epithetos variados. p. Como Que sinto Em De embeber>8e-me a existência cada trago d'estes.dio]e substituído pelos discursos académicos. N'aquelle tempo os metriíicadores eram parte obrigada de todas as funcções publi- cas ou familiares. escrevi estas rett linhas. Ali. Garrett commenla esta ode ao Passeio de madrugada no Jare na dim Botânico de Coimbra: «Em 20 de junho de 1820. 69. E com Ao remédio trabalhado. etc. os seqniosos pulmões. Eu e éramos os únicos viventes de* spertos. Castilho. quando teiro poético. e era tal o perstigio d'este uso. té qui só fartos ár pestileulo e máo.

julgam-na sua melhor qualidade. frouxo. do objecto. Garrett educado lambem para este género de tertúlias tinha fatalmente de admirar Bocage. que nos pertendem . a peor. o deus dos Outeiros poéticos. Gairelt descreve a lucta entre a influencia da poética clmanista e phihntista: «A eu elle metrilicação de Bocage. escreve Garrett.— ALMEIDA GARRETT 147 OU pelo menos uma conceiluosa Decima. ambos escreveram as suas primeiras obras dentro de e corrupto.i voz. ante o nniverso. . que o fez produzir o insulso poe ma das Cartas de Ecoo. o mesmo tom. Ante VÓ9. embora cheia e boa. mal soante. ante os ecos. embora mesmo compasso embora exacto. Isto basta para discriminar a diíTerença entre os dois escriptores. de mil outras coisas variada medida exigem. um meio litterariamente absurdo porém Garrett artística. as distinctas posições e circumstancias do assumpto. ao menos. a que peores effeitos causou. as di- versas paixões e aíTectos. quando outra lhe apresentava melhor vantagem de imitação. o a mesma harmonia. Felizmente Garrett contrabalançou esta desastrada iníluencia pelo estudo das riquíssimas conslrucções dos versos de jFilinto. como exige a musica vários tons A mesma medida sempre. fazem monó- tona e insupporlavel a mais bella peça de musica ou de poesia. perfeita. consistia n'esle a admiração tempo eram característicos. se o mundo miiilia voz ouvirem. niodilicou a corrente porque tinha individualidade Castilho só abandonava uma influencia. E laes são os versos de Bocage. Se 08 fdoí. porém não são es- ses os únicos defeitos dos versos. em imital-o usando os tropos que lhe e em que residia o segredo da harmodo Outeiro nia clmanista. Não fez um verso duro. na composição da sala dos Capellos: Erqo lardi. e cadencias. embora afinado. mas ergo a livre. As varias ideias. Castilho obedeceu mais tempo ao elmanismo.

estocada de morte que nos jogaram os estrangeiros . a incapacidade de creação original fazia preferir tudo o que se traduzisse. e savam o grande escola de Garção.148 HISTORIA DO ROMANTISMO. o CatullOj traduzido e annotado. cujas innumeras cabeças eram o gallicismo. prologo do Parnaso lusitano. único representante da exilio. Garrett caracterisa este estado dissolvente: «Mas de traduções estamos nós gafos e com tradu: ções levou o ultimo golpe a litteratura portugueza. e nas notas da Primavera ataca Bocage e os defeitos áo elmanismo a que tanto tempo obedecera. traduzir.» tilho. todos os outros vicios que iam de- vorando a litteratura nacional. e de tal modo estragou o gosto do publico. dar para lypo seus apaixonados cegos. Francisco Manuel. digo cegos. Esta mania de traduzir subiu a ponto em Portugal. traduzir. . nSíS Excavações pocticas arrepende-se de ler declamado contra Filinto.» (ib. mas quasi não entendia os bons originaes portuguezes. mas allusão directa a Cas- que metrificava então Garrett: em pleno elmanismo? Continua «Mas emquanto Bocage e seus discípulos lyrannigosto. e venfoi ar- também de luctar algum tempo contra ceu-a oppondo-lhe bellas creações originaes. se preparava para luctar contra a enor- me hydra. porque muitos tem elle (e * não cegos. Garrett teve esta corrente. a vaidade. Vid. 2 Ibid. a ignorância. com os olhos fitos na pátria. Reinava também em Portugal a monomania das tradu- ções. foi a . gemia no de lá.» ^ Castilho. que não só lhe não agrada- ram. ficou totalmente n'ella e morreu traduzindo.) D'esta época (18'20-18:24) existe em poder dos herdeiros de Garrett. contendo as seguintes odes : A Cornelio Nepote. Bocage e Filinto haviam dispendido as suas faculdades em traduzir. . etc. n'esse numero qne Não haverá aqui uma conto) que o sâo. EM PORTUGAI. Ao Pardal- 1 Escripto em 182C. Castilho rastado pela mesma absorpção.

Este manuscripto traz a seguinte nota autobiographica: aEmpreliendi esta versão no meu ultimo anno de Coimbra. os teus {versos não sei que lhes falta: não te digo que são máos. ahi traduzi alguns d'esses poemetos. (respondi lhologia. commum. Havre. apud Helena. continuei a e agora me cinjo a ella com mais flrmes tenções de ao cabo. mas nunca feitos 1 Catalogo dos Autographos . a Calvo Licinio. levar mesmo anno e na curta residência em Londres. á Península de Sirmion. 29 de abril de 1824. Ganio nupcial e Epithalamio de Peleu e de Thelis. Nem Júpiter. mas o numero incalculável de obras primas do Romantismo cedo o desviou do culto exclusivo da antiguidade. a Asinio. e é n'esse anno de i824 que se operou a profunda revolução psychologica que lhe deu a sua superioridade artística. a Flá- A si mesmo. A morte do Pardalsinho. em uma nota a uma ode saphica sobre o descreve Garrett este seu esforço: «Dizia-me . 18:. depois de chegar a Inglaterra e França. a Fabullo. . Pinto cVaprès natiire o que posso nas minhas regrinhas curtas e compridas.nhecido dos meus tempos de estudante: ! — Amor maternal um certo coHomem.» A lubriciprimavera do Em fevereiro de 1824.ALMEIDA GARBETT 149 sinho de Lésbia.^0 a i8ál. a Furio e Aurélio. mas. tão pouca riqueza da fabula nus. obra. vio. ! ao meu amigável Aristarco) no sentido sar a verdade. na rainha viagem á ilha Ter- ceira na que lá fiz. xxvi. que fazes dúzias de odes sem invocar uma só vez as Musas —Eu não sou poeta. nem Vésem my- nem Apollo: não sei como podes fazer versos Se tu és poeta. íiz o que também pelo mar. A Lésbia. sentimento artístico de Garrett já antes de 4823 luctava para se emancipar da subserviência da mylhologia. e de dezembro a janeiro d'esse anno. A confesnem me lembra assim de cór de quatro no- mes de deuses da fabula. p. * dade da época da Restauração é que prendeu Garrett â tradução de Catullo.

que pag. em portuguez e portuguezmente. e muito com a natureza e o coração. vol.erdòa-me) cá da mi- nha poesia: nâo não entendo fallo da outra que é moda por entender. mas a tempo e horas.» * Fixamos «Boa a data d'esta descripção autobiographica antes de 1823. únicas e verdadeiras fontes da poesia e de todas as bellas-artes. Elies e eu temos pouco que haver com Martes e Saturnos.» A viagem á ilha Terceira em não deixou de desper- tar-lhe o sentimento. se tilho) ficaria o contacto com o não arrancasse aos Ménalos. meu critico sorriu-se e eu fiz o mesmo. (Casmais annos atrophiado no insulso a natureza idyfio. de que nem quero me cheira sufli- —O cientemente á Phenix Renascida. porque ahi. falsificado pelo convencionalismo ár- cadico. aos Pindos e á convivência do Pégaso. por que da Ode que parte d'esla Ode ella foi commenta traz a seguinte nota: e publicada roubada ao seu auctor com outras coisas que a desfiguram em uma 18-21 brochurasinha im- pressa em Coimbra em 1823. Nao reprovo o uso da fabula. e ao Conde da Ericeira. .) para mim só e para os meus amigos os faço. i. fizeram-me perder a devoção aos Santos de Hesiodo. (jue assim se chamava o poeta filiado no estado pastoral do Mémnidc Egynense. o pobre Jonio Diiriense. Quero fazer versos portuguezes. O muito recheio da mylhologia dá ás composições modernas um ár de affectação e desnacionalidade pedantescamente ridículo. a atmosphera do estran- 1 o Chronista. Os versos que escreveu por esta occasião lembram lancholicos do já aquelles naturalissimos e me- poema Camões.150 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL palavra. 65. (como cem vezes te tenho dito. ainda me recordo eu) tinha a mesma mania que tu mas depois certos Allemães e Inglezes que li. entendi em ser poeta no rigor e certa valia da Quando comecei a babiijar a tal fonte de Aganipe (d'este nome tens. Além de que. Da poesia (p.

saudosas: das laí^rimas O" Que a fio d'este5 olhos se deslisara. vol. que me encontrei no conhefilhos cido café do M. e a sua vivacidade de rapaz attraiu-o para elles. Na sua vinda para Lisboa. . succedeu uma tarde de junho. 78. Veiu-se a fallar em Ou- 1 o Chronista. i Sempre pessoal em toda a contemplação artística. mas Garrett estava em 1821. influenciada pelo lia Reino da Estupidez.. i. No prologo da Ljjrica de João Minimo descreve um Outeiro poético de Odivellas. Garrett veiu encontrar accesa >a tradição arcadica. É O mesmo timbre do canto v do poema Camões. volta á . como animada conversação en- trou logo pelos districtos poéticos. saia do banco das escolas onde por isso ao recordar-se de dominava dição a chateza arcadica. Co'a ponta do alvo roanto ameiga a face Que o acre ardor do pranto me ha crestado. . Garacompanha esse fragmento com anota: «Este fragmento foi escripto no mar em longa e penosa viagem nos mezes ret de abril e maio de 1821. ALMEIDA GARRETT 151 geiro lhe havia de inspirar. p. a nossa de Apollo. p. e Coimbra e das : flores tios jardins do Mondego. intitulado X ou a Incógnita^ allusivo aos successos de 1821. tra- Por ventura o meu Jonio passeando.. e. leaes é natural. 2 Calalogo dos Auiographos.» Era ainda a influencia arcadica que o fazia escrever um poema heroi-comico em quatro cantos. com uma sucia de rapazes. eram ainda moda os Outeiros poéticos. segundo canto. brida - era mais uma concepção hy- como a Benteida ou a Santarmaida. falia No fragmento da poesia O Mar. em que tomou parte: «No verão de 182. que nâo chegou a passar do. . que se bastante em Coimbra. . xxv. e que para sua gloria íicou inédito..

. . . 1Õ2 teiros. João. respondeu tada e sonora. d'isto que chamam te. que servem para todo o mogrades as airosas toucas Começaram logo a illuminar-sc as janellas das frei- ras. E brados de Mote! Mote. passeou-se. que hão-de aterrar tudo com sonetos e col- ' chêas.de coisas bonitas. de matadores olhos inflammavam a imaginação dos nossos jovens poetas e lhes faziam dizer milhares. roe'ram-se a phalange. altisonantes e nunca assas louvados sonetos da escola elmanista! . . quasi politicas. Seguiram-se colchèas e mais so- * Elysío citava Garrett refere-so a uma composiçáo de Jpuo Xavier de Mattos. . e a luzir pelas rotulas.— aos quaes. * que ousan) antepor os descompostos versos de Francisco Manuel e suas Odes hyerogliphicas — . . que de vez em quando o lampejo de um lindo rosto. . 1 . . Vamos a Odivellas ao Outeiro faz . Preux ás Eglogas do pastor Albano e da pastora Damiana. depois de breve silencio. certamente pouco avaros. HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL alegre e engenhoso passatempo de nossos pães. N. aos retumbantes. Era electricidade que se estava esperdiçando:— Vamos Ijzes! foi a isto. — palmas: Lá vae. e N. esfregou-se a afinal unhas até ao sabugo. perdido hoje na barafunda das malditas e mal avaliado por despresado uma mocidade estragada e libertina que excommungado tem o descôco de preferir as cartas da Nova Heloísa e do St... o as ladinas das comedias de cordel rccilaTam. «Debandou toda testa. ha mais de dez annos que se nâo Vae N. pelas e os feiticeiros véos. e já levam provisão de quartetos e consoantes. quoFilinlo como sabida de cór pelas peixeiras do seu tempo. 7iariz de cera. e . [de S. a isto rapa- a voz unanime. que parecia uma voz flaumesmo de um cherubim— de que não está costumado a coisas doeste mundo: Aroor seu facho n'esta noíle apaga. e saiu o soneto .

cujas obras se perderam. que os co.» Aqui uma completa do que era um Onuiro poético. Carlos Moralo Roma. valetudinário c timido. Garrett se (juer elevar á generalidade do sentimento. que Vrevelou a Garrett a melodia do poema Camões.i parle do que escreveu em um 1823. cantar humano. Os poetas que então viviam na intimidade de Garrett eram José Frederico Pereira Marecos. Larcher. /Paulo xMidosi. etc. não se pôde eximir á fascinação dos poemas de Ossian. essa concepção de uma individualidade.ALMEIDA GARRETT 1Ô3 netos e muitas versalhadas outeiraes de toda a espécie e calibre. e as Flores senijruçtq está colligida 'em que uma grande <l. os desejos.^umes do século xvm mantiveram entre nós até á epoça do Uomanlismo. As Fabulas são egualmente um producto do espirito poético do século xvni. ao escrever o Werther. a soledade. com uma introdução em verso calcado sobre o mesmo eslylo. como é que o ténue Garrett deix*aria de ser impressionado. ao menos para mim. nâo foi a madres nos deimenos agradável descripção I circumstancia da noite. inspiradas pela leitura do ideal um desenvolto abbade Casti. e com a personalidade de quem ainda respira na atmosphera sodalitia de lloratio. das aventuras de Fingal e das festas de Selma? ^SiSFlôrM &em. quando forte Goethe. Mas a melancholia romântica facil- mente se apossava de Garrett. como são o amor maternal. limita-se a estas theses de Academia. e que./rMClQ vem uma tra- dução de uns trechos do poema de Oscar. asestrophes \ em endecasyllabos com os seus hemisticom um sentimentalismo de quem abriu os ollios aos horisontes de Rousseau. A^ íLjjrica de João *^cas MinimOj que encerra as composições poeti- de Garrett desde 1815 a 1823. com muito e mui guloso doce que fica as tavam. e para sempre. resentem-se dcsteesíylo arcadico» modificado por intelligente estudo iiuliiih aiTio de 1 ilintoElysio. a infância. Quando são quasi sempre cliios. da qual diz: «fil-a eu para me exercitar n'um género que nos meus pri- . e alguns outros.

Não politica. d'onde o rei só desem- barcou depois de receber auctorisação das cortes. de 1820. tista com o qual tornou-se o centro da reacção absolu- contra todas as reformas inauguradas pela revolução D*. mas nomeação de seu fdho o infante D.» Garrett conservou toda a sua vida essa melancbolia ossianica. de voltara Portugal. que precisou empregar-se em uma saudade ^i qualquer. para não perder tudo. A pois historia politica da primeira metade d'este século é o mais flagrante documento da imbecilidade de um povo. níio saisse de Pore. que o levou a sentir o passado e a descobrir as- 'Sim o sentimento nacional. De- que D. passou por todas as humilhações e terrores para conseguir apoderar-se do poder executivo. João vi conheceu que o império do Brazil lhe escapava. que não podia apoderar-se do partido o rei se conciliara. Miguel para coraman- dante em chefe do exercito é a prova evidente da sua má 1 Flores sem frucío. a sabendo coisa alguma da situação pretexto de um empréstimo mandou a Lisboa o negociante Pereira de Almeida para informal-o secretamente se poderia ainda entrar em Portugal.. . que devia produzir o nosso pri- meiro movimento. não teria em 1824 escripto o poema Camões. lembrou-se. No dia 3 de julho de 1821 entrava no Tejo a frota com a familia Bragança. talvez nunca houvesse comprehendido o espirito da litteratura moderna. vendo liberal. antes que as Cortes constituintes o destituissem. Se Garrett tugal. jurou a Carta constitucional. co- mo Castilho. Carlota Joaquina..romantico. posto que simulava attender mais os a consellios dos liberaes. em todas as suas obras predomina o vago scismar de quem lira o ideal de um passado que não torna. João vi não era extranho a estes manejos. 226. Foi esta melancbolia. digna irmã do infame Fernando vn. p.154 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL * meiros annos. me parecia o sublime dos sublimes .

deu-lhe a honra do desterro. o vou-se mesmo regimento . D. abandonada . suble- também á voz do seu coronel era um plano concer- tado. . as suas saudades. como premio do movi- mento o Conde de Amarante foi feito iMar(}uez de Chaves. j* (p. pretendendo João a vi retira-se contra a rebelliâo de seu ca. por 30 de agosto de 1823. e em terra estrangeira o ouvimos cantar as suas imprecações. João vi rasgou a Constituição e acceitou o poder absoluto. Foi a estrangulaçãonos cárceres refugiaram-se nos paizes estran- em julho de 18^3. que Garrett emigrou para o Ilavre acompanhado por sua mulher. I). e obri* gou-o a abandonar a pátria. . Os que recearam geiros. Miguel foge do i)alacioda Bemposti para Santarém. íillio. Em 23 de agosto d'este anno regressou ainda a Portugal. oito mezes depois do seu casa- mento. No prologo das Fabulas e Folhas cahidas escreve o poeta elle não a aban«A causa do povo é trahida. Miguel commandante em chefe do exercito. xvii. . e o infante D. onde rece- beu o ordenado de 2:000 francos por fazer a correspondência estrangeira. D.: ALMEIDA GARRETT 155 fé. para Villa Fran- d'onde é trazido para capital pelos lidalgos que se substituíram ás cavalgaduras. o grande Manuel Fernandes Thomaz succumbiu. mas a hitendencia geral da policia houve por bem consideral-o perigoso para a ordem publica. Para resistir na sua nova situação acceitou o logar de caixeiro na casa do banqueiro Laflitte. ir d'onde proclama contra os pedreiros-livres que usurpavam os mau ferireis direitos de seu pae.) decreto de Demillido do seu logar de official da secretaria do Ministério do Reino. dona. Começaram as perseguições contra os partidários da Re- volução de d8:í0 e da Carta constitucional de 182^. Quando o regimento vinte e três de infanteria saiu de Lisboa para as provincias do norte ceio dos em observação com re- movimenlos do exercito do conde de Amarante su- blevado contra a Constituição. e a constância 1 indómita do auctor do Catão. prefere o exilio.

mas os belfurinheiros que fazem dançar os bonifrates e pucham dade do que estes rombos monarchas. falta de acção. Relações com Garrett. intrigam ante da face da Europa as- . todos os contrastes! Já nâo dos soberanos. generaes. — — — — — — — — — : O poemeto de Byron intitulado a Edade de bronze resume nas suas eslroplies repassadas de sarcasmos eternos a in- dignação que os homens liberaes da Europa sentiram ao vér decidir-se no Congresso de Verona a ruina das novas gaque a sua santa presen- rantias constitucionaes: «Três vezes feliz Verona! desde a monarchica trindade fez luzir sobre ça. determina a queda da Consliluição em Portugal em 1823. Caracter lyrico-elegiaco d'esle poema. Garrett perde a sua' actividade poética. — O grande Sequeira abandona — : plomáticas de Lord Uolland. segundo as reminiscências diChateaubriand.— liifiiiencia o da cmimçao de 1823 a 1827 Congresso de Verona exlinguindo a fórraa constitucional em Hespanba. . Byron sentenceia Estado politico de Portugal.— 156 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 2. inferior á poesia da realidade histórica. tes . Condições em que foi escripto o poema D. . . Como Garrett comprehendia o Romantismo. ti Sim. Ánalyse da sua eslructura. . impróprio da sua feição épica. Branca. parecem-se todos como peças balidas no pelos cordéis. pelo seu quadro da Morte de Camões. Em 1827. imperfeita comprehenísão das íradições nacionaes. O typo de Frei Gil mal compreliendido. Judeus. Condições moraes era que foi escriplo o poema Camões. apresentam mais varie- mesmo cunho.» E accrescenta: «Que extranho espectáculo é este Congresso! parece destinado aggregar fallo todas as incoberencias. — Estado a pátria.. A lenda do trovador João Soares de 'Paiva superior em verdade e poesia á phanlasmagoria de Aben-Afan. dae vivas! fazei inscripções! levantae ultrajan- monumentos para dizer á tyrannia que o mundo a acceita o seu jugo com satisfação. A composição do poema Ádozinda sentido lillerario. — — da litteratura antes da emigração. auctores. charlatães. Camões torna-se para os portuguezes uma expressão da paíria Origens do ideal camoniano.

Edade de brome. o perigo dos seus interesses dynasticos fez convocar o Congresso de Verona. e depois da e entregou a sua espada a tomada de Trocadero. Empecinado. Foi então que à França comprehendeu a sua vergonha . quebrou todas as amnistias prometlidas em presença da Europa. tomou á lettra o symbolo da espada. Fernando vn.. capêa a todos. . vii. João vi. orgulhoso com a sua giieira de Ilespatiha. este apparatoso calholico susten- tou no Congresso de Verona que era preciso invadir a Hes- panha e restabelecer no throno o despótico Fernando assim aconteceu. o priali meiro parasita do poder. que era do estofo dos seus contemporâneos D. de que era pre- esmagar na Península a obra da liberdade constitucio- O duque de Angoulème veiu á Península. Edade de bronze. Ali. se elevou ao seu a cabilda diplomática olympo. a nossa primeira Carta constitucional alcançada ' Byron. ou Gui- lherme III.» Estes prantos partiram também de Portugal. esse Tartufo de génio. Foi alii que Chateaubriand. mas homens choraram bastante ^ . como signal de consummada a hecatomba da libeidade.» lí profiindissima a ironia d'esta allusão a Chaleaubriand. Chateaubriand caiu do po- der. ali Wellington es- Chaleaubriand accrescenla novos cantos * aos seus Martyrcs . . quece a guerra. sobre o Congresso: «Eu não os os anjos choram. tendo de lançar-se na opposiçâo liberal para combater os que o destituíram. est. emfim lo- dos os que trabalharam pelo regimen parlamentar. e mandou trucidar Riego. esUncia ix e xvi. i. McUernich. o general francez ajoelhou em terra Fernando vii. Bessieres. 2 Byron. É eloquente este grito de Byron ainda sei se . convencendo ciso nal. para conseguir o quê? o chorar mais ainda.. A trindade satânica da Santa Alliança vira na constituição hespanhola de 1820 um abysmo para a causa dos bons tempos de outr'ora.ALMEIDA GARRETT 157 sombrada de Ião vastos desígnios.

O mas fraco e timido. e em França era thema de todas as vaidades da Restauração o imbelle Iriumpho do Trocadero. muito ti- contrários de principios. Na realidade. Basta-nos extrair das Reminiscências diplomáticas de Lord Holland algumas linhas: «Pouco sei acerca de Portugal e dos portuguezes. 158 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL pela revolução de i820. i. de procedimento. D. de caracter. que possa ter o interesse da novidade. o nosso Trocadero foi Villa Franca. lodos os horrores da reacção absolutista de 1824 assolavam Hespanha. começou Em 5 de junho de i823 a obra de Chaleaubriand tinha produzido o seu effeito a emigração. seguiu a sorte da de Hespanha. Largo aos mares. muito intencionado. ! Em nota accrescenta Garrett: «Quando se escreviam es- tes versos. que se tornava de baixas e obscuras intri- 1 Poema Camões. de Hespanha 1 crises. tinha um tal medo de ser governado pelos seus ministros ostena victima siveis. em Portugal.» * Para se comprehender como estes successos que hallucínavam a França se reproduziriam em Portugal com todas as suas vergonhas. nada havia de rei era commum bem entre elles a não ser a fealdade re- pugnante das suas pessoas e as suas maneiras canhotas. nham uma aversão natural um pelo outro. . D'ahi a seis annos estava vingada a injuria da liberdade peninsular. Taes magoas como alii vão poupa a meus olhos. Assas tenho das minhas. . João vi e sua mulher Carlota Joaquina. basta conhecer o caracter dos dois actores d'este periodo.: . Garrett allude á sorte Eia vamos Deixa o caminho da infeliz Pyrene. D. c. O rei e a rainha. Eram naturezas fadadas para a cataslrophe. onde não correu sangue mas o lodo do mais baixo dos esgotos — a falta de dignidade humana. nol. Foi então que escripto n'estas No poema Camões.

conseguiu gastando a sua vida balas em ca- com os reformistas e em perseguil-os.» * N'estas condições começaram em 1823 as perseguições aos constitucionaes. mas. Naufragou completamente. que escrevera o elogio do H6. metteu-se indirectas em vias pouco judiciosas e muito para as realisar. e tinha uma tes incnnação pronunciadissima por toda a espécie de in- trigas politicas ou amorosas. ambiciosa. mas a vaidade substitue n'elles a acção um tismo mais illustrado. Garrett. Conde do Funchal. eram sempre O zelo exagerado da rainha pela causa do as- despotismo impropriamente designado pelo nome de legiti- midade. desejoso de assimilar no seu paiz as instituições de Inglaterra. Com- tudo as suas ideias eram justas e esclarecidas. . irreso- gas. e sinceramente aííeiçoado á casa de Bragança. de Lord Hollaod. e acabou por dei- xar Portugal na subserviência de uma e por abandonar o seu soberano e o Brazil inteiramente ao capricho da outra. Araújo (o Conde da Barca) um homem com- petente. p. fazendo macaquices á Inglaterra e á França illudiria os projectos de ambas. a aversão do rei por uma uma íórma constitucional de go- A rainha era vingativa. empregam mais astúcia nas negociações com os estados poderosos do que prudência no governo do seu paiz. São animados de pequenas invejas e cheios de perfídias. e foi-lhe preciso toda a sua jovialidade natural e a sua soltura na conversação para se consolar de todas as decepções pohiicas e pessoaes a que se viu exposto. Sousa. cap. esperava que. o perder as boas graças do seu soberano recusando o posto que o poderia pôr em condições de executar os seus planos. — Em geral os homens nem de de inlluen- de Portugal não são privados de talento instrucpatrio- çáo. e os seus conselhos lutos e incertos. egoista. parecia ter atenuado sembléa representativa e verno. Souvenirs diplomatiques. com boas intenções.ALMEIDA GARRETT 159 vacillantes. vm.

por isso que n'elle concorre a circumslancia de enjpregado de tal graduação. 10 de julho de 1823. O intendente geral da policia da côrle Joaquim P»ídro Gomes de Oliveira. (1 36.*"° e ex. xxir. e onde é constante que estabelecera duas Lojas^ d'elles. e mandei |)rooeder á prisAo dos qutros réos i|UO se tinham refugiado para esta capital. viram-se forçados a expa- Durou esta perseguição politica até foi tamente o período mais fecundo da vida de Garrett.candaloso que nunca ali ouvia mi*sa. teve de refugiar-se em Inglaterdemitlido do seu emprego ra.""» sr. 2 II. Simão da Silva Ferraz de Lima e Castro.^ a resolução do que sua magcstade queira se pratique a seu respeito. c um declarado inimigo' da religião e dos ihroftos. jus- maram Iriar-se. — Liv. compositor de musica. natural ih Castello do Vide. a que dá o titulo de — — para que do producto das assignaturas que ali concorrera possa supprir a sua subsistência e de sua numerosa família. Manuel iMarinho Falcão de Castro. Deus guarde a v. politicas o que lançou as bases das reformas que transfor1827."'" sr. A pretenção de João Domingos Bomtempo. e o gigante estadista José Xavier Mousinho da Silveira. que faz o objecto do requerimento incluso. entendo que convirá se faça persuadir ao recorrente que tal pratica devo immediatamentc cessar. 19 de julho d6 1823. e poucas vezes a familia. O * grande artista portuguez João Domingos Bomtem^ po. Deus guarde a • ex. Sua mageslade porém ordenará o que fòr servido. annuí ao quo aquelle ministro requeria. e reino. e foi ha pouco Secretario de Estado.'"'' e ex. ex. sobre o qual íua Uiegestade é servido mandar-me informar por aviso de v.^ em data de f) do corrente. XXII. O intendente geral da III. a ella também concorrem muitos indivíduos.. «Ainda que seja certo que á la! sociedade costuma concorrer j^rande parte das pessoas da maior gcrarchia c consideração d'esta capital. 28. v. sem que sollirite de v. porém oão me delibero a mandar egualmenlc proceder á prisão do dito Jdsé Xavier. tem por íim conceder-se ao supplicante licença para continuar na pratica Philarmonica de admitlir em sua casa a sociedade. Simão da Sihm fcnaz de lima e Castro. no Ministério do reino em 20 de agosto de 1823. juizo da sua correição se pital. fx. e tão e:. Revê1 «111.* Lisboa. e assim para evitar que com esto titulo se estabeleça alguma Sociedade secreta. quo tinha plantado e promovido em Sotubal quando ali foi juiz da íóra."'» e ex. e entro olles o administrador geral da Alfandega grande d'csta ca- Xavier Mousinho da Silveira. — 38. que acabou de sor provedor em Portalegre. por isso mesmo que a titulo de Ensaios mais a miúdo se reúnem. Ill ""» e ex. V. 4ccrescenlanda ser um libertino de primeira ordem.* (Contas para — as Secretarias. a sociedade porlugueza. policia da côrle e reino. Liv. José Communicando-mc o corregedor de Portalegre. aonde propagou a seita dos Pedreiros livres. que assim como o supplicante não merecem o melhor conceito na policia.» (Contas para as Secretarias.^ Lisboa.) .'"» sr.160 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL grande revolucionário politico Manuel Fernandes Thomaz. que no achavam pronunciados por associaçj^es secretas uns indivíduos.) •IH.™" sr. ex.

mascára-se e pede esmola. depois de 4827 foi nunca mais poeta. o único efTeito dos seus quadros. como esses ho- mens feios. é este o único sen- timento das suas obras de arie. que produziu o aleiri- quem vè hoje os retratos d'esses homens jos e corajosos. l? com o trabalho casual e de simples distraçâo d'estes quatro annos. a . era uma fatalidade do meio em que se em que nascera foi educação que lhe imprimiram. as tropelias dos valentoes-fidalgos e a excessiva sordidez das ruas. admirando-se como aquellas caras alvares e grotescas. cuja limpesa era vadios. ajuntemos-lhe a escuridão das cidades pela estreitesa das ruas. pela falta de illuminação. viu envolvido. e a sua eloquência cididas. a sua organisação estava apta para receber as impressões mais delicadas. para se impressionar sas. Este tão longo estado de extorção moral jão physico. convictas e detodos physionomias tristes. a sua mudez foi veiu-lhe do terror da pes- quisa inquisitorial e da mordaça da rasão de estado. a falta feita pela voracidade dos cães de communicação entre os diversos pontos a necessidade Ho paiz por não existirem estradas. que tiveram a audácia de crear um parla- mento constituinte em 182^. fica assombrado. Têm corresponde-lhes na rudesa lúgubre mas forte. a única expressão dos cara- que concebeu. A musa de cteres Garrett foi a melancholia. e d'aqui 11 usual de fazer testamento antes de se raetter á jornada. O povo portuguez sempre quando a cgreja lhe fixa o entrudo para ter uma breve expansão. nem uma e da consequência dos desastres políticos. que Garrett abre um novo horisonte á poesia portugueza. possuíram intelligencias rectas. triste. Esta melancholia nâo era uma feição privativa do seu organismo. com as ideias mais genero- Com rasão o próprio Garrett o confessa. A esta ma- nifestação da vida publica.ALMEIDA GABBETT v 161 laram*se faculdades novas. Não se passa debalde por três séculos de queimadeiro fanático e de garrote cesarista. um novo modo de sentir.

que assim não é muito grande a injustiça do nobre lord. por exemplo. os divertimentos domésticos reduzidos a resar-se o terço e em commum mãe em lho. Era assim que se recebia o ultraje nacional com que o monarcha rasgava a Constituição. ctoridade paternal fundada sobre o terror. a meque imaginação também precisa que tratem coisa. caracterisado um horror a tudo quanto era estrana irrisória expressão com de modernisa au- mo. d'ella.» as ouvira ás * Em 1823 ainda se cantavam nos serões de famiUa as modinhas soturnas do tempo em que vi Beckford damas do paço. lhe dêem mais alguma além da masticação dos Pa- ter-noster. QuA a Jura seguir. mas D. e o amor da fi- occultar hypocritamente os vicios precoces do Byron teve rasão quando nos chamou povo de escra- vos. que dirigia as consciências e se tornava o santo casamenteiro. mas tenha paciência. a ignorância completa de todo o movimento politico que se passava na Europa» e geiro. a faisca revolucionaria. Sen^ .. Mas a Modinha não bastava para alimentar a vida sentimental da nossa classe dia. em correr aos domingos a via-sacra . e Garrett reconheceu essa triste justiça dizendo que: «não é muito para lisongear o amor próprio nacional. João era o Jonio d'estes descantes em falsete: Louvemos todos O grande R«i. a attracção do abysmo? Para que se inventaram os índices expurgatorios do século XVI e xvii? Para não deixar que o livro nos viesse perturbar as consciências. 162 infallivel HISTORIA DO BOMANTISMO EM PORTUGAL intimidade na familia de um parente frade. um livro. Para que se erigiu a Real mesa censória do século xviii? Para que o livro não viesse ira- zer-nos ímpetos de sedição contra o paternal governo. Um livro? Não é isso a mina de pólvora. justa Lei .

e só por ro. A so- ciedade portugueza precisava de um livro. sobre tudo a litteratura feminina e sensível. lis. como o caracterisa Carlyle ao fallar da Genlis. Malvina. sentimentalismo de sete fôlegos. As Noites do Madame GenCasfello. o livro maldito. no estado geral de idiotismo e chlorose. e sobretudo com esse sentimentafrio. um livro qual- quer qíle a distraísse. as clironicas dos frades e dos monarchas oíTerecem bons exemplos de liberaes fundações e legados piedosos. homens e mulheres devoraram os romances de Madame Cottin. a tristesa era vencia os Ímpetos dos filhos chorando.ALMEIDA OÂBRETT 163 pre O livro negro. Clara ifAlba. Os em panegyrico de todas as ephemerides do paço. gmentaram-lhe a A litteratura franceza da corte de Luiz XV. senão morre-se de tédio. A Madame Cottin succedeu com a sua Adélia e Theodoro. lismo calculado e insensível e secco no intimo. era á que melhor quadrava nossa sociedade. são obras de occasião e ignoram que existe um sentimento eterno que vibra com todas as aspirações da justiça. Amélia de Mansfeld eram os coníidentes de muitas lagrimas ingénuas. Mas o chronicão não cabe si no açafate da costura. a ternura era distinção e mília uma uma prova de moralidade. e toda a sua litteratura de sete sé- culos nada teve que dar-lhe. chorava-se por um nada. e de reconhecidos sacrifícios á causa das dynastias. Um livro. com a Menina de Clermont. os Contos de Trancoso e o Feliz Imlependente aggravaram-lhe o mal que soíTria. uma boa mãe educava e um signal de educação fina . Era esta a afinação da alma portugueza. só se escriptos enchia o cesto barreleilivros dos poetas são pôde lêr n'um púlpito. aua somnolencia. a ternura era o nexo de todas as relações. tocante e frágil apparentemente. o pesadello do Qualificador do Santo Officio e do Intendente da policia í Mas era preciso deixar a imaginação portugueza repastar-se em al- gum livro. Mathilde. O honrado pae de fanão dava palavra em casa. Este habito constante tornou o senti- .

e que os escriptores nunca haviam escripto na lingua que o povo fallava. Demittido do seu logar de d oíTicial da Secretaria do Reino em 30 de agosto de 823. uma cousa postiça e me- Os pães levavam os filhos a vêr as execuções na forca da praça. e suspeito ao absolu- tismo restaurado. uma provação. esta immobilidade tradicional! Michelet. mas a sua antiga melancholia tordi também mais verdadeira com saudade da pátria. que era a pri- meira a condemnar o seu liberalismo. foi pela emigração que o poeta conheceu que havia horison- tes mais largos do que a rhetorica. a refugiar-se no estrangeiro. e de estar . Rodas para esconder as ninguém se levan- tava ao vêr um rei abandonar-nos ao invasor e voltar para o seu povo depois do perigo passado. regressou foi momentaneamente 1 d'onde immediatamente «Tendo chegado bontem á capital o officíal da secretaria de estado dos oe- gocios do reiso. Fraco e valetudinário. mal com a o clima de Inglaterra era-lhe a Portugal. acorda o senso n'esta commum gente! Carlyle. nou-se mais funda. era uma revelação da vida. Garrett estremeceu ante o espectáculo novo do Romantismo e nao o acceitou francamente. si era falso. a Europa começava a sair do tal fal- mesmo estado sentimen- em que estávamos. TiDdo de Inglaterra. pela queda da Constituição. escangalha este beatifico sentimentalismo.164 HISTORIA DO ROMANTISMO BM PORTUGAL mentalisrao. Jo3o Baptista L«ít3o Garrett. Garrett viu-se forçado a emigrar para Inglaterra. mas chorava-se muita lagrima doce. muito dolorido suspiro ao ler a historia de Zélia no deserto. * familia. Garrett viu-se forçado. descarrega o teu magnetismo sobre estes versos marasmadosl Mas estes verbos da intelligencia ainda não tinham lado. pelo facto de ter escripto o elogio do constituinte Fernandes Thomaz. a caridade abria as crianças rejeitadas pelas íilhas-familias. Era preciso que Portugal respirasse o ár livre da rasão e da verdade. era um sentimento sem convenção. Ao menos era já um ideal com realidade. Ah! Paulo Luiz Courier. que já de chanica.

. nilo obstante elle estar debaixo das \i-[:\fi da policia. p. onde encontrou outros foragidos. que. Liv. tom.» porém. Mas fa- França comprehendeu o erro. e entretendo-se a limpo os em Birmingham no outubro em passar vertera. seria conveniente faxcl o sair do reino. nostálgico.indo na consideraçilo devida esta minha ponderaçilo s-e servirá communicar-me o que el rei nosso senhor determina 111. pôde sor nociva ali á segurança publica.ALMEIDA GAKRETT 165 mandado foi sair pela Intendência da policia. Eslava longe cadernos da sua viagem e a rever algumas odeCatullo. por este acto da França expirara também a Constituição de vinte e dois a a um bocejo de D. . fl. . G'J v. * em Sequeira.'"" sr. sinhas de que em tempo de toda a concepção a litleraria. por isso que estou convencido que a sua presença.'"° e ex. Deus guarde . contente porque a estullici#i que elle chamava a sua guerra de Hespanha matara a nossa Constituição hespanhola restabelecendo o bestial Fernando vii. havendo até trazido cartas. quando. Simão da Silva Ferraz de Uma e Cav/ro. entendeu que não eslava seguro em Portugal. soffrendo a dura acclimação. das quaes aprepenlou duas : e sendo o sobredito por si mesmo assas suspe loso. João vi. e o grande pintor Domingos António Sequeira. a quem Baczynski compara com Ram1821.^ Lisboa 2í de agosto.". julpo dever ponderar a v. o nosso século viu a tradição á liberdade.) 2 Dictionaire hisiorico-artisiique du Portugal. Em França dardejava na olympica vaidade Ghateaubriand. laes como os que se evadiram. e abraçado francamente as ideias da Constituição. e o ministro teve de zer-se depois a um caudilho da liberdade para tornar forte sua opposição ao governo. Garreti expulso então de Portugal veiu para França como o erudito José Victorino Barreto Feio. 262. brandt.j> (Papeis da Intendência. Castro. com indivíduos porluguezes gummamenle suspeitosos. o anno de 1823 estéril para elle. V. XXII. ex. especialmente n'esla capital. lendo-se enthusiasmado pela revolução de 1820. de 1823. ex. Manuel Marinho Falcio de a este rcipcilo. A Edade Media inventou o fablieau do diabo pregador. por occasião da restauração d'e?te reino. O intendente geral da policia da côrle e reino. morta a pretender dar vida A França tornou-se como a Inglaterra um asylo para os emigrados portugue- zes.

e Garrett começou a trabalhar também sobre o seu ideal de saudade. Por aquelle maninho priguiçoso Que foi terra de Lysia. Filho de Raphael. aconteceu aqui. A Com este asylo santo. . nas- ceu-lhe a paixão pelo bello. Garrett deveu bastante á communicaçâo com Sequeira. N'estes versos de Garrett já se vê que duas ideias novas lhe revolucionaram a mente. que os louros de Vasco e de Campello Reverdecer fazias. Sequeira obteve pela influencia com o Duque de Palmella o passaporte e refugiou-se em Paris. ^ Aqui celebrarás antigas glorias Da que foi nossa pátria. o valor das tradições nacionaes para fundar sobre ellas a obra de arte. Tu. . o nobre pincel d3o polluido No louvor dos tyrannos. a primeira foi o espectáculo da actividade que observava. Garrett dedicou-lhe nma ode com a epigraphe de Virgílio: Fuge Hespanba 1823. de repente chega ao ponto em que se el- descreve a derrota do exercito portuguez e a morte de 1 Flores sem fructo. o pintor trabalhava para a Ex- posição de 1824. que gal lhe fez reconhecer Portu- como um maninho 'priguiçoso. era O quadro que Sequeira pinuma composição simples e rembrandtesca: o poeta deitado. p. não litus em avariim! Bem vin<io sejas. sobre a sua pobre enxerga agita-se ao ouvir ler as novas que chegam da batalha de Alcacer-kibir. e a segunda. illuslre. bem vindo sejas.166 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL depois de Ghateaubriand ter restaurado o absolutismo em uma derrota da liberdade como no Trocadero. tava era a Morte de Camões. mas a ignominia humana da jornada de Villa Franca.. Onde cruciõcou a Liberdade Povo de ingraros aerVos. 71. oh Sequeira D'essa terra maldita.

> No peito a voz Ibe Gca . bem sabia concentrar todas essas tremenda em um único vulto. e em tanto desterro e so- o conservo. DVsta carta que vos trago Sabereis tudo. se lè esta nota: «Comepoema em i3 de maio de 1824.» — «Ohl A £ consolar-me? (exclama. mas a palria . tristes. > Catalogo dos Autographos. por occupar e que distrahir o atribulado espirito. Garrett pôe em palavras os traços de Sequeira. p. De As allivio e de esperança :» Extinclo é tudo N'esta mansão de lagrimas e dores.) Perdido tudo pois! . O quadro da agonias da hora Morte de Camões influenciou inevitavelmente sobre a imaginação de Garrett. . lidão. pincel Que movinriento para um quadro! que tratava com mestria inexcedivel o Juizo pátria. Sebastião. cavalleiro.ALMEIDA GABBETT rei D. xtiii. Ibe manda Consolações. e das mãos tremulas . — Ao vate a caria entrega. Ai. . Saudoso e triste. . Mas resignado e plácido. lettras dizem tudo. que dos cárceres De Fez a escreve. . Do Missionário era. representando no íim do poema Camões também em um pobre leito: Voltastes ? Por aqui se vô que a mesma data ao quadro da Morte de Camões e ao * E que novas Me trazeis? — Tristes novas. . e tão alheio a taes barulhos. não iam por minha com tão afadigada vida. cei este No manuscripto do poema Camões. e 167 possuído do dom prophetico da suprema li- angustia expira bemdizendo o céo por não sobreviver á berdade da sua mas o Final. sonhava com as memorias de suas antigas venturas I» de 1824 é commum poema. Da eternidade só a perde o impio e Deus virtude restam: consolae-vos . não sei eu como ainda são em 9 de junho de 18á4. Que coisas terra. em quanto eu cá de Ião longe. palavras de brandura. epistola fatal lhe cae. — Havre.

No Correio francez. que resuscitem. Juntos morremos. Garrett escre- veu a seguinte nota: «Ê notável coincidência. Nos membros devorados pela velhice e miséria.168 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL £ de tamanho golpe amortecido loclina a frente. bellesa poética.» ^ Podemos aíTirmar. despido de to- das as seduções da arte. e que muito lisongeia o meu pequenino amor próprio. o assumpto é representado ílm. eu. o Sequeira immortaUsava em Paris o seu nome e o da sua nação com o quadro magnifico que este anno passado de 1824 expoz no Louvre. as honras do Louvre ao Camões do sr.° 13. Emque o que lodos os pintores devem procu- rar. Os ollios turvos para o céo levanta. em o qual pintou a mesma scena. humilde e desconhecido poeta. que haja ainda portuguezes como o sr.° 264. e os vestígios da organisação superior que fazia juntamente o grande poeta. avis- lam-se ainda os signaes da grandeza de alma. n. . — «Pátria. rabiscava estes versi- nhos para descrever os últimos momentos de Camões. . n. de 1826. ao menos. Do leito. Anciado o nobre conde se aproxima Ai! tarde vens. descahidos e esquecidos como estamos. ao menos.— a verdade 1 e o pathetico. 2 Poema Camões. de quando em quando. Valha^nos. Depois d'estes rápidos versos que nos dão uma justa ideia da Moi'te de Camões do protentoso Sequeira. O rosto do velho poeta n'este quadro é bello. not. esta tela encerra o com singelesa e energia. por entre a barba desgrenhada. Se- queira . e como se passara. . Este quadro. canto x. e o guerreiro valoroso. que emquanto sr. tra- duzida na Carta.. auxíMo do homem. E já no arranco extremo: .» * A ceza: obra de Sequeira foi assim julgada pela imprensa fran- «Daremos . o adormecido ecco da nossa antiga fama. arrebata muito além do ordinário. Sequeira. D. de 1824. . Dcscripcao feita por Serrurs. bem entendido.» E expirou co'a pátria. Fecha languidameote os olhos tristes.

e em Domingos Bomtempo. que ahi compoz a sua Missa de Hequiem dedicada a Camões. é que o Duque de Palmella se distrahia diz: em traduzir para verso írancez os Luziadas. em lOáá Frei Thomé de Faria. em 1640. traduz tírrnbem para latim o poema dos Luziadas. depois que regressou de Paris. na corte de Castella. Em quanto na pátria Camões morria abandonado. Os fados são por eloquentes: em i007. a ponto de adoçarem as suas saudasi des estudando os Luziadas. que estava por mestre de rhetorica em Roma. Esse sentimento que inspirou os três génios refugiados ao mesmo tempo em Paris vae-nos ser revelado pela historia. emprebendia e publicava aos oitenta annos de edade outra versão latina dos Luziadas dedicada á nação portugueza. da qual em 1806 no verdor da mocidade. e foi na ausência da pátria que adquiriu esse amor que empregou na revisão dos Luziadas em 1031. que em 1644 estava na corte de Luiz xni. o padre André Bayão. que estava extincta. Durante a sua assistência em Paris. bispo de Targa. João o que levantou o grito da independência Pinto Ribeiro. que se desculpa da relação accidental entre essas duas maravilhas da arte portugueza. era no estran- geiro que os portuguiezcs conheciam a profunda relação entre a pátria e Camões. em IG2i. é que Faria e Sousa se occupára na coordena- ção dos Commentarios da grande epopéa. e que foi a occupação da sua vida. Verney e José Agos- tinho ultrajavam a epopéa da nacionalidade. c os criticos do jaez de Manuel Pires.ALMEIDA GARRETT 169 sentimento que suscitou ao assombroso pintor Sequeira o assumpto da Morte de Camões foi o mesmo que actuou mesmo em Garrett. traduzia os Luziadas para latim. commentava os Luziadas. Durante a sua ausência de Portugal. João Franco Barreto vae á restauração da Ba- hia. animado pelos conselhos de alguns litteratos fiancezes mais «que havia encetado . Frei Francisco de Santo Agostinho Macedo. onde fora em 16ii com o embaixador Francisco de Mello.

^ Obras de Camões. no seu poema. Lê. 170 HISTORIA DO ROMAKTISMO EM PORTUGAL eminentes com os quaes Staèl . em 4847. p. vão que peço anceios teus vehementes Para o grande Camões cm tanta desventura. Que em fria solidão conta dias e dias. o éden « o abysso. eu penso. darás valor por isso . que o Morgado de Matheus fez a opulenta edição dos Luziadas. A ode de Raynouard sobre Camões ' foi logo conhecida em Portugal. es- timulado principalmente pelas solicitações de * Madame de Os litteratos que fortaleciam o Duque de Pal- mella no seu intento.» me achava ligado de amisade. e depois das for- Campo de Santa Anna. Ah. que íicam para tias a pupilla gentil. que exprime O puro aíFecto meu. i.. .. Jur. 203. querida este livro é ah. seriam Bouterweck. um génio immenso. em Camões era em verdade um bardo. £ E Hâo-de achal-o um abysmo a frivola invejosa. N'este cas do mesmo anno o espirito nacio- nal agita-se contra o protectorado inglez. Nada tem de fictícia a chamma que o devora Um amor como o d'elle bas-de encontrar. que nas suas obras fizeram sentir a importância moderna e o sentido actual da epopêa portugueza. São cânticos de amor de O thema eterno sempre — ura ideal sublime. lê-o com ternura.. que ha-de ser sempre uma maravilha da imprensa moderna. Byron escrevia essas mimosíssimas: Stanzas a uma joven acompanhando as Rimas de Camões. Sismondi. . caral por ventura á dádiva. senhora. e os dois Schlegel. Chateaubriand. Em Não coisa alguma egualas esses pobres entes . Mas nunca o infeliz destino seu. outra vez em Paris. as solteiras também. p. N'esse mesmo anno de 1806. mas foi longe de Portugal. apparece o projecto de um 1 2 Garrett cíta-a Apud. que por pudor nada ousa. . 240.

publica em 1820 as suas Memorias de Camões. nenhum poeta excedia Camões na intuição poética das tradições nacionaes. publica a celebre Missa de Requiem aouvrage consacré à la memoire de Ca/nões. Em 1820 o primeiro compositor portuguez João Domin- gos Bomtempo. D. ao exemplificarem como a obra de arte é tanto mais bella e eterna quanto se funda sobre o caracter nacional. Thimoteo Lecussan Verdier. Millié. que nâo foi levado a cabo por cansa má vontade dos governadores do reino na ausência de VI. celebram em odes ou traduzindo os Luziadas. Todos os grandes creadores da nova phase doBomantismo. aíTirmando que depois de Homero. p. Tudo conspirava para acordar na alma do exilado essa ideia poética em que o symbolo mais vivo da pátria se via concentrado em Camões. vivendo em Paris. a gloria de Camões. . e Garrett escrevia o seu poema. Schlegel. onde flzera a sua educa- ção musical. amigo intimo de Garrett. concluiu superiormente. Por tudo isto vemos. Garrett não teve consciência de que obedecia mais a uma > Joaquim de Vasconcellos. Inglaterra John em França. Os Músicos portuguezes.ALMEIDA GARRETT 171 monumento da a Camões. Em Adamson. t. como è que em 1823 também em Paris pintava o quadro da XVI os dois Morte de Camões. para communicarem aos extranhos entre quem viviam o seu senti» mento nacional. 21. i. Já no fim do século portuguezes Benito Caldeira e Henri- que Garcez traduziam para castelhano os Luziadas. * e era esse mesmo ta- lento que o fazia comprehender como o ideal da pátria se re- Sequeira em Camíjes. Balbi caracterisa Bomtempo de presentava talento extraordinário. interpre- taram a epopêa de Camijes como a prova mais eloquente da sua doutrina philosopliica.» escripta para a festa da inauguração do mallogrado monumento. Baynouard. que os Luziadas suppriam uma litteratura inteira. João Nâo é acaso esta serie de factos.

nem Ferdinand Denis: «Depois de ter o bado. a e Alexandre. Lemercier foi um da litteratura moderna. Por tanto as excentricidades e cstravagancias de Le- mercier notadas por Garrett. viu Garrett que nem só os a personalidade arcadica de Jonio Duriense. porque confessando que não acceitava o Romantismo. nomes de cidades ou de reis serviam para titulos de poe- mas. e que a característica do heroe consistia na individualidade.» * A obra de Lemercier. juntos com poema Moysés. xix. sei todavia que o seu plano é diverso. que nem procurei lêl-a. . que pelos poemas de Lemercier. Este paragrapho ó omisso no prologo de todas as edições do jiocma Camões. Garrett defendia a sua originalidade. segundo vejo de outras obras suas. a que allude Garrett. que algum longe de analogia poderá ter com esta: é sobre Homero. Lemercier. meu poemeto quasi aca- vi extractos de uma composição de Lemercier. (1801) que foram publicados com o revolucionário Atlântida em 18!á3. a quem succedeu Victor Hugo Pinto.172 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL corrente lilteraria do que a está um affecto patriótico. denotam-nos que o poeta emi- grado ainda tinha certos pontos de vista em que dominava É cçrto porém. elle eslá ligado á nossa historia Hlteraria pelo seu bello é heroe o drama em que grande revolucionário de 1640. tanto no espirito como na cadeira da Acade- mia. são os ex- tractos dos poemas sobre Homero. cuidava que a concepção do poema Camões era puramente pessoal e não uma consequência das novas ideias litterarias que viu rea- 1 Catalogo dos Autograplws. em quatro cantos. p. a prova em que depois de defender a originalidade do poema Camões das reminiscências do quadro de Sequeira. e que nenhuma luz podia dar-me no meu intento. Porém é tão excêntrico e extravagante em suas coisas e modo o tal Mr. continuou a defender-se de não ter imitado Lemercier.

Garrett escreve mais tarde. 2 cit. I.ALMEIDA OABRETT lisadas 173 em volta de si. asme deixo ir por 1 Poema Op. aquelle escriptor. publicado em Pa- em 1824. que entendendo pro- vavelm. que mais outra vez defende a sua originalidade da prioridade de um tra- balho do benemérito Ferdinand Denis intitulado: de la natiire sur Poesie. íiz meu poema Ca- a semsaboria de a me pôr a dar explicações sição em como sr. Foi por causa d'islo. escrevia Mr. suivie ris les Scènes tropiqucs. appareceu um por- em tugaez tros um poema anonymo intitulado Camões. tive eu a honra de lèr o meu episodio em presença de uma numerosa assembléa.» brarei aqui. arrependido das suas reclamações: «Na primeira edicâo do mõeSf que é doesse anno. e declaro a minha con- vicção intima de que. seoíTendeu d'el- Peço-lhe aqui solemne desculpa. e por isso em poesia. 610. nem a vira antes de publicar a minha.. o * mesmo estou certo que lhe acontecesse. que ^ois No Uesumô de VHistoire Litteraire du Portugal. que lambem tem merecido da nossa las. litteratiira. . Dois annos antes. de I82G. Thurot. oot. é verdade. caoto ix. nas quaes se acha episodio sobre a vida do grande poeta. et de leur injluence sur la et de— Camões Joseph índio. um dos professores do Collegio de França. o seu trabalho estava composto.» - A causa d'estes equívocos enconlra-se no estado intelleclual que estas palavras de Garrett descobrem: «Não sou clássico nem romântico. assim como eu não sabia de sua obra. Camões. o auctor confessa. não tenho seita nem partido sim como em coisa nenhuma.ente mal as minhas palavras. que appareceu só depois de mim. Consta-me. p. em casa de M. nâo tinha nada minha compo- com a do Denis. mas que seis mezes antes. Ferdinand Denis: «Lemmezes depois da publicação das Scenas da Natureza sob os trópicos. Deixo a ou- o cuidado de decidir acerca do mérito da obra.

Sahe Camões a á luz e celebra-se o seu nascimento. volve para Lisboa. referem-se os amores que teve com uma do dama do paço.» ^ a força do amor. ó illuminado das Sciencias. procura Universidade de Coimbra. e a verdade atacava as falsas macaqueações das obras da antiguidade. Expõe-se com o heroe que se celebra. e nem procuro converter as dos outros. O que o temos criptos era o poema Camões xvii tratado por um clássico. 5 . es- no fim do século por Manuel Lopes Franco. nem inverter as minhas nas d'el- Em 1825. ahi bem claro n'esses dois cantos em oitava rima. Mas vejamos agora como Garrett foi arrebatado inconscientemente pelo romantismo. p. a matéria. Garrett começou por tirar 1 Catalogo dos Autographcs. Trocar a vida real pela vazia alle- goria mythologica. o sentimento natural pelo molde já auctorisado. descreve-se a delerminação.174 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL onde les. que se Sciencias.) . .» me * levam minhas ideias boas ou más. em que Faria e Sousa con- centrou todas as situações da vida do grande épico é tam- bém uma obra clássica. tanto d'aquelles em politica como em decisivos Utteratura es- tava-se n'um de momentos em que todo o homem bem linha fatalmente de ter uma opinião e de a sustentar. mostra-se Camões vaticinado faz-se Concilio no Pindo para sahir á luz. origerjj toda A écloga Cintra. Part. etc. guardam entre os Manuscriptos da Academia das basta lêr os argumentos: «Canto falla-se i. a liberdade obrigava o absolutismo a fazer con- cessões. a linguagem de dentro pelo epitlielo rhelorico. xx. 21 . só serviu para oitavas e éclogas banaes. 4. pondera-se seu desterro. E. implora-se Caiiope. exprime um novo estado do sentimento. O poema Camões. 2 Academia das Sciencias (G. — Canto u. como as desgraças generosas de Camões. por um processo assim. o assumpto o mais poético.

que lhe tangera Os domados espíritos que a servem. — fallei aos ecoo? Das ruínas a lingua consagrada Perfiz solemnemente Dos menestréis.ALMEIDA GARRETT a inspiração 175 Olhou em do meio e das circumstancias que o tocavam. e teriam inutilisado o problema no ultra-romantismo. Murmurei os tremendos esconjures Do Scaldo sabedor. e agora continuar essa lucta na expressão livre do sentimento moderno. O poema * Camões. Que as tranças d'ouro penteando ao vento. Errante Eu Pela terra eitrangeira. vn. peregrino Nas solidões do exílio fui senlar-me Na barbacan ruinosa dos caslellos A £ conversar co'as pedras solitárias. em vez de correr atrás dos Faunos: vi sobre as cumíádas das montanhas D'Albion soberba as torres elevadas Inda feudaes memorias recordando Dos Brilòes semibarbaros. a perguntar ás obras da milo do homem Pelo bomem que as ergueu. como escreve Garrett em uma nota Poema Camões^ c. . invoquei firme e sem medo Os génios mysteriosos. — Canta as canções dos tempos que passaram Ao som da harpa invisível. em que Garrett allude á impressão receelle bida das obras de Walter Scott e de Shakespeare. A alma enlevada Nos romaniicos sonhos. se a sciencia da historia não viesse cor- roborar a aspiração ao natural. volta de si. os artistas não. Como o subtil Aríel. as aérias Vagas formas da virgem de alvas roupas. Os críticos comprehenderam muito cedo esta verdade his- tórica. se vé a concepção exterior que formava do Romantismo. Todo o rito.» ' Encantado N'estes' versos. por invisivel feitiço. procurava Áureas ficções realisar dos bardos. era a uma espécie de guarda-roupa da Edade Media e não con- tinuação d'essa lucta dos dialectos que procuraram fazer-se valer contra o uso exclusivo do latim clássico.

ambos Royal o exemplar da edição de 1572 para fazer ção critica das obras do poeta.-Honoré. passávamos com os pés cosidos no fogo. António pos- de Lima. p. elle trabalhando no seu Sallustio. de 1831. e viveu sempre no estrangeiro como cônsul portuguez. Ed. nol. I. porque lhe permit- em virtude de novas alterações politicas. que por occasiâo do assassinato dos lentes de Coimbra em 1828. n'este tempo estudava na Bibliothèque meu Camões. ede amado uma latina. * foi quasi lodo composto no verão de 1824 em IngonvJIle ao pè do Havre de Grace. José Ribeiro dos Santos. encetada Didot. apesar da sua erudição monumentos nacionaes. na a Paris margem a direita do Sena. Estes dois negociantes foram escriptores e merecem aqui uma indicação biograpbica. e com esperanças largas no futuro. V. «n'uma agua-fiirtada da rua Coq-St. em Hamburgo fez elle apaixonar um negociante portuguez de secos e molhados pela reprodução suia o segredo de produzir enthusiasmo pelos nossos do theatro de Gil Vicente! ^ A amisade de Barreto Feio e 1 Ibxd.176 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL aulobiographica. o estudo critico de Barreto Feio para a biogra- phia de Camões. de Hamburgo. D'ali partiu para Hamburgo onde cbcgou a associar-ee com o cônsul e negociante porluguei José Ribeiro dos Santos. sem remorso do passado. eu e o meu velho amigo o sr. nasceu em >4lla Nova de Gaia em 1798. mas ambos resi<. eu lidando no proscriptos. tido. Barreto Feio. abandonou o terceiro anno jurídico da Universidade. regressar a Portugal. Reíerimo-nos a José Gomes Monteiro. xsii. indo-o acabar no inverno de !8i24 1825. Barreto Feio. uma ediem 1820 na casa foi mas que não 2 foi por diante. ambos pobres. estabelecido era Ilamburgo com 2 Obras do Camões. t. influiu n'essa parte do poema em que ter Garrett acceita a errada tradição de ter sido o grande épico perseguido pelo Conde da Castanheira. o d'elle resta um Tratado consular. 3 . Catherina de Athayde. D.. i. auxiliindo com os dinheiros da casa as edições de Camões e de Gil Vicente emprehendidas por Barreto Feio. que não é a fdha de D.» A amisade de Barreto Feio teve uma decidida influencia sobre a creaçâo do poema Camões. J. D.mados ao presente. c. emigrando para Inglaterra.

. era 1807 entrou aos dezeannos para os cursos de leis e cânones da IJoiversidade. um outro expa- mas pelo intoleranlismo religioso. Os seus trabalhos litterarios re:umirara-se a uma tradução frou. No cemitério do Père Lachaise se encontravam junto da sepultura de triado.) Gomes Monteiro nascera também no Porto. acabada Hamburgo suspendeu pagamentos com um passivo de mais de duzentos contos de réis. Não tinha a illustração sufficienle para cooperar nas ediçõc. 12 . voltou ao Porto. como Lacurne desenterrava dos velhos archivos dava preoccupado com o estudo do seu as Gestas francezas. na época em que cilas appareceram. 130. A publicação da versão critica portugueza das celebres Cartas amorosas de Marianna Alcoforado. de ISíá. Bibl. depois da fallencia de Hamburgo. Na sua ausência. Dizia possuir bastantes cartas de Garrett. mas não tem o menor merecimento. i8-24. e um volume inédito sobre a realidade historico-allcgorica da novella do Amadis Gaula. Josc uma como compensação por tanto o nome de José á sua coadjuvação Gomes Monteiro. por José Feliciano de Castilho. fugindo de Portugal. em 1828. a 13 de fevereiro de 1842.ALMEIDA GARRETT 177 de Garrett n'estc período da emigração. tendo por esse motivo do defender uma tradução portugueza do Fausto feita por Castilho. era um lacto que contribuía para acordar nos emi- grados o sentimento nacional. Eccos da l. como já dissemos. que mereceu ser historiada em um livro por um escriptor allcmão que o acompanhava.xa de poesias allemãs. (Vid. o opulento editor dos Lu- ziadas. baseada sobro um critério errado. emprebendeu uma expe- dição scientiQca e commercial á Africa. a sua biographia no 13. Gomes Monteiro pecuniária. Porto. : Nacion. que chegámos a vêr. res. Coll. e n'cste caso só eslava o erudito Barreto Feio n'e8sas edições foi . tem logia uma certa ana- com a digressão de Lacurne de Sainte Pelaye e do Itália. morreu fulminado a bordo do seu navio Vasco da 27 de José Janeiro. A. que em outro logar apreciámos.° Gama.de Gil Vicente e de Camões. de jornaes. Feio an- Sallusíio. Do trabalho sobre os Luziadas falia Garrett referindo se a Barreto Feio no trabalho sobre Gil Vicente o auctor allude a outros escriptos anterioseis . presidente de Brosses na como de Brosses. e ao receber em Angola esta noticia. Falde leccu a 12 do julho de 1870. onde exerceu algum tenppo o cargo de recebedor de fazenda no bairro de Cedofeita. ao passo que Garrett compenetrava-se do espirito da nossa epopèa nacional.yra tcutonica. Foi nos Uns da sua vida gerente da livraria More. o poeta Filinto uma poderosa casa commercial de secos e molhados. n. Attribue-se-lhe uma novella em prosa intitulada Crisfal e Maria. pelo iAIorgado em Paris em de Matheus. uma Carta a Thomaz Northon sobro a Situarão da Ilha dos Amores.

Sigamos a marcha do poema: a em que o poeta acre- gressa. como o Dr. A ti minhas endeixas mal cantadas. im- primiram no poema Camões um tom elegíaco tâo constante. Como o fez elle? A sua ten- dência lyrica o explica melancholica. gia. entram no escaler os passageiros. e Dextra cravaste a roda do infortúnio Cravo que o gyro bárbaro Ibe empeça. que lhe é narrativa. recolheu-se na estéril contemplação em de vez de procurar a realidade para ver o ideal. que aos tormentos Mirradore?.. em Garrett chama: Certo amigo na aiifíuslia. mSTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL que Lamartine celebrara em uma sentidíssima ele- Outros. amigo de Camões. As condições particulares em que Garrett escrevia. adoas agruras do desterro fazendo investigações nas bi- çavam nários ali bliothecas de Paris e Londres para copiarem os extraordi- monumentos da litteratura e da historia de Portugal archivados. qi publicou-se em 1825. Esta realidade excede toda a poesia. é que se notam os choros de um escravo que ficara a bordo. em Paris. que ella tinha ção começa com a chegada do galeão. Camões e um missionário. Entre estes dois extremos. o jáo. Garrett trabalha sobre dois factos que a vida de ministra: a Camões chegada a Portugal em 1570 depois de dezesete annos de ausência. . O poema Camões nymamente. me atrasavam com benigna . que a vida Adoçaste o amargor. 178 Elysio. A sua feição lyrica obríga-o a divagar nas descripções. Garrett preferiu inventar todas as situações do poema. era António. anoa á custa de António Joaquim Freire Marreco. António Nunes de Carvalho. e a sua morte depois do desastre de Alcacer-kibir. que lhe dá o movimento subjectivo de uma longa ode. . ao porto de Lisboa. . Quando o escaler larga. em vez de seguir a marcha natural do poema. O poeta insta com o .

seguem-se bravatas entre ambos. e vão todos caminho do mosteiro. Pelas ruas marchavam lugubremente. por medonho. apesar de estar enfraquecida a immensa mortandade da chamada Paste qrande de 15G9. é um doestes qua- . e Camões embrenhando-se pela cidade com o escravo ao acaso. que o poeta pergunta mesmo se desembarcou em Lisboa. » Tal é o bello canto que a realidade histórica nos revela ter sido este momento da vida de Camões. Ê esta a diminutissima acção do primeiro canto.ALMEIDA OARBETT 179 mestre para que atraque de novo para tomar o seu escravo. Lisboa estava quasi deserta. crú o abandono do jáo na cidade para elle desconhecida. todo dispendido em elTusões lyricas. Não tem recursos épi- cos. e o missionário intervém com a sua doçura e consegue que o escravo seja trazido para terra. e as portas da cidade estavam guardadas pelos honrados da terra para que não entrasse nin- guém doente. e com gritos fervorosos e resas hallucinadas. lyrica. Os passageiros chegara a terra. mas o missionário não o consente. é falsa a scena do desembarque. as procissões de penitencia e de acção de graças. apesar de toda a sua elevação O canto II do poema Camões é theatral. é convidado pelo mis- sionário para pernoitar no mosteiro da sua ordem. e quasi vista de Lisboa. É entre esse ruido que Caé entre esse tropel mões desembarca. onde encontra ainda viva sua mãe. e vae ao acaso a ver' se descobre a antiga casa humilde de seus pães no bairro da Mouraria. cada qual se dispersa. arrastado a si um inexplicável sabbath. Ca- mões dá alguns pardáos ao jáo para procurar albergue. o valente Heitor da Silveira. o seu grande amigo e poeta. O canto de Gar- rett é ténue e descolorido. o mestre alterca. depois Camões chegava á de ter perdido no mar. (ímuito velha e muito pobre. E comtudo a rea- lidade histórica excede a maior epopêa: á pátria.

ouvem dobre de sinos. «Ah! a minha * bella Ophelia! Eu amava Ophelia. Hamlet vê aproximar-se um saimento rico e apparaloso. .» É então que Hamlet cae em um mysterioso accesso de fúria.. Póde-se imitar uma vez scena d'estas. é uma donzella. as aíílições de quarenta mil irmãos todas juntas não egualavam a minha. vae para ver lhada uma gri- vem cair a seus pés. como 1556 que D. amorta- em vestes cândidas. e brandões fu- néreos rompem a escuridade da noite. poeta. como Hamlet no vêr cemitério. limitou-se ao verso descriptivo. O é sabido. o filho tam- 1 Hamlet. tem a liberdade do anachronismo. Quando os três se dirigiam para o mosteiro. e Garrett falias em de dar aos seus personagens essas que são relâmfal- pagos da consciência. resente-se das impres- sões que em Inglaterra recebera Garrett ao vêr represen- tar as tragedias de Shakespeare. mas aqui a realidade uUnipassa em bellesa todos os artiíi- cios da imaginação: Caniõ(3s ao chegar a Lisboa. caracter theatral doeste canto. Garrett pairava no vago da imaginação. Catherina de Athayde era morta. ais carpidos.. mas não é descrevendo. nalda de rosas que Camões por um precom um movimenta desencontrado do féretro.180 HISTORIA DO BOMÁNTISMO EM PORTUGAL dros de libretto. sentimento aziago entra no mosteiro. é essa que aqui rola da cabeça de Natércia e vera cair aos pés de Camões. Natércia! Os eccos do templo repetem o nome de Natércia. Camões aproxiquem seja. encon- tra viva sua velha e pobre mãe D. Anna de Sá. acto v. porque lhe tava o apoio histórico. desprende-se do cadáver ma-se. A grinalda que Ophelia tecia ao cair na corrente. O jáo toma como máo agouro o encontro do saimento. confunde-se na multidão para quem era. Camões entra em Lisboa. e o poeta cae sem sentidos em terra. e desde Camões chegava á pátria em 1570.

recolhe-se pultura de D. para ficção de Garrett. era da formosíssima D. através de todos os accidentes ino- pinados da sorte que ziadas. que nos tempos em que frequentava a corte lhe pedia versos. Dias depois sempre generosa Camões recebe um bilhete de uma dama do paço. A e mâe conta-lhe os longos terrores da peste grande. e em contemplação junto á se- foi ali que o génio da pátria lhe ali inspirou a empreza que encheu a sua vida. Francisca de Aragão. Tral-o comsigo. A casa é humilde. o poeta volta a e acha-se recolhido na cella do com o jáo velando-lhe cuidadoso. Narra-lhe os com- €ontar-lhe o motivo do seu bates em Ceuta e no Estreito. Foi a primeira ideia que teve do poema. É o poema dos Lu- A boa mãe sorri-se amargamente d'aquella alma e imaginativa. hora e em um dado sitio em Cin- No canto prosegue a narração até chegar á historia dos seus amores com Natércia. lh'o quiz tirar. e como ella mesmo lhe pe- . os seus desalentos. O que ni será? Mas deixemos proseguirmos na missionário. e mal tem onde recolher o bom António. Quando ia n'esta parte da nar- ração. Volta á corte e apaixona-se por uma rível valido filha do Conde da Castanheira. João m. este elenco rigorosamente histórico. interrompe-o leriosa e cavalleiro tra. e o poeta e prisões. conhece a letlra. o ter- de D. narra-lhe os naufrágios como no meio de todos índia os desastres esperava trazer da para a sua pátria o maior thesouro. o escravo jáo. Manuel. pensando em merecel-a entra no Mosteiro de Belém. um thesouro eterno. No canto si do poema então que Camões. falia. É o missionário lhe e Camões reconhecido promette desmaio. que o convida para comparecer como em uma dada iv. como perdeu um olho baten- do-se contra os piratas e defendendo seu pae. um mensageiro com uma carta mysanonyma.ALMEIDA GARRETT 181 bem se lhe apresenta pobre e exhaiislo de forças pelos ru- des trabalhos da guerra e dos mares.

narra a partida. Ê no meio d'este desalento. a acção resume-se no empenho de D. Esta situação faz lembrar. principalmente pelo retornello: Rosa de amor. rosa purpúrea e bella. dizendo que lhe obteve uma audiência de el-rei D. exalta onde o poeta passou doces horas de Cintra. o livro? t corte commigo o trouxe. o desterro de Macáo. ou. quando desterrado de Florença entrou no Mosteiro de Santa Croce-del-Corvo. O canto VI é uma longa divagação descriptiva baseada em emoções da historia de Portugal. Aleixo de Menezes conseguir do joven monarcha uma audiência ao poeta para lhe ler os Luziadas. Quem entre os goivos le esfolbou da campa? Depois de rida. e como está finalmente na pátria tendo realisado a obra do seu pensa- mento. Camões perde aqui o seu typo enérgico da lucta e declama como um scismador melancholico.182 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL diu que fosse engrandecer-se nas armas. lhe confiou á sua guarda o deposito da Divina Come- dia. Camões vae a Cin- tra. como estancia amena e throno da vecejante primavera. O . Antes de partir para o praso mysterioso de Cintra. O canto V é todo subjectivo e elegiaco. consolando-o. e depois de ter ali encontrado a paz no bom prior Fra Hi- lário. Sebastião: — tMas Vim por elle e por vós . a viagem tempestuosa. que o interrompe a voz do missionário. é este canto o que senta. e todos os sitios recordam as horas dos seus amores. uma prosopopea á gruta de Macáo. soídão quetristesa. entrega o seu lli'o poema ao missionário para foi guardar. e o menos acção apre- que é mais lido e repetido. talvez sus- citada pelo episodio da vida de Dante. as passadas illusões. mas vendo ao mesmo tempo o naufrágio de todas as siias esperanças.

Diante de tamanho ca- valheirismo. era que Garrett esboça os sentimentos do romantismo. nam-se choram juntos o objecto que ambos amaram. nâo sabe como reconhecer esse prodigio. O canto vuí enclie-se com este mesmo processo.ALMEIDA GARKETT 183 canto VII é uma effusão lyrica sobre o bon vieux temps. Camões restitue-lhe o retrato. onde já corre entre doutos e indoutos o seu livro. e pede ao poeia que torne a vèl-o. Esta ideia do legado ali em convicta amisade. descreve a anciedade dos pretendentes. que se deodeia como rival! Quando Ca- mões ia para cruzar a espada. sem outro movimento. Aleixo de Menezes fluencia na corte. D. que o convidou para vir ali paia lhe entregar o retraio de Natércia. e como o monarcha e a corte vão ouvir lêr o leitura é narrada poema em uma gruta de Cintra. com um ou outro centão mais pittoresco. e de honra é perfeitamente á dArlincourt. e Camões despede-se sobre a praia do missionário que se tornara o seu maior amigo. o Conde declara que não pôde erguer ferro para o homem que foi amado pela mulher que elle adorou. que pede esmola. porque é um legado de honra os ódios tor- que ella lhe pediu antes de morrer. Camões sae. vem-lhe o tédio . porque em 1827 Garrett escrevia no Chronista. Depois da partida da expedição. que d'Arlincourt era a segunda celebridade da Europa depois de Walter Scott. O canto ix é egualmente pobre de acção: o rei íica maravilhado com os Luziadas. que se torna a frente eíTectiva a carta mysleriosa: Camões vé-se Xrente clara seu inimigo e qlie o com um Conde. a minuciosamente pondo em verso a sum- ma e dos cantos dos Liiziadas. Camões volta a Lisboa. narra-se a falsa tradição da morte de Bernardim Ribeiro divagando e é n'estas alturas solitário na serra de Cintra. á d'Arlincourt. o dizemos. vê-se a faina da partida já não tem indo exercito para Africa. as forças alquebram-se-lhe. No canto x descreve-se Camões na mais atroz indigência. o poeta caminha com o seu escravo António.

se O seu in- por veníura o poema direcção errada. que está no captiveiro de conta os pormenores da derrota de Allêr. telligencia. p. o amor da pátria. intercortadas por poucos diálogos. era . tuito nacional tornal-o-ia sagrado. apresentando as condições vitaes para uma outra idealisação. levou uma verteu-se n'isso que em França. Mas não.) Depois de ter feito notar a deficiência de acção no criticar a tragedia poema Camões. é o Conde. que têm dominado as novas opiniões até religioso de hoje. com versos frequentissimamente quebrados nos seus hemistychios. perde a sua grandeza. façamos como Fauriel ao de Car- magnola de Manzoni. é como uma serie de odes de Philinto. e uma carta do em que lhe missionário.184 HISTORIA DO-ROMANTISMO EM PORTUGAL da vida e adoece. a tradição nacional. Camões ouve quando chega ao ponto cul- minante da catastrophe expira. nos surprehendemos da differença que vae do nosso pasmo 4859 á nossa ratificação presente das antigas impressões. 80. para dar um certo movimento á descripção e encobrir a immobilidade da acção. se chamava o chauvinismo. Os juízos Htterarios que existem sobre este poema são ainda Nós mesmo as primeiras impressões produzidas pelas leituras de 4825. n'este plano um accidente na historia da in- secundado. Este lance sublime na verdade da tra- dição histórica. dizendo que — ao menos morre com a pátria. ratificação A verdadeira obra do génio é a que resiste á do sentir de cada individuo e de cada época. con- tivesse propagado o ideal da pátria. Tudo o mais é obra de occasião. n'esta mesma época dos Românticos. Francisca de Aragão. que lhe traz Fez. que fora outr'ora seu inimigo. È n'esta situação que um mensageiro o procura. O poema Camões é só isto. o poema Camões é do melhor que entre nós produziu o Romantismo. e ligadas por um interesse scenico. (Vid. e cacer-kibir. está aqui apoucado ás molas theatraes. torna-se convencional e recortado. Interrompemo-nos no momento em que o poeta recebe a carta de D.

engrandecel-o. o jáo cae doente de nostalgia. D. Morrera como Sadi. e é então que o poeta expira para não ver a pátria escrava. a Camões para escrever a epopêa do futuro triumpho. e que o seu amor a matava. As intrigas trabalham contra o poeta. reata a antiga amisade e promette aprescntal-o a D.ALMEIDA GARRETT esta 185 dama formosíssima e princeza a que mais distirignira Camões na época em que floresceu na corte de D. Vencidas âs delongas do Santo Olíicio. Catherina de Athayde. É isto o que dá o simples esqueleto da historia com leves «lodificações que pertencem á Uberdade artística. Fhilippe u ao entrar triumphante em Portugal. Esta se- . disseram-lhe que morrera proclamando que acompanhava a pátria. Quando Camões dá pelo roubo. ergue-se a custo e caminha trémulo para o paço: ia offcrecer o seu poema ao rei para o salvaguardar. sa- bendo da sua intimidade com D. que lhe ouvira antes delia morrer no paço: que se um dia Gamões voltasse á pátria. era para communicar-lhe algumas palavras de D. elle e despresando todes os outros illustre Camões cumpre o mandado da dama. D. Sebastião para dedicar-lhe o poema. Francisca de Aragão. a sua morte hade perturbar para sempre aquelle triumpho. como se conta também de Miguel Angelo. quer ver Ca- mões. lhe dissesse que sem- pre o tinha amado. Emijuanlo o poeta está doente visitam-no os seus antigos inimigos disfarçados e roubamllie o Panmsso. e decidida a expedição de Africa. agrupam-se em volta d'elle to- dos os que seguiam o partido da independência nacional. é o poeta que vella á sua cabeceira. Manuel de Portugal encontra-o e acompanha-o. pedindo versos somente a poetas. emquanlo o poeta o ia revendo. pensando que lhe subtraiam os Luziadas. ap- parecem os Luziadas. Mas o exercito de Philippe ii caminha sobre Portugal. João iii. Camões recolhe-se dilacerado e adoece. Bernardes é preferido kibir. Chegada a noticia da derrota de Alcacer- Camões cae doente. Manuel de Portugal.

' . Branca interessante. 1880. porque épico na sua individualidade. que é. desde julho até outubro ção d'esse anno de 1824. Essa foi a origem de D. e não os Adolphos e um que apathico e melancholico scismador. ouvrage orne du fortrait di Garrett. em que Garrett escreveu. muito que quem de nossas le- gendas e velhas historias e tradições fizesse o que tem feito Inglezes e Allemães. me quebrava a saúde e destemperava mais os nervos. Paris. do canto i. D. completando-a antes do Camões. Para já Garrett teve em vista imitar o digressivo byroniano. como indicação hygienica. Fui obrigado a interromper o meu só e tão consummido. A linguagem em prosa dá um grande re1 titulo : — levo á sensiblerie du época 2 Nol. É uma ediçio primorissima. puêmc traduit du portuyais. os Obermans do Romantismo. * A historia convence-nos de uma realidade. que fiz.186 ria a acção HISTORIA DO BOMANTISHO EM PORTUGAL verdadeiramente epica do elle foi um poema como sobre Ca- mões. a poesia é real. io 8. Branca. em recordor as desgraças do nosso grande génio.v 221.» - No poema de D. tão mesma distracção de escrever. vestil-as dos adornos poéticos Acaba de publicarse em Paris unia tradução em prosa do poema. escreve Garrett: «Passei ali cerca de dois annos da minha primeira emigração. seguidamente e sem interrupção. com o Camões. eis a parte essencial: uma «Agora las em linguagem chã e corrente: lembra-se d'aquel- nossas conversas sobre antigualhas portuguezas e o d'ellas se podia aproveitar. São os fragmentos de carta a Duarte Lessa. . que a o mesmo triste gosto que achava trabalho: e dei-me. avec une inlroduction et notes par Henri Faure. e que o ideal é a generali- dade do A melancholia vaga do typo de Camões de Garrett ex- plicase também pela relação intima da obra com o auctor. esta sua feição poética não é menos bem a conhecer temos algumas notas au- tobiographicas publicadas pelo actual possuidor do Catalogo dos Autographos de Garrett.'^de xr. fallando dos annos da emigração. a composimenos grave. .

. . donde foi h o mais nobre e mais rico mosteiro de freiras que ha em . e muito Algarve. se esperdiçam e andam a monte por desacerto de leltrados e barbaridade de ignorantes. e verso. em mui — que palavras. e sibilidade poética. romance. que para mim foi achado aqui já . D. «Deu-me no goto esta historia. . . porque de nomes não nos de nomes dos meus rapazes. rei mestre de Santiago. segundo é que. e que pelas nossas. íilha daquelle rei mandada para abbadeça do mosteiro de Holgas de Burgos. Nem me siada Hcença poética. me- «Ora tanto eis ahi um o argumento e origem. Eram as Chronicas de Duarte Nunes: apesar de hdas e relidas. que foi senhora do mosteiro de Lorvão. e não menos o são D. de tão ricos que somos. que não em também a caçada e fatal combate das Antas. AÍTonso ni. . ALMEIDA GARKETT 187 e sacadir-lhes a poeira do esquecimento cora assisada escolha e apropriado modo? Pois desde então. . a historia da infante D. dilatei de Silves. Branca. «Acertou de vir ás minhas mãos um livro portuguez. mormente em nossos que muito maiores as estamos vendo.esínhos estava repartido. . e ao pé logo. que entre diversos reisinhos e princip. Branca é porpersonagem histórico. . Payo. (e já de mais tempo me geito fervia isto na cabeça) não fiz senão pensar no se com que me haveria para armar assim uma coisa que parecesse. «Histórica é em boa prosa. meu achacom a relação concisas da conquista do Algarve. ou o que mais quei- ram chamar-lhe. e Aben-Afan. me deitei a ellas como esfaimado. cujo reino pareceu demadias. . com tanta coisa boa que por cá ha por estas terras de Christo. . mas que de longe. deparei na Chronica de D. e fazer d'ahi poema. assentei de a ligar como lhe não vi imposcom a conquista do disputo. e lendo e escrevinhando. Hespanha do qual Com esta infante teve amores ura cavalleiro pariu um filho . eu por todo o Algarve.

xxii. que os nossos mercadores d'aquelle tempo. no que diz a Ghronica. nem se deixavam insultar de cavalleiros com medo de fanfarronadas ou calotear de senhoras a troco de cortezias. se os chronistas. nos refere miudamente suas feiticerias. Por ventura haverá ahi quem ache este caso ainda mais poético. Affon. menos phantasiar á vontade tecendo suppos- A arte interpreta as tradições nacionaes inspi- 1 Catalogo dos Autographos. po- rém metti-lh'as eu. bruxos. ou antes de A concepção do poema saiu de uma leium paragrapho da Ghronica de D. Branca. Deus sabe quem mais mente. las. defendendo-se até á ultima como homens que eram. na Domingos. A ida da rainha D. se os poetas. que servem de fundamento ás que imaginei: finalmente sua milagrosa conHistoria de S. p. os seus elementos tradicionaes e poéticos e a intenção do auctor. e bem o creio eu. a Gastella para a concessão rica. pacto com o diabo. . «Não ha lá princezas mouras. até as brucharias de Frei Gil não são fabu- pelo menos da minha cabeça. feiticeiros e en* cantadores. Beatriz do Algarve é igualmente históe emfim. . e mais coisas. os fragmentos da carta a Duarte Lessa deixam-nos claro a origem do poema I). que ainda se prende com os dichotes de António José. tura. e muito tas lendas. sabiam tanto do covado como da espada. so in de Duarte Nunes é pôr mas tratar uma tradição nacional não em verso o que está na prosa ingénua dos chroni- cons. tal qual a conta Duarte Nunes. . e uns por outros. mi- nha casa. Frei Luiz de Sousa. que também sou chronista em .» Á parte este estylo da graça portugueza. mas é pura verdade.188 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL em que ficaram mortos os seis cavalleiros de Santiago e o mercador Garcia Rodrigues. versão e exemplar penitencia. que Deus permitia sirva de exemplo a todos os nicromantes.

em França o tinham aprendido. se dice aver muerto en Gauna infanta de Portugal. I)'aqui saia completamente toda dade e toda a vida da tradição. como o compositor que no repente melomanico submette ao contraponto as rubricas da opera. Com a tendência lyrica de Garrett. mais verdadeiro. Vendo com esta luz a tradição portugueza. trovador da corte de D. Luiz. fazendo-nos solidários com o pas- sado. AÍTonso nr. em que consiste o vinculo mais forte da na- Era assim que Oelensgleger e Rúkert trataram as tradições suecas e germânicas. Garrett leu essas linhas maliciosas da Chronica e pul-as em verso á sua guisa. era este um melhor pro- togonista para o poema de D. ^ Como prolida por amores de vámos no estudo da escola provençal portugueza. essas lendas ter- 1 2 Carta Trovadores gakcio-portuguezeSy p. ^ João Johan Soares de Pavia yy Soares de Paiva é esse trovador da corte de D. Sancho n. Que mundo de sentimentos se lhe revelava só n'esta palavra trovador! Esses receios e segredos do na- morado. Para que inventar uns amores com o mouro Aben-Afan? Na corte de AíTonso ni estava em moda ali o gosto poético provençalesco da corte de S. . .ALMEIDA GAREETT 189 rando-se d'ellas. que apren- deram a imitar os fidalgos por occasiâo das luclas que se refugiaram em França com D. era preciso esludal-a antes de interpretal-a. 101 c 102. interessando-nos. essas remotas allegorias á dama dos seus pensamentos e occultando sempre o seu nome. as suas cores. Branca. encontramos essas notáveis palavras do Marquez de Santillana acerca de João Soares de Paiva. § xv. Eram estes tro- vadores os que se apaixonavam pelas princezas. com o exemplo recente do Conde de Champngne por Branca de Casiella. restituindo-lhes a vida primitiva. . que é cionalidade. ao Condestavel. mais nacional. res Com esta infante teve amoa ver- um cavalleiro . AlTonso iii: «Avia otras (obras) de cl qual.

;

190
riveis

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

como da dama de Fayel ou de Cabestaing;
;

esses votos

denodados

emfim todas

as aventuras da terra santa e das
Ilhas

biographias do

Monge das

de Ouro

!

Este é que seria
iii,

o poema nacional, do tempo de D. Affonso
restituiria á vida

o que nos

uma

época e a tornaria conhecida e amada

fora do dominio da erudição. Ignorando esta reahdado poética,

Garrett estragou as tradições épicas da conquista do

Algarve
gida.

com
está

o syncretismo de

uma

imaginação mal

diri-

O

episodio de Frei Gil, o typo do nosso Fausto por-

tiiguez,

também mal

aproveitado no poema; Garrett
si

não comprehendeu esta lenda, que por

dava

um

bello e

grande poema, e

inutilisou-a

em um

episodio. Basta lem-

brarmo-nos de que o Fausto se perde irremediavelmente
nas lendas allemães, inglezas, francezas, italianas e hespanholas, e que se salva na tradição portugueza por interces-

são da Virgem, esse feminino eterno de Goethe,

com que

salva o Doutor pelo pantheismo da arle no fim do século xviii.

É

inútil dizer aqui

o

modo de

reconstruir sob a intelligen-

cia

da philosophia e da arte a tradição do Fausto portuguez

este titulo mostra até

que ponto Garrett não soube com*

prehendel-a. Levado ainda pelo respeito de Filinto,

e im-

pressionado pelo Oberon de Wieland, traduzido pelo foragido

do Santo

Oííicio,

imitou a procissão grotesca dos frades e

das nonas no cerimonial disciplinar da distribuição da pósla

de toucinho chamada a Tremenda. Qualquer dos contos populares de frades lhe dava uma peripécia mais caracteristica

dos velhos costumes. Foi justamente este o episodio

que mais quadrou ao gosto do publico e o lado por onde
todos conhecem o

poema de

/>.

Branca.

comprehendeu que se não soubera aproveitar da lenda de Frei Gil; nas Viagens nu miJá no fim da vida, Garrett

í A primeira edição de D. Branca traz as iniciaes F. E., com a inlençSo de submelter o gosto autoritário do publico a esta obra attribuida a Filinto Elisio.


.

ALMEIDA GABBETT

191

nha terra escreve: «Algures
Fausto: e ò

lhe

chamei

o nosso Dr.
.

com

elfeilo.

Não

lhe falta senão o seu Goethe

.

Nós precisamos de quem nos cante as admiráveis luctas ora cómicas, ora tremendas do nosso Frei Gil de Santarém com o diabo. O que eu fiz na D. Branca é pouco e mal esboçado á pressa. O grande mago lusitano não apparece
prologonista de
teiro,
ali

senão episodicamente; e é necessário que appareça como

uma grande
luz,

acção, pintado

em

corpo
.

in-

na primeira

em
S.

toda a luz do quadro
isto

.

.

Lem-

bra-me que sempre entrevi
faziam ler a
liisloria

desde pequeno, quando

me

de

Domingos, tão rabujenta e sem-

sabor ás vezes, apesar do encantado estylo do nosso melhor prosador; e eu que deixava os outros capítulos para
lèr e reler

somente as aventuras do santo
*

feiticeiro

que

tanto rne interessavam.»

Estas revelações mostram-nos até que ponto o ter sido

embalado com as tradições nacionaes fecunda o génio e
a

predisposição artística.

Á

medida que Garrett avançava
pelas tradições portugue-

na sua carreira da emigração

litteraria o

amor

zas afervorava-se n'elle.
foi

É por

a Ádozinda,

que a sua terceira obra poemeto trabalhado sobre o
isso

lho,

romance popular da Sf/lvaninha. As condições d'este trabaintimamente ligado á vida do auctor, encerram a me-

lhor parte da sua educação intellectual. Discutindo o valor
poético das tradições nacionaes
fortalecia

com Duarte

Lessa, que o

no plano de

tirar d'esses

elementos perfeitas obras
da Syl-

de

arte, Garrett dedicou-lhe a sua primeira tentativa

vaninha.

Em uma

carta,

em que expõe algumas

observa-

ções superficiaes sobre as phases da poesia popular portugueza, faz

uma pequena

recapitulação dos seus trabalhos

tentados segundo o novo espirito romântico: «No

meu poe-

masinho de Camões, aventurei alguns toques, alguns longes

*

Viagens na minha terra,

t.

ii,

p.

141.

192

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

de estylo e pensamentos, annunciei para assim dizer, a possibilidade da restauração d'este género,

que tanto tem

dis-

putado na Europa

litteraria

com

aquell'outro, e que hoje

coroado dos louros de Scott, de Byron e de Lamartine, vae de par com elie, e, não direi vencedor, mas também não
vencido.
«Z>.

Branca, essa mais decididamente entrou na

lice,

e

com

o alahude do trovador desafiou a lyra dos vates; ou-

tros dirão, não eu, se

com

feliz

ou

infeliz

successo.»

*

Do

intuito

da Sylvaninha,

diz: «Creio

que é esta a
faz

pri-

meira tentativa que ha dois séculos se

em

portuguez,

de escrever poema ou romance, ou coisa assim de maior
extensão, n'este género de versos pequenos, octosyllabos

sos.»
rior,

ou de redondilhas, como lhe chamavam d'antes os nos2 Via a poesia popular por este caracteristico extee

em

vez de a estudar explicando-a pela ethnologia
já a

da raça, tratou de contrafazel-a na Adozinda. Garrett
este

tempo citava os trabalhos de Grimm, mas não comprehendeu esta profunda observação d'esse sábio: «O homem que quer fazer isoladamente e tirar poesia popular do seu
sentimento próprio, erra quasi sempre, poder-se-ia dizer
inevitavelmente, n'esta empreza que se propoz desempe-

nhar; raramente ou não

fica

áquem ou além da

justa

me-

1

se era

um

artigo do Ilarculíuio, Qual o estado da nossa Litteralura
niio

:

coubo o figurar n'esta lide (do Romantismo): A parlo Iheorica da litteralura ha vinte ânuos que é entre nós quasi nulla O movimento intelleclur.l da Europa não passou a raia de um paiz ondo toda^i as altençOes, todos os cuidado:^ estavam apiilicados ás misérias publicas, e aos meios de as remover. Os poemas de I). lírairAi e Camões, appareceram um dia nas paginas da nossa historia litteraria sem pieccdcnles que os annunciem; um representando a poesia nacional, o romântico; outro a moderna poesia senlimcntal do norte, ainda que descobrindo ás vezes o caracter meridional de seu auclor. Náo é para este lugar o exame dos méritos ou deméritos d'estos dous poemas; mas o que devemos lembrar é que clles são para nós os primeiros e até agora os únicos monumentos de uma poesia mais liberal do que a dos nossos maiores.» {Heposilorio littcrario, de 1;> de outubro de 1834.)
:

wMas a Portugal

2 liomanceiro,

t.

i,

p.

4.

Ed. IHJiíí.

ALMEIDA GARRETT

193

dida das cousas; ou nâo a alcança ou a ultrapassa.» As ex-

pressões d'essa insondável eloquência do povo, reduziranase na Adozinda á phrase elegante e conceitugsa
;

os breves

mas fundos

traços

com que na Sylvaninha

se colloca a ac-

ção, na Adozinda converteram-se no descriptivo

demorado,

paysagista, supprindo por estes retratos do
a impossibilidade
cia.

de ver para dentro

mundo exterior do mundo da consciên-

As narrações, que sâo

a acção e a explicam, ampliam-se
effeito.

no dialogo Ihcatral e de

Portanto, a Sylvanififia é

uma
ficio,

temivel pedra de toque para a Adozinda;

uma
.^

é a ver-

dade, a outra a convenção,

uma

a natureza, a outra o arti-

uma

a espontaneidade e a outra o esforço

O que ha

de bello na Adozinda, pertence ao fundo popular; mas a
ingenuidade popular nunca pôde ser contrafeita, por isso
Garrett não attingiu essa justa medida de que
falia

Grimm.

*

Almeida Garrett

vivia

com parcos meios durante

a pri-

meira emigração, sem se aproveitar do indulto de 5 de juentendeu requerer

nho de 1824; porém sua mulher D. Luiza Cândida Midosi em fevereiro de 1825 em nome do marido para que lhe fosse concedido regressar a Portugal. Foi

o requerimento a informar á Intendência geral da policia,
e na morosidade da informação

teriosamenle o sórdido D. João

vi, a

morreu repentina e mys10 de março de 18i5,

deixando a regência a sua fUha D. Isabel Maria; só
havia inconveniente

em 24

de maio de 1826, é que a Intendência respondeu que não

em

permiltir a entrada do proscripto,
as phrases da mais degradante

referindO'Se a Garrett

com

compaixão. Garrett desconheceu esses documentos secretos

da

policia,
^

senão nunca teria acceitado

um

tão ultrajante

perdão;

a única cousa

que seria a honra do poeta, ellepro-

Kála parle do trabalho de (larrcll, coulinuada no Ronxanceiro, flcou estu-

dada no cap. vil da3 Epopcas Mosarabes. 2 Koproduzimos aqui esses ignorados documentos copiados do Archivo da Policia, hoje na Torre do Tombo: «Por aviso de 2í2 do fevereiro do anno próximo passado (182o) foi sua ma13

194

HISTORIA DO ROMANTISMO

EM PORTUGAL

prio

foi

o primeiro a contradital-a n'esse docamento datado
;

de 24 de maio, se

lê:

«O bacharel João Baptista da

Silva

Leitão de Alipeida Garrett, arrebatado pelas ideias do tem-

po, pela verdura dos annos e pelos excessos de

uma

ima-

Deus tem era gloria, servido mandar ouvir esta Intendência sobre o requerimento do bacharel João Baptista da Silva Leilão d'Alraeida Garrett, em que pretendia voltar a este reino, d'onde por motivos politicos se achava expatriado. Pela informação que inclusa levo por copia á presença do v. ex.=* foi julgado incompatível com a publica segurança o regresso do supplicanle, considerando-se perigosa pelos motivos na mesma informação ponderados, a sua existência em Portugal: Continua por tanlo o seu exlerminio até agora em que apparece de novo sua desgraçada consorte, implorando a regia clemência de sua magestade, e invocando a sempre saudosa e respeitável memoria da beneficência do fallecido soberano sobre a sua desventurada situação: fundamenta o seu direito á consideração de sua magestade, em princípios que as circumstancias do tempo e mesmo as do supplicanle hoje fazem mudar de figura
geslade, que

a sua pertenção. O bacharel João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, arrebatado pelas idéas do tempo, pela verdura dos annos, e pelos excessos de uma imaginação ardente, foi como outros muitos (hoje restituidos aos pátrios lares) um sectário fogoso dos principies democráticos, que vogaram durante o faial periodo da Revolução, e que infelizmente hallucinaram as cabeças dos incautos e inexpertos: restaurada porém a monarchia, se retirou de Po*rlugal iramedialamente, temendo que uma vingança sanguinária surgisse d'entre nós, sacrificando tantas victiraas, quantas os sectários do systema constitucional desvanecido porém este terror á vista das indubitáveis demonstrações de clemência e piedade cora que o augusto soberano, que Deus lera, procurou conciliar os ânimos dos seus vassallos, olhando mais como eíTeito de erro do que da maldade, 05 desvarios da maior parte d'elles. O supplicanle regressou por isso á sua pátria, donde depois da insinuação da policia, que o julgou perigoso, foi obrigado a sair; e isto antes do régio indulto de 5 de junho de 1824: apparecendo porém este, não foi o supplicanle comprehendido nas suas excessOes; e não tendo os seus anteriores excessos feito objecto de processo que o condemnasse, foi o supplicanle, como muitos, perdoado, e foram portanto relevados 08 seus desvarios pelo dito decreto de amnistia, em que foi incluido, procedendo unicamente de caulellas da policia a sua expalriação depois do mencionado indulto. K tendo por isso experimentado até agora como castigo dos seus erros, todos os rigores do exlerminio e da indigência; á vista de cujos soffrimentos únicos fruclos que o supplicanle tem colhido e visto colher a Europa inteira das desorgunisadas theorias de que foi sectário, é de esperar que desenganado pela experiência e atenuado de trabalhos, haja mudado de principies, filhos da inexperiência e fogo da mocidade, como bera persuade o silencio que elle na sua eraigração tem guardado, abslendo-se do imitar e seguir o systema dos outros que não tem cessado de escrever e propagar princípios sediciosos; e então não ha motivo para que o supplicanle seja excluído da regia clemência, de cujos eíTeitos ainda não ha gosado, quando outros, pelo menos em idênticas circumslancias, tem aproveitado; não sendo por isso tanto para
:

ALUEIDA GARBETT

195
(hoje restituidos aos

ginação ardente
pátrios lares)
cos,

foi

como outros muitos
fatal

um

sectário fogoso dos principios democráti-

que vogaram durante o

periodo da Revolução ...»

No

fim da sua vida escrevia Garrett esta deplorável pagina

temor o seu regresso, quando em oulro tempo se julgou na informação inclusa, nao só pela mudança muito provável do supplicante, mas até mesmo pelo estado actual dos povos, em cuja maioria existe a convicçilo dos perigos e males certos que as Revoluções constantemente acarretam sobre elles; sendo mui difíicil que um homem sem preponderância c sem fortuna Ibe pudesse fazer reviver principios contra os quaes a experiência tanto os ha prevenido. Â vista pois das rasOes expostas, julgando mudadas as circum^tancias que ditaram a primeira citada informaç.lo, parece-mo não ser o supplicante indigno da real clemência, para obter o regresso que implora, depois de longos soffrimentos; julgando entre tanto útil medida da policia o obrigar a assignar termo de conformar á ordem legitimamente estabelecida a sua conducta e o» seus principios, ficando por isso debaixo da vigilante inspecção da policia, para contra clle proceder irremissivelmenlo logo que afastando-se dos seus deveres se torne por isso indigno da regia beneficência, a que se acolhe, e merecedor de severa justiça, que deverá punir qualquer reincidência dos seus excessos. E quanto se me oíTerece informar a v. ex." sobre o reqMerimento do D. Luiza Cândida Midoso do Almeida Garrett, em cumprimento do aviso de 9 do corrente. O que tenho a honra de levar á presença de v. ex.' para o fazer presente ao governo d'esles reinos, que determinará o que for servido. Deus guarde ele. III.'"" o ex.'"<» sr. Fernando Luiz Pereira de Sousa Barradas, 24 de maio de 1826. (Papeis da Intendência; Contas para as secretarias, Liv. xxiv, fl. Ii3. Satisfazendo ao que o governo d'esle3 reinos ordena no aviso, que de v. ex.' recebi datado do 22 do corrente, pelo qual sou mandado informar se haverá algum motivo que deva embaraçar, que João Bapti*ta da Silva Leitão d'Almcida G irrelt regresse a estes reinos d'onde foi mandado sair por ordem d'esla mesma Intendência; incumbe-mc expor a v. ex.", que os motivos que occasionaram aquella medida da policia, se acham mencionados na Conta da copia inclusa, que subiu á presença de vosía magestade em 7 de março de 1825, na qu.-vj se produziram as causas porque na referida época se julgou perigosa a sua presença n'eãte8 reinos, attcnlo o estado de agitação em que se achavam os espirites em matérias e opiniões politicas que os dividia; mas sendo recentemtjnte mandado informar um requerimento de D. Maria Midosi de Almeida, €m que pedia a sua magestade licença para seu marido voltar á sua casa, eu expuz na Conta, que dirigi á presença do mesmo augusto senhor, pelo ministério dos negócios da justiça em 24 d'este mesmo raez as rasões que me pareceram próprias para se haver contemplação e equidade com o mencionado Garrett, permiltindo-se-lhe o seu regresso a e*sta corte, mediante as cautellas e providencias, que apontei na dita informação; .igora porém devo accrescentar, que depois da data d'aquella primeira informação nada mais consta na policia contra ,0 supplicante que obste o seu regresso. X vista do que, sua magestade se dignará resolver o que bera lhe aprouver. Deus guardo etc. 26 de maio do 1826. 111.™» e ex."'» sr. Conde de Porto Santo (Papeis da Intendência: Contas para
fi

as secretarias, Liv.

jtxiv,

11.

151.

196

mSTORIA DO BOMANTISMO EM POBTUGAI.

para refutar, talvez, a imputação mais gloriosa da sua vida:

«É um sophisma de calumnia, por ventura admissível como epigramma se, republicano e demagogo, o auctor do Camões, de Gil Vicente e de Frei Luiz de Sousa, houvesse al-

guma hora

professado as hypocritas doutrinas do nivelaei-

mento social, que tão poucos acclamam com sinceridade menos ainda com perseverança. Mas a tribuna, a imprensa e o Conselho o viram sustentar sempre com denodo e dedicação a causa da monarchia, sustental-a como inseparável da

causa da liberdade do povo, da qual é não menos zeloso e
strenuo defensor.»
^

Pouco depois de regressar á pátria Garrett foi reintegrado no seu antigo logar por decreto de 26 de agosto de 1826. Conferida a regência a D. Miguel a 3 de julho de 1827,

recomeçaram
rett esteve

as perseguições politicas. Foi então

que Gar-

preso no Limoeiro, por

um

processo intentada

contra o jornal o Portuguez, redigido por Paulo Midosi, Luií
Midosi, Carlos Morato

Roma, António Maria Couceiro,

Joa-

quim Larcher,
allivio

e Garrett.

A composição

da Adozinda

foi

um

para as suas horas de prisão: «esteve por espaço de
ter tido

três

mezes preso sem mais pretexto do que o de

parte

em uma

publicaçãa censurada e impressa

com

todas
pro-

as licenças necessárias.

Não

foi

preso o censor,

nem

hibida a publicação,

nem no

fim de Ires mezes se achou

matéria de culpa!

^

O

late*go

do absolutismo

já se agitava

no ár, e para escapar á arbitrariedade só havia o refugio

mas

do desterro. Garrett emigrou novamente para Inglaterra, esta segunda emigração não foi nada fecunda para as
nos seus trinla annos, relacionado

lettras; estava enlão

com

algumas famílias inglezas,
e

adaptado á vida estrangeira
só procurou

tomando

a emigração

como uma excursão,

1

Fabulas e Folhas cahidas,
t.
i,

p. xi.

2 Romanceiro,

p.

19.

ALMEIDA GABBETT
divertir-se, flartar e ver

197
isso

mundo. É por
escreve:

que era uraa
poética,

nota do

poema Camões

«Realmente desde esta

época, (1825) nâo tornei a emprehender

uma obra
.

nâo tornei propriamente
anteriores,

a fazer versos

. .

Coisas vellias e

emendei e conclui muitas.»

*

Esta esterilidade

poética

foi

um

terrivel

symptòma;

a vida sensual da Res-

tauração allraia-o, levou-llie a ingenuidade moral; a sau-

dade da

pátria,

que tanto o inspirara, não o accommettia

agora, envolvido nas pequenas paixões dos outros sos emigrados que viviam á solta,
cia,

numeroresistên-

sem plano de
forte

nem

ideal politico.

Era preciso a

lidade da vida para Garrett sòr outra vez

emoção da reachamado ao amor
faria

da Arte;

diz elle, depois
á victoria

de contar a sua longa esterilidade:
poeta
dois

«A canção

da Terceira, assumpto que

a burra de Ralaam do mais prosaico jornalista,

com

ou três peccadilhos mais, se tanto, são os únicos (versos)
de que

me

accuso.» Isto nos está indicando qual será o

mo-

vei da sua terceira e ultima

phase

litteraria.

Ainda
pou-se

ji'essa

primeira época da emigração, Garrett occu-

em

fazer

uma

synlhese histórica da lilteratura por-

tugueza, que muito lhe devia servir para determinal-o no

caminho da renovação romântica. O Bosquejo da historia da Poesia e da língua portugueza, devia revelar-lhe o espirito
nacional nas creaçôes litterarias, mostrar-lhe até que ponto
as correntes clássicas e auctoritarias da imitação o atrophia-

ram, e revelar-lhe

as condições mais sí^uras para restituir
foi

a esse espirito a sua expressão viva; não
d'esse trabalho destinado unicamente a
vraria.

este o intuito
li-

uma empreza de

Apesar dos muitos erros do Bosquejo da historia da Poesia e lingua portugueza, publicado

em

Paris

em

1827

em

frente de uraa selecta de excerplos da litteratura portugueza,

* Camões, nota F. do canto x.

198

raSTOBIA DO ROMANTISMO

EM PORTUGAL

este rápido esboço devia considerar-se

um

grande génio

critico,

uma revelação de porque não tinha precedentes, por-

que nunca nenhum escriptor nosso presentira o minimo vislumbre de unidade philosophica n'esla descurada litteratura.
Garrett determinava-lhe a sua evolução histórica, caracterisava-lhe os principaes escriptores, as feições de cada epoca^

mas, tudo

isto estava feito já

com uma
a

valentia niexcedi-

vel por estrangeiros.

De 1805

1829 o grande philologo

Bouíerweck, publicava na Historia da Poesia e da Eloquência

dos povos modernos a Historia da Litteratura portti-

gueza, accentuando os traços por forma que ficarão para

sempre

definitivos; ainda

em 1819 o

grande historiador Sis-

monde de Sismondi, nas

Litteratiiras do Meio

Dia da Eu-

ropa, historiava a vida moral e artística da litteratura por-

tugueza, seguro nos seus juízos sobretudo quando se en-

1825 o erudito viajante Ferdinand Denis publicava o seu Resume de VHistoire litteraire du Portugal^ com aquella lucidez vulgarisadora do espirito
costa a Bouterweck.
*

Em

francez. Conhecidos estes livros e as condiçijes

em que

fo-

ram

escriplos, e a superioridade intellectual d'aquelles

que

souberam achar a unidade philosophica da litteratura portugueza e a sua connexão com o grupo das litteraturas românicas que a explicam, 6 que se conhece o mediano valor do Bosquejo de Garrett,

composto sobre estes valiosos

recursos. Garrett parte ainda dos seguintes preconceitos:

da existência de ugaa lingua romance, que era o provençal d'onde sairam as outras linguas novo-la tinas; da formação

do portuguez pela mescla das linguas de todos os povos que
invadiram a Península, sem comprehender que não pode

1

Bouterweck,

foi

auxiliado

com

os subsídios malcriaes para a Historia da

Litteratura porlugueza, por uni sábio portuguez seu amipo, inodiDcando assina

o seu plano, que era tratal-a como

um

supplcmento da Litteratura espanhola;

suppômos com algum fundamento que eate sábio será António de Araújo, o Conde da Barca, amigo o protector de Filinto.

ALMEIDA GABBBTT
existir

199

uma

lingua

sem unidade

syntaxica,

embora no

lé-

xico tenha os mais desligados elementos; ignora a relação
dialectal entre o

portuguez e o gallego

;

ignora o periodo da

poesia provençal portugueza, e da imitação castelhana, e

nem remotamente

faz entrar

o elemento tradicional na con-

stituição da litteralura. Ainda assim, o Bosquejo pertence á

primeira época da emigração de Garrett, quando a sua

acti-

vidade intellectual se exerceu motivada pela necessidade de
consolar-se pensando e escrevendo acerca da pátria.
^

*

o

dr.

copiar

os

Anlonio Nunes de Carvalho era o que eolão se occupava mais de monumentos porluguezes dispersos pelas bibliolhecas eslrangeiras

fraca dirige e sento impossibilidade - escola. em exercícios de forças c em seduçíjes das damas do paço. pela imbecilidade de D. Leopoldina. ódio alimentado pela mãe D. de todos esses males não dos seus dois filhos foi talvez o menor o nascimento solta. De todos os males accumulados sobre a nação portugueza vi. deixando-nos entregues uma defeza heróica sem recursos.200 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL § 3. e como premio d'ella escravisando-nos ao protectorado degradante de Inglaterra. Miguel. terra satyrisa o seu e é erros o titulo. o cerco histórico ds e de Lopes. vida. em casal-os. Pedro morreu. Autolatria carteira. — mentos de os seus Inglaterra. pelo seu Conclusões. Na corte do Rio de Janeiro foram os dois príncipes criados á dos á espontaneidade de instinctos brutaes. as lyrica cahidas. deixa- D. — Garrett descreve — Conhece consequências da reacçSo chateaubrianesca do Romantismo guerras do ao Romantismo. que era a destinada para D. com duas princezas da familia Por um accidente imprevisto a princeza destinada para D. — A ultima phase época: — romance —Relações com a sua — Os a de geracSo que Garrett condemna a — — Os modeduzida da sua organisar admirador Gomes de Amorim. • dos Açores. Miguel. Pedro e D. últimos Garrett. para trazer os dois príncipes á disciplina moral pensou-se e negociou-se os casamentos real da Áustria. João qne provocou a invasão franceza e nos abandonou depois ao inimigo fugindo para o Brazil a com as riquezas publicas. Caracter da segunda emigraçSo em as e atlribue-a as luclas alecrim e raangerona. Carlota . vida politica desperta todos os prestantes. inéditos: o brasileiro Helena. D'aqui se originou o ódio profundo entre os dois irmãos. e fez-se-lhe o como príncipe herdeiro casamento com D. e inutilisa-os litteratura. — Chama supposta perda de — A expedição Arco SanfAnna a — Durante do Porto — O romance —A ambições desenfreadas em FcrnSo lenda — Nas Viagens para a homens da tempo a primeira victima dos na minha das Folhas commendas. inéditos.— Da segunda emigração era 1828 ale á morle de Garrett amores em 1828.

logo que viu levantadas as forcas e atulhadas as enxovias. sem fallarmos no confisco dos bens. Pedro estava no Brazil em 10 de maio de I8á0. havia Garrett soffrido três mezes de cadeia como redactor do Portugiwz. mandou-o cumprimentar e pedir-lhe as suas ordens. Carlota Joaquina clle o ameaçava de declarar â nação que não era filho de Emfim estes factos revelam como depois da vi morte inesperada e mysteriosa de D. conta d'isto. que. e depois de jurar a Constituição para tomar conta tria. Miguel é chamado da corte de Yienna de Áus- onde estivera desterrado. que durou até ao anno de 18I]3. deixada em testamento a uma filha do mo- narcha. como meio para vir a mar lista. diz-se pirito reaccionário. Garrett. e a re- gência do reino. soffrendo a morte. João trophes. o infante D. simula uma convocação dos Ires estados da sociedade antiga. Elle entendia que isto era lambem seu. refugiou-se em Inglaterra. D. Sob o suave governo da regência de D. e desembarca em Lisboa a 22 de fevereiro de 1828. Maria da (lloria. Começou o terror da legitimidade. agora com . Pedro nâo se sentia seguro no throno de lá. D. conhecido pela policia como partidário das ideias democráticas. para cima de quarenta e seis mil e seiscentas pessoas. Nas tradições byzanlinas da si que para vincular a D.ALMEIDA OAnBETT 201 in- Joaquina. D. o desterro. pela preferencia exclusiva que dava ao fante. Isabel Maria. as cousas se encaminhavam para tremendas catas- como imperador. do poder executivo. Miguel seu logar-lenente no reino e abdica o throno de Portugal em sua filha D. e mandou to- para cá a Constituição de 182G. D. Pedro para de encontro ao mal nomeia o infante D. João VI. e declarou-se rei absoluto em 30 de junho de 1828. chegou a fazer d'elle o instrumento cego do seu esfamilia. Levanta-se então um partido chamado ir reair- excitado por Carlota Joaquina e auxiliado por seu mão o miserável Fernando vii. Miguel. a emigração. dissolve as camarás.

e em que con- 1 Segunda vez demillído do seu logar por decrelo de 18 de agosto de 1828. nyo hesitaria em fazer-lhe uma tre* menda accLisaçâo publica paca o brindar com o garrote. Garrett viveu como artista ao trabalho da reno- vação do Romantismo. Anatomia. a uma princeza. Em em era quanto se organisou o exercito Inglaterra assistindo liberal. Tratando da educação scienti- fica. 2 Eis o sclieuia d'essa classíGcação Geologia. . base de uma methodologia. como a dama dos pensamentos dos e na preoccupação d'este pensamento Garrett e publicou emprehendeu destinado em Inglaterra um livro ou Tratado de Educação. Agricultara ele.: 202 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL as forcas miguelinas arvoradas era-lhe impossível evitar a morte. formado com artigos soltos da época em que redigia o Portuguez. Medicina. Í Architeclura. D'este periodo da emigração é também o livro intitulado Portugal na balança da Europa. O hvro é pueril. a de philosophia no critério do auctor é supprida por muita religião e muita moral e em phrases vagas com citações auctoritarias. jZoologia. abaixo do que já então se ^ conhecia de Bacon ou de D'Alembert. II Sciencias que analysam suas propriedades ^CbittIica. Bastava para tanto o seu talento litterario. A joven rainha D. ( l*hysiologia. o auctor da Besta esfolada e da Tripa virada. íPysica. por- que a inveja que lhe tinha o padre José Agostinho de Macedo. e sem sciencia falta pedagógica. Maria da Gloria voluntários liberaes. que açulava com os seus desregramentos de linguagem os fu- rores dos legitimistas. 'Mineralogia. I Sciencias que descrevem os objectos da naturesa /Botânica. Garrett apresenta também uma classiíicaçâo das scien- cias.

que relaçSo d'esla recita do Calão. e sobretudo com inexcedivol veia eomica. Balthazar de Almeida Pimentel. António Cabral do Sá Nogueira. Os emigrados portuguezes representaram-lhe em Plymoulh a tragedia Catão. para l<S7í.ALMEIliA GARRETT 203 clue pela necessidade do regimen constitucional. João Nepomuceno de Lacerda. bem própria para disperlar a expansiva e contagiosa hilaridade. Bernardo do Sá Negueira. em 27 de junho de 1832. Pertence ao anno de 1828 a primeira colleccionação dos seus versos. Miguel ao embarcar na expedição para o Porto. e outros mais. No mesmo banco com José Estevam e major Menezes. a apathia. Inglaterra nâo foi A de simples galanteria. 2â9.» Pag. politicas e litterarias. António Cesfar oc Vasconcellos Corrêa. outros. Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque. Agostinho José Freire. Januário Vicente Camacho. A outros trabalhos se refere Garrett. Joaquim António de Magalhães. D. A par de Almeida Garrett. marquez de Ficalho. em geral se manifestou. as incertezas da suppôr-se pelos episódios contados por Garrett no romance digressivo das Viagens na minha causa liberal. Júlio Máximo de Oliveira Pimentel. Ali se viam Alexandre Herculano. coramandante dos foluntarios. José da Silva Carvalho. via. José Maria Baldy. ciiconlra-se uraa em janeiro de 1829: tÉ para aqui memorar muitas das nossas illustracões militares. Joaquim Bento Pereira. general Pisarro. perdidos na barra do Porto vida em um em navio meltido a pique pelas balas miguelistas. José Victorino Damásio. cgualmente executada com toda a mestria. Cândido José Xavier. que intitulou Lyrica de João Mínimo. Júlio Gomes da Silva Sanches.se o grande general Condo de Villa-Flor. uma tragedia do Infante Santo e um poema so- bre a genealogia dos Menezes. Carlos Mascarenhas. as traições. quo se encontravam no concurso dos espectadores. Simão José da Luz. «Segueiu-sc á representação da tragedia a jocosa farça inliulada Os Doidos. em que se acham reunidos os primeiros ensaios comprehendidos até á época decisiva de d824. Vellez Caldeira. Marquez de Loulé. Joaquim António de Aguiar. uns deixados na ilha de S. Bartholomeu dos Martyres. que não occorrem de momento á nossa reminiscência. . a quem n'esta narrativa cumpre prestar a primeira homenagem. major Pacheco. tudo levava aquelle es- pirito a procurar nos trabalhos litterarios uma verdadeira consolação moral. como um poema sobre os Doze de Inglaterra. coronel Xaxier. estavam sentados Passos Manuel c Passos José. * era uma recordação saudosa da grande época libe- 1 No Xlmanach insulano para Açores e Madeira. Luiz Pinto de Mendonça Arraes. como pôde terra.

2 Os ensaim do Catão. Garrett.204 ral HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL de 1821. Pedro em cartas que escrevia ao Marfaz caso quez de Rezende.» * á leitura Isle. Miguel. que precedeu a esplendida revelação do seu génio dramático: «Em Londres. . para a no batalhão académico. diz que o povo portuguez não da liberdade. alistado guiu para esse único reducto aberto aos liberaes. e livros falia com saudade das amisades e dos que ahi deixou. Junto de Garrett vivia o seu antigo compa- nheiro Paulo Midosi. Garrett celebrou Praia. Os emigrados portuguezes reuniram-se na bahia de Belle d'onde embarcaram a 2 de fevereiro de 1832. em 27 to- de junho de 1832. Midosi. na ultima emigração. Fechado no cerco do Porto. aproveitada por D. xxi. se- ilha Terceira. Prefacio diis Fabulas c Folhas cahidas. O poeta eslava em uma grande elaboraçcío artistica. onde 1 P. Pedro a beneficio de sua Pela sua parte D. só as reiteradas instan- cias de meu pae. nos prólogos dos seus hvros allude ás mil difficuldades que emba- raçavam a expedição e que compromettiam a causa da filha. p. o Anacreonte que zom- bava com o prazer. (Paulo Midosi) do marquez de Ficalho e do que escre- de Jervis de Athouguia o forçaram via. e que o seu pensamento é constitucionalisal-o á força. Garrett foi apro- veitado pelo governo da Regência para redigir os decretos de reformas judiciacs e administrativas. em cuja casa se fizeram os primeiros ensaios da tragedia inaugurada no theatro do Bairro Alto. Garrett descreve a partida da expedição liberal da ilha de S. e a si em uma ode a victoria de Villa da mesmo se confere o titulo de Tyrteo: «Que é do Alceo que bramia liberdade. o Tyrteo que precedia as pkalanges da Terceira ao pé do pendão azul e branco dajoven RUinha dos exilados?» ^ Durante a campanha na ilha Terceira. liberdade.

O Arco de SanfAnna. e occupado especialmente em trabalhos de secretaria. mâo de el-rei D. el-roi quando cslo ouviu. lançasse toJos fora do paço. e ante que chegasse. guisa ([ue no paço nom hcou nenhum e foi livre toda a gente. e per sua mão tirou ao bispo todas suas vestidura-t. a lenda Com um grandíssimo tino artístico aproveitou do bispo do Porto azurragado por Pedro i. entrou na camera onde el-rei estava. com espanto d'ameaças de morte que lhe o bispo mandava poer. que nio leixasaem entrar nenhum dentro mas que lhe dissessem que se fossem para as pousadas. p. Garrett teve a intuição histórica das antigas luctas do burgo independente contra prepotência feudal do seu bispo. o om lhe . dortnia com uma mulher de um cidadão dos bons que bavia na dita cidade. * por ventura estimulado pela festa popular que aunualmente 1 o Chronlsla. depois que chegou ao logar e houve comido. o Justiceiro. que elle desde * Comprehendeu perfeitamente o seu modelo. No momento em que a cidade do Porto resistia com o mais. mandou dizer ao bispo que fo. que depois que o bispo entrasse na caraera. íallou com seus porteiros. cá elle tinha de fazer uma cousa. nom via o dia que estivesse com elle para lh'o haver de perguntar. também os do bispo. duvida. culano considerava-o infundadamente como seu discipulo. . que jhe confessasse u verdade d'aquel maleGcio em que isso era culpado . desvestiu-se logo e (içou era uma saia d'escarlala. Garrett occupava-se nas horas de desenfado elaborando o seu lindo romance histórico época memorável.»se ao paro que o havia mister por causas de seu serviço. e começou de o requerer. e que elle não era ousado d» tornar a elle. no campo do romance histórico. que el-rei parlindo-se d'Anlre Doiro c 2 «Ccrlo e nom ponhaes Minho por foi informado que o bispo d'csse logar (Porlo) que então tinha grande fama de fazenda e honra. por saber do que guisa era. e os porteiros fizeram logo sair todos os seus e outros em vir á cidade do Porto.ALMEIDA GARBETT 205 dos foram dignamente heroes. Garrett enlhusiasmara-se commantambém com os romances históricos de Watter Scott. Her- 1827 recommendava á imitação. como quaes(|uer outros. vol. que só acabou dez annos depois d'essa O romance é dedicado ao seu dante o coronel Luna. assombroso heroísmo ás forças accnmuladas pelo poder absoluto coHigado em volta d'ella com o fanatismo a canibalesco dos frades. 87. El-rei como foi adeparle com o bispo. O bispo como veiu. na prosa pittoresca de Fernão Lopes. em que nilo queria que fossem presenlei. e que ainda que alguns do conselho viessem. foi ii. e logo sem muita tardança.

206 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL se celebrava diante do nicho junto do Arco de SanfAnna. mas para tor- nal-a um meio de expressão por onde a aspiração moderna se pôde tornar sympathica. o seu inimitável estylo digressivo. e nom lh'o podiam já tirar das mãos. iv. c per tal azo e fingimento ouveram entrada dentro na camera. com que aligeira o processo descriptivo. que per seu corpo justiçava os homens.! (Collecção de Livros inéditos da Historia poriugueza^ t. passados annos poz a ultima Anna para ainda com mâo no Arco de Sanfo mesmo espirito de combate. cá por tal feito. Com estas e outras taes razoes. fosse sua morcè de nom pocr mão em elle. e começaram de dizer que. e o triumpho finitivo.) Castella a . e acharam el-rei cora o bispo em razões da guisa que havemos dito. Em 24 de julho de 1833 entrava em Lisboa o Duque da Terceira. e a maneira que em tacs feitos tinha. Garrett possuia o talento dramático. e foram-se á pressa ao Condo Velho. que acorressem asinha ao bispo. se nom fora Gonçalo Vasques de Góes seu escrivjlo da Puridade. que disse que queria entrar por lhe mostrar cartas que sobscrevcram del-rei de gram pressa. Os cria dos do bispo quando no começo viram que os deitavam fora. pelo que sabiam que o bispo flizendo isto. cap. na parte velha da cidade. o que nom convinha a el de fazer por rauilo malfeitores que fossem. e por isso o Arco de SanfAnna é animado nos diálo- gos e cheio de interesse nas situações. vii. ChroD. foi Garrett. o a outros privados do seu conselho. haveria o l*apa sanha d'elle. dcsi juntando a esto a condição d'eh"ei. e isso mesmo o outros todos e que nenhum nom ousara lá d'ir. fl. co- na railo una grande açoute para o brandir com elle. Garrett inspira-se da tradição nacional. subUme da causa hberal ficava de- Garrett foi então pela segunda vez reintegrado no seu logar de official por decreto de 28 de julho de i833. demais que o seu povo lhe chamava algoz. linha fazia. arrefeceu el-rei de sua brava sanha. logo suspeitaram que ol-rei lhe queria jogar algum mão jogo. para acordar o espirito publico contra os meneios doclericalismo. Aqui se vô a diíferença entre o processo de Garrett e o de Herculano. e o bispo se partiu dante elle com semblante triste o torvado coração. Pedro i. e logo lostemcnenle veheram a el-rei e nom ousaram de entrar na caraera por a deíeza que el-rei linha posto. acha-se impropriamente empregado no romance. e ao mestre de Ghrislus D. nom lhe guardando suajurdição. Nuno Freire. porque o dilue em excesso e enfraquece o andamento da acção. de D. Quando terminal-o. não para a diluir em prosa archaica.21 a 23.

Vilhena. quando lhe levava os autos. dizia-lhe «—Oh tos? . vol. Havia um fer- vor de renascença nacional. se deslituiam e se apoderavam das pastas ministeriaes. e e a creação de dia e valia foi uma das primeiras preoccutlieatro pações de Garrett era a restauração do portuguez Conservatório. Emquanto os seus companheiros das lides um do Porto se degladiavam no parlamento. iv.* Vista ás partes. (Yid. Garrett por decreto de i4 de novembro d'esle anno foi nomeado juiz de segunda instancia commercial: aGarrett tão pouco caso fazia das suas funcções de juiz. Historia do Theatro portuguez. Iratada Esta parle da actividade lilteraria de Garrett é tão itnportaDte. já fallecido. e era o primeiro a íixar os typos das novas formas draas l)ellas concepções do Auto de Gil Vicente. Garrett seguiu o partido setembrista. fiel de feitos de João Carlos Vieira da Cruz. estava no esplendor do génio. mas o seu pensamento foi realisado integralmente. á custa do enthusiasrao que infun- em volta de si. de que era ^ relator. antiquíssimo escrivão da segunda instancia commercial. que ao ve- lho Francisco. e no periodo da mais brilliante fecundidade. Francisco! que queres que ponha aqui nos au- «—Ponha 1 V. * máticas com do Alfageme de Santarém e da D. Philippa de N'esta generosa aspiração foi Garrett surprehendido muitas vezes pelas grandes agitações politicas dos setembristas de 183C e dos dia cabralistas de 18 W. Garrett proseguia no empenho desinteressado da fundação do theatro nacional. Tudo quanto Garrett poempregado na consecussão d'esla alta empreza. Como antigo partidário da Revolução de 18^0. qoe foi em um livro especial intilalado Garrett e os Dramas românticos. ex. que fez reviver a ideia da soberania nacional pondo em vigor a Carta consti- tucional de 18áá.) .: ALMEIDA GARRETT 207 meçando para elle uma éra nova de trabalho.

— Vista partes. xxx. Garrett foi demittído do logar de Chronislamór do reino. prova-nos que elle fez algumas conces- sões das suas doutrinas da soberania nacional. Nas terríveis oscilações politicas de 1836. de 1825.» A profunda admiração que Garrett consagrava ao Duque cliefe de Palmella. Birmin- gham. como ministro na Bélgica e em Copenhague. ou partido da Carla ou- em 1826. que o seu actual possuidor caracterisa de «rascunha em que trcs capítulos foi de ^ um conto satyrico allusivo á época em escripto. Misturando Garrett quasi sempre a sua personalidade ás elle obras hlterarias que escrevia. a Associação dos Advogados chamou-o * desde logo para o seu grémio. Garrett soube conservar-se entre o partido nacional c o partido do governo pessoal da rai- nha. (Viil. p. 1841 proferiu Na celebre legislatura de resposta ao Discurso da coroa. Ensaios do Calão. 1842. recebendo todas as honras. o torgada do Cartismo. vindo por essa via a entrar em um ministério de conciliação na época regeneradora de 1852. admira-nos o não ter blicado pu- Memorias ou qualquer outra relação da época fecunda de luctas moraes por que a Europa passava no tempo em que esteve fora de Portugal. .208 « HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL crevia — Lá vae por tua conta. OíTicio de 12 de novembro de 1841. em 10 de juibo.» No mesmo catalogo se encontra citado um Diário da minha viagem a Inglaterra — 1823. No catalogo dos seus autographos encontram-se umas Memorias de João Cõradinho. como elle a o pariato. e es- «Não obstante tamanha repugnância á magistratura e quizilia á jurisprudência. e lamentando-se ^ sempre da fatalidade das revoluções. lendo-sc a seguinte nota logo na primeira folha: «Os primeiros cadernos d'este Diário são copiados d'outros que Paulo Widosi.) Na reacção cabralina de 1841. ^ 2 3 A[)ud Uekna. 18'(6 e 1852. ás retrucava ainda Garrett. conhe- cida pelo titulo de Discurso de Porto Pireii.

1843). mas interrompido muitas meça em vezes. O mais que tivemos foram as Apod Helena. t. de um trabalho antigo. \xi\\ (ed. desde a Edade Media até hoje. em 1839. i. segundo os editores. Birmingham. como sobre * os documentos. talvez despeitado pela sua demissão de Chronista-múr do reino. ai se cita como devendo formar o novo volume da collecçâo o seguinte: ^Dois annos da minha vida. * Romanceiro. Na litteratura portugueza não existem re- memorias tempo. suspensão indefinida propriamente dita.ALMEIDA GARRETT 20^ escrevi na minha primeira viagem. que agora jurei de acabar: são Vinte annos da historia de Portugal. periodo que co18:20 e chega aos dias de hoje. funda-se tanto sobre as memorias particulares. e nenhum tempo ou ' logar me gou tar sobrará portanto para mais nada. p. livre porque os nossos escriptores não a ceberam essa educação que nos ensina julgar o nosso A historia geral da Europa. os trasladei para este livro. mas que não sei se já anda mais enredado e confuso do que o dos mais antigos e obscuros séculos da monarchia. I 14 . a ioda a occupação litleraria para absolutamente á conclusão me dedicar.» * No prospecto da edição completa das obras de Garrett publi- cado pela casa Bertrand. em- quanto posso e valho. p. Beminiscencias da emigração e Memorias do cerco do Porto. Agora para os juntar ao que vou escrevendo e lhes dar egual formato. porque. prologo. de íG de julho de 1841: «Eu tenho posto termo ou pelo menos.» Esta obra não che- a ser publicada.» Nós cremos que os Vinte annos da historia de Portugal nunca foram escriptos. ou antes d'elles diz Garrett. em nome com que estava «receioso de arrosde hi^to^iador con- a audaciosa responsabilidade temporâneo. xxxii. históricas. outubro 5 de 1823. porque no Catalogo dos au- tographos e inéditos de Garrett não se acha o minimo vestigio d'esta obra. Espero começar a publical-o no fim d'este anno. r> Ainda em 18'a3 escrevia Garrett.

c ortal gulhosas por acordarem uma paixão no dehcado poeta. e entregar-se á revisão dos seus trabalhos litterarios: «N'esse anno. e de serem cantadas como o seu * Prologo das Fabulas e Folhas cahlias. que em 1841 acabou de desilludir todos os verdadeiros partidários da Carta consti- tucional de 1826. no emtanto o coração do poeta era disputado por duas tocracia lisbonense. retirado a descansar no campo de grandes fadigas de corpo e de espirito. mas não pôde passar além nacional. vi. desillusão que Herculano descreve com amargura no novo prologo da Voz do Propheta. Resmas e resmas de papel lho vimos destruir e queimar ao fazer d'esta escolha. das Folhas cahidas. paixão absorvente e que lhe exau riu o vigor physico e o levou á sepultura. uma sensualidade excitada pela posição social dos amantes e ambos casados da edade. ideal. e a escolher as principaes das que. Nada ha de mais elegância artis ardente na poesia portugueza do que essas estrophes re passadas de sensualidade velada por tica. . Garrett entendeu dever retirar-se por algum tempo da politica. tinha arrancado a condescendência sistível inspiração em mais feita edade. p.210 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL foi Relações de viagem e os Roteiros. deu emfim algumas horas de mais zer a la- repassar as composições de sua infância litteraria. em lucta com a decepção e com o tédio A mulher de Garrett vivia em Paris. lhe a irre- com amigos. ou de algum objecto ou circumstancia da vida que mais o impressionara. pelo vicio da educação No começo da reacção cabralina. ávidas damas da aris- de emoções romanescas. por onde Garrett co- meçou.» * D'este trabalho resultou a refundição definitiva da Lyvica de João MinimOy das Flores sem fructo e das Fabulas. N'este período da vida de Garrett é que coUocámos essa tardia paixão amorosa que transparece no exaltado lyrismo 1'atal.

a eu u'essa cruz — / Minha alma que renascia.. — Não tinham luz de Era chamma de queimar. p. divino. era luz Que mandava ao corarSo. Era assim o seu faltar. e é ifeste conflicto que vem o esgotamento physico Pois cs?a luz scintillanle Que brilha no teu semblante D'onde lhe vem o esplendor? Nilo sentes no peito a chanima. Couio o facho do destino. E eu niorlo. £ o ncu sêr se dividia. 189. cu descrido. Que aos meus suspiros E toda reluz do aoior? so intlanima 2 . Garrett nomes occultos d'essas damas: um trocadilho com Eu só. e da realidade mais ideal. I . cheia a da eloquência a mais descreve o seu des- abundante. ^ Mas uma paixão vence lhe a outra. não seduz.. « Ibid. * Folhas cahidas. Na pequena ode Não alento: és tu. 167. Não era fogo.: ALMEIDA GABBETT 211 faz os Na odesinha o Anjo cahído. Eu tive o arrojo atrevido De amar um anjo sem luz. : Que penetra. ^ 3 E n'cssa outra ode Seus olhos: Seus olhos — se eu sei pintar O E (jue os meus olhos cegou brilhar. 2 Ibid. Cravei. eterno. Ingénuo e quasi vulgar. Tinha o poder da rasão. Que toda em »ua alma puz. Ii2. p. o fogo que a ateou Vivaz. p.

voaram. Ibid. ousamos affirmal-o. como partido das suas decepções um a que deu o nome de Folhas cahidas. . as Fo- lhas cahidas só appareceram na publicidade sei em principios de janeiro de 1853. de 1852. em nenhuma litteratura antiga ou moderna poderá achar-se cousa que lhe seja comparável. SenSo a cinza em que ardi. Visconde. : EM PORTUGAL 1 Ao mesmo tempo mas grave vi. prelo las em mas ou pelo receio da inconfidência.» ^ Com a febre do amor. : 212 HISTORIA DO ROMANTISMO Divino. era a febre da representação e do poder. . Grara-Cruz da ordem da Rosa. em 2 de julho de 1852. Balioegramcruz do Hospital. D'esses versos escreve o poeta: «Não sei se são bons ou máos estes versos. . ministro dos estrangeiros n'esse mesmo anno. E de tão fatal poder. em que se condecorou com varias gram-cru- zes. mas é verdade. 218.» ^ O publico leu com avidez as Folhas cahidas. 116. de uma ar- dência e profundidade subjectiva. metteu-o no 1851. e de — \q- vada^de bons máos ventos .* a inanição atacou-o 1 morrendo em Lisboa. p. em 9 de de- 2 Ibid.. Garrett tirou livro. p. IX. que. Que. i O poema admirável d'esta paixão. da Estreita Polar da Suécia. em 27 de março de 1852 do Nichan Iftiar da Turquia. 3 Folhas cahidas. por de- creto de ^5 de junho de 1851. que gosto mais d'elle5 do que nenhuns outros que fizesse. em 19 dejunbo.. . Porque? É impos- sível dizel-o. uma outra febre acabava de consummir Garrett. em li de abril de 1852. 4 . par do reino por decreto de 13 de janeiro de 1852.. Depois d'esses dramas de alcova. intitula-se Cascaes . da ordem de Leopoldo. um só momento que a Queimar toda a alma senti Nem ficou mais do meu sêr. eterno e suave. ou pe- novas occupações pela sua chamada ao ministério. em 4 de agosto de 1852.s3iO oito estrophes em verso de redondilha maior. que sB tornaram um pequeno escândalo «Em poucos dias porém desappareceram as Folhas. . p.

que. O estado de espirito em que estava Garrett pouco antes de morrer. solidão explicável. Gomes de Amorim. . coração. vô-se no romance Helena. e um . .ALMEIDA GABRETT 213 p zembro de '18o4. cujo ultimo caderno tem a data de 3 de setembro de 1853. debruçado nos balcões ideiaes de e imaginário eslylo .» bom christão. em ão.) N'este romance ha uma confissão ingénua da nenhuma influencia que Garrett direc- exercia na mocidade do seu tempo. Os seus mauuscriptos Gearam a uma Olha natural do poeta. abraçado á cruz. descreve lambem em que morreu * o poeta.» (p. . que o acompanhou até aos seus últimos resco as minúcias momentos. negros pensamentos que balouçam tristemente ao vento da solidão no crepúsculo da noite . desesperação ou similhantes e imbasbacadofica o Grémio Litterario.) Garrett referia-se e de Palmei- ao lyrismo banal da escola de João de Lemos rim. e apodava a mallograda reforma da Academia das * A sua i^iuva casou em Paris com o ncgocianlc Luiz d'Etrillac. com os olhos na Eram estas phrases o commentario perpetuo das Fo- lhas ca/lidas. e quando já se attribuía publicamente o titulo de chefe da iitteratnra. etc. onde procurou tratar-se da sua doença. sem uma ção sensata se lançara nos exaggeros do Ultra-Romantismo. diz elle: «eu escrevo uma . . 50. o Centro Commercial. não faço versos á lua. devorado pelo verme roedor dos etc. historia. o grande amigo e sarcástico Rodrigo da Fonseca Magalhães descrevia assim o passamento: «Morreu como luz. uma creação caprichosa . porque as damas que o recebiam não queriam Depois que Garrett seu que as tomassem por suas amantes. descreve no Archko Pitto- com que a solidão Garrett mobilou a casa da rua de Santa Içabel. agudo depois . que deixara incompleto e inédito. xxix. expirou. e não sei se a Academia depois de regenerada. com três ver- sos na mesma rima seguida. (p.

além de um nome de be- gónia. o conforto inglez e a galanteria franceza. graça e invenção do que elle próprio com Entra aqui por muito a acção do O sentimento da Helena é também aífeclado e de uma fa- tenuidade que chega ao fade. talentos. 1846 e 1847. Arranjou um tas. Garrett com desespero. herdou talmente a sensiblerie idylica.214 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Sciencias de Lisboa. As suas descripçoes resumem-se nas minúcias das vestimen- do serviço de mesa. faz isto apenas tral. na disposição da mobilia. fundo de quadro falso. tão píagiados por Mendes Leal no Calabar e Bandeirantes. apenas vinda do collegio. Garrett em duas linhas. dentro ainda do século xvni. para desenhar á vontade. é que se vê bem a aca- nhada organisação dos nossos preconisados rett rica. O romance é localisado a algumas léguas da Bahia. para rehaver o favori- tismo da rainha. e só conseguiu cudil-a uma vez sa- com um Ímpeto natural no Frei Luiz de Sonsa e nas . vendo Saldanha atraiçoar o movimento da Regeneração. que qualquer ignorada miss ingleza. Gar- conhecendo a impossibilidade ali de pintar a vida da Ame- transportou para as paisagens da Escossia. de um sabiá ou de um macisso de palmeiras nada mais lhe pôde representar da grande vida da America. de que fôra vogal na commissâo Helena or- ganisada em 28 de junho de ISod. Era essa a também preoccupação com que se instalara na residência dizia de Santa Isabel. A foi a ul- tima obra de Garrett. novella com mais esforço vida. compunha uma meio. por ventura o seu enlevo de espirito quando recebeu a derradeira decepção politica. que se apoiava nas resistências de 1836. da Suissa. não longe do semicírculo do Recôncavo. n'essa febre papelistica do primeiro momento da Regeneração. Gus- Aymard ou Paul du Plessis. Garrett não nascera impune- mente em 1799. á maneira de rubrica thea- porque a sua imaginação. Depois que se lêem os romances de tavo um Gabriel Ferry.

I ALMEIDA GARRETT 215 Folhas cahidas. o Visconde de Itahe. segundo a situação já revelada nas Folhas cahidas. tivera intima amisade brazileiro. a ir uma quem criança de nove annos que ado- puzera o nome de America brou-se de um dia herborisar á Lemcom a recommendava a um tio. e desgostoso se retirara entre- gando-se diletlantescamenle ao amor da botânica. e começam a discutil-a. descreve- Hie o fato. É recebido na intimidade pelo Visconde de Itahe. A Helena lem uma acção sem movimento e faltam-lhe caracteres. de Bressac. A situação começa com um. e salvara com um mancebo Helena. á qual poz o nome da sua pupilla mysteriosa. e filha. que o . obrar. no seu periodo bellico. que com outros prelos o veiu buscar em uma canoa para casa de seu amo. a edade. pelas palavras vagas e presentimentos do fragmento: de fa- vem com a fdha á Europa. pias sabe que o sobrinho que tanto amava. sr. em vez de a fazer fallar. chamada Isabel. e partiu ptara como sua. chamado Spiridião Cassiano de INIello o xMatlos. de Bressac para a sua pupilla. O desenlace da Helena é cto o Visconde fácil do prever. que tem uma filha muito linda. uma entidade moral. em sua Paris. e que julgava seu futuro genro. romance ha um que estivera nas luctas da independência da Grécia. o surprehendido por um prelo. Em consequência d'isto o de Bressac persuade o Visconde de itahe a fazer uma viagem até á Europa. Aqui licou interrompido o romance pelo falleci- mento do Garrett. as posturas. Helena morre de romanlis- . incapaz de desenhar um typo. é pretendido pelo sr. com quem o Visconde projecta o casamento de n'isto a dona da casa morre de inanição. No meio d'esle devaneio botanico-paternal. monologo de contemplação do Conde de Bressac por uma passiflora que encontrou próximo da Bahia. e uma esposa muito doente chamada Maria Thereza falla-se do primo que está carta do seu amigo. N'este viajante francez o sr. Tra- va-se aqui o confliclo de duas paixões. typo ridículo.

a bella organisação litteraria de Vil- Quando nós vemos politica. em Lisboa. É esta a consequência o espirito lógica em harmonia com do romance e com a orientação do romantismo emanuelico. O grande talento artístico de Garrett não tinha outras bases scientificas além das suas primeiras faltava-lhe leituras do tempo de Coim- bra. é quando comprehendemos até que . imitaram. publicado ainda em 1844. para ser dirigente possuia a generalidade de vistas. reagiam contra a seducção do seu brilhantismo. mas uma especialidade. plagiaram. sacrificando a vida á propagação evan- emancipação dos escravos. e o cardeal Saraiva ao vèr a leviandade em que caiu Garrett plagiando esse pobre ar- tigo francez.216 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL mo. e a consciên- sim. Esta phrase caracterisa bem os escriptores portugue- zes do Romantismo. Além de por falta outros peccados litterarios. para supprir as- sim a falta de estudo ou de ideias. como o elogio em bocca própria. lemain ser quasi completamente aniquilada pela ambição como o provou Littré no seu Discurso de recepção na Academia franceza. Citaremos o conhecido do artigo de bibliographia sobre o Rowancero espagnol de Damas-Hinard. de Bressac consola-se escrevendo monographias sobre a sua passiflora. infeliz algumas facto bera vezes caiu no acto do plagiato. paraphrasearam. os factos superficialmente citados n'esse artigo foram traduzidos por Garrett formando o texto original do seu Opúsculo acerca da Origem da língua por- tugueza. o erudito exclusivo e Os velhos espíritos esmaçudo. publicado na Ilhistratíon de 16 de novembro de 1844. dizia compungido mas glorioso — Elles são aster ideias. traduziram como quem quer fazer livros sem quando chegaram cia a exercer acção não tiveram de um destino. e a fillia do Visconde regressa á pátria sem querer gélica e casar. pecialistas. que Garrett usa em todos os seus prólogos de consciência da acção que exercia.

absorvidos pelos partidos políticos. e é já vèr o poeta dejá clarar que pôde ser almolacé do seu bairro. o prazer de mandar tem lismo que dura pouco. Her- culano observa a inlUieucia do periodo politico constitucional na esterilidade dos talentos: «os bons engenhos. persidentes de republicas. ções imperfeitas. do poder. e elle tantos terrível verdade estava incurso eminentes espíritos como Rodrigo da Fonseca Magalhães. embaixadores. uma certa sensualidade de canibamas que fascina muito as organisa- E esses poetas ministros. dispor de in- fluencia. um desenfado. José Estevam. e dictadores momentâneos. os que Doestes últimos tempos a nossa terra tem indubitavelmente pro- duzido. dizia Gomte. e a que Augusto Comte chamou com tanta lucidez os parti- dos médios. medalhas. porque essa intervenção dá ao talento o relevo da realidade e de uma philosophia pratica. são como ceram litica. ou a exercitarem cargos públicos. mas sim o conflicto de pequenos interesses de grupos que aspiram á governação. são forçados a viverem na almosphera mirradora do mundo lhes politico. vocações frustadas. os que o queriam afastar triste da politica chamavam-lhe poeta.» N'esta Garrett. Manuel Passos. porque da poesia! perdeu o o dom O prazer da creaçâo artística eleva homem e dá-lhe o primado entre todas as gerações. . O trabalho litierario lornoií-se para elle acciden- uma distracção. que nas- estéreis: corromperam a arte e corromperam a po- No prologo da Historia de Portugal. ria esterilisado se O próprio Herculano fica- um despeito profundo o não fizesse aco- Iher-se á tranquillidade consoladora do estudo. em 18iG. ser ministro.ALMEIDA GARRETT 217 ponto Garrett foi inulilisado pelo desejo de participar tamter bém tal. abortivas. que consommem com o tempo e acanham por íim as faculdades do entendimento. a A politica partici- que Herculano se refere não pode ser o facto da pação de um homem ás funcçôes sociaes do seu paiz.

como no Frei Luiz de Sousa e nas Folhas cahidas. depois de rasgada pelo absolutismo a Carta de 1822.218 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL As mais Catão gração liberal foi bellas inspirações de Garrett são aquellas que se ligam á participação directa da politica de princípios: o escripto sobre as emoções democráticas da Revo- lução de 1820. foram os dois pólos da nossa vida parlamentar. é concebido dentro do cerco do Porto em 1832. hoje. e o torna o primeiro n'essa época de reno- vação litteraria. uns pelo excesso da importância individual. o desterro o o cárcere despertam-lhe em 1827 a comprehensão da poesia popular e tradicional. é que accendeu por vezes em Gar- do génio. a politica Desde o fim do côrco do Porto em 1834 até em Portugal não foi mais do que a agitação : egoista de partidos médios intimidar ou corromper. o poema Camões. Não havia ideal de liberdade. outros pelo despeito de vaidades não satisfeitas. era o meio de exercer a auctoridade. nos desalentos da emi- em 1824. . n'esse contagio de heroísmo. o Arco de SanfAnna. Esta relação superior entre o tempo. o Alfageme de Sanfoi tarém escripto entre as luctas do elemento constitucio- nal puro contra o facciosismo da rainha na época da dicta- dura cabralina espirito e o seu rett a faisca em 1842. e Costa Cabral pela pressão arbitraria e Rodrigo da Fonseca iMagalliães pela dissolução. eram todos roíiformes em considerara da vida da nacionalidade. realesa como a glândula pineal Foi por isso que a politica esterilisou os talentos.

O parlamento sem reparo estava fechado. protestaram como consequência da mas não foram ouvidos. e sç organisaram as Conferencias democratkns. mandando por prohibir essas uma geral portaria fundada sobre uma consulta do procurador policial. da coroa.LIVRO II ALEXANDRE HERCULANO (1810— 1 877) Quando Portugal um dia a geração moderna procurou relacionar a com o movimento estrangeiro. Aquolles que pensavam que a circulação das ideias é o estimulo vital de todo o progresso em uma socie- dade. Havia em Portugal um homem que era . e por intimação Conferencias. na lilteralura c na historia. deixou passar uma politica de expedignidade esse ultraje á de um povo livre. um ministro constitucional vio- lou o exercicio da liherdade do pensamento. e que explicavam tria a decadência e o atraso da sua páapathia mental. c a im- prensa jornalistica na espectativa de dientes. dando-lhe conhecer as questões fundamentaes do nosso século na sciencia. na politica.

* Herculano conhecimento do espirito perante a critica. mas a morte eliminou esse factor que pela sua immensa aucloridade e pelo estacionamento em que se deixara íicar começava a exercer uma acção ne- gativa. de severidade que o chamava social. e a esta a ge- competia retirar-lhe o pocritico der espiritual. deve-se revisar a obra de Herculano cora justiça e trazer á verdade o homem legendário. Alexandre Herculano ao cabo de muito tempo publicou uma Carta. nos brindaram com a plirase 1 Foi 203 . Hoje. quando se pronunciava fortalecia-se com o assentimento dos espiritos. 193 a cumprimos um dever moral a despeito das admirações inconscientes. as opiniões entrega vam-se á sua affirmação. Aquelies que foram violados no elle seu direito consultaram-no. na forma a mais espontaneamente reco- nhecida. Herculano era considerado como uma consciência inquebrantável. — . nem violências de combate. appellaram para em ta- manha iniquidade. p. fazendo o processo e da missão da intelligencia ainda teve do grande homem. como es- um povo se entrega a a um salvador. hoje sem paixões. que pedras atiradas á janelia de Herculano. Tinha o poder piritual sobre nação. que os que o idolatraram em vida se esquea subscri- ceram do fetiche quando os convidaram para pção de um monumento. ftste o pensamento do nosso artigo da Bibliographia critica. e a sua voz acostumada á energia do protesto. Nunca ninguém exerceu um poder tão grande.220 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL ouvido como um oráculo. em que dizia que as grandes questões do tempo eram o infallibilismo e o marianismo! que para elle a Democracia eram os miguelistas do cerco do Porto. Desde esse dia em diante Herculano rompeu com ração nova do seu paiz. quando andavam munidos de sacos para o mo- mento em que podessem entrar na cidade.

ALMEIDA GARRETT 221 § I. havia na sua physionomia e no trato pessoal a secura do saloio. refugia-se na esquadra franceza. 1830. filho de Theo- doro Cândido de Araújo. — (De 1810 a — — — — — — — — — — O lypo de Herculano indicava a sua naturalidade.» 1:803. Herculano decide se pelo íjove.) Estado do espirito publico desde o principio do séHereditariedade e alaviénio de Herculano. luto em 1828. versos do século mas em um manuscrípto de Silva. culo até á revolucJo de 1820. Herculano acba-se envolvido n'esse movimento. A hereditariedade moral é um dosphe- nomenos que mais deve interessar a critica moderna. O embarque de Belle Isde. Primeira educarão no Mosteiro da? Necessidades. n. sobretudo quando as biographias são consideradas por Maudsley como um dos mais importantes subsidios da psycho- » Caía%o. recebedor da antiga Junta de Juros. . A expedição franceza ao Tejo em 1831. e a revolta de iníauteria 4 a favor dos liberaes. A Epistola é realmente extraordinária. * que per- tenceu á livraria do bibliographo Innocencio Francisco da acha-se uma Epistola dedicada a Theodoro Cândido fraco poeta José Peixoto do Valle. e alguma cousa quella honradez tradicional se conservou na independência de caracter do filho.-^no absoVersos contra a Carla constitucional. Como estes successos ioDuiram no seu caracter e talento litlerario. O pae de Herculano ficou totalmente desconhecido. Nasceu em Lisboa a 28 de março de 1810. O curío de commercio na Academia real de Marinha. Isto não foi sem inlluencia na educação destino Academia Real de Marinha com mercio. e parte depois para Plymouth. Os*caceteiro9 miguelistas e a anedocla do gilvar. que recebeu na para a aula de comxviii. de Carvalho por um em d'a- que se exaltam as suas virtudes como dignas da eternidade.

e pirito entre a causa a oscillação a do seu es- de D. Sem dar um real do esmola ao pobre alflicto. inspirou-se do amor da architectura no pequeno romance a protestar nos seus artitos A Abobada. Thcodoro Cunditllo epístola. O valimento de Herculano no paço e a sua sympathia pela familia dos Braganças tinha raizès nas antigas funcções de seu avô. acontecimentos e a pressão dos partidos obrigou a 1 Ao Hv. que a violência dos definir. como escri- ptor Herculano conservou sempre uma predilecção pela ter- minologia architeclonica. no Brado a á demolição os mosteilei favor dos Monumentos. a dura eorto i)os bens Do <ie?graçido o triste Sem que d uma só vez Dos gemidos. e foi o primeiro do Panorama. Núo é heroe atiuclle que cercado De dourada haixclla em lauta mesa. Kão c hcroí! o avaro que faminto vil Em seu thcsouro ceva a cobiça. só [)rocura Augmoíitar (|uanio pode.222 logia. contra a indifferença do governo constitucional que deixava expostos ros e collegiadas secularisados pela que extinguiu as or- dens religiosas em 1834. assolam. Jorge Rodrigues de Carvalho. se compadeça do pranto acerbo Do triste orphão. Pedro era o re- sultado de uma affeição indistincta.) . da timida donzella. Vivendo entre grandezas e gosando que nwo merece. (Nota de loDOcencío. Carvalho. # Pae de Alexandre UcrculaDO. os que na guerra Cerrados esquadrões rompem. dcshumanos. Miguel ou de D. desvalido. * E eni sórdida ambição sempre inquieto Dorme éobre>allad() em montes do ouro. * HISTOBIA DO EOMANTISMO EM PORTUGAL O avô de Herculano. atrozes. «Ic Carvalho JNio são lieroes. era pedreiro e mestre de obras da casa real. do< ais. Vertendo o sangue humano os seus triumphos Wo meio do terror e da carriagem : São bárbaros.

: : ALMEIDA GARBETT 223 Ao determinar 1810. E que devem gravar grande nome José Peiaoto do Valle. Costumes sãos da edade de Saturno. Em niveo jaspe. a par da eternidade. os typos azedos e mal humorados. só passo nAo torce na carreira Que um Da magestosa estrada da alta te {floria. Geraram-se as naturezas descontentes. e seguiam principios oppostos aos dos que usavam do podei". depois da entrada dos francezes. te Esta é a Carvalbo. Em'alnia bemfazcja o coo benigno ti Em Que depositou: tenção brilbant*) lodos fazer. estava na mais in- Nao Silo ficrocs. no jugo uma constituinte. illtislre. de Poesi:3 varias. Era teu formoso peito se agasalbam As virtudes gentis do Eterno lilbas A Justiça. a Honra e o lirio. Carvalbo Estas as ({unlidades que adornam Estes 08 dotes teus.» 1. foi a 'data do nascimenlo de Herculano fica-se conhecendo o desgraçado meio moral em em que orientado o seu espirito. Cal. callavam-se os desconlontamenlos era normal o confisco dos bens dos (pie com a forca. 397. Kslc o caracter teu. tismo Ibi a lucta do constitucionalismo com o despo- ferrenha e cannibalcsca. que guia bem. Ouo desbonrartí a terna bumanidude: lleroe é só aquellc que a virluilc A dillicil virtude scfiue bonrado. do protectorado de Inglaterra. que levâia comsigo para o Brazil todos os dinheiros dos cofres públicos. A nação. propagavanj-se as ideias á cacetada. de lei. esses iyriíiinos Que na Hyicania ou mo Caucaj^o noailos Nunca cessam de obrar acções ifífames. a Rasão. e depois da fuga de D. n. (Inédito — Ms. Yivia-se na incertesa. De a amar a lodos. os teus cdsUinics. p. João vi. rege os passos teus e que preside teu A todas as acções que tu praticas. Carvallio.803 . que saquearam o paiz. nspirava-se á liberdade em sophismava-se essa aspiração com uma mo- narchia parlamentar para tornar a cair no absolutismo crasso.

271. infiltravam-se no paiz. Liv. Para os Governadores? Os Executores. Para o Marechal ? Um punhal. . apoderavam-se das inlelligencias educando-as no sentido das doutrinas que mais convinham á sua associação egoista. absorvendo cada vez mais a riquesa territorial pelas doações do fanatismo. povo portuguez sabe pouco ou nada da sua historia. e iam introduzindo nos commandos militares oííiciaes exclusiva- mente ria inglezes. João musica aos pretos. de vez tugal vi entregue á preoccupação de organisar a capella real mandando ensinar em quando enviava para Por- uma Carta regia. Os inglezes.^íou retratado este pe- ríodo de degradação em um pasquim. xvi. e a um leve golpe de circumstancias Beresford convertia mão provocado Portugal em uma pelas feito- de Inglaterra. o Ckilcl mesm© contra Byron e o Harold. D. de 13 de janeiro de 1817.224 HISTORIA DO ROMANTISMO BM PORTUGAL sondavel miséria. e em Herculano no seu escripto de Jersey e Granville conserva-se essa nota de patriótica hostilidade. mas com um instincto de verdade dei. lei? Hei. O espirito de revolta que precipitou Go- mes Freire. 1 ^ ArchíTo da Inlendeucia da policia. fl. Para o Hei ? A Lei. abafado pela Inten- dência da policia: — Quem «O — Quem sancciona a «O — Quem executores? perde Poríugal ? Mareclial. As ordens religiosas. para nâo desacostumar o povo da sua paternal soberania. entregue a uma Junta que governava era nome do monarcha que abandonou o seu povo ao inimigo recommendando-lhe obediência cega. existia na nação contra os inglezes que nos tra- tavam peior do que os exércitos de Napoleão. Reinava a mediocridade nos espíritos e a estupidez ms multidões. i são os «Qs Governadores.

acharam nas reformas de Pombal o ensejo de desenvolverem a sua actividade. Este regimen conservou-se até á abolição dos conventos. que a educação catholica pela leitura da Biblia amoldou a um tom parabólico. * da Lógica de Genuense. Isto bastava em um e pedantismo invencível. Depois de Pombal ter expulso os Jesuítas o ensino publico Geou a cargo de outras ordens religiosas. lèem-íre estas palavras aiitobiographicas : «essa congrefracfio celebre. auctor do Novo Methodo.ALEXANDRE HEBCtJLANO 225 isto Os estudos de Herculano foram incompletos. 1 No prolopo da ediçilo dos Annaes de D. ficava para toda uma erudição theologica e casuista. pub'icados por Auvandro llt-rculano. sobre as Irmãs da caridade e soibre o Casamento civil. o da Recreação philosophica e do insulso romance do Feliz Independente do inundo e da fortuna. todos passavam na sua educação pela de fieira dos frades. e ao Oratório pertenciam o grammalico António Pereira de Figueiredo. cursando as disciplinas da Grammatica latina. e o padre Theodoro de Almeida. a quem as leiras portupuezas laiilo deTcm. ficou-lhe comtudo essa feição auctoritaria. João líl. das Bulias. se a evolução do espirito um dia a emigração para França não puzesse Herculano em*contacto com a sciencia com moderno. de Frei Luiz de Sousa. 15 ix. e longe de prejudical-o causoii-lhe a autonomia da intelligen- um grande rigor de critica e de melhodo. que se mostrou sempre versado no conhecimento dos Concilios. Assjm aconteceu a Herculano. para cair e da Rhetorica de Quintiliano. . Quem escapava ao prurido a vida eivado da seducção da vida claustral. e com a emphase do psalmo. Elle frequentara até aos quatorze annos as aulas dos Padres do Espirito Santo no mosteiro das Necessidades. Floresceram acreditados como mestres.t p. vigor nas ques- tões clericaes da Concordata sobre o Padroado do Oriente. os Padres do Oratório. mas cia. dispendendo o seu. inimigos dos Jesuítas no fervor pedagógico. c a guet» nós mesmos devemos parle da nossa educação íilleraria.

E tudo assim. D. estava por tudo. espalhando o pasquim: Álerla I alerta Que o rei deserta. e a das modinhas brazileiras era applicado aos hymnos em lou- vor do monarcha pela Constituição que jurara. na Torre dirigida da pelo paleographo Francisco Ribeiro Guima- Estava-se n'essa terrível época de indecisão politica» em que o sophisma do constitucionalismo pela monástico liga do partido com o absolutismo se via exposto a um acto de violência. Entre os seus estudos regulares cita-se lambem Tombo. D. foram buscal-o a Villa Franca de Xira. durante sema- nas muitos titulares e militares de altas graduações recla- maram pela imprensa o serem incluídos na hsta dos que real. João vi. o estylo pudor a Portugal. a de adhesão entranhavel á pessoa do nobresa tirou os cavallos do coche real e pu- chou-o até Lisboa. João vi rasgasse a Constituição e se proclamasse absoluto. Foi uma honra inaudita . e feito o exame do segundo anno obteve da Junta de Commercio uma espécie de diploma. Deu-se a Villafrancada. o que equivalia a ter de repetir o anno caso quizesse proseguir no Curso de Mathe- matica. com despara a aula de Commercio. A nobresa exigiu que D. a frequência da aula de diplomática. rães. sendo tino approvado segundo a classificação d'esse tempo. tanto se lhe dava ser constitucional.! 226 HISTOEIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL De 1825 a 1826 frequentou Herculano o primeiro anno do curso malhemalico da Academia Real de Marinha. João vi regressara sem nação ainda mais degradada recebeu-o com festas. e para manifestação monarcha. espécie de Vitellio levado em triumpho. com- tanto que o deixassem reinar. haviam puchado o coche Quem se achar n'um meio as- . o povo comprehendeu o prejurio do monarcha. despótico ou simples presidente de Republica. seguiu a direcção em que o impelliram.

João VI. cantavam-se hymnos exaltados e parodias picarescas: D. elle pendesse. Miguel chegou ria. Em Belcm Desembarcoa. Rei chegou. e como do hymno constitucional hes- uma réplica ao trágala. Miguel de Portugal. antes de ter constituído o seu caracter. um partido. cantado ao um retor- compasso de cacetadas. Miguel em Vienna de Áustria. fará a handa do arrocho. declinou n'elle os seus res. fica perdido. Herculano seguiu primeiramente o absolutismo. perro. Herculano tinha então quinze annos. A torpe Carlota Joaquina. panhol Rei chegou. Miguel chegou á barra. e que se Ibe não obedecesse em tudo o desaucto- . Miguel a Lisboa. em uma época em que como era forçosa a decisão por se diz na phrase vulgar. Logo que D. — Não jures Constituiçiio. sem outros conheci- mentos além de umas vagas humanidades? A corrente era para o absolutismo e na aula do Commercio os aluranos açulados pelos que se sentiam despeitados com o desterro de D. revelou-Ihe que não era filho de D. e começou então o regimen do terror. Em 1828.itk Acompanhava-se cada copla desenxaibida com nello estridente. a 22 de fevereiro. quem ousará culpar uma criança saida da escola dos Padres das Necessidades. gritavam pelo Terreiro do rei absoluto Paço Viíxi D. O homem é também alguma cousa feito pelos acontecimentos. Sua mile Ibe deu a mão Vem cá GIbo da miuba alma.— : : ALEXAUDEE HERCULANO 227 sim degradado. e por isso não nos ad- mira que. se nâo é uma naturesa moralmente robusta. para tornar o filho um instrumento passivo da elle reacção absolutista. chegou D. sua irmã Isabel Mapode- que occupava a regência. a Lisboa.

ameo Jesus. os Orelhudos.: 228 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL rava declarando o seu adultério á nação! Os liberaes viam no estouvado Miguel apenas o Ramalhão. á falta de ideias que os delimitassem. os ros. eram chamados oS Realistas. de iferte a parte como: Os Malhados nSo queriam D. azul e vermelho para os absolutistas. sem civil. Oh Porto ladrão. que se fizera patrono da causa liberal. os Corcundas^ os Caipiras. Villa Nova jura A Constituição. a cujo desastre se (ez esta cantiga Quereis vér o vosso Ide v61-o a Queluz. civil Bur- ou Miguelistas. Miguel por general. » Nome tirado dos cavallos que viraram a carruagem em que andava D. Vieram ainda azedar mais o conflicto as insígnias de cores distinctívas. azul e branco para os liberaes. Que lá está embalsamado Para sempre. Pedro. distinguiam-se por affrontosas alcunhas. Vacillava-se na onda dos acontecimentos. as violências dos caceteiros. . Oh Braga fiel. e as cantigas provocadoras. o facto da independência doBra?^ por D. Pois agora ahi o lôm Feito rei de Portugal. uma clara noção da independência os partidos. lançou muitos homens sinceros e ingénuos patriotas na usur- pação miguelista. filho do feitor da quinta do historia uma época de maior degradação e insensatez. Mi- guel. Não existe na nossa 2il. pessoa do rei os que só reconheciam a soberania na por investidura divina. as prisões por denuncias secretas e os enforcamentos converteram muitos pretendidos legitimistas em liberaes. Os que pretendiam uma Carta constitucional * como base dos direitos políticos eram os Malhados. rei.

Miguel é rei. Apenas do Porto reagia contra esta monstruosidade. Desde a proclamação de D. Os mais ballucinados partidários do throno e do altar formavam ranchos de caceteiros. derrubavam-no á cacetada. cuja historia se repete oral- mente. Esta phase da sua vida absoluto seria completamente desconhecida. Alexandre Herculano. filiou-se também n'um bando de caceteiros. e como tendo já feito Portugal a sua colónia mais rica. que lhe ia depositar nas reaes mãos a Queluz. cantando o estribilho: Fora. a liberdade era considerada como uma perder a desmoralisação do século. Acabou-se a guerra I D. ou que ttJiha cara de ser malhado. com o clero. percorrendo as ruas a todas as horas do dia. logo a 13 de março de 1828 dissolveu a camará dos deputados. Todos os biographos de Herculano guardaram um . em odes e sonetos emphaticos. e não contente de exaltar o rei como seu senhor. Onde encontravam ura Viva el-rei liberal conhecido.ALEXANDRE HERCULANO 229 Effectivamente. nobresa e o povo. iMiguel inveslin-se da soberania convocando as cortes á antiga. Malhado Chucha! Judeu. fomentada pelo. e no meio da estupidez publica ententicas. se lhe não ficasse im- pressa na face uma cicatriz. a em 1 1 de julho o declararam único a cidade de Portugal. Miguel. aos gritos: D. que rei legitimo e a 3 de maio D. nosso senhor! Quem não correspon- dia a este salve era amachucado. dia-se que Portugal só podia e existir entregando-se á liga do throno do altar. com os seus dezoito annos estava então no vigor da edade. Miguel i. começou o systema de propaganda absolutista pelo espancamento pelas ruas. fanatismo das ordens monachaes e pela imbecilidade das casas aristocrá- Os municípios fizeram manifestações de adhesão ao monarcha absoluto.

* biographia que appareceu na Actualidade. Alexandre Herculano pertencia a um foi grupo de rapazes que andava de . Herculano incensou o atrabiliário Miguel com va- 1 «Alexandre Herculano tinha na face uma cicatriz. Ma- lhado! Fora. o Galhardo. se nâo se visse ção. lhe atiraram a segurar. e accrescenta-se que o auctor d'esse ferimento oÈcial de marinha foi depois geu companheiro de emigraçào e seu iotimo amigo. de que elle foi tes- temunha. com outros campo constitucional. seria ceria um dia forçado a seguir o e Silva. dando-lhe uma navalhada no rosto. Insultavam-se também alentados do com ditos: Fora. ás Aguas Livres. conhecida peio nome de gil-vaz da feira das Amo- Conta-se que a scena se passara por occasiao da festa do Espirito Santo.) — . ali se encontravam os ranchos dos caceteiros mie se batiam guelistas. Os talentos litterarios de Herculano achavam-se também elle atrophiados pela persistência das formas arcádicas. apenas' • em uma reiras.230 HISTOEIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL silencio systemalico sobre esta phase da sua vida. resultado de um ferimento em 1828 por um individuo com quem tivera uma contenda por causa de uma questão nascida de divergência de principios politicos. e cujos heroes conhecia. como se dizia na linguagem do tempo. No seu fervor reaccionário. Foi talvez por esta circumstancia de haver na sua mocidade pertencido ao partido do absolutismo. Diz-se que o grande escriptor fora nos primeiros annos da vida ardente defensor dos principios por — um que se regia a antiga monarcbia. Corcunda! E em seguida: trabalhava o caceie. e era valente e por isso que. rixa com outro pequeno grupo de estudantes liberaes destimido. na feira annual das Amoreiras. nâo exer- como Costa como uma acção tão profunda na renovação da litteratura portugueza da época do Romantismo. ou caminho da emigraCastilho. de quem veiu a ser parente e amigo. que Herculano nunca escreveu a historia d'esse heróico cerco do Porto. Dizia-se que lh'a dera um official de marinha. setembro de 1877.» (Actualidade. quando vieram ás mãos ao anoitecer. seallude á cicatriz.

Ainda se repetem de memoria alguns versos de uma virulenta Satyra intitulada Os Pedreiros. . Este periodo da vida de Alexandre Herculano servindo para caracterisar o meio social anterior ao cerco do Porto. e se atacava a Carta: A Que em março Carla maldita. onde ficara D. Miguel dava audiências ás quintas feiras nos paços de Queluz. Jurado inimigo do nosso monarcha. que elle levava ao beija-mão de Queluz. patife da marca. D. e que em Lisboa mandou co- piar o celebre Cancioneiro do Collegio dos Nobres. N'essa Satyra fazia Herculano a historia da Carta constitucional. em que se apodavam os liberaes da ruina da pátria. meio deprimente em que as intelligencias mais robustas mal se podiam elevar acima dos preconceitos mantidos pela . qual burro. Que já nos fizera perder o Brazil Por mio de um tratado vergonhoso e vil. e os poetastros iam recer-lhe as suas em caravana oíTe- Odes e Epistolas. em que D. Referia-se ao acto de 13 de março de 1828. trazida do Rio de Janeiro. cujas copias ainda se 231 conservam por mãos de ali curiosos. . e Sousa Monteiro. Pedro. a sua rica das bibliotheca era extremamente mais preciosas rari- dades da bibliographia portugueza. Mi- guel dissolveu o parlamento e se tornou absoluto. que negociou o tratado da independência do Brazil. Innocencio Francisco da Silva mostrou-nos por lettra de Herculano uma d'estas Epistolas. ALEXANDRE HEBCULANO rios sonetos. por ^ P Sluart brejeiro. jà foi tosquiada . infame e danada. . trazendo em remunera- ção cédulas de mil e duzentos e dois mil e quatrocentos réis em papel. que pu- bhcou em Paris quando ali esteve por embaixador. antigo legilimista também conservava outras peças d'esta phase litteraria bem como o curioso bibliophilo Rodrigo José de Lima Felner.. Referia-se a Lord Charles Stuart.

que não seja a ultima. Uma grande parte da vida moral da mocidade de Alee essas composições. pela hberdade. e seria um em continuador de José Agostinho de Macedo. e espero em Deus e na minha sincera consciência. . eu olharia ao primeiro aspecto esta proposição como um absurdo. xandre Herculano acha-se esboçada como reminiscência nos seus versos .estudo litterario. A Harpa do publicada em três fascículos na primeira edição de 1838. que reuniu com a Harpa do Crente. — Quando eu compuz esa tes versos. nada mundo deixava para mim de respirar poesia. porque estava doutrinas. traz algumas notas de va- lor autobíograpliico: «Eis o poema da minha mocidade: são os únicos versos que conservo d'esse tempo. ainda possuía toda a vigorosa ignorância da ju- ventude. Não é esta a primeira das mi- nhas contradições. Se hoje de quinhentos versos acerca me dissessem: Fazei um poema da Semana Santa. este período tem a particularidade de nos explicar o vidade. que desabrochou aos primeiros soffriaientos Crente. A Semana Santa. sâo a prova de que era um espirito profunda- mente poético. e que a minha harpa estava afinada para cantar um tal objecto. ainda queria conceber toda magnificência do grande drama do christianismo. accordo de Como venceu Herculano este meio deprimente? Eis a base d'esta. dedicado ao Marquez de Rezende e O poemeto lyrico em tes- temunho de amisade veneração. * homem em elle grande parte da sua ulterior acti- Por se vê que Herculano seguia em littera- tura as velhas pautas académicas. encerra curiosas revelações omittidas nas edições subsequentes em oitavo.232 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL educação monachal. entre tanto eu mesmo ha nove annos realisei este absurdo. Engánava-me: a Semana Santa do poetíi não saiu semelhante á Semana Santa da re- 1 Adiante veremos como destruio estes seus primeiros ensaios. n'este em que.

se chegasse aos trinta annos. Outras recordações da mocidade vigorosa de Herculano transparecem nas suas Poesias. que animam o seu passado com uma dade e luz sympalhica. de 1838-. até certo ponto em contradição com os mas cheio de dignidade: Eu nunca Oz soar meus pobres cantos Nos paços (los ícnliores! liymiio mentido Eu jamais consagrei Da terra aos oppresfores. amoroso e honrado. tendo essa consciência. vé-se que o christia- culano esta composição em nismo idealisado rito. sacrificar-se pela causa Herculano era intelligente e novo. . pois. não acompanharam estes versos os outros da primeira mocidade no caminho da fo- gueira? Porque publico um poema falho na mesmissima es- sência da sua concepção? — Porque * terího a consciência de que ahi ha poesia. e que até á consummaçâo dos séculos talvez nâo appareça outro: «Porque. Ed.» 233 Em seguida. e porque não ha poeta. diz que só como houve no mundo um Klopstock. Era uma illusão do sentimento. consinta de bom grado em deixar nas trevas o fruclo das suas vigilias. e por isso não podia deixar de tiça. da jus- Na sublime poesia A Victoria c a Piedade. Na bella composição lyrica Moei-' Morte. p. que o seria em todo o paiz. porque mais tarde o soldado do cerco do Porto declara que na sua amisade por D. tomando os mylhos do sacrifício o maior fado do universo. ^. descrê í llaTfa do Crente. factos.ÂLEXAKDBE HERCULANO ligião. 32. primeira serie. para salvação d'este. uma das jóias da poesia portugueza. que. exclama. e foi uma orientação prematura do seu espi- que as suas tentativas de tradução da Messiada eram os restos de uma preoccupação da mocidade.» Determinada pelo próprio Her1820. Pedro V o ia tornando no seu animo um rei absoluto.

. e esses primeiros amores foram também cheios de decepção. Ao amor este peito cerrara.234 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL ve-se essa grave crise pathologica. edif. . Estes versos são uma revelação fundamental do caracter 1 Poesias. Do coração os éstoà barmonisam. dando mais relevo á sensibiUdade do poeta. E. . 63. Vede o. pallidas. que se liga á febre trau- mática resultante da aventura da feira das Amoreiras: Solevantado o corpo. Meu engenho tornou -se um myslerio Que ninguém n'este mundo entendia. p. Na poesia A Felicidade retrata esse primeiro desalento e desorientação da sua vida: Triste o dom do poeta ! No seio Tem vulcão que E a mulher que Nem sequer um as entranhas lhe accende. que apressado bate. lá dentro á dor que o vae roendo. Seg. os olhos filos. intimo cicio . É que É que É qae nas veias lhe circula a febre. velador de angustias. como todos os portuguezes. a fronte lhe alaga o suor frio. tão moço. no tronco do cedro A minha harpa infeliz pendurara. vestiu de seus sonhos olhar lhe comprehende! E trahido. e surgiu um homem novo. l Responde horrível. E com o pulso. As magras mãos cruzadas sobre o peito. D'esta crise resultou uma transformação intellectual. e passado de angustias. Pela alta noite em solitário leito. PuF essas faces Olhae. Herculano amara. Que gelada. em fio as lagrimas deslisam. e maior poder de reaUdade á expres- são subjectiva do sentimento. prematuramente. Um véo qegro cubriu-me a existência. cavadas. quebrada. que inútil corria.

finalmente aos quarenta e quatro annos. Poesias.. negro. ^ Se o coibia. Apoz essas quadras tão cheias de espontaneidade. de um romântico incomprehendido. mas aproximados de outros despeitos. a única elle ambição de sua existência. . 218. e ! neceu irreconciliável com Castilho • Essa brandura revela-se Pag. lidos isoladamente podem tomar-se como uma rajada á Manfredo. Aos vinte annos. o truncarem a sua carreira histórica. revelou-o sempre na complacência aturou Bulhão Pato e Silva Túlio. p. deixando a gloria litteraria. Como com que forte. que esteve a afundar-se nos parcéis da politica. 51. vê-se que Herculano precisava de um pretexto imaginário. Fernando o acolher-se a porto seguro. que próprio confessa. devendo a D. o véo negro e o esquife foram substituídos por uma outra cousa. A transformação d'estes motivos mos- tra a tendência melancholica um dia havia de leval-o ao isolamento (na quinta de Vai de Lobos) e ao tédio (motivo da publicação dos Opiisculos. um véo um amor trahido que lhe cubriu a existência. como do caracter. durava um momento Apoz vinba o remorso amargoso . aos foi trinta e dois annos o seu baixel ou esquife. para justificar as suas queixas de desalento. uma catastrophe moral. 2 r .) Voltemos ao pe- ríodo do primeiro desalento. * mas as recordações mais antigas de que trata ó que nos interessam. Herculano era de uma indole ao mesmo tempo como perma- amoravel e rancorosa. como se yê na Illustração. fugía-me erabreabei-me por entre os deleites o goso ele. ALEXANDRE HERCULANO 235 I de Herculano. e as mudanças foi nos seus planos de trabalho. segue se uma estrophe em que explica a turbulência dos seus primeialurdir-se da desesperança: ros annos como quem procurou £ Mas tocando-o. Essa poesia é datada de maio de 1837.

entre o ruido Dos odiosos folgares do Sicambro. a admiração. em várzea extensa E ás bordas do ribeiro que murmura. e os dourados fructos. Sem que torne a abraçar a arvore annosa. Que por cuidados meus vos educara. Por certo nRo viveis sol pendeu-vos. E eu? talvez n'e9tes campos estrangeiros Minha existência. vias. Pelas horas da tarde.: : 236 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL flores. os amigos. Arvores. E os perfumes de abril que eile derrama. Herculano allude ás suas çôes que vieram affei- com a edade a tornar-se absorventes amava tanto. que eu amava tanto. o fogo da desdita Faça pender. e deixaria tudo. para seguir através de uma illusão antiga. 17y. Morrestes sobre a terra. Diviso ás vezes. ! : E morrestes. Mirradas folhas para o chão fervente Ninguém se condoeu secou -se a seiva. clara i Que Sb pendura sobre a lympha Lá no meu Portugal 1 Poesiasj p. . Na poesia tão repassada de melancholia e de verdade. E illudo-me : essa várzea é do meu rio. era apaixonado pelas e quando se deixava impressionar pelos desalentos da emigração. Sob este rude céo. E vem-rae á ideia o laranjal viçoso. em distancia um bosque De arvoredo onde bate o sol cadento. Tristesas do desterro. amor da mocidade iiavia de apoderar-se do velho. Ai pobres flores. . ir-se mirrando. Sem que torne a vôr mais «sses que amava. nos hábitos da sua mocidade. Um dia esse eram para as flores as suas primeiras saudades. murchar. Aproximo-rae o sonho de um momento Então se troca em acordar bem triste. os Hvros. Do monótono som da lingua sua. que eu Como viveis sem mim? Nas longas Que vou seguindo. peregrino e pobre. proprietário rural na quinta de Vai de Lobos. Esse bosque o pomar da minha terra. para ir fazer-se trabalhador da terra. flores. E as brancas flores.

morte sede de um nome glorioso. esse impulso foi a necessidade forçada da emi- í Ibid. . ALEXANDRE HEBCULANO 237 I Em outra poesia A volta do Proschpto.. que mirrado achou de amor o myrto. ^ o arbusto que oulr'ora plantara. Que engenho. . e meu Deus um anno meu sepulcbro cerra ! ao menos I . calado cemitério. 2 Ibid. Dizer posso : Existi que a dôr conheço Do goío a taça só provei por horas . e que saudara Desde além do oceano em seu delírio.. I £ serei leu. Uma das paixões mais prematuras de Herculano elle foi a aspiração litteraria. ! . torna a alliidir a essa paixão pelas flores que cultivava: Conta se que o seu amor fôra trahído. Um louro só .. que era o resultado e de uma vocação que se defmia. p. e fallo e títo.. De vêr a luz do sol mais alguns dias Eu que Irei tilo existo. gloria. 207. Que deixara viçoso. . Que t5o fagueiros sonhos me tecias. e só me resta a pobre herança . . amor.. Assim na Mocidade exclama: Oh. cedo repousar na terra ? Oh meu Deus. Fugiste. 2 E Ga Que por mim cultivado crescera.. p. e que penso. . egualmente bella pela realidade do sentimento. Que entre angustias já mais esquecera . o revelou com toda a franquesa no prologo da terceira edição da Historia de Portugal^ mas já nos seus versos escriptos no período da emigração faz vibrar com eloquência esse sentimento. podesse de- sabrochar. tu. oh . 204. tudo devoras SÓ faltava um impulso para que esta vocação abafada pela acção deprimente do meio em que se achava.

e santo. Ha um como íulgor sereno Da aldeia semideus. A par da gloria litteraria sorria-lhe também a gloria militar. os velhos A mão que os protegeu apertam gratos teclo. o ancião guerreiro. que era uma das expressões de ver- dade na sua poesia. 238 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL graçao para Inglaterra e França. Ao vêr. O . retrata com toques tão vivos esse typo do veterano das guerras peninsulares desde a lucta desarrasoada contra os exércitos da Republica franceza até ao triumpho dos exércitos imperiaes. Em Na poesia a Cruz mutilada. descreve esta Era phase ideal da sua bello esse tempo da vida. as tra- dições heróicas da resistência de Portugal contra as hostes napoleónicas.: . que a existência Desgastou no volver de cem combates. o sol tostou c que enrugaram annos. erí esse um ideal da sua velhice: Cansado. incendiavam-lhe a imaginação e inspiravam-lhe o sentimento nacional. Ao perpassar do veterano. . junto do teixo Da montanha Que natal. Na tarde do viver. dia este sentimento nacional se fortificasse * Poesias. quo emfim.circumstancias em que se achou envolvido. Vem assentar-sc á luz meiga da tarde. que esta harpa fallava de amores Era bello quando o estro accendiam Em minha alma da guerra os terrores. Na ode A juventude Felicidade. a honra e vida. o seu paiz querido Já não ousam calcar os pés de extranhos. Com amorosa timidez os moços Saudam-n'o qual pae Assim do velho Pelejador. os derradeiros dias Derivara para o tumulo suaves Rodeiados de alTeelos * Quando um 12i>. Na fronte calva. devem lhe todos a liberdade. Adiante explicaremos essas. p.

Herculano. outras vezes avivava o passado da: com uma saudade irreflecti- «Nós. italiana Assim como nos escriptores da Renascença em Portugal existem vestígios da sua antiga adhesão á Escola hespanhola. ^ Este ficou o typo do sentimentalismo de Herculano. iri. umas vezes escrevia: «esta geração vae perdida. d'onde se despren- deram pelo facto de assistirem no tempo da emigração á renovação das litteraturas românicas. Mas esse desenvolvimento foi mais tarde paralysado pela tendência contemplativa de uma exaggerada educação catholica. voltava instinctivamente para a preconisação do regimen absoluto.ALEXANDRE HEBCXJLANO 239 com O desenvolvimento da rasão. comprehensão da liberdade nunca se elevou » > Panorama. p. e á medida que os annos o faziam estacionar. o poeta tornar-se-ia es- pontaneamente historiador. 2 Ibid. I. que escrevem no reflectiu-se silencio do seu gabinete suas obras.. e que vimos as lagrimas do povo. assim também nos dois chefes do movimento romântico se conservam os signaes da sua maneira arcádica. que n'elles encontrava os soccorros da doença e o pão na decrepitude. . como não tinha em volta de si o estimulo d'essa geração enthusiastica da Universidade de Coimbra. não comprehendeu logo a verdade das doutrinas politicas que mais tarde veiu a seguir. revelando-se como uma naturesa descontente. a educação fradesca em todas as A yoI. se mentem as theorias dos políticos . 212 O Minho romântico. ou dos versos de redondilha. : 66 (1836).» * e mostrava-se partidário das velhas ideias. . que assistimos á suppressão de uma parte dos velhos mosteiros do Minho. Assim aconteceu. Garrett precipilou-se no vigor dos annos e contra o sentimento da sua familia no movimento liberal. p. não sabemos se aquellas lagrimas mentiam. . vol. Herculano con- servou até ao fim da vida um certo despeito contra esta marcha dos primeiros passos políticos.

com a nobresa da — — — — prostituição iBto 8Ó por uma palaciana e com o clero do qucimadeiro. Carlos v. 123 : Novellas de camllaria.240 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL no seu cial. p. o clero começou a ser verdadeiramente christão. misanthropia. patroci- nada pelos governos reaccionários de Inglaterra. assim fechou a rolacilo do seu espirito. absolutismo dos primeiros annos de Herculano nao é tradicional . como se lê no prologo que poz á Voz da Propheta. os crimes. der espiritual que se tem concentrado nem a incapacidade de dirigir a geração moderna que lhe concedeu o maior po- em um homem. explica elle assim a miss5o histórica da monarchia absoluta: «Veiu o século xvi com elle veiu a monarcbia absoluta a nobresa essa grande civilisadora e moralisadora das nacòes modernas: : e como a cicivilisaram-se. aliás sempre sincero. No seu opúsculo O Clero 1 Ibid.» Sem este passado de Herculano a situação não se poderia comprelitterato. a incredulidade dos monstros de Byron sâo o transumpto medonho e su* blime d'este século de exaggeração e de renovação social. Miguel. hender de espirito do nem o retra- himento e despeito contra o seu tempo.) A monarchia absoluta. Manuel. que elle mostrava secretamente aos amigos. \o\. 2 O portuguez. 3. Este periodo da vida de Herculano andava biographado por Innocencio Francisco da Silva em um caderno manuscripto com o titulo de Aleixo Fagundes Bezerro. a civilizarem a Europa? fascinação pelo principio do direito divino. de Leopoldo. ^ Não devemos terminar esta época da vida de Herculano sem explicar as circumstancias que determinaram uma re- volução fundamental na sua vida pies ou ao partido liberal. Henrique* VIII. a grande moralisadora das nações modernasl As monarchias de D. Luiz xiv e Luiz xv. parecia radicar-se. espirito acima de e para o homem que uma causa de grande perigo soem Portugal propagou as formas renovação era a consequên- da cia litteratura romântica. . Philippe II. — a conversão aos princi- A causa de D. e o clero modilicaram-se pelo seu influxo viJisação nada mais é que a íórmula profana do christianismj.» (pag. publicado em ISil. França e Áustria. por isso que fora possível ao II. Nâo nos admirará encontrar no fim da vida Herculano julgando a Democracia moderna como um bando de ladrões.. o seu espirito veiu com o tempo a essa orientação primeira. essa de uma desorganisaçâo moral: «a anciã de liberdade a descommedida. É assim que se tornam explicáveis todas as contradições d'aquelle caracter.

que se havia rebaixado pelas mais estupendas atrocidades. a que nas províncias cor- respondiam os Milicianos. e por isso insistiremos Ás 9 horas da noite de 21 de agosto de 1831. Esta circumslancia da sua vida nao anda n'ella. espécie de tropa de terceira linha. que se exarcebaram entre G de fevereiro e 16 de maçço de 1831. o governo absolutista de D. Herculano achou-se envolvido no pronunciamento militar de 21 de agosto de 1831. onde se installou o Conselho de Regência. um empréstimo no estran- Em fins de 1830 e começo de 1831 créaram-se em Lisboa uns regimentos e terços chamados Ordenanças. do gabinete de Wellington e o advento ao poder de nistério hberal. sem soldo. Herculano nomeado tenente de um d'esses terços. deram á resistência liberal novas condições de vigor.. Herculano entendeu dever abandonar a causa que estava perdida perante a moral e a humanidade. A queda um mi- em Inglaterra. Á medida que se foi organisava a resistência dos liberaes na ilha Terceira. ou pela repugnância dos assassinatos contra os liberaes. atropellando com uma incrível imbecihdade os princípios mais intuitivos do direito internacional. apenas com o direito de usar uma farda verde e chapéo de bicos. em 3 de março de 1830. d'onde resultou o ter de emigrar escondidamente de Portugal. bem explicada. por outro lado a reclamação da França contra o attentado de que foram victimas Saurinet e Bonhomme. Miguel redobrava de barbaridade. que o povo resumiu no ram a aoexím: Chegou 16 o paquete Trabalha o cacete T . ALEXAHDBE HERCULANO 241 governo absolutista contractar geiro. revoltou-se 1 N'e8te9 tempos as notícias da resislencia liberal na ilha Terceira acirraselTageria miguelioa. Ou peio trabalho gratuito e forçado das Ordenanças. acabara de * desacreditar perante a Europa o governo absolutista.

Maria 11. resultando mortes e prisões numerosas. o regimento foi atacado por outras forças absolutistas que sairam para abafar o movimento. determinou o bombardeamento no dia seguinte á uma hora da tarde. Isabel MaAssumpção seriam levadas . até poderem transportar-se para bordo ^a esquadra frauceza do almirante Roussin. desfilando pelas ruas da cidade de Lisboa. Herculano morava então em uma casa próximo do Largo do Rato. e Maria da que as infantas. e essa curiosidade que levou Herculano a seguil-a até ao Rocio. foi correndo as ruas da cidade. ao nal! Viva D. Mouti- nho de Sousa. Miguel desfazia-se pelas provas manifestas da insensatez .° 4.° 4. como averiguou o sr. que tinha o Tejo bloqueado em virtude de uma reclamação do governo francez. também poeta de gosto arcadico e conhecido na litteratura do primeiro quartel d'este século pelo nome de Morgado de casa de Assentis Assentis. á Praça da também se escondera n'essa tivera o con- noite o liberal Galhardo.242 HISTOKIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL O regimento de infanteria n. Ali ficaram ambos escondi- dos. Herculano conse- guiu evadir-se. flicto com quem Herculano na feira das Amoreiras. indo bater á porta do antigo amigo de Bocage. em communicaçâo ao Diário de Noticias) e saiu para ver a passagem do regimento de infanteria n. iOnvolvido na onda de povo que acompanhava o regimento. Bento. ISo paço da Ajuda corria entre as ria. damas e açafatas Anna de Jesus. e a esta orientação dos espíritos se deve at- tribuir a revolta de infanteria n. e o acto inconsiderado do Visconde de Santarém.° 4. pela uma hora da madrugada. Em Mâe d'Agua. aquartelado no Ourique. Francisco de Paula Cardoso. Pedro Campo de som de musicas marciaes e gritando: Viva a Carta constitucioIV e D. morava elle em uma casa contigua ao chafariz da Alegria. A inti- mação do governo francez fora feita em 9 de julho de 1831. recusan- do-se a todas as explicações. O perstigio do governo absoluto de D. (n'um pateo á direita da rua de S. ao chegarem ao Rocio.

e das fragatas Melpomene. que se dirigia para a ilha Terceira. porque esperavam continuar os de Queluz e de Caxias com a of- idylios das quintas reaes ficialidade franceza. La Marengo. que veiu a morrer reformado. Miguel era ludibriado pelo senso commum 1 europeu. Marseille. (jue Alexandre Herculano se refugiou do partido que servira c achava em casual hostilidade. das corvetas Perle. Didon. Palias. arribando a Granville. quando já as agonias do desterro se achavam temperadas pela protecção a uma moralmente triumphante. Herculano tomou causa parte n'esta terceira phase. até onde se demorou era o 1832 em que tomou parte na expe- dição de Belle-Isle. iv. com o capitão de cavalleria Chrisjá lovam Bravo. Foi a bordo da fragata Melpomene.ALEXANDRE HEBCULANO 243 reféns. desembarcou em Plymouth. que conhecera nos seus primeiros estudos. * Como o governo de D. onde fò^ da ilha resistência dos hberaes. . pode vêr-se em uma carta do grande Panorama. vindo depois para Jersey. VAlgesiraSy La de VAlger. e dos brigues Endymion e Dragov. passou Herculano para um paquete inglez com o lente da Academia de Marinha Albino de Figueiredo. Êgle. vol. cou na Terceira alistou-se como circumstancia a que allude na sua prosa poética A Velhice. com quem se De bordo da Melpomene. e as infan- para bordo da esquadra franceza tas como pulavam de contentes. p. e com o então ral seu amigo Joaquim Rodri- gues Galhardo. Logo que desembarvoluntário da rainha. Le Trident. de Granville transportou-se a Rennes. que recebia todos os que quizessem emigrar de Lisboa. esta peripécia da sua vida tratou-a das e elle em um pequeno escripto das Len- Narrativas. com a patente de gene- Envolvido na corrente da emigração portugueza começada em 18íá4 e continuada em 1828 e i831. A esquadra constava dos baixeis Le Ville Su/fren. 243.

esta composição do Luthier de Lisbonne versava sobre os suc- cessos que motivaram a expedição franceza de 1831. caràcterisaodo o género litlerario do Vaudeville. até que D. O cartaz annuncia um personagem desconhecido. é as delicias do publico. ignóbil e barbara. e assigna também a do favorito. e de que D. que chegou no meio d'este arranjo. foi migo. Miguel íqtroduz-se em casa d'ella pela janella. as cousas poderiam sair-lhe mais desagradáveis. Pelo menos assim escassa com- se caracterisou a si próprio: «Louvado Deus. e este estúpido D. No desenlace o guitarrista salva ainda uma vez o rei dos soldados francezes que acabam de chegar. ^e a mulher nâo agarrasse uma faca. e além d^outras. que era a primeira a protestar contra o passado. Miguel. que é o realista mais dedicado possivel. Miguel tem um terrível medo por causa da sua bravura e do seu amor pela liberdade. Um dos favoritos de D. * tudo impellia Herculano para abraçar os principies politicos. Miguel de theatro causa-nos o raaior pra?er. e comtudo o effeito é absorvente. Assim acaba o primeiro acto. mas que tem a desgraça de ser marido de uma mulher bonita.lhe o amor. demais a roais dá a entender que é rei. a mulher não o pôde aturar. e emprega mil recursos. cantar diante d'elle. porque quer para si a mulher e Gear em logar d'elle. nós rimos. a auxiliai o e a mandar cortar a cabeça ao marido: Com toda a vontade responde-lhe D. Miguel. bastante inquieta: D. o rei asgigna a sentença de morte. Vâhíi dansar. excellentes. *de Rolland. por roais de um signal. a mulher bonita está sósinha. em pleno theatro. Uma revolta forçou-o a refugiar-se era casa d'efte guitarrista. e eis aqui a peça» Quanto mais o desconhecido procede de uma maneira estúpida. é natural que os emigrados porluguozes que se achavam em Paris assistissem a esta representação que atraia orna coDCorrencia continua ao Gymoasíu. que a civiiisaçâo de Inglaterra e França. para captar. é meia noite. e pede ao rei.» Lettres de Mendelêsohn^ 1 sei de — ! p. Miguel nas suas maneiras. tenho algumas. datada de Paris de 11 de janeiro de 1832. Mendelssohn. Miguel forcou esta mulher a encontrar-se com elle na próxima noite. A peça nova que mantém a voga ao Gymnasio é o Guitarrista de Lisboa. Assim se termina a peca com geral satisfação. d'este desgraçado. mas apenas elle entra em scena. . No segundo acto.244: HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL compositor allemão Mendelssohn. nós applaudimos. todos riem e applaudem. que entre tan- tas qualidades ruins de que a natureza nâo tal é. e arrasta-a bastantes vezes de um a outro lado da scena. pede-lhe de joelhos que a deixe. A cada nova barbaridade que commette. e cheio de jubilo se lança aos pés d'elle. diz: «N5o nada mais prosaico. nos hábitos e era todos os seus gestos. observadas de perto. maior é a alegria do publico. a de uma consciência de tão fino tacto e tão sem cerimonia. franc. que não deixa escapar nem um gesto. e se n'e3te momento nilo batessem á poria. lhe impunham á consciência. e em quanto o guitarrista conhece que tem em caía D. Miguel Ibe bota as ra5os. e percebe-se que o actor imita alé á illusão D. 308 (Leltre Como se vê i) trad. nenhuma palavra.

é também este o signal da «sua falta de disciplina philosophica. e isto bas- tava para que a sua bella organisação poética se desligasse para sempre do convencionalismo arcadico. mas uma cousa ficou profundamente portugueza. e bem podia ser um dos estímulos * da sua nova Panorama. que tanto impressionaram Garrett. dos versos de Lamartine e de Casimir Delavigne. iv. os que o cercaram de admirações como historiador. Nas amarguras do vidír. é ha n'elles o têm com os do poema Camões. . fora escripto a mesma vaga saudade. de modo que sempre tem a habilidade de me fazer titubear e quasi sempre a de sou me fazer confessar com exemplar humildade. o Camões de Garrett em 1824. desconheceram ineptamente a e alta dade do auctor da Mocidade e por isso não morte e da Vkloria poderam explicar porque é que Herculano critica. o mesmo arranjo de phrase. desterro o sentimento estimulado pela realidade da e é eil-o que surge um grande poeta. 242. As Poesias de Herculano trazem impressas as emoções novas da situação em que se achava ao sair de Portugal escravo. p. a intima analogia que rett .» foi A emigração para Herculano uma transfiguração da intelligencia. ensinaram-lhe a tentar novas formas strophicas. das canções de Beranger. surgiu um homem foi novo. esse sentimento exclusivo cora que nos tornámos conhecidos na Europa. Uma cousa nos surprehende na leitura dos versos soltos de Herculano.ÂLEXANDBE HERCULANO 245 que apenas digo ou faço uma parvoíce. a linguagem da saudade. a sente e expõe com uma admirável claresa e convincente lógica. de Garmesmo rythmo. e como sendo este o lado impres- com que se impoz ao publico. um grande poeta. vol. que * um solemnissinio tolo. Em verdade Herculano superiorie Piedade. nunca escreveu senão prosa poética quer na historia quer na polemica sionavel politica. O conhecimento dos poemas de Ossian.

A vaga incerta. Minha terra natal. descreve Her- culano as primeiras emoções ao deixar a pátria. Garrett e Herculano. que no fim da vida traduziu o Oberon de Wieland. o tédio do desalento em França. foram adoptados no estudo sempre profícuo das obras de Filinto Elysio. e ainda em mez seguiu caminho da emigração para Ingla- terra. Pelas ondas Do irrequieto mar mandei-te o choro saudade longínqua. Como vimos. eu te hei saudado. em que se reconhece a cadencia garrettiana. HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Mas um facto nos revela que ambos estudaram essa versificação diííicil em uma fonte commum: os archais- mos. aos olhos turvos Nilo sentida uma lagrima fugiu-me. a revolta militar foi em que Herculano se achou compromettido fins d'esse em 21 de agosto de i83l. Sobre as aguas d'Âlbion nas ribas escabrosas Vera marulhando branquear de escuma A negra rocha em promontório erguido D'onde o insulano audaz contempla o immenso Império seu. Esses versos têm a bellesa do que é vivo: Terra cara da pátria. Herculano deixa entrever esta circumstancia: . E devorou-a o mar. as indicações do espirito clássico para a transformação evolutiva da ratura moderna. Da Que Que rola livre. Centre as dores do exilio. : Essa lagrima acceita é Do desterro enviar-te um quanto pôde pobre Olho. acharam no estudo de Filinto. e que Herculano empregou sempre nas suas reconstrucçôes poéticas do passado no romance histórico. que inauguraram entre nós as formas litterarias do Romantismo. quando foi reunir-se ao exercito liberal na Terceira. peregrina eterna. litte- No poemeto subjectivo Tristesas do desterro. Mais que os homens piedosa. a saudade que o devorava ilhas em Inglaterra. irá depól-a. nas praias luas. o abysmo.246 idealisação. que ás vezes dão tanto relevo poético á phrase. e a impressão nova dos phenomenos vulcânicos das dos Açores.

e a brisa Matutina c da tarde. . em nublada noilo Ouvi o vento sul.) A pátria era para elle então llie um éden. Oh meu Me pae. d'ell8 o embora adeje Ao redor medo dos tyrannos? A nostalgia da sua natureza de meridional com uma commovente anciedade: Onde haja o sol da é expressa Oh. o éden nativo e perdi mais. 1 E A um ao começar o dia e ellas desciam coraçilo isempto de remorsos . a saudade dos seus torna-se miia paixão que á linguagem: dá mais intensidade subjectiva Eu. Que no peiío ao cravar-se. como elle. de amante e filho. Despedaçados Os affectos de irmão. oh palria. que assobiava de ouvil-o folguei. ALEXANDRE HERCULANO Já se acercava o tenebroso inverno 2á7 I 9( Vinha fugindo a rápida andorinha. Por entro um véo de involuntário pranto! Qu5o triste cogitar em mim desperta A imagem cara Á noite. Regtam-mo na alma qual buida frecha. estala e deixa. Onde encontravam filial piedade. dae-me um valle minha pátria. Quem. Caindo. nunca. : azas Pelo dorso das vagas rugidoras Eu corri além mar por eslas plagas. Para um abrigo le ir pedir. como a memoria reflecte. oh meu pae. o ferro Da ferida occulto . o bom do velho As bcnçSos paternacs de Deus co'as bênçãos Sobre minha cabeça derramava. e as harmonias Que a natureza em vozes mil murmura Na terra em que nasci (p- 160. a tua imagem. Em cujos valles nunca alveja a neve Junto de mim passou em suas Também mandei o filial suspiro. : . esquece O tecto paternal. Perdi . .. alta noito. Pelas antenas. e a vinha e o cedro E a larangeira em flor. rijo E Da palria vinha: Seu sopro refrescou-nie as veias. prófugo.

Qual o seu. p. a que não estava a lingua portugueza. ! Dorme Saciado talvez de dôr e aíFrontas já sob a campa o somoo eterno? Ah se um dia raiar para o proscripto O suspirado alvor do sol da pátria. e derramou algumas lagrimas ao despedir-se de beneficio: ^ um nós. era uma donde sessenta annos. u. 173. dirigida por Miss Parker. Seria pela t Poesias. Ninguém tinha uma patroa como nós. havia-se encarregado de nos prepa- rar a comida. o que dava certo ár pythagorico e mysterioso á familia. os dias terriveis acostumada da emi- gração de 1831. em seis camas e três aposentos. em que levássemos a nossa matalotagem. 4. de Plymouth. devi sey. deu-nos — Miss Parker o único fô- lego vivo da Gram-Bretanha a quem. transcripto em todas as Selectas das escolas. — Durante a permanência em Ply- mouth Herculano entregava-se á poesia. em Plymouth. 2 Lendas e Narrativas. 288. mediante a ba- gatella de três shellings semanaes por cabeça. E agora É-lhe mysterio o meu destino. Inglaterra. . excellente creatura que nos dera e luz por dois zella cama terra. e os seus lodgings eram a pérola das albergarias de A principio. ai d'elle 1 ai d'elle * 1 descreve No pequeno escripto De Jersey a Granville. na minha estada em quando partimos para Jerum cabazinho. A Ingla- como todos sabem. Herculano com certa graça e humorismo. p. mezes n'aquella cidade. Eis o quadro da sua vida de emigrado em Plymouth: «Miss Parker. que.248 msTOBiA DO romantismo em pobtdgai. e ahi escreveu em setembro de 1831 o bymno intitulado Deus. mas poucos dias podemos resistir aos abofoi mináveis temperos do paiz. Éramos ahi nove portuguezes.» ed.» «Abandonámos emfim o sólo de Inglaterra. E se entre nós da um impio as mãos ergueram A barreira da morte. podia servir de modelo ás outras ninhadas de emigrados que ain- da viviam Plymouth. é o paiz da franca e sincera hospitalidade. para mim o exilio occulla.

e o arraes. como uma linha negra lançada ao través dos á capa. e pela nossa esquerda prolongavam-se quasi imperceplivelmente as costas de França. que finalmente ahi po- deríamos tocar em terra na manhã seguinte. de- pois de breve conferencia á proa com o seu companheiro. destinado a transportar gado de França para as de areia. mais enxuto que esse Ao menos tínhamos um leito. atravessando aquella estreita porção do canal que nos separava da França. e sair uma libra maior que podia da bocca das nossas bolsas rumo do tinha Nós seguimos. No horisonte. posto que ameaçadora. porque embarcação havia no porto de da passagem era apenas esterlina era o fôlego nenhuma outra com destino im- mediato para a costa fronteira. e a dade: o chasse-marée corria á bolina. . o mudança do vento. . a segunda. e dirigirmo-nos a Granville. do Canal. pouco mais ou menos. achámos por fim uma vela e alguns cabos. em que nos achávamos poderia passar ao utilidade n'aquella situação. ia em lastro. com que contávamos. testável jangada para passarmos á França. e por isso o seu arfar se tornava mais suave. a pocilga tacto. por único sentido de uma praia deserta.iXEXANDBB HEBCULÂNO volta 249 do meio dia quando saltámos no chasse-marée que de- via conduzir-nos de Jersey a Saint-Malò. —O chasse-marée havia-se posto já O vento não consentia que surdíssemos avante. lançados para uma extre- midade do areal fluctuante. quasi pela popa. veiu declarar-nos que seria impossível seguir o rumo de Saint-Maló. mares. sido momentaneamente uma vantagem de commodi. que era necessário pôr a proa nas costas da Nor- mandia. e Saint-Ilélier isto por duas rasôes urgentissimas: a primeira. e o lastro era Se não fos- sem os terríveis balanços da embarcação. Comera necessário aproveitar aquella de- moda ou incommoda. senão macio. porque o preço uma libra esterlina. Depois de apalparmos por longo tetnpo em volta de nós. O chasse-mailhas rée. sul. divisávamos ainda o promontório de Noirmont. .

p. Gomo Garrett.» No meio de uma borrasca nocturna foram lançados por cima de restingas «no tas recife de foi um . eram. quo pugna por ferros. como se sabe pela carta de Meneram os Vaudevilles políticos.. ^ 1 Poesias. onde ambos se refugiaram. Renegando da torra sem gloria. Os folgares odiosos. e em poucas horas aportaram a Granville. Miguel. e perguntou a si mesmo se uma terra escrava podia ser pátria do poeta: ! Terra iníame do servos aprisco. ilhéu. e de allusôes satyricas aos ministros da Restauração. Para todos os emigrados era incerta a sorte dos parentes sob o regimen canibalesco de D. e esta situa- ção moral aggravava mais o desalento dos emigrados portuguezes. cheios de cotiplets engraçadíssimos. algumas braleito. ças de lona por e por agasalho e cobertura a tolda um miserável barco. de Normandia. 104. 250 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Uma de pouca de areia húmida por pavimento. que já citámos. toda a nossa consolação e abrigo. Nunca mais darei nome de irmão. delssohn... mas de re- pente saiu da sua prestação nostálgica. com as trevas que nos ro- deavam n'esse momento. Mais chamar-te teu Glbo não sei: Desterrado. mendigo serei De outra terra meus ossos serão 1 Mas a escravo. Que herdará deshonrada memoria. visinho das cosdifficil. também designou os com o nome ethnico de Sicambros: Sob este rude céo. . A saudade da pátria era para o poeta desterrado a preoccupaçâo absoluta. entre o ruido Dos odiosos folgares do sicambro Do monótono som da lingua sua .» a saida extremamente d'ali a entrada havia sido extraordinária partiram já como com o soJ alto. Herculano francezes.

» se foi um dia Her- culano incensou a tyrannia. partamos 1 Ao mar !» Partia a armada. solo do desterro. cinge-os Com seus irmãos as sacrosantas juras Beijando a cruz da espada. voam. Na tivo bella ode Yictoria e Piedade. quanto ingrato É para Ennevoado o adormecido! Eu lá chorei. : Como bradar de um só Erguem -se. p. e o embarque em Belle Isle. ai. 112. na idade da esperança Da pátria a sua sorte Esta alma encaneceu e antes de tempo Ergueu bymnos k morlA .: ALEXANDRE HERCULANO 251 São vigorissimas estas estrophes da poesia O Soldado. do infortuDÍo . para a a expedição da ilha Terceira. e o embarque na expedição para a ilha Terceira em 183á: vida. No desponfar da E Murchou-rae o sopro ardente saudades curli em longas terras Da minlia lerra ausente. esse facto uma fatalidade imposta pelo meio social á inconsciência dos dezoito annos. i rio . : Repetiu o poeta — «Eia. D'elle leve piedade.. O . árido o prado. cingem ferros. o coração do rapaz de vinte e dois annos palpitava com ver- dade: «Onde é livre tem pátria o poeta. fevereiro de 1832. e o ral I começo da campanha libe- Pela primeira vez a lilteratura portugúeza se inspirava dos conflictos da vida nacional: Mas quando o pranto mo sulcava as faces. 1 /Wd. o foragido. descreve outra vez o mo- do desterro forçado. . Deus escutou do vagabundo as preces. «Armas! — bradaram no desterro os fortes. Que alento n''essas estrophes com que descreve o mento dos voluntários. . eco. Pranto de atroz saudade. Indissolúvel nó. e' alista- 2 de no dia iO a partida da armada.

para os Açores e í Poesias. deixando Só d'elÍG a côr em lascas arrancadas Das entranhas dos montes penhascosos. Tal ó meu coraçSo. p. Onde espinhosas sarças só vegetam. entre affumadas Pedras que em parte amarellece o enxofre. . entre os dois mundos. 2 Jbid. que pensam poeta. e o vigor da estrophe na violência das anlitheses e no relevo das imagens. A £ enguliu e passou. 113. Nobresa o ser cruel. i guerra. escumando. Scinlillam Aqui e ali. nos areientos plainos. Herculano vas que vae recebendo . . 252 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Pelas ondas azues. em que o golpe mortal descia envolto Das maldições no fel. Da Os nossos lyricos modernos.j p. * Vestígios de vulcões que hão sido extinctos nSo sabidos séculos. rugindo. Restos informes de metaes fundidos Pelas chammas do abysmo. e elle. Desceu ao mar turbado. tira as imagens das impressões noilha Terceira os a natureza vulcânica das ilhas dos Açores assombra-o. e o balsSo negro Da E guerra despregámos em que era infâmia o ser piedoso. e ao desembarcar na restos dos vulcões extinctos dão-lhe a trata o estado imagem com que re- da sua alma: Eu Ás já vi n'ama ilha arremessada solidões do mar. Bera como a lava o desterro ao trovador. A natureza é morta em lodo o espaço Em Que ella correu.. eorrendo aíToutos As praias demandámos Do velho Portugal. 177. 2 As viagens para Inglaterra e França. nunca ter feito esque- cer Herculano como temperaram na realidade por isso procuram da vida as suas tintas impressionistas. Que a lava em rios dispersou. qual sumiria De soçobrada náo celeuma inútil. no dia em que. á voz do Eterno. Da cratera fervente.

Eu. que me estreita. Santas inspirações morrer sentindo Do coração no fundo. converte o terror da morte em esperança: Oh Que morte. alma de Tyrteu que se interrogava. a prenhe nuvem £ Desça. Âos pés do Omnipotente. Solta. e leve a sua parte n'essa epopêa do cerco do Porto. vagabundo e pobre. nem ventura. Sem achar no desterro uma harmonia De alma. Que ella possa voar. e aos pés calcado De quanto ha vil no mundo. Sobre u náo. que a minha entenda. por entre os orbes. Porque seguir. 1 Poesias.n ALEXANDBB HEBCULAKO 253 para as cosias de Portugal. . esta poesia traz a seguinte nota « A bordo da Juno. que a natureza Lançou a esta alma ardente. p. na bahia da Biscaya. dos tufões ludibrio. Na ode bem uma enérgica A Tempestade. no fragor da metralha não podia deixar de ser foi um valente soldado. foram para o talento poético de Herculano o mesmo que a viagem do Oriente para Camões e Bocage. Entre escarcéos erguidos. 91. que esgotei tão cedo até ás fezes cálix da amargura : £ Eu. um dos sete mil e quinhentos bravos desem- barcados no Mindello. amiga morte c sobre as vagas. 89. e jà oSo sonho Nem gloria. —Março de Era uma Herculano 1832. sem rumo vague. deram-lhe um grande poder descriptivo. e estourando a esmague. a grossa proa. pedindo -te feneçam ! Meus dias aborridos: Quebra duras prisões. eu que velo na vida. eu te invoco. curvado ante a desgraça Esta espinhosa senda? ^ • Na primeira edição da : Harpa do Crente.

Dependência da casa real e seus estudos históricos do Panorama. Conílicto das ambições pohticas. litterario. Necessidades. — — — — — — — — — — — — — — — — A liicta pela liberdade inaugurada na ilha Terceira. a expedição chegou á ilha de S. do lado liberal esses espectáculos de degradação hu- mana (la Justiça das Alçadas. na Revista Universal Lisbonense. Época brilhante de Herculano. espirito em que iv predo- mina o de independência. Nomeado bibliolhecario da Ajuda e das Fundação do Panorama.) O cerco do Porto nos versos de Herculano: Harpa do Crente. ú maneira de Thierry. como base da Historia de Portugal. e sua dissidência. D. e relira-se da politica. faziam com que os mais ob- scuros ainda se portassem como heroes. Pedro coadjuvada por e uma parte da aristocracia despeitada. Os romances históricos (Sociedade Propagadora dos Conhecimentos uleis. (De 1832 a 1846. A Voz do Propheta. Vinda de Herculano para Lisboa em 1836 . A revolução setembrista: 1836. Entra para a Academia das Scicncia? de Lisboa. segundo bibliolhecario da Bibl. Passos Manuel. Impressão produzida pelos seus romances históricos. e desembarcou na ilha Terceira a 3 de março d'esse mesmo anno. não o fazem ministro da Instrucção publica. Alexandre Herculano nomeado em 1833. bora dirigida pelos interesses dynasticos de D.254 HISTORIA DO ROMANTISMO EM POBTUGAL § II.) Durante o cerco do Porto: Bernardino António Gomes. Missão d'este jornal. Pedro aproveitou esse primeiro núcleo e dirigiu-se de Belle Isle para os Açores a 40 de fevereiro de 4832.) 1840 deputado pelo Porto. uma condição mesologica de todas as ilhas. Logar que occopa até 1836 Trabalhos depois do cerco : — — — — — Repositório Jornal da Sociedade dos Amigos das Lettras (Lisboa 1836. emiv. Relações com Garrett e Castilho. O archipelago dos Açores foi o primeiro núcleo da resistência dos poucos hoe é essa mens Hvres que usavam o nome de portuguezes. António Fortunato Martins da Cruz e José Carneiro da Silva. Miguel a 22. — Sociedade : de Jurisprudência. Boleto. redacção do Diário do Governo. Cartas sobre a Historia de Portugal. tem inicial. o quer que seja de grandioso pelo motivo Se do lado absolutista o povo era fanatisado para praticar as carnifici- nas. No meio dos grandes combates . do Porto.

contava vinte e dois annos. e já admirava o auctor do Camões. Foi sobre a praia que D. Na madrugada do beraes. que pertencia ao batalhão dos voluntários. Pedro. organisou a expedição com que projectava fazer o desembarque no continente. uns queriam. e existiam ahi profundas feridas. D. perfeitamente explicado por Agostinho José Freire. Na poesia O Soldado. reuniu as tropas na planície do Relvão. Garrett alhide a esta despedida solemne dos amigos da ali ilha de S. avistaram terra entre Vianna e Villa do Conde em 7 de julho. que insurgiam mais do que todas as proclamações. mas D. Miguel. Pedro do reino. ló-se : t^Porto — Julho de 1832. Miguel 20 de abril de i832. Pedro iv entregou ao batalhão de voluntários a ban- deira que lhe fura offerecida pelas senhoras da ilha do Fayal. que funccionavam havia quatro annos para man- terem o terror miguelino. Por «m motivo estratégico. no dia 8 de julho. começou o desembarque na praia do Mindello. lano pinta * Hercu- com delicadas cores esta situação moral dos emi- 1 Na primeira ediçSo da Harpa do Crente. ainda não tinha ma- nuscriptos.. que havia mudado a a sede do governo da ali ilha Terceira para S. Foi ficado quiz que se dirigissem para o continente isso a vista do génio. Herculano. e depois de uma intimação inútil ao commandante das tropas absolutistas da província. procedendo ao embarque ás duas horas da tarde do dia 27 de junho. o Porto tinha em 1829 abandonado ás atrocidades do governo insensato de D. dia 9 entraram no Porto os soldados li- e o povo arrancou immediatamente as forcas da Praça Nova. a armada dirigiu-se para as costas do norte de Portugal. havia a anarchia das opiniões. n . ALEXANDRE HERCULANO 255 e de falta de recursos. li- que saíssem iv em expedição para a ilha da Madeira. e do abandono dos seus inanuscriptos. Miguel. depois da adliesâo do archipelago ao regimen beral. que se fez em menos de quatro horas.

como suprema táctica: eram 8:544 soldados e 2:100 voluntários. n'estes campos Sepulchro conquistou. . perdida. A E No o velho e amigo cedro valle ainda abracei. Foi a esperança nuvem. E o grito: Ai do vencido! Nos montes retumbara. As linhas fecharam-se no dia 8 de setembro pelo ala- 1 Poesias. 101. * Já era um bem em para o emigrado o poder ao menos ser sepultado chão portuguez. contra mais de 80:000 homens de todas as armas da parte dos absolutistas. p. dorme tranquilio Deu-lhe repouso a morte. meçava por sordem forças um campanha da hberdade corevés. o triumpho de Souto Redondo em A 7 de agosto seguido de uma inexphcavel retirada em de* até aos Carvallios. Ao menos. Cahiu. e a saudade convertida em sanha de irmãos: Do meu paiz querido praia ainda beijei. fez convencer que a causa estava As eram diminutas e convinha poupal-as. além de mais de 40:000 sitiantes em volta do Porto. Que o vento some á tarde: Facho de guerra acceso Em Do labaredas arde! fralricidio a luva Irmão a irmão lançara. As armas se hão cruzado O pé mordeu o forte.: 256 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL grados ao chegarem á pátria. E o adro dos extranhos Seus ossos não guardou. se se não hmilavam as operações á defensiva.

incrivel! E suspirei: nos olhos Me borbulhava o pranto. escreve estas linhas de rea- lidade que explicam os seus versos: «Assim vi morrer al- guns soldados do 5 de caçadores e de voluntários da rainha no temerário reconhecimento de Vallongo. febre. nas do norte e á Serra do Pilar. insepulto. 16. torna a referir-se au combate de Ponte Ferreira em 23 de julba de 1832. E d'e?ses que expiravam. referindo-se a uma carga de baioneta. Som cavo de exterior. do morto.» * Eis o quadro poético: E £ E a bala sibilando. em um prefacio com que precedeu a edição definitiva da Voz do Propheta.ALEZXKDBB HEBCULANO 257 fortificações que dos miguelistas no Alto da Bandeira. Eram um Em caos de dores. então obscuro voluntário. que trasbordava. do vencido. t. o trom da artillieriai a luba clamorosa Que oâ peil06 acccndia. — No A vida soldadesca. p. Nu. retrata essas emoções da campanha em que era infâmia o ser humano. E as ameaças torvas. os livres foram grandes. E a dôr. sangreulo. Por entre tempestades A 1 i. que precedeu a batalha de Ponte Ferreira.. Pediu-me infernal canto. E os gritos de furor. Era uma lucta desegual e des- esperada. convulsão horrível. Sonho do accesa Scena tremenda. p. IV. 91. publicado no Pan. Oh. E as pragas Do vencedor E a pallidez . Herculano. sim! maldisse o instante Em que buscar viera. terra em que artigo nascera. I. Opúsculos. 17 . o insulto.

Mordendo o 2 pó. . Os generaes projectaram abandonar a cidade. Quando a mente accendida Crê na ventura e gloria Quando o presente é tudo. mas D. . Delicioso amor. na juventude É o dormil-o amargo. lá eram! O seu thesouro de ódio. mandou picar as amarras para a esqua- dra se fazer ao largo. a fome appareeeu com o seu terrivel séquito da cholera morbus e do desalento. 258 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Que é. eraflm. Oh Quando na vida nasce Esta mimosa flor.. nâo bastavam os combates nas linhas e as granadas chovendo dia e noite sobre a cidade. E 1 Poesias. Pedro iv era novo e brioso. Como a cecém suave. 102. ' £ os fortes lã jaziam Co'a face ao céo voltada Sorria a noite aos mortos Passando socegada. índa nada a memorial 2 Ibid. . Irmãos. . p. Que me tingia tudo De sanguinosa cor. Contrários ainda ha pouco. 106. Maldito era o triumpho Que rodeava borror. em fraternas lides Ura canto de victoria? É É delirar maldito. Porém. nâo quiz. como o tinham feito em 1829. o somno teu Só é somno mais largo.. A refrega era dura. p. triumphar sem gloria. cederam. Na poesia de Herculano transparece este desalento: morte.

No plaino calcando relva os tapetes.. terra cxpirrava. A E i o globo incendido Um Poesias. ^ Em rolos ondeando Nas azas do vento. . E aos árcs. qac imporia? Final suspiro ouvil-o 25d Ha-de a Irei pátria. De agudas A baionetas renque brilhante Treinenle avançava Ao brado de — avante I E ao baço Dos ruido leves ginetes. N'essa outra poesia O Mosteiro deserto. dos canhões. Peões. aos seios das alas Qual raio descia. tra a como se viu na guerra dos curas con- Republica hespanhola. cavaiieiros De iovolta ruindo. pouco se alçava. ALEXAITDBE REBCULANO Morrer. E E a férrea granada Nos ares zumbia. morrer. 108. o poeta descre- vendo o abandono dos conventos pelos frades que andavam capitaneando em volta do Porto os povos fanatisados. Ao som das passadas De vJDte esquadrões E em meio do fogo. Da Os ferros cruzados Luctavam tinindo. de trabuco e cruz alçada. traz mais um quadro de bata- lha com traços de realidade que raras vezes entram na idealisaçâo litteraria: E á voz Ao trom das trombetas. revolta. Do fumo alvacento. Na terra l dormir tranquillo. p.

» tA . uns vultos vaguear se viam : A cruz do Salvador na esquerda erguida. que os religiosos do convento de S. Deus guarde a Y. por officio que ao intendente geral da poda corte e reino dirigiu o corregedor da comarca de Braga. resolveram que. Monge que corria. P. licia El-rei Nosso Senhor constou. Pelo pinhal da encosta ou da campina. Luiz de Paula Furtado de Castro do Rio deMendóça. Reverendíssima assim lh'o faça constar: quo de ordem do mesmo senhor communico a V. 1 Poesias. 190. se as circumstancias o exigissem. 2 púlpitos com allegorias. quando viram que se faziam preparativos para a defeza do reino contra os rebeldes. traça Herculano esto protesto: gargaíita da serra ou sobre o outeiro. ficassem dois d'elles. guardando o convento. era o Monge. Mandava mil golpes Em rochas partido. e vim trazer a desunião entre o pae e o filho. e tendo merecido a approvaçJo de sua magestade a louvável deliberação destes bons religiosos e fieis vassallos que n'isto mostraram conhecer que ninguém deve deixar de expor-se aos trabalhos e aos perigos para um fim tão justo e tão importante: Determina que Y. Ueverendíssima para sua inlelligencia e execução. 2 t Secretaria d'Estado dos Negócios Ecclesiastico» e de Justiça. açulando os irmãos segundo o espirito do versiculo de S. Fructuoso da dita cidade. Na dextra o ferro. Matheus. e da palria. Negros.: : . 260 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL E prenhe Com fero de estragos. Reverendissima. que diz «eu trouxe a espada. Entre as rápidos corriam E E E era o Monge que bradava. preces blasphcmando perdoeis a fileiras «Nào um só!» feros bradando. andavam com a cruz erguida. que blasphemo Preces vãs a Deus fazia. do soberano. entre o irmão e o irmão vim metter a guerra entre elles. P. era o . Senhor Ministro Provincial dos Religiosos Menores reformados da Província da Soledade. p.» O que elles interpreta- vam nos Ira. palácio de Queluz em 22 de dezembro de 1831. aqui cumpriam-no á let- Na poesia do Na Mosteiro deserto. N'esse dia de atroz carnificina. e os outros se apresentassem armados e se unissem aos mais defensores da religião. ^ estampido. i No raeio do tropel avisíavam-se os frades animando os que combatiam contra a liberdade. P. que se achavam enfermos.

a peste. e a ella. que em ânimos rudes Inslallou o furor fratricida. D. Só reslava O £ os vencidos eram esses vicloria ^ Que a esperança da Arrastara. nação atrophiada por esse parasita que a ata- cou desde a sua origem. . as turbas De inúmeros soldados Comprar com sangue o pão. apesar de nega- devemos todos os fructos que nos ligam ainda á civilisação moderna. miserandos A uma guerra impia. com sangue fome. em que entraram em parada 8:384 beraes. sem gloria £ssas scenas de pranto e de luto Quem as trouxe a e:ta terra querida? Foi o Monge. ALEXANDRE HESCULANO Vis. já no fim do cerco. £m desordenada fuga Betiravara-se os vencidos. 199. e d'esse trium- pho resultou da liberdade em todo o paiz. ^ Uma das batalhas mais decisivas do cerco 183í2. lembra esses grandes lances: Fanatismo brutal. £ por gandras e por montes. 1 Poesias p. perseguidos. f */6t(i. Eis contra o que. Na bella ode A Victoria e a Piedadey Herculano. o A o lume. de toda a obra do Constitucionalismo tiva. Pedro conheceu que um dos seus primeiros actos depois da victoria seria a extincção do Monachismo em Portugal. p. ódio fraterno. cadáver só do exlioclo. e dentro da cidade 7:140 contra 35:000 miguelis- venceram os que luclavam pela a força moral da causa iv vida. n'esse plaiao de irmãos retíalo 261 No sangue o moribundo. foi essa a maior reforma. foi a de 29 de 11- setembro de tas. 191.. por dias de amargura fez luctar o inferno. que á tarde. ^ mar avaro. Do fogo céos toldados.. Aterrados. Em Nos regelado inverno .

i Como Na segunda serie da drigo da Fonseca Magalhães. . em agosto de 1833. torvo soltarei ura liymno Depois de triumphar. Herculano acompanha-a dida ode de uma nota omittida nas edições ulteriores: «Este fragcedentes versos. Pedir inspirações Á noite queda. mas a politica engodou todos os engenhos e levou-os comsigo. E o mais é que poucos conhecem 111. ainda que de pouca valia.. os sete mil do Mindello não tiveram apenas eu. Entre os soldados de D. mesmo trabalho. a esplenA Victoria e a Piedade. do Camões. p. salvei milde prosa um cantor. emfim. Onde o canhão troou por mais de um anno Contra invencíveis muros. ao génio que me ensina Segredos das canções. Todos nós temos vendido a nossa alma ao espirito immundo do 1 Poesias. que segue. Oh meus irmãos. colhéraos A Que a c'rôa de cypreste fronte ao vencedor veste. e em minha hu- Oxalá que esse uma diminuta porção de tanta riqueza poética. offerecida Á Roem testemunho de sincera ami- sade. Os homens de bronze. sobranceira aos campos De sangue ainda impuros. mas de que só alguns capítulos estão trasla- dados no papel. irei sentar-me. Harpa do Crente. Lopes de Lima. A guerra da Restauração de 1832 a 1833 é o acontecimento mais espantoso e mais poético d'este século. tomando o alaúde. em impia lucta Só essa c'rôa cila. jornalismo. o sr. pertence a mento. não flque esmagado e sumido debaixo do Leviathan da politica. de João Minimo. Eu. o mais obscuro de todos. Pedro havia poetas: militava comnosco o auctor de D. 262 rasTOBiA DO romantismo em poktdgal Mas da íéra victoria. e que servirá para intelligencia dos pre- um livro já todo escripto no entendimento. Branca. e outros. acha-se datada do Porto. da embriaguez da guerra Bem triste é o acordar! N'essa alta encosta.

oh crença do Evangelho. porém pareceu-me que bra-te de que elles se aievanlavam e me diziam:— Lemtambém fomos saldados: lembra-te de que fomos vencidos E eu bem sabia que inferno lhes devia ter sido. aos seus assassinos. o grito dos feridos. A ideia de perdão parecia me consolava da perda ideia torren- de tantos e tão valentes amigos. o som das armas final o gemido doloroso e longo da sua agonia. «O combate da ante-vespera estava ainda vivo na minha imaginação: eu cria vêr ainda os cadáveres dos meus amigos e camaradas. como tremenda e indeí — lével ignominia.» A intuição do artista não o enganou n'este juizo. e eu te devi então.ALEXANDEB HEBCULANO uma tanto cousa: que politica de poetas vale. tornando o livro menos va- . ajunta Herculano o fragmento do livro que andava Da minha Mocidade — Poesia em e esboço. no momento de expirarem. quantos valentes caíram n'esse dial Eu ia amaldiçoar os cadáveres dos vencidos. . : meditação cap. já politicos. . espalhados ao redor do fatal reducto em que estava assentado: ainda me soavam aos ouvidos o seu clacaindo-lhes das mãos. estampada na fronte do que ia transpor os umbraes do outro mundo. talvez a melhor das minhas pobres canções. que ainda por ahi jaziam. as ideias de soldado e de vencimento conglobadas n'uma só. antes de irmão de armas eu tinha sido christão. a que dava o . * A 1 Nao podemos explicar porque é que Herculano na ediç5o definiliva dos seus versos cortou todas as reíerebcias pessoaes. e Jesus Christo perdoara. o estertor dos moribundos. Os dentes me ran- geram de cólera. Havia n'essa tes de poesia. O Porto estava descercado. por via de regra. como poesia de esta nota. mor de enthusiasmo ao accommeltel-o. e a lagrima envergonhada de soldado me mas escorregou pelas faces. o sibilar das bailas. entre as affrontas da cruz.» A titulo um pouco despeitada. Então orei a Deus por elles. e o arranco do morrer.

que continua desde dando-lhe agua. O ronopimento com alguns personagens. desenvolver o gosto pela leitura.* na rua dos Loyos. a quem dedicou a terceira serie da líoso por ioinlellígivel nos trechos . Herculano. e Ânlonio Feliciano de Caslilho. luz e cama. Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo. apparecia de vez em quando n'este pequeno cenáculo Almeida Garrett. Bernardino António Gomes. Eiit o Boleio de aquarlelamenlo de Uerculano: n. Estava então aquartelado em uma casa do Largo da Fabrica (hoje Largo do Correio) . Tida da guerra fizera-lhe desabrochar ura era essa a poesia por onde devia de começar a transforma- ção da litteratura. — 13 de maio — Porto. eslJo no caso supposlo. mais do que a gloria das ar- mas presava tempo a gloria das lettras.° bibliothesal. e promover os hábitos da associação. sendo nomeado segundo bibliothecario."a> . conhecido afectuosamente entre estes condiscípulos da Universidade pelo Leitãosinho. coronel de 2. na casa do contraste do ouro se encontrava com os seus Íntimos amigos e camaradas Dr. e do estabeleci- mento do regimen parlamentar. 2 de outubro de 1833. e outros com quem cooperou na fundação da e Socie- dade das Sciencias medicas de Litteratura. Dr."" «Rua do Largo da Fabrica. meio de se exercitar a liberdade e a mais inspirados.— 264 HISTORIA DO BOMANTISMO KM PORTUGAL génio novo. cario da Real Bibliotheca d'esta cidade. 2. Herculano conheceu-o aqui de perto e foi o primeiro a julgar com justiça a influencia dos poemas Camões e D. Narciso José de Oliveira. todos os espirilos comprehenderam a necessidade de reformar a instrucção geral do paiz. lenha. Aquartelará o sr. Depois do triumpho do cerco do Porto. Sr. Branca. Harpa do 1 Crente. Em 5 de julho de 1833 eslava já a causa liberal triumphante. seria causa cl'esla amputação de fado Rodrigo da Fonseca Magalhães.*. António Fortunato Martins da Cruz. 120 a 130. José Carneiro da Silva. L. Mello. Herculano desde mais fora passado á segunda linha. e impedido no serviço da Bibliotheca publica do Porto. e collaborou no Repositório litterario.

A primeira redacção publicada do Repositório litterario diverge fundamentalmente da re- . e é uma d'essas A Elegia do Soldado. D. n'essa poesia acham-se tre- chos bastante eloquentes. e João Pedro Ribeiro também contribuíram com algumas communicaçôes ricas para o Repositório. António Fortunato Martins da Cruz e Alexandre Herculano. e Frei Francisco histó- de S. com poesias para o Repositório littera- Algumas poesias não foram mais tarde colligidas na Harpa do Crente. com a cadencia solemne dos threnos bíblicos: Sobre a encosta do Libano. inaugurada em 13 de de- zembro de 1833. Herculano era então segundo bibliothecario da Bibliotheca do Porto. formada da Livraria do Bispo que abandonara a cidade á entrada dos liberaes. José de Urcullu. 41. rugindo nólo furioso Passou um dia. Á Sociedade das Sciencias medicas e de Litteratura pertenciam Agostinho Albano da Silveira Pinto. a contar de 15 de outubro de 1834 começaram um jornal. 2 Na Pedro. José Carneiro da Silva. vem com o tilulo D. ^ inspirada pelo sentimento geral da morte de D. ALEXANDRE HERCDLAKO iniciativa 265 particular. que viviam na maior intimidade. o Repositório lilterario. António Carlos de Mello e Silva. arremessando á lerra cedro mais frondoso 1 Repositório. mas primeira ediçJo. em casa do Dr. e depois reunida nas suas sessões em uma sala da Academia de Marinha a publicação de e Commercio * (hoje Academia Po- lytechnica). Pedro iv em 24 de setembro de 183'j.. da Harpa do Crente. p. onde se in- seriram os trabalhos dos sócios. Fundou-se no Porto a Sociedade das Sciencias medicas e de Litteratura. históricos e rio. foi ommillida sem fundamento nas subsequente* edições. de 1838. Herculano contribuiu sempre com estudos críticos. Luiz offer- tou á Sociedade uma memoria biographica sobre Jacob de Castro Sarmento. no meio dos seus trabalhos de organisação.

Miguel. e luz buscando. Folga com 03 hypocritas iniquos. miserável. ouviu só queixas em crimes. Envolto era maldições. . daccSo de 1838. desgraçado. Folga vil oppressor Folga com os hy|)ocrilas do Tibre Morreu teu vencedor. Elle subindo no céo.. Folga. É pena que seja desconhecida. chorae lhe a morte! e — E dirigindo-se a D. o symbolo do livre . Elle. Plante-se a acácia Eile foi Rei — o liberal arbusto : Junto ás cinzas do forte combateu lyrannos. Chorae. . em susto. Fugiste. . . vil cora teus sócios oppressor. a prostituta. Envolto em maldiçòe?. e que ande desmembrada das Poesias de Ilerculano. . lança-lhe uma imprecação ultra- Nas orgias de Roma. Esla poesia vem datada do Porto cm novembro dcl83i. Quando cheio de esperanças Filbo caro da gloria. Morreu teu vencedor. ouviu só queixas E um choro não comprado. era susto. cujas variantes aqui apresentamos com referencia aos excerptos intercalados no texto acima: Pela encosta Plante-se a acácia. — que só veia a morrer a 14 de novembro de jante: 1866. 266 HISTORIA DO ROMANTISMO Assim te EM PORTUGAL sacudiu da morte o sopro tu sorrias Do carro da vicloria. Que eu pelo bello sol que jaz no occaso sol esta outra Para o Calor Cá ficarei chorando. subindo ao céo. em crimes. Nas orgias de Roma. O final da Elegia traz suprimida a ultima estrophe que está substituída por do Oriente outros se voltem. Fugisle. E um choro lamentável.

» - O modo como estes assumptos estão formulados revelam o critério inferior que os concebeu. ALEXANDRE HERCULANO 267 O final da Elegia traz um traço pessoal que Dão deixa de ter hoje para nós um certo encanto: Eu também combali : — Das louro pátrias lides .. ^ • No programma dos assumptos 4..iro adulou Augusto Cantor humilde louvará «em mancha Depois da morte o justo.° «A tulo de aUm poema Historia das campanhas. uos artigos Qual é o estado da nossa Lilteratura? — Qual é i fíeposiíorio lillerario.» 5. Pedro o heroe do poema. p. D. 3. acha-se sob o n. sitio do Porto e mais feitos do exercito libertador em Portugal e Algarves. lucta era já por si um poema. Sagra a vileza adoração aos vivos. p. 2 Ibid. O poeta poderá escolher o melro que mais lhe agradar. que não seriam tratados de uma maneira uma ::alisfatoria. liiras. nenhum memsentimento bro da Sociedade de Lilteratura emprehendeu o poema projectado nos moldes de Pedreira. . M.° escripto em lingua portugueza com o tiO sitio do Porto. até do Usurpador e seus partidários. Também coibi um prantear o companheiro extinclo Kâo me será desdouro. nos versos de Her- culano estão as provas eloquentes de como a vida do sol- dado n'essa grande a critica.°: escolhidos pela Sociedade das Sciencias medicas e de Litleratura. depois do desemá total aniquilação barque nas praias do Mindello. e a divisão do poema em um ou mais cantos. Não faltava poético e enthusiasmo pela liberdade. devendo ser o sr. 23. Faltava littera- ignoravam-se as obras primas das outras Foi Alexandre Herculano o que melhor comprehen- (leu a necessidade de uma renovação do critério litterario. e portanto.

As ideias de Her- culano estavam ainda bastante confusas. que devemos a renovação d'este género inteiramente extincto na Europa depois do xvi século. . mas o seu conheSchiller. p. f>3 e seg. ou. dos preconceitos e dos sentimentos das ultimas classes da sociedade. ^ cimento da lingua allemã e ingleza ievavam-no a traduzir algumas bailadas allemães de Burger e de imitar Lewis. 4 e 13. Era a Leonor. como a historia intellectual do povo. p. Schiller O Cavalleiro de Torifjenbiirgo. um pequeno prologo com que precede de Burger. 3 Nas Poesias de Uerculano. tim caracter de nacionalidade sem o qual nenhum * povo se' pôde gabar de ter uma litteratura própria. p.» em nota accrescenta: «teremos occasião de apresentar mais ex- tensamente esta verdade tantas vezes menoscabada. 2 Ibid.. Bello. nSo vem a bailada de publicada no Repositório. o convenceu de que a poetro sia deve ter. a vida da paz levou-o do estudo das tradições nacionaes para polemica erudita . por ou- modo. A leitura de Homero. de todos os paizes. p. além do bello de todos os tempos. ás. Repositório litterario. Unidade. publicada depois por Herder. o qual na collecçâo. exprime o verdadeiro caracter da litteratura moderna pela obra do poeta allemâo: «JBurger empregou admiravelmente a poesia nas tradições nacionaes. e a este critério deveu Herculano a sua superioridade. Passado esse estado moral que lhe suggeriu tão bellas composições lyricas. e a O exemplo fazia mais do que a Iheoria. se pôde considerar como a histo» ria dos terrores e das esperanças. e é a elle e a Voss. a cujas obras Burger era familiar e de que mesmo traduziu alguns trechos. ^ 71.268 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL * O trilho que ella hoje deve seguir? tica intitulados e nos estudos de esthe^ Imitação.» Aqui estavam as bases para a transfor- mação da litteratura. esquecida ou ignorada. a historia e para a é por isso que em uma carta a Soares 1 Repositório litterario.

ALEXANDRE HEBCTJLAKO 269 de Passos. e serviria ao mesmo tempo bre elles de dar impulso ás leltras. a sua paixão era a historia no romance e na mono- Entre as theses propostas para serem discutidas na Sociedade das Sciencias medicas e de Litteratura.. Para a primeira parte era-lhe indispen- sável fazer a exposição histórica da litteratura portugueza fal-a a traços largos. . e foram completados no Porto. o logar da Bibliotheca e se fixou em Lisboa. 6. escrevia: «Fui poeta até aos vinte e cinco anDOS. por esse meio.» Esses vinte e cinco annos estão com toda a sua pujança ua Harpa do Crente. que só veiu a ser rea- lisado vinte e cinco annos mais tarde no Curso superior de Lettras. mas attribue a decadência da littera- tura do fim do século xvi e xvu ao abuso das metaphoras recebido da Itália. mas a solução pro- posta para a reforma é capital: «Um Curso de Litteratura remediaria os damnos que devemos temer. sugger*e tamponto de vista sensato. p.» * No ensino da Eloquência. appareceu este assumpto: Qual o estado da vossa litteratura? Qual o trilho que ella hoje deve seguir? i Coube a Herculano o «en- cargo difllcultoso» de ralar por escriplo esta questão urinstitui- gente no meio da actividade da transformação das ções de um povo. Nâo admira esta débil comprehensão em quem tinha só vinte e quatro annos.» Herculano já co- nhecia os cursos de litteratura moderna de Villemain. quando em 1836 abandonou graphia. diz elle: «encontraríamos finahnenle o espirito de liberdade e nacionalidade da actual litteratura. bém um se fez uma compilação dos dis- cursos dos deputados da Constituinte «á maneira da que em França das orações dos representantes nacionaes * Râposilorio litterario. que julga necessário para nm povo que entrou no regimen parlamentar. e so- moldou um plano rasoavel.

Burke. do Porto.270 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL * desde o principio da Revolução. Mirabeau. conselho era salutar. os estabelecimentos iitterarios propunham as suas reformas. a Socie- dade dos Amigos das Lellras. o que os indivíduos faziam sociações. podemos inferil-o da fundação de as- como a Sociedade de Sciencias medicas e de Lit- teratura. 14. Costa Cabral. Sheri- dan. Este espiportugue- de . nâo houve quem tornasse a achar o espirito dos revolucionários de 1820. a von- tade nacional no voto. Um systema em que tudo se sophisma. e a sua manifestação na maioria do parlamento. deve actuar poderosamente na oratória! Assim aconteceu. a Sociedade de propagação dos e Associação dos Advogados. Conhecimentos úteis. de Lis- boa. mas surgiram os grandes oradoEstevam. Mackintosk. discutindo os professores a reorganisação da Escola medica do Porto. Canning e Fox. iniciativa era uma novidade nos costumes zes era o fructo das três emigrações do elemento liberal em 1823. mas o systema parlamentar era-lhe pouco conhecido. as reformas decretadas oíFicialmente precisavam da coope- ração de todas as energias individuaes e collectivas. . res. Uma corporação pjersistiu na estabili- dade. e bem se vê que Herculano ad- quirira pontos de vista novos durante esse anno tormentoso da emigração. pelo abbade Corrêa da seus membros eslerilisaram-se no momento em 1 Repositório UUerario. José em concessão perpetua com a monarchia. os Passos. os Duque de Lafões. i829 e 1831. rito e da Universidade de Coimbra. a Academia Real das Sciencias de Lisboa. p. Burdett.» ricas queria o Em vez de regras theo- exame dos monumentos de Demosthenes. No meio da transformação mental que se operava no paiz. a Sociedade de Jurisprudência. Pitt. Cicero. falseando a sua tradição revolucionaria conscientemente desempenhada pelo fundador o Serra.

e já succumbia á sua degrada- ção interna: a Academia das Sciencias adheriu ao obscu- rantismo sendo a primeira a reconhecer D. e Contos de Garrett. o fundador da critica diplomática. e depois de mil vacillaçôes appareceu a medalha gravada pelo francez Dubois. e de 1818. 23. escrevem Herculano e José Carneiro: «o fim do auctor foi ludibriar uma fracção d'este corpo respeitável.ALEXANDRE HEBCULAlíO 271 que procuraram viver do favor oíTicial. Miguel official á concedeu uma recepção interior Academia graça especial permitliu que entrassem para no palácio. Elle. Miguel como legitimo monarcha e a tomal-o como seu protector. de António Caetano do Amaral. mas contigua áquella em pezo. em i829. A Aca- demia teve uma mandou cunhar uma medalha para perpetuar essa insoUtum decm. p. ^ da anedocta: A Academia ficou a No fim do artigo chasqueando a medalha da Aca- demia. e de Trigoso. No Repositório Ullerario. Cousa estupenda ideia. * tenfacto tando compor o Diccionario clássico da lingua!» De o primeiro e ultimo volume publicado do grande Diccionario da Academia acaba na palavra azurrar. data zurrar. e o faria de uma epopèa se não se achasse empenhada em sair da palavra a^íírrar (o hrairc da — — lingua franceza) na qual desde longos annos amuou. in- * 2 Nas Fabulas Repositório litterario. em que collaborava o in- signe João Pedro Ribeiro. ainda a Academia das Sciencias era respeitada pelos trabalhos doeste. pelo a circulação menos. . proteslou-se contra esta bajulação da inépcia: «D'esta futilidade de fez a Academia o assumpto uma medalha. que nem sabia escrever o seu nome. assignando as sentenças de morte com o horriílco gatafunho AJigel! D. e por uma sala mais em que costumaI vam ser recebidos os académicos. o segando inlitula-se Pelo zurro o burro. Ainda era vivo o grande medievista portuguez João Pedro Ribeiro. Discutiu-se por muito tempo a inscripção latina e a allegoria.

ousou tecer criminosa e ao uma pagina mesmo tempo * ridicula para a historia d'a- quella Academia. xvii. se ! um Ires que Deus nos deu potencias d'alraa Lbes não sacasse duas â surrelfa. uma rasão de sarcasmo que se podia estimular.» Passados annos Herculano veiu a ser vice-presidente da Academia. para que. Não encontrassem por desgraça nossa Co'um pérfido azurrar zurrar maldito!. Em i834 o ataque a esse reducto do pedantismo tinha ser. magestosa lingua. ter- minada guerra civil e logo que a desejada paz começasse a sarar as profundas feridas de tão sanguinosa e profiada lucta. Se os novos sábios no começo á erapreza. Ficaram no azurrar sempre zurrando. A antigas manhas não perdendo o allinco. e é — também a necessário que seja prompta . p. e fora bem con- veniente ter sido já de antemão preparada.. hoje nem Em um artigo de Agostinho Albano da Silveira Pinto Sobre a instrucção publica pio: em geral. e era peio isso. grandeá calhamaços A portugueza. Deixando só memorias e memorias . . quanto fulgira Em gordos. que produções seria maií. 45.. se podesse offerecer á mocidade portugueza uma in- strucção regular e methodica e ao par da instrucção euro- e n'elle se descreve cora as cores as mais picarescas a Academia Real das Sciencias de Lisboa : Que Quanio Ob quanto deus maligno Inimigo de guapos académicos produções. lê-se este bello princi- «Ha cento e quarenta annos que Leibnitz disse que aquelle que fôr senhor da educação pôde mudar a face do mundo. e digno de formar parte que amparada pelo estúpido poderio do governo d'essa época. . 272 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL d'elle. Quanio seria mais. p. A reforma pois da instrucção publica é necessária. 24. grossos.. Das — Obras de Garreífy ^ t. mas foi-lhe impossivel incutir vigor a essa estabilidade filha da apathia idiotica. Repositório litterario.

. Espalhados por dilferentes partes se reuniranj n'esta Bibliotheca..» Para fazer as reformas era preciso estudar.ALEXANDRE HEBCULAKO 273 instituições pèa. total elles poderam escapar de um naufrágio á força de incessantes cuidados que se lhes dedicaram. 18 . Esta orientação dos cé- rebros passou de pães a filhos na forma da única preoccu- pação dos que estudam d'este prurido geral — ser vida no Porto. apoderava-se dos. Na sua algum tempo fora ai foi aí que teve a concentração para os adquiriu primeiros estudos históricos. empregado publico. Póde-se dizer. em (jue appurece já o lypo dos estudos históricos e biographicus com que mais para a popularidade do Pamrania. a qual tem de ser o apoio mais flrme das * politicas . 110. p. para ser comparada l»iiblicado com o texto de 1358 refe- por Trigoso. porque quando ção do um dia se deixou levar lambem pela ambição politica e se retraiu pelo despeito.. que o saber especial com que mais tarde se revelou na redacPanorama e na Historia de Portugal. e a ambição politica do parlameiílarisrao absorvia todas as vocações. 2i6í(i. já formam uma collecção preciosa. O piimeiro estudo é uma noticia de uma recensão mais antiga do livro de Duarte Barbosa. de 1529. —Salvos por assim dizer no meio do estrondo das armas. nunca mais estudou e apresentou o a publicar phenomeno do estacionamento inlellectual. 9. Em um pequeno preambulo re-se ainda aos passados dias do cerco: «Os manuscriptos que se encontram n'este estabelecimento nascente.» ^ O segundo estudo versa sobre as Ghrouicas manuscriptas * Repositório liiierariOf p. Herculano achou-se por . No Repositório littcrario começou Herculano «ma noticia sobre os Mufníscriptos da Bibliothvca publica da tarde tanto influiu cidade do Porto. da qual constituem uma das grandes ri- quezas. talentos.

Herculano contava examinar uma serie de apontamentos manuscriptos do cruzio D. a geração portugueza afundava-se na imbecilidade. achou-se envol- vido nos ódios e despeitos políticos. mas faltava-lhe já a tranquiUidade moral. Ckcumstancias imprevistas o embaraça- ram. depois da estincção das ordens monásticas. Para a Bibliotheca do Porto fez recolher Herculano os principaes thesouros litterarios da hvraria de Santa Cruz de Coimbra e dos mosteiros do Minho. citado por Barbosa Machado. 142 e luO. quando um dia Herculano por uma intransi- gência politica se demittiu da Bibliotheca do Porto.. e não obstante o immenso trabaliio de organisação riu a histórica. A abolição das Ordens monásticas e a extincção dos Di- zimes. . cujo original. peado com as transi- gências do paço. se achava n'aquella Bibliotheca. e na qual Herculano ascen- dendo intellectualmente. a sua nomeação para as Bibliothecas da Ajuda e Necessidades a veiu restituir-lhe as condições indispensáveis para re- construcção histórica que se tornara o ideal da sua vida. invadido por elevadíssimos importunos que o queriam honrar tirando-lhe o tempo. foi n'esses três annos que Herculano adquia melhor parte do saber que determinou sua vocação Foi em uma Bibliotheca que o insigne erudito Muratori pôde levar a cabo os seus espantosos trabalhos de erudi- ção medieval. Sebastião *. É esta uma phase ia nova que convém historiar. p. Fructuoso titulados in- Monumenta rerum mamorabilium ah anno 1569. e que até hoje têm influído sempre na transformação da sociedade portugueza. foram as duas únicas medidas radicaes que o systema constitucional executou. e o regimen liberal caía por não achar apoio 1 JHd.274 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL de D. sema abolição dos frades. e determinação do manuscripto de Frei Bernardo da Cruz.

sem a abolição dos Dízimos o trabaliio continuava com o caracter de servidão ecclesiastica. não se comprehende como empregou o seu estvio poético fazendo reviver o scnfimento de saudade pelas Ordens monásticas. Foi n'essas iv adquiriu a hy- perthrophia de coração a que succumbia em poucos mezes. Depois de lavrado o decrelo que é a gloria de Joaquim António de Aguiar. que era a foi lei O que da li- aconteceu á lei bertação da propriedade territorial. 2 Poesias. ^ Manuscriptos depositados na Academia das Scicocias. Se ndo treme ante as nuas caveiras .ALEXANDRE BEBCULAKO 275 nas consciências. \). mesmo Pedro jaez. onde mostra o monge dirigindo as carnificinas da lucta fratricida: Caia em pó o Mosteiro e maldilo O que erguel-o ouira vez inlenlar. * que não queria saber o que A victo indecis^ão no espirito publico. É por que em uma lè. Pedro da extincção das Ordens Aguiar assistiu iv assignou o decreto religiosas. . o interesseiro Saldanha. sem que isso os seus collegas do ministério o soubessem. isso era. que nistros de revogada por mi- uma aristocracia reaccionária. revela-sé n'este protesto conde Herculano O Mosteiro deserto. 200. esses sophistas do constitucionalismo eram o ardiloso Palmella. e outros do luctas contra as perfídias qfié D. e Joaquim António de na imprensa á sua composição e impressão. carta de D. se os frades seriam ou não postos fora de Portugal. n'um momento de resolução D. 2 Depois d'estcs versos eloquentes de Herculano. da exlincção dos Foraes. Que insepultas verá branquejar. Pedro iv ao elle Marquez de Re- zende se que havia de dar liberdade a este povo. esteve para acon- tecer á lei que extinguia os frades. o Conselho de Estado recusou-se a approvar o decreto. não queria que se extinguissem as Ordens religiosas.

l. I. para que? Para a camará o arrasar e fazer uma praça. 149. e o alimentar o falso ideal do monachismo a um povo atrophiado por elle elle era vinculal-o para sempre a esse esteio do obscurantismo. fez-se de um modo tumultuado. Estava-se n'esta indecisão sentimental. Correu então a noticia de que se pre- mentos: «Levaram-nos a tendia pedir ao governo que esse bello edifício fosse dado ao Municipio. spondeu que estava apontou para que não tinha para onde quando lhe retorquiram.276 HISTORIA DO BOMÁKTISMO EM POBTUOAL Era uma d'essas contradições Ião frequentes nos caracteres que não possuem uma disciplina philosophicã em que apoiem as suas opiniões. bibliothecas objectos de arte de pintura e escul[)lura. ^ como o seu único amigo. Residimos ahi quando foi supprimido o convento de Santa Cruz.. l. leso. giosas. um frade entrevado sair re- com quando o mandaram ir. . leve o grave defeito de chamou romanideaUsação do uma monachismo no momento em que viam bcstialisado. Em 1834. A obra sentimental de Herculano. a que ces históricos. 21.» * Em outro pequeno artigo os Egressos. o paiz estava extremamente pobre. p. que chilreava em uma gaiola. Mas. II. para casa de um algum amigo. Herculano declara que saiu apres- sadamente e que não pôde reter as bagadas de pranto. e os que 1 Opúsculos. e a anedocta de ter ficado no convento oitenfa annos de edade. 2 Ibid. Herculano relata a retirada dos monges de Santa Cruz. p. expropriação de thesouros do culto. D'este facto dá elle conta no seu artigo a favor dos MonuCoimbra em 1834 obrigações do serviço publico. o octogenário passarinho. Herculano foi mandado a Coimbra para proceder á arrecadação da opulenta Livraria de Santa Cruz. a imaginação do povo portuguez tanto precisava esquecer esses bonzos que o ha- A hquidação dos bens das Ordens relir.

) . e que se não de uma um simples resumo Historia popular de Portugal. mais força teria ainda hoje não existe uma simples vulgarisação da historia nacional. Herculano queria a reforma e não a extincção dos frades. julgam os monHer- ges dos campos pelos frades viciosos das povoações. para a ordem dos Benedictinos devia ser poupada: «Ainda hoje não ousaremos affirmar que a sua conservação fosse inteiramente desvantajosa: deixaremos decidir esta questão gravíssima por aquelles que. Portanto em vez chitectonicos. l. e das questões philoãopbicas ou politicas. Foi isso o fez. crystalisou-se ticos em phrases feitas. sem nunca * saí- rem d'entre o bulicio das grandes cidades.» Panorama. Era esta a ideia fixa do espirito de Herculano ao tratar da educação publica. e os brados patrió- permaneceram elle estéreis. reclamou com energia a favor dos monumentos ar- á demoMas o brado nunca foi ouvido. de mais ou menos âmbito. As leis de indemnisação provocaram coníliclos. que deu em chorar os frades nos seus versos e em prosas poéticas. onde nada respira uma ideia religiosa. e os templos veneráveis da Edade Modia te derrubaram para em logar d'elleà se alevanlarcm salas ou armazéns. ticos. vol. Herculano. 2. porque esse despreso dos monumentos provinha de que a nação ignorava a sua historia. Como poderia dirigir o sea tempo? 2 Panorama. ao ver os frades deixarem os conventos. que actue por um cri- tério justo sobre a consciência da nação. porém onde nem uma pedra falia do passado.ALEXANDRE HERCULANO 277 haviam batalhado pela liberdade queriam recompensas.» culano põe aqui em confronto as lagrimas do povo. i. p. com as theorias dos polí- Foi por lisongear estes sentimentos de espíritos fa- 1 «Os velhos mosteiros do Minho o da Beira eslâo ha rauilo convertidos em casarias semelhantes a alojamentos de soldados. Esta seria a direc- ção scientiíica . que se agrava- ram com a revolução chamada de Setembro. i. de um brado de sentimentahsmo patriótico. 212 (1837. contra a estupidez lição que os entregava * dos municipios provinciaes. a expansão sentimental communicou-se em fervor. p.

a figura do passado. que Herculano começou a exercer a sua primeira influencia moral.» A sociedade nova é que era as- sassinada pela velha sociedade do monachismo e do absolutismo. nos criminaram de obscurantismo.) G7. p. Pedro iv. m. em uma época de trans- condemnados estamos ^ deixar escoar a nossa vida no meio da lucta da antiga sociedade que morre e da nova sociedade que assassina. Depois da morte de D. Palmeila era o senhor do machinismo constitucional tada por D. 2 3 Ibid. fo- campo temiam-no.. Herculano inverteu as condições do phenomeno. já nas imagens dos romances. próprio o confes- homens de velhos hábitos a e velhas ideias (sômol-o ainda que o não queiramos acreditar) ição. e de que não havemos má von- homens exclusivos. occultando Carta decre- em 1826.» dito é a substancia «O que levámos tade de do que temos escriplo tirado senão dois annos. os do campo liberal absolutista d'onde saíra poupavam-o. t. Elle descreve esta situação inter- média: «Reprehendendo o passado em mos taxados de impiedade: affrontando-nos com o presente * em ha seus desvarios. 111. Pedro iv elle fora a a causa da reacção absolutista de i824. e insensivelmente se achou do partido da que victima. como sa: «nós.. elle julgava complicando o presente que precisava transfor- mar-se apresentando-ihe já nos protestos do iibello. 115 (1839. Md. e os do seus absurdos. t.278 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL natisados que se achavam perturbados com o golpe funda- mental do ministro Joaquim António de Aguiar. que só precisava ser posta na evidencia do processo histórico. agora tirava partido dessa mesma Carta para se acobertar com ella e monopolisar a 1 Jbid. . postoque nos fique a paz da 2 nossa consciência. torelle nando-se sempre descontente.» D'aqui um caracter exacerbado. o Duque de . p.

as maiorias dotudo. . e que provocou a revolução de 9 de setembro de Taipa na camará dos pares: 1836 resume-se n'esta3 palavras proferidas pelo Conde da «A experiência tinha mos- trado que era impossivel sustentar-se qualquer governo patriótico tinliam nal. era preciso ferir o escudo para ferir o fim: a revqlução re- vogou a Carta constitucional. Em 4 bristas. . A situação politica começada com o parlamento de 1834. um movimento a re- Ninguém conspirou... o mesmo acontecia no Conselho de Estado. foi um a'cto espontâneo da população de Lisboa o seu íim principal era aniquilar a facção que nos dominava.ALEXANDRE HERCULANO 279 poder. de 24 de janeiro de 1837. da facção Palmella) os favoritos da independência do tlirono. uma facção. (Sessão de 21 de janeiro .» * A joven rainha D. e nos logares do poder judiciário tinham investido pela maior parte creaturas suas. a rainha foge do paço das Necessidades para o paço da Ajuda. Todos os amigos da boa ordem viam com pesar que revolucionário era necessário. e não comprehendia cousa alguma do regi- men liberal. Maria ii era facciosa. a facção" de Palmella intimidou-a com as exi- gências do povo. e faz 1 Diário do Governo. mas ^ como ella tinha feito da Carta constitucional (de 182()>um escudo ao abrigo do qual escarnecia de toda a força moral. cujos indivíduos se mesmos artigos da Carta constituciona camará dos pares tinlia-se crcado uma maioria presença de a si em feito dos seus Íntimos . : volução de 9 de setembro appareceu pela força das cousas. e ella de novembro de 1836. e a minavam para marcha dos negócios era impossivel um ministério que não pertencesse á facção. representadas na força moral dos Setem- entendeu que devia impòr-se á nação tornando os Cartistas (partidários da Carta de 1826. demilte o ministério popular desembarcar da esquadra ingleza surta no Tejo uns setecentos soldados com que procura defenou Setembrista..

Pedro A Carta de 1822 era mais liberal e prestava-se a servara com foi a menos sophismas. governado por diz nas suas Vacances en Es- pagne. Depois que os homens da Revolução de Setembro de modificações que as cortes lhe fizessem. a polemica tomava o caracter de accusação. soffreu tudo adorando a sua rainha.se. requereu a demissão de sebibliothecario. e nal. e os partidos perseguiam-se entre si como se o decahido esti- vesse fora da lei. e glorificando os grandes miseráveis de avidez sór- dida e de paixões sanguinárias. viam n'estas luctas de facções partidárias o gérmen de dis- . nal de 1826. N'esta primeira pratica do regimen parlamentar ainda se não conhecia a necessidade das opposições. Herculano um Carta imposta pelos Setembristas. como esti- mulo normal do poder. A nação estava n'um gráo bem Ín- fimo de inconsciência animal. que se adaptava artificialmente á nossa vida nacioespíritos mais lúcidos. Os como Mousinho da Silveira.280 der. gundo onde se fixou de vez. Edgar Quinet. que a cidade lhe deixou a impressão de um povo uma rainha saída do tumulo como continuando a sorte de Ignez de Castro. dada por D. que hoje figuram no nosso pantheon constitucional. HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Era uma doudice da mulher boçal e mal aconselhada. e e. dizia lar o para não vio- seu primeiro juramento. foi que se potismo aggravando até descambar no mais franco des1842. morto. quando entregou a nação ao arbitrio do em seu valido Costa Cabral.n vez da discussão franca e da modificação das opiniões. 4836 fizeram restabelecer a Constituição de 1822. Era um estado transitório da pratica do systema sem raízes tradicionaes nas instituições portuguezas. como se obde 1826 nas mãos de Palmella. Alexandre dos funccionarios que não quiz jurar a elle. com as foi ella mandada ju- rar em todo o reino em substituição da Carta constitucioiv. que passou por este tempo pela cidade de Lisboa. e partiu para Lisboa. a opinião exercía-se na forma de sedição.

e vigorosamente poeta. Eis os gestos tão lembrados Eis os . Eis o dia da ventura! . 206. S07.. veiu então para Lisboa o nome de Herculano em fins de 1830. mas modelados sobre os escriptos revolucionários de Lamennais. I campos tão risonhos Eis da infância o tecto amigo. em pequenos períodos imi- tando a linguagem biblica. sítios. Ris a fonte qne murmura Eis o céo puro da pátria . ALEXANDRE HERCULANO 281 solução do systema constitucional. na poesia Felicidade. p. em prosa cadenciadn. Palavras de um Crente. mas não as como o Dirceu das Lyras. . * Herculano como verdadeiro peninsular consolou-se da decepção inesperada idealisando novos amores. A chamada Revolução de Setembro produzia em Herculano um desalento moral. apenas \inte e seis annos de edade. Ibid. p. usa esta forma dythirambica. creu dos destinos da pátria. e repetia-se.. . (que Castilho por este tempo traduziu do francez) e Livro do Povo.. Herculano. . achou todos os mesmas impressões: Conta..se que o seu amor fora trahido E que mirrado achou de amor o myrlo . . que lhe Poesias. tão expressiva: Eis IS plagas da saudade Eis a terra de seus sonhos. esse estado sentimental é só o que se acha na biblica fez A prosa impressão sobre os conservadores Cartistas. com nada percebeu do que se passava e protestou contra a abolição da Carta de 1820 com dois folhetos intitulados a Voz do Propheta. e pela primeira vez desVoz do Propheta e mais nada. descreve essa nova situação da sua alma. Na poesia A volia do Proscrípto. ^ O proscripto.

. Outra vez vibrará um suspiro No alahude Eras Eras tu. 282 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL durou até ao fim da vida. Adorando-te. em que o governo se defendia. meu consolo Eu te achei. oh meu Deus !» 2 Para Herculano o amor fora um motivo de idealisação no melo dos disparatados conQictos tas e Cartistas.: . e $19. p. teve a sua hora de ambição. eras tu que eu sonhava tu quem cu já adorei. 220. 2 Ibid. veiu a casar catliolicamente com D. cantor. oh milagre de amor! . Eu direi ao Senhor : lu m'a deste Em ti creio por ella. Se na terra este amor de poeta Coração ha que o possa pagar. Marianna líerminia Meira. esses amores foram longos annos envolvidos no segredo. serviu o seu grupo. oh liilia dos céos. era um jornal de discussão politica como qualquer outro. da ventura. é que se pôde bem explicar a verdade d'esta estrophe: No silencio do amor. e só quando em 1867 o auctor do titulo do casa- mento civil.. que então não era o órgão da publicação official dos documentos legislativos. . o seu tiklio politicos entre Setembris- por esses confliclos não o ac- commetteu de repente. até que deixou ir para diante a bacchanal. introduzido no código. eu te acbei. Quem virá a minha harpa acordar. * Seguem-se a estas outras eslrophes egualmenle apaixo- nadas. isto 1 Poesias. transcrevemos esses traços au- tobiographicos Mas. emfim. ambos sexagenários. Herculano redigiu-o apenas alguns mezes. Em fins de junho de 1837 foi-lhe confiada a redacção áo^Diario do Governo. Quando aos pés da mulhçr enganosa Meu alento era canções derramei. Serás tu. virgem pura dos campos. p. do pobre.

José de Urcullu. faz esteja fora da politica. apaixonando-o pelo seu passado tradicional e histórico. Este periódico é o Pennfj Magazine. que se bem como no Museu piltoresco. e se publica todos os sabbados por 20 réis cada numero. que teve principio no dia 31 de março de 1832. . então em grande voga em Inglaterra. propagador de Íitteratura entre o povo. acompanhada de revoltas par- conspirações de despeitados e movimentos do exerpersistência do governo setembrista. 80. explicar-se pelo facto da queda do ministério setem- em junho de 1837. do Porto.ALEXANDRE HERCCLAKO 283 pôde brista ciaes. Era um fructo da emigração. p. N'este periodo. reproduziu-se typographicamente as formas do Penny Magazine. é que Her- culano disseminou os elementos que lhe deram mais tarde esse extraordinário poder espiritual que exerceu inconscien- temente sobre distribuía a nação portugueza. e se entregue A com que Herculano totalmente aos trabalhos de íitteratura. consta de 8 paginas tas gravuras abertas com bastante delicadesa em 4/ com muiem páo.» * 1 Repositório liíterario. e em um artigo de D. do Porto. Este jornal teve tugal na época do uma grande livro influencia em Por- Romantismo. No Panorama. e aquelle em que influenciou no espirito por- tuguez. numero de exemplares (200:000) que deve excitar a admiração geral dos nossos leitores. que começa em 1837 com a fundação do Panorama pela Sociedade propagadora dos Conhecimentos titeis. escreve: «Resta-nos dizer alguma cousa de ^tligioso um periódico que pela sua baratesa e prose publica. Foi este o seu período fecundo. no das contas da So- ciedade das Sciencias medicas e de Lilter atura. cito. no Repositório litierario. como semanalmente. acha-se inscripta a assignatura do Penny Magazine. fatiando dos periódicos inglezes. até 1839. provocando-lhe o respeito pelos seus monumentos e a admiração pelos seus escriptores esquecidos.

escreveu Herculano na Carta sobre a Propriedade . como se vé na Época.284 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL O Panorama reproduziu materialmente em Portugal o Pennp cli- Magazine. 1 ^ N'esle meio Herculano nada tinha a fa- 2 Panorama. Estes moldes balidos esterilisaram-se pela atrophia iitteraria. Revista universal lisbonense e Archivo pittoresco. A sua saida da redacção deve buir-se á participação mais activa que tomou na politica militante. Fer- nando bibliothecario da Ajuda e das Necessidades. que então se perseguiam cortando-se mutuamente os viveres. Foi por real das suas livrarias dos palácios tanto em 1839. A fusão dos dois partidos temporária. Almeida Garrett e José Estevam. Semana. t. e na parle das gravuras serviu-se dos velhos chés do jornal londrino. in. taes como os chefes Manuel da Silva Passos. hlterario tal ficou até hoje o lypo do jornal em Portugal. 2i1. Acerca d'esla época. Casada então com o príncipe allemão D. este não podia olhar com indifferença os partidários da independência pessoal da rainha. Pela liga de todos os elementos reaccionários caiu em 1839 viu-se o ministério setembrista. e a este facto se deve atlribuir a eleição de Alexandre Herculano como deputado foi pelo Porto em 1840. mas do lado dos Cartistas estava a argúcia e a violência material. Ar- chivo universal. p. Herculano considerou esta graça como tendo-o posto cia a coberto nos seus meios de subsistên- das vacinações dos partidos. * da invenção Herculano foi redactor do Panorama até ao n. os Cartistas faziam-se valer por este favoritismo do paço. do lado dos Setembristas estavam os principaes oradores.° 115. que Herculano saiu nomeado por D. Maria ii um pouco mais desafogada na sua soberania discri- cionária. mas continuou a contribuir sempre para atlri- essa interessante revista durante as duas séries mais notáveis d'essa publicação. Fernando Saxe-Cobourgo. fez-se Em 26 de novembro uma liga ou espécie de fusão temporária entre os Setembristas e Cartistas. e a rainha D.

O Clero por tiiguez. I)'entre os indivíduos com quem v.*. O clero ílcou litteralmente aniquilado. e quando o tenlou pela primeira vez estribando-se nos seus apontamentos. ex. Este chegou. que. para que mio a fizéssemos a esse projecto sobre que ia delibcrar-se. dos srs. V.» (Opuc.» tratou o assumpto." teve a bondade de fallar commigo e com outros membros da opposiçao. em vez da extincção. Pertencia éu á minoria da camará. ii. 5. as gerações continuaram a dar o preço do seu suor para as pompas do clero. (propriedade lilteraria).» (Pag. ficou despeitado No folheto. com a audácia de estudante de Coimbra. ex. a Posteridade á nossa me- moria. finceraraente o creio. elle preoccupa-se outra vez com a questão das em Portugal: «De- pois. ex.) Herculano entendia que bastava uma re- forma nos frades. e da politica. Mareca e Seabra. José Es- tevam. Soure. soltou-ihe o terrível aparte: «Largue a cebental» Herculano callou-se e não pôde proseguir. linha . reputava útil c justa. que só pensava em fusionar os partidos. extremamente raro. Tinliam-ihe os seus correligionários promettido a creação de blica. que devem perdoar- nos. não sabia fallar 285 em publico. e nós os homens do povo batemos as palmas — digâmol-o em boa consciência Ê por isso sem saber o que fazíamos. e isto por argumen- tos bistorícos: «Este estado indicava até onde a reacção po- camará dos deputados na legisapresentado um projecto de lei sobre aíjuella matéria. e um ministério de instrucção pu- Rodrigo da Fonseca Magalhães." (Garrett) na v.— ÁLEXASDRE HERCULAJTO zer. e no seu zelo por fazer passar uma providencia. d'onde resultou que em 184! Herculano abandonou para sempre o parlamento. ou dissolvendo-os com favores ou ra- ptando-lbes as principaes individualidades. Deus á nossa inlelligencía. ex. e a cólera po- pular foi cega e bruta como são todas as grandes cóleras. e a enlhesourar a sua má von- tade para o dia da vingança. ex. não attendeu ao seu comprommisso." latura de 1840. o ultimo dos quaes reluclou antes de acceder aos desejos de v. rccordo-me de quatro. publicado Ordens monásticas em i841 por Herculano. Ferrer. COJ lUteraria: testando eu e v.

y> (Ibid. Nao se atrevendo a pronunciar-se sobre a questão dos Dízimos. p. idó- ha dois dias. o mais forte da sociedade. onde havia democra- .) Senle-se aqui outra vez o tom cavernoso da Voz do Propheta. latra figuras bíblicas. condemnane cheio de pezadas do-o a viver das esmolas da côngrua. cava assim os inimigos selembristas. porque a cruz é eterna. 283 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL pular devia chegar a'esta parte. ii. e ao contrario de Chateaubriand deslumbrado pelas egreja. o sacerdociOy desapparecerá. por causa do regulamento do jornal. que vós nastes. reformal-as era dar-lhes força para nos atropliiarem mais. i5. voltou-se para o typo descripío por La- pompas da raartine nos Deveres civis do Cura. se as Ordens monásticas persistissem. d'esses cérebros boçaes diz: «a classe mais respeitável do nosso paiz morria litteralmentc de fome. entende que essa suppressão do rendimento eccle- siastico foi ferir os interesses do clero rural.» anteriormente ao clero ata- Abraçando esta causa poética do clero secular. desenhava com ternura o typo dos parochos ruraes. d'aquella philosophia da ignorância e de corrupção. cujo fim parecia remediar este mal. indicava que era necessária uma reforma e não uma nhum progresso poderia aniquilação.» (IMd. revelam a falsa direcção mental de Hercu- que impreca assim contra os políticos: «o povo. p. As conclusões do opúsculo emphatico lano. no opúsculo do Clero portiiguez. — Então appareceu uma mas feita lei. o templo do Crucificado cairá em rhinas. mas a nação ficará esmagada debaixo d'ellas. quando sobreveiu a Revolução de 1836..) Ne- introduzir-se em Portugal.. Herculano idealisava então o christianismo sentimental. Ai dos que abominam a cruz. no Panorama. vestidos de estamenha grosseira como um verdadeiro operário da granja religiosa. é hoje philosopho. cuja essência não era se- não o resumo da perseguição etc.. — Se continuarmos lio e só vós lhe ensi- a caminhar assim por esta estrada de perdição.

Se ainda reinassem os Cabraes. Mais ainda: pedia ao João. até a esses pedia. os Cartistas torna- ram-se Cabralistas. ninguém se entendia. A marcha dos acontecimentos politicos seguiu o seu rumo disparatado.ALEXANDRE HEBCULAKO / 287 tas e livres pensadores. do Parodio da licismo o em que fez pretende fazer para o cathoo Vigaria de Wakefield na que Goldsmith com família protestante. Como o valido de D. de vergonha com que os podepolitico. A preoccupação saudosa dos frades. em Torres Novas. sem critério algum reclamavam a in- tervenção estrangeira da Quadrupla allíança. Ora. é que levou Herculano a fazer sentir a sua falta reclamando a favor dos tos monumen- abandonados. acerca da necessidade de pedir a favor dos inundados de Vallada: «Pedia a todos os governos possíveis. Foi n'esla corrente clerical de idealisaçSo que em 1844 veiu a escrever o pequeno romance Aldina. e a tomar os monges como os lieroes principaes dos seus romances históricos.. começou a exercer então sobre o paiz in- um systema de pressão que ficou na historia com o Cabralismo. Pedia ao António. que se haviam insurgido. restabeleceu a Carta de teiro I8Í2J6. e que só pôde ser derrubado por meio nome de de uma revolução bastante séria 11 em 184G. Maria perseguia duramente os Setembristas. ríodo é A historia da vida nacional d"este pe- commovenle pelo estado de falta cretinisação em que se achava o povo. e pela res públicos. póde-se inferir por este trecho Do que foi de uma carta de Herculano escripta ao fim de trinta annos. Mais: pedia ao José. porque não havia ideias. António Bernardo da Costa Cabral logo em 184^ appellou para a força bruta. que já estavam iden- tificados com a nação portugueza. Seguro da força e do favoritismo da rainha. que sempre desconfiei que fosse o peior dos três. dando o extraordinário espectáculo de ir ao Porto como e ministro revolucionar a guarnição militar. este systema. por mais mal que alguém .

devo-a a sua magestade el-rei. tom. Era uma natureza poética e violenta. ninguém de certo os compara com via aquelles amigos. a despeito de mais de tima proccUa violenta. 1 A Renascença. de Portugal. em quanto a geração que lhe succedeu seguiu o UlLra-Uoniantismo. n° 1. i. 51) li promoLlendo a sua collaboranio quando oulry. . e é ee a IIlustraçáo ge tornar politica. ^ que o fez abandonar a politica. Herculano esteve com o favor do paço. * Tal era a impressão d'esse tempo ao fim de Da «situação tranquilla em que se collocado» escrevia Herculano na advertência da sua Historia de Portugal: aEsta situação vantajosa e excepcional. e raelleu mãos á obra da Historia de Portugal.s trabalhos lilicrarios o nio occupcm.» ^ Qm evitar com arte a fúria Por aqui se vê que durante esses terriveis quatro ana coberto nos do despotismo cabralista. a procella violenta. joniul lilterario de 184I>. xiv. Foi durante estes quatro annos que reuniu os materiaes. elle também tdtra na appreheasão <Je perseguin'este ções á sua pessoa.288 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL pense dos ministros actuaes. para quem a melan- cholia romântica tomou foi a forma do descontentamento.» trinta annos. de 1853 converteu-se em outra ailusão egualmente tene- brosa contra os que truncaram a sua actividade histórica. Yillemain viveu como Herculano estado psychologico. (ISíG.) 2 Hist. a que allude aqui de um modo depois vago e mysterioso.» (Fag. que tem ameaçado afundar o meu débd esquife. Porlo. Cheguei a obler a Iriále Iranquillidade de incrédulo politico. porque sou navegante assas rude e inhabil das tempestades. Quando Herculano veiu para Lisboa em 183G e tomou conta por alguns mezes da redação do Diário do Governo. 3 p. EUe a creou para mim espontânea e generosamente: espontânea e generosamente m'a conservou. Iraz Herculano uma caria em (jue acccnlúa esta se^'unila phasc (\q (les[)cilo: «não mo imporia o que vae pelo mundo social. diz que só ura caso o fará faltar á promessa. 1878. espécie de vesânia hereditária iransmittida sob o terror do regimen absoluto. Na Ulustrarão.

Entre os mesmos homens dados ás leltras. Collaborou no n. e emprehendeu a obra da elevação do nivel intelleclual do paiz. é esta descri- pção do estado intellectual do paiz. 160. 2 Jornal da Sociedade dos Amigos das Leliras. cias imperiosas dissolveu-se por drcurnsiari' ^ em sessão de 45 de novembro de 183G. tantos séculos atra- sado pelo obscurantismo monachal. 19 . a fundação da Sociedade propagadora dos Conhecimentos itteis. e a sciencia em Portugal está ainda longe de ter aquelle caracter de uni- <lade. A Sociedade dos Amigos das Lellras. p. 63. e á qual pertenciam todos €s -homens importantes do constitucionahsmo. cumpre conCessal-o. a * que Herculano pertencera. que motivava o esforço iiteis: «A na- uma das que menos tem seguido este movimento progressivo da humanidade. e comprehendia que as tradições nacionaes são o elemento mais sympalhico das lit- teraturas que se renovam com o intuito de estabelecer uma relação entre a sociedade e o escriptor. n. conhecia franceza. Herculano estava então em todo o seu vigor inlellectual.» 2 do Jornal àa Sociedade dos Amigos das Leltras. falta O nosso povo ignora immensas cousas que muito lhe imde instrucção senle-se até nas portava conhecer. e esta classes que pela sua posição social deviam ser illustradas. taes as Uejlexões sobre como. e a Vida do Cardeal-Rei. patrocinada pela rainha. se acha falha- rem repetidas vezes as noções mais elementares de tudo quanto não ò objecto do seu especial estudo.*' 5. No primeiro numero do Panorama acha-se da Sociedade propagadora dos Conhecimentos ção portugueza. achou-secom bastantes recursos pecuniários.» p. 1 que ganha diariamente no meio das outras nações. e começou a publicação de alguns inéditos da historia e da litteratura portugueza. a Língua portugueza do árcade Francisco a litteratura José Freire.ALEXANDBB HERCULANO 289 não achoQ logo as condições para o desenvolvimento da sua actividade litteraiia. sabia inglez e allemão. Esta Sociedade fundou o Panorama em 1837.

ii. Sinceramente confessamos a nossa decadência intellectual . Silva Leal * Era 1839 creou-se ora Lisboa a Sociedade Escholastico-Philomatica^ cujo órgão de estudos foi o Cosmorama litterario. Trigoso. «nem obsta o deixar de ser o prin- Herculano. do que uma imitação do Penny Magazine p.*^ numero se tiravam 5:000 exemplares. incalculável: O effeito do Pa- «logo ao 5. . p. .) «Quando {Pan. este começou apparecer nada mais era. » (Pan. a Vi. 53. do seguinte modo: Meus senhores.) . i. forçosamente assim hade aconte- — cer.» {Pan. cipal redactor o sr.290 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL No segundo volume do Panorama vem uma anedocta que dá ideia do estado dos nossos professores da Universidade de Coimbra: «e outro professor de certa Academia célebre. algumas pes- soas zelosas da instrucção publica nos têm presenteado com o fructo dos seus estudos .. Adolpho Varnhagen. 1. Maria ii protectora da Sociedade. que dava a rasão de serem as viagens do Brazil mais de- moradas de lá para cá.» Entre essas se distinguem Cunha Rivara. caso único periódicas jornal em a historia das pubHcaçôes em Portugal.) «Assim a Sociedade propagadora dos Conhecimentos titeis julgou dever seguir o exemplo dos paizes mais illustrados. . 6 de janeiro de i838. e outros. . fazendo publicar um jornal que derramasse uma instrucção ci- variada. do que de cá para lá. lá desce-se. porque para II. porque além de continuar a ministrar-nos os seus interessantes artigos. . fallando-se da prosperilê-se: dade do Panorama. x> t. * F. accommodando-o ao estado de atraso em que ainda nos achamos. vol.) Fizeram D.... e para cá sóbe-se. formada por accionistas. t... um certo numero de norama foi havendo uma assembléa geral e uma direcção para a administração do capital. quanto á forma. serviu apenas para ensaiar os habilidosos do jornalismo constitucional. p. Em uma circular de 1839. 2 1837. 2.» (Pan. e que podesse aproveitar a todas as classes de dadãos. p.

pelos correspondentes das provincias. e os Annaes de D. A prosperidade económica era também excellenle. «A batalha de Chrysas. e o Panorama seguiu sempre o mesmo systema. taes como: Prestações dos 1:405^700. é que Herculano pu- em i838 em Ires series as suas Poesias com o titulo de Harpa do Crente. e o romance a histórico. O periodo da sua actividade artística está separado I ! 2 Alguns íragmonfos do Emtxco. de 1842-1843. el-rei Da Escola Pohjtechnica e em 1844. tendo a a quantia Sociedade em valores era 30 de julho de 1839. de Frei Bernardo da Cruz. em t2:000 acções de 5á>000 réis. que estava enlâo em moda por toda Europa.» foram publicados oa ^ivista universal lisbonense. foi Herculano encarregado da redacção do Panorama iníluiu desde 1837. lit- a monographia. accionistas. em 1844. João III. vendas avulsas réis. esta circumstancia poderosamente na forma da sua actividade mental. basta detalharmos algumas parcellas significativas. assignaturas e vendas avulsas do Panorama. o opúsculo do Collegio dos Nobres. Panorama. Sebastião. era-lhe preciso redigir o pequeno artigo archeologico sobre cousas porluguezas. Em IC de agosto de 1839 os Estatutos da Sociedade capital então foram reformados. de Frei Luiz de Sousa. . * e em bem \S^\y e o romance histórico o assim a edição da Chronica de D.H3^4I5 l:G90fSijG0. a biographia histórica e teraria.ALEXANDBE HERCULANO 291 foi Por portaria de 2G de julho de 1838 permittido á Sc* ciedade o poder imprimir inéditos da Bibliolheca da Corte. assignaturas do do Panorama^ l:532(!ÍGá3. el-rei em 1839. Herculano cumpriu á risca este plano. sendo o dividido de 10:000^000. 2:. sendo o principal educador da classe media em Portugal e o agente que mais desper- tou o sentimento patriótico. Seguindo o typo do Penny Magazine. Eurico. o excerpto clássico. de ll:87GÍ(o20. Com os recursos da Sociedade propagadora dos Conhecimentos blicou nteis.

comprehende a serie de todas as suas tentativas de introducgão do romance hístorico em e Portugal. o conflicto já o ócio de espirito indispensável para toda a ideahsaçao poé- da soberania nacional da Revolução de Se- tembro lançou-o no temor da liberdade. e entregou-se com boa fé á causa pessoal da rainha. para se entregar exclusivamente ás narrativas novellescas em com prosa. e até certo attraindo para ini- ponto o ciou um estímulo de curiosidade que o historia. Era esta uma forma iria de acti- vidade compatível os trabalhos da erudição. como aquelle a deixara a Byron. que vae de 1837 a 1840. coincide esta transformação da sua capaci- dade litteraria com o regresso para Lisboa 183G. Não tinha tica. Herculano escreveu a foi poeta até aos vinte e cinco annosyj como com grande rigor biographico em uma em Carta a Soares Passos. não estava fortale- . Her- culano debaixo d'essa impressão. o segundo período começa com os estudos para a Historia de Portugal. então acobertada com o nome de Cartismo. e os primeiros esboços dós dois roman- ces que formam o Monasticon. Foi o campo da que aconteceu. não tinha uma vida um sentimento nacional a avivar. porque Portugal estava inteiramente esquecido do seu passado. e com a natureza especial da actividade exigida para a redacção do Diário do Governo e depois do Panorama. deixando a poesia a Garrett. Herculano em Portugal a imitação das novellas de Waller Scott. seguiu o exemplo do auctor de Waverley. em e condições que pouco o coadjuvavam. em 1859.292 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL do período da sua actividade histórica por soífreu um em despeito que no conílicto dos partidos políticos 1842. cujo primeiro volume data de 1846 e termina com o ultimo volume da Origem e estabelecimento da Inquisição em Portugal. O pri- meiro. Os romances históricos de Waller Scott exerciam por toda a Europa uma fascinação pasmosa. tentativas reunidas sob o titulo de Len- das Narra4ivas.

com que observava os vivos no romance.ALBXANDBE HBSCULÍlNO eido 292L com o estudo das tradiç<3es. e o interesse scientifico pelas tradições populares. d.de ScQtt que era por isto influiu elle próprio excedido oo as. e as suas descripções pittores- lypos do vulgo. com que nassem plica a As suas viagens pelas montanhas da Escócia. i^ne aiada não haviam sida exploradas.esde o Waverley Contos de em 1814 até aos um O de 18i8.. romance histórico era um grande elemento para determinar a originalidade nas litteraturas modernas. actuavam no seu na ainda persistiam as tradições das luclas pela in- dependência escoceza. que o estylo rbetorico não coose- gue encobrir. de muitas drcumstancias que. O estudo da philosophia escoceza nos cursos tão fecundos de Dugald Stewart. (de cordel) e assim adquirisse essa qualidade que já nos pas- satempos escolares o tornava um extraordinário narrador. c faltava-lhe esse talento desoriptivo. a infância fora embalada pelns canções jacobitas de uma velha tia. coadjuvando o poder de reconstrucção subjectiva a que não se poderia chegar se fi- . dom . fizeram que os seus personagens se tor- cas deixassem a impressão da realidade.maravilhoso do Tudo hiS'- dialogo cora que vivifica peripécias menQS-fecundas. era que o eíTeilo artistico está prejudicado por un^ esforço. avô a seu neto sobre a Historia de Escócia. É isto o que ex- impressão immensa produzida por Walter Scott na imaginação europèa. nA forma pálida e sem relevo dos romances toricos de Herculano. e pelos contos da gente do campo sobre as atrocidades do exercito deCumberland. estabelecendo a ideahsação da vida social da Edade Media. que fizeram que devorasse com encanto todos os velhos roman- ces de cavalleria e novellas da litteratura ambulante. O poder de Walter família Scott no romance histórico provinha espirito. deram-lhe a disciplina da observação psychologica. o amor eolligia as tradições locaes. separava-a assim da vida moderna.

Quintino Anna do Gierstein. taes e como o Wavcrkt/. p. Herculano tornára-se o grande amigo de d'elle veiu a Ramalho herdar os apontamentos do Diccionaá que mais tarde vendeu Academia das Sciencias. e tor- uma monoraania. O romance nou-se histórico decaiu até ao pasticbe inconsciente. e como o bibliophilo Jacob com relação á historia de Fiança. Ramalho e Sousa. no Panorama publicou alguns pequenos roman- ces baseados sobre a tradição colligida nas chronicas e no- 1 Panorama. Icanhoe Sousa. de Victor Hugo. e que conhecia o dialecto escocez. e se ás vezes o mestre era excedido na comprehensâo da época como nos Noivos de Manzoni. e foram grias domesticas da sociedade uma das principaes ale- que saía da atonia mental do ascetismo monástico. 306 . m. t. que mais tarde tinha de abandonar. (I83i) as imitações eram pálidos recortes de personagens conhecidos volta de em uma acção imaginaria. e rio Scott. * Os romances de Walter Scott foram lidos em Portugal pelas traduções francezas de Defautcom4)ré. t. Os romances de Walter Scott em todas as litteraturas da Europa. e tórico e a historia. nem realidade descriptiva. . ou egualado como na Notre Danie de Paris.. que vera também esti- em Inglaterra durante a emigração. Herculano obedeceu a esta tendênestabelecendo o parallelo entre o romance his- cia geral. iv. ou ás vezes a localisaçao de uma aventura de phantasia em uma determinada época. mas sem relação alguma tradicional. ou o desenvolvimento prolixo de uma lenda. de i830. tentou traduzir alguns dos principaes ro- mances de Walter Durward. p. 243. chega a dar a primazia ao romance.294 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL litterarios cassemos constantemente parodiando os modelos foram imitados histórica da antiguidade greco-romana. Ibid. começou com menos recursos a romantisar a historia de Portugal. Era uma fascinao ção. Her- culano não pôde resistir ao prurido do romance histórico.

com a como um pintor de natureza morta. Apenas Garrett começara uma pequena exploração acerca dos Cantos populares portuguezes no seu ceiro.ALEXANDRE HERCULANO biliarios. tão'necessaria nas linhas descriptivas. á época neo-golhica. e de Paul Lacroix em França. e de fazer íinir os personagens. e esta inferioridade explica-nos a sua incapacidade' para as composições dramáticas. e as particularidades da vida provincial estavam bem longe de serem exploradas e observadas. pondo em circula- ção no romance a nomenclatura que seria melhor empre- gada como complemento do Elucidaria de Viterbo. Faltava um trabalho prévio de erudição sobre os Costumes e vida domestica porlugueza. do Monge de Cister. A falta de verdade^no sentimento. Roman- Como observaremos no seu nas consequências de toda a actielle vidade litteraria de Herculano. assim. de os de- pela lógica ou condicionalismo dos caracteres. e ao mesmo tempo O essa falta de graça. João como ao periodo das navega- ções do oriente. a Dama Pé de Cabra. e as tradições populares. por impossibilidade de exercer a analyse psychologica. por isso vida e nunca leve uma discialém da lógica dos Pafaltava-lhe o poder de dar de metter movimento psychologico fallar ás paixões. em que Garrett era tão eminente. tão indispensável na invenção dos typos. análogo ao de Thomaz Whrigt em Inglaterra. 295 como o Bispo Negro. e. dres das Necessidades. effeito exagerava as minúcias para altingir o da realidade. abusou dos archaismos excessivamente. É o lado inferior dos seus romances. Faltava a Herculano o contado directo tradição viva do povo. A his- toria de Portugal não era conhecida. plina philosophica espirito. em este acção as lendas. é a amostra do esforço violento do espirito de Herculano para ter graça. e a Morte do Lidador. Mater-Galla ou o Doutor Pataburro. como á época de D. levava Hercu- lano a reproduzir os sentimentos romanescos que então . de fina ironia. os romances históricos tanto podiam pertencer i.

era esta a forma do talento de Herculano. em que se esgotaram. O pro- blema do celibato clerical. Herculano retrata as condições em que se achava a sociedade portugueza quando appareceram os seus romances. bem que e débil. collocou-a Herculano na alma de um presbytero imaginário de uma época social tão pouco co- nhecida como a sociedade gothica da Península. porque todos os lentos que appareceram vieram orientados no sentido do romance histórico. ou como emoções da Europa Frei Vasco. como a soltura de D. o despeito. a paixão pelos monumentos architectonicos da Edade Media. veiu sobrepôr-se no espirito de Herculano á influencia de Walter Scott. ou a collisao do amor na alma de Cláudio Frollo. A leitura da Notre Dame^ de Paris. como romance revelação da vida moral e intima dos indivíduos. e ao mesmo tempo a extensão da sua influencia: «Quinze a vinte annos são decorridos. que tomou de assalto as em i831. á Sá de Miranda. desde que se deu um passo. como Eurico. como homem de um só parecer. foi a acção do seu na bella egreja de Notre Dame.296 HISTORIA DO ROMAKTISMO EM PORTUGAL predominavam nas formas exageradas do Ultra-Romantismo. No prologo da quarta edição das Lendas c Narrativas. que Victor Hugo exprime fazendo passar cela. uma influencia profunda na litteratura. e que expõe theoricamente no capitulo Ceei tuera lambem seguida por Hercu- lano no pequeno romance a Abobada (1839. e Não comludo os elles se seus romances foram immensamente lidos. e todos os seus personagens são individualidades isoladas do seu meio pelo despeito. Vivaldo a imitação de Phebus. e sobre baseou a sua gloria. tyrannos que reinavam sem émulos sem conspi- . de Victor Hugo. que reverteu em pouco tempo em um exerceram ta- poder espiritual sobre a sociedade portugueza. para quebrar as tradições do Allivio de Tristes e do Feliz Inde- pendente.) O amor des- peitado de Vasco é ainda uma reprodução de Cláudio Frollo'. Herculano conhecia só uma paixão.

e o Ódio velho não cansa. do sr. como por exem: plo os Irmãos Carvajales e O que foram Portuguezes. que é quasl Scott. Oliveira Marreca. tudo. e talentos da nossa litteratura a emprehenderem composições análogas de mais largas dimensões e melhor delineadas e vestidas. Rebello da Silva . cujo ultimo volume acaba de imprimir o primeiro poeta portuguez (l'esle século. e pôde dizer-se que nâo ha anno que não lhe traga um progresso. romance de que já se imprimiram algumas paginas admiráveis. Corvo. referindo-se ao facto da a Ilude de um género novo na litteratura es- cola do romance histórico: «A critica para ser justa não hade porém attender só a essas circumstancias hade considerar também. Poucos escaparam a essa falsa e tardia corrente. históricos Os romances de Herculano são parodiados com facilidade. do sr. e dos que )y em rativas. nos promette mas que na parte inédita. Mendes Leal.) critica Herculano reclama que a derar os resultados^ essa dupla histórico.ALEXANDRE HERCULANO 297 rações na província do romance portuguez. um emulo de Walter Emfim o Conde de Castella. e que as emprezas editoras exploram lisongeando com phantasmagorias insen- satas esta orientação da curiosiadde publica. do incitaram a maioria dos gradualmente sr. vasta concepção. João V. é licito suppôr. údiS para ser justa deve pon- suas tentativas. posto que incompleta.» E em á mesmo prologo.. que ainda hoje domina. I. que a principio. Todos conhecem o Arco de SanfAnna. vin. o auctor da Mocidade de D. os resultados de taes tentativas. do sr. os resultados foram histórico e monomania do romance do drama que esgotou a quasi totalidade dos escriptores por- tuguezes do Romantismo. e . N'estes quinze ou vinte annos creou-se outra passagem do iniciação uma litteratura. inspirado pelo exemplo d*estas fra- dimensões maiores o auctor emprehendeu no Eurico e Monge de Cister. {Lendas e Narcas tentativas. Um anno na Corte. inspiraram outras análogas..

Para algims escriptores o romance histórico tornou-se uma paixão exclusiva.typo para todas as épocas. o dialogo destaca-se materialmente por meio de um risco significaá reduzem-se a aventuras sem nexo ma- neira dos imbróglios improvisados do theatro italiano. nao é compre- hendido e repellem triumpbanteraenle estas questões como theorias allemãs. — Ponham-se . as paixões uma construcção redundante. que abandonou a advocacia. . morrendo no conflicto de uma sociedade mer- cam a cantil como a do Porto. por in- quem perguntar por tuito preparação philosophica para a analyse das paixões.298 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL servem de. p. mais ou a fiíria menos bem servida. por na relação da obra com o seu tempo. signaes algébricos: cortem-se táveis de então. esgotado em fazer romances segundo 1 Mm. Andrade Corvo e Marreca pecpelas mesmas qualidades. Herculano conheceu este vicio desgraçado com relação ao drama histórico: «Que resulta de se escolherem para objectos de composições dramáticas successos e indivíduos pertencentes a e uma geração e a uma sociedade cuja indoie modo de existir se ignora? Resulta cair-se no vicio do theatro antigo: fazer abstracções e desmentir a verdadeira arte. 137. como em Arnaldo Gama. Rebello da Silva. e n'este sentido servem para condemnação da obra de Herculano. » * mesmo se deve repetir para cita com o romance histórico: as imitações que Herculano de Men- des Leal. segundo de escrever. como resultados d'ella. sentimento e intuição da historia. Eis aqui está a receita. do Conservalorio. e o das as allusões aos acontecimentos políticos ou pessoas no- drama pertencerá Isto á época e ao paiz que nos aprouver.ahi em vez d'esses nomes tão conhecito- dos do fim do XIV século. segundo a preoccupação do estylo. a época accentua-se com o nome de um rei. a linguagem simula-se com archaismos e com tivo.

Luiz Lobo da Silveira acerca do e de Fernam da Silveira. como i. anexins. a de D. Anles de fazer romances históricos convinha es- tudar as tradições nacionaes e populares (lendas. e superiores em talento aos supracitados. M2S como podia Her- culano inspirar-se das tradições portuguezas. diz -se que Herculano o retocou íundaoieutal- mente. costumes locaes) como rias fez Jacob Grimm. no Mestre GiL ii O que terrível corte de D. De facto são esses os priucipaes romances históricos produzidos depois das tentativas de Herculano. . se elle já em 1831). ^ de D. 2 Vid Poetas palacianos. outros não tinham philosophia. e entremeando reviver ter. se não as conhecia. no Monge de Cisera a vida na e a de D. usos. nem invenção. sem vida subjectiva como os do mestre. todos os outros sâo falsos no estylo. João pôde vér-se nas relações do Nobiliário Coudel Mór. contos. Duarte. como os amores se comprehenderão nas aventuras de Juan Rodrigues dei Padron com a filha de el-roi D. João n. porque uns não tinham talento. a linguagem de archaismos. descria do futuro da pátria? Eis as suas palavras cheias de illusão pessoal e de desalento: «Nós procurámos desentra- > Este romance é altribuido a Ignacio Pizarro de Moraes Sarmento nos ^5- boços de apreciações lilterarias. sem vida. João * fíizia uma época. pensando que pondo alguns nomes históricos conversando á maneira dos antigos diálogos dos mortos. no sentimento. romances.ALEXANDRE HERCULANO 299 O typo fixado por Herculano. e á parte o de Garrett. c depois é que as creações li Itera- desenvolveriam esses assumptos. as cantigas do povo em volta da sepultura do Condestavel pintam-nos mais ao i. João do que as pretendidas scenas da tavolagem. superstições. effeito para se julgar quanto Herculano andava longe do da realidade. e interpretal-as litterariamente. Herculano conservava profundas illusões acerca da sua aptidão no romance histórico. nos caracteres. vivo a época de D.

é uma habilidade estéril. chamada nação portugueza. Pôr outro intuito mais do em romance a lenda antiga. Isto que Herculano escrevia aos vinte e nove annos. desalentam em vez de impulsionar. sem que contrafazer o passado na sua rudeza ou ingenuidade. já se acham também em verso na Harpa do Crente. já ou já não vive. em vez de interpretal-a como litte- um estimulo de renovação do espirito nacional.. 306. . Não comprehendeu o lado vivo do elemento tradicional. Para Herculano a concepção raria foi uma querella de antigos e modernos. sem tirar d'esse culto o estimulo perigo.» samento Civil. siste A verdadeira missão do génio con- em vivificar com a aspiração a Iradicionaes sempre sympathicas uma nova as velhas formas nacionalidade. repetiu-o em 1866 sete na polemica do Caterra. É uma sociedade a immobilisar-se na contemplação do passado. ou se vive. abraçava-se a ella como um refugio. Os romances e as pequenas novellas de Herculano são esta estreita reproducção imitativa do passado. Já se vê o ponto de vista falso em que considerava a tradição. A tradição é o húmus d'onde floresce toda a concepção liga artística. nobre e generosa nação que houve a qual no mundo. nem ao menos lem esforço ou virtude para * morrer sem infâmia. w. porque leva um de renovação. Fortalecemos este ponto de vista com o pensamento de Guizot: «Não ha 'de- 1 o Chronisla (Viver e crôr de oulro tempo) Panorama. apoiava-se no passado contra o presente que se demolia pela nova pratica do regimen parlamentar. assim como os palmos de que es- perava não lhe negariam. reproduzir o velho archaismo. mas nunca arte ou littêratura. é pela tradição que a obra individual se ao sentimento da multidão.800 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL nhar do esquecimento a poesia nacional e popular dos nossos maiores: trabaltiámos por ser historiadores da vida in- tima de uma grande. metrificar o conto solarengo.

tremos lâo anlinomicos seria a litteralura a imagem do pas- sado seria o symbolo querido por meio do qual se vulgarisassem as ideias novas. quando em vez de avançar para o futuro ella não invoca senâò as lembranças e imagens do passado.» * uma com uma ruina inces- Na renovação da sociedade portugueza da nacionalidade dependia d'este o passado. desmorona-se sante. vida.« leç. mas quando em um grande império a sociedade. Herculano não compreliendeu isto. Adheriado á iniciação do regimen parlamentar em Portugal. é então que a decadência é verdadeira. faltava-lhe o talento como artista. em que a classe a compartilhar com a realeza media era chamada pela eleição uma parte da soberania. que se sente opprimida e doente. como erudito. pouco importa o tempo que sociedade leva a cair. abâbou por duvidar da sciencia do séa notnenclatura culo. representatif. des Origines du Gouvern. nâo concebe alguma grande e nobre esperança. Herculano.ALEXANDRE HERCULANO 301 cadencia quando as ideias se agitara. pelo triumpho do systema representativo no cerco do Porto em 1833. . e as algaradas contra os mou- ros e as bravatas dos senliores feudaes. precisávamos mais de futuro do que sado. fez-se o escriptor predilecto da nação portugueza. 2. que No fim da òomeçára por descrer do presente por de novos factos positi- uma doença moral. mas immobilisou a moci- dade de duas gerações que nada comprehenderam d'esse grande periodo de renovação intellectual que vae desde a descoberta do homem^lmte-historico até hoje. a vida rompimento brusco com quem nos esclarecesse o quem nos força social revestisse de cores saudosas o pas- A única que poderia conciliar estes dois ex. im- 1 Ilist. e idealisando á vida clauslral. considerando vos como uma outra forma de gongorismo! Não faltava a Herculano a comprehensão das formas do romance histórico.

civil d'esse tempo. N'estes dois reinados operou-se transformação social: o fim do século xiv foi uma como um período re- volucionário. porque as instituições feudaes que se haviam misturado com latada agonia a nossa priuiitiva índole social. formosura moral— todos nasceram . e cipio ao duello de morte para que que devia durar cem annos. João testavelmente a mais dramática da historia é incon- portugueza. as A nobreza era chegada ao apogeu da sua grandeza. quando sua di- começava no resto da Europa: o povo dava signaes exteriores de que existia. os elementos da vida social foram então chamados a uma grande lucla. e existia robusto. aqui o erudito foi superior ao artista: i que exerceria uma acção saudável no exercício das novas formas «A época dos reinados de D. resto quasi apa- gado da existência nacional abafada pelo cesarismo. diríamos quasi homéri- dos. como os que deviam de cos. vultos históricos d'esse tempo os personagens extraordinários. e como o munici- palismo o único esteio da vida local. e a politicas. a mo- narchia esgotava a sua generosidade e os testemunhos do seu temor para com a aristocracia na véspera de dar prinia reptal-a. e. Fernando e de D. como foi se extinguiram as cortes.302 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL portava manter o respeito d'essa nova conquista da liber- dade politica estabelecendo a sua continuidade histórica. que então surgiram — os caracteres profundamente disquer pela negrura. as cousas. Sâo-no os factos políticos e a vida pessoas e as cousas. revolucionário não tanto para as pessoas para. tanto os que deviam ser venci- — ficar vencedores combateram Os grandes energicamente. como acontece sempre em similhantes situações. quer pela da situação social do tinctos e altamente poelicos. Herculano teve historia um vago instincto da época mais eloquente da de Portugal para ser vivificada pelo romance. tinham já a to- cado então a meta do seu predomínio. fazendo sentir como o terceiro estado surgiu das classes servas.

36. quando Her- culano escrevia esse quadro do advento do terceiro estado. Na Abobada falta esse espirito da liga secreta das confra- ternidades obreiras. 134. consequência d'essa evolução primitiva. ficam convertidas o que mais é. 2 Ibid. Ferníindo: Ex voUo vai. O Chronista e Mestre Gd. etc. 3 Fernão Lopes. 135. em desenhos de morte-côr. Em com enlhusiasmo no estudo IVledia Abobada. das Jurandas. contra os amores tresloucados de D. e por ella somente se podem comprehender. o Monge i842. Na península 1 Mem. . Fernando. de D. unicamente se em devem contemplar. p. a Cister. é n'esle campo que Herculano coUoca os seus principaes romances históricos como Arrhas por foro de fíespanho.»^ Nas Arrhas por foro de Hespa- nha falta a malicia bliauXy e que em Portugal vemos revelar-se n'esse rifam de escarnho. e perderão os seus lineamentos característicos popular. p. o que elle escrevia dos dramalhões Ultra-Romanticos: «Se porém essas imagens tão aproveitáveis para a arte. Chr. sem o que artística se não com- prehende o deposito da tradição conservado por Affonso Domingues. Leonor Telles. foram o resultado e o 303 resumo d'esta. que na Europa inventou os fa- serão abstracções. avaliar e eicplicar. do Conservatório. de em que pinia D. ex toIIo vem 3 de Lixboa para Santarém. dirigido apeisso póde-se di- quando se exerceu na actividade novellesca era nas por um vago instincto e sem plano. com relações profundas com a época de inauguração do re- gimen parlamentar.: ALEXANDRE HERCULANO paiz. forem arrancadas do quadro cujo chão e luz apropriados a ellas.» * Eis a achada época em que surge á vida civil a classe popular. o architecto da Batalha. entrava histórico das institui- ções da Edade portugueza e abandonava o romance. cap. Por zer dos seus romances históricos..

Herculano não tocou esta fonte originai de poesia. ellas dissolviam-se. e que D. mesmo de si no Waverley: «Elle tinha lido os a época de Pulei. que o Condestavel imitava seguindo quixotesas virtudes de camente Galaaz. dizendo. Tanto na Abobada como no 31estre Gil. e havia um divertimento nos in- numeraveis reportorios de meron. píritos italianos.) ca de As cerimonias symbolicas das Mestrias. Falta este elemento no Monge de Foram dade a estes processos críticos elle que deram a superioridiz Walter Scolt. mantendo-se apenas a tradição nas classes industriaes. ou da Compagno- nage. e de que ainda nos séculos xvi e xvii existiam restos nos emblemas dos oíTicios da procissão de Corpus era Portugal. nem já non anda na Yrmaidade.» dia. que o génio doesta na- ção elegante e voluptuosa produziu pelo modelo do Deca(cap. revelam a intima poesia dos costumes e da vida popular do terceiro estado.° 4oS. vida.304 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL as Irmandades foram o primeiro núcleo de organisação vil.) O talento de evocação do passado era proveniente d'esta communicação poética com a Edade Me- da qual foi um dos reveladores no seu estudo do Tm- . que desde foram o exercício predilecto dos bons esprocurado Novelle. João i. por isso os seus romances ficaram sem de D. que ainda se conservam nos livros populares allemães estudados por Goôrres e pelos irmãos Grimm. Duarte colligiu Cister. na sua bibliotheca. (n. Os hábitos palacianos da corte rei precisavam primeiramente ser comprehendi- dos pela leitura dos poemas da Tavola Redonda. numerosos romances poéticos. que a verdade tal guysa se foi a perder que nem podemos en novas aver. que o citava aos seus companheiros de el-rei armas comparando-se a Arthur. falla-se já da decadência das Irmandades. Affonso ni. Em uma canção do tempo de D. ci- e á medida que as garantias politicas eram reconheci- das pela realesa. ui.

no meio de uma sociedade em conflicto de raça e de crença. Eulogio. que a converte ao christianismo. Â ma- neira dos Martyres. preoc- cupando-se com a Ihese social do celibato clerical. uma realidade na collisão dos amores do arcebispo de Toledo. Berle aux graíids pies. refugiando-se ambos no amor mystico e morrendo ao mesmo tempo pelo martyrio. publicado por Immanuel Bekker desde 1829. Herculano escreveu e fez representar no theatro do Salitre em 1838 o drama em . e nos escriptores árabes citados por Dozy. O Eurico c uma imitação do Cláudio Frollo. deixan- do-se arrastar pela declamação do UIlra-Romantismo. Garin le Loherain. como em 1810 revelara a Agostinho Thierry o génio dos frankos. transportada para um quadro da Edade Media. a sociedade hispano golhica e árabe do século ix está tão viva. em 1832. temos uma base de comparação perfeita. que se Herculano se daria ao tra- estudasse esse assumpto tradicional não balho de inventar um Eurico ultra-romantico. Nos escriptores christãos como Álvaro de Córdova. apagado. No meio do 20 seu fervor romântico. O modo como Herculano comprehendeu esse conflicto é débil. Herculano quiz fazer também um poema era prosa. e sem ideal. os elementos para a vida social e domestica das raças germânicas existiam já bem accessiveis nas Canções de Gesta. em 183G. e morrendo theatralmente. Chamou de Roland. a historia dos amores de Eulogio é tão bella. meditando phrases rhetoricas. Esta falta sente-se especialmente no Eurico de Ale- xandra Herculano. metteu-se no subjectivismo phantasista. da Notre Dame de Paris. em em 1833. com uma donzella aralje Leocricia. emíim a sublime vez de recompor a vida collecliva. A leitura dos Martyres de Chateaubriand revelou a Her- culano a poesia da raça golhica. incitando-lhe essa pasmosa intuição histórica dos Recits Mérovwgiens.ALEXANDRE HERCULANO 305 tem. como o FierabraF. por Paulin Paris.

onde . artistica Ires — as miragem intellectual: As suas expresformas. como podia liga a esse manifestal-o no theatro? O facto da composição do Fronteiro de Africa é que é digno de reparo. elementos distinctos. Herculano coUaborou com guns escriptos metaphysicos tórico Da Arte. (fragmentos) Tohu- Bohu. ou três noites aziagas. o ideal. Ha pois em cada obra d'essa só. também Herculano ^ como al- No Jornal do Conservatório. e com extensos pareceres A Casa de Gonçalo e o drama D.303 HISTORIA DO ROMANTISl^O EM POKTUGAL * prosa O Fronteiro de África. Grão-Vasco. p. e O Menino Camões. o segundo as condições absolutas. o pintor do quadro entre os doutores. começado a publicar em 8 de dezembro de 1839. . a terceira as condições relativas. um elogio his- de Sebastião Xavier Botelho. O drama não lem importância artistica. porque se fervoroso movimento produzido por Garrett para a fundação de um Conservatório geral da Arte dramática. Eis uma amostra «O siibstractnm da arte é um sões é que são varias. Eraquanto Herculano philosophou disse deploráveis banalidades. a forma. 2 Jcrnal do Conservatório. Maria Este quadro da renascença da litteratura dramática ficou tratado no livro Garrett e os Dramas. dependentes do mundo material. emfim o desenlio dos caracteres se Herculano não tinha este dom da visão subjectiva no romance. e nas Memorias do Conservatório com sobre a comedia Telles. a parte descriptiva supre em grande parte o movimento das paixões. O ideal é o mys- * Impresso fraudulosaraente no Rio de Janeiro em 1862. as situações. 108. o poeta da epopéa nacional os Luziadas. e todavia inseparáveis: o idealj o poela. Dá-lhe o primeiro a substancia. como nos escriptos legorica Da Arte. ao qual pertenceu censor. falta-lhe a linguagem. românticos. acervo de phrases de uma visão al- em que contempla Affonso Domingues. o archite- clo da Batalha.

Md. Herculano replicou com um artigo sarcástico Tohu-Bohii. ao qual se ligavam todos os espíritos posthumos da Arcádia. mas termina lorpa. todos enem nós mesmos e nas nossas cousas sejamos origiforça de nacionalidade. Os pedantes da Philosophia disseram á Trindade do Evangelho— Mentira!— Os pedantes das Poéticas dirão á minha trindade Anathema. a forma é a revelação escripta. que reagia contra representou o elemento as novas doutrinas lilterarias recebidas da admiração das obras primas do romantismo. nem tanto em contacto com artístico e scientifico o movimento da Europa. com uma graça «Estamos As considerações merecem ser citadas: em Portugal n'uma posição pouco vantajosa para a nossa ratura: litte- trados naes á nem tão isolados dos outros povos. que a tempo 6 compasso entremos nas grandes harmonias do coro ge- í 2 /ornai do Conservatório. 29.ueí-te sacerdote do n)eu ciillo? insulla despiedado. gem da ideia.ALEXANDRE HERCULAUO terio. parte em prosa e parte em verso. 2 O «Defensor de Horácio» era Castilho. E és Sem tu quem me ao menos pensar nilo lenho aliares? Onde achaste a trindade do meu culto? esses moldes tão sublimes vazar luas ideias? Esses moldes quaes sJo? a Natureza. . Te bradará com voz que tu desprésas Onde achaste Para n'elles — A rasio. se rasão ouvir quizeres. Appareceu porque nâo sabia discernira imaem seguida no Jornal do Conser- vatório uma réplica. a cuja sombra crf. que começa por umas considerações históricas justas. Sonho abphomelico. phantastico pelo Doutor in ntroqiie Ichheit. 307 o poeta é o vidente. que. p. as- signada por Um Quem Te defensor de Horácio: profana o aliar. p..» * Não admira que Herculano viesse — a detestar a philosophia. elle da reacção clássica. lyrico. 45.

308 ral HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL de civilisaçâo que de toda a parte se alevanta. exagerámos quanto nos dizem que é moda na capital. e de de imaginação para recompor syntheticamente os caracteres. O trabalho fundamental deveria começar por uma renovação 1 Jornal do Conservatório. que obedeciam ainda aos cônsules de Roma quando já Alarico reinava em Roma. em que o archaismo da linguagem suppria a falta de evocação da época ou a intelligencia da tradição que desenvolvia. taes como como o considerar a transformação da litteratura portugueza resultante das transformações sociaes de i833. como se viu na Allemanha com Herder e Miiller ao lado de Goethe e Schiller. que já aproveitámos na Historia do T/ieatro. e como tafúlos de fallar provinda imitamos ás cegas. nós religiosamente nos curvávamos ainda diante da sombra de colónias iongiquas dos uma auctoridade que já não existia. Ouvimos de longe no que vae pelo mundo. acham-se considerações bastante justas. 101. p. finalmente. O que Herculano dizia com tanto acerto dos dramas ultra-romanlicos apresentados ao Conservatório de 1840 a 184Í2.» * Nos outros três tra- balhos que citámos da collaboração de Herculano nas Me- morias do Conservatório. accrescenta: «e nós. na França Guizot e Thierry ao lado de Victor Hugo. sem vermos primeiro se nos fica bem a moda. como estas Romanos. emphafalta tica e cheia de epithetos. depois os Castelhanos e por E depois de indicar a propagação do a movimento romântico da Inglaterra para Allemanha e da AUemanha para a França. D'aqui a sincera devoção com que pri- meiro copiámos os fim os Francezes. cabia-lhe como auctor dos romances históricos. a falsa linguagem figurada.) . proveniente de uma certa inca- pacidade philosophica para analysar as paixões.» Italianos. a im- perfeição dos dramas históricos por falta de um trabalho de erudição histórica a par da idealisação artística. (1 de março de 1840.

como processo do nosso passado. politico ali no seu remanso de naufrago procuravam-no os no- vos escriptores. em casa independente destinada ao bibliothecario real. na edição de Tolentino. a começar pelo gallego. e essa no estylo de an- tigos hábitos mentaes. emprehende uma tuguezes. que se concentrou no trabalho da Historia de Portugal. ditos e feitos de Lazaro Thomé. vivia Herculano na Ajuda.ALEXANDRK HERCULANO 309 philosophica. só assim é que se pôde imaginar a graça de Herculano. os des- peitos e as separações inutilisaram muitos esforços. Faltou esta condição primaria. que inespe- radamente declama rigo de dizer a favor dos frades: «arrosta com o pe- mal dos mudos. e Herculano. A mocidade em vez de trazer doutrina vinha pasmada de admiração. Retirado da politica desde I8i2.» Mas o gallego é que é lamentável. Na lllustração (jornal universal) publicada já em em mos «foi abril de 1845. A falta não fecundou nem disciplinou os escriptores. e por ultimo na Historia. que só responderão com uma . acha-se elle um enfatuamento auctoritario galeria de Typos porte- Herculano. ella ficava com importância garantida. deveu a parte mais justificável do seu desalento á falta de uma compreliensão e julgamento da critica sobre a direcção da sua obra. e por isso foram descoordenados lodos os movimentos de transformação de critica politica e intellectual. como frades. mas cáe na imprecação. imagine-se uma das mais hirtas e insulsas caricaturas de Nogueira da sos da Silva. nos longos discurVida. Elle n'esta phrase era bem quer ser irónico. quando Herculano se dignava collaborar em alguma das suas ephemeras revistas litterarias. e Herculano deixava-se adorar. que provocando a actividade mental influiria na critica doutrinaria e comparativa. na politica e pratica- mente nas reformas que d'ella derivam. debaixo da campa do te monachismo. e dos padres. protestando que nós typos nacionaes dá-nos o intuito do Parocho da Aldéa: uma experiência.

. Q (Jqq^ da graça anda sempre ligado ao talento dramático. 4. escreveu para a creaçâo da Opera nacio- drama lyrico os Infantes de Ceuta. dos homens mais ami- O illustre fundador da historia da Arte portugueza. p. posto em musica por Miro expressamente para a Academia Philarmonica.. conheceu portanto Herculano no seu período de fervor litterario. emprezario da Companhia italiana fêl-o cantar na noite de 31 de abril de 1845. que veiu a Portugal (13 de maio a de i842) e estudou com tanto interesse não podia deixar de achar-se sos Arte d'este paiz. de uma grande vivacidade de espirito. que eu conheço um em Portugal. p. lllustração. Foi já deputado ás cortes. que fora o primeiro a reclamar a favor dos nos- monumentos destruidos por falta da sua comprehensão. escriptor de rito um mé- geralmente reconhecido.» (Cap. e Herculano não tendo possuído esta qualidade como não pôde dar retambém em historia nunca poderia sair dos moldes severos mas mortos em que escrevia Hallam ou tão característica de Garrett. . no momento em que os > Cartistas se tornavam Cabralistas. Aban- donando cer. 131.» 3 a politica pela sciencia. 157. * Dictionaire histórico. O Conde de Rackzynski. cheio de zelo e infatigável.. em contacto com Alexandre Herculano. prestou a esta ultima um serviço que a nação não poderá bastantemente reconhe- Rackzynski demorou-se em Portugal até 1845. quando. ^ 2 lllustração.ar tiítique du Portugal. escreveram: «A poesia percebia-se pou» 2 co . de uma imaginação ardente. eruditíssimo. escreve de Herculano estas linhas: «É gos da verdade. assim levo ao romance. Guizot. despeitado da politica. 2) * A anctoridade romântica de Herculano crescia nal o . e já em Paris durante o anno de 1817 é que escreveu esse juizo sobre Heroílano. e o Conde de Farrobo. p. Os que assistiam a esse desempenho.310 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL lagrima furtiva.

As primeiras impressões sâo sempre as mais indeléveis. talvez sobre notas levadas de Lisboa: «Elle escreve uma Historia de Portugal durante a Edade Media^ que. João úteis achados na Bibliotlieca real das Ne- cessidades. A imaginação portugueza narcotisada pelas insípidas novellas do Allivio de Tristes. e é. Em 1843 e 1844 já Herculano abandonava o campo do romance histórico. e na Illustração. do padre Theodoro de Almeida.» N'esla phrase de Rackzyushi contém-se u^ia revelação im- portantíssima. Occupava-se em organisar o texto do manuscripto de Frei Luiz de Sousa. já era do Monge de conhecido por fragmentos no Panorama. e Feliz In- dependente. sem duvida será uma obra de alta importância para as sciencias. de que fora redactor exclusivo até junho de 1839. Herculano reconcentravase cada vez mais no campo da historia especial. e da supracitada associação o romance histórico da sociedade gothica na península Eurico. do padre Matheus Ribeiro. III. que a Sociedade propagadora dos Conhecimentos mandou publicar lyrico em 48i4. embora o Monge de Cister só apparecesse em 1848. A sua imaginação era apreciada pelos pequenos romances históricos publicados no Panorama. o Presbytero. recebeu as suas primeiras emoções dos romances históricos de Herculano. a parte principal havia muitos annos que íicára incompleta no Panorama. e mais particularmente para o seu paiz. (1842-1846) se limitava desde a sua con- cepção primitiva ao periodo medieval: durante a Edade Media.ALEXANDRE HERCI7LAN0 311 voltou a sua poderosa organisação para a litteratura. Annaes de D. que a Historia de Portugal em que tra- balhava Herculano. por isso escrevia Rackzynski. Herculano veiu desilludir os que esperavam ainda uma Historia de Portugal completa pondo no frontespicio da terceira edição «afó ao reinado de . colligir romances que veiu a sob o titulo de Lendas e Narrativas. Parle Cister. Quando mais tarde em 1863. ainda em 1844 publicou o á custa pequeno drama Os Infantes de Ceuta.

Cremos que o complemento total do trabalho de 1 A Historia de Portugal de Schaeffer foi interrompida era 1839 para o se» auclor melter mios à Ilisloria de IJespanha. em 1850. acham-se algumas indicações biographicas acerca de SchaelTrir : «Nasceu csle deslincto bisloriador em Sclililz. formou-se no seminário histórico de Giessen. Schaeffer começou a occupar-se da peninsula ibérica. por Hardung. Quando o primeiro volume da Historia de Herculano appareceu á luz obra de Schaeffer critica. Herculano era romanesco. da cilada collecçáo. 1852 e 1854. Houve por tanto n'estes desgostos uma certa phan- tasmagoria theatral. War«estuda nbagen. Ad. cujo quarto volume. já a aproveitada pela segurança da sua Foram estes dois volumes de Schaeffer os únicos traduzidos em francez. taes como Foraes. o primeiro volume da sua bella Historia de Portugal. só se publicou o segundo volume. Em 1836 publicou o professor de historia da Universi- dade de Giezen.312 HISTOBIA DO BOMANTISMO EM PORTUGAL D. vol. Desde seus primeiros trabalhos. Sendo depois nomeado professor de historia na Universidade de Giespen. Foi ali que publicou duas obras que fundaram sua . formando parte de um vasto é corpo de Historia dos Estados europeus. diz da obra de Scliaeffer : profundamente os factos e desassombrado de preoccupações. embora continuasse dizendo que contrariedades innumeras lhe haviam truncado o seu lavor histórico. com * os livros da Historia de Herculano. os três volumes restantes. em 1839 que A obra foi conhecida em Lisboa. p. de 1853. i. publica- dos ao fim de cruza m-se um longo intervallo. que era admirador de Herculano. Affonso Ilh não fez mais do que definir com verdade o plano do seu trabalho. Bens da coroa e Classes servas. e acceitou em 181G o logar de preceptor em uma família aris- tocrática de Darmstadt. ficou o hmitte irrevogável do seu trabalho. Em uns artigos publicados na Gazeta de Colónia intitulados Portvgal na AUemanha. a 25 de abril de 1794. e cremos que não sem influencia na determina- ção de Herculano em concentrar os seus estudos dispersos sobre as instituições sociaes portuguezas. pequena aldôa do Grâo-Durado de Hcsse. foi ali em 1846. o joven aurtor excitou geral admiraci\o por seus profundos conhecimentos da historia de Ilespaniia e de Portugal.j> Revista universal lisbonense. esta posição vantajosa lhe proporcionou os meios de emprehender maiores trabalhos. Durante sua permanência n'aquclla capital. 23. F. Henri Schaeffer.

que :para fazer a historia do estado das pessoas. Foi o que fez Herculano. Estas duds obras formam uma parte da vasta collerçío da Historia dos Estados Europeus de Ueeren e Uckerl. como o revelou Rackzynski. a Actualidade. Se a Historia de Portugal não passou além de ACfonso é porque essa obra. que vae até ao mez de agosto de 1820. das instituições municipaes. fronto da superioridade de SchaeíTer para o enfraquecer.) A ílist. é quasi inteiramente novo . é. e o Elucidário de Viterbo. germânicas. o único trabalbo verdadeiramente scientitico que abrange toda a historia portugueza desde asorigeoâ da monarcbía até aos tempos modernos. bem o intuito primitivo de Herculano. das formas tributarias. occupado com a agricultura e alegrando se quando o azeite dos olivaes de Vai de Lobos pertence ás melhores marcas do paiz.. politica na Edade Media. era preciso esboçar as transformações históricas da península para se comprehenderem essas justificações de formas sociaes romanas. ALEXANDRE HERCULANO Schaeíler. de 1873.. p. etc* (Vid. Como Alexandre Herculano náo quer continuar a sua — obra monumental e vive em relrabimento philosophico. em Portugal. e sobre tudo o seu intuito revela-se no nobre orgulho com que entende ler ino. com cuja amisade se gloa Garrett. estudos é que o relacionou A especialisação doestes com Luigi Cibrario. da propriedade. y. da penalidade. a Historia de Vortuqal de llenrique Scbaeffer. em Portugal. desalentou Herculano. nascera cujo titulo define nos moldes de uma monographia.» * Os trabalhos de António Caetano do Amaa historia social portugueza. da comparativa. «O livro de SchaefTer. materiaes de erudição. a Historia de fíespanha. iy. . eram os únicos subsídios para sem a critica repulaçílo lilteria. que não pretendia passar além da Edaãe Media portugueza. principalmente a parte que trata do estado ?ocial do reino nos primeiros tempos da mouarchia. luz ral e de João Pedro Ribeiro. vado esta ordem de estudos: «matérias de historia social cujo estudo não receiâmos dizel-o. árabes e frankas. é muito estimado.. t. como o revela na Carta Nós julgamos. 313 truncaram o seu trabalho. auctor da Economia riava. rinda boje. e a Historia de Portugal. de Portugal. mas se elle diz que lhe nunca ninguém se serviu do coniir.

lisbonense. e é por isso que sendo importantes os dois volumes em que trata largamente da sociedade portugueza. Ta- que foi aproveitada para a nota sexta úr His- toria de Portugal. T. 637. 934. . ou adscripto aos árabes. arl. Na Carta reja. que exerceram uma acção profunda na renovação dos estudos históricos e sobretudo no espirito democrático cado á critica appli- das instituiç(3es sociaes da Edade Media. 879. mas não cial. . são quasi illegiveis pela forma de allegação jurídica estão escriptos. que Nodier satyrisou acremenle. Leud-vi-ghild. 197 848. publi- cou Herculano na Revista universal Castilho. 316. foi mais longe na recomposição synthetica da vida so- faltava-lhe o talento narrador de um Thierry ou de um Michelet. >i. Dez annos de Estudos 1 Na . universal lisbonense: 591 IV. em que A levou ideia de servir as doutrinas politicas conslitucionaes Agostinho Thierry a publicar no Coiirrier em 1820 français as suas celebres Cartas sobre a Historia de França.314 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Herculano excedeu-os em critica de particularidades. que deriva da palavra árabe At- mostárabe. 953. Estas Cartas mal revelam a seriedade do hisii toriador de 1846. 661. e á imitação das Cartas sobre a Historia de França. 911. A Portugal também se estendeu a acção de Agostinho Thierry. 502. 564. mas cuja adscripção não pôde explicar porque descreve os Árabes como ainda no barbarismo. Já se falia dos Mosarabes. . iii. se Portugal dado em dote a D. Rev. Theod-mir. redigida por umas * cinco Cartas sobre a Historia de Portugal. por 1842. 973. e cita directa- mente a obra de Agostinho Thierry. 262 i. como Theoderich. imitando puerilmente na Carta o sys- tema empregado por Agostinho Thierry para restabelecer a ortographia dos nomes germânicos. na Carta iv discute a necessidade de nova divisão das épocas da historia portugueza. discute a questão dos nossos foi antigos chronistas. p. discussão iii.

Documentos avulsos. mal podem. ás vezes. Pelo seu mo- narchismo o ideal da emancipação do municipio ficou infe- cundo por incompleto. mas Herculano era exclusivamente monarchico. e os seus constantes protestos contra a absorpçâo do systema de centralisaçâo administrativa empregado pela monarchia constitucional contra essa instituição destinada a renlisar na sociedade moderna o self-gouvernemcnt. foi passageira. pelo errado da sua leitura e por se históricos. . Herculano descreve de um condições em que se acha historia todo aquelle que emprehender escrever uma collecções impressas de de Portugal: «As que todos ou quasi todos os paizes possuem.ALEXANDRE HERCULANO históricos. No prologo da sua modo bem doloroso as Historia. Outro caracter lèm os que se encontram nas Memorias da Academia real das Sciencias. derramados por obras escriptas em épocas nas quaes as luzes diplomáticas quasi que nâo existiam. e por isso para elle o municipio nunca poderia ter outro desenvolvimento a liberdade mais do que dos impostos locaes. a Carla v encerra 315 algumas anedoctas sobre os costumes da sociedade portugueza. submettendo-se. e mais tarde contradictorio pelas suas afíirmaçôes anti-democraticas. monumentos acharem confundidos com diplomas forjados. Foi de Agostinho Thierry que Herculano aprendeu o seu municipalismo. materialmente extractados e mais nada.ao processo analytico e doutrinário de Gul- Em todo o caso á primeira influencia da critica histó- rica de Agostinho Thierry deveu Herculano a comprehen- sâo da independência das instituições municipaes na Edade Media. Faltava a Herculano esse poder de recomfez por a vida moral que tanto admirar era toda a Europa as Cartas de Agostinho Thierry. e por isso esta influencia do grande historiador do Terceiro Estado zot. faltam n'este nosso. ser acceitos como aucloridades seguras. que levou alguns escriptores contemporâneos a illudirem-se com os seus sentimentos democráticos.

dos municípios e dos mosteiros. demiltiram-se os empregados com que embirrava. aquelle que faz ao seu intento: hade indagar nos tos estrangeiros monumenil- onde é que se encontram passagens que lustrem a historia do seu paiz: hade avivar as inscripçôes.) Ainda hoje esta situação de qualquer historiador portuguez é rigorosamente a mesma . I. e descobrir entre milha- res de pergaminhos. Assim. frequentemente difficeis de decifrar. Diz Herculano. sem influencia. sem uma saúde vel. hade sepultar-se nos archivos públicos. Nomeado da Ajuda. e recursos para explorar todos os cartórios dos mosteiros. hade ser paleographo.» (Hisc. referindo-se cado. Como bastaria um individuo sem abundantes recursos pecuniários. antiquário. foi como quebrar-lhe á os braços. de ferro. bibliographo. os archi- vos estão sem inventario.316 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL OU nas obras publicadas pelos seus sócios. mas toda esta boa vontade converteu-se facilmente em bajulação. para tratar esta em- preza todos o serviram com boa vontade. t. e se preoccupa a Academia das Sciencias não históricos. viajante. que eu . quem se occupar da historia portugueza. a tão grande empreza? Fora impossí- XI. cathedraes e collegiadas do paiz. Herculano achoudifficil com monumentos se em uma : posição excepcionai. na maior parle reduzem-se a simples extractos. como convém aos fins que se propõem os auctores que os citam. nunca protecção que acceitou do paço: aFóra da situação tranquilla me teria abalançado em que me vejo colloa uma empreza. e assim enervaram aquella estéril. imprimiram-se os documentos que serviram de illustração ou apparato ao seu livro. cultando-se-lhe a Torre do Tombo. conhecer os cartórios particulares das cathedraes. tudo. aplanaram-lhe o caminho. mas esses documentos. biblio- thecario das Necessidades e obteve assim os fa- meios de subsistência para poder dedicar-se ao estudo. natureza forte tornando-o systematicamente A diíTi- culdade e o sacrifício eram o estimulo d'aquella natureza.

que nada significam.» (Hist. ao paço deve a nação altribuir a interrupção do mo- numento: como e D.y> X. i. consultando as fontes directas dos dona»- cumentos. 1. fazendo-o estacar no limiar da sua construc- ção. ALEXANDRE HERCULANO 317 próprio reconheço merecer a imputação de atrevida . D. um sentido que é o que sob foi a forma de divisões dynasticas e biographias de reis seguido por Herculano.. eis o mister da historia.. ram. p. Herculano sepára-se d'elles por les rio. João iv. e as gerações é uma palavra que não encerra a ideia de raça. Esta sitiiação vantajosa e excepcional devo-a tade el-rei. . ponto de vista o que deu segurança ao cri- tério de Herculano.) Phrases vagas.. Pedro sem se insurgir contra essa dy- nastia dissolvente? Abandonaria a Historia para ficar agra- decido. . verdade? De D. sem falsear a ii. AíTonso v II.» . mim o agradeça a nação. «Averiguar qual foi a existência das gerações que passat. de gente. t. 1. porque se comprehende só por si. de D. fazendo a historia do reinado de D. xiv. Elle a a sua mages- creoa para mim espontânea e generosa- mente. João Affoíiso \\ é que Herculano seria grato aos Braganças.) Foi este I. tratam a historia uma caracterislica bem profunda: «Elcomo uma questão de partido littera(Ib. e pretendendo explicar as phases sociaes da ção portugueza. Duarte. Introd. e D. eu apenas a considero como maleria de sciencia. Caracte* risando os antigos historiadores que faziam paginas rhetoricas sobre a Historia de Portugal appensando-lhe falsas tra- dições á maneira dos agiographos. de povo. tendo especialmente familista. a existência u^o mas pelo condicionalismo do meio. e pelas circumstancias que a modiíicam. a sua magestade mais que a (Ib. Port.) Foi esta tranquillidade o que inuli- lisou Herculano. de nacionalidade. ria — Se este livro não fôr inteiramente inútil para a glo- da pátria. Fallava-lhe o estimulo do protesto. e dando pelo fervor do eslylo imaginoso a medida do seu patriotismo.

porém. esclarecel-a com notas ou additamentos dos seus estudos. . nâo existiam somente as monographias de João Pedro Ribeiro. o ponto de vista geral segundo o espirito scientifico moderno já estava de- terminado. de Frei Francisco de S. Luiz e de António Caetano do Amaral. publicada em 1836.318 HISTORIA DO BOMANTISMO EM PORTUGAL Quando Herculano emprehendeu a Historia de Portugal^ começada a publicar em 1846. e se possível fosse amplial-a até ao Cerco do Porto e estabelecimento do regimen parlamentar. que termina na revolução nacio- nal de 1820. e de orientar a nova geração n'essa or- dem de trabalhos. tinha o defeito de tirar o perstigio ao historiador portuguez. Este trabalho. o verdadeiro serviço á pátria teria sido o traduzir com fran- queza a obra de Scbaeffer. sem a Historia de Portugal de Schaeffer. Herculano não se elevaria acima da erudição fragmentaria das monographias. Desde o momento que Her- culano sentiu que lhe era impossível levar a cabo a sua obra.

onde encontra novos desalentos. por causa dos inúmeros recursos estrangeiros. tinha publicado os principaes Chronicôes. na Historia Espana. O Eu e o Clero. de desmembraçâo e de autonomia politica explicam-se pelos accidentes de unificação ou desmembraçâo dos outros estados peninsulares. as relações de dependência. Abstenção da actividade litteraria e silencio systematico de Herculano. discutia com profun- didade a ethnologia peninsular. Pedro v noestado de espirito de Herculano. e para o conheci- . O trabalho de Hercu- lano consistiu na severidade do methodo scientifico. — — — — Para fazer a Historia de Portugal estavam traçados os principaes lineamentos. plicitamente tratada A Historia de Portugal estava im- como um capitulo da historia de Hes- panha. Por tanto o periodo dos primeiros séculos da monarchia portu- gueza é realmente o mais fácil para o historiador. e o porque da desmembraAs luctas polennieas da Historia de Portuçâo do território portupuez. Para comprehensão moderna da qrganisaçâo romana na penínexistiam os bellos trabalhos de Savigny sobre a His- sula. Os Portagalia^ Monumenta. e a queslfio da Situação da Academia das Scicncias. e o fullecimento de Herculano.ALEXANDRE HERCULANO 319 llI. conlradictada pelos actos. lano. na Es- pana Sagrada. A visita do imperador do Brazil. A Historia das Origens da Inquincno em Portugal. InQuencia da morte de D. Roussew Saint-Hilaire applicava os novos methodos históricos á constituição da unidade hespanliola. e as épocas históricas dos romanos. e publicados os documentos que in- teressam directamente as origens nacionaes. — — — — — — — — — — Uetira-se para a vida rural. gal orientam o espirito de Uosculano no sentido aoti-clerical.~(De 1846 a 1806.) Aualyse da Historia de Portugal de HercuDesconhece a etimologia da peninsola. toria do Direito romano na Edade Media. A queèiao do Casamento civil cm 18(10. aban- a donando a credulidade dos nossos chronistas beatos. Concordata. Florez. dos germanos e dos árabes. Analyee geral das formas da sua actividade Conclusão. critica de Masdeu.

desde que achou nma renascença na época de D. Não será este também que não quiz avançar? um motivo por Herculano. o trabalho desliga- va-se dos subsídios da historia de Hespanha. e era de força caminhar sósinho. e por isso toda "a investigação deveria consistir quando muito em entender bem os geographos antigos. para a constitui- ção das povoações segundo as cartas communaes. mas rehabilitada pela critica de hoje. Mas quando estes eruditos escreveram ainda não eslava creada a linguistica ou a philoJogia comparada. condemnada pelos chronistas peninsulares. Diniz. para justificar o abandono das origens dos primitivos povos que habitaram o território portuguez. Não intelligente compila- era preciso talento para tratar os primeiros séculos de Portugal. como um -da conhecimento sem proveito para a explicação do facto unidade nacional. ainda não estavam determinados pela Antropologia. que é a verdadeira chave para reduzir os nomes de logares ás formas conhecidas das lingtias d'essas differentes raças. ou de recorrência aos pos primitivos. Affonso ni. bastava a capacidade para uma ção de tão abundantes e preciosas fontes. existiam os vastos estudos de Hammer e de Dozy. António Caetano do Amaral e Paschoal José de Mello. contida nas Inquirições de D. funda-se nos erros de methodo que prejudicaram as investigações de Frei Bernardo de Brito e nos preconceitos que até certo ponto viciaram as Memorias de António Pereira de Figueiredo. Também sistência de qualidades elhnicas. para a civilisaçâo árabe. Desde que Herculano teve de entrar na vida intima do povo portuguez.320 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL mento da organisação da sociedade germânica os luminosos Ensaios de Guizol e a sua Historiada CivilisaçãoemFrança. . chamada turaniana ou que precedeu na Euos phenomenos de perty- ropa as migrações áricas. existiam os ricos documentos publicados por Munoz y Homero. raça nem tão pouco se conhecia ainda a ibérica.

O erro de melhodo as épocas consistiu em que em fazer como syntheses prematui'as. é uma revolução que se fez com bem pouco ruido. 1^) mas a sua' abstenção proveiu da ignorância da cri- linguistica. Ptolomeu. e a Portugal. entre os outros estados ainda desagi^regados. Pomponio rio Mella. porque essa apparente revolução estava na ordem das cousas. que fizeram «malbaratar tantos estudos e tantos talentos históricos verdadei- ros» (i. fixando a tribu Liizitana. tir O cosmopolitismo semita (phenicios. e determinando persistente através de tudo o typo ibérico. Avieno. sula é A falta da ethnographia das raças antigas da penin- este fez com que Herculano não tivesse comprehendido phenomeno de oscillação social. zes. conhece que o facto da unificação d'esle paiz. da antropologia e tica da falta de applicação da moderna á interpretação dos geographos gregos e ro- manos. e este facto é de importância para dirigir a investigação das raças que se integraram no nosso typo nacional. e a so- lução só a poderá encontrar nos caracteres ethnicos que distinguem as raças. SchaeíTer começando a sua Historia de o «enigma de Portugal. Plínio. ria ferenles desmembração e na unificação politica dos seus difestados. e Silio Itálico. Se esse facto de unificação se fez tão com pouco ruido. textos viciados dos manuscriptos anligos.» Como ex- plicar esse enigma? Tal é a missão do historiador. que se dá na penin- que sula. Herculano fugiu d'estas investigações.ALEXANDRE HEBCULANO 321 como Strabão. é porque era favorecido por condições na- turaes. como o typo originário e ideal da nossa raça. subordinando a evolução das raças da peninsula á antropologia mosaica. 21 . com relação assim chamada pelos Plienicios. Itinerácorrigir-lhes os de Antonino. carthagine- mouros e árabes. e organisar os dif- ferentes mappas da peninsula segundo cada um escreveu. e mesmo os judeus) não se fez sen- nos povos que se tornaram independentes sobre o solo alta portuguez.

a Itália. e diíTerenle é a consi- deração dos phenomenos ethnicos de recorrência. portanto que na parte e da Allemanha. Expondo as suas ideias acerca do organismo collectivo de uma nacionalidade. pelos commumente se aprecia a unidade ou identidade nacional de diversas ge- . mesmo nacionalidades sem tercomo o Judeu. Não nos admira. como as nações formadas da corrente das migrações germânicas. É este ultimo ponto de vista o que se deriva da sciencia moderna. a lingua é o producto que é a promptidão uma raça mais facilmente abandona. e dos eruditos do século xvni. em aggregação. Os caracleristicos de nacionalidade lixados por Herculano são illusorios: as raças sem o cruzamento com outras não produzem aggregado nacional com consistência e vida histórica. com diversas linguas. e a circumstancia do território é também lia accidental.322 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Nos phenomenos históricos. cesse atrasada. Differente é a immobilidade persistente do Luzitano. e a prova com que os povos conquistados adoptam a como a lingua dos conquistadores. ou abandonando o seu território originário. extensão da lingua latina nos dialectos românicos. segundo os historiadores do século XVI. que podem quaes variar de uns para outros povos. e do Árabe na península e entre os Persas. a sua historia devia de ser lambem lante e sem um ponto de Diz Herculano: aiMuitos e diversos são estes caracteres. assim como nos phenomenos de ordem physica. mas ha três. Herculano vacillava na determinação dos caracteres de um povo e do condicionalismo que o mantém vacilvista. como a Áus- a Suissa. de tradição e de orientação peculiar. a obra de Herculano nas- sem mesmo uma clara exposição dos geo- graphos gregos e romanos. e o saber restabelecer a cadeia da evolução é o que caracterisa a capacidade do historiador. existem da geographia antiga de Portugal. como se viu antes da unificação da Itá- ritório. existem nações tria. nenhuma energia se extingue.

qne mostrare- mos contradiclados pelos factos. como â que nas mais longiqiias regiões vive afastada d'ella. da dívisiio territorial administrativa. i a .. das classes servas. e território da Luzitania variou como o ter- segundo as épocas da con- quista e administração ritório romana não condizendo-com o sobre que se fixou Portugal. como a raça dos Lnzilanos teve diversos cruzamentos. descobriria a tendência separatista dos povos peninsulares. Herculano concluiu cpie desapparecee ram degeneraram tolalmenle.ALEXANDRE HERCULANO 323 terri- rações successivas. Condado portugiiez se separa aulonomicamente. Alfonso in. mente a essência da sua Depois de tratar dos i conflictos dynasticos até D. origens dos concelhos. poi-que se lhe fosse accessivel esse problema comparado com a dissolução da unidade romana e da unidade golhica na península. da condição civil das classes populares. fora d'eslas três condições.)) {Uisi. Sâo elles— a tório. lypos foraleiros. descrevendo em mais de volume e meio structura dos municípios romanos. do colonato. A dissolução do domínio árabe não a explica. e como os dialectos raros ves- d'essas tribus célticas apenas se conservam tigios em toponymicos. P. raça— a lingua— o E na verdade. e emfim o systema joô\cia\ e tributário. i.) Com estes princípios. de Herculano. a nação moderna senle-se tão perfeitamente extranha á nação antiga. a Historia social portita gueza. cuja con- servação como individualidade nacional conslilue propriahistoria. A falia errada arcbitectura da Historia de Portugal. 13. ten- dência que produzia a independência de Portugal. é qne Herculano se dirigia na investigação do passado histórico de Portugal. e que nada influíram na dos estudos de etimologia peninsular influiu na orientação do aggregado nacional. (Livro vii. que começa até que o a sua narrativa pela morosa e quasi illegivtl exposição do domínio árabe e da reconquista neo-gothica. (Livro a vi) Her- culano enceta um novo trabalho.

lombardos. Na explicação das instituições romanas. que atas Irmandades. desconheceu os resultados históricos determinados por Savigny acerca da unidade das instituições sociaes dos godos. saxões . não comprehendia o que elle considerava formas Herculano havia também francez. e Livro viii. para um único typo de feudalismo. porque ora a altribue ao Conde D. quando tem pos similhantes e idênticos. d'aqui a impossibilidade de comprehender os municípios e o colonato. instituições que variaram depois segundo a época e território do seu estabelecimento definitivo classes servas por em na- cionalidades. desmembração de Portugal da unidade momentânea Asturoleoneza é incomprehensivel. Aftonsa Henriques. Assim para Herculano.) O modo como me- ramente descriptivo. ignora as conclusões sobre as ori- gens da civilisação árica. conseguintemente. ora crê nas forças immanentes ao próprio Condado. i a iii. e burguinhões. frankos. e critério historico-compa- sem a prévia preparação do estado de civilisação da peninsula e das condições que determinaram a separação da nova nacionalidade portugueza. Thereza pela perspicácia politica. que motivavam a sua desmembração. sem a luz do rativo. Ilenriqufi. (Arimania) e se as conhecesse lenuou o seu estado pela servidão da gleba. torna-se de aridez invencível e uma a sem intuito para a comprehensão da origem das nossas instituições. Na exposição das instituições germânicas. o porque o não via rigorosamente egual na peninsula. provenientes do mesmo tronca díonde esses povos se destacaram.324 III. P. HISTORIA DO ROMANTISMO BM PORTUGAL isto é feito. e por tanto nem conheceu não comprehenderia o seu caracter de resistência. e separa essas instituições como ty- diíTerentes da constituição social germânica. sem conhecer o desenvolvimento . e a seu filho D. uma decadência dos homens livres germas por uma elevação do escravo antigo. e accidentaes do feudalismo. aos planos superiores com que defende D. não explicou a origem das mânicos.

e era Plin.) Outra estendia-se desde o Ana até ao Sacrum. Com relação aos Árabes. que provocava a revivescência de qualidades ibérico. ou propriamente o território da Luzitania. e elhnicas do antigo elemento por isso a definição das origens do elemento po- pular. e d'este rio até ao Guadiana. Herculano não soube destacar o elemento mauresco. a sociedade árabe tríumpbante e a sociedade gothica decaída mas e fortificada pela chríslã. Pelo território se explica um dos porquê da nacionalidade por- lugueza. mas sem raízes senão a do encontro de duas crença sociedades que se odiavam. Outra parle estendia-se desde o Douro até ao Tejo. nunca lhe appareceria como a causa de se não terem formado Estados federaes na península. e Ptol. a sua tendência para tornar-se heriditaria. a decadência inevitável does- Descrevendo os caracteres de uma nacionalidade Herculano indica o território. som corrigil-os. não pôde explicar a realeza com caracter electivo. {ab Ana ad Sacrum Turditani. e na península a sua dependência das cortes. . O ponto de vista chríslão falsificava-lhe na historia a comprehensão pliilosophica. nas seguintes zonas: a) Uma parte estendia-se desde o Cabo Nerio ou de Fi- pisterra até ao Douro. principalmente por Slrabão. a que os escriptores hespanhoes rabCf <:to foi chamaram Mosa- vagamente esboçada por Herculano como um la- existente. e limila-se 'dos a transcrever os dados geographos antigos. 6 por tanto de terem produzido tes povos.) a Turdelanía. esse território acha-se dividido pelos geographos antigos. era ao que propriamente se chaou o território mava b) a Galliza dos Callaecos.ALEXANDRE HERCULANO (la 325 banda guerreira sobre a banda agrícola dos germanos. por isso a coHig:ição e € unilicação das monarcliias com o catholicismo servindoIhe de regimen policial. nem tirar do ter- ritório as deducçôes do methodo tão severo de Ritter. (Opinião c) lambem recebida por Ptolomeu.

na lucta chamando os romanos e entregando-lhe as esse novo poder.» o Também Plí- nio diz «grccorum soboks omnia. um facto bem si- que só pelas colónias gregas do norte se pôde comprehender. de Vianna. até que pela stituir violência da sua situação os gregos íizeram-se sut|. Segundo os geographos antigos desde o Douro Cabo de Finisterra o território era totalmente habi- tado por colónias gregas.» A fronteira luzitanica fixada pelos geoé graphos antigos nas margens do Douro gnificativo. que ainda prevalece no Minho. os gregos e phenicios andaram sempre em conflicto nas suas expedições mariíimas e commerciaes. coma os Jardins de Adónis. se encontraram com as colónias gre- . diz Silio Itálico. fallando do Rio Lima. na descripção da Hespanha: «Nos que vivem junto ao Douro observam-se muitos rasgos da vida e costumes dos Spartanos ou Laconios. e em um grande e como notaram Hoquemont Rac- zynski. «que corre pelo terreno dos Gravios. onde existia um elemento ethnico de raça árica (distingue-se pela cohesão nacional) sobretudo as colónias gregas e romanas. a tendência de aggregação nacional começou a organisar-se na região de Entre Douro e Minho. como se vè pelo regimen emphyteutico da propriedade.» E um pouco adiante: «Os Lusitanos ou Gallegos. a deuses hellenicos. de muitas povoações das costas do norte. apparece em muitos usos populares privativamente gregos. até ao A importância d'este facto 'exige uma maior com- provação. Este fado que ainda hoje se authentica na belleza esculpiural das mulheres da Maia. Portanto os limites dos luzita- suas colónias. para assim se acharem de frente os phenicios com nos determinam-se no ponto em que os phenicios na occu- pação da península ibérica.. fazem seus casamentos aa estylo dos gregos. (trigo grelado) em um grande numera de inscripçôes lapidares talento architeclonico.323 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL facto Tiremos as deducções para o da nacionalidade. Diz Strabão.. já então por causa d'esse nova povo chamada Span.

das colónias mauritanas. determinado pelo antropologista Paul Broca como anáfá- logo ao berber da Africa. E isto que se deduz do antagonismo dos dois povos. como refugio dos árabes conquistada pelas incursões marítimas. normandos e frankos) e capazes de aproveitarem os estímulos da visinhança do mar. a persistência dos caracteres ethnicos primitivos. era uma revivescência se- mita. Aqui lemos os elementos heterogéneos bem caraclerisados para se estabelecer uma aggregação nacional. do lado de Portugal estabeleceu-se um certo cosmopolitismo. com -. e conservou-se a aggregação pela acção vigilante das ordens de cavalleria. do elemento carthaginez. O typo ibérico hespa- nhol. conser- a raça primitiva mais pura e Aquitanios). Assimilou-se facilmente a refoi gião central (vid b) a titulo de libertação do dominio árabe. em que o génio da nova nação se manifestava com uma certa consciência histórica na conquista dos Ahjarves d^além-mar (em Africa) no reinado de D. das colónias scythicas administradas pelos romanos. e pelo grande numero de povoações maurescas que acompanharam a in- vasão sarracena. uma fácil assimilação de raças progressi- vas (ex. vèm-nos explicar a rasão da cil cohabilitação dos phenicios. também o mais diíTicil de conquistar tanto para como para os neo-godos. verifica-se na conquista árabe» em que o dominio do- sarraceno se não elevou lambem acima do Douro. foi Por ultimo a terceira região. João i.ALEXANDRE HERCULAMO 327 gas da norte. Do vando lado da Hespanha dava-se também o phenomeno da ou estacionaria (Bascos differenciação ethnica pelo apoio dos Pyremieos. e os romanos. Esse minio árabe propagou-se facilmente sobre o território onde existira a dominação phenicia. dos Alanos (elemento scylhico que acompanhou os germanos) da fácil conquista árabe. Sobre a persistência dos caracteres ethnicos primitivos de um povo através dos seus diversos cruzamentos e trans- . a formação do t^po ou raça Mosarabe.

sem que sem famílias romanas na península mas sim colonos sub- mettidos ao império. p. p.328 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL » formações históricas. vilisaçâo. a administração e a cultura existis- foram recebidos pelos povos peninsulares. se tinha inoculado de povo a povo. tência dos seus antepassados autoclhones. mas ás vezes recordam-se. mas ainda de uma forma mais abstracta se dá com ci- o dominio romano. porque o bem inocula-se como o mal. como o provam os Celto-Scytbas mencionados por Plutarcho hispânica. 868. Aqui podemos repetir com Paulo Broca. e que estas repetidas con- Mem. em que os caracteres exteriores da o direito. . os costumes. romana. que os caracteres physicos persistem no Celtibero. a lingua. i. wisigothica e árabe. a nacionalidade da raça estrangeira. pelo lado antropológico vemos apparecerem condições de persistência e revivescência do seu typo ibérico pos elementos scy- ticos dos Celtas. no colonato ro- mano. o mesmo antropologista chega á seguinte conclusão: «O que se es- palhara por toda a Europa nâo era vilisação. mas uma ci- por assim dizer. uma raça.»^ Esta af- firmação reforça extraordinariamente o primeiro facto da persistência dos caracteres elhnicos do Celtibero. adoptando a cultura céltica^ phenicia. o que prova o seu caracter eminentemente progressivo. 1 t. cujos caracteres physicos continuam por tanto a predominar no seu seio. no turaniano do phenicio. nos alanos dos wisigodos e nos mouros dos árabes. Se vemos do lado ethnico dar-se uma transformação constante nos povos ibéricos. que. 370. adopôde esquecer com o andar do tempo até a exis- ptando a lingua.. um facto análogo. diz o Broca: illustre antropologista Paulo «A nação cruzada que resulta d'este mixto. d' Antropologia. í Ibid.» * e os Celtibericos da península Das migrações e elementos célticos que entraillustre ram na população dos estados da Europa.

neses. actuou com mais intensidade entre os Iberos. forma da civilisaçâo Comparando os pequenos estados da península aos a esta- dos independentes da Grécia. teriam podido dominal-os. atrevidos somente para pequenas emprezas. não reunido se tendo em grandes communidades. como fizeram de uma grande parte. versão Cortês y Lopes. e nem do terreno é para reunir muitas cidades por ser d'elle está fora porque uma grande parle civilisação. de comvi- municação e sem nem tão pouco o modo de * o illustre antropologista ainda adlrma: «Ora a ob:.lo prova. qoe as línguas se extinguem sempre mui lei)tan)entc e que a maior parte tios povo? da Europa occidcntal tem muitas vezes unidade de lingua. nenhuma cousa eniprehendiam em giande. nem os Carthagi nem anies d'elles os Tyrios. Porque é certo que se conseguissem sustentar-se nuituamente. que são chamados Celtiberos e Borones. Diccior. nem nenhum outro intentaria nem conceberia a ambiciosa pretenção de dominai os.ervaç. * Por consequência è no génio ethnico que se deve procurar a tendência separatista dos povos peninsulares.ario geographico y histórico de la i. e conleutando-se em fazerem-se invasores' de propriedades alheias. nem depois d'estes o salteador Viriato. tuirá a e cujo conhecimento e disciplina constideíiuitiva d'esles povos. pois. a porque ao seu caracter emprelinndedor unem desconfiança que tèm uns para com os outros.ALEXANDRE HERCULANO 329 diçôes de revivescência fizeram com que o Cellibero não se esquecesse da sua origem. . que invadiram a sua re- gião apresentando forças superiores. continua Strabão: «Porque a natureza estéril. Espana antigua. Slrabâo explica por esta causa dominação dos Iberos por outros povos invasores: aEste mal. Nem depois dos Tyrios os Celtas. e propriamente salteadores. 104. conservando sempre o seu typo a despeito mesmo dos crusamenlos que o\periD)ontaram. 2 Slrabao. 383.»- E explicando o génio separatista pela influencia do território. nem Sertório. que é o caracter fundamental da sua historia polilica.» Ibiderrij p.

de modo que nem as próprias cidades suavisam os seus costumes a não ser com diíficuldade. povoas ou aldeias. p. diz Strabão: «pois aqui não só se differenciam por seu valor. nas suas revoltas mentos. p. desenvolvida nas guerras contra os romanos.. explica profundae pronuncia- mente o génio hespanhol. 3í6kí.» máxima ou Dos Iberos do norte.» A persistência do espirito separatista é o caracter quasi 113.330 ver. os ódios locaes. HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL . ou como os gene- raes carlistas. e o descuido do futuro. etc. nas guerrilhas das guerras napoleónicas. reapparecem como o Cid. por isso que as montanhas da Ibéria trabalho agricola. nem os costumes de Ioda a Ibéria são como os que se observam em toda a costa marítima do nosso mar. como se vê pela adagio popular: «Quem vier atraz que feche a porta. e neste estado se acha a maior parte dos Iberos. Ainda persiste o costume das povoações isoladas.. que se criam sem pre^ caver as necessidades^ antes vivem pessimamente á maneira de feras attendendo só á necessidade presente. . Pois em geral. e assim nâo podem ser indicio de grande numero de cidades. falia e as suas muitas brenhas offerecem * ensejo para se atacarem uns aos outros. 2/6/rf. 115.. » Ibid. a Índole de salteador. senão ^ também por suas crueldades. reappareceu na lucta contra os árabes. o despreso pelos trabalhos agrícolas.» No povo hespanhol persistem ainda hoje todos estes ca- racteres. p. hoje Bascos. os que vivem em pequenos povoados costumam ser bravios. A tendência separatista. 114. e os cabecilhas como Viriato. e em todos os accidentes da sua historia nacional. e por ceita espécie de furor próprio das feras.» Da sua falta de Strabão referindo-se outra vez ao gé- nio indomável dos Iberos: «homens.

Sevilha. organisação do colonato. jungindo . no de Portugal. como a de Sancho Magno. Valência. desmembração das AsGalliza. mas appareceram am- bições monarchicas e as preoccupaçôes . coexistindo com túrias e reino tella. ligando a e Navarra com o Aragão. e a Hespanlia desmembra-se outra vez em estados autónomos dos Vândalos. Cantabros e os Bascos. e no século xiii entre Aragão.dynasticas. prevalecendo a desmem- bração. Suevos e Alanos.ALEXANDRE HERCULANO 331 exclusivo da historia dos povos peninsulares. Murcia. cuja tradição se conservou na cul- tura hispano-romana. no reino de Castella. As raças que e pela acção administrativa e precederam os Romanos. no de Aragão. Almeria. Málaga. sendo por isso os primeiros que resistiram aos Ára- bes. Um sysa lema natural se estabelecer nas Confederações. Castella e Navarra. Opera-se outra vez uma segunda unificaçiko (642- 6i9) pela acção preponderante dos Godos. que debalde se tem querido converter em raça. como as entre Leão. viviam em pequenas communidades. Granada. quando estes no fim do século vn determinaram uma nova desmembração da peninsula. os Árabes. Denia e Baleares. como acabámos de notar. mas resistem a essa força unificadora os Asturos. Circumstancias especiaes determinaram a in- vasão germânica da peninsula. os Romanos deram-llie a sua pri- meira unificação politica. Badajoz. Portugal e Cas- de Leão. a unificação outra vez com o esforço da reconquista christa a ou neo-gothica. nunca poderam desmembrando-se nos reinos de Toledo. sob a forma de conquista fizeram unificações violentas. que oscilla no movimento de unificação e desme mb ração. pertur- bando a organisação racional dos estados da peninsula. Como semitas. Começa attingir a unificação politica. povos em quem persistia mais puro o caracter ettmico pri- mitivo. no condado de do século XI Galliza e ia no condado de Barcelona. apesar de se assenhorearem profundamente da peninsula. As a ambiçíjes monarchicas. Navarra e Castella.

que pelas navegações nos trouxe as condições económicas da independência nacional. Palias e Montpellier. (situação separa- como tista até Fernando e Isabel) como ao estimulo da proximifacto ca- dade do mar. todo o trabalho a deve visar pôr em relevo este grande destino em quanto â consciência nacional. e como Fer- nando com a Gastella.332 HISTORIA DO KOMANTISMO EM POUTUGAL a Navarra. As preocciípações dynasticas. Gastella e parte de Leão. Leão e condado de Gastella ao segundo íilho. circumstancia do meio histórico. Galliza a Garcia. Toro. Zamora a Urraca? As usurpações monarchicas entre irmãos também foram uma causa transitória de unificação. Leão. Portugal altingiu muito mais cedo as suas condições de estabilidade. Eis aqui o pital da vida histórica do povo portuguez. Leão e Galliza. as usurpações de Sancho (Gastella. pelas formas da vontade testa- como vemos nos mesmos monarchas citados. Aragão. a Fer- nando. Foix. Leão Affonso. Leão. Leão. como Toro a Elvira. como a de Affonso vii. Aragão ao terceiro. Galliza. a Fernando deixa Gastella ao primogénito Sancho. Affonso ^ vii deixa Gastella a Sancho. "fundindo Gastella. Za- mora) unificadas (il57) em seu irmão Affonso até Affonso vn. Toda a erudição que não vise a uma demonstração é estéril. deve attribur-se árico isto não só á preponderância de elemento em á Portugal facilmente aggregado ao Gclta marilimo. Aragão é repartido por Jayme Gonquistador entre seus dois filhos. o senhorio de Sobrarbe e Ribagorza ao quarto. mogénito. Sanclio Magno faz em 1035 a desmembração deixando a Navarra ao seu primentária. desmembravam outra vez os povos unificados. e a deduzir a necessidade da funda- ção do Federalismo peninsular emquanlo á constituição politica. como se os factos desconnexos po^ . a mediocridade fortalece-se no methodo exclusivo do nihil praeter fada. Zamora e Toro. Navarra e os condados de Barcelona. Em quanto os estados peninsulares fluctuaramn'esta oscillação politica de tmificaçcio e desmembração. Urgel.

t.) in. n.ALEXANOBG HEBCULANO 833 dessem perceber-se mais do que as lettras baralhadas de um alphabeto. pos- toque então de menos importância pratica. (liG2. : 73. e a modificação do direito de reviudicta ou guerra privada (Guizot. que Herculano confunde.» * Estes documentos estavam pu^ blicados pelo visconde da Carreira. Mas o rigorismo dos factos não obsla a que se não erre ou na particularidade ou no ponto de vista. se repetem Portugal em Ha como reflexos no reinado de D. diz Herculano: «Do mesmo modo que doeste rescripto ponti- succede com outros documentos capitães para a historia d'este reinado. AtTonso ni. sem comtudo o histo- riador querer corrigir o seu texto. simul. na direc- ção dos Monumentos históricos da Academia empregasse a sua extraordinária influencia para a acquisição do Cancioneiro da Vaticana. qne estes factos Civilis..* ed ) * Collecç.» xlvi. costume que se obliterou com í Ilisl. p. Afuí. (2. de Portugal. de ii xm das kai. toria aí acharia grandes elementos para a his- da conjuração aristocrática que deu o throno a D. Se Herculano. é fácil o exemplificar estes dois casos pontificio em Herculano: acerca do rescripto Aífonso in que legitimou o casamento de D. Luiz a convocação dos delegados burgueen Franc. 52 (ed. ignora-sc fício a existência que deferiu d supplica. Julii. diz Herculano: «Aqui observamos somente que em França data do reinado de S. Bulias e In nostro proposuislis. já no tempo de Carlos Maguo e seus successores se convocavam os estados. Beatriz tendo ainda viva sua niullier a condessa Malhilde.» ^ aqui a distinguir dois factos fundamentaes.*) . fonso Em quanto aos erros de ponto de vista indicaremos politica a comprehensão da vida do Terceiro Estado. lect. 2. 3 Hist. iii Qui Non. 44 e 45) e de grande significação social. II. tão necessária para a inlelligencia das Cortes portuguezas. de Portugal. apenas sabemos indirectamente ella que não foi baldada. p. zes aos parlamentos. iir. ann. com D. celcslia Julii. t. ano.

e constituindo esse a Philippe o Bello. em um ensaio de Herculano. poder novo dos Estados geroes. Do tado das classes servas na Peninsula desde o VI! até ao XII século. No estudo das Classes servas. Drolt municipal au Mayen-Age. reunidos em commum para deliberarem. pertence (1302)* que encetou esta cida nas monarchias. p. em i857. no tempo de S. La France sous Phit. . fund. havia apoiar-se n^estas classes restituindo-lhes as suas anti- gas garantias.unlo-se os cadastros da no- breza. viu Her- culano n'esse fado apenas um meio de obslar aos impedirefere-se mentos canónicos. á sua situação desalentada. como as classes servas eram os homens-livres germânicos decaídos pelo de- senvolvimento das instituições feudaes. 381. e Boularic. lippe le hei. o clero e o terceiro estado avivava-se segundo o augmento do poder voto. (18o7). dizendo e zelo pela sciencia «aquelle que só conhece abnegação que n'esse duro lavor deixou passar os melhores dias da sua 1 Bechard. mas essas três ordens eram convocadas se- paradamente e era em separado que cada uma emittia o seu A ideia da convocação simultânea dos três estados. stituições É isto o que nos explica a evolução das ines- modernas. No conHiclo da realeza com o poder senhorial. até então desconhe- mas com origens no mallum germâ- nico.Luiz o costume de chamar á participação do governo a nobreza. chamados Livros de Linhagens. este facto ac- cidental da convocação simultânea dos Estados geraes ficaria infecundo para a liberdade moderna. Se as ciasses servas que se tornaram povo surgissem á vida politica por se elevarem da escravidão. via politica. unicamente para subiu et ter essa classe altiva d nobreza do foro de el-rei. real. desde que a realeza se separou do feudalismo pelo facto da hcr editar iedaãe. 2 Ánnaes das Sciencias e das Leltras^ i.^ insiste em querer achar n'essa situação servil uma modificação benéfica da escravidão.334 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL a preponderância do regimen feudal. Herculano.

no yv^ov dos qua* renta e sele annos. o apparecimento de uma obra do sr. reconhecendo-lhe a sua probidade consideram-no livies ini- apenas como o primeiro producto das inslituições ciadas em um revista paiz morto.aptidão dos seus com- patriotas para tomar parte no progresso litterario e scientifico da moderna Europa.ALBXANDBE HERCULANO vida. para a Historia. i829 e 1832. a Historia de Portugal do Herculano foi perfeitamente comprehendida. a edade de ambições. e aos erros cional. Na The Dublin Universilg Magazine. de fevereiro de 1847. mesmo com relação a este christianismo e o seu monarchismo lhe perturbaram sem- pre a boa vontade do critério. a revolução movimento de 1836. Os escriplores estrangeiros scientiíica.° 100. viril 335 sem saber o que a mocidade tem de gozos. attende-se ai em primeiro logar á iníluencia das instituições liberaes sobreoescriptor: existe «Quando reflectimos que c somente ha poucos annos que alguma cousa que se assimilhe á liberdade de fallar tal ou de escrever. . n.» critico inglez referia-se aqui aos O grandes esforços dispendi- dos em implantar as instituições liberaes políticos em ISáO. 182G. o são juizo e as opiniões illustradas vão fazendo progressos.) de 1 Ibid. da monarchia constitu- que pela tendência para o absolutismo provocou o 184:2. pequeno povo? O seu competiam-lhe essas palavras.^ p. não obstante infeliz a tarefa e o êxito até hoje das suas instituições liberaes. se tivesse renovado o metliodo da eru- dição histórica como um Savlgny. e cuja recom- pensa única será escrever-lhe na campa: Aqui dorme um homem que conquistou para a grande mestra do futuro. como um Jacob Grimm.^» Herculano projectou este seu eoitaphio em i857. e que. as reacções de ^87 (reproduzido nos Opúsculos. e a velhice de vaidades. Mas que verdades históricas achou. algumas importantes verdades. como a Herculano é uma prova da .

» Isto chocou profundamente o escriptor. e até talvez lhe não seja superior em em energia e profundi- dade de saber . que derramam tanta luz sobre as divisões administrativas da península. e se assimi- obra de Herculano. nem nos bellos trabalhos sobre os Iberos publicados nas Memorias da Academia de Vienna. nem sobre a onomatologia phenicia e céltica d'este territó- rio. Effeclivamente tudo isto atrasava a manifestação a da intelligencia portugueza. (1846- 1877) n'essa obra nada se historica falia sobre a antiguidade pre- da península. não quiz aproveitar-se do Corpo das ínscripções tinas publicado por Hiibner. não esquecendo nunca de que é inferior a eloquência. dos em Portugal . damenlaes: «nós reputamos o Herculano inquestionaBarros velmente o primeiro dos historiadores portuguezes. Herculano não podia julgar com verdade a as grandes épocas da civilisação humana d'onde nossa pe- quena nacionalidade portugueza surgira. Na Grammatica de Diez teria achado a verdade para ratificar a sua ideia sobre a formação dialectos românicos fallados actualmente [)anha. a Historia de Portugal ficou atrasada por incúria do seu auctor.336 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1846 e a intervenção armada de 1847. como prova do estacionamento falta de um espirito. tinha aos olhos da Europa o grande valor de demonstrar como qualquer cousa que Ihe á liberdade de fallar ou escrever transforma os espiritos. Citamos plo um exem- com relação á decadência romana e invasões germani- . nem tão pouco dos grandes trabalhos de Waitz sobre os povos germânicos e sua constituição social. e Hes- k Historia de Portugal ficou stereotypica e ella ficou a scien- cia progrediu. Embora escripta com o critério scientificq... Pelo seu espirito catholico e pela sitivo de um critério po- da historia. mas era verdade. No juizo da citada revista acham-se estas phrases funsr. tão importantes para determinar as raças que o habila- taram.

e-oús n^o podemos admiltir a persistência do direito sem conf^talar previamente a fièrsistencia da nacionalidade • da «dmini:^trar. resumida e contida Deus soltou a torrente das novas migrações. porque continuou a escrever-se em latim. Se a nacãt) ron^ana dei^apparcceu sob as ruinas do Império do Occidcnle. Por Hltimo.lo haveria nem necessidade nem. D'aquella revo- lução immensa nasceram as nações modernas. Em uma primeiro logar procura o grandioso. do que das próprias invasões barba- ras. senos apparece Deus não como uma metáphoro. descendo do septemtriâopara o Meio Dia da Europa. que se não pôde equiparar um aggregado material. renovaram quasi inteiramente as sociedades decrépitas. a civilisação romana não se extinguiu. fanatisadas por esse mesmo christianismo. e que sociedade é a um conjuncto moral.possibilidade de conservar a legislação romana. sem se preoccupar de que os mundos não desabam. antiga.) Este período representa um systema completo de coma rhetorica falsa só prehensâo histórica. mas nunca era melápliora demetáphora. não : — . que desviou o curso da actividade humana para um estéril myslicismo. Essa noção de Bossuet. e os códigos romanos continuaram a ficar em vigor. n. em que soltando a torrente das invasões é boa para o púlpito e não para a historia.ão romama. e islo revela o critério da escola histórica. Introd. depois de demolirem e de arrasarem quasi tudo o que representava o passado. 1 Diz admiravelmente Savigny. que a persirasio de existência para uma JegisLiçao sem objecto. 22 .ALEXANDRE HERCULAMO cas: 337 a civilisação «Foi um mundo que desabou com toda n'elle.» {Historia de Portugal. O mesnro aconteceria pouco mais ou menos se os vencidos tivessem perdido a liberdade pessoal ou a sua inteira propriedade nenhuma Ajuntae. * se essa civilisação soíTreu foi mais por causa dochris- lianismo. e estas. não comprehendido por Iiercul«DU «A questão da duração d« direito roínano Iraz comsigo a necessidade d» examinar a durarJo do próprio povo em quem e para quem o direito existiu. onde o pensador procura as causas complexas e inlimameníe relacionadas dos movimentos que se operam nas sociedades humanas. stência da legida^ao presuppCe a persistência da orgaaisaç&o jadiciariA.

Isto é tão ver- dadeiro. * Op. cit. Littré restabelece a correlação das phases da sociedade moderna de- duzindo-a dos elementos romanos: «Se a vida do império não fosse truncada pelos bárbaros. pelos poderosos. e na possibilidade d'esses povos bárbaros ainda inventarem formas sociaes mais perfeitas. que teriam reclamado e exigido direitos políticos e intervenção no governo. Herculano imitava apenas o processo da mana sem escola hiBlorica de Savigny no estudo das inçlituições sociaes. porque o feudalismo produziu e por sua vez a se communa produziu pôde pôr com mais claresa as communa.« ed. afíirmar que elle se eífectuaria pelos ricos. na primeira o desenvol- vimento da grande propriedade (latifundía perdidere liam) formava o gérmen de um novo poder senhorial. . como necessidade de provar a doutrina da continuidade histórica. tante para operar-se se. e bem longe de espantarmo-nos da instituição n'ella o do feudalismo é preciso vêr officiaes producto de condições desde longo tempo determinadas. depois do desenvolpóde-se vimento religioso e do christianismo houvesse o tempo bas- um desenvolvimento politico. XII. que era o interpretar os factos pela lei de continuidade.» Estes princípios. Ita- e germânica era relação histórica.. p. mas sem coraprehender o seu espirito. que esta solução não prejudicou em cousa alguma a a evolução total. Assim uma solução feu- dal estava na natureza das cousas mais do que se tende a acreditar. O conDíclo entre a escola histórica (Savigny) e a eíco/a philosophica (Gans) acabou desde que a metapbysíca foi apeada por Âuguste Gomle completando a eyolbese scientiGca pela creaçUo da Sociologia. 2. respondem aos que pretendem pintar a Edade Media como uma éra de decadência. * Não duas sociedades romana a democracia. cuja sendo possível admitlir nos reinos da conquiíta a adminislraçiSo da lei rojuizes e tribunaes romanos. pelos aristocratas. que foram applicados íundamenlalmcDle nos grandes trabalhos de Savigny.» 338 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Na sua obra Estudos sobre os Bárbaros e a Edade Media. que acreditava na demolição da sociedade antiga pelos invasores germânicos. Littré unicamente dirigido pelo critério da continuidade histórica chega a um resultado opposto ao de Herculano. attríbuindo á Pbilosophia positiva a inlerprelaçáo de um progresso.

e falseadas pe- los intuitos de um destino privilegiado reservado pela pro- . Não se conhecia em Portugal a critica histórica. Com íi princípios tão falsos de critério histórico como é que Herculano havia de considerar a invasão árabe da península. em que os factos sem luz se torUma vez perdido o pensamento da uma violência por asa essa falta ficar Historia. porque no seu estudo sobre As Classes servas da Península. jnlgava-as cravos que se elevaram. isto é. ficio abandonando a Historia de Portugal falta como um edifalta interrompido não pela de material mas pela de destino.ALEXANDRE HERCULANO 339 evolução foi interrompida pelas invasões germânicas. a sua organisaçâo administrativa o reconhecimento do seu poder politico em communas e em democracia. e consequentemente a reacção das classes servas contra o feu- dalismo. e quando pretende entrar no funccionalismo das instituições sociaes não sabe achar o seu nexo e fica na mo- nographia particularista nam quasi illegiveis. quando . e deixou-se inércia. se- não como cousas explicáveis por um providencialismo su- perior aos destinos humanos. continuar seria sim dizer automática. Por isso a Historia de Portugal deriva-se da chronica. em vez de achar o facto [)Ositivo da decadência dos homcns-livres durante o desenvolvimento do feudalismo. conservando o seu espirito nos pequenos factos accidentaes das biographias dos monarchas. Herculano obedeceu do na estimulo que vem de ura pensamento. Herculano emprehendeu a sua grande obra cional baseava-se sobre traes. e as monstruosi- dades e devastações praticadas pela reconquista christã. como es- Herculano nada viu d'esla evolução. mas a conquista conservou o systema da grande propriedade. a historia na- um certo numero de tradições claus- sem a poesia da elaboração anonyma. não achado o princípio philosophico da Historia de Portugal. civilisaçâo d'esta grande raça semítica.

na côrle de D. tendo o seu quartel general em Abrantes. como o Sonho do Quinto Império do Mundo.» mas exag- gerou a severidade da as tradições tura: critica repellindo incondicionalmente como Diz elle «Nâo ignoro o risco da situação com uma certa alem que me colloquei. Sebas- tião da ilha encantada. sobretudo. esta ultima. São excellentes talvez as suas intenções. as lamhem respeitáveis. e que o padre Vieira tentou explorar na época da Restauração de 1640. espécie de Carta Magna dos portugue- uma invencivel credulidade na vinda de D.340 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL vidência a este povo. a fidelidade de zes.' Aos olhos d'estes. mata a poesia das antigas eras. Fiados no perstigio d'estas tradições que já no meado do século xvi eram conhecidas. João vi estava tudo como d'anteSf como disse o proloquio popular. seguros de que a providencia manteria por meios divinos o nosso destino no futuro da humanidade. os po- deres públicos muitas vezes abandonaram a defeza da na- ção á eventualidade dos acontecimentos. não . Ha muitos para quem dynastias nascidas de os séculos legitimam e santificam todo o género de fabulas. eram a pa- rodia do lábaro de Constantino ou o apparecimento de Christo a Affonso Henriques assegorando-lhe a victoria na batalha de Ourique. dizem elles. como se a poesia de qualquer época estivesse nas patranhas mui posteriormente cãs da mentira são inventadas. como legitimam e santificam todo as uma usurpação. e Martinri de Freitas. sciencia. como Arlhur da ilha de Avalon. As tradições mais queridas dos eruditos d'este paiz obcecado pelo catholicismo. Reagindo contra este estado mental. ignorava-se que estávamos já envoltos na catastrophe. já Quando o exercito francez occupava o território portuguez. é que tinha profundas ramificações po- pulares por se ligar aos restos mysticos do culto solar do polytheismo indo-europeu. o pacto das cortes de Lamego. Herculano fortaleceu-se na concepção moderna consia historia derando «como matéria de falsidades. A critica.

porque conhecia ohorisonteintellectualportuguez.) Para que citar essa folhelada estéril e illegivel. i)orque pretende quo a batalha de Ourique nào foi uma grande batalha. a severidade do melhodo fez lél-o com interesse. por isso que Raczynski considerava o primeiro volume como «um exemplo de critica sã. já o prevejo. pro- fundos.» 2 Pôde vôr-se no Diccionario de Innoceocio essa lista de folhetos que os cu. na de monumentos ou diplomas legítimos se (llist. não viram acatadas com auctoridade legal as Cortes de Lamego. de boa fé. a propósito de Egas Moniz. <liz elle: «Conto com as refutações. ix. iii dos Opúsculos encontram-se os libei- los e róplic&i de Herculano. p.ALEXANDBE HERCULANO sei se 34i o -estes o mesmo se poderá dizer da sua intelligencia. armados com um grande apparalo de patrologia. e não adopta. porque acha que a língua portugueza deriva do latim.) deixarem de olor. quando. se ella representa o atraso dos estudos históricos em Portu- tugal?. e de applicaçSo. diz: contra a Historia de Herculano a resposta era continuar a applicar o mesmo critério scienlifico. porque elimina os sonhos e milagres. até.. e insurgiram-se contra o escriptor e contra o livro. X.» Assim aconteceu. no seu D iccicnario histórico artístico de tBaslanles pessoas accusara o sr. as chroiiicas e a tradição.Os pregadores serviram-se do púlpito lançando á Raczynfki. llerculano de ler procurado diminuir a gloria de Portugal. e melhor fora (Iíist. Pedro iv.. hão-de estribar-se na opinião de his- toriadores e antiquários.» Herculano previu a tem- pestade.iy p. que escrevia em 1847. eruditos. não acharam dramalisada a lenda gratuita de Marlim de Freitas. Para meu livro será um grande escândalo. veiu o volume a pubhco. que os partidários do absolutismo miguehno consideraram o palladio a que não resistia o conslitucionahsmo de D. conto. com as in- jurias. No vol. . querem sustentar opiniões absurdas ou infundadas. illusfrcs. Choveram opúsculos por * vários padres e eruditos monacaes do theor e forma que Her- -culano definira no prologo da sua obra: «Muitas destas re- futações. não encontraram n'elle a narração do apparecimento deChristo a AíTonso Henriques. riosos colligem com sacrifício. gravissimos. e com falta todas as mais classificações que se costu- mam aggregar ao nome de qualquer escriptor moderno.» Eram estes os únicos tópicos da accusação 1 Portugal.» I.

que luctou contra a inlroducção das irmãs de caridade francezas no seu Manifesto ao partido liberal. De facto esse encommodo representava ainda uma subserviência intellectual. e ao mesmo tempo uma crise da consciência. Eu Clero. o naram de ferrenho em christão semi-deista. Podia-se applicar o verso de Virgílio á polemica levantada pelos padres contra o auctor da Historia de Portugal: Tantae ne animis lera celestibus irae! Cabe por ventura tanta cófizera tão pouco. que para elle foi moda historia.342 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL execração publica o nome de a Herculano. e encommodou-secom essa lucta clerical. e civil que por ultio mredigiu os artigos sobre o Casamento e os Opúsculos com que os fundalibe- menta. como e o se vê pelos seus virulentos opúsculos de réplica e a Solenmia verba. A apparição de Christo ao principe antes da batalha estriba-se . foi liberdade e emancipação racionalista. Herculano era catholico. o mesmo se pôde dizer do catholico clericalismo. em ânimos sagrados? Herculano poucas palavras já citadas Além <i'essas do prologo. foi ral e philosophia poesia e foi sciencia. que veiu pouco depois a ter a gloria de ser inseri pto como livre pensador pela Congregação do Index. assim n'esse espirito de combate anti-clerical que historiou a parte diplomática das Origens da Inquisição em Poitugal. que desvendou ao paiz a torpeza da Concordata de 24 de julho de 1854 sobre o Padroado do Oriente. que se prendem á jornada de Ourique fora processo infinito. Foram os absolutistas que fizeram Herculano ral. Foi melhor recommendação para Herculano n'esle recanto da península ser recebido como egual na phalange dos homens de sciencia da Europa. levando-a a atacar a egreja no Concilio de Trento. Herculano fechouse em um christianismo tradicional. Esta crise. apenas es- creveu nas notas da obra: «Discutir todas as fabulas. que pela sua tor- propaganda estúpida contra o sensato historiador. determinou uma foi tendência theologica nas suas questões históricas.

assim a crença nas Ilhas encantadas ou . não continuou a publicação da Historia foi foi esta posição que o tornou sympathico ao paiz inteiro. na verdade impossível que tâo grosseira falsidade servisse de assumpto a discussões graves. i.» Padres e miguelistas reagiram com força de impropérios. O odium vor do Milagre de Ourique. da primeira. lhes investigar as fontes mais remotas. uma vez desviado do seu tra- balho e perturbado. por occasião da sua morte. tão mal forjado. quando tratar- mos da historia das instituições e legislação do berço da (Ib. tros paízes. que dirigiu a polemica a fa- o grande poder espiritual de que se achoíi espontaneamente investido.» {Hist.) Parece. ainda latejava ao fim de vinte annos. de Madrid. e Herculano de Portugal. eliminaria outras tradições que chegaram a influir profundamente na forma da nossa acti- vidade histórica. onde hoje se acha. da segunda redul-a ao mylho da lealdade dos antigos cavalleiros.) a Das Cortes de La- mego diz de passagem: «Faremos devida justiça a esta invenção de alguns falsarios do século xvi. niz. A lenda de Egas Mo- de Martim de Freitas. como se viu nas palavras do Siglo futuro.) monarchia. Se Herculano proseguisse na sua historia. 486.ALEXANDRE HERCULANO 343 em um documento. Existem tradições análogas na historia de ouque merecem ser comparadas. que o menos instruído aliimno de diplomática o regeitará como falso ao primeiro aspecto (o que facilmente poderá qualquer verificar no Archivo nacional. Herculano exaggerou essa severidade com pre- juízo do effeito pittoresco que falta na aridez das suas dis- cussões e argumentações ínnumeras. são accidentalmente alludidas. p. e assim qne acabou de concentrar-se n'elle theologicum. remonta ção mais antiga do Livro velho das Linhagens do século XIV.. A severidade da critica histórica não exclue itfha clara interpretação do fundo de realidade que existe nas lendas e tradições. sem sem interpreá redac- tar os vestígios symbolícos.

mas imlenda. um dos grandes estímulos das nossas expedições marítimas. Herculano prometef- teu discutil-as porque desde o século xvn foram a base fectiva da Constituição politica de Portugal. nem as crenuma época antiga. 169. tar ças. foi da existência de um reino lambem um dos motores que levaram emprehenderem a os nossos viajantes do século xv a em- preza do caminho da índia. com a condição não tomará por uma historia real. não aos factos. «A lenda nada lira á dignidade da com toda a certesa. Apesar de reconhecer e demon- strar a falsidade das Cortes de Lamego. mas que chegaram a exer- cer acção sobre o espirito publico.344 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL foi encobertas. tantas doações regias. í . que apparece em é.»* a sua Historia de Herculano viu discutida ineptaraente 1 Études sur les Bárbaros. Sem a pôde represen- nem o nem aspecto moral. Com e felação ao caracter critico da Historia de Portugal. e apreciar. bastava a nossa actividade histórica ter sido determinada por algumas d'essas lendas tradicionaes para merecerem ser discutidas. para quem a sabe uma parte accessoria sem duvida. Acceitar as tradições como historia é um syncretismo de incapacidade mental. podemos applicar o seguinte penLittré: samento de historia. a lenda do Preste João. onde as tradições e as lendas são totalmente eliminadas nem sequer discutidas. rejeital-as por maravilhosas e embusteiras é lúcida uma critica estreita sem uma comprehensão philosophica. ella é mesmo. Foi Jacob Grimm que com a sua extraordinária erudição e intuição poética comprehendeu o quanto ha de verdade nas tradições. N'esle caso se acharam muitas letidas forjadas. isto christâo na Ásia. o ideal de a porém que nem as concepções. p. o historiador não portante. mas por que diz respeito aos sentimentos e ás uma historia ficlicia ideias.

Herculano brio. . Herculano acompanhou Salnha no primeiro pensamento da Regeneração.ração activa. appareceu o primeiro numero em 23 de julho.» e que ainda hoje conserva. 24 de julho de 1851. a historia d'este ludi- a que succedeu um outro. N'este anno fundou o professor João de Andrade Corvo o jornal politico O Paiz. apesar de ser profundamenle admirado. do cabralismo: «facção saida do partido Cargloria.» Herculano. Agilâmo-nos no circulo estreito de revoluções incessantes e estéreis. que elle escrevia em em 24 de julho de 4851: '<Em civilisação estamos dois furos abaixo da Turquia e outros tantos acima dos Holtentoles. Na lucla contra a restauração subrepticia do governo caii. com o nome de Regeneração. a legalidade tornou-se um impossível. e sentiu que a sua actividade litleraria desde 1836 não exercia acção alguma sobre o espirito publico. avillando-o. Em 1^5 1 quebrou o seu a em que se declarara permanecer na triste Iranquillidade de incrédulo politico. Maria restauração que se fez a despeito dos lamantaveis aconte- cimentos de 1847. esse nome que já leve alguma * No prologo da faz ultima edição da Voz do Prophela. em que apparecem algumas das ideias o />a»>. mas descobriu logo a perfidia d'esse movimento.» o que se passava volta de Herculano era tão lamentável. o Duque de Saldanha foi ô chefe do mo- vimento paiz liberal que venceu e tomou posse da situação do em 1851. bralista identificado com o poder pessoal de D. a acção governativa um prol)lema insolúvel. que decidiu o seu rompimento definitivo com a politica. protesto de 1845. com um pro- gramma 1 negativo.ALEXANDRE HERCULANO 315 Portugal. que em i83tí se decidira sinceramente contra a soberania nacional pela Carta outorgada. em 1851 reconheceu que tinha sido ludibriada a sua boa fé. o cartismo transformára-se na violência pessoal tista. no qual Herculano teve uma collabp.

Acham-se ali paginas preciosas para a historia politica desde a Revolução de Setembro de 183Ô até á Regeneração em 18o I. A estes princípios tão justos. d. e a liberdade se fundava. mesmo anno.34 i HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL exclusivas de Herculano: não quer a centralisação admi- nistrativa. pela entrega do mandato a individualidades locaes. Em um artigo intitulado A Desegualdade e a Democracia (Paiz.° por preconceitos de edu- cação e de hábitos mentaes que as tornavam inefficazesiP A restauração das formas munici- como meio de Nada mais reagir coutra a centralisação adminisfoi trativa. etc. cujos privilégios e corpo fiscal sâo um estado no estado. nem o abandono do Padroado politicos de portuguez do Orienie. quer nacional. Herculano por algum tempo considerado como 2. nena tros. em que Herculano se confessa desilludido foi de Saldanha. 1. que ludibriou o paiz. Era um vago presentimento da forma mais clara do mandato impe"ralivo. quer internacional- mente no regimen da publicidade. Os artigos Hercu- lano conhecem-se materialmente pelos longos períodos cheios de incidentes. pela polemica imprecativa e pelo desvaneci-^' mento da erudição histórica.° um dos seus esteios.^ Considerava o coipo diplomático como inútil/' qu(3 desde que na Europa acabaram os segredos de estado. justo. nem o excesso do funccionalismo. que ás vezes dão alguma solidez á sua critica. A leitura dos artigos do Paiz revela-nos as doutrinas politicas que Her- algumas sendo profundamente justas espirito estavam viciadas no seu Herculano queria: pães. 30 de agosto de 1851) . na forma de dissertação pe-' zada. allia-lhes preconceitos invencíveis de um espirito desequilibrado. uma exclusiva acção executiva nos minis- nem contractadores -dos rendimentos públicos.'' Que as eleições fossem a representação das localidades. esta a causa da ter- minação do jornal no fim d'este culano professava. e por este lado que ao manifoi festar-se em Portugal o espirito republicano.

é a sua consagração constante da causa da religião.) . entre o clero opulento e os parochos ruraes. e pelas suas sympatbias pessoaes dro elle. conside- rando as doutrinas democráticas como utopias individuaes. censurando como de vistas sem alcance as doutrinas de Tocqueville. considerando «a Civilisação como a forma profana do Christianismo.ALEXANDRE HERCULANO 347 sustenta como inexequível a egualdade politica. para educar o povo e para regenerar o destino da nacionalidade. * - Com o tempo o seu espirito retrocedia. era: que a Monarcliia era a única condição de or- dem e de progresso para Portugal. Outra ideia deprimente. e corollario do principio anterior. Pecomo uma noção pratica para ainda do que a apotlieosc a negação da Democracia e do que cons-derava da Monar- cbia.» e fareli- zendo consistir a actividade futura da humanidade na (jiosidade. porque analysando o estado de decadência da insti ucção popular propõe como meio de da verda- elevação do nivel intellectual ^padres viriuosos que propa- guem os principios suaves c eminentemente liberaes y> deira religião. v. Herculano tirou partido d'esta aííirma- çao atrasadora. no prologo á Voz do Propheta Her- culano examinou outra vez o que era a Democracia. e 2 o O Clero PoríuQucZj p. 3. peor com D. u.» 81. N'este campo foi estabelecendo uma divisão entre o Christianismo e o Catholicismo. e sobre vinte e quatro annos de reflexão concluiu que era a la- droeira. (1851. podemos consideral-a mas nâo com valor Iheorico. Paiz. que propaga nos primeiros annos da redacção do Panorama^ em 1851 chegaram a actuar mais intimamente no seu espirito. e que nas dilíerentes revoluções observara sempre a identificação do povo com a causa do tlirono. ^Jais tarde. vivendo encostado ao i)aço desde 1831). Mas. que elle como base essencial para refundir a geração futura. Estas ideias. Fernando e D. enlevando-se em uma * idealisação da confraternidade evangélica.

teria sido dez vezes foi. das ordens monásticas. Durou a expedição scientifica de Herculano dois annos. e o próprio Herculano. e condemnava á miséria muitos indivíduos innocentes e respeitáveis.» mais útil á prosperidade geral do que realmente Estudos so- bre algumas questões sociaes.» Ib. atirava para o mercado ou desbaratava sem tino e sem previsão um enorme cumulo de propriedade territorial. o ligiosa. se o seu amor da Momanifestar-se em 1863 na confissão de que elle Pedro v vivesse mais tempo se tornava para considerando abresé- soluto. priíicipal mente relativas á Agricultura.'' 47. que era um serviço patriótico o colsés. ao mesmo tempo que monges tinham despresava direitos legítimos. nos cartórios das corporações extinctas. na . propoz Herculano. Esta sugestão foi attendida. mesmo phenomeno se dá com a preoccupação em 1871 como questões vitaes do culo XIX o Immaculatismo e o Infallibilismo. foi encarregado pelo governo de visitar todos os ar- chivos do paiz^ com plenos poderes para colligir e reclamar tudo o que entendesse a bem dos monumentos históricos. e tendo verda- deiro pezar de nao encontrar no pequeno oratório do lar a delicia espiritual de uma crença nunca discutida. n. Em um artigo publicado no Paiz em 7 de outubro de 1851. 1856. collegiadas e ligirem-se os diversos documentos históricos dispersos nas camarás municipaes. a extincção das Em cas: 1856 ainda lamenta ordens monásti- «A extincção.348 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL se a sua negação da Democracia elle nos sacos dos ladrões na rchia chega a se D. alienada por um systema sensato e previdente. em 1851 se tornou para em 1873.) «Movia á piedade a situação do clero regular. cuja Historia de Por- tugal estava interrompida no seu terceiro volume desde 1849. {A Pátria. os que os ás suas dotações. por exemplo. que. causava graves apprehensões a desorganisação do secular. fazendo archivar na Torre do Tombo àquelles que interessassem á historia pátria.

tive de vagar pelos districtos centraes e septemtrionaes do reino. do paiz e gaa como descen^ tralisação administrativa é a garantia da liberdade real. pela persistência dos costumes.» D'essa viagem de dois annos e do trabalho histórico.» N'esta viagem tao instructiva para um iiistoriador. * de que ivpenas transcreveremos essas linhas que se ligam á sua paixão histórica: «Vi definhados e moribundos os restos das instituições municipaes. que o absolutismo nos deixara. pela confrontação dos usos. n. — que com a sua a restauração da vida municipal é «a expressão da vida publica rantia da descentralisação administrativa. e quando o publico se interessava já pelo * 2 Carla. Her- culano nada viu senão os Chronicões.ALEXAMDRB HERCULANO 349 Carta aos Eleitores de Cintra allude a esta época.) ." 1. da que os christãos senlimenlaes o reconheceram mesma fòima também como um vidente. dos contos. tirou Herculano ção. que o espirito moderno em Portugal na sua phase metaphysica se enganou conferindo a Herculano esse immenso poder espiritual. dos anexins. volta Na da sua viagem das províncias. das supersti» ções vulgares. pelo conheci- mento directo dos vários typos da etimologia nacional. (1853. é que Herculano pubhcou o seu quarto volume da Historia de Portugal.399. pela interrogação das tradições poéticas dos romances. e o quadro lugubre- mente pezado das misérias publicas. das diíferenciações dialectaes. ao fim de dois annos. Carla acerca das freiras do Lorvío. de tudo quanto ó preciso para apresentar um povo vivo na historia. do 22 de maio de 18a8 (/ornai do Commcrcio.) Quando estava mais habilitado com documentos. de ISTiS.» Foi por esta opinião histórica. dos symbolos jurídicos. que poderia ter sido saudável e fecunda para a sua intelligencia: «Durante mezes no decurso de dois annos. que poderia ser útil se elle a não viciasse a li- preoccupação monarchico-religiosa.

. Herculano resolve truncar o seu trabalho. cumpria pro- porque para haver accusação contra o livro. a publicação do quarto volume da Historia de Portugal eva conciliação com as lettras: lit- «IHusões de terarias a um momento o affastaram das occupaçôes affeclo. considerando como um erro o ter perdido tempo em refutação de libellos sem sciencia. de que sempre abusa. teve a fraqueza de repellír €ssas aggressões.. v.) «Assim elle commetteu um dupli- cado erro (cumpre coníessal-o aqui) malbaratando o seu tempo.350 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL conhecimento do passado nacional. ou não existiam. António Caetano Pereira. que se dedicara com intimo mas ásperos desenganos o reconduziram ao tranquillo retiro d'onde não devera talvez ter saldo. var (ou tental-o ao menos) que taes ou taes entre milhares de monumentos çm que é. Da primeira polemica. Um novo motivo veiu azedar o seu descontentamento.» * À parte os eííeilos de estylo. propriamente não foi accusadodenada. elle se estribava .» E mais adiante: «Como homem que o auctor. p. iv. vii.. por tanto não foi a po- lemica passada que o fez depor a penna de historiador. . t. e até de sario. discipulo de Frei João de 1 Hist. de vendido aos estrangeiros. de orgulhoso. de ignorante. de inimigo da pátria. 2 Ilist. iv. e dando vulto tórica a cousas. ou mal interpretados.» ^ Os textos árabes apresentados pelo professor de árabe do Lyceu de Lisboa. fal- O livro.» (184()-i8tí). esse. Já vimos as condições politica em que uma Herculano se separou da em fins de 1851 . que. ou eram falsos. p. consideradas á luz his- e lilieraria eram insignilicanlissimas. . e de retardar assim a continuação do seu trabalho. de Port. Herculano descreve a tempestade contra o primeiro volume da Historia como uma cousa passada. de Port. escreve elle: «O auctor do livro foi accu- sado de tudo: de impio. l.

tao rica e escolhida em tudo.. que estivera seis me- em Madrid junto de Gayangos como stibsidiado do go- verno. um pretexto para inter- romper a obra.. cit. Herculano achava-^ repente surge em 1853 em toda a sua gloria. Paschoal de Gayangos. De um novo embaraço. poz-so trabalho histórico. XII. que o oITerlou a Gayangos. escrevera Herculano no primeiro vo- lume da Historia: «Muito devi ao conselheiro Macedo. Sini- baldo de Mas. I. e este janeiro de 1852 escreveu em ^ de uma longa carta a Herculano pro- vando a ignorância que Pereira tinha do árabe.» O con- Joaquim José da Costa Macedo. não podia honra lheiro ali entrar com ati- em quanto se achasse como guarda-mór o conse- Macedo! Que fazer? D'este homem.ALEXANDRE HERCULANO 351 Sousa. António tirou todas as consequên- Caetano Pereira perdeu a cadeira de árabe. O opúsculo de Antó- nio Caetano Pereira fora levado para Madrid por D. era um dos funda- dores da historia da Cosmographia e Geographia da Edade ' Op.- em elle greve no mas próprio declarou terminaniemente que sendo-iho indispensável pro- seguir na investigação de documentos para a sua Historia no Archivo da Torre do Tombo. contra quem rava um repto mortal. como o seu livro era estimado e se julgava indispensável para a elevação do paiz. por onde queria demonstrar que a escaramuça de Ourique fora uma grande batalha campal. Foi um pho completo.. e como trium- atropellou os textos para servir o seu intuito. secretario perpetuo da Academia. p. de que Herculano cias. acharam-se sem au- thenticidade diante da critica compelenlissima do arabista hespanhol D. sendo dada zes a Augusto Soromenho. prin* em trabalhos históricos modernos . Procura-se o motivo. . facultando-me sem restricção o uso da sua cipalmente selheiro livraria. es- perava-se que proseguiria na publicação da Historia.

citado com altos elogios por Avezac. O conselheiro Ma- Tombo. port. os materiaes para o quintt) volume chegaram ix)- a ser colligidos. se contra Macedo se não apresentassem factos análogos aos que a paixão bibliographica fez praticar ao sábio italiano Libri. pelo Visconde de Santarém e por Major. (fragmentos da Parte i do Livro mas desde 1853 em diante tudo ficou suspenso. IlcnriquCy p. ainda imprimiu Em 185i uma pequena dissertação sobre a Origem provável dos Livros de Linhagens.^ já se vé que a confissão de Herculano não era de favor. de Linhagens nasceram cofii a quando o direito de ooiiferir nobresa se tornou um dos di- reitos exclusivos da soberania no século xm. ao passo que pela do comparativo se vé que os Livros independência do poder real. Herculano confessa que até o rei foi ao pé d'elle pedir-lhe para continuar a Historia. Pedro v demover daquella tyrauna resolução. Academia das Sciencias secundou os esforços de Herculano. 3 Esla opinião demonetrámol-a na Historia do Direito portuguezj 18681 í . que mais tarde serviu de prologo á edição d'esses livros nos Portugalice histórica^ Mommenta publicados X custa da Academia das Sciencias. lamen- tando-se da dissolução social. n'essa dissertação segue um errado caminho. que lhe chama eminente sábio portuguez.352 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Media. 196. Trai. ^ Por este es- 2 Historia Vida do Infante D. para que a Historia de Portugal pocedo foi pois demittido de guarda-mór da Torre do e n'este intuito a desse ser continuada. no prologo da edição dé' 1803. Herculatiò confessava aos que D licaria admiravam que o trabalho irrevogavelmente truncado! Tudo se moveu para o D. crendo que os livros de Linhagens se orgaiiisaiam para libertar as relações da vida social do^ ataques dos impedimentos canónicos quô iam luz até ao sexto grão critério d43 parentesco. da Fazenda publica nos primeiros tempos da Monarchia. O rompimento de Herculano puramente pes- não deveria ser altendido. das cousas e dos homens. soal.

que trabalhava já na época nova de transfor- mação n'esse politica do reinado de D. Diniz. Foi durante este anno que collaborou activamente na redacção do Paiz. um espirito que se jul- Os despeitos de Herculano contra litteratura e historia. dizendo cara no trabalho do Diccionario a Azmrar. Pertenceu durante sete annos á Academia. a politica ou contra a observam-se claramente nas suas re- lações com a der esse estado de Academia das Sciencias. 184G-18ÍÍ)) pessoal em conflicto com o secretario perpetuo da Academia requereu para ser omiltido do catalogo dos sócios.ALEXANDRE HERCULANO 353 tudo se deduz. Vimos como em que fi- 1835 escrevera da Acaden]^ das Sciencias. a Academia elegeu-o seu sócio correspon- dente da Classe de Sciencias moraes e Bellas Lettras. e que o clerica- lismo na sua forma particular de jesuitismo é que se tor- nava a preoccupação exclusiva de gava perseguido. Nomeado sócio da Acade- . politicas e Bellas Lettras) pela comuiissão encarregada por decreto de 7 de janeiro de 1852 dos trabalhos preparatórios para se consLituirem as secções das classes de que se compõe 23 a Academia. voltando por desillusão politica outra vez ao remanso litterario. em 21 de fe- vereiro de 1844. e isto faz comprehenum temperamento bilioso que lhe dava ao caracter a forma do descontentamento. porque andava occupado com ( a publicação dos três volumes da Historia de Portugal. sendo-lhe satisfeita a vontade em votação da assembléa geral de 19 de fevereiro de 18i)l. Em 13 de fevereiro de 185^2 foi novamente eleito sócio eílectivo da quarta sec- ção (Historia e Antiguidades) da segunda classe (Sciencias moraes. mas a publicação livro mesmo anno de 1854 do sobre a Origem do es- tabelecimenlo um rico da Inquisição em Portugal. revela lambem que despeito profundo o íizera tornar esse assumpto histó- como um ataque aos seus inimigos. estava-se então no fervor admirativo do Eurico. para a qual nada trabalhou.

Tendo já abandonado a continuação da Historia de Portugal. códigos e leis consuetudinárias.354 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL mia de Turim drid em 1851. A publicação começou em dem 1856. e declarado sócio de mérito. um acadées- mico perguntou pelo estado da publicação. é indicio de que se demittira antes de tempo. quando um dia. e a sua elevação a sócio de mérito. que pezou sobre a Academia. a reeleição para vice-presidente da Academia em 27 de de- zembro de 1855. em que . pequenos chronicons e monumen- tos de litteratura. embora merecida. Herculano creveu despeitado á Academia e mandou demittir-se. pelo trabalho dos pequenos prólogos que preceos monumentos históricos. quando se trabalhava na sua reforma. fundou em 1856 a expensas e com um subsi- dio mensal da Academia das Sciencias essa vasta compila- ção de Documentos para a Historia de Portugal. mesmo anno. em assembléa de 14 de annual de duzentos junho do mil réis. emprehendeu á cusg da Academia a publicação de um corpo de documentos históricos. tendo Herculano o subsidio mensal de quarenta mil réis. ao íim de alguns annos de interrupção dos monumentos. nos Monumenta germânica da Academia de Berhn. era em I80O uma e da Academia de Historia de Ma- vergonha que estivesse de fora da Academia das Sciencias de Lisboa. e os litterarios. esta collecção era moldada sobre as for- mas seguidas por Pertz. Herculano nâo havia trabalhado na Aca- demia até este tempo. a entrada de Herculano em 1852 foi uma graça. Desde que Herculano resolveu suspender o trabalho da Historia de Portugal. Em 31 de janeiro e" em 8 de março de 1855 foi eleito vice-presidente da Aca- demia. mas infelizmente Herculano preoccupou se mais com a publicação dos documentos que illustravam a sua Historia do que com as necessidades dos que de futuro trabalhassem n'este mesmo campo. era um favor pessoal para conlêl-o. com a quantia Em rigor. comprehendendo os documentos documentos jurídicos.

Oulra vcrâio. como a VV- mo S(T * e a Historia de Barlaam Josaphat. os Foraes e os Diplomas de conque representa um verdadeiro serviço. liga-se já ao estado melancholico do seu espirito na vida do campo. parte na Torre do Tombo. preciso que um joven philologo. e o grande Cancioneiro da Bihliotheca do Vaticano completado pelo Cancioneiro da Ajuda. alguns Duarte. Tal é a origem dos Portiigaliae mmimla histórica. uma grande parte d'esse trabalho dis- pendeu-se improficuamente conliecidos em reproduzir documentos já como o Código Wisigothico. Cod. base da descoberta do texto aulhentico. as Inquirições de Affonso para o conhecimento do estado e vida social no século xiu. o Dr. Sancho n por seu irmão D. e as Ordenações de D. nologia da nossa historia. Diniz e D. D. Af- fonso Hi. AíTonso completando este corpo de Tundal. Vivia na catas trophe. é pequenos Chronicons. parte principal.» 244 Hisloria do Cavalleiro Tubuli. parte na Bibliolheca nacional. que se julgava perdido. onde se encerra a vida moral e imporlantissimas allusões históricas a essa revolução de palácio que fez substituir foi D. litterario com c as inapreciáveis íraducçôes das grandes lendas da Edade Media. A parle iiâo publicada é que deveria ter sido entregue aos que esa orientação tudam.^ que acham entre os Afanuscriplos da Livraria de Alcobaça. d. AlTonso IV. n. Ernesto Monaci nos restituísse o grande hvro das nossas origens lillerarias. a tractos. como são os Obiturarios. 2 Historia do Cavalleiro Catalogo da Livraria de Alcobaça. iir. os Livros de Linha- gens. para a vida intellectual da aristocracia das cortes de D.) ALEXANDRE HERCULANO 355 a parte da obra 31o- Tisava principalmente fortalecer com provas qne deixara escripta. Cod. : 1 Tunguli. Herculano não empregou a sua extraordinária influencia prira se proceder á publicação d'esse pasmoso monumento do Cancioneiro da Vaticana. n.° 26C. (Na Torre do Tombo . para da cbroiii. Esta segunda phase de descontentamento com a Academia.° 26C : Barlaam e Josaphat^ no Cod.

o que levado a effeito por decreto oílicio de 31 de outubro de civil.'' conflicto entre os trabalhadores sentinella da porta do quartel de i. ordem que . que são variante da sua preoccupação de catastrophes: altas regiões uma «Quando nas as regras do poder se desmente por tal modo mais triviaes do bom governo. 2 A Pátria. O que tem elle exigia era inex- porque a classe militar um foro especial. Prestou-se-lhe esta homenagem. acerca da collocaçâo de um columnello para^ií illuminc\ção do concelho. Deu-se da Gaarli- porém um pequeno mara municipal e a Iheria n. sobretudo quando se propagavam no publico os terríveis boatos da febre amarella. quando se tolera que os instrumentos da ordem publica se convertam impunemente em instrumentos de anarchia.» 25'. mas inhabilitado pela sua condição social para obstar a esses abusos extremos. O presidente com os demais vereadores insistiram pela foi iTis- solução da Gamara. só resta encerrar-se no sanctuario da vida privada e deplorar a ruina da republica. Herculano civil officiou immediatameríle ao governador de Lisboa. d. as ideias que havia exposto nos seus artigos po- no exame das antigas instituições municipaes fa- ziam crer que lhe seria sympathico o exercicio d'esta magistratura electiva. para que ou dissolvesse a o official que dera á sentinella a * Gamara ou punisse equível. de impedir os trabalhadores. Em um para o governo de 13 de outubro. á custa OOicio n. quando assim estalam os civil. além de outros com- mentarios pejorativos. não pôde ser invadido pela auctoridade administrativa de- balde lhe representaram que a dissolução da Gamara era uma inconveniência. lança estas phrases.'>. Herculano. casiâo em uma oc- em que os intelligentes esforços eram precisos.356 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Em líticos 1855 era Herculano presidente da Gamara municipaF e de Belém. de 18o. . ISori. Publicado no jornal A Pátria.« ey.» t ^ Não era caso para tanto. la- ços da vida ao homem honesto.

mas para concluir o quadro sincero da época mais obscura da nossa deturpada historia. Herculano descreve estas relações pessoaes com o jovcn monarcha com um des- vanecimento. se libertou Hercu- lano dos encargos da presidência municipal.* edição da Hist. e pela linguagem brusca de um caracter indisciplinado. revelam 2 um certo alarde que andava a par da sua modéstia.ALEXANDRE UEUCULANO (l'este conílicto. lambem preoccupado com velleidades lb'o litterarias. Prologo da 3. Pintavam- como um homem intratável por um entranhado e des- medido orgulho. Foi na affeição de D. Outros sentimentos me impelliram a isso. Começou por lhe pedir que tornasse a metter mãos ao trabalho da Historia de Portugal. conbecia os traba- lhos de Herculano.» - Por aqui se ve que a Historia estava planeada sómen(^ dentro dos hmites da Edade Media portugueza. Pedro v foi para Herculano uma paixão exclusiva que lhe absorveu o tempo: «Era uma d'estas affeiçôes individuaes. modestas e desinteressadas. não para levar a cabo os ambiciosos desígnios concebidos na edade das audácias. Pedro v. passado 1 A publícaçilo dos documentos d'esle conQicto am aono no jornal A Palria. para deixar no mundo um livro em vez de um fragmento. Pedro. um ultimo esforço para retomar os há- bitos litterarios em 1855: «Se. o tentei confesso ingenuamente que não foi para servir o paiz. . no desejo de lhe comprazer que achei alentos para galgar de novo a Íngreme ladeira d'onde foi animado por elle que prosegui me tinham precipitado. D. de 18ti3. final da Mas a intimidade de D. que pinta o diz elle.de Portugal. Pedro v foi procural-o ao seu gabinete de trabalho e travou com elle uma intimidade louvável. que o paiz inteiro consagrara. mas sem vantagem para o seu espirito. aggcavado por pbrases. D. que tentou homem theatralmente catoniano. porém. e que a parte da organisação da fazenda publica é que era o remate obra.* voltou outra vez ao remanso litterario da Ajuda. e quiz conliecel-o de perto. em ajuntar materiaes.

etc.» Ou estas palavras tèm um sentido mystico. qne. de Portugal. pagava assim uma divida contraída com o pae. que encerrava a esperança da regeneração dos costumes públicos. porém este trabalho não era para servir a sua nação pessoal á realeza 1 nem a sua época. ou Herculano fechava o circuito das suas ideias politicas voltando por sentimento ás ideias que nos seus primeiros annos abraçara pelo perstigio da tradição. destinava o encetada' trabalho ao estudo de um príncipe. se vivesse.. a qual me tornava possível dedicar a maior e melhor parte do tempo ao duro e longo lavor que hoje exige sição histórica. 2 Prefacio de 1863 na 3. singular espécie de absolutismo. Escreve Her- culano na citada prefação: «Quando ha dezesete annos publiquei a primeira edição d'este volume. isto é condemnando a realesa ligada com o catholícismo.» edição da Ilisl. Fora a este que eu devera uma situação isempta de pesados encargos. então na puerícia .» cair: * E accrescenta ao lyrismo em que se deixava «nem m^ o- pejo de confessar que elle começava a exercer já sobre meu espirito aquella espécie de absolutismo moral. ^ nhos dourados da ambição único dos vãos Ídolos do mundo a que fiz sacrifícios» estava concentrado no plano da Historia de Portugal. Se elle o não confessasse mas uma divida com uma ab- soluta franquesa não ousaríamos suspeital-o. que atro- 1 Todos 08 extracloa aulobiographicos quo seguem s5o de 1863. . nos pedregaes da vida.» a compoNós hoje entendemos que os seiscentos mil réis de ordenado de bíbliothecario da Ajuda foram paia Herculano um desastre. 358 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL que nascem como uma flor singela. a única esperança da manutenção da nossa autonomia e da nossa liberdade. . e conseguiu temente. provavelmente. havia de exercer. O pensamento fundamental da vida de Herculano «solitteraria. no geral dos ânimos. porque lhe tirou o estimulo de es- crever a historia de Portugal para os portuguezes.

A historia ad usitm Delphini foi não podia ser isto. Malquistar com o cidadão Infelizmente a d'essas. como o tinha de ser depois o soberano . tinha para elle o attrativo do novo. João m. completava-se malquistando o cidadão cona o soberano. o inslincto próprio da sua edade e da sua Índole.» — «A do Buscou-me e desceu. e a since- ridade. porque nunca inquiriu se para chegar do throno ás regiijes do dever ou da justiça era preciso descer ou subir. ainda rude. Queria sondar o abysmo rei era de orgulho. também que resultado do uma reacção contra as intrigas palacianas procuravam affastal-o de um espirito intransigente no meio das tergiversões da politica constitucional. fragou o calumniado. Henrique. ou aos exércitos de Napoleão pelos absurdos diplomáticos de D. Senão veja-se como . do elle Os que estavam em volta de Herculano conheciam-no. era grande. Herculano. como diria o mundo.» Depois accrescenta: «o rei achara que todas estas negruras de feroz ple- beu se reduziam impensado. finalmente a sua vida nacional. era nobre. de impiedade. associado aos satellites da reacção. de ódios implacáveis.» a uma sinceridade talvez rude. A aproximação de D. o nome do soberano fora murmurado em voz baixa. a sua vida intelleUual enlregando-nos aos Jesuítas e aos Inquisi- dores no tempo de D. além d'isso. João vi. . tentativa falhou. Movia-o. iManuel. relata essas intrigas na alludida prefação: «Na procella em que nau- meu pobre livro. submettendo-nos aos hespanhoes no tempo do Cardeal D. para pintar a amisado que trazia para elle o monarclia. ó que se não conhecia a si. a justilicar-se. de facto o orgulho inson- dável transparece nas suas palavras. mas alma era incompleto. de paixões impetuosas de que lhe fallavam com susto. Pedro v de Herculano. .ALEXANDRE HERCULANO 359 lo- phiou este povo extingiiindo-lhe a sua vida autónoma e cal pela reforma dos Foraes no tempo de D.

do applauso gros- que vale o insulto . e porque tudo quanto desejou arrisca. Os motivos do de Herculano. Ed. Só poderia ter disciplinado o seu espirito pela educação scientifica e philosophica. mas um relâmpago para dentro de um caracter. foi mosempre cumprido A critica exercia no espirito de Herculano uma ac- i Prefação. 1863. ellas nos explicarão tantos factos de modéstia theatral revelados na imprensa pelo próprio Herculano. que assim augmentava a esphera do seu poder espiritual sobre a sociedade porsilencio systematico tugueza. que chava as suas syntheses em eíTusóes poéticas. e pelo salutar: es- «Achava onde retemperar o animo lasso do incessante seiro pectáculo da condescendência interessada. como explica- subindo n'este diapsâo. xiii. p. mas á primeira oppunha-se o seu exclusivo humafe- nismo. e á segunda o fervor das crenças christãs. a da nem o humilhava a dignidade humana.. resn- mem-se na phrase brusca mas verdadeira de Diderot~um escriptor só se cala quando não tem ideias. como vimos na sua situação lyrica e na sua phase politica.» * São extraordinariamente assombrosas estas palavras. á sua. porque dispunha da amisade intima do narcha. para nós esse despeito litterario de Herculano era gico. . Pedro v: «Não tinha ciúme de uma soberania superior razão.» Mas inconscientemente vae da sua própria intelligencia. mas isto. e chega a contrapor á soberania do rei a soberania ção da intima familiaridade que lhe dispensava D. em to- embora elle o diga..360 elle julga HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL a- sua rudesa Iheatral pelo effeiío de atlralivo que eíTeito produzia no animo do monarclia. Herculano imaginou-se tracasseado pelo jesuitismo acobertado das as repartições do estado. que equivale â no súbdito são magestade do rei. um estado psycholo- que se repetia periodicamente. é inacreditável.

mesmo nos seus actos publicados de. A polemica sobre- a Historia de tremebundas da SoPortugal. e assim se con- meio indirecto uma certa actividade mental em que se produz a maior somma de ideias. se o injustiça. emfim. o fado de apparecerem dois disparates escriptos pelo padre Recreio contra a Historia de Portugal. se o deprimem. porque. ab- negação. enervante pela bajulação feticbista. Eu e o Clero. e dissolve-se lento. quer que. e nas réplicas lerunia Verba. louvam e tam o seu poder espiritual sobre o seu tempo. opinião com duas palavras de despeito pôde dirigir a de uma collectividade. nem um impressionismo doentio e esterilisador. Para o escriptor que visa ao fim social. a evolução do seu seja ella que procura actuar sobre tempo nunca succumbe diante da critica. Acima de tudo. A opinião fórma-se lentamente. levou Herculano á hallucinação na carta ao patriarcha de Lisboa. nem impor á admiração qual- nullo. por ter excluído a lenda milaí^n-eira de Ourique provoca a exnihil! clamação sincera: Oh tam magna A Historia ficou in- terrompida porque nascera limitada ás instituições sociaes da Edade Media. nem um despreso obcecado de despeito pessoal. não é um um ho- mem. o assim lhe augmen- mais se estabelecerá a necessidade de verificar a accu^ação. esse poder é para ser empregado a favor da maior eflicacia das ideias propagadas. como o próprio auctor o dá a entender no prologo de 18G3. também de um modo Todos os que pensam e escre- vem deviam ter sobre estes accidentes da vida litteraria uma completa disciplina de espirito. . systema tâo peculiar em Herculano. o seu trabalho está sempre fora segue por do alcance da violação moral. ou demolidora espirito intelligente fé Um pela má e pela perversão calculada. o desgosto da censura clerical foi um pretexto que se tornou pose de eíTeito.ALEXANDRE HERCULANO 361 ção perturbadora. quanto mais flagrante íòr a escriptor serve as ideias. nascerá o conflicto das opiniões.

antigo. hade ser a sua eterna condemnação perante Deus volumes da Historia do i stabekcimento da Inquisição provaram sem réplica possivel. pôr. A sua sorte. e a participa- em i855. mas a preoccupaçâo re- ligiosa absorvia-a. 362 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Herculano abandonara a ção aos cargos públicos politica em 1851.. tanto pelo compasso dos annos.lhe o remate. tive a íinal de ceder e de char a preza. Os importante para a solução da lucta que agita a Europa. bem curta distancia os limites da imprudente em- . tinha firme tura. dotado de organisação robusta. Inhibido de o sacriíicio completo da dignidade e proseguir. Herculano attribuía a suspensão da sua Hisloria a machinaçôes clericaes: «Excedendo pouco a edade de trinta annos quando delineei os primeiros traços de tes uma erapreza ousada. uma verdade e os três homens. na collecção dos materiaes para a vasta edificação que emprehendera. e revela clerical: a tinha. que o seu objectivo na réplica foi o partido «Ao hvro sem intenção politica íiz seguir. na qual fosse fé em que o subiria fácil a uma al- comparativamente a a outrem. elle via lavrar em Portugal o jesuitismo. um perigo uma das mais negras pagi- nas da sua genealogia e que. e que. como pela intensidade dos esforços de que me sentia capaz.» Era seguida refere-se ás animadversões que a obra suscitara. «Em toda a parte e com todos encontrei a reacção in- fluente (jue me sem reduzia ao silencio e á inacção. devia de ser diversa da que eu previra. introduzir-se nos conselhos da coroa. trouxe á luz com elementos novos. se recompozera para a sociedade. . se não é o seu eterno re- morso. um que Vendo no partido que engrossava a occultas. po- rém. Tal foi origem d'este livro. sem fe- risco certo da honra. medindo oshorison- da existência não. se ali- duvidei de que chegasse a completar o edifício cujos cerces lançava. e apoderar-se outra vez dos destinos da nacionalidade.

^* ponto de vista superior so- 1 Carta ao minislro do Reino pela classe da Academia. Quanto a um 2. desejei e já não sabia que- Esta ideia o fazia pòr em relevo as intrigas diplomáticas li- para o Estabdmmenlo da Inquisição em Portugal. e das negociações diplomáticas com a cúria. este vro interrompido desde i85o ao parlido clerical. foi tiravam todos os vislumbres porque ainda esperava que não podesúltimos sete palmos de terra pátria a sem privar-me dos que todos temos direito. Algumas d'essas vozes saíam do seio do sacerdócio. a que leila a fraternidade litteraria e nobre maneira porque era de humilhação. «Do mesmo modo que por meios foi-me indirectos me fora ti- rada a possibilidade de continuar a Historia de Porlugalr. emfim indirectamente restituída. talvez a foi lançado como um repto mas ficou sem ecco.^ítraidas de documentos de refalsado espirito. «Era tarde. -— I)'além do Atlântico mais de uma voz amiga procurou con- solar o maldito da reacção e dos poderes públicos. e. sobretudo entre a mocidade das provincias mais inlelligentes e enérgicas. N'essa lucla achei sympalhias e allianras por todo o paiz. que a serviam. uma descia do throno. Se a nao acceitei a oíferta. 1856.* dizer.ALEXANDRE HERCULANO 363 a «Nâo O fiz sem luctá: disputei palmo palmo a minha vida intcllectual. A Origem da Inquisição em Portugal é uma dis- 'histoiia da cussão de attribuições canónicas dos bispos. não se leu. . apressou-se a oíTerecer oo perseguido um asylo junto de si. Um príncipe extranho que presa mais e conhece melhor os dias de grandesa o de gloria d'este paiz do que a maior parte dos filhos d'elle. d'ai demora de quatro annos para o ultimo volume. as provincias do norte. ou para melhor rer. * «Quiz proseguir e não pude.» N'este despeito é que se demittiu de vicepresidente da Academia das Sciencias.

os com as grandes catastrophes dos Autos de fé. o da maior degradação moral. do indifferentismo ge- D 'esse com passado Herculano vê ainda um resto nos exér- citos permanentes «nascidos com o absolutismo e só para elle elle. ril nada d'isso tocou Herculano.'i da diplomacia. mostrandonos o século xvi. a obra era um repto fal- contra o partido clerical e contra a reacção pessoal que sificava o constitucionalismo. encarregada' nominalmente de cumprir deixar de ser lerra natal. foi á parte morta e esté. que não pôde commum a todos os cidadãos. o seu livro era destinado a salvaguardar-nos do perigo futuro. a revelação dos costumes e vida domestica. em que como se deu a alliança da monarchia e do clericalismo.» um dever. e deixou o largo campo do funccionamento instituição da que alrophiou esta desgraçada nacionalidade. que é. e estado da sociedade portugueza através d'esses documentos. O prologo d'este livro tem a desconnexão e o estylo de nalístico.364 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUaAL ! bre esta tremenda instituição.— a defeza da A Historia da Inquisição em Portugal era da parte de aviso contra a reacção do clericalismo.» Herculano diz ral. um exaltado artigo de fundo jor- mas é precioso para a revelação do estado de es- pirito de Herculano sobre os acontecimentos da Europa de- pois de 1848. A Historia das origens e estabelecimento foi da Inquisição em Portugal começada antes de 1852. e á custa das maiores monstruosidades ral. A parte dramática. que á sombra d'estes movimentos começa a reacção mo- ou propriamente o ultramontanismo. Po- Herculano um . nada processos do Santo officio. A agitação socialista e apprehensijes da bur- guezia que acceitou as tropelias monarchicas pelo terror das novas aspirações «abriu caminho e subministrou pretextos por toda a Europa a uma reacção deplorável.» Contra este erro politico oppõe Herculano uma ideia justissima «aniquilamento d'essa força bruta. e deviam ter passado para o mundo da tra- dição.

e usurpação da jurisdicção dos quem competia exclusivamente o julgamento das em seguida uma exposição intrincadamente diplomática das negociações de D. ella dizia ter entrado na senda da própria reformarão. xm. cônscio da sua ineíTicacia. d'esse drama de que se protrahe terrível tribunal por mais de dois séculos.) Eis aqui está o livro. João iíi com a Guria para introduzir no seu reino o novo tribunal do Santo Oílicio. O livro não produziu impressão. A simples leitura de um processo inquisitória!. mas do assumpto em que revelava a sua erufoi dição dos cânones. encerra mais lição do que to- dos esses três volumes. offerecem matéria mais ampla a graves cogilações. Conhecermos a corte de na época em que a monarchia pura estava um rei absoluto em todo o seu na conjun- vigor e brilho. da obra de Herculano. Os vinte annos de lucla entre D. Perto de quarenta mil processos restam ainda para darem testemunho de scenas medonhas. Não qui- zemos.» (Pag. uma discussão pe- zadamente canónica contra bispos a causas. João hebrea. o eITeito do protesto também nullo . Os archivos do ai existem quasi intactos. que difíicilmente se podem ler.ALEXANDRE HERCULANO 365 a Htsto- rém. como ria fez essa Historia? «Podíamos escrever flagícios da Inquisição. elles elle lu e os seus súbditos de raça para estabelecer definitivamente a Inquisição. confessando os seus anteriores desvios. Ao fim de tanto trabalho Herculano in- terrompeu-se e só depois de quatro annos é que terminou a obra. Era mais monótono e menos instruclivo. e poderisso tudo mos comparar com a os tempos modernos de liber- dade. conhecermos a corte de ctura Roma em que. para lhe obstarem. com a predilecção em prosa desalentada. de heresia. de longas agonias. de atrocidades sem exemplo. d'es- ses quarenta mil archivados. porque logo em i857 se deu a usurpação do Padroado portuguez no Oriente pela cúria romana. Herculano saiu a terreiro culo com o seu opús- A Reacção tiltramontana.

em em estylo semi-biblico. porque logo testar em 1858 teve de pro- em um Manifesto ao Partido liberal contra a intro- dncçâo das irmãs da caridade francezas. e a sua opinião é que só existem deputados locaes (de campanário) capazes de satisfazerem as ne- cessidades dos circulos junto do parlamento. se lembraram votar 2í2 em Herculano nas eleições de 1858.° 1:399. surda. em desalento sobre o fntnro da nação. fez ainda mais ecco a rejeição de e Espada. Foi assim que os do circulo 26. Thiago.366 HisTOniA DO romantismo em Portugal nas regiões do poder. tam- 1N. * Carta. de de maio. na carta aos eleitores de Cintra dá-lhes a saber que rejeitou o diploma de deputado por um circulo da Beira. porque não pertence a essa terra. e que não acceita agora o mandato dos eleitores de Cintra. resignando o mandato de deputado por Cintra. Herculano escreveu então uma cio. Estes protestos. porque todo o talento que nascesse insignificante só podia ser A ideia é abem um sitio deputado local adaptando-se pela longa permanência a essa localidade. Fez um gninde sobre o paiz esta abstenção de Herculano. se próprio não fizesse alarde da sua modesta superioridade acima das honras. Era uma abelle negação catoniana. Herculano estava suas palavras eleitores já estado de mytho. que lhe quiz conferir D. procurava-se nas um sentido mystagogico. por meio do Jornal do Commer- em que declara ter recusado essa honra do mandato que lhe quiz conferir um circulo da Beira. Pedro uma medalha da Torre v. influíam sobre a sua lenda pessoal. . de Cintra. segue na rejeição da grã-cruz de S. Quanto distava Her- culano da ideia tão clara e tão justa do mandato imperativo! Era isto o que elle queria effeito sem o saber dizer. O mesmo onde processo diz e pelo Jornal do Commer cio dá a saber ao paiz que recu- sou o diploma de deputado por Cintra. do 23 de maio de 1858. que ninguém saberia.

Era o de ac- e Espada. e que fizesse eu me ditasse. e recusou tam- bém. Concluiu por me elle que cada um de nós podia proceder n'aquelle asas próprias convicções. «NVimmenso consummo que n. Pedro.AI. Fiz o 18t)2. de alta comprehensâo e de profundo sentir.» Esta revelação aulobioluz para a um relâmpago de modéstia e abne- gação theatral.<* 1 Jornal do Commercio 2:752. não era honra que se não tivesse do commercio. ções. . e com a sinceridade que elle encontrou em mim. complexo de extrema doçura. Thiago. instituída arlistico. mercê Procedi n'essa hypothese do el-rei mesmo modo a heróica que procedi com D. Thiago. Aquelle grande espirito. sumpto em harmonia com cumpria o que reputava o que a consciência graphica é Que um dever de rei. que Deus tem comsigo. de 7 de dezeiubro de 1863. expuz-llie amplamente os motivos da minha recusa. dizia Commeiída da Torre um favor.° 2:7i)2): bem em rei carta ao Jorjial do Commcrdo elle. Na carta alludida diz: «Deixo de parte a historia da recusa do pariato. Tinha motivos para crer que el-rei.» Por fim. fizera a respeito mesmo que vinha de da Commenda. Por carta régia de 17 de maio de dado a mercieiros retirados 18()1. D. foi noníieado Herculano par do reino. que lhe dizer.» * Esta necessidade de explicações diante do publico. «El- o sr. debateu sem se irritar. Pedro v. litterario em Herculano escreveu ao Jornal do Commercio: «Veiu depois a Grã-Cruz de S. paia o mérito scientifico. logo que D. fazem-nos tomar a sério estas palavras irónicas do próprio Herculano honras civicas: a propósito do seu despreso pelas se está fazendo. as ponderafiz. talvez demasiado rudes. Luiz subiu ao Ihrono quiz honrar o amigo intimo de seu irmão com a grã-cruz de e S. Nem mais nem a iniciativa da menos.EXANDRK HERCULANO oG7 (n. que pasmou com abnegação. proctirou-me nm dia ceitar a para me pedir. Recusei.

nâo me me custou a d'aquefie pobre rapaz. Era uma amisade desinteressada como nunca teve rei. Era commigo. de fitas.fundo do que o d'elle. porque der-lhe que o nem sempre meu desalento acerca do futuro era mais pro- . o coenta e dois annos.^ que aquelle marlyr. A es- espontaneamente a um morte de D. y>^ Herculano contava cínde rótulos nobiliários. s. Pedro v. homem do povo. admira- vam-se mutuamente. Não cré e v. e o reconhecimento do piritual conferido máximo poder indivíduo. de insígnias. rei nenhum. de tratamentos. e onde muitas podia escon- vezes o não encontrava. nha aífeição por D. Pedro v acabou de aggravar o estado psychologico de Herculano. Pedro começava a degenerar A miem pai- * Jornal do Commerrio n.» 2:752. aqui.^ espanta-se de que eu nada escrevesse morte de D. vinha muitas vezes buscar lenitivo. mas as admirações foram estéreis. para deixar o emprego do paço. como nunca ninguém achou em elle era-o.^ na profundidade da aíilicção do pae que pôde escrever sobre o tumulo do filho? Se eu tivesse custava mais a morte um filho me morresse. Herculano achou-se soe isso influiu litário. escreve-lhe a respeito da logo depois da perda do seu amigo: «V.338 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL que se tem feito ha trinta annos. que rompeu com a relação da capital refugi a ndo-se em Vai de Lobos. que esta terra nem comprehendia nem med'elle do que recia. títulos. Em uma caria a monsenhor Pinto de Campos. deve adquirir em menos de meio século extrema celebr idade. s. e nunca ninguém em Portugal chegara como elle a esse gráo de celebridade que se torna uma gloria nacional. n'este mesmo humilde aposento onde escrevo a v. Pedro v era o amigo intimo de Herculano. D. Se este século pôde produzir santos. Com a morte do joven monarcha. s. de de graduações. que queira e possa morrer sem esta classificação. . de 7 de dezembro de 1862. de far- das bordadas.

e se Pedro v estava desalentado no seu governo (como se prova pelas notas comparativas ao livro Grèce contempor a ine. hão de espirito dirigente. Fez-me commeiídador da Torre e Esa pada. uma nação condemnada moro a si- Era uma espécie de profanação dizer em um livro que eu sinto a respeito d'elle.» Estas palavras denotam uma boa alma. como quando D. Não se alinham phrases milhante propósito. e que se es- condem. anuotado elle. o joven monarcha poria em obra to- das as sugestões do mestre. D. São cousas pequenas que ir commigo. cousa que se dá poucos. era um doente moral. mas revelam a incapacidade para me cabem na cova. Desconfio de que se continuasse a viver chegaria a fazer de mina o que quizesse. como o perfeito avaro leva o seu ouro e o enterra n'um logar solitário. Esperava-se do joven monarcha 24 uma . a coragem e abne- gação que revelou por occasião da febre amarella de Lis- boa fanatisou o povo. Deu-mo um por retrato seu e o Ancien Regime de Tocqueville. e não servia senão para enfraquecel-o. in- intelligencia felizmente Deus não quiz que esta ultima luz da esperança a alumiasse os horisonles de rer. e eu a perceber como se pôde ser fanático. acceitei-os e guardo-os. de Abont. Felizmente aqueíla alma pura. Pedro v ia fumar o seu cigarro junto de Her- culano na vivenda da Ajuda. mas Herculano estava despeitado com o seu tempo. com o seu paiz e com a sociedade que o cercava. aquella grande não podia querer senão o justo e honesto.ALEXANDRE HERCULANO 369 xâo. D. não lh'o acceitei. nunca se achou em uma tão perfeita har- monia o poder o joven rei espiritual com o poder temporal. Pedro é para mim uma d'aquellas ai recordações que se levam até ao tumulo. o desalento de Herculano era ainda mais profundo. Pedro v era eminentemente sympalhico á nação pela sua moralidade e aspiração de justiça. e se este tivesse ideias e conhecimento dos grandes progressos do seu tempo. Pedro v admirava Herculano.

o embaixador hespanhol. sabe-se que o joven monarcha ia bastantes vezes conversar e fupara o quarto de estudo do seu régio bibliothecario e mar historiagrapho. * Sem sair d'esta orientação religiosa dada por Herculano. que aspirava a exercer o poder de justo e fecundo? Herculano desalentou-o catholico e estreito. . de 10 de dezembro de 1859. e exterior que se costuma entre nós dar a com a educação um príncipe sim- plesmente para figurar em recepções oííiciaes. Descreve com 1 Carta de 17 de dezembro de 1876. Nas suas intel- boas intenções D. Pedro v o mais que podia ser era metaphysico. á medida que y> o Christianismo se vae alongando das consciências. D. estava n'esse estado de espirito. que era a synthese «O calor parece ir-se retirando chamado o coração humano.370 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL cl'este paiz. Pedro v como metaphysico. afixaram até cartazes procla- mando: Viva D. não nos admira a sua consequente esterilidade. ainda esfrangalhados pelas esquinas em 1861. acção profunda sobre a transformação nalistas ibéricos os jorunifi- sonhavam n'elle a personificação da cação dynasticá da peninsula. Pedro V rei absoluto. em CoimA geração nova. para captar-lhe as boas graças cendental que no de entrar en colóquios con «de filosofia trans- es possible eludir este cuando tf se tiene el honor tra- soberano. Como aproveitou Herculano esta situação excepcional para dirigir a consciência de um rei. por algumas cartas de Herculano. Yimol-os bra. acha-se o fallava-l^he retrato de D. o ser meta- physico era o cumulo da superioridade. facto ex- traordinário. Pedro v cercava-se das primeiras ligencias do paiz. a esperança futura. Em um despacho secreto do embaixador hespanhol Pas- tor Diaz. e um modo com um pessia servil-o mismo pirito nunca se prestou na propagação dos estudos philosophica a que chegara: d'este musculo scientificos. O seu estado de es- resume-se n'esta phrase estylosa.

que no tenian actividad. que viciava os seus poJ3res aphorismos económicos. Por fim as formas constie tucionaes envolviam-no. composta de três cadeiras para aproveitar as aptidões dos homens que elle intellectualmente mais considerava.. prejudi- cava-o a indisciplina metaphysica. mas era-lhe impossí- vel reconhecer as causas históricas. p. nem a julgar os que o cercavam. Pedro aplomo. 2. critica para saber Da sua dotação tirava todos os annos era trinta contos de réis para as urgências do estado. ni necessidades para soste- ner los ferro carriles. D. as conveniências de camarilha ataram-no.* Historia geral e pátria. Pedro v via os resultados de uma certa decadência. Isto anullava toda a sua boa vontade. 204.* Litleraturas grega e * Ap. uma medida de expediente.. ni comercio.» Em seguida Pastor Diaz resume as ideias fundamenlaes da metaphysica do joven monarcha» el «que mediodia de la Europa eran pueblos caídos y gasque la tados que ya no servian para nada. que v. na qual o «habia dicho con las el mayor los caminos de hierro paralizaban primeras industrias. que se daba demasiada importância á Ia civili- zacion que podian aumentar. Mi Mission en Portugal. . para a renovação intellectual. ni iniciativa. Foi por esta forma que mandou fundar o Curso Superior de Lettras como uma fa- culdade humanista. as cadeiras eram: 1.ALEXANDRB HERCULANO 371 ços picarescos uma conversa entre o eraprezario Salamanca rei e D. destinada para Herculano. y que Portugal y Espaiia no tenian industria. y raza latina habia dado de si todo lo que podia .» Pastor Diaz explica em * parte estas afirmações porque «cm hijo de un alleman» mas não sabia explical-as como a obra da exploração catholicomonarchica sobre os povos raeridionaes. ni entusiasmos. para a renovação politica obstavam os seus respeitos religiosos. não tinha a edade e experiência bastante para poder harmonisar-se com a Carla.

que : era uma das formas do bom senso de C-isiilbo. em geral os fiancezes igno- ram o movimento intellectual dos outros povos. Insti- mas estava illudido foi solici- acerca do motivo da sua nomeação. se o Dantas não pro- vasse o seu alto valor.3T2 latina. Assim flcou atrophiado na origem um pensamento generoso. para fazer dormir os outros. poderia levantar uma geração ensino oral. apesar da insistência sublime de D. Ilerculano exclamava com uncçào palriarchal Perdia as noites a escrever. Era o melhor que o joven rei podia conceber. e merecia essa honra. e o sr.* e especialmente rista de Litteraturas modernas da Europa. quando morreu. dizendo que empregava melhor a sua capacidade fazendo traducções paraphrasticas. esto parodiou o dilo de Herculano: «Coitado! passava as noites sem dormir. Dantas. reservava-se para o grande pue rhetorico Castilho. quando pertencia á embaixada portuelle gueza de Paris. 3. que se dislribue lilhographada pelos so-. em quanto os outros dormiam! Com uma malícia natural. * Herculano pertencia como sócio correspondente ao tuto de França. Essa honra tada pelo sr. correu a tradição que deixara Irinla volumes tio esciiptos iniviitos. Na caria a monsenhor Pinto de Cam- 1 Este joven monarcba linha a velleidaile lilteraria. e a fundação tornou-se um arsenal de rhetorica espectaculosa. Dantas conseguiu essa distincção scientiíica para o nosso paiz. a portugueza. HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL latina para o seu antigo perceptor de grammaticfi e portugiieza Viale. do Instituto para fundamento da proposta e da votação. e recusou tamnomeação de professor de Litteratura. nome de Herculano era-lhes exlrauho. e cios próprio escreveu a pequena biogra- phia do escriptor.» J)e reslo «sses pretendidos inédito» nunca appareceram. De facto Herculano não tendo feito disci pulitte- com raria com o los tilho os seus livros. No seu íelichismo pelo monarcba. recusou-se formalmente a esse trabalho. Pedro v! Cas- bém a não quiz ser menos do que Herculano. relações Pelas suas com Prosper Merimé e com outros escriptores francezes. . o sr. sem acção sobre a nossa transfor- mação intellectual.

mas nada se coneu.» Para a em mas conclue-se de tudo que verdade Herculano era extranho a estas solicisem a legenda dos amigos o caminho na vida. tações. 6 dos fanáticos admiradores nunca o verdadeiro mérito con- segue abrir por si Na sua carta a monsenhor Pinto de Campos. Fernando. porque a sua morte proveiu depois da viagem de recreio pela Europa. e que sem eu solicitar me associaram áqucUa corporação illiístre. Foi victima da sua própria condemnaçâo. que em poucos dias o levou uma á sepultura.:o de facto era-o. o seu espirito olhava para a vida dos campos um idylio de tranquillidade moral. Elle laborava n'esse preconceito económico* . de 2 de junho de 1862. Herculano fallava em deixar a penna. porque nâa pen- mente: «No sam como seguiu. e asa pneumonia dupla.ALEXANDRE HERCULANO 373 pos. Sabendo da chegada do imperador do Brazil a Lisboa. e que hoje me sâo pouco affectos. veiu immediatamente da sua quinta para cumprimental-o. de 2 de junho de Í862. mas nâo é impunemente que se condemna a sciencia de um século. como se pôde fazer ideia pela predilecção dos estudos de agricultura pubHcados por Herculano na Pavia. empenhava-se el-rei D. Uns leves conhecimentos das biologia. Herculano era systematicamente abstemio. Academia de Berhm admitlir Herculano. Como um Gincinato ir como mo- derno. d*essa imperícia. este preconceito hygienico levou-o gradualmente a profunda anemia que o fez succumbir ao primeiro ataque inflammatorio. quando ainda se achava meio convalescente de uma sim começou falso consti- pação. chamando-lhe gongorismo de phrases. Desde 1855. falia adas poíitiialidades cortezãs em que sou fraco olficial. Herculano escrevia ingenuaInstituto de França ha homens que me estimaram. leis geraes da tel-o-iam fortalecido coiii um regimen saudável que lhe prolongaria a vida até um alto cume. a etiqueta palaciana obrigou-o a descobrir-se. para agar- rar-se á charrua.

Pedro v. ficando lhe levava lambem só os meios produzidos pela litleratura. Isto influiu na sua actividade. homem de lettras. o finado traductor de Walter Scott. Mas a terra não venda fez-se. Com a morte de D. homem de sciencia. Um. effeilo produzia-lhe profundos desalentos. para começar a reparação dos estragos do saloio. para o saloio a terra hade sustental-o sem trabalhar. precisou logo de dinheiro. que lhe deixara em testamento e Sousa. até hoje abandona- das á espontaneidade popular e á persistência tradicional. nenhum conhecia as relações do saloio com a terra. começa ressarcir as perdas. que egualmente se despediu do serviço a quinta de Ladeiras. nar o logar de bibliothecario produzido pelos seus refugiando-se na sua quinta de Vai de Lobos. que se desgosta vendendo-a a quem tenha ainda illusôes sobre o rendimento da agricultura.374 HISTORIA DO EOMAKTISMO EM PORTUGAL que a riqueza de Portugal da producção agricola. e quando essa está já bem esterilisada. Bernardino António Go- mes. Ramalho A Herculano a receber o juro de dez contos. zer-se a vez de colher. outro. propondo á Academia das Sciencias a compra dos apontamentos para um Diccionario portuguez. Herculano resolveu abandoreal. sâo o verdadeiro elemento da formação de valores capazes de se augmentarem pela troca com os produclos estrangeiros. que adquirira pital livros. de . A situafoi em ção de Herculano como proprietário agrícola assim. passa para outra. da solidão. com o pequeno cafoi se- O mesmo exemplo real e guido pelo medico do paço o Dr. lhe deve advir exclusivamente sem se lembrar que o desenvolvi- mento das pequenas industrias locaes. ou seiscentos mil réis por anno. comprou também próximo de Santarém. É por isso que o que adquire propriedades logo por dispender em volta de Lisboa. abandonando-a ao pro- prietário. e com o despeito contra a sociedade do seu tempo. e como nunca pôde toma como resolução ultima o desfatempo de bens que só trazem desgostos.

t. É o tédio das longas noites de inverno. Revista peninsular. á euménide da própria consciência. e ao Para sair d'este estado doentio para acudir ás urgências mesmo tempo da terra. Panorama. como se zil imperador do Bra- a Vai de Lobos. a corrente impetuosa do tempo parece chegar de súbito a pego dormente e praiar-se pela sua superficie. litica. dispersos trinta em um trabalho de annos pelos diversos jornaes. Til. é que emprebendeu a compilação dos seus peque- nos escriptos ou Opúsculos. a inércia da intelligencia. sósinho. como que perdidos por entre as collinas e serras do nosso anfractuoso paiz. ha na existência uma condição que todos os annos lhe prostra o animo por alguns mezes. que vaguéa indefinito sem o norte da realidade. I. mo- mancha negra na vida rústica. no casal. A confissão d'este tédio é uma curiosa pagina psychologica: «Para o velho que vive na granja. Ânnaes das Sciencias e das Leltras. . espirito. Illustração. Paiz. p. n'esses intervallos da vida exterior. tormento fim. Pá- O descontentamento que o fez romper com a pocom a litteratura e historia. doença ral. das horas es- téreis em que o pezo do silencio e da soledade cáe com duplicada força sobre o espirito. etc. Repositório. — Nas noites de inverno. Para o velho do ermo.ÁLBXÁin>BB HERCULANO 375 modo que do o vácuo inlellectual revelava-se pelo tédio dos * longos serões de inverno. onde as mil scducções da sua gloria o iam provocar. Revista Universal lisbonense. tria. vae-se convertendo no pouco a pouco em intolerável tormento. Semana. por 1 opúsculos. cia. es- A leitura raramente o acariintermináveis porque os hvros novos são raros. N'esta extremidade. também o atacou no isoviu na visita do lamento do campo. fácil de evitar nas cida- des. na quinta. o quer que seja da cellula circular e no qual ha por esmeradamente branqueada onde o grande criminoso é entregue.

» Estas palavras encerram o desalento de uma ultima illu- sao.) * Excaoações poéticas^ p. ha esta preciosa referencia á predilec- ção agrícola de Herculano: Larga o sacho ao frenético Alexandre. p. . o trabalho do espirito. na republica das lettras. todo e na sociedade do Assentiz fazia ás noites leitura ^ da sua Iraducção do Phantasma de Schiller. I.» O tédio das 1 Opúsculos. como ainda hoje. — Foi por que comecei a ajuntar os parte do membra de uma grande vi meu passado in- tellectual. a completar. assim mental como corporal. as suas horas de desenfadamento eram dispendidas em cavar e jardinar. nota accrescenta: «O nosso amigo Alexandre Hera esse tempo. é disjecta preferível. ainda uma vez. p. em principio de estudos ainda em quem já se admirava o infatigável mas fervor do trabalho. apesar dos mais firmes propósitos. VII e IX. a corrigir. tasse ao cabo de cada desapparecerem os marcos negros junto dos quaes cumpria que longamente me assen- um dos poucos estádios que ainda me restam a transitar pela estrada da vida. ainda o mais árido. Se Scbiller e o Phantasma o deixam livre E em culano. recido da gloria htteraria encontrou (vid. cem vezes isso preferível. (1873. a cortar. na sua mocidade Herculano revela a paixão pelo tra- balho da terra. faço. 236) e abor- também o tédio da vida campestre. ao fluctuar indeciso no vácuo. pela cultura das flores. porque já então.. Vencido o primeiro inverno. Que esta con- fissão ingénua sirva para ser absolvido da espécie de cor* reria que.» «No estudo da lingua allemã andava sr. 376 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL mais somnolenta e obscurecida que esteja a mente. datada de 20 de dezembro de 1830. 16. l. a accrescentar. Em uma Epistola de Castilho. por mais que ella ame o repouso.

Escrevendo sempre em todos os momentos graves da historia contemporânea. explicava a historia pela vontade dos indivíduos. a nação atrasada conferiu-lhe por isso o po- der espiritual. involuntário pelas contradições de toda a sua conflicto que o punham em com os seus maiores ami- gos. voltava-se para o passado. a falta de disciplina mental revela-se n'elle d« um modo vida. que a geração ia perdida. tria. Castilho. taes como Garrett. infe- Mas esse descontentamento era o testemunho da sua rioridade. Filho da ultima época do absolutismo. Oliveira Marreca e Seabra.ALEXAin>BE HERCULANO 377 longas noites de inverno veia-lhe destruir a ultima illusâo que o acariciara —o remanso da vida campestre. e foi isso talvez o que exerceu uma acção fasci- nadora sobre o espirito dos seus admiradores: nunca se mostrou satisfeito. um génio. que não acreditava no futuro da páque não servia o seu paiz. Rodrigo dá Fonseca Maga- lhães. isto aca- bou de o definir. de quem se afastou irreconciliável. de que ello se sentia investido. Marquez de Resende. que se traduzia ás vezes por siva. . mas de que não soube usar. Esse desconten- tamento. avivava a tradição do monachismo. Era uma natureza descontente. e o progresso social pelo que ha de mais retardatário —o in- fluxo religioso. e perturbava a emanci- pação da sociedade acobertava a falta civil com um deismo christão com que osten- de critério philosophico. Uma do cousa parecia caraclerisar em Herculano a centelha génio. seria proclamado apesar de todos os seus erros. rejeitando uma modéstia com apparato as honras sociaes. era era geral um estado de despeito de um espirito que não sabia deduzir dos actos descoordenados das pessoas a marcha progressiva das cousas. Diderot definiu profundamente o génio se n'essa ])\\rase — ime áme qui tourmente. e se este estado de espirito proviesse da apprehensão do futuro. da febre da iniciação. Herculano vivia em continuo descontentamento.

e uma humilde melancholia se apoderou de mim. e que ia talvez firmar a minha reputação. Herculano nâo o entendeu assim. ao terminar a sua Historia da Decadência do Império romano. um dos grandes espíritos do século xvni. ao lembrar-me que me separava do antigo e agradável compa- nheiro da minha vida. Em Portugal ninguém se alevantára acima de Herculano. Desgraçado do escriptor que nâo se apaixona pela sua obra. ali o sentimento foge ás emo- a rasão se exerce. Para Her- culano o trabalho não foi nada d'isto. um pensamento dominante. e que. quando co- nheceu a profundidade de pensamento da escola allema que começava a preponderar na musica nloderna. quando ou os desastres nos assaltam. Mesmo. mantendo o equilíbrio contra as violências exteriores que a perturbam. é o apoio moral mais seali guro que se pôde descobrir. era um protesto como o do miUtar que quebra a espada no meio de uma campanha sem bravura. a preoccupaçâo de um trabalho que se tornou uma manifestação da nossa vida. o grande compositor da escola italiana. e o silencio do escriptor tornou-se uma das formas do despreso pela sua sociedade. postoque declare que a gloria litteraria foi a sua única ambição no mundo. tirando d'el]a própria o estimulo para o trabalho. Rossini. nâo se quiz empenhar em uma lucta do génio creador.378 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL O silencio de Herculano na litteratura fora também um systema de celebridade mythica. considerando-se a injustiça elle próprio filho da sua obra. Quem . ao acabar a sua Historia de França. O meu orgulho abateu-se logo. calou-se para sempre. fosse qual fosse a duração que a minha obra alcançasse a vida do historiador de ora em diante seria breve e porcaria.» A mesma emoção se dá com Michelet. declara: «Não dissimularei que tive uma primeira emoção de alegria n'esse momento em que me achava desembaraçado. Mas aqui a efficacia da acção augmentava com o isolamento individual do iniciador. ções doentias.

ALEXANDRE HERCULANO \'isar 379 a dirigir o seu tempo. questão do Casamento em 18G5 uma foi aproveitada por Herculano para lançar aos ventos epistola prophe- Vejamos que relações existiam entre Herculano e esta conquista do civilismo. civil A tica. nomeando-o para a Commissão revisora do Projecto de Código Civil. de exame de Roma. e do alongo sique espero continuar a guarTbiago falia dar acerca das questões politicas e das questões litterarias. mas cabe-lhe a gloria de ter feito a redacção do titulo sobre aguas. deixou-o taes. na carta em que em 186iá recusa a grâ-cruz lencio. sem eslimulos men- Contra esta admiração publica oppoz Herculano lencio syslemalico. consignada nas Ordenações . e que paga a lisonja lançando-se na admira- ção feíichista. a littera- fundar disciplina moral. e isso cortou-Ihe a actividade. do seu antigo amigo António Luiz de Seabra. de quem estava separado desde 1851. a carta Em 1865 escreveu no Jornal do Commercio dando rela- parte ao publico de que redigira no Código a tiva ao emenda Casamento civil a propósito de umas iuepcias do Duque de Saldanha. e desde 22 de dezembro d'esse anno livros prohibidos pela inscriptos no Index dos Congregação faltava.. fura nomeado para a revisão da redacção litteraria dos artigos. que tenho guardado . um si- abandonando as de S. para obtêl-a é necessário lisongear a época que só me- rece cautério. pu- em 18G6. fo- ram perturbal-o com uma nova honra. Herculano conseguiu a admiração fetichista. Era a ultima honra que lhe essa mesma o procurou para envolvel-o no nimbo de um livre pensador. lettras. d'essa polemica que se agitou na imprensa. que não era.i> O seu silencio era sybilino e a nação queria ouvil-o. a ir de encontro aos erros.. resultaram os opúsculos intitulados Estudos sobre o Casamento blicados civil. A legislação civil portuguezn eslava lia mais profunda immobilidade. nâo pôde aspirar á gloria ria.

civil. porque m'o pediu o próprio auctor do projecto primitivo do Código. Como existiam có- digos civis europeus. * A final o Código civil saiu estropeado da comCW. 462. uma das diíTiculdades da redacção Herculano complicou o trabalho e introduzindo provincia- com a paixão dos archaismos.* do Cod. de i memSe bro da Commissão revisora do projecto do Código acceitei esse longo e laborioso encargo. alterações. Herculano fora nomeado officialmente como membro da Commissão instituições revisora. » O jurisconsulto António Luiz de Seabra pediu a assistência de Herculano para a questão de linguagem. sobretudo quando se aproxima d'essa outra declaração acerca da Historia de Portugal. . não í> foi para servir o paiz. mas é glosal-os. era fácil apropriarmo-nos d'elles confeccionando uma cousa. e como o francez e o sardo. Depois continua na carta: «Acceitei. Jornal do Commercio. um grande facto histórico. .dou HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL do Reino dadas a este paiz sob o dominio hespanhol ! É pas- moso. 1 Citaremos as palavras gaivagem e alcorcasj do art. escripta para uso do príncipe. obra a uma commissão sem sem capacidade philo- sophica e histórica. em que diz que a pátria não lhe deve nada. . Diz elle. nismos particulares na redacção de artigos de auctoridade geral. Isto òpasmoso. O paiz não precisa dos meus serviços. supre- soes e toda a qualidade de accidentes que provoca o par- lamentarismo. plano. assim se fez por d'essa alta missão um processo absurdo encarregando e submettendo depois a um jurisconsulto. D'aqui resultou entre o redactor do Código um constante conflicto revisora. pensámos nós que fora para servir a pátria com as suas luzes históricas acerca das do passado para se fazer evolutivamente a trans- ição para o civilismo moderno. civil e a Commissão e um producto mórbido filho de emendas. mas o historiador não deixa na celebre carta ao de dezembro de !865: «Fui illusões sobre os seus actos. imperativa dos artigos.

voltando do campo. Herculano uma proposta. e de contracto civil para os nâo catholicos. compilado dos códigos modernos. Herculano cáe na ingenuidade de declarar: «de a divisão do casamento uma proposta que fiz derivou em religioso e civil. ir- ritou-se contra essa theologia da caserna. saiu com um folheto a favor do sacramento. para os não catho- D'aqui resultou a impossibilidade de pôr civil. era quasi impossivel que não reproduzisse alguma das grandes conquistas do espirito civil moderno. embora no de- senvolvimento legislativo que devia tornar essa divisão cousa pratica. até a minha. Herculano. civil de natureza excepcional. Fallava-se por toda a parte na legislação relativa ao casamento contida no pro- . tornando o contracto licos. levantou-se a polemica na imprensa. o no mesmo Código contracto civil e o sacramento. e de campo assaz remoto blica e solitário para não chegar até lá o ruido dos negócios do estado. referida carta ao Jornal do um Na Commercio. que alterou capi- talmente essa ideia moderna: o casamento conservaria um duplo caracter de sacramento para os catholicos.ALEXANDQE HEBCUIxlNO 881 missão. iniciativa uma bem poucas disposições se contenham do e. que desde a falsificação do movimento da Re-.» Ninguém coexistir triste consequência d'esto erro de fazer dois princípios antinomicos. foi assim inconscientemente que se introduziu n'elle a ideia do casamento reduzido á sua base histórica e philosophica de complicou o problema com um contracto. acatar a usurpação da egreja. viu a alguns desse voto em contrario. que só appareceu ao fim de doze annos. e na alludida carta exclama: «Ha dois ou três dias. e a lei devia reconhecer esta antinomia. generação de 1851 rompera com o militar empavezado. que se tornara o caudilho do clericalismo. o marechal Saldanha. vim encontrar a opinião pu- da capital singularmente agitada. e em pratica essa disposição nova do Código o recurso de um so- phisma addiando esse progresso pela dependência de regulamento.

§ 2. das condições dos contractos. uma da mancebia.. políticos. dizendo que tentara (^pôr de accôrdo o sacerdócio e o império.. cipio perfilhado pela — A commissão acceilou. . é.. «Na Ordenação o que o absolutismo fizera fora elevar a mancebia á digni- dade de matrímonio. como contracto civil- das garantias. que foram a minha primeira não esperando veria nem crendo no futuro da terra onde nasci. cheia uma religião tran- de mythos atrasados e de supersiições degralegitimação inicial dantes. Assim proce- dia o grande rio. dava-lhe aquillo de que carecia. insuflando nos espíritos samento.» Herculano para justificar esta triste comprehensão da lei civil. o prinmonarchia absoluta. das formulas. pois.» Herculano nao podia perder este ensejo para trovejar propheticamente: «Alheio e indifferente ha muito a todos os debates lettras. A theologia encostava-se ás hombrei- ras dos quartéis . tit. veiu explicar a sua doutrina. cercando-o.» se conservou.. dade historíca das sitória. I a legislação consuetudinária. em que os cânones se de- batem atrapalhadamente com para mostrar que o casamento á altura de dignidade jurídica lado.. homem na conciliação do sacerdócio e do impéiniciador da liberdade de consciência. de- conservar-me extranho a este singular debate . De que modo? Par- tindo de que o acto do casamento civil se achava já legiti- mado na Ordenação. 46. iv. — Expurgando-o das asquerosidades de que vinha polluido. desenganado até das e ultima illusâo. civil é a elevação da mancebia Mais lhe valera ter ficado ca- do que vir assim perverter o critério publico. a gravidade e a auctorídade moral . Liv. em que se dava á mancebia a sancção jurídica! Monstruoso. a deplorável ideia de que o contracto perante civil do ca- a única concepção universal e sublime pela continuicivilisaçôes.382 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL jecto de Código civil . o mais pasmoso é a illusão do espirito publico que julgou vêr em Herculano um . escreveu três opúsculos Estudos sobre o Casamento civil. porque era Mas não um momento t> espectacu- loso.^.. .

corre por todos os ângulos de Portugal e encasa-se em todos os po- voados uma cousa hedionda e torpe. que só em 1878 pôde ser regulamentada. casando em 1867 pobre catliolicamente. á para padrinho * um que encontrou sé. se chama Philosophia. inimiga do pas- sado e do futuro. e por syllogismo o camartello. Seu mister é apaa gar todos os santos aífectos da alma e incarnar no coração. mas as que ficam bastam para explicar tanto no homem como na sua obra. mandou ao mundo como mandou Attila ou como um verbo de morte. André Joaquim Ra- malho e Sousa. Deus a Inquisição. a chamada pela sua morapidez da choiera ou da peste. que provinham da falta de uma disciplina philosophica. Outras contradições e antinomias de caracter poderíamos expor. quando a nação imbecilisada soffrera a invasão estrangeira narchia: «Com. vendendo á Academia das Sciencias os apon- tamentos de um Diccionario portuguez que lhe legara o traductor portuguez de \yalter Scott. e o que fizera civil fél-o com relação á emancipação rei também litleraria. que visa a impressionar pela condemnação do presente e pela recomposição poética das crenças que se distheatral. A maior força na propagação dos princí- consiste no exemplo. se chama illustração. contra as doutrinas da ne- gação da propriedade que sustentara contra Gar- em 1851. . e essa encobre-a por uma naturahdade simuladamente rude mas no fundo emphase de ura es ty lo figurado. * Isto nSo foi sem influencia na falta de vigor em qoe ficou esta parte do Código civil.ALEXANDBB HEBCULANO 383 Herculano contradictou immediatamente as doutrinas sobre o casamento escolhendo porta da pios civil. que tendo por lógica o escarneo. que. A missão da Philosophia acha-se assim descripta no pro- logo do Monge de Cister. que elle suppriu no seu falta espirito por um vago sentimento religioso. e pela solvem. de 1848.

384

HISTORIA DO KOMANTISMO

EM PORTUGAL

em

logar d'elles,

um

cancro para o qual nossos avós nao

tinham nome, e que extranbos designaram pela palavra
egoismo.» Estas palavras authenticam
ciplina mental, e

umq

completa indis-

nm

enfatuamento que tornava incapaz de
annos a Philosophia
cousa medonha,

subordinal-a.
foi

De

facto durante muitos

para o espirito publico portuguez
fallava a

uma

de que se

medo, e era synonimo de abjecção, como

Republica era synonimo de anarchia. Assim se pervertiam
as ideias fundamentaes, e o resultado foi o ter a nação des-

cido até ao ultimo gráo da inconsciência,

como

se vê pela
espíritos

pratica dos sophismas do Constitucionalismo.

Os

dirigentes

iam com
de

a onda.

A

falta

uma

philosophia que* lhe dirigisse o critério,

resente-se

em

todos os pontos de vista históricos de Her-

culano; testemunha de
e litteraria, renovada

uma profunda

transformação social

em 1830

depois da queda da reacção

systematica da Santa Alliança, que pretendia abafar os princípios da

Revolução franceza, Herculano vè n'esse grande

facto a consequência de

um

individualismo criminoso, de

um um

egoismo selvagem, que só pôde ser temperado pela

abnegação do christianismo:
egoismo.

«O

caracter

estampado na

frente do século actual é o individualismo, ou mais claro, o

O

furor dos diversos bandos civis, que pelejam

por sustentar umas formas de governo ou por derrubar outras, e as luclas das opiniões litterarias, scientificas e reli-

giosas, não são por certo resultado de convicções profun-

das,

como eram

as Cruzadas, ou as
fé viva.»
*

Reformas protestantes
restabelecer a ver-

nos tempos de
dade.
facto das

uma

Convém

Cruzadas

foi

uma doença
feiticeria

de hallucinação

si-

milhante ao millenario, á

e aos semeadores de

peste; quando a Europa entrou na corrente do criticismo

1

Panorama,

t.

ii,

p.

107.

ALEXANDRE HEBCULANO

385

protestante, decaiu nas consciências o poder catholico-feudal, cuja dissolução se

completou na

politica pela

grande Re-

volução de 17^89. Todos os factos que se seguiram depois,

vieram d'este impulso, e Herculano não podendo estabelecer a sua intima continuidade não conseguiu comprehendel-os;

quando o regimen da

sciencia se generalisava pela

fundação da chimica, da biologia e das descobertas industriaes

como

a applicação

do vapor, da

telegraptiia e

de oudo ho-

tras

que multiplicaram as relações e
o impulso da
fé já

a actividade

mem,

não podia motivar as determinaas convicções demonstradas. Foi

ções humanas,

mas sim

assim que esse individualismo, que preponderou durante o
largo periodo da dissolução do regimen catbolico-feudal,

veiu a ser

também

disciplinado,

quando a Sociologia, systecollecti-

matisando os complexos factores sociaes, estabeleceu o accordo entre as forças staticas da sociedade ou o
vismo, e as forças dynamicas ou o individualismo, ou melhor,

na coexistência da conservação e da revolução como condição do progresso. As instituições modernas surgiram d'esta
dissolução, não comprehendida pelo nosso historiador.

Herculano apoiando-se unicamente na estabilidade do passado, linha

medo da

liberdade, e mostrava sentir a falta

do absolutismo
da ordem:

e da superstição,

porque eram as garantias

tempos de servidão, o poder absoluto dos reis è ministros era para o homem o que para a criança fora o pae, o aio ou o mestre— o temor ficava sendo ainda
elemento de vida publica; então o clero continha o povo

«Em

no aprisco da superstição; e a superstição também então se julgava elemento social. Quebradas as antigas formas de
governo, não por nós mas pelo século, achámo-nos geração
livre,

cora a educação e

com

todas as reminiscências do

passado: corrompeu se o povo não porque a sua Índole fosse

má, mas porque forçosamente se havia de corromper. Qual
é o

homem
25

que nascido

em

ferros e

em

ferros levado atè

386

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

á educação

viril,

se não torne licencioso, restituído de salto
*

á liberdade natural?»

O que vemos com

relação á politica reflec]e-se

também
civi-

nas concepções de Herculano acerca da litteratura: a
lisaçâo sendo para elle a fórmula profana

do Christianismo,

o Romantismo só podia

significar a

Arte christã. Aqui o

erro é desculpável, porque esta ideia prevaleceu algum

tempo na Europa.

Em
sitivas

geral dá-se

também ao Romantismo

o

nome de

Arte

christã; os críticos especiaes, desajudados das noções po-

da Sciencia das Religiões, suppozeram que a espe-

culação moral e subjectiva que se exprime no Romantismo

pela complexidade de sentimentos, era
consciência

um

novo estado da

humana provocado

pela elevação religiosa do

Christianismo; d'aqui determinaram

como

característico da

Arte romântica o vago, o indefirddo, como esforço para definir

morphologicamente essas entidades metaphysicas da
infinito,

immortalidade, na alma, e do

em

Peus. Sobre es-

tas bases ocas fizeram-se theorias criticas,

chamando ao
phase acha-se

Romantismo o Christianismo na

arte; esta

bem
ções,

representada pela escola cmanuelica dos românticos

francezes, e aquelles que generalisaram mais estas abstrac-

como

os poetas da Allemanha, fizeram

um

ultra-ema-

nuelismo, foram pantheistas. Para restabelecer a verdade

no problema, convém ter presente, que o Christianismo é um factor que se não pôde eliminar, mas que ainda não está compreliendido. O que representa o Christianismo como religião moderna? Uma consequência reflexa do estado dos
espíritos, e

não

uma

acção directa; por isso Christianismo

e Romantismo são manifestações simultâneas d'esse estado. As religiões antigas, como o polytheismo védico e grecoromano, eram formadas sobre mythos tradicionaes; esses

*

Panorama,

t.

ii,

p.

211.

ALEXANDRE HEBCULANO

387

mythos foram elaborados"
tos,

em

personificações, allegorias,

symbolos, e as suas formas foram decaindo

em

lendas, con-

epopêas e outras formas tradicionaes das lilteraturas

d'esses povos.

Á

medida que os mythos iam decahindo do

respeito sagrado, as religiões foram perdendo a sua base,

e dissolvendo-se; é por isso que o brahmanismo soííre no

seu seio

uma

transformação profunda, o buddhismo, e o
facilmente
substituído pelo

polytheismo greco-romano é

cbristianismo. Eis o grande facto: importa explical-o.

Em

vez da base mythicay o espirito

humano procurou para a
é o

sua crença

uma

base moral;

tal

pensamento d'essas

duas

religiões,

buddhismo

e cbristianismo, tão análogas nas

suas formas dogmáticas e cultuaes.

O desenvolvimento das

especulações moraes fez triumphar o cbristianismo sobre o

polytheismo mythico da civilisação greco-romana, e essa

mesma

especulação na forma de subjectivismo sentimental
litterarias

desenvolveu as manifestações

do Romantismo,
Cbristia-

differenciadas por esse caracter das litteraturas clássicas.

Por

tanto, a critica explicando o
factos,

Romantismo pelo

nismo syncretisoy os

elevando a causa aquillo que
passividade myslica do cbrissi-

também

era

um

resultado.

A

tianismo, que recebeu nos claustros a forma litteraria, é

milhante a essa impressionabilidade doentia da escola byroniana das litteraturas românticas; differem apenas no fim
individual.

Os que sentiram essa impressionabilidade,

e pra-

ticaram a especulação subjectiva do sentimento, como Petrarcha, Dante, Miguel Angelo, Shakespeare, Diderot,

tém

todos os caracteres de Românticos, postoque a consciência
d'esla renovação só apparecesse no século xix.

Havia
ciphnar

em
uma

Herculano

uma

incapacidade philosophica para

julgar bera o seu meio social, e sobretudo para poder dis-

geração.

A

exclusiva educação clerical deu-lhe

a comprehensão ascética sobre o mundo exterior; o retrato

que

faz

da sociedade porlugueza, immensamente carregada

dSo

HISTOBIA DO ROMANTISMO

EM FOBTUOAI.

em

1839, mais carregado ainda

em 18ol

nos artigos da

Paiz, ainda mais desalentado no prologo do quarto volume

da Historia
repete-se
civil

em

1853, e no prologo de despedida de 1863,
violência na carta sobre o
a

com mais

de 18651 Sempre

condemnação, e nunca

Casamento um ár de

esperança; era para quebrar todas as energias.

No

artigo

sobre o Ghristianismo escreve,
«Portugal converte-se

em

13 de julho de 1839:

em

paiz de bárbaros; o assassínio é

ura desafogo; a dobrez

um

mérito, o prejurio

um

calcula

de interesses, e apenas o parricidio será
rendo, nâo abominável, nâo maldito,

um

feito,

não horse re-

mas digno de

prehender nos jornaes.»
car a geração nova

*

Proclamava a necessidade de eduvia directa

como

para a transformação

do futuro, e apresentava o Ghristianismo como a panacêa exclusiva: «julgámos poder alevantar a voz em favor da religião,

que tão esquecida anda
falta

em

o nosso Portugal.

«>

E em

seguida lança sobre o futuro este olhar de previsão, que

denota a

de critério: «Ainda está occulto no provir

qual será o symbolo universal do Ghristianismo;

mas

a

missão do presente é

a religiosidade.
foi

y>

^

D'este

feitio a

sua

direcção sobre us espirites

uma

calamidade.

Em

1851,

em

artigo de

29 de outubro, no Paiz, escreve estes traços

sobre o estado de Portugal:

«A

historia politica é

uma

serie

de desconchavos, de tor-

pezas, de inepcias, de incnherencias indesculpáveis; ligados

comtudo por

um

pensamento constante, o de se enriquece-

rem

os chefes de partido! Ideias, não se encontram

em

toda
li-

essa historia,

senão as que esses homens beberam nos

vros francezes mais vulgares e banaes. Hoje achal-os-eis

amanhã reaccionários; hoje conservadores, amanhã reformadores olhae porém com attenção e encontral-os-eis sempre nullos.
progressistas,
;

1 Panorama,

t.

in, p.

219.
108.

2 Panorama,

t. ii,

p.

.

ALEXANDEE HEBCULANO

«A historia da nossa industria é a historia da lucta entre o trabalho e a administração. Quando o tem querido proteger os governos só lêm sabido contrarial-o. Lede a pauta
da alfandega, as
leis

dos foraes, esse calios de

leis

incohe-

rentes e parvas que se têm feito, e vereis sempre a

mesma

ignorância dos princípios económicos geraes, ignorância da
Índole e necessidade do paiz
. .

«A

historia da instrucçâo publica é similhante ás outras.

As escolas superiores tèm de estar em defesa permanentemente contra as aggressões dos politicos ignorantes, que as consideram como inimigas suas irreconciliáveis. As

escolas primarias, a instrucçâo do povo, a mais essencial

de Iodas para o bem da nação,
cida,

essa, abandonada, esque-

perseguida pelos tartufos politicos e não lendo força
elles

para luctar com

succumbiu ...»

remédio que apresenta, é derivado da

mesma

preoc-

cupação religiosa, quer (upadres virtuosos, para propagarem
os princípios suaves e eminentemente liberaes da verdadeira
religião.»* E ha que numero de annos havia já Augusto Comte demonstrado que os progressos têm uma evolução normal, primeiramente scientificos, depois moraes e conse-

quentemente económicos?

Quem

quizer

transformar

um

povo, antes de refrear-lhe coactivamente os costumes dôIhe noções verdadeiras das cousas, isto é, sciencia, que a

moral e

a industria brotarão d'essa energia mental.

Por fim,

Herculano

comparava Portugal aos últimos dias da decacomparava-se aos anachore-

dência do império romano,
tas,

e

comparava Lisboa a Nicéa discutindo subtilezas

theologicas quando os devastadores lhe
ros.

demoliam os mu-

Uma

cousa attenúa estas jeremiadas; eram parte obriestylo,

gada do seu

que precisava de metáphoras

violentas,.

1

Paiz, D.» 84, de 1851.

390

HISTORIA DO ROMANTISMO

EM PORTUGAL
para encobrirem a
falta

de paradigmas históricos de

eíTeito,

de abstracção e de analyse subjectiva.

No prologo da
que a

terceira edição da Historia de Portugal,

espécie de testamento litterario de Herculano, declara elle
gloria litteraria fora a única

ambição que o movera

e a ultima que o abandonara.

A

nação inteira reconheceu

unanimemente essa
a

gloria,

quando o escriptor se entregava

uma

absoluta abstenção de actividade intellectual; essa

descrença era a posse de
a que se visa, é

um

poder sem destino.

A

gloria,

um
;

estimulo diverso da vocação.

outro logar dissemos: «A vocação litteraria

Como em resulta de uma
que leva

organisação especial

é essa sacrosanta fatalidade

um homem
Du

a usar e gastar o seu corpo sacrificando -o á adi*
litteraria

vidade da intelligencia; a vocação

levava Anquetil
ir servir

Pérron a sentar praça por dinheiro e a

na ín-

dia, para lá descobrir o zend, resistindo a todas as seduc-

çôes das bayaderas, affrontando os chmas inhospitos da Ásia,

para estudar os dogmas das religiões da índia, e enriquecer a sciencia da Europa

com o
morrer
foi

livro

do Atesta;

foi

a vo-

cação

litteraria,

que

fez

Ottffried Mijller debaixo

do ardente

sol

de Delphos;

também

a vocação Htteraria,

que levou Agostinho Thierry a cegar sobre os monumentos
da Historia de França, e que o
fazia dizer, ante o Instituto,

quando
morrer:
via

não podia continuar o seu trabalho, perto da
fiz, e o que eu faria se tivesse minha carreira; eu tornaria a tomar aqueila

— Eis aqui o que eu
a

de recomeçar

que

me

trouxe a este estado. Cego, e soffrendo
allivio,

sem

esperança e quasi sem

eu posso dar este testemu-

nho, que da minha parte não será suspeito. Ha alguma

cousa que vale mais do que os gosos materiaes, que é melhor do que a fortuna, melhor do que a saúde, 6 o sacrifício pela sciencia.

— Para

o progresso do

homem

sobre a

terra, estas palavras valem mais do que o achado da mais

pura moral. Que diríamos de

um

Littré, d'esses dois san-

ALEXANDBE HEBCULÁKO
tos obreiros Jacob e

391

Guilherme Griram, de

um Pedro

José

Proudhon, ou de

um

Raspail, e-de tantos outros? Veneran-

das sombras que passaram imprimindo direcção ao seu

tempo; mas não se queixaram, e trabalhavam por

isso
*

mesmo que
conflicto

havia

quem

divergisse das suas opiniões.»

A

vocação não se preoccupa com a gloria, pelo contrario o

com o meio

social,

com

as opiniões estacionarias, é

com as ideias preconcebidas, uma condição natural para

o desenvolvimento da sua energia. Natureza melancholica,

um

pouco tendendo para

a

vesânia periódica da perseguiirritável,

ção, o

que se explica pelo temperamento

que se

caracterisava vulgarmente

como orgulho,

e pelo resto

de

orientação da tremenda crise do absolutismo, Herculano não
sentia na sua actividade o apoio inabalável de

Depois da polemica do Milagre de Ourique,

um destino. em que dera

um

relevo

pasmoso

ás inepcias de alguns padres obtusos^

julgou-se victima de
a qual

uma

vasta conspiração clerical, contra

nem

o próprio governo tinha força para o proteger!

Resolveu não progredir nos seus estudos históricos, dizendo

que lhe haviam quebrado a penna nas mãos. No prologo dos Opúsculos explica o seu isolamento: «Após largos annos consummidos na vida agitada das
baixel mais de
letlras,

em que o meu
do

uma

vez fora açoutado por violentas tempes-

tades, tinha, emfim, ancorado no porto tranquillo e feliz
silencio

e da obscuridade.

Herculano gosava os effeitos

thcatraes d'esta abdicação
a própria decadência.»

em

que «o

espirito sentia

bem
falta-

Para Herculano proseguir na Historia de Portugal
va-lhe

um

ponto de vista; escrever para apurar datas de

casamentos, de bulias e rescriptos que regularisavam os interesses de príncipes, é

um

mister

bem

ingrato.

Compreo pas-

hende-se que, nas luctas politicas da França

em que

1

Bibliographia critica, p. 196. (1878.)

392

HISTORIA DO ROMANTISMO

EM PORTUGAL

sado reagia pela Restauração contra os princípios de 1789

que se expandiam na sociedade moderna, Agostinho Thierry se lance ao estudo da historia como a um campo de batalha,

para sustentar que a Democracia de hoje era nascida

d'essas classes servas que luctaram contra os barões feu-

daes.

É

assim que se acha vida na historia, que se recon-

struo o passado.

Gomo
de

é

que Herculano podia comprehenpovo atrophiado pelo catholicismo,

der a vida

politica

um

se elle era

um

christão fervoroso e poético?

Como

julgar

a instituição da realeza, que atacou as garantias locaes foraleiras, se elle era sinceramente

monarchico? Como, apreadmi-

ciar os Municípios, se elle acceitava a centralisação

nistrativa

do constitucionalismo com

pequenas restricçôes?

Sem
•o

o intuito de

um

processo, de

um

inquérito, de

um
té-

protesto,

mesmo, não

se faz historia; Herculano tinha só

ponto de vista da veracidade diplomática, e por isso o

que produz essa obra fundamental, que ninguém lê, porque nâo tem encanto, atacou-o também a elle, aborredio

ceu-se do trabalho e abandonou-o.
nico,

No seu
a

desalento chro-

Herculano chegou

também

perder as esperanças

sobre a marcha progressiva do século xix: «Na minha decadência intellectual

vem-me

ás vezes ao espirito a suspeita

de que este século vae acabar nos braços do gongorismo scientificOf como o xvi expirou nos braços do gongorismo
das phrases e das imagens.»* Os grandes problemas da
atomicidade, da equivalência mechanica do calor, da analyse
spectral, da physica sideral, da synthese chimica, da histo-

chimia, da physiologia e pathologia cellular, do transfor-

mismo, da evolução orgânica, da psychologia experimental,
a constituição scientiíica dos factos sociológicos, na linguistica,

nas religiões comparadas, na archeclogia pre-historica,

na antropologia, ethnologia, na mesologia, elementos con-

^

Carla a Andrade Ferreira, de 15 de juobo de 1872.

ALEXANDRE HERCULANO

393

cretos de

uma

nova sciencia

— a Sociologia, toda esta somma
homem uma
nova consciên-

de esforços que asseguram ao
cia,

eram para

aquelle espirito dirigente os

symptomas de
de
es*

gongorismo
foi

scienlificol

A

consequência d'este estado mental

a impossibilidade de actuar sobre o seu tempo, e

educar
crever

uma
uma

geração.
vista,

Acceitando o ponto de

que Herculano tentava

vasta Historia de Portugal, e não

uma mono-

graphia das Instituições sociaes da Edade Media portugueza,
as proporções

que delineara, e o processo extremamente

analytico seguido, não só tornavam a sua realisação incompativel

com

a acanhada vida de

um

navam

essa obra gigante absolutamente illegivel,

homem, como torsem ac-

ção sobre o espirito e a educação publica, valendo unica-

mente para ser consultada de um modo parcial e sempre com menos vantagens do que qualquer monographia. aPortugal,

como

em

outro logar dissemos, é o paiz que mais

desconhece a sua historia; d'aqui resulta o abandono da
tradição nacional na arte, o despreso pelos seus
tos, a

monumen-

separação lamentável entre os escriptores e o povo,

a falta de convergência e de plano na actividade politica

dos que exercem a aucloridade,

e,

o que é mais

triste,

da

parte da nação a incapacidade de julgar as instituições abusivas

que atrophiaram a sua energia, e a apathia com que

se submetleu sempre a toda a
leza,

ordem de

tropelias da rea-

que ainda

em

1847 chamou sobre Portugal

uma

in-

vasão ou intervenção estrangeira para manter-se na sua

posse dynastica.

O maior

serviço que se pôde fazer a esta
d'ella se

nação é recordar-lhe a sua historia;

derivam todos

os estimulos de renovação intellectual, moral e económica,

porque os

factos

do seu passado são

bem

eloquentes para

convencerem de que, pela

influencia secular

do jesuitismo

se atacou mortalmente a manifestação da intelligencia por-

tugueza, pela extincção das cortes se abafou a vida nacional

a lição mais agradável e persuasiva é a da sua historia. é fornecer-lhe as noções que hão-de determinar os seus actos de transformação e de progresso. nem os agitadores têm esse poder fascinador que arrasta as multidões tr'ora se julgava. e pelo regimen do absolutismo-cesarista dispende- ram-se as riquezas nacionaes pidas. é só porque exprimem com maior clareza a ideia que está na consciência de todos. encadeiem-se-lhe os factos e elle comprehenderá ella. em um systema administrativo das colónias cujo fim era o engrandecimento dos governadores ou fidal- gos arruinados. em faustos e fundações estú- em tratados que e arrumaram para sempre a nossa industria. Se os tribunos têm acção sobre n'uma dada hora. 140. Dizia como ou- um ministro francez. e saberá pela expressão da sua soberania fundar um regimen de liberdade civil. todos os esforços para o seu desenvolvimento serão improficuos elle em quanto não adquirir as ideias que hão de ser o estimulo ou o determinismo da sua própria acção. É por isso que em um povo um povo apathico. a rasão da sua independência para luctar por perce- berá como reduzido a beneficio de lisou uma familia se immobi- em feudo. official desempenhar «Pôr em relevo a historia d'esta pequena nacionalidade. como o portuguez.394 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL partindo a orientação da vida publica da devassidão palaciana.» 1 o Positivismo. p. em grande parte alheio ás conquistas do seu tempo. os povos não se movem pela vontade dos tribunos. e sacudir todas as invasões da esphera simplificar os serviços pú* blicos.e atrasado. vol. a propósito aYites dos levantamentos populares. que de se procurarem os chefes se procurassem as ideias que sugeriam esse movi- mento. e explorar as fontes vivas da sua riqueza. Para fallar a este povo sem interesses. que iam pela rapina as suas casas. . politica. ii.

para conseguir este fim. acima de tudo. segundo as condições emprehender o resumo ou condensação accessivel ao tempo e á intelligencia do vulgo. e essa obra tivemos porque as chronicas monáscatholi- fundamental nunca ticas e oíficiaes só a consignaram o que convinha ao cismo e â monarchia conciliados em explorar os povos pe- ninsulares.ALEXANDRE HEBCTJLANO 395 Este deve ser o critério do historiador. em quanto á sua acção pratica e emquanto ao intuito philosophico. co- nhecia os homens. o terror miguelino de 1828. o historiador tem dois caminhos. 1846. Sob o ponto de vista de lição era pela historia moderna que se devia começar. a epopéa do cerco do Porto. a falsiíicação do movimento sublime de 18^0. Era. Isto. mo. Maria n. que eloquentes factos para darem á nação a resistência que torna um povo livre e cmprehen- dedor! Estava Herculano em estado de emprehender este trabalho tão profícuo? Possuía todos os elementos concretos. e sentia as grandea indi- gnações da justiça. prevalecendo sobre a vontade nacional o arbítrio de D. Para se fazer resumo é indispensável as provas dos factos um bom uma obra fundamental onde fiquem com toda a sua amplitude. tinha sido testemunha ímmediata dos successos. investigando a causa da transformação do regimen absolutista em liberal desde a introducção das ideias francezas ou jacobinismo até á transigência provisória' do constitucionalismo inglez. ou começar as suas investigações partindo dos suctrabalha. ouvido com adhesão espontânea. Todo esse miserável reinado de D. acceitou o faévor do paço em 1839. ou em que cessos modernos para a antiguidade. '1817 e 1851. Porque não fez esse grande serviço nacional? Porque se deixou amputar pela dependência. e não tratou de emancipar a sua consciência d'esse deismo estreito que o fazia considerar a clvilisação humana como que não a formula profana do christianissi. fez á nação. também o não fez para . João vi. os caracteres. a dictadura perpetua atacada em 1836.

de Frei Luiz de Sousa. de Frei Bernardo da Cruz. 3.396 HISTORIA DO ROMANTISMO EM POBTUGAI. em Muratori. ao empre- hender a Historia de Portugal «destinava lho ao estudo de um principe então na sua puericia . em Jacob Grimm. t. _e uma bella His- de Roussew Sainte Hilaire. e pelo exemplo de Schaeffer. monumentos portuguezes seduzido pelas vistas de Agostinho Thyerry. e teria dos estudos his'oricos em educado-coma feti- severidade scientifica a geração que o admirou até ao chismo. a educação Significa: A erudição autodidacta de Herculano encaminhava-o para este ideal. João III. em La Gurne de Sainte Pelaye. a edição do Roteiro de Vasco da Gama. e achar-se-ia cer- cado de discípulos formados na pratica das recensões dos inéditos. na Historia 1 Bist. Sebastião.. A discussão da Chronica de D. como em Gujacio. de Guizot. e por ultimo o plano dos Portugalice Monumenta histórica.« ed. e nunca a Herculano faltaram os recursos para a publicidade. i. que seriam de uma im- mensa luz para a historia do constitucionalismo portuguez. revelam a capacidade biblioiogica de Herculano. de Port. a edição da Chronica de D. n'este campo elle teria exer- cido a sua actividade até ao fim da vida. Assim leria exercido uma acção profunda sobre a renovação Portugal.. e se elle se houvesse limitado ao campo da erudi- çãe histórica teria sido o mais digno continuador dos tra- balhos críticos e paleographicos de João Pedro Ribeiro. o encetado traba* Preferindo refugiar-se no passado mais remoto. O conhecimento da renovação histórica da primeira metade d'este século tentou-o. da Academia das Sciencias moldados pela collecção dos Monumenta Geí'manica de Pertz.» «Ad usum Delphinil» também tem ás vezes a importância das manifestações do génio.. que escrevera toria de Portugal. Havia muito que fazer. . consignando as suas Memorias.

Para isto tinha apenas a severidade critica. mas nenhum poder de evocação do passado. Hasse. os seus trabalhos de erudição. os espíritos supe- riores conhecem-se pela sua influencia. Virchow eHaeckel! O grande philologo Boeckh levanta o génio de Otifried ler e Miil- de Dissen. essa impossibilidade foi de dirigir os que se lhe encausas do seu retraimento. de cujos moldes pretendeu desligar-se. Koeliker. ou um Meyer. Schwan. Reichert. não soube exercel-o. Henle. quiz também a aptidão ser historiador. e a sua Historia pouco se eleva uma monographia. como Herculano. Dubois-Reymond. Eickhorn. influencia que se al- numero e grandeza dos discípulos. guns exemplos: João derna. Póde-se dizer que quando é um Herder. porque não tinha uma comprehensão phi- losophica das necessidades d'este povo. Citemos Miiller. a superioridade de Savigny faz desenvol- ver a capacidade extraordinária de Jacob Grimm e os emi- nentes Guilherme Grimm. tem o creador da Physiologia mo- como discípulos Bischoff. Dirksen. mas isolar-se theatral. Assim ficou em tudo a meio caminho. tregavam também uma das e do ostracismo voluntário a que se condemnou. e essa esterilidade de vistas. nem as transformações politicas da península e synthetica para relacionar a nacionalidade portugueza com com o movimento como ós de geral europeu. é ter sido in- . etc. Unterholzner. quiz metter em obra as suas Memorias sobre as amigas instituições sociaes portuguezas. O seu trabalho não influenciou o bastante para educar uma geração. recebendo as bajulações de mediocridades que' nem sabiam avaliar o seu methodo histórico. um homem influe sobre o seu um Lessing. Nasse. e quando um dia se achou investido acima de inconscientemente de poder espiritual sobre esie paiz. um Darwin n'uma individualidade tempo.ALIiXANDlU: HERCULANO 397 de Hespanha. Os verdadeiros homens de avalia pelo sciencia. não espantam Florez ou de um um Muratori.

sem ad- methodo scientiflco na historia. Em volta de Herculano só se agru- param mediocridades. Outros ainda mais obscuros captaram a complacência do Mestre^ cujos ditos escreviam em notas e propagavam com uncção. Em que serviu Herculano a sociedade portugueza.398 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL fecundo. dedicou-Ihe o seu romance histórico Ódio velho não cansa. tiram a sua originalidade da direcção do abbade Vogler. fortificando por meio d'essas legendas da amisade deslumbrada o poder espiritual que elle já possuia. plos são Emflm os exem- sem numero. saudando-o pelo insulso poema da Paquíta. quando Herculano morreu estava n'esse estado mental que só se define pela palavra moderna. emfim. se tornou sem um dos seus mais Ín- timos commensaes. mas nem por isso deixou de escre- ver esse vergonhoso livro dos Fastos da Egreja. o apparecimento dos gran- des compositores allemães. para Iriarchal quem era de uma inesgotável complacência. Mayerbeer e Poizl. em Era uma emoção que se não discutia. e todo o Portugal e Brazil era considerado como o limáximo da capacidade portugueza. que . Herculano vivia na lenda. um dos compositores mais originaes da Allemanha. Weber. com Mendes Leal enganou-se elle tomando os Homens de Mármore como original. Infallibilidade. que exprime uma cousa moderna. até o próprio que sem se saber como se elevou a sócio de mérito da Academia das Sciencias ter escripto cousa alguma. e julgando-o um génio dramático. de Musset e de Byron. frequentava-o Rebello da Silva. sugerindo-lhe a venda á Academia do manuscripto do Vocabulário de Ramalho. A acção de fatalmente sobre uma robusta individualidade reflecte-se uma geração. aturava Bulhão Paio. no retiro pada Ajuda. elle quirir a severidade do que sou foi em tudo um rhapsodista. como um assommite bro. que ou- um dia parodiar o estylo digressivo Silva Tullio. as suas obras eram lidas com recolhimento e orgulho.

qual a ideia que d'ai saiu fecundando o espirito moderno? Nada. debaixo d'essa rhetorica emphatica. emfim inspirou-lhe um patriotismo negativo. fallou-lhes dos frades. fallou-lhe das resistências heróicas contra os mouros da fronteira. mas ninguém lhe deveu uma ideia. turaes. se é que tivesse a comprehensão do poder espiritual investido. Em vez de proclamar a ne- cessidade do conhecimento da renovação plnlosophica que se operava na Europa em 183á. esterilisou-nos na contem- plação de um christianismo pessoal. Poucos serão os cérebros capazes de resistir a essa aura inebrialite da consagração publica. Herculano caiu em de cumulo da vaidade. em vez da acção directa. máximo poder espiritual sobre a nação porlumas não soube usal-o para dirigir uma época. . meio poético e meio heterodoxo. e outros o históricas. fallou-lhe do cava- lheirismo dos capitães da Africa. e extinguiu a sua capacidade politica tornando-se apaniguado do paço. nenhuma noção iniciadora para a consciência. Ninguém poderia de que se achava impulsionar mais a evolução da nacionalidade. litterarias ou autolatria inconsciente. debaixo d'essa acumulação de factos concretos e de processos polémicos a que elle chamou historia. único em vez de provocar o estudo das sciencias na- meio de fazer progredir e fecundar uma geração. melteu-se em um gou systema de despeito pejorativo. Todos amaram e respeitaram ilerculano. mas patriótica. as obras poéticas. esse poder espiritual era o resultado do fetichismo por um homem.ALEXANDBB HERCULANO 399 tanto precisava de impulso para se reorganisar desde que entrou no regimen do parlamentarismo? Revocou-a ao seu passado. É que esse poder não tinha uma origem racional e orgânica. fechou-se em um humanismo romântico com que deslumbrou a mocidade. que arredava o espirito publico da corrente das ideias modernas. Chea ter o gueza. altivez uma que uns chamavam caracter. Leiam-se os seys livros.

porque cessa de actuar uma força dissolvente. apesar posições. E quando essas individualidades se acham investidas de um inimenso poder espiritual sobre a sociedade do seu tempo. Foi caso de Herculano. condemnam pelo descon- tentamento da edade as gerações que entram no conflicto da vida. e á obra dos em novosi»* e Em 1858 escrevia Herculano no prologo das Lenda^ Narrativas. e. elogiando a geração dos ultra-romanticos: «E todavia. não virá em breve alguém que offusque os que nos deixaram para nós somente um bem modesto 1 logar?» Aos quarenta e oito annos de edade. que sabem julgar-se e julgar as condições do meio social. D'onde se vê que é preciso que passe esta geração estacionaria para que as novas theorias entrem na circula- ção do ensino pratico. a morte é para gração da gloria. e principalmente contra o transformismo darwi- niano. Préíace de la Gramm. podem dizer como sa- saudando os novos obreiros da philologiá em França: que «Quando se tisfação ó velho. é que Littré. historique de la Langue frai^çaise. Só os espíritos dirigidos por uma perfeita educação philosophica. p . porque é a consa- a sociedade uma causa de pro- gresso.400 HISTORIA DO BOMANTISMO EM POETUOAL estacionamento intellectiial dá-se também nos cérebros os mais disciplinados pela participação scientifica. . e para este o elles um bem. e prestes a deixar a carreira. prestar em voltarmo-nos bom testemunho para aquelles que vêm. todos os antigos professores e naturalistas da escola taxonomica de Cuvier são de um desdém intolerante contra a philosophia zoológica. sem saber usar d'esse poder. xix. por isso Comte e com elle Maudsley entendem que maior poder a morte é um factor natural do progresso. entre os nomes que despontam apenas nos horisontes lilterarios. do immenso talento que se revela nas mais recentes comquem sabe se. pela eliminação d'aquellas individualidades que possuem o social na edade em que já não avançam.

. mas os que o cercavam tantas home- nagens lhe deram. nunca tifica. «Ando é o que se lê em uma fre- carta: tão alongado da litteratura actual e está este espirito tão velho. vem-me ás vezes ao espirito a suspeita de que este século vae acabar nos braços do scientifico. e uma orientad'esta palavra. ção intellectual no sentido da Iheologia dos seus primeiros annos claustraes.ALEXANDBE HERCULAKO 401 Herculano ainda acreditava na possibilidade de se manifestar uma geração mais forte. . segundo o sentido antigo quando passou o periodo da sua actividade litteraria no romance e na erudição histórica ficou-lhe um despreso profundo pelas sciencias modernamente constituídas. Eslhetica. A teiro educação fradesca de Alexandre Herculano no Mosdas Necessidades. maior poder espiritual que as novéis intelligencias existiu n'esle paiz desauthorando que fallavam em cousas novas. e as modernas doutrinas íicas uma nova forma de gongorismo. foi a que allude mais de uma vez. de que não pôde tomar conhecimento. (mais velho aiuda que o corpo) que quentemente ai me escapa o sentido de muitas cousas que por se escrevem. na sin- gular illusão de não achar senão períodos. enojaram-n'o. modificada por uma reorganisação mental scien- era simples humanista. e elle envolveu no seu despreso soberano os novos que mais tarde appareceram sem o apoio das correntes otBciaes. Para elle a linguagem philosophica era scienti- apenas períodos sonoros. porque elle mesmo ainda se sentia progressivo. é o passado não é o condemnando o presente. 26 Demographia. Simbolismo comparativo e origens poéticas ou Paleontologia sentimental. Mesologia. Mylho- graphia.— Na minha decadência intellectual. como Prehisloria. gongorismo como o xvi expirou nos braços Isto já do é o gongorismo das phrases e das imagens.» estacionamento. Ethnologia. aliás sonoros ou moldados pelas fórmulas de uma obscura philosophia. que o enfraqueceram. caindo-me a mente cansada e gasta. Linguistica ou Glotlologia.

declarando lios com longas demonstrações dos conci- que as questões vitaes do nosso século eram o Immamlatismo e o Infallihilismo. como se vê. e n'este estado de espirito com uma simples noção de cri- tica histórica omittira por simples bom senso a r.elação do milagre de Ourique na Historia de Portugal. Foi quanto bastou para que o clero portuguez lhe fizesse uma guerra dos púlpitos e da imprensa reaccionária. A geração nova precisava ser fortalecida. repetiu-o reprovando o novo critério politico da Democracia na carta sobre as Conferencias do Ca- sino e no prologo em que precede nos Opúsculos a Voz do Propheta. e que a imprensa reaccionária de Hespanha escrevesse isto por occasião da sua morte: «Nós. e três capítulos Sobre a conversão dos Godos ao catholicismo. os seus actos de caridade evangélica e as suas não obstaram a que algumas obras suas fossem incluídas no Index. Herculano continuou acredi- tando na divindade de Jesus. Herculano caíra na primitiva orientação theologica. atacando-o co- mo se fosse um Feuerbach. mas ape- sar de tudo. já que nâo podia ser dirigida por E o que elle fez. scientifica d'este século. condemnando as tentativas de renovação mental. e entre os seus papeis acha- ram-se como últimos escriptos quatro cartas contendo uma extensa discussão sobre assumpto religioso. porque não dizel-o?— quando vemos quebrada pela morte a penna de um impio. (1857) no Manifesto ao Partido ral.402 HISTORIA DO ROMANTISMO KM PORTUGAL Sociologia. Realismo na Arte. reappareceu esse estado no motivo da composição do livro sobre as Origens e estahelecimento da Inquisição. Herculano não se elevou acima da metaphysica cbristã.) Ficou n'esse theologismo. (1854 a 1859) na polemica da Reacção ultramontana. (1858) e libe- nos Estudos sobre o Casamento civil (1865 e 1866. chegou a mandar construir na sua vivenda de Valle de Lobos uma affirmações deistas capella. e outros elementos da pro- funda renovação Herculano. louvámos a misericórdia .

Bem pressa estes «luminares do pensamento» que compartilham as suas opiniões se irão encontrar com elle. (No Church-Herald de 14 do maio de 1873.» Estas palavras tem o grande valor de gico. junta a as suas contas. porque era um incrédulo.39â tirou a luz que âe encerra Doesto facto. de 21 de setembro de 1877. que acaba de prestar era innata. nem acompanhou a evolução da ideia revolucionaria depois de 1833. e pedimos * aò céo pela alma do desgraçado que mallogrou seus talentos sacrificando-os á revolução. dVlle um biltre litterario A sua morte não ó perda para ninguém. um facto psycholo- porque demonstram que a moral do christianismo já Mill hoje é ineílicaz para dirigir as paixijes dos seus adeptos. e pela predilecção dos seus estudos canónicos e de historia ecclesiastica. se não enten- dêssemos que o deprimíamos com a conhecer chamar-lhe-iamos isso. Stuart Mill. . teria sido si um escri- ptor inglez notável. porque Herculano não foi um livre-pensador. se a consciência de próprio. mesmo modo em Inglaterra. As phrases contra Herculano são acima de tudo nma prova de estupidez. Herculano quiz ser abste- mo. dizendo: «M. que lhe fizesse uma extrema presumpçâo. de Madrid. 2 D'um Ecclesiastico com vinte e oito annos de exercido. ^ e isto será bem bom para a Egreja e para o Estado. Na morte de Stuart do também os catholicos procederam J. — um padre da Por um capricho de caracter. mia a falta de hygiene na vida do campo.» São estes os chei- ros que escapam involuntariamente da gangrena da hypocrisia. que livra a sociedade de iim inimigo. Ap. e nos últimos annos de Valle * El Siglo futuro.ALEXANDRE HERCnLANO 403 de Deus. não de primeira ordem. Diário de Noticias. para melhor dal -o egreja. mal acobertados com o almíscar beato e sensual de todas as sacristias. mas de- um incrédulo amável e um perigosíssimo sujeito.) Spencer na sua Introducção á Sciênda social^ p. aggravou a ane- em que se deixara cair.

um silencio em volta do ficara mytho. durante a espectativa da audiência e recolheu-se a casa com uma pneumonia Não tinha o sufficiente vigor para ser tratado. Durante dias a imprensa jornalistica explorou a ção. Aquelle amor que Herculano revefoi lava nos seus versos. e no dia i3 aggravou-se progressivamente o seu estado. á meia noite. * ir comprimenlar o amigo que lhe offerecera o asylo do seu desacostumado das etiquetas palacianas arrefeceu dupla. . nenhuma voz se levantou explicando o homem com a severidade que compete aos que ficam na historia. 1. para irem ao cemitério da Azoia acompanhar o ul- timo despojo do homem em Portugal foi mais admi- rado. fez-se em um monumento. os médicos em conferencia julgaram-n'o irremediavelmente perdido. 17. Fallou-se abrirara-se subscripções. que o enfra- queciam profundamente. o rodeavam que lhe abrissem a janella A noticia da sua morte causou uma impressão immensa. pedido do imperador consta que Herculano escrevera a sua Carla sobre yid. que se rompeu por alguns signatários reclamarem o seu dinheiro quando notaram que Estes factos encerram tudo em nada. Em uma 1 sociedade apathica intellectualmente e^economi- A a Emigração. uma significação profunda. Na segunda viagem do imperador do Brazil a Portugal.404 HISTOBIA DO BOMANTISMO EM POSTUGAL de Lobos soffria por vezes febres sezonaticas. a sympaihia pelas plantas. emo- mas nenhum dos admiradores do typo lendário mostrou haver estudado as obras de Herculano. caindo immediatamente na consumpçâo adynamica. entrando na agonia ás cinco horas da tarde até ás dez em que succumbiu. Herculano entendeu do seu dever império. sabendo que ia morrer pediu aos que para vèr as arvores. no dia 12 de setembro de 1877. Opúsculos. official se Iodas as celebridades do mundo que dirigiram a San- tarém. que po- remos em relevo como a conclusão do presente estudo. a sua ultima preoccupação.

e por isso a analyse histórica scrviu-lhe para manter a veneração im- niovel do passado. declarando que ella nação nada lhe devia porque não fora para a sua obra. Herculano era também um catholico. fallando contra a extincrão das ordens monásticas. submettida a todas as trope- uma realeza parasitica occupada garantias consLitucionaes. escreveu para uso de a li- um príncipe. que cessa a achar no illusão que perverte homem uma superioridade reconhecida unanimemente. a eslimular-se para a acção. dizendo que a instrucção só podia alcançar-se á custa de padres instruídos. si naturaes e instinctivas. A actividade de Herculano examinada com um intuito philosophico leva a deduzir uma illusão que fazia conclusão importante acerca da missão do escriptor: As sociedades humanas compõem-se de forças de conservação. é então tica. como lias dtí a portugueza. Herculano era monarchíco. e por isso como vez historiador ao estudar as instituições portuguezas. a ter opiniões. prognosticando que o futuro da civilisação era a religiosidade. com intimas relações de favor com o paço. É porque essa inteiligencia stalicas geou de algum modo as forças de conservação que preponderavam na sociedade portugueza. e nos lembramos que a Herculano ella con- feriu indisputavelmente um absoluto poder a cri- espiritual. com uma erudi- ção de canonistas e santos padres. obrigando-a a pensar. Quando téril se observa nos viajantes e diplomatas estrangei- ros o quadro da sociedade portugueza d'esta época tão es- do constitucionalismo. é porque cora o seu trabalho não incommodou a apalhia mental incutindoIhe ideias.ALBXANDBR HERCULANO 405 camente. em de procurar n'csse problema das origens os elementos de evolução para as transformações iniciadas pelo regimen beral. as quaes deixadas a mesmas ten- . a discutir. o ter poder espi/iiual sobre em sophismar as uma sociedade n'estas condições deploráveis é claro um symptoma lisoa- de mediocridade.

tomando-as apenas como factos reaes que modiQcam as concepções subjectivas. co- mo impulsos individuaes contrabalançados pela conectiviestável. fallando. . emíim todos os que pensam por si devem ser revolucionários. é por isso que o escriptor. ou quem não comprehende e põe as suas forças intellectuaes ao serviço do passado. escrevendo. só pôde ser admirado pelos que estiverem do lado da inconsciência. o artista. deve ter em vista impulsionar es- sas forças staticas. phantasiando^ imaginando. todo o homem capaz de ter ideias. inventando. Só assim é que essas forças de conservação se podem aproveitar como ba- ses de ordem.406 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL dem para uma espontânea iramobilidade. exercendo uma acção improgressiva. dade Quem não cumpriu a esta missão por instincto próprio.

O sçculo xvu em Portugal foi o século da rhetorica e dos oradores. Fez-se estylo nos relatórios.LIVRO III A. nos artigos de fundo do jornalismo e nas obras de litteratura. em que o constitucionalismo deu importância á burguezia pela necessidade das maiorias. DE CASTILHO (1800—1875) A superstição do estylo. e se adoptam opiniões preestabelecidas. para communical-as. o culto e admiração pelas pomsocie- pas rhetoricas são um symptoma terrível em uma dade. e se exerce a palavra em phra- sem sentido. ou não existe liberdade intellectual para poder ter ideias. uma incapacidade de formar juizos. o século xix. F. sobre tudo aquellas que têm a ses sonoras apoio da auctoridade oflicial. Comprehende-se que o secula . serviu-se da antiga rhetorica para envernisar as banalidades que supprissem a falta das ideias. e acceitava-se submissa- mente a opinião apoiada por uma auctoridade ofQcial do inundo politico ou litterario. ou realmente domina' uma atonia mental.

nâo havendo entre nós liberdade intellectual quando ella se exercia com vigor nas Academias da Euro- pa. porque nada havia a dizer. contornava-se. glorificavam-no para alcançarem a vénia. a que se deu o nome de Elo^ . até ás primeiras communicações com a Europa em 18á4 e i828. I fácil lhe foi converter-se em /'pontífice litterario. pelas pela vernaculidade. bastava o estylo para a reputação e futuro de um homem. Foi n'este sidade e da instrucção elementar. ninguém se oc- cupava com as ideias. porque diante das fogueiras da Inquisição. virava-se. Achou-se assim fundada uma pedantocracia. conservada durante lodo o século xvui. o vulgo acceitava essas consagrações. uma vez re- conhecido como auctoridade. A inca- pacidade da analyse scientifica e da concepção subjectiva conhece-se n'esse falso Jyrisrao seiscentista. impor á burguezia.40S HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL do gongorismo fosse rhetorico. pelo iphrases arredondadas de locuções obsoletas. a palavra servia unicamente de objecto e fim do discurso. que os dispensava das duras provas da vocação. em que o cérebro humano desceu aos maiores contrasensos. um grande escriptor pelo essabor quinhentista. deixaram Castilho em campo como o luminar dos novos. e na predilecção exclusiva dos poemas-chronicas. manteve o habito de dis- pensar as ideias preferindo os effeitos meio que Castilho se tornou ítylo. O vicio palavroso do regimen parlamentar manteve a necessidade da rhetorica na litteratura. e os medíocres cerca- vam-no. A morte de Garrett em 1854. Esta situação mental. os seus juizos conferiam talento. O talento oratório gastou-se todo em Sermões. O exagerado humanismo da Univerda palavra. reputações sem funda- mento. persistiu na sociedade portugueza reorganisada pelo constitucionalismo. que precisa ler í alguma cousa que admirar. atacar a liberdade í do Romantismo pre- ferindo a convenção arcádica. e o silencio systematico /de Herculano em 1859.

CASTILHO 409 gio mutuo. . Castilho trans- com o Romantisrpo traduzindo Goethe e Shakespeare. em que ponderava a scien- e a philosophia. a critica scienlifica apeou-o. mas cia já era tarde. Entrava-se em um vos outro regimen mental. As primeiras ideias que circularam perturbando este éden da idiotia pareceram igiu um attentado. focos de ideias que collocaram os no- em dissidência com um passado que se prolongara muito além do seu momento histórico.

Em 1824 exalta nos mesmos Outeiros poéticos a restauração do absolutismo. mas esses dois poderes que se dissolviam.— loQuencia do accidente desgraçado da cegueira sobre o seu talento e caracter. a 26 de janeiro de 1800. em quem a propensão filiios. Castilho não querendo Amedrontado pelo ecco das luctas sociaes. comprehender o século nas suas 11 u- ctuações de princípios e de crenças. João vi em 1817. adheriu ao lado statico . segundo o intuito da sua laboriosa genealogia appensada á versão do drama Camões. que se achavam sem destino em a nova era scientiílca o industrial. Retiro no priorado de S. assum- Castilho maldiz os principies da liberdade e — — — Quasi todos os agiographos encetam a vida dos santos dando-lhes sempre pães honrados. lente da faculdade de medicina e principal redactor do Jornal de Coimbra. e o catholicismo n'essa coUigação obscurantista que desceu até ao absurdo da infallibilidade. — — acclanoaçílo de D. persistência da tradição I. e a monarchia en- trou na renovação das grandes guerras. Influencia do poemeto de Ecco e Narciso na sua vida. da egualdade. A piedosa confraternidade de Augusto Frederico de Castilho. José Feliciano de Castilho. a poesia abafada pela rhetorica. O século surgiu impul- sionado por novas doutrinas politicas. da virtude se ia sublimando até á predestinação dos O mesmo se deu com António Feliciano de Castilho. Primeiros estudos. Em 1820 celebra no Outeiro da Sala dos Capellos em Coimbra a conquista da soberania nacional.410 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL § (De 1800 a 1834.)-. que tendiam a fazer terminar o regimen revolucionário. — — arcádica nos seus ensaios. veiu á luz com o despontar do século. perturbaram com medonhas reacções a evolução da Europa. do Dr.Nascimento e lendas da infância de Castilho. nascendo em Lisboa. e pela constituição de novas sciencias. Mamede da Castanheira do Vouga desde 1826 até 1834. o catholicismo e a monarchia. Domicilia Máxima de Castilho. —A pto do seu primeiro poema. e de sua mulher D.

e preferiu sempre a imitação á invenção. Comparam-n'o ao génio extraordinário de Sam- derson. 204 do Amor .» gio de (iraça Barreto. era (nunca a minha vaidade o esqueceu) um .se o perstipróprios uma adoração ccjía e inconsciente cimentada por aíleições domesticas. relirou-se de corpo e alma para a admiração dos exemplares antigos cuja predilecção adquirira nos seus primeiros estudos. adquirida cora facilidade* sem critica por parecer desacato a estranhos o quebrar.» A um producto d'essas lendas domesticas propagadas por seus irmãos. tão menino.CASTILHO 411 das instituições. e tão já ler e menino. ora se conta a sua fraqueza valetudinária. Embalado nos frocos da lenda onde Castilho viveu comparado também a Homero c a Milton. jã a precocidade da sua retentiva. a familia Castilbo assegurou-se em breve da solidez c fortaleza das basee. tradições pirito sempre família. e á nação para que aproveite aquelle prodígio. também cegos. quando saiu * «Adquirida uma certa aura de rcpulação pelas insinuações llsongeirasqueos membros da familia llie dispensavam pela imprensa. cantou a monarcliia absoluta. apaixonando-se pelo geometria. que escreve pedir a uma jaculatória a Deus pela sua saúde. na supposta biographia hespanhola de Cadiz exalla-se o talento de Castilho para as Mathematicas. ua Chave do Enigma. thema de admirações e de rtiputação de Castilho foi felizes ^ prognósticos para os parentes e amigos da familia. tobiograpliico: Eis um precioso dado au- «Encetava eu a carreira do estudo. 2 Castilho. p. A questão du Fausto. e Melancholia. p. retratado por Diderot. que o ouvirem-me verem-me formar caracteres. coloridas e animadas pelo suavíssimo ese de que exerceram uma grande acção na * forma d'aquella individualidade. em que cila poderia assentar o edifício de uma escola litteraria inleirameule sua. 67. e a Salinas. Nas Excavações poéticas produz-se um testemunho de Joa- quim Machado de Castro em que o insigne esculptor da Estatua equestre fica tão assombrado com os talentos do menino cego para a escolptura. A sua infância está ornada com as doces lendas domesticas. apesar de cego.

412 d'ella HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL para ser analysado pela critica desprevenida só dei- xou a Dú uma inconsciente mediocridade. quando por uma calamidade lamentável veiu a perder relações uma das suas mais immediatas com ella. distraído á sombra das arvores de quinta dos arredores de Lisboa (Lumiar) . esta pobresa de seiva. Mesquita e Mello: «O auctor teve a desgraça de cegar quando contava apenas um anno de edade. nas crises perigosas Vlã uma que atravessou. que ^Ihe durou muito. O que Castilho seria sem as lendas fraternas podemos descobril-o pelo typo de um outro poeta também cego. Maria em «O auctor caiu por uma grande escada. padeceu de vermes muito. e á força da qual deitou grande quanti- /dade de sangue pela bocca. . (1815) soffre ainda aquella triste sorte.» Mesquita e Mello vivia improvisando em saráos fa- morreu desconhecido depois de 1875. esta devastação systemalica do saloio que esgota a terra nâo lhe consentindo . tendo um anno de odade. e quasi octogenário António Joaquim de Mesquita e Mello.» Os cuidados assíduos de Ião atribulada infância. lê-se: nota ao Epicedio á morte de D. convalescendo em fol- guedos innocentes. contribuíram bastante para lhe darem uma Sideia mesquinha da natureza.í<le um pêlo verdura. natural do Porto. e alguns an- nos teve tosse convulsiva pela edade de quatro annos. i Em uma ^'1816. se tivesse ^irmãos que o proclamassem génio seria um segundo Casmiliares e Uilho. uma ali disfruclou a sau- dável liberdade e soltura da meninice. e na de dezenove ân- uos em que agora se acha. que se pulverisam com as ventanias constantes de julho e agosto. Castilho cita em um dos seus livros este metrlGcador. É certo porém que estes campos áridos. No seu diz poema em oitava rima O Porto invadido e libertado. * Os primeiros annos do poeta correram esquecidos na amenidade campestre.

tras. que começando a sair se lhe jrecolheu. que es- se applicam egualmente que elle. de que está absolutamente cego. Na alludida nota do Epicedio de 1816 se iNa edade [de seis annos teve sarampâo. e começaram olhos. comprehender a sua individualidade e dar a rasão dos seus defeitos. incharam-lhe as capellas superiores dos olhos. d'este accidente pathologico sem considerar a influencia a que modifica profundamente lé: natureza moral. e perança de continuar na vida de dedicam. lit- É impossivel poder julgar com inteira justiça o mérito terario de Castilho. e em todo o tempo esteve cego havendo : aperto das capellas sobre os bugalhos dos olhos. restou-lhe a desinchar as capellas dos porém até hoje.CASTILHO 413 OS carinhos e condescendências para com uma criancinha doente. cicatrizes e opacidade no olho esquerdo. acintoso. foi como para chamar a attenção sobre o pequeno quem se dizia que aos sete annos compuzera um^oemasinho sobre as Flores. N'este mas não objectos mais pequenos. de lettras a que seus pães o se vé pela nota A publicação do Epicedio. e que fora educado por . começou a melhorar de quasi todos os incommodos. sabendo apenas se era dia ou noite. qualidades que mais tarde se desenvolveram por . que foi pelo espaço de dois annos não possível descobrir um único ponto d'estes. prodígio. os caprichos satisfeitos. mas conservando-se sempre fazia ás escuras.causa de uma fatalidade. a beneficio de banhos de mar. e dureza de pedra tal ganharam volume maior que um ovo de pomba. quem lhe leia. porque a luz lhe dores horrorosas. por onde distingue apenas vultos e cores. Começaram então ciiagas grandes mui doridas fpor todo o corpo.» exlractada. Passados os dois annos. fizeram-n'o impertinente. a cegueira. e terá sempre alguma adherencia da pálpebra ao globo no olho direito. as vontades adivinhadas. nem tem let- máo estado o auctor tem em seus irmãos. dezeseis annos de edade.

sem ideias. o tempo desenvolveu a pericia. a frescura. . Escholastica. não foram mais do que as qualidades peculiares dos tempos infantis fixadas no \ homem Castilho. í gnação. cega de nas- cença. e brincara com uma primita da mesma edade. mesmo os Ímpetos indomáveis da indi- . todos lhe occultavam essa infelicidade. Aqui litterato. Assim estava aquella pobre alma no meio de tantas caricias e mei- guices da família. estenderIhe a mão. e é este o característico por onde se determinam todas as suas bellezas e defeitos. e mante- nal do seu espirito não lhe deixou ter um ve-o além do termo natural D'este em uma prolongada puerilidade. sempre criança. uma brandura que paíicou . a imaginação que reconslitue as cousas e que procura adivinhar e lhe ram completamente temos o primeiro motivo do as intenções ensinou-lhe essa prosa digressiva e cheia de incidentes. e assim viveu não conhecendo a profun- didade da catastrophe. mas agradável. até que distracções mais intensas. paixões de si vãs. pela situação já descripla. Criança e cego! faz lembrar aquella dolorida e sentidíssima lenda allemã da filha de um rei. É este o momento mais poético da sua vida! Quem não hade protegel-o. Cegou em uma edade em que elle mesmo nem sabia o que perdia. A situação excepcioplano. o animo reservado e rancoroso. a alma.414 niSTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL uma mestra D. amparal-o. histórico de seu No Elogio irmão Augusto Frederico de havia ferido e derribado: eu escreve o poeta estas linhas autobiographicas: cruel «Uma enfermidade me . como a preienção litteraria.A graça. Um dia foi o seu noivo que lhe descobriu o se- gredo e a infeliz princeza morreu de melancholia. a promptidão. dar-liie as falias mais meigas. quando a fatalidade lhe cerrou a porta para todas as alegrias. e que não sabia que o era. a acuidade de outros sentidos deu-lhè a harmonia quasi sempre irreprehensivel dos seus versos. o absorve- povoaram a obscuridade. modo rece ingenuidade. abrir-lhe o seio.

p. e a con- fraternídade ou identidade dos nossos gostos. p. satempos para estar commigo. quando junto de mim. do Conservatório. a meus pães Desde essa hora até á uUima da sua existência terrestre. a poética. eu fui o seu companheiro inseparável . e as linguas. os braços de meu irmão me apertaram disserta Castilho e eu não vi meu irmão!» * Sobre esta dedicação sympalhica. de ca. p. esta ca- beça fadada a muitos mais longos infortúnios. 3 Ibid. foi uma diíTerença de alcance endisciplinas elle Nas primeiras o meu livro.CASTILHO 415 pendia mais de meio para a sepultura. e o que fosse morrer. e uma pobre criancinha. a eloquência... e eu levantei.. nasceu filho. 38. para logo zeram desapparecer d'entre nós toda * a diíferença de an- Mem. e litterarios: contando os seus mútuos estudos para «Dois annos contava eu apenas na vida. nâo só chorava aquella criança sublime) ricias.» 3 «O trato assíduo das chamadas humanidades. O meu selimo anno parecia nao dever completar-se: as lagrimas maternas e muitas outras caíam abundantes sobre mim. renunciava os seus pas. tão frequente enlrò ir- mãos. fi- o commum das nossas occupaçôes e passatempos. que só por instincto podia adivinhar o que era ser irmão. como que já de dentro da sepultura.. o latim. . de disvellos quasi maternos. 2 Ibid. mas lá dentro tinha-me ficado a melhor parte d'ella: os meus olhos se voltaram para o céo e nâo n'o viram. passou a morte. Emfim. o que era ser amigo. retratando Augusto Frederico. 39. .» 2 «os dois annos que eu demais contava tinham de o seu quarto pôr forçosamente no principio tre as nossas comprehensôes. assim entre nós as aprendemos sob a direcção de mestres abali- sados . a philosophia racional e moral.. e mais mim do que para todo o mundo. 37. como os outros (contam-n'o quantos admiraram mas cercava-me de aíTagos. levantei-a.. eu o seu mestre.

como ao vulgo parece. mas o calor e a alma do discurso é o tom que o acompanha. difficilmente se achará icorlezão ou comediante. e os gestos o seu trage. elle não ouvia somente a linguagem das palavras. . Entrados no mesmo dia e hora alumnos ás escolas de Direito da Universidade de Coimbra. interpretava também as intonações. . adivinharão muitas viri tudes e não vilanias pelo 1 menos vicios. porque assim o digamos. e d'aqui instincti- vas más vontades. Aquelles a nem distraido quem sua des- graça houver iniciado n'esta sciencia. uma espécie de perfídia. até ao triumpho da causa liberal.» Frederico foi * litterarias tão do nosso Casta- Depois da formatura S. vivendo elle n'esse retiro durante oito annos. do Conservatório. Diz elle: «A Voz humana. é lar- mister haver por necessidade e por espaço de tão gos annos. não é somente. uma interprete dos pensamentos. nos. um não interrompido estudo sobre a expressão fallada. como eu. permilti-me pois a triste 1 Mem. Para comprehender bem feito a fundo esta verdade. 416 mSTOBIA DO ROMANTISMO EM POBTUQAL . por mais que estude dissimuílaçôes. p.. muitas excellencias e não menos mero som e modulação da voz humana. que. que lh'os elle ou falsificados os sentimennão conheça. sentimos a forçosa necessi- dade de dar de mão ás amenidades uso e natureza. lhe possa dar trocados tos. em cânones Augusto Mamede da com despachado prior de nheira do Vouga. que ise tornou como habitual. para jos habituados a vér pelos ouvidos. Castilho deu-nos a chave do seu caracter desconfiado e malicioso. e o habito constante de uma ironia. e alguma outra cousa ainda mais subtil. que tinhamos de cursar inseparáveis até o fim. e Castilho acompanhou-o. senão o corpo da phrase. 40. mais indeíinivel e mais sem nome que o repassa. ella o é principalmente das affeições e movimentos inarticulados do nosso animo as palavras não são. .

39. ou da palavra. que reve- lava em ditos profundamente^ sarcásticos.. cipar a imaginação da mechanica aborrecivel da metrifica- ^continuavam a toada bocagiana. Só um uma espontaneidade fervente pôde emancomeçou por fazer versos muito harmoniosos. os outros ijeclivos disputaram em esmero de correcção.» * É im- portantissimo este facto psychologico. a sciencia philologia descobriu que antes da linguagem fallada. bastava-lhe constância e pachorra para fazer o grande habito ou '(ção. do Conservalorio. referindo-nos á ce^ gueira áe Castilho nunca tivemos outro intuito a nâo ser a deducçâo das modificações que este da intellectualidade. cuja biographia psychologica < foi escripta admiravelmente por Diderot. que dava communhão e convivência com os eápiritos elevados. . existiu o periodo da intonaçãOj e o periodo da gesticulação. as exigências da vaidade foram-n'o identificando a [Homero e a Milton. e deixados pela deficiência do pensamento. Castilho era eloquente não pela espontaneidade mas pela precisão e correcção descriptiva. o poder de comprehender as mullimodas intonações da palavra. Na sua mocidade compararam-n'o ao celebre cego inglez Samderson. facto exerce nas formas É pasmosa moderna da a intuição como Castilho descreve essa outra linguagem de que a palavra é o corpo material. idpar os vãos * Mem. As naturezas que reú- nem eslas três linguagens possuem o dom da eloquência. uma desconfiança. Com a repetição d'estas cousas tomou-as Icomo uma realidade effectiva. rio dava-lhe ao crité- uma tendência pejorativa.CASTILHO 417 vaidade de me julgar n'esla matéria bom juiz . Castilho mesmo que todos os que tinham poetado. e o que estes tinham de 'fluência. Começou por comprehender a lilteratura como uma no/bre ociosidade.. progredindo-se evolutivamente de um para o outro. os serviam para colorir e fechar o endecasyllabo. 27 p.

aã sodales. Muitas vezes as desgraças que assignalam os génios. brica. applaudia-se. nem vem ao mundo pelo acaso de em uma qualquer noite lú- apparecem quando as circumstancias os evocam. que assombra. tristezas. que invejamos sem saber que fogo lento gera essa febre de inspiração. Estes são almas de excepção e não nascem presepe. em todos os logares. que a \ão ferindo e desferindo para ouvirem o canto das suas seus sentimentos. e ao mesmo tempo a afllicção sâo |d'essa lucta. . tornar-se independente d'essa attenção que attenúa as fa- culdades inventivas. 'com uma intuição prophetica. através da qual perpassam as ondas sodos seus desejos. essa hallucinação de luz faz vêr 1 jque o em todos os tempos. é ! um aleijão que opprime o que o traz.418 HISTORIA DO EOMANTISMO EM PORTUGAL Conversava-se sobre a habilidade da criança. pro- vocando os seus amigos para que o proclamassem príncipe [dos poetas contemporâneos. e consolam-os assim persuadindo-os que . Castilho não teve o horóscopo do génio. a consciência das formas. O talento é o poder realisador. O génio é a falta de consciência das forças que se agitam dentro do individuo. o génio é como uma harpa eólia. mando o Eil-o nos estudos da boa latinidade. pelo habito machinal pôde chegar a dominal-as. Por jeile j nunca se esqueceu de se fazer passar por isso. também eleitos. deslumbram a imaginação dos que se acham feri- dos pela sorte. nem o decurso si. para virem dar forma e impulso ao tempo que precisa renovarse. Aqui mirar. os encómios foram-n'o soprando em ambições. que a humanidade admira em creações eter- inas. qualquer.da sua vida lhe deu essa transfiguração sublinie. louva va-se. recebendo o pó sa- . a habilidade chega a fazer-se adfoi for- É sobre estes dados psychologicos que se talento de Castilho. e a que nós fazemos a apotheose. dos noras das gerações. e columnas de fogo no deserto da vida.

Isto se chamava a edu- cação clássica. entendia-se que o privilegio do latim dava direito a ignorar tudo o mais. que tanta influencia teve sobre o talento do traductor de Ovidio. e de tudo isto saiu sciencia formal uma chamada Uhetorica. torna a admiração habitual. quem dá a um ou possue uma válvula de segurança! Era esta .Castilho retraia este importante personagem. na rua da Rosa. com as quaes se graduava a intensi- dade das emoções.CASTILHO 419 cudido da cabelleira do supersticioso cultor que se extasia ante as bellezas dos exemplares que vae descobrindo ás noveis intelligencias. os argumentos. era elle que fornecia todo o apparato de citações. e que fazia retumbar as salas das academias.) Latino Coelho no seu panegyrico de. firmava-se em bases convencionaes. e mais nada. as controvérsias. Para comprehendel-as. as notas. dá-lhe uma continuidade de repetir os dia. que não precisava de censura. e con- servam a tradição do quietismo religioso*. que distingue todos os mestres de la- O seu mestre José Peixoto ensinava e brandia a férula nos Geraes. . em que se gas- tava muito engenho. a certas com minúcias de etymologista. (Outubro de 1810 a 1815. horas do mesmos trechos. Esta era a sciencia que não compromettia. sem carecer de fundamento. como registo. tim. e as intelligencias do Meio Dia. os scholios. A corrente das ideias que abri- lhantam o século xvni acha-se anathematisada entre nós em todos os escriptores contemporâneos d'ellas. principalmente na peninsula. era uma casuistica da arte. Da leitura dos es- criptores da pura antiguidade formaram-se os gordos com- raentarios que abafavam os textos. Sciencia dos Quintilianos declamadores. tia A única apreciação consis- em desentranhar das palavras sentidos que o auctor nunca tivera. são morosas. espécie de Lyceu que havia ao Cunhal das Bollas. era indispensável pensar. A intolerância fanática. dos transportes.

que um elle simples mortal hade achar desprevenido nos discursos do celeberrimo orador. odes genelhliacas no nascimento dos príncipes. quasi sempre opulentos de exemplares. não Ihavia desembargador que não poetasse. trazida do giiadrivitm da xviii. bom humanista. ficou pouca memoria. pobríssimos de engenho e invenção. nal. em Portugal. catriviaes e fami- lumniando de sublime as expressões mais pos de vida litteraria que o orador escrevia sem pretenção. que ali a com Maximiano Pedro de professava. A estes tem- pertencem os primeiros versos por- tuguezes de Castilho. Tinha por Cicero^um amor que raiava em adoração. como aquelle reluziam visíveis mais lumes de poesia. que impoz na lucta da edade media o latim ao uso das linguas nacionaes. não havia chino . como diz o seu panegyrista: «Nos geraes do Bairro Alto a Rhetorica Araújo Ribeiro.» É chistoso este retrato escapado da penna do habil es- tyllista Latino Coelho. quanta é possivel em mestres de oratória. Westes ditosos tempos matavam-se as horas compondo íepistolas sobre a amisade^ aos annos felizes dos conheci- {dos. juntava Maximiano perfeições. ora originaes. edade media para as academias do século espirito clássico. de que lavra.420 raSTORIA DO EOMANTISMO EM POBTUQAL uma O parte da educação liberal. Calculava rhetoricamente os seus enthusiasmos em odes pindáricas. com tanto esplendor e eloquência. e achacado da enfermi- dade de fazer versos. em quem A Castilho tomava por confidente dos seus desafogos métricos. e a elle elegia por auditório o Pindaro ephemero do Cunhal das Bollas. Traduziu Pérsio e Juvenal. triumphou Castilho foi frequentar. que liares próprio esquadrinhava. Ás bellezas nativas. Escrevia comedias de própria de que não resta hoje recordação no theatro nacio- Era Castilho o seu discípulo amado. Era Maximiano um cultor apaixonado do velho Quintiliano. ora versões de escri- ptores da antiguidade.

quintal da casa tiraram-lhe a energia da viriUdade. mais conhecido pelo nome arcadico de Elpino Duriense. Dias GoÍ'mes. do mundo fora das estreitas mesmo modo que as crianças li- mitam o universo ao cára. tornaram insensivelmente a poesia uma cousa j oíficial. é . . foi reconheceu-a. paro quando seguia. das festas da corte. progredir como carecia de amnão concebia como o espirito podesse os mestres. não era a expressão profunda e séria das paixões humanas. e Filinto. A em que também a desgraça o colloincessante de uma mão que o guiasse. bem esteiados ia e en- gommados com emfim elle epithetos. empenhavam todo o seu esforço em cantar os gran- jdes á sombra dos quaes iam vivendo.CASTILHO 421 tâo bem ajustado debaixo do qual se não fosse aninhar um soneto. > Vid. Foi levado na torrente. mas um meio de entreter os intervallos das palestras famiUares. Primavera. curvou-se a ella. a necessidade dependência continua em que nasceram. este defeito macula |as melhores composições de Diniz. Os versos eram bera medidos. Quita. um brin- quedo infantil. havia admirações de transportes. mesmo na Primavera descreve-nos a amisade e admi- ração que tributava ao sábio António Ribeiro dos Santos. do mesmo f modo que as charadas e adivinhações.menlo. a turba vatum nas pegadas de Horácio como os bons carneiros de Panurgio. como torres de cartas. cerimoniosa. isto se vê nos volumes das composições dos sócios da Academia dos Obsequiosos do logar de Sacavém. por falta de individualidade. com Yiu na poesia o que todos os demais viram. uma primeira consequência do seu caracter de infância força para resistir. Os poetas não sabiam o que era a dignidade do pensa- . Castilho seguiu o movimento. Garção. * sem a tutella da auctoridade. não alcançava não teve paredes da Rhetorica.

tudo o pobre Pato Moniz. de Voltaire.422 HISTORIA DO EOítá^NTISMO EM PORTUGAL Castilho. para nol-o apresentarem como a epopêa única que acompanha o movimento da Eur ropa moderna na Renascença. Castilho não comprehendeu o fim para ^. não se esquece ide lembrar que já cantou ou carpiu a defunta rainha na 'sua urna cineraria. na morte de D. foi embalado na doce illusão da origem divina da realeza. 2. José Agostinho de Macedo era tão vingativo como orgulhoso. era preciso que surgissem Humboldt.bom homem. Assim começaram iditos. um Espectador portugiiez para fustigar os que se rebellavam contra a sua theocracia. tragedias racinianas. odes á Rousseau. não sabia que o atiravam á cara de um . o vive le roi no . fundara á maneira de Adisson. voltairiano orthodoxo. poemas didácticos á imitação do insonso Delille. João vi.que o elevavam comparando-o a Pie de la Mirandela. . 1 No /ornai de Coimbra. Maria i concorreu.do século xvm.» i. o atrevido padre aíTectava em tudo uma erudição de encyclopedista. dois desacertos sobre Campes. como criança. um serviço lembrado á magnani- i^aidade Reinava n'este tempo também despoticamente o petulante padre José Agostinho de Macedo. vê-se que nenhum lado o comprehendia. com to- :dos os poetas. os seus primeiros crelitteratura por- e póde-se dizer que conservou na P. Era do rei. Representava entre nós a litteratura franceza. depois do roi est mort. e tratou de os repelir em Portugal. Pela defeza do poeta nacional. n. le * Quando cantou. Maria i era inferior ao ide uma criança. a jTasso e a Pascal. procurou aviltal-o demonstrando Ique o seu Epicedio á morte de D.Poema extenso á coroação de D. Lera no Ensaio sobre os Épicos. com o seu Epicedio chorado e miserado. Schlegell e Quinet. atacava em tudo e por .» 1816. Levantou-se a polemica com Pato Moniz. cantou-a com toda a ingenuidade Ida sua alma.

e mais seiscentos e cincoenta e três com outros cincoenta versos da dedicatória. e uma errada comprehensâo dos mo- delos antigos. n. mas repellia infelizmente para a nação todas as ambições da tragedia purpurada.° 59 . . ao throno: Poema dedicado ao mesmo senhor por seu auctor AnA bajulação chega tambcm a tónio Feliciano de Castilho. João passar esta noticia vi. * abaixo de um pudor conveniente. quando desce enfadar os mesmos que Nunca reos. embarca ao estrépito dos francezes. João vi era o rei mais bondosamente prosaico. escoltado pelos seus corlezes alliados. ao todo. xt. de quantos se lém assentado no throno portuguez. que reina antes de o ser. vol. queseacclima 1 Jornal de Coimbra de 1817. a lyra desceu tão baixo na mão dos poetas cesácomo no poema em três cantos: Á faustissíma acclamação de sua magestade fidelíssima o sr. Medíocre na prosperidade. não pôde deixar sem uns laivos maliciosos de verdade: «Mas D. podia delinear assim um ediíicio composto de três pilhas de seiscentos e sessenta e três versos. D. e medíocre ainda no infortúnio.^ João VI. Só uma falsa ideia do sen- timento e da poesia. setecentos e sessenta e seis. Um rei. mil setecentos e trinta e dois versos para cantar o mais su- pinamente alvar de todos os heroes. próprio panegyrista Latino Coelho. parte n. nem ad- mirava pelas suas acções. Se '" |as individualidades se continuam na historia. venturas. D. Jayme.CASTILHO ^^^3 lugueza esse espirito de reacção acobertado com um clas- . nem interessava pelas suas des- A sua corte podia ser uma comedia de intriga. o auctor da Besta esfolada e das analyses dos Lusiadas transmittiu o seu espirito ao auctor da Tosquia de um camélia e da Pream^ Ihular do poema D. procura engrandecer.sicismo doutrinário e impertinente. que José Agostinho de I Macedo sustentara nos sermões e nos libellos politicos. que indireita para o Brazil.

vi 2 '«Jean — gal. . quando viu Maria excelsa. p. ainda abaixo das pinturas das salas da Ajuda que representam D. que desconhece com um cosmomenor assomo de nostalgia. tornada cinzas funéreas. que depois ouvindo rugir ao longe o tigre popular. João dentro de vi levado pelos tritões uma concha. nos seus receios dynasticos. que prosegue em se deliciar no Rio. ao Pae da Pátria. Este poema á coroação do monarcha é um mixto de al- legorias mythologicas. reparte o seu animo entre condescendência e terrores. o esplendor das Musas. com a melodia soturna do canto- châo. Cest Fo-chíni qui d'est rendu coupable de ce crime de lèse-majesté. p. a toga de presidente da republica plo seguro para moralistas. Quer remontar-se ab jove principmm. . e pede. ainda não disse tudo.» Raczynski. Les Artes en Portu- 1 Revista Contemporânea de Portugal e Rrazil. um rei assim é um exem- mas é o péssimo dos assum- ptos para poetas. não ii. (1860). ao Nume d'ella. et il est acorapagné de sa iiorabreuse famille. é por isso que não lhe pôde negar seu canto.» * Eis o digno ideal para o interprete da dor pungente e da acerba magoa que rasgou o peito da infeliz Lysia. 268.^ Segundo a Lyra de Castilho o magnânimo João só devia suster as rédeas do Império Universal. 178. Tel ost le sujei d'une peiíUure qui se voit dans» la eale d'au(iíence. um canto sublimado ao Grande. e depois com monachal sinceridade as anulla sem azedume e sem pezar. Oa no peut rien voir de plus ridicule. com a sinceridade de um Manuel Borges. sur une coquille. que acceita as bases da Constituição. ao Augusto Heroe. É a burguezia coroada com todos os ac- cidentes afortunados ou adversos da sua despoetisada condição. qui represente le retour de ce souvcraín du Brcsil eo 1821. Le roi se tient debout sur une conque. como d'anpolitismo verdadeiramente assustador o tes na pavorosa Mafra.424 á HISTORIA DO ROMANTISMO BM PORTUGAL sombra dos coqueiros. um rei que a si decreta a coroa de imperador. Tal é o espirito d'essa poesia. vol.

Augusto Heroe. re- quebrados. CÀNT. Nâo podéra eu lambem negar meu canto Ao grande. e Scylla e Charybides astros 1 Dos vassallos o bem. linguas cento. limitada de mortal. 70. etc. E mais que ao Pae da Pátria. porque natureza não dá cem boccas. começou pansa da bandurra. * nem uma voz de ferro. até as Pleyadas refulgentes se adornaram com novos resplendores. Se alguma vez n'este poema. ao Pae da Pátria. quando a esposa de Tilâo saiu mais bella dia Lampso soberbo derramando orvalho no carro d'ouro. para exaltar até aos astros a camará municipal de Elvas por mandar deitar quatro gatos de ferro Castilho se em um sino mostrou um génio foi rachado. O nascimento do monarcha é brilhante de despejo: viu a luz primeira no suave maio. ' A mente De do mortal. CASTILHO 425 sabe cl'onde começará a dar principio ao canto. e foram assim pisando o Esquadrão dos com mais vaidade. e voz de ferro Natureza não dá. n'esse e Phaetonte ufano. cuja harmonia é dada por aquella inspiração que o poeta Waller descobriu quando cantou a morte de Cromwell. I. quando. campanudos. ao Nume d'ella. o A mente engenho da espécie humana não poa derão tecer todos os louvores. que o assumpto egualem. O poema vae-se desdobrando em myriades de versos. que só devia Do Império Universal suster as rédeas. o bem da Pátria Se a Pátria exulta. se larpando o lulo No Ihrono assenta dos Avos herdado Magnânimo João. 87. nem um cento de linguas. V.. em que inconscientemente se eleva ao mais alto cómico. V. depois de escarrar e pôr os olhos a beliscar na em alva. surgiram com garbo novo do Oriente. o engenho humano lodos o louvor jamais tecera: Cem boccas. . que egualem o assumpto. Isto faz lembrar o canto de Vidigal no poema do Hys- sopé. e a elevação ao throno de Carlos ii.

O poema vae todo Nasceste Grande já: Teus Altos Feitos Fizeram-te maior: a Gloria herdada D'outra gloria immortal cobrir soubeste. Sagaz prudência. ódio.426 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL deram tréguas ao mar. Y. eterno. Esquecia dizer que o Fado sobre o molle berço bafejou o ao cingir a fronte a inveja com frondosos nardos. Ao inundo ostentas piedade augusta. parecia que mostrava ao sal mundo uma univerfillias primavera. brando Da santa paz o amor. Que o sangue em ondas faz rever nas faces. Faisca que electrisa os seios d'alraa. teu mundo roda. 130. só teu nome de um dos lusos rcsoando Basta a accender d'amor Vesúvio intenso. Que Crcalda a mente. e no puro sentimentos. No averno pararam os supplicios. r Jcador portuense João Egual a Castilho n'esta idealisaçSo de D. João Sexto. 121. mais alta sempre Ao Globo. e que alvorota os pulsos. p. JoSo vi só encontramos o melrifiEvangelista* de Moraes Sarmento (1773-1826) do qual |transcrevemos para aqui alguos versos como termo de comparação: Teu nome. na montanha de Encetado cessaram as labaredas. affavel. A ideia do quem és sopra em nós outros.) Canto I. l'ara affrontar por li mil mortes juntas. . Ura gcnio liberal. V. e as da Noite nos rios infernaes tinham suspendido os hórridos flagellos. rectidão.'^ martellado n'este diapsâo. eixo inconcusso. 104. no até 170. que a teus pós. Na bocca É 1 eixo d'ouro. justiça. dos quaes leite d'ellas e o nutriram aos bebeu os nobres bem que do fecundo gérmen bro- tam mil feitos immortaes. A idf^la de quem és. {Poesias. As Graças tomaram-n'o em seus braços seus níveos peitos. da guerra o V. que servem de honra á pátria e de brazão e de esmalte ao Throno. para que fu- nâo podesse escurecera) briho e a gloria das • turas acções.

^ Dedicatória do poema. recebe a moeda do povo. a quando se lembrava outr'ora de cantar os reis. 20.CASTILHO 427 A falsidade Deosa que lhe appareceu n'um dextra do ideal disputa competência com aquella extasis sublime sustendo na um brilhante facho similhante ao da Tocha Oriental «a formosa e cândida Verdade.» 2 D.lhe merco da propriedade de um dos oíBcios de Escrivão e Chanccller da Correceuo de Coimbra. nas satyras de Tolentino. e desentranhar frangãos assados das algibeiras do casaco.» que o força para que surja. gloria. ou os frescos estúpidos que estão nas salas do palácio da Ajuda. 2. e á grande applicaç. v. 2 Revista citada. Uei por bera fazer. 179. á similhança de Boileau. p. Estes factos defmem o caracterisam a sua feição. cora attenç5o ao dislinclo talento que tem manifestado António Feliciano de Castilho. como Beranger. lícia ^ com a renda annual e vitaartista. e despachou o poeta para o logar de escrivão. Castilho recebeu uma rendosa mercê em paga da sua oblata. que nâo passou de escavar dos bolsos do coUete. e soa outrosim servido conceder lhe íacul^iade para nomear serventuário.lo com que se dedica ao estudo das sciencias na Universidndc de Coimbra. pcdia-se esmola em verso. João rapé n'um vi. não tendo ficado filhos legítimos do ultimo proprietário. e levante nas azas do louvor os Grandes Feitos do Monarcha Excelso.* Isto parece uma caricatura grotesca em vez de um encómio para apregoar os feitos de D. que se acba vago. faz-nos lembrar A leitura d'este poema uma estampa do frontispício das grossas edições da Academia da Historia porw. 5. seodo pessoa apta e approvada pela mesa do de3 . João vi remunerou burguezmente aquella inspiração burgueza que o fazia seu Nume. de quatro mil cruzados.gueza. N'este tempo a poesia descera ao mister de pregão mer- cenário. Decreto da niercé: «Por effeito da minha real munificência. conseguia a magra pensão do poeta cesáreo. brade e rompa o silencio. Sobre este ponto diz o testemunho insuspeito de Latino Coelho: «Quando o poeta canta o povo. isto vemos nos sonetos de Garção.

o maior monumento da sua decadência. jcha do poema. Diplomas. por crear a companhia de veteranos e o monte pio hlterario. . Isto tornou inefficazesse sublime movimento nacional. as paginas vem recheadas de De- cretos. 26. que se havia de perder nas não tenha sido ou não queira ser ministro. Avisos da Secretaria. Alvarás. que é nm aviltamento da arte. Alaria a José Daniel Rodrigues da Costa.* canta-se o Decreto de 10 de fevereiro de 1792 em que D.» (Publicado nas Excafl. A mesma mesa o tenha assim entendido. Portarias. Resoluções. por dar a herdade aos presos pelo nascimento da princeza. Regulamentos. e o temporal que a esquadra soffreu na tura das ilhas. que não ' É d'aqui que tira a já o exalta marli- tem acção. i. i Verso 27-2. e alguns versos que stitucionalismo. auclor do Almocreve das Pelas. foram levados para a inauguração do con- mãos das mediocridades lítterarias e dos palavreadores melaphysicos. e a mande pasde junho de tvor dos expostos e mestras de meninas sembargo do paço. Provisões. de D. e providenciar a faem Lisboa. todos os papeis officiaes expedidos durante o reinado do monarcha celebrado. e uão ha litlerato. e assi^ gnar por ella durante o seu notório impedimento. um deposito de rezes vacuns. Officios. já o engrandece por fazer no logar da Azinhaga. 2 Verso 350. Nas notas ao poema. i.) Desde este decreto data a annullação da sentença formulada por Garção: — em 8 Álmotacé que queiras ser de Excluído serás sendo poeta. foi-lhe também dado o oflicio de escrivão em Portalet gre. 1819. não se fazendo alteração na ordem normal e chancellaria. e lhe sar os despachos necessários. Palácio do Rio de Janeiro. com dois ou trez folhetins. João i o pagamento dos encómios dos poetas. termo de Santa- rém. A tensa da propriedadõ de um officio de escrivão tornou-se no longo reinado e regência de D. vações poéticas. João pacho dos Negócios vi resolveu assistir e prover o des- em nome da rainha sua mâe. Editaes. Cartas regias.428 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL N'este poema. Registadi» a íl. Rubrica de sua magestade. um bairro Os obreiros das Cortes de Vinte. canta-se a fugida do rei al- para o Brazii. 64. e protegido do Intendente Manique.

O modo como elle julga os factos da sua época. e a diligencia entre Coimbra e Lisboa. nem tâo pouco deixa bem patente exemplo para fugirem os futuros escriptores. e diz que a egualdade e a liberdade são um criminoso orgulho. sâo o ecco das palestras domesticas que ouvia. e os livros dos encyclopedistas operaram uma moliber- mentânea visão de Saulo. Ha porém um um lado que defende Castilho.CASTILHO 329 barra de Aveiro. nâo deixa ver a minima parle dos seus ridicu- los e degradações. Canto I. V. os teos princípios Tena desterrado a paz do inteiro Mundo. deu-se uma tranformação no seu espirito. e o encanamento do Cávado. pondo termo ao domínio inglez de Beresford. tudo isto forma este uma espécie de Chronica em verso. A nova comprehensão da 18i20. e deixou-se levar pelos que lhe aconselharam este meio de tornar-se protegido. Bebido tinha da corrente escura Do Gallo insano. Toda a insistência sobre poema. era isto zas. Be sangue as Régias Purpuras manchado. que o levou a figurar nos improvisos do Outeiro poético da Sala dos Capellos em quando a nação por- tugueza. ú morte. desdobrada aos olhos munificentes do soberano. que veloz se alonga Lá junto ás altas. maldiz a Constituição hespanhola por querer estabelecer a responsabilidade real. e as commendas. cujos princípios têm desterrado a paz do mundo inteiro e ras dos reis. * manchado de sangue as purpuao que se chamava ideias franceter escripto esse protesto con- Pouco depois de Castilho tra a liberdade moderna. Quem primeiro sonhou louca egualdade^ E livres quiz deixar de lodo os homens. reas- sumiu os seus destinos. dade. e prebendas com que assignalou vários individaos. tinha a fraqueza de criança. Abatido as Nações ao jugo. invernaes Celenas. litulos. 291. . 299. acha-se assim descripta nesta paÓ criminoso orgulho.

sem si terem por a desculpa de ignorância.430 gina HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL autobiographica : século também por nós. que seri«o na historia Dias douradoâ. também meu pequeno engenho. e Deus perdoe. entre os poe- d'elle brotarem fructos de perdição. que arrastado de seu exemplo. mais um enxerto iia immensa arvore da insipiência para * Na Collecção de Poena Sala dos Actos grandes da Universidade de Coimbra. por então eram nullas: perdoo eu a quem ou nos entregou foi a taes livros desalmados nos entregou. pareciam. mais um arrimo a suas impiedades. vaidosas e insensatas parodias dos Livros Santos. Deus lhe perle- mim. senão muito mais ás feras que a de lançar crianças do monte. ao primeiro sopro do céo. digo. como hymnos á razão. crueza não menor. e saboreando-se doe. 43. atroz. e a vei em todos os seus benefícios. havia passado. entoei.» sias recitadas tas que celebraram os acontecimentos do^ dia 17. fiz em ridículos versos um passatempo de presumpçosos e néscios. como victima ao horrendo altar do nada. p. E lá as crenças da nossa infância pareciam estar secas. e ás vezes com melhomas emfim. ções de Moysés. quaes viu Grécia e Roma? 1 Memorias do Conservatório. apparecem os taes ingénuos fructos de perdição. se pôde. les antes a el- de corroborado o entendimento. aos que. figura António Feliciano de Castilho cora alguns Sonetos e Odes contra o despotismo: Despótico poder já nos n3o doma: Anle taes feitos. respirando o seu ár. se põem a escrever taes livros. nas noites de 21 e 22 de novembro de 1820. sotterradas raizes^ que. . á luz do sol de Deus. «O suão da philosophia do ultimo como por todos. porque de crenças taes sempre ficam vivas al- gumas ria. perante quem os maiores edas sublimes inspirahomens acurvam o joelho. reproduzem e renovam o perdido.

e que liam as obras dos encyclopedistas. Castilho come- çou a ser então festejado nos Outeiros poéticos. explicando* se acerca dos que o exprobavam de hayer saudado a reacção absolutista de 1823. com seu irmão. e levado a recitar poesias n'este desgraçado Ou- nas Excavações poéticas. a Universidade foi de Coimbra.. Pedro Joaquim de Menezes. e de véos alvejantes que fluctuavam nas rações da noite. Silva Leilão de Almeida Gar- Eram estes os novos espíritos.CASTILHO 431 N'este afamado Outeiro. 41. reconhece a sua lamentá* vel contradicção. o padre Emygdio. a primeira a saudar a reacção do absolutismo. a multidão apinhava-se no adro. attribuindo-a á auctoridade paternal e a uma prevenção de segurança. e ao som de escarros constipativos e maliciosos. José Maria Grande. proclamado na Revolução de 1820. que se apaixonavam pelo principio da soberania nacional. estudantes do quarto anno de Cânones. não podia deixar de se conservar sempre vivo em outras lyras. N'este correr da inspiração. alentada pelas clássicas e in- fatuadas tradições de todas as arcádias. José Maria de Andrade. foi Castilho teiro. nove senhoras muito respeitáveis e condescen- dentes ao appello do cantor palaciano. celebrando teiro um novo Ou- poético para exaltar a restauração do despotismo. cit. João vi ras- gou brutalmente a Constituição de 1822. artigo transcripto do n. . e quando em 1823 D. p. que de todo passou de moda. este culto intenso pelas Musas. e deixou ao abandono os poetas que ficaram hoje a suspirar pelas brisas. de 1835. Fernando José Lopes de Andrade. Castilho ia com a corrente.« 17 da Guarda Avançada. velha usança. pela eleição de alguma nova abbadessa. lá se escutava uma 1 Op. e João Baptista da rett. José Frederico Pereira Marrecos. figuraram Au- gusto Frederico de Castilho. bordavam-se vi- de luminárias. que celebrava as bases da Constituição portugueza tomadas da hespanhola. Os mirantes. como reducto da estabilidade.

traduziu d'este poeta a tragedia Aristodemo. a tragedia voltairiana era o meio subrepticio de dar largas ao sentimento da liberdade. d'este modo. tomavam parte n'estas representações os filhos do cathedratico. para salvar nos acasos da si lá spiração. José Feliciano de Castilho. drama em dois actos. em verso. O theatro n'esta crise politica adquire certo interesse entre os estudantes e os filhotes. também inédito. ^. Castilho escreveu depois cinco actos. e os repentes sarcásticos do Lobo da MadraEstes versos dos Outeiros políticos explicam-nos Castilho íbi como I irresistivelmente arrebatado para as composi- \ çôes dramáticas. que declamava docemente no ár a terna divisa do a glosal-os. veira. Em casa do Dr. provimento de rimas. que foi outra tragedia em verso. intitulada Canace. que estavam no maior furor da moda em Coimbra desde 1816 até 1^2d. temperadas com todas as figuras e tropos do elmanismo. cujo typo era desempenhado por Augusto Frepadre. Castilho. Os poetas apressavam-se com ár. fizeram-se bastantes representações particulares de 1824 a i82o. e A festa do Amor fdial. Lá vae a mote. em que ficou ignorada. e Joaquim Oli- José Dias Lopes de Vasconcellos.— 432 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL VOZ afflautada e argentina. resumia-se em um in- bom cera. com mais um prolongamento bons versos de Bocage e de na intonação da voz. derico de Castilho. o verso por se endireitava com um nariz de com mais uma palavra. onde ò hoje o club. a esta escola os João Xavier. e actualmente ainda juiz do Supremo tribunal de justiça. que seguia as pi- sadas de Monli. . que então morava ao Arco de Almedina. que o absolutismo reinante procurava abafar por todos os modos. Pertencem gôa. mesma presteza de quem sabe apanhar mosquitos no A poesia. com António Dias de que foi ministro em 1837. Castilho também escreveu d'essas tragedias á João Baptista Gomes.

eis os assumptos obrigados das Musas. lornou-se uma parte obrigada das festas reaes.* o estylo da modinha do século xvni predominava despoticameulo. (Coriimliricense. hombro com hombro com Walter Scott.) 28 . nio Rodrigues Trovão. a musica da opera era arranjada pelo organista João José Borges. sabemos pela confissão de Garrett no Chronista. Em Hespa- nha este habito servil tomara o nome de Certamm. a tragedia de La Molhe. ou a de Garrett. (1550-1830) por Francisco Martios de Carvalho. O lente de musica da Uni- versidade e mestre da capella da sé.4 mulher amorosay O Pae de família. e uma nova Tamancomo se organisou para levar á scena a opera cómica Os qiieiros. como a Joven Ldia. uma Ode de Feitas estas representações. escripta por Pigault Lebrun. com frente paia o cães. os Machabeos. Pigault Lebrun era considerado em Portugal como o terceiro ho- mem de génio do século. Francisco da Boa- Morte regia a orchestra. e as comedias de Goldoni. que não era então outra cousa mais do que o artificio da metrificação. agar- rada á musica da Semiramis ^ Rossini. exé- Í quias. confli- ctos Íntimos dissolveram a sociedade dramática. 1870. nas festas religiosas. coroações.CASTILHO 433 De 1825 para 1826 arranjou-se um em novo Iheatrinho na casa de José Antó- roa do Sargenlo-Mór. e um aulo moderno de Santo António for- maram o principal reportório. e na parte métrica por António Feliciano de Castilho. em Coimbra. etc. A poesia. casamentos. xxxn. traduzida poF João Baptista Gomes. anniversarios. como 1 i o Tluatro enx Coimbra. . um rochedo. e em Portugal chamava-se-lhe Outeiro. a sua opera cómica foi traduzida na parte da prosa por António Ferreira de Seabra. em uma d'estas récitas é que um tal Francisco Ignacio de Almeida veiu á scena recitar Castilho. aon. a ponto de algu- mas chegarem Sobre até nossos dias. N'este tempo. Que o mar balia.

canonisaçoes. Tejo."*» sr. O sua frequência na uso desle Itália. bom estimulo de engenhos. padroeiros. e uma Ode á morte forma de Gomes Freire. a que se chamava também á maneira italiana litterario. A. savam quando os eu e alcancei.»^ como O sr. boa. 5 entre as * desde 1719. Dr. de varia Ilisíoria. em 1820. era quanto a juventude era e a politica nos não tinha a todos o de todo diz juventude. era uma cerimonia in- dispensável o congresso dos poetastros.. e nos regosijos pompas budhicas da procissão do Corpo políticos. > a essa deplorável litteraria dos Elo- em um que Summ.434 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL milagres. 10. <jue ainda sito em J 867 propunha a sua restauração^ a propó- da estatua a Bocage: «Vão longe aquelles dias dos tão já também agonimas eram donosa occupação afamados Outeiros poéticos de Portugal. Castilho seguira a primeira vibração liberal de 1820. dessalgado. e nos iv. . Também pa- gou homenagem gios dramáticos. a primeira victima da liberdade portngueza. se os evocásseis vós. pela sua origem religiosa. não poderiam. O Outeiro. foi introduzido pela educação dirigida pelos que impozeram á Europa um absoluto humanis- mo. p. pela uma Academia. d'elle documentos littcrarios. no dia ou no triduo do anni versado do monumento? E se re- suscitassem. se intitula A t. nha e Portugal. serf via para celebrar as eleições dos abbadeçados. mas quem nos que ao pé do vossp Bocage resuscitado. de Castilho e da Camará de Selubal. não seria es^ um facto bem fecundo?. Uberdade. p. 1867.. O ultimo represenlanle dos Outeiros poéticos foi Castilho. conservou quasi sempre esse caracter e era essencialmente freira tico. e d^essa época restam príncipe real. resuscitar egualmente aquelles certames nocturnos dos engenhos. como no celebre Outeiro da sala dos Capellos em Coimbra em 1822. 39 Lis- 2 Carias do ea:. F. di- vertimento Hespa- Jesuítas. Elogio dramático aos annos do sereníssimo Pedro. I). foi usado [também ide Deus. Ribeiro GuimarSes.

só dois. da €onfraternidade. do bispado de Aveiro. João vi do Brazil.» ollc um * monte. D. Ê lambem d'este mesmo anno i o Canto: Agora que dos Céos o longo espaço. mas indispensável das grandes crises dos estados. que a tempo a presentiu. I .CASTILHO 435 versos que se distribuíam pelos theatros nos espectáculos de gala. meu irmão. no Arsenal de ^Marinha em commemoração do dia 24 de agosto de 4820. por meio de uma conciliação da soberania nacional cx)m a raonarchia da graça de DeuSj com esse produclo hybrido da Carta outorgada por iv. no qual faz a descripção das festas pelo an- niversario da Revolução de 5 de setembro de 18iO. João vi em I82G veiu truncar repentinamente os planos do despotismo. c soou. Doesta época da sua vida o poeta au- tobiographicamente: ócios quasi «Emquanto nós ai disfructámos era sempre estudiosos as delicias da natureza.. fora despachado parocho da egroja de S. 48. que por tão inaccessivel lhes houvera- e íVucto «De oito irmãos que ao todo éramos. taes como a Cantata: Os ais do povo luso emfim venceram. Mamede da Castanheira do Vouga. ordenado de jpresbytero. em 1821. amargo. depois de largas as solações por todas as outras partes começaram também de ameaçar mios . — A hora da perseguição era pois inevitável p. e a gosa.. que se espalhou uo Iheatro da Rua dos Condes por occasião do regresso de D. que se distri- Cantata : Emquanto a palria dikemenie buiu no jantar Constitucional dado na Sala do Risco. Pedro N'este anno Augusto Frederico de Castilho. e de geral estima. eu permanecíamos ainda intactos das perseguições. Castilho refugion-se da transformação constitucional junto de seu irmão. as nuvens das temj)estades politicas amontoadas ao longe. desampara commigo Memorias do Conservatório. onde se conservou até ao fim do falia cerco do Porto. A morte de D.

. Excav. p. Ibid. fazendo os seus castellos retiro o vinho da frasqueira de — bebendo n'esse um cónego. á beira do sobreiral de S. Mamede da Cas- Vouga «dormia descansado. 4 Jbid. Sebastião. 2 3 Amor e Melancholia. 348. ficava sob a luz perpetua sempre chorado de nosso pae nos da alampada .» Na vida tanheira do solitária de S.436 EISTOBIA DO BOMANTISHO EM PORTUGAL O seu remanso de oito amios..» Era uma vida perfeitamente arcádica «catechisado pagão por Chompré. p. as traducçôes das Meíamorphoses e dos Amores de Ovidio. p. traduzindo Ovídio. grande borda d'agua. 3 ] estava inteiramente occupado em fazer Iraducçôes dos clássicos latinos: «A esses annos da serra pertencem pois. Felicidade | 1 D'e5te criado o caeeiro de S. qoe ás vezes chegava ao plcbeismo.. Noite do Casi> e os Ciúmes do Bardo. aprendeu Castilho esse sabor vernáculo da sua linguagem. (1826-1834) a araisade entranhada de todo um povo. aprendendo do quando se plantavam as couves . que havia enterrado Ires priores. como já n'outras partes declarei. fora do passal. j Namorado da Ecco mysteriosa do convento de VaiCastilho identificava-se com a atitiguidade. . que era uma palhoça no Alto da Pedra Branca. 10^ Jjot. rão.. muitas das bagatellas tello encorporadas nas Excavações poetkas. 204: Chave do enigma. p. 10.. indo ha- bitar o passal na antiga quinta das Limeiras dos Condes da Feira.. pendendo para a frivolidade. Francisco Gomes. Mamede. e o confessa: «todas quantas aspirações benévolas eu tim a pa- tentear nos dois livrinlios que ainda hoje amo. * O campo influiu no caracter elle idylico do escriptor. e o templo onde o cadáver. escrevia no ^ Templo das Musas. Mamede da Castanheira do seu criado Francisco * Vouga tilho foi um periodo de remanso mental que confinou Casidylio.» A vida na residência de S. partiu no mundo do de Coimbra para a serra com seu irmão padre em 23 de outubro de 1826. romatisando. 3Í9.

. ob nobre sem fausto. Por galerno os tufões. pelo seu lado proclamoii-se liberal. Oommetta o mar. 4 de junho de 1830. Sequioso o cadafalso le pedia Mas foi lei do Senhor na infância do homem: Nio matarás Caim! —^ Deram-le a vida. N'esta Epistola 'Castilho indica ao povo em quem hade votar. Este opúsculo vendia-se a 60 réis. os sustos. onde mimosea o vencido íis phrases: com es- Em bora má. e ao leme a parca. o amor. Vate plebeu.. lem- . do porlo ó príncipe das trevas Em trea vezes desafierres má bora a proa infanda co'a8 Fúrias por Nereydas. onde proclama: Povo. que Castilho escutava o ruido da arlilheria na acção da Ponte do Marnel. n'esse mesmo anno publicou outra Epistola ao Povo nas Eleições de 1834. ob rei sem jugos.» Era no retiro do Templo das Musas.» Com o triumpho da causa dos hberaes. lambem Usurpa- publicando um opúsculo com a Epistola ao dor na saída de Portugal. Ma- mede da tiro Castanheira do Vouga. Castilho saia do seu repara acompanhar o irmão padre que se envolvera na poHlica parlamentar. e o bombardeamento continuo do cerco do Porto. Porque enchentes de sangue generoso Co'um pouco sangue vil se nilo remiam. que de plebeu se presa Te envia o pensamento. O vate plebeu encarregou-se de desmentir estas palavras organisando uma remotíssima genealogia no drama Camões^ e fazendo-se no íim da vida visconde do seu nome. o poemeto da Noite do Castello traz a assignatura da «Residência parochial de S. . CASTILHO 437 pela Agricultura e Felicidade pela Imtrucção nâo são senão re- miniscências d'aquelle praso da minha vida.

. Vejamos agora como Castilho sente e ama deve-lhe apparecer com aquella transparência e graça dos sete annos. Ou suppondo polir-se Punham no perverter o único estudo seus pátrios modos. Tudo verduras de uma infância perpetua. no lirocinio da Universidade. mais '.. a natureza. Foi n'umas férias de Coimbra.cola. cuino infantil. filiou-se na es- para a qual tinha já tao bons preparativos. a mesa. O trajo. que se desdobra em uma prolixidade de fructos. Já dos trabalhos anteriores se descrimina qual hade ser o género de assumptos da sua predilecção. tamfoi bém como lá colher seus louros. exaltando a grandeza vi com que D. do chão natal profanadores. João jurou as bases da Constituição e em seguida as rasgou. Emquanto os mais ou fofos volteavam. que deu começo ao poemasinho florianesco das Cartas de sumptos—o amor nâo um [Ecco e Narciso. Longe do pensamento. 438 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL brando que fujam d'aquelles que trouxeram da emigração o estrangeirismo: Procura os que Mais dos ferros Procura os que Peregrinos por já bons. D. . escolhe o mais infantil de todos os as- ^ correspondido de uma terna nymmancebo cruel. es outros amem Que amaram só do Extranho Nunca o seu jugo! o que nos sirva. o somno. parece que se jurara ou encartara poeta cesáreo da casa Bragança-Bourbon. que influenciou m sua vida. quando os Outeiros passaram para o theatro. Ou com o feio de acções nos desluziam. pelo que vemos do Tributo saudoso d memoria do Libertador. Castilho. entrando em ferros no horror se acrisolaram deixando os pátrios muros. o amor se e a lingua Estes. e no Transito do sr. Acredi- tou-se nos Outeiros de Santa Clara e Therezinhas. terras de estrangeiros. A fabula um brinco pha por desenha-se-lhe á phantasia graciosamente. Nos andaram sciencia enthesourando.tarde. . Pedro F.

é o primeiro vellio Esses typos do também que dá forma olympo são como con- chas sem pérola para os que só conhecem a mythologia pela rotina das Academias. Xenophanes e Thales procuraram interpretar. religioso. Um falso conhecimento das formas e das imagens falsiíicou-lhe a expressão do sentimento. Era e tilho um foi pósinho calcinado assim que Cas- comprehendeu a antiguidade. e uma corrupção ameaçada pelo dio. e pelo decurso do tempo perdida a memoria d'elle e conservada apenas a forma que o lembra. através de Ovidio que só procurava engraçadas aventuras. o systema . Demoustier. numen. a mythologia peias Cartas um a Emília é uma thema para requebros de phrase e ternos versinhos de galanteria. jogos. A mythologia é uma phase dos symbolos maleriaes que exprimem o sentimento determinada a unidade sciente. para divertir uma soté- ciedade sem crenças.CASTILHO 439 A mythologia é de todas as creações a que tem menos ella recursos poéticos. de ordenados e de humano. homem. no fogo da inspiração o muito que consegue é deixar-nos somente que qualquer sopro espalha. as differentes inter- um mesmo uma facto considerado em civilisações differentes dão-lhe existência múltipla. peior ainda que as seccas e absurdas indicações do Diccionario de Chompré. depois d'elles. transformações de amores. O sentimento do maravilhoso é o primeiro que se manifesta no á sua poesia. quando se ignora a concepção que traduzia. brincos. scenas lascivas. inconque Pythagoros. Empédocles. umas vezes o simples nome de um facto É um phenomeno constitnia-se em realidade independente pela lei audácia da metáphora: Nomen. sacramental dos mysterios eleusinos. Outras vezes a dos phenomenos naturaes véla-se sob pretações de uma forma dramática. tudo isto encerra as causas de transformação e o sentido do polytheismo grego. O orphismo de Pythagoras. o modo de per- petuar um successo.

seu mestre de latim e de poesia «e muito bom poeta latino e portuguez. o cantor de Eneas. É o que não sa* bem "os tilho poetas das Arcádias. quem primeiro o amor daa Musas Da sábia lloma me excitaste ii'al(i)a! Os altos versos do cantor de Eneas. cuja mão plantou meu estro. que afamou Venusa. p. uma um deus ex machina para valer aos seus heroes nos lances difificeis. na Grécia. e ©s sons da lyra venushia. do regosijo da vida. 1 Ensinou-lhe a conhecer a antiguiKoma. na Etruria exprimem uma poesia. os altos versos de Virgílio. que lhe excitou n'alma o pri- meiro amor das Musas da sábia Roma. As Cartas lições de Ecco e Narciso! a primeira obra que Cas- escreveu intencionalmente para o publico. a da primeira impressão do mundo. Ohl ^ bem hajas interprete fa- cundo. Do Lacio Pindo interpreto facundo! Tu foste. Mo Gzestc exprimir na palria lingua. Peixolo oximio. da apparencia das realidades. vate. na Pérsia. o exclusivismo de Dupuis e de Creiízer. Os sons da lyra. foi elle que lhe fez exprimir na pátria lingua. Nome poético de Castilho Da Arcádia do 2 Graças.* . eximio Peixoto. graças a ti. os Mémnides Eginenses. fructo das de José Peixoto. elevaram cia antropológica isto á altura de uma scien- que para alguns desasisados parece ficção divertida creada pelos poetas.440 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL evhemerista.» Foi esse eximio interprete do Lacio Pindo. IO. e esses typos ideados na índia. ed. uma como curiosidade. de Ecco. um sentimento puro não viciado por ne- nhuma theologia convencional e arbitraria. A mythologia comparada tem encontrado nos symbolos religiosos de todos os povos uma unidade que leva á lei da sua formação. a eru- dição de Voss e de Lobeck. Cart. Do amante de Corina as ternas queixa:^. e os ternos quei- xumes do amante de Corina. Olha com brando rosto os fructos d'e!le. Em Oh cantos que inda entilo soltava a custo. 4.

ou Otfried Múller. O forte. o heroe triumpha não o conhece. finos tropos. É esta a tendência infantil. e as tradições clás- sicas da escola não o deixavam comprehender as cousas. os ímpetos vertiginosos de Phedra. a Heloísa. do poeta. um sentimento vulgar. de Sapho. O amor grego. aquelle não sabe resistir e se deixa ferir. a mulher conserva ainda o seu ideal indiano de perfeição a fraqueza. ainda Otnão tinha encetado esse trabalho. Ha na my- thologia hellenica o vencível. Creuzer. é ella que é vencida pelo amor. indefinível. Era também do moda o systema de século a xviii. Gui- gniaut. rastia. as nobres e vetustissimas tradições dos mitivos. Castilho procurou reprodu- zil-as. cartas a Sophia. ella só apresenta uma serie de puerilidades engenhosas. . Ecco entra também no coro das suas irmãs prostradas pelo amor. Andava n'este tempo em voga o chato e assucarado o. visualidades capri- chosas do paganismo. Dupuis. fried Muller como o achamos na pede- não o podia fazer sentir o José Peixoto. nâo tendo no mundo quem lhe responda a natureza expansão que a lança para Castilho tinha que se lhe esconde. homens pri- como engraçadas allegorias. Preller. Esta é a base de todos os raythos. Aquelles vultos serenos de Olympo hellenico desenharam-se-lhe na phanlasia como figurinhas recortadas. é o que explica as uniões desnaturaes de Pasiphae. como quem aviva uns traços mal debuchados que se apagam. de Biblis. livro de Demoiistier intitulado Cartas Emilia sobre a Mythologia. artista. restos a Olhada mythologia por outra qualquer face. que deleitam a imagi- nação e nos desenfadam dos cuidados da vida. d'elle. nâo seguir os trabalhos de Vossio. que se prestavam facilmente á mechanica do verso. ama o ali fraco. é amor com um caracter de fatalidade in- um destino diante do qual se verga.CASTILHO 441 dade. á A escolha da acção mede o artista: Eccoè a alma solitária.

Na paixão de Ecco e Narciso é que apparece o pathos. a que só se encontra mais tarde nas obras' de arte. e que nos poemas homéricos nem uma só vez é claramente citada. (1836) apresenta va-lhe a serie d'estes violen- tos amores. para os insulsos anhelos que poz na bocca de Heloisa e Abai- A Carta presta-se ao monologo vago. e pôl-a requebrados galan- teios pela casca das arvores do bosque. nada d'isto se encontra n'esse m- nocente livro das Cartas cVEcco. e isto variado segundo as exigências da metrificação. achadas pela ciitica moderna. doirado. como é a poesia romântica. cruel. forma de Carta linha sido adoptada por Pope. não como um accesso natural e franco da alma licenciosos. antiga. e os mesmos poetas illudiram-n'o. Os mestres. lindo. pulares. acreditou n'elles com a boa fé de criança. ingrato. a harmonia de todas as partes absorvendo-se na perfeição do conjuncto. juvenil. Sem se lembrar de que nos tempos ante-homericos era desconhecida a escripta. a nitidez dos traços. scismador. tyranno. bello. a ali suavidade.442 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAí. concebeu abstrusamente Ecco pelo tom da pastoral a escrever os seus de Longus. se achava sob a virga férrea da auctoridade ma- empeciam-no de descobrir estas cousas. verdade da alma da Grécia transparecia brilhante nas creações po- A educação litteraria de Castilho. já O Ovidio. amável. era a forma menos grega que podia escolher. particular- mente esculptural. formoso. cujas Metamorphoses estava traduzindo. terno. das cores. a natureza espontânea e simples. mas como enredos devaneios lúbricos dialogados declamatoriamente para excitar a sensualidade das damas romanas em quanto âs escravas ham no touca- dor d'ellas. tem- pestuoso. a frescura primitiva. está tuída substi- com um colorido de adjectivos — de gentil. a tulella forçada em que gistral. . A serenidade da arte clássica. deixando predo- minar em todas as creações um aspecto visível. nada. A lard.

e lhe envia paz e saúde. que cresce nas verdes margens de um sereno rio augmeninfantil. e invocando o exemplo dos ani- maes que também amam. faz ideia da vida. até á puerilidade. Ecco escreve no tronco de um choupo. Esta gloria a ti mesmo basde ncgar-te? Pag. não se esquece das figuras da rhelorica do mestre Maximiano para medir as emoções: Etn lagrimas. ao fazer da resposta. Era lagrima?. mas não importa. faz esco- Tem um ideal burguez de commodidade. e ornar as florestas É uma comparação de maior para menor. gonha de arrastar os grilhões que o amor Ecco aspira é encher os campos com Narciso. em em ais consuramo os dias. as circumstancias foram-lhe prolongando a infância. formosos lodos . ais as noites vólo. o rei dos animaes não se enverlhe lança. tola foi lèr a epis- da sua incógnita Amadora. estão inteiriçados pela promplidão dos epithetos. o mais com- pleto de todos os alarves. ameaças. como tu. não sei porque influição amorosa. Ecco vae queixando-se. é rojos e esperanças são ainda de uma alma isso tado pelas fernas lagrimas que chora. o que filhos formosos como com novas Nymphas que ven* çam as Nymphas suas rivaes. 34. Aquellas iras. ediç. enfeita-o como um typo de um quadro ílamengo. que podes ornar estas florestas De Nymphas novas. que lhe lher. Tu. . privado da vista nunca pôde abandonar o lar. Desculpe-se pela candura e ingenuidade da alma do poeta. Depois começa a tirar-lhe da cabeça essa ^ Tu que podes encher os nossos campos De tiilios. de preferencia por Mecenas D.CASTILHO 443 Os versos nem uma vez se quebram. quarta. ar- por que o assumpto se esgota depois da primeira carta. pelo arranjo domestico. ama-o. que estas Nymphas vençam. ella No delido da paixão. Narciso. João vi.

porque desconhece o amor. e anda acompanhado do refilho ceio. que é pequeno infante mas é boliçoso e amigo de brincar. tudo o mais não tem movimento. adjectivados. o auctor ousou chamar-lhe romance. regrados. Elle gera cuidados. ção d'elle. 2 Pag. citar os o Monstro. em um assobio de feira O poema ali é todo d'este feitio do mais teimoso O amor é uma cousa ainda não sentida. 42. gira sempre no mesmo eixo. que só tem alegria em que cravar fundas settas. tem uma doçura ique nausêa. foi por isso que nos demorámos na apreciaa Apesar de toda mythologia académica d'este ^ livro.* N'este ponto está esgotado o assumpto. 165. a bém com sua figurinha de rhetorica: o mundo para mim é todo graças. e exulta com o pranto e os ais arranca. O resto do li- vro é digno de compaixão pelas futilidades da puerícia. do ódio e do ciúme voraz. O esmero dos versos. e aquelle que serve sempre de antonomásia. são como a linguagem de uma criança que dá uma lição bem sabida. que se não |cansa de assoprar freneticamente |até quebral-o. Angustias para ti é todo o mundo. ca- [denciados.444 iiallucinaçâo. Á d'isto pede-lhe vista que se deixe de imaginações: e para mosnão se esquece de retorquir tam- trar em factos a verdade. Foi este o livro que lhe deu nome em Portugal e no Brazil. da inveja. o poeta convtiníia os monólogos como uma criança inquieta. pelo cor- 1 Pag. do tigre hyrcano e de Megeras. O amor é da rocha caucasea. . nem Uãô pouco adivinhada. metaphorisados. e faz murchar os prazeres. bárbaros ef- Pede-lhe que não se fie n'elle. de cujo facho tem ouvido feitos. faz do somno pacifico nma guerra. t elmanismo. HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Dá graças ao céo. A carta que o auctor recebeu de uma senhora.

nas Festas de Cythera. do Amor e Melancholia. por isso a sua poesia linha «por objecto apresentar-nos os mais risonhos quadros campestres animados com toda midade do sentimento. O Processo de Cythera. 1 de abril. Cythera.» a doçura e subli- . Castilho não concebia a poesia ctiva como a expressão subje- dos sentimentos. e como tal determina que o seu credito pu- blico lhe seja reslituido por todo o Império de Amor: ora accusadora convencida. servindo de representante das Senho- ras portuguezas toca o ridículo. Era mais um passo além do Piolho Viajante e do Feliz Independente. e depois escuta a sentença concebida n'estes 5 termos: «O Supremo tribunal de Cythera depois de haver atten- /tamente ouvido o discurso recitado por Aglaia. assim como a sua defeza apresentada pela sua iMusa. o auctor defende-se em ou- tro discurso. seja por Ires dias privada de tomar parte a sua estada no banho. Aglaia.— Os Amores. e nunca mais seja vista por Mancebo algum durante resultado de — Vénus. vem accusal-o. estas gra- se ri. Mareias e Branderinos escrevendo suas confidencias. que foi.» um espirito Eis o que não pôde soltar-se a livre das fjjxas.— Os Prazeres. Foi uma boa sociedade ças fizeram as delicias dos serões nas familias. e tendia constantemente para elle. como o da calumnia.CASTILHO 445 reio de Lisboa. contra o Poeta Auctor das Cartas d'Ecco e Narciso.— Os Jogos. Não faltaram imitações dos poetastros do reino. declara que o accusado está innocenle. estava privado de contemplar o mundo exterior. denando egualmente. Sobre este pedestal o proclamaram génio. defendendo o seu sexo atacado nas Cartas (TEcco. forma uma lenda revelada na Chave do Enigma. Imagi- nava a natureza como a vira aos sete annos. em que a mais nova das graças. é esta a causa de tudo aquillo de que a gente hoje d'esses tempos.

e pintar os campos todos os seus pontos de vista mais agradáveis. fronte A sua sempre risonha e serena . o seu ár elegante. saudade da natu- reza que se lhe furta.446 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Castilho não imagina a differença na ordem de factos que exprimem o táphoras e sia ou que exprimem o sublime. . Os primeiros cantos que ella inspirou. o prazer e a felicidade. tiveram por objecto descrever o amor em to- das as suas differentes situações. é a «Primogénita das Musas. agora ouve as flores ramo em ramo ou por entre além vê como ellas. Dá-nos meimagens de similhança por ideias. o ideal movimento roma/i//6'o. vae parq e engana-se. atrazada sempre na leitura um perigo. é um género falso. valle. assim a poebello. sem affectaçao de magestade. dizendo-lhe: amor. Foi ella e não Pan. 19. * em faz Quem esta ideia da poesia nâo podia elevar-se acima das Carias d^Ecco uma grande e piegas. ridículo. d'ella quem lhes ensinou a tirar sons fáceis e harmoniosos. insipid(^ Castilho sente de vez em quando uma ella. um banho que pasce no as aves a saltar de tão gentis um bosque extensíssimo e fron- doso cujas cimas sao meneadas por um zephyro. nasceu no meio das flocreoii-se restas. p. Finge valles Cartas d'Ecco. impossível. cresceu nas cabanas simplices dos primeiros homens. O poemeto affectado^^p emoção na sociedade portugueza. entre os Amores ao seio da Natureza.» e iVarmo. um pastor coroando com murta e rosas as tranças da sua 1 bella pastora. quem offereceu a primeira flauta aos pastores. sonha em re- Ioda a parte um rio que corta os prados ao longe.» Eis o estafado das pastoraes calcadas sobre a do bucolismo e Daphne Chloe de Longus. que vira Castilho já então aconselhava á mocidade que evitasse o «cantae a ternura. o seu trajo ura véo transpafrente. nâo se coroou de louros. mas de rosas e de murtas os seus passos eram ligeiros.

que no valie gira. Vendo um rebanho. de Gessner que se pôde o até ao A falta de iadividuahdade facilita-lhe fallar pela bocca dos ternos pastores. * Depois dos sete aonos Castilho nâo tornou a communicar com a natureza senão através de Florian. que bailam em uma 1 Se a natureza me negou seus quadros. Vendo as aves voar de um ramo em outro Por entre as ílAres tão gentis como ellas. Elle nos diz ir que é pela estrada seio da natureza. p. e dos idylios ar- lificiaes e de uma ingenuidade florida tola de Gessner. Cartas d^Ecco. Vendo um bo?q«e extensíssimo e frondoso. e d'onde cheiro as Oôres. e mil Faunos que habitam as grutas. phanlastieas. o aroma dos festões. Se de uma rocha no elevado cume Nâo me é dado sentir. aves á relva. Que cm si retrata a abobada pendente. Finjo mil vailes. gosar prazeres. E um beijo em premio docemente furta. 16. Dou rebanhos ao campo. Se n. Agora entendem-se melhor as har- monias brandas. que violetas ornara. e luz ás sombras. aonde ajunte as Nymphas. risonhas. não é preciso sentir quando o som das frautas. É um como doestes li vi os que tra zem o sellofiQ esquecimento^ os insectos de nm dia de calor. Co'a8 Musas meditando eu sinto e góso Novas scenas. os gemidos das grutas vem tudo quanto pôde dar a encher sonorosamente o verso. Mando mil Faunos habitar as grutas. melifluas da su a Primavera. contemplando o 'mundo Vór. ab vêr quanto é grande a Natureza. Cujas cimas um Zephiro mcnêa.CASTILHO 447 ornados de violetas. . Vendo como um pastor de murta e rosas Coroa as trancas da pastora bella. É poesia chamada pastoril. que ao longe os prados corta. Faço um rio correr por entre um bosque. Planto florestas.lo me é dado. ! Que o tolda e guarda. Vendo um rio. florestas onde as nymphas estão juntas. Se os fracos olhos meus não descorlinam O sublime espectáculo dos campos. £ graça a todo o mundo.

.) . es- Uas palabras: «Si se os presenlase una Ecco «Iniitarieis voí a vuestro Narciso?» «puso despues una firma supuesta y jsi í las senas. a qual. Murió su esposa en 10 de febrero de 1837. . Este successo co- meçado pela puerilidade innocente das Cartas de Ecco a * Na Chave do enigma explicara se mflhor eslas allugões.. é uma Primavera não se ataca teve breve e duvidosa como a de um paiz sem vida. Cita-se por ser uma do das coroas da gloria de Castilho. correio (le Villa do Condo. para que queria le dirigiese la respuesta . y él ha prometido escribir un libro-entero dedicado á su memoria. real. 2*22. (p. a caria recebida por (Castilho fura de 27 de selemhro do 182í. . La respuesta fué cuai asi lisongeaba el merecia una declaracion que amor próprio sin dei poeta. retar- idaron su himeneo hasta ano i834 . . a gloria homem desmerecendo e o livro que uma influencia funesta sobre o gosto de todos e é pre- ciso modifical-a. G e 7.. remefida de Azurara. (p. . e deu causa ao seu casamento com uma senhora le reclusa do con- vento de Vairâo. Maria Isabel de Baena Coimbra Portugal. Narciso um lado Este hvro liga-se á historia intima de Castilho.) Foi na constância d'este matri- . Vivió con ella poço mas de dos anos . . la [saber :del. Ha nas Cartas de Ecco que tornou sympathico o poemeto. como se na biographia hespa- nhola: «se arrojo á escribirle á Coimbra donde residia.448 HISTORIA DO ROMANTISMO EM POETUGAL restea do sol vinda por entre a folhagem do arvoredo. 254. entablaron los dos amantes correspondência.el nombre de su embozada amiga el .» (p. e o nome verdadeiro D. no obstante vários la iobstaculos en que no tuvo parte alguua vohintad.. • el afortunado ciego quien era ai que se habia pagado * hasta que cabo de mucho tiempo hubo de descubrir .monio que escreveu os Ciúmes do Bardo.) O nome supposto eia Maria da Expectação Silva Carvalho.

porém rio-me. pag. que se aproveita dos sentimentos novos da edade as suas creações arlisticas.y p. e de passo tibio e mal seguro. Castilho guardou fielmente a tradição arcádica. 41. da historia. enthesoura conchas e forma lagôasinhas na praia. tudo paia o poeta dos idylios loucuras.) 2 lbid. (1837. do direito politico. 29 .CASTILHO 449 pueril da Narciso. outros se aterram. outros suspiram pelo instante do naufrágio para se arremessarem aos despojos. criança. as revoluções que agitaram o século que se abria. íicções risonhos alista — * da culta Grécia amável» e diz que nâo se «debaixo das bandeiras triumphaes dos modernos espanca-numes. da philosophia. o livro promete tido reduziu-se ás prosas piegas do Amor Melancholia. n'esse mundosi- » Primavera. as invenções. Branca e da inspiração que logos referem-se ao á litteralura nacional. não me em mim próprio lastimo.» O renascimento da critica. que por um de tempestade. minas. abjurava os «Áureos numes de Ascreo. pasmam.lo dia um menino. Elle fante eram olho mesmo se sente in- no meio d'esle ruido de cyclopes: «quando a brincar me e me vejo em redor com flores e cordeiros. apenas o mar os cuspir. terminou com uma cerimonia também hecatombe da correspondência amorosa. 43. desvairamentos. lembra-se da invocação da D. e cuido estar ven. ao tempo que de mim estão no choco tão grandes destinos do mundo.» ^ Fique embora na á vista galeões alterosos á lucta mesma praia uns doce illusâo da sua poesia pastoril. sobre as cinzas ih qual mandou pôr uma pequena lápide que está era um quintal de uma casa de aluguer em Lisboa. emquanío andam e na com os elementos. moderna paia Todas as ailusôes dos seus pró- movimento de Garrett no impulso dado Fazendo profissão de fé mythologica. sempre teme aventurar-se pelos mundos da litleratura subjectiva do Romantismo. é ai.

um dialogo de pastores sobre a lavoura. a poesia da natureza não foi achada nem por ali Daphnis. na-se intolerante * De vez em quando com o seu bucolismo. sudra que o ouvisse livre. dá vontade de limpar o rosto d'essas falsas caracterisaçôes. hylitteraria pothese gratuita que deu origem á tradição colismo. e dando expressão a esse sentimento. A poesia veiu revelal-o na sua forma mais in- génua. os rudimentos do theatro alguns personagens da tragedia clássica são o 1 Primavera. Assim foram as velhas lendas de uma vida que passara. Quando o género bucólico era deslavado mas innocente. pag. entra nas legendas da vida pastoricia dos reis da edade heróica. rebanhos. a intima poesia da natureza só se encon- tra reproduzida na primeira impressão virginal nos poemas da índia. cantado nas theogonias orientaes. porque se não volta para as cabanas das serranias. o sceptro era o cajado desfolhado. ples uma aposta. compunham pacifica. reminiscência da quinta ajardinada dos arrabaldes de elle se Lisboa onde lhe correu a infância. hellenico. supporta- va-se. avivando as saudades do passado. que mostra aos amigos. conservando-a „ tal como cantara o poeta tor- aos vinte e cinco annos. beatifica o que o escuta. profundo. o boi. ficava n'esse instante Na Grécia. a vida pastoral tem também um caracter aryano. Anchises era pastor da Troada. 30. as torrentes. . do bu- O poema de Hesiodo. Stesichoro ou Theocrito. os successos de uma vida tão sim- como Suppoz-se assim uma edade de ouro. violentando a que o admirem. O divino poema do Eamayana eleva. mal diz o tempo. os heroes derrubam os monstros que andam roubando os bois. A verdadeira.450 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL nlio. sobre os a alegria das cearas. as calmas. ^aiJPrimavera úiz que teve a intenção de retratar-se na sua face moral. assim. Paris do monte Ida. ler.

cit. 267. Bernardim lUbeiro domina o bucolismo os poetas france. com que o vate de Syracusa chega. si com a comedia. e declara » Obr. Castilho não podia faltar á tradição bucólica. aspirando a vida desassombrada dos campos. é accusado pelos seus de ter imitado os francezes. á custa de muito esforço. serviram-se do mesmo molde. pag. italiana. floresceu também o idylio.CASTILHO 451 fundamento da arte de Theocrilo! arte convencional e estreita. idylios. metralha de preceitos impostos pelos grammaticos. e no meio das adulações. nas Memorias de lilteratura antiga. por chega a formar um género dominante. no bulício de Alexandria. com os outros poetas a lographo chama melros fechados quem Timon o Sil- em uma gaiola. . também poeta reo. vem aliviar-se e desabafar. Sagrais. o génio pas- toril da Allemanha. e já de si Com cesá- uma alma sempre infantil. Mad. zes imitam os antigos e fazem dos quadros campestres uma liltelaii- aguarella descorada que serve de typo n'esta tradição raria .. Egger. a tocar a brandura e amenidade campestre. Racan. franceza. viram a natureza através do prisma baço dos seus Na renascença dos modelos da dias. canta sobre as reminiscências da Sicilia. que também o reproduziram mais tarde. elle confessa abertamente essa predilecção pelo género. Deshoulières e Fontenelle çam . Elle não copia directamente da natureza. as balisas ao género pastoral. I O próprio Salomão Gessner. Theocrilo obedece a toda a. Todos os poetas pastoris segui- ram as pisadas de Theocrito. infehespanhola e portu- ctando a lilteratura gueza. no palácio dos Plolomeus. Estes diálogos de pastores absorviam sempre a I musa dos poetas cesáreos. antiguidade. Todos os nossos poetas lhe sagraram suis lyras. diz que é favor demasiado o chamar-lhc * génio pelos seus idylios. com as trage- com as epopèas. poeta da côrle de Hieron e de Ptolomeu.

» Estes poetas pastoris têm uma innocencia de leite. havia de aos lêr e reler Gessner meus freguezes: e por certissimo tenho que todos meus aldeões se fariam probos. sem já se sentir mais soffrido. os Idylios ou Daphnis. Castilho descreve a influencia de tão miríficos modelos: «Muito aproveitei em tão boa escola: leitores. e virtude d'aquella tra- zendo bemaventuranças. Ninguém jamais fecha a Morte de Abel. meus como poeta não.— 452 HISTORIA DO BOMANTISMO EM PORTUGAL todo O desvanecimento que tem pelos seus mestres Florian e Gessner: «Alguma cousa porque farão para aqui palavras do meu Florian. a tanta doçura por onde de todas as outras se extremam suas obras! Em conhecer a natureza. Isto dizia de Gessner Florian. Gessner não era para mim um nome. e ninguém me havia de ao sermão adormecer. Fosse eu parocho de que sempre á estação da missa. — Oh. Todos os nossos poetas pastoris nada têm que vêr com as meras traducçôes de Gessner. todas minhas parochianas castas. e especialmente a natureza campezina. levam-nos elles uma infinita vantagem: amam-n'a mais deveras. retratam-n'a com tintas mais fieis. que d'issa Primavera. mais virtuoso que antes da lição. que. Não respira senão que logo vem aldeia. que como homem sim. d'eile são.) . 10. digno de o louvar pelo mui bem que o sabia compreliender e seguir. vêm uma deosa em cada senão individuo presente. Isto não o escrevia eu. mas amplamente o sentia n'esse bom tempo que já lá vae. mas realidade. bem 1 o sabem. pag. (1837. um suavíssimo contubernal. vida e mundo. moral pura e fácil. navegam em mar de rosas. nem o dizia. enlevar-nos-ia a tanta singeleza. mais mavioso. as verterei de muito boa- mente. mais terno. me eram livros. um nem já as suas obras * nuvem. e porque tudo diga. se nós podessemos lêr em seu original texta os bons auctores d'essa Allemanha.

pag. 142. 127. Quando se concebeu que a poesia do não consistia em frescas fontes. ciciosos regatos. n'uma monotonia. fissipide armento. compunha todo o meu económico futuro de uma choupana. e de João Paulo Richter não dá pelas plantas de Theocrito. 1 mas Gastilho desa- 2 3 3 Primavera." parle. sentia-me palpitar no um coração da edade d'ouro. nem das bozinas dos pas- tores o delicioso colorido da natureza. se amolleceu. que todos de peito si a têm. II. . e ter- nas queixas de enamoradas pastoras. na opinião do profundo Herder. bas mui brancas e cordeiros Florian fosse pommui nédios. em summa. penções benéficas se arraigaram minha interior aspereza.» Que engraçada de infância! prolongada ainda até aos trinta e cinco annos edade do poeta! Mas Florian é Gessner . estavam fora da sociedade beatifica idylio civil. ^ de Augusto Schlegell. liO pag. 1 i. líO. Obras completas. 2. Dat. Elle não tirou dos Alpes. t. foi então que Schiller verso: pode abrir o seu poema da Resignação com este «E eu também nasci na Arcádia» não menos enér- gico que o «E eu também sou pintor» de Gorregio. sem paixão. Poética. Minhas nativas pro. esconsos valles.CASTILHO 453 tive mui cabal e experimentada certeza. esvoaçava-me na cainteira beça uma alma de Árcade. nem das cabanas. pag. se pomarinho e * um meu parocho. II. segundo João Paulo é uma espécie de requeijão fresco da aldeia. propôr-me-ia nas suas homilias como um santo da sua bemaventurança. Estas são as creaçôes puras do Romantismo. mas na simplicidade e no remanso da vida. que os fran^ cezes acclimaram ao pé do superfino idylico de Fonlenclle. O primeiro erro de todos estes poetas bucólicos estava em não collocar o mundo pastoral fora da decantada edade de ouro. então é que poderam haver escriptos como Hermann e Dorothea de Goethe. um ecco amortecido de o mesmo poeta pastoril da Allemanha. fron- dentes arvoredos.

na França explica- se pelo exaggerado sentimentalismo propagado por João Jac- > Primavera. A predilecção por Gessner e Fiorian. deviam realçar n'este assumpto a força de dominar todos estes instinctos. É n'este dos. uma pessoa que nos está encommodando mata uma sede vivíssima das calmas com um de é como quem copo de agua morna. Causa lèl dó X) lembrar que foi. Os idylios gessnericos. a expan. em que o poeta se mostra mais criança. a graça. . para que a creaçâo do artista corresponda ás multímodas volições. leria Byron ou Schiller á estação da missa. II. e os dos seus imitadores estafam . Anfrizo. Minha morreu ensoado no violão do padre Leitão. agitações. Albano. odeiava-o de morte. e encontradissimas impressões que se passam no individuo. da costumes dos nossos velhos. a vi- bração da mesma corda. A zino. a esfeliz. pela monotonia da felicidade é sempre o mesmo tom. pag. são e alegria. Primavei^a foi escripta (I82á) sob o influxo dos pasto- res Elmiro. Até disse: «Quando será laia e que outro homem. Salicio. aquelle livro. Auliso. nos de Castilho este defeito tor- na-se insuportável pela prolixidade e abundância dos versos e minúcias dos detalhes. é preciso contrastes. possa dizer na sinceridade da sua alma: — Se fosse paro- dio. e o poeta teve o intuito a com de imitar Fiorian e Gessner. Fran- que ornavam de grinaldas e festões entre o descante da a cabeça do Lilia Mémde to- nide Eginense. As qualidades de criança. deixou apparecer somente loquacidade e a indiscrição. para tor- nar castas e probas as minhas ovelhas?* A immensa feli- cidade cansa. é como estas caricias forçadas . basta para ficar odiando para sempre o género pastoril.preciso o. pontaneidade e uma ignorância a candidez. uma pagina avulsa qual- quer. a frescura. Josino.454 tou HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL com elle.

Na sua ingenuidade infantU. mas por conveniência. voredos. e as graças. lalin Graces comme les cédrats confiis el les billels doux. elle mesmo se transporta esse «On mundo: «Metti-me pythagorico aos vinte e três de vil alors le spectacle le plus extraordinaire el le plus ridicule. p. como quem * faz cartinhas de namocódigo rado havia um diccionario mythologico como um de pragmática palaciana. o poeta procura cha- mar para íi o mundo dos idylios. on niil en a?u?re TÂmour el Ics toutes celles donl ce siécle s'étail affublé. Hamadriades. ques Rousseau. mais par convenanie. nascença. pour remplir un cadre vide el ajouler une parada de plus à 1 poésie II y eut une sori de jargon grec et convenable au méníie limbre qu'une perruque. todo o sacro povo morador do Olympo. 1 Olympe restaure non par sympalbie arcbeologique. la Fonlaine et sts Fables. como nem com o espirito archeologico giria moderno. Nayades. com que. . citavara-se musas . la séparée de la religion. 2 Primavera. exaggerou ainda mais todos estesdefeitos. a soffridos. il y eul un diclioncaire mylhologiqne comme un code du tavoir-vivre el les pauvres dieux anliques arriverent á celle bumilialion exlrôme de servir de pasliches et de paraveuts. elle próprio nota era dos. Vertumnos in- Silvanos. 2 si um estiramento de per io. Favonios subtis. com os dons de Pomôna enfeitam a natureza inteira. p. amorosa Vénus. que fazia dizer que o auctor da Nova Heloísa desejava andar de quatro pés.» Taine. dont cUe esl le fond naturel el Telement ínlime. nâo com a sympathia sensual da Rediz Taine. 36. Ali a natureza está revestida de páphias allegorias poá escuta pelos ar- voara Faunos os montes. ou employa Appolion et les Musses comme rbemisticbe el la cei-ure. na ebulição do pleno século xix. e era logar d'ella fa- bricado um Olympo. brinca andam Dryadas rora abre o roxo com Flora um Zephiro inconstante. os ledos Eisos. Castalias fontes. era uma espécie de grega e latina lâo necessária como as um chino. a Aumez das flores. comme aujourd'hui.CASTILHO 455 a Voltaire. A inspiração de Castilho alentava-se exclusivamente da tradição do século xvur. não se contenta só em acon- selhar o leite e o mel dourado. Foi quando se viu a poesia separada da religião. 22í.

. didáctica. a creaturas de Deus. o mestre de todos estes pseudo-poeias. cidade. tornava evidente a falsidade do ideal. até o affecto aos animaes. 44. p. companheiras nossas n'este mundo. seis tigres. e em França. A sua Primavera é uma bemaventurança de têl-a fátuos. Delille. o materno. agosto do anno de 18^2. e permaneci na observância do voto até vinte e três de agosto do seguinte anno. Castilho é como um d'estes poetas da decadência clássica na litteratura do Império pertence á escola descriptiva. Acabei o noviciado. o conjugal. não lem acção.456 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGA!. fessar. tilho faz uma infinidade de auroras: Cas- também e o seu inventario. A Primavera deveu o acolhimento á falta de leitura que soffreu a nossa 1 Primavera. eincoenta e seis occasos. dois gatos.» * e em logar de pro- A impossibilidade da vida aconselhava. o paterno. despedi-me. se como pôde um livro que se compõe de feli- «Todos os amores de que se urde e tece a domestica acham aqui representados por um modo que se recommendam e d'elles se embae de mui bom grado o animo: o amor filial. quatro cães. três cavallos. passava em levista todas as descripçôes e ufanava-se de ter feito doze ^amellos. immensos estios. innumeras primaveras. p. com uma procu- rada melodia de versificação embala os ouvidos para não ouvirem. arvores. em acabar de me resolver e appareliiar para tão grande façanha.. que desde a feitura do Poema decorreram alé esse.» - dura! Fiquem por Sempre uma nauseabunda doçura. 284. 2 llid. as pequeninas comparações de cousas fúteis. lendo sido gastos os mezes. muitos invernos. e mais vem de envolta com a recreação. flores. uma lymphatica branuma vez destruídas estas funestas in- ílaencias dos poetas didácticos do Império. que amisade.

no livro que escreveu d'esta viagem. senão. esse titulo comprommettedor as quadrinhas não se atreveria um livro banal. a ponto de nâo poder sustentar o papel do Narciso. Depressa mereceu as honras de occupar um logar no çafatinho de costura. históricas. capellão de lord Aukland. falia sem a influencia das lendas do- d'este costume da sociedade portugueza: até pela «As modinhas portuguezas são peregrinamente bellas e simples. ao Grandisson. descreve que hoje são para nós zileiras. na prosa que acompanha as insonsasguadrinhas. pre- cioso pela grande quantidade de informações coUigidas. exprimem á scismalicos enlevos e bran- dos queixumes que levavam (los piedade os meigos corações quinze annos. mas com- . adaptando-a a as Modinhas bra- cantava-se a letra da Joven Lilia abandonada. graciosos da Colin e da Montoheu. João. e andavam em moda. que viajou gal em Portu- em 1827.CASTILHO 457 sociedade. É este caso a origem do Amor e MelaiichoUa ou a Novissima Heloísa. a baplisar frio nem com o livro de Rousseau. Castilho não conhecia a Heloísa da legenda. (1828) que o auctor mais tarde ex- 'plica loquaz e puerihnente na Chave do Enigma. enternecidos. de Rossini. e nas faltas suppria rum ou traga va-se a Biblia em família. como n'este tempo estavam ainda em todo o seu vigor Castilho. ao pé dos romances moraes. Kinsey. e mal feito. que julgou Castilho mesticas. ou d'estes ternos dísticos que então era de costume bordar nos lenços de assoar ou pôr no papel dos rebuçados. Kinsey. que então se traduziam por cá. e se cantarolavam em Modinhas. o Fios Saneio- Foi isto o que deu largas ao poeta: festejaram-n'o com cartas anonymas. não só emquanto ás palavras. parecem sortes da noite de S. de uma ária da Semiramis. Tínhamos apenas chronicas succulentas de fra- des! O pobre livrinho era ura manná. ás estavam restrictas ás Mil Novellas e em que nâo appa- recia uma dada vogal. As leitoras amáveis uma noites.

devastadora. um género que se Melhor lhe fora ces cartas a volta do auctor já ter subido á pyra fumegante com as doiria que respondia. Mas em roda do poeta le- vantava-se uma arte turbulenta. havia um ex- cesso de Vida que elle não sentia. que a realidade o humilha. que se vulgarisou na sociedade burgueza' por ter apparecido n'esta corrente de extinguia. Sâo geralmente expressão de algum sentimento amoroso. . apesar de acostumados á sua frequente repetição. quando bem acom- panhadas pela voz á guitarra. e seu effeito é tal que. era o Romantismo. chegam a arrancar lagrimas dos ouvintes.» Este mesmo enlhusiasmo achamos nos viajantes com re- lação aos cantos lyricos peruanos. As relações de Portugal com João a còrle VI do Rio de Janeiro durante o governo de D. fizeram reviver a Modinha brazileira. terno ou melancholico. mas e tendia já para a sua decadência pela confusão das árias tradicionaes com lia as fioritiires das operas italianas. O Amor Melancho- de Castilho é uma serie de quadras amorosas em es- tylo de modinha. de desespero ou esperança. uma lenda engraçada.453 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL posição da musica. o seu fumo formar em um vago nebuloso.

anlitro 184G no opúsculo cómico da Chronica certa de Maria da Fonte. 11- A grande individualidade alcançada pelas revoluções beraes e pelo desenvolvimento dos estutlos scientiOcos. renhida.— 459 § 11 — Imprecaçõeá contra as doulrioaii do Romantismo. era essencialmente naciomlisar-se. : terminação da poesia clássica e da poesia romântica. — na litteratura.i e Felicidade pela Agricultura. O.) — Castilho faz Castello. Polemicas virulentas. Diz Goethe na sua correspondência com Eckermann «A deos clássicos. assignala uma transformação brilhante de que a humanidade só teve consciência nas suascreações. —X propaganda da Leitura repentina. que agora se adopta por esse mundo. O Drama Cainõe. a Arte romântica não leve modelos. setembrista chasquéa o movimento luanlismo: (1836 a 1831. da Europa na al)ertura do século Seciiol si era preciso o hymno do rinuova. A Noite do lillerarias históricos. Consequências da morte do Garrett: Castilho impõe de — — — — — ustraducções do latim. poéticas. Não XIX vale apresentar novameiíle o quadro litteraluras do renascimeoto de todas as . livre. e subjectiva. Como não previnem. Estes se chama- ram 'Goethe. ao cabo viu-se ao sol da verdade que os que debatiam contra eram velhos académicos. como provocam sempre as ideias novas. e íunda a pedaulocraciaportugueza do Llogiomuluu. — Caslilbo regressa de novo aos estudos OiQuã' dros — As Metamorphoses de Ovidio traduzidas. Yae ao Brazil em 1854. uma transigência provisória cora o Roclássicos. lucta travada. não com o nobre sentido que lhe deu mas como simples contraposição aos românticos. Miguel Fundação da Sociedade dos Amigos das Leiras. — A poesia arcàdica nas Excavações — Castilho. realisando sentimentos (]ue se cujos impulsos não podem ser calculados nem medidos. Nomeio das perturbações politicas de 1847 v<ie á Ilha de S. que já se não podiam desacostumar da senda aristotélica. e que é causa de tantas . Fp] jti§A3í Jiberdade que cada litteratura tirou forras para Romantismo não se implantou sem lacta.

todo subjectivo. Viu que não podia di- zer d'elles.3 Almeida Garrett que se deve a renovação da moderna litteratura portugueza. de forma que hoje se es- As bellas traducçôes dos romances de Walter Scott por André Joaquim Ramalho e Sousa. é. cônscio do seu poder. No prologo da segunda ediçílo das Viagens na minha Terra.460 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL discussões e dissenções. Os Schlegell apoderaram-se d'esta tende por todo o mundo. elle rara vez . 1 / Ejespraeche unt Eckermann. dormente da Roma pagã que acorda na Roma do christianismo. ern quem a faz. e que talvez por isso mesmo. Vejamos o pavoroso quadro d'essa invasão nos tal valles e amenidades do seu idylio. Eu tinha adoptado para a poesia o pro- cesso objectivo. que só denuncia. t. As suas primeiras palavras foram de maldição aos perturbadores da serenidade da velha Arcádia. ^ outros grandes peccados de scepticismo religioso o que in- mais forte e indisculpavel è. ii. Castilho viu-se no meio d'este espirito novo.» * tincção e 'levaram-n'a mais longe. mi- nha e de Schiller. nem de Schiller o que Florian dizia de Gessner. ou grande ignorância ou grande mú fé. que pelo contrario. €ssa leitura não podia tornar castas e probas as suas ovelhas. 203. Quando o nosso auclor ((iarreK) lança mSo da /cortante e destruidora arnaa do sarcasmo. como nol-o descreve clr- €umstanciadamenle no prologo dos Quadros Históricos de Portugal (1838): «A actual litteratura (onde a ha) em desconto de seus e. Schiller. respondeu a [eBta allusão Garrett com as seguintes linhas: «Tem sido accusado de x cep tico. que elle maneja com tanta força e 2 ( dextridade.'e um modo para se defender contra mim. p. no que respeita á essência. como o. João Paulo. o único que me foi pareceu bom. a traducção do Oberon de Wielland por Filinto e pela marqueza de Alorna. Poelira. é uma accusaçilo mais absurda. É. de scepticismo moral. foram as primeiras disposições para q Romantismo. que escreveu o seu tratado da poesia sentimental e dis- da poesia simples.. tem 436. passarani por assim dizer desapercebidas. procedia de julgou seu methodo melhor.

se toma nas mãos — que é mas. porque sempre contra a hypocrisia. depois que disse na sua nobre ou delirante ambição: Tudo émeu. e contra os bypocritas e sopbistas de todas as cores. e d'ahi nos ter ex- premido para o coração uma quinta essência mui pura de interesse e aíTecto universal. e largou falia por velhos os graves cothurnos e fidalga do seu tempo. liberal e plcboa^ prestes para tudo. sentimento?. para a adoração profunda do Eterno. tre todos os seus ministros te abri o magestoso —e riu. porque eu manancial de todas as dores Ímpias. com tão poderosas armas.) «Depois que a Musa se chrismou depois que em Natureza. vii. não ae dirige nunca contra individues: vè se que dtspréza a fácil vingança que. contra o? sophisque elle o faz. depois que olhou para o espectro do Passado. veja. ainda dizemos que não pôde ser scepHco o espirito que concebeu. de Camões. — Francisca. opiniões. . Crenças. «Voltando á accusação de scepticismo. como as suas obras. para o embrião do Futuro. vae tremular por cima da cabeça de Deus.» p. para banquetes de cynicos sobre a lamagem nas ta- bernas. Âs mesmas suas ironias que tanto ferem. para que entendam a verdade que me abafa. levantou-se en- uma grande confusão. e cravou no meio do mundo espantado bandeira livre de conquistadora que. de invejosos que o calumniam. re^pfiiaos sempre. por cada dicterio insulso e ephemero com que o tem pertendido injuriar elle podia condemnar ao eterno opprobrio do um pelouriubo immoital. e disse ao Presente: Dança ao redor de mim. Ainda bem que o nào faz! mais importantes são as suas obras. remontada pelos céos. para dançar núa com as prostitutas. se fez cosmopolita. e a quem. de Joanninba^da Irm& Sousa. podia tomar de inimigos que o Dão poupara. ou voar pelos alcantis e espinhos de todas as diííiculdades ou de todas as virtudes. misturada com uma decima sei essência sublilissima de egoismo esterelisador (não a como diga. caracteres de crenças tão fortes como de Catão. e quanto a nós. de Frei Luiz de e aqui n'esta obra (Viagens) os de Fiei Diniz. mais puDidos Geara os seus cmulos com esse desprezo do bomem superior que se não apercebe de sua malignidade insulsa e insignilicante. e lhe cuspiu na face e riu. e lhe atirou veneno e riu.— CASTILHO 461 troduzido e refinado muito conhecimento de relações das partes e indivíduos do mundo entre si. e em si achou rores com que pintou tão vivos.

disseram —Nós assignalaremos as rodas do nosso : carro sobre estes três cadáveres do Tempo. para que mais dôa como se hervara. o falricidio. que semelhantes ás que uma antiga religião defendia.. a trai- ção. Appareceram sophismas do parricidio nos Salteadores de Schiller (este não podia tor- . a paz interior na virtude. «Por . «Uns. os lamentos do Passado. a virtude no amar sempre a todos e a tudo. lábios. o incesto. horrores que o grande Solon nem qui- zera se julgassem possíveis. com preten- ç5o a estylo biblico. almas indomáveis nascidas para o triumpho.» É com estas mesmas palavras que o clero tem amotinado as turbas contra todos os progres«O mesmo povo abre livros. como se consumma. o perjúrio. o regicídio. quantas fibras descozer-se. nunca haviam sair de humanos fanático sos. com que gestos. por onde se hão de embeber e quanto sangue hade manar. para lhes prevenir penas em suas leis. com que sorrisos e palavras se hade desesperar a agonia. 462 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL se ouviram os gemidos do Provir. (absurdo) corre aos theatros a aprender. o de]cid]o.» — Estes dislates. um anjo lhe insinua que a felicidade toda assenta na paz interior. que só das palavras compõe a sua sa- bedoria. almas generosas nascidas para amar. alheias «O povo. para verdade. disseram: Nós procuraremos salvar tudo — isto pelo amor. que não sare. e n'elles se encontra com a os mais formosos quadros de toda imaginável brandura. as blasphemias do Presente. o infanticídio. explica e defende o adultério. como é que o pé se lhe hade por sobre os olhos para que não veja o céo. disse: E a poesia lhe —Ide e os bafejou a todos.» falso Aqui a jumenta de Balaam obrigou o propheta a fallar um ouvido um demónio lhe inspira como se embotam os punhaes^ para que a ferida seja mais vagarosa como se farpam. Outros. quantos gemidos e arrancos ouvir-se. no amar sem outro fim á porfia os senão o próprio amar. enojam. o parricidio. palavras de agouro e maldição. No outro ouvido.

Esla é o desprezador dos Deoses. teme- . e as piedosas magoas de o um Leproso de Aoste. sublimes. o vivo abraçado com um cadáver. e os olhos que vem sobre dois globos que olham sem verem. nefandahomem. mundo. é um libello diffamalorio e in- fernal contra a natureza humana. por Victor Hugo. Que digo? o mesmo litterario intitulado livro. (admirava-se.e do Mau Principio: sâo os dois extremos do mente amarrados entre pelo génio do homem. muitas vezes combina estas repugnan- cias: o (h: famoso monstro Nossa Senhora Paris. ! porque o contacto d'e5le deenterrasse esle morto. lhe a incomprehensivel. que resplandeceis na vossa gloria como Satanaz em seu throno de tão fogo. inventado por um antigo rei de chama Virgiho. d'aquelle supplicio. imagem Itália. a espantosa litleratura da nossa edadel como Oh quem porque soltasse esle vivo. infernaes. functo o nâo contaminasse Oh quem a presença d'este vivo lhe não aggravasse a con- demnaçãoí Homens innovadores. uma Juslina. É si do Bpm. os lábios que respiram e gemem pregados n'uns beiços mudos que exhalam morte. Calherina Hotvard e as j Prisões de Sihio Péllico.CASTILHO 463 e castas as ovelhas de nar com os seus poemas mais probas Florian) e os extremos da affeição a um pobre câo no Je- icelyn de Lamartine. e por uma fama sele vezes mais alta do que a vossa. e quasi mesmo momento. por thesou- ros sete vezes mais fartos de que vos rendem as vossas phrases magicas. desconhecido do mais pequeno recanto do cujas galas poéticas são . da alma e da fé. porque entendia christâo que os cães como devem ser tratados como os tratava Malebranche) os horrores de . e juntamente a lucta perpetua um Evan- gelho do amor materno. que assim como inventastes um veneno infallivel para cada virtude. mesquinhas que por minhas mãos as rasgo sem dó eu vos desprezo. não inventasles outro para a vossa própria consciência. eu escriptor eu. não quizera ser o que sois. Ramanticosj algozes do coração.

lá pôde transluzir o É a isto o que se chama um ideal de reflexão.» ptor tivesse consciência do que os cominastes que Se o escri- diz. emsi quanto o bonito é um ideal immediato. não me suppliques de joelhos. Quadros históricos^ p. responder-se-lhe-ia. parentes. que corre atraz de sua mãe e que a segura pela saia. doçura de caracter: «Porque choras tu. a collo. 3 lá. bello. como uma criança que ainda não sabe fallar. 4.» ^ Os contrastes na poé- moderna. pelo mal que tu tica me fizeste. Mesmo em Homero. explica Victor Hugo o pensamais mento feia . 5. das nossas circumstancias. onde existirem^ ainda alguns vestígios da natureza.» detém ^ e a contempla cho- rando para que a leve ao E pelos o mesmo meus heroe diante de Heitor mostra esta impetuo- sidade indomável: «Cão. d'este modo: «Tomae a disformidade physica a illuminae por todos os lados. evidente em mesmo. o que ha de mau é uma creação nossa. tendem constantemente a mostrar-nos que a na- nem produz aleijões. XXII. 345. que formam o processo artistico do Roman- tismo. nâo são filhos de quintilianesca. . 2 Jlliada. . Fallando do Roi samuse. osêrdisEdic5o brazileira. .464 HISTORIA DO B0MANTI8M0 BM PORTUGAL * rosa tem de ser a vossa ultima hora na vida. esta miserável creatura. não tèm este fim immoral que lhe acha o tureza não conhece o feio. e dotae esta alma seja com o sentimento mais puro dado a homens. como se acham principalmente em Victor clássico Hugo. um systema exclusivo de elocução Achilles apresenta esta os contrastes apparecem sempre onde ha verdade na arte. pelo clarão sinistro dos contrastes. o sentimento paternal. Patroclo. e depois dae-lhe uma que 1 alma. e por isso no fundo das cousas repugnantes. Oxalá que a minha cólera e o nem meu coração me levassem a dilacerar e a comer a tua carne crua. XTI. agoureiro. 6.

clássicos. ra. a proscrij)ção do Romantismo. sempre verdadeiro. Em toda a parte o Romantismo soíTreu uma lucta assim ridícula. dizia que quem escreve desdenhosamente do theaa DonzcUa dOr- leons merecia ser açoitado no pelourinho. a bello. um iro de Schiller. 30 . fallarido por não servir para tornar probas e castas as suas ovelhas. e mais que tudo mal compn hendidas pelos que se arrogaram o nome de Hugo o prologo de Cromweil. ali apresentou Victor os esmaga com o pezo da do ignorância d'elles. Arnault e Etiénne. nia ameaça os Românticos. entre nós Castilho enlhronisada. para nivellar a face a figura e da terra. que aniigem a banalidade com as penas do fogo eterno e com a agoda hora da morte. foram confirmando aquelle aphorismo orienlal: «A verdade é grande.CASTILHO 465 forme tornar-se-ha ral. denominado por Victor Hugx) o lilteraturg.gsenç^ por.» E quem negará a perfeição mo- sublimidade da alma de Triboulet. que os mostrou lhes que o gosto * Quadros historicon. C. Contra a ella prevalecerá. as xenias de Goethe e Schiller. pag. Jouy. mesmo interpretado na musica por Verdi? O rno Romantismo. que ainda se regulavam nas suas composições pelo código épico padre Lc Bossou. e traziam presentes taire. as digressões sarcásticas de Ryron.» bagagem de regras desligadas como os ossos de um esqueleto. aos discípulos de La llarpe. los X. vão apagando já puiverisaudo o sèr próprio de tantas cousas. Quando Castilho proscrevia Schiller folhetinista francez.Cas- lilho: «A liberdade e egualdadc que.» ^ invadiram e senhorearam a lilteratn- Em em França a lucta do Romantismo linha levado Baoura Lormian. pedirem ao rei Car- janeiro. o degradado bobo. os epigrammas de Victor Hugo. a definição de Vol- que o gpsto não é para a poesia outra cousa mais do enfeites para as mulheres.) /?6era//5- na foi^condemnado na_s^ua„ç.

Branca. que o inundo velho tinha produzido. ás obras dos antigos homens. de 1580. a benevolência e sociabilidade. D. que o novo quebrou a ponte que os juntava. empolvilhada. fructos no regaço. Mas d'onde virão estas cou- Do mesmo mundo velho? mal o creio. e nas falias a que nas mãos e seio nos vinha of- ferecendo ramilhetes. . sem que primeiro se restaurem muitas óptimas cousas e todas suas. Castilho descrevia os es- tragos do Romantismo n'este tom: «A poesia amável. ás lições da experiência. o Harpa do Eurico e Monge de com a Crente de Alexandre Herculano. a veneração ás cãs. renascerão quando nós já não formos. o quasi culto ás mulheres. da indole da alma : humana que já uma vez as produziu. que se revoltava contra a poesia ama- xvm. amores nos olhos. com a alma que se renovava. quando a nossa lite qne vinha disputar competências de mocidade * neirada. ou do sopro do céo renascerão tarde. mas renascerão. aítastou-se d'entre nós. renascerão talvez diversas. quando o Romantismo' eniva nós tinha sido implantadq por Garrett. consolações. estas cousas do E quaes são Mu- mundo passado cuja perda tanto dóe ás sas e á Virtude? são as formosuras e magnificências da religião. e estava em elaboração o Al- •fageme. foi recUnar-se á espera na beira da torrente dos dias. e riu de ufania vendo abysmar-se fabrica que assim parecia eterna. o respeito aos finados e a seus sepulchros. que nós dissipámos cora as leituras ephémeras. já velha no século teratura havia sido enriquecida com um theatro nacional^ com com o Camões. onde ainda a alguns poderia aproveitar. e o 1 Cromwell. Kí. arrebicada. o amor do es- tudo. ediç.466 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL era a rasão do génio. Cister. pag. e assim como outras muitas boas artes e prendas. o aferro dos usos e modas pátrias. Em i837. Renascerão sas? por tanto da própria natureza da terra. d'onde não volverá.

pela innocencia imbecil do tilho sustenlal-o mundo dos ídylíos. solerle ímde o typo do camponez AgneloL chega a pregar um logro ao trapasseiro Advogado. como immoraes e scepli- Em verdade. o poeta. e sem de permanecer. que aca- bava de enganar o honrado burguez commerciante. astuto.i. as creaçoes românticas cas. e transigindo perava. como se pôde observar na velha farça do Advogado Patelin. Demais. ediç. declara-se alfim romântico no poema da poemeto dos Ciúmes do Bardo. falto lodos. Conhecendo que as suas obras tinham o defeito da prolixidade desconnexa. estas palavras são malevolentas." Hercuuno também concebia assim a pb b- Vid. O género pastoral absorvera-llie todas as predilecções. 3S3. nobre.s* òons juizes. pag.r» K cl'este modo que nas povo contra qual- quer ministério. mas impossível onde se vive certeza sei sem muila brandura. quer dizer com do que estos poeme- (Primavera e as Cartas de Ecco) pois comludo muitos Prlmavara i.: CASTILHO 467 íiraor do torrão natal. fecundíssimo sentimento. supr. Esdo publico. a que chama estiramento do periodo. vesano. poderes. Tudo isto se perdeu para nós aldeias se revolta o firme e não * que bens haja em seu logar posto a Philosoplua. p. 20. a isto os idylios do Levam com campo. . Castilho conl:>nos assim a primeira teigiversão da sua Musa «Saíram a Noite do Castello e Ciúmes do Bardo muito mais contraídos e apanhados tos a tos em cousas e palavras (sujeiisto) um plano. os. procurou Casin- delatando ao publico fanático e nada struído. 2. o género pastoril leva a este refinamento. o partido horaciano e caturra dos contubernaes pede que torne ao seu primeiro caminho. e porque vê que paftsadas obras não occupam meia hora o$ homens gravrs c Noite do Ccstello e no creve com as exigências f/. por fim sem ííis[)i- aação própria não sabe como contentar a todos. quando menos se esde individualidade.

de 1864. fanatisado pe- 1 Primavera. que as passadas não oc- ícupam meia hora os olhos dos homens graves zes.»^ E no prologo do Amor cido.»* A arte d'este modo não nem um fim sério. houve e ha. Maria e poema um. ora me levarem. mina e educa o seu tempo. d'este modo o mola o que pede es- em verso. que por isso mesmo tigos e até os velhos opúsculos (Epicedios a D. devendo só a ella o primeiro favor que achei no publico. como os velhos poetas palacianos. pag.entrega e desampara a publico os partos do seu tinteiro! Pois que não pôde ser contentar a todos. 36. e a dependência dos modelos para imitar.. 2 Ed. . A arte assim dá só estiramentos de períodos. do rapaz e do burro. que estas ultimas obras se nâo lêem jsenão de escasso numero. O o que faz o gosto.463 • HISTORIA DO ROMANTISMO EU PORTUGAL ficaram preferindo os ani. de íá9 de novembro de Í833.desampare o novo: uns. pag. mas não abjurei o clássico. evitando ir contra as rajadas que lhe po- dem arrancar as pennas fingidas com que se empavona. No prologo da compor Não sou Noite do Caslello. da edição de i86i accrescenta: «Nas- creado. 9. como o triste. tem elevação. é um caminhar ora a ca- com um burro ás costas. confessa a sua deserção litteraria: aCommetti sim um poema romântico. ir-me-hei gosto e natureza como e por onde o meu juízo. que para expiação talvez de algum grande peccado. João VL) A cada hora me diz torne ao meu primeiro caminho. e bons jui- Ohl quem reconheceu nunca a verdade da fabula do Velho. que o á Acclamação de D. outro que não . a mediocridade as conveniências. segundo o exige o gosto artista é ainda do publico. e o culio das tradições artista ò de escola com o que dotacteando andri que se proteger. e Melancholia. ajuramentado na escola clássica. traiisfuga dos velhos para os novos arraiaes. mais depressa como explorador os entrei. vallo. outros.

o primeiro é uma edade media recortada. a Noite do Caslello. pag 21. só cheguei mais larde a j fazer justiça a este livre e creador movimento da nossa jéra. e a poesia tumultuosa. No ciúme do Olhello. . A Philosophia íDO que hoje tem ou a independência intellectual. os Ciúmes sâo uma pagina intima e sem grandeza. de Lamennais. arrastado pelo caudaloso exemplo. um poema romanesco. * e diz que os que sonham com liberdade mentem ou deliram. esvae-se em imprecações e pragas e monologos de fraqueza. 9. a litteratura moderna. byroaiano. Heine.» ^ l É de 1836 a traducção das Palavras de um Crente. como uma causa de minas. por Castilho. o sentimento que procura communicar. a poesia suave e crente de Lamartine e dos lakistas. Espronceda e todos os da escola cha- mada satânica! Castilho deu justamente. dade ou a independência levantaram ao brilhaiilis- em toda a Europa. inspirado pelos diclames da propria rasân. pelas grandes applicações nas maravilhas das des- cobertas: a poesia das almas fortes e das almas doentes.- CASTILHO 469 Jos velhos génios da antiguidade. o que significa que o i seu romantismo em litteratura correspondia ao setembrismo [ em politica. e um poemeto impetuoso. desoladora.sloricvs. 2 Quadros li. não se vè a offensa pessoal. como o comprehen. mas a jus- ^ Primavera. e a Liberpolitica. vertiginosa de Al fred iMusset. deu Shakespeare. em vez de tomar uma forma natural e sublime. elle vinga não a affronta própria. . sem o saber. alllictiva. l Rendi-me fascinado pelos seus perstigios. os Ciúmes do Bardo. ^ Vejamos quem assim pensa como pôde contrafazer a poeCastilho olha a philosophia sia de um século agitado pelas conquistas dos eternos prin- cípios. pag. cujos sentimentos sâo inspirados pela impressão que então exerciam os romances de Ma- dame de Radcliffe.

vendo o talvez o merecia. impressa em Cadiz. que se chama elmanísmo^ Monti Icelebra a morte do republicano Bassevllle. ter O defeito provém todo de o auctor renegado da catholica religião do classicismo é transi- gir 'com a seita dissidente salto. traça o manto de vem uma malhe neira chateaubrianesca e vae bravejar aos ventos. de forma alindada. honras de historiographa ie outras achegas. Monti depois de amai- 1 A falsidade d'esle poemeto pôde e\plicar-se por este facto da Biograpbia he?panliola de Castilho attribiiida a Thomaz Gome^. pela sonoridade do verso. a litleratura de as- Nas luctas da escola ramantica existe lento. João Monti Vaz-se o poeta dos successos da corte imperial. Castdho recebe também de D. O pobre mundo Bardo.. 7v . de amiga y hasta de maestro. d'ahí lhe vem o acolhimento do segunda vez desfazem-se como um papel doirado que se descolla. lidos uma vez. Castilho maldiz por seu vi. ameaçar os ares. a sua elegância e correcção a tém o Iqucr que é de receita. através de um vexame que em parle Os Ciúmes do Dardo. e no Eco dei Commercio: «en este corto espaíio (1831-1837) goso Castilho de lodos lo3 atrativns de la vida de los tle aman- tes. com um idylio assucarado. lí em ponto grande o que é Castilho em proporções mais acanhadas. e reproduzida na fíweta de Madrid. elle foi conquistas da liberdade e da intelligencia. turno a revolução franceza para exaltar D.í 470 tiça e HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL é executor O dever que foram ultrajados . léem-se publico.» Pag. £u efpoía le sirvió madre. bem contra sua vontade. * que tomara. Como lAIonti. Castilho é o ultimo representante da Arcádia. obtendo por lassas bajulações pingues tenças. um liomem de ta- que empregou a sua auctoridade a favor dos cânones antigos. e veiu depois queimar os incensos do seu estro ás Moiiti.. celebrando todos os pequenos interesses dos epithalamios ^xlos altos personagens. mas obedece a uma força moral que da consciência. para tirar d'ai icondemnações contra V a França. João vi a '^pensão de uma rendosa escrevaninha.

O génio da revolla. pela pretençâo da lingua e pela incapacidade de tratarem scienlificamente os problemas da philologia. e o espirito novo. no principio foi d'este século. limita- dos á imitação do clássico. como se lè na el oficio sua biographia VI em dado hespanhol: «pues dado por D. Castilho as pastoraes para traduzir também na com alTectada velhice abandona vernaculidade as obras capitães do romantismo. «Â característica da edade media em litteratura. O Romantismo. oppozeram-se com todas as ças á nova manifestação do sentimento.» . mas Bonaparte triurapha em Marengo. é a lucla entre o espirito antigo. Castilho titulo systema Juan liberal ficou com a queda dos privilégios no também sem a tença. Monti perde o seu historiographo. sin que gobierno actual le haya indemnizacion que se acoslumbra en casos tales. obriga Musa a cantar também a liberda-le. a sua e já o poeta saúda o rival do Jupiler. aííerrados ás praxes académicas. Monli e Castilho primam pelo bem acabado da forma e pela versatilidade das ideias. el a nuestro poeta la se abolió.mythologia. a puristas das convicçíjes e do caracter. chorando o maior dos reis e o rei mais dócej revolta-se contra o sangue do vil CapetOy sugado nas veias dos filhos da França. Gomes de Freire. um exagerado subjectivismo. como um renascimento do espirito livre. e depois do triumpho do cerco do Porto. refugiado na lingua latina. que inspirava os fabliaux reapparecen na forma de e as grandes legendas seculares. segundo Frederico Schlegel. no Tributo saudoso d morte do Libertador. Monti arrepende-se de ter adoptado a melancholia de Ossian despresando os deo- ses da.CASTILHO 471 diçoar a republica. Os for- escriptores servis. 5.) Na sua velhice.» (p. que transparece nas linguas nacioníies. ou a revolução moral e sentimental que n.is se deu htteraturas modernas da Europa. Pela sua nos versos a parte Castilho depois de prebendado pelo despotismo. espontâneo e creador da edade media.

havia com saudade . um consolo intimo. de arrebatar. e se engrandece o luxo das cortes dos mona^-chas magnânimos. não é também aquillo que Cicero julgava. Em quanto se pensou assim. das dissertações fúteis. a extinguir. dos panegyricos. serviam. como ao que mais contribuiu para a decadência e esterilidade da litteraíura portugueza^não só pelos seus constan- tes protestos académicos. í No Romantismo dá-se a mesma lucta mas em vez de ser ia emancipação das linguas vulgares. condemnando o ideal da arte determiiiado É por isso que lhe cabem algumas paginas n'este livro. de deleitar. como por ter apadrinhado uma geração de medíocres que tanto custa Hoje a litteratura não é já parato brilhante.4T2 HISTORIA DO KOMANTISMO EM POBTUQAL . Os embaraços para do Romantismo em Portugíil acham-se resumidos em Castilho. fins Travou se a lucta na Allemanha nos do século xvhí. melhores escriptores. de ap- com que se entretém a pompa das acade- mias.se da erudição homérica para já invocava demonstrar que Mentor antigos. a rhelorica velha e cansada pela philosophia. mais clássicos por assim tinham o segredo de mover. e .€omniunicou-se á Inglaterra e á França. não se passava das formas pautadas. a introducção \em J83o. de sentimentos convenientes. tugal o ?cco do que ia lá ejó chegou fóxajmiitQ depois da emigração. é a liberdade do sen- ^timento. um Deus ex machina para os poemas apenas os as formas externas. Quem por via a litteratura d'este modo fazia uma ideia falsa. que procura manifestar-se j sem convenção. como quem tem os fios com que se fazem saltar os bonifrates. quando a definia como uma distracção liberal. os tempos um certo numero de meláphoras ooavenciovia-se naes. a Por- . os processos mechanicos com que dizer. domestico. da archeologia de curiosidade. da tragedias regulares não ultrapassando as três unidades. discutia se o mérito comparativo dos antigos e modernos. uma nobre ociosidade.

imitador. como diz Michelet. faliam mais alto do que todas as op- pressõtís. O despotismo de Carlos v e de Philippe n. As obras de arle têm o poder maravilhoso de nâo pode- rem ser falsificadas. as formações das legendas. que procura constanteos seus actos conscientes. infunde um a])aixamento da dignidade. anonymos. e uma moral no século xvii. Sob esle ponto de vista. Os jesuítas. muitas ve- zes melhor do quQ pelas chronicas oíTiciaes que mentiam á verdade para não divulgarem as intrigas que formavam as ephemerides da corte. abiiu este plano. Ben Johnson. o . não produziram apesar dos maiores esforços uma obra de arte. acanha o vòo espontâneo da . Pela litteratura chega a defmir-se o caracter histórico de uma época. susceptível de todas as modificações. a litteratura esluda-se p:jra sa- tisfazer a necessidade do espirito. delatam os crimes mais escondidos á posteridade pela influencia que sentem. uma terrível. yfazendo as applicaçijes das descobertas recentes. batalhadora. Milton e Byclás- ron.caracter impetuoso do norlo acha-o n^presen- íado em Shakespeare. saxonia e normanda. mente descobrir o homem tornando \Taine. na Historia da Litteratura ingleza. Hoje era que a liUeralura era mais tal do que isto. com tendências sicas. ÀdJissoUj Dryden. Marlow. que inventaram uma theologia no século XVI. a outra branda. revelava o caracter do povo que a Esta comprehensão nota-se na tendência geespíritos ral de todos os os livros em voltarem-se ao estudo de todos em ciue o génio do homem apparece mais inde- pendente das regras artiíiciaes. determina las duas raças. o caracter normando. violenta. uma crea- ção humana. a Eslhe- lica veiu dar-lhe altura e consciência. a philosophia da arte. reflecte-se em Pope. A litteratura tem hoje esta importância. e como -tinha sentido.CASTILHO 473 falsas isso todas as suas creações viu-se eram na origem. o estudo dos mythos. os poemas seculares.

uma explicam a transfor- 4 mação de todas em Miguel Angelo se encontra ía successão natural e lógica na marcha ascendente da sua •inspiração. As formas sia. as a Academia respeil. para fazer comprehender qual é a posição n'este ultimo periodo da litteratura portuguoza. elle borda e entretece cora as ílôres fingidas da sua palheta esta festa lúgubre e forçada do des- potismo devasso. espiritualisa as aspirações vagas na poesia. É por isso que nos serviremos de um exemplo da pinde Castilho tura. Assim a lltleratura ò como o templo onde íi/cam impressas as pegadas dos falsos sacerdotes que entram ide noite e ás escondidas para comerem as viandas postas ^diante dos Ídolos de barro. EUe apparece-nos como Lebruu na brun tem a inspiração corte de Luiz xiv. A corte admirava-o. Le- do século do monarcha que se dava o sol por symbolo. a tempo è como um aleijão que sae da polé e se ri para desarmar os lilteratura picaresca não é mais do que isto. e a lilteratura do seu de é um homem uma seus algozes. os estofos.^- tapeçarias pediam-lhe rascunhos. Para este fim basta-nos to- mar como feitos typo o poeta e prosador Castilho. e é por fim architecto. o Constitucionalismo l)ragantino. na architectura. o colorido ó como o dos méticos que purpureavam a face das velhas marquezas que provocavam acintosamente a sensualidade do monarcha. as composições tém o arranjo de uma pequena intriga de amores de alcova. esculptura.474 HISTORIA DO ROMANTISMO BM PORTUGAL inspiração. pintura. va-o. delação da atrocidade politica contra o desenvolvi- mento social. . lèm uôia analogia intima ^èntre si. todos os den'eile dos últimos escriptores acham-se particulares da arte em gérmen. É pela litteratura que procura- vmos a decadência successiva do caracter portuguez. no meio de uma pompa fictícia as suas cos- creações são lambem falsas . local como )uma manifestação de um grande mal orgânico. musica e poe- a lei das transformações de as outras. depois de esculptor descobre a pintura.

Não era para aquelles olhos cos- tumados ás trevas das pequenas intrigas o verem o «máretiqueta. O grupo de Andromeda -Cuja belleza consiste nas formas delicadas. j apreciado por uma mulher. foi per- seguido porque as suas composições tinham forte e enérgico um quê de no meio da mollicia que o despotismo do monarcha gerara. é a pequeneza e vulgaridade d'aquel- Íles que se deixaram influenciar. o que faz illudir algum tanto . . que cor« A época não via no artista a despertava da lethargia moral uma única reprehensâo. que ao vél-o disse somente libertada por Perseu. pequeninas da foi desdenhado justamente no que elle tinha de mais bello e de verdade. Mas sobem de ponto cada vez mais as analogias da ^comparação. Uma foi sociedade decadente não pôde comprehender a alta inspiração de um verdadeiro artista. Puget. e o despotismo sobre os outros artisla^i que queriam competir com contram reproduzidos Tanto a elle. Em paga d'esta transigência. não a ene lhe acerava os desejos. dava-lhe rendimen- tos pingues. Luiz xiv chamava-lhe um obreiro mui caro. era elle monumentos eram segundo o seu rigia os planos. com uma grandeza ou supenão tiveram ao menos a rioridadc apparente. e abjurarem da auctori- dade.» Assim a arte convencional de Lebrun. como litterato. de creação profunda. Aquelle génio terrivel. Lebrun ao menos sabia condescender nias. res- more de uma alvura de neve. o Milào de Crolona sò — coitado! \ mulher. era com as villa- por isso o inimigo nato de Puget. e força para renegarem os mestres. a gloria e commodava. e a Castilho como poeta e prosador. antes a lisonjeava. de peitadora dos usos constituidoS. conservadora da rotma. nâo em que cairá.CASTILHO 475 alvitre. Todos estes caracteres se en- em Castilho Lebrun como pintor. alma de Miguel Angelo baldeada na côrle de Luiz xiv.

como es- tes espirilos inertes e tros. 5í). sem coragem que desanimam resume em a si todos os caracteres de Lebrun. ser o ultimo e mais declarado migo da revolução moral chamada Romantismo. e tempo o que mais corrompeu a geração moderna pela sua 4 ao mesmo falta de consciência litteraria. na litteratura porluguoza de 182 a 18iG: tque cetio lilleralure n'étail pas une oeuvre d'académie. Ella lucta para apoucar os génios firmes de Lorrain e Poussin. e pela adoptara. o que a arte bello. procla- flia-se o pontiíice da immobilidade e da rotina. as qualidades que o fize- ram estyllista. x. era ^ uma maldição continua a toda a innovaçâo. p. determina-se a influencia que exerceu na mediocridade dos discípulos. qual o seu ideal da poesia. íos caracteres d'aquella infância de sua alma yihece. qual a sua primeira inspira- ção. mais un cri d'e?pi. qu'elle «'accordait Irop bion avec los instinots du la foulepour ne paá concourir à raiiinier ce peuple. Tendo prolitterario.í 476 HISTORIA ©O ROMANTISMO EM PORTUGAL immobilisadora de todas as tendências.» Oeuores. t. ao cabo da os ou- lucta. curado formação do seu talento como e em que tempo appareceu nas lettras. a todo o espirito independente. à moins quM ne sa Irouvái à point nomnné quelque grand uaeurlrier pour Tassassiner au préalablo. renegando as ideias do seu tempo. Glande franceza tem de mais As transformações no seio de artisticas levam aos mesmos resul- tados. Le Sueur. Castilho. — . elevou o esforço. a liberdade da moderna Europa. depois de todos os esforços para a formação de litteratura uma um povo que aspirava. Assim cabe perfeitamente na litteratura a Castilho a parte que tomou ini- moderna. parece-se cora esses não envere- monges bretãos que tmham \cebido o bastão do peregrino que dava uma perpetua 1 Efta misíío parece ler sido adivinhada admiravelmente por Qiiinet ao descrever o mfvim^^filo de inspiraçAo nacional. apresentaremos os symptomas de uma de- generação lenta que se operou de dia para dia em Portugal. * Em todas as composições de Castilho apparecem sempre .ranco. como o estylío é o mais alto gráo a que o como comprehendeu a antiguidade que litteratura.

may be remarked C-tíJilho. vae ao acaso da inspiração. postoque sua f. per- baps. and il is only to lhe barmony of his versos Uial be is indebted for bis poetical fame. bem o conhece e defende-se ella. ó alguns outros trechos poéticos. are monolonous. As suas Heroides. in lhe style oí Ovidis one araong lhe mo?l remarkable of bis woik. não forma plano. 1829. ó digressivo e interrompido de incidentes do discurso o estylo. Dá provas de notável talento em em á geral considerados como bons. in faot be is very deGcient liis nol afler lhe truih of nalure. é imitador e de preferencia traduclor.e olher pieces of poeiry 1 W. de Vasconcellos O consummado Gcrmanisfa. o poeta defendese d'este modo: «este descriptivo é tilho Portugal illustrated. wlio lliough blínd from bis cradio. e o seu modo de colorir não é con- forme verdade da natureza. He dispiaysi considerable tapoels of Porlupal lent in sonr. Kinsey whick. no eslylo de Ovidio.dien.ima habilmente torneadas. bowever. que apesar de cego desde a meninice. nunca nos deixou vêr Como criança sempre desbaratada» mais que os seus ama o descriptivo e o excesso de d'ella colorido.-s. are nol generally re^jarded in originality. A mesma m- fancia nunca lhe deixou ter uma com individualidade própria. por isso que o Iítío de Kinsey é extremamenle raro. 25. de facto é muito po- bre de originalidade. p. e é apenas á harmonia dos seus versos que deve poeta. «Among the living Quando no Portugal lUustrado. respondendo a este juizo de um estrangeiro: «Entre os poetas hoje vivos em Portugal (18^0) notare- mos Castilho. . as good. são talvez monótonas. a dependência de amparo tornou-o também moralmente fraco. M Kinsey.» * a como disse. ou melhor.) Exiraimos e-<ta cilaçào do livro de J.ied. M. í)23864. and bis mode of colouiing is though ibey are bappily lur. in aserics o{ I.CASTILHO 47T foi mocidade. que Casnão tinha o sentimento da natureza e que a pintava mal.t Review of the litteraryh'st(^ryofPoit/gal (p. bas nevertbeiess ioces-santiy applied bimseif (o lho belles-lellres and lhe culiivation of tbe Muses. as suas phrases. Porém esta infância defeitos. linee. London. His Ileroidcs. se tem todavia incessantemente applicado ás bellas-lettrns e ao cultivo das Musas. que todavia não uma são das suas obras mais notáveis.

nem dis- corremos como Gessner. apurar e digerir todos os successos. o retrato da natureza:»* Castilho descobre em toda a parte esta fraqueza. paj». que o coadjuvava no que dizia respeito ao revolver. cerca-me de continuo. an- meus projectos. . ou quasi. o maior infortú- nio da sua vida. p atr. um es- com combinações de Mnenwíiica. 2 ^ Quadros IJiníoricos.478 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL desbotado e de cores pouco vivas e próprias se com o de Gessner ou Kleist se compara. Primavera. empresta -me olhos para eu ver o mundo e as obras dos séculos. na sua vida domestica parecia vêr-se aquelle quadro de interior.» Nos Quadros históricos (1S30) lamenta a morte de um modelo de irmãos. A diz perda de sua esposa (1 de fevereiro de 1837) foi como o em um post scriptum de um prologo. de lápis na mao. como . íizeram-n'o pirito pueril. uma perda de que em nenhum tempo coração se poderá consolar: aQuebraram-se as forças para continuar no trabalho. O Methodo repentino é nobre na intenção. 40. que é o quem tem principal inenle a obra. Já pôde ser que padre Kinsey. toda extremosa. mas piegas. tes todos. Milton entretido pela leitura de suas filhas: «Uma mulher. ou o seu ponto (informador) não houvessem de se me avantajar muito. 21)0 'í't'ò. tomou unicamente. fazendo-o apaixonar por bagatellinhas como um Tratado de Metrificação. de amor e de luz. deixandoIhe o eslylo e a poesia. anjo. caçadas poéticas de imagens. pag. ^ Todas estas circumstancias o privaram da virtude masculina e superior da individualidade. mas é o melhor que eu soube eu que nem podia ir-me pelos campos fazendo. a peito o vingar-me da natureza. bem como se esvaíram muitos.»'^ . com uma simplicidade que desarma. . e o uso dos versos com leira pequena. de si dizia Kleist. como um toda boa. se lhes coubesse tirar ás escuras. entretido 1 Primavera.

porque li- . not. nação. e enterter o vazio do espirito e com o acinte de quem pensa a solidão do isolamento. Para traduzir uma obra de arte é i preciso sentil-a novamente. Castilho lançou-se aos poetas antigos serviu-se d'esla /abundância de phrases que trazia de memoria ordenadas em forma de vocabulário. ca- sualmente. expressos nas diííerenles lin- cambiantes das palavras e formas prosódicas de outra gua.servem para estudo. ia-as baralhando pacientemente. como lavras. ora ^ lhe dava tratos de polé na redundância de parophrases. seguia ora verso a verso o poeta que torturava. Todas as traducções modernas sao . e quem sabe sentir é creador lambem. Ovidio foi o primeiro que lhe veiu á mão. quando desde e lempo de Golhofredo (Fontes qualor Júris. por : indefinidos. 6C0. e inventa por si. pur isso que se referiam ao direito consuetudinário das Doze Tábuas. É e«ta a critica que falia nas traducções de Castilho. v. Traduziu. * um grammatico sem ver o intimo das pa- começa por não comprehender o poeta que traduz. acceilao texto ircéta forraa: Adde quod Edilis pompa qui funeris irent Arlifices solos jusscrgt eese decem. trasladar um valor secun- reconheceu-se a impossibilidade de com uma si precisão geométrica para uma lingua os ^sentimentos. e é a prosa que dá a mais ampla berdade ao pensamento. versando-o com mão diurna e nocturna chegou a apaixonar-se por elle. vi. . Com esta esterilidaJe de alma e sem recursos de imagi. c c por isso que o reconhecem cumo um verboso parapliraseador. á x Tabula) ée restituiu o le\lo bisioricamente: Adde qucd Edictis pompa qui funeris irent Arliíices solos jus evat Case decena. sem escolha. lib. em prosa. a tornal-o o seu dilecto.CASTILHO 479 Por toda a parte as traducçôes occupara dário na litteralura. Para os 1 Nn traducçãO que fez dos Faslos de Ovidio.

não po- diam por isso partir da unidade das tradições para a lei da 1 Tame. Que esses poetas académicos não comprehendessem a fabula. to- das animadas de vagas ideias philosophicas. factos que engrandecem o século. pindaricas. da mais larga e da mais pura poesia. conhecendo pelas explicações do Diccionario de Chompré.» Agora comprehende-se a fabula como Castilho obedeceu á sympathia que o uniu a Ovidio espirito futd. 17. tornaram se nas mãos de Ovidio lindos contos ornados de felizes anlitheses. cujo processo de poelisação já estava ensinado pela rotina da estafada rhetorica das Aca- demias do século xvn e xvin. espirito e galanteria. sem profundidade. (Vid. «As Metamorphoses. mesmo não comprehende mais mesmas palavras são do' que as palavras e essas como senhas as- sacramentaes cujo valor não alcançam os profanos que repelem. Castilho começou pelas Metamorphoses em i84l. . Castilho diluindo cada hexametro do Sulmouense em três endecasyllabos portuguezes. e a reduzissem a ura ar- mazém de meíâphoras percebe-se. das Iheogonias do norte. d'onde extraíam todos os troposvulgares. Eifai sur TiU-lÀve. diz um profundo critico moderno. epodicas. alcaicas. da epopèa germânica. para lerem Ovidio bastava-lhes qual- quer traclucção ou de Panckouke ou da collecçâo Nisard.r 480 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM FOKTUGAL que não sâo latinistas. Estas nobres legendas. porque. perfumados de que uma dama romana dispenderia* voluntariamente no seu toucador. não tinham assistido descoberta dos grandes poemas da índia. tornará mais conhecido o exemplar antigo? Se elle . intelligencias em frivolidades. era lhe fácil pôr em vulgar essas personificações allegoricas. pag. desbaratadas á para as suas odes saphicas. ne- nhum a livro melhor do que ellas mostra quanto se ignorava antiguidade heróica e divina. 436) não vendo mais do que brilhantes nadas das imaginações antigas que adoravam falsos numes. p.

Leonel da Costa. comprehendeu Ovidio de lhe salvar o texto e ditos. nenhuma apreciação da philosophia de nhuma interpretação da moderna sciencia da Mythologia. e ameaça nos com uma nova traducção. ainda cá não chegara esse movimento. das notas dos scholiastes. Castilho maldiz todos os traductores de Virgilio: João Franco Barreto. uma lisonja á depravação romana. . Barreto Feio. com outros usos e costumes. nem descobrir como os povos perpetuam os dogmas n' essas religiosos. e em menor nu- mero de versos? 31 Virgilio não é isto que entre nós se pensa. o direito. e tratou de apural-o com commentarios eru- no século xix este homem esforçou-se em voltar ao passado. E CÁ)mo poderia elle comprehendel-o. de Prelsobre a mythologia. ha muita minúcia. O século xvi. até se tornar goslo convencional. Castilho convidou mais de em nenhum livro. deprime o trabalho d'estes homens. ne- moderna. Castilho insulta-os. tudo o que ou tra- duzido das encyclopedias. quando só se achava ca- paz de traduzir melhor os termos da lavoura. ignora o preO espirito moderno ri-se d'elle. a Arte de Amar é uma composição erótica sem valor. muila citação. Castilho vive sente e amaldiçôa-o. n'um mundo phantastico. como simples pagão.CASTILHO 481 sua formação. a moderna antigitU dade. Odorico 3Iendes. mas faltara só vistas novas. como o povo de meio de ler Roma se riu dos dormentes que despertaram em uma sociedade nova. um ihetorico da decadência. se em Portucem se escriptores lé é ali para commentarem o texto . legendas e my- thos. os successos creações espontâneas de symbolos. pela inclinação De um sente-se do caracter um litlcralo byzantino. as descobertas. Depois dos trabaltios de Kreulzer. de Guigniaut. não apparece um único resultado da critica arte. Na traducção dos Fastos. tirado de Jacou. melhor do que encontra o gráo de ignorância dos homens que gal escrevem. a opinião de Taine sobre Ovídio não precisa de demonstração. Oma Leitão. todos o interprelãram mal.

simples. ficou d'este modo privado de lêr o melhor e o mais profundo commenlario de Virgílio. que formam o decurso da edade media. por assim dizer. boa por natureza para de raelancholia que nismo. res. um que o parodia em palavras men- O sentimento de Virgílio só pôde ser comprehendido de- ^pois de se conhecer ^refrescou a alma ^àez tbeologica. toda a inveja. A egreja chegou quasi a levantar-lhe alta- vem ao tumulo de Virgílio. para salvar uma alma tâo pura. Como é que a arle é para aspirar aquelle perfume elle presentisse fez com que o cliristia- grammatico pôde traduzir este hemistichio divino: «Sunt lacrimae rerum» quando para el!e um um mister e Baixo Império? uma Ao menos lisonja á corrupção de um novo o grammatico de Ravena. Sérvio ou Despauterío. todas as emoções que lhe cença.» eu fui poeta.mSTOBIA DO ROMAKTISMO EM PORTUGAL É preciso uma alma pura de avalial-o. tão apta para receber a doutrina do chrístianismo. Castilho não formou ideia do que seja a Renascença moderna. fazem-no-Po comprehender melhor do que lodos os scholíos de Donato. Paulo ter como elle alimentou e por assim dizer humana durante todo este perindo de aride sevícias feudaes. nem da acção que ella teve na Europa. por ti eu fui chris- E Virgílio adiante. uma legenda grotesca de Vir- gílio na meia edade. Dante diz n'um dos tercetos da Divina Comedia. tinha mais alma para comprehendel-o do que tidas. S. Depois de se haver estudado a Renascença é que se achou desenvol- vido n'ella o génio de Virgílio. diriginti do-se ao seu guia: «por tâo. Até somente com a bondade natural se comprehende me- . um co- nhecimento a posteriori. e chora por nâo chegado mais cedo. o espelho vem É a alma da Renas- em que se viu representada. vendo o perturbado e querendo fortalecel-o. díz-Ihe que um espelho não reflectiria melhor á face. foi. Uma palavra de Dante. que jurava pela infallibilidade de Virgílio.

linha uma maledicência de homem racliy- tico e descontente. Castilho ficou pri- vado do melhor ductor íiel. um processo meihanico de reproducção as analogias dos caracteres fazem com que conheçamos melhor o que estudamos. . do que com toda a ferramenta de palavras e synonymias. verdadeiro moem que as lendas TÍrgilianas são explicadas sob o ponto de visla das origens. o Cérebro arA B C repentino. 136 da Noite do Castello. c o apresentarem isto I jque é uma incapacidade como faculdades superiores.* é um tra- e tanto como estes pintores chinezes que enten- dem que a verdade da pintura está em saber o numero de Muitas vezes nevruras que tem uma folha. Do seu génio pueril e infante provêm todas as suas obras terarias. não conhecia amigos. Graça Barreio queixa-se de nun^a ter encontrado eaa novidade nas obras de Caslilbo. 1 . o delo de erudiçio Vide p arlmiravel livro fie Comparelli Virgilio nel mcdio eco. nem aííeição diante do seu orgulho e vaidade lilleraría para elle a poesia não é mais do que uma gymnaslica de palavras. encobre o vazio do artiílcio. procurando conlornal-o para o metter dentro do engaste da rhetoríca mesquinha. entre nós tem lambem a perfeição da symetria. p. da lima que desgasta as saliências do diamante.CASTILHO 485 Ihor Virgílio. feminina. o sr. em nota. 2 Ksta invenção. os versos de lettra pequena. taes tificialy '^ lil- o como o tratado de Mnemónica. é por isso que a iodicamos. Castilho. Virgílio incompatível com 6 acerada por uma inveja incessante. Que melhor commenlario de dade céltica. Castilho modernamente represenla-nos o mesmo que Pope na lítleratura ingleza. o traductor (io Homero. Como a raça céltica o comprehendeu! do que esta bona índole vaidosa. Causas fataes e irremediáveis obrigaram Castilho a per- manecer em uma perpetua infância. com apparencias de propriedade de expressão. Na Quesião Ao Faiisto. critério para avaliar Virgílio. Quem o accusa por isso? o que obriga a pòl-as em relevo. em que. Ed. e limitam toda a sua arte a servil. acba-se a pag. 69. de 1805.

dada á luz por iim cidadão depara tudo. onde escreveu umas prosas poéticas intituladas Felicidade pela Agricultura. e a virulenta réplica Ou eUf Qu elks. que sou seu sapateiro do Pezo o Mestre Manuel da Fonte.— e se- tempestade do absolutismo desencadeou-se com o golpe de estado chamado a— emboscada guiu-se o levantamento nacional. Castilho occupou-se em collaborar no Agricultor michaeleme. o homem quem a cultura açoriana mais deveu. Maria que de 1842 a 1846 violência. sendo a musica de alguns composta pelo amador João Luiz de Moraes Pereira.484 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL ira-- seu anachronismo ductor. hoje desconhecidos. As profundas perturbações iniciara pela facção cabralista causadas pelas ten- dências absolutistas de D. a idyllico. D'esta época de permanência na ilha de S. . Logo em 4848 levantaram-se em volta de Castilho ruidosos confliclos Jilterarios. Miguel. A de 6 de outubro. por convite do Visconde da Praia. a tendência irresistível para ir necessidade de pela mâo de quem teve primeiro o trabalho de pensar. em Ponta Delgada. para cujas escolas escreleitura. No remanso da ilha. politicas ii. pro- um regimen de duziram Castilho um levantamento popular nas provindas do norte. e sobretudo lações. co- operou para a fundação da Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes. rudimen- Hymnos. No meio d'eslas agifoi tações Castilho residir na ilha de a S. O meio influiu uma necessidade absoluta de adutambém na sua mediocridade. que motivaram folhetos. isto é. Por este tempo es- escreveu e um opúsculo de 57 paginas intitulado Chronica certa muito verdadeira de Maria da Fonte. l3 um folhetim politico. É uma das infâmias da monarchia. tio. vários com como o Thcccl. conhecido pelo nome de Maria da Fonte. mittido que tem tempo da Regoa. ou o Castilho em zero. contra o qual a rainha champii uma intervenção armada estrangeira em 1847. crevida por mim. a abundância estéril do seu estylo. e as Noções veu os Primeiros exercidos de tares.

.. O Auto da boa estrêa.» Chama-se a impor como opinião uma primeira emoção critico irreflectida. Confrontou o lugueza? o texto írancez com a paraphrase por- Nem suspeitava da existência do drama de Perde Castilho paI rot e Dumesnil. ama uma filha do Conde da CaslaI que ainda encontra viva no regresso da índia re- cebe esmola de tentou-se uma preta. salas amplas e luminosas de isto um maravilhoso palácio de poesia. que o sustenta. e no grande espirito poético e * dramático que anima todas as scenas. António de Castilho. cit. que excede muito o Camões de Garrett no estudo da época. Castilho con- comedia .nhêira.. Conseguido este fim.4 dignidade das Letlras e as Litte- acha-se iim extraordinário juizo critico d'este trabalho. O drama Camões não conhece sua mãe. guarda-mòr da e sob o \ ' Torre do nome do Tombo amigo do quinhentista António Ferreira. Castilho e a única admirável e —o drama Camões. do Ensaio biographico o Auto da boa estréa foi então intercalado na paraphrase do drama ' Op. p. . 43. Icomposição que fingiu achada por Luiz Filippe Leite e que Iservia para illudir a boa fé critica de José iMaria da Costa le Silva. António de Castilho. suppondo-o orignial: «K um dos mais for- mosos dramas do theatro portuguez inatacável obra do sr. como se vé no artigo criticOy O Dr. na interpretação do verdadeiro caracter do heroe. e por isso as deturpações receram lhe surprehendentes intuições de génio é falso diante da historia: que morrera de parto! . na intelligencia intuitiva do génio da nação. em intercalar na sua paraphrase uma pequena em redondilhas.. Nunca se dirá bastante d'esse livro surprehendente. qne CasNo opúsculo de Aiilhero do Quental roturas officiaes. composto Dr. Armand Dumesnil.CASTILHO 485 Miguel resíilton a tradncção ou apropriação do drama fran- c^z Camões de Victor Perrot e tijhogiiiz fazer passar por original al6 18i9.

. LeJmare. no seu pequeno livro intitulado Leitura repentina. 212. ^ e conseguindo por fim ser nomeada Commissario geral das escolas do Methodo repentino. ^ CarU de 29 de março de 18C7 á Gamara municipal de Selubal. \Methodo para em poucas lições se ensinar a ler com recreacão de Mestres e Discipulos. p.e»mo engano.^sua invenção dizia Castilho: «Também eu mas forcejei íiz uns Lusiadas. 2 Chave do Enigma. a leitura ficará sempre arte estéril e uma uma aptidão sem destino. envolveu-se um grande ruido sobre a em poleniicas virulentissiem apostolo indo mas^ como nha) a Tosquia de nm camello (José Crispim da Cu- em 1853. Mas aproveitando a superstição usual. cia. Castilho fez Leitura repentina. são os pri- meiros a impedirem tudo quanto possa embaraçar a emancipação intellectual e moral. Nós seguimos í . e a sua tentativa começou a ser chamada Melhodo portuguez Castilho. se- gundo a critica de Anthero do Quental. ilha Durante os dois annos de residência na de S. Da.» '^ Infelizmente Castilho sobreviveu inefficacia jo bastante para vêr provada a da apregoada ma- (ravilha. a critica de Herbert Spencer contra a superstição usual que faz julgar a leitura como o fim da instrucção. o que não vale menos.486 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Camões. se os que dirigem a instrucção publica. Com o tempo Castilho persuadiu-se da propiia originalidade. Miguei /é que Castilho se apaixonou pelas questões de pedagogia. arvorou-se ao Brazil em 1854. e notando que os Lusiadas continuavam a ser o * Ainda em 1870 o sr. foi esla carta de alforria da puerí- Não cantei os portuguezes passados. governos e padres. por que houvesse portuguezes futuros. ie em Í8o0 iy^nsíoymsi o Methode de Lcctiirej de Mr. Jse é que não vale mais. • caiu no n. pelo que recebeu até á sua morte um conto de réis de ordenado annual. * Eis aqui a única obra inatacável de Castilho. sò uns. i»55 e iSoG. Romcro Ortiz no livro La literalura en el siglo xix.

i «Sem querer por esta particularidade julgar da analyse que presidiu ao trabalho do sr.CASTILHO 487 que eram. a pressão d'esse terror branco da disciplina das primeiras lettras. eloquente nos protestos contra a pancada. le desde 1859 Herculano fechára-se em um silencio syste- 1 Carta preambular do poema D. e resto persistente da tradição do ensino jesuítico. atacado como imitador do methodo de Castilho n'estas phrases: «Faremos ver que tudo. que era parte obrigada da pe- dagogia portugueza. 9 João de Deus replicou com uma fina ironia. . é essencialmente filho do Methodo por tugiiez. Jayme. u. António Feliciano de Castilho. mais vezes incomparavelmente. Garrett fallecera em 1854. Tozeiam . que ainda sob outras formas se conserva nas A pancada passou de moda. nem a íórma nem a ideia me convidavam a utilisar-rae. o. Quando em cima o páo lhes vem Mas vilo quasi calarlinhas Quando carapuça lôm. * João de Deus.) e não indo quasi caladinhas quando têm carapuça. que s#tornou foí também um apostolo da leitura. Cas- }tilho visou a uma acção directa sobre a litteralura portu- 'jgueza. achava-se só em campo. como sem páo em cima. que encerra a critica do prosei cesso para a leitura repentina: regra. e não foi pequeno progresso. e. que «Do Methodo apenas uma um dia me recitou com admiração um fervoroso apostolo do celebre pedagogo: • A. i. que por aí tem apparecido de methodico e racional. atacou o poema como não servindo nem sequer para cartilha de escola. é certo que vtzeando as vogaes tanto com páo. porque a nossa infância foi passada sob nossas escolas. / Conseguido o Commissariado do methodo repentino. (sem páo.» Castifoi lho no meio da sua estéril propaganda.

uma ou breve da lido infallibilidade do mes- ninguém podia ser sem trazer a chancella sacro- santa só obtida por bajulações e negação absoluta de novi- dade. o trabalho da |sua ultima época (1858 a 1875) foi exclusivamente de } Iraducçôes. Reinava a doce paz no santo tilho e mundo das lettras. (1858) Arte de amar. Uma : cousa lhe restava para impor a sua supremacia litteraria em ambos os hemispherios —o estylo. como quem sabe que se lhe disputa arteirameole o seu logar.« vol. odiando todas as manifestações litterarias. e com a anedocta philantropica que se a liga á Epis- i tola á Imperatriz do Brazil.488 HISTOEIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL malico. Um dos seides que o cercava chegou a sustentar na Re- vista Contemporânea. princípios foram introduzidos no mundo pelos pensadores. que era elle e nao Garrett o verdaillusSo deiro príncipe da poesia moderna. Ovidio. pas- sando bullys de indulgência aos que se apresentavam nas Era moda trazerem todos os carta livros que se publicavam tre. um pontífice litterario. da» Lendas c Narrativas Herculano reclama para Garrett e&la primazia. Comtudo a lilteratura da Europa avançava. Foi então que appareceram alguns escriplores desconheci- 1 No l. de livros atrasados. Faltava-Ihe tudo para ser dirigente. . (1866) Georgicas de (1867) l sem a mínima acçSo sobre o espirito publico. como Os Amores de Fastos de Ovidio. e novos . em 1861 foi Coimbra visitar os sitios poéticos da sua mocidade.* por uma doce da edade veiu a considerar-se lides da imprensa. e rio ^^ em um saráo littera- no theatro académico recebeu as homenagens da nova litteraria geração. tendo fatalmente de produzir • em dado tempo os seus resultados. j ' Com a propagÉida a favor do monumento a Bocage em Setúbal em si 4857. Cas- o seu rebanho todos conformes em dar e receber o incenso de apparatosos duetos. o nome de Castilho avocava a ^ a admiração dos novos. (186^) J (1862) Lyrica de Anacreonte. Virgilio.

greg. os sá- bios de Alem-do-Hheno deixaram a lingua latina. a philosophia. franca e altamente se reconheceu ha alguns annos para cá. como tal incomprehensivel ao vulgo.CASTILHO 489 dos. a critica sobretudo. tem experimentado um impulso brilhante. mais susceptível de exprimir todas as biantes do pensamento. exaltam-lhes o valor pela clareza e com essa forma * com que as revestem. ha mais de sessenta annos. e a vereda que ainda se y^ conhece lâo imperfeitamente. de que tèm sós o segredo. Grandes talentos que pareciam destinados a abrir vias novas. se nâo podiam fazer accusaçôes de galUcistas. pela lingua- gem vernáculíi. tem necessidade de ser seria- mente preparada. Crime estupendo. tem-se tornado a iniciadora da actividade intellectual da Europa. Accusaram-os do crime de introdu- o e«:pirito allemão na litleratura. e o de que se occupam com um notável desinteresse. tornou-se camque era aquella em que uma espécie de álgebra. xxvi. era já preciso delel-os nos seus Ímpetos iconoclaslicos (18G")). e que * Bistoi^a da Litter. que pensavam e escreviam com independência. antes de curar em con- tinuar esta corrente de estudos.. A Allemanha. usada nos trabalhos eruditos pelos Scaligeros e Wolíius. as sciencias naturaes. . que o principal trabalho dos philologos francezes. N'um estudo sobre Otfried Múller. dedicam-se a esta obra de interpretação e de iniciação. o tradaclor da Historia da Litleratura (grega: «Por muito tempo ainda. Introd. estendendo á Europa civilisada riquezas que só pertenciam a um povo. por isso se pensava. os estudos históricos. inglezes e italianos será cora effeito o de implantar e aclimar nas suas patiias as con- quistas positivas da sciencia allemã.» Estas palavras de Hildebrand exprimem o facto que caracterisa a transformação do Romantismo na Europa. É o que se comprehendeu. descobriram outra zir — de nebulosos. diz Ilildebrand.

As traducções não tinham um íim. um qualquer li- espirito de revelação artística. do grande grupo dos auctoritarios que consti- tuem a Pedantocracia portugueza. mais cedo se operou na Allemanha. o seu triumpho consummou-se apesar da rações do silencio. como o vimos nas palavras de Gervinus: «transição da poesia para a sciencia e do Romantismo para da critica. dos impulsos de iniciação tornou-se mais ferrenho tra- ductor. cre achou apoio em Castilho. e a a critica. em que morreu. agarrava-se ao primeiro vro qne lhe caia debaixo da mão. Estavam acostumados entre nós a considerar a litleratura como um divertimento. Castilho nunca disse uma palavra do grande J}TÍco João de Deus. que o RomanPortugal o primeiro ataque tismo emanueiicq recebeu em poesia a primeira aproximação da sciencia e da' philosophia. democrática e phiíosophica. como não indifferença pubhca e das conspiisso provinha dos indivíduos mas da época. mas de perverter nhar os talentos provados. e arvorou-se em chefe.» Foijem J8G5. É por que pôde já ser historiado nas suas três phases critica. sem com tylo o meio social. Como tência se todos os a media da existornam retardatários nas suas opiniões. e traduclor na forma quasi inútil de paraphrasta. O movimento d'esse espirito acompanhado em quanto deu escândalo. Diante litteraria. e a synthese do talento resumia-se n'esta phrase: um es- á procura de foi novo uma ideia.490 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAI. Hoje era espalmado Anecreonte de uma traducção franceza em prosa para sonoro- sos versos portuguezes. na lucta litteraria conhecida pelo nome de relação Escola de Coimbra. mas sem nos darem uma commu- . e dos que se lhe se- guiram só deixou cair equívocos monosyllabos. desde Í8G5 até 1875. Tudo quanto era medíonão com o inluilo de animar o juizo e amesqui- os talentos indecisos. um intuito. escrevia-se por uma liabil curiosidade. Castilho a manifestação homens que ultrapassam condemnou da moderna intelligencia portu- gueza.

Não se querendo dar por vencido. e uma qualquer edição franceza. imagine se convento. na l chamada Questão fausiiaíM» a q^^e adiante alludi- remos. \ d'essa concepção baseada sobre as tradições celto- saxonicas! Castilho sentiu perder-se-lhe o seu poder espiritual. a escola revolucionaria esmagou-o. c a todos os seus defensores. a sua morte teve essa opportunidade. sem a com a mais ingénua conQssão nova ' de ininteiligencia da obra. com o ideal da Grécia. lislica i uma noite i como um acanhado humanista de comprehenderia a elevação ar- l sem saber inglez. Sonho de de S. amanhã atacava de Molière recebendo da Academia das Sciencias os proventos jde metade das edições. traduz o Fausto de \ Díjinima preparação prévia. que Augusto Comle considera necessária de todo o progresso uma condição humano. que se conservará como a fórmula delinitiva da sua individuahdade litteraria — era um árcade poslhumo. que se es{)all)avam com abatimento por lodos os alfarrabistas. abalançou-se á Iraducção do drama de Shakespeare. O juizo acerca do seu mérito resume em uma palavra. e que a mocidade o evitava.CASTILHO 491 as comedias nicação . Esta versão foi-liie fatal. por íim lembra-se de Goethe. . e para aíFirmar que também tinha o sentimento romântico. João.

e rio. nos estudos históricos contentavam-se com phrases de flectiu um patriotismo banal.492 HISTOaiA DO romantismo km PORTUGAL g Hl. to. e cheios de I esperanças. e em philoso- phia contentavam-se tão. os jovens escriptores nSo a elevaram. trataram de /seguir as pizadas dos mestres. A Sociedade Philomatica teve o vicio orgânico da emphase rhelorica. 6. e disciplina ena opinião positiva. Lopes de Men- i j donça. Latino Coelho. que se re- essencialmente no lyrismo d'esse tempo. formou-se em I 1 Lisboa uma sociedade com o titulo de Philomatica. continuou-se a escrever ro- jmqnçes ] históricos. Faltou á Sociedade Philomatica o conflicto de opiniões. poesias pelo gosto da escola do \ Trovador de Coimbra.— O advento da Pbilosopbia positiva. António de Serpa. e uma clara comprehensâo das necessidades moraes da sociedade porlugueza. A esta mesma phalange pertenceram os jornaes Uitterarios A Época e a Semana. com o theologismo-metaphysico chrise idolatravam em eram todos monarchicos sem motivo a casa de Bragança. á maneira de líerculano. á qual pertenceram Rebello da I Silva. Em vez de se porem ao corrente do movimento scientiQco da Europa. (De 1863 a 1872. e sna presistencia Periodo de critica histórica e comparativa. a apatliia ineotal do atrazado meio romântico —Pliases da Escola dissidente de Coimbra: a) Período da indisciplina poeiica na Universidade. Luiz Augusto Palmeirim. c) — — Periodo Sob a influencia dos três principaes vultos da transformação romântica da litteratiira porlugueza.) lho. propagado ao Poractual. Mendes Leal. mas eleva- . enlao ainda jovens. criticas littera- rias á maneira de Castilho. Andrade Corvo.) — A pedantocracia portogueza — — Dissolução metaphysica da Escola de Coimbra contra dirigida por CasU* de sentimentalismo democrático em Lisboa. do fetichismo liltera- nâo tratou nenhum 'socio de adquirir para o seu es- pirito uma qualquer politica disciplina philosophica.

CASTILHO 493 ram-se a si. É o que se observava em Portugal. o publico costumou se ás celebridades nâo discutidas. tornam-se jornalistas do mesmo partido moque narchico. esteriiisando-se nas transigências da ambição do poder. se uma sociedade estaciona. e sem trabalho scientifico apodera- ram-se de todas as commissões rendosas da Academia das Sciencias e dos differenles ministérios. se se uma fornia de governo se es- terilisa. A Sociedade Philomatica converteu-se liga espontaneamente n'uma de ambições politicas pessoaes. dissolvendo as admirações. porque a imprensa de Lisboa illudia systematica- mente a província. é porque essa sociedade. etc. Todos se si julgaram grandes homens e talharam-se entre purpuras do génio. politico. Mendes Leil continuava na Academia as collecções encetadas pelo Visconde de Santarém. Como provocar n'estas condições moSturm interesse ou curiondade pelas ideias? Agitando os espíritos. essa tura nâo têm ideias. e inspirada por aspiração da com uma litteratura banal e sem inuma ignorância absoluta de qualquer sociedade. o facto repellido em Lisboa com uma virulência desesperada. . esse governo. escalaram por turno. e representantes do povo por chancella official. Rebello da Silva publicava umsi Historia de Portugal subsidiada pelo gover- no. vi- clima de um constitucionalismo conservado pela ausência de critério tuito. Quando um dia a província reagiu contra este foi marasmo mental. quebrando os velhos delos ligados a ideaes de convenção. era o legitimo and Draiig do romantismo. Todos os movimentos sociaes provêm na maior parle das noções que motivam os actos da vontade individual. O periodo do Elogio mutuo corria sem protestos. Latino Coelho seguiu a mesma vereda pelo ministério da guerra. uma lilteratura decae na corrente da mediocrilittera- dade. perante o paiz fez-se por muitos annos um simulacro de opposição parlamentar.

que começa a um em 1865. que começa em 1808. a terceira phase. data de 187 J. concen- em Coimbra. Diz dos parallelos era como um atlentado contra a pátria. em Coimbra. . iniciada em Lisboa peias Conferencias democráticas do Casino. Divide-se rísticas esse em três phases caracte- critério intellectual: foi movimento inaugurado pela renovação de a primeira phase. que se converteram e em polemicas acerbas em violências maleriaes. era n'esse foco de mocidade e de eíilorescencia moral. em que preponderava ainda lilisar-se a indisciplina metaphysica. ' Primeiros Principies. critica dogmática moral. 2 lleíerimonos a ura discurso do sr./ bando com O único ponto do paiz onde se julgaria encontrar algu- ma actividade mental. 122.çâo» . faz sem di- por isso algumas aílirmações dos escriptores dissidentes de Coimbra em 1805 provocaram sarcasmos dos * velhos mestres. trada exclusivamente poética e metaphysica. segunda phase. alguma aspiração generosa. acaa perturbação revolucionaria. chegando até a eccoar no par- lamento portugnez os presagios por esse symptoma de dissolução 1^ Ê tempo de foi se estudar este movimento de dissi- dência.494 HISTORIA DO BOMÁKTISMO EM FOBTUdAL intel- Proclamar qualquer ideia no meio d'esta beatitude lectual do Elogio mutuo. contra a ordem politica e até contra a Spencer: «Nenhuma revolução nas ideias se lacera. que foi inu- no mysticismo societário. contradiclar a litterarios. Thomaz Ribeiro. manifeslou-se no Porto tóricos com a propagação de trabalhos hiscritica em que se applicavam os novos processos da comparativa. que levou os phenomenos apparentemente desvairados da politica a subordinarem-se ao critério da Sociologia. p. até que começa a nova orientação mental pela propagação da Philosophia positiva. e que por algum tempo conhecido pelo nome de Escola de Coimbra. originado pela inlroducçâo de um espirito novo em Portugal.

y> E antes de concluir airirma. Pedro V absoluto. e das phra- com as mãos ses incisivas era estylo de canlo de papagaio. de Coimbra estava ternal. de Vieira de Castro. mica jazia a mocidade acadé- então na mesma insensatez. e aflirmava a sua aíTeirão ani- quilando o fuluro. tanto melhor. Do coração as agradeço e retribuo. um braço e uma ideia para vir depor como oblata n'esse trajecto. quanto abrangem ludo o que no mundo Me disvella— a Mmha família como homem. ao tactearem n'esta hora com mâo o solo do seu sentem lá dentro no coração de lodo elle a febre ver- tiginosa do enlhusiasmo. quando entrámos era Coimbra em 1801. ainda che- gámos a ver coladas pelas paredes proclamações impres- sas que diziam: Viva D. vinte annos. João vi: «Saem do coração as manifestações da vossa dedicação. arvorando-se em antigo poder pa- do velho estylo da chancellaria de D. e por uma commis- são composta além de outros estudantes. pezava também sobre a mocidade de Coimbra. A Academia O rei respondeu á Felicitação. A mocidade percebia assim a historia. Pedro v. da Academia A baixeza excede os dispelo chão.— Retribuo-as e agradeço as tanto mais.. alma de alma também enamorada. aos pés da sua Rainha e do seu Rei!» parates. o seu successor passou por Coimbra. e o anciado estremecimento dos grandes júbilos! Passa o Hei e a Hainiia de Poriugal!.. quanto mais espontâneas. formadas do que ha de mais vigor e de mais fuluro em cada provinda. que tem uma crença.CASTILHO 495 entre as gerações académicas. a Minha grande família como Rei. em um tal gráo de inconsciência. Infelizmente a morte politica infligida a Portugal com a intervenção armada em 1847. Quando depois da morte de D. foi-lhe entregue uma Felicitação filhos assombrosas palavras: «Os paiz. que aos mais invejáveis titulos . Logar pois á Academia de Coimbra. trocista e sem compreliensão das necessidades do seu tempo. onde se lêem estas da Universidade de Coima bra.

a tudo. existiam consciências isoladas que se insurgiam. em uma atmosphera de ideias recebidas de Proudhon e de Hegel. por uma linguagem cheia de aspirações servidas por uma metaphysica. e compreheodia-se a historia pelas narrativas emocionaes de Michelet. de que nunca se Jibertou.496 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL e dos soberanos são hoje (1863!) os de pães povo. que se applicava á critica litteraria. Geram-se com esforço novas ideias. pela formação de sociedades a de livres*pensadores como do Raio. As instituições do passado aba- 1 Um documento ainda rriais vergonhoso para a mocidade académica. á poesia. Essa reacção manifestava -se pelo protesto. pedindo-lhe o perdão de acto. Carla Dom senso e bom gosto escrevia Anlhero do Quental atacando a pedantocracia: «Refundem-se as crenças antigas. confundindo as novas ideias versatarios que com os disparates de linguagem dos uni- «tacteavam o solo do seu paiz.» Os poderes puldicos n<1o se achavam enlào n'eálc grão do idioa Keprc«eolaçào nào foi allendida. Castilho presenliu que não podia ser adorado n'esse meio mental. e Carlos. para o céo dtijar cair orvalho benéfico sobre a existência tão rara e tão necessária do prín- cipe I). á politica. tjnha ainda a incoerência de ideias e preoccupação do eslylo. é esía RepresenlaçAo de abril de 186Í ao Kei. pretextando abstenção de plicou de um modo directo aos apodos de Castilho. mas essa produziu jNa réplica em forma de caria uma grande impressão sobre o publico. . destituindo os nebtdosos. com o seguinte íuiidametilo: «Voar depressa ao centro da familia para juntos orarmos a Deus pela áiialarão das vidas do Bei e da Rainha de Portugal.y>*- amigos do seu d'esta geração Ninguém poderia suspeitar que no meio nulla.» Anlhero intuitos litterarios. e a poesia pela audácia Vivia-se descriptiva de Victor Hugo. re- do Quental. e lançou-lhe um raio da sua cólera clássica. e que reagiam ousadamente contra a dissolução d'esse deplorável meio. Desmoro- nam-se as velhas religiões. como o da inquisilorial Sala dos Capellos em !802 contra a disciplina da Universidade. tia.

as almas sentem-se menores. das. das rendosas conezias das prebendas. e n'ellas se dispenderam os primeiros esforços. das e. e como a edade heróica do pensamento. nem sobre os perigos. íla traliir uma Humanidade em dissolução. estes estas incertezas. era a edade das expansões lyricas. é mais provável encontrarem-se as condições que precisam para viver e crescer os pirito homens úteis e necessários ás transformações do es- humano.CA8TILH0 497 lam-se.» A Carta produziu um grande effeito pelo que linha de brante vaí?as generalidades envoltas em uma deslum- pompa oratória. Sairão esses heroes das Academias lilterarias? das arcádias? das sinc-curas opulentas? dos corrilhos do elogio as águias das capoeiras? Saltarão as ideias salvadoras mutuo? Sairão do choque das maledicências e dos doestos? Nascerão as dedicações do crusameulo das vaidades? Darão a grande novidade os ledores de Horácio? Inventarão as novas formulas os que decoram as phrases rabugentas dos livros bolo- rentos que chamam clássicos? E os Sócrates e os Epicte- los descerão para as suas missões das cadeiras almofadalitterarias. E nilo nos percaiuod em especulaçòeg philosopbícas sobre as origens.° 1. E. mais toda tristes. O futuro não apparece ainda. crente e formosa. 1. das. nada ha mais eíficaz para estimular a apathia mental do que a seducção artística. Tinha o seu lanlo de evolutivo. Estejamos certos de que na determinação serial do futuro que ^e prepara ba mais lógica. de que na confecção arlifícial dos nosí^os systemas. Para — este Iraballio é que se querem os grandes homens. 1879) es«Em quo psze a muitos é forçoso reconhecer e^la grande rnelan)orpho!=e. as causas ou os antecedentes d^e. Enlio degladiavam-ce 32 ao- .^te facto. Corroa Barata. as «fperançiis que d'aqui podem advir. menos ambiciosas de bem. quando não corrupta pelo menos esterilisadora. explorações?— Fora d'essa atmosphera corrupta. 1 * o creve ^ohre esta época: Dr." serie. menos dispostas ao sacriGcio e ás abnegações da consciência. entre estas duviabalos. na Revista de Coimbra {n. «Eu jà quasi não cot fui de uma época que era considerada entre os academi* escolas. de que é preciso exuma Humanidade viva. sã.

498 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL A indisciplina metaphysica iniciada pela escola de Coim- bra na forma de aspiração revolucionaria accentuou-se principalmente na poesia. emfim alargarIhe os espaços da idealisação. liberdade. pela primeira vez na litteratura por- lugueza deixou a poesia de inspirar-se do ideal do christianismo. D'es8e tempo são. para tirar a poesia do sentimentalismo egoista. se me não engano. Dos brilhantes espirilos que sairam então da Universidade. como a Polónia e a Irlanda. e nem po- mas exerceu a acção fecunda de um im- pulso novo. do homem e das cousas. cantaram-se as revoluções sociaes. Cantaram-se as dores dos povos oppressos. alguns ai eslâo bem conhecidos. imagens mais profundas. verdadeiras e pittorescas. entre outros. já aoffreram e?ta transfiguração que os aproxima do positivismo das concepções hodiernas. provisória. os quaes. Para luma mocidade que não estava acostumada a pensar. dos Hegel e dos Fichle. a phase dia deixar de sêl-o. o erotismo amoroso substituiu-se pela pela hallucinação e enthusiasmo pela paixão do sacrifício. socialista. e Jas novas formas politicas da Hespanha e da França. que precedeu ás ideias democráticas. republica- na-vermelha. Cá como lá passaram essas imaginosas theorias do mundo.» . O lyrismo pessoal envergonhou-se das pequenas emoções do individuo e vibrou os grandes protestos humanos . e etc. de orientar os sentimentos no sentido de um mais elevado No Parnaso portuguez moderno esià representada esta phase^volucionaria mas importantíssima da poesia a adliesão consciente e positiva foi portugueza. para dar-lhe formas mais espontâneas e vigorosas. Assim ficou a poesia transal- formada nas suas normas para receber as sugestões truístas provenientes da moderna concepção positiva do dava em voga a philosophía dos Kant. a poesia era o único meio de exprimir modo mais efficaz intuito. que fnão sabia converter a sua aspiração revolucionaria irresponsavelmente essa aspiração. foi rasgadamente anti-clerical. humanitária. os srs. e o em opi- nião democrática. Diz Jules Soury. Anthero do Quental. que estes pliilosophos lambem foram no seu paiz como que os semi-deuses de uma era mythologica.

a poesia paira em vez de arrastar-se. de pensamento e de acção. o fundador da Revista de Edinbourg. e foi por essa via. muitos outros livros e inuu- meras poesias dispersas pelas ephemeras dos últimos quinze annos. sendo des um o modo intellectual do outro. e a elle se deve o deliberal senvolvimento e triumpho do partido Philarète Chasles. Escola revolucionaria de Coimbra. e só lhe se fortifiquem por falta que os talentos que a modulam uma educação intellectual. com colorido. metrifica-se bem. inlelleclunl. historiando a vida d'esse em Inglaterra. revistas litterarias se já mesma corda sem mocom uma certa uncção mystica de justiça. da nossa decadência No começo quando os factos da Revolução franceza tinham desorien- tado os espíritos. ambos são accorem negar a mentira. ou antes. Francis Jeífrey. . pulsam a notonia. As Odes modernas de Anlhero de Quental representam o pri- meiro impulso revolucionário. era fundar uma disciplina critica para dissolver a falsa admiração. emfim dar á vida humana o seu fim serio. acreditar no que merece crença. inaugurada na poeestava sujeita a uma grande responsabilidade— uma o tra- balho sério. homem extraor«O senso cri- dinário. a elaboração poética do romã naio dissolveu-se em critica e sciencia. para que cada um possa assegu- rar as bases do verdadeiro. e o seu destino real de fé. não se pôde ficar inertemenle rapaz de esperanças. A primeira cousa a fazer. amar o que merece ou impõe o amor. A sia. comprehendeu primeiro do que ninguém a necessidade de dirigir o senso critico.» Na historia intellectual da Allemanha^ como o observa Gervinus. e era preciso aproveitar certa hostilidade da opinião publica para lhe fallar a verdade sem rodeios. com audácia. e pódedizer com alguma influencia sobre o espirito publico. depois d'essa phase revolucionaria. com vigor.CASTILHO 499 universo. uma das priíicipaes causas d'esle século. parte d'este seguro ponto de vista: tico ligado ao senso moral por liames profundos.

histórico. era essen- fundar a disciplina critica. A Escola de Coimbra manifestou-se no Porto em uma phase exclusivamente critica. que esse espirito orientado pelos princípios de 1789 pôde manter as conquistas da leis liber- dade civil. muitas vezes realisadas nas instituições de outros ^ Para reagir contra o felichismo das individualida- que exercem sobre a opinião publica um poder de perversão. uma distancia conveniente para serem bem comprehendidos em quanta a pedanlocracia portugueza atacava com a sua longa auctoridade os esforços d^aquelles que tentavam uma renovação Os factos são como os objectos. 2 No desenvolvimento das doutrinas democráticas interrompidas com 8 morte de Henriques Nogueira. lilteraria e scientifica n'este paiz como que aífastado das 1 Tal foi o pensamento da colleccionaçao do Cancioneiro e Romanceiro gera^ portuguez (18G7-1869) da realisaçao da Historia da Litleratura portugueza (1869 a 1871) e da crítica comparativa na revista Biblíogrnpbia da Historia e Litteratura. que pretendia restabelecer na sua forma exterior o antigo regimen. o processo critico consiste em seguir o s} slema empregado por Eckermann. partindo d'aí para avaliar as concepções individuaes segundo a mais alta comprehensão d'e3se elemento. pintar o individuo no que elle tenha de mais intimo ainda. des. Na lucta do espirito moderno contra a reacção estúpida da Restauração em França. o restabelecimento da continuidade bistorica faz preTftlecer o critério etboico do Federalismo. precisam de . As psychologicas exercem-se com a mesma fatalidade. dirigi- da por Dubois e Jouífroy. * para a Politica. para as Litteraturas. . e ver até que ponto está de accordo com as ideias. a disciplina consiste em restabelecer o encadea- mento povos. comtanto que se descubra o determinismo dos seus actos. cial Depois da transformação da poesia.500 HISTORIA DO ROMANTISMO KM PORTUGAL que o povo allemão caminhou para a consecussão