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CRIME ORGANIZADO TRANSNACIONAL - TRÁFICO DE SERES HUMANOS

INTRUDUÇÃO, 1 CRIME ORGANIZADO, 1.1 Origem do Crime Organizado, 1.2 A máfia

italiana e sua evolução , 1.3 Principais atuações do crime organizado, transnacional, 1.4 Crime organizado x quadrilhas e bandos, TRÁFICO DE SERES HUMANOS, 2.1 Definição,

2.2 Origem do Tráfico de Seres Humanos, 2.3 Refugiados e imigrantes ilegais, 2.4 Fins do

tráfico de seres humanos e o perfil das vítimas, 2.5 Roteiro e destino das vítimas, 2.6 Perfil

dos aliciadores, 2.7 Tecnologia e inter criminis, 2.8 Números do tráfico e sua lucratividade, 2.9 Gráficos das Nações Unidas acerca do tráfico de pessoas, 3 LEGISLAÇÃO CORRELATA, 3.1 Código Penal nacional, 3.1.1 Código Penal, art. 231, 3.2 LEI 9034/95,

3.3 Convenção das Nações Unidas Contra o Crime Organizado Transnacional, 3.4 Lei

11.106/05, 3.5 Outras leis correlatas, 3.5.1 Estatuto da Criança e do Adolescente ECA, 3.5.2 Lei de Proteção a Vítimas, Testemunhas e Réus Colaboradores, 3.5.3 Lei de

Lavagem ou Ocultação de Bens, Direitos e Valores, CONCLUSÃO, REFERÊNCIAS, APÊNDICE.

INTRODUÇÃO

As atividades e associações humanas têm evoluído paulatinamente desde os primórdios

até os dias atuais, seja qual for a natureza destas atividades, individuais ou não,

comerciais

etc.

ou

sem

fins

lucrativos,

As associações entre os homens são muito antigas. Surgiram da necessidade de

cooperação e posterior divisão de funções entre os primatas, para que aqueles que possuíssem interesses em comum pudessem, com isso, assegurar o alcance destes

suas próprias sobrevivências.

interesses

e

das

Não menos antigas são as atividades ilícitas. Ou seja, desde o surgimento dos homens, há entre eles aqueles elementos que possuem interesses diversos, muitas vezes antagônicos, dos demais membros da comunidade. Sendo que, assim como aqueles que possuem interesses simétricos, estes também se associaram para a segurança dos seus. Surgiu então o esborço do que hoje entendemos por Organizações Criminosas.

O Crime Organizado encontrou, ao longo dos tempos, um grande aliado na

operacionalização e organização de suas atividade: a tecnologia. Com o surgimento de meios de comunicação mais rápidos, a informação passou a interligar, instantaneamente, vários pontos do nosso planeta, fazendo com que aquelas atividades ilícitas tornassem

ainda mais abrangentes, ganhando caráter global, desconsiderando fronteiras geográficas

ou

quaisquer

barreiras

naturais.

Uma

vez

que

a

organização

criminosa

estratégica

mostrou-se

bastante

viável

financeiramente, gerando lucros exorbitantes, a indústria do crime passou a dispôr de uma grande quantidade de capital excedente, pelo qual pôde financiar sua própria sofisticação

tecnológica.

e

evolução

A medida em que o tempo passa, as Associações Criminosas evoluem para uma sofisticação tecnológica tão acentuada que muitas das atividades empresariais lícitas não conseguem alcançar, ou pelo menos levarão anos, até mesmo séculos, para alcançar.

No decorrer da evolução do Crime Organizado, tornou-se cada vez mais evidentes as disparidades entre os meios empregados nas atividades delituosas e os recursos disponíveis para a sua repreensão. Ou seja, o aparelhamento dos estados modernos tem se mostrado ineficaz no combate ao crime organizado, tendo em vista os baixos investimentos governamentais e a gritante inferioridade de recursos humanos e tecnológicos.

Em assim sendo, torna-se evidente que os Estados Modernos encontram-se bastante atrasados tecnologicamente, em se comparados ao Crime Organizado. Deste modo, seria muito onerosa qualquer providência no sentido de tentar se equiparar tecnologicamente ao mesmo.

Neste sentido, torna-se cada vez mais importante, e necessário, o estudo sistemático dessas "Empresas do Crime", visando compreender melhor suas formas de organização e atuação, para, por meio da prevenção e educação social, podermos oferecer alguma

resistência ao domínio, cada vez mais nítido, que estas Entidades Delinqüentes exercem

vidas.

na

ordem

mundial

e

no

curso

das

nossas

Conforme a proposta original, o presente trabalho fará uma breve abordagem sobre o Crime Organizado Transnacional, passando então a analisar especificamente um ramo daquela organização, o Trafico Internacional de Seres Humanos.

Conforme se constata, o Tráfico de Seres Humanos representa um ramo muito explorado pelos entes ligados ao Crime Organizado Transnacional e que, esta atuação, pode está bem mais próxima das nossas vidas e dos nossos filhos do que pensam os leigos no assunto.

Tem por justificativa este trabalho trazer ao mundo científico-acadêmico uma problemática atual, e bastante relevante, que assola o mundo em tempos modernos, embora muitas

vezes

aos cidadãos comuns.

não

perceptível

O Tráfico de Seres Humanos tem uma significativa atuação em quase todas as regiões do nosso país. O Brasil desempenha um papel relevante nesta atividade delituosa, sendo um

dos muitos paises "exportadores" de pessoas. As regiões Norte e Nordeste do Brasil respondem, hoje, por uma parcela bastante significativa deste Tráfico, principalmente para

sexual.

fins

de

exploração

Desta feita, o presente instrumento tem como objetivos gerais à elaboração de um diagnostico que possibilite um estudo sistematizado, com um bom nível de profundidade e com base em dados científicos, que possa trazer ao mundo acadêmico uma noção básica de como o crime organizado encontra-se presente em nosso cotidiano, ressaltando a importância do Brasil no contexto do Crime Organizado Transnacional.

Torna-se imprescindível ainda, sabermos o porquê da manutenção destas atividades e a quais interesses elas estão atreladas. Quem são as principais vítimas e para quais fins são

traficadas. Quais os roteiros percorridos e quais os destinos deste tráfico. Quem financia e

quem

etc.

lucra

com

estas

atividades,

Uma vez que não há uma melhor exploração doutrinária acerca do tema exposto, multiplica-se a importância de um trabalho científico que possa diagnosticar as atuais conjunturas dessa realidade nacional e mundial, para que se possa, com base em

informações seguras, traçar as melhores estratégias de combate a esta modalidade criminosa.

Quanto aos aspectos metodológicos, foram utilizadas pesquisas bibliográficas e científicas, no sentido de organizar, em um só trabalho, todas as informações pertinentes ao estudo do Tráfico de Seres Humanos. Não obstante, realizou-se interações com outras pesquisas

e dados relacionados ao tema, possibilitando, assim, o levantamento fiel desta realidade.

No que tange à tipologia, a pesquisa é pura, pois tem por finalidade aumentar os conhecimentos do pesquisador. As abordagens são quantitativas e qualitativas, pois, além de levantarem e organizarem dados estatísticos puros, faz-se suas contextualizações.

Quanto aos objetivos, a pesquisa é descritiva, buscando descrever fenômenos, descobrir a freqüência que os fatos ocorrem, incidência, natureza e características, buscando maiores

informações acerca

tela.

do

tema

em

No transcurso deste trabalho, fizemos algumas análises acerca da real gravidade desta problemática em nosso país, sua repercussão internacional, suas rotas, lucratividade, favorecimentos e combate, dentre inúmeras outras abordagens incidentais.

Já no primeiro capítulo, fazemos um levantamento do que vem a ser uma organização criminosa para os fins aqui intencionados, levantando dados que anotem a evolução

histórica do Crime Organizado e identifiquem as principais atuações dessas entidades

atualidade.

delituosas

na

No segundo capítulo, o Tráfico de Seres Humanos, pretendemos fazer um levantamento

de todos os dados pertinentes ao tema, buscando inter-relacionar os panoramas nacionais

crime.

e

internacionais

deste

Ao terceiro e último capítulo resta o dever de identificar as medidas, nacionais e

internacionais, que têm como objetivo o combate ao Crime Organizado, em particular ao

Tráfico de

Pessoas, e a análise da legislação pertinente ao caso.

1

CRIME

ORGANIZADO

TRANSNACIONAL

Neste capítulo faremos uma breve explanação acerca da origem , evolução e principais atuações do Crime Organizado no Mundo. Ainda neste capítulo, iremos abordar a importância da Máfia Italiana no histórico das organizações criminosas modernas.

1.1

A

origem

do

crime

organizado

A origem do Crime Organizado não é algo fácil de ser levantado. No entanto, é certo que

as organizações criminosas são tão antigas quanto à própria atividade criminosa. Ou seja,

é bem provável que essa origem esteja inter-relacionada com a origem do homem, tendo

em vista sua capacidade de seguir ou não os objetivos sociais a eles impostos pela coletividade que o cerca (ressaltando que neste momento o termo "crime" assume o seu

significado

amplo).

mais

Entretanto, é de suma importância fazermos uma breve prévia do que mais adiante faremos com maior perspicácia, tal seja, salientar as dessemelhanças entre uma mera organização criminosa e o Crime Organização no sentido aqui tratado. Senão vejamos:

para que qualquer crime logre êxito, é necessário que haja um mínimo de organização,

pois não há como fazer qualquer coisa sem uma organização mínima. Há de haver, em

qualquer

que mentalmente.

situação,

uma

organização,

ainda

Contudo, é importante frisarmos que para os fins objetivados neste trabalho não faremos menção a atividades criminosas esparsas que, mesmo com uma organização razoável, não configuram atividades ligadas ao Crime Organizado strito senso. Então, partindo-se desta premissa, deveremos entender por Crime Organizado as "grandes empresas do

crime", organizações altamente sofisticadas, com utilização de tecnologia de ponta e profissionais qualificados, com infiltrações em diversos ramos de atividades comerciais e

governamentais,

inclusive.

O Crime Organizado Transnacional, tal como abordaremos, segundo historiador Jeffrey Robinson, tem seu surgimento associado a uma reunião realizada em 1990 no hotel City Club, em Viena Itália. Neste hotel teriam se reunidos cerca de vinte homens, das mais diversas nacionalidades, com intuito de estabelecer alianças criminosas estratégicas.

2001)

(ROBINSON,

Embora a origem do nome Máfia também levante, ainda hoje, muitas controvérsias e polêmicas entre historiadores, juristas e políticos, dentre muitos outros, sabe-se que foi através da Máfia Italiana que o Crime Organizado passou a ganhar o contorno que aqui

será

abordado

e

pormenorizado.

1.2

A

máfia

italiana

e

sua

evolução

O termo Máfia por muitas vezes foi utilizado, desde o século XIX até hoje, para referir-se a atividades diversas uma das outras, fazendo com que houvesse, nos dias atuais, grandes problemas para se encontrar a origem deste termo, assim como a origem da Organização

denominar.

Criminosa

a

qual

passou

a

Segundo Lupo (apud LORENCINI, 2002, p. 25-26) a Máfia seria, em seus primórdios, uma organização

pela desconfiança em relação ao Estado e, portanto, pelo hábito de fazer

justiça por si mesmo, pelo senso da honra, pelo clientelismo, pelo familismo que subtrai do indivíduo a percepção das próprias responsabilidades diante de uma coletividade mais

primária.

ampla

caracterizada

que

a

Em 1998 Ivan Luiz da Silva (1998, p.51) descreveu a Máfia Italiana como sendo "um poder paralelo com a finalidade de auferir lucros ilegais, corrompendo também o Poder Público para obter a impunidade por seus crimes e aumentar seus lucros"

De fato, é verdade que por volta dos anos 70 a Máfia Italiana se apresentava como uma grande "empresa do crime", concentrando suas atenções em atividades de alta lucratividade, empregando recursos humanos e tecnológico de alto nível, buscando, principalmente, a acumulação de capital por meio do narcotráfico.

Conforme conta a historiografia do crime, os mafiosos de outrora eram pessoas de alto poder aquisitivo. Sempre foram donos de terras e de outros meios, lícitos ou ilícitos, de acumulação de riquezas. Com o passar dos tempos, é mais que natural que estas pessoas, criminosos com visão empresarial aguçada, passassem a diversificar as atividades das suas empresas criminosas, ainda mais contando com mão-de-obra

qualificada e tecnologia de ponta. Assim sendo, a máfia passou a "namorar" outras

atividades criminosas, desde a simples exploração exacerbada da especulação imobiliária, servindo à lavagem de dinheiro, até o Tráfico Transnacional de Seres Humanos, passando

pelo

órgãos.

tráfico

de

armas

e

contrabando

de

Tão importante quanto à diversificação das atividades criminosas foram às articulações realizadas nos bastidores do mundo do crime. Atualmente sabe-se que grande parte dos seguimentos comerciais, industriais e políticos encontram-se infiltrados por pessoas ligadas, direta ou indiretamente, ao Crime Organizado. Tal infiltração veio a tornar-se mais um dos grandes entraves ao combate desta modalidade criminosa.

1.3

Principais

atuações

do

crime

organizado

transnacional

O Crime Organizado Transnacional tem uma atuação muito diversificada, possuindo, pois, gerências sobre várias modalidades criminosas em todo o mundo. No entanto, vale

destacar as três principais modalidades criminosas, levando-se em conta a lucratividade que proporcionam, lucro este, que será oportunamente analisado. São elas: o Tráfico de Drogas, o Tráfico de Armas e o Tráfico de Seres Humanos, respectivamente. Conforme a proposta originária, este trabalho deter-se-á a última modalidade criminosa mencionada,

ou

seja,

o

Tráfico

de Seres Humanos.

1.4

Crime

organizado

x

quadrilhas

e

bandos

Deveremos entender ainda que o Crime Organizado aqui estudado não pode ser confundido com as "quadrilhas e bandos" previstos no art.288 do nosso Código Penal. O Crime Organizado no rigor técnico do termo é muito mais que uma simples organização criminosa.

Conforme costuma lecionar o Professor Antônio Cerqueira, Docente pela Universidade de Fortaleza e membro do Ministério Público Militar, para que qualquer crime logre algum êxito, faz-se necessário haver um mínimo de organização, o que não deve ser confundido com as megas estruturas do Crime Organizado propriamente dito.

O Crime Organizado em tela dispõe de uma estrutura organizacional bastante complexa e hierarquizada, possuindo divisão sistematizada de funções, infiltrações em órgãos dos poderes administrativo, legislativo e judiciário, sistemas informatizados e interligados transnacionalmente, tecnologia de ponta e mão de obra altamente qualificada, dentre muitos outros atributos, infra-estrutura esta inalcançável palas meras Quadrilhas e Bandos nacionais.

Segundo Ivan Luiz da Silva, (1998, p. 60-61), as principais características do Crime

Organizado

 

são:

1.

Estrutura

hierarquizada

empresarialmente,

com

divisão

funcional

de

atividades.

2.

Uso

de

meios

tecnológicos

sofisticados.

3.

Simbiose

freqüente

com

o

Poder

Público

4.

Alto

poder

de

intimidação

e

violência.

5. Preferência pela prática de crimes rentáveis como: extorsão, pornografia, prostituição,

entorpecentes etc.

jogos

de

azar,

tráfico

de

armas

e

6. Tendência de expandir suas atividade para outros países em forma de multinacionais criminosas.

7.

Diversificação

de

atividades,

para

garantir

uma

maior

lucratividade.

Conforme se verifica, as Quadrilhas e Bandos alcançados pelo nosso Código Penal não possuem grandes estruturas organizacionais. Suas atividades delituosas são geralmente locais, dificilmente ganhando proporções internacionais.

2

O

TRÁFICO

DE

SERES

HUMANOS

Uma vez estando claro o que vem a ser o Crime Organizado propriamente dito, cabe-nos delimitar a abrangência do termo Tráfico de Seres Humanos para os fins aqui intencionados.

2.1

Definição

Não cabe a doutrina cogente ou ao estudioso do Direito a definição do que vem a ser o Tráfico de Seres Humanos. Tal definição é legal e foi estabelecida pelo Protocolo para Prevenir, Suprimir e Punir o tráfico de Pessoas, Especialmente Mulheres e Crianças em suplemento à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional (Convenção de Palermo). O supracitado documento preceituou, em seu art. 3, as condutas que vêm a caracterizar o Tráfico de Seres Humanos, tais sejam:

recrutamento, transporte, transferência, abrigo ou recebimento de pessoas, por meio de ameaça ou uso da força ou de outras formas de coerção, de rapto, de fraude, de

engano, do abuso de poder ou de uma posição de vulnerabilidade ou de dar ou receber pagamentos ou benefícios para obter o consentimento para uma pessoa ter controle sobre

outra

exploração.

(

)

pessoa,

para

o

propósito

de

No entanto, fez-se necessário, aos relatores do Protocolo acima referido, a conceituação do que viria a ser exploração e a delimitação da abrangência alcançada pelo termo, para

os fins intencionados naquele documento, o que foi feito naquele mesmo artigo, como sendo a atividade que "inclui, no mínimo, a exploração da prostituição ou outras formas de exploração sexual, trabalho ou serviços forçados, escravidão ou práticas análogas à

escravidão,

à

servidão

ou

à

remoção

de

órgão".

2.2

A

origem

do

tráfico

de

seres

humanos

Segundo sabe-se, o Tráfico de Pessoas tem sua origem na Antiguidade, onde, devido as freqüentes guerras e disputas territoriais, era comum, após as batalhas, a apropriação dos povos vencidos pelo exército vencedor, fazendo daqueles verdadeiros escravos destes. Em assim sendo, muitas vezes os vencedores não tinham interesse imediato em mão-de- obra, o que aumentaria significativamente sua densidade populacional, aumentando também a demanda de recursos, o que os levava a comercializar, em forma de escravidão, a mão-de-obra excedente. Não chegava a ser o Tráfico de Seres Humanos, no rigor técnico do termo, mas é, com certeza, a origem mais provável do tema aqui pormenorizado.

Entretanto, embora presente na antiguidade, o Tráfico de Seres Humanos só veio a ganhar maior relevância econômica com o advento da escravatura. À medida que se intensificavam as grandes navegações, aumentava-se o Tráfico Negreiro e, por conseguinte, multiplicava-se o volume de pessoas traficadas.

terras, os europeus, principalmente portugueses e

espanhóis, passaram a utilizar-se, prioritariamente, da mão-de-obra negra-escrava para poder desbravar, explorar e possibilitar o povoamento das terras descobertas, agora

colônias

suas metrópoles.

Com a "descoberta"

de

novas

vinculadas

as

Naquela época, o principal "fornecedor" de pessoas era o continente africano que, devido

ao baixo poder de resistência, em face das constantes guerras internas e da superioridade

bélica das nações desbravadoras, transformou-se em um dos maiores exportadores de

pessoas

tempos.

de

todos

os

Vale ressaltar que, naquela época, não havia qualquer legislação visando o combate ao tráfico de pessoas, muito pelo contrário, havia grandes impulsos neste sentido, pois os negros eram tidos como uma sub-raça, verdadeiras mercadorias, indignos de qualquer proteção legal ou humanitária. Embora os escravos não fossem tidos como pessoas, eles possuíam grande valor econômico como mercadoria. O negro foi responsável por grande parte do volume de negócios do século XVII, com sua lucratividade comparada apenas ao

cana-de-açúcar.

comercio

da

Embora os negros não fossem, àquela época, tidos como Seres Humanos é evidente que

aquele comércio de escravos se faz representar, significativamente, no histórico do Tráfico

de

Seres

Humanos

dos

tempos atuais.

2.3

Refugiados

e

imigrantes

ilegais

Antes de qualquer outra abordagem, faz-se importante fazermos uma diferenciação entre

o que vem a ser o Refúgio e a Imigração Ilegal, face ao Tráfico de Pessoas.

A Convenção de Genebra relativa ao Estatuto dos Refugiados, de 28 de Julho de 1951,

(Convention relating to the Status of Refugees of 28 July 1951) estabeleceu o

significado

do

termo

Refugiado

como

sendo:

Art.

1

Definição

do

Termo

Refugiado

A. Para os fins da presente Convenção, o termo refugiado aplicar-se-á a qualquer pessoa:

(2) Que, em consequência de acontecimentos ocorridos antes de l de Janeiro de 1951, e

receando com razão ser perseguida em virtude da sua raça, religião, nacionalidade, filiação em certo grupo social ou das suas opiniões políticas, se encontre fora do país de que tem a nacionalidade e não possa ou, em virtude daquele receio, não queira pedir a proteção daquele país; ou que, se não tiver nacionalidade e estiver fora do país no qual tinha a sua residência habitual após aqueles acontecimentos, não possa ou, em virtude do

dito

queira voltar.

receio,

a

ele

não

Gramaticamente, segundo o Dicionário Michaelis (2002, Cd-rom), o termo refugiado é

definido como: aquele que se refugiou. Já o termo Refúgio, por sua vez, é tido como "o

em segurança "

lugar

onde

alguém

se

refugia

para

estar

Em relação à Imigração Ilegal e ao Refúgio, a pessoa que será transportada normalmente vai à procura do intermediador-transportador, por iniciativa própria, sabendo qual será o roteiro a ser seguido e qual o destino final. Sem haver, portanto, qualquer cunho de exploração entre as pessoas daquela relação. Ou seja, de acordo com o sentido legal e gramatical da expressão refúgio, assim como seus derivados, subtende-se que não há a previsão de exploração, tampouco, o uso de meios forçosos ou ludibriantes.

Já em relação ao Tráfico de Seres Humanos, é necessário que haja pelo menos ameaça

ou uso da força, ou outras formas de coação, rapto, abuso de autoridade ou situação de vulnerabilidade, entrega ou aceitação de pagamentos ou benefícios para obter o consentimento de uma pessoa que tenha autoridade sobre outra, para fins de exploração No entanto, vale ressaltar que, de acordo com o art. 3 do Protocolo Adicional à Convenção

das Nações Unidas Contra o Crime Organizado Transnacional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em especial Mulheres e Crianças, a ciência ou não, o consentimento ou não, da pessoa traficada em relação ao transporte e a até mesmo da exploração a qual se submeterá é indiferente para a tipificação do crime.

Art.

Para

efeitos

do

presente

Protocolo:

b) O consentimento dado pela vítima de tráfico de pessoas tendo em vista qualquer tipo de exploração descrito na alínea a) do presente Artigo será considerado irrelevante se tiver sido utilizado qualquer um dos meios referidos na alínea a);

Segundo estudo realizado em 2003 pelo Escritório das Nações Unidas Contra Droga e Crime (UNODC), em grande parte dos casos de Tráfico de Pessoas é feio uso de algum artifício fraudulento para o aliciamento da pessoa traficada. Ou seja, é comum o uso de falsas promessas e outros meios de tapeação, tais sejam, propostas de casamento,

vida, dentre muitos outros.

emprego, melhorias de

Ainda com base no estudo do Escritório das Nações Unidas Contra Droga e Crime (UNODC), as principais motivações que levam à Imigração Ilegal e ao Refúgio são causas econômicas, geográficas, culturais, religiosas, políticas, dentre muitas outras, em nada relacionadas com alguma modalidade de exploração.

Outra diferença bastante relevante entre o Tráfico de Pessoas e o Refúgio ou Imigração Ilegal é que nestes, uma vez chegando ao local de destino, geralmente, não há mais

qualquer contato entre a pessoa transportada e os seus transportadores, o que não ocorre

com

Pessoas.

o

Tráfico

de

No Tráfico de Pessoas, após a chegada ao local

propriamente dito, ou seja, uma vez chegado ao destino é dado início a exploração, onde o coator geralmente subtrai o passaporte da vítima, ou utiliza outros meios que intimidem as vítimas, submetendo-as a exploração pretendida.

destino, é dado início ao crime

2.4

Fins

do

Tráfico

de

Seres

Humanos

e

o

perfil

das

vítimas

A fim de pormenorizar o estudo do Tráfico de Seres Humanos, faz-se importante

levantarmos o porquê da existência deste crime e a quais finalidades ele está atrelado.

Segundo informações do UNODC, cerca de 92% dos casos de tráfico de pessoas estão ligados à pornografia e exploração sexual da vítima. Já o trabalho escravo, responde, por sua vez, por 21% dos casos, o que requer um estudo mais direcionado, visando elaborar

medidas efetivas de

combate e prevenção ao TSH.

Conforme se verifica, a exploração sexual e o trabalho forçado respondem por uma

parcela significativa do Tráfico Transnacional de Seres Humanos. Neste sentido, torna-se fácil deduzir que as principais vítimas desta modalidade criminosas são mulheres e crianças, tendo em vista que estes oferecem uma menor resistência à exploração às quais

submetidos.

são

Estudos realizados pelas Nações Unidas constataram que, no Brasil, quase a totalidade das vítimas do TSH é do sexo feminino. Conforme sabemos, o biótipo das mulheres brasileiras é muito apreciado por outros países do mundo. Seja pela real beleza da mulher brasileira, seja pela tradicional ligação ao sexo fácil.

Não é de hoje que as mulheres brasileiras abastecem as redes internacionais de prostituição. O Brasil, sobretudo os estados do nordeste, é um grande atrativo turístico. No entanto, nem sempre os motivos pelos quais recebemos uma grande quantidade de turistas é algo digno de louvor. Muitos dos nossos visitantes internacionais são, normalmente, homens procurando sexo pago e fácil.

Outro dado alarmante diz respeito à idade com que as vítimas são traficadas, a maior parte das pessoas, estão em um intervalo entre 18 e 21 anos, o que torna possível

vislumbrar, pela análise sistemáticas dos dados, sexo e idade das vítimas, o principal fim

pessoas.

deste

tráfico

de

As pessoas do nosso país, sobretudo as mulheres, são bastante valorizadas pelo TSH,

tendo em vista o seu biótipo e, geralmente, a baixa escolaridade. Segundo pesquisa realizada pelo consultor Marcos Colares em Tribunais de Justiça e superintendências da Polícia Federal dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás e Ceará, o TSH atinge vários níveis de escolaridade, mas a maior parte das vítimas é composta de pessoas com

pouco

estudo.

Ainda neste sentido, as Nações Unidas estimam que cerca de 68% das vítimas deste trafico são solteiras e que cerca de 40% não chegaram a concluir o Ensino Médio.

2.5

Roteiro

e

destino

das

vítimas

Segundo as Nações Unidas, podemos dividir o roteiro do Trafico de Pessoas em três categorias distintas, tais sejam: Paises de Origem, Transitórios e Destinatários.

Como o próprio nome depreende, Paises de Origem são os fornecedores da essência destes crimes, a matéria prima, ou seja, as pessoas, como já falado anteriormente,

principalmente mulheres e crianças.Ainda segundo informações das Nações Unidas, Rússia, Ucrânia, Tailândia, Nigéria, Romênia, Albânia, China e Bulgária são os principais

Origem.

representantes

dessa

No âmbito nacional, o êxodo de pessoas também atinge grandes proporções. Em 2002, a professora Lúcia Leal, da Universidade de Brasília, juntamente com o Centro de

Referência, Estudos e Ações sobre crianças e adolescentes CECRIA, realizou, no Brasil, uma pesquisa sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para Fins de Exploração Sexual Comercial Pestraf, pela qual se verificou que as principais vítimas do Tráfico de Seres Humanos são originárias de cidades litorâneas, tais como: Rio de Janeiro, Vitória, Salvador, Recife e Fortaleza. Sobressaindo-se, ainda, as cidades não litorâneas de Goiás, São Paulo, Minas Gerais e Paraná.

Em decorrência da baixa escolaridade das vítimas do TSH, os principais destinos das pessoas traficadas pelo Brasil são os paises de língua latina. Segundo estudos realizados pelas Nações Unidas, os principais destinos são: Itália, Espanha e Portugual, assim como outros paises da América Latina, dos quais destacam-se Paraguai, Suriname, Venezuela e República Dominicana. Tal fato se justificaria pela semelhança de idiomas e costumes, o que facilitaria bastante a adaptação daquelas vítimas, como já dito, geralmente de baixa

escolaridade

e

instrução.

2.6

Perfil

dos

aliciadores

Conforme consignamos anteriormente, o Crime Organizado utiliza-se de mão-de-obra qualificada e treinada, portanto, é evidente que um crime de proporções e atuações transnacionais exige colaboradores bem preparados para a demanda. Como é de se esperar, os aliciadores são, em sua grande maioria, pessoas de razoável nível de escolaridade. Isto porque as pessoas de baixa escolaridade certamente enfrentariam severos problemas em uma operação de proporções internacionais.

Outro dado importante é que uma parte considerável das pessoas envolvidas no transporte ilegal de seres humanos é identificada como empresários, geralmente ligados a alguma atividade do ramo turístico ou de serviços, aparentemente lícita.

Em 15 de dezembro de 2004, o jornal O Povo noticiou a prisão de quatro pessoas na Itália, dentre elas uma brasileira e seu esposo, um italiano. O referido casal é proprietário de uma agência de viagens em Fortaleza - CE, já os outros dois, ambos homens e italianos, seriam proprietários de outras agências nas cidades italianas Palermo e Turim. Segundo a Polícia italiana, outras cinco agências italianas estariam envolvidas naquele esquema.

Em relação ao Brasil, grande parte dos processos e inquéritos existentes tem como

indiciados brasileiros, o que, segundo o UNODC, é revelador da dificuldade de se chegar aos verdadeiros mentores intelectuais desse crime, ou seja, o alto escalão desta

Organização

Criminosa.

Ainda no Brasil, vale destacar um dado curioso. Em um único processo em curso na Justiça Federal, na Secção Judiciária do Rio de Janeiro, há 45 policiais federais sendo indiciados por aliciamento e/ou colaboração com o Tráfico de Seres Humanos. No entanto, embora a caso acima citado mereça destaque, verifica-se que os demais colaboradores deste crime geralmente são tidos como empresários, os quais exercem atividades lícitas,

pelo

menos

em

princípio.

2.7

Tecnologia

e

inter

criminis

Conforme tratado anteriormente, ao falarmos do Crime Organizado, sabemos que não é fácil desarticular uma atividade criminosa bem organizada e estruturada. O Tráfico de Pessoas, assim como as atividades criminosas de alto escalão, utiliza-se de tecnologia de

ponta

e

mão-de-obra

especializada.

Os criminosos utilizam-se de sites, e-mail's, fax telefones celulares e inúmeros meios de comunicação que viabilizem a comunicação, segura e rápida, dos integrantes da organização.

Desta feita, os criminosos não medem esforços para assegurar o sucesso das suas

empreitadas. O jornal O Povo, circulado dia 22 de outubro de 2004, denunciou que um holandês, preso dias antes por suposto envolvimento com o tráfico de pessoas, teria registrado uma menina em fortaleza como sendo sua filha, para garantir o visto de

Brasil.

permanência

no

Vale consignar ainda que o Tráfico de Seres Humanos encontra-se intimamente ligados a

outras

favorecimento

etc.

coação,

práticas

criminosas,

tais

como:

a

falsificação

de

documentos,

rapto,

prostituição

No exterior, países destinos, a operacionalização é feita ainda mais brutal. As pessoas são traficadas e, ao chegarem ao seu destino, são submetidas a condições subumanas de sobrevivência. Geralmente têm seus passaportes subtraídos pelos traficantes e são obrigadas a pagar, através da exploração correspondente, todas as despesas da sua viagem, desde o visto até a própria hospedagem. Desta feita, torna-se quase impossível implementar as dívidas adquiridas, face seu crescimento e atualização diária.

2.8

Números

do

tráfico

e

sua

lucratividade

Segundo a Professora Mariane Straka Bonjovani, estima-se que aproximadamente 700 mil mulheres são traficadas anualmente em todo o mundo, sendo que 83% deste total são para fins pornográficos e/ou de exploração sexual. O Sudeste Asiático, onde estão localizados alguns paises exportadores, seria responsável por um terço das pessoas

traficadas em todo o mundo. (BONJOVANI, 2004, p. 31 e 32) No entanto, é bem possível que esse número ultrapasse, com relativa facilidade, a marca de 1 milhão de mulheres traficadas ao ano. Segundo vincula-se, esse número poderia chegar a 2 milhões de

2005)

mulheres (Diário do

Nordeste,

27

de

abril

de

Os números realmente impressionam, principalmente, ao se relacionar com a lucratividade que proporcionam ao Crime Organizado. O Escritório das Nações Unidas estima que o tráfico de mulheres e crianças movimenta de 7 a 9 bilhões de dólares, e que, cada ser humano transportado ilegalmente possibilitem um lucro que pode chegar a 30 mil dólares

por

pessoa.

Os dados são alarmantes, e tal fato ressalta, ainda mais, a gravidade do problema ora trabalhado. Segundo as Nações Unidas, o Tráfico de Seres Humanos só perderiam, em lucratividade, para o Tráfico de Drogas e Armas, respectivamente. Em assim sendo, verifica-se que tão acentuada lucratividade faz com que o Crime Organizado disponha do capital necessário à ampliação e aprimoramento constante de suas atividades.

2.9

Gráficos

das

Nações

Unidas

acerca

do

tráfico

de

pessoas

Segundo

estudos

realizados

pelas

Nações

Unidas,

e

com

base

nas

informações

levantadas, tornou-se possível ilustrar graficamente os dados do tráfico de seres humanos

nacional.

no

âmbito

Em

relação

aos

processos

e

inquéritos

instaurados;

Pelos dados acima, verifica-se que há uma tendência estatística de maior processamentos de inquéritos e processos judiciais. Entretanto, sabemos que, embora importante e significativa, a evolução dos números referentes às medidas de combate, muitas vezes, não acompanham a evolução dos números que mostram a realidade deste crime. Ou seja, faz-se necessário um maior empenho dos órgãos de segurança pública no sentido de combater, de modo efetivo, a incidência, cada vez maior, do tráfico de pessoas.

Quanto

à

forma

de

conhecimento

do

feito,

vejamos:

Quanto à fase em que se encontravam os processos e inquéritos instaurados até 2003;

Em relação ao sexo das vítimas, vejamos a comprovação de tudo o exposto anteriormente

quanto

à

finalidade

deste

crime;

Inter-relacionando as informações supra com os dados sobre as idades e estado civil das vítimas, veremos constata-se fortes indícios de que o tráfico de seres humanos, no Brasil, é basicamente para atender as redes internacionais de prostituição, senão vejamos:

Quanto

à

idade

das

vítimas;

Quanto

ao

estado

civil

das

vítimas;

Embora pouco conclusivo, uma vez que é um dado altamente subjetivo, os dado sobre a ocupação das vítimas do tráfico mostram que boa parte daquelas pessoas se diz não ser

profissional

do

sexo

originariamente;

Já quanto à escolaridade, constata-se que há preferência por traficar pessoas de baixa escolaridade;

Quanto ao destino das vítimas, faz importante chamarmos a atenção para a grande percentagem de pessoas traficadas para paises cuja língua é de origem latina. Tal gráfico mostra, ainda, uma grande quantidade de países envolvidos no tráfico de pessoas, o que

evidencia a falta de cooperação internacional no combate a esta modalidade criminosa;

Já em relação aos réus/indiciados, tal amostra encontra-se bastante comprometida, uma vez que em um único processo em curso na Justiça Federal do Rio de Janeiro tem 45 policiais federais figurando com réus. No entanto, vale trazer a baila para outras considerações.

Em relação ao sexo dos indiciados, conforme havia sido consignado anteriormente, há um certo equilíbrio entre homens e mulheres. Entretanto, sabemos que homens e mulheres

têm,

geralmente

executam o trabalho corpo-a-corpo, enquanto os homens realizam atividades mais

normalmente,

funções

diferenciadas

nestes

crimes.

As

mulheres

complexas.

Assim

vejamos;

Quanto

à

faixa

etária

dos

réus/indiciados;

Em

relação

ao

estado

civil

dos

réus/indiciados;

Quanto

ao

grau

de

instrução

dos

mesmos;

Quanto

as

suas

nacionalidades;

Neste sentido, tais gráficos vêm para comprovar e atestar todas as informações fornecidas anteriormente, o que comprova a legitimidade do presente trabalho, assim como sua

importância

jurídica

e

social.

3

LEGISLAÇÃO

CORRELATA

E

OUTRAS

MEDIDAS

No Brasil, poderíamos destacar dentre a legislação nacional e mundial, algumas leis importantes no combate ao Crime Organizado e, especificamente, ao Tráfico de Seres Humanos.

3.1

Código

Penal

nacional

Conforme já falamos por diversas oportunidades anteriores, o crime de quadrilha e bando previsto no art. 288 do CP não consegue alcançar o crime organizado propriamente dito.

Diz

o

nosso

Código

Penal:

Art 288. Associarem mais de três pessoas, em quadrilha ou bando, para o fim de cometer

crimes:

Pena

reclusão,

de

1

(um)

a

3

(três)

anos.

Parágrafo único. A pena aplica-se em dobro, se a quadrilha ou bando é armado.

Conforme leciona o mestre Damásio de Jesus, não se faz necessário, para que haja o

crime supra, a nítida divisão de funções entre os participante, estatutos de quadrilha,

etc.

hierarquia

entre

os

quadrilheiros

Tal análise deixa bem visível a simplicidade das organizações, as quais visa o Código Penal nacional, afastando-se, de plano, qualquer extensão deste, no sentido de conseguir abarcar o crime organizado, no sentido técnico da expressão.

3.1.1

Código

Penal,

art.

231

O art. 231, hoje revogado pela Lei 11.106/05, juntamente com o § 1o do art. 227, ambos

do nosso Código Penal, buscavam tipificar, ainda que de forma tímida e precária, alguns procedimentos ligados ao tráfico de mulheres e crianças sem, no entanto, abarcar

satisfatoriamente

o

tema.

Diz

o

art.

231

do

CP:

Art. 231. Promover ou facilitar a entrada no território nacional de mulheres que nele venha

a exercer a prostituição, ou a saída de mulher que vá exerce-la no estrangeiro.

Pena:

 

reclusão

de

3

(três)

a

8

(oito)

anos.

§

Se

ocorre

qualquer

das

hipóteses

do

§

1o

do

art.

227.

Pena:

reclusão

de

4

(quatro)

a

10

(dez)

anos.

§ 2º Se há emprego de violência, grave ameaça ou fraude, a pena é de reclusão de 5 a 12

anos,

 

além

da

pena

correspondente

à

violência.

§

Se

o

crime

é

cometido

com

o

fim

de

lucro,

aplica-se

também

multa.

3.2

LEI

9034/95

A Lei 9034/95 procurou, sem o sucesso esperado, tipificar o que seria o crime organizado.

No entanto, o legislador pouco acrescentou neste sentido. Segundo Ivan Luiz da Silva, o

crime organizado é pouco comentado, restringindo-se à história do crime de quadrilha e bando, CP art.288, o qual não se pode considerar como organizado, no rigor técnico do

termo.

51)

(Silva,

1998,

p.

De fato, ao tentar tipificar o crime organizado, o legislador incorreu em severos erros técnico-legislativos ao elaborar a Lei em tela. Não resta bem claro ao estudioso do Direito, tão pouco aos cidadãos comuns, as diferenças entre meras quadrilhas e bandos e o crime organizado, propriamente dito. Neste sentido, consta na lição de Gomes e Cervini (1997,

que:

p.89)

Foi elaborada uma lei de combate ao crime organizado sem identifica-lo inteiramente, isto

é, continuamos legislativamente sem saber o que é que devemos entender por crime

organizado, dentro da extensa realidade fenomenológica criminal.

Ainda

segundo

Gomes

e

Cervini

(1997,

p.89),

] [

embaraços para a interpretação e aplicação da Lei no 9.034/95, tais como: possibilidade de existência de organização criminosa com apenas 2 (dois) ou 3 (três) integrantes, mas

Organizações criadas para a prática de

contravenções, também não poderá ser reconhecida como tal, devido o art. 288 do CP [ ] organizações criadas para a prática de crimes omissivos, também não estará tipificada, pois o art. 1o, daquela lei, somente se referiu a ações da quadrilha ou bando.

que não poderão ser legalmente reconhecida [

o legislador ao não definir o que sejam "organizações criminosas" trouxe graves

]

Como vemos, é notório que a retromencionada lei pecou bastante ao tentar enfocar o crime organizado, o que só veio a obstacularizar o entendimento e a tipificação, do crime ao qual se reporta. Entretanto, vale ressaltar, a importância desta lei no combate ao crime organizado, tendo em vista a permissão contida em seu art. 2o, inc. V, o qual possibilitou, ainda que mediante autorização judicial, a infiltração de agentes de polícia em tarefas de investigação.

3.3

Convenção

das

Nações

Unidas

Contra

o

Crime

Organizado

Transnacional

Em dezembro de 1999, na cidade Italiana de Palermo, foi realizada a Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional, mais conhecida como Convenção de Palermo. Esta convenção sucedeu outra importante medida no combate ao crime organizado, tal seja: a criação do Centro Internacional para a Prevenção do Crime CICP.

A Convenção de Palermo representa um importante instrumento no combate ao crime

organizado transnacional onde é salientada a importância da cooperação internacional para que tais medidas de combate surtam os efeitos esperados. Segundo a Assessoria de Comunicação das Nações Unidas, àquela convenção representa a adesão mais rápida já obtida por uma convenção daquela organização internacional, onde, em apenas três dias, foram colhidas as assinaturas de representantes de 124 paises.

Além das normas gerais de combate ao Crime Organizado, a Convenção de Palermo é suplementada por três Protocolos, os quais se reportam, especificamente ao Tráfico de Pessoas, Contrabando de Imigrantes e a Fabricação e Tráfico de Armas de Fogo.

Ao aderir à supracitada Convenção, os paises se comprometem a combater os crimes neles tratados e inúmeros outros, tais como a lavagem de dinheiro. A Convenção trata ainda da confiscação dos bens e ativos oriundos daqueles crimes, corrupção, cooperação internacional e investigações conjuntas, extradição e transferência de presos, proteção de testemunhas, dentre muitas outras disposições importantes.

3.4

Lei

11.106/05

A lei supra é uma grande iniciativa no sentido de combater, de forma efetiva, o Tráfico de

Seres Humanos. Datada de 28 de março de 2005, esta lei veio a ser publicada no transcurso do presente trabalho, o que evidenciou a atualidade e importância da nossa

proposta

originária.

Com o avançar deste trabalho, tornou-se evidente a necessidade de si criar uma lei

específica, na qual se tipificasse o Tráfico de Seres Humanos e desse outras providências

pertinentes,

Lei.

o

que

veio

a

ser

feito

nesta

A lei em tela altera os arts. 148, 215, 216, 227, 232 e acrescenta o art 231-A ao Código

Penal. A partir desta lei, o art 231, já citado anteriormente, passou a vigorar com a

redação:

seguinte

Art. 231. Promover, intermediar ou facilitar a entrada, no território nacional, de pessoa que venha a exercer a prostituição ou a saída de pessoa para exerce-la no estrangeiro:

Pena:

reclusão,

de

3

(três)

a

8

(oito)

anos,

e

multa.

§

Se

ocorre

qualquer

das

hipóteses

do

§

1o

do

art.

227.

Pena:

reclusão

de

4

(quatro)

a

10

(dez)

anos,

e

multa.

§ 2º Se há emprego de violência, grave ameaça ou fraude, a pena é de reclusão, de 5 (cinco) a 12 (doze) anos, e multa, além da pena correspondente à violência.

§

(revogado)

Vale ressaltar que, embora reconhecida a importância da Lei acima referida, a mesma não abarcou, satisfatoriamente, o Tráfico de Seres Humanos, uma vez que tipificou apenas uma parcela, bastante significativa é verdade, desse tráfico, tal seja, a exploração sexual.

Portanto, conforme já tratado oportunamente, o tráfico internacional de pessoas atende a

diversos fins, não apenas para os fins de prostituição. (ver sub item 2.4) Neste sentido, entendemos que ficaram à margem de legislação o Tráfico de Seres Humanos com fins

diversos

da

exploração

sexual.

3.5

Outras

leis

correlatas

Embora não diretamente relacionadas ao Crime Organizado e ao Tráfico de Seres Humanos especificamente, faz-se importante destacar algumas leis que contribuem para a

inibição

daqueles

crimes.

3.5.1

Estatuto

da

Criança

e

do

Adolescente

-

ECA

Vale destacar a importância deste dispositivo legal que passou a inter-relacionar e prever a responsabilização dos pais, ou responsáveis legais, das crianças traficadas. Muitas outras providências legais foram estabelecidas pelo ECA visando inibir o tráfico de crianças e adolescentes, adoção internacional ilegal, exploração sexual etc.

3.5.2

Lei

de

Proteção

a

Vítimas,

Testemunhas

e

Réus

Colaboradores

Esta Lei, no 9.807/99, embora em muitos dispositivos carecedora de aplicabilidade, mostrou-se bastante importante no combate ao Crime Organizado, uma vez que possibilitou, ao menos em tese, a abertura de canais que promovam a desarticulação

daquelas

organizações.

3.5.3

Lei

de

Lavagem

ou

Ocultação

de

Bens,

Direitos

e

Valores

A Lei no 9.613/98, com alterações da no 10.701/03, representa uma grande aliada para o

combate ao Crime Organizado. O Brasil é tido mundialmente como um país que possibilita,

dinheiro.

com

relativa

facilidade,

a

lavagem

de

A referida lei, embora também carecedora de maior aplicabilidade, mostra-se um grande

mundial.

avanço

legislativo,

inclusive

em

âmbito

De fato, é evidente que a impossibilidade que tornar legal o lucro obtido através de meios ilícitos desestimula a prática criminosa, uma vez que não há como utilizar-se das cifras obtidas.

CONCLUSÃO

Como podemos verificar ao longo do presente trabalho, o Tráfico de Seres Humanos é, embora muitas vezes não perceptível, uma prática cogente em nossos dias. No entanto, nos tempos atuais, principalmente, com ascensão dos Direitos Humanos pelo mundo é completamente inaceitável que pessoas sejam tratadas como mercadorias, deixando que atividades ilícitas como estas perenizem-se, imunes à evolução social. Ou pior, deixar que as entidades criminosas de alto escalão, altamente informatizadas e qualificadas, as façam inatingíveis pela nossa Justiça, principalmente pela falta de preparo desta frente àquela.

Neste contexto, vale ressaltarmos algumas informações importantes colhidas por meio deste, pelas quais torna-se possível enumerar alguns fatores que fazem com que esta prática delituosa se estabeleça e consolide-se em nossa sociedade.

Como foi evidenciado no transcorrer dos nossos trabalhos, o TSH está intrinsecamente relacionado com a exclusão social e o desemprego. Sabemos que tais características são

facilmente evidenciadas em nosso país. A ignorância à qual é submetida a grande maioria da nossa população, aliada a outros fatores sócio-econômicos, tem sido a grande vilã

desta

nacional.

realidade

Não raras, são as pessoas que se colocam a disposição dos traficantes de pessoas na esperança de uma vida melhor no exterior, dinheiro rápido e fácil, grandes fortunas, etc. No entanto, a realidade mostra-se bem menos esperançosa com tais pessoas. Após perderem suas autonomias, são traficadas e comercializadas facilmente no mercado negro

crime.

do

Ao analisar particularmente o nosso país, veremos que todas os entraves relacionados ao efetivo combate do tráfico de pessoas tornam-se, em última análise, grandes incentivadores dessa. Neste sentido, destaca-se o sentimento de impunidade, descrédito no Poder Judiciário, morosidade processual, corrupção, assim como a relativa facilidade em se utilizar, legalmente, os lucros obtidos por meio desta atividade (lavagem de dinheiro).

Outros entraves de caráter estrutural, não menos importante que aqueles, são facilmente constatados ao se estudar o tema proposto. É visível a falta de cooperação e coordenação dos órgãos envolvidos no combate ao tráfico de pessoas, tanto no âmbito nacional quanto

internacionalmente.

Não há, em nosso país, leis que combatam, efetivamente, o tráfico de seres humanos. Quanto às polícias, o combate ostensivo não raras vezes é visto com desconfiança por partes dos agentes das polícias civil e federal, acreditando-se, por puro preconceito ou até desconhecimento jurídico, ser a vítima de tráfico colaboradora deste crime.

Em assim sendo, ganham grande importância, como forma de combate preventivo e desarmado ao tráfico de seres humanos, às políticas públicas de caráter sócio-educacional

visando à inclusão social

de empregos.

e

geração

e principalmente

internacional, dos órgãos envolvidos naquele combate. A firmação de acordos que

Ainda

neste

sentido,

torna-se

essencial,

a

cooperação,

nacional

especificamente

direcionadas ao combate deste tráfico, assim como o estabelecimento de punições mais

possibilitem

a

criação,

no

âmbito

de

cada

país

membro,

de

leis

severas

aos

respectivos

transgressores.

Faz-se

necessário,

também,

se intensificar

à vigilância fronteiriça

e

a

elaboração,

cooperada e interligada de bancos de dados, facilitando, com isso a identificação e prisão

pessoas.

dos

traficantes

de

Desta feita, torna-se imprescindível destacarmos que, devido a grande disparidade tecnológica entre as organizações criminosas e os órgãos de combate, as principais

medidas de combates a esta atividade do crime organizado transnacional é, ainda, as

medidas

combate preventivo.

que

visam

o

Não há como combater, isoladamente, os efeitos do tráfico de seres humanos. Torna-se

indispensável

possibilitem a diminuição de miséria social à qual está submetida a maior parte da

combate ostensivo, políticas públicas que

aliar-se

às

medidas

de

população mundial. Ou seja, a educação básica mostra-se uma eficaz medida de combate

ao

seres humanos transnacional.

tráfico

de

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