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O povoamento da região de Indaiatuba e os Guarani: perguntas e pistas

Adriana Carvalho Koyama


2006

Imagina-se que grupos Tupi-Guarani tenham


ocupado nossa região em tempos remotos,
especialmente por descobertas feitas em locais
próximos a Indaiatuba, como Monte Mor e Salto. O
texto seguinte traz uma das poucas pistas que temos
sobre a população local em períodos anteriores à
colonização portuguesa da nossa região.

Povos de cultura Tupi-Guarani

Ponta de flecha, 5000 AP.


Acervo Museu Municipal de Monte Mor
O antropólogo Professor Desidério Aytai da
Universidade Católica de Campinas e a Doutora
Nobue Myazaki (1974), pesquisadora do Instituto de
Pré-história da USP, em escavações realizadas em
1972 no sítio arqueológico denominado Tapajós,
com mais de um quilômetro de comprimento,
situado do lado esquerdo do rio Capivari-Mirim,
região próxima de Indaiatuba, encontraram
numerosos cacos de cerâmica, urnas e outros
objetos com características tupi-guarani com idade
de 800 anos determinada pelo método da
termoluminescência.
O engenheiro José Luiz Bicudo do Valle,
colecionador de antiguidades e conservacionista,
cujos ancestrais se fixaram em Indaiatuba há mais
de 200 anos, possui um machado de pedra polida de
origem indígena, encontrado nos campos da
fazenda Pau Preto, hoje área urbana de
Urna funerária de tradição Guarani, 800 Indaiatuba1.(CARVALHO: 2003)
AP, encontrada em Monte Mor
Acervo Museu Municipal de Monte Mor
De fato, grupos Guarani habitam São Paulo há muito tempo, talvez 2000 anos. E antes dos
Guarani outros povos passaram por aqui. No sítio arqueológico “Alice Böer”, na região de
Rio Claro, foram encontrados vestígios de ocupações com 14.000 anos, aparentemente.
Os Guarani cultivam palmeiras, batata-doce, abóbora, vários tipos de milho, mandioca,
amendoim e feijão. Plantam roças em áreas próximas às habitações e, antes da colonização
portuguesa, também plantavam árvores e arbustos às margens das estradas que mantinham
para seu deslocamento periódico. Segundo informação do Governo de São Paulo,
A história de São Paulo tem seus primórdios calcados nas trilhas dos índios [...]. A
interiorização remonta ao Caminho do Peabiru, importante rota dos indígenas sul-
americanos, ligando São Vicente – SP ao Peru. Essa trilha passava pelo Vale do
Anhangabaú, em São Paulo, e seguia em direção a Sorocaba e aos rios
Paranapanema, Ivinhema e Corrientes, onde o caminho passa a ser fluvial, chegando
ao rio Paraguai e cruzando o território guarani. Daí, incorporava-se às rotas dos
Incas, atingindo o Peru.2

As estradas mantidas pelos Guarani ficavam plenas de alimentos, plantas medicinais e árvores
frutíferas. Esses alimentos atraíam animais pequenos e grandes, como antas, veados, catetos e
capivaras, que eram caçados com diversas técnicas: armadilhas engenhosas, lanças, etc. Entre
as frutas estão o abacaxi, o caju, abacate, mamão, maracujá, jabuticaba, pitanga e goiaba. O
araticum, antes abundante em Indaiatuba, também fazia parte dos pomares indígenas.

Entre as árvores cultivadas pelos povos indígenas as


palmeiras se destacam em todo o país: suas folhas servem
para a cobertura das casas, para fazer cestos, esteiras e
tecidos, os frutos servem para alimentação ou para fazer
óleos comestíveis, para iluminação ou para repelir insetos, e
finalmente, a madeira serve para inúmeros fins. O nosso
Indaiá tem uso conhecido para a cobertura de casas.

Até recentemente acreditava-


se que aos povos indígenas
faltasse conhecimento para a
exploração intensiva do solo,
que levaria a uma produção
Indaiá suficiente para o
Coleção Antonio da Cunha Penna estabelecimento de comércio,
Acervo FPMI para a criação da vida urbana e para o enriquecimento
da sociedade. As pesquisas têm mostrado que essa
visão tem muito de preconceito e pouco ou nada de compreensão do conhecimento indígena, e
ultimamente os antropólogos têm ressaltado que o manejo das matas e demais recursos
naturais pelos povos indígenas é sofisticado e cria uma economia auto-sustentável, garantindo
a sobrevivência de várias gerações consecutivas.

Hoje sabemos que existe uma opção desses


povos em relação à riqueza, no sentido de não
acumularem bens e de trabalharem apenas parte
do dia para sobreviver, dedicando-se a outros
afazeres no seu “tempo livre”. Nos tempos em
que suas terras ainda não haviam sido invadidas,
quando as plantações davam excedentes, era
comum fazerem festas que duravam semanas ou
até meses, para que esses bens fossem
consumidos, e não comercializados ou
acumulados, gerando riqueza e disputas por sua
propriedade.3

Quebra-coquinho Guarani
Acervo Museu Municipal de Monte Mor
Outra afirmação preconceituosa sobre sociedades indígenas é que os índios não teriam
organização política e leis. Estudos recentes apontam para o fato de que sua organização
política baseia-se em um delicado equilíbrio para manter uma relação de igualdade entre a
chefia política e a sociedade. Segundo Pierre Clastres, entre os Guarani o chefe político não
tem poder, mas sim autoridade intelectual e moral:

...o chefe não possui nenhum poder de coerção, nenhum meio de dar uma ordem. (...).
Essencialmente encarregado de resolver os conflitos que podem surgir entre os
indivíduos, famílias, linhagens, etc., ele só dispõe, para restabelecer a ordem e a
concórdia, do prestígio que lhe reconhece a sociedade. [ Ele deve] tentar persuadir as
pessoas da necessidade de se apaziguar, de renunciar às injúrias, de imitar os
ancestrais que sempre viveram no bom entendimento. (...) Se o esforço de persuasão
fracassa, então o conflito pode muito bem se resolver pela violência e o prestígio do
chefe pode muito bem não sobreviver a isso, uma vez que ele deu provas de sua
impotência em realizar o que se espera dele.4

Podemos imaginar grupos pertencentes a essa sociedade povoando os campos de Indaiatuba


desde oitocentos anos atrás? Essa imagem parece contradizer a visão de “atraso” que
normalmente acompanha nossas suposições sobre as sociedades indígenas. Essas descobertas
foram possíveis depois que aprendemos a estudar sociedades diferentes da nossa a partir de
uma visão não etnocêntrica, ou seja, numa tentativa de conhecer o outro, o diferente de nós,
com os olhos do outro, a partir dos valores da cultura estudada, e não a partir dos valores
culturais da nossa própria sociedade.

É possível também exercitar essa forma de olhar “antropológica” para compreender as


diferenças culturais internas da nossa sociedade, e contribuir para uma convivência pluralista
e para o respeito aos “outros”, aos que têm valores, conhecimentos, religiões, formas de vida e
de organização familiar diferentes dos nossos. Em uma cidade formada por migrantes e
imigrantes de regiões e países tão diversos, como é Indaiatuba, essa é uma grande
aprendizagem. Para olhar para o passado e também para o presente.

1 CARVALHO, Nilson Cardoso de Cronologia Indaiatubana. Indaiatuba: mimeo, 2003.


2
http://www.transportes.sp.gov.br/historiatransportes.htm
3
CLASTRES, Pierre. A Sociedade contra o Estado. RJ: Francisco Alves, 1982
4
CLASTRES, Pierre. A Sociedade contra o Estado. RJ: Francisco Alves, 1982.