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Alfabetização

Científica e
Questionamento na
Escola
0Por Osvaldo on 15 de abril de 2014
Começo este post com a hipótese de que
uma forma de atingir a alfabetização
científica é através do questionamento, do
exercício da dúvida na escola.
Para atingir este fim é preciso que a
proposta pedagógica da escola aponte
nesta direção, é preciso uma postura ativa
dos/das estudantes, mas essencialmente é
preciso uma postura reflexiva e dialógica
dos educadores e das educadoras. Sua
função, nesta perspectiva, deixa de ser a
de transmissor/a de conhecimento e passa
a ser de mediador/a, sustentador/a das
inquietações dos/das estudantes.
É natural uma certa vontade de dar a
resposta pronta quando se sabe. Além
disso existe uma certa dificuldade em
dizer que não se sabe, que é preciso
pesquisar junto.

Sobre isso, Paulo Freire (1985) nos diz


que,

antes de qualquer tentativa de discussão


técnica, de materiais, de métodos para
uma aula dinâmica assim, é preciso,
indispensável mesmo, que o professor se
ache “repousado” no saber de que a pedra
fundamental é a curiosidade do ser
humano. É ela que me faz perguntar,
conhecer, atuar, mais perguntar,
reconhecer.

Precisamos de no mínimo um parágrafo


para apontar o problema da expressão
“alfabetização científica” como
caracterizando apenas as ciências
naturais. As ciências humanas também
são ciências e no âmbito das escolas
democráticas, libertárias, de resistência,
onde as disciplinas perdem força para um
currículo de arquitetura aberta, mais
integrado, é importante ressaltar este
problema. De fato, a proposta de
alfabetização científica por meio da
pergunta e do questionamento, que
estamos defendendo aqui, passa por
características próprias das ciências
humanas, como o entendimento do
contexto social da pergunta, a posição de
quem faz a pergunta e sua influência na
resposta, a questão da pergunta aberta que
aponta para varias respostas e não limita,
etc. Continuaremos utilizando a expressão
“alfabetização científica” pensando
principalmente nas ciências naturais, já
que é oriunda desta área, mas deixemos
claro as outras possibilidades que o termo
pode sugerir.

Antes então, de nos questionar sobre como


a alfabetização científica se dá, ou deveria
se dar, temos que falar um pouco do
porquê ela deva existir. Qual é, para nós, a
importância da alfabetização científica?

A área de ciências naturais é, como todas


as demais áreas do conhecimento na
escola, uma construção humana e sendo
entendida desta maneira é possível
perceber suas idas e vindas na história,
seus erros e acertos, suas tentativas de
solução e destruição da vida humana e
seduções ao capitalismo, gerando maiores
lucros, etc.

A alfabetização científica é importante na


medida em que – juntamente a outros
conhecimentos importantes – empodera o
ser humano para viver e atuar no mundo.
Serve então para entender o
funcionamento do mundo e das coisas do
mundo e, detentor deste conhecimento,
atuar de maneira crítica. Por isso a
alfabetização científica deve ser
acompanhada de uma formação humana
crítica, no mundo.
O que a alfabetização científica pode trazer
para o ser humano e sua vida?

O ser humano pode passar a se reconhecer


mais neste sistema, se reconhecer como
parte integrante e importante dele.

Pode deixar de ser apenas um usuário


passivo das tecnologias criadas e passa a
questioná-las. Pode também descobrir o
custo, impactos ambientais, formas de
produção e relacionar tudo isso para
escolher melhor ou até decidir não
escolher.

Pode passar a se questionar mais sobre


eficácia milagrosa de produtos e serviços
(o famoso “cientificamente testado e
aprovado” das propagandas) e conseguir
descobrir pela pesquisa e fontes confiáveis
a verdadeira eficácia destes itens.

Passa a entender os mitos e mitologias


como devem ser, criações humanas para
diversão ou conforto existencial, podendo
assim se afastar das ilusões de benefícios
em outras vidas, para imaginar o que pode
fazer de verdadeiro nesta vida.

Pode se tornar, por consequência, crítico


do sistema do capital que hoje usa as
tecnologias e os mitos citados como
algumas das suas principais formas de
exploração e lucro.

Em sua dissertação de mestrado Vitor


Fabrício Machado de Souza (2012) escreve
alguns capítulos sobre o significado da
pergunta e seu uso no ensino de ciências.
Em apoio a importância que estamos
dando para o papel da pergunta na
alfabetização científica, ele nos diz:
o ensino de ciências deve servir como
meio de investigação, possibilitando
habilidades do pensar científico que
promovam a criticidade indócil como
forma de pensar um problema, de
elaborar hipóteses e justificativas, de usar
a argumentação como capacidade de
expressão de opinião e convencimento
(Ibdem).

O exercício da dúvida e do
questionamento na escola podem ser os
motores da alfabetização científica crítica
neste espaço. Isso fará mais sentido nas
propostas pedagógicas que estiverem mais
abertas para esta possibilidade, a
possibilidade de questionar e não
necessariamente obter respostas.

Um efeito colateral que aparece deste


exercício é o desenvolvimento da
capacidade argumentativa dos/das
estudantes. Quando estes e estas se propõe
a questionar, precisam desenvolver
hipóteses, organizar dados, justificar o
questionamento e argumentar em favor de
possíveis respostas.

Diversos estudos apontam o


desenvolvimento da habilidade
argumentativa como indicador e promotor
de alfabetização científica, por exemplo,
Lucia Helena Sasseron, hoje professora da
Universidade de São Paulo em sua tese de
doutoramento apresentada à Faculdade de
Educação da USP, trabalha com a ideia de
alfabetização científica na sala de aula e
propõe diversos indicadores. Neste
sentido coloca a argumentação como
indicador e a define como todo e qualquer
discurso onde educador/a e estudante
apresentam suas opiniões em aula
descrevendo ideias apresentando
hipóteses e evidências, justificando ações e
conclusões a que tenham chegado e
explicando resultados.

Desta forma, os/as estudantes praticando


o exercício da dúvida e do questionamento
na escola podem desenvolver habilidades
argumentativas importantes para a vida
na escola e depois dela.

Aqui na Politeia como já trabalhamos com


espaços de argumentação dos/das
estudantes, este processo é retro-
alimentativo. Espaços como assembleias,
fóruns, comissões, etc., são propícios para
o desenvolvimento da argumentação na
escola o que contribui para a construção
da argumentação apresentada
anteriormente.

Retornando para a dúvida e finalizando, o


exercício da dúvida e do questionamento é
instrumental no sentido de promover a
alfabetização científica e desenvolver a
capacidade argumentativa, mas mais
importante que isto, é sua capacidade de
situar o sujeito no mundo como ser ativo e
consciente de seu papel.

Sobre este papel mais filosófico da dúvida


Moacir Gadotti em seu livro Educação e
Poder: introdução a pedagogia do conflito
(1989) nos coloca diante do Manifesto
Filosófico (Manifeste Philosophique, vers
une Philosophie de l´Éducation) escrito
por ele e Claude Pantillon em 1976 em
Genebra. E nele, uma longa discussão
sobre o ato de duvidar e sobre o que
chamaram de dúvida filosófica.
A dúvida filosófica se opõe radicalmente
ao princípio da submissão passiva, de
demissão ou de alienação, gerado pelas
ideologias e dogmas que nos formam.

É a este princípio que a dúvida filosófica


toma posição diretamente, a que se opõe
radicalmente, ao qual decide derrotar. A
dúvida é pois um ato de liberdade e de
responsabilidade pelo qual um homem
empunha, retoma a situação na qual vive,
colocando-se como sujeitodela. Um ato,
não uma ação entre outras; uma maneira
de se reerguer, de levantar a cabeça e
fazer frente, caminhar e avançar. Se a
dúvida significa agir como sujeito,
podemos dizer como Descartes
que duvidar é existir. E pouco importa
que, contrariamente àquilo que desejava
Descartes, não nos seja mais permitido
sonhar com um refúgio tranquilo, nem
esperar alcançar alguma verdade em si,
definitiva e absoluta; pouco importa se
toda a verdade fica doravante provisória,
relativa, contestável, dimensionada pela
nossa fragilidade e historicidade, se
questões se sucedem às questões, as
situações às situações, se ficamos
sempre sendo. Nossa tarefa, nossa
dignidade, nossa liberdade surgem
quando, rompendo com o papel de
expectador submisso, resignado, quando,
abandonando o estatuto de objeto
modelado pelos conformismos do
momento, tomamos a decisão sempre
inconfortável de fazer face e de nos
situar (Ibdem).
Neste sentido, pensamos que os
estudantes e as estudantes que não têm
oportunidade de questionar, de duvidar,
estão imersos num processo de alienação
do sujeito. O ser humano é mais que um
ponto material inerte no planeta, é
também um marco histórico e político.
Desta forma, estes seres humanos que não
questionam não existem. Não existem
como posição política no mundo.
Referências
FREIRE, P. Por uma Pedagogia da
Pergunta.

http://escolapoliteia.com.br/2014/alfabetizacao-cientifica-e-questionamento-na-escola/