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ANAIS

XVII Encontro de Geografia da UNIOESTE (ENGEO)


XI Encontro de Geografia do Sudoeste do Paraná (ENGESOP)

Resumos Expandidos
APRESENTAÇÃO

Entre os dias 22 e 24 de outubro de 2013, realizou-se na UNIOESTE,


Campus de Francisco Beltrão, o XVII Encontro de Geografia da UNIOESTE
(ENGEO) e o XI Encontro de Geografia do Sudoeste do Paraná (ENGESOP).
O evento foi organizado pelos cursos de Licenciatura e Bacharelado em
Geografia e pelo Programa de Pós-Graduação (Mestrado) da UNIOESTE; e o
mesmo envolveu acadêmicos, profissionais e comunidade em geral.
Nessa edição, o aludido evento teve por tema: “Tendências e
perspectivas da Geografia no mundo contemporâneo”, e objetivou propiciar
reflexões em torno das recentes abordagens em Geografia, além de possibilitar a
divulgação de estudos realizados pela comunidade acadêmica, aproximando
pesquisadores e grupos de pesquisas das diversas áreas da Geografia.
A realização desse evento se justifica diante da importância da
Universidade, especificamente do curso de Geografia, fomentar
permanentemente a produção e a divulgação de pesquisas e estudos
concernentes ao saber geográfico, o qual se encontra continuamente em revisão.
Outrossim, além de oportunizar a qualificação da comunidade acadêmica em
geral, o evento possibilita a aproximação entre a Universidade e os profissionais
que atuam no campo da Geografia, e outros setores da sociedade,
particularmente do Sudoeste do Paraná.

Comissão Organizadora

1
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO OESTE DO PARANÁ
CAMPUS DE FRANCISCO BELTRÃO-PR
Paulo Sergio Wolff (Reitor)
Carlos Alberto Piacenti (Vice-Reitor)
Haroldo Augusto Moreira (Diretor Geral)
Suely Aparecida Martins
Diretora do Centro de Ciências Humanas
Elvis Rabuske Hendges
Coordenador do Curso de Bacharelado em Geografia
Roselí Alves dos Santos
Coordenadora do Curso de Licenciatura em Geografia
Marga Eliz Pontelli.
Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Geografia
Comissão Organizadora (Professores)
Sílvia Regina Pereira (Coordenadora)
Alexandre Domingues Ribas (Subcoordenador)
Jacson Gosman Gomes de Lima
Julio Cesar Paisani
Luiz Carlos Flávio

Comissão Organizadora (Alunos)


Fernando José Segala
João Luciano Bandeira
Jorgiane Pagnan
Lucas Araújo Bonetti
Maristela da Costa Leite
Patrícia da Costa Leite
Raquel Alves de Meira
Roberto Carlos Rech
Simone Kieling Galvão

Comissão Científica
Adilson Francelino Alves
Alexandre Domingues Ribas
Ana Rúbia Gagliotto Galvão
Beatriz Rodrigues Carrijo
Eduardo Donizeti Girotto
Fabiano André Marion
Fabrício Pedroso Bauab
Jacson Gosman Gomes de Lima
Julio Cesar Paisani
Luciano Zanetti Pessôa Candiotto
Luiz Carlos Flávio
Marcos Aurelio Saquet
Marga Eliz Pontelli
Najla Mehanna Mormul
Ricardo Carvalho Leme
Rosana Cristina Biral Leme
Roselí Alves dos Santos
Sílvia Regina Pereira
Waldiney Gomes de Aguiar

2
Arte Gráfica
Adilson Francelino Alves

Diagramação
Alexandre Domingues Ribas e Sílvia Regina Pereira

ISSN
2176-5529

A redação e a normatização dos textos publicados nos Anais são de inteira


responsabilidade dos autores.

Comissão Organizadora

Catalogação na Publicação (CIP)


Sistema de Bibliotecas - UNIOESTE – Campus Francisco Beltrão

Encontro de Geografia da UNIOESTE (17.: 2013: Francisco


Beltrão - PR)
E56 Anais do Encontro de Geografia da UNIOESTE (ENGEO) e XI
Encontro de Geografia do Sudoeste do Paraná (ENGESOP) /
Organização de Alexandre Domingues Ribas; Sílvia Regina
Pereira. -- Francisco Beltrão: Unioeste – Campus Francisco
Beltrão, 2013.
On-line.

ISSN – 2176-5529
Tema: Tendências e perspectivas da Geografia no mundo
contemporâneo.

1. Geografia. 2. Complexidade. 3. Mundo contemporâneo.


4. Congressos. I. Ribas, Alexandre Domingues (org.). II. Pereira,
Sílvia Regina (org.). III. Título.

CDD – 910.98162

3
PROGRAMAÇÃO GERAL DO XVII ENCONTRO DE GEOGRAFIA DA UNIOESTE
(ENGEO) E XI ENCONTRO DE GEOGRAFIA DO SUDOESTE DO PARANÁ

Períodos Manhã Tarde Noite (19h30-22h30)


Dias (08h00-12h00) (13h30-17h30)
-Credenciamento
-Conferência de abertura: “Geografia e
Complexidade” – Palestrante: Professor
22/10 Dr. Antonio Carlos Vitte (UNICAMP-
Campinas-SP)

Local: Auditório da APP-Sindicato

-Mesa 1: “Tendências da pesquisa em


Geografia Física” – Palestrante: Professor
Apresentação Minicursos Dr. Edivaldo Lopes Thomaz (Universidade
23/10 de trabalhos Estadual do Centro-Oeste – UNICENTRO-
Guarapuava-PR)

Local: Auditório da APP-Sindicato

-Mesa 2: “Tendências da pesquisa em


Apresentação Minicursos Geografia Humana” –
24/10 de trabalhos Palestrante: Professor Dr. Carlos José
Espíndola (UFSC-Florianópolis-SC)
- Encerramento

Local Auditório da APP-Sindicato

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EIXOS TEMÁTICOS DO EVENTO

Eixo Temático – Diagnóstico do Meio Físico

Eixo Temático – Ensino de Geografia

Eixo Temático – Estudos Agrários e Econômicos

Eixo Temático – Estudos Ambientais

Eixo Temático – Estudos Urbanos

Eixo Temático – História e Epistemologia da Geografia

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DIAGNÓSTICO DO MEIO FÍSICO

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10 ANOS DE LEVANTAMENTO DO MEIO FÍSICO E EVOLUÇÃO DA
PAISAGEM DO SW DO PARANÁ E NW DE SANTA CATARINA -
SÍNTESE DAS PRINCIPAIS PRODUÇÕES BIBLIOGRÁFICAS DO
GRUPO DE PESQUISA "GÊNESE E EVOLUÇÃO DE SUPERFÍCIES
GEOMÓRFICAS E FORMAÇÕES SUPERFICIAIS"

Julio Cesar Paisani


juliopaisani@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Marga Eliz Pontelli


mepontelli@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
O grupo de pesquisa "Gênese e Evolução de Superfícies Geomórficas e
Formações Superficiais (GESGFS)", formado na UNIOESTE e cadastrado no
CNPq, completou 10 anos de contribuições para a caracterização do meio físico e
evolução da paisagem do Sudoeste do Paraná e Noroeste de Santa Catarina. Em
2002, quando ingressamos na UNIOESTE, pensávamos que fazer pesquisa
dessa dimensão seria um enorme desafio em virtude da falta de infra-estrutura
necessária para realização de trabalhos de campo e análises laboratoriais.
Quando da criação do Centro de Pesquisa – prof. Marcos Henrique Broietti – da
UNIOESTE/Campus Francisco Beltrão, dedicado ao falecido amigo e colega, nos
foi concedida uma sala para as atividades do grupo. Na ocasião, optamos pelo
uso do espaço para instalação de laboratório que viabilizasse nossas pesquisas e
o fortalecimento dos cursos de graduação. Diante disso, iniciamos nossa proposta
de criação do Laboratório de Análise de Formações Superficiais, cuja principal
atividade constituiu-se nas análises físicas das formações superficiais, bem como
na aquisição de equipamentos para atividades de campo.
Esse foi o primeiro "tijolo" da infra-estrutura necessária para atingir nossos
objetivos e nos serviu de incentivo para encaminhar projetos de infra-estrutura de
pesquisa para órgãos de fomento. Em 2006, tivemos nosso primeiro projeto
aprovado e iniciamos nova etapa: a criação de infra-estrutura para impregnação
de amostras para análise micromorfológica. Essa etapa se consolidou com novos
projetos aprovados a partir de 2007, quando, então, conseguimos estrutura
mínima para criação do Laboratório de Microscopia Ótica; espaço necessário para

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realizar análises micromorfológicas de solos, material intemperizado e
sedimentos. Desde então, tal Laboratório vem recebendo aporte de equipamentos
e ampliando suas análises mediante aprovação de projetos de infra-estrutura por
órgãos de fomento. Diante desses projetos de infra-estrutura, em 2010 o
laboratório de Microscopia Ótica já possibilitava análise palinológica e,
atualmente, permite a análise fitolítica. A consolidação da infra-estrutura para
atingir nossos objetivos e, em paralelo, consolidar os cursos de Geografia da
UNIOESTE, se dará com a criação do Núcleo de Estudos (Paleo)Ambientais, com
a agregação de dois novos Laboratórios, cujo projeto já foi aprovado por órgão de
fomento. Um deles será dedicado à extração de fitólitos e/ou palinomórfos e outro
à impregnação e laminação de solos, rochas, materiais intemperizados e
sedimentos.
Paralelo à implantação da infra-estrutura, ao longo desses anos, tivemos
projetos de pesquisa, aprovados por órgãos de fomento, para completar análises
não executáveis nos Laboratórios de Análise de Formações Superficiais e
Microscopia Ótica. Esses projetos de infra-estrutura e de pesquisa foram os
principais instrumentos para viabilizar o levantamento do meio físico e evolução
da paisagem do SW do Paraná e NW de Santa Catarina. Assim, a presente
contribuição faz a síntese das principais produções bibliográficas do Grupo de
Pesquisa "Gênese e Evolução de Superfícies Geomórficas" a respeito dessa
temática.
Os principais resultados obtidos até o momento foram publicados em
revistas científicas (periódicos) e anais de eventos. Para facilitar a compreensão,
as informações são apresentadas com base em dois momentos históricos
importantes, fase pioneira e fase contemporânea.

Estudos na Bacia do Rio Marrecas - Fase Pioneira


No início do Grupo de Pesquisa, percebemos que os trabalhos a respeito
da estrutura da paisagem do sudoeste do Paraná eram escassos. Quando
existentes, tinham cunho cartográfico em escalas pequenas, inviabilizando
estudos de detalhe de ambientes fluviais, de encosta, e de articulação entre
ambos. Assim, as primeiras informações geradas tiveram o intuito de caracterizar

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a estrutura da paisagem do sudoeste do Paraná, tomando-se por unidade de
análise a bacia hidrográfica do rio Marrecas. O primeiro estudo realizado nessa
bacia foi de cunho hidrológico, onde se pôde verificar a potencialidade de
ocorrência do escoamento superficial hortoniano em encostas da bacia do rio
Marrecas (WILLERS; PAISANI, 2003). Na sequência, procedeu-se levantamento
geológico, onde foram encontrados derrames vulcânicos de duas naturezas,
básicos (predominante) e ácidos (estratos delgados). Nesse momento, percebeu-
se que os mapas geológicos dos estados do Paraná e Santa Catarina, por vezes,
apresentavam inconsistências de informações a respeito da natureza dos
derrames entre o SW do Paraná e NW de Santa Catarina, bem como da
espessura máxima da Formação Serra Geral na área. Sabe-se, na atualidade,
que os derrames na referida área alcançam mais de 1.300 m de espessura
(PAISANI et al., 2008a). Os estudos dessa bacia seguiram para o reconhecimento
do papel da estrutura geológica na manutenção de patamares (PAISANI et al.,
2008a), bem como na caracterização e individualização da gênese das formações
superficiais. Uma abordagem metodológica foi a incorporação das análises
micromorfológicas de depósitos de colúvios para buscar chaves de interpretação
a respeito da autoctonia ou aloctonia das formações superficiais (PAISANI;
PONTELLI, 2012). No geral, os estudos permitem dizer que, nas áreas de
patamares, há materiais formados in situ (Nitossolos e Latossolos), enquanto que,
nas encostas, predominam depósitos coluviais de diferentes espessuras
(MAMAN; PAISANI, 2007; PONTELLI et al., 2011a,b; PAISANI; GEREMIA, 2010).
Elencou-se a bacia do rio Quatorze (112,75 Km2), sub-bacia do rio
Marrecas, como laboratório para o teste de metodologias de levantamento de
informações da estrutura da paisagem. Nela foram individualizadas unidades
geomorfológicas e feições de relevo, sobretudo superfícies de topo,
patamares/degraus estruturais, fundos de vales aberto e fechados, canais de
drenagem contínuos e descontínuos, depressões fechadas e cabeceiras de
drenagem (GEREMIA; PAISANI; PONTELLI, 2004; PRADO; PONTELLI, 2004).
Hoje, se sabe que tais feições de relevo são comuns na região SW do Paraná e
NW de Santa Catarina. O potencial da bacia do rio Quatorze, enquanto laboratório
natural, não parou com esses estudos. Na sequência, foram avaliadas a influência

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da estrutura geológica na formação de fotolineamentos, na orientação de canais
de baixa ordem hierárquica, no estabelecimento de áreas de cabeceiras de
drenagem (PAISANI et. al., 2005; PAISANI et. al., 2006; PONTELLI; PAISANI,
2008) e, recentemente, o papel do escoamento superficial hortoniano na
produção de sedimentos e turbidez dos cursos fluviais (AGUIAR; PAISANI, 2012).

Estudos Regionais da Gênese e Evolução de Superfícies Geomórficas e


Formações Superficiais - Fase Contemporânea
O segundo período apresenta desenvolvimento mais significativo da
produção científica em termos qualitativos. Isso se deve, sobretudo, pela: a)
criação do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Geografia da
UNIOESTE; b) financiamento sistemático das atividades de pesquisa por órgãos
de fomento; c) consolidação da infra-estrutura dos laboratórios Análise de
Formações Superficiais e de Microscopia Ótica.
O primeiro trabalho de cunho regional procurou associar superfícies
geomórficas com a gênese das formações superficiais. Foram individualizadas
oito superfícies geomórficas organizadas em escadaria com as maiores altitudes
a leste (PAISANI et al., 2008b). As formações superficiais que mantêm essas
unidades de relevo são formadas in situ e, em sua maioria, se caracterizam por
Latossolos renovados ao longo do Quaternário Superior (PAISANI et al., 2013). A
exceção são as superfícies mais elevadas, situadas entre Palmas (PR) e Água
Doce (SC), onde predominam derrames de natureza ácida e sedimentos e
paleossolos do Quaternário Tardio (PAISANI et al., 2012; GUERRA; PAISANI,
2012; LIMA; PONTELLI, 2012). Nesse local, verifica-se evolução complexa do
relevo nos últimos 41.000 anos Antes do Presente, onde se registra fenômenos
de inversão de relevo e abandono de canais hidrográficos de baixa ordem
hierárquica (PAISANI et al., 2012; no prelo). Os estudos a respeito da
paleovegetação realizados até o momento revelam que a vegetação de Campo
esteve presente no local durante todo o período de registro da evolução do relevo
(PAISANI et al., no prelo). Por outro lado, sabe-se que o mesmo não aconteceu
nas superfícies geomórficas situadas para oeste. Durante o Último Máximo
Glacial, sobretudo até 15.000 anos Antes do Presente, a vegetação de Campo
ocupava as cabeceiras de drenagem do município de Pato Branco (BERTOLDO,
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PAISANI; OLIVEIRA, no prelo). Isso sugere que houve expansão da vegetação de
Campo para oeste durante o Último Máximo Glacial (BERTOLDO, 2010). Os
primeiros indivíduos da Floresta Ombrófila Mista com Araucária surgiram logo no
início do Holoceno, a cerca de 12.000 anos Antes do Presente (BERTOLDO,
2010).
Essas informações, de cunho regional, estão sendo utilizadas para balizar
a compreensão da evolução da paisagem do Planalto das Araucárias, unidade
geomorfológica regional sugerida por Almeida na década de 1950. Recentemente,
apresentamos um esboço desses trabalhos para contextualizar a geomorfologia
de Foz do Iguaçu (PONTELLI; PAISANI, no prelo), bem como para sugerir a
etchplanação como princípio evolutivo da paisagem regional (PAISANI et al.,
2013).

Considerações Finais
Com esta retrospectiva, procedeu-se uma síntese das principais
contribuições do Grupo de Pesquisa "Gênese e Evolução de Superfícies
Geomórficas e Formações Superficiais", nos últimos 10 anos, para a
caracterização do meio físico e evolução da paisagem do Sudoeste do Paraná e
Noroeste de Santa Catarina. Espera-se que as publicações elencadas ao longo
do texto possam servir de material bibliográfico básico para as pesquisas a
respeito do meio físico regional e, quem sabe, aos estudos de planejamento
ambiental e regional. Igualmente, espera-se que possamos contribuir,
metodologicamente, com estudos similares desenvolvidos em outras regiões do
país.

Referências
AGUIAR, W.; PAISANI, J.C. Estimativa de taxas de denudação mecânica da
bacia hidrográfica do rio Quatorze (Pr) pela análise de sólidos em suspensão.
Anais..., VI SimpGEO, p.1594-1613, UNICENTRO, Guarapuava, 2012.
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no remanescente de superfície aplainada VIII (A.R.I.E. do Buriti – SW PR).
Dissertação (Mestrado em Geografia – UNIOESTE/FB), 2010.

11
BERTOLDO, E.; PAISANI, J.C.; OLIVEIRA, P. E. de. Registro de Floresta
Ombrófila Mista nas regiões sudoeste e sul do Paraná durante o
Pleistoceno/Holoceno. Revista Hoehnea, no prelo.
GEREMIA, F.; PAISANI, J.C.; PONTELLI, M.E. Feições geomorfológicas na bacia
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Revista Ambiência, v.8 (Ed. Especial - I), p.651-665, 2012. doi:
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LIMA, J. G. G.; PONTELLI, M. E. Mineralogia de rocha alterada em remanescente
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MAMAN, L.J; PAISANI, J. C. Gênese da cobertura superficial em encosta da
bacia do rio Cascalhal no Município de Renascença-PR. Anais..., XII ENGEO/VI
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PAISANI, J. C.; CALEGARI, M. R.; PONTELLI, M. E.; PESSENDA, L. C. R.;
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Superior na dinâmica evolutiva de paleovale de segunda ordem (Sul do Brasil).
Revista Brasileira de Geomorfologia, no prelo.
PAISANI, J. C.; GEREMIA, F. Evolução de encostas no Planalto Basáltico com
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encosta no médio vale do Rio Marrecas (SW PR) – bases para distinção de
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PAISANI, J. C.; PONTELLI, M. E.; ANDRES, J. Superfícies aplainadas em zona
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Paraná / NW Santa Catarina): primeira aproximação. Geociências, UNESP, v.27,
n.4, p.541-553, 2008b.
PAISANI, J. C.; PONTELLI, M. E.; ANDRES, J.; PASA, V. MARINHO, F. R.
Características geológicas da Formação Serra Geral na área drenada pelo rio
Marrecas (SW Paraná): fundamentos para a análise geomorfológica. Geografia,
UEL, v.17, n.2, p.49-65, 2008a.
PAISANI, J. C.; PONTELLI, M. E.; CALEGARI, M. R. Evolução de bacias de baixa
ordem nos 41.000 anos AP – Brasil Meridional. Mercator, UFC, v.11, n.26, p.131-
148, 2012. doi:10.4215/RM2012.1126.0009.

12
PAISANI, J. C.; PONTELLI, M. E.; CORRÊA, A. C. B.; RODRIGUES, R.A.R.
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PAISANI, J. C.; PONTELLI, M. E.; GEREMIA, F. Cabeceiras de drenagem da
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espacial, propriedades morfológicas e controle estrutural, Revista RA’E GA,
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PAISANI, J. C.; PONTELLI, M. E.; GEREMIA, F.; FORTES, J. A. E. Análise de
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Planalto Basáltico da Bacia do Paraná. Anais..., XIV Simpósio de Geografia
Física Aplicada, p.12, CD-Rom, Dourados, 2011a.
PONTELLI, M. E.; PAISANI, J. C. Controle de fraturas na organização da
drenagem da bacia do rio Quatorze – sudoeste do Paraná. Revista Perspectiva
Geográfica, UNIOESTE, n.4, p.129-138, 2008.
PONTELLI, M. E.; PAISANI, J. C.; LIMA, J. G. G. Distribuição de volumes
pedológicos em vertente de superfície geomorfológica em elaboração – Planalto
Basáltico da Bacia do Paraná. Anais..., XIV Simpósio de Geografia Física
Aplicada, p.11, CD-Rom, Dourados, 2011b.
PRADO, E. C. B; PONTELLI, M. E. Mapeamento geomorfológico das unidades de
relevo na bacia do rio Quatorze - Francisco Beltrão. Anais..., IX ENGEO/III
ENGESOP, p.282-284, UNIOESTE, Francisco Beltrão, 2004.
WILLERS, S. F; PAISANI, J. C. Potencialidade de ocorrência de escoamento
superficial hortoniano em encostas da bacia do rio Marrecas - PR. Anais..., VII
ENGEO/II ENGESOP, p.161-163, UNIOESTE, Francisco Beltrão, 2004.

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ANÁLISE FITOLÍTICA NO PLANALTO DE PALMAS-
MORFOTIPOS DA SEÇÃO HS13

Sani Daniela Lopes Paisani


sanidaniela@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
A paisagem hodierna é, sobretudo, o produto de mudanças ambientais
ocorridas no tempo geológico recente, designada de Quaternário. O Quaternário
se caracteriza por importantes variações do ambiente (SUGUIO, 1999). As
alterações desse período, mais expressivas no ambiente, foram as mudanças
climáticas. Uma das formas de detectar as mudanças climáticas, sobretudo nas
áreas continentais, é verificar trocas de vegetação. Tal fenômeno decorre do fato
de que as formações vegetais respondem, diretamente, às mudanças de
precipitação e temperatura. Podem-se obter respostas para essas mudanças por
meio dos proxys, tais como: a) grãos de pólen; b) razão Isotópica do carbono; c)
fitólitos, entre outros.
A análise de fitólitos vem sendo aplicada para locais que possuem
problemas de preservação de proxys, como grãos de pólen, em materiais ricos
em óxidos, solos e sedimentos das zonas tropicais e subtropicais. Várias revisões
a respeito da formação e preservação dos fitólitos foram feitas nas últimas
décadas (PIPERNO, 1988). No geral, fitólitos ou silicofitolitos correspondem a
corpos silicosos amorfos (SiO2.nH20) que as plantas produzem durante seus
ciclos vegetativos. O corpo silicoso é formado nas plantas a partir da absorção de
sílica disponível no solo (PIPERNO, 2006). As plantas absorvem a sílica através
do sistema radicular na forma de ácido monossílico; esse sistema da planta será
absorvido pelas raízes, realizando o processo metabólico pelo transporte ativo; já
no transporte passivo, ocorre o fluxo não seletivo do ácido mosossílico por meio
de canais de transpiração; por esse motivo podemos dizer que algumas plantas
são mais produtoras de silicofitolitos do que outras. Os fitólitos são estruturas que
possuem tamanhos de 0,10 a 0,002mm, sendo equivalente às frações areia muito
fina e silte (CALEGARI, 2008; RAITZ, 2012).

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O Grupo de Pesquisa “Gênese e Evolução de Superfícies Geomórficas e
Formações Superficiais” vem aplicando essa técnica para reconstituir a
paleovegetação da região SW PR e NW SC, de modo a se compreender o papel
das mudanças climáticas na evolução dessa paisagem (CALEGARI, 2008; RAITZ,
2012; PAISANI et al., no prelo). Diante disso, o presente trabalho contribui na
aplicação da análise fitolítica na região e visa apresentar os principais morfotipos
de fitólitos identificados na seção HS13.

Metodologia
A análise fitolítica foi realizada na seção HS13 (Figura 1), que traz os
registros estratigráficos de uma cabeceira de drenagem situada próxima do
divisor de águas regional do rio Uruguai. Tal análise é precedida das seguintes
etapas: 1º - em campo, foram coletadas 24 amostras deformadas a cada 10 cm
de profundidade entre de 0 a 2,40 cm; 2º - realizou-se a extração de fitólitos
seguindo o protocolo de Madella et al., 1998; 3º - procedeu-se à construção de
lâminas para contagem dos morfotipos e classificação. A classificação dos
morfotipos foi realizada segundo o ICPN (Working Group 2005). A extração de
silicofitólitos foi realizada no Laboratório de Análise de Formações Superficiais e a
classificação no Laboratório de Microscopia Ótica, ambos na UNIOESTE –
campus de Francisco Beltrão.

Figura 1-Reprodução da geometria das unidades estratigráficas da seção HS13

Fonte: CHICOSK, 2012

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Área de estudo
A seção HS13 está localizada na Superfície Geomorfológica 2, conhecida
como remanescente de superfície aplainada (PAISANI et al., 2008). Tal superfície
é uma unidade geomorfológica dentro do Planalto das Araucárias (PAISANI et al.,
2013). Esse planalto é mantido por rochas vulcânicas ácidas (Membro Palmas –
NARDY et al., 2002) e se encontra acima de 1.200 m de altitude. A cobertura
vegetal natural é constituída de Campos e o clima é Cfa, na classificação de
Köppen (RAITZ, 2012).

Resultados
No registro estratigráfico da seção HS13 foram identificados 2859
morfotipos. Em sua maioria estão degradados física e quimicamente;
possivelmente, este último aspecto seja um indício de movimentação mecânica
causado pela água ou pelo vento. Os principais morfotipos identificados são das
seguintes categorias: Elongates, Rondels, Cuneiform Buliform Cell, Bilobate e
alterados química e fisicamente. Essas categorias exibem subcategorias com
diferentes graus de degradação (Figura 2), como elencado abaixo.
A – Cuneiform Buliform Cell apresentando alteração química de alto nível; este foi
encontrado na profundidade de 0-10 cm na seção;
B – Point Shaped apresentando alteração química de alto nível, observado na
profundidade de 10-20 cm na seção;
C – Trapeziform Sinuate com alteração química de nível médio, encontrado na
profundidade de 30-40 cm na seção;
D – Elongate Papillate de tamanho grande, apresentando alteração química de
nível alto, observado na profundidade de 90-100 cm na seção;
E – Não Identificado por apresentar alteração física, encontrado na profundidade
de 40-50 cm;
F – Não Identificado por apresentar muita corrosão, alteração química de alto
nível, observado na seção na profundidade de 50-60 cm;
G – Polylobate, com alteração química de nível médio, na profundidade de 60-70
cm;
H – Bilobate short shank, with lobule côncavo com alteração química de nível alto,
encontrado na profundidade de 0-10 cm;
I – Rondel com alteração química de nível baixo, encontrado na profundidade de
70-80 cm;
J – Elongate Psilate de tamanho grande com alteração química de nível alto,
observado na profundidade de 90-100 cm.

16
Figura 2-Classificação de morfotipos encontrados na seção HS13. A- Cuneiform Bulifom
Cell; b- Point Shaped; c- Trapeziform Sinuate; d- Elongate Papillate; e- Não Identificado
por alteração física; f- Não Identificado por alteração química; g - Polylobate; h – Bilobate;
i – Rondel; j – Elongate Psilate.

Conclusão
A análise fitolítica dos materiais da seção HS13 está em andamento. Até o
presente momento, foi possível identificar os morfotipos encontrados a diferentes
profundidades. No total dos 2859 morfotipos, os maiores percentuais foram de
elongates (8 a 44%), rondels (11 a 44%), Cuneiform Bulifom Cell (2 a 13%),
bilobates (1 a 6%) e alterados química e fisicamente (15 a 59%).

17
Referências
CALEGARI, M.R. Ocorrência e Significado Paleoambiental do Horizonte A
Húmico em Latossolos. Tese de Doutorado, Escola Superior de Agricultura “Luiz
de Queiroz”-ESALQ/USP. 256 p., 2008.
CHICOSKI, A.W.; PAISANI.,S.D.L, PAISANI., J. C.; CALEGARI, M.R. Resultados
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Planalto de Palmas/Água Doce. ANAIS..., 21º Encontro Anual de Iniação
Cienctíficas (EAIC), 2º Encontro Anual de Iniciação Tecnológica e Inovação
(EAITI), 2012, 4p.
MADELLA, M.; POWERS-JONES A.H.; JONES, M.K. A simple Method of
Extraction of Opal Phytholiths from Sediments Using a Non-Toxic Heavy Liquid.
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2005.
NARDY, A. J. R.; OLIVEIRA, M. A. F.; BETACOURT, R. H. S.; VERDUGO,
D.R.H.; MACHADO, F.B. Geologia e Estratigrafia da Formação Serra Geral. São
Paulo. Geociências, UNESP, v.21. n.1/2. p. 15-32, 2002.
PAISANI, J.C.; CALEGARI, M.R.; PONTELLI, M.E.; PESSENDA, L. C. R;
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Superior na dinâmica evolutiva de paleovale de segunda ordem (Sul do Brasil).
Revista Brasileira de Geomorfologia, no prelo.
PAISANI, J.C.; PONTELLI, M.E.; CALEGARI, M.R. Evolução de bacias de baixa
ordem hierárquica nos 41.000 anos AP–Brasil Meridional. Mercator, Fortaleza, v.
11, n. 26, p. 131-148, 2012.
PAISANI, J.C.; PONTELLI,M.E.; CORRÊA,A.C.B.; RODRIGUES, R.A.R.
Pedogeochemistry and micromorphology of oxisolseA basis for understanding
etchplanation in the Araucárias Plateau (Southern Brazil) in the Late Quaternary.
Journal of South American Earth Sciences , p. 1-12, 2013.
PIPERNO, D. R. Phytoliths: A Comprehensive Guide for Archaeologists and
Paleoecologists. Lanham MD, Alta Mira Press. p. 238, 2006.
PIPERNO, D.R. Phytoliths Analysis: an archaelogical and geological
perspective. Academic Press, San Diego, 1988.
RAITZ, E. Coleção de referência de silicofitólitos da flora do sudoeste do
Paraná: subsídios para estudos paleoambientais. Dissertação de mestrado,
Universidade Estadual Do Oeste Do Paraná – UNIOESTE. 204 p. 2012.
SUGGIO,K. Geologia do Quaternário e Mudanças Ambientais (Passado+
Presente = Futuro?). São Paulo: Paulo´s Comunicação e Artes Gráficas, 1999,
362p.

18
ANÁLISE MORFOESTRUTURAL DO PLANALTO DAS ARAUCÁRIAS NO SW
PARANÁ E NW SANTA CATARINA ATRAVÉS DO SOFTWARE MICRODEM

Tiago Antonio Padilha


tiago_ap93@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
A análise geomorfológica em escala regional se fundamenta em
reconhecer componentes da estrutura geológica responsáveis pela estruturação
das formas de relevo e busca identificar: anomalias na rede de drenagem
(mudanças no sentido do fluxo dos rios), assimetria dos vales, capturas de
drenagem, organização da distribuição dos canais de drenagem (padrão de
drenagem), orientação de topos, desnivelamentos topográficos e, sobretudo,
fotolineamentos.
O software MicroDEM foi desenvolvido pela Academia Naval dos Estados
Unidos da América; trata-se de um aplicativo científico e educacional para
modelos digitais de elevação (Digital Elevation Model - DEM), sensoriamento
remoto e elaboração de mapas temáticos geomorfológicos e geológicos. Dispõe
de ferramentas de observação territorial, em diversas dimensões espaciais,
significativamente importantes para análises superficiais de terreno. O MicroDEM
é um programa complexo e, por isso, tem necessidade de configurações
específicas para entrada de dados e imagens. A potencialidade do uso do
software na análise geomorfológica de cunho regional, morfoestrutural, ainda é
pouco conhecida e, consequentemente, utilizada.
Dessa forma, é apresentado, neste texto, um exemplo da potencialidade de
tal software na análise morfoestrutural.

Metodologia
Os resultados aqui apresentados foram obtidos a partir do uso do software
MicroDEM, através da: a) exploração dos aplicativos básicos do software; b)
produção e processamento de MDE e interpolação para o Google Earthe; c)
elaboração de MDT sob uso de ferramentas contidas no programa. Todas as
ferramentas do MicroDEM foram aplicadas em uma área piloto de estudos do

19
Grupo de Pesquisa GPGESGFS, situada na folha SG-22-Y-B, dado do Shuttle
Radar Topography Mission (SRTM) (Figura 1), e disponível no site da EMBRAPA
(http://www.relevobr.cnpm.embrapa.br/download/index.htm).

Figura 1-Mapa da localização da folha SG-22-Y-B, em relação aos estados do Paraná e


Santa Catarina. Acima, perfil topográfico referente a linha traçada na coordenada S26º 50’.

Resultados e/ou Discussões


Dentre os resultados obtidos, se destaca a hipsometria da área de estudo
do Grupo de Pesquisa (Figura 2), que varia de 600 a 1.400 m de altitude na
região SW do Paraná e NW de Santa Catarina. Percebe-se que foi possível gerar
MDE com composição colorida destacando os fundos de vale das redes
hidrográficas principais, ao norte rio Chopinzinho e, ao sul, rio Chapecózinho. A
partir da produção cartográfica no software MicroDEM foi possível individualizar a
superfície geomórfica conhecida como Planalto de Palmas/Água Doce (PAISANI
et al., 2008). Na imagem se destacam três aspectos: 1) o Domo de Varjeão; 2) a
forte dissecação do quadrante SE; 3) lineamento positivo nos limites leste da
superfície acima de 1200m de altitude. Outro aspecto possível foi a plotagem das

20
seções estratigráficas descritas na área de estudo, concentradas nessa última
superfície.

Figura 2-Imagem correspondente a área de estudo com identificação hipsométrica e


localização das seções estratigráficas (HS1, 2, ...= seções estratigráficas)

Com o uso do MicroDEM foi possível plotar, em sobreposição, imagens


raster. Nesse caso, usou-se o mapa hipsométrico gerado a partir do SRTM em
sobreposição à imagem gerada pelo software Google Earth. Tal sobreposição
permitiu a visualização bidimensional de MDE (Figura 3), que permite uma análise
de localização e compreensão espacial.

Figura 3-Imagem hipsométrica SRTM (SG-22-Y-B) plotada sobre a imagem do software


Google Earth a partir de ferramentas do MicroDEM

O MDT (Figura 4) foi elaborado a partir de uma perspectiva de análise


tridimensional da superfície do Planalto de Palmas/Água Doce (PAISANI et al.,

21
2008). Na produção de MDT foi selecionada a área abrangente entre o Domo de
Varjeão (1a) e a área dissecada do Planalto (1b), já identificados na Figura 2.

Figura 4-MDT elaborado com exagero vertical 8.0. 1a = Domo de Varjeão; 1b = Área
dissecada; 1c = Lineamento positivo acima de 1200m de altitude

Considerações Finais
As utilizações de ferramentas computacionais reduzem o tempo para
produção cartográfica quando comparadas a processos manuais, mas que
também exigem muito tempo de trabalho em gabinete, preparo do pesquisador e
análise cuidadosa na interpretação de dados para evitar perdas de informação,
como destacado por Florenzano (2008). Foi apresentado aqui resultados parciais
do uso do software MicroDEM para a análise morfoestrutural do relevo regional
destacando a potencialidade na geração de MDE e MDT, plotagem de pontos de
observação e descrição das formações superficiais e interpolação para o Google
Earth; tais procedimentos que são importantes na análise espacial.

Referências
FLORENZANO, T. G. (Org.). GEOMORFOLOGIA: conceitos e tecnologias. São
Paulo: Oficina de Textos, p. 31-128, 2008.
PAISANI, J. C.; PONTELLI, M. E.; ANDRES, J. Superfícies aplainadas em zona
morfoclimática subtropical úmida no planalto basáltico da Bacia do Paraná (SW
Paraná / NW Santa Catarina): primeira aproximação. Geociências (UNESP), v.
27, n. 4, p. 541-553, 2008.

22
APLICAÇÃO DA ANÁLISE ESTATÍSTICA PARA IDENTIFICAÇÃO E
CARACTERIZAÇÃO DE UNIDADES ESTRATIGRÁFICAS - SEÇÃO HS14

Andressa Fachin
afgeog@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
O período Quaternário caracteriza-se pela ocorrência de mudanças
climáticas globais que modificaram, sobretudo, as taxas de intemperismo e
pedogenêse, os regimes fluviais e o nível dos mares (MOURA, 1994). Nesse
contexto, o estudo da importância das feições e dos depósitos quaternários
permite reconstituir as condições paleoambientais, estas últimas que fornecem
conhecimentos fundamentais para a compreensão da dinâmica atual de diversas
paisagens (SUGUIO, 1999). Esses depósitos quaternários continentais
apresentam-se distribuídos nas mais distintas formas de relevo e, geralmente,
apresentam alguma relação genética com as feições da paisagem.
No Brasil, especificamente na região Sul do país (Sudoeste do Paraná e
Noroeste de Santa Catarina), os estudos referentes ao Período Quaternário vêm
sendo desenvolvidos por Paisani et al (2008), Paisani et al (2010), Guerra (2012),
Lima (2013), entre outros. A partir do trabalho preliminar de Paisani et al (2008), o
Grupo de Pesquisa “Gênese e Evolução de Superfícies Aplainadas e Formações
Superficiais”, da UNIOESTE, vem levantando informações a respeito da evolução
da paisagem nesta região. Até o momento, foram reconhecidas oito
remanescentes de superfícies aplainadas, onde apenas em duas delas são
identificadas formações superficiais que indicam eventos de agradação e
degradação da paisagem ao longo do Quaternário Superior (PAISANI et al.,
2008). Tais superfícies aplainadas estão inseridas no Planalto de Palmas
(PR)/Água Doce (SC), onde estão sendo descritas seções estratigráficas. Esse
texto apresenta resultados parciais da identificação de e caracterização em uma
das seções estratigráficas levantadas nesse planalto, denominada de HS14. A
seção HS14 assume destaque por apresentar a colmatação de várias gerações
de paleovoçorocas e pela existência de paleossolo enterrado, onde este se
distribui lateral e irregularmente na encosta. Embora truncado, exibe,

23
aproximadamente, 1 m de espessura, sendo o mais espesso encontrado na
região até o momento.
Nesse contexto, esse estudo busca responder questões relacionadas aos
estudos paleoambientais, na tentativa de entender as mudanças
paleohidrológicas e/ou mudanças no nível de base que influenciaram a evolução
da paisagem da Superficie II do Planalto de Palmas entre Palmas (PR) e Água
Doce (SC).

Metodologia
Para a caracterização estratigráfica foram realizados trabalhos de campo e
análises laboratoriais. Em campo, primeiramente, foi definido os pontos de
observação, descrição e amostragem (janelas) e, ainda, a disposição das
unidades estratigráficas, caracterizada por discordâncias erosivas, incisões
lineares. Ao todo, foram descritas oito janelas ao longo da seção. As unidades
foram descritas com base em critérios pedológicos e litológicos.
Em seguida, procedeu-se às coletas para análises laboratoriais. A análise
granulométrica foi realizada no Laboratório de Análises e Formações Superficiais
– UNIOESTE, sob o método de quarteamento da amostra, peneiramento da
fração grossa e pipetagem da fração fina (SUGUIO, 1973; PAISANI, 1998). Essa
análise foi fundamental para verificar e identificar as mudanças de tendências e
os possíveis limites de camadas em materiais aparentemente homogêneos vistos
em campo, como realizado por Paisani (2004).
Os dados obtidos pela análise granulométrica foram submetidos à análise
estatística através do uso do programa Minitab 16 versão 2013, com método
WARD com distância Euclediana. Este programa foi utilizado para a construção
de dendogramas, com o intuito de explorar o grau de similaridade entre as
amostras e possibilitar individualizar as unidades com características
aparentemente homogêneas (LANDIM, 2000). A aplicação desse método tornou-
se bastante eficiente para auxiliar na formulação de hipóteses a respeito da
homogeneidade ou não das unidades.
Nesse trabalho, os resultados apresentados serão referentes a 4 janelas
descritas na seção HS14.

24
Caracterização da seção estratigráfica
A seção estratigráfica HS14 apresenta, aproximadamente, 18 m de
extensão por 3,50 de altura (Figura 1). Foi identificada a presença de paleossolo
com horizonte A húmico enterrado e truncado pelas incisões verticais. As sutis
tendências de variação nas frações granulométricas foram usadas para identificar
descontinuidades estratigráficas de sedimentos aparentemente homogêneos. Até
o momento, foram reconhecidas 20 unidades estratigráficas, que podem ser
classificadas como 1 face aluvial (unidade 12), 2 facéis colúvio-aluvial de
colmatação das paleovoçoroca (unidades 3 e 7) e 17 facéis coluviais (unidades 1,
2, 4, 5, 6, 8, 9, 10, 11, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19 e 20), sendo 7 facéis de
colmatação da paleovoçoroca (unidades 4, 5, 6, 8, 9, 10, 11, 13 e 14) 1 face
coluvial pedogeneizado ( unidade 2) e 6 facéis de rampa de colúvio (unidades
15,16, 17, 18, 19 e 20).
A face aluvial possui espessura média de 30 cm. Apresenta estratificação
plano-paralela. Sua cor é 7.5 YR 4/2 (bruno) com manchas 7.5 YR 5/8 (bruno
forte).

Figura 1-Seção estratigráfica HS14.1: Riolito; 2: Fragmentos de calcedônia; 3: Colúvio


pedogeneizado com horizonte A húmico; 4: Lente de clastos; 5: Litorrelíquias; 6:
Pedorrelíquias e 7: Vegetação atual

As fáceis colúvio-aluvial apresentam cerca de 60 cm de espessura cada.


Referem-se a fenômenos de colmatação de gerações de paleovoçoroca e
truncam a unidade 1. Sua cor é 7.5 YR 3/4 (bruno escuro) com lentes 7.5 YR 3/1
(cinzento muito escuro). Essas lentes são pedorrelíquias de horizonte A húmico.
Quanto às fáceis coluviais de colmatação de paleovoçoroca, as unidades 4
e 5 apresentam espessura média de 40 cm cada, e mergulham para a direção Sul

25
da seção. No caso da unidade 5, esta representa um evento final de colmatação
de uma geração de paleovoçoroca. Já a unidade 6 é o único registro de uma
segunda geração de paleovoçoroca. Foi classificada como colúvio heterométrico
com lentes de material melanizado. A unidade 8 é encontrada no dígito central de
uma geração de paleovoçoroca, entre as unidades 7 e 9. A unidade 9 está
sobrejacente às unidades 7 e 8. Já a unidade 10 é delgada e localiza-se sobre um
dos dígitos de uma geração de paleovoçoroca. De um modo geral, apresentam
cor 7.5 YR 3/2 (bruno escuro).
A face coluvial pedogeneizado possui cerca de 1 m de espessura com cor
7.5 YR 2.5/1. Quanto às características pedológicas, possui estrutura em blocos
subangulares, com resistência moderada e consistência úmida.
As unidades 15 a 20 não estão associados à colmatação das gerações de
paleovoçorocas, mas, sim, ao estabelecimento de um ambiente de encosta. A cor
predominante destas unidades é 7.5 YR 3/3 (bruno escuro). A unidade 15
localiza-se na porção Norte da seção e apresenta remanescente de horizonte A
na parte superior da unidade. A unidade 16 apresenta-se mais delgada ao Sul e
mais espessa na porção Norte e recobre três gerações de paleovoçorocas. A
unidade 17 apresenta-se delgada no centro da seção e mais espessa na porção
Sul. Já a unidade 18 localiza-se ao Norte da seção. Nos seus limites inferiores e
superiores são definidos por remanescentes de horizonte A húmico. Quanto às
unidades 19 e 20, correspondem as unidades mais superficiais da seção e
localizam-se mais ao centro e na porção Norte da seção.

Resultados granulométricos e estatísticos


Os percentuais granulométricos da seção estratigráfica HS14 estão
expostos tanto em gráficos de linhas seguido de dendogramas (Figura 2). No
primeiro, pretende-se observar as variações de seixo, grânulo, areia, silte e argila,
com a respectiva profundidade, na busca de verificar as tendências
granulométricas, juntamente com dendograma mostrando o grau de similaridade
entre as amostras para aferir sobre as mudanças texturais observadas
qualitativamente.

26
De um modo geral, os percentuais granulométricos das janelas analisadas
apontam para o predomínio das frações finas (silte e argila), enquanto que as
frações grossas apresentam-se menos expressivas. Em relação ao dendogramas,
as amostras que apresentam maior similaridade entre si estão próximas à linha de
100. Primeiramente, o programa une duas amostras com maior grau de
similaridade entre si; em seguida, essas amostras são agrupadas às demais. No
caso da seção HS14, o método estatístico apresentou resultados satisfatórios no
que diz respeito à individualização das unidades.
Em relação ao dendograma referente a J2, verifica-se similaridade nas
profundidades 280 e 270 cm da unidade 7. As profundidades 250 cm, 240 cm e
230 cm apresentam similaridade entre si e formam a unidade 13. Na unidade 14,
as profundidades 220 a 210 cm e 190 a 180 cm apresentam similaridade alta
entre si; já na profundidade 200 cm, apresentam maior similaridade com as
profundidades 190 e 180 cm, se comparado com as demais. Na unidade 19, as
profundidades 80, 60 e 50 cm apresentam maior similaridade entre si, enquanto
as demais profundidades apresentam-se dispersas no dendograma. Na unidade
20, ocorre o mesmo da unidade 19, onde as profundidades se encontram
dispersas no dendograma; mesmo assim manteve-se a subdivisão destas
profundidades em uma unidade apenas.
O dendograma da J3 demonstra que há semelhança entre as unidades
identificadas qualitativamente em relação ao dendograma. A profundidade 300 cm
mostra-se isolada com relação às demais. Na unidade 1, observa-se similaridade
entre todas as amostras correspondentes a esta unidade. Na unidade 17, as
profundidades 70, 60 e 40 cm apresentam alta similaridade entre si; já a
profundidade 50 cm se mostra isolada das demais, mas apresenta similaridade
com estas profundidades em um grau de similaridade baixo. Com relação à
unidade 19, o dendograma deixa claro que há uma similaridade forte entre estas
amostras, formando, assim, uma unidade.
Em relação ao dendograma da J6, verifica-se que subdivide em 3 grandes
grupos. Na unidade 2, há uma similaridade alta na maior parte das amostras. As
amostras da unidade 7 localizam-se na parte superior (230 e 220 cm) e inferior
(210, 200 e 190 cm) do dendograma. Quanto às amostras da unidade 9,

27
encontra-se no centro do dendograma, sendo alta a similaridade entre elas, com
exceção da profundidade 180 cm que está na parte inferior do dendograma. Na
unidade 18, as profundidades 70 e 50 cm apresentam maior similaridade entre si,
quanto à profundidade 60 cm. No dendograma, as amostras que compõe as
unidades 19 e 20 cm apresentam similaridade alta entre elas.
O dendograma da J7 mostra que as amostras referentes ao substrato
apresentam alta similaridade entre elas. Na unidade 2, as profundidades 240, 230
e 220 cm apresentam maior similaridade. Na unidade 3, as profundidades 200,
160 e 150 cm apresentam maior similaridade entre si do que com as
profundidades 190, 180, 170 e 140 cm. As profundidades 120 e 110 cm
apresentam-se distantes das demais.

Figura 2-Distribuição dos percentuais de seixo, grânulo, areia, silte e argila e seus
respectivos dendogramas das janelas 2, 3, 6 e 7

Conclusão
A partir dos resultados parciais obtidos até o momento, verificou-se que na
Superfície II, há importantes registros estratigráficos litológicos e pedológicos da
evolução da paisagem. Na seção HS14 estudada foram identificados registros

28
estratigráficos 4 gerações de paleovoçoroca e, ainda, paleossolos, depósitos
coluviais, colúvio – aluvial e aluvial. Verificou-se a atuação de períodos de
manutenção da pedogênese, com períodos de intensa morfogênese
(instabilidade), ocasionando erosão (degradação) das encostas e colmatação
(agradação) das incisões erosivas.
De uma maneira geral, o levantamento do registro estratigráfico na área de
estudo revelou informações acerca dos eventos responsáveis pela formação e
remodelamento da paisagem da área possivelmente durante o Período do
Máximo Glacial.

Referências
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Planalto De Palmas (PR) e Água Doce (SC): subsídio ao estudo da evolução da
paisagem quaternária. 2012. 100p. Dissertação (Mestrado em Geografia) –
Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Francisco Beltrão.
LANDIM, P. M. B. Análise estatística de dados geológicos multivariados. UNESP
- Campus de Rio Claro, 2000.
LIMA, J. G. G. Mapeamento e caracterização de derrame alterado sob rocha sã
no Planalto de Palmas (PR)/Água Doce (SC). Dissertação (Mestrado em Geografia)
2013. Francisco Beltrão, PR.
MOURA, J. R. S. Geomorfologia do Quaternário. In: GUERRA, A. J. T. & CUNHA,
S. B. Geomorfologia, uma atualização de bases e conceitos. Rio de Janeiro: Bertrand
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PAISANI, J. C. Descontinuidades hidrológicas, escoamento superficial e
desenvolvimento de incisões erosivas em áreas de cabeceira de drenagem:
estudo de caso na Colônia Quero-Quero, Palmeira (PR). 1998. 184p. Dissertação
(Mestrado em Geografia) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis.
______. Noções de Estratigrafia, In: Geografia e Ambientes: Perspectivas, interfaces
e aplicações. In: Encontro de Geografia, 9 Encontro de Geografia do Sudoeste do
Paraná, 3, 2004, Fco Beltrão. Anais... Fco Beltrão, 2004, 35-37p.
PAISANI, J. C.; PONTELLI, M. E; ANDRES, J. Superfícies aplainadas em zona
morfoclimática subtropical úmida no Planalto Basáltico da Bacia do Paraná (SW
Paraná/ NW Santa Catarina): primeira aproximação. Geociências, v.27, n.4, p.541-
553, 2008.
PAISANI, J.C; GEREMIA, F. Evolução de Encostas no Planalto Basáltico com base
na Análise de Depósitos de Colúvio – Médio Vale do rio Marrecas, SW do Paraná.
São Paulo, UNESP, Geociências, v. 29, n. 3, p. 321-334, 2010.
SUGUIO, K. Introdução à Sedimentologia. São Paulo: Editora Edgar Blücher –
EDUSP, 1973. 317 p.
______. Geologia do Quaternário e mudanças ambientais. São Paulo: Paulo’s
Comunicações e Artes Gráficas, 1999. 336.

29
DESCRIÇÃO GERAL DE SEÇÃO ESTRATIGRÁFICA CARACTERIZADA
COMO PALEOCANAL DE SEGUNDA ORDEM COLMATADO NOS ÚLTIMOS
1.500 ANOS AP NO PLANALTO DAS ARAUCÁRIAS (SUL DO BRASIL)

Josielle Samara Pereira


josy.samara@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
A compreensão da evolução da paisagem geomorfológica do Planalto
Basáltico no Sudoeste do Paraná e Noroeste de Santa Catarina é o principal
objetivo do Grupo de Pesquisa “Gênese e Evolução de Superfícies Geomórficas e
Formações superficiais”, formado na UNIOESTE e cadastrado no CNPq.
Nessa área, em escala regional, foram reconhecidas superfícies
geomórficas, designadas de superfícies incompletamente aplainadas, geradas
simultaneamente pelo balanço entre alteração e erosão mecânica, durante o
soerguimento da área (PAISANI et al., 2008). Os processos responsáveis pela
elaboração dessas superfícies ainda estão em estudo. De todo modo, sabe-se
que a etchplanação dinâmica atuou na área promovendo a renovação dos mantos
de intemperismo nos últimos 500.000 anos (PAISANI et al., 2013). Apenas uma
superfície é que teve maior ação da morfogênese mecânica nos últimos 41.000
anos AP (PAISANI et al., 2012a), a superfície 2, também conhecida localmente
como Planalto de Palmas/ÁGUA Doce.
Nas superfícies onde houve uma renovação contínua dos perfis de
intemperismo registram-se Nitossolos e Latossolos com diferentes espessuras. Já
na superfície onde a erosão mecânica foi mais intensa, depósitos de colúvio,
colúvio-alúvio e alúvio e paleossolos constituídos de horizontes A húmicos são
encontrados em paleovales de drenagem em bacias de baixa ordem hierárquica
(PAISANI et al., 2012a). Tais registros estratigráficos levam a pensar em uma
área cuja evolução se deu por fases alternadas de estabilidade e instabilidade
ambiental (GUERRA; PAISANI, 2012). Somando a esses fenômenos
morfogenéticos, a área registra casos de inversão de relevo, aumentando a
complexidade de sua evolução (PAISANI et. al., 2012a). Nas áreas de ocorrência
desses registros sedimentarem desenvolveu-se um programa de levantamento
sistemático de seções estratigráficas (PAISANI et al., 2012b). Até o momento foi
30
feito o levantamento de 14 seções estratigráficas ao longo dessa superfície
geomórfica, justamente para entender os fenômenos de erosão mecânica e
pedogênese. Os levantamentos contam com caracterização dos sedimentos em
escala macro e microscópica. As características microscópicas estão em curso e
revelam características importantes dos sedimentos aluviais e coluviais (PAISANI
et al., 2012c; 2013).
Nesse contexto, o presente texto traz resultados finais na caracterização
de uma das seções estratigráficas descrita na Superfície 2, Seção HS11, que
registra os fenômenos de erosão e colmatação de paleocanal de segunda ordem
hierárquica.

Materiais e Métodos
A área de estudo correspondente à Seção HS11 localiza-se no Planalto
das Araucárias - Sudoeste do Paraná e Noroeste de Santa Catarina, no sul do
Brasil e corresponde a uma unidade morfológica inscrita na unidade
morfoestrutural regional conhecida como Planalto basáltico da Bacia do Paraná
(ALMEIDA, 1956). Tal superfície geomórfica está entre 1.200 e 1.300 m de
altitude (PAISANI et al., 2008).
Para a realização deste trabalho contou-se com a descrição de seção
estratigráfica designada de HS11, onde se baseia na abordagem aloestratigráfica,
e conta com informações geradas por meio de trabalho de campo e análises
laboratoriais. Essa última consistiu na realização da granulometria,
micromorfologia e na datação pelo 14C.
O trabalho de campo, que contou com a ajuda de outros membros do
Grupo de Pesquisa “Gênese e Evolução de Superfícies Geomórficas e
Formações Superficiais”, consistiu na reprodução da seção em papel milimetrado,
na geometria das unidades estratigráficas, sendo reconhecido paleossolo
enterrado e sedimentos tanto coluviais quanto aluviais, assim como coletas de
amostras para análises laboratoriais.
A granulometria realizou-se no Laboratório de Análise de Formações
Superficiais da UNIOESTE, em amostras coletadas em quatro locais na seção
HS11, designados de janelas 4, 9, 15 e 21. Na janela 4, foram analisadas 23

31
amostras, na J9 25 amostras, na J15 24 amostras e na J21 29 amostras. Os
resultados granulométricos foram organizados em gráficos para obter os
percentuais granulométricos (silte, argila, areia, grânulo e seixo), conforme a
profundidade e, em seguida, plotados no diagrama de Fleming (OLIVEIRA; LIMA,
2004), para determinação das classes texturais. Os percentuais das frações
granulométricas foram decisivos na individualização das unidades litológicas,
assim como a textura foi definida objetivando classificar as unidades.
A análise micromorfológica dos materiais da Seção HS11 corresponde a
outra análise realizada em laboratório; para esta análise em campo, foram
coletadas, ao todo, 6 amostras indeformadas, tanto do ambiente aluvial quanto do
coluvial. A amostra 1 representa a unidade 9, enquanto que a amostra 2
corresponde à unidade 15 e a amostra 3 refere-se à unidade 21, todas
correspondentes ao ambiente aluvial. A amostra 4 representa a unidade 1 e a
amostra 5 a unidade 26, ambas do ambiente de encosta. A amostra 6 foi coletada
no paleossolo correspondente à unidade 5, encontrado no ambiente de encosta.
A preparação das lâminas foi realizada pelo Laboratório de Laminação do Instituto
de Geociências, Departamento de Geologia e Recursos Naturais da UNICAMP.
Já a análise micromorfológica foi realizada no Laboratório de Microscopia e
Óptica da UNIOESTE, conforme critérios descritivos de Castro (2002).
A idade dos registros estratigráficos foi realizada pelo Laboratório de
Isótopos do CAIS (University of Georgia - USA), sendo esta definida pelo método
do 14C de sedimento organo-mineral encontrado na base do paleocanal.

Resultados
Caracterização da Seção Estratigráfica
A seção HS11 registra os eventos geomórficos de colmatação de um canal
de 2ª Ordem estabelecido na Superfície 2. Ela exibe sedimentos tanto de
ambiente de encosta quanto fluvial estabelecidos sobre substrado constituído de
derrame meteorizado por fluxos hidrotermais (LIMA, 2012) (Figura 2). No
ambiente de encosta foram reconhecidas 11 unidades coluviais (unidades 1, 2, 3,
4, 6, 8, 10, 11, 17, 18 e 26) e dois paleosolos húmicos (unidades 5 e 7). No
ambiente fluvial identificou-se 13 unidades aluviais (unidades 9, 12, 13, 14, 15, 16,

32
19, 20, 21, 22, 23, 24 e 25). Estas últimas foram individualizadas levando em
consideração a presença ou a ausência de sutil gradação (normal ou inversa).
14
Com a datação do C é visto que a seção apresenta a colmatação de um
paleocanal de segunda ordem hierárquica preenchido por sedimentos aluviais
14
durante o Holoceno Superior, uma vez que a idade pelo C corresponde a 1.440
± 20 anos AP (612 a 671 cal. AP).

Figura 1-Paleocanal de segunda ordem hierárquica (Seção HS11)

Análise Granulométrica
Através da análise granulométrica é constatado o percentual de cada
fração presente na amostra: seixo, grânulo, areia, silte e argila. Foi realizada a
análise granulométrica correspondente a todas as amostras de todas as janelas
da Seção HS11, sendo elas: janela 4, janela 9, janela 15 e janela 21. Seus
respectivos resultados granulométricos estão expostos na figura a seguir:

33
Figura 2-Gráficos granulométricos das janelas da Seção HS11

De acordo com a figura 2, é possível constatar que em todas as amostras


das respectivas janelas da Seção HS11 se apresentam um elevado teor de argila
seguido de um elevado percentual de silte, de modo que as frações areia, grânulo
e seixo, correspondentes à fração grossa, se apresentam com baixa porcentagem
em todas as amostras.

Figura 3-Diagrama Triangular de Flemming

De acordo com a figura 3, é possível verificar que todas as amostras da


Seção HS11 classificam-se de acordo com o diagrama triangular de Flemming,
como sendo Lama levemente arenosa argilosa (D-IV), possuindo algumas
variações entre: lama levemente arenosa siltosa (D-III) na janela 9, 15 e 21, argila
siltosa (E-III) presentes na janela 9 e 21 e uma amostra apenas sendo Lama
levemente arenosa muito argilosa (DV) na janela 4.

34
Constata-se, assim, que os materiais presentes tanto no ambiente de
encosta quando no ambiente fluvial se apresentam relacionados, ou seja, a
textura é mesma; isso nos faz pensar que, anteriormente, os materiais que hoje
estão presentes no ambiente fluvial faziam parte do ambiente de encosta antes de
se depositarem no ambiente fluvial.

Análise Micromorfológica
Todas as lâminas descritas apresentam categoria manica porfírica aberta.
Os Poros, Plasma e Esqueleto nas lâminas estão bem distribuídos em todas as
lâminas. A tabela 1 apresenta a porcentagem de poros, plasma e esqueleto
presente em todas as Lâminas; é possível constatar que os poros estão mais
concentrados nas Lâminas presentes no ambiente aluvial do que coluvial, assim
como o plasma. Em relação ao esqueleto, este está mais concentrado nas
Lâminas presentes no ambiente coluvial do que no ambiente aluvial. Em todas as
lâminas descritas há o predomínio de poros em forma de Fissuras e cavidade,
sendo que de modo geral 75% correspondem à Fissuras e somente 25%
correspondem à cavidade.

Tabela1-Porcentagem de poros, plasma e esqueleto nas Lâminas


Lâminas L1 L2 L3 L4 L5 L6
Poros 15% 15% 15% 10% 12% 7%
Pasma 50% 55% 50% 42% 41% 45%
Esqueleto 35% 30% 35% 48% 47% 48%

Em relação à esfericidade dos materiais, eles se apresentam pouco


arredondado em todas as lâminas e variam entre sub Arredondado e sub Angular
(Tabela 2), sendo que as Lâminas 4, 5 e 6 apresentam mais sub Angular do que
sub Arredondada, de modo que as Lâminas 1, 2 e 3 se apresentam mais sub
arredondada do que sub Angular. Isso significa que houve um fluxo maior no
ambiente aluvial do que no ambiente coluvial.

Tabela 2-Esfericidade dos materiais e Microfeições dos Poros


Lâminas Esfericidade dos materiais
Arredondado Sub. arredondado Sub. Angular
L1 5% 45% 50%
L2 4% 51% 45%
L3 5% 50% 45%
L4 2% 43% 55%
L5 2% 48% 52%
L6 2% 47% 53%

35
A fração grossa é constituída de pedorelíqueas, quartzo e magnetita
ilmenita, sendo que estas estão presentes e distribuídas em todas as Lâminas
(tabela 3). Todas as seis Lâminas sendo elas tanto do ambiente coluvial quanto
aluvial se apresentam com pouca Magnetita ilmenita, sendo que o quartzo e a
pedorelíqueas estão mais concentrados e bem distribuídos em todas as Lâminas.
Em todas as Lâminas, há grandes concentrações de Nódulos de Fe, como
mostra a figura a seguir:

Figura 4-Micrografias das fácies aluvial (A e B), coluvial (C) e paleossolo (D)

Conclusão
A seção HS11 apresenta a colmatação de um paleocanal de segunda
ordem hierárquica preenchido por sedimentos aluviais durante o Holoceno
Superior (1.440 ± 20 anos AP / 612 a 671 cal. AP). Esse processo coincide com o
fenômeno de coluvionamento no setor de encosta do respectivo paleovale,
resultando na interdigitação entre unidades coluviais e aluviais. Acredita-se que o
fenômeno de coluvionamento é recorrente na área como demonstra a presença
de paleossolo enterrado e camadas coluviais sobrejacentes a este.
A análise granulométrica possibilitou identificar sutis variações texturais
entendidas como indicativos de diferenças deposicionais. Tal aspecto foi utilizado
no reconhecimento dos limites de unidades estratigráficas.
Através da análise micromorfológicas foi constatado importante
informações a respeito da fonte dos sedimentos e do grau de esfericidade dos

36
materiais na passagem do ambiente de encosta para fluvial. Constata-se um
retrabalhamento dos sedimentos organizados em microagregados que passam de
subangulares para subarredondados, face o transporte fluvial. Isso se deu em um
regime de fluxo de baixa energia até a contínua colmatação do canal.

Referências
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Geografia, n. 24, p. 03-34, 1956.
CASTRO, S. S. Micromorfologia: bases para a descrição de lâminas delgadas.
Instituto de Geociências. Departamento de geografia. Campinas, 2002.
GUERRA, S.; PAISANI, J. C.; Levantamento estratigráfico das Formações
Superficiais Cenozóicas no Planalto de Palmas (PR) e Água Doce (SC): subsídios
ao estudo da evolução da paisagem a partir do Estágio Isotópico Marinho 3.
Ambiência (UNICENTRO), v. 8, p. 651-665, 2012.
LIMA, J. G. G. Mapeamento e caracterização de derrame alterado sob rochas
sã no Planalto de Palmas(PR)/Água Doce(SC). Dissertação (Mestrado em
Geografia) 2012. Francisco Beltrão, PR.
PAISANI, J. C; PONTELLI, M. E; ANDRES, J. Superfícies aplainadas em zona
morfoclimática subtropical úmida no Planalto Basáltico da Bacia do Paraná (SW
Paraná e NW Santa Catarina: primeira aproximação. Geociências, UNESP, v.27,
n.4, p.541 – 553, 2008.
PAISANI, J. C. et al.; Dinâmica ambiental e da vegetação do Planalto das
Araucárias – Superfície II – No Quaternário Tardio: contribuições de análise de
fitólitos, de isótopos de carbono e da mineralogia de argila. In: Anais...IX
Simpósio Nacional de Geomorfologia (SINAGEO), 2012 a, Rio de Janeiro, RJ,
Brasil.

37
ESTÁGIO DE INTEMPERISMO DA COBERTURA SUPERFICIAL EM
AMBIENTE SUBTROPICAL COM SUBSTRATO BASÁLTICO – SUPERFÍCIE
GEOMORFOLÓGICA V (SW PR)

Elizandra Carla Bertuol


elizandrabertuol@bol.com.br
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
Entender a relação de gênese e evolução entre cobertura pedológica e
formas de relevo encontradas no Planalto das Araucárias (ALMEIDA, 1956) é o
objetivo do Grupo de Pesquisa “Gênese e Evolução de Superfícies Geomórficas e
Formações Superficiais”. A partir da análise preliminar obtida por cotejamento
entre observações de campo e dados orbitais do sensor SRTM mostrou que o
relevo se distribui em escadaria ao longo da Serra da Fartura, sentido leste-oeste
(PAISANI, et al. 2008). Nesse contexto, Paisani, et al (2008), reconheceram oito
remanescentes de superfícies geomórficas entre as classes hipsométricas de
1.400 a 600 m. O levantamento das formações superficiais apontou para a ação
simultânea entre alteração e erosão mecânica na sua gênese.
Das superfícies identificadas na Serra da Fatura apenas duas delas
(superfícies I e II) apresentou cobertura pedológica oriunda de processos
morfogenéticos intensos (PAISANI et al. 2012). No restante das superfícies
geomórficas identificadas (III a IV) verificou-se o domínio de perfis de alteração e
levou os autores a considerar os processos de etchplanação para a evolução das
superfícies geomórficas, levando em consideração o rebaixamento do substrato
por perda isovolumétrica.
No caso da superfície V (900-1000m de altitude) em estudo, com substrato
de rochas efusivas básicas, como verificado já na superfície VI por Rodrigues
(2011), parte-se do pressuposto que tal superfície também tenha sido rebaixada
pela perda isovolumétrica do substrato do que pelo recuo das encostas, conforme
aponta Paisani et al (2008). Desse modo, o presente trabalho tem por objetivo
verificar o estágio de intemperismo dessa cobertura superficial (PAISANI et al.
2008). E, ainda, estabelecer sua correlação pedoestratigráfica com a superfície
VI, onde já há dados sistematizados e uma interpretação ampla que contribuirá
para entender a evolução da paisagem ao longo da Serra da Fartura.
38
Metodologia
Para a caracterização física dos materiais da superfície V foram
analisadas: a) cor, utilizando-se Carta de Munsell, disponível no Laboratório de
Análise e de Formações Superficiais da UNIOESTE – Campus de Francisco
Beltrão; b) forma, tamanho e resistência da estrutura; c) cerosidade; d)
pedoturbação; f) porosidade; d) consistência, quando seco, para verificar a
dureza, úmido, quanto à friabilidade e molhado, para observar se o material é
pegajoso e plástico (SANTOS et al, 2005). Essas propriedades foram descritas no
perfil até a profundidade de 710 cm, limite de exposição dos materiais no corte de
estrada.
Para a análise granulométrica, selecionou amostras do perfil a cada 10 cm
até a profundidade de 570 cm.
A granulometria foi realizada no Laboratório de Análise de Formações
Superficiais da UNIOESTE – Campus Francisco Beltrão, seguindo o método de
peneiramento para fração grossa (>0,062 mm) e pipetagem para a fração fina
(<0,062 mm), utilizando-se separação via úmida.
Os resultados da granulometria foram plotados em gráfico do Excel para
verificar os teores de areia, silte e argila com a profundidade do solo.
Posteriormente, usou-se do diagrama de Classes texturais do material constitutivo
de horizontes e perfis de solo (LEMOS; SANTOS, 1996), com o qual se obteve a
classificação textural dos materiais.

Resultados
Em relação às características morfológicas do perfil de alteração, o mesmo
apresenta 710 cm de material (Figura 1), dos quais 450 cm correspondem ao
pedon e o restante à alterita (450 a 710 cm). Esta apresenta-se com
características de aloterita, de acordo com Delvigne (1998). Do total do material
exposto na seção, foram individualizados oito volumes, cujas características
físicas, obtidas a partir da descrição de campo e da análise granulométrica, serão
apresentadas na sequência.
O material no volume 1, mais superficial, de 0 a 20cm de profundidade,
apresenta estrutura granular, fraca, muito pequena, passando de 40% de raízes,

39
até os 10 cm de profundidade, para 20% na profundidade de 20cm (Figura 1). A
cor apresenta-se como vermelho muito escuro, (2.5YR 2.5/2) quando seca,
passando a bruno avermelhado escuro (2.5 YR 2.5/3), quando úmida. A
consistência mostra-se solta, tanto no material seco quanto úmido, apresentando-
se ligeiramente pegajosa e não plástica. A granulométrica mostra teores de argila
com 70%, com decréscimo do silte de 40% e um aumento, aproximadamente, de
45%, enquanto a areia se mantém constante (Figura 1). Plotando-se esses
valores no diagrama textural verifica-se que se trata de textura muito argilosa. As
características físicas de campo indicam tratar-se de horizonte A.
O volume 2, inferior, entre 20 e 40 cm de profundidade (Figura 1),
apresenta a maioria das características físicas iguais ao volume 1. Apenas ocorre
mudança do tipo da estrutura, variando para subangular, embora ainda pequena e
de resistência fraca. Observa-se aumento nos percentuais de argila e diminuição
de silte (Figura 1), a textura continua muito argilosa. A variação da estrutura
passando de granular nos primeiros 20 cm para blocos subangulares, entre 20 e
40 cm. Indica que o volume 2 corresponde a horizonte de transição entre A e B,
ainda predominando as características de A. Desse modo, pode-se chamar este
volume como horizonte AB.
No volume subjacente 3, individualizado entre 40 e 90 cm de profundidade
(Figura 1), tem-se a diminuição gradativa das raízes, passando de 6% nos 40 cm
para apenas 1% a 90 cm de profundidade. A estrutura e consistência mantêm-se
igual ao volume 2, apenas observando-se variação na cor. Essa se mantém como
vermelho muito escuro (2.5YR 2.5/2) quando seca, mas mostra-se como bruno
avermelhado escuro (2.5 YR 3/4), quando molhada. Observa-se comportamento
uniforme dos percentuais de areia, silte e argila neste volume, mantendo-se a
textura muito argilosa. A diminuição significativa de raízes, a mudança do valor e
croma, na cor e a uniformidade no comportamento textural indicam tratar-se de
material correspondente a horizonte transicional BA (Figura 1). Entre 90 e 200 cm
de profundidade, volume 4, o material mantém-se com estrutura em blocos
subangulares, pequenos, porém, variando a resistência de fraca a moderada. A
consistência mostra-se macia quando o material está seco e muito friável quando
úmido. A plasticidade e pegajosidade não variam em relação aos horizontes

40
sobrejacentes. A cor predominantemente varia de vermelho escuro (2.5YR 3/6)
quando seca a bruno avermelhado escuro (2.5 YR 3/4) quando molhada. Neste
volume observa-se aumento da fração argila (Figura 1). A textura se mantém
muito argilosa. Esse aumento do percentual de argila pode ser uma indicação de
intemperismo pedogeoquímico mais intenso. De modo geral, essas características
indicam tratar-se de horizonte B. A consistência macia, quando seca e muito
friável quando solta, pode ser indício de características latossólicas.

Figura 1-Perfil da área de estudo (B). Gráfico granulométrico com os percentuais de


areia, silte e argila (A)

O volume subjacente, de número 5 (Figura 1), individualiza nas


profundidades entre 200 e 400 cm, apresentando, em geral, as mesmas
características físicas observadas no volume 4. Registra-se apenas mudança na
consistência molhada que passa a pegajosa e ligeiramente plástica. A cor se

41
mantém bruno avermelhada (2.5 YR 4/4) passando a vermelho escuro (10R 3/4
3/3). A variação de cor para vermelho escuro e a mudança para material pegajoso
e ligeiramente plástico, bem como uma leve tendência à diminuição na fração
argila (Figura 1), embora a classe textural mantenha-se, em geral, muito argilosa,
levou à individualização do volume. Em termos de horizonte, ainda não se tem
elementos suficientes para saber se há uma continuidade do horizonte anterior,
porém mais vermelho, ou se as características diagnósticas mudaram.
Entre 400 e 450 cm de profundidade individualiza-se o volume 6, que se
caracteriza por horizonte transicional BC (Figura 1), marcado especialmente pelo
domínio da cor vermelho escuro (10R 3/4), resistência moderada da estrutura e
consistência plástica, quando molhado. A porosidade muda para 25%,
aproximadamente. Mantêm-se tendência de diminuição da fração argila e,
consequentemente, aumento do silte (Figura 1), embora ainda constitua-se
textura muito argilosa.
O material subjacente, entre 450 e 490 cm de profundidade, volume 7,
apresenta características que indicam tratar-se de horizonte transicional CB
(Figura 1). A cor volta a se apresentar entre bruno avermelhado (2.5 YR 4/4) e
bruno avermelhado escuro (2.5 YR 3/4), e a consistência úmida volta a se mostrar
ligeiramente plástica. Na base desse volume, observa-se mudança da
consistência seca para ligeiramente dura. No comportamento das frações
granulométricas (Figura 01), a tendência é de textura muito argilosa passando à
argilosa.
O volume 8 (Figura 1) individualiza-se de 490 a 710 cm, profundidade
máxima de observação da alterita no perfil. O material, nesse volume, apresenta
cor predominante vermelho (10R 4/8 a 4/6), estrutura subangular passando de
pequena a média, e de grau forte. Mostra-se duro quando seco, passando a firme,
com umidade, e plástico e pegajoso, quando molhado. A porosidade, em geral,
não ultrapassa os 15% e a classe textural individualiza-se como argilosa, com
diminuição geral da argila e aumento do silte e areia (Figura 1). Esse aumento é
mais expressivo a partir de 570 cm de profundidade. Esse volume se constitui no
horizonte C, mostrando-se como aloterita, de acordo com a conceituação de
Delvigne (1998).

42
Considerações Finais
A definição dos volumes/horizontes do perfil de solo foi possível devido às
características físicas observadas em campo, e análise granulométrica em
laboratório. Quanto ao intemperismo, verifica-se que está avançado devido ao
aumento da porcentagem de argila no perfil, mas serão necessárias análises de
química total, difratogramas de raios-X, ataque sulfúrico e teores de ferro para
comprovar essa hipótese.

Referências
ALMEIDA, F.F.M. 1956. O Planalto basáltico da Bacia do Ontario, p. 553-566.
Paraná. In: Boletim Paulista de Geografia, 24: 03-34.
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drenagem sobre substrato vulcânico – Campo Erê (SC). 82p.
2010.Dissertação (Mestrado em Geografia), Universidade Estadual do Oeste do
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DELVIGNE, J. E. Atlas of micromorphology of mineral alteration and
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DEWOLF, Y. Intérét et principles d`une cartographie des formations
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EMBRAPA. Manual de métodos de análise de solo. Centro Nacional de
Pesquisa de Solos. 2 ed. Rio de Janeiro, 1997. Organização: CLAESSEN, M. E.
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LEMOS, R. C. de; SANTOS, R. D. Manual de descrição e coleta de solo no
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MONIZ et al., A. C. Elementos de Pedologia. Rio de Janeiro, Livros Técnicos e
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NARDY, A. J. R. As rochas vulcânicas mesozóicas ácidas da Bacia do Paraná:
litoestratigrafia e considerações geoquímico-estratigráficas. Revista Brasileira de
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NARDY, A. J. R. et al. Geologia e estratigrafia da formação serra geral. São
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OLLIER, C. Weathering. NY, Longmann. 304p. 1975.
PAISANI J. C. PONTELLI M. E. Propriedades micromorfológicas de colúvios em
encosta no médio vale do Rio Marrecas (Sudoeste do Estado do Paraná) - bases
para distinção de formações superficiais alóctones e autóctones em substrato

43
basáltico Instituto de Geociências, Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
Porto Alegre, RS, Brasil. Geociências, 39 (1): 53-62, jan./abr. 2012.
RODRIGUES, R. Estágio de intemperismo de perfil laterítico em área
subtropical com substrato basáltico – Superfície aplainada VI (SW PR). 2010.
Dissertação (Mestrado em Geografia) – Universidade Estadual do Oeste do
Paraná, Francisco Beltrão.
SANTOS R. D. et al., Manual de descrição e coleta de solo no campo. 5 ed.
Revisada e ampliada. Viçosa. 2005.
TRICART, J. (1983). L`Etude dês formations superficielles selon une approche
ecologique. In: Colóquio Interdisciplinar Franco- Brasileiro: Estudo e Cartografia
de Formações superficiais e suas aplicações em Regiões Tropicais, São
Paulo, Anais,1983 p. 139-150.

44
GÊNESE DE DERREMA ALTERADO SOB ROCHA SÃ
NO PLANALTO DE PALMAS (PR)/ÁGUA DOCE (SC)

Jacson Gosman Gomes de Lima


jacsongosman@yahoo.com.br
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
Na natureza, as rochas estão em constante transformação. Isto ocorre
porque existe uma tendência natural ao equilíbrio físico-químico entre as
substâncias (BLAND; ROLLS, 1998). No ambiente de superfície, as condições
físico-químicas reinantes e, na maioria das vezes, a ação dos organismos vivos
permitem a ação do intemperismo (BIGARELLA et. al, 1994). No entanto, as
rochas também podem se alterar no interior da crosta terrestre, alteração
hidrotermal, envolvendo mudanças químicas e texturais, resultado da interação de
fluidos aquosos quentes (entre 50 e 500 ºC) com as rochas (PIRAJNO, 1992).
Esses dois tipos de alteração de rocha, mesmo em diferentes escalas,
ocorrem em todo o planeta, seja em superfície ou no interior da crosta. Na região
Sudoeste do Paraná e Noroeste de Santa Catarina predominam processos de
intemperismo na superfície. No entanto, Paisani et. al, (2008) verificaram no
Planalto de Palmas (PR)/Água Doce (SC), sob derrame de rocha riolítica sã,
material completamente alterado que se estende por grande extensão em tal
planalto.
A presença do derrame alterado sob rocha sã suscitou algumas hipóteses.
A primeira delas que a rocha alterada sob a sã poderia ser derrame alterado entre
intervalo de efusão, ou seja, um paleoperfil de intemperismo Cretáceo. Outra
hipótese possível é que a rocha alterada seja o produto do intemperismo de
derrame básico em contato com o ácido, uma vez que o basalto é menos
resistente que o riolito e o grande fraturamento da rocha em superfície favorece o
contato do basalto com a água percolante. Uma terceira hipótese é que a rocha
alterada sob sã no Planalto de Palmas (PR)/Água Doce (SC) teria sua origem
ligada a processos de alteração hidrotermal (LIMA, 2013).
Tendo como ponto de partida tais hipóteses; iniciou-se a pesquisa, esta
que envolveu trabalhos de campo e laboratório. Em campo, primeiramente,

45
selecionou-se afloramento onde contato racha sã/rocha alterada é bem nítido,
bem como se descreveu as características dos materiais e coletou-se amostras,
que foram submetidas a análises laboratoriais (granulometria, pH, química total,
mineralogia de argila) (LIMA, 2013). Com o emprego dessas técnicas, objetivou-
se elucidar a gênese do material alterado sob/rocha sã no Planalto de Palmas
(PR)/Água Doce (SC). No entanto, nesse artigo serão apresentados apenas os
resultados da mineralogia de argila.

Metodologia
O afloramento denominado de seção SS2 (26º 34’ 38”S / W 51º 36’ 55”) foi
escolhido por tratar-se de corte de estrada expressivo, cujo contato rocha
sã/rocha alterada é bem nítido. Por meio da cor, descrita com base nas Rock
Color Chart e Soil Color Chart, bem como da estrutura dos materiais, descritas
com base em Ruellan e Dosso (1993) e Manfredini et al. (2005), ainda em campo
foram individualizados os volumes das seções SS2 e coletadas amostras para
análise em laboratório.
Para a mineralogia da fração argila selecionou-se 7 amostras da seção
SS2. A técnica empregada para essa análise foi a de Difração de Raios-X (DRX).
Tais amostras foram tratadas pelo LAMIR - Laboratório de Minerais e Rochas da
UFPR, método orientada natural, glicolada, calcinada a 350º C e 550º C, método
do pó-K e pó-Mg. A interpretação dos picos dos difratogramas foi realizada a
partir de trabalhos de referência (MOORE; REYNOLDS, 1997; RESENDE et. al,
2005; CURI et al., 1984). Para tal interpretação usou-se também o banco de
dados de minerais Mineralienatlas (http://www.mineralienatlas.de). Os recursos
para realização dos DRX foram do PROAP e de projeto financiado pela Fundação
Araucária (Convênio 407/2009).
Essa técnica permitiu conhecer as características mineralógicas dos
materiais da seção SS2; a paragênese mineral dos materiais de tal seção foi
comparada com dados de trabalhos clássicos e atuais, juntamente com outros
dados (LIMA, 2013), possibilitando inferir a gênese do material alterado sob rocha
sã no Planalto de Palmas (PR)/Água Doce (SC).

46
Resultados e Discussões
A seção SS2 corresponde à corte de estrada rural no Planalto de Palmas (PR) e
Água Doce Santa (SC) (Figura 1).

Figura 1-Desenho esquemático da Seção SS2. (1) Rocha sã cinza clara fraturada vertical
e horizontalmente. (2) Rocha Sã de coloração roxa fraturada diagonalmente. (3) Colúvio
com presença de clastos arredondados. (4) Solo atual. (5) Rocha alterada. (6) Linha que
delimita o contato entre a rocha alterada e as demais litologias

Essa seção está inscrita em corte de barranco com mais de 50 m de


extensão lateral e 10 m de altura (Figura 1). Onde se delimitou janela com,
aproximadamente, 7 m de altura e 1 m de largura e sete volumes, constituindo a
seção SS2 (Figura 2).

Figura 2-Janela da seção SS2. I...VII volumes individualizados. (1) Veios e lentes de
zeólita caulinizada. (2) Fragmento de rocha ácida sã. A2...A7a, A7b: local de coleta para
DRX

47
O volume I tem espessura média de 1 m, sendo constituído de rocha ácida
riolítica halohialina, afanítica e equigranular, fraturada vertical e horizontalmente,
formando blocos de tamanho pequeno com dimensões médias entre 10x15x10
cm. Esses blocos de rocha apresentam textura amigdaloidal. Tais amigdalas são
preenchidas por zeólita. A cor predominante na rocha é vermelho roxo
acinzentado (5RP4/2), podendo apresentar manchas de cor vermelho roxo pálido
(5RP6/2).
A partir de 5,4 m, a rocha fraturada vertical e horizontalmente dá lugar a
material totalmente alterado de textura siltosa, de cor bruno muito claro
(10YR7/4). No perfil, esse material apresenta estrutura maciça. Quando coletada,
a amostra quebra-se em blocos de estrutura fraca, que variam de angulares a
prismáticos. O material desagregado quando friccionado entre os dedos
apresenta textura sedosa. A consistência do material do volume II quando seco é
macio, com umidade torna-se solto, e se molhado é friável e pouco pegajoso. O
material do volume II submetido à DRX apresentou esmectita, ilita, aluminita,
hexahidrita, muscovita, amesita e gipsita (Quadro 1).
Em 5,8 m, inicia-se o volume III, que se caracteriza por apresentar dois
materiais distintos. Uma massa de cor vermelha (2.5YR5/8) e textura siltosa, que
se comporta como massa vítrea. Em meio a essa massa aparecem distribuídos
aleatoriamente estruturas menores de 2mm, que variam de alongadas à
arredondadas, de material siltoso branco (5Y 8/1). No momento da coleta, o
material desagrega-se em pequenos blocos sub-angulares de resistência
moderada a forte. Quando seco, esse material é macio e sedoso; molhado é
pouco plástico e pouco pegajoso. No volume III, o DRX revelou a ocorrência de
clorita, esmectita, pirofilita, aluminita, talco, barita, muscovita e albita (Quadro 1).
A principal mudança nas características físicas do volume IV em relação ao
volume III é a resistência dos blocos sub-angulares, que nesse volume é fraca. As
demais características de cor, plasticidade, pegajosidade e textura não mudam
em relação ao volume III. Por meio do DRX foram identificados clorita, aluminita,
heulandita e albita no material alterado do volume IV (Quadro 1).
A partir 6,7 m, individualiza-se o volume V, de cor bruno avermelhado fraco
(2.5YR6/4) e textura siltosa. Como descrito no volume III e IV, o volume V

48
também apresenta dois materiais distintos. No perfil, o material desse volume
apresenta estrutura maciça. Na coleta, quebra-se em blocos sub-angulares de
resistência moderada a forte. Quando seco, o material é macio e sedoso;
molhado é pouco plástico e pegajoso. Os minerais identificados por meio de DRX
no volume V foram clorita, pirofilita, feldspato potássico, heulandita, muscovita e
esmectita (Quadro 1).
O volume VI inicia-se em 8,1 m, diferindo do volume V, principalmente, em
relação à cor bruno fraco (2.5YR6/8). As demais características de textura,
estrutura, pegajosidade e plasticidade se assemelham muito ao volume
anteriormente descrito. No que se refere à mineralogia, o DRX revelou a
ocorrência de clorita, esmectita, aluminita e albita no volume VI (Quadro 1).
A partir de 9,9 m, individualizou-se o volume VII. O material desse volume
tem textura siltosa e cor variando entre bruno avermelhado (2.5YR4/4) e bruno
avermelhado fraco (2.5YR7/4). A estrutura do material quando coletado se
desagrega em blocos sub-angulares de resistência forte. Quando seco, o material
é macio e sedoso; molhado é pouco plástico e pouco pegajoso. Em relação aos
demais volumes da seção SS2, neste volume notou-se concentração maior das
estruturas alongadas menores que 2 mm de cor branca (5Y8/1), envoltas em
material de coloração avermelhada. Essas estruturas no volume VII
correspondem mais ou menos a 40% do material. Em alguns lugares, esse
material branco se deposita na forma de veios e lentes maiores de zeólita
caulinizada (figura 2-1). No volume VII, o DRX revelou a ocorrência de anidrita,
muscovita, talco e Ankerita (Quadro 1).

Quadro 1-Minerais identificados na seção SS2


Volumes SS2 – amostras Minerais identificados
II-A2 E, I, Al, H, M, A, Gp
III-A3 CL, E, P, Al, T, Ba, M, Ca-F
IV-A4 CL, Al, HUL, Ca-F
V-A5 CL, P, K-F, HUL, M, E
VI-A6 CL, E, Al, Ca-F.
VII-A7a P, K-F, M, Qz
VII-A7b AD, M, T, AK
Minerais identificados na seção SS2 e pH. E: esmectita. I: ilita. Al: aluminita. M: muscovita. H:
hexahidrita. A: amesita. Gp: Gipsita. CL: clorita. P: pirofilita. T: talco. Ba: barita. Ca-F: albita. HUL:
Heulandita. K-F: feldspato potássico. Qz: quartzo. AD: anidrita. AK: ankerita.

49
Comparando a mineralogia dos materiais da seção SS2 com trabalhos
clássicos sobre alteração hidrotermal (Quadro 2) percebe-se facilmente que há
muitos minerais em comum; essa é uma informação que corrobora com a
hipótese de alteração hidrotermal levantada inicialmente. Dos minerais
apresentados no Quadro 2, na seção SS2 foram encontrados: esmectita, ilita,
clorita, amesita (grupo das serpentinas), pirofilita, barita, albita, K-feldspato,
quartzo e ankerita (grupo dos carbonatos).

Quadro 2-Características de sistema hidrotermal epitermal propilítico de baixa sulfetação


Autores Assembleia mineralógica principal
Burnham Epidoto, calcita, caulinita, esmectita, clorita, serpentina,
(1962) quartzo, albita e K-feldspato.
Pirajno (1992) Epidoto, clorita, carbonatos, albita, K-feldspato e pirita.
White e Hedenquist Quartzo, cristobalita, calcedônia, calcita, adularia, ilita,
(1995) caulinita, pirofilita, alunita e barita.
Sener e Gevrek K-feldspato, albita, clorita, alunita, caulinita, esmectita,
(2000) ilita e minerais opacos.

No entanto, esmectita e ilita são argilominerais (2:1) que têm ampla


ocorrência, já identificada em alteração supérgena de riolito (MENEGOTTO;
GASPARETTO, 1987; CLEMENTE, 1988, 2001), e também em perfis de
alteração de rochas básicas (OLIVEIRA et al., 1998). A ilita é um argilomineral
comumente encontrado em estágios iniciais da alteração supérgena de feldspatos
potássicos, enquanto a esmectita aparece em estágios de intemperismo um
pouco mais intenso (MEUNIER, 2005).
Contudo, outras características também ajudaram a elucidar a possível
gênese do derrame alterado sob rocha sã no Planalto de Palmas (PR)/Água Doce
SC. Como apontado por Lima (2013), o pH da seção SS2 entre 5 e 6 se aproxima
dos valores apresentados por Burnham (1962) e White e Hedenquist (1995) para
depósitos hidrotermais epitermais. Ainda conforme Lima (2013), a seção SS2
apresentou enriquecimento de MgO; este enriquecimento é típico de alterações
hidrotermais propilíticas (BURNHAM, 1962), informação que ajudou na
interpretação e caracterização do tipo de alteração.

50
Considerações Finais
Embora nesse artigo esteja sendo apresentada apenas a mineralogia de
argila do material alterado da seção SS2, ao comparar os minerais dessa seção
com a assembleia mineralógica típica de depósitos hidrotermais epitermais
propilíticos, percebe-se, facilmente, que há muitos minerais em comum. Essa
informação aliada a resultados de química total e pH, bem como outras
evidências, corrobora com a hipótese aventada inicialmente de que o derrame
alterado sob rocha sã no Planalto de Palmas (PR)/Água Doce (SC) teria sua
gênese ligada à alteração Hidrotermal. Essa pesquisa pode ser lida na íntegra na
dissertação de mestrado de Jacson Gosman Gomes de Lima (2013), intitulada
“Ocorrência e gênese de derrame alterado sob rocha sã no planalto de Palmas
(PR)/Água Doce (SC)”.

Referências
Banco de dados de minerais. Disponível em: <http://www.mineralienatlas.de/>.
Acesso em 27 agost. 2012.
BIGARELLA, J. J.; BECKER, R. D.; SANTOS, G. F. Estrutura e origem das
paisagens tropicais e subtropicais. Florianópolis: Ed. UFSC, 1994.
BLAND, W.; ROLLS, D. Weathering: an introduction to scientific principles.
New York: MPG Books Ltd, Bodmin, Cornwall, 1998.
BURNHAM, C. W. Facies and Types of Hydrothermal Alteration. Economic
Geology, v. 57, p. 768-784, 1962.
CLEMENTE, C. Alteração de solos desenvolvidos sobre rocha vulcânica
ácida da Formação Serra Geral nos Planaltos de Guarapuava e Palmas,
Região Centro Sul do Estado do Paraná. Piracicaba. 1988. 210p. Tese
(doutorado em Agronomia). Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz,
UNESP.
CLEMENTE, C. A. Intemperismo de riólitos e riodacitos da Formação Serra
Geral (Jurássico-Cretáceo), das regiões sul e sudeste do Brasil. 2001. 216p.
Tese (Livre Docência) – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz/USP,
Piracicaba, 2001.
CURI, N.; KAMPF, N.; RESENDE, M. Mineralogia, Química, Morfologia e
geomorfologia de solos originados de rochas efusivas das encostas superior e
inferior do Nordeste, no Rio Grande do Sul. Revista Brasileira de Ciência dos
Solos, 1984.

51
LIMA, G. G. L. Ocorrência e gênese de derrame alterado sob rocha sã no
Planalto de Palmas (PR)/Água Doce (SC). 2013. 170p. Dissertação (Mestrado
em Geografia) – Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade
Estadual do Oeste do Paraná, Francisco Beltrão - PR.
MANFREDINI, S.; DIAS, S.M.F; QUEIROZ NETO, J.P; OLIVEIRA, D.;
FERREIRA, R.P.D. – Técnicas em Pedologia. In: VENTURI, L.A.B. (Org.).
Praticando Geografia: técnicas de campo e laboratório. São Paulo: Oficina de
Textos, 2005, p.85-98.
MENEGOTTO, E.; GASPARETTO, N.V.L. Intemperização de rochas vulcânicas
básica e ácidas na região de Santa Maria-RS. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE
GEOQUÍMICA, 1.,1987, Anais... 1987. v.2, p. 69-83.
MEUNIER, A. Clays. Nova York: Springer Berlin Heidelberg, 2005.
MOORE, D.M.; REYNOLDS JR, R.C. X-ray diffraction and the identification
and analysis of clay minerals. 2ª ed. Oxford University Press, 1997.
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Parana Basin, Brazil. Journal of South American Earth Sciences, v. 11, n. 4, p.
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PAISANI, J.C.; PONTELLI, M.E.; ANDRES, J. Superfícies aplainadas em Zona
Morfoclimática Subtropical Úmida no Planalto Basáltico da Bacia do Paraná (SW
Paraná/ NW Santa Catarina): Primeira aproximação. Geociências, v. 27, n. 4. P.
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PIRAJNO, F. 1992. Hydrothermal mineral deposits, principles and
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RESENDE, M.; CURI, N.; REZENDE, S. B. Mineralogia de solos brasileiros.
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WHITE, N. C.; HEDENQUIST, J. W. Epithermal gold deposits: styles,
characteristics and exploration. SEG Newsletter, n. 23, pp. 1, p. 9-23, 1995.

52
PROPRIEDADES MICROMORFOLÓGICAS
DE UNIDADES DEPOSICIONAIS: BASE PARA COMPREENSÃO
DAS FORMAÇOES SUPERFICIAIS QUATERNÁRIAS

Simone Guerra
guerrasim@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
As paisagens geomorfológicas são constituídas por formas de relevo
geradas por diferentes processos ao longo do tempo. Tais processos são
absorvidos pelas paisagens, gerando formas de relevos diferenciadas, como as
encontradas na porção Sudoeste do Paraná e Noroeste de Santa Catarina. Estas
vêm despertando interesse do Grupo de Pesquisa “Gênese e Evolução de
Superfícies Geomórficas e Formações Superficiais”, que busca compreender a
evolução do relevo da região (PAISANI et al. 2008; GUERRA, 2012; PAISANI et
al. 2013).
Nesse contexto, o artigo apresenta resultados de descrições
micromorfológicas referentes às unidades da seção estratigráfica HS2, levantadas
em um ambiente de fundo de vale de 2ª ordem do sistema hidrográfico do rio
Chopinzinho (PR). Tais informações visam contribuir para a compreensão dos
processos que atuaram na evolução do relevo da região ao longo do tempo.

Metodologia
Para a seção estratigráfica HS2, representativa do ambiente de fundo de
vale de 2ª ordem, no sistema hidrográfico do Rio Chopinzinho, foram realizadas
descrições macroscópicas e coleta de amostras indeformadas para confecção de
lâminas delgadas. Essas amostras foram submetidas à confecção de lâminas
delgadas junto ao Laboratório de Laminação do Instituto de Geociências da
UNICAMP e descritas no Laboratório de Microscopia Ótica da UNIOESTE,
Campus de Francisco Beltrão, conforme critério e terminologia proposta por
Castro (2002).

53
Resultados
Os resultados apresentam uma breve descrição da seção estratigráfica e
as propriedades micromorfológicas das unidades individualizadas na mesma. A
descrição micromorfológica foi aplicada visando identificar propriedades dos
materiais da área fonte, os processos deposicionais e as transformações pós-
deposicionais, como verificado por Paisani e Pontelli (2011) em depósitos
coluviais de outra área da região Sudoeste do Paraná.

Seção estratigráfica HS2


A seção HS2 se localiza no sistema hidrográfico do Rio Chopinzinho (PR),
possui cerca de 1,60 m de espessura e, aproximadamente, 16 m de extensão. Os
materiais encontrados apresentam contato abrupto com a isoalterita, rocha
alterada com estrutura preservada (DELVIGNE, 1998), derivada de derrame
vulcânico de natureza ácida, classificadas como riolito (Figura 1).

Figura 1-Representação esquemática da seção estratigráfica HS2, com 4 janelas onde


foram coletadas amostras para análises de laboratório. 1: riolito. 2: colúvio pedogenizado.
3: horizonte A. 4: lente de cascalho. 5: interdigitação. 6: pedorrelíquia de horizonte A. 7:
concentração de cascalho. 8: vegetação atual. A, B, C: sequências inferior, intermediaria
e superior. J1, J2, J3, J4: Janelas

Fonte: GUERRA, 2012.

A seção apresenta três unidades caracterizadas por descontinuidades,


designadas informalmente de sequências inferior, intermediária e superior. Essas
sequências correspondem, respectivamente, a: colúvio pedogenizado (A), colúvio
com quatro lentes subhorizontais (B) e interdigitação de colúvios (C) localmente
com lentes, e pedorrelíquias de horizonte A, e pedogênese no topo da sequência.
A seção registra, em sua porção central, duas gerações de paleocanal

54
colmatados por colúvio – alúvio, uma em discordância com a isoalterita e outra
em discordância com as sequências inferior e intermediária (A e B) (Figura 1)
(GUERRA, 2012; GUERRA, PAISANI, submetido).
Para a seção estratigráfica HS2 foram confeccionadas cinco lâminas
delgadas, quatro dos horizontes da sequência inferior, para verificação se de fato
tal sequência corresponderia a uma unidade coluvial pedogenizada e uma da
unidade V, sequência intermediária, objetivando identificar se tal unidade
corresponde a sedimento organo-mineral (Figura 2).
A lâmina A1 foi extraída do horizonte Cgb e mostra uma DRC (distribuição
relativa dos constituintes) classificada como porfírica aberta (Quadro 8), na qual
as partículas maiores distribuem-se numa matriz de material mais fino, com 20%
de poros, 20% de esqueleto e 60% de plasma. Os poros, em sua maioria, são
classificados como mesoporos e microporos.
O esqueleto é constituído, predominantemente, por minerais como quartzo
e calcedônia. Registra-se litorrelíquias (fragmentos de rocha alterada) e nódulos
herdados do material de origem, de moderada a forte impregnação (Quadro 1).
Tais feições indicam que o material fonte passou por um regime hídrico, com
períodos de umidade intercalados por períodos de seca.
Em relação ao plasma, este se distribui pelo fundo matricial, plasma
mátrico, com orientação manchada, tipo argilassépica. É composto por dois
materiais, um de cor verde e outro bruno amarelado, ambos remanescentes do
perfil de intemperismo da área fonte (Figuras 2 A). O plasma verde corresponde a
fragmentos de alterita e pode expressar a formação de esmectita ou a
concentração de manganês no perfil de intemperismo da área fonte. Já o plasma
bruno amarelado é remanescente da pedogênese na área fonte, possivelmente
decorrente de horizonte BA. Na lâmina, identificou-se que o ferro está sendo
remobilizado em proporções inferiores a 2%, principalmente na porção central da
lâmina, concentrando-se e gerando nódulos, e em parte sendo remobilizado,
contribuindo para a formação de poros cavitários. As demais características
descritivas estão expostas no Quadro 1.

55
Figura 2-Seção litológica colunar com imagens das lâminas da seção HS2. 1: lama
arenosa. 2: cascalho com matriz suportada. 3: pedorrelíquia de horizonte A. 4: organo-
mineral. 5: neossolo flúvico com horizonte A húmico. 6: raízes. 7: riolito. A: plasma de cor
bruno amarelado e verde. B: idem A. C: porosidade fissural. D: plasma com uma
concentração maior de MO e poros fissurais. E: plasma bruno amarelado e verde

Fonte: GUERRA, 2012.

Na lâmina A2, correspondente ao horizonte ACb (Figura 2 B), a DRC foi


classificada também como porfírica aberta, similar ao horizonte Cgb. Apresenta
30% de poros, 20% de esqueleto e 50% de plasma.
Como na anterior, os poros foram classificados como mesoporos e
microporos, e um esqueleto constituído, predominantemente, por quartzo e
calcedônia, bastante angulosos. Identificaram-se vários fragmentos de calcedônia
em início de alteração, e uma porcentagem superior a 5% de nódulos do material
fonte, também indicando que o material fonte passou por regime hídrico com
períodos de umidade intercalados por períodos de seca (Quadro 1).

56
Quadro 1 - Principais características descritas na micromorfologia da seção HS2
bruno avermelhado, ba = bruno amarelado, be = bruno escuro, v = verde, n = nódulos herdados.
3 4
fo = forte, m = moderada, fr = fraca. c = canais/camaras, fi =fissurais, cv =cavitários, ve =
5 1
vesiculas. sb = blocos subangulares, m = ms = matriz suportada, la = lama arenosa, se = sem
2 6
estratificação, sg = sem agradação. mz = matriz, bv = maciça, mi = microagregados. pa =
porfírica aberta. 7m =manchada, ag = argilassépica, er =estriada, is = insépica.8sio = segregação
de óxidos de ferro (depleção), n = nódulo com impregnação fortea, moderadab, fracac ; hp =
hipocutã de poro, hg = hipocutã de grão, qp = quasicutã de poro. * > 2%,** 2-10%,*** >10%
Unidades/ Caract. Caract. do Transformações pós - deposicionais
1
Horizontes Sedimentares material
2
fonte
3 4 5
Pedalidade Poros microestrutura Fundo matricial

6 7
DRC Plasma Caract.
da
8
matriz
a,b
I ms, se, sg mz ba, v, fr fi***, M pa m-ag* hv*, n
(horizonte n** vc***, c*
Cgb)
HS2 A1
a,b
I ms, se, sg mz ba, v, m-fr fi***, M pa m-ag* n
(horizonte n** vc***,
ACb) c**
HS2 A2
I ms, se, sg mz ba, v, m fi***, Sb pa m-ag* hg*,
a,b
HS2 A3 n** vc**, n
c**

I ms, se, sg mz bv, n* m-fo fi***, m-mi pa m-er, na,b


(horizonte vc**, is*
Ab) c**
HS2 A4
b,c
IV ms, se, sg mz ba, v, fr fi***, M pa m-ag* n
HS2 A6 n* vc***,
c**

Fonte: GUERRA, 2012.

O plasma também é muito similar ao do horizonte Cgb, diferenciando-se


apenas na quantidade de plasma verde, o qual aparece em menor quantidade
que no horizonte anterior (Figura 2 B).
Na lâmina A3, localizada no topo do horizonte ACb (Figura 2 C), demonstra
DRC, percentuais de constituintes e esqueleto similares à lâmina anterior. Os
grãos que compõem o esqueleto são bastante angulosos, com exceção da
calcedônia que se mostra também no formato alongado. Como verificado nas
lâminas anteriores, aparecem litorrelíquias e nódulos herdados do material fonte,
indicando um regime hídrico similar.

57
O plasma se distribui pelo fundo matricial, plasma mátrico, com orientação
manchada. Localmente aparece orientação do tipo argilassépica, similar às
anteriores, com presença de dois materiais diferentes, um verde e outro bruno
amarelado. Mais características do material da lâmina podem ser verificadas no
Quadro 1.
Já a lâmina A4, do horizonte Ab, a DRC também foi classificada como
porfírica aberta, diferindo das demais por apresentar 45% de poros, 10% de
esqueleto e 45% de plasma.
A constituição do esqueleto é similar ao verificado nos horizontes
anteriores; já o plasma difere-se por não apresentar material de cor verde, apenas
um plasma com forte impregnação de matéria orgânica, típico de horizonte A.
Apresenta pedalidade de moderada a forte, com formação de microagregados,
por conta da bioturbação (Figura 2 D).
No geral, a micromorfologia dos horizontes da unidade I comprovou se
tratar de uma unidade coluvial pedogenizada, com formação de horizontes Ab,
ACg e Cgb. Tal unidade mostra a mistura de material da etapa de pedogenêse
anterior com um plasma bruno amarelado, misturado a um verde. A cor bruno
amarelado indica formação de goetita com concentração de MO (matéria
orgânica), enquanto o verde indica alteração da rocha, gerando esmectita ou
liberação de manganês. Estas características revelam se tratar de um paleossolo
pouco desenvolvido, marcado pela acumulação MO no horizonte superficial,
formando um paleoneossolo flúvico com horizonte A húmico, similar ao registrado,
atualmente, na área de estudo (EMBRAPA, 2006).
Na lâmina A6, correspondente à unidade V da sequência intermediária
(Figura 2 E), foi identificado 25% de poros, 20% de esqueleto e 55% de plasma,
classificada como porfírica aberta.
O esqueleto é formado, basicamente, por quartzo e calcedônia, ambos
bastante angulosos. Nódulos relíquias aparecem em menor quantidade que o
verificado nas lâminas da unidade I (Quadro 1). Em relação ao plasma, este se
mostra como plasma mátrico, com sutil orientação manchada, localmente
argilassépica, com presença de dois materiais diferentes de cores bruno
amarelado e outro verde. O plasma verde é similar ao identificado nas lâminas

58
dos horizontes ACb e Cgb da unidade coluvial I. Indicando que, de fato, unidade
V é um colúvio, com mistura de materiais verde e bruno amarelado de pedalidade
fraca, indicando que o material guarda as propriedades do colúvio. Mais
características da unidade podem ser observadas no Quadro 1.

Conclusões
As propriedades micromorfologicas das unidades da seção estratigráfica
HS2 revelaram microfeições, relacionadas aos processos deposicionais, feições
herdadas do material de origem e decorrentes de tranformações pós-
deposicionais. As microfeições verificadas nas lâminas da unidade I referem-se a
características de unidade coluvial pedogenizada, com formação de horizontes
Ab, ACg e Cgb. Tais características revelam se tratar de um paleossolo pouco
desenvolvido, marcado pela acumulação MO no horizonte superficial, formando
um paleoneossolo flúvico com horizonte A húmico, evidenciando um período de
equilíbrio no ambiente (estabilidade) com instalação da pedogênese.
Enfim, a descrição micromorfológica auxiliou na compreensão das
unidades deposicionais da seção HS2, evidenciando que, de fato, a paisagem da
área possui sua evolução relacionada a fases alternadas de
estabilidade/instabilidade, com processo de degradação/agradação e pedogenêse
com formação de Neossolos.

Referências
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Pesquisa em Solos. Sistema Brasileiro de Classificação de Solos. 2.Ed.
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pedogênese no Planalto de Palmas (PR) e Água Doce (SC): Subsídio ao
estudo da Evolução da Paisagem Quaternária. Dissertação (Mestrado em
Geografia), UNIOESTE, 2012.

59
GUERRA, S.; PAISANI, J.C. Abrangência espacial e temporal da morfogênese e
pedogênese no Planalto de Palmas (PR) e Água Doce (SC): subsídio ao estudo
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PAISANI, J. C.; PONTELLI, M.E.; ANDRES, J. Superfícies Aplainadas em Zona
Morfoclimática Subtropical úmida no Planalto Basáltico da Bacia do Paraná (SW
Paraná/ NW Santa Catarina): Primeira Aproximação. Geociências, UNESP, n.4,
v.27, p.541-553, 2008.
PAISANI, J.C., PONTELLI, M.E. Propriedades micromorfológicas em encosta no
médio vale do Rio Marrecas (SW PR) – bases para distinção de formações
superficiais alóctones e autóctones em substrato basáltico. Pesquisas em
Geociencias, UFRGS, 2012.
PAISANI, J.C. et al., Evolução de Bacias de baixa ordem Hierárquica no Planalto
de Palmas/Água Doce (Sul do Brasil) nos 41.000 anos AP – O caso da seção
HS1. Mercator, UFC, 2013.

60
ENSINO DE GEOGRAFIA

61
A IMPORTÂNCIA DO TRABALHO DE CAMPO
COMO COMPONENTE METODOLÓGICO NO ENSINO DE GEOGRAFIA:
ESTUDO DE CASO NO COLÉGIO ESTADUAL DO CAMPO CARLOS GOMES –
ITAPEJARA D’OESTE, ESTADO DO PARANÁ

Jaqueline Maria Dalbosco


jaqueline.dalbosco@gmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
O presente artigo é uma reflexão a respeito da possibilidade dos
educadores do ensino de Geografia potencializar o processo de ensino-
aprendizagem por meio da implementação dos Trabalhos de Campo. Tais
trabalhos possibilitam relacionar os conteúdos estruturantes propostos pelas
Diretrizes Curriculares Estaduais (DCE’s) com a realidade do aluno, bem como
permitem dialogar com as outras disciplinas que compõem o currículo escolar.
Sendo assim, esse artigo tem por objetivo analisar a importância do
Trabalho de Campo como componente curricular no ensino de Geografia e como
instrumento metodológico para a formação de sujeitos investigativos e
participantes da realidade na qual estão inseridos, analisando o Colégio Estadual
do Campo Carlos Gomes – Barra Grande – Itapejara D’Oeste-PR.
O Trabalho de Campo no ensino de Geografia é um tema relevante, pois o
mesmo consiste numa forma clássica e tradicional de estudos. Desde o século
XIX, com o surgimento da Geografia como ciência, esta prática vem sendo
valorizada e empregada (CAVALCANTI, 2011). Sendo assim, os Trabalhos de
Campo também podem ser essenciais tanto na Educação Básica como no Ensino
Superior, visto que, muitas vezes, a Geografia Escolar é considerada árdua,
enfadonha, classificatória, exigente de memorização e distante da realidade do
aluno. No entanto, a partir do momento que o professor propõe um trabalho de
campo aos seus educandos, para que a teoria estudada em sala de aula seja
compreendida e utilizada na prática cotidiana, ocorre a desmistificação da ideia de
que a Geografia seja uma disciplina compartimentada e desinteressante (SILVA
et al., 2008).
Segundo Rodrigues e Otaviano (2001), o Trabalho de Campo pode ser
implementado desde as séries iniciais do Ensino Fundamental como recurso

62
metodológico para auxiliar os professores, não só de Geografia, mas os de outras
disciplinas. Eles partem da ideia de que o contato com a realidade concreta
permitirá ao aluno uma nova dimensão dos assuntos abordados em sala de aula.
No caso da Geografia, o estudo das paisagens, dos lugares, da degradação
ambiental, temas que estão presentes nas discussões das aulas e que,
normalmente, chegam ao aluno através de imagens, de uma gravura no livro
didático ou até mesmo de um simples exemplo citado pelo professor, pode levar o
aluno a construir mentalmente o significado dos elementos geográficos, de acordo
com a sua visão de mundo. É neste momento que a introdução da prática do
Trabalho de Campo, como recurso metodológico, auxiliaria no processo de
ensino-aprendizagem.
Em relação ao Trabalho de Campo, Cavalcanti (2011) chama a atenção
dos profissionais da Geografia, sejam professores, pesquisadores ou alunos
(acadêmicos), pois estes estão habituados a tratar as terminologias Trabalho de
Campo, Pesquisa de Campo e estudo do Meio como sendo sinônimos. Contudo,
isso é um equívoco, pois há, por exemplo, diferenças entre Pesquisa de Campo e
Trabalho de Campo. O objetivo da Pesquisa de Campo é coletar dados e
informações para a elaboração de monografias, dissertações, teses, entre outros.
Já o Trabalho de Campo está vinculado a uma metodologia pedagógica.
Seguindo a essa linha de raciocínio, o professor também precisa
diferenciar o Estudo do Meio de Trabalho de Campo. O Estudo do Meio refere-se
ao lugar que o indivíduo vive, ou seja, o viver do cotidiano, relacionando os
elementos sociais com os elementos naturais (PONTUSCHKA, 2011). O Trabalho
de Campo pode ser realizado em qualquer lugar, próximo ou distante, e é um
estudo realizado com maior abrangência, analisando as mais diversas paisagens,
relacionando os aspectos físicos com os elementos econômicos sociais e políticos
presentes (COMPIANI, 2007).
Sendo assim, o Trabalho de Campo é mais uma alternativa metodológica
para auxiliar o professor no processo de ensino-aprendizagem, especialmente no
ensino de Geografia, pois pode proporcionar ao aluno a oportunidade de estudar
a realidade, o local próximo, o concreto, considerando o conhecimento prévio do
aluno, pois o aluno é um sujeito histórico-social. Porém, o Trabalho de Campo

63
deve ser cobrado de forma que o aluno reflita e articule suas ideias, e não
considere o mesmo como um passeio turístico ou uma simples maneira de
“matar” aula (LACOSTE, 2006).
O Trabalho de Campo é uma prática insubstituível para o Ensino de
Geografia, mas o mesmo, por si só, não é suficiente. Não se deve encarar essa
atividade como um fim, mas como um meio, que tenha o seu prosseguimento de
discussão ao retornar à sala de aula (TOMITA, 1999).
Portanto, o Trabalho de Campo como componente metodológico, além de
facilitar a visualização, a observação e a relação dos conceitos trabalhados em
sala de aula com a realidade presente, pode facilitar aos alunos o entendimento
de que o estudo de Geografia é importante para a compreensão dos fatores
sociais, econômicos e naturais. Sendo assim, o Trabalho de Campo é um
importante instrumento no processo formativo intelectual, pois se desenvolve num
contexto menos formal e abstrato que o da sala de aula (COMPIANI, 2007).
Para abordar o Estudo do Meio, nos apropriamos das contribuições de
Malysz (2007) e de Pontuschka (2011), que afirmam que podemos considerar o
meio como um “laboratório geográfico”, estando disponível para alunos e
professores em todos os níveis de ensino. É preciso enxergá-lo e explorá-lo como
recurso de aprendizagem significativa dos conceitos de Geografia. O meio é a
sala de aula, o pátio da escola, o refeitório, o corredor, a rua do colégio, a casa do
aluno, o bairro, a cidade, o município, o parque, o fundo de vale etc. Não há
necessidades de idealizar o Estudo do Meio longínquo; basta observar à nossa
volta para encontrarmos paisagens que podem ser relacionadas com os
conteúdos estruturantes propostos nas DCE’s-Geografia e explorá-los para a
construção de diversos conceitos e habilidades.
Pelo simples fato de sair da escola, ou seja, da sala de aula, permite-se ao
aluno outro olhar para “o aprender”. O aluno pode ser bem orientado a utilizar
todos os seus sentidos para conhecer melhor o meio, possibilitando-o a ter uma
melhor compreensão do espaço social, físico e biológico; contribuindo para fazer
um processo pedagógico menos mecânico e muito mais prazeroso
(PONTUSCHKA et al., 2009).

64
Portanto, realizar um Trabalho de Campo em uma determinada escola não
é uma tarefa fácil, pois os desdobramentos para executá-lo enquanto prática
pedagógica já se inicia na exigência de uma pré-disposição do professor para a
organização de um trabalho externo ao seu cotidiano escolar, favorecendo a
integração dos demais profissionais da educação, exigindo o rompimento da
rotatividade cotidiana, em ficar presos nos diálogos dos autores dos livros. A
execução do Trabalho de Campo exige a interdisciplinaridade, a maturidade
teórica em relação aos conceitos de maior relevância, para a discussão em
campo dos conceitos relacionados às outras disciplinas, exigindo todo um
processo de organização para atingir a tão almejada interdisciplinaridade (LEME
et al. 2007).
Em busca da compreensão totalitária do espaço geográfico, Rodrigues e
Otaviano (2001) e as DCE’s-PR (2008) ressaltam que o trabalho de campo, para
ser significativo em termos de aprendizagem, necessita seguir alguns critérios:
preparação (organização), realização (execução) e análise dos resultados.
A preparação do Trabalho de Campo é o momento que vai definir a
qualidade da atividade, onde vão ser traçados os objetivos e o objeto de estudo, o
levantamento bibliográfico, a delimitação prévia do trajeto do local escolhido, o
incentivo aos alunos para o campo, buscando meios para despertar a curiosidade
(abordando os conteúdos através de aulas teóricas com discussão de textos base
ou aulas expositivas dialogadas). A preparação do Trabalho de Campo é o
momento de cooperação com outras disciplinas, em busca da verdadeira
interdisciplinaridade, onde cada professor vai dar a sua contribuição a respeito de
um determinado tema. Durante a realização da atividade, é oportuno orientar os
alunos nas suas observações, descrições, seleção e organização das
informações adquiridas; dependendo do trabalho de campo, se deve induzir os
alunos a questionamentos, para uma participação mais concreta por parte destes.
Na volta à escola, o professor questionará os fenômenos observados; trata-se do
momento de consolidar os conhecimentos adquiridos por meio da prática, fazer
uma avaliação a respeito do trabalho, análise das informações e dos dados
coletados; é nesse momento que se distingue trabalho de campo com fins

65
didáticos de um simples passeio (RODRIGUES; OTAVIANO, 2001; PARANÁ,
2008).

Metodologia
Para a concretização deste estudo, foram seguidas algumas etapas
metodológicas. Na 1ª etapa, realizamos leituras de pesquisadores que discutem
essa temática (PONTUSCHKA, 2011; COMPIANI, 2007; CALVALCANTI, 2011;
LACOSTE, 2006; TOMITA, 1999; entre outros). Tais pesquisadores têm buscado
compreender e demonstrar a importância do Trabalho de Campo no ensino de
Geografia, seja escolar ou acadêmico.
Na 2ª etapa, desenvolvemos entrevistas dialogadas com as duas
professoras de Geografia do Colégio Estadual do Campo Carlos Gomes a
respeito da importância do trabalho de Campo como uma prática metodológica de
ensinar e aprender Geografia; envolvendo as experiências das professoras e os
resultados obtidos em relação a esta prática metodológica. Por se tratar de uma
instituição pequena, com poucos professores e com um baixo número de alunos,
não situamos este estudo em números, mas nas declarações e relatos das
professoras de Geografia.
Na 3ª etapa, foi planejado e realizado um Trabalho de Campo durante o
desenvolvimento do Estágio Supervisionado II, com a turma do 2º ano do Ensino
Médio, uma vez que somente os relatos das professoras não foram suficientes
para concluir este trabalho. Para realizar este Trabalho de Campo, procuramos
seguir todos os procedimentos apontados pela literatura estudada.

Resultados e Discussões
Assim como já explicitado no decorrer deste artigo, o objetivo é analisar o
Trabalho de Campo como um elemento metodológico, de modo a tornar as aulas
de Geografia mais interessante, proporcionando uma melhor compreensão dos
elementos geográficos presentes nos locais de convivência. No entanto, o
Trabalho de Campo no ensino de Geografia não é um trabalho fácil, pois o
mesmo exige tempo e pré-disposição por parte dos professores e apoio da
comunidade escolar.

66
Entre as dificuldades encontradas para realizar o Trabalho de Campo, de
acordo com os relatos das professoras de Geografia entrevistadas: está a falta de
apoio das autoridades públicas do município de Itapejara D’oeste. A esse
respeito, uma das professoras relatou que solicitou transporte para realizar
Trabalho de Campo e que o mesmo foi negado pelos responsáveis do
departamento de transportes, com desculpas inconvenientes.
Perante este empecilho, os Trabalhos de Campo só podem ser realizados
nas proximidades do colégio, onde os alunos tenham condições de se deslocar a
pé. Outra dificuldade relatada por esta mesma professora está relacionada à falta
de compreensão e cooperação de alguns professores de outras disciplinas; e
também o fato de que a maioria dos professores trabalha em várias escolas, o
que acaba dificultando a prática de atividades interdisciplinares. Por trabalharem
em várias escolas, os professores não têm tempo disponível para planejar e
organizar Trabalhos de Campo, pois os mesmos exigem tempo; trabalho que
necessita ser realizado fora do horário de aula; devido a essas dificuldades, nem
todos os professores realizam Trabalho de Campo em suas aulas.
Diante de todos os problemas encontrados para realizar Trabalhos de
Campo, a professora (que já realizou trabalhos de Campo) afirmou que é por
meio desse tipo de atividade que o aluno consegue aproximar os conteúdos com
a sua realidade, estimulando-o à investigação e à curiosidade, além de enriquecer
e aprofundar o conteúdo geográfico, permitindo uma melhor compreensão da
realidade; atraindo até mesmo aqueles alunos indisciplinados, que na sala de aula
não tem nenhum interesse, mas em campo tais alunos participam ativamente das
aulas.
Em relações às dificuldades vivenciadas pelos professores, além da falta
de tempo, outro fator que dificulta a realização de Trabalho de Campo é a falta de
domínio de conteúdos por parte dos professores ao abordar temas geográficos
locais. Além disso, constatamos que o Trabalho de Campo, enquanto prática
metodológica nesta instituição pesquisada, é pouco freqüente, e não é atribuída à
devida atenção para esta prática, como os autores pesquisados propõem.
A partir do planejamento do Trabalho de Campo durante o Estágio
Supervisionado II, constatamos que não é um trabalho fácil como propõem alguns

67
autores mencionados e as professoras entrevistas, pois esta prática metodológica
é exigente de tempo e pesquisa por parte do professor para a organização de um
trabalho externo ao seu cotidiano escolar.
Por meio de tantas dificuldades para realizar esta prática metodológica,
desde que seja bem planejada, ela traz resultados muito satisfatórios e
gratificantes, pois os alunos se interessam mais pelas aulas, pois esta prática
facilita a compreensão dos conteúdos estudados em sala de aula.

Considerações Finais
O Trabalho de Campo é uma alternativa metodológica que pode auxiliar os
alunos a compreender o espaço geográfico, bem como oportunizar o confronto da
teoria trabalhada em sala de aula com a realidade cotidiana dos discentes, pois
os conteúdos tornam-se realmente significativos somente a partir do momento
que os educandos têm a oportunidade de vivenciá-los, tornando-os parte de sua
experiência pessoal.
Contudo, por meio da revisão bibliográfica realizada e das averiguações
empíricas executadas no Colégio Estadual do Campo Carlos Gomes,
constatamos que o planejamento e a execução de um Trabalho de Campo não
são tarefas simples, pois exigem pesquisa e tempo. Nesse sentido, é
imprescindível que o professor tenha consciência da necessidade de buscar
novos referenciais teóricos, além de estudar antecipadamente o local de
execução do Trabalho de Campo. Sendo, desse modo, indispensável o apoio da
comunidade escolar e do poder público, principalmente no que se refere ao
transporte.
No entanto, no Colégio Estadual do Campo Carlos Gomes, iniciativas
desse tipo ainda são muito incipientes por parte dos professores de Geografia; o
Trabalho de Campo não é compreendido como procedimento metodológico,
assim como explicitado na literatura. Desse modo, por fim, conclui-se, a partir das
contribuições dos diversos pesquisadores citados nesse artigo e também da
experiência adquirida com a realização do Trabalho de Campo, que atividades
desse tipo são de fundamental importância, pois auxiliam significativamente no

68
processo de ensino-aprendizagem, apesar de não ser ainda comum no Colégio
Estadual do Campo Carlos Gomes.

Referências
BRAUN, A. M. S. Rompendo os Muros da Sala de Aula: O Trabalho de Campo
do Rio Grande do Sul. Dissertação de Mestrado, 161 p. Universidade Federal do
Rio Grande do Sul; Instituto de Geociências, Programa de Pós-Graduação em
Geografia. Porto Alegre, Junho de 2005.
COMPIANI, M. O lugar e as escalas e suas dimensões horizontal e vertical nos
trabalhos práticos: implicações para o ensino de ciência e educação ambiental.
Ciência & Educação, v.13, n.º1, p.29-45, 2007.
LACOSTE, Yves. A pesquisa e o trabalho de campo: um problema político para os
pesquisadores, estudantes e cidadãos. Boletim Paulista de Geografia. São
Paulo, n.º 84, p.77-92, 2006.
LEME, R. C. B.; MARTINS, G.; LEME, R. C. A importância do Trabalho de Campo
como instrumento didático-pedagógico para o Ensino de Geografia. Anais do
Seminário Nacional Interdisciplinar em Experiências Educativas. Francisco
Beltrão: Unioeste – Campus de Francisco Beltrão, p. 592 – 601, 2007.
MALYSZ, Sandra T. Estudo do Meio. IN: PASSINI, Elsa Y.; PASSINI, R.;
MALYSZ, S.T. Prática de Ensino de Geografia e Estágio Supervisionado. São
Paulo: Contexto, 2007.
PARANÁ. Diretrizes Curriculares da Educação Básica – Geografia. Paraná:
SEED, 2008.
PONTUSCHKA, N. N.; PAGANELLI, T.I.; CACETE, N.H. Para Aprender e
Ensinar Geografia. 3. Ed. São Paulo: Cortez, 2009.
PONTUSCHKA, N. N. O conceito de estudo do meio transforma-se... em tempos
diferentes, em escolas diferentes, com professores diferentes. In: VESENTINI, J.
W. (org.). O ensino de Geografia no século XXI. 7. Ed. Campinas-SP: Papirus,
2011.
RODRIGUES, A.B.; OTAVIANO, C. Guia Metodológico de Trabalho de Campo em
Geografia. Revista Geografia, Londrina, n.1, v.10, p. 35-43, jan./jun. 2001.
SILVA, K. N.; ALVES, L. A.; LOPES, M.L. A Importância de Praticar o Trabalho de
Campo na Ciência Geográfica. A MARgem - Estudos, Uberlândia - MG, ano 1, n.
1, p. 10-9, jan./jun. 2008.
TOMITA, L. M. S. Trabalho de campo como instrumento de ensino em Geografia.
Geografia, Londrina, v.8, n.1, p.13-15, jan./jun. 1999.

69
ALGUMAS REFLEXÕES TEÓRICO-METODOLÓGICAS
SOBRE O ENSINO DE GEOGRAFIA

Francieli Regina Caus


francieli_caus@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

A proposta desse texto é discutir alguns pontos referentes à estruturação


do ensino de Geografia tendo como base a Carta Internacional da Educação
Geográfica (APOGEU, 1992) e os Parâmetros Curriculares Nacionais: Geografia
(BRASIL, 1998). A seleção dos dois documentos se deve pelo contraponto
oferecido pelas análises propostas e pela permeabilidade de suas discussões no
que tange às preocupações vinculadas ao ensino da Geografia.
A Carta Internacional da Educação Geográfica, apesar de internacional,
possui pouca permeabilidade como fundamento das discussões realizadas no
Brasil, enquanto os Parâmetros Curriculares Nacionais: Geografia, possui amplo
material acerca dos potenciais e limites de sua aplicação. Ambos documentos
assinalam a importância dos processos de ensino da Geografia corresponder à
necessidade de formação de sujeitos capazes de compreender e intervir no
espaço no qual estão inseridos.
É importante destacar que o avanço tecnológico e informacional trouxe, de
fato, uma expressiva série de recursos didáticos que os professores pode utilizar
durante as aulas de Geografia, a fim de poder aproximar os conteúdos
geográficos dos alunos, tornando-os mais acessíveis e compreensíveis.
Outrossim, destacamos, neste texto, a possibilidade do uso de instrumentos
metodológicos presentes desde o princípio da constituição científica do
conhecimento geográfico, como o trabalho de campo, e que, por vezes, são
minimizados nas construções didáticas e metodológicas do ensino de Geografia
na atualidade.
A utilização de trabalhos de campo muito contribuiu e ainda continua
contribuindo para a construção e reformulação do conhecimento geográfico,
configurando-se em uma forma de aproximar os conhecimentos geográficos da
realidade, do mundo concreto. Por isso, realizaremos uma análise de sua

70
importância e aplicação no que tange aos dois documentos base para a reflexão e
construção deste artigo.
A primeira etapa do texto está pautada na discussão dos fundamentos do
ensino de Geografia a partir da Carta Internacional da Educação Geográfica e dos
PCN de Geografia, a discussão subsequente apresenta uma análise introdutória
enfatizando a utilização do trabalho de campo pelos professores de Geografia na
busca pelo interesse e estímulo ao envolvimento com os conhecimentos advindos
da compreensão do raciocínio geográfico possível no ambiente escolar.

Saberes geográficos: dos documentos que norteiam o ensino aos recursos


didáticos alternativos
A Geografia no decorrer de sua história, e principalmente na história da sua
construção enquanto conhecimento científico sofreu uma série de modificações.
Da mesma forma, a Geografia enquanto disciplina que é ensinada nas escolas
também passou por inúmeras transformações de acordo com cada
momento/período histórico, bem como do enfoque que lhe era atribuído pelo
currículo escolar.
É importante destacar que estas mudanças não aconteceram apenas no
Brasil, ou em alguns pontos determinados/localizados do mundo. De maneira
geral, tais processos acontecem em várias partes do mundo, porém em cada
lugar possui características específicas que estão diretamente relacionados com o
contexto social, político e educacional e com os objetivos que se deseja alcançar.
No que se refere ao ensino de Geografia, segundo Singh (1989, p.271),
“[...] en los últimos años ha habido muchos câmbios em la Geografia, tanto em la
estrutura conceptual de su contenido como em las técnicas y el equipamento para
su enseñanza”. Os avanços tecnológicos são implementados também, de certa
forma, dentro das escolas, refletindo nas salas de aula, na qual a Geografia faz
grande uso.
No entanto, a questão chave é a forma como esses recursos são utilizados
dentro das salas de aula, como são adaptados aos conteúdos curriculares, afim
de não se perder o foco que refere a construção do conhecimento geográfico.
Porque a utilização destes recursos devem se constituir como uma ferramenta de
apoio ao ensino não um instrumento de aplicação que, por si, fará todo o
71
processo de aprendizagem, ou seja, ele será um meio no processo de ensino,
não um fim em si. É fundamental compreendê-lo em seu princípio educativo.
Com o objetivo de melhor desenvolver a formação escolar, existem
documentos que norteiam o ensino de Geografia tanto a nível mundial, destaque
para a Carta Internacional da Educação Geográfica1, como a nível nacional, como
é o caso no Brasil através dos Parâmetros Curriculares Nacionais.
De acordo com a Carta Internacional da Educação Geográfica que norteia
o ensino de Geografia, que foi pensada e esboçada pela Comissão da Educação
Geográfica da União Geográfica Internacional no ano de 1992 e discutida com os
professores de Geografia de vários países do mundo, e define que:

A Geografia é uma ciência que procura explicar as características dos


lugares e a distribuição da população, dos fenómenos e acontecimentos
que ocorrem e evoluem à superfície da Terra. A Geografia diz respeito
às interacções do Homem com o ambiente no contexto de lugares e
localizações específicas. As suas características especiais são a
extensão do estudo, a diversidade da metodologia, o trabalho de síntese
feito a partir de outras disciplinas, incluindo as ciências físicas e as
humanidades e o interesse na futura gestão das relações entre a
população e o ambiente (APOGEU, 1992, p. 7, grifo nosso).

Ainda segundo este documento [a Carta], “A Geografia é, não só um meio


poderoso para promover a educação dos indivíduos como também dá um
contributo fundamental para a Educação Internacional, para a Educação
Ambiental e para a Educação para o desenvolvimento” (APOGEU, 1992, p. 9).
Portanto, com este documento pretende-se definir a base curricular da disciplina
de Geografia para ser aplicado no mundo todo, na tentativa de uniformizar os
saberes geográficos para todos os povos.
Portanto, estes são alguns pressupostos que a Geografia a nível mundial
precisa minimamente atender, a fim de promover e disseminar para a população
os conhecimentos necessários para a compreensão da Geografia, possibilitando
ao menos uma leitura local.

1
A União Geográfica Internacional (UGI) foi fundada em 1871, possui 66 países são membros
ordinários e possui a finalidade de iniciar e coordenar a investigação no domínio da Geografia que
demande cooperação internacional; facilitar a coleta e divulgação de dados e documentos
geográficos em todos os países signatários; promover internacionalmente a padronização de
métodos, nomenclaturas e simbologias utilizados na Geografia (APOGEU, 1992).

72
No Brasil, foi publicado Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s), em
1998, documento este que irá nortear o ensino de Geografia em todo o país,
assim como das demais disciplinas curriculares. Este documento define que:

A Geografia tem por objetivo estudar as relações entre o processo


histórico na formação das sociedades humanas e o funcionamento da
natureza por meio da leitura do lugar, do território, a partir da
paisagem. Na busca dessa abordagem relacional, trabalha com
diferentes noções espaciais e temporais, bem como com os fenômenos
sociais, culturais e naturais característicos de cada paisagem, para
permitir uma compreensão processual e dinâmica de sua constituição,
para identificar e relacionar aquilo que na paisagem representa as
heranças das sucessivas relações no tempo entre a sociedade e a
natureza em sua interação (BRASIL, 1998, p. 26, grifo nosso).

Notamos que em ambos os documentos existe um enfoque para a leitura


do “lugar”, o que caracteriza a preocupação que se dá para que o aluno consiga
realizar leitura a partir do que vê, ou seja, do lugar onde ele vive.
Outro ponto a ser destacado destes documentos é que, enquanto os PCN’s
estão baseados no desenvolvimento das habilidades e competências,
considerando que as habilidades estão associadas ao saber fazer, e as
competências referem-se ao conjunto de habilidades associadas para
desenvolver uma determinada função, a Carta Internacional de Educação
Geográfica entende que a educação geográfica possui contribuição importante na
“Educação Internacional no que diz respeito a Compreensão Internacional,
Cooperação e Paz e a Educação relativa aos direitos do Homem e Liberdades
Fundamentais” (APOGEU, 1992, p.10), ressaltando que através disto é possível
desenvolver a tolerância, o respeito e a interação entre as nações, além de
auxiliar a ONU para a manutenção da Paz no mundo.
Porém, a existência destes e muitos outros documentos para nortearem o
ensino/currículo de Geografia em todas as partes do mundo não garantem que
isso aconteça de maneira eficaz, nem em todas as partes do mundo, tampouco
de maneira uniforme, visto que nos deparamos ainda com muitas disparidades.
De acordo com as particularidades de cada lugar, e variando o enfoque
que possui o currículo, o ensino de Geografia pode se apresentar de formas
distintas. Sem contar também, que neste caso o professor também exerce papel
importante na efetivação deste conhecimento para o seu alunado, ou seja,

73
dependendo da forma como o professor aborda determinados conteúdos, os
alunos podem dar mais ou menos importância.
Diante deste contexto, cabe ao professor selecionar as melhores
possibilidades e alternativas didáticas e metodológicas para a efetivação da
melhor forma de mediar o processo de apropriação e ressignificação do
conhecimento trabalhado em sala para o cotidiano e realidade de seus
educandos.

Uso de alternativas metodológicas para o ensino de Geografia: trabalho de


campo
Hoje, de certa forma, nos deparamos com certo desinteresse dos alunos
relacionado às aulas de Geografia e seus conteúdos, que segundo Kaercher
(2010b, p.223), “[...] o ensino de Geografia continua desacreditado”. Apesar de
saber que os aspectos vinculados ao interesse/envolvimento/valorização do
conhecimento perpassam uma série de discussões importantes e estruturais
(como as transformações culturais; as políticas educacionais vigentes; o plano de
carreira e condições materiais de execução de aulas, dentre outros aspectos)
avaliamos que todo o esforço faz-se oportuno. Na busca de tentar superar este
desinteresse, destacamos algumas discussões que estão relacionadas, a fim de
tentar ajudar na minimização deste “problema”. Como destaca Kaercher (2010a):

[...] o ensino de geografia ainda é muito tradicional e fragmentador da


realidade, parecendo pouco interessante e pouco útil para seus alunos.
Há uma quase ausência de assuntos ligados ao cotidiano e a temas
políticos e econômicos. A geografia parece uma “simples descrição
desinteressante do mundo”. O desinteresse/desestímulo do aluno é uma
consequência a ser combatida pela pesquisa e pela prática docente
(2010a, p.177).

O professor precisa primeiramente, atrair a atenção dos alunos, despertar


interesse por aquilo que está falando, mostrando a sua real utilidade. Como
destaca Karecher (2010b), os alunos de hoje não possuem paciência para sentar
e ficar apenas ouvindo o professor falar. Neste sentido, “[...] devemos não apenas
nos renovar, mas ir além, romper a visão cristalizada e monótona da Geografia
como ciência que descreve a natureza e/ou dá informações gerais sobre uma
série de assuntos e lugares” (KAERCHER, 2010b, p.223), ou seja, para não ser

74
uma Geografia de descrição dos lugares e dos fenômenos, baseada
principalmente na memorização.
Dentre os inúmeros recursos metodológicos que o professor tem a opção
de utilizar, enfatizamos que o trabalho de campo ainda se apresenta como um
recurso metodológico bastante eficiente, principalmente para o estudo do lugar.
Que aliás faz parte da construção do conhecimento geográfico.
Segundo Chelotti (2010), hoje as principais áreas de pesquisa a campo
dentro do campo das ciências humanas referem-se à antropologia. A Geografia
humana mais especificamente abandonou esta prática por considerar como base
de obtenção de informações empíricas, considerando desta forma não confiável
dentro do campo científico. No entanto, na Geografia física, o estudo com trabalho
de campo é uma técnica mais presente, ou talvez, poderíamos até dizer, que está
presente em praticamente todas as pesquisas desenvolvidas.
Destacamos que o trabalho de campo durante as aulas de Geografia
desempenham um papel significativo para a aprendizagem. De acordo com
Mérenne-Schoumaker (1999) os estudos com trabalhos de campo “[...] inscrevem-
se principalmente no quadro do estudo do meio” (p.178, grifo do autor), com a
possibilidade de se estudar e explorar informações a partir do lugar. De acordo
com esta mesma autora, eles podem ser desenvolvidos nos finais de períodos
letivos, podendo em alguns casos necessitar de meio dia, um dia ou até mesmo
serem realizados durante semanas, dependo do tipo de estudo que se pretende
realizar.
De acordo com Mérenne-Schoumaker (1999), a organização dos trabalhos
de campo pelo professores pode ser realizada com a ajuda de manuais, que
trazem inúmeras sugestões que podem ser realizadas, além de serem muito
eficientes.
Para Matheus (2007), “[...] a atividade de campo passa a ser um momento
de construir e de compartilhar o novo com o aluno e de aproximar o conhecimento
teórico, lógico, ao experenciado, ao empírico” (MATHEUS, 2007, p.143). Neste
sentido, através do trabalho de campo é possível estabelecer maior relação com
os conceitos geográficos fundamentais.

75
No entanto, cabe a nós fazer ressalvas quanto a alguns problemas que
existem para a execução de qualquer trabalho de campo com alunos que
segundo Singh (1989, p. 285) são: “1) el trabajo de campo durante el calendario
escolar; 2) la dificultad de evaluar el trabajo de campo; 3) los gastos que supone”.
Singh (1989) ressalta que os alunos não podem ter custos
(financeiramente) durante a realização de trabalhos de campo, que, portanto,
cabe a escola arcar com todas as despesas. Para poder melhor aproveitar as
saídas a campo e diminuir os custos, pode ser realizado trabalhos de campo de
forma interdisciplinar. Para isso quando é planejado o currículo escolar o ideal
seria fazê-lo com outras disciplinas a fim que pudessem estudar no mesmo lugar,
ou seja, aproveitando a mesma saída a campo.

Considerações Finais
Algumas reflexões precisam ser aprofundadas em relação ao ensino de
Geografia. Como destacamos neste texto (Carta Internacional de Educação
Geográfica e PCN’s), existem documentos, em nível mundial e nacional que
norteiam o ensino da Geografia escolar, e que às vezes são pouco conhecidos.
No entanto, o fato deles existirem não basta. Muito mais que um currículo pronto
e acabado que é implantado nas escolas, ele precisa ser colocado em prática,
considerando que pelo simples fato de eles existirem não quer dizer que eles
realmente sejam aplicados/seguidos.
Precisamos inovar/modificar a maneira de abordar conteúdos de Geografia,
sendo este um primeiro passo a ser avançado. Para isso, estabelecer novas
relações entre os conteúdos geográficos e a realidade do aluno faz a diferença,
através dos trabalhos de campo é uma possibilidade. Lembrando que, assim
como indicam os PCN’s e a própria Carta Internacional de Educação Geográfica,
o ensino de Geografia precisa partir da abordagem do lugar. Considerando que é
no lugar onde o aluno vive que se relaciona com o meio natural e social.
Dentre algumas metodologias alternativas, que muito contribuem para o
processo de ensino/aprendizagem que pode ser usadas nas aulas de Geografia,
as aulas com estudo a campo, além de se tratar de uma aula e um dia diferente
dos habituais (dentro da sala de aula) também se torna um grande laboratório ao

76
ar livre, no qual os alunos podem observar e explorar acontecimentos ligados ao
cotidiano. No entanto, para isso existem muitos desafios para serem superados
que acabam se não impedindo, mas dificultando a realização deste tipo de
atividades nas escolas, como a questão financeira que acaba sendo uma grande
barreira.

Referências
APOGEU, Associação de Professores de Geografia. Carta Internacional da
Educação Geográfica. Tradução: Manuela Malheiro Dias Ferreira, 1992.
BRASIL. Secretária de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares
Nacionais: Geografia. Brasília: MEC/SEF, 1998.
CHELOTTI, Marcelo Cervo. Apontamentos sobre o trabalho de campo na
Geografia: a contribuição da antropologia para proposições geográficas [2010?].
Disponível em: <http://www.docstoc.com/docs/24823118/APONTAMENTOS-
SOBRE-O-TRABALHO-DE-CAMPO-NA-GEOGRAFIA-a> acesso em 29/07/2013.
KAERCHER, Nestor André. Desafios e utopias no ensino de Geografia. In:
CASTROGIOVANNI, Antonio Carlos [el.al] (Org.). Geografia em sala de aula:
práticas e reflexões. 5. ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2010, p. 174-190.
______. O gato comeu a Geografia crítica? Alguns obstáculos a superar no
ensino-aprendizagem de Geografia. In: PONTUSCHKA, Nídia Nacib; OLIVEIRA,
Ariovaldo Umbelino de. Geografia em Perspectiva. 3.ed. São Paulo: Contexto,
2010, p. 221-231.
MATHEUS, Elizabeth Helena Coimbra. O que há por trás de uma panela? Uma
atividade de campo como trajetória a um olhar geográfico. In: REGO, Nelson;
CASTROGIOVANNI, Antonio; KAERCHER, Nastor. Geografia: práticas
pedagógicas para o ensino médio. Porto Alegre: Artmed, 2007.
MÉRENNE-SCHOUMAKER, Bernadette. Didáctica da Geografia. Lisboa-
Portugal: Asa, 1999.
SINGH, Chandra Pal. La gestión de los recursos de aprendizaje. In:GRAVES,
Norman J. Nuevo método para la ensenanza de la Geografia. Barcelona-
Espanha: Editora Teide Barcelona,1989, p.271-288.

77
O COTIDIANO COMO REFERÊNCIA PARA A COMPREENSÃO DO
TERRITÓRIO EM AULAS DE GEOGRAFIA NO SEXTO ANO DO ENSINO
FUNDAMENTAL DO COLÉGIO ESTADUAL IPÊ ROXO – FOZ DO IGUAÇU/PR

Germano Luiz Kalinoski


gergeo@hotmail.com.br
PDE (Programa de Desenvolvimento Educacional)

Introdução
Nesse artigo, propõe-se trabalhar o conceito de território no 6º ano do
Ensino Fundamental do Colégio Estadual Ipê Roxo, localizado no bairro Cidade
Nova, em Foz do Iguaçu, através da análise das questões referentes ao cotidiano
e às práticas sociais expressas em imagens e poesias.
A temática proposta parte de uma observação das Diretrizes Curriculares
Estaduais de Geografia. Estas propõem que se trabalhe o conceito de território no
6º ano do Ensino fundamental numa perspectiva crítica. Assim, optamos em fazer
isso relacionando o território com o cotidiano e com as práticas sociais em que os
alunos estão inseridos.
Portanto, propõe-se trabalhar o conceito de território no 6º ano tendo como
referência o cotidiano dos alunos. Pois, a perspectiva sobre território consiste em
evidenciar as inter-relações e a interdependência dos diversos elementos do
espaço geográfico - poder, e limites/fronteiras das relações humanas:
solidariedade, barganha, disputas, conflitos, trabalho, língua, hábitos, costumes,
tradições, crenças etc. Logo, o envolvimento mais ativo dos alunos com a
produção dos territórios permitirá que os mesmos tomem posicionamentos frente
às questões de valores, direitos sociais, exclusões bem como na participação
para soluções de problemas (socioespaciais, ambientais, culturais, etc.)

Metodologia
Com base nas Diretrizes Curriculares de Geografia para a Educação
Básica, nos textos de Milton Santos e Luiz Carlos Flávio, em observações
pautadas na realidade vivenciada pelos alunos do 6º ano do Ensino Fundamental
do Colégio Estadual Ipê Roxo, propõe-se trabalhar o conceito de território em
aulas de geografia no ensino fundamental a partir do cotidiano e das práticas
sociais do homem comum.

78
Para que essa aproximação entre território e cotidiano dê resultado em
termos de prática pedagógica, é necessário desenvolver metodologias que
possam corresponder aos objetivos propostos.
Um bom começo é pelo levantamento histórico (livros, jornais, mapas etc.)
da região, buscando conhecer como aconteceu a organização e reorganização
territorial de Foz do Iguaçu. Considerando na busca fatores como trabalho,
questões econômicas, políticas, ambientais, populacionais etc.
Também, como proposta de trabalho, sugere-se que a leitura do território
possa acontecer através de diferentes tipos de imagens, tiradas do próprio meio
em que os alunos vivem. Recurso didático pedagógico que ajuda a estimular e
despertar no aluno maior interesse para as questões territoriais e para a
aprendizagem dos conteúdos da geografia de forma mais ampla. E para que isso
aconteça, são necessários alguns procedimentos ou ações, como: apresentação
em sala de aula de imagens da cidade de Foz do Iguaçu e de outras cidades para
os alunos poderem observar e comparar os diferentes territórios. Assim como
analise de fotos da comunidade Cidade Nova, do entorno em que o Colégio Ipê
Roxo está inserido e que possam ser tiradas e trazidas pelos próprios alunos.
A leitura e análise de textos poéticos também é um caminho metodológico
interessante para que os alunos do sexto ano possam entender as questões
pertinentes a constituição dos territórios a partir das práticas sociais. Temos
muitas poesias, como "Falas da Cidade" de Luiz C. Flávio, citada neste trabalho,
que trazem no texto elementos do cotidiano, permitindo desta maneira fazer
aproximações com a realidade territorial dos alunos.

Discussões
No 6º ano do Ensino Fundamental o território é contemplado através do
estudo de temas mais abrangentes, destoando com a realidade vivenciada pelos
alunos. Portanto, busca-se entender, através do conceito de território, como os
alunos percebem/entendem/compreendem o meio em que vivem, relacionando à
cidade de Foz do Iguaçu, cujo espaço urbano (que além do mais é localizado
numa área de fronteira) eles próprios ajudam a produzir em seu cotidiano.

79
Entendendo como os territórios estão impregnados de práticas sociais, e as
práticas sociais consubstanciadas em territórios, em dimensões multiescaleres, os
alunos poderão tecer um diálogo mais profícuo com o cotidiano em que vivem,
com o seu entorno (espaço escolar, bairro Cidade Nova, cidade de Foz do Iguaçu
e a região da tríplice fronteira num todo). Na verdade esse diálogo já acontece,
está presente na vida material e simbólica dos alunos, é preciso trazê-las para o
campo aberto das reflexões, das sistematizações.

Sendo um híbrido, conjugando movimentos, mobilidades e lutas, a


cidade também deve ser considerada como um texto social a ser
decodificado. Texto que implica mensagens a serem lidas e
interpretadas, envolvendo práticas da vida cotidiana: os sistemas de
regras, delimitações e divisões, que indicam controles e disputas
efetivadas pelos grupos sociais (FLÁVIO, 2011, p.58).

Essas fronteiras não são delimitadas em páginas em branco. Elas


acontecem em páginas já escritas, em territórios já ocupados. Estão espalhadas
por todo o espaço. São textos escritos sobre outros textos. Os alunos que
estudam no período matutino moram no mesmo bairro que os alunos que
estudam no período noturno, circulam pelas mesmas ruas, estão em contato com
os mesmos elementos matérias e simbólicos, com os professores acontece à
mesma coisa. É a força da alteridade agindo na organização do espaço. Há um
intercâmbio constante entre os diferentes atores que ocupam aquele determinado
espaço. Uma verdadeira intertextualidade.
A relação dos alunos com os elementos territoriais é intensa e constante.
Faz parte das práticas sociais dos mesmos. Eles saem de suas casas, que
também estão repletas de territórios, vão para a rua, rua que tem um nome, que
tem pavimentação asfáltica, ou outro tipo de pavimentação, ou simplesmente não
são pavimentadas, tem iluminação pública boa, ruim, ou não tem, passam por
placas que indicam valores e ideologias, por terrenos baldios, por igrejas,
mercados, farmácias, pessoas, vizinhos, carros, ônibus e os mais variados tipos
de situações, ações e objetos impregnados de territorialidade. Chegam à escola,
param um pouco perto do portão, logo em seguida adentram o espaço escolar,
circulam pelos corredores da escola, passeiam pela quadra de esportes, ouvem
música, mexem no celular, formam grupos onde socializam informações e ideias
de seus interesses. Após o sinal, ou, antes mesmo, entram na sala de aula,

80
escolhem a fileira e a cadeira onde vão se sentar, uns preferem as cadeiras da
frente, outros escolhem o fundo da sala, tem aqueles que preferem ficar perto da
porta, outros perto das janelas. Conforme vão se organizando territorialmente, vão
construindo fronteiras, surge o grupo da Maria, do João, do José. Tem a cadeira e
a carteira do professor(a), o giz, a lousa, e outros elementos materiais, culturais e
simbólicos que o fazem estar naquela sala na situação de professor. Dessa
maneira, e não é uma maneira homogênea, cíclica, que se repete da mesma
forma todos os dias, os alunos vão territorializando o espaço escolar, o espaço do
bairro Cidade Nova.
São esses textos multiformes, escritos em espaços interescalares,
produzindo e traduzindo microterritorialidades e multiterritorialidades e que são
expressas pelas práticas sociais, pela vida cotidiana, que devem ser trabalhadas
no 6º ano quando o assunto é território.
No 6º ano do Ensino Fundamental, a proposta de trabalho da grande
maioria dos autores de livros didáticos de Geografia está concentrada no estudo
dos lugares, das paisagens da construção do espaço geográfico nas suas
diferentes escalas. São realizadas as mais diferentes abordagens, como:
paisagens naturais e humanizadas, geografia dos lugares, o nosso lugar e os
outros lugares, as relações entre os lugares, os lugares e suas paisagens, o
tempo e as mudanças nos lugares, marcas da sociedade nas paisagens, entre
muitas outras. As abordagens acontecem através de textos, imagens, mapas,
gráficos e tabelas que descrevem e relacionam elementos sociais (cidades,
campo, transportes, comunicação, indústrias, trabalho etc.) e naturais (clima,
vegetação, relevo, hidrografia etc.) de maneira estanque, sem comunicação entre
si. O território, o cotidiano e as práticas sociais que acontecem no mesmo são
quase que totalmente ignoradas.
Nas diretrizes de Geografia (DCE, 2008) o conceito de território que deve
ser trabalhado no sexto ano do Ensino Fundamental é apresentado numa
dimensão crítica, onde a abordagem é feita através de uma compreensão política
do mundo, local e global, cartografados ou não, tantos materiais como imateriais e
que estão presentes nos espaços urbanos, como os territórios do trabalho, da arte

81
de rua, da segregação socioeconômica, território das lutas sociais e outros (DCE,
2008).
A proposta, portanto seria de trabalhar o conceito de território nas aulas de
Geografia do 6º ano do Ensino Fundamental, vinculando aos outros conceitos já
trabalhados (paisagem, lugar e espaço geográfico), de maneira mais constante e
levando sempre em consideração o cotidiano dos alunos e as práticas sociais que
acontecem na comunidade em que moram e da qual fazem parte. Entendendo a
formação dos territórios os alunos conseguirão ampliar o entendimento que
possuem sobre o espaço geográfico. Para Milton Santos, ''O território são formas,
mas o território usado são objetos e ações, sinônimo de espaço humano, espaço
habitado" (SANTOS, 2005, p. 138).
Portanto, para este momento e como uma forma de exemplificar
escolhemos alguns recursos pedagógicos que podem nos ajudar a trabalhar os
fazeres das práticas sociais do cotidiano dos alunos: imagem e poesia . Ambas
podem ser desenvolvidas de maneira relacionadas, pois é assim que elas se
encontram na vida dos alunos.
São muitas e variadas as práticas sociais que acontecem no cotidiano dos
alunos do 6º ano do Colégio Ipê Roxo, no território em que vivem, como: as
relacionadas ao trabalho, a educação, a mídia, a família, ao lazer, esportes,
músicas, danças, cultura, hábitos, costumes, as lutas sociais etc.
E é importante que os alunos do sexto ano entendam como os territórios
são construídos a partir do seu cotidiano, da sua casa, da sua rua, da família, do
outro mais próximo, como vizinhos, amigos.
O professor pode começar trabalhando o tema com imagens de lugares
que fazem parte da vida dos alunos, do bairro em que moram. Imagens que
possam contextualizar a realidade do cotidiano dos alunos. Que permitam ver o
território como um processo dinâmico, resultado das relações entre as pessoas,
grupos de pessoas, sociedades, relações que podem ser ao mesmo tempo
objetivas e subjetivas, materiais e imateriais.

82
Figura 1-Colégio Estadual Ipê Roxo Figura 2-Bairro Cidade Nova e Furnas ao fundo

Fonte: registro do autor (abril de 2013) Fonte: registro do autor (abril de 2013)

Depois de observar e analisar as fotos junto com os alunos do 6º ano, o


professor pode problematizar o assunto, propor reflexões sobre os diferentes
territórios mostrados nas imagens e relacionar com outros territórios, lugares e
paisagens que fazem parte do cotidiano. Pensar no modo como o território pode
estar presente nesses lugares e paisagens. Motivando os alunos a refletirem
sobre como as questões econômicas, políticas, ambientais, culturais, sociais e
religiosas estão presentes nos territórios.
Além de propor reflexões sobre os diferentes territórios que fazem parte da
realidade dos alunos através de fotos é interessante também aprofundar a leitura
sobre as questões territoriais, solicitando aos alunos que escolham um território
que faça parte do seu cotidiano, da sua realidade, do bairro em que moram, da
escola em que estudam e tirem uma ou mais fotos desse território. Para reforçar a
compreensão do assunto os alunos podem construir um texto comentando o
território que foi fotografado. Procurando destacar no comentário os aspectos
desse território, aspectos objetivos e subjetivos. E para ampliar mais o horizonte
de aprendizagem sobre o conceito de território a partir da leitura de imagens os
alunos podem construir cartazes com o material produzido e apresentar aos
colegas da turma.
A poesia como recurso pedagógico permite tecer um diálogo mais profícuo
sobre as condições de existência dos alunos com relação ao cotidiano em que
vivem. Portanto, com a sua realidade. Realidade carregada de significados. E a
poesia precisa ser trabalhada em sala de aula como um caminho que pode
contribuir para o entendimento do conceito de território no contexto da realidade
dos alunos.

83
Portanto, estudar e compreender o território através da poesia em aulas de
geografia no Ensino Fundamental nos permite aprofundar o assunto e assim
entender a complexidade existente na constituição do território onde se vive e a
relação deste território com outros territórios, que sempre de alguma maneira
estão relacionados com o que acontece no cotidiano das pessoas. Podemos
observar na poesia de Luiz Carlos Flávio.

Falas da cidade
Luiz Carlos Flávio
As pedras da cidade falam,
os prédios da cidade falam.
As pontes e fontes, limites e desafios.
cada um tem suas mensagens,
no silêncio falam sim!
As bocas da cidade falam,
os becos da cidade falam.
As praças e preços, os morros e rios,
cada um tem suas mensagens,
no silêncio falam sim!
As frentes da cidade falam,
as frestas da cidade falam,
as festas funerais, os muros e quintais,
cada um tem suas mensagens,
no silêncio falam sim!
Tem que ouvir a cidade,
ler suas falas escondidas nas paisagens,
pensamentos e sentidos da cidade.

Dessa forma, encontramos no eu-lirico do poema "Falas da Cidade" a


territorializacão, a desterritorialização e a reteritorialização. Pois, a sociedade
através do trabalho e de suas técnicas foi construindo os diferentes tipos de
territórios que compõe as paisagens urbanas. Essa construção é realizada de
forma complexa e dialética.
A cidade é uma paisagem humanizada constituída pelos mais diferentes
tipos de territórios como vimos no texto poético. Portanto poesia e território podem
ser trabalhadas em sala de aula atraves de vários caminhos metodológicos. Os
alunos podem desenvolver histórias em quadrinhos considerando os elementos
territoriais existentes no texto poético analisado e principalmente considerando o
seu cotidiano, as poesias, letras de músicas, que são produzidas no lugar em que
vivem.

84
Considerações Finais
Neste artigo, considera-se que a perspectiva sobre o conceito de território
consiste em evidenciar as inter-relações e a interdependência dos diversos
elementos na constituição e manutenção do mesmo. E que esses diferentes
elementos podem ser analisados pela geografia através de imagens e poesias.
A realização desta pesquisa propôs também contribuir para uma leitura
socioespacial da organização territorial do espaço urbano da cidade de Foz do
Iguaçu através da análise das práticas sociais. Ajudando os alunos a refletir sobre
o seu próprio cotidiano, sobre o espaço escolar em que estudam, sobre a
comunidade em que moram e sobre os mais diferentes elementos que constituem
a realidade do território em que vivem. Acredita-se que o território analisado a
partir do cotidiano dos alunos e ainda referenciado por recursos didáticos como
imagens e poesias possibilita engajar o aluno em diversas práticas sociais de
leitura do mundo, segundo as perspectivas da disciplina de geografia.
E essa perspectiva sobre os conteúdos trabalhados pela geografia no
Ensino Fundamental consiste em evidenciar as inter-relações e interdependências
das práticas sociais (poder, trabalho, sociedade, cultura, identidade, cotidiano,
ética, cidadania etc.) na constituição e manutenção do espaço geográfico.
Dessa maneira e de forma substancial reúnem-se elementos que permitem
aos professores e alunos entender através do estudo do conceito de território
como é produzido o espaço urbano em áreas de fronteiras. Como o mesmo é
organizado e reorganizado no seu aspecto local e regional.

Referências
FLÁVIO, Luiz Carlos. Memória(s) e território: elementos para o entendimento da
constituição de Francisco Beltrão-PR. Disponível em:
<http://www4.fct.unesp.br/pos/geo/dis_teses/11/dr/luiz.pdf. Acesso em: 23.jun.2013.
_______. Geografia em poesia: tempos, espaços, pensamentos... Presidente
Prudente: Grafisul, 2008.
PARANÁ. SEED - Secretaria de Estado da Educação do Estado do Paraná. DCE -
Diretrizes Curriculares de Geografia para a Educação Básica. Disponível em:
<http://www.educadores.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/diretrizes/dce_geo.pdf.>Acesso em:
13.mai.2013.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 4º edição.


7ª reimpressão. São Paulo: Edusp. 2012.

85
USO DO SENSORIAMENTO REMOTO EM SALA DE AULA
COMO RECURSO DIDÁTICO

Josielle Samara Pereira


josy.samara@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Eduarda Nicola
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
Sob o ponto de vista da tecnologia, o Sensoriamento Remoto é definido
como o conjunto de processos e técnicas usado para medir propriedades
eletromagnéticas de uma superfície ou de um objeto, sem que haja contato entre
o objeto e o equipamento sensor (CÂMARA, 1997).
Para SANTOS (2002), a “Escola” é concebida como agência de
comunicação social que tem no saber sua matéria-prima; é o espaço privilegiado
capaz de receber e processar tais informações transformando-as em
conhecimento, desenvolvendo a função social de formar cidadãos preparados
para participações sociais consistentes e construtivas.
Os dois conceitos trazidos pelos autores, num primeiro instante, podem
não apresentar relação direta, onde a tecnologia (friamente aplicada para obter
informações sobre objetos sem entrar em contato com os mesmos) se mostra
distante da escola, que é tida como um espaço para troca de experiências e de
informações mutuamente.
Porém, atualmente com um maior acesso as informações por processos
como a inclusão social e de um maior aparato tecnológico disponível à sociedade
e do ambiente escolar, o Sensoriamento Remoto tem sido utilizado como recurso
didático em sala de aula, se apresentando como um recurso interdisciplinar
atraente e interessante para professores e alunos. Tal utilização proporciona uma
dinâmica que vai além das imagens encontradas nos livros didáticos partindo para
as imagens de satélites e fotografias aéreas, despertando a curiosidade dos
alunos e possibilitando a construção de uma nova visão geográfica como também
uma releitura da paisagem presenciada por eles no dia-dia.

86
Dessa forma, o presente artigo visa examinar algumas formas de
abordagens do uso das técnicas do sensoriamento remoto, como recurso didático
em sala de aula, no ensino de Geografia.

Uso do Sensoriamento Remoto em sala de aula como recurso didático


Florenzano (2002) enfatiza que a disponibilidade das imagens de satélite é
cada vez maior e a dificuldade de acesso aos produtos do Sensoriamento Remoto
não serve mais como justificativa para a sua não utilização pelos professores nas
escolas. Os educadores, ao trabalharem com imagens de satélite de forma
impressa ou digital, tornam os alunos agentes ativos no processo de ensino e
aprendizagem no momento em que estes passam a interpretar a imagem do
terreno e podem futuramente elaborar um mapa.
Quando se trata da cartografia no ensino da Geografia é preciso destacar
que os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s) colocam como sugestão de
produtos de trabalho para a alfabetização cartográfica o uso de desenhos, fotos,
maquetes, mapas e imagens de satélite. Tal fato incentiva a inserção do
Sensoriamento Remoto como ferramenta pedagógica no ensino da cartografia. O
processo de alfabetização cartográfica constitui-se no momento em que devem
ser consolidados alguns conceitos cartográficos que serão complementados e
aprofundados futuramente.
É possível averiguar as diferentes possibilidades de uso do Sensoriamento
Remoto em diferentes disciplinas, no ensino regular, tais como: Geografia,
História, Biologia, Matemática, Artes, dentre outras, principalmente em
abordagens interdisciplinares.
Segundo Carvalho (2001), o uso da tecnologia de sensoriamento remoto
em sala de aula, proporciona um grande avanço, enriquecendo o ensino da
Geografia e transmitindo o dinamismo necessário ao estudo do espaço geográfico
pelas várias vantagens que apresenta, dentre as quais a possibilidade de se
observar a paisagem de uma forma menos abstrata do que a apresentada no
mapa.
A utilização das técnicas de sensoriamento remoto, em sala de aula,
oferece um bom recurso didático, para o processo de ensino/aprendizagem, no

87
desenvolvimento de conceitos pelos alunos e como conteúdo em si mesmo, pode
ser utilizado para fixar conteúdos como o relevo, desmatamento, aumento da área
urbana etc.
Assim, as imagens de satélite oriundas do Sensoriamento Remoto
aparecem como potenciais recursos para o trabalho com alguns conceitos, como
na construção da noção de legenda para a Cartografia, uma vez que no momento
em que o educando interpreta uma imagem, logo elabora uma legenda para
expressar o resultado da sua interpretação. A linguagem visual possibilita também
o desenvolvimento de noções que facilitam a análise do espaço geográfico e, por
isso, deve-se trabalhar com imagens que retratam o espaço vivido do aluno, pois
torna a aprendizagem mais interessante.
O Sensoriamento Remoto, através da cobertura da superfície terrestre em
diferentes épocas, permite a verificação da evolução temporal de fenômenos nas
áreas observadas, tornando interessante a ideia de ensinar e aprender a História
dos Lugares a partir de imagens de diferentes épocas (na realidade, anos
diferentes). No ensino da história ou da geo-história, é possível utilizar imagens
de um mesmo local produzidas em períodos diferentes. Por meio delas é possível
fazer a reconstituição do processo de uso, ocupação e desenvolvimento de uma
região, auxiliando, portanto, “[...] na compreensão do processo histórico de
organização e transformação do espaço” (SANTOS, 1998, p. 192). A análise
temporal também pode ser utilizada em outros conteúdos, como na Climatologia,
por exemplo. Pois, as “[...] análises de imagens de satélite sequenciadas
permitem a visualização do dinamismo dos sistemas atmosféricos” (JATOBÁ,
1997), e contribui para que os alunos vejam concretamente no papel conceitos
que conhecem abstratamente.
Além disso, as tecnologias espaciais, em ambiente educacional, instigam o
aluno ao aprendizado, a partir da interação com as imagens de satélite os alunos
demonstraram entender o ambiente em que vivem, refletindo e questionando a
sua realidade, e principalmente como o aquilo que é real, concreto para eles pode
ser expresso na forma de mapas e figuras.
O sensoriamento remoto pode ser considerado uma ferramenta de grande
importância para o ensino de Geografia, pois através dele que o aluno passa a

88
ter, por exemplo, o conhecimento da construção de mapas, utilizando-se de um
recurso com tecnologia mais avançada, sendo este, um método complexo. Como
também, o emprego de recursos visuais através do Sensoriamento Remoto,
permite aos alunos ir além dos conceitos e definições já instituídos, construindo
assim, seu próprio conhecimento através dessas ferramentas.

Considerações Finais
O objetivo principal do artigo, que desenvolvemos, foi examinar como as
técnicas do Sensoriamento Remoto podem ser utilizadas como recurso didático
no ensino de geografia. Com a utilização das tecnologias de sensoriamento
remoto é possível problematizar, estudar e realizar diversos trabalhos práticos de
conteúdos específicos de geografia e também de cartografia, relacionando ainda
aos mais variados temas.
O emprego do Sensoriamento Remoto como recurso didático, oferecerá
aos alunos uma aptidão crítica e consciente do trabalho que estará
desempenhando, contribuindo com diversos outros processos de ensino-
aprendizagem, melhorando a compreensão do espaço geográfico.
Observa-se que o uso escolar do Sensoriamento Remoto contribui para o
desenvolvimento do papel que a escola desenvolve atualmente, de educar
cidadãos participantes da sociedade, com concepções consistentes e edificantes
através dos recursos científicos, cabendo à escola garantir a comunidade, o
acesso ao conhecimento desta ciência.

Referências
CÂMARA, G. et. al.. Anatomia de Sistemas de Informação Geográfica.
Curitiba: Sagres Editora, 1997.
CARVALHO, V. M. S. G.; CRUZ, C.B.M. Sensoriamento Remoto aplicado a
Geografia: Resgate e Renovação Conceptual e Operacional na Definição de
Estratégias para o Ensino. In: X Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto.
2001, Foz do Iguaçu. Anais, Foz do Iguaçu: Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais, p.187-189.
DAMBROS, G.; CASSOL, R. O sensoriamento remoto como recurso didático para
o ensino da cartografia In: XV Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto.
2011, Curitiba. Anais, Curitiba: Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, p.3302-
3307.

89
FLORENZANO, T. G. Imagens de satélite para estudos ambientais. São Paulo:
Oficina de Textos, 2002.
JATOBÁ, L. O Uso de Imagens de Satélite no Ensino da Climatologia do Nordeste
Brasileiro. In: VII Simpósio Brasileiro de Geografia Física 2007, Curitiba. Anais VII
Simpósio Brasileiro de Geografia Física, p 43-52.
PCNs - BRASIL, Secretária de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares
Nacionais: Introdução. 3 ed. Brasília: MEC, vol 1, 1997.
PCNs - BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais. Secretaria de educação.
Nacionais. Secretaria de educação. MEC/SEF. 1998.
SANTOS, V. M. N. O uso escolar das imagens de satélite: socialização da ciência
e tecnologia espacial. In: PENTEADO, H.D. (org.) Pedagogia da comunicação:
teorias e práticas. São Paulo: Cortez, 1998.

90
ESTUDOS AGRÁRIOS
E ECONÔMICOS

91
A INFLUÊNCIA EXTERNA NA ECONOMIA BRASILEIRA:
UMA ANÁLISE A PARTIR DOS INVESTIMENTOS ESTRANGEIROS
REALIZADOS ATÉ A DÉCADA DE 1990

Alessandro Francisco Trindade de Oliveira


alessandro_its@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
A economia do Brasil tem, em parte de sua estratégia de crescimento, uma
vinculação com o exterior, tanto no sentido de destino da produção quanto no
aporte de investimentos e, consequentemente, teve suas regras ditadas por
agentes externos ao território nacional em alguns períodos. Desde o século XVI,
quando o comércio do açúcar, o principal produto de exportação da Colônia, com
grande participação do capital holandês, até o século XX, quando uma gama
gigantesca de empresas multinacionais passaram a atuar no Brasil, ficou evidente
uma intensa relação com a economia internacional. Nesse sentido,
desenvolvemos um trabalho analisando algumas ideias que resgatam parte da
inserção econômica brasileira no mercado mundial e como se desenvolve essa
concepção.
Partindo então de autores que tratam a questão, como Reinaldo
Gonçalves, Paul Singer e Armen Mamigonian, entre outros, trazemos um histórico
da relação brasileira com a economia externa, propondo uma rápida análise do
objeto discutido. Gonçalves (1999), analisa o que chama de “inserção
internacional do aparelho produtivo do Brasil” em períodos, demarcados e
interpretados pelos principais fatos históricos. Essa análise parte do período
colonial até a década de 1990, onde novamente temos uma grande abertura na
economia brasileira; sendo assim, restringimos esse trabalho aos períodos
tratados pelo autor acima.
O primeiro período seria desde o Brasil colônia até a Segunda Guerra
Mundial; posteriormente, viria o período de industrialização e investimento
externo, que ocorreu entre 1945 e 1964; em seguida, o período de crescimento
econômico de 1964 até 1980; e, por último, um período de estagnação de 1980
até a década de 1990. Sendo assim, partimos para uma análise mais detalhada
dos períodos mencionados pelo autor.
92
Internacionalização de fora para dentro: o avanço das multinacionais
estrangeiras
No período colonial, o Brasil desempenhou papel marginal na economia
mundial. O comércio do açúcar já era extremamente influenciado pela Companhia
Holandesa das Índias Ocidentais e, no final desse período, havia predominância
do capital britânico na construção de estradas de ferro, portos e financiamento de
déficit público (GONÇALVES, 1999). Quando parte dessa infraestrutura estava já,
de certa forma, consolidada no Brasil, fato que veio a ocorrer somente próximo ao
século XX, ela permitiu não somente a produção para o mercado externo, mas
também um crescimento da circulação interna de produtos; e, logo, foi também
muito importante no desenvolvimento do processo de substituição de
importações, como atesta Singer (2001, p.88):

[...] a mesma infra-estrutura que possibilitou o crescimento da produção


para o mercado mundial serviu também para unificar fisicamente o
mercado interno, ampliando-o incessantemente para a produção
substituidora de importações, que foi avançando durante todo o período
sob exame, embora sofresse retrações durante as crises, quando o
governo praticava políticas liberais. A primeira Guerra Mundial (1914-18)
deixou evidente que a redução forçada das importações não tinha que
dar lugar a uma diminuição equivalente do consumo. Este poderia ser
igualmente bem atendido por produção nacional, mesmo que ela fosse
inicialmente menos vantajosa em termos de preço e qualidade.
Começava-se a compreender que era muito melhor ter produção
nacional a não ter produção alguma.

O Brasil dispunha de uma indústria relativamente volumosa e diversificada


até 1930, que, em grande parte, teve iniciativas de imigrantes europeus que
iniciaram essas atividades na segunda metade do século XIX, fato analisado por
Mamigonian (2004). Esse autor traz uma importante análise, ao verificar o
surgimento da indústria no Brasil, que em suas análises demonstrou que não teve
predominância de capital externo.
No período que seguiu até a Segunda Guerra Mundial, o investimento
estrangeiro no Brasil passou gradativamente da predominância britânica para a
norte-americana, como aponta Singer (2001). No século XX, observamos uma
queda no investimento externo a partir da década de 1930, nas áreas da
mineração, petróleo, energia elétrica, bancos e transporte. Isso se deu devido a
uma conjuntura de crise econômica internacional, propiciando uma primeira
iniciativa do processo de industrialização calcada na substituição de importações,

93
que ganhou mais força, posteriormente, com as ideias da Cepal, como atestado
por Mamigonian (2004). Podemos acrescentar a esses fatores, a influência que as
ideias do economista britânico John Maynard Keynes tiveram tanto no centro
quanto na periferia capitalista na época. Dadas as condições de pós-crise de
1930, Keynes provou que o intervencionismo estatal poderia ajudar o mercado a
se reequilibrar e ajudá-lo a superar a crise, contrariando as ideias liberais que
foram um paradigma na ciência econômica até aquela época (SINGER, 2001).
Com Vargas ainda no poder, sobretudo após a aliança brasileira aos
Estados Unidos, durante a Segunda Guerra Mundial o governo norte americano
financiou a construção da usina da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta
Redonda no estado do Rio de Janeiro, que começa a produzir aço em 1946. Nas
décadas seguintes2, principalmente pela saída de Vargas do poder, um ambiente
mais liberal voltou ao país, aumentando assim a presença do capital estrangeiro
(SINGER, 2001).
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, mais precisamente nos anos
compreendidos entre 1946 e 1962, algumas restrições ao investimento
estrangeiro foram eliminadas. No ano de 1955, uma Instrução da SUMOC
(Superintendência da Moeda e do Crédito) veio trazer incentivos aos investidores
estrangeiros, e como exemplo a partir disso, observamos a atração de diversas
montadoras de automóveis nas décadas seguintes, tanto europeias quanto norte
americanas, pondo em prática parte das teorias cepalinas.
Com o Golpe de Estado de 1964, algumas alterações no regime dos
investimentos foram feitas, por meio da Lei nº 4.390, restringindo a porcentagem
de remessa de lucros das matrizes para as filiais e taxando tal prática. Muitas
dessas regulamentações vigoram até os dias de hoje, com pequenas alterações
no ano de 1991, onde o capital investido por estrangeiros passa a receber
tratamento igual aos nacionais e parte dessas restrições deixa de existir
(GONÇALVES, 1999).
Na década de 1970, a indústria de transformação no Brasil apresentava um
dos mais altos índices de desnacionalização do mundo, com 32% da produção
feita por indústrias estrangeiras, colocando, assim, o país na sexta posição nesse

2
Excetuando-se o período de 1951 a 1954, conhecido como Segundo Governo Vargas.

94
quesito, conforme apresentado por Gonçalves (1999). Conforme Videira (2009), a
atuação das empresas de fora do país concentrou-se em setores de maior aporte
tecnológico, como o setor elétrico, de transporte, químico e de produtos
farmacêuticos. No entanto, as subsidiárias instaladas no Brasil não contavam com
o mesmo aparato tecnológico de suas matrizes.
Com a crise econômica que se instaurou na década de 1980, as empresas
de capital estrangeiro diminuíram seus investimentos no Brasil. Gonçalves (1999),
diz que as estratégias dos investidores mudaram um pouco no país, adotando a
racionalização de custos, demissão de funcionários, incremento dos lucros
financeiros e dos fluxos de saída de investimento estrangeiro direto. O autor em
questão também mostra que as Empresas de Capital Estrangeiro (ECE)
reduziram seus níveis de endividamento no país e houve uma maior
diversificação de investimentos em empresas associadas, a partir de 1984.
Na década de 1990, o Brasil continuou como um dos países com maior
presença de ECE. A continuidade da crise no início da década forçou as
empresas estrangeiras a continuarem o processo de reestruturação industrial,
eliminando linhas de produção, substituição de alguns produtos por outros
importados e processos de fusões e aquisições cada vez mais presentes. A
abertura econômica e a política dos juros altos fizeram com que o capital
estrangeiro aumentasse significativamente sua presença no Brasil e, assim, o
investimento estrangeiro direto no país passou de 184 milhões de dólares em
1989 para 3285 milhões de dólares em 1995 (VIDEIRA, 2009), lembrando que
muito do que se apresenta como investimento estrangeiro foi uma transferência
de patrimônio via privatizações e desnacionalizações.
Nesse contexto, Videira (2009, p. 109) diz que algumas mudanças na
legislação permitiram, que, nessa década, grupos estrangeiros pudessem “[...]
adquirir participação majoritária ou integral nos bancos [...]”. Além disso, outros
setores como o da informática, petróleo, indústria extrativa, navegação de
cabotagem, telecomunicações e serviços, tiveram as restrições ao capital
estrangeiro flexibilizadas ou até eliminadas. Sendo assim, nosso país foi um
grande negócio para o capital estrangeiro, visto que, na década de 1990, já era a

95
11ª economia mundial e possuía um grande potencial para crescimento, dado o
gigantesco mercado consumidor.
Na década de 1990, também devemos destacar o processo de privatização
de empresas estatais esteve fortemente presente. As privatizações ocorreram por
meio dos processos de fusões e aquisições, em que muitos grupos estrangeiros
adquiriram total ou parcialmente algumas empresas públicas. Assim, segundo
Gonçalves (1999, p. 107), a participação estrangeira nas privatizações de 1991
até 1998 foi de 27,8%, tendo como principal origem os Estados Unidos, a
Espanha e o Chile.

Empresas chilenas e espanholas foram as principais compradoras de


empresas públicas e de concessões de serviços de telecomunicação
(telefonia móvel) realizadas entre novembro de 1996 e abril de 1998.
Verifica-se, também, a presença da Enron norte-americana na
privatização do setor elétrico [...]. Nas concessões de telefonia móvel, os
destaques ficam por conta da Bellsouth dos EUA, Stet da Itália e Bell do
Canadá.

Por meio das fusões e aquisições, muitas empresas privadas nacionais


também foram adquiridas por empresas estrangeiras. Gonçalves (1999, p. 143),
traz as principais empresas compradas por estrangeiros ao longo da década de
1990, como aponta o Quadro 1.

Quadro 1-Exemplo de grandes empresas brasileiras compradas por grupos estrangeiros:


1994-1998
Empresa Comprador País Setor Ano
Petroquímica União Union Caribe EUA Petroquímico 1994
Celbrás Rhodia França Têxtil 1994
Adria Quaker Oats EUA Alimentos 1994
Continental 2001 Bosch/Siemens Alemanha Eletrodoméstico 1994
Bamerindus HSBC Reino Unido Financeiro 1994
Laticínios Avaré Nabisco EUA Laticínios 1995
Petroquímica Bahia Dow Chemical EUA Petroquímico 1995
Lacta Philip Morris EUA Alimentos 1995
Tintas Coral ICI Reino Unido Quím. E Petroquímica 1996
Refrigeração Paraná Eletrolux Suécia Eletrodoméstico 1996
Metal Leve Mahie/Cofap Alemanha Autopeças 1996
Kenko do Brasil Kimberly-Clark EUA Higiene 1996
Paulista Seguros Liberty Mutual EUA Seguros 1996
Bompreço Royal Ahold Holanda Supermercado 1996
Dako General Electric EUA Eletrodoméstico 1996
Lab. Carlo Erba Searle EUA Quim. E Farmácia 1997
Banco Geral do Comércio Santander Espanha Bancos 1997

96
Continuação Quadro1
Arno Seb França Eletrodoméstico 1997
Cia. Real de Distribuição Sonae Portugal Supermercado 1997
Veja Engenharia
Sita França Serv. Públicos 1997
Ambiental
Reino
Kibon Unilever Alimentos 1997
Unido/Holanda
Cofap Magneti Marelli Itália Autopeças 1997
Agroceres Monsanto do Brasil EUA Alimentos 1997
Freios Varga Grupo Lucas Reino Unido Autopeças 1997
Eldorado Carrefour França Supermercado 1997
Bristol-Myers
Phytoervas EUA Perfume e Cosmética 1998
Squibb
Carlos de Brito (Peixe) Bombril-Cirio Itália/Luxemburgo Alimentos 1998
Real ABN Amro Holanda Financeiro 1998
Postos Hudson Texaco EUA Com. Combustível 1998
Garantia Crédit Suisse Suiça Financeiro 1998
cst/Acesita Unisor França Siderurgia 1998
Excel Bilbao Vizcaya Espanha Financeiro 1998
Lojas Renner J.C. Penney EUA Comércio Varegista 1998
Fonte: Gonçalves (1999, p.143)

Os setores que passaram ao controle do capital estrangeiro são diversos;


porém, a origem das empresas compradoras restringe-se ao continente europeu e
ao subcontinente norte-americano. Alguns autores apontam que isso representa
um novo imperialismo3; o processo em questão seria novo, mas a origem dos
agentes centrais não, colocando novamente os países mais pobres como
subordinados ao capital dos países mais ricos. Porém podemos considerar isso
como uma continuação de práticas imperialistas antigas, visto que a subordinação
ao capital externo também era um dos elementos de atuação do imperialismo
clássico.

Considerações Finais
Ao analisarmos a presença do capital estrangeiro no país, podemos
perceber como se desenvolveu parte do pensamento econômico brasileiro ao
longo de sua história, que em certos períodos teve ideias predominantes que
defendiam uma abertura externa menor e em outros momentos, com outros
pensadores, pregava o liberalismo. Nesse trabalho, nos restringimos à análise
feita por um número pequeno de autores a respeito dos capitais externos, mas
outros autores também nos ajudam a compreender a trajetória do aparelho

3
David Harvey aponta em seu livro “O novo Imperialsmo”.

97
produtivo em atuação no Brasil, como O. Brandão, R. Simonsen, C. Prado Junior,
C. Furtado e I. Rangel, não abordados nessa breve análise.
Diante do que constatamos, fica claro que nossa vinculação aos
investimentos externos é antiga. Os períodos de substituição de importações
levaram parte dos pensadores, sobretudo os vinculados à Cepal, a acreditarem
que a dependência externa seria controlada, mesmo com os empréstimos
externos que sustentaram o crescimento industrial brasileiro em alguns períodos,
como durante a ditadura militar.
Mas com a crise dos anos 1980 e a inserção das ideias do Consenso de
Washington, nossa economia novamente veio a eliminar restrições ao
investimento estrangeiro, pois uma das saídas para o crescimento capitalista dos
países centrais, frente a crise, foi espalhar seus capitais pelo mundo,
principalmente na Ásia e América Latina. Passou-se assim, a ter esse viés como
o motor de um desenvolvimento, mas que na realidade acentuou o problema de
dependência e subordinação ao centro do capitalismo mundial.

Referências
GONÇALVES, Reinaldo. Globalização e desnacionalização. São Paulo: Paz e
terra, 1999.
HARVEY, David. O novo imperialismo. São Paulo: Loyola. 2003.
MAMIGONIAN, Armen. Estudos de geografia econômica e de pensamento
geográfico. Trabalho de livre docência. São Paulo: USP. 2004.
SINGER, Paul. Evolução da economia e vinculação internacional. In: SACHS,
Ignacy; WILHEIM, Jorge; PINHEIRO, Paulo Sérgio (org.). Brasil: um século de
transformações. São Paulo: Companhia das letras, 2001.
VIDEIRA, Sandra Lúcia. Globalização financeira: um olhar geográfico sobre a
rede dos bancos estrangeiros no Brasil. Guarapuava: Unicentro, 2009.

98
CHINA E AS COOPERATIVAS BRASILEIRAS

Wilian Padilha
wilian_padilha@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Marlon Clóvis Medeiros


marlonmedeiros@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
É evidente o crescimento das cooperativas agropecuárias nos últimos
anos. Entre 2000 e 2011, o número de sócios do ramo no Brasil aumentou de 831
mil para 969 mil, incremento de 138 mil produtores rurais. O número de
cooperativas, no mesmo período, cresceu de 1.411 para 1.523, e os empregados
foram de 108,2 mil para 155,8 mil; 47,6 mil novos postos de trabalho (OCB, 2012).
Além dos elementos internos, que condicionaram o crescimento do setor,
como políticas de investimento e crédito, estímulos às exportações etc., há os
fatores externos, que devem ser considerados em uma análise do desempenho
das cooperativas.
Nesse sentido, há dois fatores importantes: a elevação dos preços dos
principais produtos exportados (soja, café, açúcar, álcool e carnes) e a
consolidação e surgimento de novos mercados consumidores, dentre eles,
destaque para a China, que assumiu, na última década, o posto de principal
destino das exportações cooperativas brasileiras.
Entre 2000 e 2012, foram direcionados à China US$ 4,1 bilhões, 10,6% do
total exportado pelas cooperativas do Brasil. No Paraná, a participação chinesa
nas exportações, entre 2010/12, foi de US$ 1,2 bilhão, cerca de 20% do
exportado pelo estado no mesmo período (MDIC, 2012).
O objetivo deste trabalho é analisar o recente crescimento das exportações
cooperativas, com ênfase na relação entre o mercado chinês e as cooperativas
brasileiras e paranaenses. Como metodologia, foi realizada a análise de dados
sobre exportação, crédito agrícola e agroindustrial, faturamento e investimentos
do setor, coletados no MDIC, IPEADATA, BCB, OCB, OCEPAR, e em

99
bibliografias relacionadas à temática. O trabalho corresponde a uma parcela da
pesquisa de mestrado, em andamento.

As exportações das cooperativas nos últimos anos


Entre 2000 e 2011, foram exportados pelas cooperativas brasileiras US$ 33
bilhões, o que corresponde a 7% de todas as exportações agropecuárias do país
(US$ 466 bilhões). Na década de 1990, a soma das exportações cooperativas foi
de U$$ 7,8 bilhões, 6% das exportações agropecuárias (US$ 123 bilhões).
A Tabela 1 apresenta a evolução das exportações das cooperativas e da
agropecuária brasileiras após 2000.

Tabela 1-Participação das cooperativas nas exportações agropecuárias


Exp. Agro. Cresc. Exp. Coop. Cresc. %*
2000 12.897 -7,6 759 -11,6 5,9
2001 16.291 26,3 1.132 49,1 6,9
2002 17.076 4,8 1.096 -3,2 6,4
2003 21.286 24,7 1.304 19,0 6,1
2004 27.919 31,2 2.002 53,5 7,2
2005 31.795 13,9 2.253 12,5 7,1
2006 36.548 14,9 2.832 25,7 7,7
2007 44.546 21,9 3.301 16,6 7,4
2008 57.994 30,2 4.010 21,5 6,9
2009 54.599 -5,9 3.627 -9,6 6,6
2010 63.504 16,3 4.417 21,8 7,0
2011 81.551 28,4 6.175 39,8 7,6
Total 466.006 16,5 32.908 19,6 6,9
* Percentual de participação das Cooperativas nas Exportações totais.
Em Milhões de US$. Fonte: IPEA, 2012 e OCB, 2011. Valores Correntes.

O crescimento médio das exportações, entre 2000 e 2011, foi de 16,5%


a.a. para a agropecuária e 19,6% a.a. para as cooperativas. Na década de
noventa, ocorreu o contrário, as cooperativas apresentaram evolução de apenas
4,3% a.a., enquanto que na agropecuária foi de 5,9%.
A participação das cooperativas no total exportado aumentou de 5,9% em
2000, para 7% em 2010, e 7,6% em 2011, demonstrando a crescente importância
do setor no comércio internacional.
Na crise econômica internacional de 2008 as vendas foram afetadas. Em
2009 há queda, no caso da agropecuária, de US$ 57,9 bilhões para US$ 54,5

100
bilhões (-5,8%), e para as cooperativas, a de US$ 4 bilhões para US$ 3,6 bilhões
(-9,5%).
Em termos percentuais, a crise foi mais sentida pelas cooperativas,
contudo, a retomada das exportações se demonstrou mais dinâmica para o setor,
que cresceu em média 30,8% (21,8 e 39,8%) após a crise, enquanto que as
exportações da agropecuária cresceram 22,3% (16,3 e 28,4%).
O aumento nas vendas do setor entre as décadas decorre das condições
internas e externas de cada momento. Durante o governo FHC (1995-2002), as
cooperativas, e o setor agropecuário em geral, foram amplamente prejudicados
pela política econômica, que beneficiou o capital financeiro internacional,
deixando de lado setores produtivos nacionais.
O crédito agrícola fornece boa base de comparação. Entre 1995 e 2002 o
valor destinado às cooperativas agropecuárias foi R$ 23 bilhões, enquanto que de
2003 a 2010 o valor foi de R$ 62 bilhões, 170% a mais (BCB, SNCR).
As políticas de financiamento foram um dos elementos centrais para a
reestruturação produtiva das cooperativas brasileiras na década mais recente, e,
portanto, influenciou nas exportações das empresas. Nesse sentido, destaca-se o
PRODECOOP (Programa de Desenvolvimento Cooperativo para Agregação de
Valor à Produção Agropecuária).
Dentre os fatores externos que contribuíram para o bom desempenho das
exportações cooperativas, destacam-se os preços elevados da soja, café, açúcar,
álcool, e carnes, que são os principais produtos exportados. O preço da soja
(ton.), por exemplo, cresceu na média de 10% a.a. entre 2000 e 2010 (chegando
a US$ 388 em 2008), enquanto que na década de noventa, a média de evolução
dos valores foi de 0,9%.
A cana-de-açúcar obteve taxa de evolução de 11,5% entre 2000 e 2010,
enquanto que na década passada o valor foi de 0,5%. A carne de frango cresceu
cerca de 9% entre 2000 e 2010, e nos anos noventa, a média foi de -3%.
O aumento da demanda internacional também influenciou nas vendas
nacionais. A melhora nas condições econômicas de muitos países, com aumento
de renda e poder de compra, fizeram com que muitas nações passassem a

101
importar mais, tornando-se novos consumidores dos produtos das cooperativas
brasileiras.
Além destes, Espíndola (2013), aponta outros fatores que interferem no
aumento do comércio internacional brasileiro, que também pode ser atribuído às
vendas das cooperativas, como: a inovação tecnológica em processos e produtos,
câmbio, produtividade do capital, econômicas em escala, recursos naturais, etc.

Novos e tradicionais mercados das cooperativas brasileiras


Historicamente, o principal mercado das cooperativas brasileiras foram
países europeus; porém, nos anos 2000, a maior parte das comercializações
ocorreu com a Ásia.
Em 1990, por exemplo, 55% das exportações do setor eram destinadas à
Europa, 25% para a Ásia, 14% para a América e 6% para a África. Em 2000 os
números mudam: 45% para a Europa, 34% para a Ásia, 14,5% para a África e
6,5% para a América. Em 2010, 50% das exportações se concentram na Ásia,
23,5% na Europa, 17,5% na América e 9% na África (MDIC, 2010).
Entre 1990 e 1999, a Holanda foi o país mais destacado, com US$ 1,5
bilhão, correspondendo a 20% das exportações totais (US$ 7,49 bilhões) (MDIC,
1990).
Na década de 2000, o surgimento de novos mercados consumidores, além
de intensificar o volume, mudou o destino das exportações cooperativas. Nações
da Ásia, Oriente Médio e África aumentam consideravelmente suas importações,
trazendo uma nova distribuição espacial das exportação pelo mundo. Ao mesmo
tempo, houve a consolidação dos mercados já tradicionais (Europa).
Dentre as nações que ingressaram como novos destinos, ou elevaram sua
participação tem-se: Índia, Irã, Rússia, Hong Kong, Coréia do Sul, Arábia Saudita,
Bangladesh, Indonésia, Taiwan, Malásia, Egito, Síria, Paquistão, Nigéria, África
do Sul, Argélia, Marrocos, Gana, Argentina, Uruguai, Venezuela, Colômbia,
Jamaica, e principalmente a China.
Em 2000, a China participava com apenas US$ 19 milhões, 2,5% do total
exportado pelas cooperativas. Em 2012, o valor exportado para os chineses foi de
US$ 791 milhões, 13,2% do total. Os EUA, apesar de ser um mercado tradicional

102
das exportações gerais brasileiras, para as cooperativas é recente seu destaque.
Em 1990/99, o mercado norte-americano participou com apenas 3,5% (US$ 206
milhões). De 2000/05, o valor foi de US$ 205 milhões (2,4% do total), e entre
2006 e 2012, aumentou para US$ 2,9 bilhões (9,7%). Nesse último período, a
China obteve participação de US$ 3,3 bilhões.

China e as exportações das cooperativas brasileiras


A China assumiu o posto de maior economia produtiva do mundo em 2010,
quando ultrapassou a produção industrial dos EUA. Atualmente, o PIB chinês é de
US$ 8,2 trilhões, com média de crescimento entre 2000 e 2012, de 10% ao ano
(Banco Mundial).
Este rápido e intenso crescimento tem alavancado o desenvolvimento de
outros países, incluindo o Brasil. No caso das cooperativas brasileiras, a China
saiu do 13º lugar no ranking de mercados, para o 1º já na segunda metade dos
anos 2000 (revezando a posição com os EUA e Alemanha).
Na somatória de 2000 a 2012, o principal mercado das exportações do
setor foi a China, com U$$ 4,1 bilhões (10,6%), seguida da Alemanha com US$
3,3 bilhões (8,6%), EUA com US$ 3,1 bilhões (8%), Emirados Árabes Unidos com
US$ 2,8 bilhões (7,2%), Holanda com US$ 2,5 bilhões (6,6%), Japão com US$
1,9 bilhão (4,9%) e Rússia com US$ 1,5 bilhão (4%). Juntos estes países somam
mais da metade das vendas.
A Tabela 2 apresenta a evolução dos valores exportados para a China e a
participação nas vendas totais das cooperativas brasileiras.

Tabela 2-Participação da China nas exportações das cooperativas (US$)


China % total China % total
2000 19.418.753 2,5 2007 292.846.124 8,9
2001 40.535.670 3,6 2008 405.939.337 10,1
2002 96.710.698 8,9 2009 352.894.645 9,7
2003 156.460.247 12,0 2010 516.442.756 11,7
2004 328.400.320 16,4 2011 736.140.367 11,9
2005 183.170.289 8,1 2012 791.011.601 13,2
2006 215.977.140 7,6 Soma 4.135.947.947 10,6
- - - 2000/12 - 3.973
Fonte: MDIC, vários anos

103
Entre 2000 e 2012, a participação chinesa aumentou em mais de 10% nas
exportações, de 2,5% para 13,2%. Em 2003 e 2004, houve uma súbita elevação
em 12% e 16,4%. Nesses anos, a variação nos preços da soja, por exemplo,
foram de 14,5 e 16,5%, o que elevou o valor exportado, mais do que o volume.
Exceto nestes dois anos, onde o crescimento foi acelerado, os chineses
mantiveram constante sua participação, evoluindo positivamente na maioria dos
anos. Aumentaram em quase 4.000% o valor comercializado entre 2000 e 2012.
No último ano, o valor destinado ao mercado chinês foi de R$ 791 milhões,
sendo inferior apenas aos EUA, que participou com US$ 900 milhões. Contudo,
em volume, foram destinadas à China cerca de 1,1 milhão de toneladas, e ao
EUA, 820 mil toneladas.
Com relação aos produtos exportados pelas cooperativas brasileiras,
destacam-se: açúcar (24%), café (11,2%), álcool (11,5%), soja (9,5%), frango
(9,3%), óleo de soja (7,7%), algodão (4,3%), e milho (3,3%). No caso chinês, há
uma concentração em torno da soja e derivados. Em 2012, os principais produtos
para este mercado foram: a soja, que correspondeu a 59% do que foi exportado,
carne de frango com 20%, algodão com 10%, óleo de soja com 7%, e açúcar com
3,8%. O Gráfico 1 demonstra os produtos exportados para a China em 2012.

Gráfico 1-Principais produtos exportados para a China em 2012

Fonte: MDIC, 2012

Pelo portfólio de produtos comercializado, imagina-se que as cooperativas


estão especializadas nas exportações primárias, contudo, como explica Espíndola

104
(2013), é preciso ter cuidado com a ideia de que exportar commodities não é uma
atividade industrial.
Exportar soja, carnes, suco de laranja, entre outros produtos, é muito
diferente de extrair petróleo ou minério de ferro. Para os produtos agropecuários e
agroindustriais é necessário mover uma complexa rede de indústrias correlatas e
prestadoras de serviços (ESPÍNDOLA, 2013).

China e as cooperativas paranaenses


Dentre os estados, as cooperativas paranaenses destacam-se nas vendas
externas. O Paraná concentra algumas das maiores associações ligadas ao ramo
agropecuário, e que estão entre as principais exportadoras, como: Coamo, Lar,
Copacol, C. Vale, Coopavel, Copagril, Cocamar, Frimesa, e Coasul.
A Tabela 3 demonstra a evolução das exportações das cooperativas do
Paraná de 2000 a 2012, destacando também, a participação nas exportações
totais do setor.

Tabela 3-Exportações das cooperativas paranaenses (Milhões US$)


Coop. PR Part.¹ Coop. PR Part.¹
2000 355,4 46,8 2007 1.100,0 33,3
2001 633,8 56,0 2008 1.442,5 36,0
2002 643,9 58,7 2009 1.470,0 40,5
2003 800,0 61,3 2010 1.640,0 37,1
2004 992,0 49,5 2011 2.200,0 35,6
2005 680,0 30,2 2012 2.100,0 35,1
2006 852,9 30,1 Soma 14.910,5 38,3
¹ Participação das exportações paranaenses com relação ao total das cooperativas
Fonte: OCEPAR e MDIC, vários anos

Nos anos apresentados as cooperativas do Paraná comercializaram US$


15 bilhões, cerca de 40% do total exportado pelo setor. A média de crescimento
de 2000 a 2012 foi de 19% ao ano, muito próximo do que foi a média total das
cooperativas (ver Tabela 1).
Deste montante, boa parte é direcionada à China. A Tabela 4 apresenta as
exportações cooperativas paranaenses para a China, o percentual das vendas no
total exportado pelo estado, e a participação do estado no total exportado para a
China.

105
Tabela 4-Exportações das cooperativas paranaenses para a China (Milhões US$)
PR-Chi Part. PR¹ Part. Chi²
2010 362,0 22,1 70,1
2011 397,6 18,1 54,0
2012 408,8 19,5 51,7
¹ Participação das exportações direcionadas à China no total das cooperativas do Paraná
² Participação das exportações paranaenses no total exportado à China por cooperativas
Fonte: MDIC, 2010/12.

Do montante comercializado com o mercado chinês em 2010, US$ 516,4


milhões, cerca de 70% foram vendidos por cooperativas do Paraná (US$ 362
milhões). Esse valor corresponde a 22% do total exportado pelo estado. Ou seja,
a China é o principal mercado das cooperativas paranaenses, e o estado é o seu
principal fornecedor. Nos anos seguintes há uma queda percentual na
participação paranaense no total destina aos chineses, contudo, o estado ainda é
o principal fornecedor.
A média chinesa no total exportado pelas cooperativas do Paraná vai de 22
a 18%. Em seguida, vem o mercado alemão, que em 2012 participou com US$
208 milhões (10%). O principal produtos enviados pelas cooperativas
paranaenses à China é soja e derivados (farelo e óleo), cerca de 70%, e carne de
frango, cerca de 25%.

Considerações Finais
Os países já desenvolvidos, principalmente europeus, estabilizaram sua
participação das exportações, com poucas variações, e às vezes, até negativas
(devido à crise de 2008). O mercado estadunidense, após a crise, tem elevado
suas compras, principalmente de etanol e açúcar, que devido aos preços altos,
fazem com que os EUA ganhem maior participação.
A recente intensificação no comércio internacional das cooperativas deve-
se, em grande parte, ao surgimento de novos mercados, representados por
países emergentes ou em desenvolvimento, e neste caso, com importância maior
para a China. A diversificação de parceiros comerciais é fundamental para o
crescimento das exportações, e o mercado asiático, africano e latino-americano,
oferecem boas possibilidades de expansão.

106
Referências
BANCO CENTRAL DO BRASIL: Anuário Estatístico do Crédito Rural, vários
anos. Disponível em <www.bcb.gov.br> Acesso em: 10. jun.2012.
ESPÍNDOLA, Carlos José. Notas sobre as recentes exportações brasileiras de
commodities agropecuárias. Revista Princípios, nº 125. Ed. Anita Garibaldi,
Junho-Julho de 2013, p. 44-49.
MDIC – Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior.
Estatísticas do comércio exterior, vários anos.
OCB – Organização das Cooperativas Brasileiras. Disponível em
<www.ocb.org.br> Acesso em: 05.ago.2012.
OCEPAR – Organização das Cooperativas do Estado do Paraná. Disponível
em <www.ocepar.org.br> Acesso em: 15.set.2012.
SIMÃO, Gustavo L.; CAMPOS, Antônio C. Participação das cooperativas
brasileiras no comércio internacional. Revista de Política Agrícola, v. 20, n. 3.
Jul./Ago./Set. de 2011, p. 45-46.

107
INDUSTRIALIZAÇÃO E DINÂMICA SOCIAL NO SUDOESTE DO PARANÁ

Edson Flores
edsonflores5@yahoo.com.br
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
Os dados de pesquisas, tais como os censos demográficos e
agropecuários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram
que a dinâmica social tem se desenvolvido de modo que vem diminuindo a
população rural e aumentado a população urbana. Nesse estudo, apresentamos
parte de algumas pesquisas que realizamos em relação ao Sudoeste do Paraná
(FLORES, 2006 e 2009). Analisaremos o povoamento, desenvolvimento
econômico e a dinâmica social, mais particularmente em relação à migração do
campo para a cidade, que é reflexo de mudanças, tanto na agricultura como na
indústria dessa região.

Metodologia
Esse estudo foi elaborado com base nas duas referidas pesquisas que
realizamos no Sudoeste do Paraná e a partir da análise de dados, especialmente
do IBGE. Também utilizamos dados e informações de outros estudos, tais como
de Abramovay (1981), Wachowicz (1987), Corrêa (1970a e 1970b) e Voltolini
(2000), além da importante contribuição dos estudos de Cholley (1964a e 1964b).
Para expor tais resultados, também optamos pela utilização de tabelas e
quadros.

A Formação Social do Sudoeste do Paraná


Até o início do século passado a área que compreende a atual mesorregião
Sudoeste do Paraná, tratava-se de um vazio demográfico, como mencionou o
Corrêa (1970a). Os poucos homens brancos que povoavam essa região, em
geral, vieram de outras partes do Paraná (especialmente dos campos de Palmas
e de Guarapuava), de Santa Catarina ou do Rio Grande do Sul, inclusive alguns
foragidos da Revolução Federalista (do final do século XIX) e da Guerra do
Contestado (1912-1916), como destacou Wachowicz (1987).

108
Essa área era coberta por matas subtropicais e, especialmente, por
extensos pinheirais. Além das araucárias, destacava-se as áreas com ervais, o
que condicionaria as primeiras atividades econômicas desenvolvidas por esses
homens. Os caboclos que viviam nessas matas dedicavam-se à caça, pesca, à
extração e processamento da erva-mate e à criação de porcos soltos nas matas,
em geral, alimentando-os com frutos silvestres, especialmente com o pinhão
(CORRÊA, 1970a).
Para este autor, a extração e o processamento da erva-mate, tratava-se de
uma atividade sazonal e com métodos rudimentares. Isso nos faz perceber que tal
atividade não foi capaz de promover um povoamento mais destacado no
Sudoeste do Paraná. Aliás, segundo Padis (1981) a economia da erva-mate não
estimulou o desenvolvimento de nenhuma cidade do Paraná.
De acordo com Corrêa (1970b) e Wachowicz (1987), o povoamento dessa
região só se intensificaria a partir da década de 1940, quando milhares de famílias
de pequenos agricultores, vindos de Santa Catarina e Rio Grande do Sul,
desbravaram as extensas matas de pinheirais.
Porém, nosso estudo (FLORES, 2009) mostrou que a vinda de industriais
do ramo da madeira foi extremamente importantes para tal ocupação
populacional. Segundo Voltolini (2000), os agricultores dependiam das serrarias
para extrair os gigantescos troncos de araucária, que se constituíam como um
obstáculo às práticas agrícolas e à pecuária. Aliás, historicamente os homens
sempre procuraram povoar, primeiramente, as regiões de campos (mais fáceis
para a ocupação), deixando para um segundo momento as áreas com florestas,
conforme mencionou Waibel (1979).
Ao contrário da economia da erva-mate e das “safras de porcos” que, como
já frisamos, não conseguiram efetivar um povoamento intenso no Sudoeste
paranaense, a industrialização dos pinheiros estimularia a formação dos primeiros
povoados, vilas e cidades, pois na beira das estradas, utilizadas para levar a
madeira serrada para Curitiba (e outros centros consumidores), paulatinamente
foram surgindo borracharias, postos de combustíveis, restaurantes, hotéis, etc.,
conforme destacou Voltolini (2000).

109
Outro segmento (embora rudimentar) da indústria que contribuiu para o
povoamento da região foram os chamados “moinhos coloniais, destinados a
transformação do milho em fubá, trigo e farinha e no beneficiamento de arroz, os
“chamados moinhos coloniais”. A própria Colônia Agrícola Nacional General
Osório (CANGO) – criada pelo governo Federal em 1943 para colonizar essa
região – instalaria no atual município de Francisco Beltrão um moinho para
processar a produção dos agricultores (FLORES, 2009).
Segundo o IBGE, em propriedades rurais do Sudoeste paranaense se
desenvolveu um complexo de atividades artesanais, uma indústria doméstica,
como diria Lênin (1982) ou um complexo rural, como ressaltou Rangel (1990). De
acordo com o censo agropecuário de 1970, essa região ainda possuía 8.410
unidades da indústria rural, estabelecimentos rurais que transformavam ou
beneficiavam cana-de-açúcar (produzindo açúcar, aguardente, etc.); leite (queijo,
manteiga, etc.); milho em grãos (fubá); trigo (farinha); uva (vinho), entre outros.
Tanto Lênin (ao estudar o caso da Rússia, no final do século XIX) quanto
Rangel (sobre o Brasil de meados do século passado), colocam que o
desenvolvimento, no campo, de uma série de atividades, tipicamente, industriais é
um indicativo que o capitalismo ainda não se inseriu completamente na
agricultura. Aliás, Abramovay (1981) já verificou que os agricultores do Sudoeste
do Paraná, além de trabalharem nas atividades tipicamente agropecuárias,
também confeccionavam implementos agrícolas (peças de madeira, arados,
grades, peças em couro para atrelar os animais de tração etc.).
Pelas informações retiradas dos estudos de Wachowicz (1987) e de
Schneider e Fregonese (2007), verificamos que as atividades do complexo rural
dessa região se estendiam à confecção de peças do vestuário. Esse trabalho era
realizado pelas mulheres, enfim, “[...] tanto os caboclos como os colonos
costuravam seus trajes” (WACHOWICZ, 1987, p. 95).
A existência de tal complexo rural, nessa região, deve-se, inclusive, ao fato
que até 1970 mais de 80% da população residia no campo (FLORES, 2009).

110
Modernização da Agricultura e Desintegração do Complexo Rural
Os dados dos censos agropecuários do IBGE (apresentados em FLORES,
2006 e 2009), mostram-nos que a partir da década de 1970 o complexo rural do
Sudoeste do Paraná começou se desintegrar. E tais mudanças ocorrem naquilo
que é a “célula” da formação social – formação social, entendida como o arranjo
social em uma determinada região, conforme Santos (1979) –, isto é, na produção
social. Por exemplo, em 1970 apenas 705 estabelecimentos rurais da região
utilizavam fertilizantes, mas em 1980 passou para 24.275 estabelecimentos. Da
mesma forma, o número de tratores agrícolas utilizados saltou de 380 para 6.325,
nesse período. O capital financeiro também começou se inserir na agricultura
regional, pois enquanto no ano de 1970 apenas 3.045 estabelecimentos
obtiveram financiamentos, no ano de 1980 saltou para 20.846 estabelecimentos.
E, em 1970, 65,2% desses financiamentos eram feitos junto à entidades
governamentais, mas passou para 87,3% no ano de 1980.
Isso nos mostra que o capital usurário – empréstimo de dinheiro a juros,
realizados por bodegueiros, comerciantes, etc. diretamente aos colonos, como
mencionaram Corrêa (1970b) e Abramovay (1981) – começou ser substituído
pelos financiamentos tomados junto ao crédito oficial, especialmente o Banco do
Brasil, que em meados da década de 1970 chegou subsidiar a agricultura,
concedendo financiamentos a juros abaixo da inflação, conforme destacou Baer
(2002). Isto é, ao contrário do capital usurário, que emprestava dinheiro aos
agricultores, em geral, com apenas o compromisso de compra e venda da
produção agrícola, os financiamentos bancários obrigavam os agricultores a
adquirir sementes selecionadas, adubos, rações, máquinas, implementos, etc., o
que estimulou a modernização da agricultura.
Essa inserção do capital na agricultura da região, consequentemente
resultou num aumento da produtividade do trabalho:

111
Quadro 1-Comparativo entre algumas tarefas agrícolas realizadas manualmente ou com
auxílio de tração animal com atividades mecanizadas
Tarefa manual ou com tração animal Tarefa mecanizada
Arar 1 hectare de terra com tração animal Dessecar (aplicar herbicidas) a camada
(junta de bois) = 16 horas ou 960 minutos. vegetal de 1 hectare com pulverizador
traçado por trator = 8 minutos.
Plantio de 1 hectare de terra com máquina Plantio com máquina traçada por trator =
sob tração animal = 9 horas (540 minutos). 70 minutos.
Colheita manual de 1 hectare de milho = Colheita da mesma área com máquina
56,5 horas ou 3.390 minutos. automotriz = 44,5 minutos.
Fonte: Pesquisa de campo (FLORES, 2006)

Esses dados são oriundos de uma pesquisa onde analisamos esse fator,
especialmente em estabelecimentos rurais do município de Francisco Beltrão,
onde verificamos que as máquinas, implementos agrícolas, agrotóxicos e outras
tecnologias têm propiciado um notável aumento na produtividade do trabalho.
Os dados do IBGE também confirmam o aumento na produtividade do
trabalho. De 1970 a 1995 o número de pessoas ocupadas na agricultura do
Sudoeste do Paraná diminuiu consideravelmente, 35.770 trabalhadores a menos.
Aumentou o número de empregados permanentes (apesar de ser pouco
expressivo o percentual), mas a categoria dos ditos trabalhadores “familiares”
(membros da família do produtor rural) foi a que mais diminuiu (Tabela 1).

Tabela 1-Evolução da quantidade de pessoas acima de 14 anos de idade ocupadas na


agricultura do Sudoeste do Paraná – 1970-1995
Pessoal ocupado (31/12)
Categoria de trabalhadores Variação (nº.)
1970 1995
Total 195.330 159.560 -35.770
Familiares 186.275 144.589 -41.686
Empregados permanentes 2.266 6.249 3.983
Outra condição 6.789 8.722 1.933
Fonte: Censos agropecuários (apud FLORES, 2007).

Tais mudanças na agricultura resultaram numa redução constante na


população rural dessa região, pois segundo os censos demográficos do IBGE, em
1970 existiam 356.727 habitantes (80% da população total), mas diminuiu para
189.622 pessoas no ano de 2000 (40%) e para 151.127 habitantes (30%) no ano
de 2010. Isto é, de 1970 a 2010 ocorreu a diminuição de 205.600 habitantes no
campo. Aliás, de 1991 a 2010 deixaram de existir 10.626 domicílios rurais
permanentes (pelo menos, 10.626 famílias a menos) no Sudoeste do Paraná.

112
Urbanização e Industrialização do Sudoeste do Paraná
Ao contrário do que ocorreu no campo, tem aumentado absoluta e
percentualmente a população urbana do Sudoeste do Paraná. Segundo os
censos demográficos, em 1970 essa região possuía 77.597 habitantes urbanos (o
que representava apenas 18% do total da população), número que chegaria a
283.004 (60%) no ano de 2000 e 346.000 habitantes (70%) em 2010.
Os dados do IBGE também nos mostram que, ao contrário do que ocorre
na área rural, os domicílios urbanos vêm aumentando nessa região, passando de
57.229, no ano de 1991, para 112.374 no ano de 2010. Portanto, um aumento de
55.145 domicílios no período 1991/2010.
O crescimento da quantidade de domicílios e da população urbana do
Sudoeste do Paraná, em grande parte, deve-se ao processo de industrialização
que se desencadeou. Inclusive, nos municípios mais industrializados estão se
formando verdadeiros “bairros operários”, como são os casos dos bairros Sadia e
Pinheirão, na cidade de Francisco Beltrão; Planalto e Bela Vista (em Pato
Branco); Jardim Concórdia e Santa Luzia (em Dois Vizinhos) e os bairros Colina
Verde e Santa Paulina na cidade de Ampére (FLORES, 2009).
Essa pesquisa nos mostrou que tal processo ocorre porque nessa região
atuam unidades industriais que demandam uma quantidade grande de
funcionários, como são os casos da Sadia (atual BRF), unidade de Dois Vizinhos,
que empregava mais de 2.600 funcionários; a Krindges (de Ampére) que
empregava 1.050; a Frango Seva (de Pato Branco) que possuía 500 empregados;
a Camilotti Camidor (de Francisco Beltrão), que empregava mais de 300 pessoas,
entre outras (dados levantados entre os meses de janeiro de 2008 e 2009).
Segundo os dados do Cadastro Central de Empresas (IBGE apud
FLORES, 2009), do ano de 1996 a 2006 o número de pessoas empregadas na
indústria da transformação, no Sudoeste do Paraná, passou de 11.848 para
28.445 empregados. Aliás, os dados dessa pesquisa ainda nos mostram que os
setores do comércio e dos serviços, especialmente em Francisco Beltrão, Pato
Branco e em Dois Vizinhos, geram uma quantidade considerável de empregos,
especialmente em supermercados e na administração pública municipal e
estadual.

113
Portanto, verificamos que a industrialização trouxe mudanças significativas
à economia e à sociedade do Sudoeste paranaense.

Considerações Finais
Essa breve análise da dinâmica social no Sudoeste do Paraná nos mostra
que no início do povoamento (primeiras décadas do século passado) se
desenvolveu uma formação social condicionada por elementos naturais, como
foram os casos da chamada economia cabocla, que extraia erva-mate (nativa) ou
das “safras de porcos” que se alimentavam de frutos silvestres. Eis o que Cholley
(1964a) chamaria de combinação (convergência de elementos naturais e
humanos) simples.
Porém, a industrialização da agricultura dessa região (que ocorreria, mais
intensamente, a partir dos anos 1970) se caracterizou por combinações mais
complexas, onde o elemento capital (por meio de máquinas, implementos,
fertilizantes, rações, etc.) passa a figurar sobre as condições naturais (solo, etc.).
Por fim, verificamos que a industrialização caracterizaria uma combinação
ainda mais complexa (nos termos de CHOLLEY, 1964b), pois o capital
desestruturaria os resquícios do complexo rural do Sudoeste do Paraná, por um
lado, libertando grande parte dos trabalhadores (antes ocupados na agricultura) e,
por outro, oferecendo-lhes empregos na indústria nascente que, aliás,
desenvolver-se-ia, em parte, apoiada em um mercado consumidor local formado
pela própria população que migrou do campo para as cidades.
Eis alguns aspectos da dinâmica social (ancorada nas transformações
técnico/econômicas) dessa região do Paraná.

Referências
ABRAMOVAY, Ricardo. Transformações na vida camponesa: o sudoeste
paranaense. São Paulo, 1981. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais),
USP.
BAER, Werner. A economia brasileira. 2. ed. São Paulo: Nobel, 2002.
CHOLLEY, André. Observações sobre alguns pontos de vista geográficos.
Boletim Geográfico. Ano 22, nº. 179, p. 139-145, mar./abr.,1964a (Parte I).

114
______. Observações sobre alguns pontos de vista geográficos. Boletim
Geográfico. Ano 22, nº. 180, p. 267-276, maio/jun., 1964b (Parte II).
CORRÊA, Roberto L. O sudoeste paranaense antes da colonização. Revista
Brasileira de Geografia. Rio de Janeiro. Ano 32, nº. 1, p. 87-98, jan./mar., 1970a.
______. (Coord.). Cidade e região no sudoeste paranaense. Revista Brasileira
de Geografia. Rio de Janeiro. Ano 32, nº. 2, p. 3-155, abr./jun., 1970b.
FLORES, Edson L. Capitalismo e agricultura em Francisco Beltrão – PR.
Francisco Beltrão, PR, 2006. Monografia (Especialização em Geografia),
UNIOESTE.
______. Sudoeste paranaense: agricultura familiar ou capitalista? Revista Faz
Ciência. Francisco Beltrão, PR. v. 9, nº. 9, p. 59-80, jan./jul., 2007.
______. Industrialização e desenvolvimento do sudoeste do Paraná.
Francisco Beltrão, PR, 2009. Dissertação (Mestrado em Geografia), UNIOESTE.
LENIN, Vladimir I. O desenvolvimento do capitalismo na Rússia: o processo
de formação do mercado interno para a grande indústria. São Paulo: Abril
Cultural, 1982.
MARX, Karl H. O capital: crítica da economia política – o processo global da
produção capitalista. v. 3, t. 2. São Paulo: Abril Cultural, 1985.
PADIS, Pedro C. Formação de uma economia periférica: o caso do Paraná.
São Paulo: Hucitec, 1981.
RANGEL, Ignácio. Introdução ao desenvolvimento econômico brasileiro. 2.
ed. São Paulo: Bienal, 1990.
SANTOS, Milton. Sociedade e espaço: a formação social como teoria e como
método. In: ______. Espaço e sociedade (ensaios). Petrópolis: Vozes, 1979, p.
09-27.
SCHNEIDER, Claídes R.; FREGONESE, Vera L. Notas acerca do vestuário em
Francisco Beltrão: 1940-1960. In: BONAMIGO, Carlos A.; SCHNEIDER, Claídes
R. (Org..). Revisitando a história: a revolta dos posseiros de 1957 no Sudoeste
do Paraná. Francisco Beltrão, PR: Grafisul, 2007, p. 277-90.
VOLTOLINI, Sittilo. Retorno 3: ciclo da madeira em Pato Branco. Pato Branco,
PR: Imprepel, 2000.
WACHOWICZ, Ruy C. Paraná, sudoeste: ocupação e colonização. 2 ed.
Curitiba, PR: Ed. Vicentina, 1987.
WAIBEL, Leo. Princípios da colonização européia no sul do Brasil. In: ______.
Capítulos de geografia tropical e do Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Ed. IBGE,
1979, p. 225-77.

115
O COOPERATIVISMO DE CRÉDITO DA CRESOL: CONSIDERAÇÕES
TEÓRICAS ACERCA DE SUAS CARACTERÍSTICAS CENTRAIS

Vosnei da Silva
vosnei.silva@ifsc.edu.br
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
O presente texto tem como objetivo fundamental traçar algumas
considerações sobre a agricultura e o cooperativismo de crédito da Cresol
(Sistema de Cooperativas de Crédito Rural Com Interação Solidária) para a região
Sudoeste do Paraná. A ideia central reside em uma abordagem mais
especificamente no campo teórico, já que ainda se encontra em processo de
levantamento e construção a base empírica para algumas das hipóteses aqui
esboçadas. Ressaltamos, também, que pretendemos realizar uma análise o mais
próxima possível da realidade concreta, com o máximo de rigor teórico ao nosso
alcance e sem cair em idealismos ou “apologismos” de qualquer espécie, o que
não caracteriza, por outro lado, uma postura de neutralidade.

Metodologia
Nossa metodologia de pesquisa concentra-se no levantamento bibliográfico
histórico e/ou filosófico do processo de desenvolvimento do cooperativismo,
capitalismo, agricultura do Sudoeste Paranaense e da Cresol. Também buscamos
na factualidade (dados econômicos, políticas públicas, estatísticas agrícolas e
financeiras, produções teóricas, sites governamentais, institucionais e científicos,
jornais e revistas etc.) da agricultura brasileira e regional, da Cresol e dentre
outros aspectos socioeconômicos, a base para uma interpretação das funções e
tendências da instituição e demais esferas/agentes envolvida(o)s, numa
perspectiva de totalidade.

Capitalismo e Agricultura
Não poderíamos falar da agricultura de hoje e em particular, da constituição
e função do cooperativismo de crédito solidário, sem apontar o elemento
fundamental da sociedade vigente e que acaba por determinar, em última
instância, as características de ambos. Tal elemento essencial na análise e no

116
entendimento dos fenômenos estudados trata-se do sistema capitalista moderno,
com suas peculiaridades, contradições e determinantes. Nesta medida,
procuraremos entender as manifestações essenciais do capitalismo atual, e de
que modo ele passa a determinar outras esferas sociais (aqui se trata de esferas
econômicas), que neste caso são a agricultura e o cooperativismo de crédito
solidário, e quais são os aspectos fundamentais desses elementos, tão
importantes para a região Sudoeste Paranaense.
Sem nos alongar em discussões de sua “natureza”, destacamos o que
entendemos como fundamental, ou seja, estamos na fase de predomínio dos
grandes monopólios/oligopólios e do capital financeiro (LÊNIN, 2011). São estes
dois fatores, entre outros tão importantes, que passam a determinar a sociedade
atual, incidindo sobre os processos produtivos, controlando cadeias produtivas ou
mesmo setores inteiros, numa tendência cada vez maior de concentração e
consequente poder de determinar, ainda que não absolutamente, o rumo de
muitos setores da economia. Outro ponto de destaque, é que no sistema
capitalista, o fator fundamental é o capital, a terra deixou de ser o elemento
primordial com a abolição da ordem feudal, é o capital a força hegemônica da
sociedade moderna (MARX, 1980; 2011). Desta forma, a simples aquisição da
terra neste sistema, sem o fator capital, torna praticamente inútil a sua
propriedade ou posse, ainda que se possa através dela sobreviver. Portanto, a
questão da necessidade de se buscar capital para o desenvolvimento produtivo é
o fator indispensável/elementar. Assim, por outro lado, vemos que o acesso ao
capital, faz desaparecer (ou mesmo minimizar bastante) outros fatores que
poderiam limitar sua expansão ou produtividade, como por exemplo, a quantidade
ou qualidade da terra, força de trabalho, etc.
Autores clássicos que analisaram a condição da agricultura sob o
capitalismo, não hesitam em dizer qual o papel que esta assume dentro do
sistema: o de se tornar cada vez mais num ramo especializado da indústria
(KAUTSKY, 1986; LÊNIN, 1985). A agricultura passa por processos semelhantes
com a indústria, acaba aos poucos se industrializando, embora sem apagar aqui
suas características próprias (biológicas, climáticas etc.). Ainda segundo os
autores, tende a progressivamente caminhar no sentido da centralização, da

117
primazia dos grandes empreendimentos em detrimento dos pequenos e na
exclusão dos produtores menos capitalizados ou que não conseguem adequar-se
a racionalidade produtiva, entre outros aspectos.

Cooperativismo no sistema capitalista


Pelas contradições engendradas pelo sistema capitalista, nada mais
normal que as classes por ele exploradas e/ou oprimidas busquem aliar forças
para fazer-lhe frente, algumas dessas iniciativas são radicais e outras reformistas,
ou em outras palavras, algumas pretendem derrubá-lo e outras apenas reformá-
lo. Dentre as que pretendem reformá-lo, sem alterar a essência do modo de
produção vigente, encontra-se, entre inúmeras outras, o cooperativismo4. Trata-
se, como diz Paul Hugon, de reações não socialistas contra o liberalismo
econômico, ou como caracteriza o autor, uma das formas de intervencionismo de
grupos, nas suas palavras:

Já que o excesso de liberdade acarreta consequências econômicas


indesejáveis, é preciso traçar-lhe limites: neste sentido o
intervencionismo se contrapõe ao liberalismo. Trata-se, todavia, de
conseguir esta delimitação sem sacrificar o próprio princípio da
liberdade: deve-se, pois, intervir mantendo o direito de propriedade
privada com os respectivos corolários econômicos e, neste sentido, o
intervencionismo diverge do socialismo (HUGON, 1984, p. 267, grifo
meu).

Dentro do sistema capitalista, em sua essência, o cooperativismo nada


mais é que a junção ou soma de esforços (capital, trabalho, meios de produção
etc.) de pessoas que buscam sobreviver dentro dos marcos deste regime. Em
geral constituem-se em associações de capitalistas, grandes ou pequenos, e em
alguns casos, também de trabalhadores, embora a situação destes últimos seja
bastante difícil de se sustentar por muito tempo sem tender ou para sua extinção
ou degeneração (LUXEMBURGO, 1978; ZARPELON, 2003), trata-se também de
“[...] apresentar-se sempre como uma organização social de defesa e de
valorização do indivíduo, ao mesmo tempo que instrumento técnico de
desenvolvimento econômico” (HUGON, 1984, p. 283). No caso em que buscamos

4
É importante destacar que o cooperativismo, apesar de se constituir como um modelo
reformador, pode adquirir características bastante distintas em outro contexto sociopolítico, como
por exemplo, as formas (e principalmente conteúdo) que acabou adquirindo na URSS, na China, e
em outros países socialistas.

118
compreender, apresenta-se, segundo nossa compreensão, como a união de
esforços de pequenos capitalistas, que buscam a sobrevivência dentro do sistema
sem pretensão alguma de alterá-lo na essência, buscam sim sobreviver na
atividade econômica que desempenham, qual seja, a “pequena agricultura”
denominada pelos agricultores e seus apologistas ou ideólogos5, de agricultura
familiar. Consideraremos para fins deste estudo, caracterizá-la como
cooperativismo pequeno burguês, já que estamos tratando de pequenos
proprietários privados (ou pelo menos a sua grande maioria), detentores de meios
de produção, pequenos produtores de mercadorias, e que, portanto, não tem com
o proletariado (detentores apenas da sua força de trabalho) uma identificação
plena de objetivos ou condições de existência, embora em muitas
situações/conjunturas possam a ele aliar forças.
Portanto, é importante aqui destacar, que longe de terem uma perspectiva
socialista, o cooperativismo de crédito solidário instituído pela Cresol, busca não
apenas garantir a sobrevivência destes pequenos produtores capitalistas6 e
arrendatários, como também concebe esta como sendo a melhor forma de
desenvolvimento regional. Aliás, seria ingenuidade nossa, considerá-la voltada
para transformações estruturais, pois também pelo lado dos apoios de que
recebe, pode-se ter uma noção dos interesses que representa. Entre seus
defensores estão a Igreja, o sindicalismo reformista da CUT (Central Única dos
Trabalhadores), o Estado burguês7 (ou partes dele), a oligarquia política regional,
entre outros. Sobre os primeiros diremos que não é por acaso que defendem

5
Estes ideólogos poderiam ser também aqui caracterizados como populistas, já que buscam a
defesa e a idealização da pequena burguesia rural. Tal caracterização baseia-se em Lênin, pois
segundo este, o populismo era em essência uma “[...] corrente pequeno-burguesa no movimento
revolucionário russo surgida nos anos 60-70 do século XIX. Os populistas lutavam pela liquidação
da autocracia, pela entrega das terras dos latifundiários aos camponeses. Consideravam-se
socialistas, mas o seu socialismo era utópico” (LÊNIN, 1985).
6
“Se a chamada agricultura “familiar” produz todas as tendências essenciais do capitalismo em
expansão, conclui-se inequivocadamente que se trata de uma forma de produção capitalista
idêntica, em essência, à produção “empresarial desenvolvida” (ou “patronal”) típica” (GERMER, C.
A irrelevância prática da agricultura “familiar” para o emprego agrícola. Geografia
Econômica: Anais de Geografia Econômica e Social, v. 4, 2012).
7
A questão do caráter de classe do Estado não será por nós aprofundada, no entanto,
entendemos esta instituição, em sua essência, como um instrumento de dominação da classe
burguesa. Ver mais em Lênin (1961); e ENGELS, F. El origen de la família, la propiedad
privada y el estado. IN: MARX, C.; ENGELS, F. Obras escogidas. Tomo III. Moscú: Progreso,
1980.

119
qualquer causa que se afaste do socialismo, e isso por uma questão muito óbvia:
a essência (materialismo X idealismo) – e o que daí decorre – de ambos é
incompatível. Assim, essa camada religiosa está nas bases de construção de tais
iniciativas, colocando-se como um entrave a evolução social com um todo. Pelo
lado do sindicalismo reformista, vemos que a principal razão reside no abandono
da perspectiva revolucionária (se é que ela existiu algum dia), e aliança
descarada com a burguesia nacional. Com relação ao Estado, põem-se a questão
num terreno complexo, na medida em são vários os fatores que influem, no
entanto, destacamos o papel de força política reacionária e aliada do projeto
burguês, na medida em que é um óbice ao poder operário e ao mesmo tempo,
plataforma de projetos da burguesia, sobretudo as que têm se apresentado como
bastante influentes no âmbito político brasileiro, com destaque para a grande
burguesia industrial e agrária e a financeira (BOITO JR, 2005). A respeito da
oligarquia política da região, a coisa parece encaminhar-se basicamente conforme
a perspectiva anterior, com “repercussões” mais localizadas, pois constituísse na
base social que sustenta e propicia a ascensão e manutenção de políticos
defensores dos seus interesses.

A CRESOL na agricultura do Sudoeste do Paraná


Primeiramente, façamos um brevíssimo resgate histórico da gênese da
Cresol e de sua atuação na agricultura do Sudoeste do Paraná. Tal região
começa a ser maciçamente ocupada por agricultores gaúchos e catarinenses, a
partir da década de 1940, estabelecendo-se, majoritariamente, como pequenos e
médios produtores mercantis dentro do contexto local e regional. Nas décadas
seguintes, principalmente de 1970 em diante, com o desenvolvimento do
capitalismo no campo, estes pequenos produtores vão sendo expropriados e para
muitos deles, restam basicamente às alternativas da migração (produtiva em
outras regiões) ou assalariamento (urbano ou rural). No entanto, juntando os
elementos da evolução do capitalismo, a busca para permanecer na atividade
rural e o apoio de organizações sociais (sindicatos, igreja, movimentos sociais,
ONGs etc.), faz com que surja o cooperativismo como um meio de continuar
sendo agricultor, agora não mais como produtores isolados relativamente auto-

120
suficientes, mas sim como uma associação de classe de pequenos produtores
agrícolas. Primeiramente, com pequenas iniciativas de crédito mútuo e/ou via
organizações sociais, a “alternativa” do cooperativismo de crédito vai aos poucos
sendo construída, culminando no ano de 1996, pela expressão e força política
dessa classe, com uma política pública de crédito do governo federal, chamada
PRONAF (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar),
implementada a partir de então pela Cresol (ABRAMOVAY; BITTENCOURT,
2001).
Nesta perspectiva, entendemos o sistema Cresol como uma união de
esforços entre pequenos e médios agricultores (estes compondo a classe da
pequena burguesia rural, e também de semi-assalariados) com vistas a não só
sobreviver no sistema vigente (capitalista), mas dentro do possível acumular – ou
manter-se produzindo nas condições atuais – e dentro do possível (busca ilusória
para a maioria), alcançar a posição da burguesia agrária. Há neste tipo de
cooperativismo (nos referimos aqui no sistema de um modo geral, e não do
crédito em específico), uma contradição intrínseca insolúvel: por um lado à
cooperação (junção de esforços “solidários”), e de outro, a busca individual do
lucro (premissa básica para qualquer empreendimento dentro do capitalismo), ou
seja, tal cooperação mantém como pilar o individualismo econômico.
A ação fundamental do Estado (burguês) como concedente do crédito, trás
a tona não só a tentativa/objetivo de manutenção dessa classe de produtores,
mas também e em grande medida, a possibilidade de usá-la como aliada política
e como freio as organizações mais radicais do proletariado, na medida em que
diferem destes últimos por sua condição de proprietários de meios de produção
(neste caso a terra, ainda que esta não seja a determinante neste modo de
produção). Num outro sentido, poderíamos considerar que a concessão do
crédito, também atua como não apenas dinamizador dessas produções
agrícolas/agropecuárias, mas também insere mais fortemente no circuito
econômico, em especial no financeiro, uma grande massa da população que até
pouco tempo atrás se encontrava a margem do sistema; por outro lado, também
joga na “concorrência” estes pequenos agricultores isolados – para os quais a
forma cooperativa se torna a única forma de evitar a expropriação/proletarização

121
ou migração, portanto ela surge mais como uma necessidade histórica objetiva
imposta pelo capital e não como uma “inclinação natural de indivíduos solidários”
– frente aos diversos monopólios que controlam os diferentes setores da
produção, circulação/comercialização, exportação agrícola ou agropecuária,
sejam eles do setor de insumos, máquinas, sementes, terra, tecnologia, crédito,
comércio, etc.

Considerações Finais
Procuramos aqui traçar uma linha que vai das particularidades da
agricultura sob o capitalismo, os objetivos centrais da constituição do
cooperativismo dentro de tal sistema, e no nosso caso de pesquisa em específico,
da cooperativa de crédito da Cresol e por fim, uma relação entre a sua função
dentro da agricultura regional, considerando sempre esta última uma fração da
agricultura brasileira, e esta por sua vez da economia nacional e ainda esta,
inserida na divisão internacional do trabalho. Tal compreensão objetiva analisar
os aspectos num âmbito macro, sem esquecer-se do micro, num movimento em
que essa interrelação perpasse continuamente o objeto/foco de pesquisa de
abordado.
Assim sendo, a tentativa do texto foi levantar questões acerca das
características e importância de tal cooperativismo para a economia regional.
Entendo que ele constitui um mecanismo encontrado pelos agricultores, e que do
ponto de vista produtivo, ainda que mantenham uma produção individualizada,
apresenta-se como uma forma superior de alavancagem produtiva, na medida em
que tal organização busca o elemento mais essencial para garantir a produção da
agricultura, qual seja, o capital, disponibilizado na forma do crédito.
Entretanto, é importante lembrar que é um mecanismo forjado nos limites
do sistema e na perspectiva de integrar-se nele cada vez mais, de acordo com as
necessidades da racionalidade econômica (competitividade, flexibilidade,
lucratividade, etc.), e do padrão de acumulação, ao mesmo tempo em que
propicia o desenvolvimento e dinamização das forças produtivas desta classe de
produtores (CORADINI; FREDERICQ, 2009); ou nas palavras enfáticas de
Kautsky ainda no século XIX: “Sem dúvida alguma as cooperativas de crédito são

122
de maior importância para o camponês, como meio de progredir
economicamente. São os meios de progresso econômico que não levam ao
socialismo (conforme muitos pensam), mas ao progresso do capitalismo” (p. 110,
1986 ), assim esta parece ser, ao nosso ver, uma das maiores contradições do
cooperativismo da Cresol, pois ao mesmo tempo que buscam manter-se dentro
do sistema vigente a tendência vai no sentido inverso, ou seja, conduz a
exclusão do processo produtivo dos agricultores que não se adéquam a ele.

Referências
ABRAMOVAY, R.; BITTENCOURT, G. A. Inovações institucionais no
financiamento à agricultura familiar: o Sistema Cresol. Uberlândia: Economia
Ensaios, v. 16, n. 1, pp. 179-207, 2001.
BOITO JR, A. A burguesia no governo lula. Rio de Janeiro: Revista Crítica
Marxista, v. 21, pp. 52-77, 2005.
CORADINI, O. L.; FREDERICQ, A. Agricultura, cooperativas e multinacionais.
Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2009.
HUGON, P. História das doutrinas econômicas. 14. ed. São Paulo: Atlas, 1984.
KAUTSKY, K. A questão agrária. São Paulo: Nova Cultural, 1986. 401 p.
LÊNIN, V. I. El estado y la revolución. IN: LÊNIN, V. I. Obras escogidas. Tomo
II. Moscú: Editorial Progreso, 1961. 405 p.
______. O desenvolvimento do capitalismo na Rússia: o processo de
formação do mercado interno para a grande indústria. 2. ed. São Paulo: Nova
Cultural, 1985. 402 p.
______. O imperialismo: etapa superior do capitalismo. São Paulo/Campinas:
FE/UNICAMP, 2011.
LUXEMBURGO, R. Revolución o reforma. IN: LUXEMBURGO, R. Obras
escogidas. Madrid: Edición Ayuso, 1978.
MARX, C.; ENGELS, F. Obras escogidas. Tomo III. Moscú: Editorial Progreso,
1980. 288 p.
MARX, K. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858: esboços da
crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2011. 788 p.
ZARPELON, S. R. A esquerda não socialista e o novo sindicalismo utópico:
aproximações entre a atuação das ONGs e o cooperativismo da CUT.
Dissertação (Mestrado em Ciências Políticas), Unicamp, Campinas, 2003.

123
PLURIATIVIDADE NA AGRICULTURA FAMILIAR DO
MUNICÍPIO DE ITAPEJARA D’ OESTE-PR

Rogério Michael Musatto


rogeriomussatto@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

A presente pesquisa foi embasada, num primeiro momento, em análises de


obras teóricas, onde alguns autores investigam os casos de pluriatividade na
agricultura familiar, juntamente com estudos de outros temas e/ou dinâmicas
socioespaciais que são significativas por contribuir para a ocorrência de casos de
pluriatividade, como, por exemplo, a intensificação das relações campo-cidade e a
formação histórica no campo regional.
Em seguida, foi caracterizado, geograficamente, o local de estudo, ou seja,
o Município de Itapejara D´Oeste, juntamente com a apresentação de dados
coletados a campo e outros indicadores em institutos de pesquisa, fazendo parte
da estruturação da pesquisa.
Partindo do pressuposto de que não podemos explicar uma dinâmica
socioespacial sem antes investigar dialeticamente seu processo de formação ou
ocorrência, procuramos inicialmente elaborar as bases teóricas para em seguida
caracterizar os casos de pluriatividade na agricultura familiar.
Para compreendermos os casos de pluriatividade na agricultura familiar
recorremos a estudos de processos históricos, não somente no município, mas a
nível regional, já que a região na qual o município de Itapejara D´Oeste encontra-
se inserido, no caso o Sudoeste do Paraná, “[...] é caracterizado, em sua maioria,
pelo predomínio de pequenas propriedades de produção familiar, que visam
garantir a sobrevivência a partir da inserção no mercado” (SANTOS, 2008, p.32).
“Uma região em que 93% das propriedades são menores que 50 há e onde estas
mesmas propriedades conseguem ainda ocupar 60% da área total, portanto, com
expressiva presença de agricultura familiar” (PERONDI, 2007, p. 16).
Sobre a noção teórica de agricultura familiar, consideramos a definição
existente no Projeto de Cooperação Técnica INCRA/FAO (2000), o qual define
agricultura familiar como sendo:

124
[...] a agricultura familiar pode ser definida a partir de três características
centrais: a) a gestão da unidade produtiva e os investimentos nela
realizados é feita por indivíduos que mantêm entre si laços de sangue ou
de casamento; b) a maior parte do trabalho é igualmente fornecida pelos
membros da família; c) a propriedade dos meios de produção (embora
nem sempre da terra) pertence à família e é em seu interior que se
realiza sua transmissão em caso de falecimento ou de aposentadoria
dos responsáveis pela unidade produtiva (INCRA/FAO, 2000, p. 8).

Sendo assim, temos no campo da região Sudoeste do Paraná a


predominância de pequenas propriedades, e a maioria das pequenas cidades
com a função de manter relações comerciais com o meio rural, principalmente nas
trocas de produtos primários, possibilitando o surgimento de uma forte integração
entre campo e cidade. Integração que além de ser traduzida em trocas comerciais
pode ser associadas às diferentes formas de mobilidade populacional.
De acordo com Flávio (2011), onde o autor analisa a formação histórica da
região, o mesmo afirma que as relações que se estabeleceram no Sudoeste do
Paraná anteriormente a ocupação dirigida com posseiros sulistas, ou seja,
anteriormente colonização das décadas de 1940 e 1950, os caboclos que aqui
habitavam mantinham relações comerciais com pequenos comerciantes locais
denominados bodegueiros, onde vendiam sua pequena produção, inicialmente a
erva mate e porcos, estabelecendo trocas “[...] por sal, açúcar, tecidos (o
“xadrez”), bebidas, ferragens, querosene. Os bodegueiros revendiam-na a firmas
argentinas ou de Curitiba, que tinham filiais em União da Vitória” (FLÁVIO, 2011,
p. 158).
Com a chegada de posseiros, principalmente gaúchos e catarinenses,
estabelecem no Sudoeste Paranaense as primeiras relações comerciais com a
finalidade de gerar lucros, surgindo varias formas de comércio voltadas à extração
de bens naturais, sendo destinado a outras regiões do país.
Mais tarde, a partir da década de 1970, as novas técnicas e processos
ligados à modernização da agricultura vão contribuir para intensificação dos
processos de saída de pequenos agricultores do meio rural. “[...] no Sudoeste do
Paraná, onde não se tem mais terras para ocupação, ocorre uma sub-utilização
da força de trabalho, que por sua vez forçar a saída do campo” (SANTOS, 2008,
p. 85).

125
Em Santos (2008), a autora nos apresenta a forma de organização
socioespacial na agricultura da região Sudoeste como uma modernização
desigual pelo território, possibilitando-nos entender a integração dos meios rurais
e urbanos, e a constituição de uma integração de agricultura e atividades
industriais, que como consequência vai definir a divisão territorial do trabalho.
Essa desigualdade socioespacial, caracterizada em Santos (2008),
possibilita-nos compreender a diferenciação nos níveis de vida no campo da
região, onde: “Há desde agricultores familiares capitalizados e integrados ao
processo de modernização agropecuária, até aqueles cujo retorno do trabalho das
unidades produtivas agropecuárias mal lhes propícia condições de sobrevivência,
independente de produzir ou não a partir de técnicas modernas” (SANTOS, 2008,
p. 48).
Através dessa integração campo-cidade em trocas comerciais,
principalmente ligados à agricultura, podemos pensar e ou caracterizar a
mobilidade populacional que ocorre nessa relação, ou seja: não somente na saída
definitiva da população rural em direção a cidade, no processo denominado êxodo
rural, mas os inúmeros casos de integração a atividades urbanas por parte de
agricultores familiares, representando uma nova forma de organização e dinâmica
socioespacial.
Nesse contexto de mobilidade populacional decorrente de processos de
modernização da agricultura, diferenciação e marginalização de agricultores,
como observados em Santos (2008), inserem-se os agricultores que praticam
pluriatividade, passando a ser objeto de estudo em diversas análises: desde a
finalidade e objetivos, até fatores que influenciam no deslocamento por trabalho
da população rural em direção à cidade.
Schneider (2003), esclarecendo as bases teóricas para o surgimento das
ideias a respeito da pluriatividade, analisa as obras clássicas de Kautsky e
Chayanov, onde se encontram algumas das primeiras referências ao “trabalho
rural acessório” e a “outras atividades não-agrícolas”, entendidos como formas
complementares de obtenção de renda e de inserção econômica de pequenos
proprietários ou camponeses no capitalismo.

126
No entanto, Kautsky afirma que o processo de transformação estrutural
da agricultura sob o capitalismo não elimina, necessariamente, as
pequenas propriedades desde que elas desenvolvam “formas de
trabalho acessório” (que podem ou não estar ligadas à agricultura) que
lhes permitam manter sua reprodução social (SCHNEIDER, 2003, p.7).
A diversificação de atividades como observados em Perondi (2007)
contribui para permanência de pequenos agricultores no campo. E as atividades
não-agrícolas passam a representar um papel cada vez mais importante para os
mesmos, sendo que agricultores familiares na falta de inserção em programas de
financiamento e assistência as atividades agrícolas, ou seja, marginalizados pelas
formas tradicionais de agricultura, acabam por integrar-se ao mercado como
fornecedores de mão-de-obra fora de seus estabelecimentos agrícolas.
[...] uma leitura atenta dos trabalhos que utilizam essas noções indica
que elas incorporam diferentes interpretações de um fenômeno social
que começou a se generalizar ainda na década de 1970, correspondente
à diversificação crescente das fontes de renda e da inserção profissional
dos indivíduos pertencentes a uma mesma família de agricultores
(SCHNEIDER, 2003, p.3).

Tendo abordado as bases teóricas a respeito de pluriatividade na


agricultura familiar, procuramos agora uma caracterização do município de
Itapejara d´Oeste para melhor analisar nosso objeto de estudo. Com uma área de
254,207 Km², o município de Itapejara d´Oeste apresenta uma evolução
populacional diferenciada se comparado com municípios próximos, como é o caso
de Verê, São João e Coronel Vivida; essa comparação foi realizada devido a
esses municípios apresentarem um processo de ocupação e formação histórica
semelhante, sendo que os dados podem ser analisados no gráfico a seguir.

Gráfico 1-Evolução populacional em Itapejara d´Oeste e de alguns municípios próximos


30.000

25.000

20.000 Itapejara d´Oeste

15.000 Verê
São João
10.000
Coronel Vivida
5.000

0
1980 1991 1996 2000 2007 2010
FONTE: AMSOP-Banco de dados do Sudoeste do Paraná
Org. MUSATTO, R.M. 2012

127
De acordo com os dados analisados, a partir de 1980 temos, num primeiro
momento, a diminuição em seu número de habitantes no município de Itapejara
d´Oeste, com uma queda até meados da década de 1990, para logo em seguida
um crescimento populacional a partir dos anos 2000.
Analisado a evolução da população, procuremos então apresentar o estudo
direto dos casos de pluriatividade no município. Temos em Itapejara d´Oeste uma
característica de proximidade de algumas comunidades em relação à cidade. Nos
casos estudados na comunidade de Palmerinha localizada a aproximadamente 3
km do perímetro urbano do município, e na comunidade de Salto Grande,
localizada a aproximadamente 10 Km da cidade, podemos perceber essa
situação.
Em entrevistas realizadas em 20 propriedades na comunidade de
Palmerinha, no período entre os meses de Outubro e Novembro de 2012,
podemos comprovar a importância e representação de atividades não-agrícolas.
Sendo que nas 20 propriedades visitadas apenas 7 não possuem nenhum
indivíduo trabalhando fora da propriedade, como podemos observar no Quadro 1.

Quadro 1-Caracterização de propriedades familiares, quanto à existência de casos de


pluriatividade
Agricultores pluriativos na Palmerinha Salto Grande
propriedade
Nenhum pluriativo 7 3
Apenas 1 pratica pluriatividade 5 4
2 praticam pluriatividade 7 1
3 praticam pluriatividade 1
Mais de 3 praticam pluriatividade
Total 20 8
Fonte: Pesquisa de campo, 2012
Org.: MUSATTO, R. M. (2012)

A partir do Quadro 1, pode-se observar que entre os entrevistados há o


predomínio dos pluriativos, sendo que eles representam 65% dos entrevistados
na comunidade da Palmerinha e 75% na comunidade de Salto Grande. No
entanto, se observa o predomínio de apenas 1 pluriativo por estabelecimento na
comunidade de Salto Grande, enquanto que na Palmerinha existe mais casos de
2 pessoas praticando pluriatividade no estabelecimento. Nestes casos,
poderíamos considerar que a distância das comunidades em relação à cidade tem

128
interferência, pois a sede da comunidade de Salto Grande situa-se a 10 Km,
enquanto Palmerinha está a 3 Km.
Outra característica que julgamos importante para analisarmos os casos de
pluriatividade em Itapejara d´Oeste é o local de inserção dos agricultores
pluriativos, sendo que a indústria e comércio no centro urbano municipal são os
principais locais de destino de quem pratica pluriatividade segundo análise das
entrevistas feitas, organizadas no Quadro 2.

Quadro 2-Local de trabalho de alguns agricultores pluriativos


Local Palmerinha Salto Grande
Outra propriedade rural 2 1
Indústria 7 2
Comércio 6 2
Construção civil 2
Funcionário público 4 1
Outros 20 6
Fonte: Pesquisa de campo, 2012
Org: MUSATTO, R. M. (2012)

A importância da atividade não-agrícola no orçamento e sobrevivência


familiar e outra característica importante em nossa análise. Das 20 propriedades
visitadas na comunidade de Palmerinha e, de acordo com as pessoas
entrevistadas, 5 declaram depender principalmente do trabalho assalariado fora
da propriedade para a sobrevivência, sendo que em outros casos a pluriatividade
apenas complementa a renda familiar, como podemos observar no Quadro 3. Nas
demais fontes de renda, além da agricultura e pecuária leiteira, são fortes as
presenças de pensões e aposentadorias representando a principal fonte de renda
familiar, e a atividade leiteira é praticada na maioria das pequenas propriedades
visitadas, na maioria das vezes representando uma pequena parte na receita total
da família.
Na comunidade de Salto Grande, observamos uma diferença nesta
questão, pois nenhum dos entrevistados declararam que a principal fonte de
rende provenha de atividades não-agrícolas, pois tem o predomínio da agricultura
e de atividades agropecuárias, sendo que 3 dos pluriativos tem a principal fonte
de renda na pecuária leiteira. O que nos indica que além da distância, o tipo de
atividade desenvolvida no estabelecimento agropecuário pode favorecer a
combinação de atividades agrícolas e atividades não-agrícolas.

129
Quadro 3-Principal fonte de renda declarada pelos agricultores familiares entrevistados
Fonte de renda Palmerinha Salto Grande
Agricultura 5 6
Pecuária leiteira 6 3
Trabalho assalariado 5
Aposentados pensionistas 4
Outros - -
Fonte: Pesquisa de campo, 2012
Org: MUSATTO, R. M. (2012)

Podemos concluir que os vários casos de agricultores familiares praticando


pluriatividade nas comunidades de Palmerinha e Salto Grande em Itapejara
d´Oeste comprovam as teorias dos autores analisados, que tratam dessa
problemática no campo, ou seja: a realidade a qual nos deparamos e
constatamos em números, mostram a pluriatividade na agricultura familiar como
uma forma de complementação de renda, e geralmente há uma combinação com
atividades agrícolas.
Sendo assim, a necessidade de diversificação de atividades econômicas
na agricultura familiar torna-se um condicionante para a integração de agricultores
a atividades tradicionalmente urbanas, pois a propriedade rural já não
disponibiliza de instrumentos ou práticas adequadas para a sobrevivência e
dependência de atividades essencialmente agrícolas.
Sendo assim não caberia classificar a pluriatividade como sendo uma
situação de melhoria nas condições de vida no campo, pois a mesma passa a ser
uma atividade forçada, e pode representar uma saída do campo por parte dos
agricultores familiares.
Dessa forma, pensarmos nas formas de atuação do Estado nesses casos
parece-nos uma questão de planejamento para um futuro onde não se acentuem
os casos de desigualdade, tanto no campo quanto na cidade, pois programas de
fortalecimento da agricultura familiar, podem representar melhores condições de
vida e sobrevivência de agricultores no campo, além da diminuição de problemas
urbanos, como moradias inadequadas, e precárias condições de vida.

Referências
FLÁVIO, Luiz Carlos. Memória(s) e território: elementos para o entendimento
da constituição de Francisco Beltrão-PR. (Tese de Doutorado). Programa de

130
Pós-Graduação em Geografia. Faculdade de Ciências e Tecnologia,Universidade
Estadual Paulista, UNESP, Presidente Prudente, SP, 2011.
INCRA/FAO. Novo retrato da agricultura familiar: o Brasil redescoberto.
Brasília, 2000.
PERONDI, Miguel Angelo. Diversificação dos meios de vida e mercantilização
da agricultura familiar. Tese (Doutorado em desenvolvimento Rural) –
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Ciências Econômicas,
Programa de Pós-Graduação em desenvolvimento rural, Porto alegre, 2007.
SANTOS, Roseli Alves dos. O processo de modernização da agricultura no
Sudoeste do Paraná. (tese de doutorado). Programa de Pós-Graduação em
Geografia. Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista,
UNESP, Presidente Prudente, SP, 2008.
SCHNEIDER, Sergio. Teoria social, agricultura Familiar e pluriatividade. Revista
Brasileira de Ciências Sociais - vol. 18 nº. 51, Fevereiro de 2003.

131
SEMENTES AGRÍCOLAS NO SUDOESTE DO PARANÁ: QUESTÃO
TECNOLÓGICA E ESTRATÉGIAS EMPRESARIAIS

João Luciano Bandeira


jl5bann@gmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
No final do século passado e início do atual houve uma reformulação
gigantesca no agronegócio como um todo e no setor sementeiro, em parte pelas
políticas neoliberais hegemônicas no período, e reformulações no mercado
doméstico por interferência das transnacionais que atuavam que obrigaram a
rearranjos de empresas locais para sobreviver sob o caráter predatório do setor.
Durante a década de 1990, o Brasil passou por um amplo processo de
internacionalização do capital e das empresas no setor de tecnologia
agropecuária. Muitas empresas foram vendidas para o capital externo, e grande
parte das tecnologias que foram desenvolvidas no setor, passaram a ser
controladas por corporações internacionais. Houve uma redefinição da conjuntura
agrícola, muitas empresas foram adquiridas, algumas faliram e houve um
processo de fusões entre empresas nacionais e o capital internacional.
A reestruturação ocorrida no setor de produção de insumos agrícolas
apresentou significativos impactos regionais no tocante: a) concentração das
vendas em um número menor de grupos com atuação nacional; b) redefinição dos
locais de produção de insumos com maior concentração em unidades do Sudeste
do Brasil pertencentes a grupos internacionais; c) associação entre as vendas de
sementes, fertilizantes, defensivos e os financiamentos via empresas de vendas;
d) redução das possibilidades de desenvolvimento tecnológico por empresas
regionais de pequeno e médio porte.
Dinamizou-se assim o setor a montante da economia na agricultura. Um
processo de concentração de capital e de tecnologia combinado com uma
desigualdade regional no aspecto comercial que passou a ser preponderante a
partir do período. Na região Sudoeste do Paraná algumas empresas
sobreviveram ao período, sem fusões e sem serem adquiridas. A partir da
primeira modernização da agricultura da região décadas de 1960/70 (introdução

132
de maquinário e produtos químicos), surgiram empresas que passaram a atuar
como atravessadores do escoamento da produção, e mais tarde adquiriram
equipamentos para fazer o processo de seleção de sementes o que viabilizou o
comércio sementeiro a partir de sementes locais já na década de 19708. Algumas
empresas que surgiram no período ainda estão no mercado: Guerra, Lavoura,
Peron Ferrari e Plantanense etc. (APASEM).

Metodologia
Nossa metodologia consistiu em amplo levantamento bibliográfico, teórico
e empírico, bem como trabalhos de campo nas empresas sementeiras, e
entrevistas com técnicos e diretores das mesmas. Analisamos trabalhos
relevantes em relação aos processos de F&A (fusões e aquisições), por hora os
mais influentes na pesquisa foram Fuch (2005), Benetti (2002), Gonçalves (2012),
Wilkinson;Castelli (2000) e Corrêa (2004), entre outros.

Gênese e desenvolvimento do setor sementeiro industrial no Sudoeste do


Paraná
Conforme Fuch (2005), na década de 1980 houve um aumento vertiginoso
na produtividade dos principais grãos produzidos no Brasil. Este aumento
segundo o mesmo autor foi fruto das pesquisas em tecnologia realizadas pela
Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), Iapar (Instituto
Agronômico do Paraná), no caso paranaense e outras IPPs (Instituições Públicas
de Pesquisa). Durante a década de 1990, houve uma ascensão de dificuldades
para estas empresas. Surgiram novas concorrentes de capital privado e novos
campos de conhecimento, cortes nos recursos de pesquisa e sucateamento do
seu aporte tecnológico, devido à tormenta neoliberal de então, que não teve
interesse em aprimorar a pesquisa no setor público.
As empresas do Sudoeste do Paraná tiveram a oportunidade de
comercializar sementes de genética pública nas décadas de 1970 e 1980, pois
tiveram acesso às variedades do Iapar e da Embrapa, que foram comercializadas
e deram impulso expansivo destas empresas que tinham boa representatividade

8
Histórico da empresa Sementes Guerra. Disponível em: <http://www.guerrasementes.com.br/>
Acesso em: 22.ago.2013.

133
no mercado do Sudoeste, passando inclusive a exportar seus produtos. As
empresas Guerra e Lavoura com suas sedes em Pato Branco/Pr, abasteceram
Paraguai e Argentina com sementes de milho híbrido e trigo a partir da década de
1980 até início dos anos 2000. A estagnação nestas relações econômicas
internacionais ocorreu em grande medida pela perda de mercado para algumas
multinacionais, que tinham melhor transito no sistema de financiamento por suas
relações com o capital financeiro já bem estabelecidas. Questões políticas que
privilegiavam as grandes corporações do setor também deixaram estas empresas
em desvantagem, assim diretamente influenciando na relação custo benefício dos
consumidores, onde a oportunidade de financiar e ter sementes na fronteira
tecnologia se tornou mais rentável aos compradores do Mercosul.

Desnacionalização e reordenação estratégica


Um amplo processo de concentração ocorreu no período de transição dos
séculos XX-XXI. Benetti (2002), aponta que o Brasil foi um espaço privilegiado
para a expansão de grandes grupos estrangeiros na área do agronegócio,
tendência expressa tanto nos fluxos de Investimentos Diretos Estrangeiros (IDE),
quanto no número expressivo de aquisições de empresas nacionais acumuladas
na década de 1990. A autora chama a atenção para o fato de grupos
transnacionais dominarem todas as etapas da produção após os acontecimentos
da década de 1990. Steindl (1990), atenta para o fato de que existe um campo
específico onde a maioria das empresas não consegue chegar: o campo da
pesquisa tecnológica, pois a mesma demanda abundantes investimentos que só
as grandes empresas podem fazer. Assim as empresas de menor escalão
disputam entre si nichos de mercado ou mercados onde os produtores preferem
sementes endógenas, ou seja, que as pesquisas de adaptação ao clima não
atingiram os níveis desejados por produtores ou o custo das mesmas seja
elevado comprometendo as margens de lucro.
Sendo assim, pode-se considerar que o comercio de sementes pode ter
ainda um caráter local relevante. Na sua dinâmica após fusões e aquisições as
empresas sudoestinas passaram a se limitar ao comercio mais regionalizado.
Com a diminuição das suas margens de lucro e contratura do setor sementeiro as

134
empresas se aventuraram no setor alimentício. Conforme Belik (1999), este setor
foi atraente devido à elevação no faturamento das indústrias de alimentos 1985-
95. O autor também chama a atenção para novas empresas de alimentos que
surgiram nesta década, com um novo movimento na gênese de
empreendimentos. Vale lembrar que, na década de 1990 e anos 2000, houve com
maior intensidade a “migração” dos investimentos para o setor alimentício no
Sudoeste Paranaense.

Tabela 1-Empresas produtoras de sementes do Sudoeste do Paraná e marcas de


alimentos
EMPRESA SEDE FILIAIS SEMENTES MARCAS
CAMISC Mariópolis Clevelândia, Soja, trigo, s/d
Vitorino, triticale e feijão.
Galvão/SC,
São
Domingos/SC
e Jupiá/SC.
Fistarol& Cia Ampére s/d Soja s/d
LTDA.
Realeza,
Santa Izabel Ampére, Nova Soja, trigo, Divina
Irmãos Bochi d’Oeste Prata do feijão, triticale e Mesa
Iguaçu e forrageiras.
Planalto.
Lavoura Pato Branco Ponta Grossa, Trigo, triticale, s/d
Paranaguá, feijão e aveia.
Bom Sucesso
do Sul,
Renascença e
Imbituva.
Peron Ferrari Santo Antônio Pranchita, Soja, trigo e Peron e
S/A do Sudoeste Dionísio feijão. Evita.
Cerqueira/SC
e Pato Branco.
San Rafael Coronel Vivida Francisco Soja e trigo. s/d
Beltrão.
Guerra Pato Branco Bom Sucesso Trigo, soja e Primorata
do Sul, milho. e Glee
Bandeirantes e
Vitorino.
Sojamil Chopinzinho Candói, Soja, trigo e s/d
Goioxim e triticale.
Marquinho.
ZL Vitorino s/d Soja e trigo. s/d

135
O mercado alimentício foi uma complementação importante para estas
empresas, foram criadas marcas e passaram a produzir produtos variados, como
farinha (Evita e Peron), bolachas (Primorata), sucos (Glee) e produtos variados
(Divina Mesa). Como podemos ver na Tabela 1, as sementes continuaram a
serem comercializadas mesmo com o advento do novo setor dentro destas firmas.
Geralmente “alugava-se” tecnologias que as corporações consideravam obsoletas
por suas margens de lucro menores, ou comercialização de sementes com
genética pública.
A bacia leiteira do sudoeste teve uma significativa expansão no início deste
século. Estimulando, assim, a necessidade de sementes de pastagem para
abastecer o rebanho, por conta da especialização do mesmo que passou a
necessitar de pastos especializados ou por seu aumento numérico. Novamente as
sementes passaram a ganhar espaço nas estratégias empresariais à margem de
lucro no setor de sementes passou a ser muito significativo para não ser
aproveitado. Sendo assim, se aproveitando do fato das grandes empresas terem
produtos sofisticados na área de gado de corte ou voltados basicamente para
mercado europeu e estadunidense e para seus climas. As empresas regionais
passaram a vender sementes selecionadas de pastagens tendo um impulso
significativo e novamente se revertendo para o setor sementeiro. Nos últimos
tempos, empresas como a Guerra tem feito investimento, pesquisa e parcerias
para desenvolver variedades de milho para silagem.
Com a alavancada do setor sementeiro a persistência de resistir no setor
foi premiada para algumas empresas. Segundo a APASEM (Associação
Paranaense de Produtores de Sementes e Mudas), um dos mais importantes
bancos de sementes de trigo do Paraná está no Sudoeste do Estado. A empresa
Peron Ferrari dispõe de variedades ainda do período áureo da genética pública, e
tem se beneficiado pelo mercado do trigo ser mais de caráter local.

Esse mercado está caracterizado pelo predomínio de cooperativas e


empresas regionalizadas, geralmente de origem rural – grandes
fazendeiros capitalizados ou intermediários do setor agroindustrial, assim
como cooperativas. Há uma concentração em torno de algumas culturas,
principalmente a de trigo (WILKINSON; CASTELLI, 2000).

136
A transgenia do trigo é mais recente e ainda com uma variação pequena se
comparada à semente convencional. A principal diferença está nas mudanças
com relação à resistência de estiagem e aclimatação, mas esta é uma tecnologia
que a Embrapa-Trigo possui (EMBRAPA, 2012).
Em 2012, a Guerra firmou uma parceria com a francesa Limagrain, criando
a empresa Jacquet Guerra do Brasil. A marca Jacquet pertence ao grupo
Limagrain, é a marca de alimentos do grupo que fatura anualmente € 2 bilhões na
Europa, é líder europeia nas vendas de pães e bolos industrializados9. No setor
de sementes se destaca pela qualidade de seus cultivares de trigo e de
pastagens adaptadas ao clima europeu, com amplos investimentos em pesquisa
que a colocam na fronteira tecnológica10. Tecnologia que está na gama de
parcerias entre o grupo brasileiro e francês sendo que deverá ser desenvolvido
cultivares especializados para rebanho leiteiro com padrão climático da região
sudoeste.

Considerações Finais
A persistência dos grupos regionais perante a internacionalização mostra a
possibilidade de um projeto nacional de genética pública e de produção integrada
ao mercado, porém com autonomia e soberania podendo ter um desenvolvimento
com base em parcerias e não em desnacionalização. Tem ficado claro que no
agronegócio brasileiro um dos gargalos mais severos é a dependência externa no
fornecimento de insumos. Preços combinados por monopólios hegemônicos na
fronteira tecnológica que através dos royalties captam parte da riqueza produzida
em solo brasileiro, à falta de tecnologia nacional afeta a soberania nacional, já
que grupos do exterior controlam todas as etapas da produção se apossando por
consequência de grande fatia da riqueza gerada pelo agronegócio brasileiro,
conforme apontado por Benetti (2002). O Sudoeste do Paraná é atípico no
cenário nacional, onde empresas ínfimas se comparadas às líderes do setor,
conseguem competir, sobreviver e fazer parcerias com grandes grupos ainda

9
<http://economia.ig.com.br/empresas/2013-04-04/fabricante-francesa-de-paes-e-bolos-planeja-
sete-fabricas-no-brasil.html.> Acesso em: 22.ago.2013.
10
<http://www.limagrain.com.> Acesso em: 22.ago.2013.

137
alheios ao Brasil, mas destacados em seu continente como o caso da Jacquet
Guerra do Brasil

Referências
APASEM. Boletim de associados e representantes gerais. Disponível em:
http://apasem.com.br/site/index.php/quem-somos/associados. Acesso em:
12.dez.2012.
BELIK, Walter. PAULILLO, Luiz Fernando. Mudanças no Financiamento da
Produção Agrícola Brasileira. São Paulo, 2001.
BENETTI, Maria, D. Reestruturação das indústrias de suprimentos agrícolas no
Brasil, nos anos 90: concentração e desnacionalização. In: Indicadores
Econômicos FEE. Porto Alegre: FEE, v. 30, n.1, 2002.
EMBRAPA. Boletim de Dados Históricos e Estatísticos. Disponível em:
<www.cnpso.embrapa.br.> Acesso em: 10.out.2012.
FUCH, Marcos. P. A Importância da Embrapa. Dissertação de Mestrado.
Campinas: UNICAMP, 2005.
GONÇALVES, José. S. Do Bonde ao Trem-bala: o fim do domínio da genética
pública e o novo padrão de financiamento do custeio agropecuário. In: Análises e
Indicadores do Agronegócio. v. 7, n. 4, abril 2012.
SCATOLIN, F., Meirelles, G. & Paula, N. Arranjo produtivo local – o caso da
soja no Paraná. Arranjos Produtivos do Complexo Soja Paranaense. Projeto de
Pesquisa: Arranjos e Sistemas Produtivos Locais e as Novas Políticas de
Desenvolvimento Industrial e Tecnológico. Estudos Empíricos. Nota Técnica 19.
Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro – IE/UFRJ,
2000.
STEINDL, J. Pequeno e Grande Capital. São Paulo: HUCITEC; UNICAMP,
1990.
WILKINSON, J. CASTELLI, P. G. A Transnacionalização da Indústria de
Sementes no Brasil - biotecnologias, patentes e biodiversidade. Rio de janeiro:
ActionAid, Brasil, 2000.

138
ESTUDOS AMBIENTAIS

139
A INTERPRETAÇÃO AMBIENTAL COMO FERRAMENTA
PARA AS ATIVIDADES RECREATIVO-EDUCATIVAS EM TRILHAS
ECOLÓGICAS: O CASO DO RECANTO RENASCER
LOCALIZADO NO MUNICÍPIO DE FRANCISCO BELTRÃO-PR

Daniele Inês de Moraes


danielemoos@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
O interesse pelo contato com ambientes naturais e pelo conhecimento dos
processos ambientais tem contribuído para o desenvolvimento de atividades
interpretativas em trilhas ecológicas implantadas em ambientes de relevante
potencial paisagístico e diversidade biológica.
A interpretação ambiental é tida como uma forma estimulante de fazer com
que as pessoas percebam e entendam o seu entorno ecológico, para, em
seguida, sensibilizá-las a uma nova postura ética e crítica em relação às questões
ambientais (VASCONCELLOS, 1997).
Nas trilhas ecológicas, a interpretação ambiental é realizada por meio de
elementos originais ou ilustrativos, em pontos estratégicos para parada e
interpretação, e pode ser desenvolvida com a presença de guias (trilhas guiadas)
ou sem a presença de guia (trilhas autoguiadas) (ANDRADE; ROCHA, 2008).
As trilhas interpretativas buscam revelar os significados e as relações com
o meio ambiente, aliando entretenimento, significado, organização e, também,
uma mensagem a ser comunicada (ANDRADE; ROCHA, 2008). Para isso, a
interpretação ambiental precisa estar organizada em torno de um tema, ser
prazerosa, apresentar informações relevantes, significativas (VASCONCELLOS,
2006) e, principalmente, utilizar informações a partir de investigações científicas
(MOREIRA, 2011).
Nessa perspectiva, este trabalho busca analisar o potencial atrativo de
pontos interpretativos em duas trilhas ecológicas existentes em um
estabelecimento rural no município de Francisco Beltrão-PR. O objetivo é
contribuir para um melhor desenvolvimento da atividade interpretativa no local, de
modo a aliar entretenimento, educação ambiental e conservação dos recursos
naturais utilizados.

140
Metodologia
O Recanto Renascer corresponde a um estabelecimento rural de 43
hectares, que se insere em uma área pertencente à formação vegetativa
ombrófila mista aluvial. Entre os atrativos à visitação, possui duas trilhas
ecológicas, que, juntas, somam 2 km de extensão. Uma das trilhas é denominada
Trilha da Estrada Velha e, a outra, é chamada Trilha dos Sentidos.
Para verificar o potencial atrativo dos pontos interpretativos existentes nas
trilhas, foi utilizada a metodologia Índice de Atratividade de pontos Interpretativos -
IAPI, aplicada no dia 14 de setembro de 2013.
Na aplicação da metodologia, as trilhas foram, inicialmente, classificadas
quanto a:
• Temática: presença de eixo temático para a interpretação;
• Pontos interpretativos; caracterização quantitativa dos pontos;
• Presença ou não de recursos interpretativos variados: conteúdo, harmonia
com o meio, relevância.
• Sinalização: conteúdo, clareza, harmonia com o meio, relevância.
• Modalidade: guiadas ou autoguiadas.
• Diferenciação: oferta de atividades para vários tipos de público.

Após o levantamento inicial das características da trilha e o pré-


levantamento de seus atrativos, foram selecionados, com base nos estudos de
Ikemoto et al. (2009) e Magro; Freixêdas (1998), os indicadores de atratividade.
Sendo eles:
• Visibilidade (inferior, médio e superior): refere-se à posição do atrativo em
relação aos olhos do observador.
• Estímulo sensorial: Corresponde aos estímulos visuais, auditivos, táteis e
olfativos que os atrativos proporcionam.
• Escala e Distância: (primeiro plano, médio plano e pano de fundo). O
primeiro plano corresponde aos atrativos que permitem o contato direto ou
toque pelo visitante. O médio plano é o atrativo que está próximo do leito
da trilha, mas não permite o contato direto pelo visitante. O pano de fundo

141
são os atrativos distantes do leito da trilha, como um pano de fundo na
paisagem.
• Recursos observados: Observação de recursos variados a partir do ponto
interpretativo:
- Água: Visual (cursos d’água são visualizados a partir do ponto); Som
(apenas o som da água é perceptível).
- Rocha: Identificação de rochas em tamanhos e formas variadas.
- Epífitas: (bromélia, orquídeas e outras plantas sob o tronco e galho das
árvores).
Para a escolha do peso dos indicadores, utilizamos os mesmos parâmetros
utilizados por Ikemoto et al. (2009), no qual, posição superior, som da água,
presença de rochas e epífitas receberam peso 2, enquanto os indicadores pano
de fundo e visual da água receberam peso 3; os demais indicadores receberam
peso 1. Para determinar a intensidade ou abundância dos atrativos foram
utilizados os parâmetros de Costa (2006), no qual 1= presente, 2= grande
quantidade e 3 = predominante. Como “presente”, é considerado os elementos
pouco expressivos visualmente e quantitativamente; “grande quantidade” os
elementos visualmente e quantitativamente em destaque; e “predominante” os
elementos que dominam e se destacam na paisagem.
O valor da atratividade de cada ponto selecionado foi determinado através
da multiplicação do peso dos indicadores com a intensidade ou abundância do
atrativo. Seguindo as indicações de Magro e Freixêdas (1998), a análise das
trilhas por ser mais subjetiva, foi realizada em duplas a fim de evitar mudanças de
critérios. O levantamento da presença ou ausência destes indicadores em cada
um dos pontos selecionados foi computado em planilha de campo (Quadro 1).

Quadro 1-Ficha de campo IAPI

Legenda: inf.- inferior; sup.- superior; vis.- visual; ta.- tato; ol- olfato
Fonte: Ikemoto et al., 2009
Adaptado por: Moraes, D. I. de (2013)

142
Resultados e Discussões
A trilha da Estrada Velha apresenta como eixo temático para a
interpretação ambiental informações sobre espécies da flora local. No total, a
trilha possui 21 pontos interpretativos e a atividade interpretativa desenvolvida
está acessível a vários tipos de público. Por ser uma trilha autoguiada, o recurso
interpretativo utilizado são placas, algumas de madeira e outras de metal, nas
cores verde claro e branco. As estruturas estão em harmonia com o ambiente e,
apesar das informações se limitarem ao nome científico, nome popular e idade
aproximada de algumas espécies da flora local, elas instigam o visitante a parar e
observar as características da espécie identificada, algumas delas, bastante raras
na região, devido ao processo de ocupação territorial e ao uso indiscriminado da
madeira.
Devido à sua distribuição e relevância para a atratividade da trilha, dos 21
pontos interpretativos existentes, 15 foram escolhidos para a análise.

Figura 1-Distribuição dos pontos interpretativos na Trilha da Estrada Velha

Fonte: Pesquisa de campo, setembro/2013


Org. MORAES, D. I. de (2013)

143
Após aplicação da metodologia, verificou-se que, dos 15 pontos
analisados, 9 possuem uma pontuação maior que 10 e, destes, 4 somam mais de
15 pontos. Isso mostra que existem 4 pontos com grande potencial atrativo na
trilha, que podem ser importantes para o aprimoramento da atividade
interpretativa no local.
Porém, considerando como baixa atratividade os pontos com somatória <
de 10, média atratividade de 11 a 15 e alta atratividade acima de 15, é possível
verificar a existência de uma desproporção na distribuição desses pontos na
trilha, uma vez que os três pontos mais atrativos estão concentrados no início,
enquanto o restante de seu trajeto apresenta pontos de média e baixa atratividade
(Figura 1).
Na Trilha dos Sentidos (Figura 2), o eixo temático para a interpretação são
os sentidos do corpo humano. No total, são 14 pontos interpretativos e os
recursos utilizados são placas de metal e de madeira, nas cores verde claro e
branca. Estas estruturas estão em harmonia com o ambiente e buscam estimular
o visitante a contemplar e sentir, através do tato, olfato, audição e visão, o
ambiente visitado.
Figura 3-Distribuição dos pontos interpretativos na trilha dos sentidos

Fonte: Pesquisa de campo, setembro/2013


Org. MORAES, D. I. de (2013)

144
A trilha é autoguiada e as atividades interpretativas estão adequadas para
vários tipos de público. As informações apresentadas se limitam ao nome popular,
científico e idade aproximada de algumas espécies da flora local. Devido à
proximidade dos pontos interpretativos, a análise foi realizada em 10 pontos da
trilha.
A aplicação da metodologia permitiu constatar que, dos dez pontos
analisados, cinco possuem alta atratividade (>15 pontos), dois de média
atratividade (de 11 a 15 pontos) e três de baixa atratividade (<10 pontos). No que
se refere à distribuição dos pontos de maior e menor atratividade na trilha, é
possível verificar através da Figura 2, que existe uma distribuição uniforme entre
eles, o que acaba contribuindo para que sejam utilizados no desenvolvimento da
atividade interpretativa no local.

Considerações Finais
Através da metodologia IAPI foi possível identificar que as trilhas do
Recanto Renascer possuem vários pontos de alta atratividade e grande potencial
para a atividade interpretativa. Porém, as informações apresentadas estão
bastante limitadas, muito embora existam vários elementos ecológicos e sociais
que podem ser aproveitados, como, por exemplo, a estrada que existia no local e
que era um importante meio de deslocamento para os primeiros colonizadores da
região; a fauna que, mesmo não tendo uma visibilidade facilmente acessível,
deixa sinais de sua existência e diversidade; o rio Marrecas, que é utilizado no
abastecimento da área urbana do município de Francisco Beltrão; o uso do solo
existente anteriormente no local, o tipo de vegetação, solo, topografia, entre
outros.
Outro aspecto diz respeito à quantidade de pontos interpretativos nas
trilhas, que devem ser poucos, mas de maior relevância para a interpretação
ambiental. Os pontos de maior atratividade devem ser aproveitados; porém, para
que a atividade interpretativa seja menos maçante e mais atrativa, é preciso que a
distribuição entre os pontos permita ao visitante ter o tempo necessário para
receber as informações, refletir sobre elas e também contemplar o ambiente
visitado. Nessa perspectiva, considerando que na trilha da Estrada Velha existe

145
uma concentração entre os pontos de alta atratividade, é importante que os
pontos de média e baixa atratividade também sejam aproveitados.
Como as trilhas são autoguiadas, a melhor forma para o desenvolvimento
da atividade interpretativa é o uso de painéis ilustrativos. Alguns instrumentos
também podem contribuir para enriquecer a experiência vivenciada e o interesse
do visitante, como por exemplo, lupas e binóculos.
Espera-se que o levantamento realizado possa fornecer subsídios para o
aprimoramento da interpretação ambiental no local, já que o potencial das trilhas
como instrumento de educação ambiental encontra-se parcialmente explorado.

Referências
ANDRADE, W. J. de; ROCHA, R. F. Manejo de trilhas: um manual para
gestores. Instituto Florestal, São Paulo. 2008. 74 p.
COSTA, Vivian Castilho da. Proposta de Manejo e Planejamento Ambiental de
Trilhas Ecoturísticas: Um Estudo no Maciço da Pedra Branca - Município do
Rio de Janeiro (RJ). 2006. 325 f. Tese (Doutorado em Geografia) – UFR/ Rio de
Janeiro, Programa de Pós Graduação em Geografia, Rio de Janeiro, 2006.
IKEMOTO, S. M; MORAES, M.G; COSTA, V. C. Avaliação do potencial
interpretativo da trilha do Jequitibá, Parque Estadual dos Três Picos, Rio de
Janeiro. Sociedade & Natureza, Uberlândia, 2009, p. 271- 287.
MAGRO, T. C.; FREIXÊDAS, V. M. Trilhas: como facilitar a seleção de pontos
interpretativos. Circular Técnica IPEF. Piracicaba, n. 186, p. 4-10, 1998.
MOREIRA, Jasmine C. Geoturismo e Interpretação Ambiental. Ponta Grossa:
Editora da UEPG, 2011, 157p.
VASCONCELLOS, Jane M. de O. Trilhas Interpretativas: Aliando Educação e
recreação. Congresso Brasileiro de Unidade de Conservação. Curitiba: IAP,
1997, p. 468 – 477.
VASCONCELLOS, Jane M. de O. Educação e Interpretação Ambiental em
Unidades de Conservação. Cadernos de Conservação, ano 03, n. 4, dezembro,
2006. Fundação O Boticário de Proteção à Natureza.

146
CONVERSA NA SOMBRA DE UMA ÁRVORE:
CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS SOBRE SISTEMAS AGROFLORESTAIS (SAFs)

Maristela da Costa Leite


costa-maristela@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
Atualmente, as dificuldades em encontrar alternativas para proporcionar a
conservação dos recursos naturais, a produção de alimentos, assim como a
recuperação de áreas degradas, tornam-se desafios a serem enfrentados devido
à racionalidade econômica instituída na sociedade.
Os Sistemas Agroflorestais (SAF’s) podem ser considerados como uma
alternativa para esse processo. Caracterizados pelo cultivo de espécies agrícolas
com florestais em um mesmo espaço e tempo, possibilitam, quando bem
planejados e manejados, uma proposta interessante que pode aliar produção de
alimentos e conservação ambiental.
A proposta alternativa de SAF’s precisa ser mais trabalhada e difundida
para um maior esclarecimento quanto a esse tipo de uso do solo. Destacamos
que, no contexto dos SAF’s, surgem diferentes modelos, como propostas
inovadoras que buscam realmente uma diversificação das espécies nos
ambientes e existem linhas mais simples, que não visam à diversificação.
Nesse sentido, o presente trabalho tem por objetivo realizar uma discussão
teórica em relação aos SAF’s, principalmente no que diz respeito aos conceitos e
abordagens dos mesmos. Metodologicamente, foi realizada uma revisão
bibliográfica a fim de compreendermos quais são as discussões mais pertinentes
que vêm diferenciando os tipos de SAF’s; desta forma, destacamos alguns
autores que vêm se dedicando a essa temática, como Russo (2002), May (2008),
Lima (2008), Porro (2009), Altieri e Niccholls (2011) e Miller (2009).

Simplificação e complexidade: visões de mundo opostas nas discussões


sobre Sistemas Agroflorestais
Dada a importância da conceituação, destacamos alguns autores que
trabalham com a definição de SAF’s, para melhor esclarecer os termos
desenvolvidos.

147
Segundo Russo (2002, p. 76), os SAFs “[...] são sistemas de uso e manejo
do solo nos quais árvores ou arbustos são utilizados em associação com cultivos
agrícolas e/ou animais, numa mesma área, de maneira simultânea ou em uma
seqüência temporal”. Russo (2002), busca mostrar a importância de não confundir
um consórcio agrícola com uma agrofloresta, destacando, desta forma, pontos
relevantes em sua distinção.

[...] um sistema para ser classificado como agroflorestal deve incluir pelo
menos um componente florestal ou de origem florestal, sem que o
mesmo tenha sido objeto de um longo processo de domesticação e
melhoramento genético. No caso em que o componente arbóreo ou
arbóreo-arbustivo de determinado sistema de produção tenha passado
por tais processos, esse sistema é caracterizado como consórcio
agrícola (RUSSO, 2002, p.76).

De acordo com May (2008, p. 20), “[...] os SAFs são sistemas de uso da
terra nos quais espécies perenes lenhosas (árvores, arbustos, palmeiras e
bambus) são intencionalmente utilizadas e manejadas em associação com
cultivos agrícolas e/ou animais”. Assim como Russo (2002), May (2008, p. 20),
apresenta ressalvas quanto à denominação de sistema agroflorestal:

Um determinado consórcio pode ser chamado de agroflorestal na


condição de ter, entre as espécies componentes do consórcio, pelo
menos uma espécie tipicamente florestal, ou seja, uma espécie nativa ou
aclimatada, de porte arborescente ou arbustivo, encontrada num estado
natural ou espontâneo em florestas ou capoeiras (florestas secundárias).

Portanto, segundo May (2008, p. 20), nem sempre a componente árvore


acaba tornando um sistema como agroflorestal, pois existem algumas exceções,
sendo que,
No Bioma Mata Atlântica, muitas espécies florestais nativas são frutíferas
(por exemplo: a jabuticaba). Porém, fruteiras tais como abacateiro e
pessegueiro não são espécies florestais, o que podemos dizer que um
consórcio limitado a café e abacateiro não se torna um SAF; um
consórcio limitado a pessegueiro com cultivos agrícolas de ciclo curto
também não se caracteriza como um SAF, não obstante o fato de o
pessegueiro fornecer linda madeira de qualidade para assoalhos de luxo,
são cultivos perenes agrícolas. Consórcios agrícolas não são SAFs.
Diversos cipós ou plantas trepadeiras podem entrar na composição de
SAFs como componentes geradoras de renda (cipós com propriedades
medicinais, por exemplo).

Entre as conceituações, May (2008) destaca que no Brasil alguns


profissionais que trabalham com Sistemas Agroflorestais utilizam o termo “sistema
agrossilvipastoril” para designar os SAF’s no seu conjunto. Entretanto, de acordo

148
com este autor, isso não é correto. A palavra utilizada para designar as diversas
alternativas de uso agroflorestal da terra, no seu conjunto, é Sistemas
Agroflorestais.
Lima (2008, p. 8), também mostra suas contribuições para a definição da
agrofloresta, destacando que “[...] é uma mistura entre agricultura e floresta.
Neste sistema, as árvores são plantadas em associação com as lavouras e a
pecuária”. Essa mistura permite explorar racionalmente uma área, proporcionando
um equilíbrio entre a presença de árvores, animais e outras culturas.
Segundo Porro (2009), os SAF’s se apresentam como uma alternativa
produtiva e sustentável para os diversos contextos socioambientais. Possuem
características de proporcionar um manejo de recursos naturais, dinâmico e
ecológico que contribuem para uma maior diversidade biológica.
De acordo com Lima (2003), é através da Agrofloresta que se pode
imaginar uma agricultura associada a diversos tipos de plantas e animais em uma
mesma área e ao mesmo tempo. Quando bem planejada, essa associação quase
sempre resulta em uma exploração mais equilibrada sem degradar os elementos
naturais.
Altieri e Nicholls (2011), destacam que os sistemas agroflorestais
aumentam a multifuncionalidade da agricultura em muitas comunidades rurais,
contribuindo para a segurança alimentar e produtiva de muitas famílias e,
também, na proteção da biodiversidade.
Considerando essa abordagem conceitual que os autores apresentam em
relação aos SAF’s, apresentamos, também, uma abordagem no que diz respeito
aos modelos de SAF’s que vem sendo desenvolvidos/implantados; pois estão
sendo evidenciadas diferenças quanto à estrutura e diversidade, sendo que isso é
interferido através dos objetivos que se tem em relação aos SAF’s.
Segundo May (2008), os SAF’s têm sido classificados de diferentes formas,
através de sua estrutura e desenho conforme o espaço e o tempo. Sua
importância e função nos diferentes componentes do sistema, também variam.
Um fato importante que ocorreu quanto às discussões de SAF’s é
apresentado por Miller (2009). O autor destaca que, ao serem realizados
congressos pelo Brasil sobre Agroflorestas, no ano de 2000, em Manaus (AM),

149
ficaram evidentes algumas divergências que já vinham ocorrendo em outros
congressos entre os técnicos presentes em relação aos conceitos e expectativas
para os SAF’s. Essa diferença poderia ser descrita como uma divisão entre os
proponentes de SAF’s florestais/agroecológicos e SAF’s agronômicos.

Os SAFs se situam nesse limiar, no encontro dos dois mundos


eternamente em tensão, de um lado, a tendência simplificadora da
agricultura, e do outro, o acúmulo de biomassa, a complexidade e
interações que caracteriza a sucessão secundária e a formação de
florestas (MILLER, 2009, p. 556).

No Quadro 1, procuramos apresentar elementos diferenciadores dos SAF’s


agroecológicos/florestais e dos SAF’s agronômicos/convencionais.

Quadro 1-Principais diferenças entre SAFs agroecológicos/Florestais e SAFs


Agronômicos
Agroecológicos/Florestais Agronômicos/convencionais
Plantio adensado das árvores, Menor densidade e pouca
compondo várias espécies diversificação das espécies.
diversificadas;

Maior estabilidade ecológica e Menor acúmulo de matéria orgânica e


econômica, com rápido acúmulo de poucas espécies e interações no
matéria orgânica; sistema.

Maior flexibilidade para efetuar O produtor fica preso a um sistema


mudanças no sistema, conforme rígido, com a trajetória predeterminada
demandas de mercado por possuir e poucas possibilidades de evolução,
muitos produtos; por possuir poucos produtos.

Fonte: MILLER (2009). Org. LEITE, M. C. (2012).

Segundo Miller (2009), são nos sistemas mais adensados, característicos


da abordagem agroecológica, que se utilizam um número maior de espécies,
contribuindo, desta forma, para um maior equilíbrio ecológico.
Apesar de os sistemas mais complexos e diversificados serem mais
interessantes, podem ser também mais difíceis de manejar quando não se
conhece muito sobre as espécies. Já os sistemas muito simplificados, podem não
atingir os resultados esperados dos SAF’s, pois através deles podem ocorrer
erosões nos solos por haver espaços mais abertos (MEIRELLES, 2003).

Grande parte dos SAFs [...] têm sido implantados buscando interagir com
os princípios da agroecologia, potencializando a transição de modelos
simplificados para propostas complexas através de estratégias

150
participativas e sistêmicas, reconhecendo o potencial endógeno e
sociocultural local (MAY, 2008, p.23).

Cabe ressaltar, que sistemas com maior complexidade, muitas vezes,


podem gerar a imagem de competição entre as espécies, seja de iluminação
solar, absorção de nutrientes ou até mesmo de sombreamento. Nesse aspecto,
deve-se trabalhar a forma de manejo do sistema (MAY, 2008).
De acordo com Miller (2009), a diversidade de espécies pode gerar
benefícios muito mais eficazes do que os sistemas simplificados, pois podem
ocorrer equilíbrios biológicos no agroecossistema, contribuindo para que os
inimigos naturais não prejudiquem o sistema, mas colaborando com o mesmo.
Os debates sobre os SAF’s ainda não proporcionaram uma padronização
quanto aos termos utilizados pelos autores da área, visto que muitos têm criado
seus próprios termos, porém independente do termo utilizado, muitas
características de alguns SAF’s estão presentes em outros. No entanto, existem
diferenças de formas e estruturas de SAF’s, que vão depender dos objetivos que
se pretendem alcançar com as implantações.

Resultados/Discussões
A abordagem sobre SAF’s ainda requer um maior aprofundamento de
discussão. Buscamos apresentar algumas considerações mais pertinentes no que
diz respeito à temática, sendo que foi possível evidenciar principalmente duas
linhas de SAF’s que vêm se consolidando no sentido de implantações e
expectativas; linhas essas que, para além de modelos a serem implantados, nos
remete ao entendimento de que são visões de mundo opostas: uma da
simplificação e outra da complexidade, sendo que os mesmos vão interferir na
dinâmica dos ambientes assim como na dos sujeitos que estão envolvidos no
processo.

Considerações Finais
Em uma ampla discussão teórica que se tem sobre os SAF’s, buscamos
apresentar de forma sucinta alguns autores que vêm discutindo a temática. De
maneira geral, podemos considerar que ainda existe a falta de padronização das

151
terminologias de modelos de SAF’s que possuem similitudes quanto às suas
composições.
Apesar dessa carência de padronização, algumas abordagens têm
possibilitado uma discussão profunda quanto ao direcionamento dos SAF’s.
Poderíamos até chamar de dois caminhos que os SAF’s têm seguido - um
caminho da simplificação e outro da complexidade.
Da simplificação à complexidade, a abordagem agroflorestal percorre um
caminho em que as ideologias se opõem. De ambientes complexos, com altas
interações, dinâmico, proporcionando diversidade biológica, além de alimentar;
para ambientes simples, com pouca diversidade, estáticos, que, geralmente, são
SAF’s para um direcionamento apenas comercial.
Nesse contexto, cabe uma reflexão quando se usa o termo de SAF’s como
alternativa de conservação ambiental, produção de alimentos, recuperação de
áreas degradadas, ou até mesmo, para a sustentabilidade, pois existem diversas
abordagens sobre os SAF’s, que são diferentes e que precisam estar esclarecidas
para não ocorrer um mau uso do termo, ou seja, qual a abordagem de SAF está
sendo realizada.

Referências
ALTIERI, M.A e NICHOLLS, C.I. O potencial agroecológico dos sistemas
agroflorestais na América Latina. In: SCHMITT C, et al. Agriculturas - experiências
em agroecologia - Árvores na agricultura. Revista Agriculturas: experiências
em agroecologia. v. 8 n. 2 jun 2011. Disponível em:
<http://www.agriculturesnetwork.org/magazines/brazil>. Acesso em: 26.ago. 2011.
p. 31-34.
LIMA, J.F et al. Agrofloresta-Reconstruindo Paisagens Sustentáveis. Instituto de
pesquisas ecológicas. Ministério do Meio Ambiente. Teodoro Sampaio, SP. 2003.
MAY, P.H.; TROVATTO, C.M.M (Coord.). Manual Agroflorestal para a Mata
Atlântica. Ministério do Desenvolvimento Agrário, Brasília, 2008. p.196.
Disponível em: <www.mda.gov.br/portal/saf/arquivos/...Manual_Agroflorestal>.
Acesso em: 01.set. 2011.
MEIRELLES, L.R. Revista dos Sistemas Agroflorestais. Revista dos Sistemas
Agroflorestais-Centro Ecológico Litoral Norte-PDA/PPG7/MMA. 2003. Disponível
em:<http/www.mda.gov.br/portal/saf/arquivos>. Acesso em: 18.jul. 2011.

152
MILLER, Robert P. Construindo a complexidade: o encontro de paradigmas
agroflorestais. In: PORRO, Roberto. Alternativa agroflorestal na Amazônia em
transformação. Brasília-DF: Embrapa Informação Tecnológica, 2009, p.537-557.
PORRO Roberto. Expectativas e desafios para a adoção da alternativa
agroflorestal na Amazônia em transformação. In: PORRO, Roberto. Alternativa
agroflorestal na Amazônia em transformação. Brasília-DF: Embrapa
Informação Tecnológica, 2009, p. 33- 51.
RUSSO, Ricardo. Sistemas Agroflorestais. In: PROCHNOW, M. SHAFFER, W. A
mata atlântica e você: como preservar, recuperar e se beneficiar da mais
ameaçada floresta brasileira. Brasília: APREMAVI, 2002, p. 75-77.

153
FORMAS DE SEPULTAMENTOS UTILIZADAS NOS CEMITÉRIOS DO
PERÍMETRO RURAL DE FRANCISCO BELTRÃO-PR E SEUS RISCOS PARA
A SAÚDE DO HOMEM E DO MEIO AMBIENTE

Karise Cristofoli
karisecristofoli@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Rosana Cristina Biral Leme


rosanabiral@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
As áreas destinadas aos sepultamentos de corpos humanos fazem parte
de um acervo cultural e dizem respeito à memória que parte da sociedade
ocidental faz questão de perpetuar. Por esta razão cultural, fortemente vinculada
ao culto e ao respeito aos mortos, o questionamento a respeito do risco ambiental
provocado pelos cemitérios não faz parte de uma agenda de pesquisa muito
vigorosa na atualidade.
Apesar de não serem listados frequentemente como tal, os cemitérios
possuem risco potencial de contaminação ambiental, dada a quantidade de
necrochorume derivada da decomposição dos corpos após o sepultamento.
No município de Francisco Beltrão, o grande número de comunidades
rurais (de acordo com a prefeitura municipal, são oitenta e uma comunidades) e a
necessidade dos moradores do perímetro rural de enterrar seus mortos (além do
desejo destes últimos de serem enterrados onde iniciaram suas vidas e a falta de
conhecimento e controle dos riscos ambientais causados pelos cemitérios)
motivou a existência de um grande número de cemitérios na área rural do
município, totalizando cinquenta e um (51).
Sem conhecimento das leis e normas existentes para a implantação
desses cemitérios, todos eles se encontram, hoje, sem licença ambiental. Esses
foram criados de acordo com a necessidade da comunidade. Sem nenhum tipo de
instrução dos órgãos competentes, a comunidade organiza o cemitério da forma
como acredita ser melhor, assim como seleciona o tipo de sepultura, muitas
vezes, para realizar o desejo do falecido e não por ter orientações sobre quais
procedimentos técnicos deve adotar.

154
Diante disso, esse trabalho tem como objetivo apresentar os tipos de
sepulturas que são escolhidos, baseados na cultura, e praticados nesses
cemitérios, por meio da análise parcial do trabalho de campo realizado em
trinta e três (33) cemitérios do perímetro rural de Francisco Beltrão.
Uma vez que esses sepultamentos sejam realizados de forma inadequada,
eles podem ser considerados como atividade causadora de impacto ambiental
pelos riscos de contaminação para o meio ambiente e também para a saúde
humana.
O presente artigo está estruturado em duas partes: primeiro, apresentamos
uma breve descrição dos possíveis danos que a contaminação gerada pelo
necrochorume pode ocasionar; em seguida, apresentamos os tipos de sepulturas
mais utilizados nos cemitérios pesquisados. Esse estudo tem por intuito despertar
a atenção da sociedade para o risco evidente que as comunidades rurais correm
ao não estarem inseridas em um sistema de controle e orientação quanto aos
procedimentos ambientais necessários às práticas de inumação de cadáveres.

Riscos ambientais inerentes à prática de sepultamento


De acordo com Matos (2001), uma das formas de contaminação das águas
subterrâneas e do meio ambiente se dá através do necrochorume, que é o líquido
liberado no processo de putrefação do cadáver.
O necrochorume possui como principais características a cor acinzentada;
uma densidade maior que a água e cheiro fétido. Ele é formado por 60% de água,
30% de sais minerais e 10% de 471 substâncias orgânicas degradáveis, entre
essas, estão a Putrescina (C4H12N2) e a Cadaverina (C5H14N2), que são
consideradas dois venenos potentes.
A produção de necrochorume pode ser calculada a partir da proporção de
0,6 litros para cada quilo de massa corpórea do cadáver. Dessa forma, é possível
verificar que um corpo com 70 quilos pode gerar até 42 litros de necrochorume.
Durante a putrefação, são liberados gás sulfídrico (H2S), dióxido de
carbono (CO2), metano (CH4), amônia (NH3) e mercaptanas (composto que
contêm: enxofre, cadaverina e putrescina, os quais são responsáveis pelo cheiro
de carne podre), fosfirina (PH3), que é um hidrato de fósforo incolor e inflamável.

155
Além da quantidade elevada de bactérias: Clostridium tetani (causadora do
tétano), Clostridium perfringes (gangrena gasosa), Salmonella typhi (febre tifóide),
Salmonella paratyphi (febre parasitoide), Shigella dysenterigae (disenteria); e
alguns vírus, como os da Hepatite (SILVA E FILHO, 2009, p. 27).
Se as sepulturas não forem feitas de acordo com o Código de Saúde do
Paraná (Lei Nº 13331) e com o Código de Posturas de Francisco Beltrão (N°
3361/2007), ambos regulamentados pela Resolução Nacional do CONAMA nº
335, os cemitérios podem gerar sérios riscos para a saúde humana, por meio da
pluma de contaminação em contato com o lençol freático.

Tipos de sepultamentos existentes nos cemitérios rurais do município de


Francisco Beltrão
Quando acontece o falecimento de um integrante dessas comunidades do
perímetro rural do município, não é incomum que a própria família fique com a
responsabilidade do sepultamento. Entretanto, em alguns casos, nos quais na
comunidade existe melhor organização/estruturação das funções e serviços
coletivos, a família do indivíduo a ser sepultado conta com o serviço de membros
da comunidade que exercem as funções de “coveiro” e, também, para a
organização das exéquias fúnebres11.
Em todos os cemitérios do perímetro rural do município é usada a prática
de inumação em carneiro12 (Foto 1), que é definida pela Resolução do CONAMA
n°335, de 3 de abril de 2003, como uma unidade dos compartimentos para
sepultamentos existentes em uma construção tumular.

11
Rituais de preparação religiosa para o sepultamento.
12
O carneiro é a expressão utilizada formalmente para designar o modelo de sepultura construída
com concreto e vedada hermeticamente após a deposição do caixão.

156
Foto 1-Sepultura em carneiro

Fonte: Trabalho de campo realizado no cemitério da comunidade Rio


Guarapuava, no dia 21 de maio de 2013

De acordo com o Código de Posturas da Prefeitura de Francisco Beltrão,


Lei n°3361/2007, art. 155, as normas para as construções tumulares devem
seguir os seguintes padrões:

I. os subterrâneos não terão mais de 5,00m (cinco metros) de


profundidade.
II. as paredes, piso e teto serão feitos com material impermeável.
III. os subterrâneos serão ventilados no ponto mais elevados da
construção.
Parágrafo Único - Os nichos poderão ser construídos acima do nível do
solo e obedecerão ao seguinte:
I. serão hermeticamente fechados.
II. o material empregado será mármore, granito, ou concreto armado, ou
outros materiais
equivalentes, a juízo da repartição competente.
III. serão parte integrante da construção acima do solo.
(Grifo nosso).

Os carneiros devem, portanto, por força do legislado no Código de


Posturas Municipal, constituir-se enquanto sepulturas totalmente fechadas com
materiais impermeáveis, excetuando as construções subterrâneas que permitirão
a saída de materiais gasosos por abertura na parte superior da construção. O que
verificamos durante o trabalho de campo foram inúmeras situações nas quais os
responsáveis pela construção nas comunidades deixam uma abertura no piso, no
formato circular para drenagem dos líquidos. Quando questionados sobre qual a

157
razão desta abertura, muitos não souberam responder, enquanto outros
afirmaram que era para facilitar o processo de decomposição da matéria orgânica,
pois servia de “ralo”; e um dos responsáveis, quando perguntado, respondeu que
seria para “um fácil acesso da alma para encontrar o reino dos céus”, revelando
que, nestas situações, os critérios não são absolutamente vinculados às normas,
mas a aspectos culturais.
Em alguns cemitérios, mais organizados e com melhor planejamento do
uso do terreno, a falta de espaço, aliado à questão cultural, condiciona a
construção de sepulturas familiares, nas quais os indivíduos de uma mesma
família são inumados, após o falecimento, em jazigos constituído por gavetas de
concreto internas (Foto 2). Estas construções são popularmente conhecidas como
“casinha e/ou capela”.
De acordo com Resolução do CONAMA nº 335, de 3 de abril de 2003, este
tipo de sepultura é composto por compartimento destinado a sepultamento
contido por ser hermeticamente vedado.

Foto 2-Sepultura em jazigo

Fonte: Trabalho de campo realizado no cemitério da comunidade


Rio Tuna, no dia 22 de maio de 2013

Em alguns jazigos, a construção é realizada na parte subterrânea, em


forma de gavetas. Estas são, normalmente, dispostas em duas colunas com três

158
ou quatro compartimentos de inumação. Entre estas colunas existe o hábito de
construir-se, na parte visível, um pequeno altar, sob o qual se localiza o ossário13.

Foto 3-Sepultura em jazigo

Fonte: Trabalho de campo realizado no cemitério da


comunidade Rio Tuna, no dia 22 de maio de 2013

Em muitos cemitérios, ainda encontramos o tipo de sepultura diretamente


no solo. Durante o trabalho de campo, verificamos que este tipo de inumação é
vinculada a aspectos culturais e religiosos. Isso porque, em várias situações, os
depoimentos indicaram a subordinação da família ao desejo do ente falecido, que,
em razão da interpretação pessoal da passagem bíblica: "Você comerá seu pão
com o suor de seu rosto, até que volte para a terra, pois dela foi tirado. Você é pó,
e ao pó voltará" (Gênesis 3.19), externalizam a solicitação de que, após o
falecimento, seu sepultamento se dê diretamente no solo (Foto 4).
Neste caso, o sepultamento é feito em uma abertura no solo. De acordo
com os responsáveis pelos cemitérios, tal abertura possui, aproximadamente, um
metro de profundidade, e, nesta, o caixão é disposto diretamente na terra, sem
nenhum revestimento.

13
Na falta de gavetas para enterro, o corpo mais antigo é retirado por meio de exumação, e os
restos mortais (constituídos, normalmente, pela parte óssea) são dispostos neste ambiente,
geralmente localizado abaixo do altar do jazigo.

159
Foto 4-Sepultura direta no solo

Fonte: Trabalho de campo realizado no cemitério


da comunidade km 20, no dia 04 de junho de 2011

Em entrevista, o responsável pelo cemitério da comunidade Pio X (Km 20)


comenta que: “o grande problema desse tipo de sepultura é em época de chuva,
pois a terra pesa e muitas vezes faz quebrar a tampa do caixão, surgindo a
necessidade de acrescentar mais terra sobre a sepultura”. O entrevistado
demonstra, neste caso, uma preocupação com a característica externa da
sepultura, ou os desdobramentos que as intempéries climáticas normalmente
ocasionam neste tipo de sepultamento. Não comenta, em nenhum momento, o
risco de contaminação que o solo está sujeito, demonstrando, desse modo, a falta
de conhecimento quanto aos problemas advindos da contaminação por
necrochorume.
É importante ressaltar, que esta forma de sepultura também é adotada em
algumas comunidades pesquisadas por motivos econômicos, uma vez que esta
se torna a única opção para as famílias carentes, que não possuem condições
financeiras de fazer as outras formas de enterro. Pois, o pagamento dos
materiais, da construção e da mão-de-obra, é de responsabilidade da família.

160
Durante o trabalho de campo, verificou-se que a maioria das comunidades
se organiza recolhendo um pequeno valor14 para a constituição de um pequeno
fundo de recursos para a manutenção e limpeza dos cemitérios.

Considerações Finais
Os cemitérios podem causar sérios danos para o meio ambiente e,
principalmente, para a saúde do homem, se esses forem mal instalados e em
desacordo com as leis. Os principais riscos ambientais existentes são relativos à
contaminação do solo e da água proveniente do vazamento do necrochorume.
Verificou-se, por meio do trabalho de campo realizado, que 18% dos
cemitérios possuem dois tipos de procedimentos de inumação: o carneiro e o
sepultamento direto no solo. Apenas 12% dos cemitérios possuem, além dos dois
tipos de sepultamento citados, o sepultamento em jazigos.
Constatou-se que os responsáveis pelas construções tumulares e/ou os
responsáveis pela manutenção dos cemitérios não possuem nenhum processo de
formação que os alerte para aspectos técnicos, ambientais e sanitários
relacionados a tais funções.
Analisamos que a falta de formação, treinamento e/ou orientação dos
moradores das comunidades rurais, atrelada aos aspectos culturais, religiosos e
financeiros, facilitam a adoção de práticas de inumação que favorecem o risco de
ocorrência de contaminações ambientais.
Conhecer o potencial de contaminação ambiental destas áreas torna-se
salutar quando verifica-se que sua existência e má gestão podem provocar o
comprometimento da saúde dos sujeitos que trabalham neste ambiente e/ou
vivem nas suas adjacências.
A Universidade cumpre um papel fundamental neste sentido, auxiliando na
composição e elaboração de diagnósticos que proponham análises dos
problemas locais, levando em consideração um olhar mais técnico e objetivo
sobre as práticas frequentes no cotidiano.

14
Estes valores variam de uma comunidade para outra, bem como a periodicidade com que é
arrecadado.

161
Torna-se de fundamental importância despertar na população local o
resgate da capacidade de visualizar seus problemas e requerer mecanismos para
a sua correção.
É por meio do envolvimento da maior quantidade de pessoas possível que
ocorrerá a conquista de políticas públicas que poderão respaldar condições
ambientais mais adequadas para toda a sociedade. A Universidade tem
importante papel no processo de estímulo e fomento a este processo quando ela
apresenta leituras esclarecidas quanto à articulação das escalas locais e globais
de atuação e de desdobramentos, bem como evidencia onde os problemas
ambientais ocorrem e quais são seus responsáveis diretos e indiretos.
Neste contexto, consideramos imprescindível a inserção de controle e
orientação por parte da gestão municipal vinculados às Secretarias de Saúde e de
Meio Ambiente, uma vez que a pesquisa revela grande urgência de um trabalho
de conscientização com os responsáveis dessas comunidades rurais.
Diante de tudo isso, e também da fragilidade nas práticas desenvolvidas
nessas comunidades que possuem cemitério, a saída visível para esse problema,
sem romantismo e utopias, é através da educação ambiental. Passando
informações, baseadas nas leis e códigos de posturas da cidade, com medidas
para amenizar todo o dano que um cemitério pode causar para a comunidade.

Referências
FRANCISCO BELTRÃO – PR. Código de Posturas do Município de Francisco
Beltrão. Lei n° 3361/2007.
RESOLUÇÃO CONAMA nº 335, de 3 de abril de 2003. Publicada no DOU n° 101,
de 28 de maio de 2003, Seção 1, p. 98-99.
MATOS B. A.; PACHECO A. Avaliação da Ocorrência e do Transporte de
Microrganismos no Aqüífero Freático do Cemitério de Vila Nova
Cachoeirinha, Município de São Paulo. Tese de Doutoramento – Programa de
Pós Graduação em Recursos Minerais e Hidrogeologia - Universidade de São
Paulo – Instituto de Geociência. São Paulo – SP, 2001.
SILVA, Robson Willians da Costa; FILHO, Walter Malagutti. Cemitérios Fontes
Potenciais de Contaminação. Geologia Ambiental, Ciência Hoje, pág. 24-29, vol.
44, n° 263, 2009.

162
IDENTIFICAÇÃO DENDROLÓGICA NA TRILHA ECOLÓGICA ESTRADA
VELHA NO RECANTO RENASCER EM FRANCISCO BELTRÃO-PR

Anderson Gibathe
andersongibathe5@gmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
A estreita relação entre a espécie humana e os ambientes naturais pode
ser observada em toda a história da humanidade; entretanto, o uso de áreas
verdes para a realização da prática de turismo caracteriza-se enquanto
movimento relativamente atual no Brasil.
As áreas destinadas às atividades turísticas particularizam-se, de acordo
com Silva (et. al. 2012), por sua capacidade de destacar a cultura e a diversidade
natural de uma região, proporcionando a conservação e a manutenção do
patrimônio histórico, cultural e natural.
Dentre a recente organização de áreas turísticas na Mesorregião Sudoeste
do Paraná, destaca-se o turismo vinculado ao resgate e à conservação dos
aspectos culturais e à conservação e recuperação dos elementos naturais
regionais15. No que tange à conservação e ao resgate do patrimônio natural,
evidenciamos, neste artigo, o Recanto Renascer, localizado na Comunidade
Linha Água Vermelha, na área rural de Francisco Beltrão-PR.
Essa propriedade possui tanto atrativos paisagísticos vinculados à beleza
cênica, quanto aspectos referentes ao potencial educativo, o que a aproxima de
professores e pesquisadores que desejam e/ou requeiram ambientes propícios ao
desenvolvimento de trabalhos de educação ambiental nas escolas e/ou
comunidades.
Um dos principais ambientes educativos das áreas turísticas destinadas à
educação ambiental é a trilha ecológica. A trilha ecológica é um importante
instrumento metodológico e pode, de acordo com o objetivo do projeto
desenvolvido, possuir diversas aplicações, dentre as quais destacamos o contato

15
De acordo com a técnica da Emater, Sueli Baldo, que coordena o projeto turístico no município
de Francisco Beltrão “Pelos Caminhos do Marrecas”, os aspectos culturais e do patrimônio natural
mais evidenciados na região Sudoeste são a culinária, as belezas paisagísticas naturais e o
interesse religioso (Jornal de Beltrão, 2010).

163
e conhecimento de espécies da flora que compõem a fisionomia da vegetação
regional.
Considerando este contexto, o presente artigo visa analisar a Trilha
Ecológica da Estrada Velha, localizada no Recanto Renascer, a partir de um
levantamento dendrológico, apontando os aspectos ecológicos do local e
curiosidades sobre os indivíduos analisados, considerando as espécies arbóreas
distribuídas ao longo da trilha de acordo com critérios previamente estabelecidos,
favorecendo o uso do local para práticas de educação ambiental.
A principal metodologia utilizada é a classificação das espécies pautada em
revisão bibliográfica específica, bem como na coleta e sistematização de dados
de um indivíduo de cada espécie localizada nas margens ao longo da extensão
da trilha.
O estudo das espécies arbóreas nativas existentes em determinada área é
importante para a geração de informações sobre biodiversidade e conservação de
ecossistemas naturais, motivando a conservação ambiental por meio do
conhecimento das espécies existentes.
O artigo está estruturado em duas etapas: a primeira referente a
apresentação do material e procedimentos metodológicos e a segunda com a
apresentação e discussão dos resultados. Almeja-se que esta estrutura possa
favorecer e estimular o uso destes resultados em outras pesquisas sobre a
mesma temática.

Localização e caracterização da Trilha Estrada Velha


A trilha Estrada Velha é uma das duas trilhas existentes no Recanto
Renascer. O recanto localiza-se na Linha Água Vermelha, área rural de Francisco
Beltrão-PR, sendo um atrativo de turismo rural e uma propriedade da agricultura
familiar.
A propriedade é estruturada com espaço para refeições, churrasqueiras,
bosque, rio com opção de pesca e duas trilhas ecológicas de exuberante beleza
cênica: A Trilha dos Sentidos e a Trilha da Estrada Velha.
A Trilha Ecológica Estrada Velha tem aproximadamente 1.500 metros de
comprimento, inicia nas proximidades de um campo de futebol na parte mais alta

164
do terreno, adentra uma área de floresta e termina na parte mais baixa do terreno,
na margem direita do Rio Marrecas, considerando o sentido de jusante à
montante. Em seu percurso são encontradas espécies arbóreas que se
desenvolvem em ambientes mais secos e em mata ciliar, as quais podem ser
observadas em toda a trilha, sendo algumas centenárias e raras.
O local está inserido no Bioma Mata Atlântica, subclassificação Floresta
Ombrófila Mista e apresenta dezenas de espécies arbóreas nos estágios
sucessionais, floresta secundária tardia e clímax, caracterizando a sua
conservação ambiental.
As trilhas adentram áreas de floresta conservada, onde é possível a
observação de dezenas de espécies arbóreas de relevante valor ecológico,
considerando porte, raridade e abundância.

Procedimentos Metodológicos
A primeira etapa realizada para o cumprimento do objetivo da pesquisa foi
a revisão bibliográfica. Para tanto, utilizamo-nos da pesquisa bibliográfica
referentes a utilização de trilhas para elaboração de Educação Ambiental sobre os
quais nos baseamos em Silva (et.al., 2012) bem como em Mendes, Souza, e
Tabanez (2007). No que tange aos aspectos referentes às características da
mesorregião e do turismo familiar consultamos Fraga (2009) e Candiotto (2013).
Nos assuntos atinentes à identificação de espécies arbóreas brasileiras, nos
baseamos em Carvalho (2003) e Lorenzi (2000). Especificamente nos conteúdos
inerentes a dendrometria e inventário florestal brasileiro, a principal referência
bibliográfica foi Soares, Neto, Souza (2012) e Saueressig (2013).
As árvores foram escolhidas conforme os critérios: proximidade da trilha,
singularidade e porte. Os indivíduos foram identificados (nome vulgar, nome
científico e família), medidos (considerando os parâmetros CAP – circunferência a
altura do peito e posterior obtenção do DAP – diâmetro a altura do peito) e
marcados na parte inferior de cada árvore com a numeração idêntica à da tabela
onde foram anotados os dados.
Foram utilizadas as ferramentas: podão, fita métrica, facão e tinta spray
para a execução do trabalho.

165
Os dados coletados em campo foram organizados em uma planilha do
Excel, contendo colunas com as seguintes informações: número de cada árvore,
nome vulgar, nome científico, família, circunferência a altura do peito e diâmetro à
altura do peito. Em seguida, essas informações foram analisadas de acordo com
os critérios estabelecidos.
A identificação das espécies e famílias foi feita com base no conhecimento
prévio sobre o assunto, com apoio do Sistema de Identificação Dendrológica On
Line – SIDOL (disponível no site: www.florestaombrofilamista.com.br) e dos livros:
Árvores Brasileiras – Vol. I, do autor Harri Lorenzi e Espécies Arbóreas Brasileiras
– Volume I, do autor Paulo Ernani de Ramalho Carvalho.
A medição do diâmetro à altura do peito (DAP) foi extraída a partir da
fórmula DAP = CAP/π, sendo que o valor de CAP foi extraído em campo a partir
da circunferência à altura do peito, com o uso de fita métrica.

A preferência da altura do peito como referência de altura tem duas


razões:
a) À altura do peito, os instrumentos de medição de diâmetro são
facilmente manuseados.
b) Em muitas árvores, as deformações, normalmente presentes na
base do fuste das árvores e que dificultam a medição dos diâmetros e
introduzem erros nas estimativas das áreas seccionais, estão bem
reduzidas à altura do peito (SOARES; NETO; SOUZA, 2011, p.29).

Baseando-se no Sistema Internacional de Unidades – SI, no Brasil, o


padrão para cálculo do DAP é o valor da medição feita a 1,30 m acima do nível do
solo. O valor obtido é importante para a determinação do porte da árvore, área
ocupada e para a estimativa de idade.

Discussão e Resultados
Diferentes autores, afirmam a grande importância das trilhas enquanto
mecanismo didático e metodológico para a compreensão e o processo formativo
de cidadãos ambientalmente mais atentos a práticas e usos dos recursos
naturais. Destacamos a função da trilha Estrada Velha enquanto importante
mecanismo de reconhecimento e aproximação dos sujeitos e usuários das
espécies vegetais e de seu significado para a compreensão da composição da
fisionomia vegetal regional.

166
Segundo Mendes (apud SILVA, 1996, p. 174), “A trilha de interpretação em
área silvestre tem vantagens como permitir aos visitantes apreciar os aspectos
naturais em seu próprio ambiente e representar uma experiência recreativa”.
Dessa forma, se fazem necessárias a identificação e a colocação de placas
informativas sobre as espécies ali encontradas, proporcionando aos visitantes a
oportunidade de conhecer as espécies ali presentes e despertando o interesse
pela conservação da biodiversidade.
A identificação da espécie, família e do diâmetro das árvores da trilha é
importante para aprofundar o conhecimento do indivíduo estudado e sua espécie,
tendo em vista que cada espécie apresenta comportamentos diferentes em uma
floresta, como tamanho, ciclo de vida, forma e crescimento. Por esse motivo, uma
das principais estruturas existentes em uma área turística é constituída por trilhas
ecológicas, que podem ser aplicadas em atividades de Educação Ambiental.
Situada no Bioma Mata Atlântica, o qual é protegido pela Lei 11.428/2006,
“[...] a formação Floresta Ombrófila Mista é uma unidade fitoecológica onde se
contempla a coexistência das floras tropical (afro-brasileira) e temperada (austro-
brasileira)” (RODERJAN et al, 2002). Esta formação também é chamada de mata
com Araucárias, devido à existência da espécie Araucaria angustifolia, típica da
região Sul do Brasil e que se destaca pelo porte e pelas características de
conífera em meio às espécies folhosas.
As florestas estão cada vez mais escassas no Estado do Paraná, incluindo
as matas com araucárias. De acordo Sema (apud BLUM, 2003, p.01), “[...]
florestas clímax ocupavam aproximadamente 85% de todo o seu território e que
hoje cobrem apenas cerca de 3,4% deste”. A respeito da Floresta Ombrófila
Mista, segundo Mack (apud FRAGA, 2009, p.266), “[...] em 1930 a área de
Araucaria angustifolia era de aproximadamente 3.958.000 ha e, atualmente, está
reduzida a nada mais que 326.620 ha”.
Na Trilha Ecológica da Estrada Velha foram analisados noventa e seis
indivíduos do início ao final do percurso, os quais pertencem a trinta e quatro
espécies de vinte e uma famílias botânicas, das quais trinta são conhecidas e três
ainda não foram identificadas. Em alguns indivíduos foi identificado somente o
gênero, não sendo possível a identificação da espécie, considerando que são

167
árvores caducifólias, ou seja, que perdem suas folhas durante o inverno ou não
estão na época de frutificação, sugerindo novas coletas em outras épocas do ano.
A família que mais apresentou espécies foi a Lauraceae, apresentando as
seguintes espécies: Canela de Cheiro (Nectandra grandiflora), Canela Loura
(Ocotea diospyrifolia), Canela (Ocotea sp), Canela Fogo (Cryptocarya
aschersoniana) e Canela Amarela (Nectandra lanceolata), sendo que segundo
Carvalho (2003), estas espécies se desenvolvem nas florestas no estágio
sucessional clímax e secundário, caracterizando a conservação da área
estudada.
Não foram encontradas espécies exóticas invasoras no porte das árvores
analisadas, confirmando a conservação da floresta nativa nas últimas décadas, o
que se traduz num importante indicador de conservação da biodiversidade.
O indivíduo com maior diâmetro é da espécie Sloanea monosperma, da
família Ealeocarpaceae com 116,18 centímetros de DAP, conhecida vulgarmente
por Carrapicheira, Siparuna e Sapopema. Segundo Carvalho (2003), a espécie
ocorre em áreas de floresta secundária tardia. A espécie chama a atenção ainda
por sua altura, pelo formato irregular de seu tronco e pela enorme quantidade de
espécies epífitas abrigadas.
A maior parte das espécies encontradas no decorrer da trilha produzem
frutos que são apreciados pela avifauna, sendo citadas por Carvalho (2003) a
Guabirobeira (Campomanesia xanthocarpa), Capoteiro (Campomanesia
guazumifolia), Miguel Pintado (Matayba elaeagnoides), Cuvatan (Cupania
vernalis), Vacum (Allophylus edulis), Canela Fogo (Cryptocarya aschersoniana),
Guaçatunga (Casearia sp), Pessegueiro Bravo (Prunus brasiliensis), Tarumã
(Vitex megapotamica), Cerejeira (Eugenia involucrata), Ariticum Preto (Annona
cacans) e Capororoquinha (Myrsine ferruginea). Essas espécies favorecem a
preservação de espécies de pássaros e possibilitam a atividade de observação
para os visitantes nas épocas do ano em que as árvores estão em frutificação. A
disponibilidade de frutos ainda atrai outras espécies da fauna, cumprindo assim
sua função ecológica. Outra função interessante das árvores analisadas é de
servir de abrigo para a fauna. Em diversos indivíduos observou-se a presença de

168
fustes ocados e em três árvores observou-se a presença de abelhas nativas
abrigadas.
Considerando que a área é explorada para a prática do turismo, destaca-se
a relevância das espécies encontradas para a beleza cênica do local. As espécies
analisadas destacam-se pelo seu porte, raridade, forma e pela atração de
avifauna. As araucárias de grande porte impressionam pelo seu destaque entre
as demais espécies (folhosas). As sapopemas (Sloanea monosperma), que se
constituem nas maiores árvores analisadas destacam-se pelo seu porte, tendo um
exemplar cuja circunferência atingiu mais de quatro metros. As espécies da
família Lauraceae destacam-se pela raridade e pela idade das mesmas,
considerando que possuem DAP considerável (boa parte acima de 30 cm) e
crescimento lento.

Considerações Finais

Na mesorregião Sudoeste do Paraná, embora exista grande vínculo entre


os ciclos econômicos e a exploração dos recursos naturais, a utilização das áreas
verdes com finalidade contemplativa caracteriza-se como fenômeno muito
contemporâneo, começando a criar maior expressão em alguns municípios do
Sudoeste apenas no final da década de noventa16.
A adesão do turismo enquanto uma atividade em consolidação na região
advém não apenas da busca de preservação e estreitamento da relação
sociedade-natureza, mas, sobretudo, enquanto resposta à necessidade
econômica dos pequenos proprietários rurais em viabilizar suas propriedades por
meio de produções não agrícolas. Os motivos iniciais, entretanto, não
desestruturam os importantes resultados advindos das atividades turísticas,
sobretudo, daqueles vinculados à preservação e recuperação de espécies.
A construção de trilhas em áreas turísticas está vinculada a valorização da
vegetação, principalmente, da diversidade e do grau de conservação das
espécies que a constituem. Por esse motivo, são constantemente utilizadas em
atividades de educação ambiental.
16
Conforme relatam a reportagens realizadas com pioneiros neste setor no município de
Francisco Beltrão e região (JORNAL DE BELTRÃO, 2010 e ASSOCIAÇÃO EMPRESARIAL DE
FRANCISCO BELTRÃO, 2012).

169
A identificação dendrológica realizada na trilha ecológica Estrada Velha no
Recanto Renascer em Francisco Beltrão-PR, demonstra um conjunto de
características que podem ser exploradas de modo sustentado.
Avalia-se que a área encontra-se ambientalmente conservada com rica
diversidade de árvores, apresentando condições para o desenvolvimento de
atividades de educação ambiental e ecoturismo por meio de trilha interpretativa.
O trabalho realizado sugere a colocação de placas de identificação nas
árvores estudadas facilitando a identificação das mesmas por parte dos visitantes,
favorecendo assim, seu uso enquanto um instrumento de educação ambiental.

Referências

ASSOCIAÇÃO EMPRESARIAL DE FRANCISCO BELTRÃO. Pelos caminhos do


Marrecas. In: Revista do Empresário. Ano 6, n28, set/out 2012. p.10-11.
Endereço de acesso: <http://issuu.com/acefb/docs/revista_28>. Acessado em:
09.out.2013.
BLUM, C.T. Reserva Florestal Legal no Paraná, alternativas de recuperação e
utilização sustentável. Disponível em:
<http://www.biodiversidade.rs.gov.br/arquivos/1161520168Reserva_florestal_legal
_no_Parana_alternativas_de_recuperacao_e_utilizacao_sustentavel.pdf.> Acesso
em: 13.out.2013.
BRASIL. Lei 11.428. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11428.htm.>
Acesso em: 03.out.2013.
CARVALHO, Paulo Ernani R. Espécies Arbóreas Brasileiras. Vol.1 Brasília:
Embrapa Informação Tecnológica. 2003. 1039 p.
CANDIOTTO, Luciano Zanetti Pessoa. O discurso da viabilidade do turismo rural
na agricultura familiar: o programa nacional de turismo rural na agricultura familiar
(PNTRAF) e o papel do estado do Paraná no contexto. In: CULTUR – revista de
Cultura e Turismo. Ano 07 - nº 02 - Jun/2013. p.111 -131. Endereço eletrônico:
<www.uesc.br/revistas/culturaeturismo>. Acesso em: 06.out.2013.
FRAGA, Nilson C. (Org). Contestado: o território silenciado. Florianópolis: Ed.
Insular. 2009. 288 p.
JORNAL DE BELTRÃO. 1ª Semana da Culinária Rural envolve propriedades dos
'Caminhos do Marrecas. In: Jornal de Beltrão. Francisco Beltrão. 19/10/2010.
Endereço de acesso: http://www.jornaldebeltrao.com.br/beltrao/1a-semana-da-
culinaria-rural-envolve-propriedades-dos-caminhos-do-marrecas-55916/ Acesso
em: 09. out.2013.

170
LORENZI, Harri. Árvores Brasileiras. Vol. I, 3ª Edição Nova Odessa: Instituto
Plantarum, 2000. 352 p.
MENDES, Adriana F.; SOUZA, Sônia A.; TABANEZ, Marlene F. A Trilha
Interpretativa das Árvores Gigantes do Parque Estadual de Porto Ferreira na
Modalidade de Autoguiada. Revista Instituto Florestal, São Paulo, v. 19, n. 2, p.
173-188. Dez. 2007.
SAUERESSIG, Daniel. Sistema de Identificação Dendrológica Online. Disponível
em: <http://www.florestaombrofilamista.com.br/sidol/.> Acesso em: 03.out.2013.
SILVA, Mirele Milani. ALMEIDA NETTO, Tatiane. AZEVEDO, Leticia Fatima.
SCARTON, Laura Patricia. HILLIG, Clayton. Trilha ecológica como prática de
educação ambiental. In: Revista Eletrônica em Gestão, Educação e
Tecnologia Ambiental. Santa Maria: REGET/UFSM. V(5), n°5, 2012. p. 705-
719.
SOARES, Carlos P. B.; NETO, Francisco de P.; SOUZA, Agostinho L.
Dendrometria e Inventário Florestal. Viçosa: Editora UFV, 2012. 272 p.

171
ANALISANDO O USO DO SOLO E A COBERTURA FLORESTAL
NO SUDOESTE DO PARANÁ A PARTIR DE DADOS DO IBGE

Patrícia Fernanda Derlan


patrícia.derlan@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
Considerando que na mesorregião sudoeste do Paraná ainda existem
áreas florestadas em boa quantidade, bem como diversas atividades agrícolas e
agropecuárias, sentimos a necessidade de investigar os dados do último censo
agropecuário (2006) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), com
o intuito de analisar a configuração do uso do solo na região. Tais dados
permitem apreender as formas de uso e as atividades agropecuárias mais
relevantes na região.
Na Geografia e em outras áreas da ciência, os dados são fundamentais
para a realização de qualquer pesquisa, seja ela qualitativa ou quantitativa. Além
dos dados produzidos diretamente pelos pesquisadores, chamados de dados
primários, as fontes de dados secundárias, ou seja, os dados disponíveis nas
mais diversas instituições públicas apresentam-se como fontes de suma
importância para se analisar fenômenos sociais, econômicos, ambientais, entre
outros. Ferreira e Simões (1987) ressaltam a utilidade dos dados estatísticos para
as pesquisas em Geografia.
De acordo com o IBGE, a Mesorregião Sudoeste do Paraná conta
atualmente com 37 municípios, agrupados em três microrregiões. A primeira delas
denomina-se Microrregião de Capanema onde estão inseridos 8 municípios.Todo
o território dessa microrregião equivale à 2.317,393 km². A Microrregião de
Francisco Beltrão é a maior em termos de área (5.451,476 km²) e em número de
municípios, totalizando 19. Já a Microrregião de Pato Branco ocupa 3.883,072
km² e é composta por 10 municípios. Desta forma, a Mesorregião Sudoeste do
Paraná possui uma área territorial de 11.651,941 Km2, havendo grande
discrepância nas dimensões territoriais dos municípios, visto que, o menor
município em termos de área é Pinhal de São Bento (97,464 km²) e o maior é
Chopinzinho (959,695 km²).

172
Materiais e Métodos
Para a execução da pesquisa foram utilizados dados do censo
agropecuário de 2006 do IBGE, presentes na plataforma IBGE cidades. Esses
dados foram coletados, tabulados e analisados, gerando uma interpretação sobre
a situação do uso do solo dos 37 municípios que compõem a Mesorregião
Sudoeste do Paraná. Os dados também foram divididos entre as três
microrregiões do Sudoeste, de modo que foram produzidas tabelas e gráficos
para facilitar o processo de análise. Também pudemos analisar outros dados,
como de população, produção agrícola, etc.
Para analisar os estabelecimentos rurais, optamos por trabalhar somente
com os estabelecimentos de proprietários individuais. Considerando todo o
Sudoeste paranaense, existem 44.870 estabelecimentos rurais de propriedade
individual. Assim, de acordo com o censo agropecuário de 2006, o total de
estabelecimentos rurais individuais da Microrregião de Capanema era de 12.594,
enquanto na Microrregião de Francisco Beltrão era de 22.182, e na Microrregião
de Pato Branco, de 10.094.

Resultados e Discussão
Para analisar as florestas naturais na Mesorregião Sudoeste do Paraná,
interpretamos em conjunto as florestas naturais em áreas de preservação
permanente e reserva legal e fora de áreas de preservação permanente e reserva
legal. Segundo os dados do censo agropecuário de 2006, existiam 165.065
hectares de florestas naturais na mesorregião Sudoeste do Paraná, ou seja,
14,2% de sua área total. Na Microrregião de Capanema, existiam em 2006,
38.638 hectares de floresta natural, correspondendo a 16,7% da área total. A
Microrregião de Francisco Beltrão possuía 75.698 hectares (13,9%), e a
Microrregião de Pato Branco, 50.729 hectares de florestas naturais (13,1% da
área total).
As florestas plantadas, que correspondem às florestas da silvicultura, se
apresentam em menor quantidade. Em toda a Mesorregião Sudoeste, existiam
em 2006, 12.764 hectares de florestas plantadas, ou seja, 1,1% da área total. Na
Microrregião de Capanema eram 706 hectares (0,3% da área total); na de

173
Francisco Beltrão, 9.701 hectares (1,8% da área total); e na de Pato Branco,
2.357 hectares de florestas plantadas (0,6%).
Além das florestas naturais e plantadas, o IBGE também utiliza a classe
denominada Sistemas Agroflorestais (SAFs), que correspondem às áreas que
possuem espécies arbóreas, que podem ser combinadas com atividades pastoris
ou mesmo agrícolas. Considerando toda a Mesorregião Sudoeste, existiam em
2006, 10.964 hectares de SAFs (0,94% da área total). Na Microrregião de
Capanema, existiam 2.877 hectares de SAFs (1,2% da área total). Na
Microrregião de Francisco Beltrão, 5.067 hectares (0,9%), e na Microrregião de
Pato Branco, 3.020 hectares de SAFs (0,8%).
Lavouras permanentes são áreas onde existe o cultivo de plantas de longa
duração, a exemplo de árvores frutíferas (laranja, banana), café, entre outras.
Elas são pouco comuns na Mesorregião Sudoeste, haja vista que a maior parte
da atividade agropecuária está concentrada na produção de milho, soja e trigo
(lavouras temporárias) e de leite (pastagens). Desta forma, o Sudoeste
paranaense tinha em 2006, 21.346 hectares de lavoura permanente (1,8% da
área total). A Microrregião de Capanema apresentava os menores números dessa
variável, com apenas 3.191 hectares de lavouras permanentes (1,4%). Em
contraposição, a Microrregião de Francisco Beltrão expressa os maiores números,
sendo 13.666 hectares (2,5%). Na Microrregião de Pato Branco, existiam 4.489
hectares ocupados com lavouras permanentes, correspondente a 1,2% da área
total.
Já lavouras temporárias, são áreas onde o cultivo é de plantas com seu
ciclo de vida curto, como os grãos. Na mesorregião Sudoeste, existiam em 2006,
414.956 hectares de lavouras temporárias (35,6% da área total). Na Microrregião
de Capanema, encontra-se o menor número da variável, sendo 93.180 hectares
de área ocupada com lavouras temporárias (40,2%). A Microrregião de Francisco
Beltrão, em decorrência do maior território, detinha 171.464 hectares de lavouras
temporárias (31,5% da área total); e a Microrregião de Pato Branco, 150.312
hectares (38,7% da área total).
Em termos de lavouras, àquelas destinadas ao plantio de espécies
forrageiras (utilizadas para a alimentação de animais durante o inverno ou para

174
recuperar nutrientes do solo), são as menos significativas. Os dados totais para a
Mesorregião Sudoeste em 2006 eram de 8.484 hectares (0,7% da área total). Na
Microrregião de Capanema existiam 1.380 hectares de lavouras com forrageiras
(0,6%); na de Francisco Beltrão, 5.378 hectares (1%); e na de Pato Branco, 1.726
hectares (0,4%).
Em virtude da importância da pecuária leiteira na Mesorregião Sudoeste,
as áreas de pastagens (naturais e plantadas) também ocupam boa parte dos
solos. Quando somadas as áreas de pastagens naturais com as de pastagens
plantadas, tem-se 287.608 hectares ocupados com pastagens no Sudoeste
paranaense, correspondente a 24,7% de sua área total. As pastagens naturais
ocupavam em 2006, 99.941 hectares (8,6% da área total). Na Microrregião de
Capanema, havia 18.196 hectares (7,85% da área total da microrregião); na de
Francisco Beltrão 55.465 hectares de pastagens naturais (10,2%); e na de Pato
Branco, 26.280 hectares (6,8%).
Em relação às pastagens plantadas, consideramos os dados de pastagens
plantadas em boas condições e pastagens plantadas degradadas em conjunto. O
Sudoeste paranaense possuía em 2006, 187.667 hectares ocupados com
pastagens plantadas, correspondente a 16,1% de sua área total. A Microrregião
de Capanema apresentava 41.596 hectares (18% de sua área total); a de
Francisco Beltrão 100.568 hectares (18,5%); e a de Pato Branco, 45.503 hectares
(11,7%) de sua área total. Portanto, ao somarmos o total de hectares ocupados
com atividades agrosilvopartoris e com florestas naturais na Mesorregião
Sudoeste Paranaense com base nos dados do censo agropecuário de 2006,
percebemos que 79% do território sudoestino estava, no referido ano, ocupado
com tais atividades. Os 21% restantes, estavam ocupados por áreas urbanas,
construções e benfeitorias em áreas rurais e por áreas com água (rios, açudes,
represas).

Conclusões
Os dados acima indicam que ainda há um percentual significativo de
florestas naturais no Sudoeste, se comparados com outras regiões paranaenses e
do Sul do Brasil. No entanto, há que se considerar também que o processo de

175
ocupação territorial nessa mesorregião é recente, ou seja, foi intensificado há
cerca de 50 anos. Esses remanescentes florestais naturais poderiam ser
utilizados para atividade conservacionistas, como manejo agroflorestal,
extrativismo, criação de unidades de conservação, atividades de lazer e turismo,
entre outras. Isso permitiria contestar a visão de que as áreas florestais são áreas
perdidas e economicamente inviáveis, contribuindo para a manutenção dessas
florestas. Os dados também indicam a relevância do cultivo de grãos e da
produção de leite no Sudoeste, conforme já comentado. Por outro lado, indicam
também que o cultivo de frutas e outras espécies permanentes, assim como o de
flores poderia ser incentivado, sobretudo em estabelecimentos rurais de
agricultores familiares.

Referências
IBGE. Censo agropecuário de 2006. Base de dados do IBGE cidades.
Disponível em: <www.ibge.gov.br/cidadesat>. Acesso: 01. ago. 2012.
FERREIRA, Conceição Coelho; SIMÕES, Natércia Neves. Tratamento
Estatístico e Gráfico em Geografia. Lisboa: Gradiva, 1987.

176
O PÉLETE COMO ENERGIA ALTERNATIVA
NO AQUECIMENTO DE AVIÁRIOS

Veridiane Camargo da Silva


verisilvaesilva@gmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
A busca por formas alternativas de energia tem mostrado significativo
crescimento nos dias atuais, não só por conta da ameaça de esgotamento das
reservas dos combustíveis fósseis para o setor energético mundial, mas também
pela tendência crescente de revalorização da natureza e de seus recursos. Esta
busca apresenta-se como uma necessidade urgente no contexto socioambiental,
uma vez que os impactos da cadeia produtiva no Brasil criam circunstâncias
adversas não somente para o meio ambiente, mas também para a sociedade.
No Brasil, e mais precisamente na região sudoeste do Paraná, o setor
avícola é uma das atividades que demandam grandes quantidades de energia em
distintas etapas de sua produção. Esta demanda energética tem contribuído de
forma significativa para os desmatamentos que ocorrem nessa região, já que um
dos combustíveis utilizados para o processo de aquecimento dos aviários é a
lenha nativa.
Considerando estes fatos temos a seguinte problemática: a avicultura é
uma atividade econômica que necessita aquecer as aves. Os aviários geralmente
são aquecidos com lenha e boa parte dessa lenha é retirada de árvores nativas
dos remanescentes florestais. Portanto, partimos da hipótese de que a demanda
por lenha para aquecer os aviários é grande e vem contribuindo para o
desmatamento dos remanescentes de Mata Atlântica na região Sudoeste do
Paraná e especificamente no município de Francisco Beltrão, conforme já
demonstrado em Silva (2011).
Considerando que é preciso conhecer e verificar a viabilidade de outras
formas de aquecimento de aviários, o objetivo principal da pesquisa é levantar
formas alternativas para o aquecimento de aviários, que venham a diminuir e até
mesmo substituir a utilização da lenha nativa como combustível.

177
Metodologia
Para a realização dessa pesquisa, utilizamos os seguintes procedimentos
metodológicos:
- Pesquisa bibliográfica e leituras de autores que tratam acerca dos temas
apresentados principalmente nos dois primeiros capítulos, como Simioni (2006),
Santos, Ab’Sáber (2006), Arendt (2008), Puig (2008), Leff (2009), entre outros;
- Trabalho de campo para coleta de fotos feitas em uma propriedade com
dois aviários em Francisco Beltrão;
- Utilização de informações provenientes de questionário com 36
avicultores da região de Francisco Beltrão e entrevistas com lenheiros também de
Francisco Beltrão, realizadas em trabalho anterior (SILVA, 2011);
- Entrevistas com o presidente da Cooperativa dos Avicultores Integrados
do Sudoeste do Paraná (COOPERAVES), para se ter uma visão mais abrangente
a respeito da utilização da lenha por parte dos avicultores e também para
investigar se no universo dos avicultores que fazem parte da cooperativa algum
deles utiliza formas alternativas de energias;
- Investigação de alternativas para substituição do uso da lenha, através de
levantamentos em referencial bibliográfico, sites da internet e outras fontes,
considerando técnicas já implantadas e seus resultados, verificar as técnicas
utilizadas, quem desenvolve essa técnica, qual o tipo de matéria prima utilizada,
verificar se está sendo ou não utilizada no Brasil e onde; e levantar as vantagens
e desvantagens dessas possíveis técnicas.
- Trabalhos de campo realizado em uma propriedade rural no município de
Nova esperança do sudoeste com o Avicultor Hélcio Herculano, com o qual
levantamos uma alternativa para aquecimento de aviários que julgamos viável e
interessante para a região Sudoeste do Paraná e o município de Francisco
Beltrão.
- Fotos e entrevistas da propriedade do Sr, Hélcio Herculano.

Resultados/Discussões
Atualmente, um dos fatores que proporcionam desmatamentos,
principalmente na região sudoeste do Paraná, é o crescente aumento da atividade

178
avícola, a qual demanda uma grande quantidade de energia nas primeiras etapas
de produção realizadas no campo. Nesta fase, é necessário que se faça o
aquecimento dos galpões para dar condições adequadas de temperatura para as
aves ainda pequenas.
Para tanto, a lenha nativa é o principal combustível, pelo fato de
surpreendentemente, apresentar os menores custos. Em estudo anterior (SILVA,
2011), constata-se a grande demanda de lenha utilizada pelos aviários da região.

O grande problema que se enuncia no grande número de aviários


instalados no município, está na procedência da lenha utilizada nesta
atividade. Deve-se lembrar que hoje existe a alternativa para os
avicultores e os consumidores de madeira em geral, de usar as matas de
reserva legal para substituir o uso da mata nativa (...). No entanto o que
infelizmente acontece não é isso. Como há na região sudoeste do
Paraná, o predomínio de pequenas propriedades, os avicultores em sua
grande maioria não possuem reserva legal, e acabam extraindo o
máximo que podem da mata nativa. Em outros casos, o que acontece
com muita frequência, o avicultor que já esgotou a parcela de mata
nativa de sua propriedade, compra a lenha de terceiros. Esses
geralmente são produtores rurais, mas não utilizam a madeira como
forma de aquecimento e acabam por vendê-la. Ainda, há o caso dos
lenhadores que compram do produtor rural um direito de exploração,
sem documentos das matas para derrubá-las e depois revendê-las
(SILVA, 2011, p.35,36).

Daí a necessidade de encontrar uma alternativa de aquecimento eficiente,


ambientalmente favorável e, sobretudo economicamente mais barata como uma
solução necessária para alcançar a sustentabilidade ambiental da atividade.
Portanto, o uso de alternativas de aquecimento eficiente, ambientalmente
favorável e economicamente mais barata nos aviários, poderá ser seguido para
outros setores. A compatibilização entre benefícios econômicos e redução da
degradação ambiental é algo fundamental.
Em vista destes fatores, a discussão a seguir trará uma apresentação de
algumas possíveis alternativas de energia que servirão como combustíveis para
aquecimento dos aviários e também de outros setores.

Briquete e Pélete
É uma alternativa sustentável que pode evitar grande parte dos
desmatamentos que ainda ocorrem de forma ilegal nos Biomas brasileiros que se
apresenta através do corte indiscriminado de árvores para a produção de carvão

179
e lenha visando suprir as necessidades de energia de fábricas e indústrias no
país, inclusive o setor avícola.
O Briquete é uma lenha ecológica que se apresenta na forma de um bloco
cilíndrico compacto de alta densidade feito de resíduos diferenciados da
agricultura, tais como: casca de arroz, serragem, sabugo, palha de milho, casca
de café, casca de algodão, bagaço de cana de açúcar, maravalha, capim, entre
outros. O Briquete é um biocombustível sólido oriundo da compactação desses
resíduos sob pressão e temperatura, resultando na lenha ecológica que pode ser
usada na substituição da lenha convencional.
O Pélete possui as mesmas características do Briquete, porém é produzido
em tamanho menor.
Realizamos atividade de campo no município de Nova Esperança do
Sudoeste, onde por meio de informações levantadas na Associação dos
Avicultores Integrados do Sudoeste do Paraná-AVISUD, encontramos o avicultor
Hélcio Herculano, o qual é criador de aves e integrado da Empresa BRF e
também o primeiro avicultor da região Sudoeste que já está utilizando o Pélete
como combustível para aquecer os aviários.
A máquina que queima o Pélete é de Medianeira, da marca Vosser. Ela
possui um silo adaptado onde se armazena o Pélete. Esse silo é pequeno
conforme a figura , mas pode ser adaptado outro tipo de silo bem maior com
capacidade de abastecimento que dura até um mês, 2 ton.

Figura 1-Silo de armazenagem e pélete Figura 2-Silo de armazenagem e pélete

Fonte: Trabalho de campo, outubro/2013 Fonte: Trabalho de campo, outubro/2013

180
De acordo com o Sr. Herculano, esse silo demonstrado nas Figuras 1 e 2,
depois de abastecido com o Pélete, tem capacidade de duração de 8 h em um
aviário de 100x12 m², sem precisar de um novo reabastecimento, o que
representa uma maior comodidade e qualidade de vida para o avicultor.
A máquina também conta com um painel automatizado, o qual controla a
temperatura do ambiente interno do aviário, o qual deve permanecer em 32°C nos
primeiros 15 dias das aves. Deste modo, quando o ambiente atinge esta
temperatura, a máquina se desliga automaticamente e encerra a queima do
Pélete, evitando desperdícios.
O Sr. Herculano afirma que a funcionalidade do sistema supera em muito a
utilização dos fornos à lenha, pois além de apresentar um aquecimento melhor,
também torna o trabalho do avicultor muito mais fácil, rápido e prático.
O silo pequeno pode ser abastecido somente uma vez durante a noite. A
partir desta etapa, todo o processo é automático, sem a necessidade de o
avicultor levantar várias vezes durante a noite para abastecer a máquina.

Figura 3-máquina de queima do Pélete

Fonte: Trabalho de campo, 2013

Além do forno que queima o Pélete, o Sr Herculano instalou uma fábrica de


Pélete em sua propriedade. Ele comprou a máquina da Empresa Xavantes e, a
princípio, a idéia é produzir pélete para sua autossuficiência e vender o que
sobrar para terceiros.

181
“Eu calculo que vamos gastar 4000 kg por lote, por aviário. Então vamos
gastar 16 mil kg por mês, né. Vou vender em torno de R$ 400, 00 a tonelada pra
pegar aqui, né. R$ 450,00 pra dar posto lá, o custo do frete pra levar, que eu vou
ter que comprar um caminhão, né. Tem um cara lá em Nova Prata que já tem
cinco máquinas dessas, ele vai colocar 2 núcleos lá, né. Ele e o irmão dele, eles
vão fazer com essas máquinas também, já falou pra mim. Eu conversei com ele
lá, ele falou pode fazer, produz o produto lá que eu pego de ti” (HÉLCIO
HERCULANO, avicultor).
Perguntamos a respeito da matéria prima que ele vai utilizar, se já existe
um mapeamento das matérias primas disponíveis para a fabricação do Pélete, e
ele nos respondeu:
“Serragem, né, pega das serrarias. Na verdade eu vou pegar do secador
de um cara lá de Beltrão, ele produz duas cargas de Serragem por dia. Eu vou
produzir sete toneladas por dia, porque tem que ensacar, vou ter que ter dois
funcionários ali né. No começo tem que produzir mais devagar, produz um dia,
pára três. Pega matéria prima das serrarias, né, que tem por perto” (HÉLCIO
HERCULANO, avicultor).
Como se pode observar na fala do Sr. Hélcio Herculano, ele demonstra
estar muito satisfeito com a utilização do Pélete para o aquecimento de seus
aviários que até instalou uma pequena fábrica para produzir seu próprio Pélete na
propriedade. Sem dúvida, a iniciativa do Sr. Herculano servirá de exemplo para
outros avicultores que ainda utilizam a lenha nativa, demonstrando que o Pélete
pode ser uma ótima opção na sua substituição.

Considerações Finais
A necessidade de se encontrar novas alternativas de energia para o
aquecimento de aviários é fundamental no cenário atual, uma vez que trará
benefícios não só para o meio ambiente, pois diminuirá ou até mesmo poderá
substituir o uso de lenha nativa, diminuindo assim, vários focos de
desmatamentos da região, mas também para o avicultor no aumento de sua
qualidade de vida.

182
A produção de Pélete e de briquete vem de encontro com essas questões,
pois são produzidos através de resíduos, proporcionando a diminuição da
disposição desses resíduos no meio ambiente e, além do mais, com a
possibilidade de utilização como combustível sólido.
Neste sentido, o trabalho de campo realizado na propriedade do Sr.
Herculano em Nova Esperança, nos possibilitou presenciar a produção e queima
do Pélete nos aviários, comprovando assim, suas vantagens:
 A utilização do Pélete diminui grande parte da mão de obra, uma vez que
antes à sua utilização era necessário realizar várias etapas para poder
queimar a lenha, como empilhar, cortar, transportar para dentro do aviário,
e reabastecer os fornos várias vezes, inclusive à noite;
 O Pélete é compacto e limpo, grandes quantidades ocupam menos
espaços, podendo ser armazenados em silos ou em sacos em pequenos
depósitos;
 Apresenta poder calorífico maior que a lenha e, por ser compacto, demora
para queimar, sendo que o silo pequeno, demonstrado nas figuras
anteriores, uma vez cheio precisa de 8 h para queimar.
 A quantidade de resíduos se comparado com a lenha é muito menor, tanto
as cinzas quanto a fumaça,
 Se comparado com a lenha, apresenta um preço por tonelada mais
elevado, porém se considerarmos a diminuição de mão de obra e o
aumento da qualidade de vida do avicultor, pode-se dizer que é
compensativo utilizar o Pélete.
 É um biocombustível sólido produzido através de resíduos, ou seja, além
de um excelente combustível, apresenta a vantagem de utilizar resíduos
que antes seriam descartados e não teriam utilização.
 Possui um grande apelo ecológico, uma vez que pode substituir o uso da
lenha nativa nos aviários, além de utilizar subprodutos na sua fabricação.

183
Referências
DOLIVEIRA, Celso F.D. Levantamentos do custo de produção da avicultura e
suas repercussões. Artigo. Brasília, 2012. Disponível em:
<http://www.agricultura.gov.br/arq_editor/file/camaras_setoriais/Aves_e_suinos/19
RO/App_Custos_Aves.pdf.> Acesso em: 02. set. 2013.
GARCIA, Dorival Pinheiro. Indústria brasileira de Pélete. Revista da Madeira.
Edição nº 133, Dezembro/2012.
PALHARES, Julio César Pascalle; KUNZ, Airton. Manejo Ambiental na
Avicultura. Concórdia: EMBRAPA Suínos e Aves, 2011. Disponível em:
<www.cnpsa.embrapa.br/down.php?tipo=publicacoes&cod...1244.> Acesso em:
set. 2013.
SEAB, Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento; DERAL,
Departamento de Economia Rural. Produção Pecuária no Estado do Paraná
por Unidade Administrativa da SEAB. Curitiba, 2013. Disponível em:
<http://www.agricultura.pr.gov.br/arquivos/File/deral/pec5.pdf>. Acesso em: 02.
set. 2013.
SOUZA, Samuel N. M. de. SORDI, Alexandre. OLIVA, Carlos A. Potencial de
energia primária de resíduos vegetais no Paraná - 4º encontro de energia no
meio rural, 2002. Cascavel – PR. Ano 4, p.1 a 5. Disponível em:
<http://www.proceedings.scielo.br/scielo.php?pid=MSC000000002200200020004
2&script=sci_arttext.> Acesso em: set. 2013.

184
PESQUISAS DO GETERR/UNIOESTE RELACIONADAS
À CONTAMINAÇÃO E CONSERVAÇÃO DE RECURSOS HÍDRICOS
EM UNIDADES DE PRODUÇÃO E VIDA FAMILIARES

Luciano Zanetti Pessôa Candiotto


lucianocandiotto@yahoo.com.br
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Luiz A. Schimitz
luizschimitz@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Lunéia Catiane de Souza


luneia-catiane@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
O GETERR (Grupo de Estudos Territoriais) da UNIOESTE vem procurando
apreender aspectos da dinâmica socioespacial do campo na mesorregião
Sudoeste do Paraná, com ênfase nas Unidades de Produção e Vida Familiares
(UPVFs). Entre as temáticas de trabalho do GETERR, estão a agroecologia,
relações de gênero, modernização da agricultura, o processo de territorialização e
a constituição de territorialidades, formas de utilização do meio ambiente, entre
outras.
Especificamente, temos trabalhado com a relação entre os agricultores e
os recursos naturais, com destaque para o manejo agroecológico, agroflorestal e
dos recursos hídricos em seus estabelecimentos rurais (UPVFs). Esse texto
aborda duas pesquisas - já concluídas – que tiveram como tema a questão da
contaminação e da conservação dos recursos hídricos, sobretudo de águas
utilizadas pelos agricultores e suas famílias. Em ambas, foi possível diagnosticar
a situação das águas consumidas por agricultores que desenvolvem a agricultura
orgânica e a agroecologia, porém em uma dessas pesquisas, pudemos também
realizar obras voltadas a melhoria da qualidade e da quantidade de água nas
UPVFs beneficiárias. Assim, apresentamos aqui, os objetivos, metodologia e
resultados dessas duas pesquisas.

185
Projeto “Conservação e uso sustentável de recursos hídricos como
instrumento de gestão ambiental em unidades rurais familiares com
produção agroecológica no município de Francisco Beltrão/PR”
Esse projeto teve apoio financeiro do CNPq (Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico), através do Edital n. 27/2008, e foi
desenvolvido entre os anos de 2010 e 2012. Nele, procuramos conhecer os
corpos hídricos utilizados em atividades de consumo, produção, dessedentação
de animais, entre outros usos; realizar diagnósticos da qualidade das águas em
onze UPVFs, que foram as beneficiárias do projeto; levantar necessidades
relacionadas à conservação e uso sustentável dos recursos hídricos nessas
UPVFs; e instalar tecnologias ecológicas voltadas à melhorar a qualidade ou a
quantidade das águas utilizadas.
O objetivo do projeto foi conhecer os usos dos recursos hídricos e
contribuir para a melhoria da qualidade e da quantidade de água em
estabelecimentos rurais com agricultura orgânica no município de Francisco
Beltrão.
A metodologia constou de atividades de campo e de gabinete, realizadas
concomitantemente. Os dados foram coletados com as famílias através de
entrevistas semi-estruturadas, que se deram em duas etapas. Para tanto, a
equipe elaborou dois roteiros de entrevistas, que foram aplicados diretamente nas
11 UPVFs beneficiárias. Essas entrevistas foram aplicadas em dois momentos e
fundamentaram a elaboração de um diagnóstico de cada Unidade de Produção e
Vida Familiar (UPVF), considerando as dimensões socioculturais e econômico-
produtiva e ambiental. Na primeira fase, abordamos questões relacionadas à
água, estrutura da família e da UPVF e aos aspectos produtivos. Após identificar
a origem das águas utilizadas, partiu-se para um processo de coleta de amostras,
que foram destinadas para a realização de análises microbiológicas. Com as
análises identificamos as situações mais problemáticas em termos de qualidade
das águas consumidas, ou seja, as águas que estavam contaminadas. Isso foi
fundamental para estabelecermos conjuntamente com os agricultores as
prioridades de investimento.
Definidas as ações prioritárias, partimos para a execução das mesmas.
Entre elas, destacamos a proteção de fontes de água utilizadas para consumo da
186
família e o cercamento dessas fontes, a construção de sistemas de tratamento de
esgoto com a técnica de fossas por evapotranspiração (canteiros biossépticos), a
construção de cisternas, bebedouros e de um aquecedor solar de água, o
mapeamento das UPVFs, etc.

Resultados
Na tentativa de ampliar a informação e capacitação dos agricultores em
relação à conservação ambiental de suas UPVFs, foram ministrados cursos de
capacitação sobre os seguintes temas: manejo e conservação do solo e das
águas; ciclo da água e a importância dos recursos hídricos; técnicas de
conservação dos solos; métodos de controle de processo erosivos; nutrição
vegetal; adubação orgânica e fertilidade do solo. Esses cursos ocorreram em uma
das UPVFs beneficiárias e envolveram todos os agricultores do projeto.
Para a proteção das nascentes/fontes de água que são utilizadas para o
consumo humano ou animal, priorizamos a primeira proteção para o caso mais
problemático, onde identificou-se a presença de coliformes fecais e da bactéria
Escherichia coli. Nessa ocasião foi feita a proteção de duas fontes na UPVF de
Odila Galupo que se encontravam muito próximas. O sistema utilizado foi o de
tubulações de concreto. Em seguida, realizamos a proteção das fontes das
UPVFs de Vilmar do Rosário, Cleuza Araújo, Antônio Korb, José Korb, Tobias
Korb e Gilson Gurgel, com a técnica de solo cimento, totalizando 8
fontes/nascentes protegidas.
Após a construção das proteções foi feito o trabalho de colocação de
mourões e cercas com arame farpado das áreas circundantes das fontes
protegidas. Como se tratam de Áreas de Preservação Permanente, por serem
nascentes, achamos fundamental o trabalho de isolamento dessas fontes com
cercas e o reflorestamento com espécies frutíferas.
Foram comprados com recursos do projeto todas as ferramentas e outros
materiais necessários à execução das obras. Os agricultores tiveram como
contrapartida parte da mão-de-obra que auxiliou a equipe na atividade. No
entanto, foi necessária a contratação de mão-de-obra de terceiros.
Para melhorar o sistema de irrigação e distribuição de água e superar os

187
desníveis do terreno, foram construídos 2 suportes para a instalação de caixa de
água nas UPVF de Odila Galupo e Cleuza Araujo, bem como a instalação de dois
sistemas de irrigação por gotejamento e aspersão.
Também foram instalados 7 reservatórios de água para o gado em 5
UPVFs, utilizando tanques de plástico e de ferrocimento, mangueiras e bóias.
Ressaltamos que essa medida não estava prevista no projeto, porém surgiu
através da demanda dos agricultores.
Elaboramos os orçamentos e adquirimos os materiais necessários para a
construção de 5 cisternas de ferrocimento, conforme demanda levantada com os
agricultores. Iniciamos e concluímos a construção das cisternas nas UPVFs das
famílias de Valdecir Três e Almir Calegari, Cleuza Araujo, Valfrido Korb e Sergio
Kaupka. Construímos 3 cisternas com capacidade de armazenamento de 33 mil
litros de água e 2 cisternas com capacidade de armazenamento de 23 mil litros de
água com os respectivos descartes para as água de chuva com impureza e
bombas para direcionar a água para o consumo. Foi feita também a contratação
de uma empresa para a instalação de calhas de metal nas UPVF beneficiadas
pelas cisternas.
A Prefeitura Municipal de Francisco Beltrão disponibilizou uma
retroescavadeira para a construção de 8 buracos para a instalação dos canteiros
de evapotranspiração nas propriedades participantes do projeto. Com o auxilio de
dois pedreiros contratados e pagos pelo projeto e com parte da mão-de-obra dos
agricultores, foram construídos canteiros de evapotranspiração - sistemas para
destinação das águas de pias e tanques de lavar roupas - denominado círculo de
bananeiras. Construímos 9 canteiros biossépticos e 8 círculos de bananeiras.
Com a ajuda dos agricultores, foi feita a colocação de material filtrante (rocha,
brita e areia), solo, seguido do plantio de plantas que absorvem bastante água
nos canteiros de evapotranspiração de Walfrido Korb, Gilson Gurgel, José Korb,
Vunibaldo Korb, Paulo Korb, Cleuza Araújo, Minervino Schimitz, Odila Galupo e
Vilmar do Rosário.
Também foi feita a retirada de um chiqueiro de uma Área de Preservação
Permanente e a construção de um novo chiqueiro na UPVF de Odila Galupo.
Com os recursos do projeto foi providenciado bebedouros, encanamento de água

188
para os suínos e isolamento, com uma caixa de cimento, do local onde os dejetos
eram destinados.
Para melhorar a qualidade de vida na UPVF de Tobias Korb o projeto
adquiriu um boiler e com materiais alternativos (garrafas PET, canos de PVC). Foi
construído e instalado um aquecedor solar que fornece água para o chuveiro e
tanques de lavar louças.
Para efetuar o mapeamento das UPVFs beneficiárias, realizamos um
exaustivo trabalho de campo para coleta de dados com o aparelho GPS. Nessa
ocasião, tivemos que percorrer as divisas toda a rede de drenagem de cada
estabelecimento, bem como as áreas como diferentes usos do solo (lavouras,
pastagens, benfeitorias, florestas, etc.). O trabalho foi realizado em 9 das 11
UPVFs, haja vista que as outras duas são UPVFs pequenas situadas em uma vila
rural.
Para a divulgação dos resultados alcançados pelo projeto foi produzido um
vídeo, contendo a situação anterior ao desenvolvimento das ações e a
configuração atual dos estabelecimentos após as ações, depoimento dos
agricultores beneficiários e uma avaliação geral do projeto. Este vídeo pode ser
acessado pelo link
<http://www.youtube.com/watch?v=WtUEezLracQ&feature=youtube>.
Para divulgação dos resultados do projeto, realizamos o seminário
intitulado “Ações e perpectivas da Agroecologia no Sudoeste do Paraná”, com
participação de instituições parceiras, agricultores beneficiários e da comunidade
acadêmica da Unioeste.
As tecnologias implantadas demonstraram que é possível minimizar e
solucionar problemas graves, com poucos recursos e com tecnologias de baixo
custo. Assim, o projeto pode servir de referência para outras iniciativas. Todas as
ações do projeto indicam para a pertinência e viabilidade de criação de políticas
públicas destinadas à melhoria qualitativa e quantitativa dos recursos hídricos em
estabelecimentos rurais, pois além da água estar intimamente relacionada aos
aspectos econômico-produtivos, ela também é fundamental na qualidade de vida
e na saúde das famílias e dos animais das UPVFs.
Com os dados coletados foram elaborados e publicados artigos em

189
eventos como o textos no XIV Encontro de Geografia da UNIOESTE e VII
Encontro de Geografia do Sudoeste do Paraná, XX Encontro Nacional de
Geografia Agrária, XVI Encontro Nacional de Geógrafos, e V Seminário Estadual
de Estudos Territoriais. Também foi elaborado um capítulo de livro intitulado
“Diagnóstico ambiental das UPVFs beneficiárias do projeto conservação e uso
sustentável de recursos hídricos como instrumento de gestão ambiental em
unidades rurais familiares com produção agroecológica no município de Francisco
Beltrão PR”, publicado no livro “Geografia da e para a cooperação ao
desenvolvimento territorial: experiências brasileiras e italianas”, da editora
Expressão Popular, organizado por Saquet; Dansero e Candiotto (2012).

Projeto “Água: uso e conservação por mulheres e homens em unidades de


produção orgânica no município de Verê-PR”
Esse projeto foi desenvolvido através de um TCC (Trabalho de Conclusão
de Curso) do bacharelado em Geografia da UNIOESTE, campus de Francisco
Beltrão, no ano de 2012 (SOUZA, 2012). Ele teve por objetivo analisar a
qualidade, a disponibilidade e os usos da água em UPVFs orgânicas do Município
de Verê/PR. O trabalho também abrangeu aspectos referentes às relações de
gênero, que não serão comentados aqui.
A metodologia utilizada foi parecida com a do projeto anterior, porém
limitou-se ao diagnóstico da situação das águas consumidas diretamente pelas
famílias, ou seja, da água que vem sendo usada para o consumo humano (água
para beber). Após identificas os agricultores orgânicos de Verê, fez-se o contato e
agendamento dos trabalhos de campo, seguidos dos campos, onde além da
aplicação das entrevistas semiestruturadas, programou-se a coleta das amostras.
As entrevistas foram realizadas de forma individual, com homens e com as
mulheres responsáveis por cada UPVF. A ideia era verificar como homens e
mulheres percebem a importância e os riscos de saúde relacionados à agua. As
análises da pesquisa aconteceram em quatorze UPVFs orgânicas do município
de Verê - PR.
Para verificar a situação da água de consumo e aquela utilizada para a
irrigação (para as unidades que usufruem desta técnica), foram realizadas
análises de água, que visaram identificar contaminação por indicadores
190
microbiológicos (coliformes totais, fecais e Escherichia Coli) e um indicador físico-
químico (pH) dessas águas. As análises foram feitas no laboratório de Biologia da
Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE) – Campus Francisco
Beltrão, por meio da Professora Kérley Casaril, do curso de Economia Doméstica.
Para complementar as análises, foram elaboramos gráficos, tabelas e
fotografias para facilitar o entendimento quanto às origens das águas
provenientes das propriedades, se as mesmas estão conservadas, e se
apresentaram contaminação. Ao final do trabalho buscamos demonstrar se houve
contaminação nas águas e demais aspectos relacionados.
Com relação aos resultados do trabalho de conclusão de curso, as águas
de consumo de todas as UPVFs apresentaram coliformes totais, e dentre estas,
três apresentaram contaminação por coliformes fecais. Quanto à água de
irrigação, são oito UPVFs que utilizam esta prática. Destas, cinco apresentaram-
se contaminadas tanto por coliformes totais quanto por fecais. Também houve
contaminação por Escherichia coli em duas UPVFs, sendo que uma dessas
águas era proveniente de um poço, destinado ao consumo da família, e outra
utilizada para a irrigação de uma fonte desprotegida.
Desta forma, verifica-se que apesar de não ser a maioria das UPVFs que
apresentaram contaminação para a água de consumo, a situação é preocupante,
pois uma água contaminada é sinônimo de doença para a família assim como a
água utilizada na irrigação, pois se trata de produtos para a subsistência e para a
comercialização.

Referências
CANDIOTTO, Luciano Z. P.; FREISLEBEN, Sandra; GRISA, Felipe. Diagnóstico
ambiental das UPVFs beneficiárias do projeto conservação e uso sustentável de
recursos hídricos como instrumento de gestão ambiental em unidades rurais
familiares com produção agroecológica no município de Francisco Beltrão PR. In:
SAQUET, Marcos; DANSERO, Egidio e CANDIOTTO, Luciano (Org.). Geografia
da e para a cooperação ao desenvolvimento territorial: experiências
brasileiras e italianas. São Paulo: Expressão Popular, 2012, p. 63-92.
SOUZA, Lunéia C. Água: uso e conservação por mulheres e homens em
unidades de produção orgânica no município de Verê-PR. Monografia
(Bacharelado em Geografia). Francisco Beltrão: UNIOESTE, 2012.

191
PESQUISAS SOBRE AGROECOLOGIA
E SISTEMAS AGROFLORESTAIS DESENVOLVIDAS
PELO GETERR (GRUPO DE ESTUDOS TERRITORIAS) DA UNIOESTE

Luciano Zanetti Pessôa Candiotto


lucianocandiotto@yahoo.com.br
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Maristela da Costa Leite


costa-maristela@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Suzana Gotardo de Meira


suzanagmeira@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
Ao realizarmos estudos sobre a Agroecologia e Sistemas Agroflorestais na
região Sudoeste do Paraná no GETERR (Grupo de Estudos Territoriais),
percebemos que as discussões em torno destas temáticas carecem ainda de um
maior aprofundamento. Os projetos de pesquisa e extensão desenvolvidos no
grupo estão baseados em uma abordagem ampla do conceito de Agroecologia e
território, que considera aspectos ambientais, sociais, econômicos e políticos.
Tais estudos e projetos justificam-se pela necessidade de realizar uma análise
teórica e empírica detalhada da Agroecologia e das unidades de produção
agroecológicas, considerando as entidades que atuam nesta área.
Neste sentido, o objetivo deste texto é apresentar algumas pesquisas
relacionadas às temáticas da agroecologia e das agroflorestas, que vem sendo
realizadas no âmbito do GETERR. Tais pesquisas vêm se pautando em uma
abordagem territorial (SAQUET, 2007), que se propõe a ser multidimensional.
Apresentamos aqui, três pesquisas, sendo um projeto de pesquisa financiado pelo
CNPq; uma pesquisa de mestrado em Geografia; e um Trabalho de Conclusão do
Curso de Geografia, que está sendo expandido na forma de outra pesquisa de
mestrado.

192
Implantação do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Agroecologia na
UNIOESTE, campus de Francisco Beltrão a partir do projeto “Conhecendo a
configuração da Agricultura Orgânica e da Agroecologia em nove
municípios do Sudoeste do Paraná”
O edital nº. 58/2010 (Chamada 2) do Conselho Nacional de Pesquisa
(CNPQ), se apresentou como uma importante oportunidade para o
desenvolvimento dessa proposta, que teve como principais objetivos: consolidar
um espaço de pesquisas sobre agricultura orgânica e Agroecologia dentro do
GETERR, sendo este considerado um espaço para debates acerca de questões
teóricas e empíricas da Agroecologia; e analisar a configuração da agricultura
orgânica e, especificamente, da Agroecologia nos municípios de Ampére, Enéas
Marques, Flor da Serra do Sul, Francisco Beltrão, Itapejara D´Oeste, Marmeleiro,
Salto do Lontra, São Jorge d'Oeste e Verê, situados na região Sudoeste do
Paraná. O projeto foi iniciado em 2010 e será finalizado em 2013.
A metodologia e as estratégias para o desenvolvimento do projeto
consistem nas seguintes etapas: identificação de agricultores e instituições que
apoiam ou atual com agricultura orgânica e/ou agroecologia nos municípios da
pesquisa; elaboração de roteiros de entrevistas com técnicos e com agricultores;
realização de trabalhos de campo para aplicação das entrevistas e conhecimento
das Unidades de Produção e Vida Familiares (UPVFs) que atuam com esses
tipos de agricultura; tabulação e sistematização dos dados coletados em campo;
análise das informações coletadas e do estado da arte da Agroecologia em cada
um dos municípios; definição de estratégias, prioridades e ações de extensão.
Através da pesquisa, buscamos alcançar os seguintes resultados: avanço
no debate teórico sobre Agroecologia através de leituras e colóquios; coleta e
análise de dados secundários sobre os municípios pesquisados; identificação das
instituições que apoiam a agricultura orgânica e/ou a Agroecologia e as ações
desenvolvidas por cada uma delas; identificação dos agricultores que atuam com
práticas de agricultura orgânica e/ou agroecológicas e das ações desenvolvidas
por eles; diagnóstico da configuração da agricultura orgânica e/ou Agroecologia
em cada município; divulgação dos resultados da pesquisa através da elaboração
de uma cartilha, um seminário e produção de textos; fortalecimento do Núcleo de
Pesquisa em Agroecologia.

193
Considerando que o projeto está em andamento, apresentamos alguns
resultados referentes à dimensão dos agricultores pesquisados. Foram
entrevistadas 102 UPVFs, distribuídas nos seguintes municípios: Ampére – 16;
Itapejara d’Oeste – 13; Flor da Serra do Sul – 3; Francisco Beltrão – 16;
Marmeleiro – 9; Salto do Lontra – 7; São Jorge d’Oeste – 11 e Verê – 27. No caso
de Enéas Marques não foi levantada nenhuma unidade de produção que
desenvolvesse trabalhos relacionados com a agricultura orgânica.
As principais dificuldades apontadas pelas famílias agricultoras foram: a
falta de mão-de-obra (devido a saída dos jovens do campo), falta de apoio
governamental (acesso ao crédito, seguro agrícola), falta de conscientização dos
consumidores, falta de alternativas (insumos/equipamentos) adaptadas a esse
tipo de agricultura e a falta de assistência técnica. No que diz respeito às
principais vantagens foram apontadas a questão da saúde e a melhora da renda.
Através da pesquisa estamos buscando traçar um diagnostico de cada município
a fim de compreendermos quais têm sido os avanços e os entraves para o
desenvolvimento dessa forma de agricultura.

Intencionalidades, territorialidades e temporalidades que caracterizam a


Agroecologia em Itapejara d´Oeste, Salto do Lontra e Verê, Sudoeste do
Paraná
Esta proposta de dissertação de mestrado tem como objetivo principal
compreender os ritmos, temporalidades, territorialidades, intencionalidades,
similitudes e diferenças que caracterizam a Agroecologia em tais municípios da
região. A pesquisa será concluída no final do primeiro semestre de 2013.
Os municípios definidos para estudo possuem experiências na produção
agroecológica, geralmente considerada como atividade complementar, baseada
nas pequenas unidades de produção rural com mão de obra familiar, análoga à
agricultura praticada na região, predominantemente convencional e fundamentada
em insumos químicos. A definição desses municípios para pesquisa se deu
devido a participação no projeto intitulado “Agricultura familiar agroecológica nos
municípios de Itapejara d’Oeste, Salto do Lontra e Verê (Sudoeste do Paraná),
como estratégia de inclusão social e desenvolvimento territorial”, financiado pela
Secretaria Estadual de Ciência Tecnologia e Ensino Superior (SETI), através do

194
Programa Universidade Sem Fronteiras (USF), com vigência de abril de 2009 a
dezembro de 2010. Essa participação nos proporcionou uma base de estudos
teóricos e empíricos sobre as questões relacionadas à Agroecologia.
A metodologia consistiu em levantamentos bibliográficos; realização de
entrevistas com agricultores orgânicos e agroecológicos dos municípios
pesquisados e representantes das instituições parceiras da Agroecologia;
trabalhos de campo; elaboração de mapas para representações mais relevantes;
participação em eventos, colóquios com o orientador e membros do GETERR;
análises relacionadas aos dados obtidos e tratados. Além, disso, nessa pesquisa
foi realizado um exercício teórico voltado a proposição de uma tipologia para
caracterizar diferentes situações entre os agricultores que praticam a agricultura
orgânica e àqueles que adeptos da Agroecologia.
Podemos concluir que são diversos os sujeitos envolvidos com a produção
orgânica e agroecológica em cada um dos municípios estudados, produção esta
que envolve as dimensões econômica (produção, processamento e
comercialização), ambiental, social, política e ética. Através das intencionalidades
dos sujeitos que trabalham com a agricultura orgânica desenvolvida em Unidades
de Produção e Vida Familiares, pudemos apreender os objetivos (explícitos e
implícitos) em relação a essa forma de agricultura, considerando a atuação de
agricultores, técnicos gestores, e entidades nas diversas relações que
estabelecem no território.
Dialogamos com o conceito de intencionalidades, temporalidades e
territorialidades e entendendo que o conhecimento geográfico pode contribuir na
busca de integração entre conhecimentos científicos e tradicionais, em virtude de
sua perspectiva multidimensional. Propusemos e aplicamos uma tipologia para
apontarmos se os agricultores são ou não familiares, se são orgânicos ou
agroecológicos, considerando que as intencionalidades são fundamentais na
configuração de objetos e ações, e consequentemente, no uso do território e na
transformação do espaço. Elas influenciam a materialidade dos lugares, assim
como as verticalidades e horizontalidades presentes nos lugares, com ritmos
espaço-temporais diferentes, gerando assim, particularidades territoriais.

195
Do simples ao complexo: sistemas agroflorestais como alternativa de
produção de alimentos, recuperação de áreas degradadas e conservação
ambiental
O trabalho de conclusão do curso de bacharelado em Geografia teve como
objetivo geral realizar uma análise da degradação do Bioma da Mata Atlântica e
mais especificamente na região Sudoeste do Paraná, e, neste contexto,
apresentar um modelo alternativo de uso do solo através dos Sistemas
Agroflorestais (SAFs).
A metodologia desenvolvida no trabalho esteve pautada em uma revisão
bibliográfica de obras e estudos relacionados com as questões ambientais, com
ênfase ao Bioma da Mata Atlântica e sobre Sistemas Agroflorestais; coleta de
dados secundários de um estudo realizado pela Fundação SOS Mata Atlântica e
pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), sendo que, através destes
dados, foram elaboradas tabelas e gráficos. Além disso, também foi feita uma
avaliação de dois projetos de implantação de agroflorestas no Sudoeste do
Paraná, desenvolvidos pela ONG ASSESOAR (Associação de Estudos,
Orientação e Assistência Rural). Para identificar os resultados, avanços e
dificuldades desses projetos foram realizadas duas entrevistas com
representantes da ASSESOAR e elaborados quadros sínteses para a
organização das informações.
Através da pesquisa foi possível levantar que o Bioma da Mata Atlântica foi
muito degradado e que na região Sudoeste do Paraná, atualmente, os poucos e
esparsos remanescentes florestais ainda sofrem pressões antrópicas. No que diz
respeito aos Sistemas Agroflorestais, através da revisão bibliográfica foi possível
diagnosticar que estes vêm se consolidando no Brasil, e que existem diferentes
correntes/perspectivas em relação aos modelos de SAFs desenvolvidos, sendo
que uma linha visa modelos complexos e diversificados/agroecológicos e outra
linha é mais simplista, onde encontram-se os chamados SAFs agronômicos.
Realizamos também um levantamento da trajetória do Código Florestal Brasileiro
e as discussões acerca do uso de SAFs em Áreas de Preservação Permanente e
de Reserva Legal. Fizemos uma análise de dois projetos de implantação de SAFs
na região Sudoeste do Paraná desenvolvidos pela ASSESOAR (um no ano de
2003 e outro no ano de 2010), além de um subprojeto desenvolvido pela UTFPR
196
campus Dois Vizinhos que tinha por objetivo fortalecer as discussões sobre
Agroecologia, assim como implantar no campus uma área experimental de SAFs.
Diante das análises, principalmente dos projetos desenvolvidos pela ASSESOAR,
foi possível brevemente levantar quais tem sido as dificuldades e as vantagens
destes, além dos modelos implantados, podendo considerar que a ASSESOAR
procurou trabalhar com SAFs na linha diversificada/agroecológica, visando a
produção de alimentos e a recuperação de áreas degradas.
Percebemos, no entanto, algumas diferenças entre os projetos
desenvolvidos, visto que no projeto do ano de 2003 a ASSESOAR não possuía
um desenho agroflorestal para a região, não houve acompanhamentos no
processo de implantação dos SAFs e não fazia parte dos planejamentos de
trabalhos desenvolvidos pela ASSESOAR. No projeto de 2010 várias questões
avançaram, sendo que foi elaborado um modelo de desenho agroflorestal para a
região, houve um trabalho mais próximo com os técnicos municipais que
acompanharam as implantações, assim como o desenvolvimento de oficinas e
cursos, além de fazer parte do planejamento de trabalhos da ASSESOAR.
Visando uma maior discussão sobre Sistemas Agroflorestais levantamos
uma proposta de pesquisa de mestrado na tentativa de aprofundar os
conhecimentos acerca da linha de SAFs diversificados/agroecológicos, assim
como identificar experiências e técnicas de manejo agroflorestal desenvolvidos no
Estado do Paraná. Estaremos analisando avanços e dificuldades dessas
experiências e levantando os desenhos agroflorestais que vêm sendo
implantados. A pesquisa está em uma fase inicial e a metodologia utilizada será
de revisão bibliográfica, levantamento de instituições que trabalham com SAFs
diversificados/agroecológicos no estado do Paraná, trabalhos de campo,
aplicação de questionários e a organização e análise dos dados coletados.

Considerações Finais
Através das pesquisas desenvolvidas buscamos fortalecer as discussões
em torno da Agroecologia, apreendendo a mesma como uma ciência
multidisciplinar que considera estudos científicos e saberes tradicionais, bem
como aspectos culturais, políticos, econômicos e ambientais. Para tanto,

197
trabalhamos com metodologias que abordam as dificuldades e avanços dos
sujeitos da Agroecologia, sendo estes, entidades de apoio, técnicos, agricultores,
associações, consumidores, gestores e pesquisadores. Também temos procurado
identificar as intencionalidades dos agentes envolvidos, no sentido de conhecer
aqueles que efetivamente vêm atuando com esses temas e aqueles que apenas
demonstram uma retórica de apoio, mas que pouco fazem em termos de ações
efetivas.
Os resultados obtidos com as pesquisas realizadas e, os que ainda estão
em andamento, vêm demonstrando que a produção agroecológica é uma das
possibilidades alternativas para o desenvolvimento local com bases sustentáveis,
proporcionando a produção de alimentos saudáveis, renda complementar para as
famílias e conservação do ambiente.
Apesar da produção orgânica e agroecológica serem alternativas a
agricultura convencional, elas ainda apresentam sérias dificuldades em sua
implementação, pois a organização política é frágil diante das dificuldades
encontradas. Não há continuidade em ações já implantadas; falta força de
trabalho no campo, orientação técnica continuada e há carência dos incentivos
governamentais. Nesse sentido, as políticas públicas são fundamentais para o
crescimento quantitativo e qualitativo das experiências práticas e da abordagem
teórica em torno desses temas.

Referências
CANDIOTTO, L. Z. P.; SAQUET, M. A.; SAQUET, M. A.; FABIANE, Elaine;
SOUZA, Poliane de.; BIANCO, Valentina. Elementos da configuração da
agroecologia nos municípios de Itapejara d'Oeste, Salto do Lontra e Verê -
Sudoeste do Paraná. Campo - Território, v. 7; n.14, 2012, p. 1-21.
CANDIOTTO, L. Z. P.; ALVES, Adilson Francelino; SAQUET, Marcos Aurélio.
Construindo uma concepção reticular e histórica para estudos territoriais. In:
PEREIRA, S. R; COSTA, B. P; SOUZA, E. B. C.. (Org.). Teorias e práticas
territoriais: análises espaço-temporais. São Paulo: Expressão Popular, 2010,
v. 1, p. 53-70.
CANDIOTTO, L. Z. P.; GOMES, D. L.; SOUZA, L. C.; LEITE, M. C.; DAMBROS,
T. Procedimentos metodológicos para levantamento de informações com
técnicos, gestores e produtores orgânicos em municípios da região sudoeste do
Paraná. In: XXI Encontro Nacional de Geografia Agrária, 2012, Uberlandia.

198
Territórios em disputa: os desafios da Geografia Agrária nas contradições do
desenvolvimento brasileiro, 2012. p. 1-20.
LEITE, M, C. Do simples ao complexo: sistemas agroflorestais como alternativa
de produção de alimentos, recuperação de áreas degradadas e conservação
ambiental. 2012. 145 f. Trabalho de Conclusão do Curso em Geografia.
Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE, Francisco Beltrão, PR.
CAPORAL, F. R; COSTABEBER, J. A; PAULUS, G. Agroecologia: matriz
disciplinar ou novo paradigma para o desenvolvimento rural sustentável. In:
CONTI, I. L; PIES, M; CECCONELLO, R. (Orgs.). Agricultura familiar: caminhos e
transições. Passo Fundo: IFIBE, 2006, v. 01, p. 174-208.
MEIRA, S. G. de ; CANDIOTTO, L. Z. P. Uma proposta de diferenciação entre
estabelecimentos rurais com agricultura orgânica. In: VI Simpósio Paranaense de
Pós-graduação e Pesquisa em Geografia, 2012, Guarapuava. Anais do VI
Simpósio Paranaense de Pós-graduação e Pesquisa em Geografia, 2012.
MAY, P. H.; TROVATTO, C. M. M (Coord.). Manual Agroflorestal para a Mata
Atlântica. Ministério do Desenvolvimento Agrário, Brasilia, 2008. p.196.
Disponível em: <www.mda.gov.br/portal/saf/arquivos/...Manual_Agroflorestal.pdf>.
Acesso em: 01 set. 2011.
SAQUET, Marcos. Abordagens e concepções de território. São Paulo:
Expressão popular, 2007.

199
POLÍTICAS PÚBLICAS EM AGRICULTURA ORGÂNICA E
AGROECOLOGIA DO GOVERNO FEDERAL

Vanessa Maria Paliosa


vanessapaliosa@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
Diante da necessidade de discutir a produção, comercialização e
certificação de alimentos orgânicos/agroecológicos e seus efeitos, fez-se
necessário conhecer as políticas públicas, ou seja, as ações do Estado que
regulam e incentivam o desenvolvimento da agricultura orgânica e da
agroecologia. Debruçamos-nos sobre as políticas públicas no tocante à
agricultura orgânica e à agroecologia, definindo esses conceitos no plano teórico
e identificando como eles vêm sendo trabalhados na legislação brasileira.
Trabalhamos com alguns programas que, de forma tímida, fortalecem a
agricultura orgânica e a agroecologia, como o Programa Nacional de
Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), o Programa de Aquisição de
Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
Ademais, analisamos a Lei nº 10.831, de 23 de dezembro de 2003; o Decreto nº
6.323, de 27 de dezembro de 2007 e o Decreto nº 7.794, de 20 de agosto de
2012, este mais recente e que institui a Política Nacional de Agroecologia e
Produção Orgânica.

Revisão de literatura
Primeiramente, foi feito o levantamento, leitura e análise das normas e de
publicações relacionadas às políticas públicas sobre agricultura orgânica e
agroecologia. Posteriormente, a leitura de autores que conceituam agricultura
orgânica, agroecologia e políticas públicas. E, finamente, a análise dos
Programas do Governo Federal, como Pronaf (criado pelo Art. 1º do Decreto nº
1.946/1996); do PAA (instituído pelo Art. 19 da lei 10.696/2003); do PNAE
(instituído pela Lei nº 11. 947/2009); da Lei Nacional nº 10.831/2003; do Decreto
Presidencial nº 6.323/2007; e do Decreto Presidencial nº 7.794/2012.

200
Resultados e Discussão
Achamos necessário, primeiramente, definir o que são políticas públicas
para o melhor entendimento do tema, sendo estas um conjunto de ações e
programas que determinada esfera do Estado elabora para a regulação ou
desenvolvimento de um setor qualquer. Procuramos conhecer e analisar as
políticas públicas do governo federal no tocante à agricultura orgânica e à
agroecologia. Assim, faz-se necessário definir o que é a agricultura orgânica e a
agroecologia, pois existem diferenças entre esses conceitos. A agroecologia
abrange muito mais do que uma plantação orgânica, pois, além da dimensão
ambiental (uso conservacionista dos recursos, redução de impactos ambientais),
ela se preocupa com as dimensões sociais (qualidade de vida das famílias do
campo, produção de alimentos para consumo da família, comercialização em
mercados solidários e justos, maior renda para a produção através da redução de
atravessadores).
Portanto, primeiramente, podemos citar alguns programas que, ao buscar
fortalecer a agricultura familiar, incorporam a agricultura orgânica e a
agroecologia, mesmo que de forma indireta.
O PRONAF, criado pelo Decreto nº 1.946, de 28 de junho 1996, tem o
objetivo de disponibilizar linhas de crédito para agricultores familiares. Para
disponibilizar tais linhas de crédito, a definição e a classificação dos agricultores
familiares passou por várias modificações. Somente com a Lei 11.326/2006 ficou
definida a caracterização de agricultor familiar e empreendedor familiar rural,
como aquele que pratica atividades no meio rural, atendendo, simultaneamente,
aos seguintes requisitos: I - não detenha, a qualquer título, área maior do que 4
(quatro) módulos fiscais; II - utilize predominantemente mão-de-obra da própria
família nas atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento;
III - tenha renda familiar predominantemente originada de atividades econômicas
vinculadas ao próprio estabelecimento ou empreendimento; IV - dirija seu
estabelecimento ou empreendimento com sua família”.
Entre as seis linhas de crédito que o Pronaf disponibiliza, existe uma linha
denominada Pronaf Agroecologia, que é uma linha de crédito voltada a
agricultores que apresentem projeto para: sistemas agroecológicos de produção.

201
A finalidade da linha de crédito é investir em sistemas de produção agroecológica
ou orgânica, incluindo custos de implantação e manutenção (BNDES, 2013).
Outro programa relevante é o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA),
instituído pela Lei 10.696, de 02 de julho de 2003. O programa é destinado a
ações de combate a fome, criando estoques estratégicos e distribuindo produtos
agropecuários para pessoas em insegurança alimentar. Isso está definido no
inciso II do Art. I da Resolução nº 37, de 9 de novembro de 2009, que vem
estabelecer normas que regem o Programa de Aquisição de Alimentos. O PAA
fortalece a agricultura familiar mesmo que de forma tímida, porque, como
estabelece o 2º parágrafo do Art. 19, da Lei 10.696/2003, os agricultores
familiares que se enquadrem no Programa Nacional de Fortalecimento da
Agricultura Familiar são responsáveis pela produção de alimentos destinados à
aquisição. Tal programa ainda conta com outros Decretos que regulamentam a
Lei nº 10.696/03. Eles instituem os grupos gestores, os quais definem preços
levando em conta diferenças regionais e a realidade do agricultor familiar. Há,
também, algumas portarias e resoluções, que não serão aqui comentadas.
O programa ao qual nos referimos, acaba por incentivar a produção
orgânica, pois paga um adicional de 30% para os produtos certificados, em
relação aos alimentos convencionais (ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE MULHERES
CAMPONESAS, 2011). Porém, para que o Agricultor receba tal adicional, é
necessário que ele tenha certificação por um órgão certificador credenciado pelo
Ministério da Agricultura e Abastecimento (MDA), certificação está que será objeto
de nossa análise posteriormente.
Outra ação do Estado está no Programa Nacional de Alimentação Escolar
(PNAE), instituído pela Lei no 11.947, de 16 de junho de 2009. O objetivo deste
programa é incentivar a aquisição de gêneros alimentícios diversificados
produzidos, principalmente, pela agricultura familiar, ou seja, em âmbito local. É o
que consta no inciso V, do Art. 2º da Lei nº 11. 947/2009. Além disso, dos
recursos financeiros repassados pelo FNDE, no âmbito do PNAE, no mínimo 30%
(trinta por cento) deverão ser utilizados na aquisição de gêneros alimentícios
diretamente da agricultura familiar, priorizando-se os assentamentos da reforma

202
agrária, as comunidades tradicionais indígenas e comunidades quilombolas (Lei
nº 11. 947/2009, art. 14).
Os sujeitos que podem vender para a Alimentação Escolar são os
agricultores familiares e empreendedores familiares que possuam DAP
(Declaração de Aptidão ao PRONAF), organizados em grupos formais
(associações ou cooperativas) e grupos informais (cadastrados junto a Entidade
Executora, como prefeituras, Secretarias de Educação etc.). Tais grupos deverão
apresentar um projeto de venda (formulário próprio), caso estejam interessados
em fornecer para a alimentação escolar. Na legislação, estabelecem-se
prioridades para os seguintes projetos de venda: Grupos do próprio município,
grupos formais, assentados de reforma agrária e grupos que apresentem
proposta de venda de alimentos orgânicos ou agroecológicos (ASSOCIAÇÃO
NACIONAL DE MULHERES CAMPONESAS, 2011).
Entre as definições trazidas pela Lei nº 10.831/2003, pelo Decreto nº
6.323/2007 e pelo Decreto nº 7.794/2012, iremos analisar o que entendemos
serem os três principais aspectos: produção, certificação e comercialização.
Com relação à produção, o artigo 1º da Lei 10.831/2003 considera como
sendo um sistema orgânico de produção agropecuária, “[...] todo aquele onde se
adotam técnicas específicas mediante a otimização do uso dos recursos naturais
e socioeconômicos disponíveis e o respeito à integridade cultural das
comunidades rurais, objetivando desta forma a sustentabilidade econômica e
ecológica”.
Já no Art. 2º da referida Lei, define-se o que é produto orgânico, seja ele in
natura ou processado. Seria aquele obtido em sistema orgânico de produção
agropecuário ou oriundo de processo extrativista sustentável, que não prejudique
o sistema local.
Com relação à comercialização, o Art. 3º da Lei nº 10.831/2003 define que
os produtos deverão ser certificados por um organismo que é reconhecido
oficialmente. O inciso 1º deste mesmo Artigo trata da comercialização direta aos
consumidores, por parte dos agricultores familiares, inseridos em processos
próprios de organização e controle social, cadastrados previamente junto ao
órgão fiscalizador. A certificação será facultativa, uma vez que assegurada aos

203
consumidores e ao órgão fiscalizador a rastreabilidade do produto e o livre acesso
aos locais de produção ou processamento.
Já no Inciso 1º ainda do mesmo Artigo (3º), da Lei nº 10.831/2003, consta
que a certificação da produção orgânica, enfocando sistemas, critérios e
circunstâncias de sua aplicação, será matéria de regulamentação da lei (será
analisado no Decreto Presidencial nº 6.323/2007), considerando os diferentes
sistemas de certificação existentes no país.
Quanto à comercialização em geral, no Art. 5º da Lei nº 10.831/2003
consta que os procedimentos relativos à fiscalização da produção, circulação,
armazenamento, comercialização e certificação de produtos orgânicos nacionais
e estrangeiros, serão objeto de regulamentação pelo Poder Executivo. O Decreto
Presidencial nº 6.323/2007, traz o detalhamento em relação à comercialização.
Será agora objeto de nossa análise o Decreto Presidencial nº 6.323/2007.
Quanto à produção, o parágrafo X do Art. 2º do presente Decreto define por
produção paralela a produção que combina na mesma unidade de produção ou
estabelecimento, a coleta, cultivo, criação ou processamento de produtos
orgânicos e não-orgânicos. No Artigo 7º consta que é permitida de produção
paralela nas unidades de produção e estabelecimentos onde haja cultivo, criação
ou processamento de produtos orgânicos, desde que, como dispõe o inciso 1º
deste mesmo Artigo, os produtos orgânicos estejam claramente separados dos
produtos não orgânicos.
Ainda com relação à produção, no parágrafo XIII, deste mesmo Artigo,
define-se como rede de produção orgânica a rede que envolve agentes que
atuam nos diferentes níveis do processo da produção. O Artigo 6º dispõe que
para que uma área dentro de uma unidade de produção seja considerada
orgânica, deverá ser obedecido um período de conversão. No inciso 1º consta
que este período varia de acordo com o tipo de exploração e a utilização anterior
da unidade.
O capítulo III, do título II, do Decreto Presidencial nº 6.323/2007, trata sobre
a comercialização. A Seção I, traz normas para o Mercado Interno. Como consta
no Art. 12º, os produtos orgânicos deverão ser protegidos continuamente para

204
que não se misturem com os não-orgânicos, ou produtos que levem à
contaminação.
A identificação dos produtos orgânicos deve ser clara no comércio
varejista, com local separado e identificado, segundo o Art. 14º. Os restaurantes,
hotéis, etc. também deverão identificar os produtos em seus menus e, se
solicitados, apresentar informações sobre seus fornecedores (Art. 15º). A seção II,
deste capítulo e deste Decreto, define normas para exportação, estando claro no
Art. 18º que, os produtos destinados à exportação que não estejam de acordo
com a regulamentação brasileira, não podem ser comercializados como orgânicos
no mercado interno. Já a Seção III, deste capítulo referente à comercialização, no
Art. 19º consta que para serem comercializados no país como orgânicos, os
produtos orgânicos importados deverão estar de acordo com a regulamentação
brasileira.
Quanto à certificação, esta é detalhada no Capitulo II, do Título III. No Art.
28º consta que para que possam comercializar diretamente ao consumidor, sem
certificação, os agricultores familiares deverão estar vinculados a uma
organização com controle social cadastrada (no Ministério da Agricultura,
Pecuária e Abastecimento ou outro órgão convencionado). O Capítulo III, Título III
deste Decreto de nº 6.323/2007, irá dispor sobre o Sistema Brasileiro de
Avaliação da Conformidade Orgânica, que como consta no Art. 30º será
identificado por um selo único em todo território brasileiro. No Art. 38º, na
Subseção I, consta que cada Sistema Participativo de Garantia da Qualidade
Orgânica será composto pelo conjunto de seus membros e por um organismo
participativo de avaliação da conformidade, credenciado junto ao Ministério da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
Finalmente, a Seção V, do Capítulo III, do Título III, trata da certificação por
Auditoria. Consta no Art. 45º que a Certificação Orgânica é o procedimento
realizado em unidades de produção e comercialização a fim de avaliar e garantir
sua conformidade com relação aos regulamentos exigidos. O Art. 46º dispõe que
a concessão ou a manutenção da certificação será precedida de auditoria, a ser
realizada por organismo de avaliação da conformidade credenciado junto ao

205
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, avaliando se está de acordo
com as normas regulamentadas para a produção orgânica.
Será objeto de nossa análise agora, o Decreto Presidencial nº 7.794/2012,
que institui a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO),
que tem objetivo de integrar e adequar políticas, programas indutores da transição
agroecológica e da produção orgânica e de base agroecológica, contribuindo para
o desenvolvimento sustentável e a qualidade de vida da população, através do
uso sustentável dos recursos naturais e também da oferta e consumo de
alimentos saudáveis (Art. 1º). No parágrafo II, no Art. 2º, mantém-se o conceito de
Sistema de produção orgânico definido pela Lei º 10.831/2003, analisado acima.
Contudo, há algo inovador no presente Decreto. No parágrafo III, do Art. 2º,
aparece a definição de produção de base agroecológica, como sendo “aquela que
busca otimizar a integração entre a capacidade produtiva, uso e conservação da
biodiversidade e dos demais recursos naturais, equilíbrio ecológico, eficiência
econômica e justiça social”. O parágrafo IV, no mesmo Artigo define como
transição agroecológica, o processo gradual de mudança de práticas, por meio da
transformação das bases produtivas e sociais do uso da terra e dos recursos
naturais, levando a sistemas de agricultura que incorporem princípios e
tecnologias de base ecológica.
No Artigo 4º, encontram-se alguns dos instrumentos da PNAPO, sendo um
deles o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, cujo lançamento,
depois de algum atraso, ocorreu no dia 17/10/2013, em Brasília. O mesmo articula
125 iniciativas de 10 ministérios parceiros, totalizando R$ 1,8 bilhão em recursos
e R$ 7 bilhões em crédito (MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E
ABASTECIMENTO, 2013).
Ainda segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento
(2013), esta verba tem como objetivo a implementação de programas e ações que
induzam à transição do modelo tradicional de produção para o modelo
agroecológico, Atualmente, o Ministério da Agricultura (MAPA) tem um cadastro
de cerca de 10 mil produtores orgânicos certificados. A expectativa, com a
implementação do PLANAPO, é que esse número cresça para 50 mil nos

206
próximos três anos. Esta seja talvez a maior expressão do governo para
fortalecimento da agroecologia e da agricultura orgânica.

Considerações Finais
Ao analisar as políticas públicas da agricultura orgânica e da agroecologia,
concluímos que ainda são poucas as ações do Estado diante dessas práticas
agrícolas consideradas mais próximas à ideia de sustentabilidade. O que temos
de mais recente nesta área é a Política Nacional de Agroecologia e Produção
Orgânica (PNAPO), de 2012. A instituição desta política fortalece também a
agricultura familiar, pois grande parte dos produtores orgânicos são agricultores
familiares. Apesar dessas normas, percebemos que o governo federal vem
atuando de forma tímida no apoio à agricultura orgânica e, sobretudo à
agroecologia, mais complexa e ampla.

Referências
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE MULHERES CAMPONESAS. Camponesas
promovendo soberania alimentar com a diversidade brasileira. Brasília, 2011.
BNDES – Banco Nacional do Desenvolvimento. Pronaf-Agroecologia.
Disponível:<http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/bndes/bndes_pt/Institucional/Ap
oio_Financeiro/Programas_e_Fundos/pronaf_agroecologia.html> Acesso em: 24.
set. 2012.
BRASIL. Decreto 6323 de 27 de dezembro de 2007. Regulamenta a Lei 10.831,
de 23 de dezembro de 2003, que dispõe sobre a agricultura orgânica, e dá outras
providências. Brasília, 2007.
BRASIL. Decreto 7794 de 20 de agosto de 2012. Institui a Política Nacional de
Agroecologia e Produção Orgânica. Brasília, 2012.
BRASIL. Lei 10831 de 23 de dezembro de 2003. Dispõe sobre a agricultura
orgânica e dá outras providências. Brasília, Diário Oficial da União de 24/12/2003,
Seção 1, Página 8, 2003.
Disponível em: <http://www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2013/10/ministro-
da-agricultura-participa-do-lancamento-do-planapo>. Acesso em: 01. nov. 2013.

207
ESTUDOS URBANOS

208
COMUNIDADE CIDADE NOVA, FOZ DO IGUAÇU/PR –
APONTAMENTOS NA PERSPECTIVA DA TERRITORIALIZAÇÃO

Germano Luiz Kalinoski


gergeo@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
Este trabalho é um dos requisitos para a conclusão da disciplina “Pluralidade,
Intersubjetividade e Identidade na Fronteira”, do mestrado em “Sociedade, Cultura e
Fronteiras”, da UNIOESTE-Campus de Foz do Iguaçu. Com ele, busca-se investigar
alguns elementos relacionados à constituição da comunidade Cidade Nova, a qual se
localiza na área Norte da cidade de Foz do Iguaçu/PR.
Analisar a construção da comunidade Cidade Nova, que é o objeto desta
pesquisa, é refletir sobre a dinâmica que caracteriza o processo de territorialização. O
Plano Diretor de Foz do Iguaçu, os alunos deslocados, o barulho produzido pelas
Furnas e algumas aproximações dos textos de Bartomeu Meliá e Milton Santos ajudam
a entender um pouco a complexidade existente na produção do território. Portanto, a
territorialização vinculada às fronteiras, a identidade e as questões culturais aparecem
no texto como conceitos fundamentais para uma leitura mais consistente de como
aconteceu e acontece a constituição da Comunidade Cidade Nova, principalmente no
contexto das políticas de reassentamentos urbanos e dos planos de desfavelamento
desenvolvidos na cidade de Foz do Iguaçu (final da década de 90 até os dias de hoje).
Nas reflexões valoriza-se bastante o sujeito como elemento fundamental no
processo de territorialização e do desenvolvimento sociocultural. Portanto, o texto
também tem o objetivo de fazer uma análise compreensiva das condições dos
moradores da Comunidade Cidade Nova, no que se refere à dominação, à apropriação
e outras formas de poder e que estão vinculados à construção de elementos como
memória, identidade, valores, hábitos, costumes, que fazem parte do cotidiano, das
práticas sociais e que estão relacionados à mobilidade, ao deslocamento, às fronteiras
e à alteridade. Esses elementos são importantíssimos na constituição do território.

Metodologia
Na metodologia foram desenvolvidas algumas etapas como:

209
- Levantamento histórico (livros, jornais, mapas etc.) da região, buscando
conhecer como se deu o desenvolvimento socioeconômico de Foz do Iguaçu e da
região da fronteira num todo;
- Levantamento bibliográfico sobre os conceitos de território, territorialização e
multiterritorialidade;
- Visita à comunidade Cidade Nova para fins de observação e confirmação de
dados e para conversar com os moradores sobre a construção da comunidade;
- Análise do Plano Diretor de Foz do Iguaçu;
- Busca de informações sobre a comunidade Cidade Nova (prefeitura,
representantes da comunidade, na biblioteca e na internet).

Discussões
O início da construção da Comunidade Cidade Nova foi a partir de políticas
de reassentamentos urbanos promovidos pelo poder público municipal de Foz do
Iguaçu, no final da década de 1990. Os novos bairros que estão sendo
construídos hoje, Vila Solidária (2011-2012), Conjunto Habitacional Jardim
Almada (2012- 2013) e Vila Residencial Andradina, todos nas proximidades da
Comunidade Cidade Nova, estão inseridos no mesmo contexto das políticas
públicas de desfavelamento anteriores.
A comunidade Cidade Nova e os novos bairros que estão surgindo nas
proximidades podem ser entendidos no contexto da territorialização, por qual
passa o espaço urbano de Foz do Iguaçu. Territorialização que se intensificou a
partir da década de 1970, com a construção da usina de Itaipu, com o aumento
das relações comerciais na fronteira, com a especulação imobiliária e com o
fortalecimento do setor turístico, tendo como destaque as Cataratas do Iguaçu e a
Itaipu Binacional.
A territorialização da comunidade Cidade Nova acontece através das
relações, interações e articulações dos diferentes elementos nas fronteiras aí
existentes. A pluralidade cultural manifestada pelos seus moradores e pela
maneira como a comunidade está organizada espacialmente também são fatores
que o tornam diferente das outras comunidades, existentes na cidade de Foz do
Iguaçu.

210
As relações de poder no espaço emanam das mediações espaciais que se
desenvolvem no interior das comunidades. E esse poder se desenvolve a partir
das relações entre elementos concretos e simbólicos.
Conforme novos bairros vão sendo construídos, novas configurações
territoriais vão se estabelecendo. A dominação, a apropriação e outras formas de
poder, tanto de caráter material, como simbólico estarão presentes nos indivíduos
e grupos de pessoas do bairro. Essa situação caracteriza as diferentes formas de
territorialização que estão acontecendo na cidade de Foz do Iguaçu. Essa
apropriação e desapropriação do espaço que é múltiplo, por causa da forma como
acontece a sua territorialidade, exige desses indivíduos a construção de novas
identidades, ou no mínimo uma resignificação da identidade anterior ao
deslocamento.
Enquanto moradores das favelas o controle e apropriação do espaço
urbano, tanto no sentido material quanto imaterial, acontecia de maneira
integradora, permitindo que esses indivíduos construíssem laços ou elos
identitários e de memória que os diferenciava das demais comunidades da favela
e de outros territórios existentes na cidade de Foz do Iguaçu.
A política de desfavelização adotada pelos gestores públicos,
principalmente a partir do final da década de 1990, segue uma visão mais estreita
do entendimento de território. No próprio Plano Diretor de Foz do Iguaçu (Plano
Diretor - PDMFOZ/2006), documento base para muitas políticas públicas, o
território é tido apenas como área, como uma porção do substrato do espaço
terrestre. É um território específico dos planejadores como podemos constatar em
algumas passagens que falam em “extensão territorial do Município”, “zelar pela
proteção ambiental em todo o território do município”, “permitir o uso socialmente
justo e ecologicamente equilibrado do território”, “definir modelo de ordenamento
territorial”, “planejamento do desenvolvimento do município, da distribuição
espacial da população e das atividades econômicas no território municipal, de
modo a evitar e corrigir as distorções do processo de desenvolvimento urbano e
seus efeitos negativos sobre o meio ambiente”.
Portanto, o território do gestor público de Foz do Iguaçu não é definido e
redefinido a partir de um conjunto de forças materiais e imateriais, que articuladas

211
em redes multiescalares e multidimensionais vão permitir a construção de
experiências integradas do espaço.
A prefeitura de Foz, através da Secretaria de Planejamento, da Fozhabita,
ancorada no Plano Diretor, pode até possibilitar num determinado momento,
como vem fazendo, alterações territoriais no espaço urbano, porém, não terá
controle sobre a construção desses territórios. As relações de dominação e
apropriação, objetivas e subjetivas, que indivíduos ou grupos de indivíduos
desenvolvem e mantém se impõem às políticas públicas, não eliminando-a, mas a
integrando ao processo dinâmico da territorialização.
Sendo o território resultado da relação sociedade-natureza e estando
amarado à ideia de poder, controle e apropriação, podemos pensar a comunidade
Cidade Nova como resultado de um plano de desfavelamento, onde os indivíduos
foram deslocados de um território para outro. De um território em estágio de
construção mais definido no que se refere à identidade, à memória, às práticas
econômicas, ao trabalho, para um território onde a identidade, a memória, as
práticas sociais e culturais terão que ser reconstruídas, reinventadas.
Como exemplo, podemos pensar na situação do colégio Ipê Roxo, que foi
construído em 2002, na comunidade Cidade Nova. É um espaço constituído e
frequentado por alunos deslocados, oriundos de famílias que foram deslocadas
de um território (da favela do Monsenhor Guilherme) para outro (Cidade Nova). A
territorialização desses alunos, que tem aspecto de uma diáspora, apresenta
características multiformes e multiculturais, estão sempre engendrando pequenas
centelhas que iluminam constantemente o território em que vivem (Cidade Nova)
e em que estudam (Colégio Ipê), produzindo e propondo ritmos á dinâmica
socioespacial.
O Colégio Ipê Roxo não é o único espaço dos deslocados. As igrejas, as
ruas, o posto de saúde, o campo de futebol, as residências, os estabelecimentos
comerciais também o são. Enfim, todo o conjunto da população da comunidade
Cidade Nova, bem como as comunidades vizinhas, que estão surgindo agora
(2011, 2012 e 2013), tem a difícil tarefa de construir uma identidade própria, tanto
individual quanto coletiva.

212
Essa dificuldade deve-se em grande parte à mobilidade dessas pessoas,
que é heterogênea, concreta e virtual (HAESBAERT, 2012). Mobilidade que
acontece entre territórios diferentes, causados e criados por políticas públicas de
desfavelamento, que permitem aos indivíduos da comunidade Cidade Nova,
transitarem entre fronteiras, interagindo com a alteridade, desenvolvendo
sentimentos de multipertencimento e se aproximado daquilo que a
multiterritorialidade propõem, como podemos ver na observação de Haesbaert
(2010, p. 344).
Desse modo, a existência do que estamos denominando
multiterritorialidade, pelo menos no sentido de experimentar vários
territórios ao mesmo tempo e de, a partir daí, formular uma
territorialização efetivamente múltipla, não é exatamente uma novidade,
pelo simples fato de que, se o processo de territorialização parte do nível
individual ou de pequenos grupos, toda relação social implica uma
interação territorial, um entrecruzamento de diferentes territórios. Em
certo sentido, teríamos vivido sempre uma "multiterritorialidade".

A multiterritorialidade que acontece de fato nos múltiplos espaços que


caracteriza a comunidade Cidade Nova e comunidades vizinhas, mais antigas ou
mais recentes é resultado da "combinação de territórios pessoais ou de territórios
de baixa intensidade"(HAESBAERT, 2010, p. 350). Nesses territórios, os
indivíduos e grupos de indivíduos, através de processos interacionais e
relacionais, desenvolvem funções, algumas mais objetivas, outras mais
subjetivas, porém com força suficiente para significar e resignificar, muitas vezes
de maneira quase que imperceptível, o espaço urbano de Foz do Iguaçu.

Mais do que novas "formas", o que interessa são as novas relações que
estes múltiplos espaços permitem construir. Nunca é demais lembrar o
pressuposto básico de que o território, no sentido relacional com que
trabalhamos, não é simplesmente uma "coisa" que se possui ou uma
forma que se constrói, mas sobre tudo uma relação social mediada e
moldada na/pela materialidade do espaço. Assim, mais importante que
as formas concretas que construímos são as relações com as quais nós
significamos e "funcionalizamos" o espaço, ainda que num nível mais
individual (HAESBAERT, 2010, p. 350).

Podemos pegar o barulho (poluição sonora) produzido pela empresa


estatal Furnas Centrais Elétricas, como segundo exemplo de um elemento ou
situação que está presente no processo de construção da territorialização da
comunidade Cidade Nova. O barulho produzido pelas furnas, que faz fronteira
com a Cidade Nova, objeto desta análise, é outro território, um território funcional,

213
mas que ajuda a caracterizar e diferenciar a comunidade Cidade Nova de outras
comunidades mais distantes dessa empresa como a Vila A, o Porto Meira a Vila
Yolanda.
Os moradores da comunidade Cidade Nova vivem e convivem com o
barulho, principalmente no período noturno. Ao perguntarmos a um morador da
comunidade Cidade Nova o que ele acha do barulho o mesmo fala que já se
acostumou e nem percebe. Fazendo a mesma pergunta a outro morador da
comunidade, e que está morando a pouco tempo no bairro, temos outra resposta
para o barulho, sendo que este diz estar tentando se acostumar.
Portanto a maneira como cada indivíduo percebe ou sente um determinado
fenômeno, muda de acordo com a dinâmica do processo de territorialização em
que está inserido. Temos dessa forma moradores que se acostumaram ao
barulho, portanto não vão migrar para outro território por causa do mesmo. Temos
aqueles moradores que estão tentando tolerar a poluição sonora. Nesse grupo há
possibilidades de que haja mudança de território. E temos aqueles moradores que
por estarem chegando na comunidade, precisam de um certo tempo para
conhecer o fenômeno e isso acontecerá através das relações com os outros
moradores. Já os indivíduos que moram na região do Porto Meira, comunidade
que está distante das furnas, podem ter o "privilégio" de escutar o barulho caso
estejam fazendo um tour na empresa, passando nas proximidades da mesma ou
num sentido mais permanente, inseridos nas políticas publicas de desfavelização.
Dessa forma, e de acordo com Haesbaert (2010, p. 353).

O que define minha escolha por esse ou aquele território no interior da


cidade é um complexo de processos, e eu interajo numa multiplicidade
de escolhas e constrangimentos impostos por outros que, muitas vezes,
tem muito mais capacidade do que eu para definir territorialidades, num
sentido geral ou com respeito a seu ambiente econômico e cultural
(HAESBAERT, 2010, p. 353).

Assim, temos pessoas, equipamentos, transitores, redes de energia,


colégios, ruas e uma infinidade de outros elementos, interagindo para criar novos
territórios e para manter os que já existem. A territorialização acontece das trocas
entre esses diferentes elementos. As Furnas Centrais Elétricas, como elemento
técnico, mesmo estando fora da comunidade Cidade Nova, situação diferente do
exemplo do Colégio Ipê Roxo, como espaço dos deslocados e que está dentro da

214
comunidade, participa desse jogo de poder, influenciando de alguma maneira na
forma como a comunidade constrói o seu território. Influência que ultrapassa as
fronteiras da comunidade Cidade Nova. Pois o fato de as furnas processarem a
energia elétrica produzida pela Usina Itaipu, e distribuir essa energia para outros
lugares estará contribuindo para a formação e manutenção de territórios que
estão localizados bem além do seu entorno.
A comunidade Cidade Nova , quando analisada no contexto das políticas
públicas de desfavelamento desenvolvidas na Cidade de Foz do Iguaçu, políticas
essas que podem ser entendidas apenas como gatilhos que acionam um
movimento e que não podem controlar o processo. A trajetória desse movimento,
apresenta uma estrutura que pode ser comparada à desenvolvida por Meliá
(2010, p. 1-2) quando analisa a chegada dos outros no processo de formação do
Paraguai, ou seja, "destrucción, encubrimiento, sustitución, transformación e
creación". Todos os elementos interagindo com todos. Mantendo sempre
aspectos interacionais.
As políticas públicas de desfavelamento desenvolvidas na cidade de Foz
do Iguaçu têm um certo caráter de destruição. A intenção objetiva e subjetiva é de
destruir a favela. É o pobre que mora na favela. Portanto desfavelizar significa
destruir o pobre, sua identidade, hábitos, costumes, memórias, enfim, seus
valores socioculturais (destrucción). E essa ideia fecha com a de globalização e
com a dos "tempos rápidos" dos quais fala Santos (2010, p. 267). Essa rapidez
interessa aos grupos hegemônicos (à rede hoteleira, à Itaipu, ao setor turístico e
ao grande capital de maneira geral) existentes na cidade de Foz do Iguaçu. Eles
querem e pressionam o gestor público para que coloque em prática políticas, que
desloquem pessoas pobres de um lugar para outro, dentro do espaço urbano. E
um dos objetivos do desfavelamento, isso na perspectiva dos grupos
hegemônicos é o de limpar o espaço urbano da presença dos pobres
(encubrimiento). Principalmente aqueles espaços mais centrais, onde a
mobilidade do capital é maior.
Como o pobre continua a existir na comunidade Cidade Nova a favela
também está lá, faz parte da sua realidade. Ao se deslocarem levam do território
de saída elementos materiais e imateriais para o território de chegada. Dessa

215
maneira, tanto o território de saída, quanto o território de chegada acabam
passando por um novo processo de territorialização (sustitución e
transformación).
Se o "tempo rápido" é o tempo da globalização, o "tempo lento" é o tempo
da localização, do local (SANTOS, 2010, p. 267). Portanto, no processo de
desfavelamento o tempo lento do pobre se coloca como contraponto ao tempo
rápido dos grupos hegemônicos. Assim, "[...] a força dos fracos é o seu tempo
lento" (SANTOS, 1994 apud HAESBAERT, 2010, p. 370). Os moradores da
comunidade Cidade Nova estão inseridos no processo da territorialização. A
identidade, a cultura, a memória, o território e outros elementos socioculturais
continuam sendo construídos (creación).

Considerações Finais
Neste trabalho, considera-se que a territorialização contribui para uma
leitura mais atenta da construção da comunidade Cidade Nova, no contexto dos
planos de desfavelamento e também na perspectiva de evidenciar as relações e
interações que acontecem nas fronteiras desse território.
A realização desta pesquisa propõe também contribuir para uma leitura
sócioespacial da organização territorial do espaço urbano da cidade de Foz do
Iguaçu, da maneira como os moradores da comunidade Cidade Nova se
apropriam do território em que vivem, das relações de poder que desenvolvem no
interior do mesmo e com o espaço urbano num todo.

Referências
PLANO DIRETOR - PDMFOZ/2006. Prefeitura Municipal de Foz do Iguaçu.
Disponível em: <http://www.pmfi.pr.gov.br/secretaria/32/Planejamento.> Acesso
em: 14. out. 2013.
HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização: do fim dos territórios à
multiterritorialidade. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2010.
MELIÁ, Bartolomeu. Paraguay: Identidades, substituciones y transformaciones. II
Foro Internacional del Bicentenario - 18 de agosto de 2010. Disponível em:
<www.unisinos. br/ihuonline/index. php>. Acesso em: 14. out. 2013.
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 4.
ed.. São Paulo: Edusp. 2006.

216
CONTRASTES ENTRE O IDEAL E O REAL:
O PLANO DIRETOR E O ESPAÇO URBANO DE FRANCISCO BELTRÃO-PR

Sílvia Regina Pereira


silviarpereira@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
As condições de vida urbana não são adequadas para todos aqueles que
residem nas cidades, e com o aumento populacional que ocorrerá nesses
espaços, a precariedade de vida atingirá boa parte dessa população. Não há um
planejamento adequado, em relação ao crescimento populacional e à expansão
das áreas urbanas, portanto haverá um aumento considerável das ocupações
irregulares e inadequadas, com o consentimento do poder público.
O espaço urbano reflete os interesses dos agentes produtores do espaço
urbano (especulação imobiliária) em detrimento dos direitos dos citadinos (que
ocupam áreas inadequadas, sem infraestrutura ou ficam sem acesso à moradia,
como os sem-teto). Muitos não conseguem se apropriar da cidade como um todo
(equipamentos urbanos; áreas de lazer etc.), muitas vezes por não terem
condições adequadas de acessibilidade. Já os segmentos de maior poder
aquisitivo podem se afastar dos problemas urbanos se refugiando em áreas com
uma infraestrutura mais adequada, próximo à natureza, tendo seus
deslocamentos facilitados por meio do transporte individual, bem como o acesso a
equipamentos e serviços urbanos com melhor qualidade.
Dessa forma, o poder aquisitivo dos moradores associado à estruturação
urbana pode interferir no cotidiano dos citadinos, gerando espaços de segregação
e auto-segregação. O acesso e a apropriação das áreas urbanas nas quais se
instalam os diversos equipamentos urbanos não são assegurados a toda
população. Portanto o direito à cidade não é concedido a todos. Mas, quem de
fato exerce esse direito? Como os diferentes segmentos sociais vivenciam a
cidade?
Diante desses questionamentos procuramos analisar um dos instrumentos
de regulamentação do uso do solo urbano, o Plano Diretor, para verificarmos

217
quais são as possibilidades apresentadas nesse documento para assegurar o
direito à cidade para a população de Francisco Beltrão-PR.

Os instrumentos de regulamentação do uso do solo urbano


Há vários instrumentos de regulação do uso do solo urbano, tais como as
normativas, leis (Estatuto da Cidade, Plano Diretor) etc. No que diz respeito ao
Estatuto da Cidade, podemos destacar algumas diretrizes do Capítulo I,

Capítulo I - Diretrizes gerais (Parágrafo único) - normas de ordem pública


e interesse social que regulam o uso da propriedade urbana em prol do
bem coletivo, da segurança e do bem-estar dos cidadãos, bem como do
equilíbrio ambiental.
Art. 2º A política urbana tem por objetivo ordenar o pleno
desenvolvimento das funções sociais da cidade e da propriedade
urbana, mediante as seguintes diretrizes gerais:
I - garantia do direito a cidades sustentáveis, entendido como o direito à
terra urbana, à moradia, ao saneamento ambiental, à infra-estrutura
urbana, ao transporte e aos serviços públicos, ao trabalho e ao lazer,
para as presentes e futuras gerações;
II - gestão democrática por meio da participação da população e de
associações representativas dos vários segmentos da comunidade na
formulação, execução e acompanhamento de planos, programas e
projetos de desenvolvimento urbano;
III - cooperação entre os governos, a iniciativa privada e os demais
setores da sociedade no processo de urbanização, em atendimento ao
interesse social;
IV - planejamento do desenvolvimento das cidades, da distribuição
espacial da população e das atividades econômicas do Município e do
território sob sua área de influência, de modo a evitar e corrigir as
distorções do crescimento urbano e seus efeitos negativos sobre o meio
ambiente;
V - oferta de equipamentos urbanos e comunitários, transporte e serviços
públicos adequados aos interesses e necessidades da população e às
características locais.

Considerando que o Plano Diretor de cada município deve se pautar nos


capítulos e diretrizes apresentadas no Estatuto da Cidade, poderíamos ter menos
problemas nas áreas urbanas. Muitas vezes esses instrumentos ficam
engavetados, não mantendo nenhuma correspondência com a realidade a qual se
vincula. Dessa forma, os segmentos de menor poder aquisitivo são os que
sofrem, pois muitos não têm o direito à cidade (considerando as condições de
vida urbana), assegurado.
A seguir apresentamos algumas imagens de Francisco Beltrão, que
retratam os alagamentos ocorridos em várias áreas da cidade, diante da chuva
que ocorreu no mês de abril de 2010. Esses alagamentos refletem a ação do

218
homem, de forma incorreta, possibilitando a canalização de rios, a retirada de
vegetação dos morros e impermeabilização do solo em várias áreas da cidade.
Abaixo de cada foto apresentamos um trecho do Plano Diretor, para que
possamos perceber a incoerência entre o que está estabelecido no plano e o que
acontece nessa cidade.

Foto 1-Vista parcial da área alagada próxima ao Córrego Lonqueador

Fonte: Luiz Carlos Flávio, abril/2010.

II - a garantia da preservação do solo e do lençol freático realizando as


obras e manutenção necessários para o devido isolamento das redes de
serviços de infraestrutura.

Foto 2-Vista do alagamento no Parque Alvorada


Fonte: Luiz Carlos Flávio, abril/2010.

IV - garantir a qualidade do ambiente urbano, por meio da preservação


dos recursos naturais e da proteção do patrimônio histórico, artístico,
cultural, urbanístico, arqueológico e paisagístico.

219
Foto 3-Vista do alagamento na periferia pobre da cidade

Fonte: Luiz Carlos Flávio, abril/2010.


Art. 6º. Este Plano Diretor Municipal rege-se pelos seguintes princípios:
III - direito à cidade para todos, compreendendo: o direito à terra urbana;
à moradia digna; ao saneamento ambiental com a preservação e
recuperação do ambiente natural.

Foto 4-Moradores retirando seus pertences das áreas alagadas

Fonte: Luiz Carlos Flávio, abril/2010.

VII- o respeito ao meio ambiente, buscando adotar tecnologias de projeto, construção e manutenção dos
empreendimentos habitacionais voltados para os princípios do desenvolvimento sustentável, alternativas de
conservação de água e de disposição de resíduos sólidos, recuperação de áreas verdes, preservação ambiental.

Com base nas fotos acima, podemos perceber que o que está previsto no
Plano Diretor desse município não é cumprido. As áreas alagadas, retratadas nas
fotos, mostram que o não cumprimento das normativas de uso e ocupação do
solo, pode causar problemas, danos não só ao meio ambiente, mas
principalmente para a população, sendo que o segmento de menor renda é
sempre o mais prejudicado.

220
Por isso, destacamos o quão é importante possibilitar o conhecimento
dessas leis que regem o uso do solo urbano, especialmente o Plano Diretor, para
que a população possa tomar ciência do que está estabelecido nesse instrumento
e cobrar ações do poder público, que possam evitar ou minimizar problemas,
como os gerados pelos alagamentos. Esses alagamentos são recorrentes e por
isso é preciso fazer com que o Plano Diretor seja cumprido, para então minimizar
os problemas gerados e evitar mais danos à vida da população.

A estruturação do espaço urbano


O espaço urbano é estruturado diferencialmente, dificultando o uso e a
apropriação pelos moradores que possuem um menor poder aquisitivo e que se
encontram nos loteamentos mais distanciados e menos estruturados, interferindo
no direito à cidade.
No que diz respeito à estruturação dos equipamentos de uso coletivo e das
principais áreas/eixos de comércio e serviços de Francisco Beltrão há uma
diferenciação espacial em termos do oferecimento deles à população. Não existe
uma eqüidade na distribuição dos mesmos que facilite o acesso, para a
apreensão dos espaços públicos e o consumo de bens e serviços.
As diferentes áreas no interior da cidade não recebem atenção de acordo
com as suas particularidades, o que contribui para as disparidades
socioespaciais. Essas diferenciações se agravam e acabam por interferir nas
condições de vida dos moradores, em razão de uma estruturação do transporte
público que não possibilita uma integração e conexão com as diferentes áreas da
cidade. Como ressalta Ramirez (s.d.):
La ciudad y su arquitectura, así como sus instituciones, ya no son un
producto de la propia actividad ciudadana, ni están inspirados por un
ideal de vida en cuya formulación participen todos según su capacidad.
La ciudad es una estructura física y las instituciones son sistemas de
reglas, ambos creados por profesiones que se arrogan el conocimiento
de lo que es bueno y conveniente para la vida de los ciudadanos y el
diseño de aquello que ha de facilitar la realización del sentido y las
aspiraciones de todos.
A estruturação que se estabelece no espaço urbano não está diretamente
associada ao atendimento das necessidades de todos os citadinos, ocorrendo
uma diferenciação entre os segmentos sociais em termos de oferecimento de
equipamentos urbanos nas áreas onde residem.
221
Não há também, a participação dos diferentes segmentos nas diversas
instâncias, nos momentos de planejamento e tomada de decisões, o que poderia
possibilitar um exercício de cidadania. Sabemos que os diversos órgãos públicos
que atuam, efetivamente, nas decisões que se estabelecem no espaço urbano
estão ligados aos interesses de determinada composição da representatividade
política, beneficiando alguns segmentos em detrimento de outros. Esses
segmentos interferem nas decisões e ações implementadas pelo poder público, o
qual não representa de fato, as necessidades essenciais dos menos favorecidos.
Quase sempre não se pensa e não se age em nome de uma cidade para todos.

Qual o papel do poder público?


Campos Filho (2003) apresenta em seu estudo, um planejamento de bairro
na cidade de São Paulo, que pode ser incorporado a outros níveis escalares, pois
são proposições que se aplicam à realidade urbana, com vistas a adequar sua
estruturação. Este deveria ser considerado pelo poder público como alternativa
para melhorar as condições de vida dos moradores das áreas mais distantes.
Tenhamos presente que, tanto para a organização do comércio e
serviços em geral como dos serviços de educação, devem ser discutidos
a realidade presente nas diversas configurações da estruturação urbana
e os tecidos correspondentes, avaliando-se as suas qualidades e
dificuldades.
De um lado, há o problema da família fazer com que a criança vá para a
escola em segurança. [...] De modo geral, pode-se dizer que a
proximidade desses equipamentos em relação à moradia é desejável, de
modo a permitir que a criança com idade suficiente possa andar a pé
sozinha em poucos minutos e com segurança de sua casa até ele. Nos
planos de bairros populares [...] 800 metros tem sido a distância máxima
definida como cômoda para se andar a pé até o comércio, serviço ou
equipamentos sociais. [...] A questão da escolha do melhor serviço influi
nessa definição porque muitas vezes o melhor serviço pode estar mais
longe do que se pode percorrer a pé, o que exigirá um esforço adicional,
como pegar um ônibus, um táxi ou um automóvel (p. 19-20).

O poder público deve levar em conta as carências e as dificuldades dos


segmentos de menor poder aquisitivo, no momento de planejamento e tomada de
decisões, para que a instalação de equipamentos sociais ocorra em áreas nas
quais os moradores de determinados setores da cidade tenham acesso, sem
grandes deslocamentos. Que haja de fato a descentralização desses
equipamentos, para que o acesso a eles não seja dificultado. Associada a essa

222
descentralização está a necessidade de uma melhor estruturação do transporte
público, para que a acessibilidade seja adequada para garantir o direito à cidade.
Defendemos a constituição de subcentros, aliada a esse planejamento de
bairros, por meio de investimentos do poder público que, em aliança com o poder
privado, pode instalar a infraestrutura necessária para a implantação de
estabelecimentos de comércio e serviços, bem como equipamentos sociais
básicos para facilitar a vida cotidiana dos moradores, principalmente daqueles
que residem nas áreas mais precárias e distantes. A estruturação do transporte
público deve ser também considerada, possibilitando o ir e vir para todas as áreas
da cidade, já que muitas vezes a escolha de um serviço ou de determinado
equipamento se dá não pela proximidade, mas pela qualidade ou por outro
critério, sendo necessário utilizar um meio de deslocamento para obtê-lo.
As possibilidades de transformação do urbano existem, é preciso unir-se
para que elas se concretizem em prol de uma cidade diversa, múltipla, plural e
equitativa. Para isso o poder público deve cumprir o seu papel e garantir o direito
à cidade para todos.
A ação do poder público na cidade é verificada por meio do papel de
legislador, administrador, financiador e tributador, investindo em
habitação, infra-estrutura e equipamentos urbanos. Aliado a ele está o
setor imobiliário que visa a obtenção máxima de lucro, aproveitando-se
de benefícios públicos aumentando ainda mais o processo especulativo
no espaço urbano. Já os consumidores/usuários, principalmente os de
menor poder aquisitivo não possuem influência na determinação dos
processos de ampliação e regulação do tecido urbano, que é marcado
por diferenças socioespaciais (PEREIRA, 2001, p. 72).

O poder público deve estabelecer prioridades para as ações realizadas no


espaço urbano, considerando os segmentos de menor renda, residentes nas
áreas sem infra-estrutura adequada, distantes dos bens e serviços coletivos,
assim como os sem teto, de forma que todos sejam contemplados nessas
políticas. Os citadinos precisam ter acesso à moradia, à saúde, à educação, aos
equipamentos urbanos de uso coletivo, ao lazer e à cultura, ao espaço público, às
instâncias representativas dessa sociedade e à participação cidadã para que
possam realizar a vida urbana.
Há instrumentos de ação que podem ser colocados em prática pelo poder
público, para que seja possível controlar e gerenciar o uso e apropriação do
espaço urbano, permitindo assim o direito à cidade para todos e não para alguns,
223
como temos visto. Esses instrumentos nem sempre correspondem à realidade
dos moradores da cidade, pois muitas vezes são criados ou alterados em favor de
interesses imobiliários, de agentes que se encontram envolvidos com a
produção/reprodução do espaço urbano.

Considerações Finais
O poder público deve coibir a especulação imobiliária (não permitindo a
manutenção dos vazios urbanos e instituindo o IPTU progressivo e outras
medidas etc.); conceder infraestrutura prioritariamente para as áreas mais
carentes; possibilitar a integração das áreas por meio da reestruturação do
transporte coletivo; proibir a ocupação e regularização de áreas irregulares e
inadequadas pelos distintos segmentos sociais; possibilitar que a gestão da
cidade leve em conta os direitos do coletivo; estimular a participação popular nos
distintos momentos do planejamento urbano; permitir que a cidade seja adequada
para se viver e não somente para se ver (quando tenta esconder as mazelas
sociais) e assegurar o direito à cidade (moradia, equipamentos urbanos;
infraestrutura, lazer e transporte coletivo). Se essas condições não forem
minimamente possibilitadas, teremos grandes e constantes contrastes entre as
áreas urbanas.
Por isso, as políticas públicas precisam assegurar as condições de vida
urbana para a população e não somente para alguns segmentos privilegiados. É
possível garantir esse direito à população, cobrando o poder público, para que
suas ações beneficiem todos e não alguns segmentos sociais. Dessa forma, as
cidades poderão ser mais justas e as desigualdades socioespaciais minimizadas.

Referências
CAMPOS FILHO, Cândido Malta. Reinvente seu bairro: caminhos para você
participar do planejamento de sua cidade. São Paulo: Ed. 34, 2003.
PEREIRA, Sílvia Regina. Subcentros e condições de vida no Jardim
Bongiovani e Conjunto Habitacional Ana Jacinta - Presidente Prudente-SP.
2001. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Universidade Estadual Paulista,
Presidente Prudente.
RAMIREZ, José Luiz. La ciudad y el sentido del que hacer ciudadano. In: Scripta
Vetera. Disponível em: <http://www.ub.es/geocrit/sv-65.htm>. Acesso em mai.
2005.
224
OS DIFERENTES SEGMENTOS DE RENDA NOS ESPAÇOS
PÚBLICOS DE LAZER NO MUNICÍPIO DE PATO BRANCO-PR

Pollyana Poletto
polly_poletto@hotmail
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
Essa pesquisa tem a intenção de verificar as condições infraestruturais do
lazer ofertadas pelo poder público no município de Pato Branco/PR. Além de
observar em que condições se encontram as áreas públicas, será analisado a
diferenciação de usos desses espaços, procurando verificar se a oferta do lazer é
igualitária para os diferentes segmentos sociais.

Metodologia
Para a efetivação da pesquisa, foram realizadas leituras a cerca dos temas:
lazer, qualidade de vida, direitos dos cidadãos, dever do poder público, assim
como leis que regem esses assuntos. Na sequência, foi executado uma pesquisa
a campo, buscando verificar as condições infraestruturias dos espaços públicos
da cidade, assim como a opinião dos moradores das imediações, a respeito do
assunto. E para finalizar, houve a divulgação dos resultados, os quais pretendem
alertar a população para o assunto, assim como pressionar o poder público a
investir no lazer no município.

Discussões
O município de Pato Branco-PR, escolhido para a pesquisa nos chamou a
atenção quando tratamos do assunto lazer, pois, nas primeiras observações a
campo, verificou-se que nas principais áreas públicas da cidade havia uma boa
infraestrutura, possibilitando condições para realização de atividades variadas de
lazer, estas áreas localizam-se no centro ou em bairros de maior poder aquisitivo,
possibilitando que as pessoas que residem em seu entorno e as que possuem
meios de locomoção até eles, façam uso. Porém, quando analisamos os bairros
de menor poder aquisitivo, verificamos que a situação é contrária, as áreas
públicas existentes encontram-se em más condições de uso, ou estão fechadas
para o acesso da população.

225
Não podemos negar que a sociedade hoje é regida pelo capital, e ele
privilegia quem lhe é conveniente. Nas sociedades há disputas entre os
segmentos sociais, portanto “O espaço da cidade é o cenário e o objeto das lutas
sociais, pois estas visam o direito à cidade, à cidadania plena e igual para todos”
(CORRÊA, 2005, p. 9).
Nela há uma luta de interesses, entre os que buscam esses ideais e os que
visam outras prioridades, cada um disputando e defendendo o que acha
importante para si. Pode-se perceber através de observações na cidade
selecionada, que uma grande parte da população não valoriza lazer, essas
pessoas acomodam-se, deixando de reivindicar seus direitos, faltam atitudes que
exijam do poder público investimentos nessa área. Marcelino (1995) justifica essa
falta de cobrança expondo o pensamento predominante que considera o lazer
uma prática realizada pelas camadas sociais mais privilegiadas, significando que
os pobres devem superar a pobreza para depois dar prioridades a atividades de
lazer, as pessoas no geral concebem:

[...] o lazer como algo a ser considerado apenas para as camadas


sociais privilegiadas, que já satisfizeram suas necessidades básicas de
saúde, alimentação e habitação. Observa ainda que uma vez numa
situação de privação sócio-econômica, as camadas pobres da população
vivenciam uma outra cultura, sendo prioritária a ação que as faça
superar a condição de pobreza, para que só depois se pense nos
problemas relativos ao lazer (MARCELINO, 1995, p.31)

Essa ideia de que a população é heterogenia e, portanto vivenciam-se nela


várias culturas, sendo que os mais pobres são privados de realizarem algumas
atividades é contraditória, pois sabemos que todos possuem os mesmos direitos
como cita a Constituição Federal, “Art. 6º São direitos sociais a educação, a
saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência
social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados,
na forma desta Constituição (CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO
BRASIL, 2012, p.07). Sem contar que o lazer é fundamental na vida da
sociedade, acreditamos que com a prática constante as pessoas possam viver
harmonicamente, pois estarão relaxados e entretidos com atividades variadas,
muitas delas de caráter esportivo e cultural que beneficiaria seu praticante.

226
Porém a realidade é que os cidadãos não são tratados da mesma forma,
havendo uma seleção de quem é privilegiado com investimentos do poder
público, defendem-se alguns ideais, e na sua maioria eles não beneficiam os mais
necessitados de investimentos, essa diferenciação de tratamentos geralmente é
determinada “[...] pelo lugar que o indivíduo ocupa dentro do processo produtivo
da sociedade como um todo, e de forma pela qual participa da apropriação da
riqueza gerada” (DUMAZEDIER, 1974, p.62). Simples assim: quando falamos do
lazer, quem possui um lugar privilegiado na sociedade, com uma quantia
significativa de riqueza, consegue pagar por ele, que acaba sendo diferenciado.
Isso é o que ocorre em um bairro de classe alta no município de Pato Branco,
esses moradores possuem um poder aquisitivo alto, podendo pagar por seu lazer,
que são eles: práticas esportivas diferenciadas, escolinhas particulares para seus
filhos, presença em teatros, cinema, restaurantes, aquisição de chácaras, casa
em rios, lagos e praias, barcos para pesca etc. Essas pessoas não se importam
com as áreas públicas de lazer de seus bairros, isso demonstra a falta de contato
entre os moradores, que segregam-se em suas residências evitando contatos
entre os mesmos.
O centro da cidade proporciona um ótimo local de lazer á população, que é
a Praça Getúlio Vargas, nela há bancos, arborização, iluminação, pavimentos em
boas condições, parquinho infantil, quadra de areia, proporcionando segurança e
comodidade aos usuários, acredita-se que esse embelezamento aconteça pela
área ser bem visada na cidade, os visitantes acabam percorrendo-a quando
passam pelo município. Porém, nem toda população têm acesso á ela, pois quem
não possui condições de deslocar-se acaba ficando à mercê de sua utilização.
Nos bairros de médio poder aquisitivo os moradores possuem a
conscientização de seus direitos referentes ao lazer, e não tendo condições de
pagar sempre por ele, acabam cobrando do poder público a construção e
melhoria dos espaços públicos que se localizam nas imediações de onde
residem, para que sejam proporcionadas estruturas para a prática de atividades
relacionadas ao lazer. Isso é visível no bairro de classe média da cidade, Santa
Teresinha, o qual possui uma praça, nela podemos encontrar um parquinho
infantil, academia para os idosos e campo de areia, tudo bem arborizado e em

227
boas condições de uso. Quando a população do bairro percebe alguma
necessidade, é convocada uma reunião entre os moradores interessados no
debate, juntando ideias para buscar junto ao poder público supri-las.
Prática essa não verificada nos bairros de menor poder aquisitivo,
percebemos que esses cidadãos ficam à mercê dos projetos elaborados pelo
poder público referentes ao lazer, diante do fato, nem sempre se organizam para
reivindicarem perante o poder público, acredita-se que por não possuírem
informações sobre seus direitos, acabam por ficarem calados e restringindo-se
aos espaços públicos existentes que encontram-se em péssimas condições de
uso, ou ao espaço particular de suas residências, os quais não oferecem práticas
variadas. Temos como exemplo na cidade de Pato Branco o bairro São João,
nessa área residem pessoas de baixa renda, portanto não podendo pagar por seu
lazer, e com áreas públicas em péssimas condições de uso, acabam por realizar
poucas atividades de lazer, na maioria das vezes com uma qualidade adversa. A
praça existente não possibilita a permanência de pessoas, pois, não têm árvores
e nem bancos, é vazia. Mediante a falta de investimentos as pessoas restringem-
se a suas residências e realizam atividades que se vinculam a: assistir televisão,
brincadeiras no quintal, leituras, conversas com amigos etc., já que não há
estruturas nas proximidades desses bairros que possam ser utilizadas, além de
muitas vezes também não haver condições de segurança, dificultando a
permanência das pessoas nos locais.
Diante dos investimentos que o poder público realiza nas áreas públicas da
cidade, fica clara a maior preocupação com o centro e com os bairros nos quais
reside a população com maior poder aquisitivo. No entanto as áreas mais
periféricas estão em situação precária, sem condições de ofertar um lazer de
qualidade à população. Porém, independente do segmento social pertencente,
verificamos ser importante que haja espaços públicos para a oferta de lazer, pois
são eles que proporcionam os contatos entre os moradores de diferentes áreas,
isso possibilita a verificação de irregularidades e possíveis melhorias para o
coletivo da cidade.
Portanto, quando os espaços públicos encontram-se em boas condições, e
são frequentados por diversos segmentos da sociedade, se tem a possibilidade

228
de estabelecer a sociabilidade entre os diferentes, que segundo Dumazedier,
podem ser realizadas de três formas:

[...] sociabilidade organizada, de interesses sociais implícitos na


freqüência à associações. O indivíduo se associa a uma dessas
instituições, porque assim o deseja. Há os grupos chamados
espontâneos, porque sua organização não se estrutura previamente. E
um terceiro tipo de sociabilidade que manifesta-se nas relações
interpessoais, campo específico de tensões, de contradições, de
conflitos entre interesses pessoais e interesses sociais (DUMAZEDIER,
1980, p.168)

Todas essas sociabilidades são interessantes para serem praticadas,


porém as que deveriam ser mais frequentes nos espaços públicos de lazer, são a
segunda e a terceira forma de sociabilização, pois nelas não há uma
programação prévia dos encontros. Assim abre-se a possibilidade de várias
pessoas interagirem entre si, instigando o convívio com o diferente, viabilizando
um esclarecimento das diversas realidades do município, surgindo possibilidades
de melhorias para estes espaços, além de proporcionar a práticas de lazer, a qual
resulta na melhoria da qualidade de vida dos praticantes, refletindo na sociedade
como um todo.

Conclusões
Com a realização deste trabalho, podemos perceber que o lazer em Pato
Branco/PR, não é ofertado de maneira igualitária para a população. Verificamos
que nos locais mais visados do município (centro e arredores), ou onde moram os
segmentos de alto e médio poder aquisitivo, o investimento em infraestrutura é
maior, já nos bairros com menor poder aquisitivo, as áreas públicas são carentes
de investimentos, se encontram em péssimas condições de uso, o que dificulta o
acesso da população em geral ao lazer. Esses bairros são prejudicados de
inúmeras formas, pois sua população fica carente de locais para a prática de lazer
diversificado e de qualidade, desestimulando a permanência nos locais públicos,
o que resulta na falta de sociabilidade entre os moradores, e isso reflete na
sociedade, que acaba perdendo sua essência democrática.

229
Referências
BRASIL. Constituição Federal (1988). Constituição da República Federativa do
Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. Organização do texto Juarez de
Oliveira. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 1990. 168p (série legislação brasileira).
CORRÊA, Roberto Lobato. O espaço urbano. São Paulo: Ática, 2005.
DUMAZEDIER, Joffre. Sociologia empírica do lazer. São Paulo: Perspectiva,
1974.
DUMAZEDIER, Joffre. Valores e conteúdos culturais do lazer. São Paulo:
SESC, 1980.
MARCELINO, Nelson Carvalho. Lazer e humanização. 2. ed. Campinas: Papirus,
1995.

230
TRANSPORTE PÚBLICO COMO SOLUÇÃO PARA A
ACESSIBILIDADE E MOBILIDADE URBANA -
ESTUDO DE CASO DO MUNICÍPIO DE PATO BRANCO/PR

Pollyana Poletto
polly_poletto@hotmail
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

A pesquisa em andamento pretende elaborar um estudo de caso da cidade


de Pato Branco- PR, baseado na Lei da Mobilidade Urbana, visando observar em
quais condições a mobilidade urbana e a acessibilidade é oferecida a todos os
segmentos sociais no município selecionado, e posteriormente, conhecendo as
possíveis dificuldades, sugerir melhorias ao poder público, as quais supram com
as necessidades dos usuários, dessa forma, idealizando uma sociedade mais
justa, com melhores condições de vida para a população.
Quando tratamos do termo mobilidade urbana, não imaginamos um
município que não á possua, porém, é um tema que cada vez mais vêm
preocupando os planejadores urbanos, pois ela pode proporcionar uma cidade
mais acessível aos cidadãos, fluindo com o trânsito, e facilitando a circulação de
pessoas. Porém, essa é uma realidade difícil de imaginar no município de Pato
Branco, por menor que a cidade seja ela já é afetada pelos grandes fluxos de
carros particulares nas ruas, o que acarreta em congestionamentos, dificultando a
mobilidade de grande parte da população. Baseados nessa averiguação, acredita-
se que uma alternativa de melhoria para o trânsito, seria a conscientização da
população de que o transporte público é a melhor alternativa para se alcançar o
fluxo desejado, e que ele deve ser garantido pelo poder público. Esse direito está
assegurado na Lei Federal nº 10.257/2001 denominada Estatuto da Cidade, o
qual no art. 2º cita como direito da população:

I – garantia do direito a cidades sustentáveis, entendido como o direito à


terra urbana, à moradia, ao saneamento ambiental, à infraestrutura
urbana, ao transporte e aos serviços públicos, ao trabalho e ao lazer,
para as presentes e futuras gerações (ESTATUTO DA CIDADE, 2001,
p.01).

Essa lei foi desenvolvida em prol do bem coletivo, para garantir a


segurança e o bem-estar dos cidadãos, mas infelizmente algumas cidades não a
cumprem, não garantindo aos seus munícipes o transporte eficiente e de

231
qualidade. Para incentivar e pressionar investimentos mais especificamente no
setor do transporte público foi elaborada a Lei Federal nº 12.587/2012, mais
conhecida como Política Nacional de Mobilidade Urbana. No Art. 5º é citado como
os principais objetivos da Lei: “III - equidade no acesso dos cidadãos ao
transporte público coletivo; IV - eficiência, eficácia e efetividade na prestação dos
serviços de transporte urbano” (POLÍTICA NACIONAL DE MOBILIDADE
URBANA, 2012, p. 03)
Baseados nessa lei, o poder público possibilitaria a oferta de transporte
com eficiência, preços justos e segurança, assim, a população seria incentivada a
utilizar com mais frequência o mesmo, diminuindo a quantidade de automóveis
particulares nas ruas, tornando compensador para o usuário, e para o resto da
cidade, pois diminuiria o fluxo de carros principalmente do centro da cidade.
Esses investimentos propostos são deveres dos municípios, que como cita a Lei
Nº 12.587, o município têm o dever de: “I - planejar, executar e avaliar a política
de mobilidade urbana, bem como promover a regulamentação dos serviços de
transporte urbano” (POLÍTICA NACIONAL DE MOBILIDADE URBANA, 2012, p.
08). Essa Lei concede o prazo de 03 anos, a partir da data de sua publicação,
para que os municípios com mais de vinte mil habitantes, elaborem seus planos
de Mobilidade Urbana, eles devem seguir alguns objetivos e princípios propostos
na Lei, os quais prevalecem investimentos no transporte público, considerado a
melhor alternativa para proporcionar a mobilidade.
Caso em que se encaixa o município escolhido para a pesquisa, Pato
Branco que possui cerca de 75 mil habitantes, e no máximo em 2015 deverá estar
com seu plano de mobilidade elaborado. Essas leis servem para melhorar a
qualidade de vida das pessoas, além de acarretar em uma sociedade mais
participativa e democrática, mas para que isso ocorra, deve haver mudanças
referentes à mobilidade dos cidadãos, como afirma Villaça: “O espaço intra-
urbano [...] é estruturado pelas condições de deslocamento do ser humano, quer
enquanto força de trabalho [...] quer enquanto consumidor” (VILLAÇA, 2001, p.18)
Significando que a mudança deva ocorrer primeiramente na mobilidade urbana,
para que ela resulte posteriormente nas melhorias citadas.

232
E para que a mobilidade aconteça efetivamente, deve haver uma discussão
entre os diferentes segmentos sociais, principalmente com a participação da
classe operária que utiliza diariamente o transporte público, dessa forma teremos
uma visão realista dos problemas. E é através dessa participação que se muda a
realidade proporcionando o exercício da cidadania, como afirma Lefebvre:

A estratégia de renovação urbana se torna “necessariamente”


revolucionária, não pela força das coisas, mas contra as coisas
estabelecidas. A estratégia urbana baseada na ciência da cidade tem
necessidade de um suporte social e de forças políticas para se tornar
atuante. Ela não age por si mesma. Não pode deixar de se apoiar na
presença e na ação da classe operária, a única capaz de pôr fim a uma
segregação dirigida essencialmente contra ela. Apenas esta classe,
enquanto classe, pode contribuir decisivamente para a reconstrução da
centralidade destruída pela estratégia de segregação e reencontrada na
forma ameaçadora dos “centros de decisão”. Isto não quer dizer que a
classe operária fará sozinha a sociedade urbana, mas que sem ela nada
é possível (LEFEBVRE, 2001, p. 112).

Portanto, afirma-se que o processo de mudança na cidade é lento, e


depende de várias forças, porém a mais essencial é a do povo, que deve
reivindicar seus direitos, sendo um deles, o direito à cidade, o qual acaba
esquecido pelo poder público que não fornece os bens mínimos para uma vida
digna aos seus moradores. Santos cita que:

Mais do que um direito à cidade, o que está em jogo é o direito a obter


da sociedade aqueles bens e serviços mínimos, sem os quais a
existência não é digna. Esses bens e serviços constituem um encargo da
sociedade, por meio de instâncias do governo, e são devidos a todos.
Sem isso, não se dirá que existe o cidadão (SANTOS, 2007, p. 158).

A mobilidade se encaixa como um dos serviços mínimos que garantem a


dignidade aos cidadãos, e é dever da sociedade – sendo que o poder público
responde por ela – garantir esse direito. E isso só se torna possível, através do
planejamento participativo, havendo o embate entre os diferentes segmentos de
renda, pois unidos conseguimos visualizar melhor as alternativas de melhoria
para o setor. Essa participação, garante aos moradores das cidades, o direito à
cidade, pois eles participam e se fazem ouvirem, afirmando suas presenças na
sociedade.
Todas essas melhorias deveriam ocorrer o mais breve possível, pois as
pessoas estão se isolando cada vez mais em seus automóveis, que além de
alternativa de condução, está sendo considerado um sinal de status social,
233
fazendo com que as pessoas não percebam a realidade ao seu redor, dificultando
a interação entre elas, e as possíveis melhorias que isso traria. Enquanto os altos
segmentos possuem condições de investir sua renda em automóveis, os
pertencentes ao segmento de baixa renda, que não possuem condições de
adquirir seu próprio meio de locomoção, e possuem acesso dificultado aos meios
de locomoção públicos, se sentem excluídos da vida da cidade, eles “[...] não se
movem pela cidade, desconhecendo muitas parcelas de seu território e não tendo
oportunidade de apreendê-la como totalidade.” (PEREIRA, 2007, p.19) Santos
discute essas duas realidades encontradas nas cidades, diferenciando cada uma
delas, colocando que:

A rede urbana, o sistema de cidades, também tem significados diversos


segundo a posição financeira do indivíduo. Há, num extremo, os que
podem utilizar todos os recursos aí presentes, seja porque são atingidos
pelos fluxos [...] seja porque eles próprios, tornados fluxos, podem sair à
busca daqueles bens e serviços que desejam e podem adquirir. Na outra
extremidade, há os que nem podem levar ao mercado o que produzem,
[...] os que pobres de recursos, são prisioneiros do lugar. Para estes, a
rede urbana é uma realidade onírica, pertencente ao domínio do sonho
insatisfeito, embora também seja uma realidade objetiva (SANTOS,
2007, p.140).

Os carentes de recurso, sempre são os mais prejudicados quando tratamos


do assunto mobilidade, não é diferente no município escolhido, percebemos que
as piores linhas, e estruturas de embarque/desembarque, encontram-se nos
bairros com população mais carente. Deve-se pensar em uma sociedade mais
igualitária, onde todos possuam as mesmas condições de acesso e de
infraestrutura, proporcionados pela prefeitura, porém devemos refletir sobre o
princípio dessa mudança, quais seriam as primeiras estratégias de melhoria no
setor do transporte público? Vasconcellos cita três políticas que juntas
possibilitam a ação do poder público, as quais buscam a melhoria na qualidade
dos serviços ofertados.

A mudança na oferta de transporte público pode ser feita por meio de


três políticas associadas: fisicamente, por meio de novos meios de
transporte, como veículos, vias exclusivas de ônibus, terminais, ciclovias
e áreas de pedestres; operacionalmente, por meio da reorganização das
ofertas espacial e temporal dos serviços de transporte público;
economicamente, por meio de uma estrutura tarifária que facilite o uso
dos sistemas e sua interconexão com outros meios de transporte
(VASCONCELLOS, 2000, p. 239).

234
Todas essas medidas, se colocadas em prática pelo poder público trariam
melhorias repentinas para o município, assim, quando temos um transporte
público que possibilite eficiência e segurança, a população é incentivada a utilizá-
lo, isso acarreta na queda das tarifas, influenciando mais uma vez a utilização,
além de proporcionar ao cidadão um fácil acesso à cidade, oportunizando a
participação efetiva na sociedade em que fazem parte, tornando-a mais
democrática.

Referências
BRASIL. LEI Nº 10.257, de 10 de julho de 2001. Estatuto da Cidade.
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10257.htm> Acesso em: 08.
Ago. 2013.
BRASIL. Lei Nº12.587, de 03 de janeiro de 2012. Política Nacional de
Mobilidade Urbana. <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-
2014/2012/lei/l12587.htm> Acesso em: 08. Ago. 2013.
LEFEBVRE, Henry. O direito à cidade. Tradução Rubens Eduardo Frias. São
Paulo: Centauro, 2001.
PEREIRA, Sílvia Regina. Mobilidade espacial e acessibilidade à cidade. In:
Revista Okara: Geografia em debate, 2007, v.1, n.1, p. 43-76.
SANTOS, Milton. O espaço do cidadão. São Paulo, Universidade de São Paulo:
2007.
VASCONCELOS, Eduardo Alcântara de. Transporte urbano nos países em
desenvolvimento: reflexões e propostas. 3 Ed. São Paulo: Annablume, 2000.
VILLAÇA, Flavio. O espaço intra urbano. São Paulo: Estúdio Nobel, 2001.
Disponível em: <http://www.kilibro.com/en/book/preview/80696/espaco-intra-
urbano-no-brasil>. Acesso em: 26. ago. 2013.

235
MOBILIDADE E ACESSIBILIDADE URBANA:
O TRANSPORTE COLETIVO EM FRANCISCO BELTRÃO-PR

Priscila Backes Coloniese


priscilacoloniese@gmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
O espaço urbano é caracterizado por vários tipos de usos de solo, tais
como: residenciais, industriais, comerciais, entre outros. Ao longo do tempo, o
espaço vai sendo transformado e adaptado às necessidades capitalistas de
reprodução da vida e às necessidades de produção. Isto faz com que a cidade
cresça de forma fragmentada e com desigualdades sociais. Áreas centrais são
valorizadas e a população de menor renda passa a viver nas áreas mais
distantes. Neste trabalho, abordaremos o processo de segregação residencial
entre pobres e ricos, considerando a estruturação da cidade, que é voltada ao uso
do automóvel e a mobilidade e acessibilidade a partir do uso do transporte
coletivo, que pode possibilitar aos segmentos de menor renda o direito à cidade.

Metodologia
Este trabalho foi realizado com base em pesquisas bibliográficas,
observações e discussões a respeito do assunto. Trata-se do estudo sobre a
mobilidade e acessibilidade a partir do uso do transporte coletivo. Para isto, foram
realizados fichas de leitura; aplicação de questionários com usuários do
transporte coletivo, com os responsáveis pelas empresas operantes na cidade e
com o poder público. A partir dos questionários fizemos análises, visando refletir
se as pessoas têm acesso à cidade, por meio do uso do transporte coletivo.

Resultados/Discussões
O espaço urbano é o lugar das relações de produção e reprodução da
força de trabalho. Ele é formado a partir da combinação de diferentes usos de
solo, sejam eles para fins de moradias, comércios, indústrias ou áreas de lazer.
Essa combinação de usos caracteriza a organização espacial da cidade.
O modo de produção capitalista faz com que a cidade seja cada vez mais
fragmentada. Na maioria das vezes nas áreas centrais instalam-se os comércios,

236
indústrias e moradias de alta renda, enquanto nas áreas mais distanciadas e sem
infraestrutura se instalam a população mais pobre ou indústrias que optam por
localizar-se fora do eixo central. De acordo com Corrêa (2005), o espaço urbano é
ao mesmo tempo fragmentado e articulado. Podemos notar essa articulação
através das interações existentes entre as partes da cidade, relações que se
expressam através das viagens realizadas para fins variados como de trabalho,
compras, carga e descarga de mercadorias, passeios ou outros.
O espaço urbano vai sendo transformado e moldado conforme as
necessidades da sociedade. Segundo Vasconcellos (2001, p. 31)
[...] as sociedades são definidas conforme seus modos de produção e
como formas de organização social composta de classes, relações de
propriedade, o Estado e seus governantes e uma lógica específica de
produção e reprodução.

Nessa sociedade de classes, as áreas residenciais da cidade são


segregadas de acordo com os níveis socioeconômicos da população. As áreas
bem localizadas, próximas ao centro, têm um maior valor e nelas reside a
população de maior poder aquisitivo e também estão instalados os principais
estabelecimentos comerciais. A população de menor renda só pode pagar pelo
preço do solo nas áreas mais retiradas, pelo fato de terem o seu valor reduzido.
Geralmente, são áreas que não têm a mesma infraestrutura existente no centro
da cidade, fazendo com que esta população tenha que realizar constantes
deslocamentos para satisfazer suas necessidades cotidianas.
Sob a ótica capitalista de acumulação, alguns agentes sociais produzem o
espaço urbano. De acordo com Corrêa (2005), esses agentes são os proprietários
dos meios de produção, principalmente os grandes empresários; os proprietários
fundiários; os promotores imobiliários; o Estado e os grupos sociais excluídos.
Estes agentes visam construir e reconstruir o espaço urbano, conforme as
necessidades de produção e reprodução capitalista.
Esse espaço urbano é resultado histórico da ação do homem, através do
trabalho, materializada nas formas espaciais. É ainda condição para reprodução
da vida, sendo assim é também condicionante social.
Eis o que é o espaço urbano: fragmentado e articulado, reflexo e
condicionante social, um conjunto de símbolos e campo de lutas. É
assim a própria sociedade em uma de suas dimensões, aquela mais
aparente, materializada nas formas espaciais (CORRÊA, 2005, p. 9).

237
Do modo que é produzido e transformado, o espaço urbano apresenta uma
configuração desigual. As diferenças mostram-se mais claramente entre centro e
periferia. A área central é principalmente local de lojas, órgãos públicos, bancos,
escolas etc. O crescimento da cidade dificultou o acesso da população que reside
em áreas periféricas e tem a mobilidade reduzida.
O setor econômico direciona a expansão da cidade, pois quem detém
maior influência política e econômica escolhe o tipo de uso do solo e o local onde
haverá investimento em infraestrutura. Deste modo, os bairros mais pobres que
não interessam ao capital ficam sem infraestrutura adequada, enquanto os bairros
de classe alta dispõem de mais serviços públicos. A cidade vai sendo
transformada, conforme as necessidades capitalistas de sobrevivência. Com
estas mudanças, algumas áreas tornam-se mais atrativas, bem infraestruturadas
e possuem um maior valor que outras.
As pessoas procuram o melhor lugar para viver, o lugar mais adequado, de
acordo com as suas condições socioeconômicas. As que podem pagar pelos
melhores espaços, já quem tem um menor poder econômico ficam com o solo
menos valorizado, que é aquele distante, sem investimento ou amenidades.
Assim ocorre a segregação e a auto-segregação no espaço da cidade. Conforme
Villaça (2001, p. 142), “[...] a segregação é um processo segundo o qual
diferentes classes ou camadas sociais tendem a se concentrar cada vez mais em
diferentes regiões gerais ou conjuntos de bairros da metrópole”.
A concentração de uma classe em dado local, não impede que outras
classes se instalem nas proximidades. “O que determina, em uma região, a
segregação de uma classe é a concentração significativa dessa classe mais do
que em qualquer outra região geral da metrópole” (VILLAÇA, 2001, p. 143).
A classe dominante é produtora da segregação, pois ela escolhe onde vai
morar, criando bairros ricos ou condomínios fechados. Essa classe controla o
mercado de terras, determinando assim, aonde a outra classe irá se localizar.
Essa “opção”, de morar afastado dos demais segmentos sociais é a auto-
segregação, que é gerada pela negação das diferenças, pois o rico não quer ficar
em contato com classe social diferente da sua. Quem detém maior poder
aquisitivo escolhe onde morar, ou onde instalar seu comércio, empurrando a

238
população de baixa renda para longe, para onde o preço do solo é compatível à
sua condição. Assim, conforme Villaça (2001) a segregação voluntária de uns,
gera a segregação involuntária de outros (p. 147).
Tratamos sobre a segregação aqui para podermos discutir como a
população segregada tem acesso à cidade, e como o transporte coletivo pode
contribuir com os segmentos de menor renda, para que eles possam se apropriar
de forma mais efetiva do espaço urbano.
O desenvolvimento rápido das cidades resultou numa expansão
descontínua, deixando vazios urbanos e fazendo com que áreas distantes
começassem a ser habitadas. A distância do centro pressupõe que as pessoas
devam ter algum meio de deslocamento. Para a classe alta a distância não é
problema, pois ela possui veículo particular e pode deslocar-se facilmente. Já as
pessoas mais pobres dependem da existência de um sistema de transporte
coletivo ou algum meio alternativo, como bicicleta ou mesmo a pé.
Diariamente as pessoas precisam se deslocar pela cidade, para realizar as
suas necessidades de sobrevivência. Seja a trabalho, estudo, lazer ou para outro
fim, os indivíduos vão de um local ao outro, sendo que o modo e a frequência que
desses deslocamentos variam de acordo com a renda, o local de moradia e as
condições físicas, que irão facilitar ou dificultar o acesso à cidade.
Conforme a condição financeira de cada um, o deslocamento será
realizado com o automóvel particular, ou transporte coletivo, ou algum meio
alternativo como taxi e moto taxi, ou por meio não motorizado, como a bicicleta e
a pé. O transporte coletivo por ônibus é o mais utilizado, principalmente pela
população de menor renda.
As cidades foram crescendo sem o devido planejamento em relação às
vias e infraestruturas, que são voltadas mais para o automóvel do que ao
transporte coletivo e isto agravou problemas no que se refere à mobilidade
urbana. Nas grandes cidades ocorrem extensos congestionamentos, muito tempo
gasto nas viagens, ocorrência de acidentes etc. As cidades médias e pequenas
também apresentam alguns desses problemas. Na cidade de Francisco Beltrão
em horários de pico, o tráfego é lento, há longas filas nos cruzamentos e
rotatórias e frequentemente acontecem acidentes.

239
Para garantir o direito à cidade, é fundamental a condição de acessibilidade
e mobilidade para a população. Por mobilidade entende-se o fato de movimentar-
se pela cidade de acordo com as condições físicas e financeiras. A acessibilidade
é possibilitada quando a mobilidade é realizada com segurança e facilidade até os
destinos desejados. Para isto, é preciso que o transporte coletivo, seja eficiente e
de qualidade e atenda a demanda da população de menor renda.
A cidade foi sendo estruturada historicamente não para o uso do transporte
coletivo, e sim voltada ao automóvel. O comércio de veículos interessa ao capital,
por isso há tantos investimentos em propagandas e facilidades de compra. Há
alguns anos, o mercado de automóveis vem facilitando a vida de quem quer ter
um carro. Sinônimo de independência e status, o veículo ocupa o espaço das
vias, disputando-o com o transporte coletivo e com o pedestre.
Recentemente, muitas informações, debates e reflexões sobre os pontos
negativos desta situação têm sido veiculadas nos meios de comunicação, visando
alertar a população sobre o grande e grave problema decorrente do aumento
considerável de automóveis em detrimento dos transportes coletivos.
O trânsito das grandes cidades está caótico e as cidades médias têm
apresentado os mesmos problemas, com intensidades diferentes. Entre os
problemas estão os acidentes, a poluição, os congestionamentos e a falta de
espaços para estacionamento. Quem tem carro, tem acesso mais facilitado à
cidade. Mas mesmo com as facilidades de compra há quem não tenha um
veículo, por opção ou por não ter condições financeiras de comprar ou arcar com
a manutenção do mesmo. Dessa forma, as pessoas precisam do transporte
coletivo para realizar os deslocamentos necessários para obter os diferentes
produtos e serviços que se encontram dispersos no espaço urbano. É dever do
poder público garantir este serviço.
O transporte coletivo apresenta muitas vantagens quando é de qualidade.
Um ônibus leva várias pessoas enquanto o carro por muitas vezes transita com
apenas uma. Se a população usar de forma massiva o transporte coletivo, e
deixar seus veículos de passeio para passeio, a poluição, os engarrafamentos, a
lotação das vagas de estacionamento e os acidentes seriam reduzidos.

240
Em cidades médias e até em cidades que ainda não têm esse porte, como
em Francisco Beltrão, a solução para parte dos problemas de fluidez no trânsito,
entre outros citados, seria maior uso do transporte coletivo. Para aumentar o uso
desse transporte é necessário haver uma campanha de incentivo, aliada a preços
acessíveis e equitativos para a população. Além disso, o serviço deve ser de
qualidade, ou seja, as viagens devem ser de pouco tempo, os itinerários devem
chegar a todos os pontos da cidade, os horários precisam ser adequados à
demanda, e os veículos devem estar em bom estado.
O poder público é que tem poder de suscitar o uso do transporte coletivo. É
ele quem deve regulamentar esse tipo de transporte, decidir sobre valores,
itinerários e fiscalizar os processos de licitação das empresas. Nos projetos e
planos diretores há indicativos de incentivo ao uso do transporte coletivo, porém
não prática isso não acontece. Portanto, é necessário que haja a regulamentação
e aplicação de leis e normas para assegurar a oferta de transporte coletivo, com
qualidade. Algumas leis foram formuladas no intuito de ajudar na estruturação das
cidades, como o Estatuto da Cidade, na qual constam as diretrizes para a
elaboração do Plano Diretor e da Lei da Mobilidade Urbana, que visam o
desenvolvimento urbano e a melhoria da acessibilidade e mobilidade de pessoas
e cargas nos municípios.
Na cidade de Francisco Beltrão, duas empresas prestam o serviço de
transporte coletivo. Nenhuma delas possui linhas noturnas. Há itinerários que
param de funcionar às 20 horas. Há um itinerário que funciona de madrugada,
mas é destinado somente aos trabalhadores de uma dada empresa. O valor da
tarifa é de R$ 2,60.. A seguir apresentamos uma pequena análise feita a partir de
entrevistas que realizamos com os usuários de transporte coletivo.
A idosa Dona Maria, residente no bairro Jardim Virgínia, utiliza o transporte
coletivo toda semana para realizar suas compras e pagamentos de contas. Utiliza
no período do dia, e consegue chegar aos destinos desejados com facilidade. Já
a Estudante Andréia que reside no bairro Padre Ulrico, tem dificuldades para
deslocar pela cidade. Ela utiliza o transporte coletivo para estudar, e para ir aos
estágios. Porém Andreia estuda no período noturno, e não tem linha no horário
em que acaba sua aula.

241
A partir destes exemplos, percebemos que o transporte coletivo da cidade
funciona durante o dia, porém é inexistente à noite. Desta forma quem estuda,
trabalha ou deseja voltar para casa depende de carona. Para a estudante o valor
da passagem é alto, mesmo pagando metade do valor, pois utiliza todos os dias
para ir até o lugar onde estuda e para desenvolver seus estágios. Andréia não
tem renda mensal, pois trabalha como diarista e diante do custo do transporte
coletivo, se for sair de casa para passear terá que usar um meio alternativo ou
deslocar-se a pé.

Conclusão
O transporte coletivo urbano é um meio de articular a cidade e de garantir o
direto a ela para todos. Em Francisco Beltrão apesar de existir esse serviço, ele
está limitado em relação a horários. As pessoas têm acesso à cidade, por meio do
transporte coletivo, apenas durante o dia e a noite os deslocamentos são
limitados, pois esse serviço não é eficiente e de qualidade.
Com base na oferta do transporte coletivo urbano nessa cidade, podemos
considerar que a acessibilidade e o direito à cidade são garantidos parcialmente
para a população, principalmente para a de menor renda. É preciso que haja a
melhoria desse transporte, para que haja a implantação de linhas noturnas para
as diversas áreas da cidade, bem como a adequação de itinerários e horários, a
melhoria das condições dos veículos e tarifas diferenciadas. Assim, a população,
principalmente a de menor renda, poderá se apropriar do espaço urbano. Que
transporte coletivo seja mais adequado e de qualidade, para garantir a mobilidade
e acessibilidade necessária para que a população tenha direito à cidade.

Referências
CORRÊA, Roberto Lobato. O Espaço Urbano. São Paulo: Editora Ática, 2005.
PEREIRA, Silvia Regina. Mobilidade espacial e acessibilidade à cidade. Revista
OKARA: Geografia em debate, v.1, n.1, p. 1-152, 2007.
VILLAÇA, Flávio. Espaço intra-urbano no Brasil. São Paulo: Studio Nobel:
FAPESP: Lincoln Institute, 2001.
VASCONCELLOS, Eduardo Alcântara. Transporte urbano, espaço e equidade:
análise das políticas públicas. São Paulo: Annablume, 2001.

242
HISTÓRIA E EPISTEMOLOGIA
DA GEOGRAFIA

243
A PHYSISCHE GEOGRAPHIE (1802) DE IMMANUEL KANT:
SUA ESTRUTURA E SUAS PRINCIPAIS DEFINIÇÕES

Alexandre Domingues Ribas


alexecris2001@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
Nesse paper, oferecemos uma análise dedicada à Physische Geographie
(1802) de Kant, enfocando sua estrutura e a concepção de geografia apregoada
em suas laudas.
Para estruturar nossa reflexão, decidimos por organizar o presente paper
do seguinte modo: inicialmente, proporcionamos, ao leitor, a estrutura da
Physische Geographie (1802); num segundo momento, exibimos as principais
definições de Kant, nas páginas da Physische Geographie (1802), referentes à
geografia e à geografia física; por fim, apresentamos algumas considerações.

A estrutura da Physische Geographie


Analisar a Physische Geographie (1802) de Kant não é uma empresa de
fácil execução. Pois que se trata de uma obra retentora de um caráter sui generis.
Livro inacabado e sem acabamento possível, curso antes que livro [...],
palavra escrita infinitamente aberta sobre outros discursos (narrativas de
missionários, de navegadores, de exploradores, tratados antigos e
modernos sobre o estado da Terra...), livro feito de outros livros
indefinidamente retrabalhado por informações sempre novas [...], leituras
continuadas, indefinidamente revisto por hipóteses confirmadas ou
infirmadas à medida de experiências renovadas, mais que um livro e
mais que as notas de um curso, encontramos aqui as páginas de uma
enquête em expansão, modelada do exterior e do interior ao mesmo
tempo, do exterior, por uma curiosidade indefectível que não deixou de
ser sempre vigília, e do interior pelo desenvolvimento, é preciso dizer
paralelo ou subterrâneo, da filosofia e do sistema críticos (COHEN-
HALIMI, 1999, p. 9-10, tradução nossa).

A Physische Geographie consiste em uma coletânea de notas manuscritas


(em diferentes épocas) por Kant e aproveitadas, como um manual de referência,
em suas aulas de geografia física. Essas notas foram, em alguns trechos,
reconstituídas com o aditamento de registros tomados por seus alunos durante os
cursos e/ou de complementos e ajustes inseridos pelo editor.
Por esta sua singularidade, a Physische Geographie se faz um lócus de
encontro de diversos olhares, juízos e leituras: narrativas de missionários, de

244
navegadores e de exploradores; tratados antigos e modernos sobre o estado da
Terra etc. Em suas laudas, pois, se entrecruza uma miscigenação entre uma
mera transcrição dos saberes do passado e um desejo de atualização da imago
mundi face aos progressos científicos da Modernidade (COHEN-HALIMI, 1999).
Esse Livro aberto e complexo acha-se, em sua edição original, dividido em
duas partes: “I. A parte geral, onde examinamos a Terra segundo seus
componentes e seus elementos, a água, o ar e o solo. II. A parte especial, onde
está em questão as produções terrestres particulares e as criaturas [...]” (KANT,
1999a, p. 93, tradução nossa).
A primeira parte da Physische Geographie, a geral, subdivide-se em quatro
seções, quais sejam (KANT, 1999a): Da água, Da terra, A atmosfera, História das
grandes transformações que a Terra sofreu outrora e que experimenta ainda; e
apresenta, em seu término, um Suplemento intitulado: Da navegação.
A parte especial da Physische Geographie, por seu turno, decompõe-se em
dois Tópicos. O primeiro deles (Exame particular de o que contém a Terra)
subdivide-se em quatro seções: Do homem, O reino animal, O reino vegetal, O
reino mineral. O segundo (intitulado Observação sumária sobre as principais
curiosidades naturais de todos os países, segundo uma ordem geográfica) está
repartido por continentes: a Ásia, a África, a Europa e a América (KANT, 1999a).

A Physische Geographie e as bases filosóficas de suas definições


As definições cruciais da Physische Geographie acham-se em sua
Descrição física da Terra e estão diretamente impregnadas pelas normativas da
Crítica da Razão Pura. Tanto isso é verossímil, que Kant enceta esta fração da
Physische Geographie, precisamente, assinalando as fontes (ou a origem) de
nossos conhecimentos e, ato contínuo, levantando o plano de seu ordenamento.
[...] O que nos é preciso considerar no conjunto de nossos
conhecimentos, são antes de tudo suas fontes ou sua origem, depois
disso é preciso também levantar o plano de seu ordenamento [...]. [...].
[...]. No que se refere às fontes e à origem de nossos conhecimentos,
nós tiramos estes últimos seja na razão pura seja na experiência [...].
Os conhecimentos puramente racionais são dados por nossa razão; em
compensação, é pelos sentidos que nós recebemos os conhecimentos
empíricos. [...]. E uma vez que nós temos um duplo sentido, um sentido
externo e um sentido interno, graças a eles, nós podemos considerar o
mundo como soma de todos os conhecimentos empíricos. Enquanto
objeto do sentido externo, o mundo é a natureza e, enquanto objeto do
sentido interno, ele é a alma ou o homem [...].

245
As experiências que temos da natureza e do homem constituem os
conhecimentos do mundo. A antropologia nos ensina o conhecimento do
homem; devemos o conhecimento da natureza à geografia física ou
descrição da Terra. [...].
A descrição física da Terra é pois a primeira parte do conhecimento do
mundo. Ela pertence a uma idéia que se pode nomear a propedêutica do
conhecimento do mundo.
[...]. O mundo é o substrato e a cena onde se desenrola o jogo de nossa
habilidade. Ele é o solo sobre o qual nossos conhecimentos são
adquiridos e aplicados. Mas para que possa ser realizado o do que o
entendimento disso necessita, é preciso ainda conhecer a constituição
do sujeito, senão o que acaba de ser dito é impossível.
E mais, é preciso também aprender a conhecer a totalidade dos objetos
de nossa experiência, a fim de que nossos conhecimentos não formem
um agregado mas um sistema, pois num sistema o todo precede as
partes enquanto ao contrário, num agregado, são as partes que
precedem o todo.
[...]. Aqui, o todo é o mundo, a cena sobre a qual nós vamos engajar
todas as experiências. [...].
Se diz assim de tal ou tal homem que ele conhece o mundo e se entende
por isso que ele conhece o homem e a natureza (KANT, 1999a, p. 65-67,
tradução nossa).

Nossos conhecimentos têm por fontes a razão pura e a experiência. A


razão nos dá os conhecimentos puramente racionais/a priori (aqueles que são
independentes da experiência); dos sentidos, recebemos os conhecimentos
empíricos/a posteriori (aqueles que se fundam na experiência).
A discriminação entre conhecimentos a priori e empíricos governou Kant a
instituir uma bifurcação entre sensibilidade (a faculdade das intuições) e
entendimento (a faculdade dos conceitos). Espaço e tempo são as duas formas
puras da intuição sensível; ou seja, “[...] são as formas em cujo interior se ordena
a multiplicidade fornecida pela sensação” (PASCAL, 1996, p. 50).
O espaço é a forma do sentido externo (exterior), “[...] propriedade que tem
nosso espírito de nos representar objetos como existentes fora de nós [...]”
(PASCAL, 1996, p. 50); o tempo é a forma do sentido interno (íntimo), “[...]
propriedade que tem nosso espírito de perceber-se a si mesmo intuitivamente, ou,
com mais exatidão, de perceber seus estados internos [...]” (1996, p. 50-51).
Assim, todo objeto fora de nós situa-se no espaço e todas as
determinações de nós mesmos situam-se no tempo. Graças a este duplo sentido
(o externo e o interno), podemos considerar o mundo como soma de todos os
saberes empíricos: enquanto objeto do sentido externo, o mundo é a Natureza;
enquanto objeto do sentido interno, ele é a alma ou o homem.

246
São as experiências que temos da Natureza e do homem que constituem
os “conhecimentos do mundo”. A antropologia nos instrui o conhecimento do
homem; a geografia física, por seu turno, nos informa o conhecimento da
natureza. A geografia física seria a “propedêutica do conhecimento do mundo”,
isto é, a “primeira parte do conhecimento do mundo”, possuindo, por isso, uma
dimensão prática. Como enuncia o próprio Kant (em um trecho do Anúncio do
Programa de suas Lições para o Semestre de Inverno de 1765-1766):
[...]. Bem no começo de meu ensino acadêmico, quando percebi que
uma grave negligência da juventude estudiosa consiste principalmente
em que ela aprende primeiramente raciocinar [...] sem possuir os
conhecimentos históricos suficientes que podem substituir a experiência,
eu concebi o projeto de fazer da história do estado atual da terra, ou da
Geografia no sentido o mais amplo, um resumo agradável e fácil,
comportando o que poderia ela trazer como preparação e como ajuda a
uma razão prática, a fim de suscitar o desejo de entender sempre mais
os conhecimentos que têm nela seu ponto de partida [...]. Eu nomeei
esta disciplina Geografia física [...] (KANT, 1966, p. 75, tradução nossa).

A Crítica da Razão Pura, de 1781, instaura uma nova posição do sujeito


em relação à objetividade. Uma vez que para se haver razão nas Ciências algo
tem de ser conhecido nelas a priori, o conhecimento não pode mais se regular
pelo objeto; é o objeto que deve se regular pelo nosso conhecimento. De fato,
mesmo o conhecimento empírico se mostra impossível sem fontes independentes
da experiência. Há certas condições da experiência que não são empíricas e, por
isso, um conhecimento rigorosamente universal e necessário é possível.
A geografia física não prescinde de uma objetividade em suas definições,
pois, do contrário, ela não teria a menor razão de ser e Kant não teria
desperdiçado um minuto de sua vida com o seu ensino. E essa objetividade, ela
aufere nos elementos a priori da sensibilidade e do entendimento.
A geografia física é “uma parte do conhecimento (empírico) do mundo”. O
conhecimento empírico, recordemos, não se faz presumível sem determinadas
condições não-empíricas (e universalmente válidas) da experiência. E são estas
condições não-empíricas da experiência que possibilitam um conhecimento
objetivo do Mundo. E as formas a priori da sensibilidade são espaço e tempo.
O espaço é a forma do sentido externo; por ele não nos são dados senão
simples representações de relações; e como “[...] mediante simples relações não
se conhece uma coisa em si [...]” (KANT, 1999b, p. 87), o espaço só pode

247
“[...] conter em sua representação a relação de um objeto ao sujeito e não o
elemento interior, que concerne ao objeto em si” (KANT, 1999b, p. 87).
O espaço, como forma a priori da sensibilidade, representa-nos
fenômenos, as coisas tal como nos aparecem. Suprimido o sujeito
desapareceriam todas as relações dos objetos no espaço (e mesmo o próprio
espaço). Ora, a geografia física estuda o objeto do sentido externo: a Natureza;
seu objeto de estudo é uma representação do espaço, um fenômeno. Se a
validade objetiva de uma Ciência, para Kant, dimana de juízos (a priori)
independentes da experiência; se o espaço é uma forma a priori da sensibilidade
e a forma do sentido externo; e se a geografia física inquire o Mundo enquanto ele
é o objeto do sentido externo (a Natureza), então o espaço, na formatação lhe
imputada na Estética Transcendental, confere tal validade à geografia física.
Mas a sensibilidade é tão-só uma das duas fontes de nosso conhecimento;
a outra é o entendimento. Na sensibilidade, o objeto nos é dado na intuição; no
entendimento ele é pensado em conceitos. Ademais, se um conhecimento só se
faz possível por uma fusão entre entendimento e sensibilidade, a validade objetiva
da geografia física repousa, também, nas formas a priori do entendimento. E a
Physische Geographie prossegue em suas definições (KANT, 1999a):
Nossos conhecimentos começam a partir dos sentidos. Eles nos dão a
matéria à qual a razão somente faz conferir uma forma adequada. O
fundamento de todos os conhecimentos repousa pois nos sentidos e na
experiência, a qual nos é seja própria seja estranha.
Nós deveríamos certamente nos ocupar somente de nossa experiência
própria; mas esta última não basta para todo conhecer [...]; é por isso
que nos é necessário recorrer às experiências dos outros. [...].
Mas é preciso observar isto: toda experiência estranha nos é
comunicada seja sob a forma de uma narração seja sob a forma de uma
descrição. A primeira é uma história, a segunda uma geografia. A
descrição de um lugar singular da Terra se chama topografia, a
descrição de uma região e de suas propriedades, corografia, a descrição
de tal ou tal montanha, orografia, a descrição das águas, hidrografia.
Observação: está aqui em questão o conhecimento do mundo e, por
conseguinte, uma descrição da Terra inteira. O nome geografia não é
pois utilizado em um outro sentido que o que tem habitualmente (p. 67-
68, tradução nossa).
Kant reafirma que nossos conhecimentos se iniciam a partir dos sentidos;
são eles que nos dão a matéria de todo fenômeno à qual a Razão presta uma
forma adequada, ordenando o múltiplo dos fenômenos. O fundamento de todos
os conhecimentos deposita-se, pois, nos sentidos e na experiência.

248
Nossa experiência própria, pelos limites de nossos sentidos, infelizmente
não nos basta para todo conhecer; e, por isso, confrontamo-nos constrangidos a
recorrer às experiências dos outros. Toda experiência estranha, pela qual
alargamos nosso conhecimento do Mundo, nos é comunicada seja sob a forma de
uma narração (de uma história), seja sob a forma de uma descrição (de uma
geografia). E Kant (1999a, p. 68-72, tradução nossa) persiste em sua eloqüência:
[...]. No que diz respeito ao plano do ordenamento, é preciso designar a
todos os nossos conhecimentos o lugar que lhes é próprio. Ora nós
podemos designar um lugar a todos nossos conhecimentos empíricos
seja sob os conceitos, seja segundo o tempo e o espaço onde se os
encontra realmente.
A divisão dos conhecimentos segundo conceitos é a divisão lógica, a que
é feita segundo o tempo e o espaço é a divisão física. Pela primeira nós
obtemos um sistema da natureza [...], como por exemplo [...], o de
Linneu, pela segunda nós obtemos [...] uma descrição geográfica da
natureza. [...].
Seguindo a divisão física, [...] as coisas são consideradas segundo os
lugares onde elas se acham sobre a Terra. O sistema indica cada lugar
na classificação. Mas a descrição geográfica da natureza indica os
lugares onde se pode realmente achar essas coisas sobre a Terra. [...].
[...]. Mas a história como a geografia podem ser chamadas ambas uma
descrição, com esta diferença no entanto que a primeira é uma descrição
segundo o tempo e a segunda uma descrição segundo o espaço.
A história e a geografia alargam pois o campo de nossos conhecimentos
do ponto de vista do tempo e do espaço. A história diz respeito aos
eventos que se desenrolam uns após os outros do ponto de vista do
tempo. A geografia diz respeito aos fenômenos que se produzem ao
mesmo tempo do ponto de vista do espaço. Segundo os diferentes
objetos dos quais ela trata, a geografia toma diferentes nomes. Assim ela
se chama ora geografia física, matemática, política [...], ora geografia
moral, teológica, literária ou de mercado.
[...]. É pois somente do ponto de vista do espaço e do tempo que a
história [...] difere da geografia. [...]. Por conseguinte, nós podemos bem
ter uma descrição da natureza mas não uma história da natureza. De
fato, esta última denominação [...] é inteiramente inexata. [...].
[...]. O nome geografia designa pois uma descrição da natureza, mais
ainda, uma descrição da natureza da Terra inteira. A geografia e a
história preenchem a totalidade [...] do campo de nossos conhecimentos;
a geografia, o do espaço, e a história, o do tempo.
Nós admitimos habitualmente que há uma geografia antiga e uma
geografia nova pois a geografia sempre existiu. Mas da geografia e da
história, qual precedeu a outra? É a geografia que é o fundamento da
história pois é preciso que os eventos se relacionem a alguma coisa. [...].

Regressando ao plano do ordenamento de nossos conhecimentos, Kant


assevera que podemos classificar nossos conhecimentos empíricos seja sob os
conceitos, seja segundo o tempo e o espaço onde realmente os encontramos. A
divisão dos conhecimentos segundo conceitos é a divisão lógica; a que é feita

249
segundo o tempo e o espaço é a divisão física. Pela primeira, obtemos um
sistema da Natureza; pela segunda, uma descrição geográfica da Natureza.
A divisão lógica dispõe as coisas conforme suas semelhanças ou
dessemelhanças. Na divisão física, as coisas são consideradas segundo os
lugares onde elas se acham na Terra. Ainda sobre a divisão física, Kant afiança
que esta pode se dar segundo o tempo (narração; história) e segundo o espaço
(descrição; geografia). A história versa os eventos que ocorrem sucessivamente
do ponto de vista do tempo; a geografia, os fenômenos que se produzem
simultaneamente do ponto de vista do espaço. E a geografia, dependendo dos
diferentes objetos que aborda, assume várias denominações: geografia física,
geografia matemática, geografia política, geografia moral, geografia teológica,
geografia literária, geografia do mercado etc. (KANT, 1999a).
Da mesma maneira que o espaço é o discriminante basilar da distinção
entre a divisão lógica e a divisão física, ele o é na distinção entre a divisão física
segundo o tempo e a divisão física segundo o espaço. É o espaço, pois, que
permite a Kant liberar a geografia tanto da história quanto da história natural.
Finalmente, um terceiro discriminante que Kant lança para definir a
geografia é entre uma divisão física segundo o espaço mediante numa descrição
sistemática (geografia) e uma divisão física segundo o espaço mediante numa
descrição rapsódica (agregado). A geografia, pois, seria uma disciplina hábil em
ofertar tanto uma descrição real quanto uma descrição sistematicamente
ordenada das coisas da Natureza que se localizam na superfície da Terra.
O nome geografia, pois, para Kant, indica uma descrição da Natureza, ou,
uma descrição da Natureza (da Terra) inteira. História e geografia preenchem,
assim sendo, a totalidade do campo de nossos conhecimentos: a geografia, o do
espaço, e a história, o do tempo. E a geografia é o fundamento da história, o seu
substrato. E Kant conclui sua Descrição física da Terra, arrazoando:

[...]. A geografia física é pois um resumo universal da natureza; e como


ela não constitui unicamente o fundamento da história mas também o de
todas as geografias possíveis, se precisaria tratar brevemente das partes
principais de cada uma dentre elas. Deve pois figurar aqui:
1. A geografia matemática onde se trata da forma, da grandeza e do
movimento da Terra assim como das relações desta última com o
sistema solar no qual ela se acha.

250
2. A geografia moral onde está em questão a diversidade dos costumes
e dos caracteres humanos relacionados à diversidade das regiões. [...].
3. A geografia política. Se o primeiro princípio fundamental de toda
sociedade civil é uma lei universal e, para o caso onde a lei fosse
transgredida, um poder ao qual nada pode opor resistência, e se, além
do mais, as leis se relacionam tanto à constituição do solo quando à dos
habitantes, então a geografia política deve achar aqui seu lugar já que
ela se funda inteiramente na geografia física. [...].
4. A geografia de mercado. Se na Terra, um país possui em
superabundância o que um outro é totalmente desprovido, o [...]
comércio mantém uma situação de equilíbrio no mundo inteiro. Se
precisará pois indicar aqui por que e como um país tem em
superabundância o que um outro é desprovido. É antes todo o comércio
que afinou os homens e lhes permitiu conhecer uns os outros [...].
5. A geografia teológica. Na medida onde, quando se muda de lugar, os
princípios teológicos são freqüentemente modificados em pontos
essenciais, se precisará dar aqui as informações [...] necessárias. [...]
(KANT, 1999a, p. 73-74, tradução nossa).

A geografia física, pois, para Kant, seria um resumo universal da Natureza;


ela é o fundamento da história e das demais geografias possíveis (geografia
matemática, geografia moral, geografia política, geografia teológica, geografia de
mercado etc.).

Considerações finais
Sem embargo utilizar conceitos empíricos e particulares (e até singulares)
e ser um conhecimento (um sistema) empírico (e não a priori) do Mundo e da
Natureza, a geografia física tem nos pressupostos da Crítica da Razão Pura as
bases filosóficas/epistemológicas que lhe outorgam objetividade e cientificidade,
pois que, sem tais pressupostos, não há objeto, não há experiência possível, não
há ciência e, pois, não há coesão do múltiplo do empírico.

Referências
COHEN-HALIMI, Michèle. Le Géographe de Königsberg. In: KANT, Immanuel.
Géographie. Physische Geographie. Paris: Aubier, 1999, p. 9-40.
KANT, Immanuel. Annonce du programme des leçons de M. E. Kant durant le
semestre d’hiver 1765-1766. Paris: Librairie Philosophique J. Vrin, 1966.
______. Géographie. Physische Geographie. Paris: Aubier, 1999a.
______. Crítica da Razão Pura. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1999b.

PASCAL, Georges. O pensamento de Kant. Petrópolis: Editora Vozes, 1996.

251
COSMOLOGIA E GEOGRAFIA FÍSICA EM IMMANUEL KANT

Alexandre Domingues Ribas


alexecris2001@hotmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
Setembro de 1755! Immanuel Kant (1724-1804) principia sua atividade
professoral; torna-se, ele, “[...] ‘magister legens’, correspondente ao atual
‘Privatdozent’, que não recebe um salário do Estado e vive dos ganhos da livre-
docência e das aulas particulares para estudantes” (HÖFFE, 2005, p. 8-9).
Kant exerceu o ofício de docente-livre por perto de quinze anos; sendo,
pois, os seus cursos financiados pelos próprios alunos. Assim, Kant teve que
aguardar até 1770 para ocupar o cargo de professor titular ou ordinário da
Universidade de Königsberg (CASSIRER, 1997; HÖFFE, 2005).
Após adquirir a cadeira professoral efetiva da Universidade de Königsberg,
outros vinte e seis anos se transcursariam até que Kant abandonasse o
magistério, visto que ele cultivara suas lições públicas até julho de 1796. Aos
cursos privados, ele renunciou em 1793 (CASSIRER, 1997; HÖFFE, 2005).
Nesses quase quarenta e um anos de docência, Kant ofertou 267 ciclos de
cursos, dos quais: 54 foram reservados à lógica e à metafísica, 49 à geografia
física, 46 à ética, 28 à antropologia, 24 à física teórica, 20 às matemáticas, 16 ao
direito, 12 à enciclopédia das ciências filosóficas, 11 à pedagogia, 04 à mecânica,
02 à mineralogia e 01 à teologia. A geografia física, por conseguinte, desponta
como a especialidade que, entre 1755 e 1796, foi a mais seguidamente instruída
por Kant, exatamente depois da lógica e da metafísica (ELDEN, 2008).
Outrossim, Kant foi o primeiro filósofo a introduzir a Geografia na
Universidade, antes que a primeira cátedra desta disciplina fosse criada por Karl
Ritter, em Berlim, em 1820. Ademais, conquanto tivesse já, a Geografia, sido
lecionada por geógrafos (por Anton Friedrich Büsching, por exemplo), nenhum
filósofo se tinha por ela interessado como Kant, a ponto de ensinar e de redigir um
manual exclusivamente para este fim (COHEN-HALIMI, 1999).
Na verdade, como era usual na Prússia do século XVIII, Kant ensinava com
base em manuais. Não havia, contudo, nenhum manual de referência que Kant

252
pudesse servir-se em suas aulas de geografia física; e, por isso, ele redigiu o
curso de geografia física. A exceção da geografia física, diga-se a propósito, fez-
se o objeto de um decreto de von Zedlitz, datado de 16 de outubro de 1778,
mediante o qual Kant era autorizado a ensinar esta disciplina secundum dictata
sua, exponendo dictata sua, ou, ad propria dictata (COHEN-HALIMI, 1999).
Essas anotações registradas por Kant no curso de geografia física
preservaram-se, por decênios, sem qualquer sistematização metódica. Foi que,
mais ou menos, em 1800, Friedrich Theodor Rink e Gottlob Benjamin Jäsche,
incumbidos por Kant de revisar e de reorganizar seus papéis, se depararam com
quase três cadernos de geografia física, manuscritos em diferentes épocas.
Kant, ante este episódio, confiou encargo a Rink para a empresa editorial
destes extratos no formato de livro, o que sucedeu em 1802. Desse modo, é, pois,
a edição de Rink (depois incorporada aos Escritos Reunidos de Kant na Edição
da Academia) que é hoje conhecida como a Physische Geographie.
Nesse paper, apoiados na Physische Geographie (1802), buscaremos
problematizar duas questões essenciais: 1) O que instigou Kant a interessar-se
pelos assuntos geográficos e a lecionar, a contar de 1756, um curso de geografia
física? 2) Qual a função da geografia física no redimensionamento da idéia de
Natureza na filosofia transcendental kantiana: do juízo determinante da Crítica
da Razão Pura ao juízo reflexionante da Crítica da Faculdade do Juízo?

Kant e o despertar de seu interesse pela geografia física


Há uma persistência da cosmologia na filosofia crítico-transcendental
kantiana. Kant reconhecia que foram questões de gênero cosmológico que lhe
despertaram de seu sono dogmático e lhe atraíram à via do criticismo. Não por
acaso, a primeira grande obra de Kant é sua Teoria do Céu (1755), na qual se
divulgam os caracteres centrais da chamada cosmologia kantiana pré-crítica.
Na Teoria do Céu, Kant busca concertar a idéia de que o ordenamento do
Mundo não suplanta as forças da Natureza com a rogativa por uma estética e por
uma teleologia da Natureza. Assim, admitindo a detença de um vestígio da
criação numa Natureza que, per si, se molda mecanicamente, Kant coliga, em sua
imagem de Cosmos, a causalidade física e a finalidade teleológica. O Cosmos,

253
pois, sob este prisma, resulta de um anseio em religar, indissoluvelmente, a
Metafísica da Natureza à Física, o Idealismo Crítico à Filosofia da Natureza.
Nessa imagem de Cosmos saída da Teoria do Céu, há uma abertura à
geografia física, pois que, por ser hábil em comunicar a plasticidade morfológica
da superfície da Terra, a geografia física pode oferecer (nos quadros terrestres
relatados) o raro, o curioso e o belo; isto é, ela pode ser a descrição da expressão
observável/materializada da conformidade, da imensidão e da sublimidade do
Cosmos, ou, da coexistência entre a estética, a mecânica e a teleologia da
Natureza. Desse modo, a geografia física não se desprende de uma amarração
entre a Metafísica da Natureza e a Física, ou seja, de uma concepção mediante a
qual o ponto de vista causal se entrelaça diretamente com o teleológico.
A Teoria do Céu exprime um caráter otimista. É o sistema leibniziano da
harmonia que Kant acredita distinguir na arrumação do Mundo promovida pelas
leis da física e da mecânica newtonianas. A Teoria do Céu foi publicada,
inominadamente, em março de 1755. Em 1º de novembro de 1755 teve advento o
funesto Terremoto de Lisboa, um dos eventos mais marcantes do século XVIII.
O otimismo da Teoria do Céu defronta-se com esta calamidade natural; e
Kant avista-se incitado a aprofundar suas sondagens conceituais sobre o
funcionamento e sobre a finalidade da Natureza. Ademais, ao meditar e escrever
acerca deste Terremoto, Kant outorgou tributos indeléveis ao exame da superfície
da Terra, notadamente ao fazer dela: a) um objeto/recorte analítico de síntese; b)
um objeto de estudo acomodado às bases paradigmáticas das Ciências Naturais
modernas (sobremaneira à nova gradaria teórica, terminológica, conceitual e
metodológica instituída pela filosofia natural newtoniana); c) um membro de um
sistema cosmológico (ou, uma peça de uma Ordem Cósmica).
Teoria do Céu, março de 1755! Terremoto de Lisboa, novembro de 1755!
Semestre de verão de 1756; e Kant enceta a oferta, em Königsberg, de um curso
de geografia física! Kant, portanto, foi encaminhado a ensinar geografia física
pela posição discursiva que assumiu nesse período de seu itinerário filosófico:
caracterizada pela preeminência da razão prática; pela interdependência entre os
critérios causal e teleológico, entre o empirismo e a teoria, entre a experiência e a
especulação; pelo afã de uma nova concepção total do Mundo, de um Cosmos

254
(como na Teoria do Céu); pela invenção da superfície terrestre como objeto de
estudo das Ciências Naturais (tanto na Teoria do Céu quanto nos escritos
voltados ao Terremoto de novembro de 1755); enfim, pela perspectiva que faz
com que “[...] la contemplación de la naturaleza conduzca [...] a una teoría sobre
el destino moral del hombre, la cual desemboca, a su vez, en determinados
postulados y normas de carácter metafísico.” (CASSIRER, 1997, p. 72).

A geografia física e o redimensionamento da idéia de natureza na filosofia


kantiana
A Crítica do Juízo (1790) renova, sensivelmente, a imagem de Natureza
defendida na primeira Crítica. Definindo a faculdade de julgar como sendo a
faculdade de pensar o particular enquanto contido no universal, Kant faz uma
distinção entre uma faculdade de julgar determinante (que subsume o particular a
um universal dado, a uma lei, a um princípio ou a uma regra) e uma faculdade de
julgar reflexiva (que deve encontrar para o particular dado o universal).
A Crítica do Juízo, pois, instaura, no arquitetural crítico-transcendental
kantiano, uma expressiva redefinição da relação entre Razão e Natureza.
Estendendo as perspectivas do sujeito transcendental prescritas na Crítica da
Razão Pura, Kant redimensiona, em 1790, sua idéia de experiência e de
Natureza. E é o modelo reflexionante do Juízo que executa esta viragem.
O núcleo da terceira Crítica habita no problema das formações particulares,
heterogêneas, múltiplas, da Natureza (e no a priori das leis particulares a elas
correlativas). A Natureza, no lugar de ser tão-só pensada pelas faculdades da
Razão, passa a informar essas faculdades através dos predicados de seus
particulares e, com isso, faz-se posseira de significado e legitimidade próprios.
E o que regeu Kant a esta concepção de Natureza impregnada por um
elemento reflexivo provindo do Juízo foi a questão do particular. E a geografia
física sobressai-se como um dos motores causais que acicataram Kant a este
renovar da imagem de Natureza egressa da primeira Crítica. Ou seja:

[...] o problema da Crítica da Razão Pura foi a incomensurabilidade entre


a idéia de razão e o conceito de experiência. Kant acreditava na
possibilidade de uma experiência em geral como resultado da aplicação
de categorias e princípios do entendimento do múltiplo. Desta forma, não
apenas a experiência em geral, mas também as leis empíricas

255
particulares, em toda a sua multiplicidade e heterogeneidade, deviam a
sua existência e a sua legitimidade aos princípios universais do
entendimento.
No entanto, a multiplicidade de fatos e fenômenos, assim como as
especificidades e a contingência da natureza, descobertas por Kant a
partir de seus ensinamentos de geografia física [...] obrigaram-no a
repensar o postulado acima referenciado na Crítica da Razão Pura. Kant
percebeu que a metafísica da natureza, enquanto domínio da razão
especulativa, não resolvia o problema da multiplicidade das leis
empíricas, sendo necessário um novo conceito e uma nova figura de
natureza, de tal maneira que a imagem da natureza preservasse o saber
científico e eliminasse, segundo Kant a imperfeição da chamada
multiplicidade não totalizante das leis empíricas [...].
Para o entendimento, a natureza é um conjunto de fenômenos
ordenáveis e cognoscíveis única e exclusivamente por meio do espaço e
do tempo, que para Kant são as formas da sensibilidade. Assim, a
natureza é considerada como um sistema e não como um mero
agregado. Mas, o problema para Kant é que se tomarmos por base as
leis empíricas, a natureza deixa de ser um sistema construído pelas leis
do conhecimento, pois a diversidade e a multiplicidade das leis empíricas
impedem a construção de uma unidade e de um princípio comum [...]. A
questão é que a natureza deve ser pensada como um sistema e ao
mesmo tempo isto não é possível apenas com o recurso do
entendimento, que se preocupa apenas com leis gerais.
É esta a provável explicação para o grande interesse apresentado por
Kant pela geografia física. A geografia física era entendida pelo filósofo
de Königsberg como um sistema empírico da natureza, permitindo uma
visão integrada do mundo a partir de leis empíricas [...] sendo grande
objetivo da geografia física produzir uma ordem hierárquica da natureza,
propondo uma ordem na experiência do mundo sensível. Procurava,
também, justificar uma nova teoria da natureza e o papel da razão na
sistematização desta natureza [...] (VITTE, 2006, p. 42).

Outrossim, para mais do que ser um motor a impulsioná-lo, a geografia


física compõe o modelo reflexionante sugerido na Crítica do Juízo, fornecendo
subsídios e argumentos empíricos comprobatórios tanto à conformidade a fins
teleológica (e, também, à estética) quanto à representação cosmológica da
Natureza. E é inserido na noção de organismo que este papel da geografia física
aufere status no sistema kantiano. A contar da Crítica do Juízo, pois,

[...] a concepção de natureza não está mais associada às rígidas regras


da matemática e da física, mas estrutura-se a partir da noção de
organismo, como totalidade com uma finalidade técnica no mundo [...]. A
finalidade natural existiria apenas quando as partes se relacionam com
um todo, sendo ao mesmo tempo causa e efeito de sua forma. Assim, a
idéia de organismo é determinante da forma e da ligação de todas as
partes em uma unidade sistemática, ou seja, o todo. Este princípio de
finalidade, por sua vez, está necessariamente associado à faculdade de
conhecer, que prescreve uma lei para a natureza.
Concomitantemente, Kant percebe que somente o uso do entendimento
para se conhecer a natureza como sistema não é viável. Assume, então,
a necessidade de uma pressuposição transcendental subjetivamente

256
necessária [...] que permita qualificar a natureza como um sistema,
apesar da heterogeneidade e da multiplicidade das leis empíricas.
A natureza da Terceira Crítica não é mais a natureza mecânica, regulada
pelo domínio da física e da matemática. Ela deixa de ser apenas uma
coisa-em-si como na Crítica da Razão Pura [...] e ganha consistência
ontológica, tornando-se um conceito regulativo, uma natureza viva que
se define a partir da moralidade, agora como finalidade do bem.
No entanto, o problema ainda continua, ou seja, a questão do particular e
a sua relação com a representação do geral, muito embora este
problema venha desde Aristóteles em sua obra Metafísica [...].
A grande questão na Crítica da Faculdade de Juízo [...], e que teve
repercussões na formação da geografia moderna, é a relativa ao
problema da particularidade e ao mesmo tempo o da multiplicidade e o
da heterogeneidade das formas da natureza. É neste contexto que Kant
[...] irá desenvolver a noção de que o objeto da geografia física é o
espaço e a sua função é explicar a heterogeneidade e a diversidade das
formas naturais. [...]. Na tentativa de resolução do problema do
particular, do múltiplo e do diverso, Kant [...] irá desenvolver o conceito
de juízo reflexionante, que constitui para o filósofo um conceito particular
que procura resolver a questão da finalidade da natureza. Nele, o
particular é dado e o universal tem que ser encontrado, pois a
caracterização sistemática da natureza não é deduzida de princípios a
priori da natureza em geral [...].
O juízo reflexionante deve ser entendido como uma pressuposição
transcendental que medeia a subsunção do particular ao universal, mas
também o poder de encontrar no particular o universal [...]. O juízo
reflexionante pode ser entendido como sendo um meio termo que supera
a heterogeneidade entre os conceitos e as intuições empíricas, ou, como
sugere Kant na Crítica da Razão Pura, o juízo é a representação que
atribui ao conceito uma imagem [...].
Para Kant, a faculdade do julgar reflexionante possui como um a priori o
conceito de finalidade. Este conceito envolve tanto o domínio prático
quanto o teórico, pois, para Kant, a finalidade da natureza é pensada
única e exclusivamente como finalidade prática. Segundo ele não se
pode de alguma forma atribuir aos produtos da natureza algo como uma
relação da natureza a fins, mas só usar este conceito para refletir sobre
a natureza a respeito da conexão dos fenômenos nesta, a qual é dada
segundo leis empíricas” [...].
Assim, no ato de conhecer, os fenômenos da natureza são submetidos
ao juízo reflexionante, o que significa dizer que com a ação deste juízo
as heterogeneidades e a multiplicidade da natureza imediatamente são
submetidas ao conceito geral de natureza, não havendo necessidade de
nenhum princípio particular. Com isto, há uma esquematização a priori
que se aplica a toda à síntese empírica (VITTE, 2006, p. 42-43).

É a idéia de organismo que faz possível a representação do todo da


Natureza, ou, o congresso de todas as suas partes em uma unidade sistemática,
ou seja, em um Mundo. O Cosmos só pode ser fruto de um princípio regulativo da
Natureza. A Natureza, sem embargo a heterogeneidade e a multiplicidade das leis
empíricas, faz-se sistema, unidade, por mediação do juízo reflexionante, uma
pressuposição transcendental subjetivamente necessária. O juízo reflexionante
medeia a subsunção do particular ao universal, e, ainda, o poder de encontrar no

257
particular o universal. E a geografia física, pois, informa a heterogeneidade e a
multiplicidade da Natureza ao juízo reflexionante, configurando a própria
possibilidade do Cosmos, da síntese empírica transcendental. Ademais, na
constituição da representação do todo da Natureza, o juízo reflexionante não
prescinde de uma conformidade a fins teleológica (interna) e de uma
conformidade a fins estética. A geografia física informa, igualmente, os exemplos
e a realização empírico-particular da teleologia e da estética da Natureza.

Como estratégia desta reflexão, Kant identificou a forma [...] como sendo
o produto da natureza que permite a ação da razão na organização
destes produtos. Estes produtos por sua vez, podem ser especificados
como gêneros, espécies ou, em termos de geografia, como as formas de
relevo.
A forma permite, por meio da reflexão que o entendimento atribua à
natureza uma unidade própria e ao mesmo tempo possa qualificá-la
enquanto sistema que é pensado transcendentalmente como fato não-
transcendental. Ao mesmo tempo, a forma permite a objetivação daquela
pressuposição transcendental subjetivamente necessária, viabilizando no
plano do sujeito o sentimento de prazer e desprazer. Este sentimento,
segundo Kant, estabelece-se a partir da relação entre o princípio
teleológico do juízo reflexionante e o entendimento.
A forma, ou a constituição espaço-temporal dos objetos [...], deve ser
compreendida como uma noção que não exclua o plano da estética no
sentido de uma teoria do conhecimento, assim como no sentido da
crítica do gosto. Assim, a análise da forma deve englobar tanto o uso
teórico quanto o prático da razão. É dentro deste contexto que a
geografia acabou por eleger a forma como sendo o grande eixo
estruturador das análises e posteriores classificações do espaço
terrestre. No entanto, faltou à geografia a reflexão teórica sobre a forma,
o que acabou por empobrecer os trabalhos geográficos, que, nos dizeres
de Gomes [...], acabaram adotando a forma e a sua descrição como
fundamento de uma razão classificatória, como se as formas-tipo
representassem a personalidade de um determinado lugar ou região. No
caso da geomorfologia, esta situação é emblemática, particularmente
quando se trabalha com mapeamento geomorfológico. Para confirmar tal
situação basta atentar para as mais variadas escolas de mapeamento
ou, antes de tudo, para as concepções de forma de relevo que
fundamentam a cognição do geógrafo que realiza o mapeamento
geomorfológico [...].
No entanto, deve-se compreender o contexto filosófico em que está
inserida a noção de forma, particularmente no caso kantiano que tanto
influenciou a geografia moderna [...]. Na geografia, o conceito de forma
está inserido no conceito de juízo reflexionante, onde encontra-se o juízo
teleológico e o juízo estético. O juízo teleológico procura trabalhar a
problemática do organismo e o fim da natureza. Estando associado ao
desenvolvimento puramente mecânico do organismo, ele pretende
explicar a natureza e os seus princípios. Já o juízo estético procura
refletir sobre a finalidade formal da natureza, ou seja, a sua
particularidade, determinada por leis empíricas. É no interior do juízo
estético que se encontra, além da questão da particularidade, a relação
entre estética e teoria da ciência, assim como a relação entre arte e
representação da natureza.

258
Para Kant, a geografia física seria a revelação da beleza natural e
portadora de uma experiência estética distante do homem, mas
intimamente ligada à lei moral postulada pela razão prática. Ele diz que,
“... uma beleza natural é simplesmente uma coisa bela, enquanto que
uma beleza artística é a representação de uma coisa” [...].
Para Kant [...], a natureza pode ser representada como arte,
particularmente as suas formas, que conferem um status ao conceito de
finalidade e que procuram unir o juízo estético ao teleológico. Assim, a
natureza é representada como arte, ainda que o conceito de finalidade
sofra uma inflexão quando se passa do plano estético para o teleológico.
Para ele, “podemos considerar a beleza da natureza como exibição do
conceito de finalidade formal e os fins naturais como exibições de uma
finalidade real e apreciarmos uma pelo gosto (estética), graças ao
sentimento de prazer, a outra pelo entendimento e pela razão” [...].
Segundo o próprio Kant [...], o conceito de finalidade permite a
apreciação dos produtos naturais a partir da incorporação dos juízos
estético e teleológico, servindo para organizar a experiência segundo leis
empíricas, atendendo a uma certa sistemática da razão (VITTE, 2006, p.
43-44).

Essas ponderações delatam, pois, a cognação da gênese da geografia


física moderna com o desenvolvimento da filosofia crítico-transcendental kantiana,
nomeadamente com a Crítica do Juízo. O juízo reflexionante teleológico, que
emana da relação entre estética e teleologia da Natureza e no qual a forma
outorga à Razão organizar a Natureza, tem forte impacto na Filosofia da Natureza
de Schelling e no método morfológico de Goethe (VITTE, 2006); reflexões estas,
por exemplo, que tanto influenciarão o inexcedível Alexander von Humboldt e a
“[...] sua concepção de espacialidade dos fenômenos na crosta terrestre, bem
como a de georelevo, ou seja, a morfologia da Terra como o produto de conexões
espaço-temporais entre os elementos da natureza” (VITTE, 2006, p. 33).

Considerações Finais
A geografia física, em Kant, deve ser compreendida à luz da re-significação
que experimenta a concepção cosmológica de Natureza no itinerário de
desenvolvimento do sistema crítico-transcendental. Desse modo, a problemática
cosmológica constitui-se como uma das entradas fecundas para se realizar uma
adequada interpretação da trajetória intelectual de Kant. Daí, pois, o imperativo
em se suspender o esquecimento profundo no qual repousou e repousa, ainda, a
cosmologia kantiana (CLAVIER, 1997).

259
Referências
CASSIRER, Ernst. Kant, vida y doctrina. Bogotá: Fondo de Cultura Económica,
1997.
CLAVIER, Paul. Kant. Les idées cosmologiques. Paris: Presses Universitaires
de France, 1997.
COHEN-HALIMI, Michèle. Le Géographe de Königsberg. In: KANT, Immanuel.
Géographie. Physische Geographie. Paris: Aubier, 1999, p. 9-40.
ELDEN, Stuart. Reassessing Kant’s geography. Journal of Historical Geography
(2008), doi: 10.1016/j.jhg.2008.06.001.
HÖFFE, Otfried. Immanuel Kant. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
LEBRUN, Gerard. Sobre Kant. São Paulo: Iluminuras, 2001.
VITTE, Antonio Carlos. A terceira Crítica kantiana e sua influência no moderno
conceito de geografia física. GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 19, pp.
33 - 52, 2006.

260
O TEMPO, O TERRITÓRIO E OS DISCURSOS GEOGRÁFICOS

Luiz Carlos Flávio


lucaflavio@gmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
Um dos principais pressupostos dos estudos territoriais efetivados a partir
da abordagem renovada nas últimas décadas dá ênfase à necessidade de que o
pensamento geográfico se atente à complexidade de que se reveste a realidade
humana.
Dentre outros aspectos ressaltados pelos estudiosos da questão do
território, está o fato de que o mundo é movimento e contradição materializados a
partir da interação sociedade/natureza. Tal movimento envolve, sobretudo,
conflitos entre os diferentes elementos que compõem o espaço socialmente
produzido em cada momento histórico.
O território é produzido, sobretudo, à medida que os grupos tecem relações
de poder e efetivam disputas para se apropriar do espaço.
Assim, neste trabalho teceremos algumas considerações acerca da
importância da análise das contradições presentes no movimento das relações
sociedade/natureza.
Apontamos a necessidade de uma crítica aos discursos geográficos que
não impunham um esforço para capturar as contradições/conflitos presentes na
realidade, tornando-se ideologias propagadoras de um mundo “estático”,
contribuindo para encobrir elementos vinculados às relações de poder que
concretizam as apropriações do território.

O movimento sociedade/natureza: conflito, contradições e relações de


poder
Uma das principais marcas do conhecimento geográfico produzido nas
últimas décadas diz da incorporação, nas análises dos autores, do materialismo
histórico e dialético, cuja abordagem se contrapõe ao legado representado pelo
pensamento neopositivista.

261
Importa salientar com Sposito (2001, p. 102) que a concepção
neopositivista da realidade (homem, sujeito, objeto, ciências, etc.)

[...] parte de uma visão fixista, funcional e predefinida da realidade, como


recurso ou input e produto ou output. Finalmente, a concepção de
Natureza emerge como algo separado do Homem e com estatuto
próprio, dando a ele o status quo de entidade autônoma.

Já a compreensão pautada no materialismo histórico e dialético busca


averiguar a realidade considerando os fenômenos como movimento do ser social
a partir da inter-relação que há entre o todo e as partes, ou seja, entre os “[...]
elementos da estrutura econômica com os da superestrutura social, política,
jurídica, intelectual etc.” que encampa e “[...] explicita a dinâmica das contradições
internas dos fenômenos – relação sociedade-natureza, reflexo-ação, teoria-
prática, público-privado [...]” (SPOSITO, 2001, p. 103).
A realidade é, por natureza, dinâmica. E a força fundamental que a move
se encontra nas interações e conflitos entre os diferentes elementos que
compõem o mundo. Para Lefebvre (1995, p. 104), “[...] compreender um ser vivo
ou um objeto, é ver o detalhe no conjunto, o elemento no todo, o órgão no
funcionamento do organismo”.
Em Lefebvre (1995, p. 105; 224, itálico nosso), por considerar o movimento
de aspectos diversos,o pensamento dialético desvela suas contradições, sendo
capaz de “[...] descobrir a complexidade oculta [...]” nas interações de seus
elementos, buscando a “razão de ser” que habita as conexões “do singular e do
universal, através do particular”.
No contexto após II Guerra Mundial, foi calorosa a discussão no âmbito
geográfico acerca das bases teórico-epistemológicas de interpretação da
interação sociedade, natureza, tempo, espaço, território e mesmo região.
Desde os anos 1960-70, o paradigma fragmentário, estatístico-matemático,
baseado em princípios positivistas e caracterizado pela descrição dos fenômenos,
paisagens e formas físicas, então largamente utilizados, foi severamente
questionado, como demonstram Lacoste (1988), Moreira (1987) e os diversos
autores presentes em Santos (1982).
Quaini (2009) aponta para a falência do conhecimento geográfico preso a
descrever e inventariar as formas-conteúdo dos lugares, o qual é apresentado

262
como sistema matemático rigoroso e previsível, capaz de exaurir as regras
objetivas da realidade.
A crítica da perspectiva então construída, a qual contemplou a abordagem
denominada Geografia Crítica ou Radical, imputou à geografia de postura
descritivista o status de um saber inócuo, livresco, enciclopédico e ultrapassado.
E postulou um conhecimento capaz de revelar as relações espaciais amiúde
dissimuladas que organizam a vida humana e o território habitado em cada
tempo.
Na Geografia Crítica, incorporou-se ao pensamento geográfico categorias e
conceitos importantes para indagar a lógica de produção do espaço social a partir
do modo capitalista de produção, em cujos marcos se engendram e acirram as
desigualdades socioespaciais.
Dentre outros aspectos a destacar, para embasar nossa pesquisa, o
pensamento geográfico passou a questionar a “naturalização” dos processos
sociais analisados mediante noções como harmonia e equilíbrio, nas relações
sociedade-natureza (GOMES, 2000).
Destacou-se, assim, a ideia de que natureza, sociedade, tempo e território
formam, no modo capitalista de produção, uma totalidade contraditória, cujo
movimento é pautado na desigualdade e no conflito, que é acentuado ao longo do
tempo “[...] em virtude da divisão social e territorial do trabalho, do
desenvolvimento das forças e das relações produtivas, das lutas sociais, da ação
do Estado e da ideologia” (SAQUET, 2000, p.104). O que ocorre à medida que os
grupos tecem relações de poder e disputas para se apropriar do espaço.
As visões da realidade como harmoniosa, que seguem um modelo de
história retilínea, deturpam o entendimento da relação natureza e história, o
mundo do trabalho, da política, as contradições presentes na atuação do Estado e
no uso da técnica, a qual é posta em função da dominação que se efetiva em
desfavor dos grupos sociais “despossuídos” (SILVA, 1982).
Para o pensamento crítico, os esquemas de produção capitalista ganham
existência em um movimento que passa pela expropriação da terra,
desterritorializando os camponeses, bem como pela apropriação de excedentes
(mais-valia) extraídos dos trabalhadores, no processo de trabalho. As produções,

263
fluxos, movimentos pertinentes a este processo, dão os diferentes arranjos
espaciais.
A abordagem crítica aponta a opressão que se traduz, portanto, na relação
entre dominantes e dominados, relação esta mediada pela presença poderosa do
Estado. Nela, a geografia passa a ser vista como instrumento estratégico do
poder, em que homens e classes transformam o território mediante relações de
exploração e dominação de outros homens. O conhecimento geográfico serve aos
projetos imperialistas de Estados, os quais se vinculam a planejamentos
econômicos voltados aos interesses de grupos poderosos que dominam o
território (SOJA, 1995).
Gottdiener (1993), por exemplo, demonstra que a organização do espaço
urbano tem balizado o estabelecimento de hierarquias sociais de poder, em que a
terra e outros benefícios coletivos são apropriados e/ou concentrados sob a posse
de alguns grupos, patrocinando processos de exclusão efetivados no processo de
produção das cidades
Há, no contexto por nós mencionado, a elaboração de uma crítica do
discurso geográfico que não evidencie a dominação e os antagonismos de
classes presentes na arena social.
Um dos principais pontos a que se refere tal crítica diz da negligência do
pensamento que, ao não se atentar para os conflitos/contradições e interesses de
classes, torna o conhecimento geográfico uma “mentira funcional”, nos termos de
Milton Santos, isto é, um conhecimento “revestido da ideologia dominante”
(MOREIRA, 1982, p. 49).

Tempo, discursos geográficos e território: a necessidade de um olhar crítico


Um aspecto essencial presente nos estudos renovados do território refere-
se ao debate que foi aberto sobre a compreensão do tempo para se avançar na
compreensão das dinâmicas territoriais.
Geógrafos, como Santos (2006) incorporaram a contribuição de
pensadores como Braudel (1978), para quem, além dos tempos longos (as longas
durações, ligadas às continuidades estruturais), também temos os tempos breves,

264
pertinentes aos tempos da micro-história, do cotidiano, em que as práticas dos
homens impõem descontinuidades e rupturas à História, ressignificando o mundo.
Santos (2006) apontou os dois eixos temporais da geografia: o das
sucessões e o das coexistências. Ambos definem o espaço geográfico como
testemunha de permanências e mudanças efetivadas no curso da História, no
qual o passado pode se fazer presente, através das permanências; e onde os
agentes históricos também criam o novo, o devir, nas ações engajadas do
cotidiano.
Os tempos lentos (arraigados ao passado e às tradições) e os rápidos
(fruto das modernizações capitalistas) coexistem no espaço. Ambos estão nas
tramas territoriais que comportam processos de mudanças aceleradas, bem como
atomizações e dinâmicas de vizinhança e cooperação vinculadas ao tempo lento
e de rotinas (SAQUET, 2003).
O período moderno, da “economia-mundo”, caracteriza-se pela busca de
integrar cada vez mais os territórios ao modo capitalista de produção, conforme
ocorrera com a economia cabocla no Sudoeste paranaense, diante dos “avanços
para o Oeste” do Governo Vargas, o qual apresentaremos adiante.
Cercados pela técnica e pela ciência, os fluxos de produções, capitais,
dinheiro, informações, ordens, pessoas e valores favorecem um tempo
progressivamente artificial cujos maquinismos patrocinam a aceleração da
produção-circulação-consumo, os quais se irradiam pelas cidades e campos
sendo fontes de transformação, desagregação e desenraizamentos territoriais
(WALDMAN, 1994).
Todavia, às racionalidades impostas pela modernização das relações de
produção confrontam-se as resistências conferidas pelas forças do tempo lento
representado por heranças e valores do passado cuja memória obriga a
permanecência de formas arraigadas a tempos pretéritos (MARTINS, 2000), tais
quais as formas de apropriação territorial.
Destarte, os tempos lentos também evocam, amiúde, a persistência de
relações de poder que governam ou controlam o território.
As memórias, que mobilizam as arenas de confrontos e coexistências das
forças dos tempos lentos e rápidos, são importantes elementos de

265
desvendamento do território. Este, por sua vez, é igualmente testemunha da
coabitação e das disputas entre razão local ou próxima e razão distante ou global.
Ambas as razões se complementam e se superpõem ou se contradizem, mesmo
quando seus aspectos parecem invisíveis ou ocultos aos olhares mais
superficiais, mas cuja materialidade é evidenciada pelo olhar do pesquisador que
perscruta em profundidade seus conteúdos geográficos (SANTOS, 1988).
Para Marx, o pensamento que se quer profundo deve ser radical, no qual
“[...] ser radical é agarrar as coisas pela raiz [...]” (citado por GOMES, s/d, p. 74).
Nesse sentido, os discursos constituídos sobre o território e sua construção
histórica devem ser constantes alvos de radical crítica.
A crítica das criações iconográficas e representações vinculadas às
produções territoriais é um aspecto crucial desse processo, pois, como aponta
Moraes (2002, p. 16):

Não há humanização do planeta sem uma apropriação intelectual dos


lugares, sem uma elaboração mental dos dados da paisagem [...]. As
formas espaciais são produto de intervenções teleológicas,
materializações de projetos elaborados por sujeitos históricos e sociais.
Por trás dos padrões espaciais, das formas criadas, dos usos do solo,
das repartições e distribuições, dos arranjos locacionais, estão
concepções, valores, interesses, mentalidades, visões de mundo. Enfim,
todo o complexo universo da cultura, da política e das ideologias.

Os discursos geográficos e suas respectivas representações são


construídos em várias instâncias sociais: na academia (Universidades,
pesquisas); na geografia das escolas (professores); na geografia profissional (dos
geógrafos que objetivam projetos, ações), e nas práticas do cotidiano expressas
em bairros, ruas, fábricas, mídia (ESCOLAR, 1996).
Se, para Isnard (1982, p. 46), o conhecimento geográfico é capaz de
instituir informações que interpretem o mundo e ordenem o saber e o fazer
territorial, tal conhecimento deve ser objeto de constante averiguação em termos
de sua pertinência em relação às práticas concretamente dadas no território.
É legítimo reportarmo-nos ao pensamento de Cândido (2004). O autor
alerta que toda narrativa a respeito do mundo constrói-se a partir dele. Contudo,
ela pode criar mundos simbólicos, sociedades imaginadas, que influenciam nos
esquemas de constituição e controle da própria realidade.

266
Em nosso estudo, em que buscamos confrontar a relação entre a memória
construída e o território produzido na constituição da cidade de Francisco Beltrão,
mostraremos que as representações, muitas vezes, escamoteiam as relações
concretamente efetivadas de apropriação do solo pelos grupos e classes sociais
envolvidos no processo de construção da cidade.
Se quisermos utilizar um termo caro a Foucault (2000; 2006), os grupos
hegemônicos criam representações de memória coletiva imbuídas do discurso do
poder que visa garantir a reprodução da dominação sobre o território conquistado.
Nos territórios, evidenciam-se as conflitualidades humanas, pois os
homens que os produzem são movidos por contradições, antagonismos e
significados que são negociados a todo instante no bojo dos “diversos universos”
relacionais da economia, da política e dos elementos culturais e simbólicos que
perpassam as relações sociais.
Se a História é construída nos embates cotidianos dos homens (MARTINS,
1992) e comporta vários possíveis (HELLER, 1985), o território resulta de seu
movimento histórico. Em tal movimento, os homens são condicionados,
controlados, dominados. Mas, portadores de imaginação, suas ações também
condicionam e transformam os esquemas de dominação dados em certo
momento histórico. Além disso, constroem estratégias e táticas de fuga à
dominação, construídas nas circunstâncias de seu cotidiano (CERTEAU, 2002).
Afinal, se a produção do território é “prisão”, “jaula” (QUAINI, 2009) e
repressão (FOUCAULT, 2006), também é vontade de um pensamento criador de
autonomia individual e coletiva (SADER, 1988, CASTORIADIS, 1986, 1987, 1988,
1995), que instrumentalize a busca de liberdade (SANTOS, 1993).
Nessa arena de lutas, que significam construção territorial, a memória
individual e coletiva é uma das importantes formas de luta dos povos contra os
processos de dominação e opressão estabelecidos no passado (BENJAMIN,
1980; THOMPSON, 1992).

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269
REALIDADE: MOVIMENTO E COMPLEXIDADE MATERIAL E SIMBÓLICA

Luiz Carlos Flávio


lucaflavio@gmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Por trás dos padrões espaciais, das formas


criadas, dos usos do solo, das repartições e
distribuições, dos arranjos locacionais, estão
concepções, valores, interesses, mentalidades,
visões de mundo. Enfim, todo o complexo
universo da cultura, da política e das ideologias
(MORAES, 2002, p. 16).

Introdução
Os estudos sobre os elementos do território, seus dados empíricos e
informações, demandam o amparo em bases teórico-epistemológicas
fundamentadas em um sistema de referências. O trabalho do pensamento exige
afinar as “ferramentas de viagem” capazes de informar o percurso intelectual a
seguir, o que requer um “investimento conceitual”, como assevera Leclerc-Olive
(2003).
Em Proust, “[...] uma verdadeira viagem de descobrimento não é encontrar
novas terras, mas ter um olhar novo” (MORIN, 2003, p. 107).
A abordagem por nós proposta, neste trabalho, busca trilhar, a partir de
uma digressão teórico-conceitual, esse “olhar novo” que fita contribuir para o
entendimento da relação entre produção territorial e produção simbólica, a qual se
faz essencial para interpretarmos a construção geográfica do mundo em que
vivemos.

Realidade: movimento e questão conceitual


A necessidade da construção de orientações conceituais do pensamento e
a identificação de categorias que expliquem a realidade e seu movimento são
destaques nas obras de pensadores como Marx (s/d, p. 99-100).
Para refletirmos sobre as questões que envolvem a produção histórica do
território na/da cidade, em suas relações, precisamos construir elementos que
componham um método de abordagem que nos permita sistematizar o
conhecimento da realidade (SPOSITO, 2008; SANTOS, 2006).

270
As categorias são conceitos básicos que se referem a determinado sistema
de elementos ou pensamentos sobre elas articulados. Na geografia, embora a
utilização de categorias, conceitos, definições e noções não apresente grande
precisão (VASCONCELLOS, 2001), temos como os principais conceitos os de
espaço, território, paisagem, lugar e região (SUERTEGARAY, 2001).
Para Deleuze e Guattari (1992), face à pluralidade de sujeitos e relações
que envolvem a realidade, não há conceito simples. Todo conceito tem
componentes que se articulam em cortes e superposições, convergências e
divergências, horizontalidades e verticalidades, continuidades e rupturas,
aproximações, cruzamentos e distanciamentos entre os aspectos objetivo e
subjetivo, o finito e o infinito, a permanência e os devires.
Os conceitos servem para traduzir os movimentos que movem o mundo: da
particularidade dos indivíduos, corpos, poderes, forças e acontecimentos, em
seus processos específicos, aos universais que compõem a realidade social.
A escolha dos conceitos pelo pesquisador é da maior importância, pois
estes interferem em sua análise, guiam os elementos que conduzem o
pensamento sobre as relações de classes sociais e políticas em suas vinculações
materiais e imaginárias (VEYNE, 1983).
Ao abordarmos o movimento do real (a exemplo da relação entre território
e memória), é preciso levar em consideração os encontros, as imbricações e as
fronteiras materiais e simbólicas da realidade em suas múltiplas facetas e
hibridismos.
Mas o que entendemos por realidade? Esta contempla elementos
pertinentes à amplitude do mundo habitado, bem como todas as atividades e
ações humanas presentes na luta pela sobrevivência. Envolve também o
pensamento que informa as ações, colocando-se como um instrumento de poder
nas disputas engendradas pelos homens, para habitar este mundo (BERGER,
LUCKMANN, 1974).
A realidade é conjugação entre atividade/ação humana e
criação/reprodução do pensamento a seu respeito.
Marx (1983, p. 138) afirmara que “[...] o concreto é concreto por ser a
síntese de múltiplas determinações, logo, unidade da diversidade.” Assim,

271
explicita a realidade como conexão do movimento da realidade, em seus diversos
componentes e dimensões, tais como a economia, a política e a cultura, que se
interpenetram na vida cotidiana dos homens.
Ollman (apud HARVEY, 1980, p. 249) salienta que, na ontologia17 de Marx,
a realidade se põe “[...] como uma totalidade de partes internamente relacionadas
e sua concepção dessas partes como relações abertas, de tal modo que cada
uma em sua plenitude pode representar a totalidade”.

Realidade e complexidade
Para Morin (2007, p.13), devemos conceber o mundo em sua
complexidade. O termo complexo deriva do latim complexus, que significa “o que
é tecido junto”, em termos de acontecimentos, ações, produções, representações,
interações, determinações, condicionamentos, ordem, desordem e, inclusive, o
acaso. Se anularmos qualquer dos termos dessa realidade multidimensional,
nosso pensamento se torna incompleto, superficial.
Um dos problemas gnoseológicos e metodológicos pertinentes ao
conhecimento científico moderno é a dificuldade em construir o saber levando em
consideração a complexidade do mundo. Desde Descartes e Newton, o universo
é concebido como uma “máquina determinista perfeita” (MORIN, 2007, p. 59).
Funda-se um paradigma de pensamento que veste a realidade em matemáticas,
eliminando as imprecisões, ambiguidades, contradições, fragmentações,
interações.
Este paradigma simplificador, disjuntivo, reducionista separa as dimensões
da vida: o biológico, o físico, o antropológico. Separa o homem em corpo, cérebro,
psíquico, cultura, alienando-o do meio ecológico, que se desvincula da política,
que se desliga das mitologias e ideologias que alimentam as apropriações
territoriais. Separa, ainda, a unidade da diversidade, o quantitativo do qualitativo,
a ordem da desordem, o macro do micro, o acaso da necessidade, o objetivo do
subjetivo, o tempo do espaço, o espaço do território, o território do lugar.

17
“Uma ontologia é uma teoria do que existe. Dizer, por isso, que alguma coisa tem status
ontológico é dizer que existe” (HARVEY, 1980, p. 248). Para Raffestin e Turco (1989, p. 16),
ontologia se refere ao “[...] discorso che riguarda le strutture basilari su cui si fonda um sapere e
che specifica tale sapere rispetto ad altri tipi e ad altre forme di conoscenza”.

272
Nesse mundo disjuntivo, vários elementos têm sido negligenciados: o
acidente, o acontecimento (o cotidiano), o individual, o místico, o cultural. Isso
prejudica o entendimento das práticas humanas, nas quais ambiente, espírito e
busca de liberdade estão integrados enquanto ordem/desordem (LEFEBVRE,
1991; MORIN, 2007).
A separação das múltiplas dimensões que contemplam o universo humano
leva à derrota do pensamento crítico sobre a realidade. Assim, é crucial o
empenho do cientista-geógrafo em superar as dicotomizações do pensamento
positivista sobre a realidade, cujas representações tecem oposições entre corpo-
alma; material-ideal; concreto-espírito; território-memória, etc.
O (neo)positivista, amante do empirismo, faz culto ao mundo das formas e
do matematismo. Lepargneur (1989, p. 117) é crítico dos rigores matemáticos e
dos estatísticos que cerceiam o pensamento acerca do universo antropológico,
pois “[...] as estatísticas não passam de números sem alma [...]” quando não
deixam entrever certas dimensões humanas das relações humanas.
A naturalização da história é um problema que decorre da perspectiva
positivista, visto que esta pretende vestir a sociedade, a economia, a política, a
cultura, o espaço humano, em uma matemática precisa. O pensamento positivista
exige do pensamento científico guiar-se por leis invariáveis nas interpretações da
História e da Geografia, as quais, em tal visão, deveriam ser livres de juízos de
valor e ideologias políticas, consubstaciando-se o conhecimento como
politicamente neutro (LÖWY, 2002).
Entretanto, pensadores como Mannheim (1976), Chauí (1984), Blackburn
(1982) e Löwy (2002) demonstraram que tal visão empobrece, altera, deturpa a
realidade. Ademais, fornece visões parciais e a-históricas a seu respeito,
tornando-se ideologia, à medida que servem a interesses de grupos econômicos
e frações de classes sociais, ocultando os sistemas de exploração, alienação e
dominação engendrados no cotidiano dos homens (NETTO e CARVALHO, 2000).
Os discursos são construídos sobre as relações humanas, constitutivas dos
territórios da vida cotidiana, inscritos a partir de suas ações. Escolar (1996)
sugere que todo pensamento estrutura discursos acerca de aspectos e práticas

273
territoriais. Assim, desconstruir os discursos e as contradições por eles ocultadas
pode ser um caminho para demonstrar sua superficialidade na leitura do território.
Para Nietzsche (2005), o pensamento superficial é fonte de máscaras que
visam calar os sujeitos da realidade, lançando interpretações falsas sobre seus
movimentos. É um pensamento que oculta vontades de poder. Segundo Durand
(1993), o racionalismo pragmatista cartesiano erigiu, no pensamento ocidental,
forte desvalorização de outras dimensões humanas como a imaginação. O
pensamento ocidental inclinou-se à anatemização, quando não à extinção, da
imaginação e do simbólico18 traduzido pelas imagens, signos, alegorias, símbolos,
parábolas, mitos atinentes às práticas sociais.
Todavia, o universo simbólico “se vinga” dos tempos modernos: insistindo
em se alastrar às raízes do conhecimento e das práticas humanas de nossos
tempos. O viver, o fazer, o trabalhar dos homens envolvem sua capacidade de
criar representações das coisas que são, assim, imbuídas de qualidades e
significados espirituais, morais e culturais (DURAND, 1993).
Os elementos simbólicos (mito, língua, arte, ciência, memória, etc.) são
universos do conhecimento que interferem na produção do mundo: acompanham
as tensões e mudanças da vida social (ELIADE, 2002).
Em Bourdieu (2007), é justamente por ser uma dimensão tão importante da
vida humana que o universo simbólico se reveste de poder que atua na realidade.
Ele participa da legitimação das explorações, coerções e dominações sociais,
além de induzir a ordem gnosiológica, sendo instrumento das classes dominantes
no processo de fabricação de consensos para a domesticação dos dominados.
À medida que representa (apresenta de novo) uma realidade ocorrida no
passado, o universo simbólico pode encobrir os conteúdos (DURAND, 1993). O
ausente não fala por si, mas pelo viés que lhe é emprestado pelos sujeitos
tradutores da interpretação.19
No que tange à relação entre o geográfico e o simbólico, enfatizamos que
os conteúdos simbólicos se expressam como fontes de interpretações acerca das

18
O simbólico é aquilo que é capaz de “trazer ao presente” coisas e acontecimentos ausentes
(DURANT, 1993, p. 8).
19
Para Abbagnano (1970), a análise intelectual, o pensamento é, por natureza, produtor de
símbolos. Nesse sentido, abre possibilidade à manipulação e alteração do sentido da realidade.

274
realizações econômicas, políticas e culturais que participam da apropriação do
espaço e que, mediada pelas relações de poder, traduzem a constituição do
território.
A separação dos aspectos econômicos, políticos e culturais uns dos outros
dificulta o entendimento da realidade social. Essas dimensões são, por natureza,
intercambiáveis: o político se entranha no econômico, que se articula com o
político, ambos condicionando e sendo condicionados pelos aspectos culturais,
em amplas e recíprocas relações, produzindo as interações entre os homens e
deles com a natureza, estruturando a vida em movimento.
Castoriadis (1995) aponta que a racionalidade capitalista das sociedades
modernas apoia-se de modo privilegiado na produção de imaginários que
embasam a reprodução das relações sociais de produção.
Em Marx, sob o capitalismo, a acumulação do saber, das habilidades e da
inteligência dos trabalhadores é apropriada como força produtiva do capital. O
conhecimento é um dos principais fundamentos da produção de riqueza,
voltando-se à reprodução das relações de produção, sendo força e fonte de
agregação de valor ao capital (HUSSON, 2008).
Gorz (2005) defende que o conhecimento é a principal força produtiva que
racionaliza e instrumentaliza a dominação capitalista. Mentes, comportamentos,
gestos, imaginação, emoções, comunicações, saberes e culturas em comum
tornam-se forças imateriais que orientam o pensamento, tornando-o força para a
reprodução cotidiana do capital.
Assim, o conhecimento, a cultura comum, os aspectos cognitivos são
utilizados na formação de subjetividades, podendo ocultar dominações e
explorações pertinentes às relações de poder que governam a sociedade.
Entretanto, os elementos simbólicos não são apenas subsidiários de
poderes voltados à dominação. Concomitantemente, capacitam os homens a
cimentar relações de integração, cooperação, vínculos de solidariedade,
sentimentos de pertencimento entre as pessoas e grupos, cujas sociabilidades
engendram territorialidades que impõem mudanças e novas formas-conteúdos às
relações de poder que compõem a vida social.

275
Assim, os elementos simbólicos podem dar base para a atuação territorial
de movimentos sociais que subvertem a ordem estabelecida por determinado
poder que busca dominar o território, como veremos adiante.
Afinal, o simbolismo contempla inumeráveis interstícios e graus de
construção de liberdade e mudança, os quais defendem Gomes e Costa (1988),
Santos (2000) e Castoriadis (1995).
Os imaginários participam ativamente nas ressignificações que os
agentes20 históricos impõem aos territórios mediante criações de sentidos, às
vezes, contrários aos trunfos do poder, como expõe Raffestin (1993).
Diante dos diferentes interesses, desequilíbrios e contradições que
envolvem os grupos e classes sociais, estes tecem lutas que buscam superá-los
mediante estratégias e táticas cotidianas de produção da vida social (CERTEAU,
2002) que interferem nas formas-conteúdos territoriais.
Assim, as práticas territoriais são revestidas de complexidade e
multidimensionalidade, nas quais a confluência entre material e simbólico é um
elemento que mobiliza lutas, disputas e diálogos incessantes entre os agentes
sociais, no constante processo de (re)criação do mundo.

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CHAUÍ, Marilena de Souza. O que é ideologia. São Paulo: Abril Cultural, 1984
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20
Agentes são indivíduos que efetivam ações particulares, mas vinculadas ao sistema social mais
geral: há campos de poder e interesses (posição social, lucros) de grupos ou classes sociais
(DUBAR, 2008; ARAÚJO, ALVES, CRUZ, 2009).

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278
CONSIDERAÇÕES SOBRE O CONCEITO DE NATUREZA E SUA
REPRESENTAÇÃO ATRAVÉS DE IMAGENS PICTÓRICAS

Elis Modena
elismodena@gmail.com
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

O presente texto busca elencar algumas prerrogativas que compõem o


esforço de compreender e refletir sobre a concepção de Natureza, a partir da
análise de imagens pictóricas. Apresentando, assim, de maneira sucinta o projeto
de pesquisa que estamos desenvolvendo no Programa de Pós-Graduação Stricto
Sensu em Geografia.
Não que estejamos buscando uma resposta para o que é Natureza, já que
suas diversas conceituações tornaram-se um problema de ordem epistemológica
para a Geografia, sendo impossível se chegar a um conceito pronto. O que
buscamos entender é: que concepção de Natureza se faz dominante na Escola?
O que os alunos entendem por Natureza? O que o professor de Geografia
entende por Natureza? E como ele trabalha com esse conceito em sala de aula?
Nossa pretensão é, também, apresentar uma proposta didática: a
utilização da pintura de paisagens para o entendimento da concepção de
Natureza. Quando o professor aborda um conteúdo a partir de uma imagem e
contextualiza a mesma, ela deixa de ser apenas uma imagem ilustrativa e passa
a ser uma imagem iconográfica, ou seja, ela passa a ser material para análise e
interpretação histórica; ela ganha status de documento representativo do
contexto histórico de seus autores.
A esse respeito, Ferraz (2001) argumenta que:

A paisagem representada numa pintura expressa às formas de olhar o


mundo a partir das condições históricas, culturais, políticas, éticas,
estéticas, técnicas e tecnológicas que o pintor e o público estavam
inseridos. Tal fato, portanto, permite-nos colher noções que, mesmo que
a pintura não expresse a realidade em sua inteireza, auxilia a uma
melhor compreensão da visão que os indivíduos e a sociedade possuíam
de sua espacialidade em determinada época e lugar (p.154).

A importância desse estudo se justifica pelo fato de que, aprender a


concepção de Natureza, a partir da análise de imagens pictóricas é uma forma de

279
proporcionar o confronto entre o olhar do pintor e o olhar do aluno sobre a
espacialidade de determinado lugar em determinado tempo.
Partindo desse pressuposto, as imagens pictóricas são ricas fontes
históricas. Entretanto, é necessário ir além da dimensão visível, sabendo que as
mesmas são produtos de escolhas, seleções e olhares. A interpretação de uma
determinada pintura sempre se apresenta de forma diferente dependendo da
época em que é apreendida. A historiografia de uma imagem nunca é definitiva.
Entendemos que a representação total da paisagem é impossível, pois a
paisagem é um processo histórico, social e cultural. A percepção que temos da
paisagem não abrange o objeto em sua realidade profunda, pois o mesmo
compreende dimensões espaciais e temporais. Nosso recorte está moldado pela
nossa ideologia, que de acordo com Santos (2004), dissimula o real, a fim de
tentar impor significação própria.
Santos (2004) descreve a Paisagem como um conjunto de formas, que em
um dado momento, demonstram as heranças que representam as contínuas
relações localizadas entre o homem e a Natureza. Nesse sentido, pode-se
conceber que a Paisagem constitui-se como resultado do estabelecimento de
uma inter-relação entre a esfera natural e a humana, na medida em que a
Natureza é percebida e apropriada pelo homem, que historicamente constitui o
reflexo dessa organização.
A partir da tríade real, percepção e representação, fica evidente que
nenhuma representação é a reprodução exata da paisagem real observada. A
paisagem, quando representada, torna-se uma imagem. A imagem, segundo
Paiva (2004, p.18-19) “[...] não é a realidade histórica em si, mas traz porções
dela, traços, aspectos, símbolos, representações, dimensões ocultas,
perspectivas, induções, códigos, cores e formas nelas cultivadas”.
Nesse ínterim, a Paisagem apresenta-se como uma delimitação da captura
visual momentânea de um pedaço isolado da Natureza. A limitação da paisagem
pelo olhar a diferencia da noção de Natureza.
Na história, a relação entre o homem e o meio natural originou um
emaranhado de feições no espaço geográfico, reflexo da dominação do homem
sobre a Natureza.

280
De acordo com Smith:

[...] a dominação da natureza é uma realidade aceita por todos, quer ela
seja vista com espanto, como uma medida do progresso humano, ou
com temor, como um trágico prenúncio de um desastre eminente
(SMITH, 1988, p.27).

Para o autor, a dominação social sobre a Natureza, mesmo sendo


polêmica, é incontestável. Polêmica no quesito “preservação ambiental”; e
incontestável quando pensamos na ideologia imposta pelo modo de produção
atual: o capitalismo. A natureza representa, para a nossa sociedade, a matéria-
prima, o recurso natural, não apenas como via de suprir nossas necessidades
básicas e, sim, como um aporte indispensável da acumulação de capital.
Entretanto, apesar de termos conhecimento desse quadro atual da relação
homem e Natureza, nossa concepção de Natureza não é simples, ela é
extremamente complexa e, muitas vezes, contraditória. Smith (1988) descreve,
em um parágrafo, nosso elenco de concepções:

A natureza é material e espiritual, ela é dada e feita, pura e imaculada; a


natureza é ordem e desordem, sublime e secular, dominada e vitoriosa,
ela é uma totalidade e uma série de partes, mulher e objeto, organismo e
máquina. A natureza é um dom de Deus e é um produto de sua própria
evolução; é uma história universal à parte, e é também o produto da
história, acidental e planejada, é selvagem e jardim (p.28).

O autor busca destacar os vários conceitos de Natureza com o intuito de


nos mostrar que todos esses significados persistem ainda hoje no ideário do
homem. A atual dinâmica da acumulação de capital trouxe à tona os significados
acumulados de Natureza, que hoje são moldados e estruturados conforme o
momento histórico presente.
Essa estrutura complexa perfaz uma Natureza passível de um julgamento
estético de beleza, tornando-se, assim, sinônimo de belo, delimitado como lugar
de refúgio, onde o homem pode encontrar paz e tranqüilidade. Outrossim, a
Natureza é compreendida como fonte de matéria-prima para que o homem
construa a sociedade. Esse pensamento pressupõe uma dicotomia entre o
homem e a Natureza, colocando sempre uma fronteira que, dificilmente, é
recuada pelo capitalismo industrial. Quando internalizada, a esfera natural é
transformada pelo homem, aquela Natureza bonita ou “fisicamente natural”

281
simplesmente deixa de existir. Dentro de uma visão estética, é difícil imaginar que
uma área industrial, por exemplo, possa fazer parte da Natureza.
Entretanto, a Natureza não deixa de existir quando dominada pelo homem.
Ela se transforma em um cenário diferente, com novos elementos. Esse cenário
constitui o espaço geográfico que conhecemos hoje. Este espaço não é apenas
contenedor dos processos sociais, mas é produto das relações sociais; é parte do
processo de reprodução da sociabilidade capitalista. Corrêa (1996, p.25), define
esse espaço como a “[...] superfície da Terra vista enquanto morada, potencial ou
de fato do homem, sem o qual tal espaço não poderia sequer ser pensado”.
Para Marx, a história dos homens e da natureza são inseparáveis. Japiassu
(1985) explica essa ideia, argumentando que:

A História pode ser considerada sob dois aspectos: pode ser dividida em
História da Natureza e em História da Humanidade. Todavia, esses dois
aspectos não devem ser separados. Enquanto os homens existem, a
História da Natureza e a História dos homens se condicionam
mutuamente (p.143).

Marx não trabalhou diretamente em sua obra com o conceito de Natureza,


muito menos utilizou um conceito único. Smith (1988), afirma que Marx utilizou
“Natureza” enquanto termo sob uma variedade de acepções. No entanto, o uso
desse termo, ao longo de sua obra, acaba constituindo um conceito de Natureza,
aludida segundo Smith (1988) pela análise e crítica de Marx sobre o modo
capitalista de produção. Assim, a concepção de Natureza, em Marx, está atrelada
à faceta da materialidade vinculada à história, bem como com a dialética e o
trabalho.
Por meio do trabalho, o homem passa de ser passível a dominador e
transformador da Natureza. Para Marx, “[...] o trabalho é um processo entre o
homem e a natureza, um processo em que o ser humano, por sua própria ação,
media, regula e controla seu metabolismo com a natureza” (apud SMITH, 1988,
p.72).
A perspectiva do autor tende a nos mostrar que, para Marx, o trabalho
humano é uma atividade material. Sendo que a produção material determina as
relações dos homens com a Natureza e com a sociedade. Ao longo da história, o
homem sempre buscou inventar, fabricar e aprimorar seus instrumentos de

282
trabalhos, com a finalidade de adentrar à Natureza, retirar a matéria-prima e suprir
suas necessidades; essa relação é descrita como: valor de uso. O trabalho retira
a Natureza de seu papel “intocável” e “distante”, ao fazer desta um complemento
do “mundo humano”. A Natureza deixa de ser um dado externo e imóvel, e passa
a ser o produto de uma prolongada atividade humana que se apresenta como
interminável.
O homem, durante toda a sua história, modificou a Natureza, através da
técnica. Hoje, as técnicas certamente constroem e modificam com uma
velocidade surpreendente. É conveniente nos questionarmos se ainda existem
paisagens essencialmente naturais, levando em consideração nosso modo de
produção, que nos impõe um modelo de ser, pensar e produzir inspirados no
capital – enxergando a Natureza como uma fonte inesgotável de recursos. O
próprio Marx sugeriu que em sua época (século XIX), não existia natureza que
tenha antecedido à história humana (SMITH, 1988). A verdade é que, atualmente,
a “natureza virgem” ou “primeira natureza” se tornou um mito criado pela ideologia
de “civilizados sonhadores”. Todos os espaços naturais já foram modificados pelo
homem.
A Natureza, enquanto conceito passou por inúmeras interpretações e
vinculações com aquilo que era mais apropriado para o homem em determinado
momento, num dado espaço. Tendo em vista às inúmeras concepções de
Natureza, optamos nessa pesquisa, em trabalhar com três: a concepção
utilitarista, a romântica e a materialista. Essas que, de uma forma geral, norteiam
a concepção moderna de Natureza.
Nosso intuito não é entender como a Natureza se modificou fisicamente ao
longo do tempo; mas, sim, como a concepção de Natureza se transformou. Assim
sendo, a utilização de imagens pictóricas para essa análise é indispensável.

283
Referências
FERRAZ, Claúdio Benito. Geografia e Paisagem: entre o olhar e o pensar.
2001. Tese (Doutorado em Geografia) - Departamento de Geografia, Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São
Paulo.
JAPIASSU, Hilton. A Revolução Científica Moderna. Rio de Janeiro: Imago,
1985.
MOREIRA, Ruy. Repensando a Geografia. In SANTOS, Milton (org). Novos
rumos da Geografia brasileira. 4. ed. São Paulo: Editora Hucitec, 1996.
PAIVA, Eduardo França. História e Imagens. 2 ed. São Paulo: Editora Autêntica,
2004.
SANTOS, Milton. Pensando o Espaço do homem. 5. ed. São Paulo: Edusp,
2004.
SMITH, Neil. Desenvolvimento desigual. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil,
1988.

284
DA GEOGRAFIA MEDIEVAL À IMPORTÂNCIA DAS CRÔNICAS DAS ÍNDIAS
PARA A GEOGRAFIA MODERNA

Rodrigo Ferreira Lima


delima.rodrigo@yahoo.com.br
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Fabrício Pedroso Bauab


fabriciobauab@yahoo.com.br
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
O achado de uma “quarta parte” do mundo é, muitas vezes,
desconsiderado como importante para a História e a Epistemologia da Geografia.
Apenas em alguns poucos autores, como Bauab (2012), Capel (1999), Serna
(2005) etc., há uma maior valorização deste feito.
De uma geografia fecunda, que pode ser vista no período antigo,
observamos que a Idade Média acabou se tornando superficial e pouco
renovadora no que concerne à visão de mundo. Nesse caso em particular, a
Sagrada Escritura acabou se tornando, em alguns momentos, uma interpretação
que influenciou a leitura acerca do mundo e da Natureza. Porém, as navegações
do século XII ao século XVI e, consequentemente, a “descoberta” de uma “quarta
parte” do mundo feita pelos (e para os) europeus, trouxeram de volta essa
necessidade de se analisar o que estava sendo visto a partir do concreto/real.
Em relação ao método, o materialismo histórico foi adotado como a
maneira mais coerente de se entender/compreender como se deu tal processo. Já
em relação à metodologia, a pesquisa está pautada, única e exclusivamente, em
bibliografias e sistematização de vários autores. Dessa forma, quatro etapas –
estudo da Geografia desde a Idade Média até o início do período renascentista –
foram “criadas” para essas sistematizações dos textos num recorte histórico que
começa no século V e se estende ao século XVI. Cabe destacar, que esse
trabalho é apenas um recorte de uma pesquisa que está sendo desenvolvida no
Programa de Pós Graduação (Nível de Mestrado) da Universidade Estadual do
Oeste do Paraná (UNIOESTE), campus de Francisco Beltrão, onde os resultados
serão conhecidos em breve.

285
A geografia e suas várias facetas
Várias foram sendo as leituras da natureza e do espaço em milênios de
civilização. Desde a antiguidade até os tempos mais recentes, pessoas -
estudiosos e/ou “falsários” – procuraram fazer algumas descrições acerca do
espaço geográfico.
Num primeiro momento, houve que uma série de informações acerca do
espaço geográfico fora sendo acumulado no período antigo, principalmente com
autores como Estrabão – no caso da Geografia Regional - Ptolomeu – e uma de
suas obras mais famosas, intitulada Almagesto. Contudo, após a queda do
Império Romano as representações espaciais pouco se modificaram na Geografia
Medieval, o que acabou se tornando, como destacam Kimble (2005) e Carvalho
(2006), envolta em “trevas” - no sentido de pautar-se numa manutenção do saber
antigo do que necessariamente numa renovação.
Nota-se que no período medieval a prática de se compilar obras e escritos
de autores antigos acabou se tornando algo muito comum, que em pouco renovou
a visão de mundo. Segundo Boorstin (1989), as práticas compilatórias eram muito
comuns em lugares como mosteiros principalmente. A partir destas cópias nas
grandes enciclopédias que foram sendo criadas e escritas nota-se que houve a
reunião de diversas áreas do conhecimento numa só obra – inclusive a Geografia
fazia parte do conteúdo de tais materiais. Kimble (2005), Carvalho (2006) e
Boorstin (1989), cada qual de acordo com suas leituras, demonstram isto de
maneira muito interessante.
De acordo com os autores, podemos destacar Isidoro de Sevilha (565-630),
e sua obra Etimologia, e Cosmas Indicopleustes (séculos V e VI), com sua
Topografia Cristã (535), como aqueles que melhor representaram essa corrente
de grandes compiladores. Nas obras, é de suma importância destacar que além
do elemento ligado ao saber real, o elemento religioso aparecia constantemente
como sendo um daqueles trabalhados. Aspectos como a origem do povoamento
nos três continentes até então conhecidos (Ásia, África e Europa) provida de
Sem, Cam e Jafet (KIMBLE, 2005) e/ou a origem dos mares e rios que banhavam
os quatro cantos da Terra, estão presentes nestas representações. Outras

286
questões pertinentes seriam a habitabilidade da zona tórrida e a existência - ou
não - dos povos antípodas num continente austral.
Não podemos desmerecer estes escritos como algo que pouco contribuiu
para os estudos atuais, visto que se não houvesse esta prática seria impossível
fazer uma retomada de como foi sendo construído o Pensamento Geográfico
Ocidental. Contudo, pelo período medieval ser taxado como contendo cerca de
um milênio – período que vai do século V ao século XV – o passar dos tempos
demonstrou que a visão e o pensamento geográfico acerca do orbe sofreram uma
drástica mudança na Baixa Idade Média. Isso pode ser considerado em virtude
das Grandes Navegações ibéricas.
Deste modo, já no final da Idade Média, mais precisamente entre os
séculos XII e XV, Boorstin (1989) e Dreyer-Eimbcke (1992) asseveram que os
portulanos acabaram se tornando uma representação mais fiel acerca do orbe
terrestre a partir da realidade encontrada durante as viagens. Nesse caso,
diferentemente do que era visto tempos antes, os caminhos dos mares – ao invés
dos caminhos por terra – acabaram se tornando aqueles escolhidos para tal
empreitada. Ainda segundo os autores, o interessante de se notar é que durante
as viagens a bússola, o astrolábio e as cartas de marear eram instrumentos
considerados fundamentais na orientação dos caminhos a serem seguidos, além
da necessidade de se conhecer de astronomia na escolha dos caminhos a serem
seguidos. Desse modo, criou-se o que conhecemos hoje como os loxodromas –
ou linhas de rumo. Como representante mais fiel das costas européias do norte
do continente africano, o Mapa de Abraham Cresques (o Atlas Catalão de 1375)
ilustra bem esta tendência.
Entre caminhos e descaminhos, novas rotas comerciais estavam sendo
constantemente criadas e buscadas, surgindo o que conhecemos como as rotas
de especiarias. Numa destas viagens, inesperadamente, um quarto continente – o
americano – acabou sendo encontrado por Cristóvão Colombo no ano de 1492
(COLOMBO, 1991). Isso aconteceu após longas negociações entre Colombo e as
coroas de Portugal e Espanha quando Colombo, a partir de suas leituras,
interpretações e suposições trazidas por pessoas como Toscanelli e Pierre d’Ally

287
através de outro caminho rumando ao poente seria possível alcançar as terras
asiático-orientais tão mencionadas por Marco Polo (DREYER-EIMBCKE, 1992).
Ao chegar ao Mundus Novus (VESPÚCIO, 2003), por estar amparado por
fontes textuais (como um mapa feito por Paolo Dal Pozzo Toscanelli e outro mapa
de Pierre d’Ally, dentre outros), Colombo não soube interpretar o que estava
sendo visto naquele momento e acreditou ter encontrado as então costas asiático-
orientais mencionadas por Marco Polo e Jean de Mandeville (COLOMBO, 1991).
Tal fato, não pode ser atribuído da mesma forma a Américo Vespúcio.
Diferentemente de Cristóvão Colombo, em sua viagem terceira viagem ao
continente desconhecido no ano de 1501, Américo Vespúcio soube reconhecer
que se tratavam de outras porções de terras além daquelas até então sabidas
pela cultura europeia (VESPÚCIO, 2003). Isso se deve principalmente pelo
caminho percorrido sentido as grandes latitudes. Outro ponto interessante é que
Américo destaca que “[...] naquele hemisfério vi coisas que não estão de acordo
com as razões dos filósofos” (VESPÚCIO, 2003, p 49).
Godinho (1998) assevera que o fato de haver outro continente
desconhecido para a cultura europeia e ambas as civilizações – europeia e nativa
- entrarem em contato a partir do final do século XV se trata muito de um encontro
e/ou choque entre culturas do que necessariamente uma descoberta, visto que
para os povos que residiam na América esta terra é velha e muito antiga.
Em suma, apesar de Colombo e sua tripulação terem sido os primeiros a
pisar em tais terras Américo Vespúcio acabou ficando com o mérito de ser o
“descobridor” deste novo continente.
Este questionamento de quem seria ou não o real merecedor de ter
descoberto um quarto continente é algo que já vem sendo estudado por autores
como Bauab (2012) e Godinho (1998), por exemplo. Contudo, também há que se
questionar o real significado dos termos descobrimento e achado se de fato
poderíamos aplicar o primeiro destes no caso americano. De acordo com o meu
entendimento não.
Como dito anteriormente, até o século XV, a cultura europeia acreditava
que existiam apenas três continentes. Isso pode se tornar compreensível porque
a falta de aparatos técnicos para a arte da navegação acabou sendo um fator

288
limitante. Com o impacto do achado de um novo continente, em 12 de outubro de
1492, muito do que era tido como verdade absoluta acabou caindo por terra.
Contudo, ao encontro de nossa afirmativa, o termo correto de se utilizar nas
análises seria o achado ao invés de descobrir, visto que Godinho (1999) traz que
o termo “[...] descobrir não se aplicaria ao movimento de expansão europeia, visto
que as terras ‘descobertas’ eram povoadas e consequentemente conhecidas dos
povos que habitavam” (p. 60).
Mas, a partir destes jogos de semelhanças e interpretações feitas a partir
do encontro com a natureza americana, o conhecimento antes puramente
tradicional, ligado ao livresco, passou a ser superado por uma valorização no
aspecto ligado ao empírico/real. Foucault (1999) destaca que podem ser
apresentadas de quatro maneiras estas semelhanças, sendo elas: Convenientia,
Aemulativo, Analogia e Simpatia. De acordo com estes quatro traços comuns
ligados a semelhanças entre as coisas – neste caso, as “coisas” da América –, a
análise acaba se tornando mais profunda e produtiva no que concerne aos
estudos acerca da natureza.
Seria conveniente, nesse momento, fazer algumas perguntas: Como e
quando surgiram os primeiros estudos mais sistemáticos da natureza e dos povos
do continente recém encontrado? Quais personagens foram responsáveis por
uma revolução no pensamento geográfico? Seja qual for o termo – achado ou
descobrimento – utilizado na análise, nota-se a importância que as Crônicas das
Índias e seus escritores possuíram para responder tais questionamentos.
Nas viagens a América, as Crônicas eram escritas por pessoas como
padres, soldados, dentre outros, a mando da coroa espanhola principalmente
como uma tentativa de mapear e conhecer o território e os povos ali existentes
(CAPEL, 1999). Canibais ou não (VESPÚCIO, 2003), a cultura nativa acabou se
tornando também um objeto de estudo desde as primeiras viagens de Colombo e,
consequentemente, as de Américo Vespúcio. O principal rompimento identificado
entre a Geografia medieval e a Geografia considerada moderna é que houve uma
ruptura entre o saber textual – onde as interpretações eram feitas a partir do que
era lido e não visto – e aquele ligado ao real/concreto. Isso acabou auxiliando não

289
somente na modernização desta ciência, mas acabou se tornando um marco
essencial para o início do pensamento da Idade Moderna como um todo.
Essa afirmativa pode ser mais bem descrita por Capel (1999, p. 47),
quando este destaca que a “[...] a geografia moderna nasceu durante o século
XVI, na América, no esforço por reconhecer, descrever, estudar e organizar as
informações das terras descobertas”. Assim, temos a convicção de que a
Geografia Moderna teve sua origem ainda neste período e desta maneira. Em
relação aos escritos feitos em solo americano, ainda segundo Capel (1999), “[...] é
sem dúvida nas crônicas das índias e, concretamente, nas obras de Fernández
de Oviedo e Acosta que se encontram, segundo reconheceu o próprio Humboldt,
o fundamento da Física do Globo” (p. 48). Apesar deste ponto de vista radical de
Capel (1999), entendemos sim que a gênese da Geografia Moderna está imbuída
a partir dos escritos feitos em solo americano, afinal, se comparada com a do
período anterior, a Geografia passa a trabalhar de maneira mais fiel aos aspectos
concretos ligados à natureza, deixando de lado esta superposição das várias
identificações (GIUCCI, 1992) muito difundidas na Idade Média.
Desta maneira, muitos foram os que se destacaram no cenário ocidental,
tais como Gonzalo Fernández de Oviedo, Las Casas, Cieza de Léon, Núñez
Cabeza de Vaca (SERNA, 2005), dentre outros; porém, o mais moderno, dentre
todos estes personagens que viajaram para o Mundus Novus no século XVI, é, a
nosso ver, o Padre José de Acosta.
Segundo Serna (2005), Acosta considera sua época superior à dos antigos
pela enorme quantidade de informações já obtidas acerca do orbe, o que acabou
fazendo com que pagãos e padres refletissem a este respeito. Contudo, Acosta
sempre recorreu aos clássicos – como Sêneca – para dar vida à sua obra. Ao
tentar restabelecer um equilíbrio entre o que era sabido até aquele momento,
Serna (2005) destaca que:

Como tantos outros, Acosta acreditou que a ilha encontrada por


Colombo fosse Ofir, de onde Salomão teria retirado uma grande
quantidade de ouro, mas não querendo crer na suposição, deduziu “é um
nome de outro”. Assim, Acosta é um dos cronistas mais modernos
porque busca um equilíbrio entre a autoridade, a imaginação ou ideias
mentais e a veracidade ou a razão experimentada, duvida de tais
hipóteses (p. 25).

290
Já quando Acosta acreditou que seu tempo possibilitava melhores
condições de se interpretar tudo que ao se redor, se comparado com o período
em que Aristóteles viveu (BAUAB, 2012), concordamos com esta afirmativa,
principalmente porque, além de mais de um milênio que os separa, é perceptível
o progresso técnico que aconteceu neste período – dentre outros aspectos – na
arte da navegação.

Considerações Finais
Durante os cerca de sete séculos iniciais do período medieval, houve uma
mescla entre o saber geográfico e o pensamento cristão. Já a partir dos séculos
XII e XIII, há de maneira mais evidente o progresso da visão, do conhecimento e
do pensamento geográfico acerca do orbe terrestre. O encontro de um quarto
continente acabou se tornando um divisor de águas, onde a tradição livresca
passou a ser desconsiderada frente a uma realidade intrigante e instigante, muito
convidativa para aqueles que se interessavam em interpretá-la de maneira mais
sistematizada. Dessa maneira, as Crônicas acabaram se tornando a primeira das
tendências onde a Geografia buscava analisar o aspecto ligado ao real em
primeiro lugar, desconsiderando o aspecto textual/livresco que era tido como
verdade absoluta até aquele momento.
Dessa forma, acreditamos que a Geografia inicia seu processo de
modernização a partir de um momento que vai além da descoberta do continente
americano. Sendo assim, novos olhares sobre a natureza passam a se tornar
mais constantes e muito considerados parte de alguns estudiosos que se
arriscaram a tal desafio – principalmente no caso dos cronistas das índias – ainda
no século XVI.
Fazer uma análise partindo deste pressuposto é algo desafiador, mas se
julga importante devido sua importância e valor para a ciência geográfica. Esta
tarefa não é das mais fáceis, muito pelo contrário, mas acaba nos instigando a
querer ir cada vez mais longe e mais afundo nas das análises para demonstrar
que a Geografia é muito mais que uma ciencia dos lugares e das coisas, mas
uma ciência da vida, da nossa vida.

291
Referências
BAUAB, Fabrício Pedroso. Do conhecimento geográfico medieval à Geografia
Geral (1650) de Varenius. Cascavel: EDUNIOESTE, 2012.
BOORSTIN, D. J. Os descobridores. Trad. Fernanda Pinto Rodrigues. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1989, p. 103-116.
CAPEL, Horacio. O nascimento da ciência moderna e a América – o papel das
comunidades científicas, dos profissionais e dos técnicos no estudo do
território. Trad. Jorge Ulisses Guerra Villalobos. Maringá: Eduem, 1999.
CARVALHO, Márcia Siqueira de. A geografia desconhecida. 2006.
COLOMBO, Cristóvão. Diários da descoberta da América: as quatro viagens e
o testamento. Trad. Milton Person. Porto Alegre: L&PM, 1991. (Col. A visão do
Paraíso)
DREYER-EIMBCKE, O. O descobrimento da Terra. Trad. Alfred Josef Keller.
São Paulo: Melhoramentos: EdUSP, 1992.
FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências
humanas. Trad. Salma Tannus Muchail. 8. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
GODINHO, Vitorino Magalhães. Que significa descobrir? In: NOVAES, Adauto
(org.). A Descoberta do homem e do mundo. São Paulo: Companhia das
Letras, 1998, p. 179-192. (Col. Brasil 500 anos)
KIMBLE, G. H. T. A Geografia na Idade Média. Trad. Márcia Siqueira de
Carvalho. 2. ed. rev. Londrina: EdUEL, 2005.
SERNA, Mercedes (comp.). Crónicas de Indias. Madrid: Catedra, 2005.
VESPÚCIO, Américo. Novo Mundo: as cartas que batizaram a América. São
Paulo: Planeta Brasil, 2003.

292
OS DIFERENTES SENTIDOS DOS DESCOBRIMENTOS

Fabrício Pedroso Bauab


fabriciobauab@yahoo.com.br
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Rodrigo Ferreira Lima


delima.rodrigo@yahoo.com.br
UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão-PR)

Introdução
Partimos do pressuposto de que significados diferentes devem ser
atribuídos ao termo descobrimento. De uma forma geral, entretanto, ele ora é
usado num sentido ampliado, enredado a outros aspectos vinculados à
constituição da modernidade, ora finda por ficar restrito às terras incorporadas ao
mundo cristão-ocidental a partir das viagens transoceânicas.
La Cuesta (apud GODINHO, 1998), atesta a imprecisão do termo
descoberta, pois os nativos que habitavam as terras transatlânticas já estavam ali.
Assim, o mais correto seria falar em comunicação, encontro, pois o descobrir
apenas tem sentido do ponto de vista daquele que observava os fatos do exterior.
O uso do termo descobrimento, numa conotação mais ampla, surge
também das diferentes mudanças promovidas pela Renascença. Nela, se
redescobriu o passado, muitas vezes buscando pular diretamente da
modernidade incipiente para a antiguidade. As “trevas medievais” eram,
aparentemente, vencidas por um salto, como se o pensamento antigo não se
fizesse presente na cultura do período medievo. Contudo, a novidade de tal (re)
descoberta do passado é prenhe dos novos significados trazidos pelo presente de
uma sociedade claramente em transição, engendrando novas forças econômicas
que fariam ruir o modo de produção feudal.

Resultados e Discussões
A abertura do mundo deu-se, também, em um novo tipo de redescoberta
do passado, libertando-o, processualmente, do crivo da Igreja Católica que, na
Idade Média, controlava-o. A secularização do saber significou, nestes termos, um
reencontro com o passado e uma projeção para o futuro, para o moderno, sempre
considerado sinônimo do novo, mesmo que esse já se tenha feito fazer num

293
tempo não tão remoto assim. Aqui, na Europa renascentista, descobrir quer
significar a forja de um novo mundo e de um novo homem. O heliocentrismo
copernicano e o sujeito do conhecimento cartesiano são expressões do que
acabamos de afirmar. Neste sentido, o homem europeu passa a conhecer novas
formas de se auto-(re) descobrir.
A expressão descobrimento fez-se, segundo Godinho (1998), mais
presente entre os portugueses. Aos espanhóis era comum o uso da palavra
conquista. Contudo, ambas tinham em seu âmago a subordinação das terras
descobertas e conquistadas ao mercantilismo nascente da Europa, propiciando,
na navegação através da parmenidiana zona tórrida, intransponível para
autoridades como Aristóteles, aquilo que Marx veio a chamar de acumulação
primitiva do capital.
Nestes termos, o descobrir reveste-se de outro significado: não somente
retira-se o véu dos olhos e do mundo, atestando a inexistência dos limites dados
pelas colunas de Hércules, para demonstrar um planeta todo ele feito de
alteridades. Frente ao susto perante o novo, surge o êxtase pela possibilidade de
atrelar as novas terras aos próprios mecanismos de reprodução do capital
insuflados desde há pouco no continente europeu.
Há um processo inerente às primeiras Grandes Navegações que consiste
justamente na criação de uma verdadeira teia de rotas – de redes – ligando os
grandes centros da Europa às áreas notificadas pelos navegadores em suas
cartas, em seus diários. Intensifica-se o movimento do mundo que, em certa
medida, parece ter uma nova dinâmica paisagística, um novo sentido para a vida
dos homens. O afã pela velocidade, pelo progresso, que Martin (1946) destaca
como fundamento cognitivo da burguesia – que, como não poderia deixar de ser,
expressava o estado de coisas do mundo que nascia atrelado ao aparecimento
desta nova classe social – parecia agora transpor os limites europeus, instalando-
se, em certa medida, na globalidade que, à medida que vai sendo descoberta, vai
sendo amalgamada à tradição cultural do agora Velho Mundo.
Godinho (1998) destaca, neste cenário, que as navegações da chamada
era dos descobrimentos teceram uma rede mundial de rotas, pondo em mútua
relação todas as civilizações que se tinham desenvolvido ao longo das linhas

294
costeiras dos oceanos. Com o tempo, a tessitura de tais redes incorporaria
também os espaços continentais interiorizados pela ação das caravanas que,
neste sentido, amplificaram a construção de um espaço operacional. Os
isolamentos são, assim, gradativamente rompidos.
Ressaltamos que operacional torna-se todo o meio desbravado, toda ilha e
pontos de referência, como cabos, desembocaduras de rios, cidades e
fortificações que serviriam de entrepostos (GODINHO, 1998). Assim, o
descobrimento atrela-se, também, a uma nova relação de referência com o
espaço ,desbravado, fazendo dos avanços cartográficos, retomados graças ao
afã por cientificidade e quantificação recentemente reintroduzidos no Ocidente por
ocasião da descoberta das obras de Ptolomeu, um elemento essencial. O cenário
histórico exigiu, assim, novos referenciais de deslocamento e fixação. O afã pela
exatidão torna-se aqui critério cognitivo instaurado pela sociedade burguesa que
se edificava conjuntamente com uma nova imagem de mundo.
Deslumbramento e pragmatismo se unem no olhar europeu lançado para
as novas paragens. Assim, temos que a construção do espaço, no âmbito do
referencial empírico ou mesmo cartográfico, viria a possibilitar ao europeu
deslocamentos conscientes (GODINHO, 1998), o futuro estabelecimento de
viagens frequentes, geradoras desta nova tessitura de redes. Os simbolismos
imanentes aos mapas medievais, como, por exemplo, o de Ebstorf (séc. XIII),
perdem, portanto, parte de seus significados.
Nesta nova percepção do espaço, o descobridor moderno surge não como
retirante do véu que estendia sobre o mundo limites imaginários, mas como o
sujeito que, se vendo repleto de falácias, do antemão pouco confirmado na
textura real das novas paragens, começa a descobrir de fato as novidades
através de um olhar rígido sobre si. Holanda (1969) ressalta que, neste cenário,
há uma retração da área tradicional dos países da lenda e dos sonhos, embora
fique claro que, com o avanço da colonização, antigos mitos como o das
Amazonas e o da Fonte da Juventude foram transferidos para áreas americanas
que, desconhecidas dos exploradores, passaram a ser preenchidas com
conteúdos que outrora haviam sido transpostos para áreas remotas do ecúmeno
medieval (MEGASICH-AIROLA; DE BEER, 2000). Neste sentido, o descobrimento se

295
entrelaça com uma espécie de rearranjo espacial dos elementos lendários
desprendidos da cultura medieval, tendo como papel a validação destes
elementos em uma nova ordem geográfica.
O descobrimento quer significar, também, uma nova chance para a Igreja
Católica recuperar parte de seu poder, então diminuído graças ao avanço do
protestantismo. Aqui, os descobrimentos vêm acompanhados por uma perspectiva
unilateral e teleológica de tempo que define/reduz a diversidade cultural
encontrada aos esquemas universais da teodiceia cristã. Assim, a redução é feita
mediante um princípio unificador entre profecia e realização, transmutando a
história em eternidade, evangelização em consumação (GIUCCI, 1992). Neste
sentido, realizou o que Eliade (1991, p.169) atribui como característica
fundamental da concepção de tempo cristã: “a transfiguração do acontecimento
histórico em hierofania (p.169)”.
Santo Agostinho, com base na Bíblia, preconizou o final dos tempos,
passados sete mil anos. De acordo com as contas de um pio Colombo, do
Gênesis até Cristo, passaram-se 5343 anos, e de Cristo até o momento de sua
empresa, 1501 anos. Restavam, assim, apenas 156 anos para que os pagãos
remanescentes fossem evangelizados. Na maioria dos casos, como denuncia
Galeano (1997), conversão religiosa e exploração escravista na busca incessante
por ouro não eram ações tão distintas assim.
Há aqui a face sanguinolenta do descobrimento. Bartolomé de Las Casas
(1484-1566), padre dedicado à defesa das novas gentes, o anti-herói espanhol,
questionou, neste sentido, o significado espanhol dado à palavra descobrir:

Em virtude das injustiças e ultrajes dos outros tiranos modernos que por
ali passavam para destruir outras províncias, cousa a que dão o nome de
descobrir21, muitos índios se juntaram, fortificando-se em certos
rochedos, sobre os quais os espanhóis voltaram a praticar tantas
atrocidades que puseram quase em absoluta ruína todo esse grande
país (LAS CASAS, 2007, p.72).

Assim, vem, o descobrimento, seguido da conquista, da inserção do novo


nos mecanismos de reprodução do recente estado de coisas passado no
continente europeu. E a fabulação de Deus permeou de legitimidade tal intento!

21
Grifo Nosso.

296
O descobrir se atrela também à abertura para um manancial de fatos e
perspectivas que maravilhavam o olhar do europeu, que agora tem diante de si
apresentada a diversidade que reduz em relevância o seu pequeno mundo
chamado Europa. A ciência galileana não havia, de certa forma, feito o mesmo
com o nosso mundo ao retirá-lo do centro do sistema? Giordano Bruno não fora
mais longe ainda ao declarar a Terra um corpo celeste preenchendo um espaço
infinitamente ocupado por outros infindáveis corpos celestes passíveis de serem
habitados?

Considerações Finais
Num mundo expandido, a novidade passa a ser fundamento básico dos
astutos portugueses que, para tanto, criaram um roteiro bem definido, ou, como
declara Godinho (1998), um verdadeiro plano de pesquisa: observava-se a
geografia física, os tipos de população e línguas, o povoamento rural, a
cereacultura e a criação de gado, os poderes políticos e a estrutura social,
passando pelas relações sexuais, suas relações com o parentesco, a religião e os
ritos.
Trata-se, neste momento, diferentemente do simbolismo da Geografia
Medieval, de seu aspecto textual/literário, de um espaço físico, de rugosidades
materiais, repleto de correntes marítimas, ventos, situações climáticas distintas,
lugares... E, além do de saber operar tais fenômenos, ou de, no mínimo, encará-
los de forma prudente, faz-se necessário criar uma linguagem que os uniformize,
que organize a diversidade.
A experiência começa a ganhar a rigidez e o percurso seguro do método
que F. Bacon virá, um pouco mais tarde, traçar em sua reconstrução do órgão do
conhecimento. Há, como destaca Novaes (1998), uma nova noção do
experimentar que, em primeira mão, quer dizer não acreditar e, com esta nova
experiência, o pensamento estabelece uma nova modalidade de razão, operante
a partir dos aspectos empíricos do mundo.
Neste prisma, as possibilidades de experiência proporcionadas pelas
viagens modernas levaram o principal nome por detrás da criação do método
experimental a aclamar:

297
As viagens de Demócrito, Platão, Pitágoras, que não eram mais que
excursões suburbanas, eram celebradas como grandiosas. Em nossos
tempos, ao contrário, tornaram-se conhecidas não apenas muitas partes
do Novo Mundo, como também os extremos limites do Mundo Antigo, e
assim é que o número de possibilidades de experimentos foi
incrementado ao infinito (BACON, 1999, p.58).

Por tudo isso, em efervescência ficaram os dogmas pelos mais variados


tipos de conhecimento advindos dos chamados descobrimentos. A origem
adâmica do homem seria uma verdade sustentável em meio a tantas gentes
encontradas em tantos recônditos lugares? Se a alpaca e o lhama não constavam
nas fileiras dos animais salvos por Noé, de onde provinham, então? Haveria
alguma relação de descendência entre aqueles que foram chamados de índios e
os três filhos de Noé que repovoaram as três partes do mundo conhecidas pelo
homem medieval? Estas e outras tantas questões suscitaram graves fissuras na
tradição cultural do Ocidente.
Temos, portanto, que o novo foco trazido pela experiência permite, como
viemos destacando no transcorrer do texto, um re-visitar de certos (pré) conceitos,
reformulando-os nos termos de um maior rigor para a relação entre as palavras e
as coisas. Se a livresca Geografia Medieval norteou-se pela reprodução, ao longo
de vários séculos, de muitas inverídicas informações não angariadas in loco,
fluindo enquanto conteúdo pronto de Plínio o Velho, sorvido por Solinus e
reproduzido e adulterado por Isidoro de Sevilha, os descobrimentos
sacramentaram o início do seu fim.
Obviamente que tamanhos preconceitos e expectativas, em relação aos
conteúdos que deveriam compor o mundo, não foram suprimidos de imediato. A
experiência do novo no processo de (re) conhecimento das novas terras não se
deu no sentido de sabê-lo, portanto, de imediato.

Referências
BACON, Francis. Novum Organum ou verdadeiras indicações acerca da
interpretação da natureza. Trad. de José Aluysio Reis de Andrade. São Paulo:
Nova Cultural, 1999. (Col. Os Pensadores)
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do Paraíso: os motivos edênicos no
descobrimento e colonização do Brasil. São Paulo: Companhia Editora
Nacional/Edusp, 1969

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ELIADE, Mircea. Imagens e símbolos: ensaio sobre o simbolismo mágico-
religioso. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Rio de Janeiro: Paz
e Terra, 1989.
GIUCCI, Guillermo. Viajantes do maravilhoso: o Novo Mundo. São Paulo:
Companhia das Letras, 1992.
GODINHO, V. M. O que significa descobrir. In: NOVAES, Adauto (Org.). A
Descoberta do homem e do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
(Col. Brasil 500 anos)
KIMBLE, G. H. T. A Geografia na Idade Média. Trad. Márcia Siqueira de
Carvallho. Londrina: Ed. da UEL, 2000.
LAS CASAS, Bartolomé de. O paraíso destruído. Porto Alegre: L&PM, 2007.
MARTIN, Alfred von. Sociologia del Renacimiento. México: Fondo de Cultura
Económica, 1946.
MAGASICH-AIROLA, Jorge; DE BEER, Jean-Marc. América Mágica: quando a
Europa da Renascença pensou estar conquistando o Paraíso. São Paulo: Paz e
Terra, 2000.
NOVAES, Adauto. Experiência e destino. In: NOVAES, Adauto (Org.). A
descoberta do homem e do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
(Col. Brasil 500 anos)
VARENIO, Bernhard. Geografia Geral - en la que se explican las propiedades
generales de la tierra. 2. ed. Trad. José Maria Requejo Prieto. Barcelona:
Ediciones de la Universidad de Barcelona, 1984.

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