Você está na página 1de 74

2

Causos,
café e
companhia

3
Este livro é uma publicação do Sindicato dos Professores do
Estado de Minas Gerais – SINPRO-MG.
Filiado à Fitee, CONTEE e CUT

Os textos assinados são de total responsabilidade de seus autores.

Ilustração da capa
Eunice Carattiero da Paixão

Programação Visual
Mark Florest

Edição
Denilson Cajazeiro

Revisão
Tomaz Nogueira

Digitação
Maria Helena Diniz
Maria da Glória Moyle
Miriam Fátima dos Santos

Departamento de Comunicação
Débora Junqueira
Denilson Cajazeiro

Departamento de Professores Aposentados


Heleno Célio Soares
Maria da Glória Moyle
Miriam Fátima dos Santos (organizadora)
Nardeli da Conceição Silva (organizadora)

Impressão
Gráfica do SINPRO-MG

Novembro de 2006

4
Índice

Apresentação........................................................................... 7

A falecida..................................................................................9

A noiva do Zequinha............................................................. 10

Abaixa no pinico, Tiana, que eu desço a calça................... 12

Ataque de nervos.................................................................. 14

Causo poético....................................................................... 15

Causos com broa................................................................... 18

Dr. Crispim............................................................................. 20

Duca criatura......................................................................... 22

Em alguns casos até que eles têm razão,

mas a recíproca também é verdadeira!.............................. 24

Estória de pescador.............................................................. 27

Folhas urbanas, memórias em papéis................................. 28

Lembranças de minha infância............................................ 31

Mais um “causo” de arrepiar................................................ 33

Males que vêm para o bem................................................... 35

Marias de fé........................................................................... 36

Negócio de compadres......................................................... 38

O homem do saco................................................................. 41

5
O morto vivo.......................................................................... 40

O substituto do motorista..................................................... 43

Pipa e Brisa............................................................................ 44

Quando o mineiro toma café, uai !..................................... 47

Que assombração que nada.................................................. 55

Reminiscência........................................................................ 57

Sacadura................................................................................ 60

Te esconjuro.......................................................................... 62

Terezinha............................................................................... 65
Testemunho.......................................................................... 68
Zé Redondo e a banda do porco.......................................... 71

6
Apresentação
O café não fazia parte dos hábitos alimentares dos brasileiros
até o século XIX. Hoje, a bebida é servida em diversos momentos. É
marca registrada da hospitalidade brasileira. Significa o início de um
dia, a pausa no trabalho, a conversa com amigos, ou seja, é presença
constante em nosso cotidiano.
Em Minas, na terra do queijo, o café ganha um sabor especial,
diferenciado. Ele vem recheado de causos e moda de viola, pois
muitas famílias cresceram ouvindo e contando causos em volta de
um fogão a lenha ou de uma mesa repleta de saborosas quitandas.
Os causos são histórias simples, mas nem por isso menos ricas,
pois fazem parte da nossa cultura. Contar histórias é dar vida ao
acontecido, o que o mineiro faz com muita propriedade. Você se
envolve, se sente aconchegado. É como se nada existisse de triste
ou perigoso neste mundo. As montanhas que pareciam nos isolar, na
verdade, nos protegem até mesmo da solidão.
Por isso, convidamos você a fazer esta viagem, neste universo
de aconchego, e saborear o bom café, acompanhado das nossas deli-
ciosas receitas de quitandas, apresentadas em muitos de nossos
“causos”.
Aproveitamos para registrar o nosso agradecimento a todos os
professores que contribuíram com este trabalho, enviando seus
“causos”.

Sindicato dos Professores do Estado de Minas Gerais


Departamento de Professores Aposentados - Deasinpro

7
8
A falecida
Era sexta-feira. O dia na repartição parecia ser de alegria. Os
colegas combinavam sair para uns instantes de lazer e descontração.
Foi quando chegou a notícia. Morrera uma ex-funcionária de nome
Odete.
Lá era assim. Quando morria algum funcionário ou ex-fun-
cionário ou mesmo algum parente de funcionário da empresa, os
seus empregados ficavam em alvoroço. O motivo era que saíam da
empresa duas kombis lotadas para o velório. A explicação era óbvia:
os funcionários só iam porque era no horário de serviço. Se fosse
fora do expediente, não ia nenhum para contar notícia.
As kombis saíram lotadas, e os funcionários iam alegres. Mais
parecia festa e não velório. Na primeira kombi, Valter, o motorista,
seguia com mais gente que esta comportava. Valter já havia traba-
lhado com a falecida, mas não sabia onde era a casa dela. Depois de
algum tempo, roda daqui e dali, pede informação a algumas pessoas
e a kombi pára na residência da dita cuja. O local estava tranqüilo e
não parecia que havia morrido alguém. Naquele tempo, usava-se
fazer o velório na própria residência.
Valter desceu do carro e tocou a campainha. A porta abriu, e
quem vem atender a turma? A suposta falecida. Valter, muito assus-
tado, perguntou a ela: “Uai, telefonaram lá para a empresa e disse-
ram que você tinha morrido!” Odete, achando graça, olhou para ele
e disse: “É, eu morri sim, mas como não tinha ninguém para atender
a porta eu mesma vim”. Todos riram e confraternizaram com a fale-
cida que, na verdade, não estava nada falecida.

Miriam Fátima dos Santos


Edílson Luiz dos Santos

9
A noiva do Zequinha
Muitos eram os boêmios daquela cidadezinha pacata, alegre,
cercada de montanhas que tornava o verão bem quente e pouco
ventilado. Nesta estação do ano, não havia para muitos outra opção
para refrescar, mesmo nas noites chuvosas, senão procurar o fiel
grupo do Bar do Ponto. Uma cervejinha daqui e outra caipirinha dali
animava o bate-papo, que já atraía muitos fregueses. Depois um tira-
gosto para completar e os amigos poderem saborear os deliciosos
quitutes do Barroso. O bolinho “sonho” era bem solicitado já no
meio da noitada. Parecia que eles despertavam naqueles sisudos
companheiros a vivência de sonhos já concretizados e outros ainda
almejados. Sempre sonhavam... Até com o retorno ao seu “Lar doce
Lar”, onde seriam bem acolhidos, com caldinho quente ou um escal-
da-pés feitos pela esposa carinhosa que (quem sabe!) esperava
ansiosa o companheiro arredio. Bom sonho este!
Muitos casos eram lembrados, muitas fofocas sem malícia e
piadinhas engraçadas tornavam o ambiente caloroso e descontraído.
E até o caso da Inês, noiva do Zequinha, foi lembrada por um deles:
“Linda moça a Inês!” Pele clara, corpo esguio, alegre e prendada,
preparou-se durante muito tempo para o solene dia do casamento.
Trabalhou, juntou vintém por vintém e no dia marcado, 27 de maio,
tudo estava pronto. O vestido branco realçava a pureza da noiva que
alimentou o lindo sonho de sua adolescência e que agora iria se
tornar real. Na capela, os convidados assentados aguardavam o
acontecimento e cochichavam pelo atraso do noivo. O padre ia e
vinha, seu olhar se perdia no fundo e a noiva, cansada de ficar de pé,
resolveu entrar ao som do órgão, vacilante e apreensiva, para espe-
rar o noivo perto do altar. Nenhuma notícia, nenhum sinal, nenhum
noivo.
O tempo passou, os convidados sorrateiramente foram se reti-
rando, deixando a noiva ver seu sonho se desmoronar e ser trocado
pela decepção, pela angústia, pelo desespero. E ouviu-se o choro, o
grito e a saída da noiva sem o som do órgão. Apenas o som do pran-

10
to. Ela não soltou o buquê de flores naturais tão perfumado que
trazia nas mãos. Ela não tirou o vestido branco nem o véu rendado
que embelezava seu semblante. Saiu do altar e continuou com o toc-
toc dos sapatos, andando pelas ruas da cidade à procura de seu
amado, sem destino, sempre na esperança de tê-lo um dia de volta
para concretizar seu desejo. Perdeu o juízo. O buquê era sempre
substituído, o vestido sempre renovado pelas pessoas da cidade que
se compadeciam com sua dor. E todos davam flores de seu jardim
para a Inês renovar a cada dia sua vontade de reencontrar seu
Zequinha.
Um dia, ele voltou, feio e cabeludo. Também perdera um pouco
de seu juízo. Mas ela não o reconheceu. Não era aquele o Zequinha
que amou. O outro era jovem, limpo e cheiroso. Ela não percebeu o
tempo passar.
O Zequinha hoje é um vendedor ambulante que passa pelas ruas
com seu balaio de vime e gritando: “Olha a cuia de cuieté e a melan-
cia putaiada (por talhada). Quem qué comprá?”

RECEITA DO SONHO

6 xícaras de farinha de trigo


3 ovos
1 xícara de açúcar
1 e meia colher (de sopa) de pó Royal
3 colheres rasas de manteiga
1 colherinha de sal
Leite até dar ponto de enrolar.

Modo de fazer: enrolar, fritar e passar no açúcar misturado com


canela.

Maria de Fátima Azevedo Maffra

11
Abaixa no pinico, Tiana,
que eu desço a calça
Zé de Durvalina era o homem mais preguiçoso daquela região e
daqueles tempos. Se alguém precisasse de ajuda no roçado, na ca-
pina, na lida com o gado ou no engenho e mandavam chamar o Zé
de Durvalina ele nunca estava em casa. Durvalina e as meninas
estavam sozinhas na lida com a horta, a roça de milho e feijão, o
quintal e uma meia dúzia de galinhas. Zé estava no meio do mato.
Tinha mania de caçar bichos. Prendia os bichinhos em gaiolas e no
sábado ia com a família para a venda de Tiana. Esperava o caminhão
de Valadares passar e negociava os bichos com o motorista.
Um dia, Zé de Durvalina pegou no mato um bicho preguiça e
dois filhotes e foi para a venda levando os bichos agarrados em um
galho de árvore. Ele segurava em uma ponta e Durvalina na outra,
as meninas iam andando atrás, carregando cada uma duas gaiolas
com uns marrequinhos, dois periquitos e um tatu. Zé encontrava
com as pessoas pelo caminho e elas caçoavam dizendo: “Zé de
Durvalina vai vender a parentada toda”... Animado, ele respondia:
“E por um bom preço quero comprar um corte de casimira de risca
e fazer uma calça nova para a festa de Santa Rita”.
Chegou na venda, negociou os bichos e juntou gente curiosa
para ver as preguiças. Muita chacota, pois a notícia que se espalhou
era de que Zé da Durvalina estava vendendo a parentada toda.
Alguns chegavam a acreditar que ele estava disposto a mandar para
Valadares a mulher e as filhas. Pôs o dinheiro no bolso e a bichara-
da na carroceria do caminhão. Entrou na venda. Pediu uma garrafa
de pinga, abriu e foi bebendo devagar.
Durvalina observava, reconhecia o ambiente, ficou observando
as novidades, umas bacias esmaltadas de branco e uns pinicos
grandes e esmaltados também. Examinou os dois, ficou com um
pinico na mão. Zé contava o dinheiro e olhava a casimira riscada na
prateleira. Durvalina pediu Tiana para separar uma lata de
12
querosene, um pacote de sal, mandou descer da prateleira três
cortes de chita, um para ela e dois para as meninas, ia fazer vestidos
novos para a festa de Santa Rita, colocou o pinico em cima do bal-
cão e pediu para Tiana somar tudo. Zé recontava o dinheiro e bebia
a pinga. Tiana somou. Zé reconfere o dinheiro e diz: “Durvalina, pra
que pinico se eu quero um corte de calça”. Ela retruca: “Tá pre-
cisando Zé. O nosso é pequeno e tá furado, todo dia tem um poço de
mijo debaixo da cama”. Ele pega o pinico, examina, olha o fundo,
coloca na virilha, repara o traseiro da mulher, novamente confere a
largura do pinico, faz um sinal afirmativo com a cabeça e diz: ”Então,
tire o querosene”. Ela argumenta: “Zé, precisa molhar o pavio da
lamparina, faz uma semana que o querosene acabou”. Ele pega no
pacote de sal, nos três cortes de chita, pergunta de novo o preço do
pinico. Olha para Tiana. Bebe mais um gole da pinga, bate com a
mão no balcão e grita: “Abaixa no pinico que eu desço a calça”.

RECEITA - PASTELÃO

24 colheres de farinha de trigo


1 colher de fermento
1 ovo
2 pires de queijo ralado
Sal
1 copo de leite morno
3 colheres de manteiga

Modo de fazer:
Misturar todos os ingredientes e ir acrescentando o leite aos
poucos. Abrir metade da massa em uma forma untada com man-
teiga, rechear a gosto (frango desfiado com catupiry, palmito, baca-
lhau...), cobrir com a outra metade da massa e dourar com uma
gema de ovo e um pouco de manteiga. Depois, assar em forno
quente por 40 minutos.

Luiza Marilac de Pinho Marques França


13
Ataque de nervos
O vizinho de frente da minha mãe, lá em Diamantina, era muito
farrista. Quase toda noite chegava em casa pelas tantas. A mulher
acordava, chorava, reclamava, chamava a filha mais velha, já moci-
nha, a Idalina, para ver a cena enquanto o marido se desculpava,
inventando mentiras. Ele falava com a mulher que iria “se largar
dela” se não parasse com aquela amolação toda vez. Mas, na próxi-
ma vez, chegava tarde e tudo se repetia.
Naquela noite, a farra se estendeu até mais tarde ainda. O
homem chegou em casa na ponta dos pés, mas o ouvido afiado da
mulher já havia percebido sua entrada desde o portãozinho dos fun-
dos.
A cena toda recomeçou. Desta feita, a mulher ainda caiu no
chão, tendo um “ataque de nervos”... Ao ver a filha tão novinha de
pé, assistindo aquilo mais uma vez, o pai lhe falou: “Corre, Idalina,
apanha um balde grande, enche de água fria do tanque e me traga
aqui, depressa”. A jovem fez direitinho o que o pai lhe mandara. Ao
chegar com o balde d’água, perguntou-lhe: “Mas o que é que o se-
nhor vai fazer com isso, pai?” “Idalina, minha filha, o senhor Antônio,
o farmacêutico, me disse que é ótimo jogar água fria na pessoa na
hora em que ela está tendo um acesso”.
E foi logo pegando o balde para arremessar a água. Neste
momento, a mulher se levantou, arrumando a roupa, e exclamou:
“Que diacho. Nesta casa não se pode nem mais ter um ataque
sossegada!”.

Maria de Lourdes César da Rocha Bueno

14
Companheiros professores, atenção a esta história,
Do PÃO DE QUEIJO das dores, da emoção e da vitória.
Vou divulgar a vocês, o CAUSO que ouvi contar
É interessante ao freguês, mesmo se ele arrepiar.
Acredite se quiser! O poema é da Silvinha!
Se o pão de queijo fizer, a receita é da Ivoninha.

Causo poético
Venho contar a vocês, algo que me surpreendeu:
No velório do Juarez, quem foi lá se arrependeu.
Cheguei, fui logo abraçar cada parente... tristonho.
Ao defunto fui rezar, parecia mesmo um sonho!
Às quatro da madrugada, com frio, estava a tremer,
Mas a turma foi chamada, pra um cafezinho beber.
Jamais eu me esquecerei do Pão de Queijo quentinho,
A RECEITA ensinarei! Leia o CAUSO direitinho.
Pão de queijo é uma receita do Estado bem brasileiro
Minas Gerais é perfeita, na exportação é o primeiro.
A sua ORIGEM incerta vem do século dezoito,
Mas, mineira é nota certa que sabe fazer biscoito
Todo artista em culinária quer a receita e insiste,
Delícia extraordinária, sempre a elogiar persiste.
O pão de queijo fofinho, a você adiantarei,
Todo feito de carinho, o seu amor é uma lei.
Três ovos quebro de leve, e a tudo vou misturar,
Não precisa clara em neve, basta mexer sem parar.
Um pote novo, bem cheio, de manteiga ou margarina,
Com leite e água, então mexo, colocados na terrina.
Três batatas descascadas, cozidas, tipo ao desejo:
Inglesas, bem amassadas, seiscentos gramas de queijo.
Queijo canastra ralado, bem curado é especial,
O pão fica temperado, com uma pitada de sal.
15
Polvilho DOCE é indicado! Dá consistência cremosa,
Mas seca, pegue um punhado, faça a bolinha famosa!
Pão de Queijo na assadeira e no forno pré-aquecido
Crescerá, sobremaneira e em meia hora, dourado.
Pão de Queijo recheado, pode ficar bem gostoso
Deixe seu regime ao lado do pedaço saboroso
Sei que na dispensa o mineiro cafezinho,
O seu corpo sentirá a delícia do carinho.
Pão de Queijo bem mineiro vai à Europa e ao Japão,
Américas, mundo inteiro! É produto exportação
Há receitas diferentes com polvilho azedo e queijos...
Coma pães de queijo quentes, entre aplausos ganhe beijos.
A receita posso dar! E afirmar que vai dar certo
Pão de queijo pra lanchar, deixa o coração aberto
Mas a história continua, na receita que é só sua
O fato é de arrepiar! E juro que desmaiei
Ver o Juarez a virar, no caixão não agüentei
Eu fui parar no hospital, por pouco, quase morri
Nunca mais vi uma coisa igual! Eu aceitei, mas sofri!!
O médico foi chamado e o pão de queijo servido
O pão de queijo aprovado: pelo ex-defunto? Comido!
Entre abraços de alegria, milagre de fé vivida.
Só resta mesmo a poesia, do Pão de Queijo da Vida,
Hoje quem vai visitar o Juarez, vivo e robusto, ele diz:
“Pude voltar, mas quase morri de susto”.

RECEITA - PÃO DE QUEIJO POLVILHO DOCE

Ingredientes:
1 kg de polvilho doce, peneirado para dissolver os grânulos
(Marinez ou Amafil)
3 ovos inteiros
1 pote de manteiga (ou margarina) de 250 gr
Encher o pote vazio de margarina ou manteiga com uma medi-
da de leite e outra medida de água

16
1 pitada de sal
3 batatas cozidas e amassadas, de tamanho médio (inglesa)
600 gr de queijo canastra (ralado)

Modo de fazer
Misturar bem todos os ingredientes
Enrolar os pães de queijo no tamanho desejado
Pré-aquecer o forno
Assar durante 30 minutos em forno com temperatura média.

Ivone Aparecida Carvalho de Oliveira

17
Causos com broa
Em algumas cidades do interior, até hoje são realizadas em
noites enluaradas ou em ocasiões especiais as famosas serenatas.
Tive a bênção de curtir a minha adolescência em uma cidade do
interior de Minas, Bocaiúva, ao norte, onde Montes Claros é a refe-
rência mais conhecida.
Possuíamos um grupo que, de tanto fazer serenatas e tocar em
festas, acabou transformando-se em uma banda. Por ocasião das
serenatas, reuníamo-nos na praça dos coqueiros, definíamos as
casas onde iríamos tocar, a quantidade de músicas, o repertório e
onde iríamos roubar as rosas para deixar nas janelas.
As serenatas eram feitas em casas das namoradas e das mães,
nas ocasiões próprias (dia dos namorados e dia das mães). Às vezes,
encontrávamos também quando alguém do grupo tencionava “ga-
nhar” uma menina. E foi quando Charlão, um parceiro da banda,
resolveu conquistar uma garota que conheceu por acaso. É aqui que
começa nosso causo.
Encontramo-nos na pracinha, fizemos o repertório, ensaiamos
todas as músicas, e ele, desesperado, não nos dava paz, sempre
mudando as letras das músicas, procurando aquelas mais românti-
cas. Nada podia dar errado.
Saímos à noite. Lá pelas três, quatro horas da manhã, a turmi-
nha estava toda reunida. Eu e meu irmão tocávamos e os outros can-
tavam as melodias escolhidas. Demoramos uns quarenta minutos,
cantando, tocando e dedilhando o violão para impressionarmos a
menina que o Charlão queria conquistar.
Ele tinha um voz muito bonita e chegava a fechar os olhos, can-
tando e empolgado com as melodias. Fazia gestos para continuar-
mos a tocar, encantado com o momento. Bom, adivinhem o toque
final? Rosas. Uma janela cheia de rosas vermelhas que normalmente
roubávamos antes das serenatas. E agora! Lugar pequeno, todos se
conhecem. A garota sabia que as nossas assinaturas eram as rosas
na janela.

18
Aí, um companheiro olhou ao redor e descobriu uma solução
para nosso tormento...
Fomos embora, satisfeitos, por ter cumprido com nossa missão,
confiantes de que o Charlão iria conquistar a garota dos seus so-
nhos.
No dia seguinte, era comum participarmos da missa e depois
íamos todos para casa de Vó Tiana tomar café com broa, feitos
naquele forno do quintal que só existe no interior. Estávamos lá, na
maior farra, contando as novidades do dia anterior, quando chega o
nosso amigo Charlão com cara de choro. Tinha recebido um tele-
fonema de sua “pretendida”. Ela não queria vê-lo nem pintado de
ouro, e lhe tinha dito palavras cruéis que acabaram com suas
ilusões.
Descobrimos que o desastre do resultado, imaginem, ocorreu
porque as rosas que foram para a janela saíram da roseira da casa da
própria pretendente... Ainda por cima, era a roseira predileta da
mãe, que sempre as colhia para enfeitar a igreja local, coisa comum
em nossa cidade. Que dureza, depois de tanto esforço!..
Olhamos para a cara triste do nosso amigo e pensamos: que iro-
nia do destino. Logo por causa de umas simples rosas. Caímos na
risada e o convidamos, para consolá-lo, a juntar-se a nós e comermos
as deliciosas broas de fubá da Vó Tiana, pelo menos para consolar o
estômago, pois o coração, este tinha que dar um tempo.

Neusa Faria

19
Dr. Crispim
Dr. Crispim era médico e político na pequena cidade onde pas-
sei a minha juventude. De medicina não sabia muita coisa e, de
política, acreditava mesmo só no “eleitor de cabresto”. Entendia que
o povo humilde devia votar sempre de acordo com a cabeça do
patrão. Mas o que o Dr. Crispim fazia com maestria era contar van-
tagens. Adorava ir para a pracinha da Matriz e ali ficar se pavonean-
do, falando de seu prestígio e da riqueza que possuía.
Quando havia alguém de fora, então, é que ele descia a avenida
todo garboso, de camisa de colarinho engomado, gravata, suspen-
sório e vendendo importância, à espera do forasteiro que certa-
mente viria ter ao “ponto chic” e conhecer a igreja.
Certo dia, enquanto um dos seus amigos mostrava a praça a um
hóspede vindo lá do norte de Minas, o nosso doutor se aproximou e,
sem mais nem menos, começou a falar com o visitante:
- “Estou vendo que o senhor não é daqui”.
- “Isso mesmo. Eu sou lá das bandas de Montes Claros. O senhor
conhece?”
- “Ainda não, mas o senhor é que está tendo a honra de co-
nhecer e apertar a mão do homem mais rico desta cidade!”
Um pouco assustado, o visitante concluiu:
- “Com muito gosto”.
Era o que faltava para que o doutor continuasse:
- “Eu sou o doutor Crispim, hoje apenas médico e fazendeiro.
Aqui no município tenho uns cinco mil alqueires de terra boa,
cheinha de gado leiteiro. Lá na roça possuo uma casa de fazenda que
deixa ‘no chinelo’ qualquer uma das casas aqui da cidade, dos meus
conterrâneos. Para falar a verdade, de riqueza não posso me
queixar! Está vendo ali aquele prédio? Nele funciona o cinema que
é meu. As duas farmácias da cidade também são de minha pro-
priedade, bem como os três armazéns. Isso sem falar das casas de
aluguel que possuo. Dinheiro no banco, então, nem se fala”.
O visitante, de olhos arregalados, perguntou:
- “O senhor nasceu em berço de ouro?”

20
- “Não senhor. Nasci pobre!”
- “Mas então o senhor teve muita sorte na vida, foi premiado na
loteria?”
- “Quem me dera! Se isso tivesse acontecido, eu estaria hoje
muito mais rico ainda!”
O homem criou coragem e arriscou já mais desinibido:
- “Ah! Imagino que tenha se casado com mulher rica ou compar-
tilhado de sua herança”.
Ele deu um certo risinho crítico, pois começava a desconfiar de
tanta soberba.
- “Também não, meu amigo, também não”.
- “Bom, de duas, uma: ou o povo da cidade adoece muito”, falou
com ar de malícia, “ou o senhor já foi prefeito!”
Apelou, dando uma gostosa gargalhada de pura troça.
Enchendo o peito, Dr. Crispim ergueu a mão direita, escondeu o
polegar e abriu bem os outros dedos, e exclamou:
- “Prefeito sim; quatro vezes, quatro vezes!!!”

Maria de Lourdes César da Rocha Bueno

21
Duca criatura
No final dos anos 60 e início dos 70, Santa Luzia era uma paca-
ta cidade no cenário mineiro. As pessoas se conheciam, era comum
sempre encontrar grupos proseando nas portas das casas. E o hos-
pital era também um local de encontro, pois era dirigido por um
médico que também era o prefeito. Ali, amigos e políticos se reuni-
am para falar de política ou jogar conversa fora. Suas salas grandes
lembravam as fazendas do século XVIII.
Mas uma sala era mais especial, pois havia nela uma grande
mesa rodeada de pesadas cadeiras. À tarde era comum ser servido
ali um gostoso café com saborosas quitandas para esquentar o bate-
papo.
Um certo dia, Dr. Oswaldo, o referido médico, estava em volta
da mesa com alguns amigos, entre eles um político de uma cidade
vizinha. Conversa vai, conversa vem, até que chega na porta uma
figura muito conhecida na cidade por sua habilidade política, e hábil
principalmente em se sair bem de situações embaraçosas que às
vezes ele mesmo criava, pois era um pouco distraído. Era o famoso
Duca, “Duca criatura” como era conhecido. O Dr. Oswaldo, como um
bom anfitrião, convidou Duca para fazer parte daquela mesa e logo
o apresentou ao político. “Oi, Duca, este é de Jaboticatubas, veio
hoje nos visitar”.
Duca, sempre muito simpático, deu as boas-vindas ao visitante
e falou do seu carinho pela cidade. Para ser mais simpático ainda
disse: “Que bom sô, ocê por aqui, eu tenho em Jaboticatubas um
grande amigo; ele até já foi prefeito lá”. “Vai então eu devo conhecer,
pois também já fui prefeito”, respondeu o visitante. “É um amigão,
eu sempre me encontro com ele; é o Zequinha”. “Uai sô, Zequinha
sou eu?”
Dr. Oswaldo ficou vermelho. Levantou-se e saiu da sala, pois
ficou sem lugar. Mas Duca, muito articulado, ajeitou-se na cadeira e
logo respondeu: “Mas criatura, ocê mudô foi demais. Eu quase nem
te conheci”. Eles se abraçaram e começou ali uma amizade, pois na

22
realidade nunca tinha visto e nem falado com o Zequinha, apenas já
havia escutado algo sobre ele.

Nardeli da Conceição Silva

23
Em alguns casos até
que eles têm razão,
mas a recíproca
também é verdadeira!
Eu viajava a trabalho e, a cada 45 dias úteis, morava em uma
cidade diferente em Minas Gerais. Se o município ficasse próximo a
Belo Horizonte, eu passava os finais de semana em casa. Caso con-
trário, ia conhecer alguma cidade vizinha.
Estava em Paraguaçu, no sul de Minas, e resolvi trocar minha
viagem de ônibus, na sexta-feira à noite, por uma carona oferecida
pela dona do hotel, que iria para BH no sábado. Ela ia se encontrar
com o marido e, pelo jeito, a saudade é quem dirigia pra ela, pois o
pé pesava no acelerador de tal forma que raramente um carro fica-
va por muito tempo na nossa frente.
Em um determinado trecho da rodovia, deparamo-nos com uma
fileira enorme de caminhões que provavelmente nos fariam perder
minutos preciosos da nossa viagem, mas ela nem vacilou: sem qual-
quer raciocínio, jogou o carro para a esquerda e saiu cortando um
por um. Não tínhamos atingido nem a metade na nossa meta quan-
do, próximo a uma curva, apontou um carro, também em alta veloci-
dade, vindo em nossa direção.
Difícil descrever o que sucedeu naquele momento, pois o acon-
tecimento é muito mais amplo do que o relato que a gente consegue
fazer dele depois. E muito mais rápido também!
Imagino que o motorista da carreta que estava ao nosso lado
reduziu a velocidade na tentativa de impedir a batida que, para mim,
seria inevitável, e a minha companheira, entendendo o seu recado,
conseguiu, com grande maestria, entrar naquele espaço mínimo que
ficou entre um caminhão e outro.
O alívio de me ver sã e salva foi tamanho que nem me lembrei
24
daquele que me proporcionou continuar respirando e poder ainda
hoje relatar este caso, até que li no pára-choque do caminhão que
rodava na nossa frente:

“Obrigado, Senhor, por mais um dia!”

Outro causo
Dias depois, nessa mesma cidade, a diretora da escola na qual
eu estava trabalhando me convidou para ir com ela até Alfenas.
Como estava com tempo livre, ainda não conhecia a cidade e a
demora seria pouca, aceitei prontamente. Quase me arrependi. A
mulher dirigia de uma forma que me causava desespero.
Não corria, pelo contrário! O carro se arrastava pelo asfalto
dando umas sacudidas tão estranhas que a impressão que se tinha
era a de que a qualquer momento ele fosse estragar. A certa altura
o irmão dela, que viajava no banco do carona, não se conteve mais e
disse:
- “A quarta, a quarta!” Ao que ela responde:
- “A quarta o quê?”
Ao relembrar este fato fiquei imaginando: será que hoje ela vive
se esbravejando contra a indústria automobilística que a cada dia
incorpora uma marcha nova aos seus veículos ou será que ela já se
tornou uma adepta dos carros hidramáticos?

RECEITA - BOLINHOS DE ARROZ

É muito comum, na minha família, alguém sofisticar a mesa com


um prato francês. Às vezes, costumamos servir, em alguns dias,
“sobré de almocé” e, em outros, “resté de janté”. Mas é comum, tam-
bém, aproveitar algumas sobras para fazer bolinhos e o mais comum
é o de arroz.

25
Modo de preparar:

Passe o arroz na máquina de moer carne ou no processador e,


se estiver bem cozido, pode até amassar com garfo. (Utilize um
prato – sopa – como medida).
Coloque a massa numa vasilha e acrescente 1 ovo para cada
medida de arroz. Se este estiver bem temperado, não precisa colo-
car sal.
Acrescente cheiro verde bem picadinho e pimenta, se for do seu
gosto, e misture bem.
Com duas colheres, passando de uma para a outra, coloque os
bolinhos diretamente no óleo quente.
Retire-os quando estiverem dourados, deixe escorrer e... Bom
apetite!

Glória Moyle

26
Estória de pescador
Carlos era presidente de um sindicato do interior. Ele mantinha
grande amizade com os demais membros da diretoria. Toda vez que
um amigo tinha alguma dificuldade, justificava que estava com ele
no samba, numa pescaria ou numa outra farra, como era comum na
turma.
Em um primeiro de maio, dia do trabalhador, que caiu numa
quinta-feira, e, como é normal neste período, a turma enforcou a
sexta-feira. Carlos teve que participar de uma manifestação em São
Paulo. À noite, já no hotel, ele passou mal e foi levado para o hospi-
tal, teve um enfarte e faleceu. Foi um choque na cidade e no sindi-
cato. Os companheiros do Carlos começaram a comunicar-se para
informar o que havia ocorrido e tomar as providências do translado
para a cidade e o velório.
Nesta confusão, o Fernando, que era muito amigo do Carlos,
não foi localizado. Como era um feriado prolongado, muitos tinham
viajado. Ligaram para a casa do Fernando, que não estava. Falaram
com Regina, esposa dele, que, chocada, tentou entrar em contato
com o marido pelo celular. Com muito cuidado, para não dar um
choque, foi perguntando:
- “Fernando, onde você está?”
Fernando, para se justificar com a esposa que sempre esteve
com Carlos em todas as farras, foi logo falando:
- “Estou com o Carlos numa pescaria, e está ótima, pois já pe-
gamos vários peixes”.
Regina virou uma fera e pediu esclarecimento:
- “Como assim, se eu estou tentando te avisar que o Carlos fale-
ceu em São Paulo hoje de manhã, e todo mundo está no sindicato,
tentando te achar?”
Essa pescaria resultou na separação do casal.

José Carlos Padilha Arêas

27
Folhas urbanas,
memórias em papéis
Era uma família de 14. A mãe viúva, com seus seis filhos. O pai
viúvo, com seus seis filhos. E Emanuel Chagas Santiago. Nasceu
dessa união de família em uma casa pequena, onde ainda bebê
dividia o quarto com suas irmãs para que elas pudessem tomar
conta dele na única hora que a mãe dormia. Eram sete mulheres,
cinco homens, o pai, a mãe e Emanuel. Franzino que nem ele só,
todos achavam estranho sua orelha desproporcional, seu olhar
arregalado e a boca sempre aberta. Cresceu no meio daquele tanto
de gente, sempre os mais velhos implicando com ele: "Emanuel,
quantos filhos tem sua mãe?". "Sete", respondia ele. "Emanuel,
quantos filhos tem seu pai?". "Sete". E aí vinha o deboche: "Então,
Emanuel, vocês são quatorze?". "Não, somos treze". E todos riam da
criança que não conseguia se explicar.
Com o passar do tempo, sua timidez se aguçou de tal forma
que, quando da morte do pai aos seus nove anos, Emanuel já não
conversava com ninguém além de sua mãe. Dona Palma, professora
formada, costureira de mão cheia, parteira e curandeira, entre
outros atributos de boa dona de casa, teve de desenvolver uma fór-
mula para sustentar sozinha seus filhos e enteados. Educava as cri-
anças dentro de casa para não ter mais gastos com escola, espicha-
va até não poder mais a pensão de dois maridos falecidos, costura-
va vestidos para as moças e madames e distribuía favores pela vila
afora fazendo partos e curando males em regiões aonde médicos e
enfermeiros não chegavam. Sempre Emanuel na barra de sua saia.
Emanuel não desgrudava de sua mãe, e todos achavam que ele tinha
um problema sem solução. Achavam estranha sua face um tanto
destorcida, sua forma de ignorar qualquer um que estivesse à sua
volta, não respondia, não olhava nos olhos de ninguém, ficava a ba-
lançar a cabeça em diagonal de cima para baixo e a boca sempre
aberta com o queixo caído e o beiço inferior avantajado.
Agitado, sem bulir com ninguém, chamava atenção por seus
28
repentinos descontroles de gritos e tremores de mãos, quase se
batendo no rosto. A mãe dizia: "Emanuel é meu anjo, não bula com
ele, senão se verá comigo". E assim foi crescendo grudado à mãe.
Aos dezesseis anos, Emanuel perdeu a mãe. Todos ficaram pre-
ocupados com o futuro daquele jovem. Não por condições de mora-
dia, pois ao ficar viúva pela segunda vez, o governo concedeu à sua
mãe o direito à casa própria. Muito mais pela solidão em si. A
primeira providência a ser tomada era como contar a Emanuel do
ocorrido. Chamaram então o filho do prefeito, primo de Emanuel,
que era médico para conversar com ele. Doutor Eloízio, meu pai,
explicou várias vezes de inúmeras formas diferentes sobre o que era
morte e o que havia acontecido com a mãe. Após todas as tentati-
vas, já exaurido, o primo lhe pergunta: "Emanuel, você entendeu?"
Emanuel lhe pisca em sinal afirmativo. Intrigado, o médico ques-
tiona: "Mas você não vai chorar? É a sua mãe." Após muitos anos de
silêncio, ele soltou uma frase: "Chorar agora, não, agora ela não sofre
mais". Assim como o médico, toda a cidade ficou comovida com o
entendimento daquele jovem que ninguém esperava quase nada.
Então todos começaram a cuidar de Emanuel. A cidade se revezava
dando-lhe alimento e roupa. Ele comia bem, mas não usava as
roupas que lhe eram dadas.
Após um mês da morte da mãe, Emanuel, sem qualquer expli-
cação, começou a varrer a cidade. Começava de manhã e só parava
no final da cidade no começo da noite. Todos os dias. Pequenas
paradas para comer quando alguém lhe dava comida, e seguia em
frente. Produzia suas próprias roupas de jornal e cola. Uma roupa
diferente por dia para varrer a cidade. Um dia a mulher do prefeito
o viu parado sentado ao meio fio, lendo um catálogo telefônico. Ela
começou a lhe trazer um livro por dia, e ele os devorava em poucas
horas e voltava a varrer. Um mês, uma média de trinta livros lidos.
Ele não aceitava livros repetidos. Usavam dar o mesmo livro com
uma nova capa, não adiantava, ele não aceitava. Começava a ler,
jogava o livro fora, e voltava a varrer. A cidade desenvolveu tal
cuidado com aquela entidade municipal que, quando viajavam para
cidades maiores como Governador Valadares, Ipatinga, Caratinga ou
até mesmo Belo Horizonte, todos traziam livros para Emanuel.

29
Inúmeros livros, difíceis ou fáceis, Emanuel os adorava.
Aos trinta e dois anos, Emanuel morreu dormindo. Sem neces-
sidade de uma autópsia detalhada, a cidade entendeu a morte mor-
rida de Emanuel. Acharam-no no terceiro dia de falecido, após
arrombar sua porta por causa de um mau cheiro e um amontoado de
folhas pela cidade. Aberta a porta de sua casa, havia uma imensa
quantidade de livros, um colchão e Emanuel sobre ele. Ao retirar o
corpo, levantaram o colchão e descobriram inúmeros contra-
cheques debaixo do colchão. Emanuel nunca havia parado de rece-
ber o dinheiro da pensão de sua mãe, mas também nunca os havia
descontado. Guardava-os. Ao ver aquela casa abandonada, todo
aquele dinheiro e os livros, o prefeito só podia fazer uma única coisa:
abrir uma biblioteca. E assim foi feita em Inhapim a biblioteca
Emanuel Chagas Santiago.

Natália Pereira Chagas

30
Lembranças de minha infância
Eu tinha mais ou menos uns seis a sete anos quando morava na
fazenda em Ipanema, Minas Gerais. Minha mãe sempre festejava o
aniversário do meu irmão mais novo que eu, nascido no dia de São
João Batista (24 de junho).
Para a realização da festa havia uma preparação enorme e com
muita alegria. Meu pai e meus irmãos mais velhos eram responsáveis
pela fogueira, foguetes, bandeirinhas, ventarolas, cachaça etc.
Minha avó preparava a bandeira de São João, retrato grande pinta-
do em tecido e enfeitado com flores de papel. Minha mãe era quem
fazia todas as quitandas como broas de fubá, bolos de farinha de
trigo, doces de mamão, de cidra, de leite, canjica, pés-de-moleque e
os famosos e deliciosos “biscoito de polvilho”, que eram assados no
forno de barro, como as outras quitandas.
Mas o que eu tenho vivo em minha memória e com muita
saudade é quando minha mãe fazia os biscoitos de polvilho, porque
era uma farra só. Ela fazia uma verdadeira obra de arte com aquela
massa que saía por um buraco bem redondinho em um pedaço de
pano, sobre as folhas de bananeira. Ela ia desenhando, ou melhor,
esculpindo as letras maiúsculas iniciais de nossos nomes e contan-
do histórias sobre ela, sobre a família de seus pais e sobre nós, os fi-
lhos que éramos quase uma dúzia e meia de irmãos. Ah! Até o nome
do meu pai ela fazia e contava uma história, senão ele ficava com
ciúmes. Ih! Como era maravilhoso e divertido tudo aquilo, pois,
enquanto os biscoitos assavam, nós apostávamos qual biscoito iria
ficar maior e mais bonito. Eu gostaria de viver isso tudo de novo,
mas como é impossível na realidade, vivo em meu pensamento essa
doce lembrança de minha infância.

A RECEITA DO FAMOSO E DIVERTIDO


BISCOITO DE POLVILHO É A SEGUINTE:

Ingredientes:
1 prato de polvilho

31
1 prato de gordura de porco
1 dúzia de ovos
Uma pitada de sal
Água

Modo de fazer:
Em uma gamela ou bacia, escaldar o polvilho com água quente
e a gordura de porco, e misturar com as mãos até desmanchar todas
as bolinhas. Acrescentar aos poucos os ovos e misturar a massa até
fichar um mingau, no ponto (nem ralo, nem muito grosso).
Colocar a massa aos poucos em um pano, com um buraco
pequeno ou em um espremedor de massas de biscoito e fazer os bis-
coitos de acordo com sua criatividade nas folhas de bananeira ou
tabuleiro. Coloque para assar em forno a lenha bem quente durante
30 minutos. E aí é só esperar assar para saborear o delicioso biscoito
de polvilho com café ou leite.

Obs: Escrevi esta história em homenagem a minha mãe, Maria


Soares de Faria, que tem 85 anos, e em agradecimento a minha
amiga Nardeli, com muito carinho e alegria.

Maria da Conceição Ribeiro de Faria

32
Mais um “causo” de arrepiar...
Eu me lembro quando assentávamos na cozinha, próximo ao
fogão de lenha, onde mamãe preparava deliciosas guloseimas e papai
se punha a contar seus famosos “causos” de assombração. Sob a luz
da lamparina, papai olhava bem para mim e meus irmãos e se sentia
feliz quando percebia que estávamos morrendo de medo, pois sabia
que ele era o centro das atenções. Ele contava estórias como esta:
“Certa vez, eu e meu ajudante Zezinho voltávamos do trabalho
mais tarde do que de costume, pois o velho caminhãozinho havia se
quebrado e não foi fácil de arrumá. A noite tava bem escura e a
estrada deserta, onde só se ouvia, na carroceria do caminhão, o
sacolejar das latas de leite e dos caixotes e grades vazias que servi-
ram para o transporte do leite, das galinhas, ovos e verduras pra
cidade. Eu e Zezinho tava bem distraído a cantarolá umas modinha,
quando, de repente, começou uma ventania e uns relâmpagos que
dava medo. Comecei então a apertá o pé no aceleradô do caminhão,
mas ele não me obedecia muito porque já tava muito velho. Nós dois
não via a hora de chegar em casa. Certa hora, nós avistamos um
vulto branco lá longe e Zezinho, muito medroso, foi falando:
- “O que é aquilo sô Valico? Parece uma muié!...” Eu fui firman-
do a vista, fomos chegando mais perto e deu pra vê que era mesmo
uma muié e que queria carona. Eu, que não sou medroso, fiquei
todo arrepiado, mas tive que parar o caminhão porque a muié tava
bem no meio da estrada. Então falei com muito custo:
- “Noite dona! Pra onde a senhora vai a essas hora?” Ela não
respondeu nada, ficou me olhando e pulou em cima do paralamas,
bem do meu lado. Fiquei de perna bamba e comecei suá frio, quan-
do, de repente, ela, numa rapidez enorme, esticou todo o corpo,
passou por cima da buléia do caminhão e ficou encarano o Zezinho,
que chorava e tremia de batê o quêxo. Aí, então, ela ficou no vai e
vem, ora encolhia e me encarava e ora esticava toda e encarava o
Zezinho.
Apavorado, apertei mais o pé pra chegar rápido na cidade,
quando, de imediato, ela desapareceu. Aí eu parei o caminhão e vi

33
que ela tinha sumido bem na horinha que passamos na frente do
cemitério.
Quando peguei o relógio que carregava na algibeira, vi que era
meia noite e que aquela muié só podia ser uma alma penada.
Começamos então a rezar e, enquanto eu dirigia, o Zezinho fazia
uma cruz com os dedo indicador, até chegar em casa”.
Quando papai terminava, ele ria das nossas caras de assustados
e ainda olhava para a mamãe e dizia: “Isso é fato acontecido, tá aí a
Dete que não me deixa mentir.”

RECEITA - BROA DE FUBÁ

Ingredientes:
3 ovos
2 colheres (sopa) de margarina
1 xícara de óleo
2 xícaras açúcar
1 pitada de sal
2 xícaras de leite azedo
2 xícaras de farinha de trigo
1 xícara de fubá
1 colher de sopa de pó Royal
l xícara de queijo ralado
2 colheres de coco ralado

Modo de fazer:
Bater bem (na batedeira ou no liquidificador) os ovos, a man-
teiga, o óleo, o açúcar e o sal. Acrescentar o leite e bater mais um
pouco. Despejar essa mistura em uma bacia e acrescentar aos
poucos a farinha, mexendo sempre. Em seguida, acrescentar o fubá,
o pó Royal e bater bastante até formar bolhas. Depois, misturar à
massa o queijo ralado e o coco, e despejar em tabuleiro untado e
colocar para assar em forno quente.

Neide Monteiro de M. Santos


34
Males que vêm para o bem
Era jovem, de 20 anos mais ou menos, quando a minha falecida
mãe cismou ter engolido a dentadura superior. Dizia ela ter ouvido
casos semelhantes. Com isso, criou a hábito de retirar a dentadura
antes de dormir. Ao lado da cabeceira da cama, ficava uma malinha
de madeira, sobre esta, ela colocava a dentadura todas as noites.
Um dia, ao se levantar, não encontrou a dentadura no lugar.
Procurou-a por todos os cantos do quarto, por detrás da mala e nada
de encontrá-la. Assim disse: “Esqueci de retirar a dentadura antes
de dormir, acho que a engoli”. Uns 15 minutos mais tarde verifiquei
que minha mãe estava pálida, ansiosa e queixando-se de dor no
peito. Sentia um peso estranho no local e que seria a dentadura que
havia engolido.
Por mais que eu tentasse convencê-la desse equívoco, nada adi-
antava. Pediu-me para levá-la ao Pronto-Socorro, pois estava fican-
do sufocada. Sem outra alternativa, aprontei-me para levá-la, quan-
do minha irmãzinha de nove anos arrastou a mala e encontrou a
dentadura que havia caído. Minha mãe tomou a dentadura, mas não
quis usá-la. Preferiu repousar, pois sentia ainda o mesmo incômodo
no peito como se uma coisa estivesse ali.
Sei que a impressão da dentadura durou por mais de duas
horas, até que desaparecesse de vez. Ela contou o “causo” a outras
pessoas, que acharam muita graça, pois uma dentadura não passaria
pela garganta. Não foi somente esse “causo” que aconteceu com a
minha mãe.
Há um ditado popular: “há males que vêm para o bem”. Com tais
causos, pude concluir que a auto-sugestão tem dois pólos, um ne-
gativo e outro positivo. Com isso me livrei de uma bronquite asmáti-
ca que há anos me torturava. Porém, por faltar espaço, não vou
relatar aqui, fica para outro “causo”.

Silvio Gomes

35
Marias de fé
Era mês de maio, mês de Nossa Senhora, mês das mais lindas
coroações e do friozinho gostoso de Diamantina, em 1902. Minha
avó, Maria Amélia, estava grávida e olhava as crianças. Resolveu
fazer no terreiro da casa uma pequena fogueira para assar batata-
doce e distrair os filhos. Eram quatro: Quinquim, José, Luzia e João.
Todos se esquentavam e comiam naquela tarde que já deixava
perceber o frio forte do próximo inverno.
Meu avô, como sempre, no trabalho, homem honrado e respon-
sável que era. De repente, vovó se agacha pela dor forte que lhe
comprime a barriga grande e redonda. Por uns instantes, ficou ali
agachada. Depois falou ao Quinquim:
- “Corra até a casa da comadre Maria, a parteira, e conte para
ela que sua mãe mandou dizer que a ‘hora chegou’”.
Minha avó se levantou devagarzinho e, andando mais devagar
ainda, foi até a cozinha colocar um caldeirão de água para ferver.
Procurou os panos limpos, na gaveta, arrumou a cama e esperou.
Dona Maria chegou espavorida.
- “O que é isso, sinhá? Chegou mesmo a hora?”
- “Chegou sim, comadre, e não vai demorar nada!”
As crianças continuavam lá fora rindo e brincando ao redor da
fogueira que as aquecia. Nem ouviram o choro fraquinho de mais
uma irmã que Nossa Senhora lhes trouxera. Tudo feito, a comadre
se desculpou:
- “E eu que deixei o leite no fogo fraco... para fazer um doce....
Ainda bem que tem de ferver muito até secar...
Minha avó pensou: “Agora já não preciso mais dela. Tenho a
companhia das minhas cinco crianças e da Mãe maior, a Mãe de
Jesus”.
- “Comadre, vai ver seu doce, que meu marido já esta chegando.
Vai com Deus, vai...”
Vovó continuava ouvindo as risadinhas lá fora. A pequenina
Maria, que acabara de nascer, estava de olhinhos fechados, tranqüi-
la, dormindo... Devagarzinho, vovó foi se levantando e, mais devagar

36
ainda, caminhou até o terreiro. Puxou o tamborete e se assentou.
Ali, ficou “cismando”!...
Meu avô Joaquim abriu o portão dos fundos. Viu a cena, sorriu
e foi abraçar a esposa. Olhou-a surpreso e começou a chorar!
- “O que é isso sinhá? Onde está a sua barr...”
- “Está lá na cama, sinhô! E é uma menina! Vá lá ver a nossa
Maria de Lourdes”.

Era a minha mãe, outra Maria de fé.

Maria de Lourdes César da Rocha Bueno

37
Negócio de compadres
Totonho vivia lá pros lados das Contenda, onde morava também
um tal de coronel Bilico. Eles eram compadres. Totonho, que se
achava muito esperto, deu seu único filho para o coronel batizar. O
coronel, homem de muitas posses e sem filhos, poderia um dia agra-
ciar o afilhado com alguma herança. Sempre que Totonho podia ele
aproveitava e, em qualquer situação, ia logo lembrando do dinheiro
do compadre.
Um dia, Totonho percebeu que seu burrinho já estava velho e
cansado, mas não podia deixar o bichinho morrer e ficar no prejuí-
zo. Tinha que tentar negociar aquele animal antes que ele desse o
último suspiro.
Esperou ansioso a visita do compadre coronel. Num domingo de
tardinha, quando viu que ele apontou na estrada, chamou a mulher
e o menino, disse para os dois que ia vender o burrinho para o coro-
nel e que, quando começasse a falar no negócio, que eles dessem o
contra. Mandou que o menino chorasse, estrebuchasse e implorasse
para não vender o burrinho.
O coronel chegou e ele começou a lorota, disse que gostava
muito do burrinho, que o menino e a mulher tinham muita afeição
pelo animal, que eles não iam conseguir ficar sem o burrinho, mas
que o coronel ia ficar muito bem servido. Era burro de montaria, de
carga e de engenho. A mulher começou a apelar que não vendesse,
o menino se agarrou no burrinho e chorava, e gritava, dizendo que
se o burrinho fosse ele também tinha que ir junto. Era grito e choro
para todo lado. O coronel comprou o burro, pagou e foi embora,
arrastando o animal e ouvindo os gritos do menino.
Uma semana depois, o coronel aponta novamente lá na estrada.
Totonho, muito preocupado, pede para a mulher separar o dinheiro
da venda do burro, põe no bolso e vai para a varanda. Comenta com
o menino que o burrinho devia ter morrido e o coronel vinha buscar
o dinheiro de volta. Fica agitado, segurando o dinheiro com a mão
no bolso.

38
O coronel chega, apeia do cavalo, abençoa o afilhado e fala pro
compadre: “Vim buscar a comadre e meu afilhado emprestados por
uns dias. É que estou com uma vacada velha lá em casa, amanhã
vem uns compradores lá de Itamarandiba e eu preciso vender tudi-
nho compadre. Fechando negócio eu venho aqui devolver os dois”.

RECEITA - BOLO ECONÔMICO

2 xícaras de açúcar
4 ovos inteiros
1 xícara de óleo
Bater bem e acrescentar:
1 colher de fermento
1 xícara de leite
Canela em pó
Sal
3 xícaras de farinha de trigo

Modo de preparar
Untar as formas com manteiga, polvilhar com farinha de trigo e
despejar metade da massa nas formas. Na outra metade acrescentar
chocolate em pó e despejar por cima, completando as formas. Assar
em forno quente por 40 minutos.

Luiza Marilac de Pinho Marques França

39
O morto vivo
Era uma daquelas noites geladas de inverno em São Gotardo.
Toda a cidade estava no velório. Seu José havia falecido subita-
mente. A mulher o teria encontrado caído no chão do quarto quan-
do lhe trazia um café quentinho, “da hora”, para lhe aquecer na
tarde que já findava. Agora, os amigos de verdade, aqueles de infân-
cia, estavam ali, velando pelo corpo do conterrâneo ainda tão moço!
E, como aquela madrugada estava fria, fria!
Pouco a pouco, as pessoas menos chegadas foram se desculpan-
do e saindo. Os que ficaram começaram a esfregar as mãos com
força, queixando-se da friagem.
Foi quando um dos “amigos de verdade” correu até em casa e
voltou com uma garrafa de cachaça das boas, a “garciana”, famosa
no lugar. Outro deles lembrou que havia ganhado um lombo de
porco fresquinho para assar. Foi buscá-lo.
Um gole de pinga daqui, um pedacinho de carne assada dali, a
sala acabou se esvaziando e começou um vozerio lá nos fundos, na
cozinha. Ficou mesmo firme só a viúva, chorosa e bem agasalhada,
ao lado do marido defunto.
Em determinada hora, cansada, começou a cochilar. Acordou
assustada, com um barulho estranho, completado por um gemido
forte e as palavras: “O que é isto, Maria; que carne cheirosa! Gente
conversando alto! Tá tendo festa no vizinho?”
O morto havia se assentado no caixão e falava com a mulher
“vivinha” de pavor. Ele estava só desacordado, com uma tal doença
que se parece com a morte, mas ninguém se apercebeu.

Maria de Lourdes César da Rocha Bueno

40
O homem do saco
É tempo de divertir... É tempo de amedrontar as crianças com
os “causos” contados pelos adultos.
Bem na época da chuva, eu, meus irmãos, primos e amigos,
quando crianças, corríamos para o terreiro para brincar de finca
naquela terra molhada da chuva grossa que acabava de cair.
Com as carinhas felizes, os pés descalços, passeávamos nas en-
xurradas, deliciando a água límpida, caída das nuvens escuras do
céu, lavando toda rua e nossa alma. De repente, era o entardecer
mais lindo que existia! Iluminado pelo sol, eis que surgia no céu o
gigantesco arco-íris. “Quem passar debaixo do arco-íris se for mu-
lher vai virar homem, e se for menino vai virar menina”.
Depois de tantas brincadeiras e correria, entrávamos para nos-
sas casas, tomávamos banho, às vezes fazíamos o dever de casa, jan-
távamos e conversávamos até a hora de dormir.
Ao anoitecer, outra tempestade, trovões e relâmpagos, até que
a luz acabava. Era aquela escuridão! Assustados com a chuva, a
família toda reunida em volta da mesa, acendia as velas e logo
começavam as brincadeiras. Com as mãos fazíamos teatro de som-
bra em forma de animais e pássaros e logo começavam os pavorosos
“causos” narrados pelos meus pais, tios e avós ou algum agregado.
Assentados, que lá vem um dos “causos” que mais me impressionou
quando criança...
Aqui mesmo em Belo Horizonte, num bairro desconhecido e
longínquo do centro, onde havia poucos moradores, lá existia um
indivíduo muito esquisito. Era um homem feio, mulato, muito mal-
tratado, vestido com trapos de retalhos, olhos sempre vermelhos,
seus dedos defeituosos com unhas grandes e sujas, e cabelos
esgandaiados. Seu rosto, horripilante, todo cortado e ensangüenta-
do. Era um monstro. “Daco, o homem do saco”. Esse era seu nome
e por todos conhecido. Hum! Era assustador. Daco perambulava
pelas ruas do bairro o dia todo, cantarolando e gesticulando, car-
regando um saco de alinhagem todo sujo.
Naquele instante, me lembro como se fosse hoje... Eu e a cri-

41
ançada com carinhas de anjo, rostinhos pálidos por causa das
chamas das velas e os olhinhos arregalados, começávamos a ba-
lançar as perninhas e a tremer de medo.
Assim, o contador do dia saboreava com prazer a história com
suas palavras e expressões tão significativas. Cada vez que alterava
sua voz, nós, a molecada, íamos encolhendo nas cadeiras ou no
banco, logo as lágrimas escorriam pela face de tanto pavor e o choro
aumentava exageradamente.
Ah! Sabem por quê? Porque naquele saco sempre havia uma cri-
ança malcriada, desobediente e atrevida, encontrada pelo “Daco, o
homem do saco”.
Por isso, meninada, quando for fazer malcriação, tenha muito
cuidado. “Daco, o homem do saco” está sempre espiando à procura
da próxima vítima...
O desespero da criançada era tão grande que o contador debu-
lhava-se em risos. Com dó das crianças, convidava-as para saborear
um delicioso cafezinho com biscoitinhos caseiros, queijo mineiro e
delicada brevidade, que ali se encontravam em cima da mesa.
Oi, minha gente! Vamos fazer uma gostosa brevidade, feita pela
minha mãe, minha vó, bisavó e tataravô...

RECEITA - BREVIDADE SABOR DE INFÂNCIA


2 xícaras de chá de maisena
1 xícara de chá de açúcar refinado
3 ovos inteiros
1 colher de sopa de manteiga ou margarina
1 colher de sopa de pó Royal

Modo de preparar
Bater na batedeira os ovos, a manteiga e o açúcar até formar bo-
lhas. Depois, acrescentar a maisena e o pó Royal. Distribua a massa em
forma untada ou em forminhas de papel e asse em forno moderado.
Conte você também os seus causos de criança e depois é só deli-
ciar e lamber os lábios com as apetitosas brevidades!!!!!

Maristela Seabra Rocha Jorge Corrêa


42
O substituto do motorista
O motorista de um sindicato tirou licença médica por uns
quinze dias. Diante disso, houve necessidade de contratar, por
tempo determinando, um outro motorista, o Celso.
Logo no primeiro dia da substituição, o presidente do sindicato
tinha duas reuniões no mesmo horário. Ligou para o João, também
diretor do sindicato e que já foi presidente da entidade, e perguntou
se ele poderia participar dessa reunião. João disse que podia, mas,
como estava sem carro, quis saber se havia um motorista disponível
no sindicato para buscá-lo em casa e levá-lo até o local.
O presidente respondeu que sim e passou a ligação para Celso.
João explicou-lhe onde ele morava, deu-lhe o endereço e ficou
aguardando a chegada do motorista.
O tempo foi passando, e já havia mais de vinte minutos e nada
de o motorista chegar. Preocupado, João ligou para o sindicato. Foi
informado que o motorista deveria estar chegando, pois tinha saído
há trinta minutos.
Passaram mais uns quinze minutos e nada. João, já estressado,
resolve ir para a porta de sua casa esperar o carro a fim de levá-lo à
reunião. Naquela altura, já estava atrasado. Quando o ônibus parou
no ponto em frente à sua casa, Celso desceu e caminhou em direção
a ele:
- “Podemos ir?”
João, indignado, pergunta:
- “Cadê o carro!?” E o rapaz informou que o veículo estava na
oficina para uma revisão, o que deixou João mais indignado e irrita-
do:
- “Eu não sou aleijado, não preciso de muleta, sei ir sozinho! Não
preciso de você para me levar!”, disse, muito irado, e foi procurar
um táxi para ir ao local da reunião. O rapaz, sem entender o porquê
da ira de João, pediu o dinheiro da passagem do ônibus de volta,
pois não tinha dinheiro para voltar ao sindicato.

José Carlos Padilha Arêas


43
Pipa e Brisa
Vivia nas nuvens. Era quase impossível vê-la conectada ao
mundo real. As coisas acontecendo aqui e ela flanando... leve... co-
lorida... alegre. Por isso, vou dar a essa professora o pertinente
nome de Pipa. Suas estórias fazem a gente chorar, irritar-se, duvidar,
mas, acima de tudo, rir.
Pipa tinha uma colega de trabalho tão distraída quanto ela ou
mais. Seu apelido pode ser Brisa. Trabalhavam em duas escolas e
tinham que ir de uma para a outra de ônibus, aqueles vermelhos,
lotados. Naquele tempo andavam de ônibus, hoje não; hoje elas têm
carro e viajam de avião até para o exterior.
Um dia, saíram do trabalho, no intervalo do segundo para o ter-
ceiro turno na outra escola e entraram no ônibus. Começaram a
comentar casos de alunos, do diretor, dos colegas, do cotidiano, e
riam muito. Pipa achou um lugar para sentar-se e Brisa ficou de pé,
segurando-se em um suporte vertical. O cano parecia estar meio
solto e ela girava pra lá, pra cá, sempre rindo das conversas de Pipa.
Perto da escola, um operário de uniforme tocou em seu braço e
falou: “A senhora quer dar licença do meu cano? Vou descer no
próximo ponto”. Assim, às gargalhadas, e sem nenhum constrangi-
mento, as duas chegaram ao trabalho naquela tarde.
E Pipa? Estava sempre correndo: pra escola, pro colégio das fi-
lhas, médico, dentista, salão e hidroginástica. Ia a pé, pois a acade-
mia era perto, às vezes de carro.
O que vou contar foi uns anos depois, quando ela já tinha com-
prado um Chevette do seu colega, professor de inglês. O camarada
era tão econômico que seu carro tinha teias de aranha em seu inte-
rior. Nas vezes em que ia de carro, Pipa pensava: “vou mandar lavar
o carro (o posto era na esquina da academia). Ah, eu não trouxe
dinheiro!”. E passava. Um dia, pegou o dinheiro e foi muito feliz,
porque sua memória estava boa. Dentro da piscina, planejava o que
ia fazer, enquanto o carro ficava pronto: ler algum trabalho de aluno,
corrigir provas ou escolher um texto para a aula do dia seguinte

44
(tudo estava no carro). Terminada a aula, saiu da academia e andou
na direção do posto. Quase chegando, o susto: estava a pé. Não tinha
ido de carro!
Era assim. Tomava ônibus sem dinheiro (esquecia a carteira em
outra bolsa) e não ficava ansiosa, pois alguém se oferecia para pagar.
Um dia, o trocador deixou-a passar sem pagar e ainda ofereceu um
vale para ela voltar.
No trânsito, era uma tsunâmi. Uma tarde ia para uma reunião na
escola. A certa altura da avenida Amazonas, ligou a seta e ia virar à
esquerda sem ver que havia um carro ao lado. Vendo, parou, mas o
motorista desceu e foi tirar satisfação. Ela ficou quieta no seu banco.
Desceu lentamente, olhou em silêncio para o carro dele todo arra-
nhado e perguntou: “Qual risco aqui que é o meu? Não estou vendo
nenhum risco novo, são todos velhos”. O rapaz se irritou, entrou no
carro e foi embora, depois de dizer: “Oh!, dona Maria, pra dirigir na
avenida Amazonas é preciso ser mais esperta”. Mais ainda? Certa
vez, um motorista de táxi gritou para ela: “Volante é difícil, viu?” E
ela: “Você acha?”.
Pipa e Brisa, apesar de distraídas, eram respeitadas pelos cole-
gas e alunos porque eram professoras que conseguiam criar víncu-
los, entrosamento e cumplicidade, e eram seguras nas informações
do conteúdo que ensinavam. Eram sempre amigas da garotada. Vez
ou outra, eram indicadas para fazer palestras fora da escola e dar
cursos em cidades do interior. Uma vez, foram de ônibus para
Cristais. Na primeira parada desceram, lancharam e ficaram conver-
sando e dando risadas. Um dos motoristas começou a buzinar e
Brisa disse: “tem gente entrando no ônibus errado”. Você já sacou
quem era, né? Mas nos debates, seminários, painéis e outras ativi-
dades de atualização, as duas opinavam com muita categoria, pois
mantinham a leitura em dia.
Não posso esquecer as façanhas de Pipa quando ela estava com
o professor de Eletrônica. Tinham o mesmo horário para o almoço e
iam juntos ao restaurante mais próximo da escola. As férias estavam
chegando e eles aproveitavam o momento para pensar em possíveis
viagens. “Pipa, vamos viajar juntos? Podemos ir para Bonito mergu-
lhar (Pipa não sabia nadar), podemos acampar, ir para uma praia...

45
Que acha?”. “Nossa, não podemos andar juntos de jeito nenhum! Eu
sou distraída, você vai morrer de rir ou de raiva”. “O perigo é eu
esquecer você em algum lugar. Também sou bem desligado”.
Pagaram a conta depois de procurarem o ticket em todos os bol-
sos e voltaram para a escola contando casos de esquecimento ou
falta de atenção. Chegando ao portão da escola, o professor pôs a
mão na cabeça e falou: “Nossa, esqueci minha pasta no restau-
rante!...”
Há muitos casos engraçados, outros não, mas, certamente, eles
ajudavam a segurar a barra com bom humor e preservar o lado boni-
to da convivência com os alunos, razão do seu sucesso.

ARSilva

46
Quando o mineiro
toma café, uai !
Tomar café é um hábito cultural de todo brasileiro. Afinal,
somos o maior produtor e exportador do grão para o mundo inteiro.
Esse costume já tem mais de três séculos e é bastante conhecido
aqui e nos quatros cantos do mundo. Em Minas Gerais, a tradição
tem seu próprio ritual. É um hábito que é sinal de sociabilidade,
mineiridade e brasilidade. Quando um brasileiro vai ao exterior,
todo mundo exclama: Brasil, Pelé, café, futebol, Carnaval!!!
Embora o café não seja originário do Brasil, pois foi trazido da
Etiópia (país da África), aqui se desenvolveu. Foi descoberto pelos
jesuítas que observaram que as cabras que comiam o grão do fruto
café ficavam mais espertas e vistosas. Daí passaram a fazer infusão
do café para dar aos escravos que passavam a trabalhar com mais
disposição.
A partir daí, o café foi descoberto como produto fundamental
para começar o dia com mais energia e bem estar. O seu cultivo foi
introduzido na agricultura com intensidade e ganhou renome.
Passou a ser produzido em massa para consumo nacional e expor-
tação. Chegou a ser o principal item de nossa exportação. Fazendas
e fazendas de café surgiram e tornaram ricos e prósperos inúmeros
proprietários, principalmente na fase do Brasil República. Ali os
barões do café dominavam a cena política e a economia. Tudo gira-
va em torno do precioso grão. Muitos presidentes da República
foram eleitos ou depostos pelos barões do café que eternizaram a
cena política com a fase da política Café com Leite. Não só os barões
como também os coronéis.
A tradição contaminou outros países como a França, onde os
Cafés e as Cafeterias tornaram-se ponto de encontro para paqueras,
conversas, negócios, artes e centros de decisões políticas e empre-
sariais. Tomar um cafezinho era uma palavra de ordem para discu-
tir, avaliar e decidir alguma coisa. O Brasil herdou da França esta
idéia dos cafés e introduziu no Rio Janeiro (então capital do Brasil)
47
as primeiras cafeterias. Elas se transformaram em centros de
decisão da história nacional.
O mineiro toma café várias vezes ao dia. Pela manhã, após le-
vantar-se, vamos para a mesa. Ali o café é completo e ricamente
preparado e ornamentado. Acompanha leite, frutas, doces, geléias,
manteiga, presuntos, queijos, requeijões e uma variedade de pães
(pão francês, pão doce, pão de batata, pão de queijo, pão de milho),
bolos, broas e biscoitos.
Depois, quando chega ao trabalho, há sempre um cafezinho à
espera. Lá pelas 9h, outro intervalo para tomar café e comer alguns
biscoitos. Há sempre um espaço social para esse lanche em que o
café é item essencial. Quando chega alguém, serve-se de novo o
cafezinho. Assim, tomam-se quantos cafés foram necessários para
agradar ou receber alguém, iniciar uma conversa de negócio ou
amizade. Até mesmo iniciar um namoro ou sedução.
Depois do almoço, sempre há um bom café para tomar. Pois,
segundo a tradição, o café serve “para ajudar na digestão”. Lá pela
tardinha, três ou quatro horas da tarde, é hora do encontro do café.
Um encontro mais demorado, mais descontraído, mais recheado de
guloseimas também. Pois aí vem o pão de queijo, o queijo do Serro
ou frescal, manteiga, requeijão, biscoitos, bolos e doces.
Mais tarde, em vez do jantar, sentamo-nos à mesa para mais um
café requintado. No meio da noite ou antes de dormir, o café requin-
tado acompanhado de guloseimas é mais uma vez servido como últi-
ma refeição do dia do mineiro e do brasileiro.
Aqui em Belo Horizonte, a gente tinha um ponto de encontro na
Praça Sete, no centro da cidade, nas esquinas das avenidas
Amazonas e Afonso Pena. Era o Café Pérola. Ali se encontravam
pessoas diversas das mais variadas idades e posições sociais para
tomar um cafezinho e prosear um pouco. O ponto de encontro
serviu também para as campanhas políticas de vereador, deputado
e presidente da República. Todos os candidatos, de Collor a Lula,
pararam ali para tomar um cafezinho e cumprimentar as pessoas. Ali
o cardápio tem dois itens: um cafezinho e boa prosa. Nada mais, mas
já é o bastante para dar resultado.

48
ALGUMAS ESTÓRIAS/HISTÓRIAS

Relaciono abaixo alguns “causos” do café aqui em Minas e tam-


bém no mundo, nos lugares onde passei em minhas andanças como
repórter.

1
Em campanha política, com alguns candidatos, a gente percor-
ria vários pontos da cidade, bairros pobres e ricos. O candidato,
quando anda pelas ruas e é chamado a entrar em uma casa, recebe
logo um cafezinho. “Vem cá, doutor, tomar um cafezinho”. O políti-
co não pode negar, tem que aceitar. Aí há vários tipos de cafés:
quente, morno, sem doce, amargo, fraco, forte! Tomar o café é sinal
de simpatia e adesão ao candidato. Às vezes, se o café vem com pó
ou está sem doce, o sorriso tem que ser igual senão atrapalha o
encontro. Já vi candidatos passarem apertado com a quantidade de
café e a qualidade do mesmo.

2
Cada região e cada povo têm sua própria forma de tomar café.
O mineiro toma um cafezinho depressa, engole rápido, até queima a
língua, conversa e vai embora. O francês toma lentamente o cafe-
zinho, deixa esfriar, e em torno de uma xícara conversa mais de uma
hora. Em Portugal, toma-se uma Bica de Café, é o nome do cafezi-
nho. Em São Paulo, o paulista gosta da média de café (café com leite
servido em xícara ou copo grande). No Rio, o carioca gosta do pin-
gado, o café com leite que pode ser grande ou pequeno. Na Bahia,
toma-se café saboreando um acarajé ou comendo um cassetinho
(pão de sal). No nordeste brasileiro, toma-se café com cuscus ou
tapioca. Já o grego faz o café e deixa o pó na xícara. Come um pão
de bisnaga só com uma xícara. O inglês prefere o chá preto (da
Índia), mas toma café em alguns momentos. O irlandês já prefere o
café frio, com chantilly e uísque, e demora em tomar, aproveitando
para conversar. O indiano toma café com leite e em alguns lugares

49
da Índia, como o Cachemira, usa-se o sal e não o açúcar (por causa
da altitude, o sal não deixa a pressão cair). O italiano é quem criou
o café expresso, uma receita que conquistou o mundo. Usa-se boa
quantidade de pó para fazer apenas uma pequena xícara de café. A
bebida, assim, fica mais forte.

3
Uma vez, em viagem aos Estados Unidos, na Flórida, com minha
esposa, ficamos em um hotel em Miami. No primeiro dia, o café veio
como um primeiro almoço: café, leite, omelete, frutas, sucos, pre-
suntos, salsichas, torradas, croissants, bolos, biscoitos, pães e quei-
jos. No segundo dia, minha esposa quis mudar e pediu um café tro-
pical. O garçom serviu uma xícara de café com leite, um croissant e
um pão com manteiga. Só. Ela tomou um grande susto, pois pensou
que o café tropical seria com maior variedade de frutas e sucos trop-
icais.

4
Uma vez fomos a Portugal, chegamos a Lisboa e de lá fomos
para a casa de amigos. No outro dia, fomos a Sintra, cidade termal
perto de Lisboa, onde os reis tinham o Palácio de Verão. Lá,
entramos na cafeteria mais conhecida para tomar um cafezinho. A
tradição de tomar cafezinho em Portugal chegou com os brasileiros.
Os primeiros expressos em Portugal foram vendidos no café A
Brasileira, em Lisboa. Muitos clientes acharam o gosto do produto
um tanto amargo. Para contornar o problema, a direção da cafeteria
criou um slogan para atrair os clientes: Beba Isso Com Açúcar. A
campanha deu certo e a frase ficou tão marcada que o uso das inici-
ais de cada palavra - bica - passou a ser sinônimo de cafezinho no
país.

50
Receitas mineiras

BISCOITO MENTIRA

Uma vez, a Comissão Mineira de Folclore resolveu fazer uma


reunião, um encontro em forma de confraternização, na casa do fol-
clorista e jornalista Carlos Felipe. Cada um levou um tipo de coisa:
biscoitos, bolos, pães diversos e quitandas. O Frei Xico, franciscano
holandês, pesquisador de folclore, levou uma novidade: Mentira, um
tipo de biscoito em forma de farrapos (formato irregular), mas
muito saboroso. Foi um sucesso. Eis a receita:

Ingredientes
2 xícaras de chá de açúcar
1 xícara de farinha de trigo
2 ovos

Modo de preparo
Bater os ovos como para pão de ló, juntando aos poucos o açú-
car e a farinha. Pingar numa assadeira untada e polvilhada. Assar em
forno quente.

CAFÉ TEMPERADO

Nos dias quentes de verão, nas fazendas mineiras, costuma-se


tomar um café diferente à tardinha. Em algumas de minhas
andanças aprendi a receita abaixo conhecida como Café
Temperado.

Ingredientes
3 xícaras (chá) de café solúvel de boa qualidade, quente e forte,
feito com sete colheres (chá)
51
2 favas de baunilha abertas ao meio
4 cravos da Índia
folhas de hortelã
4 colheres (sopa) de creme de leite fresco
gelo moído
Açúcar a gosto

Modo de preparo
Coloque o café quente sobre a baunilha e os cravos da Índia e
deixe descansar por uma hora. Coe o café e adicione o creme de
leite. Adoce a gosto. Coloque o gelo moído nos copos altos, acres-
cente a mistura e sirva com canudos. Decore com folhas de hortelã.

CACHAFÉ

Mineiro, que é da gema mesmo, usa cachaça para dar gosto ao


café. É o Cachafé. Usa-me muito nas noites frias das montanhas de
Minas. Ajuda a esquentar e passar o frio.

Ingredientes
2 colheres (sopa) de gelo moído
100 ml de cachaça de boa qualidade
100 ml de licor de creme
100 ml de café de boa qualidade, forte e gelado

Modo de preparo
Coloque o gelo em um copo alto e acrescente a cachaça, o licor
e o café. Se preferir, acrescente açúcar a gosto e mexa. Sirva com
canudo e decore o copo como você preferir.

52
BOLO DE BANANA COM CAFÉ E CASTANHA PICADA

Cada vovó tem suas receitas que guarda em caderno com muito
carinho. Quando quer fazer uma coisa diferente, vai lá no baú, tira o
caderno e prepara a receita. Vai aí uma receita diferente de bolo do
fundo do baú da mineiridade.

Ingredientes
7 bananas
3 xícaras de farinha de rosca
3 xícaras de açúcar
5 ovos
uma xícara de óleo
uma colher de sopa de café solúvel de boa qualidade
uma colher (sopa) de fermento
100g de castanha picada

Modo de preparo
Bata no liquidificador as bananas, os ovos e o óleo. Misture com
os demais ingredientes, acrescentando por último o fermento e cas-
tanha picada. Leve ao forno (temperatura média) para assar em
uma forma untada com manteiga e farinha de rosca por 40 minutos.

TIRAMISSU

Variedade e criatividade na cozinha. Este é um traço fundamen-


tal da culinária mineira. Ela reflete a influência cultural de vários
povos, além do branco português, do negro africano e o índio. Pois
aqui em Minas recebemos libaneses, sírios, turcos, árabes, france-
ses, espanhóis, alemães, italianos, holandeses, japoneses, chineses,
gregos e outros mais. Portanto, a nossa cultura é uma mistura de
tudo isto. Segue aí uma receita de tiramissu para saborear no calor
do verão.

53
Ingredientes
6 gemas
1/2 xícara de chá de açúcar
1 pitada de sal
450g de requeijão firme
2 xícaras de chá de café de boa qualidade, frio e forte
30 biscoitos champagne com açúcar fino
1 colher de chá de baunilha
2 colheres de sopa de licor de cacau
100g de chocolate meio amargo raspado

Modo de preparo
Bata por 5 minutos as gemas, o açúcar, o sal e a baunilha na ba-
tedeira. Acrescente o requeijão e bata até ficar cremoso e firme.
Reserve. Em um prato fundo coloque o café e o licor, molhando ra-
pidamente parte dos biscoitos nessa mistura. Forre o fundo e as la-
terais de seis xícaras de chá com biscoitos. Despeje a mistura de
queijo e o chocolate ralado. Molhe os biscoitos restantes, arranje-os
em pé nas laterais das xícaras e coloque o restante da mistura para
firmá-los. Por cima coloque o restante do chocolate. Gele por 4
horas antes de servir.

Sebastião Breguez

54
Que assombração que nada
O Joãozinho nasceu lá pelas bandas do Ouro Preto, num arraial
chamado Engenheiro Correa. Naquele tempo, por volta de 1934, era
um lugarejo pequeno, sem luz elétrica, com poucas moradias
erguidas em torno da estação de trem. E foi nesse lugar que, um
belo dia, o pai de Joãozinho deu-lhe uma ordem:
- “Joãozinho, sele o seu cavalo e vá lá na fazenda dos Pereira
levar uma encomenda por mim recebida na estação e um recado
importante”.
Joãozinho estremeceu, pois a tal fazenda era muito distante e o
caminho cheio de histórias de arrepiar. Escondeu-se por um tempo,
enrolou, argumentou que era a vez do irmão mais velho, mas não
teve jeito, teve mesmo que ir.
Contrariado e ao mesmo tempo arrependido de ter feito tanta
hora que já podia estar quase de volta, montou no seu Alazão e lá
se foi. No meio do caminho, já entardecendo, começou a escutar
gemidos repetidamente, acompanhados de uma rajada de ventos
leves: “Hummm, cabruuumm, hummm, cabruuumm”...
Com olhos arregalados, cabelos arrepiados e tremendo de
medo, não pensou duas vezes; deu meia volta e, galopando com
pressa, chegou em casa. Seu Aprígio, pai de Joãozinho, logo perce-
beu que o recado e a encomenda não haviam chegado ao destino,
pois o tempo não foi suficiente para ir e vir da fazenda dos Pereira.
Bravo, perguntou: “O que foi, Joãozinho? Por acaso viu assombração
pra voltar tão depressa e assustado?”
Joãozinho respondeu: “Vi eu não vi não, mas que ele estava lá,
isto eu tenho certeza que estava, estava mesmo. Por causa disso,
voltei e lá eu não volto mais, não passo nem por perto, não passo
mesmo”.
Como já era tarde, foram todos se deitar e deixar a pendenga
para o outro dia. Joãozinho deitou e o sono não vinha. Aqueles gemi-
dos não saíam de sua cabeça... Hummm, cabruuumm, hummm,
cabruuumm.
Lugar pequeno, logo a notícia de que Joãozinho tinha se avista-

55
do com a assombração se espalhou. Foi aí que Neném, irmão mais
velho de Joãozinho, resolveu tirar essa questão a limpo.
Selou um cavalo, montou e foi, foi, foi, bem devagarinho, até
chegar no ponto em que Joãozinho dizia que começavam os gemi-
dos. E não deu outra. Neném começou a ouvir também os gemidos,
hummm, cabruuumm, hummm, cabruuumm... Deu meia volta e
chegou em casa, coração quase saindo pela boca, num arrepio só.
Seu Aprígio juntou outros homens do arraial e foram juntos
espantar a tal assombração, ou o que lá que fosse. Saíram todos
galopando bem devagarinho, devagarinho, até chegar no ponto
descrito pelos dois irmãos, e descobriram que não era assombração.
Era um galho de árvore que, lá do alto e com o vento que batia,
abaixava e levantava, abaixava indo quase ao chão e levantava,
fazendo hummm, cabruuummm, hummm, cabruuumm...
O tempo passou, mas até hoje, quando alguém pergunta como é
que faz pra chegar na fazenda dos Pereira, a indicação é uma só:
“Ah, é só seguir o caminho da assombração que ocê chega lá”.

RECEITA - JOÃOZINHO

200 gramas de amido de milho


200 gramas de farinha de trigo
200 gramas de açúcar
200 gramas de queijo
1 colher de sopa de fermento
2 colheres de margarina
Ovos o bastante para amassar

Modo de fazer
Fazer os biscoitinhos do formato que desejar, untar uma única
vez o tabuleiro e assar em forno de 180º

Miriam Fátima dos Santos

56
Reminiscência
“Bom dia, Flor do Dia,
Há quanto tempo
Eu não te via?”

Era assim que Vovó Mercê nos saudava quando chegávamos à


sua casa. Seu nome: Mercedes Arantes Borges – mulher forte,
dinâmica, astuta, perspicaz e sobretudo “mãe e avó” excepcionais.
Lançando mão de provérbios, pensamentos e histórias dan-
tescas, marcou durante noventa anos sua presença entre nós. É
importante um dia ter história para contar. Uma história feita, vivi-
da e transmitida com amor de alguém que não parou no meio do
caminho, que enfrentou cascatas mas que chegou.
São muitas as lembranças – algumas estão sempre presentes.
Lembro-me de que, nas noites de luar, ela nos levava para fora de
casa e mostrava-nos as estrelas. Falava sobre o Cruzeiro do Sul que
ficava bem em frente de sua casa, a Estrela D’alva, a Via Láctea;
parecia uma professora a nos ensinar, e sempre dizendo um versi-
nho como este:

“A noite é serena,
Só vejo o Luar
Profundo silêncio
Que me faz chorar”.

Certa vez, minha irmã Marina (com 6 anos mais ou menos) per-
guntou: “Vovó, como a senhora faz com o cabelo (ela usava um
coque preso com dois grampos grandes) quando vai dormir?”. E ela
respondeu: “Não me faça pensar nisso, se não eu não vou conseguir
dormir”, e deu uma sonora gargalhada.
Em outra ocasião, ela pediu ao meu tio Marcelo para ferver água

57
para o café, e recomendou: “não se esqueça de passar água no
coador”. Depois de um certo tempo, ela chegou na cozinha, onde
estávamos todos esperando pra tomar café, e, vendo a água ferven-
do, indagou ao Marcelo: “por que você não passou a água no
coador?”. E ele prontamente mostrou o coador limpinho, ao que ela
retrucou: “não era assim, você tinha que aproveitar a última coada
pra economizar no pó”. Foi aquela risada geral, com todos dizendo:
“Vovó, não sabíamos que a senhora era tão pão-dura”. Ela, na maior
calma, retrucou:

“Não me amola
Que te dou uma viola
E se não me amolar
Ainda te ensino a tocar”.

Outros versinhos que todos os netos sabem de cor:

“Se eu tivesse aventura


De morrer quando nasci
Estava hoje ausente
De sofrer tanto por ti”.

“Os filhos de minhas filhas


Netos são
De meus filhos
Serão ou não”.

“A rosa para ser rosa


Tem que ser de Alexandria
A mulher para ser formosa
Tem que se chamar Maria”.

58
“Guarda bem sim... dentro de
Teu peito esta quase murcha flor
Símbolo de nossa amizade
Lembrança de nosso amor”.

“Quem inventou a partida


Não sabe o que é o amor.
Quem parte, parte chorando
Quem fica morre de amor”.

Marília Faria Côrtes

59
Sacadura
Sacadura era um apelido dado ao meu pai que, quando eu era
criança, ficava encucada. Queria saber o porquê desse nome.
Quando nós perguntávamos o que é sacadura, nem ele mesmo sabia
explicar.
Homem muito trabalhador, foi operário da antiga Central do
Brasil, sempre de camiseta branca debaixo do macacão e um chapéu
tipo “Santos Dumont”. Parecia um operário europeu, era assim o seu
estilo. Talvez porque era exigente, teimoso, mas muito inteligente,
seus amigos o apelidaram de Sacadura.
Quando se preparava para sair, passear ou mesmo pra fazer
compras no centro da cidade, lá estava ele, calçando meias, com
ligas até o joelho. Dizia que era para que as meias de algodão ficas-
sem bem esticadas. Não dispensava o chapéu, que parecia mais de
um detetive da época de Al Capone. Eu e meus irmãos perguntáva-
mos: “Onde você vai papai?” E ele respondia: “No especula, no
especula”.
Assim, surgia mais uma palavra pra nossa curiosidade. O que
seria especula? A gente era muito criança para entender. Meu pai
era italiano, e mesmo tendo vindo muito pequeno para o Brasil,
mantinha muitos dos costumes de sua terra natal, falava muito alto,
cantarolava pela manhã músicas em italiano que meu avô certa-
mente também cantava, enquanto tratava de suas dezenas de pas-
sarinhos. Eu e meus irmãos não entendíamos muito bem as letras
das músicas, mas era muito divertido.
De vez enquando, falava algumas palavras em inglês, mas muito
mal, isso porque em 1929 havia morado na América do Norte, época
da lei seca e de Al Capone. Seu trabalho era feito em segredo: ele e
seus primos fabricavam vinhos às escondidas em porões, para não
serem descobertos.
Depois que comecei a me entender por gente, descobri que
Sacadura Cabral foi um aviador, teimoso, perfeccionista e que
especulava. Vinha do verbo especular, de investigar, procurar saber
onde e o que é que as pessoas iam fazer.

60
Assim, me lembro de meu pai, severo, rígido, mas feliz com o
que a vida lhe ofereceu. Veio para o Brasil com meus avós, imi-
grantes de vida simples, tocava saxofone e cantarolava músicas ita-
lianas. Constituiu nossa família honestamente e nos deu muita edu-
cação de valores que carregamos de geração para geração.

Eunice Carattiero da Paixão

61
Te esconjuro
Cervantes é que tinha absoluta razão. Sabedoria, aliada à refina-
da ironia, caminham, até hoje, dentro de nós, e suas palavras con-
tinuam nos confundindo.
- “No creo en brujas, pero que las hay, las hay”!
Povoam nos indivíduos o mistério do após morte, a curiosidade
pelo desconhecido, a eternidade, impossível de ser entendida pelos
humanos, espíritos voltando ao reino dos vivos por alguma finali-
dade. Aqui e ali, no imaginário de muitos, há sinais, quase inequívo-
cos, que anunciam o extraordinário. É uma rajada repentina de
vento, o crepitar vermelho do fogo, um passo diferente ao seu redor,
um barulho inesperado, um arrepiar súbito dos cabelos do braço, sei
lá mais o quê.
Ensinaram-me que, se algo vier a me acontecer, que eu faça o
sinal da cruz, ou jogue água-benta, sal grosso, tenha um pé-de-arru-
da no quintal, um raminho atrás da orelha ou comece já a correr.
Pois bem! Escutem só! Pai não mente. E esta história escutei
dele: Homem de fala grossa e apressada, sorriso largo, cigarro de
palha, pele trigueira e queimada do sol, um metro e quase noventa
de altura, tocador de viola.
Estávamos, como de costume, fim de semana, ali na beirada do
fogão à lenha. Minha mãe, Salena, meus dois irmãos mais velhos,
nosso caseiro do sítio, com seu sorrisinho finório e lábios leporinos,
o Joãozinho-das-Moças. Mais três ou quatro convidados de meu pai,
para o bate-papo e o contar “causos”. Esses enfeitavam as noites de
minha infância e me faziam dormir com medo de assombração.
Mas... vamos lá! Assim, depois de escutarmos alguns relatos,
muito verdadeiros, todos diziam cruz-credo sem parar. Seu Jonas,
meu pai, começou.
De início, um pigarro. Silêncio total. Uma bicada na xícara de
café de rapadura, fumegante e forte, o olhar fixo no teto enfumaça-
do, com suas telhas escuras e o crepitar brincalhão do fogo na boca
do fogão, o cigarro de palha, levado ao tição aceso e uma baforada
gostosa misturando o novo pigarro com a atmosfera fantasmagóri-

62
ca criada pelo personagem, e que tanto nos contagiava. O clima para
o novo causo estava criado.
- “Foi assim”... Levantou-se meu pai, e com gestos de galã de
telenovelas foi contando.
- “Saí de Lavras e fui pela Estrada de Ferro Oeste de Minas,
bitola 1(um), rumo a São João Del Rey. O trem de ferro, no cami-
nho, tomava água na velha estação de Aureliano Mourão, e, a partir
daí, novo trem e vagões, nova linha, agora bitola de 0,75, bitola
estreita, até São João.
Era 1965. Junho. Um frio de rachar, crescendo à medida que a
velha Maria-fumaça, pachorrenta, cortava a tarde e depois a noite.
Eu deveria passar alguns dias na cidade fazendo meu trabalho como
representante comercial do Curtume Mineiro lá de Campo Belo.
Mais ou menos onze horas da noite, o apito longo da locomoti-
va, o som estridente e rachado dos freios cantando nos ferros. A
velha estação surgia, aos poucos, no nevoeiro noturno da fria São
João Del Rey. Poucas pessoas desceram, recebidos pela lanterna
arisca do agente da estação. Tirei o chapéu, minha mala de couro
revestida de uma capa de pano branco para protegê-la e respirei
profundamente aquele ar úmido e nebuloso. Lá atrás, a garagem das
máquinas e a rotunda. À frente, recebia-me a ponte de metal, só
para pessoas e que dava entrada para a praça Brasil. E lá no meio
dela, o coreto.
Fui andando distraído, pela avenida Rui Barbosa, passei pelo
hotel Hudson, virei uma outra rua, sei lá o nome, aproximando-me
da igreja do Carmo”.
- “Pai, o senhor está enfeitando muito. Conta logo o caso!”
- “Pois é! Algo estranho acontecia. Uma luz fraca se movia ao lado
da matriz e a porta central da igreja, de madeiras pesadas, com
um rangido rouco, começou a abrir.
Muitas pessoas, de um lado homens, de outro mulheres, vinham
saindo em procissão, em silêncio, vestidas de preto, as mulheres de
véus negros ou brancos, se viúvas, casadas ou solteiras. Um grupo
de seis homens, carregando um caixão roxo e, atrás, a banda, tão
singular nos enterros do interior mineiro, tocando música fúnebre,
devagar e chorosa”.

63
- “Seu Joneta!”, gritou Joãozinho-das-Moças, “espera aí! Deixa
eu tomar uma abrideira pra escutar o resto.”
Começamos a rir dos olhos arregalados que eram também os
nossos.
- “Pois então”, continuou meu pai, “caía uma chuvinha arisca ali
na rua Direita, de onde eu observava, atento, o cortejo que descia
compadecido aquela longa rua de paralelepípedos irregulares. O
som da banda de música se aproximava de mim e, aos poucos, o
cortejo fúnebre estava à minha frente. Respeitosamente tirei o
chapéu e permaneci em posição de reverência a todos e, principal-
mente, ao morto que fazia sua última viagem. Fiz até uma oração
pelo defunto.
Mas, gente! Alguma coisa estava errado naquilo que eu presen-
ciava. O cemitério de gavetas era ao lado da igreja do Carmo. Por
que então aquelas pessoas se direcionavam, levando o morto para a
estação ferroviária? E todos, lentos e cadenciados, continuavam a
descer a ladeira e a música fúnebre sumindo na névoa gelada.
Veio-me um nó na garganta. Estremeci. Não sou de ter medo,
vocês me conhecem... mas... naquele momento...
A procissão foi caminhando e, aos poucos, aproximando-se da
estação ferroviária. Todos entraram lá.Tenho certeza disso. Eu vi.
Não é que fiquei tranqüilo. Na verdade, fiquei curioso,para não dizer
que estava incomodado. Podia até ser que estivessem levando o
finado para ser enterrado em outra cidade. E, aí então... não há dúvi-
da! É levar de trem. Havia lógica no meu raciocínio. Continuei olhan-
do, absorto. Mas...Ah! Voltei à estação. Não iria dormir sem enten-
der aquilo. Lá chegando, procurei o agente e lhe perguntei:
- Ô homem! Cadê aquele pessoal que veio trazer o defunto para
embarcar?
- O quê? Você também está doido?
- Não! Eu vi o ...
- Nossa, moço! Te esconjuro! Você, nesta semana, é a terceira
pessoa que vem aqui e me conta isso!”

Heleno Célio Soares

64
Terezinha
Depois de seis anos morando na cidade de São Paulo, decidi
retornar a Minas Gerais e fixar residência na capital mineira. São
Paulo foi um período muito importante para minha formação
humana, política e pessoal. Contudo, a distância da minha família,
dos meus amigos e da minha terra falou mais alto.
Foram seis meses para decidir o que fazer, onde morar e quan-
do mudar. Com algumas idas e vindas, estava tudo resolvido:
deixaria a direção nacional da Central Única dos Trabalhadores e
regressaria como candidato à Presidência do Sindicato dos
Professores de Minas Gerais. Um objetivo e um sonho que acalen-
tara desde o meu ingresso na entidade, no início dos anos noventa.
A possibilidade de assumir o cargo de presidente foi logo apoiada
pela maioria dos diretores da entidade.
Resolvido o que fazer, era hora de decidir sobre outra questão
não menos importante: onde morar. A decisão foi uma guerra de
várias batalhas. Mãe é daquele tipo de ser que jamais admite que
seus filhos crescem e que precisam construir seu próprio destino.
Mãe sempre quer ter seus pintinhos próximos, mesmo que os anos
tragam para aquele frangote cabelos brancos, rugas, pés-de-galinha,
reumatismo, espinhela caída e por aí vai.
- “Você mora comigo!”, bradou minha mãe. “Seu quarto está do
jeito que você deixou há seis anos e não tem cabimento algum você
morar sozinho”.
Depois de muito diálogo e muita argumentação, convenci minha
querida mãe que morar sozinho era mais que um projeto pessoal.
Era também uma necessidade, pois ficaria mais próximo do Sinpro-
MG. Guerra com mãe nunca se ganha, também não se perde, o me-
lhor resultado é o empate. Estava “empatado o jogo”.
Alugado o apartamento, hora da mudança. Rumei para São
Paulo, embalei meus livros, meus CDs, meus quadros, meus
retratos, meus sapatos, meus sonhos. Desmontei a cozinha, a sala, o
quarto e as boas lembranças que passei naquele apartamento da rua
Barata Ribeiro. Depois de tudo empacotado, fui despedir dos vizi-

65
nhos, coisa de mineiro que paulista nunca compreenderá. Despedi
do padeiro, do açogueiro, do turco da esquina, do cabeleireiro, da
mocinha da lavanderia e por último do porteiro, homem forte, nasci-
do em Ouro Preto e profundo conhecedor da alma dos monta-
nheses.
Resolvida as questões particulares, o que fazer, onde morar e
quando mudar, estava na hora de fazer o planejamento de trabalho.
O primeiro desafio era concentrar no processo eleitoral do sindica-
to. Depois de algumas viagens pelo interior do Estado, numa tarde
relativamente calma, estava eu, no sindicato, pensando nos próxi-
mos passos: viagens, reuniões, contatos por telefone, e-mails, visitas
a escolas, enfim, várias possibilidades e muitas necessidades. Foi
quando entrou na sala onde trabalho professores do departamento
de aposentados do Sinpro-MG, que disseram em tom cerimonial:
- “Querem te conhecer?”
- “Quem”.
- “O nosso grupo de aposentados do Deasinpro”. Na mesma
hora, veio à minha mente o quanto o trabalhador aposentado, não
somente os professores, mas de todas as categorias, têm sido mal
tratados nestes últimos anos. Reformas neoliberais na previdência,
diminuição de direitos, achatamento de salários, aumento do tempo
de serviço e, não satisfeitos, a cada momento anunciam mais e mais
reformas contra os trabalhadores e aposentados.
Naquele instante, exclamei: “marquem a data, porque os traba-
lhadores aposentados serão prioridade em nosso trabalho sindical
no próximo período!” No dia e na hora marcados, estava eu, senta-
do na sala de reunião, esperando ansioso pela chegada dos nossos
professores e professoras. Chega um, chega outra e vai chegando,
um após o outro. Alguns com cara desconfiada, outros sorridentes,
noutros um semblante sério, até que surge na entrada da sala uma
senhora elegante de estatura pequena, acompanhada com um se-
nhor não menos elegante e sedutor.
Olhei para aquela mulher e instantaneamente regressei trinta
anos de minha vida. Estava frente a frente com Terezinha, minha
querida professora de História do colégio Padre Eustáquio.
Imediatamente fixei em seus olhos e dirigi a palavra a ela. “Você é a

66
Terezinha, a Terezinha Quintão?” “Sim, sou eu, e você foi meu
aluno”.
Naquele momento, tudo ficou muito mais forte e claro para
mim. Retornar a Belo Horizonte não representou somente mudança
de casa ou de função, mas definitivamente um retorno às lem-
branças do passado, à esperança do presente e às lutas do futuro.
Naquela tarde, compreendi que nada no mundo ocorre por acaso,
aquela reunião, naquele dia, com a presença da minha professora,
Terezinha, que muito me ensinou, inclusive contribuindo na minha
formação, logo, na minha condição de candidato a presidente do
Sinpro-MG.
Era a confirmação incontestável que o passado e o presente
sempre estarão de mãos dadas; o que plantamos hoje colhemos
amanhã. Terezinha é a presença marcante do ontem, do hoje e do
amanhã, pois não existe futuro sem passado e os próximos dias
serão de muita organização, mobilização e luta, dos milhares de tra-
balhadores aposentados, professores e operários, de Terezinhas e
Josés que estão guardados em nós.

RECEITA - BROA DA VOVÓ MARLENE

4 ovos
Meio copo de óleo
20 colheres de sopa de açúcar
4 colheres de queijo Minas
50 gramas de coco ralado
1 colher rasa de canela
6 copos de farinha de trigo
12 colheres de fubá
1 colher cheia de pó Royal
Modo de preparar
Bater tudo no liquidificador e assar em forno quente até ficar
bem corada.

Gilson Reis
67
Testemunho
Sô Neco vinha pela trilha no meio da mata quando, lá na frente,
no fim da picada, percebeu que à porta do casebre de Nhá Maria
estavam, além dela, mais dois sujeitos a conversar. Um era conheci-
do, seu compadre; o outro, além de desconhecido, não tinha o feitio
do povo local. Pelo contrário, a fala rápida e ansiosa denunciava que
o tal era da cidade.
Sô Neco tinha ido a uma outra tapera de onde voltava trazendo
um bode preso por uma corda, um peru seguro sob o sovaco, um
tacho de cobre e uma vara de bambu. Como tudo por aquelas ban-
das acontece desde cedo do dia, ainda estava em tempo de trocar
umas prosas com aquela gente. O problema era a tralha que carrega-
va.
- “Dia”, disse ao se aproximar da turma.
- “Dia”, responderam os nativos ao mesmo tempo.
- “Se é de paz pode se chegar”, disse Nhá Maria.
- “Sou de paz, só que carrego essas coisas todas e se deixá-las
por aí corro o risco de perdê-las. Daí que não posso parar”.
- Uai, compadre, finca o chucho e amarra o bode, vira o tacho e
põe o peru debaixo, como é que não pode? sugeriu-lhe seu com-
padre.
Diante de tamanha filosofia, não havia porque deixar de fazer
parte daquela turma que, aliás, estava tomando café. Após apear a
tralha, Sô Neco recebeu uma caneca das mãos de Nhá Maria e aco-
corou-se junto a uma folha de zinco que, apoiada num velho pneu de
trator, valia de mesa e serviu-se do café. Aí, seguindo o gesto dos
dois outros, voltou-se para o tal da cidade que havia interrompido
uma narrativa à sua chegada. O tal dizia sobre uma reunião de que
participara:
- “Todos éramos convidados e estávamos em volta de uma mesa
de forma estranha, meio que corpo de gente. Em volta da cabeça
sentavam-se os donos da festa que, por pura conveniência, insistiam
ser a mesa redonda. Muitos ali não percebiam, mas para os donos
era imprescindível que todos pensassem que a mesa era redonda

68
mesmo. Ao longo dos braços longos sentavam-se alguns áulicos
cujas cabeças sem cérebro balançavam aprovando cada palavra dos
donos. Em volta do tronco ficavam pessoas deficientes, todas elas
sem ver, ouvir e falar e absolutamente imóveis. Apenas junto às per-
nas curtas, por terem sido deliberadamente atrofiadas, é que as pes-
soas comuns se chegavam, individualmente. Sobre a mesa, as comi-
das concentravam-se mais para perto dos donos, que as repartiam
em quantidades desiguais, dando mais para si próprios, sendo,
porém, generosos com os áulicos e os deficientes. Aos comuns
restava o nada ou alguma migalha que escapava. Enquanto reparti-
am os alimentos, os donos insistiam na comunhão de todos, sendo
aplaudidos pelo cabecear dos áulicos e pela inércia dos deficientes.
Alguns poucos dos comuns percebiam as manobras dos donos, mas
por serem apenas indivíduos, não tinham como fazer coisa alguma.
Entretanto um deles tentou. Esse, que não era herói e nem covarde,
sendo apenas um, tentou alertar os áulicos e os deficientes e os ou-
tros comuns como ele, mas os donos silenciaram sua voz. Ele falou,
insistiu, tentou até provar uma tese sobre o formato da mesa, em
vão, que os donos impediam que sua voz tivesse som. Depois disso,
com os áulicos continuando a balançar suas cabeças ocas em sinal
de aprovação e com os deficientes apenas de corpo presente, os
donos continuaram pregando suas verdades absolutas em nome da
democracia”.
Quando o tal da cidade terminou de contar seu causo, os três
outros se entreolharam e, como é de costume naquelas brenhas, não
precisaram de palavras para dizerem, uns aos outros, a impressão
que lhes ficou dessa história. Ao se levantar para seguir seu rumo,
Sô Neco relanceou o olhar para dentro do casebre simples de Nhá
Maria e viu, sobre o tosco fogão a lenha e envolto pela fumaça que
filtrava raios do sol, o coador que ainda gotejava, suspenso pela aba
do mancebo.

69
RECEITA - BISCOITO DE GUARANÁ

Ingredientes:
3 xícaras de farinha de trigo
1 xícara de açúcar refinado
1 ovo
1 colher (sopa) de manteiga
1 colher (sopa) de fermento químico
sal
refrigerante de guaraná até o ponto de enrolar
Formar os biscoitos e fritar em gordura quente.

George Rafael Maia

70
Zé Redondo e a banda do porco
Um dia, passeando pelo Rio Piracicaba, em Minas Gerais, na casa de
Helvécio e Márcia, ouvi um causo que achei muito interessante. O per-
sonagem é Zé Redondo, que, para início de conversa, é a pessoa mais
magra que alguém já viu; sua magreza chega a espantar. Mas não é a sua
magreza que chama mais atenção. O que chama mais atenção mesmo é
a sua facilidade de passar as pessoas para trás.
Um dia, ele foi visitar seu compadre, um fazendeiro da região. O
compadre estava com um porco para terminar de engordar e o ofe-
receu para levá-lo. Quando o animal estivesse no ponto de matar, ou
seja, um pouco mais gordo, ele ficaria com uma parte e o compadre
com outra. Zé Redondo aceitou e foi embora.
Quando o fazendeiro contou a sua mulher o acontecido, a casa
veio abaixo. Ela ficou irritada, dizendo que o marido conhecia a
fama do seu compadre. “Nunca mais ocê vai ver esta carne, escreve
o que eu tô te falano”.
Passado mais ou menos três horas, Zé Redondo aparece na
fazenda de novo, já com uma parte do porco. “Uai”, questiona o
fazendeiro, “ocê não levou o porco pra sua casa, sô?” Zé Redondo
respondeu: “Ele não deu conta da viagem, então achei mió matá e
trazê a sua parte já que o combinado foi esse”.
A comadre ouviu a conversa e pediu desculpas: “Oh!, cumpadre,
ocê me disculpe, eu pensei muito mal do sinhô, eu tô com meu
coração dueno”. “Ora, comadre, isso acontece. Às vezes a gente
acusa pessoas que num tem curpa de nada mesmo”. Ele se despediu
e foi embora com a outra parte do porco.
O fazendeiro olhou bem para a sua mulher e disse: “Ocê pidiu
discurpa pra ele que acabô de passá a gente pra trás?” “Uai, por
quê?” “Ocê nem percebeu que o combinado era ele terminá de
ingordá o porco. Ele só matô e ficô com uma parte do nosso porco,
e saiu com a cara mais limpa”.

Nardeli da Conceição Silva


71
72
Diretoria - Gestão 2006-2009

Presidente: Gilson Luiz Reis, 1º Vice–Presidente: Bruno Burgarelli Albergaria Kneipp,


2º Vice–Presidente: Marco Eliel Santos de Carvalho, Tesoureira Geral: Lavínia Rosa
Rodrigues, 1º Tesoureiro: Luiz Augusto Pinto, Secretária Geral: Marilda Silva, 1º Secretário:
Dimas Enéas Soares Ferreira, Conselho Fiscal: Terezinha Lúcia de Avelar, Maria das Graças
de Oliveira, Sebastião Geraldo de Araújo, Suplentes do Conselho Fiscal: Valdir Zeferino
Ferreira Júnior, Valéria Chiode Perpétuo, Rui da Silva Sales.
Diretoria: Adelmo Rodrigues de Oliveira, Aerton de Paulo Silva, Ailton de Soza Santos,
Albanito Vaz Júnior, Alex Jordane de Oliveira, Altamir Fernandes de Sousa, Alzira dos Reis
Silva, Ana Paola de Morais Amorim Valente, Andrea Luiza Drumond das Chagas, Angelamaria
S. Burgarelli A. Kneipp, Anivaldo Matias de Sousa, Antônio de Pádua Ubirajara e Silva,
Aristides Ribas de Andrade Filho, Benedito do Carmo Batista, Cândido Antônio de Souza
Filho, Carla Fenícia de Oliveira, Carlos Afonso de Faria Lopes, Carmem Cristina Rodrigues
Schffer, Cássia Beatriz Batista e Silva, Cecília Maria Vieira Abrahão, Celina Alves Padilha
Arêas, Clédio Matos de Carvalho, Clóvis Alves Caldas Filho, Débora Goulart de Carvalho,
Décio Braga de Souza, Edimar Balbino de Aquino Póvoa, Edson de Oliveira Lima, Edson de
Paula Lima, Edward Neves Monteiro de B. Guimarães, Eliane de Andrade, Elizabeth Avelar
Nunes, Elizabeth Barbosa, Elizabeth do Nascimento Mateus, Elmindo de Rezende, Eni de
Faria Sena, Eudson Carlos Souza Magalhães, Eustáquio Vieira da Silva, Evangelina Sena
Fulgêncio Jardim, Fábio Alex Lopes de Almeida, Fabio dos Santos Pereira, Fátima Amaral
Ramalho, Flávio Correa de Andrade, George Rafael Lima Souza Maia, Gilberto Alves da
Cunha, Heleno Célio Soares, Humberto de Castro Passarelli, Iara Prestes Stoessel, Jandira
Aparecida Alves de Rezende, Jones Righi de Campos, José Alves Pereira, José Armando
Borges, José Carlos Padilha Arêas, José Flávio Perpétuo, Josiana Pacheco Silva Martins,
Juliana Maria Almeida do Carmo, Júnia Aparecida Rios Barcelos, Liliani Salum Alves Moreira,
Luiz Antônio da Silva, Marcos Paulo da Silva, Marcos Vinicius Araújo, Maria Cézar Ferreira
Barbosa, Maria da Conceição Miranda, Maria da Glória Moyle Dias, Maria de Lourdes Coelho,
Maria Eliane Serafim de Andrade, Maria Esperança Amat Dutra, Maria Helena Pereira
Barbosa, Maria Irene Pereira Vale, Maria Julieta Martins de Albuquerque, Mario César Mota
II, Mark Alan Junho Song, Mateus Júlio de Freitas, Matilde Agero Batista, Maurício Krieger
Amorim, Miguel José de Souza, Miriam Fátima dos Santos, Mozart Silvério Soares, Murilo
Ferreira da Silva, Nacib Rachid Lauar, Nalbar Alves Rocha, Nardeli da Conceição Silva, Natália
Pereira Chagas, Nelson Luiz Ribeiro da Silva, Newton Pereira de Souza, Onofre Martins de
Abreu, Osvaldo Sena Guimarães, Patrícia Pinheiro de Souza, Paulo Augusto Malta Moreira,
Paulo César Reis Cardoso de Mello, Pitágoras Santana Fernandes, Regina Célia de Aquino
Xavier, Renato Sérgio Pereira Pina, Rita Simone Oliveira e Silva, Rodrigo Ferreira Queiroz,
Rodrigo Salera Mesquita, Romário Lopes da Rocha, Rossana Abbiati Spacek, Rozana Maris
Silva Faro, Sandra Lucia Magri, Sérgio Luiz da Costa, Valéria Peres Morato Gonçalves, Wagner
Ribeiro, Welber Salvador Zóffoli, Zeuman de Oliveira e Silva.

73

Interesses relacionados