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Guião do documentário DONOS DE PORTUGAL

00:35

Narrador: Imagina-se a consultar a edição de um jornal económico de um futuro longínquo, digamos… 2150?

É difícil antecipar o que ali encontraria. Não se adivinha o suporte das

notícias, muito menos os protagonistas dos factos. Pois imagine agora que um seu antepassado, leitor das crónicas de negócios do século XIX, regressava a Lisboa para retomar as leituras. Que espanto sentiria ele, ao encontrar os mesmos nomes, daquelas grandes famílias que povoavam a Baixa ou a Lapa… Será que ainda vão lá estar em 2150?

O longo domínio de algumas famílias na economia portuguesa explica-

se em grande parte pelo casamento. Ao longo de mais de um século, a rota das fortunas é marcada por alianças que criam um centro na transmissão da propriedade. No centro desse centro, esteve sempre a família Mello. Na primeira metade do século XX, os Mello ligam-se aos poderosos Lima Mayer pelo casamento de Jorge de Mello com Luísa Lima Mayer. Um dos filhos desta união, Manuel de Mello, vai casar com a filha do industrial Alfredo da Silva, integrando assim o grupo CUF no império Mello. Desta união nasce Cristina, futura esposa de António Champalimaud. Os seus filhos iniciam a linhagem Mello Champalimaud, que se junta aos Mello Espírito Santo. Outro dos casamentos do século é o dos primos Manuel Ricardo Espírito Santo e Maria do Carmo Moniz Galvão, no final dos anos 50. Maria do Carmo é filha única do maior accionista individual do BES e de uma prima de Champalimaud. Em 2011, era dona da 8ª maior fortuna de Portugal. Ao longo de mais de um século, muita coisa mudou. Alguns dos grandes nomes do século XIX perderam preponderância. E emergiram novas famílias capitalistas, em que a direcção dos negócios continua a ser transmitida com a herança. Mas a árvore genealógica da burguesia portuguesa mostra que estamos perante uma grande família que domina o centro do poder económico.

No final do século XIX, Portugal está nas mãos dos proprietários da terra e dos banqueiros credores da Coroa. Uma oligarquia que acumula cargos políticos, títulos de nobreza e rendas do Estado: as concessões dos tabacos, água, cimentos, navegação, gás e electricidade. São os

donos dos palácios da capital e das villas do Estoril, de Sintra e da Ericieira.

O nome maior desta geração é Henry Burnay. Perante a crise financeira

de 1876, é intermediário de um vultuoso empréstimo inglês a Portugal. Daí em diante, investe em quase todos os sectores. Na futura CUF, está associado a Alfredo da Silva.

Adolfo Lima Mayer vem da propriedade agrícola, do comércio e do imobiliário. Tal como Burnay torna-se banqueiro e credor da corôa.

Os Ulrich estão instalados no negócio dos tabacos e na banca. Ocupam cargos dirigentes na política e associam-se pelo casamento à família Mello.

José Maria do Espírito Santo Silva é um nome novo na Baixa oitocentista. Filho ilegítimo do Conde de Rendufe, director da polícia sob o liberalismo, José Maria herda do pai o capital suficiente para, ainda jovem, abrir uma casa de câmbios e de lotarias. Passa mais tarde ao imobiliário e à exploração colonial.

Até à II Guerra Mundial, assiste-se a um desenvolvimento capitalista lento, avesso ao risco da modernização e com acumulação garantida pelo Estado.

A classe dominante reparte-se por vários sectores de actividade. Mas

há um núcleo duro de negócios, feito de relações económicas, cargos políticos e linhas de parentesco.

4:34

Fernando Rosas:

A classe dominante em Portugal no principio do sec XX pode-se dizer

que tinha quatro pernas. Uma, a grande propriedade rural tradicional, protegida no caso do trigo que era o seu grande sector, pelas leis cerialiferas do fim do séx XIX. A lei da fome. A lei da fome exactamente porque protegia o trigo nacional e proibia a importação do trigo estrangeiro, e portanto permitiu uma brutal acumulação de riqueza nas mãos da burguesia fundiária

Segundo pé, o grande comércio internacional, o import-export, onde nasceu no fundo a banca comercial

Terceiro grande pé, o comércio colonial, protegidíssimo através das pautas de protecção que reservavam o mercado colonial para a

exportação metropolitana e que protegiam a exportação das mercadorias coloniais para a metrópole

E, o pézito que começa a aparecer no fim do sec XIX, que é a indústria,

e que nasce totalmente sob a protecção do estado

5:40

Narrador: A primeira república não consegue gerar uma modernização que tire da pobreza a grande maioria da população.

05:46

Fernando Rosas: Eles tinham um programa político de democratização, aliás programa não cumprido, programa que falha, do estado, mas em termos económicos nunca tocaram, nunca tocaram num milímetro da propriedade privada. Tocaram na propriedade da igreja, que foi nacionalizada, mas não tocaram na propriedade privada. Pelo contrário. A ideia do partido republicano era dizer à burguesia “confiem em nós que nós governamos bem”, “deem-nos a vossa confiança que nós cuidamos da vossa propriedade. Cuidamos dos vossos interesses”

6:23

Narrador: Mas à elite não basta a continuidade com o regime económico da monarquia. O 28 de Maio de 1926 instala a ditadura e aclama Oliveira Salazar, que virá a ser muito mais do que um “mago das finanças”.

6:37

Fernando Rosas: O estado novo vai surgir como a resposta de consenso das várias direitas da direita portuguesa que se juntam em

torno de uma ideia que é esta: É preciso acabar com a ameaça operária

e fazer dessa derrota sobre o movimento operário a base de

recuperação das taxas de lucro e de acumulação da burguesia. E um estado em segundo lugar, que tivesse a autonomia e a autoridade suficiente sobre os diversos sectores da classe dominante para impor um programa de recuperação económica e de regulação da economia perante a crise necessidade que é absolutamente agravada com a crise de 29

07:21

Narrador: Nos anos 30, a maior concentração de mão-de-obra é nas indústrias de base.

A refinação de petróleos é monopólio da Sacor, empresa de capitais mistos, onde, do lado privado, se destaca o Banco Espírito Santo.

Nos adubos, a produção é repartida entre a Sapec belga e a CUF. É nestes sectores que se formam os monopólios que estruturam a economia nas décadas seguintes. Alfredo da Silva e Henrique Sommer simbolizam os raros “capitães da indústria”, conciliando disponibilidade de capitais e espírito empresarial.

Henrique Sommer tem investimentos concentrados na indústria cimenteira. Obras públicas, estradas e infraestruturas do Estado serão o seu negócio. Adere à Legião Portuguesa e cultiva boas relações na ditadura. O seu herdeiro será António Champalimaud.

Alfredo da Silva vem de uma família rica de comerciantes da capital. Aos 21 anos, já dirige a Aliança Fabril. A fábrica de sabões é comprada pela CUF de Henry Burnay, e Alfredo da Silva entra na administração do grupo que acabará por liderar. Desempenha diversos cargos políticos, sempre ao serviço de posições autoritárias, de João Franco a Sidónio Pais e ao Estado Novo.

Depois de adquirir o Banco Totta, a CUF é atingida pela crise financeira de 1929. Salazar mobiliza a banca pública para resgatar Alfredo da Silva e é assim que a CUF chega aos anos 30. Além dos adubos, domina a actividade portuária, a construção naval e a transformação de tabaco. Sob a protecção do regime, vai tornar-se o maior potentado económico do país, com escala internacional.

09:09

Fernando Rosas: O regime tem duas características, é que dum lado cria grupos industriais e doutro lado mantém uma ganga de pequenas actividades, obsoletas, mas que são mantidas. São mantidas como? São mantidas como base social do regime. São mantidas através de dois instrumentos fundamentais. Uma é o condicionamento industrial, que é uma coisa quase surrealista, quer dizer, vista aos olhos de hoje, porque significa que tu nao podes não é só abrir uma nova industria, não podes mexer em nada de essencial na tua empresa, meter uma maquina nova, mudar um turno de trabalho, recrutar mais trabalhadores, despedir, nao podes fazer nada de relevante desde a criação da empresa propriamente dita até à modificação do seu funcionamento, sem autorização do estado.

Em segundo lugar a cartelização corporativa que é a formação de uma espécie de disciplina sectorial corporativa, organizada ou pelos gremios patronais ou pelos organismos de coordenação económica numa economia que é completamente regulada

10:18

Narrador: O capital português tem um papel importante no apoio aos franquistas durante a guerra civil de Espanha. O empresário Manuel Bullosa afirma ter negociado com o próprio Franco os fornecimentos de combustível da Sonap para os aviões alemães ao serviço do golpe.

Alfredo da Silva fornece navios para o transporte de tropas, armas e mercadorias.

Jorge Botelho Moniz, quadro da CUF e criador do Rádio Clube, recruta voluntários para o lado franquista.

Nos anos 60, Manuel de Mello e Manuel Espírito Santo receberão condecorações espanholas em reconhecimento pelos serviços prestados a Franco.

Perante a segunda guerra mundial, a elite vai beneficiar amplamente com a neutralidade do Estado português. Pela única vez em todo o século XX, o país exporta mais do que importa. Na posse de largas reservas de ouro e divisas, a ditadura lança-se no planeamento da modernização económica.

Os bancos são quem mais ganha com a guerra.

O nascimento do BPA em 1942 liga-se à necessidade de separar a

casa bancária de Cupertino Miranda dos seus negócios de exportação,

já incluídos na lista negra dos aliados pelas ligações alemãs.

Entre os grandes bancos de Lisboa, o BES conquista a liderança. Em 1936, o banco é procurador do Estado nazi no fornecimento de armas ao governo de Portugal. A Alemanha ultrapassa pela primeira vez a Inglaterra nas importações portuguesas. O banco de Ricardo Espírito Santo vai de vento-em-popa: durante o conflito mundial, duplicam as aplicações do banco noutras empresas e quadriplica o valor das suas acções.

Mas as ligações de Espírito Santo aos alemães vão mais longe. É na casa da família, em Cascais, que se hospeda o Duque de Windsor, o rei

inglês que abdicou do trono. A explicação pública foi o casamento com uma mulher divorciada, mas é também certo que o seu alinhamento com o nazismo preocupava a elite britânica.

O plano de Hitler era instalar Edward no trono de uma futura Inglaterra

ocupada. Para isso, pretendia que o duque se mantivesse fora de território inglês. Nesse processo, Ricardo Espírito Santo é intermediário

da Alemanha junto do duque. Mas as diligências do banqueiro fracassam. Windsor acaba por seguir as ordens de Churchill e instalar- se nas Bahamas britânicas.

Estas movimentações são seguidas de perto por Salazar, que cultiva com o Ricardo Espírito Santo uma amizade única. Reúnem-se aos domingos e correspondem-se regularmente.

Quando o banqueiro morre, em 1955, Salazar, sempre avesso a cerimónias privadas, comparece no funeral.

13:15

{Cartão: “Génio tão admirável o vosso, que consegue, no voo sublime, o milagre de manter o equilíbrio puro da inteligência por tal forma que nos faz compreender, com nunca igualada certeza, que Deus fez o homem à Sua semelhança”. Ricardo Espírito Santo a Salazar, 1939}

13:33

Fernando Pessa: Durante vários anos, Portugal é um país essencialmente articulado na agricultura. Este estado de coisas tende a evoluir, ainda que lentamente, quando entra em marcha o processo da electrificação.

A construção de barragens foi um primeiro passo nesse sentido,

seguindo-se o lançamento da rede distribuidora. Ao lado dos rebalhos

da idade agrícola apareciam as estruturas da era tecnológica.

14:05

Narrador: Em 1960, Portugal vive o maior atraso da sua história em relação à média da Europa desenvolvida. Mas a economia vai começar a crescer rapidamente.

O pós-guerra é marcado pela integração entre capital industrial e

financeiro. Esta integração ocorre nos grandes bancos de Lisboa e na banca do Norte, mas também nas parcerias do Estado com o capital

privado: na Sacor (com o BES e capitais romenos e franceses), na

Companhia de Celulose ou no Amoníaco Português (com capitais belgas).

Finalmente, os grandes centros de integração industrial e financeira são as famílias Champalimaud e Mello, protegidas por regras alfandegárias que garantem mercados exclusivos.

Mas esta modernização é conservadora, com uma especialização atrasada: metade da indústria está no vestuário, calçado, alimentação, bebidas e tabaco. Ao longo de 40 anos, um em cada dois operários trabalha no têxtil. O salário pago na indústria é metade do espanhol e um quarto do alemão.

Este atraso tem também a sua raiz no poder do latifúndio, que bloqueia todos os projectos de reforma dos campos e de aumento da produtividade agrícola. Esses projectos são derrotados e os vencedores mantêm os seus privilégios.

15:21

Fernando Rosas: Fazer uma reforma agrária, dividir o latifúndio, significava criar uma classe média rural. E a classe média rural era o que viabilizava a compra de adubos, a compra de maquinaria, a compra de chapéus, a compra de sapatos, a compra dos produtos de uma indústria dos bens de consumo. Se tu não fazes esta reforma tens sempre um mercado interno muito estreito, sempre. Como é que se viabilizam então grandes indústrias? Administrativamente. Criando regimes em que não há concorrência e ha monopólio.

15:51

Narrador: O Estado Novo assegura sempre um estatuto de protecção absoluta aos monopólios de base industrial.

O grupo CUF representa perto de uma centena de empresas, é o virtual dono da Guiné e da Ilha do Príncipe, domina a Lisnave, a Companhia Nacional de Navegação, a Tabaqueira. Está associado a capital estrangeiro nas fibras sintéticas, nas celuloses, na grande distribuição.

Em 1974, representa mais de 15% do Produto nacional.

António Champalimaud, o sobrinho de Henrique Sommer, vai desenvolver a indústria cimenteira na metrópole e em África, contraindo vultuosos empréstimos junto do sogro, Manuel de Mello, e junto do Estado (através da Caixa Geral de Depósitos).

É também sob a protecção do Estado que Champalimaud se lança no

projecto que lhe dará uma das maiores fortunas europeias. O ministro Ferreira Dias dizia que “um país sem siderurgia não é um país, é uma horta”.

É assim que, com um capital social de apenas 750 mil contos,

Champalimaud opera investimentos quatro vezes maiores, assegurados pelo Estado. O mesmo Estado que oferece à Siderurgia o monopólio do mercado português, a preços exorbitantes em relação aos europeus.

17:05

Fernando Rosas: A cultura da burguesia industrial portuguesa é uma cultura de chapéu na mão em relação ao estado, quer dizer, até hoje o estado foi essencial para esta burguesia industrial enquanto existiu, porque depois, enfim, os tempos recentes, a desindustrialização levou isso tudo, mas enquanto existiu, sempre numa fortíssima dependência do privilégio do estado.

17:28

Narrador: Champalimaud vai expandir o seu poder em Portugal e nas colónias, sobretudo com o acesso estratégico à propriedade bancária. Nos anos 60, adquire o Banco Pinto & Sotto Mayor. Em 1971, fica perto

de dominar a banca comercial, ao adquirir parte do Banco Português do Atlântico ao seu fundador, Cupertino de Miranda. Quando vende, Cupertino pensa que outros sócios não farão o mesmo,

e que manterá a sua posição de controlo, mas engana-se. É

surpreendido por Champalimaud quando este já tem a maioria do capital do BPA. Cupertino de Miranda recorre então, ao governo.

Marcello Caetano também não deseja a concentração de mais de um terço dos depósitos bancários do país nas mãos de Champalimaud e decreta a anulação do negócio.

Assim como protegia, o Estado arbitrava os grandes interesses - mesmo

à custa de duros conflitos.

No fim do regime, um em cada três portugueses tem um consumo de proteínas abaixo do nível considerado vital.

Portugal é o único país europeu em que diminui a população residente.

Até ao fim da ditadura, emigram mais de um milhão e meio de portugueses, fugindo à miséria e à guerra colonial.

Os donos de Portugal continuam a ser famílias portuguesas protegidas pelo regime.

Ao longo de 48 anos, o compromisso com a ditadura é completo. Testemunho disso é a relação directa que mantêm com a polícia política.

18:59

Fernando Rosas: Os patrões, através dos seus serviços de relações públicas, pedem à polícia que se infiltre nos quadros, sobretudo nas zonas sensíveis dos quadros das suas empresas, para fazerem espionagem policial e política contra os agitadores. Quer dizer, esta burguesia entendia que a repressão política era um elemento constitutivo do seu negócio. Só se mantinham custos de trabalho permanentemente baixos através da proibição dos sindicatos livres, através da proibição do direito à greve e através da repressão de qualquer infracção a estas proibições. E isso fazia-se como? Através da polícia política e através da guarda republicana.

20:33

Narrador: As nacionalizações entregam ao Estado cerca de 250 empresas. Mas estas eram proprietárias de muitas outras. A escolha é então concentrar. O sector público nunca ultrapassa um terço do investimento e fica abaixo de 7% do emprego. Mas a concentração cria dimensão e escala, tornando-se numa vantagem futura para os grupos económicos que voltarão a dominar estes sectores.

20:59

Eugénio Rosa: As privatizações partiram dessas empresas. Foram essas grandes empresas que foram privatizadas o que permitiu também uma rápida reconstituição dos grandes grupos económicos porque assentaram não numa multiplicidade de empresas que existiam antes do 25 de abril, embora muitas vezes pertencendo ao mesmo grupo, mas já tendo como base uma base económica muito maior que eram essas grandes empresas. Isso foi o que sucedeu.

21:27

Narrador: A situação complica-se para muitos dos dirigentes de topo dos grupos económicos, apostados em Spínola e no golpe de 11 de Março de 1975.

Três dias depois, o governo do PSD, PS e PCP decide a nacionalização da banca.

Nos anos seguintes, as grandes famílias escolherão o exílio: Espanha, Suiça, Brasil.

Os Espírito Santo activam contactos: o Citibank oferece uma sede em Londres. Rockefeller abre uma linha de crédito. A ditadura militar brasileira concede autorização especial aos Espírito Santo para um banco de investimento, dirigido por José Roquette, com capitais alemães, norte-americanos e brasileiros.

Tal como os Espírito Santo e Bulhosa, Champalimaud está ligado à rede clandestina do MDLP, que ataca organizações de esquerda. Já no Brasil, viaja ao encontro de Pinochet, que o convida para dirigir a produção cimenteira do Chile. Champalimaud prefere o negócio da sua própria cimenteira em Minas Gerais e o das suas fazendas, das maiores produtoras mundiais de feijão.

A partir da revisão constitucional de 1982, Mário Soares e o Bloco Central abrem os sectores estratégicos à concorrência privada.

22:56

Mário Soares: O passo que hoje damos reveste-se de um grande simbolismo. É mais um sinal a que outros se seguirão. A vontade política de mudar a sociedade e o estado, em termos modernos e europeus, não falta. Há condições económicas e sociais. Há prestígio internacional.

23:29

Narrador: Ao longo dos anos 80, velhos e novos protagonistas tomam posições para o ciclo privatizador. Com a adesão à CEE, o Estado ganha nova centralidade, ao tornar-se pivot de enormes financiamentos comunitários. O mercado bolsista afirma-se. Só entre 1987 e 89, são criadas mais de 300 sociedades financeiras.

23:50

Manuela Moura Guedes: O que era irreversível em 1975 vai deixar de o ser. As empresas nacionalizadas no 11 de Março vão poder ser integralmente privatizadas de acordo com o que foi hoje aprovado no conselho de ministros.

24:01

Fernando Nogueira: A lei aprovada pelo governo tem como objectivos essenciais primeiro reduzir o peso do estado na economia depois

garantir também o pagamento, tanto quanto possível antecipado, da dívida pública.

24:14

Narrador: O grupo Espírito Santo regressa em força, na Efacec e na Secla, associado ao Euromarché e no imobiliário. A Sonae, de Belmiro de Azevedo, tem o maior volume de negócios entre os grupos privados

e vai integrar-se nos projectos de banca privada de meados dos anos 80. É também o caso de Américo Amorim, líder mundial na transformação da cortiça, que detém um terço do BCP no momento da fundação.

Em 1991, o BPI adquire o Fonsecas & Burnay, numa operação polémica que chegou a estar anulada pelos tribunais. Verificava-se que

o mesmo BPI tinha avaliado o banco de que foi depois comprador

privilegiado. Já sob o governo Guterres, o BPI adquire mais dois

bancos.

Nas nacionalizações, Manuel Bullosa perdera a Sonap e o Crédito Predial Português. Daí em diante, fará as suas maiores aplicações no estrangeiro. Mas na viragem do século, ainda está entre as quatro maiores fortunas portuguesas. Tem posição na Petrocontrol, vencedora da primeira fase de privatização da Galp, e faz sociedade com Champalimaud, os Mello, os Espírito Santo, Amorim e a Sonae, todos sob a presidência de Freitas do Amaral. Anos depois, a venda desta quota à italiana ENI resulta em 500 milhões de euros de mais-valias, isentadas de impostos pelo ministro Pina Moura.

No final do cavaquismo, a economia é dominada pelos beneficiários das privatizações e pelos novos sectores dirigentes: construção civil, imobiliário, grande distribuição comercial.

Nos maiores grupos, o peso da indústria transformadora não é expressivo. Esta tendência vai acentuar-se com os governos do PS, concentrados em privatizar o que ainda restava de monopólios de renda garantida: Galp, Brisa, EDP e Portugal Telecom.

26:14

{Voz noticiosa}: Portugal foi o país da união europeia que mais privatizou no ano passado. Nos próximos dois anos o ritmo vai continuar

acelerado. No biénio que vai entrar será privatizada a ANA, a Portucel, a terceira fase da Cimpor, a Petrogal, a segunda fase da Brisa e da EDP,

e a Tabaqueira, entre outras.

26:35

Eugénio Rosa: Houve muitos bancos que acabaram por ser privatizados que foram adquiridos pelos privados com dinheiro emprestado pelos próprios bancos. Isso por um lado. Por outro lado também contribuiu e facilitou essa aquisição as indemnizações que se acabaram por dar aos grupos cujas empresas tinham sido nacionalizadas. Para além de perder um instrumento importante de controle do desenvolvimento da economia também perdeu um instrumento importante de obtenção de meios financeiros para o orçamento de estado. Apenas para o periodo de 2004 a 2010 as empresas, as poucas empresas que ainda estão sobre o controle do estado contribuiram para o orçamento do estado com cerca de 3400 milhoes de euros. Quando se privatizarem esta fonte de rendimento desaparece também para o estado, portanto ele vai ter de compensar lançando mais impostos sobre a população.

27:34

Narrador: É sempre o poder de Estado que vamos encontrar nos grandes momentos da reconfiguração do poder económico.

A parceria histórica do grupo Espírito Santo com o Crédit Agricole nasce

em 1986, quando este era ainda um banco mutualista com administração nomeada pelo governo francês. Segundo o administrador Mário Mosqueira, é o próprio Mário Soares quem agencia, junto de François Mitterrand, aquela participação na privatização da seguradora Tranquilidade e do BES. O Crédit Agricole ainda hoje é dono de quase um quarto do Banco Espírito Santo.

28:11

Ricardo Salgado: Começámos na monarquia, passámos a

implantação da república, depois as nacionalizações, depois novamente

a república, e portanto eu diria que o Banco Espírito Santo é um banco de todos os regimes de de todo o género.

28:26

Narrador: Pelo seu lado, Champalimaud regressa a Portugal para encarnar o protesto contra a abertura ao capital estrangeiro dos chamados “centros de decisão nacionais”. Exige preferência nas privatizações. Contará com empenhada ajuda do estado.

Na semana anterior à privatização da Mundial Confiança recebe 50 milhões de euros de indemnização, pelas nacionalizações da Cimpor e do Banco Pinto & Sotto Mayor, dezassete anos antes. Entre a primeira

avaliação e o valor final, esta indemnização é multiplicada por 50, pela mão do secretário de Estado Elias da Costa.

Champalimaud compra então a Mundial Confiança e, já com acesso ao capital da seguradora, vai à privatização do Banco Pinto & Sotto Mayor.

29:12

António Champalimaud: Suponho que sejam grandes as sequelas do socialismo que andou por lá

29:19

Narrador: Mas o percurso de Champalimaud na banca privatizada não ficará por aqui. O processo de privatização do Banco Totta e Açores é uma longa história de escândalos e conivências políticas no governo Cavaco.

29:34

{Voz noticiosa}: Finalmente o Banesto decidiu confirmar aquilo que toda a gente adivinhava: a maioria do Totta & Açores já lhe pertence, e os destinos do banco português são ditados em Madrid. José Roquette que durante três anos garantiu que o Totta nunca seria espanhol, afinal, é apenas um pequeníssimo accionista do banco, tendo passado todo o poder a Mário Conde.

29:53

António Guterres: Como é que foi possível, em violação flagrante da lei, que o Totta e o Crédito Predial Português, privatizados, tivessem passado para o controlo maioritário de um banco espanhol.

30:10

Narrador: Mas a falência do Banesto deixa o Totta à deriva. O ministro das finanças, Eduardo Catroga, entrega o banco à família Champalimaud sem passar pela OPA obrigatória. Para que fique em “mãos portuguesas”, como ainda se diz na época.

Porém, cinco anos depois, Champalimaud surpreende o país ao anunciar a venda de toda a sua holding financeira ao mesmo banco Santander. Novo escândalo. Guterres ainda tenta vetar o negócio, mas Champalimaud recorre para a Comissão Europeia. Em Portugal, conta com o apoio interno de vários pesos-pesados da política, entretanto ligados aos quadros do Santander.

Já com Pina Moura no ministério das finanças, o governo cede. Totta e Crédito Predial ficam mesmo no Santander. A Mundial Confiança e o

Pinto & Sotto Mayor são comprados pela Caixa Geral de Depósitos. Pina Moura vai depois entregá-los a Jardim Gonçalves, que paga à Caixa com uma quota no BCP.

O banco não gasta um cêntimo. Ganha dimensão e recebe um

accionista sólido - o Estado.

António Champalimaud fecha a sua carreira com um encaixe de 1500 milhões de euros.

A família Mello concentra-se hoje em aplicações financeiras, em sectores com rendas asseguradas pelo Estado: na Brisa, na EDP, na saúde privada, além de deter metade da Efacec. Sempre rodeado de figuras políticas de primeiro plano, José Manuel de Mello detinha no início do novo século, uma fortuna correspondente a 2% do PIB nacional.

Mas esta fortuna foi reconstruída de mão dada com o Estado, ao longo dos últimos vinte anos. Reorganizado logo nos anos 80, o grupo aposta na indústria alimentar. No início da década de 90, os Mello são indemnizados pelas nacionalizações. Do Estado recebem também vultuosos empréstimos, através da banca pública, para comprarem a Sociedade Financeira Portuguesa e a Bonança. Mas, para esses negócios, a família procura sedes abrigadas do fisco português.

32:18

Vasco Mello: É uma empresa específicamente criada para participar nesta privatização. {Jornalista}: Em que país? Vasco Mello: Na Irlanda

32:29

Narrador: O grupo entra depois para a privatização da Tabaqueira. Da União de Bancos Portugueses, privatizada, forma-se o Banco Mello. Tal como os seguros Império, o Banco Mello acabará integrado no BCP. A aliança com Jardim Gonçalves termina em 2007, e os Mello saem do Banco Comercial Português com 450 milhões de euros.

A história dos primeiros vinte anos do BCP é a de Jardim Gonçalves.

É pela mão de Mário Soares e de Medina Carreira que chega à

presidência do BPA nacionalizado. Ali prepara a criação de um novo banco privado, o BCP, levando para a nova instituição quadros

bancários e muitos clientes. Anos mais tarde, na maior privatização de sempre, o próprio BPA é absorvido pelo BCP.

Américo Amorim será o primeiro grande accionista mas sairá cedo, perante o poder absoluto de Jardim Gonçalves, que limita os direitos de voto a 10%.

O problema do BCP é que muitos accionistas são também grandes

devedores, empresas com enormes necessidades de capital, clientes das privatizações e fornecedores de obras públicas. Em 2005, deviam ao seu banco quase 3 mil milhões de euros, tendência que se agrava com os novos accionistas angariados pelo sucessor de Jardim Gonçalves.

A guerra da sucessão torna públicas as falsificações de contas e

resultados do BCP, números que faziam disparar a remuneração dos seus administradores. Pouco depois, os escândalos do Banco Privado e do BPN mostrarão um falhanço geral da supervisão pública, com consequências ruinosas para os cofres do Estado.

Com a administração do BCP suspensa pelo Banco de Portugal, chega um novo poder: Santos Ferreira, ex-deputado do PS com carreira nos grupos Champalimaud e Stanley Ho.

O regresso das velhas famílias da ditadura é acompanhado pela

emergência de sociedades vindas dos sectores de acumulação mais rápida e menos arriscada, a grande distribuição, o imobiliário, as rendas do Estado.

Uma das fortunas emergentes é a da família Soares dos Santos, proprietária do grupo Jerónimo Martins.

Nos anos 60, a Jerónimo Martins associa-se à multinacional anglo- holandesa Unilever na produção de margarinas. Alexandre Soares dos Santos, neto do fundador, dirige o grupo desde essa época.

Com a rede Pingo Doce e a expansão para a Polónia, a fortuna de Soares dos Santos ultrapassa hoje os 1900 milhões de euros, e é a segunda maior do país.

Outro dos empresários com lugar no podium das maiores fortunas nacionais é Belmiro de Azevedo. Até ao PREC, era um engenheiro da Sonae, empresa de aglomerados e estratificados, propriedade de um presidente do Futebol Clube Porto, Afonso Pinto Magalhães.

Com a nacionalização do banco Pinto Magalhães, a família vai para o Brasil, e a Sonae fica entregue a um pequeno grupo de técnicos, titulares de um lote simbólico de acções.

Anos depois, um deles comprará uma quota substancial da empresa aos herdeiros de Pinto de Magalhães.

Belmiro arranca assim: com um empréstimo de meio milhão de euros, de origem até hoje desconhecida.

A

partir desta posição, vira-se para as mais-valias especulativas.

O

Estado subsidia a entrada de empresas em bolsa e estimula o

mercado de acções. A Sonae realiza operações entre empresas do grupo e o próprio Belmiro reconhece “interpretações ousadas da lei”.

36:01

Miguel Cadilhe: Não, da minha parte não há suspeitas nenhumas. Apenas tenho de fazer algumas inspecções e comecei por aqui. De resto garanto-lhe que a minha convicção é que o relatório final deste conjunto de inspecções vai concluir o seguinte: Tudo está bem.

36:25

Narrador: Perante o caso, um secretário de Estado de Miguel Cadilhe chega a demitir-se, mas tudo acabará arquivado e a Bolsa continuará no centro dos rendimentos da Sonae. Nos anos 90, metade do rendimento do grupo vem da compra e venda de acções. Divide-se hoje entre a distribuição comercial, o imobiliário e as telecomunicações.

Apesar do tom agreste de Belmiro de Azevedo perante os sucessivos governantes, a Sonae tem contratado um bom número de dirigentes políticos.

O número um do ranking dos mais ricos de Portugal é Américo Amorim.

As raízes da sua fortuna remontam ao século XIX e ao fabrico de rolhas para vinho do Porto. Nos anos 60, Américo chega à direcção da Corticeira Amorim.

O Estado Novo fecha os olhos ao modo de acumulação da família: a

Corticeira labora sem alvará, à margem do condicionamento industrial, e

exporta para países banidos pelo Estado português: Índia, China, Egipto, todo o bloco de Leste.

Com o 25 de Abril, Amorim é expropriado em 3 mil hectares de montado. Mas procura manter as melhores relações com as UCPs alentejanas, a quem compra cortiça a baixo custo.

Ao longo dos anos 70, com muitos proprietários dispostos a vender barato, Amorim faz bons negócios na compra de herdades. Entretanto, apoia a instalação em Portugal das embaixadas dos países de Leste.

Mais tarde, quando se inicia a liberalização daquelas economias, o grupo abre uma fábrica na Hungria, em parceria com duas empresas estatais.

38:01

Américo Amorim: As mudanças que estão a aparecer na Hungria e na Europa de Leste não são para mim nenhuma surpresa. Eu tenho 35 anos de vivência nesta área do globo e penso é que foi tardiamente

38:12

Narrador: Com a entrada na CEE, Américo Amorim, tal como centenas de empresários nacionais, senta-se à mesa dos fundos comunitários.

Mas o rei da cortiça chega a passar também pelo banco dos réus,

acusado pela União Europeia de falsificação, fraude e desvio de fundos para formação profissional, algo como 2 milhões e meio de euros.

38:34

{Telejornal}: Américo Amorim não vai ser julgado. O processo instaurado contra o empresário prescreveu. Os factos que constavam da acusação foram ultrapassados no tempo. Passaram-se mais de dez anos e por isso o processo foi arquivado.

28:49

Narrador: Amorim é hoje dono da única multinacional portuguesa dominante no seu sector a nível mundial. Está entre os maiores senhorios de Lisboa e tem forte presença no turismo algarvio, em Tróia (com Belmiro de Azevedo), na Estoril-Sol (com Stanley Ho), em Moçambique ou em Cuba.

Associado ao governo angolano, comprou um terço da Galp e criou o banco BIC, liderado pelo ex-ministro Mira Amaral. O BIC ganhou notoriedade em 2011, ao comprar por 40 milhões de euros o mesmo BPN que o Estado acabara de capitalizar com 500 milhões.

O poder político de Angola, que tutela os fundos soberanos e todo o sector privado do país, possui também parte significativa da economia portuguesa. A elite angolana tem mais de 10% do BPI, 10% do BCP, 25% do BPN, e negócios de vulto com a Mota-Engil, a PT, a ZON, o grupo Espírito Santo, a Unicer.

39:47

Durão Barroso: É importante que no plano das relações do estado e dos governos possamos traduzir esta intimidade que também existe hoje entre tantos portugueses e tantos angolanos.

40:02

{Voz noticiosa}: Além de Durão Barroso estão convidadas 100 figuras do jetset português.

40:12

Narrador: A afirmação destes velhos e novos grupos económicos continua a passar pela arbitragem e pelo equilíbrio de influências a partir do Estado.

Entre política e negócios, o trânsito é permanente e muito intenso. Os gabinetes ministeriais das finanças, obras públicas, emprego ou economia, são regularmente ponto de chegada para altos quadros dos

grupos económicos, ou ponto de partida para carreiras bem remuneradas nas administrações.

Nalguns destes casos, o lugar no ministério é hoje trampolim para uma vertiginosa ascensão social através de remunerações com que muitos quadros partidários nunca sonharam - nem no partido, nem nas suas profissões anteriores.

Estudámos o currículo de 115 desses ex-governantes. Do CDS, do PS e, sobretudo, do PSD.

Se cada governante estabelecer uma linha entre as várias empresas em cujos órgãos tem assento, conheceremos a teia da política que organiza os grandes negócios.

Veja-se este gráfico. Cada uma destas grandes empresas teve ou tem nos seus quadros um ou vários antigos governantes dos ministérios estratégicos.

Para quem contrata, a influência política é o activo mais desejado. A promiscuidade torna-se um problema colateral: quem dirigiu a privatização, passa a dirigir o que privatizou; quem adjudicou a obra pública, passa a liderar a construtora escolhida; quem negociou pelo Estado a parceria público-privado, passa a gerir a renda que antes atribuiu. Ou vice-versa.

41:54

Fernando Rosas: No estado novo a elite política do país era muito pequena, e portanto a circulação entre os negócios, entre a companhia de seguros, o banco, a sociedade industrial, a empresa de import/export, a companhia colonial, a companhia de transportes e o lugar no governo, o lugar no aparelho de estado, é total. E isso é uma constante desde sempre. A característica no estado novo é que isto era um mundo muito dificil de aceder. A corrupção era uma espécie de sub- produto da hegemonia do capital financeiro sobre o estado, que hoje é uma coisa absolutamente clara. O estado foi o construtor da burguesia, até que um dia, como no célebre conto do aprendiz de feiticeiro, o aprendiz tomou conta do feiticeiro.

42:56

Narrador: Os donos de Portugal continuam a ter no Estado um protector e um organizador comprometido na distribuição da riqueza.

A desigualdade é acentuada por políticas fiscais distorcidas.

Veja-se a repartição do rendimento entre o capital e o trabalho no ano de 2010.

Os rendimentos do capital são lucros, dividendos e juros. A sua contribuição é o IRC.

Do lado do trabalho, o rendimento é composto pelos salários e pelas pensões e outros pagamentos da segurança social.

Mas os impostos a pagar são muitos: IRS sobre o rendimento, IVA sobre o consumo, além de outros impostos e dos descontos para a segurança social.

É portanto o trabalho que paga, através do Estado, as rendas pelas

parcerias público-privado e concessões, os juros da dívida pública

detida pelo capital e outros benefícios fiscais suplementares.

O capital paga pouco imposto. O IRC pago pelas mil maiores empresas

portuguesas é 1% do seu volume de negócios. A Associação Portuguesa de Bancos assume uma taxa de IRC no sector pouco acima dos 5%. Entre outras razões, este défice fiscal é explicado pelo recurso a paraísos fiscais. A começar por aquele que o próprio Estado português disponibiliza.

Só na Madeira, entre 2005 e 2010, o Estado perdeu mais de 9 mil milhões de euros de receita fiscal, dados oficiais.

44:27

Eugénio Rosa: O Amorim criou na Holanda a Amorim Energia com uma sócia angolana, e é através desta empresa, desta sociedade gestora de participações sociais, que ele recebe os lucros que são distribuidos na Galp. Esses lucros são transferidos para uma empresa no exterior, não pagam impostos em Portugal.

44:50

Narrador: A desigualdade é paga pelo trabalho, e não só através dos lucros do capital e das transferências por via de impostos. É paga também no consumo quotidiano - portagens, electricidade, gasolina, comunicações. Estas prestações são hoje o negócio de empresas privadas monopolísticas.

45:08

Eugénio Rosa: Os preços em Portugal sem impostos, dos combustíveis, da gasolina e gasóleo e do gás são sempre, sempre superiores em média aos preços praticados sem impostos, em cerca de 20 países dos 27 da união europeia, quando, os salários em Portugal, por exemplo dos paises da zona euro, são cerca de metade dos salários praticados nesses países. Ás vezes até nalguns deles menos de metade.

45:40

Narrador: O papel dos bancos foi também central noutros negócios com muito poder: a construção civil e o imobiliário.

Enquanto as cidades se degradavam pelo aumento das casas vazias e abandonadas, a banca concedia massivamente créditos à habitação. Para isso, endividava-se junto dos bancos alemães e franceses, e daí resultou a maior parte da dívida externa portuguesa, que não é do estado, mas sim dos bancos.

O sistema financeiro abandonou assim, definitivamente, o crédito aos

sectores produtivos da economia. Portugal torna-se cada vez mais dependente. Produz cada vez menos daquilo que precisa; o que consome é cada vez mais importado.

Com a crise financeira internacional, este castelo de dívidas desmorona- se.

O desemprego gera despesa social e diminui a cobrança fiscal.

Os impostos sobre o consumo geram pobreza e contraem a produção.

Os serviços públicos degradam-se rapidamente.

As perdas dos bancos privados são socializadas.

Sob o regime da dívida, a própria democracia política é ameaçada.