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MINISTÉRIO GOEL

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Pr. A. Carlos G. Bentes
DOUTOR EM TEOLOGIA
PhD em Teologia Sistemática

HOMILÉTICA
“A SUA UNÇÃO VOS ENSINA A RESPEITO DE TODAS AS COISAS” 1 Jo 2.27

“A sabedoria é a coisa principal; adquire pois, a sabedoria; sim com tudo o que possuis adquire o
conhecimento” (Pv 4.7)
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 2
Copyright © 2007 Antônio Carlos Gonçalves Bentes

Capa:
Carlos Bentes

Revisão e diagramação:
Carlos Bentes

1ª edição:
2007

O AUTOR

Bentes, Antônio Carlos Gonçalves


Homilética – Belo Horizonte: edição do autor, 2007.

ISBN
CDD
CDU
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 3
EPÍGRAFE

“O sermão é uma bandagem que trata as feridas da alma”.

Ambrósio

“Ganhar almas é a principal ocupação do ministro cristão. Na verdade, deveria ser a


principal atividade de todo crente verdadeiro”.
“Eu desejaria antes levar um só pecador a Jesus Cristo do que desvendar todos os
mistérios de Deus, pois a salvação é aquilo pelo que devemos viver”.

Charles H. Spurgeon
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 4
ÍNDICE
INTRODUÇÃO: A NOBREZA DA PREGAÇÃO 5

O PROPÓSITO DE DEUS PARA A PREGAÇÃO 8

A CONTEMPORANEIDADE DA PREGAÇÃO 8

HOMILÉTICA 20

RETÓRICA 24

DISTINÇÕES CLÁSSICAS 24

ORATÓRIA 29

A RELAÇÃO ENTRE A HOMILÉTICA E OUTRAS DISCIPLINAS 31

O CONTEÚDO DA HOMILÉTICA 36

A NATUREZA DA HOMILÉTICA 37

CLASSIFICAÇÃO DO SERMÃO 40

A ESTRUTURA HOMILÉTICA 41

DIVISÃO DO SERMÃO 42

GRANDES PREGADORES 60

EVANGELHO, EVANGELIZAÇÃO, EVANGELISMO 66

MÉTODOS, ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS 76

O EVANGELISMO E O PROCESSO DA COMUNICAÇÃO 79

O ESPÍRITO SANTO E O EVANGELISMO 92

BIBLIOGRAFIA 97
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 5
1
INTRODUÇÃO: A NOBREZA DA PREGAÇÃO
O pregador inglês Lan Tait zomba de quem estuda a Bíblia somente para adquirir
mais informações, crendo que sua mente esteja se desenvolvendo quando, de fato, apenas
seus ouvidos estão inchando. Conhecer simplesmente por amor ao conhecimento
“ensoberbece” (l Co 8.1). As riquezas da Palavra de Deus não são tesouros privativos de
ninguém, e quando compartilhamos esses valores estamos participando de seus mais
elevados propósitos. Esta é a razão pela qual Robert G. Rayburn ensinou por mais de um
quarto de século, aos estudantes seminaristas: “Cristo é o Único Rei dos seus estudos, mas
a rainha é a homilética”.2 Quer sejam seus estudos num seminário, num instituto bíblico
ou num programa de leitura particular, serão melhor recompensados quando você
visualiza a maneira como cada elemento o prepara para pregar com precisão e autoridade.
Cada disciplina bíblica atinge o propósito mais elevado, quando a usamos não
simplesmente para dilatar nossa mente, mas para propagar o evangelho.
Elevar a pregação a um pedestal tão sublime pode intimidar até mesmo o mais leal
estudante da Escritura. Provavelmente, nenhum pregador cuidadoso tenha incorrido em
erro ao questionar se a tarefa é maior do que o servo. Quando encaramos pessoas reais
dotadas de uma alma eterna, equilibrando-se entre o céu e o inferno, a nobreza da
pregação nos amedronta mesmo quando revela nossa insuficiência.
Sabemos serem insuficientes nossas habilidades para uma tarefa de tão amplas
conseqüências. Reconhecemos que nosso coração não é puro o bastante para guiar outros à
santidade. Uma honesta avaliação de nossa perícia inevitavelmente nos leva à conclusão
de que não temos eloqüência ou sabedoria capazes de levar as pessoas da morte para a
vida. Esta pode ser a causa de jovens pregadores fugirem de sua primeira pregação,
imposta como tarefa que precisa ser cumprida, e ainda de experimentados pastores
sentirem-se desalentados quando no púlpito.

O PODER NA PALAVRA

Em face das dúvidas relativas à eficiência pessoal numa época que questiona a
validade da pregação precisamos de uma lembrança do desígnio de Deus para a
transformação espiritual do ser humano. No final das contas, a pregação cumpre seus
objetivos espirituais não por causa das habilidades do pregador, mas por causa do poder da
Escritura proclamada. Os pregadores exercerão seu ministério com grande zelo, confiança
e liberdade quando compreenderem que Deus retirou de suas costas as artimanhas da
manipulação espiritual. Deus não está confiando em nossa destreza para a realização dos
seus propósitos. Por certo, Deus pode usar a eloqüência e deseja esforços adequados à
importância do assunto em questão, porém sua própria Palavra cumpre o programa de
salvação e santificação. Os esforços pessoais dos maiores pregadores são ainda
1
CHAPELL, Bryan. Pregação Cristocêntrica.1ª ed. São Paulo. Editora Cultura Cristã, 2002, p.26-28.
2
Robert G. Raybyurn foi presidente fundador do Covenant Theological Seminary, e seu primeiro professor de homilética de
1956-1984. Citações de suas notas de classe, não publicadas.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 6
demasiados fracos e manchados pelo pecado para serem responsáveis pelo destino eterno
das pessoas. Por essa razão Deus infunde sua Palavra com poder espiritual. A eficácia da
mensagem, mais que qualquer virtude do mensageiro, transforma corações.

O PODER DE DEUS INERENTE À PALAVRA

Não podemos saber precisamente como a verdade de Deus transforma vidas, mas
devemos discernir a dinâmica que nos dá esperança em nossa própria pregação. A Bíblia
torna isto claro - que a Palavra não é somente poderosa, ela é inigualável. A palavra de
Deus:
Cria: “Disse Deus: Haja luz; e houve luz” (Gn 1.3). “Pois ele falou, e tudo se fez;
ele ordenou e tudo passou a existir” (Sl 33.9).
Controla: “Ele envia as suas ordens à terra, e sua palavra corre velozmente; dá neve
como lã e espalha a geada como cinza. Ele arroja o seu gelo em migalhas ... Manda a sua
palavra e o derrete (Sl 147.15-18).

Persuade: “mas aquele em quem está a minha palavra fale a minha palavra com
verdade ... diz o Senhor. Não é a minha palavra fogo, diz o Senhor, e martelo que esmiúça
a penha?” (Jr 23.28,29).

Cumpre seus propósitos: “Porque, assim como descem a chuva e a neve dos céus e
para lá não tornam, sem que reguem a terra... assim será a palavra que sair da minha boca;
não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a
designei” (Is 55.10,11).

Anula os motivos humanos: Na prisão, o apóstolo Paulo se regozijava, porque


quando outros pregavam a Palavra, “quer por pretexto, quer por verdade”, a obra de Deus
seguia adiante (Fp 1.18).
A descrição da Escritura acerca da sua potência desafia-nos a lembrar sempre que a
Palavra pregada, antes mesmo da pregação, cumpre os propósitos do céu. Pregação que é
fiel à Escritura converte, convence e amolda o espírito de homens e mulheres, pois ela
apresenta o instrumento da compulsão divina, e não que pregadores tenham em si mesmos
qualquer poder transformador.

O PODER DA PALAVRA MANIFESTADO EM CRISTO

Deus manifesta plenamente o poder dinâmico da Palavra do Novo Testamento ao


identificar seu Filho como o divino Logos, ou Palavra (Jo 1.1). Por meio da identificação
do seu Filho como sua Palavra, Deus revela que a mensagem do Filho e a Pessoa do Filho
são inseparáveis. A palavra o incorpora. Isso não quer dizer que as letras e o papel da
Bíblia são divinos, mas que as verdades que a Escritura sustenta são veículos de Deus,
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 7
de sua própria atividade espiritual.
A Palavra de Deus é poderosa porque ele está presente nela e opera por
meio dela. Por meio de Jesus “todas as coisas foram feitas” (Jo 1.3) e ele
continua “sustentando toda as coisas pela palavra do seu poder” (Hb 1.3). A
Palavra emprega sua palavra para levar a cabo todos os seus desígnios.
O poder redentor de Cristo e o poder da sua Palavra unem-se ao Novo
Testamento com Logos (a encarnação de Deus) e logos (a mensagem acerca de
Deus), tornando-se termos tão reflexivos como que para formar uma identidade
conceptual. Da mesma forma como a obra da criação procede da Palavra que Deus
articula, assim também a obra da nova criação (i.é, redenção) nos vem pela Palavra viva
de Deus. Tiago afirma: “ele [i.é, o Pai] nos gerou pela palavra da verdade ...” (Tg 1.18). A
expressão palavra da verdade se aplica como um trocadilho que reflete a mensagem sobre
a salvação e o único que opera o novo nascimento. O mesmo jogo de palavras é
empregado por Pedro: “pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de
incorruptível, mediante a palavra de Deus” (1 Pe 1.23). Nessas passagens, a mensagem
acerca de Jesus e o próprio Cristo se harmonizam. Ambos são a “viva e eterna Palavra de
Deus”, pela qual nascemos de novo.
Assim, não é algo meramente prosaico insistir que o pregador deve servir ao texto,
pois se a Palavra é a presença mediadora de Cristo, o serviço é devido. Paulo instrui
corretamente o jovem pastor Timóteo a ser um obreiro “que maneja bem a palavra da
verdade” (2 Tm 2.15), pois a Palavra de Deus é “viva e eficaz” (Hb 4.12a). A verdade da
Escritura não é objeto passivo para nossa investigação e apresentação. A Palavra nos
examina. “[Ela] é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hb 4.12c).
Cristo permanece ativo em sua Palavra, levando a efeito tarefas divinas que o apresentador
da Palavra não tem o direito ou a capacidade pessoal de assumir.
Essas perspectivas sobre a Palavra de Deus culminam no ministério do apóstolo
Paulo. O estudioso missionário que não se tornou conhecido pela habilidade no púlpito, no
entanto, escreveu: “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para
a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16). Como estudantes do grego elementar logo
aprendem, a palavra “poder” nesse versículo dunamis, da qual nos vem o termo dinamite
em português. A força do evangelho transcende o poder do pregador. Paulo, em suas
habilidosas comunicações, prega sem envergonhar-se, pois a Palavra que ele anuncia
quebra a dureza do coração humano de tal forma que nenhum progresso técnico pode
competir com ela.
De certo modo, o processo como um todo parece ridículo. Pensar que o destino
eterno sofrerá mudança só por que anunciamos conceitos de um texto antigo, desafia o
bom senso. Quando Paulo elogia a loucura da pregação – não pregação louca - ele
reconhece a aparente insensatez de tentar transformar atitudes, estilos de vida,
perspectivas filosóficas e compromissos de fé, com meras palavras (1 Co 1.21). No
entanto, a pregação persiste e o evangelho se expande porque Deus confere aos débeis
esforços humanos a força de sua própria Palavra.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 8

O PROPÓSITO DE DEUS PARA A PREGAÇÃO 3

“A pregação não discurso nem aula de retórica. Seu propósito tem de estar na
transformação de vidas. Se a mensagem não provoca mudança na vida das pessoas, não é
pregação! Ela não deve focar os planos do ser humano, e sim os propósitos de Deus,
porque estes é que prevalecerão. São eternos”.
“O propósito da pregação e da Bíblia consiste em buscar um fim corporativo para a
explanação e o ensino” (1 Tm 1.5,6; Cl 1.28).4
“O maior desafio da pregação é: Declarar verdades eternas que nunca mudam e
aplicá-las num mundo em constante mudança”.5

A CONTEMPORANEIDADE DA PREGAÇÃO

1.1. A Contemporaneidade na Pregação Apostólica

Quando pensamos em pregação apostólica, tendo por fonte de pesquisa o Novo


Testamento, ficamos restritos a dois expoentes na pregação da Igreja Primitiva: Pedro e
Paulo. O primeiro muito mais pelo sermão pregado no Pentecostes (Atos capítulo 2) e o
sermão incompleto pregado na casa de Cornélio (Atos capítulo 10). Com relação a Paulo,
temos os sermões transcritos em Atos, o primeiro na sinagoga de Antioquia da Psídia
(capítulo 13), o segundo no Areópago, em Atenas (capítulo 17), o terceiro em Mileto, aos
anciãos da Igreja em Éfeso (capítulo 20), o quarto ao povo judeu irado, em Jerusalém, o
que na verdade não pode ser considerado um sermão, mas um testemunho pessoal
(capítulo 22) e o derradeiro na presença do rei Agripa (capítulo 26). Além disso, as treze
epístolas atribuídas à autoria paulina igualmente podem nos auxiliar neste intento.

Quanto à pregação de Pedro, pouco podemos analisar face a falta de esboços.


Entretanto, podemos assegurar que atingiu em cheio o objetivo da pregação pela resposta
dada pela população, conforme nos assevera a Bíblia, quando quase três mil almas se
converteram seguida pela mesma resposta na casa do oficial romano.

Sabemos ser improvável que Lucas tenha registrado as palavras exatas de Pedro,
mas, certamente, registrou a essência do sermão pregado pelo apóstolo. Tal sermão visou
provar tanto pela profecia de Joel como pelo salmo de Davi que Jesus era verdadeiramente
o Messias, e que este ressuscitara dentre os mortos. Tão bem sucedido foi o pregador que
os ouvintes o inquiriram acerca de que atitude deveriam tomar.

3
PAES, Carlito. COMO PREPERAR MENSAGENS PARA TRANSFORMAS VIDAS. 1ª ed. São Paulo: Editora Vida, 2004,
p.21.
4
Ibid. PAES, Carlito. p. 22.
5
Ibid. PAES, Carlito. p. 23.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 9
Podemos afirmar que Pedro utilizou-se exatamente das ferramentas adequadas para
tratar com israelitas de diversas nacionalidades: ele os chama “israelitas” e não judeus,
justamente porque a segunda forma de tratamento pressupunha que habitavam em Judá;
além disso, utiliza argumentação puramente veterotestamentária para persuadi-los.

Outro fato a destacar é que o próprio Espírito Santo cooperou para que não houvesse
barreiras na comunicação da Verdade, pois Ele deu a cada israelita estrangeiro a
oportunidade de ouvir na sua própria língua o testemunho dos discípulos. No envio de
Pedro à casa de Cornélio, por obra do Espírito - que convenceu o apóstolo reticente e lhe
possibilitou compreender que o Evangelho era igualmente destinado aos gentios -
encontramos outro exemplo de que o próprio Espírito Santo ensina o caminho da
contextualização.

O material acerca da pregação do apóstolo Paulo é muito mais farto, justamente por
que o livro de Atos lhe dá especial destaque. Além disso, temos toda a sua produção
literária constituída por suas epístolas que muito nos podem auxiliar na averiguação do
estilo de pregação do apóstolo. C. H. Dodd ressalta a riqueza de informações que o Novo
Testamento nos apresenta acerca de Paulo e, com base nestas informações, enaltece a
inteligência e a versatilidade da pregação do apóstolo.

As cartas de Paulo são intensamente vivas - vivas como poucos documentos


chegados até nós de tão remota antiguidade. Elas nos dão não um mero esquema de
pensamento, mas um homem vivo. Era uma pessoa de extraordinária versatilidade e
variedade. (...) Era igualmente alguém capaz de aplicar a fria crítica da razão aos seus
próprios sonhos, e de julgar com sereno equilíbrio o valor verdadeiro dos fenômenos
anormais da religião. (...) O seu pensamento é forte e sublime, mais aventuroso que
sistemático. Possuía uma inteligência colhedora e uma faculdade de assimilar e usar as
idéias dos outros, o que é um grande atributo para quem tenha uma nova mensagem para
propagar; sabia pensar nos termos das outras pessoas.

É justamente esta habilidade última observada por Dodd, de que Paulo sabia pensar
nos termos das outras pessoas, que ressalta a contemporaneidade de sua pregação.

No congresso realizado na cidade suíça de Lausanne, em 1974, o missiólogo


Michael Green asseverou dentre várias características da evangelização por parte da Igreja
Apostólica, que esta era flexível em sua mensagem. Para ele aquela Igreja adaptava-se ao
público e às circunstâncias, de acordo com a necessidade do momento, com a cultura, o
lugar, o povo. Esta flexibilidade é característica na pregação do apóstolo Paulo.

Especificamente acerca da pregação do apóstolo Paulo, o Dr. Shepard enaltece sua


personalidade e a capacidade de adaptar-se às circunstâncias, classificando-o como “o
maior dos pregadores, exceto Cristo”.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 10
Foi uma personalidade altamente enriquecida, tanto dos dons hereditários como de
educação aprimorada. Nos seus discursos, às vezes, a veemência da natureza corre como o
rio, avolumado por chuvas torrenciais; às vezes aparece tão terna e mansa a sua palavra
como o amor de mãe. O seu fim no trabalho foi a edificação do caráter cristão. A sua
habilidade de adaptar-se às circunstâncias do seu ministério parecia infinita. Os seus
sermões eram a lógica personificada, uma correnteza de argumento e apelo que levava
tudo de vencida, na sua força irresistível. (...) Majestoso pelo seu intelecto estupendo,
versatilíssimo, poderoso no uso da palavra, incansável, infinito em adaptabilidade, esse
gênio natural, reforçado pelo preparo mais completo, entregue nas mãos de Deus,
representa nas cenas da história o papel de verdadeiro gigante espiritual proeminente na
lista dos heróis da fé...

Assim, não resta dúvidas de que um dos pontos altos da pregação de Paulo era sua
habilidade em contextualizar-se para alcançar a relevância junto a seus ouvintes. Podemos
ainda destacar com relação à pregação apostólica registrada no Novo Testamento, que era
essencialmente bíblica, referindo-se fartamente a textos do Antigo Testamento, que era
Cristocêntrica, pois a cruz de Cristo era o ponto central, além de flexível em sua forma.

Sendo bíblica e contextualizada, a pregação apostólica nos serve de modelo pois, é


justamente este binômio que entendemos ser fundamental à pregação eficiente.

A flexibilidade da mensagem se expressa muito bem também nos sermões pregados


por Pedro, Estevão, além dos pregados por Paulo em Atos e nas cartas endereçadas às
várias Igrejas. Aos judeus o tema da mensagem foi “Jesus o Messias e o Servo Sofredor”,
isto claramente posto na pregação de Pedro no Pentecostes e no discurso de Estevão. Aos
romanos a temática foi a “justificação e o senhorio de Cristo”, conforme bem podemos
perceber na epístola aos Romanos; e aos gregos o tema da pregação foi “a ressurreição dos
mortos “ e “O Logos de Deus”.

Isto também é observado por Orlando Costas, ao afirmar que todo pregador
necessita ter em conta a cultura de seus ouvintes se é que deseja comunicar-se
eficazmente. Ele nota nos pregadores bíblicos a capacidade de refletir profundamente
sobre a cultura de seu tempo e cita como exemplos os apóstolos Paulo e João:

Paulo se acerca dos filósofos estóicos em Atenas fazendo uso das próprias categorias
deles, lhes fala do deus desconhecido e capta sua atenção. Daí passa ao problema básico
dos gregos: a ressurreição dos mortos, e especificamente, a ressurreição de Cristo (Atos
17). João toma emprestado um termo da filosofia clássica grega (logos) para comunicar a
fé cristã, usando, pois, os símbolos característicos de sua cultura, e expõe ante seu mundo
a mensagem cristã. Desta forma, o Novo Testamento nos oferece elementos para dizermos
que a Igreja Primitiva cumpria seu papel de pregação da Palavra eficientemente, porque
era bíblica e, ao mesmo tempo, flexibilizava a mensagem, levando em conta a realidade
dos ouvintes.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 11
1.2. A Contemporaneidade na Pregação Pós-Apostólica

Segundo G. Burt, o período que seguiu o dos pais apostólicos foi assinalado por uma
decadência. Ele afirma que o material homilético dos três séculos seguintes ao apostólico,
é muito escasso. Mesmo assim cita algumas instruções de Clemente de Roma, Ignácio e
Dionísio, no primeiro século, Aniceto no segundo e Cipriano, no terceiro.

L. M. Perry e C. Sell referem-se a Clemente de Roma (30-100 AD) como um


pregador de objetivos éticos e que conseguia, através de suas mensagens, propiciar
“consolo para as pessoas que atravessavam tribulação”. Outro pregador deste período
destacado por estes autores é Tertuliano (150-220 AD). Este teria sido um pregador
exímio através de mensagens acerca da paciência e da penitência.

Um período de ascensão da oratória na Igreja iniciou-se no quarto século, quando a


partir de então floresceram Ambrósio, Basílio, Gregório, Crisóstomo e Agostinho, os mais
célebres pregadores da Igreja Antiga. Outros pegadores dos primeiros séculos, dignos de
serem citados, são Orígenes, Lactâncio, Jerônimo e Cirilo de Alexandria, dentre outros,
dos quais temos somente discursos e homilias. Destes pregadores, conforme Burt,
destacam-se Crisóstomo e Agostinho, que trouxeram relevante contribuição à literatura
Homilética.

A obra Peri Hierosynes, ou “De Sacerdócio”, de Crisóstomo, escrita no início de seu


ministério, expressa, ainda que indiretamente, alguns preceitos fundamentais para a
Homilética da época:

1. O clérigo - ou ministro - deve ser prudente e douto;


2. Deve possuir alocução fácil;
3. Deve conhecer as controvérsias entre gregos e judeus;
4. Deve ser hábil na dialética (como Paulo, não menor na arte de falar do que nos
escritos e ações);
5. Há necessidade de um longo e sério preparo para o ministério;
6. É indispensável o desdém pelos aplausos humanos;
7. Cada sermão deve ser um meio de glorificar a Deus.

Parece-nos que a capacidade de flexibilizar a mensagem a ponto de torná-la


adequada ao contexto dos ouvintes ainda que não esteja explicitamente anunciada acima,
pode ser compreendida nas entrelinhas destas afirmações. Entretanto, parece óbvio que a
maior preocupação era para com a oratória e a dialética. Ao referir-se a este mesmo
pregador o Dr. Shepard ressalta que ele foi proeminente entre os principais pregadores de
todos os tempos. Refere-se à sua instrução na ciência do direito, do seu intelecto
extraordinário e de seu desapontamento como mestre no discurso argumentativo e da
retórica. Ainda sobre Crisóstomo, Shepard destaca que “conhecia a natureza humana e nos
seus discursos jamais se esqueceu de que os seus argumentos eram para convencer o
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 12
povo”. Para este autor os sermões de Crisóstomo refletem de modo vivo as condições do
seu tempo. Outra característica deste célebre pregador era sua simplicidade, sua clara
preocupação em falar ao povo de sua época. Shepard enaltece a capacidade de Crisóstomo
de interpretar a Palavra e de aplicá-la às necessidades do povo de sua época.

Na verdade, João de Constantinopla (c. 347-407), que era natural de Antioquia da


Síria e filho de mãe cristã, foi bispo de Constantinopla. Quando ocupou este tão
importante cargo seu primeiro objetivo foi reformar a vida do clero. Justo Gonzales relata
que alguns sacerdotes que diziam ser celibatários tinham em suas casas mulheres que
chamavam de irmãs espirituais, e isto escandalizava a muitos. Além disso, outros clérigos
haviam se tornado ricos e viviam em grande luxo e o trabalho pastoral da Igreja era
negligenciado.

As finanças foram submetidas a um sistema de controle detalhado. Os objetos de


luxo que havia no palácio do bispo foram vendidos para dar de comer aos pobres. (...) É
desnecessário mencionar que isto tudo, apesar de lhe conquistar o respeito de muitos,
também lhe granjeou o ódio de outros.

O empenho do bispo de Constantinopla não limitou-se apenas ao clero. Seus


sermões exortavam os leigos a que levassem uma vida nos moldes dos princípios cristãos:

Este freio de ouro na boca do teu cavalo, este aro de ouro no braço do teu escravo,
estes adornos dourados em teus sapatos, são sinal de que estás roubando o órfão e matando
de fome a viúva. Depois de morreres, quem passar pela tua casa dirá: “Com quantas
lágrimas ele construiu este palácio? Quantos órfãos se viram nus, quantas viúvas
injuriadas, quantos operários receberam salários injustos?” Assim, nem mesmo a morte te
livrará dos teus acusadores.

Eis aí um exemplo de pregador contextualizado ao seu povo. Ele recebeu o título de


“Crisóstomo” (língua de ouro) cerca de 100 anos após a sua morte, face ao respeito que
conquistou com seus sermões, tratados e cartas publicados. A história nos conta que
Crisóstomo morreu no exílio, nas montanhas da Ásia Menor.

O outro grande pregador destacado neste período foi Agostinho de Hipona (354-
430).Tido por muitos como o maior teólogo da antiguidade, converteu-se em Milão em
meio a uma exortação ouvida por acaso num jardim, tirada de Romanos 13.13-14; foi
batizado por Ambrósio em 387.

Antes de sua conversão fora mestre de retórica; por isso em suas obras podem ser
encontradas muitas instruções quanto à oratória, especialmente na obra De Proferendo, um
dos quatro livros que constituem a sua Doctrina Christiana. Dela podemos retirar o
conceito de “ótimo pregador” de Agostinho: “É aquele de quem a congregação ouve a
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 13
Verdade, compreendendo o que ouve”. Para Agostinho a vitória do pregador consistia em
levar o ouvinte a agir. A pregação atraente devia ser temperada de sã doutrina e gravidade.

Agostinho foi ordenado bispo em Hipona, no norte da África, em 395. Dentre seus
escritos merece atenção especial as suas Confissões, uma autobiografia onde o conta a
Deus, em oração, suas lutas e peregrinação. É tida como uma obra única em seu gênero na
antiguidade. Outra obra a destacar é A Cidade de Deus, escrita sob a motivação da queda
da cidade de Roma, em 410, e tida como a maior de todas as suas obras literárias. Nesta,
Agostinho responde àqueles que afirmavam que Roma tivesse caído porque se tinha
entregue ao cristianismo e abandonado os velhos deuses que a tinham feito grande.

Dennis F.Kinlaw enaltece grandemente tanto a obra literária como a pregação de


Agostinho. Para ele o bispo de Hipona exemplifica o dever de todo pregador em ser um
intérprete de sua época. Este autor sugere a leitura do sermão pregado por Agostinho no
primeiro domingo após o recebimento da notícia de que Roma caíra nas mãos dos
invasores godos, liderados por Alarico, em 410, como um digno exemplo de sermão
contextualizado. Kinlaw define Agostinho como um homem de “visão clara de onde se
encontrava a humanidade na sua peregrinação para Deus”.

No intento de comprovarmos a preocupação com a mensagem contextualizada por


parte dos pregadores na história da pregação, reconhecemos que após o ápice alcançado
com Crisóstomo e Agostinho, houve pelo menos sete séculos de obscurantismo. O Dr.
Ruben Zorzoli, professor do Seminário Internacional de Buenos Aires, descreve este
período como tendo sido marcado “por completa escuridão e declínio”.

Segundo Zórzoli, alguns fatores que contribuíram para este declínio foram a
corrupção do clero, o crescimento das formas litúrgicas (que substituíram o lugar da
pregação), a elevação da função sacerdotal sobre a do pregador, as controvérsias
doutrinais, e o declínio no conteúdo da pregação pelo uso extremo da alegorização bíblica.

O Dr. G. Burt comenta que nesta época utilizava-se a postilla, uma brevíssima
paráfrase do texto bíblico, e que apenas alguns privilegiados tinham direito a assisti-la.
Estes privilegiados eram chamados akpoumenoi na Igreja grega e audientes na latina.

Nos séculos XII e XIII houve uma recuperação no prestígio da pregação. Zorzoli
ressalta como motivos desta mudança as reformas na vida do clero, instituídas pelo papa
Gregório VII; o avivamento intelectual resultante do escolasticismo e que elevou o
conteúdo da pregação; a propagação de seitas heréticas que faziam uso da pregação - o que
constrangeu a Igreja Católica a reagir; as cruzadas, que se utilizavam da pregação na
mobilização das massas populares, e o uso crescente do idioma popular na pregação.

O mesmo autor assevera que, apesar desta recuperação, este período da história da
pregação ainda foi marcado pelos erros, dentre os quais destaca o uso do material extra
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 14
bíblico como se fosse bíblico, a interpretação e aplicação equivocados, o uso extremo da
alegoria e a freqüente falta de texto bíblico nas mensagens.

Com o surgimento das ordens missionárias dos Franciscanos e Dominicanos, no


século XIII, a pregação ganha mais notoriedade.

A preocupação de falar ao povo, de contextualizar-se à realidade dos ouvintes,


parece existir numa obra de Guibert de Nogent, abade francês que morreu em 1124.
Dentre os seus preceitos homiléticos destacam-se os seguintes: o pregador deve exercitar o
seu talento o mais freqüentemente possível, nunca deve assumir o púlpito sem ter orado,
deve ser breve, dar preferência a assuntos práticos e não dogmáticos. Conclui que “poucas
coisas ouvidas e guardadas valem mais que muitas que passem pela cabeça do auditório,
sem penetrar nem a inteligência, nem a consciência”.

Perry e Sell destacam deste período alguns pregadores. Um deles é o alemão


Berthold von Regensburg (1220-1272) que, com seus sermões práticos “atacou os pecados
de todas as classes na época de um grande interregno na Alemanha”. Acrescentam ainda
que Regensburg buscava sempre atingir as necessidades do povo. Destacam também o
inglês John Wycliffe (1329-1384), igualmente realçado como um pregador “prático, que
se dedicou ao cuidado das almas”.

Já nos séculos XIV e XV houve um novo declínio na ênfase da pregação, quando


esta deixou de priorizar a população, dando lugar ao intelectualismo árido do
escolasticismo. Além disso, contribuíram para isto o período de estabilidade que passava a
Igreja Católica, sem as ameaças hereges. Um novo despertamento viria com o século XVI
e a Reforma.

1.3. A Contemporaneidade na Pregação dos Reformadores

A Reforma marca um avivamento na pregação. Como fatores mais importantes deste


avivamento Zórzoli destaca a nova ênfase na pregação como um elemento vital na vida e
na adoração, tendo a mensagem proferida por um pregador voltado ao lugar que a missa
havia ocupado. Além disso, o mesmo autor ainda acrescenta a influência da pregação na
luta contra os erros patrocinados pela Igreja Papal, a volta da utilização do texto bíblico na
pregação e o refinamento dos métodos homiléticos até então utilizados.

Os precursores anabatistas, além de Lutero, Calvino e Zwinglio, atestam o


restabelecimento da prioridade da pregação.

Neste período surgem obras no campo da Homilética que merecem destaque, como
a Ratio Brevissima Concionandi, de Felippe Melanchton (1517) e que em sua primeira
parte discorre sobre as várias partes do discurso (exórdio, narração, preposição,
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 15
6
argumentos, confirmação, ornamentos, amplificação, confutação , recapitulação e
peroração), em seguida enfoca a maneira de desenvolver temas simples, depois como
trabalhar com temas complexos, e assim por diante. Constitui-se numa das principais
obras do gênero, conforme Burt.

Outra obra Homilética citada pelo mesmo autor é o Ecclesiastes, Sive Concionator
Evangelicus, de Erasmo (c. de 1466-1536), que se dividiu em quatro livros: o primeiro
sobre a dignidade, piedade, pureza, prudência e outras virtudes que o pregador deve
cultivar; o segundo sobre estudos que o pregador deve fazer; os demais sobre figuras do
discurso e o caráter do sacerdócio.

Embora Martinho Lutero (1483-1546) não tenha escrito uma obra específica sobre a
arte de pregar, Burt destaca suas Palestras à Mesa, das quais resume os seguintes
preceitos homiléticos:

O bom pregador deve saber ensinar com clareza e ordem. Deve ter uma boa
inteligência, uma boa voz, uma boa memória. Deve saber quando terminar, deve estudar
muito para saber o que diz. Deve estar pronto a arriscar a vida, os bens e a glória, pela
Verdade. Não deve levar a mal o enfado e a crítica de quem quer que seja.

Ainda sobre ensinos de Lutero acerca da pregação, Burt destaca estas palavras do
reformador, voltadas especificamente aos jovens pregadores: Tende-vos em pé com garbo,
falai virilmente, sede expeditos. Quando fores pregar, voltai-vos para Deus e dizei-lhe:
“Senhor meu, quero pregar para tua honra, falar de ti, magnificar e glorificar o teu nome”.
E que o vosso sermão seja dirigido não aos ouvintes mais conspícuos, mas aos mais
simples e ignorantes. Ah! que cuidado tinha Jesus de ensinar com simplicidade. Das
videiras, dos rebanhos, das árvores, deduzia Ele as suas parábolas; tudo para que as
multidões compreendessem e retivessem a Verdade. Fiéis à vocação, nós receberemos o
nosso prêmio, senão nesta vida, na futura.

Podemos perceber nestes conselhos de Lutero a preocupação de tornar a mensagem


compreensível ao povo mais simples que compõe a Congregação. Esta é uma das
características principais dos reformadores deste período.

Com relação a João Calvino (1509-1564), que foi pastor da Église St. Pierre, em
Genebra, na Suíça, podemos destacar sua obra literária que foi amplamente distribuída e
lida em todas as partes da Europa e que influenciou grandemente o movimento
reformador.

6
Confutar. [Do lat. confutare.] Verbo transitivo direto. 1.Rebater, refutar. 2.Impugnar, contrariar; reprimir: "pregue
livremente a Fé de u'a só Divindade, confute a falsidade dos que ainda são chamados deuses imortais" (P.e Antônio Vieira,
Sermões, III, p. 196.) Verbo pronominal. 3.Dar provas contra si mesmo. [Pret. imperf. ind.: confutava, ... confutáveis,
confutavam. Cf. confutáveis, pl. de confutável.].
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 16
Como teólogo e pastor, Calvino deu prioridade ao ensino das Escrituras, tendo
escrito comentários sobre 23 livros do Antigo Testamento e sobre todos os livros do Novo
Testamento, menos Apocalipse. Suas Institutas, obra composta de 79 capítulos e
completada em 1559, é o principal de seus escritos.

Dentre outras coisas, Calvino é tido como um pregador preocupado com a


delimitação do verdadeiro papel da Igreja na sociedade, tendo sido precursor de um grande
impacto na sociedade de sua época. Ensinava que a Igreja precisava orar pelas autoridades
políticas.

Comentando 1 Timóteo 2.2, afirmou que precisamos não somente obedecer a lei e
os governantes, mas também em nossas orações suplicar pela salvação deles. Expressou
também grande preocupação com a injustiça social. Comentando Salmo 82.3, afirmou:
“um justo e bem equilibrado governo será distinguido por manter os direitos dos pobres e
dos aflitos”. Sua pregação levou a Igreja de Genebra a batalhar contra os juros elevados, a
lutar por oportunidades de empregos e tudo aquilo que era pertinente a uma sociedade
secular mais humana.

Dentre os grandes pregadores do século XVI podemos destacar ainda John Knox
(1514-1572), o reformador escocês. Uma de suas características marcantes foi sua visão
social bem esclarecida expressa na defesa da obrigação de cada cristão cuidar dos pobres e
no sistema elaborado por ele mediante o qual cada igreja sustentaria seus próprios
necessitados e administraria escolas de catequese para todas as crianças, ricas e pobres.

Para Zórzoli, no geral, os séculos XVII e XVIII foram de novo declínio, com uma
quase generalizada pobreza de púlpitos na Europa. Destaca pregadores como Baxter,
Bunyan e Taylor, na Inglaterra, e Bossuet e Fenelon, na França, como sendo exceções no
século XVII. Destaca como grandes pregadores e exceções do século XVIII, que considera
marcado pela mediocridade, John e Carl Wesley, juntamente com George Whitefield, na
Inglaterra, que produziram um avivamento centrado na pregação às multidões. Na
América do Norte destaca Jonathan Edwards. Todos estes foram pregadores que
conseguiram fazer a ponte da Palavra aos corações de multidões de pessoas.

Sobre Jonathan Edwards (1703-1758), cujo mais famoso sermão foi intitulado
“Pecadores nas Mãos de Um Deus Irado”, pregado na Igreja Congregacional em
Northampton, Massachusetts, em 1741, podemos destacar o seu sermão de despedida do
pastorado daquela igreja, depois de 23 anos de ministério ali.

Ao buscardes o futuro progresso desta sociedade é de maior importância que eviteis


a contenda. Um povo contencioso é um povo miserável. As contendas que têm surgido
entre nós desde que me tornei vosso pastor têm sido o fardo mais pesado que tenho
carregado no decurso do meu ministério - não somente contendas que tendes comigo, mas
aquelas que tendes tido uns com os outros por questões de terras e outros interesses. Eu já
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 17
sabia muito bem que a contenda, o espírito inflamado, a maledicência e coisas
semelhantes, eram frontalmente contrárias ao espírito do Cristianismo e têm concorrido,
de modo todo peculiar, para afastar o Espírito de Deus de um povo, a tornar sem efeito
todos os seus meios de graça, além de destruir o conforto e o bem estar temporal de cada
um. Permita-me que vos exorte com todo o vigor, que, daqui para a frente, todas as vezes
que vos empenhardes na busca do vosso bem futuro, que vigieis atentamente contra ume
espírito contencioso: “se quiserdes ver dias bons, buscai a paz e seguí-a”( 2 Pedro 3.10-
11).

Nota-se nesta transcrição da conclusão do sermão o cuidado de enfocar um assunto


vivenciado pela congregação. O pregador falou ao povo sobre uma deficiência do povo.
Esta contextualização da pregação determinou o sucesso e caracterizou os grandes
pregadores em todos os períodos da história da pregação.

1.4. A Contemporaneidade da Pregação dos Séculos XIX e XX

Há quem iguale o prestígio e eficiência da pregação do século XIX com o século


primeiro, com Pedro e Paulo, e com o século IV, com Crisóstomo e Agostinho.
Inegavelmente, este século foi marcado por grandes e renomados pregadores, como
Finney, Brooks, Broadus, Moody, Spurgeon, Hall e Mclaren, alistados como os príncipes
da pregação neste período.

Como grandes pregadores do século XIX Perry e Sell destacam, dentre outros, o
norte americano Henry Ward Beecher (1813-1887). Beecher notabilizou-se pela pregação
contra os vícios sociais de sua época, tendo sido líder do movimento anti escravista.
Segundo estes autores, este pregador costumava pregar diretamente a respeito das
necessidades pessoais de seus ouvintes.

Outro grande pregador deste período destacado por Perry e Sell é Phillips Brooks
(1835-1893). Referem-se a Brooks como tendo sido um pregador “extraordinariamente
sensível para com as necessidades humanas”. Contam que ele costumava investir suas
tardes em visitas ao seu povo, especialmente os pobres, doentes e atribulados.
Transcrevem um comentário feito por um admirador, de nome Bryce: “Brooks fala ao seu
auditório como um homem fala ao seu amigo”.

No intento de demonstrar a preocupação com a contemporaneidade por parte de


ilustres pregadores, citamos como exemplos dois dentre estes mais destacados, Finney e
Spurgeon.

Primeiramente citamos Charles G. Finney (1792-1875), que viveu uma intensa


experiência de conversão em Nova Iorque, em 1821, sendo introduzido à Igreja
Presbiteriana. Foi pastor presbiteriano e depois congregacionalista. Pregador
avivacionalista, chega a ser apontado como “o mais ungido evangelista de reavivamento
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 18
dos tempos modernos”. Estima-se que mais de 250 mil almas se converteram como
resultado de suas pregações.

Em sua obra Lectures on Revival (Preleções Sobre o Reavivamento), de 1835,


Finney demonstrou sua esperança de que o reavivamento varresse os Estados Unidos,
trazendo progresso e reformas sociais; democracia e abolição da escravidão, dentre outras
conseqüências. Finney não pregava simplesmente sobre a vida eterna em Jesus, mas que a
fé em Jesus seria o caminho para que a sociedade americana fosse redimida.

Outro ilustro pregador deste período foi o célebre Charles Haddon Spurgeon (1834-
1892), um pastor batista muito influente na Inglaterra. Em 1854 iniciou um ministério de
38 anos consecutivos na capela batista na Rua New Park, em Londres e, com apenas vinte
e dois anos de idade era o pregador mais popular de Londres.

Em 1861 foi edificado o Tabernáculo Metropolitano nas Ruas Elephant e Castle, um


templo com capacidade de abrigar seis mil pessoas, onde Spurgeon ministrou
ininterruptamente até sua morte. Junto ao Tabernáculo foi criado um seminário e uma
sociedade de colportagem que enfatizava a distribuição de literaturas. Calcula-se que 14
mil membros foram acrescentados àquela Igreja durante o ministério de Spurgeon. Teve
muitos de seus sermões publicados, num total de 3.800 deles!

Na obra “Lições Aos Meus Alunos” encontramos farto material resultante de


preleções deste ilustre pregador que bem podem expressar sua preocupação com a
relevância que a pregação precisa encontrar nas vidas dos ouvintes. Assim Spurgeon
expressa sua preocupação com o desempenho eficiente dos pregadores:

É desejável que os ministros do Senhor sejam os elementos de vanguarda da Igreja.


Na verdade, do Universo todo, pois a época o requer. Portanto, quanto a vocês, em suas
qualificações pessoais, dou-lhes este moto: Sigam avante. Avante nas conquistas pessoais,
avante nos dons e na graça, avante na capacitação para a obra, e avante no processo de
amoldagem à imagem de Jesus.

Sobre a eficiência na comunicação da Verdade ao povo, Spurgeon afirmava que o


ministro só seria verdadeiramente eficiente se fosse apto para ensinar. Sobre ministros
inaptos, ele asseverou em tom hilário:

Vocês sabem de ministros que erraram a vocação e, evidentemente, não têm dons
para exercê-la. Certifiquem-se de que ninguém pense a mesma coisa de vocês. Há colegas
de ministério que pregam de modo intolerável: ou nos provocam raiva, ou nos dão sono.
Nenhum anestésico pode igualar-se a alguns discursos nas propriedades soníferas. (...) Se
alguns fossem condenados a ouvir os seus próprios sermões, teriam merecido julgamento,
e logo clamariam como Caim: “É tamanho o meu castigo, que já não posso suportá-lo.”
Oxalá não caiamos sob a mesma condenação.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 19
Esta tão bem humorada declaração de Spurgeon demonstra sua preocupação com a
relevância da pregação na vida dos ouvintes. Esta foi a característica dos ilustres
pregadores desta e das demais épocas.

Com relação ao nosso século, podemos notar algumas tendências que indicam o
desprestígio da pregação nas Igrejas e a perda da centralidade no ministério pastoral. Para
Martyn Lloyd-Jones, que enxergava este declínio da importância da pregação na Igreja do
século XX, tal desprestígio se deve, primeiramente, à perda da crença na autoridade das
Escrituras. Outra razão apontada pelo autor para este declínio é o fato de “a forma ter-se
tornado mais importante que a substância, a oratória e a eloqüência por conseguinte, coisas
valiosas por si mesmas”. Tal declínio da pregação no nosso século se acentua, porque,
segundo Lloyd-Jones, “a pregação tornou-se uma forma de entretenimento”.

A situação da pregação na atualidade é enfocada na próxima etapa da pesquisa, onde


a opinião supra citada é reforçada com depoimentos de outros autores. Nos preocupamos
também em discorrer acerca das conseqüências deste declínio de prestígio da pregação.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 20
HOMILÉTICA
1. Definição
Homilética é a ciência que se ocupa com a pregação cristã e, de modo particular,
com o sermão proferido no culto, no seio da comunidade reunida.
O termo “homilética” deriva do substantivo grego h( o(mili/a – Hē homilia [Leia rê
romilia], que significa literalmente “associação”, “companhia”, e do verbo homilēo
(o(mile/w), que significa “falar”, “conversar”. O Novo Testamento emprega o substantivo
homilia em 1 Co 15.33 “... as más conversações (o(mili/ai) corrompem os bons
costumes”.
O verbo HĒ HOMILEIN (h( o(milei=n)7 era usado pelos gregos sofistas 8 para
expressar o sentido de “relacionar-se, conversar”.
HE HOMILIA designa, especialmente no Novo Testamento, “o estar juntos, o
relacionar-se”, e, nos primeiros séculos da Era Cristã, o termo passou a ser usado para
denominar a “arte de pregar sermão”. “Homilia. Pregação em estilo familiar e quase
coloquial sobre o Evangelho” (Aurélio).
Daí deriva o sentido “homilética” e suas formas de expressão. Desde então e muito
cedo, a homilética passou a fazer parte da teologia prática.
O termo “homilética” surgiu durante o Iluminismo, entre os séculos XVII e XVIII,
quando as principais disciplinas teológicas receberam nomes gregos, como, por exemplo,
dogmática, apologética e hermenêutica.
Na Alemanha, Stier propôs o nome Keríctica, derivado de kēryx (kh=ruc), que
significa “arauto”. Sikel sugeriu haliêutica, derivado de halieús (a(lieu/j), que significa
“pescador”.
O termo “homilética” firmou-se e foi mundialmente aceito para referir-se à
disciplina teológica que estuda a ciência, a arte e a técnica de analisar, estruturar e entregar
a mensagem do evangelho.

“A homilética é ciência, quando considerada sob o ponto de vista de seus


fundamentos teóricos (históricos, psicológicos e sociais); é arte, quando
considerada em seus aspectos estéticos (a beleza do conteúdo e da forma); e é
técnica, quando considerada pelo modo específico de sua execução ou ensino”.

O termo “homilia” tem suas raízes etimológicas em três palavras da cultura grega:
1. Homilos (o(/miloj), que significa “multidão”, “turma”, “assembléia do povo” (cf.
At 18.17);
2. Homilia (o(mili/a), que significa “associação”, “companhia” (cf. 1 Co 15.33);
7
HOMILEIN = o(milei=n. Homileō = o(mile/w. Estar com, tratar com. Encontrar-se, vir às mãos. Ter relações matrimoniais.
8
Sofista. [Do gr. sophistés, 'sábio', posteriormente 'impostor', pelo lat. sophista.] Substantivo de dois gêneros. Hist. Filos.
1.Cada um dos personagens contemporâneos de Sócrates (v. socratismo) que chamavam a si a profissão de ensinar a sabedoria
e a habilidade, e entre os quais se destacam Protágoras (480-410 a. C.), que afirmava ser o homem a medida de todas as coisas,
e Górgias (485-380 a. C.), que atribuía grande importância à linguagem. Os sofistas desenvolveram especialmente a retórica, a
eloqüência e a gramática. [Cf. sofisma (1 e 2).] .
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 21
3. Homileō (o(mile/w), que significa “falar”, “conversar” (cf. Lc 24.14; At 20.11;
24.26).

Sua tarefa não se limita apenas a princípios teóricos, mas concentra-se grandemente
no treinamento prático.
a) Seu objetivo primordial
O objetivo principal da homilética desde o seu remoto princípio foi orientar os
pregadores na dissertação de suas prédicas e, ao mesmo tempo, fazer que os mesmos
adquiram princípios gerais corretos e despertá-las a terem idéia dos erros e falhas que os
mesmos em geral cometem.
São inúmeras as obras, boas e úteis, em diversos idiomas e de diferentes datas que
tratam diretamente desta disciplina. Quando as lemos, descobrimos inúmeros defeitos -
em nós mesmos e nos outros -, alguns deles até extravagantes e grosseiros. Com efeito,
porem, à medida que vamos lendo estas obras, corrigimos essas falhas que se apresentam.
Convém notar que a homilética não é a mensagem. Ela disciplina o pregador para melhor
entregar a mensagem. Não nos esqueçamos: A mensagem é de Deus (Ef 6.19, etc).
Entretanto, não devemos esquecer que para melhor compreensão e apresentação da
mensagem deve haver um certo preparo e treinamento por parte do orador.
b) A homilética e a eloqüência
A missão principal da homilética é conservar o pregador (pregador aqui tem sentido
abrangente - inclui pessoas de ambos os sexos) na rota traçada pelo Espírito Santo. Ela
ensina, onde (e como) se deve começar e terminar o sermão. O sermão tem por finalidade
convencer os ouvintes, seja no campo político, forense, social ou religioso. Por esta razão
a homilética encontra-se ligada diretamente à eloqüência.
A eloqüência é a capacidade intelectual de convencer pelas palavras. As palavras
esclarecem, orientam e movem as pessoas. O orador que consegue mover as pessoas,
persuadindo-as a aceitar suas idéias, é eloqüente, pois a eloqüência é a capacidade de
persuadir pela palavra. Fala-se de Apolo, um judeu, natural de Alexandria, que era “ ...
eloqüente e poderoso nas Escrituras” (At 18.24b).
c) Como podemos convencer
Existem várias maneiras de persuadirmos ou convencermos alguém a seguir nossa
orientação:
- Pela força moral (princípios e doutrinas) - regras fundamentais.
- Pela força social (costumes, normas e leis) - o direito.
- Pela força física (braços e armas) - a guerra.
- Pela força pessoal (exemplo) - influência psicológica.
- Pela força verbal (falada ou escrita) - retórica .
- Pela força divina (atuação do Espírito Santo) – Ele “... convence ...”.
O poder da persuasão pode convencer até o próprio Deus! Moisés, o grande
legislador hebreu, pregou para que Deus se arrependesse e conseguiu! Com efeito, Deus se
arrependeu e perdoou ao povo (Ex 32.7-14). Jonas, de igual modo, conseguiu o
arrependimento do povo ninivita e o arrependimento de Deus (Jn 3.4-10).
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 22
2. Jesus e a homilética
No ministério de Cristo, a homilética ocupou o lugar central no que diz respeito a
sua propagação plena. Embora fortemente ousado a dar primazia a outros métodos de
abordar o povo, Jesus “... veio pregando” (Mc 1.14). Na sinagoga de Nazaré, o Mestre
descreveu a si mesmo como divinamente enviado “... para evangelizar os pobres ... a
pregar liberdade aos cativos ... a anunciar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4.18,19).
Os evangelhos nos apresentam quadros inesquecíveis do Pregador Itinerante, nas
sinagogas, nos montes, nas planícies, à beira-mar, de vila em vila, de cidade em cidade -
finalmente em todo o lugar, trazendo após si multidões quase incontáveis, deixando o
povo fascinado com suas palavras de graça e com autoridade do seu ensino.
A pregação de Jesus continha todo o sabor da bondade divina: era um clamor
insistente por sua compaixão, e poderoso por sua urgência. A pregação direta é, sem
dúvida, um convite à consciência, à razão, à imaginação e aos sentimentos, mediante a
declaração da verdade e da graça de Deus, pois produz um efeito mais urgente e eficaz.

3. O valor da homilética
A homilética contribuiu, no sentido geral, na propagação da Palavra de Deus. Duas
coisas, contudo, influenciaram grandemente a pregação cristã, levando-a para as formas
retóricas.

a) A primeira vantagem
A primeira foi a disseminação do Evangelho entre as nações gentílicas, em cujo seio
as tradições e formas judaicas eram pouco conhecidas. Basta lembrarmos da crítica que de
Paulo fizeram alguns coríntios, e como se deliciavam em ouvir Apolo, por ser “...
eloqüente e poderoso nas Escrituras”.

b) A segunda vantagem
A segunda coisa que influiu foi a conversão de homens que já tinham sido treinados
na retórica. Muitos deles, dia-a-dia, se tomavam pregadores, e naturalmente usavam seus
dotes retóricos na proclamação do Evangelho.
Acrescentemos a essa influência o declínio dos pregadores judeus não cristãos, e
veremos como a homilia (a arte de pregar) cedeu lugar proeminente ao sermão elaborado.
Por isso, naqueles dias já se definia a homilética “como a ciência que ensina os princípios
fundamentais de discursos em público, aplicados na proclamação e ensino da verdade em
reuniões regulares congregadas para o culto divino” (Hoppin).

4. A origem da homilética
A homilética propriamente dita, nasceu muito cedo na história humana, embora não
como termo designativo homiletikós (o(milhtiko/j) (arte de pregar sermão) e homilia
(o(mili/a) (arte de falar elegantemente na oratória eclesiástica), mas como oratória
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 23
pictográfica (sistema primitivo de escrita no qual as idéias são expressas por meio de
desenhos das coisas ou figuras simbólicas).
Ela surgiu na Mesopotâmia há mais de 3000 anos a.C., para auxiliar à necessidade
que os sacerdotes tinham de prestar contas dos recebimentos e gastos às corporações a
que pertenciam e faziam suas prédicas em defesa da existência miraculosa dos deuses do
paganismo.
O sistema sumeriano viria a ser o protótipo (primeiro tipo ou exemplo) de outros
importantes sistemas de escrita, como o egípcio, por exemplo.

a) Como termo designativo


Entretanto, homilética como termo designativo com suas técnicas, sistematização e
adaptação às habilidades humanas, nasceu entre os gregos com o nome de retórica.
Depois foi adaptada no mundo romano com o nome de oratória, e, finalmente, para o
mundo religioso com o nome de homilética.
• A retórica e a oratória tornaram-se sinônimos para identificar o discurso
persuasivo (profano).
• A homilética, entretanto, passou a identificar o discurso sacro (religioso).

b) A partir do IV Século d.C.


A partir desta época os pregadores cristãos começaram a estruturar suas mensagens,
seguindo as técnicas da retórica grega e da oratória romana. Com efeito, porém, desde o
primeiro século da Era Cristã, esta influência estrutural da homilética já começava a ser
sentida no seio do Cristianismo. Não é de se surpreender, portanto, que a maioria dos
teólogos cristãos primitivos compunha-se dos que aceitavam as teorias gregas e romanas,
pois muitos deles eram filósofos neoplatônicos convertidos ao Cristianismo ou estavam
sob a influência dessas idéias (conforme foi o caso de Justino Mártir, de Clemente de
Alexandria, de Orígenes, de Agostinho, de Ambrósio e muitos outros).
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 24

RETÓRICA

1. Noção e definição
O vocábulo retórica (do grego, “rhētōr” (r(h/twr), - orador numa assembléia) tem
sido interpretado como a arte de falar bem ou arte de oratória, isto é, a arte de usar todos
os meios e recursos da linguagem com o objetivo de provocar determinado efeito nos
ouvintes. A retórica é a técnica (ou a arte, como preferem alguns) de convencer o
interlocutor através da oratória, ou outros meios de comunicação.
Os gregos sofistas a dividiam em três grupos:
• Política
• Forense
• Epidítica9 (demonstrativa).

DISTINÇÕES CLÁSSICAS10

Embora não sejam certamente inspiradas, as clássicas distinções retóricas de


Aristóteles podem auxiliar os pregadores a considerar suas responsabilidades básicas e a
atenção que cada uma merece. Embora o apóstolo Paulo tenha ensinado acerca da inerente
eficácia da Palavra, também relatou sua resolução pessoal de não colocar “pedra de
escândalo” ao evangelho no caminho de quem quer que fosse (2 Co 6.3).
Na retórica clássica três elementos compõem cada mensagem persuasiva:
Logos (lo/goj) - o conteúdo verbal da mensagem incluindo sua arte e lógica.
Pathos (pa/qoj) - os traços emotivos da mensagem incluindo paixão, fervor e
sentimento, que o orador transmite e os ouvintes experimentam.
Ethos (e)/qoj) - o caráter percebido do orador; determinado mais significativamente
pelo interesse expresso pelo bem-estar dos ouvintes. Aristóteles acreditava que o ethos era
o componente mais poderoso da persuasão.
Os ouvintes avaliam automaticamente cada um desses aspectos na mensagem de
modo a pensarem que o pregador apresenta. Essa percepção adverte os pregadores que
desejam criar livre acesso à Palavra que transforma corações a se esforçarem seriamente
para tornar cada aspecto de sua mensagem uma porta e não uma barreira. Paulo pondera a
importância de cada um desses componentes em sua primeira carta aos tessalonicenses
(veja fig. 1.1). Embora seus termos não sejam os de Aristóteles, eles repercutem traços das
categorias clássicas do professor de retórica e nos lembram que a arte não é o bastante
para tornar poderosa a mensagem, se o coração e o caráter não validarem suas verdades.
Paulo torna claro que, embora o Espírito Santo molde o caminho do evangelho, os
9
Epidítico. epidíctico. [Do gr. epideiktikós, pelo lat. epidicticu.] Adjetivo. E. Ling. 1.Aparatoso, ostentoso. 2.Demonstrativo.
10
CHAPELL, Bryan. Pregação Cristocêntrica. 1ª ed. São Paulo. Editora Cultura Cristã, 2002, p.26-28.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 25
ouvintes avançam para uma confrontação com a Palavra através das portas que o pregador
abre com a mensagem. Paulo cita, significativamente, sua própria vida como afetando a
receptividade da mensagem dando assim credencial bíblica à noção de que o ethos é uma
força poderosa no processo ordinário da persuasão espiritual.
“Porque o nosso evangelho não chegou até vós tão-somente em palavra (logos),
mas, sobretudo, em poder, no Espírito Santo e em plena convicção (Pathos), assim como
sabeis ter sido o nosso procedimento (Ethos) entre vós e por amor de vós” (1 Ts 1.5).
Paulo menciona sua conduta e sua compaixão não apenas como evidência de sua
“profunda convicção”, mas também como fontes integrais do “poder” de sua mensagem.
Embora este livro de método homilético enfoque os elementos do logos e do pathos na
pregação, a própria ênfase bíblica nos lembra que o caráter pastoral permanece como o
fundamento do ministério. A glória da pregação pode ser a eloqüência, mas a batida do
coração é a fidelidade. Nossa pregação deveria refletir o caráter único de nossa
personalidade, mas nosso ser deveria refletir a semelhança de Cristo, de modo que sua
mensagem se espalhe sem embaraço.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 26
11
OS SOFISTAS
O primeiro estudo sistematizado acerca do poder da linguagem em termos de
persuasão é atribuído ao filósofo Empédocles (444 a.C.), do qual as teorias sobre o
conhecimento humano iriam servir de base para vários teorizadores da retórica. O primeiro
livro de retórica escrito é comumente atribuído a Córax e seu pupilo Tísias. A sua obra,
bem como as de diversos retóricos da antiguidade, surgiu das tribunas jurídicas; Tisias, por
exemplo, é tido como autor de diversas defesas jurídicas defendidas por outras
personalidades gregas (uma das funções primárias de um sofista). A Retórica foi
popularizada a partir do século V a.C. por mestres peripatéticos (itinerantes) conhecidos
como “sofistas”. Os mais conhecidos destes foram os gregos Córax, Sócrates, Platão e
Aristóteles (500-300 a.C.).

Os sofistas se compunham de grupos de mestres que viajavam de cidade em cidade


realizando aparições públicas (discursos, etc) para atrair estudantes, de quem cobravam
taxas para oferecer-lhes educação. O foco central de seus ensinamentos concentrava-se no
logos ou discurso, com foco em estratégias de argumentação. Os mestres sofistas
alegavam que podiam “melhorar” seus discípulos, ou, em outras palavras, que a “virtude”
seria passível de ser ensinada.

A conhecida frase “o homem é a medida de todas as coisas” surgiu dos


ensinamentos sofistas. Uma das mais famosas doutrinas sofistas é a teoria do contra-
argumento. Eles ensinavam que todo e qualquer argumento poderia ser contraposto por
outro argumento, e que a efetividade de um dado argumento residiria na verossimilhança
(aparência de verdadeiro, mas não necessariamente verdadeiro) perante uma dada platéia.

O termo “sofista” tem uma conotação pejorativa nos dias de hoje mas, na Grécia
antiga, os sofistas eram profissionais muito bem remunerados e respeitados por suas
habilidades.

Tratando não somente do estilo, mas, também do assunto, da estrutura e dos


métodos de elocução em cada caso, os gregos combinavam a técnica dos sofismas com a
concepção platônica e aristotélica de que a arte da oratória deve estar a serviço da verdade.
A retórica ensinada na Grécia antiga pelos sofistas, fundamentada em princípios
disciplinares de conduta, teve origem na Sicília, no V século a.C., através do siracusano
Córax e seu discípulo Tísias.

Tísias tornou-se o discípulo mais famoso de Córax. Quando Córax lhe cobrou as
aulas ministradas, Tísias recusou a pagar, alegando que, se fora bem instruído pelo mestre,
estava apto a convencê-lo de não cobrar, e, se este não ficasse convencido, era porque o
discípulo ainda não estava devidamente preparado, fato que o desobrigava de qualquer
pagamento. O resultado é que Tísias ganhou a questão.

11
GONÇALVES, Delmo. HOMILÉTICA “A arte de pregar sermões”. Apostila do SEBEMGE.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 27
a) As regras do discurso
Córax formulou uma série de regras para dividir o discurso em cinco partes:
• Proêmio (prólogo)
• Narração
• Argumentação
• Observações adicionais
• Peroração (epílogo).
As regras estabelecidas por Córax tinham por finalidade orientar os advogados que
se propunham a defender as causas das pessoas que desejavam reaver seus bens e
propriedades tomados pelos tiranos. Os sofistas foram os primeiros a dominar com
facilidade a palavra modulada nestes princípios; entre os objetivos que possuíam, visando
a uma completa formação, três eram procurados com maior intensidade: adestrarem-se
para julgar, falar e agir. Seu aprendizado na arte de falar consistia em fazer leituras em
público, comentários sobre poetas famosos, improvisar e promover debates.
A partir daí, a palavra retórica passou a ser usada no campo da comunicação para
descrever o discurso persuasivo, quer escrito ou falado.

b) As qualidades exigidas
Os oradores sofistas, entre eles, Górgias, Isócrates (que viveu de 436 a 338 a.C., e
implantou a disciplina da retórica no currículo escolar dos estudantes atenienses) e muitos
outros, exigiam várias habilidades dos oradores. Entre todas, quinze são consideradas
imprescindíveis: memória, habilidade, inspiração, criatividade, entusiasmo, determinação,
observação, teatralização, síntese, ritmo, voz, vocabulário, expressão corporal,
naturalidade e conhecimento.
Filósofos destacados como Platão (430-347 a.C.), Aristóteles (382-322 a.C.) e
Cícero (106-44 a.C.) deram muita atenção aos princípios a serem seguidos por quem
desejasse levar os homens a crerem e agirem.
Paulo, pelo que parece, observou que estes princípios retóricos levaram alguns
oradores cristãos aos extremos, firmando-se apenas em “... sublimidade de palavras ou de
sabedoria...” (1 Co 2.1). Era esta a época em que os “... gregos buscavam sabedoria”.

c) O Retor (r(h/twr)
O retor, entre os gregos, era o orador de uma assembléia. Entre nós, entretanto, a
palavra rhetor veio a ter o significado pomposo de mestre de oratória. O objetivo do retor
(orador retórica) era, através de seu discurso laureado, o de persuadir os sentimentos nas
discussões e nas deliberações sobre os problemas na democracia grega.
As reuniões eram processadas nas praças ou no Areópago. Logo se percebeu que os
cidadãos falantes, de fácil verbo, se expressavam mais adequadamente, dominavam a
situação, sentiam-se sempre vitoriosos, tornavam-se admirados pelas multidões e
galgavam os melhores postos na comunidade. Não demorou para que todo o mundo
desejasse conquistar os segredos dessa nova arte.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 28
2. A divisão da retórica
Entre os gregos e os romanos, os discursos retóricos deviam ser modulados em
cinco pontos, a cada um dos tais foram associadas muitas sugestões para o bem falar.
a) Invenção. A invenção consistia na coleta e planejamento do uso dos materiais e
idéias, a fim de influenciar aos ouvintes. Três tipos de apelo que o orador pode
fazer. São:
• Apelos lógicos baseados na evidência e no raciocínio.
• Apelos emocionais baseados nos impulsos e sentimentos.
• Apelos éticos baseados no caráter, personalidade, experiência e reputação do
orador.
b) Disposição. Consistia no arranjo do material na ordem destinada a servir melhor o
propósito do orador.
c) Estilo. Nesse sentido Aristóteles foi o maior deles. Consistia no uso de palavras
para transmitir a mensagem da maneira mais eficaz.
d) Memória. Consistia em lembrar a mensagem a ser transmitida.
e) Entrega. Consistia no uso correto da voz e do corpo para apresentar a
mensagem aos ouvintes.
Depois, com a grande influência do Cristianismo, passou-se a distinguir a retórica
da homilética e alguns princípios éticos foram incorporados a esta última.

Quatro tipos de sermão:

1. Temático - baseado em um tema específico;


2. Textual - baseado em um texto específico;
3. Expositivo - expõe exegética e hermeneuticamente um determinado texto;
4. Sedativo - faz o auditório dormir profundamente; é o mais utilizado ultimamente
nos púlpitos brasileiros.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 29
3. ORATÓRIA

1. Sua extensão

Convém que o leitor saiba que a retórica inventada pelos gregos passou para o
mundo romano com o nome de oratória e para o campo religioso com o nome de
homilética. Entretanto, a partir do IV século d.C., a retórica e a oratória tornam-se
sinônimos usados para identificar o discurso profano, e a homilética identifica o discurso
sacro, religioso, cristão. A homilética, a partir daí, passou a ser a arte de pregar o
Evangelho.
Assim, a oratória (de oris, boca) passou a indicar mais a parte técnica do sermão;
enquanto que a homilética, as partes práticas e dogmáticas cristãs, que vão do sermão à
celebração do culto.

2. Os grandes mestres de oratória

Os romanos sofreram extraordinária influência cultural dos gregos no século I


a.C., inclusive na arte da oratória. Com efeito, porém, outros grandes mestres, de
diferentes nacionalidades, deram também sua contribuição.
a) Cícero
Cícero foi o maior orador romano. Nascido no ano 106 a.C., preparou-se desde
muito cedo para a arte da palavra. Com apenas dez anos de idade, seu pai o deixou aos
cuidados de dois mestres da oratória. Aos quatorze anos, iniciou seu aprendizado retórico
na escola do retor Plócio e já aos dezesseis anos abraçou a prática da fala, observando os
grandes oradores da sua época, que se defrontavam nas assembléias do fórum.
b) Quintilian
Depois de Cícero, merece atenção especial na história da Arte Oratória romana,
Quintiliano. Nascido na metade do primeiro século da Era Cristã, na Espanha, foi para
Roma logo nos primeiros anos de vida para estudar oratória. Seu pai e seu avô foram
retores e o pai lhe ministrou as primeiras aulas de retórica.
c) Demóstenes
Demóstenes, orador grego de extraordinária eloqüência, foi contemporâneo de
Filipe da Macedônia, que através das Filípicas12, Orações Violentas, atacava a sua
política, denunciando-lhe as intenções de dominar a Grécia. Demóstenes, considerado um
dos maiores e mais perfeitos oradores da antiguidade, obteve êxito na arte de falar, depois
de ter superado dificuldades impostas pelas suas próprias deficiências naturais.

Os problemas de respiração, dicção, articulação e postura não lhe creditavam as


condições últimas para que pudesse atingir seu objetivo de tornar-se um orador. Duas
qualidades, porém, Demóstenes possuía: a determinação e a vontade.

12
filípica. Do gr. philippiké, pelo lat. philippica.] Substantivo feminino. Discurso violento e injurioso.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 30
• A determinação
Ao iniciar sua preparação, isolou-se num local onde ninguém pudesse perturbá-lo.
Para que a sua concentração e meditação fosse completa... a sua dicção foi corrigida com
seixos que colocava na boca e com os quais procurava pronunciar as palavras da forma
mais correta possível. Outros maus hábitos, entre eles o de levantar um ombro quando
falava, foi também corrigido com disciplina rígida.
• A força de vontade
Demóstenes parece ter tido um início difícil e sido filho do próprio esforço.
Entretanto, superou todas essas dificuldades. Empregou todas as técnicas e meios
engenhosos para conseguir ser o maior orador da antiguidade (declamar diante da praia
vencendo com a voz o ruído e barulho das ondas; correr, subindo montanhas íngremes,
recitando trechos de autores gregos para desenvolver o fôlego, etc.). O resultado de seu
esforço foi gratificante. Ele conseguiu aquilo que almejava!
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 31

A RELAÇÃO ENTRE A HOMILÉTICA E OUTRAS DISCIPLINAS

Como disciplina teológica, a homilética pertence à teologia prática. As disciplinas


que mais se aproximam da homilética são a hermenêutica e a exegese.
Enquanto a hermenêutica é a ciência, arte e técnica de interpretar corretamente a
Palavra de Deus, e a exegese a ciência, arte e técnica de expor as idéias bíblicas, a
homilética é a ciência, arte e técnica de comunicar o evangelho. A hermenêutica interpreta
um texto bíblico à luz de seu contexto; a exegese expõe um texto bíblico à luz da teologia
bíblica; e homilética comunica um texto bíblico à luz da pregação bíblica.
A homilética depende amplamente da hermenêutica e da exegese. Uma homilética
sem hermenêutica bíblica é trombeta de som incerto (1 Co 14.8) e uma homilética sem
exegese bíblica é a mera comunicação de uma mensagem humanista e morta.
A importância do assunto dificilmente pode ser exagerada, pois a hermenêutica é a
base teórica da exegese, que por sua vez, é o alicerce tanto da Teologia (quer bíblica, quer
sistemática) como da pregação.
O diagrama abaixo ilustra estas relações:

Hermenêutica Exegese Teologia Teologia Pregação/Homilia


Bíblica Sistemática

A homilética deve valer-se dos recursos da retórica (assim como da eloqüência),


utilizar os meios e métodos da comunicação moderna e aplicar a avançada estilística. Não
se pode ignorar o perigo de substituir a pregação do evangelho pelas disciplinas seculares
e de adaptar a pregação do evangelho às demandas do secularismo. A relação entre a
homilética e as ciências modernas é de caráter secundário e horizontal; pois as Escrituras
Sagradas são a fonte primária, a revelação vertical, o fundamento básico de toda a
homilética evangélica.
Por isso, o apóstolo Paulo escreveu aos coríntios: “Eu, irmãos, quando fui ter
convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem,
ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este
crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. A minha
palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas
em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria
humana; e sim, no poder de Deus” (1 Co 2.1-5).s

O DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO DA HOMILÉTICA


O modelo predominante no período profético era a palavra vinda diretamente do
Senhor (“assim diz o Senhor”) que os profetas anunciavam e ilustravam em suas próprias
vidas: uma prostituta como esposa (Oséias); nomes dos filhos (Is 7.3, 8.3); cinto (Jr 13.1-
11); o vaso do oleiro (Jr 18.1-17); a botija quebrada (Jr 19.1-15); a morte da mulher de
Ezequiel (Ez 24.15-27). Após o exílio, desenvolveu-se a homilia primitiva, em que
passagens das Escrituras Sagradas eram lidas em público ou nas sinagogas (Ne 8.1-18).
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 32
Por volta de 500-300 a.C., os gregos Córax, Sócrates, Platão e Aristóteles
desenvolveram a retórica, aperfeiçoada pelos romanos na forma da oratória
(principalmente Cícero, em cerca de 106-43 a.C.). Jesus, no entanto, pregou o evangelho
do reino de Deus com simplicidade, utilizando principalmente parábolas (Mt 13.34s.; Mc
4.10-12,33,34) e aplicando textos do Antigo Testamento à Sua própria vida (Lc 4.16-22).
Uma análise do livro de Atos revela cinco elementos básicos comuns às mensagens
apostólicas: O Messias prometido no Antigo Testamento; a morte expiatória de Jesus
Cristo; Sua ressurreição pelo poder do Espírito Santo; a gloriosa volta de Cristo; e o apelo
ao ouvinte para que se arrependesse e cresse no evangelho.
A maioria dos cristãos antigos, portanto, seguiu o exemplo da sinagoga, lendo e
explicando de modo simples e popular as Escrituras do Antigo Testamento e do Novo.
Não se percebe muito esforço em estruturar um esboço homilético ou um tema
organizador. A homilia Cristã apenas “segue a ordem natural do texto da Escritura e visa
meramente ressaltar, mediante a elaboração e aplicação, as sucessivas partes a passagem
como esta se apresenta”.
As primeiras teorias homiléticas encontram-se nos escritos de Crisóstomo (345-407
a.D.), o mais famoso pregador da igreja primitiva. A primeira homilética foi escrita por
Agostinho, em De Doctrina Christiana. Agostinho dividiu-a em de inveniende (como
chegar ao assunto) e de proferendo (como explicar o assunto). Na prática, esta divisão
sistemática corresponde hoje às homiléticas material e formal.
A Idade Média não foi além de Agostinho, mas produziu coletâneas famosas de
sermões, atualmente publicadas em forma de livros devocionais. “Homilética era quase a
única forma de oratória conhecida”. O maior pregador latino da Idade Média foi Bernardo
de Claraval (1090-1153). Graças a Carlos Magno (768-814), a pregação era feita na língua
do povo e não exclusivamente em latim.
A grande inovação da Reforma Protestante foi tornar a Bíblia o centro da pregação.
Os discursos éticos e litúrgicos foram substituídos pela pregação evangélica das grandes
verdades bíblicas, versículo por versículo. Martinho Lutero e João Calvino expuseram
quase todos os livros da Bíblia em forma de comentários que, ainda hoje, possuem vasta
aceitação acadêmica e espiritual. Os líderes da Reforma Protestante deram à pregação um
novo conteúdo (a graça divina em Jesus Cristo), um novo fundamento (a Bíblia Sagrada) e
um novo alvo - a fé viva.
Enquanto Lutero enfatizava o conteúdo da pregação do evangelho (a justificação
pela fé), Melanchton ressaltava o método e a forma da pregação. Como humanista
convertido, Melanchton escreveu, em 1519, a primeira retórica evangélica, seguida de
duas publicações homiléticas, em 1528 e 1535, respectivamente. Melanchton sugeriu
enfatizar a unidade, um centro organizador, um pensamento principal (loci) para o texto a
ser pregado. A pregação evangélica deveria incluir: introdução, tema, disposição,
exposição do texto e conclusão.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 33
OS PROBLEMAS DA HOMILÉTICA

A palavra de Deus afirma que “a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de
Cristo” (Rm 10.17). Como é possível, então, que surjam dificuldades quando esta palavra
é proclamada?
O problema não está na palavra em si, porque “a palavra de Deus é viva e eficaz, e
mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a ponto de dividir alma
e espírito, juntas e medulas, e apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração”
(Hb 4.12).
O problema não está na Palavra de Deus, mas em sua proclamação, quando feita
por pregadores que não admitem suas imperfeições homiléticas pessoais! Atualmente, as
dificuldades mais comuns da pregação bíblica encontram-se nas seguintes áreas:
Falta de preparo adequado do pregador. Na maioria das vezes, a pregação pobre
tem sua raiz na falta de estudo do orador. Muitos julgam ter condições de preparar uma
mensagem bíblica em menos de seis horas, sem o árduo trabalho exegético e estilístico.
Pensam que basta ter um esboço de três ou quatro pontos para edificar a igreja, ou acham
suficiente manipular as Quatro Leis Espirituais para levar um indivíduo perdido à
obediência a Cristo.
Falta de unidade corporal na prédica. Os ouvintes do sermão dominical perdem o
interesse pelo recado do pastor quando este apresenta uma mensagem que consiste numa
mera junção de versículos bíblicos, às vezes até desconexos pulando de um livro para
outro, sem unidade interior, sem um tema organizador. A falta de unidade corporal na
prédica leva o ouvinte a depreciar até a mais correta exposição da Palavra de Deus.
Falta de vivência real do pregador na fé cristã. O pior que pode acontecer ao
pregador do evangelho é proclamar as verdades libertadoras de Cristo e, ao mesmo
tempo, levar uma vida arraigada no pecado e em total desobediência aos princípios da
Palavra de Deus. Por isso, Paulo escreveu: “... esmurro o meu corpo, e o reduzo à
escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado”
(1 Co 9.27).
Em outras ocasiões, o pregador talvez esteja vivendo em santificação, mas ainda
assim, quando suas mensagens são apresentadas de forma muito teórica, empregando
termos técnicos, latinos e gregos que o povo comum não entende, elas se tornam
enfadonhas. No fim do culto, o rebanho admite que seu pastor falou bem e bonito, mas se
queixará de não ter entendido nada.

Falta de aplicação prática às necessidades existentes na igreja. Muitas mensagens


são boas em si mesmas, mas se tornam pobres na prática, na edificação do povo de Deus.
Constituem verdadeiros castelos doutrinários, mas não mostram como colocar em prática,
de maneira viável, o ensino da Palavra de Deus negligenciando, por exemplo, oferecer
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 34
ajuda concreta a uma senhora que, após 35 anos de vida conjugal feliz, perdeu seu esposo
num acidente de trânsito, na semana anterior.

Falta de equilíbrio na seleção dos textos bíblicos. A maior parte das Escrituras foi
praticamente abandonada na pregação eficiente do evangelho. Mais de 95% dos sermões
evangélicos pregados no Brasil baseiam-se no Novo Testamento e em geral, limitam-se a
textos evangelísticos, tais como: Lc 19.1-10; Jo 1.12; 3.16; 14.6; Rm 8.28; 2 Co 5.15-21
etc.

Prega-se a verdade, mas não toda a verdade! O alvo do apóstolo Paulo era pregar “o
evangelho das insondáveis riquezas de Cristo” (Ef 3.8).
É bom lembrar que os apóstolos, e com eles a primeira geração da igreja primitiva,
utilizavam quase sempre o Antigo Testamento. Eles baseavam suas mensagens naqueles
39 livros, que constituem mais de dois terços de nossa Bíblia atual.

Falta de prioridade da mensagem na liturgia. O culto teve início pontualmente às


19:30, com um belo programa musical seguido de muitos testemunhos empolgantes,
várias orações e diversos avisos. Finalmente, às 21h30, quando toda a congregação já
estava cansada, o dirigente anunciou: “Vamos agora para a parte mais importante de
nosso culto. Com a palavra, nosso pastor, que vai pregar o santo evangelho”. O pastor,
então, fica constrangido de pregar 40 minutos, pois sabe que ninguém irá agüentar.

A característica principal de um culto evangélico é a pregação da Palavra de Deus.


Números especiais bem ensaiados, testemunhos autênticos, avisos, tudo isso é útil e
necessário, desde que em seu devido lugar. Devemos zelar para que nossos cultos não se
tornem festivais de música popular ou reuniões para avisos, mas, sim, encontros com Deus em
Sua palavra! Lutero era muito enfático em afirmar que, onde se prega a palavra de Deus e
são ministrados o batismo e a ceia, é ali que se encontra a verdadeira igreja.

Falta de um bom planejamento ministerial. “O pregador eficiente tem de planejar


sua pregação com antecipação”. Muitos pastores falam sem nenhum plano ou propósito.
Eles simplesmente decidem, a cada semana, quais os tópicos para os sermões do domingo
seguinte. Algumas vezes, a decisão é feita na sexta-feira ou no sábado. A pregação sem
um plano de longo alcance produz diversos resultados negativos:
1. O pregador é colocado sob tensão e ansiedade desnecessárias;
2. Muitos pastores simplesmente pregam os mesmos sermões, domingo após
domingo. Eles escolhem um texto novo, mas, no fim, o conteúdo acaba sendo idêntico ao
daquele outro velho sermão;
3. Outras vezes, o pregador tem uma idéia boa para um sermão, mas não dá tempo
para que ela se desenvolva; e
4. Aqueles que não planejam sua pregação, geralmente cedem à tentação do
plágio”.
O bom pregador deve fazer um planejamento anual, incluindo mensagens para os
dias especiais (Natal, Páscoa, aniversário da igreja etc.). Dessa forma, ele alimentará seu
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 35
rebanho com uma dieta sadia e balanceada.

Outros motivos que resultam em problemas para a homilética. Além das


dificuldades já mencionadas, devemos lembrar que a pregação vem sendo desvalorizada
pela secularização que atinge nossas igrejas. Muitas famílias preferem assistir ao
“Fantástico”, em vez de ouvir uma mensagem simplesmente exortativa e moralista.

Há também a questão da grande diversidade de igrejas e pregadores evangélicos, o


que facilita à família recém-chegada optar entre o pregador eloqüente e popular e a igreja
com status. Além disso, o estresse do dia-a-dia faz com que, mesmo no domingo, não
haja mais o sossego necessário para reflexões espirituais profundas.

AS CARACTERÍSTICAS DA HOMILÉTlCA

Charles W. Koller apresenta o conceito bíblico de pregação como “aquele processo


único pelo qual Deus, mediante Seu mensageiro escolhido, Se introduz na família humana
e coloca pessoas perante Si, face a face”.
Em sua tese, Koller refere-se ao mensageiro (vocação, caráter, função) e à
mensagem (conteúdo, poder, objetivo). Na realidade, porém, as características da
homilética evangélica não devem restringir-se somente aos pólos mensageiro e mensagem.
Três elementos, no mínimo, participam da prédica: o pregador, o(s) ouvinte(s) e
Deus. Podemos representá-los por meio de um triângulo, cujos vértices simbolizam o
autor, o comunicador e o receptor:
Neste triângulo, o pregador dirige-se a Deus, na preparação e na proclamação da
mensagem, e ao ouvinte, sua comunidade evangélica.
O ouvinte recebe a mensagem da Palavra de Deus através da comunicação pelo
pregador ou por sua própria leitura.
Deus, por Sua vez, é autor, inspirador e ouvinte de Sua Palavra. Entretanto é bom
lembrar que o triângulo só se completa com um núcleo: este âmago é a palavra do Cristo
crucificado (1 Co 2.2). O triângulo, então, deve ser aperfeiçoado da seguinte forma:
DEUS

a BÍBLIA w
PREGADOR OUVINTE OU COMUNIDADE
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 36
Para os evangélicos, Cristo é o centro da Bíblia. Lutero ensinou enfaticamente: “A
Escritura deve ser entendida a favor de Cristo, não contra Ele; sim, se não se refere a
Ele não é verdadeira Escritura... Tire-se Cristo da Bíblia, e que mais se encontrará nela?”.

O CONTEÚDO DA HOMILÉTICA

Com a Palavra de Deus, é-nos dado o conteúdo da pregação. Pregamos esta


Palavra, e não meras palavras humanas. Na comunicação da Palavra de Deus, lembramo-
nos de que nossa pregação deve consistir nessa mesma Palavra: “Se alguém fala, fale de
acordo com os oráculos de Deus...” (1 Pe 4.11).
Este falar não é o nosso falar, sendo antes um dom de Deus, um charisma
(xa/risma). No poder de Deus, nosso falar torna-se o falar de Deus: “... tendo vós
recebido a palavra que de nós ouvistes, que é de Deus, acolhestes não como palavra de
homem, e, sim, como, em verdade é, a palavra de Deus, a qual, com efeito, está operando
eficazmente em vós, os que credes” (1 Ts 2.13; cf. 1 Co 2.4s.; 2 Co 5.20; Ef 1.13).
Concluímos, pois, que o conteúdo da homilética evangélica é a Palavra de Deus.
Com ela, é-nos confiado um “tesouro em vasos de barro” (2 Co 4.7). É a responsabilidade
dos “ministros de Cristo, e despenseiros dos mistérios de Deus” (1 Co 4.1), que anunciam
“todo o desígnio de Deus” (At 20.27). O conteúdo da pregação apostólica testifica a
plenitude do testemunho bíblico. Isto se torna evidente ao analisarmos os sermões de
Pedro e de Paulo, no livro de Atos (mensagens de Pedro: At 2.14-40; 3.12-26; 4.8-12;
5.29-33; 10.34-43; mensagens de Paulo: At 13.16-41; 14.15-17; 17.22-31; 20.18-35; 22.1-
21; 24.10-21; 26.1-23; 26.25-29). Nestes sermões, encontramos um testemunho de seis
faces que, com palavras diferentes, repete-se:
1. O testemunho da perdição do homem (o pecado e seu julgamento);
2. O testemunho da história da salvação efetivada por Deus em Jesus Cristo (Sua
humilhação, encarnação, sofrimento, morte, ressurreição, exaltação e segunda
vinda);
3. O testemunho das Escrituras e da própria experiência;
4. O testemunho da necessidade imperativa de arrependimento e dedicação da vida
a Jesus Cristo (confissão dos pecados, fé salvadora, vida santificada);
5. O testemunho do julgamento sobre a incredulidade; e
6. O testemunho das promessas para os fiéis.

As mensagens apostólicas dirigem-se ao homem integral e convidam-no a uma


entrega absoluta a Cristo (consciência, razão, sentimento e vontade).
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 37
A IMPORTÂNCIA DA HOMILÉTICA

A igreja viva de nosso Senhor Jesus Cristo origina-se, vive e é perpetuada pela
Palavra de Deus (Rm 10.17). Pregar o evangelho significa despertar, confirmar, estimular,
consolidar e aperfeiçoar a fé (Ef 4.11ss.). Por essa razão, a prédica é a característica
marcante do cristianismo. “Nenhuma outra religião jamais tornara a reunião freqüente e
regular de massas humanas para ouvir instrução religiosa e exortação uma parte integrante
do culto divino”. Para o seminarista e futuro pregador do evangelho, “a homilética
constitui a coroa da preparação ministerial”, porque para ela convergem todas as
matérias teológicas a fim de originar, vivificar, caracterizar, renovar e perpetuar o
cristianismo autêntico.
Além de importante, a homilética é também nobre, “porque se interessa
exclusivamente pelo bem das almas”, que são objeto do amor infinito, da graça remidora e
do poder renovador de Jesus Cristo. Durante o COMIBAM 87 (Congresso Missionário
Ibero-Americano), o líder evangélico René Zapata (El Salvador) disse: “A pregação é o
principal meio de difusão do cristianismo mais poderosa do que a página escrita, mais
efetiva do que a visitação e o aconselhamento, mais importante do que as cerimônias
religiosas. É uma necessidade sobrenatural, convence a mente, aviva a imaginação, move
os sentimentos, impulsiona poderosamente a vontade. Mas, depende do poder do Espírito
Santo. É um instrumento divino; não o é resultado da sabedoria humana, não descansa na
eloqüência, não é escrava da homilética”.
A homilética é importante devido a seu conteúdo (a proclamação do evangelho
como característica fundamental do cristianismo autêntico), seu lugar central na
preparação do ministro evangélico e seu objeto (o bem-estar do homem, criado por Deus).

A NATUREZA DA HOMILÉTICA

É a teoria e a prática da pregação do evangelho de nosso bendito Senhor Jesus


Cristo, que revela o poder e a justiça de Deus para todo homem que nEle crê (Rm 1.16). O
teólogo alemão Trillhaas define a natureza prática da homilética como “a voz do
evangelho na época atual da igreja de Cristo”.
Os termos pregação e pregar vêm do latim praedicare, que significa “proclamar”. O
Novo Testamento emprega quatro verbos para exemplificar a natureza da pregação:

I. khru/ssw),
Kērysso (khru/ sw proclamar, anunciar, tornar conhecido (61 ocorrências
no Novo Testamento). Está relacionado com o arauto (kēryx - kh=ruc), “que é
comissionado pelo seu soberano ... para anunciar em alta voz alguma notícia, para assim
torná-la conhecida”.
Assim, pregar o evangelho significa fazer o serviço e cumprir a missão de um
arauto. João Batista era o arauto de Deus. Para sua atividade, os sinóticos empregam o
termo kērysso: Mt 3.1; Mc 1.4; Lc 3.3. Jesus, por Sua vez, era arauto de Seu Pai: Mt 4.17,
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 38
23; 11.1; e os doze discípulos, Paulo e Timóteo, arautos de Jesus: Mt l0.7,27; Mc 16.15;
Lc 24.47; At 10.42; Rm 10.8; 1 Co 1.23; 15.11; 2 Co 4.5; Gl 2.2; 1 Ts 2.9; 1 Tm 3.16; 2
Tm 4.2.

Estas referências bíblicas mostram que a natureza da pregação consiste em quatro


características principais:

1) Um arauto fala e age em nome do seu senhor. O arauto é o porta-voz de seu


mestre. É isto que dá à sua palavra legitimidade, credibilidade e autenticidade;

2) A proclamação do arauto já é determinada. Ele deve tornar conhecidas a vontade


e a palavra de seu Senhor. O não-cumprimento desta missão desclassifica-o de sua função
e responsabilidade;

3) O teor principal da mensagem do arauto bíblico é o anúncio do reino de Deus:


Mt 4.17-23; 9.35; 10.7; 24.14; Lc 8.1; 9.2; e;

4) O receptor da mensagem do arauto bíblico é o mundo inteiro: Mt 24.l4; 26.13;


Mc 16.15; Lc 24.47; Cl 1.23; 1 Tm 3.16.

II. Euangelizomai (eu)eu)aggeli/zomai - eu)aggeli/zw),w evangelizar. Quem


evangeliza transmite boas novas, uma mensagem de alegria. Assim se caracteriza a
natureza da prédica evangélica. O pregador do evangelho é o portador de boas novas, de
uma mensagem de salvação e alegria. Ele anuncia estas boas novas de salvação ao homem
corrompido por seu pecado (Is 52.7; Rm 10.15)13. O conteúdo do evangelho é a salvação
realizada por Jesus Cristo (Lc 2.10; At 8.35; 17.18; Gl 1.16; Ef 3.8; Rm 1.16; 1 Co
15.15ss). e seu alcance é o mundo inteiro. O evangelho não deve limitar-se a uma classe
especial. Ele é para todos. Todos têm direito de ouvir a mensagem de Jesus Cristo (At
5.42; 11.20; 1 Co 1.17; 9.16).

marturei=n - marture/w), testemunhar, testificar, ser


III. Martyrein (marturei=
testemunha. O testemunho de Jesus Cristo é outra característica autêntica da prédica
evangélica. Jesus convidou seus discípulos para serem Suas testemunhas do poder do
Espírito Santo (Lc 24.48; At 1.8). Neste sentido, os apóstolos compreenderam e
executaram seu ministério (At 2.32; 3.15; 5.32; 10.39; 13.31; 22.15; 23.11; 1 Jo 1.2; 4.14).
A testemunha qualifica-se através da comprovação de sua experiência. Isto lhe dá
credibilidade, convicção e liberdade no cumprimento de sua missão. O evangelista diz:
“... e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus” (Jo 6.69). Isto significa que
somente aquele que experimentou pessoalmente o poder salvador e transformador de
Cristo, por meio da fé em Sua pessoa e obra, é qualificado para ser testemunha

13
Is 52.7: Como são belos nos montes os pés daqueles que anunciam (mebassēr) boas novas, que proclamam a paz, que trazem
boas notícias, que proclamam (mebassēr) salvação, que dizem a Sião: “O seu Deus reina!”. Mebassēr - r"&b
a m
: , na Septuaginta é
eu)aggelizome/nou e eu)aggelizo/menoj de eu)aggeli/zw.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 39
evangélica. Por isso, a testemunha do Novo Testamento testifica para outras pessoas
aquilo que apropriou pela fé. “E o que de minha parte ouviste, através de muitas
testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis e também idôneos para instruir a
outros” (2 Tm 2.2).

dida/skein - dida/skw),
IV. Didaskein (dida/ kw ensinar. Encontramos este verbo 95
vezes no Novo Testamento. Seu significado é sempre ensinar ou instruir. O Novo
Testamento apresenta-nos Jesus como um grande educador: “Quando Jesus acabou de
proferir estas palavras [o Sermão do Monte], estavam as multidões maravilhadas da sua
doutrina; porque ele as ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas” (Mt
7.28, 29). “É o testemunho unânime de todos os escritores sinóticos, que sem dúvida
coincide com a realidade histórica, que Jesus ensinava publicamente, i. e., nas sinagogas
(Mt 9.35; 11.54; Mc 6.2; 1.21 e passim), no templo (Mc 12.15; Lc 21.37; Mt 26.55; Mc
14.49); (cf. Jo 18.20) ou ao ar livre (Mt 5.2; Mc 6.34; Lc 5.3; e passim). Somente Lucas
4.16ss dá detalhes acerca da forma externa de Seu ensino, ficava em pé para ler um trecho
dos profetas”.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 40

CLASSIFICAÇÃO DO SERMÃO
O sermão é classificado por duas formas, a saber: pelo assunto ou pelo método,
podendo ser discursivo ou expositivo.

1. Pelo assunto:

1.1. Doutrinário. É aquele que expõe uma doutrina. (Ensinamento). Sua finalidade é
instruir os crentes sobre as grandes verdades da fé e como aplicá-las, portanto, é didático.
O dom de ensino era muito difundido no cristianismo nascente. Jesus era intitulado de
“Mestre” e os seus seguidores de “discípulos”. O sermão doutrinário atende quatro
funções na vida da igreja:

a) Atende o desejo de aprender que existe na vida do crente;


b) Previne contra as heresias;
c) Dá embasamento à ação;
d) Contribui para o crescimento dos ouvintes e do próprio pregador.

1.2. Histórico. É aquele que narra uma história;


1.3. Ocasional. É aquele destinado a ocasiões especiais;
1.4. Apologético. Tem a finalidade de fazer apologia. (defender);
1.5. Ético. É quando exalta a conduta e a vida moral e ética;
1.6. Narrativo. Quando narra um fato, um milagre;
1.7. Controvérsia. Tem por finalidade atacar erros e heresias.

2. Pelo método (James Braga. COMO PREPARAR MENSAGENS BÍBLICAS, Pág. 17-
76).

2.1. Topical ou Temático. Trata de um tópico e não de um texto bíblico em particular.


As divisões derivam-se do tópico (ou tema). [COMO PREPARAR MENSAGENS
BÍBLICAS, Pág. 17-29].
2.2. Textual. Trata do desenvolvimento de um texto bíblico, um ou dois versículos. As
divisões derivam-se do texto. [COMO PREPARAR MENSAGENS BÍBLICAS, Pág. 30-
46].
2.3. Expositivo. Trata do desenvolvimento de um texto bíblico, geralmente longo. As
divisões também derivam-se do texto. Este pode expor uma história ou uma doutrina.
(Parábola, Milagre, Peregrinação, Pecado). Em certo sentido todo sermão é expositivo,
mas aqui indica a extensão do texto. Leia: O Cajado do Pastor, pág. 163-170. [COMO
PREPARAR MENSAGENS BÍBLICAS, Pág. 47-76].
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 41
14
A ESTRUTURA HOMILÉTICA

A Estrutura homilética de um sermão possui o seguinte esquema:


TÍTULO:
TEXTO:
INTRODUÇÃO:
PROPOSIÇÃO:
Sentença Interrogativa
Sentença de Transição
AS DIVISÕES PRINCIPAIS:
I. PRIMEIRO SUBTÍTULO
1. Primeira subdivisão;
2. Segunda subdivisão;
3. Terceira subdivisão.

II. SEGUNDO SUBTÍTULO


1. Primeira subdivisão;
2. Segunda subdivisão;
3. Terceira subdivisão.

III. TERCEIRO SUBTÍTULO


1.Primeira subdivisão;
2.Segunda subdivisão;
3.Terceira subdivisão.
CONCLUSÃO
APLICAÇÃO
APELO

14
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HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 42

DIVISÃO DO SERMÃO
O Sermão deve possuir divisões, que permitem um bom aproveitamento do assunto
que vai ser apresentado.

É a expressão do aspecto específico a ser apresentado, formulado de maneira que


seja um anúncio adequado do sermão.

TÍTULO 15

O pregador não deve se preocupar com o título no início do preparo de seu sermão,
pois geralmente o título, assim como a introdução, é um dos últimos itens a ser preparado.

CARACTERÍSTICAS DO TÍTULO

O título deve ser interessante e atraente a fim de despertar a atenção dos ouvintes.
Para ser interessante ele deve relacionar-se as situações específicas e às necessidades das
pessoas que ouvem o sermão.
1. O título deve ter relação com o tema do sermão ou com o texto bíblico.
2. O título deve ser decente e digno. Devem ser evitados títulos rudes que ofendem
e causam apatia.
3. O título deve ser preferencialmente breve.
4. O título pode ser uma citação breve de um texto bíblico.

PROPOSIÇÃO OU TEMA16

Proposição é uma declaração positiva do assunto a ser proclamado. É a afirmação de


uma verdade bíblica, eterna que tem aplicação universal.
A proposição também é chamada de “tese”, “tema”, “idéia homilética”. Deve-se
atentar para o fato de que assunto e tema não são a mesma coisa. O Assunto é algo mais
genérico, enquanto que o tema é mais específico. Um assunto, por exemplo, poderia ser a
“Esperança”, e vários temas poderiam ser derivados deste assunto: “A Esperança do
Crente”, “A Esperança do Mundo”, etc...
Uma proposição, para ser completa deve possuir um “sujeito” e um “complemento”.
Para descobrir o sujeito e o complemento da passagem bíblica, convém aplicar as
interrogativas “quem”, “o que”, “por que”, “como”, “quando” e “onde”.

15
laferraz@uninet.com.br
16
Ibid.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 43
O texto de Gálatas 3:13 nos servirá de exemplo: “Cristo nos resgatou da maldição
da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for
pendurado no madeiro”.
Fazendo a pergunta “sobre o que fala este texto?”, descobriremos o sujeito da
sentença, ou seja, “a maldição da lei”. O complemento é tudo aquilo que a passagem relata
acerca da maldição da lei, isto é, que ela foi realizada quando Cristo a tomou sobre si,
sendo pendurado no madeiro. Uma vez tendo descoberto o sujeito e o complemento
podemos formular a idéia exegética do texto: “Nossa redenção da maldição da lei foi
realizada por Cristo, o qual recebeu a maldição por nós”.
A proposição deve preferencialmente estar na afirmativa. A frase “Devemos honrar
a Cristo obedecendo aos seus mandamentos” é melhor do que “Não devemos desonrar a
Cristo desobedecendo aos seus mandamentos”.
A proposição difere da idéia exegética. A idéia exegética é a afirmativa de uma
única sentença; é a verdade principal da passagem, enquanto que a proposição é a verdade
espiritual ou princípio eterno, transmitido por toda a passagem.
Tomemos como exemplo a passagem de Marcos 16.1-4: “1 Ora, passado o sábado,
Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas para irem ungi-lo. 2
E, no primeiro dia da semana, foram ao sepulcro muito cedo, ao levantar do sol. 3 E
diziam umas às outras: Quem nos revolverá a pedra da porta do sepulcro? 4 Mas,
levantando os olhos, notaram que a pedra, que era muito grande, já estava revolvida.”
A idéia exegética desta passagem é: “... as mulheres, a caminho do túmulo para
ungir a Jesus, preocupavam-se com um problema grande demais para elas, porém já
resolvido antes de elas terem de enfrentá-lo”. Esta idéia exegética nos leva à seguinte tese:
“Deus é maior do que qualquer problema que tenhamos de enfrentar”. Note que a idéia
exegética é uma verdade fundamental da sentença, mas a tese extraída da idéia exegética é
uma verdade eterna e universal, aplicável a tudo e a todos.
A proposição deve ser formulada no tempo presente; não deve incluir referências
geográficas ou históricas; não deve fazer uso de nomes próprios, exceto os nomes divinos.
Uma tese com alguma dessas características ficaria muito embaraçosa: “Assim como o
Senhor chamou a Abrão de Ur dos Caldeus para ir para uma terra que desconhecida, da
mesma forma Ele chama alguns de nós para irmos pregar aos estrangeiros”.

TIPOS DE TEMAS

1. Interrogativo: Uma pergunta, que deve ser respondida no sermão.


Ex.: Onde estás? Que farei de Jesus? Tenho uma arma o que fazer com ela?
2. Lógico: Explicativo.
Ex.: O que o homem semear, ceifará; Quem encontra Jesus volta por outro
caminho.
3. Imperativos: Mandamento, uma ordem; Caracteriza-se pelo verbo no modo
imperativo.
Ex.: Enchei-vos do espírito; Não seja incrédulo; Não adores a um Deus morto.
4. Enfáticos; Realçar um aspecto específico;
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 44
Ex.: Só Jesus salva; Dois tipos de cristãos;
5. Geral: Abrangente, aborda um assunto de forma geral sem especificá-lo.
Ex.: Amor; fé, esperança

TEXTO

É trecho lido pelo orador, podendo ser um capítulo, uma história, uma frase ou até
mesmo uma palavra.
O texto bíblico é a passagem bíblica que serve de base para o sermão.
Esse texto deverá fornecer a idéia ou verdade central do sermão. Nunca se deve
tomar um texto somente por pretexto, e logo se esquecer dele.
Segundo Jerry Stanley Key, existem algumas vantagens no uso de um texto bíblico:
1. O texto dá ao sermão a autoridade da palavra de Deus.
2. O texto constitui a base e alma do sermão;
3. Através da pregação por texto o pregador ensina a palavra de Deus;
4. O uso do texto ajuda os ouvintes a reter a idéia principal do sermão;
5. O texto limita e unifica o sermão;
6. Permite uma maior variedade nas mensagens;
7. O texto é um meio para a atuação do Espírito Santo.

A INTRODUÇÃO 17

Introdução. Tem por finalidade chamar a atenção dos ouvintes para o assunto que
vai ser apresentado e também para o pregador.
A introdução, também chamado de exórdio, deve ser elaborado por último, como
acontece com o título. Deve ficar claro que a introdução não é o mesmo que as
preliminares que os pregadores costumam proclamar. As preliminares consistem de
observações gerais que não se relacionam com o sermão. Geralmente é uma apresentação
do pregador ou um testemunho para que este seja conhecido do povo.
A introdução é o processo pelo qual o pregador procura conduzir a mente dos
ouvintes para o tema de sua mensagem. Na introdução o pregador procura prender a
atenção dos ouvintes acerca do tema que pretende proclamar.

CARACTERÍSTICAS DA INTRODUÇÃO

1. Deve despertar o interesse dos ouvintes.


2. Deve ser breve.

17
Ibid.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 45
18
SENTENÇA INTERROGATIVA E SENTENÇA DE TRANSIÇÃO

A proposição deve ser ligada ao sermão através de uma pergunta, e esta por sua vez
através de uma sentença de transição.
Para ligar a proposição ao sermão, usa-se qualquer um dos cinco advérbios
interrogativos: “por que”, “como”, “o que”, “quando” e “onde”. Vejamos alguns
exemplos: Na proposição “A Vida Cristã é uma Vida Vitoriosa” podemos incluir a
seguinte interrogativa: “Quais são os motivos que nos levam a considerar que a Vida
Cristã é uma Vida Vitoriosa?” (ou Como se faz da Vida Cristã uma Vida Vitoriosa?) Este
tema poderia nos levar a uma resposta baseada em Romanos: “Por que todas as coisas
concorrem para o bem daqueles que amam a Deus” ou “Por que em todas essas coisas
somos mais do que vencedores”.
A sentença de transição faz a transição entre a interrogativa e o corpo do sermão. A
transição para a interrogativa acima, por exemplo, poderia ser: “Vejamos cinco motivos
pelos quais podemos afirmar que a Vida Cristã é uma Vida Vitoriosa”.
A palavra motivo é a palavra-chave da transição, pois toda transição deve possuir
uma palavra-chave que caracterize os pontos principais do sermão. Vários são os motivos
que classificam a vida cristã como sendo uma vida vitoriosa, e em cada divisão do sermão
deve expressar claramente esses motivos.

As sentenças de Transição que ligam as divisões do sermão devem repetir a palavra-


chave. Por exemplo: “Vejamos qual é o primeiro motivo pelo qual devemos afirmar que a
vida cristã é uma Vida Vitoriosa”. A estrutura homilética seria a seguinte:

PROPOSIÇÃO: A Vida Cristã é uma Vida Vitoriosa


INTERROGATIVA: Quais são os motivos que nos levam a considerar que a Vida Cristã é
uma Vida Vitoriosa?
TRANSIÇÃO: O texto nos apresenta cinco motivos pelo qual devemos afirmar que a vida
cristã é uma Vida Vitoriosa. Vejamos o primeiro motivo:
I. PRIMEIRA DIVISÃO: Por que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que
amam a Deus...
TRANSIÇÃO: Vejamos o segundo motivo...
II. SEGUNDA DIVISÃO: Por que em todas essas coisas somos mais do que vencedores”.

LISTA DE PALAVRAS CHAVES


Alvos, argumentos, aspectos, atitudes, causas, efeitos, evidências, fatores, fatos, fontes,
lições, manifestações, marcas, meios, métodos, motivos, necessidades, objetivos, ocasiões,
passos, provas, verdades, virtudes, etc... (note que as palavras-chaves estão no plural).

18 18
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HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 46
19
AS DIVISÕES PRINCIPAIS

O corpo. É a parte mais linda porque aqui se revela a Mensagem como Deus que
dar. É o mesmo que desenvolvimento do sermão.
As Divisões são o corpo do sermão. São as verdades espirituais divididas em partes
seqüenciais, distintas, mas interligadas à verdade principal que é a proposição.

CARACTERÍSTICAS DAS DIVISÕES PRINCIPAIS


1. Devem ter unidade de pensamento.
2. Elas ajudam o pregador a lembrar-se dos pontos principais do sermão.
3. Elas ajudam os ouvintes a recordarem-se dos aspectos principais do sermão.
4. Elas devem ser distintas umas das outras.
5. Elas devem originar-se da proposição e desenvolvê-la progressivamente até o clímax
do sermão.
6. Elas devem ser uniformes e simétricas.
7. Cada divisão deve Ter apenas uma idéia ou ensino.
8. O número das divisões deve, sempre que puder, ser o menor possível.

19
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HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 47

A CONCLUSÃO 20

A conclusão é o clímax do sermão. Na conclusão o pregador deve chegar ao seu


alvo que é atingir seus ouvintes e persuadi-los a praticarem e aplicarem em suas vidas a
mensagem que ouviram. É a sessão do sermão onde tudo o que foi dito anteriormente é
reafirmado com mais intensidade e vigor, a fim de produzir maior impacto nos ouvintes.
A conclusão é o fechamento do sermão e deve ser bem feita, um sermão com
encerramento abrupto é desaconselhável. Conclusão é o clímax do sermão, na qual o
objetivo constante do pregador atinge seu alvo em forma de uma impressão vigorosa.
A conclusão é, sem dúvida, o elemento mais poderoso de todo o sermão. Se não for
bem executada, pode enfraquecer ou até mesmo destruir o efeito das partes anteriores da
mensagem.
A conclusão deve ser breve e objetiva. É um resumo do sermão, uma recapitulação e
reafirmação dos argumentos apresentados.
Durante a conclusão pode efetuar um convite de acordo com a mensagem
transmitida.

CARACTERÍSTICAS DA CONCLUSÃO

1. A conclusão não é apenas um anexo da mensagem, é parte dela.


2. Na conclusão não devem ser apresentadas novas idéias, mas apenas ser enfatizado as já
expostas anteriormente.
3. A conclusão é a parte mais poderosa do sermão, porque une todas as verdades
ensinadas em uma verdade única.
4. A conclusão deve ser breve.
5. A conclusão pode ser uma recapitulação das idéias expostas nas divisões principais.
6. A conclusão pode ser uma ilustração.
7. A conclusão poder ser a aplicação da mensagem aos aspectos práticos da vida.
8. A conclusão pode ser um apelo.

20
Ibid.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 48

APLICAÇÃO

É a arte de persuadir e induzir os ouvintes a entender e colocar em prática em sua


vida. Pode ser feita ao final de cada divisão ou de acordo com a oportunidade.

Deve ser dirigida a todos, com muito entusiasmo apelando à consciência e aos
sentimentos dos ouvintes.
A aplicação é o processo mediante o qual o pregador aplica a verdade espiritual do
sermão à vida dos seus ouvintes, a fim de persuadi-los a uma reação favorável à
mensagem. Em outras palavras a aplicação é e persuasão das palavras do pregador; é a
palavra dirigida ao coração. Na pregação o pregador fala a mente das pessoas, a fim de
que meditem nas palavras que estão ouvindo, mas na aplicação o pregador fala ao coração,
a fim de que pratiquem as palavras ouvidas. A aplicação é a meditação posta em prática.

ILUSTRAÇÃO

É o processo de explicar algo desconhecido pelo conhecido. É a exposição de um


exemplo que torna claro os ensinamentos do sermão.
A ilustração pode ser uma parábola, uma alegoria, um testemunho ou uma história
(ou uma estória). Deve ser enfatizado que a ilustração não é a parte mais importante do
sermão, mas sim a explanação do texto. A parte mais importante é a interpretação do
texto, pois o alvo do sermão é torná-lo conhecido do público, e a ilustração se presta a essa
tarefa.
A ilustração ajuda na exposição tornando claro e evidente as verdades da Palavra de
Deus.
A ilustração atrai a atenção, quebrando assim a monotonia, e faz com que a
mensagem seja gravada nos corações com mais facilidade.
As ilustrações também ajudam na ornamentação do sermão tornando-o mais
atraente, porém o pregador deve ter o cuidado de não ficar o tempo todo contando
“histórias”.
São recursos usados para o enriquecimento, e o esclarecimento de uma mensagem,
quando devidamente aplicada.
O senhor Jesus sempre tinha uma boa história para iluminar as verdades que
ensinava ao povo.
O significado do termo ilustrar é tornar claro, iluminar, esclarecer mediante um
exemplo, ajudando o ouvinte a compreender a mensagem proclamada. O bom uso da
ilustração desperta o interesse, enriquece, convence, comove, desafia e estimula o ouvinte,
valoriza e vivifica a mensagem, além de relaxar o pregador.
A ilustração não substitui o texto bíblico apenas tem uma função psicológica e
didática, para tornar mais claro aquilo que o texto revela.
As ilustrações devem ser simples, estão correlacionadas com a mensagem, devem
fornecer fatos de interesses humanos e devem Ter um ponto alto ou clímax.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 49
APELO

O apelo é o processo de requerer do auditório uma resposta positiva acerca do que


foi explanado. O apelo é uma invocação feita aos ouvintes para que recebam os
ensinamentos expostos na pregação.
Deve ser enfatizado que a própria pregação já em si um apelo. O verdadeiro apelo é
feito pelo Espírito Santo. Ele chama e invoca os homens para que ouçam a sua Palavra, e
quando estes se voltam para ela, demonstram sua fé nas palavras que ouviram. As
Escrituras afirmam que a fé vem pelo ouvir da Palavra de Deus, portanto a exposição da
palavra é o apelo que o Espírito Santo dirige aos homens para que ouçam, creiam e
recebam a palavra em seu coração. Isto não impede, entretanto que se façam apelos à
platéia de forma visual, por meio de um levantar de braço ou solicitando ao ouvinte que vá
à frente da congregação. Deve-se, no entanto, entender que esses fatos não se constituem
na concretização do apelo, e, portanto, deve, este tipo de apelo, ser usado com moderação.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 50

TIPOS DE SERMÕES21

Há 4 tipos de sermões: Bispo Moreno:


1. Temático - baseado em um tema específico.
2. Textual - baseado em um texto específico.
3. Expositivo - expõe exegética e hermeneuticamente um determinado texto.
4. Sedativo - faz o auditório dormir profundamente; é o mais utilizado
ultimamente nos púlpitos brasileiros.

Há 4 tipos de sermões:
1. SERMÃO TEMÁTICO OU TÓPICO;
2. SERMÃO TEXTUAL;
3. SERMÃO EXPOSITIVO;
4. SERMÃO BIOGRÁFICO.

O sermão é diferente da homilia ou da preleção exegética.


A homilia é a exposição seqüencial da passagem, versículo por versículo,
apresentando-se apenas a idéia exegética que cada versículo contém. É um comentário
sobre uma passagem bíblica, curta ou longa, explicada e aplicada versículo por versículo,
ou frase por frase. A homilia não possui estrutura homilética.

A preleção exegética é um comentário detalhado de um texto, com ou sem ordem


lógica ou aplicação prática. A exegese interpreta o significado oculto da passagem, mas a
exposição apresenta ao público esse significado.

SERMÃO TEMÁTICO

É aquele onde a divisão faz-se pelo tema. Todas as divisões devem derivar do tema.
A melhor forma é fazer perguntas ao tema escolhido, tais como: Por que? Como? Quando?
O Que? Onde? É aquele em que toda a argumentação está amarrada em um tema, divide-
se o tema e não o texto, o que permite a utilização de vários textos bíblicos. Isso não quer
dizer que o tema não seja bíblico, mas sim que o sermão gira em torno do tema e não de
uma passagem específica. Porém para que o sermão temático seja bíblico, o tema deve ser
extraído da Bíblia.

Um tema, por exemplo, poderia ser a fé evangélica. O sermão, então não se basearia
em apenas um texto bíblico, mas em diversos versículos da Bíblia, pois a palavra fé se
prolifera por toda a Escritura. O sermão baseado neste tema poderia expor a fé dos
patriarcas, a fé dos mártires, a fé dos apóstolos, e assim por diante.
21
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HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 51
Uma Idéia de um Sermão Doutrinário:
Tema : Os Sinais indica m, Jesus está vo ltando !
Texto : Mt 24
Introdução:
I. Os s ina is na natureza:
I I. Os s ina is político -sociais :
III. Os s ina is religiosos:

SERMÃO TEXTUAL22

É aquele em que toda a argumentação está amarrada no texto principal que, será
dividido em tópicos. No sermão textual as idéias são retiradas de um texto escolhido pelo
pregador. O tema é extraído do próprio texto, e por isso o esboço das divisões deve
manter-se estritamente dentro dos limites do texto. É um método muito bom, pois oferece
aos ouvintes a oportunidade de acompanhar, passo a passo a exposição do sermão.
As divisões do sermão textual podem ser feitas de acordo com as declarações
originais do texto. Ou se utilizar de uma análise mais apurada baseando-se em perguntas
como: Onde? Que? Quem? Por que? Que deverão ser respondidas pelas declarações ou
frases do texto. E ainda pode-se dividir por inferência, as orações textuais são reduzidas a
expressões sintéticas que encerra o conteúdo.

CARACTERÍSTICAS DO SERMÃO TEXTUAL

Deve girar em torno de uma única idéia principal da passagem, e as divisões


principais devem desenvolver essa idéia.
As divisões podem consistir em verdades sugeridas pelo texto.
As divisões devem, preferencialmente e quando possível, vir em seqüência lógica e
cronológica.
As próprias palavras do texto podem formar as divisões principais do sermão, desde
que elas se refiram à idéia principal.
Tema : Cristo é tudo para o crente
Texto : João 14.6
Introdução.
I. Cr isto é o caminho para o céu,
I I. Cr isto é a verdade que orienta,
III. Cr isto é a vida que salva.

22
Ibid.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 52

SERMÃO EXPOSITIVO23

É aquele cujas divisões principais se derivam do texto, e consistem em idéias


progressivas que giram em torno de uma idéia principal. O sermão expositivo, assim como
o sermão temático e o textual, gira em torno de um tema, mas na mensagem expositiva o
tema é extraído de vários versículos em vez de um único. Por isso mesmo os vários
versículos de uma passagem que dão origem ao tema único do sermão deve ser uma
unidade expositiva. O sermão expositivo se baseia em uma porção extensa das Escrituras.
Pode ser alguns versículos ou um capítulo inteiro, até mesmo um livro.
É aquele que explora os argumentos principais da exegese, hermenêutica e faz uma
exposição completa de um trecho mais ou menos extenso. O sermão expositivo é uma
aula, uma análise pormenorizada e lógica do texto sagrado. Este tipo do sermão requer do
pregador cultura teológica e poder espiritual.
O sermão expositivo é o método mais difícil. Apreciado pelos que se dedicam à
leitura e ao estudo diário e contínuo da bíblia, deve ser feito uma análise de línguas,
interpretação, pesquisa arqueológica, e histórica, bem como, comparação de textos.

“É impossível definir os termos textual, tópico e expositivo. Estes termos seriam


magníficos, com exceção de que eles raramente fazem sermões se encaixarem bem em
uma categoria quando você realmente começa a estudar sermões através da história. Não
há modificador que possa explicar tudo o que Deus faz através da pregação, ou as
maneiras que Ele usa. A única pergunta que realmente importa é: O sermão envolve-se a si
mesmo com a verdade da Palavra de Deus? Quando isso acontece, você tem uma pregação
genuína e todos os modificadores de termos se tornam supérfluos. Se você usa a Palavra
de Deus para trazer luz e transformação para a vida das pessoas, então a pregação tem
ocorrido, independente do método usado” (Dr. Clyde Fant, professor de pregação).

Tema : O Cr istão e o Novo Nascimento


Texto : João 3.1 -15
Introdução.
I. A necessidade do no vo nascimento ( v.v.3-5)
I I. O mistér io do n ovo nascimento (v.v. 6-10)
I II . A recompensa do no vo nascimento ( v. 15)

23
Ibid.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 53
Modelo (Textual Expositivo)
TEMA: O ANDAR DO POVO DE DEUS
TEXTO: Ef 5.1-15:
INTRODUÇÃO: Sadu Sing na Inglaterra; Richard Wumbrant.
FRASE DE TRANSIÇÃO: O POVO DE DEUS DEVE ANDAR:
I. ANDAR EM AMOR: Ef 5.2; 1Co 13.4-8; Rm 5.5; 1Jo 3.11-18; Jo 13.34.
1. Amor requer aproximação: Rm 12.9-21;
2. Amor requer respeito: Gl 5.13-15;
3. Amor requer confiança: Jo 19.26,27
4. O Amor requer Renúncias: Mt 5.38-48;
Ilustração. Richard Wumbrant
FRASE DE TRANSIÇÃO: O POVO DE DEUS DEVE ANDAR:
II. ANDAR COMO FILHOS DA LUZ: “... andai como filhos da luz”.
1. É andar em comunhão com Deus: Gn 5.22-24;
2. É não partilhar das obras das trevas: 1Jo 2.15-17; Sl 1.1-8; Tg 4.4; 1Co 5.7-13.
3. É provar sempre o que é agradável ao Senhor: Ef 5.10; Rm 12.2
FRASE DE TRANSIÇÃO: O POVO DE DEUS DEVE ANDAR:
III. ANDAR EM SABEDORIA: Ef 5.15; Tg 1.5,6;
1. Remindo o tempo: Ef 5.16; Cl 4.5;
2. Procurar entender a vontade Deus: Ef 5.17; Rm 12.2;
3. É ser cheio do Espírito Santo: Ef 5.18; Gl 5.16;
4. É dar sempre graças a Deus: Ef 5.20; 1Ts 5.18.

CONCLUSÃO:
O POVO DE DEUS DEVE ANDAR EM AMOR, NA LUZ E EM SABEDORIA.
Pr. A. Carlos G. Bentes
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 54
EXEMPLO 1
TEMA: OS ATRIBUTOS DE JESUS
TÍTULO: NOSSO SENHOR SINGULAR
TEXTO: Mt 14.14-22
I. A COMPAIXÃO DE JESUS
1. Demonstrada em seu interesse pela multidão (v.14)
2. Demonstrada em seu serviço à multidão (v.14)
II. A TERNURA DE JESUS
1. Demonstrada em sua resposta graciosa aos discípulos (vv.15,16)
2. Demonstrada em seu trato paciente com os discípulos (vv.17,18)
III. O PODER DE JESUS

1. Manifesto na alimentação da multidão (vv.19-21)


2. Exercido mediante o serviço dos discípulos (vv.14-21)
EXEMPLO 2
TÍTULO: VEJA DEUS OPERAR
TEMA: “Cristo como o Supridor de nossas necessidades”
TEXTO: Mt 14.14-21
INTRODUÇÃO:
I. CRISTO SE INTERESSA POR NOSSAS NECESIDADES
1. Tem compaixão de nós em nossas necessidades (vv.14-16);
2. Ele nos considera em nossas necessidades quando outros não se importam conosco
(vv.15,16).
II. CRISTO, AO SUPRIR NOSSAS NECESSIDADES, NÃO SE RESTRINGE PELAS
CIRCUNSTÂNCIAS
1. Ele não se restringe por nossa falta de recursos (vv.17,18);
2. Ele não se restringe por qualquer outra falta (v.19).
III. CRISTO SUPRE NOSSAS NECESSIDADES
1. Supre nossas necessidades com abundância (vv.20);
2. Provê muito mais do que o suficiente (vv.20,21).
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 55

EXEMPLO 3
TÍTULO: RESOLVENDO NOSSOS PROBLEMAS
TEMA: “nossos problemas”
TEXTO: Mt 14.14-22
INTRODUÇÃO:
I. ÀS VEZES NOS CONFRONTAM OS PROBLEMAS
1. Problemas de grandes proporções (vv.14,15);
2. De natureza imediata (v.15);
3. De solução humana impossível (v.15).
II. CRISTO É ABUNDANTEMENTE CAPAZ DE SOLUCIONAR NOSSOS
PROBLEMAS
1. Sob a condição de que lhe entreguemos nossos recursos limitados (vv.16-18);
2. Sob a condição de que lhe obedeçamos sem questionar (vv.19-22).
EXEMPLO 4
TÍTULO: RELACIONANDO A FÉ COM A NECESSIDADE HUMANA
TEMA: “A fé em relação com a necessidade humana”
TEXTO: Mt 14.14-21
INTRODUÇÃO:
I. O DESAFIO DA FÉ
1. O motivo do desafio (vv.14,15);
2. A substância do desafio (vv.14,15)
II. A OBRA DA FÉ
1. O primeiro ato de fé (vv.17,18);
2. O segundo ato de fé (vv.19)
III. A RECOMPENSA DA FÉ
1. A bem-aventurança da recompensa (v.20);
2. A grandeza da recompensa (vv. 20,21).
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 56

DIFERENÇA ENTRE SERMÃO EXPOSITIVO E TEXTUAL

No sermão textual as divisões principais oriundas do texto são usadas como uma
linha de sugestão, isto é, indicam a tendência do pensamento a ser seguido no sermão,
permitindo ao pregador extrair as subdivisões ou idéias de qualquer parte das Escrituras.
Já no sermão expositivo o pregador é forçado a extrair todas as subdivisões e, é claro, as
divisões principais, da própria passagem que pretende explicar ou expor.

O sermão expositivo não é uma homilia bíblica ou uma preleção exegética.

O SERMÃO BIOGRÁFICO24

É um tipo específico de sermão que tem por objetivo expor a vida de algum
personagem bíblico como modelo de fé e exemplo de comportamento.

MENSAGEM PREGADA PELO PASTOR GUILHERME DE AMORIM ÁVILLA


GIMENEZ NA IGREJA BATISTA BETEL EM 11 DE MARÇO DE 2007 ÀS 18:00
HORAS.

SERMÃO BIOGRÁFICO
PERSONAGEM: ABRAÇÃO
ÊNFASE: MISSÕES E CONSAGRAÇÃO DE VIDA

O QUE É UM SERMÃO BIOGRÁFICO

Um estilo homilético em que o pregador ‘encarna’ um personagem bíblico. Ele é


apresentado na primeira pessoa do singular e se vale de encenações e afirmações pessoais
tentando retratar verdades da Palavra de Deus.

POR QUE ABRAÃO

No mês de missões nada melhor do que falarmos no ‘pai de missões’ (assim ele é
chamado por vários missiólogos.

1. IDENTIFICAÇÃO

INTRODUÇÃO
Minha história está registrada em Gênesis 12-25. A Bíblia fala sobre mim 233 vezes, não
apenas no Antigo Testamento mas também no Novo. Jesus Cristo falou sobre mim. Os

24
laferraz@uninet.com.br
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 57
apóstolos Paulo, Pedro e Tiago também fizeram menção a mim em seus livros. Apareço
também no livro de Hebreus.

ABRÃO
Nome inicial do personagem.
SIGNIFICADO DO NOME: “antepassado famoso”

ABRAÃO
Seu nome foi mudado aos 99 anos de idade.
SIGNIFICADO DO NOME: “pai de muitas nações” (Genesis 17.5)
LUGAR DE NASCIMENTO: Ur dos Caldeus. A Caldéia é a parte Sul da Babilônia, um
local muito fértil naquela época. Um povo idólatra e pagão vivia ali. Havia já avanços
científicos e o povo era de cultura avançada.
FAMÍLIA: Filho de Terá e descendente de Sem
OCUPAÇÃO: Proprietário de gado abastado
ÉPOCA: Viveu cerca de 1920 anos antes de Jesus Cristo.
IDADE: 175 anos de vida.

2. COMEÇO DE SUA HISTÓRIA

Minha história começa em uma época de muita fartura e riqueza. Eu tinha muito gado,
vários empregados e gozava boa saúde. Apesar de viver em um lugar pagão sempre fui
temente a Deus. Tinha uma esposa, Sara, a quem amava de todo o meu coração. Nossa
única tristeza é que não podíamos ter filhos. Eu já estava velho e ela também e nós
continuamos firmes em Deus.

PRIMEIRA APLICAÇÃO: você pode ser fiel a Deus mesmo debaixo das mais
diferentes circunstâncias. Mesmo na prosperidade material, mesmo diante de uma
sociedade corrupta e pagã e mesmo quando alguns de seus sonhos não se realizam.

3. A CORAGEM DE OBEDECER A DEUS

Certo dia Deus falou comigo. Eu não esperava. Estava entretido com tantos afazeres. Deus
me deu uma ordem dizendo: “sai da tua terra e do meio dos teus parentes e vá para uma
terra que eu te mostrarei.” Me lembro até hoje daquelas palavras. Eu não pensei duas
vezes. Chamei Sara, meu sobrinho Ló, contei tudo que Deus me dissera e parti sem saber
para onde. Deixei a estabilidade e segui confiando apenas em Deus. Não foi fácil confesso.
Mas como é bom obedecer ao Senhor. Foi a maior experiência de minha vida, ir sem saber
qual será o destino final, movido apenas pela confiança.

SEGUNDA APLICAÇÃO: o mundo de vocês é muito diferente do meu. Vocês tem a


tecnologia a seu favor e antes de tomar uma decisão vocês podem fazer vários
prognósticos. Mas saibam que muitas vezes nós seremos dirigidos exclusivamente pela fé.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 58
Não haverá outro elemento que nos dê segurança. Obedeça a Deus de todo o coração. Seja
um homem de fé. Se arrisque se fazer a vontade de Deus exigir isso.

4. UM HOMEM COMUM COM ERROS E PECADOS

Apesar da minha fé e coragem tive meus erros e com vergonha hoje os reconheço. Um dos
meus problemas sempre foi a mentira. Logo depois de ter obedecido ao Senhor houve
fome na terra e tive que levar Sara e meus empregados para o Egito. Sara sempre foi uma
mulher muito bonita. Eu fiquei com medo de que os Egípcios me matassem para tomar a
Sara como mulher. Então eu menti. Combinei com Sara que ali no Egito ela seria minha
irmã e não minha esposa. E o pior: não foi só dessa vez. Depois desse episódio de novo eu
menti. Me arrependo disso.

TERCEIRA APLICAÇÃO: todos nós somos pecadores e dependemos da graça, perdão


e amor de Deus. Você nunca pode perder a dimensão de sua humanidade, de suas
fraquezas e da sua natureza pecaminosa.

5. O CUMPRIMENTO DAS PROMESSAS DE DEUS

Quando eu ia completar cem anos de idade Deus me disse que Sara, minha esposa, ficaria
grávida. Confesso que eu fiquei achando aquilo engraçado. Pudera, que mulher
engravidaria com a idade de Sara? Mas assim aconteceu. Deus cumpriu sua promessa para
comigo. E eu aprendi que sempre vale a pena confiar no Senhor, esperar Nele. Nasceu
nosso lindo filho Isaque. O filho da promessa. E por causa do nascimento dele eu despertei
para um novo momento em minha vida.

QUARTA APLICAÇÃO: Deus sempre cumpre o que promete mesmo quando eu acho
que está demorando. Creia totalmente em Deus. Ele não falha nunca. Sempre cumpre as
suas promessas.

6. A OBEDIÊNCIA

Meu filho foi crescendo. Um grande garoto. Aí veio a maior surpresa de minha vida. Deus
pediu meu único filho em sacrifício a Ele. Pediu que eu tirasse a vida de meu filho e
oferece um holocausto ao Senhor. Minhas pernas tremeram, meu coração bateu mais forte.
Me lembro daquele dia em que chamei Isaque e fomos para o monte. Ele não entendendo
nada. Busquei a lenha para o sacrifício vendo-o com aquela fisionomia de perguntas sem
resposta. Então, no momento em que já tinha amarrado meu filho e tirado o cutelo para
matá-lo Deus disse para que eu parasse. Ele provou minha obediência. E eu nunca mais fui
o mesmo depois disso.

QUINTA APLICAÇÃO: obedeça a Deus mesmo se for para perder, para sofrer ou se a
obediência parece em um primeiro momento insensata. Deus sabe porque pede as coisas.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 59
não abra mão da obediência. Seja fiel ao Senhor de todo o seu coração. Confie no Senhor
sempre. Faça o que puder para obedecer e você será aprovado pelo Senhor.

7. PAI DE UMA GRANDE NAÇÃO

Deus me preparou para que eu fosse o pai de uma grande nação, o povo de Israel. Deus
trabalhou em minha vida para que eu abençoasse os povos. Você também pode ser uma
bênção nas mãos de Deus. Mas é preciso obedecer, permitir ser uma bênção.

Você está disposto a isso?


HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 60

GRANDES PREGADORES
JONATHAN EDWARDS (1703-1758)

Grande pregador dos EUA, ingressou no ministério em 1726. Seu primeiro


pastorado foi em Northampton, Massachusetts, onde serviu até 1750. Foi contemporâneo e
atuante num grande despertamento espiritual e tido por alguns como o maior teólogo da
América do Norte. Era pregador excelente, com célebres sermões publicados: Deus
Glorificado na Dependência do Homem (1731), Uma Luz Divina e Sobrenatural (1733) e
o mais famoso, Pecadores nas Mãos de um Deus Irado (1741).

Sobre o sermão mais famoso, baseou-se em Deuteronômio 32:35. Depois de


explicar a passagem, acrescentou que nada evitava que os pecadores caíssem no inferno, a
não ser a própria vontade de Deus. Afirmou que Deus estava mais encolerizado com
alguns dos ouvintes do que com muitas pessoas que já estavam no inferno. Disse que o
pecado era como um fogo encerrado dentro do pecador e pronto, com a permissão de
Deus, a transformar-se em fornalhas de fogo e enxofre, e que somente a vontade de Deus
indignado os guardava da morte instantânea.

Continuou, então, aplicando ao texto ao auditório: Aí está o inferno com a boca


aberta. Não existe coisa alguma sobre a qual vós vos possais firmar e segurar... há,
atualmente, nuvens negras da ira de Deus pairando sobre vossas cabeças, predizendo
tempestades espantosas, com grandes trovões. Se não existisse a vontade soberana de
Deus, que é a única coisa para evitar o ímpeto do vento até agora, seríeis destruídos e vos
tornaríeis como a palha da eira... O Deus que vos segura na mão, sobre o abismo do
inferno, mais ou menos como o homem segura uma aranha ou outro inseto nojento sobre
o fogo, durante um momento, para deixá-lo cair depois, está sendo provocado ao
extremo... Não há que admirar, se alguns de vós com saúde e calmamente sentados aí nos
bancos, passarem para lá antes de amanhã...

O sermão foi interrompido pelos gemidos dos homens e os gritos das mulheres;
quase todos ficaram de pé ou caídos no chão. Durante a noite inteira a cidade de Enfield
ficou como uma fortaleza sitiada. Teve início um dos maiores avivamentos dos tempos
modernos na Nova Inglaterra.

JOHN WESLEY (1703-1791)

Foi um instrumento poderoso nas mãos de Deus para um grande avivamento no


século XVIII. Nascido em Epworth, Inglaterra, numa família de dezenove irmãos! Em
1735 foi para a Geórgia como missionário aos índios norte-americanos, não chegando a
ministrar aos índios, mas sim aos colonos na Geórgia. Durante uma tempestade na
travessia do Oceano Atlântico, Wesley ficou profundamente impressionado com um grupo
de morávios a bordo do navio. A fé que tinham diante do risco da morte (o medo de
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 61
morrer acompanhava Wesley constantemente durante a sua juventude) predispôs Wesley à
fé evangélica dos morávios. Retornou à Inglaterra em 1738.

Numa reunião de um grupo morávio na rua Aldersgate, em 24 de maio de 1738, ao


escutar uma leitura tirada do prefácio de Lutero ao seu comentário de Romanos, Wesley
sentiu seu coração aquecido de modo estranho. Embora os estudiosos discordem entre si
quanto à natureza exata dessa experiência, nada dentro de Wesley ficou sem ser tocado
pela fé que acabara de receber.

Depois de uma viagem rápida para a Alemanha para visitar a povoação morávia de
Herrnhut, voltou para a Inglaterra e, juntamente com George Whitefield, começou a pregar
a salvação pela fé. Essa “nova doutrina” era considerada redundante pelos
sacramentalistas da Igreja Oficial que achavam que as pessoas já eram suficientemente
salvas em virtude de seu batismo na infância.

Em 1739, John Wesley foi a Bristol, onde surgiu um reavivamento entre os mineiros
de carvão em Kingswood. O reavivamento continuou sob a liderança direta dele durante
mais de cinqüenta anos. Viajou cerca de 400.000 km, por todas as partes da Inglaterra,
Escócia, País de Gales e Irlanda, pregando cerca de 40.000 sermões. Sua influência se
estendeu à América do Norte. O metodismo veio a tornar-se uma denominação após a
morte de Wesley.

MARTINHO LUTERO (1483-1546)

Era um destacado monge agostiniano, doutor em teologia e pregador na cidade de


Wittemberg, quando ocorreu uma grande transformação em sua vida. Ele mesmo contou:
Desejando ardentemente compreender as palavras de Paulo, comecei o estudo da Epístola
aos Romanos. Porém, logo no primeiro capítulo consta que a justiça de Deus se revela no
Evangelho (vs 16 e 17). Eu detestava as palavras “a justiça de Deus”, porque conforme fui
ensinado, eu a considerava como um atributo do Deus santo que o leva a castigar os
pecadores. Apesar de viver irrepreensivelmente, como monge, a consciência perturbada
me mostrava que era pecador perante Deus. Assim odiava a um Deus justo, que castiga os
pecadores... Senti-me ferido de consciência, revoltado intimamente, contudo voltava
sempre ao mesmo versículo, porque queria saber o que Paulo ensinava. Contudo, depois
de meditar sobre esse ponto durante muitos dias e noites, Deus, na sua graça, me mostrou
a palavra “o justo viverá da fé”. Vi então que a justiça de Deus, nessa passagem, é a justiça
que o homem piedoso recebe de Deus pela fé, como dádiva. Então me achei recém nascido
e no Paraíso. Todas as Escrituras tinham para mim outro aspecto; perscrutava-as para ver
tudo quanto ensinam sobre a justiça de Deus. Antes, estas palavras eram-me detestáveis;
agora as recebo com o mais intenso amor. A passagem me servia como a porta do Paraíso.

Em outubro de 1517, Lutero afixou à porta da Igreja do Castelo de Wittemberg as 95


teses, o teor das quais é que Cristo requer o arrependimento e a tristeza pelo pecado e não
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 62
a penitência. Lutero afixou as teses para um debate público, na porta da igreja, como era
costume nesse tempo. Estas teses, escritas em latim, foram logo traduzidas para o alemão,
holandês e espanhol. Logo, estavam na Itália, fazendo estremecer os alicerces de Roma.
Foi desse ato de afixar as 95 teses que nasceu a Reforma.

Um ano depois de afixar as teses, Lutero era o homem mais popular em toda a
Alemanha. Quando a bula de excomunhão, enviada pelo Papa, chegou a Wittemberg,
Lutero respondeu com um tratado dirigido ao Papa Leão X, exortando-o, no nome do
Senhor, a que se arrependesse. A bula do Papa foi queimada fora do muro da cidade de
Wittemberg, perante grande ajuntamento do povo.

Lutero era um erudito em hebraico e grego, o que facilitou sua grande obra, a
tradução da Bíblia para o alemão. Ele mesmo escreveu para o seu povo: Jamais em todo o
mundo se escreveu um livro mais fácil de compreender do que a Bíblia. Comparada aos
outros livros, é como o sol em contraste com todas as demais luzes. Não vos deixeis levar
a abandoná-la sob qualquer pretexto. Se vos afastardes dela por um momento, tudo estará
perdido; podem levar-vos para onde quer que desejam. Se permanecerdes com as
Escrituras, sereis vitoriosos.

Depois de abandonar o hábito de monge, Lutero resolveu deixar por completo a vida
monástica, casando-se com Catarina von Bora, freira que também saíra do claustro, e
geraram seis filhos.

CHARLES FINNEY (1792-1875)

Nasceu de uma família descrente e se criou num lugar onde os membros da igreja
conheciam apenas a formalidade fria dos cultos. Tornou-se um advogado que, ao
encontrar nos seus livros de jurisprudência muitas citações da Bíblia, comprou ume
exemplar com a intenção de conhecer as Escrituras. Eis um trecho de sua biografia: Ao ler
a Bíblia, ao assistir às reuniões de oração, e ouvir os sermões do senhor Galé, percebi
que não me achava pronto a entrar nos céus... Fiquei impressionado especialmente com o
fato de as orações dos crentes, semana após semana, não serem respondidas. Li na Bíblia
“pedi e dar-se-vos-á”. Li, também, que Deus é mais pronto a dar o Espírito Santo aos que
lho pedirem, do que os pais terrestres a darem boas coisas aos filhos. Ouvia os crentes
pedirem um derramamento do Espírito Santo e confessarem, depois, que não o receberam.
Exortavam uns aos outros a se despertarem para pedir, em oração, um derramamento do
Espírito de Deus e afirmavam que assim haveria um avivamento com a conversão de
pecadores... Foi num domingo de 1821 que assentei no coração resolver o problema
sobre a salvação da minha alma e ter paz com Deus. (...) Fui vencido pela convicção do
grande pecado de eu envergonhar-me se alguém me encontrasse de joelhos perante Deus,
e bradei em alta voz que não abandonaria o lugar, nem que todos os homens da terra e
todos os demônios do inferno me cercassem. O pecado parecia-me horrendo, infinito.
Fiquei quebrantado até o pó perante o Senhor. Nessa altura, a seguinte passagem me
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 63
iluminou: “ Então me invocareis, e ireis, e orareis a mim, e eu vos ouvirei. E buscar-me-
eis, e me achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração”.

A conversão de Finney e o seu imediato batismo no Espírito Santo, contados em sua


biografia, são impressionantes. O amor a Deus, a fome de sua Palavra, a unção para
testemunhar e anunciar do Evangelho vieram sobre ele no dia de sua entrega a Jesus.
Imediatamente, o advogado perdeu todo o gosto pela sua profissão e tornou-se um dos
mais famosos pregadores do Evangelho.

Eis o segredo dos grandes pregadores, nas palavras do próprio Finney: Os meios
empregados eram simplesmente pregação, cultos de oração, muita oração em secreto,
intensivo evangelismo pessoal e cultos para a instrução dos interessados. Eu tinha o
costume de passar muito tempo orando; acho que, às vezes, orava realmente sem cessar.
Achei, também, grande proveito em observar freqüentemente dias inteiros de jejum em
secreto. Em tais dias, para ficar inteiramente sozinho com Deus, eu entrava na mata, ou me
fechava dentro do templo.

Conta-se acerca deste pregador que depois de ele pregar em Governeur, no Estado
de New York, não houve baile nem representação de teatro na cidade durante seis anos.
Calcula-se que somente durante os anos de 1857 e 1858, mais de 100 mil pessoas foram
ganhas para Cristo pelo ministério de Finney. Na Inglaterra, durante nove meses de
evangelização, multidões também se prostraram diante do Senhor enquanto Finney
pregava.

Descobriu-se que mais de 85 pessoas de cada 100 que se convertiam sob a pregação
de Finney permaneciam fiéis a Deus; enquanto 75 pessoas de cada cem, das que
professaram conversão nos cultos de algum dos maiores pregadores, se desviavam. Parece
que Finney tinha o poder de impressionar a consciência dos homens sobre a necessidade
de um viver santo, de tal maneira que produzia fruto mais permanente.

CHARLES SPURGEON (1834-1892)

Conhecido como o “príncipe dos pregadores”, aos 19 anos já era pastor na Park
Street Chapel, em Londres. A princípio um luar muito amplo, para mil e duzentas pessoas,
porém freqüentado por um pequeno grupo de fiéis. Em poucos meses o prédio não
comportava mais a multidão e eles se mudaram para um outro auditório que comportava
quatro mil e quinhentas pessoas! A Igreja então resolveu alugar o Surrey Music Hall, o
prédio mais amplo, imponente e magnífico de Londres, construído para diversões
públicas. O culto inaugural deu-se em 19 de outubro de 1856. Quando o culto começou, o
prédio no qual cabiam 12.000 pessoas estava superlotado e havia mais 10.000 fora que não
puderam entrar!
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 64
Uma terrível catástrofe ocorreu neste dia. Ao início do culto, pessoas diabólicas se
levantaram gritando “ Fogo! Fogo!”, provocando um grande alvoroço e um saldo de sete
pessoas mortas e vinte e oito gravemente feridos. Isto não impediu que o interesse pelos
cultos até aumentasse. Em março de 1861 sua Igreja concluiu a construção do
Metropolitan Tabernacle, local que comportava uma média de 5.000 pessoas a cada culto
dominical, isto perdurando pelos próximos 31 anos. Pregou em cidades de toda a
Inglaterra e noutros países: Escócia, Irlanda, Gales, Holanda e França. Pregava ao ar livre
e nos maiores edifícios, em média oito a doze vezes por semana!

Spurgeon publicou inúmeros livros. Milhares de sermões seus foram publicados e


traduzidos para diversas línguas. Além de pregar constantemente a grandes auditórios e de
escrever tantos livros, esforçou-se em vários outros ramos de atividades. Inspirado pelo
exemplo de Jorge Muller, fundou e dirigiu o orfanato de Stockwell. Reconhecendo a
necessidade de instruir os jovens chamados por Deus a proclamar o Evangelho, fundou e
dirigiu o Colégio dos Pastores. A oração fervorosa era um hábito em sua vida. Contava
com trezentos intercessores que, todas as vezes que pregava, mantinham-se em súplica.

DWIGHT LYMAN MOODY (1837-1899)

Um total de quinhentas mil almas ganhas para Cristo, é o cálculo da colheita que
Deus fez por intermédio de seu humilde servo. Moody nasceu em 5 de fevereiro de 1837,
o sexto filho de nove, numa pobre família do Connecticut, EUA. Sua mãe ficou viúva com
os filhos ainda pequenos, o mais velho tinha 12 e ela estava grávida de gêmeos quando o
marido morreu. Sua mãe foi uma crente fiel e soube instruir seus filhos no Caminho.

Aos vinte e quatro anos, logo após casar-se, em Chicago, Moody deixou um bom
emprego para trabalhar todos os dias no serviço de Cristo, sem ter promessa de receber um
único centavo. Tendo trabalhado com Escolas Bíblicas e evangelização em Chicago, atuou
também junto aos soldados durante a Guerra Civil.

Teve uma tremenda experiência numa viagem a Inglaterra. Visitou Spurgeon no


Metropolitan Tabernacle e impressionou-se. Também contactou Jorge Muller e o orfanato
em Bristol. Nesta mesma viagem, o que mais impressionou Moody e o levou a buscar
definitivamente uma experiência mais profunda com Cristo foram estas palavras
proferidas por um grande ganhador de almas de Dublim, Henrique Varley: O mundo ainda
não viu o que Deus fará com, para e pelo homem inteiramente a Ele entregue.

Um terrível incêndio que praticamente destruiu Chicago, em 1871, também foi um


divisor de águas na vida de Moody. Nesta época ele teme uma marcante experiência com
o Espírito Santo. Voltou a pregar na Inglaterra posteriormente e Deus o usou para inflamar
os corações.. Na Escócia, multidões buscaram ao Senhor. Na Irlanda, maravilhas também
ocorreram, com conversões de multidões ao Senhor.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 65
Para termos idéia, esta viagem culminou com quatro meses de cultos em Londres.
Moody pregava alternadamente em quatro centros. Realizaram-se 60 cultos no
Agricultural Hall, aos quais um total de 720.000 pessoas assistiram; em Bow Road Hall,
60 cultos, aos quais 600.000 assistiram; em Camberwell Hall, 60 cultos, com a assistência
de 480.000; Haymarket Opera House, 60 cultos, 330.000; Vitória Hall, 45 cultos, 400.000
assistentes.

Retornou aos EUA em 1875, sendo reconhecido como o mais famoso pregador do
mundo, continuando a ser um humilde servo de Deus. Durante um período de 20 anos
dirigiu campanhas com grandes resultados nos Estados Unidos, Canadá e México. Em
diversos lugares as campanhas duraram até seis meses.

Transcrevo um depoimento de um dos assistentes a um dos cultos promovidos por


Moody: Nunca jamais me esquecerei de certo sermão que Moody pregou. Foi no circo de
Forepaugh durante a Exposição Mundial. Estavam presentes 17.000 pessoas, de todas as
classes e de todas as qualificações. O texto do sermão foi: “Pois o Filho do homem veio
buscar e salvar o que se havia perdido”. Grandiosa era a unção do pregador; parecia
que estava em íntimo contacto com todos os corações daquela massa de gente. Moody
disse repetidamente: “Pois o Filho do homem veio – veio hoje ao Circo Forepaugh para
procurar e salvar o que se perdera”. Escrito e impresso isso parece um sermão comum,
mas as suas palavras, pela santa unção que lhe sobreveio, tornaram-se palavras de
Espírito e de vida.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 66
25
EVANGELHO, EVANGELIZAÇÃO, EVANGELISMO

“Pregar é evangelizar, daí a necessidade de transcrever este tópico”.


Para uma compreensão básica sobre evangelismo, temos que percorrer uma
conceituação de “evangelho” e “evangelização”, para depois formularmos um entendi-
mento plausível sobre “evangelismo”. Ao tratarmos deste assunto, não temos a pre-
ocupação de fixar a definição acadêmica mais aceita. Antes, nossa preocupação é
encontrar o entendimento mais adequado ao assunto, jogando com definições de autores e
compreensão do texto original.

EVANGELHO
A Palavra evangelho ocorre 72 vezes no Novo Testamento, das quais 54 se
encontram nos escritos de Paulo.
O termo provém do grego euanguelíon (eu)aggeli/on), que significa literalmente:
“boas-novas” (Mc 1.1,15; 16:15). Este é o substantivo. Em Lc 2.10, encontramos o
euanguelíon em ação: “eu anuncio boas-novas”. [eu)aggeli/zomai - eu)aggeli/zw].
O correspondente em hebraico (mebassēr) quer dizer “proclamar boas-novas”,
“trazer novas de vitória”.
Na Septuaginta, principalmente nas referências a Isaías 52.7-9; 41.27; 40.9,
encontramos a mesma idéia.
Is 52.7: “Que formosos são sobre os montes os pés do que anuncia (mebassēr -
r”&ab:m) as boas-novas, que faz ouvir a paz, que anuncia (mebassēr - r”&ab:m) coisas boas,
que faz ouvir a salvação, que diz a Sião: O teu Deus reina!”.
Is 52.7: “Que formosos são sobre os montes os pés do que anuncia
(euanguelizoménou - eu)aggelizome/nou) as boas-novas, que faz ouvir a paz, que
anuncia (euanguelizómenos - eu)aggelizo/menoj) coisas boas, que faz ouvir a salvação,
que diz a Sião: O teu Deus reina!” (LXX).
Thayer procura conceituar o termo euanguélion como: “As notícias alegres de
salvação através de Cristo; a proclamação da graça de Deus garantida em Cristo”.
Estudos históricos do significado do termo indicam que entre os antigos gregos a
Palavra euanguélion era usada para “boas notícias de campos de batalha”. A notícia
poderia vir por navio, a cavalo ou por um mensageiro a pé, e era proclamada à cidade, que,
ansiosa, esperava pelas novas. O mensageiro era o euanguélos, que queria dizer: “o
mensageiro sagrado”.
A Septuaginta, algumas vezes, traz a idéia de um corredor ou batedor que traz a
notícia da vitória.
Não há dúvida de que a figura que a história desta palavra pinta é fascinante e foi
muito bem empregada pelos anjos, no dia do Natal. E é este espírito que precisa dominar o
sentido do evangelho ainda hoje para todos nós.

25
FERREIRA, Damy. EVANGELISMO TOTAL. Rio de Janeiro. JUERP, 1990, p. 33-67.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 67
Mas evangelho é mais do que boas-novas. Delcyr de Souza Lima, em seu livro
Doutrina e Prática da Evangelização, comenta: “Em outras palavras, para Jesus, o
evangelho tinha o sentido de sua presença real entre os homens, cumprindo os desígnios
de Deus, com o fim de salvá-los”.
Podemos arriscar uma definição simples mais abrangente à luz de tudo quanto temos
abordado: Evangelho é Jesus, tudo quanto ele fez e ensinou, visando à salvação do
pecador perdido.
Para fins práticos, podemos resumir o evangelho em quatro palavras, que formam
quatro frases:
1. Jesus veio ao mundo para buscar e salvar o que se havia perdido. Este é o sentido
histórico de Jesus.
2. Jesus morreu por nossos pecados. Este é o sentido teológico de Jesus (1 Tm
1.15).
3. Jesus ressuscitou (1 Co 15.1).
4. Jesus voltará a este mundo (At 1.9-11). É o sentido escatológico do evangelho.
Estes são os fundamentos do evangelho, que se traduzem em fatos da vida de
Jesus. Esses fatos foram registrados em livros que são chamados Evangelhos. De
um registro para outro, pode haver variação e até problema de tradução, mas
esses fatos fundamentais são inconfundíveis e essenciais para tornar alguém
sábio para a salvação (2 Tm 3.15).

EVANGELlZAÇÃO

Evangelização, em última análise, é a ação de evangelizar.


A palavra evangelizar (eu)aggeli/zw - euanguelizō) ocorre 52 vezes no Novo
Testamento, incluindo 25 vezes em Lucas e 21 vezes nos escritos de Paulo.
Em sua exaustiva pesquisa sobre “evangelizar”, David B. Barrett diz, a certa altura:
“A palavra é usada pela primeira vez em seu sentido tipicamente bíblico em Sl 49
(Septuaginta, no Salmo 39.10), traduzido como: ‘Eu tenho dito as alegres novas de
livramento na grande congregação’. No Salmo 92.2: ‘Falar da sua salvação’, em (Isaías
52.7, ‘publicar a salvação’, e em Isaías 60.6, ‘proclamar o louvor do Senhor’. Esse uso
judaico continuou nos tempos do Novo Testamento por Philo (20 a.C.-50 d.C.), historiador
Josefo (37 d.C.-100), e outros”.
Um autor famoso formulou a seguinte definição de evangelização: “evangelizar é
um mendigo dizer a outro mendigo onde conseguir alimento”. O episódio dos dois
leprosos na porta de Samária, que entraram no arraial dos sírios, encontrando grande
fartura, numa época de fome na cidade, é, realmente, uma ilustração viva do que é
Evangelizar. Daí poder-se dizer que evangelização é a ação de comunicar o evangelho,
visando levar perdidos a Jesus para que sejam por ele salvos. Quando aqueles leprosos
resolveram entrar na cidade e anunciar as boas notícias de que já havia pão para a sua
fome, eles fizeram exatamente aquilo que temos que fazer com o mundo faminto de Deus.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 68
A técnica da evangelização é ação. Ação que realiza. A palavra evangelizar é
diferente da palavra pregar. Nem toda pregação pode ser evangelização. Dois textos, entre
outros, podem mostrar o caráter de ação: Lucas 4.18; Atos 10.36-38. Aqui vemos a
menção de evangelização acompanhada de certas realizações.
A idéia fundamental de evangelização é de passar o evangelho para alguém, de tal
maneira que a pessoa fique entranhada por ele. Desse modo, deve-se entender que mero
proselitismo e comunicação de preceitos de determinada religião ou seita não constitui
evangelização. Em outras palavras: Pela evangelização, a pessoa absorve o Evangelho e
ele passa a fazer parte da sua vida.

EVANGELISMO

A palavra evangelismo não se encontra no Novo Testamento. Naturalmente, ela


torna possível a ação de evangelizar.
A partícula ismo denota sistema. Assim, antes de mais nada, evangelismo envolve os
princípios, os métodos, as estratégias, as técnicas empregados na ação de evangelizar. O
evangelho dá à evangelização as condições para que ela atinja os seus objetivos.
Antes de mencionar algumas definições acadêmicas de evangelismo e mesmo antes
de tentarmos elaborar uma, vejamos alguns elementos essenciais de uma boa definição de
evangelismo.
Delos Miles, em seu livro lntroduction to Evangelism (Introdução ao evangelismo),
usado como livro-texto em alguns seminários americanos, fala do assunto. Damos, a
seguir, um resumo das suas idéias:
1. O coração da definição deve ser as boas-novas sobre o reino de Deus. As boas-novas de que
Jesus é o Senhor sobre tudo - sobre o universo físico, sobre a história, sobre os dirigentes das
nações, sobre todos nós. Esta é a essência da nossa mensagem.
2. Abrangência global: que alcance a pessoa no seu todo, com a totalidade do conteúdo do
evangelho, com a totalidade de Cristo, pela totalidade da igreja, na totalidade do mundo, na
totalidade do tempo até à eternidade, Isto é: o evangelho global no homem global.
3. Sentido teológico. Exemplo: se a definição não apresenta Jesus como Filho de Deus, como
redentor, salvador, não fará sentido. A teologia da libertação não visa tanto o novo
nascimento, por exemplo.
4. O sentido do prejuízo para quem não aceita a salvação (Rm, 1.18). O evangelismo é como
uma faca de dois gumes: abre a porta para a salvação e pode abri-la também para a
condenação (Jo 3.18).

Mas isto não é tudo o que queremos saber sobre o conceito de evangelismo. Vamos
percorrer brevemente algumas definições chamadas clássicas, que são usadas pelos
autores.
1. Definição Anglicana de 1918: “Evangelizar é apresentar Cristo Jesus no poder
do Espírito Santo, para que homens possam vir a pôr sua confiança em Deus através dele,
aceitá-lo como seu salvador, e servi-lo como Rei na fraternidade de sua igreja”.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 69
2. Definição do Concílio Internacional Missionário, em 1938: Esta definição
adotou a mesma anglicana de 1918, torcendo-a para um sentido ecumênico e trocando a
palavra “Rei” pela palavra “Senhor”.
3. D. T. Niles, em 1951: “Evangelizar é um mendigo dizer a outro mendigo onde
encontrar alimento”.
4. Definição do Congresso Internacional para a Evangelização do Mundo, realizado
em Lausanne, Suíça, em 1974. É o chamado Pacto de Lausanne:

“Evangelizar é espalhar as boas-novas de que Jesus morreu por nossos pecados e foi
levantado da morte de acordo com as Escrituras, e que, como Senhor que reina, ele agora
oferece perdão dos pecados e o dom libertador do Espírito a todo aquele que se arrepende
e crê. Nossa presença cristã no mundo é indispensável para o evangelismo, e este é o tipo
de diálogo cujo propósito é fazer com que se ouça cuidadosamente a mensagem a fim de
entendê-la. Mas evangelismo por si mesmo é a proclamação do Cristo histórico e bíblico
como Salvador e Senhor, com vistas a persuadir pessoas a virem a ele, pessoalmente, e
serem reconciliadas com Deus.
Em publicar o convite do evangelho, nós não devemos ocultar a necessidade do
discipulado. Jesus ainda chama todos quantos o seguem para negarem a si mesmos,
tomarem sobre si sua cruz e identificarem a si mesmos com sua nova comunidade. Os
resultados do evangelismo incluem obediência a Cristo, integração à sua igreja e serviço
cristão responsável no mundo”.

5. Em recente pesquisa histórica sobre conceito de evangelismo, David B. Barrett


anota a definição de J. S. Robertson, secretário geral da histórica primeira Sociedade
Missionária Anglicana, nestes termos:
“Evangelismo é um termo genérico que descreve diferentes posições e modos nos
quais a atividade de evangelização é expressa”.
6. C. E. Autrey, em seu livro The Theology of Evangelism, traduzido para o
português sob o título A Teologia do Evangelismo, assim define evangelismo:
“Evangelismo é o esforço extensivo da igreja, através de uma confrontação com o
evangelho de Cristo, numa tentativa de conduzir os homens a um cometimento pessoal,
mediante a fé e o arrependimento em Cristo, como Salvador e Senhor”.
7. Donald McGavran deve ser mencionado aqui com um comentário especial. Filho
de pais missionários, McGavran nasceu na Índia e foi a terceira geração missionária
naquele país, onde trabalhou por mais de 30 anos pelo movimento denominado Discípulos
de Cristo. Algumas experiências adquiridas nos campos o levaram a mudar a terminologia
tradicional de evangelismo e missões para o que ele chamou de crescimento de igrejas. No
seu conceito, “tudo que possa trazer homens e mulheres que não tenham uma relação
pessoal com Jesus Cristo para uma camaradagem Com ele e para um responsável
relacionamento com a Igreja”. Daí ele tem se tornado autor muito importante no mundo de
evangelismo e missões. Sua grande definição foi estabelecida a partir de 1977, no livro
Dez Passos para o Crescimento da Igreja, onde de diz: “Evangelismo é proclamar Jesus
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 70
Cristo como Deus e Salvador, persuadir pessoas a se tornarem seus discípulos e membros
responsáveis de sua igreja”.
Donald McGavran é do Fuller Theological Seminary, em Pasadena, Califórnia. Suas
obras são muito procuradas hoje em dia, sendo seu ponto forte, sua ênfase, o crescimento
de igrejas, mas temos que começar pelo fundamento da evangelização do indivíduo. Não
queremos fazer crescer a igreja de qualquer maneira.
8. O professor Delcyr de Souza Lima, apreciado autor brasileiro nesta área, assim
define evangelismo:

Evangelismo é a ação cujo objetivo é levar os homens a conhecerem sua condição


de pecadores perdidos e a conhecerem o plano de Deus para sua salvação;
conduzi-los à aceitação de Jesus Cristo como Filho de Deus, Salvador e Senhor, e
integrá-los na vida cristã.

Seria por demais exaustivo uma análise de cada definição acadêmica aqui
apresentada. A meu ver, todas elas são válidas para fins didáticos e acadêmicos, mas não
batem em cheio no significado de evangelismo.
Para início de conversa, a definição de evangelismo tem que ser calcada no conceito
de evangelização e de evangelho. Algumas definições aqui apresentadas confundem
evangelização com evangelismo e vice-versa. Já mencionei que evangelismo tem a ver
com sistematização. Evangelismo tem a ver com métodos, estratégias e técnicas pelos
quais se comunica o evangelho ou se realiza a evangelização.
À luz do que temos dito, desejo arriscar uma definição que mais se aproxime da
realidade do termo:
Evangelismo é o sistema baseado em princípios, métodos, estratégias e técnicas
tirados do Novo Testamento, pelos quais se comunica o evangelho de Cristo a todo
pecador, sob a liderança e no poder do Espírito Santo, visando persuadi-lo a aceitar a
Cristo como seu salvador pessoal, de acordo com o comissionamento de Jesus dado a
todos os seus discípulos, levando, ao final, os que crerem, a se integrarem à igreja pelo
batismo, preparando-os para a volta de Cristo.
Vamos analisar brevemente esta definição.
Pelo evangelismo, nós fazemos o evangelho - o conteúdo dos ensinos e das
motivações de Cristo - chegar ao pecador e atuar nele. Os métodos são apenas dois: evan-
gelismo pessoal e evangelismo de massa. De qualquer maneira, o indivíduo será atingido.
Dependendo do contexto em que esteja o indivíduo ou indivíduos a serem a alcançados,
vamos estudar uma estratégia. Por exemplo, a estratégia do Espírito Santo em alcançar o
eunuco, ministro da rainha Candace, foi ir ao caminho de Gaza, por onde ele passava. A
estratégia de Jesus em alcançar a mulher samaritana e várias outras pessoas de sua aldeia
foi passar por aquele poço e ficar ali assentado, para entabular conversação com ela.
Dependendo, ainda, do tipo de pessoa, das circunstâncias que a cercam, o evangelista
usará uma técnica adequada, A técnica de Filipe com o Eunuco foi aproximar-se do carro
e começar a conversa, partindo do ponto em que homem estava: lendo o profeta Isaías. A
técnica que Jesus usou com a mulher foi pedir água, porque estava com sede. A técnica é o
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 71
recurso material que usamos. Tudo isso é trabalhado pelo Espírito Santo que usa homens
que usam recursos dados por Deus. Se a pessoa crê em Cristo como Salvador, ela é
integrada e o caminho é o batismo; ela aceita incluir-se na igreja, corpo de Cristo. E daí
para frente, sem desprezar a estrutura global do evangelho, o discípulo será preparado para
a volta de Cristo.
Notamos, portanto, que é o evangelismo que disciplina e organiza todo este
movimento operacional. Ele supre a evangelização dos recursos de que necessita para
alcançar o pecador com a mensagem do evangelho. Portanto, evangelismo não é mera
proclamação do evangelho, mas todo um sistema que permite a proclamação do
evangelho.
A esta altura, chamamos a atenção do leitor para o uso dos termos evangelismo e
evangelização neste livro.26 Como tenho demonstrado, evangelismo refere-se mais à
sistematização, à metodologia de ação de evangelizar, enquanto que evangelização, ação
de evangelizar, busca no evangelismo seu auxílio para se realizar. Os autores, no entanto,
empregam os dois termos indistintamente. Assim, não obstante fazermos distinção entre
evangelismo e evangelização em nossa exposição desta matéria, fizemo-lo mais para fins
acadêmicos. No decorrer dos capítulos subseqüentes, portanto, usamos os dois termos sem
qualquer preocupação com este detalhe que, em termos práticos, não fará muita diferença.
Em alguns casos, a nossa preferência por evangelização em vez de evangelismo será
apenas por comodidade da pronúncia do tema.

EVANGELISTA

A palavra evangelista (eu)aggelisth/j - euanguelistēs) ocorre três vezes apenas no


Novo Testamento: Atos 21.8; Efésios 4.11 e 2 Timóteo 4.5. Na primeira passagem,
encontramos o nome de Filipe, classificado como um evangelista. Em Efésios, a menção é
aos dons espirituais. Em 2 Timóteo, o jovem pastor é conclamado a fazer a obra de um
evangelista.
Há duas observações muito importantes, logo de início, sobre o assunto. Temos aqui
o que podemos chamar de evangelista de função e evangelista de ofício.
O evangelista de função é assim chamado porque seu trabalho difere do trabalho de
um apóstolo. O Dicionário Teológico do Novo Testamento, editado por Kittel, Assim se
expressa sobre o assunto:
O evangelista no Novo Testamento não é o que declara oráculos, como entre os
gregos. Ele é o que proclama notícias alegres, o evangelho. O evangelista,
originalmente falando, denota a função, mais do que ofício, e poderia haver
pequena diferença entre um apóstolo e um evangelista. Todo apóstolo poderia ser
evangelista, mas, por outro lado, nem todo evangelista era apóstolo. Em todas as
três passagens do Novo Testamento, os evangelistas estão subordinados aos
apóstolos.

26
FERREIRA, Damy. Evangelismo Total. Rio de Janeiro. JUERP, 1990.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 72
Este é o sentido estrito do termo.
Um outro sentido do termo é extensivo a todos os crentes. Todos os crentes são
testemunhas de Cristo e pregam o evangelho na tentativa de levar pessoas a Cristo.
Mas o que mais queremos enfatizar neste capítulo é sobre a pessoa do evangelista;
que características ou qualificações deve ele ter e cultivar. É isto que veremos a seguir.

EXPERIÊNCIA DE CONVERSÃO

Parece absurdo mencionar este fato, mas um evangelista tem que ter,
inequivocadamente, a consciência de que é uma pessoa convertida. É muito fácil alguém
nascer numa família cristã, engajar-se na igreja e no seu sistema, aprender educação
religiosa, e pensar que por isso está salva. Isto é tremendo engano. Cada pessoa tem que
ter sua experiência com Deus. Pode ser que as experiências variem de pessoa para pessoa,
mas haverá um convicção inconfundível de que ela é convertida, é salva. Se alguém não
nasceu de novo, não pode contar nada a outrem. Não importa que essa experiência tenha
vindo na infância, na adolescência, na juventude ou na vida adulta. Importa que cada um
que evangeliza possa dizer com convicção que Cristo o salvou e que ele é uma nova
criatura (2 Co 5.17).

SELADO NO ESPÍRITO SANTO

Uma outra convicção que deve estar posta inconfundivelmente no evangelista é a


sua relação com o Espírito Santo. Hoje encontramos muitos movimentos confusos sobre a
doutrina do Espírito Santo. Temos que entender, de uma vez por todas, que não há crentes
sem o Espírito Santo; não há conversão sem o Espírito Santo (João 16.7-11). Também
ninguém pode ter um terço ou dois terços de Deus. Se alguém tem o Pai, tem o Filho e tem
o Espírito Santo também. Quando alguém se converte, arrependendo-se de seus pecados,
crendo em Jesus como seu Salvador, recebe o dom do Espírito Santo, que é o próprio
Espírito Santo (At 2.37,39; João 7.37,39). Daí, a pessoa é selada pelo Espírito Santo (Ef
1.13,14); o Maligno não lhe toca (1 João 5.18); ninguém o arrebata das mãos do Senhor
(João 10.28); ele passa a ser habitado pelo Espírito Santo (1 Co 6.19,20). O Espírito Santo
lhe é dado como garantia da vida eterna e isto é uma promessa irreversível. Muita gente há
hoje vivendo numa fé que é um mar de dúvidas e incertezas. Tais pessoas acham que
podem perder a salvação e assim vivem no desespero. O evangelista precisa ter convicção
do seu relacionamento com Deus, com o Espírito Santo e seu Filho Jesus. Necessita da
divindade dentro de si e por onde for tem que pensar assim. Sua vida é um santuário e ele
possui todas as garantias divinas para o seu ministério.

O EVANGELlSTA E A SANTIFICAÇÃO

A salvação é um ato que é selado com o Espírito Santo. A santificação é um


processo. No Novo Testamento podemos notar isto facilmente examinando o modo e o
tempo do verbo grego empregado nas declarações sobre a salvação, que denotam ação
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 73
realizada, enquanto que a santificação é mencionada como ação contínua. A santificação é
o processo que mantém o “vaso limpo” (1 Ts 4.4) e é ela que dá ao Espírito as condições
necessárias para usar o crente poderosamente.

O EVANGELlSTA E A BÍBLIA

O evangelista tem que conviver com a Bíblia de tal maneira que possa, por ela,
apropriar-se da Palavra de Deus. Ele precisa não só ter um vasto conhecimento dela, como
também deve alimentar-se dela. Para tanto, aconselho cinco expedientes que devem ser
levados a sério pelo evangelista em relação à Bíblia.
1. O evangelista deve ler constantemente a Bíblia (Ap 1.3; 1 Tm 4.13). Existe
hoje muita gente que tem pouco convívio com a Bíblia, e muitos crentes nunca leram a
Bíblia toda pelo menos uma vez. O evangelista deve dar-se à tarefa de ler, pelo menos
uma vez, a Bíblia toda. O ideal seria o evangelista ler a Bíblia toda uma vez por ano.
Durante muitos anos, tive o privilégio de fazê-lo assim, competindo com meu pai, e foi
muito salutar.
2. O evangelista deve ouvir a leitura da Bíblia (Rm 10.17; Ap 2.29; Ec 5.1).
Quando lemos, podemos estar desligados na nossa atenção ou até podemos ler sem ênfase
um ponto que deveria ser ressaltado. Quando ouvimos, podemos ser despertados, para
aspectos nunca notados por nós. A leitura da Bíblia em alta voz deve ser cultivada nos
cultos. Seria bom até haver fitas gravadas com voz solene e fundo musical, para que se
pudesse ouvir a mensagem bíblica. A igreja pode elaborar programas de leitura da Bíblia
de maneira a torná-la mais viva. Grupos lendo a Bíblia em estilo de jogral podem tornar o
momento altamente edificante.
3. O evangelista, ainda mais, precisa memorizar a Bíblia (Sl 119.11; Dt 6.6; Pv
7.1-13). O evangelista deve saber muitos textos de cor, não só para servir-se deles na
evangelização em certas circunstâncias, como também para lançar mão deles em
momentos de lutas e conflitos espirituais. No passado, os pais crentes costumavam ensinar
longos textos a seus filhos e tinham orgulho de exibir, a qualquer visitante do lar, a
capacidade das crianças em recitar textos bíblicos. Hoje este hábito tão salutar está
desaparecendo das famílias. De qualquer maneira, o evangelista deve primar por fazer
isso. Antes de mais nada, ele deve decorar todos os versículos que possam expor o plano
de salvação de maneira prática e simples. Tenho tido a experiência de falar aos ouvido de
pacientes terminais em circunstâncias que não daria nem para abrir uma Bíblia. Em casos
assim, ajudará muito ter o plano de salvação de cor e ir recitando pausadamente ao ouvido
do paciente que, não obstante em estado de coma, pode receber a mensagem.
4. O evangelista, sobretudo, deve estudar a Bíblia (At 17.11; 2 Tm 2.15). Evi-
dentemente, o estudo bíblico será mais proveitoso quando o estudante já tiver lido por
completo, pelo menos uma vez, a Bíblia. A noção do todo ajuda na compreensão das
partes. Na minha experiência pessoal, tenho começado meus estudos bíblicos usando
referências (no rodapé) e concordâncias. Este é o meu primeiro expediente de estudo. É o
hábito de estudar a Bíblia. Se a pessoa está capacitada para os originais, então deve ir a
eles primeiro. Mas isso não é essencial. As traduções, geralmente, são confiáveis. Também
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 74
o estudante deverá recorrer a outras versões e fazer um estudo comparativo. Só depois é
que se deve ir a um comentário. Às vezes supervalorizamos os comentários. Eles são bons,
mas grandes comentaristas, aqui e ali, cometem erros e até heresias. Temos que nos
habituar a estudar a Bíblia pela Bíblia. O evangelista tem que conhecer a Bíblia e para
tanto deve estudá-la sob todos os aspectos. Depois de conhecê-la razoavelmente bem, o
evangelista deve estudá-la em relação a outros ramos de conhecimento humano e religiões
comparadas.
5. O evangelista deve meditar na Palavra de Deus (Sl 1.2; Js 1.8; Sl 119.48), A
meditação é uma arte e devemos desenvolvê-la. A melhor ilustração que conheço para
explicar a meditação é a do boi que remói. Durante algum tempo, o boi colhe seu
alimento. Depois ele pára, o alimento é trazido de volta à boca a fim de ser devidamente
triturado e aproveitado pelo organismo. Na meditação, a pessoa procura trazer à mente
tudo quanto sua memória acumulou durante um dia ou durante dias passados. E aí ela põe
tudo “na mesa”, para revisão e comparação, tirando as lições. A nossa própria inteligência
está preparada para fazer comparações e tirar conclusões.
Nosso mundo de hoje não tem parado para meditar. A tônica dos nossos dias é a
emoção e não a razão; o barulho, e não o silêncio. Até mesmo nossos cultos são
barulhentos e emocionais, o que gera o bloqueio da linha de transmissão ao espírito,
impedindo-o de ser alimentado. Na meditação, a mente fica repousante e o canal do
enriquecimento espiritual fica livre para deixar passar tudo de quanto a alma necessita. É
por isso que a própria Palavra de Deus recomenda meditação. O evangelista precisa
dedicar tempo à meditação, sem o que a Palavra de Deus pouca atuação terá em sua vida.
É no silêncio, e não no barulho, que Deus fala (1 Rs 19.8-15). Era exatamente por isso
que Jesus gostava de orar no monte, no deserto e em lugares silenciosos como o Horto de
Getsêmane.

O EVANGELISTA E A ORAÇÃO (1 Ts 5.17)

A oração deve fazer parte da vida do evangelista. Ele deve ter um programa pessoal
de oração, juntando este programa com o seu programa de santificação. O evangelista
deve conservar uma mente de oração. É pela oração que estamos na presença de Deus e,
no convívio com ele, vamos assimilando a sua maravilhosa maneira de ser. O evangelista
deve fazer da oração o seu estilo de vida. Como ele vai enfrentar o poder das trevas ao
evangelizar, deve estar devidamente reforçado espiritualmente para a luta. E é pela oração
que o reforço vem. Não somente o evangelista deve cultivar uma vida de oração para
manter seu poder espiritual, mas ele deve orar pelas pessoas que pretende alcançar para
Cristo e também orar por aquelas que está evangelizando. E sua vida de oração vai passar
para aqueles que ele ganhar para Cristo. Eles serão seus imitadores.

A CONDUTA DO EVANGELISTA

O evangelista deve ter vida irrepreensível. Aliás, esta é a exigência para todo servo
de Deus (1 Co 1.8; Ef. 1:4; Fl 2.15; 1 Ts 3.13; Cl 1.22). Isso quer dizer que evangelista
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 75
deve ter vida moral equilibrada. Naturalmente, não se exige que seja perfeito, porque isso
seria impossível. Mas o evangelista deve ser uma pessoa digna, de caráter firme, de
hábitos puros. Não deve ser dado a bebidas alcoólicas e a outros vícios; não deve ser
mundano; deve conviver bem com a família e portar-se de tal maneira que não cause
escândalo (1 Co 10.31,32; 2 Co 6.1-3). O que mais tem prejudicado o evangelho tem sido
a conduta de evangelistas e ministros de um modo geral. O povo cobra muito do líder.
Todos esperam que ele seja perfeito. É claro que isso é cobrar demais, Mas o líder, aquele
que prega a Palavra, deve ter vida equilibrada, para que ninguém tenha motivos para
acusar um servo de Deus.

O EVANGELISTA E A ORAÇÃO

Esta era uma das qualidades de Filipe, o evangelista, juntamente com os demais
diáconos (At. 6.3). Sabedoria, todavia, não pode ser confundida com escolaridade. Uma
pessoa pode ter vários diplomas universitários e não ser sábia. Esta é a sabedoria vem de
Deus. A presença do Espírito Santo na vida dá ao crente capacidade para fazer juízos de
valores, analisar bem todas as experiências e ficar com o que é bom. Como recomendou
Paulo: “Mas ponde tudo à prova. Retende o que é bom” (1 Ts 5.21).
Mas este aspecto de sabedoria do evangelista o levará também a ser um observador
da vida para tirar aprendizado. A Bíblia diz que Salomão foi o homem mais sábio do seu
tempo (1 Reis 4.31), realmente, foi o que ele pediu a Deus: sabedoria. Mas notamos como
o sábio Salomão fazia: ele era um observador do mundo em redor. Constantemente vamos
notar nos seus escritos, como é o caso de Provérbios e Eclesiastes, a expressão: “E vi ( ...
)”. Isto indica observação (Pv 24.32; Ec 2.13,14; 4.15). O evangelista deve ser um
observador da vida. É aí que Deus lhe dará material, argumentos e portas abertas para o
trabalho de evangelização.

O EVANGELlSTA TEM QUE SER PESSOA OTIMISTA

Num momento de fraqueza e pessimismo, um evangelista poderá estragar todo o seu


trabalho de testemunho de Cristo.
Ouvi contar de certo líder evangélico que, pela manhã, teve um desentendimento
com a esposa em casa. Ao sair apressado em seu carro para o trabalho, acabou abalroando
outro veículo. Diante do imprevisto, e como a culpa fora sua, viu-se obrigado a atrasar sua
ida para o trabalho a fim de procurar uma oficina, junto com o outro carro, para avaliar os
danos e pagar os prejuízos. Ao conversar com o mecânico, estava cheio de amargura e
pessimismo. Ele dizia: “Vê, meu amigo. Meu dia está negro. Saí de casa brigado com a
esposa e agora bato com o carro. É tempo perdido e é tempo que não tenho para pagar.
Estou arruinado”. Quando acabou de chorar suas mágoas, o mecânico que era crente em
Jesus, bateu em seu ombro e, sem saber que estava diante de outro crente, disse: “É, meu
amigo. O que você está precisando mesmo é aceitar a Cristo como seu Salvador para
mudar a sua vida”. Então aquele líder caiu em si e viu o erro que estava cometendo.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 76
O evangelista nunca deve esboçar pessimismo. Se algo não vai bem, ele deve saber
como encarar a situação. Deus tem seus planos e seus propósitos para os seus servos.

MÉTODOS, ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS

MÉTODOS

A palavra método vem do grego metá (meta) e hodós (o(do/j), que significa no
caminho. Daí, “direção que se imprime aos próprios pensamentos a fim de investigar e
demonstrar a verdade”.
Em termos práticos, método é o caminho que se usa para se chegar a um
determinado objetivo; é a maneira de se fazer algo. Assim, se quero atingir pessoas
com a mensagem de Cristo, posso fazê-lo de pessoa em pessoa, e então tenho evangelismo
pessoal, ou posso fazê-lo a um grupo de uma só vez, e terei evangelismo de massa.
Para fins didáticos, é melhor que nos fixemos em dois métodos de evangelismo:
evangelismo pessoal e evangelismo de massa. Em assim fazendo, estamos distinguindo
método de estratégia e de técnica.
Como sabemos, existem dois métodos básicos em toda ciência:
1. O Dedutivo (a priori). Trabalha a partir de dados existentes. De uma proposição
(afirmação) ou uma série de proposições deduz ou infere uma série de fatos.
Dedução é tirar inferências e conclusões lógicas dos dados.
2. O Indutivo (posteriori). Ele parte do particular e chega a um enunciado ou
afirmação geral.

MÉTODO DEDUTIVO: do geral para o particular a priori


MÉTODO INDUTIVO: do particular para o geral a posteriori

Em qualquer dos dois métodos, podemos empregar duas formas de raciocínio pura o
trabalho de evangelização: o método dedutivo e o indutivo.
O método dedutivo de abordagem evangelística é aquele que começa do geral para o
particular. No caso, o evangelista começa por falar do plano de salvação, para aplicá-lo ao
problema particular que o pecador está enfrentando. Exemplo: o pecador está deprimido e
não tem paz. Neste caso, para argumentar dedutivamente, o evangelista começará falando
do plano de salvação. Se o pecador o aceitar, poderá livrar-se da sua falta de paz, que deve
ser conseqüência do pecado em sua vida.
Na argumentação indutiva, o evangelista começa pelo problema da pessoa até
chegar ao plano de salvação, que, uma vez aceito, pode ajudar a pessoa no seu problema.
Um caso típico deste exemplo é o diálogo de Jesus com a mulher samaritana. Ele começou
com os problemas daquela mulher: a sede, os pecados que ela tinha, e partiu para
apresentar-lhe a água da vida (João 4).
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 77
ESTRATÉGIA

Estratégia27 é uma expressão militar. Originalmente, trata da arte, organização e


planejamento das operações de guerra. Mas a idéia é usada em geral para qualquer plano
de ação, buscando a maneira mais adequada e melhor para se alcançar objetivos
colimados28.
A estratégia tem a ver, portanto, com o lado operacional do método. Em Lucas 9,
Jesus envia seus doze apóstolos a pregar. O método pode ter sido de evangelismo pessoal
e de massa ao mesmo tempo. A estratégia foi o envio dos 12 ao mesmo tempo; foi uma
campanha. Em João 4, lemos o lindo episódio do encontro de Jesus como a mulher
samaritana. O método de evangelismo que Jesus usou foi o pessoal. A estratégia foi o
programa de passar por Samaria, ao ir a Jerusalém, e ficar ali parado perto do poço de
Jacó.
Em nossos dias (1990), um culto ao ar livre é uma estratégia. O método do
evangelismo será o de massa. Um núcleo de estudos bíblicos nos lares é uma estratégia.
Uma série de conferências é uma estratégia. A igreja em células é outra estratégia.

TÉCNICA

A técnica é o recurso material que usamos para executar o método. A maneira como
abordo a pessoa, como arranjo o plano de salvação; se uso o argumento dedutivo ou
indutivo, tudo isto são técnicas. Contar histórias em flanelógrafo para crianças é uma
técnica. Usar slides ou Data Show para uma palestra evangelística é uma técnica. Usar
folhetos como: Como Possuir uma Vida Feliz, ou As Quatro Leis Espirituais, e outros
semelhantes, é uma técnica. Jesus começou a conversar com a mulher samaritana usando a
água: “Dá-me de beber”. Foi a técnica.

Não estaremos totalmente errados se chamarmos tudo isso de métodos de


evangelismo. No entanto, para fins didáticos, apesar de estratégias e técnicas fazerem parte
da execução do método, em termos específicos, cada parte dessa execução tem seu próprio
nome.

Ao trabalharmos nestas conceituações, temos que entender o espírito no Novo


Testamento sobre metodologia. Poderemos filtrar do Novo Testamento várias amostras de
métodos, estratégias e técnicas. Mas vamos notar uma variação muito grande de caso para
caso. Notamos que o Espírito Santo usava uma grande variedade de recursos. Mas não
podemos evitar a compreensão de que o Espírito Santo usava os discípulos como seres
humanos e não como seres “celestiais”.

27
Estratégia vem da palavra soldado (stratiōtēs - stratiw/thj) em grego.
28
Colimar. [Do lat. collimare, dos astrônomos seiscentistas; errônea, originária de má leitura de collineare, 'visar'.]. 1.Observar
com instrumento adequado. 2.P. ext. Mirar, visar, observar. 3.Fig. Ter em vista; visar a; objetivar, pretender.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 78
É talvez dentro deste entendimento que o grande e renomado autor Michael Green,
em seu livro Evangelismo na Igreja Primitiva (Evangelism in the Early Church), assim se
expressa:

Quando nós pensamos em métodos evangelísticos hoje, vem prontamente à nossa


mente a pregação num grande templo ou numa grande arena. Naturalmente, nós
temos que nos livrar de tais preconceitos quando pensamos em evangelismo entre
os cristãos primitivos. Eles não sabiam nada sobre como falar seguindo certos
padrões homiléticos dentro de quatro paredes de uma igreja. Na verdade, por mais
de 150 anos, eles não possuíram templos e havia a maior variedade de tipos e
conteúdo de pregação evangelística cristã.

Isso não elimina, no entanto, o valor do conhecimento de maiores recursos


metodológicos. Como tenho demonstrado, o Espírito Santo trabalha conosco e leva-nos a
usar as “ferramentas” que temos para que façamos seu maravilhoso trabalho.
Partindo desses princípios, podemos fazer um bom exercício se formos ao Novo
Testamento e analisarmos os textos que tratam de evangelização, identificando: o método,
a estratégia e a técnica usados em cada caso.
Trabalhar com evangelismo dentro deste conhecimento ajuda na criatividade. Temos
procurado mostrar que os dias atuais exigem estratégias e técnicas adequadas a cada
contexto cultural. Não podemos empregar simplesmente recursos trazidos de outros países
e traduzi-los para serem usados no Brasil. O evangelista tem que estar habilitado tanto
espiritual como intelectualmente para criar programas de acordo com o novo contexto em
que foi introduzido.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 79

O EVANGELISMO E O PROCESSO DA COMUNICAÇÃO

Tenho descoberto, cada dia mais, que o conhecimento do processo da comunicação


ajuda muito o evangelista e o pregador. Evidentemente, este é um assunto profissional da
área de comunicação, mas o evangelista não deixa de ser um comunicador. Se bem que
dotado da unção especial de Deus e não estando sujeito a técnicas, o conhecimento deste
material ajuda bastante. Eis por que me reporto a ele, ainda que brevemente e quase que
em forma de esboço.

CONCEITOS

A palavra comunicação vem do latim comunicare, que quer dizer: tornar comum.
Daí vem a conceituação de que “comunicação é o processo pelo qual um indivíduo
transmite estímulos a outros indivíduos, a fim de modificar seu comportamento”. Em
seu sentido mais amplo, comunicação sugere a idéia de comunhão, de estabelecimento de
um campo com as outras pessoas, de divisão de informações, de idéias, de sentimentos.
Como se vê, isso tudo coincide com a natureza do evangelismo da pregação.

TIPOS DE COMUNICAÇÃO QUANTO À NATUREZA

O que farei agora será uma breve apresentação, em esboço, da natureza da


comunicação, dando alguns dos seus tipos.

1. Comunicação Exclusivamente Oral

Aqui se encaixa a voz humana, seja qual for o meio pelo qual ela se propague. É o
caso da pregação tradicional, em que o pregador usa a sua voz. É o caso da conversa
evangelística.

2. Comunicação Exclusivamente Visual

Aqui se incluem a escrita, os sinais luminosos ou ambos ao mesmo tempo. Na


comunicação escrita entra tudo aquilo que se pode dizer através de: livros, revistas,
folhetos, panfletos e outros.

No grupo dos sinais luminosos, incluem-se códigos de trânsito e de navegação; nos


sinais manuais, a mímica é o importante método usado pelos surdos-mudos, muito
difundido ultimamente. Algumas igrejas costumam ter um intérprete para pessoas dessa
classe, para que a mensagem possa ser entendida. É de muito valor este tipo de
comunicação. Pode-se também combinar os dois métodos.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 80
3. Comunicação Oral-Visual

O exemplo comum é: teatro, televisão, cinema, conversação, discurso. Não é preciso


reafirmar que todos os métodos desta classe podem ser usados com grande proveito na
comunicação do evangelho, desde que devidamente aplicados. O teatro, principalmente,
pode tornar-se um eficiente método de comunicação do evangelho. Esta parte merece
desenvolvimento especial, mas este não é o nosso objetivo aqui.

TIPOS DE COMUNICAÇÃO QUANTO AOS OBJETIVOS

Nesta divisão, encontraremos talvez uma parte que é muito útil ao evangelista. As
outras, nem tanto. Mas damos a divisão clássica para que o leitor tenha uma idéia do todo.
Remeteremos o assunto para autores especializados, se necessário.

1. Comunicação Informativa - Notícia e Aula

Aqui entram principalmente a reportagem e o jornalismo de um modo geral.


Também abrange a área educacional.

2. Comunicação Persuasiva

Esta talvez interesse mais ao evangelista. A persuasão procura modificar, fortalecer


ou destruir convicções do receptor. Na área profissional, entra a propaganda. Na área do
evangelista, entra a argumentação da mensagem. A persuasão é um dos principais
instrumentos de trabalho do evangelista, na sua tarefa de comunicar o evangelho.

3. Entretenimento

Este tipo de comunicação procura provocar experiências alegres no receptor. Inclui


principalmente o humorismo. Naturalmente, este não é o papel do evangelista. O
evangelista jamais usará meios para entreter o seu auditório. Ele tem uma meta com a sua
mensagem. A mensagem do evangelista é sempre urgente. Deus não usa passatempos com
o seu povo. Mas, em se tratando de evangelização de crianças, entra aqui o teatrinho de
fantoches, que não deixa de ser entretenimento.

COMPONENTES DO PROCESSO DA COMUNICAÇÃO

Agora entramos na parte que será mais útil ao evangelista. Nesta quero me demorar
um pouco mais.

1. O Emissor ou Fonte
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 81
O emissor, no nosso caso, é o evangelista (ou o pregador). Ele é o comunicador. Ele
é a fonte de onde a mensagem vai fluir e alcançar os seus objetivos. Neste particular,
quero ressaltar algumas habilidades comunicativas que o emissor deve possuir e
desenvolver.

1) Habilidades comunicativas

(1) Escrita - O comunicador que se comunica por escrita deve saber escrever bem.
Evidentemente, nem todos os evangelistas costumam escrever seus sermões ou suas
palestras. Mas é usual; foi usado no passado e pode ser muito útil hoje. Livros de sermões
podem ter uma grande utilidade. Folhetos, panfletos e outros similares podem ser usados
pelos evangelistas. O evangelista deve desenvolver sua habilidade de comunicar pela
palavra escrita. Principalmente para aqueles que pregam pelo rádio, o sermão deverá ser
escrito. Dificilmente alguém fará bons programas pelo rádio se não escrever seus sermões.
E para colocar uma mensagem no coração do ouvinte, o evangelista tem que desenvolver
certa habilidade para reunir palavras dentro do seu adequado sentido e conteúdo.

(2) A palavra - A palavra é algo muito importante na vida do evangelista. Ele deve
primeiramente saber usar a palavra certa em cada raciocínio, em cada pensamento.
Palavra, inclusive, que seja bem conhecida pelos seus ouvintes. Não adianta usar palavras
difíceis, se seu auditório não vai entendê-las. Há atualmente uma certa preocupação de
alguns evangelistas em usar palavras difíceis. Isso não é de boa regra. A melhor maneira é
usar a palavra que o povo está usando, sem descer, é claro, à gíria e ao ridículo. Por outro
lado, a palavra deve ser pronunciada com clareza e corretamente. Há evangelistas e
pregadores que têm o hábito de “engolir” a última sílaba de certas palavras. Outros
diminuem a intensidade de voz no meio da palavra para frente, de modo que ninguém
entende ou precisa ficar adivinhando o que ele disse. Isso prejudica o entendimento e a
comunicação. O evangelista, portanto, deve articular bem as palavras. Também é
importante a tonalidade da voz, a altura em que se pronuncia as palavras. Esta deve ser
audível e agradável. Alguns evangelistas cultivam o hábito de pregar gritando palavra por
palavra. Tal método cansa os ouvintes. Os momentos de entusiasmo na pregação devem
acontecer naturalmente. No entanto, se um evangelista grita o tempo todo na mesma
intensidade e no mesmo nível, o sermão se torna insuportável para o auditório. O tom de
voz do evangelista deve ser agradável. E, dentro deste aspecto, o pregador deve procurar
desenhar com a tonalidade o sentimento da palavra. Quando se fala “amor”, deve haver
uma expressão de amor na voz do evangelista. Esta é uma habilidade que muito ajuda o
evangelista.

(3) Leitura - O evangelista deve saber ler bem, se vai fazê-lo para pregar. Mesmo
que não vá ler o seu sermão, a leitura da Bíblia muitas vezes significa um bom começo
para o sermão. Pregadores há que não sabem ler a Bíblia. Não dão expressão à leitura, não
dão vida ao seu sentido; tropeçam aqui e acolá, e às vezes pronunciam dubiamente certas
palavras de que não se certificaram antes como são pronunciadas, como é o caso de
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 82
“alimaria”, “Samaria” e outras semelhantes. A leitura da Bíblia deve refletir seu
sentimento, e as palavras devem ser lidas com clareza e expressão. Assim também deve
acontecer com a leitura de um sermão de rádio, que deve ser feito naturalmente, não como
se estivesse lendo, mas como se estivesse realmente falando.

(4) Audição - A audição do comunicador deve ser boa. Se ele ouve pouco, pode
falar baixo demais ou pode tentar falar alto demais. Não sabendo controlar o nível do seu
volume de voz, ele pode criar problemas para o seu auditório.

(5) Raciocínio - Vamos dizer que “raciocínio é a arte de pensar ordenadamente”.


Os pensamentos colocados na mensagem devem ser bem organizados e ordenados. Se o
evangelista não sabe como arranjar os seus pensamentos, aquilo que ele quer comunicar,
dificilmente haverá comunicação. A arte de pensar claramente ou de saber colocar com
clareza os pensamentos é muito importante para o comunicador, isso exige do evangelista
certo conhecimento também do seu auditório ou dos seus ouvintes, sobre até que ponto vai
a capacidade deles em compreender o tipo de raciocínio que se está elaborando para eles.

2) Atitudes

Outro aspecto muito importante do emissor é a sua atitude como tal. Podemos
abordar o assunto sob três aspectos:
(1) Atitude para consigo mesmo - O comunicador deve ser otimista e acreditar em si
mesmo. O comunicador comunica pela sua própria presença. Se ele é uma pessoa
confiante, cônscia do que ele é e faz, naturalmente irá transmitir segurança aos seus
receptores. No fundo, isso significa que ele deve saber o que faz. Ele deve ter consciência
de que sabe fazer o que está fazendo. Por isso mesmo, o evangelista jamais deve pedir
desculpas por ter pregado mal. Ele sempre prega bem, mesmo que não tenha se sentido
assim. Houve dias na minha vida em que, em virtude de cansaço físico e mental, senti-me
extenuado durante todo o sermão, Ao final, estava quase não fazendo apelo porque achava
que não haveria resultado. Mas fiz o apelo. E vi então um grande número de pessoas lá na
frente. O evangelista, mais do que qualquer outro comunicador, deve ter certeza de que vai
conseguir resultados porque “tudo posso naquele que me fortalece”.

(2) Atitude para com o assunto - O comunicador deve acreditar no assunto que
assunto que está passando adiante. Imagine um pregador que não crê na mensagem que
está entregando. Nos Estados Unidos, às vezes ocorre que um pastor de outra
denominação vai pastorear uma igreja de denominação diferente, por certo tempo. Ouvi,
certa ocasião, o testemunho de um pastor batista que estava ajudando uma igreja
presbiteriana. Ele estava tendo problemas com a sua congregação por causa do batismo,
Imaginem aquele homem batista, imersionista, tendo que batizar por aspersão. A minha
colocação neste exemplo não é de crítica ao presbiterianismo, mas nas emoções de alguém
que crê de uma maneira, mas que, por circunstâncias especiais, tem que fazer ao contrário
da sua fé. O comunicador cristão precisa crer na mensagem que prega.Quando prega sobre
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 83
o céu, por exemplo, deve alimentar em si mesmo a certeza de que ele também irá para o
céu um dia.

(3) Atitude para com o recebedor - O recebedor, que está na outra linha de co-
municação, é o ponto mais importante de sua tarefa de comunicar. Ele deve ser levado a
sério e deve ser considerado de muito valor. Assim, o evangelista deve levar em
consideração seu status, sua cultura - pouca ou muita - suas necessidades, sua capacidade
de receber sua comunicação. O evangelista não deve ser fingido, simulando que o acha
importante. Do contrário, algum detalhe vai escapar da sua dinâmica pessoal, e ele não
será atingido.

3) Nível de conhecimento

Merece especial atenção o nível de conhecimento e cultura do comunicador em


relação ao nível do recebedor. Há três abordagens principais a serem feitas:

(1) Pouco conhecimento em relação ao receptor - Esse conhecimento, naturalmente,


refere-se mais à área em que a pessoa está envolvida no processo da comunicação. Mas, de
qualquer maneira, o comunicador deve ter alguma superioridade de conhecimento da
matéria que está comunicando em relação ao que está recebendo. No caso do evangelista,
ele deve ter mais para dar do que o povo está ouvindo. Do contrário, não haverá
comunicação. É evidente que o povo pode ter um alto nível em outra de conhecimento,
mas aqui trata-se da área específica da matéria que se está comunicando. No caso, a
religião, a mensagem de Deus. E aí ocorrem coisas interessantes. Lembro-me de certo
pastor que, convidado a dirigir um culto de formatura de médicos, em vez de levar uma
mensagem da Palavra de Deus, gastou parte de seu tempo consultando livros de medicina
e falou sobre um tema específico da área médica. Deu-se mal de todos os lados. Primeiro,
seu nível de conhecimento da matéria era pouco ou nenhum em relação aos seus
receptores. Segundo, eles estavam cansados de matérias médicas, e naquele dia
necessitavam de algo diferente, que viesse de Deus. Este foi, realmente, o comentário que
ouvi dos formandos. Assim, o conhecimento do comunicador deve ser sempre mais do que
o dos seus ouvintes.

(2) Excesso de conhecimento - Na área da teologia, todo conhecimento é pouco. No


entanto, quando o nível intelectual do evangelista é muito mais elevado do que o do seu
auditório, ele correrá o risco de não conseguir se comunicar. É o caso de doutores em
teologia que vão pregar no interior e lançam mão de termos técnicos de teologia. Jamais
alcançarão os seus receptores. No mínimo, se o comunicador está consciente de que seu
nível intelectual é muito mais elevado, deverá fazer um esforço para descer. Esta questão
de comunicação em relação a níveis do conhecimento é mais ou menos como alimentar
girafas e ovelhas. Se alguém põe a alimentação na altura da ovelha, a girafa poderá comer,
porque ela tem capacidade tanto de abaixar como de levantar a cabeça. Mas se alguém põe
alimento na altura da cabeça da girafa, a ovelha jamais alcançará o alimento.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 84

(3) Conhecimento equilibrado - Ou o comunicador tem um conhecimento equi-


librado em relação ao seu recebedor, ou ele deve desenvolver uma tremenda habilidade de
descer, quando necessário. Esse conhecimento, no entanto, não significa que o evangelista
deva saber tanto quanto o seu ouvinte, e sim deve saber mais do que ele, a ponto de ter
algo novo para dar.

4) Contexto sócio-cultural

Um dos grandes segredos da comunicação, quanto ao comunicador, está no


conhecimento que ele tem do contexto sócio-cultural dos seus ouvintes. Para tanto, torna-
se necessária uma certa adaptação do comunicador ao contexto. Jesus, por exemplo, para
comunicar-se com a humanidade, “fez-se carne”. E ele gostava de chamar-se “Filho do
homem”. Era profundo conhecedor da natureza humana e dos costumes do povo. Sabia
falar da vida pastoril, da vida campestre e da vida do mar.
Para ser eficiente, o comunicador deve envolver-se o quanto possível na cultura do povo
ao qual comunica a sua mensagem, para que possa falar a sua própria linguagem. Quando
participei da 2ª Transtotal (um empreendimento da Junta de Missões Nacionais da
Convenção Batista Brasileira, realizada na Rodovia Transamazônica, em 1974), levei
comigo um jipe novo. O meu plano era usar o carro durante a campanha de evangelização
e ao final do mês entregá-lo ao missionário sediado em Altamira. Então lá estava eu, bem
à moda cabocla - era no Estado do Pará - lidando com gente do campo e bem humilde. Eu
trajava calça de brim ordinário, camiseta de malha e chapéu de palha. Mas, num
verdadeiro contraste com aquela gente humilde, eu dirigia um jipe novo. Naquele dia,
parei o carro na entrada de um rancho. O dono da casa era um cearense. Como não havia
porteira no rancho, avancei com o carro além dos limites do terreno e puxei conversa com
o homem. Ele permaneceu calado. Perguntei-lhe então o motivo de não querer conversar
comigo. Finalmente ele me disse que não gostava de rico. Argumentei então que não era
rico; eu era um pastor. Então ele apontou o jipe e disse: “Olha lá aquele carro novo”. Aí eu
tive muito trabalho para explicar que aquele carro havia sido trazido para um missionário
farmacêutico, que às vezes era obrigado a dirigir à noite pela floresta a fim de socorrer
alguém. Só então o homem começou a confiar em mim. Bem, o que houve foi um cochilo
de minha parte neste aspecto: o contexto sócio-cultural daquele homem me dizia que,
para eu me comunicar com ele, o carro na sua porta era fator negativo. Pelo menos, para
começar. Depois ele entendeu, mas a muito custo.

2. O Receptor ou Recebedor

Há dois pontos muito importantes na comunicação: o emissor e o receptor. Já


falamos, de modo geral, do emissor. Agora, vamos ver a outra ponta da linha da
comunicação: o recebedor.
Não vamos falar do recebedor do ponto de vista dele mesmo, mas do ponto de vista
do emissor, que é o que nos interessa nos nossos objetivos evangelísticos. O emissor deve
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 85
conhecer, tanto quanto possível, o receptor. O trabalho do emissor será preparar o material
da sua mensagem e transportá-lo para o mundo do recebedor. Para que isso aconteça, “o
mundo do recebedor” deve ser muito bem conhecido do emissor. Não é o recebedor que
deve ser transformado para receber a mensagem, mas o emissor que deve adaptar-se para
alcançá-lo.
Aqui, a matéria se torna muito ampla, e não temos condições para nos estender
muito.
Naturalmente, o evangelista é ajudado pelo Espírito Santo na sua mensagem, mas
certo conhecimento ajuda.

1) O nível cultural do recebedor

O evangelista deve ter algum conhecimento ou informação sobre a situação cultural


média do seu auditório. Isso o ajudará a usar algo muito importante chamado código, que
veremos mais adiante. Trata-se da linguagem e terminologia apropriadas. Qual é o nível
médio de escolaridade do povo? primário? secundário? universitário? Isto é importante
saber sobre o recebedor. Não se deve descer a detalhes, mas é necessário que se tenha um
conhecimento mínimo acerca do receptor.

2) Contexto cultural

Por contexto cultural, quero dizer o tipo de vida que o povo leva; o que se faz
naquela cidade. A vida está mais voltada para a agricultura? Se se empregar uma
ilustração sobre plantação, semente, ceifa, o povo vai entender? Ou a vida está mais vol-
tada para a pecuária? Será que vão entender ilustrações e pensamentos sobre boi, cavalo,
ovelhas? Ou, então, seria um tipo de vida industrial? É gente realmente de cidade grande?
Conhecem linguagem de problemas econômicos? Ou será que estão numa Beira-mar, vida
de pescadores? É importante conhecer o nível médio cultural ou tipo de vida do
recebedor.

3) Situação religiosa do recebedor

Não há dúvidas de que este ponto pertenceria ao primeiro aspecto abordado: o


cultural. Mas eu o dividi porque ele assume aspectos bem especiais. Saber a situação da
mente e da consciência religiosa dos recebedores é importante. O evangelista poderá entrar
na “contramão”, se não levar em conta as tradições religiosas dos seus ouvintes. Não
quero dizer que o evangelista deva ficar medroso diante da situação e deixar de pregar a
verdade do evangelho, mas deverá saber como melhor entrar no assunto. Se alguém vai
pregar em Portugal, por exemplo, deve saber que a maioria da população é católica e tem
suas tradições: o povo é tremendamente fechado para conversar com protestantes. Esta é a
experiência que eu tive, nas duas vezes em que visitei aquele país. Há uma cidade em
Goiás em que toda a população é espírita. Se alguém vai começar a pregar pelo lado da
reencarnação ou da caridade, pode não se dar bem. É muito importante saber em que o
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 86
povo crê e ter habilidade para tirar vantagens disso. Não foi porventura isso mesmo que
Paulo fez em Atenas? Veja Atos 17.15-34. Veja como Paulo começou de um ponto
curioso: o altar vazio (v. 23) e dali desenvolveu sua argumentação para o Deus verdadeiro
e para Jesus, o Salvador.

4) Saber localizar o recebedor

O bom comunicador começa sua mensagem onde o recebedor está. É ele mesmo
que o comunicador quer. Não importa onde ele esteja. Jesus foi a Zaqueu. Deixou a
multidão e descobriu Zaqueu lá na árvore e dali falou com ele. Com a mulher samaritana,
começou exatamente no ponto em que ela estava tirando água. Dali, progrediu sua
argumentação até alcançar o mais íntimo do seu coração. Filipe foi enviado ao deserto,
onde estava um homem buscando a verdade. Chegou à carruagem, conversou com o
homem exatamente sobre o seu ponto de interesse no momento, que era a leitura do
profeta Isaías, e, a partir dali, lhe anunciou Jesus. É muito importante ao comunicador do
evangelho saber achar o seu recebedor; saber localizá-lo, tanto física como mentalmente.

3. A Mensagem

Ainda estamos falando do processo da comunicação. Já vimos, em linhas gerais, o


emissor e o recebedor, ou receptor. Agora veremos a mensagem.
A mensagem é o conteúdo que se quer colocar no recebedor; que se quer transferir
para o domínio mental e espiritual dele. É o recado, o discurso, o aviso. Vejamos alguns
aspectos componentes da mensagem.

1) Conteúdo

É a essência do que se quer passar para o recebedor. Por exemplo: quero dizer ao
meu auditório que Jesus é o Salvador. Tenho que ter cuidado para que o conteúdo seja
bem definido. O que eu quero dizer é exatamente isto e nada mais. Às vezes o conteúdo se
torna complexo, e aí exige melhor cuidado ainda. Mas parece que o conteúdo não é tanto o
problema.

2) Código

Para passar o meu conteúdo, que até então está apenas na minha mente e no meu
domínio, eu preciso de certa preparação. Nesta fase, o fator mais importante chama-se
código. Esse código é o símbolo ou grupo de símbolos que vou usar. Esse código pode ser
representado pela escrita, por meio da mímica ou através de sinais luminosos. No entanto,
devo saber se o meu código é comum ao meu recebedor, isto é, se o meu recebedor
entende os símbolos que estou querendo usar. Se alguém conhece o código Morse, usado
na telegrafia, então eu posso bater sinais e serei imediatamente entendido. Se alguém sabe
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 87
ler, eu posso escrever e o meu recebedor vai entender. Se alguém conhece mímica de
surdo-mudo, eu serei entendido se a usar para me comunicar. Isto é codificação. A minha
codificação deve ser de acordo com o meu recebedor, para que ele possa “decodificar”,
isto é, interpretar a minha mensagem.
Descendo um pouco mais a detalhes: mesmo usando palavras oralmente, devo
construir idéias que possam fazer sentido na mente do povo. Se alguém vai a uma tribo de
índios que ainda não conheça televisão, não poderá empregar a idéia que envolva
televisão. Ou se vamos ao interior, onde nunca alguém ouviu falar de computador, não
podemos dizer que “todos os nossos pecados estão registrados no sistema de computação
de dados de Deus”. Mas se estou falando com algum piloto de avião mecânico ou gente
que trabalha na área, posso falar que meu carro “entrou em pane”, que todos vão entender.
O comunicador deve ser cuidadoso na sua codificação para que a mensagem chegue
ao recebedor clara e cristalina.

3) Tratamento

Por tratamento, quero dizer o “empacotamento” da mensagem, a maneira como ela


vai ser acondicionada para chegar ao recebedor. Isto se refere à organização do material da
mensagem, à ordem do sermão ou palestra, com tema, introdução, discussão e conclusão,
tudo posto numa certa ordem lógica.

4. O Canal

Já vimos o emissor, que está no ponto inicial, e o recebedor, que está na outra ponta.
Para ser alcançado, o recebedor precisa de um canal.
O canal pode ser visto do ponto de vista do emissor e do ponto de vista do
recebedor.

1) Canal do ponto de vista do emissor

Vou apenas dar o esboço da matéria, uma vez que, por si, as palavras explicam o
assunto.
(1) Exclusivamente orais: voz humana, rádio, telefone.
(2) Exclusivamente visuais: escrita, sinais luminosos, sinais manuais, música.
(3) Orais e visuais: teatro, televisão, conversação, cinema, discurso ao vivo. Todos
estes são meios que o emissor pode usar para enviar sua mensagem. O assunto não exige,
para o nosso caso, maiores comentários. No entanto, do ponto de vista do receptor, na
ponta de chegada da mensagem, os canais assumem outras características, porque são de
outra natureza.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 88
2) Canal do ponto de vista do recebedor

Aqui os canais estão todos na própria natureza humana, e podem ser assim enu-
merados:
(1) Audição - Este é um dos principais canais de comunicação. Se alguém não
ouve, então se terá que usar o método da mímica. O comunicador deve saber se o seu
recebedor está ouvindo bem. Pode ser que ele tenha bom ouvido, mas o ambiente apre-
senta algum problema. Ou está distante demais do ponto do emissor, ou há alguma
interferência à sua volta que não lhe permite ouvir. Para o comunicador é muito
importante certificar-se de que o recebedor está ouvindo bem.
(2) Visão - A visão é outro importante canal de comunicação. Mesmo que esteja
ouvindo, a pessoa entende melhor a mensagem do seu emissor quando ela o pode ver.
Assim, o local em que a pessoa está sentada é muito importante e fundamental para a boa
comunicação. Por isso mesmo, um ligeiro declive no piso e a posição da plataforma do
púlpito, no caso do pregador, ajudam muito na visibilidade.
A combinação da audição com a visão dá o processo chamado audiovisual, de
grande ajuda na comunicação. Nele se baseia, por exemplo, a televisão. Na mesma linha
de recurso, está o uso de slides(Data show) e de flanelógrafos.
Exclusivamente visual é o método de mímica. O surdo-mudo desenvolve uma
rapidez muito grande de ver e captar os sinais feitos com a mão do comunicador que, na
verdade, usa várias partes do corpo, além das mãos e dos dedos, para comunicar sua
mensagem.
(3) Tato - Este é um canal também muito importante. O tato é para o cego o que a
visão é para o surdo-mudo. É pelo tato que o cego consegue ler o sistema Braille. E com
grande número de cegos no mundo, este é um canal muito importante para essa população
de recebedores. Naturalmente, o cego pode usar o ouvido também. Nele, esse canal se
desenvolve para compensar a falta de visão.
(4) Olfato e paladar - Dois canais menos importantes são o olfato, que nos habilita
a captar o cheiro, e o paladar, que nos habilita a sentir o gosto das coisas. A comunicação
aqui só se dá em casos muito peculiares. Pelo olfato, você pode reconhecer certa pessoa
que usa sempre o mesmo perfume, ou notar que alguém está cozinhando carne. Pelo
paladar, você apenas pode reconhecer certa qualidade de alimento ou de líquido, Não é
muito importante para o nosso caso.

INTERFERÊNCIA

Um fator muito interessante no processo da comunicação chama-se interferência.


Interferência é tudo aquilo que pode afetar, deformar, desviar, interromper ou neutralizar a
mensagem. E aí seria difícil especificar situações. Ruídos, choro de crianças,
movimentação no auditório, uma lâmpada com defeito, piscando, uma cadeira com
ressalto, que torna difícil a acomodação do corpo, a gravata torta no pescoço do
evangelista, uma roupa desabotoada no evangelista, e detalhes semelhantes. Qualquer
coisa assim pode distrair a atenção do recebedor, e sua mente se fechará para
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 89
comunicação. Assim, o evangelista precisa cuidar bem do seu ambiente de pregação.
Como pregador, sempre gosto de ver meu ambiente de pregar antes, principalmente
quando vou usá-lo pela primeira vez. Quero ver a posição do púlpito, quero a iluminação,
a ventilação e os bancos. E antes de subir para o púlpito, depois de haver orado mais uma
vez, vou ao espelho, vejo meu cabelo, minha gravata. Olho também os meus sapatos.
Nunca me esqueço de um professor, amigo meu, que foi dar aula com uma meia de cada
cor. Ao sentar-se em uma pequena mesa, suas pernas ficaram à vista, e daí suas meias
chamaram a atenção da turma o tempo todo. Ele talvez nunca tenha sabido, mas a sua aula
naquele dia não foi assimilada pelos que estavam sentados na parte da frente da sala. Até
os anéis do pregador podem chamar a atenção e tornar-se interferência à comunicação.
Lembro-me de um pregador leigo, que usava três anéis: dois numa mão e um em outra.
Mas os anéis eram tão grandes, que chamavam a atenção. Um deles tinha um brilhante.
Então, cada vez que ele gesticulava com mais entusiasmo, o brilhante refletia luz e
ofuscava a visão do seu auditório. Isto pode ser interferência. É bem interessante vigiar
estas coisas.

REALlMENTAÇÃO (Feed Back)

Finalmente, em todo o processo de comunicação há a realimentação, que é a


resposta que se tem à sua comunicação. Isto é, é o meio pelo qual o comunicador fica
sabendo se a mensagem chegou lá do outro lado ou não. O pregador pode saber se isto está
acontecendo pelo semblante, pelo comportamento do povo. Ele pode perceber quando o
auditório está atento e o acompanha com olhar até nos gestos. Isto traz satisfação ao
evangelista. Mas quando ele não “codificou” bem, não há “decodificação”, ou quando
ocorre qualquer outro tipo de interferência, a mensagem não chega. Então o comunicador
deve cuidar de consertar tudo logo.
Estes princípios aqui colocados são válidos tanto para o evangelismo de massa como
para o evangelismo pessoal.

Se o leitor quiser mais detalhes sobre esta matéria, deve consultar David Berlo.
Atualmente, várias faculdades incluem esta matéria em seus currículos. No entanto, estou
inserindo a matéria aqui apenas como uma pequena ajuda ou auxílio ao estudante de
evangelismo.

GRÁFICOS EXPOSITIVOS

Como temos resumido bastante este capítulo sobre o processo da comunicação, já


que o estamos adaptando para evangelismo, daremos, a seguir, alguns gráficos que
mostram outra vez a lista dos componentes desse processo, em três arranjos diferentes,
para facilitar a compreensão desta matéria.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 90
1. Gráfico Resumido para Memorização do Processo

FONTE MENSAGEM CANAL RECEBEDOR


Habilidades Elementos Visão Habilidades
comunicadoras Comunicadoras
Atitudes Estrutura Audição Atitudes

Conhecimento Código Tato Conhecimento

Sistema Social Conteúdo Olfato Sistema


Social
Cultura Tratamento Paladar Cultura

2. Gráfico Indicativo do Funcionamento do Processo

Esta é uma maneira de descrever graficamente o processo da comunicação. Mas


aluno ainda pode ficar confuso com os termos técnicos. Pois vamos tentar mais um tipo de
gráfico.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 91
3. Gráfico com Interpretação Simplificada

O TESTE DAS SETE PERGUNTAS


Há um pequeno teste, que se usa em faculdade de pedagogia, que ajudará o aluno na
montagem de uma comunicação mais eficiente:
1. Por quê? - Por que vou falar ou escrever? Qual ou quais os objetivos espe-
cíficos da minha comunicação?
2. A quem? - Quem será o meu receptor (leitor, ouvinte ou auditório?) Quais as
suas características?
3. Quem? ou de quem? - Quem irá falar? Quais as minhas características pessoais
que deverei levar em consideração?
4. O quê - Que conteúdo deve ter a minha mensagem? Qual o tema? O que é que
quero comunicar?
5. Quando? - O momento é oportuno? Apropriado? Quais as circunstâncias
especiais da ocasião em que irei comunicar?
6. Como? - Que tipo de canal usarei para atingir meu receptor? Dos canais hu-
manos, qual será mais solicitado? Estaria em condições?
7. Onde? - Onde irei falar ou onde estará o meu receptor? Diante de um televisor,
diante de um rádio, num auditório?
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 92

O ESPÍRITO SANTO E O EVANGELISMO

Empregamos o termo evangelismo em vez de evangelização propositadamente.


Queremos tratar do assunto de modo mais abrangente, indo além da “ação de evangelizar”,
atingindo a própria sistematização que torna possível essa ação.
Temos falado muito de métodos, estratégias e técnicas, mas tudo isso deve ser
liderado pelo Espírito Santo. Quando examinamos o movimento de evangelização levado
a efeito nos tempos do Novo Testamento, vamos encontrar esses recursos materiais. Mas
vamos descobrir, sem muito custo, que eles foram elaborados por pessoas que estavam
revestidas do Espírito Santo para a obra da evangelização. Assim, temos que entender os
diversos aspectos dessa atuação do Espírito Santo.
Advertimos aos leitores que não nos deteremos em uma elaboração doutrinária do
Espírito Santo. Há diversas obras específicas sobre o assunto, e os interessados poderão
recorrer a elas para maior aprofundamento na matéria. Queremos, isto sim, tratar apenas
de aspectos mais práticos, que possam conscientizar o evangelista para a necessidade de
estar sempre dependendo do Espírito Santo para a “obra de um evangelista” (2 Tm 4.5).

O ESPÍRITO SANTO NO CRENTE

Antes de mais nada, o crente precisa ter consciência da presença do Espírito Santo
na sua vida. Não quero discutir aqui como isso acontece, que é assunto de área doutrinária.
Mas é importante que o crente e, conseqüentemente, o evangelista tenham consciência da
presença definitiva do Espírito Santo na sua vida. O seguinte esquema abreviado mostrará
algumas características dessa presença:

1. O Dom do Espírito Santo

Em Atos 2.1-13 temos a narrativa da vinda do Espírito Santo, “para ficar para
sempre conosco”, conforme a promessa. Em Atos 2.37-39, temos a orientação de Pedro
sobre como receber o dom do Espírito Santo que, segundo o próprio texto, para “quantos
Deus nosso Senhor chamar” (At 2.39b). Esta idéia é reforçada pelo entendimento de João
7.37-39. O crente, portanto, precisa entender que, se ele é realmente um crente, ele tem o
Espírito Santo.

2. O Penhor Selado.
Penhor = arrabōna (a)rrabw=na);
Selo = sfraguisámenos (sfragisa/menoj.
Uma das passagens mais significativas neste sentido é a de Efésios 1.13,14. É bom
transcrevê-la, para que o leitor não deixe sua leitura para depois: “em quem também vós,
depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele
também crido, fostes selados (sfraguisámenos - sfragisa/menoj) com o Santo
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 93
Espírito da promessa; o qual é o penhor (arrabona - a)rrabw=na) da nossa herança, até
ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória”.
O crente tem que entender que ele está selado, lacrado para Deus. Esta é a garantia
de que ele está salvo. É o penhor da sua herança eterna. E o apóstolo Paulo continua,
agora na Primeira Epístola aos Coríntios, a falar dessa condição do crente: “Ou não sabeis
que o vosso corpo é o santuário do Espírito Santo, que habita em vós, O qual possuís da
parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço;
glorificai pois a Deus no vosso corpo” (1 Co 6.19,20).
Em resumo: o crente tem o Espírito Santo, no qual está selado, e que lhe é dado
como garantia da vida eterna. O Espírito Santo que lhe foi dado habita nele, e o crente
pode ter consciência desse fato, pois é Paulo também que nos informa: “O Espírito mesmo
testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.16). É, portanto, o penhor
selado, e do qual temos plena consciência.

O ESPÍRITO SANTO NO EVANGELISTA

Pode parecer uma repetição da mesma idéia anterior, mas logo o leitor perceberá a
diferença. Vimos, de modo geral, a condição em que o Espírito Santo se relaciona com
todos os crentes. Nesta oportunidade agora queremos focalizar a atuação específica do
Espírito Santo no crente como evangelista ou na atividade evangelística.

1. O Poder do Espírito Santo

Em Atos 1.8 temos a grande promessa: “Mas recebereis o poder, ao descer sobre vós
o Espírito Santo, e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e
Samaria, e até os confins da terra”. A palavra grega para “virtude” é dýnamin (du/namin),
que vem de dýnamis (du/namij), que quer dizer “poder”. A nossa palavra dinamite vem de
dýnamis.
Testemunhar de Cristo, evangelizar, fazer discípulos são atividades especiais que
exigem poder especial. Só o Espírito Santo pode providenciar esse poder, e, se o crente já
recebeu o Espírito Santo, já tem o poder: “Recebereis o poder, ao descer sobre vós o
Espírito Santo” - e o Espírito Santo já veio, se o evangelista é, realmente, um crente. O
evangelista precisa crer no poder do Espírito para sua tarefa. Ele não deve tentar substituir
isso por nada neste mundo.

2. Motivação

Os textos de Atos 21.4 e 2 Pe 1.21, na tradução da Sociedade Bíblica do Brasil,


falam dos crentes movidos pelo Espírito Santo. O evangelista, o missionário, o pregador,
são movidos pelo Espírito Santo. O Espírito Santo trabalha na vontade deles. Esta é
maneira como o Espírito trabalha em nós. Aliás, muitos de nós, talvez por influência do
alto grau de superstição que existe na nossa gente, somos tentados a pensar que, na hora de
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 94
sermos usados pelo Espírito Santo, tem que haver um ambiente espetacular, de fogo
caindo do céu, de “monte fumegante” como no Sinai, e coisa semelhante. Uma vez selado
e habitado pelo Espírito, a coisa mais natural e normal que há é o Espírito agir em nós. Sua
atuação se incorpora ao nosso mecanismo de percepção e compreensão e tudo acontece
normalmente, mas nós temos consciência de que o Espírito nos falou. É neste sentido que
podemos entender as expressões de Atos 16.6,7, onde Lucas diz que os missionários foram
“impedidos pelo Espírito Santo de anunciar o evangelho” em determinado lugar. O mesmo
podemos notar quando, em Atenas, o espírito de Paulo se comovia em si mesmo, vendo a
cidade tão entregue à idolatria (At. 17.16). Não há dúvida de que o Espírito Santo em nós
nos move e motiva para as coisas do evangelismo. É como se fôssemos duas pessoas - e
na verdade é assim - que andassem juntas o tempo todo, só pensando e planejando sobre a
salvação das almas perdidas. E é isso que acontece com o evangelista. Não foi sem razão
que Paulo disse que nós temos a mente de Cristo (1 Co 2.16). E não é realmente isso que
Jesus quis dizer em João 17.21: “Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e
eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste”?
Grife as expressões: “para que eles sejam um em nós” e “para que o mundo creia que tu
me enviaste”. Aqui está o segredo: a Trindade Santíssima, que é uma unidade, se entrelaça
conosco e forma uma unidade conosco: com cada um de nós. Daí, se somos realmente
crentes, convertidos, portadores do Espírito Santo, não há como trabalharmos sozinhos.
Sempre trabalhamos juntos com ele!
Um aluno ponderou certa ocasião que, se eu ficava elaborando esboços de sermões,
consultando grego, hebraico, comentários, dicionários teológicos, eu não estava dando
oportunidade ao Espírito Santo para agir em mim. Ao que respondi: “Pelo contrário, eu
estou trabalhando com o Espírito. Nós dois trabalhamos sempre juntos. Ele me ajuda nas
minhas pesquisas e trabalha com o meu entendimento e eu me alegro por este tremendo
privilégio, de trabalharmos juntos”.

3. Direção

Também o evangelista é guiado pelo Espírito Santo. Ele guia na verdade (João
16.13), e guia também nos empreendimentos evangelísticos e missionários (At 16.6-
8,9,10). Em Trôade, notamos como o Espírito Santo atuou no entendimento de Paulo para
guiá-lo à Macedônia, pela expressão: “( ... ) concluindo que o Senhor nos chamava para
lhes anunciarmos o evangelho” (At 16.10). O grande evangelista Filipe foi guiado pelo
Espírito para encontrar aquele eunuco no caminho de Gaza. O Espírito Santo nos guia no
dia-a-dia da evangelização. E deve ser assim, e devemos aprender a fazer assim, a
depender dele. Neste caso, ele nos conduzirá nos planejamentos, na elaboração de
estratégias e técnicas, de acordo com a sua multiforme sabedoria. O evangelista deve estar
consciente disso.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 95
O TRABALHO DO ESPÍRITO SANTO NO PECADOR

O apóstolo Paulo muito acertadamente diz que o homem natural “não aceita as
coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucuras” (1 Co 2.14). Por isso mesmo, o
Espírito Santo trabalha por instrumentalidade do crente, do evangelista, que compreende
as coisas do Espírito de Deus.

1. O Espírito Santo Abre o Interesse

Uma linda passagem bíblica neste sentido é a de Atos 16.14, que diz que “( ... ) o
Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia”. O evangelista precisa
dessa ajuda, sem o que não haverá resultado. Nota-se, mais uma vez, que o Espírito Santo
trabalha com o entendimento das pessoas.

2. A Compreensão das Escrituras

O Espírito Santo abre às pessoas a capacidade para crer nas Escrituras. Não há
evangelização, e muito menos evangelismo, sem o trabalho da Palavra de Deus. Em Lucas
24.45, Jesus abriu o entendimento dos discípulos para compreenderem as Escrituras. E
essa compreensão precisa vir. Enfatizo este assunto porque há muita gente trabalhando
num evangelismo meramente emocional, e a emoção não é tudo; a razão precisa estar
presente no processo.
Em Beréia, muitos judeus foram examinar nas Escrituras a mensagem que Paulo e
Silas pregavam, para ver “se estas coisas eram assim” (At 17.11). É o trabalho mental de
confronto, comparação, para levar ao juízo de valores e à compreensão.

3. O Trabalho de Persuasão

Em João 16.7-11, lemos que o Espírito Santo convence o mundo do pecado, da


justiça e do juízo. Portanto, no processo de persuasão, não vale a mera técnica do ser
humano. Por argumentos humanos, por exemplo, jamais alguém se convencerá de que é
pecador. A alegação mais comum é: “Todo mundo faz assim”, ou “Isto é aceito pela
sociedade”. Mas quando o Espírito Santo toca na mente do pecador, aí ele chora os seus
pecados. Nesse processo, o Espírito Santo trabalha dos dois lados: do lado do lado do
evangelista, dando-lhe a maneira como argumentar, e no pecador, ajudando-o a
“decodificar” a mensagem e a quebrantar-se pela convicção dos seus pecados.
Nesse processo, o Espírito Santo trabalha com respeito à liberdade da pessoa. Por
isso, a pessoa precisa aceitar a mensagem. No Novo Testamento notamos que os
resultados se efetivam quando as pessoas recebem de bom grado a “sua palavra” (At
2.41).
Depois de persuadido, o pecador aceita ou rejeita. Se aceita, dá-se o arrependimento.
Diante do desejo do pecador de “mudar de mente”, o Espírito Santo opera no pecador. O
arrependimento não é um processo de manobras psicológicas, de mudar a mente por
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educação ou outro processo humano qualquer, mas é uma operação do Espírito Santo. O
evangelista joga na mente do pecador a “palavra viva” e o Espírito Santo se encarrega da
operação necessária à mudança (1 Pe 1.23-25).
Com isso voltamos ao início das exposições aqui feitas: é a concessão do dom do Espírito
Santo, que todo crente deve obter (At 2.37-39).
Como disse no início deste capítulo, não queria ser extremamente exaustivo nesta
área, nem entrar em aspectos doutrinários, o que os interessados poderão obter em outras
obras sobre o assunto. Esperamos que o roteiro que aqui traçamos seja de valor para os
evangelistas. Isto é o básico.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 97

BIBLIOGRAFIA
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Cultura Cristã, 2002.
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15. www.baptistlink.com/solascriptura/Ide/Homiletica-IltonGoncalves.htm.
16. solascriptura-tt.org/Ide/Homiletica-JoseFerraz.htm.
HOMILÉTICA Criado por Pr. Bentes 98

Biografia do autor
O pastor Antônio Carlos Gonçalves Bentes é capitão do Comando da Aeronáutica,
Doutor em Teologia pela American Pontifical Catholic University (EUA), conferencista,
filiado à ORMIBAN – Ordem dos Ministros Batistas Nacionais, cuja matrícula é 745,
professor dos seminários batistas: STEB, SEBEMGE e Escola Teológica Koinonia e
também das instituições: Seminário Teológico Hosana, UNITHEO, Escola Bíblica Central
do Brasil e JAMI (Junta Administrativa de Missões da CBN) atuando nas áreas de
Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Apologética, Escatologia, Pneumatologia,
Teologia Bíblica do Velho e Novo Testamento, Hermenêutica, e Homilética. Reside
atualmente em Lagoa Santa, Minas Gerais. Exerce o ministério pastoral na Igreja Batista
Getsêmani em Belo Horizonte - Minas Gerais. É casado com a pastora Rute Guimarães de
Andrade Bentes, tem três filhos: Joelma, Telma e Charles Reuel, e duas netas: Eliza
Bentes Zier e Ana Clara Bentes Rodrigues.

Pedidos ao Pr. A. Carlos G. Bentes


Tel. (031) 3681.4770; Cel. (031) 8661.4070; 9684.9869
E-mail: pastorbentesgoel@gmail.com
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