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•4-JÍÍ:

AGRADECIMENTOS

Agradec& só sabe quem fez

a experiência de sentir-se grato

àquilo que o determina, que ele próprio

não é.

,

Hddegger

Muitos contribuiram, de diferentes maneiras, favore- cendo nõinlia trajetória pessoal e intelectual. A todos, a minha gratidão por terem participado do meu A realização deste livro contou com o apoio e a com-

muitas pessoas^, em especial de meu marido,

minha filha, meus irmãos, meus amigos, a quem agradeço do fundo do coração pela paciência que tiveram comigo. Agradeço a Carlos Eduardo Freire, João Augusto Bpmpéia, Maria de Fátima Almeida Prado e Maria de Jesus Tatit Sapienza, pda disponibilidade para discutir e escla- recer dúvidas inerentes ao trabalho; agradeço a Maria Beatriz Cytrynowicz, pelo interesse e pela disponibilidade para burilar as ideias aqui apresentadas; agradeço, sobre- tudo, o.incentivo de Dulce Mára Critelli paia a publicação deste livro.

preensã o de

APRESENTAÇÃO

A razão e a-sua Tepresaitação

constituem apenas uma maneira de

pensar e de nenhum modo são determinadas por si mesmas, trios por

àquilo que ordenou ao pensamento pensar à maneira da ratio

Mais

grave, entretanto,

é o processo que enreda o Tãcionalismo e o

irracionalismo, de modo igual, num intercâmbio do qual não apenas não podem se libertar, mas nem mesmo querem sair. Nega-se ao pensamento qualquer possibilidade de descobrir um apelo situado fora

do. dilema racional-irradonal. Entretanto, um tal pensamento poderia, ser preparado por aquilo que ensaia passos cautelosos nos modos da

eludàaçZo

íiistórica, ãa rejlexão e da áisciíssao.

CHeidegger, Sobre o problema do ser]

BmDasdnsanalyse

e esquizofrenia:

um estuão-na

obra '

ãe Meãard Boss, que se originou da dissertação desenvolvi- da para defesa de mestrado da psicóloga e professora 'ida Elizabeth. Cartiinalli, encontramos três horizontes de questões.

t i primeiro está no sulotítulo, que situa a referência inida l da análise que a autora propõe: u m estudo na obra de Medard Boss. Encontramos neste HA^-O a oportunidade de te r maior

psiquiatra

•proximidade com o pensamento deste médico

suíço, que, sendo tã o pouco divulgado, é tã o pouco com -

Ida Elizabeth Cardinalli

preendido entre nós. E m todos os seus livres, Medard Boss fez questão de ressaltar o valo r de ter conhecido os mais importantes médicos do inído do século XX, como Freud e Jung , co m que m muit o aprendeu. Mas fo i ao filósofo Martin Hddegger que dedicou o lugar de Mestre, pois foi ele, com o vigor original de seu pensamento- acerca do ser

e do existir humano, que tomo u possível u m novo caminho

para os médicos compreenderem o homem-sadio ou enfer- mo, livres do aprisionamento- das concepções racionalistas e. aubjetivistas.

Atrajetória-de Medard Boss, reconheddo como autor original em temas chamados psicológicos ou psiquiátricos, inidou-se, em 1951, com a publicação de Sinn und gehalt der sexúellen ptrversiontn. Desde então, defendeu de un i modo muito firme um a posição que constantemente apon - tava os riscos da tradição do modd o técnico-dentífico que impregnava o pensamento médico. Ele não se abatia com as críticas às suas proposições a respdto do método fenomé- nológico de compreensão do existir humano e dizia, mais e mais, que a visão diagnostica baseada na sintomatologia e na etiologia gerais nã o era sufidente para o entendimento do homem enfermo. Dizia também que suas.apresentações eram apenas o inído de u m novo caminho para melhor com- preender e cuidar dos patíehtes, pois com o método feno- menológico nã o poderíamos chegar a uma verdade absolu- ta a respdto de-todos os fenómenos humanos. Além deste' ponto, outros temas de grande rdevând a para a terapêutica 2L-p2se.cÍ3m., eins\ias-paLe.stx;as ç.çiiblicaçães,tais. como os so- idios e a rdação entre.médico e padente.

nos

Gomo Medard Boss compreendeu a doença? Es-te é o segundo horizonte de questões que este livro oferece.-

ApTesentação

O tema desenvoMdo propriamente na monografia-

agora publicada trata, segundo a analítica do Dasdn de Hddegger, da doença e mais especificamente da esquizofre-

nia. Tendo explicitado e superado a visão subjetivlsta, que

enclausura

o homem nu m pseudolugar sem mundo, ser-no-

mundo é reconhecido como a condição fundamental dp existir humano. Dasdn, o modo como Hddegger descreveu

o homem, existe sempre nu m mundo de-irdações mais pró-

ximas o u mais distantes comj^essoàs e coisas. Assim, é coin base primeiramente nesta nova explidtação que a doença é compreendida. Ela não mais será entendida como uma en- tidade formada por u m conjunto de sintomas detmninados previamente, mas como u m modo dè alguém existir no

mundo. Isto é, dizemos que a pessoa.está doente quando h á um a retração de possibilidades efetivas de realização da própria existência. Essa redução (retração) das próprias

dar em diferentes âm -

possibihdades de realização pode se

bitos e em diferentes graus. Podemos encontrar a mais com-

prometedora redução quando se trata da própria liberdade- de existir, que é chamada de esquizofrenia.

A adequada exphdtação da temática da Dasdnsânalyse,

doença e esquizofrenia, que a autora apresenta'neste livro,

iinplica també m importante

etiologia, da psicogênese e da organogênese, bern como encaminha questões mais pertinentes à originalidade do existir humano, de cada um, como o sentido, a angústia; a liberdade e a íinitude o u ser mortal.

debate acerca das questões da

Na franqueza como empreende este debate, segimdo

a obra de Medard Boss, Ida Elizabeth CardinalH aponta u m

terceiro horizonte de questões. Sabemos que os temas doença, doenç a mental e esquizofrenia pertencem historicamente aos estudos praticados por médicos neurologistas e psiquiatras. Entretanto, a autora acdta o apdo da compreensão dos

Ida Elizabeth Cardinalli

pacientes esquizofrênicos e corresponde de modo vigoroiO ' ao convit e qu e as colocaçõe s d e Bos s fazia m pai a D ct£B3Í" nh o fenomenológico . El a se arrisc a num a empreitad a sem II

segurança

do reconhecimento prévio. Mas, no jSnal de ííU

trabalho, afirma:

Assim, entendemos que, mesmo que o conhecimento atual no campo psicológico e principalmente psiquiátrico nflo príorize as dimensões efetivamente htynanas, preservar cffta preocupação é uma maneira de o conhecimento sobre o tiOB\e.m maotet a.cesa ijma. chama, paia que ele. vâa Elqu« totalmente submetido aos requisitos cientííicos valoriza- dos na atualidade.

Percebemos ai seu compromisso com a nova visão, que ela procurou explicitar originalmente, e vimos-que o desa- fio a que havia se lançado implicava também expor sua pró - pria convicção. Este empenho comprometido e original é rea-r firmado na seqiiência do livro, fazendo que sua leitura seja de grande importância para aqueles que procuram melhor compreender a Dasdnsânalyse, o estar doente e a esquizo- ftenia, assim como a necessidade de reflexão filosófica para esta tarefa. Uma compreensão mais ampla dos fenómenos huma- nos nã o depende defínitivam'ente tanto do pensamento téc- nico, mas da disposição para a aceitação do que se mostra e da possibilidade de refletir sobre isto. Uma vez que Ida Elizabeth Cardtnalh se manteve próxima de sua meta, que não era disputar conhecimentos.; mas trazer novos caminhos para compreender mais plenamente o existir humano, po- demos entender o que possibíhtou seu trabalho, sem som-

bra

de dúvida realizado tã o

adequadamente.

Maria

Beatriz

Cytrynowicz

SUMÁEIO

 

.

17

IN118.0DUÇA0

 

1.

ESBOÇO BO PENSAMENTO DA PSIOULATRIA

 

• FENOMENOLÓGICA

•.

 

27

Karl Jaspers

28

Minkowski e Von Gebsattd

32

Binswanger

 

.•

34

2.

MEDARD BÔSS E O DEBATE COM A PSIQUIATRIA CLÁSSICA E A PSICANÁLISE FEEUDIANA

39

A

trajetória âe Boss

39

O

debate em relação às teorias

 
 

da psiquiatria e da psicanálise

 

45

As"crítícas em rdação à psiquiatria dássica

46

Os questionamentos em rdação à psicanálise freudiana. 48

As críticas ao conceito de etiologia da psiquiatria e da psicologia moderna

52

3. A ANALÍnCA DO DASEME

A DASEINSANÁLISE

DE MARTIN HEIDEGGER

57

As iàèias principais àe Heiàegger acerca do existir humano como Dasein

58

A distinção da analítica do

Dasdn

e da dasdnsanálise apresentada por Heidegger

64

As indicações heideggerianas para a daboração de uma ciência daseinsanalítica do homem

67

13

4. A DASEINSANÁnSE DE MEDAED BOSS

77

A

dasdnsanálise dlnica

78

A

dasdnsanálise e o método de investigação

fenomenológico-existentíal

80

A e a fenomenologia

daseinsanálise

81

A e«a existênda .".

dasdnsanálise

90

A

dasdnsanálise e a etiologia

94

.

A relação de determinação temporal

97

A

ínfluêntía da época. ,

100

Comentários sobre a perspectiva dasdnsanalítica acerca da génese motivadonal da patologia

102

/

5. A PSICOPATOLOGIA DASEINSANALniCA

105

A saúde e a doença

,

.107

iVIodos

de existir saudávd , nemótic o e psicótico

112

A neurose

113

A psicose

117

A classificaçã o das patologia s psíquica

s

118

Ser-doente caraderizado por uma perturbação prevalente na corporddade do existir

120

Ser-doente caracterizado por uma perturbação prevalente na espadalidade e na temporalidade de seu ser-no-mundo

122

Ser-doente caracterizado por mna perturbação prevalente na realização da afinação existencial .Ser-doente caracterizado por uma perturbação

124

prevalente na realização do ser-aberto e da liberdade

 

127

6. A ESQUIZOFRENIA

129 •

A

limitação e a des-limitação na esquizofrenia e na neurose obsessivo-compulsiva

 

139

Descrição de um paciente esquizofrénico

 
 

atendido por Boss

;

'.

141

Algims apontamentos sobre a psicoterapia com esquizofrênicos

147

Os sintomas esquizoírênicos segundo o ponto de vista da psicopatologia daseinsanalítica

150

Distúrbio do pensamento

151

Ddírio

151

Distúrbi o d a

percepção.,» .

1^3

Alucinaçã o

.".

1^3

Distorção da percepção visual

;

1^5.

Perturbação

do

sentimento doe u e despersonalização 155

Perturbação

da afetividade

 

-

157

Autismo

."

158

Considerações sobre a discussão de Boss sobre os sintomas esquizoírênicos descritos

 

. pdã'psiquiatria dássica

 

CONSIDERA-ÇÕES FINAIS

 

:

1^3

EEFERÊNCIAS BIBUOGRÁFICAS

171

INTRODUÇÃO

A escollia do.tema - a esquizoftenia em Boss - teve origem em nosso trabalho cHnico em consultório particular e, sobretudo, no acompanhamento de atendimentos dos es- tagiários da Clinica Ana Maria Poppovic, da Faculdade de Psicologia da PUC-SP. No atendimento desses pacientes, percebemos a importância de esdarecer os criténos de saúde e de doença, de aprofundar a compreensão de certas patolo- gias e, também, de pensar formas de intervenção para os casos considerados mais difíceis, segundo teorias denomi- nadas fenomenològicas e/ou existenciais. • Desde os anos 70, arada no curso de graduação de Psicologia da PUC-SP, temos iateressepda compreensão da experiênda dos padentes que apresentam problemáticas consideradas graves e complexas. Nessa época, as ideias em voga acompanhavam o movimento intitulado antipsiquia- tria, que questionava o caráter negativo atribuído pda psi- qvdatria tradidonal à concdtuação e à vivenda da loucura, e, prindpalmente, denundava os abusos praticados em suas propostas de tratamentos. Essas discussões nos estimularam a assumir uma ati- tude crítica, tanto em rdação às definições e explicações das doenças mentais quanto aos procedimentos de intervenção. Percebemos também que o pensamento psiquiátrico baseado

Ida Elhaheth CaTdinalU

nas abordagens filosóficas fenomenológica e existencial contribuía com um novo esclarecimento acerca das patolo- gias e das intervenções, pois focaliza a compreensão da vi - vência do paciente e considera o que é específico do existir humano. O pensamento filosófico fenomenoIógíco-exístendaJ, especialmente o hddeggeriano, além de contribuir para a compreensão das patologias denominadas mentais ou psí- quicas, oferece dementos importantes para a discussão dos fundamentos que embasam as diversas teorias sobre as pa- tologias humanas. Consideramos oportuno, assim o estado da teoria da. esquizofrenia bossiana pois, como da está orientada pelo pensamento heideggeriano permitirá não apenas esdarecer as patologias, mas também destacar questões e elaborar questionamentos importantes para a compreensão da expe-

riênda

sadia e patológica do homem.

A

esquizofrenia é uma das manifestações mais-seve-

ras das

patologias psíquicas e tem representado

u m grande

desafio para muitos estudiosos, em rdação tanto à sua das- siflcação, àdescrição dos sintomas e ao esdaredmento-es- pecífico desta problemática, quanto às propostas de fratar mento que permitam minorar- o sofrimento dos padentes e de seus familiares.

O quadro patológico denominado esquizofrenia, des-

de quando foi cunhado por Eugen Bleuler, em 1911, sofreu na história psiquiátrica inúmeras redefinições e revisões na descrição dos seus sintomas. Não pretendemos apresentar o histórico desse conceito nem as revisões daboradas pdos diferentes autores que pesquisaram sobre esta patologia, porque isto foge do âmbito da nossa pesquisa.

18

Introdução

Para destacar a complexidade do estudo desta temáti- ca, lembremos apenas a variedade de concdtualizações e definições da esquizofrenia, dtando os autores mais anti- gos e consagrados em cada área de pesquisa, tais como:

psiquiatria dássica (Kraepelin, E. Bleuler, Ey, Kretschmer, Schneider e outros) fípsiquigfria fenomenológica (Jaspe|s, M.'Bleuler, MJnkowsMTBinswãnger; Van den Berg); psíca-^-, nHisefreudianae os'diferentes seguidores de Freud (Klein, Bion, Lacan, Winnicott e oufros); epsicología analítica de Jung.

É importante esclarecei, tendo em vista este grande leque de formulações teóricas sobre a esquizofrenia, que o nosso trabalho não pretende apresentar um estudo compa- rativo enfre estas teorias e a de Medard Boss. As ideias de Boss, quando de pensa as patologias em geral e as patologias denominadas genericamentepdapsi- quiatria como mentais ou psíquicas, são peculiares se forem comparadas" com as desses autores mendonados, com exce- ção às dos psiquiatras fenomenólogos, pois, de um lada, de discute os fundamentos epistemológicos subjacentes às teo- rias psiquiátrica dássica e psicanalíticafreudiana,explLci- • tando a referenda básica que orienta as definições de ciên^ da, do-^homem e das patologias, e, de oufro lado, assume um oufro fundamento, exphdtado no pensamento hddegge- riano, para compreender o existir humano nos seiís modos saudáveis e patológicos. /BOM não foi o primeiro estudioso que se interessou pdo pensamento filosófico para pensar as patologias, pois antes já existia na Europa um grupo de psiquiafras {JasperS;, Binswanger, E. Straus, Von Gebsattd, R.Xuhn e oufros) que buscou nas proposições husserhanas e hddeggerianas de- mentos para repensar os quadros patológicos, a psicotera- pia e a psicanálise.

19

pl^tebalhosde Jaspers, 'Minkowski, Von Gebsattel e aiis-mostram, a influência do pensamento busserliaiio.

^E ^e s autores descrevem a vivência dos pacientes, buscan-

ta l como eles

^^^dtf^ a compreensão dos fenómenos patológicos

'Xséitiostram para o investigador e tendo como foco a inves- tigação dos estados da Consciência. A consciência no senÚ- dohusser^ano é sempre intencional, ou seja, é sempre cons- ciência de algmna coisa, nâó se a.presentando, assim, sepa- rada do mimdo. Os primeiros estudos dè Binswanger'mostram a in - flnênda da fenomenologia husserliana, e apenas o seu ija - balho posterior à publicação de Ser e tempo (Hddegger, 1927)

é que revda a presença do pensamento hddeggeriano para

o entendimento dos padentes psiquiátricos. Binswanger foi o primeiro psiquiatra a introduzir o pensamento hddeggeriano para o esdarecimento das pato- lÕgiasj)Sxqmcas~Suãs pesquisas iacentivaram outros estu- diosos a estabdecer a aproximação da psiquiatria com as íddas de Hddegger, como Straus, quejá vinha trabalhando com Binswanger, e uma nova geração, como Boss, Kuhn, Van den Berg, Buytendijk e outros. Os trabalhos desses diferentes estudiosos revdam um esforço na busca de uma outra compreensão dás patologias denominadas mentais ou psíquicas, quando utilizam as ideias de Husserl e Hddegger. Este esforço pretende, prioritaria- mente, esdarecer a dimensão humana e experiendal pre- sente nas doenças. Assim, vê-se que havia no meio psi- quiátrico e psicanalítico uma inquietação, que encorajou Boss no desafio de rever os moddos teóricos psicanahticos e psi- quiátricos para pensar novas formas de abordar a_§jtimção terapêutica e o fenómeno patológico. Todavia/Boss j^oi o único psiquiatra que Hddegger acompanhou na c&Ecímiçãp sua obra e no secfêsinrç Q de repensar"ãs"pitoÍoglâs

Introdução

psicoterapia numa posição feaomenolágico-existendal . sando snperariLaglQjnetafísíca do homem e aproximar uma

comprg&nsãçLmais

^/^^Imtend e que a psicopatologia deve,- inidalmente, esdai^cer'anatoreza básica da doença, isto é, a-"natureza existendal dosfênômenospatológicos" (Boss, 1979a, p. 19B), e, seguindo as indicações de Hddegger fdtas nos Seminários-, de Zollikov} (1987)\d£^Le que" as doenças físicas e psíquicas

humana

são privações na realização do existir humano saudávd. Ça- racteriza, tambémj,_o_£xistuisaudá2^egundo as-caraderísti- cas fundamentais do ser do Ras£Í^(str-ai)-, denominação ómhad a por Hddegger para o ser humano e exphdtada paia especificar as estruturas ontofógjcasflmdammtaJâL^fin^^. que õmiOislmportante para a ínedidM. e a psicologia é a condição

dãihêSãKlÊj3iIEba.dade,iemxoj!^^

çialidade, temporalidade, afínaçãj3_e.cojpj3xeiáade-dQ-J).as.etn.

Aposição de Boss épolémica no mdo filosófico, prin- dpalmente quando de utiliza as características existenciais hddeggerianas para definir a natureza básica do modo de existir saudávd e patológico, induindo a esquizofrenia, e

1 Esses"seminários foram constituídos por inidativa de Boss, que con- Arfdou um grupo de psiquiatras e psicanalistas suíços interessados em conhecer o pensamento heideggeriano. Posteriormente, Boss orga- nizou os registros das palestras, as anotações dos diálogos entre eles, assim como as cartas enviadas por Hddegger, o que resultou na obra denominada Seminários de Zollikon (1987], Esta obra foi traduzida para o português por Gabriela Arnhold e Maria de Fátima de Almei- da Prado, sendo publicada em 2001. ^^^JMz obra Ser e tempo (1927], Hddegger, na busca de esclarecer á questão do sentido de ser, explidta as estruturas ou características ontológicas de ser do Dasein, que denomina "existendais". Já que estes são determinações de ser do Dasein, não são pensados como categorias, isto é, como classes que pertencem às coisas, mas como modos possívtís de ser.

•Hdamzàbeth Cardtnalll

também para orrentar o esdarecimento tanto dos processos terapêuticos quanto dos modos específicos como alguém realizajfll viver.

. uiA;^'^^^dn )jl988 ] nã o atribui erros graves aos estudos de

" (B^wan^TíoS^ , uma vez que estes jãocompreenderam asgSãsggmvõívidas èm Ser e tempo gleidegger, 1927} como uma teona descritivalo homem ou como uma teoria pres^ - tiya do processo terapêutico. Mas, ao mesmo tempo, de con- sidera que a apficação do pensamento hddeggeriano para discutir e ampliar a psicanálise foi prematura, pois os aspec- tos centrais da "analítica do Dasein foram usados como novos dementos para pensar o processo terapêutico:

Sobretudo Binswanger e Boss apelaram multo cedo a Ser e Tempo para criticarem, corrigirem e ampliarem a psicanálise pda interposta via heideggeriana. Não a olharam tanto como xmia nov a teoria do homem, descrição^ a ser convertida era prescrição nos processos terapêuticos e investigatórios da psicanálise. Ser e Tempo representou paia des o novo modo de çereeher a existênda a partir de um paradigma que supe- rasse o dualismo cartesiano, a teoria da hegemonia de cons- ciênda, a relação sujdto-objeto. (Stein, 1988, p. 127)

Loparic diz que Binswanger e Boss procuraram traba- lhar com os existendais específicos do campo da psiquia- tria, mas assinala que Boss não conseguiu avançar muito

em rdação ao que foi apontado por Hddegger nos Seminários de Zollikon (1987): "Boss tentou fazer este trabalho em seu GmndzUãe derMeãizin und Psychologie^ (2.- ed. 1975). Mas

de pouco avançou (

)"

(Loparic, 1999, p. 121).

Loparic refere-se à obra de Boss, que será utilizada neste trabalho na sua versão para o inglês, denominada Existential Foundation of

Medicine & Psychology (1979al

Introdtiçãtt

Uma vez que o próprio Boss reconhece que sua teoria .

é apenas um esboço inídal para a construção de mna teoria da

psicopatologia ^daseinsanalítica, j á sabemos de

não encontraremos um quadro teórico conípleto da patolo- gia esquizofiênica. Mas, mesmo assim, consideramos opor- tuno o estudo da teoria da esquizoôenia.bossiana, pois acne-- ditamos que este permitirá ésdarecer.o tipo de contribuição--, decorrente do encontro entre o estudo dos fenómenos sadips- e patológicos do existir hmnano-.e a refiexão filosófica da existênda humana orientada pda ontologia hddeggeriana.

antemão que

Este hvro apresenta o texto daborado para a disserta- ção de mestrado do Pós-Graduação. de Psicologia Clinica da. PUC-SP apresentada em 2001, com algumas modiBcações, tais como a atualização das referendas indicadas' no livro Seminários de Zollikon, considerando a publicação recente

desta obra em português.

Na pesquisa, foi examinada a teoria da esquizofrenia de Boss, procurando-se, para esta daboraçâq, detectar a re- cepção das iddas hddeggerianas e explidtar sua contribui- ção para o esdarecimento dos fenómenos humanos sadios e patológicos.

.•

Para tanto, é analisado, primdramente,. coiho Boss

ao formu ^

sua teoria da psicopatologia, destacaiidò-seTs inidagações e aTrespõstã:s~que encolãtiã'nÍs iddas de Hddegger. Em se- guida, são apresentadas as iddas de Boss rdativas às pato- logias psíquicas, em especial a esquizofienia.

entende_ejitilizaj)

Tendo em vista os objetivos já descritos, o livro está' organizado em sds capítulos.

Ida Elixabeth CarãinaUi

Inicialmente, apresenta-se um pequeno esboço das ideias dos autores mais representativos da psiquiatria feno- menológica, situando-se as críticas e o entendimento das patologias psíquicas aí desenvolvidas.

P segundo capítulo mostra a trajetóiia de pensamen-

to de-Boss, os questionamentos em relação à Ciência Natu- ral, à psiquiatria chamada clássica e à psicanálise freudia- na, para destacar as questões 'que o motivaram a procurar novos fundamentos para as teorias psiquiátricas e psicoló- gicas no pensamento heideggeriano.

O terceiro capítulo exphcita as principais ideias de

Hddegger sobre o existir humano como Dasein e como ser- no-mundo. Fdta a^iferendação entre a analítica do Dasein

e a daseinsanálisWé possívd esdarecer as dimensões dos

fenómenos ontológicos e ôntícos, bem como assinalar as indicações hddeggerianas para o entendimento da psicote-

rapia e da psicopatologia.

Os próximos capítulos expõem as proposições bossianas

no campo da psicopatologia e da psicoterapia. O quaxto

capítulo situa, em linhas gerais, a formulação de Boss sobre

a dasetnsanálise clínica, esdarecendo o método de investi-

gação daseinsanalítico, denominado fenomenológico e.exis- tendal, e, íinalmente, apresentando a compreensão de gê- • nese motivadonal no desenvolvimento dos modos saudá- veis e patológicos.

O quinto capítulo mostra como o concdto gdral de Boss de saúde e de doença está apoiado nas indicações hddegge- rianas, ao definir a doença como privação das condições de

4 ]

A palavra alemã Dasrínsamlyse

não é habitualmente traduzida quan-

^

do se refere ao pensamento heideggeriano ou às ideias sobre psico- terapia e psicopatologia baseadas neste íilósofo. No entanto, opta- mos por aportuguesá-la, utilizando a expressão "dasetnsanálise" no corpo do livro.

24

Introdução

saúde. Em seguida, são apresentadas as diferenciações entre os modos saudáveis, neuróticos e psicóticos, e a classifica- ção dasdnsanalltica das doenças.

• O sexto capítulo descreve a compreensão da esquizo-

frenia segundo Boss, estabelece as diferenciações possíveis do concdto de lúnítação e des-linntação na esquízoírema e em outras patologias. Apresenta o relato de um padente, esquizofrénico, descrito por Boss, para ilustrarcomo o au- tor pensa o modo de existir esquizofrénico, e alguns apon-

tamentos sobre a psicoterapia com esses padentes. Final- mente, será mostrado como Boss pensa os sintomas esqtá- zoírênicos descritos pda psiquiatria dássica. Nas Considerações Finais, retomamos as ideias do au- tor em tomo do tema, indicando alguns aspectos que nos pareceram necessários para aproftuidar esta discussão.

25

1

ESBOÇO DO PENSAMENTO D A PSIQUIATRIA FENOMENOLÓGICA

Nas ciênría naturais, os trabalhos de tempos passados têm interesse quase puramente histórico. Estão superados, com eles-nada mais se aprende. Nas ciências humanas, os trabalhos mais importantes têm, além do valor puramente histórico, um valor permanente [—]•

(Jaspers, Psicopatologia geral)

Neste capítulo, será apresentado um pequeno históri- co do que é denominado, em sentido genérico, psiquiatria fenomenológica. Esta apresentação foi organizada conside- rando-se os autores mais representativos dos três momen- tos da psiquiatria fenomenológica descritos porEUenberger,'

1 Ellenberger, no texto "Introducdón dlnica a la fenomenologia psiquiátrica y análisis existendal" (1977), assinala três etapas dis-. tintas na psiquiatria fenomenológica, denominando os estudos psi- copatológicos de Jaspers "fenomenologia descritiva", os trabalhos de Minlcowski e Von Gebsattd como "fenomenologia genético-estru- tural" e os estudos dc Binswanger, Straus, Fischer, e também alguns trabalhos de Minkowski e Von Gebsattd, como "fenomenologia ca- tegorial" [in May et alii 1977, pp. 123-160).

• Jãa mizabeth CariinaW

visando destacar os questionamentos compartilhados por es- ses pensadores. Também pretende assinalar algrunas das di - ferenças de posição por eles assumida. Esses pesquisadores encontraram - num primeiro momento, no pensamento de Husserl e, num segundo, no de Hddegger - elementos para que seus estados dos fenó- menos patológicos não maisficassemrestritos ao modelo de pesquisa da Giênda Narinul. Encontraram no pensamen- to filosófico fenomenológico e existendal-uma possibilidade de compreender as doenças na sua espedfiddade íiumana. Estes estudos apresentam, também, a influêntía de outros filósofos como Díifhey e Bergson, conforme será apresenta- do oportunamente. Segue-se uma breve apresentação do pensamento de importantes teóricos da psiquiatria fenomenológica.

n

Karl Jaspers è considerado como o primeiro pesquisa- dor que aplica a fenomenologia busserliana/aos estudos psicopatológicos. Esdarece que emprega a palavra^ "feno- menologia" no primeiro sentido explidtado pOT Husserl, isto é, como uma "'psicologia descritiva' dos fenómenos da cons- dênda" (2000, p. 71), e não no sentido pleno do conceito husserliano da|i&Qr(m'en5lõgíã"'aditíc^voltada à essência dos fenómenos. AssimrquãMTrffãnspõe a fenomenologia husserliana para o campo da psicopatologia, visando ao esclarecimento da "vivência psíquica individual" dos pa- dentes (ibidem), este autor utiliza-a num sentido mais res- trito do que o pretendido por Husserl, pois estabelece, ini- dalmente, os seguintes objetivos para setis. estudos:

Esboço ão pensamento da psiquiatríajenomenolôgka

• À fenomenologia compete apresentar de manara viva, ana- ' lisar em suas rdações de parentesco, delimitar, distinguir de forma mais precisa possívd e designar com'termos fixos os estados psíquicos que os pacientes vivendam. (2000)

.

A fenomenologia, segundo Jaspers, pretende tantq captar a vivenda do indivíduo psiquicamente doente,-isto ' é, aquilo que é "vi-vido diretamente" por de, quanto descre-

ver de "maneira viva os estados psíquicos quê os padentes. ' ^

•vdvendam", conforme afirma:

O importante na fenomenologia é, portanto, exercer a 'vi- são pregnante do que é vivido diretamente pdo doente a

fim de poder reconhecer o que' há de idêntico dentro da

multiplicidade. pOoidem, p. 733

Ao mesmo tempo, Jaspers esdaiece qiie seu trabalho não é um representante estrito da corrente fenomenológi- ca,^ pois é também uma psicopatologia compreensiva. Aqui ele utilixa a âistinção de Diltiiey entre o " explicai" e o " com- preender", conforme mostra Pereira:

Jaspers, esse discípulo de Husserl, retoma a dássica distin- ção, introduzida por Dilthey, entre "explicar" [Erklliren) e o "compreender" [Verstehen]. Preocupado em definir os mé- todos próprios a cada Cíênda, Dilthey concebia a explica- ção como o procedimento essencial da ciênda da natureza. Já as dêndas do espírito, incapazes de conferir a mesma precisão a seus objetos, deveriam esforçar-se para estabe-

2 Jaspers diz no prefádo da sétima edição do seu livro Psicopatologia geral (2000, p. vii): "meu livro é, por vezes, designado como repre- sentante da corrente fenomenológica ou da corrente compreensiva; so em parte esta designafão é coireta, uma vez gue oseu sentido é ' mais compreensivo".

Ida:Elizabeth Cardinalli

lecer as conexões de sentido entre os fenómenos sutis do espirito, de modo a tomar acessível sua lógica interna. (2000b, p. 6}

QuanddÍJasp^di z que sua psicopatologia é também uma Vfisicologia compreensiva^'' pretende i r além da mera descrição fenomenológica da vivência dos pacientes, visan - do esclarecer o que ele denomina "conexões do psiquismo" (Jaspers, 2000, p^3.6-lVNQ-e§darecimento das conexões do psiquismo,'estabelece inna distinção entre^giodelo de cau- salidade da gênci a Natural, que é denomimáoJlexali^cãQ causal de fora", da "causalidade de dentix)".^r^^gir.a:,_a exBncaçã,Q-causal-d&-fQra, é.aguda que estabelece as cone- xões de_determmaçãQ^^ isto é, que visa idgHÍi&gax,e^>^ ocpiicar oíjjetivamente a regularidade entre os fatos.{A_se-^

^und ^ "aexplicação de dentro", é denominada compreen-.

sao genétíc"ã"é préfgide esclarecer como um evento psígm -

co é seguido por outro; sendo assim, quer compreender, por éxêmploi:'õsleguiiites fenómenos: as reações vitais, o desen- vôivunento das paixões^ o conteúdo do sonho, o ddirio, d c Jaspers assinala que o conhecimento advindo da com- preensão genética depara-se com certos limites, se foy com- parado com o proveniente da exphcação objetiva causal, uma vez que de percebe que certos fenómenos psíquicos suce- dem outros fenómenos psíquicos de tuna mandra hicom-

preensívd . Diz Jaspers:

"as etapas de evolução na Atida psí -

quica normal, as fases e os periodos da anormal são sequên-

cias temporais incompreensíveis" (ibidem, p. 41).

O autor não nega que os fenómenos humanos possam ser estudados através do moddo explicativo causal; no en- tanto, ressalta que as dimensões efetivamente humanas, as dimensões psíquicas, são melhor apreendidas pda compreen- são genética. Assim, diz que é erróneo supor que o estudo .

30

Esboço do pensamento da psiquiatria fenomenológica

t

da dimensão psíouica é restrito à compreensão eque açes-' quisa dos aspectos físicos restringe-se às explicações cau- sais, pois os fenómenos psíquicos também podem ser estu- dados e explicados conforme o moddo daCiênda Natural, quando se busca a causa do fenómeno psíquico nos aspec-

tos físicos ou somáticos do homem.vTodavia, para este aú-^. tor, as teorias psíquicas explicativas desrespeitam as unida-

fenomenològicas e as conexões .compreensivas, e nã o

têm um estatuto de uma teoria universal, podendo .rio má- ximo apt^seatsir wm caiátei de utilidade momentânea, pois para uma teoria ter um caráter univemal seria necessário o confronto ou o "choque contra o incompreensívd" (2000, p. 366J. Vê-se que a primeira tentativa de aplicação da feno- menologia para o estudo das patologias humanas - a psico- patologia de Jaspers - .apresenta determinados pontos que permaneceram em outros estudos da psiquiatria fenomeno- lógica, apesar de serem desenvolvidos de outros modos, tais como: (a) a btrsca de fundamentos filosóficosmais pertinentes à çonq)reensão do ser humano e das patologias humanas do que os oferecidos pd o moddo da aênci a Natural; (b) o question-amento do moddo explicativo causal da Ciênda Natural para o estudo dos fenómenos humanos, buscando outras formas de explicação e/ou compreensão para as pa- tologias psíquicas, que na teoria de Jaspers é proposta como uma compreensão genética dos fenómenos psíquicos; (c) a consideração de que a posição fenomenológica oferece elementos para o esclarecimento e a descriçã.o das ex- periências dos padentes; (d) a proctura da descrição do que ' é vivido e experienciado pdo próprio paciente.

des

31

'"fdaMizabcth CardinaUt

Minkowski e Von Gebsattel

Os passos de Jaspers foram seguidos por diferentes estudiosos, conforme fo i mencionado anteriormente, talfí como MinkowsM e Von Gebsattel. Os estudos destes autorias são denominados fenomenologia genético-estrutural, çorqw. eles consideram ser necessário, além da descrição das vlvôn- cias do paciente, o esclarecimento das conexões e das inter- relações das vivências em cada patologia mental, por meio da identificação de uma estrutura que organiza essas vivên- cias perturbadas do paciente. Ao procurar descrever o transtorno gerador através do qual pode ser deduzido o conteúdo da consciência e os sin- tomas do paciente, MinkowsM desenvolve uma análise es- trutural dos fenómenos patológicos. Ele não considera que

uma síndrome é um a

sim "a expressão de uma modificação profunda e caracte- rística da personalidade iateira" [1973, p. 209). Como atrás do sintoma e da síndrome existe, sempre tim a personalidade iateira, o autor v ê a necessidade de penetrar nos siutomas

até chegar na "personalidade viva" (ibidem). Minkowski e Von Gebsattel, por exemplo, nas inves- tigações das vivências dos pacientes melancólicos, assiaar Iam que o transtorno básico destes está relacionado à expe- riência do tempo; sendo assim, consideram que os outros sintomas damelancoha devem-ser entendidos combasenesta experiência. Assiaalam que os melancólicos nã o experien- ciam. o tempo "como uma energia propulsiva", mas o sen- tem como um refluxo da corrente temporal. Deste modo, para esses pacientes, o futuro é percebido como bloqueado; sua atenção se dirige ao passado e o presente é sentido como estancado.

simple s

associaçã o

de sintomas ,

ma s

32

Esboço do pensamento da

psiquiatnafenomenológica

Minkowski dedica-se longamente ao estudo da esqui- zofrenia e condui que a perturbação básica desta patologia aparece na perda do contato vital com a realidade. Baseado na noção do autismo, percebe a perda do contato vital com a realidade como a perturbação essencial da esqmzofrenia (1973, p. 254).

Quando utiliza a noção de impulso vital para seus estudos da esquizofrenia, Minkowski parte das colocações de Bergson, de que na vida h á dois princípios em oposição:

A iatdigência e a intuição, o morto e o vivo, o imóvel e o fluente, o ser e o acontecer, o espaço e o tempo vivido, que são os diferentes aspectos sob os quais se manifesta esta oposição fundamental, (ibidem)

Assim, o autor analisa como esses princípios apare- cem na vivência esquizofcêiúca, concluindo que "a catego- ria que entra em crise nesta perda de realidade é a tempo- ralização" (ibidem), isto é, o tempo não é percebido como tuna continuação ou duração criadora. • Os trabalhos de Von Gebsattel para estabelecer as re- lações enfre as perturbações biológicas e psicológicas são iátítulados "investigação construtivo-genétíca". Ele desen- volve também u m estudo sobre o mundo dos neuróticos compulsivos,^ chamado "teoria estrutural fenomenológico- antropológica", em que diz que o mundo do compulsivo • carece de formas amistosas, inofensivas ou indiferentes. O mrmdo todo tem um caráter fisionómico, onde todos os objetos se mostiam em decomposição e deterioração; assim.

3 Este estudo é apresentado, de modo condensado, sob o título "El

mundo de los compulsivos", no livro Existenría

pp. 212-2343.

(cf. May et alii,

1977

Ida Elizabeth CardinàlU

as coisas parecem feias, sujas, repulsivas e repugnantes. Deste modo, assinala que o paciente não luta tanto contra coisas repulsivas quanto contra -um clima geral repelente, isto 'é, contra u m mundo de foimas decadentes e de poderes des- trutivos. O autor condui, em última análise, que esse mun-

do é o resultado de um tipo concreto de obstaculízação contra

a auto-realização.

Conforme já M indicado na Introdução, os primeiros trabaIlios-d^^ínswan|er foram fortemente influendados pela fenomenolo^íar^ússerliaria, eapenas seus trabaHios poste- liorggjevglam a presença do yrnsamento heideggenano.

.

N a primeir a

etapa,

quand o BiiiswiaB^gi.visa-ao

estud o

fenomenológiçQjâSJLo^D-ças.psíquicas, ele.jii£erencia3psi- quiatria fenomen£lógi£.a da„prop.ojsta_d husserliana». q.^^ tein,.pjor,fim.a.çaptaçãq„da_e^^ dos fenómenos. Eesciarece que esta apenas oferece conceitos básicos que fomentam o esdaredmento da investigação fenomenológica da psicopatologia.* Para esse autor a perspectiva fenomenológica difere tdooabém da psicopatologia dássica e da psicanáUs^^s^sta s uBlKãm~rob"S-avãçâFêãraS como dgmãJroslpSãHãBõim ^ que explique seus sintomas, -enquanto a^perspectiva fenõrãmõTogica preten- de,_griontariame^ nas significações e no próprio^fcnômmo^ariormal^j^^ -grgcprêssWIingui ^ Binswanger es- darecê no s eguinte tecbo:

4 Cf. Binswanger, "Sobre fenomenologia" [1922], em Articulas y conferencias escogidas (1973).

34

Esboço, do pensamento da psiquiatria fenomenológica

O fenomenólogo que analisa a vivenda patológica con-

templa esta, em primtíro termo, não como modo (espéde) concdtualmente ílxado de um género psicopatológico, a

fim de refíetir sobre.da e continuar daborando, senão que busca adaptar-se às significações que a expressão linguis- tica do enfermo suscita nele e penetrar np próprio fenóme-

no anímico anormal indicado pela linguagem. (1973, p. 44)",

Num segundo momento, qúàndo^ú to heideggeriano para, p estudo.-psiquiátrico, Binswanger inaugura um modo novo de abordar o fenómeno patológi-

^

co,, denominado existencial ou daseinsanaUtico. Modifica seu foco de estudo da compreensão das vivendas patológicas do padente, rdativa s aos estados da consdênda , para a çxg\icita.(;B.o ãa existência ou, mais especificamente, para

o projeto de mundo do padente. O autor esdarece que sua

análise existendal não pretende estabdecer teses ontológi- cas^_masjim^afirmçõ-es.ôrrti

dos_efetiv^_sobre formas e configurações da.existência tal

cõfaõ~sê apresenta na rèaÍIdãdFTl977, y. 23^

~

Se^d o Bhiswánger, as teses hei.deggériahas sobre"a

existênd-a como ser-no-mundo permitem superai a vdh a

flicotomia

entre sujeito e obleto. Sendo assim, diz-.

I

( )

no-mundo pode-se superar o defeito fatal de toda a Psico-

somente graças ao conceito de transcendência do ser-

X

logia (

)

esse defeito fatal a que me refiro é a teoria da

r)

dicotomia do mundo em sujeito e objeto. (Ibidem, p. 237]

Quando compara a investigação anahtico-existendal

com a biológica, Binswangerassinala que a primeira, ao usar

a estrutura existenda l do ser-no-mundo e da transcendên-

cia, não predsa utilizar um conctíto vago como vida. Além

35

ida Elizabeth Carãinálli

disso, pode deixar que a existência fale por si mesma, ou seja, que os fenómenos sejam interpretados como "fenóme- nos de linguagem" (ibidem, p. 246].

"fenome-

í p nologia categorial" por Ellenberger, nma vez que o mundo

i V

^

£Õ s estudos binswangerianos são batitulados

O^Q dos pacientes é descrito segundo categorias, tais como: tem-

^ I t) poralidade, espacialidade, causalidade e materialidade. Para -J?^^ Binswanger, o conhecimento da estrutura da existência,

çf '''t explicitada por Heidegger, fornece uma chave sistemática para

^ ? °i a kkvestigaçãQ imediata da análise existencial, pois ele biisca o \ esclarecimento da existência dos pacientes baseado nos

^ '\s ontológicos heideggerian^, conforme iios diz:

Sabemos que temos que verificar o tipo de espacialidade e temporalidade, de iluminação e disposição," a confígara-

ção, matéria e movimento da concepção do mxmdo através

da c[ual se orienta uma forma determinada de existência ou sua configuração individual. (Binswanger, 1947) •

Assim, parajBiDSwanger/ as_patologias sãn descritas como flexões da estruturaJiDíológicado ser-af De.ste modo, os sintomas não são vistos como fenómenos isolados, mas sim como pertencentes a um todo "no sentido da unidade de um dese22ho do mundo" (ibidem, p. 251). A esquizofrenia,^ segimdo esse autor, é descrita como inconsistência da experiência natural, cisão da consistência da experiênciaem alternativas contraditórias, encobrimen- to e desg.astê~aãê5astèhcia.

As considerações sobre a esquizofrenia, segundo Binswanger, foram baseadas no trabalho não publicado de Martha Gambini: "Binswanger tEdâegger. conjimfões e desencontros", apresentado no V Congres- so de Psicopatologia Fundamental em 2000, mimeo. '

Esboço do pensamento da psiquiatria fenomenológica

4

Para ele, a experiência natural

é aquela queilu i sem

obstáculos e problemas. Assim, a cadeia de eventos na ex- periência é natural quando é iuerentemente consistente, ou seja, quando está em harmonia com as :coisas,- com os ou- tros e consigo mesmo. Deste modo, a existência esqtdzofrê- nica pode ser caracterizada pela mtcapacidadedo doente "de

'deixar as coisasserem', num eiicontro imediato com das, ft. ou, em outros termos, pda incapaddade- dese morar sere- ^ namente com das" (Gambini, 2000, p. 2). ^

Çaia Blnsvía.Tvge.r, também,'^ é .p.elo colapso na conais- tênd a da experiênda natural que são compreendidas as outras manifestações esquizofrênicas, tais como o delírio de perseguição, a incapacidade de encontrar saídas para sua própria existêntía, a formação de ideais extravagantes, até chegar à renúnda do reladonamento livre com o próprio estar-lançado. Segundo Ellenberger, as propostas dá fenomenologia psiquiátrica e da anáhse existendal de Binswanger seguem as seguintes distinções:

* a análise existendal não se limita à.investigação dos ""êsíãdos da consdênda, uma vez que procura o esda- redmento da estrutura da existênda do individuo;

^

. a psipuiatria fenomenológica procura a unidade do mundÕínterior do padente, enquanto a análise exis- tendal pressupõe que um indivíduo pode viver em dois ou mais mundos; • ^ fenomenqlpgía só considera os mundos subjeti- vos imediatos da experiênda, enquanto a ap.álise. existendal binswangeriana busca reconstruir o de- senvolvimento e a transformação do mundo (ou dos mundos) do mdivíduo, implicando uma uivestiga- ção biográfica (ín May et alii, 1977, p. 156).

Ida Elizabeth ÇardinaUi

Confoxme j á indicamos na introdução deste trabalho, os estudos de Binswanger impTilsionara m outros psiquiatras

e psicanalistas a se aproximarem das ideias de Heidegger para o estudo das patologias físicas e psíquicas; entre eles, está MedardBoss, o autonescolMdo para o desenvolvimento desta pesquisa. No entanto, seus estudos não podem ser meramente vistos como uma continuidade das ideias binswangerianas,

u m a

ve z qu e ele introdu z

modificaçõe s significativas ao

pensar as patologiassegundo a orientação do próprio Heiàeggej. A obr a c^^^^evH a fpie-ae\iÍ7vi:eTess£4alQiil:&-

r i o est á voltado para o âmbito psícoterápíco e nã o par a Q d n elaboração de um tratado psicopatológico. mesmQ_anaJido busca compreender os modos de ser patológicos.

38

2 .

• •

MEDÀRJD BOSS J ff DEBATE COM A PSIQUIATRIA CLÁSSICA E A PSICANÁLISE FREUDIANA

) (

concepções sobre a constituição Jundamaital do modo-dc-scr do homem.

{Boss, Introdução à ãaseinsanalyse]

uma psiquiatria futura não escapará de repensar inicialmente suas

Me4ard Boss estudou Medicina em Zurique. Espe- cializou-se, inicialmente, em psiquiatria e psicanálise, tra- balhando como psicanalista durante muitos anos. Em sua trajetória profissional, teve oportunidade de conhecer os pen- sadores mais importantes da época, tanto da área médica e psiquiátrica quanto da filosófica, como Sigmund Freud, Carl Jung, Eugen Bleuler, H. W. Maier, Ludwig Binswanger e Martin Heidegger. Ressalta a importância desses contatos em sua formação profissional, quando diz:

No decorrer de miiLha formação proflssional fui partlcular- mente privilegiado. Pude escolher entre os mdhores pro- fessores. Começando pdo fisiologista prémio Nobd W. R. Hess,

39

• Ida Elizabeth Cardinalli

até Sigmund Freud, com quem iniciei em 1925, era Vicnn, minha análise didática, e C. G. Jung, ao qual me ligou niiilfi tarde um trabaDio de dez anos. (Boss, 1997a, p, 6]

Segundo Boss, desde estudante d e se preocupava com os limites dos estudos tíentíficos orientados pd o pensãmcnln da Ciênda Natural para abordar e captar as caraderísticas espedficas do ser humano. Esdarece que esta preocupaçfto foi despertada durante seus estudos^^om Eugen Bleuler, o qual "me abrira os olhos para o fato de que as pesquisas tíentíBco-naturais nã o podem ter acesso justamente ao que é propriamente humano de nossos doentes [in Hddegger, 2001, p. 308). As ideias de Binswanger, sobretudo nos textos que questionam os fundamentos das teorias psiquiátricas e psíca-

nãliticasdássicas, .e_que_seguem o pensam^tobuaserlian o ,e

tódeggmanqjmra^a^da^

emgos ^ interesse pd o pensamento hddeggeriano:'Ek diz

desp ertaram

Cqu^ins^pSrgérLf^

estudioso que vislumbrou a

importãnda. das ideias-de Hddegger,tantQ.para a.díscussao àas_bases^_das teorias^científicas quanjto jp^ a q_est^^^ mpitaiejo.^^^ náhse. Assim, ressalta que:

Ludwig Biaswanger não tardou a descobrir - e nisto de foi o primeiro - o quanto a concepção hddeggeriana da es- sênda do existir humano era capital para a psiquiatria, à qual serviria de nova base, e como as características de ser do homem expostas em Ser e Tanpo se revestiam da maior importância para a medidna em seu conjunto e para a psi- quiatria em particular. (Boss e Condrau, 1976, p. 6)

Segundo ;^os§., Binswanger 1á percebia os limites da aplicação do método dentífico natural nos estudos psiquiátricos,

Mcdard Boss e o debate com a psiquiatria clássica e a psicanálise Jfeudiana

mas é com a ajuda das iddas de Heidegger que ele demons-' tra mmudosamente coino o pensamento das Ciências Natu- rais é insufidente para a pesquisa do comportamento, pois desconsidera "o caráter específico da existênda humana" (ibidem, p. 7) quando assutne a \dsão de mundo cartesiana, que pressupõe a divisão sujdto-objeto." • - .

Assim, fo i artavés dos trabalhos-de Binswangergue_

Boss percebeu que a ontologísLhddeggeriana,

existênda humanaçomo ser-nõ-muhdo,.oferece-deanentg^ para mtender o existir do homem-sem manter j^^^dMsão cartesiana. Ssmaía,'-'p6Témr ^ Binswanger buscava no pensamento hddeggeriano dementos para re-

ver a psicopatologia, foram questões prioritariamente -tera- pêuticas que o motivaram para o estudo das ideias deste

ag

pensar a

filósofo. Boss constata, emjeusjtgndmenfos psíçoterápí;::,

cos, a necess!5adé de regra s interpretações teóricas da psi- quiatria e da psiçariálise clássica ^ respeito das dificulda- des, dossintomas^e^dosjo^os^ pois per-

cebia que os concdtgs dessas teori^ jiã o Êepermfflam compremder^a^oíperiênda destes (ibidem, p. 7). Posteriormente, mantenHo contato mais próximo com as iddasvde Hddegger, e considerando as criticas do pró- prio filósofo' em rdação ao entendimento de Binswanger acerca de suas iddas, Boss afasta-se da posição deste e de- senvolve a sua daseinsanálise, procurando diferendá-la da psiquiatria daseinsanalítica binswangeriana. A psiquiatria daseinsanaKtica de Binswanger foi du- ramente questionada por Heidegger. O fHósofo diz que de não compreendeu com dareza suas iddas, pois comete 'um

1 Essas críticas aparecem nos Seminários

de ZolUkon (Heidegger, 1987/

2001], principahnente no diálogo de 8 de março de 1965 (p. 205] e no seminário de 23 e 25 de novembro de 1965 (pp. 139-157).

^ ^ Ida. Bizabeth Cardinalli

engano grave ao confundir, em sua teoria, as explicitaçOca

llP^ ontológicas^ com as experiências relativas à dimensão ,fln- fi^gtica, quando pretende adicionar um fenómeno ôntíco, o amor,

>^n a

Ffl l A crítica de Heidegger ao trabalho de Binswanger pode ser desdobrada em dois tipos de questionamentos. O primeiro

estrutura ontológica denomiuada "cuidado"^

refere-se ao fato de Binswanger pretender corrigh a ontolo- gia heideggeriana quando acrescenta o fenómeno ôntlco, amor, à estrutura ontológica do Dasein,jA que o "cuidado"

no sentido ontológico é a constituição efe-síátíco-temporal

traço fixndamental do Dasdn. Assim, ele nã o pode ser

comparado e completado com o fenómeno ôntico amor, pois "enquanto totahdade originária de sua estrutura a cura'' se acha, do ponto de vista existencial, a priori, 'antes' de toda 'atitude' e 'situação' da pre-sença^" (Heidegger, 1927/1988, p. 258}.

do

2

Em Ser e tempo (1927), Heidegger desenvolve a analítica do Dasrín -

- , ontológicas do ser do existir htimano, sendo este entendido como Dasein (ser-aí). Deste modo, a explicitação ontológica não pode ser conftindida com a descrição de fenómenos ônticos, que^se referem a tudo- o que é percebido e conhecido diretamente.

que explícita as características íundamentais e

Daseinsanalytik

3

Para Heidegger, o cuidado denomina a totalidade estrutural do Dasrín; caracteriza a existencialidade, a facticidade, a decadência e a unidade desta. Assim, do ponto de vista heideggeriano, é necessá- rio diferenciar o cuidado no sentido da explicitação ontológica da totalidade estrutural do Dasein do sentido ôntico de cuidar ou des- cuidar de si mesmo e de outros,

4

O cuidado é traduzido como "cura" na versão para o português da obra Ser e íewipo, sendo indicado neste trabalho como o faz Heidegger (1988).

B

Dasein é traduzido como "pre-sença".na obra citada: no entanto, será mantida a palavra alemã Dasein no decorrer deste trabalbo. com ex- ceção das citações extraídas da referida tradução.

Medard Boss e o debate com a psiqmatria clássica e a psicanálise freudiana

V

Assim, o pensador esclarece que o amor, entendido dé modo antropológico, é baseado de maneira igualmente de- cisiva na compreensão do ser, como o ctndado. Assinala, tam- bém, que o entendimento binswangeriaho de seu pensamento móstia que ele nã o percebeu que:

( )

o cuidado tem um sentido existencial, isto é, ontológico,

e que a analítica do Dasein pergunta pela sua constituição Jundamaital ontológica (existendal] e. não quer simples- mente descrever fenómenos ônticos do Dasein. (Heidegger, 2001, p. 142) -.

O segundo questionamentç de Heidegger diz que a ontologia fundamental é eliminada da psiquiatria daseinsa- nalítica binswangeriana, pois, quando de coloca a ontolo- gia fundamental como uma dimensão separada da sua psi- quiatria daseiusanahtica, compreende o ser-no-mundo e a transcendênda do Dasein como fenómenos ônticos indepen- dentes da rdação do Dasdn com o ser (ibidem, p.,206). Tais criticas foram acdtas por Binswanger, que revê a denominação de seu trabalho, modificando-a de "psiquia- tria daseinsanalltíca" para "fenomenologia antropológica", ívlas isto não o levou a reconsiderar suas próprias iddas, uma vez que considerou seu engano como u m "mal-entendido produtivo". Holzhey-Kunz^ situa a diferença entre a psicopatolo- gia daseinsanalítica de Binswanger e a de Boss em rdação ao desdobramento da noção de ser-no-mundo realizado pdos dois estudiosos. Binswanger preocupa-se com o esdared- mento da patologia de acordo com o esboço de mundo dos

6 Cohn (1977), ao procurar situar as diferenças entre o trabalho de Binswanger e o de Boss, utiliza, entre outros textos, o de Holzhey-

Kunz (1994), Leidem am

Dasdn.

Ida Elizabeth Cardinalli'

pacientes, enquanto Boss enfatiza o inundo como possibili- dade paia ser. Deste modo, Boss evita o conceito de esboço de mundo e, em seu lugar, usa os termos "âmbito ãa aberium

e clareira como sinónimo demimdo" (Cobn, 1997, p. 18). Cobn assiaala que Boss teve u m contato mais próxi- mo e pessoal com o .filósofo do que Biaswanger. Após cu~ nliecer o livro Ser e tempo (1927), durante a Segunda Guer • ra (1939-1945), escreve em 1947 para Heidegger solicitan- do ajuda para um melhor entendimento do pensamento desse* filósofo. Esta solicitação deu início a uma longa amiza- de, o que permitiu u m duradouro diálogo intelectual entre os dois estudiosos (1947-1972),^ tanto pessoalmente quanto por correspondência, sobre como pensar as patologias e a psicoterapia. Assim, sua daseiasanáhse, seja na reflexão' da psico-

terapia, seja na da psicopatologia, é o resultado do encontro do filósofo com psiquiatras suíços Hderados porBoss. Ou sqja,

é uma decorrência do projeto daseinsanalítico explicitado

por Heidegger nos semiuários regulares, denominados Se- minários de Zollikon (1987), nos quais os participantes pu- deram estudar o pensamento do filósofo junto com o pró-

prio pensador, além de discutir temáticas especificas como

saúde, as patologias ou a psicoterapia.

a

Èsías datas se referem à primeira carta e ao último diálogo entre Boss e Heidegger, registrados no Seminário de Zollikon (1987), mas lembramos que des se mantiveram em contato até a morte Heidegger, em 1976.

7

Medard Boss e o debate com a psiquiatria clássica e a psicanálise Jfeudiana

t

Boss esaeveu inúmeros artigos e dez livros.^ Oito deles, isto é, as pubhcações a partir de 1953,^ revelará a influência clara do pensamento heideggeriano. Neste trabalho, usare- mos principalmente os hvros traduzidos para o espanhol e o inglês: Psicoanalisis y anaÚtica existencial (1959), Psycho- analysís & Daseinsanalisis (1963) ç. Existéntial Foundation of Medicine and Psychology (1979a),-Também serão usados alguns artigos, em especial dois que .tratam-da temática da esquizofrenia: "El 'estar .enfermo'idel esquizófienicq enteii-- dido desde d análisls existendal" (1975c] e "O-modo-de- ser-esquizofrênico à luz-de uma fenomenologia daseinsa- nalítica"

O debate em rdação às teorias da psiquiatria e da psicanálise

Boss, com base nas iddas de Biaswanger e, posterior- mente, nas do próprio Heidegger, constata que as teorias psi- quiátricas clássicas e as psicanahticas partem de uma con-, cepção implídta de dênd a e de natureza humana, que não é esdareçida ou exphdtada. Esta concepção é decorrente do mòddo dentifico natural, que concebe o homem de modo análogo aos objetos da natureza.

8 Considerando os livros escritos em alemão - pois Psychoanalysis'& Daseinsanalisis (1963) foi uma versão modificada do livro Psicoa-

nalysis und Daseinsanalysis (1957), cuja tradução em espanhol (1959) usaiercLQs, Seus Ibreos mais im.portan.tes foram traduzidos para o in- glês, e alguns também para o francês e o espanhol. Para o portugu- ês, foram traduzidos apenas dois livros: Angústia, culpa e liberta- ção {1975a) e Na noite passada eu sonhei (1979b), além de alguns

artigos publicados pda Revista da Associação sanalyse (cf. 1976, 1977, 1997a e b).

Brasileira

de

Dasein-

9 Boss (1953). Der Traum und seineAusíe^rung. Bem, H.Huber.

ida Elizabeth Cardinalli

As discussões de Boss, em relação tanto aos proble- mas clínicos quanto "aos teóricos, mostram que ele desen- volve seu pensamento seguindo u m caminho aprendido com Heidegger nos Seminários de Zollikon (1987). Ou seja, ini- cialmente , d e analis a ,as teoria s psicanalítica s e psiqidá - tricas clássicas, questiona seus fundamentos filosófícos e constata a necessidade de iutroduzir um novo fundamento, que considera mais adequado para pensar o existir humano. Este novo fundamento são as iddas contidas na ontologia ladd^ggeriana. Em seguida, Boss procura explicitar a natu- reza existencial do fenómeno patológico orientado pela compreensão do existir humano como Dasein, presente na ontologia fundamental.

As

críticas em relação à psiquiatria

clássica

Boss denomina genericamente de "psiquiatria dássí- ca" aquda de autores como Kraeplia, Eugen Bleuler e ou- tros (Boss, 1977, pp. 7-8), que caracterizam cada patologia mental segundo a descrição de sua sintomatologia e defi- nem o processo da doença e/ou sua etiologia segtmdo uma base orgânica. Boss diz que as teorias da patologia da psiquiatria dássica são decorrentes do pensamento da Qênd a Natural, pois seguem u m modelo de pesquisa dentifica que tem como critério a objetiA/idade e a mensurabitidade. A l o ser hruna- no é concebido de modo análogo aos objetos da natureza e as patologias pensadas segundo os substratos orgânicos, as descrições sintomátitas isoladas, sendo a natureza das pa- tologias-definida de acordo com detemunações causais eatabdccidas entre o substrato orgânico e os sintomas pa- tológicos.

-46

Medard Boss e o debate com a psiquiatria clássica e a psicanálise

freudiana

Para o autor, quando a noção de doença pressupõe que . ela seja uma entidade circunscrita e isolada da totahdade do existir humano, então d a é explicada com^ base nela própria. Neste caso, pressupõe-se u m modelo de conheci- ment o em- qu e o esdaredment o do- fenómen o do adoecer poderia restongir-se.apenas a descobrir.a evolução, os me; canismos e as determinações causais.específicas déumà •

dada doença.

-

Boss assinala que autores comovpor exemplo, E. Bleuler

e H. Ey, que inseremLConcdtos-psíquicos o u psiçogênicos em suas teorizações, utilizam concdtos ainda não devidamente esdareddos, tais como psíquico, consdênda, pensamento e

afetividade, e mantê m um a visã o de- determinaçã o orgânica . Distingue os "fehomenologos dlnicos" (psiquiatras hgados

à escola alemã de Hdddberg, como Berle, Gruhíe, Mayer-

.

Gross] da psiquiatria daseinsanalítica de Binswanger. Os psiquiatras dlnicos fenomenológicos utilizam a fenomeno- logia para a descrição minuciosa dos sintoinas e dos com-

portamentos apresentados pdos padentes, com o objetivo de estabdecer uma sintomatologia mais precisa da patolo-

gia esquizofirênica. No entanto, esses autores descrevem tais sintomas sem uma visão devidamente èsdaredda acerca da natureza do ser humano. Em rdação à esquizofrenia, Boss considera que a psi- o .quiatria dássica não consegue esdarecer nem a natureza nem

^

a experiênda deste adoecer, seja quando a define com base

nos sintomas úidependentes - como perturbações do pensa- mento (incoerênda, perseveração, compulsão e interceptação do pensamento), despersonalização, fraqueza do ego ou defi- dênd a total da personalidade e perturbação da afetividade -, seja quando busca esdarecer sua natureza por md o de pes- quisa etiológica, com determinantes orgânicos ou psíquicos, genético-hereditários, ou fatores ambientais.

47

Sda Elizabeth Cardinalli

Os questionamentos em-relação à psicanálise frcuiUii nu

Os escrito s de Boss

assinala m a importânci a (IHN ilpf «

cobertas de Freud para o estabdedmento de novna íorniM» de atuação dínica e o entendónento das patologias p.síciiilm.i. Ressalta a descoberta freudiana de que todo fenômrnn iiu mano é impregnado de significado, e acentua que cslii ÚVH coberta nã o só permite que os fenómenos humanos saillt n e patológicos não sejam mais pensados segundo um HUUH trato orgâidco, quer neurológico, quer genético, como intti bém aponta para a-dimensão do significado e da slgiililt a tividade na experiênda humana.

Boss considera, no entanto, que a teoria íreudlQiiii t'* circunscrita pd a forte influênda do pensamento cientíHcii

de sua época, o qual supõe que o moddo dentífico oríiiiKÍo das Ciências Naturais, denominadas exatas, constituíam ti única forma váhda de se abordar os fenómenos humano;) (Boss, 1974, p. 2). Diz que-a teoria freudiana mantém os

pressupostos da Qênd a

borados pela física e pd a química para o entendimento do psiquismo humano; deste modo, da desenvolve um entcii- dimento do homem pensahdo-o de acordo com os proces- sos mecârucos e químicos. A teoria psicanalítica, ao estabií= lecer uma analogia entre a realidade humana e o apaiého psíquico,'° entende que este é movido por pulsões e que todas as manifestações humanas são compreendidas como fenô° menos de reação ou de sublimação destas.

Natural ao utilizar os concdtos ela-

10 Loparic desenvolve detalhadamente a análise da teoriafreudianado aparelho psíquico, mostrando que esta é "tributária do projeto de mecanização da imagem do mundo e do ser humano" e que se ina • creve na "tradição dominante da teoria do subjetivismo cartesiano" (1997, pp. 101-102].

Medard Boss e o debate com a psiquiatria clássica e a

pstcanáliscfrcudiana

,géssj|uestiona a adequação do concdto de pulsão para a explicação das diferentes ações humanas; afirma que esta se refere apenas a uma quantidade de energia, que é "por natureza 'cega' e nã o pode nunca, portanto, ser dotada da capaddade de perceber as coisas nas suas diferentes signi- ficações" (1974, p. 5). Deste modo, rÁn<^i(^pp que a teoria

psicanalítica ainda não apresenta uTfiã p-^bVitaçãn satisfa-.

tnria

ria natnrpz a

humaTi a

qnp"p^Hafpra

a possibilidade-do.

homem de poder nerrébpr as-yofgqg rn-mn frnnmpnnsnuC .

contêm

difereT^te»^ -d^yi^firrírn^yii

Em rdação ao concdtó de inconsdente freudiano, Boss assinala que, rias suas diferentes formulações até chegar à do inconsciente como sistema, Freud ampha o entendimen- to dos comportamentos humanos; indo além das-vinculações apenas com as percepções consdentes e decisões da vontade. Ao mesmo tempo, com a criação do concdto de uma dimen- são inconsdente, Freud tanto exphcaria o encadeamento cau- sal ininterrupto da experiênda humana como deitmitaria o lugar de suas causas determinantes. No entanto, para Boss, a noção do inconsciente foi necessária, sobretudo, porque a no- ção fieudiana do consciente é pouco desenvolvida. Freud não se teria detido sufidentemente no esdaredmento deste conceito. Por exemplo, no texto A interpretação dos sonhos (1973dJ o consciente aparece (apenas) como eqtuvalente à percepção que advém dos órgãos sensoriais. Boss questiona a concepção de homerd psicanalítica, .que pensa a experiênda humana com base em runa noção de um psiquismo encapsulado e separado do mundo. Para o autor, esta noção, que está apoiada na divisão cartesiana em que as coisas do mundo são separadas do sujdto, apresenta um grande problema para o entendimento das experiêndas sadias e patológicas, pois não esdarece como o mundo afe- ia o homem e como o homem atinge o mundo.

íãa^Elizabeth Cardinalli

De modo geral, as criticas de Boss à psicanálise pro-

curam destacar a iofluência do pensamento cientifico e, mn1s especificamente, da concepção cartesiana determiolsta mi visão de homem pressuposta na teoria psicanalítica, deno- ntinada "metapsicologia". Posteriormente, propõe que a explicitação dp existir humano apresentado por Heidegger poderia oferecer fundamentos mais adequados para q en-

tendimento dos fenómenos humanos.

. É importante sahentar que Boss desenvolve discussões mais sistemáticas em relação às teorias da prática psicana- lítica do que em relação às teorias do desenvolvimento, da ^ estruturação psíquica e dos quadros patológicas elahorados por Freud.

'No. que se refere à teoria psicanahtica da esquizofre- nia, Boss destaca sobretudo dois aspectos que estão subja-

centes ao pensamento freudiano: esta concepção pressupõe • a existência de uma reahdade objetiva e externa indepen-

dente do homem, e

ela nã o apresenta

uma compreensão

suficiente sobre a linguagem, humana. Para Freud, os esquizofrênicos regridem à organiza- ção libidinal característica do estágio do narcisismo primá- rio: "Afravés da regressão da hbido, os objetos ~do mimdo externo são descatexizados, e o resultado é uma perda dá realidade" (Boss, 1963, p; 212). Assim, o psicótico" procu- rará reparar a perda da realidade afravés da criação de uma nova reahdade, ou seja, ele a repudia e tenta substituí-la.

" W '^'^" f 5°/ ^ Boss está baseada principalmente nos seguintes

textos de Freud: JVewrose ej5sícose(1924/1973b) c A perda da reali-

dade na neurose e na psicose

50

(1924/1973c).

MedardÉosst

o debate cok a psiquiatria clássica e a psicanálise freudiana

i

Boss questioia.a a suposição eaitesía]a.a de Freud ac^;;^ ça da existência de uma realidade objetiva e ^ema , exis- tindo independentemente dn homem. Do ponto de vista daseiusanalítico, o que é denominado mundo exterior

( )

da existência humana se. apresenta, a qualquer membro des- •

perto de um grupo de pessoas histórica e geograficamente .circunscrito. (Boss, 1963, p.-212)

é apenas o modo específico pelo qual o que surge à luz

o autor assuíálá qudnó s diversos modos de existir

doo

homem, seja do psicótico', seja das pessoas em geral, o que--^-'^<2i<í='-

difere é a maneira como o mtmdo se apresenta para cada^^. ^ um deles. Assim, considera que a compreensão das alucina- ^ ^ ções, segundo a diferenciação entre real e irreal, é ix3suE.cicn.tc, ^ por não esdarecer a quahdade específica enfre estes dois modos de rdadonamento com o mundo. ' Boss diz que "sabemos que o psicótico sente-se usual-

mente ameaçado pd o modo

tes e as coisas de seu mundo" (ibidem), mas considera que o mais importante é esdarecer "a diferença enfre as formas pdas qu^ais o mundo se descortina pará o psicótico e para a maioria das pessoas de seu entorno" (ibidem). Ele assinala também que, segundo Freud, ^^jjj^ qinzofrênicos o predomínio da representação da palavra em detrimento da representação da coisa, isto é, no esquizofirê- - nico ocorre a perda da capacidade de distinguir enfre a re- presentação e a percepção. Questiona ainda a concepção freudiana da linguagem, que supõe que, na experiênda humana; esta ocorre separã-

como percebe seus semdban-

n Boss desenvolve esta discussão com base no texto de Freud: O in- consciente (1915/1973a).

51

Ida Elizabeth Cardinalli

damente da percepção das coisas. Ressalta que caminham sempre juntas e que só podem ser percebidas como separa- das se a linguagem for entendida apenas como uma exprt:S" são oral.

As

críticas ao conceito de etiologia

da psiquiatria

e da psicologia moderna

Para Boss, as teorias psiquiátricas e psicológicas apre-

sentam três modos científicos de entendimento da doença*,

a primeira pressupõe que as doenças tê m origem no corpo

(somatogênica); a segunda supõe que a doença tem uma causa psíquica (psicogênicaj; e a terceira acredita que a

origem das doenças apresenta aspectos somatogênicos e

psicogênicas

(Boss, 1977, p. 6].

-Assinala que e-stas três-posições, aparentemente diver- gentes, apresentam xmi asjpecto comum, pois todas pressu- põem uma. relação causal, definindo algo como a causa c caracterizando outra coisa como a manifestação da doença. Acompanliando as discussões heideggerianas realizadas nos Seminários de Zollikon (1987), Boss afirma que a noção da causalidade, que foi disseminada tanto no pensamento co- tidiano do homem moderno quanto no conceito científíco- naturaJ de causa e efeito, está enraizada numa visão fUosá- fíca cartesiano-gahléica, a qual supõe que "todas as coisas reais encontram-se conectadas num mundo unitário atra- vés da operação de uma causalidade fixa e precisamente calculável" (Boss, 1979a, p, 192).

Como no princípio de causalidade está suposto que qualquer fenómeno apresenta um conjunto de encandeamen- tos de causa e efeito previsíveis e sem qualquer falha, pensa- se que "é sempre tuna causa, uma causa efficiens, que dá origem a outra coisa como efeito" (idem, 1975h, p. 10). Assim,

52

Medard Boss e o debate com a psiquiatria clássica e a psicanálise

i

fieuâiana

ainda para Boss, o pensamento de determinação causal su- põe que "uma coisa considerada como causa possa ter por efeito outra coisa, a qual nã o estaria j á contida na coisa chamada causal" (ibidem, p. 13). Boss questiona a adequação do princípio de causali- dade e, por conseguinte, da noção de determinação caus.al para o entendúnento do existir do homem e dos fenómenos saudáveis e patológicos. Considera, .que q. princípio da cau- salidade e a detenninaçãp causal são referêiicias paira o es- dareciinento dos fenómenos naturais, de acordo com á su- posição de u m encadeamento, de acontecimentos ou fatos. Assim,.todos os fenómenos específicos do existir humano, tais como intuição, compreensão e desejo, nã o podem ser concebidos como coisa material, sendo, deste modo, inaces- síveis pela orientação científico-causal.

A o

esclarece r que os conceitos

de etiologia

e

de

pato -

gênese das teorias psiquiátricas e psicológicas tradicionais procuram explicitar o tipo de conexão" causal, suposta' no

pensament o "da aênci a Natural , Boss afiiin a qu e estas teo - rias operam com uma noção de determinação mecânica, que supõein que as dimensões huinanas- fondoham dd mesmo modo que as coisas inanimadas, que os organismos físicos

e as engrenagens das máquinas, deixando de verificar o que

é específico do existir humano.

• Assim, Boss questiona, sobretudo, que a natureza es-

pedfica do existir humano possa ser determinada pelas descobertas da biologia, da fisiologia ou da psicologia; ao contrário, acredita que a medicina e a psicologia necessi- tam do çsdaiecimento anterior da natureza humana para que. possam desenvolver um estudo que efetivamente correspon- da ao seu ohjeto, que é o homem. Deste modo, percebe na ontologia heídeggeriana subsídios para desenvolver uma antiopologia existenãal, que poderá oferecer os fundamentos

para o estudo dos modos de existir sadios e patológicos.

53

Ida Elizabeth Cardinalli

t interessante assinalar que a psiquiatria preponde-

rante na atualidade caroinliou numa outra direção da per- corrida pela psiquiatria clássica e pela psicanálise. Ela estd marcada pela corrente americana, com a adoção de critérios diagnósticos estabelecidos de acordo com 003-9" e o DSM- IH'''. Estes sisttmas operacionais de classificação optam por uma postura "ateórica" e pelo estabelecimento de critérios diagnósticos consensuais, evitando as divergências presen- tes no campo psiquiátrico quanto às definições da natureza, da evolução, do desenvolvimento e da etiologia das dife- rentes patologias mentais. Neste sentido, a psiquiatria con- temporânea prioriza um pragmatismo, tanto na elaboração dos seus manuais classificatórios quanto na utilização des- ses critérios para o desenvolvimento das pesquisas e na atuação da clízdca psiquiátrica.

Para Pereir a (2000a) , a/postura pragmática da psiqulã^ tna contemporânea/por manter esta isenra n teórica e se atqr a meras descrições de critérios diagnósticos, desemboca nujn convenríniirilismn nnsngráfír o gne impefí ^um a discussão

- da natureza do sofíimentn pdmpVn , Assim, bá. apenas um acordo estabelecido em tom o dos critérios consensuais das patologias intituladas como transtornos mentais^e de com- portamento. Deixa-se de lado os esclarecimento dos fatos clínicos realizados pd a fenomenologia, a psicanálise e a análise existencial no campo da psicopatologia.

13 CID-9 é a sigla referente à Classificação Internacional das Doenças, publicada em 1978 pela Organizaçio Mundial da Saúde, que foi ra-

€ amp\-a.TntnV.c MV\

lizada atualmente para codificar os diagnósticos das doenças men- tais e/ou psíquicas, as quais são denominadas transtornos mentais C

xist a e m 199 3 e: .aoT[im?Ld-a Cffl-lO . Ssti^ecsã o

ie

Distúr-

bios Mentais, publicado pela Associação Psiquiátrica Americana cm

cotnportamento.

14 DSM-in refere-se ao Manual de Diagnóstico

e Estatística

de

1980, cuja revisão foi publicada em 1994 e intitulada DSM-IV.

Medard B'pss e o debate com a psiquiatria clássica e a psicanálise

fieuâiana

As discussões de Boss atêm-se à psiquiatria dássica,- uma vez que seus textos são anteriores ao estabdecimento e à disseminação da psiquiatria apoiada nos critérios diag- nósticos do DSM e do CID. Vê-se que, apesar de a psiquia-

tria atual evitar as discussões etiológicas de acordo com o moddo de causalidade que Boss questiona contundenfemen^

te, d a mantém

co-naturais ao se ater aos prindpioS; de objetívidade, dare-

za, validação experimental. E, mais espedfícamente,. a psi- quiatria contemporânea, além de se manter atada ao pensamento dentífico natural, recusar-se a discutir a natu- reza do existir humano e a natureza do adoecimento, man- tendo-se cega diante dos ftmdamentos nos quais se apoiam sua concepção de homem e seu método de pesquisa para o estudo das patologias.

em seus fundamentos^ as éxigêndas dentífi-

É

cxuios o

percebe r

que a psiquiatria contemporânea ,

ao mesmo-tempo em que se diz ateórica, tem de fato úicen- tivado prioritariamente pesquisas que focalizam, no estudo das doenças psiquiátricas, os substiatos somáticos e físicos, como, pór exemplo, o seqiiendamento genético e as altera- ções íisico-químicas nos diferentes transtornos afetivos. Quando Boss discute o concdto de etiologia e de pa- togênese das teorias psiquiátricas com base no questiona- mento da noção de causalidade, de reconhece que a orien- tação genético-causal tem possibilitado o desenvolvimento de muitas descobertas em rdação às terapias físico-químicas no campo médico; no entanto, enfatiza que esta perspectiva não é sufidentemente adequada, pois entende o homem e seu corpo como objetos. Assim, Boss afirma que da:

s ó fundon a se a coiporddad e human a fo r interpretada

como u m objeto-flsico. E m relação a algo que nã o é conce-

bid o e m termos físicos a totalidade do âmbit o dos fenô -

( )

Jda Elizabeth Cardinalli

menos psíquicos - a orientação genética causal perilr* wn sentiào e justificação. U979a, p. 192)

O autor entende que a medicina contemporAiifii i") confrontada com um extraordinário paradoxo, pois, Nf i-, orientação genética causal permite sucessos terapêutlco.s iwu precedentes, ela se toma ao mesmo tempo patogênica, vtil

ta-se contra o que é específico e próprio do homem, Jrt tiiir"*

o sucesso prático dessas abordagens tem levado à crcnçu il<

que o estudo dapatogênese constitui o único caminho ])!it(i S

a compreensão adequada dos fenómenos patológicos.

Boss considera que a importância atribuída às pi'i,'( pectivas genéticas, causal ou motivacional, precisa ser ii* vista, e afirma enfaticamente "que nenhuma etiologiti ('•' suficiente para explicar o comportamento humano palultV

gico como fenómeno hxunan o que de é (1979a , p.

222) .

Para esse autor, a iavestígação sobre as origens dns doenças não pode ser esdaredda apenas mediante explicita ção de sua causa e determinações causais. Mas é isto que, mui--- tas vezes, as teorias psiquiátricas e psicológicas pretendem, demonstrando o tipo de rdação de determinação causal cnlrti diferentes dimensões .humanas, tais como: o passado e o pre- sente; o corpo físico e a psique; os fatores constítudonais he • reditários e algumas doenças; ou a influência dos pais, díi família e do contexto sodalno desenvolvimento do homem. Boss propõe que o estudo dos comportamentos sadio.')

e patológicos seja realizado de maneira que preserve as caracteristicas espedficas do existir humano. Para isto, con= sidera necessário esclarecer, inicialmente, o fenómeno hu- mano, investigando-o de tal niodo que o próprio fenómeno patológico se tome visívd e que a investigação da origem das doenças seja pensada segundo a génese motivacional. Esta discussão será apresentada no qasrto capítulo.

A ANALtnCA DO DASEUSÍ E A DASEINSANÁLISE DE MARTIN HEIDEGGEE.

o começo de todo o meu pensamento origina-st numa frase de

Aristóteles que diz que o ente é expresso de múltiplas maneiras.

esta frase foi a faísca que provocou a pergunta:

qual é a unidade'destes significados múltiplos de ser,

Na verdade

na verdade,

o que significa

ser?

de Zollikon]

(Heidegger, Seminários

No presente capítulo, serão apresentadas as Iddas prin- cipais de Martin Hddegger, desenvolvidas no livro Ser e

tempo (1927/1988), que situam a noção do existir humano

como Dasein, e as distinções do mesmo autor, formuladas

na obra Seminários

de Zollikon (1987/2001), a respdto da

daseinsanálise como uma expHdtação ontológica, bem como as indicações para a prática dinica daseinsanalitica e para uma dênda daseinsanalitica do homem.

Ida Bizabeth Cardinalli

As ideias principais de Heidegger acerca do existir humano como Dasein

Na obra Ser e tempo, o íio condutor do pensamento de Heidegger é o esclarecimento do sentido do ser como t al O jilósofo não percorre o caminho da ontologia íru- dicional para desenvolver sua questão central, conforme ele esclarece:

{ ]

em Ser e tempo, ao contráTÍo. do pensamento usual da

metafísica, é colocada uma questão inteiramente diferente. \é agora se questionava o ente com referência á seu ser.

U

Em Ser

etempo

a pergunta não é mais pdo ente como tal,

do ser em geral, pela

mas pelo ser como

tal,

peio sentido

^ abertura

[Offenbarkeit]

áe ser possível. (2001 , p. 145 }

Ao considerar a trajetória do pensamento do autor em Ser etempo, são necessários alguns destaques. Primeiramen- te, Heidegger focaliza sua análise no ser dos entes e não na definição dos entes através àa descrição de suas categorias essenciais. Segue sua anáhse pela exphdtação prévia do ser do ser humano, uma vez que este é o ente que tem um aces- so espedal ao ser, podendo, assim, compreender e respon- der à questão ioidal. Taljnte,. guç,_em£ada_ca^^ mesmos, e que tem, entre outras_pMsiMidade§jle_^ áe. perguntar, e denominado Dasein. A denominação hddeggeriana de Dasein para o ser do.exisíir.híimanjQ.assi-' ^gíg-gne Q ser humano é um acontecer (sein] que ocorre no aí (I>fl},knçadojánomu^^ assim, ek-sistere,isto é, existe neste movimento para fora. j^uand o Hddegger diz que o ^ do Dasein é a abertura essendal do existir humano, assinala que o Dasein não tem como qualidade o estar aberto, mas de é este estarjberto ou

A

analítica

do Dasein e a daseinsanálise

de Martin Heidegger

clareirajgue possibihta perceber, compreendo^ mtm^ nhecer^^áhdadeAos^^ âetado_o_que_é_eticon^ do no mun(^

( )

aberto de um âmbito de poder-apreender as significações daquilo que aparece e que se lhe fala a partir de sua dareira.; (Ibidem, p. 33]

o que o existir como Da-sein significa é um manter

_pfílósofo,esdarece, também, que a

•púavxãÍDfíMn^Q

K^gnifira a fiefimcão de um lugar, uma vez que a<^ertar ^ Q-gue uossibihta a Dre'=pTira rins entes para, o ser humano, conforme sua explicação:

(

}

O aí [Da] em Ser e tempo não significa uma definição de

lugar para u m ente, mas indica a abertura na qual o enfc

pode estar presente.p^q hom.ein, indusive de mesmo para

símésmõTÕ^íaser designa o ser-homem (Ibidem, p. 146)

-JHeidegger,. ao afirmar que a essência jn_Dgsem é a própria existénda, assinala que a determinação essendal do existir humano nã o está referida aos conteúdos materiais

ou à-SubsiâB-cia. Em vez disto, é a existénda "o próprio ser com

o qual a pre-sença' pode se comportar dessa ou daquda

maneira Fcom o qual d a

maneha" (1988, p. 39]. Para o filósofo, o ser humano nã o é compreendido como igual a outros entes diferentes dos homens; assim, o hpmem_nâq_^jen§âáQ^ojno^ objetivação, .com.o_afiana:

sempre se comporta de alguma

1 Ver Nota 5 do segundo capítulo (p. 42};

59

ida Elizabeth Cardinalli

O Da-sein humano como âmbito de poder-apreender mm • ca é um ohjeto sunplesmente presente. Ao contrário, rir não é de forma alguma e, em nenhuma circunstância, ÍIIH U passível de objetivação. (2001, p. 33)

Tendo como ponto inicial a análise do ser e compreen- dendo o. ser humano como Dasdn, Heidegger questiona o tempo: "em que medida o ser (presença] te m seu estado de abertura no tempo" [ibidem, p. 147)? Mas "o tempo a ser determinado em relação à questão do ser nã o pode ser com- preenôiáo pd o concdto de tempo tradidonal" (ibidem), uma •

vez que, para o autor:

-

(

)

o tempo é o ponto de partida do qual a pre-sença sem-

pre compreende e interpreta imphdtamente o ser. Por isso, deve-se mostrar e esclarecer, de modo genuíno, o tempo como horizonte de toda compieensão e interpretação do scr,

(1988, p. 45)

Hddegger diferenda a dimensão ôntica e ontológica. A primeira.sexefere à.q\iestão--de.sen.e-de exisjir.àpj)r,Qprio ejdstír do Dasein; a segunda, a expliçítafflQ oníológíçg^ apresentação das estruturas, eajstencjais do ser_dp Dasein. Ãqúi, o termo existendal assinala que as estruturas ou ca- racteristicas do Dasein nãò são pensadas segundo o signifi- cado moderno de categoria, isto é, a dasse a que pertencem determinadas coisas, conforme esdarece o autor:

A interpretação das estruturas prindpais que perfazem O

ser do assim colocado, ou seja, seu existir, é a analítica ejdstendal do "Dasdn. 0^ termo existencial é usado à dife-

rença

mna dasse ou um grupo a que pertencem determinadas

coisas. (2001, p. 147}

d£_cgtegonal.

Categoria no uso moderno significa

A analítica do Dasein e a daseinsanálise

de Martin Heidegger

t

Para Hddegger, as caracteristicas que constituem, o •

Dasein não são categorias nem atdbufos, pois estas sâo *se ^ pre.modos possíveis de ser" (1988;p.'78]. A ejqpKdtação da

constituição básic a .do

cláHa" ou "existencial", que são descrita.s como: atempora- lidade, a,cspacial!H^ (o ser-em), ojer-çom-o-putoT^fi- " nação^a compreensão, o cuidadu^_jjuH Ao_gQ5dn_éinerenteser-no-mundo: ontologícameg.- te, mundo^ é_atotaliáad,eilasxdações referentes ejigúifica-. tivas, é^o D a (aí] em ç^^o^Da^ein faticamente se encontra atirado. Q ruundo é o horízonteprôxímo eremoto:áas_pos::/

sibfiidades do homem . É onde as coisas, o sentido e-o ser-se expõem, onde_o_gue é pode se manáestar. Isto quer dizer

que homem e mundo nã o são dois entes que se opõem entie

sí, distintos e separados. O homem hão está no mundo como uma coisa está dentro da outra coisa. O mrtnáo é o horizon- te (não fisicamente delimitado] onde se desdobram as pos- sibílidades do homem. O ser-no-mundolndica que o Dasein apresenta u m modo de rdação diferente das rdações entie os entes, em geral, colocados nuin espaço, pois o no {.em + o) tem u m sentido de familiaridade, de "estar junto a". -

Heidegger esdarece a inter-rdação do conceito de Dasein, de ser-no-mundó e de dareira do seguinte modo:

Dasein e'denominada de "existen-

O Dasein deve ser visto sempre como ser-no-mundo, como pcupar-se com coisas e cuidar de outros, como ser-co.m as pessoas que vêm ao encontio. nunca como um sujdto exis- tente para si. Além disso, o Dasein deve sarjvjs^tOLsdnpie como um estar àentro àa díoceira, toiao estada, junto ao que

2 Loparic esdarece que "mundo" serefere aos "^^'^^'^^ caçoes", aflimando que "esses contextos nto sã o entes mtaamunda- nos nem totalidade de entes intramundanos" (1982. p. m-

61

raa Elizaieth Cardinalli

vem ao encontro, isto é, como desvelamento para aqullii

que vem ao eneontco nela. Estada [A-tiftníhalt] izvtK^tf

ao mesmo tempo u m rdadonarcora

O "se^' em relacionar

jee _ q "meu", em "meujpaseia" .nunca devem

ser compreen-

didos como u m ser referido a u m sujdto ou a uma substâii- tía. O "se" deve sçr visto de modo pmamente fenomenal, isto é, assim como eu me reladono agora. O quem esgota-se em cada caso justamente nos modos de reladonamento em que me encontro justamente agora. (2001, p. 182)

Em Ser e tempo, Heidegger busca o esdarecimento do modo com o o Dasein se mostra "em si mesmo e po r slsaeS" m o V que é o modo como de é-encontrado habitualmente naj^JLçdanidadfe, bu:séia, o modo como de se apresenta encoberto para si mesíno.

. Heidegger diz que o modo de acesso mais adequado para a explidtaçãõ das estruturas ontológicas é o fenomeno- lógico. O pensador retoma o significado grego da palavra fe- nomenologia, assinalando que d a vem de phanesthai, que significa mostoT;^ clarear, sair do mistério recônditO-paxa o_abert o e^este , se" exibir . O métod o fenomenológic o hddeggeriano exige o passo de volta para trás do fenóme- no, no sentido vulgar, para o âmbito em que o fenómeno é, antes, aquilo que se oculta.

Stein, ao esdarecer a especificidade do método feno- menológico apresentado po r Heidegger em Ser e tempo, assinala que a dimensão ôntica epré-ontológica da existênda mantém, na ontologia hddeggeriana, a-drcularidade do seu pensamento, quando diz que:

O método fenomenológico visa ao redimensionamento da questão do ser, não nmna abstraía teoria do ser, nem numa pesquisa historiográfica de qTj.es.tões ontológicas—caas numa pTOXimidade_com a praxis humana; cpmo cástènáa

m

m

m

A analítica do Dasein e a daseinsanálise de Martin Heidegger

. e fatiddade," a linguagem - o sentido, a significação - não é anahsada num sistema fechado de referenda, mas no

O método fenomenológico, en-

quanto método hermenêutíco-linguístico, -não se desliga da existência concreta, nem da .carga pré-ontológica que, na

nív d da historiddade. (

)

existência, j á vem sempre antecipada. É isto que lhe um a indutáv d circularidade . (Stein , 1983, p . 88}

Podemos perceber a complexidade do pensamento

heideggeriano em Ser e tempo, em que, ao buscar desenvol- " ver a oiitologiafagAamental através da analítica do Dasein,

o

autor diz que a questão da

existência só poder á

si^_esda::

recida jpdo_prQprio_exis.tiii mas que isso difere da

explicita-

ção da sua estrutura ontológica. Assim, tanto a daboração da analítica do Dasein como a condição do ser humano de ter acesso ao ser consideram as dimensões ônttcas e as pré - ontológicas, que são antecipadas na existênda, como rnos- tra Dastur:

K compTe.e.nsão jLfeti.va

au.e

0 Dasein tem de si mesmo é,

gòrtetOjjma . comgr^iisão existencial. Mas o que Heidegger denomina, pd o contrário, análise Existencial nã o se situa no nív d simplesmente "ôntico" do comportamento indivi- dual concreto, mas sim no da explidtação temática da es- tratura ontológica. J^t^i^a^^áz^jaialifJrTt ,T^2ááendgjl£Ojl~ sMejpjhstiiiguir.e^amihsar as modalidades deser funda- mentais do Dasein, os seus E3ds^tenciãIirTr.)"E^erdade que •liãJBTÍirnivérExistencial sem fundamento existendal, isto é , sem a compreensã o qu e u m Dastín d e cad a ve z singida r tem de s-aa piópTÕa existoada É po i a íoa-afâica. Exvs-

tendal ser a analítica desse ente "pré-antológico", que é a

A analítica do Dasein {.Dasdnsanalitik) foi tradvizida nesse livro por analítica Existencial, com a letra 'E' maiúscula, para diferenciar de' "existencial", que se refere ao ôntico.

•IdaMlizabeth Cardinalli

condição de possibilidade de qualqiíer ontologia temAlli-«. que ela constitui a ontologia fundamental que serve dc l\in

• damento para todas as ontologias regionais que têm COiiin tarefa a elucidação do modo de ser dos entes diferentes ri»

Dasein U). [1990, p . 56)

A distinção da analítica do

Dasein

e da daseinsanálise apresentada por Heidegger

E m Ser e tempo, Heidegger deseovolye a análMca do

na

Dasein - Daseinsanalytik -, conforme fo i apresentado

seção

anterior, como uma interpretação

ontológica

do ser

do Dasein que visa esclarecer a questão do ser. Esta analí- tica é circunscrita pela questão do sentido do ser e, então, nã o desenvolve um a ontologia completa do Dasein, nem elabora tuna antropologia.

Assim a questão que surge necessariamente, de quem ou o quê e como é o homem, é tratada em Ser e tempo, exclusi-

va e constantemente, a partir da questão do sentido do ser. Com isto j á está decidido que a questão do homem em Scr

e tempo não é colocada na forma deuma Aniiopologia quc

. pergunta: o que é o homem propriamente? A questão do ho- mem em Ser e tempo leva à analítica do Dasein. (Heidegger,

2001, p. 145}

Nessa mesma obra, é também realizada a daseinsaná- lise que ainda pertence à analítica do Dasein, pois apresen- ta as características do ser do Dasein, que foram denomina- das "existendaiá". Este é o primeiro sentido apresentado por Heidegger para a dasehisanálise, ainda no âmbito da onto- logia, pois é a explidtação que pretende mostrar o que j á foi tematizado na axLa]iUca do Dasrín.

A analMca do Dasein e a daseinsanálise de Martin Heidegger

( )

sunto daDaseinsanalyse. Mas aqui Da5rínsanaiíj5e não sig- nifica outra coisa do que não d executar da apresentação

das caracteristicas

do Dasein tomadas tema n a analítica do

Dasein, as quais chamam-se existendais, mna vez que o

Dasein é determinado como algo existente. Este conceito

de Daseinsanalyse pertence à Analítica do Dasein e, coin

isto, a uma ontologia. (Ibidem, p. 151)

no próprio Ser e tempo aparece íreqiientemente o as-

O segundo sentido apontado por Heidegger, que de-

nominaremos Daseinsanálise dínica, para diferendá-la mais daramente das outras sigrufiçações, é a análise dos fenó- menos fatiais, que se mostram em cada caso na rdaçã o entre analista e analisando. Ela é a descrição e a comprovação dos fenómenos que se mostram nu m Dasein existente particu- lar, n£LJmbiío_da_aj3m-çãi^^ pdos_existendais. Ou é, segundo^.pjrQgriQ_ixensador,

( )

a "Daseinsanalyse" no sentido da comprovação e des-

crição de fenómenos que se mostram factualmente, em cada

Esta análise,"

por ser dirigida sempre a um existente em cada caso, é orientada necessariamente pdas determinações fundamen- tais do ser do ente, isto é, por aqmlo que a Analítica do Dasdn destaca como existendais. (Ibidem, p. 15iy

caso, em m n determinado Dasein existente.

O filósofo esdarece nos Seminários de Zollikon que, ao mesmo tempo em que cada fenómeno presente na rela-

ção entre analista e analisando é orientado pelas definições

é stouplesmente subsumido nos exis-

tendais. Isto significa que os fenómenos concretos e singu-

lares são experiendados e tratados à luz do ser-homem como Dasein, mas são coinpreendidos de acordo com o padente específico em questão.

existendais, este nã o

65

\lãa-lElizábeth Cardinalli

•É decisivo que cada fenómeno que smge na relação de ana-

lisando e analista seja discutido em sua pertinência ao pa- ciente concreto em questão a partir de si em seu conteúdo fenomenal, e não seja simples e genericamente subordina- do a um existencial. (2001, p, 150)

•4.

A terceira definição dada à daseinsanálise refere-se ao

estabelecimento de uma possível ciência daseinsanalítica do homem, que o autor indica como uma "antropologia da-

seinsanalítica", isto é, u m estudo dos fenómenos humanos si - tuados ntun contexto bistóiico-social específico e orienta-

dos pd a

lítica do Dasein,

compreensão do existir humano descritos na ana-

que é expHdtada do seguinte modo:

( )

a totalidade de uma disciplina possível, que se coloca

como tarefa demonstrar os fenómenos existencdais

com-

prováveis do Dasein sodal-histórlco e individual rdado - nados no sentido de uma Antropologia ôntica, de cunho daseinsanalitico. (Ibidem, p. 151)

Para Hddegger, aantropologia daseinsanalítica pode ser subdividida em um a antropologia normal e uma antro- pologia patológica, conforme esdarece a seguir:

Esta Dasdnsanalyse antropológica pode-se dividir por sua vez em (a) uma Antiopología normal e (b) uma patologia dasdnsanahtica a ela rdadonada. Por tratar-se de uma análise antropológica do Dastín, uma mera dassificação dos fenómenos destacados nã o pode ser sufidente, mas predsa ser orientada para a existência histórica concreta do homem contemporâneo, isto é, do homem que existe na sodedade industrial contemporânea. (Ibidem, p. 151)

É interessante assinalar que, para Hddegger, a antro-'

pologia daseinsanalítica é u m estudo do fenómeno humano situado no existir concreto e particular de cada Dasein, sen- do também situado nu m contexto específico da existência histórica do homem contemp'órâneo. Trata-se, sobretudo, de um a dênci a nov a que ainda predsa ser daborada. "(•••) 9

Daseinsanalyse como dênd a ôntica seria um a

teiramente nova. Ciência significa "a ordenação sisteráátíca

dênd a in -

de interpretações de experiêndas" (ibidem, p. 222).

As indicações heideggerianas

para a

daboração

de um a dênd a daseinsanalítica

do homem

-

Já em 5er e tempo, Hddegger, ao discutir' os funda- mentos das Ciêndas Humanas como a psicologia e a antro- pologia, afinna que estas nã o apresentam u m esdarecimen- to dos fundamentos referentes ao modo de ser do homem; assinala todavia que, mesmo quando esses flmdamentos nã o são âiscutidos, des se "encontram na base de suas pesquisas

(1988, p. 87).

Nos Seminários de Zollikon, quando discute que os fundamentos do modd o das Qênda s Naturais sã o manti-' dos na medicina, na psiquiatria e na psicologia, Hddegger constata que tais dênda s nã o tê m dareza dos seus fun- damentos, apresentando uma deficiência epistemológica. No entanto, isto nã o significa falta de "dentífiddade de seus pesquisadores" (ibidem, p. 81). Ao contrário, seu questiona- mento esdarece que h á o domínio do modelo cientifico natural nas diferentes áreas do conhecimento da atualida- de, e que os critérios de objetividade e de calculabiUdade permdam também as Ciêndas Humanas.

Tda Elizabeth Cardinalli

Diz que o método das Ciências Naturais é caracterlzH- do pela maneira como a natureza é tematizada, isto é, re- presentada como objeto e pretendendo a objetivaçfio da natureza:'^

Tratamos do método ou mais exatamente daquilo que co- mcteriza o método das ciências,naturais modemas. Méto- do aqui não significa indefinidamente: "procedimenlti". Método é a maneira como o ente, no caso a naturezH, í tematizada. Isto acontece ao ser representada como ob-Jclo [Gegen-stanã\, como objeto [Objefeí]. Nem a Antiguidade nem a Idade Média representaram o ente como ob-Jclo [Gcgen-stanã\. Mas a representação modema da natureza, sua objetivação é dirigida pela intenção de representar 0,1 processos da natmeza de modo que eles sejam pré-men.su • ráveis em seu decorrer e assim possam ser controláveis. CHeídegger, 2001, pp. 159-160)

O íUósofo assume uma posição contrária à transposi- ção do modelo da Qência da Natureza para as Ciências do

4 Heidegger apresenta o desdobramento do. pensamento cientifico moderno quando afirma que: "A olDjetívação da natureza assim de- terminada seria então o projeto da natureza como de um âmbito objetívo que pode ser dominado. Os passos decisivos para o desdo- bramento deste projeto da natureza para a doniinabilidade foram re- alizados por GalUei e Newton. O termo detenninante é o como, cm que a natureza é representada, e não o quê. O desenvolvimento da dência assim aplicada leva ao fato de que a matneira de proceder contra a natureza define a ciência de modo cada vez mais inequívo- co. Assim Nietzsche pode dizer: 'não é a vitória da ciência que ca- . racteriza o séc. XDC, mas sim a vitória do método sobre a ciência' iVontade de Poder [Wille ZurMacht] n. 466, 1888). Mas esta Vitó- ria do método' c jjrcccdida por uma longa luta em que o método In dicado exige a primazia de tudo definir na ciência" (Heidegger, 2001, p. ISO).

A analítica da Dasein e a daseinsanálise de Martin Heidegger

Homem, pois isto nã o é adequado para entendê-la, po r pres-

supor que a natureza humana é equivalente à natureza dos

objetos.

Se, então, a ciência do homem tiver de satisfazer as exi- gências fundamentais da ciência moderna d a deve obede- cer ao prindpio de precedência do método no sentido do projeto da pré-mensurabUidade. O resdtado inevitávd desta dênd a do homem seria a constmção técnica da máquina =; homem. (Ibidem, pp. 161-162)

Nos Serninários de Zollikon, Heidegger apresenta al - gumas indicações para a daboraçã o de um a nov a tíênda^ do hOEÚem que contemple as características específicas do ser humaiio. Inidalmente, diz que, como o método de pes- quisa ddimlta o seu objeto, pode limitar ou mesmo impedir o âmbito possível do estudo. Isto ocorre quando, por exem- plo, uma experiênda humana é entendida como objeto de uma representação concdtual.

O fator decisivo de tuna dênd a é sempre que sua forma de pesquisa corresponda a seu objeto. Também h á coisas que

eU "hão capto se eu íizer ddas objeto de uma representação

objeto. No má -

concdtual. Um medo ou temor não são um ximo posso tematizá-los. (2001, p. 158)

Hddegger afirma: "O tema da Física é a natureza ina- nimada. O tema da Psiquiatria e da psicoterapia é o homem" (ibidem, p. 151], Mostra nitidamente que uma dênd a do homem precisa ser pensada de u m modo diferente daqude

5 Loparic (1999) sugere que essas indicações sçjam denominadas um "Projeto da aência do Homem", pois não constttaem um moddo completo.

Ida EUzaieth Cardinalli

qae se aplica à ciência da natureza, e apresenta algumas In-

dicações para

ta l projeto: (1) é necessário ter um a explicita -

çã o clar a dos

fundamento s do mod o de ser d o homem ; (2)

o homem nã o deve ser representado como objeto da natu-

reza; e (3) o método nã o visa à objetivação, à mensurabíU-'

dade e à determinação causal.

E m rdaçã o a este

seu projeto daseinsanalitico de uma

ciênd a do homem , o pensador discute tuna pesquisa sobre sfres5/para esdarecer "como se deve definir o caráter den- •tiiico à a Çsiquiatda e dos fundamentos teóricos da praxis psicoterapêutica", e como poderia "ser construída um a ciÔnda do homem que pudesse servir de fundamento sufidente para um a psiquiatria e u m embasamento teórico da praxis psico- terapêutica" (2001). Hddegger diz que, iuidalmente, é necessário respon- der à pergunta : "o que se quer dizer co m stress'' (ibidem, p. 163]? Esdarece-que esta pergunta procura focalizar o as- sunto que está sendo tratado, mas que a resposta, de modo diferente da dênci a dixígidíL àmeasurabiLídade, nã o precisa apresentar um a únic a deíhiição, pois pbde-se encontrar uma pluraHdade de significados que corresponde ao perguntado. Alé m disso, para o filósofo, a importânaá'"de esclare- cer o fenómen o é outra, que. difere do modd o das Ciências Naturais. Não busca a determinação causal, "aquilo que causa algo", como o fundamento do fenómeno a ser estudado. Para de, é preciso o esdarecimento prévio da essência daquilo

6 "Revista para Medicina Psicossomática [Zeitschrift f, Psychosomatísche Med.], ano 11, caderno 4. dez. 1965, vun Duhrssen, Jores und Schwidder" (Heidegger, 2001, p. 1G3).'

7.0

A analiãca do Dasein e a dasrínsanálise dc Martin Heidegger

qu e deve seu rum o do strtss,

sex explicado par a que a investigaçã o nã o perca

(2001, p. 226).^ E, quando visa ao diz:

esdaretíniento

( )

o stress situa-se na constituição da existênda humana

determinada pd o ser

lançado, pd a compreensão e a lingua-

gem. Os múltiplos significados do termo "stress" indicam a* multipliddade da coisa, de modo que precisamos observar os " múltiplos significados das afirmações e não avaliá-las como falhas, se quisermos ser objetivos. (Ibidem, p. 166)

Heidegger afirma também que as características

fun-

damentais

do ser homem, as quais

são interpretadas

na

ontologia, partem de algo j á perceptívd como ser7no-mundo:

Experieudamos o ser-no-mundo como una traço funda- mental do ser homem; ser-no-mundo nã o é apenas supos- to hipoteticamente para a fmahdade de interpretar o ser- homem - isto a ser interpretado é justamente a partir dde mesmo sempre j á perceptiva, como ser-no-mundo. Ubiàem,

p. 164)

Usando a terminologia de Ser e tempo, Hddegger diz que stress t "uni existendal" e tem rdaçã o cò m o fenómeno denominado "Queda" (2001, p. 163). Desse modo, inid a seu esdarecimento exphdtando que este pode ser compreendi- do segundo a constituição básica do ser humano definido como Dasein: stress faz parte da "constituição da essênd a

7 Heidegger questiona o papd da observação genétíca para esclarecer todos os estados patológicos, e não especiíicameníe o stress (cf. Heidegger, 2001, pp. 211 e 226).

Jda Elizabeth Cardinalli

do homersi ek-sisteDite" (ibidem, p , 163]. A o mesmo tempo, assinala que, assim, d e é compreendido como uma solicita-

ção excessiva que interpda algudn, quando

afirma:

Stress signiíica sglirítação, no caso soHdtação excessiva.

A solidtação em geral exige em cada caso um correspon-

der de alguma forma. A esse corresponder pertencem tam- bém, como privações, o não corresponder e o não poder corresponder. Se, ao invés de stress, faiarmos de solicita- ção, então isto não é apenas um tímlo diferente, mas a palavra solicitação leva a coisa imediatamente para o âm - bito do ser homem ek-stático, isto é, para o âmbito no qual pode ser dito, daquilo que nos interpda, que seja assim e assim. (2001, p. 167)

Segundo

o filosofo,

uma solicitação pode

assumir

"diversos sentidos de acordo corn o âmbito em que atua"

exemplo: "uma região atraente estimu-

la, isto é, convida a permanecer"; no âmbito do rdadona - mento humano, "uma pessoa pode desafiar a outra, provo- cando sua ira" (ibidem). Esdarece então que as solicitações no existir de alguém são orientadas por situações específi- cas, conforme consta n o trecho abaixo:

(ibidem, p . 164). Por

Nestes modos de estimulo, mostram-se diversas formas de

soUcitação, quer dizer, de "stress". Este permanece orienta-

do pára as respectivas situações, isto é, para o respectivo

ser-no-mundo factual a que, em cada caso, o homem não

chega,

sênda e por causa dda. (Ibidem, p. 164]

mas em que sempre j á está, de

acordo com sua es-

Para Hddegger, a definição de stress como solidtação

nã o é uma descrição ôntica, mas mostia a estru-

tura, que corresponde a.uma sotidtação, e aponta para o

excessiva

,72

A analítica do Dasein e a daseinsanálise de Martin Heidegger

âmbito que interpela o homem de u m modo espedfico e singular. A exphtítação do stress segundo suas estruturas

ontológicas, conforme foi realizada, oferece dementos para

da compreensão do modo como u m Dasein es-

a orientação

pecífico è singular experiênda as sohtítações que se toma - ram excessivas. No entanto, assinalamos que a explicitação :• de sua estrutura ontológica pode orientar tanto o entendi- mento clínico daseinsanalitico de u m Dasein especííico • quanto o desenvolvimento de uma teoria sistemática deste fenómeno. Mas esta explidtação ainda nã o chega a ser uma teoria cientifica daseinsanalítica acerca do stress.

Loparic (1999) assinala a importânda da discrimina- ção da ontologia fundamental, que exptidta a sohdtação

enquanto tal, e da ontologia regional, que, no caso-do stress, refere-se à solidtação orientada para as respectivas situa- ções. Diz que a dênd a do homem é orientada pd a ontolo-

ontologia fundamental, que perten-

ce à filosofia. Nos Seminários de Zollikon, Heidegger nã o discrimi- na explidtamente os'existendais da ontologia fundamental

e os da ontologia regional, referentes a cada área da dênd a

do homems^que em rdaçã o ao tema deste trabalho rdere-se à antiopología normal, à psicopatologia e à psicoterapia. No entanto, percebe-se que a sugestâ.o de Loparic permite esda - recer melhor os âmbitos de análise (ontologia fundamental, ontologia regional e ciência do homem] e, sobretudo, os fenómenos pertinentes a cada âmbito de pesquisa.

gia regional e não pd a

No decorrer dos Seminários de Zollikon, Heidegger

esdarece alguns pontos importantes para a prática dínica e

a teoria dasdnsanahtica,

conforme apontaremos a seguir:

1. Dtferenda os fenómenos ôntico e ontológico, quaií-

do assinala que a pergunta "como alguém está" quer-saber

73

Ida Elizabeth Cardinalli

sobre "a situação factual momentânea do outro" (Heidegger, 2001, p, 165), e que esta nã o deve ser confundida com o "encontrar-se", que é interpretado como maneira de en- contrar-se [Befindlichkdt], em Ser e tempo, que é "a afina- ção [Gestimmthdt] quede-termina [be-stimmaiãe}oJ)?L-sáD. -em sua relaçã o co m o rnundo em cada caso, co m o com - Dasein dos outros e consigo mesmo" (ibidem).

2. Assinala que a dimensão pré-ontológica da qual gle

parte para desenvolver a análise das estruturas ontológicas, ela também é experientíada como u m fenómeno do existir

exemplo, a

percepção ocorre no trato diário com as coisas, em que u m

Dasein específico

com o seu próprio modo de rdação com aquilo que se apre- senta do mundo:

está rdadonad o com pessoas o u coisas e

concreto de u m Dasein específico. Assim, por

S ó podemo s desdobra r e responde r a esta pergmit a s'e pro - curarmos a percepção lá onde é o seu lugar, no trato diário com as coisas. Ela tem a ver com minha rdação com o ambiente. Com o que estou rdacionado na percepção: com uma sensação que tem um significado ou com as crianças

e abritaddra (exemplos de Pliigge)? Plugge ouve às crian-

ças barulhentas, das não o hicomodam porque ele as deixa " serem suas crianças, porque de está com das como suas em seu mundo doméstico. Entietanto, tncomodam-no os

"moleques" do vizinho, porque ele não admite a brincadei-

ra barulhenta deles. Se de deixasse os moleques serem tam -

bém crianças que brincam^ des não o perturbariam e abor- receriam. (2001, p. 168)

Hddegger (yz_gueofennm

diário^g M as coisas que se apres_entam_dQmtiniQ.p.ara,al-

guém junto com u m dado

signifícadq:

74

A analítica do Dasdn e a daseinsanálise de Martin Heidegger

Primeira e cotidianamente ouço sempre a motoddeta, o canto do pássaro, o sino da igreja. É necessário um modo de observação multo artifítíal para filtrar algo como um dado sensorial de sensação pura a partir do que foi ouvido.

(2001, p. 167)

3. Considera que o método de pesquisa

tico

científica:

nã o

é

filosófico,

pertencendo

ao campo

daseinsanaíí-.

de

pesquisa

O método de pesquisa daseinsanalitico "inteiramente dife-

• rente" dapesqmsa cientííico-natural não éíilosóíico, ontoló- gico, de se rdere ao ente humano em seus estados que são assim e assim de maneira idêntica à dentífico-natural ( (Ibidem, p. 235)

4. Assinala que é necessário diferendaros termos "fe- nomenológico" e "fenómeno" quando estão referidos à on- tologia e quando são usados no sentido óntíco, como, por exemplo, na medicina.

5- Diz paraBoss que, na afirmação "conforme o Dasdn",

é. importante diferendar quando esta se refere aos traços fundamentais, que são afirmações ontológicas, e qriando "o homem sadio e doente é experienciado, observado e trata- do, em cada caso isolado, à luz do projeto do ser-homem como Da-sein" (ibidem, p . 235). A o mesmo tempo, o filóso- fo ressalta que a compreensão do homem, em cada caso par- tieulai, também precisa estai orientada pd a explidtação do existir como Dasdn, para superar a concepção de homem presente nas diversas teorias das Qências Humanas. Afirma Hddegger que:

75

rda Elizabeth Cardinalli

Deixar ficar este ente - assim-e-assira-como-Dasein em seu ser-assim - sò è possivél desistinào-se ào projeto ente (no caso do ser limnano] como ser-^dvo dotado dc razão, como sujeito na relação sujeito-objeto, como ser vivo auto-producente (Marx) e se, antes de tudo, o projeto (Io ser-homem como Da-sein for realizado e mantido cons= tantemente - apenas à luz deste projeto o ente (homem) pode ser examinado conforme o Dasein. (2001, p. 235)

6. Esdarece que os -fenómenos humanos, como por

txt3aj.io a solidtaçã o excessiva (o strtss], nã o devem ser medidos segundo os modos habituais dentifícos, mas segun-

conseguimos cor-

responder a priori a um a

sohcitação, isto é, conforme nossa

do o modo pd o qual "correspondemos e

rdação existente com o mundo, com os outros e conoscõ

mesmo é definida" (ibidem, p. 168).

7. Ressalta, -ao -questiona r a-psiquiatiá a d.asdnsanalítl -

ca de Bhiswanger, que esta nã o pode descartar a rdaçã o com o ser, pois assim deixara de ser anáhse do Dasein,, quando diz que:

A compreensâo-do-ser nã o é imia determinação que diz

respeito apenas à temática da Ontologia Fundamental mas sim a compreensão do ser é a determinação fundamenta!

do Dasein como tal. Portanto, uma análise, do Dasein que

omite esta rdação com o ser que essência na compreensão

do ser não é análise do Dasdn. (Ibidem, p. 205)

76

A DASEINSANÁLISE

DE MEDARD BOSS

No momento a Psicologia, a Antropologia, a Psicopatologia

consideram o homem como objeto num sentido amplo (

).

Assim, elas negligenciam a pergunta de como e o que

é o homem como homem.

(Heidegger, Seminários de'Zollikon]

Boss, a partir do contato mais próximo com o pensa- mento hddeggeriano, do existir humano como Dasdn, uti - liza o termo "dasehisanálise" para dénoniinar suas teorias da patologia e da psicoterapia. Este termo é usado em sua obra em seus três sentidos, conforme Hddegger esdarece nos Seminários de Zollikon, tanto para se referir à anáhse filo- sófica hddeggeriana, que faz parte da anahtica do Dasdn, quanto para denominar a prática psicoterapêutica, ou para as teorias sobre os modos de existir sadios e patológicos. Para estabdeeer um a distinçãQ de. cada u m desses dois. -últtmos âmbitos dè atuação e de problemas em rdaçã o ao filosófi- co, será denominado "daseinsanálise clinica" quando se refere à prática psicoterápica, e "psicopatologia daserosàna- lítica" quando se refere ao estudo das patologias humanas.

77

Ida Elizabeth Cardinalli

A daseinsanálise

dínica

O ponto de paitida de Boss para pensar a prática clí- nica fo i a psicanálise freudiana, uma vez que esta era

formação inicial. Na discussão sobre as teorias do aparelho psíquico psícanahtico segundo o pensamento heídeggeria- no, d e questiona seus fundamentos filosóficos, afirmando que elas desconsideram a natureza humana ao utilizar mo - delos teóricos pertencentes à Qência da Natureza, como a fiska, a química e a biologia, conforme fo i apresentado no segundo capítulo.

Em relação à teoria da prática psicanalítica, Boss re- toma os conceitos fireudianos, tais como a associação livre, a transferência e a contratransferência, e os reinterpreta à luz do pensamento heideggeriano. Desenvolve uma discus- são detalhada acerca desses conceitos, que nã o será apre- sentada neste trabalho por fagif do tema de nosso estudo. Boss (1963). entende que a prática terapêutica dasein- sanalitica é u m desdobramento da prática psicanalítica, apesar de não assumir o referencial teórico da metapsicolo- gia e de introduzir modificações quanto aos conceitos da regra fimdamental denominada "associação livre", d€ trans- ferência e contratransferência da relação terapêutica, quan- to à interpretação e à aphcàção terapêutica dos sonhos.

sua

Propõe que o psicoterapeuta dispense, em sua com -

preensão clínica, as teorias explicativas, no caso a metapsi- cologia, e procure na situação de atendimento, isto é, no enconlio çntte terapeuta e paciente, a compreensão imediata

daquilo que aparece.

»

Para Boss, a compreensão do terapeuta deve ser orienta- da pd o entendimento do existir como Dasein, isto é, segun- do os modos de ser do ser-no-mundo junt o com outros ntun mundo compartilhado {1979a, p . 283). Bsta orientação,

A àasrínsanálise

ãt Meôarà Boss

conforme o autor, permitirá que a compreensão do terapeu- ta seja efetivamente guiada pdos significados que se origi- nam dos modos de existir de cada padente, no sentido tan - to do que d e está podendo viver quaato das restrições que impedem o desdobrar das suas possibilidades. No entanto, Boss esdarece que a analítica do Dasdn, por ser uma onto-^ logia, nã o oferece concdtos para serem aplicados no lidar "• com os pacientes em situação psicoterápica, e que o termo ser-no-mundo "sempre se refere exdusivamente à verdadeira essência de comportamentos humanos" {1953, p. 233).

Boss percebe que a experiênda que advém da com- preensão do existir humano como Dasdn desenvolve, no psicoterapeuta, maior respeito pelo que se apresenta

no existir concreto de vm paciente especifico, pois lhe per-

mite compreender "o que

do" (ibidem, p . 234). Esse respdto decorre da atitude do psi-

coterapeuta, que focaliza a experiênda do padênte, que se revela como uma totalidade significativa onde se insere. Assim, o terapeuta dasdnsanalítico está atento "ao signifi- cado eao contexto de tudo que chega e se mostia direta- mente a de (paciente)" (ibidem, pt 233). O -psicoterapeuta daseinsanalítico deve fimitar-se à "investigação de todos os modos de comportamento huma- no imediatamente oisçiváveis e de suas afinações subjacen- tes igualmente perceptivds" (ibidem). Para o autor, "a verdadeira arte da terapia consiste em prestar cuidadosa atenção ao 'o que' o padente visuaLLza e

realmente v ê e ouve

do analisan-

ao 'como' d e se rdaciona com

proposta é esdaredda por Spanoudis', quando diz:

isso" {1979a, p . 259)

Esta

1 Sólon Spanoudis foi o introdutor do pensamento daseinsanalítíco dé Boss no Brasil.

79

Tda Elizabeth Cardinalli

tentamos juntos- clarear a totalidade dos significados e deixar compreensível como o outro se relaciona com tudo que encontra, como se comunica com o próximo, como está afinado (disposto) em relação a tudo que vivência ( (1978, p. 14)

(

)

Para Boss, a relação é o ponto central do trabalho terapêutico, pois é junto com o terapeuta que. o paciente poderá mostrar, perceber e "des-envolver" os seus modos de existir. A maneira como este se coloca e se comporta na terapia, mesmo que mostre uma atitude considerada imatu-

ra em relação à sua idade cronológica, refere-se à maneira"' de viver possível para o padente naqude momento. Isto é,

como de

está podendo existir se revda no modo como se

rdacion a

co m o terapeuta. Assim, Boss nã o interpreta os

sentimentos do paciente em relação ao terapeuta como uma transferênda de experiências infantis; compreende que, na situação psicoterápica, de detivamente experiênda de acordo com o modo como d e pode ser neste momento da sua vida.

análise das resistêndas,

proposta na psicanálise freudiana

(1979a, p. 278). Não fo -

caliza o rememorar das lembranças e dos sentimei},tos das rdações infantis como objetivo prindpal do trabalho psico- terápiço. Mas, para de, a ãasebismálise pode ser pensada como um a anáhs e das restrições, cujo foco é o que continua

a motivar a.permanência dos modos restritos do se compor- tar e não o que determina as restrições.

O autor també m repensa a

A dastínsanálise e o método de investigação fenomenológico-existendal

Pretendemos esdarecer o que, segundo Boss, signifi- ca dizer que o método dasdnsanalítico de investigação - seja

A daseiTisanálise de Medard Boss

na situação do atendimento psicoterápiço, seja na descrição" dos fenómenos patológicos - é fenomenológico e existen-

indisso-

dávd s do ponto de vista bossiano, nó s optamos por apre-

por isso fizemos um a sdéçã o de

algumas dtações do autor, pois consideramos que, assim, po- deremos esclarecer melhor a rdação da fenomenologia e dá existência com a daseinsanálise de Boss.

sentá-los separadamente,

dal . Apesar de, a rigor, esses dois sentidos serem

A àaseinsanálise

e a

fenomenologia

que seu métod o de. investigação é orientado método fenomenológico e pdas exphcitações

ontológicas do existir humano como Dasein. Ele nã o equi- para o método fenomenológico com procedimentos especí-

ficos de investigação, pois inidalmente este inétodo signi- fica o caminho de acesso que esdarece o modo de ser da- quele ente assumido em seu estudo.

Hddegger, é pd a àefinição à o modo de ser do

ente qiie o método de iavestigação e.determinado, confor- me esdarece: "O modo de acesso a uma região do ente é determàado naturalmente de algmna forma pd o modo de ser do respectivo ente" (2001, p. 128). Ou: "Método significa o caminho no qual o caráter do campo a ser conheddo é aberto e hmitado" (ibidem, p. 132).

Boss percebe, com o fHósofo, que o acesso ao fenó- meno estudado nã o é apenas definido pd o método de ia - ve;stigação, pois este, j á antes, está cJicvmscrito pela. defini- ção de ser do ente, previamente assumida. Assim, em mui- tos textos, de justifica a escolba do método fenomenológico hddeggeriano como o mais adequado para compreender o

se dá orientado pd o esdareci-

Boss diz sobretudo pd o

Para

existir humano, cujo acesso

mento ontológico do- existir como Dasein.

81

da Elizabeth Cardinalli

Este método pode ser denominado fenomenológicOj uma vez que se dirige unicamente à coisa em si revelada,, bem como ao modo dda se dar e revelar Revdar-se é, no grego

antigo, "phainesthai". Este termo tem a mesma origem de "phainomenom", que significa o que se revela do escondido.

E neste intuito que o pensamento fenomenológico está

voltado para o fenómeno manifesto, até que lhe tenha pene- trado no cerne próprio e alcançado sua essência origiaária. (Boss, 1997b, p. 20)

É importante destacar que, para Boss, aquilo que é

xpHdtado através dos existendais ontológicos hddegge-

ianos nã o é

ois pertence ao existir mesmo do homem. Assim, aquilo que

pensado e exphdtado na caraderização ontológica da exis- ênd a htunana faz parte também da experiênda do existir umano, mesmo que cada âmbito de experiênda requeira

m tratamento -diferendado.

algo que aparece apenas n o pensar filosófico,

Em contraste com as suposições contidas nas teorias cien- tíficas, o caráter fundamental dos seres concretos é um fe- nómeno ontológico,, o que o faz ser o que d e é. Isto se dá porque os fenómenos ontológicos nunca estão presentes de modo independente do fenómeno onticamènte presente: o fenómeno ontológico, sendo a essênda do fenómeno senso- rial, deve sempre habitar ndes. (1979a, p. 163)

Esta posição assumida por Boss é vista com reserva alguns estudiosos de Hddegger (Stein, 1983 e 1988), que

o r

uestionam se as ideias heideggerianas podem ser ntíliza-

as para contemplar a dimensão àdstencial-ôntiea da ex-

eriência, humana. No entanto, pode-se notar que Hddegger,

os Seminários de ZolUkon (19873, âo apresentar suas iddas

o existir humano como Dasein ms suas dimensões de es- adalidade,temporalidadè e corporddade,. sempre parte da

2

A daseinsanálise

de Medard Boss

experiência mais imediata de alguém, indicando assim á aproximação entre as exphcitações ontológicas e a experiên- d a mais imediata do existir. Segundo Boss, o estudo dos fenómenos humanos sa- dios e patológicos requer, primeiramente, o esdarecimento de sua natureza çxist&miml, o qual permitirá deslocar-o entendimento mais habitual do homem apoiado nos concei- tos de razão, forças, impulsos, etc. para os modos de existir humanos. Mais especificamente, apenas quando o. pesqui- sador conseguir ver o existir humano como Dcsein, ser-no- mundo, ser-com-outro, é que de conseguirá ver e compre- ender os fenómenos específicos no existir de uma dada pes- soa, isto é, de acordo com a maneira como esta pessoa experiência seu próprio existir. Segundo o autor:

Em primdro lugar, as pesquisas psicológicas ou psicopato-

• lógicas têm que se basear sobre o fenómeno primordial do Existir do homem; isto sempre é a rdação da concepção humana com a coisa percebida. Esta relação do Ser Huma- no com os entes que lhe aparecem na dardr a precisa sem- pre ser entendida a partir deste fenómeno primordial: das coisas que estão aparecendo e do entendimento humano. (fô76, p. 22)

Vê-se que, segundo Boss, o esdarecimento dos fenó- menos ônticos do existir do homem é orientado, inidahnente, pdo acesso fenomenológico no sentido ontológico e pd a explidtaçã o da existência humana como Dasein, Para de, o método fenomenológico é entendido como -uio. caanoiio de acesso aos fenómenos, tanto em sentido ontológico como em sentido ôntico, um a vez que os fenómenos sã o sempre ôntico-ontológicos. Esta co-pertinênda da estrutura onto- lógica com as possibilidades concretas do existir'é esdare- dda por Loparic, que diz:

83

Tda Elizabeth Cardinalli

Como a estmmra do tempo que eu sou é, simultaneamente, a estratura ontológica das possibilidades concretas do meu existir, assim como das de outros entes, Heidegger diz que eu sou ou existo "onto-ontologicamente". Ou, ainda, que a distinção "ôntica" do ser-ai é a de ele ser "ontológico" (1927, p.l2j. Nenhum elemento da estmtura ontológica do ente que eu sou é flutuante, todos são ancorados em meus mo- dos de ser concretos, ónticos, todos são minhas possibili- dades. (Loparic, 1996, p. 138)

QMmdo Boss faz indicações paia a aplicaçã.o da feno- menologia heideggeriana no campo da psicoterapia e da psicopatologia, tendo em vista a compreensão do existir de uma pessoa especifica segundo as dimensões existen- ciais, ele assinala que, além do estudo teórico das ideias heideggerianas, é necessário que o "investigador" faça runa

experiência de compreensão do seu próprio existir e do existir dos. outros como Dasdn. Deste modo, considera que é ne - cessário exercitar a compreensão do existir humano como

Dasdn, e nã o apenas o estudo da ontologia

para que o "pesquisador" desenvolva u m "olhar" ou uma "compreensão" dos fenómenos humanos. O esclarecimento e a descrição dos fenómenos ônti- cos do existir - seja das patologias, seja da situação psico- erápica - requer então do psiquiatra e do psicotexapeuta uma famiharidade com o modo de compreender o existir humano. É com base nesta famfliaridade que é possível perceber e compreender cada paciente específico e descrever os modos particulares da realização de seu próprio existir. Neste sentido, segundo Boss, o método de investiga- ção daseinsanahtico é denominado fenomenológico, sobre- tudo quando a referência que orienta o olhar e o compreen- der - do pesquisador, do psiquiatra ou do psicoterapeuta - está na descrição dos modos de existir humanos como d a é explidtada por Hddegger."

heideggeriana,

A daseinsanálise

de Medard Boss

Boss utiliza, no entanto, em seus textos, a denomina- ção métoào fenomenológico em sentidos diferentes, ne m sempre expUdtando de modo daro o âmbito de anáhse, seja da apreensão da experiênda especifica dos pacientes, seja da exphdtaçã o ontológica. Utiliza, fieqíientemente, a expres- são método fenomenológico e, em seguida, explicita a com - preensã o do existir como Dasein segundo a ontologia . heideggeriana, o que indica que de mantém como ponto de partida a fenomenologia e o acesso da exphdtaçã o ontoló- gica. Dá também algumas indicações do seu método de in - vestigação para a compreensão dos fenómenos sadios e patológicos, mas nã o exphcita sistematicamente as diferen- ças da aproximação nos sentidos ontológico e ôntico.

Esta posição nã o significa, todavia, que Boss, para

esdarecer e descrever os fenómenos ônticos sadios e pato - lógicos do existir humano, entenda a fenomenologia heideggeriana como metodologia de pesquisa segundo o mo- delo da Ciência Natural, ou como procedimentos de inves- tigação que se atêm à mera descrição dós fenómenos obser- vávds. Assume o método fenomenológico no sentido onto- lógico como o acesso mais adeqUâdo aq existir humano, por permitir, esdarecer o fenómeno que se apresenta com base

explicita-

ções ontológicas htídeggerianas do ser do homem oferecem

os fundamentos que permitirão que esta descrição corres- ponda aos modos de existir humanos.

nd e mesmo. Ao mesmo tempo, considera que as

Por isso, a ciência psiquiátrica adotou dos especialistas do pensamento fundamental, dos filósofos, a compreensão da essência básica do ser do homem, à cuja luz devem surgir seus fenómenos psicopatológicos, para serem depois exa- minados psiquiatricamente. (Boss, 1977, p. 9)

85

Ma Elizabeth Cardinalli

Quando Boss afirma que a psicopatologia daseiosana- ítica deve se ocupar com "trazer à luz o que se mostra do

fenómeno

atológico" (ibidem, p. 7), isto não significa mera descrição

os "fatos em si", uma vez que esta descrição nã o se atém

róprio fenómeno"

ou "tomar visível o próprio

o

patente, mas inclui o que aparece dos fatos,

o

contexto

e

referência e a sigrdficatividade que pertence ao próprio

enómeno. Assim, a descrição cuidadosa de cada fenômeqo atológico, em suas variações e particularidades, em cada

odo de existir, supõe o esclarecimento anterior da nature-

a

ca

existencial das doenças e a natureza existencial especí- desse modo de existir patológico.

existencial das doenças e a natureza existencial especí- desse modo de existir patológico.

Neste sentido, a Dasein Analyse tenta descrever a maneira exata da distorção e redução deste entender. Todos os sin- tomas patológicos corporais e os chamados psíquicos são sempre privações e podem ser compreendidos como redu- ções de possibilidade de entender uma coisa em toda a sua amplitude eriqueza de conteúdo. (Boss, 1976, pp. 22)

O autor esclarece, também, que o estudo psícopatoló-

ico orientado pd a fenomenologia nã o visa às explicações

e

determinação causal e que a investigação-sobre á origem

o

fenómeno patológico requer, anteriormente, o esdared-

ento da natureza existendal orientada pd a ontologia fe-

omenológica.

Não importa a forma que uma iavestigação sobre as ori- gens possa ter, ela não pode leclamax o status de uma p«^s- quisa rigorosamente científica, a naenos que tenha primei- ro tomado visível o próprio fenómeno patológico tal como elèse apresenta. (Boss, 1979a, p. 195)

A

daseinsanálise

de Medí^rd Boss.

Para Boss, o método de investigação dasdnsanalítico permite que os fenómenos sadio e patológico do,existir humano se mostrem mais diretamente como são para o pesquisador. Isto significa que des podem ser compreendi- dos segundo o modo como são experiendados por alguém, quando são esdareddos de acordo com os significados e os contextos de rderênd a que pertencem a este modo de existir.' Nos estudos dos fenómenos ônticos, Boss retém do método fenomenológico, no sentido ontológico, a priorida- de do esdarecimento do fenómeno. Assim, focafiza como este se mostra para o investigador, conforme esdarece a se- guinte fase: "Como já expressa a palavra fenomenologia, o método fenomenológico é a forma de acesso a um 'objeto de investigação' que se atém exdusivamente aos fenóme- nos" (1975c, pp. 7-8}.

É importante lembrar que a fenomenologia^

confor-

me mostramos no primeiro capitulo, já estava incorporada aos estudos psicológicos e psiquiátricos. Desde o seu início, com Jaspers, da assume um Caráter espedfico quando trans- posta para a psiqxúatria, sem pretender o esdarecimento da essênda dos fenómenos patológicos. A apficação "da feno- menologia no campo da psicologia e da psiquiatria preten- deu sempre, grosso modo, captar e descrever as dimensões humanas através da experiênda espedfica dos padentes.

2 No primeiro capítulo, foi apresentado um breve histórico da psiquia- tria fenomenológica, esclarecendo-se que o termo fenomenológico vem sendo utilizado na psiquiatria desde Jaspers (1913). Este con- ceito, apesar de assimiir significações diversas de acordo com cada autor, apresenta sempre um significado específico quando aplicado no campo da psicopatologia pelos psiquiatras, não pretendendo conespou'- derem sua totalidade ao concdtofilosóficodeHusseri e Heidegger.

87

Ida Elizabeth Cardinalli

Assim, de outra maneira, Boss percebe na aproxima- ção fenomenológica heideggeriana indicações para a inves- tigação daseinsanalítica orientada pela aproximação feno- menológica e existencial, quando

{ )

ele procura focalizar os fenómenos que estão direta-

mente visíveis, não tendo outro propósito além de articular

a significativldade e os contextos de referência que os pró- prios fenómenos revelam. [Boss, 1979a, p. 78)

Ao mesmo tempo, considera que o esclarecimento dos modos de existir, sadios ou patológicos, somente será bem- sucedido se for uma decorrência de uma compreensão clara dos fundamentos do método de acesso ao fenómeno estu- dado e daqueles do existir humano. Os comentário s de Heidegge r nos Seminários de Zollikon sobre o esboç o inicia l do livr o Existential Foundations of Medicine & Psychology {1979a) ilustram como o filósofo pensa o método fenomenológico ontológi- co e o método de pesquisa orientado por seu projeto onto- lógico, quando ele esclarece .que:

O título "fenomenológico" é então usado ém sentido ônti-

co, assim como o título "fenómeno", isto é, "o.ente que se mostia, respectivamente, assim e assim", isto é que na medi- cina é examinado e tratado. Mas a pergunta decisiva é:

à luz de qual ser este ente (o homem) é experienciado? (Heidegger, 2001, p. 235) " •

Vé-se que Heidegger se preocupa com a distinção da fenomenologia no sentido ontológico e no sentido ôntico, esclarecendo que o primeiro é que orienta a compreensão do existir humano em cada caso, isto é, "o ente que se mostra assnn e assim". Esta diferenciação nã o sigiufica a negativa

88

A

daseinsanálise

de Medard Boss

da adequação do estudo dos fenómenos ônticos orientados pela fenomenologia. O que o filósofo assinala é que as manifestações ônticas precisam ser vistas como fenómenos que se mostram de uma maneira específica e devem ser orientadas segundo o projeto ontológico-fenomenológico,

covforme d e diz a seguir;

.

Exige-se do pesquisador justamente isto, o mais difícil, a passagem do projeto do homem como ente vivo dotado

O' "deixar"

llasscnl, isto è, aceitar {Zulasseríi o ente, assim como de se mostra, só se tomará um deúcar-ser apropriado se este ser, o Dasein, ficar antes e constantemente à vista. (2001, p. 235)

de razão para ser-homem como Dasein. (

)

A afirmação de Hddegger esdarece, sobretudo, que o

método

não é a mera aphcàção do método fenomenológico

ontológico. Ele assinala a importância da discriminação dos âmbitos de anáhse da fenomenologia nos sentidos ontoló- gico ç. ôntico. Assim, 2L.Í3\Mt,st\ga.^ão do feiôíáçiio existei - cial-ôhtico predsa ater-se ap-próprio fenómeno ôntico e ser orientada pd a fenomenologia no sentido da hermenêutica do Dasctn. Segundo o pensador;

de pesquisa

aplicado ao estudo do existir humano

no sentido

O próprio método de pesquisa "conforme o Dasein" não é

fenomenológico, mas, sim, depende e é regido pd a feno- menologia no sentido da hermenêutica do Da-sein.

O aphcar-se ao deixar-ser do ente humano no sentido dó

Daseinj á pressupõe a aceitação

do ser desprotegido no proje-

to ontológico-fenomenológico como Dasein. (Ibidem, p. 236)

É interessante sahentar que, se o filósofo, por um lado,

não utiliza a palavra "fenomenológica" para designar o método de pesquisa daseinsanalítíco, por outra lado suas

89

m-Èlizabetk

Cardinalli

indicações para o entendimento e a descrição das manifesta-

ções existendal-ônticas do existir humano ficam próxima s do que visam as diferentes aphcações da fenomenologia no campo da psiquiatria e da psicoterapia, uma vez que assina- la que a familiaridade^ do pesquisador com o entendimento do ser humano como Dasein lhe possibihta aceitar e perce- ber o ente humano "assim como ele se mostra" (ibidem,

p. 236). Esta compreensão permitirá, então, "descrever as ma-

nifestações correspondentes" (ibidem) dos diversos modos de existir,

A

daseinsanálise

e a

existência

Pretendemos esdarecer, do -ponto de vista da dasein-

heidegge-

acerca da existência humana como Dasein para o en -

sanálise bossiana, "a decorrência da explicitação

riana

tendimento do existir concreto do homem.

Orientado pela caracterização

heideggeriana, t^nss)

JStO é. COmO

abertura . f^fr--pn-TmiTirln, <!pr-rnTn-n-nntrn, P';paHa1iHarlp,

p n p-yistir CQnrrptn de

rnriTj ^rPPTirJ p

n

PYi <:ti r

TnimaTi n

rnmr,

efr.

-

Dn^séin -

temporalidade , rnrpnrpfriadp,

u m rin':plv p;=ippdfír n <ip^^Tnf\n sen s -mndo s "de ser . O u seja ,

compreende cada fenómeno humano como a efetivaçãvãas

pn<;sibi1ifiadps oU do poder-ser de u m hompm psppHfico.

Esta

rpmprppnsãn HP Dff-ypm snpõp qne rada pxistir espenfirg yi^n

.SP psgota na Possibilidade que está se efetivando quando

nlfnirm rmhVn próprio existir.

Hddegger esdarece, nos Seminários de Zollikon, que as possibilidades do Dasein se rrferem ao poder ser, e qu é das são sempre u m poder-ser-no-mundo-histórico, tuna vez que o poder ser acontece no mundo e está imbricado no tempo (fiituro, presente e passado], conforme explica:

90

A daseinsanálise de Medard Bosp

Possibilidades, no sentido existencial, são sempre u m ' poder-ser-no-mundo histórico. Pdo modo como en corres- pondo ao que vem ao meu encontro, eu vejo o presente e o passado. (2001, p. 181)

Para o

filósofo,

as possibilidades nã o sã o compreen-

didas como capaddades humanas independentes

cm que d e está inserido

da situação'.

historicamente, esdarecendo que:

( )

as possibilidades do Dasein não são tendências ou ca-

paddades em u m suidto. Elas sempre resultam primeiro, a

bem dizer, a partir de "fora" de cada situação histórica do

e escolher, da relação com o que vem

poder-se-rdadonar

ao encontro. (2001, p. 181}

Com

base nesse esdarecimento,

percebe-se que

as

possibilidades humanas nã o sã o pensadas corao u m conjunto

prévio potenda l dentro do homem independentemente das solicitações do mundo. A o contrário, são consideradas se- gundo as sohdtações que se apresentam nas situações es- pecificas da vida de cada um , através das xeiaçôes interpes- soais e dos modos de ser mais valorizados em cada contexto histórico-sodal. Assim, cada Dasein se compreende, bem como corripreende o mundo e tudo o que lhe diz respeito, conforme o modo como de está podendo

Ao mesmo tempo, Hddegger lembra que as possibili- dades, o u o poder ser, se apresentam de três maneiras dife- rentes no existir de cada um: h á as possibihdades que já vêm com o nascer; as que correspondem às sohdtações do mim - d o onde. algué m se. encontra ; e. as possibilidade s qu e algué m pode escolher entre as que se apresentam. Nota-se que es-

sas maneiras nã o

lidade pode j á ter vindo ao nascer e, também, ter sido des-

dobrada segundo a própria escolha ou de-acordo com a so- licitação do mundo, conforme o filósofo mostra:

sã o exdxosivas, pois um a mesma possibi-

91

Ida Elizabeth. Cardinalli

A pre-sença sempre se compreende a si mesma a partir de nm a possibilidade própria de ser ou nã o ser ela mesma. Essas possibilidades são ou escolhidas pda própria pre-sença ou u m meio em que d a caiu ouj á sempre nasceu e cresceu, (1927/1988, p. 39)

Esse entendimento do existir do homem é comparti- ihado por Boss, piincipahnente, quando d e compreende o existir de alguém segundo os modos específicos e situados no seu próprio viver. Ele se recusa a pensar os modos de ser de cada u m conforme as determinações de validade geral. Ao mesmo tempo, na apresentação da história de vida de alguns padentes, assinala situações que impediram ou fa- voreceram o desdobramento de determinadas possibilidades. No entanto, nã o chegou a aprofundar uma reflexão a res-

peit o

de

detertoinações

específica s

n a

Mstóii a

de

vid a

de

certos pacientes, conforme apresentaremos, neste mesmo capítulo, no item sobre a génese motivadonal.

como ser-

Esta perspectiva - que compreende o Dasdn

no-mundo -

aquda concepção de homem que pressupõe a divisão sujdto-

objeto. Conforme j á indicamos no terceiro capítulo, o existir humano, segundo Boss, é também compreendido como ocor- rendo sempre j á no mundo, e o entendimento humano, des- de o inldo, está junto do mundo t

supera, como fo i assinalado por Bins.wanger,

( )

pre e originariamente enquanto existente de modo singu- lar no mundo. Desde o inído de se encontia Ek-statica- mente aberto ao espaço do mundo, isto é, relacionado em qualquer coisa, de tal ou qual significado, que Ibe diz res- peito dentre o aberto de seu mundo. (Boss, 1997a, p. 8)

podemos então descobrir que o homem apenas é sem-

A

daseinsanálise

de Medard Boss

Nesta compreensão do existir, Boss focaliza a abertu- ra do Dasdn para situar os modos específicos do existir no mundo. A abertura - isto é, a designação para o "estado de aberto" de cada existir no mundo - é o que- possibilita a

aproximação e o distanciamento das diferentes coisas (objetos reais, objeíos fantasiados, ^ etc), das outras pessoas ;, (presentes e ausentes) e do próprio Dasdn para si mesmo.

Assim, segundo

o autor:

Existimos de uma ou outira mantíra rdadonados sempre com alguma coisa,, que nos concerne, em ta l ou qual signi-

• ficado, desde aqude lugar predoso onde estiver em nossa abertura do mundo. Pode ser que essa coisa nos toque em nosso íntimo ou nos deixe indiferentes. Pode ser mna per- cepção sensorial no presente, ou algo só imaginado, do presente ou do passado. (1997a, p. 8)

Boss ressalta também que a disponibilidade do tem - po, ou ter tempo para, é uma dimensão fundamental para compieenàer a temporalidade no existir humano, a qual está imbricada nas três dimensões temporais (passado, presente e futuro). Ele diz que:

À espacialidade primordial acrescem as dimensões de nos-

sa temporalidade existencial: presente, passado e. futuro.

Por sua vez, uma das caracteristícas da temporalidade

( )

primordial humana está na disponibilidade do tempo; só

assim podemos ter tempo para isso ou aqmlo. (

de nosso tempo, nossa exis-

tenda o concretiza em crescimento e maturação e também

o consome. (Ibidem, p. 9)

que deste jdt o nos utdizamos

) À medida

'

.

3 Boss denomina o primeiro -pTtscnça sensorial e, o segundo, presen-

ça imaginada.

93

Tda Elizabeth Cardinalli

A daseinsanálise e a etiologia

No segundo capítulo, foram apresentadas críticas re- lativas ao conceito de etiologia das patologias psiqnicas. Esses conceitos etiológicos sustentam que h á uma relação de deterraiaação entrega causa e a manifestação da doença. Boss questiona se a própria noção de determinação causal é adequada para o entendimento das experiências humanas, pois isso implicaria pensar os fenómenos humanos segundo o modelo das Ciências Naturais, e este nã o consegue abar- car as dimensões especííicas do existir humano.

Propõe que se tenha uma visão de génese motivacio- nal para estudar as patologias. Inicialmente, esclarece os dois significados da palavra motivo, dizendo que, habitualmen- te, ela é usada no seaitído de causa, ou seja, aquilo que de- termina alguina coisa, e assim mantém a noção de causali- dade oriunda da Qência Natural. Contudo, o termo motivo significa, também, aquilo que apda ou sohdta alguém, sua

motivaç.ã.0.

Boss chama a atenção para os diferentes significados que as palavras etiologia e génese assumiram desde suas origens. O termo grego aitia - que significava ímpeíb, culpa

e ocasião - agora se tomou causa (Boss,.1979a, p, 192). Mas de lembra, também, que a conjunção causal porque refere-

se originalmente ao tempo, significando enquanto, durante

e na ocasião de (ibidem). O autor propõe que a etiologia seja pensada numa

perspectiva genética motívadonál, como a ocasião que reúne, ao mesmo tempo, as sohdtaçõeâ, o entendimento humano e

a manifestação de u m comportamento especifico do homem.

Considera que esta visão é mais adequada para se entender

os comportamentos humanos do que a da etiologia, causal,

94-

A. ãasrínsanálise

de Medard Boss

uma vez que contempla a especifiddade da natureza huma- na, por pressupor algum tipo de entendimento humano'* acer- ca das solidtações desses contextos. Para Boss, o comportamento humano, tanto o sadio quanto o patológico, deve sei:'compreendido na forma de relações motívacíonais ou, mais espedfícamente, de contex-:- tos motívadonais.

Com relação ao homem, só se pode falar em cadeias de motivos. O motivo pressupõe que alguém, em primeiro lu-

gar, tenha entendido uma coisa como tal e que a qualidade

desta coisa motive-o a fazer alguma coisa dda. (

) Uma

ação humana .é sempre motivada e cada ação motivada pressupõe o entendimento de uma coisa como tal. (1976,

pp. 15-16)

Quando pensa a etiologia no sentido de motivação, Boss a.compreende segundo as colocações hddeggerianas desenvolvidas nos Seminários de Zollikon. Os motivos e

aquilo em direção ao qual des são dirigidos são determina-

que é reconhedda e acdta pd o

homem de alguma maneira. Estar dirigido a uma tarefa apresenta uma antedpação do futuro e revda-se pdos signi- ficados. Mas não é o homem que atribui os significados a Indo o que está à sua volta, nem é o mundo que determina os significados de tudo. Os significados lhe são revdados conforme sua abertura perceptiva, que permite que as "coi- sas" do mundo se tomem mais próximas ou afastadas de alguém em um contexto significativo determinado por uma

dos pd a tarefa iminente,

4 Para