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CAPÍTULO V

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1. OS TRÊS PRIMEIROS ANOS DE VIDA

1.1 Introdução

Os três primeiros anos de vida têm forte determinação nos valores; na própria

construção do ego da criança; como o ego se projeta no corpo, uma boa estruturação

nesta época é condição importante de saúde física, mental e espiritual. Esta época de

vida é o tempo de possibilidade de formação de um estado contínuo de consciência; aí

ficam inscritas as boas e as más histórias de vida. Lembrando que a grande jornada

começa na concepção e quanto mais tenras as impressões, mais duradouras estas se

tornam. Assim, as impressões deixadas pela mãe, refletidas pelo seu estado de espírito

durante a gravidez, serão mais impactantes do que as de quando a criança já nasceu.

Seguindo este raciocínio, os fatos ocorridos no parto são mais importantes do que

eventos nos dias seguintes a ele. Analogamente, os eventos ocorridos nos três primeiros

anos são capazes de determinar o sistema de crença que uma pessoa carregará por toda a

vida adiante. Até os sete anos pode-se dizer que as fundações da vida foram colocadas

e o edifício humano construído terá então saúde ou problemas para o resto da vida os

quais depois, só a poder de muito trabalho interno, é possível resolver.

As primeiras impressões recebidas na vida são as mais fortes e as mais ricas em conseqüências, mesmo sendo inconscientes, e talvez, justamente porque jamais se tornaram conscientes, ficando assim inalteradas. Apenas na consciência algo pode ser corrigido. O que é inconsciente permanece inalterado. (JUNG, 1981b, p. 158)

Logo no começo deste período é importante seguir as orientações de Michel

Odent, que diz que, logo após o nascimento, deve-se deixar a mulher em paz,

examinando isto por 12 perspectivas: (ODENT, 2007a)

1 – Perspectiva da respiração: A necessidade que a criança tem de respirar, agora

por um novo circuito de circulação do pulmão para o coração. Fecham-se os ductos de

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comunicação que existiam na vida fetal, o ductus arteirosus e o forâmen ovale. A partir

do nascimento um aprendizado de respiração começa a ocorrer.

2 – Perspectiva do altruísmo: a oxitocina é o hormônio do amor e do altruísmo -

em qualquer faceta que se considere - e a privacidade facilita sua liberação. Quanto

mais a mãe sentir-se pele a pele com seu bebê e olhar nos seus olhos, mais liberação de

oxitocina haverá em ambos os organismos.

3 – Perspectiva etológica do vínculo: os etólogos foram os primeiros a se dar conta

da importância

do

vínculo

mãe

e

filho

em

todas as

espécies e tem sido bem

documentada a complicação da privação, para os filhotes, do contato na primeira hora

de vida com mãe.

4 – Perspectiva da lactação: à primeira hora, o bebê encontra o bico do seio por si

mesmo, bastando colocá-lo sobre o peito da mãe; ele segue nesta direção até encontrar e

mamar, isto acontece se não nasceu sob efeito de anestesia. Quanto mais rápida a

exposição ao peito, melhor o prognóstico de amamentação, mais rápido a punjatura do

leite se dá.

5 – Perspectiva metabólica: O bebê tinha no ventre uma alimentação contínua e, à

primeira hora de vida, vive uma adaptação metabólica para passar a dispor de uma

alimentação descontínua. A capacidade de regulação dos níveis de glicose no sangue -

essencial para a manutenção da qualidade de vida - se dá nesta primeira hora e tem sido

observada em profundidade por M. Cornblath nos Estados Unidos e por Jane Hawdon,

Laura Deroy e Suzanne Colson no Reino Unido.

6 – Perspectiva bacteriológica: o bebê nasce de um meio asséptico e, uma hora

mais tarde, milhões de bactérias cobrem suas mucosas. A questão é: quais germes vão

colonizar primeiro o organismo do recém-nato. Os bacteriólogos sabem que quem vai

vencer a corrida serão os germes que primeiro chegarem às mucosas. É interessante que

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sejam os do corpo da mãe, pois mãe e bebê compartem a mesma IgG, os mesmos

anticorpos. Ou seja, desde que nasce, o bebê precisa urgentemente ter contato com uma

só pessoa, a própria mãe. Além disto, ao ingerir o colostro, vai receber ajuda para

estabelecer uma flora intestinal ideal.

7 – Perspectiva de termo-regulação: no útero, o bebê nunca teve de experimentar

temperatura diferente, então os primeiros minutos do pós-parto marcam fortemente este

aspecto; o organismo do bebê vai ter de ser capaz de manter sua termo-regulação e, para

tanto, o contato pele a pele com a mãe é de fundamental valia.

8 – Perspectiva do equilíbrio motor: adaptação à gravidade, que também não era

vivida pelo feto, nessa primeira hora sobrecarrega subitamente o nervo vestibular que

conduz, a partir do ouvido, estímulo para o cérebro para que se desenvolva o equilíbrio.

9 – Perspectiva etológica da não violência: a maioria das culturas intervém, separa

ou mesmo interdita o colostro para o bebê.

Tal procedimento de afastamento precoce

afeta a interação protetora da mãe para com o filho, mais tarde. O que a farta literatura

hoje disponível aponta é que, quanto mais destrutiva é uma cultura, mais intrusivos são

os rituais e crenças para perpetrar separação entre mãe-filho no pós-parto imediato.

10 – Perspectiva do vínculo: a grande maioria dos hospitais no mundo têm

protocolos que entendem que é necessário manter a mulher sob vigilância, no pós-parto,

aplicar-lhe oxitocina para aumentar a contração uterina e diminuir a perda sanguínea.

Na verdade, as duas condutas levam à perda da liberação da oxitocina endógena, com

perda bio-psicológica para a relação mãe-filho.

11 – Perspectiva das Parteiras: elas procuram proteger o processo fisiológico, pois

sabem que isto assegura quantidade grande de oxitocina na circulação da mulher, o que

garante a expulsão da placenta, então elas aquecem o ambiente. Nesta fase as mulheres

não se queixam de sentir muito calor, criando um clima que permite um namoro mãe e

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filho sem distrações ou desconforto. Neste momento é importante que a mãe esteja com

o neocórtex relaxado e não ativo, para que mais instintiva seja a experiência.

12 – Perspectiva sócio-política: estudos que enfocam as conseqüências a longo

prazo das intervenções separando mãe-bebê, resultam mais tarde em maiores índices de

criminalidade juvenil, suicídio entre adolescentes, droga-adição, anorexia nervosa,

autismo, etc. Portanto há que fazer intervenções em níveis políticos, para que mudanças

ocorram. (ODENT, 2007a)

2 As Capacidades do Recém-nascido

2.1 Estados de Consciência – Ciclos

Em 1960 cientistas começaram a identificar que o cérebro dos recém-nascidos era

desenvolvido além de um nível primitivo. Peter Wolff, psiquiatra infantil em Boston,

trabalhou

em

lares

com

bebês

recém-nascidos.

Ele

sentava-se

demoradamente,

discretamente,

registrando

cada

ação

dos

bebês,

acordados

e

adormecidos.

Independentemente, Heinz Prechtl fez estudos semelhantes em Groningen, na Holanda,

mas acrescentou registros da freqüência cardio-respiratória e ondas cerebrais. (KLAUS

e KLAUS, 1989)

Reunindo

os

achados,

os

dois

cientistas

organizaram

suas

informações

e

descobriram a atividade cerebral do recém-nato. Eles perceberam que existiam seis

estados de consciência diferentes, de acordo com o grau de vigília ou sono do bebê.

Dois estados de sono: sono tranqüilo e sono ativo; três estados de alerta: inatividade

alerta, alerta ativo, e choro; e um sexto estado que é o de torpor, uma transição entre

sono e vigília. Cada um destes estados é acompanhado por comportamentos específicos

e individuais. (KLAUS e KLAUS, 1989)

No estado de inatividade alerta, os olhos estão totalmente abertos, luminosos e

brilhantes, neste estado os recém-nascidos conseguem brincar. Podem seguir uma bola

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vermelha, selecionar figuras e até imitar a face da mãe. Logo após o nascimento, os

bebês têm um período prolongado de inatividade alerta, durante os quais eles olham

diretamente para a face e para os olhos da mãe e do pai e podem responder a vozes.

Neste estado, a atividade motora está suprimida e toda a energia do bebê parece estar

canalizada para ver e ouvir. Durante a primeira semana de vida, o bebê normal passa

aproximadamente dez por cento de qualquer das 24 horas do dia neste estado, o que lhe

permite captar muita coisa e ter condições de se adaptar ao ambiente. (KLAUS e

KLAUS, 1989)

Durante o estado de alerta ativo, ocorrem movimentos mais freqüentes dos olhos;

os olhos olham em torno e os bebês emitem alguns sons. Este estado aparece antes de se

alimentar ou quando ele está inquieto além de surgirem movimentos a cada um ou dois

minutos: braços, pernas, corpo, face. (KLAUS e KLAUS, 1989)

O estado de choro, que é uma forma de comunicação, indica fome ou desconforto:

os olhos podem estar abertos, ou firmemente fechados, a face contorcida e vermelha,

braços e pernas movem-se vigorosamente. Muitas mães conseguem alterar este estado,

segurando os bebês, acariciando-os, colocando-os no colo, na vertical. (KLAUS e

KLAUS, 1989)

No estado de torpor, quando o bebê está adormecendo, ele pode continuar a

mover-se, sorrindo, franzindo as sobrancelhas ou mexendo os lábios. O olhar está

apático, sem focalizar nada. As pálpebras pendem e antes de fechá-las os olhos podem

girar para cima. (KLAUS e KLAUS, 1989)

Logo após o nascimento, o bebê dorme aproximadamente 90% do dia ou da noite;

frequentemente adormece durante a amamentação. Metade deste período de sono é

passado em sono ativo e a outra metade em sono tranqüilo; estes estados se alternam a

cada 30 minutos. (KLAUS e KLAUS, 1989)

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No sono tranqüilo, a face do bebê está relaxada e as pálpebras estão fechadas e

imóveis. Não há movimentos do corpo, exceto raros sobressaltos e movimentos leves da

boca. Ele está em total repouso e a respiração é muito regular. (KLAUS e KLAUS,

1989)

No sono ativo, os olhos do bebê flutuam entre abertos e fechados, vê-se o

movimento dos olhos sob as pálpebras. Este estado de sono REM já havia sido

observado dentro do útero por Jason Birnholz. No sono ativo aparece movimentação do

corpo: ocasionalmente, pernas, braços ou o corpo inteiro. A respiração não é regular e é

ligeiramente mais rápida do que no sono tranqüilo. Mesmo estando dormindo, fazem

caretas, sorrisos e carrancas e pode aparecer movimento de mastigação ou sucção.

(KLAUS e KLAUS, 1989)

Quanto aos movimentos no alerta, sem chorar, por um minuto e um quarto, ele não

se move e aí ocorre uma explosão de movimentos. Este ciclo de atividade e serenidade

ocorre continuamente a cada um ou dois minutos quando ele está em estado de alerta

ativo de consciência; Steven Robertson verificou que o mesmo já ocorria desde a

vigésima semana de gestação. Ainda assim há uma diferença nas respostas de acordo

com a cultura, grupo racial e uma certa individualidade. (KLAUS e KLAUS, 1989)

O recém-nato espirra cerca de 11 a 12 vezes ao dia, a fim de limpar o nariz. O

bebê já é capaz de bocejar, logo após o nascimento. (LINDEN, 1977)

2.2 Visão

No primeiro minuto de vida, mãe e filho devem começar sua interação, olho no

olho, pele na pele, toda a ligação que ali se estabelece. Se o pai está perto e se estão

próximos

os

irmãos,

a

ligação

da

família

que

ali

acontece,

de

acolhimento,

é

fundamental para cada um e extraordinariamente fundamental para o bebê. Que nada

perturbe este tempo; se o bebê for prematuro ou com problemas, o cuidado deste

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momento inicial é muito importante, assim como o tempo que se segue; se a mãe está

deprimida,

deve

ser-lhe

dado

suporte,

pois

suas

emoções

terão

muito

peso

no

desenvolvimento de seu filho. (KLAUS et al. 1995, KENNELL et al. 1998, KLAUS,

1998, KENNELL e McGRATH, 2003)

Marshall Klaus e Phyllis Klaus estudaram muitos recém-nascidos. Descobriram

que, se uma criança nasce em condições de luminosidade, silêncio e manuseio

diminuído, rapidamente começa a se adaptar e em 6 minutos de nascidos está com os

olhos bem abertos. Isto é demonstrado em seus livros com inúmeras fotos. (KLAUS e

KLAUS, 2001)

A capacidade de enxergar foi testada por Robert Fantz, em 1960, utilizando um

método para documentar a visão que já havia utilizado em aves e macacos, porém com

uma adaptação para humanos.

A observação baseia-se no fato de que, quando se fixa

um objeto, ele fica refletido na córnea e na pupila. Quando a figura se localiza na

pupila, ela é alinhada para se enquadrar no centro da retina. O bebê é colocado em alerta

sereno, em assento e num capuz são mostradas as figuras; para se ter certeza de que o

olhar é ou não casual, trocam-se as figuras a cada 10 segundos. Assim, Fantz mostrou

que os bebês são capazes de distinguir e mostrar preferências por formas e cores, que

distinguem e, estando atentos, suspendem as sobrancelhas e param de sugar. As formas

preferidas são: figuras de círculos e faixas decoradas sobre superfícies lisas, são também

escolhidos padrões complexos de muitos elementos a padrões simples e padrões curvos

a retos. Quanto a formas de rosto, são atraídos pela face regular. Inicialmente, a atenção

é intensa, mas depois perdem o interesse. Alguns ficam atentos e olham por períodos de

até 10 minutos. Têm memória visual. A visão do recém-nascido é melhor a uma

distância de 20 a 25 cm, que costuma ser a mesma distância do peito à face da mãe.

(KLAUS e KLAUS, 1989)

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Os recém-nascidos possuem visão tridimensional. Em oito semanas são capazes de

diferenciar entre formas dos objetos, além de cores e normalmente preferem o vermelho

e depois o azul. Aos quatro meses discriminam entre os movimentos de objetos

animados e inanimados. (VERNY e WENTRAUB, 2004)

No estado de inatividade alerta, a tendência é um magnetismo mútuo ocorrer no

contato olho-a-olho da mãe com o filho. Por outro lado, se for colocada uma máscara no

rosto da mãe quando o bebê tem oito dias, ele perceberá a mudança e olhará para ela

freqüentemente durante a amamentação. Ele tomará menos leite e não vai conseguir

adormecer facilmente, pois está inquieto e dormirá por menos tempo que anteriormente.

(KLAUS e KLAUS, 1989)

Sabe-se que o comportamento materno é influenciado por fatores múltiplos, que

incluem a própria educação da mãe, as condições socioeconômicas, as convicções

culturais dela e a relação dela com o pai da criança, assim como suas experiências

naquele momento da vida assim como gravidezes passadas. Em contraste com outras

espécies animais, a criança humana não pode sobreviver, sem o apoio extenso e o

cuidado da mãe.

Logo após o nascimento, a mãe está em um estado de prontidão que

lhe permite interagir com o bebê. É bem conhecido que o neonato tem habilidade para

interagir socialmente. Além disso, recentes estudos sugerem que o bebê recém-nascido

tenha uma maior gama de capacidades dantes não reconhecidas. Saigal et. em 1981,

observaram de minuto a minuto o estado de comportamento de 36 neonatos nascidos a

termo, durante a primeira hora de vida. As crianças gastaram 60% da primeira hora

aproximadamente no estado de alerta inativo e só 10% do tempo no estado chorando.

Estudos por Brazelton et al., em 1972 demonstraram que, durante o período de alerta

inativo, a criança está em um estado receptivo. (SOSA, 1980)

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A criança humana tem um certo grau de acuidade visual: ela pode focalizar e

mostrará preferências por padrões que simulam faces humanas, segundo demonstrou

Hack et al. em 1976, Kornel e Thoman em 1970, Gregg et al. em 1976, Fantz et al. em

1975, Robson em 1967. Suas pesquisas sugeriram que o contato de olho a olho pode ser

um fator importante que aumenta o comportamento maternal. O recém-nascido também

responde preferencialmente à voz da mãe, como foi observado por Eisenberg em 1969.

Entre seis e 10 dias de idade, o neonato exibe um pouco de capacidade olfatória,

dirigindo a cabeça em direção ao peito de sua mãe. Tais capacidades funcionam como

um atrativo para as mães, o que estimula a interação entre ambos, segundo MacFarlane

em 1975. (SOSA, 1980)

Uma revisão de literatura verificou que o bebê é capaz de reconhecimento de

rostos e objetos até os seis meses. Se este reconhecimento não ocorrer, revela a

possibilidade de lesão cerebral, descrito por Bentin et al. em 1999, Ellis e Young em

1988, Mancini et al. em 1994. (NELSON, 2001)

2.3 Audição

Meses antes de nascer, a capacidade acústica já está bem desenvolvida. Os fetos

distinguem entre tipos de som, intensidade e altura, sons familiares e estranhos e

também podem determinar a direção de onde vem o som. Preferem vozes agudas. Pais e

mães no mundo todo tendem a falar de maneira mais aguda como observou o lingüista

Charles A. Ferguson. (KLAUS e KLAUS, 1989)

Eles fazem associações entre audição e outros sentidos. T.G.R. planejou um

dispositivo que dava ao bebê a possibilidade de escolha do som. Percebeu-se que eles

são mais responsivos às vozes humanas. Anthony DeCasper julgou que, se os bebês têm

controle inato da boca, ao acoplar uma chupeta conectada a um computador, logo eles

acertariam o ritmo de sucção, para poderem fazer as escolhas. De fato, ao ouvirem por

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fones de ouvido, preferiram estórias contadas pela mãe durante a gestação, às estórias

desconhecidas. (KLAUS e KLAUS, 1989)

São

descritas

quatro

experiências

que

investigam

o

papel

da

voz

da

mãe

facilitando reconhecimento da face materna ao nascimento. A conclusão é que, quando

a criança tem a experiência de ouvir a voz e ver o rosto da mãe, concomitantemente, ela

faz a associação. A habilidade que os neonatos têm de reconhecer a face da mãe,

provavelmente está ancorada na aprendizagem pré-natal da voz materna (SAI, 2004).

Foi feito um teste onde a voz da mãe vinha do rosto de uma outra mulher e isto

desencadeou os mesmos comportamentos de desconfiança que a experiência com a

máscara. (KLAUS e KLAUS, 1989)

O aprendizado intra-uterino pode fazer um recém-nato prematuro de apenas cinco

meses de gestação reconhecer as características de freqüência da voz da mãe. (TRUBY

apud JANUS, 2001)

Os recém-nascidos reconhecem a voz da mãe como sendo a mesma que eles

escutaram, ainda que filtrada pela parede abdominal. Também reconhecem a voz do pai

desde que este homem tenha falado perto do ventre ou se tenha feito presente para a

criança ainda no útero. Desde T.B. Brazelton, pioneiro no campo da pesquisa sobre

hipersensibilidade dos recém-nascidos, há um consenso a esse respeito. M.C. Busnel

forneceu um critério de verificação que comprovou que o ritmo cardíaco da criança

desacelera enquanto a mãe lhes fala. Outros usaram como medida o reflexo de sucção,

não provocado por fome, nas mesmas circunstâncias. Outros mediram freqüência da

resposta motora à fala da mãe. Com medidas diferentes, a conclusão foi a mesma: a

criança de poucos dias reage a estímulos de linguagem mais do que a outros tipos de

estímulos, apesar de supostamente não entender nenhuma palavra. Sabe-se também que

a criança aprendeu algo da estrutura de seu idioma quando dentro da barriga da mãe.

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Isto é tão forte, que acontece de crianças surdas, filhos de surdos, terem desenvolvido a

capacidade

de

movimentação

de

mãos

e

diferenciação de gestos ordinários. Os

pesquisadores descobriram uma “tagarelice” gestual, que correspondia a mais da metade

da atividade da criança surda, contra 10% dos controles. Este estudo foi feito por Petitto

e Marentette em 1991, duas psicolingüistas que compararam as atividades manuais de

dois bebês surdos e três outros normais, com idades de 10 a 14 meses. (SZEJER, 1999)

Um trabalho pesquisou o aspecto da experimentação vocal mãe e filho. Os bebês

se utilizam de uma coordenação temporal precisa e de expressões que são partilhadas

com a mãe. Os ritmos constituídos pelo bebê são seus recursos para descobrir o próprio

mundo; eles transmitem sua afeição e subjetividade. Há uma qualidade musical na

interação vocal precoce. A mãe e o bebê fabricam uma interação dinâmica e ambos

brincam com estes ritmos. (GRATIER, 2001)

Foi examinado o efeito do cantar materno nos níveis de estimulação de crianças

saudáveis, não-aflitas. Mães cantaram para suas crianças de seis meses durante 10

minutos, depois dos quais eles continuaram interagindo durante outros 10 minutos. Para

calcular a estimulação infantil, juntaram-se amostras de saliva imediatamente antes e

depois do canto. Análises de laboratório das amostras de saliva revelaram níveis de

cortisol salivar no período pós-teste. Especificamente, crianças que exibiam os mais

baixos níveis de linha base de cortisol aumentam-no após o cantar materno; os com

níveis

de

cortisol

mais

altos

exibiram

reduções

modestas.

Estes

resultados

são

consistentes com a visão de que o canto materno modula a estimulação de crianças no

nível pré-lingüístico. (SHENFIELD et al. 2003)

Reproduções de sons intra-uterinos como os batimentos cardíacos têm sido usadas

com o propósito de relaxamento de recém-nascidos, especialmente em Unidades

Neonatais, pois verificou-se que os bebês recém-nascidos movem-se menos, choram

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menos, respiram mais profunda e regularmente e ganham peso mais rapidamente do que

recém-nascidos expostos a outros sons ou a nenhum som. (COSTA, 2001)

Foi realizado estudo para determinar o efeito de sons que pudessem acalmar ou

mesmo reduzir a dor em 121 neonatos que sofrem circuncisão sem anestesia. Foram

colocados neonatos fortuitamente em um de seis grupos: ouvindo música clássica, sons

intra-uterinos, chupeta, música e chupeta, chupeta e sons intra-uterinos, e grupo

controle, sem que nenhuma enfermeira apresentasse nenhum expediente para alívio da

dor. Foram monitorados os batimentos cardíacos, ritmo, disritmias, pressão sanguínea,

oxigênio transcutâneo (tcpO2) e estado de comportamento, medidos durante os 14

passos da circuncisão. Observou-se aumentos de: 42% das taxas de coração, 78% das

pressões sanguíneas sistólica (SBP), 30% das pressões sanguíneas diastólica (DBP) e

81% das pressões de tcpO2, portanto, todos os índices eram anormais. Foram achadas

poucas diferenças significantes entre quaisquer dos passos.

SBP e DBP diferiram

positivamente de maneira significativa nos grupos que receberam estímulo de som

comparativamente aos que não receberam, durante seis dos passos do procedimento.

(MARCHETTE et al, 1991).

Estudos sobre a capacidade auditiva de recém-nascidos sugerem que a exposição a

ambientes barulhentos pode induzir ao estresse, passível de verificação pelas medições

de aumento de batimentos cardíacos, diminuição dos níveis de saturação de oxigênio,

maiores variações na pressão sangüínea e aumento dos níveis de agitação. Por outro

lado, alguns tipos de músicas podem ter um efeito relaxante sobre os bebês, perceptível

pela diminuição da freqüência cardíaca, elevação da temperatura periférica, diminuição

da agitação, etc. De maneira geral, as músicas onde predominem altas freqüências e

possuam andamento acelerado produzirão tensão, aumento das freqüências cardíaca e

respiratória, aumento da atividade muscular e movimento do corpo. De modo diverso,

 

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músicas

onde

predominem

baixas

freqüências

e

andamento

lento

produzirão

relaxamento. Esse efeito relaxante, com diminuição da atividade e diminuição do

estresse ocorre não apenas em recém-nascidos, mas também em bebês mais velhos e,

inclusive, em adultos segundo descrições de Livingston em 1979, Hicks em 1995.

(COSTA, 2001)

Os comportamentos do recém-nascido são coordenados e integrados: os sistemas

sensoriais e motores são estreitamente associados uns com os outros. Contudo, parece

haver uma dissociação temporária logo após o nascimento, e uma recuperação por volta

do 3º mês de vida. Assim, aos quatro meses de vida, a integração de atividades

sensoriais visuais e auditivas com os sistemas motores já está presente, segundo Vinter

em 1987. (COSTA, 2001)

Treinaram-se crianças com três meses de idade para mover os braços para cima

em berço móvel, enquanto uma de duas seleções musicais eram tocadas, com variações

do clássico e de jazz. O aprendizado da experiência foi avaliado um e sete dias depois,

na presença da mesma música ou uma seleção musical diferente. Crianças em ambas as

experiências exibiram aprendizado de um dia a qualquer música do ritmo apresentado

do teste inicial.

Aos sete dias, só foi verificado o aprendizado com relação à música

específica tocada durante o teste inicial do treinamento. Os bebês são capazes de

perceber e reter ritmos, melodias, freqüência e padrão temporal de seqüências musicais.

(FAGEN et al. 1997).

Um trabalho foi feito para fins de análise da atividade motora apresentada por um

bebê de quatro meses de idade, em seu próprio domicílio, durante a audição de duas

peças musicais a que foram previamente habituados: Sinfonia no. 40 de Mozart e a

música Happy Nation do grupo Ace of the Base. Observou-se que a atividade motora do

bebê é acentuadamente reduzida pela audição da música clássica aqui estudada. Em

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relação à música dancing, existiria uma redução da atividade, porém, esta redução na

atividade motora do bebê produzida pela música dancing, é menor do que a redução na

atividade motora produzida pela música clássica. (COSTA, 2001)

Foi feito um trabalho de revisão dos escritos sobre música e o primeiro ano de

vida e examinou-se sua contribuição em outros domínios como desenvolvimento da

criança e educação musical.

Na primeira parte, a experiência se ateve a pesquisas

prévias sobre características musicais e memória a longo prazo para música. Depois

atentou-se para a descrição de estudos que investigaram os usos de música na vida

cotidiana de crianças e seus cuidadores e aplicabilidade em contextos domésticos e

terapêuticos. Na terceira parte fez-se uma crítica da literatura prévia e atual, inclusive

uma discussão de direções para pesquisa futura. Incluíram-se as implicações destes

estudos para os pedagogos. (ILARI, 2002)

Na revisão do livro “The Singing Neanderthals: The Origins of Music, Language,

Mind and Body, (As Origens de Música, Linguagem, Mente e Corpo) de Steven Mihen

e Weidenfels e Nicholson em 2005, revisaram o que se sabe sobre a música e a

linguagem é que suas codificações são compartilhadas em determinados circuitos

cerebrais e outros circuitos são especializados em cada um destes elementos. A mãe

cantando para o bebê ou a mãe falando para o bebê, ela tende a uma fala que exagera

nas vogais, aumenta as pausas e se repete, dando uma conotação musical à fala,

propiciando uma interação que acaba por criar uma mútua modulação de sons.

(BENZON, 2005)

Foram realizados estudos nas últimas décadas que aprofundaram o conhecimento

sobre desenvolvimento da audição do recém-nato assim como a visão. As preferências

observadas foram: os bebês preferem o som da voz humana a outros sons; o som da voz

da própria mãe ao som da voz de outras mulheres e estórias conhecidas contadas por

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suas próprias mães a estórias novas (DeCASPER e FIFER, 1980, DeCASPER e

SPENCE, 1986). Outros estudos mostram que eles podem distinguir entre sons de

consoante como p e b, e vogais. (CLARKSON. e BERG, 1983) Aos dois dias de vida

podem distinguir o idioma da própria mãe. (MOON et al. 1993)

Um estudo descritivo avalia e compara o efeito de música apresentada de forma

auditiva e vibro - tátil. Ambas as formas reduzem a agitação e instabilidade fisiológica

após intervenção em displasia bronco-pulmonar. O que é perceptível nas tomadas de

batimento cardíaco, níveis de saturação de oxigênio, registro de expressões faciais, e

indicadores de função do sistema nervoso autônomo para quatro crianças prematuras,

que se alteravam positivamente. Todas as crianças experimentaram uma redução no

nível de estimulação durante a intervenção de música gravada quando comparadas com

a condição de controle. Três crianças gastaram uma quantia aumentada de tempo em um

estado alerta inativo e tinham melhorado os níveis de saturação de oxigênio durante a

intervenção vibro-tátil. Todas as crianças gastaram mais tempo dormindo durante a

condição de música gravada, do que sem música ou com a intervenção de vibro-tátil.

Mostrou-se então que a música é efetiva na redução de comportamentos relacionados à

tensão em crianças. (BURKE et al. 1995, KAMINSKI e HALL, 1996, KLEIN e

WINKELSTEIN, 1996, OLSON, 1998)

Bebês de oito meses são capazes de distinguir entre Prelude e Forlane Le

Tombeau de Couperin: de Maurice Ravel (1875-1937). Peça para piano com seis

movimentos: Prelude, Fuga, Forlane, Rigaudon, Minueto e Toccata.

Viu-se que os

bebês diferenciavam, aos oito meses, o Forlane do Prelude. (ILARI e POLKA, 2006)

Recente pesquisa mostrou que as crianças de quatro meses de idade demonstram

uma

preferência

inata

para

(WHITWELL, 2006)

música

consoante

em

lugar

de

música

dissonante.

1138

Na verdade, muito já se tem escrito sobre a educação precoce de arte. É sabido

que, durante o primeiro ano de vida, se uma criança ouve Mozart, Beethoven, Bach,

compositores barrocos e renascentistas, aos sete e oito anos, setênio em que deve ser

introduzida a plena educação musical, ele terá melhor capacidade de notação para os

fraseados musicais e poderá ter um ouvido bem mais perceptivo para as sutilezas

musicais. Do mesmo modo que, se no quarto do bebê houver quadros dos grandes

pintores, à idade dos sete e oito anos ele terá capacidade de notar nuances de cor num

leque maior que o usual. Ambos os sentidos ampliados falam de uma sensibilidade

maior em nível consciencial, pode–se mesmo avaliar o nível de consciência de uma

pessoa por sua capacidade de descriminar tons de cores. Mas é importante que se diga

que, se os pais não gostam nem deste tipo de música, nem deste tipo de arte, isto não

será igual, pois dominantemente a criança é sensível à sensibilidade de sua mãe e pai,

portanto, se não houver um sabor por parte deles, isto tende a não ampliar tanto a

consciência da criança. Na verdade, o melhor é que a música e a grande arte pictórica já

seja parte da vida dos pais antes da concepção. Que a música e a pintura tenham sido

partes do deleite de gestação da mãe. Então a música no quarto do bebê é uma natural

conseqüência, pois não se ensina o que não é verdadeiro para os pais. O alimento do

corpo é importante, tanto quanto o alimento da alma. Então, aos sete e oito anos, a

criança terá capacidade de sensibilidade musical e pictórica impressionantes. O objetivo

não

é criar

gênios da música ou pintura, mas é sabido que, quanto maior for a

sensibilidade de alguém para tons e sons, maior é sua consciência e sua percepção

espiritual e é isto que se deseja. (UPLINGER, 2007)

2.4 Coordenação Motora

C. Amiel-Tison e A. Grenier, demonstram que um em cada dois recém-nascidos

pode procurar objeto com dias de nascido, se estiver em estado de inatividade alerta,

1139

desde que tenham sido massageados seus músculos do pescoço. (KLAUS e KLAUS,

1989)

2.5 Tato

Quanto ao tato, os bebês percebem texturas, umidade, temperatura, pressão e dor.

Os lábios e as mãos têm maior número de receptores do tato. Isto explica o conhecer as

coisas através do pôr na boca. (KLAUS e KLAUS, 1989)

Tiffany

Field,

que

trabalha

com

pesquisa

sobre

tato,

em estudos,

aplicava

massagens diárias em 20 bebês prematuros, num tempo total de 45 minutos, divididos

em 15 minutos para cada massagem, num tratamento de 10 dias de duração. Após teste

de tempo, verificou-se que os bebês tinham aumentado de peso 47% a mais que o grupo

controle, que não teve massagem. Além disto, eles mantinham-se despertos e ativos e

obtiveram melhor evolução numa série neurológica e de funcionalidade.

Estavam

também mais aptos para sair do hospital numa média de seis dias antes, em relação aos

que não passaram por este procedimento. (FIELD apud VERNY e WENTRAUB, 2004)

Em outro estudo, T. Field aplicou massagens em 40 bebês a termo, cujas mães, aos

três meses, estavam deprimidas. Observou-se que 15 minutos de massagens diária eram

mais eficientes que balançarem os bebês em dois dias por semana, durante seis semanas.

Comparados os massageados com os balançados, os primeiros passaram mais tempo

acordados, choraram menos e os índices de cortisol em suas salivas sugeriam que

estavam menos estressados. Durante o período de seis semanas de terapia, ganharam

peso e mostraram ganho na qualidade de bem estar sócio-emocional, apresentando

níveis sangüíneos mais baixos de noradrenalina, epinefrina, cortisol e aumento dos

níveis de serotonina. (FIELD, 1998)

Frédérick Leboyer, obstetra francês, lançou uma grande luz sobre o nascimento

quando fotografou os rostos de recém-natos, nascidos sem estresse. Pesquisador

1140

incansável, poeta, filósofo, observou nas ruas de Calcutá, uma mulher que emocionou o

cientista e o poeta. O nome da mulher era Shantala, e o que o obstetra viu foi quão

benéfica era aquela massagem amorosa no filho. Acabou por fotografar e publicar um

livro não só belo, como poético, um guia de cuidado para mães, descrevendo seu poder

curativo, e harmonizante. (LEBOYER, 1995)

2.6

Olfato

Os

bebês

podem

reconhecer

odores,

adaptam-se

e

rapidamente

param

de

responder a um odor, quando passam a percebê-lo como familiar. Aidan Macfarlane

percebeu que eles são capazes de identificar o cheiro de suas mães com dois dias de

nascidos. (KLAUS e KLAUS, 1989, PORTER, 2004)

Há 50 anos tem sido estudado o olfato entre recém-nascidos.

Inicialmente o

etólogo Konrad Lorenz investigou o sentido do olfato entre animais, René Spitz

identificou casos de hospitalismo, Fraçoise Dolto utilizou este conhecimento no período

da Segunda Guerra e Schaal provou experimentalmente no fim dos anos 80: os recém-

natos têm olfato particularmente desenvolvido, cuja acuidade perderão mais tarde. Eles

têm memória olfativa. (SZEJER, 1999)

Odores que podem ser classificados como lácteos ou frutados despertam, no

recém-nato, expressões faciais sorridentes acompanhadas de movimentos de sucção e

lambidelas. No entanto, os odores de pescado e de ovos podres suscitam expressões de

desagrado,

acompanhadas,

WENTRAUB, 2004)

2.7 Paladar

comumente

de

movimentos

de

cuspe.

(VERNY

e

Um experimento, feito pelo psicólogo Jacob Steiner, revela a aprovação e

desaprovação de um determinado sabor pela expressão facial. (CHAMBERLAIN, 1998)

1141

Examinaram-se a distinção e o reconhecimento de sabores através de expressões

faciais

para

experiência

gustativa

em

recém-nascidos,

em

dois

estudos.

Foram

apresentadas sacarose, cloreto de sódio, ácido cítrico e soluções de hidroclorito de

quinino a 12 crianças com 2 horas de idade. A base anatômica utilizada foi o Sistema de

Código de Ação Facial, adaptado para bebê. Foi usado, para obter descrições detalhadas

e objetivas, um video-tape com respostas faciais das crianças para cada solução.

Respostas faciais para sacarose foram caracterizadas principalmente por relaxamento

facial e sucção. As respostas para salgado, azedo e soluções amargas compartilharam o

mesmo resultado: negativas ou reações diferentes: abaixar a cabeça e enrugar o lábio

face ao sabor azedo e abrir a boca com respeito a amargo. Não havia nenhuma

expressão facial distintiva para cloreto de sódio. Estes resultados demonstram que

recém-nascidos diferenciam azedo de amargo e de sal, como também distinguiam doce

de gostos de não doces. (ROSENSTEIN e OSTER, 1988).

Expressões faciais são um exemplo de comportamento emocional que ilustra a

importância de emoções relativas à sobrevivência básica e à interação social. Respostas

faciais básicas para estímulos como doçura e gosto amargo são importantes para a

aptidão das espécies de se governarem através de regras simples. Até mesmo este nível

básico de respostas faciais tem valor comunicativo com outros da mesma espécie.

Durante a evolução, respostas faciais simples estenderam-se para uso em formas de

comunicações não-verbais mais complexas. A percepção e produção de expressões

faciais são processos cognitivos e se dão em áreas subcorticais e áreas corticais. Emoção

não deveria ser divorciada de cognição, mesmo em se tratando de tão simples reações.

(ERICKSON e SCHULKIN, 2003)

Em um estudo obtiveram-se, através de registro em vídeo de movimentos faciais

de recém-nascidos saudáveis e a termo, respostas a estímulos gustativos em 15 recém-

1142

natos e respostas a estímulos olfativos em 16, entre 10 e 72 horas de vida (média de 43

horas). Os gustativos utilizados eram soluções aquosas de sacarose, (25%) para o sabor

doce, também foi testado ácido cítrico, (2,5%) para sabor azedo e sulfato de quinino,

(0,25%) para o amargo. Como estímulo neutro e de comparação, utilizou-se água

destilada como explicado por Bergamasco e Beraldo em 1990.

Os estímulos olfativos

eram substâncias líquidas com aromas artificiais de alimentos: baunilha, morango,

chocolate, mel, leite, manga, peixe, alho e cebola, apresentados, por aproximadamente

15 segundos, em cartuchos de papel filtro embebidos com a substância aromática. A

análise dos movimentos faciais com base nas categorias mais freqüentes de resposta a

cada estímulo gustativo permitiu a definição de um padrão de reação para cada

modalidade de sabor. Esta análise mostrou que as expressões faciais a estes estímulos

não são tão estereotipadas como é usualmente sugerido na literatura, conforme descrito

por Rosenstein e Oster em 1988, Steiner em 1977 e 1979. Existe uma significativa

sobreposição de ações faciais discretas, assim como da configuração total da face para

diferentes sabores. Além disso, embora se possam identificar reações típicas para cada

sabor, são aparentes as diferenças individuais, como

já havia sido descrito por

Bergamasco em 1994 e Bergamasco e Beraldo em 1993. (BERGAMASCO, 1997)

2.8 Integração dos Sentidos

Fez-se um estudo em que se solicitou que 26 mães relatassem as expressões que

percebiam no rosto dos seus bebês. O resultado foi: alegria 95%, raiva 78%, estresse 65

%, surpresa 68%, tristeza 40% e medo 35%. Este é o espectro de emoções que um

recém-nato é capaz de demonstrar. Assim como a análise acústica dos sons emitidos por

eles mostrou que podiam ser de: continuidade de máximo prazer, parcial prazer, neutro,

parcial desprazer e máximo desprazer (choro). Esta documentação foi feita por Hanus e

Mechthild Papousek. (CHAMBERLAIN, 1998)

1143

De 74 bebês neonatos, com 36 horas de nascidos, foram recolhidas três expressões

faciais: alegria, tristeza e surpresa, como imitação à expressão da face da mãe. (FIELD

et al. 1982)

Outro estudo observou se as crianças jovens separam fotografias de emoções

diferentes em grupos de 17, 23, 29, 35 e 41 semanas. Mostraram-se slides de oito

mulheres com rostos demonstrando emoções e feições com dentes grandes, sem dentes

e sorridentes. Em todas as idades, houve alguma reação para faces sorridentes, mesmo

que com dentadura protusa. O aspecto das faces algo estranhas não pareceu provocar

diferença, mas o aspecto emocional, sim. (CARON et al. 1985)

Dois estudos, um realizado quando os bebês tinham dois para três meses de idade

e outro com seis para oito meses de idade, onde foram avaliadas as reações infantis para

faces atraentes. Uma técnica de preferência visual era usada. Foram mostradas às

crianças seqüência sobrepostas de faces de mulheres adultas previamente escolhidas por

sua atratividade. Quando mostrados pares de faces atraentes ou sem atrativo, as crianças

mais velhas e mais jovens pareciam observar mais longamente as faces atraentes.

(LANGLOIS et al. 1987)

Os bebês demonstraram concatenar percepções diferentes, num teste com uma

chupeta granulosa ou outra lisa, posta na boca; depois eles selecionam a imagem da

chupeta que tinha estado na sua boca. (KLAUS e KLAUS, 1989)

2.9 Sorriso

O primeiro sorriso no rosto do neonato foi descrito como ocorrendo durante o

sono. Em geral, após seis semanas, a maioria dos bebês responde com sorriso ao sorriso

do

adulto,

o

que

é

chamado

de

“responsividade

ao

sorriso”.

Durante

algumas

experiências com neonatos, apareceu a habilidade de sorrir, chamada de “sorriso

1144

cognitivo”, descrito por Bower em 1977, Papousek et al. em 1986. (CHAMBERLAIN,

1999a, 1999e)

2.10 Choro

O choro do bebê comunica uma variedade de acontecimentos: além de fome, frio,

a cólica pode estar presente, problemas de digestão especialmente quando não há

aleitamento materno ou quando não há contato físico. Muitas mulheres relatam que seus

filhos param de chorar quando elas retiram de suas dietas: cebola, alguns legumes, uva,

chocolate, café, álcool, ovos, nozes, alimentos cítricos, morangos, derivados de trigo.

Pode haver choro como instrumento de liberação de tensão. Há choro devido ao parto

ter sido traumático, há choro por agitação e excesso de estimulação, como há choro por

sono, por frustração, por dor e por medo. (SOLTER, 1995)

Oitenta mães de crianças normais recém-nascidas mantiveram registros diários do

choro de suas crianças durante as primeiras 12 semanas. Vinte e oito bebês eram

primogênitos na família. Uma tentativa foi feita para eliminar a tensão ambiental

excessiva como um fator adicional. Também foram retirados da amostra os bebês com

patologia subjacente. Havia uma média de chorar duas horas nas primeiras sete

semanas, diminuindo a cada semana depois disso. Bebês que choraram durante um

tempo incomum responderam à manipulação de tensão ambiental. A hipótese que se faz

é que um certo tempo de choro é necessário, na saúde do bebê, pois tem função de

comunicação.

O aspecto de afiliação emocional está presente na incidência do choro

"normal". (BRAZELTON, 1962)

Em estudo de 193 primogênitos, foi observado que nos casos em que as mães

achavam que o choro de seus filhos era normal, as crianças tendiam a terem freqüência

de choro normal, no entanto, as mães que entendiam que o choro de seus filhos era

excessivo, o fato ajudava a torná-lo de fato excessivo. (ELLIOTT et al. 1996)

1145

Com o objetivo de avaliar o comportamento de choro em crianças prematuras com

ou sem dano no cérebro, foram observados um total de 125 bebês de baixo peso ao

nascimento que sobreviveram durante janeiro de 2001 a julho de 2004, no Hospital

Universitário de Turku, na Finlândia. Eles foram categorizados de acordo com as

patologias cerebrais encontradas no ultra-som ou MRI. O Baby Day Diary (Diário do

Bebê) foi usado para avaliar choro em comportamento de crianças a termo, com seis

semanas e cinco meses de idade corrigidos. O comportamento de um grupo de 49

crianças controles, a termo, foi avaliado por cinco meses. Danos de cérebro severos em

crianças de peso muito baixo ao nascimento não afetaram a duração do choro. Aos

cinco meses de idade corrigidos, turnos de choro eram mais freqüentes em crianças de

muito baixo peso ao nascimento, comparadas com crianças de controle a termo (6.4 por

dia vs 4.5 por dia) e foram seguidas muito mais que as crianças a termo (169 minutos,

vs 130 minutos, respectivamente). Não houve aumento da freqüência do choro ou no

desenvolvimento do ritmo circadino, de modo imediato ao nascimento, porém depois

quando a idade se corrigiu, precisavam de ser mais acalentados, e choravam mais.

(MAUNU et al. 2006)

A autora vem, ao longo destes 20 anos trabalhando com orientação a casais,

solicitando que a mãe use sua intuição e seu ouvido para diferenciar os tipos de

diferentes de choro. Em geral, se ela fica calma, seu ouvido e sua intuição serão capazes

de

perceber

as

sutilezas

que

lhe

servirão

de

imprescindível, pois alivia tensões e desconfortos.

orientação.

O

contato

físico

é

Conversar, falando baixinho e

calmamente, também ajuda. Quando o cansaço vence, é aconselhável rezar baixinho no

ouvido do bebê. Muitas vezes, a recorrência da cólica do bebê que está recebendo

aleitamento materno se conecta a um conflito na mãe, no casal, no pai – se o filho for

homem ou na linhagem familiar. Os sonhos da mãe e do pai são as melhores pistas para

1146

ajudar a resolver o conflito. É relevante levantar-se o que a mãe ou o pai viveram na

mesma idade em que se encontra o filho, pois o choro e a reação de desespero do bebê

pode revelar a dor não vivida pelos pais. É importante cuidar disto com carinho e

acolhimento.

Neste

momento,

as

essências

florais,

que

trabalham

o

campo

de

consciência

individual

e

familiar,

podem

ser

de

grande

valia,

suavizando

este

aprendizado.

2.11 Sensibilidade para o Desconforto e para a Dor

Experimentos sobre dor foram realizados nos anos 20 e 30 no Chicago’s Lysin-In

Hospital e no Hospital de Bebês da Universidade de Columbia e concluíram que bebês

não eram afetados pelo frio, calor, dor e toque. Foram 2.000 observações, porém estas

não levaram em consideração que todos estavam sob efeito de anestesia dada às suas

mães durante o parto. No entanto, apesar deste grave erro de observação, esta pesquisa

até hoje segue sendo uma crença médica. A nova fronteira da neonatologia foi

ultrapassada quando, em 1994, neonatologistas mensuraram a reação de estresse à dor

de 46 neonatos, durante uma transfusão de sangue intra-uterina e verificaram que os

níveis de cortisol eram de 138% depois de 10 minutos e de beta-endorfina eram de

590%. (CHAMBERLAIN, 1999b, 1989)

Com o objetivo de desenvolver diretrizes baseadas em evidência para prevenir ou

tratar a dor dos neonatos e suas conseqüências adversas, compararam-se crianças mais

velhas, adultos e neonatos. Estes são mais sensíveis à dor e vulneráveis a seus efeitos a

longo prazo. Apesar da importância clínica de dor no neonato, práticas médicas atuais

continuam expondo as crianças à dor repetitiva, aguda, ou prolongada. (ANAND, 2001)

O Projeto de peritos The International Evidence-Based Group for Neonatal Pain.

(Grupo Internacional Baseado em Evidências de Dor Neonatal) representa vários países

diferentes, disciplinas profissionais, e discute práticas utilizando revisões sistemáticas,

1147

síntese de dados e discussão aberta para desenvolver consensos em práticas clínicas que

foram apoiadas através de evidência publicada. Criou-se um protocolo para descrever a

administração de analgésico em procedimentos invasivos específicos em caso de dor

contínua em neonatos. (ANAND, 2001)

O reconhecimento das fontes de dor e avaliações de rotina de dor neonatal deveria

ditar a evitação de estímulos dolorosos periódicos e o uso de intervenções ambientais,

de

comportamento

planejamento

de

e

doses

analgésicos,

de

fármacos

protocolos

específicos.

Cuidado

para

situações

clínicas

orientações de cuidado médico deveriam constar nestas diretrizes.

individualizado,

específicas

e

Nesta área de

pesquisa no manejo da dor em neonatos ainda não se chegou a um consenso, havendo

apenas um esboço de protocolos de conduta. A administração da dor deve ser

considerada

um componente

importante

do

cuidado

médico

provido

a

todos

os

neonatos, independente da idade, de sua idade gestacional ou severidade de doença.

(ANAND, 2001, 1988, McCLAIN e KAIN, 2005, SIMONS et. 2003, BERRY e

GREGORY, 1987, FRANCK e MIASKOWISKI, 1997, TYLER, 1988)

Num estudo, foram avaliadas as mudanças da oxigenação cerebral medidas em

relação à excitação dolorosa, usando espectroscopia com onda próxima a infravermelho

em tempo real, em 18 crianças entre 25 e 45 semanas contadas a partir da data da última

menstruação da mãe. Os estímulos dolorosos eram feitos com agulha, para a retirada de

sangue em provas rotineiras; nenhum exame de sangue foi executado somente com a

finalidade do estudo. Excitação dolorosa produziu uma resposta cortical clara, medida

como um aumento em concentração de hemoglobina total no córtex. Foi observada

resposta reflexa de retirada do pé à picada da agulha no mesmo. Prematuros de 25

semanas processam a dor. (SLATER et al. 2006)

1148

Foi feito um estudo no qual se analisaram os conhecimentos dos pediatras que

atuam com pacientes neonatais em relação à avaliação e ao tratamento da dor do recém-

nascido. Foi um estudo transversal que incluiu 104 pediatras (de um total de 110) que

trabalhavam entre 1999 a 2001 nas sete unidades de terapia intensiva e nos 14 berçários

da cidade de Belém, no Brasil.

Eles responderam a um questionário escrito a respeito

do seu perfil demográfico e do conhecimento de métodos de avaliação e de tratamento

da dor no recém-nascido. Cem por cento dos médicos referiram acreditar que o recém-

nascido sente dor, porém apenas um terço deles conhecia alguma escala para avaliar a

dor nessa faixa etária. A maioria dos entrevistados referia perceber a presença de dor no

recém-nascido por meio de parâmetros comportamentais. O choro foi o preferido para

avaliar a dor do bebê a termo; a mímica facial no prematuro e a freqüência cardíaca para

o neonato em ventilação mecânica. Menos de 10% dos entrevistados diziam usar

analgesia para punções venosas e capilares; 30 a 40% referiam empregar analgesia para

punções lombares, dissecações venosas, drenagens de tórax e ventilação mecânica.

Menos da metade dos entrevistados referiram aplicar medidas para o alívio da dor no

pós-operatório de cirurgia abdominal em neonatos. O opióide foi o medicamento mais

citado para a analgesia (60%), seguido pelo midazolam (30%). (CHERMONT et al.

2003)

Examinaram-se, em recém-nascidos de dois a três dias, os efeitos da circuncisão

através de 59 pares de mãe-criança no hospital. Cada par foi observado durante quatro

alimentações, usando um sistema especificamente projetado que avalia a interação mãe-

criança. Listaram-se 43 comportamentos relativos à alimentação, expressão facial,

vocalizações e toque. O grupo experimental foi circuncidado e avaliado após a

alimentação.

Foram

observadas

tendências

diferentes

entre

os

dois

grupos,

considerando-se duas variáveis logo após cirurgia: o toque - a criança ficava retraída- e

1149

a alimentação - mamava menos, no grupo alvo, em relação ao grupo controle.

(MARSHAL et al. 1982)

As origens da circuncisão perdem-se na antiguidade. Circuncisão masculina é

descrita em tumbas egípcias há 5.000 anos atrás. Segundo Gairdner em 1949, esta se

originou na pré-história há 15.000 anos atrás. Bem antes de adquirir suas implicações

religiosas, era um ritual claramente sacrificatório, pois exigia a perda de algo de grande

valor. Nas palavras do Rabino Maimonides do século XII, que apóia a visão das perdas:

"A respeito da circuncisão, eu penso que seu objeto é limitar relações sexuais e debilitar

o órgão de geração até onde possível. Assim o homem fica moderado

Esta ordem não

foi um mandamento devido a uma criação física deficiente, mas um meio para

aperfeiçoar as faltas morais do homem. O dano corporal causado àquele órgão é

exatamente o que é desejado; não interrompe nenhuma função vital, nem destrói o poder

de geração. Circuncisão simplesmente limita a luxúria excessiva; não há nenhuma

dúvida de que circuncisão debilita o poder de excitação sexual e às vezes minora o

prazer natural

(PRICE, 1997)

No século XIX era praticada nos países de língua inglesa como preventivo para a

masturbação e era vista como “higiênica”. Tal crença ainda persiste. Depois disso se

tornou um procedimento creditado com uma gama extensa de benefícios supostos. Até

mesmo hoje, o prepúcio é visto popularmente apenas como um pedaço de pele vestigial,

sem função e que sua remoção não causa nenhuma real dor, envolve pouco ou nenhum

risco e não produz nenhum dano a curto ou a longo prazo. A prática ainda é difundida

no EUA onde atualmente 60% (abaixo de 90% dos anos setenta) de neonatos

masculinos são circuncidados. Para pais judeus e muçulmanos a circuncisão é motivada

por razões de fé. Nos Estados Unidos é dado o poder aos pais para a autorização de uma

operação não terapêutica, embora contrária aos interesses da criança. Sem controvérsias,

1150

os fatos são que a circuncisão: inflige dor severa e os anestésicos, se usados, levam a

riscos significativos de mutilação do órgão e hemorragia bem como infecção; produz

dano a curto e a longo prazo, no nível emocional e diminui a função sexual e não tem

nenhum benefício médico, segundo a American Academy of Pediatrics. (PRICE, 1997)

A American Academy of Pediatrics, no The Committee on Fetus and Newborn (O

Comitê sobre Feto e Neonato) em seus sucessivos relatórios diz em 1971, que não há

validade médica que indique circuncisão para o período neonatal. Prossegue então que

"fimose do recém-nascido" não é uma indicação médica válida para circuncisão.

Circuncisão executada mais tarde na vida em aproximadamente 2% a 10% de homens

com verdadeira fimose tem a vantagem de não ter risco anestésico. Esta só deveria ser

executada quando é menos provável que o trauma na genitália não cause tantos

problemas psicológicos, ou seja, quanto mais tarde possível, orientação desde 1975,

pela AAP. (AAP, 1999)

Quanto à higiene, deveria ser discutida a necessidade de orientação aos pais antes

do nascimento da criança de como proceder para realizar a higiene, pois esta é a melhor

profilaxia do câncer de pênis. Não há evidência que indique que a circuncisão previne o

câncer de próstata. Extensa revisão de literatura indica que a circuncisão masculina não

previne o câncer de colo de útero nas suas parceiras, pois não é sua etiologia, como

assinala a AAP em seus relatórios de 1975 e 1977 (AAP, 1997)

Desde 1977, a AAP informa que a pele é um órgão protetor e qualquer ferimento

em sua integridade predispõe a uma oportunidade para iniciação de infecção. (AAP,

1999)

1151

O prepúcio é a dobra de pele que cobre a glande. Ao nascimento, o prepúcio está-

se desenvolvendo ainda histologicamente e sua separação da glande está normalmente

incompleta.

aproximadamente

4%

de

meninos

têm

um

prepúcio

retrátil

ao

nascimento, 15% aos seis meses e 50% com um ano; antes de três anos, o prepúcio pode

ser retrátil em 80% a 90% dos meninos.

inabilidade

resultante

para

retratar

um

Fimose é uma estenose do prepúcio com

prepúcio

completamente

diferenciado.

Parafimose é a retenção proximal do anel prepucial ao sulcus coronal, criando maior

tensão linfática que pressiona a glande resultando em edema subseqüente do prepúcio.

Balanite é a inflamação da glande e postite é inflamação do prepúcio; estas condições

normalmente acontecem junto com balanopostite. Meatite é inflamação do meato uretral

externo. Apenas as patologias ligadas à existência do prepúcio são evitadas com a

circuncisão. (AAP, 1999)

Estudos prévios sobre a relação entre circuncisão e prevenção contra infecção

urinária foram feitos. Em 1982 um destes estudos, realizado em hospitais militares que

até hoje é referência devido à sua grande casuística, teve erros metodológicos. (AAP,

1999)

A afirmação quanto a ser à circuncisão ser preventiva de doenças sexualmente

transmitidas não é correta; os recentes achados clínicos evidenciam que não há

diferença na incidência de gonorréia e de uretrite em circuncidado.

Quanto às outras

patologias, questões metodológicas fazem estes artigos de validade discutível. (AAP,

1999)

Desde 1977, a AAP informa que a circuncisão é um procedimento cirúrgico que

requer técnica asséptica cuidadosa, observação pós-operatória sistematizada e avaliação

depois da alta do hospital. Os perigos imediatos de circuncisão do recém-nascido

1152

incluem infecção local que pode progredir para septicemia, hemorragia significativa e

mutilação. Remoção incompleta do prepúcio pode resultar em fimose. (AAP, 1999)

Crianças que sofrem circuncisão sem anestesia demonstram respostas fisiológicas

que

sugerem

que

elas

estão

experimentando

dor

que

incluem

mudanças

de

comportamento, cardiovasculares e hormonais. Rotas neuronais para condução do

estímulo doloroso como também o cortical e centros subcorticais necessários para

percepção de dor estão bem desenvolvidos desde o terceiro trimestre da gravidez.

Foram documentadas respostas para estímulos dolorosos em neonatos de todas as idades

gestacionais viáveis. Mudanças de comportamento incluem um padrão de grito que

indica angústia durante o procedimento de circuncisão; mudanças em atividade -

irritabilidade, padrões de sono variados e mudanças da interação materna infantil -

retraimento do contato e diminuição da alimentação. (AAP, 1999)

Desde 1977 a AAP informa que circuncisão neonatal predispõe à meatite que pode

conduzir à estenose do meato. Meatite resulta indubitavelmente em urinação dolorosa.

(AAP, 1999)

Mortes são atribuíveis à circuncisão em recém-nascido. Nos Estados Unidos,

devido à circuncisão, em 1973, houve uma morte entre as 175.000 circuncisões no

Exército dos EUA. Revisão da literatura durante os últimos 25 anos documentou duas

mortes prévias devido a este procedimento. (AAP, 1999)

Complicações devido à anestesia local consistem principalmente em hematomas

na pele seguidos de necrose. No entanto, até mesmo uma dose pequena de lidocaína

pode resultar em níveis de sangue altos o bastante para produzir respostas sistêmicas

mensuráveis em neonatos. Anestesia de Circunferencial pode ser perigosa. Seria

1153

prudente, obter mais dados de séries controladas de grande porte antes de defender

anestesia local como uma parte integrante de circuncisão em recém-nascidos.

1999)

(AAP,

Desde 1977, a AAP informa que prematuridade, doenças neonatais, qualquer

anomalia congênita (especialmente hipospadias), ou sangramento são contra-indicações

absolutas

à

circuncisão

neonatal.

A

evitação

de

circuncisão

é

particularmente

importante porque doença neonatal nem sempre é aparente ao nascimento. Não há

indicação médica absoluta para a circuncisão, portanto, não deve ser um procedimento

de rotina. (AAP, 1999)

É enfatizado que circuncisão no recém-nascido é um procedimento eletivo.

Por

causa da falta de dados científicos claros, não foi provida uma recomendação firme para

método apropriado de controle de dor. (AAP, 1999)

Em 1989, a AAP orientou que, ao considerar circuncisão dos seus filhos, os pais

deveriam ser informados inteiramente dos possíveis benefícios e riscos potenciais da

circuncisão em recém-nascidos, tanto com, ou sem anestesia local. (AAP, 1999)

Professor Dwyer, jurista, em 1996, convincentemente discute que a visão de que

os pais têm dos direitos sobre suas crianças está incorreta e insustentável: os direitos

residem nas crianças e os pais devem ser agentes destes direitos delas.

Até mesmo a

Academia Americana de Pediatria na orientação em como tratar as crianças afirma: -

“Assim, ‘consentimento por procuração’ representa um sério problema para provedores

de cuidados médicos pediátricos. Tais provedores têm deveres legais e éticos com seus

pacientes, de praticarem um cuidado médico competente baseado nas necessidades de

seus pacientes, não o que outra pessoa expressa

as responsabilidades do pediatra para

com o paciente dele existem independentes de desejos parentais ou ‘consentimento por

1154

procuração’”. Não se pode deixar de considerar, que aqui a conivência médica é

comparável com o pouco ético comportamento de um médico envolvido em tortura, que

também usa a desculpa de estar praticando o que lhe foi solicitado pela autoridade. Eles

também poderiam explicar por que o comportamento abusivo para com uma criança é

menos abusivo quando executado por um médico. (PRICE, 1997)

A Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança assinada em 1959, deixa clara

a posição a respeito de circuncisão. Artigo 24(3) provê: “Todos os Estados Parte

deverão tomar medidas efetivas e apropriadas com uma visão para abolir práticas

tradicionais prejudiciais para a saúde das crianças." Alguns buscaram discutir que esta

provisão só era direcionada à circuncisão feminina, mas este argumento não se sustenta

na Convenção erudita com as providências interpretativas da Convenção de Viena na

Lei de Tratados de 1969. (PRICE, 1997)

Ainda assim, 6% dos meninos nos Estados Unidos fazem circuncisão cosmética.

As autoridades médicas alegam razões não muito claras para tal prática, como curar

asma,

alcoolismo,

incontinência

urinária,

sífilis,

doença

mental

e

compulsão

à

masturbação. Estas foram razões que os médicos nos Estados Unidos recentemente

mudaram para: previne doenças sexuais, câncer, infecções urinárias e até AIDS.

(CHAMBERLAIN, 1998)

Foi feito uma pesquisa sobre 26 recém-natos randomizados circuncidados com

dois dias de nascidos e com três semanas. Cada bebê foi examinado três vezes, usando a

Escala Brazelton de Avaliação Neonatal (NBAS), na qual o examinador não sabe que

bebê foi circuncidado. A redução na escala da média de demonstração de desanimado

ou hiperativo atingiu a 90% do grupo que sofreu o procedimento nas últimas 4 horas,

comparado com os controles. Nos Estados Unidos 80% das crianças, ou seja, 1.600.000

homens que nascem a cada ano são circuncidados, segundo Kaplan em 1977 e Grimes

 

1155

em 1978. Embora amplamente usada nos EUA, tal prática não ocorre na Europa.

muito poucos estudos que justifiquem sua realização, segundo Emde, Harmon, Metcalf,

Koenig e Wagonfeld em 1971, Anders e Chalemian em 1974, Brackbill em 1975.

(MARSHALL et al. 1980, 1982, DIXON e SNYDER, 1984)

Estudos preliminares já observaram que meninos que passaram por circuncisão

têm menor tolerância à dor. Foi realizado estudo para verificar se havia alteração da dor

aos quatro e seis meses, por ocasião de vacinação. Este estudo envolveu 87 meninos

divididos em três grupos. Utilizou-se vídeo - tape para medir expressão facial, choro,

duração do choro, e escala de dor análoga a tais reações. Os circuncidados mostraram

mais forte resposta à dor da vacinação. (TADDIO et al. 1997)

Um estudo avaliou as conseqüências da circuncisão sobre o sono. Um deles

usando polígrafo para averiguar a qualidade das fases de sono REM, e não REM, que

normalmente se alternam, para que o sono tenha sua natural função reparadora de

energia. O outro estudo, feito por Anders e Roffwarg em 1973, já haviam descrito

alteração no ciclo de sono entre os circuncidados, que ficam com o sistema supra-renal

alterado por reação de estresse prolongado.

De fato, as crianças apresentavam um

aumento de cortisol nos níveis plasmáticos, assim como alteração do ciclo de sono.

(ANDERS et al. 1974)

A Fetus and Newborn Committee, Canadian Paediatric Society, em revisão de

literatura feita, concluiu que a circuncisão não deve ser praticada como rotina em

neonatos. (CANADIAN PAEDIATRIC SOCIETY, 1996)

Em muitos hospitais nos Estados Unidos a circuncisão é parte rotineira do cuidado

provido

às

crianças

masculinas.

Denniston

entende

que

está

na

hora

de

o

estabelecimento médico repensar as razões para e as conseqüências deste procedimento.

O trabalho de Terris M, Wilson F, Nelson JH em Relation of circumcision to cancer of

1156

the cervix, publicado no Am J Obstet Gynecol em 1973 e que justificou a idéia de que a

circuncisão prevenia contra câncer do colo de útero, está incorreto. Supondo que o

trabalho estivesse correto, ainda assim, a idéia de submeter todos os bebês a este

procedimento tão doloroso, sem anestesia, para evitar algo que só poderá acontecer na

vida adulta, não soa razoável. (DENNISTON, 1992)

Sob o ponto de vista fisiológico; antes do nascimento, a glande do pênis está

coberta com pele. Esta pele é firmemente presa na glande como o é a pele da mão. Na

17ª semana de gestação aproximadamente, células na área de separação entre o prepúcio

futuro e a glande iniciam o processo de criar o espaço prepucial (isto é, o espaço entre a

glande do pênis e o prepúcio intacto). Começam a formar-se bolas microscópicas que

incluem camadas múltiplas de células. À medida que elas aumentam, os nutrientes que

vão para as células do centro são cortados e então morrem, criando um espaço. Estes

espaços minúsculos fundem-se, tornando-se o espaço prepucial. Este processo é

completado por volta dos três anos de idade em 90% dos meninos, mas pode levar até

17

anos

para

que

alguns

meninos

(DENNISTON, 1992)

terem

um

prepúcio

completamente

retrátil.

Ao nascimento, começa aos poucos a separação do prepúcio da glande. O pênis do

recém-nascido não está completamente desenvolvido. Por isto, a circuncisão não só

interfere no seu desenvolvimento, mas também ocorre que, na cirurgia, a pele da glande

sensível seja lacerada para permitir a remoção. (DENNISTON, 1992)

O prepúcio cumpre várias funções. Na infância, o prepúcio protege a glande de

irritação e de material fecal. A função do prepúcio na maioridade pode parecer mais

obscura a princípio. A cabeça e normalmente a glande do pênis de um homem está

coberta de uma pele por cima da outra, pois durante a ereção, a cabeça do pênis se

1157

prolonga, tornando-se aproximadamente 50% mais longa. O prepúcio cobre este

alongamento da cabeça e é projetado especificamente para acomodar um órgão que é

capaz de tal aumento. Além disso, o prepúcio é uma das partes mais sensíveis do pênis e

pode aumentar a qualidade das relações sexuais. Estudos anatômicos demonstram que o

prepúcio tem maior concentração de terminais nervosos complexos do que a glande,

como demonstrou Taylor J. no Segundo Simpósio Internacional sobre Circuncisão, em

1991, em San Francisco, Califórnia. (DENNISTON, 1992)

Aos pais cabe a proteção de seus filhos, mas Jeannine Parvati Baker dirige-se

especialmente às mães, pois, como já visto, seus filhos vão tomar menos leite delas, vão

confiar menos nelas, nos dias que se seguem à circuncisão. Na verdade, a elas cabe

proteger

a

integridade

física

de

seus

filhos,

e

ela

afirma:

“Basta

dizer

não

à

Circuncisão”. Como mãe, diz ela, esta é a “Sagrada Obrigação”. Diante de tão poderosa

e dolorosa mutilação, que criança se ligará de fato num deus interior? O trabalho de

Rima Laibow em 1991, conclui que homens que passaram por este nível de dor,

carregam uma profunda mágoa, pois suas mães os traíram. A conseqüência de abandono

pela mãe é violência contra mulher, e há estudos que relacionam circuncisão e estupro.

Marilyn Milos, diretora do NOCIRC, grupo de proteção contra violência, explica que a

circuncisão é quando o primeiro encontro com a sexualidade foi marcado por violência.

(BAKER, 2005)

A circuncisão é um dos piores tratamentos dados à criança. E o que acontece

com elas? Simplesmente olhe para elas. Elas não podem falar com você. Elas

só podem chorar, o que elas podem fazer é contrair-se. Elas contraem-se, vão

para o interior, vão embora deste mundo feio. (REICH, 1950, p. 7)

A mutilação genital feminina (FGM), segundo relatório de abril de 2006, é uma

prática que ocorre em 28 países africanos. De 100 milhões a 140 milhões de mulheres

foram submetidas à mutilação genital, no relatório das Nações Unidas de 2000, e

estima-se que dois milhões de mulheres passam por isto a cada ano, e 6.000 correm tal

1158

risco a cada dia. Muitas meninas morrem em conseqüência de hemorragia, choque,

retenção urinária, fístula vaginal com injúria a outros tecidos, ulceração da região

genital ou infecção devido a este procedimento. Outras sofrem conseqüências a longo

prazo, que são infecção urinária recorrente, abscessos, infecções pélvicas e infecção

ginecológica. Muitas vêm a morrer das complicações a longo prazo. As decorrências

também podem ser: problemas psicossociais, estresse pós-traumático, falta de confiança

no cuidador, fechamento da vagina devido à cicatriz, cistos, neuroma, corte de alguma

terminação nervosa causando dor permanente e infecção crônica por obstrução do fluxo

menstrual, dispareunia (dor durante o coito), frigidez, conflito conjugal, infertilidade por

infecção da pelve crônica, trauma ao dar à luz, com laceração vaginal e fistula vaginal,

infecção pós natal, prolongamento do trabalho de parto ou obstrução do períneo devido

à cicatriz, com morte da mãe e da criança, e também fístula vaginal em conseqüência da

obstrução do trabalho de parto. (ROYAL COLLEGE OF NURSING, 2006)

Muitas mulheres morrem de hemorragia de parto devido a este procedimento, se a

hemorragia se inicia durante o trabalho de parto, e não na fase expulsiva, a criança pode

morrer por falta de oxigênio. Na Somália, onde 90% a 98% das mulheres são

infibuladas, uma em cada 100 morrem no parto devido a este procedimento. No Reino

Unido, entre as que foram exiladas para lá ou entraram como refugiadas, 86.000

mulheres, segundo estimativa do FORWARD – Foundation for Women’s Health,

Research and Development (Fundação para a Saúde e o Desenvolvimento da Mulher),

submeteram-se a tal mutilação. E 7.000 jovens adolescentes estão sujeitas a risco

anualmente, especialmente se retornarem aos seus países de origem. De acordo com a

classificação, da FGM, segundo a OMS em 2000, há quatro procedimentos: Tipo 1 –

exêrese da parte retrátil da pele que cobre o clitóris, com ou sem excisão de parte ou de

1159

– excisão parcial ou total da genitália externa e costurar ou deixar mais estreita a

abertura vaginal, ou infibulação; Tipo 4 – furar, perfurar, ou cortar o clitóris e, ou o

lábio, cauterizando ou queimando o clitóris e o tecido ao redor, raspando o tecido à

volta do orifício ou cortando a vagina, com introdução de substâncias corrosivas ou

ervas para dentro da vagina, que causam sangramento, ou com o propósito de estreitá-la.

(ROYAL COLLEGE OF NURSING, 2006, NOBLE, 1993)

A Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, no Cairo, em

1994, entendeu que seu alvo para a redução de tal prática já começou a ser atingido,

pois verificou-se que 20.000 mulheres foram poupadas do procedimento. Outro ganho

foi a redução da incidência de circuncisão nas regiões administrativas de Asyut, Sawhaj,

Qena, Minya, Cairo e Alexandria entre meninas 5 a 10 anos de idade de 95% para 70%.

Segundo a Maternal and Child Health Survey (Pesquisa de Saúde Materno-Infantil) em

1991, 95% das meninas nas áreas rurais do Egito e 80% das áreas urbanas eram

circuncidadas, embora o procedimento fosse proibido por lei. A informação, com um

aperfeiçoamento de educação sobre o assunto, tem sido fundamental para a mudança de

atitude tanto do governo do Egito, como do clero.

(FEDERAL MINISTRY FOR

FAMILY AFFAIRS, SENIOR CITIZENS, WOMEN AND YOUTH, 2007)

Segundo o Ato de Direitos Humanos de 2000, os profissionais de saúde têm o

dever de proteger as crianças de tais mutilações. Na Convenção dos Direitos da Criança,

a página 10 orienta sobre a necessidade de proteção da criança. Foi então firmado o

Protocolo da Carta Africana (União Africana de 2003) onde estão tais compromissos.

(ROYAL COLLEGE OF NURSING, 2006)

2.12 Imitação e outras Evidências do Desenvolvimento Inicial

Olga Maratos, psicóloga grega, percebeu a capacidade do recém-nato de imitar.

Mais tarde, Andrew Meltzoff estudou esta capacidade em grande detalhe: protundindo a

1160

língua, abrindo a boca, franzindo os lábios, o recém-nato, imita a careta para a pessoa

que a fez, demonstrando registro de memória. Os bebês também imitam rostos de

tristeza, felicidade e surpresa. (KLAUS e KLAUS, 1989)

Fez-se um estudo para observação do uso de movimentos expressivos como

indicadores de estados subjetivos no bebê recém-nascido, a partir de registros de

reações a estímulos nociceptivos e a estímulos olfativos e gustativos. A análise dessas

reações (choro e expressões faciais de agrado e desagrado) evidenciam sintonia com o

ambiente e variabilidade individual - duas condições incluídas no sentido de consciência

como

"awareness"-

movimentos

como

e

excluiu-se

a

reações

reflexas.

possibilidade

de

Considerando-se

o

uma

bebê

interpretação

como

ser

desses

social

e

altamente

comunicativo,

estas

evidências

permitem

admitir

uma

correspondência

estreita entre movimentos expressivos e estados internos, um pressuposto comum às

teorias de emoção. (BERGAMASCO, 1997)

Décadas de pesquisa têm confirmado que os bebês emitem sinais para as mães,

que geram respostas nelas, e esta comunicação implica em desenvolvimento cognitivo

para o bebê. Hoje já existem estudos em animais e estudos endocrinológicos que dão

sustentação às observações antigas, assim como estudos transculturais que marcam

diferenças de comunicação. (STALLING, 1994)

Meltzoff e Moore publicaram o primeiro estudo, que já se tornou clássico, de uma

extensa linha de pesquisas sobre imitação em recém-nascidos. A hipótese deles era que

os recém-nascidos são capazes de imitação de movimentos faciais. Usaram quatro

modelos: três faciais (colocar a língua para fora, estender o lábio, abrir a boca) e um

envolvendo os dedos, com bebês

de

12

a

21

dias de idade. Cada

um deles era

apresentado

para

os

bebês

por

um

adulto

e

as

respostas

eram

codificadas

por

observadores que desconheciam o movimento a ser imitado. Foi verificada uma

1161

freqüência significativamente maior do gesto que estava sendo mostrado, do que de

qualquer outro. (MELTZOFF, 1977)

Em uma amostra de 40 bebês de menos de uma hora a bebês de 71 horas,

apresentaram-se dois gestos de um modelo adulto: abertura da boca e protrusão da

língua.

Os

resultados

MOORE, 1983a)

indicaram

que

os

bebês

imitaram

ambos.

(MELTZOFF

e

Em outro estudo foi evidenciou-se que os bebês são capazes de reconhecer

visualmente a chupeta que sugam. (MELTZOFF e BORTON, 1979)

Na

tentativa

de

tornar

mais

precisa

a

experiência

anterior,

foi

feito

um

experimento em que se criaram procedimentos para impedir que os bebês respondessem

imediatamente

à

ação

do

modelo.

(MELTZOFF e MOORE, 1983b)

Os

resultados

corroboraram

os

anteriores.

A habilidade de crianças de nove meses para imitar ações simples com objetos foi

investigada. Depois colocou-se uma demora de 24 horas entre o estímulo-apresentação e

os períodos de resposta. Os resultados demonstram evidência de que existe imitação

imediata e também mediata. Estes resultados mostram que esta habilidade está a serviço

de um desenvolvimento social. Ações e novos objetos que são observados um dia

podem ser armazenados pela criança e repetidos no próximo dia. (MELTZOFF, 1988b)

Imitação com demora de l semana foi examinada em crianças de 14 meses.

Seis

ações,

cada

uma

usando

um

objeto

diferente.

Uma

das

seis

ações

era

um

comportamento novo que tinha nenhuma probabilidade de ocorrência espontânea. As

crianças demonstraram ter memória evocativa. (MELTZOFF, 1988a)

Outro experimento incluiu a protrusão da língua e movimento de cabeça. Com os

mesmos cuidados de usar observadores que desconheciam o gesto que serviu de

modelo, verificaram que os bebês eram capazes de reproduzir ambos os movimentos.

1162

Mais tarde, após algum tempo depois da execução do movimento pelo adulto, eles

repetiam o gesto. Daí começou-se a pensar na questão da memória.

MOORE, 1989)

(MELTZOFF e

A partir de estudos com bebês de seis semanas e de dois a três meses, atribuiu-se

uma função social e psicológica às imitações iniciais. Posturas faciais estáticas e

movimentos, tanto de estranhos como das respectivas mães, eram imitados; portanto, os

resultados não dependiam da familiaridade com o modelo. Esse comportamento

apresentado em bebês de seis semanas de idade continuava presente aos dois e três

meses. Para os autores, a imitação inicial tem uma função comunicativa e os bebês a

utilizam nos encontros com outros para enriquecer seu conhecimento de pessoas e de

suas ações e também para identificar essas pessoas. O que este pesquisador percebeu é

que o desenvolvimento do cérebro humano depende desta imitação, e o ato de imitar é,

dentre outras coisas, um importante exercício de memória. A criança percebe o rosto do

adulto como um espelho que se comunica com ela, portanto é fundamental como

aprendizado de auto-estima. (MELTZOFF e MOORE, 1992)

O trabalho de Sophian em 1980 trouxe dados na mesma direção e o autor afirma

que a memória de reconhecimento está presente desde os primeiros dias de vida.

Legerstee em 1991 também encontrou evidências confirmatórias, ao examinar o papel

de pessoas e objetos ao provocar imitação em bebês de cinco e oito semanas.

três

autores,

a

imitação

é

uma

resposta

social

que

tem

implicações

Para os

para

o

desenvolvimento, especialmente da comunicação e da linguagem. (MOURA e RIBAS,

2002)

As crianças desenvolvem a fala com padrões de linguagem universal e um

mecanismo que influi é a imitação. As crianças buscam copiar as vogais. Em análise em

1163

espectrógrafo, as vogais vão-se separando quando as crianças tinham entre 12 a 20

semanas. (KUHL e MELTZOFF, 1996)

A idéia de imitar está conectada com a idéia de se inserir no contexto social. Mas,

além disto, envolve a observação e a própriocepção, assim como habilidades motoras.

Nos pacientes com Síndrome de Down e com autismo, esta capacidade de imitar está

alterada. Por outro lado, padrões de imitação são observados em muitas culturas, como

descrito nos Estados Unidos, por Abravanel e Sigafoos em 1984, e por Field et al. em

1982 no Canadá por Legertee em 1991, na França por Foutaine em 1984, na Suíça por

Vinter em 1986, na Suécia por Helmann e Schaller em 1985 e por Heinann et al. em

1989, em Israel por Kaitz et al. em 1988, no Nepal, em área rural por Reissland em

1988. (MELTZOFF e GOPNIK, 1993)

No trabalho de Reissland foi confirmada a imitação de posições dos lábios em 12

bebês com uma hora de vida de uma região rural do Nepal, para quem o experimentador

era a primeira pessoa com quem interagiam após o nascimento. (REISSLAND apud

MOURA e RIBAS, 2002)

Confirmaram-se as evidências de que em fase muito precoce existe uma variedade

de gestos imitados. A imitação de ações novas, portanto não pode ser resposta. A

estereotipada, visto que a possibilidade de imitação facial diferente com intervalos de 24

horas. (MELTZOFF e MOORE, 1999)

Foi feito um estudo para testar a imitação imediata e a memória (com intervalo de

24 horas). Este trabalho utilizou um procedimento experimental muito cuidadoso,

incluindo a micro análise da topografia da resposta. Os procedimentos foram testados

para fidedignidade, apresentando índices bastante altos. Os resultados mostraram

imitação imediata, e imitação após um intervalo de tempo. Esse último resultado indica

que memória de evocação em bebês de seis semanas pode gerar ações com base em

1164

alguma forma de representações armazenadas. A organização motora envolvida na

imitação, investigada pela micro análise das respostas, revelou que os bebês se

modificam.

(MELTZOFF e MOORE, 1994)

Neste caso, Meltzoff (1995) relata um estudo com crianças de 18 meses, no qual o

modelo tentava realizar uma determinada ação com um objeto, mas falhava. A conduta

imitativa observada levava em conta o que os adultos haviam tentado fazer, e não o que

eles de fato haviam feito. É com base nesse tipo de dado que os autores ressaltam que

estas crianças de 18 meses não estavam apenas imitando o que elas haviam visto, mas

realizando atos de certa complexidade de intenção. (MELTZOFF, 1995)

Gallagher e Meltzoff (1996) discutem alguns pressupostos tradicionais sobre o

desenvolvimento do esquema, da imagem corporal e do processo de tradução entre a

experiência perceptual e a capacidade motora. Com os achados nas pesquisas de

Meltzoff sobre a imitação de gestos não-vistos, defende-se então uma capacidade

rudimentar de diferenciação entre o self e o que não é o self presente no recém-nascido.

(GALLAGHER, S. MELTZOFF, 1996)

Foram analisadas questões relativas ao processo de imitação e entenderam que os

bebês relacionam partes de seus próprios corpos aos correspondentes nos adultos. Ao

mesmo tempo, realizam movimentos espontâneos que são como "balbucios" e que lhes

dão

experiência

em

mapear

mudanças

e

configurações

de

seu

próprio

corpo.

Finalmente, estabelecem relações entre órgãos que lhes permitem perceber e emparelhar

seus movimentos com os do modelo. (MELTZOFF e MOORE, 1997)

Já ficou comprovada a existência de memória nos primeiros meses e há uma

complexa mente funcionando nos bebês de 18 meses. O cérebro é uma estrutura inata e

de evolução progressiva, há uma reorganização qualitativa na vida mental do bebê, com

base em sua experiência com pessoas e eventos de sua cultura. (MELTZOFF, 1999)

1165

Algumas coisas foram mudando e Meltzoff entende que, primeiro, a psicologia do

desenvolvimento veio transformando-se ao entende-se o sentido da imitação nos bebês;

segundo, é preciso mudar paradigmas de pesquisa em bebês, e deixar de considerá-los

iguais aos ratos de laboratório, pois sua psicologia é mais complexa. E em terceiro lugar

a comparação de imitação de animais e de humanos, demonstra que nestes a mente é

contínua e descontínua em função da subjetividade. Em quarto lugar, neurocientistas

vêm, através das experiências de imitação, explorando o conceito de neurônio espelho,

como Decety em 2002, Prinz, 2002, Rizzolatti, Fadiga, Fogassi e Gallese em 2002.

(MELTZOFF, 2002a)

A imitação é um recurso para entender como outra mente funciona. O passo um

sendo “Como eu” e o passo dois, “Compreensão do outro”. De algum modo a direção

da imitação é inclusiva de si próprio, num contexto de relação e do outro, no contexto

afetivo das relações sociais. A criança de 14 meses é capaz de perceber a direção do

jogo que o adulto pretende desenvolver, sem que antes tenha sido feito. Isto ocorre com

a criança humana, pois há uma interação lúdica que a faz antecipar no jogo à ação a ser

realizada e, quando percebe que isto de algum modo era o que se esperava, ela fica

satisfeita e ri. (MELTZOFF 2002b)

Um aspecto importante da imitação na interação social é o da empatia. As

crianças imitam gestos novos, demonstrando flexibilidade e não há automatismo.

Crianças que dão respostas corretas é que estão confiando no modelo. Não há fixidez

neste aspecto; e crianças imitam por memória, não por reflexo. (MELTZOFF, 2005)

Outras

evidências

do

desenvolvimento

inicial

parecem consistentes

com

os

achados sobre imitação e serão apresentadas a seguir. A literatura sobre esse tema é

muito extensa e optou-se por citar somente alguns estudos básicos. A capacidade de

estabelecimento de intersubjetividade entre o bebê e os adultos é um dos aspectos

1166

centrais que se podem vincular às evidências que vêm sendo descritas. Trevarthen e

Hubley em 1978 discutem que a comunicação entre o bebê e os adultos -principalmente

a mãe - e suas transformações, se devem à diferenciação de uma função inata,

interpessoal, geral e altamente complexa, que se manifesta muito cedo de uma forma

rudimentar. Essa função identifica pessoas, regula motivação e intenção em relação a

elas e constrói simultaneamente atos rudimentares de fala e gesto em combinações e

seqüências-padrão. Uma forma primitiva de intersubjetividade começa nas primeiras

semanas de vida, com o prazer do contato visual entre a mãe e o bebê (ao qual se

deveria acrescentar o prazer do toque). A partir disso, desenvolve-se, transformando-se

na capacidade de compartilhar atenção a objetos comuns e tornando-se verbal na época

da pré-história.

No curso das primeiras semanas, os bebês apresentam uma ligação estreita entre

os sistemas de percepção e ação organizada e uma sensibilidade essencialmente humana

para

estímulos

sociais.

No

segundo

mês,

mostram

os

primeiros

sinais

de

"intersubjetividade primária", definida originalmente por Trevarthen e Hubley (1978).

Esta é caracterizada como uma forma de interação que tem como aspectos essenciais o

interesse que o bebê demonstra pela fala da mãe e sua capacidade de orientar a atenção

para o rosto da mesma e de responder às solicitações dela. (MELTZOFF, 2005)

As capacidades imitativas iniciais, entretanto, não podem ser entendidas de forma

isolada, mas se inserem em um panorama mais geral. Os bebês parecem predispostos a

responder seletivamente a eventos sociais e demonstram uma motivação básica para se

relacionar com pessoas. Além disso, revelam um conjunto de características que os

capacitam para os primeiros contatos e trocas com os membros da cultura, inicialmente

representados, sobretudo, por sua mãe. (MOURA e RIBAS, 2002)

1167

O sistema auditivo parece pré-adaptado para identificar a voz humana. Os bebês

discriminam sons da voz humana de outros sons, preferindo os primeiros, em especial,

os das vozes femininas (Eisember, 1975). Esta capacidade discriminativa se manifesta

também no sistema olfativo. Tem sido verificado que, desde o terceiro dia de vida,

conseguem distinguir sua mãe de uma estranha com base no odor (Engen, Lipsitt &

Haye, 1963). (MOURA e RIBAS, 2002)

No campo visual, as investigações de Fantz em 1965 demonstraram a capacidade

de discriminar e manifestar preferências por configurações de rostos humanos. Em

condições normais, os bebês buscam estabelecer contato visual com os adultos que

cuidam deles e são estimulados e incentivados a fazê-lo, segundo Schaffer em 1979.

(MOURA e RIBAS, 2002)

Há divergências entre os autores quanto à natureza das percepções iniciais do

bebê. Em geral, não tem sido confirmada a concepção piagetiana de que estas são

modais e justapostas e de que a organização comportamental é não-coordenada e

constituída de reflexos isolados. Bertenthal em 1996 revê e analisa as evidências das

origens e do desenvolvimento inicial da percepção, ação e representação. Para este

autor, os resultados das pesquisas recentes desafiam "crenças antigas" que viam os

recém-nascidos

como

dotados

apenas

de

um

repertório

muito

simples

de

comportamentos sensório-motores que são gradualmente integrados e internalizados.

Além disso, evidenciam que a capacidade de representação pode estar presente desde o

nascimento. (MOURA e RIBAS, 2002)

Este mesmo autor Bertenthal em 1996 questiona a visão monolítica da percepção

de que diferentes inputs sensoriais convergem numa representação única que precede o

pensamento e ação. Propõe, então, um modelo em que o sistema visual é dividido em

duas rotas funcionalmente dissociáveis. Uma dessas rotas trata do controle perceptivo e

1168

da orientação das ações, e a outra da percepção e do reconhecimento de objetos e

eventos. Diferentes fatores contribuem para mudanças evolutivas nos dois sistemas.

Nem percepção, nem ação, nem representação são privilegiadas ontogeneticamente.

(MOURA e RIBAS, 2002)

O que essas pesquisas têm indicado é que o estado inicial do desenvolvimento

talvez não seja exatamente o que Piaget propôs e, é necessário levar em conta algumas

predisposições inatamente especificadas. As evidências mostram que a percepção

depende de relações e de descrições abstratas, permitindo defender a hipótese de que a

obtenção de aspectos do conhecimento conceitual e a aprendizagem sobre os mundos

físico e social através da percepção. Deste modo, é preciso repensar o estágio sensório-

motor tal como apresentado e explicado por Piaget. (MOURA e RIBAS, 2002)

É necessário adotar uma posição que inclua as novas evidências sobre o estado

inicial e que inclua também um processo em que a representação sofra transformações e

tenha maior complexidade, ou seja, passe por uma construção gradual. Essa é a proposta

de Meltzoff e Moore. Num modelo mais geral, isto é o que propõe também Karmiloff-

Smith em 1995. Márcia L.S. Moura e Adriana F.P. Ribas admitem tais capacidades

inatas, mas também a hipótese de um mecanismo de construção. Pensam que as

predisposições inatas podem ser especificadas em detalhe ou ter apenas uma direção

geral. No primeiro caso, os estímulos do ambiente são apenas disparadores do processo.

No segundo caso, o ambiente influencia a estrutura subseqüente do cérebro através de

uma interação rica e específica entre a mente e o ambiente físico e sociocultural.

Karmiloff-Smith

desenvolveu

o

que

chama

de

modelo

RR

(Redescrições

Representacionais). O modelo pressupõe um processo cíclico pelo qual a informação, já

presente no funcionamento independente do organismo, se apresenta sob a forma de

representações com finalidades específicas e se torna progressivamente disponível, por

1169

meio de redescrição, para outras partes do sistema cognitivo. Para elas, é necessário

acrescentar

à

visão

de

Piaget

algumas

predisposições

inatas,

impregnadas

de

conhecimento, dando ao processo epigenético uma base para se desenrolar. (MOURA e

RIBAS, 2002)

3 O Vínculo e a Vida

Dois conceitos sobre adaptação social e recém-nascidos foram empregados: John

Bowlby analisou o processo de estabelecimento de apego com a mãe nos primeiros seis

meses (attachment).

Klaus e Kennell aplicaram o termo vínculo (bonding) ao começo

desta ligação que se dá na primeira hora depois de nascimento. Ambos os conceitos

especificam comportamentos que fixam condicionamentos precoces na infância, para

uma relação mutuamente satisfatória entre a mãe e criança. (SCHORE, 2001) A autora

vai usar sempre a palavra vínculo para a tradução de bonding e de attachment.

O primeiro trabalho sobre a Teoria do Vínculo foi escrito no livro “The Nature of

the Child’s Tie to his Mother” (A Natureza da Ligação da Criança com sua Mãe) em

1957, calcado em conceitos etológicos. Foram escritos três artigos para a Sociedade

Psicanalítica de Londres, dos quais o primeiro foi este: Bowlby propunha que o vínculo

entre crianças de um a dois meses com suas mães tinha um forte componente instintual,

que respondiam através de: chupar, agarrar e comportamentos de sinalização como

sorrir

e

chorar.

Descreveu

que

as

crianças

alcançavam

alguma

maturidade

e

independência durante o primeiro ano de vida, que aumentava a partir de um foco

mantido na figura materna dos seis primeiros meses de vida. (BOWLBY, 2002)

A teoria do vínculo foi desenvolvida pelo psiquiatra John Bowlby que foi em

1950, Diretores do Departamento de Clínica Tavistock na Inglaterra e Consultor de

Saúde Mental da Organização Mundial de Saúde, em 1951. Descreveu que crianças

privadas de contato com mãe, vivendo em suas próprias casas, eram mais passíveis de

1170

infecção e corriam maior risco de contrair difteria. Na verdade, foram feitos filmes, e

até um documentário em 1952, A Two-Year Old Goes to the Hospital, (Uma Criança de

Dois anos vai para o Hospital) onde ele observou o que ocorria na separação de curta

duração de uma criança nesta idade. Outro filme da Tavistock registrou crianças que

ficam em casa enquanto suas mães estavam em hospitais, para o nascimento de um

irmão. As crianças demonstravam-se agitadas por um tempo, em protesto, depois

desesperadas, inquietas, e em seguida começavam a se desinteressar do ambiente, num

comportamento de negação da dor. Na continuidade da privação, finalmente, elas

adoeciam de infecção do trato respiratório. (BOWLBY, 2002)

A necessidade de vínculo é universal. Nossos parentes mais próximos, os macacos

de quem nos distanciamos por 1% do código genético, também têm necessidade de

vínculo para manter sua saúde mental e emocional.

Os estudos de Harlow, na década de 50, foram muito ilustrativos na questão do

vínculo. Ao nutrir macacos rhesus com mamadeira em gaiolas metálicas, a mortalidade

entre eles aumentou. Ele introduziu na pesquisa duas mães substitutas inanimadas, uma

com acolchoamento e outra sem. A não acolchoada portava a mamadeira. O macaco

bebê ia até esta apenas para o tempo de mamar, mas ficava com a acolchoada o maior

tempo possível. Acompanhados até a vida adulta, percebeu-se alteração no domínio da

sociabilidade. (MONTAGU, 1986)

Por 35 milhões de anos os primatas sobreviveram estando próximos às suas mães

nas primeiras horas depois de nascidos. O que mostram as pesquisas sobre vínculo, com

medições de onda cerebrais, com estudo de mímica e estudo de hormônios do bebê, é

que nenhuma criança está pronta física e emocionalmente para suportar a separação da

mãe logo após o nascimento. O que ocorre é que se sucedem o pânico, o desespero, a

depressão e a perda de imunidade. (MONTAGU, 1986)

O

segundo

trabalho

de

Bowlby

foi

“Separation

Anxiety”

1171

(Ansiedade

de

Separação) que foi apresentado em 1959, onde ele explicava as fases que ocorriam em

função da separação da mãe com o bebê: 1 – Protesto, 2 – Desespero, 3 – Desvinculo ou

negação.

Esta descrição é crucial até hoje, para entender os movimentos emocionais

por que passa a criança deixada, ainda que por pouco tempo. Neste trabalho, ele já

salientava que o excesso de separação, geralmente causado por famílias disfuncionais,

repetem o abandono e a rejeição dos pais que pode acabar parecendo doença e morte

nos pais, que é vivida pela criança como sendo de sua responsabilidade. O terceiro

trabalho foi “Grief and Mourning in Infancy and Early Childhood” (Luto e Pesar na

Infância e em Idade Precoce), onde ele contesta a visão prevalente de narcisismo infantil

e fala da importância da questão da perda do objeto amado. Ele entende que a criança

pequena não tem condições de elaborar perda, tendo em vista que não tem ego

suficiente para fazê-lo. (BRETHERTON, 1992)

Mary Ainsworth diplomou-se na Universidade de Toronto, no final dos anos 30 e

início dos anos 40, onde fez cursos com William Blatz que a tinha apresentado à teoria

de segurança de Blatz em 1940.

Ambos reformularam e desafiaram as idéias

Freudianas. Uma das doutrinas principais de teoria da segurança é que as crianças

jovens precisam desenvolver uma dependência segura em relação aos pais antes de se

lançar no mundo, em situações pouco conhecidas. Ainsworth desenvolve essa tese em

sua dissertação intitulada: An Evaluation of Adjustment Based Upon the Concept of

Security,

(Uma

Avaliação

(BRETHERTON, 1992)

de

Ajuste

Baseado

no

Conceito

de

Segurança).

Em 1951, Bowlby pôde desenvolver e publicar seu trabalho a respeito dos efeitos

de separação da mãe sobre a criança, pois escreveu para a Organização Mundial de

Saúde sobre as condições mentais das crianças sem lar, no pós-guerra. Este trabalho foi

1172

escrito em seis meses, foi traduzido para 14 idiomas e o título era: “Maternal Care and

Mental Health pela WHO” (Cuidados Maternos e Saúde Mental pela OMS). Na sua

segunda edição: Child Care and Growth of Love, (Cuidado Materno e Desenvolvimento

do

Amor) teve um capítulo escrito por Mary Ainsworth. (BRETHERTON, 1992)

Em 1957, Ainsworth vai para Uganda, onde desenvolve um projeto de observação

de

26 famílias com bebês que ainda não desmamaram entre um e 24 meses. Estes eram