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Capítulo 1

Asa Cinzenta moveu-se sobre a ladeira coberta de neve em direção a um cume


que se direcionava ao céu como uma fileira de perigosos dentes. Ele movia
cada pata com cuidado, para evitar quebrar a fina superfície de gelo e cair nas
pontudas rochas abaixo. Pequenos flocos de neve caíam, salpicando seu pelo
cinza escuro. Ele estava tão frio que não conseguia mais sentir suas
almofadinhas, e sua barriga roncava de fome.
Eu não consigo me lembrar da última vez que eu me senti aquecido ou bem
alimentado.
Na última estação ensolarada ele ainda era um filhote, brincando com seu
companheiro de ninhada, Céu Claro, ao redor das bordas da lagoa, for a da
caverna. Isso parecia ter acontecido muito tempo atrás, quase uma eternidade.
Asa Cinzenta só tinha vagas memórias de folhas verdes nas grossas árvores da
montanha, e da luz do sol banhando as rochas.
Parando para cheirar o ar em busca de presas, ele olhou através das gigantes
montanhas nevadas, cume após cume, alongando-se com a distância. O céu,
pesado e cinzento, prometia que ainda havia mais neve por vir.
Mas o ar não carregava cheiro algum de sua presa, e Asa Cinzenta arrastou-se.
Céu Claro apareceu em cima de um afloramento rochoso, seu pelo, de um cinza
pálido, mal estava visível entre a neve. Suas mandíbulas estavam vazias, e
quando ele olhou para Asa Cinzenta ele balançou sua cabeça negativamente.
“Não há nem o cheiro de presa em lugar algum!” ele falou. “Por que nã—”
Um estridente grito vindo de cima cortou suas palavras. Uma sombra reluziu
sobre Asa Cinzenta. Olhando para cima, ele viu um falcão descendo através do
declive, suas garras cruelmente estendidas.
Assim que o falcão passou, Céu Claro pulou alto no ar, suas patas da frente
estendidas. Suas garras prenderam as penas do pássaro e os dois caíram, Céu
Claro o arrastando do céu. O pássaro deu outro severo grito enquanto
aterrissava na neve em uma agitação de asas batendo.
Asa Cinzenta correu até o declive, suas patas jogando uma fina camada de neve
para o alto. Chegando perto de seu irmão, ele enterrou suas duas patas frontais
em uma das asas se debatendo. O falcão o olhou, ódio em seus olhos amarelos e
brilhantes, e Asa Cinzenta teve que se esquivar para não ser atingido por suas
garras cortantes.
Céu Claro inclinou sua cabeça para frente e afundou seus dentes no pescoço do
falcão. Seu corpo se sacudiu uma vez, e depois amoleceu, seu olhar se tornando
vazio conforme o sangue escorria de seu pescoço e manchava a neve.
Ofegando, Asa Cinzenta olhou para seu irmão. “Foi uma boa captura!” ele
exclamou, a sensação de triunfo o inundando.
Céu Claro balançou sua cabeça. “Mas olhe como ele é magrela. Não há nada
mais nessas montanhas que se possa comer, e não terá até que a neve
desapareça.”
Ele se agachou ao lado de sua presa, pronto para tirar a primeira mordida. Asa
Cinzenta sentou perto dele, com água da boca quando pensou em enfiar seus
dentes no falcão.
Mas então ele lembrou-se dos gatos esfomeados na caverna, lutando por restos.
“Nós deveríamos levar essa presa para os outros” ele miou. “Eles precisam dela
para dar-lhes forças para a caçada.”
“Nós precisamos de força também” Céu Claro murmurou, arrancando uma
bocada da carne do falcão.
“Nós ficaremos bem.” Asa Cinzenta lhe deu uma cutucada. “Nós somos os
melhores caçadores na Tribo. Nada escapa de nós quando caçamos juntos. Nós
podemos pegar algo mais facilmente do que os outros.”
Céu Claro revirou os olhos enquanto terminou de comer um pedaço da presa.
“Por que você sempre é tão altruísta?” ele resmungou. “Tudo bem, vamos.”
Juntos os dois gatos arrastaram o falcão pelo declive e sobre as pedras na parte
de baixo de uma ravina antes de alcançarem a lagoa na qual a cachoeira rugia.
Apesar de não ser pesado, o pássaro era difícil de manejar. Suas asas
desajeitadas e garras prendiam em cada rocha escondida e em cada arbusto
enterrado.
“Não teríamos que fazer isso se você tivesse nos deixado comê-lo” Céu Claro
balbuciou enquanto ele sofria para carregar o falcão pelo caminho que os levava
até a parte de trás da cachoeira. “Espero que os outros gostem disso.” Céu
Claro resmunga muito, Asa Cinzenta pensou, mas ele sabe que essa é a coisa
certa a se fazer.
Gritos de surpresa os cumprimentaram quando eles entraram na caverna. Vários
gatos correram para os encontrar, se juntando envolta para olhar a presa.
“É enorme!” Cauda de Tartaruga exclamou, seus olhos verdes brilhando
enquanto ela chegava perto de Asa Cinzenta. “Eu não acredito que você trouxe
ele para nós.”
Asa Cinzenta balançou sua cabeça levemente, se sentindo levemente
embaraçado pelo entusiasmo dela. “Ele não vai alimentar a todos.” Ele miou.
Gelo Despedaçado, um gato branco e cinza, fez seu caminho até a frente da
multidão. “Quais gatos irão caçar?” ele perguntou. “Eles devem ser os
primeiros a comer.”
Murmúrios de concordância vieram do grupo dos gatos, quebrados por um
agudo grito: “Mas eu estou faminto! Por que eu não posso comer um pouco? Eu
poderia sair e caçar.”
Asa Cinzenta reconheceu essa voz como sendo de seu irmão mais novo, Pico
Dentado. A mãe deles, Chuva Silenciosa, se aconchegou e gentilmente cutucou
seu filhote para as tocas de descanso. “Você é pequeno demais para caçar” ela
falou suavemente. “E se os gatos mais velhos não comerem, não haverá presa
para ninguém.”
“Não é justo!” Pico Denteado murmurou enquanto sua mãe o levou para longe.
Enquanto isso os caçadores, incluindo Gelo Despedaçado e Cauda de Tartaruga,
se enfileiraram ao lado do corpo do falcão. Cada um tirava uma bocada da
carne e dava um passo para trás para o próximo gato. Quando eles terminaram,
e saíram pelo caminho atrás da cachoeira, havia bem pouca carne sobrando.

Céu Claro, olhando tudo ao lado de Asa Cinzenta, deixou sair um miado
irritado. “Eu continuo desejando que tivéssemos comido ele.”
Secretamente Asa Cinzenta concordava com ele, mas ele sabia que não havia
sentido em reclamar. Não há comida o suficiente. Todos os gatos estão com
fome—apenas aguentando até que o sol brilhe novamente.
O som de patas ecoou atrás dele; ele olhou para trás para ver Arroio
Brilhante para perto de Céu Claro.
“É verdade que você caçou esse falcão grande sozinho?”
Céu Claro hesitou, orgulhoso por ter a admiração da bela gata listrada. Asa
Cinzenta deu um miado significativo.
“Não” Céu Claro admitiu. “Asa Cinzenta ajudou.”
Arroio Brilhante acenou a cabeça na direção de Asa Cinzenta, mas
imediatamente retornou a falar com Céu Claro. Asa Cinzenta andou um pouco
para longe deles, para deixá-los a sós.
“Eles ficam bons juntos.” Uma voz falou perto de seu ombro; Asa Cinzenta
se virou para ver a anciã Geada de Prata de pé atrás dele. “Haverão filhotes na
estação mais quente.”
Asa Cinzenta concordou. Qualquer gato caolho poderia ver o quão amigáveis
seu irmão e Arroio Brilhante tinham se tornado conforme eles se sentavam com
suas cabeças juntas, murmurando um para o outro.
“Talvez mais de uma ninhada,” Geada de Prata continuou, dando um empurrão
em Asa Cinzenta. “Essa Cauda de Tartaruga certamente é uma bela gata.”
Constrangimento inundou Asa Cinzenta, de suas orelhas à sua cauda. Ele não
sabia o que dizer, e ficou grato quando ele viu a Narradora das Pedras se
aproximar deles. Ela tomou um caminho sinuoso entre seus gatos, parando para
galar com cada um. Apesar de suas patas estarem trêmulas por conta de sua
idade, Asa Cinzenta conseguia ver a profunda experiência em seu olhar verde e
o carinho que ela sentia por cada um de sua Tribo
“Ainda há um pouco do falcão,” Asa Cinzenta a ouviu murmurar para Lebre da
Neve, que estava esticada em uma das tocas de descanso, lavando sua barriga.
“Você deveria comer alguma coisa.”
Lebre da Neve pausou sua limpeza. “Eu estou deixando a comida para os
mais novos,” ela respondeu. “Eles precisam de força para caçar.”
A Narradora abaixou sua cabeça e tocou a orelha da anciã com seu focinho.
“Você mereceu sua comida muitas vezes.”
“Talvez as montanhas já nos tenham alimentado por tempo o suficiente.” Foi
Rugido de Leão que havia falado de onde ele sentava, aproximadamente uma
cauda de distância.
A gata lhe deu um suave olhar, repleto de significado.
Sobre o que é isso tudo? Asa Cinzenta se perguntou.
Seus pensamentos foram interrompidos por Chuva Silenciosa, que veio sentar
ao seu lado. “Você comeu alguma coisa?” ela perguntou.
Nós sempre conversamos apenas sobre comida. Ou a falta dela. Tentando
restringir sua impaciência, Asa Cinzenta respondeu, “Eu comerei algo antes de
sair de novo.”
Para seu alívio, sua mãe não insistiu. “Você fez muito bem ao pegar esse
falcão,” ela miou.
“Não fui apenas eu,” Asa Cinzenta a contou. “Céu Claro fez aquele incrível
pulo para o trazer para baixo.”
“Ambos fizeram bem,” Chuva Silenciosa ronronou. Ela se virou para olhar seus
filhotes mais novos, que estavam brigando perto dali. “Eu espero que Pico
Denteado e Pássaro Esvoaçante sejam talentosos como vocês quando tiverem
idade o suficiente para caçar.”
Nesse momento, Pico Dentado bateu na pata de sua irmã. Pássaro Esvoaçante
soltou um gemido quando ela caiu, batendo sua cabeça em uma pedra. Ao invés
de se levantar, ela continuou deitada, soluçando.
“Você é uma filhote tão boba!” Pico Denteado exclamou.
Conforme Chuva Silenciosa se aconchegou para dar uma lambida reconfortante
em sua filha, Asa Cinzenta notou o quão pequena e frágil Pássaro Esvoaçante
parecia. Sua cabeça dava a impressão de ser grande demais para seu corpo, e
quando ela mexia suas patas de novo, suas pernas oscilavam. Pico Denteado,
em contrapartida, era forte e tinha bons músculos, seu pelo cinza tigrado era
grosso e saudável.
Enquanto Chuva Silenciosa cuidava de sua irmã, Pico Denteado correu até Asa
Cinzenta. “Me conte sobre o falcão,” ele pediu. “Como você o capturou? Eu
aposto que eu conseguiria pegar um se eu fosse autorizado a sair dessa caverna
estúpida!
Asa Cinzenta ronronou animadamente. “Você deveria ter visto o salto de Céu
Claro—”
Um alto grito cortou a história de Asa Cinzenta. “Todos os gatos, fiquem em
silêncio! A Narradora das Pedras Pontiagudas irá falar!”
O gato que fez o aviso era Musgo Sombreado, um gato preto e branco que era
um dos gatos mais fortes e respeitados da Tribo. Ele ficou de pé em uma pedra
no fim da caverna, com a Narradora ao seu lado. A velha gata parecia ainda
mais frágil perto de sua poderosa figura.
À medida que ele fez seu caminho em direção à frente da multidão
concentrada ao redor da pedra, Asa Acinzentada ouviu murmúrios de
curiosidade dos outros.

“Talvez a Narradora irá apontar Musgo Sombreado como seu substituto,”


Geada de Prata sugeriu.
“Já é hora de ela apontar algum gato,” Lebre da Neve concordou. “É o que
estamos esperando há luas.”
Asa Cinzenta encontrou um lugar para sentar-se perto de Céu Claro e Arroio
Brilhante, e olhou para a Narradora e Musgo Sombreado. A Narradora se
levantou e deixou seu olhar viajar através dos gatos da Tribo até que os
murmúrios desvanecessem e se transformassem em silêncio.
“Eu sou grata a vocês todos por trabalharem tão duro para sobreviverem aqui,”
ela começou, sua voz tão fraca que mal se podia ouvi-la através do som da
cachoeira. “Eu tenho orgulho de ser sua Curadora, mas eu tenho que aceitar que
há coisas que nem mesmo eu posso fazer funcionar. Falta de espaço e de
comida estão fora de meu controle.
“Não é sua culpa!” Geada de Prata falou. “Não desista!”
A Narradora abaixou sua cabeça, reconhecendo o suporte da anciã. “Nossa casa
não pode mais sustentar todos nós,” ela continuou. “Mas há outro lugar para
alguns de nós, repleto de luz do sol, calor e presas para todas as estações. Eu
mesma o vi. . . Em meus sonhos.”
Completo silêncio agraciou seu aviso. Asa Cinzenta não conseguiu entender
o que a Curadora havia acabado de dizer. Sonhos? Qual o ponto disso? Eu
sonhei que eu havia matado uma águia enorme e a comido sozinho, mas eu
ainda estava faminto quando eu acordei!
Ele notou que Rugido de Leão sentou-se ereto conforme a Narradora falou, e
estava a encarando, seus olhos abertos, atônito.
“Eu acredito em meu coração que o outro lugar está esperando para aqueles
entre vocês que são corajosos o suficiente para realizar a jornada,” a Narradora
continuou. “Musgo Sombreado os levará à esse lugar, com a minha bênção.”
A velha gata branca olhou para a Tribo mais uma vez, seu olhar cheio de
tristeza e dor. Então ela deslizou do topo da pedra ao chão e desapareceu no
túnel no fundo da caverna, o qual a conduzia à sua própria toca.
Uma inundação de especulações chocadas atravessou o resto dos gatos. Alguns
segundos depois, Musgo Sombreado avançou e levantou sua cauda, exigindo
silêncio.
“Esta tem sido minha casa por toda a minha vida,” ele começou, quando pôde
fazer-se ouvir. Sua voz soava solene. “Eu sempre esperei morrer aqui. Mas se a
Narradora acredita que alguns de nós devem sair para encontrar o local do seu
sonho, então eu irei, e farei meu melhor para mantê-los seguros.
Pelo Manchado saltou, seus olhos dourados brilhando. “Eu irei!”
“Eu irei também!” Sombra Alta adicionou, sua figura esguia retesada com
entusiasmo.
“Vocês têm pulgas no cérebro?” Galho Retorcido, um gato marrom e magricela,
encarou as duas gatas, incrédulo. “Andando por aí sem a menor ideia de onde
vocês estão indo?”
Asa Cinzenta continuou em silêncio, mas ele não poderia evitar concordar com
Galho Retorcido. As montanhas eram sua casa: ele conhecia cada rocha, cada
arbusto, cada córrego. Meu coração seria partido em dois se eu tivesse que
partir apenas porque a Narradora teve um sonho.
Se virando para Céu Claro, ele se surpreendeu ao ver os olhos de seu irmão
brilhando, entusiasmados. “Você não está realmente considerando isso, né?” ele
perguntou.
“Por que não?” Céu Claro respondeu. “Essa pode ser a resposta para todos os
nossos problemas. Qual é a razão de sofrer para alimentar cada boca se há uma
alternativa?” Seus bigodes agitaram-se avidamente. “Será uma aventura!” Ele
chamou Musgo Sombreado: “Eu irei!” Olhando para Arroio Brilhante, ele
adicionou, “Você virá também, não é?”
Arroio Brilhante se inclinou para mais perto de Céu Claro. “Eu não sei . . .
você realmente iria sem mim?”
Antes que Céu Claro pudesse responder, o pequeno Pico Denteado rastejou para
perto de seus dois irmãos mais velhos, seguido por Pássaro Esvoaçante. “Eu
quero ir!” ele anunciou ruidosamente.
Pássaro Esvoaçante concordou entusiasticamente. “Eu também!” ela disse.
Chuva Silenciosa os seguiu, e os trouxe para mais perto dela com sua cauda.
“Certamente não!” ela miou. “Vocês dois vão continuar bem aqui.”
“Você poderia vir conosco,” Pico Denteado sugeriu.
Sua mãe balançou sua cabeça. “Essa é minha casa,” ela disse. “Nós
sobrevivemos antes. Quando a estação quente voltar, nós teremos o suficiente
para comer.”
Asa Cinzenta curvou sua cabeça, concordando. Como eles podem
esquecer o que Chuva Silenciosa me contou quando eu era um filhote? Este
lugar foi prometido à nós por um gato que nos guiou até aqui, de um lago
distante. Como podemos pensar em partir?
A poderosa voz de Musgo Sombreado se levantou sobre o tumulto. “Nenhum
gato precisa decidir agora,” ele anunciou. “Pensem um pouco sobre o que vocês
querem fazer. A meia lua acabou de passar; deixaremos para a próxima lua
cheia junto com qualquer—”
Ele parou de falar, seu olhar fixado no fim da caverna. Virando sua cabeça, Asa
Cinzenta viu o grupo de caçadores entrando. Seus pelos estavam repletos de
neve e suas cabeças, baixas.
Nenhum carregava uma presa.
“Nos desculpe,” Gelo Despedaçado disse. “A neve está mais forte do que
nunca, e não havia uma única—”
“Nós iremos embora!” algum gato gritou, da multidão ao redor de Musgo
Sombreado.
O grupo de caçadores ficara parados por um momento, olhando uns aos outros,
confusos e receosos. Então eles desceram a distância da caverna para ouvir,
conforme seus companheiros de Tribo os explicavam o que a Narradora os
havia contado, e o que Musgo Sombreado pretendia fazer.
Cauda de Tartaruga andou até onde Asa Cinzenta estava sentado e sentou ao seu
lado, começando a limpar a neve quase derretida de seu pelo. “Não é ótimo?”
ela perguntou-lhe entre uma lambida e outra. “Um lugar quente, onde há muita
presa, apenas esperando por nós? Você irá, Asa Cinzenta?”
“Eu irei,” Céu Claro respondeu, antes que Asa Cinzenta pudesse sequer falar
algo. “Arroio Brilhante também.” A jovem gata lhe deu um olhar incerto, mas
Céu Claro não notou. “A jornada será árdua, mas eu acho que valerá a pena.”
“Será esplêndido!” Cauda de Tartaruga piscou alegremente. “Vamos lá, Asa
Cinzenta! O que você acha?”
Asa Cinzenta não pôde dar a ela a resposta que ela queria. Conforme ele olhava
ao redor, ele não poderia deixar todos esses gatos que ele conheceu por toda a
sua vida, principalmente para um lugar que talvez existisse apenas nos sonhos
da Narradora.

Um ronco em sua barriga acordou Asa Cinzenta. As dores da fome pareciam


ainda mais nítidas desde o anúncio da Narradora há alguns nasceres do sol.
caverna não havia parado de sussurrar discussões sobre se era ou não uma boa
ideia deixar seu lar, e sobre como o destinado lugar poderia ser.
Ainda enrolado em sua cavidade de descanso, Asa Cinzenta podia ouvir as
conversas animadas dos gatos próximos.
“O que você acha que nós iremos caçar?” Asa Cinzenta reconheceu a voz de
Pelo Manchado. “Talvez tipos diferentes de pássaros— ou esses . . . Esquilos
que os anciãos sempre falam em suas histórias.”
“Teremos que ser cuidadosos.” Esse era Manchas de Nuvem, pensativo como
sempre. “Se nós comermos demais nós ficaremos gordos demais para caçar, e
daí, que será de nós?”
Asa Cinzenta ouviu uma risada de Lebre da Neve. “Esse é um problema que
eu gostaria de ter!”
Ele levantou a sua cabeça para ver os três gatos sentados um perto do outro,
juntamente com Sombra Alta, que estendeu seus membros, cobertos de pelo
negro, graciosamente, enquanto ela se levantou. “Eu imagino quais novas
técnicas teremos que aprender para caçar. Esse local deve ser diferente daqui.”
“Bem, você sempre foi ótima em sair rastejando por aí,” Lebre da Neve miou,
brincando. “Você poderá se aproximar de sua presa enquanto ela ainda dorme.”
Sombra Alta deu uma lambida mansa no pelo de seu peito. “Talvez eu faça
isso mesmo.”
Arrastando-se para for a de sua cavidade, Asa Cinzenta sacudiu pedaços de
musgo e penas de seu pelo, e arqueou suas costas, se espreguiçando. Não há
razão para ficar pensando e imaginando sobre presas em outro lugar quando
nós precisamos comer agora.
A luz do sol entrou na caverna, fazendo a verde cortina de água se tornar
cintilante. À medida que Asa Cinzenta emergiu do caminho atrás da cachoeira,
ele notou que o céu estava azul, límpido. As almofadinhas de Asa Cinzenta
formigaram por conta da beleza dos picos das montanhas contra o belo céu. Ele
inspirou o puro ar gelado, saboreando a sensação parecida com água batendo
em seu pelo.
Como eu poderia deixar tudo para trás?
Continuando a andar no caminho coberto de neve, endurecido pelos passos e
vários gatos, Asa Cinzenta ouviu vozes vindo de um lugar acima.
“Arroio Brilhante, você precisa vir comigo.”
Olhando para cima, ele viu Céu Claro e Arroio Brilhante no topo do penhasco
na qual a água vertia sobre as rochas.
“Será ótimo,” Céu Claro continuou, “explorar novos lugares juntos.”
Arroio Brilhante virou sua cabeça. “Eu não sei . . . Essa é minha casa, e nós
sobrevivemos até agora.”
“Você não quer mais do que sobreviver?” Céu Claro perguntou, colocando sua
cauda persuasivamente sobre os ombros da gata. “Eu quero ir, mas não seria o
mesmo sem você.”
Os olhos de Arroio Brilhante brilharam, mas ela balançou sua cabeça. “Eu
ainda tenho alguns dias para decidir,” ela miou.
Deixando Céu Claro observando-a, ela desceu as rochas graciosamente. A
despeito dele mesmo, o coração de Asa Cinzenta acelerou quando ela a viu se
aproximando. Ela é adorável . . . Mas será a companheira de Céu Claro um
dia. Ele é um gato sortudo, com certeza.
“Posso caçar com você?” Arroio Brilhante perguntou enquanto ela pulou a
última rocha e parou do lado de Asa Cinzenta. “Só não seja como Céu Claro,
que fica me importunando sobre deixar as montanhas com Musgo Sombreado!”
“Eu não vou,” Asa Cinzenta prometeu. “Eu mesmo ainda não decidi se irei
ou não.”
“Pela primeira vez, eu desejo uma má caça à vocês!” Céu Claro falou do alto
das rochas. “Então vocês verão que precisamos sair!”
Asa Cinzenta sacudiu sua cauda, bem-humorado, e andou até o cume. Arroio
Brilhante foi logo atrás dele. Conforme eles se aproximavam do pico, o vendo
gelado açoitou seus pelos e varreu a neve das rochas, deixando-as nuas e
cinzentas. Nuvens amareladas, escuras, aglomeradas no horizonte prometiam
mais neve.
Com as suas costas à ventania, Asa Cinzenta olhou ao redor e viu mais três
gatos abaixo, no vale—pequenas silhuetas, longe demais para serem
distinguidas, caçando um falcão que voou sobre os declives e progressivamente,
ficou fora de vista.
A voz de Arroio Brilhante quebrou o vasto silêncio das montanhas. “Asa
Cinzenta—o que você acha sobre o sonho da Narradora?”
Asa Cinzenta hesitou antes de responder. “Eu não sei,” ele confessou,
finalmente. “A Narradora pode realmente descoberto um lugar para vivermos,
sem saber exatamente onde ele se localiza? Por que nenhum outro gato teve o
mesmo sonho?”
“Talvez seja algo que apenas a Narradora possa fazer,” Arroio Brilhante
sugeriu. Ela pausou, piscando e refletindo; Asa Cinzenta pôde ver a ansiedade
em seus belos olhos verdes. “Eu amo viver nas montanhas,” ela começou.
“Apesar do frio e da fome. Eu sempre imaginei que eu criaria meus filhotes
aqui . . . Mas eu também sempre imaginei que o pai deles seria Céu Claro.”
Quando ela terminou ela virou sua cabeça, dando algumas lambidas em seu
ombro, envergonhada. Asa Cinzenta se surpreendeu com o quanto ela havia lhe
contado; ela sempre era confiante e contida. Ele sentiu uma facada de inveja
sobre como ela tinha a coragem de colocar seus sonhos e esperanças de lado
para viajar ao desconhecido com Céu Claro —e que o laço dela com seu irmão
era tão forte.
Antes que ele pudesse decidir o que dizer, Arroio Brilhante se chacoalhou.
“Você deveria esquecer tudo o que eu disse!” ela miou. “E você não se atreva a
contar ao Céu Claro! Eu não quero que ele pense que eu já me decidi.”
“Eu não falarei nada,” Asa Cinzenta prometeu.
Estou sendo dividido em dois, ele pensou. Céu Claro e eu sempre fizemos
tudo juntos. Agora eu devo escolher entre ir com ele ou ficar aqui com o resto
de nossa família, neste lugar que eu sempre chamei de lar.
A centelha de um movimento o distraiu de seus problemas. Lebre-do-ártico!
Girando, ele perseguiu sua presa pelo declive. Seu pelo branco se camuflava na
neve, mas era perfeitamente visível quando correndo sobre as pedras do cume
tempestuoso.
Arroio Brilhante se juntou à caçada, mas Asa Cinzenta a ultrapassou,
apreciando a sensação do vento em seus bigodes conforme ele pulava sobre as
rochas.
Com um poderoso pulo, ele se lançou em direção à lebre; o guincho agudo de
pânico dela foi cortado quando as mandíbulas de Asa Cinzenta atingiram sua
jugular.
“Bela captura!” Arroio Brilhante ofegou. “Você é tão rápido!”
“Não é tão ruim,” Asa Cinzenta miou, cutucando sua presa com uma pata.
Finalmente parecia haver carne sobre os ossos. “Nós podemos comer e ainda
levar um pouco de volta para a caverna.”
Ele e Arroio Brilhante sentaram-se lado a lado, aproveitando a caça. Conforme
eles comiam, ele olhou para os magníficos picos e vales que se estendiam à sua
frente.
“Você vai ficar, não vai?” Arroio Brilhante perguntou, fixando seu olhar
nele.
Asa Cinzenta inspirou profundamente. “Sim, eu vou.”
Quando eles já estavam satisfeitos, os dois gatos juntaram os restos da lebre e
voltaram para a caverna. Asa Cinzenta se sentiu triunfante com o pensamento
de alimentar seus companheiros de Tribo.
Quando ele avistou a cachoeira, ele viu um grupo de gatos subindo o declive
em frente dele. Musgo Sombreado estava à frente, com Céu Claro logo atrás.
Sombra Alta, Pelo Malhado e Flor Torrencial os seguiam. Cauda de Tartaruga
estava à retaguarda.
“Oi,” Céu Claro miou quando o grupo subiu. “Ei, você capturou uma lebre!”
Asa Cinzenta concordou, satisfeito. “Sim, nós estávamos a levando para a
caverna.”
“Nós estamos subindo o declive,” Céu Claro explicou, indicando seus
companheiros com a cauda. “Nós queremos achar o melhor local para sair das
montanhas, em direção ao sol.”
“Você não se juntará a nós?” Cauda de Tartaruga perguntou, indo sentar-se ao
lado de Asa Cinzenta.
Asa Cinzenta hesitou. Ele tinha certeza sobre a sua decisão de ficar, mas ele não
queria a compartilhas com os outros gatos neste momento. “Estamos cansados
por conta da caçada,” ele respondeu. “Talvez mais tarde.”
Adentrando a caverna, Asa Cinzenta pôde sentir o quanto seus companheiros de
Tribo estavam inquietos. Alguns estavam reunidos em pequenos grupos ao
redor dos cantos da caverna, falando uns aos outros com vozes apressadas.
Outros andavam sem nenhum destino em mente, apenas inquietos demais para
ficarem sentados. Não havia sinal da Narradora.
“Você acha que nós vamos realmente sair?” Canção da Pedra murmurou para
sua companheira Árvore Oca, enquanto os dois andavam.
“Eu acho que sim,” Árvore Oca respondeu. “Eles têm pulgas no cérebro? Eles
não fazem ideia sobre o que há lá fora, nem se esse lugar realmente existe.”
Asa Cinzenta sabia que ela falava por muitos da Tribo. Ele desejava que a
Narradora nunca tivesse tido esse sonho, ou pelo menos, não tivesse falado
sobre ele. Ela não sabe como isso está despedaçando a Tribo?
“Mas por que eu não posso ir?” Pico Denteado estava andando em direção à
entrada da caverna, apenas para ser interceptado por Chuva Silenciosa.
“Pela última vez,” sua mãe miou, a ponta de sua cauda se contorcendo em
impaciência, “Você é pequeno demais para estar for a da caverna.”
“Mas não é justo!” O pelo do ombro de Pico Denteado se eriçou enquanto
ele olhou para sua mãe.
“Vamos, Pico Denteado.” Lebre da Neve surgiu, inclinando sua cabeça para
Chuva Silenciosa quando se aproximou.
“Eu vou lhe mostrar um jogo novo. Vamos ver se você consegue pegar essa
pedra.” Ela levantou sua pata e lançou um pedregulho deslizando pelo chão da
caverna.
Pico Denteado correu atrás dela, com um gritinho animado.
“Obrigada, Lebre da Neve,” Chuva Silenciosa murmurou. “Eu não posso deixá-
lo ir embora enquanto ainda há uma camada grossa de neve no chão.”
“De nada,” a anciã respondeu.
Asa Cinzenta carregou o restante da lebre para sua mãe e soltou-a em suas
patas. “Aqui, você quer um pouco?”
Chuva Silenciosa ronronou com gratidão. “Essa é uma boa presa,” ela lhe
contou. “Levarei um pouco dela para Pássaro Esvoaçante.” Sua voz estremeceu
quando ela adicionou, “Ela não pôde sair da toca nesta manhã. Mas aposto que
ela ficará melhor depois que comer algo.”
Asa Cinzenta seguiu sua mãe conforme ela carregou a lebre através da caverna
até as tocas de descanso onde Pássaro Esvoaçante estava enrolada.
“Você irá com Musgo Sombreado?” Chuva Silenciosa perguntou-lhe à medida
que deixava a presa na beirada da cavidade. “Eu sei que Céu Claro irá . . .” Ela
claramente estava tentando falar despreocupadamente, mas suas palavras
terminaram com um suspiro tristonho.
“Eu ficarei,” Asa Cinzenta lhe contou, tocando a orelha dela com seu nariz.
“Este é meu lar. Eu quero caçar presas o suficiente para que todos nós possamos
sobreviver. Muitas luas atrás, nossos ancestrais deixaram o lago e vieram aqui.
Eu não consigo acreditar que tudo isso foi em vão.
Chuva Silenciosa descansou seu focinho no topo de sua cabeça. “Eu estou tão
orgulhosa de você,” ela murmurou. Por alguns batimentos cardíacos, Asa
Cinzenta sentiu o mesmo conforto e segurança de quando era um filhote,
mamando na barriga de sua mãe.
Inclinando-se sobre as tocas, Chuva Silenciosa lambeu o ombro de Pássaro
Esvoaçante. “Acorde, pequenina,” ela miou. “Eu tenho um pouco de comida
para você.”
Uma angústia cortante perfurou Asa Cinzenta quando ele olhou Pássaro
Esvoaçante; ela mal parecia estar respirando.
“Pássaro Esvoaçante!” Chuva Silenciosa cutucou-a com uma de suas patas
frontais, mas a filhote ainda não acordou. “Asa Cinzenta, chame a Narradora,”
sua mãe falou, pânico presente em sua voz.
Asa Cinzenta correu pela caverna e mergulhou no túnel que levava até a
Caverna das Pedras Pontiagudas. Ele só havia estado lá uma vez, e ele diminuiu
o passo quando chegou à entrada, tomado por respeito, a despeito de sua
urgência.
Rastejando para dentro da caverna, ele observou feixes estreitos de luz
inclinados através do buraco no teto, iluminando as colunas de pedra que
esticavam-se para cima por muitas caudas de altura. Piscinas no chão refletiam
a luz do sol, e a grande concavidade estava recheada com o som constante de
água gotejando.
Primeiramente, ele não conseguiu enxergar a Narradora. Depois, ele conseguiu
vê-la sentada nas sombras, sua cauda enrolada ao redor de suas patas e seus
olhos fechados.
Ela está dormindo? Ele questionou-se, conforme se aproximou.
Mas à medida que ele chegou perto da gata, a Narradora abriu seus olhos. “Asa
Cinzenta—há algo errado?” ela miou.
“É Pássaro Esvoaçante,” Asa Cinzenta explicou, seu coração batendo cada
vez mais rápido. “Ela não está acordando.”
A Narradora se levantou rapidamente. Virando-se para um buraco na parede, ela
tirou algumas poucas folhas murchas. Asa Cinzenta conseguiu enxergar um
pouco de sua minúscula reserva, e sabia que não haveria mais ervas medicinais
antes que a neve derretesse e o calor fizesse novas plantas crescerem.
Ele seguiu a Narradora até o local onde Pássaro Esvoaçante estava deitada.
Chuva Silenciosa estava sentada ao lado dela, flexionando suas garras
impacientemente. Olhando em seus olhos, Asa Cinzenta viu o quão desesperada
ela estava, extremamente aflita pela sua filha.
A Narradora se curvou sobre a pequena filhote e encostou uma pata no peito da
mesma, para sentir sua respiração e seus batimentos cardíacos. Mastigando uma
das folhas, a Narradora abriu a boca da pequena e colocou a polpa em sua
língua. “Vamos, pequenina,” ela murmurou. “Engula isto. Fará você se sentir
melhor.” Mas Pássaro Esvoaçante não respondeu. Ela nem mesmo abriu seus
pequenos olhos.
Olhando para Chuva Silenciosa, a Narradora sussurrou, “Ela está longe, muito
longe de nós. A fome dentro dela é grande demais. Você precisa se preparar,
Chuva Silenciosa.”
A mãe de Asa Cinzenta agachou-se, suas garras raspando no chão de pedra da
caverna. “Isto tudo é minha culpa,” ela miou. “Eu deveria ter dado toda a minha
comida para ela. O que eu estava pensando, tendo filhotes na estação mais
fria?”
Com seu coração se apertando com o pesar, Asa Cinzenta andou até Chuva
Silenciosa e apertou-se contra ela. “Não é sua culpa,” ele miou. “Eu deveria—”
A Narradora interrompeu Chuva Silenciosa, levantando sua pata. “Silêncio,
Chuva Silenciosa. Pássaro Esvoaçante pode ainda ser capaz de lhe ouvir. Não
deixe-a ir para a escuridão sabendo que você está assustada e irritada.”
Asa Cinzenta pôde ver o grande esforço feito por sua mãe para acalmar-se. Ela
entrou na toca e enrolou-se ao redor de Pássaro Esvoaçante, dando-lhe lambidas
reconfortantes, “Eu estou tão orgulhosa de você, minha única filha,” ela
cochichou. “Você significa tanto para todos nós. Nunca esqueceremos de você.”
Miséria tomou conta de Asa Cinzenta quando ele observou. O flanco de sua
irmã levantou-se uma única vez, ficando imóvel logo em seguida. “Adeus,
Pássaro Esvoaçante,” ele falou, em voz baixa.
A Narradora balançou a cabeça, na direção de Chuva Silenciosa e andou em
direção à sua toca.
Asa Cinzenta virou-se para sua mãe. “Você quer ajuda para levar Pássaro
Esvoaçante para for a da caverna e enterrá-la?” ele perguntou.
Chuva Silenciosa se aconchegou mais, ao redor de sua filha. “Não enquanto o
pelo dela ainda está quente,” ela respondeu-lhe. “Por favor, busque Pico
Denteado para mim.”
Asa Cinzenta olhou ao seu redor e viu Pico Denteado no outro lado da caverna,
brincando com alguns dos outros filhotes. Ele correu naquela direção e acenou
para o seu irmão com uma chicoteada de sua cauda.
“O que foi?” Pico Dentado perguntou, olhando de onde ele brincava de lutar
com uma gatinha listrada.
“Nossa mãe quer ver você,” Asa Cinzenta respondeu.
Pico Denteado mexeu suas patas e trotou pela caverna, chegando às tocas de
descanso. Chuva Silenciosa falou silenciosamente com Pico Denteado; ele
encarou-a, e depois, abriu sua boca em um gritinho agudo.
Chuva Silenciosa esticou sua cauda, levando Pico Denteado para mais perto
dela. Dor apunhalou Asa Cinzenta como uma rocha gélida, afiada, conforme
ele observou-a segurando os seus dois filhotes, um morto e um vivo, seu nariz
enterrado no pelo deles.
Ele imaginou se ela libertaria Pico Denteado de seu abraço, algum dia.
Asa Cinzenta virou-se para olhar a entrada da caverna quando ouviu algumas
vozes, e viu Musgo Sombreado retornando com Céu Claro e os outros que
haviam saído procurar por uma rota para saírem da montanha.
“Foi ótimo!” Céu Claro sacudiu-se, espalhando neve pelo chão. “Nós achamos
a trilha que deveremos tomar.”
“Ela passa pelo lado do vale,” Musgo Sombreado miou, soando cauteloso. “Ele
leva à uma brecha que deve nos levar através das montanhas. Há um riacho
congelado em uma parte da trilha, o qual teremos que atravessar, e precisaremos
ter muito cuidado.”
“Ainda assim, é a rota mais rápida!” Cauda de Tartaruga interrompeu,
agitando sua cauda animadamente.
“Parece que sim,” Musgo Sombreado concordou, “e se tivermos sorte,
conseguiremos evitar os desvios mais abaixo.”
Enquanto os outros gatos se juntaram ao redor de Musgo Sombreado, para
perguntar-lhe sobre a trilha, Asa Cinzenta se aproximou de Céu Claro, tocando
sua cauda no ombro dele. Céu Claro olhou ao seu redor, e percebeu Chuva
Silenciosa em sua toca, deitada ao redor dos dois filhotes. Ele arregalou os
olhos, em seguida.
“O que houve?” ele perguntou.
“Pássaro Esvoaçante está morta,” Asa Cinzenta lhe contou.
Céu Claro parou por um batimento cardíaco, inspirando asperamente e com
dificuldade, então atravessou a caverna, indo em direção à sua mãe. Asa
Cinzenta seguiu-o, lentamente.
“Eu sinto muito!” Céu Claro exclamou, abaixando sua cabeça para tocar a
orelha de sua irmã com seu nariz.
“Pássaro Esvoaçante, nós sentiremos tanto a sua falta!” Levantando-se, ele
olhou para sua mãe e adicionou, “Isso nunca acontecerá quando chegarmos em
nosso novo lar. Se você se juntar à mim, eu lhe protegerei e caçarei para você
pelo resto de minha vida. Por favor, venha.”
Chuva Silenciosa balançou a cabeça. “ Eu nunca deixarei minha filha aqui
sozinha.”
Levantando-se da toca, ela deixou que Asa Cinzenta e Céu Claro pegassem o
pequeno e mole corpo de Pássaro Esvoaçante, levando-o para for a da caverna.
Os outros gatos andaram para trás, formando uma linha, em respeito à pequena,
nos dois lados da caverna, à medida que os dois irmãos levavam o corpo da
filhote pelo caminho que os levaria por trás da cachoeira.
Chuva Silenciosa e Pico Denteado os seguiram pelo caminho estreito conforme
eles carregavam o corpo de Pássaro Esvoaçante. Partículas de água caíram no
pelo dela. Asa Cinzenta estremeceu ao perceber que ela nunca seria capaz de
lambê-los.
Escalando as rochas geladas cautelosamente, eles caminharam até o planalto
sobre a caverna e deitaram o corpo de Pássaro Esvoaçante ao lado do rio. Asa
Cinzenta e Céu Claro arranharam o solo, afastando pequenas pedras e pedaços
do solo árido e gelado, e Chuva Silenciosa deitou a pequena filhote dentro do
buraco feito por eles. Ela encostou o nariz no pelo de sua filha por uma última
vez e, em seguida, se afastou, enquanto os filhos cobriam o buraco com terra e
pedras maiores. Por um momento, os quatro gatos observaram o túmulo, suas
cabeças abaixadas.
Pico Denteado foi o primeiro a se mover, virando-se para observar, admirado, o
panorama de montanhas que se estendiam por todos os lados. Seus olhos
estavam arregalados e seu pelo, surrado pelo vento; ele pareceu ainda menor em
contraste com as rochas.
“Você já percorreu todos esses morros?” ele perguntou em uma voz abafada.
“Não todos eles.” Céu Claro se moveu, ficando ao lado dele, apontando um
ponto com sua cauda. “Há uma brecha na parede de montanhas, a qual
estaremos visando quando sairmos.”
Os olhos de Pico Denteado se abriram ainda mais. “Eu queria ir também,”
ele miou.
“Não fale bobagens, pequenino.” Chuva Silenciosa sentou-se e deitou sua
cauda ao redor das costas do filhote.
“Você já esteve aqui for a por tempo o suficiente. Vamos voltar para a caverna.”
“Mas eu não quero voltar lá para dentro!” Pico Denteado protestou. “Há
tanto para ver.”
Céu Claro lhe deu um empurrão amigável. “Você poderá ver tudo outro dia. As
montanhas não se movem. Agora, nos mostre o quão bem você consegue descer
as rochas.” Ainda resmungando, Pico Denteado seguiu seu irmão.
Asa Cinzenta ficou de pé na borda do penhasco por um momento, observando o
vento gelado das montanhas. Raiva foi inundando-o por dentro, como uma
Nuvem de tempestade. Como poderia um lugar tão lindo ser tão cruel? Mas a
ponta mais afiada de sua raiva estava direcionada à ele mesmo.
Eu deveria ter caçado mais presas. Eu não deveria ter deixado Pássaro
Esvoaçante passar fome.
Ele percebeu que Chuva Silenciosa havia sentado ao seu lado. “Esse é um lugar
cruel,” ela suspirou, um eco dos pensamentos do gato, “mas é minha casa, para
o bem ou para o mal.”
“Eu não deixarei isso acontecer de novo,” Asa Cinzenta miou, sua voz
endurecida pela angústia e ira. “Devem haver métodos melhores para caçarmos.
Nós—”
“Você precisa ir embora,” Chuva Silenciosa interrompeu. “Pico Denteado é
pequeno demais para tal jornada, mas você precisa ir com Céu Claro, achar um
lugar melhor para se viver. Eu não quero ser obrigada a ver seus filhotes
morrerem também.” Asa Cinzenta a encarou, espantado. “Mas eu achei que
você queria que eu ficasse!” ele exclamou.
Chuva Silenciosa encarou-o de volta, seu olhar cheio de tristeza. “Eu o amo
demais para isso,” ela miou. “Por mim, vá.”