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ironias sobre a Prînleira Grande Guerra, ou a~s produ~os ~e

Capitulo3
culturas asiaticas mais ricas, como as da ChlOa e da .Indla,

1 mas mesmo assim um papel real, que ainda flaO t:rm.m~u .e "Do .ponto de vista dos nativos"; a
1 qu
e foi e é à sua moda, bastante poderoso. E tambem mSlstlc
, '"dl natureza do entendimento antropol6gico
/, que, por isso, 0 etnografo de Bali, como 0 CfltlC~ e ~ne
Austen entre outras cois as, lem como objetîvo lflvesugar
aquilo ~ue 0 professor Trilling, naquele seu ulti~o, sinuoso
e interrompido ensaio, charnou de um dos ffilstenüS l~por­
tantes da vida cultural humana: como é que as criaçoes de
outras povas padern sec tao proximas a seus criadores, c, ao 1
mesmo tempo, e tao profundamente, UIna parte de nos.
Ha alguns anas, um pequeno escândalo iccompeu na
antropologia: urna de Suas figuras ancestrais falou a verdade
em publico. Como cabe a Um ancestral, de 0 fez posruma-
mente, por decisao de sua viuva e nao dele proprio. Este
deslize foi 0 bastante para que alguns conselVadores em
nosso mcio elevassenl a voz c clamassem que a viuva, tam-
bém antropôloga, havia traido 0 cla, divulgado seus segre-
dos, profanado Um idolo e decepcionado seus com-
panheiros. Um casa tipico de "0 que é que as crianças vao
pensac?" e isto sem indagar-se a que os leigos irîam pensac...
o damoe nao diminuiu COrn todo este cerimonial de esfrega
de lllaos pois, infeIizmente, 0 tex[o maldito ja tinha sido
publicado. 0 que realmente aconteceu foi que, mais Ou
menos coma James Watson, que, em The Double Helix,
confessou coma a biofisica funcionava na pcâtica;-'B ronislaw
Malinowski, cm A Diary in the Strict Sense of the Term, fez
cort! que os relatos oficiais sobre os métodos de trabalhc dos
antropôlogos parecessem bastante inverossimeis. 0 mito do
pesquisador de campo semicamaleiio, que se adapta perfei-
,tamente ao ambiente exotico que 0 rodeia, um milagre
iambulante em empatia, tato, paciência e cosmopolitismo,
:foi, de um golpe, demolido por aquele que tinha sido, talvez,
Um dos maiores responsâveis pela Sua cciaçâo.

o debate que se originou com a public~~iio do diirio


conceotcou-se, naturalmente, nos detalhes nao essenciais,
e, Como era de se esperar, ignorou a questao mais importan-
te que 0 livro continha.' Grande parte do choque parece ter

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Il
i sida conseqüência da ruera descoberta que Malinowski nao
.,
1!
i era, para expressa·lo de uma forma ddicada um sujeito l

~ muito simpatico. Dizia coisas bastante desagradaveis sobre


os nativos corn quern vivia, e usava palavras igualmente

.'
mais importante que
{. _
0 fi' 1
pro ISSJona . Durante estes anos as
~rm~Jaçoes do problema foram variadas: descriçoes q' ue
saD VIS tas "de dentro"
. _ versus as que sao vistas "de fora"
j1 descnçoes "na primeira pessoa" ' ou
!i desagradaveis para expressar estes comentarios. Passava " '" versus aquelas "na terceira
!1 grande parte do seu tempo de se jan do estar em outro lugar. pessoa; teanas fenomeno16gicas" ver"'us" b" '. "
" " " J.0 Jctivistas ou
cognttlvas versus "comporlamentais'" e tal . . '
E projetava uma inlagem de total intolerância, talvez UOla ~r ' " vez filaiS Comu-
das maiores intolerâncias do mundo, (Projetava tanlbéIn a mente, ana Ises "êmicas" versus analises "éticas" estas ulf-
mas resuItando de U d" - . ..,' 1
imageln de um homem que se consagrara a uma vocaçâo . _ ma IStlnçao ltngUlstica entre as
cIasStficaçoes fonêmicas ou fon ' t' d
estran ha a ponto de se auto·sacrificar por da, Illas isso e lcas os SOns de acordo
COOl suas funçoes internas na linguagem send ' c-
notava·se menas.) Corn tudo isso, baixou-se 0 nîvcl do . l' , 0 que a ,one-
debate, concentrando-o no carater - ou na falta de carater- tlca o~ c aSSlfica de acordo C0l11 suas propriedades acusticas
de Malinowski, e ignorando a questao profunda es.'WMil}a: propna~en,te ditas. A forma mais simples e direta de colocar
a questao c, talvez, vê-la nos terrnos de uma d' . _
~_~e~~e iIE.P5?rt~n~~.;que 0 livro havia levantado, isto é;, se nâo fonnul d 1 Istmçao
., é graças a algum tipa de sensibilidade extraord inaria a urna a a pe a psicanalista Heinz Kohut para seu ' .'
l
usa entre 0 qu '1 h propno
capacidade quase sobrenatural de pensar, sentir e perceber , e e e camou de conceitos da "expe .. .
1- ' . " d" .~ . nenCla-
° 111undo como um nativo (urna palavra, que, devo logo
IlJfOXUna e a expenencla-distante".
' dizer, usei aqui "no sentido estrito da tenno") coma é Um conceito de "eXRS!riência_nrôxima" ' mais
. ou me-
1 _. - --. -_..t-"_ ._ e,
i:" possivel que antropologos cheguern a conhecer a maneira nas, aque,e que alguém -unl paciente, Um sujeito, em nosso
',1 ~como UOl nativo pensa, sente e percebe 0 nlundo? A questâo casa um IIlformante - usaria natura ltnente e senl esforço
que 0 diario introduz, corn urna seriedade que talvez /
50 um p~ra defi~ir a.quilo que seus semelhantes vêem, sentem,
etnografo da ativa possa apreciar totalmente, nao é uma pensam, Ifllaglnam etc. e que de proprio entenderia facil-
1questao ética. (A idealizaçao moral de pesquisadores de mente, se Outros 0 Utilizassem da .
- " .~ , rnesma rnanelra. Um
campo é, cm si fileSl11a, puro sentimentalismo, quando nao conceuo de expenenCla-distante"" 1 . .
dl' e aque e que especlahstas
urna fonna de autoparabenizar-se ou uma pretensâo exage· e qua quer" tlpo - unl analista, Um pesquisador, Um etnô-
1rada.) A questao é epistemol6gica. Se é que vamos insistir- grafo, ou ate um padre ou um ideologista _ utilizam para
/ e, na r:ninha op~niao, devemos insistir - que é necessario que , !.~var a"c~bo seus obJetlvos c: entificos, filosoficos ou praticos
antrop610gos vejam 0 mundo do ponto de vista dos nativos, 1\mor. e um conceito de experiência-proxima- "catexia e~
onde ficaremos quando nao pudermos mais arrogar-nos um ohJeto" de experiência-distante_ "Estcatifica~ao social" e
alguma forma. unicamente nossa de proximidade psicol6- talvez para a maioria dos povos do mundo "rel- __" '
cert " ' , Iglao (e
igica, ou algum tipo de identificaçao transcultural corn nos- amente Slstema religioso") sâo de e " . d'
" "" _ xpenencla_ Istante'
/ sos sujeitos? 0 que acontece corn 0 verstehen quando ~ casta. e nIrvana" sâo de experiéncia-pr6xima, pelo meno~
einfühlen desaparece? ,' para hmdus e budistas.
Alias, este problema geral vern sendo terna de inumeros Obviamente, trata-se de uma questa-o d -
. - e grau nao de
debates na antropologia nos ultimos dez ou quinze anos; a Oposlçaoextrema-"medo""· ." '
"<ob'" «c b- " '
voz de Malinowski, do tumulo, simplesmente dramatizou a .1, la" e 10 la e malS. " expeenencla-proxÎIna
maIS expenencia-proxüna que
'''. ,
que "ego distô-
questâo, tornando-a um dilema humano que pas sou a ser nlCo / E, pelo menas Com relaçao à antropologia (no caso

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, da poesia e da fisica nao seria 0 mcsmo) a diferença nâo é
suas, e, de qualquer maneira, naD vao estar muito interes-
1i normativa, ou seja, um dos conceitos naD é necessariamente
. sados neste tipo de exerdcio. 0 que é importante é dcscobrir
melhar do que 0 outra, nem se trata de preferir um eOl vez
que diabos des acham que estiio fazendo.
do outro. Limitar-se a conceitos de experiência-proxima
deixaria 0 etn6grafo afogado em miudezas e preso em um Em um certo sentido, ninguénl sabe isto tao bem quanto
.1
emaranhado vernacular. Linlitar-se aos de experiência-dis- eles proprios; daÎ 0 desejo de nadar na coccente de suas
tante, por outra lado, 0 deixaria perdido cm abstraçôes e experiências, e a ilusao posterior de que, de aIguma forma,
sufocado corn jarg6es. A verdadeira questao - a que Mali- o ftzemos. Em outro sentido, no entanto, este truÎsmo
nowski levantou ao demonstrar que, no casa de "nativos", simples é simples mente falso. As pessoas usam conceitos de
nao é necessario sec um deles para conhecer um - rdada- experiência-proxima espontaneamente, naturalmente, por
na-se corn os papéis que os dois ripas de concciras desem- assim dizer, coloquiaImente; nao reconhecem, a naD ser de
. penhalTI na analise antropo16gica. Ou, mais exatamente, forma passageira e ocasional, que 0 que disseram envolve
como devem estes sec empregados, cm cada casa, para ,-' "conceitos". Isto é exatamente a que experiência-proxima
produzir uma interpretaçao do modus vivendi de um povo il significa - as idéias e as realidades que elas representam
que nao fique limitada pelos horizontes mentais daquele iestao natural e ind issoluvelmente unidas. Que outro nome
pava - urna etnografia sobre bruxaria escrîta por uma bruxa . poderiamos dar a um hipop6t~mo? É claro que os deuses
- nem que fique sistematicamente surda às tonaHdades de sao poderosos, se nao fossem, porque os temeriamos? A meu
sua existência - uma etnografia sobre bruxaria escrita por ver, 0 etn6grafo nao percebe - principalmente nao é capaz
um geômetra. de perceber- aquilo que seus informantes percebem. 0 que
de percebe, e mesmo assim corn bastante insegurança, é 0
Colocando a questao nestes tecnlOS, ou seja, indagando-
"corn que", ou "por meios de que", ou "através de que" (ou
se quai a melhor maneira de conduzir urna anilîse antrop?-
seja la quaI for a expressao) os outros percebem . Em pais de
lôgica e de estruturar seus resultados, enl vez de inquirir que
cegos, que, por sin al, sao mais obselVadores que parecem,
tipo de constituiçiio psiquica é essencial para antrop610gos,
quem tem um olho nao é rei, é um espectador.
torna-se 0 significado de "ver as coisas do ponto de vista dos
nativos" menos misterioso. Isto nao significa que a questao A seguir, para tornar tudo isto um pouco mais concreta,
fique mais facil de responder, nem que a necessidade de gostaria de referir-me por uns momentos a meu proprio
perspicacia por parte do pesquisador de campo diminua. trabalho, que, sejam quais forem seus defeitos, tem pelo
Para captar conceites que, para outras pessoas, sac de expc; menos a virtude de sec meu - 0 que, em discussôes deste
riência-pcôxima, e fazê-lo de urna forma tao eficaz que nos tipo, nao deixa de sec urna nÎtida vantagem. Em todas as três
permita cstabelcccr uma conexâo esclarecedoca corn os sociedades que estudei intensivamente, a javanesa, a baline-
conceitos de expeciência-distante criados por teoricos para sa e a rnarroquina, tive camo um dos meus objetivos princi-
captac os elementos mais gerais da vida social, é, sem duvida l ~ pais tentar identificar coma as pessoas que vivem nessas
urna tarefa tao delîcada, embora um pouco menos misterio- sociedades se definem coma pessoas, ou seja, de que se
sa, que colocar-se "embaixo da pele do outro". 0 truque é compôe a idéia que elas têm (mas, como disse acima, que
nao se deixar envolver poc nenhum tipo de empatia espiri-. naD sabem totalmente que têm) do que é um "eu" no estHo
tual interna corn seus infÛrmantes. Como qualquer um de javanês, balinês ou marroquino. E, em cada um dos casos
n6s, eles também preferem considerar suas almas coma tentei chegar a esta noçâo tao profundamente Întima, na~

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imaginando ser urna o utra pessoa - um camponês no arro- da é uma id éia bastante peculiar. Em vez de tentar encaixar
zal, ou um sheik tribal - para depois descobrir 0 que este a experiência das outras c uIturas den [Co da moldura desta
pensaria, nlas sim procuranda , e depois analisando, as for- • nossa co ncepçao , que é 0 que a tao elogiada "empatia" acaba
mas simbOlicas - palavras, imagens, instituiçoes, compona- faze ndo, para entender as concepçôes alheias é necessano
roentos - em cujas termos as pessoas realmente se repre- que deixemos d e lado nossa concepçao, e busquemos ver as
sentam para si mesmas e para os outras, em cada um desses experiências de o u tros corn relaçao à sua propria concepçâo
lugares. do "eu ". Pelo m enos no casa de J ava, Bali e Marrocos, esta
o conceito _<le pessoa é, na realidade, um veiculo exce- concepçao difere sig nificativam ente nao s6 da nossa, como
lente p~ ë;aminar (oda esta questao relacionada corn a também - de form a nao menos dramâtica e COOl igual valor
andar poe ai, invesrigando 0 que passa pela mente alheia. didâtico - e n tre si.
Enl prirnciro lugar, sentimo-nos razoavelmente seguros para
afirmar que algunl tipo de conceito desta categoria existe,
e m forma reconhecivel, entre todos os grupos soci.is. Algu- II
mas vezes, as ooçoes q ue as pessoas têm sobre 0 que é ser Em J~~i! , onde trabalhei nos anos 50, esrudei uma ilha
uma pessoa padern parecer, do nosso ponto de vista, bas- pequena e pobre, que era uma espécie de sede de um
tante estranhas. U os acreditalTI que pessoas voaffi de um lado condado: duas ruas e nsolaradas, prédios de madeira caiados
para outra, durante a noite, na forola de vaga-Iumes. O u tras de branco, o nde funcianavam lojas e escritorios e, atrâs
acham que elenlentos essenciais de sua psique, tais coma 0 destes, barracos de bambu ainda nlais pobres, arnon toados
6dio, estao localizados em c6rpulos negros e granulares desordenadamente. 0 conjunta era rodeado por um grande
dentro de seus figadas, 56 d escobertos através de aut6psi~. meio-drculo de aldeias densamente povoadas, onde planta-
Outros crêem compartilhar seu des tino com animals doppel- va-se acroz. A terra era pouca, os empregos raros, 0 sistenla
giinger, de Inodo que, quando 0 aninpl adoece o u morre, polftico instâvel, a saûde de rnâ qualidade, os preços subiam,
des também adoecem ou morrem. No entanto, é minha c m su ma, a vida, de um modo geral nao efa li muito
expeciência, que a concepçao do que é um individuo hUlna- promissara. Havia uma espéde de estagnaçao agitada na
no, em contraste corn a que é urna pedra, um animal, urna quai, coma observei certa vez referindo-nle à curiosa mistura
floresta tropical, ou um deus, é um fenômena universal. Ao de fragmentas importados de modecnidade e reliquias da
mesmo tempo, coma estes exemplos selecionados aleatoria- tradiçao ultrapassada que caracterizavam 0 hlgar, 0 fururo
mente sugerem, as concepçoes em questao variam de cm parecia quase tao remoto camo 0 passado;;No meio d este
grupo para 0 outra, e, freqüentemente, existem diferenças ceh:irio d eprime nte , no entanto, havia urna vitalidade inte-
profundas entre elas. Por mais que, para nos ocidentais, a l lecrual absolutamente surpreendente, uma verdadeira pai-
concepçao da pessoa coma um univ"erso cognitivo e motiva- l
\., xao fùos6fica[ ""aixao
' 1'

que, além d.sso, era popu1ar, con-
donal delimitado, unico, e mais ou menos integrado, um centrada em .descobrir, a fundo, os enigmas existenclalS.
centra dinâmico de percepçao. emoçâo, jui2:os e açôes, Carnponeses · mÎserâveis discutÎam questôes relacionadas
organizado em uma unidade dis tinta e localizado eOl uma corn ci livre-arbitrio, comerciantes analfabetos falavam sobre
situaçao de contraste corn relaçao a outras uJ1idades seme- as qualidades de Deus, lavradores comuns tinham ceorias
lhantes, e corn seu ambiente social e natural especifico, nos sobre a relaçao e ntre a razao e a paix3.o, a narureza do tempo
pareça correta, no contexto geral das culturas do nlundo, o u a confiabilidade dos sentidos. E, talvez ainda m ais impor-

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· .: ~~

t
~ tante, buscavaln, avida.mcnte, respostas para 0 problema do abjeto d e que eStat110S conscientes. Refere-se mais a partes
1
, eu - sua natureza, sua funçâo e seu modus ojJerandi - corn da vida humana que, cm nassa cuJtura, sac esrudadas par
,! um tipo de intensidade rdlexiva que , entre nôs, encontra- comportanlentalistas radieais - as aç6es extemas, os movi-
" mos somente eln ambientes altanlcnte sofisticados. mentos, a postura, a linguagem falada. Esta também, em sua
l'
:1
As idéias centrais cm cujas tcernas estas rcfiexoes se
desenvolviam e que, portanto, definiam seus limites e 0
essência, era considerada igual para todas os indivîduos. Os
dois grupos de fenômenos - sentimentos internas e aç6es
extc::rnas - sâo, portanto, cansiderados nao camo funçôes
:; significado de "pessoa" para os javaneses, eram dispostas cm
dois conjuntos contrastantes, que tinham eOOlO base a reli- um do outro, mas coma esferas independentes do ser, que
giao: um , entre "dentro" e "fora" e 0 outro enrre "refinado" devem ser postas na ordem apropriada também de forma
independente_
e "vulgar". Estas palavras sao, é clara, toscas e iInprecisas ; a
determinaçao exata do significado dos termas envolvidos, É em conexâo corn esta "ordem apropriada" que 0
selecionando suas vârias nuanças, cra 0 te ma principal das contraste entre a/us, palavra que significa "puro", "refina-
discussoes. No enranto, conlO um conjunro, elas formavam do", "polido", "belo", "etéreo", "suril", "civilizado" e "suave"
uma concepçao espedf1ca do "eu" que, longe de ser simples- e kasar, que significa "indelicado", "grosseiro", "nao-civiliza-
mente teorica, era a concepçao através da quai os javaneses do", "âspero", "insensivel", "vulgar", tem sua importância. A
realnlente se "viam" uns aos outras, e também a si proprios. 1meta do ser humano é ser a/us nas duas esferas do "eu". Na
As palavras javanesas para "dentra"!'fora", batin e /air esfera interior, chega-se ao a/us através da disciplina religio-
(originalmente inlportadas da tradiçao sufi da misticisma sa, que é bastante, embora nâo totalmente, mfstica. Na esfera
muçulmano, mas modificadas localmente) referem-se, por exterior, chega-se , ~ ser a/us por meio da etiqueta, cujas
um lado, à es fera das sentimentos na experiência humana, regras, em Java, sâo extraordinariamenre complicadas e rem
e, par outra, à esfera do comportamento hunlano observa~ quase a autoridade de leis. Através da meditaçiio, 0 homem
do. Apresso-me a esclarecer que essas palavras nao têm civilizado dilui sua vida emocional até transforma-la em um
qualquer conexâa conl "alma" e "corpo" no sentido que zumbido constantej através da etiqueta, ele nao 50 protege
damas a estes termas; para tais conceitos, existem outras esta vida emocional das interrupçôes externas, mas também
palavras em javanês, corn implicaçôes bastante diferentes. regulariza seu comportamento externo para que este passa
Bgti!} , a palavra que significa "dentro", nao se refere a um parecer, aos 01h05 alheios, previsîvel, serena, elegante, e um
1 local separado de espiritualidade encapsulada, que se cies- conjunto meio frivolo de movimentos coreografados e ma-
taca, ou pode ser destacado do corpo, nem mesmo a qual- neiras de falar estabelecidas.
quer unidade corn limites, mas sim à vida emocional dos Coma estes conceitos sao também parte de uma ootolo-
seres humanos de um modo geral. Consiste no fluxo impre- gia e estética especificas incluem muitas outras sutilezas
ciso e mutante dos sentimentos subjetivos, percebido dire- secundirias. Com respeito a nossa problematica - a concep-
lamente em toda sua proximidade fenomenologica, mas, çiio do eu - 0 que ternos aqui é uma concepçao bifurcada,
pelo menos em suas raizes, considerado idêntico para todos sendo uma de suas partes constitufda por sentimentos meio
;6s individuos, cuja individualidade ele faz desaparecer. Da sem gestos, e a outra por gestos meio sem sentimentas. Um
/!"esma forma, 1....l!..Î;!, a palavra javanesa para "fora ", nao tem munda interior de emoçâo contida e um mundo exterior de
qualquer relaçâo corn 0 corpo camo um abjeto, mesmo uro comportamento estruturado se confrontam sob a forma de

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esferas profundamente distintas entre si, e qualquer indivi- e tornaram os balineses um povo muito mais tcarral. cOin
duo nad a maÎs é, por assim dizee, que um locus rempad.rio uma conccpçâo do eu também lcatral. 0 que é fi losofia cm
"! . para este confronta, urna expressao momentânea da propria Java é tcatro cm Bali.

il existência destas duas partes, de sua separaçao permanente , A conseqüência disto é que, cm Bali, existe un1 esforço
e de sua llccessidade, também permanente, de serem man- persistente e sistematico para estilizar todas as formas de
tidas cm uma ordem apropriada. Somente quando se pre- e.xpressâo pessoal a um ponta tal, que qualquer coisa idios-
sencia, como eu presenciei, um jovem cuja esposa tinha sincratica e caracteristica do individuo par ser ele quem é,
tnorrido subita e inexplicavelmente - e esta esposa tinha sida fisica, psicolôgica ou biograficamente, é emudecida, privile-
criada por de e fora sem pre 0 centro de sua vida - receber giando-se 0 papeI que ele desempenha no cortejo perma-
convidados com um sorriso fixa e desculpas formais pela nente, e, na visao dos baHneses, imutavel, que é a vida
ausência da esposa, tentando, corn técnicas misticas, aplaÎ- balinesa. Sao as dl'ama~is personae, mio os atores, que
nac _ como ele mesmo se expressou - as colinas e vales de persistem; na verdade, sao as dramatis personae, e nao os
suas emoç6es para transformâ-Ias em uma planicie (Ué 0 que atores que realmente existem no sentido exato da palavra.
temos que fazer", disse de, "estar pIano, por dentro e por Fisicamente, os homens vao e vêm, meros incidentes na
fora") pode-se, frente a nossas prôprias noçoes sobre a historia conjuntural, sem nenhuma importância real, nem
intrtnseca honestidade de um sentinlento profundo, e a para si nlcsmos. As m~~ que usam, no entanto, 0 lugar
ilnportância nloraI da sinceridade pessoal, levar a sério esta que ocupam no palco, os papéis que desempenhanl, e, ainda
concepçâo do eu, e apreciar este tipo de poder, por mais
inacesslvel que este lhe pare ça.

III
l mais importante, 0 espetaculo que montam juntos penna-
necem e compreendem nao a fachada, mas sim a substância
das coisas, inclusive a do eu . A visao de antigo membro de
trupe que Shakespeare tinha sobre a futilidade da açao
di ante da mortalidade - 0 nlundo é um palco, e nôs somente
pobres atores, fclizes em pavonear-nos, e assim por di ante -
BaH onde trabalhei a prindpio em urna outra cidadezi-
nao faz sentido em Bali. Nao existe faz-de-conta; é daro que
nha'p;c:-~inciana, embora um pouco menos mutante e depri-
os atores morrem, mas a peça continua, e é 0 que foi atuado,
mente, e depois em uma aldeia na regiao mais alta da ilha,
nao quem atuou, que realmente impacta.
cujos habitantes eram fabricantes altamente qualificados de
instrumentos musicais, é, em muitas cois as, semelhante ~ Vma vez mais, rudo isto se manifesta através de unla série
Java, cuja cultura compartilhou até 0 século XV No entanto, de formas simbôlicas facilmente observaveis, um repertôrio
em um nfve! mais profundo, é também bastante diferente, elaborado de designaç6es e titulos, e nao através de um
pois permaneceu hindu, enquanto que Java, pelo menos em estado de espirito geral que 0 antrop610go, em sua suposta
nome, se tornou islâmica. A vida rituaI complexa e obsessiva versatilidade espiritual, consegue de alguma maneira captar.
_ hindu, budista e polinésia em proporçôes mais ou menos Os balineses tém pelo menos mda duzia de tftulos princi-
iguais - cujo progresso foi quase interrompido em Java, pais, atribuidos, fixas e absolu tas que urna pessoa usaria
deixando que seu espirito fndico se tornasse reflexivo e para designar uma outra (ou , é clare, a si mesma) como parte
fenomenologico, corn tendência ao silêncio, coma na estoria de seu grupo. Existem marcadores para a ordem do nasci-
que acabo de descrever, floresceu em Bali atingindo niveis menta, termos de parentesco, titulos que determinam a
de grandeza e extravagância tais que assolnbraram 0 mundo

94 95
casta, indic adores do sexü, e tecnônimos, e muitas outros quarra: "0 primeiro, 0 segundo, 0 terceiro e 0 quarto natas.
mais, e cada um deles constitui, naD unl mera conjunto de • Depois dissa, inicia-se outra vez a série, e os filhos que
"1 etiquetas uteis e ocasionais, mas sim um sistema tenninoI6- nascerem enl quinto e sexto fugar, serao, outra vez, chama-

1,
gico distinto, delimitado e internamente muita complexa.
Quando se usa uma dessas designaçôes ou um desses titulos
(ou, como é mais comum, varios de/es) referindo-se a al-
1 dos, respectivamentc, de primeiro c segundo natos. Além
disso, os nomes sao dadas irrespectivamente aa destina que
tenham as crianças. Assirn, crianças que morrem, mesmo as
guém, define-se este alguém como um ponto determinado que morrem ao nascer, entram na nomencIatura, e, portan-
cm urna estrutura fixa, 0 ocupante temporario de um locus to, em um pais onde existem ainda altos indices de natalida-
cultural, bastante permanente e especifico. Identificar al- de e de mortalidade infantil, os nomes, par si sôs, nao dao
guém cm Bali, seja 0 proprio sujeito ou urna outra pessoa, urna idéia muito confiavel da ordem de nascimento verda-
é determinac seu lugar cm um elenco conhecido de perso- deira de individuos concretos. Em um grupo de irnl aos,
nagens - "cci", "ava", "0 terceiro filho", "brâmane" - que alguém que é chamado de primeiro-nato, pode, na realida-
inevitavelmente compôem 0 drama social, como se este de, ter nascido em primeiro, quinto, ou nono lugar, ou , se
fosse nada mais que alguma peça - do tipo de Charley's aunt morreu alguma cciança, em qualquer lugae intermediacio
ou Springtime for Henry - exibida pelas estradas por um entre estes três; ou alguém conl 0 naIne de segundo-nato
grupo de saltimbancos. pade ser, na verdade, 0 mais velho. A nomencIatura da
o drama naD é, obviamente, urna farsa, e principalmente \ ordem de nascimento nao identifica individuos camo indi-
nao é urna farsa de travestis, embora nele existam elementos ( viduos, nem é esta sua intençao; a que f~z é sugerir que em
(.de am bas. É uma representaçâo da hierarquia, um teatro do ~, todos os casais que procriam os nascimentos forrnam urna
1status. Infelizmente, neste ensaîo, naD nos é passivel descte- sucessao circular de "primeiros", "segundos", "terceiros" e
ver as caracterÎstîcas desta representaçâo, embora entendê- "quartos", umaréplica continua e em quatro estagios de urna
la seja essencial para compreender os balineses. Aqui, nos . forma imperecivel. Fisicamente, os homens aparecem e de-
limitaremos a dizee que, tanto em sua estrutura, como na I saPa:ecem coma coisas efêmeras que sao, mas, socialmente,
1 os ounleros que os representam permanecem etemamente
fonna em que operam, os sistemas tecmino16gicos condu-
zem a uma visao da pessoa humana como um representante ! os mesmos, à medida que novas "primeiro-natos" ou "segun-
1 do-natos" emergem do mundo atemporal dos deuses para
adequado de um tipa genérico, e nao como uma criatura
unica, corn um destina espedfico. Acompanhar este proces- substituir aqueles que, ao morrer, dissolvem-se, ulna vez
50, ou seja, como os sistemas tennino16gicos tendem ;.a mais, naquele mundo. Eu diria que todos os sistemas de
obscurecer as materialidades - biol6gicas, psicol6gicas ,e titulos e designaçôes funcionam da mesma maneira: eles
hi~t6ricas - da existência individual, privilegiando as qualij representam os aspecros da condiçâo humana que estâo
dades padronizadas do status, exigiria uma aniilise extensa, mais ligados ao passar do tempo, camo meros ingredientes
Talvez um unico exemplo, simplificando ainda mais a parte cm um presente eterno que os ilumina camo as luzes em
mais simples do processo, passa sec suficiente para dar uma um teatro.
idéia de seu funcionam"e nto. Nem mesmo a sensaçao que os balineses têm de estar
Todos os balineses recebem aquilo que poderiamos chà- sempre em um palco é assim tao vaga e inefavel. Ela é
mac de nomes relativos à ordem do nascimento. Estes sâo expressa corn exatidao par um de seus conceitos de "ape-
{\ riência-prôxinla" mais comuns: 0 lek. Lek foi traduzido de

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varias maneiras, na maioria das vezes incorrelaluente ("ver- de filInes americanos seOl os bares e os vaqueiros. Uro outro
gonha" é urna das traduçôes mais conhecidas), nlas seu tipo de "eus" eompletamente diferentes. Meu trabalho ali,
significado mais aproximado é algo assim como 0 que cha- que começou em meados dos anos 60, concentcou-se cm
marnos de "nervosismo de ator". 0 nelVosismo de atoe, uma cidade de tamanho médio, aos pés da cordilheira de
como sabemos, consiste naqude medo que atoees sentem Atlas, cerca de umas vinte milhas ao sul de Fez. 0 lugar é
de que, por falta de téeniea ou de autoeontrole, ou talvez antigo, fundado provavelmente no século X, planejado até
por unl sitnples acidente, nao sejam capazes de manter a mesmo antes disso. Nnda conserva os muros, os portôes, os
ilusao estética, deixando, assim, que 0 ator apareça por tras minaretes estreitos que se elevam até às plataformas de onde
do pape! que desempenha. Se falha a distâneia estética, 0 os fiéis SaD cham ados para a oraçao, todos elementos carac-
publieo (e 0 ator) pcidem de vista Hamlet e em seu lugar, teristicos de uma cidade muçulmana cIâssica. Pelo menas à
para deseonforto geral, vêem um gaguejantejohn Smith que distância, 0 lugae é bas tante bonito: urna fonna oval irregular
alguém erroneamente colocou para fazer 0 papd de princi- profundamente branca, localizada em um oasis onde eres-
pe da Dinamarca. Em Bali, acontece 0 mesmo: 0 que se terne cern olive iras de um verde de fundo de mac. As montanhas,
é que 0 desempenho, em publieo, do papel para 0 quai que ali silo cor de bronze e de pedra, se elevam por tras deste
fOlnos sdecionados por nossa posiçao cultural, seja um oasis. Vista de perto, a cidade é Olenos imponentc, mas mais
fracasso, e que a personaIidade do individuo - ou 0 que nos estinlulante: um labirinto de passagens e cuelas, très quartos
oeidentais ehamariamos de personalidade, ji que os baline- das quais sem saida, rodeado por prédios que têm a aparên-
ses nao 0 fariam, pois naD acreditam nisso - se roolpa, cia de muros e lojas à beira das calçadas, tudo isso repleto
dissolvendo sua identidade pùbliea estabeleeida. Quando COIn Uina variedade simplesmente surpeeendente de seres

isso acontece, C0010 às vezes acontece, sente-se a proximi- huolanos extremamente simpaticos. Arabes, berberes e ju-
dade do Olomento corn urna intensidade excruciante, e as deus; alfaiates, boiadeiros e soldados; pessoas que saem dos
pessoas , subita e relutantemente, tocnam-se criaturas eeais, escritorios, dos mercados, das tribos; rieos, super-ricos, po-
mutuamente constrangidas, como se, de repente, tivessem bees e superpobres; nascidos no local, imigrantes, imitaçoes
se flagrado nuas. É 0 medo do faux pas, que se toma muito de franeeses, medievalistas acirrados, e em algum lugar, de
mais provâvel devido à ritualizaçao extcaordinâria da vida acordo com 0 censo oficial do governo para 1960, um piloto
cotidiana, que mantém 0 intercâmbio social sobre trilhos de aviao, judeu e desempregado. Nas casas, um dos grupos
deliberadamente estreitos, e protege 0 sentido teatral do eu mais esplêndidos de individuos fortes e vigorosos que jamais
da ameaça destruidora implicita naquela prcximidade e vi. Ao lado de Sefcou (este é 0 nome da cidade) Manhanan
espontaneidade, que nern meS1UO 0 cerimonial mais exacer~ parece quase monotona.
bado pode eliminar totalmente dos eneontros face a face d~ Porém, nenhuma sociedade consiste unicamente de ex-
cotidiano . . rr;
cêntricos anônimos que se tocam e ricocheteiam como bolas
de bilhar, e os marroquinos também têm seus meios simbo-
lie os de separar gentes umas das outras e de identifiear 0
IV
que é que significa ser urna pessoa. Um dos meios .mais
Marrocos Oriente Médio e clima seco, em vez de Asia importantes - que nao é 0 unico, mas que eu considero 0
Orieru-~i- e cli:na ùmido. Extrovertido, fluido, ativo, masculi- mais itnportante e sobre 0 quaI gostaria de falar neste ensaio
no, exageradamente infoffilal. Um tipo do oeste selvagem - é uma forma lingüistica peculiar chamada, em arabe, de

98 99

l
.
Il
\
,
nisba. A palavra deriva de uma raiz triliteral, n-s-b, para
"atribuiçao", "imputaçâo", "relaçao", "afinidade", "corre Ia-
çao", "cone.xâo", "pacentesco" . Assim, Nsïb quer dizce "pa-
rente por afinidadc"; nsab significa "atribuir ou imputar a";

conhecido, ou dele se soubesse alguma coisa, mas nao se
soubesse sua nisba . Na verdade, é mais provâveI que os
habitantes de Sefrou ignorem 0 padrao econômico de um
homem, sua faixa etâria, seu carater pessoal, ou onde eie
"munisaba" quer dizce "urna relaçâo", "uma anaJogia", "urna vive, do que sua nisba, ou seja, se eie é Sussi ou Sefroui,
1 correspondência"; mansüb quer dizee "pertencer a", "fazen- Buhadiwi ou Adluni, Harari ou Darqawi. (Com relaçâo a
do parte de". e assim poe diaotc, corn cerca de urna duzia de mulheres que nao sejam parentes, a nisba seria provavei-
derivados, desde nassab, ("genealogista") até nisbiya ("re- mente a unica coisa que uro homem saberia deIas - ou, para
latividade [fisicaJ") . ser mais exato, a unica coisa sobre e1as que Ihe seria permi-
A palavra nisba, propriamente dita, refere-se portanto a tido conheccr.) Os "eus" que se atropelam e se acotovelam
um processo de combinaçâo morfologica, gramatical e se- nas rudas de Sefrou adquirem sua definiçâo através das
mântica que consiste cm transformar urn substantiva naqui- relaçôes associativas COIn a sociedade que os circunda, rela-
10 que nos chamacfamos de adjetivo relativo, mas que, para ç6es essas que Ihes sâo atribuidas. Sao pessoas contextuali-
os arabes, é simples mente um outro (ipo de substantiva, zadas .
acrescentando-se i (ou iya, na forma feminina); SefrulSefrou; A situaçâo, no entanto, é ainda mais complicada; nisbas
sefruwi/filho nativo de Sefrou; Sus/regiâo do sudoeste mar- tornaro os homens relativos a seus contextos, mas, coma os
roquino -susi/bomem nascido nessa regiâo Beni Yazgal uma pr6prios contextos sâo relativos, as nisbas também passam
tribo perto de Sefrou - Yazgi/um membro dessa tribo; Ya- a sec celativas, e rudo, por assim dizee, é, portanto, elcvado
hudlo povo judeu como um povo, Yahudilum ûnico judeu; a urna segunda potência - eclativismo ao quadrado. Assim,
Adlunl sobrenome de uma famllia importante em Se- cm um nivel, todos os nascidos cm Sefrou têm a mesma
froulAdlunilum membro dessa famllia. Este procedimento nisba, ou pelo menos em potencial - isto é, todos sao
. naD se limita a esta simples "etnizaçâo" de substantivas, mas Sefroui. No entanto, na propriacidade, estanisba, justamen-
também pade sec utilizado cam uma variedade enarme de te porque nao discrimina, nao seca nunca utilizada camo
palavras para atribuir relaç6es de propriedade às pessoas. parte de uma designaçâo individual. S6 fora de Sefrou a
Por exemplo, ocupaçâo (hrar/seda - hrarilmercador de relaçao corn este contexto espedfico passa a sec capaz de
seda) , seita religiosa (Darqawa/uma innandade mistica - identificar um ind,viduo em particular. Em Sefrou, portanto,
Darquat!'i/um adepto dest .. irmandade ou um estado espi- ele sera Adluni, Alawi, Meghrawi, Ngadi, ou qualquer outra
rimai), (A/ilo genro do Profeta - Alawi/um descendente do nisba des te nive!. E dentro de cada uma destas categorias
genro do Profeta, e, por conseguinte, também do proprio sucede exatamente a mesma coisa. Ha, par exemplo, doze
Profeta). nisbas diferentes (Shakibis, Zuinis e outras) através das quais
Uma vez fonnadas , as nisbas sao normalmente incorpo- os Sefcou Alawis, em suas regi6es, se distinguem entee si.
radas aos nomes pessoais - Umar Al-Buhadiwi/Umar da tribo Todo 0 processo esta longe de ser regular; que nivel ou
Buhadu; Muhammed A1-Sussi/Muhammed da regiâo Sus - e i tipo de nisba seca usado, ou parececa celevante ou apcopria-
este tipo de classificaçâo adjetival atributiva é gravada publi- do (para os que as usam, é claro), dependera total mente da
camente como parte da identidade de um individuo. Nâo situaçâo. Um conhecido meu que mocava em Sefcau e tra-
pude encontrar sequer um caso em que um individuo fosse balhava cm Fez, mas efa originario de uma tribo Beni yazgha

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das proxirnidades - além disso era da subsubfraçâo Wulad difeeeotes que SaD encaixados icregulaemente para gecar um
Ben Ydir, da subfraçao Taghut da linhagem Hima - era desenho global complexo, no qual a diferença individual de
conhecido como Sefroui por seus cornpanheiros de trabalho cada fragmento permanece intacta. Sendo diversa mais do
em Fez, como yazghi, por todos os niio Yazghis em Sefrou, que qualquer outra coisa, a sociedade marroquina naD ad-
como Ydiri por todos os outros Beni Yazghas que por a1i ministra sua diversidade ftxando-a cm castas, isolando-a cm
viviam, a nao sec por aqueles que vinham, eles proprios, da tribos, dividindo-a cm grupos étnîcos , ou cobrindo-a corn
fraçiio Wulad Ben Ydir. Estes 0 chamavam de Taghuti , en- algum conceito denominador-comum como a nacio-
quanto que, é dara, os outras pOlleos Taghutis 0 chamavam nalidade, embora todos estes sistemas tenham sido experi-
de Himiwi. Em Marrocos, as nisbas paravam ai, mas Marro- mentados de fonna esporadîca. Gecencianl a diversidade
cos nao é 0 limite até onde padern ir. Sc , por acaso, nosso distin- guindo, corn uma precisao elaboeada, os contextos-
amigo viajasse para 0 Egito, cie se transformaria cm um · 0 matrimônio, a devoçao religiosa c, até certo ponto, a dieta,
Maghrebi, a nisba formada corn a palavra que, cm arabe, as leis e a educaçiio - nos quais os homens siio segregados
significa Mrica do Norte. A contextualizaçao social das pes- por suas diferenças; e outros - 0 trabalho , a amizade , a
saas é difusa, e na sua maneira curiosamente nao-rnet6dica poHtica e 0 comércio - onde, ainda que corn desconfiança e
acaba sendo sistematica. Os homens nao flutuanl como condicionalmente, sao unidos por elas.
entidades psiquicas fechadas, que se des tac am de seu con-
Para este tipo de estrutura social, uma concepçao do eu
tcxto e recebem nomes individuais. Por mais individualistas
que marca a identidade publica contextualmente e relati-
e até obstinados que sejam os marroquinos - e na verdade
vistîcamente, Inas 0 faz em condiçôes - tribais, territoriais,
! 0 sao - , sua identidade é um atributo que tomam empresta- lingüisticas, religiosas e familiares - que se desenvolvem nas
do do cenario que os rodeia. esferas privadas e estabelecidas da vida, onde têm urna
Corno 0 tipo de bifurcaçiio fenornenolôgica da realidade ressonância peofunda e penuanente, parece ser particu-
dos javaneses, corn seus dentro/fora e suave/tosco, e 0 larmente apcopriada. Na verdade, parece que a prôpria
sisterna de titulos dos balineses que absolutiza, 0 modo estrutura social cria esta concepçâo do eu, jâ que produz
nisba de olhar as pessoas - como se estas fossem contornos situaçôes onde as pessoas interagem em teernos de catego-
à espera de sercm preenchidos - nao é um costume isolado rias cujo significado é quase totalmente posicional, um lugar
e sim parte de um tipo de estrutura que abrange toda a vida no mosaico global, que deixa de lado, como a1go que deva
social. Esta eSlrutura, como as de Java e Bali, também é ciificil !:ter cuidadosamente escondido em apartamentos; templos e
de ser caracterizada de forma sucinta. Mas um de seus tendas, 0 conteudo substantiva das categorias, ou seja, 0 que
. elementos principais é, certamente, 0 fato de que existe, cm elas significam subjetivamente como modos de vida experi-
situaç6es publicas, uma promiscuidade confusa de uma mentados . As discriminaç6es da nisba podem ser mais ou
variedade de seres humanos que, na sua vida privada, sao menos espedficas, indicar 0 local do fragmento no mosaico
cuidadosamente segregados: um cosmopolitismo exacer- de forma aproximada ou exata, e adaptar-se a quase todos
bado nas ruas, e um comunalismo estrito dentro de casa (do os tipos de mudanças de circunstâncias. Niio podem, porém,
quai a famosa segregaçiio das rnulheres é apenas 0 exemplo dar muito tuais que uma idéia geral, um esboço ou contorno
mais obvio). Este é 0 chamado sistenla mosaico de organiza- do tipo e caracee dos honlens a quem os nomes sao atribur~
çâo social freqüentemente considerado caracterîstico do dos. Chamar urn hornem de Sefroui é como chama-Io de
Oriente Médio coma um todo: fragmentos de formas e cores

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'1 francisca~o: 0 nome 0 cIassifica, mas nao estabelece con10 tos de vista, experiências? Se afinnativo, em que sentido? 0
1 de éj localiza-o, sem cetrata-Io. que é exatamenle que afirmamos quando dedaramos COffi-
É justarnente esta capacidade do sisterna de nisbas - a preender os meios semiôticos atcavés dos quais, nesses
de criar urn contorno no quai as pessoas podern ser inseridas casos, as pessoas se definem e sao definidas pelas Outras;
de acordo corn caracterlsticas que, supostamente, lhe sao / que entendemos as paJavras ou que entendemos as mentes?
inerentes (fala, sangue, fé, proveniência, e outras mais) , e ao Para responder a esta pergunta, creio ser necess:irio,
mesmo tempo minimizar 0 impacto que estas caracterîsticas primeiramente, observar que 0 movimento intelectual carac.
têm na determinaçâo de relaçôes praticas entre essas pes- teristico, e 0 ritmo conceptual interno de cada uma dessas
soas em mercados, lojas, esccitocios, no campo, em cafés, anilises, e até de todas as analises semelhantes - mesmo as
banhos publicos, e estradas - que 0 toma tao essencial para ,de Malinowski - é um borde jar dialético contÎnuo entre 0
, a concepçiio rnarroquina do eu . A categorizaçiio do tipo menor detaIhe nos loéais rne-o';res, e ;-m~is gl~baI das
nisba conduz, paradoxalmente, a um hipecindividualismo estruturas globais, de tal forma que ambos possam ser
nas relaçôes publicas, pois, ao proyer unicamente um con- observados simultane amen te. Na tentativa de descobrir 0
torno vazio e até mesmo mutante de quem SaD os atores - significado do eu para os javaneses, balineses e marroqui.
Yazghis, Adlunis, Buhadiwis, ou seja la quern for - deixa todo nos, osdlamos incansavelmente entre um tipo de miudeza
o resto, ou seja, praticamente rudo, para ser preenchido no exotica que faz corn que a leitura da melhor das etoografias
proprio processo de interaçiio. 0 que faz 0 rnosaico funcio- seja urna tortura (anrfteses léxicas, esquemas de categoriza-
nar é a certeza de que podemos ser completame nte pragma- çao, transformaç<Ïes rnorfofonêluicas), e caracterizaç6es tao
ticos, adaptaveis, oportunistas, c, de um modo geral ad hoc abrangentes que - a nao ser pelas mais comuns - se tornam
em nossas relaçôes corn outros - uma raposa entre raposas, um tanto irnplausfveis ("quietismo", "dramatismo", "con tex-
urn erocodilo entre crocodilos - tanto quanto quisermos, . tuaIisrno"). Saltando continuamente de uma visao da totaH-
sem nenhurn risco de perder 0 sentido de quem somos. A :l
dade através das varias partes que a cornpoem, para urna
nao sec na intimidade da procriaçâo e da oraçao, 0 "eu" ,- it iS.ao. . da~ p~es através da totalidade que é a causa de sua _
nunca esta cm perigo pocque somente suas eoordenadas !/l exlstenCla, e Vice-versa, corn urna fonna de moçao intelectual _,,{
foram declaradas. i fll~erpétua, buscamos fazer corn que uma seja explicaçao para 1 J
i il. outra. .

v \ Tudo isso é, claramente, a trajetoria, ja bastante conhe-

Sem tentar dar nos em urnas quantas dfuias de pontaS .


'y. cid a, do rnétodo q~e Dilthe~ chamou de circulo hermen§.y-
",'~~. Mlnha Inrençao aqu i fOl mostrar que ela é tao essencial
que, durame e stes relatos apressados sobre 0 significado dô ._ para interpretaçoes etnograticas como para interpretaçôes
eu para eerea de noventa e nove milhôes de pessoas, naosô literarias, historicas, fil016gicas , psicanaliticas, ou biblicas,
deixci penduradas, mas certamente desfiei ainda mais, rel Ou até mesmo para a.notaçôes informais sobre aquelas expe-
tomemos ao ponto principal, que é saber exatamente 0 que riência~ cotidianas que chamamos de born senso. Para aCOffi-
tudo isso nos diz - ou poderia dizer, se explicado de forma panhar um jogo de beisebol ternos que saber 0 que é um
adequada - sobre "0 ponto de vista dos nativos" emJava, cm bastao, uma bastooada, urn turno, um jogador de esquerda,
Bali e no Marroco/~~ descrever 0 usa de simbolos, estare~ um lance de pressao, urna trajetoria curva pendente, e um
j/mos tarnbém descrevendo percepçoes, sentimentos, pon-

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-----''-- -
centro de campo fechado , e também coma funciona 0 jogo sao em suas vidas ou de que nos aceilem camo scres conl
que contém {odos estes elementos. Quando, cm urna expli- quem vale a pena conversar. Nao estou, cm hipotese alguma,
cation de texte, um crîtico como Leo Spitzer tcnta inter- • defendendo a falta de sensibilidade, e espero nao 1er dado
pretar a "Ode sobre uma urna grega" de Keats, ele se esta impressâo. Mas seja quaI for nossa compreensâo -
pergunta repetida e alternativamente duas questoes: "Sobre correta ou sernicorreta - daquilo que nossos infornlantes,
o que é este poema?" e "0 que é, exatamente, que Keats viu par assim dizer, rea/mente sâo, esta nâo depende de que
(ou decidiu mostrar-nos) desenhado na uma que ele des cre- tenhamos, nos nlesrnos, a experiência ou a sensaçâo de estar
ve?", e chega ao final de uma espiral ascendente de observa- sendo aceitos, pois esta sensaçao tem que ver corn nossa
çoes gerais e cOlnentarios espedficos corn urna leitura do propria biografia, nao corn a deles. porém; â compreensao
poema que 0 interpreta como uma afirmaçao do triunfo da depende de uma habilidade para analisar seus modos de
percepçao estética sobre a historica. Da mesma forma, quan- \ expressao, aquilo que chamo de sistemas simbolicos, e 0
do um etnôgrafo de significados e sîmbolos como eu tenta 1 sermos aceitos contribui para a desenvoivimento desta ha-
descobrir 0 que é uma pessoa na visao de algum grupo de bilidade. Entender a forma e a força da vida interior de
nativos, e1e vai e vern entre duas perguntas que faz a si nativos - para usar, uma vez mais, esta palavra perigosa -
mesmo: "como é a sua maneira de viver, de um modo geral?" parece-se mais corn compreender 0 sentido de um provér-
e "quais SaD precisamente os veiculos através dos quais esta bio, cap~ar uma alusao, entender uma piada - ou , camo
maneira de viver se manifesta?" chegando ao fim de urna sugeri acima - interpretar um poema, do que corn conseguir
espiral semelhante corn a noçao de que eles consideram 0 uma comunhao de espiritos.
eu coma urna cOlnposiçao, umapersona, ou um ponto cm
yma estrutura. Nao poderemos entender 0 significado de
, lek a naD ser que entendamos 0 que é 0 dramatismo balinês.,
da mCSffia Inaneira que nao saberemos 0 que é uma luva de
apanhador se nao conhecemos 0 jogo de beisebol. Ou nao
entenderemos a que significa uma organizaçao social mosai-
ca sem saber 0 que é a nisba, exatamente coma nao é possivel
compreender 0 platonismo de Keats, sem ser capaz de captar
- para usar a propria formulaçao de Spitzer - "0 fio do
pensamento intelecn:al" contido em fragmentos de frases
coma "a forma de Attie", "a forma silenciosa", "noiva da
tranqüilidade" "pastoral fria", "silêncio e tempo lento", "ci-
dadela cm paz", ou "cantigas sem nenhum tom".
Em su ma, é posslvel relatar subjetividades aIheias sem
1 recorrer a pretensas capacidades extraordinirias para obli-
1 terar 0 proprio ego e para entender os sentimentos de outros
J seres humanos. Possuir e desenvolver capacidades normais
para estas atividades é, obviamente, essencial, se teruas
esperança de conseguir que as pessoas tolerem nossa intru-

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