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Biblioteca Digital - Editora Fórum 24/11/13 23:06 Revista Brasileira de Direito Eleitoral - RBDE Belo Horizonte,

Revista Brasileira de Direito Eleitoral - RBDE

Belo Horizonte, ano

3,

n. 5,

jul. / dez. 2011

Hermenêutica e pré-compreensão política nas decisões da Justiça Eleitoral

Néviton Guedes

Palavras-chave: Justiça Eleitoral. Politização do judiciário. Decisão judicial.

Sumário: A delimitação do problema – O problema da indeterminação metódica nas decisões judiciais – Condições de um discurso racional – As advertências da hermenêutica

O presente artigo busca analisar o fenômeno da politização do

judiciário, mais especificamente no âmbito do Direito Constitucional

Eleitoral, bem como trazer alguns aportes da teoria da argumentação

e da hermenêutica jurídica para a solução desse específico problema

da contemporaneidade.

A delimitação do problema

Um fantasma ronda o sistema judiciário em todas as democracias ocidentais: a suspeita de que juízes e órgãos jurisdicionais estejam ultrapassando o plano restrito e legítimo das decisões jurídicas, para situar-se, com maior frequência e comodidade, no terreno das decisões políticas.

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A maior relevância política que o poder judiciário vem adquirindo em todos os países democráticos, certamente, tem a ver com a mudança do relacionamento entre a sociedade e o Estado. O rápido crescimento das políticas de bem-estar (welfare policies) nas sociedades contemporâneas leva necessariamente a uma ampliação

do âmbito de atuação dos tribunais, conferindo-lhes novas tarefas. 1

Esse desenvolvimento heterodoxo das funções dos juízes, entretanto, encontra reparos de ordem funcional, pois nenhum sistema pode sobreviver a uma tão intensa indeterminação (aleatoriedade) de suas tarefas e funções. A indistinção funcional das decisões judiciárias fará com que o direito tenha que pagar o alto preço de não cumprir a sua principal função social: estabilizar normativamente as expectativas humanas.

A diferenciação funcional do direito, destacando-o dos outros

subsistemas sociais (exemplos: moral, economia e política), é uma das maiores conquistas das democracias ocidentais. É ela que permitiu aos cidadãos saberem o que esperar do Estado e o que Estado deles poderia exigir.

De fato, como adverte Niklas Luhmann, se o direito tem a (relevante)

função de estabilizar normativamente as expectativas, é fácil concluir que, numa sociedade complexa, diante de um crescimento desorganizado de expectativas, isso somente pode ser alcançado por

uma seleção (normativa) das expectativas que vale a pena proteger. 2

Portanto, quando órgãos judiciários procuram atender (expressa ou, pior, veladamente) expectativas sociais não selecionadas pelo direito (exemplos: convenções sociais, expectativas políticas, acordos com aprovação meramente moral, costumes que nem poderiam ser violados sem ser notados, informações extrajurídicas), estar-se-á

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esgarçando a diferenciação funcional do direito que permitiu às democracias ocidentais uma de suas mais importantes conquistas: a previsibilidade na ação do Estado e da sociedade.

Em resumo, a prevalência de expectativas políticas ou morais nas decisões do judiciário, quando não selecionadas objetivamente pela Lei, iludem o sistema jurídico, impedindo-o de estruturar consistentemente as expectativas humanas. A cidadania não tem como saber se o que vai ser veiculado numa decisão judicial é o conteúdo de um expresso dispositivo legal, ou a vontade não revelada do órgão decisor.

Não obstante a gravidade do diagnóstico, vários estudos acadêmicos em torno do chamado judicial role (papel, ou função jurisdicional) vêm revelando um crescimento no caráter político da atuação dos magistrados, impondo o reconhecimento de que, hoje mais do que nunca, os juízes, para o bem ou para o mal, transformam-se dia após

dia em agentes de decisão política (policy-makers). 3

Por outro lado, já agora sob o aspecto propriamente político, diante da específica qualidade do afazer judiciário, caracterizado nas democracias ocidentais por uma independência institucional e legal no poder de proferir decisões, essa maior desenvoltura política dos órgãos jurisdicionais acaba por suscitar uma série de graves problemas à vida das democracias, entre os quais, certamente, se destaca a incapacidade do público de lidar com agentes públicos que tomam decisões políticas sem que, entretanto, estejam submetidos a um regime de accountability (responsabilização política).

De fato, na clássica conformação do poder judiciário, a independência dos juízes na tomada de decisões (que deveriam ser jurídicas, e não políticas) funda-se em garantias institucionais e constitucionais que visam assegurar, precisamente, aos magistrados

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imparcialidade entre os litigantes, mas sob uma estrita vinculação, formal e substancial, à lei. Os regimes democráticos tranquilizam-se, pois, com a ideia clássica de que os seus juízes, não obstante independentes, tomam decisões que estão fundadas em leis abstratas e gerais para todos, além de terem sido previamente editadas por um legislador legitimamente escolhido pelo cidadão.

Só por isso é que a atividade dos juízes pode ser excluída desse regime de responsabilização política, outorgando-lhes ampla independência em suas decisões, ou seja, precisamente, porque sempre se concebeu que as suas funções eram, pelo menos em grande parte, mera afirmação de normas de direito abstratas e preestabelecidas pelo legislador.

A possibilidade de os juízes tomarem decisões de caráter acentuadamente político (não jurídicas) não se mostra compatível, funcionalmente, com um sistema de governo (a democracia) que se baseia, essencialmente, na responsabilização política daqueles que decidem.

Com efeito, sempre foi essencial à democracia a ideia de accountability (prestação política de contas, ou responsabilização política junto aos eleitores) daqueles que podem tomar decisões de caráter essencialmente político, isto é, impondo obrigações ou

conferindo direitos. Em outros termos, para bem marcar essa ideia, mostra-se imanente à democracia a ideia de que todo aquele que tem

o poder de decidir politicamente sobre a vida dos demais cidadãos

deve prestar contas de suas ações, o que, em último caso, exige que

se submeta, periodicamente, a aprovação de sua atuação à vontade dos eleitores.

Na conformação clássica do regime de separação de poderes,

especialmente nas democracias ocidentais, apenas se consentiu com

a tradicional noção de que os juízes não precisavam se submeter a

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eleições, ou a qualquer outro regime de accountability, precisamente, porque, entre suas funções, não se inseria o poder de impor novas obrigações ou direitos, isto é, não se lhes concedia o poder de tomar

decisões políticas sobre a vida dos cidadãos. Limita-se o seu ofício, em geral, a simplesmente aplicar, em cada caso, normas preexistentes e estabelecidas por outros agentes públicos, esses sim eleitos pelo povo. Essa clássica compreensão das funções judiciais, como se sabe, restou bem caracterizada na tradição francesa, com o ideal de que os juízes, em suas funções, apenas verbalizariam o que

já previamente disposto em leis abstratas e gerais. Por isso mesmo,

não passariam de mera voz, ou boca da lei, pois, a repetir o que

previamente disposto pelo legislador (la bouche de la loi). 4

Ainda que não se possa negar que, em suas causas, o fenômeno da politização da função judiciária é de difícil diagnóstico, o fato é que são poucos os que, hoje, se mostram dispostos a seriamente negar a sua existência.

O direito, ninguém o nega, sempre esteve submetido a decisões de

caráter político, econômico ou moral. Contudo, essa influência de outros subsistemas sociais — como a política, a economia, ou a moral — deveria ser imposta ao direito por decisões políticas tomadas pelo legislador, em momento, portanto, anterior à decisão (jurídica) proferida pelo juiz no caso concreto. Superada a fase de tomada de decisão propriamente política o direito deveria, se o sistema revela consistência funcional, ter a capacidade de filtrar as informações externas do seu meio-ambiente, enclausurando-se por meio de seu código próprio (lícito/ilícito) mediante uma forma própria

e institucionalizada de tomar decisões. 5 Portanto, a partir da existência da lei, as informações jurídicas, econômicas ou morais, apenas ingressam no universo jurídico segundo suas próprias condições, isto é, segundo as condições e os limites impostos pelo próprio direito.

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Um juiz não pode considerar um dado econômico, político ou moral, fora dos limites impostos, como se disse, pela seleção promovida pelo próprio direito. Essa seleção é tanto substantiva como processual.

Aliás, a processualização do direito e a abstração inerente à norma jurídica têm como função, precisamente, retirar dos órgãos jurisdicionais a perigosa tentação de responder a cada demanda judicial com uma decisão diferente e casuística e, ipso facto, irracional. Protege o cidadão contra a possibilidade de obrigações essencialmente injustas, precisamente, porque conformariam imposições estatais ex post facto, pois não existiam à época em que as pessoas, à falta de proibição, legitimamente decidiram agir de outra maneira.

Thomas Reed Powell, afamado jurista norte-americano, professor de Harvard e Columbia, percebeu essa dificultosa, mas inerente necessidade, de o direito analisar os problemas humanos concretos de forma abstrata, ao afirmar que alguém só pode dizer que está pensando juridicamente quando, num determinado momento, consegue pensar em uma coisa (o direito), inextricavelmente ligado a outra (p. ex., à realidade política, moral, econômica etc.) sem pensar

nessa outra. 6 Em síntese, se quer tomar uma decisão jurídica, e não política, ou moral, o juiz não pode fugir a um momento de abstração jurídica em que o caso trazido à sua consideração será tratado de forma geral e abstrata, e não sob a tentação de uma decisão casuística, em que a compaixão, ou o desejo de vingança pessoal ou coletiva, por exemplo, tome o lugar de uma decisão jurídica predisposta pelo legislador.

Com o mesmo propósito de afirmar a necessidade de o Juiz não se submeter ao desejo profundamente humano de impor a sua justiça, a

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sua visão política e a sua moral pessoal à justiça, à política e à moral objetivamente conformadas na lei, Antonin Scalia, para muitos, a maior inteligência da atual composição da Suprema Corte norte- americana, não obstante seu conservadorismo, em palestra proferida na Chapman Law School, em Agosto de 2005, com graça e ironia, fazia a seguinte advertência aos magistrados:

se você pretende ser um juiz bom e confiável, você tem de resignar- se com o fato de que você nem sempre irá gostar das conclusões que você encontrará (na lei). Se você gostar o tempo todo (de suas

conclusões), você provavelmente está fazendo algo errado. 7

Acho que podemos parafrasear Robert H. Bork e afirmar que, também no Brasil, como nos Estados Unidos, e mais precisamente (no nosso caso), depois da Constituição de 1988, o sistema jurídico — em suas faculdades e tribunais — vem lutando contra a tentação

da política. 8

Professores, alunos e operadores de direito, em geral, têm sido tentados e, em alguns casos, sucumbiram à ideia de que nada mais tem importância do que os resultados, moral ou politicamente, desejáveis. Nessas circunstâncias, a esfera política invariavelmente tenta dominar outras disciplinas, capturando e usando os seus espaços para os próprios e específicos fins.

Quando a posição da política ou da moral pessoal do julgador prevalece, deixa-se em segundo plano o direito legitimamente disposto pelo legislador. No direito, o momento da tentação, segundo R. Bork, é o momento da escolha, quando o operador do direito percebe que o seu ponto de vista de justiça, ou de moral,

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pessoalmente imperativo, não foi total ou suficientemente abrigado pela lei, ou em algum dispositivo da Constituição. Ele tem que

escolher então entre sua versão de justiça e sua vinculação à norma

de direito. Aqui, não é raro, o desejo de justiça, cuja natureza parece

a ele tão óbvio, convincente, enquanto o dispositivo da lei parece tão

árido e a abstinência um conselho insatisfatório. 9 Muitos dos resultados (políticos e morais) daí advindos parecem nos bons e esse tem sido sempre o som da tentação.

Contudo, um juiz deve estar apto a demonstrar que a sua decisão deriva do reconhecimento de princípios e regras que estão fundamentados em um raciocínio intelectual coerente, politicamente neutro e objetivamente filtrados pelo direito. Aquele que politiza o direito oferece ao público e ao judiciário a tentação de resultados sem

consideração e respeito à legitimação da democracia. 10 Além disso, incrementa-se na percepção do público a suspeita de que, nas decisões dos tribunais, a inteligência e a vontade dos magistrados se fundam mais em motivos políticos e morais, do que jurídicos.

O que é lícito ou ilícito, especialmente, numa ordem jurídica

democrática e cuja Lei Fundamental guarda inteira atenção a valores essenciais como a dignidade da pessoal humana, não se distingue legitimamente com apelos de ordem precipuamente moral, política,

ou econômica, mas sim com fundamentos que devem estar contidos

no próprio direito.

O que não é abrangido por esse esquema de controle, sob o código lícito/ilícito, de regra, não poderia pertencer ao sistema jurídico, mas sim ao seu meio ambiente. Indivíduos, interações, e organizações fazem o possível para trazer reclamações ao sistema jurídico e depois removê-las como uma decisão. Ora, se é o direito que tem o poder de dizer o que exigido, isto é, dispor o que é lícito ou ilícito na sociedade, então, esse é um raciocínio que deve ser desenvolvido

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sob as condições dispostas pelo próprio direito. 11

O problema da indeterminação metódica nas decisões judiciais

No que aqui nos interessa a predominância, no âmbito do Direito Constitucional e Eleitoral, de um discurso amigo do Judiciário parece não ter livrado essas áreas do Direito de uma sensível desconfiança quanto à racionalidade de seus procedimentos. Na verdade, diante das muitas incertezas e da evidente complexidade do Direito contemporâneo, parece adquirir acentuado relevo esse permanente travestir-se a esfera de alcance (Gewinnung) e aplicação (Anwendung) de premissas jurídicas de decisão — esfera própria de atuação do juiz — em esfera de legitimação política (Legitimation) e justificação moral (Rechtfertigung) das próprias premissas — esfera

que deveria ficar restrita à decisão do legislador. 12 Tudo isso explica, segundo Martin Kriele, por que o tom que marca boa parte da nova literatura jurídico-constitucional, sobretudo quando tem que enfrentar problemas metodológicos, seja mesmo o de mal-estar e de resignação. De fato, não sem razão, pois, cresce a impressão de que, mediante artimanhas metódicas, como, por exemplo, a ponderação de bens, confere-se cada vez mais espaço à vontade subjetiva dos juízes e de que se está contra isso cada vez mais desamparado

(hilflos) e impotente (ohnmächtig). 13

Também refletindo sobre a relação da praxis e a teoria jurídica, Karl- Heins Ladeur acusa um empobrecimento teórico no âmbito do Direito Constitucional em favor de uma predominância quase incontrastável daquilo que vêm produzindo os Tribunais constitucionais. Neste quadro, chega à conclusão de que um bom título sobre a discussão teórico-constitucional em seu país (Alemanha) seria a frase meio resignada, meio admirada, de Th. J. Lowi (referindo-se à ciência

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política americana): como nós nos tornamos aquilo que nós

estudamos. 14 No contexto da doutrina e mesmo de boa parte da teoria constitucional e Direito Eleitoral produzida atualmente, a frase bem poderia ser assim deduzida: como nós nos convertemos naquilo que os Tribunais decidem. No caso, a queixa de Ladeur dirige-se, sobretudo, a certa abertura (talvez, o mais correto seria indeterminação) metodológica por ele enxergada na práxis das decisões constitucionais e eleitorais, consistente, sobretudo, em juízos de ponderação e na ideia de Constituição e legislação aberta que lhe serve de base, ou seja, uma Constituição e ordem jurídica que, de forma flexível, se adapta aos temas formulados pela sociedade através do mandado de compatibilização. Tudo isso, segundo o autor, tem-se precipitado na ciência constitucional sob a

forma daquele empobrecimento teórico 15 a que se fez referência.

Aqui, talvez, uma crítica mais pertinente e produtiva deveria dirigir-se menos contra a própria ideia de ponderação, ou de Constituição aberta, como enxergadas pelo autor, e mais contra a forma irrefletida e passiva com que boa parte nas inovações promovidas pelas Cortes Constitucionais têm sido recebidas pela doutrina tradicional.

Neste contexto, segundo M. Kriele, expressões de forte apelo público como Estado Judicial (Justizstaat), Estado dos Juízes, justicialização do Estado, poder tutelador dos juízes, usurpação e hipertrofia do poder da Justiça apenas vêm justificar a reclamação frequentemente sugerida de que os limites constitucionais do poder dos juízes tornam-se, progressiva e perigosamente, mais amplos. Alguns entendem ainda possível um recuo nesse caminho, outros apenas se

mostram, como se disse, resignados. 16

Tudo isso acresce de preocupação quando se sabe que o objeto e finalidade da discussão metódica são em primeira linha a limitação — e, se possível, a eliminação — do arbítrio dos sujeitos encarregados

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da interpretação e aplicação da Constituição, pois, nos limites do possível, obviamente, é a Constituição e as leis eleitorais, e não a vontade daqueles que têm a tarefa de aplicar o direito, que deve ser concretizada (Kriele). Para essa finalidade são dispostas regras que devem tanto orientar o processo jurídico de reflexão como separar as formas legítimas da argumentação jurídica daquelas que são julgadas ilegítimas. Que a multiplicação dessas regras e métodos possam, incrivelmente, estar contribuindo para uma maior indeterminação e até crescimento da discricionariedade (às vezes, convertida em arbítrio) nas decisões judiciais é apenas mais um dos paradoxos da contemporaneidade.

De fato, se a busca por restrições ao arbítrio judicial, através de uma teoria sobre métodos jurídicos corretos e errados, pode apenas ser considerada como alcançada na medida em que regras metódicas possam ser reconhecidas e observadas com regularidade, tudo, então, parece indicar que estejamos entrando num buraco sem fundo, o qual, quanto mais é explorado e aberto por entusiastas da metódica, tanto mais se torna profundo, obscuro e, o que é pior, distante do objetivo inicialmente buscado. É, não se pode negar, absolutamente preocupante que, legitimada pelas mais variadas metódicas, em situações concretas, a jurisprudência dê-se a liberdade de determinar se a regra de fundamentação serve ou não

aos resultados pretendidos. 17 Pior ainda é intuir que, em tais situações, muito provavelmente, não sejam regras metódicas que conduziram a decisão, mas, a decisão, alcançada de forma diferente, que tenha orientado a escolha do método. A questão metódica mais incômoda, no entanto, é saber se tudo isso pode mesmo ser diferente.

Sem querer nem poder dar uma resposta a uma questão tão complexa, que ultrapassa em grande medida os limites desta investigação, há, contudo, que se concordar com M. Kriele, quando

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afirma que a liberdade dos juízes decorre em grande parte, paradoxalmente, da forma prodigiosa com que se vem travando a discussão metódica e, em consequência disso, do fato de existirem vários métodos que, em maior ou menor medida, são considerados respeitáveis e que, também por isso, acabam conquistando defensores na doutrina do Direito Constitucional e do Direito Eleitoral.

Esse grau de indeterminação metódica 18 dificilmente será reduzido, causando uma impressão desconfortável de que o esforço teórico por um método jurídico-constitucional se apresente como algo quixotesco. Para ficar apenas em um dos problemas da questão metódica, é compreensível, pois, que a falta de clareza quanto à posição de cada um dos clássicos Cânones de interpretação, por exemplo, tenha levado a um pensador como Josef Esser a declarar a

metodologia jurídica simplesmente como sem valor (wertlos). 19

Por tudo isso, Martin Kriele revela a impressão de que, aos defensores de uma determinada orientação metódica, parece apenas restar a esperança de formação de uma Escola ou a manutenção da tradição daquelas já existentes, uma vez que, no melhor dos casos, eles apenas podem esperar que, com o passar do tempo, um maior número de seguidores reforcem a sua posição teórica, de onde partam para decidir vinculadamente sobre interpretação das leis e, com isso, confirmem, então, em todas as suas decisões, a sua

adesão àquele método. 20

Por outro lado, não se pode esquecer que outras dificuldades decorrem do fato de os diferentes métodos jurídicos filiarem-se a diversas orientações condicionadas politicamente. Como se sabe, a Constituição e o direito pretende revelar uma estabilidade fundamental, consistente em normas jurídicas que, no máximo possível, se subtraiam à disputa de posições políticas contrárias. Assim, apenas poderiam ser consideradas corretas aquelas teorias

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da interpretação jurídica que concretizem o máximo possível as decisões da própria ordem jurídica sem a influência de opiniões, julgamentos ou posições políticas. Todas essas teorias têm a pretensão de estar cumprindo essa exigência e de conseguir determinar o método apenas pela neutralidade da correção científica. Porém, não é difícil notar que, apesar da neutralidade científica prometida, as diferentes orientações axiológicas que têm curso em qualquer área do Direito e, em especial, no Direito Constitucional e Eleitoral, acabam ganhando maior facilidade de tráfego precisamente pela existência de diversas escolas e tradições metódicas no âmbito do Direito.

No centro dessas tradições, para ficar no exemplo eloquente de M. Kriele, estão sempre presentes — consciente ou inconscientemente — antigas controvérsias políticas. Apesar, pois, da neutralidade científica acalentada em todos os discursos metódicos que atravessam o Direito Constitucional e o Direito Eleitoral, podem ser observados, ao menos em suas linhas gerais e tendências, alguns sensos comuns teóricos que orientam e revelam as diversas concepções sobre a aplicação da Constituição. Como exemplos desses sensos comuns teóricos podem ser referidas aquelas orientações designadas por Martin Kriele como amiga do Poder Executivo (verwaltungsfreundliche), uma outra amiga ao Poder Legislativo (parlamentsfreundliche) e, mais recentemente, mas não com menos força, uma orientação amiga do Poder Judiciário

(justizfreundliche). 21

Pode-se dizer que, sob o domínio das modernas Constituições, o poder das tradicionais frentes de oposição Executivo-Legislativo já se encontra relativizado pela presença de uma terceira posição: a do Poder Judiciário. Contudo, como acima se registrou, não há nada que nos ponha confiantes quanto ao fato de que a maior predominância dos métodos próprios do Poder Judiciário no âmbito de aplicação de

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normas constitucionais nos possa colocar a salvo de posições mais

racionais e menos ideológicas. 22 Na verdade, aqui o que de pior pode acontecer é acentuar-se qualquer grau de autoconfiança metódica ou discursiva.

Condições de um discurso racional

Quem é portador de um discurso que pretende convencer o auditório universal (decidindo objetivamente) está ao mesmo tempo, por óbvio, dirigindo-se a si próprio, com o que deve excluir dos argumentos que submete ao auditório universal aquelas afirmações nas quais não acredita e as propostas que ele próprio não aceita. Assim, os seus argumentos devem se mover sob as condições prévias de sinceridade e seriedade. Nota-se aqui, como em tantos outros pontos, uma clara aproximação das teorias de Perelman com as de

Habermas, ou de Alexy. 23

Por outro lado, quem deseja uma anuência universal precisa buscar não ser partidário, pois o orador partidário, desde que seja sincero, muito provavelmente apenas alcançará convencer o grupo no qual ele próprio está inserido. Assim, para ser e demonstrar-se imparcial aquele que busca o acordo do auditório universal deve admitir quaisquer espécies de argumentos contrários, tornando-se válida a

regra audiatur et altera pars. 24

Obviamente, no discurso aqui revelado não se veicula a ingenuidade de que alguém possa pretender, em matérias tão controversas como aquelas que se mostram quase sempre presentes em Direito Constitucional e Eleitoral, normalmente configuradoras de casos difíceis, alcançar sempre, ou sequer frequentemente, acordos universais. O que se tem, no entanto, é a certeza de que, em casos

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difíceis como no Direito Eleitoral, só aqueles que apresentam o espírito desarmado, com disposição honesta de ouvir os argumentos contrários bem como a convicção sincera de estar defendendo pontos de vista nos quais realmente acredita, é que terá condições de, ainda que não alcançando um tão pretensioso acordo universal, enxergar um pouco além dos seus próprios interesses, ou dos interesses do grupo a que pertença.

Como exemplo de superação de visões partidárias ou limitadas, tem- se tornado célebre, nos Estados Unidos, o desapontamento que alguns juízes da Suprema Corte têm imposto aos presidentes que promoveram as suas indicações ao Senado, precisamente, pelo fato de, uma vez tomando assento naquele Tribunal e abrindo-se para argumentos opostos às suas próprias convicções iniciais, esses magistrados acabam por chegar a conclusões prima facie por eles próprios recusadas. O presidente Eisenhower, por exemplo, indicou Earl Warren como Chief Justice da Suprema Corte, precisamente, por sua reputação conservadora de militante do movimento lei-e-ordem no Governo na Califórnia. Tempos mais tarde, Tendo a Corte Warren se caracterizado como uma das mais liberais da história norte- americana, Eisenhower reclamava ter sido essa indicação um de seus maiores erros como presidente da República. Também, como se sabe, a posição mais favorável ao aborto em Roe v. Wade só foi possível por conta da abertura de juízes conservadores da Suprema Corte. Além disso, tanto o presidente Reagan como o presidente Bush se decepcionaram abertamente com as indicações dos Justices O’Connor, Kennedy e Souter, os quais, embora no geral tenham mantido posições que deles eram esperadas, surpreenderam o público ao negar os seus votos para conferir uma orientação mais

conservadora em casos fundamentais. 25 Sabe-se, por exemplo, que com a indicação desses juízes, os presidentes republicanos esperavam anular (overrule) a posição jurídica mais favorável ao

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aborto, concretizada em Roe v. Wade, o que, para desespero da ala conservadora da política norte-americana, sobretudo com a postura

mais moderada da Justice Sandra Day O’Connor, não ocorreu. 26

As advertências da hermenêutica

Nesse ponto, para concluir, gostaria de buscar o auxílio do discurso hermenêutico para a conformação de um discurso mais objetivo em matéria de decisão judicial no Direito Eleitoral.

Como se sabe, segundo Gadamer, o processo de concretização da

lei é de natureza produtiva e criativa — e não meramente descritivo. Além disso, depende da pré-compreensão do intérprete. Esse reconhecimento do caráter criativo do processo de interpretação e aplicação da lei minimiza as diferenças entre um juízo de subsunção

e juízo de ponderação, já que assim se tornaria evidente que ambos os procedimentos de concretização legal dependeriam, em última

instância, de juízos de valoração. 27

Em sua leitura sobre a interpretação compreensiva (hermenêutica),

Gadamer busca retirar da ideia de preconceito e (pré)juízo (Vorurteil)

o caráter negativo que lhe foi imposto pela Ilustração, pois, sob sua constatação, quem quer que se ponha a compreender um texto busca sempre realizar um projeto que já se antecipara em sua

mente. 28

Segundo Gadamer, uma análise histórica da ideia de (pré)conceito, ou (pré)juízo, demonstra que não se justifica o timbre negativo que lhe teria sido imposto pelo Iluminismo (Aufklärung), isso porque a ideia de (pré)conceito ou (pré)juízo, em si, apenas quer designar o juízo que se forma antes do exame definitivo de todos os momentos objetivamente determinantes do texto ou realidade submetidos à

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nossa compreensão. Por isso, preconceito ou (pré)juízo não designam, necessariamente, um juízo falso. Tais conceitos podem ser avaliados tanto positiva como negativamente. Segundo o autor de Verdade e Método, é só com a crítica radical a posições religiosas promovida pela Ilustração, pois, que o termo alemão Vorurteil (preconceito) assim como o termo francês préjugé terão o seu

significado limitado à ideia de um juízo não fundamentado. 29

Por tudo isso, numa constatação muito próxima àquelas de Perelman, Gadamer também pôde afirmar que o intérprete de um texto apenas pode realizar seu ofício adequadamente quando as opiniões prévias de que parte não são arbitrárias. Por essa razão é conveniente e mesmo necessário que o intérprete nunca inicie sua tentativa de compreender um texto a partir das opiniões prévias que lhe são próprias. Assim, a primeira tarefa de quem se ponha a interpretar um texto é, precisamente, verificar a legitimidade de sua

origem, validade e adequação. 30

Nas palavras do próprio Gadamer, aquele que quer compreender um texto deve antes estar pronto para deixar-se dizer alguma coisa por esse mesmo texto. Por isso uma consciência instruída pela hermenêutica precisa ser de antemão sensível à alteridade do texto

(Andersheit des Textes). 31 Assim, o intérprete, quando sinceramente almeja a compreensão de um texto, não pode se submeter à arbitrariedade de suas opiniões prévias, ignorando por assim dizer a própria opinião do texto. De outro lado, como explica Gadamer, essa sensibilidade à alteridade do texto não implica uma neutralidade objetiva com relação ao texto nem muito menos uma autodemissão de suas próprias opiniões. O que importa aqui é dar-se conta de prévias opiniões e preconceitos próprios, abrindo espaço para que os pressupostos e preferências pessoais do intérprete possam ser confrontados com a verdade objetiva e alteridade do próprio texto.

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Por isso, quando ouve, ou lê algum texto, o intérprete não precisa esquecer todas as suas opiniões previamente formadas ou todas as inclinações pessoais, o que se exige é apenas uma abertura para as

opiniões do interlocutor ou do próprio texto. 32

Percorrendo a trilha aberta por Heidegger, Gadamer sugere que uma interpretação compreensiva deve reconhecer o caráter

essencialmente preconceituoso de todo compreender. 33 De toda

forma, isso não supõe nem pressupõe um juízo negativo nem positivo

da

ideia de preconceito ou (pré)julgamento. Segundo Gadamer, aliás,

o

descrédito da ideia de (pré)juízo ou preconceito é uma

consequência, paradoxalmente preconceituosa, do Iluminismo, sobretudo de sua tentativa de buscar neutralizar o pensamento das formas religiosas e míticas de compreensão de textos e do próprio

mundo. 34

Tão logo se entremostra o primeiro sentido de um texto, e já o intérprete antecipa o sentido de seu todo, em outras palavras, o sentido da interpretação de um texto apenas se manifesta, segundo Gadamer, porque aquele que interpreta um texto o interpreta com

determinadas expectativas, a partir de determinado sentido. 35 Assim,

a compreensão do texto que se põe ao intérprete consiste

precisamente na elaboração e aperfeiçoamento daquele projeto prévio, que deve ser confirmado e revisado continuamente conforme se vai penetrando mais extensamente do sentido do texto. É compreensível, portanto, que, no processo hermenêutico, a objetividade só possa estar nessa possibilidade de revisão daquele projeto prévio. Isso apenas se alcança ao colocarem-se lado a lado projetos rivais até que se possa estabelecer uma unidade de sentido. Resumindo, toda interpretação começa com conceitos prévios que,

no seu itinerário, serão substituídos por conceitos mais adequados. 36

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A esse processo de novo-projetar ou reprojetar permanente (Neu- Entwerfen), que concretiza o movimento de conferir sentido à compreensão e à interpretação, Heidegger designava círculo

Hermenêutico (hermeneutische Zirkel). 37 Quem busca compreender corretamente tem que afastar os erros de suas opiniões prévias mediante o confronto com as coisas mesmas (Sachen selbst) que serão objeto do processo hermenêutico. Assim, a tarefa permanente do compreender é a elaboração de projetos corretos e objetivamente adequados, os quais, como projetos, são antecipações que apenas

podem se confirmar “nas coisas”. 38 De acordo com isso, a objetividade no processo hermenêutico não pode ser algo diferente do que a confirmação que as opiniões prévias podem encontrar através de sua elaboração e aperfeiçoamento. Da mesma forma, apenas se pode falar em arbitrariedade de opiniões prévias quando se consegue demonstrar a sua inadequação objetiva no momento e processo mesmo de sua execução.

Voltando-se de início para o desenvolvimento da estrutura prévia da compreensão, a teoria hermenêutica, como se vê, permite-nos colocar a estrutura da interpretação e do entendimento no centro das

discussões sobre a aplicação da norma jurídica. 39 Ideia central para o modelo hermenêutico do interpretar e do compreender é, como se anotou acima, a ideia de círculo hermenêutico (der hermeneutische

Zirkel). 40

Segundo Robert Alexy, com o que se concorda, para a teoria da argumentação — como também para pesquisa aqui desenvolvida — guardam significado três espécies de círculos hermenêuticos: i) aquele que cuida da relação entre pré-compreensão e o texto; ii) aquele que decorre da relação entre a parte e o todo e iii) aquele que cuida da relação entre fatos e normas nem sempre é de fácil concretização.

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O primeiro círculo hermenêutico, como se disse, nasce da relação existente entre pré-compreensão e texto. Como já referido, o sujeito não se aproxima do objeto submetido à sua interpretação a partir de um ponto-zero ou de a priori kantiano, independente de toda e

qualquer experiência humana. 41 Ele sempre inicia a sua interpretação a partir não apenas de sua experiência profissional

como também de sua mundivivência. 42 Em termos mais estritos, segundo a teoria hermenêutica de Gadamer, a pré-compreensão refere-se à hipótese da qual o intérprete parte ao interpretar uma norma, ou, como prefere R. Alexy, é a hipótese com a qual o

intérprete se aproxima do texto. 43 Nessa hipótese ou pré-projeto (Vorentwurf), o intérprete carrega a sua suposição ou expectativa do que seja a solução correta para um caso jurídico que lhe é disposto como problema e para o qual se exige uma solução.

Para Gadamer, como se viu, todo aquele que interpreta antecipa o sentido total de sua interpretação tão logo se apresente o primeiro sentido de um problema colocado à sua observação, ao mesmo tempo em que, ao reverso, esse sentido apenas se insinua ao intérprete porque a sua interpretação já parte de expectativas e de

um sentido predispostos. 44

Na ideia, pois, de círculo hermenêutico remanesce sempre uma eficácia intermutável e recíproca entre o texto normativo e aquela

hipótese de interpretação pré-delineada. 45 Em termos gademerianos, em função do sentido do texto normativo que se vai produzindo com

o auxílio da hipótese prévia de interpretação, haveria uma

permanente revisão e aperfeiçoamento do próprio projeto inicial de que se partiu.

A pré-compreensão, dessa forma, ao mesmo tempo em que

influencia o sentido do texto, é também por ele conformada. Em

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termos discursivos mais simples, colhe-se disso tudo que, por um lado, o texto normativo de fato não pode ser problematizado, negativa ou positivamente, sem o auxílio de uma hipótese de interpretação. Por outro lado, entretanto, a hipótese de interpretação apenas pode ser verificada com base no texto normativo e a ajuda de métodos jurídicos.

Tudo isso considerado, o ponto decisivo, a indicar uma necessária complementaridade entre o modelo hermenêutico e a teoria da argumentação, é que a ideia de círculo hermenêutico como tal, na interpretação de Alexy, nada diria sobre os critérios de confirmação e avaliação da hipótese de interpretação. Esses critérios apenas

podem ser decididos com base em uma argumentação. 46

Como conclusão pode-se afirmar a importância do conceito de círculo hermenêutico, o qual, ao nos obrigar a olhar para o papel também produtivo do intérprete e da interpretação, acaba por corresponder a um absolutamente salutar, a partir de qualquer quadrante científico que se o possa considerar, “postulado da reflexividade”. Percebe-se, portanto, como constatado por R. Alexy, que a teoria do círculo hermenêutico, ao mesmo tempo em que demonstra grande

significado para a teoria da argumentação, não a pode substituir. 47

Não se pode compreender o todo sem a parte e a parte sem o todo. Com essa ideia básica, resume mais uma vez R. Alexy, a teoria hermenêutica delineia um segundo círculo hermenêutico. Mesmo em termos lógicos, a ideia de parte só se permite pensar em consideração à ideia de todo, e vice-versa.

Mesmo em termos lógicos, a ideia de parte só se permite pensar em consideração à ideia de todo e vice-versa. Como afirma o próprio Gadamer, nós não podemos esquecer a regra hermenêutica de que o todo (das Ganze) precisa ser compreendido a partir do particular ou

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individual (das Einzelne) e o individual deve ser compreendido a partir

do todo. 48

De fato, da mesma forma que não se pode compreender uma norma jurídica sem a compreensão do sistema jurídico a qual ela pertence, não é possível, reversamente, compreender o sistema jurídico sem

que as normas individuais que o compõem sejam compreendidas. 49

Na verdade, a ideia aqui é bem mais abrangente e complexa, já que o círculo hermenêutico da parte e do todo pode e deve mesmo ser observado conforme o seu lado objetivo e o seu lado subjetivo. Para melhor explicar, Gadamer, referindo-se a Schleiermacher, lembra que cada palavra isolada se situa no contexto (in den Zusammenhang) de uma frase, que está, contudo, conectada em seu sentido a um texto, cuja compreensão, por sua vez, é conformada pelo contexto da obra total a que pertence (de um escritor, por exemplo), a qual faz parte de um gênero literário (literarischen Gattung), que, por fim, faz parte da Literatura de uma determinada época. Portanto, como esse texto também faz parte de um momento criador da vida da alma do autor, ele apenas poderá ser compreendido quando situado no todo

subjetivo e objetivo em que está envolvido. 50

Mais uma vez, entretanto, na correta avaliação de Alexy, o modelo hermenêutico formula corretamente o problema sem, contudo, oferecer os critérios para a sua adequada solução. Cuida-se aqui, como se pode ver, do velho problema da produção da unidade e da coerência do ordenamento jurídico.

Ao jurista hoje não representa qualquer novidade afirmar-se que a relação entre fatos e normas nem sempre é de fácil concretização. Já não fosse por outras razões, lembra R. Alexy, uma dificuldade imanente encontra-se presente em qualquer submissão de fatos concretos a normas jurídicas: enquanto as normas se revelam, em

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regra, com considerável índice de abstração e generalidade, contendo poucos caracteres distintivos (Merkmale), os fatos são individuais e concretos, apresentando-se ao mundo com infinitos indícios e marcas distintivas que os podem separar no universo de acontecimentos que os cercam. Na verdade, são essas infinitas marcas distintivas que individualizam um fato e o distinguem dos

restantes fatos que o rodeiam. 51

Entretanto, no que tange ao fato ao qual se dirige uma norma, para que se possa isolá-lo do mundo da vida com as características que têm importância para a aplicação do direito, há de se perceber e descrevê-lo com a ajuda do Tatbestand hipotético da norma. De outro lado, na exata dedução de Alexy, essas características relevantes do fato podem oferecer motivo para, no caso concreto, não se aplicar a norma que inicialmente se tinha diante dos olhos, assim como para precisar, ou rejeitar algumas marcas distintivas do próprio Tatbestand normativo, ou mesmo para acrescentar-lhe alguns indícios antes

considerados como não relevantes. 52 Dá-se aqui o instrutivo ir e vir de perspectiva de que nos falava K. Engish, isto é, para compreender e delimitar o caso concreto, carecemos da perspectiva da norma;

para compreender a norma, precisamos da perspectiva no fato. 53

Aqui, mais uma vez, a ideia de círculo hermenêutico, conquanto ilumine o problema da difícil adequação do fato à norma (ou da norma ao fato), também não oferece critérios para a solução do problema, afigurando-se, ao final, correto concluir que a relação que deva existir entre hermenêutica e argumentação, especialmente, tendo em consideração a ideia de ponderação de bens, é mais de complementaridade do que de exclusão. De fato, diante de uma colisão de direitos fundamentais ou de outros casos difíceis, sempre passíveis de verificação no âmbito do Direito Constitucional e Eleitoral, é possível, como sugerido por R. Alexy, colher as vantagens

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indiscutíveis das advertências (sobre preconceitos, pré- compreensões e círculo hermenêutico) feitas pela hermenêutica quanto ao nosso processo do entendimento e ao mesmo tempo nos valer dos critérios e condições que são oferecidos pela argumentação para um resultado mais racional da ponderação.

Com efeito, é no âmbito do processo que conforma a motivação de sua decisão, que o magistrado eleitoral revelará se esteve atento a influência de seus preconceitos e pré-compreensões na formação de suas convicções, bem como poderá demonstrar, ou não, que o processo de desenvolvimento de seu raciocínio (argumentação) seguiu um itinerário de racionalidade.

1 GUARNIERI, Carlo; PEDERZOLI, Patrizia. The Power of Judges: a comparative study of courts and democracy. New York: Oxford University Press, 2002. p. 4.

2 LUHMANN, Niklas. Law as a Social System. New York: Oxford University Press, 2004. p. 152.

3 GUARNIERI; PEDERZOLI. The Power of Judges: a comparative study of courts and democracy, p. 5.

4 GUARNIERI; PEDERZOLI. The Power of Judges: a comparative study of courts and democracy, op. cit., p. 5.

5 LUHMANN, Niklas. Das Recht der Gesellschaft. Frankfurt/Main:

Suhrkamp, 1993, 1995. p. 60 et seq. Essa é a versão original (alemã) da versão Inglesa (Law as a social system) aqui também utilizada.

6 Ver ARNOLD, Thurman W. Criminal Attempts: the Rise and Fall of

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an Abstraction, 40 YALE L.J. 53, 58 (1930) (a citação de Thomas Reed Powell é a seguinte: “if you think you can think about something which is attached to something else without thinking without thinking about what it is attached to, then you have what is called a legal mind”). Também referido em elissa Murray, Strange Bedfellows:

Criminal Law, Family Law, and the Legal Construction of Intimate Life. 94 Iowa Law Review [2009], 1253-1313.

7 É a seguinte a citação literal: If you’re going to be a good and faithful judge, you have to resign yourself to the fact that you’re not always going to like the conclusions you reach. If you like them all the time, you’re probably doing something wrong.

8 BORK, Robert H. The Tempting of America. Versão Kindle, location

215-228.

9 BORK, Robert. H. The Tempting of America. Versão Kindle, location

224.

10 BORK, Robert H. The Tempting of America. Versão Kindle, location

224-237.

11 LUHMANN, Niklas. Das Recht der Gesellschaft. Frankfurt/Main:

Suhrkamp, 1993, 1995, p. 72 et seq.

12 Para evitarem-se confusões, quando se fala em justificação ou fundamentação da sentença judicial, está-se quase sempre a falar da justificação e fundamentação da própria decisão jurisdicional. O juiz, portanto, tem como tarefa justificar a sua aplicação de premissas normativas escolhidas, e não as premissas mesmas.

13 KRIELE, M. Theorie der Rechtgewinnung: entwickelt am Problem der Verfassungsinterpretation, p. 37.

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14 LADEUR, Karl-Heins. Postmoderne Verfassungstheorie, p. 304, in Preuß, Ulrich K (hg). Zum Begriff der Verfassung: die Ordnung des Politischen. Frankfurt am Main: Fischer Taschenbuch, 1994, 335 p.

15 LADEUR, Karl-Heins. Postmoderne Verfassungstheorie, p. 304.

16 KRIELE, M. Theorie der Rechtgewinnung: entwickelt am Problem der Verfassungsinterpretation, p. 37.

17 KRIELE, M. Theorie der Rechtgewinnung: entwickelt am Problem der Verfassungsinterpretation, p. 25.

18 Acentuando a diferença entre metódica e metodologia, demonstrando aquela mais abrangente do que essa, F. Muller afirma que a Metódica Jurídica não é uma lógica jurídica formal. Também não é ela orientação para técnica de solução de casos. Ela é definitivamente algo diferente de uma metodologia própria de Escolas, no sentido de uma representação de posições

metodológicas na ciência do Direito. Uma metódica tem a tarefa de esclarecer, em princípio, as diversas funções de realização do Direito (legislação, administração, jurisdição, ciência) a estrutura da concretização das normas relacionadas ao caso concreto: Ela

A metódica

jurídica tem o modo de trabalho diário dos juristas como conceito. Ela é técnica de decisão e técnica de imputação sob a exigência (para justificar) de vinculação a uma norma jurídica geral. Ela se refere à formação de normas de decisão para o caso jurídico e sua justaposição a uma norma jurídica assim como dessa (norma) ao texto normativo válido de forma positiva ou ao direito costumeiro; confira-se em F. Muller . Juristische Methodik , p. 25-29. Já, segundo o mesmo autor, a metodologia jurídica tem âmbito de atuação mais restrito, sendo comumente compreendida no sentido da totalidade de regras práticas (Kunstregeln) de interpretação referidas a textos

investiga o trabalho prático dos que têm a função. (

)

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legais, como, por exemplo, a interpretação gramatical ou sistemática, processos de analogia e assemelhados ; F. Muller . Juristische Methodik, p. 29.

19 ESSER, Josef. Vorverständnis, (nota de rodapé 95), p. 7 apud KAUFMANN, Arthur. Das Verfahren der Rechtsgewinnung, p. 94.

20 KRIELE, M. Theorie der Rechtgewinnung: entwickelt am Problem der Verfassungsinterpretation, p. 26.

21 KRIELE, M. Theorie der Rechtgewinnung: entwickelt am Problem der Verfassungsinterpretation, p. 27.

22 KRIELE, M. Theorie der Rechtgewinnung: entwickelt am Problem der Verfassungsinterpretation, p. 27.

23 ALEXY, R. Theorie der Juristischen Argumentation, p. 214. Ver as condições da deliberação consigo mesmo (la delibération avec soi- même) em C. Perelman et L. Olbrechts-Tyteca. Traité de L’Argumentation, p. 53 ss.

24 ALEXY, R. Theorie der Juristischen Argumentation, p. 214-215.

25 STONE, Geoffrey R. Constitutional Law, p. 80.

26 Em Planned Parenthood of Southeastern Pennsylvania versus Casey — 505 U.S. 833 (1992) —, por exemplo, O’Connor, Kennedy e Souter, relatando a posição majoritária da Corte, deixaram registrado o entendimento de que, considerando as questões constitucionais fundamentais resolvidas em Roe, os princípios de integridade institucional e diante da regra do stare decisis, a consideração essencial de Roe v. Wade deveria ser mantida e mais uma vez reafirmada, cfe. 505 U.S. 833 (844-869). Cfe. também em Geoffrey R.

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Stone. Constitutional Law, p. 885.

27 MICHAEL, Lothar. Methodenfragen der Abwägungslehre, p. 173.

28 GADAMER, Hans-Georg. Wahrheit und Methode, p. 276.

29 GADAMER, Hans-Georg. Wahrheit und Methode, p. 275.

30 GADAMER, Hans-Georg. Wahrheit und Methode, p. 272.

31 GADAMER, Hans-Georg. Wahrheit und Methode, p. 273.

32 GADAMER, Hans-Georg. Wahrheit und Methode, p. 274.

33 GADAMER, Hans-Georg. Wahrheit und Methode, p. 274-275.

34 GADAMER, Hans-Georg. Wahrheit und Methode, p. 276.

35 GADAMER, Hans-Georg. Wahrheit und Methode, p. 271.

36 GADAMER, Hans-Georg. Wahrheit und Methode, p. 272.

37 Heidegger. Sein und Zeit, p. 312 et seq. apud GADAMER, Hans- Georg. Wahrheit und Methode, p. 270.

38 GADAMER, Hans-Georg. Wahrheit und Methode, p. 272.

39 GADAMER, Hans-Georg. Wahrheit und Methode, p. 270.

40 ALEXY, Robert. Elemente einer juristischen Begründungslehre, p.

113-114.

41 Como se sabe, I. Kant, ao início de sua Crítica da Razão Pura se propunha demonstrar que o fato de que todo o nosso conhecimento

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começa com a experiência (Das alle unsere Erkenntnis mit der Erfahrung anfage) não comprovaria que todo o conhecimento provenha da experiência (Wenn aber gleich alle unsere Erkenntnis mit der Erfahrung anhebt, so entspringt sie darum doch nicht eben alle aus der Erfahrung), cfe. Immanuel Kant. Kritik der reinen Vernunft, p. 43. Essa é a questão primeira da Crítica kantiana: buscar comprovar a existência de um conhecimento assim independente de toda experiência, isto é, verificar se no conjunto de nossas concepções e conhecimento do mundo não se fariam presentes também aqueles conhecimentos — juízos a priori — que não derivam de nossas impressões sensíveis, mas apenas de nossa própria faculdade ou capacidade cognoscitiva (Erkenntnisvermögen), que para alcançar os seus resultados apenas foi provocada (veranlaβ t) por nossas impressões de sentido. Nas palavras do próprio Kant, há de se compreender como juízos a priori, não aqueles que alcançamos independentemente dessa ou daquela experiência, mas apenas aqueles que pura e simplesmente (schlechterdings) têm lugar independentemente de toda e experiência, cfe. Immanuel Kant. Kritik der reinen Vernunft, p. 45.

42 ALEXY, Robert. Elemente einer juristischen Begründungslehre, p. 114-115; GADAMER, Hans-Georg. Wahrheit und Methode, p. 270 et seq.

43 ALEXY, Robert. Elemente einer juristischen Begründungslehre, p.

114.

44 Sendo mais específico, para Gadamer, quem quer compreender um texto realiza sempre um projetar (Entwerfen). Na verdade, o intérprete sempre antecipa o sentido de toda a sua interpretação tão logo (sobald) se apresenta o primeiro sentido contido no texto a interpretar. Por outro lado, um tal sentido apenas se apresenta, segundo o mesmo Gadamer, porque aquele que interpreta o texto

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realiza sua leitura já partir de certas expectativas e segundo um sentido determinado. O compreender daquilo que se apresenta ao intérprete (o texto) consiste assim na elaboração e aperfeiçoamento daquele pré-delineamento, isto é, daquele projeto que se pré- delineou à própria interpretação (Vorentwurf) e que, segundo a ideia de círculo hermenêutico, deve ser revisado ou corrigido permanentemente em atenção ao que se produz ou, melhor, em razão daquilo que resulta do avanço e do aprofundamento de sentido do texto que se interpreta (GADAMER, Hans-Georg. Wahrheit und Methode, p. 271). É com esse círculo hermenêutico, segundo o credo de Gadamer, fundamentando-se expressamente nos ensinamentos de Heidegger, que o intérprete alcançaria proteger-se (abschirmen sich) da arbitrariedade de ideias e das imperceptíveis intuições que surgem do hábito de pensar irrefletidamente, ao mesmo tempo em que, libertando-o, lhe permitiria dirigir o olhar para as coisas mesmas (und den Blick auf die Sachen selber richten), as quais, no caso do jurista, são os textos de lei ou aqueles que tratam das leis. Esse deixar-se conformar pelas coisas mesmas (no nosso caso, repita-se, os textos legais) é, segundo Gadamer, a primeira, permanente e última tarefa do intérprete (op. cit., p. 271).

45 ALEXY, Robert. Elemente einer juristischen Begründungslehre, p.

115.

46 ALEXY, Robert. Elemente einer juristischen Begründungslehre, p.

115.

47 ALEXY, Robert. Elemente einer juristischen Begründungslehre, p.

115.

48 GADAMER, Hans-Georg. Wahrheit und Methode, p. 296.

49 ALEXY, Robert. Elemente einer juristischen Begründungslehre, p.

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115.

50 GADAMER, Hans-Georg. Wahrheit und Methode, p. 296.

51 ALEXY, Robert. Elemente einer juristischen Begründungslehre, p.

115.

52 ALEXY, Robert. Elemente einer juristischen Begründungslehre, p.

115-116.

53 ENGISCH, K. Logische Studien zur Gesetzesanwendung, p. 15, cfe. nota de rodapé em ALEXY, Robert. Elemente einer juristischen Begründungslehre, p. 115.

Como citar este conteúdo na versão digital:

Conforme a NBR 6023:2002 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), este texto científico publicado em periódico eletrônico deve ser citado da seguinte forma:

GUEDES, Néviton. Hermenêutica e pré-compreensão política nas decisões da Justiça Eleitoral. Revista Brasileira de Direito Eleitoral – RBDE, Belo Horizonte, ano 3, n. 5, jul./dez. 2011. Disponível em:

<http://bid.editoraforum.com.br/bid/PDI0006.aspx?pdiCntd=76091>.

Acesso em: 25 nov. 2013.

Como citar este conteúdo na versão impressa:

Conforme a NBR 6023:2002 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), este texto científico publicado em periódico impresso deve ser citado da seguinte forma:

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GUEDES, Néviton. Hermenêutica e pré-compreensão política nas decisões da Justiça Eleitoral. Revista Brasileira de Direito Eleitoral – RBDE, Belo Horizonte, ano 3, n. 5, p. 135-154, jul./dez. 2011.