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ARTE

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HOMENAGEM DO

COLÉGIO ARNALDO

AO SEU GRANDE EX-ALUNO

DR. ABGAR RENAULT

ILUSTRE SECRETARIO DA EDUCAÇÃO DO ESTADO


DE MINAS GERAIS

...

mÊÊÊÊmÊÊÊS

O COIjÉGIO ARNAIiDO, VISTO DA PRAÇA .JOÃO PESSOA

COLÉGIO ARNALDO

DIRIGIDO PELOS PADRES DA CONGREGAÇÃO DO VERBO DIVINO


• •

IÇÇTERNATO E EXTERNATO
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Junto á Charutaria Flor de Minas BELO HORIZONTE

Janciiio de 1949 PANORAMA 1

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E3a capital às mais distantes locali-


dades, O DIÁRIO leva a palavra de de-
fesa permanente da verdade, do direi-
to, da justiça, da liberdade e da fé. To-
das as grandes causas do Brasil en-
ASSINATURAS: contram ressonância em suas pági-
nas. Por isso mesmo, em seus doze
anos de existência, cresce a cada dia
Annal . . Cr$ 100,00 de autoridade, como um orgão que dé
Semestral. Cr$ 60.00 sempre a orientação segura e neces-
sária sôbre todos os problemas atuais.
E, ao lado disso, o leitor nele dispõe
de um informador completo e hones-
to sôbre os acontecimentos do mun-
do e do Brasil. Numerosas secções de
mi* interêsse geral, reportagens e crôni-
cas do momento, tornam sua leitura
indispensável, na capital como no in-
terior, onde é hoje o jornal de maior
penetração.
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O
DIÁRIO
f FUNDADO EM 1935
PROPRIEDADE DA «BÔA IMPRENSA S, A.»
Rua Coitacazes, 76 — Caixa Postal, 269
BELO HORIZONTE

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ARTE e literatura
DIRETOR: JoXO CALAZANS

ANO 1 • JANEIRO, 1948 O NUMERO 5

Redação e administração:
Rua Turüriambâs, 352
CAIXA POSTAL,, 727
BELO HORIZONTE —
MINAS GERAIS
*
PANORAMA nilo SC obriga a
publicar a colaboração não so- 6umano
licitada, embora esta lhe me-
reça a melhor atenção e a re-
ceba com o maior interfisse e
simpatia. Os originais recusa-
dos não serão devolvidos.

PANORAMA não se responsa-


biliza pelas idéias contidas em COLABORAM NESTE NUMERO:
artigos assinados. Apenas re-
conhece como suas as opiniões
expressas era artigos e motas
não assinados, que são da res- Afonso Arinos de Melo Franco, Álvaro Lins, Arthur
ponsabilidade exclusiva da Di-
reção . Versiani Velloso, Mario Casasanta, Ceciliâ Meireles,
* Aires da Mata Machado Filho, Augusto Frederico
REPRESENTANTES r Schimidt, Carlos Drummond de Andrade, etc.
Em São Paulo;
José Maria Leite
Rua S. Vicente de Paulo,
367
No Recife: A POESIA DE ABGAR RENAULT
Carlos Leite Mala (Pequena Antologia)
Ed. Sulacap — 4.° and.—
Sala 405 ABGAR RENAULT, PROSADOR
(Pequena Antologia)
Em Jhríz de Fora:
J. Guimarães Vieira.
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Em Fortaleza :
Braga. Montenegro,. Oaixa PANORAMA LITERÁRIO: — Novidades literá-
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Brasil: Cr$ 4,00.
Número atrazado —tCrf 10,00 Ilustração de GUIGNARD

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BELO HORIZONTE BELO HORIZONTE

#
10 11 12 13 14 15 16 17
O homem da capa:

ABGAR RENAULT

Abgap Renault é indiscutivelmente uma «ias vozes mais significa-


tivas ti» poesia brasileira. Perfeito na forma, sóbrio, rigoroso e tran-
qüilo, tornou-se todavia uma figura estranha, excessivamente motles/-
lí), esquivo e cauteloso, atacado par uma enorme desconfialaça em al-
mesmo. Sendo um poeta de elevada categoria, jamais publicou imt Ji-
v co, um único livro, mantendo inéditos admiráveis sonetos e poemas,
alguns dos quais figuram cm antologias várias, nacionais o estran-
geiras. Seus sonetos antigos, modelados no mais fino gosto cumo-
neano, ficaram famosos entre os de sua geração, enrlqueoendo pá-
giuas do álbuns e cadernos de um tempo já distante. Realizados oiu
pleno crepúsculo do parnasianismo, essas poesias assinalam um pe-
ríodo fulgurante na vida literária do ilustre bardo. Integrando-se mais
tardo no modernismo, consprvou "sua característica Vuiidamontai, o
culto às formas decorosas de expressão", como bem acentuou o imen-
so Carlos Rmnimond de Andrade.
Impecável na wte de traduzir, combeceado profundamente a Iftt»-
iatura e a língua inglesa, tem sido considerável o trabalho desenvol-
vido por Abgar Renault, realizando cursos o coníercajçtes e traduzin-
do para a nossa língua os doces e temos poemas de Itabtndruiuvtli
Tagoie e alguns poemas ingleses de guerra, Nos dias atuais, é com.-.:,
siderado a maior autoridade brasileira em iissunitos inglleséé.
Abgar Renault é um grande poeta o uma das mais notáveis o»"-
ganisações inteleetnals do nosso tempo.

Janeiro de 1048 PANORAMA — 5

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cm : ; 3 1 5 6 8 ' , 10 11 12 13 14 15 16 17
ABGAR RENAULT

O poeta Abítar Renault naseeti cm liarbacena, Minas flerais, a teuil — LA POESIE BRESI-
11 de abril de 1903. Pilho do d. Hfltrla José de Castro Renault, fale- LIENNE (Rio 1940); Álvaro Lins
cida. e do dr. I.éou Renault. Pêz o curso primário no Grupo Esco- — JORNAL DE CRITICA — 3.»
lar Afonso Pena; o secundário no Colégio Arnaldo, ambos nesta ca- série (Rio, 1943); Carlos XHrum-
pital. Bacharel em Direito, desde 1924, pela Faculdade de Direito mpnd de Andrade — OONITS-
de Belo Horizonte. Eleito deputado estadual de 1927-1930. Ocupou SÕES DE MIN AS (Rio, 1944);
a cadeira de Português da Escola Normal Modelo o de Ing-lês e Afonso Arinos de Melo Franco —
Dltcratura do Ginásio Mineiro. Secretário do Ministro da Educação; PORTULANO (S. Paulo, s-d.) .
cm 1931; diretor do Departamento do Interior e Justiça de Minas JORNAIS:
Gerais, em 1932; assistente do Secretário de Educação e Cultura do Alphonsus de Gulmalraens Filho —
Distrito Federal, de 1935-37; professor de Inglês do Colégio Ped|ro ANTOLOGIA DA POESIA MI-
II; professor de Literatura inglesa da Universidade da Prefeitura, do NEIRA (B.lUe — 1946) .
Distrito Federal; diretor do Colégio Universitário (Uinlversidade do Lincoln do Souza — A POESIA
Brasil) em 1938; diretor do Departamento Nacional de Educação, dc MINEIRA — "Gazeta de Notícias"
1938-194(1; de 1939-1946, foi membro da Comissão de Negócios Es- — Rio, 24-10-23; Emílio Moura
taduais do Ministério da Justiça. E' membro do Instituto Inter-Alia- — ABGAR RENAULT E SUA MU-
do de Alta Cultura. Representou o Brasil no Congresso de Educa- SA — "Gazeta de Noticias" —
ção, realizado no Panamá, em 1943; e no Congresso de Educação, Rio, 7-9-24; POESIA NUEVA Y
realizado em Londres, cm 1945, no qual foi fundada a UNESCO. POETAS JOVENES DEL BRA-
De 1945-46, visitou a Inglaterra, o Canadá e os Estudos Unidop, em SIL — "El Imparcial" — Guate-
viagens de estudos, tendo realizado cursos neste último país, onde mala, 21-1-32; Tasso da Silveira
fez xoma série de conferências, em vár ias universidades, sobre litera- — CLIMA DE MONTANHA —
tura e educação no Brasil. Membro honorário do Instituto de Es- "A Manhã" — Rio, 30-4-35; —
tudos Latino-Americanos da Universidade de Stanford. E' presi- Múclo Leão — REGISTO LITE-
dente da Sociedade Mineira de Cultura Inglesa. Atualmente exerce RÁRIO "Jornal do Brasil" —
as funções de Secretário da Educação do Estado de Mirap Gerais. Rio, 18^12-36; OS MINEIROS E
E' autor e trudutotr de diversas obras literárias. Traduziu três li- A MODERNA POESIA BRASI-
vros de Raliindranatli Tagore. incluídos 'na "Coleção Rubaiyat", da LEIRA — "Mensagem" — B. Ho- j
Liv. José Olímpio Editora: — A LUA CRU^CENTE, COLHEITA rizonte, 1-1-40; — M. Nogueira
DE FRUTOS e PASSAROS PERDIDOS. Em, 1042, por iniciativa da Silva — UM POEMA IMOR-
de vários amigos, publicou os POEMAS INGLESES DE GUERRA, TAL — "A Notícia" — Rio, 28-
edição reduzida, fóra de comércio, com prefácio de Carlos Drum- 5-41; — Océlio de Medeiros —
moud de Andrade. Tem esparsos em Jornais e revistas do Brasil e ABGAR RENAULT, UM POETA
do esf angeiro, discursos, artigos e poemas. figurando alguns doa SEM UIVRO — "D. Casmuno"
seus poemas cm numerosas antologias, nacionais e estrangeiras. — Rio. 21-3-43: — João Alfon-
sus — MINAS GERAIS E A UI-
TERATURA BRASILEIRA — "A
OBRAS DE ALGUMAS FONTES Manhã" — Rio, 22-5-42; Augus-
ABGAR RENAULT PRINCIPAIS PARA O to Frederico Schmldt — MOCT-
ESTUDO DA OBRA D^ DADE, POESIA E MORTE —-
SONETOS ANTIGOS (Inédito); "Jornal do Brasil" — Rio. 28-5-
ABGAR RENAULT 42; Opvaldo Oi;leo — POEMAS
ELEGIA DO TEMPO PERDIDO INGLESES DE GUERRA — "D.
poemas — (inédito) ESTCDOS DA LIVROS: Oasmud-ro" — Rio, 6-6-42; Mú-
LÍNGUA INGLESA (dc próxima Manuel da. Silva Pinto — POE- clo Leão — ROTEIRO DE DUAS
SIA MODERNA DO BRASIL — GERAÇÕES — "A ManHiã'" •—
publicação) ; DISCURSOS E CON- Conferência — (Coimbra, 1930); Rio, 9-8-42; POEMAS INGLESES
FERÊNCIAS (idern); EVOLUÇÃO Alberto Guillén — POETAS JO- DE GUERRA — "Jornal do Co-
VENES DE AMERICA (Madri, mercio" — Rio. 16-8-42: João Al-
DA LÍNGUA LITERÁRIA — vol. fOnsBs — POEMAS INGLESES
1930); Tasso da Silveira — DE-
3.° da HISTORIA DA LITERA- FINIÇÃO DO MODERNISMO DE GUERRA — "A Manhã" —
TURA BRASILEIRA, a sw lan- BRASILEIRO (Rio, 1932); Ole- Rio, 6-9-42; Manuel Bandeira —
gario Mariano — O AMOR NA O MODERNISMO NÃO MORREU
çada pela Liv. José Olimpio. sob POESIA BRASILEIRA (Rio, — "D. Casmurro" — Rio, 12-9-
a direção de Álvaro Lins — (em 1933); Dante Mllano — ANTO- 42; Jaime de Barres — O ESPE-
LOGIA BE POETAS MODERNOS LHO DOS LIVROS — "Diário da
preparo) . — TRADUÇÕES: POE- (Rio, 1935); Andrade Murlcy A Noite" — Rio. 12-1-43; João Oa-
MAS INGLESES DE GUERRA, - NOVA LITERATURA BRASILEI- lazans — O INDU' E O MINEI-
RA (Porto Alegre, 1936); Edison RO — "A Tribuna" — Vitoria,
(Rio, 1942); A LUA CRESCEN- 23-3-43; João Alfonsus — RE-
Líiis — HISTORIA E CRITICA
TE (Rio, 1942) ; COLHEITA DE DA POESIA BRASILEIRA (Rio, TROSPECTO MINEIRO — "A
1936); A. D. Tavares Bastos — Manhã" — Rio, 4-4-43.
FRUTOS (Rio 1945); PASSAROS REVISTAS:
POESIE BRES1LIENNE MODER- "R' vista da A ón d em ia. Bra^i»
PERDIDOS (Rio, 1947) . NE (Rio, 1937); Henri de Lan- (Conclui na página 32)
6 PANORAMA Janeiro de 1948

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cm l 10 11 12 13 14 15 16 17

sAuío - ^Rdrcdo

(Sob a forma de monólogo a duaó vozeé)

ABGAR RENAULT

— O que se diz de mim, se alguma cou- — Não.. Mais incautas apenas, menos
sa se diz, deve ser isto: "E' um cretino, a capazes de conhecimento de si mesmas.
respeito de quem afirmam os poetas ser ape- — Mas é uma forma de felicidade ser
nas um reles versejador, os professores um incauto ou incapaz de conhecimento de si
pobre mestre-escpla, os oradores um gago próprio, não acha?
mais ou menos insuportável, os técnicos de — Talvez. Por cousa ainda daquele su-
cousas de educação e ensino um sujeito que pracitado sentimento é que não gosto de pu-
pensa que sabe falar inglês, os sujeitos que blicar cousa alguma. Publicar é desejo de
falam inglês, um presumido que se supõe ser julgado favoravelmente. Sobretudo, é iS
capaz de escrever inglês, etc., etc., isto é, julgar-se favoravelmente. E sempre convém
trata-se de alguém que, pretendendo ser a gente conservar uns restos de ilusão, de
muita cousa, não é nada de nada." E' o que tardinha, após o jantar.. .
se diz, e pode ser verdade, pois a verdade — E', mas o sr. já publicou quatro li-
não é mais que um certo consenso de opi- vros .
niões, mais ou menos certas ou erradas. Não — Eu não. Um, — "Poemas ingleses de
é linsonjeiro êsse consenso a meu respeito ou guerra" — foi publicado por iniciativa de
a respeito de qualquer outra pessoa. Mas não amigos meus ,entre êles o grande poeta —
" W*' i
me atormento muito porque sei que tanto va- grande em qualquer língua — Carlos Drum-
le ser isto ou ser aquilo como não ser aquilo mond de Andrade; os três outros, por incum-
nem isto, nem nada. bência do meu amigo José Olímpio. E note
— Falta de vaidade? que tudo é tradução. Nada há nêles, afinal,
de meu mesmo.
— Qual o que... Sentimento fundo e
— Mas há versos seus em muitas, antolo-
intransferível de que ser e não ser são uma gias, revistas e jornais .
só e mesma bobagem.
— E' verdade, mas ainda assim não sei
— Mas não gostava ao menos de ser com que olhos terei coragem de ler isto que
poeta ? ora lhe digo convenientemente "sacarrolhado"
— Lá isso gostava, mas adianta gos- pelo João Calaizans, nem o resto que sairá
tar?
neste número de "Panorama". Envergonha-
— Daquele sentimento nasce o desdém
mento para o resto da vida. ..
pelo que faço. Mais do que desdém,; vergo-
— Então p'ra que vai deixar sair?
nha. Dele é que vem também o horror de — Por que não há quem possa com o
ver-me impresso e de pensar que aquele ver- Calazans. Éle vem lutando comigo pessoal-
so ou aquela frase de artigo ou de discurso mente desde princípios de agosto e a 6 de se-
ou de conferência ou, a conferência inteira, o temebro escreveu-me também uma carta.
artigo inteiro e o poema inteiro estariam Hoje é dia 4 de fevereiro. Seis meses, por-
menos mal depois de várias correções, isto tanto. Talvez a vaidade humana de ver-me
é, daqui a alguns seis meses. Por isto não
"consagrado" em publicação tão importan-
releio nunca um. bilhete sequer sem modifi-
te haja contribuído um pedaço e tanto para
car alguma coisa que me causa vergonha, e êste meu ato de fraqueza, mas é justo não
nada passo a limpo (salvo de raro em raro esquecer que o medo de ser assassinado pelo
quando solicitado a publicar) .por falta de João Calazans (êle espera êste auto-retrato
tempo para alterar tudo. há quase dois meses) desempenhou também
— Excesso de escrúpulo, que até mere- o seu papel.
ce louvor. — Compreendo.
— Não. Incapacidade para escrever. E — Daquele tão falado sentimento vem
não sou eu só. A maioria das pessoas que ainda o pavor do ato de escrever seja o que
escrevem têm isso também, mas não perce- fôr, especialmente de caráter literário. Escre-
bem ... ver para que? Para quem? Já há demais cou-
— São mais felizes . (Continua na página 32)


sAlgumaó opiniõeó éôbre

ABGAR RENAULT
(PRÓS & CONTRAS)

1 letras diferente e indiferente, de, essa filosofia de vida.


Abgar Renault leva a sua que prefere contemplar o ne- Querem publicar espontanea-
poesia numa andftdura musi- voeiro da vida com a impas- mente um livro que encerre
cal, que se diria hesitante e sibilidade de um crítico de as melhores páginas que o
feminina, poesia feila de ins- teatro, acostumado aos triun- poeta tem espalhado por aí,
tantes comovidos de vida in- fes e ás decepções. E' um
terior. Representa, nessa Mi- na vertigem dos acontecimen-
poeta que n,ão aproveita a tos, como um semeador que
nas paradoxal, em revolta con-
tra o patriarcal conservantis- presença dos amigos para re- não se preocupa com o fim
mo secular, breve e feliz aban- citar as suas belas poesias, que levam os grãos que saem
dono à pura emoção, já tão ra- que não toma uma cerveja de suas mãos abertas. 0 mo-
ra, tão atropelada no tumulto quando encontra uma rima vimento toma vulto. Merece
universal da velocidade mo- difícil e não faz alarido de
derna. Essa poesia é sem mo- o apôio de todos nós. Não in-
dismos pitorescos, sem tiques grupo quando lavra a tradu- teressa quem tenha sido o
pessoais, só buscando o senti- ção de uma fina poesia in- autor da idéia. O que eu pos-
do, a simbologia eterna das glesa. Faz-me pensar, ás ve- so afirmar é que Abgar Re-
coisas. E penetrada. Ioda, de zes, em um homem estranho,
intenções ,íransceden6es. A nault nunca pensou nisso e
silencioso e impassível, que talvez nem saiba, até o pre-
amplitude, a gravidade da co- se dá ao esporte de jogar pé-
moçãp,. —•• desprendida das sente momento ,que um gru-
virtuatidades do quotidiano, do rolas aos porcos... Não sei po de intelectuais veio me in-
ornamental e do exótico, — da até onde vai a sua compreen- formar dês se plano tipica-
poesia de Abgar Renault, per- são da poesia. Também não mente da sombra.
mitem-lhe dar plena vazão à posso imaginar de que largu-
musicalidade íntima transbor- OCÉLIO DE MEDEIROS
ra são os horizontes de sua
danle duma natureza cuja in-
trepidez se entrevê por debai- capacidade de iauto-crftica.
xo do cristal apenas ondulado, Só posso afirmar que Abgar
da luminosa suavidade dos Renault é para mim, um gran- Nenhum poeta traduziria
seus poemas. de poeta, diferente de todos melhor para a língua brasilei-
A poesia de Abgar Renault é ra ésses poemas ingleses de
como um lago de montanha, tão porque não tem tempo de so-
natural como as torrentes e os bra para extrair de uma noi- duas guerras, a de 1914 - 1918
insidiosos despenhadeiros, poe- te de insônia uma rima rica, e a atual, do que o Sr. Abgar
sia contemplativa, de visão Renault. E' que sua própria
com êsse sacrifício de quem
translúcida, trêmula, melin- poesia, doce e tranqüila, de
se contenta em tirar de um sóbrios e calculados efeitos mu-
drosa: — lago de montanha,
dir-se-ia qUe sobre êle, entre- rochedo uma simples faísca sicais, possui a grave e límpi-
tanto, nunca estalam os tem- de diamante, ou que faz poe- da cadência do idioma em que
porais frer éticos da.s grandes sia pela necessidade de dar escreveram Keats e Shelleg.
altitudes, poesia tranqüila, se- oxigênio a uma sensibilida- Foi-lhe, assim fácil integrar-
linosa. Sentem-se, através de- de extraordinária que não se, não só no pensamento, co-
la, como que mãos de carie ia, mo tradutor consciente do va-
porém carícia sem lascívia es- quer se deixar absorver pe- lor e do sentido exalo das pa-
pecifica, carteia para a vida. lo tumulto. Ainda não teve lavras, mas na melodia dos
E' como um lago de monta- tempo de pensar na publica- versos de cada um desses jo-
nha, também na geração, nes- ção de um livro. Talvez te- vens poetas mortos nos cam-
ta acidentada geração, em que pos de baíilha da França. Tra-
há ciumeadas e águas podres, nha traído um sonho da ado-
lescência. Passou por bai- duzir com tal perfeição é criar,
dormindo nos profundos soca- é conjundir-se com o poeta no
vões do inconscieie. xo de um fatalismo como es- milagre do instante supremo
ANDRADE MURICI' sas crianças que varam a em que a idéia adquire for-
cerca de arame farpado do ma, desdobra-se, vigorosa, na
quintal da visinha. Os ami- imaginação, perpetua-se na ni-
Abgar Renault é uma das gos compreendem que Abgar tidez das imagens, vibra na
mais delicadas sensibilidades Renault não pode permanecer música das palavras.
da hora atual. Um homem de assim, com essa dispersivida- JAIME DE BARRO-S
8 — PANORAMA Janeiro de Í948

cm 1 2 3 5 6 7 8 10 11 12 13 14 15 16 17
A ALMA DAS LHAS
AFONSO AR1NOS DE MELO FRANCO

Êfftes POEMAS INGLESES DE ri, inserto na "Revista do Insti- da grande poesia inglêsa, alguns,
GUERRA, que amigos de Abgar tuto Histórico". especialmente dedicados ao assun-
Renault acabam de publicar in- O nosso poeta Abgar Renault to da guerra, são recolhidos, na
felizmente ,em edição muito pe- viria a herdar do ascendente lo- forma enunciada, em um peque-
quena, oferecem oportunidade pa- reno esta alma 1 aventurosa e o no volume. Poetas por poetas se-
ra algumas linhas sObre o poeta gôsto das letras . Desde cedo se jam não só lidos, como principal-
mineiro e também sôbre os ou- dedicou ao magistério, em Minas, mente prefaciados. Eis a consi-
tros, os das ilihas, que não têm e com os problemas educacionais deração que levou Carlos Dru-
descurado de cantar, antes de ainda hoje se preocupa, em escala mond de Andrade a apresentar o
morrer. certamente muito mais ampla e livro com algumas sóbrias e den-
mais alta. Fazendo do ensino da sas palavras. Delas destaco estas,
Abgar Renault descende, em qi.te constituem um julgamento
terceira geração, de um certo en- língua inglêsa uma das suas ativi-
dades preferidas, armazenou, nes- de autoridade: — "Rigorosamen-
genheiro francês, Vitor Renault, te Abgar não traduziu os poemas;
nascido nos primeiros anos? do tes últimos vinte anos, um co-
nhecimento tal do espírito do fê-los de novo". Esta lacônica
passado séciilo, e chegado ao Bra- anotação, com que concordo, con-
sil por volta de 1834, a se crer idioma, ém tôdas as sifea sutile-
zas, uma tão grande informação tém em si o mais perfeito elogio
em uma informação do ilustre sôbre a literatura britânica, clás- do trabalho . Entedarao-jios1, po-
capitão Richard Burton. Fixou- sica e moderna, nos seus mald rém, sôbre o exato significado
se em Minas, e, no correr de mui- variados aspectos, que se tornou desta nova feitura dos poemas
tos lustro®, viajou um pouco provàvelmente a maior autorida- traduzidos. Abgar Renault, com
aventuro.damente pela província. de brasileira em assuntos cultu- a sua versão portuguesa, constru-
Foi dos primeiros exploradores rais ingleses. Esta opinião não é, iu de novo os poemas no sentido
dos rios Doce, Mucuri e Paraca- aliád, minha, incapaz, que sou. de formal, isto é, soube apresentar
tu, companheiro, em tais em- Julgar em tal terreno, mas de a inspiração inglêsa sob uma for-
preitadas, de homens como Hal- uma erudita professora inglêsa, a ma de intimidade com a nossa
feld e Teófilo Otoni. Naqueles senhora Hull, nossa colega de maneira de dizer, o que evidente-
tempos de ensaio das estradas de congregação nos saudosos tempos mente facilita a transferência da
ferro, no Brasil, o progresso dos da Universidade do Distrito Fede- própria emoção contida nos ver-
transportes se fazia principal- ral. A senhora Hull disse-me, en- sos originais. Mas esta emoção é
mente pela melhoria e mecani- tão, que não conhecia no Brasil nitidamente inglêsa e i.rto senti-
zação da navegação fluvial, e, ninguém com a amplitude da cul- mos em cada página, em cada. ver-
neste terreno, as tentativas. leva- tura inglêsa de Abgar Renault. so do livro.
das a efeito na província de Mi- Esta circunstância é tanto mais O inglês, que Eça de Queiroz
nas são muito interessantes, e valiosa, e mesmo curiosa, quanto dizia ser um ponto de exclamação
bem mereciam um apurado estu- hlrto, ereto, silencioso, diante das
o poeta nunca se afastou do Bra- paisagens do mundo ê, de fato, um
do contemporâneo. Bjrton, no sil, e sô conhece a Inglaterra pe-
seu magnífico Explorations of los livros. Evidentemente atuou ser bastante perturbador. Na nos-
Hlffhlands of the Brazil, sempre aqui o velho esípírito aventureiro sa língua numerosae têm sido as
com aquele ar vagamente irôni- do avô loreno. O burocrata minu- tentativas de penetrar o mistério
co do inglês "tout court", como cioso, mineiro prudente e fraco essencial que paira por detrás da-
especialmente de inglês da era do estomago, hesita diante dos ba- queles cadhimbos, daqueles livros
vitoriana, perdido num país co- louçoa bravios do oceano, sente de cheque, daqueles goles consel-
mo o Império de então, nos fala o coração confranger-se à sim- enclosos de "whiakey", O próprio
do engenheiro loreno, (nascido ples lembrança do corrosivo ca- Eça tem uma carta maliciosa,
em Sie»ck) — que conheceu em rneiro com molho de ortelã, des- creio que nas NOTAS CONTEM-
Barbacena, "vice-cônsul de Fran- presível e infame Iguaria, símbo- PORÂNEAS, (não possuo aqui o
ça, médico homeopata, professor lo eterno do invencível mau gôs- livro â mão) onde apresenta al-
de matemática, geografia e his- guns traços psicológicos do Inglês
to britânico em matéria de culi- vistos através do pensamento de
tória". Tinha vivido entre tri- nária. Mas a vela da imagina-
bus selvagens, eBtudando-lhes as um cachorro. Ramalho Ortigão,
ção se planta no centro da me- hostil â Inglaterra, dá-nos dela,
línguas e os costumes. Fôra e'm- sa pedagógica e admtnistrlatlva, no seu JOHN BULL, um retrato
pregado da mina de Morro Ve- fêz dela uma nau aventurosa, e rancoroso, pintado por portugniês
lho, construtor de estradas, e era eis o bardo alçado pelos mares ainda opresso pelo tratado de Me-
compadre de tôdas as notabilida- imperiais. Poemas brasSIleiros thuen, mas neste livro, por tan-
deg barbacenenses. Além disto se traduzidos para o mais puro in- tos títulos delicioso, onde é ques-
sabe que Vitor Renault tem obras glês, poemas das Ilhas verti- tão de reiteradas líbações em ca-
publicadas, alguns livros didáti- dos para o mais escorrelto portu- sa de Eça, muitos choques que o
cos e um singular Teson o das guês, são exercícios habituais do espírito inglêa ocasiona ao tempe-
famílias ou enciclopédia dos co- avisado poeta. Temo-los visto ramento latino são fixados com
nhecimentos da vida prática, sem publicados em grandes diários e felicidade. Mais hem informado,
contar um interessante relatório em autorizadas revistas literárias. mais científico, porém, segura-
de uma exploração ao rio Mucu-, Agora, para gáudio dos amantes mente menoFj penetrante e menos

Janei ro de 1948 PANORAMA — 9

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vivo, e, porfanco menos Interes- rigoa: de um lado o estrangeiro desmesuradamente os olhos azuis,
sante para «Os A INGLATERRA seria levado a entrar em conflito e seguiam para morrer nos cam-
£>E HOJJ5, de Oliveira Martins. com a Inglaterra; de outro lado pos da Plandres, nas rochas da
No Brasil não têm sido, tampou- os ingleses rolariam por uma po- Grécia. A questão era morrer,
co, raros, os? ensaios sôbre a ve- lítica de fracassos, o que já se ve- acabar-se pela Inglaterra, partir
lha Britânica, a começar pelos rificou, mas de fracassos que po- e não voltar. Com a morte dos
famosas CARTAjS, do grande Rúi deriam se transformar em desas- poetas e dos outros que entrariam
Barbosa. Ainda recentemente tres". na História como um exército de gt
Hermes Lima publicou um livro Inútil acentuar a verdade desita M
onde recolhe observações e julga- sombras, a Inglaterra se salvaria. tu
consideração inicial. O conflito O clarim da vitória seria ouvido
mentos pessoais dos mais pene- entre a Inglaterra e a Europa se- por eles, deitados debaixo das PC
trantes. Mas, de tudo que tenho guiu-se a menos de três anos do sa
lido sôbre os ingleses, escrito por suas cruzes, e então poderiam es
livro de Belloc, E a política de dormir tranqüilos. Pobres rapa-
pena estrangeira, mesmo incluin- fracassos de Chamberlain, Hali- zes, como se enganaram! Passei ui
do os livros célebres de Salvador fax e quejandos quase se trans- |so
de Madariaga e André Siegried, certa vez uma tarde inteira va- ve
formou em desastre, e certamente, gando entre ai? pequenas cruzes
nada me impressionou tanto quan- se transformaria sem a presença Pa
to irtn pequenino ensaio1 de Hilal- alinhadas, nos campos da Flan-
milagrosa deste inglês típico que dres. Contavam-se por dezenas ita
re ^Belloc, intitulado modesta- é Clhurchili, embora muitos dos jlei
mente POUR MIBUX COMPR.EN- de milhares, iam até o horizonte,
seus compatriotas, ainda hoje, não e a relva começava a florir na- re
DRB L'ANGLATERRE CONTEM- compreendam bem o quanto ele quele mês de maio. Estávamos a : ac
PORAXNE. Neste livrinho, de es- é inglês. ca
cassas cento e cinqüenta páginas, poucas semanas da segunda heca-
Os poetas que Abgar Renault tombe, e ninguém mais duvidava, qt
estão condensadas algumas das traduziu viveram as duas guerras iao
mais sólidas observações e das na. Europa, de que ela viria. Um
mundiais, e alguns morreram den- inglês que tinha sido meu com- í ca
mais felizes sugestões que um es- tro delas. Viveram, portanto, o u
trangeiro poderá desejar, para se panheiro de viagem (partíramos
periodo de oscilação e de fraque- juntos de manhã, no mesmo au- ap
pôr em contacto com a cultura in- í ca
glesa. Em primeiro lugar reemi- za da Inglaterra, o periodo que tomóvel, de Bruxelas) olhava
tamos a especial categoria de Bel- André Siegried chama, com pro- aquelas oruzes de; chapéu na mão, P(
priedade, "a crise britânica do sé- cachimbo na bõca. De repente, pr
loc para empreender o trabalho. 1
m
Pilho de francês e de inglês, nas- culo vinte". São apenas vinte e apontando para longe, declarou-
cido perto de Paris, mas educa- um os poemas, e deles1 sómente a me com naturalidade que tinha se
do em Oxford, tendo feito o servi- última meia dúzia escrita por poe- estado em Ypres, que se batera ' isi
ço militar em França, mas optado tas da guerra atual. No entanto por ali, e que tinha impressão de pi
já se observa uma nítida separa- que todos aqueles tinham morri- i re
pela nacionalidade inglesa depois
de servir no exército, Belloc pos- ção entre as duas? épocas. A mais do inútllmente, porque a guerra !le
sui, afora a sua excepcional qua- leve inspeção, se verifica que os ia começar, A geração daquele ve
lidade intelectual e a sua finura poetas de hoje morrem não só- inglês foi a geração dos mártires, i Qâ
mente pela causa da guerra, mas não só da guerra como também da ni
de observador, o atributo prová- ra
também pela do mundo que a paz. Mártires de um momítrubso
velmente único, entre os escrito- ele se deverá seguir. Coisa muito
res atuais, de ser ao mesmo tem- egoísmo e de uma absurda incom-
diferente da que acontecia com preensão. Basta lermos Os versos te
po inglês e francês, insular' e con- sl
tinental. Amante e participante os poetas de há um quarto de sé- dos poetas jjyje estão morrendo
culo. Os quinze primeiros poe- desde1 1940, para nos convencermos d(
do espirito das Ilhas, mas com m
mas — muitos dos quais admirá- de que as suai? preocupações são
capacidade crítica para sentir-lhe veis —. nos colocam principal- al
as fraquezai?; aliando o "humor" multo diversas. Mag Seaton nos
mente em face dos problemas da adverte que os velhos chorarão Yí
britânico à ironia francesa, (coi- morte, do sacrifício e da vitória.
sas aliás bem diversas) observa- pelas cidades arrasadas sob as
oi que olha ao mesmo tempo de Há, mesmo, uma epécie de dese- bombas, mas breve morrerão tam- f?
fora e de dentro, ninguém pode, jo de martírio, naqueles rapazes bém, e os moços que vierem de- di
v dentemente, competir com êle quq partiam da sua ilha brumosa, pois, para recontruir as cidades,
na seguranQa dag experlências e esperando coroar-se no continen- .não terão mais por que chorar. te
te com as flores do sangue. Dei- Um outro, anônimo, fala dos erros q\
a lógica das conclusões. Par- xavam as noivas caladas, abrindo
tmdo das premissas basilares de da velha Inglaterra, mas confia 63
nas verdades que se acolhem en-
rra é um Es
IrLn I"
ar^oorático. tado
protestante e mer- tre o seuq círculos de colinas. E
W. J. Brown lembra que ps ho-
ras l nor VeZeS
a ^ 88 mais
^u- PANORAMA mens não morrem à-toa, que pre-
exolin * mais
'operadas Núm I — 2.a edição cisamos compreender as verdadea
desten 11 " 8 0 sentido pelas quais eles se batem, que pl
segue nos
nò 7° bUÍOS Be,loc
demonstrar
' à saciedade
«on- Avisamos a todos os in- precisamos defender aquelas "coi- di
a necessidade, para o estrangeiro, teressados que o Núm. I de sas simples, pelas quais oa ho- di
PANORiAMiA (edição exgo- mens morrem". L
,!LUm- ai daadoInglaterra,
preensão esforço demesmo
com- tada) deverá circular breve- Os poetas que Abgar Renault rr
Porque, como acentua ele com mente em 2.* edição, conten- com tanta mestria traduziu mos- IV
Profética visão - (o livro ^ do material novo (crítica e tram duas etapas de luta, duas Ic
cnto em fins de 1936); «^ão antologia) sôbre o poeta coisas de que a Inglaterra í?e fez ts
CARLOS DRUMDND DE campeã. Uma era sómente a da m
compreender a Inglaterra contem- vitória na guerra. Outra será a P1
porânea, por pouco que dure o ANDRADE.
equivoco comporta dois graves pe- da vitória na paz. sl
(PORTULANO — Págs. 70-76) d
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PANORAMA Janeiro de 1948

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A POESIA INGLESA E A GUERRA
ALVARO LINS

Durante muitos domingo» se- tavam o sentimento da poesia in- obra com a transposição' para o
guido» os leitores do Correio da glesa em face da guerra, o que inglês de outras obras estrangei-
Manhã têm encontrado quase pon- veio a ser uma iniciativa do "Cor- ras. Ao que Chesterton responde
tualmente um poemai inglês trans- reio da Manhã", com uma conse- com a evocação do que significava
portado para a lingua portugue- iquente repercussão em todo o traduzir no tempo de Chaucer; sig-
sa. Não preciso lembrar agora que pai» e até no estrangeiro. Pude nificava uma arte, e só no mun-
essa publicação veio a constituir assistir muita» vezes á operação do moderno veio a se tornar
um dos mais autênticos suces- literária com que estes poemas uma profissão. Uma obra supe-
sos da nossa vida literária. Hou- passavam de uma lingua parh. riormente wad.uzld» não será
ve uma espécie de surpresa, acom- outra e afirmo que era em to- apenas um recurso para os leitores
panhada de curiosidade, comple- dos os sentdos uma operação cria- que desconhecem as linguas es-
itada pela admiração. Tanto os dora, O sr. Abgar Renault estu- trangeiras. Ela há de ter uma
jletrados como o grande público da antes de tudo o "espírito" do tal integridade que poderá ser
poema, e depois as nuances, as lida e apreciada da mesma ma-
ireceberam os poemas como um neira poq um leitor que tenha um
acontecimento intelectual de mar- sutilezas, a» exigências, os mis-
cada importância. E não creio que térios da fôrma. Um trabalho igual conhecimento do ambas.
que se deva atribuir este êxito' Mas está claro que ao se tornar
que não vem só da Imaginação uma profissão o ofício de tra-
ao assunto dessa poesia, ao seu ou da inteligência, mas que dutor foi pouco a pouco se trans-
caráter de poesia da guerra. Ela exige as virtudes do exame, formando de trabalhç intelectual
não tem um estilo sensacional, não da meticulosidade. da paciên-
apresenta mesmo qualquer aspecto em trabalho manual. • Ao lendp
cia. da pesquisa, do equilíbrio. do profissionalismo comercial, no
j capaz de obter uma comoção pro- Ele se empenha sempre por uma entanto. continua a existir a
positada. Nenhuma palavra, '.de estrutura firme e segura, aquela trKdpção oomo uma (ante. To-
prapaganda ou de efeito violenta- que vem de uma união feliz do das as línguas apresentam tra-
mente conquistado. Somente no espírito- poético com o vocabulá- duções que se constituem obras
seu valor literário será lícito, por rio adequado. Ele se empenha, primas patrimônios da» suas res-
isso, situar qualquer explicação em suma pela composição, pela pectivas literaturas. Temos entre
| para essa unanimidade de louvo- construção, pelo estilo do poema. nós alguns tradutores que tam-
j res que tem levantado em todos os De duas ou três vêzes sei que o bém se elevam ao nível daque-
leitores. Duas circunstncias de- sr. Abgar Renault adiou a sua la categoria do conceito de Ches-
vem ser acentuadas na aprecia- publicação habitual porque esta- terton, o» que não fazem dessa
ção desses versjos em que se ma- va na pesquisa de uma palavra arte nem um comércio nem uma
nifestam duas gerações de guer- ou de um verso que queira subs- brincadeira. Está neste nú-
ra; a presença da mais verdadei- tituir, que havia escrito de uma mero, aliás, extremamente redu-
ra poesia inglêsa e a poética ar- forma que não lhe parecia Já zido o sr. Abgar Renault, que lo-
te criadora do seu tradutor bra- a mais perfeita, a mais jus- go se constituiu nesse gênero um
sileiro, o sr. Abgar Renault. B ta, a mais adequada. Traduzir mestre e um exemplo com os
desejando para êstes poemas uma assim, na verdade, passa a ser Poemas Ingleses do Guerra. Uma
maior cegurança e maior duração, uma verdadeira criação literária. circunstância — ao lado da in-
alguns dos seus amigos promove- B escrevendo uma introdução pa- competência, da ligeireza e da
ram a sua edição em volume. ra esse volume o »r. Carlos Drum- Irresponsabilidade — que muito
Agrada-me, de modo especial, mond de Andrade definiu muito contribue para o rebaixamento do
falar agora dos Poemas ingleses bem este aspecto do problema com nível da» traduções é o desencon-
do Guerra porque acompanhei de esta frase: "Rigorosamente, Ab- tro das duas línguas; um materia-
miílto perto o trabalho de tradu- gar não traduziu os poemas; fê- lista que traduz um católico, um
tor do sr. Abgar Renault e por- los de novo". ensaista que traduz um roman-
;! que esta é uma oportunidade de Usou iportanto o sr. Abgar Re- cista, um reacionário que traduz
exprimir a minha opinião sôbre nault de um direito ao colocar o um revolucionário. Vê-se que sen-
a figura literária desse poeta que seu nome como uim autor desses do um poeta procurou o sr, Abgar
1
encontra sempre argumentos pa- Poemas Ingleses de Guerra. Na Renault tradi.slr os poetas; que
ra se esconder da publicidade sob verdade êsse» poemas em duas lín- entre os poetas escolheu aqueles
qualquer aspecto. Na vida literá- guas são heje de dupla autoria. de uma literatura da »ua predile-
ria é um dos exemplos mais com- Nem por isso deixo de dar ao sr. çfio: a inglêsa; que entre os
pletos que conheço de modéstia, Abgar Renault o título de tradu- poetas ingleses elegeu aqueles que
de desconfiança de si mesmo, de tor, o que faço »ob o efeito de mais se ajustavam as preocupações
desambição, de amor á perfeição. uma intenção. Ela vem contri- de um homem de hoje; os da
Lembro-me que, há um ano, ao me buir para uma breve meditação guerra; que entre os poetas da
mostrar um destes poemas não ti- sôbre êsse ofício que o comércio guerra descobriu aqueles que es-
nha intenção nenhuma de os co- internacional das livrarias tornou tão mais de acordo com o» seus
locar num jornal ou numa revis- um trablho comum e muitas vezes sentimentos poéticos com o seus
ta. Parece que lhes reservava o mecânico. Parece-me que nin- ritmos com os seus metros, com a
mesmo destino dado aos próprios guém fêz ainda uma defesa mais sua maneira. Bfet.uou-se assim
poemas: o do conhecimento exclu- entusiástica do papel do tradutor um encontro natural, sem cálcu-
sivo de alguns amigos. Mas des- do que Chesterton no seu ensaio
de logo pude ver a oportunidade sobre Chaucer. Era Chaucer acu- los, sem artificio» sem outras
que havia em entregar aos bra- sado de muito ter traduzido, de exigências, que não fossem as do
sileiros estas vozes que interpre- ter formado uma parte da Sua trabalho literário. Temos des-
te modo os necessários elemen- sua vez Auden representa a voz funda quando conhecemos os seus1
tos para definir o sr. Abgar Re- apocalíptica da nova geração. En- destinos, quando sabemos que|
nault como espírito poético e co- tre Yeats o T. S. Eiiot está colo- houve uma harmonia trágica entrei
mo conhecedor da lingua e da cada a geração dos poetas que as suas vidas e as suas obras. E|
literatura da Inglaterra. Já co- morreram ou apenas lutaram na o tema mais constante destes poe-j
nhecíamos os traços mais caracte- guerra de 14, a geração a que mas Ó a morte. Estes poetaa se«
pertencem qiasi todos os poetas aproximavam da morte com uml
rísticos deüte "Ksquívo" poeta heroioo espírito poético.
mineiro; a sua poesia de espirito traduzidos pelo Sr. Abgar Renault.
Em Poemas Ingleses de Guerra Dizia o velho Brunetlere que o;
intimista, com uma forma tran- julgamento de um poeta deveria^
qüila, rigorosa, dominada. Ele a- encontramos Rupert Brooke que
hoje está comparado a Yeats co- ser realizado com a indagação do]
dotou os modelos do seu tempo, seu comportamento em face destes]
mas sem esquecer certon métodos mo um clássico da língua, com a
sua tradição de heroísmo, com a três temas ;a natureza, o amor e ai
e ritmos do verso tradicional. morte. Mas não será a poesia!
sua popularidade ainda não apaga-
B' um moderno que se apoia nos ga entre os jovens, com o seu fa- francesa, e sim a inglesa, aquela!
velhos elementos de uma cultura moso verso "In ihearts at peace, em que se pode examinar com
humanista e classica. E talvez under an English heaven", que to- mais rigor a atitude de um poetai
por essa formação tenha determi- dog os ingleses conservam de cor; em face da natureza, do amor ei
nado o seu gosto pela literatura Wilfred Owen com o seu verso da morte. Estas trêg palavras,!
inglesa tornando-se entre nós um "Death's extreme decrepltude". estes três sentimentos, estas trêdj
intermediário entre as duas lín- que é julgado o mais poderoso e realidades dominam tõda a poe-l
guas. Faz conferência para os in- o mais completo verso da guerra, sia inglesa desde Shakespeare até)
gleses sôbre a literatura brasilei- porque nas suas palavras está a o mais apagado dos vateg provin-l
ra. ao mesmo tempo <lue divulga imagem da desolação dos desertos cianos. E os poetas desta ántolo-i
no Brasil alguns poetas ingleses. campos de batalha da Flandres e gla dolocam estas três fontes dei
Tem revelado nesta obra não só da França, Slgfried Sassoon, com Inspiração sob o signo dos seusj
um conhecimento formal da lin- a sua amargura, com o seu de- trágicos destinos. Falam da mor-j
guagem inglesa, mas um conhe- sespero, luítando pela paz como te como de um inevitável futu-|
cimento interior e completo do um autêntico pacifista, e depois ro que se aproxima, falam da na-l
espírito da língua. Da Íngua in- de recusar tôdas as condecora- T.ureza e do amor como objetos!
glêsa e da língua portuguesa. Ne- ções que lhe foram oferecidas perdidos irremediàvelraente. Êles.)
nhuma dificuldade (e elas foram durante a guerra; Laurence Biny- sentem Já como que uma saúda-,
enormes, as espirituais como as on, com o seu tradicionalismo; de da vida que a guerra veio des-
formais) foi aqui evitada ou es- John McCrae com o "In Flanders truir. Lembra Rupert Brooke tô-j
camoteada. Nenhuma deixou de Fields." que foi eslcrito durante da a vida simples, todo o quoti-)
ser resolvida. Não realizou o sr. a batalha de Ipres e que logo se diano que Se vai acabar, cnquan-j
Abgar Renault uma tradução ar- tornou um dos mais célebres poe- to Edward Thomas sugere o amorj
bitrária ou livre, mas colocou em mas da lingua inglesa. Deve-se e a natureza, através de flores e|
nostia língua aquelas exigências de notar que estes poetas não falam namorados-
metro e de ritmo que os poemas da guerra como um distante te- "As flores que, durante a Páscoa, e.m |
traziam da sua lingua original. ma literário, na qualidade de cau- [profusão, |
Êle tudo fêz no sentido de fi- telosos diletantes, mas como sol- à hora do anoitecer, foram deixadas |
dados, como homens que lutaram no bosque, estão fazendo-nos lembrar
car fiel ao espirito e a forma de os homens que, ora longe do seu lar,
cada poeta ,ao mesmo tempo que e morreram em defesa da causa do deveriam com suas\ namoradas
criava um novo poema na lingua seu país. Alguns deles odiavam a tê-la-Si colhido, c nunca -mais as co- !
guerra, mas souberam ser cida- [lherão". j
Portuguesa. Este esforço expli-
cará o único defeito que se pode dãos da sua pátria. B muitos fo- Este amor impossível é o te-
indicar em algumas traduções: o ram os que morreram na guerra ma também dêstes versos de Dou-)
de uma ou outra construção de- de 1914) com na de 1939. Êles tes- glas Gibson:
masiado dura e pesada, o do em- temunham esta realidade: a de
prego de uma ou outra palavra que os homens de letras não são "...Nada existe mais, senão
menos bela ou poética. Quase to- este relogio cruel, testemunha calada
os frágeis e os Incapazes que tan- daquele crime —1 a luz que foi assas-
dos os autores destes poemas tos homens práticos julgam com [sinada
doristituem o que ohamam "a desdém que êles são também os a queIT1 '
nos olhos deste jovem par,[roubaram
geração de guerra", da guerra de cidadãos de um país com a cons-
1914. Êles sei encontram cdlocados o prazer prometido, o outro [tempo."
lado do
ciência integral e a responsabili-
na linha poética que vai de Yeats, dade completa dos seus deveres
a T.S. Bliot. O nomes principais Mas a imagem mais podero-
de homens. sa de toda eesa antologia está, ao |
da moderna poesia inglesa —
Yeats, Bliot e Auden — signi- Dos poetas qife figuram nesta meu ver, no poema "As tecedei- j
ficam três estilos diferentes. Do- antologia do sr. Abgar Renault ras", de Wilfrid Gibson; a daque-
minava Yeats o período mais ou muitos foram os que sucumbiram la mãe que tece um capuz para o ;
menjos slmbollsta que precedeu durante a guerra de 1914; Rupert filho, enquanto atrás dela "uma
a guerra de 1914. E ainda hoje Brooke, numa ilha grega; Wilfred sombra tece impieidcts-amente."
continua bem viva a influência Owen, na França, uma semana Em qualquer circunstancia, po-
dêsse irlandês muito mais artista antes do armistício: Edward TJio- rém, a sensação da morte não al-
e mtdto mais profundo que alguns mas, em Arras; John MacCrae, tora nestes poetas a disposição
slmbollstag do continente, com os no hospital de Wlmereux. E não com que avançam para oa seus
quaisi apresenta um ou outro tra- será destituída de interesse esta destinos. Nenhum deles está do-
ço comum: um Mateterlink ou um lembrança sôtíre o fím pessoal minado pelo» medo. As três estro-
Moréas. por exemplo. Em 1920 destes poetas ingleses. A leitura fcs ile William Noel Hodgson são
surgiu T. S. Ellot como renovador seus poemas de guerra provoca
uma comoção mais forte mais pro- (Oonclnl na pág. 32)
da língua poética inglesa. Por

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Abgar Renault e Rabindranath Tagore
CECÍLIA MEIRELES

Aquele que hoje nos traz alegria com sua sua comunicação com os homens e as paisagens.
presença, a que nos vai falar do grande lírico Esse caminho vai para, muito longe, e por êle
indú que se chamou Rabindranath Tagore, tem circulam pensamentos vagarosos, como nesta
passado sua vida de poeta em sigilo tão caute- descrição de paisagem anoitecida:
loso que me vejo forçada a quebrá-lo e me sinto
um pouco violenta com »sta apresentação. 'O dia adormece na tristeza do vale fundo,
Todos vós conheceis o Diretor do Departa- aIX «noite
I ^ t vai abrindo as asas lentamente no ar,
mento Nacional de Educação, que à Associação e, unida ao silêncio, é um instante de criação.
dos Servidores Civis da Brasil vem trazer, com a
honra de sua presença, o seguro encanto dc sua Aquele pressentimento do luar
palavra. Mas nem todos vás conhecer,Sts ialve lá longe, no horizonte grávido
o poeta que nessa pessoa viaja oculto — por- estremeceu em ondas as águas de um velho co-
[pação
que a poesia se obriga muitas vezes a ser secre -
creia, silenciosa, e dona dc solidões. — mar sem praia e sem fundo, mar convalso e
[pávido
0 caso de Abgar Renault não é freqüente
nas nossas letras: seus dois livros publicados em que o mundo vem todo desaguar.
são ambos traduções. Um, dc poemas ingleses
de guerra — de diferentes autoras, e o. outro "A O gado plácido e pesado
lua crescente", êsse oMorável poema de ente me- que pastava pacificamente pelo prado,
ei me ato pela infância, que escreveu o mesmo Ra- desapareceu do tempo, à iuz da lua cheia,
bindranalh Tagore de que hoje ouvir eis fdfar. e gravemente rumina a silenciosa eternidade que
[o rodeia:
No entanto, a produção poética de Ab\gar Essa visão do poeta vai-sa fazendo pouco a
Renault não deve ser pequena e êle mesmo con- pouco f antas mal, radiográfica, mostrundo-nos o
fessa a existência de dois livros inéditos: "Ele- interior a a profundidade cias coisas mais sim-
gia do tempo perdido" e "Sonetos antigos ^ —— ples, que ao espectador diário se apresentam na-
acrescentando, porém, que espera continuem iné- turais, planas, opacas.
ditos pára sempre. Percebe-se \depois de todas as transposições
Nessa declaração vai um desprendimento que, desprendido do humano, é ao inhumano, tal-
que se observa nas melhores páginas de sua poe- vez ao extra-humano que se dirigem seus passos,
sia. E o ter sido tradutor d'e poetas inglêses, c e sua voz.
do próprio Tagore concorda com o seu tom de No poema que se chama "Fidelidade", vê-se
ausência, de distância do mundo e de uma cer- o poeta unido a uma fonte maternal que o nutre
ta desilusão do humano, do terrestre, da apa- de lugares fora do mundo e à qual se prende
rência, — tom freqüente da poesia inglesa, e com uma paciência quase amarga, numa susten-
quase constante na lírica indú, mesmo quando tação ininteligível, secreta, e no entanto podaro-
sobre êle desiise, em algum instante, um tênue sa e inflexível no seu irrevelável poder:
véu de enamoramento passageiro por algum as-
pecto da vida, ou o rosto de alguma criatura. "Minha mãe, muitos sóis e muitas luas ja rolaram
E' alguma coisa assim que nos dizem, por [sóbre a infinita ausência
exemplo, aqueles seus versos: e nem um só dia deixei de recordar-te e de calado
[murmurar por ti.
"No dia neutro e cinzento,
igual ao meu pensamento, Do outro lado da vida vem-me o amargo alimento
tua aparição azul de que se nutrem a alma, a solidão ei o pensamento
— o milagre ide um momento — — o amargo alimento de que se nutrem para at-
toceu e vestiu de azul [cançar
o dia e o meu pensamento. as graças de nem sei que final anunciação
A tua presença aval
foi milagre de um momento Na Ireva ou na luz, acordado ou dormindo,
que passou... Meu pensamento recebo no fundo d» mim o doloroso alimento.
é um dia neutro e cinzento."
Ele enche de sêdes sem água a minha fome
São palavras de desapego aquelas que dizem: e de pedrento sal a minha bòca que arde.

"Já não sinto saudade de mais nada, Mas verte-me sangue no convulso coração
a não ser do comêço da escalada, e dá forçai à insubstituível, à terminanfe tristeza
quando o azul do horizonte era sem fim
e Deus criava de novo o mundo em mim. para vestir cada manhã os mesmos lidos fieis
renovar o pesar, o desconsolo, o cansaço de ser.
Mas a nostalgia do principio do mundo, da-
quilo que vimos primeiro, com os transparentes e, desfazendo o novelo do tempo já enrolado
olhos da infância, domina o poeta sem saudade recomeçar a vigília, a desesperança e a espera
— e é por êsse caminho abstraio que se faz a (Conclui na pág. 2 9}

Jauoiim de 1948 PANORAMA — 13

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A POESIA DE ABGAR RENAULT
(PEQUENA ANTOLOGIA):

Q yj K iLyl,

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cm 1 10 11 12 13 14 15 16 17
SONETO ANTIGO POEMETO MATINAL

Senhora, que fazer por merecer-vos, ABGAR KENAUI/r


Se inda vos não tehjho merecida
Apõs tanta crueza já sofrida El aire de la manana besa mi cara,
Dês o momento em que cheguei a ver-vos? y mi alma besa el aire leve de la manana.
Miro el paisaje lejano de. la ciudad
Que amoftrar-vos, e qme mais dizer-vos, cpie 'blanquea alegremente a lo lejos;
'Despois que esta minh'alma malferída que sonrie humananiente,
Hei posta no meu gesto, e com tal vida, una sonrisa blanca e.ii el tumulto de sus casas,
Sem que seu fim lograsse de mover-vos?
que trepan los flancos de Ias colinas azules y
Será que Vos não amo como devo [distantes,
Ou será que a ventura he agora y miran por los ojos abiertos de Ias ventanas.
A mi menos doçura que travor?

Que virtudes querels no que em mi levo Las siete. Va a comenzar la función.


Wra vos merecer, alta Sfenhora, El despertador de las sirenas agujerea liricamenle
Se só hei por virtude meu amor? el silencio dorado de la manana
Parece que la vida despierta ahora por vez pri-
(Inédito) (1922) [meira
y se restriega los ojos deslumbrada.
VIDRAÇA
Mi "Ford" abejea dentro de la manana,
No dia neutro e cinzento, y sube la vieja calle de mi barrío,
igual ao meu pensamento, cabrioleando, (bufando, fumando gasolina.
tua aparição azul, Mi "Ford", al cabriolear en los agujeros de la
— o milagre de um momento — [calle descalza,
teceu e vestiu de azul es un cabrito negro y prodigioso.
o dia e o meu pensamento.
A tua presença azul
foi milagre de um momento, El aire leve de la manana besa el radiador
oue passou. .. Meu pensamento y besa mi cara.
é um dia neutro e cinzento.
La infantilidad de todo mi ser
(Inédito)
asciende en la nubarra dorada de la manana.

PAISAGEM DO CHILE
NOTA — Este poema de Abgar Renault figura
Baixa a tarde rural sôbre Peulle na Antologia de Alberto Guillén: — POETAS JO-
Ai vem a noite com a sua visitação de escuros e si- VENES DE AMERICA — (Madri, 1930).
lêncios .
Paisagem de quatro dimensões murchando vcspe-
ralmente
CORO O
num sono antigo de sementes e raízes.
Cerra-se, úmido, o verde dos olhos dos lagos Demonio manejou o sol fraudulentamente
e forma um só veludo com as árvores, os prados
© as colinas e todos os raios convergiram verticais em chuva,
í sôbre o chão do aeroporto — esbraseado fôrno côr
de oca.
Vagos carneiros esparsos vão confundindo Seis árvores, um cachorro e tres galinhas organiza-
o seu último balido solitário ram uma agonia,
com flebeis falas fluviais que fogem. . . e um menino quasi nú ofereceu-nos por dois dol-
# , lares
Debruça-se o 'crepúsculo sôbre as águas, um tijolo requeimado de clôce de leite de cabra.
a tarde fria veste-se de branco nas alturas,
e os homens vão recolhendo á mansuetude das (Inédito)
herdades
nas almas maduras, cheias e leves
a certeza intemporal de uma Presença
na fácil perfeição de todas as cousas. 1 — Pequena localidade da Colombia.
A bordo do avião N.C. 28.304,, cm viagem para o Panamá,
(Inédito) depois de deixar Branquilla, Colômbia, a 24.9,1943.

Janeiro de 1948 PANORAMA 15

cm i 10 11 12 13 14 15 16
k*'' .

Endeixa do Funcionárii no Palacio da Educação

E porque sou esquerdo, antigo e triste, deve ter intimidades com o aeroporto. f Que nie importam elevadores prateados o telefone oficial quebrado, o paciente
(muito depois do 4'Mal Secreto" — lem- Gosto da terra firme, dura, de pedra, de ^ Ü1 tll ro
^ ^
P ' oe or
dentro e por fora estão [armário de livros,
[bram-se? — [parados? o retrato implacável na parede — o retrato
[chão ou de asfalto.
Vou querer é regressar ao Rex,
"Quanta gente que ri talvez existe. .— [eterno na resignada parede,
Valem menos no ar dez homens vivos; a Quero a água quente-do Rex,
ainda é possível rir e sorrir sem ter de que) o retrato muito eterno com as irremediáveis
[jacto, n campainha do Rex, o silêncio, o barulho do
não amo novidades, nem mudanças,
[Rex, [palavras por baixo:
e prefiro saudades a esperanças. do que na terra um homem semi-morto.
A educação física fará de cada criança um
Nada de prédio de vidro em que ar e luz en-
[cidadão útil à pátria."
[trem e se espalhem
Prefiro a mesa com o vidro quebrado do
com um método minucioso que sabe cada
[lado direito,
[canto, cada mesa, cada arqui- " zmmm
[v'o, cada gaveta. com a lista dos telefones importantes atrás
liiiá
Nada de máquinas batendo, nem de vozeios, V-v: [da cabeça da gente,
[à distância as paredes descascadas e sem, mais
(o marulho de um mar que nunca houve) : ai [esperança,
não amo os ruídos mesmo diluídos e difusos: entre as quais por cinco anos trabalhei,
[prefiro os silêncios concentra- ü
[sorri, danei-me, comi terra,
[dos,
[sorri de novo e sonhei.
às vêzes cheios de perguntas, mútuas per-
[guntas. Prefiro, sobretudo, a janela aberta para o
■H
Nada de partes a querer e requerer registros [poente
[de diploma, (a janela que nunca se fechava completa-
registros de professor, sobretudo de profes- [mente)
[sor (oh, sim! de professor!) . . í-;:. por onde entravam cada tarde, em "film"
a:
certidões, médias mais baixas, dispensa de [crepuscular,
[freqüência, -::: imitações da paisagem mineira que ama o
decretos de aprovação em tôdas as discipli- ....r
[meu olhar.
[nas de todos os cursos, , a J,. .
Não quero o novo, o grande, o claro, o alegre:
— tudo exigido em urgente voz por cima das prefiro a sala velha sem luz, sem, ar, sem
[paredes anãs.
[água gelada,
Não quero a visão incansável do mar
o prédio velho, sem jardim, sem estátuas nuas
afogando em seu verde sujo o meu olhar.
Já sei de cor todos os seus tridões e tôdas as [sem peixes, sem nada,
[suas sereias. nada do que de moderníssimo aqui existe,
V • ■
Nada do mar me fascina. E nem do ar: porque, por menos que pareça, sou esquerdo,
-
salvo o da Aeronáutica, nenhum Ministério [antigo e triste.

í .
Giüynard, VJly
, Janeiro de 1948
10 — PANORAMA Janeiro de 1948 PANORAMA — 17

10 11 12 13 14 15 16 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 3
i 11 — : ■

POEMAS TRADUZIDOS

Sirangeneéé o/ Tjeari Canto ■púnebre da 'Vitória


(1918)
(SIKGFRÍKD SASSOON) (BDWARD JOHN MORBTON DRAX
PLUNKETT, LORD DUNSANY)
Quanao eu' perder o dom de sentir a agonia
que sentia na infância .ouvindo, ao despertar, Não sopres teu clarim, Vitória, ao flrmamento,
uma ave no jardim deacuidosa a cantar nem entre os batalhões, nem junto ás baterias.
me extranhas cousas d'alma, assim qce o sol rompia; Vai às covas, onde entre o arame ferrugento
e o ferro velho ao pê do qual a artilharia
quando na primavera, ao: lento fim do dia, I
nos caminhos1 orlando o bosque rumo ao lar rumo ao leste passou, tal a maré enchendo.
me detlver sem dor quando o tordo trinar: .estão os que morreram já há longos dias;
não fôr a criança mais, que em sufepenso assistia a Ia sopra teu clarim, Vitória, e te anunciai
aos mortos que tanto esperaram teu advento.
tantos poentes morrer sem nunca ter podido
dizer que vozes vãs chamavam da distância. . . Não somo." nós que merecemos a coroa.
quando eu houver perdido encantamentos tais, Eles entre ervas que sei alteava.m esperaram.
Queimava ao bafo da íermlte o lamaçal.
que num canto aem voz piijnham meu ser em ansia,
que eu me vá para sempre: eu já terei ouvido A oasaria esquecida o alvo inverno estalou-a.
a morte, e saberei que já vivi demais. Passaram estações, mil noites flamejaram,
e a êles tu chegaste, afinal, afinal!
(Inédito)
(Inédito)
/
A 'partida
(1918) Cbild IVeeping in the diigbi
(WILFRED OWEN) (CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

De peitos todos brancos de festões e ramos, ■ In the slow, warm niglit, dead, noiseless tiight, a
como os peitos dos homens que estão mortas, ctalld weeps.
pelas ruelas sem luz marchavam a cantar, Its weeptng hehlnd the wall and the light hehfcid
the vvlndow — pane
seguindo para a plataforma do desvio vanish away in the dark of silent stops, of wom-
e enchendo o irem de rostos cruelmente ale- out-voices.
gres. Yet, one hearg the soft sound of the drops of me-
dicine as they drip into the spocm.
Rudes carregadores, attentos, espiavam, A child weeps In, the night, hehiiul the wall he-
ind tlie street,
e um vagabundo ali ficou postado a olhar, a child weeps far away, perhaps in another town,.
triste por não os ver lá de cima do campo. perhaps in another world.
Indifferentcmente, eis que os signaes são And I see the hand that llfts the spoon atifl the
dados, lutnd that props its liead;
e depois para o giw.rda uma lanterna pisca. and the oily drops tliat flow down the child's ehin
flow down the street, flow across the town (only a
few drops) .
Tão em segredo como os crimes que se oc- And there is no one else In the world 'nit thls
cultam, child weeping.
partiram. Não eram dos nossos companhei- (Inédito)
ros.
Nunca soubemos a que frente eram manda-
dos, ^iapoleão
nem se onde estão zombam ainda da intenção (WALTKR DE LA MARE)
que tinham as mulheres que lhes deram flores. Que é êste mundo, ó soldados?
— Sou eu;
Ao badalar de grandes sinos, voltarão
em ruidosos trens repletos ? A note incessante — eu
Talvez alguns (bem poucos para rufos... vi- êste céu do norte — eu;
vas!) e a solidão,, soldados,
aos buracos de alguma aldeia arrastar-se-ão, pela qual nós marchamos
calados, a subir mal sabidos caminhos. sou eu.
(Inédito) (Inédito)

18 panorama Janeiro de 1948


11

Qwc vozeé reéponderão ?... Soneto antigo

Que formas revestirás ao perderes as formas do


tempo e do espaço? Atentai bem em minha, natureza;
Que vozes, de estrangeira prosódia, responderão Meu parecer fitai, e o coração;
aos teus gritos escuros sob a terra? N'hum qual n'outro achareis só aspereza,
Que luzes aclararão a treva que penetrar teu espí- E indigência, Senhora, e imperfeição.
rito e teus sentidos?
Qite braços te ampararão, quando resvalares no
E em sendo tudo em mi só impureza,
abismo de todos os abismos,
levando de roldão passado, presente e futuro? Que anda a dizer de mi vossa razão?
Que caminhos, de inesperados contornos e subi- Mas os olhos' de amor só vêem beleza
tâneas curvas, Em tudo quanto poisa seu clarão.
guiarão os teus passos perdidos?
Que inéditas viciysitudes tocarão a tua alma, Olhai-me com amor, e em vossa mente
e em que insólitas dimensões Ide pintando com amor que tenho
nioveráa a tua consciência ou a tua ínconsclência? Tudo, Senhora, que almejara ter.
Que sono sem sonhos, espera o teu cansaço sem
limites, E em meu ser haverei seguramente
o cansaço da tua alma, dos teus olhos, da tua voz,
A arte, a força, o saber, e todo o engenho,
do teu coração?
Km que plácido mar Indiferente, de águas grossas Que amor me der, e em mi quiserdes ver.
e pesadas,
desaguará o férvido fio dágua do teu pensamento? (Inédito) (1922)

Em que finais esouridões, do outro lado da treva, JniertuòiO


íundirfts, um dia, a tua ansiedade de viver,
6
que frágil momento de um quadrante que não
verás Eu estou vendo a vossa clara mocidade
aniquilará subitamente essa infinita angústia de e a inocência ida sua fantasia
Imortalidade?
misturadas com as flores do jardim;
sinto que a vossa efêmera alegria
é uma fkiida, infantil eternidade
TLreva e 'pedra dentro da tarde de um azul sem fim,
sob o céu aberto, sem tempo, sem horizonte;
dançado por um céu sem tempestade, estou ouvindo a fresca música da fonte,
claras nuvens de surpresa e de verdade, que entre avencas e tinhorões intimamente corre
0
ralo ardeu azul e me feriu':
11
Poesia de uido se esvaiu, e se insinua em meio à verde alfombra,
tudo ficou sendo pedra e treva, entretecer-se com o ritmo dos alados gestos
q caminho que traz e o caminho que leva, em que se despetalam os vossos corpos lestos,
9,8
preces, as blasfêmias, estas queixas, com o murmúrio ida voz transparente que escorre
vestes, o ar, o pão, o vinho, e os peixes
do cristal das vossas bocas breves
rios e no mar sem movimento, '
ampulheta se encheu de pedra e treva num mo- com a invi&ivel espuma dos risos leves
mento, que saltam das vossas almas sem sombra de
0 .1
silêncio da morte, os sons, a vida e os astros todos [sombra,
c
a.rregados de fogo, da éter e quimera. com a luz límpida que alaga o vosso olhar
e dele se debruça e se espraia pelo ar,
Sara é bom ficar de bruiços no profundo, criando uma canção remota e distraída
maig dormir, aqui onde não há mais mundo,
lüi — no vale antigo só de lobos — — a derradeira graça qiuc jorra do coração trá-
espera, [gico da vida.
ln
Wli'o de 194S panorama 19

cm i 10 11 12 13 14 15 16 17
y ..'
A Canção do Barqueiro

XL I
Tímida bolha,

O Barqueiro está longe, atravessando, de noite, o mar bravlo. foi um céu no ar;
O mastro está penando ao peso das velas enfunadas, cheia do ven- frágil sorriso,
to violento.
Ferido pelo garra da noite, tomba sôhrd o mar o fi nmmento, riu sob uns olhos;
venenado de escuro pavor. breve palavra,
As ondas arrojam as cristas contra a invisível escuridão, e o Bar-
queiro está longe atravessando o mar l»avio. acendeu lumes
e creou mundos;
*
passa ro azul,

O Barqueiro está longe ( não sei para <1- eneonlt o. . .), sobres- fendeu as nuvens,
saltando a noite com a lnespe;ada bra.reura de suas velas!
trouxe nas asas
Não sei em que praia desce ele finalmente para aleançar o pat
silencioso onde a lampada está ardendo e para achar Aquela que as- memórias de astros
sentada na poeira espera .
c de distâncias;
Que baseará êle para que seu barco afronte, a tempestade e a es-
curidão ? agua de fonte,
Carregado estaiá de jóias e de pérolas?
olhos lavou
Não, o Barqueiro não traz tesouro nenhum, mas apenas, na mão,
uma rosa que é branca e uma canção nos lábios. de muda insônia,
A canção c a flor são para Aquela que. solitária, á noite vela, com matou a sede
sua lampada ardendo. . .
Ela mora na cabana á margem do caminho. a mãos febris
Os seus cabelos soltos voam ao vento e escondem-lbe os olhos. e acêsa boca;
A tempestade grita agudamente através das portas quebradas, e
agua de fonte
a luz tremula na lâmpada de barro, lançando sombras nas paredes...
No uivo dos ventos ela o escuta chamando por seu nome, ela cujo que flue em vinho,
nome é desconliccido.
embebedou
Há muito tempo que o Banqueiro já partiu, e multo tempo aluda
passará até que raie o dia e ele bata á porta. a alma bifronte
e o corpo triste.
*
Breve palavra,
frágil sorriso,
Os tambores não serão tocados, e ninguém saberá.
Apenas, a luz encherá a casa, a poeira será abençoada, e alegrar- tímiaa bolha:
so-á o coração. surdo silêncio
Todas as dúvidas no sildaclo se desvanecei ão, quando o Barquei-
no lábio amargo,
ro aparecer na praia.
noite no olhar,
simples ar no ar.
(Abgar Renault
COLHEITAS DE FRUTOS Mas foi a vida.
de Rabindranath Tagore
Livraria José Olímpio EdltSra) (Inédif
20 panorama
Janeiro de
m

ABGAR RENAULT, PROSADOR


(PEQUENA ANTOLOGIA):

Centenário do Barão do Rio Branco f1]

As nações constituem-fíe, em que vem o seu fascínio carismá- tre elas nexo político e integran-
grande parte, de uma trama de tico? Não tem origem tão sõ nos do-as na unidade nacional. Sabe
Imponderáveis; os seus hábitos, -8S3.622 km2 que, segundo os cál- e^ sente que às áreas geográficas
os seus costumes, a su£t aensitaili- culos de. Basilio de Magalhães, re- hão de forçosamente corresponder
I dade específica, a sua cultvt-a, a integrou prodigiosamente na ri- áreas demográficas, isto é, políti-
sua religiosidade, o seu sentimen- queza territorial do Brasil. A se- cas: para usar a expressão do prin-
to da terra, o seu corpo de tradi- dução do seu prestigio está, por cípio arístotélico, a que, aliás, fa-
çes — verdadeiro tecido conjun- igual, nos fatos imperecíveis de lece hoje verdade como explicaão
tivo que une e aglutina elementos que, em relação ao nosso territó- científica, mas qute nada perdeu
não apenas no espaço, senão ainda rio e ás suas fronteiras, a sua obra de sua excelência como imagem —
nessa outra dimensão que é o é, substancialmente, obra de de- em política, tal como em física,
tempo,, permitindo que o presen- fesa nacional e de que êle foi um a natureza tem (horror ao vácuo.
te seja uma projeção do passado criador de tradições: criou uma
e uma prospeoção do futuro. Sem atitude e uma linha de compro- Oa exemplos ilustres, da sua
esse prodigioso tecido conjuntivo, misso e de procedimento para o vida pública transformaram-se em
o que é forma, continuidade, coe- Brasil diante não só dos 31 países tradições da política internacio-
rência, ordem e perpetuação hou- com que firmou pactos, senão ipe nal do Brasil, a qual fundamente
vera de tombar no domínio do rante tõda a comunidade interna- vincou, dia por dia. não com as
impreciso, do precário, do desor- cional . Essa atitude e essa linha virtudes levianas e movediças dos
denado o do efêmero. São essas ■de procedimento constituem pre- plolíticos, (mas (com as Virtudes
fôrças, presentes na indefinida clara avenida, lançada por entre o severas do homem de Estado.
íongura dos caminhos do tempo, jogo denso e feroz dos desapode- Devem nele constlttutr objeto de
que regem imperiosamente o cres- rados interesses das nações. culto e de Imitação a energia do
cimento e a maturidade das na- O universal era a sua província, querer, a paciência, a fidelidade
ções. Mas a sua existência não é mas, como o universal ^'ó existe à vocação, o gôato da pesquisa, do
um arbítrio do acaso, nem ocor- em relação ao particular, ou na- debate e da rixa intelectual, a cul-
i'e por si mesma, ingenuamente: cional, êsso fato contribuiu, ao in- tura, o ponderoso bom senso, a
essas fôrças míticas só existem em vés de obstar, ao seu soberano capacidade de renúncia, a devoção
razão do homen, que é o ponto sentimento do Brasil que rege tô- ao ideal, o amor ao Brasil.
de convergência e de irradiação da a sua vida e tóda a suai obra, Ao "evocar da noite pelágica da
<lo universo, o demiurgo de pro- cada vez mais irredutível através
díglos! cujo império conforma, al- Hjstõria a sua figura ecumêni-
das viagens numerosas e do dila- ca, trazendo-a de novo ao plano
tera, destrói e cria as cousas sen- tado período de residência no es- do circunstancial, o que fazemos
síveis ou imponderáveis e o pró- trangeiro nos quais alargou e en-
prio fato universal, como realida- não é apenas honrar-lhe a egrégia
riqueceu a sua cultura e a sua ex- memória, para a qual se volvem,
de ou representação. periência humana.
Ora, essa forma, essa fôrça, es- num assomo de irreprimível pola-
O laço entre o particular e o Tidade, os pensamentos e os co-
se esplendor que evocamos e re- universal confere-lhe fôrça trans-
verenciamos neste momento, em vidente ao olhar aquilino, que tudo rações: é também reaprender a
home do Brasil, êsse poder cria- abrange, perquire e interroga, ven- nossa fé na justiça e no direito
dor pertence efetivamente ao gru- do as cousas, que não têm, em re- com êsse que foi cm dos funda-
po escasso dos maiores exemipla- gra, para olhos comuns, forma, dores do Brasil.
fes da categoria "homem" — oa nem côr, nem volume próprios, na
que acrescem ou restauram ou es- nitidez e na exatidão dos seu vo-
tpatificam algu;ma couda dos agru- lume, da sf» có1- e ^ sua. forma-
pamentos sociais, tecem
6
a trama O técnico em assuntos interna-
a urdidura das suas1 tradições e, cionais ei recalcado ao segundo ou
Por isto, fundam as nacionalida- ao terceiro plano pelo homem de
des . Estado, qi'.e do técnico Se extre-
Ele, foi e, em verdade, continua ma na universalidade da visão e
a
ser uma fôrça demiúrgica, por- na escolha que sempre faz, sem
que os atos cm que se imortalizou hesitar, entre as categorias mole- (1) — Discurso proferido pelo poe
®ão se exgotaram com o serem culares e as categorias molares. ta Abgar Renault, quando
"Praticados, nem se lhes vasou o Assim, já não são os olhos do téc- exercia o cargo de Diretor Ge-
Çonteddo: os seus efeitos, como nico, mas os olhos do homem de ral do Departamento Nacional
Ps de certas substâncias dotadas de Educação, como re-presen-
l(5e
9uma capacidade d? persisten- Estado, que compreendem a ne-
c cessidade de remodelar © rearmar tante do Ministro da Educa-
ia e "difusão, foram mais dilata- ção, na inauguração do mo- S
dos do qvle o âmbito físico no qual o exército, de sanear a Capital da
s República e de criar um sistema numento ao Barão do Rio
e Produziram, e alteararn-se a1êm Branco, no Rio de Janeiro em
das circunstâncias temporais. Mas de articulação e circulação entre
ae zonas remotas do país, criando en- 1945.
que vinha e, ainda ho; . de

■Tanciiro de 104,S PANORAMA 21

cm 12 3 10 11 12 13 14 15 16 17
A EXPRESSÃO ACIMA DE TUDO
Aires da Mata MACHADO FILHO
norte-ameri pressão. Fatalmente, reper-
No panorama da nossa cul- universidades
cute em todo o ser, o privilé-
tura, registram-se casos de canas.
variada aptidão, rebeldes de Estava fadado a exercer gio de expressar poesia.
Próprio do poeta é "alian-
todo em todo, à classificação em sua terra, o alto cargo de
ça com as palavras". Já o
do analista. São inteligências Secretário da Educação. O
que borboleteiam. Perpassan- discurso de posse, na frase disse um dos maiores que te-
substanciosa de máscula be- mos, Carlos Drumond de An-
do de assunto em assunto,
drade, precisamente a pro-
pousam rápido, para logo leza, como na segurança da
pósito de Abgar Rénault. Es-
desferirem o vôo incerto de crítica e nos propósitos de-
quem, não se encontra, por- clarados, permite-nos apontar sa aliança supõe combativi-
dade, na anciosa procura e na
que nem se procura. Dei- a nota fundamental, na fecun-
penosa realização. É ofensi-
xam de fixar-se por superfi- da variedade de sua inquietu-
cialidade. de. No limiar da gestão o va e defensiva. O aliado das
secretário insistiu na primor- palavras coloca o mais alto
Outros são diferentes. Li- ideal de plenitude, na expres-
dam com diversos registros, dial importância da expres- são da humanidade de cada
em busca de combinações no- são adequada. Aqui temos a
um mediante a expressão
vas. Mantêm harmonia, na razão de ser da evidente har- perfeita e acabada.
discrepância aparente. Pode monia. Preocupações de es-
encontrar-se denominador de critor, pesquisas de erudito, Atitude assim, polariza atos,
meditações de educador, de- inspira resoluções. Serve de
tal unidade, se quisermos a
norte a uma vida inteira pois
chave da personalidade inco- sinteressada visão de políti- o que ha mais excelente no
mum. co, tudo converge na valori-
zação do homem através da homem bem pode encher
No espírito de Abgar Re- uma existência humana.
nault, multiciplicidade e uni- beleza e da fidelidade da ex-
cidade se compõem. Conser- *
vando-se igual a si mesmo,
tem-se desdobrado em ativi-
Abgar Renault * poesia inglesa e a guerra
dades diferentes.
O espírito público, raro (Conclusão da pâg-, 12)
(Conclusão da págr. 6)
dom do político verdadeiro, três orações com estes versos que
levou -o a preferir as cansa- leiia de Letras" — Vols. 59 e 63 a» concluem respectivamente:
das e apagadas tarefas admi- — Rio, 1942; HERMES FOX- ^Senhor, de mim faze um soldado".
nistrativas à urdidura deda- tes — UM POETA DE MINAS — Faze de mim, Senhor, um homem".
"A Careta" — Rio, 18-7-25; Jo- Senhor, ajuda-me a morrer".
res e tomares, de que a sen-
sé Bezerra Gomes /— NOTICIA Por nua vez, Allan Seeger re-
sibilidade costuma sair mal- corda a sua entrevista com a
ferida. Sem embargo, pôde SOBRE O GRUPO MODERNIS-
TA DE MINAS — "Boletim de morte:
ser convocado às obrigações Arlel" — Rio, julho, 1935; LA "Mas tenho uma entrevista com a
do poder, no Legislativo Es- REVISTA AMERICANA DE BUE- numa cidade em fogo à meia-noite, [Morte
tadual da Primeira Repúbli- NOS AIRES — Buenos Ayres, ao ir a Primavera para o norte-
ca, pela via normal do sufrá- março de 1933; Otávio de Faria serei fiel à palavra que empenhei:
jamais a esta entrevista faltarei".
gio popular. No jovem depu- — REGISTO LITERÁRIO —
tado reponta o educador. Foi "Boi. de AJriel" — Rio, janeiro, Penso, porém, que se devem ler
talvez o primeiro que entre 1937; Oscar Mendes — O MOVI- e guardar como um cântico final,
nós preconizou um fundo es- MENTO INTELECTUAL EM MT- como uma voz qule representa to-
dos os poetas e todos os homens
pecial de educação, constituí- NAS — "AjiUíário Brasileiro de 6 oa voll
Literatura" — Rio, 1938; "Revis- pacifista Siegfried tade, estes versos do
do de taxas com aplicaçã» Sassoon, estas
a
previamente determinada. ta do Brasil" — 3. fase — Rio, palavras de paz e de compreensão:
Do contato com a juventude, agosto, 1941; Valdemar Cavalcan- "Mas o passado é um só: gperra é
•fem aulas de injglês e portu- ti — POEMAS INGLESES DE tnni jogo sangrento.
guês, passou a diretor do De- GUERRA — "Rev. do Brasil" — Já esqueoeste? Baixa os olhos para a
partamento Nacional de Edu- 3." fase — P.io, julho, 42; Carlos E jura pelos que morreram 'nesta
Drnmmoud de Andrade — NOTA „ [guerra,
cação, a conferencista que SOBRE ABGAR RENAULT (Jue nunca esqueecrás".
prelecionou sôbre temas de "Revista Acadêmica" — Rio, (JORNAL DE CRITICA 3.'
literatura e pedagogia, em 1942. Série — Págs. 243 — 251)

cm l 14
O POETA ABGAR RENAULT

ARTHUR VERSIANI VELLÔSO

Era aí por volta do 1921 a sas. Assim relelo peças de De- se encontraria como que um re-
19 23, na casa do dr. Leon, em lavigne, Banville, Heredia e Gue- nascimento da poesia no que ela
rua tranqüila, aombreada. por rin de envolta com Raul de Leo- pode ter de imprevisto e espon-
enormes nogueiras. Ao lado do ni, A. J. Pereira da Silva, Her- tâneo nas suas formas novas. Qufe
alpendre simples e amigo havia mes Fontes e o caro e eterno Al- o poeta Abgar Renault nos per-
um jardim com camélias e mana- phonsus. Isso apanhado assim dôe a indiscreção dessas pobres
cás, emergindo no íundo um a esmo, que a coleção posto es- v palavras e a leve em conta de ser
grande tuto de amorelras. Dian- colhida vai longe. E muitos,, tra- sua poesia também um pouco de
te, ficava o famoso pomar do Dr. balhos seus, dêle Abgar. Lembra- todas nós, 'da nossa adolescên-
Gustavo Pena, murado a japone- me muito bem a roda que se fa- ,cia, um pouco daquele tempo em
sa. e repleto de plantais raras, zia então espontaneamente na que havia manhãs, infellzmente-
mimo e desvanecimento de seu sua casa para ouvir a sua leitu- já agora tão distantes. . .
dono, orquidófilo consumado, e ra, Mas agora tomam-me os es-
mais, requintado galantuomo. crúpulos. Sei quanto Abgar Re-
nault aborrece esta casta de re-
Foi nesse alpendre, em ines- ferências. Para nós foi sempre Poemas Ingleses
quecíveis tardes daquele tempo, uma surpresa aquela sua cons-
que tomamos conhecimento, por tante preocupação de recato no de Guerra
intermédio do Abgar, de Baudelai- sentido artístico e o seu sincero
re, Verlalne, Mallarmé e Rim- desamor aos clangores da publi-
baud, em largas e dilatadas letras, cidade. JOXO AIPHONSUS
somente interrompidas talvez às
sextas-feiras, qvíando íamos à Eis aí um homem que sempre Carlod Drumond de Andrade
tradicional sessão Fox do Odeon. adorou a poesia e sendo êle mes- fez para a coletânea de traduções
mo um grande poeta não per- uma Introdução que assim acaba:
Mas não eram aquelas acaso as mite pela sua superior dlscreçâo
preferências do poeta Abgar, que "Abgar Renault fez bem, em cap-
pessoal qualquer relato mesmo de-
Já o era, e notável. Se fossemos safetado e verdadeiro à sua pro- tar essas vozes graves e límpidas,
sugerf-las, pelo menos as daque- dução poética. São poucos efe- emergindo do rumor de metra-
le tempo, e que porventura lhe tivamente os trabalhos que deu lhadoras, aviões de mergulho e
influisiem no estro, lembraríamos à publicação. B são varias as discursos de propaganda. Elas
antes Albert Samain, Jean Mo- fases porque passou no seu envol- noa confortam e nos determi-
réas, Verhaeren ou Rodenbach. volvimento estético. Falar nos nam . Realmente, o poeta não tem
■Sei que o poeta sorrirá irônico seus "Sonetos Antigos", que re- partido. Mas os paridos, como se
ante essa pretensa afinidade. Mas cordam trovadores, segrels e Jo- sabe, perderam toda significação,
o caso é que tenho em mãos um grais, e trazem à zona da memó- de tal modo foram superados pe-
caderno (o tal que sempre sôe ria esses .Toachim Du Bellay, Ron- los acontecimentos. Entre estes,
chamar-se comprometedor) data- sard, Maro, e Saint Gelais, que e resltlndo à pressão de todas as
do de maio de 1921, com magní- liamos em casa de Leon Renault, forças desmoralizadoras, chamem-
ficos sonetos e esplêndidos poe- misturados com os poetas de uma se fascismo cu qualquer outro no-
mas acus, onde não iria mal a famossissima Chreathomatla Ar-
parentela. Ocioso dizer que já me, o poeta é um guia firme, que
jDhiuca que o Livio certa vez des- dá gosto seguir. Ela nos salva
naquele tempo Abgar versava per- cobriu na biblioteca do mesmo dr.
feitamente a língua inglêaa e ado- das pequenas e grandes confusões
Leon, seria acaso transpor os li-
bava os seus poetas. Dou o teste- mites de uma certa reserva que do momento, nos tira a perplexi-
munho, que lhe fui aluno, e mau, o poeta Abgar nos impoz sempre, dade, varre de nós ao mesmo tem-
Por nue já em vesperas de ves- e naturalmente pelo seu próprio po o otimismo e o pessimiomo cir-
tibular, e mais, porque forrado feitio e modo de ser. O que pos- cunstanciais. Ensina-nos a consi-
de francês até os ossos, que so asseverar, relendo-os agora de derar a guerra e mesmo a dela
ãsse era o idioma estrangeiro, o novo, e com uma perspectiva já participar, sem que nos torne-
Qual desde o ginásio, felizes tem- tão distante, é serem êles algo de mos simples instrumento de eco-
pos! não faiavamos, mas liamos singular e raro, na sua fôrma e noniias em luta; exige de nós que
6
cntendiamos corretamente. ■conteúdo, dentro da história da sejamos realmente solidários com
De sorte qde sõ muito mais poesia brasileira. as coisas que amamos:
tarde vim a conhecer o Abgar Transitando desses trabalhos
dos poetas ingleses, primoroso para os que denominaríamos de "As coisas simples pelas quais
c
omo sempre, como sempre des- poemas modernos, para este "No- os homens morrem".
toando de forma chocante dessa turno" por exemplo, deixando es-
vulgaridade poética que por ai se quecidos tantos e tantos sonetos Esta última frase é o último
encontra. Mas, naquele caderno, que o fariam dos grandes poetas verão do poema de W. J. Brown
0
maldito caderno! rastrelo ainda nacionais, iríamos perseguir um ,d 1941, à pág. 39, e encerra um
as suas predileçôes daquele tem- novo filão menos conhecido aca- Instante de iluminação de que só
po, que se faziam também nos- so ainda que os demais e onde os poetas são capazes.

Jaiieüpo de 1948 PANORAMA 23

1
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O JOVEM ABGAR
Mário Casasanta

Sinto-me quase obrigado a quando os compôs, com a an- panheiros. Conquistou, desde
jurar suspeição, quando tenho .cipação de um privilegiado. cedo, o conceito de que a vi-
de falar de Abgar Renault, de Estudava não menos o inglês, da, por melhor que seja, é
tal modo o admiro e lhe quero. que veio a constituir, idlentro realmente aquele "oficio difí-
Encontramo-nos pela primei- i pouco, uma paixão. Na cil", dte que fala Machado, e,
ra vez, nos primeiros dias do verdade, não se contentou, des- pois4 impõe-se-nos encarar os
ano letivo de 1920, na Facul- ta feita, com a facilidade. Me- homens com piedade e indul-
dade de Direito. Cursava, co- tem-se fundo na gramática c n; gência.
mo eu, o primeiro ano. Estu- licionário, estudou os m,estres Já na A,cademia, Abgar Re-
dava o seu Direito, o quanthm ia literatura inglesa com a de- nault tinha, ao lado de amiza-
sutis para tirar distinção; mas terminação de um acabado des brilhantes, dedicações obs-
as letras constituíam o grande scholar, rabiscou as margens curas, com a virtude bem rara
cuidado de sua vida. das obras com infinitas após- de ter amigos de várias espé-
Lia muito, com admirável tatas. Conseguiu reunir uma cies e camadas. Çomo a casa
curiosidade, e, se não lia tudo, opulenta biblioteca de filologia ■de Deus, o seu coração dispu-
é porque desde cedo soube se- inglesa, que revolve e esquadri- nha de muitos lugares, a to-
lecionar os seus modelos e nha, com a paciência de um os um bom sorriso ou uma
guias, Oom singular discerni- beneditino. boa palavra, nunca houve ser-
mento . Folheei um desses livros, há viço, que pudesse prestar, que
Lembra-me que gostava de pouco tempo, com verdadeiro o não prestasse, fôsse o ' que
conversar sôbire Anatole Fran- estupor à vista das notas, por- fôsse, com a solicitude de quem
ce e Remy de Gourmont, Tai- -me nunca me passou pela ca- estivesse trabalhando para gen-
ne c Mérimée. Devo-lbe o co- beça que êsse homem de tão te de casa.
necimento de Sthendal, e, en- fácil aprendizagem fôsse capaz A vida, que tanto deforma
re os poetas, dle Francis Jam- de tão árduo esforço. os homens, não o mudou. Guar-
raes. Dessa forma, lendo, meditan- da na maturi.dlaidle os mesmos
Quanto à nossa lingua, entre do, escrevendo, falando, fez-se poderes de compreensão de
os portugueses, conheceu bem Abgar Renault o que é, e vem generosidade e de alegria da
Camilo, Herculano, Garret, Fia- a ser um dos mais finos e sá- juventude. Temos passado tem-
lho, Ramalho, Eça, e, entre os bios humanistas de nossa terra. poradas sem nos vermos. e,
brasileiros, Machado, Euclides, Dotadto de sólida cultura ge- quando nos encontramos,' nun-
Nabuco, Bilac e Raimundo. ■al, a que um gôsto apurado ca observei um desvio na.s li-
Amava os seus autores, degus- empresta extraordinário encan- nhas de sua fisionomia moral.
tando-os com o vagar dos en- to, dôle se pode dizer que rea- Amadureceu, mas „ão envelhe-
tendidos. lizou o dificil ideal de ser um ceu. A maior parte dos ho-
Mais ledotr do que cavador, técnico de idéias gerais. Não mens -dle nossa geração já ad.
o seu engenho lúcido e vigo- se especializom. Não estreitou qiunu aquela gravidade aquê-
roso não demandava longas o espírito dentro das. faixas de aqi,ela
lucufarações. Observando-lhe a uma só técnica. E' por isso, ça ^T'
dos homens e Confian-
das coisas,
facilidade de aprender e assi- um espírito em disponibilida- aquela falta de fé e aquele cep-
milar, muitas vêzes me espan- de, tão capaz de estudar os pro- ticismo que os, anos © as ex
tava de como atingia <>\ picos blemas da educação, que lhe são periências costumam trazer
sem os suores das caminhadas» particularmente caros, quanto mdam na casa dos quarenta,
Com pouco mais de dezesseis os jurídicos c franceses. De mas parecem encanecidos tal
anos, poetava em francês, com tudo dará boa conta, porque, ) calo dos desenganos Ahear
raro conhecimento da lingua dúctil e ágil, para tudo é ca- não. Ele mantêm a alma fres-
francesa, e fazia em português canta ríesse ilustre patrício é dí>s vinte ano
sonetos camonianos, que in.sen- paz, s. 0 Deus que
alegrou os dias de sua juven-
itamente deixou de publicar 0 que, porém, mais me en- tude nunca deixou de alegrá-
naquela fase da vida. Hoje, o seu dom de simpatia huma- los, porque decerto se compra»
êsses sonetos encantarão os es- na. Nunca encontrei uma cria- com a doce paisagem humana
tudiosos, mas ninguém dirá que tura que, como êle, procurasse que lhe depara essa alma boa
O' autor mal Iniciava a vida. compreender e estimar os com- e vasta...

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PESSIMISMO DE ABGAR RENAULT
Carlos Drummond de Andrade

Abgar Renault figura numa uma luz fria o seu incurável pes- c com o sentimento que me-
antologia de poesia moderna co- simismo. A. constante pessimis- Ih.or lhe ccmeiiha. E' nesta
mo poderia figurar — se ti- ta já aparecia naquele "soneto atmosfera que se move sem di-
vesse idade provecta — numa antigo" em que o poeta mani- ficuldade o sentimento poético
antologia dos últimos parnasia- festa o receio de que a morte, de Abgar Renault, exprimindo
nos. Não esçfuecer cjue come- não somente a sua reação pes-
çou modelando "sonetos anti- soal diante dos temas clássicos
guos", num tempo em que Ri- do amor e da metafísica mas
lac se despedia com a "Tarde" também as obscuras inquiela-
e a poesia chamada modernis- ções do indivíduo c, últimamen-
ta era apenas um poema de Ma- te, alguma coisa mais comove-
nuel Bandeira no "Malho"; dor a, porque ligada às duras
"Quando perderes o gôsto hu- iX preocupações do nosso tempo. !
milde da tristeza..." A guerra E' esta a fase em que Abgar vè
acabara provisoriamente no largar do porto os imensos I
mundo, mas outra guerra, esta & transportes de guerra, condu-
literária, ia começar no Brasil. zindo homens para a luta; em
Os sonetos camoneanos de que procura correspondência,
Abgar, entretanto, não indica- na nossa bngna, para os can-
vam no poeta uma disposição tos que a guerra inspirou aos I
especial para defender os câ- poetas ingleses. Como os poe- H
nones da linguagem e do ver- tas e escritores conscientes da
so clássico. Eram mais ir sua geração e do seu país,
experiência pesosal do autor, Abgar Renault sente que a sua II
que se nutria de sólidas huma- ã poesia tem de sofrer a penetra-
nidades c sentia prazer em exer- ção d a guerra e dos problemas
citar-se. no idioma dos anos O poeta Abgap Renault espirituais e morais que a guer-
500. A presença bilaqueana, ra suscita. Não' é a subordina- H
por sua vez, estava bem pró- afinal seja apenas, e "por nos- ção ao tema de circunstância, n
xima, e intervinha em certos so maior dano", "outra forma mas o reconhecimento da ver-
fechos de sonetos que Abgar de ser da mesma vida". Em dade de que o poeta só se po-
adolescente compunha mais pa- outro soneto, o "fantasma som- de alimentar do tempo, e que
ra satisfação sua ,e, de amigos brio", isto é. Deus está coloca- o tempo de boje não é inferior
do que por ambição literária. do "mais alio que a nossa hu- a qualquer nutro nem deve fi-
Esta, de resto, parece ausente mana desesperação", e "alheio , car de conserva, até transfor-
da obra dêsse poeta, que che- aê nosso bumano sobressalto". mar-se em passado, para atrair
ga à madureza sem haver pu- Com o tempo, o pessimismo se a prospecção lírica. Não é lí-
blicado um livro —- um só — lorna menos crispado, e é an- cito prefigurar o que Abgar vai
exceção feita das traduções de tes cetiscismo, dúvida filosófi- fazer, o rumo que vai tornar;
poemas ingleses das guerras dc ca, fruição poética, embora mas sente-se que, como a vi-
1914 e 1939, recentemente edi- desconsolada, fie uma existên- da, êle está em movimento, mes-
tados (à traição) por um gru- cia inexplicável e noturna. Afi- mo no escuro deste amargo
po de conspiradores amigos. nal, não se tem "nem mesmo "Black-out";
Mas vem o modernismo, e a certeza consoladora de que
Abgar Renault é situado nele a Vida não presta para jogar "Trouxe-o um silvo, um silvo o
sem perder sua característica fora". "Não posso dormir pa-
ra esquecer que estou vivo" — [leva.
fundamental, o culto às formas Veiu; voltou 'de repente,
decorosas de expressão. Nes- confessa o poeta — e se salva. o céu está claro agora,
sa imensa falta de respeito que O pessimismo, não há dúvida, é e o azul na luz se refaz.
foi o modernismo, Abgar con- um grande gerador de poesia. Mas uma incansável treva.
servou o respeito próprio e o A posição de Abgar Renault crua, i n fatigàvelm ente,
respeito dos outros. Quebrou no nosso quadro literário? Não dia a dentro, noite em fora,
os moldes acadêmicos, mas só é difícil defini-la. Consumada come estrelas, sóis e tuas,
raramente se permitia liberda- a função destrui (tora do mo- lâmpadas, bicos de gás, '
des de linguagem "brasileira". dernismo, e desmoralizadas, por lampiões, candeias, velas
Há uns versos em que se las- sua vez, as convenções novas nas avenidas, nas ruas,
tima; "Ah! se eu pudesse me com que se procurava substi- nas praças, becos, vielas
embebedar — e cambalear... tuir as velhas convenções, fi- e nos longos olhos fundos
cambalear.. ." Mas não se em- cou para o poeta brasileiro a dêste mundo e de outros mun-
briaga nem cambaleia. E', de possibilidade de uma expressão idos ."
seu habitual, sereno, sóbrio, po- livre e arejada, permitindo a
liciado. Qualidades que não cada um manifestar-se espon- (CONFISSÕES DE MINAS
invalidam, antes projetam sob — RIO, 1944 — Págs. 01-
tânea e intensamente, no tom 64).
Janeiro de 1948
PANORAMA 25
Mocidade, Poesia e Morte

Augusto Frederico Schmidt

Muito bem fizeram os amigos mais espirituais, souberam nos di- é por sinal um grande poeta, Ru-
do Sr. Abgar Renault, reunindo zer o amor 0 a compreensão com pert Brooke, que aos 28 anos
em volume ay traduções de alguns que receberam o áspero e doloro- de idade interrompeu o seu canto
POEMAS ITÍGLESES DE GUER- so, mas magnífico, destino que admirável. O que Abgar Renault
RA, ctue êsse poeta já há muito lhes coubera, na defesa do lar bri- ■apresenta de Brooke ê alguma
vinha confiando ao efêmero dos tânico, que as gerações antigas coisa de tocante, porque a poesia
jornais. ergueram um pouco em toda a, de Brooke eetá penetrada por um
parte do mundo, fazendo duma pressentimento da morte, que se
Ê que Abgar Renault não é s6 pequena ilha uma grande nação
uma figura de alta qualidade, co- poderosa. veiu a realizar, e que ilumina com
mo poeta, mas é também um co- uma luz estranha a sua singela e
nhecedor profundo e um grande Poesia, mocidade e heroísmo tocante mensagem. um outro
amoroso da língua da grande In- encontrará quem ler esses poemasl poeta, Edward Thomas, chora
glaterra, em cuja literatura é ele que Abgar Renault Incorporou ao também, num pequeno poema os
versado como raros entre nós. As lirismo .brasileiro. Neles, refulge que partiram, que não resisto a
traduções de Abgar mereciam, uma aspiração mais alta do que transcrever:
pois, plenamente, o quei se chama, a de viver, que é a de uma Justa
numa, velha formula correta, de morte, que é a da morte natural IN MEMORIAM
"consagração do livro". "Rigoro- em beleza.
samente, —— escreve Carlos Dru- Nada exprime, nada explica (Pascoà de 1915)
mond de Andrade — outro poeta mais claramente o segredo da re-
de, minha maior admiração, e que sistência inglesa, a meu vêr, do "As flores que durante a Pascoa
prefacia. esse volume de POEMAS que a chama dessesí poetas com-
INGLESES DE GUERRA, rigo- batentes de 1914 e de 1941. Nada [em profusão,
■1 hoia do anoitecer, foram deixa-
rosamente, Abgar não traduziu os explica melhor a vitalidade reve-
poemas; fê-los de novo. I eem a lada pela Inglaterra do que esses [das
serenidade, a, compassada beleza, cantos simples que exaltam a vi- no bosque, estão fazendo-nos
o sentimento sutil, que há na da e choram de emoção diante de
poesia do nosso esquivo e caro tantos e tão nobres sacrifícios de os homens que, ora longe[lembrar
de seu
poeta." Faço minhas essas pala- vidas ainda em flor.
vras de Carlos Drumond, louvor deveriam com suas namoradasÍ-
dum homem habitualmente dis- "Com a altiva gratidão duma mãe colhido, e nunca mais as co-
creto e contido na suas palavras [a seus filhos,
e que sabe o que diz. [Iherão."
cihora a Inglaterra os que morre-
[ram além mar. Há também o poema No» cam
V * pos de Plandres, dum outro so -
Carne da sua carne e sangue do
Mas ha um elogio maior ainda [seu sangue, dado de 19 15, John Mac Crae, que
é hoje um poema clássico- isto
ao Sr. Abgar Renault, que é a sua tombaram pela liberdade a pele- sem esquecer a "Antifone á moci-
delicada lembraça de, num mo- üar", dade" que vai morrer, de WUfred
mento extremo para a velha na- Owen, e as produções dum S B
ção inglesa, quando tudo parecia Macleod, de um Siefried "assoon
conspirar contra a sua sobrevi- diz-nos, nos vensos: "Pelos que e de outros, todas igualmente re-
vência, nos ter posto em contacto, tombaram", de Laurence Binyon, passada» de beleza e emogão.
ou melhor, nos ter feito ouvir combatente de 1914, versos esses
as vozes dos poetas modernos do que abrem a pequena antologia
idioma em que Shakespeare mode- de Abgar Renault. Um dos que * *
lou o feu mundo prodigioso; de tombaram em ação, em 1915, um
nos ter feito ouvir vozes que tão desses mortos no campo dei honra, .0sdepoetas des
ta guerra, também
a gera-
bem tarduzem as emoções, o entu- Qao 1940, acompanha
siasmo e a, ternura secreta dos jo- a geraçao de 1914, com n ™ !
vens britânicos em. face da guer- sentimento de amor, de dedh^T
ra, dessa guerra que podemos con- e entusiasmo pela patria a, caQao
siderar como deflagrada em 1914 Roda de Brinquedo da. Sentimos, através defesaTjo-
"e que, durando até hoje, com uma vens vozes de W t v. ^
pausa apenas, inquieta e melan- ABGAR RENAULT Wilfrid e Dougla» Gibson.T; de
cólica, de permeio. um Anonimo, que as aguas da
No centro geométrico poesia inglesa têm. neste mo.
Nada melhor traduz a irrevela-
da doçura, o sentimento profundo do lago interior mento, a mesma pureza e a mes
dos filhos da Inglaterra, à sua pá- descansei a rosa ma côr de ontem e de sempre. '
tria gloriosa, do que as confiden- e nadei com. o anjo Gloriosa patria, cuja poesia dos
cias discretas desses poetas que, em círculo discreto. seus filhos assim se identifica e
•na hora do sacrifício duma juven- se soiidariza, nas horas mais tra-
tude voltada para as paisagens Camilo Soares gicas do seu destino.
28 PANORAMA
Janeiro de 1948

cm : 3 >618 10 11 12 13 14 15 16 17
com a reedição de NORDESTE e
PANORAMA LITERÁRIO SOBRADOS E MUCAMDBOSI;
APARÊNCIA DO RIO DE JA-
"PANORAMA" NEIRO, de Gastão Cruls; as reedi-
ções revistas de RAÍZES DO BRA-
AIRES DA MATA MACHADO FILHO SIL, de Sérgio Buarque de Holan-
da; MEMÓRIAS DE UM SENHOR
Fundada e redigida, pelo escritor espirito-santense João Calazans, DE ENGENHO, de Júlio Belo e
que hoje mora em Belo Horizonte, entra no quarto número a revista
literária '■ Panorama". Não morreu, do mal do terceiro número Bom PROBLEMAS BRASILEIROS, de
sinal. Raraa publicações do gênero resistem às moléstias infantis. Cincinato Braga. Entre os livros
de ensaio, destacam-se: — HIS-
Curioso é que. no caso, ê o gigantismo a mais perigosa de tôdas. O TÓRIA UNIVERSAL DA ELO-
que se vê é um primeiro número infestado, seguido de outro «•ordo QÜÊNCIA, de Hello Sodré; HIS-
de páginas e de esperanças, para definhar, sem palavra de adeus ou TÓRIA ADMINISTRATIVA DO
com desculpas esfarrapadas, num fascículo eufesado. BRASIL, de Almlr de Andrade:
Com "Panorama" a coisa se passa diferentemente. Do primeiro
ao quarto número mantém a modéstia da apresentação, qua assenta ao REFLEXÕES SOBRE A RELA-
Programa exeqüível. Consiste, em suma, na publicação de cada nü- TIVIDADE, de Carlos Campos;
me.-o sôbre um escritor brasileiro, a respeito do qual insere informa- OS MUNDOS MÁGICOS, de Nobre
ções biográficas, bibliográficas e críticas, além de uma antologia de 1e Melo; ANTEU B O CRÍTICO,
suas produções. de Roberto Alvim Correia; AMI-
GOS E INIMIGOS DO BRASIL,
"Panorama" é o tipo da revista utll. B' muito mais fácil conse- SOL IÍOS MORTOS e RECORDA-
guir notícias sôbre a vida de um poeta menor da fase quinhentlsta ÇÕES DE UM MUNDO PERDIDO,
do que obter informação segura sôbre a data do nascimento de José de Agripino Grieco; FUNDAMEN-
Lins do Rêgo. No primeiro caso enciclopédias e compêndios resolvem TOS SOCIAIS DO ESTADO NO
a dúvida. Mas acontece que o leitor está curioso ou necessitado, pre- BRASIL o METODOLOGIA DO
cisamente, de saber quantos anos tem o autor de "Eurídice". O nú- DIREITO PUBLICO, de Oliveira
mero de "Panorama" a êle consagrado responde imediatamente. A Viana, além de vários outros co-
coleção da lovlata será mesmo um panorama da literatura brasileira «10 reedições de Gilberto Amado e
contemporânea. B', desde já, prestimoso instrumento de trabalho, Silva Melo. Dois livros de poesia:
ocasião de fruição literária e, mais tarde, será um achado para o crí- —Um de grande poeta Carlos Dru-
tico empenhado em avaliar os salvados do incêndio ou identificar o mond de Andrade: — POESIA
Valente flautim qúe ficou soando, depois que a charanga passou, na ATÉ AGORA (poesias completas)
sátira do poeta alemão, traduzido por João Ribeiro. e outro do Adalgiza Nerl: — CAN-
Por essas e outras, há quem relute em consentir na glorlfleadora TOS DA ANGUSTIA.. Dois livros
encadernação. Parece agouro. Essas coisas em vida não ficam bem de crônicas: — t^m da notável ro-
"Deixa que eu morra primeiro", respondeu um dêles a João Calazans, mancista Raquel de Queiroz:
que redarguiu implável: "Depois de morto, não adianta nada " A DONZELA E A MDURA TOR-
E' isto. O seu angulo de visão é o do jornalista. Importa-lhe a TA e outro do capixaba Rubem
atualidade. Tantol que informou ao literato recalcitrante: "Se não qui- Braga; — UM PÉ DE MILPIO.
ser consentir, eu faço por mim mesmo o número já programado. De- Livros de reminiscencias de Au-
pois não se queixe de alguma deficiência." gusto Frederico Schmidt e Pedro
Aí o literato se asustou. Inegavelmente, êsse capixaba conhece, Rache, além da terceira edição de
a fundo, a psicologia do escritor. Se o seu ponto de vista se resuma MINHA VIDA DE MENINA, de
na informação, o prisma do outro cifra-se na vaidade. Que tem isso? Helena Morley. Duas antologias:
Ao cabo de contas, tudo é mesmo vaidade. Escritor dela isento Jamais — o segundo volume de MAR DE
existiu. E' um questão de graú. O intolervel não está na vaidade, se- HISTÓRIAS, contos, organisada
não na incapacidade de a policiar. Que esses domínios dos próprios por Paulo Ronal e Aurélio Buar-
defeitos remate, em vaidade é ponto que transpareceria da inexorável que do Holanda e ROTEIRO LI-
(Conclui na pag, seguinte) TERÁRIO DO BRASIL E DE
PORTUGAL, de Álvaro Lins e Au-
rélio Buarque de Holanda.
VOVIDADES LITERÁRIAS GRANDE CIDADE, de Edmundo Como se vê, essa grande editora
do Amaral e um de Lúcia Benede- nacional possiii um plano amplo
A Liv. José Olímpio Editora pro- ti, sem titulo ainda. Isso sem fa- dos mais significativos e impor-
hiete lançar, neste ano de 1948, lar nas reedições dos romances de tantes.
Vários romances, entre os quais: José Lins do Rego, Otávio de Fa- 0O0
UM REFORMADOR NA CI- ria e Raquel de Queiroz. Na Co-
t)ADE DO VICIO, de José Viei- leção Documentos Biradileliros, Depois de longa enfermidade,
ta; NAO ERA A ESTRADA DE a mesma editora promente lan- faleceu no Rio de Janeiro, em
La MASCO, de Noveli Júnior; çar os dois primeiros volumes da dezembro último, o teatrólogo e
LRESBNCA DE ANITA, de Ma- HISTORIA DA LITERATURA jornalista patrício Benjamim Li-
tio Donato; CONFISSÕES DO BRASILEIRA, dirigida por Álva- ma, figura grandemente estimada
ídEU TIO GONZAGA, de Luiz Jar- ro Lins — os volumes de Lúcia ■no seio de sua classe. Nasceu Ben-
dim; MARIQUINHAS CAMACHO, Miguel Pereira e Luiz da Gamara jamim Lima na cidade de Óbidos,
de Giberto Amado; NAO HA ES- Cascudo; GAÚCHOS E BEDUI- Estado do Pará, a 27 de novembro
TRELAS NO CÓU, de João Clí- NOS, de Manuelito de Ornelas; de 1885. Formara-se em Direito
hiaco Bezerra; O HERÓI IMPER- INGLESES NO BRASIL, de Gil- pela Faculdade do Rio de Janei-
FEITO, de Nelson Tabajára; A berto Freyre, simultaneamente ro, havendo, depois de diploma-

danei ro de 1948 PANORAMA 27

" "*
cm : 2 3 5 6 7 8 10 11 12 13 14 15 16 17
do, exercício em Manaus as fun- blica da Venezuela o escritor Ro- Juvenal, e quem apresenta aos en-
ções de secretário do "Diário do mulo Gallegos, uma das mais no- tendidos do folclore a novidade do
Amazonas" e de diretor de "A táveis organizações intelectuais la- Caliòionolro Gaúcho, acompanhado
Imprensa". Em 1919 transferiu-se tino-americanas. Gallegos tornou- igualmente de uma introdução e
definitivamente para o Rio de Ja- se conhecido do público brasilei- notas.
neiro, traballiandò como redator ro com o seu famoso romance DO- Inlolar-se-á também outra cole-
sucessivamente de "O País". NA BARBARA, que reflete, o am- ção de autores brasileiros, em
"Diário Carioca", "Diário de No- biente de lutas sociais em sua pá- apresentação luxuosa e com ilus-
ticias", "Diário da Noite" e do tria. trações dos melhores artistas,
"Jornal do Brasil", onde se man- oOo • cujos primeiros volumes conterão
teve at6 o falecimento. Dentre as O programa editorial da Livra- Noite na Taverna e Macário, de
suas obras destacam-se;— A RB- ria do Globo para 1948 é bastante Alvares de Azevedo, e Lendas do
VODTA DO ÍDOLO (episódio dra- expressivo, nele aparecendo gran- Sul de Simões Lopes Neto.
mático), 1919, e ESSE JORGE de número de autores nacionais. Ainda de autores nacionais, te-
DE LIMAI, 1932. Teatrologo de A Nova. Coleção Província, que remos as memórias de Augusto
pulso, levou á cena as seguintes abrangerá textos notáveis da lite- Méier, Segredos da Infânolia, e um
peças de sua autoria: — HOMEM ratura pátria, em edição cuidada novo livro de crônicas de Geno-
QUE MARCHA; O CARRASCO; por mestres da crítica e da filolo- llüo Amado,Pássaro Ferido; o o
O HOMEM QUE CHORA; QUEM gia, iniclar-se-á com a reedição segundo livro de três autores da
RI AFINAL; BABILÔNIA; O de CONTOS GAUCHESCOS B nova geração, Os filhos do Mêdo
AMOR E A MORTE e VENE- LENDAS DO SUL, de Simões Lo- de Rute Guimarães, Solidão nos
NOS. Deixou inédito: — D. iJUAN pes Neto, precedidos de um volu- Campos, de Raimurfdo S. Dantas,
OU fi AUTORES PERSEGUINDO moso estudo Introdutivo de Auré- e A Somb/a do Patriarca, de Ali-
UM PERSONAGEM. Era mem- lio Buarque de Holanda, que há na Palm. Merecem nota especial,
bro da Academia Amazonense de de marcar para sempre o lugar de a rica Antologia do Negro Brasi-
Letras. Simões Lopes Neto dentro da li- leiro, de Edison Carneiro e Músi-
oOo^ teratura nacional, e seguidos de ca Popular íáiaslleira, de Onelda
Faleceu, nos primeiros dias do um amplo glossário feito pelo mes- Alvarenga. No domínio da poesia,
ano, no Rio de Janeiro, o conhe- mo. O prefaciador dêsse primei- será lançada a coletânea espera-
cida escritor e historiador Escrng- ro volume. Augusto Méler, foi da há tanto tempo de Poemas
nole Déria, autor de excelentes pá- quem redigiu a Introdução e as Traduzidos, de Manuel Bandeira,
ginas de crítica e erudição. notas da reedição de Antônio Chi- e o novo volume de Mário Quln-
oOo mango, poema satírico de Amaro tana, Sapato Florido.
A noticia do falecimento do
grande escritor .cearense Leonar- 'PANORAMA' (CONCLUSÃO DA PAO. ANTl^RTOPt
do Méta, consternou profunda-
mente os círculos intelectuais do dessecação dos sentimentos, segundo o método de Ma tias Aires. Mias,
todo o país. Artista dos mais per- não nos alonguemos no assunto. Melhor; evitemos entrar demasiado
feitos, sõbrlo e honesto, o velho nele. ' .
e querido Leota deixa uma ohra Por isso ou por aquilo, o indigitado escritor um dial deixa-se pren-
importante, digna e indispensá- der nas malhas de "Panorama". Vendo-se capturado, o subtll Par-
vel ao conhecimento do folclore les Drummond alarmou-se, quando se sentiul "homem da capa" En-
nacional. Nesse setor da inteli- fim, a quem "se expõe em livrarias", pouco lhe falta para tanto Evi-
gência sua atividade foi das mais temos escrever pueril, que pode ofender. Nem escapa o literato re-
extraordinárias. Intimamente li- calcllrante que se considerou agourado com o número especial como
irado ao povo, colheu tudo de mais quem espera ficar na memória dos sobreviventes. Vaidade da boa
notável nas manifestações de ale- B a rodada decisiva há-de ter sido aquela ameça de fazer o número
gria e de tristeza da alma popular. sozinho. Podiam sair enganos, interpretações falseadas, certas coi-
Seus livros exgotados tiveram edi- sas que ninguém gosta de ver em letra de forma,,
ções sucessivas; — CANTADO- "Afinal — concordou.— há certas informações que sõ a vítima
RES; VIOLEIROS DO NORTE; pode fornecer". Até o fim, fez finca-pê no bovarismo. E' ou não é
SERTÃO ALEGRE; NO TEMPO vaidade?
DE LAMPIAO: PROSA VADIA Assim como assim, essa revista a ninguém faz mal; antes pelo
e PADARIA ESPIRITUAL. Dei- contrário. O estudioso aproveita as informações, deleita-se o leitor
xou inéditos: — CHUMBO MIÚ- com as páginas antológicas, e nem se1 queira mal ao escritor pela dis-
DO; ADAGIARIO BRASILEIRO; creta colaboração, que todo mundo, afinal, administra a sua glória
TROVADORES DO BRASIL e
GALERIA DO CLERO CEAREN- A revista tem alcançado aceitação. O primeiro número com
SE . Boêmio incorrjgivel e estima- justiça consagrado a Carlos Drummond de Andrade, tornouése rari-
do, homem do povo, Leota, como dade bibliográfica. Vão pelo mesmo caminho os outros fasoículos:
era conhecido e assinava suas crô- um dedicado a Tristão de Ataíde, outro sôbre o Segundo Congresso
de Escritores e o quarto que acaba de sair.
nicas na imprensa diária, perdia-Se
longe de suia terra e de sua gen- B" contaglante o entusiasmo de João Calazans, iquç acredita
te, investigando e estudando a al- na literatura e trabalha para aviventar nos outros, público e autores,
ma do povo. Suas conferências em essa crença fundamental. "Você já viu o José Lins?" — perguntou-me
todos os Estados do Brasil fica- outro dia. Cuidei que o romancista meu amigo tivesse chegado a Be-
ram famosas. lo Horizonte. Nada. Era o quarto número de "Panorama" que aca-
oOo bava de aparecer, com José Lins do Rego na capa.
Foi eleito presidente da Repu- ("O Diário" — Belo Horizonte 25/1/48)

28 PANORAMA
Janeiro de 1948
A literatura estrangeira moder- constituem exemplo de nobreza e CINQUENTANOS. ESTRELA DA
na forneceu uma série excepcio- dignidade, como a Faculdade de MANHÃ e BELO BELO.
I nal de grandes títi/los às duas Co- Filosofia de Minas Gerais, da
leções Nobei. qual é fundador e principal ani- AUTO - RETRATO
0O0— mador. (CONCLUSÃO)
O escritor Otto Maria Carpeaux ídolo de párias geraçõ&s mi- sas por despeito, encerro is-
I demorou-se alguns dias em Belo neiras, o nome do prof. Velloso
Horizonte, em contacto com a. gen- é citado pelos moços com elevado to com isto;
| te de Minas. O ilustre críti- respeito e carinho. "I had as lief not be as
co europeu, que é um doa mais Lançado pela Liv. Agir Edito- live to be.
brilhantes colaboradores de PA- ra, surgem agora, não obstante a In awe of such a thing as
NORAMA, durante sua curta per- <çxcessiva modêstja do seu aulor, I myself" (1).
I manencia nesta capital, foi alvo dois magníficos livros de Arthur
de expressivas homenagens doa Versiani Velloso, ambos sObre o — Mas afinal de que é que
1 homens de letras e da sociedade estudo e conhecimento da filoao- o sr. gosta?
mineira. .fla; — A FILOSOFIA E SEU ES- — Como?
——0O0 .TUDO e INTRODUÇÃO A' HIS- — Quais as suas prefe-
Oscar Sabino Júnior anuncia pa- TORIA DA FILOSOFIA. Doja rências ?
ra este ano um volume reunindo trabalhos de fôlego, para medi-
vários estudos literários, com o su- tação, cheios de sábias observações, — De que espécie? Literá-
gestivo titulo: — NOTAS, DE UM de análise numa exposição lúci- rias?
LEITOR DA PROVÍNCIA. da e simples feita naquela lin- — Não. De que gosta
0O0—— guagem, saborosa com que o autor mais nesta vida?
Encontra-se nas ultimas provas assina suas crônicas literárias — De tudo, exceto, em ge-
o livro de poemas de José Godói nas páginas desta revista. Lin-
Garcia — RIO DO SONO, editado guagem puro. correta, v im pou- ral, de viver (é dispendioso
pela Bolsa de Publicações "Hugo co clássica. em várias moedas e triste e
de Carvalho Ramos", mantida pe- Ou livros do prof. Arthur Ver- confuso em todas as lín-
la Prefeitura Municipal de Goiâ- siani Velloso vêm encontrando a guas) e, particularmente, de
nia. Pela mesma Bolsa serão pu- melhor acolhida por parte do pú- escrever, porque é dificílimo e
blicados, ainda este ano: — UM blico e da crítica, unânimes em
INSTANTE DA POESIA GOIANA, é inútil, e de ir a quaisquer
iestacar as qualidades excelen-
de autoria de seis novos de Goiás: tes do grande erudito e de sua lugares, sobretudo os fre-
José Décio Pilho, Bernardo Elis, obra. qüentados somente ou prin-
Afonso Pélix de Souza, José Go- cipalmente por gênios ou sub-
dói Garcia, Jeão Acioli e Haroldo CLARISSA, a bela novela de gênios literários.
de Brito Guimarães. Eirico Veríssimo aparece agora — Então é melhor morrer.
LIVROS NOVOS em sexta-edlção, com um aspecto
gráfico mais simpático ao gosto — Lá isso, não. Morrer
O prof. Arthur Versiani Vello- ainda é pior porque aqui a
so é um dos nomes mais respeitá- do público.
veis da Intelectualidade minei- Lançada pela Casa do Estu- gente ao menos sabe a quan-
ra dos nosos dias. Mtestre, no dante do Brasil, acaba de aparecer tas anda. De lá não há mui-
conceito mais rigoroso do têrmo, a terceira, edição das POESIAS muitas informações fidedig-
há mais de vinte e cinco anos em- OOMEPLETAS do Iquerlido poeta nas .. .
prega sua atividade no ensino da Manuel Bandeira. Edição aumen-
filosofia, com profundo conheci- tada, com 345 páginas, conten- — De lá de onde?
mento e técnica. Espírito iminen- do todos os livros do poeta: — — Você sabe.
temente culto, tem estimulado e CARNAVAL, A CINZA DAS HO- (1) Shakespeare — "Julius
orientado várias grandes iniciati- RAS, O RITMO DISSOLUTO, CíPsar, acto I, scena 2.a, Versos 94
vas culturais, algumas das quais LIBERTIMAGEM, LIRA DOS e 95.
Abgar Renault e Rabindranath Tagore com ela perdidos para sempre ■■ são
(CONCLUSÃO DA PAG. 13) aqueles dias, horas e minutos
qua formaram efêmero presente,
hi fora, na noite inhabitável, é a vida, com espinhos, flores, frutos,
com o mesmo parado olhar, cheio de escuros, de somos nós no qtíe fomos, pois os seres
I imontanhas e de mar." — seu pensamento e sua carne triste
são formas vãs do Tempo indiferente,
Essa contínua reflexão do poeta, assim co- que é a matéria de tudo quanto existe."'
nto extrai às coisas seu sentido interior, ou, pelo Poeta de tão contemplativo temperamento, Abgar
àtenos, um outro aspecto mais profundo, des- Renault não podia deixar de sentir com doçura
cobre no homem, e nas suas experiências outra fraterna a poesia de Rabindranath Tagore essa
fisionomia, outras razões, outras causas. Sua figura inesquecível da índia que por êste mundo
linguagem, sem deixar de ser poética, assume um levitou como personagem de um mundo diver-
diluído tom filosófico quando nos explica, por so, de densidddes apenas líricas e místicas.
exemplo, o que choramos. "O que choramos e
o Tempo" — diz o poeta. E explica: Aqw Vos deixo Abgar Renault na companhia
dessa criatura extraordinária, tão definitivamen-
'"O que choramos, inconscientemente, te' artista que até na educação e na política im-
ao desaparecer uma ilusão, primiu como perene marca a essencial necessi-
não são as alegrias e os prazeres dade da Poesia.

te»

cm 1 10 11 12 13 14 15 16
ES

do, exercido em Manaus as fun- blica da Venezuela o escritor Ro- Juvenal, e quem apresenta aos en-
gões de secretário do "Diário do mulo Gallegos, uma das mais no- tendidos do folclore a novidade do
Amazonas" e de diretor de "A táveis organizações intelectuais la- Cancioneiro Gancho, acompanhado
Imprensa". Em 1919 transferiu-se tino-americanas. Gallegos tornou- igualmente de uma introdução e
lefinltivamente para o Rio de Ja- se conhecido do público brasilei- notas.
neiro, trabalhando como redator ro com o seu famoso romance DO- Inlclar-se-á também outra cole-
sucessivamente de "O País". NA BARBARA, que reflete, o am- ção de autores brasileiros, em
"Diário Carioca", "Diário de No- biente de lutas sociais em sua pá- apresentação luxuosa e com ilus-
tícias", "Diário da Noite" e do tria. trações dos melhores artistas,
"Jornal do Brasil", onde. se man- oOo . cujos primeiros volumes conterão
teve até o falecimento. Dentre as O programa editorial da Livra- Noite na Taverna c Macário, de
suas obras destacam-se;— A R<E- ria do Globo para 1948 é bastante Alvares de Azevedo, e Lendas do
VODTA DO IDO DO (episódio dra- expressivo, nele aparecendo gran- Sul de Simões Lopes Neto.
mático), 1919, e ESSE JORGE de número de autores nacionais. Ainda de autores nacionais, te-
DE DlMA!, 1932. Teatroiogo de A Nova Coleção Província, que remos as memórias de Augusto
pulso, levou à -cena as seguintes abrangerá textos notáveis da lite- Méier, Scgrcdo.s da Infância, e um
peças de sua autoria: — HOMEM ratura pátria, em edição cuidada novo livro de crônicas de Geno-
QUE MARCHA; O CARRASCO; por mestres da crítica e da filolo- lido Amado,Pássaro Ferido; e o
O HOMEM QUE CHORA; QUEM gia, inieiar-se-á com a reedição segundo livro de três autores da
RI AEINAD: BABIDONIA; O de CONTOS GAUCHESCOS B nova geração, Os filhos do Medo
AMOR E A MORTE e VENE- LENDAS DO SUL, de Simões Lo- de Rute Guimarães, Solidão nos
NOS. Deixou inédito: — D. JUAN pes Neto, precedidos de um volu- Campos, de Raimuifdo S. Dantas,
OU 6 AUTORES PERSEGUINDO moso estudo introdutivo de Auré- e A Sombra cio Patriarca, de Ali-
UM PERSONAGEM. Era mem- lio Buarque de Holanda, que há na Paim. Merecem nota especial,
bro da Academia Amazonense de de marcar para sempre o lugar de a rica Antologia do Negro Brasi-
li-etras. Simões Lopes Neto dentro da li- leiro, de Edison Carneiro e Músi-
-o O o teratura nacional, e seguidos de ca Popular Rrasileir11, de Oneida
Faleceu, nos primeiras dias do um amplo glossário feito pelo mes- Alvarenga. No domínio da poesia,
ano. no Rio de Janeiro, o conhe- mo. O prefaciador desse primei- será lançada a coletânea espera-
cido escritor e historiador Escrag- ro volume, Augusto Méier, foi da ha tanto tempo de Poemas
nole Dói* autor de excelentes pá- quem redigiu! a introdução e as Traduzidos, de Manuel Bandeira,
gírias de crítica « erudição. notas da reedição de Antônio Chi- e o novo volume de Mário Quin-
mango, poema satírico de Amaro tana, Sapato Florido.
A noticia do falecimento do
grande escritor cearense Deonar- "PANORAMA" (CONCLUSÃO DA PAG. ANTHRIOR1
do Móta, consternou profunda-
mente os círculos intelectuais de dessecação dos sentimentos, segundo o método de Matias Aires. Mias,
todo o pais. Artista dos mais per- não nos alonguemos no assunto. Melhor; evitemos entrar demasiado
feitos, sóbrio e honesto, o velho nele.
e querido Leota deixa uma obra Por isso ou por aquilo, o indigitado escritor um dial deixa-se pren-
importante, digna e indispensá- der nas malhas de "Panorama". Vendo-se capturado, o subtil Car-
vel ao conhecimento do folclore los Drummond alarmou-se, quando se sentir} "homem da capa" En-
nacional. Nesse setor da inteli- fim, a quem "se expõe em livrarias", pouco lhe falta para tanto Evi-
gência sua atividade foi das mais temos escrever pueril, que pode ofender. Nem escapa o literato re-
extraordinárias. Intimamente li- calcitrante que se considerou agourado com o número especial como
gado ao povo, colheu tudo de mais quem espera ficar na memória dos sobreviventes. Vaidade da boa
notável nas manifestações de ale- B a rodada decisiva há-de ter sido aquela ameça de fazer o número
gria e de tristeza da alma popular. sozinho. Podiam sair enganos, interpretações falseadas, certas coi-
Seus livros exgotados tiveram edi- sas que ninguém gosta de ver em letra de forma,.
ções sucessivas: — CANTADO- "Afinal — concordou. — há certas informações que só a vítima
RES; VIOLEIROS DO NORTE; pode fornecer". Até o fim, fez flnca-pê no bovarismo. E' ou não é
SERTÃO ADEGRB; NO TBMiPO vaidade ?
DE LAMPIÃO: PROSA VADIA Assim como assim, essa revista a ninguém faz mal; antes pelo
e PADARIA ESPIRITUAL. Dei- contrário. O estudioso aproveita as informaçõesF, deleita-se o leitor
xou inéditos: — CHUMBO MIÚ- com as páginas antológicas, e nem se queira mal ao escritor pela dis»-
DO; ADAGIÁRIO BRASILEIRO; creta colaboração, que todo mundo, afinal, administra a sua glória
TROVADORBS DO BRASIL e
GALERIA DO CLERO CEAREN- A revista tem alcançado aceitação. O primeiro número, com
SE. Boêmio incorrigivel e estima- justiça consagrado a Carlos Drummond de Andrade, tornoutse rari-
do, homem do povo, Leota, como dade bibliográfica. Vão pelo mesmo caminho os outros fasciculos:
era conhecido e assinava suas crô- um dedicado a Tristão de Ataíds, outro sôbrs o Segundo Cbngresso
nicas na imprensa, diária, perdia-s© de Escritores e o quarto que acaba de sair.
longe de suía terra e de sua gen- E' contaglante o entusiasmo de João Calazans, ]qu^ acredita
te, investigando e estudando a al- na literatura e trabalha para aviventar nos outros, público e autores,
ma do povo. Suas conferências em essa crença fundamental. "Você já viu o José Lins?" — perguntou-me
todos os Estados do Brasil fica- outro dia. Cuidei que o romancista meu amigo tivesse chegado a Be-
ram famosas. lo Horizonte, Nada. Era o quarto número de "Panorama" que aca-
oOo bava de aparecer, com José Lins do R>ego na capa.
Foi eleito presidente da Repu- ("O Diário" — Belo Horizonte 25/\/48)

28 — PANORAMA Janeiro de 1948

I
#
10 11 12 13 14 15 16 17
A literatura eistrangeíp, moder- constituem exemplo de nobreza e CINQUENTANOS, ESTRELA DA
na forneceu uma série excepcio- dignidade, como a Faculdade de MANHÃ e BELO BELO.
nal de grandes títulos às duas Co- Filosofia de Minas Gerais, da
leções Nobei. qual & fundador e principal ani- AUTO - RETRATO
0O0 mador. (CONCLUSÃO)
O escritor Otto Maria Carpeaux ídolo de párias gerações mi- " sas por despeito, encerro is-
demorou-se alguns dias em Belo neiras, o nome do prof. Velloso
Horizonte, em contacto com a, gen- é citado pelos moços com elevado to com isto;
te de Minas. O ilustre críti- respeito e carinho. "I had as lief not be as
co europeu, que é um dos mais Lançado pela Liv. Agir Edito- live to be.
brilhantes colaboradores de PA- ra, surgem agora, não obstante a In awe of such a thing as
NORAMA, durante sua curta per- excessiva modéstia do seu aufcor, I myself" (1).
manência nesta capital, foi alvo dois magníficos livros de Arthur
de expressivas homenagens dos Versiani Velloso, ambos sobre o — Mas afinal de que é que
homens de letras e da sociedade estudo e conhecimento da filoso- o sr. gosta?
mineira. .fia: — A, FILOSOFIA E SEU ES- — Como?
0O0 .TUDO e INTRODUÇÃO A' HIS- — Quais as suas prefe-
Oscar Sabino Júnior anuncia pa- TORIA DA FILOSOFIA. Doja rências ?
ra este ano um volume reunindo trabalhos de fôlego, para medi-
vários estudos literários, com o su- tação, cheios de sábias observações, — De que espécie? Literá-
gestivo titulo: — NOTAS DE UM de análise numa exposição lúci- rias?
LEITOR DA PROVÍNCIA. da e simples feita naquela lin- — Não. De que gosta
oOo—•— guagem saborosa com que o autor mais nesta vida?
Encontra-se nas ultimas provas assina suas crônicas literárias
o livro de poemas de José Godói — De tudo, exceto, em ge-
nas páginas desta revista. Lin- ral, de viver (é dispendioso
Garcia RIO DO SONO, editado guagem pura, correta,vim pou-
pela Bolsa de Publicações "Hugo co clássica. em várias moedas e triste e
de Carvalho Ramos", mantida pe- Oa livros do prof. Arthur Ver- confuso em todas as lín-
la Prefeitura Municipal de Goiâ- siani Velloso vêm encontrando a guas) e, particularmente, de
nia. Pela mesma Bolsa serão pu- melhor acolhida por parte do pú- escrever, porque é dificílimo e
blicados, ainda este ano: — UM blico e da crítica, unânimes em é inútil, e de ir a quaisquer
INSTANTE DA POESIA GOIANA, lestacar as qualidlades excelen-
de autoria de seis novos de Goiás: tes do grande erudito e de sua lugares, sobretudo os fre-
José Déclo Pilho, Bernardo Elis, obra. qüentados somente ou prin-
Afonso Félix de Souza, José Go- cipalmente por gênios ou sub-
dói Garcia, João Acioli e Haroldo CLARISSA, a bela novela de gênios literários.
de Brito Guimarães. Erico Veríssimo aparece agora — Então é melhor morrer.
LIVROS NOVOS em sexta-edição, com um aspecto
gráfico mais simpático ao gosto — Lá isso, não. Morrer
O prof. Arthur Versiani Vello-
so ê um dos nomes mais respeitá- do público. ainda é pior porque aqui a
veis da intelectualidade minei- Lançada pela Casa do Estu- gente ao menos sabe a quan-
ra dos nosos dias. Mlestre, no dante do Brasil, acaba de aparecer tas anda. De lá não há mui-
conceito mais rigoroso do têrmo, a terceira edição das POESIAS muitas informações fidedig-
há mais de vinte e cinco anos em- COMPLETAS do Iquerido poeta nas .. .
prega sua atividade no ensino da Manuel Bandeira. Edição aumen-
filosofia, com profundo conheci- tada, com 345 páginas, conten- — De lá de onde?
mento e técnica. Espírito iminen- do todos os livros do poeta: — — Você sabe.
temente culto, t.em estimulado e CARNAVAL, A CINZA DAS HO-
orientado várias grandes iniciati- (1) Shakespeare — "Julius
RAS, O RITMO DISSOLUTO, Csesar, acto I, scena 2.", Versos 94
vas culturais, algumas das quais LIBERTIMAGEiM, LIRtA DOS e 95.

Abgar Renault e Rabíndranath Tagore com ela perdidos para sempre ■' são
(CONCLUSÃO DA PAG. 13) aqueles dias, horas e minutos
Qua formaram efêmero presente,
lá fora, na noite inhabüável, é a vida, com espinhos, flores, frutos,
com o mesmo parado olhar, cheio de escuros, de somos nós no qtíe fomos, pois os seres '
; Imontanhas e de mar." — seu pensamento e sua carne triste
t são formas vãs do Tempo indiferente,
Essa contíriua raflexão do poeta, assim co- que é a matéria de tudo quanto existe."
rno extrai ás coisas seu sentido interior, ou, pelo Poeta de tão contemplativo temperamento, Abgar
áienos, um outro aspecto mais profundo, des- Renault não podia deixar de sentir com doçura
cobre no homem, e nas suas experiências outra fraterna a poesia de Rabíndranath Tagore, essa
fisionomia, outras razões, outras causas. Sua figura inesquecível da índia que por êste mundo
linguagem, sem deixar de ser poética, assume um levitou como personagem de um mundo diver-
diluído tom filosófico quando nos explica, por so, de densidades apenas líricas e místicas.
exemplo, o que choramos. "0 que choramos c
o Tempo" — diz o poeta. E explica: Aqui aos deixo Abgar Renault na companhia
dessa criatura extraordinária^ tão definitivamen-
'"0 que choramos, inconscientemente, te'artista que até na educação e na política im-
ao desaparecer uma ilusão, primia como perene marca a essencial necessi-
não são as alegrias e os prazeres dade da Poesia.

í-:i ■?Av:--A-;
I ■ffl
cm l 10 11 12 13 14 15 16 17
AUTO.RETRATO risco ae novamente cair no mesmo pecado.
Em todo caso, nada está em livro, nem creiç
(CONTINUAÇÃO DA PAG. 7)
que venha a estar um dia. O ruim mesmo, o
vsas escritas. A literatura está agudando a aca- sem remédio, a nódia é o livro, seja lá do
bar com o mundo ou a tomá-lo o mais inha- que fôr — conto, romance, poemas, ensaios.
bitável. Vamos desistir. Não contribuamos. Tudo devia ser pessoal, íntimo, hermético.
Não sejamos colaboracionistas. Escrever pa- Para que a praça pública?
ra quê? E' mais ou menos a mesma cousa — Mas o sr. não admite que haja fun-
sempre. Repare como as mesmas palavras e ções para a poesia?
(eu quasi acrescentava "portanto") as mes- Como não? — Uma: servir de esca-
mas idéias vêm sempre à ponta do lápis. Daí pamento ou via de fuga a quem escreve e no
também: para que publicar em geral, e muito momento em que escreve. Eliot liquidou
particularmente para que publicar livros? o assunto: "Poetry is not a turning loose of
Para que livros, mais livros, mais livros, e en- emotion but an escape from emotion". (Eis
tre êles um livro meu,, logo meu? Já não há outra razão para não se publicar nada) Tudo
lugar neste mundo para a (gente morar, e mais é criação, invenção, vontade de compli-
ainda vamos entupir de livros os poucos res- car, e a culpa não é só doj poetas e ficcionis-
piradouros ainda restantes? tas em geral, mas dos críticos também, que
— O sr. é catastrófico. sao mais imaginativos do que os ficcionistas
— Não sou. Veja, p. ex., êste volume poetas. Veja como as coisas são simples e
que recebi há três dias do meu querido Car-
sem intenção nestes dois últimos grupos de in-
los Drummond de Andrade, intitulado "Poe-
telectuais ei como se emaranham, se enredam
sia até agora". Para isto tem de haver lu-
e se contundem quando nelas começam a re-
gar sempre e de qualquer jeito, mas quan-
tos o sr. conhece iguais? c^iSn 08
RCrítlC0S' /nventan
criando Examinado tudo ado,fundo,
descobrindo,
que in-
— E'.. . De fato... teresse ha em saber o que Shakespeare pre-
— Devia ser imposto um racionamento tendeu, ocultamente, esotericamente, ao criar
urgente e severo à publicação de livros, se- Hamleto, se e que pretendeu realmente algu-
não á própria feitura dêles. Pode vir a ser ma cousa mais do que está evidente na peça?
que um dia eu sucumba também á doença de
todo mundo e publique um (tôdas as tolices r" i1"0 C'>ra0 "What 'wAinl
Hamkr* Confesso
acontecem nesta vida a todos nós, e eu não • que a mim basta ler a pe-
ça sem mais nada do que um dicionário como
posso ter certeza de que serei exceção), mas o de Schmidt ou o de Cunliffe e o auxylio da
não será por pensar bem de mim nem pre-
sumir que um livro meu valha (para mim) gramatica de Abott ou vê-la representada por
Maunce Evans. O mais é vontade de ciscar
mais do que para fortalecer a fama que já
e confundir - vocação humana para levedar
tenho perante mim mesmo e entre os outros...
as cousas, fazendo com que cresçam como
— Quer dizer que uns 90% de tudo que massa de pao, e de publicar mais livros, sem-
se publica.. .
pre mais livros...
— Exatamente. 90% das cousas publica-
das sob qualquer forma — livro, jornal, re- . — Poderiam dizer que as suas alega-
vista — (sobretudo livro, porque o livro é ções sao de um primário, embora o sr não
pt. etensioso: não há nenhum que não aspire o seja.
à eternidade) deviam não ter sido escritas pu, E possível. Primário que concluiu
pelo menos, não ter sido publicadas. que a volta ao primitivo ainda é a única
— Mas então acha que publicar poesia é cousa desejável e que a palavra envenena mais
também tolice? que tudo. A humanidade precisa de calar
— Acho. Basta ler. Há tanta cousa ex- a boca ,isto é, deixar de ler, de escrever e
celentíssima já pronta, que parece um exces- de publicar cousas durante uns cem anos pa-
so injustificável a gente ou qualquer um ou, ra ter descanso de si mesma — o único des-
mais propriamente, eu publicar um poema canso de que ela precisa realmente
Os que existem escritos dão de sobra — Por quê?
para nutrir, superalimentar e aborrecer a Porque a literatura deixou de ser o que
humanidade tôda. eia e devia ser ('Literature is nothing if n0!
Mas o fato é que o sr. já escreveu entertamement", disse Maugham) e se trans-
muitos. tormou num processo de aumentar, por trans-
— E' verdade, e — pior do que isto — já missão e contágio, a aflição humana. Chega,
publiquei vários. Fraqueza em. que me com- ja e demais! — tal e qual naquela canção do
prazi talvez por uns minutos e de que me Carnaval de (se não me engano) 1936 E pa-
penitencio com sinceridade, embora corra o ra nao alegarem que estou dizendo tais cou-
(Conclui na página 29)

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Companhia Força e Luz de Minas Gerais


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COLÉGIO MARCONI

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A Cargo das Reverendlssimas Irmãs de N. S. do Monte Calvário

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Admissão, ginasial, clássico e cientíí ICO

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