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Universidade Federal da Bahia – Departamento de Engenharia Ambiental Apostila Hidrologia 2011.

CAPÍTULO 1

CONCEITOS BÁSICOS

1.1 Introdução
Hidrologia é uma ciência multidisciplinar que lida com a ocorrência, circulação e distribuição das
águas na Terra.. Devido à natureza complexa do ciclo hidrológico e da sua relação com o clima, tipos de
solo, topografia e geologia, a hidrologia se confunde com outras ciências que fazem parte da geografia
física, tais como: meteorologia, geologia e oceanografia.
A atmosfera terrestre, os oceanos, as geleiras, os lagos, os rios e a crosta terrestre contêm cerca de 1
x1018m3 de água, distribuídos da seguinte forma (Peixoto e Oort, 1990 apud Tucci, 1993):

Oceanos 1.350 x 1015 m3


Geleiras 25 x 1015 m3
Águas subterrâneas 8,4 x 1015 m3
Rios e lagos 0,2 x 1015 m3
Biosfera 0,0006 x 1015 m3
Atmosfera 0,0130 x 1015 m3

Apesar da abundância, a distribuição espacial e temporal da água sobre a Terra é bastante irregular
causando problemas de excesso de água em alguns lugares e escassez em outros.
Aos problemas que ocorrem devido à aleatoriedade dos eventos hidrológicos vieram se somar aos
causados pela intervenção humana sobre o meio ambiente, que, em diversos lugares, alcançou um nível
crítico, afetando o clima e as condições de vida em escala global. Os estudos hidrológicos são utilizados
para avaliar o efeito destas ações antrópicas sobre os recursos hídricos, realizar previsões sobre o que
pode ocorrer no futuro, e que medidas podem ser adotadas para evitar ou reduzir as conseqüências
negativas para o bem estar da humanidade.
A Hidrologia Aplicada tenta superar estes problemas através da previsão de eventos extremos e da
disponibilidade dos recursos hídricos. Como ainda não é possível prever com segurança e com
antecedência os eventos hidrológicos, por serem estes aleatórios, a estatística, com base em registros
passados, é uma ferramenta de suporte à hidrologia.
O objetivo do estudo ou projeto determinará a fase do ciclo hidrológico e a escala de interesse.
Basicamente, existem dois grupos de estudo: (1) a estimativa de disponibilidade e demandas e (2) a
previsão de eventos extremos. O primeiro grupo se aplica a: planos diretores de bacias; estudos de
impacto ambiental; projetos de abastecimento; projetos de irrigação; projetos de geração de energia. O
segundo grupo se aplica a: projetos de proteção contra enchentes; projetos de grandes obras: barragens,
pontes, estradas; projetos de drenagem. Desta forma, pode-se resumir os principais objetos de interesse
do engenheiro hidrólogo nos seguintes itens:
1. Vazões máximas esperadas em galerias de drenagem ou bueiros;
2. Capacidade requerida de reservatórios para garantir suprimento de água adequado para irrigação
ou abastecimento urbano;

3. Efeito de barragens sobre o controle de enchentes em bacias hidrográficas;


4. Efeito do desenvolvimento urbano sobre o sistema de drenagem e o escoamento de enchentes;
5. Delimitação de níveis prováveis de enchentes para garantir a proteção de áreas urbanizadas
contra alagamentos, ou para realizar o zoneamento da bacia em relação ao risco de enchentes.
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A diversidade de interesses e a consequente diversidade de estudos tornam a Hidrologia Aplicada uma


ciência complexa, impondo especialistas em diversas áreas. O papel do hidrólogo é coordenar as
atividades destes profissionais e analisar os estudos elaborados, gerando um resultado que se aproprie aos
objetivos do estudo ou do projeto.

1.2 Histórico
Os primeiros estudos hidrológicos de que se tem registro tinham objetivos bastante práticos. Há 4000
anos, foi instalado no rio Nilo um nilômetro (escala para leitura do nível do rio Nilo), ao qual apenas
sacerdotes tinham acesso. A taxa de imposto a ser cobrada durante o ano dependia do nível de água do
rio Nilo. A primeira referência a medição de chuva data de cerca de 2000 anos, na Índia. Neste caso o
total precipitado no ano também servia como base para cálculo de impostos.
É interessante observar que as primeiras medições hidrológicas foram realizadas para servir a
propósitos sociais e políticos, ao invés de serem usados como base para projetos de obras hidráulicas ou
para o entendimento de fenômenos hidrológicos.
Na história recente da hidrologia foram observados grandes avanços a partir de 1930, quando agências
governamentais de países desenvolvidos começaram a desenvolver seus próprios programas de pesquisas
hidrológicas. Sherman (1932), o hidrograma unitário; Horton (1933), a teoria da infiltração; Gumbel
(1941) propôs a distribuição de valores extremos para análise de freqüência de dados hidrológicos.
A introdução da computação digital na hidrologia, nas décadas de 1960 e 1970, permitiu que problemas
hidrológicos complexos fossem simulados como sistemas completos pela primeira vez. O primeiro
modelo hidrológico completo foi desenvolvido pela Universidade de Stanford (1966). Este modelo pode
simular os processos mais importantes do ciclo hidrológico: precipitação, evapotranspiração, infiltração,
escoamento superficial, escoamento subterrâneo e escoamento em canais. Outros modelos foram
desenvolvidos em seguida: HEC-1 (1973), Corpo de Engenheiros do Exército Americano; ILLUDAS
(1974), e outros.
No Brasil, os primeiros textos publicados em hidrologia são de Garcez (1961) e Souza Pinto et al.
(1973). Por ocasião do Decênio Hidrológico Internacional, foi implantado no Rio Grande do Sul, com a
participação da UNESCO, o primeiro curso de pós-graduação em Hidrologia, junto ao Instituto de
Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do sul (IPH). O IPH tem sido responsável
pelo desenvolvimento de modelos de simulação hidrológica, tais como os modelos IPH, determinísticos,
tipo chuva-vazão, e os modelos MAG, para auxiliar na gestão de bacias.
Hoje existem inúmeros cursos de pós-graduação no país, que mantêm uma comunidade científica com
interesse específico em hidrologia. Em 1977, foi fundada a Associação Brasileira de Recursos Hídricos,
que tem publicado trabalhos científicos que são apresentados em simpósios, hoje internacionais, e
também publica revistas técnicas e livros de hidrologia.

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1.3 Ciclo hidrológico


Os processos físicos que controlam a distribuição e o movimento de água são melhor compreendidos se
descritos como ciclo hidrológico. Uma representação esquemática do ciclo hidrológico no meio
ambiente natural é mostrada na Figura 1.1.

O ciclo hidrológico pode ser dividido em


etapas para melhor compreensão:
precipitação; interceptação; infiltração;
escoamento superficial; escoamento
subterrâneo; transpiração e evaporação.
A precipitação, escolhida como ponto inicial,
é a etapa do ciclo hidrológico, cuja forma
mais frequente é a chuva, que ocorre quando o
vapor d’água presente na atmosfera se
aglutina formando microgotículas, que se
agrupam até alcançar tamanho e peso
suficiente para precipitar sob a forma de
chuva, neve ou granizo. A precipitação pode
ocorrer diretamente sobre um corpo d’água,
ou deslocar-se sobre o solo, a partir do ponto
de impacto, até um curso d’água, ou infiltrar.

Figura 1.1 - Ciclo hidrológico no meio natural

Na etapa seguinte, parte da precipitação sofre interceptação antes de tocar o solo, ficando retida na
vegetação até ser evaporada ou alcançar o solo, quando a precipitação exceder a capacidade de retenção
da vegetação, ou pela ação dos ventos.
A água retida em depressões do solo tende a infiltrar. A infiltração ocorre enquanto a intensidade da
precipitação não exceder a capacidade de infiltração do solo, ou seja, enquanto a superfície do solo não
estiver saturada.
A partir do momento em que foi excedida a capacidade de retenção da vegetação e do solo e a
superfície do solo já estiver saturada, passa a haver escoamento superficial. A água, impulsionada pela
gravidade para cotas mais baixas, forma pequenos filetes que tendem a se unir e formar cursos d’água,
que continuam fluindo até encontrar riachos que formarão rios, de porte cada vez maior, até atingir um
oceano ou um lago.
O escoamento subterrâneo acontece quando a porção de precipitação infiltrada percola até os aqüíferos
subterrâneos (zona de saturação), escoando de forma bastante lenta. Quando o escoamento da água
infiltrada ocorre na zona de aeração do solo (camada insaturada) até aparecer como escoamento
superficial é chamado de escoamento de base. Este escoamento mantém a vazão de base dos rios em
períodos de estiagem.
Parte da água armazenada no solo será consumida pela vegetação voltando, em seguida, à atmosfera
pelas folhas das plantas, em um processo chamado transpiração. O fenômeno de evaporação se inicia
antes mesmo da chuva tocar o solo, após a formação da precipitação. A evaporação ainda ocorre
diretamente do solo desprovido de vegetação. Nos lagos, mares e oceanos, rios e outros corpos d’água a
evaporação devolve a água à atmosfera, completando o ciclo hidrológico, estando, outra vez disponível
para ser precipitada.
O ciclo hidrológico em uma bacia pode ser representado, em unidades de altura (mm ou polegadas)
pela equação do balanço hídrico (Equação 1.1):

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P – R – G – E – T = ∆S (1.1)
Onde P = precipitação; R = escoamento superficial; G = escoamento subterrâneo ou de base; E =
evaporação; T = transpiração; S = armazenamento.

Esta representação do ciclo hidrológico pode


ser aplicada a qualquer tamanho de bacia,
como base para o desenvolvimento de um
E modelo matemático que represente o
escoamento em uma bacia. A principal
T dificuldade neste tipo de modelação é que
alguns dos termos da equação podem ser
R
P desconhecidos.
G2
A prova que o ciclo hidrológico em um meio
ambiente natural não é estático, é que a
S
G1 I própria paisagem, está sempre em constante
transformação. Precipitações muito intensas
causam erosão da superfície do solo. O
escoamento de ondas de cheia de eventos de
grande volume pode mudar a configuração
de leitos de rios, deslocando bancos de areia
e provocando erosão das margens. Em
períodos muito secos o perímetro de áreas
desérticas pode crescer. Em resumo, mesmo
em ambientes naturais, a precipitação e o
escoamento superficial causam alterações
significativas às bacias hidrográficas.
Fig. 1.2 - Esquema de balanço hídrico

Com o crescimento da população mundial, as alterações ao meio ambiente se tornaram mais importantes,
causando maiores mudanças às características do escoamento nas bacias hidrográficas. A derrubada da
vegetação natural para o desenvolvimento da agricultura aumenta a superfície de solo exposto, com óbvia
diminuição da proteção natural da vegetação. Esta perda de proteção diminui o potencial de infiltração
do solo, aumenta o escoamento superficial e resulta em grandes perdas de solo. Nos últimos dois
séculos, o crescimento das cidades tem modificado drasticamente a paisagem nos arredores destes
centros urbanos. A urbanização tem interferido significativamente nos processos envolvidos no ciclo
hidrológico.

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Superfícies impermeáveis, tais como


telhados e ruas pavimentadas,
reduzem o potencial de infiltração e
consequentemente a recarga dos
aqüíferos subterrâneos, aumentando o
volume do escoamento superficial.
Estas superfícies ainda apresentam
uma rugosidade menor, aumentando a
velocidade do escoamento superficial
e a erosão. Estas alterações do ciclo
hidrológico têm agravado as enchentes
e aumentado a sua freqüência,
trazendo transtornos e prejuízos às
populações urbanas. Uma
representação esquemática do ciclo
hidrológico no meio ambiente
urbanizado é mostrada na Figura 1.3.

Figura 1.3 - Ciclo hidrológico em ambiente urbanos

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Entretanto, embora tradicional, esta prova deixa ainda vacilante o sertanejo. Nem sempre desanima,
ante os seus piores vaticínios. Aguarda, paciente, o equinócio da primavera, para definitiva consulta
aos elementos. Atravessa três longos meses de expectativa ansiosa e no dia de S. José, 19 de março,
procura novo augúrio, o último.
Aquele dia é para ele o índice dos meses subseqüentes. Retrata-lhe, abreviadas em doze horas,
todas as alternativas climáticas vindouras. Se durante ele chove, será chuvoso o inverno: se, ao
contrário, o Sol atravessa arrazadoramente o firmamento claro, estão por terra as suas esperanças.

QUESTIONÁRIO

1. Como o ciclo hidrológico pode ser alterado em uma bacia em estado natural ?
2. Quais as etapas do ciclo hidrológico que são afetadas pela urbanização?
3. Defina o balanço hídrico. Descreva a sua equação.

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CAPÍTULO 2

BACIA HIDROGRÁFICA

2.1 - Introdução

A bacia hidrográfica pode ser entendida como uma área onde a precipitação é coletada e
conduzida para seu sistema de drenagem natural isto é, uma área composta de um sistema de
drenagem natural onde o movimento de água superficial inclui todos os usos da água e do solo
existentes na localidade (Magalhães, 1989).
Os limites da área que compreende a bacia hidrográfica são definidos topograficamente como
os pontos que limitam as vertentes que convergem para uma mesma bacia ou exutório.
As bacias hidrográficas caracterizam-se pelas suas características fisiográficas, clima, tipo de
solo, geologia, geomorfologia, cobertura vegetal, tipo de ocupação, regime pluviométrico e
fluviométrico, e disponibilidade hídrica.

2.2 - Delimitação da bacia

A delimitação de cada bacia hidrográfica é feita numa carta topográfica, seguindo as linhas
das cristas das elevações circundantes da seção do curso d’água em estudo. Cada bacia é assim, sob o
ponto de vista topográfico, separada das restantes bacias vizinhas.

Esta delimitação que atende apenas a fatores


de ordem topográfica “define uma linha de
cumeada a que poderíamos chamar linha de
divisão das águas” pois ela é que divide as
precipitações que caem e que, por escoamento
superficial, seguindo as linhas de maior declive,
contribuem para a vazão que passa na seção em
estudo (Fig. 2.1).

Figura. 2.1 - Área de contribuição de uma


bacia.

No entanto, as águas que atingem a seção do curso d’água em estudo poderão provir não só
do escoamento superficial como também do escoamento subterrâneo, que poderá ter origem em bacias
vizinhas. E, inversamente, parte do escoamento superficial poderá concentrar-se em lagos ou lençóis
subterrâneos que não tem comunicação com o curso de água em estudo, não contribuindo para a sua
vazão.

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Concluiu-se que, além da delimitação


topográfica, deve-se observar a delimitação da
bacia sob o ponto de vista geológico e em
formações características, calcárias ou de
geologia especial. Raramente as duas
delimitações coincidem (Fig. 2.2).

Figura 2.2 - Linhas divisórias freática e


topográfica

2.3 - Características Fisiográficas

As características fisiográficas de uma bacia são obtidas dos dados que podem ser extraídos
de mapas, fotografias aéreas e imagens de satélite. São: área, comprimento, declividade e cobertura
do solo, que podem ser expressos diretamente ou, por índices que relacionam os dados obtidos.

2.3.1 - Forma da Bacia

A forma da bacia não é, normalmente, usada de forma direta em hidrologia. No entanto,


parâmetros que refletem a forma da bacia são usados ocasionalmente e têm base conceitual. As
bacias hidrográficas têm uma variedade infinita de formas, que supostamente refletem o
comportamento hidrológico da bacia. Em uma bacia circular, toda a água escoada tende a alcançar a
saída da bacia ao mesmo tempo (Fig. 2.3).

Figura. 2.3 - Bacia Arredondada e as características do escoamento nela originado por uma
precipitação uniforme

Uma bacia elíptica, tendo a saída da bacia na ponta do maior eixo e, sendo a área igual a da
bacia circular, o escoamento será mais distribuído no tempo, produzindo portanto uma enchente
menor (Fig. 2.4).

Figura 2.4 - Bacia elíptica e as características do escoamento nela originado por uma precipitação
uniforme

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As bacias do tipo radial ou ramificada são formadas por conjuntos de sub-bacias alongadas
que convergem para um mesmo curso principal. Neste caso, uma chuva uniforme em toda a bacia,
origina cheias nas sub-bacias, que vão se somar, mas não simultaneamente, no curso principal.
Portanto, a cheia crescerá, estacionará, ou diminuirá na medida em que forem se fazendo sentir as
contribuições das diferentes sub-bacias (Fig. 2.5).

Figura 2.5 - Bacia ramificada e as características do escoamento nela originado por uma precipitação
uniforme

a) Fator de Forma: O fator de forma - Kf - é a relação entre a largura média e o comprimento axial
da bacia. Mede-se o comprimento da bacia (L) quando se segue o curso d’água mais longo desde
a desembocadura até a cabeceira mais distante da bacia. A largura média (L) é obtida quando se
divide a área pelo comprimento da bacia.

L
Kf =
L, (2.1)

A A
L= Kf =
mas L (2.2) logo L2 (2.3)

Onde A e L são respectivamente área da bacia em km2 e comprimento do rio principal em km.

O fator de forma é um índice indicativo da tendência para enchentes de uma bacia. Uma
bacia com um fator de forma baixo é menos sujeita a enchentes que outra de mesmo tamanho, porém
com maior fator de forma. Isso se deve ao fato de que numa bacia estreita e longa, com fator de forma
baixo, há menos possibilidade de ocorrência de chuvas intensas cobrindo simultaneamente toda sua
extensão; e também numa tal bacia, a contribuição dos tributários atinge o curso d’água principal em
vários pontos ao longo do mesmo, afastando-se, portanto, da condição ideal da bacia circular discutida
no item seguinte, na qual a concentração de todo o deflúvio da bacia se dá num só ponto.

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b) Coeficiente de Compacidade: coeficiente de compacidade ou índice de Gravelius - Kc - é a relação


entre o perímetro da bacia e o perímetro de um círculo de área igual á da bacia.
A
A = π .R 2 → R =
π (2.4) e (2.5)
P
Kc =
2πR (2.6)
Substituindo (2.5) em (2.6), tem-se:
0,28P
Kc =
A (2.7)
Onde P e A são respectivamente perímetro em km e área da bacia em km2. Este coeficiente é um
número adimensional que varia com a forma da bacia, independentemente do seu tamanho; quanto
mais irregular for a bacia, tanto maior será o coeficiente de compacidade. Um coeficiente mínimo
igual à unidade corresponderia a uma bacia circular. Se os outros fatores forem iguais, a tendência
para maiores enchentes é tanto mais acentuada quanto mais próximo da unidade for o valor desse
coeficiente.

2.3.2 - Relevo
Diversos parâmetros foram desenvolvidos para refletir as variações do relevo em uma bacia. Os
mais comuns são:

a) Declividade da bacia. Apesar de haver diversos métodos para estimar a declividade da bacia, o
mais comum é simular o da Equação 2.8, sendo que a diferença de cota (H) deve se referir a toda
bacia e não apenas ao canal. Há ainda o método das quadrículas associadas a um vetor. Esse
método é mais completo que o anterior e consiste em determinar a distribuição percentual das
declividades do terreno por meio de uma amostragem estatística das declividades normais às
curvas de nível em um grande número de pontos na bacia. Esses pontos devem ser locados num
mapa topográfico da bacia por meio de um quadriculado que se traça sobre o mesmo.

b) Curva Hipsométrica. É a representação


gráfica do relevo médio de uma bacia.
Representa o estudo da variação da elevação
dos vários terrenos da bacia com referência ao
nível médio do mar. Essa variação pode ser
indicada por meio de um gráfico que mostra a
porcentagem da área de drenagem que existe
acima ou abaixo das várias elevações. A curva
hipsométrica pode ser determinada pelo
método das quadrículas descrito no item
anterior ou planimetrando-se as áreas entre as
curvas de nível.
Percentagem da área de drenagem

Figura. 2.6 Curva Hipsométrica

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A Tabela 2.1 apresenta os passos utilizados para o cálculo de uma curva hipsométrica, a qual é
mostrada na (Fig. 2.6).

1 2 3 4 5 6
Cota (mm) Ponto Área (km2) Área Acumulada (km2) % Acumula
Médio(m) da
940-920 930 1,92 1,92 1.08 1,08
920-900 910 2,90 4,82 1,64 2,72
900-880 890 3,68 8,50 2,08 4,80
880-860 870 4,07 12,57 2,29 7,09
860-840 850 4,60 17,17 2,59 9,68
840-820 830 2,92 20,09 1,65 11,33
820-800 810 19,85 39,94 11,20 22,53
800-780 790 23,75 63,69 13,40 35,93
780-760 770 30,27 93,96 17,08 53,01
760-740 750 32,09 126,05 18,10 71,11
740-720 730 27,86 153,91 15,72 86,83
720-700 710 15,45 169,36 8,72 95,55
700-680 690 7,89 177,25 4,45 100
Total 177,25

Tabela 2.1 - Curva Hipsométrica

c) Elevação média da bacia. A variação da altitude e a elevação média de uma bacia são, também,
importantes pela influência que exercem sobre a precipitação, sobre as perdas de água por evaporação
e transpiração e, consequentemente, sobre o deflúvio médio. Grandes variações da altitude numa
bacia acarretam diferenças significativas na temperatura média a qual, por sua vez, causa variações na
evapotranspiração. Mais significativas, porém, são as possíveis variações de precipitação anual com a
elevação.
A elevação média é determinada por meio de um retângulo de área equivalente à limitada pela curva
hipsométrica e os eixos coordenados; a altura do retângulo é a elevação média. Outro método é o de
utilizar a equação

Σe.a
E=Σ (2.8)
A
Onde: E= elevação média
e= elevação média entre duas curvas de nível consecutivas
a= área entre as curvas de nível
A= área total

Outro fator importante no estudo das elevações da bacia é a Altura Média da Seção de Controle
(Desembocadura), a qual representa uma carga potencial hipotética a que estão sujeitos os volumes de
excesso de chuva e constitui um fator que afeta o tempo que levariam as águas para atingir a seção de
controle. Essa altura é determinada pela diferença entre a elevação mediana e a elevação do leito na
desembocadura.

d) Declividade de álveo. A velocidade de escoamento de um rio depende da declividade dos canais


fluviais. Assim, quanto maior a declividade, maior será a velocidade de escoamento e bem mais
pronunciados e estreitos serão os gráficos vazão x tempo das enchentes.
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Obtém-se a declividade de um curso d’água, entre dois pontos, dividindo-se a diferença total de
elevação do leito pela extensão horizontal do curso d’água entre esses dois pontos.
A declividade do canal pode ser descrita como:
∆H
S=
L (2.9)
Onde S é a declividade (m/m), H é diferença de cota (m) entre os pontos que definem o início e o fim
do canal (nascente e foz), L é o comprimento do canal entre estes pontos (rio principal).

Na Figura 2.7 é apresentado um perfil


longitudinal de uma bacia, onde a declividade
entre a foz e a nascente está representada pela
linha S1. Traça-se S2, tal que, a área
compreendida entre ela e a abscissa seja igual á
compreendida entre a curva do perfil e a
abscissa. Traçando-se S3, que representa a
declividade equivalente constante, tem-se uma
idéia sobre o tempo de percurso da água ao
longo da extensão do perfil longitudinal

Fig. 2.7 - Perfil longitudinal do Ribeirão do


Lobo

Outra forma de determinar a declividade é utilizada para terrenos com declividade constante,
podendo-se até determinar através desta declividade o tempo de percurso da precipitação. Caso o
curso d’água tivesse uma declividade constante igual a declividade equivalente, o tempo de percurso
seria determinado da seguinte maneira:
Considerando-se que o tempo de percurso varia em toda a extensão do curso d’água com o
recíproco da raiz quadrada da declividade, dividindo-se o perfil de álveo em um grande número de
trechos retilíneos, tem-se que a raiz quadrada da declividade equivalente constante é a média
harmônica ponderada da raiz quadrada das declividades dos diversos trechos retilíneos, tomando-se
como peso a extensão de cada trecho. Logo,

S13/ 2 =
∑L i
(2.10)
L 
∑  S
i

 i

Onde:
S i = Di (2.11)

Sendo,
Di= declividade de cada trecho, logo:
2
 
 
 ∑ Li 
S =  
 Li 
3
 
 ∑  
 
  D  
i
(2.12)
Onde: Li = distância real medida em linha inclinada

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2.3.3 Padrões de drenagem


A velocidade do escoamento em canal é usualmente maior que a velocidade de escoamento
superficial. Portanto, o tempo de deslocamento do escoamento em uma bacia na qual o comprimento
de escoamento superficial é pequeno em relação ao comprimento do canal seria menor do que em uma
bacia com trechos longos de escoamento superficial. O tempo de deslocamento do escoamento em
uma bacia é um dado de extreme importância para diversos estudos hidrológicos, como será mostrado
a seguir. O padrão de drenagem é um indicador das características do escoamento de uma
precipitação. Alguns parâmetros foram desenvolvidos para representar os padrões de drenagem.

a) Ordem dos Cursos D’Água - Leis de Horton


- A ordem do curso d’água é uma medida da
ramificação dentro de uma bacia. Um curso
d’água de primeira ordem é um tributário sem
ramificações; um curso d’água de 2a ordem é um
tributário formado por dois ou mais cursos
d’água de 1a ordem; um de 3a ordem é formado
por dois ou mais cursos de 2a ordem; e,
genericamente, um curso d’água de ordem n é
um tributário formado por dois ou mais cursos
d’água de ordem (n - 1) e outros de ordens
inferiores.

Figura 2.8 - Ordem dos cursos d'água


segundo Horton

Para uma bacia hidrográfica, a ordem principal é definida como a ordem principal do
respectivo canal. A Figura 2.8 mostra a ordenação dos cursos d’água de uma bacia hipotética. Neste
caso, a ordem principal da bacia é 4.

b) Densidade de Drenagem

A densidade de drenagem (D) é a razão entre o comprimento total dos cursos d’água em uma
bacia e a área desta bacia hidrográfica. Um valor alto para D indicaria uma densidade de drenagem
relativamente alta e uma resposta rápida da bacia a uma precipitação.

LT
D=
A (2.13)
Onde LT é a extensão total dos cursos d’água e A é a área da bacia hidrográfica.

Exemplo: A área da bacia é 115 Km2, a extensão total dos cursos d’água é 29,0Km. A densidade de
drenagem é, portanto:
LT 29
D= = = 0,25km / km 2
A 115
Segundo SWAMI (1975), índices em torno de 0,5km/km2 indicaria uma drenagem pobre,
índices maiores que 3,5km/km2 indicariam bacias excepcionalmente bem drenadas.

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c) Tempo de Concentração (tc)

Como tempo de concentração de uma bacia, entende-se o tempo necessário para que uma
partícula de água se desloque do ponto mais distante da bacia até o exutório da mesma. Existem
diversas formulas para a sua determinação sendo a maioria empírica. Destacamos a fórmula de
Kirpich (1940), por ser a mais usada:

0 ,385
 3


t c = 0,95 L 
 ∆H


Sendo:

tc: Tempo de concentração [horas]


L: Comprimento do rio principal [km]
∆H: diferença de nível, em [m]

2.3.4. Cobertura vegetal da bacia

A cobertura vegetal, e em particular as florestas e as culturas da bacia hidrográfica, vêm


juntar a sua influência à de natureza geológica dos terrenos, condicionando a maior ou menor rapidez
do escoamento superficial.
Para, além disso, a sua influência exerce-se, também, na taxa de evaporação da bacia, com

uma ação regularizadora de caudais, sobretudo nos climas secos. No caso de grandes cheias com

elevados caudais a sua ação é, no entanto, praticamente nula. Além da influência que exerce na

velocidade dos escoamentos e na taxa de evaporação, a cobertura vegetal desempenha papel

importante e eficaz na luta contra a erosão dos solos.

QUESTIONÁRIO

1. O que significa um fator de forma alto?


2. Como a declividade influencia na resposta da bacia a enchentes?
3. Como o fator de forma (Kf) e o Coeficiente de compacidade (Kc) podem traduzir o
comportamento de uma bacia hidrográfica?

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CAPÍTULO 3( parte 2)

PRECIPITAÇÃO

3.1 INTRODUÇÃO

A precipitação pode assumir diversas formas, incluindo: chuva, neve, granizo e orvalho. Com
relação à hidrologia, apenas chuva e neve são importantes. Este curso tratará apenas da precipitação
pluviométrica, já que a precipitação de neve não é significativa no Brasil.
Por sua capacidade para produzir escoamento, a chuva é o tipo de precipitação mais
importante para a hidrologia e o principal elemento da maioria dos projetos hidrológicos. Os
problemas de engenharia relacionados com a hidrologia são em sua grande maioria conseqüência de
chuvas de grande intensidade ou volume e da ausência de chuva em longos períodos de estiagem.
Chuvas de grande intensidade em áreas urbanas causam o alagamento das ruas, porque o sistema de
drenagem não é projetado para chuvas muito intensas. Precipitações de grande intensidade podem,
ainda, causar danos à agricultura e a estrutura de barragens. A ausência de chuvas por longos períodos
reduz a vazão dos rios, causando a diminuição do nível dos reservatórios. Vazões reduzidas devido à
falta de chuva trazem danos ao ambiente do curso d’água, além de reduzir a água disponível para
diluição de poluentes. A diminuição do nível dos lagos e reservatórios reduzem a disponibilidade da
água para usos como: abastecimento, irrigação e geração de energia. É evidente, então que os
problemas surgem quando a precipitação ocorre em situações extremas (mínimos ou máximos) de
intensidade e/ou freqüência, ou quando os intervalos entre precipitações são excessivamente longos.

A disponibilidade de precipitação em uma bacia durante o ano é o fator determinante para


quantificar, entre outros, a necessidade de irrigação de culturas e o abastecimento de água doméstico e
industrial. A determinação da intensidade da precipitação é importante para o controle de inundação e
a erosão do solo.

As características principais da precipitação são o seu total, duração e distribuição temporal


e espacial. O total precipitado não tem significado se não estiver ligado a uma duração. Por exemplo,
100 mm pode ser pouco em um mês, mas é muito em um dia ou, ainda mais, em uma hora. A
ocorrência da precipitação é um processo aleatório que não permite uma previsão determinística com
grande antecedência. O tratamento dos dados de precipitação para grande maioria dos problemas
hidrológicos é estatístico.

3.2 MECANISMOS DE FORMAÇÃO DAS PRECIPITAÇÕES

O vapor de água contido na atmosfera constitui um reservatório potencial de água que, ao


condensar-se, possibilita a ocorrência das precipitações. A origem das precipitações está ligada ao
crescimento das gotículas das nuvens, que ocorre em função de certas condições. Efetivamente,
muitas vezes existem nuvens que não produzem chuvas, o que evidencia a necessidade de processos
que desencadeiem a precipitação.
Para a ocorrência da precipitação das gotículas de água é necessário que estas alcancem um
volume tal que seu peso seja superior às forças que as mantêm em suspensão, adquirindo, então, uma
velocidade de queda superior às componentes verticais ascendentes dos movimentos atmosféricos.
A nuvem é um aerosol constituído por uma mistura de ar, vapor de água e de partículas em
estado líquido ou sólido (gelo) cujos diâmetros variam de 0,01 a 0,03 mm, espaçadas, em média, um
milímetro entre si. O ar que envolve as gotículas das nuvens se acha num estado próximo ao da
saturação e, por vezes, supersaturado. Esse aerosol fica estável, em suspensão, pelo efeito da

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turbulência no meio atmosférico e/ou devido à existência de correntes de ar ascendentes que


contrabalançam a força da gravidade.
As gotículas possuem massa de 0,5 a 1 grama de água por m3 de ar, enquanto o ar saturado
que envolve as gotículas tem umidade de 1 a 6 gramas por m3 ( -20ºC a 5ºC). A concentração das
gotículas é de cerca de 1000/cm3. Dessa forma, a quantidade total de água presente em uma nuvem,
nos três estados pode variar de 1,5 a 7 g/m3.
As gotículas de chuva têm diâmetros de 0,5 a 2,0 mm (densidade espacial de 0,1 a 1 gota por
dm3), com um valor máximo de 5,0 a 5,5 mm. Quando uma gota cresce até atingir um diâmetro de 7,0
mm, sua velocidade de queda será de 9 m/s. A uma velocidade tão alta a gota se deforma e subdivide
em gotas menores devido à resistência do ar. As gotas de chuva têm dimensões muito maiores do que
as gotículas das nuvens. A origem das precipitações está intimamente ligada ao crescimento das
gotículas das nuvens.
O ar atmosférico, além dos gases que o compõem, contém partículas minúsculas (diâmetro
variando de 0,01 a 1 mícron) de várias origens: argilosas, orgânicas (pólen), químicas e sais marinhos.
Sobre essas partículas se realiza com facilidade a condensação do vapor atmosférico. Essas partículas
funcionam como núcleos de condensação. Observa-se que quando o ar úmido sobe e atinge o nível de
saturação, as gotículas de água que se formaram não têm tendência a se unirem ente si sem a presença
dos núcleos de condensação.

3.3 CLASSIFICAÇÕES DAS PRECIPITAÇÕES

Conforme o mecanismo fundamental pelo qual se produz a ascensão do ar úmido, as


precipitações podem ser classificadas em:

Convectivas: quando em tempo calmo, o ar úmido for aquecido na vizinhança do solo, podem-se criar
camadas de ar que se mantêm em equilíbrio instável. Perturbado o equilíbrio, forma-se uma brusca
ascensão local do ar menos denso que atingirá seu nível de condensação com formação de nuvens, e
muitas vezes, precipitações. São as chuvas convectivas, características das regiões equatoriais, onde
os ventos são fracos e os movimentos de ar são essencialmente verticais, podendo ocorrer nas regiões
temperadas por ocasião do verão (tempestades violentas). São, geralmente, chuvas de grande
intensidade e de pequena duração, restritas a áreas pequenas. São precipitações que podem provocar
importantes inundações em pequenas bacias.

Prof. Daniel G. Allasia


www.ufsm.br/dga- HD5402-Precipitação

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Orográficas:

Quando os ventos quentes e úmidos, soprando geralmente do oceano para o continente, encontram
uma barreira montanhosa, elevam-se e se resfriam adiabaticamente havendo condensação do vapor,
formação de nuvens e ocorrência de chuvas. São chuvas de pequena intensidade e grande duração,
que cobrem pequenas áreas. Quando os ventos conseguem ultrapassar a barreira montanhosa, do lado
oposto projeta-se uma sombra pluviométrica, dando lugar a áreas secas ou semi-áridas causadas pelo
ar seco, já que a umidade foi descarregada na encosta oposta;

Prof. Daniel G. Allasia


www.ufsm.br/dga- HD5402-Precipitação

Frontais ou ciclônicas: provêem da interação de massas de ar quentes e frias. Nas regiões de


convergência na atmosfera, o ar quente e úmido é violentamente impulsionado para cima, resultando
no seu resfriamento e na condensação do vapor de água, de forma a produzir chuvas. São chuvas de
grande duração, atingindo grandes áreas com intensidade média. Essas precipitações podem vir
acompanhadas por ventos fortes com circulação ciclônica. Podem produzir cheias em grandes bacias.

Observam-se diferentes formas de precipitações na natureza:

• Chuvisco (neblina ou garoa): precipitação muito fina e de baixa intensidade;


• Chuva: é a ocorrência da precipitação na forma líquida. A chuva congelada é a precipitação
constituída por gotas de água sobrefundida que congelam instantaneamente quando se chocam
contra o solo, formando uma capa de gelo.
• Neve: é a precipitação em forma de cristais de gelo que durante a queda coalescem formando
blocos de dimensões variáveis;
• Saraiva: é a precipitação sob a forma de pequenas pedras de gelo arredondadas com diâmetro
de cerca de 5 mm.
• Granizo: quando as pedras, redondas ou de forma irregular, atingem grande tamanho
(diâmetro ≥ 5mm);
• Orvalho: nas noites claras e calmas, os objetos expostos ao ar amanhecem cobertos por
gotículas de água. Houve a condensação do vapor de água do ar nos objetos que resfriam
durante a noite. O resfriamento noturno, geralmente, baixa a temperatura até ponto de
orvalho;
• Geada: é a deposição de cristais de gelo, fenômeno semelhante ao da formação de orvalho,
mas ocorre quando a temperatura é inferior a 0ºC.

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3.4 PLUVIOMETRIA

3.4.1 INTRODUÇÃO

A medição da quantidade da água que cai em uma região é dita pluviometria. Sendo os
diversos tipos de precipitação, de um modo geral, medidos indiscriminadamente através do seu
equivalente em água pela chamada altura pluviométrica (diz-se que caíram x mm de chuva).

As grandezas que caracterizam uma precipitação são:

• Altura pluviométrica (h): é a espessura média da lâmina de água precipitada que recobriria a
região atingida pela precipitação admitindo-se que essa água não se infiltra, não evapora, nem
escoa para fora dos limites da região. A unidade de medição habitual é o milímetro de chuva.

• Duração (X): é o período de tempo durante o qual a chuva cai. As unidades normalmente
utilizadas são minuto ou hora.

• Intensidade (i): é a precipitação por unidade de tempo, obtida com a relação i = h/X. Se Expressa
normalmente em mm/h ou mm/min. A intensidade de uma precipitação apresenta variabilidade
temporal, mas, para a análise dos processos hidrológicos, geralmente são definidos intervalos de
tempo nos quais é considerada constante.

3.4.2 REGIME PLUVIOMÉTRICO

É o conjunto de características dessa mesma região resultantes da pluviosidade média e


distribuição, freqüência e duração das chuvas. Sendo cada região caracterizada pelo seu regime
pluviométrico.

3.4.3 APARELHOS DE MEDIDA

As grandezas pluviométricas são obtidas direta ou indiretamente, através dos aparelhos


descritos abaixo:

a) PLUVIÔMETRO. É fundamentalmente constituído


por um recipiente aberto de bordas delgadas e
chanfradas, a fim de que fique bem definida a abertura
exposta à chuva, com diâmetro superior rigorosamente
conhecido, tendo-se mais frequentemente 100, 200,
314, 400 ou 1000 cm2 de área de captação. Essa
abertura é internamente afunilada, deixando apenas
um pequeno orifício para a passagem de água, e
diminuindo assim a possibilidade de evaporação da
mesma (já que o contato com a atmosfera se restringe
ao dito orifício). Em baixo, há uma válvula de saída
para a água ser recolhida em uma proveta: que deve
estar calibrada para que se faça a leitura diretamente
em mm de chuva, ou pode ser uma proveta das mais
comuns onde a leitura é feita em uma unidade de
volume, em mililitro, que corresponde a 1 cm3 .

Para o cálculo da lâmina precipitada deve-se utilizar a seguinte formula:


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10V
P= (3.1)
A

Onde: P = a precipitação em mm acumulada no tempo entre as observações,


V = o volume de água coletado é medido na proveta em cm3
A = área da abertura superior do aparelho em cm2

b) PLUVIÓGRAFO. Em muitos estudos hidrológicos, previsão de picos de cheia, por exemplo, é


indispensável conhecer não somente a altura total de precipitação referente a um determinado período,
mas também a intensidade dessas precipitações em cada instante ao longo desse período.
Utiliza-se então um pluviógrafo, também chamado de pluviômetro registrador ou udógrafo, cujo
aparelho registrador traça em diagrama a curva das precipitações acumuladas no período.

As figuras 3.3 e 3.4 mostram o esquema de funcionamento e a foto de um pluviógrafo. Na fig.


3.5 vêem-se os diagramas de chuva gerados por este.

Fig 3.3 - Esquema de funcionamento Fig 3.4 - Foto Fig. 3.5 - Diagrama de chuva

3.4.4 LOCALIZAÇÃO DOS PLUVIÔMETROS

A medida correta das alturas de precipitação está longe de ser simples, basicamente pelas seguintes
razões:
a) Seja qual for o seu tipo, o pluviômetro cria uma perturbação aerodinâmica que modifica mais ou
menos o campo das precipitações, originando, na sua vizinhança imediata, turbilhões que afetam a
quantidade chuva e sobretudo a neve captada.
b) Há poucos locais ao mesmo tempo suficientemente abrigados para reduzir ao mínimo o efeito
aerodinâmico acima referido e, entretanto, convenientemente desobstruídos para fornecer uma
amostra típica válida da região, seja qual for a direção do vento e da perturbação pluviosa.
c) Uma medida de chuva não pode ser nunca repetida.
d) A amostra revelada pelo pluviômetro é sempre extraordinariamente pequena em relação ao
conjunto da chuva que nós supomos por ela determinada sobre uma zona sempre muito extensa;
ela é tanto menos representativa quanto mais importante for a heterogeneidade espacial da chuva
sobre a zona considerada.

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É, portanto essencial medir as precipitações com aparelhos estabelecidos, instalados e


explorados segundo métodos extremamente normatizados, para obter resultados tão representativos
quanto possível.
Para tirar melhor partido da utilização dos pluviômetros é conveniente ter em conta os
seguintes princípios gerais:
1) A boca do pluviômetro deve ficar bem horizontal; na prática podemos estimar em 1% o erro
produzido por cada grau de inclinação do pluviômetro sobre a horizontal, desde que ela não
exceda 10º ; este erro é positivo quando a inclinação do plano de abertura está dirigida para o
vento e negativo no caso contrário.
2) Parece (há autores de opinião contrária) que os pluviômetros acusam uma altura de precipitação
tanto maior quanto maior for a área de recepção de sua abertura.
3) É a ação do vento, variável em sua velocidade e a situação mais ou menos exposta do
pluviômetro, a principal causa de erro na medição das precipitações. O aumento de velocidade
do ar e a formação de turbilhões na vizinhança imediata do aparelho tem por conseqüência um
desvio local da trajetória das partículas da chuva ou de neve que ocasiona um erro por defeito
na altura das precipitações medidas. O erro é tanto maior quanto maior for a velocidade do
vento e menor a velocidade de queda das gotas de água ou flocos de neve.
De acordo com o que se acaba de expor e para reduzir o erro ao mínimo, os pluviômetros
devem colocar-se em exposição abrigada, mas sem obstáculos. A altura normatizada deste aparelho é
de 1,5 metros do solo.

A situação ideal é a localização em uma área grande, plana e livre de árvores e edifícios que
possam interceptar a precipitação. Além disso, para reduzir os efeitos do vento, deve-se instalar
barreiras baixas, com envolventes cilíndricos ou tapumes, a uma distância do pluviômetro não inferior
ao dobro da sua altura. Modernamente também se usam telas que envolvem a curta distância a
superfície receptora, conseguindo muito aproximadamente realizar um pluviômetro
“aerodinamicamente neutro”.

A densidade ótima da rede pluviométrica depende evidentemente da finalidade e da


heterogeneidade das chuvas na região em estudo. Assim, em bacias planas, extensas, mas
homogêneas, uma rede pouco densa será satisfatória. Ao contrário, se o objetivo é estudar a influência
de precipitações de curta duração numa região montanhosa, teremos de multiplicar a rede e utilizar
vários aparelhos registradores.

3.5 APRESENTAÇÃO DOS DADOS PLUVIOMÉTRICOS

Os dados pluviométricos são atualmente registrados, armazenados e apresentados em forma


de tabelas e/ou de bancos de dados.
Para maior facilidade de comparação desses dados, recorre-se a representações gráficas.
Uma análise pluviométrica decorre ao longo do tempo em determinada região. Portanto, tem-
se que utilizar duas espécies de representações gráficas: uma temporal, relativa à evolução
pluviométrica em um mesmo ponto (posto); outra espacial, dando-nos a noção de como varia, de
ponto a ponto da região, ou seja, a pluviometria relativa a um dado intervalo de tempo.

3.5.1. REPRESENTAÇÃO TEMPORAL

Recorre-se, mais freqüentemente, a dois tipos de diagrama, que a seguir se apresentam.

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a)HIETOGRAMA: relaciona intensidade média de


precipitação com o tempo. Representando em abcissa os
tempos, divididos em intervalos iguais ao período de
observação pluviométrica. Desenham-se retângulos de
área proporcional às alturas de precipitação
correspondentes a esses intervalos para obter, assim, um
diagrama com o aspecto igual ao da fig. 3.6, ao qual se dá
o nome de hietograma.
Fig. 3.6 - Hietograma

Mas se as divisões do tempo forem iguais a unidade, a intensidade média de cada intervalo
exprime-se pelo mesmo número que a altura de precipitação relativa ao mesmo intervalo; por isso,
nesses casos pode-se marcar nas ordenadas simplesmente as alturas de precipitação.

b) CURVA DE PRECIPITAÇÕES ACUMULADAS: corresponde á curva integral do hietograma.

Sendo i = dh/dt = i(t) a função


correspondente ao hietograma (designando por i a
intensidade e h a altura de precipitação), a curva de
precipitação acumulada se definirá por :
h = ∫ i (t )dt
(3.2)
Portanto ela nos dá, para cada valor de
tempo, a altura de precipitação caída desde a origem
dos tempos até esse momento. Veja o exemplo da
figura 3.7.
Fig. 3.7 - curva de precipitações acumuladas

3.5.2 REPRESENTAÇÃO ESPACIAL (CARTAS PLUVIOMÉTRICAS)

A variação em dada região, da pluviometria relativa a um determinado período de tempo


representa-se habitualmente por mapas dessa mesma região, ou cartas pluviométricas. Elas nos dão,
portanto uma idéia de conjunto sobre a repartição das chuvas nesse território durante o período em
causa. Normalmente este período é de um ou mais anos, sendo no segundo caso habitual trabalhar-se
com os valores médios das precipitações anuais.

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A) REPRESENTAÇÃO PELAS ISOIETAS

As isoietas são linhas que representam a


distribuição pluviométrica de uma região, através de
curvas de igual precipitação. Este meio de
representação pluviométrica é inteiramente análogo
ao da representação topográfica. A figura 3.8 mostra
as isoietas para uma bacia hidrográfica teórica

Fig. 3.8 - Mapa de isoietas de uma bacia


hidrográfica

Para traçar as isoietas, parte-se dos dados relativos


aos postos pluviométricos da região (pertencentes ao
intervalo em que se fará as curvas). Interessa-nos em
primeiro lugar determinar os pontos de pluviosidade igual
às das isoietas que desejamos traçar. Para isso supomos
que no seguimento de reta que une dois pontos vizinhos é
linear a variação da pluviosidade. Com base nesta hipótese,
vejamos como determinar entre os pontos A e B de alturas
de chuva HA e HB , o ponto C corresponde a altura de chuva
HC.
Da figura 3.9 tira-se que:
x L AB
= (3.3)
hA − hc hA − hB
Fig 3.9 - Determinação de isoietas
Na construção dos mapas de isoietas, o analista pode também considerar os efeitos
orográficos e morfologia temporal, de modo que o mapa final represente um modelo de precipitação
mais real do que o que seria obtido de medidas isoladas

3.6 ANÁLISE DE DADOS PLUVIOMÉTRICOS

O objetivo de um posto de medição de chuvas é o de obter uma série, sem falhas, de


precipitações ao longo dos anos (ou estudo da variação das intensidades de chuva ao longo das
tormentas). Em qualquer caso pode ocorrer a existência de períodos sem informações ou com falhas
nas observações, devido a problemas com os aparelhos de registro e/ou com o operador do posto. As
causas mais comuns de erros grosseiros nas observações são: a) preenchimento errado na caderneta de
campo; b) soma errada do número de provetas, quando a precipitação é alta; c) valor estimado pelo
observador, por não se encontrar no local da amostragem; d) crescimento de vegetação ou outra
obstrução próxima ao posto de observação; e) danificação do aparelho; f) problemas mecânicos no
registrador gráfico.
Logo como há necessidade de se trabalhar com séries contínuas, essas falhas devem ser
preenchidas. Também necessita-se que seja estudada a consistência dos dados dentro de uma visão
regional, ou seja, comparar o grau de homogeneidade dos dados disponíveis num posto, com relação
às observações registradas em postos vizinhos.

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3.6.1 PREENCHIMENTO DE FALHAS — MÉTODO DA PONDERAÇÃO REGIONAL

É um método simplificado, geralmente utilizado para o preenchimento de séries mensais e


anuais, onde as falhas de um posto são preenchidas através de uma ponderação com base nos dados de
pelo menos três postos vizinhos, que devem ser de regiões climatológicas semelhantes a do posto em
estudo e ter uma série de dados de no mínimo 10 anos.
Designando por x a estação que apresenta falhas e por A, B e C as estações vizinhas, pode-se
determinar a precipitação desta estação através da seguinte equação:

1M M M 
Px =  x Pa + x Pb + x Pc  (3.4)
3  Ma Mb Mc 

Onde:
Px - É a variável que guardará os dados corrigidos
Mx - Média aritmética da estação com falha
Ma, Mb e Mc - Média aritmética das estações vizinhas
Pa, Pb e Pc - É o dado da estação vizinha, ao posto com falha, do mesmo ano que utilizamos
para preencher a falha.

3.6.2 ANÁLISE DE CONSISTÊNCIA DE SÉRIES PLUVIOMÉTRICAS

Esse tipo de análise é utilizada para verificar a homogeneidade dos dados, isto é, se houve
alguma anormalidade na estação pluviométrica, tal como mudança de local ou das condições do
aparelho ou modificação no método de observação.

MÉTODO DE DUPLA MASSA

Este método consiste em selecionar os postos de uma região (que deve ser considerada
homogênea do ponto de vista hidrometerológico), acumular para cada um deles os valores (mensais
ou anuais conforme a análise), plotar em um gráfico cartesiano os valores acumulados
correspondentes ao posto a consistir (eixo ordenado) com os valores médios das precipitações
mensais acumuladas em vários pontos da região (eixo das abscissas) que servirá como base para
comparação.
Se os valores dos postos a consistir forem proporcionais aos observados na base de
comparação, os pontos devem se alinhar segundo uma única reta. A declividade desta reta determina o
fator de proporcionalidade entre ambas as séries. Quando os pontos não se alinham podem ocorrer as
seguintes situações:

a) Mudança na declividade: determina duas ou mais


retas. Constitui o exemplo típico da ocorrência de
erros sistemáticos, mudança nas condições de
observação ou no meio físico, como alterações
climáticas.
Para se considerar a existência de mudança na
declividade é prática comum exigir-se a ocorrência de
pelo menos 5 pontos sucessivos alinhados segundo a
nova tendência.
Para corrigir os valores utilizamos a seguinte equação:
Ma
Pa = Po (3.5)
Mo
Fig. 3.10 - Mudança de
declividade

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Onde: Pa - Observações ajustadas à condição atual de localização


Po - Dados observados a serem corrigidos
Ma - Coeficiente angular da reta no período mais recente
Mo - Coeficiente

b) Alinhamento dos pontos em retas paralelas:


ocorre quando existem erros de transcrição de
um ou mais dados ou pela presença de valores
extremos em uma das séries plotadas (figura
3.11). A ocorrência de alinhamentos, segundo
duas ou mais retas aproximadamente
horizontais (ou verticais), pode ser a
evidência de postos com diferentes regimes
pluviométricos.

Fig 3.11 - Diferentes regimes

c) distribuição errática dos pontos: geralmente é


resultado da comparação de postos com
diferentes regimes pluviométricos, sendo
incorreta toda associação que se deseje fazer
entre os dados dos postos plotados (figura
3.12).

Fig. 3.12 - Distribuição errática

d) Distribuição dos dados ao longo de uma


única reta é a situação ideal que
caracteriza dados sem inconsistência, com
é visto na figura 3.13.

Fig.3.13 - Dados sem inconsistência

Uma vez finalizada a análise de consistência, pode ser necessária uma revisão dos valores
previamente preenchidos. O preenchimento das séries é uma tarefa efetuada antes da consistência para
evitar distorções no gráfico de Dupla Massa, mas se neste gráfico forem observadas modificações de
tendência, o preenchimento poderá ser revisado.

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3.7 PRECIPITAÇÃO MÉDIA SOBRE UMA BACIA

3.7.1 MÉTODO ARITMÉTICO

A precipitação média, calculada por este método, nada mais é do que a média aritmética dos valores de
precipitação medidos na área da bacia, o que implica na admissão de que todos os pluviômetros têm a mesma
influência na bacia em estudo.
O valor da média calculado por tal método apresenta algumas restrições para ser considerado
consistente: os aparelhos de medição de precipitação devem estar distribuídos uniformemente na área da bacia;
o relevo não deve ser acidentado; a área deve ser plana; e que os dados observados nos aparelhos não se
distanciem do valor da média. Além disso, só poderá ser feita a média aritmética com postos dentro da bacia.
Deve ser utilizada a seguinte formula:

∑h i
Onde:
h i = altura de precipitação de cada posto
h= 1
(3.6) n = número de postos
n

3.7.2 MÉTODO DE THIESSEN

Este método considera a não-


uniformidade da distribuição espacial dos postos,
delimitando geometricamente a área da bacia em
que cada aparelho de medição exerce influência.

Essas áreas são determinadas em mapas


da bacia contendo as estações do seguinte modo:

1) Une-se os postos adjacentes por linhas retas


formando triângulos (linha pontilhada);

2) traça-se as mediatrizes dessas retas (linha em


negrito);

3) E prolongando-as até que se encontrem ou que


saiam da bacia. Os lados dos polígonos (linha
cheia) limitam as áreas de influência de cada
estação, como pode-se ver na figura 3.14.

Fig. 3.14 – Mapa do método de Tiessen em uma bacia.


Disponível em:
http://www.ltid.inpe.br/dsr/vianei/CursoHF/Capitulo4c.ht
m. Acesso: 09/02/2011

A precipitação média é calculada pela média ponderada, entre a precipitação hi de cada estação e o peso
a ela atribuído Ai, que corresponde a área de influência de cada posto, de acordo com a seguinte fórmula:
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∑ (A i ⋅ hi )
h= 1
(3.13)
AT

Onde:
Ai = área do polígono interna à bacia (área de influência do posto)
h i = precipitação observada em cada aparelho
AT = área total da bacia
n = número de posto.

Os postos pluviométricos trabalhados não têm que estar necessariamente dentro da bacia. Esse
método dá bons resultados em terrenos levemente acidentados, quando a localização e exposição dos
pluviômetros são semelhantes e as distâncias entre eles não são muito grandes.

3.7.3 MÉTODO DA CURVA HIPSOMÉTRICA

Quando se trata de calcular a pluviosidade média referente a um período bastante longo


(ano, mês, etc.), numa bacia montanhosa, esse é um processo muito utilizado. Consiste em
estabelecer para todas as frações da bacia, que serão tomada como homogêneas, a lei de variação
da altura de precipitação, em função da altitude. Dispondo da curva hipsométrica, já anteriormente
estudada, que como vimos nos dá a repartição da bacia por altitude, o cálculo da pluviosidade
média é feito atribuindo-se a cada fatia de altitude a precipitação calculada. Conhecendo-se,
então as precipitações em cada cota estabelecida pode-se calcular a média da seguinte maneira:

h=
∑ (A ⋅ h )
i i
(3.14)
Sendo:
Ai = área parcial da bacia hidrográfica
∑A i correspondente à determinada altitude;
h = precipitação correspondente a uma
certa altitude.

3.7.4 MÉTODO DA ISOIETAS

É considerado o método mais preciso no cálculo da precipitação média sobre uma bacia.
Consiste na ponderação das precipitações médias entre as duas isoietas que delimitam cada região
utilizando como fator peso as suas respectivas áreas.
De posse do mapa das isoietas da região, podemos calcular a média da seguinte forma:

h +h  Sendo:
∑  i 2 i +1  ⋅ A1 hi e h i+1 = precipitação das duas
h= isoietas sucessivas que delimitam a
∑ Ai região;
(3.15) Ai = área de cada região limitada
entre duas isoietas e/ou a linha que
delimita à bacia.

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 71


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QUESTIONÁRIO

1. Qual a diferença entre um posto pluviométrico e um posto pluviográfico?

2. Como é feito o preenchimento de falhas? Qual a fórmula utilizada?

3. Quais são os critérios utilizados para a escolha dos postos que serão utilizados
como referência para o preenchimento de falhas?

EXEMPLOS RESOLVIDOS

1- Preencher a falha da Estação 01.

Chuvas totais anuais ( em mm)


ANO Estação Estação Estação Estação
01 02 03 04
1980 399,6 295,3 204,9 157,9
1981 722,2 406,5 346,7 341,4
1982 624,1 442,2 303,5 331,9
1983 822,8 393,7 374,4 344,6
1984 430,4 417,7 373,1
1985 783,0 492,1 817,0 747,4
1986 346,0 666,2 454,7 333,5
1987 572,1 571,5 720,2 648,4
1988 518,2 583,5 1027,7 739,5
1989 715,7 1045,0 541,9 832,0
1990 722,2 793,4 789,9 840,0
1991 433,8 652,4 723,1 743,2
1992 824,0 713,0 915,2 590,4
1993 1120,0 1559,6 1301,2 1458,0
1994 632,4 746,6 800,2 826,2
1995 850,4 990,3 842,9 662,1
1996 629,9 1126,7 790,5 802,6
1997 423,3 418,5 451,6 586,5
1998 663,4 720,2 725,1 650,9
Correlação entre as séries de dados dos postos
Estação Estação Estação Estação
01 02 03 04
Estação 1,00 0,77 0,76 0,71
01
Estação 0,81 0,83 0,89 0,77
02
Estação 0,76 0,78 1,00 0,64
03
Estação 0,71 0,77 0,64 1,00
04
Estação 0,77 1,00 0,78 0,77
05

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Média E01 655.73


Média E02 686.69
Média E03 660.44
Média E04 632.08

1M M M 
Px =  x Pa + x Pb + a Pc 
3 Ma Mb Mc 
1  655,73 655,73 655,73 
P1984 =  430,4 + 417,7 + 373,1
3  686,69 660,44 632,08 
P1984 = (410,99 + 414,72 + 387,06 ) = 404,26mm
1
3

2- Calcular a média das chuvas das estações acima pelo método da Média Aritmética Simples
(somente estações dentro da Bacia).

E1 + E 2 + E3 + E 4 642,49 + 686,69 + 660,44 + 632,08


P = = = 655,43mm
4 4

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3.8 FREQUÊNCIA DE PRECIPITAÇÕES

3.8.1 Introdução

Em Engenharia o conhecimento das características das precipitações apresenta grande


interesse de ordem técnica por sua freqüente aplicação nos projetos hidráulicos. Nos projetos dos
vertedores de barragens, no dimensionamento de canais, na definição das obras de desvio dos
cursos d'água, na determinação das dimensões de galerias de águas pluviais, no cálculo de bueiros,
deve-se conhecer a magnitude das enchentes que poderiam ocorrer com uma determinada
frequencia. Nos projetos de irrigação e abastecimento d'água, deve-se conhecer a grandeza das
estiagens que adviriam e com que frequencia ocorreriam. Portanto, há a necessidade de
determinar as frequencias das precipitações extremas esperadas sejam estas máximas ou mínimas.
Nos projetos de obras hidráulicas, as dimensões são determinadas em função de considerações de
ordem econômica, portanto corre-se o risco de que a estrutura venha a falhar durante a sua vida útil. É
necessário, então, conhecer este risco. Para isso analisam-se estatisticamente as observações
realizadas nos postos hidrométricos, verificando-se com que frequência elas assumiram cada
magnitude. Os dados observados podem ser considerados em sua totalidade, o que constitui uma série
total, ou apenas os superiores a um certo limite (série parcial), ou, ainda, só o máximo de cada ano
(série anual)

3.8.2 Definição de Frequência

Freqüência (F): É a probabilidade de um fenômeno igual ou superior ao analisado, se apresentar


em um ano qualquer (probabilidade anual). Por exemplo: uma enchente “x” ou uma chuva “x” tem a
probabilidade de 1% de ser excedida em um ano qualquer.

3.8.2.1 Frequencia de Totais Precipitados

Neste capítulo citaremos apenas dois métodos o método da Califórnia e o método de Kimbal.
m
F= (Método Kimbal)
n +1
m
F= (Método Califórnia)
n
Onde: F = freqüência com que foi igualado ou superado um evento de orcem “m”
m = número de ordem
n = número de anos de observação
Os dados devem ser ordenados em ordem decrescente e a cada um é atribuído o seu número de ordem
m.
Tabela 1: Exemplo método de Kimball

Ordem X(mm) F(x≥X)


1 X1 1/(n+1)
2 X2 2/(n+1)
3 X3 3/(n+1)
... ... ...
... ... ...
n Xn n(/n+1)

3.8.3 Definição de Tempo de Recorrência

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 74


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Os eventos hidrológicos são expressos em função da probabilidade (P) de ser ou não


excedidos. Por exemplo, uma chuva que tem 5% de ser igualada ou excedida em um ano qualquer.
Tempo de recorrência (Tr) é o intervalo de tempo médio onde determinado evento (chuva, vazão,
etc.) é igualado ou superado estatisticamente, também conhecido como período de recorrência ou
de retorno e é definido como o inverso da probabilidade P.

Tr = 1/ P
Exemplo 1: Uma precipitação com 1% de probabilidade de ser igualada ou superada num ano tem um
Tr = 100 anos.

Exemplo 2: Se uma chuva h tem um período de recorrência de 50 anos isto significa que, em média(!),
esta chuva é igualada ou excedida a cada 50 anos.

Exemplo 3: Em outros termos: A chuva h tem uma probabilidade P= 1/T =1/50 = 0,02 (ou 2%) de ser
igualada ou excedida, em um ano qualquer.

Na Hidrologia podemos estudar eventos que excedem determinado valor “x” (probabilidade de
excedência, P[X ≥ x ] ), ou seja, valores máximos ou eventos que não excedem determinado valor
“x” (probabilidade de não excedência, P[X ≤ x ] ), ou seja, valores mínimos. Resumindo:

1
T= , para a análise de máximos.
P[ X ≥ x ]
1
T= , para a análise de mínimos.
P[ X ≤ x ]

Como explicado acima freqüência (F) é a probabilidade de um fenômeno igual ou superior ao


analisado, se apresentar em um ano qualquer. Adotaremos que P= F(x) no caso de valores mínimos
(não excedência), logo para máximos (excedência), P= 1- F(x).

3.8.4 Principais modelos probabilísticos

A seguir serão apresentadas duas distribuições de probabilidade teórica para variáveis


contínuas de larga utilização em hidrologia e que serão utilizadas para a resolução dos exercícios
desta disciplina. Além destas, existem diversas outras inclusive para variáveis aleatórias discretas e
que podem ser encontradas na bibliografia recomendada ao final do capítulo.

3.8.4.1 - Distribuição Normal

Variáveis hidrológicas como precipitação anual, calculada como a soma dos efeitos de vários
eventos independentes tendem a seguir a distribuição normal, cuja função densidade de probabilidade
se segue:

1  x−µ 
2

− 
2  σ 
f (x ) =
1
e
σ 2π

Pode-se provar que os parâmetros µ e σ são iguais a esperança e à variância de X, respectivamente.


E [X ] = µ
VAR[X ] = σ 2

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 75


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x−µ
Fazendo-se a transformação para a variável reduzida, t = , temos a distribuição reduzida:
σ
e −t
2
f (t ) =
1 2
,

cuja função de distribuição acumulada de probabilidades é:


t
1 −u 2 2
F (t ) = ∫ 2π
e du
−∞

Abaixo segue a ilustração gráfica de uma distribuição normal reduzida e acumulada, respectivamente:

f.d.p.

φ(x )

68.27%

µ− σ µ µ+ σ x
x

f.d.
Φ(x )
1
Φ(b )
Φ(a )
0.5

0
a b x
µ
3.8.4.2 Ajuste de um modelo de probabilidades- Método Gráfico

Uma das formas de se avaliar visualmente um ajuste a um modelo de probabilidades é através


de papéis de probabilidade. Um papel de probabilidades nada mais é que um papel cuja escala é
ajustada para que a função de densidade acumulada, F(x) de determinada distribuição seja plotada em
forma de uma reta. Pode-se então além de analisar - se a aderência do modelo teórico aos dados
observados fazer-se extrapolações, sendo esta última prática pouco precisa e sujeita a erros.

O ajuste da série de valores anuais de precipitação segundo a curva normal é muito facilitado pelo uso
de papéis de probabilidade, no qual a distribuição normal se apresenta como urna reta que passa por

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 76


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três pontos característicos, µ; µ - σ e µ + σ a cujas funções de distribuição são respectivamente F(µ)


= 50%; F(µ µ - σ) = 15,87% e F(µ µ + σ) = 84,13%.

Os períodos de retorno são definidos por T = 1 / F(X) para F(x) < O,5 e T = 1 / l - F(x) para F(x) >
O,5 e apresentam, a repartição de freqüência mostrada na tabela abaixo.

Repartição das Freqüências em Função do Período de Retorno

Período de Probabilidades das Alturas


Retorno Pluviométricas Esperadas
Máximas Mínimas
2 anos 50 % 50 %
5 anos 80 % 20 %
10 anos 90 % 10 %
20 anos 95 % 5%
50 anos 98 % 2%
100 anos 99 % 1%
1.000 anos 99,9 % 0,1 %
10.000 anos 99,99 % 0,01 %

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 77


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Exemplo: Dadas as precipitações médias anuais abaixo, analisar graficamente o ajuste da distribuição
normal à série de dados em questão

Ano P(mm)
1980 489,33
1981 651,4
1982 764,52
1983 850,38
1984 282,49
1985 417,58
1986 435,2
1987 859,51
1988 911,5
1989 1313,12
1990 767,59
1991 668,78
1992 736,8
1993 754,81
1994 806,48
1995 644,04
1996 447,42
1997 418,55
1998 401,05

Resolução: Utilizando o método de Kimbal, construímos a seguinte tabela:

P(mm) Ordem Freq. m/(n+1)


282,49 1 0,05
401,05 2 0,10
417,58 3 0,15
418,55 4 0,20
435,2 5 0,25
447,42 6 0,30
489,33 7 0,35
644,04 8 0,40
651,4 9 0,45
668,78 10 0,50
736,8 11 0,55
754,81 12 0,60
764,52 13 0,65
767,59 14 0,70
806,48 15 0,75
850,38 16 0,80
859,51 17 0,85
911,5 18 0,90
1313,12 19 0,95

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 78


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Para o caso da distribuição normal têm-se uma reta que passa por três pontos distintos:

µ ; F (µ ) = 50% = 664,24mm
µ − σ ; F (µ − σ ) = 15,87% = 664,24 − 244,52 = 419,72mm
µ + σ ; F (µ + σ ) = 84,13% = 664,24 + 244,52 = 908,76mm

Plota - se por fim, no papel de probabilidade da distribuição em estudo os valores obtidos da amostra
e a reta da distribuição ajustada.

Valores plotados para o exemplo

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3.8.4.3 Ajuste de um modelo de probabilidades- Método Analítico ou Método dos Momentos

Como visto a função de distribuição normal de probabilidades é:

1  x−µ 
2

− 
2  σ 
f (x ) =
1
e
σ 2π
x−µ
Fazendo-se a transformação para a variável reduzida, t = , temos a distribuição reduzida:
σ
e −t
2
f (t ) =
1 2
,

A integral da função acima não possui solução analítica. A tabela abaixo relaciona valores da
variável reduzida t com as variáveis x e F(x).

Valores de F(x), para a variável reduzida t.

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 80


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f.d.p normal reduzida

EXEMPLO Estimar a precipitação média anual mínima para um período de retorno de 10 anos,
através do método analítico (método dos momentos), levando em consideração a média e o desvio da
série de chuvas dada.

Média anual
Solução:
(mm)
282,49 Temos as seguintes estimativas amostrais:
418,55
401,05
447,42 x = 664,24 mm
417,58
644,04 s = 244,52 mm
489,33
668,78
Para o dado período de retorno, temos:
806,48
754,81
→ F ( x ) = = 0,1
764,52 1 1 1
T= =
651,40 P[ X ≤ x ] F ( x ) T
850,38
1313,12
767,59 x−x
Consultando a tabela, temos t = -1,3 →t = → -1,3 =
911,50 s
859,51
435,20 X − 664,24
→x = 346,36 mm (precipitação média anual mínima)
736,80 244,52

3.8.4.4 Análise de frequência de eventos extremos – Método de Gumbel

É necessário saber, com base nos dados observados, utilizando os princípios da probabilidade,
as máximas precipitações que possa vir a ocorrer, com determinada frequência. Tratando-se de dados
de chuvas diárias a ferramenta estatística utilizada é o método de Gumbel.
Geralmente, as distribuições de valores extremos de grandezas hidrológicas se ajustam a
distribuição de Gumbel ou distribuição tipo I de Fisher-Tippett, que veremos a seguir.

A distribuição de Gumbel tem a seguinte função de distribuição acumulada de probabilidades:

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 81


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(− γ )
F ( x) = P ( X ≤ x) = e − e Para Probabilidade de não excedência

(− γ )
F ( x) = P( X ≥ x) = 1 − e − e Para probabilidade de excedência

Onde:
σn
y = (X − X f )
P = probabilidade de um valor extremo da série ser
maior ou igual a variável
Sx X = o valor analisado,
y = variável reduzida,
Xf = moda dos valores extremos,
Y 
X f = X − S x  n  Sx = desvio padrão da variável X (série de valores
σn  extremos),
x = média da variável x, (série de valores extremos),
Yn, σn = respectivamente média e desvio padrão da
variável reduzida y para uma amostra de n valores
extremos.

a) Resolvendo a equação F(x) para y no caso de não excedência, temos:


−y
F (x ) = e − e

  1 
y = − ln ln 
  F (x ) 

O Tempo de retorno para o caso de não excedência é T= 1/ F(x), logo F(x) = 1/T. Dessa forma,

y = − ln[ln T )]

b) Resolvendo a equação F(x) para y no caso de excedência, temos:


−y
F (x ) = 1 − e − e

  1 
y = − ln ln 
  F (x ) 

O Tempo de retorno para o caso de excedência é T= 1/(1-F(x))

1
= 1 − F ( x)
T

T −1
Então: F ( xt ) =
T
Que substituído na equação resolvida para y resulta em:
  T 
yt = − ln ln 
  T − 1 
Os valores de Yn e de σn são dados pela tabela

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 82


Universidade Federal da Bahia – Departamento de Engenharia Ambiental Apostila 2011.1

Valores de y em função do período de retorno, e suas respectivas probabilidades.

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 83


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EXEMPLO: Calcular a precipitação máxima para um período de recorrência de 100 anos utilizando
o método de Gumbel, a partir da série de dados abaixo.

Chuva máx diária Dados:


(mm)
88,40
x = 94,24 (média das máx. diárias
76,30
41,92
s = 28,76 (desvio padrão)
65,70
46,96
n= 19
95,00
89,00
σ n = 1,0566 (valor tabelado, para n=19)
117,15
151,25 y n = 0,5220 (valor tabelado, para n = 19)
93,00
Resolução:
92,60
Y 
75,20 X f = x − S x  n 
σn 
Sendo: (I)
68,20
110,01
91,18  0,5220 
Xf= 94,24 – 28,76.   = 80,05
121,35  1.0566 
140,25
σn
y = (X − X f )
108,90
118,10 Sendo: (II)
Sx
1,0566
y = (X – 80,05).
28,76

  T    100 
Como: y = − ln ln  (III), logo: y = − ln ln  = 4,60
  T − 1    100 − 1 

1,0566
Substituindo III em II, temos: 4,6 = (X – 80,05)
28,76
X = 205,23 mm é a precipitação máxima com período de retorno de 100 anos.

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3.9 ANÁLISE DE CHUVAS INTENSAS

3.9.1 VARIAÇÃO DA INTENSIDADE COM A DURAÇÃO

Os valores das precipitações intensas são obtidos em pluviógrafos. São diagramas de


precipitações acumulada ao longo do tempo, correspondendo a 24 horas de registro contínuo.
Os limites de duração são fixados em 5 minutos e 24 horas, pois este primeiro valor é o menor
intervalo que se pode ler no pluviógrafo com precisão adequada e este ultimo valor quando excedido
podem ser utilizados dados de pluviômetro.

EQUAÇÃO DE INTENSIDADE — DURAÇÃO

Pode-se relacionar as duas grandezas (intensidade e duração), por formulas do tipo:

a onde:
i=
(t + b ) i = intensidade (mm/h)
t = duração (horas)
a e b = constantes dependentes da região considerada
Se t > 2 horas, podemos ter
onde:
c i = intensidade (mm/h)
i=
( )tn
t = duração (horas)
c e n = constantes dependentes da região
considerada

3.9.3 RELAÇÃO INTENSIDADE–DURAÇÃO–FREQUÊNCIA

Correlacionando intensidades e durações das chuvas, verifica-se que quanto mais intensa for
uma precipitação, menor será a sua duração. Analisando-se as relações intensidade–duração–
frequência nos dados de chuvas observadas, determina-se para os diferentes intervalos de duração da
chuva, qual o tipo de equação e qual o número de parâmetros dessa equação que melhor caracterizam
aquelas relações.
Em geral, essas equações representativas das relações I-D-F são do tipo.

Onde
c i = intensidade
i=
(t − t o )n t= duração
to, c, n = parâmetros a determinar de acordo com o
local.

Podendo ainda relacionar o valor de C com o período de retorno, da seguinte forma :


c= K*Tm

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 85


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Onde:

K = fator de frequência.

c
Substituindo o valor de c na equação i = , obtem-se da maneira mais completa:
(t − t o )n

KT m
i=
(t − t 0 )n
(3.26)

CURVA INTENSIDADE - DURAÇÃO- FREQUÊNCIA (curvas I-D-F).

Para a determinação dos parâmetros da


equação lançam-se em coordenadas logarítmicas
as séries das intensidades médias máximas ( i )
em função do intervalo de duração ( t ), unindo-
se os valores com o mesmo período de retorno
(T), obtém-se uma família de curvas paralelas.
Analisando-se essas curvas verifica-se
que para cada período de retorno T determinado,
a intensidade decresce quando o intervalo de
duração t cresce, e que a família da curvas
apresenta curvaturas finitas com concavidade
voltada para baixo. Marcando-se como abscissas
não as durações,mas estas acrescidas de uma
constante convenientemente escolhida,
consegue-se em geral transformar essa curva em
reta. Por tentativas verifica-se qual a constante to
que adicionada à duração t permite a
anemorfose.
As curvas intensidades duração são
assim transformadas em retas paralelas por
equação geral:
log i = log c − n log(t − t 0 )
Os parâmetros angular n e lineares logc, bem
como os demais parâmetros podem ser
determinados pelo método dos mínimos
quadrados.

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 86


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EQUAÇÕES INTENSIDADE – DURAÇÃO – FREQUÊNCIA PARA CIDADES


BRASILEIRAS

As seguintes equações que relacionam a intensidade, a duração e a frequência das


precipitações foram determinadas para cidades do Brasil:

3462,7 ⋅ T 0,172 mm/min


São Paulo i= (3.27) T em anos e t
(t + 22)1, 025 em min
27,96 ⋅ T 0,112 mm/min
São Paulo i= −0 , 0144 (3.28) T em anos e t
(t + 15)0,86⋅t em min
1239 ⋅ T 0,15 mm/min
Curitiba i= (3.29) T em anos e t
(t + 20)0, 74 em min
99,154 ⋅ T 0, 217 mm/min
Rio de Janeiro i= (3.30) T em anos e t
(t + 26)1,15 em min
1447,87 ⋅ T 0,1 mm/min
Belo Horizonte i= (3.31) T em anos e t
(t + 20)0,84 em min
2960,16 ⋅ T 0,163 mm/h
Salvador i= (3.32) T em anos e t
(t + 24) 0, 743 em min

3.8- MÉTODOS DE TABORGA

Este método divide o Brasil em isozonas que mostram as seguintes características:

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• As isozonas B e C tipificam a
zona de influência marítima,
com coeficientes de
intensidade suaves.
• As isozonas E e F tipificam as
zonas continental e do
nordeste, com coeficientes de
intensidade altos.
• A isozona D tipifica as zonas
de transição (entre continental
e marítima). Esta isozonas se
prolonga caracterizando a zona
de influência do rio
Amazonas.
• As isozonas G e H tipificam a
zona da caatinga nordestina,
com coeficientes de
intensidade muito altos.
• A isozona A coincide com a
zona de maior precipitação
anual do Brasil, com
coeficientes de intensidade
baixos.

– Mapa de isozonas de Taborga

TABELA TEMPOS DE RECORRÊNCIA PARA AS ISOZONAS DE TABORGA

ZONA TEMPO DE RECORRÊNCIA


1 HORA / 24 HORAS CHUVA 6 min - 24
h
5 10 15 20 25 30 50 100 1000 1000 5- 100
0 50
A 36. 35. 35. 35. 35. 35. 35. 34. 33.6 32.5 7.0 6.3
B 38. 37. 37. 37. 37. 37. 36. 36. 35.4 34.3 8.4 7.5
C 40. 39. 39. 39. 39. 39. 38. 38. 37.2 36.0 9.8 8.8
D 42. 41. 41. 41. 41. 41. 40. 40. 39.0 37.8 11. 10.
E 44. 43. 43. 43. 43. 42. 42. 42. 40.9 39.6 12. 11.
F 46. 45. 45. 45. 44. 44. 44. 44. 42.7 41.3 13. 12.
G 47. 47. 47. 47. 46. 46. 46. 45. 44.5 43.1 15. 13.
H 49. 49. 49. 48. 48. 48. 48. 47. 46.3 44.8 16. 14.

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Relação 24 horas / 1 dia

Para correlacionar as precipitações nas estações pluviométricas, determinou-se a relação 24


horas / 1dia, para o tempo de recorrência de base de um ano. O coeficiente é de 1,095 , com um
desvio padrão de +- 6,6%.

O tempo de recorrência não tem influência prática nesta relação. Sendo que a diferença
entre 1 e 10.000 anos de recorrência representa +0,1% de influência.

Relação 1 hora / 24 horas

A tabela de Taborga identifica isozonas de igual relação, para diferentes tempos de recorrência.

Relação 6 minutos / 24 horas

A tabela incluída no mapa de isozonas identifica, para cada uma delas, a relação 6 minutos /
24 horas de alturas de precipitação, para tempos de recorrência entre 5 e 50 anos e para um tempo de
recorrência de 100 anos, sendo este último de pouco uso na prática. (essa relação é valida somente
para tempos de duração entre 6 minutos e 1 hora).

METODOLOGIA

Para a conversão das máximas chuvas diárias, em chuvas com duração entre 6 minutos e 24
horas, adota-se a seguinte metodologia:
- Converte-se a chuva de 1 dia em chuva de 24 horas, multiplicando-se a primeira pelo fator 1,095,
como já foi explicado anteriormente.
- Determina-se na figura 3.15, a isozona correspondente ao projeto.
- Calculam-se, com essas percentagens e a chuva de 24 horas (100%), as alturas de precipitação
para 6 minutos e 1 hora.
- Determinam-se no papel de probabilidades de Taborga, as alturas de chuva para 24 horas, 1 hora e 6
minutos de duração.
- Traçam-se as retas das precipitações de 6 minutos para 1 hora e 1 hora para 24 horas, no papel de
probabilidades.
- Para qualquer tempo de duração contido entre 6 minutos e 24 horas, lê-se a altura correspondente
no gráfico de papel de probabilidades.

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CAPÍTULO 4

EVAPORAÇÃO E EVAPOTRANSPIRAÇÃO

4.1 Introdução

A evaporação é o processo pelo qual a água se transforma do estado líquido para o de vapor.
Embora o vapor d’água possa ser formado diretamente, a partir da fase sólida, o interesse da
hidrologia está concentrado nas perdas por evaporação, a partir de superfícies líquidas (transformação
de líquido em gás). Além da evaporação, o retorno da água para a atmosfera pode ocorrer através do
processo de transpiração, no qual a água absorvida pelos vegetais é evaporada a partir de suas folhas.
Evapotranspiração é o total de água perdida para a atmosfera em áreas onde significativas perdas de
água ocorrem através da transpiração das superfícies das plantas e evaporação do solo.
A evaporação e a transpiração representam uma porção significativa do movimento da água
através do ciclo hidrológico. Em comparação com o escoamento, a evaporação e a transpiração não
são variáveis muito importantes para a engenharia hidrológica. Com exceção de algumas situações de
projeto, a evaporação é considerada apenas como parte da equação de perdas, representando uma
pequena fração das perdas durante uma precipitação. As perdas por evaporação são importantes no
projeto de grandes reservatórios, devendo ser consideradas nestes projetos.

4.2 Evaporação

Evaporação é o processo físico no qual um líquido ou sólido passa ao estado gasoso, devido à
radiação solar e aos processos de difusão molecular e turbulenta. Além da radiação solar, outras
variáveis como: temperatura do ar, vento e pressão de vapor, também interferem na evaporação
principalmente em superfícies livres de água.
Os métodos normalmente utilizados para determinar a evaporação são:
• evaporímetros;
• transferência de massa;
• balanço de energia;
• balanço hídrico.

Evaporímetros

Os evaporímetros são instrumentos que possibilitam uma medida direta do poder evaporativo da
atmosfera, estando sujeitos aos efeitos de radiação, temperatura, vento e umidade. Os mais
conhecidos são os atmômetros e os tanques de evaporação.

Atmômetros: são equipamentos que dispõem de um recipiente com água conectado a uma placa
porosa, de onde ocorre a evaporação. Cabe destacar o de Piché, bola preta e branca, e Bellani. O
mais comum entre estes é o de Piché, constituído de um tubo de vidro com 11 cm e discos planos
horizontais de papel de filtro, com 3,2 cm de diâmetro, ambos os lados são expostos ao ar.
O balanço energético de um atmômetro difere consideravelmente do balanço de uma superfície livre
de água, solo descoberto ou vegetado. A energia para evaporação provém da radiação, transporte de
calor sensível e condução de calor através do recipiente de abastecimento. A instalação, geralmente
bem acima da superfície do solo e o meio circundante, afetam as reações deste aparelho, tornando-o
pouco confiável. Tem como pontos positivos a fácil instalação, operação e portabilidade.

Tanques de evaporação: podem ser reunidos em quatro classes: enterrados, superficiais, fixos e
flutuantes. O mais usado em nível mundial é o tanque classe A, Figura 5.1, que tem forma circular
com um diâmetro de 121 cm e profundidade de 25,5 cm. Construído em aço ou ferro galvanizado,

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 90


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deve ser pintado na cor alumínio e instalado numa plataforma de madeira a 15 cm da superfície do
solo. Deve permanecer com água variando entre 5,0 e 7,5 cm da borda superior. A taxa de
evaporação, medida com auxilio de uma ponta limnimétrica apoiada em um tranquilizador, é resultado
das mudanças de nível de água no tanque, levando em consideração a precipitação ocorrida. A
manutenção da água entre profundidades recomendadas, evita erros que podem chegar a 15% do valor
determinado, quando por exemplo, o nível de água estiver 10cm abaixo dos níveis estabelecidos.
Também a água dentro do tanque deve ser renovada regularmente para evitar a turbidez, responsável
por erros que podem superar 5% dos valores determinados.

Fig. 4.1 - Esquema de um tanque classe A Fig. 4.2 – Disposição em campo de um


evaporímetro

Ao instalar um tanque de evaporação, deve-se dar especial atenção à finalidade a que se destina a
informação evitando, desta maneira, ampliar os erros cometidos correntemente. O fato do tanque
ser instalado sobre o solo faz com que as paredes do mesmo sofram influência da radiação e da
transferência de calor sensível, traduzindo-se num aumento da evaporação medida. Os tanques são
mais suscetíveis à advecção do que, por exemplo, uma comunidade vegetal. Alguns estudos
atribuem incrementos na temperatura de 2 a 5ºC e redução na umidade relativa de 20 a 30%, ao
nível do tanque, quando instalados sobre pisos inadequados. Quando circundados por cultivos de
elevada estatura, subestimam a evaporação. Os valores da evaporação medida em tanques superam
os obtidos em lagos e/ou reservatórios, devido às diferenças de volume, superfície, localização e
também pelo fato do lago e/ou reservatório depender da variação do transporte de massa e balanço
de energia, que influenciam os dias subsequentes, enquanto que no tanque, isto não ocorre. O fator
que relaciona a evaporação de um reservatório e do tanque classe A oscila entre 0,6 e 0,8, sendo 0,7
o valor mais utilizado.

Métodos de transferência de massa

São métodos que se baseiam na primeira lei de Dalton, e podem ser expressos por:

EO = C (es − e ) (4.1)
onde: Eo = evaporação
e = pressão de vapor do ar
C = coeficiente característico da localidade
es = pressão de vapor de saturação na temperatura da superfície

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 91


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O efeito do vento é introduzido através do parâmetro C, de acordo com a seguinte expressão:

N ⋅ f (w )(es − e )
C =
f (r )
(4.2)

onde: N = parâmetro relativo à densidade e a pressão do ar;


f (w) = função velocidade do vento;
f( r ) = parâmetro de rugosidade

Balanço hídrico

O Balanço hídrico possibilita a determinação da evaporação com base na equação da continuidade


do lago ou reservatório. A referida equação pode ser escrita da seguinte forma

dV = I − Q − E0 ⋅ A + P ⋅ A
dt
(4.3)

onde
V = volume de água contido no reservatório;
t = tempo;
I = vazão total de entrada no reservatório;
Q = vazão de saída do reservatório;
Eo = evaporação;
P = precipitação sobre o reservatório;
A = área do reservatório.

Utilizando as unidades usuais de cada variável, e considerando que o volume e a área podem se
relacionar por uma função do tipo V = a Ab , (V em hm e A em km2) ou utilizando tabelas, a Equação
4.3 resulta em
Eo ( mm/mês ) = 2,592.( I - Q )/A + P - 1000 . a b A b-l . [A( t+1 )-A( t )]/∆t (4.4)

onde A é a área da superfície do reservatório no mês (km2); P (mm/mês); I e Q as vazões médias do


mês em m3/s.

O uso de uma equação de balanço hídrico para estimar a evaporação é teoricamente correto, pois

está alicerçado no princípio de conservação de massa. Na prática as dificuldades para medir as

demais variáveis limitam este procedimento. As imprecisões ficam por conta principalmente das

contribuições diretas que aportam ao reservatório. Quando a contribuição direta não controlada é

grande, o erro na sua avaliação pode produzir erros significativos na determinação da evaporação.

Exemplo: a precipitação total no mês de janeiro foi de 154 mm, a vazão de entrada drenada pelo rio
principal foi de 24 m3/s. Este rio drena 75 % da bacia total que escoa para o reservatório. Com base
nas operações do reservatório ocorreu uma vazão média de saída de 49 m3/s. A relação entre o volume
e a área do reservatório encontra-se na tabela abaixo. O volume no início do mês era de 288.106 m3 e
no final 244.106 m3. Estime a evaporação no reservatório.

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Área Volume
Km2 106 m3
10 10
30 60
90 270
110 440
Tabela 4.1 – Relação entre volume e área

Duas soluções podem ser usadas. A primeira utiliza diretamente a Equação 4.3 e a outra a Equação
4.4. No primeiro caso evita-se o erro de ajuste de uma função para a relação entre a área e o volume,
mas no segundo é mais fácil de operar com todas as variáveis envolvidas.

• A( t+l ) = 92,12 km2 e A( t ) = 81,43 km2 , a área média fica A = 86,78 km2
• a variação de volume é = (288 - 244) . 106 = 44 . 106
• a variação de vazão é = (24/0,75 - 49) = -l7 m3/s.

A evaporação em mm/ mês é:

Eo = 2,592 (-17)/86,78 + 154 + (44/86,78). 1000 = 153 mm.


Como pode-se observar, o uso deste método depende da avaliação de cada um dos seus termos. As
principais dificuldades são na avaliação da vazão afluente e na precipitação direta sobre o lago. No
primeiro caso, dificilmente existem dados de todos os afluentes e a simples proporção de áreas, como
utilizado no exemplo, pode apresentar erros devido à variabilidade de contribuição. Este
procedimento é mais confiável em períodos de estiagem. A distribuição espacial da precipitação é
outro fator que pode ser fonte de incertezas. O erro diminui à medida que aumenta o período
avaliado. As outras fontes de incertezas são: as relações entre cota, área e volume; curva - chave dos
extravazores e do rio afluente e perdas para o aqüífero. Para reservatório ou lago, deve ser realizada
uma avaliação de cada um dos termos para se ter uma idéia da magnitude dos erros envolvidos.
Quando a evaporação representa uma parcela pequena do volume, o erro de cálculo pode ser muito
grande, pois pequenas diferenças das variáveis envolvidas produzem grandes diferenças no cálculo da
evaporação. Nesta situação a evaporação passa a ser pouco importante para o sistema.

4.3 Evapotranspiração

A evapotranspiração é considerada como a perda de água por evaporação do solo e transpiração das
plantas. A evapotranspiração é importante para o balanço hídrico de uma bacia como um todo e,
principalmente, para o balanço hídrico agrícola, que poderá envolver o cálculo da necessidade de
irrigação.
O solo, as plantas e a atmosfera podem ser considerados como componentes de um sistema
fisicamente inter-relacionado e dinâmico, no qual os vários processos de fluxo estão interligados
como os elos de uma corrente. Neste sistema, é valioso e aplicável o conceito de potencial hídrico, ou
seja, o fluxo de água ocorre dos pontos de maior potencial para os de menor potencial (o fluxo ocorre
em direção do gradiente de potencial negativo).
A quantidade de água transpirada diariamente é grande em relação às trocas de água na planta, de
modo que se pode considerar o fluxo através da planta, em curtos períodos de tempo, como um
processo em regime permanente. As diferenças de potencial, em distintos pontos do sistema são
proporcionais à resistência do fluxo. A menor resistência ao fluxo é encontrada na planta. E a maior
resistência é encontrada no fluxo das folhas para a atmosfera, devido à mudança do estado líquido
para vapor. A passagem para a atmosfera ocorre através dos estômatos localizados nas folhas e a
diferença total do potencial entre o solo e a atmosfera pode chegar a centenas de bares. O transporte

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de água desde as folhas até a massa de ar ocorre também através do processo de difusão de vapor,
sendo proporcional ao gradiente de tensão do vapor de água. A umidade relativa ou seja, a relação
entre a tensão real e a de saturação de vapor, relaciona-se exponencialmente com o potencial hídrico.
A transferência de água de uma área cultivada, onde a umidade do solo não é um fator limitante,
ocorre segundo sua intensidade potencial e, qualquer variação será devida somente a diferenças de
condições meteorológicas, incluindo os efeitos de advecção. De acordo com Berlato e Molion (l981),
o controle exercido pela vegetação seria através da sua estrutura, afetando o albedo, a rugosidade e o
sistema radicular. Na medida em que diminui a umidade do solo, ocorrem restrições à transferência
de água para a atmosfera, que passa a depender não somente das condições meteorológicas, mas
também do sistema radicular das plantas, bem como de outras características, como o estado
fitossanitário das mesmas. Esta condição permite distinguir entre evapotranspiração potencial e real.
Evapotranspiração potencial (ETP): quantidade de água transferida para a atmosfera por evaporação e
transpiração, na unidade de tempo, de uma superfície extensa completamente coberta de vegetação de
porte baixo e bem suprida de água.
Evapotranspiração real (ETR): quantidade de água transferida para a atmosfera por evaporação e
transpiração, nas condições reais (existentes) de fatores atmosféricos e umidade do solo. A
evapotranspiração real é igual ou menor que a evapotranspiração potencial (ETR < ETP).
Informações confiáveis sobre evapotranspiração real são escassas e de difícil obtenção, pois
demandam um longo tempo de observação e custam muito caro. Já a evapotranspiração potencial,
pode ser obtida a partir de modelos baseados em leis físicas e relações empíricas de forma rápida e
suficientemente precisas. Várias teorias, relacionam a ETR e ETP em função da disponibilidade de
água no solo. Apesar destas tentativas não existe, ainda hoje, nenhuma teoria que seja aceita
universalmente.
Sendo um processo complexo e extremamente dinâmico, que envolve organismos vivos como o solo
e a planta é muito difícil estabelecer um valor exato de evapotranspiração real. Entretanto, a
conjugação de inúmeras informações associadas ao conceito de ETP, nos permite estimativas
suficientemente confiáveis para a grande maioria dos nossos objetivos.
As diferenças entre a evapotranspiração real e potencial diminuem sempre que os intervalos de
tempo utilizados para o cálculo da segunda são ampliados (um mês ou mais).
A seguir são apresentados alguns procedimentos usualmente empregados para medir ou estimar a
evapotranspiração:
• medidas diretas;
• métodos baseados na temperatura;
• métodos baseados na radiação;
• método combinado;
• balanço hídrico.

Medidas diretas

O processo mais correto para a determinação da evapotranspiração é através de lisímetros. Estes


são aparelhos, constituídos de um reservatório de solo (volume mínimo = 1 m3), provido de um
sistema de drenagem e instrumentos de operação (medidores, válvulas, etc.) como pode-se ver na
Figura 4.3.

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 94


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As variáveis controladas junto ao lisímetro:


precipitação, escoamento, infiltração,
armazenamento e percolação profunda,
permitem estabelecer a evapotranspiração
real e/ou potencial. Para a determinação da
ETR, mantém-se as condições de umidade
natural do solo. Para determinar a ETP,
promove-se a irrigação da cultura
implantada no lisímetro, mantendo-se o solo
em capacidade de campo (solo drenado por
gravidade).
Fig. 4.3 – Lisímetro de drenagem
Medidas de umidade do solo: sucessivas medidas da umidade do solo permitem, por diferença,
estabelecer um valor de evapotranspiração na ausência de precipitação e/ou irrigação
∆W
= ET + Pp (4.5)
t
Onde: ∆ W = variação do armazenamento d’água para um determinado perfil do solo (mm);
ET = evapotranspiração (mm/dia);
Pp = percolação da água abaixo do sistema radicular (mm/dia);
t = tempo

Métodos baseados na temperatura

Os principais métodos para o cálculo da evapotranspiração com base em medidas de temperatura


são:

a) Método de Thorthwaite

Correlaciona dados de evapotranspiração, potencial, medida em evapotranspirômetros e em bacias


hidrográficas, com dados de temperatura média mensal e comprimento do dia.
Thortwaite estabeleceu a seguinte equação para um mês de 30 dias.
a
 10t 
E =  (4.6)
 I 
onde E é a evapotranspiração potencial não ajustada (cm); t a temperatura média mensal (ºC); I um
índice de calor, correspondente à soma de 12 índices mensais.

12
I = ∑i (4.7)
1
onde,

1, 514
t
i=  (4.8)
5
a = equação cúbica da forma:

a = 0,675 ⋅ 10 −6 I 3 − 0,771 ⋅ 10 −4 I 2 + 1,792 ⋅ 10 −2 I + 0,49 (4.9)

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A equação de Thornthwaite é bastante complexa para uso prático, mas pode ser facilmente aplicada
com o auxilio de um nomograma específico. Como a temperatura do ar é um elemento geralmente
medido em postos meteorológicos com bastante precisão, substituiu-se o índice de calor pela
temperatura média anual, construindo um nomograma com: temperatura média anual (ºC) e
temperatura média mensal (ºC). Com esse nomograma, calcula-se diretamente a evapotranspiração
mensal.

b) Método de Blaney e Criddle

Esse método, como o de Thornthwaite, utiliza a temperatura média mensal e um fator ligado ao
comprimento do dia. Os dados são obtidos em base pela fórmula:

t ⋅ p⋅k
u= (4.10)
100
onde u é o uso consultivo mensal (em polegadas); t a

temperatura média mensal em ºF; p é a percentagem de horas diurnas do mês, sobre o total de horas

diurnas do ano; k é um coeficiente empírico mensal, que depende da cultura, do mês e da região

(valor tabelado).

O método de Blaney e Criddle foi adaptado ao uso das unidades do sistema métrico decimal e à
escala Celsius. É a seguinte a fórmula de Blaney Criddle modificada

E = (t − 0,5T ) ⋅ p ⋅ k (4.11)

onde E é a evapotranspiração potencial mensal, em mm; t a temperatura média mensal (C); T é a


temperatura média anual (ºC) e p a percentagem de horas diurnas do mês sobre o total de horas
diurnas do ano (valor tabelado). O valor de k nesta equação foi considerado igual à unidade. Para se
obter o uso consultivo relativo a diferentes culturas, é necessário se utilizar diferentes coeficientes
(Tabela 4.2)

Culturas Período de Coeficientes de evapotranspiração “ k ”


crescimento
(meses) Litoral Zona Árida
Algodão 7 0,60 0,65
Arroz 3-4 1,00 1,20
Batata 3 0,65 0,75
Cereais menores 3 0,75 0,85
Feijão 3 0,60 0,70
Milho 4 0,75 0,85
Pastos - 0,75 0,85
Citrus - 0,50 0,65
Cenoura 3 0,60 -
Tomate 4 0,70 -
Hortaliças 0,60 -
Tabela 4.2 - Coeficientes de evapotranspiração "k"
para as plantas cultivadas, segundo Blaney e Criddle

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CAPÍTULO 5

SOLOS E INFILTRAÇÃO
5.1 Características Geológicas

O estudo geológico dos solos e subsolos tem por objetivo principal a sua classificação
segundo a maior ou menor permeabilidade, dada a influência que tal característica tem na rapidez de
crescimento das cheias. A existência de terrenos quase, ou totalmente, impermeáveis, impede a
infiltração facilitando o escoamento superficial e originando cheias de crescimento repentino. Já os
permeáveis ocasionam o retardamento do escoamento devido à infiltração, amortecendo as cheias. Na
Figura 1 abaixo, ilustra-se o que se acabou de falar:

Bacia Impermeável - ao receber certa


precipitação, dá origem a um escoamento
superficial com elevado pico; Bacia
Permeável - dá origem a um escoamento
superficial de forma achatada e cuja ponta
máxima é bastante retardada em relação ao
início da precipitação.

Figura 5.1- Características da vazão de um rio de


acordo com a permeabilidade do solo.

5.2 Transporte de Sedimentos

A existência de maior ou menor transporte de sedimento, depende da natureza geológica dos


terrenos. O seu conhecimento é fundamental, visto que a erosão e sedimentação das partículas
alteram a topografia do leito do rio, podendo essa transformação chegar ao ponto de aniquilar a obra
projetada pela diminuição do potencial hídrico do curso de água e assoreamento da barragem, por
vezes apenas recuperável, mediante o dispêndio de somas incomportáveis.

5.3 Características Térmicas

O estudo hidrológico de uma bacia deverá, pois, comportar a análise das suas características
térmicas, análise esta em que deverão intervir observações de trocas de calor entre solo e atmosfera,
superfície da água e atmosfera, etc.
A localização geográfica da bacia hidrográfica é determinante das suas características térmicas.
Assim, a variação da temperatura faz-se sentir com:
• latitude - a amplitude térmica anual está também relacionada com a latitude, - é máxima nos pólos
e mínima no equador;
• proximidade do mar - as maiores amplitudes térmicas verificam-se nas zonas continentais, áridas,
enquanto que em regiões submetidas à influência marítima apresentam uma certa uniformidade
térmica;
• altitude - a temperatura diminui com a altitude. De uma forma geral, poderemos dizer que as
regiões mais elevadas apresentam temperaturas mais baixas;
• vegetação - por ação da menor fração de energia solar que atinge o solo e do calor absorvido pela
evapotranspiração das plantas, a temperatura média anual de uma região arborizada pode ser
inferior em 10 C ou 20 C à uma região desarborizada;

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• tempo - a temperatura começa a elevar-se ao nascer do sol e atinge o máximo 1 a 3 horas depois
do sol ter atingido a altitude máxima. A variação da temperatura faz-se sentir também durante o
ano segundo as estações, sendo maior ou menor conforme a localização geográfica, como atrás foi
referido.

5.4. Ocupação e Uso do Solo

Quando ocorre uma chuva rápida, as pessoas freqüentemente procuram abrigo sob alguma
árvore que esteja próxima. Admite-se que a árvore será uma proteção temporária, já que ela
intercepta a chuva na fase inicial do evento. Poder-se-ia concluir que uma bacia coberta por uma
floresta produziria menos escoamento superficial do que uma bacia sem árvores.
O escoamento em telhados é outro exemplo do efeito do tipo de cobertura da bacia sobre o
escoamento. Durante uma precipitação, o escoamento em calhas de telhados começa logo depois de
iniciada a chuva. Telhados são superfícies impermeáveis, inclinados e planos, portanto, com pouca
resistência ao escoamento. O escoamento em uma vertente gramada com as mesmas dimensões do
telhado terá início bem depois do escoamento similar no telhado. A vertente gramada libera água em
taxas e volumes menores porque parte da água será infiltrada no solo e devido a maior rugosidade da
superfície gramada, o escoamento será mais lento. Conclui-se então que o escoamento em superfícies
impermeáveis resulta em maiores volumes e tempos de deslocamento menores do que o escoamento
em superfícies permeáveis com as mesmas dimensões e declividades.
Estes dois exemplos conceituais servem para ilustrar como o tipo de ocupação do solo afeta as
características do escoamento em uma bacia. Quando as outras características da bacia são mantidas
constantes, as características do escoamento tais como volume, tempo e taxas de vazões máximas
podem ser bastante alteradas. Portanto, o tipo de ocupação da bacia e uso do solo deve ser definido
para a análise e projeto em hidrologia.
O tipo de cobertura e uso do solo é especialmente importante para a hidrologia. Muitas
questões problemáticas em projetos hidrológicos resultam da expansão urbana. A percentagem do
solo impermeabilizado é comumente usada como indicador do grau de desenvolvimento urbano.
Áreas residenciais com alta densidade de ocupação têm taxas de impermeabilização variando entre 40
e 70%. Áreas comerciais e industriais são caracterizadas por taxas de impermeabilização de 70 a
90%. A impermeabilização de bacias urbanas não está restrita à superfície: os canais de drenagem
são normalmente revestidos com concreto, de modo a aumentar a capacidade de escoamento da seção
transversal do canal e remover rapidamente as águas pluviais. O revestimento de canais é muito
criticado, já que este tipo de obra transfere os problemas de enchentes de áreas à montante do canal
para áreas à jusante.

5.5 Infiltração

Infiltração é a passagem de água da superfície para o interior do solo. Portanto, é um processo que
depende fundamentalmente da água disponível para infiltrar, da natureza do solo, do estado da sua
superfície e das quantidades de água e ar, inicialmente presentes no seu interior.
A medida em que a água infiltra pela superfície, as camadas superiores do solo vão umedecendo de
cima para baixo, alterando gradativamente o perfil de umidade. Enquanto há aporte de água, o perfil
de umidade tende à saturação em toda a profundidade, sendo a superfície, naturalmente, o primeiro
nível a saturar. Normalmente, a infiltração decorrente de precipitações naturais não é capaz de saturar
todo o solo, restringindo-se a saturar, quando consegue apenas as camadas próximas à superfície,
conformando um perfil típico onde o teor de umidade decresce com a profundidade.
Quando o aporte de água à superfície cessa, isto é, deixa de haver infiltração, a umidade no interior
do solo se redistribui, evoluindo para um perfil de umidade inverso, com menores teores de umidade

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 98


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no nível próximo à superfície e maiores nas camadas mais profundas. Nem toda umidade é drenada
para as camadas mais profundas do solo, já que parte é transferida para a atmosfera por
evapotranspiração.
Nas camadas inferiores do solo geralmente é encontrada uma zona de saturação, mas sua influência
no fenômeno da infiltração só é significativa quando se situa a pouca profundidade.
Em um solo natural o fenômeno da infiltração pode ser ainda mais complexo se os diversos
horizontes, desde a superfície até a zona de alteração próxima à rocha, tiverem texturas e estruturas
diferenciadas, apresentando comportamentos hidráulicos diferentes.

5.6 Capacidade de Infiltração e Taxa de Infiltração

O conceito de capacidade de infiltração é aplicado ao estudo da infiltração para diferenciar o


potencial que o solo tem de absorver água pela sua superfície, em termos de lâmina por tempo, da taxa
real de infiltração que acontece quando há disponibilidade de água para penetrar no solo. Uma curva
de taxas reais de infiltração no tempo somente coincide com a curva das capacidades de infiltração de
um solo, quando o aporte superficial de água (proveniente de precipitações e mesmo de escoamentos
superficiais de outras áreas) tem intensidade superior ou igual à capacidade de infiltração.
Em um solo em que cessou a infiltração, parte da água no seu interior propaga-se para camadas mais
profundas e parte é transferida para a atmosfera por evaporação ou por transpiração dos vegetais.
Esse processo faz com que o solo vá recuperando sua capacidade de infiltração, tendendo a um limite
superior na medida em que as camadas superiores do solo vão se tornando mais secas.
Se uma precipitação atinge o solo com intensidade menor que a capacidade de infiltração, toda água
penetra no solo, provocando uma progressiva diminuição da própria capacidade de infiltração, já que
o solo está se umedecendo. Se a precipitação continuar, pode ocorrer, dependendo da sua intensidade,
um momento em que a capacidade de infiltração diminui tanto que sua intensidade se iguala à da
precipitação. A partir deste momento, mantendo-se a precipitação , a infiltração real se processa nas
mesmas taxas da curva da capacidade de infiltração, que passa a decrescer exponencialmente no
tempo tendendo a um valor mínimo de infiltração. A parcela não infiltrada da precipitação forma
filetes que escoam superficialmente para áreas mais baixas, podendo infiltrar novamente se houver
condições.

Quando termina a precipitação e não há mais


aporte de água à superfície do solo, a taxa de
infiltração real anula-se rapidamente e a
capacidade de infiltração volta a crescer,
porque o solo continua a perder umidade
para as camadas mais profundas (além das
perdas por evapotranspiração). A Figura 5.2
mostra o desenvolvimento típico das curvas
representativas da evolução temporal da
infiltração real e da capacidade de infiltração
com a ocorrência de uma precipitação. Fig. 5.2 – Curvas de capacidade e taxa de infiltração
A curva da capacidade de infiltração como mostrada na Figura 5.2 é de difícil determinação
experimental, exceto na fase em que a intensidade de precipitação a supera. A curva exponencial
desta função tem sido estudada isoladamente por muitos pesquisadores, mas o comportamento da
capacidade de infiltração fora deste período pode ser avaliado por algoritmos específicos. Há também
equações deduzidas para calcular o tempo de encharcamento ou saturação superficial, contado a partir
do início da precipitação.

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5.6.1 Medidas Diretas da Capacidade de Infiltração por Infiltrômetros

O infiltrômetro consiste basicamente de dois cilindros concêntricos e um dispositivo de


medir volumes de água, aduzida ao cilindro interno.

Essa técnica está sendo substituída pela técnica de


colocar água no cilindro interno e externo ao mesmo
tempo por aspersão, sendo apenas medida a quantidade
colocada no cilindro interno.
A razão da existência do cilindro externo é prover a
quantidade de água necessária ao espalhamento lateral
devido à capilaridade, deixando a infiltração
propriamente dita ser medida relativamente à área
limitada pelo cilindro interno.

Fig. 5.3 - Infiltrômetro

Normalmente, as medidas de capacidade de infiltração através de infiltrômetros são apresentadas em


gráficos e tabelas como os mostrados a seguir:

1 2 3 4 5
Tempo Volume Lido Variação do Volume Altura da Lâmina Capacidade de Infiltração
(min) (cm3) (cm3) (mm) (mm/h)

A coluna 4 é calculada dividindo-se a


variação de volume pela área limitada pelo
cilindro interno, tendo o devido cuidado com as
unidades de medida. A coluna 5 é calculada
dividindo o valor calculado na coluna 4 pela
variação de tempo correspondente em horas

Fig. 5.4 – Curva de infiltração

5.6.2. Fatores que Intervêm na Capacidade de Infiltração

São os seguintes, os fatores intervenientes no fenômeno da infiltração:


• umidade do solo
• permeabilidade do solo
• temperatura do solo
• profundidade do extrato impermeável

Um solo seco tem maior capacidade de infiltração inicial devido ao fato de se somarem às forças
gravitacionais e às de capilaridade o fato do solo ter maior capacidade para absorver a água..
A permeabilidade do solo, que pode ser afetada por outros fatores como cobertura vegetal,
compactação, infiltração dos materiais finos, etc., é fator preponderante no fenômeno da infiltração da
água, pois o seu fluxo para baixo depende primordialmente desse fator.
Não se deve confundir permeabilidade com capacidade de infiltração. Permeabilidade é a
velocidade de filtração para um gradiente unitário de carga hidráulica em fluxo saturado através de

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um meio poroso. Não depende das condições de contorno, mas depende primordialmente do tamanho
e distribuição dos grãos do solo e da temperatura da água.
A capacidade de infiltração, por sua vez, é também um fenômeno de fluxo da água do solo, sua
medida depende direta e indiretamente da temperatura da água e da condição de contorno, qualquer
que seja a profundidade do solo.

5.7 Cálculo da Infiltração Pontual

Todas as equações usadas para cálculo da infiltração, foram desenvolvidas na forma que despreza a
carga de uma eventual lâmina de água sobre o solo. A seguir apresenta-se uma das mais usadas
equações já desenvolvidas para calculo da infiltração.

5.7.1 Equação de Horton

A partir de experimentos de campo, Horton (1939) estabeleceu para o caso de um solo submetido a
uma precipitação com intensidade sempre superior à capacidade de infiltração, uma relação empírica
para representar o decaimento da infiltração com o tempo (ramo B-C da Figura 6.1), que pode ser
apresentada da seguinte forma:
f = f c
+ (f 0
− f )e
c
− kt
(5.1)
K = ( fo − fc) / Fc (5.2)

onde t=tempo decorrido desde a saturação superficial do solo; f = capacidade de infiltração no tempo
t, f0 = capacidade de infiltração inicial, fc= capacidade de infiltração final e Fc = área do gráfico
Curva de Infiltração
A capacidade mínima de infiltração fc, teoricamente seria igual à condutividade hidráulica saturada
Ksat, se não houvesse o efeito do ar aprisionado no interior do solo, dificultando a infiltração. Por
isso, fc é normalmente menor que Ksat.

5.7.2 Determinação da Lâmina Infiltrada

A partir de dados de infiltração observados em campo, é possível obter a curva de infiltração e


calcular a lâmina infiltrada utilizando-se a equação de Horton.

Exemplo 5.1: estabeleça a equação da capacidade de infiltração de Horton a partir da Tabela 5.1:
Tempo Capacidade de Infiltração
(horas) (cm/hora)
1 3,4
2 2,9
3 2,6
4 2,3
5 2,1
6 1,9
7 1,8
8 1,7
9 1,6
10 1,5
Tabela 5.1 - Dados de infiltração obtido sem campo
1. Faça um gráfico da capacidade de infiltração x tempo
2. Determine fc e f0
3. Determine K

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Solução:
1.
2. fc=1,5 cm/hora
fo=3,4 cm/hora
f − f
3. k= 0 c
Fc= área sombreada
F c
no gráfico

Para calcular a área sombreada


pode ser usada uma forma de cálculo
aproximada: para cada intervalo de tempo,
calcule a área sombreada como se fosse um
trapézio. Ou seja, a primeira área seria:
(3,4 − 1,5) + (2,9 − 1,5) ⋅ (2 − 1) = 1,65cm
Fc = 1 2

Desta mesma forma são calculadas as áreas referentes aos outros intervalos de tempo
obtendo-se a seguinte tabela:
Tempo Capacidade de infiltração Fci
(horas) (cm/hora) (cm)
1 3,4
2 2,9 1,65
3 2,6 1,25
4 2,3 0,95
5 2,1 0,70
6 1,9 0,50
7 1,8 0,35
8 1,7 0,25
9 1,6 0,15
10 1,5 0,05
Fc 5,85
Tabela 5.2 – Cálculo de Fc

Fc é o somatório das Fci, Fc=5,85cm.


3,4 − 1,5
Logo, k= = 0,325
5,85
−0,325t
A equação da infiltração neste caso é: f = 1,5 + 2,2 e

5.8 Precipitação Efetiva

Suponhamos uma seção de curso d’água, a que corresponde determinada bacia hidrográfica. Seja h,
a altura total da precipitação. Nem toda a água precipitada na bacia influenciará o escoamento, isto é,
a vazão na seção em estudo.
Se designarmos por:
D- as perdas por evapotranspiração expressos em mm de altura de chuva
R- as águas que ficam retidas quer em lençóis subterrâneos, quer em geleiras e neves expressas
também em mm

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R’- as águas restituídas por geleiras, neves e escoamentos subterrâneos, provenientes de


precipitações em períodos precedentes, também expressas em mm.
Teremos então que, relativamente a um mesmo período de tempo, por exemplo, em um ano:

h − D − R − R' = he (5..3)

em que he = altura eficaz da precipitação correspondente à precipitação na bacia, diminuída das perdas
por evapotranspiração, das águas que ficaram retidas no solo através da infiltração (águas
subterrâneas, gelos, mares, etc.) e acrescidas da restituição feita de águas retidas em períodos
anteriores. Será a altura média da lâmina de água, que precipitada uniformemente sobre a referida
bacia, representaria o volume total de água que iria influenciar o escoamento na seção do curso de
água em estudo.

Relações Funcionais

De acordo com o método apresentado pelo SCS (Soil Conservation service-1957) a entre
precipitação total e precipitação efetiva se relacionam pela seguinte fórmula:

=
(P −0,2S ) 2

P e
P + 0,8S
(5.4)

Onde: P é a chuva total (mm)


Pe é a chuva efetiva (a que escoa) (mm)
S representa as perdas ( infiltração, evaporação, intercepção, etc)

Os autores verificam que em média, as perdas iniciais representavam 20% da capacidade máxima. (o
que justifica o termo 0,2*S)

Para determinar a capacidade máxima da camada superior do solo S, os autores relacionaram


esse perímetro da bacia com um fator CN (curva número, relacionada com as características e uso do
solo) pela seguinte expressão:

25400
S= − 254 (5.5)
CN
Esta expressão foi obtida em unidades métricas. A equação original em unidades inglesas
estabelece o valor de CN numa escala de 1 a 100. Esta escala retrata as condições de cobertura e solo,
variando desde uma cobertura muito impermeável (limite inferior) até uma cobertura completamente
permeável (limite superior). Esse fator foi tabelado para diferentes tipos de solo e cobertura.

5.9 O valor CN

No capítulo 6 deste módulo será apresentado o método do SCS (U.S Soil Conservation
Service) para a determinação do escoamento superficial resultante de uma precipitação. A
determinação das perdas provocadas pela infiltração da água precipitada no solo irá depender do tipo
de cobertura em questão, ou da combinação entre diferentes tipos de cobertura. Os quatro tipos de
solo considerados por esse método são:

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Solo A: Solos com alta capacidade infiltração. Solos arenosos profundos com pouco silte e
argila;
Solo B: Solos com media capacidade de infiltração. Solos arenosos menos profundos do que o
tipo A e com permeabilidade superior à média;
Solo C: Solos com baixa capacidade de infiltração, contendo percentagem considerável de
argila. Pouco profundo;
Solo D: Solos com capacidade de infiltração muito baixa, contendo argila expansiva, pouco
profundos.

Cada tipo de cobertura possui um valor CN correspondente (tabelas 2.2 e 2.3), sendo que este
valor varia entre 0 e 100, que são respectivamente os casos de impermeabilidade e permeabilidade
máxima.
Os valores das constantes nas Tabelas 2.2 e 2.3 referem-se a condições médias de umidade
antecedente. Os autores apresentam correções aos valores tabelados para situações diferentes da
média. As condições consideradas são as seguintes: AMC I – situação em que os solos estão secos.
No estágio de crescimento, a precipitação acumulada dos cinco dias anteriores é menor que 36mm e
em outro período, menor que 13mm; AMC II – situação média em que os solos correspondem a
umidade da capacidade de campo; AMC III – situação em que ocorrem precipitações consideráveis
nos cinco dias anteriores e o solo encontra-se saturado. No período de crescimento, as precipitações
acumuladas nos cinco dias anteriores, são maiores que 53mm e no outro maior que 28mm.
Na Tabela 2.4 é apresentada a correspondência entre a situação media das outras tabelas e as
condições de umidade que se diferenciam.

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Uso do solo Superfície A B C D


Solo lavrado com sulcos retilíneos 77 86 91 94
em fileiras retas 70 80 87 90

Plantações em curvas de nível 67 77 83 87


regulares terraceado em níveis 64 76 84 88
em fileiras retas 64 76 84 88

em curvas de nível 62 74 82 85
Plantações terraceado em níveis 60 71 79 82
de cereais em fileiras retas 62 75 83 87

em curvas de nível 60 72 81 84
terraceado em níveis 57 70 78 89
Plantações pobres 68 79 86 89
de normais 49 69 79 94
legumes ou boas 39 61 74 80
cultivados
pobres em curvas de nível 47 67 81 88
normais em curvas de nível 25 59 75 83
boas em curvas de nível 6 35 70 79
Pastagens
normais 30 58 71 78
esparsas de baixa transpiração 45 66 77 83
normais 36 60 73 79
Campos densas de alta transpiração 25 55 70 77
permanentes
normais 56 75 86 91
más 72 82 87 89
de superfície dura 74 84 90 92

Chácaras muito esparsas, baixa 56 75 86 91


estradas de transpiração 46 68 78 84
terra esparsas 26 52 62 69
densas, de alta transpiração 36 60 70 76
Florestas normais
Tabela 5.3 – Valores do parâmetro CN para bacias rurais

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Utilização ou cobertura do solo A B C D


Zona: cultivada: sem conservação do 72 81 88 91
solo 62 71 78 81
com conservação do 68 79 86 89
solo
Pastagens ou terrenos em más 39 61 74 80
condições
30 58 71 78
Baldios em boas condições
45 66 77 83
Prado em boas condições 25 55 70 77

Bosques ou zonas de cobertura ruim


Florestais: cobertura boa 39 61 74 80
Espaços abertos, relevados, parques, 49 69 79 84
campos de golf, cemitérios, boas
condições 89 92 94 95
Com relva em mais de 75% da área
Com relva de 50 a 75% da área 81 88 91 93

Zonas comerciais e de escritórios


77 85 90 92
Zonas industriais 61 75 83 87
Zonas residenciais 57 72 81 86
Lotes de (m²) % média 54 70 80 85
impermeável 51 68 79 84
<500 65
1000 38 98 98 98 98
1300 30
2000 25 98 98 98 98
4000 20
76 85 89 91
Parques de estacionamento, telhados, 72 82 87 89
viadutos, etc.

Arruamentos e estradas asfaltadas e


com drenagem
de águas pluviais
paralelepípedos
terra
Tabela 5.4 – Valores de CN para bacias urbanas e suburbanas

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Valores médios Valores corrigidos Valores corrigidos


AMCI AMCIII
100 100 100
95 87 98
90 78 96
85 70 94
80 63 91
75 57 88
70 51 85
65 45 82
60 40 78
55 35 74
50 31 70
45 26 65
40 22 60
35 18 55
30 15 50
25 12 43
20 9 37
15 6 30
10 4 22
5 2 13
‘ Tabela 5.5– Correção de CN para outras condições iniciais de umidade.

QUESTIONÁRIO

1. Como é feito o gráfico de Infiltração x Tempo, e o que representa a sua área?


2. Como se determina a quantidade de água necessária para irrigação?
3. Descreva o método SCS para o calculo da precipitação efetiva.

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CAPÍTULO 6

ESCOAMENTO SUPERFICIAL

6.1. Introdução

Das fases básicas do ciclo hidrológico, talvez a mais importante para o engenheiro seja a do
escoamento superficial, que é a fase que trata da ocorrência e transporte da água na superfície
terrestre, pois a maioria dos estudos hidrológicos está ligada ao aproveitamento da água superficial e à
proteção contra os fenômenos provocados pelo seu deslocamento.
Como já foi visto a existência de água nos continentes é devida à precipitação. Assim, da
precipitação que atinge o solo, parte fica retida quer seja em depressões quer seja como película em
torno de partículas sólidas. Quando a precipitação já preencheu as pequenas depressões do solo, a
capacidade de retenção da vegetação foi ultrapassada e foi excedida a taxa de infiltração, começa a
ocorrer o escoamento superficial. Inicialmente, formam-se pequenos filetes que escoam sobre a
superfície do solo até se juntarem em corredeiras, canais e rios. O escoamento ocorre sempre de um
ponto mais alto para outro mais baixo, sempre das regiões mais altas para as regiões mais baixas até o
mar.
O processo do escoamento inclui uma série de fases intermediárias entre a precipitação e o
escoamento em rios. Para entender o processo do escoamento é necessário entender cada uma destas
fases. Esta seqüência de eventos é chamada de ciclo do escoamento.

6.2. Ciclo do Escoamento

O ciclo do escoamento pode ser descrito em três fases: na primeira fase o solo está seco e as
reservas de água estão baixas; na fase seguinte, iniciada a precipitação, ocorrem interceptação,
infiltração e escoamento superficial; na última fase o sistema volta a seu estado normal, após a
precipitação. Fatores como tipo de vegetação, tipo de solo, condições topográficas, ocupação e uso
do solo, são fatores que determinam a relação entre vazão e precipitação. A seguir, são descritas as
fases do ciclo do escoamento superficial em uma região úmida.

1a Fase:
Após um período de estiagem, a
vegetação e o solo estão com pouca
umidade. Os cursos d’água existentes
estão sendo alimentados pelo lençol
d’água subterrâneo que mantém a vazão
de base dos cursos d'água. Quando uma
nova precipitação se inicia, boa parte da
água é interceptada pela vegetação, e a
chuva que chega ao chão é infiltrada no
solo. Exceto pela parcela de chuva que
cai diretamente sobre o curso d'água,
não existe nenhuma contribuição para o
escoamento nesta fase. Parte da água
retida pela vegetação é evaporada

Fig. 6.1 – 1a Fase do ciclo do escoamento

2a Fase:

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 108


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Com a continuidade da precipitação, a


capacidade de retenção da vegetação é
esgotada, e a água cai sobre o solo. Se a
precipitação persistir, a capacidade de
infiltração do solo pode ser excedida, e
a água começa a se acumular em
depressões rasas, que em seguida se
unem formando um filme de água sobre
o solo, começando, então, a mover-se
como escoamento superficial, na
direção de um curso d'água. A água
infiltrada no solo começa a percolar na
direção dos aqüíferos subterrâneos.
Finalmente, se a chuva continuar, o
escoamento superficial ocorrerá de
forma contínua, na direção de um rio.
Fig. 6.2 – 2a Fase do ciclo do escoamento
O nível do lençol freático poderá subir, fornecendo uma contribuição extra de água subterrânea ao
escoamento.
Na maioria dos casos, a contribuição das águas subterrâneas para o escoamento superficial, devido à
recarga pela chuva, ocorre quando a precipitação já cessou, devido à baixa velocidade do escoamento
subterrâneo.

3a Fase:

Quando a precipitação pára, o


escoamento superficial rapidamente
cessa, a evaporação e a infiltração
continuam a retirar água da vegetação
e de poças na superfície do solo. O
nível do rio está agora mais alto do
que no início da precipitação. A água
que se infiltrou nas margens do rio,
lentamente é liberada, na medida em
que o nível do rio baixa até o nível em
que permanece nos períodos secos.

Fig. 6.3 – 3a Fase do ciclo do escoamento

O ciclo do escoamento em uma região árida ou semi-árida é diferente do que ocorre em uma região
úmida. Nas regiões árida e semi-árida, a água subterrânea costuma estar em camadas muito profundas
do solo, bem abaixo do leito dos rios. Por isso, a maior parte da vazão dos rios depende apenas da
precipitação e, como longos períodos de estiagem separam os períodos chuvosos, os rios são
intermitentes.

6.3. Representação do Escoamento Através do Hidrograma

A vazão, ou volume escoado por unidade de tempo, é a principal grandeza que caracteriza o
escoamento. Normalmente é expressa em m3/s ou em l/s. O hidrograma é a denominação dada ao
gráfico que relaciona a vazão no tempo. A distribuição da vazão no tempo é resultado da interação de

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todos os componentes do ciclo hidrológico entre a ocorrência da precipitação e a vazão na bacia


hidrográfica.
O comportamento do hidrograma típico de uma bacia, após a ocorrência de uma seqüência de
precipitações é apresentado na Figura 6.5. Verifica-se que após o início da chuva, existe um intervalo
de tempo em que o nível começa a elevar-se. Este tempo retardado de resposta deve-se às perdas
iniciais por interceptação vegetal e depressões do solo, além do próprio retardo de resposta da bacia
devido ao tempo de deslocamento da água na mesma.
O hidrograma atinge o máximo, de acordo com a distribuição de precipitação, e apresenta a seguir a
recessão onde se observa normalmente, um ponto de inflexão. Este ponto caracteriza o fim do
escoamento superficial e a predominância do escoamento subterrâneo. O primeiro ocorre num meio
que torna a resposta rápida, finalizando antes do escoamento subterrâneo que por escoar pelo solo
poroso apresenta um tempo de retardo maior. Na Figura 6.5 é esboçado o comportamento da vazão
subterrânea.
A contribuição da vazão subterrânea é influenciada pela infiltração na camada superior do solo, sua
percolação e conseqüente aumento do nível do aqüífero. Essa elevação rápida do nível provoca a
inversão de vazão ou represamento do fluxo no aqüífero na vizinhança com o rio. Isso é observado na
Figura 6.5 pela linha tracejada. O processo começa a inverter-se quando a percolação aumenta e o
fluxo superficial diminui.
A forma do hidrograma depende de um grande número de fatores, os mais importantes são:

relevo (densidade de drenagem, declividade do rio ou bacia, capacidade de armazenamento e forma):


uma bacia com boa drenagem e grande declividade apresenta um hidrograma íngreme com pouco
escoamento de base. Normalmente as cabeceiras das bacias apresentam essas características. As
bacias com grande área de inundação tendem a amortecer o escoamento e regularizar o fluxo.
A forma da bacia influencia o comportamento do hidrograma, como pode ser observado na Figura
6.4d. Uma bacia do tipo radial concentra o escoamento, antecipando e aumentando o pico com
relação a uma bacia alongada, que tem escoamento predominante no canal principal e percurso mais
longo até a seção principal, amortecendo as vazões;

cobertura da bacia: a cobertura da bacia, como a vegetal, tende a retardar o escoamento e aumentar
as perdas por evapotranspiração. Nas bacias urbanas, onde a cobertura é alterada, tomando-se mais
impermeável, acrescida de uma rede de drenagem mais eficiente, o escoamento superficial e o pico
aumentam. Este acréscimo de vazão implica o aumento do diâmetro dos condutos pluviais e dos
custos;

modificações artificiais no rio: o homem produz modificações no rio para o uso mais racional da
água. Um reservatório para regularização da vazão tende a reduzir o pico e distribuir o volume
(Figura 6.4b), enquanto a canalização tende a aumentar o pico, como mostra a bacia urbana;

distribuição, duração e intensidade da precipitação: a distribuição da precipitação e sua duração


são fatores fundamentais no comportamento do hidrograma. Quando a precipitação se concentra na
parte inferior da bacia, deslocando-se posteriormente para montante, o hidrograma pode ter até dois
picos. Na figura 6.4c são apresentados dois tipos de distribuição temporal de precipitação, onde se
observa que quando a precipitação é constante, a capacidade de armazenamento e o tempo de
concentração da bacia são atingidos, estabilizando o valor do pico. Após o término da precipitação, o
hidrograma entra em recessão.

solo: as condições iniciais de umidade do solo são fatores que podem influenciar significativamente o
escoamento resultante de precipitações de pequeno volume, alta e média intensidade. Quando o
estado
de umidade da cobertura vegetal, das depressões, da camada superior do solo e do aqüífero forem
baixos, parcela ponderável da precipitação é retida e o hidrograma é reduzido.

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Fig. 6.4 – Comportamentos do hidrograma

Para caracterizar o hidrograma e o comportamento da bacia são utilizados alguns valores de tempo
(abcissa), relacionados a seguir:

tp: tempo do pico: é definido como


o intervalo entre o centro de massa Fig. 7.5 – Hidrograma
da precipitação e o tempo de pico;
tc: tempo de concentração: é o
tempo necessário para a água
precipitada no ponto mais distante
na bacia, deslocar-se até a seção
principal. Esse tempo é definido
também como o tempo entre o fim
da precipitação e o ponto de inflexão
do hidrograma;
te: tempo de recessão: é o tempo
necessário para a vazão baixar até o
ponto C (Figura 7.5), quando acaba
o escoamento superficial.
tb: tempo de base: é o tempo entre o
inicio da precipitação e aquele em
que a precipitação ocorrida já escoou
através da seção principal, ou que o
rio volta às condições anteriores à da
ocorrência da precipitação;

Fig. 6.5- Hidrograma Tipo

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O hidrograma pode ser caracterizado por três partes principais: ascensão, altamente correlacionada
com a intensidade da precipitação, e com grande gradiente; região do pico, próximo ao valor máximo,
quando o hidrograma começa a mudar de inflexão, resultado da redução da alimentação de chuvas
e/ou amortecimento da bacia. Esta região termina quando o escoamento superficial acaba, resultando
somente o escoamento subterrâneo; recessão, nesta fase, somente o escoamento subterrâneo está
contribuindo para a vazão total do rio.
O escoamento superficial, que caracteriza as duas primeiras partes do hidrograma pode ser descrito
por modelos hidrológicos. Para simular o escoamento superficial é necessário separá-lo do
escoamento subterrâneo e obter a precipitação efetiva que gerou o escoamento.

A recessão identificada pelo escoamento subterrâneo pode ser representada por uma equação

exponencial do tipo seguinte:

Qt = Q0 ⋅ e −α .t (6.1)

onde Qt = a vazão após t intervalos de tempo; Q0 = vazão no tempo de referência zero; α = coeficiente
de recessão. Este coeficiente pode ser determinado através da plotagem num papel log-log dos
valores de vazão, defasados de t intervalos de tempo. A declividade da reta permite estimar o valor de
α.

6.4. Separação do Escoamento Superficial

Os escoamentos são em geral definidos em: superficial, que representa o fluxo sobre a superfície do
solo e pelos seus múltiplos canais; subsuperficial, que alguns autores definem como o fluxo que se dá
junto às raízes da cobertura vegetal e; subterrâneo, que é o fluxo devido à contribuição do aqüífero.
Em geral, os escoamentos superficial e subterrâneo correspondem a maior parte do total, ficando o
escoamento subsuperficial contabilizado no superficial ou no subterrâneo. Para que os mesmos sejam
analisados individualmente é necessário separar no hidrograma a parcela que corresponde a cada tipo
de fluxo.
A parcela de escoamento superficial pode ser identificada diretamente do hidrograma observado por
métodos gráficos que se baseiam na análise qualitativa apresentada no item anterior. A precipitação
efetiva que gera o escoamento superficial é obtida quando não se dispõe dos dados observados do
hidrograma ou deseja-se determinar os parâmetros de um modelo em combinação com o hidrograma
do escoamento superficial. Na Figura 7.6 são apresentados três métodos gráficos tradicionalmente
usados.

Método 1: extrapole a curva de recessão a partir do ponto C até encontrar o ponto B, localizado
abaixo da vertical do pico. Ligue os pontos A, B e C. O volume acima da reta ABC é o escoamento
superficial e o volume abaixo é o escoamento subterrâneo;
Método 2: este é o método mais simples, pois basta ligar os pontos A e C por uma reta;
Método 3: o método consiste em extrapolar a tendência anterior ao ponto A até a vertical do pico,
encontrando o ponto D. Ligando os pontos D e C obtém-se a separação dos escoamentos.

Um método alternativo aos anteriores é o seguinte: (Figura 7.5) prolongue a tendência do


hidrograma antes do ponto A até o ponto B, abaixo do pico e da recessão a partir de C. Desenhe a
curva restante definindo o ponto D. O ponto A é caracterizado pelo início da
ascensão do hidrograma, ou do escoamento superficial. O ponto C é caracterizado pelo término do
escoamento superficial e inicio da recessão.

Para a determinação do ponto C existem vários critérios, a seguir relacionados:


a) método de Linlsey

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N = 0,872 ⋅ A0 , 2 (6.2)

onde N = tempo entre o pico do hidrograma e o tempo do ponto C, em dias; A é a área da bacia em
km2;

b) o tempo entre a última precipitação e o ponto C, que termina o escoamento superficial é o tempo de
concentração. Utilizando uma das equações para determinar o tempo de concentração, é possível
estimar aproximadamente o ponto C. O valor obtido pode não estar em concordância com o
hidrograma observado, mas permite diminuir dúvidas entre mais de um ponto de inflexão, escolhido
visualmente;

c) a inspeção visual é um dos procedimentos


mais simples e se baseia na plotagem das
vazões numa escala mono-log, (vazão na escala
logarítmica). Como a recessão tende a seguir
uma equação exponencial, numa escala
logarítmica a mesma tende para uma reta.
Quando ocorre modificação substancial da
declividade da reta de recessão, o ponto C é
identificado. Freqüentemente ocorre mais de
uma mudança de inclinação da reta, o que pode
caracterizar também o escoamento
subsuperficial, retardado de diferentes partes da
bacia ou o efeito de diferentes camadas dos
aqüíferos.
Fig.6.6 – Métodos de separação gráfica
A precipitação efetiva é a parcela do total precipitado que gera o escoamento superficial. Para obter
o hietograma correspondente à precipitação efetiva é necessário retirar os volumes evaporados,
retidos nas depressões e os infiltrados, utilizando-se as metodologias discutidos nos Capítulos 4 e 5.

6.5. Coeficiente de Escoamento Superficial (C)

O coeficiente de escoamento superficial ou coeficiente de deflúvio, ou ainda, coeficiente de


“runoff”, é definido como a razão entre o volume de água escoado superficialmente e o volume de
água precipitado. Este coeficiente pode ser relativo a uma chuva isolada ou relativo a um intervalo de
tempo onde várias chuvas ocorreram.
É claro que, conhecendo-se o coeficiente de “runoff” para uma determinada chuva intensa de uma
certa duração, pode-se determinar o escoamento superficial de outras precipitações de intensidades
diferentes, desde que a duração seja a mesma. Este procedimento é muito usado para se prever a
vazão de uma enchente provocada por uma chuva intensa.

6.6. Estimativa do Escoamento Superficial Através de Dados de Chuva

A vazão máxima pode ser estimada com base na precipitação, por métodos que representam os
principais processos da transformação da precipitação em vazão e pelo método racional, que engloba
todos os processos em apenas um coeficiente ( C ).
O método racional é largamente utilizado na determinação da vazão máxima para bacias pequenas
(≤ 2 km2). Os princípios básicos desta metodologia são: a) considera a duração da precipitação
intensa de projeto igual ao tempo de concentração. Ao considerar esta igualdade admite-se que a
bacia é suficientemente pequena para que esta precipitação ocorra, pois a duração é inversamente
proporcional à intensidade. Em bacias pequenas, as condições mais críticas ocorrem devido a
precipitações convectivas que possuem pequena duração e grande intensidade; b) adota um
coeficiente único de perdas, denominado C, estimado com base nas características da bacia; c) não
avalia o volume da cheia e a distribuição espacial de vazões.

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• Fórmula Racional
Da definição de coeficientes de deflúvio, pode-se escrever:
onde: C é o coeficiente de deflúvio
Q Q é a vazão - (m3/s)
C= (6.3) i é a intensidade de chuva - (m/s)
i⋅A A é a área de drenagem – (m2)

O numerador representa o volume escoado por unidade de tempo e o denominador representa o

volume precipitado por unidade de tempo. Então, a vazão (Q) corresponde a uma chuva de

intensidade ( i ) sobre toda a área de drenagem (A), chuva esta que dure um tempo tal que toda a área

da bacia contribua para o escoamento, será dada por:

Q = C ⋅i ⋅ A (6.4)
2 3
Se i é dado em mm/h, A em km e se deseja Q em m /s, a fórmula racional, ou equação (6.4), fica:
Q = 0,278C ⋅ i ⋅ A (6.5)
A aplicação da fórmula racional, depende do conhecimento do coeficiente de deflúvio C.

Existem tabelas que relacionam o coeficiente de escoamento superficial com a natureza da


superfície onde ela ocorre. Ver a Tabela 6.1.

Natureza da Superfície Valores de


C
Telhados perfeitos, sem fuga 0,70 a 0,95
Superfícies asfaltadas e em bom estado 0,85 a 0,90
Pavimentações de paralelepípedos, ladrilhos ou blocos de madeira com juntas bem tomadas 0,75 a 0,85
Para as superfícies anteriores sem as juntas tomadas 0,50 a 0,70
Pavimentações de blocos inferiores sem as juntas tomadas 0,40 a 0,50
Estradas macadamizadas 0,25 a 0,60
Estradas e passeios de pedregulho 0,15 a 0,30
Superfícies não revestidas, pátios de estrada de ferro e terrenos descampados 0,10 a 0,30
Parques, jardins, gramados e campinas, dependendo da declividade do solo e natureza do 0,01 a 0,20
subsolo
Tabela 6.1 - Valores do coeficiente de deflúvio (c), extraída do manual de técnica de bueiros e
drenos da ARMCO.

Pode-se também calcular o valor de C para uma chuva de características conhecidas, desde que se
conheça a variação de vazão correspondente.

Exemplo: Dada a Tabela 6.2, com dados de vazão e sabendo-se os valores da área de drenagem
(A=115.106 m2) e da altura de chuva (h=160 mm), procede-se da seguinte forma para calcular o
coeficiente de deflúvio:

Dia Hora Vazão (m3/s) Dia Hora Vazão (m3/s)


0 12,1 0 30,2

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1 6 18,2 4 6 21,5
12 30 12 19,2
18 52 18 18,2
0 58 0 17,3
2 6 63,5 5 6 15,5
12 55 12 14
18 46,3 18 10,5
0 43,3
3 6 32,8
12 27,7
18 29,8
Tabela 6.2 - Dados de vazão

Com os dados de vazão acima traça-se a


Hidrograma Observado
hidrógrafa, e a partir desse gráfico traça-se a
reta que separa o escoamento superficial direto 70
do escoamento básico (reta AC referida no item 60
6.4). Esta reta tem o seu ponto inicial numa Q (m3/s)
50
mudança brusca na inclinação da curva de Qb(m3/s)
Q (m3/s)

40
vazão (início do escoamento superficial ) e o
seu ponto final no ponto de máxima curvatura e, 30

sempre, relativo a um período igual a um 20

número inteiro de dias ou pelo menos um ponto 10


imediatamente superior que satisfaça esta 0
segunda condição. Obtém-se, agora, o 0 18 12 6 0 18 12

escoamento de base a partir de leitura direta do tempo (hora)

gráfico, conforme representado na tabela 6.3.


Assim obtemos o escoamento superficial e, a Fig. 6.7 – Hidrograma referente aos dados da
partir do cálculo da área compreendida entre a Tabela 6.2
reta e o hidrograma, o volume escoado.

Dia Hora Vazão Qb Qe


(m3/s) (m3/s) (m3/s)
0 12,1 12,1 0
1 6 18,2 12,82 5,38
12 30 13,54 16,46
18 52 14,26 37,74
0 58 14,98 43,02
2 6 63,5 15,7 47,8
12 55 16,42 38,58
18 46,3 17,14 29,16
0 43,3 17,86 25,44
3 6 32,8 18,58 14,22
12 27,7 19,3 8,4
18 29,8 20,02 9,78
0 30,2 20,74 9,46
4 6 21,5 21,46 0,04
12 19,2 19,2 0
18 18,2 18,2 0

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0 17,3 17,3 0
5 6 15,5 15,5 0
12 14 14 0
18 10,5 10,5 0
Tabela 6.3 – Separação do escoamento
Para esse exemplo obtemos o seguinte valor:
Ve = 6.166.368,00m3

O cálculo do volume precipitado é feito através da seguinte relação:


Vp = A x h
Vp = 115.106 .0,160 = 18.400.000,00 m3

Tendo os valores do volume escoado e o volume precipitado teremos :


C=Ve/Vp C= 6.166.368,00m3 / (18.400.000,00 m3) = 0,34

Apesar de representar aproximação relativamente grosseira, pois o valor de C calculado para a bacia
em questão, estritamente, só serviria para a chuva e condições para as quais foi calculado, a fórmula
racional, com o valor calculado do coeficiente de deflúvio poderia ser utilizada para outras
intensidades com duração tal que toda a bacia contribua.

6.7. Hidrograma Unitário

As três seguintes proposições, simplificadamente, dão os princípios fundamentais que regem as


relações entre chuva e deflúvio para chuvas de distribuição uniforme e de intensidade constante sobre
toda a bacia de drenagem:
a) para chuvas de iguais durações, as durações dos escoamentos superficiais correspondentes são
iguais.
b) duas chuvas da mesma duração, mas com volumes escoados diferentes, resultam em hidrógrafas
cujas ordenadas são proporcionais aos correspondentes volumes escoados.
c) considera-se que as precipitações anteriores não influenciam a distribuição no tempo do
escoamento superficial de uma dada chuva.

Baseado nestes princípios fundamentais, introduziu-


se a chamada hidrógrafa unitária que é ferramenta
útil na transformação de dados de chuva em vazões.
Chama-se hidrógrafa unitária a hidrógrafa resultante
de um escoamento superficial de volume unitário.
Esse conceito, acoplado às três proposições
anteriores, fornece a possibilidade de considerar a
hidrógrafa unitária como uma característica da
bacia. Dada a hidrógrafa unitária, a qualquer chuva
de intensidade uniforme, de duração igual àquela da
hidrógrafa unitária (normalmente adotada igual à
duração critica para cálculo de enchentes), pode-se
calcular as ordenadas da hidrógrafa do escoamento
superficial correspondente.

Fig. 6.8 – Hidrograma unitário para dados do


Exemplo 6.1

O volume de escoamento superficial unitário normalmente adotado é de 1 cm de altura de água


sobre toda a bacia. Pelo procedimento mostrado no item6.5, calcula-se o valor do coeficiente de
deflúvio.

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Assim, chamando de Qu a vazão do escoamento superficial correspondente à hidrógrafa unitária, Qe


a vazão do escoamento superficial correspondente à vazão medida, h a altura média da chuva medida
(em centímetros) pelos princípios antes enunciados, tem-se:
Qu i⋅A
= (6.6)
Qe C ⋅ h ⋅ A

Qe
Qu = (6.7)
C ⋅h
Duração da Chuva: basicamente para cada duração de chuva tem-se uma hidrógrafa unitária. É
claro que, devido ao fato de o escoamento superficial ser constante e igual a 1 cm, a vazão de pico de
uma hidrógrafa unitária será tanto maior quanto menor a duração da chuva e o tempo base de
escoamento será tanto menor quanto menor for a duração da chuva.

Entretanto, não haverá grande diferença no estabelecimento da hidrógrafa unitária se as durações


das chuvas não diferirem muito; podendo-se admitir como aceitável, uma tolerância de 25% na
duração estabelecida da chuva.
Tempo de Retardamento da Bacia ("Basin Lag"): duas definições são usadas para tempo de
retardamento da bacia:
a) tempo entre o baricentro da distribuição da chuva e o baricentro da distribuição do escoamento

superficial.

b) tempo entre o baricentro da distribuição da chuva e o pico do diagrama do escoamento superficial.


E claro que esta última definição é mais simples de ser aplicada, e que as duas definições levam a

valores não muito diferentes.

Duração da Chuva a ser Adotada para o Estabelecimento da Hidrógrafa Unitária: normalmente,


a duração da chuva a ser adotada para o estabelecimento da hidrógrafa unitária seria o mínimo valor
para o qual toda a bacia contribuiu para o escoamento superficial. Entretanto, não se conhecendo esta
duração chamada de "crítica", pode-se adotar, um quarto do tempo de retardamento da bacia.
Adotando-se uma duração menor que a crítica, constrói-se uma hidrógrafa unitária que poderá servir
de base para o estabelecimento de outras hidrógrafas unitárias para maiores durações. É claro que se
deslocando uma hidrógrafa unitária de um tempo t e somando-se à hidrógrafa unitária de duração to,
tem-se uma hidrógrafa de duração (t + to) com 2 cm de escoamento superficial. Dividindo-se por 2 as
ordenadas desta última hidrógrafa, tem-se a hidrógrafa unitária de duração (t + to).
Adotou-se aqui o termo duração da hidrógrafa unitária para a duração da chuva para a qual esta
hidrógrafa unitária foi construída. Nada tem esse conceito a ver com duração do escoamento
superficial da hidrógrafa unitária ou de qualquer hidrógrafa dela deduzida.

6.8. Hidrograma Unitário Sintético

A situação mais freqüente, na pratica, é o da existência de dados históricos. Os hidrogramas


unitários sintéticos foram estabelecidos com base em dados de algumas bacias, e são utilizados
quando não existem dados que permita estabelecer o HU.
Os métodos de determinação do HU baseiam-se na determinação do valor de algumas abcissas,
como o tempo de pico e o tempo de base, e das ordenadas como a vazão de pico. A regionalização
destas variáveis com base em características físicas tem permitido estimar o HU para um local sem
dados observados.

Snyder:

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Snyder ( 1938 ) foi um dos primeiros a estabelecer um HU sintético com dados dos Apalaches (
USA ) com bacias de 10 a 10.000 mi² de área de drenagem. Esse método consiste na confecção de um
gráfico, tendo como base os fatores descritos abaixo:
Tempo de pico:
t p
= Ct (L L ) e
0,3
( horas ) (6.8)

onde L = comprimento do rio principal ( Km ); Le = é a distancia da seção principal ao ponto do rio


mais próximo do centro de gravidade da bacia ( Km ); Ct = coeficiente que varia entre 1,35 a 1,65;

O tempo de duração da precipitação, calculado por:

=
t p
t r
5,5
( horas ) (6.9)

Se a precipitação estudada tiver duração tR superior a duração tr calculada, o valor tp deverá ser
substituído por:
(
+ t
,
− tr )
tp = tp
, R
( horas ) (6.10)
4
A vazão de pico para uma precipitação de duração tr e volume 1 cm fica:

2,75 C p A
Q = (ou tp’ se for o caso) (m³/s) (6.11)
p
t p

Onde A= área de drenagem em Km²; Cp= coeficiente que varia entre 0,56 e 0,69.

Na literatura vários autores têm aplicado


semelhante procedimento em diferentes partes
dos Estados Unidos obtendo valores de Cp e Ct
com intervalos de variação superior ao
indicado. O coeficiente Ct tem influência sobre
o tempo de pico e depende das outras
características físicas. Para bacias próximas
com características físicas semelhantes podem-
se usar dados de bacias vizinhas para a
estimativa desses coeficientes.

Fig. 6.9 - HU Sintético Snyder

O tempo de base do hidrograma unitário é estimado por:


t 
t = 3 + 3 ⋅  24  (ou tp’ se for o caso) (dias)
p
b (6.12)
 
Esse valor fica irreal para bacias muito pequenas.
Com base em Qp, tp e tb, o HU é esboçado, procurando manter o volume unitário (Figura 6.9).

Exemplo: determine o hidrograma unitário sintético pelo método de Snyder para uma bacia com os
seguintes dados: A=115 Km²; L=29,5 Km; Lc=5Km. Adote Ct=1,50 e Cp=0,625.

Solução:

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 118


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• Tempo de pico
tp=Ct ( Lc x L )0,3
tp=( 1,50 ) [ (29,5/2 ) x 29,5 ]0,3 → tp=9,31 hs

• Tempo de duração da precipitação ( tr )


tr=tp/5,5
tr=9,31/5,5 → tr=1,69 hs

Como tr ( 1,69 ) < tR( 10,50 ) corrigiremos o valor de tp para tp’.

• Tempo de atraso ( tp’)


tp’=tp+ ( tR – tr )/4
tp’=9,31 + [(10,50 – 1,69 )/4] → tp’=11,51 hs

• Cálculo de vazão de pico ( Qp )


Qp=2,76 Cp ( A/tp’ )
Qp=2,76 0,625 (115/11,51 ) → Qp=17,23 m³/s
• Cálculo do Tempo de Base do Escoamento ( T )
T=3+3 ( tp’/24 ) T=3+3 (11,51/24) → T=4,44 dias

Deve-se procurar desenhar a curva, mantendo a altura de chuva unitária, sendo um trabalho de
tedioso e sujeito a variadas interpretações. Esse procedimento é ajustado através do calculo da área do
gráfico, obtendo-se, assim, o volume escoado, que para transformar em lâmina d’água (altura de
chuva unitária) divide-se pela área da bacia. Deve-se ter o cuidado de observar a compatibilização das
unidades.

SCS

O Soil Conservation Service (SCS, 1957) apresentou um método para determinação do hidrograma
unitário em que o mesmo é considerado um triângulo como se vê na Figura 6.10.
A área do triângulo é igual ao volume precipitado Q, ou seja:

q ⋅t ' q ⋅t
+ =Q
b p b e
(6.13)
2 2
2⋅Q
q = (6.14)
b
t p '+ t e
sendo te = H × Tp (6.15)
A equação acima fica:
2⋅Q
q = (H + 1) ⋅ (6.16)
b
t p
'
Os autores adotaram H=1,67 com base na observação
de várias bacias.

Fig. 6.10 - Hidrograma triângular SCS

Para uma precipitação efetiva de 1 cm, sobre a área A, em Km², tp’ em horas, a equação da vazão fica:
A
q = 2,08 × (6.17)
b tp'

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 119


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A vazão máxima é obtida em m3/s.

O tempo Tp’, contado do inicio da precipitação, representa uma correção no tempo de pico para efeito
de aplicação do método, sendo igual a:

Tp' = t r + 0,6 ⋅ t c (6.18)


2
onde tr = duração da precipitação, em horas; tc = tempo de concentração em horas.

Sendo recomendado que o tempo de concentração da bacia seja calculado pela seguinte fórmula, já
apresentada anteriormente:
0 , 385
 L3 
t c = 0,95  ( horas ) (6.19)
D 
te= 1,67tp’ ( 6.20)

tb= te+ tp’ (6.21)


onde L e D são respectivamente comprimento do rio principal em km e diferença de cota (desnível
∆H) em m. O tempo de concentração pode ser também estimado, ainda, por dois procedimentos
diferentes:

a) inicialmente verifica-se qual o caminho entre o ponto mais extremo da bacia e a seção principal.
Para cada trecho desse caminho com características diferentes, pode-se calcular a velocidade com
base na declividade, segundo a expressão:
v= a s½;
sendo:
 s= declividade em %
 coeficiente a dado pela Tabela 6.4.

O tempo de cada trecho será t=L/v, onde L=comprimento e v=velocidade.

Para os trechos em canais, utilize a equação de Manning com a profundidade da seção de


extravasamento.

a
Tipo de cobertura
Floresta com solo coberto de folhagem 0,25
Área sem cultivo ou pouco cultivo 0,47
Pasto e grama 0,71
Solo quase nu 1,00
Canais com grama 1,51
Superfície pavimentada 2,00
Tabela 6.4 – Velocidade para Superfícies

b) Considerando a equação para o tempo de pico tp a seguinte

0,7
 S 
2 ,6 ⋅ L + 1
0 ,8

=  25 , 4  (6.22)
t p 0 ,5
1900 ⋅ y

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 120


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onde S é obtido pela equação como já explicado anteriormente; L= comprimento hidráulico em metro;
y= declividade em percentagem. O tempo de concentração pode ser obtido pela relação tp= 0,6 tc. A
expressão acima foi apresentada pelo SCS para uso em bacias de até 8 Km².
O tempo de concentração se modifica com a alteração da cobertura da bacia, principalmente devido
à urbanização. SCS (1975) apresenta modificação nos termos da Equação 6.20, quando ocorre
urbanização da bacia.

Na figura abaixo é apresentada a relação entre fl, fator de correção devido a modificação no
comprimento hidráulico e a percentagem do comprimento modificada.

100
comprimento hidráulico
% de modificação do

95
98

CN 90
CN

CN 85
75 CN 80
CN
70
CN

50

25

0
1,0 0,9 0,8 0,7 0,6 0,5
f1
a- fator f1

Figura 6.11a – fator de correção f1

A seguir é apresentada a relação entre o fator de correção f2 e a percentagem de área impermeável.


O tempo de concentração calculado com base na Equação 6.20 é corrigido pela multiplicação dos
fatores f1 e f2.

100
% de área impermeável

95
98

CN 90
CN

CN 85
75 CN 80
CN
70
CN

50

25

0
1,0 0,9 0,8 0,7 0,6 0,5
f2

b-fator f2

Figura 6.11b – fator de correção f2

Para facilitar o calculo, SCS apresentou um hidrograma adimensional em função da vazão de pico e
tempo de pico. Conhecidos esses valores, pode-se determinar o hidrograma unitário utilizando os
fatores da Tabela 6.5, que estão, também, representados no gráfico abaixo para melhor
esclarecimento.

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t/tp Q/qp t/tp Q/qp t/tp Q/qp


0,1 0 0,2 0,015 0,3 0,075
0,4 0,16 0,5 0,28 0,6 6,430
0,7 0,60 0,8 0,77 0,9 0,890
1,0 0,97 1,1 1,00 1,2 0,989
1,3 0,92 1,4 0,84 1,5 0,750
1,6 0,66 1,8 0,56 2,0 0,420
2,2 0,32 2,4 0,24 2,6 0,180
2,8 0,13 3,0 0,098 3,5 0,075
4,0 0,036 4,5 0,018 5,0 0

Tabela 6.5 – HU Adimensional


Exemplo: uma bacia rural com 7 Km², com cobertura de pasto ( CN=61 ), tem comprimento de 2,5
Km e declividade de 8%. Esta bacia deve ser alterada para uma bacia urbana com 30% de áreas
impermeáveis, alterando 75% do seu rio. Estime as características do HU para as condições atuais e
futuras. Adote CN=83 para as condições urbanas.

Solução:

a) condições atuais:

S= (25400/61)-254=162,4
Tp= 2,6 (2500)0,8 (162,4/25,4+1)0,7/(1900. 8 0,5)= 1,026 hr.
tc= tp/0,6=1,71 hr.

Para uma duração de precipitação de 15 min ou 1h/4,


t’p= 0,25/2 + 1,026 = 1,15 hr
qp= 2,08.7/1,15= 12,65 m³/s.

b) condições futuras:

S= (25400/83)-254 = 52,0
Tp= 2,6 (2500)0,8 (52/25,4 + 1)0,7 /(1900. 8 0,5 )=0,55 h

Corrigindo esse fator para f1=0,59 e f2=0,835, obtidos nas Figuras 6.11, resulta

tp= 0,55. 0,59 . 0,835= 0,27 h.


tc= 0,27/0,6= 0,45 hr
T’p= 0,25/2 + 0,27= 0,40 hr
qp= 2,08 . 7/0,40= 36,4 m³/s

6.9 Transposiçao de Hidrograma Unitário

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Quando num local de interesse não existem dados para a determinação do HU, mas numa bacia
vizinha com características semelhantes há disponibilidade de dados que permita ajustar o HU, a
transposição pode ser realizada utilizando o seguinte procedimento:

a) determinação do HU da bacia com dados;


b) determinação dos valores de A, L, Lc, tp e Qp da bacia com dados;
c) determinação dos coeficientes Ct e Cp desta bacia com base em L:

t
C =( ⋅ )
p
t 0,7
(6.21)
L L c

q ⋅t
Cp = ⋅
p p
(6.22)
2,75 ⋅ A
d) determinação de L, Lc e A da bacia de interesse e utilização do Ct e Cp da bacia vizinha
para determinar os valores de tp, tr e Qp.

QUESTIONÁRIO

1. O que é o coeficiente de run-off e qual a sua fórmula?


2. Descreva o hidrograma de escoamento. Diga o que representa:
a) escoamento superficial
b) escoamento de base
3. Descreva os procedimentos utilizados para a elaboração do hidrograma, pelos métodos:
a) método de Snyder
b) método do Soil Conservation Service – SCS

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6.10 REGIME DOS CURSOS DE ÁGUA

6.10.1- Generalidades
A análise de um hidrograma de um rio leva às seguintes conclusões:
• As vazões médias diárias apresentam valores variáveis mostrando tendências de acordo
com as estações e, ao mesmo tempo, uma aleatoriedade na ocorrência de variações;
• Pode-se definir, no período considerado, as vazões máximas, médias e mínimas;
• É possível determinar o período de vazões mínimas ou de vazões máximas.

Um grande número de fatores é responsável pela variação da vazão em um curso de água. São
eles:
• Geológicos
• Pluviométricos
• Umidade do solo
• Topografia
• Vegetação
• Forma da bacia

6.10.2- Diagrama de Freqüência


A freqüência com que ocorrem determinadas vazões é um fator importante para estabelecer o
regime de um curso de água, quando se deseja saber sobre:
• O potencial de utilização;
• Informações sobre as vazões que caracterizam o regime (máximas, mínimas, etc.),
definida para um período de observações T, como:
1 T
Q =
T ∫ 0
Q ( T ) dt

onde Q(t) é a equação da distribuição da vazão no período T.

A distribuição de freqüência é feita com uma série de valores observados em um posto


fluviométrico, de um rio qualquer.
Assim, escolhe-se um número m de modo a formar m intervalos (da série de dados observados).
Assim para um dado m, tem-se a amplitude h para cada intervalo:
h = Qmáx - Q mín
m

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Com a amplitude, e classificando as vazões em ordem decrescente, obtem-se o diagrama de


freqüência:

Intervalo de Diagrama de freqüência


vazões Freqüência
45.50 - 41.38 1 70
41.38 - 37.26 2 60

Freqüência de
50

ocorrência
37.26 - 33.14 1 40
33.14 - 29.02 2 30
29.02 - 24.90 7 20
10
24.90 - 20.78 13 0
20.78 - 16.66 11 0 20 40
16.66 - 12.54 28 Vazões m3/s
12.54 - 8.42 59
8.42 - 4.30 56
Total 180

6.10.3- Curva de duração ou de permanência


É a representação gráfica da função Q(t), sendo a duração expressa em percentagem. Supondo-se
que:
Qi-1 > Qi ≥ Qj

E que o valor máximo de Q ocorre uma vez, em T, a expressão abaixo é chamada duração da
vazão Qi:
ti=1+Σ Fi

A curva de duração ou permanência é construída com valores de vazão na ordenada e com valores
de duração, geralmente em percentagem, na abscissa.

– Procedimento para construção da curva de permanência:


• Todos os dados de vazões mensais (de todo os anos) são ordenados em ordem crescente
ou decrescente.
• A amplitude é calculada: h = Qmáx - Q mín sendo m o número de intervalos.
m
• O intervalo é obtido pela seguinte forma: O primeiro intervalo é o valor entre a Qmáx e o
valor da Qmáx – h. O segundo intervalo é o valor entre a Qmáx – h e Qmáx – 2h; e assim por
diante, sendo que o último valor do último intervalo deverá ser Qmín.
• Encontra-se então a freqüência de cada intervalo (número de ocorrências de vazões com
valores dentro do intervalo).
• Constrói-se uma tabela com os valores do intervalo, da freqüência (sendo a freqüência do
primeiro intervalo igual à zero) e da duração.
• A duração é a freqüência acumulada. E por fim a duração em porcentagem.
• A curva é construída com valores do intervalo de vazão e com a duração em porcentagem.

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Intervalo
Intervalo Freqüênci Duração de
de vazões a Duração % Duração % vazões
45,5 0 0 0 0 45,5
41,38 1 1 0,55 0,55 41,38
37.26 2 3 1,67 1,67 37.26
33.14 1 4 2,22 2,22 33.14
29.02 2 6 3,33 3,33 29.02
24.90 7 13 7,22 7,22 24.90
20.78 13 26 14,44 14,44 20.78
16.66 11 37 20,56 20,56 16.66
12.54 28 65 36,11 36,11 12.54
8.42 59 124 68,89 68,89 8.42
4,3 56 180 100 100 4,3

Curva de Permanência

50

40

30
Vazão

20

10

0
0 20 40 60 80 100 120
Duração(%)

6.11. PREVIÃO DE ENCHENTES

6.11.1- Enchentes e inundações


Enchente é fenômeno da ocorrência de vazões relativamente grandes e que, normalmente, causam
inundações, isto é, extravasam o canal natural do rio.
Calcular uma enchente significa dar a máxima vazão de projeto e, se possível, a hidrógrafa.

6.11.2- Período de retorno


O período de retorno de uma enchente é o tempo médio em anos que essa enchente é igualada ou
superada pelo menos uma vez.
A fixação do período de retorno deveria ser feita por critério econômico. Por exemplo, se
houvesse um seguro contra enchentes poder-se-ia construir a curva dos custos anuais do seguro versus
período de retorno. No mesmo gráfico se colocariam os gastos anuais de amortização da obra. A soma
dessas duas parcelas passaria por um mínimo que daria o período de retorno mais econômico.

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Porém no Brasil não há seguros contra enchentes. A fixação do período de retorno se faz por
critérios, tais como:
• Vida útil da obra
• Tipo de estrutura
• Facilidade de reparação e ampliação
• Perigo de perda de vida
Alguns exemplos: Barragem de terra – 1000 anos; Barragem de concreto – 500 anos; Galeria de
águas pluviais – 5 a 20 anos;

6.11.3- Análise da natureza dos dados de vazão


• Distribuição Normal (Capítulo 3 da apostila)
• Método Gumbel (Capítulo 3 da apostila)
• Método de Foster

6.11.4- Método de Foster


O método de Foster aplica, para os dados de vazão, a distribuição de Pearson tipo III. Essa
distribuição é assimétrica e não admite valores negativos. Seus parâmetros são:

• Média Q
=
∑Qi
n

• Desvio padrão σ= ∑(Qi− Q) 2

n −1

• Coeficiente de obliqüidade de Pearson Co=


∑(Qi−Q) 3

2σ∑(Qi−Q) 2

Hazen introduziu um ajustamento ao coeficiente de obliqüidade, que deverá ser Co’:


8,5
C' o = (1+ )Co
n

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sendo n o número de anos de dados e Qi as máximas vazões diárias de cada ano.


Esse método utiliza séries anuais, isto é, valores máximos medidos de cada ano.

Após o cálculo da média, desvio e coeficiente de obliqüidade, e considerando uma vazão para um
período de retorno, tem-se:

1
P= =A
Tr
Essa probabilidade corresponde à área de curva de densidade de probabilidade designada por (1-
A), sendo A(%) definido na tabela abaixo:

Com o valor de A e o valor do coeficiente de obliqüidade, através da tabela, tem-se o valor de x/σ.
Com esse valor (x/σ) e o valor do desvio, descobre-se x. Portanto, tem-se:
Q = X +Q

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6.12- MÉTODO Q7,10 ( Sobre vazões mínimas, ver cópia na xérox)

Procedimento para calcular Q7,10:


• Calcular a média móvel de 7 dias, para toda a série de vazões
A média móvel é feita da seguinte maneira: Por exemplo, para o mês de janeiro, a primeira média
móvel será para os dias 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7; a segunda média móvel será para os dias 2, 3, 4, 5, 6, 7
e 8; a terceira média móvel será para os dias 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9, e assim sucessivamente. Para o
mês de dezembro, a última média será para os dias 25, 26, 27, 28, 29, 30 e 31; as médias que não
possuírem 7 valores (só para o final do mês de dezembro), não são usadas, por exemplo, em
dezembro 26, 27, 28, 29, 30 e 31, pois há somente 6 valores. A próxima média móvel será para o
mês de janeiro do ano seguinte, onde a primeira média móvel será para os dias 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7...
• Ordenar as médias móveis de cada ano
• Localizar a média mínima de cada ano (o menor valor de vazão do ano)
• Como são 20 anos, e cada ano terá o seu valor mínimo, formar uma série de 20 anos.
• Para um período de retorno de 10 anos, calcular a vazão por Gumbel, para a série de 20 anos.

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CAPÍTULO 7

REGULARIZAÇÃO DE VAZÕES E CONTROLE DE ESTIAGENS

7.1. Introdução

A variabilidade temporal das vazões fluviais tem como resultado visível a ocorrência de excessos
hídricos nos períodos úmidos e a carência nos períodos secos. Nada mais natural que seja
preconizada a formação de reservas durante o período úmido para serem utilizadas na
complementação das demandas na estação seca, exercendo um efeito regularizador das vazões
naturais.
Em geral, os reservatórios são formados por barragens implantadas nos cursos d'água. Suas
características físicas, em especial a capacidade de armazenamento, dependem das características
topográficas do vale no qual estará situado.
Como a ocorrência das vazões é aleatória, ou seja, não há possibilidade de previsão de ocorrências a
longo prazo, não é também possível prever-se com precisão o tamanho da reserva de água necessária
para suprimento das demandas de períodos de seca no futuro. Isto leva o planejador de recursos
hídricos a duas situações ineficientes: superdimensionar as reservas, às custas de investimentos
demasiados no reservatório de acumulação ou, subdimensionar as reservas às custas de racionamento
durante o período seco. Entre essas duas dimensões estaria aquela ótima.
No entanto, a situação é mais complexa do que o acima exposto, exatamente porque as vazões são
aleatórias. Assim, existirão períodos nos quais determinada dimensão de reservatório será suficiente e
outros em que não. A exceção ocorre nos casos extremos em que seja implantado um reservatório
excessivamente grande, que permita atender sempre a demanda, ou excessivamente pequeno, que
nunca o faça. A dimensão ótima para um reservatório deverá ser considerada em função de um
compromisso entre o custo de investimento na sua implantação e o custo da escassez de água durante
os períodos secos. O primeiro custo é diretamente proporcional e o segundo é inversamente
proporcional à dimensão do reservatório Quanto menor for a capacidade útil de acumulação de água,
ou seja aquela que pode ser efetivamente utilizada, mais provável é a ocorrência de racionamento.
Portanto, apenas na situação de extrema aversão ao racionamento seria ótima a decisão de construir-se
um reservatório que sempre pudesse acumular água para atender à demanda.
Há um risco de que o raciocínio previamente elaborado leve à errônea conclusão que, para o
atendimento a qualquer demanda hídrica seja suficiente a construção de um reservatório com
capacidade útil suficientemente grande de acumulação. Isso porque, obviamente, a capacidade útil de
acumulação de um reservatório poderá ser efetivamente utilizada se houver durante algum período
úmido água suficiente para enchê-lo. Já se introduziu um número suficiente de complexidades ao
problema para ser aconselhável iniciar a apresentação das soluções práticas. Mas, apenas para
constar, e com risco de assustar o estudante, é possível citar-se outras mais: a demanda pode também
ser variável e mesmo, aleatória como a vazão, e existem perdas de água em um reservatório, por
evaporação, infiltração e vazamentos. O fato é que o estudo de um reservatório, de regularização de
vazões exige o conhecimento de sua dimensão, das vazões afluentes, da demanda a ser suprida e das
perdas que poderão ocorrer.
Neste capítulo, basicamente, três problemas serão tratados. Primeiro, conhecidas as vazões naturais,
ou de entrada no reservatório, calcular o volume deste para atender a uma dada lei para as vazões
regularizadas ou de saída do reservatório. Segundo, dado um certo reservatório, determinar uma lei,
para as vazões regularizadas, que mais se aproxime da regularização total, isto é, da derivação
constante da vazão média. Terceiro, dados um reservatório e a lei de regularização, calcular os
volumes de água existentes no reservatório em função do tempo. As soluções destes problemas são
básicas para o projeto e operação de reservatórios de regularização de vazões.

7.2 Cálculo do Volume do Reservatório para Atender a uma Lei de Regularização

Costuma-se chamar de lei de regularização a função:

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Qr(t )
Y (t ) = (7.1)
Qmed
onde: Qr(t) é a vazão regularizada em função do tempo (t)
Qmed é a vazão média no período considerado.

Dada à seqüência no tempo, das vazões naturais [Q(t)], e conhecida a lei de regularização y(t), é
possível determinar a capacidade mínima do reservatório para atender a essa lei.
Aqui, a vazão regularizada [Qr(t)] é a soma de todas as vazões que saem do reservatório no tempo t.
Não se fará menção à evaporação mas está poderá ser computada como função da área líquida exposta
e de dados climatológicos. A evaporação poderá também ser subtraída das vazões naturais que entram
no reservatório.
A capacidade mínima de um reservatório para atender a uma certa lei de regularização é dada pela
diferença entre o volume acumulado que seria necessário para atender aquela lei no período mais
crítico de estiagem e o volume acumulado que aflui ao reservatório no mesmo período.
Considerando vários períodos de estiagem, o mais crítico é aquele que resulta na maior capacidade
do reservatório. Assim, pode-se calcular a capacidade do reservatório para vários períodos de
estiagens e adotar a maior capacidade encontrada.
Seja, por exemplo, um ano com a hidrógrafa dada na Figura 7.1:

Fig. 7.1 - Hidrógrafa de entrada em um reservatório.

Suponha-se que se queira a seguinte lei de regularização:


y (t ) = 1 (7.2)
Isso significa que se deseja uma vazão regularizada constante e igual à média (Qmed).
É fácil observar que o período crítico para essa lei de regularização é definido pelos meses de abril e
setembro inclusive.
Nos rios perenes do sul do país, a hidrógrafa mostrada na Figura 8.1 é típica; entretanto, não é
necessário que período crítico esteja todo dentro de um ano civil.
O volume necessário para manter a vazão Qmed, durante estes meses é:
Vn = Qmed (∆t ABR + ∆t MAI + ∆t JUN + ∆t JUL + ∆t AGO + ∆t SET ) (7.3)
onde ∆t ABR
é o número de segundos do mês de abril, ∆t MAI
é o número de segundos do mês de
maio e assim por diante. Qmed deve, nesse caso, ser dado em m³/s e Vn em m³.
O volume que chega (Va) ao reservatório neste período é:

V = Q ∆t
a ABR ABR
+ QMAI ∆t MAI + QJUN ∆t JUN + QJUL ∆t JUL + QAGO ∆t AGO + QSET ∆t SET (7.4)

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Assim, a capacidade (Cr) mínima do reservatório para manter aquela lei de regularização,será:
C = V −V
r n a

(7.5) Exemplo: A partir da análise da tabela 8.1, calcular a capacidade do reservatório.

TABELA 7.1 - Rio Jaguari em Igaratá


Q-Q
deman Q- Q Vazões Vazòes Volumes
Q da demanda Disponíveis Demanda Atuais Situação do
Q demanda (m3/s) acumul Acumulada Acumulada (2,592x10 Reservatóri
6
Ano Mês (m3/s) (m3/s) (m3/s) s (m3/s) s (m3/s) m3) o
jan 9.13 3.80 5.33 9.13 3.80 5.21 E
fev 5.76 3.80 1.96 14.89 7.60 5.21 E
mar 5.43 3.80 1.63 20.32 11.40 5.21 E
abr 3.74 3.80 -0.06 0.06 24.06 15.20 5.15 D
mai 3.45 3.80 -0.35 0.41 27.51 19.00 4.80 D
jun 2.94 3.80 -0.86 1.27 30.45 22.80 3.94 D
jul 2.61 3.80 -1.19 2.46 33.06 26.60 2.75 D
ago 3.65 3.80 -0.15 2.61 36.71 30.40 2.60 D
set 2.21 3.80 -1.59 4.20 38.92 34.20 1.01 D
out 2.79 3.80 -1.01 5.21 41.71 38.00 0.00 S
nov 4.45 3.80 0.65 46.16 41.80 0.65 S
1 dez 5.96 3.80 2.16 52.12 45.60 2.81 S
jan 5.12 3.80 1.32 57.24 49.40 4.13 S
fev 7.97 3.80 4.17 65.21 53.20 5.21 E
mar 8.42 3.80 4.62 73.63 57.00 5.21 E
abr 5.25 3.80 1.45 78.88 60.80 5.21 E
mai 7.12 3.80 3.32 86 64.60 5.21 E
jun 8.83 3.80 5.03 94.83 68.40 5.21 E
jul 4.55 3.80 0.75 99.38 72.20 5.21 E
ago 5.68 3.80 1.88 105.06 76.00 5.21 E
set 4.16 3.80 0.36 109.22 79.80 5.21 E
out 5.02 3.80 1.22 114.24 83.60 5.21 E
nov 4.23 3.80 0.43 118.47 87.40 5.21 E
2 dez 5.41 3.80 1.61 123.88 91.20 5.21 E

E= água escoando pelo


S=nível de água subindo
extravasor D= nível de água baixando

Desta forma, a capacidade do reservatório é:


Cr = 5,21(m 3 / s ) ⋅ 30 ⋅ 86.400( S ) = 5,21 ⋅ 2,592 ⋅ 10 6 m 3
Cr = 13,504 ⋅ 10 6 m 3
O volume morto varia de acordo com cada projeto, mas geralmente é estimado em torno de 5 a
10% da capacidade do reservatório.
Volume morto = 5% x 13,504 ⋅ 10 m = 13,504 ⋅ 10 m = 0,675 ⋅ 10 m
6 3 6 3 6 3

7.3 Diagrama de Massas

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O diagrama de massas ou diagrama de Ripple é definido como a integral da hidrógrafa. É um


diagrama de volumes acumulados que afluem ao reservatório. Uma hidrógrafa como a mostrada na
Figura 7.1 dá origem a um diagrama de massas como o da Figura 7.2.

Como o diagrama de massa é a integral da


hidrógrafa, as tangentes a essa curva dão as vazões
em cada tempo considerado.
Supondo que se deseje a mesma lei de regularização
dada na fórmula (7.2), pode-se observar que a vazão
média (Qmed) é dada pela inclinação da reta AB da
Figura 7.3
Fig. 7.2 - Diagrama de massas.

Para derivar a vazão média (Qmed), o período crítico será definido pelo intervalo de tempo (t1, t2). É
claro que, para manter a vazão média (Qmed) durante o intervalo de tempo (t1, t2), se necessita do
volume (Vn):

V = Q (t − t )
n 2 1 (7.6)

Como o diagrama da Figura 8.3 é um diagrama integral, o volume (Vn) fica representado pelo
segmento EC.

Fig. 7.3 - Regularização da vazão média

O volume que aflui (Va) ao reservatório no período de tempo (t1, t2) é:


t2

Va = ∫ Qdt (7.7)
t1

O volume (Va) é representado pelo segmento DC.

Assim, a capacidade do reservatório, isto é, (Vn-Va) é representada pelo segmento ED, que por sua
vez é a soma de δ1 e δ2, conforme a Figura 7.3.

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