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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS

PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO PÚBLICO

Sarah Luíza Barroso Pereira

O FENÔMENO DA JUDICIALIZAÇÃO DO DIREITO À SAÚDE E SUAS


IMPLICAÇÕES

Manaus
2018
Sarah Luíza Barroso Pereira

O FENÔMENO DA JUDICIALIZAÇÃO DO DIREITO À SAÚDE E SUAS


IMPLICAÇÕES

Pré-projeto apresentado como requisito para obtenção de


nota na disciplina Metodologia da Pesquisa Científica e
Jurídica da Pós-Graduação em Direito Público da
Universidade do Estado do Amazonas.

Manaus
2018
1. INTRODUÇÃO

Conforme preceitua o art. 196 da Constituição Federal de 1988, a saúde é um “direito


de todos e dever do Estado”; Além dessa previsão específica, o Título II da Carta Magna traz
o direito à saúde como um direito fundamental social, com previsão em seu art. 6º. Dessa
forma, por estar dotado de jusfundamentalidade, sua implementação caracteriza-se como uma
regra de observância obrigatória em um Estado Democrático de Direito1.
De acordo com o jurista José Gomes Canotilho2, “o processo de fundamentalização,
constitucionalização e positivação dos direitos fundamentais colocou o indivíduo, a pessoa, o
homem como centro da titularidade de direitos”. Dessa forma, é possível inferir que a saúde
deve ser entendida como um direito humano essencial, tendo em vista que é garantia de vida,
ou seja, sem a saúde o ser humano não se totaliza enquanto ser em dignidade. Todavia, mesmo
a despeito da importância que se reveste esse direito e da existência de um arcabouço jurídico
que estrutura o sistema de saúde brasileiro e impõe à administração pública o dever de
assegurar o seu acesso universal, o número de decisões judiciais obrigando o Poder Executivo
a fornecer bens e serviços de saúde, alguns de altíssimo custo, sofreu um aumento exponencial
nos últimos anos. Esse fenômeno tem como plano de fundo, juntamente com o crescente
protagonismo social e político do Poder Judiciário, a crise de confiança na autoridade pública
em decorrência das falhas existentes no SUS.
Ocorre que, além da questão relativa ao próprio direito individual pleiteado, existem
outras questões abrangentes que devem ser levadas em consideração, principalmente as
relativas ao orçamento público, como a escassez de recursos, a não previsão do gasto, o não
pertencimento de alguns medicamentos pleiteados às listas do Sistema Único de Saúde- SUS,
bem como a interferência do Poder Judiciário na forma como o Poder Executivo aloca
recursos.
Diante da conjuntura de excessiva procura por efetivação do direito à saúde através de
decisões judiciais e das críticas relacionadas, a questão de como o fenômeno da judicialização
da saúde influencia na gestão pública surge como fundamental. Estará o Poder Judiciário
devidamente preparado e democraticamente legitimado para se manifestar e acerca da
utilização dos recursos destinados à saúde?

1
SANTOS, Marcus Gouveia dos. Direitos Sociais: Efetivação, tutela judicial e fixação de parâmetros para a
intervenção judicial em políticas públicas. 1. ed. –Rio de Janeiro: LumenJuris, 2016. p. 115.
2
CANOTILHO, Gomes JJ. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 6. ed. -Coimbra, Portugal: Livraria
Almedina, 1993. p. 554.
2. OBJETIVOS

2.1 Objetivo Geral

Analisar o fenômeno da judicialização da saúde levando em consideração o impacto dos


altos gastos com as demandas individuais de fornecimento de medicamentos e tratamentos no
orçamento público e no planejamento das políticas universalistas de saúde.

2.2 Objetivos Específicos


 Discorrer sobre o direito à saúde no ordenamento jurídico brasileiro;
 Avaliar a repercussão judicial das falhas no Sistema Único de Saúde –SUS, em
especial no tocante às demandas individuais que pleiteiam a concessão de
medicamentos e tratamentos;
 Examinar as diferentes visões acerca da judicialização da saúde, sobretudo em relação
aos impactos causados no âmbito do orçamento e planejamento da administração
pública em âmbito federal, estadual e municipal em confronto com a previsão
constitucional da garantia da saúde como um direito de todos.
3. JUSTIFICATIVA

O panorama da judicialização da saúde no Brasil vem sendo analisado em diferentes


esferas, não somente a acadêmica. Segundo auditoria realizada pelo Tribunal de Contas da
União3 e divulgada no ano de 2017, os gastos da União com processos judiciais referentes à
saúde, em 2015, foram de R$ 1 bilhão de reais, um aumento de mais de 1.300% em sete anos.
Devido à relevância do tema, o Ministério da Saúde criou o Núcleo de Judicialização,
através da Portaria nº 2.566, publicada no Diário Oficial da União4, com a principal finalidade
de organizar e promover o atendimento das demandas judiciais no âmbito do Ministério da
Saúde que tenham por objeto impor à União a aquisição de medicamentos, insumos, material
médico-hospitalar e a contratação de serviços destinado aos usuários do Sistema Único de
Saúde.
Além disso, o Programa de Direito Sanitário da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)
divulgou5 no dia 24 de janeiro de 2018 um levantamento nacional da judicialização nos
municípios brasileiros. Os pesquisadores coletaram dados de 12.620 processos junto aos
tribunais de todo o país e foi constatado que em mais de 80% dos processos, o pedido é
deferido automaticamente, e raramente trazem a comprovação da demanda e uso pelo
paciente, ou mesmo o comprovante de entrega do medicamento. Ademais, foi apresentado o
caso específico de São Paulo, que tem atualmente 51 mil ações judiciais em atendimento, em
que 58% das ações judiciais vem da prescrição de um médico particular, 65% é referente a
medicamentos, 78% deles não são padronizados no SUS, 2% são produtos importados sem
registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e, em 22% das ações, se pede
uma marca comercial específica do medicamento. Os pesquisadores observaram ainda que,
nas decisões judiciais, não são consideradas as recomendações do Conselho Nacional de
Justiça (CNJ) e não se evidenciam as necessidades epidemiológicas regionais.
O Supremo Tribunal Federal, alinhado a outros órgãos que lidam com a questão da
judicialização, vem realizando audiências públicas para debater o tema Segundo a Ministra
Carmen Lúcia6, em audiência realizada do dia 11 de dezembro de 2017, o número

3
Disponível em: <http://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/aumentam-os-gastos-publicos-com-judicializacao-
da-saude.htm> Acesso em: 25 de janeiro de 2018.
4
Disponível em>
<http://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?data=05/10/2017&totalArquivos=288> Acesso em:
25 de janeiro de 2018.
5
Disponível em: < http://amazonia.fiocruz.br/index.php/2018/01/25/estudo-traca-panorama-da-judicializacao-
da-saude-no-brasil/> Acesso em: 02 de fevereiro de 2018.
6
Disponível em: < http://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=364338> Acesso em: 25
de janeiro de 2018.
considerável de ações nessa área acaba por colocar em campos opostos o cidadão que pede
acesso a um medicamento ou tratamento, amparado pelo princípio da dignidade da pessoa
humana e o Poder Público, que tem que lidar com a questão dos recursos econômicos e
financeiros.
Dessa forma, a reflexão acerca da judicialização do direito à saúde é extremamente
atual e relevante não somente para os representantes do Poder Executivo e os demandantes
das ações judiciais, mas também para os acadêmicos e estudiosos do Direito, tendo em vista
que afeta também o Poder Judiciário, mobilizando não somente magistrados. Analisar os
impactos que a judicialização acarreta para a população e para os gestores de políticas
públicas e de orçamento é de fundamental importância, tendo em vista que o cenário de crise
política e econômica enfrentado pelo Brasil tende a agravar a procura pela efetivação de
direitos sociais pela via judicial.
4. REFERENCIAL TEÓRICO

4.1. A SAÚDE COMO DIREITO FUNDAMENTAL SOCIAL E DEVER DO


ESTADO
De acordo com o preâmbulo da Constituição da Organização Mundial da Saúde 7, a
saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não consiste apenas na
ausência de doença ou de enfermidade. Dispõe ainda que é responsabilidade dos governos a
saúde dos seus povos, a qual só pode ser assumida pelo estabelecimento de medidas sanitárias
e sociais adequadas.
No ordenamento jurídico brasileiro, a concepção de saúde encontra atualmente
substrato no art. 3º da Lei nº 8.080/1990. Dispõe o citado artigo:

Art. 3o Os níveis de saúde expressam a organização social e econômica do País,


tendo a saúde como determinantes e condicionantes, entre outros, a
alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a
renda, a educação, a atividade física, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e
serviços essenciais.
Parágrafo único. Dizem respeito também à saúde as ações que, por força do
disposto no artigo anterior, se destinam a garantir às pessoas e à coletividade
condições de bem-estar físico, mental e social. 8 (grifou-se)

Historicamente, a Constituição Federal de 1988 foi a primeira Constituição brasileira a


reconhecer de forma expressa o direito à saúde como um direito fundamental, mais
especificamente como um direito fundamental social, conforme ensina Ingo Wolfgang
Sarlet9. A previsão na Constituição Cidadã se dá inicialmente no artigo 6º, contido no Título
II, referente aos direitos fundamentais:

Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a


moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à
maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta
Constituição. (grifou-se)

7
BIBLIOTECA VIRTUAL DE DIREITOS HUMANOS DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Constituição
da Organização Mundial da Saúde de 1946. Disponível em: <
http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/OMS-Organiza%C3%A7%C3%A3o-Mundial-da-
Sa%C3%BAde/constituicao-da-organizacao-mundial-da-saude-omswho.html>. Acesso em: 01 de fevereiro de
2018.
8
BRASIL. Lei nº 8.080 de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e
recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências.
Diário Oficial da União, Brasília, 20 de setembro de 1990.
9
SARLET, Ingo Wolfgang. Algumas considerações em torno do conteúdo, eficácia e efetividade do direito à
saúde na Constituição de 1988. Revista Eletrônica sobre a Reforma do Estado (RERE). Salvador, Instituto
Brasileiro de Direito Público, nº 11, setembro/outubro/novembro, 2007. p.4 Disponível em: <
http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/31953-37383-1-PB.pdf> Acesso em: 01 de fevereiro de
2018.
A Constituição tratou ainda de forma específica o direito à saúde em seus artigos 196 a
200, contidos no Título VIII, referente à Ordem Social, o instituindo como um direito de
todos e dever do Estado:
Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante
políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros
agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção,
proteção e recuperação. (grifou-se)

Além de ser colocado como direito fundamental, o direito à saúde é também


10
classificado como um direito social. Integra, portanto, segundo Sarlet , a segunda dimensão
dos direitos fundamentais, que marcou a evolução do Estado de Direito de inspiração liberal-
burguesa para um novo modelo de Estado e Constituição que se convencionou chamar de
Estado Social ou Estado Social de Direito. Na definição de José Afonso da Silva,

Direitos sociais são prestações positivas proporcionadas pelo Estado direta ou


indiretamente, enunciadas em normas constitucionais, que possibilitam melhores
condições de vida aos mais fracos, direitos que tendem a realizar a igualização de
situações sociais desiguais. São, portanto, direitos que se ligam ao direito de
igualdade. Valem como pressupostos do gozo dos direitos individuais na medida em
que criam condições materiais mais propícias ao auferimento da igualdade real, o
que, por sua vez, proporciona condição mais compatível com o exercício efetivo da
liberdade.11

Acerca do tema, aduz Sarlet que:

(...) com a positivação de direitos fundamentais sociais, econômicos e culturais, até


mesmo de um pacto internacional específico (Pacto Internacional dos Direitos
Econômicos, Sociais e Culturais de 1966), se pretendeu, em última análise, a
compensação das gritantes desigualdades socioeconômicas acarretadas ao longo da
Revolução Industrial (...) buscando a concretização da ideia de justiça metarial, por
meio de uma liberdade e igualdade não meramente formais, bem como pela extensão
da proteção da liberdade pessoal em relação ao exercício do poder social e e
conômico, que resultou na afirmação das liberdades sociais, como é o caso da
liberdade de associação sindical e direito de greve.12

Na sua dimensão prestacional, o direito à saúde determina que o Poder Público adote
condutas positivas, de natureza fática e normativa, impondo ao Estado, segundo Sarlet 13, “a
realização de políticas públicas que busquem a efetivação deste direito para a população”.
Portanto, o Estado deve estruturar organizações e procedimentos que viabilizem a promoção e
proteção do direito à saúde. Neste ponto, a Constituição estabeleceu em seu artigo 198, que as

10
SARLET, Ingo Wolfgang. Op. cit.p. 7.
11
SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 25. ed. São Paulo: Malheiros, 2005. p. 286.
12
SARLET, Ingo Wolfgang. Op. cit.p. 8.
13
SARLET, Ingo Wolfgang. Op. cit.p. 8.
ações e serviços de saúde conformarão um sistema - o Sistema Único de Saúde, não bastando,
portanto, apenas o reconhecimento do direito à saúde como um direito fundamental.
Convém consignar que a Constituição, apesar de atribuir ao Estado o dever de
concretizar o direito à saúde, admitiu também a possibilidade de que a execução daqueles
serviços e ações seja realizada indiretamente, mediante terceiros, inclusive pessoas físicas e
jurídicas de direito privado. É o que prevê o art. 197 da Carta Magna14.

4.2 O ATUAL PANORAMA DO SUS E AS CONSEQUÊNCIAS PRÁTICAS


DAS FALHAS NA CONCRETIZAÇÃO DO DIREITO À SAÚDE

Não é necessária uma grande gama de pesquisa doutrinária e jurisprudencial para se


chegar à conclusão de que o sistema público de saúde no Brasil apresenta severas falhas. Os
problemas no SUS são de conhecimento geral -estão no inconsciente coletivo e no dia-a-dia
de milhões de brasileiros- que dependem exclusivamente da rede pública para ter acesso aos
serviços. A própria mídia trata do assunto quase diariamente, levando aos noticiários casos
alarmantes decorrentes da omissão estatal, má gestão, e até mesmo crimes15 relacionados ao
uso do dinheiro público que deveria ser direcionado à implementação das políticas públicas
sanitárias.
Com efeito, a descrença na capacidade do Poder Executivo em gerir a saúde pública
acaba por levar muitos indivíduos a bater às portas do Poder Judiciário reclamando a
efetivação das prestações em saúde. Nelson Rodrigues dos Santos 16, ao analisar o problema,
aborda como principais problemas inerentes ao Sistema Único de Saúde atualmente o
subfinanciamento, a insuficiência na gestão local, a baixa resolutividade da rede básica de
serviços e a deficiência na formação dos profissionais. Especificamente no tocante ao
subfinanciamento, o autor aponta que em 1980, o governo federal participava com 75% do
financiamento público na saúde, e os estados e municípios, com 25%. Após 1988, os
municípios e estados vêm assumindo maiores responsabilidades, e somados, elevaram sua
participação de 25% para 54% do total do financiamento público da saúde, o mesmo não

14
Art. 197 da CF/88. São de relevância pública as ações e serviços de saúde, cabendo ao Poder Público dispor,
nos termos da lei, sobre sua regulamentação, fiscalização e controle, devendo sua execução ser feita diretamente
ou através de terceiros e, também, por pessoa física ou jurídica de direito privado.
15
Segundo a Polícia Federal, responsável pela Operação “Maus Caminhos”, mais de 112 milhões de reais foram
desviados da saúde pública no Estado do Amazonas em esquema fraudulento que bancava mansões, carros de
luxo e aeronaves. Disponível em: < http://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2016/09/esquema-de-fraudes-na-
saude-do-am-comprava-mansoes-e-aeronaves.html > Acesso em: 01 de fevereiro de 2018.
16
SANTOS, Nelson Rodrigues dos. SUS, política pública de Estado: seu desenvolvimento instituído e instituinte,
o direito sanitário, a governabilidade e a busca de saídas. Rio de Janeiro: Cebes, 2012. p. 12.
ocorrendo com a União, cuja participação porcentual caiu de 75% para 46%. Esse fator
mantém o Brasil entre os países que menos recursos públicos destinam por habitante em cada
ano e de menor porcentagem de recursos públicos para saúde, no PIB, perdendo para países
vizinhos como Argentina, Chile e Uruguai.17
Em contrapartida, segundo dados do Ministério da Saúde, mais de R$ 2,1 bilhões
foram gastos pela Administração Pública com ações judiciais nos últimos cinco anos18. De
acordo com o Conselho Nacional de Justiça19, tramitavam na justiça brasileira no ano de 2011
cerca de 240.980 processos relacionados às demandas judiciais da saúde, sendo que o Estado
do Rio Grande do Sul concentrava quase metade de todas as demandas do país: 113.953 ações
judiciais sobre saúde.
Na doutrina de Luís Roberto Barroso20, o termo judicialização significa que questões
de larga repercussão política ou social estão sendo decididas por órgãos do Poder Judiciário e
não pelas instâncias tradicionais: o Congresso Nacional e o Poder Público. O termo
envolveria, então, uma transferência de poder para juízes e tribunais, com alteração
significativa na linguagem, na argumentação e no modo de participação da sociedade. Aduz
ainda que a judicialização não se confunde com o ativismo judicial. Nas palavras do autor, a
judicialização, no contexto brasileiro, é “um fato, uma circunstância que decorre do modelo
constitucional que se adotou e não um exercício deliberado de vontade política” e ativismo
judicial seria “uma atitude, a escolha de um modo específico e proativo de interpretar a
Constituição, expandindo o seu limite e alcance”.
Dessa forma, resta claro que o fenômeno da judicialização das questões de saúde é
presente no atual cenário da doutrina e jurisprudência brasileira. Tal fenômeno vem recebendo
críticas que se relacionam principalmente à separação de poderes, à legitimidade democrática,
à ausência de instrumental à disposição do Judiciário para análise das políticas públicas,
dentre outros. Resta, portanto, analisar as nuances mais complexas acerca do papel do Poder
Judiciário, dos óbices levantados à judicialização, e por fim, das possíveis alternativas para a
judicialização excessiva.

4.3. AS DIVERSAS VISÕES ACERCA DO FENÔMENO DA JUDICIALIZAÇÃO


17
Ibidem, p. 13.
18
Disponível em: <http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/cidadao/principal/agencia-saude/20195-em-cinco-
anos-mais-de-r-2-1-bilhoes-foram-gastos-com-acoes-judiciais > Acesso em: 25 de janeiro de 2018.
19
Disponível em: < http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/79186-tribunal-de-justica-consegue-reduzir-numero-de-
acoes-com-demandas-de-saude > Acesso em: 25 de janeiro de 2018.
20
BARROSO, Luís Roberto. Judicialização, ativismo judicial e legitimidade democrática. Disponível em: <
http://www.oab.org.br/editora/revista/users/revista/1235066670174218181901.pdf > p. 3. Acesso em: 26 de
janeiro de 2018.
DA SAÚDE: CRÍTICAS E POSSÍVEIS SOLUÇÕES

4.3.1. Possíveis riscos para a legitimidade democrática

Os membros do Poder Judiciário não são agentes públicos eleitos. É dessa premissa que
parte a primeira crítica referente à judicialização da saúde. Se todo poder emana do povo,
consoante dispõe o parágrafo único do art. 1º da Carta Magna, onde se ancoraria a
legitimidade dos agentes do Poder Judiciário para invalidar decisões de representantes
democraticamente eleitos pela maioria e para alocar recursos notadamente escassos?

4.3.2. Falta de conhecimento técnico dos juízes acerca do funcionamento e


complexidades das políticas públicas e da alocação de recursos escassos

Juízes não são preparados para lidar com o erário, com a administração pública e com
o processo de execução das políticas sanitárias. É dessa afirmação que parte a segunda crítica
à judicialização da saúde. No debate a respeito da tutela judicial dos direitos sociais, um dos
principais argumentos para se defender a tese contrária à justiciabilidade destes direitos ou
uma justiciabilidade mais restrita é a falta de instrumental à disposição do Judiciário para a
completa análise de uma política pública, o que acarretaria em uma desorganização estrutural
no planejamento destas políticas, com a inclusão de novas variáveis originalmente não
previstas pelo administrador público.

4.3.3. A especialização dos magistrados e a criação de juízos especializados


A hipótese de especialização de juízos não é uma novidade na sistemática jurisdicional
atual, funcionando como uma forma de tratamento mais técnico a determinadas questões que
por suas peculiaridades, exigem diferenciada atenção. Um exemplo é o caso dos Juízos da
Infância e da Juventude, criados a partir do Estatuto da Criança e do Adolescente21. Mesmo as
divisões mais típicas, como as varas fazendárias, de família e sucessões e previdenciárias
revelam a opção pela especialização em determinados assuntos.
Em agosto de 2013, o Conselho Nacional de Justiça emitiu a Recomendação 4322, em
que aconselha aos tribunais sobre necessidade da criação de varas especializadas em

21
Conforme o art. 145 da Lei nº 8.069/90.
22
Disponível em:< http://www.conjur.com.br/2013-ago-06/cnj-recomenda-criacao-varas-especializadas-acesso-
saude>e <http://www.cnj.jus.br/busca-atos-adm?documento=1234>Acesso em: 27 de janeiro de 2018.
processos relacionados ao direito à saúde.
5. PROCEDIMENTO METODOLÓGICO

Neste trabalho será adotado o método dedutivo, que analisa os problemas em um


movimento lógico descendente, ou seja, a partir de uma premissa maior submentendo-se a
premissas menores, chegando-se pela lógica a uma conclusão que já estava presente nas
premissas trabalhadas ao longo do projeto, extraídas de fatos e dados de livros, artigos, sites e
textos que mostrem, comprovem e forneçam informações válidas no alcance dos objetivos
gerais e específicos.
5. CRONOGRAMA

PROCEDIMENTOS DEZ JAN FEV MAR ABR MAI JUN JUL AGO SET OUT NOV DEZ
OPERACIONAIS / MESES

Elaboração do projeto de X X
pesquisa
Apresentação do projeto de pesquisa X X

Submissão ao conselho de ética para X


os trabalhos que vão utilizar fonte
humana

Desenvolvimento da pesquisa X X X

Apresentação do relatório parcial do


desenvolvimento da pesquisa

Entrega do 1º. Capítulo da X


Monografia

Entrega do 2º. Capítulo da X


Monografia

Entrega do 3º. Capítulo da X


Monografia

Entrega da X
Monografia Completa

Ajustes finais da Monografia X X

Defesa da Monografia X
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARROSO, Luís Roberto. Judicialização, ativismo judicial e legitimidade democrática.


Disponível em: <
http://www.oab.org.br/editora/revista/users/revista/1235066670174218181901.pdf > p. 3.
Acesso em: 26 de janeiro de 2018.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Congresso Nacional, Brasília,


1988.

______. FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Saúde nos municípios brasileiros: um retrato


nacional. Disponível em: < https://www.fiocruzbrasilia.fiocruz.br/sa%C3%BAde-nos-
munic%C3%ADpios-brasileiros-um-retrato-nacional> Acesso em: 02 de fevereiro de 2018.

______. Lei nº 8.080 de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção,
proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços
correspondentes e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 20 de setembro
de 1990.
______. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Portaria nº 2.566 de 4 de outubro de 2017. Institui
Núcleo de Judicialização com a finalidade de organizar e promover o atendimento das
demandas judiciais no âmbito do Ministério da Saúde. Disponível em: <
<http://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?data=05/10/2017&totalArquivos=
288> Acesso em: 11 de dezembro de 2017.

______. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Ministra Cármen Lúcia: acesso do cidadão à


saúde precisa de melhores critérios e ferramentas. Disponível em: <
http://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=364338> Acesso em: 11 de
dezembro de 2017.

______. TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO. Aumentam os gastos público com


judicialização da saúde. Disponível em:
<http://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/aumentam-os-gastos-publicos-com-judicializacao-
da-saude.htm> Acesso em: 11 de dezembro de 2017.
CANOTILHO, Gomes JJ. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 6. ed. -Coimbra,
Portugal: Livraria Almedina, 1993.

MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Metodologia científica. 4. Ed. -São
Paulo: Atlas, 2006.

SANTOS, Marcus Gouveia dos. Direitos Sociais: Efetivação, tutela judicial e fixação de
parâmetros para a intervenção judicial em políticas públicas. 1. ed. –Rio de Janeiro:
LumenJuris, 2016.

SANTOS, Nelson Rodrigues dos. SUS, política pública de Estado: seu desenvolvimento
instituído e instituinte, o direito sanitário, a governabilidade e a busca de saídas. Rio de
Janeiro: Cebes, 2012.

SARLET, Ingo Wolfgang. Algumas considerações em torno do conteúdo, eficácia e


efetividade do direito à saúde na Constituição de 1988. Revista Eletrônica sobre a Reforma
do Estado (RERE). Salvador, Instituto Brasileiro de Direito Público, nº 11,
setembro/outubro/novembro, 2007. p.4 Disponível em: <
http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/31953-37383-1-PB.pdf> Acesso em:
20 de janeiro de 2018.

SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 25. ed. São Paulo:
Malheiros, 2005.

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (BIBLIOTECA VIRTUAL DE DIREITOS


HUMANOS). Constituição da Organização Mundial da Saúde de 1946. Disponível em: <
http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/OMS-Organiza%C3%A7%C3%A3o-Mundial-
da-Sa%C3%BAde/constituicao-da-organizacao-mundial-da-saude-omswho.html>. Acesso
em: 01 de fevereiro de 2018.