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Instituto Teológico Gustavo Nordlund HERMENÊUTICA BÍBLICA CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO (LIVRE) LATU SENSU EM TEOLOGIA E

HERMENÊUTICA BÍBLICA

CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO (LIVRE) LATU SENSU EM TEOLOGIA E BÍBLIA

MAUREL GIACUMUZZI

ESTEIO - 2017

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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO

3

2. CONCEITOS FUNDAMENTAIS

5

3. UMA QUESTÃO DE GÊNERO

10

4. AS FIGURAS DE LINGUAGEM

20

5. A HERMENÊUTICA DO NOVO TESTAMENTO

30

6. A HERMENÊUTICA DOS PAIS DA IGREJA

38

7. A HERMENÊUTICA REFORMADA

52

8. A HERMENÊUTICA MODERNA

58

9. A HERMENÊUTICA CONTEMPORÂNEA

62

10. CONSIDERAÇÕES FINAIS

71

11. BIBLIOGRAFIA

74

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1 INTRODUÇÃO

Vivemos em uma época peculiar, nunca, em toda nossa história, tivemos acesso a tanta informação quanto hoje. Milhares de livros, revistas, publicações, sites, teses, palestras, áudios e vídeos podem ser encontrados a poucos ‘cliques’. Qualquer pessoa pode tornar-se, rapidamente, em um expert nos mais diversos assuntos; com o estudo da bíblia não é diferente, milhões de páginas da internet dedicam-se a comentar, analisar, expôr, criticar, dissecar o texto bíblico. Que momento prodigioso nós vivemos em relação ao compartir do conhecimento. Contudo esta democratização do saber bíblico, afinal a bíblia é o objeto do presente estudo, não tem se transformado em uma restauração da verdadeira “ecclesia”. Na verdade, muito pelo contrário, vivemos em uma época de fragmentação denominacional e, muitas das vezes, divisões pseudodoutrinárias ocorridas por interpretações divergentes da palavra de Deus. Teria a bíblia diversas interpretações? Ou mais, cada um pode interpretar o texto bíblico a seu modo? Existe um método correto de interpretação bíblica? Embora estas questões pareçam estapafúrdias, não são poucos os que ignoram as regras básicas de interpretação de um texto escrito, não estamos nem mesmo levando em conta a particularidade do texto sagrado, que mistura as habilidades linguísticas humanas com a inspiração divina e,sim, a simples habilidade de lêr e compreender um texto escrito. A hermenêutica, definida por Osborn (2009) como: a ciência que define os princípios ou métodos para a interpretação do significado dado por um autor específico”; pode ser um um divisor de águas em nosso relacionamento com as escrituras, pois a maioria dos cristãos, embora se preocupe em compreender as escrituras, não dedica-se com o mesmo afinco em compreender os princípios básicos para uma boa exegese de um texto bíblico. A hermenêutica, palavra oriunda

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do grego, que pode ser traduzida como interpretar, é ferramenta indispensável para todo o leitor da bíblia, que deseja, assim como o salmista (Sl 119), conhecer profundamente a palavra de Deus. No presente estudo, adotaremos uma abordagem diacrônica da hermenêutica, começando pelo próprio Jesus e apostólos, finalizando com as tendências e perspectivas modernas da interpretação bíblica. Lembrando aos nossos nobres alunos que a Linguística, fundamental para exegese de um texto, é uma ciência ainda muito incipiente, com um pouco mais de cem anos; Ferdinand Saussure considerado o pai da Linguística teve seu trabalho publicado em 1916, dando origem aos estudos da linguagem e seus fenômenos. A hermenêutica moderna, também recebeu uma importante contribuição da psicologia, outra jovem ciência, iniciado com o alemão Wilhelm Wundt em 1879. Então, iniciemos a nossa jornada, porém não sem antes citarmos o versículo preferido de todos os intérpretes da bíblia: “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra.” 2 Timóteo 3:16,17

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2 CONCEITOS FUNDAMENTAIS

Não podemos iniciar nossos estudos sem antes revermos alguns conceitos fundamentais que serão os norteadores do presente curso. Comecemos pela bíblia, afinal o que é a bíblia para nós? Como ela será o nosso objeto de estudo, termos uma perfeita compreensão das escrituras é premissa básica para a interpretarmos corretamente. A bíblia é antes de mais nada um livro, escrito originalmente em hebraico, grego e algumas partes em aramaico, línguas que devido a lacuna temporal, que nos separa dos autores originais, podem ser consideradas línguas “mortas”, como o latim. Contudo bíblia apresenta uma particularidade única em relação a quaisquer outros livros, é um livro divinamente inspirado, ou seja, as suas palavras, embora registradas na linguagem de seus escritores, trazem no seu texto a exata dimensão da revelação escrita de Deus. Portanto, a nossa primeira premissa básica é a inspiração plenária e verbal das escrituras. Plenária porque toda a escritura é divinamente inspiradas e verbal porque todas as suas palavras são igualmente inspiradas, sem exceção. Sobre a inspiração das escrituras Anglada (2016) escreve:

A doutrina da inspiração é a pressuposição bibliológica fundamental da hermenêutica reformada. Ela declara que a bíblia, embora escrita por autores humanos, é obra do Espírito Santo, o qual os moveu e superintendeu de tal modo, que tudo que eles registraram no cânon constitui-se, não meramente palavras humanas, mas palavra de Deus. Rejeitar a natureza divina da Escritura implica em equipará-la a outros livros, em abdicar da sua autoridade e inerrância e em rejeitá-la como regra infalível de fé e prática. ( ANGLADA, 2016 – p.136)

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Evidentemente, que reconhecimento se dá aos autógrafos originais, ou seja, os escritos originais. Traduções, embora muito fidedignas, podem não exprimir com extrema exatidão o significado original, por este motivo é recomendável que o intérprete da bíblia tenha conhecimento das línguas originais da bíblia, ou no mínimo recorra a várias versões para interpretar uma passagem corretamente. Porém, não podemos esquecer de outra importante característica da palavra de Deus, a perspicuidade, que podemos definir assim:_A bíblia é suficientemente clara para que qualquer pessoa seja capaz de encontrar a salvação e a regra de fé nas suas páginas. Embora existam passagens obscuras e de difícil interpretação no livro sagrado, essas passagens em nada obscurecem a sua mensagem principal, que pode ser perfeitamente entendida por qualquer pessoa que deseje conhecer a revelação de Deus. Entretanto, por sabermos que a bíblia é um livro escrito línguas muito antigas, se faz necessário pontuarmos alguma questões para entendermos as dificuldades que vamos encontrar como exegetas do texto bíblico. Para que possamos dimensionar o quanto uma língua varia no decorrer do tempo, veja abaixo um exemplo dos primeiros textos escritos em nossa língua, a Cantiga da Ribeirinha 1 :

No mundo non me sei parelha, mentre me for' como me vai,

ca ja moiro por vós - e ai! mia senhor branca e vermelha,

Queredes que vos retraia quando vos eu vi em saia!

Mao dia me levantei,

1 Disponível em: http://linguaportuguesapb.blogspot.com.br/2011/03/cantiga-da-ribeirinha.html

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que vos enton non vi fea!

E, mia senhor, des aquel di', ai!

me foi a mi muin mal,

e vós, filha de don Paai

Moniz, e ben vos semelha

d'haver eu por vós guarvaia,

pois eu, mia senhor, d'alfaia

Nunca de vós ouve nem ei

valía d'ũa correa.

Veja agora essa mesma cantiga em Português atual:

No mundo ninguém se assemelha a mim (parelha: semelhante) enquanto a vida continuar como vai, porque morro por vós, e ai minha senhora de pele alva e faces rosadas, quereis que vos descreva (retrate) quando vos eu vi sem manto (saia: roupa íntima) Maldito dia! me levantei que não vos vi feia (ou seja, a viu mais bela)

E, mia senhora, desde aquele dia, ai! tudo me foi muito mal

e vós, filha de don Pai

Moniz, e bem vos parece de ter eu por vós guarvaia (guarvaia: roupa luxuosa) pois eu, minha senhora, como mimo (ou prova de amor) de vós nunca recebi algo, mesmo que sem valor. (correa: coisa sem valor)

Observação: a guarvaia era um manto luxuoso, de cor vermelha, usado pela nobreza.

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O texto cantiga da ribeirinha foi escrito por volta do ano 1198, e podemos notar o quanto a nossa língua evoluiu desde então. Portanto, qualquer pessoa, mesmo não sendo um profissional da área da línguística, pode verificar que uma interpretação que deseje aproximar-se o mais possível do significado original

dos seus autores enfrentará a barreira temporal que nos afasta dos autores da bíblia. Em contrapartida, porém, nenhum texto antigo foi ou é tão estudado quanto a bíblia,

o que de certa forma ameniza a lacuna do tempo.

Outra fato importante é que há um aspecto espiritual na interpretação da bíblia, como escreve o apóstolo Paulo: _ “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.” I Coríntios 2.14. A interpretação da mensagem divina não depende somente da competência linguística do seu leitor, existe um componente espiritual indissociável àquele que deseja compreender os meandros dos textos bíblicos. O Espírito Santo exerce um papel preponderante na interpretação das escrituras conforme a própria bíblia, leiamos a citação abaixo:

A bíblia parece atribuir ao Espírito Santo um papel bem mais amplo na

Em 1 Coríntios 2:10-16, o apóstolo Paulo

argumenta que, visto que o Espírito Santo conhece e percrusta como ninguém a mente de Deus, e o homem espiritual (pneumatikós) tem o Espírito como mestre divino habitando em seu coração, ele é ensinado pelo Espírito a conferir (sugkrinw) coisas espirituais com espirituais e a discerni-las (anakrinw) espiritualmente – o que não ocorre com o homem natural (ynxikoj)

interpretação das escrituras [

]

(ANGLADA, 2016. p.132)

Podemos ver pela passagem bíblica, que somente o homem espiritual consegue discernir (diakrino) as coisas espirituais, portanto não basta a mera

interpretação textual das escrituras é necessário a iluminação do Espírito Santo para

a perfeita compreensão do texto sagrado.

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Antes de avançarmos para o próximo capítulo, é importante ressaltarmos ainda mais dois conceitos fundamentais para o presente estudo: a. A bíblia interpreta a própria bíblia; b. Todo o texto bíblico contém apenas um significado, embora possa ter diversas aplicações.

Ao princípio da auto-interpretação da bíblia chamamos da Analogia da Fé, que tem como ponto de partida a seguinte assertiva: _ a bíblia não se contradiz. Segundo Anglada (2016), “ se a Escritura é a única fonte inerrante, infalível e autoritativa de revelação; e se ela é intrínseca e substancialmente clara; então, parece razoável inferir que ela é, de fato, a sua melhor intérprete.”

Observando o princípio da Analogia da Fé, devemos sempre observar as passagens mais claras a fim de interpretar as mais obscuras. A mera observação deste princípio evitaria alguns erros grosseiros cometidos por muitas seitas heréticas, um belo exemplo é o batismo pelos mortos dos mornismo, fundamentada na primeira epístola aos Coríntios (I Cor 10:1). Embora o versículo em questão seja de difícil interpretação, em nenhum outro lugar das escrituras encontramos qualquer apoio a esse doutrina estapafúrdia, bem como, nenhum exemplo de batismo pelos mortos nas páginas da bíblia.

Bem mais complexo é o princípio do significado único ou primário dos textos bíblicos, os teólogos liberais chegam a afirmar que é impossível retomarmos o significado original de qualquer texto, já que o texto quando saí da esfera do autor, torna-se independente, possuindo vida própria. Leiamos o que OSBORN (2009) escreve sobre este tópico:

O objetivo da hermenêutica evangélica é bem simples: descobrir a intenção do Autor /autor (autor = agente humano inspirado; Autor = Deus, que inspira o texto). Críticos modernos negam cada vez mais a verdadeira possibilidade de descobrir o significado original ou pretendido pelo texto. O problema é que os autores originais tinham em mente um significado definido quando esccreveram, significado que se perdeu para nós, pois os autores não estão mais aqui para esclarecer e explicar o que escreveram. (OSBORN, 2009- p.29)

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Embora na visão de Osborn, seja impossível compreender o sentido original, ainda acho que o melhor caminho é procurarmos o sentido gramático- histórico do texto.

Importante frisarmos que muito cedo na história da interpretação, como veremos posteriormente, foram dados vários significados aos textos bíblicos, a escola alexandrina, dava muito mais valor ao suposto significado alegórico de uma passagem bíblica do que à intenção do autor ao escrevê-la. Porém, admitirmos mais do que um significado para um texto bíblico qualquer, desacoplado do seu sentido original, torna impossível definirmos qual a verdadeira interpretação de uma passagem escrita, visto que se fugirmos do significado gramático-histórico, ficamos a mercê de interpretações subjetivas e meramente especulativas. Portanto, cabe ao intérprete das escrituras buscar todos os subsídios necessários para entender exatamente o que o autor original tinha em mente quando escreveu a passagem em análise, para isso é muito importante fazermos as seguintes perguntas: _Quem escreveu? Quando foi escrita? Por que foi escrita? A quem era dirigida? Qual o princípio ensinado pela passagem bíblica? Era um ensinamento para aquela coletividade ou pessoa específica ou podia ser aplicada de modo geral? Estas são perguntas que nos ajudam a interpretar os inúmeros gêneros textuais da bíblia.

Outra dificuldade na interpretação bíblica é que nenhum intérprete é uma tábula rasa. Todos nós carregamos uma visão de mundo e de cristianismo herdada pelo meio social no qual estamos inseridos. É fato inegável, que o contexto cultural, o mundo do leitor exerce uma influência considerável na interpretação de qualquer texto, e com a bíblia não é diferente. Embora o ideal para uma exegese perfeita seja a total isenção do intérprete, é quase impossível que ele interprete um texto sem fazer uma certa eisege no texto bíblico, inserindo a sua visão teológica na passagem em apreço.

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3 UMA QUESTÃO DE GÊNERO

Antes de entrarmos em nossa “história” da hermenêutica bíblica, faz-se necessário uma breve reflexão sobre os gêneros literários da Bíblia, afinal encontramos nas páginas do Livro Sagrado diversos gêneros textuais, cada um deles com suas particularidades. Podemos dividir a Bíblia em cinco gêneros textuais:

Narrativa, Profecia, Poesia e Sabedoria, Epístolas e apocalíptico; cada um deles com as suas devidas características e particularidades. Segundo Osborn (2009) “é óbvio que não interpretamos ficção como interpretamos poesia” e, ainda há, justaposições dos diversos gêneros nos textos bíblicos, contudo é de fundamental inportância para recuperarmos o sentido original de uma passagem, conhecermos o gênero em que ela foi escrita. Leiamos o que OSBORN (2009) nos diz acerca dessa necessidade:

A questão do gênero é um importante elemento no debate sobre a possibilidade de recuperar o significado pretendido pelo autor (Hirsch chama isso de “gênero intrínseco”). Todos os escritores expressam sua mensagem dentro de um determinado gênero, para que os leitores tenham regras suficientes pelas quais possam decodificá-la. Essas indicações orientam o leitor (ou ouvinte) e fornecem pistas para a interpretação. Quando Marcos registrou a parábola do semeador contada por Jesus (Mc 4.1-20), ele inseriu num contexto e num meio que facilitariam uma comunicação adequada com seus leitores. Podemos recuperar aquele significado se entendermos o funcionamento das parábolas (cf. Capítulo 12) e dos símbolos dentro do contexto de Marcos. (OSBORN, 2009.p32)

Segundo Gibbs (2006) na bíblia , “o gênero mais comum é a narrativa histórica que é empregada em quase 60% da Bíblia. Este gênero inclui a maior parte dos dezessete primeiros livros do AT (com excessão de Levítico e Deuteronômio) e os quatro primeiros livros do NT. Na narrativa histórica, ou seja, o relato de acontecimentos reais, já que o gênero narrativa pode ser ficcional, a interpretação quase sempre é a mais literal possível.

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Embora a critica e a teologia moderna queira mitologizar muitas passagens bíblicas, especialmente os relatos sobrenaturais, como por exemplo os milagres de Jesus, não há um único argumento plausível, fora a incredulidade do intérprete, para não acreditarmos que todo o acontecimento que a bíblia relata, realmente, aconteceu. A primeira regra para interpretarmos uma narrativa com exatidão é crermos que tudo o que foi relatado aconteceu. Temos que tratar um relato bíblico como um fato. Afinal o próprio Jesus, assim como os apóstolos os reconheciam como tal, exemplos nas páginas do NT são inúmeros (Mt 12.40; Lc 17.26; Hb 11.17; I Pe 3.20) Uma narrativa contém vários elementos: um narrador, personagens, enredo, espaço e tempo. Ao analisarmos uma narrativa é importante reconhecermos estes elementos da história. No texto sagrado as narrativas não são meramente para o nosso entretenimento, não podemos olhar para a Bíblia como um relato apenas literário. A própria preservação dos manuscritos da Escritura é por si só um verdadeiro milagre. Como disse o profeta Isaías (Is 55.11) a palavra de Deus não volta vazia, ela tem um propósito, uma aplicação prática em nossas vidas. Assim é importante, ao meditarmos nas escrituras, que identifiquemos qual o tema abordado pelo escritor bíblico, qual o contexto histórico da narrativa, para que possamos compreender a aplicação, seja ela positiva ou negativa, para o nosso exercício da piedade. Entretanto, temos que ter cuidado em não enxergar em cada detalhe um ensinamento, pois “uma narrativa contém apenas uma verdade central, embora possa ensinar muitas verdades de modo incidental”, segundo Gibbs. As narrativas bíblicas tem um grande poder de nos persuadir acerca dos mais diversos aspectos da nossa comunhão com Deus, contudo não podemos basear uma doutrina a partir de apenas um relato histórico. Uma vez ouvi uma pregação

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em que o pastor ensinava o grande “mistério” que envolvia a oração ás cinco horas da manhã, pois segundo ele esse era o horário que Jesus orava todos os dias. Em seu sermão, depois de muita ginástica eisegética, pensava ele, ter demonstrado aos seus ouvintes que orar ás cinco horas é ter a resposta garantida. Embora em Pv 8.17, encontremos o sábio conselho de buscarmos Deus na madrugada, nenhuma alusão há na bíblia que cinco horas é um horário “especial” para orarmos a Deus. A bíblia ao nos relatar os momentos de oração de Jesus, ensina-nos a importância de termos estes momentos de comunhão com o Pai, mas não especifica em lugar nenhum que exista um horário especial para isso. Embora a pregação fosse eloquente, não havia nela nehum fundamento bíblico. As histórias da bíblia servem para nos ensinar e edificar as nossas vidas, ao acompanharmos a história dos grandes homens e mulheres da bíblia, somos exortados a seguir os seus bons exemplos e evitar os seus erros. O segundo gênero mais comum na bíblia é a profecia. Segundo J. Barton Payne, na Enciclopédia de Profecias Bíblicas, cerca de 8.352 versículos da bíblia são proféticos, o que perfaz em torno de 27% do texto bíblico. Embora quando falemos em profecia o que nos venha a mente é predições de acontecimentos futuros, a mensagem profética não limita-se a predições futuras, o profeta é um mensageiro de Deus. Sobre esta particularidade das profecias, Osborn escreve:

O equívoco básico em relação à literatura profética do at é dizer que ela tem relação principalmente com o futuro. E comum pensar que “predição” pode ser definida como profecia. Nada poderia distanciar-se tanto da verdade. Cari Peisker observa que nem a palavra hebraica nem a grega diz respeito a uma orientação futura (1978:74-84). Nãbi possui tanto um lado ativo quanto passivo: passivamente, o profeta, cheio do Espírito, recebe a mensagem de Deus; ativamente, o profeta interpreta ou proclama a mensagem de Deus a outros. Pode haver predominância do lado passivo, mas ambos estão presentes: um profeta é inspirado por Javé para pregar a sua mensagem ao povo. (OSBORN, 2009.p338)

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No nível contextual, os mesmos critérios que se aplicam a narrativa, aplicam-se na interpretação das profecias, contudo o texto profético é um dos mais difícieis de interpretar. O profeta muitas vezes utiliza uma linguagem simbólica e figurada que exige do seu intérprete um cuidado rigoroso na sua interpretação. Adiante veremos algumas figuras de linguagem que nos auxiliarão no entendimento dos textos proféticos. Outro aspecto interessante das profecias é que algumas possuem um duplo cumprimento. Segundo Gibbs (2006): “As profecias deste tipo são caracterizadas por um cumprimento histórico perto dos tempos do profeta e também um cumprimento futuro na era do NT.” Porém não se trata de um texto de duplo sentido e sim de cumprimento parcial, quando um acontecimento é a tipologia de outro ainda mais relevante. Um exemplo, dado por Gibbs (2006), é a promessa de um herdeiro para um reinado eterno, historicamente seu herdeiro foi Salomão, contudo o cumprimento final da profecia se deu com o Rei Jesus. Uma mensagem profética também pode ter seu cumprimento em etapas de forma progressiva. A respeito disso, o Dr. Virkler diz:

Um exemplo disso é a profecia em Gn 3.15, que fala em termos bem gerais que será pisada a cabeça de Satanás. As etapas progressivas no cumprimento dessa profecia iniciam-se com a morte de Cristo, sua ressurreição e ascensão (Jo 12.31-32; Ap 12.5,10), continuam na história da Igreja (Rm 16.20), e terminam quando Satanás é preso no abismo (Ap 20.3) e no lago de fogo (Ap 20.10). (VIRKLER apud GIBBS, 1981. p.200)

O terceiro gênero textual que queremos abordar é a poesia e a sabedoria. Juntamos os dois gêneros pelo fato de utilizarem-se de uma linguagem muito mais conotativa do que literal e primarem por uma linguagem mais poética. Os textos poéticos previlegiam a forma e são ricos em metáforas, símiles, comparações, metonímias, enfim figuras da linguagens em geral.

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Quando falamos em poesia, o primeiro livro que nos vem na mente é o de Salmos, contudo há muito mais textos poéticos na bíblia do que se imagina. Conforme Osborn (2009):

Há muitos cânticos em livros narrativos (Gn 49; Êx. 15.1-18; Dt 32; 33; Jz 5; ISm 2.1-10; 2Sm 1.19-27; 1 Rs 12.16; 2Rs 19.21 -34), e a poesia compõe livros proféticos inteiros (Oseias, Joel, Amós, Obadias, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias), bem como extensas partes de outros (Isaías, Jeremias, Jonas, Zacarias). Há muito mais poesia no AT como um todo do que nos livros mais amplamente conhecidos como poéticos, no caso, Salmos, Provérbios, Lamentações, Cântico dos Cânticos ou Jó. A poesia é, portanto, um mecanismo que perpassa outros gêneros, distinguindo-se como uma técnica retórica importante tanto na literatura sapiencial como na literatura profética. (OSBORN, 2009.p 284)

A poesia realmente ocupa um lugar importante no texto bíblico, e não só no AT, pois no NT também temos algumas passagens poéticas. A interpretação da poesia exige do seu intérprete um esforço adicional, pois a linguagem utilizada é figurada e prima pela beleza em detrimento da objetividade. Logicamente, a linguagem poética dá a Bíblia uma beleza ímpar e uma literariedade admirável. No estudo da hermenêutica é importante conhecermos as principais figuras de linguagem utilizadas na Bíblia. Identificarmos as figuras é uma ferramenta indispensável para interpretação e compreensão dos textos poéticos. Abordaremos no próximo capítulo apenas as principais figuras de linguagem, visto que Bullinger, listou mais de 1000 figuras no texto bíblico. Além da poesia típica, como em Cantares e o livro de Salmos, também temos os textos de Sabedoria, como Provérbios e Eclesiastes, que consistem em uma coletânea de ditos e conselhos para as todas as lidas da esfera humana. Assim, Osborn define a literatura sapiencial:

Um dos gêneros bíblicos menos conhecidos é o da literatura sapiencial. Os livros do AT classificados sob essa perspectiva são Jó, Provérbios e

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Eclesiastes. Além desses, eu acrescentaria os livros apócrifos: Eclesiástico e Sabedoria de Salomão. Poucas pessoas sabem de fato como lidar com tais obras. Poucos sermões são apresentados com base nesse corpo da literatura, e mesmo quando isso ocorre, a exposição é feita de forma inadequada, com a finalidade de defender um estilo de vida quase secular. A razão disso está em seu assunto. Os pregadores têm, com frequência, definido a sabedoria como “o uso prático do conhecimento que Deus concede”. Embora Georg Fohrer a defina como “uma ação prudente, considerada, experimentada e competente para subjugar o mundo e dominar os vários problemas da vida e a vida em si” (1971:476). Seu objetivo é usar a criação de Deus de forma correta e desfrutar a vida no presente sob seus cuidados. Uma vez que os textos sapienciais tratam de forma tão constante do lado pragmático da vida, não é difícil fazer um mau uso deles para se defender um estilo de vida concentrado na terra. Na realidade, defino a sabedoria bíblica como um “viver a vida no mundo de Deus pelas leis de Deus”. O tema central não é a vida secular, mas “o temor a Deus” (Pv 1.7; 9.10; Jó 28.28; cf. SI 111.10; Ec I2.13) e suas implicações para a vida diária. Philip Nel (1982:127) chama o temor do Senhor de a “base” do pensamento da sabedoria israelita. (OSBORN, 2009. p.309)

Conforme Virkler (1987): “Um dos maiores problemas da religião é a falta da integração prática entre nossas crenças teológicas e nosso viver diário.” Os livros de sabedoria transpõe esta barreira entre o teológico o viver diário, trazendo lições preciosas para os cristãos em todos os tempos. Afinal os provérbios são atemporais. Os textos de sabedoria, em sua maioria, são curtos e seu contexto imediato 2 é o suficiente para interpretar a sua mensagem, embora seja indispensável que o intérprete conheça o autor e o contexto social quando foram escritos. O quarto gênero literário que abordaremos é o epistolar. Epístola, palavra grega que significa carta, é um gênero típico do NT. Diferentemente dos textos poéticos com sua linguagem conotativa, quem escreve uma carta espera que sua mensagem seja entendida, claramente, por seus leitores. Embora muito do material das epístolas do NT seja doutrinário, é importante termos em mente que os

2 Contexto imediato são os versículos que estão imediatamente ligados a passagem em análise, geralmente, o contexto imediato consiste dos poucos versículos anteriores ou posteriore da passagem em foco.

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seus autores desejavam ser inteiramente compreendidos pelos seus leitores originais. Portanto se faz necessário conhecermos todas as circunstâncias que envolvem a escrita de uma epístola, bem como, o autor, os destinatários e a motivação dos seus autores. A epístola é um dos gêneros mais básicos da Bíblia, segundo Osborn

(2009):

Os princípios discutidos na parte um, “Hermenêutica Geral”, talvez se apliquem mais diretamente às epístolas do que a qualquer um dos outros gêneros. Parte disso se deve ao fato de que fomos educados nas epístolas, e nosso pensamento (incluindo os princípios hermenêuticos) foi moldado por elas. As epístolas não contêm fatores complicadores como enredo ou caracterização (narrativa), simbolismo esotérico (apocalíptico) ou sutilezas metafóricas (parábola). No entanto, elas apresentam vários aspectos com os quais não interagimos completamente e os quais devemos explorar. (OSBORN, 2009.p399)

As epístolas do NT, não são meras cartas pessoais, talvez com exceção, das cartas pastorais, Filemom e a 3 carta de João, as outras são dirigidas a uma comunidade em geral. As cartas pastorais, embora dirigidas a pessoas específicas, contém princípios gerais para todos os bispos, presbíteros, diáconos e ministros em todas as épocas, sendo assim, embora endereçadas a Timóteo e Tito, o seu caráter é geral.

Na época de Jesus e seus os apóstolos era comum utilizar as cartas como método retórico de difundir seus pensamentos, também os romanos, especialmente Cícero, utilizavam-se desse meio para escrever seus tratados, por isso, foi bastante natural que os escritores do primeiro século, utilizassem as como meio de difusão da sua mensagem. Embora alguns estudiosos vejam as cartas do apóstolo Paulo somente como cartas pessoais, escritas como respostas para eventuais perguntas ou dificuldades das igrejas por ele assistidas. De modo bastante sintetizado, as cartas dividiam-se em três partes principais: a saudação de abertura, o corpo da carta e seu encerramento.

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Existe muita discussão entre os estudiosos sobre como podemos classificar as cartas de Paulo, vejamos as considerações de Kaiser e Silva (2002) sobre o assunto:

É igualmente claro, porém, que não são simplesmente “cartas pessoais”. Embora algumas poucas cartas de Paulo tenham sido escritas para indivíduos ( 1 e 2 Timóteo, Tito e, especialmente, Filemon), até estas vão muito além de assuntos pessoais. Assim como nas outras cartas, os comentários pessoais tem um papel secundário e o tom geral é formal. Algumas delas contém argumentação implícita e até mesmo mostram o uso de técnicas de retórica. Finalmente, o fundamental é que elas foram escritas com um tom de autoridade apostólica que dá a elas um caráter único. (Kaiser e Silva, 2002.p 118)

Independemente dos debates em torno das cartas paulinas, algumas premissas devem ser adotadas na interpretação das epístolas. Assim como nas narrativas, as cartas foram escritas para pessoas e igrejas reais, a fim de exortar, ensinar e resolver problemas reais, que surgiram nas igrejas do primeiro século. Portanto é preciso que o intérprete conheça o exato contexto histórico no qual as epístolas foram produzidas, bem como, as particularidades de seus destinatários. Outra ponto importante para interpretar uma epístola é que se conheça todo o conteúdo da carta, Kaiser e Silva (2013) fazem uma ótima ilustração ao indagar se alguém, que receba uma carta da namorada(o) que esteja viajando, leria apenas uma parte da carta deixando de lêr todo o seu conteúdo. Conhecer todo o conteúdo da carta, montar um pequeno esboço e conhecer o contexto que envolve a escrita do texto são as chaves para uma interpretação correta do texto sagrado. O último gênero textual que queremos abordar é o texto apocalíptico. Certamente, o gênero textual da bíblia de interpretação mais difícil. Carregado de linguagem simbólica, enigmas, figuras de linguagem e passagens de difícil interpretação atrai muitos estudiosos para seus textos. A literatura apocalíptica surgiu em Israel, quase sempre, em momentos de grande aflição do povo, embora

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pensemos que este gênero seja encontrado nos livros de Apocalipse e Daniel, encontramos este tipo de texto em toda a Bíblia, vejamos o que Osborn (2009) nos diz sobre este gênero textual:

Enquanto narrativa (cap. 7), a literatura apocalíptica atravessa os Testamentos. No AT, encontramos Daniel e Zacarias, bem como as visões de Ezequiel 37—39 e talvez Isaías 24—27, ou a praga de gafanhotos em Joel. Entre os livros apócrifos e pseudoepígrafos, temos l Enoque, Enoque Eslavo (2Enoque), Enoque Hebraico (3Enoque), Jubileus, Testamento de Moisés, A Ascensão de Isaías, 2Baruque, 3Baruque, 4Esdras, Salmos de Salomão, Testamento de Abraão, Apocalipse de Abraão, partes do Testamento dos Doze Patriarcas (Levi, Naftali e talvez José), A Vida de Adão e Eva (Apocalipse de Moisés), Pastor de Hermas, Oráculos Sibilinos (livros 3—5) e muitos dos manuscritos de Qumran (como o Manuscrito da Guerra, Liturgia Angelical, Testamento de Amram) (para uma excelente e extensa apresentação dos apocalipses judaicos, verCollins 1992; para uma breve descrição, ver Russell 1994:31-41). A literatura apocalíptica do NT poderia incluir o Sermão do Monte das Oliveiras (Mc 13 e par.); ICoríntios 15, 2Tessalonicenses 2, 2Pedro 2—3, Judas e Apocalipse. Esse material compreende um período que se estende do século VI a.C. ao século II d.C. (OSBORN, 2009.p.351)

Embora de díficil interpretação devido seu simbolismo único, não devemos deixar de buscar o significado das passagens apocaliptícas da bíblia e, muito menos, duvidarmos do seu cumprimento integral na história. O livro de Apocalipse, especialmente, é o revelar de Deus para nós cristãos da última hora, um alerta sobre a 2ª vinda de Jesus, bem como, os últimos dias desta dispensação.

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4 AS FIGURA DE LINGUAGEM

Um recurso linguístico muito utilizado na Bíblia são as figuras de linguagem, neste capítulo iremos analisar as principais, visto que , devido a brevidade desse trabalho não é possível esgotarmos o assunto, contudo já teremos uma bom conhecimento sobre elas. Também iremos abordar as parábolas, recurso utilizado amplamente por Jesus nos seus ensinamentos. Para tanto, utilizaremos como base o livro de Lund e Nelson (1968), Hermenêutica regras de interpretação.

Metáfora

Conforme, afirmamos anteriormente, muitas vezes utilizamos palavras da nossa língua fora do seu significado original E dentro deste uso da linguagem uma figura muito utilizada por nós é a metáfora.

“Metáfora é uma figura de linguagem onde se usa uma palavra ou uma expressão em um sentido que não é muito comum, revelando uma relação de semelhança entre dois termos. Metáfora é um termo que no latim, "meta" significa “algo” e “phora” significa "sem sentido". Esta palavra foi trazida do grego onde metaphorá significa "mudança" e "transposição". 3

A metáfora é uma das figuras de linguagem mais utilizadas na Bíblia.

São inúmeros exemplos de metáfora na Escritura: “ Vós sois o sal da terra.” (Mt

5.13); “Eu sou a porta [

“Judá é leãozinho, [

metáfora empregados na bíblia.

( Gn 49.9). Estes são apenas alguns dos exemplos de

o Senhor é fortaleza minha.” (Sl 18.1);

]”

(Jo 10.9); “[

],

]”

3 Fonte: Disponível em: https://www.significados.com.br/metafora/

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Sinédoque

Conforme Lund e Nelson (1968), “Faz-se uso desta figura quando se toma a parte pelo todo ou o todo pela parte, o plural pelo singular, o gênero pela espécie, ou vice-versa.”, assim como a metáfora, existem inúmeros exemplos na Bíblia, leiamos alguns citados pelo Dr. Lund:

Toma a parte pelo todo o Salmista ao dizer: "Minha carne repousará segura" (versão revista e corrigida), em lugar de dizer: meu corpo ou meu ser, que seria o todo, sendo a carne só parte de seu ser (Sal. 16:9). Toma o todo pela parte o Apóstolo quando diz da ceia do Senhor: "todas

beberdes o cálice", em lugar de dizer beberdes do cálice,

as vezes que

isto é, parte do que há no cálice. (1 Cor. 11:26). Tomam também o todo pela parte os acusadores de Paulo ao dizerem:

"Este homem é uma peste e promove sedições entre os judeus esparsos por todo o mundo"; significando, por aquela parte do mundo ou do Império romano que o Apóstolo havia alcançado com sua pregação. (Atos

24:5.)

Metonímia

Conforme Lund, “Emprega-se esta figura quando se emprega a causa pelo efeito, ou o sinal ou símbolo pela realidade que indica o símbolo.”. Igualmente, figura de linguagem muito utilizada nas escrituras. Vejamos alguns exemplos citados por Lund e Nelson (1968):

Vale-se Jesus desta figura empregando a causa pelo efeito ao dizer: "Eles têm Moisés e os profetas; ouçam-nos", em lugar de dizer que têm os escritos deMoisés e dos profetas, ou seja o Antigo Testamento. (Luc. 16:29.) Emprega também o sinal ou símbolo pela realidade que indica o sinal quando disse a Pedro: "Se eu não te lavar, não tens parte comigo". Aqui Jesus emprega o sinal de lavar os pés pela realidade de purificar a alma, porque faz saber ele mesmo que o ter parte com ele não depende da lavagem dos pés, mas da purificação da alma. (João 13:8). Do mesmo modo João faz uso desta figura pondo o sinal pela realidade que indica o

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sinal, ao dizer: "O sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado", pois é evidente que aqui a palavra sangue indica toda a paixão e morte expiatória de Jesus, única coisa eficaz para satisfazer pelo pecado e dele purificar o homem. (1 João 1:7.) (Lund e Nelson, 1968. p.44)

Prosopopéia OU Personificação

Prosopopéia ou personificação é a figura de linguagem quando se atribui características humanas, sentimentos, emoções a entes inanimados. Vejamos os exemplos extraídos de Lund e Nelson (1968):

O apóstolo fala da morte como de pessoa que pode ganhar vitória ou sofrer derrota, ao perguntar: "Onde está, ó morte, o teu aguilhão?" (1 Cor. 15:55). Emprega o apóstolo Pedro a mesma figura, falando do amor, e referindo-se à pessoa que ama, quando diz: "o amor cobre multidão de pecados" (1 Ped. 4:8). Como é natural, ocorrem com freqüência estas figuras na linguagem poética do Antigo Testamento, dando-lhe assim uma formosura, vivacidade e animação extraordinárias, como por exemplo ao prorromper o profeta: "Os montes e os outeiros romperão em cânticos diante de vós, e todas as árvores do campo baterão palmas." Convirá observar que em casos como estes não se trata somente de uma mera personificação das coisas inanimadas, mas de uma simbolização pelas mesmas, representando nesta passagem os montes e outeiros pessoas eminentes, e árvores pessoas humildes; uns e outros de regozijo louvando ao Redentor ante seus mensageiros. (Isaías 55:12.) Outro caso de personificação grandiosa ocorre no Salmo 85:10,11, onde se faz referência à abundância de bênçãos próprias do reinado do Messias nestes termos: "Encontraram-se a graça e a verdade, a justiça e a paz se beijaram. Da terra brota a verdade, dos céus a justiça baixa o seu olhar." (Lund e Nelson, 1968.p44)

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Ironia

É quando utiliza-se uma palavra ou uma expressão dando sempre a entender exatamente o oposto.

Exemplos: Paulo emprega esta figura quando chama aos falsos mestres de os tais apóstolos, dando a entender ao mesmo tempo que de nenhum modo são apóstolos. (2 Cor. 11:5; 12:11; veja-se 11:13.) Vale-se da mesma figura o profeta Elias quando no Carmelo disse aos sacerdotes do falso

deus Baal: "Clamai em altas vozes

e despertará", dando-lhes a

compreender, por sua vez, que era de todo inútil gritarem. (1 Reis 18:27.) Também Jó faz uso desta figura ao dizer a seus amigos: "Vós sois o povo,

e convosco morrerá a sabedoria", fazendo-os saber que estavam muito longe de serem tais sábios. (Jó 12:2.) (Lund e Nelson, 1968.p45)

Hipérbole

É a figura de linguagem na qual fazemos muito maior ou menor do que é a fim de enfatizarmo a expressão.

Exemplos: Fazem uso da hipérbole os exploradores da terra de Canal quando voltam para contar o que ali haviam visto, dizendo: "Vimos ali

gigantes

cidades são grandes e fortificadas até aos céus." (Núm. 13:33; Deut. 1:28).

Daí se vê que os exploradores falavam como se costuma entre nós ao dizer uma pessoa a outra, por exemplo: "Já lhe avisei mil vezes", querendo dizer tão somente: "Já lhe avisei muitas vezes." Também João faz uso desta figura ao dizer: "Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez. Se todas elas fossem relatadas uma por uma, creio eu que nem no mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos." (Lund e Nelson, 1968.p45)

as

e éramos aos nossos próprios olhos como gafanhotos

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Símile

Semelhante a metáfora, contudo é quando a comparação é declarada diretamente, através das palavras “como, assim como ou assim”. Exemplos: “ É como um grão de mostarda.” (Mc 4.31); “ Porque, assim como um relâmpago sai do oriente e se mostra até o ocidente, assim também será a vinda do Filho do homem.”(Mt 24.27); “E alçando-se o orvalho caído, eis que sobre a face do deserto estava uma coisa miúda redonda; miúda como a geada sobre a terra.” (Êx 16.14)

FIGURAS DE RETÓRICA TEXTUAIS

Segundo o Dr. Lund, não se emprega figuras de linguagem apenas em palavras, mas algumas vezes textos inteiros expressam um sentido conotativo.

Alegoria

Conforme Lund e Nelson (1968), “a alegoria é uma figura retórica que geralmente consta de várias metáforas unidas, representando cada uma delas realidades correspondentes. Costuma ser tão palpável a natureza figurativa da alegoria, que uma interpretação ao pé da letra quase que se faz impossível.” Não devemos confundir a alegoria com a interpretação alegórica, essa na verdade, transforma passagens literais em alegorias.

Exemplos: Tal exposição alegórica nos faz Jesus ao dizer: "Eu sou o pão

vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá eternamente; e o pão

que eu darei pela vida do mundo, é a minha carne

carne e beber o meu sangue tem a vida eterna", etc. Esta alegoria tem sua interpretação na mesma passagem da Escritura. (João 6:51-65.) Outra alegoria apresenta o Salmista (Salmo 80:8-13) representando os israelitas, sua trasladação do Egito a Canaã e sua sucessiva história sob as figuras metafóricas de uma videira com suas raízes, ramos, etc., a qual, depois de trasladada, lança raízes e se estende, ficando porém mais tarde

Quem comer a minha

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estropiada pelo javali da selva e comida pelas bestas do campo (representando o javali e as bestas poderes gentílicos). Ainda outra alegoria nos apresenta o povo israelita sob as figuras de uma vinha em lugar fértil, a qual, apesar dos melhores cuidados, não dá mais que uvas silvestres, etc. Também esta alegoria está acompanhada de sua explicação correspondente – "Porque, a vinha do Senhor dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta dileta do Senhor", etc. (Isa. 5:1-7). (Lund e Nelson,1968.p.47)

Fábula

Embora o Dr. Lund tenha classificado a fábula como uma figura de retórica, a fábula é um gênero literário, é uma história, na qual, os personagens são, geralmente, animais personificados e possui uma moral ou uma lição a principal para transmitir aos seus leitores. A bíblia apresenta apenas duas fábulas bem caracterizadas, embora alguns estudiosos identifiquem outras em certas passagens. Segue abaixo as fábulas:

Há duas fábulas no AT. Na primeira, encontrada em Juizes 9.8-15, Jotão, estando no Monte Gerizim e falando ao povo de Siquém no vale abaixo,tentou mostrar a eles a loucura de escolher como rei um homem sem valor como seu irmão, que havia matado setenta filhos de Gideão. As árvores da floresta pediam uma oliveira, uma figueira e uma videira, para governar sobre elas. mas todas recusaram dizendo que estavam muito ocupadas servindo a comunidade para desperdiçar seu tempo agitando seus ramos sobre seus companheiros. Finalmente elas escolhem um espinheiro inútil (representando seu irmão Abimeleque), uma escolha perigosa, pois o conflito resultaria em fogo na floresta. Na outra fábula do AT, Jeoás, rei de Israel, disse a Amazias, rei de Judá, o qual o tinha desafiado a lutar, que Amazias seria humilhado se Jeoás aceitasse o desafio. “O cardo que está no Líbano mandou dizer ao cedro que lá está: Dá tua filha por mulher a meu filho; mas os animais do campo, que estavam no Líbano, passaram e pisaram o cardo” (2Rs 14.9). Amazias não foi dissuadido e na batalha que se seguiu foi completamente derrotado. Fonte: Disponpivel em https://bibliotecabiblica.blogspot.com/2014/09/o- que-significa-fabula-na-biblia.html

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Símbolo

Outra figura de retórica muito utilizada na bíblia é o símbolo. Segundo Gibbs, “ um símbolo é algo que sugere ou representa um significado além daqule que comumente está associado com ele. Em muitos casos, é um objeto material que representa alguma coisa imaterial. A bíblia é muito rica em símbolos, vejamos os exemplos citados pelo Dr. Lund:

O leão é considerado o rei dos animais do bosque; assim é que achamos nas Escrituras a majestade real simbolizada pelo leão. Do mesmo modo se representa a força pelo cavalo e a astúcia pela serpente. (Apoc. 5:5; 6:2; Mat. 10:16.) Considerando a grande importância que sempre tiveram as chaves e seu uso, nada há de estranho que viessem a simbolizar autoridade (Mat. 16:19). Recordando que as portas dos povoados antigamente serviam como uma espécie de fortaleza, compreendemos por que, em linguagem simbólica, venha a representar força e domínio. (Mat. 16:18). Tão numeroso é este tipo de símbolos que cremos conveniente colocar os mais comuns em seção à parte. Quanto a fatos simbólicos, para representar

a morte do pecador para o mundo e sua entrada numa vida nova pela

ressurreição espiritual, temos a imersão e saída da água, no batismo. Representa-se também, como sabemos, a comunhão espiritual com Jesus e

a participação de seu sacrifício na celebração da Ceia do Senhor. (Rom. 6:3,4; 1 Cor. 11:23-26.)

Parábola

A parábola é uma história ou narrativa de um acontecimento natural para ilustrar uma verdade espiritual. Jesus utilizava-se muito deste recurso linguístico, ao ilustrar o seu ensino com coisas ou fatos naturais conhecidos pelos seus ouvintes, conseguia transmitir aos seus ouvintes as verdades espirituais. Geralmente, uma parábola alude apenas uma verdade importante, contudo ela pode ter uma abrangência maior, como no caso da parábola do semeador, na qual, cada um dos solos representa um tipo de pessoa. Porém é muito importante que o

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intérprete não veja em cada detahe da parábola um ensinamento, como faziam os alegoristas.

São inúmeros os exemplos de parábolas na bíblia, tais como, o semeador, a dracma perdida, o filho pródigo, o bom samaritano e outras. Dr. Lund assevera que é importante observar as seguintes regras para a correta interpretação das parábolas da bíblia:

1° – Deve-se buscar seu objetivo; em outras palavras, qual é a verdade ou quais as verdades que ilustra. Encontrado isso, tem-se a explicação da parábola, e note-se que às vezes consta o objetivo na sua introdução ou no seu término. Outras vezes se descobre seu objetivo tendo presente o motivo com que foi empregada. 2° – Devemos ter em conta os traços principais das parábolas, deixando-se de lado o que lhes serve de adorno ou para completar a narrativa. Jesus mesmo nos ensina a proceder assim na interpretação de suas próprias parábolas. Como existe perigo de equivocar-se neste ponto, vamos aclará- lo chamando a atenção para a de Lucas 11:5-8. Nesta parábola Crist ilustra a verdade de que é necessário orar com insistência, valendo-se do exemplo de uma pessoa que necessita de três pães. É noite e vai pedi-lo emprestados a um amigo seu que já tem a porta fechada e está deitado, bem como os seus filhos. Este amigo preguiçoso não quer levantar-se para dá-los, mas, por força da insistência e importunação no pedido, o homem consegue o que deseja. É fácil ver que aqui é o homem necessitado e suplicante quem nos oferece o bom exemplo e representa o cristão na parábola. Igualmente fácil é entender que seu amigo representa Deus. Porém, que absurdo seria interpretar tudo o que se disse do amigo, aplicando-o a Deus, a saber, que tem a porta fechada, estão ele e seus filhos deitados e, sendo preguiçoso, não quer levantar-se! É evidente que esta parte constitui o que chamamos adorno da parábola e que se deve deixar de lado, por não corresponder e se aplicar à realidade. Observemos, pois, sempre a totalidade da parábola e suas partes principais, fazendo caso omisso de seus detalhes menores. 3° – Não se esqueça de que as parábolas, como as demais figuras, servem para ilustrar as doutrinas e não para produzi-las.

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5 A HERMENÊUTICA DO NOVO TESTAMENTO

A única bíblia disponível para os primeiros cristãos, evidentemente, era

o Antigo Testamento. Podemos verificar facilmente pelas páginas do Novo

Testamento que tanto Jesus como os apóstolos. recorriam frequentemente as passagens do AT nas suas exposições doutrinárias. O cristianismo é uma religião que inicia-se em torno de um livro, que com o nascimento, vida, ministério, morte e ressurreição de Jesus assume um novo patamar, pois as promessas e profecias antes veladas descortinaram-se para aqueles primeiros judeus que aceitaram Jesus como o Messias esperado, o cumprimento profético do seu livro sagrado.

O próprio Jesus interpreta sustenta que a sua vida e seu ministério é o

cumprimento das escrituras e, que todo o AT apontava para aquele momento na história. O apóstolo João registra isso no seu evangelho: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam; (João 5.39); Porque, se vós crêsseis em Moisés, creríeis em mim; porque de mim escreveu ele.(João 5.46)” Portanto as escrituras judaicas, para nós cristãos, devem ser interpretadas de modo Cristocêntrico, sejam as profecias, seus personagens, suas instituiçãos ou acontecimentos, todos apontando para a o Filho de Deus, enviado para salvar o mundo. A respeito disso R.T France escreve:

Ele usa pessoas no AT como tipos de si próprio (Davi, Salomão, Elias, Eliseu, Isaías, Jonas) ou de João Batista (Elias); ele refere-se às instituições do AT como tipos de si próprio e de sua obra (o sacerdócio e a aliança); ele vê nas experiências de Israel prefigurações de sua experiência; ele contesta que as esperanças de Israel são realizadas nele (sic) e em seus discípulos e vê seus discípulos assumindo a condição de Israel; na libertação por Deus, ele vê um tipo de congrregação de homens em sua igreja, ao passo que os desastres de Israel são prefigurações da punição iminente daqueles que o rejeitam, cuja descrença está prefigurada naquela dos perversos em Israel e, até mesmo, como acontece em duas instâncias, na arrogância das nações judias. (R.T France apud Dockery-2013.p29)

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Embora o judaísmo rejeite a interpretação cristã sobre a vida e ministério de Jesus, encontramos nas páginas do AT uma série de passagens e tipos que cumpriram-se notavelmente na vida do Filho de Maria e José. Conforme Dockery (2013):

Não é de surpreender que, ao apresentar imagens diferentes da vida de Jesus, os autores bíblico tenham percebido que quase todos os pontos de sua vida haviam preenchido o AT. Seu nascimento foi previsto (Is 7.14 = Mt 1.23; Mq 5.2 = Mt 2.6), assim como a fuga para o Egito (Os 11.1 = Mt 2.15), a matança das crianças inocentes por Herodes (Jr 31.15 = Mt 2.18) e a criação de Jesus em Nazaré (cf. Mt 2.23). O impacto total de seu ministério havia sido descrito (Is 42.1-4 = Mt 12.17-21), da mesma forma que (sic) o uso de parábolas em seus ensinamentos (Is 6.9,10; Sl 78.2 = Mt 13.14,15,35). A mensagem da paixão de Jesus está cheia de alusões ao AT, incluindo relatos da entrada triunfal em Jerusalém (Zc 9.9 = Mt 21.5), da expulsão de todos os que estavam vendendo e comprando no templo (Is 56.7; Sl 69.9 = Mt 21=13), e os acontecimentos relacionados à cruz (Jo 19.24, 28, 36,37) (DOCKERY, 2013. p.30)

A encarnação do Verbo de Deus trouxe uma nova luz as sagradas

escrituras, trazendo a lume muitos passagens, antes de difícil entendimento para os

judeus, que pós-exílio babilônico dedicaram-se com extremo zelo para

compreender os estatutos e preceitos divinos. Na época do ministério terreno de

Jesus já havia uma hermenêutica bem consolidada entre os intérpretes judaicos e

algumas escolas de interpretação. Porém alguns pontos eram consensuais entre

todos os exegetas judaicos. Segundo Dockery (2013), em primeiro lugar, eles

acreditavam na inspiração divina da Escritura. Em segundo lugar, afirmavam que a

Torá continha toda a verdade de Deus para orientação da humanidade. Também é

importante pontuarmos que os judeus criam que o texto sagrado continha muitos

significados, dando margem a algumas extravagâncias. Leiamos o que Richard N.

Longenecker escreve a respeito:

Da escola do Rabino Ismael (segunda geração de Tannaim, c.90-130 d.C.), temos a máxima: “Da mesma forma que uma rocha pode dividir-se em muitas lascas, um versículo bíblico transmite muitos ensinamentos” (b. Sanhadrein 34 a). Bemidbar Rabbah, o mais recente dos Midrashim

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pentateucos, que, em sua forma codificada, não é anterior ao século XI ou

XII

d.C., expande essa idéia (sic) e insiste, baseado no valor numérico de

dgl

(padrão) em Ct 2.4, em que a Torá “pode ser comentada de 49

maneiras diferentes” (Num. R. 2.3) e, fundamentado no valor de yayin (vinho), que “existem setenta modos de comentar a Torá” (Num. R.

13.15s)

(DOCKERY, 2013.p30)

Conforme Dockery pode-se dividir em cinco as abordagens dos exegetas judaicos nos tempos do NT, que são: a literal, a tipológica, a alegórica, o pesher 4 e o midrash 5 . Comecemos pela interpretação literal da Escritura, ao dizermos literal não se faz necessário muitas explicações, é a abordagem hermenêutica que procura interpretar o texto da forma mais direta e manifesta possível. Aliás, é importante frisarmos que muitos textos bíblico são extremamente diretos, não dando margem para outras interpretações que não a natural e primária. A respeito da abordagem literal, Dockery escreve:

A interpretação literal era considerada fundamental para todos outros desenvolvimentos hermenêuticos. Segundo o comentário de S. Lowy , “os rabinos consideravam que a interpretação direta das leis, baseada principalmente no entendimento literal, possuía o mesmo valor que as

‘coisas com as quais até mesmo os saduceus estavam de acordo’, e que, portanto, deveriam ser aprendidas no ensino básico.

De vez quando, Jesus adotava a abordagem literal, em especial com

relação ás questões morais. Três exemplos podem ser apresentados no que

diz respeito ao ensino das realações humanas. Marcos 7.10 (Mt 15.14)

apresenta Jesus repreendendo os fariseus com explicações originadas

4 Pesher (plural Pesharim) – Pesher é uma palavra hebraica que significa “explicação”, “significado”, “interpretação”, no sentido de solução.

O método Pesher consiste em comentar o texto bíblico versículo por versículo, procurando aplicá-lo às circunstâncias

vividas pela comunidade, como se os textos bíblicos, especialmente os proféticos, estivessem falando diretamente a realidade atual. Tornou-se conhecida a partir de um grupo de textos encontrados entre os pergaminhos do Mar Morto. Disponível em: https://www.trabalhosgratuitos.com/Humanas/Religião/QUATRO-METODOS-JUDAICO-DE- INTERPRETAÇÃO-BÍBLICA-164825.html . 5 Midrash pode ser chamado de expressão poética ou espiritual do pensamento judaico – o Midrash Este último é uma compilação de exposições homiléticas ou espirituais da Bíblia, penetrando sob a superfície do

sentido singelo do texto bíblico. Enquanto o Talmud se dedica principalmente à explicação da letra, o Midrash revela

o espírito da palavra e da lei. Os primeiros vestígios da literatura midráshica podem ser encontrados em uma época anterior a conclusão da bíblia, mas a sua atividade estendeu-se até o décimo ou undécimo século.

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diretamente de Êxodo 20.12: “Honra teu pai e tua mãe”, e de Êxodo 21.17:

“Quem amaldiçoar seu pai ou sua mãe terá de ser executado”. Com relação a questões de casamento e divórcio, ele respondeu em Marcos 10.7 (Mt 19.5) com uma citação literal de Gênesis 2.24: “Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne”. Uma vez que Deus falou de maneira bastante direta sobre essas questões fundamentais, Jesus também as interpretou de maneira direta. (DOCKERY, 2013.p32)

Podemos verificar que em textos claros e diretos, o próprio Jesus adotava a abordagem literal, sem muitos floreios. Qualquer leitor mediano descobrirá no capítulo 19 de Mateus a clara aversão de Jesus ao divórcio, embora o Próprio tenha aberto uma brecha no versículo 9, que até hoje é motivo de muita controvérsia entre os teólogos. Outra abordagem comum entre os rabinos contemporâneos a Jesus e

seus apóstolos é a tipológica. Esse método de interpretação busca correspondências entre pessoas e acontecimentos do passado com o presente e/ou o futuro. Conforme

a exegese tipológica baseia-se na convicção de que

determinados acontecimentos na história de Israel prefiguram uma época futura na qual os propósitos de Deus serão revelados em sua completude. Um exemplo de tipologia utilizada por Jesus encontramos em Mateus 24.37, versículo no qual Jesus traça uma correspondência entre os dias de Noé e os últimos dias; também, encontramos em João 3.14, quando o levantamento da serpente no deserto (Números 21.4-9) é relacionado com a crucificação de Jesus. Portanto, a tipologia é um método de interpretação muito válido para os nossos dias. O terceiro método hermenêutico que era comum entre os rabinos judeus era o alegórico. Alguns exegetas judeus sustentavam que toda a escritura tinha no mínimo dois sentidos: o literal e o espiritual, o segundo mais profundo do que o primeiro. Em Alexandria, Fílon, contemporâneo de Jesus, foi o mais proeminente desses exegetas. O método alegórico não foi utilizado por Jesus e os apóstolos, discute-se a passagem de Gl 4.24, na qual o apóstolo utiliza a palavra alegoria, mas

Dockery (2013), [

]

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não vemos claramente uma interpretação alegórica na explanação de Paulo, é mais correto afirmar que a vida de Sara e Agar são tipos da lei e da graça e não uma mera alegoria.

O Midrash era o método mais aplicado pelos rabinos na exegese dos textos sagrados. Esta abordagem hermenêutica procurava contemporaneizar as escrituras, ou seja, descortinar a aplicação prática do texto em análise. Alguns estudiosos chegam a dizer que essa era a regral geral da exegese rabínica. Leiamos uma citação sobre o Midrash:

Bloch em sua descrição dessa abordagem, observa cinco grandes características: 1) seu fundamento está nas escritura; 2) é homilética; 3) busca esclarecer o significado do texto; 4) tenta tornar contemporânea a escritura que estiver em consideração e 5) busca descobrir os princípios básicos inerentes às seções legislativas com objetivo de resolver problemas que não foram tratados na Escritura (Halakah = fazendo referência a toda a gama de recursos hermenêuticos envolvidos), ou se dispõe a encontrar a verdadeira relevância dos eventos mencionados nas seções narrativas do Pentateuco (agadah = referência focada no tipo de material tratado). (BLOCH apud DOCKERY, 2013.p32)

Conforme Dockery podemos encontrar o principal método hermenêutico dos fariseus nos ensinamentos de Jesus. Um exemplo encontramos no evangelho de Marcos 2.25-28, quando os fariseus questionaram Jesus, pois os seus discípulos estavam colhendo espigas no sábado. Neste caso Jesus aludiu o fato de Davi comer o pão do sacerdote, sendo Cristo o “Filho do Homem” era Senhor até do sábado.

Lopes (2013) considera o midrash um método alegórico de interpretar a encontramos como principal característica do midrash alegorização

Bíblia, “[

do texto bíblico. Uma das causas para a alegorização dos textos bíblicos era o conceito mecânico de inspiração adotado pelos rabinos, o que tendia a minimizar o

]

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aspecto humano das escrituras. Na verdade, o midrash realmente dava uma certa liberdade excessiva para o intérprete.

O quinto método utilizado pelos rabinos era o Pesher, abordagem que

ficou conhecida depois da descoberta dos manuscritos do Mar Morto. Leiamos o

que Kaiser e Silva (2014) escreve:

Os Essênios eram leitores ávidos da Bíblia. Muitos de seus comentários foram encontrados junto com as cópias das Escrituras produzidas por eles, especialmente o comentário sobre Habacuque. Normalmente, seus comentários citavam uma passagem curta com dois ou três versículos. A

palavra aramaica psr,

“interpretar”). O aspecto singular da interpretação que eles oferecertam, especialmente dos livros proféticos, foi que tudo do passado era transformado e recebia um valor e significado contemporâneos. O “justo” em Habacuque 1.4, por exemplo, era o “Mestre da Justiça” ou o fundador da seita dos essênios. E o “perverso que cerca o justo” , na mesma passagem era o “sacerdote perverso” ou o “homem de mentiras” que perseguia o Mestre da Justiça. Os “caldeus” ou ”babilônios”em 1.6 eram os romanos, aos quais a seita se referia usando o nome bíblico “kittim”. E assim desenrolava-se a exegese pesher da seita. (Kaiser e Silva, 2014. p.207)

citação era seguida da frase “ Seu Pesher é

”(da

O método Pesher era utilizado especialmente pelos essênios, como

podemos ver, este método exigia que o intérprete tivesse a revelação divina para obter seu significado.

Segundo Dockery (2013) esta abordagem interpretativa ,“o pesher, é geralmente descrita como um método exegético ou uma antologia de interpretações (pesharim), que sugere que os escritos proféticos contêm uma significância escatológica oculta ou mistério divino que podem ser revelados “ apenas por uma

interpretação forçada ou até mesmo anormal do texto bíblico”. Conforme Dockery,

Podemos descrever o

havia uma relação estreita entre o Midrash e o Pesher [

midrash da seguinte forma: “isto tem relevância para isto”, e o pesher desta: “isto

é aquilo”. Segundo Longenecker apud Dockery (2013) Jesus utilizava as duas formas de interpretação do AT, mas preferencialmente o método Pesher, segundo

].

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alguns estudiosos. Walter Kaiser discorda dessa opinião, não vendo nenhum exemplo de midrash ou pesher na leitura de Jesus do AT nos seus ensinamentos. Contudo interpretar Mateus 5.28 como uma interpretação literal de Êx 20.14, exige alguma liberalidade do exegeta. Um dos maiores exemplos hermenêuticos de Jesus é o Sermão do Monte; a expressão de introdução de muitos dos pensamentos de Jesus, “ouvistes o que foi dito” dá nos a clara compreensão de que Jesus, na sua interpretação do AT, ía além da literalidade da passagem em questão, dando-nos claros exemplos do era assim, agora é assim. Há algum debate sobre o quanto o apóstolo Paulo utilizava da hermenêutica rabínica na sua própria interpretação da Escritura. Debate infundado, segundo a nossa opinião, visto que o cristianismo nasceu no seio do judaísmo, seus primeiros adeptos judeus, os apóstolos judeus, o livro sagrado o AT, então é muito lógico que os métodos hermenêuticos fossem os mesmos dos rabinos contemporâneos ao escritores do NT. Paulo era discípulo de Gamaliel, o qual, crê- se que era discípulo da escola de Hillel, senão seu filho. Hillel, rabino contemporâneo de Jesus, elaborou as primeiras sete regras de interpretação de um texto da Escritura. Kaiser e Silva descreve assim as sete regras:

1. Inferência no sentido mais brando (=premissa menor) para o mais forte

(=premissa maior), ou um argumento a fortiori. Afirma simplesmente que

aquilo que é verdade sobre o menor é também sobre o maior. Assim, tendo em vista que o sábado era mais importante do que os outros dias festivos, uma restrição colocada sobre um dia festivo anual era mais aplicável ao sábado.

2. Analogia de expressões. Passagens ambíguas eram explicadas ao fazer

inferências da analogia de expressões, isto é, de palavras e frases semelhantes usadas em algum outro texto. Assim, considerando que Levítico 16.29 exige aos judeus: “ afligireis a vossa alma” no dia da

expiação, sem explicar qual a natureza dessa aflição, interpretava-se que os judeus deveriam abster-se de comida no Yom Kippur, pois essa mesma expressão tinha sido usada em Deuteronômio 8.3 com menção explícita de fome.

3. Aplicação por analogia com uma cláusula ou a extensão do específico

para o geral. Nessa regra, os textos eram aplicados a determinados casos se

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apresentassem natureza semelhante, mesmo que não fossem tratados de forma direta dentro das escrituras citadas. Em outras palavras, um princípio geral era construído sobre a base de um ensinamento contido num versículo (cláusula). Assim, por exemplo, o caso do assassinato não intencional de um companheiro lenhador que é citado em Deuteronômio

19 pode ser aplicado a qualquer tipo de morte acidental resultante de dois homens trabalhando juntos em um lugar público.

4. Aplicação por analogia com duas cláusulas, Essa regra é semelhante à

anterior, porém aqui é fortalecida por meio de duas cláusulas, ou dois versículos para o princípio geral. Êxodo 21.26-27 determinava que um escravo que tivesse seu “olho” ou o seu “dente” destruído deveria ser libertado. Por analogia, essa regra poderia ser aplicada a todas as outras partes do corpo. 5.Inferência de um princípio geral para um caso ou exemplo específico. Essa regra pode ser usada de duas maneiras – do geral para o específico, ou vice-versa. Assim, Êxodo 22.9 diz que se um homem emprestar seu boi, jumento, ovelha ou vestimenta ou “qualquer coisa” a outro, aquele que recebeu o empréstimo deve pagar uma restituição dobrada caso caso venha perder o que foi emprestado. Mas por causa do termo generalizado “qualquer coisa”, o texto mostra que boi, jumento, ovelha e vestimentas

são apenas exemplos e, portanto, a lei se aplica a qualquer coisa – seja ela animada ou inanimada – que tenha sido tomada emprestada e perdida e que deve ser reembolsada em duas vezes o seu valor. 6. Explicação de outra passagem. Semelhante à primeira regra, esta explica uma passagem apelando para outro trecho das Escrituras. O rabi Hillel foi indagado com a seguinte questão:o cordeiro da Páscoa deveria ser abatido na Páscoa se o décimo quarto dia de Nisan fosse um sábado? Ele respondeu que, tendo em vista que Números 28.10 decreta que os “sacrifícios diários” deveriam ser oferecidos também aos sábados, então por analogia o cordeiro da Páscoa deveria ser abatido no décimo quarto dia de Nisan, independente do dia da semana em que caísse.

7. Aplicação de uma inferência evidente por si só em um texto. Uma

passagem não deve ser tomada como uma declaração isolada, mas somente à luz de seu contexto. Portanto, a aparente proibição de qualquer um saísse de cada no sétimo dia em Êxodo 16.29 deve ser interpretada em seu contexto para ser aplicada apenas na situação de se juntar o maná no deserto, que havia sido oferecido em dobro no dia anterior.

As regras de Hillel, como podemos verificar, são práticas e todas apontam para o próprio texto, quando os textos exigem um esforço interpretativo maior para sua perfeita compreensão. Também resolve a questão natural de contemporaneizar o texto bíblico com as necessidades práticas das pessoas.

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Embora todos os métodos e abordagens hermenêuticas referidos, o fator mais importante na interpretação do AT realizada por Jesus, os apóstolos e cristãos do primeiro século é a interpretação cristocêntrica adotada por eles. Exegese iniciada pelo próprio Jesus; em Lc 4.16-21 temos um exemplo muito dessa nova perspectiva, ao interpretar os textos bíblicos, outroras velados ao seus leitores. O primeiro sermão pregado pelo apóstolo Pedro é outro grande exemplo dessa leitura cristocêntrica das Escrituras ( ver Atos 2.16-21). Portanto os escritores bíblicos utilizaram o AT para explicar que a nova aliança com Deus já havia sido prenunciado pelos profetas e escritores da bíblia judaica. Segundo Kaiser e Silva (2014), “há 224 citações diretas do Antigo Testamento dentro do Novo Testamento, sendo que cada uma é introzida por uma expressão típica”. Sobre as alusões do AT não há consenso entre os estudiosos, os números variam de 613 á mais de quatro mil.

Entende-se que a “única” Escritura que os primeiros cristãos tinham era o AT, portanto se fez necessário que eles seguissem algumas regras de interpretação dos rabinato judaico para interpretá-la, contudo agora eles tinham a reveleção do Espírito Santo para ajudá-los (At 2.33; At 5.32).

Antes de passsarmos para a hermenêutica dos pais apostólicos, faz-se necessário analisarmos a hermenêutica do apostólo Paulo. Afinal era ele o mais judeu dos apóstolos. Embora haja muitas diferenças entre os estudiosos a respeito da hermenêutica Paulina, há um consenso em um ponto segundo Dockery. “que Paulo entendia o AT cristologicamente e que sua obra se baseou em duas pressuposições primordiais: 1) o messiado e autoridade de Jesus, validados pela ressurreição e testemunhados pelo Espírito e 2) a reveleção de Deus nas escrituras do AT”

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Como era de se esperar, as regras de Hillel influenciaram o apóstolo nas suas epístolas, especialmente, na abordagem tipológica do AT. Leiamos o que Dockery escreve acerca desse fato:

O uso do AT feito pelo apóstolo demonstrou a influência de seu treinamento rabínico. Dessa forma, o apóstolo lia as escrituras primordialmente com base em sua herança midráshica. Os sete princípios da interpretação midráshica atribuídos a Hillel são aparentes em diversas partes das epístolas de Paulo. A idéia (sic) de “leve para pesado” (regra 1) é expressa em seu argumento em Romanos 5.12-21. Romanos 4.1-12 (que uniu Gn15.6 e Sl 32.1) demonstrou o conceito de analogia (regra 2), ao comparar Abraão, Davi e os cristãos em Roma. As outras regras ou princípios são evidentes, mas mais um deve bastar. A idéia (sic) do contexto (regra 7) é exemplificada em Romanos 4.10, em que Abraão era considerado justo antes da circuncisão, e em Galátas 3.17, em que a promessa de Deus foi confirmada 430 anos antes de Deus concedesse a lei. Assim como Jesus, Paulo interpretava as passagens morais dos mandamentos no AT (Êx 20) de maneira bastante literal, ao aplicá-las a diversas questões éticas. Ele citou Levítico 19.18: “ Ame a seu próximo como a si mesmo.” (Rm 13.9; Gl 5.14), como o princípio mais abrangente dos ensinamentos do AT.

Alguns estudiosos também veem o método Pesher na hermenêutica de Paulo, especialmente, na passagem de Efésios 4.8 , que está relacionada ao Salmo 68.18, porém em nossa opinião, aqui Paulo faz uma aplicação tipológica, uma profecia que cumpre-se na vida de Cristo e não, exatamente, uma aplicação do método pesher.

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Para finalizar, embora a influência da hermenêutica rabínica consciente ou inconscientemente, Jesus e os apóstolo adotaram uma nova perspectiva interpretativa do AT, uma interpretação cristocêntrica e cristológica.

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6 OS PAIS DA IGREJA

As questões teológicas que iniciaram-se no primeiro século, a deidade e humanidade de Cristo, como conciliar o Deus do cristianismo com o Deus das escrituras judaica, as questãos e éticas e morais foram, também, questões enfrentadas pelos pais apostólicos. Entretanto eles tiveram uma grande ajuda para dirimir as suas dúvidas nas questões de fé, pois, agora, existiam os escritos apostólicos, escritos que puderam nortear a infante igreja na direção desejada por Deus.

Assim como o AT, os escritos apostólicos logo foram reconhecidos como Escritura divinamente inspirada. Na verdade, o próprio apóstolo Pedro (2 Pe 3.16) dá o status de igualdade das cartas de Paulo em relação ao AT. Os evangelhos, e a maioria das epístolas foram muito cedo consideradas pela Igreja como Escrituras divinamente inspiradas , ainda que, o cânon do NT como conhecemos hoje só tenha sido sacramentado por Atanásio em 367 dC, pois foi um processo gradual durante o estabelecimento da igreja. Sendo assim, os hermeneutas do segundo século tinham uma direção segura a seguir na interpretação das Escrituras, contudo a grande dificuldade em conciliar o AT com a nova revelação trazida por Jesus e seus apóstolos, fez com que algumas heresias tomassem corpo. É fundamental que nós, cristãos do século XXI, entendamos que a base teológica que temos hoje, foi construída ao longo do tempo, embora para nós algumas questões doutrinárias dos primeiros século pareçam irrelevantes, naquele momento eram essencial para o próprio seguimento do cristianismo. A dificuldade entre conciliar o AT com o evangelho pregado por Jesus e seus discípulos, bem como, a influência da cultura grega e os gnósticos influenciaram a interpretação da bíblia feita pelos pais apostólicos.

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A hermenêutica exercerá um papel fundamental neste repelir das heresias, afinal as respostas, necessariamente, deveriam vir da própria palavra de Deus. Nesse contexto histórico-teológico segundo Dockery, os primeiros pais apostólicos 6 optaram por uma hermenêutica funcional, estavam mais preocupados em defender as doutrinas fundamentais da fé, bem como sua aplicação ética e moral, do que com significado literal ou primário das escrituras, ressignificando as escrituras dentro do seu próprio contexto. Desde muito cedo, os primeiro pais apostólicos passaram a utilizar as cartas de Paulo, lembrando aos nossos alunos que a explanação das escrituras exercia um papel preponderante no culto da Igreja, herança do judaísmo. Assim como os apóstolos, os primeiros líderes da igreja também interpretavam as escrituras cristologicamente, contudo alguns dos seus líderes, como até hoje, não conseguiam compreender plenamente a revelação de Deus, surgindo assim os primeiros movimentos heréticos da história eclesiástica. Marcião e seus seguidores foram o primeiro grande teste para a igreja primitiva. Ele rejeitando toda a influência do judaísmo no cristianismo, abandonou todo o AT, os evangelhos, com a exceção de Lucas e as epístolas, exceto as paulinas, por compreender que o Deus do AT não era o mesmo Deus revelado em Cristo Jesus, selecionou partes das Escrituras para embasar a sua teologia. Embora a maioria dos heréticos utilizassem a própria bíblia para fundamentar as suas posições, Marcião preferiu abandonar os livros e passagens da Bíblia que não apoiassem a sua doutrina. Esta ameaça foi o embrião do surgimento de um bispo autorizado, uma regra de fé e um canôn aceito pela maioria das igrejas, mas também de uma nova hermenêutica que suaviza o pseudo abismo entre AT e os escritos dos apóstolos, a interpretação alegórica.

6 Grupo de líderes da igreja entre os anos de 90 e 150 dC, foram os discipulos dos apóstolos.

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Hermenêutica Alegórica

Foi em Alexandria que surgiu a hermenêutica alegórica, confrontados com as dificuldades de compreensão do AT, a resposta dos exegetas de Alexandria foi buscar um significado espiritual nas escrituras, um significado místico que só poderia ser conhecido com uma ressignificação da passagem em análise. Sob forte influência pagã, grega e judaica, surgiu em Alexandria a Escola Alegórica de Interpretação. Cabe ressaltar que Alexandria era uma das cidades mais influenciadas pelo pensamento platônico, com seu dualismo entre o material e o imaterial, exerceu grande influência na igreja alexandrina. O grande expoente da Escola de Alexandria foi Orígenes, o primeiro grande erudito da Igreja, contudo é necessário voltarmos a Fílon o pai da interpretação alegórica em Alexandria. Leiamos o que Donald A. Hagner diz acerca de Filon:

Fundamental para toda a abordagem de Fílon é o dualismo básico entre o material e o não material. Fílon, em última análise, dava importância total a este último, o mundo inteligível. Por meio de sua exegese alegórica, em questões quer de entendimento quer de conduta, Fílon ultrapassava o material em direção ao domínio transcendente das idéias (sic) de Platão. Fílon toma emprestado aos estóicos o conceito de Logos como o fator de mediação entre Deus transcedente e o mundo material. (HAGNER apud DOCKERY, 2013. p.74)

Um bom exemplo de como Filon interpretava o AT alegoricamente, era sua interpretação dos quatro rios do paraíso, os quais ele afirmava que representava as quatro virtudes cardeais da filosofia grega: a prudência, a coragem, a temperança e a justiça. Para ele o texto do AT tinha um múltiplos significados. Segundo Dockery, “o propósito de Fílon era apologético no sentido de unir o judaísmo e a filosofia grega.” Em minha opinião, quando o homem busca a verdade suprema é

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possível ele obter alguns insights dessa verdade, embora somente em Jesus ele encontre a verdade plena. Leiamos o que Dockery escreveu sobre Filon:

Robert M. Grant nota que Fílon procurou lidar com esse problema ao tentar explicar a eleição de Israel e os aparentes antropomorfismos de Deus usados na Escritura dando preferência ao Deus dos filósofos e ao internacionalismo helenístico. Para a tradição filônica e platônica, a hermenêutica alegórica da escola cristã de Alexanria, chamada didaskaleion, desenvolveu-se e produziu alguns dos maiores eruditos da igreja primitiva, em especial Clemente e Orígenes. (GRANT apud DOCKERY, 2013.p76)

Conforme afirmarmos anteriormente, a igreja na pessoa de Irineu (130 – 202 d.C.) e Tertuliano (160-220 d.C.) (este um pouco tardio) tiveram representantes ferrenhos em prol dos ensinamentos dos apóstolos, porém, nem todas as perguntas feitas pelos gnósticos foram respondidas por eles, como compreender que o Deus do AT fosse o pai de Jesus, e como conciliar a natureza da mensagem da Lei e da Graça do NT. Os apologistas criaram muito cedo na história da igreja a Regra de fé, ou seja, o conjunto doutrinário básico da fé cristã. Porém, segundo Dockery, “os alexandrinos não achavam que ela fosse suficiente para expor as falhas de Marcião, Valentim e outros gnósticos, se a fé professada e ensinada fosse igualmente indenfensável.” Daí surgiu a hermenêutica alegórica que buscava os significados mais profundos nos textos bíblicos. Para exemplificar, leiamos uma famosa passagem do livro apócrifo, carta de Barnabé 7 :

Filhos do amor, aprendei mais particularmente estas coisas: Abraão, praticando por primeiro a circuncisão, circuncidava porque o Espírito dirigia profeticamente o seu olhar para Jesus, dando lhe o conhecimento das três letras. Com efeito ele diz: E Abraão circuncidou entre os homens de sua casa trezentos e dezoito homens”. Qual é portanto, o conhecimento que lhe foi dado? Notai que ele menciona em primeiro lugar os dezoito e, depois, fazendo distinção, os trezentos. Dezoito se escreve: I que vale dez,

7 Trecho extraído do Livro “ A Bíblia e seus intérpretes” , de Augustus Nicodemus Lopes.

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e H, que representa oito. Tens aí: IH (sous) = Jesus. E como a cruz em forma de T devia trazer a graça, ele menciona também trezentos (=T). Portanto ele designa claramente Jesus pelas duas primeiras letras e a cruz pela terceira. ( Barnabé 9.7-8)

Um dos primeiros representantes dessa Escola foi Clemente de Alexandria (150 – 215 d.C.). Ele utilizava a interpretação alegórica para descobrir o sentido oculto nas Escrituras. Para Clemente, Deus utilizava-se da alegoria para esconder o verdadeiro significado dos incrédulos. Um Exemplo das suas interpretações alegóricas, citamos abaixo sua interpretação de parte da parábola do filho pródigo:

O Pai, então, confere-lhe a glória e a honra que eram necessárias e convenientes, colocando sobre ele o melhor manto, o manto da imortalidade, e um anel, um sinete real e um selo divino – um sinete de consagração, assinatura da glória, segurança do testemunho (pois está escrito: “ Aquele que aceitou seu testemunho, esse confirmou que Deus é verdadeiro”, Jo 3.33), e sandálias, não aquelas que perecem, que devem ser retiradas quando se entra em solo santo ( Êx 3.5), e nem aquelas que Jesus proibiu que seus discípulos carregassem quando fossem pregar (Mt 10.10), mas aquelas que não gastam, que são apropriadas para a jornada aos céus e que adornam o caminho celestial, e que somente os pés lavados pelo Senhor podem calçar. (LOPES, 2013. p.132)

Como podemos ver é uma interpretação bastante fantasiosa da Parábola do filho pródigo e que dá outra significação, que não a contextual, a este tão famoso texto bíblico.

O maior expoente da escola de Alexandria foi Orígenes (185 - 253 d.C.), descrito assim por LOPES (2013):

Orígenes (185 -253 d.C.) é a mais importante figura nesse período. Era um estudioso muito respeitado, muito capaz e provalvelmente o mais

Orígenes tinha apenas 18 anos de idade quando

erudito da sua época. [

]

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assumiu a liderança da Escola Catequética de Alexandria. Ele acreditava que a melhor maneira de se entender a Bílbia é por meio da perspectiva platônica. Nesse sentido, ele é um verdadeiro discípulo de Filo de Alexandria. A hermenêutica de Orígines é mais bem refletida no capítulo

IV de sua obra Primeiros Princípios, escrita quando ele tinha 23 anos de

idade. É considerada a primeira obra de teologia sistemática produzida no âmbito da Igreja Cristã. Nessa obra, Orígines ataca os “literalistas” de seus dias, acusando-os de negar que a Bíblia contém um sentido mais profundo

do que aquele permitido pelo texto em si. Para ele, a Bíblia contém

segredos que somente a mente espiritual pode compreender.

(LOPES, 2013.p.132)

Cristão de uma piedade sem igual, deu inúmeros exemplos do tamanho da sua fé em Cristo Jesus, um deles foi interpretar literalmente Mt 19.12: “Alguns são Eunucos porque nasceram assim; outros ainda se fizeram eunucos por causa do Reino dos Céus. Quem puder aceitar isso aceite.” Orígenes levou ao pé da letra esta passagem e castrou-se; também doou todos os seus bens, tornando-se pobre a fim de cumprir os mandamentos de Cristo. Diz-se que milhares de pessoas acorriam para ouvir suas pregações, tamanho era sua sabedoria e oratória.

Embora fosse um gigante na piedade, sua hermenêutica alegórica e baseada na filosofia grega levou-o a interpretações extremamente equivocadas da palavra de Deus.

Orígenes entendia que toda a escritura tinha um tríplice sentido, baseado na tricotomia do homem: O sentido físico era o literal; o sentido moral o psíquico e o espiritual ou intelectual, dando ênfase ao significado espiritual.

É

interessante

conhecermos

menosprezado pelos gnósticos:

a

sua

visão

sobre

o

AT,

então

] [

Escritura com as nozes: “Assim é a doutrina da Lei e dos Profetas na escola de Cristo”, afirma o homileta; “amarga é a casca, que é como a letra; em segundo lugar, chegarás à semente, que é a doutrina moral; em

na nona Homilia sobre os números, onde Orígenes compara a

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terceiro encontrarás o sentido dos mistérios, do qual se alimentam as almas dos santos na vida presente e na futura” (Hom. Num. 9, 7). Sobretudo por este caminho Orígenes consegue promover eficazmente a “leitura cristã” do Antigo Testamento, contestando de maneira brilhante o desafio daqueles hereges sobretudo gnósticos e marcionitas que opunham entre si os dois Testamentos até rejeitar o Antigo. A este propósito, na mesma Homilia sobre os Números o Alexandrino afirma: “Eu não chamo à Lei “Antigo Testamento”, se a compreendo no Espírito. A Lei torna-se um “Antigo Testamento” só para aqueles que a desejam compreender carnalmente”, isto é, detendo-se no sentido literal. Mas “para nós, que a compreendemos e aplicamos no Espírito e no sentido do Evangelho, a Lei

é sempre nova, e os dois Testamentos são para nós um novo Testamento,

não por causa da data temporal, mas pela novidade do sentido… Ao contrário, para o pecador e para quantos não respeitam o pacto da caridade, também os Evangelhos envelhecem” (Hom. Num. 9, 4).

Fonte: Disponível em http://www.veritatis.com.br/patristica/biografias/ origenes-de-alexandria/

No trecho acima, entendemos um pouco melhor o pensamento de Orígenes, que na tentativa de “suavizar” o AT promoveu alguns absurdos hermenêuticos, promovendo interpretações equivocadas das Escrituras.

Entretanto não devemos pensar que Orígenes não dava importância ao sentido literal do texto, na verdade ele sempre iniciava a sua exegese pelo sentido literal e seu contexto para depois encontrar o sentido espiritual. Ele também observava dois parâmetros importantes a Regra de Fé da Igreja e a Escritura interpreta a Escritura.

Embora surgisse no quarto século a Escola de Antioquia como um contraponto a Hermenêutica alegórica, essa escola influenciou muitos bispos e teólogos posteriores, descobertas arqueológicas recentes tem demonstrado isso, como nos mostra o exemplo abaixo:

] [

Galiléia) tem os seguintes valores alegóricos: os “dias” são Cristo; “três” é

a fé; “um casamento” é um chamado aos gentios e “ Caná” é a Igreja.

Provérbios 10.1 ( O filho sábio alegra seu pai, mas o filho insensato é a

o texto de João 2.1 ( três dias depois, houve um casamento em Caná da

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tristeza da sua mãe.) é alegorizado da seguinte maneira: “ o filho sábio” é Paulo; “o pai” é o Salvador; “o filho insensato” é Judas; “ a mãe” é a Igreja. ( Kaiser e Silva, 2002. p.212)

O exemplo acima é datado do sétimo século, porém é um exemplo típico da Escola de interpretação de Alexandria.

Escola de Antioquia

A reação a hermenêutica alegórica surgiu na Antioquia, que ao contrário dos exegetas alexandrinos, dizia que o sentido espiritual não podia estar apartado do sentido literal da Escritura. Segundo Kaiser e Silva (2002), “ o lema da Escola de Antioquia era a Theoria, que vem do grego ver.” Fundado no terceiro século, não existe consenso por quem, teve como os seus maiores expoentes Teodoro de Mopsuestia (350 – 428 d.C.) e João Crisóstomo (347? – 407 d.C.). Leiamos o que Kaiser e Silva (2002) registra sobre esta escola:

Os exegetas da Escola de Antioquia eram unidos e determinados em sua preocupação de preservar a integridade da História e do sentido natural da passagem. Mas eles também estavam igualmente preocupados com o excesso de literalidade, bem como com o excesso de alegoria ou com aquilo que eles chamavam de “judaísmo”. Os dois extremos eram igualmente perigosos; somente a theoria podia oferecer o caminho intermediário afastado dos perigos de ambos os lados. ( KAISER e SILVA, 2002.p.213)

A escola de Antioquia entendia que um texto poderia ter apenas um significado e que todos os sentidos condensavam-se em apenas uma interpretação. Os eruditos de Antioquia , segundo Virkler (1987) defendiam o método gramático- histórico de interpretação e, ao contrário dos alexandrinos, entendiam ser verdadeiras todas as histórias do AT. Escreve Virkler:

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Por exemplo, de acordo com os alegoristas, a partida de Abraão de Harã significava a sua recusa em conhecer as coisas por meio dos seus sentidos; para os antioquenses , representava um ato de fé e confiança ao seguir o chamado de Deus para deixar a cidade histórica de Harã e dirigir-se à terra de Canaã. ( VIRKLER, 1987.p.460)

O exemplo acima no mostra que a hermenêutica da Escola de Antioquia é o embrião da moderna hermenêutica evangélica. Segundo Virkler, infelizmente, por causa de Nestório 8 (386 – 451d.C.), discípulo de Teodoro, esta Escola de Interpretação teve vida curta no seio da Igreja. Teodoro de Mopsuéstia (350 – 428 d.C.) e João Crisóstomo foram os maiores expoentes dessa escola, os dois foram educados pelo notável retórico e filósofo Libânio. Segundo Dockery, “Teodoro de Mopsuéstia, a quem as gerações posteriores venerariam como o “o intérprete por excelência”, distinguia entre o exegeta puro e o pregador: a tarefa do exegeta era a comunicação do ensinamento manifesto do evangelho.” A busca pela literalidade do texto era tão forte em Teodoro que mesmo passagens que podiam ser interpretadas como figuradas ele procurava o sentido literal. Leiamos o que Dockery escreve a respeito:

Em Jo 1.51, Jesus promete a Natanael uma visão dos anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem; Teodoro interpreta isso como uma referência ás visitações angélicas literais na tentação em

Getsemâni, na época da ressurreição e na da ascensão. Em 5.25, Jesus

declara que “ está chegando a hora [

Filho de Deus, e aqueles que ouvirem viverão.; Teodoro faz referência simplesmente ao filho da viúva de Naim, à filha de Jairo e a Lázaro. Em 14.18 e 28 Jesus promete a seus discípulos que voltará para eles; Teodoro encontra o cumprimento dessa promessa nos acontecimentos históricos das aparições pós-ressurreição. (DOCKERY, 2013. p.107)

em que os mortos ouvirão a voz do

]

8 Nestório defendia que em Jesus residia duas naturezas distintas, a humana e a divina, e que por esta razão Maria não poderia receber o título de Theotokos (mãe de Deus) e sim Christotokos (mãe de Cristo. Nestório foi condenado no concílio de Éfeso em 431 d.C. por seu posicionamento teológico.

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Dali para a frente a hermenêutica dos séculos subsequentes adotará uma postura mais eclética, pendendo ás vezes para a hermenêutica alegórica e outras vezes para a hermenêutica gramática-histórica. Os séculos IV e V foram pródigos em grandes homens de Deus, Agostinho e Jerônimo seus principais expoentes. A grande mudança em relação aos períodos posteriores foi a tradição na interpretação das escrituras, o que, ainda hoje, a Igreja Católica Romana coloca em pé de igualdade com a própria Escritura.

Embora fossem admiradores das interpretações alegóricas Jerônimo e Agostinho adotaram uma postura mais literalista nas suas interpretações das Escrituras.

Jerônimo ( cerca de 341 – 420 d.C.) foi um dos maiores eruditos da igreja, sua maior contribuição foi a tradução da Bíblia para o Latim, a vulgata latina. A sua tradução ele fez das línguas originais, abandonando a Septuaginta, traduziu o AT diretamente do hebraico; ele também abandonou a tradução palavra por palavra, traduzindo o sentido das frases para o latim. Jerônimo, ao traduzir o AT do hebraico, rejeitou todos os livros apócrifos, colocando apenas os livros da Bíblia Judaica, validando o valor do AT para o cristianismo em geral. Leiamos exemplos da sua hermenêutica na citação de Dockery abaixo:

No salmo 3, o “santo monte” de onde Deus responde ao salmista pode ser uma referência tanto ao Filho de Deus quanto à igreja. No salmo 4, as referências podem ser apenas a Cristo, visto que o salmista possui uma justeza que não é adequada sequer a Davi. No salmo 5.2, a expressão “meu Rei e meu Deus” refere-se a Cristo, que é Rei e Deus da Igreja. Além disso, todo o salmo 17 diz respeito a Cristo na pessoa de Davi. (DOCKERY, 2013.p127)

A título de informação Jerônimo foi o grande artífice da doutrina da virgindade de Maria, ele dava um grande valor a virigindade e pouco ao casamento, vejamos abaixo a citação de Dockery:

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Em sua obra, Against Jovinian [contra Joviniano], um antigo asceta que havia desistido das práticas extremadas e que escrevera contra a vida monástica, Jerônimo afirmou que “comer carne, beber vinho e ter um estômago bem alimentado” formavam “ a sementeira da luxúria”. Em outra passagem ele enalteceu a vida ascética respondendo à acusação de que era contra o matrimônio, com a seguinte frase: “ Eu deveria gostar de todos aqueles que arrajam uma esposa porque, por causa dos terrores da noite, têm medo de dormir sozinhos.” (DOCKERY, 2013.p.130)

Agostinho é, sem dúvida, o maior expoente do pensamento cristão, reconhecido tanto por protestantes como pelos católicos. Filho de uma mãe cristã, Mônica e uma pai não cristão, levou uma juventude de pecado e luxúria e, antes dos vinte anos, já era pai de um filho ilegítimo; os detalhes da sua vida são conhecidos pelo seu livro Confissões. Converteu-se ouvindo a pregação de Ambrósio (339 – 397d.C.). Leiamos abaixo a autodescrição da sua conversão:

Sondei as profundezas de minha alma e de lá arranquei todas as misérias que lá havia. Quando as coloquei diante dos olhos de meu coração, uma tempestade irrompeu dentro de mim, trazendo consigo uma chuva

Pois eu sentia que ainda era escravo de meus

pecados, e em minha tristeza eu continuava chorando: “ Por quanto tempo continuarei a dizer ‘amanhã’, ‘amanhã’? Por que não agora? Por que não colocar um fim em meus horríveis pecados neste exato momento?

Isso eu me perguntava, chorando o tempo todo com a mais amarga dor no

coração, quando, de súbito, ouvi a voz de uma criança que cantarolava nas casas vizinhas. Não sei dizer se era menino ou menina, mas repetia diversas vezes um refrão: “ Toma e lê, toma e lê.” Imediatamente pus-me a pensar se havia algum tipo de brincadeira na qual crianças costumavam cantar aquelas palavras, mas não consegui me lembrar de tê-las ouvido antes. Contive as lágrimas e me levantei, dizendo a mim mesmo que aquilo só poderia ser uma ordem de Deus para que eu abrisse meu exemplar da Escritura e lesse a primeira passagem que meus olhos encontrassem [ ] Tomei-o nas mãos e o abri e, em silêncio, li a primeira passagem sobre a

em orgias e bebedeiras, não em

qual meus olhos caíram: “

torrencial de lágrimas. [

]

não

imoralidade sexual e depravação, não em desavença e inveja. Ao contrário revistam-se do Senhor Jesus Cristo, e não fiquem premeditando como satisfazer os desejos da carne”. Não tive vontade de ler mais nem precisei fazê-lo. Num instante, assim que acabei de ler o final da passagem, foi como se a luz da fé inundasse meu coração e todas as trevas da dúvida se dissiparem. (AGOSTINHO,386 d.C.)

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Agostinho utilizava-se tanto da hermenêutica literal como da hermenêutica alegórica, pois reconhecia muitos significados espirituais nas passagens bíblicas, porém diferentemente de Orígenes cria em todas as passagens do AT. Vejamos alguns exemplos:

Agostinho apresentou significados espirituais de muitos dos acontecimentos relatados no Gênesis. Ele comentou que a porta da Arca da Noé (Gn 8.13) representava a ferida feita no flanco de Cristo em sua crucificação. Ele afirmava que Abraão, ao ser pai de um filho com Hagar, serva de sua mulher (Gn 16) não deveria ser censurado, porque esse ato não havia sido consumado com concupsciência. Seu casamento com Quetura, sua segunda esposa (Gn 25), também não foi resultado da luxúria da carne, mas uma prefiguração do “povo carnal” que pensava pertencer a segunda aliança (v. Jr 31; 2 Co 3). (DOCKERY, 2013.p135)

É de Agostinho a célebre frase: “ Credo ut intelligam” (Creio para poder entender). Este princípio de Isaías 7.9. Na sua interpretação sempre buscava o sentido teológico e espiritual, pois, afinal, para ele, a interpretação deve sempre nos aproximar mais de Deus e do próximo. Muito da sua hermenêutica ele herdou do seu pai espiritual, Ambrósio. Pai que mostrou o método alegórico, vejamos o que ele mesmo escreve sobre isso:

Eu ouvia deliciado Ambrósio, em seus sermões ao povo, recomendar, diligentemente, o seguinte texto como regra: “ A letra mata, mas o Espírito vivifica” (2 Co 3.6), enquanto ao mesmo tempo, afastava o véu místico e revelava o significado espiritual daquilo que parecia ensinar uma doutrina perversa caso fosse tomado ao pé da letra. (AGOSTINHO, ?)

Vimos na citação acima, um erro crasso de interpretação, que até bem poucos anos, era utilizado para justificar a não necessidade de estudarmos a Bíblia, já que a “ letra mata”. Embora, por muitas vezes, Agostinho abussase da interpretação alegórica, ele não desprezava o sentido original do texto; sempre servindo-se do sentido literal para buscar o espiritual.

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Agostinho legou para a idade média o sentido quadrúplo das escrituras, adotado amplamente pelos teólogos medievais. Conforme Dockery os quatro sentidos eram: 1)o literal; 2) o alegórico; 3) o tropológico ou moral e 4) o anagógico. Também foi Agostinho, que enfatizou a necessidade da interpretação ser avalizada pela Igreja, a fim de combater as seitas heréticas que proliferavam. Para resumirmos os princípios deste período da igreja, leiamos abaixo as contribuições listadas por Anglada (2016):

1. As Escrituras são o registro histórico-profético inspirado e autoritativo

da revelação divina.

2. Deve-se abordar o cânon bíblico como uma unidade cristocêntrica. O

Antigo e Novo Testamento se concentram em Cristo.

3. A fé é o pré-requisito fundamental para o intérprete das Escrituras.

Máxima de Agostinho: Credo ut intelligam (creio a fim de que possa

entender), também atribuída a Anselmo.

4. Deve-se considerar o sentido literal e histórico do texto. Qualquer

sentido espiritual deve fundamentar-se no sentido literal e histórico. A

exposição, entretanto, deve enfatizar mais o espírito do texto do que a acuracidade verbal.

5. O propósito do expositor com relação ao texto é descobrir o seu sentido

e não atribuir-lhe sentido. Com relação aos ouvintes, é promover o amor de Deus e ao próximo, e uma vida ordeira em direção a Deus.

6. O credo ortodoxo (Regula Fidei) deve controlar (não dominar) a

interpretação das Escrituras.

7. O texto não deve ser estudado isoladamente, mas no seu contexto

canônico geral.

8. Se o texto for obscuro, não pode se tornar matéria de fé. As passagens

obscuras devem dar lugar às passagens claras.

9. O Espírito Santo não dispensa o aprendizado das línguas originais, de

geografia, de história, das ciências naturais, de filosofia, etc. 10. As Escrituras não devem ser interpretadas de modo a se contradizerem. Para isso, deve-se considerar a progressividade da revelação. (ANGLADA, 2016.p.63)

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Alta Idade Média

Na idade Média não temos grandes novidades na hermenêutica, os fundamentos lançados pelos pais da igreja foram seguidos pelos eruditos dos séculos posteriores, a grande novidade é que agora os princípios de interpretação deveriam adaptar-se com as Tradições da Igreja. Sobre este período Kaiser e Silva (2013) escrevem:

Um dos mais instruídos intérpretes das Escrituras daquela época, Hugo de São Vitor (1096? – 1141 d.C), declarou: “ Aprenda primeiro em quê deve acreditar e então vá até a Bíblia e encontre lá esse preceito!”. Porém, mesmo que Hugo tenha vivido mais de cem anos antes de Tomás de Aquino, parece ter assimilado um dos principíos de Aquino de que a pista para o significado das profecias e matáforas era a intenção do escritor, tendo em vista que o sentido literal incluía tudo o que o escritor do texto sagrado pretendia dizer. (KAISER e SILVA, 2013.p.215)

A figura central desse período foi Tomás de Aquino (1225 – 1274 d.C.) que defendeu o sentido literal das escrituras, embora também entendesse que o significado poderia ser expandido e que havia um significado espiritual nas Escrituras. Outra figura proeminente foi Nicolau de Lira ( 1270 – 1340 d.C.) que defendeu mais fortemente o sentido literal das escrituras, abandonando de vez a hermenêutica alegórica da escola de Alexandria. A obra de Nicolau de Lira influenciou Lutero e sua hermenêutica ecoou posteriormente na Reforma.

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7. A HERMENÊUTICA DA REFORMA

Antes de estudarmos a hermenêutica da Reforma é importante entendermos o contexto que levou a Reforma da Igreja.

A Idade Média foi, sem dúvida nenhuma, uma época terrível para o

cristianismo. Não é debalde, que os historiadores a auto denominem a idade das trevas. Pois eram as mais densas trevas que reinavam sobre a humanidade naquela época, ao menos na perspectiva cristã.

Na minha ótica, é muito simplista culparmos apenas a anexação da Igreja pelo Imperador Constantino no século IV, como a raiz de todo mal que se infiltrou nela. Este, sem dúvida, foi um fator importante, mas houve tantos outros, que seria impossível atribuirmos algum valor intrínseco para todos os acontecimentos que levaram a Igreja para o estado lastimável, no qual, ela se encontrava na Idade Média.

A população, em geral, vivia em uma ignorância total em relação às

escrituras, pois além de não ser permitido, pela Igreja, o acesso das pessoas comuns

a palavra de Deus, os livros, antes da invenção de Gutemberg, era coisa para poucos. As missas que deveriam ser o momento dos sacerdotes ensinarem a palavra de Deus ao povo, eram rezadas em latim, língua desconhecida pelo populacho. E a situação moral do clero, que deveria servir de exemplo para os fiéis, era a mais baixa possível. O nepotismo, as negociatas, as bebedices e orgias e a falta de castidade, era não só comum no baixo clero, como também entre os bispos, e até mesmo no papado. Havia até mesmo um adágio popular no tempo de Lutero que dizia: _“Quem vai a Roma, perde a fé”. Apesar desta ignorância, os homens eram famintos por Deus, pois era uma época, na qual, a morte era uma constante na vida de cada pessoa. A fome, as pestes e doenças em geral grassavam no meio da população. A expectativa de vida não chegava aos 30 anos e a mortalidade infantil

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era muita alta. Não restava nada àquelas pessoas a não ser buscar o abrigo sob as asas da “Sacra Santa Igreja Católica Romana”. A busca pela salvação era algo que atormentava o homem medieval. E, infelizmente, a “Santa Igreja”, ao invés de aliviar as dores de seus fiéis, lhe impunha uma bem engendrada indústria de penitências. O cristão era obrigado a atender todos os sacramentos em sua vida, pagar penitências, bem como adorar as santas relíquias 9 , assistir as missas e se tivesse algum dinheiro comprar as indulgências 10 . O Clero fazia o máximo possível para se distanciar do povo e manter o seu status quo de sacerdotes. Não é difícil descobrirmos o porquê do sucesso do movimento dos Franciscanos 11 , bem como dos Valdenses, entre o povo. Esses foram movimentos que pregavam a volta a simplicidade da Igreja primitiva. Felizmente, houve homens sinceros na sua fé e no cumprimento da palavra de Deus, que levantaram as suas vozes contra os desmandos da Igreja. Homens que pagaram um preço de sangue pela sua consciência e pela sua crença. Com certeza não podemos relacionar todos os nomes destes heróis da fé, pois só temos conhecimentos daqueles que de alguma forma obtiveram proeminência na história, mas quantos não foram os sacerdotes, clérigos, estudantes da bíblia , que tiveram as suas vozes caladas e sua vidas ceifadas como hereges. O que temos que ressaltar, porém, é que a reforma não surgiu por nenhum líder visionário, sonhador ou dado a revelações, mas sim pelo estudo sistemático da palavra de Deus. É por isso que a Reforma Protestante pode ser denominada o reavivamento da palavra, pois o que foi reavivado na Reforma, foi a aplicação da Palavra de Deus. O Lema dos Reformadores era “Somente as Escrituras”. E sem dúvida nenhuma, todo

9 Somente o Principe Frederico da Germânia , contemporâneo de Lutero, possuía 17.443 relíquias cuja adoração valia aos fiéis 127.779 anos de indulgência. Entre as relíquias, podemos citar plumas das asas do Arcanjo, Miguel, feno da manjedoura de Jesus, o polegar de Santa Ana mãe de Maria. 10 A igreja julgava , por a sua disposição os méritos de Cristo e de todos os Santos da Igreja, de forma que criou uma doutrina para que estes méritos fossem vendidos àqueles que tinham tempo para pagar as suas penitências. Convém salientar as indulgências somente aboliam as penas do purgatório e não do inferno. 11 São Francisco de Assis, pregava uma aproximação maior entre o sacerdote e o povo, assim com Pedro Valdo, fundador do movimento dos Valdenses

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avivamento deve sempre começar pela estudo da palavra de Deus. Coube aos reformadores tornarem a palavra de Deus acessível aos cristaõs. “E conhecereis a verdade, e ela vos libertará”. Enquanto a igreja debatia nos seus pecados, as descobertas marítimas, o mercantilismo e o aparecimento da burguesia refletiam na intelectualidade da época, iniciava-se o período histórico que denominamos de Renascença. Dentre as muitas mudanças do período, a busca pelo conhecimento e a valorização do ser humano, levou alguns eruditos ao estudo das línguas clássicas: o grego, o latim e mesmo o hebraico. Leiamos o que Anglada escreve a acerca disso:

O movimento cultural humanista nos séculos XV e XVI, reavivando o estudo do grego e do hebraico e suscitando o interesse pela literatura clássica antiga, também contribuiu para a revolução hermenêutica promovida durante a Reforma. Na Itália, o retorno ás fontes gregas clássicas ocasionou o Renascimento. No norte da Europa, o retorno ocorreu em direção às fontes bíblicas (o Antigo Testamento em hebraico e o Novo Testamento grego) e o resultado foi a Reforma. (ANGLADA, 2016.p.66)

O trabalho linguístico de dois homens da Renascença tiveram um impacto imensurável para as traduções da bíblia nos vernáculos falados pelo povo, Johanes Reuchlin e Desidério Erasmo, o último bem conhecido pelos estudantes de história. Reuchlin elaborou e publicou a primeira gramática hebraica, bem como um léxico hebraico, conforme Anglada (2016), muitos afirmavam que Jerônimo havia renascido. Por sua vez, Erasmo publicou em 1516 seu NT crítico em grego. Todos os dois foram as bases para Lutero, posteriormente, traduzir a Bíblia para o alemão. Toda a língua moderna tem seu o escritor considerado como pai da versão moderna da língua, em nosso português é Luis Vaz de Camões; no italiano Dante Alighieri; no inglês William Shakespeare e no alemão é Lutero, com sua tradução das Escrituras.

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Os pré-reformadores e reformadores foram grandes defensores da

interpretação literal das Escrituras. Lutero, no seu tradicional rompante, chegou afirmar: “ que as alegorias de Orígenes não valem mais do que pó”, pois “ as

alegorias são especulações vazias [

Segundo Anglada (2016): “A redescoberta das doutrinas bíblicas pelos reformadores e a reforma eclesiástica dela decorrente foram precedidas por um evidente rompimento com os princípios hermenêuticos e com as práticas exegéticas medievais predominantes.” É muito claro, que uma das causas da Reforma foi a retomada dos estudos da Palavra de Deus, ignorando o prisma da Tradição da Igreja e retomando o sentido literal das Escrituras. A Bíblia voltou a ter um papel prepoderante nas Igrejas Reformadas. Abaixo listaremos algumas características da Hermenêutica reformada, extraída de LOPES (2013):

]

a escória das Escrituras Sagradas.”

a) Ênfase do sentido literal, gramático-histórico do texto.

De acordo, os reformadores ensinavam que cada texto tem um só sentido, que é o literal _ a não ser que o próprio contexto ou outro texto das Escrituras requeiram claramente uma interpretação figurada ou metafórica.

b) A necessidade da iluminação do Espírito Santo

Os reformadores enfatizaram a natureza divina das Escrituras, isto é, que elas foram dadas por inspiração divina. A natureza espiritual da mensagem

das Escrituras era a principal barreira à sua compreensão por parte de pessoas que não tem o Espírito.

c) A necessidade de estudar as Escrituras

Igualmente, os reformadores reconheciam que a Bíblia é um livro humano.

Muito embora insistissem na clareza das Escrituras, já que eram divinas quanto à origem, reconheciam por outro lado a necessidade de serem estudadas e pesquisadas, visto que também eram humanas.

d) Escritura com Escritura

“Se são obscuras num lugar, são claras em outros”, disse Lutero com referência às Escrituras. Esse princípio da Reforma estabeleceu que a única regra infalível de interpretaçãi das Escrituras é a própria Escritura. Ela se autointerpreta, elucidando, assim, suas passagens mais difícieis. O ponto de Lutero e dos demais reformadores era que o sentido das Escrituras não poderia mais ser determinado por tradição, nem por decisão eclesiástica, nem por argumento filosófico, nem por intuição espiritual, mas unicamente por outras partes das mesmas que explicam e esclarecem o seu sentido.

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e) Intenção do autor humano

Em lugar do conceito da alegorese medieval de que um único texto da Bíblia tinha quatro sentidos, os reformadores insistiram que havia apenas

um sentido em cada texto, que era pretendido pelo autor humano. Já que o autor humano havia sido inspirado por Deus, havia a coincidência de intenções.

f) Uso de outras obras

Os reformadores fizeram uso abundante da erudição antiga, citando comentaristas medievais, as obras dos pais apostólicos e obras de contemporâneos. Apesar de insistirem na necessidade da iluminação do Espírito para a correta interpretação das Escrituras, não desprezaram o que Espírito já havia revelado a outros antes deles. (LOPES, 2013.p.164)

A hermenêutica Reformada lançou as bases para as hermenêuticas subsequentes, sempre voltadas para o aspecto gramático-histórico das Escrituras. Contudo, três séculos depois o Iluminismo, iria trazer correntes filosóficas que iriam modificar a face do cristianismo.

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8 HERMENÊUTICA MODERNA

Para

entendermos

a

Hermenêutica

moderna,

temos

primeiro

que

compreender o Iluminismo. Leiamos a definição do Iluminismo extraída da internet:

O iluminismo foi um movimento global, ou seja, filosófico, político, social, econômico e cultural, que defendia o uso da razão como o melhor caminho para se alcançar a liberdade, a autonomia e a emancipação. O centro das idéias e pensadores Iluministas foi a cidade de Paris. Os iluministas defendiam a criação de escolas para que o povo fosse educado e a liberdade religiosa. Para divulgar o conhecimento, os iluministas idealizaram e concretizaram a idéia da Enciclopédia (impressa entre 1751 e 1780), uma obra composta por 35 volumes, na qual estava resumido todo o conhecimento existente até então. O iluminismo foi um movimento de reação ao absolutismo europeu, que tinha como características as estruturas feudais, a influência cultural da Igreja Católica, o monopólio comercial e a censura das “idéias perigosas”. O nome “iluminismo” fez uma alusão ao período vivido até então, desde a Idade Média, período este de trevas, no qual o poder e o controle da Igreja regravam a cultura e a sociedade. Fonte: Disponível em http://www.infoescola.com/historia/iluminismo/

Conforme a definição acima, o pensamento principal do Iluminismo é a busca pelo racional, evidentemente, os aspectos sobrenaturais da Palavra de Deus não poderiam mais ser aceitos como acontecimentos reais, visto que não podem ser reproduzidos cientificamente. Outro aspecto importante, foi a oposição à Igreja, por parte dos principais filósofos iluministas. A busca pela razão levou o homem a duvidar de tudo que não pudesse ser racionalmente compreendido. A hermenêutica bíblica, até então, perdia a sua premissa básica, a sua inerrância e infabilidade das Escrituras como regra de fé. Portanto, fazia-se necessária uma hermenêutica que dispensasse tudo aquilo que não pudesse ser explicado cientificamente e, tudo que não fizesse parte da razão não poderia ser, realmente, Palavra de Deus.

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Sobre esta nova “reinterpretação” da Bíblia, Lopes diz:

Estudiosos racionalistas começaram a insistir que o “dogma” da inspiração divina da Bíblia deveria ser deixado fora da exegese, para que a mesma pudesse ser feita de forma “neutra”. Eram contra qualquer dogma em geral como pressuposto de leitura da Bíblia, pois entendiam que todas as convicções de caráter teológico tendem a viciar os resultados da pesquisa bíblica. Eram especialmente contrários à doutrina da inspiração pois a mesma impedia que a Bíblia recebesse tratamento crítico, como um livro humano. (LOPES, 2013.p186)

Curiosamente, a hermenêutica contemporânea nega exatamente o que a racionalista buscava a possibilidade de encontrarmos o significado ou sentido pretendido pelo autor, na verdade, algumas linhas de interpretação atuais consideram o texto, depois de escrito, um ente autônomo, para qual não há nenhuma relevância em se conhecer o sentido original. Devido a brevidade do nosso estudo, abordaremos as principais linhas de pensamento da hermenêutica dos séculos XIX e XX, a fim de entendermos o momento hermenêutico que precedeu a pós-modernidade. Essa exegese controlada pela razão, trouxe um grande problema para os seus intérpretes, saber o que afinal era palavra de Deus e o que não; agora a bíblia era um livro que continha a Palavra de Deus e não mais a própria Palavra. Embora o tempo decorrido entre as histórias do NT e o momento do seu registro histórico seja relativamente curto para o surgimento do mito, as obras de Josh Mcdowell abordam muita bem a questão, esse foi a “saída” para os estudiosos racionalistas explicarem os eventos sobrenaturais da Escritura. Leiamos o que Lopes escreve sobre isso:

O conceito de “mito” começa a ser aplicado aos relatos miraculosos do Antigo Testamento e Novo Testamento. Mito era a maneira pela qual a raça humana, em tempos primitivos, articulava aquilo que não conseguia compreender. Segundo os intérpretes críticos, as fontes que os autores bíblicos usaram estavam revestidas de mitos. Surge o termo “alta crítica”

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para se referir a essa tarefa de “criticar” o relato bíblico e “limpá-lo” dos acréscimos mitológicos. (LOPES, 2013.p188)

Desta “tensão” criada pelo racionalismo emergiu uma nova Hermenêutica que passou a ser conhecido como método histórico-crítico. Embora se considerasse as questões históricas e gramaticais, agora era necessário também se fazer uma análise crítica dos textos bíblicos, visto que, debaixo da casca dogmática e mítica introduzida nas escrituras, havia um núcleo original e, esse sim, a genuína palavra de Deus. Dentro da hermenêutica racionalista segundo Lopes surgiram vários métodos de abordagem interprativa das Escrituras, são eles: “a crítica das fontes, da forma, da redação literária, histórica e da tradição, etc. Vejamos algumas desses métodos interpretativos das escrituras, segundo Lopes:

Crítica das Fontes Negando a integridade e a autoria tradicional dos livros bíblicos, a crítica das fontes tem como objetivo identificar e isolar as supostas fontes escritas que foram usadas pelos arquivistas, colecionadores ou editores para compor o texto bíblico como o temos hoje, e estudar a teologia dessas

Por causa de seu caráter altamente especulativo e pela falta de

unanimidade entre seus proponentes, a crítica das fontes está hoje largamente desacreditada, muito embora algumas de suas hipóteses – como o esquartejamento do livro de Isaías em três pedaços – ainda estejam em voga em alguns seminários. Crítica da Forma Vai mais além que a crítica das fontes e ocupa-se com a pré-história das fontes escritas que compuseram o texto. De acordo com a crítica da forma, boa parte dos livros que compôem o Antigo e o Novo Testamento é, em sua forma final, o resultado de um processo de coleção, edição e harmonização de tradições antigas, fontes anteriores (escritas ou orais) por parte de editores e escribas. Crítica da Redação Esse método centralizou as suas atenções na figura dos escribas, arquivistas, editores ou colecionadores que haviam combinado as fontes para formar o texto escrito em sua forma final. Para os críticos das fontes e da forma, as fontes originais e o processo histórico e social da formação do texto final eram inestimável valor para se recuperar a teologia das comunidades que produziram esses textos.

fontes.[

]

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(LOPES, 2013.p191)

Hoje, como veremos no próximo capítulo, o método histórico-crítico está superado. Em um âmbito mais amplo, a crença que a ciência iria resolver todos os problemas da humanidade caiu por terra durante a Primeira Grande Guerra. Na Hermenêutica, a tentativa racionalista de interpretar a Bíblia acabou rebaixando ela a um livro meramente humana e o cristianismo mais uma religião entre tantas que há no mundo. Embora todos os problemas, há contribuições significativas na Hermenêutica racionalista, a busca por detalhes escriturísticos e as minúcias dos manuscritos levou-nos a um conhecimento sem igual na exegese bíblica. Muitos estudiosos desceram ao nível da palavra, estudando as ocorrências dentro das epístolas, por exemplo. Hoje já se sabe qualificar o grego de cada um dos livros do Novo Testamento, bem como, o hebraico utilizado no AT. Embora tenha produzido mais dúvidas e dificuldades, algumas contribuições linguísticas, especialmente, foram nos legado por esta escola hermenêutica.

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9 HERMENÊUTICA CONTEMPORÂNEA

Para entendermos a hermenêutica contemporânea é fundamental entendermos o pensamento dos seus artífices. Na verdade, alguns pensadores do século XIX foram os primeiros a lançar os fundamentos do pensamento pós- moderno, embora coevos do pensadores racionalistas. Podemos, ao olharmos para trás, verificar que até aqui a ênfase sempre foi dada para o texto bíblico, mesmo na escola alegórica, o que tinha o significado “espiritual” era o texto; na quadrigma agostiniana e medieval a mesma coisa; não foi diferente no método histórico-crítico, a verdade estava no texto, porém a pergunta era qual parte do texto. Portanto quer de um modo ou outro, o texto reinava soberano na hermenêutica. Contudo essa perspectiva irá mudar no século XX. Em meados de 1800 o teólogo alemão Friederich Schleiemacher (1768 – 1834), segundo Anglada (2016), observou que a interpretação requer aspectos linguísticos e psicológicos. Sinteticamente, ele afirmou, influenciado por Kant, que para compreendermos realmente o texto temos que reexperimentar a vida do próprio autor e que essa experiência só se daria de modo transcendental. De certa forma, esta parâmetro colocava em xeque toda a hermenêutica racionalista que defende uma abordagem neutra ao texto em análise. Analisando o novo parâmetro introduzido por Schleiemacher na hermenêutica e comparando com o que Paulo disse em 1Co 2.11: “Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus.”; o teólogo alemão tinha toda a razão, a busca pelo conhecimento da intenção do autor humano pode ser infrutífera muitas vezes, porém o que ele não considerou foi a dupla autoria da Bíblia, Deus e o homem.

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Como cremos na inspiração divina, é possível sim chegarmos ao significado pretendido pelo autor, por vezes não o humano, mas com certeza o divino. O apóstolo Pedro nos dá entender isso (2 Pe 1.19-21). Obviamente, Schleiemacher introduziu um componente bastante subjetivo à interpretação da Escritura. Anglada (2016) afirma que em Schleiemacher está a raiz do existencialismo, escola filosófica que coloca a existência do ser como o cerne do conhecimento humano. A escola existencialista iniciada por Wilhelm Dilthey (1833-1911) e, posteriormente, desenvolvida por Martin Heidegger (1889 – 1976) avança ainda mais o movimento em direção ao leitor. Heidegger chega afirmar que o conhecimento deve ser buscado no leitor, o autor não importa nesse processo. Na esteira do Existencialismo e de Barth, com sua relevância focada no leitor , entra em cena Rudolf Bultmam (1884 -1976), segundo Lopes, Talvez o maior estudioso do Novo Testamento do século XX, Bultmam argumentava que era impossível qualquer interpretação do texto bíblico sem pressupostos, ou seja, todo o texto é lido através de bagagem cultural, social, dogmática do leitor. Bultmam colocava de vez a pá de cal na hermenêutica racionalista. O foco interpretativo, agora, deslocava-se totalmente para o leitor. Leiamos o que Kaiser e Silva (2013), escrevem acerca de Barth e Bultmam:

os objetivos teológicos de Bultmam, assim como os de Barth, foram

grandemente afetados por uma preocupação com a relevância. Ele argumentava que se nós, cristãos modernos, não somos capazes de acreditar em milagres, então devemos reapresentar a mensagem cristã primitiva em termos que nos sejam compreensíveis. Esse princípio levou Bultmam a desenvolver um método hermenêutico chamado de desmitologização (ou talvez a descrição mais precisa seja a remitologização). (KAISER e SILVA, 2013.p.223)

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Embora, tanto Barth como Bultamann, rejeitassem o método histórico- crítico é óbvio que os dois foram influenciados pela Alta Crítica. O criticismo, ainda que quando falamos de século XX o mais correto seria nomearmos liberalismo, embora tenha trazido contribuições importantes no aspecto textual e semântico dos manuscritos bíblicos e suas traduções, deixou como maior legado o descrédito às Sagradas Escrituras, pondo em xeque a sua inspiração divina e a sua inerrância, rebaixando-a a um livro comum, assim como qualquer outro. Bultmann não negava a possiblidade de Deus falar conosco por meio das Escrituras, porém isso não indica que as histórias, personagens ou eventos da Bíblia sejam genuínos ou verdadeiros, mas sim só que isto poderia se dar em um encontro existencial entre o texto e o leitor. Segundo Anglada (2016) para os proponentes dessa escola, “palavras

têm uma função realizadora; a natureza delas não diz respeito ao conteúdo, mas sim ao efeito”. Cabe aqui uma reflexão para nós pentecostais, com certeza, o braço mais místico do cristianismo, desconsiderando aqui as seitas heréticas, conquanto pareça absurdo a afirmação sobre a palavra, muitas vezes a nossa exegese, especialmente, a que transforma-se em oratória, tem muito mais compromisso com o efeito do que a verdade; torcemos intencionalmente a Palavra de Deus para obtermos o efeito desejado em nossos ouvintes ou leitores. Àqueles que semeiam a palavra de Deus devem ser muito cuidadosos nas suas homílias e, especialmente, com a exegese que a precede. Nesse ponto, quero dizer que entendo a hermenêutica existencialista, apesar de que nos pareça absurda. Bultmann viveu no período da morte da razão, a primeira grande guerra esfacelou os sonhos de uma sociedade ideal, sonho criado pelo cientificismo e racionalismo; a ciência não dera conta de todas as quimeras humanas; a hermenêutica racionalista desacreditava a Bíblia. Portanto Bultmann era um filho do seu tempo que tencionava dar um passo em direção a uma fé que fizesse

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sentido ao seu mundo, contudo esqueceu do principal para uma vida cristã equilibrada que a fé transcende a razão. Não podendo acreditar nos aspectos sobrenaturais da bíblia, ele cria o conceito da mitologização da bíblia, assim tudo aquilo que não fizesse sentido, ou não pudesse ser comprovado pelo homem moderno era apenas um mito. Para exemplificarmos o que a mitologização de Bultmam representava na prática, leiamos Lopes escreve acerca:

Assim, os relatos de milagres, a possessão demoníaca, o conceito do nascimento virginal, da encarnação e da ressurreição dos mortos, por exemplo são mitológicos – nunca realmente ocorreram historicamente, e se ocultamente, escondido ao olho humano e somente perceptível ao olho da fé. (LOPES, 2013.p.208)

Mesmo negando a veracidade dos aspectos sobrenaturais da Palavra de Deus, há uma preocupação genuína com os leitores da Bíblia. Segundo Anglada (2016) :

A preocupação principal dessa escola diz respeito especialmente a como as Escritura podem falar novamente de forma renovada aos leitores e ouvintes, especialmente, na pregação, visto que a simples repetição das palavras do Novo Testamento, hoje, pode muito bem significar algo diferente daquilo que o texto disse aos seus leitores originais. (ANGLADA, 2016.p.36)

A possibilidade de ressignificação é real, afinal há uma enorme lacuna cronocultural que separa o leitor moderno dos autores original, no entanto a natureza humana é uma só, e uma das características da Bíblia é sua capacidade de falar com o homem em todas as épocas e de todas as culturas. Por vezes assusta-nos como um texto bíblico separado de nós por tantos aspectos, pode falar tão diretamente com qualquer pessoa, a Bíblia tem a respostas para todas as idiossincracias da humanidade, é o guia segura para uma vida feliz e abençoada.

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Para

concluirmos

vejamos

hermenêutica de Bultmann:

o

que

Lopes

(2013)

escreve

sobre

a

Do ponto de vista dos estudos reformados do Novo Testamento há pouca coisa que possa ser considerada positiva em Bultmann, a não ser seu desejo de traduzir as Escrituras para a sua época e o reconhecimento de que a mensagem do Novo Testamento transcende aspectos culturais (muito embora as implicações que ele extrai desse último ponto terminem na não proposicionalidade da mensagem divina). Bultmann representa o destilar dos pressupostos racionalistas e existencialistas na exegese bíblica. Ele não crê na Trindade, na encarnação, na inspiração da Bíblia, no sacrifício vicário de Cristo, na ressurreição e na segunda vinda. Pelos credos mais antigos da igreja e pelas confissões históricas, sua obra nem cristã poderia ser considerada. (LOPES, 2013.p.211)

Hermenéutica pós-moderna

Passado duas grandes guerras mundiais, o surgimento e estabelecimento de novas ciências, entre elas, a linguística e a psicologia, a desilusão do homem pós moderno com a ciência, novas correntes hermenêuticas começam a surgir. Até aqui, vimos o foco centrado no texto e, por último no leitor. Na pós modernidade, abordagens linguísticas ainda mais avançadas surgirão. Focaremos nos três expoentes da hermenêutica atual e suas teorias, Hans-Georg Gadamer, Paul Ricoeur e Jacques Derrida. Hans-Georg Gadamer (1900 – 2002), filósofo alemão, é um dos maiores expoentes da hermenêutica do século XX, sua obra de maior vulto foi verdade e método. Nesta obra Gadamer nega a possibilidade de eliminar-se os pressupostos do leitor na interpretação, bem como, uma vez mais, reafirma a impossibilidade de encontrarmos a intenção do autor. Gadamer coloca em dúvida até mesmo a validade dos métodos de interpretação dos textos, já que todo o método é fruto da sua época e, como tal, carrega consigo todos os seu pressupostos. Para ele na interpretação há a fusão de dois horizontes; o horizonte do autor, com o seu

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mundo, sua cultura, sua visão de mundo e o horizonte do leitor, com todos os aspectos já mencionados. Para entendermos melhor, leiamos o que Lopes (2013) escreve acerca:

O entendimento de uma passagem não é causado inteiramente pelos

pressupostos do leitor e nem inteiramente pela situação histórica original

do texto, mas por uma fusão de ambas as perspectivas que Gadamer chama

de “horizontes”. “Horizontes” são os mundos vivos do texto e do intérprete, que se fundem no processo de leitura para produzir uma nova terceira e nova situação. O leitor expande o horizonte do texto ao apropriar-se dele em uma nova situação histórica. O texto, por sua vez,

desafia o leitor expandir as estruturas e pressuposições que trouxe ao texto. Dessa fusão dos horizontes vem o entendimento. (LOPES, 2013.p.219)

Há uma influência de Piaget em Gadamer. Piaget explicava o processo cognitivo de aprendizagem através da assimilação e acomodação. Ao receber um novo estímulo você integra cognitivamente sua percepção sensorial ao que você conhece (esquema), assimilando o novo conhecimento. Na acomodação quando você não consegue assimilar uma nova informação, por não poder associar ao seu conhecimento prévio, você acomoda criando um novo esquema. Conquanto a fusão de horizontes seja uma explicação bastante razoável na aquisição de conhecimento secular, o cristão sem ajuda do Espírito de Deus não consegue nunca aprender os pensamentos de Deus. É como Paulo escreveu a Timóteo: “ Sempre aprendendo, mas nunca chegando ao pleno conhecimento da verdade.”(2 Tm 3.7). Os próprios apóstolos, mesmo privando do mesmo horizonte de Jesus, não podiam compreender o que Jesus os ensinavam, exceto quando o Próprio abriu seus entendimentos.

Depois lhes disse: Estas são as palavras que eu vos disse, quando ainda estava convosco, que importava se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, nos profetas e nos salmos. Então lhes abriu o entendimento para que compreendessem as Escrituras; e disse-lhes:

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Assim está escrito que o Cristo padecesse e ressurgisse dentre os mortos ao terceiro dia, e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois testemunhas destas coisas. Lucas 24:44-48 [grifo nosso]

Outra corrente interpretativa pós-moderna é a de Paul Ricoeur (1913 – 2005), Ricoeur é o pai da Hermenêutica da Suspeição. Leiamos o que Anglada escreve sobre sua hermenêutica:

Ricoeur, reconhecidamente influenciado por Marx Nietzche e Freud, é conhecido por sua hermenêutica da suspeição, através da qual busca, assim como seus mestres mencionados, “ desmascarar, desmitificar e expor o real, a partir do aparente”. Esses mentores da hermenêutica da suspeição têm em comum o fato de terem “ procurado encontrar e explicar o verdadeiro significado da religião, removendo o significado falso. Para eles a religião não é uma fonte legítima de conforto e esperança em realidades transcendentais. É, antes, uma ilusão psicológica, expressando o desejo que cada pessoa tem por um pai todo-poderoso (Freud); “um refúgio dos fracos”, fazendo a fraqueza parecer respeitável e louvável (Nietzche); ou “o ópio do povo”, ao promover um meio de fugada dura e desumana condiçãodo trabalhador explorado. (Marx) (ANGLADA, 2016.p.41)

Mesmo que pareça que as ideias hermenêuticas de alguém abertamente antireligioso como Ricoeur tenha a ver conosco (cristãos), seu corolário teórico tem influenciado círculos liberais do cristianismo, especialmente, de algumas teologias reacionárias da “igreja”, como a Teologia da Libertação. Para Ricoeur, conforme Anglada (2016), o verdadeiro significado de um texto, não está na intenção do autor nem no texto, mas no resultado de uma dialética de suspeição entre o autor e o texto. Vê-se, mais uma vez, que decifrarmos essa dialética é tão ou mais díficil de encontrar que a intenção do autor, tornando a tarefa do hermeneuta algo totalmente subjetivo e desprovido de nexo.

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Paul Ricoeur foi um defensor da autonomia do texto, ou seja, quando o autor entrega o seu texto para seus leitores ou ouvintes, o mesmo torna-se independente, com vida própria. Talvez, se exista alguma contribuição na teoria de Ricoeur para nós, segundo Lopes (2013), seja a necessidade de suspeição quando descobrimos novos significados no texto bíblico, na verdade, vimos sim que é necessário passar as nossas interpretações da Bíblia pelas regras amplamente aceitas pelo cristianismo em geral.

Outro erudito que queremos abordar é Jacques Derrida (1930-2004), filósofo franco-magrebino 12 , é um dos estudiosos mais lidos e traduzidos no mundo, dentre as suas contribuições, a que mais no interessa são seus escritos sobre linguística e sua contribuição para a teoria da literatura, o descontrucionismo. Para compreendermos melhor o pensamento de Derrida, leiamos o que Lopes (2013) escreve sobre o descontrucionismo:

Essa abordagem hermenêutica é bastante complexa, como complexo é o pensamento de seu inspirador, Jacques Derrida. Entretanto, sua penetração nos meios acadêmicos tem sido tão grande que não podemos deixar de mencioná-la. O descontrucionismo é uma prática de leitura que parte da suspeita e do princípio de que todo texto, teoricamente, se autodestrói, pois ele representa os interesses de dominação de determinados grupos. Rejeita e busca descontruir qualquer noção de verdade que se proponha unitária, absoluta, universal, ou mesmo coerente. Concentra-se em achar “rupturas” ou inconsistências que tornam o texto contraditório ou sem sentido. É uma forma de subjetivismo ou niilismo. (LOPES, 2013.p.234)

O descontrucionismo de Derrida foi levado para várias áreas do conhecimento e , infelizmente, também para a exegese bíblica, embora pareça uma nova hermenêutica, o método histórico-crítico já vinha descontruindo o texto bílico a algum tempo.

12 Fonte disponível em : https://pt.wikipedia.org/wiki/Jacques_Derrida

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Um exemplo do trabalho da exegese descontrucionista é a análise que John Dominic Crossan apud Lopes (2013) faz da história de Davi e Golias, para o texto não nos permite saber se Davi enfrentou o gigante porque este desafiou a Deus, ou se era ele apenas um jovem ambicioso, motivado pelas promessas do Rei Saul, de recompensar quem enfrentasse Golias. Conquanto que uma leitura acurada de I Sm 17 abra a possibilidade de considermos Davi um jovem ambicioso, visto que, questiona alguns soldados sobre a recompensa a quem enfrentasse o gigante, uma motivação não desqualifica a outra. É sim possível, compreendermos que havia as duas motivações, contudo ressalta-se muito mais a sua motivação religiosa, além do mais, o aspecto principal da história é a vitória que Deus concede a ele, as suas motivações são secundárias. Em resposta as teorias de Gadamer, Ricoeur e Derrida, que de certa forma, norteiam a hermenêutica secular, alguns pensadores tem tentado retomar a intenção do Autor, entre eles, o Doutor Eric Donald Hirsch (1928). Hirsch em sua teoria faz distinção entre o significado (intenção original do autor) e a significância ( aplicação alterável de um escrito a diferentes contextos). Com sua teoria, ele retoma o valor original do texto, opondo-se a autonomia do texto e proeminência do leitor na interpretação textual. Nas considerações finais iremos retomar esse tema. Conquanto pareça infrutífero para nós o estudo das teorias e filosofias atinentes a hermenêutica, todas elas trazem alguma luz para a exegese dos textos bíblicos. Embora algumas correntes importantes do cristianismo, como a reformada, entenda que o metódo histórico-gramático, por si só, é capaz de dirimir quaisquer óbices da interpretação bíblica, entendo que a exegese vai além do método mencionado. Por esta razão, a definição de uma metodologia que leve em conta os três vértices do triângulo da interpretaçãodo texto: o autor, o texto e o leitor; é

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necessária ser plenamente conhecida por todos aqueles que desejam conhecer profundamente a vontade de Deus expressa através da sua Palavra.

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10 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Viajamos muitos séculos na interpretação bíblica e vimos várias escolas hermenêuticas. Conquanto seja comum identificarmo-nos com algumas e estranharmos outras, mesmo as escolas pós-modernas, trazem-nos alguma contribuição, contudo, evidentemente, ao chegarmos ao fim da disciplina temos que construir alguns pensamentos norteadores da nossa própria exegese. Antes de entrarmos na hermenêutica, propriamente dita, retomemos a nossa premissa básica, o nosso “aproach” da Escritura, o que a Bíblia é para nós? Qual é a medida da sua influência sobre o nosso exercício da piedade? Nossas decisões, especialmente as relacionadas a fé, são fundamentadas na Palavra de Deus? Sem as respostas para estas perguntas, toda e qualquer questão de metodologia, de exegese ou regras hermenêuticas tornam-se de somenos importância. Feita essa reflexão de primordial inportância avancemos. A fé, como conhecemos hoje, é uma construção fundamentalmente do quatro primeiros séculos, portanto é impossível uma abordagem neutra as suas páginas, mesmo Jesus como os apóstolos fizeram uma abordagem cristocêntrica as Escrituras, no caso o AT. Sendo assim, a ideia de que é possível fazer uma exegese bíblica totalmente neutra que extraia somente o que os aspectos históricos- gramaticais trazem no texto é inexequível. Entranto uma exegese que ignore os aspectos históricos-gramaticais não é uma exegese honesta e apropriada à Escritura. Por esta razão faz-se necessário uma hermenêutica bíblica comprometida com o significado original, porém sem esquecer a sua significância para os nossos dias. Gostaríamos, para concluir, registrar cinco pontos irremovíveis no exercício da Exegese Bíblica. O primeiro é a Bíblia interpreta a Bíblia, o maior “esclarecedor da Escritura é a própria Escritura, nenhuma doutrina fundamental é

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abordada de forma obscura na Palavra de Deus, tudo que nos é necessário para o exercício de uma piedade sadia está muito claro na Bíblia. Segundo ponto, não destaque a passagem em análise dos seus contextos, sim contextos no plural pois são diversos. Nunca dissocie a passagem do seu contexto histórico, por exemplo: em que momento a passagem foi escrita? em qual lugar? a quem se dirigia? Qual a motivação original?. Não ignore o contexto gramatical; o contexto imediato, geralmente alguns versículos antes e depois da passagem, e o contexto remoto, qual o tema do livro em análise, por exemplo, nos evangelhos, o que o evangelista queria enfatizar? Portanto nunca interprete qualquer passagem fora dos seus contextos. Terceiro ponto, o que é inerrante e infalível são os autógrafos da Bíblia, qualquer tradução, ainda que possamos confiar integralmente nas traduções que nos chegam as mãos, é uma tradução e pode ter perdido um pouco da essencia original. Portanto, leia diversas traduções, estude o máximo possível, leia comentários e bons livros.

Quarto ponto, toda interpretação da Bíblia tem ao fim e ao cabo, a aplicação de princípios divinos ao viver cristão contemporâneo. Uma exegese que não leve ao crescimento intelectual e espiritual, não tem nenhum sentido, nenhum valor. Aproximar-se da Bíblia apenas para adquirir conhecimento só serve para a nossa própria condenação. Quinto ponto, a Bíblia é um livro tanto humano como Divino, além de todas as ferramentas linguísticas, procure auxílio do Espírito Santo nas suas interpretações. Uma vida santa de oração e jejum é imprescindível para a perfeita compreensão da Escritura.

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