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Universidade Federal do Rio de Janeiro

Programa de Pós-graduação em História Social

PELAS MARGENS DO ATLÂNTICO:


Um estudo sobre elites locais e regionais no Brasil a partir das famílias
proprietárias de charqueadas em Pelotas,
Rio Grande do Sul (século XIX)

TESE DE DOUTORADO

Autor: Jonas Moreira Vargas

Orientador: Prof. Dr. João L. R. Fragoso

RESUMO

A presente tese tem como objetivo principal estudar as estratégias sociais e econômicas das mais ricas
famílias dos proprietários das charqueadas de Pelotas, no Rio Grande do Sul, ao longo do século XIX. O
charque (carne-seca) constituiu-se em alimento fundamental na dieta dos escravos das plantations
açucareiras e cafeeiras e das populações pobres das cidades litorâneas do Brasil. Portanto, trata-se da
análise de um grupo de empresários escravistas cuja produção era destinada principalmente ao
abastecimento do mercado interno. Os proprietários das charqueadas, que também tinham nos couros, nos
sebos e nas graxas importantes gêneros de exportação, foram os empresários mais ricos do sul do Brasil.
A tese também estuda os mercados do gado, a expansão dos charqueadores em busca de fazendas de
criação na fronteira rio-grandense e no próprio lado uruguaio, a sua participação nas guerras do Brasil
com as repúblicas platinas e a sua atuação no comércio marítimo de longo curso. Tanto na primeira
metade do oitocentos, quanto na segunda metade do mesmo, um grupo de famílias tendeu a reunir os
principais recursos materiais e imateriais naquele contexto socioeconômico, vindo a aumentar o seu
prestígio e compor, juntamente com outras famílias, a elite regional ou provincial. Esta elite
charqueadora concentrava riqueza, poder político e status social e alguns de seus membros também
alcançaram reconhecimento nacional. Neste sentido, ao dar este salto, estas poucas famílias tinham entre
os seus parentes alguns indivíduos que podiam tornar-se mediadores conectando a esfera de atuação local
com o mundo exterior, seja economicamente, seja politicamente falando. Contudo, os charqueadores
escravistas de Pelotas, reconhecidos na época como a aristocracia do sebo, não conseguiram resistir ao
fim da escravidão, vivendo um período de auge de pouco mais de duas décadas, para sofrer uma
derradeira crise nos anos 1880. Portanto, esta tese busca oferecer um modelo de análise das elites locais e
provinciais que possa incentivar novos estudos regionais e que auxilie a compreender melhor os sistemas
econômico e político no Brasil oitocentista.
SUMÁRIO

LISTA DE ABREVIATURAS .................................................................................... 5

LISTA DE TABELAS................................................................................................. 6

LISTA DE GRÁFICOS .............................................................................................. 8

LISTA DE FIGURAS ................................................................................................. 9

INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 10

CAPÍTULO 1 - A INSERÇÃO ECONÔMICA DAS CHARQUEADAS DE


PELOTAS NO MERCADO INTERNO BRASILEIRO (1780-1835) ..................... 30

1.1 - A DIVERSIFICAÇÃO DAS CULTURAS E O REVIGORAMENTO DA


AGRO-EXPORTAÇÃO NO COLONIAL TARDIO ............................................... 35

1.2 - A CRISE DAS OFICINAS DE CARNE-SECA DO NORDESTE E A


ENTRADA DO RIO GRANDE DO SUL NO RAMO DOS NEGÓCIOS................ 46

CAPÍTULO 2 - A FORMAÇÃO DOS COMPLEXOS FABRIS ESCRAVISTAS


EM PELOTAS E NO RIO DA PRATA A PARTIR DAS REDES SOCIAIS E
MERCANTIS ATLÂNTICAS .................................................................................. 59

2.1 - O SEGREDO DAS CARNES: ESPECIALISTAS E ESTRANGEIROS NAS


PRIMEIRAS FÁBRICAS DO EXTREMO SUL DA AMÉRICA ............................ 63

2.2 - A FORMAÇÃO DOS COMPLEXOS FABRIS PLATINOS E PELOTENSE


A PARTIR DAS REDES INTRA-IMPERIAIS E TRANS-IMPERIAIS .................. 72

CAPÍTULO 3 - UMA ALDEIA ESCRAVISTA: A PRIMEIRA GERAÇÃO DE


CHARQUEADORES E A SUA ELITE (1790-1835) ............................................... 89

3.1 - UMA CIDADE NEGRA NO SUL DO BRASIL: TRÁFICO ATLÂNTICO,


REDES MERCANTIS E A ELITE CHARQUEADORA PELOTENSE NAS
PRIMEIRAS DÉCADAS DO OITOCENTOS......................................................... 95

3.2 - UMA ELITE LOCAL NO MUNDO ATLÂNTICO: FAMÍLIAS E REDES


MERCANTIS ENTRE PELOTAS E OS DEMAIS PORTOS DO BRASIL .......... 111

3.3 – CAPITÃES, COMENDADORES E COMPADRES DE PARDOS: A


ORGANIZAÇÃO SOCIAL NO EM TORNO DAS PRIMEIRAS
CHARQUEADAS ................................................................................................. 116

CAPÍTULO 4 - UMA CIDADE ATLÂNTICA: A POPULAÇÃO PELOTENSE,


SUA ESTRATIFICAÇÃO SOCIOECONÔMICA E A IMIGRAÇÃO
ESTRANGEIRA DURANTE O AUGE E A DECADÊNCIA DAS
CHARQUEADAS ESCRAVISTAS (1850-1890) ................................................... 134
4.1 - ESTRUTURA SOCIAL E ECONÔMICA DA SOCIEDADE PELOTENSE
A PARTIR DA ANÁLISE DOS INVENTÁRIOS POST-MORTEM...................... 135

4.2 - UMA CIDADE ATLÂNTICA: PERFIL SOCIO-OCUPACIONAL DE UM


ESPAÇO URBANO REPLETO DE ESTRANGEIROS ........................................ 147

4.3 - OS MUITOS DEGRAUS DA PIRÂMIDE: POR UMA ESTRATIFICAÇÃO


SOCIAL E ECONÔMICA DA POPULAÇÃO PELOTENSE ............................... 158

CAPÍTULO 5 - “A CONFUSÃO QUE, ENTRETANTO, É ORDEM”: AS


UNIDADES PRODUTIVAS, O MUNDO DO TRABALHO NAS
CHARQUEADAS E O TRÁFICO INTERPROVINCIAL DE ESCRAVOS ....... 169

5.1 - POR DENTRO DA CHARQUEADA: AS ETAPAS DE PRODUÇÃO DO


CHARQUE, DOS COUROS E DOS DEMAIS PRODUTOS ................................ 170

5.2 - O PERFIL DOS TRABALHADORES CATIVOS E SUA DISTRIBUIÇÃO


NAS UNIDADES PRODUTIVAS ........................................................................ 179

5.3 - DAS CHARQUEADAS PARA OS CAFEZAIS? O TRÁFICO INTER-


PROVINCIAL E A CONCENTRAÇÃO DE ESCRAVOS NA ELITE
CHARQUEADORA PELOTENSE ....................................................................... 194

CAPÍTULO 6 - SENHOR E PATRÃO: OS CHARQUEADORES, A


ADMINISTRAÇÃO DOS ESCRAVOS E O MUNDO DO TRABALHO NAS
CHARQUEADAS ................................................................................................... 209

6.1 - A CABEÇA DO SENHOR, AS MÃOS DO CAPATAZ: AS


TRANSFORMAÇÕES NO MUNDO DO TRABALHO NAS CHARQUEADAS
ESCRAVISTAS NA SEGUNDA METADE DO OITOCENTOS ......................... 211

6.2 - APRENDENDO A SER SENHOR: A ADMINISTRAÇÃO DOS


ESCRAVOS NA PRIMEIRA GERAÇÃO DE CHARQUEADORES ................... 232

CAPÍTULO 7 - OS MERCADOS DO GADO, A EXPANSÃO AGRÁRIA NA


FRONTEIRA E A GUERRA COMO RECURSO ECONÔMICO ...................... 249

7.1 - NA TRILHA DOS LATIFÚNDIOS: A EXPANSÃO AGRÁRIA RUMO


À REGIÃO DA FRONTEIRA COM O URUGUAI .............................................. 253

7.2 - PELAS MALHAS DO PARENTESCO: O MERCADO DO GADO


PARA AS CHARQUEADAS DE PELOTAS ........................................................ 257

7.3 - ENTRE DEPUTADOS E GENERAIS OU DE COMO A GUERRA


TAMBÉM SE CONSTITUIU EM UM RECURSO ECONÔMICO PARA OS
CHARQUEADORES DE PELOTAS .................................................................... 268

7.4 - VESTÍGIOS DE UMA CRISE ANUNCIADA: A TABLADA


PELOTENSE ........................................................................................................ 283
CAPÍTULO 8 - AS CHARQUEADAS, OS MERCADOS ATLÂNTICOS
E OS SEUS INTERMEDIÁRIOS ........................................................................ ... 288

8.1 - EM “BOCAS DESGRACIADAS”: CHARQUEADORES, SALADEIRISTAS


E OS CIRCUÍTOS MERCANTIS ATLÂNTICOS DAS CARNES ....................... 288

8.2 - PELAS “MARGENS” DO CAPITALISMO: OS MERCADOS


ATLÂNTICOS DOS COUROS E DO SAL .......................................................... 306

8.3 - NO RASTRO DOS “BROKERS”: O FUNCIONAMENTO DO


MERCADO EM PELOTAS E OS CHARQUEADORES NO ALTO
COMÉRCIO MARÍTIMO ..................................................................................... 313

CAPÍTULO 9 - OS BARÕES DO CHARQUE: PERFIL E NÍVEIS DE


RIQUEZA, MOBILIDADE SOCIAL INTRA-ELITE E TRANSMISSÃO
DE PATRIMÔNIO ENTRE OS CHARQUEADORES ....................................... 330

9.1 - ALGUNS MUITO RICOS, OUTROS NEM TANTO: HIERARQUIAS


DE RIQUEZA E INVESTIMENTOS ECONÔMICOS ENTRE OS
CHARQUEADORES DE PELOTAS .................................................................... 330

9.2 - NOVILHOS QUE VIRAM DINHEIRO: OS RENDIMENTOS DA


EMPRESA CHARQUEADORA ESCRAVISTA .................................................. 344

9.3 - “O MAIOR LEGADO QUE LHES DEIXO”: A TRANSMISSÃO DE


PATRIMÔNIO ENTRE OS CHARQUEADORES ............................................... 355

9.4 - “ENGOLIDOS SEM PIEDADE”: OS CHARQUEADORES E A


MOBILIDADE SOCIAL INTRA-ELITE .............................................................. 367

CAPÍTULO 10 - “A ARISTOCRACIA DO SEBO”: PODER POLÍTICO,


NOBREZA, EDUCAÇÃO E ESTILO DE VIDA NAS FAMÍLIAS DA
ELITE CHARQUEADORA PELOTENSE ........................................................... 374

10.1 - EDUCAÇÃO E ESTILO DE VIDA ENTRE AS FAMÍLIAS


CHARQUEADORAS DE PELOTAS ................................................................... 376

10.2 – GOVERNANDO A SOCIEDADE: OS CHARQUEADORES NA ELITE


POLÍTICA LOCAL E REGIONAL ...................................................................... 388

10.3 - O IMPÉRIO DOS MEDIADORES: UMA CONTRIBUIÇÃO PARA


O ESTUDO DA CONSTRUÇÃO DO ESTADO IMPERIAL E DO
FUNCIONAMENTO DO SISTEMA POLÍTICO MONÁRQUICO ...................... 400

CONCLUSÃO ........................................................................................................ 419


ANEXOS ................................................................................................................ 428
FONTES PRIMÁRIAS ........................................................................................... 430
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................... 433
LISTA DE ABREVIATURAS

ABP – Arquivo do Bispado de Pelotas

ACRJ – Arquivo da Cúria do Rio de Janeiro

AHRS – Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul

AHI – Arquivo Histórico do Itamarati

AHU – Arquivo Histórico Ultramarino (Lisboa)

ANRJ – Arquivo Nacional do Rio de Janeiro

ANTT – Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Lisboa)

APERS – Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul

BNRJ – Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro

BPP – Biblioteca Pública Pelotense

CV – Coleção Varela

MCSHJC – Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa

MJN – Museu João Nunes (São Gabriel)

5
LISTA DE TABELAS

Tabela 1.1 – População livre e escrava por capitanias (1819) ..................................... 49

Tabela 3.1 – Estatísticas populacionais em Pelotas (1814 – 1858) .............................. 97

Tabela 3.2 - Mapa da população da Vila de São Francisco de Paula de Pelotas em


dezembro de 1833 ...................................................................................................... 98

Tabela 3.3 – Mapa da população da Vila de São Francisco de Paula de Pelotas em


dezembro de 1833 (População dividida por nacionalidade, cor, condição jurídica,
freguesia, distritos e fogos) ........................................................................................ 99

Tabela 3.4 – Comparação da população escrava, razão de africanidade e sexo


de Pelotas com outras regiões de plantations brasileiras (1829-1840). ....................... 103

Tabela 3.5 – Estrutura de posse de escravos em Pelotas a partir dos inventários


post-mortem (1800-1835).......................................................................................... 104

Tabela 4.1 - Distribuição das riquezas inventariadas por faixas de fortuna


(1850-1890) (em libras esterlinas) ............................................................................ 137

Tabela 4.2 – Perfil do patrimônio dos inventariados em Pelotas (1850-1890) (%) .... 140

Tabela 4.3 – Concentração dos rebanhos vacuns nos inventários e posse de


fazendas fora de Pelotas (157) ................................................................................... 144

Tabela 4.4 – Concentração dos plantéis de escravos entre os inventariados


(1850-1885) ............................................................................................................. 146

Tabela 4.5 – Perfil dos patrimônios inventariados por faixas de fortuna em libras
esterlinas (%) ............................................................................................................ 162

Tabela 5.1 – Número de escravos e razão de sexo por período (1831-1885) .............. 190

Tabela 5.2 – Faixa etária e sexo dos escravos dos charqueadores (1831-1885) .......... 191

Tabela 5.3 – Africanidade e sexo nos plantéis dos charqueadores (1831-1885).......... 192

Tabela 5.4 – Africanidade e sexo entre escravos adultos e idosos (1831-1885) .......... 193

Tabela 5.5 – Concentração de riqueza entre os charqueadores de Pelotas a


partir dos inventários post-mortem, em libras esterlinas (%) ...................................... 197

Tabela 5.6 – Escravos negociados por escritura em Pelotas (1850-1884) ................... 199

Tabela 7.1 – Hierarquia de fortunas, rebanhos vacuns, títulos de nobreza e altos


cargos políticos a partir da análise dos inventários de 51 charqueadores –
(1845-1900)/ em libras esterlinas e percentuais (%) .................................................. 267

6
Tabela 8.1 - Gado bovino abatido nas charqueadas e saladeros da América do Sul
(1857-1862) .............................................................................................................. 296

Tabela 9.1 - Análise das fortunas dos charqueadores (em libras esterlinas)
por períodos (359) ..................................................................................................... 331

Tabela 9.2 - Faixas de fortuna em libras esterlinas (1810-1900) ............................... 335

Tabela 9.3 – Composição do patrimônio dos charqueadores com fortunas


acima de 50 mil libras (%) ....................................................................................... 336

Tabela 9.4 – Estimativa média de rendimentos em uma safra com abate de 20 mil
novilhos (década de 1860) ........................................................................................ 352

Tabela 9.5 – Relação entre riqueza, posse de estâncias e longevidade da família


nos negócios com o charque (1810-1900) ................................................................. 361

Tabela 10.1 – Relação entre Riqueza, Nobiliarquia, Alta política e Educação


entre as famílias charqueadoras de Pelotas (1845-1900) - em libras esterlinas .......... 394

7
LISTA DE GRÁFICOS E DIAGRAMAS

Gráfico 3.1 – Vínculos de parentesco entre os 62 charqueadores de Pelotas


(1790-1835) .............................................................................................................. 119

Gráfico 3.2 – Vínculos de parentesco entre os 62 charqueadores de Pelotas com as


classes subalternas a partir dos registros de batismo de livres (1812-1825) ................ 126

Gráfico 4.1 – Distribuição do número de inventários em urbanos e rurais Pelotas


(1850-1890) .............................................................................................................. 138

Gráfico 4.2 – Preço dos escravos entre 15 e 40 anos (1850-1885) – em mil réis ....... 145

Gráfico 5.1 – Preço dos escravos adultos (de 15 a 50 anos) e sadios nas charqueadas
de Pelotas (1831-1885) (em libras esterlinas) ........................................................... 189

Gráfico 6.1 – Processos criminais envolvendo escravos de charqueadores pelotenses


(1830-1888) .............................................................................................................. 224

Gráfico 7.1 – Número de reses abatidas nas charqueadas de Pelotas (1862-1890) …..250

Gráfico 7.2 - Presença de propriedades rurais pertencentes a charqueadores de Pelotas


nos inventários e nos livros de notas (1820-1900) ..................................................... 255

Gráfico 8.1 – Charque exportado pelo Rio Grande do Sul entre 1837 e 1890
(em arrobas) .............................................................................................................. 301

Gráfico 8.2 - Preço da arroba de charque exportado em réis ($) ................................. 294

Gráfico 8.3 – Charque platino e rio-grandense comprados pelo Rio de Janeiro e os


totais exportados pelo Rio Grande do Sul (1850-1886) – (em toneladas) ................... 301

Gráfico 8.4 – Unidades de couro e arrobas de charque exportadas pelo Rio Grande
do Sul (1845-1889) ................................................................................................... 307

Gráfico 8.5 – Preços de couro no porto de Rio Grande (1845-1890) .......................... 308

Diagrama 8.1 – Vínculos de parentesco entre os 12 charqueadores mais


ricos de Pelotas (1850-1900) ..................................................................................... 326

8
LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Localização de Pelotas no espaço fronteiriço do cone sul americano


(século XIX) .............................................................................................................. 13

Figura 3.1 – Sesmaria do Monte Bonito e Sesmaria de Pelotas


(início do século XIX) ................................................................................................ 92

Figura 4.1 – Mapa da Província do Rio Grande do Sul (1875) .................................. 141

Figura 7.1 – Regiões alvo dos investimentos realizados pelos charqueadores em


estâncias e campos de criação fora de Pelotas (1810-1900) ....................................... 256

Figura 8.1 – Litoral sul e fronteira fluvial entre Brasil e Uruguai ............................... 291

Figura 11 – Charqueadas em funcionamento no Rio Grande do Sul (1920) ............... 420

9
INTRODUÇÃO

No dia 30 de outubro de 1860, o charqueador Domingos José de Almeida escreveu ao


tenente-coronel Manuel Antunes da Porciúncula lamentando a morte do amigo Antônio Vicente
da Fontoura – chefe do Partido Liberal em Cachoeira, no Rio Grande do Sul. Fontoura havia
sido assassinado durante as eleições gerais daquele mesmo ano, num processo eleitoral que
causou a morte de muitos outros votantes no restante do Brasil. 1 Num tom irônico, Domingos
definia o que havia ocasionado tantos crimes:

Nas províncias do Norte jorrou o sangue com profusão, e nada menos era de esperar-se
com a muito bem pensada reforma eleitoral, que nulificando influências legítimas,
entregou esse tão melindroso assunto à polícia e à Guarda Nacional para criar
caciquinhos locais, dividir e o Governo audaz nomear comissários ad hoc com o
pomposo título de representantes da Nação: tudo corre as mil maravilhas.2

A Lei eleitoral de 1855, também conhecida como a “lei dos círculos”, foi responsável
por implementar o voto distrital, eliminando o antigo sistema de candidatos em lista, o que
acabou favorecendo a eleição de líderes paroquiais em detrimento de indivíduos com influência
política de âmbito mais regional. 3 No entanto, para Domingos, os “caciquinhos locais” que
agora possuíam maiores chances de se elegerem deveriam reservar-se ao seu espaço de atuação
municipal e não se envolver em assuntos reservados às “influências legítimas” da província.
Domingos já havia sido deputado provincial em 1835. Chefe liberal em Pelotas, a leitura de sua
correspondência revela que ele mantinha profundo contato com outros deputados provinciais e
gerais, além dos presidentes de província, demonstrando que era um líder político conhecido e
influente.4 Numa carta escrita a outro amigo, em setembro de 1859, Domingos rememorava o
seu apoio à proclamação da Independência, “que com penosos sacrifícios ajudei a conquistar

1
FREITAS, Bruno C. N. Pedras no Telhado: Política e Sociedade nas eleições distritais de 1860. In: Anais do XXV
Encontro Nacional de História. Fortaleza: Anpuh, 2009.
2
Carta de Domingos J. de Almeida para Manuel Antunes da Porciúncula, 30.10.1860 (AHRS. Anais do Arquivo
Histórico do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, v. 3, 1978, CV-751). Grifos meus.
3
De fato, grandes políticos foram derrubados de suas posições de prestígio ao perderem as eleições nos seus
respectivos distritos para líderes locais sem grande expressão. Em 1860, uma nova reforma eleitoral diminuiu o
número de distritos criando círculos eleitorais com três deputados ao invés de apenas um (CARVALHO, José
Murilo de. A Construção da Ordem: a elite política imperial e Teatro de Sombras: a política Imperial. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p. 176-180).
4
A coleção de cartas (pertencentes à Coleção Varela) foi publicada pelo Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul
e reúne missivas escritas entre as décadas de 1830 e 1860. A grande maioria delas abarca o período da Revolta
Farroupilha (1835-1845), quando Domingos ocupou importantes cargos políticos na República Rio-grandense
(Anais do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, v. 3, 1978).
10
em 1822 para nossa Pátria”.5 Portanto, na lógica de Domingos, quando o Império quisesse
negociar o apoio das elites no sul do país, seja para a realização de algum projeto político e
econômico, seja para combater alguma revolta ou vencer eleições, era a homens como ele que
deveria se dirigir e não às notabilidades de aldeia.

Mulato e filho de moleiros, Domingos era natural de Diamantina, em Minas Gerais.6


Residindo na Corte, partiu para o Rio Grande do Sul com o objetivo de comprar uma tropa de
mulas e vendê-la nas feiras de Sorocaba. Contudo, conforme ele próprio, acabou gostando da
nova terra e decidiu estabelecer-se em Pelotas.7 Comerciante ativo, Domingos logo contraiu
matrimônio com Bernardina Rodrigues Barcellos, moça pertencente a uma das famílias mais
ricas e poderosas de Pelotas e cujos membros possuíam muitas fábricas de charque (carne-
seca). Não demorou muito e o próprio Domingos arranchou-se nas terras de seu sogro e ergueu
a sua própria charqueada. Concentrando comendas honoríficas e patentes de capitão de
ordenanças, os Rodrigues Barcellos, agora seus parentes, lhe ofereciam prestígio social e
político enormes. 8 Na nova ordem imperial, esta família ainda teve 3 deputados provinciais, 1
deputado geral e 2 presidentes de província.

Portanto, a trajetória de Domingos era a de um migrante de modestas posses que, depois


de inserir-se na elite local por meio de um bom casamento e pelos seus negócios, não se via
mais como os outros “caciquinhos locais” que insistiam em querer influir na vida política e
econômica provincial, representando-a na Corte. Usando uma expressão de Carlos Bacellar,
pode-se dizer que Domingos, ao agir desta forma, começava a adquirir “consciência de elite”.9
Contudo, não era de qualquer elite. Era de uma elite que sentia-se como legítima em representar
a província fora dela. Uma elite que ultrapassava a simples visão de mundo localista. Em suma,
era uma elite regional.10 Mas Domingos e seus parentes não estavam sozinhos. Neste sentido,

5
Carta de Domingos para Bernardo Pires. Pelotas 17.09.1859 (Anais do AHRS, v. 3, 1978, CV-673).
6
MARQUES, Letícia R. Domingos José de Almeida e José Mariano de Matos: A questão dos negros e mulatos na
Revolução Farroupilha (1835-1845). Anais do XXVI Encontro Nacional de História. São Paulo, USP, p. 1-15. Na
realidade não existe um consenso entre os autores a respeito da cor da pele de Domingos. Para considerações sobre
a mesma questão e uma posição mais inclinada a considerar que o charqueador era mulato, ver o mencionado texto
de MARQUES, Letícia. Op.cit.
7
Carta de Domingos para o presidente da Província Joaquim Antão Fernandes Leão. Pelotas, 07.12.1859. (Anais
do AHRS. Porto Alegre: Corag, v. 3, 1978, CV-686).
8
MENEGAT, Carla. O tramado, a pena e as tropas: família, política e negócios do casal Domingos José de
Almeida e Bernardina Rodrigues Barcellos (Rio Grande de São Pedro, Século XIX). Dissertação de Mestrado em
História, UFRGS, 2009.
9
BACELLAR, Carlos de Almeida Prado. Os senhores da terra: família e sistema sucessório entre senhores de
engenho do oeste paulista (1765-1855). Campinas: Centro de Memória da Unicamp, 1997, p. 177-186.
10
DOLHNIKOFF, Miriam. Elites regionais e a construção do Estado Nacional. In: In: JANCSÓ, István. Brasil: a
construção do Estado e da Nação. São Paulo/ Ijuí: Hucitec/ Unijuí, 2003; VARGAS, Jonas M. Entre a paróquia e
a Corte: os mediadores e as estratégias familiares da elite política do Rio Grande do Sul. Santa Maria:
UFSM/Anpuh-RS, 2010.
11
os indivíduos e famílias que compartilhavam de uma postura semelhante viam-se como os mais
capazes em intermediar as relações entre o governo central e a província, incluindo no interior
desta última os inúmeros chefes locais. Contudo, tais negociações eram bastante complexas e
estavam permeadas por uma relação de cooperação e conflito, uma vez que os líderes
provinciais (elite regional) precisavam dos chefes municipais (elites locais) para fortalecer suas
redes sociais e clientelares e vencer as eleições para os seus partidos políticos.11

O sentimento de superioridade compartilhado por Domingos, pelos Rodrigues Barcellos


e outros charqueadores, comerciantes e estancieiros que compunham a elite regional não
decorria apenas da sua posição política e de seu prestígio social. A “consciência de elite”
também era consequência da riqueza alcançada pelos mesmos, entre os quais estavam os
charqueadores pelotenses – objeto de análise principal desta tese. Estes empresários escravistas
foram os proprietários mais ricos do Rio Grande do Sul no século XIX. Concentrando milhares
de cativos e abatendo milhões de bovinos, a cidade de Pelotas destacou-se como o grande
complexo charqueador não apenas da província, como de todo o Império do Brasil (Mapa 1). O
charque e os couros foram os principais produtos da pauta das exportações rio-grandenses
durante quase todo o século XIX. O primeiro deles foi fundamental na alimentação dos
escravos das plantations brasileiras, integrando os mercados do sul com os do sudeste e
nordeste do Brasil, além de incluir menores remessas para Cuba, Estados Unidos e Lisboa. O
segundo foi um artigo demandado em larga escala pelas indústrias europeias e norte-americanas
e conectava o Rio Grande mais fortemente ao mercado internacional.

No Rio Grande do Sul, as primeiras fábricas de charque foram instaladas nos fins do
século XVIII, inserindo-se numa conjuntura econômica muito mais ampla e que caracterizou o
espaço atlântico durante o período colonial tardio.12 A notável ampliação do número de
plantations açucareiras tanto no sudeste e no nordeste brasileiro, quanto no Caribe, provocou a
entrada de centenas de milhares de escravos africanos nas mencionadas plantações criando uma
elevada demanda por alimentos. Neste contexto, não apenas Pelotas como também Montevideu
e Buenos Aires, destacaram-se como os principais núcleos produtores de carne seca e salgada
da América do Sul. 13 Portanto, a formação de tais complexos fabris (Pelotas e Montevideu, nos

11
GRAHAM, Richard. Clientelismo e Política no Brasil do Século XIX. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997; VARGAS,
Jonas. Op. cit.
12
Para uma análise da economia rio-grandense neste período ver OSÓRIO, Helen. O império português no sul da
fronteira: estancieiros, lavradores e comerciantes. Porto Alegre: UFRGS, 2007. Uma outra interpretação a
respeito do mesmo período pode ser vista em MENZ, Maximiliano. Entre impérios: formação do Rio Grande na
crise do sistema colonial português (1777-1822). São Paulo: Alameda, 2009.
13
Desde já é importante considerar que na maioria das fontes, “carne-seca”, “charque” e “tasajo” (este último na
região do rio da Prata) são tratados como sinônimos, enquanto a “carne salgada” era um termo destinado para as
12
anos 1780, e Buenos Aires, depois de 1810) fez parte de um mesmo processo onde o tráfico
atlântico, coordenado principalmente pelos comerciantes de grosso trato do Rio de Janeiro, foi
estruturalmente importante.

Mapa 1 – Localização de Pelotas no espaço fronteiriço do cone sul americano


(século XIX)

Fonte: BELL, Stephen. Early industrialization in the South Atlantic: political influences on the charqueadas of
Rio Grande do Sul before 1860. In: Journal of Historical Geography, 19, 4 (1993), p. 400.

É neste sentido que Pelotas inseria-se no tasajo trail atlântico estudado por Andrew
Sluyter.14 Para o autor, esta rota mercantil de charque que ligava o Rio da Prata à Cuba
conectava duas regiões e duas atividades produtivas na qual a escravidão era fundamental,
criando um circuito mercantil lucrativo no qual a mercadoria principal, o tasajo, era fabricado
“por” e “para” trabalhadores cativos. Além disso, Bertie Mandelblatt insistiu para que se deixe
de ver os escravos no mundo atlântico somente como trabalhadores e como mercadorias,

carnes preparadas e conservadas em barris com salmoura – técnica desenvolvida pelos irlandeses e que será
explicitada no capítulo 2.
14
SLUYTER, Andrew. The Hispanic Atlantic’s Tasajo Trail. Latin American Research Review, v. 45, n. 1, 2010,
p. 98-120. Como será visto ao longo desta tese, Pelotas foi o principal polo charqueador da província, o que não
significa que o charque não fosse fabricado em outras localidades do Rio Grande do Sul. Se antes da Guerra dos
Farrapos as charqueadas de Porto Alegre e das margens do Rio Jacuí deviam fabricar pouco mais de 25% ou 30%
do charque rio-grandense, é provável que nos anos 1860 e 1870 Pelotas respondesse por quase 90% do charque
fabricado na província. Para uma análise das outras regiões charqueadoras ver MARQUES, Alvarino da Fontoura.
Episódios do Ciclo do Charque. Porto Alegre: Edigal, 1987.
13
passando a pensá-los também como consumidores.15 Seguindo estas premissas, pode-se
perceber a ligação do charque com a manutenção do tráfico atlântico e da escravidão a partir de
uma tripla relação. Ao mesmo tempo em que a mão de obra cativa foi essencial para a
montagem das charqueadas e saladeros no Rio da Prata e em Pelotas (aumentando a demanda
por escravos na região), estas fábricas abasteciam as plantations atlânticas com um alimento
rico em proteínas e de baixo preço. Além disso, o produto também acompanhava as tripulações
dos negreiros que cruzavam o Atlântico garantindo os suprimentos dos escravos no retorno de
suas viagens. Neste sentido, Sluyter afirmou que o tasajo trail ajudou a sustentar os mais
proeminentes fluxos mercantis de açúcar e escravos que definiram a própria compreensão do
mundo atlântico.16

Em Pelotas, as charqueadas foram fruto de investimentos de comerciantes que viram


uma oportunidade de obter lucros com a expansão deste comércio durante o colonial tardio.
Além do mais, a crise da produção de carne-seca no Ceará e no Piauí, ocasionada pelas duras
secas nos anos 1770 e 1790, abria um espaço no mercado para novos investidores, como
demonstrou Helen Osório em trabalho pioneiro.17 Portanto, ao contrário dos comerciantes de
grosso trato estudados por João Fragoso, que investiram sua riqueza em terras e escravos
tornando-se senhores de engenho no agro fluminense 18, o capital aplicado nas charqueadas não
possuía interesses voltados para a busca de prestígio social, mas sim, o lucro oriundo das
atividades mercantis. Nesta conjuntura, Pelotas atraiu comerciantes de diversos lugares e as
inversões de capital nestas fábricas exigiu a entrada de centenas de escravos africanos,
tornando-a uma cidade negra. Como se verá, em 1833, cerca de 51% de sua população era
escrava (mais de 2/3 deles eram africanos), sendo que somente 36,1% dos seus habitantes foram
classificados como brancos.19

Após a década de 1820, quando a experiência com a triticultura açoriana entrou em


declínio, a hegemonia dos pecuaristas e charqueadores consolidou-se de vez. Neste contexto, os
empresários pelotenses constituíram-se nos principais produtores de alimentos do sul do
Império. Segundo João Fragoso, os complexos agropecuários voltados para o abastecimento do
mercado interno, como as charqueadas no Sul, as lavouras de subsistência no Rio de Janeiro e
15
MANDELBLATT, Bertie. A Transatlantic Commodity: Irish Salt Beef in the French Atlantic World. History
Workshop Journal, n. 63, 2007, p. 21.
16
SLUYTER, Andrew. Op. cit., p. 101.
17
OSÓRIO, Helen. Op. cit.
18
FRAGOSO, João L. R.. Homens de Grossa Aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de
Janeiro (1790-1830). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998, p. 143-177.
19
Mapa da população da Vila de São Francisco de Paula de Pelotas em dezembro de 1833. Biblioteca Pública de
Pelotas (reproduzido por ARRIADA, Eduardo. Pelotas: gênese e desenvolvimento urbano (1780-1835). Pelotas:
Armazém literário, 1994, p. 98).
14
São Paulo e a produção agropecuária em Minas, formavam um “mosaico de formas de
produção não-capitalistas”, cuja significativa capacidade de acumulação endógena, tornava a
economia destas regiões fundamentais na reprodução das plantations e do próprio sistema
escravista agroexportador. O abastecimento do Rio de Janeiro “implicava a criação de uma
ampla rede intracolonial” na qual o Rio Grande inseria-se e “que vem a negar a ideia de
autarquia da plantation”.20 Além do sudeste, o charque pelotense também abastecia a escravaria
e a população pobre de Pernambuco e Bahia – regiões que, somadas, perfaziam mais da metade
das exportações rio-grandenses ao longo de todo o período.

Portanto, este circuito comercial fez surgir distintas elites mercantis e agrárias nas
diferentes regiões do Brasil. No Rio Grande do Sul, junto aos comerciantes de grosso trato e aos
estancieiros da região da campanha, os charqueadores pelotenses ocuparam o topo da hierarquia
social. 21 No entanto, se comparado ao número de criadores de gado e ao de comerciantes
existentes na província, os charqueadores pelotenses formavam um diminuto grupo. Ao longo
do século XIX, o número de charqueadas a funcionar em Pelotas, não ao mesmo tempo, foi de
43 estabelecimentos.22 Se em 1822, havia 22 charqueadas no município, em 1850, este número
atingia a casa dos 30, em 1873, chegava a 35 e em 1880, 38. As 11 charqueadas de 1900
indicam que o declínio do setor coincidiu com o fim da escravidão e a queda da monarquia –
cujos charqueadores, nesta época uma aristocracia nobilitada e que, como se verá, concentrava
significativo poder político e econômico, também funcionaram como uma espécie de
sustentáculo do Império luso-brasileiro na fronteira sul.

A valorização do estudo das atividades econômicas não exportadoras teve importantes


contribuições nas pesquisas de Maria Yedda Linhares e Ciro Flamarion Cardoso.23 Ao
criticarem a “visão plantacionista” da história brasileira, os autores estimularam uma nova
geração de pesquisadores que se voltaram para a análise das estruturas econômicas internas
daquela sociedade. Seguindo esta linha de orientação, nos anos 1980 e 1990, novos trabalhos
vieram contribuir para um melhor conhecimento da paisagem agrária brasileira, da escravidão,

20
FRAGOSO, João L. R.. Op. cit. 1998, p. 143-177.
21
Sobre os comerciantes ver BERUTE, Gabriel Santos. Atividades mercantis do Rio Grande de São Pedro:
negócios, mercadorias e agentes mercantis (1808-1850). Tese de Doutorado. PPG-História da UFRGS, 2011.
Sobre os estancieiros ver FARINATTI, Luis Augusto. Confins Meridionais: famílias de elite e sociedade agrária
na fronteira meridional do Brasil. Santa Maria: Ed. da UFSM, 2010. Para ambos os grupos no período colonial ver
OSÓRIO, Helen. Op. cit.
22
MARQUES, Alvarino da Fontoura. Op. cit., p. 99-102.
23
Ver, por exemplo, LINHARES, Maria Yedda. História do Abastecimento: uma problemática em questão (1530-
1918). Brasília: Binagre, 1979; LINHARES, Maria Yedda. Subsistência e sistemas agrários na Colônia: uma
discussão. In: Estudos Econômicos. N. 13, 1983, p. 745-762; CARDOSO, Ciro F. O trabalho na Colônia. In:
LINHARES, Maria Yedda (Org.). História Geral do Brasil. Rio de Janeiro: Campus, 2000, p. 69-88. CARDOSO,
Ciro F. Agricultura, escravidão e capitalismo. Petrópolis: Vozes, 1979.
15
da economia de abastecimento e do próprio mercado interno tanto no século XVIII quanto no
XIX.24 Utilizando-se de uma metodologia serial e assentados sobre vasta gama de fontes
primárias manuscritas, estes estudos inspiravam-se na história regional francesa, que tinha
como expoentes Ernest Labrousse, Pierre Goubert e Emmanuel Le Roy Ladurie, por exemplo.25
Tais estudos demonstraram, entre outros aspectos, a importância das produções destinadas ao
mercado interno, a disseminação da escravidão para muito além da agroexportação, a
diversidade dos grupos sociais existentes em espaços fora das plantations, a existência de uma
elite de comerciantes de grosso trato no Rio de Janeiro e a reiteração de uma hierarquia social
excludente nas mais distintas realidades históricas.

Desde que estas pesquisas tiveram início nos anos 1970, não existe um trabalho que
tenha investigado de maneira mais aprofundada e nos quados de uma história social o papel dos
charqueadores e de suas famílias dentro deste circuito mercantil de acumulação endógena e das
transformações sofridas por esta elite ao longo do oitocentos. Para além dos conhecidos relatos
de viajantes e das histórias da cidade de Pelotas escritas na passagem do século XIX para o XX,
a obra de Fernando Henrique Cardoso, anterior às mencionadas pesquisas indicadas
anteriormente, surgiu como uma primeira incursão mais sistemática ao estudo da sociedade e da
economia da província, apresentando uma atenção especial às charqueadas pelotenses.26 A
principal contribuição do autor foi demonstrar o equívoco das interpretações até então vigentes
sobre a pouca importância da escravidão na sociedade rio-grandense, assim como a ideia de
“democracia racial” que vigoraria nas relações sociais entre senhores e cativos. Inaugurando um
debate acadêmico, sob a inspiração dos relatos de Louis Couty (1881), Cardoso defendeu que as
charqueadas entraram em crise devido à irracionalidade econômica dos charqueadores que
mantiveram o trabalho escravo em seus estabelecimentos enquanto os saladeiristas platinos se

24
Como, por exemplo, FRAGOSO, João. Op. cit.; GRAÇA FILHO, Afonso de Alencastro. Os convênios da
carestia: crises, organização e investimentos do comércio de subsistência da Corte (1850-1880). Rio de Janeiro:
IFCS/UFRJ, Dissertação de Mestrado, 1992; MOTTA, Márcia M. M.. Pelas Bandas d’Além: fronteira fechada e
arrendatários-escravistas em uma região policultora (1800-1888). Niterói: ICHF/UFF, 1989; SAMPAIO, Antônio
C. Jucá. Magé na crise do escravismo: sistema agrário e evolução econômica na produção de alimentos (1850-
1888). Rio de Janeiro: UFF, Dissertação de Mestrado, 1994; CASTRO, Hebe M. da C. Mattos de. A Margem da
História: homens livres pobres e pequena produção na crise do trabalho escravo. Niterói: ICFH/UFF, Dissertação
de Mestrado, 1985; FARIA, Sheila de Castro. Terra e trabalho em Campos dos Goitacazes (1850-1920). Niterói:
ICFH/UFF, Dissertação de Mestrado, 1986.
25
Nos anos 1970, o diálogo com a historiografia francesa também teve importante contribuição na área da
demografia histórica, o que favoreceu um maior conhecimento das estruturas econômicas internas. Ver, por
exemplo, MARCÍLIO, Maria Luíza. A cidade de São Paulo: povoamento e população, 1750-1850. São Paulo:
Pioneira/USP, 1973. Para um balanço historiográfico ver BACELLAR, Carlos; BASSANEZI, Maria Sílvia;
SCOTT, Ana Sílvia V. Quarenta anos de demografia histórica. Revista Brasileira de Estudos Populacionais, São
Paulo, v. 22, n. 2, jul./ dez., 2005, p. 339-350.
26
CARDOSO, Fernando Henrique. Capitalismo e escravidão no Brasil meridional: o negro na sociedade
escravocrata do Rio Grande do Sul. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
16
utilizavam de trabalhadores assalariados. Desta forma, a análise da escravidão nas charqueadas
serviu para sustentar parte de suas teses.

A influência do trabalho de Cardoso entre os historiadores rio-grandenses das décadas


de 1970 e 1980 foi marcante, tendo o sociólogo, por meio de seu livro, pautado os interesses de
pesquisa e o próprio debate nas décadas seguintes. Dialogando com o autor, Berenice Corsetti
deu prosseguimento aos estudos referentes à produção do charque. Utilizando fontes
documentais inovadoras para a época, como os inventários post-mortem, Corsetti buscou
relativizar algumas teses de Cardoso e comprovar outras empiricamente. Sua principal
contribuição foi demonstrar que, ao contrário do que Cardoso defendia, os charqueadores
haviam investido capitais em inovações técnicas e que também realizavam uma divisão do
trabalho escravo no interior das fábricas.27 No entanto, a pesquisa de Corsetti diz mais sobre o
comércio e a produção do charque do que sobre os próprios charqueadores enquanto grupo
social, que interesses os dividiam e que tipo de estratégias sociais os mesmos realizavam diante
da instabilidade econômica que periodicamente afetava o setor.

Contemporânea a Corsetti, a obra de Mário Maestri Filho dialoga menos com Cardoso,
mas mantém a mesma preocupação voltada em demonstrar a significativa importância do
trabalho escravo na economia rio-grandense. Pesquisando principalmente fontes impressas,
Maestri busca investigar os diferentes tipos de resistência escrava e as violências a que os
mesmos estavam sujeitos no trabalho das charqueadas.28 Nos anos 1990, o autor orientou outras
importantes pesquisas que buscaram aprofundar o uso da mão de obra cativa nos mesmos
estabelecimentos. Destes trabalhos, o de Ester Gutierrez foi o que abrangeu interesses mais
amplos. Seguindo métodos e fontes documentais utilizados por Corsetti, a autora reconstituiu o
complexo espacial e a distribuição geográfica das charqueadas, buscando traçar uma história
dos estabelecimentos ao longo do período, assim como da importância da escravidão nos
mesmos.29 Mais recentemente, Denise Ognibeni deu continuidade à pesquisa sobre as
charqueadas, dedicando um espaço para analisar os charqueadores enquanto grupo social,

27
CORSETTI, Berenice. Estudo da charqueada escravista gaúcha no século XIX. Niterói: ICHF/UFF, Dissertação
de Mestrado, 1983.
28
MAESTRI FILHO, Mário José. O escravo no Rio Grande do Sul: a charqueada e a gênese do escravismo
gaúcho. Porto Alegre: EST, 1984.
29
GUTIERREZ, Ester J. B. Negros, charqueadas & olarias: um estudo sobre o espaço pelotense. Pelotas: UFPel,
2001. Na mesma época, ASSUMPÇÃO, Jorge Euzébio. Pelotas: escravidão e charqueadas (1780-1888). Porto
Alegre, PPGH/PUC-RS, Dissertação de Mestrado, 1995.
17
observando seu cotidiano, o mundo do trabalho e escapando de uma análise exclusiva do
processo de produção e comercialização do charque.30

Portanto, a abordagem oferecida nesta tese a respeito dos charqueadores é um tanto


distinta das mencionadas pesquisas. Mais do que uma análise da escravidão nas charqueadas e
do processo de produção e comércio do charque, objetivei realizar uma história social das
charqueadas, dos charqueadores e de suas famílias ao longo do século XIX, estudando as suas
práticas socioeconômicas, políticas e culturais, além de buscar definir os fatores de
hierarquização no interior do grupo e os critérios de distinção que colocavam um conjunto de
famílias numa posição elevada diante das demais (o que as qualificava para tornarem-se
membros das elites regionais, ultrapassando o espaço local de influência). Para a realização
deste trabalho incorporei novas metodologias e fontes documentais, inserindo Pelotas num
espaço socioeconômico muito mais amplo. Além disso, os problemas de pesquisa que
nortearam esta tese foram outros e dizem mais respeito a uma história das elites que, mesmo
periféricas, fizeram a economia atlântica mover-se ao longo do oitocentos, do que uma análise
autocentrada na sociedade e economia pelotense. A tese também pode ser lida como um
capítulo da história internacional da produção e do comércio das carnes preparadas e a
diversidade de elites proprietárias que podiam se constituir no interior destes sistemas
econômicos atlânticos. Tendo em vista que os grandes estudiosos do tema praticamente não
fazem referência ao complexo charqueador pelotense, esta tese também busca inseri-lo no
interior do mencionado sistema.31

Como parti de problemas de pesquisa distintos dos historiadores que estudaram as


charqueadas em Pelotas, estive longe de me preocupar com o debate a respeito da
“racionalidade x irracionalidade” econômica no uso do trabalho escravo nos estabelecimentos,
uma vez que a lucratividade das empresas escravistas no oitocentos já está mais do que aceita
na historiografia internacional. 32 Neste sentido, não considerei o uso da escravidão africana

30
OGNIBENI, Denise. Charqueadas pelotenses no século XIX: cotidiano, estabilidade e movimento. Porto Alegre:
PPGH/PUC-RS, Tese de Doutorado, 2005.
31
SLUYTER, Andrew. Op. cit.; MANDELBLATT, Bertie. Op. cit.; RIXSON, Derrick. The history of meat
trading. Nottingham: University Press, 2000; PERREN, Richard. The meat trade in Birtain (1840-1914). London:
Routledge & Kegan Paul, 1978; PERREN, Richard. Taste, Trade and Technology: the development of the
International Meat Industry since 1840. Aldershot: Ashgate, 2006. A exceção é Stephen Bell (BELL, Stephen.
Early industrialization in the South Atlantic: political influences on the charqueadas of Rio Grande do Sul before
1860. In: Journal of Historical Geography, 19, 4 (1993); BELL, Stephen. Innovacón, desarollo y medio local.
Dimenciones sociales y espaciales de la innovación. Revista Scripta Nova. Barcelona. N. 69 (84), 2000. Os autores
uruguaios e argentinos que trataram da história dos saladeiros, analisados ao longo desta tese, também referem-se
ao complexo charqueador pelotense.
32
Para um balanço geral, assim como as contribuições de Robert Fogel e Stanley Engerman, ver GRAHAM,
Richard. Escravidão e desenvolvimento econômico: Brasil e Sul dos Estados Unidos no século XIX. In: Estudos
18
como o pecado original das charqueadas e a sua extinção como uma explicação exclusiva de
sua crise final. Desta forma, esta tese não pretendeu continuar investigando a história das
charqueadas enfatizando-as como estabelecimentos decadentes e arcaicos, fatalmente
condenados a extinção. Ora, mesmo com todos os reveses apontados por Cardoso e outros
historiadores, mesmo com todos os problemas infraestruturais, os charqueadores pertenceram a
elite mais rica, poderosa e prestigiosa do extremo sul da América luso-brasileira e ocuparam o
topo da hierarquia social por agregarem recursos materiais e imateriais valorizados na sua
realidade histórica. Portanto, aquela sociedade deve ser entendida nos seus próprios termos e
não se deve exigir da sua elite um comportamento a-histórico. É importante frisar isto, porque
muitos trabalhos, ao privilegiarem a ideia de uma crise inevitável e de uma fatalidade
anunciada, acabaram permeando as suas conclusões neste sentido, o que resultam em análises
teleológicas onde os charqueadores foram apenas espectadores da ascensão capitalista que
irreversivelmente os fez desaparecer enquanto elite.33

A ausência de uma pesquisa mais aprofundada sobre quem eram e como agiam os
charqueadores pelotenses inviabiliza um entendimento mais complexo dos circuitos mercantis
que vinculavam diferentes regiões do centro-sul do Império, (mas também do mercado
marítimo de cabotagem que conectava o Rio Grande ao nordeste brasileiro), uma vez que não
permite conhecer melhor as elites que se constituíram a partir destas atividades. Penso que
compreender como as hierarquias sociais reproduziam-se nas margens mais “periféricas” do
Império e como as elites afastadas dos centros decisórios desenvolviam estratégias para obter
ganhos dentro deste sistema, auxilia na compreensão do próprio sistema econômico e político
brasileiro no oitocentos. Portanto, esta tese não almeja contribuir somente com o estudo da elite
charqueadora pelotense. Com as questões e hipóteses levantadas ao longo dos capítulos
objetivo oferecer um quadro analítico mais amplo e que estimule um olhar mais atencioso para
outras elites locais e regionais brasileiras, além de buscar entender como elas integravam-se nos
distintos mercados internos e externos que marcaram o período.

Econômicos, n. 13, 1983, p. 223-257. Ver também LIBBY, Douglas. Trabalho escravo e capital estrangeiro no
Brasil: o caso de Morro Velho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984; MONASTÉRIO, Leonardo. Op. cit.
33
Esta visão é muito comum entre os historiadores que trabalharam com o processo de industrialização e a
consolidação da república no Rio Grande do Sul. Neste sentido, a monarquia aparece como um estágio a ser
superado pela república e a economia escravista como uma etapa a ser ultrapassada pelo capitalismo. Ver, por
exemplo, PESAVENTO, Sandra. República Velha Gaúcha: frigoríficos, charqueadas, criadores. Porto Alegre:
Movimento/IEL, 1980; LAGEMANN, Eugenio. O Banco Pelotense & o Sistema Financeiro Regional. Porto
Alegre: Mercado Aberto, 1985.
19
No Brasil, cada vez mais tem sido aceito o papel das elites regionais no processo de
independência e da formação do Estado imperial brasileiro.34 A partir destes novos estudos já
não é mais possível pensar nas elites regionais como passivas diante do processo de
consolidação do estado monárquico ou como forças centrífugas prontas a impedir o mesmo.
Além disso, as novas pesquisas compartilham, por meio de contribuições distintas, do princípio
da negociação entre o governo central e as elites regionais, da mediação política entre ambos os
níveis de poder e da convergência de interesses entre os diversos proprietários de terra
espalhados pelo Brasil, como fatores importantes no mencionado processo. Neste sentido, parto
da premissa de que as elites regionais também devam ser compreendidas nas suas estruturas
socioeconômicas internas e na sua interação social com os sistemas econômicos e políticos
mais amplos, na qual as suas atividades se inseriam, uma vez que poucas são as pesquisas que
buscam estabelecer um diálogo entre uma abordagem econômica com outra mais política.

É na esteira destas novas pesquisas que a presente tese se insere. A escolha das famílias
charqueadoras deu-se pelo fato das mesmas ocuparem o topo da elite econômica da província.
No entanto, as suas relações sociais e políticas com outros setores da sociedade e as diferentes
esferas de ocupação em que os membros das mesmas estavam inseridos também auxiliavam na
manutenção da sua própria posição na hierarquia social. Daí a importância de investigar que
tipo de relações os charqueadores mantinham com comerciantes, estancieiros e políticos, isto
quando os mesmos não pertenciam as suas famílias. Portanto, o presente estudo oferece uma
análise especial dos charqueadores pelotenses que, assim como o mencionado Domingos José
de Almeida, não se viam mais como simples “caciquinhos locais”, pois sua influência em
termos políticos e econômicos estava um patamar acima destes, os colocando como membros
das elites regionais.

34
Ver, por exemplo, GOUVÊA, Maria de Fátima. Política provincial na formação da monarquia constitucional
brasileira: Rio de Janeiro (1820-1850). Almanack Braziliense, n. 7, mai-2008, p. 119-137; DOLHNIKOFF,
Miriam. O pacto imperial: origens no federalismo no Brasil do século XIX. São Paulo: Globo, 2005; MARTINS,
Maria Fernanda V. “A velha arte de governar”: um estudo sobre política e elites a partir do Conselho de Estado
(1842-1889). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2007; GRAHAM, Richard. Op. cit.; VARGAS, Jonas. Op. cit.,
2010; FARINATTI, Luís A. Op. cit.; MARTINS, Maria Fernanda. Das racionalidades da História: o Império do
Brasil em perspectiva teórica. Almanack, n. 4, 2º sem. 2012, p. 53-61; SODRÉ, Elaine L. A disputa pelo monopólio
de uma força (i)legítima: Estado e administração judiciária no Brasil Imperial (Rio Grande do Sul, 1833-1871).
Tese de Doutorado. PUC-RS, 2009; ANDRADE, Marcos F. de. Elites regionais e a formação do Estado Imperial
brasileiro: Minas Gerais - Campanha da Princesa (1799-1850). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2008;
RIBEIRO, José Iran. “De tão longe para sustentar a honra nacional”: Estado e Nação nas trajetórias dos
militares do Exército Imperial brasileiro na Guerra dos Farrapos. Tese de Doutorado. PPGHIS-UFRJ, 2009;
KLAFKE, Álvaro. O Império na Província: construção do Estado nacional nas páginas de O Propagador da
Indústria Rio-grandense (1833-1834). Dissertação de mestrado, UFRGS, 2006; MELLO, Evaldo C. de. A outra
independência: o Federalismo Pernambucano de 1817 a 1824. São Paulo: Ed. 34, 2004; PIMENTA, João Paulo
G.; SLEMIAN, Andréa. O “nascimento político” do Brasil: as origens do Estado e da nação (1808-1825). Rio de
Janeiro: DP&A, 2003; COSTA, Wilma P.; OLIVEIRA, Cecília H. de S. (Org.). De um império a outro: estudos
sobre a formação do Brasil, séculos XVIII e XIX. São Paulo: FAPESP, 2007.
20
O critério inicial utilizado para a seleção destas famílias foi a riqueza. Contudo,
investigando profundamente a vida das famílias charqueadoras mais afortunadas verificou-se
que as mesmas também concentravam os principais cargos políticos, a maior parte dos títulos
de nobreza e foram as que mais investiram na educação superior de membros do grupo. Neste
sentido, o leitor verificará que tanto na primeira metade do oitocentos, quanto na segunda
metade, um grupo com cerca de 8 a 10 grandes famílias ocupava o topo da hierarquia social
local, apresentando um alto grau de parentesco entre si. Neste sentido, as principais famílias de
charqueadores aqui investigadas ocuparam o topo da hierarquia social pela notável forma como
concentraram os recursos materiais e imateriais não apenas da sociedade em que viveram como
também no interior do próprio grupo de charqueadores.

No que diz respeito ao seu patrimônio econômico, foi possível verificar que estas
principais famílias não se reservavam aos seus negócios na charqueada, destacando-se tanto no
comércio marítimo de longo curso, quanto na criação de gado em grandes estâncias na região
da campanha ou no norte do Uruguai. Além disso, muitas delas também atuaram no
prestamismo local vindo a tornar-se credoras de outros pequenos proprietários. Tal incremento
de atividades econômicas e a diversidade de investimentos assemelhavam-se com as práticas
dos comerciantes de grosso trato estudadas por Fernand Braudel na Europa dos séculos XVI ao
XIX e que caracterizou o perfil daquela elite mercantil. 35 No caso dos charqueadores, o
investimento em grandes estâncias e embarcações marítimas tinha como objetivo aumentar os
seus lucros nos três níveis econômicos no qual o charque estava inserido, ou seja, na criação, na
produção e no comércio. Portanto, os charqueadores mais ricos ao apresentarem uma maior
capacidade de aproximação dos mercados de gado e dos mercados marítimos potencializavam a
sua capacidade de acumular riqueza, diminuíam os riscos advindos destes negócios e
reproduziam a desigualdade de recursos no interior do grupo.

A concentração de poder, riqueza e status social contribuía para que estas famílias
adquirissem uma “consciência de elite” que foi amadurecendo ao longo do oitocentos,
atingindo seu ápice na segunda metade do século. Tal fenômeno social conferia um sentimento
de superioridade às mesmas, o que se refletia no seu estilo de vida, nos casamentos de seus
filhos e na sua política sucessória. A engenharia matrimonial praticada pelas mesmas
combinava uma endogamia envolvendo membros do próprio grupo com uma exogamia que
buscava genros europeus ou de elites de outras províncias. Além disso, uma preocupação com a

35
BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo: Os Jogos das Trocas. São Paulo: Martins
Fontes, 1996.
21
educação dos filhos e com os seus matrimônios refletia-se numa política sucessória distinta dos
demais charqueadores de menor fortuna no que diz respeito à transmissão da charqueada e a
escolha dos primogênitos enquanto sucessores da função empresarial do pai. Favorecidos por
uma grande presença de estrangeiros na cidade, os charqueadores também passaram a
compartilhar de uma cultura europeizada e de um estilo de vida mais urbano, onde
demonstraram interesse pelas artes, pelos espaços de sociabilidade e pela caridade. Foi a partir
destes fatores que as mesmas foram vistas pelos seus contemporâneos como uma espécie de
aristocracia da terra, devido a sua posição social e o estilo de vida que levavam no final da
monarquia.

A presente tese norteou-se a partir de distintos referenciais teóricos e metodológicos.


Tratando-se de um estudo sobre elites, inspirei-me nos problemas de pesquisa e nas perguntas
colocadas por alguns historiadores nos seus respectivos trabalhos sobre o tema e, a partir dos
mesmos, busquei a minha própria agenda de investigação e aquilo que mais se adequava ao
contexto no qual a elite charqueadora estava inserida. Os estudos de Lawrence Stone e de Nuno
Monteiro me possibilitaram perceber a importância dos sistemas sucessórios, das práticas
matrimoniais, do estilo de vida e educação, da influência das elites na política, mas,
principalmente, da mobilidade social intra-elite.36 No que diz respeito à sociedade brasileira,
tomei como referência o tratamento metodológico oferecido por Maria Fernanda Martins e
Jonas Vargas em suas respectivas pesquisas, qual seja, a de combinar uma análise quantitativa
no sentido de configurar um perfil social do grupo estudado e das estruturas sociais que
conformavam a sua posição com outro mais qualitativo, focado na análise das redes de relações
sociais entre as elites econômicas e políticas estudadas pelos autores.37

Assim como estes autores, busquei realizar um estudo prosopográfico da elite


charqueadora pelotense. Tendo como modelo as considerações teóricas oferecidas por Stone38,
não me reservei apenas a reunir dados estatísticos e oferecer uma análise quantitativa dos
mesmos. Seguindo a aplicação prática daqueles preceitos realizada pelo autor, busquei

36
STONE, Lawrence. La Crisis de la Aristocracia (1558-1641). Madrid: Alianza Editorial, 1985; MONTEIRO,
Nuno G. Elites e poder: entre o Antigo Regime e o Liberalismo. Lisboa: ICS, 2012; MONTEIRO, Nuno G. O
crespúsculo dos Grandes: a casa e o patrimônio da aristocracia em Portugal (1750-1832). Lisboa: Imprensa
Nacional/Casa da Moeda, 1998; MONTEIRO, Nuno. G. Casamento, celibato e reprodução social: a aristocracia
portuguesa nos séculos XVII e XVIII. Lisboa, Análise Social, v. 28, 1993, p. 921-950; MONTEIRO, Nuno G. 17
th and 18 th century Portuguese Nobilities in the European Context: a historiographical overview. E-JPH, v. 1, n.1,
summer 2003, p. 1-15.
37
MARTINS, Maria Fernanda. Op. cit.; VARGAS, Jonas. Op. cit., 2010.
38
STONE, Lawrence. Prosopografia. Revista de Sociologia e Política, v. 19, n. 39, 2011, p. 115-137 [tradução].
Sobre outras considerações teórica e aplicações práticas do método ver também HEINZ, Flávio M. (org.). Por uma
outra história das elites. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006.
22
compreender os diferentes investimentos realizados por esta elite, que tipo de interesses elas
perseguiam, qual a importância que davam à educação, em que patamar encontravam-se suas
riquezas e níveis de poder, qual o seu estilo de vida e se a mesma apresentou um ethos
próprio.39

Além dos mencionados autores e de suas contribuições no que dizem respeito ao tipo de
questionamentos que se deve fazer quando se estuda as elites das sociedades agrárias e pré-
industriais, encontrei outro ponto de partida teórico e metodológico no programa de pesquisa
oferecido por Edoardo Grendi, nos anos 1970.40 Considerados como os primeiros textos que
inspiraram a experiência historiográfica da microanálise social, os escritos de Grendi
constituíram-se em um ponto de encontro de diferentes contribuições interdisciplinares que
marcaram os anos 1960 e 1970.41 No geral, estas referências vinham opor-se ao funcionalismo e
ao estruturalismo marcante nos estudos das sociedades antigas, assim como a leitura
neoclássica acerca da economia das mesmas sociedades agrárias. Da aproximação com a
antropologia econômica, do diálogo com os estudos mais culturais de E. P. Thompson42, da
releitura da obra de Karl Polanyi43 e das interlocuções com Giovanni Levi acerca do mercado
de terras no Antigo Regime europeu44, além de muitas outras referências, Grendi começou a
formular um programa de pesquisa que via na microanálise das relações sociais um
procedimento teórico e metodológico capaz de auxiliar na resolução dos problemas de pesquisa
que lhe interessavam e superar os rígidos esquemas macro-estruturais em voga na época.45

As contribuições de Grendi iam no sentido de estudar os agregados sociais locais sem


perder de vista o sistema mais amplo no qual os mesmos estavam inseridos. Partindo das
famílias para entender melhor as unidades produtivas camponesas, as comunidades locais e os
sistemas sociais maiores, Grendi defendia uma abordagem que aliasse à demografia histórica
uma análise das relações sociais entre diferentes indivíduos e famílias. Era no nível micro que o

39
STONE, Lawrence. Op. cit., 1985.
40
GRENDI, Edoardo. La micro-analisi: fra antropologia e storia. In: Polanyi: dall’antropologia economica alla
microanalisi storica. Milão: Etas Libri, 1978.
41
Para uma análise dos mesmo ver LIMA FILHO, Henrique Espada. A Micro-história italiana: escalas, indícios e
singularidades. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
42
Ver, por exemplo, THOMSPON, E. P. Costumes em Comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São
Paulo: Cia. das Letras, 1998.
43
Ver, por exemplo, POLANYI, Karl. A Grande Transformação. As origens da nossa época. Rio de Janeiro:
Editora Campus, 1980.
44
LEVI, Giovanni. Economia camponesa e mercado de terra no Piemonte do Antigo Regime. In: OLIVEIRA,
Mônica R. de; ALMEIDA, Carla (Org.). Exercícios de micro-história. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 2009.
45
LIMA FILHO, Henrique Espada. Op. cit. Conforme o próprio Grendi, outras referências teóricas foram
importantes para os seus escritos, como os modelos generativos propostos por Fredrik Barth, o interacionismo de
Norbert Elias e o método da Network Analisys (GRENDI, Edoardo. Il Cervo e la repubblica: il modello ligure di
antico regime. Torino: Eunaudi, 1993, p. VII). Neste sentido, o estudo das sociedades camponesas realizado por
Eric Wolf e Sidney Mintz também contribuiu bastante para as suas reflexões (GRENDI, Edoardo. Op. cit., 1978).
23
historiador poderia observar os códigos culturais dos sistemas sociais mais amplos buscando
compreender as regularidades que regiam as ações e os comportamentos dos homens nestes
mesmos agregados sociais maiores. Os resultados desta imersão no nível micro deviam ser
comparáveis com outros contextos históricos. Neste sentido, Grendi defendia uma média
generalização das hipóteses de trabalho do historiador. Para ele, as sociedades agrárias e pré-
industriais apresentavam-se como um cenário propenso às experiências microanalíticas e à
generalização dos resultados, pois as sociedades camponesas constituíam-se no grande
fenômeno social geral da história. Portanto, para uma compreensão mais complexa dos
agregados sociais locais, os historiadores deveriam tentar investigar todas as relações sociais
dos agentes envolvidos.46 Foi isto que Levi buscou empregar no seu estudo sobre Santena no
século XVII.47 Esta abordagem holística tinha nítida inspiração no diálogo de Grendi com a
antropologia social. 48

A questão da abordagem holística e do máximo cruzamento de fontes documentais foi


fundamental no desenvolvimento desta tese. Pelotas não era Santena, mas a proposta de
compreender um grupo social a partir das múltiplas relações que ele mantinha em dado
contexto histórico e dos diversos espaços sociais no qual o mesmo estava inserido foi um
estímulo importante. Busquei compreender a elite charqueadora não apenas nas suas relações
com a sociedade local (seja com as elites ou com as classes subalternas), mas também na sua
relação com os sistemas sociais, econômicos e políticos exteriores e no qual os mesmos
estavam inseridos e/ou conectados. Em se tratando de uma abordagem interacional, os campos
da política, da cultura e da economia, por exemplo, foram tratados de forma integrada. Busquei
investigar os charqueadores e suas famílias por todos os lados (tratando dos principais aspectos
sociais), realizando um cerco sempre limitado pelas possibilidades das fontes consultadas.

A preocupação de Grendi com a forma como as comunidades agrárias vinculavam-se


aos mercados mais monetarizados também serviu de estímulo a esta pesquisa.49 E aqui está a
importância do uso do conceito de broker proposto por Grendi no seu diálogo com a
antropologia.50 Conforme Levi, os brokers ou mediadores emergiam dos “grupos locais de
importância”.51 Os mediadores eram pessoas que possuíam características diferenciadas dentro

46
GRENDI, Edoardo. Op. cit., 1978.
47
LEVI, Giovanni. A Herança Imaterial: trajetória de um exorcista no Piemonte do século XVII. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2000.
48
LIMA FILHO, Henrique Espada. Op. cit, p. 151-223.
49
GRENDI, Edoardo. Op. cit., 1978.
50
GRENDI, Edoardo. Microanálise e História Social. In: OLIVEIRA, Mônica Ribeiro de; ALMEIDA, Carla
(Org.). Exercícios de micro-história. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 2009, p. 27-30.
51
LEVI, Giovanni. Op. cit., p. 51.
24
da sua “aldeia” e que, por conta disto, vinculavam a sua comunidade com o mundo exterior,
defendendo interesses ligados à sua facção, mas que, indiretamente, beneficiavam outras
famílias da localidade. O mediador possuía as chaves de acesso aos poderosos do centro
decisório de um sistema maior e o poder de realizar esta conexão transformava-o num
potentado local e/ou regional. Os mediadores estão presentes em todas as sociedades agrárias e
pré-industriais onde um centro político com fins centralizadores incorpora outras localidades
outrora autônomas ou independentes – as chamadas “periferias” de um sistema. 52

É neste sentido que deve-se atentar para as estruturas internas das localidades e
compreender os fatores que condicionavam as suas hierarquias socioeconômicas, pois era a
partir da concentração dos recursos materiais e imateriais mais valorizados em determinados
contextos que as suas elites emergiam alcançando espaços de atuação mais amplos. Daí a
importância da antropologia econômica e da obra de Witold Kula nas reflexões de Grendi, pois
se cada sistema econômico possuía as suas racionalidades próprias é nos seus pontos de
contato, nas suas intersecções, que a elite-broker (os mediadores) atuava com distinção,
colocando os dois espaços econômicos em contato, intermediando as relações de troca entre
ambos e provocando alterações na visão de mundo e nos valores culturais dos habitantes do
meio agrário. De tudo isto resulta um universo social com uma variedade de elites e hierarquias
sociais locais e regionais que se relacionavam social, política e economicamente umas com as
outras em relações de cooperação e conflito, onde sempre abriam-se canais de mediação
ocupados pelos mais “aptos”.

Neste sentido, as famílias apresentam-se como agentes fundamentais deste trabalho. E


aqui me refiro às famílias extensas formadas por casais nucleares ligados a laços consanguíneos
e espirituais a outros indivíduos e casais não co-residentes.53 A charqueada era uma empresa
familiar e seus proprietários buscavam agir de forma estratégica para manter o patrimônio da
família nas gerações seguintes e encaminhar os demais filhos e filhas na vida adulta. Apesar do
termo “estratégia” oferecer uma racionalidade demasiada aos agentes, como alertou Edoardo

52
Com relação ao uso do conceito de mediador ver IMIZCOZ, José M. Patronos y mediadores. Redes Familiares
en la Monarquia y patronazgo en la aldea: la hegemonia de las elites baztanesas en el siglo XVIII. In: Redes
familiares y patronazgo: aproximación al entramado social del País Vasco y Navarra em el Antiguo Régimen
(siglos XV-XIX). Bilbao: Universidad del País Vasco, 2001; SILVERMAN, Sydel F. Patronage and community-
nation relationships in central Italy. In: SCHMIDT, S. W. (ed.). Friends, Followers and factions: a Reader in
Political Clientelism. Berkeley: University of Califórnia, 1977. As importantes contribuições de Eric Wolf neste
sentido podem ser vistas em FELDMAN-BIANCO, Bela; RIBEIRO, Gustavo Lins (Orgs.). Antropologia e poder:
contribuições de Eric R. Wolf. Brasília: Ed. da UnB; São Paulo: Ed. Unicamp, 2003; VARGAS, Jonas. Op. cit.
53
Neste sentido, ver GRAHAM, Richard. Op. cit.; MARTINS, Maria Fernanda. Op. cit.; VARGAS, Jonas. Op.
cit., 2010.
25
Grendi54, segui as premissas de Giovanni Levi que buscou despi-lo de significados tão rígidos,
considerando-o e reafirmando-o como um comportamento que, apesar de racional, era limitado
e seletivo.55 Esta racionalidade limitada obedecia, portanto, aos condicionantes estruturais e
conjunturais na qual a família agia e interagia, contribuindo para romper ou reforçar os próprios
traços desta estrutura social. A política sucessória constituiu-se em outro fator de distinção entre
as famílias charqueadoras mais ricas das menos ricas, conformando uma prática de elite que
buscava a reprodução social de sua posição.

Exigir uma definição absolutamente rígida do termo “elite” é no mínimo um


procedimento a-histórico, uma vez que as sociedades ao transformarem-se alteram os seus
padrões de recrutamento e os atributos e recursos necessários para se ocupar o topo de sua
hierarquia social. 56 Desta forma, proponho que os charqueadores não devam ser entendidos
somente como uma categoria socio-ocupacional homogênea, mas sim, a partir das suas relações
sociais em diversos âmbitos para além do econômico. É neste sentido que busco observá-los
assimilando algumas ideias desenvolvidas por Simona Cerutti. Para a autora, devemos tomar
cuidado com as classificações socioprofissionais e com o pressuposto de que os mesmos
“podem ser descritos antes mesmo que seja analisado o tecido das relações que os engendrou”.
Ao invés disso:

Em lugar de considerar evidente o pertencimento dos indivíduos a grupos sociais (e de


analisar as relações entre sujeitos definidos a priori), é preciso inverter a perspectiva
de análise e se interrogar sobre o modo pelo qual as relações criam solidariedades e
alianças, criam, afinal, grupos sociais. Nesse sentido, o importante não é negar a
utilidade de todas as categorias socioprofissionais – exógenas ou contextuais – mas
impregná-las das relações sociais que, hoje como então, contribuem para o seu
nascimento.57

Portanto, numa definição abrangente, pode-se pensar nas elites como grupos formados
por indivíduos e famílias que concentravam os recursos materiais e imateriais mais valorizados

54
GRENDI, Edoardo. Repensar a micro-história? In: REVEL, Jacques (org.). Jogos de escalas: a experiência da
microanalise. Rio de Janeiro: Editora FGV, p. 253.
55
LEVI, Giovanni. Op. Cit., 2000.
56
Para Martins, “o uso mais genérico dessa noção torna-se particularmente útil para estudos de casos como o
Brasil, diante da indefinição de papéis sociais, naturalmente não no que se refere à hierarquia, mas basicamente
quanto às suas funções”. Este tipo de definição “permite a compreensão do grupo tendo em vista o que seria seu
caráter mais peculiar, ou seja, a pluralidade de atividades e funções a que se dedicam seus membros”, uma vez que
“os indivíduos que alcançavam os altos postos da administração poderiam ser, e muitas vezes o eram,
simultaneamente, políticos, capitalistas, negociantes, proprietários ou intelectuais”. Soma-se a isto, o fato de que a
estrutura social brasileira no Oitocentos acabava vinculando a identidade individual “às relações familiares e às
redes sociais as quais se encontravam associados, o que fazia com que, com freqüência, antes de serem homens
públicos, fossem os representantes dos interesses e negócios dos grupos e famílias que os aproximaram do poder”
(MARTINS, Maria Fernanda Vieira. Op. Cit., p. 5-7).
57
CERUTTI, Simona. Processo e experiência: indivíduos, grupos e identidades em Turim no século XVII. in:
REVEL, Jacques (org.). Jogos de escalas: a experiência da microanalise. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1998, p.
182-183.
26
no contexto histórico em que viviam e que, na maioria das sociedades, envolviam critérios de
riqueza, poder e status. Neste sentido, as elites reuniam as melhores condições para negociar e
impor os seus projetos, influindo, desta forma, decisivamente nos rumos da sociedade na qual
ocupavam o topo da hierarquia. Estes mesmos grupos eram legitimamente reconhecidos como
as elites tanto pelos habitantes de seus territórios, quanto pelas elites dos territórios vizinhos e
grandes centros políticos nos quais estavam inseridos. Por fim, as elites deviam apresentar uma
“consciência de elite”, refletida nos seus estilos de vida, nas políticas de sucessão familiar e nas
engenharias matrimoniais. Quanto mais um grupo concentrava estes fatores e quanto mais
pessoas eles eram capazes de incluir no direcionamento dos seus projetos, mais no topo da
hierarquia social os indivíduos e famílias deveriam se encontrar.

As elites regionais geralmente eram compostas por membros da alta burocracia e da


elite política provincial, homens ricos e com atividades econômicas diversas (charqueadores,
estancieiros e negociantes, por exemplo) e alguns profissionais liberais do mundo urbano
(médicos, advogados, engenheiros e alguns jornalistas). Muitas vezes estes indivíduos podiam
ocupar diversas funções em diferentes setores ou pertencerem às mesmas famílias ou grupo de
relações, o que sedimentava ainda mais a sua posição, podendo resultar em uma coesão de
interesses políticos e econômicos. 58 Na presente tese, as famílias charqueadoras mais ricas que
terão um tratamento especial, constituem-se em um dos grupos socioeconômicos que
compunham as elites regionais (no caso aqui analisado, especificamente do Rio Grande do Sul).
Portanto, ao estudá-los de forma mais aprofundada busco demonstrar como um pequeno grupo
da elite pelotense (notadamente as principais famílias charqueadoras) se sobressai socialmente,
realizando um salto qualitativo a um patamar superior na hierarquia social, sem se desprender
das suas bases locais. Neste sentido, espero estar realizando considerações que sirvam para
pensar a atuação dos membros destas elites que, como argumentei anteriormente, não se viam
como a maioria dos demais charqueadores – cuja esfera de influência era mais reduzida.

As elites locais, por sua vez, seriam as autoridades públicas paroquiais (militares,
oficiais da Guarda Nacional, delegados, juízes de paz, padres, vereadores, tabeliães), parte dos
comerciantes, dos médios fazendeiros, entre outros. Portanto, o “poder local” ou “poder
paroquial” dizia respeito a estes indivíduos e famílias. Eles se caracterizariam por apresentarem
uma esfera de influência reduzida ao próprio município ou arredores e dificilmente alguns deles
conseguiam romper esta barreira (ao fazê-lo, podiam ascender à condição de elite regional). A

58
Uma significativa amostragem de uma elite provincial poderia ser obtida na análise coletiva dos indivíduos
nobilitados da mesma. Tal estudo prosopográfico será realizado no capítulo terceiro com o objetivo de conhecer
um pouco mais destas famílias rio-grandenses.
27
maior parte dos charqueadores não conseguia impor projetos ou exercer influência para além de
Pelotas, por exemplo. No entanto, como as escalas provincial e a local possuíam limites um
tanto tênues, as elites regionais também podiam absorver alguns dos mais notáveis membros
das consideradas elites locais, via casamento ou por intermédio dos diferentes vínculos sociais
estabelecidos pelas mesmas.

Sobre estes termos ainda é preciso considerar que ambos estão nitidamente relacionados
à escala de observação do historiador. Geralmente refere-se à elite local na sua relação com a
capital da província. Neste mesmo sentido, a noção de elite regional/provincial (que, como eu
já disse, podia reunir importantes membros da elite local em estágio de ascensão ou que
ocupavam o papel de mediador) é um instrumento de análise que serve para ser utilizado na
relação entre o Rio Grande do Sul (ou de outra província qualquer) e o governo central.
Portanto, estas definições não devem ser vistas de maneira um tanto rígidas. As suas fronteiras
espaciais e seus recortes regionais dependiam muito do poder de influência e da mobilidade dos
indivíduos e de suas redes de relações. Alguns poucos eram capazes de ocupar todos estes
espaços, fazendo parte destas duas elites (ou três se pensarmos na elite nacional/imperial).
Neste sentido, os mediadores ajudavam a tornar as fronteiras regionais e locais mais flexíveis,
unindo sociedades e populações com culturas diversas. Algumas famílias também podiam
distribuir seus membros pelos mesmos espaços, funcionando como um elo de aproximação por
onde circulavam informações e recursos diversos.59

A compreensão dos critérios descritos acima ficará mais evidente ao longo da tese. O
texto está dividido em 10 capítulos. Tendo em vista a abordagem relacional proposta, as
divisões dos mesmos em campos de investigação, como o político, o social, o econômico, o
cultural, entre outros, seria inadequado. Neste sentido, os capítulos são profundamente
interdependentes e a leitura de um, ajuda a explicar os eventos e as análises dos outros.
Contudo, é possível realizar um esforço para delimitar alguns temas específicos. Os três
primeiros capítulos, por exemplo, são homogêneos no que diz respeito à conjuntura histórica: o
colonial tardio e as décadas que antecederam a Revolução Farroupilha, ou seja, o período entre
1780 e 1835. Neles eu busquei compreender quem eram os charqueadores que compuseram a
primeira geração de empresários escravistas de Pelotas, as relações sociais estabelecidas com
outros grupos sociais e a sociedade que os mesmos ajudaram a construir no extremo sul da

59
Antes de passar para descrição dos capítulos, gostaria de comentar outras duas questões. É sabido que, no século
XIX, a região “nordeste” do Brasil era chamada de região “norte”. Para facilitar a narrativa e evitar confusões,
cometi o pecado de utilizar o termo “nordeste” para denominar a mencionada região ao longo do texto. Além
disso, os termos “rio-grandense” e “sul-rio-grandense” dizem respeito aos naturais da província do Rio Grande do
Sul, enquanto o “rio-grandino” referia-se ao nascido na cidade de Rio Grande.
28
América portuguesa. Além disso, analiso a conjuntura econômica que favoreceu a formação do
complexo charqueador escravista pelotense em sintonia com os saladeiros do Rio da Prata.

No quarto capítulo trabalhei intensamente com os inventários post-mortem dos


habitantes de Pelotas e recenseamentos locais para tratar dos níveis de concentração de
patrimônio no município entre os anos de 1850 e 1890. A forte presença de estrangeiros na
cidade e sua integração com a população local também mereceu uma análise mais aprofundada,
demonstrando que Pelotas foi um espaço de grande circulação de pessoas. Os capítulos 5 e 6
tratam tanto da mão de obra escrava utilizada nas charqueadas quanto das maneiras como os
charqueadores administravam a sua escravaria. Temas como as etapas de produção, o tráfico
inter-provincial, o perfil dos plantéis das charqueadas, as condições de trabalho, as
possibilidades de alforria, as tentativas de substituição da mão de obra escrava pela assalariada,
entre outros, são tratados em ambos os capítulos de forma complementar.

Nos capítulos 7 e 8 estudo os mercados do gado e os mercados do charque e dos couros.


No primeiro, analiso como as propriedades na fronteira do Uruguai e no próprio país vizinho
foram fundamentais para o pleno desenvolvimento das charqueadas pelotenses, o que exigia
uma atenção contínua dos charqueadores para as questões diplomáticas e belicosas na fronteira.
No comércio atlântico foi possível perceber que uma realocação dos mercados no meado do
oitocentos foi prejudicial aos interesses dos charqueadores, fazendo-os perder alguns espaços de
consumo para os concorrentes platinos. No capítulo 9 analiso as hierarquias de fortuna não
apenas no interior do grupo dos charqueadores, como comparo sua riqueza com a de outras
elites econômicas no mundo atlântico. A tentativa em investigar os rendimentos da empresa
charqueadora e a análise da mobilidade social intra-elite ao longo do século também tiveram
espaço e demonstram como o mesmo grupo de famílias resistiu aos reveses econômicos da
época drenando o patrimônio dos charqueadores de menor fortuna. No último capítulo tratei de
analisar o estilo de vida das principais famílias charqueadoras, assim como a de outros
membros da elite pelotense, dando espaço à atuação política das mesmas. Neste sentido,
cultura, educação e poder político, no caso desta elite, estavam intimamente conectados.

29
1. A INSERÇÃO ECONÔMICA DAS CHARQUEADAS DE PELOTAS NO
MERCADO INTERNO BRASILEIRO (1780-1835)

A Califórnia e a Austrália são dois casos não previstos no


“Manifesto”: a criação de grandes e novos mercados a partir do nada.
Precisamos rever isso.

Carta de Engels para Marx, 1852

A descoberta do ouro na Califórnia, em 1848, provocou o maior fluxo migratório até


então visto nos Estado Unidos. Se naquele ano a localidade contava com cerca de 10 mil
habitantes, excluindo os nativos, em 1855, esta população havia saltado para mais de 300 mil
pessoas. Tal desenvolvimento populacional fez aumentar a demanda por alimentos, nos quais a
farinha constituiu-se num dos mais procurados. Se em 1850, a Califórnia possuía somente 2
moinhos, em 1860, haviam mais de 90 destas instalações, marcando a década em que ela deixou
de ser importadora de farinha para tornar-se uma das maiores exportadoras americanas do
produto. O rush do ouro também conectou a Califórnia a outros mercados. Nos primeiros anos,
embarcações vindas do Chile, Austrália, China, entre outros países, incrementaram suas
remessas de diversos bens para a região. Somente no ano de 1850, por exemplo, 1.150 navios
aportaram em São Francisco, deixando quase 500 mil toneladas de mercadorias. A agricultura
de alimentos, o comércio marítimo e a urbanização caminhavam juntas e, em 1880, a população
californiana já atingia quase 1 milhão de pessoas, reunindo gente de todas as partes do mundo. 1

Enquanto a população da Califórnia crescia desenfreadamente, o australiano Edward


Hargraves, motivado pelas recentes descobertas de ouro no oeste dos Estados Unidos, retornou
para o seu país, onde suspeitava poder encontrar o metal precioso em regiões cujo solo era
semelhante ao do oeste estadonidense. Seu pressentimento concretizou-se em 1851. O rush do
ouro na Austrália deslocou mão de obra das fazendas de criação de ovelhas para as regiões
mineradoras, dando início ao fim da Pastoral Age – período que marcou o segundo quarto do
século, quando a economia australiana tinha na exportação de lã para a Inglaterra a sua
principal atividade econômica. Com o grande fluxo de imigrantes, antigos pastores passaram a
criar gado bovino que, de início, abastecia a população das novas e cada vez mais populosas

1
RAWLS, James; ORSI, Richard (Org.). A golden state: mining and economic development in gold rush
California. University of California Press, 1999, p. ix; ST. CLAIR, David. The gold rush and the beginnings of
California Industry. In: RAWLS, James; ORSI, Richard. Op. cit., p. 194-197; HOBSBAWM, Eric. A Era do
Capital (1848-1875). São Paulo: Paz e Terra, 2000, p. 97.
30
cidades australianas. Contudo, não demorou muito e, com a ampliação das fazendas e o
estímulo de comerciantes ingleses, a Austrália ingressou de vez no mercado internacional das
carnes, tornando-se uma das grandes abastecedoras da Inglaterra que, na segunda metade do
oitocentos, foi a maior importadora de carnes do mundo.2

As notícias que vinham da Califórnia e da Austrália e os “novos mercados” criados “a


partir do nada” não impressionaram somente Engels. A forma como os relatos do golden rush
eram contados, narrando histórias de pobres que enriqueceram da noite para o dia e do
formigueiro humano erigido em ambas as regiões mineradoras, era capaz de despertar a
curiosidade de todas as pessoas, colocando lugares outrora desprezíveis no centro da
imaginação mundial. Entretanto, fenômenos como estes não foram os primeiros e nem seriam
os últimos a acontecer. No Brasil, no meado do oitocentos, falar em corrida do ouro não era
novidade alguma. Na passagem do século XVII para o XVIII, a descoberta do metal precioso
na região das Minas Gerais havia provocado “importante impacto não só no destino social e
econômico da colônia, mas também na metrópole, na economia do Atlântico Sul e na relação
do mundo luso-brasileiro com outras nações européias”.3

Do primeiro relato do achado de jazidas de ouro, em Rio das Velhas, no ano de 1695,
até as descobertas que se seguiram em diferentes localidades, uma multidão de pessoas
aventurou-se por aquelas paragens enfrentando riscos naturais de todo o tipo, além das tribos
indígenas hostis. 4 Durante o golden rush tupiniquim, a região das Minas Gerais foi desde o
início o principal ponto de atração. Os migrantes “ocorreram de todos os modos de vida, das
mais diversas origens sociais e de todos os tipos de lugar”. Eles vinham das regiões costeiras do
Brasil, do Reino e das ilhas portuguesas. Os sempre presentes aventureiros ingleses, irlandeses,
holandeses e franceses também estiveram presentes. Frades deixaram seus mosteiros no Brasil e
em Portugal e soldados desertaram de suas guarnições costeiras, enquanto negros livres e
cativos (fugidos ou despachados pelos seus próprios senhores), paulistas com seus índios
escravos, comerciantes, agricultores e “pessoas com laivo de nobreza” também tomaram o
mesmo rumo. Em suma, “todos foram infectados pela febre do ouro”.5

2
PERREN, Richard. Taste, Trade and Technology: the development of the International Meat Industry since 1840.
Aldershot: Ashgate, 2006. O mercado mundial das carnes entre 1840 e 1900 será analisado no capítulo 8.
3
RUSSEL-WOOD, A. J. R. O Brasil Colonial: o ciclo do ouro (1690-1750). In: BETHELL, Leslie (Org.). História
da América Latina. São Paulo: EDUSP, v. 3, 1999, p. 474; 521.
4
Conforme Russel-Wood, a atividade dos bandeirantes no devassamento do sertão continuou durante todo o
século. Mas as novas descobertas serviram apenas para confirmar o que a Coroa, em 1754, já havia considerado
como “áreas de mineração”: Minas Gerais, Cuiabá, Goiás, Mato Grosso, São Paulo e as comarcas de Jacobina, Rio
das Contas e Minas Novas de Araçuaí, na Bahia (RUSSEL-WOOD, A. J. R. Op. cit., p. 471-472).
5
RUSSEL-WOOD, A. J. R. Op. cit, p. 482.
31
Em poucos anos, a população das diversas regiões mineradoras cresceu de forma
impressionante. Os dados são esparsos, mas o aumento do número de cativos oferece uma
estimativa a respeito do mencionado fenômeno. Em 1695, por exemplo, as Minas Gerais
compreendiam alguns “grupos sortidos de bandeirantes, ocasionais fazendeiros de gado, um
punhado de missionários, alguns especuladores e os índios”, mas aparentemente nenhum
escravo de origem africana. No entanto, duas décadas depois, a presença desses cativos na
região saltou de zero para 30 mil. Outro exemplo pode ser dado a partir da descoberta de ouro
em Minas Novas. Passados três anos dos primeiros achados, essa localidade já apresentava uma
população de cerca de 40 mil pessoas, somando brancos e escravos negros.6 Como
consequência desse desenvolvimento econômico, Minas Gerais tornou-se a capitania mais
populosa da América portuguesa, reunindo quase 320 mil habitantes, em 1776.7

Se no início do povoamento minerador os primeiros habitantes ainda importavam quase


tudo o que consumiam, no meado do século XVIII, já era possível vislumbrar uma vigorosa
rede de abastecimento ao seu redor. Na realidade, desde os primeiros anos, sesmarias foram
sendo doadas constituindo-se em importantes áreas de criação e plantação voltadas para o
consumo local.8 Neste circuíto, além da pecuária suína e bovina, também tiveram destaque a
criação de aves, o fábrico do charque e o cultivo da mandioca. 9 No entanto, nesta conjuntura,
uma das maiores beneficiárias foi a cidade do Rio de Janeiro, cuja população saltou de 12 mil
pessoas, em 1710, para quase 30 mil, em 1749. Anos depois, ela foi elevada a sede do governo
colonial (1763) e, na década posterior, recebeu em seu território um Tribunal de Relação
(1774), o que significava uma maior autonomia administrativa e judiciária, além do crescimento
de sua importância política e econômica no interior do Império português.10

A rede mercantil de abastecimento constituída entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro


também viu-se fortalecida pela crescende entrada de escravos em direção à primeira e a
exportação de metais preciosos por meio das numerosas embarcações que saiam do porto
carioca. Este circuíto fez do Rio de Janeiro a principal encruzilhada do Império português,
vendo surgir ali uma importante elite mercantil. Paralelamente ao desenvolvimento da
economia mineira, o investimento em sítios e fazendas com a finalidade de abastecer a

6
Ibid., p. 494-495.
7
ALDEN, Dauril. O período final do Brasil Colônia (1750-1808). In: BETHELL, Leslie. Op. cit., p. 529.
8
CARRARA, Ângelo A. Agricultura e pecuária na capitania de Minas Gerais (1674-1807). Tese de Doutorado.
Rio de Janeiro: UFRJ, 1997; FURTADO, Júnia F. Homens de negócio: a interiorização da Metrópole e do
comércio nas Minas setecentistas. São Paulo: Hucitec, 2006, p. 197-216.
9
RUSSEL-WOOD, A. J. R. Op. cit, p. 502.
10
SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de. Na encruzilhada do Império: hierarquias sociais e conjunturas econômicas
no Rio de Janeiro (c. 1650 – c. 1750). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003, p. 85.
32
crescente população em ambas as capitanias também marcou a conjuntura econômica do Rio de
Janeiro na primeira metade do setecentos, fazendo surgir importantes fortunas em todas as
etapas desta mencionada rede de comércio.11

No entanto, a transformação socioeconômica do período não reservou-se a estas duas


capitanias, atingindo todas as regiões da América portuguesa. A população total da colônia
passou de 300 mil pessoas, em 1700, para quase 3 milhões, em 1800. 12 Contribuíram para isso,
além do crescimento natural, os contínuos fluxos migratórios, como dos africanos trazidos
forçosamente por meio do tráfico e dos portugueses reinóis e das ilhas, atraídos pelas novas
possibilidades econômicas que se abriam. Desnecessário dizer que a demanda por alimentos
acompanhou o crescimento populacional. Neste sentido, conforme A. J. R. Russel-Wood, a
mineração provocou “o desenvolvimento de novos mercados” e:

(…) as minas atuaram como estímulos não só para a agricultura da Bahia, mas também
para a do Rio de Janeiro e de São Paulo. A indústria do gado da Bahia, do Piauí, do
Ceará, de Pernambuco e do Maranhão responderam ao aumento da procura em Minas
Gerais, Goiás e Mato Grosso com o crescimento da produção. Os criadores de gado do
Sul, de Curitiba a São Pedro do Rio Grande, forneceram gado para as minas por
intermédio dos paulistas. O ouro criou, portanto, novos centros de produção e de
consumo, ao mesmo tempo em que estimulou a produtividade das regiões mais
tradicionais de oferta.13

A mencionada vinculação da pecuária sulina com os novos mercados gerados a partir da


descoberta das minas não foi instantânea e não se deu sobre um espaço econômico ausente de
trocas. Antes do boom minerador, as vastas pastagens que compunham a paisagem agrária
daqueles territórios de fronteiras mal definidas já era alvo de muitas incursões, onde os couros
vacuns constituíam-se na mercadoria mais cobiçada. De acordo com Hameister, desde os fins
do século XVII e entrando o XVIII adentro, a extração dos couros e o seu comércio havia se
tornado um verdadeiro “negócio da China”, visto a procura dos mesmos nos mercados coloniais
e europeus. Nesta época, milhares de reses eram abatidas para que lhes fossem retirados os
couros e sebos, com pouco proveito das carnes. Este fenômeno foi responsável por atrair os
ibéricos para o interior do território em busca do gado solto e de fácil captura. Portanto, os
primeiros habitantes daquelas áreas entre Colônia do Sacramento e Laguna eram “coureadores
e changadores” que retiravam do comércio dos couros o seu sustento. Aparentados com os
espanhóis, mantinham com eles negócios de todo o tipo, lícitos e ilícitos, e com os mesmos

11
SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de. Op. cit.
12
Conforme as estatísticas históricas do IBGE, a população total da colônia em 1800 teria sido de 3,6 milhões. No
entanto, segundo Dauril Alden, por volta daquele ano ela não teria atingido os 3 milhões. (IBGE. Estatísticas
históricas do Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 1990, 2ª. ed., p. 30; ALDEN, Dauril. Op. cit., p. 536).
13
RUSSEL-WOOD, A. J. R. Op. cit., p. 523.
33
eram capazes tanto de aliar-se quanto de engalfinhar-se em disputas por gado, território e
motivos diversos. Conforme Hameister, suas relações eram de tal forma emaranhadas que é
difícil dizer o que era o Rio Grande e o que era a Banda Oriental naquela época.14

Com o aumento do povoamento nas Minas, a demanda por animais cresceu


enormemente, colocando a fronteira meridional em uma nova etapa de desenvolvimento
econômico. No entanto, “não foi a fome dos mineradores que financiou a consolidação” do
mercado interno da região das minas com o extremo sul, mas sim, “a sua voraz necessidade de
meios de transporte e tração de cargas para os produtos coloniais”. 15 Os cavalos, por exemplo,
lideraram as exportações rio-grandenses desde 1730 até 1770, pelo menos. O gado vacum, por
sua vez, antes sacrificado exclusivamente por conta dos seus couros, também passou a ser
remetido nas tropas que seguiam rumo à Sorocaba e às Minas, por meio da rota terrestre que se
constituía. Paralelamente, os lucros destas transações foram sendo reinvestidos pelos
negociantes e tropeiros que aos poucos estabeleciam criatórios de mulas – animais bastante
valorizados nos mencionados mercados, visto sua grande utilidade no transporte de cargas.
Todos estes negócios renderam significativos ganhos aos principais agentes envolvidos e
estavam por trás da fortuna, prestígio e poder de boa parte das primeiras elites sulinas que
tiveram proeminência na segunda metade do setecentos.16

Portanto, a mencionada conjuntura de incremento populacional e desenvolvimento


econômico foi responsável por conectar o Rio Grande de São Pedro aos mercados coloniais
mais próximos, num lento processo que arrastou-se por quase todo o século XVIII. Se antes da
descoberta das Minas, os couros contituíam-se na principal mercadoria negociada por aquelas
bandas, com o aumento da demanda por animais de carga, uma vigorosa rede de comércio de
animais reunindo criadores e tropeiros começou a tomar forma no centro-sul da Colônia.
Mesmo com a decadência da mineração e a invasão dos espanhóis em Rio Grande (1763-1776),
o comércio de tropas continuou acontecendo, afastando qualquer ideia de que uma crise

14
HAMEISTER, Martha D. Para dar calor à nova povoação: Estudo sobre estratégias sociais e familiares a
partir dos registros batismais da vila do Rio Grande (1738-1763). Tese de Doutorado. PPGHIS/UFRJ, 2006, p.
58-71; HAMEISTER, Martha D. O continente do Rio Grande de São Pedro: os homens, suas redes de relações e
suas mercadorias semoventes (c. 1727 – c. 1763). Dissertação de Mestrado, UFRJ, 2002, p. 244.
15
Idem, 2002, p. 18.
16
HAMEISTER, Martha. Op. cit., 2002, 2006; GIL, Tiago. Coisas do caminho: tropeiros e seus negócios do
Viamão à Sorocaba (1780-1810). Tese de Doutorado, UFRJ, 2009; OSÓRIO, Helen. O império português no sul
da fronteira: estancieiros, lavradores e comerciantes. Porto Alegre: UFRGS, 2007; KUHN, Fábio. Gente da
Fronteira: família, sociedade e poder no sul da América Portuguesa - século XVIII. Tese de Doutorado, UFF,
2006.
34
agropecuária no centro-sul da Colônia tivesse ocorrido durante o período.17 Como demonstrou
Tiago Gil, na passagem do século XVIII para o XIX, os negócios envolvendo as tropas de
animais entre os caminhos de Viamão, Curitiba e Sorocaba, ainda mantinham importância. No
entanto, os mesmos estavam se tornando claramente menos rentáveis se comparados aos
galpões de charquear e ao comércio marítimo, pois ambos vinham entrando em uma nova fase
de desenvolvimento nas últimas décadas do setecentos.18

A intensificação da produção do charque, assim como o seu comércio marítimo,


integrou ainda mais o Rio Grande do Sul aos novos mercados que vinham surgindo,
conectando-o ao nordeste do território colonial, ao Caribe, à Europa e à América do Norte, por
exemplo. No entanto, para que a fabricação e o comércio do charque atraísse maiores
investimentos foi preciso que se criasse uma enorme demanda por este produto, o que só foi
possível devido a uma nova conjuntura política e econômica que caracterizou o colonial tardio.
Neste período, houve um grande desenvolvimento tanto na agroexportação, como na produção
e no comércio de gêneros alimentícios, favorecendo um intenso fluxo de escravos para ambos
os setores da economia brasileira, como demonstro a seguir.

1.1 A DIVERSIFICAÇÃO DAS CULTURAS E O REVIGORAMENTO DA AGRO-


EXPORTAÇÃO NO COLONIAL TARDIO

A ideia de que o chamado “ciclo do ouro” nas Minas Gerais havia deslocado braços e
capitais ao ponto de diminuir profundamente a produção agrícola da colônia e de que, com a
posterior crise da mineração, a capitania teria entrado em uma franca decadência econômica já
foi superada há muitos anos pela historiografia. 19 Na segunda metade do setencentos, Minas,
que já possuía uma vigorosa rede de abastecimento interna, teria reorientado mais ainda a sua
economia para o comércio de alimentos, tornando-se a grande fornecedora destes gêneros ao
Rio de Janeiro.20 Portanto, não teria ocorrido uma crise na capitania, como defendeu Celso

17
Conforme Petrone, entre 1750 e 1780, passaram cerca de 5 mil cabeças de gado anualmente no Registro de
Sorocaba. Entre 1780 e 1820, esta média dobrou para 10 mil e no início dos anos 1820, ela já era de quase 30 mil.
PETRONE, Maria Thereza S. O Barão de Iguape. São Paulo, 1976, p. 20-24.
18
GIL, Tiago. Op. cit., p. 354. Segundo Hameister, o advento das charqueadas litorâneas não encerrou o comércio
de tropas para Sorocaba. É demasiado simplista achar que houve um “ciclo” das tropas substituído por um “ciclo”
do charque. Ambos os espaços de troca, um terrestre e o outro marítimo, existiram de forma concomitante,
constituindo-se em circuitos mercantis distintos. (HAMEISTER, Martha. Op. cit., 2002, p. 209).
19
Ver, por exemplo, CARRARA, Ângelo A. Minas e Currais: produção rural e mercado interno em Minas
Gerais, 1674-1807. Juiz de Fora: Ed. da UFJF, 2007; FURTADO, Júnia F. Op. cit.; ALMEIDA, Carla M. C.
Alterações nas unidades produtivas mineiras. Mariana (1750-1780). Dissertação de Mestrado, UFF, 1994.
20
LENHARO, Alcir. As tropas da moderação (o abastecimento da Corte na formação política do Brasil – 1808-
1842). Rio de Janeiro: SMC, 1993; FRAGOSO, João L. R.. Homens de grossa aventura – Acumulação e
hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.
35
Furtado.21 Um dos indícios mais fortes do mencionado desenvolvimento econômico foi o fato
de que a população mineira manteve índices de crescimento bastante altos na segunda metade
do século XVIII. Entre 1776 e 1821, por exemplo, ela aumentou 60% (de 319.769 para 514.104
habitantes). A comarca do Rio das Mortes, onde a agropecuária voltada para o abastecimento
interno era o principal setor econômico, houve um crescimento de 82.781 para 213.617 pessoas.
Como resultado deste vigoroso comércio, e tendo em vista que a lavoura de gêneros era
genuinamente escravista, Minas tornou-se a capitania com o maior número de escravos no
início do oitocentos.22

Como mencionei anteriormente, os vínculos mercantis entre o Rio de Janeiro e as Minas


Gerais datavam do início do século XVIII. Desde as primeiras décadas, o Rio tornou-se uma
importante área de abastecimento voltada para aquela região, apresentando, com o tempo, um
“grande dinamismo” na produção de alimentos. Conforme Sampaio, tal atividade foi tão
atrativa que muitos comerciantes passaram a investir no setor. Portanto, neste contexto, é difícil
falar de um “Renascimento Agrícola” como uma conjuntura posterior à crise da mineração,
uma vez que nunca houve um abandono da agricultura e nem mesmo uma decadência da
mesma no Rio de Janeiro. Estudando a economia fluminense entre 1750 e 1790, Pesavento
trouxe importante contribuição ao negar a mencionada ideia de crise ou decadência da
agricultura no período mencionado. O autor reconheceu que houve momentos de recuo das
exportações e do valor dos bens agrícolas negociados, mas o exame das dízimas do açúcar
sugerem que se houve uma conjutura desfavorável, ela não durou muito tempo e deve ter
começado na década de 1770, sem constituir-se numa crise ou decadência.23

Portanto, tendo em vista a inexistência de uma suposta decadência agrícola, o termo


“renascimento” ou “ressurgimento” da agricultura parece ser inadequado para a realidade aqui
analisada, pois o renascer ou o ressurgir, como enfatizou Sampaio, refere-se a algo que teria
desaparecido – o que não foi o caso.24 Neste sentido, preferi utilizar o termo “revigoramento”,
pois, durante o período colonial tardio, ocorreu um visível incremento qualitativo e quantitativo

21
FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Ed. Nacional, 1998.
22
MARTINS, Roberto Borges. Minas e o tráfico de escravos no século XIX, outra vez. In: SZMRECANYI,
Tamás; LAPA, José Roberto Amaral (Org.). História econômica da Independência e do Império. São Paulo:
Hucitec, 1996, p. 99-130; FRAGOSO, João. Op. cit.
23
PESAVENTO, Fábio. O colonial tardio e a economia do Rio de Janeiro na segunda metade dos Setecentos
(1750-1790). In: Estudos Econômicos, v. 42, n. 3, 2012, p. 581-614.
24
Conforme Sampaio, se houve uma crise no setor açucareiro fluminense na primeira metade do setecentos, esta
foi compensada pelo rápido aumento da agricultura alimentar. “Logo, a recuperação do setor açucareiro na
segunda metade do século XVIII deve ser colocada em perspectiva. A sua expansão não somente não se deu sobre
uma ‘terra arrasada’, como também não representou a retração da produção de alimentos, que, mesmo com a
decadência dos circuítos auríferos, continuou encontrando um importante mercado para seus produtos na nova
capital da colônia” (SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de. Op. cit., p. 133).
36
das exportações em todas as regiões do Brasil. Em outras palavras, a agricultura de alimentos
continuou sendo praticada, mas ampliou-se de forma notável nas últimas décadas do setecentos.
Nesta mesma época, aumentaram as exportações de diversos produtos e, com os incentivos
políticos do Reino, ocorreu uma importante diversificação da pauta dos produtos cultivados.

Apesar da variedade dos novos cultivos, os principais produtos exportados durante o


colonial tardio foram o açúcar, que já liderava as vendas nos séculos anteriores e continuou
nesta posição até os anos 1830, o café, que ultrapassou o açúcar em valores exportados nesta
mesma década, e o algodão, que teve uma das suas melhores fases exatamente nas décadas aqui
trabalhadas. O algodão e o café como produtos de ponta eram sem dúvida uma novidade.
Durante o mencionado período, os três produtos, guardadas as oscilações de preço e de volume
negociados, foram demandados em grandes quantidades pelo mercado internacional. A Europa
ocidental, que vinha numa fase de acelaração econômica devido aos novos impulsos da
Revolução Industrial, foi a principal compradora dos mesmos. Neste sentido, o cultivo do
algodão, que servia como principal matéria-prima da indústria têxtil britânica, então em
expansão, tornou-se objeto de grande interesse dos comerciantes europeus.25

A Revolução Industrial, que tinha nas fábricas de têxteis o seu carro-chefe, fez aumentar
a demanda do produto estimulando a sua plantação não apenas no Maranhão, como também em
outras localidades do Atlântico. Neste processo, o sul dos Estados Unidos foi o principal
cenário da expansão da lavoura algodoeira. “Embora estivessem em sua infância, as plantations
de algodão dos Estados Unidos elevaram sua produção de 2 milhões de libras-peso para 48
milhões durante a década de 1790”. Tal incremento das exportações deu-se sobre uma notável
estrutura agrário-escravista colocando as plantations norte-americanas numa posição de
destaque da economia internacional. 26 Além disso, a industrialização britânica foi igualmente
favorável aos couros, que também alimentavam os setores artesanais e fabris europeus como
matéria-prima e ainda eram utilizados como correia nos maquinários. Entre 1804 e 1807, em
plena fase de aceleração do processo de montagem das charqueadas pelotenses, os couros foram
responsáveis por 32,6% do total das exportações brasileiras para Portugal, perdendo somente

25
Conforme Hobsbawm, a expansão da indústria algodoeira foi tão forte que acabou dominando os movimentos da
economia britânica. A quantidade de algodão em bruto importada pela Grã-Bretanha aumentou de 11 milhões de
libras (peso) em 1785 para 588 milhões em 1850, enquanto a produção de tecidos saltou de 40 milhões para 2
bilhões de jardas, no mesmo período (HOBSBAWM, Eric. A Era das Revoluções: Europa (1789-1848). Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 2009, p. 64).
26
Em 1790, havia 658 mil escravos nos estados do sul, quase o dobro de duas décadas antes. Em 1810, o número
de escravos na mesma região já havia chegado a 1.164.000 cativos, ou seja, continou crescendo no mesmo ritmo e
no mesmo intervalo de tempo (BLACKBURN, Robin. A construção do escravismo no novo mundo: do Barroco
ao Moderno (1492-1800). Rio de Janeiro: Record, 2003, p. 585-586).
37
para o açúcar.27 Pode-se dizer que os couros provinham de diferentes regiões da Colônia, mas
grande parte deles era produzida no Rio Grande do Sul, onde os rebanhos bovinos abundavam e
a matança acentuou-se ainda mais com a instalação das primeiras charqueadas.

Conforme Helen Osório, os couros rio-grandenses chegavam na Europa por intermédio


do Rio de Janeiro (o maior importador do produto e que sempre perfazia entre 75% e 95% dos
volumes recebidos, depois os reexportando). A Bahia era a segunda maior importadora,
obtendo 10,8% em 1802, 17,8% em 1808 e 22,1%, em 1815 – o seu máximo. De acordo com a
autora, as localidades que compravam charque geralmente importavam couros e estes deviam
completar as cargas dos bergantins e sumacas. 28 No entanto, houve remessas exclusivas para
Portugal em 1803 (8 mil couros para Lisboa e 3 mil para o Porto) e 1805 (4,5 mil para Lisboa) e
para os Estados Unidos, após 1810. Estas variaram entre 4 e 7 mil unidades, mas, de acordo
com Osório, foram esporádicas. Tais remessas de couros tinham como destino Filadélfia,
Boston, Baltimore, Nova Iorque e Salem. Segundo a autora, não é possível saber em que
proporção se dava a reexportação do couro, mas apenas que eles foram o segundo produto na
pauta de exportações do Rio de Janeiro depois do açúcar. Em 1796, o açúcar representava 70%
das exportações cariocas e os couros 9%. Neste ano, o Rio Grande do Sul exportou 137.637
couros. Na passagem do século XVIII para o XIX, houve um notável crescimento da
participação do couro nas exportações para Lisboa. Entre 1796 e 1799, os couros perfaziam
12,1% do total exportado e entre 1804 e 1807, havia atingido 32,6% contra 43,4% do açúcar.
Neste período, o maior volume de couro exportado deu-se em 1814, somando 423.304
unidades.29 Como foi dito, é provável que grande parte deste produto fosse negociado com os
portos ingleses, mas não foi possível saber com precisão os seus diversos destinos. Analisando
as exportações do Brasil para a Inglaterra, entre 1807 e 1821, verificou-se que os couros
chegaram a ultrapassar os 15% dos valores negociados no período, embora mantivessem uma
média que oscilava entre 5% e 12% e, em alguns anos, foi inferior a 2%. Logo após a abertura
dos portos, no ano de 1809, foram remetidas mais de 220 mil libras esterlinas do produto para
os portos ingleses – o maior valor do período.30 O mesmo processo de industrialização europeia

27
ALEXANDRE, Valentim. Os sentidos do Império: questão nacional e questão colonial na crise do Antigo
Regime português. Porto: Afrontamente, 1993, p. 42. Nos outros anos, apesar de não ser o segundo produto, eles
sempre ocuparam uma posição privilegiada.
28
Contudo, somente no ano de 1790 o couro teve um valor exportado superior ao do charque. Nos anos
posteriores, até 1820, o charque sempre apresentou maiores valores, chegando a 44% dos totais exportados em
1808 e 63,2%, em 1819. OSÓRIO, Helen. Op. cit., p. 190-195.
29
OSÓRIO, Helen. Op. cit., p. 202-205.
30
ARRUDA, José Jobson. A abertura dos portos e a ruptura do sistema colonial luso-brasileiro. In: COUTO,
Jorge. Rio de Janeiro: capital do Império português (1808-1821). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2010 ,
p. 105.
38
que incluiu os couros rio-grandenses no comércio atlântico, incorporou estes mesmos produtos
exportados por Montevidéu e Buenos Aires, como se verá nos capítulos posteriores.

Açúcar e café, por sua vez, formavam uma combinação que vinha se popularizando
entre os consumidores das margens do Atlântico, chegando cada vez mais às mesas das classes
trabalhadoras européias e norte-americana. Ambos os produtos tiveram sua demanda
aumentada não apenas pelo crescimento da população nas grandes cidades, mas também pelo
estímulo dos patrões e autoridades públicas com fins de substituir o consumo de bebidas
alcoólicas – condenadas pela nova ordenação moral que vinha enquadrando os trabalhadores
das fábricas. 31 Outro fator que pesou de forma significativa no aumento das exportações de
ambos os produtos foi a grande revolta escrava na colônia francesa de Santo Domingo, em
1791. A rebelião acabou por tornar-se um movimento de independência que durou cerca de 10
anos. A ilha antilhana, que era a maior produtora mundial de açúcar e café da década de 1780,
foi praticamente eliminada como exportadora destes produtos. Conforme Schwartz, tal
acontecimento favoreceu o surgimento de uma imensa demanda que estimulou não apenas o
setor açucareiro no Brasil, como também em outras áreas do Atlântico, como Cuba, Porto Rico
e Luisiana, “produtores até então relativamente secundários”. 32

Assim sendo, para entender melhor como a expansão das áreas de agro-exportação
brasileiras acabou favorecendo a formação do complexo charqueador escravista pelotense é
necessário examinar o desempenho dos principais produtos exportados na época, além da
relação entre o comércio de abastecimento e a agroexportação no período. Começo pelo
algodão. Ainda que nativo do Brasil e já conhecido pelos indígenas, foi somente em 1760,
quando a Companhia do Maranhão começou a realizar pequenas aquisições, que o mesmo
passou a ser cultivado com propósitos comerciais. Na década de 1770, seu plantio alcançou o
Pará, o Ceará e o Pernambuco, concentrando-se nas terras litorâneas entre os dois últimos. Nos
anos 1780, a cultura do algodão deslocou-se da costa para o sertão, onde expandiu-se para o
interior da Bahia e do Pernambuco, Piauí, Goiás, chegando até Minas Gerais. No entanto, nesta
fase inicial, a expansão algodoeira escravista animou mais os produtores das capitanias do
nordeste, com destaque para o Maranhão, o Ceará e o Pernambuco. Um dos principais motivos

31
BARSKY, Osvaldo; DJENDEREDJIAN, Julio. Historia del capitalismo agrario pampeano: La expansión
ganadera hasta 1895. Buenos Aires: Siglo XXI, 2003, p. 146. A “peste da embriaguez” foi um dos grandes
problemas das classes trabalhadoras durante o processo de industrialização e o aumento populacional nas cidades
fabris que marcou as primeiras décadas da Revolução Industrial na Inglaterra. A hostilidade a tal fenômeno social
era compartilhado não apenas pelos patrões como também pelos movimentos trabalhistas ingleses (HOBSBAWM,
Eric. Op. cit., 2009, p. 282-283).
32
SCHWARTZ, Stuart B. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550-1835. São Paulo:
Companhia das Letras, 1988, p . 343.
39
foi o apoio governamental dado aos produtores destas regiões, por meio da formação das
companhias monopolistas, da introdução de escravos africanos, do acesso ao crédito e a
melhores técnicas agrícolas, o que favoreceu o desenvolvimento do setor.33

No entanto, o desenvolvimento algodoeiro também foi estimulado pela alta dos preços
do produto no mercado europeu. A rápida expansão da indústria têxtil, especialmente na
Inglaterra e na França, possibilitada por uma revolução tecnológica sem precedentes, fez
crescer a demanda por fibras de alta qualidade para a fabricação de tecidos finos. Embora a
maior parte do algodão brasileiro fosse de baixa qualidade, parte do cultivo em Pernambuco e
na Paraíba estava entre os melhores do mercado e Portugal os remetia para os seus principais
clientes. A guerra de independência dos Estados Unidos (1776-1783), cujas exportações de
algodão para a Inglaterra correspondiam a 70% do equivalente exportado pelo Brasil, e a
consequente paralização do seu setor algodoeiro, também contribuíram com o aumento das
exportações.34 Entre 1776 e 1807, 55,4% do algodão brasileiro teve como destino a Inglaterra e
31,2% a França. Depois disso, o algodão teve mais duas décadas de florescimento, mas nos
anos 1820 iniciou seu declínio diante da concorrência norte-americana, cuja tecnologia era mais
avançada.35

Apesar do boom algodoeiro que caracterizou o período, foram as regiões de plantations


de açúcar que concentraram as maiores populações escravas e garantiram a liderança das
exportações na maior parte do colonial tardio. Neste período, a expansão da lavoura canavieira
foi notável. Em Campos, o número de engenhos saltou de 56, em 1769, para 104, em 1778, com
um aumento da produção em 235%. Em 1800, já existiam 324 engenhos no norte fluminense,
chegando a 400, em 1810, e 700, em 1828.36 No nordeste, muito antes da Revolução em Santo
Domingo, as plantations açucareiras também já vinham apresentando grandes índices de
crescimento. Em Pernambuco e na Paraíba, os 268 engenhos existentes em 1761 saltaram para
390 em 1777, intervalo de tempo em que as exportações duplicaram. Na Bahia, entre 1759 e
1790, aconteceu um aumento de 170 para 260 engenhos e as exportações aumentaram 54,6%.
Esta ampliação de unidades açucareiras também atingiu o Sergipe, que no final do setecentos já
contava com 140 engenhos.37 A expansão do setor na Bahia teve continuidade na passagem do

33
O arranque inicial foi surpreendente. Entre 1760 e 1771, as exportações de algodão no Maranhão passaram de
651 para 25.473 arrobas. Até a década de 1820, o algodão foi responsável por 73% a 82% das exportações
maranhenses (BARBOSA, Francisco B. da Costa. Relações de produção na agricultura: algodão no Maranhão
(1760 a 1888) e café em São Paulo (1886 a 1929). In: Agricultura em São Paulo, v. 52. N. 2, 2005, p. 18-19).
34
BARBOSA, Francisco. Op. cit., p. 18.
35
ALDEN, Dauril. Op. cit., p. 569.
36
ALDEN, Dauril. Op. cit., p. 560; FRAGOSO, João. Op. cit.
37
ALDEN, Dauril. Op. cit., p. 557-558.
40
século, atingindo outras áreas para além do Recôncavo e, em 1820, já contava com 500
unidades produtivas. Segundo Schwartz, entre 1817 e 1828, foram instalados 110 novos
engenhos e, na década de 1830, entraram em operação mais 220. Mesmo que muitos deles
tenham parado de funcionar, o crescimento foi notável e, em 1836, Bahia e Sergipe juntas
possuíam 603 unidades. No entanto, em Pernambuco o desenvolvimento do setor foi ainda
maior, apresentando cerca de 500 engenhos em 1818 e 712 em 1844. 38

Em São Paulo, a expansão açucareira aconteceu mais tardiamente, tendo se iniciado nos
anos 1780 e ganhado força na década seguinte. Antes disso, a produção paulista era destinada
principalmente para o consumo local, onde servia para a fabricação de melaço, aguardente e
rapadura.39 Com a conjuntura favorável (preços atraentes e a construção do caminho do mar), a
capitania inseriu-se de vez nos mercados internacionais, entrando numa nova fase de
desenvolvimento econômico. A população paulista cresceu 150% entre 1765 e 1808 e, no
período de 1797 a 1826, as suas exportações de açúcar aumentaram mais de 5 vezes. 40 As duas
principais áreas de cultivo eram a costa norte de Santos e o quadrilátero definido pelas vilas de
Sorocaba, Piracicaba, Mogiguaçu e Jundiaí. O açúcar tornou-se o líder das exportações
paulistas até 1850-1851, quando foi ultrapassado pelo café.41

O café, por sua vez, ingressou numa fase de aceleração e expansão agrária na passagem
do século XVIII para o XIX. O produto atingiu níveis de exportação extraordinários a partir dos
anos 1830, quando ultrapassou o açúcar na condição de principal mercadoria exportada pelo
Brasil. Durante este processo de ampliação da lavoura cafeeira, apesar da Bahia também
exportar quantidades consideráveis, o vale do Paraíba (fluminense e paulista) constituiu-se na
principal área produtora. No Rio de Janeiro, teve localidades que cresceram enormemente em
poucos anos, como a freguesia de São Pedro e São Paulo, depois vila de Paraíba do Sul, que em
1789 contava com 292 habitantes e cerca de meio século depois chegou a 14 mil. 42 Em São
Paulo, a lavoura cafeeira começou a se expandir a partir do meado da década de 1810. O
município de Areias, no Vale do Paraíba, foi o principal centro produtor, seguido por Lorena,
Guaratinguetá e Bananal, localidades que foram se desmembrando da primeira. Em 1836, cerca
de 2/3 da produção cafeeira paulista provinha do Vale do Paraíba. Em 1854, a Província

38
SCHWARTZ, Stuart. Op. cit., p. 343-346; EISENBERG, Peter. Modernização sem mudança: a indústria
açucareira em Pernambuco (1840-1910). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977, p. 147.
39
LUNA, Francisco V.; KLEIN, Herbert. Evolução da Sociedade e Economia escravista de São Paulo, de 1750 a
1850. São Paulo: EDUSP, 2005, p. 55-56.
40
FRAGOSO, João. Op. cit., p. 135.
41
ALDEN, Dauril. Op. cit., p. 560).
42
FRAGOSO, João. Op. cit., p. 365-366.
41
possuía 2.600 fazendas de café com 54 mil escravos – muito mais que os 10 mil cativos nas
unidades cafeicultoras de 1829.43

Portanto, os resultados da expansão cafeeira no sudeste foram notáveis, tendo a


exportações pelo porto do Rio saltado de 160 arrobas, em 1792, para 318.032 em 1817, 539.000
em 1820, 1.304.450 em 1826, 1.958.925 em 1830 e 3.237.190 em 1835. 44 Como resultado deste
vigoroso processo de ampliação agrícola, a demanda por mão de obra aumentou em índices
nunca antes vistos. Entre 1790 e 1830, entraram mais de 1.500 navios negreiros no porto do Rio
de Janeiro trazendo cerca de 700 mil africanos. Esta cifra, correspondente a somente quatro
décadas, representava 20% do total de escravos importados ao longo de 350 anos de tráfico.45

Na mesma época, a Bahia recebeu 395.138 escravos africanos. Pernambuco, por sua
vez, importou, entre 1790 e 1830, cerca de 242.150 escravos no tráfico atlântico. Conforme
Matthias Assunção, o Maranhão teria recebido, por intermédio da Companhia Geral de
Comércio, 12 mil escravos africanos, entre 1755 e 1778. Contudo, após esta data, devido ao
boom do algodão, teriam entrado mais 100 mil escravos na região, o que tornou-a, em 1819, a
capitania com o maior percentual de cativos com relação a sua população total. 46 Observe-se
que a soma das entradas de escravos nestas três capitanias do nordeste ultrapassa os cerca de
700 mil cativos que teriam desembarcado no porto do Rio, na mesma época.

É necessário afirmar que nem todos os escravos desembarcados nos portos acima
mencionados eram destinados para as regiões de plantations e muitos eram reexportados para
outras capitanias vizinhas. Não tenho dados para estas negociações no nordeste, mas a análise
do mesmo fenômeno no centro-sul ajuda a exemplificar estas transações. Segundo a estimativa
de Fábio Pinheiro, numa amostra de 231.808 escravos redistribuídos pelo porto do Rio entre
1809 e 1830, cerca de 40% dos mesmos tinham como destino Minas Gerais, 36% o Rio de
Janeiro, 15,5% São Paulo e 8,5% o Rio Grande do Sul. 47

Portanto, as dezenas de milhares de africanos que desembarcaram pelo porto do Rio não
abasteceram somente a província fluminense, mas toda a região centro-sul, e não apenas as suas

43
LUNA, Francisco V.; KLEIN, Herbert. Op. cit., p. 84-88.
44
FRAGOSO, João L. R.; FLORENTINO, Manolo. O arcaísmo como projeto: mercado atlântico, sociedade
agrária e elite mercantil em uma economia colonial tardia (c. 1750 – c. 1840). Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2001, p. 93.
45
Ibid., p. 95.
46
ASSUNÇÃO, Matthias. A memória do tempo de cativeiro no Maranhão. Revista Tempo, v 15, n 29, 2010, p. 69.
47
PINHEIRO, Fábio. O tráfico atlântico de escravos na formação dos plantéis mineiros, Zona da Mata (c.1809-
c.1830). Rio de Janeiro: UFRJ, PPGHIS, 2007, p. 79; PINHEIRO, Fábio. Os condutores de almas africanas:
concentração e famílias no tráfico de escravos para Minas Gerais. C. 1809-C. 1830. In: XIII Anais do XIII
Seminário sobre a Economia Mineira, 2008, p. 2.
42
plantations, mas também as lavouras de gêneros alimentícios, as regiões de criação de gado e as
suas principais vilas e cidades. É importante fazer esta ressalva, pois durante muito tempo se
acreditou que o tráfico atlântico atendia somente às necessidades das plantations coloniais. Nas
últimas décadas, a historiografia brasileira tem demonstrado que as áreas voltadas para o
abastecimento de alimentos concentravam uma grande fatia da mão de obra cativa. Em São
Paulo, por exemplo, 81% dos proprietários de escravos arrolados nas listas de habitantes da
primeira década do oitocentos eram lavradores não ligados à agroexportação. 48 No geral, entre
1798 e 1828, somente 2,5% dos chefes de domicílio paulistas eram senhores de engenho e mais
de 60% deles eram lavradores e/ou criadores que destinavam grande parte da sua produção ao
mercado interno.49

Nesta mesma época, o Paraná (que ainda pertencia ao território paulista) também
constituiu-se numa importante área de pecuária, reunindo pequenos, médios e grandes
criadores, com notável uso de mão de obra cativa.50 Além disso, como as tropas de gado que
seguiam do Rio Grande do Sul para São Paulo precisavam parar ao longo do trajeto para
recuperar o peso perdido, os campos paranaenses tornaram-se importantes espaços de
invernada, gerando lucros aos proprietários da região. Orbitando os campos de criação, havia
centenas de sítios que cultivavam milho, feijão, arroz e trigo, remetendo seus excedentes para
os mercados paulistas e fluminenses.51

A produção rio-grandense será tratada mais adiante, mas não custa lembrar que no
período analisado ela foi a maior produtora de charque da colônia, destacando-se também nas
exportações de trigo.52 Santa Catarina, por sua vez, também apresentou uma importante
pecuária, embora tenha se destacado mais na produção de farinha de mandioca. As entradas
deste produto no porto do Rio, apresentaram um aumento de 307% para o período entre 1799 e
1822. Entre 1799 e 1811, as receitas provenientes das entradas de naus com charque e farinha

48
Os principais gêneros cultivados e comercializados eram o milho, o feijão, o arroz, a farinha de mandioca e o
toucinho. Conforme Luna e Klein, “em 1804, o elevado porcentual de 86% dos agricultores proprietários de
escravos dedicava-se à produção de “alimentos”; tais produtores controlavam 70% dos escravos pertencentes aos
agricultores. Em 1829, aproximadamente três quartos dos proprietários de cativos ocupados na agricultura
declararam esses produtos, e seus escravos compunham cerca da metade da força de trabalho cativa empregada na
agricultura. Nesse mesmo ano, se incluirmos todos os proprietários de escravos, mesmo os que não se dedicavam à
agricultura, os que produziam ‘alimentos’ ainda compunham metade do total de senhores e controlavam 40% dos
escravos” (LUNA, Francisco V.; KLEIN, Herbet. Escravidão africana na produção de alimentos. São Paulo no
século XIX. In: Estudos Econômicos, v. 40, n. 2, 2010, p. 297).
49
FRAGOSO, João. Op. cit., p. 135-137.
50
GUTIÉRREZ, Horácio. Fazendas de gado no Paraná escravista. Topói, v. 5, jul-dez, 2004, p. 102-127.
51
SCHWARTZ, Stuart B. Escravos, roceiros e rebeldes. Bauru: EDUSC, 2001, p. 144-146.
52
Como já demonstraram OSÓRIO, Helen. Op. cit.; SANTOS, Corcino Medeiros dos. Economia e sociedade do
Rio Grande do Sul, século XVIII. São Paulo, Editora Nacional, 1984; CORSETTI, Berenice. Estudo da
charqueada escravista gaúcha no século XIX. Dissertação de Mestrado, UFF, 1983.
43
cresceram, respectivamente, 4% e 10% anualmente. 53 O charque e a farinha, como é sabido,
eram componentes básicos da dieta das camadas populares livres e dos escravos.

Todas estas capitanias do centro-sul tinham parte de sua produção destinada ao


abastecimento das suas vilas litorâneas e, em particular, do Rio de Janeiro. A capitania
fluminense, cuja população saltou de 168.849 habitantes, em 1789, para 591.000, em 1830 (um
crescimento de 250%) havia tornado-se um significativo mercado para os gêneros produzidos
pelas outras capitanias do centro-sul. Mesmo antes da vinda da Família Real, em 1808, o Rio já
recebia vultosas remessas de alimentos, tanto por vias terrestres quanto fluviais e marítimas. No
entanto, após a instalação da Corte no Rio de Janeiro e o incremento populacional decorrente da
mesma, a demanda por tais gêneros aumentou mais ainda. 54

O mesmo ocorreu com o tráfico atlântico, que após a abertura dos portos, em 1810, viu
as suas entradas praticamente dobrarem. Entre 1799 e 1821, a população da Corte aumentou em
160% e, em 1830, cerca de 16.807 escravos perfaziam 43% da população urbana. 55 Portanto, o
Rio de Janeiro havia se tornado um mercado com enorme capacidade de consumo de alimentos,
estimulando a produção e o comércio de abastecimento não apenas nos municípios fluminenses,
como também das capitanias vizinhas e até mesmo de outros países. Nesta época, mas
sobretudo no meado do oitocentos, argentinos e uruguaios, também grandes produtores de
charque, disputaram de forma acirrada com os sul-rio-grandenses o mercado consumidor
fluminense, como demonstrarei em capítulos posteriores.

Foi neste contexto envolvendo o crescimento populacional fluminense que Minas Gerais
se consolidou como uma das grandes produtoras de alimentos do centro-sul. Desde os escritos
de Alcir Lenharo, passando por outros importantes historiadores, a imagem de Minas Gerais
como uma economia decadente, no intervalo entre a crise da mineração e a expansão cafeeira,
foi sendo substituída por um outro quadro economicamente mais complexo e dinâmico. 56 As
principais contribuições destes autores foi demonstrar que uma economia não exportadora,
baseada no comércio de alimentos para o mercado interno, tanto no interior de Minas, quanto
para outras localidades, como a Corte, também podia possibilitar uma notável acumulação

53
FRAGOSO, João; FLORENTINO, Florentino. Op. cit., p. 95-96; 111.
54
LENHARO, Alcir. Op. cit.
55
FRAGOSO, João; FLORENTINO, Florentino. Op. cit., p. 93-95.
56
MARTINS, Roberto. Op. cit.; ALMEIDA, Carla. Op. cit.; CARRARA, Ângelo. Op. cit.; SLENES, Robert. Os
múltiplos de porcos e diamantes: E economia Escrava de Minas Gerais no século XIX. Estudos Econômicos. São
Paulo. V. 18, n. 3. p. 449- 495. Set.-dez. 1988; PAIVA, Clotilde. População e economias Minas Gerais do século
XIX. Tese doutorado. USP,1996; LIBBY, Douglas. Transformação e Trabalho em uma economia escravista.
Minas Gerais século XIX. São Paulo. Brasiliense: 1988; GRAÇA FILHO, Afonso Alencastro. A princesa do Oeste
e o Mito da decadência de Minas Gerais. São João Del Rei (1831-1888). Editora Annablume. São Paulo. 2002.
44
mercantil que favoreceu o tráfico de escravos para a região, tornando-a a província com o maior
número de cativos no Império.57 Além da cultura do milho, Minas destacou-se bastante pela sua
exportação de toucinho. O incremento de sua economia no colonial tardio possibilitou o
surgimento de uma elite regional ligada ao comércio de abastecimento e que teve importante
proeminência política e econômica ao longo do oitocentos.58

Analisando o comércio de alimentos nas mencionadas capitanias/províncias do centro-


sul e o processo de acumulação que se constituiu no interior deste mercado interno regional,
Fragoso considerou que os mesmos formavam um mosaico de formas não capitalistas de
produção. No centro deste sistema econômico estavam os comerciantes de grosso trato do Rio,
movimentavam tanto a exportação/importação de mercadorias, quanto o comércio de
cabotagem (que envolvia o abastecimento de farinha e charque, por exemplo), além de serem os
principais agentes no tráfico atlântico de escravos. Portanto, se a reprodução social das
plantations dependia da ampliação das áreas de cultivo de gêneros alimentícios, ambas
necessitavam do capital e do crédito assegurado por estes comerciantes, cujas negociações lhes
possibilitavam uma notável acumulação endógena, também realizada na dinâmica do mercado
interno. O período colonial tardio foi o momento onde este sistema encontrou o seu mais
maduro e pleno funcionamento.59

Como foi mencionado, este mosaico também envolvia o Rio Grande do Sul, que, por
conta das remessas de couros e charque e do crescente consumo de bens manufaturados,
constituiu-se num dos maiores parceiros comerciais do Rio de Janeiro. “Somente a soma das
reexportações de tecidos do Rio para o Rio Grande do Sul em 1810, 1811 e 1812
(1:602:984$910 réis) correspondia a 52% de tudo que se importou de Portugal ao longo destes
três anos”. As divisas deste comércio provinham das crescentes quantias de trigo, couros e
charque que o Rio Grande vinha exportando desde os fins do setecentos. Entre 1799 e 1822, por
exemplo, as exportações de charque do Rio Grande para o Rio cresceram 249%.60

Apesar da notável capacidade de acumulação nesta rede de abastecimento no interior de


um mercado interno, ainda restrito e bastante regionalizado, que caracterizou o centro-sul da

57
Uma revisão mais aprofundada da contribuição destes e de outros autores pode ser vista em ANDRADE,
Leandro Braga. A formação econômica de Minas Gerais e a perspectiva regional: encontros e desencontros da
historiografia sobre os séculos XVIII e XIX. Caderno Caminhos da História, v. 6, p. 1-19, 2010.
58
Ver, por exemplo, LENHARO, Alcir. Op. cit.; ANDRADE, Marcos F. de. Elites regionais e formação do
Estado imperial brasileiro: Minas Gerais, Campanha da Princesa (1799-1850). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional,
2007; RESENDE, Edna. Ecos do Liberalismo: ideários e vivências das elites regionais no processo de construção
do Estado Imperial, Barbacena (1831-1840). Tese de Doutorado PPG-História da UFMG, 2008.
59
FRAGOSO, João L. R. Algumas notas sobre a noção de “colonial tardio” no Rio de Janeiro: um ensaio sobre a
economia colonial. Locus - Revista de História, Juiz de Fora, v. 6, n. 10, 2000.
60
FRAGOSO, João; FLORENTINO, Florentino. Op. cit., p. 95-96.
45
colônia, pesquisas posteriores ao modelo oferecido por Fragoso colocaram o comércio do Rio
Grande do Sul numa posição menos circunscrita ao mercado consumidor fluminense, no que
diz respeito, ao menos, às exportações de charque. Conforme Helen Osório, entre 1802 e 1819,
a Bahia foi a maior compradora do charque sulino, tendo sido ultrapassada pelo Rio em 1820-
1821. No entanto, somadas as exportações para a Bahia e o Pernambuco nestes dois últimos
anos, constata-se que o Rio não foi responsável pela maior parte do charque exportado.
Portanto, neste período os portos do nordeste sempre foram os compradores da maior parte do
charque fabricado no Rio Grande.61

Examinando outros dados estatísticos para as décadas 1820 e 1840, verifiquei que esta
tendência se manteve ao longo do período, ou seja, mesmo com o café ultrapassando o açúcar
na pauta das exportações brasileiras, o charque rio-grandense continuou tendo seu principal
mercado consumidor nas plantations açucareiras do nordeste.62 Tais índices, no entanto, apesar
de demonstrarem uma maior autonomia da economia charqueadora em relação ao Rio de
Janeiro, não desatam o Rio Grande dos mecanismos de acumulação internos e das redes de
abastecimento do centro-sul. Se as exportações de charque não tiveram o Rio como principal
mercado, as remessas de couro foram quase que exclusivamente direcionadas para o sudeste e
as importações rio-grandenses, de manufaturados, mas, principalmente de escravos, tinham na
praça carioca o seu principal centro de fornecimento.63 Portanto, o Rio era e continuou sendo o
principal parceiro comercial do Rio Grande, mas quando se tratava de negócios envolvendo o
charque outras regiões se apresentavam como as principais compradoras do produto. Esta
constatação é de grande importância para a análise da formação e da decadência do complexo
charqueador escravista pelotense, mas, por enquanto, observarei a primeira etapa mencionada.

1.2 - A CRISE DAS OFICINAS DE CARNE-SECA DO NORDESTE E A ENTRADA DO


RIO GRANDE DO SUL NO RAMO DOS NEGÓCIOS

Se as plantations do sudeste eram abastecidas pelos produtores de alimentos que


compunham o mosaico de regiões produtoras descrito acima, suas correspondentes no nordeste
da colônia também pareciam apresentar uma estrutura semelhante. Paralelamente à expansão
das lavouras de cana e dos engenhos de açúcar, regiões inteiras na Província da Bahia e em

61
OSÓRIO, Helen. Op. cit., p. 200.
62
Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, Fundo Fazenda, m. 482.
63
Como demonstraram OSÓRIO, Helen. Op. cit.; BERUTE, Gabriel S. Dos escravos que partem para os portos
do sul: características do tráfico negreiro do Rio Grande de São Pedro do Sul, c. 1790- c. 1825. Dissertação de
Mestrado. PPG-História da UFRGS, 2006.
46
Pernambuco, por exemplo, constituíram-se em produtoras de alimentos tanto para as vilas e
cidades próximas, quanto para as grandes unidades escravistas açucareiras.

Na Bahia, por exemplo, no próprio Recôncavo existiam sítios produtores de farinha e


outros gêneros destinados ao consumo dos engenhos, além dos lavradores de cana, que também
dedicavam-se parcialmente aos mesmos. No sul do Recôncavo, tanto as unidades fumageiras
como as cafeeiras também cultivavam gêneros alimentícios, negociando seus excedentes. Em
municípios mais afastados, a lavoura de mandioca tomava proporções ainda maiores,
misturando-se com as plantações de outros produtos em menor escala, como arroz, feijão e
outros legumes. Mas deste leque de mercadorias, a farinha é a que possuía o maior destaque no
comércio de alimentos.64 Em Pernambuco, pesquisas recentes demonstram que as regiões do
agreste e do sertão, de longe as que produziam mais alimentos para o abastecimento dos
engenhos e do litoral, concentravam algo entre 30% e 40% dos escravos da capitania. O sertão
tinha na criação de gado a sua principal atividade econômica e o agreste, por sua vez, além de
destacar-se pelas plantações de algodão, possuía uma importante lavoura de gêneros.65

No entanto, como as formações sócio-econômicas das regiões sudeste e nordeste eram


distintas, a estrutura agrária produtora de alimentos de ambas também acabava se
diferenciando. Conforme Luna e Klein, a expansão açucareira no oeste paulista, por exemplo,
deu-se de forma diversa da que ocorreu no Recôncavo baiano. Em São Paulo, as plantações de
cana não aderiram à pratica da monocultura e suas áreas de plantio eram conjungadas com
espaços reservados à produção de alimentos, como o milho, o arroz, o feijão, além da criação de
porcos. Assim sendo, os proprietários dificilmente deixavam de continuar a dedicar parte de
suas terras, capitais e mão de obra à lavoura de alimentos. O arroz, por exemplo, era geralmente
cultivado em unidades não especializadas e em meio a outras culturas, incluindo o açúcar e o
café. Em 1836, “mais da metade da produção de arroz proveio de unidades agrícolas que
também produziram café e/ou açúcar”. Mesmo fora destas unidades, “o arroz foi
crescentemente um produto cultivado com mão de obra escrava em todas as partes”. Neste
mesmo sentido, o feijão também era plantado em unidades heterogêneas junto com as fazendas
de criação e os engenhos de açúcar. As propriedades açucareiras com mais escravos também
eram as que cultivavam a maior parte do feijão paulista. Portanto, São Paulo integrou-se ao

64
BARICKMAN, Bert. Op. cit., p. 301-303.
65
VERSIANI, Flávio; VERGOLINO, José Raimundo. Riqueza no Agreste e Sertão de Pernambuco (1777-1887).
Estudos econômicos, São Paulo, v. 33, n. 2, abr-jun, 2003, p. 353-393.
47
mercado internacional sem deixar de ser uma grande produtora de alimentos, esboçando uma
estrutura agrária mais equilibrada com relação a isto.66

Em contrapartida, a estrutura agrária e escravista das plantations nordestinas era


distinta. A média nas unidades açucareiras do Recôncavo baiano, por exemplo, era de 65
cativos, mas o tamanho mais comum dos plantéis ficava entre 60 e 100 escravos, e 1/3 deles
pertenciam a propriedades com mais de 100 cativos.67 Em Pernambuco, Eisenberg encontrou
uma média de 55 cativos nos anos 1840 e de 70 em Jaboatão (um dos distritos açucareiros mais
ricos), nos anos 1850. As maiores propriedades também tinham mais de 100 escravos, com
algumas ultrapassando os 300.68 Apesar de também possuírem engenhos com mais de 100
trabalhadores, a média de escravos no Rio e em São Paulo era de 30 cativos, ou seja, menos da
metade das unidades produtivas do nordeste. Além disso, conforme Schwartz, o uso da terra nas
unidades baianas era mais extensivo e os senhores de engenho buscavam reservá-las somente
ao plantio da cana, recusando-se a produzir gêneros alimentícios em sua fazendas. 69 O Rio de
Janeiro, por sua vez, estava mais próximo de São Paulo no que diz respeito ao tamanho dos
plantéis e mais semelhante às unidades açucareiras do nordeste no que diz respeito à produção
de alimentos. De acordo com Fragoso e Florentino, nenhuma das plantations açucareiras
fluminenses com mais de 100 cativos produzia alimentos.70

Tendo em vista que os grandes plantadores paulistas não abriram mão da produção de
gêneros para o abastecimento, pode-se deduzir que as suas áreas reservadas para o plantio da
cana também possuíam dimensões menores. Isto pode ajudar a explicar os ritmos de produção
de ambos os setores agroexportadores. De acordo com Schwartz, a produção açucareira de São
Paulo era minúscula se comparada à nordestina. Em 1808, por exemplo, a Bahia exportou 20
mil caixas de açúcar, Pernambuco 14 mil, o Rio 9 mil e São Paulo apenas 1 mil. 71 O número
levemente superior de engenhos e a maior média de cativos por unidade induz a pensar que as
capitanias do nordeste possuíam uma maior proporção de escravos nas áreas açucareiras do que
as do sudeste.72 Soma-se a isso o fato de que mesmo com o boom do tráfico na década de 1810,
a população cativa do sudeste não superou a do nordeste no período. De acordo com a Tabela
1.1, enquanto o nordeste (incluindo a Bahia) concentrava 51,2% dos escravos, o sudeste detinha

66
LUNA, Francisco V.; KLEIN, Herbert. Op. cit. 2010, p. 312.
67
Idem., 2005, p. 63-67.
68
EISENBERG, Peter. Op. cit., p. 169.
69
SCHWARTZ, Stuart. Op. cit., 1988.
70
FRAGOSO, João; FLORENTINO, Manolo. Op. cit.
71
No entanto, o açúcar compunha a metade das exportações paulistas (SCHWARTZ, Stuart. Op. cit., p. 347).
72
Além disso, no Rio de Janeiro as fazendas de café já estavam se proliferando pelo Vale do Paraíba, atraindo
muitas levas de escravos, inclusive dos engenhos.
48
37,2% dos mesmos. Conforme Fragoso, este perfil demográfico só se alternaria na passagem da
primeira para a segunda metade do século XIX.73

Tabela 1.1 – População livre e escrava por capitanias (1819)

Capitanias Total Livres Escravos

Amazonas 19.350 13.310 6.040


Pará 123.901 90.901 33.000
Maranhão 200.000 66.668 133.332
Piauí 61.226 48.821 12.405
Ceará 201.170 145.731 55.439
Rio G. do Norte 70.921 61.812 9.109
Paraíba 96.448 79.725 16.723
Pernambuco 368.465 270.832 97.633
Alagoas 111.973 42.879 69.094
Sergipe 114.966 88.783 26.213
Bahia 477.912 330.649 147.263
Goiás 63.168 36.368 26.800
Mato Grosso 37.396 23.216 14.180
Minas Gerais 631.885 463.342 168.543
Espírito Santo 72.845 52.573 20.272
Rio de Janeiro (e Corte) 510.000 363.940 146.060
São Paulo 238.323 160.656 77.667
Paraná 59.942 49.751 10.191
Santa Catarina 44.031 34.859 9.172
Rio Grande do Sul 92.180 63.927 28.253

Total 3.596.102 2.488.743 1.107.389


Fonte: IBGE. Estatísticas históricas do Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, v. 3, 1987, p. 30

Portanto, o mencionado crescimento populacional que marcou o colonial tardio, assim


como o aumento da entrada de escravos africanos e o desenvolvimento dos setores
agroexportadores, fez crescer enormemente a demanda por gêneros alimentícios. Já fiz
referência de como o Rio de Janeiro estava muito bem abastecido por uma grande e
diversificada rede mercantil. No nordeste, este setor da economia também teve importância
fundamental na sustenção da ampliação das plantations. No entanto, conforme atestam diversos
autores, esta região parece ter sofrido maiores reveses se comparada ao sudeste, tanto no
abastecimento de farinha, quanto no de carnes. Não é necessário realizar um inventário das
crises de abastecimento naquela região. 74 No entanto, uma delas, em particular, é de

73
FRAGOSO, João Luis. O Império escravista e a República dos plantadores: a economia brasileira no século
XIX: mais do que uma plantation escravista exportadora. In: LINHARES, Maria Yedda (org.). História Geral do
Brasil. 8ª ed. Rio de Janeiro: Campus, 1990.
74
Ver, para isso, REIS, João José; AGUIAR, Márcia G. D. de. “Carne sem osso e farinha sem caroço”: o motim de
1858 contra a carestia na Bahia. Revista de História, São Paulo, n. 135, 2º sem., 1996, p. 133-160; SOUSA,
Avanete Pereira. Poder local, crises de subsistência e autonomia camarária (Salvador, século XVIII). Anais do
XXVI Simpósio Nacional de História, São Paulo, 2011, p. 1-10; SCHWARTZ, Stuart. Op. cit., 1988.
49
fundamental importância para a compreensão do presente objeto de pesquisa, pois abriu um
espaço de consumo notável para o charque sul-rio-grandense.

Até a década de 1780, as unidades açucareiras do nordeste contaram com uma pujante
rede mercantil que as abastecia de carne-seca. Não custa lembrar que este produto constituia-se
na principal proteína na dieta dos escravos e que as unidades açucareiras nordestinas, onde
praticamente não se produzia alimentos e concentravam-se as maiores escravarias da colônia,
formavam um espaço econômico cujo potencial de consumo era notável. Durante todo o século
XVII e as primeiras décadas do XVIII, o abastecimento de carne tanto das vilas litorâneas
quanto dos engenhos de açúcar era realizado quase que exclusivamente por meio do comércio
de tropas que atravessavam o sertão em direção às regiões de consumo, complementando a
produção local. Nesta rota terrestre, Goiás, Piauí, Ceará e o interior da Bahia e de Pernambuco
foram os principais espaços pecuaristas fornecedores de gado.75

No entanto, o transporte de tropas que atravessava o sertão era penoso e, em épocas de


estiagem, o gado chegava muito magro, desagradando os consumidores e trazendo prejuízo aos
criadores. Embora a técnica de salgar as carnes para conservá-las já fosse conhecida e realizada
artesanalmente, por volta da década de 1730, em Aracati (no Ceará) alguns comerciantes
projetaram erguer oficinas de carne-seca às margens fluviais que levavam ao Atlântico. Com o
tempo, a região destacou-se como grande produtora de carne-seca e além do próprio Ceará, as
capitanias do Maranhão e do Rio Grande do Norte tiveram suas “salgadeiras”, mas ambas não
chegaram perto dos montantes exportados pelo Piauí, que tinha na vila de Parnaíba o seu
principal pólo produtor.76 Além de abastecer as capitanias da Bahia e de Pernambuco, a carne-
seca do sertão também era remetida para as Minas Gerais. 77

A proliferação destas fábricas, no início pequenas, mas, na segunda metade do


setencentos, de maiores dimensões e com grande uso de mão de obra cativa, foi um negócio que

75
GIRÃO, Valdelice C. As charqueadas. Revista do Instituto do Ceará, 1996, p. 71-92; ROLIM, Leonardo.
“Tempo das carnes”: no Siará Grande: dinâmica social, produção e comércio de carnes secas na Vila de Santa
Cruz do Aracati (c. 1690 – c. 1802). Dissertação de Mestrado, UFPB, 2012; REGO, Júnia Napoleão do. Dos
sertões aos mares: história do comércio e dos comerciantes de Parnaíba (1700-1950). Tese de Doutorado, UFF,
2010; BARICKMAN, Bert. Op. cit., p. 90.
76
No Ceará, o Vale do Jaguaribe tornou-se o principal núcleo de fabricação de carne-seca, envolvendo as
localidades de Icó, Granja, Sobral, Camocim e Aracati. No Piauí, destacou-se a vila de Parnaíba, como a principal
produtora. Para ela eram encaminhados os numerosos rebanhos da capitania, além de tropas vindas do Maranhão.
No Rio Grande do Norte, Assú e Mossoró também tiveram suas oficinas, mas destacaram-se muito mais como
fornecedoras de sal do que de carne-seca (ROLIM, Leonardo. Op. cit.; GIRÃO, Valdelice. Op. cit.; REGO, Júnia
do. Op. cit). Conforme Rolim, o surgimento das oficinas no sertão não excluiu a permanência do comércio de
tropas para o litoral (ROLIM, Leonardo. Op. cit., p. 68).
77
CARRARA, Ângelo. Op. cit.
50
beneficiou todos os setores econômicos desde a criação dos animais até os consumidores.78
Com o surgimento das oficinas, os fazendeiros não precisavam mais encaminhar seus rebanhos
em custosas viagens que duravam dias e que eram danosas demais para os animais. Além disso,
o ritmo de abate das oficinas garantia a regularidade da demanda e bons preços pagos pelo
gado. Os proprietários das charqueadas, por sua vez, tinham um acesso facilitado tanto aos
rebanhos, quanto às vias fluviais, além de poderem contar com um mercado consumidor
estável. Os comerciantes, dentre os quais estavam muitos dos próprios charqueadores,
garantiam o fornecimento de mão de obra cativa, de sal (vindo, principalmente, do Rio Grande
do Norte) e expandiam seus negócios cada vez mais, levando os carregamentos, inclusive, até o
Rio de Janeiro. Na ponta final da cadeia, os senhores de engenho alimentavam a sua escravaria
com um produto barato, pronto para o consumo e com melhores condições de conservar-se
estocado. Além disso, as populações mais pobres também eram atendidas pelo produto. Estes
complexos charqueadores nordestinos funcionaram bem por cerca de 50 anos, trazendo grande
prosperidade para as suas regiões de produção.79

No entanto, este capítulo da história econômica do nordeste do Brasil teve um final um


tanto trágico. As secas de 1777 e de 1791-92 desfeixaram duros golpes na indústria cearense,
trazendo também, principalmente na segunda delas, a crise até as fábricas do Piauí. A morte de
milhares de cabeças de gado resultou na decadência irreversível do setor, abrindo um espaço no
mercado para um núcleo charqueador que ainda estava no início de seu processo de montagem.
Desde a década de 1780, como demonstrarei a seguir, o Rio Grande do Sul já remetia
significativas quantias de charque para o Rio de Janeiro. No entanto, como o sudeste estava
muito bem abastecido pela mencionada pecuária paulista e paranaense, além do comércio de
toucinho mineiro para o Rio, o charque rio-grandense encontrava muitos concorrentes nesta
região. A desgraça que assolou as propriedades cearenses e piauienses ofereceu um novo
mercado para a remessa do produto, que vinha enfrentando uma baixa de preços na praça
carioca, no final da década de 1780.80

Valdelice Girão considera que não foram somente as secas as responsáveis pela
decadência da indústria de carne-seca cearense. Quando os reveses causados pelas secas foram
78
Conforme Leonardo Rolim, é provável que nas primeiras décadas de funcionamento das oficinas a mão de obra
utilizada fosse a indígena. Com a proibição da escravização do indios, em 1759, e o consequente auge das
exportações de carne-seca, grandes levas de escravos teriam sido remetidas para o Ceará fazendo com que a sua
população ultrapassasse a do Rio Grande do Norte e a da Paraíba, entre as décadas de 1760 e 1770. A mão de obra
escrava era combinada com o uso de trabalhadores livres (ROLIM, Leonardo. Op. cit., p. 129-133).
79
Sobre a ostentação de riqueza dos proprietários ver GIRÃO, Valdelice. Op. cit.; REGO, Júnia do. Op. cit.
80
Além dos baixos preços pagos pelo charque no Rio, os comerciantes rio-grandenses reclamavam do monopólio
praticado pelos cariocas e da precária distribuição na cidade e nos seus subúrbios, fazendo com que o produto se
acumulasse nos armazéns (OSÓRIO, Helen. Op. cit.).
51
superados, um outro processo de expansão agrícola já havia se iniciado naquelas paragens. A
febre do algodão nas terras ao norte da colônia, motivada pelos altos preços alcançados pelo
produto no mercado europeu (eles chegaram a dobrar, entre 1770 e 1800), despertou o
interesse de muitos fazendeiros. Por conta disso, os lucros com o cultivo do algodão passaram a
ser maiores do que os obtidos com o açúcar, fazendo com que muitos plantadores migrassem de
cultura.81 No Ceará, o mesmo teria ocorrido com relação à pecuária, pois o cultivo do algodão
começou a tomar o espaço dos antigos currais. Somado aos altos preços do algodão, tem-se
ainda o fato de que os investimentos nesta lavoura exigiam baixos custos e uma menor mão de
obra se comparados ao açúcar. Além do mais, o algodão convivia muito bem com o plantio de
outros gêneros alimentícios, o que não comprometia em demasia a subsistência local. Com a
expansão das fazendas de algodão e a consequente diminuição das áreas de pastagens, teria
havido uma queda da oferta de gado para o comércio, ao ponto de desestimular novos
investimentos e inviabilizar a recuperação da já arruinada indústria da carne-seca.82

Na década de 1790, diante dos problemas enfrentados pelas oficinas de carne-seca do


Ceará e do Piauí, o charque do Rio Grande do Sul entrou de vez no mercado nordestino. A
produção sulina não sofria com as recorrentes secas, o que se tornava uma vantagem, pois
garantia um abastecimento mais regular. Além disso, a economia rio-grandense passava por
uma expansão notável e continuaria neste ritmo nas primeiras décadas do oitocentos. Portanto,
mesmo recuperando-se dos reveses climáticos, era difícil para a indústria nordestina competir
com o charque sulino, pois este era negociado em vultosas quantidades, com um preço acessível
e era capaz de suprir boa parte da demanda de uma economia açucareira onde o número de
engenhos e escravos vinha em nítido crescimento. Em 1787, quando o Rio Grande do Sul ainda
não exportava charque para o nordeste, suas remessas totalizaram 117 mil arrobas (exclusivas
para o Rio). No entanto, com a entrada do mercado nordestino nas transações, o Rio Grande
ultrapassou as 400 mil arrobas exportadas em 1793 e as 500 mil arrobas em 1797. Na década de
1800, a capitania exportou uma média anual de 820 mil arrobas, das quais mais da metade
tinham como destino os portos do nordeste.83 Conforme Caio Prado Júnior, em sua análise

81
RIBEIRO JR., José Ribeiro. A economia algodoeira em Pernambuco: da Colônia à Independência. Revista
Brasileira de História. São Paulo, set. 1981, p. 235-242. Tal fenômeno fez com que, em Pernambuco, o valor das
exportações algodoeiras chegassem a ultrapassar os altos índices atingidos pelo açúcar (ALDEN, Dauril. Op. cit.,
p. 564-568). A expansão algodoeira em Pernambuco e nas capitanias vizinhas fez aumentar a demanda por carne-
seca. Mas antes disso, teve um efeito perverso, pois braços e terras antes destinados à lavoura de gêneros, entraram
no ciclo do algodão provocando crises alimentares na região (ROLIM, Leonardo. Op. cit., p. 182-183).
82
GIRÃO, Valdelice. Op. cit.; ROLIM, Leonardo. Op. cit., p. 179-180.
83
Conforme Júnia do Rego, na década de 1780, as regiões que concentravam a produção do charque no Ceará
abatiam uma média anual de 50 mil cabeças de gado, enquanto Parnaíba, no Piauí, destinava 40 mil reses para o
mesmo fim (REGO, Júnia do. Op. cit). Um atento observador declarou que o gado na Ilha de Marajó rendia 3
52
sobre a expansão do setor no colonial tardio, “excluído o rush do ouro, não se assistira ainda na
colônia a tamanho desdobramento de atividades”. 84 Além disso, o circuíto mercantil Rio
Grande do Sul – Bahia – Pernambuco era estimulado pelos próprios comerciantes dos portos de
Salvador e Recife, que aproveitavam as embarcações vindas do Sul para carregá-las de açúcar,
fumo, aguardente, escravos e sal, com destino ao Rio Grande 85 – o que provavelmente lhes
forneciam lucros maiores do que os ganhos no comércio com o Ceará e o Piauí, por exemplo.

Portanto, o charque sul-rio-grandense além de preencher um mercado aberto pelas crises


das charqueadas nordestinas, constituía-se numa fonte de grandes lucros aos comerciantes que
realizavam seus negócios pelas margens do Atlântico e aos que investiram seus capitais no setor
produtivo. O alimento havia se tornado uma fonte de proteínas necessária para o abastecimento
dos engenhos e da população pobre de Salvador e Recife e teve no capital mercantil de ambas
as regiões os seus impulsionadores. Pode-se dizer que sem esta rede de abastecimento, que
agora ocorria entre capitanias de um extremo ao outro da América Portuguesa, a continuidade
da expansão das plantations açucareiras do nordeste teria encontrado dificuldades. Mas também
é necessário considerar que foi a ampliação das escravarias durante o processo de montagem
das plantations no colonial tardio que criou as bases fundamentais para que o complexo
charqueador escravista pelotense fosse criado.

Portanto, é importante que se considere que a mencionada ampliação das plantations,


antes e durante o colonial tardio, foi favorecida por fatores políticos e econômicos de ordem
interna e externa e que devem ser vistos de forma conjugada. É certo que esta expansão
respondeu aos estímulos do mercado internacional e que os reveses conjunturais enfrentados
pelos produtores concorrentes tiveram importante papel no seu desenvolvimento. No entanto,
nunca é demais lembrar que se tratava de uma fase B do ciclo de Kondratieff, ou seja, boa parte
do período aqui analisado foi marcada por conjunturas internacionais de baixa de preços.
Portanto, para que os balanços das empresas cafeicultoras e açucareiras fossem favoráveis aos
seus proprietários, o lucro deveria ser mantido na ampliação do volume das mercadorias
exportadas. Tal operação seria viável aumentando as áreas de plantio e o volume de mão de

arrobas de charque (Ofício de Francisco de Souza Coutinho a Martinho de Melo e Castro (Pará, 11.10.1792).
Coleção Carvalho, Seção Manuscritos, Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro). Contudo, no Rio Grande do Sul ele
podia render de 4 a 4,5 arrobas. Caso cada animal rendesse em média 4 arrobas de carne-seca, o Piauí e o Ceará
juntos teriam fabricado algo entre 350 e 400 mil arrobas anuais de carne-seca. No entanto, parte deste charque
ficava para o consumo local e outra parcela era exportada para o Maranhão, o Pará, o Rio de Janeiro, além de
capitanias menores. Tendo em vista as sempre existentes oscilações, é possível considerar que na passagem do
século XVIII para o XIX, o Rio Grande já era capaz de suprir os montantes exportados pelas oficinas do sertão,
pois remeteu, anualmente, algo entre 400 a 500 mil arrobas para a Bahia e o Pernambuco.
84
PRADO JR., Caio. História Econômica do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1977, p. 103.
85
OSÓRIO, Helen. Op. cit.
53
obra empregada (ou da produção por escravo).86 Esta ampliação, ao mesmo tempo em que era
favorecida pela notável oferta de alimentos, constituía-se num estímulo ao crescimento da
produção destes mesmos gêneros. A reprodução socioeconômica das plantations em áreas de
fronteira dependia do contínuo fluxo de escravos, financiado pelo capital mercantil atlântico, e
do comércio de alimentos, oriundos de unidades produtivas com grande presença de escravos.
Os baixos custos da terra, da mão de obra e dos alimentos possibilitaram esta ampliação.87

Neste sentido, os gastos para o sustento dos escravos constituía-se numa preocupação
central para os proprietários de plantations. Segundo Fragoso, por volta de 1830, cerca de ¼
das despesas dos grandes cafezais do vale do Paraíba do Sul se constituía em gêneros para os
escravos. No século XVIII, nas plantações beneditinas da Bahia, tal índice chegava a 30%. 88
Assim sendo, os senhores de engenho podiam não conhecer as teorias econômicas mais
elementares, mas sabiam muito bem que seus trabalhadores precisavam se alimentar e que a
ampliação de sua empresa dependia de um regular abastecimento a baixos custos. Em 1796, por
exemplo, comerciantes baianos realizaram uma representação à Coroa portuguesa solicitando
que fossem cessados os encargos que o contratador dos tabacos vinha impondo sobre o charque
trazido do Rio Grande do Sul. No documento, eles argumentavam que:

(…) o fomento dado à exportação das carnes do Rio Grande por esta Praça e pelas
mais deste Continente em que se empregam acima de 140 sumacas de muitas mil
arrobas, tem feito baratear pelo seu concurso a subsistência dos pobres escravos. Do
quê resulta a ampliação da cultura do tabaco e açúcar, cujos fazendeiros, animados
pela barateza das carnes, quase único mantimento dos cativos, cada dia se multiplicam
e prosperam, diminuindo-se-lhe os custos da mantensa, que dantes os forçavam a uma
injúria e iniquidade de faltar àqueles desgraçados com o sustento não só abundante,
senão às vezes necessário, servindo tudo para o Régio Erário perceber tão crescidas
vantagens e não menos no Rio Grande, onde além do Dízimo, que se paga do gado em
pé, há o bem sabido tributo do quinto dos couros (…).89

A partir da leitura desta representação fica nítido que o estímulo aos plantadores não
provinha somente dos preços no mercado internacional. A oferta de alimentos baratos (que
viabilizava a montagem dos engenhos e a ampliação das áreas de plantio) era entendida pelos
contemporâneos como um fator primordial para a ampliação, a multiplicação e a prosperidade

86
FRAGOSO, João; FLORENTINO, Manolo. Op. cit. Em São Paulo, a média dos cativos nas fazendas de café
expandiu-se a partir dos finais da década de 1820 (LUNA, Francisco V.; KLEIN, Herbert. Op. cit., 2005, p. 88).
Este fenômeno deu-se justamente numa época em que os preços do café estavam em baixa. “Há quem afirme que a
queda das cotações externas dos produtos exportados era compensada pela desvalorização cambial, permitindo aos
fazendeiros deter parcela expressiva de moeda nacional. Contudo, mesmo em mil-réis, o café, por exemplo,
registrou uma queda anual de 2% entre 1821 e 1833, e de 1,4% entre este último ano e 1849. O que de fato ocorria
é que a empresa escravista exportadora enfrentava a queda dos preços internacionais pela multiplicação da
produção” (FRAGOSO, João; FLORENTINO, Manolo. Op. cit., p. 125).
87
FRAGOSO, João; FLORENTINO, Manolo. Op. cit.
88
FRAGOSO, João. Op. cit., p. 180.
89
AHU-ACL-CU-019, Cx. 4, D. 318 (Projeto Resgate). Grifos meus.
54
– termos utilizados pelos comerciantes –, das unidades açucareiras e da própria economia
colonial. Os fazendeiros e senhores de engenhos animavam-se com a barateza das carnes. Além
disso, se por um lado a representação dos comerciantes baianos foi assinada em uma conjuntura
de aumento da demanda internacional do açúcar, a produção estava sendo ameaçada pela
drástica queda na oferta da carne-seca do nordeste. Ora, foi nesta conjuntura (1791-1805) que
as exportações do charque rio-grandense cresceram quase 250%, substituindo as remessas do
Ceará e Piauí e trazendo ânimo aos produtores. A ampliação das unidades escravistas baianas e
pernambucanas, abastecidas pelo charque pelotense, colocou o Brasil na posição de maior
produtor de açúcar do mundo.

Portanto, concordando com Schwartz, o crescimento das exportações de açúcar “não se


deveu apenas à revolução haitiana e às oportunidades por ela criadas, por mais importante que
tenha sido esse evento”.90 Uma vigorosa rede de abastecimento regional e o contínuo fluxo de
escravos financiado pelo capital residente dos principais portos luso-brasileiros foram
fundamentais neste processo. Além disso, segundo Schwartz, embora o governo de Pombal
tenha realizado melhoramentos econômicos que tiveram um alcance limitado, “as sementes do
futuro foram quase literalmente deitadas pelos administradores pombalinos”. Reformas
educacionais e institucionais realizadas no Reino foram responsáveis pela formação de uma
geração de burocratas comprometidos com àquelas ideias, que incentivavam os mesmos a
buscarem formas de “aperfeiçoar a economia e o relacionamento colonial”. Buscava-se, a partir
do estudo das técnicas produtivas em outras partes do globo, implantar formas mais modernas
de organização das mesmas, além do aceleramento das atividades mercantis e a dinamização da
produção de alimentos. Em certa medida, estes administradores eram “afilhados intelectuais das
reformas pombalinas”.91

Neste sentido, a indústria charqueadora sul-rio-grandense também foi favorecida pelos


incentivos do governo português, mesmo que, às vezes, de forma indireta e mediada por
comerciantes de grosso trato de outros portos da Colônia. Em 1787, por exemplo, a Rainha D.
Maria I concedeu a sua graça a uma embarcação para que trouxesse trigo do Rio Grande de São
Pedro e deixasse, neste lugar, um carregamento de sal, livre de impostos.92 Na representação
citada anteriormente, onde os comerciantes baianos reclamavam das taxas sobre o charque

90
SCHWARTZ, Stuart. Op. cit., 1988, p. 347-349.
91
Idem, p. 347-349. Sobre as Reformas Pombalinas ver FALCON, Francisco Calazans. Pombal e o Brasil. In:
MATTOSO, José; TENGARRINHA, José. História de Portugal. Bauru/Lisboa: EDUSC/Instituto Camões, 2001,
p. 227-244. Para um impacto na economia fluminense, ver PESAVENTO, Fábio. Um pouco antes da Corte: a
economia do Rio de Janeiro na segunda metade do Setecentos. Tese de Doutorado, UFF, 2009.
92
AHU-ACL-CU-019, Cx. 3, Doc. 296 (Projeto Resgate).
55
remetido para Salvador, os mesmos receberam um parecer favorável, beneficiando a produção e
o seu comércio. As queixas contra o estanco do sal e os altos valores do produto e de suas taxas
marcou a década de 1790 e evitou que a produção de charque crescesse mais ainda. As
reclamações foram se sucendendo, mas, no ano de 1805, os ventos do liberalismo econômico
sopraram naquelas terras, quando findou o monopólio do produto. Com esta medida, as
exportações de charque seguiram crescendo e aumentaram mais ainda na década de 1810,
quando a política expansionista na fronteira com região do Prata, colocada em prática pelo Rei
D. João VI, favoreceu os rio-grandenses no comércio das carnes.93

Os estímulos políticos e a necessidade do provimento de carnes que marcou a década de


1790, também induziram outros administradores ilustrados a implantar uma indústria
charqueadora na Ilha de Marajó, ao norte do Pará. Conforme o Governador Capitão-general
Francisco de Souza Coutinho, num relatório escrito em 1792 e enviado para a Coroa, a Ilha
possuía um importante potencial para que fossem criadas, próximas às margens marítimas,
algumas fábricas de carne salgada em barris com o fim de abastecer a população local e
negociar os excedentes com as capitanias próximas, como o Grão-Pará e o Maranhão. O plano
do ilustrado administrador era construir uma fábrica (ou até duas ou três, como ele frisava)
entregue aos cuidados e vigilância de um inspetor, obrigando todos os criadores de gado da Ilha
a remeter anualmente os seus rebanhos para serem vendidos no novo estabelecimento.
“Empregados”, sob a dita inspeção, realizariam as atividades fabris, “arbitrando-se alguma
pequena quantia para a satisfação dos salários”. A carne de salmoura (ou de moura) seria
vendida em barris, como faziam os irlandeses, em substituição da carne seca da região, cujo
péssimo aspecto e estado de preservação era perigoso para o consumo das classes populares,
segundo o Governador. A Coroa facilitaria o acesso ao sal e o fornecimento dos barris. Estes
deveriam ter a marca da fábrica para evitar as falsificações do produto. Com o funcionamento
desta instalação, a fabricação de carne seca realizada pelos fazendeiros ficaria proibida. 94

No papel, tratava-se de um belo projeto, prevendo o uso de mão de obra assalariada, o


controle da produção, o fortalecimento da rede mercantil e uma melhor higiene no fábrico das
carnes, se comparado às artesanais oficinas do interior. No entanto, o documento não traz
evidências de que este projeto tenha vingado. O seu autor apenas menciona que a “feliz
experiência” com as mesmas carnes salgadas realizadas na própria ilha o havia estimulado.

93
Ver, por exemplo, MIRANDA, Márcia E. A Estalagem e o Império: crise do Antigo Regime, fiscalidade e
fronteira na Província de São Pedro (1808-1831). São Paulo: Hucitec, 2009. Esta conjuntura política será tratada
nos capítulos seguintes.
94
Ofício de Francisco de Souza Coutinho a Martinho de Melo e Castro (Pará, 11.10.1792). Coleção Carvalho,
Seção Manuscritos, Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
56
Portanto, a carne salgada estava sendo fabricada, mas ainda não em uma grande fábrica nas
proporções desejadas por ele. Conforme Siméia Lopes, no comércio entre o Pará e o Marajó, as
carnes de moura ou salgadas aparecem com frequência como um produto negociado, o que
indica que sua fabricação continuou acontecendo no meado do oitocentos. No entanto, a autora
também traz referências sobre as transações envolvendo a carne seca, ou seja, apesar da
avaliação negativa do Governador Coutinho sobre a péssima qualidade da mercadoria, ela
continuou sendo produzida e remetida para o Pará, no século XIX adentro, demonstrando que
os objetivos do Governador não obtiveram um pleno sucesso.95

Portanto, projetos políticos e econômicos para o período não faltaram. Alguns obtiveram
sucesso, mas outros facassaram. Neste sentido, o governo português buscava interferir da forma
que acreditava ser a melhor para o desenvolvimento das diferentes regiões e para o benefício
dos cofres da Coroa, mas barrava em diversos obstáculos. Um dos principais empecilhos dizia
respeito à própria autonomia das elites coloniais que comportavam-se de acordo com os seus
interesses, sempre tentando jogar com as normatizações vindas do Reino. Elas realizavam seus
próprios cálculos a respeito de quais atividades econômicas seriam as mais propícias e a partir
de quais métodos, práticas e escolhas levariam a cabo as mesmas.

Concluindo este capítulo, podería-se pensar que se não fosse a vigorosa base produtiva
de alimentos que caracterizou a estrutura agrária colonial, a ampliação das plantations teria seu
desenvolvimento fortemente comprometido. Soma-se a isto o fato de que a incorporação de
novas terras para culturas de alimentos e criação de gado tinha no crescimento populacional e
no aumento do número de plantations a garantia de sua manutenção e ampliação, mas não o seu
único fim. É neste sentido que o mercado interno e o externo pareciam se complementar, sendo
que a percepção de onde um favorecia a ampliação do outro é bastante complexa e variável. É
certo que o comércio de importação e exportação (incluindo o tráfico atlântico) era mais
rentável que o setor de abastecimento e que aquele, pode-se dizer, era a principal mola do
crescimento econômico alcançado no colonial tardio. Mas isto não torna o segundo um setor
exclusivamente subsidiário, pobre e dependente das flutuações externas, ou seja, sem nenhuma
autonomia econômica. Ele se alimentou do desenvolvimento da agroexportação, que fez
95
LOPES, Siméia Nazaré. O comércio interno no Pará oitocentista: atos, sujeitos sociais e controle entre 1840 e
1855. Dissertação de Mestrado, UFPA, 2002. Talvez a resposta para isto esteje no próprio Relatório do
Governador. Segundo ele, a economia da Ilha era dominada por grandes fazendeiros possuidores de muitos
escravos e que, por conta disto, roubavam o gado dos pequenos criadores e ditavam as normas costumeiras da
região. Logo, a produção da carne seca lhes beneficiava diretamente, pois eles concentravam grande parcela das
terras, do gado vacum e da mão de obra local. Portanto, a suposta criação de uma fábrica que organizasse todo o
processo desde a produção até o seu comércio e tirasse os lucros daqueles grandes fazendeiros lhes representava
uma ameaça e corria um grande risco de não dar certo (Ofício de Francisco de Souza Coutinho a Martinho de Melo
e Castro (Pará, 11.10.1792). Coleção Carvalho, Seção Manuscritos, Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro).
57
surgirem mercados do nada nas mais distantes hinterlands, ao mesmo tempo que literalmente
alimentou este setor. Portanto, ele também possuía flutuações próprias, uma vez que dado o
arranque inicial agroexportador, fosse em tempos de crise no agro, de dificuldades climáticas
ou de desmontes de engenhos, as pessoas precisavam comer e este era o sentido mais elementar
da produção de alimentos. Assim sendo, a grande capacidade dos colonos do interior em montar
fazendas e lavouras de cultivos de gêneros a baixos custos foi fator fundamental para a
ampliação da agroexportação.

A década de 1810, vislumbrava uma grande participação do açúcar e do algodão nas


exportações brasileiras, colocando o nordeste brasileiro como o mais notável eixo econômico
colonial e concentrador de escravos. A comparação de ambos os espaços econômicos
açucareiros (sudeste e nordeste) e das suas redes regionais de abastecimento demonstra um
notável desequilíbrio, pois a produção de alimentos no centro-sul, além de abastecer as suas
próprias plantations, ainda fornecia alimentos para as unidades açucareiras do nordeste, por
intermédio das remessas do charque sul-rio-grandense.96 Portanto, a especialização demasiada
das plantations açucareiras nordestinas, a decadência das charqueadas do sertão e o seu maior
volume de escravos tornaram a região mais dependente das carnes importadas do sul. No
entanto, uma leitura mais complexa, teria que acrescentar à lógica da demanda a contrapartida
da oferta. Neste sentido, poderia se dizer que a economia charqueadora pelotense, para que
continuasse crescendo, passaria a depender da estabilidade e da ampliação do mercado
nordestino. Havia pelo menos duas formas desta dependência ser quebrada. Ou o nordeste
encontrava uma outra fonte de charque ou o Rio Grande buscava outros mercados
consumidores. Nenhuma das duas acabou acontecendo de forma mais efetiva e, na década de
1880, ambos os complexos escravistas (o charqueador pelotense e o açucareiro nordestino)
entraram em uma profunda crise… de mãos dadas.

96
Quase um século antes, acontecia o inverso. A Bahia é quem abastecia as Minas Gerais com significativas
remessas de mercadorias, envolvendo escravos e gado do sertão nordestino (CARRARA, Ângelo. Op. cit.). Antes
do surgimento das charqueadas rio-grandenses, na década de 1770, o nordeste forneceu elevadas cargas de charque
para as tropas militares estacionadas em Sacramento (ROLIM, Leonardo. Op. cit.).
58
2. A FORMAÇÃO DOS COMPLEXOS FABRIS ESCRAVISTAS EM
PELOTAS E NO RIO DA PRATA A PARTIR DAS REDES SOCIAIS E
MERCANTIS ATLÂNTICAS

Deus fez o alimento, o diabo acrescentou o tempero

James Joyce

Muito antes do surgimento das oficinas de carne seca no nordeste brasileiro e das
charqueadas em Pelotas, o comércio atlântico de carnes preparadas já movimentava centenas de
embarcações e viabilizava, por exemplo, o abastecimento das plantations caribenhas e das
tripulações dos navios europeus. A partir de meados do século XVII, a Irlanda destacou-se na
fabricação e no comércio destes gêneros, dominando o mercado atlântico durante boa parte do
século posterior. No amplo circuíto mercantil do qual os comerciantes irlandeses faziam parte,
o porto de Cork tornou-se o principal pólo fabril de carne salgada dos séculos XVII e XVIII,
desenvolvendo o único sistema bancário considerável na Irlanda. Neste tempo, sua população
multiplicou-se várias vezes, tornando a cidade uma das mais cosmopolitas da Europa.1 Uma
análise rápida do funcionamento deste circuíto mercantil, desde a sua formação até a sua
decadência, é de fundamental importância para compreender o surgimento dos complexos
charqueadores no extremo sul da América, tanto em Pelotas, quanto nas margens do Rio da
Prata – em Buenos Aires e Montevidéu.

Região de vastas pastagens, a Irlanda já remetia seus rebanhos vacuns e barris de carne
salgada para a Inglaterra, mesmo antes da montagem das plantations açucareiras no Caribe.
Enquanto o gado era destinado para o abastecimento da população, as carnes preparadas tinham
na Marinha inglesa a sua principal consumidora. Entre 1663 e 1664, por exemplo, a pequena
ilha exportou mais de 76 mil cabeças de gado para a Inglaterra. Contudo, a crescente
importação de bovinos irlandeses, que caracterizou o conturbado período em que Cromwell
esteve no poder, não vinha agradando os pecuaristas do norte da Inglaterra. Organizados, estes
fizeram intensa pressão sobre o Parlamento britânico e conseguiram que o mesmo promulgasse
leis para interromper a entrada do gado irlandês no Reino. Foram os Cattle Acts, sendo o
primeiro de 1663 (que teve um caráter experimental de seis meses) e o segundo de 1667 (que

1
MANDELBLATT, Bertie. A Transatlantic Commodity: Irish Salt Beef in the French Atlantic World. History
Workshop Journal, n. 63, 2007, p. 26.
59
decidiu pela proibição definitiva das importações). Estas medidas provocaram a baixa dos
preços do gado na Irlanda, o que favoreceu o acesso dos pequenos comerciantes no ramo e a
consequente ampliação do número de fábricas de carne salgada em Cork, Belfast e Dublin 2 –
esta última, cidade natal do escritor James Joyce e onde seu pai também foi comerciante.

O desenvolvimento da indústria das carnes salgadas também estimulou a expansão de


outros ramos da economia atlântica. Como a colocação das carnes no mercado necessitava de
uma grande quantitade de barris, a tanoaria irlandesa cresceu conjuntamente, movimentando a
importação de madeiras, tanto do interior da Irlanda, como de outras regiões (as colônias
inglesas no norte da América, por exemplo). Soma-se a isto, o aumento da demanda por sal –
produto indispensável no preparo das carnes – que tinha como principais fornedores a França, a
Espanha e Portugal. Além de utilizado na salmoura da carne bovina, o sal também era
empregado na salga da carne de porco e na conservação da manteiga, outros dois importantes
produtos exportados pelos irlandeses. 3

Com os Cattle Acts, os rebanhos irlandeses, anteriormente exportados para a Inglaterra,


passaram a alimentar a crescente demanda das novas fábricas de carne. Se no meado do XVII o
mercado consumidor das carnes salgadas ainda era relativamente pequeno, nas décadas
seguintes o crescimento das exportações foi notável. Em 1665, o volume das remessas do
produto dobrou com relação à década de 1640. E em 1683, as exportações duplicaram
novamente com relação aos anos 1660. Conforme Thomas Truxes, esta foi a fase de arranque
da indústria de carnes irlandesa e, entre 1660 e 1688, nenhuma outra mercadoria negociada
pelos portos das ilhas britânicas ultrapassou o volume exportado do produto.4 Tal fenômeno
estava diretamente relacionado ao desenvolvimento do comércio atlântico e à fase inicial da
expansão das unidades açucareiras no Caribe, que provocaram o aumento da entrada de
escravos para a região, assim como de colonos, mercadores e membros da burocracia. 5 Além

2
IOMAIRE, Máirtín Mac Con; GALLAGHER, Pádraic Óg. Irish Corned Beef: a Culinary History. Dublin
Institute of Technology, Articles, 2011, p. 7. Seguindo o vocabulário da época, sempre que me referir às “carnes
salgadas” estarei falando das carnes em barris, também chamadas de carnes de moura ou em salmoura. O charque
ou tasajo (como era chamado no Rio da Prata) diz respeito à carne-seca. Esta também era tratada com o uso do sal,
mas tinha na desitratatação e no seu secamento ao sol as suas formas de conservação.
3
Medidas políticas tomadas pelos irlandeses fizeram com que os mesmos pagassem baixos impostos pelo sal
importado (cerca de 10% do que os ingleses pagavam, por exemplo). Os vínculos mercantis entre Irlanda e
Portugal mantiveram-se fortes ao longo do século XIX. As salinas de Setúbal abasteceram não somente a produção
de carne salgada, como também a fabricação da manteiga irlandesa – produto conhecido em todo o Atlântico
(HORTA, José. O comércio do sal português com a Irlanda no século XIX: uma leitura geográfica. In: Anais do I
Seminário internacional sobre o sal português. Porto: IHM da Univ. do Porto, 2005, p. 297-310).
4
TRUXES, Thomas M. Irish-American Trade (1660-1783). Cambridge University Press, 1988, p. 26-27.
5
MANDELBLATT, Bertie. Op. cit., p. 26. Conforme Robin Blackburn, a “explosão” do comércio colonial foi
possibilitada por um crescimento anterior das importações de escravos pelas ilhas inglesas. Este incremento
totalizou 263.000 escravos negociados, cuja metade foi remetida para Barbados, secundada pela Jamaica e as Ilhas
60
disso, a disponibilidade de grandes extensões de pastagens férteis e próximas das principais
cidades portuárias irlandesas e a existência de uma rede de transportes interna bem
desenvolvida foram fundamentais para baixar os custos da produção da carne salgada.
Conforme Mandelblatt, a razão para o sucesso da carne irlandesa no mercado caribenho era o
seu baixo custo em relação a outras fontes de abastecimento.6

Passada a fase inicial de expansão, as exportações irlandesas continuaram crescendo ao


longo do século XVIII. Na década de 1710, pela primeira vez elas ultrapassaram os 100 mil
barris anuais. Nas décadas de 1720 e 1730, elas atingiram uma média de 140 a 150 mil barris,
vindo a superar os 200 mil barris nos anos 1760, média que se manteve constante até o início da
década de 1780 e que marcou o auge das exportações irlandesas. A principal causa do boom
ocorrido entre 1710 e 1760, foi a ampliação do setor açucareiro francês. 7 Entre 1715 e 1730, a
população total das Antilhas Francesas e da Guiana duplicou alcançando 195.073 pessoas (dos
quais 160.278 eram escravos negros). Uma geração mais tarde, de acordo com dados de Stanley
Engerman, essa população escrava tinha quase dobrado novamente, chegando, em 1750, a
323.433 pessoas, dos quais 281.658 eram escravos.8 Entre 1718 e 1754, as ilhas francesas
ultrapassaram as inglesas como principais compradoras das carnes em diversos anos, reunindo
algo entre 40% e 60% do total das exportações irlandesas. 9 Em termos de volume, as
quantidades importadas pelas antilhas francesas neste período foram de duas a quatro vezes
superiores aos montantes negociados nos anos 1680.10

Outro fator que favoreceu o desenvolvimento econômico da Irlanda neste período foi a
liberdade comercial que os ingleses ofereciam às suas colônias dentro dos portos que

Leeward. “A população negra das Índias Ocidentais inglesas cresceu de 42% do total em 1660 para 81% em 1700”
(BLACKBURN, Robin. A construção do escravismo no novo mundo: do Barroco ao Moderno (1492-1800). Rio
de Janeiro: Record, 2003, p. 325).
6
MANDELBLATT, Bertie. Op. cit., p. 26.
7
Dentre as ilhas caribenhas francesas, Santo Domingo superava Guadalupe e Martinica como a principal
consumidora das carnes irlandesas. No seu auge, entre 1763 e 1791, a “pérola das Antilhas” produziu mais lucros
do que qualquer outra colônia caribenha, tornando-se a maior produtora de açúcar do mundo. Com uma enorme
população escrava, Santo Domingo possuía um habitante branco para cada dez negros em seu território
(MANDELBLATT, Bertie. Op. cit., p. 22).
8
MANDELBLATT, Bertie. Op. cit., p. 36.
9
Além dos navios mercantis, que negociavam escravos, gêneros alimentícios, tabaco, açúcar e uma série de outras
mercadorias, a frota militar também ampliou-se de forma notável. Na França, quando Colbert foi indicado para
supervisionar as colônias, a França possuía somente duas dezenas de embarcações em alto-mar. Mas em 1683, a
Marinha de Guerra francesa já contava com 117 navios de linha, 30 galeões e 80 fragatas corsárias, totalizando
1.200 oficiais e 53.000 marinheiros (BLACKBURN, Robin. Op. cit., p. 354). Ou seja, um notável aumento de
potenciais consumidores de carne em barris.
10
MANDELBLATT, Bertie. Op. cit., p. 29. Em 1685, Luís XIV decretou um código especial visando
regulamentar a escravidão nas colônias francesas. O Code Noir, como ficou conhecido, mandava que cada escravo
recebesse, além de 1,2 Kg de mandioca, cerca de 900 gramas de carne salgada ou 1,4 Kg de peixe salgado por
semana, o que também contribuiu para a manutenção das importações de carne salgada. BLACKBURN, Robin.
Op. cit., p. 251-253; MANDELBLATT, Bertie. Op. cit.
61
pertenciam ao “primeiro Império Britânico”.11 Como demonstrou Truxes, uma vigorosa rede
mercantil conectava os comerciantes estabelecidos nos portos ingleses e irlandeses com os das
colônias do Caribe e da América do Norte. Em New York, Boston e Philadelphia, por exemplo,
verdadeiras comunidades de comerciantes irlandeses, ligados por vínculos parentais e religiosos
com outros grupos de mercadores estabelecidos em distintos portos, atuavam fortemente nos
negócios transatlânticos.12 Conforme Mandelblatt, qualquer grande comerciante em atividade
no Atlântico daqueles tempos conhecia a fama das carnes irlandesas. 13 Estudando os
negociantes franceses Jean e Pierre Pellet, Fernand Braudel destacou a fortuna adquirida pelos
irmãos numa rede mercantil constituída na primeira metade do setecentos e que alcançou
notável amplitude, envolvendo uma série de comissionistas e “capitães gerentes” de seus
navios. Sobre a atuação de Jean, Braudel escreveu:
A quantidade de suas relações de negócios e de seus negócios é simplesmente
espantosa: ei-lo armador, negociante, financista em certas ocasiões, proprietário
fundiário, produtor e mercador de vinhos, possuidor de rendimentos; ei-lo ligado à
Martinica, a São Domingos, a Caracas, a Cádiz, à Biscaia, a Bayonne, a Toulouse, a
Marselha, a Nantes, a Rouen, a Dieppe, a Londres, a Amsterdam, a Middelburgo, a
Hamburgo, à Irlanda (para comprar carne bovina salgada), à Bretanha (para comprar
tecido) e não digo tudo… E naturalmente aos banqueiros de Paris, de Genebra, de
Rouen.14

Passada a época de ouro da carne salgada irlandesa, outros rivais começaram a tomar os
mercados consumidores do produto. As colônias inglesas na América sempre foram as maiores
concorrentes dos irlandeses e ingressaram no mercado das carnes favorecidas pelos conflitos
políticos internos que afetaram a Irlanda após a Revolução Gloriosa (1688-1689).15 Na década
de 1720, os irlandeses perderam a posição de maiores abastecedores das antilhas inglesas
exatamente para estas colônias (muito embora não tenham deixado de ser os maiores
exportadores de carnes).16 Além da pesca, o trunfo destas colônias era a agricultura,
destacando-se o cultivo do trigo, do arroz, do milho, entre outros.17

11
TRUXES, Thomas. Op. cit.; BLACKBURN, Robin. Op. cit., p. 362.
12
Neste circuíto que envolvia o caribe inglês, as ilhas britânicas e as colônias do norte da América, era muito
comum a prática do comércio triangular, como o circuíto Boston – Cork – Jamaica – Boston. Das colônias
americanas saiam embarcações com madeiras, linhaça e rum para a Irlanda, daonde seguiam para as ilhas
caribenhas com carnes salgadas e manufaturas, direcionando-se posteriormente para Boston com mais melaço e
rum. Além deste comércio, a América do Norte também remetia trigo e farinha diretamente para o caribe inglês.
Na segunda metade do XVIII, estas exportações também atingiram Lisboa, Cadiz e outras partes do Mediterrâneo,
trazendo no retorno manufaturas européias (TUXTER, Thomas. Op. cit., p. 111-117).
13
MANDELBLATT, Bertie. Op. cit.
14
BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo: Os Jogos das Trocas. São Paulo: Martins
Fontes, 1996, p. 125-127 (grifos meus).
15
Nesta época, Pensilvânia, New York, Virgínia e Maryland passaram a exportar suas carnes para o Caribe,
quebrando assim o monopólio prático dos irlandeses (TRUXES, Thomas. Op. cit., p. 26-7).
16
No meado do século XVIII, estas colônias também começaram a exportar significativas quantias de peixe
salgado para Santo Domingo. No entanto, este mercado jogava com as oscilações e aberturas da política colonial
francesa, sem abrir mão do contínuo contrabando. Santo Domingo importava peixe salgado, legumes e grãos
62
Com o desencadear da Revolução Americana, em 1776, a Irlanda começou a perder os
privilégios que lhe beneficiavam por fazer parte do sistema comercial no interior do Império
Britânico, já que mantinha intensa e lucrativa transação mercantil com os portos da América do
Norte. Por mais que os ingleses tentassem impedir, a jovem nação estadonidense expandiu sua
rede de abastecimento para todo o Caribe e ampliou as suas exportações de alimentos para a
Europa nas décadas que sucederam a sua Independência. 18 A Revolução em Santo Domingo
interrompeu momentaneamente o mercado caribenho francês trazendo prejuízos aos
comerciantes e provocando uma queda nas exportações de carne salgada irlandesa. 19 Em 1800,
a união dos Reinos da Irlanda e da Grã-Bretanha, colocou os primeiros sob a hegemonia do
Parlamento inglês, retirando parte da sua autonomia política e econômica. No início do século
XIX, a Irlanda continuou exportando carne salgada, mas jamais recuperou os índices
setecentistas. Em 1815, por exemplo, as remessas do produto eram quatro vezes inferiores ao
que havia sido negociado na década de 1770, e em 1840, os números não chegavam a 3% do
que o país havia exportado nos anos 1780. 20 A decadência econômica da pequena ilha foi
marcada pela Grande Fome (1845-1849) que ceifou cerca de 1,5 milhões de vidas. Apesar
disso, o “legado” irlandês na economia atlântica havia fincado raízes…

2.1 O SEGREDO DAS CARNES: ESPECIALISTAS E ESTRANGEIROS NAS PRIMEIRAS


FÁBRICAS DO EXTREMO SUL DA AMÉRICA

Conforme Mandelblatt, as fábricas irlandesas combinavam especialização da mão de


obra, baixos salários e técnicas avançadas de processamento, permitindo a mais eficiente
produção de carnes de sua época.21 O resultado disto foi que os irlandeses não legaram apenas
um modelo fabril e mercantil das carnes para o mundo atlântico, como também deixaram um
exemplo de que era possível obter grandes lucros alimentando escravos e marinheiros. As
muitas décadas de exportação de sal para a Irlanda e importação de carne salgada para abastecer

americanos, exportando rum, melaço e outros produtos tropicais (TREUDLEY, Mary. The United States and Santo
Domingo (1789-1866). The Journal of Race Development, v. 7, n. 1, jul., 1916, p. 83-145).
17
BLACKBURN, Robin. Op. cit., p. 559-563.
18
Conforme Gary Walton, o papel abastecedor das colônias no norte da América já era notável mesmo antes da
Independência. Entre os anos 1760 e 1770, elas já exportavam grandes quantias de carnes salgadas (bovina e
suína), milho, farinha e trigo para o Caribe e o Sul da Europa. (WALTON, Gary M. The economic rise of early
America. Cambridge University Press, 1979, p. 81-82; 193).
19
MANDELBLATT, Bertie. Op. cit., p. 20.
20
IOMAIRE, Máirtín Mac Con; GALLAGHER, Pádraic Óg. Op. cit.
21
Observador perspicaz, o ministro Colbert tentou imitar o sucesso dos fabricantes irlandeses patrocinando a
formação de um complexo fabril de carne salgada na própria França. No entanto, devido às guerras, aos grandes
custos de produção, aos tributos sobre o sal e à concorrência irlandesa, Colbert deu-se por vencido e abriu de vez o
comércio dos portos franceses às carnes irlandesas (MANDELBLATT, Bertie. Op. cit., p. 25-30).
63
as suas tripulações marítimas aproximou bastante os comerciantes portugueses e espanhóis do
circuíto mercantil intra-europeu do qual os irlandeses faziam parte.22 Os comerciantes ibero-
americanos nunca estiveram indiferentes às rotas atlânticas das carnes. Portanto, durante o
colonial tardio, foi comum comerciantes luso-brasileiros e hispano-platinos interessados nos
negócios com as carnes fazerem referência aos irlandeses.

O modelo de fabricação irlandês constituia-se em preparar as carnes e conservá-las


salgadas em barris de madeira com salmoura.23 Nesta época, este tipo de carne era o produto
preferido para o abastecimento das tripulações navais. Neste sentido, as Coroas ibéricas, que
importavam as mesmas dos irlandeses, pareciam incentivar mais a sua manufatura do que a do
charque, o que motivou comerciantes ibero-americanos a propor o abastecimento das Armadas
lusitanas e espanholas com este tipo de carne. Em 1789, por exemplo, três comerciantes
portugueses requisitaram ao Conselho Ultramarino enviar para o Rio Grande do Sul seus navios
com “o sal necessário para a salga das carnes e dos couros”, argumentando que o território era
muito próprio para “fazer carnes de moura para o serviço da Marinha, e à imitação das da
Irlanda, e tirar o sebo apurado e necessário a usos domésticos”. Contudo, suas propostas eram
ainda mais ousadas e previam remeter para o Rio Grande escravos da costa da África e
Moçambique e réus condenados que tivessem como ofício a tanoaria e a carpintaria (para serem
empregados nas fábricas na manufatura dos barris), estimular a criação de carneiros (para a
produção da lã) e porcos (para a fabricação de toucinho), plantar pinhos e carvalhos, “a
exemplo do que fizeram os ingleses em Filadélfia e Nova York”, e instalar uma fábrica de
solas, para aproveitar os couros das charqueadas, além de outros planos. 24

Com exceção da entrada de cativos africanos para o Rio Grande do Sul, os demais
objetivos não vingaram. A produção de carnes salgadas em barris nesta capitania, embora tenha
rendido seus lucros para alguns fabricantes, nunca atingiu índices semelhantes aos das
exportação de charque. No início dos negócios das charqueadas sulinas não foram raras as
reclamações a respeito da qualidade da carne em barris ali produzida. Em setembro de 1789,
por exemplo, alguns comerciantes reinóis disseram que as carnes salgadas trazidas do Rio

22
Ver, por exemplo, os destinos das exportações de carnes irlandesas ao longo do século XVIII. Por diversos anos,
Espanha e Portugal foram a terceira maior compradora atrás do Caribe inglês e francês que, somados, sempre
ocupavam mais da metade das remessas (TRUXES, Thomas. Op. cit., p. 262-263).
23
Segundo Alfredo Montoya, as carnes cortadas permaneciam numa tina com salmoura por cerca de um mês, para
depois serem colocadas em barris com camadas alternadas de sal (MONTOYA, Alfredo. Historia de los saladeros
argentinos. Buenos Aires: Ed. Raigal, 1956, p. 25-26). Segundo Anibal Barrios Pintos, no Uruguai, cada barril
suportava 4 arrobas (cerca de 60 kg) de carne (PINTOS, Anibal Barrios. Historia de la ganedería en el Uruguay
(1574-1971). Montevidéu: Biblioteca Nacional, 1973, p. 148). Mandelblatt, por sua vez, considerou que cada
barril, na Irlanda do século XVIII, carregava cerca de 90 kg (MANDELBLATT, Bertie. Op. cit., p. 20).
24
Requerimento de 30.09.1789, AHU-ACL-CU-019, Cx. 3, Doc. 237 e 238 (Projeto Resgate).
64
Grande por Manoel Pinto da Silva não estavam em perfeito estado e que, em Lisboa, ninguém
as queria comprar. Os mesmos acrescentavam que a culpa não era das carnes e sim dos métodos
usados pelos fabricantes.25 Anos mais tarde, o capitão de um outro navio ordenou que a
tripulação jogasse uma carga inteira de carne salgada em alto mar por ela haver se
deteriorado.26 No início do século XIX, o Governador da Capitania ainda se ressentia do
insucesso das carnes em barris e o Vice-Rei compartilhou com ele os mesmos anseios:

É certo que a primeira amostra da tentativa que se fez das carnes salgadas não
correspondeu aos bons desejos que tanto eu como V. Ex.ª teríamos de ver o feliz êxito
de tão eficazes diligências (…), mas além do que com o tempo e com trabalho que
promete para o futuro grandes lucros é que se [aperfeiçoe] semelhantes fábricas. Penso
que a assistência desses homens que vieram do Reino para instruírem sobre o modo de
fazer as salgas, ter-se-á adquirido outro melhor conhecimento e mais seguro método; e
por [consequência], pôr em giro o comércio das carnes, ainda que por ora, se aplique
toda a que se puder beneficiar para o consumo da Esquadra, enquanto aquele não tem
maior extensão.27

Observe-se que o Conde de Resende não apenas tinha esperanças de abastecer a


Marinha lusitana, como também colocar no mercado o excedente das carnes salgadas
produzidas no Rio Grande. Para que os negócios deslanchassem, os administradores entendiam
que era necessário a presença de fabricantes mais instruídos naquele ramo. A participação de
experts na fabricação das carnes era encarada como algo fundamental para o sucesso tanto nas
charqueadas pelotenses, como entre os saladeros platinos do período. No entanto, quem seriam
estes experts? Numa outra missiva remetida pelos comerciantes portugueses mencionados
anteriormente, os mesmos se obrigavam a: “fazer as carnes de moura à imitação da Irlanda, o
que é facílimo assim que haja Mestre, e ainda sem ele, haverá portugueses que a tem feito no
ardente clima da Nossa América, e que vão à Índia e voltam à Lisboa”.28

De fato, já existiam portugueses fabricando pequenas quantias de carnes em barris no


próprio Rio Grande do Sul e, igualmente, na Ilha de Marajó, como enfatizei no capítulo
anterior. Mas o mais interessante, conforme o trecho grifado acima, é que estes especialistas
portugueses pareciam ser a segunda opção diante dos indivíduos desejáveis para ocupar a
função de “mestre” de salga. Os experts com maior reputação neste ramo de negócios eram os
irlandeses e os ingleses. Em agosto de 1801, o Visconde de Anadia recebeu um ofício relatando
que o comerciante João Rodrigues Pereira de Almeida enviara para Lisboa uma segunda

25
Requerimento de 30.09.1789, AHU-ACL-CU-019, Cx. 3, Doc. 237 (Projeto Resgate).
26
Carta do Conde de Resende para o Governador da Capitania do RS (20.11.1800) apud MONQUELAT, A. F.;
MARCOLLA, V. Charque, charqueadas e charqueadores no primeiro período (1780-1800). Pelotas, Diário da
Manhã, 23.08.2010.
27
Conde de Resende para o Governador da Capitania do RS apud MONQUELAT, A. F.; MARCOLLA, V. Op.
cit.
28
Requerimento de 30.09.1789, AHU-ACL-CU-019, Cx. 3, Doc. 238 (Projeto Resgate).
65
amostra de carnes em barris “o qual encarregou da dita salga, a dois irlandeses que daqui
mandou ir”, com o objetivo de prover o Arsenal Real da Marinha. 29 Pereira de Almeida, que era
um dos mais ricos comerciantes de grosso trato do Rio de Janeiro, havia construído uma fábrica
de salgar carnes no Rio Grande do Sul. Anos antes, ele socilitou instrumentos de trabalho para
os irlandeses João Seechy (mestre), Pedro O’Donnel (salgador) e Diogo Sheehy (curtidor).30
Em 1805, Pereira de Almeida, oferecendo-se para abastecer a Marinha lusa, propôs um contrato
de fornecimento de barris de carne, “cuja salga é feita por mestres irlandeses que ali tem, e
como a de Irlanda da melhor qualidade”. 31 Em 1808, Pereira de Almeida ainda possuía a sua
fábrica de carnes na capitania sul-rio-grandense. Conforme o relato de um contemporâneo sobre
o seu “grande e interessante estabelecimento”, ele possuía “grandes ordenados e despesas”, pois
mandara “vir a sua custa mestres da Irlanda”. 32

Tal exigência não se tratava de uma singularidade luso-brasileira. Entre os hispano-


americanos, a escolha de mestres irlandeses e ingleses para operacionalizarem a produção das
carnes salgadas nos primeiros anos também foi marcante. Além do conhecimento técnico que
possuíam, a preferência da Marinha européia pelas carnes irlandesas os credenciavam para esta
atividade. O saladeirista Francisco de Medina teria sido o primeiro a conseguir realizar tais
técnicas com perfeição, “através da instalação de um laboratório montado no estabelecimento,
dirigido por técnicos irlandeses”.33 O desafio em acertar o ponto correto do preparo das carnes,
seu sabor e a resistência à deterioração era tão difícil que o Vice-Rei Nicolás de Arredondo
comemorou com entusiasmo tal feito.34 O ânimo deve ter tomado conta de muita gente e a
notícia se espalhado rapidamente. Em 1794, entre os pedidos dos fabricantes de Buenos Aires e
Montevidéu a um ministro espanhol para que a indústria saladeril obtivesse êxito, estavam,

29
Requerimento de 07.08.1801, AHU-ACL-CU-019, Cx. 5, Doc. 394 (Projeto Resgate).
30
GUTIERREZ, Ester J. B. Negros, charqueadas & olarias: um estudo sobre o espaço pelotense. Pelotas: UFPel,
2001, p. 121.
31
Requerimento de 23.10.1805, AHU-ACL-CU-019, Cx. 10, Doc. 605. Pereira de Almeida recebeu parecer
negativo pois o período de 9 anos de contrato foi considerado muito arriscado. Os pareceristas argumentaram que
era possível conseguir carne irlandesa de melhor qualidade por um preço mais em conta. Nesta época, conforme os
pareceritas, além da Irlanda, Portugal também recebia carnes salgadas da “América” e da Dinamarca.
32
MAGALHÃES, Manoel Antônio de. Almanack da Vila de Porto Alegre. In: FREITAS, Décio. O capitalismo
pastoril. Porto Alegre, Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, 1980, p. 88. Interessante observar
como um negociante de grosso trato do Rio investiu capitais no sul da América com claros fins de obter lucros
mercantis, ao contrário, por exemplo, de outros comerciantes que tornaram-se senhores de engenho e de grandes
escravarias buscando uma atividade agrária com fins não apenas econômicos, mas, também, motivados por
critérios de status social e poder local (FRAGOSO, João L. R.. Homensde grossa aventura – Acumulação e
hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998).
33
MONQUELAT, A. F. Desfazendo mitos (notas à história do Continente de São Pedro). Pelotas: Ed. Livraria
Mundial, 2012, p. 80.
34
Para Nicolás, Medina “havia descoberto o segredo e as carnes rioplatenses venceram o mito de suas condições
inferiores, pois jamais haviam obtido antes a cor e a consistência das do norte”. O segredo, segundo ele, nada mais
era do que “la salmuera del barril com una corta dosis de sal nitro” (MONQUELAT, A. F. Op. cit., p. 80).
66
primeiramente, “hacer venir de Irlanda de 80 a 100 maestros en salar carnes” e “fundar una
Compañía Marítima que tuviera a su cargo el transporte de los barriles a la península”.35
Quando não era possível trazer irlandeses ou ingleses, os investidores mais exigentes aceitavam
os ibéricos, desde que fossem talentosos nesta atividade. Em 1778, por exemplo, o projeto de
implantação de uma fábrica de carnes salgadas enviado à Coroa espanhola pelo Cabildo de
Buenos Aires solicitava que viessem da Espanha vários toneleros e quatro sujeitos inteligentes
que conhecessem das carnes salgadas.36 Portanto, o know-how trazido por estes indivíduos foi
de extrema importância no início desta fase empresarial. Nos anos 1780, por exemplo, Miguel
Ryan, espanhol de ascendência irlandesa, instalou-se na Banda Oriental trazendo antiga
experiência com salga de carnes no Chile. 37

Portanto, desde os primeiros anos de funcionamento dos saladeros no Rio da Prata, os


ingleses e irlandeses estiveram presentes tanto entre os experts do setor produtivo, quanto nos
setores mais subalternos das fábricas. E, igualmente, desde os anos 1780, os saladeros
exportaram quantidades significativas de carnes em barris. 38 Em 1781, Manuel Melian, um dos
primeiros empresários a instalar-se no Prata, remeteu para Cadiz cerca de 136 barris em dois
navios. Em 1785, o catalão Juan Ros remeteu 202 barris do produto para Cuba.39 Outros
seguiram o mesmo exemplo e Montevidéu continuou atraindo comerciantes e investidores nos
anos 1780. Da primeira geração de saladeiristas orientais destacaram-se o mencionado
Francisco de Medina e também Francisco Maciel. O primeiro deles teria fundado seu
estabelecimento em 1780, mantendo uma produção anual de 8 mil quintais de carne salgada
(cerca de 360 toneladas).40 Quando faleceu, Medina possuía um grande patrimônio, onde se
destacavam uma estância com 25 mil cabeças de gado e 6 embarcações empregadas tanto no
carregamento de sal, quanto na exportação de carnes e couros para a Europa.41 Em 1788,
Maciel (que era assentista de víveres da Real Armada em Montevidéu), estabeleceu uma fábrica

35
MONTOYA, Alfredo. Op. cit., p. 29-30.
36
MONTOYA, Alfredo. Op. cit.
37
MONQUELAT, A. F. Senhores da carne: charqueadores, saladeristas y esclavistas. Pelotas: Ed.
Universitária/UFPel, 2010. Contudo, na fase inicial desta indústria, além da mão de obra e da orientação técnica
qualificada também havia outros problemas. Conforme Aníbal Pintos, a ausência de toneleros constituía-se num
obstáculo para a ampliação dos negócios. No fim do século XVIII, só existiam 8 destes especialistas em
Montevidéu e os mesmos não davam conta da demanda por barris. A solução, segundo o autor, foi agregar com
frequência cerca de 5 ou 6 ingleses que haviam chegado no Prata para caçar baleias e que conheciam das técnicas
irlandesas (PINTOS, Anibal B. Op. cit., p. 150).
38
Na realidade, como demonstrou Montoya, estas carnes pareciam estar sendo exportadas desde o século XVII,
mas em quantidades muito pequenas, ainda em caráter experimental e com grandes intervalos de tempo
(MONTOYA, Alfredo. Op. cit.).
39
PINTOS, Anibal B. Op. cit., p. 147-148.
40
CASTELLANOS, Alfredo. Breve historia de la ganadería en el Uruguay. Montevidéu: Banco de Crédito, 1971,
p. 31. Medina teria investido também na pesca da baleia, em 1784.
41
MONTOYA, Alfredo. Op. cit., p. 25.
67
de carnes salgadas, tasajo e sebo, tornando-se um dos mais ricos saladeiristas da região. O
sucesso de ambos motivou o estabelecimento de outros empresários. Em 1801, havia cerca de
30 saladeros na parte oriental do Rio da Prata, abatendo anualmente 120 mil reses e
empregando mais de 1.000 trabalhadores – livres e escravos – em suas fábricas.42

Contudo, ao contrário de Montevidéu, a região de Buenos Aires teve seus primeiros


saladeros somente a partir da década de 1810. 43 Uma das explicações para este investimento
tardio pode ser dada pelo fato de que os comerciantes portenhos lucravam muito com as
exportações de couro e prata, os desviando de um maior interesse em investir seus capitais em
fábricas de carne salgada. A independência do Vice-Reinado do Rio da Prata e a consequente
ruptura das rotas mercantis terrestres com a Bolívia e o Peru, cessaram o fluxo de metais para a
região, possibilitando as inversões nas fábricas de carne.44 Além disso, o Movimento de Maio
de 1810 e a Junta governativa que lhe sucedeu favoreceram a indústria com uma série de
medidas. Um grupo de comerciantes e estancieiros que acompanhou o processo de
Independência logrou franquias mercantis e tornou-se líder nos negócios com a carne
buenairense. Entre eles estava Juan Manuel de Rosas, que viria a ser governador da Província
de Buenos Aires. Conforme Horacio Giberti, Rosas não encontrou dificuldades para reunir
outros sócios capitalistas e formar a Rosas, Terrero y Cia., cujo primeiro saladero começou a
funcionar em 1815. A influência que exercia em setores governamentais estratégicos e seus
laços de parentesco o favoreceram bastante neste ramo de atividades.45

Além de Rosas e Dorrego, entre os primeiros saladeristas instalados naquelas terras


estavam os ingleses R. Staples e J. Mac Neil, que ergueram sua fábrica no ano de 1812.
Investindo um grande montante de capital, eles possuíam 60 trabalhadores assalariados, sendo 8
toneleros, 2 carpinteiros e 4 peões trazidos especialmente da Europa. Quase que
instantaneamente ao advento desta fábrica, muitos outros montaram seus saladeros na região,
chegando a 14 estabelecimentos estreitamente vinculados, de agrado ou por força, à firma de
Rosas, que liderava os empreendimentos regionais.46 Anos depois, seu número aumentou. Entre
1822 e 1825 existiam 20 saladeros ao redor de Buenos Aires. 47 Analisando-os conjuntamente
com os saladeiristas de Montevidéu, percebe-se que além de hispano-platinos, que formavam a
42
MONTOYA, Alfredo. Op. cit., p. 31.
43
Idem.
44
SOCOLOW, Susan M. Economic Activities of the Porteño Merchants: the Viceregal Period. The Hispanic
American Historical Review, v. 55, n. 1, Feb. 1975, p. 1-24; ROSAL, Miguel A.; SCHMIT, Roberto. Del
Reformismo colonial Borbónico al librecomercio: las exportaciones pecuárias del Río de La Plata (1768-1854).
Boletín del Instituto de Historia Argentina y Americana. N. 20, 2º sem., 1999, p. 69-109.
45
GIBERTI, Horacio. Historia Económica de la ganadería argentina. Buenos Aires: Solar, 1981.
46
GIBERTI, Horacio. Op. cit., p. 84-85. Staples também foi cônsul britânico em Buenos Aires (1812-1818).
47
MONTOYA, Alfredo. Op. cit., p. 39.
68
maioria, alguns deles vinham da Espanha e que outra parte significativa era formada por
indivíduos com sobrenomes ingleses e franceses. 48 Isto revela que quando não vinham para
trabalhar como mestres, tanoeiros ou assalariados, os imigrantes europeus arriscavam-se a
montar uma fábrica nas margens do Prata, com capitais parcialmente reunidos no exterior.

Os saladeros platinos fabricavam tanto o charque (chamado pelos mesmos de tasajo)


quando a carne salgada. Contudo, muitas vezes os dados sobre exportação não separavam
ambos os produtos, quando se sabe que grandes remessas de tasajo e carne salgada eram
negociadas numa mesma safra.49 Mas a partir de dados coletados por Alfredo Montoya, sabe-se
que em 1798, 1799 e 1800, Montevidéu exportou 24.100, 16.254 e 27.794 barris de carne,
respectivamente.50 Trata-se de um alto índice de remessas para uma indústria em sua fase
inicial. O Rio Grande do Sul, por exemplo, não chegou nem perto disso. Nos 16 anos entre
1805 a 1820, a capitania sulina exportou 43.499 barris de carne, ou seja, uma média de 2.718
por ano – bem menos que as exportações orientais no final do século XVIII.51

A pouca representatividade do Rio Grande do Sul nos investimentos em carnes em


barris pode ser explicada por dois motivos. Primeiramente, os proprietários e os trabalhadores
ingleses e irlandeses, especialistas ou não, não estiveram muito presentes nas charqueadas de
Pelotas. Não é possível saber se esta relativa ausência foi fruto de seu desinteresse pela região,
se era consequência de uma política luso-brasileira mais restritiva antes da abertura dos portos
(1808) se comparada à Montevidéu ou se os próprios charqueadores pelotenses não os queriam
por perto. Mais adiante, demonstrarei que especialistas estrangeiros não estiveram ausentes nas
charqueadas, mas, sem dúvida, sua maior presença nos saladeros platinos favoreceu a maior
invergadura de investimentos que aqueles países conheceram ao longo do oitocentos.

Contudo, um outro motivo isenta os charqueadores pelotenses do seu desinteresse pelas


carnes em barris. Eles estavam inseridos principalmente em redes mercantis luso-brasileiras,
que facilitavam os seus negócios com regiões de antigo consumo de carne-seca, como os
escravos do nordeste açucareiro, por exemplo. O charque possuía dentro da própria América
portuguesa um vigoroso e promissor mercado consumidor, pronto a gerar bons lucros. Além

48
Anibal Pintos faz referência a vários deles: Stanley Black & Cia, Tomas Tomkinson, Henrique Jones, Pablo
Duplessis, Buther & Martin, Juan Jackson, Hipólito Doinnel, Juan Hall e o Sr. Young, entre outros (PINTOS,
Anibal Barrios. Montevideo: Los Barrios (I). Montevideo: Ed. Nuestra Tierra, 1971).
49
ROSAL, Miguel; SCHMIT, Roberto. Op. cit.
50
MONTOYA, Alfredo. Op. cit.
51
CHAVES, Antônio José Gonçalves. Memórias ecônomo-políticas sobre a administração pública do Brasil.
Porto Alegre, Cia. União de Seguros Gerais, 1978, p. 116-118; 134-141. Em 1808, Antônio de Magalhães disse
que existiam somente duas fábricas no Rio Grande que fabricavam barris de carne salgada, exportando 3 mil deles
por ano (MAGALHÃES, Antônio. Op. cit., p. 88).
69
disso, conforme Andrew Sluyter, o charque tinha algumas vantagens sobre as carnes em barris.
Sua prepação era mais simples, ele ocupava bem menos espaço nos navios, podia ser colocado
em qualquer canto dos porões e não passava por uma rigorosa vistoria, como as carnes salgadas
remetidas para as Armadas.52 Portanto, acredito que as poucas quantidades de carnes em barris
exportadas pelo Rio Grande do Sul também foram resultado de uma escolha dos comerciantes
envolvidos em uma rede mercantil cujo objetivo era abastecer a escravaria das plantations e não
as Armadas europeias (algo que fugia, em parte, dos planos da Coroa lusa). Neste sentido,
apesar das dificuldades em acertar o “ponto” das carnes em barris, as poucas remessas rio-
grandenses não se tratavam apenas da sua incapacidade técnica. Nas palavras de um próprio
charqueador de Pelotas, escritas entre 1817 e 1822, isto fica claro: “a carne salgada em barris é,
sim, toda ela fabricada em Porto Alegre: no Rio Grande [o que incluía Pelotas] não se fabrica
carne em barris, ainda que se podia fabricar quanta se quisesse”. 53

Portanto, no Império português a produção de carne salgada era mais para suprir uma
demanda estimulada pelo Reino, que queria substituir as compras das carnes irlandesas para a
Marinha lusitana, do que um investimento destinado a outros mercados consumidores.54 Não
era comum pensar nas carnes em barris para alimentar os escravos das plantations luso-
brasileiras, por exemplo. Além disso, a produção das carnes salgadas também era estimulada
por autoridades estrangeiras que mantinham contato com os burocratas portugueses. Nos anos
1790, Donald Campbell, oficial britânico encarregado do comando de uma Esquadra na
América, recomendou à Armada portuguesa que empregasse outros métodos para salgar as suas
carnes, pois utilizando meios muito primitivos, elas não estavam sendo satisfatórias no
abastecimento da tripulação lusa. 55 É provável que Campbell preferisse as carnes em barris ao
invés das mantas de charque. Esta também foi a queixa do Governador do Pará, quando buscou
estimular a fabricação de carnes salgadas na Ilha de Marajó, pois estas eram muito mais
higiênicas e saborosas do que as carnes secas que lá se fabricavam e que colocavam em risco a

52
Conforme Sluyter, o produto final tinha várias características vantajosas em relação a outras formas de carne
conservadas. A maior secura do charque com relação à carne salgada reduziu tanto o peso e o volume a menores
custos de transporte. A maior secura também permitiu o carregamento a granel em porões de navios e a
preservação do produto para muitos meses após a sua fabricação, mesmo em climas tropicais (SLUYTER,
Andrew. The Hispanic Atlantic’s Tasajo Trail. Latin American Research Review, v. 45, n. 1, 2010, p. 106).
53
CHAVES, Antônio J. Gonçalves. Op. cit., p. 141. Portanto, toda a carne em barris exportado pelo Rio Grande do
Sul era fabricada pelos estabelecimentos do vale do Jacuí e de Porto Alegre e não pelos de Pelotas.
54
Em 1778, um funcionário da Coroa portuguesa recomendou a produção das “carnes salgadas que devem ser
exportadas a este reino em lugar das que vem da Irlanda”, e o cultivo do linho cânhamo, que substituiria as
importações da Rússia (GUTIERREZ, Ester. Op. cit., 53).
55
XAVIER, Paulo. Salgas de carne. In: Correio do Povo. Porto alegre, edição de 15.03.1974, p. 9.
70
saúde da população consumidora.56 Portanto, nos diferentes “projetos” relativos à fabricação de
carnes no Rio Grande do Sul, o charque acabou vencendo a carne salgada.

No Império espanhol aconteceu algo semelhante. Apesar da significativa produção de


tabaco e açúcar em Cuba, suas plantations, no meado do setecentos, eram bastante prejudicadas
pelo alto preço dos escravos importados e pela restrição dos mercados, visto que a Espanha não
tinha acesso direto ao tráfico atlântico e restringia bastante o comércio de sua colônia
caribenha. Na década de 1780, Cuba possuía “uma classe de aspirantes a proprietários de
plantations ansiosa para imitar o sucesso das colônias açucareiras das outras potências. Tudo o
que precisava era acesso fácil aos escravos e aos mercados”. Em 1787, a livre entrada de
escravos foi permitida pela primeira vez e com a Revolta em Santo Domingo, a ilha espanhola
importou milhares de cativos e multiplicou a sua produção açucareira. Se em 1787 as
exportações atingiram 10 mil toneladas (o dobro da quantidade exportada em 1760), em 1802
este índice saltou para 40 mil toneladas. Na virada do século, mais de mil navios de diversas
bandeiras iam anualmente a Cuba. As autoridades coloniais “deram toda ajuda à expansão das
plantations, ignorando, quando necessário, a legislação ou as instruções da metrópole”.
Comerciantes coloniais, atuando em parceria com norte-americanos, fretavam inúmeras
embarcações. Se antes de 1789, Cuba teria importado 100 mil escravos, entre 1790 e 1821, este
número aumentou para 240 mil cativos africanos. 57

O aumento das exportações de Montevidéu e Buenos Aires também foi estimulado por
uma série de medidas políticas tomadas pelos Bourbons. Em 1776, a Coroa decretou o livre
comércio dos portos espanhóis com Buenos Aires, substituindo o exclusivismo de Cadiz. Em
1777, foi criado o Vice-Reinado do Rio da Prata, oferecendo uma maior autonomia
administrativa à região. Como resultado destas medidas, o comércio portenho dinamizou-se e
uma poderosa classe de negociantes marítimos constituiu-se a partir destas trocas.58 Entretanto,
conforme Montoya, o objetivo inicial dos saladeiristas não era fabricar o tasajo. Por atenderem
os anseios vindos de Madrid, muitos deles queriam produzir as carnes irlandesas para a
Marinha espanhola.59 No entanto, diante do boom açucareiro em Cuba e o crescimento daquele
mercado provocado pela entrada de milhares de escravos, a ampliação da fabricação do tasajo

56
Ofício de Francisco de Souza Coutinho a Martinho de Melo e Castro (Pará, 11.10.1792). Coleção Carvalho,
Seção Manuscritos, Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
57
BLACKBURN, Robin. Op. cit., p. 602-604.
58
SOCOLOW, Susan. Op. cit.
59
MONTOYA, Alfredo. Op. cit.
71
foi tentadora e a carne salgada foi lentamente sendo substuída por este (produto mais simples),
cujas remessas se multiplicaram ao longo do oitocentos.60

O comércio de ambos os produtos parecia ser lucrativo. Contudo, o tipo de carne


preparada dependia muito dos interesses e das possibilidades dos fabricantes, da rede mercantil
em que os mesmos estavam inseridos, dos estímulos governamentais, das conjunturas
econômicas, da qualidade da demanda e foi um empreendimento cada vez mais liderado por
particulares que expressavam as capacidades de inversão das elites coloniais neste ramo de
negócios. Um dos motivos pelo qual a produção de carnes salgadas em barris vingou mais entre
os platinos do que entre os rio-grandenses (além do pouco interesse dos charqueadores
pelotenses em fábricar tais produtos) foi a notável presença de técnicos irlandeses e ingleses
entre os saladeros (desde a sua formação) e a influência e conhecimento que os mesmos
detinham no ramo. Além do mais, a população caribenha estava mais acostumada ao consumo
das carnes em barris (por herança das carnes irlandesas) do que a América portuguesa – que já
vinha, em parte, sendo abastecida pela carne-seca nordestina (e cujas técnicas de fabricação já
eram conhecidas pelos colonos e indígenas mesmo antes do setecentos).61 Todo este
intercâmbio de homens e ideias foi favorecido pela conjuntura política e econômica que marcou
o Império espanhol durante o governo dos Bourbons. Esta interação social não deixou de
envolver os luso-brasileiros, notadamente os seus traficantes, conformando um mesmo processo
de desenvolvimento fabril no sul da América, que pode ser lido como um fenômeno construído
pelas redes intra e trans-imperiais, como pretendo demonstrar a seguir.

2.2 A FORMAÇÃO DOS COMPLEXOS FABRIS PLATINOS E PELOTENSE A PARTIR


DAS REDES INTRA-IMPERIAIS E TRANS-IMPERIAIS

Autoridades coloniais ilustradas de um lado, comerciantes, proprietários e investidores


particulares de outro. A conjuntura econômica e política da época favorecia para que as redes
mercantis imperiais, das quais os mesmos faziam parte, se ampliassem durante o colonial
tardio. No entanto, como muitos agentes ligados à política e à economia coloniais circulavam
pelo Atlântico de forma bastante intensa, não é possível pensar na formação dos complexos
fabris platinos e rio-grandenses como um produto da colonização sob a exclusiva direção de
uma só Coroa, seja a espanhola, seja a portuguesa. Todo o processo foi marcado por um notável

60
SLUYTER, Andrew. Op. cit.
61
MARQUES, Alvarino da Fontoura. Episódios do Ciclo do Charque. Porto Alegre: Edigal, 1987; ROLIM,
Leonardo. “Tempo das carnes”: no Siará Grande: dinâmica social, produção e comércio de carnes secas na Vila
de Santa Cruz do Aracati (c. 1690 – c. 1802). Dissertação de Mestrado, UFPB, 2012.
72
protagonismo das elites coloniais e por uma intensa negociação destas com as Coroas ibéricas,
além da participação de comerciantes europeus de fala inglesa e francesa, que interagiam
profundamente num emaranhado de relações sociais e econômicas com os mesmos. 62

Estudando os processos de formação de identidades regionais em Montevidéu durante o


colonial tardio, Fabrício Prado deparou-se com diferentes interesses e práticas sociais
compartilhadas pelas suas elites. Os indivíduos pertencentes a este estrato superior estavam
inseridos não apenas em uma ampla rede de relações sociais que envolviam outros agentes
hispano-americanos (redes intra-imperiais), mas como também em redes de relações que os
conectavam com indivíduos e famílias luso-brasileiras e anglo-francesas (redes trans-imperiais).
Conforme Prado, embora o contato entre os indivíduos dos dois impérios ibéricos fosse
restringido, duradouros vínculos familiares e mercantis os uníam. Um dos fatores que
favoreceram a amplitude destas relações foi a permanência de um grande número de
portugueses em Buenos Aires, na Banda Oriental, mas, sobretudo, em Montevidéu, mesmo
após a sua expulsão da Colônia do Sacramento.63

Comparando censos do período colonial tardio, Prado percebeu que Montevidéu era
mais aberta à participação de luso-brasileiros e comerciantes britânicos nos seus negócios do
que Buenos Aires. 64 Portanto, mesmo que esta última cidade apresentasse uma notável presença
de luso-brasileiros em seu território 65, Montevidéu constituiu-se na principal zona de interação
trans-imperial do conesul americano. Uma zona de interação, segundo Prado, era uma região
colonial madura onde as elites eram formadas principalmente por europeus ou os seus
descendentes, e os mesmos interagiam profundamente com agentes de diferentes origens
geográficas e imperiais. Na zona de interação, os indivíduos confrontavam-se com as diferenças
do “outro”, ao mesmo tempo em que compartilhavam dos seus valores, códigos culturais e
visões de mundo. Neste contexto, os estrangeiros ou agentes imperias que se casavam com as
mulheres locais, criavam raízes e estabeleciam-se na região, transmitindo códigos

62
Ver, por exemplo, PRADO, Fabrício. In the shadows of empires: trans-imperial networks and colonial identity
in Bourbon Río de la Plata. Diss. (Ph.D.) - Emory University, 2009; MOUTOUKIAS, Zacarias. Redes Personales
y Autoridad Colonial. Annales. Histoire, Sciences Sociales. Paris, mai-juin, 1992; FRAGOSO, João; BICALHO,
Maria Fernanda; GOUVÊA, Maria de Fátima (Orgs). O Antigo Regime nos Trópicos: a dinâmica imperial
portuguesa. (séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
63
PRADO, Fabrício. Op. cit.
64
Conforme Prado, entre os anos de 1781 e 1786, 74 navios portugueses aportaram em Montevidéu, sendo que 43
destes declararam seu destino para outros portos portugueses no Rio Grande do Sul ou em Santa Catarina no
momento da partida. Entre os capitães que faziam essa rota frequentemente estavam pilotos portugueses
encarregados de navios portugueses e espanhóis (PRADO, Fabrício. Op. cit.).
65
TEJERINA, Marcela. Luso-brasileños en el Buenos Aires Virreinal: trabajo, negocios e intereses en la plaza
naviera y comercial. Bahía Blanca: Ediuns, 2004.
73
comportamentais exteriores, contribuíndo para que os nativos compartilhassem do vocabulário
social imperial. 66

Neste sentido, as redes de interação trans-imperiais teriam moldado o processo de


formação sócioeconômico da Banda Oriental no final do período colonial. 67 Acrescento às
ideias de Prado, a de que as mesmas redes foram fundamentais para a formação do complexo
saladeril platino e favoreceram um maior desenvolvimento das charqueadas pelotenses no
período, tanto por estimular a competição entre ambas as regiões, quanto por propiciar uma
maior troca de informações e experiências por meio dos múltiplos agentes que circulavam pelos
seus portos marítimos. As redes transacionavam favores, informações, influências e
conhecimentos técnicos, num fluxo não apenas da metrópole para a colônia, como também no
seu percurso inverso, além de apresentarem relações tranversais entre as próprias colônias
atlânticas ou destas com comerciantes de outras nacionalidades européias.

Além das condições políticas e econômicas apontadas até aqui, os complexos fabris
platinos e pelotense também compartilhavam de outros fatores estruturais. Primeiramente,
ambos não tinham grandes concorrentes no Atlântico Sul para além deles próprios. A disputa
entre estes dois pólos fabris marcou todo o século XIX, com os pelotenses frequentemente
queixando-se da “desleal” concorrência e da falta de proteção das autoridades políticas luso-
brasileiras. Além disso, tanto na capitania do Rio Grande de São Pedro, quanto no Vice-
Reinado do Prata, as terras, o gado e a mão de obra constituíam-se em mercadorias bastante
acessíveis. Horacio Giberti acrescentou mais outros dois fatores: os mercados consumidores de
tasajo (da época) eram seguros e tinham possibilidade clara de ampliação e, no caso dos
platinos, o sal importado da Patagônia possuía um preço bastante atrativo.68

Não há um dos fatores acima apontados em que os fabricantes luso-brasileiros e os


hispano-platinos não tenham disputado terreno. O mais paradoxal, no entanto, é que os platinos
precisavam dos traficantes luso-brasileiros para incorporar mais mão de obra africana em seus
saladeros e em suas estâncias, o que irritava profundamente os charqueadores e comerciantes
rio-grandenses. 69 Suas reclamações com relação a isto já eram correntes desde os anos 1790.

66
PRADO, Fabrício. Op. cit.
67
Idem.
68
GIBERTI, Horacio. Op. cit., p. 83-84. Giberti estava correto no que diz respeito ao colonial tardio, uma vez
quem na segunda metade do oitocentos, um dos grande problemas dessa indústria foi a ausência de mercados
consumidores para além de Cuba e o Brasil.
69
Esta questão foi tratada por Gabriel Aladren que analisou a forma como as guerras estiveram relacionadas à
escravidão na fronteira aqui estudada (ALADREN, Gabriel. Sem respeitar fé nem tratados: escravidão e Guerra
na formação histórica da fronteira sul do Brasil (Rio Grande de São Pedro, c. 1777-1835). Tese de Doutorado.
PPG-História UFF, 2012).
74
Em outubro de 1796, por exemplo, negociantes rio-grandenses queixaram-se à Coroa que as
carnes de Montevidéu estavam sendo ilegalmente carregadas em grandes quantidades para a
Bahia e Pernambuco – capitaniais que as “recebem e acoitam”. Estas embarcações ao
retornarem cometiam a “transgressão de trazerem avultadas porções de escravos”, o que não
apenas prejudicava a produção rio-grandense, como também aumentava o preço dos escravos
nesta praça.70 Dois anos depois, um número maior de comerciantes, estancieiros e pelo menos
outros 12 charqueadores assinaram um requerimento ainda mais contundente contra o comércio
platino nos portos brasileiros, cujo número de navios empregados nestas transações era,
segundo os mesmos, “escandaloso”. Os assinantes solicitavam:

Que seja expressamente declaradas e ampliadas em seu inteiro vigor as providentes


leis e ordens promulgadas para não haverem neste Brasil comércio com Nações
estrangeiras e que naqueles três portos relatados fique sendo contrabando os gêneros
produtivos desta Capitania acima indicados. Que seja também vedada inteiramente a
Exportação dos escravos para fora destes domínios que tanto dano causam ao Estado e
ao aumento da Agricultura.71

Observa-se que os comerciantes e charqueadores sabiam da importância do charque para


a manutenção das plantations e da agricultura colonial. Suas reivindicações demonstram que o
comércio ilícito era praticamente a norma naquelas paragens. Segundo Fábio Kuhn, o
contrabando de escravos para o Rio da Prata já era significativo desde a primeira metade do
setecentos e tinha na Colônia de Sacramento o seu principal núcleo de atuação. Para o autor,
estas “práticas nos mostram que os conceitos de contrabando e corrupção precisam ser
repensados para as sociedades de Antigo Regime, onde a separação da esfera pública e da
esfera privada era praticamente inexistente”.72 Ainda de acordo com Kuhn:

A própria distinção entre práticas legais e clandestinas parece ser anacrônica, se nós
considerarmos o universo social em relação às representações jurídicas, com suas
regras bem estabelecidas e aceitas. Assim, as práticas (…) podem revelar uma lógica
social global partilhada pelos meios que somente nosso olhar contemporâneo dissocia.
No mundo português setecentista, os contrabandistas seriam empreendedores que
pertenciam ao sistema, com boas conexões com as elites governantes. O comércio
ilegal tolerado era um comércio controlado, permitido pelas mesmas pessoas cujas
funções oficiais pressupunham exatamente combatê-lo.73

Como Kuhn alertou, isto não significa dizer que a Coroa não se importava com a
ilegalidade destas trocas. Como lembra o autor, as tentativas de repressão existiam, mas,

70
Requerimento de 01.10.1796, AHU-ACL-CU-019, Cx. 4, Doc. 317 (Projeto Resgate).
71
Ofício de 24.11.1800, AHU-ACL-CU-019, Cx. 5, Doc. 373 (Projeto Resgate).
72
KÜHN, Fábio. Clandestino e ilegal: o contrabando de escravos na Colônia do Sacramento (1740-1777). In:
XAVIER, Regina (Org.). Escravidão e liberdade: temas, problemas e perspectivas de análise. São Paulo:
Alameda, 2012, p. 179-206.
73
KÜHN, Fábio. Op. cit., p. 195.
75
segundo Ernest Pijning, elas eram direcionadas principalmente contra os excessos.74 Além do
mais, o seu alcance era precário e dependia do empenho das autoridades locais envolvidas e das
suas redes de relações.75 Portanto, deve-se atentar para o grau de tolerância (e do próprio
envolvimento) dos administradores coloniais, pois eram eles, em última instância, que
representavam os interesses da Coroa nas localidades. O grande problema talvez seja a
interpretação que se dá acerca desta relação, uma vez que, em boa parte das vezes, os interesses
das elites locais não eram antagônicos aos do Reino. Conforme Fabrício Prado, as Coroas
espanhola e portuguesa tinham conhecimento deste vultoso comércio ilícito realizado no
Atlântico sul. No entanto, eram estas transações que ajudavam a garantir a manutenção das
sociedades ali constituídas. As economias coloniais naquelas regiões dependiam destas redes
mercantis para se reproduzirem e os próprios agentes envolvidos nestas transações enriqueciam
o seu patrimônio e o da Coroa agindo no interior das mesmas. 76

A prova de como o tráfico ilícito de cativos tinha atingido enormes proporções pode ser
dada na comparação entre o número de escravos entrados no Rio Grande do Sul e no Prata.
Conforme Alex Borucki, pelo menos 70 mil escravos, vindos de portos brasileiros e africanos,
foram desembarcados no Rio da Prata, entre 1777 e 1812. 77 Em contrapartida, conforme os
dados compilados por Gabriel Aladrén (que estão um pouco subestimados, conforme o próprio
autor), o Rio Grande do Sul teria recebido aproximadamente 35 mil escravos entre 1788 e 1833,
ou seja, a metade dos cativos remetidos para o Prata e num espaço de tempo maior.78 Portanto,
mesmo que o problema dos sub-registros apontados por Aladren fosse resolvido, creio ser
possível afirmar que o Rio da Prata recebeu muito mais escravos que o Rio Grande durante o
período em que o tráfico esteve vigente naquela região. Tal comércio era prejudicial aos
charqueadores, pois os altos preços pagos pelos platinos estimulavam os traficantes a
desembarcarem os cativos no porto oriental, ao menos que os rio-grandenses cobrissem a oferta
dos saladeiristas.

74
PIJNING, Ernest. Contrabando, ilegalidade e medidas políticas no Rio de Janeiro do século XVIII. Revista
Brasileira de História. São Paulo, v. 21, n. 42, 2001, p. 397-414. O autor também destacou o contrabando no Rio
da Prata considerando: “a idéia de que o comércio ilegal era imoral e errado era vista com perplexidade. Se o
comércio ilegal era por vezes estimulado pela Coroa portuguesa, como no caso do comércio com o rio da Prata,
como poderia ser considerado imoral?” (PJNING, Ernest. Op. cit., p. 407).
75
Ver, por exemplo, GIL, Tiago Luís. Infiéis Transgressores: elites e contrabandistas nas fronteiras do Rio
Grande e do Rio Pardo (1760-1810). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2007.
76
PRADO, Fabrício. Op. cit.; GIL, Tiago Luís. Op. cit.
77
BORUCKI, Alex. From shipmates to soldiers: emerging black identities in Montevideo, 1770-1850. PhD
Dissertation. Atlanta: Emory University, 2011 apud ALADREN, Gabriel. Op. cit., p. 56.
78
ALADREN, Gabriel. Op. cit., p. 53-55.
76
Os negócios ilícitos com o Rio da Prata eram muito lucrativos para os comerciantes
luso-brasileiros e os mesmos buscavam atender a grande demanda dos hispano-platinos por
mão de obra escrava. Segundo alguns autores, os saladeiristas pareciam preferir mais a mão de
obra cativa do que o trabalhador assalariado. Em 1777, por exemplo, para montar as fábricas
saladeris da região, o Cabildo de Buenos Aires solicitou à Coroa espanhola que facilitasse o
“envío de negros, ya sea de asiento o de cualquier outro modo, porque ya demasiadamente se
nota la falta que hai en estas Províncias de ellos”. De acordo com os requerentes, o trabalho dos
peões livres era repleto de problemas e não correspondia aos custos com salário e manutenção
com os mesmos. Em 1799, o administrador de uma estância na Banda Oriental, aconselhava aos
seus contemporâneos a substituírem os seus peões pelos escravos, porque além dos menores
gastos, num breve tempo o produto do seu trabalho recuperava o valor investido.79

Conforme Borucki, Chagas e Stalla, mesmo com a extinção do tráfico atlântico, em


1812, a entrada de cativos de forma clandestina pelo porto marítimo, pela fronteira terrestre ou
servindo como “colonos”, manteve-se resistente até a década de 1830. A escravidão, por sua
vez, esteve presente nos saladeros uruguaios até os anos 1840, quando a instituição foi
abolida. 80 Compilando uma série de fontes documentais, Monquelat também verificou que os
saladeros orientais utilizavam-se da mão de obra escrava.81 De acordo com Mariana Thompson
Flores, a abolição da escravidão no Rio da Prata trata-se de um processo bastante complexo. Na
realidade, o desrespeito à extinção do tráfico no Rio da Prata, em 1812, e à própria abolição do
cativeiro, em 1813, tornou necessário um outro acordo com os britânicos para o fim do
comércio negreiro, em 1839. A liberdade definitiva dos escravos argentinos só foi decretada
mais tarde, através da Constituição de 1853. No entanto, conforme a autora, algumas cidades só
aceitaram a medida abolicionista em 1860.82

As redes mercantis estabelecidas pelos mesmos com os comerciantes brasileiros


certamente foram um facilitador para a entrada de africanos no Rio da Prata. Como foi

79
MONTOYA, Alfredo. Op. cit., p. 17-19.
80
Após a abolição definitiva da escravidão uruguaia (1846), a entrada de escravos brasileiros nas estâncias
orientais como peões contratados continuou a ocorrer de forma constante (BORUCKI, A., CHAGAS, K.,
STALLA, N. Esclavitud y trabajo: Un estudio sobre los afrodescendientes en la frontera uruguaya, 1835-1855.
Montevideo, Ed. Pulmón, 2004, p. 21-23). Tratarei mais deste tema no capítulo 7.
81
MONQUELAT, A. F. Senhores da carne: charqueadores, saladeristas y esclavistas. Pelotas: Ed.
Universitária/UFPel, 2010.
82
THOMPSON FLORES, Mariana Flores da Cunha. Crimes de fronteira: a criminalidade na fronteira meridional
do Brasil (1845-1889). Tese de Doutorado em História, PUCRS, 2012., p.196-202. Portanto, a comparação
clássica realizada por Fernando H. Cardoso entre as charqueadas rio-grandenses escravistas e os saladeros com
mão de obra assalariada deve ser relativizada, servindo principalmente para a segunda metade do século XIX
(CARDOSO, Fernando Henrique. Capitalismo e escravidão no Brasil meridional: o negro na sociedade
escravocrata do Rio Grande do Sul. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977).
77
mencionado anteriormente, Francisco Maciel era um dos maiores saladeristas de Montevidéu.
Contudo, suas redes de relações com comerciantes cariocas também lhe colocaram na posição
de um dos maiores traficantes platinos.83 Nesta condição, Maciel deve ter abastecido com mão
de obra africana muitos saladeros, incluindo o de Francisco de Medina – outro rico fabricante
de tasajo. Conforme Monquelat, Medina teria empregado cerca de 200 trabalhadores nas suas
diferentes unidades produtivas, sendo que mais de 100 eram escravos.84 Estudando a produção
do tasajo em Buenos Aires, Andrew Sluyter também teceu as mesmas considerações e
acrescentou que era possível que parte significativa da mão de obra nos saladeros platinos fosse
realizada por escravos, libertos ou descendentes de escravos nascidos livres.85

Portanto, os complexos fabris aqui estudados dificilmente teriam sido montados sem a
existência da escravidão africana. Escrevo isto não apenas pensando no seu uso como mão de
obra, mas numa interpretação mais abrangente. O tráfico atlântico imprimia um triplo fator
sobre a economia das fábricas de carne platinas e pelotenses. Ao mesmo tempo em que traziam
escravos para o sul da América (possibilitando a ampliação da produção) e para as plantations
brasileiras e cubanas (aumentando o número de consumidores), os negreiros necessitavam de
um grande volume de mantimentos para cruzar o Atlântico e lá se manterem por semanas até o
fechamento de todos os negócios com os intermediários africanos. Analisando uma amostra de
50 navios que realizaram este comércio a partir do porto do Rio, entre 1827 e 1830, Manolo
Florentino percebeu que 97% deles carregavam charque. As quantidades eram suficientes para
garantir a alimentação dos africanos na viagem de volta, podendo, cada embarcação, carregar
quase 2 toneladas de carne-seca em seus porões. Um planejado suprimento dos navios era
fundamental no sucesso do empreendimento dos traficantes, podendo reduzir a taxa de
mortalidade e aumentar os lucros dos mesmos.86 Além do mais, pode-se dizer que, depois de
muitas semanas de viagem, os escravos desembarcavam no Brasil já acostumados com uma das
refeições que faria parte de suas vidas, talvez para sempre.

83
PRADO, Fabrício. A carreira transimperial de don Manuel Cipriano de Melo no rio da Prata do século XVIII.
Topói, v. 13, n. 25, jul./dez., 2012, p. 175.
84
MONQUELAT, A. F. Op. cit., 2010.
85
Conforme Sluyter, em 1810, a população escrava e seus descendentes formavam 1/3 da população de Buenos
Aires (SLUYTER, Andrew. Op. cit., p. 103-105).
86
Em épocas de alta demanda, os navios ancorados nos portos africanos demoravam de 4,5 a 5,5 meses para lotar
os negreiros. O retorno do Congo-Angola para o Rio de Janeiro durava, em média, 68 dias. Tudo deia ser calculado
pelo traficante. Um exemplo concreto pode ser dado no caso do fretamento da nau Arsênia. Ela partiu para
Cabinda e levava para a manutenção da tripulação e dos escravos 8 sacas de feijão, 13 de arroz, 110 de farinha, 130
arrobas de charque, 8 pipas de aguardente e 160 alqueires de sal. Em sua viagem anterior ela havia trazido 272
escravos para o Rio de Janeiro (FLORENTINO, Manolo. Op. cit, p. 122-125; 174).
78
Sluyter chamou de tasajo trail esta rota mercantil de carnes que ligava os portos platinos
à Cuba e que manteve-se forte ao longo de todo o século XIX. Além disso, segundo o autor, ao
mesmo tempo em que os principais consumidores do tasajo platino eram os escravos cubanos, a
mão de obra utilizada na fabricação do produto, pelo menos nas primeiras décadas de seu
funcionamento, também era cativa. Portanto, como já se disse, o tasajo era fabricado “por” e
“para” escravos. Neste sentido, a rede mercantil estabelecida entre o Rio Grande do Sul e os
portos brasileiros do sudeste e do nordeste possuía uma conformação semelhante. O charque
pelotense também era fabricado “por” e “para” escravos, embora não fosse consumido
exclusivamente por estes. Contudo, este comércio não se dava somente no interior de ambas as
rotas intra-imperiais. Enquanto os platinos também exportavam suas carnes para os portos
brasileiros, o Rio Grande do Sul, principalmente na primeira metade do oitocentos, remeteu
porções significativas de charque para Havana. 87 Portanto, esta transversalidade comercial
originada nos finais do setencentos, e viabilizada pelos comerciantes situados no interior das
redes trans-imperiais, tiveram significativa importância no processo de formação dos
complexos fabris. Elas garantiram a entrada de escravos africanos no Rio da Prata e o acesso
aos mercados consumidores trans-imperiais para ambos os produtores.

Muitas vezes, estas interações sociais eram estimuladas pelos próprios administradores
ilustrados que ocuparam os seus cargos durante o colonial tardio. O Vice-Rei Juan José de
Vértiz, por exemplo, “hombre activo y progresista”, logo que assumiu seu cargo, em 1778, fez
chegar ao Cabildo de Buenos Aires uma Dissertación de la Sociedad de Sevilla, sobre el
método, reglas y ventajas de la salazón de carnes. No mesmo ano, o Cabildo fez uma proposta
de instalação de uma fábrica, mas ela era repleta de exigências e a Coroa não a aceitou. O
sucessor de Vértiz no Vice-Reinado, o Marquês de Loreto (1784-1789), voltou a incentivar os
investidores, mas desta vez defendeu que os saladeiristas deviam agir por conta própria e sem
subsídios do Estado. Foi nesta época que os saladeros se desenvolveram em Montevidéu.
Conforme Montoya, “la industria de carnes saladas surgió en el Río de la Plata por la sola
iniciativa de algunos particulares que afrontaron por su cuenta y riesgo todas las dificultades
que ofrecía la empresa”. Mas segundo ele, “justo es reconecer que sus esfuerzos siempre

87
Segundo Helen Osório, os anos de maior pico foram 1814, 1816 e 1818, quando os cubanos receberam 9,7%,
6,5% e 13,1% do volume total exportado pelo Rio Grande do Sul (OSÓRIO, Helen. O império português no sul da
fronteira: estancieiros, lavradores e comerciantes. Porto Alegre: UFRGS, 2007, p. 198). Na década de 1840, este
mesmo índice atingiu, em alguns anos, cerca de 10% (BERUTE, Gabriel Santos. Atividades mercantis do Rio
Grande de São Pedro: negócios, mercadorias e agentes mercantis (1808-1850). Tese de Doutorado. PPG-História
da UFRGS, 2011, p. 73).
79
contaron com la adhesión y estímulo de las autoridades del Virreinato y de los Ministros de la
Corona”.88

As relações de sociabilidade entre fabricantes de carnes, agentes mercantis e autoridades


coloniais podia ocorrer nas principais cidades atlânticas, em salões, clubes, nos campos de
batalha, nos portos marítimos ou nos próprios saladeros. Montevidéu, enquanto zona de
interação destes agentes, também constituiu-se num notável espaço de sociabilidade destas
elites. Cultivando a cultura teatral de Cadiz, Cipriano de Melo, oficial da Coroa espanhola
encarregado de reprimir o contrabando em Montevidéu, fez questão de instalar um teatro na
cidade – ponto certo de circulação de saladeiristas, proprietários e burocratas. Conforme Prado,
Cipriano hospedava em sua casa importantes comerciantes, traficantes e governantes, e lhes
convidava para os seus diversos jantares. Poder político, redes de influência e capital mercantil
andavam juntos. Além disso, alguns dos capitães portugueses que direcionavam seus navios
para Montevidéu eram parceiros de negócios de Cipriano, ironicamente o encarregado em
combater o contrabando. Sua rede envolvia parentes e amigos envolvidos no comércio de
açúcar, tabaco e escravos entre Montevidéu e o Rio de Janeiro, por exemplo.89

As muitas décadas de convivência em uma fronteira não muito definida colocava luso-
brasileiros e hispano-platinos numa relação conflituosa, mas que, dependendo das conjunturas e
dos fatores e recursos que estavam em jogo, podia ser utilizada positivamente. Com relação a
isto é possível oferecer mais exemplos. Conforme o depoimento de um padre, conhecido de
Francisco Maciel, este saladeirista, que já fabricava carnes em barris, decidiu produzir charque
e toucinhos “ao estilo dos portugueses do Brasil”. Para tal intento, em 1786, o saladeirista
“mandou trazer expressamente do Brasil homens inteligentes no ramo”.90 As trocas de
experiências também podiam se dar por intermédio de cartas e anotações diversas. O
saladeirista Francisco de Medina possuía entre os seus bens inventariados diversos livros de
economia e ciências, entre outros, assim como papéis onde constavam cópias de um método
para fazer tasajo, um volume contendo apontamentos sobre a salga de carnes e o
aproveitamento das graxas e sebos, além de uma carta escrita em português por um tal José
Arouche sobre os mesmos métodos fabris. 91 O próprio Medina, no início dos seus

88
Essa negociação com as autoridades rendia medidas políticas importantes, como as Ordens Reais de 10.04.1793
e 20.12.1802, onde as carnes salgadas estiveram livres de todo o direito de introdução, extração e comércio
(MONTOYA, Alfredo. Op. cit., p. 17-21).
89
Ao analisar as pessoas que faziam parte da rede de Cipriano, Prado ofereceu um modelo do tipo de relações
estabelecidas pelos saladeiristas platinos, demonstrando que os mesmos podiam apresentar íntimas conexões com
comerciantes luso-brasileiros e autoridades coloniais de prestígio (PRADO, Fabrício. Op. cit., 2012).
90
CASTELLANOS, Alfredo. Op. cit., p. 31-32.
91
MONTOYA, Alfredo. Op. cit., p. 24; MONQUELAT, A. F. Op. cit., 2010.
80
empreendimentos na indústria pesqueira, contou com o auxílio de “arponeros” ingleses e
portugueses.92 Tratam-se de indicações de que salgadores e comerciantes luso-brasileiros
mantinham próximo contato com os saladeros de Montevidéu, ou correspondiam-se com os
seus proprietários, transmitindo conhecimentos técnicos e trazendo outros que poderiam ser
levados para o Rio Grande. Tais conexões revelam a circulação de pessoas em ambos os lados
da fronteira num processo de mútua influência.

Como tenho dito, estas experiências não significavam que as relações entre os grupos
que interagiam tanto na fronteira terrestre quanto nos portos marítimos fossem necessariamente
de cooperação. Em 1801, luso-brasileiros e hispano-americanos engalfinharam-se em uma nova
guerra, desta vez pela conquista das Missões. Não foi o primeiro e nem seria o último conflito
belicoso entre ambos e tal contenda militar não cessou o comércio realizado entre os portos
atlânticos ao sul. Tanto que em 1803, os charqueadores, os estancieiros e os comerciantes rio-
grandeses voltaram a reclamar com o governo central – prática em que eles eram muito
talentosos e que faria escola ao longo do século XIX. O comércio entre Montevidéu e os portos
brasileiros continuava afetando negativamente a economia do Rio Grande e desta vez foi o
próprio Governador da Capitania, Paulo Gama, que reclamou com Lisboa.93

Como se verá em capítulos posteriores, a concorrência entre os charqueadores


pelotenses e os saladeiristas platinos foi corrente ao longo do século XIX e compôs um cenário
de conflitos e disputas que marcaram a vida na fronteira, envolvendo diferentes grupos sociais.
Se durante o período Joanino, os rio-grandeses apoiaram a política expansionista da Corte, com
a ocupação da província Cisplatina (1822-1828), a interação social e econômica com a
campanha oriental e a praça de Montevidéu tornou-se ainda mais notável. Neste processo, os
rio-grandenses começaram a apropriar-se dos vastos campos da Banda Oriental. As
consequências desta tensa relação fronteiriça resultaram em algumas importantes guerras ao
longo do oitocentos e tratarei delas, e da participação dos charqueadores nas mesmas, em
capítulos posteriores. No momento, a questão que interessa é demonstrar a permanência das
relações sociais entre comerciantes e charqueadores de ambos os lados da fronteira, assim como
a transmissão de conhecimentos técnicos entre os mesmos. Aquela fronteira, como muitos
atestaram, não foi somente um espaço de conflitos. Ao lado destes havia relações de
reciprocidades entre os súditos de ambas as coroas, que permaneceu forte após o processo de
independência. Isto se explica pelo simples fato de que as relações familiares, de amizade, de

92
MONQUELAT, A. F. Notas à margem da escravidão. Pelotas: Ed. da UFPel, 2009, p. 80.
93
Ofícios de 25.07.1803 – A.1.01 (Arquivo Histórico do RS).
81
compadrio, ou seja, as relações mais afetivas, conviviam junto com relações de negócios e
alianças militares e políticas, configurando uma complexa interação social característica de uma
sociedade de fronteira.94

Um exemplo destas conexões pode ser dado pelo próprio comportamento de alguns
charqueadores nos meses iniciais da Revolta Farroupilha (1835-1845). Com medo de terem
seus negócios prejudicados, pelo menos 4 charqueadores migraram para Montevidéu levando
seus escravos e capitais, vindo a erguer outros saladeros no país vizinho. Entre os mesmos
estavam Antônio José Gonçalves Chaves e o seu sogro Joaquim José da Cruz Secco. É
interessante notar que sua migração foi facilitada pelo fato dos mesmos pertencerem a uma rede
de mercadores com conexões na Banda Oriental. Chaves chegou em Montevidéu dizendo à
polícia uruguaia que iria morar na casa de Diego Martínez. Talvez este cidadão fosse parente de
Francisco Martínez Nieto. Em 1836, este saladeirista, que provavelmente já conhecia Chaves de
muito antes, alugou os escravos deste para trabalharem em sua fábrica.95

Francisco Nieto possuía certo destaque entre os saladeiristas uruguaios, pois foi ele o
primeiro a utilizar caldeiras a vapor nas graxeiras. A primeira caldeira deste tipo que se tem
notícia foi importada da Inglaterra e chegou em Montevidéu no ano de 1831.96 Não demorou
muito e a ideia foi levada para Pelotas pelo charqueador Domingos José de Almeida (conforme
ele próprio).97 Ora, Almeida era sócio e grande amigo de Chaves e acredito que ambos, assim
como outros charqueadores, estavam muito bem sintonizados com as inovações que
desembarcavam em Buenos Aires e Montevidéu, por meio destas redes de relações sociais e
mercantis em que estavam inseridos. Um exemplo inverso desta troca entre charqueadres e
saladeiristas pode ser dado no saladero de Juan Hall, em Montevidéu. Em 1841, conforme
Anibal Pintos, Hall “incorporó algunos adelantos (…) como se acostumbraba a utilizar en el
Brasil”. Pintos se referia à cancha, espaço com piso liso onde o animal era esfolado e carneado
e cujas extremidades apresentavam um declive para que o sangue escorresse em canaletas até o
rio, e o torno, que estava acoplado ao guindaste utilizado para erguer e transportar o bovino

94
ZABIELLA, Eliane. A presença brasileira no Uruguai e os Tratados de 1851 de Comércio e Navegação, de
Extradição e de Limites. Porto Alegre: PPG-História da UFRGS, Dissertação de Mestrado, 2002; SOUZA, Susana
B. e PRADO, Fabrício. Brasileiros na fronteira uruguaia: economia e política no século XIX. In: GRIJÓ, Luiz
A.; KUHN, Fábio; GUAZZELLI, César; NEUMANN, Eduardo. Capítulos de história do Rio Grande do Sul. Porto
Alegre: EDUFRGS, 2004; MIRANDA, Márcia Eckert. A Estalagem e o Império: crise do Antigo Regime,
fiscalidade e fronteira na Província de São Pedro (1808-1831). São Paulo: Hucitec, 2009; THOMPSON FLORES,
Mariana F. da C.; FARINATTI, Luis A. A fronteira manejada: apontamentos para uma história social da
fronteira meridional do Brasil (século XIX). In: HEINZ, Flávio (Org.). Experiências Nacionais, temas
transversais: subsídios para uma história comparada da América Latina. São Leopoldo: Oikos, 2009, p. 145-177.
95
MONQUELAT, A. F. Op. cit., 2010; 2012.
96
PINTOS, Anibal B. Op. cit., 1971, p. 172.
97
Carta de Domingos para Manoel L. do Nascimento, 15.11.1862. CV – 792, in: Anais do AHRS, v. 3, 1978.
82
abatido e laçado até a cancha.98 De fato, tanto o “guindaste” quanto a “cancha” já existiam em
Pelotas desde a década de 1820, como deixou registrado Nicolau Dreys. 99

Estas trocas devem ter se estreitado mais ainda durante a Guerra dos Farrapos, pois,
como demonstrou César Guazzelli, o porto de Montevidéu foi seguidamente utilizado pelos
rebeldes durante o conflito.100 No meado do século, o número de brasileiros com saladeros no
Uruguai, nas margens fluviais que faziam fronteira com o Rio Grande do Sul, já chegava a mais
de 10 proprietários. Dentre eles estavam Delfino Lorena de Souza, João Jacintho de Mendonça,
Honório Luís da Silva e João Vinhas, entre outros.101 Vinhas, que também possuía uma
charqueada em Pelotas, havia comprado o terreno (onde construiu o seu saladero) de Samuel
Lafone, comerciante inglês nascido em Liverpool, e um dos principais saladeiristas do
Uruguai.102 Lafone trouxe mudanças no que diz respeito à higiene dos estabelecimentos, sendo
imitado por outros empresários. 103 Imigrantes trazendo capitais não foram raros no Rio da
Prata, sendo que os mesmos agiam por meio de uma cadeia de informações que ligava as
colônias às praças mercantis ibéricas. Em 1779, por exemplo, Manuel Melián informou-se de
que a Coroa espanhola procurava abastecer a Real Armada com carnes salgadas fabricadas na
América. Foi até Cadiz, onde reuniu todas as informações sobre o processamento de carnes e
depois embarcou para o Prata com o fim de arriscar-se nos negócios.104 As trajetórias de Lafone
e Melián são elucidativas de como os estrangeiros (muitos deles anglo-franceses) chegavam da
Europa com significativos recursos financeiros, algo que parece não ter ocorrido em Pelotas
com a mesma desenvoltura.105

Portanto, as inovações tecnológicas, a resolução de problemas técnicos e o tão falado


“espírito empreendedor” podiam marcar a trajetória tanto de colonos, quanto de membros da
burocracia imperial ou comerciantes vindos das metrópoles. Tratando-se de um ramo de
negócios relativamente recente e envolvendo um número não muito grande de empresários, os
equívocos e os fracassos devem ter sido muito recorrentes. Contudo, visto a proximidade dos
circuítos mercantis e a inserção nas mesmas redes mercantis, as inovações pareciam ser

98
PINTOS, Anibal B. Op. cit., 1971, p. 173.
99
DREYS, Nicolau. Notícia descritiva da Província do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: IEL, 1961, p. 134.
100
GUAZZELLI, César A. B. A República Rio-grandense e a praça de Montevideo (1836-1842). In: HEINZ,
Flávio; HERRLEIN JR., Ronaldo. Histórias regionais do Conesul. Santa Cruz: Edunisc, 2003, p. 147-166.
101
Relação das charqueadas existentes na fronteira do Rio Grande do Sul, s/d. (Coleção de manuscritos. Fundo Rio
Grande do Sul. BN do Rio de Janeiro).
102
MONQUELAT, A. F. Op. cit., 2012, p. 129.
103
PINTOS, Anibal B. Op. cit., 1971, p. 173.
104
PINTOS, Anibal B. Op. cit., 1971, p. 147-148.
105
Um outro comerciante revelou em suas memórias que havia chegado no rio da Prata, em 1790, munido de
grandes capitais para investir em saladeros e, segundo ele, baixo a sua direção, teriam surgido 11 estabelecimentos,
entre grandes e pequenos. (BARRIOS, Anibal B. Op. cit., 1971, p. 148-149).
83
comumente incorporadas tanto por parceiros de negócios como por concorrentes. Neste sentido,
no interior destas redes de relações, o sucesso de um empreendimento era imitado pelos demais,
enquanto o fracasso devia ser evitado. Daí que, numa realidade agrária, pré-industrial e com
uma diminuta comunidade mercantil e fabirl, além de um contexto de profunda interação entre
os diversos agentes nela envolvidos, as ações individuais tomavam proporções mais decisivas.
Um contemporâneo, em 1794, dizia ter conhecido os catalães Don Miguel Ryan e Don Manuel
Solsona, que tomando o exemplo de sucesso de Francisco Medina, resolveram remeter carnes
para Espanha, “y à imitación de estos van inclinándose algunos otros”. 106 Neste sentido, não se
tratava apenas de um espaço aberto às inovações de caráter econômico, mas igualmente de
transformações de ordem sociocultural.107

Como vem sendo demonstrado, as interações socioeconômicas não se davam somente


entre sul-americanos e ibéricos. Por se tratarem de cidades portuárias, no caso de Buenos Aires
e Montevidéu, ou bastante próximas a um porto marítimo, como Pelotas, o mundo Atlântico
estava ao alcance dos mesmos e os colocavam em contato com um número diverso de agentes
mercantis. Com a abertura dos portos, em 1808, o fluxo de estrangeiros para o porto de Rio
Grande se ampliou. Como notou Gabriel Berute, o comerciante inglês John Luccock, que esteve
em Rio Grande em 1810, deixou anotado o impacto daquela lei, pois os produtos ingleses já
vinham substituindo os portugueses de forma notável, devido aos preços mais atrativos e o
“gosto pela exibição” que vinha crescendo entre as pessoas “pois que as possibilidades que a
riqueza concedia se escoavam por vários canais”. 108

Tratando-se de uma cidade portuária, a população estrangeira de Montevidéu devia ser


bem maior que a de Pelotas. Em 1835, dos 128.371 habitantes do Estado Oriental, 23.404
residiam na capital. Com relação a estes índices, Pintos não computou o total de estrangeiros na
cidade, mas, no país inteiro, havia 25 mil europeus (quase 20% do total) e 4 mil brasileiros.109
No mapa populacional de 1833, Pelotas, cuja população total era de 10.873 habitantes,
apresentava 378 indivíduos classificados como estrangeiros brancos, sendo 185 portugueses, 40
espanhóis, 20 hispano-americanos, 34 franceses, 10 ingleses, 4 norte-americanos, além de
alemães, italianos e indivíduos de outras nacionalidades. Contudo, o percentual de negros
(cativos e libertos) em Pelotas superava muito os de Montevidéu. Enquanto a população “afro-

106
PINTOS, Anibal B. Op. cit., 1971, p. 148.
107
BARTH, Fredrik. Process and form in social life. London: Oxford, 1981. Em especial o Capítulo 6.
108
LUCCOCK, John. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil. São Paulo: Livraria Martins,
1942, p. 122; BERUTE, Gabriel. Op. cit., p. 74.
109
PINTOS, Anibal B. Op. cit.,1971 , p. 169. O percentual da população em Montevidéu (18%) é confirmada por
BORUCKI, A., CHAGAS, K., STALLA, N. Op. cit., p. 7.
84
criolla” da cidade oriental, durante o colonial tardio, alcançou aproximadamente 25% do
total110, em Pelotas, no início dos anos 1830, os 5.623 escravos e os 1.137 libertos somados
ultrapassavam os 62% da população.111 Desnecessário lembrar que se tratava de uma população
considerada fixa e que tais estatísticas não dão conta dos agentes que se locomoviam no
cotidiano de ambas as localidades. Contudo, a partir dos dados enunciados, é possível supor que
enquanto os charqueadores pelotenses estavam mais rodeados de escravos e libertos, os
comerciantes e saladeiristas de Montevidéu, pelo próprio caráter portuário da cidade, tinham
um maior contato com os europeus. Tais características sociais devem ter deixado significativas
marcas socioculturais em ditos grupos de empresários. 112

No entanto, como já mencionei, isto não significa que estrangeiros não tenham buscado
investir nas charqueadas sul-rio-grandenses. Certamente o caso mais ilustrativo envolve o
francês Jean Baptista Roux – provavelmente um dos pioneiros em empregar mão de obra
assalariada nas charqueadas pelotenses. Instalando-se primeiramente em Triunfo, Roux passou
por Porto Alegre, Rio Pardo e Rio Grande até que, em 1846, arrendou a charqueada do
Visconde de Jaguari, em Pelotas. Neste estabelecimento, ele empregou trabalhadores de
diferentes nacionalidades juntamente com 30 escravos alugados, num empreendimento que, em
sociedade com Eugène Salgues, durou pouco mais de cinco anos.113 Décadas mais tarde, a filha
de Roux deixou registrado as lembranças da charqueada do pai:

“Tinha uma casa grande, com jardim, uma quinta com laranjeiras e outras
frutas. Perto um grande terreno, onde matavam os animais, beneficiavam as carnes e
couros, tinha centenas de trabalhadores entre bascos, franceses, espanhóis, argentinos,
correntinos, paraguaios, orientais e africanos. Para morar, tinham cabanas, muitos
tinham família. O trabalho era de quatro horas da manhã ao meio dia. (...). Depois os
homens iam se lavar na beira do rio e se divertiam cada qual a sua maneira. Os bascos
jogavam bola, os argentinos e correntinos cartas, que acabavam as vezes por
disputas”.114
Talvez nenhum charqueador tenha sido tão bem relacionado com estes comerciantes
estrangeiros como Antônio José Gonçalves Chaves. Além das suas próprias relações com

110
BORUCKI, A., CHAGAS, K., STALLA, N. Op. cit., p. 19.
111
Mapa da população da Vila de São Francisco de Paula de Pelotas em dezembro de 1833. Biblioteca Pública de
Pelotas (reproduzido por ARRIADA, Eduardo. Pelotas: gênese e desenvolvimento urbano (1780-1835). Pelotas:
Armazém literário, 1994, p. 98).
112
Com relação aos charqueadores pelotenses, tais fatores serão analisados no capítulo posterior. Na segunda
metade do século, Pelotas viu esta situação se inverter e um grande número de estrangeiros tomou conta das ruas
da cidade, como demonstro no capítulo 4.
113
OGNIBENI, Denise. Charqueadas pelotenses no século XIX: cotidiano, estabilidade e movimento. Tese de
Doutorado em História, PUCRS, 2005, p. 115-116. De fato, Roux aparece com frequência nas escrituras públicas
dos cartórios de Pelotas no período (APERS).
114
LEITE, José A. Mazza. “Xarqueadas” de Danúbio Gonçalves: memória de um trabalho através da arte social.
Dissertação de Mestrado em História, PUCRS, 2003. A memória parece ter sido escrita no final do século XIX e é
provável que haja um exagero quanto à quantidade de trabalhadores estrangeiros que, certamente, não eram vistos
às “centenas”.
85
Montevidéu, seu filhos circularam o mundo de forma tão diversificada que pareciam estar
inspirados pelo cosmopolitismo do pai. Em 1836, seu filho Tito encontrava-se nos Estados
Unidos, provavelmente em negócios, conforme o próprio relato do irmão. Quase na mesma
época, o primogênito, que administrava a charqueada do pai em Montevidéu, era Vice-Cônsul
brasileiro no Uruguai. Uma das filhas de Chaves casou-se com o comerciante inglês Robert
Barker e outro dos seus filhos formou-se médico, em Paris. Não causa surpresa que Saint-
Hilaire tenha deixado escrito o seguinte trecho sobre o charqueador: “O Sr. Chaves é um
homem culto, sabendo o latim, o francês, com leituras de história natural, conversando muito
bem”, em suma, “um dos homens mais esclarecidos da região”.115 Todo este conhecimento de
Chaves, assim como suas opiniões sobre política e economia, bastante liberais para a época,
foram transpostas para o papel entre os anos de 1817 e 1822, sendo impressos num único
volume.116

A impressão que se fica é que homens como Chaves procuravam manter relações
mercantis e pessoais com indivíduos de visão de mundo e interesses semelhantes e que
pertenciam a um restrito círculo de relações. O sogro de Chaves, Joaquim José da Cruz Secco,
numa das viagens para Montevidéu, foi acompanhado do comerciante francês Júlio Paulet,
proprietário de um brigue no porto de Montevidéu. Secco também possuía livros entre seus
bens inventariados, indicando que mantinha o gosto pelas letras.117 Um dos seus sócios, o
charqueador Domingos José de Almeida, foi o principal mentor intelectual da Revolta
Farroupilha, citando um repertório variado de pensadores e escritores da época nos muitos
artigos que escreveu na imprensa. Talvez o projeto mais ambicioso de ambos tenha sido a
construção do primeiro navio a vapor da região sul. As peças do mesmo foram trazidas dos
Estados Unidos (onde o filho de Chaves residia) e o projeto contou com o apoio do charqueador
José Vieira Vianna e do mercador José Marques Canarim – um súdito da Coroa portuguesa que,
conforme Fernando Osório, era nascido na Kanara, sudoeste da Índia. 118 A demonstração de
mais exempos das relações sociais mantidas pelos charquadores pelotenses com indivíduos de
outras regiões seria demasiado cansativo, mas os mesmos serão mencionados ao longo dos
capítulos.

Portanto, apesar dos irlandeses, franceses e ingleses não estarem tão presentes no
complexo charqueador escravista pelotense, seja como trabalhadores e mestres, seja como

115
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 103.
116
CHAVES, Antônio José Gonçalves. Memórias ecônomo-políticas sobre a administração pública do Brasil.
Porto Alegre, Cia. União de Seguros Gerais, 1978.
117
Inventário de Thereza Angélica de Sá, n. 126, m. 10, Pelotas, 1º cartório de órfãos e provedoria. 1828 (APERS).
118
OSÓRIO, Fernando. A cidade de Pelotas. Pelotas: Armazém Literário, v. 1, 1997, p. 68.
86
proprietários, não resta dúvida de que parte significativa dos charqueadores interagiram
bastante com os estrangeiros, sobretudo, no porto de Rio Grande. De ambos os lados da
fronteira – as margens do Atlântico foram cenário de forte interação social entre hispano-
platinos, luso-brasileiros, norte-americanos e europeus de nacionalidades diversas. Diante de tal
cenário, não causa surpresa que se pudesse encontrar num jornal de Montevidéu o seguite
anúncio a respeito de um escravo fugido:

Um negro
Fugiu na tarde de 27 do corrente, de nome João, veste uma jaqueta tecido azul, muito
esfarrapada, calças de cor, muito sujas, é natural do Rio de Janeiro, fala portugês,
espanhol e genovês, lhe falta um pouco de cabelo na parte da frente da cabeça, de cor
muito negra (…) Quem o entregar na rua São Carlos (…) será bem gratificado.119

É possível concluir este capítulo reafirmando que, ao mesmo tempo em que os saladeros
competiam com as charqueadas pelos mercados consumidores e o acesso a certas mercadorias,
a interação social portuária e urbana representava uma substancial troca de culturas e ideias,
alimentada pela crescente circulação de burocratas, mercadores e mestres de salga pelas
margens do Atlântico, entre os muitos portos que compunham a rota desde Buenos Aires até
Recife, passando por Havana, Cadiz, Lisboa e Cork, entre outros. As conexões mercantis
estabelecidas no período colonial no interior das redes intra-imperiais acabaram condicionando
os mercados do tasajo e do charque na primeira metade do século XIX. Enquanto os pelotenses
tinham nos portos brasileiros os principais consumidores do charque, os platinos tinham em
Cuba sua principal compradora. Entretanto, isto não significa que o comércio não tomasse sua
forma transversal. Ainda no período colonial, o Rio Grande do Sul remeteu grandes
quantidades de charque para Cuba, enquanto as exportações platinas para o Rio, a Bahia e o
Pernambuco, sempre constituíram-se numa das grandes dores de cabeça dos charqueadores
pelotenses. Tanto no que diz respeito às exportações de charque, quanto às de carne salgada, a
concorrência platina foi lentamente corroendo o complexo charqueador pelotenses, como
demonstrarei adiante.

Portanto, não creio ser possível compreender a história da formação destes três pólos
fabris de forma separada, visto que eles estavam inseridos numa mesma conjuntura mercantil
atlântica que caracterizou o colonial tardio na América do Sul. Esta conjuntura envolvia um
espetacular aumento do tráfico atlântico de escravos num momento de expansão das plantations
açucareiras e cafeeiras nas Américas. Não fossem estas ligações que caracterizaram o colonial

119
Jornal El Nacional, edição de 30.09.1841 apud MONQUELAT, A. F. Charqueadores, Saladeristas y
Esclavistas. Pelotas: UFPel, 2010, p. 97 (tradução de Monquelat, grifos meus).
87
tardio, dificilmente as charqueadas e os saladeros teriam sido montados com tamanho sucesso
no período. Por outro lado, as redes de relações sociais entre comerciantes e autoridades
administrativas garantiram o abastecimento de escravos, o fornecimento de capitais, o
conhecimento técnico, além de favores políticos e informações preciosas sobre os mercados.
Neste contexto, é difícil destrinchar as malhas de mútua influência entre os dois complexos
fabris escravistas surgidos quase na mesma época. Se por um lado a competição entre hispano-
pltinos e luso-brasileiros fornecia um tempero adicional aos fabricantes de carne, por outro, a
interação cooperativa entre indivíduos pertencentes a impérios distintos também era praticada,
apresentando-se como a outra face da mesma moeda.

Apesar do crescimento do setor cafeeiro ter sido extraordinário no período aqui


analisado, o carro-chefe da economia colonial tardia foi o açúcar e foi a expansão açucareira
que garantiu o aumento da demanda por carnes secas e salgadas tanto no Caribe, quanto no
Atlântico Sul, entre 1650 e 1830. Se na América portuguesa, a produção de charque nordestino
e sulino tinha nas plantations açucareiras a sua principal consumidora, no Prata, Buenos Aires e
Montevidéu também tinham em Cuba, o principal mercado. Portanto, a economia atlântica se
movia neste contraste entre o doce e o salgado, entre o negro e o branco, entre a riqueza de
poucos e a pobreza de muitos. Mesmo que cada localidade pertencente ao mundo atlântico
possuísse as suas singularidades e fosse muito mais complexa que estes mencionados
contrastes, a sociedade escravista que se formou em Pelotas, como demonstro nos capítulos
seguintes, não poderia ser diferente daquele contexto. Portanto, examinar a formação da
sociedade pelotense no início do oitocentos e do complexo charqueador escravista que nela se
erigiu é examinar não apenas as elites que compunham as mais distantes regiões do Império
português, como também do próprio mundo atlântico…

88
3. UMA ALDEIA ESCRAVISTA: A PRIMEIRA GERAÇÃO DE
CHARQUEADORES E A SUA ELITE (1790-1835)

Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia


Leon Tolstoi

Na década de 1780, as oficinas de carne-seca nordestinas ainda não haviam entrado na


crise que desencadearia a sua decadência. Portanto, quando surgiram as primeiras charqueadas
na localidade em que viria a ser Pelotas, os mercados do sudeste e do nordeste da colônia ainda
estavam sendo abastecidos de charque por aquela região. Recentemente, a história de que o
português José Pinto Martins, charqueador em Aracati (no Ceará) teria migrado para o sul da
colônia após a seca de 1777, e instalado em Pelotas a primeira charqueada do local, foi
desconstruída.1 Pouco se conhece da fase inicial de instalação dos galpões de charquear em
Pelotas, mas quando Pinto Martins chegou na capitania sulina, provavelmente na passagem da
década de 1780 para a de 1790, o charque já era fabricado no Rio Grande em larga escala. No
entanto, o papel deste charqueador não deve ser desprezado. Caso não tivesse possuído alguma
importância nos primórdios do complexo charqueador pelotense, dificilmente Pinto Martins
teria sido lembrado como o grande “empreendedor” da localidade no século XVIII. Creio que a
contribuição de Pinto Martins para a história das charqueadas pelotenses não foi ter instalado a
primeira fábrica, mas sim, ter contribuído na abertura dos mercados nordestinos para o produto,
o que fez a produção aumentar em extraordinária escala. Mas vamos por partes.

Afirmei, anteriormente, que o saladeirista Francisco Maciel foi um grande traficante de


escravos em Montevidéu. Para obter sucesso nestes negócios, Maciel deveria possuir relações
muito próximas com os comerciantes de grosso trato do Rio de Janeiro, uma vez que a maior
parte dos escravos entrados no Prata vinha daquele porto. E, de fato, ele as possuía. Conforme
Fabrício Prado, em 1780, Maciel (que era grande parceiro de negócios do administrador de
Montevidéu, o senhor Cipriano de Melo) foi ao Rio de Janeiro “como delegado representando
os interesses dos mercadores de Montevidéu”. Desembarcando na cidade, reuniu-se com
comerciantes e autoridades locais “a fim de adquirir 90 escravos e comprar tabaco, açúcar e
tecidos”. No entanto, segundo Prado:

1
Conforme Vieira Júnior, em 1787, quando o Rio Grande do Sul já exportava grandes quantidades de charque para
o Rio de Janeiro, Pinto Martins ainda residia em Recife (VIEIRA JÚNIOR, Antônio Otaviano. De Família,
Charque e Inquisição se fez a trajetória dos Pinto Martins (1749-1824). In: Revista Anos 90. Porto Alegre, v. 16. N.
30, 2009, p. 187-214.
89
(…) a parte mais importante de sua viagem foi restabelecer a rota de comércio entre o
Rio de Janeiro e o Rio da Prata. Maciel garantiu que navios portugueses seriam bem-
vindos a Montevidéu, especialmente alegando necessidade de aportar para reparos,
sendo esta uma garantia apresentada pelo segundo comandante Cipriano de Melo.
Apesar da estratégia suspeita, o Vice-rei recebeu garantia de don Brás Carneiro Leão,
mercador de “boa reputação e grande crédito” no Rio de Janeiro, dando testemunho da
confiabilidade das autoridades e dos mercadores de Montevidéu e garantindo a
segurança dos navios.2

A viagem de Maciel ao Rio demonstra o quanto eram importantes os acordos prévios e


as combinações com as autoridades luso-brasileiras num mercado atlântico onde o comércio
estava longe de ser livre, muito embora as elites coloniais moviam-se no seu interior com uma
notável autonomia. Neste contexto, figuras como Brás Carneiro Leão potencializavam ainda
mais o seu poder e influência, uma vez que o seu prestígio não decorria somente de sua riqueza,
mas também do número de pessoas que conheciam e dos favores que podiam conceder.
Carneiro Leão, enquanto membro de uma das famílias de comerciantes de grosso trato mais
importantes do Rio, relacionava-se com um grande número de negociantes e traficantes e, por
conta disto, devia ser procurado por vários indivíduos dos diferentes portos do Atlântico sul.3
Um destes indivíduos foi o comerciante rio-grandense Alexandre Inácio da Silveira.
Preocupado com as poucas cargas de sal que eram remetidas para as charqueadas do Rio
Grande, Alexandre recebeu da Coroa o direito de extrair o produto na capitania fluminense e
para isto contou com o apoio de Carneiro Leão, que lhe colocou a disposição os seus escravos.
Os mesmos foram empregados por Alexandre no trabalho das salinas de Cabo Frio, juntamente
com outros cativos e índios da localidade.4

No entanto, as conexões mercantis de Alexandre não estavam restritas ao Rio de


Janeiro. Em 1793, encontrando-se em Lisboa, ele peticionou à Rainha com o objetivo de
embarcar diversas mercadorias para o outro lado do Atlântico, entre as quais 2 mil moios de
sal.5 Em 1795, Alexandre voltava a incomodar a Rainha, desta vez escrevendo de Recife, onde
estava realizando outros negócios envolvendo carne-seca e sal.6 A preocupação com o sal se
dava pelo fato de que ele próprio investia seus capitais na fabricação de carnes em barris e nesta

2
PRADO, Fabrício. A carreira transimperial de don Manuel Cipriano de Melo no rio da Prata do século XVIII.
Topói, v. 13, n. 25, jul./dez., 2012, p. 174.
3
Sobre este grupo de comerciantes, ver FRAGOSO, João e FLORENTINO, Manolo. O arcaísmo como projeto:
mercado atlântico, sociedade agrária e elite mercantil em uma economia colonial tardia: Rio de Janeiro, c. 1790 -
c. 1840. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
4
MONQUELAT, A. F. Diário da Manhã. Pelotas, 22 de novembro de 2010.
5
MONQUELAT, A. F. Desfazendo mitos (notas à história do Continente de São Pedro). Pelotas: Ed. Livraria
Mundial, 2012, p. 63-67. Alexandre dizia encontrar-se em Lisboa por quase um ano e meio.
6
Ofício de 14.02.1795. AHU-ACL-CU-019, Cx. 3, D. 296 (Projeto Resgate).
90
empreitada pareceu trabalhar em parceria com João R. Pereira de Almeida, um dos mais ricos
comerciantes de grosso trato do Rio e que também remetia carnes para Lisboa, como mencionei
no capítulo anterior.7 Em seus requerimentos, era comum Alexandre argumentar no sentido de
querer o melhor para o comércio de todas as capitanias e o desenvolvimento do Reino,
reproduzindo uma retórica imperial provavelmente compartilhada por outras elites coloniais.8

Apesar de ter conseguido alguns pareceres favoráveis aos seus requerimentos, os


entraves e barreiras com relação ao comércio de sal cessaram somente em 1801, quando o
estanco do produto foi extinto.9 Neste processo, Alexandre da Silveira destacou-se como um
dos principais intermediários entre os comerciantes e estancieiros rio-grandenses e as
autoridades imperiais, apresentando-se à Rainha como procurador “de todos os moradores da
Capitania do Rio Grande do Sul”. 10 Mas de onde provinha tal legitimidade? Alexandre era neto
do alferes Antônio de Mendonça Furtado e dona Isabel da Silveira – casal tronco de uma das
famílias mais importantes da capitania no século XVIII. Conforme Martha Hameister, as filhas
de Furtado, oriundas da Ilha do Faial, tinham o “tratamento de Dona desde que chegaram ao
Continente” e “seus maridos não faziam parte do contingente de camponeses de poucas posses
ou de homens de ofício”. As irmãs Silveira, como ficaram conhecidas, “casaram-se dentro do
seleto grupo de detentores de sesmarias de grandes proporções, de grandes rebanhos de gado,
arrematadores de contratos e oficiais da Câmara”.11 Portanto, a parentela de Alexandre formava

7
Ofício de 07.08.1801. AHU-ACL-CU-019, Cx. 5, doc. 394 (Projeto Resgate).
8
Em 1795, comerciantes do Rio Grande pediam para que suas embarcações retornassem da Bahia e Pernambuco
com sal, ao invés de terem de improvisar lastro de areia. Segundo eles, este comércio servia “a todas as capitanias
de Portugal especialmente a de Pernambuco e Rio Grande, que ambas exportam os gêneros que tem de sobras nos
seus países e recebem o que precisam como Pernambuco que agradece as porções de carnes e mais mantimentos
que vão do Rio Grande pela esterilidade em que se acha (…) e pode exportar para o Rio Grande o sal que sobra nas
suas oficinas”. AHU-ACL-CU-019, Cx. 3, D. 296 (Projeto Resgate).
9
Como o Rio Grande do Sul não produzia sal, a sua importação sempre foi essencial para o funcionamento regular
das charqueadas. Portanto, a montagem do complexo charqueador nos fins do século XVIII e início do século XIX,
dependeu dos fluxos deste produto para o sul da América lusitana e da produção das salinas brasileiras. Como o
consumo do produto cresceu bastante ao longo dos setecentos, em meados do mesmo século, Portugal estabeleceu
uma legislação especial para o comércio de sal no Brasil. Ao mesmo tempo em que visava o aumento da
arrecadação tributária com os contratos de comércio, a legislação proibia a ampliação das salinas de Pernambuco,
Cabo Frio e Rio Grande do Norte. Portanto, entre 1755 e 1801 vigorou o regime de monopólio sobre as transações
envolvendo o sal e seu abastecimento não podia ser feito pelos rio-grandenses através de importações diretas,
tornando-se necessária a sua importação pelos chamados “portos do Estanco”, ou seja, na Bahia, Rio de Janeiro,
Santos ou Recife. Em 1801, a extinção deste monopólio possibilitou a livre comercialização do sal e a ampliação
da produção nas salinas brasileiras. O fim da antiga prática deve ter sido mais um dos fatores que favoreceram o
desenvolvimento do complexo charqueador no período (CORSETTI, Berenice. Estudo da charqueada escravista
gaúcha no século XIX. Niterói: ICHF/UFF, Dissertação de Mestrado, 1983, p. 109-112; 201).
10
Ofício de 09.06.1795. AHU-ACL-CU-019, Cx. 3, D. 298 (Projeto Resgate).
11
HAMEISTER, Martha. Para dar calor à nova povoação: Estudo sobre estratégias sociais e familiares a partir
dos registros batismais da vila do Rio Grande (1738-1763). Tese de Doutorado. PPGHIS/UFRJ, 2006, p. 163.
91
um poderoso grupo da elite local e ele, assim como outros de seus parentes, constituiu-se num
importante mediador entre a capitania e Lisboa.12

Figura 3.1 – Sesmaria do Monte Bonito e Sesmaria de Pelotas (início do século XIX)

Fonte: GUTIERREZ, Ester. Barro e Sangue: mão de obra, arquitetura


e urbanismo em Pelotas (1777-1888). Pelotas: Universitária, 2004.

Esta família teve papel proeminente na história de Pelotas. O município originou-se em


um território inicialmente formado por 7 sesmarias concedidas a diferentes proprietários. Mas
as fábricas de carne, estabelecidas a partir dos anos 1780, ocupavam principalmente o espaço
geográfico formado por duas destas sesmarias (separadas pelo arroio Pelotas). Uma levava o
nome deste próprio arroio e a outra, chamada Monte Bonito, concentrou o maior número de
charqueadas, tanto nas margens do canal do São Gonçalo, quanto do arroio Pelotas. Ambas as

12
Uma vez que os membros da família atuaram em diferentes atividades econômicas e ocuparam distintos cargos,
ela também foi estudada por outros historiadores que analisaram as elites sul-rio-grandenses no século XVIII. Ver,
por exemplo, KUHN, Fábio. Gente da Fronteira: família, sociedade e poder no sul da América Portuguesa -
século XVIII. Tese de Doutorado. Niterói: PPG em História da UFF, 2006; COMISSOLI, Adriano. Os “homens
bons” e a Câmara municipal de Porto Alegre (1767-1808). Porto Alegre: Gráfica da UFRGS, 2008; MARQUES,
Rachel dos Santos. Por cima da carne seca: hierarquia e estratégias sociais no Rio Grande do Sul (c. 1750-1820).
Dissertação de Mestrado, UFPR, 2011. Os maridos das irmãs Silveira são comumente referidos pelos mesmos
como o “bando dos cunhados”.
92
sesmarias eram propriedade das irmãs Silveira e Alexandre era filho de uma delas: a dona
Maria Antônia.13

Portanto, não é difícil imaginar de onde se originava o prestígio social de Alexandre


Inácio da Silveira. Ao atuar no interior das rotas mercantis envolvendo carnes em barris,
charque, sal e escravos, Alexandre conheceu um grande número de autoridades administrativas
e negociantes, entre os quais devia estar Pinto Martins, que era comerciante ativo nos portos do
nordeste e residia em Recife. É muito provável que ambos tenham tido seus primeiros contatos
no interior destes circuitos, além de tantos outros comerciantes que também compartilhavam da
longa rota mercantil que se estendia desde Buenos Aires até Recife, sem contar Lisboa e os
portos da África. Um forte indício de que Pinto Martins pertencia a uma destas redes mercantis
atlânticas que tiveram papel direto no desenvolvimento das charqueadas em Pelotas pode ser
visto num requerimento datado de outubro de 1796. O documento foi assinado conjuntamente
por comerciantes baianos e rio-grandenses e os mesmos, proclamando-se os “Fiéis Vassalos de
Vossa Majestade”, argumentavam:

A colônia do Rio Grande, que tem nos seus vastos campos um manancial inexaurível
de riquezas em pães e gados, e porventura de outros gêneros que o tempo, a cultura, o
aumento e a facilidade de meios industriosos descobrirão, jazia inerte e pobre, fazendo
um pequeno e pouco animado comércio de meras permutações. Nós, Senhora, a
tiramos daquele desalento, enviando lá, anualmente, mais de 30 embarcações, além do
dobrado número que vai do Rio de Janeiro e Pernambuco, fazendo algumas duas e três
viagens no ano, e que lhes levam meios de mais cômoda subsistência e de ampliar a
cultura dos campos, onde se veem já os Povos multiplicados, fartos, contentes e
aplicados – com energia indizível a reproduzir as verdadeiras e mais certas riquezas
dos Estados.14

Um dos primeiros a assinar este documento foi exatamente Pinto Martins, revelando que
pertencia à rede mercantil mencionada. O trecho não poderia ser mais eloquente. Os mesmos
comerciantes, sem nenhuma modéstia, afirmavam que eles retiraram a capitania sul-rio-
grandense do marasmo econômico em que se encontrava, substituindo uma época em que ela
vivia de “meras permutações” por outra de prosperidade, onde os povos encontravam-se
“fartos” e “contentes”. A abertura dos mercados consumidores do nordeste da colônia foi a
responsável por esta “nova carreira” ou o “novo comércio”, como os próprios negociantes
argumentavam. E de fato, como demonstrou Helen Osório, as primeiras remessas do charque
rio-grandense para o nordeste ocorreram entre 1789 e 1790, o que respalda as afirmações dos
mesmos. A “conquista” do mercado consumidor nordestino fez as exportações de charque rio-

13
Para uma detalhada descrição das mesmas ver GUTIERREZ, Ester J. B. Negros, charqueadas & olarias: um
estudo sobre o espaço pelotense. Pelotas: UFPel, 2001.
14
Ofício de 01.10.1796. AHU-ACL-CU-019, Cx. 4, doc. 318.
93
grandense mais do que quadruplicarem entre 1787 e 1797.15 Ou seja, para aqueles que viveram
próximo às margens dos rios Pelotas e São Gonçalo e puderam presenciar este boom, realmente
tratou-se de uma transformação sem precedentes.
Portanto, o feito narrado pelos comerciantes que assinaram o requerimento, e dentre os
quais estava o próprio Pinto Martins, parecia não ser exagero. Este negociante pertencia a uma
importante rede mercantil com agentes estabelecidos em Salvador e Recife e os mesmos,
associados a outros negociantes de Rio Grande e do Rio de Janeiro, projetaram ampliar a
produção do charque rio-grandense para exportá-lo aos portos do nordeste, já que, antes disso,
os mesmos eram remetidos somente para a capitania fluminense. As secas do início da década
de 1790 tornaram este novo comércio ainda mais fundamental, pois fez aumentar bastante a
demanda por carne-seca nos engenhos nordestinos, uma vez que as oficinas do sertão
encontravam-se em grandes dificuldades. Nas palavras dos mesmos comerciantes que
assinaram o requerimento:

Grande parte da costa e sertão do Brasil padece por seis ou sete meses falta de carnes,
não descendo as boiadas pelas chuvas e inundações do inverno ou pelas secas do estio.
Então as carnes curadas são o único alimento dos pobres mesmo das cidades e todo o
ano o são das escravaturas nas ditas povoações, por maior barateza, por indispensável
necessidade dos engenhos, afastados da borda d’água, aos que não chega nenhum
gênero de pescado, geralmente caro onde o há.16

Note-se que as exigências desta demanda acabaram condicionando o tipo de carne


fabricada. Embora Alexandre da Silveira prometesse remeter carnes de moura para a Marinha
reinol, foi o charque que vingou naquelas terras. O certo é que após as secas de 1791-92, Pinto
Martins, que já conhecia as técnicas do charqueamento em Aracati, decidiu migrar de vez para
o Rio Grande onde as possibilidades de instalar uma nova oficina de carne-seca eram bastante
animadoras. Creio que, antes e durante este processo de mudança, Pinto Martins tenha tido
contato com comerciantes do Rio Grande e do Rio, quando ficou sabendo das favoráveis
condições para se fabricar charque no extremo sul da colônia. Em Recife, ele deve ter
conhecido o inventivo Alexandre da Silveira, acostumado a negociar por aquelas bandas, e este
pode ter sido uma das pessoas que convenceram Martins a migrar para o Sul. Sou inclinado a
pensar nisso pelo simples fato de que, após chegar à capitania do Rio Grande, Pinto Martins
arranchou-se exatamente nas terras da família de Alexandre, escolhendo um terreno próximo às

15
OSÓRIO, Helen. O império português no sul da fronteira: estancieiros, lavradores e comerciantes. Porto
Alegre: UFRGS, 2007.
16
Ofício de 01.10.1796. AHU-ACL-CU-019, Cx. 4, D. 318 (Projeto Resgate).
94
margens do arroio Pelotas, onde ergueu a sua charqueada, deve ter tido a assistência da família
Silveira e permaneceu ali até o fim de sua vida. 17

Uma leitura atenta do testamento e inventário post-mortem de Pinto Martins, abertos em


1827, oferece um outro suporte para estas afirmações. A prova mais fundamental desta longa
relação entre Pinto Martins e a família Silveira foi que, em seu testamento, o charqueador, que
sempre manteve-se em estado de solteiro, revelou ter tido 3 filhos, sendo que uma das mães, a
parda Antônia, havia sido escrava na Fazenda Pelotas (a principal propriedade da família
Silveira na época), e outra delas, “Francisca crioula forra”, havia sido cativa do charqueador
João Duarte Machado – genro de dona Dorotéia da Silveira, irmã de Alexandre. Estas relações
de Pinto Martins com as mencionadas forras são muito reveladoras da proximidade que ele
possuía com a família Silveira e seus muitos escravos e agregados.

Como atestam diferentes historiadores, a família de Pinto Martins era uma das mais
notáveis na produção e no comércio das carnes no norte e nordeste da colônia. Portanto, sua
migração não resultou em uma ascensão social, pois Martins já era membro das elites da
capitania cearense. 18 Tal posição social pode ter facilitado o seu contato com Alexandre e
legitimado a sua aproximação com os Silveira. Além do mais, Pinto Martins não migrou
sozinho, pois o seu irmão Antônio, que negociava sal no nordeste da colônia, residia com ele na
charqueada. A fonte de prestígio dos irmãos certamente decorria do fato deles conhecerem as
principais rotas mercantis do nordeste da colônia, incluindo os seus principais comerciantes e as
limitações e possibilidades daqueles mercados. O presente capítulo busca analisar esta nova
sociedade surgida nas margens do São Gonçalo e do Pelotas durante a Era de Pinto Martins.

3.1 UMA CIDADE NEGRA NO SUL DO BRASIL: TRÁFICO ATLÂNTICO, REDES


MERCANTIS E A ELITE CHARQUEADORA PELOTENSE NAS PRIMEIRAS DÉCADAS
DO OITOCENTOS

Nos primeiros anos de funcionamento das charqueadas, Pelotas não era nada mais do
que um mero povoado sob a jurisdição da vila de Rio Grande. No entanto, no início do século
XIX, as margens dos rios São Gonçalo e Pelotas já estavam pontilhadas por rústicos galpões de
charquear rodeados de ranchos, estâncias e vendas de beira de estrada. Nas primeiras

17
MONQUELAT, A. F. Op. cit., 2012, p. 123-125. Conforme o autor, nesta época foi comum os charqueadores
erguerem seus galpões em terrenos de terceiros, arranchando-se em terras de familiares, por exemplo.
18
VIEIRA JÚNIOR, Antônio Otaviano. Op. cit.; ROLIM, Leonardo. “Tempo das carnes”: no Siará Grande:
dinâmica social, produção e comércio de carnes secas na Vila de Santa Cruz do Aracati (c. 1690 – c. 1802).
Dissertação de Mestrado, UFPB, 2012; OLIVEIRA, Almir L. de. O comércio de carnes secas do Ceará na segunda
metade do século XVIII: as dinâmicas do mercado colonial. In: MOURA, Denise; LOPES, Maria; CARVALHO,
Margarida (Org.). Consumo e abastecimento na história. São Paulo: Alameda, 2011, p. 167-188.
95
estatísticas do início do século XIX, organizadas em 1805, já era possível perceber que aquela
aldeia havia crescido, contribuindo para que a freguesia de Rio Grande, da qual ela fazia parte,
compusesse quase ¼ da população total da capitania.19 Esta freguesia reunia 10.168 habitantes,
dos quais 3.295 eram escravos, 351 eram libertos e 57 eram índios. A população classificada
como branca reunia 3.497 homens e 3.008 mulheres, totalizando 64% das pessoas. 20 Não é
possível saber o percentual de moradores livres e escravos que pertenciam tanto à vila de Rio
Grande quanto ao povoado de Pelotas, mas é muito provável que boa parte daquela escravaria
(ela somava 23,9 % dos cativos de toda a capitania) estivesse trabalhando nas charqueadas.21

Em 1814, tem-se a primeira estimativa tratando exclusivamente da população de Pelotas


– elevada à condição de freguesia dois anos antes e que naquela época ainda era denominada
São Francisco de Paula. Na ocasião, a localidade apresentou 1.226 escravos numa população de
2.419 habitantes, ou seja, 50,7% da população era cativa. A Tabela 3.1 demonstra que, em
menos de 20 anos, este contingente quase quintuplicou atingindo 5.623 escravos – 51,7% dos
recenseados em 1833. Portanto, as décadas de 1810 e 1820 apresentaram uma intensa entrada
de africanos destinados principalmente ao trabalho nas charqueadas. Este fluxo de cativos, não
apenas para Pelotas como também para a capitania, acompanhou os ritmos do tráfico atlântico
no porto do Rio de Janeiro, cuja entrada de navios negreiros acentuou-se bastante entre 1809 e
1825.22 A eclosão da Guerra dos Farrapos (1835-1845) favoreceu a retração deste comércio e a
dispersão das escravarias, colaborando com a diminuição da população cativa no município
charqueador, de forma que a sua população total, em 1858, crescera de forma mais
desacelerada, atingindo 12.893 almas, sendo 37,1% escravos. 23

Uma análise mais pormenorizada do mapa populacional de Pelotas (1833), de longe o


que apresenta os dados mais completos, fornece um bom retrato da sociedade escravista
pelotense antes da Guerra. Em linhas gerais, verifica-se que 36,1% dos habitantes foram
classificados como brancos, sendo provável que entre os mesmos estivessem alguns mulatos e

19
Ofício de 30.09.1806. AHU-ACL-CU-019, Cx. 11, Doc. 669 (Projeto Resgate). A capitania era composta por 14
freguesias. Sua população total era de 41.023 pessoas, das quais 13.800 eram escravos e 2.502 libertos.
20
Os recém-nascidos somavam 556 e os mortos 183. Ambos os grupos não foram contabilizados entre o “Total da
Povoação”.
21
Os escravos estavam divididos em 125 pardos, 94 pardas, 2.280 pretos e 796 pretas. Os libertos em 127 pardos,
131 pardas, 31 pretos e 62 pretas.
22
FLORENTINO, Manolo. Em costas negras: uma história do tráfico atlântico de escravos entre a África e o Rio
de Janeiro (séculos XVIII e XIX). São Paulo: Cia das Letras, 1997, p. 41-50. No período de expansão do tráfico
(1809-1824), Berute verificou um índice de 95% de africanos importados, sendo 19% ladinos (BERUTE, Gabriel.
Dos escravos que partem para os portos do sul: caracerísticas do tráfico negreiro do Rio Grande de São Pedro do
Sul, c. 1790- c. 1825. Dissertação de Mestrado, PPG-História da UFRGS, 2006, p. 51).
23
A guerra paralisou a cidade de Pelotas e obrigou muitas famílias a migrarem para Montevidéu, Rio Grande e a
Corte. Além do mais, o fim do tráfico atlântico (1850) contribuiu para a diminuir o crescimento da população
escrava, embora ela tenha continuado aumentando até a década de 1870, como analisarei em capítulo posterior.
96
mestiços que podem ter ascendido socialmente. 24 Cerca de 52% desta população branca residia
na vila, apresentando um significativo índice de urbanidade que discutirei no capítulo posterior,
assim como a presença estrangeira em Pelotas, algo que, em 1833, ainda estava em sua fase
incipiente. O interesse maior neste momento é o percentual cativo das estatísticas. A Tabela 3.2
mostra que dos 5.623 escravos recenseados em Pelotas, 67,4% eram africanos. Este índice era
consequência de anos de tráfico atlântico e do maior poder aquisitivo dos charqueadores se
comparado aos criadores do interior do Rio Grande do Sul. Além disso, outras pesquisas
demonstraram que a Lei de 1831 não foi capaz de inibir o tráfico de africanos para Pelotas.25

Tabela 3.1 – Estatísticas populacionais em Pelotas (1814 – 1858)


Ano Brancos Índios Libertos Escravos Total

1814 712 105 232 1226 2419


1833 3933 180 1137 5623 10873
1858 7753 - 342 4788 12883
Fontes: ASSUMPÇÃO, Jorge E. Pelotas: escravidão e charqueadas (1780-1888). Porto Alegre, PUCRS,
Dissertação de Mestrado, 1995; Mapa da população da Vila de São Francisco de Paula de Pelotas em dezembro
de 1833. Biblioteca Pública de Pelotas (reproduzido por ARRIADA, 1994, p. 98); FUNDAÇÃO DE ECONOMIA
E ESTATÍSTICA. De província de São Pedro a Estado do Rio Grande do Sul (censos do RS de 1803 a 1950).
Porto Alegre: FEE, 1981.

Com relação às cores da população cativa tem-se 5.169 qualificados como pretos
(somando 92% dos escravos, com 3.744 homens e 1.425 mulheres) e 454 como pardos
(compondo 8% do total, com 186 homens e 268 mulheres). Cruzando estes dados com os da
Tabela 3.3, percebe-se que havia tanto crioulos quanto africanos entre os escravos classificados
como pretos, com um percentual maior dos segundos (78% entre os homens e 60,7% entre as
mulheres). Como não foi discriminada em quais faixas etárias os crioulos e os africanos foram
distribuídos, não é possível verificar a quantidade de africanos em idade adulta. Este dado só é
possível de ser verificado entre os escravos pretos e pardos.

No total, 80% da população escrava possuía entre 11 e 50 anos, sendo que destes, 71,5%
eram homens e 28,5% mulheres (razão de sexo de 256 homens para cada 100 mulheres).
Analisando este mesmo índice somente entre os pretos tem-se 80,7% com uma razão de sexo de
285 e entre os pardos de 70,1% com uma razão de sexo de 153. Observa-se, a partir destes
dados, que o desequilíbrio entre os sexos estava presente tanto entre pardos como entre pretos –
denotando o tráfico tanto de africanos como de crioulos para a região.
24
Exemplos de como esta mobilidade era possível podem ser vistos em GUEDES, Roberto. Egressos do cativeiro:
trabalho, família, aliança e mobilidade social (Porto Feliz, São Paulo, 1798 – 1850). Rio de Janeiro: Mauad X/
FAPERJ, 2008.
25
PINTO, Natália Garcia. A benção compadre: experiências de parentesco, escravidão e liberdade em Pelotas
(1830-1850). Dissertação de Mestrado. Unisinos, 2012; COUTO, Mateus. A pia e a cruz: a demografia dos
trabalhadores escravizados em Herval e Pelotas (1840-1859). Passo Fundo: Ed. da UPF, 2011.
97
Tabela 3.2 - Mapa da população da Vila de São Francisco de Paula de Pelotas em dezembro de 1833

Idades Estrangeiros Brasileiros Índios Libertos Escravos Total


Brancos Brancos Pardo Pretos Pardo Pretos
Homens Mulheres Homens Mulheres Homens Mulheres Homens Mulheres Homens Mulheres Homens Mulheres Homens Mulheres
Até 5 anos 9 8 359 295 10 13 74 90 10 17 30 43 145 151 1254
6 a 10 anos 5 5 270 264 15 16 69 52 19 10 18 25 182 108 1058
11 a 15 anos 15 5 198 234 9 11 50 47 7 11 25 89 221 130 1052
16 a 20 anos 48 2 148 240 7 16 48 57 10 13 22 35 452 235 1333
21 a 25 anos 55 8 108 156 2 10 34 55 4 7 18 16 460 185 1118
26 a 30 anos 56 5 115 128 5 8 28 37 3 16 23 23 587 205 1239
31 a 35 anos 30 7 102 100 1 4 12 22 8 15 12 9 452 101 875
36 a 40 anos 35 8 125 105 2 10 19 22 9 20 15 8 416 111 905
41 a 45 anos 18 4 78 59 4 2 12 15 3 13 7 6 273 57 551
46 a 50 anos 16 2 80 60 7 7 20 8 18 18 5 9 229 58 537
51 a 55 anos 11 5 67 27 2 5 15 15 13 7 6 1 136 35 345
56 a 60 anos 7 2 69 41 2 2 11 7 10 7 1 2 78 17 256
61 a 65 anos 3 - 38 19 - - 8 2 5 2 1 - 37 10 125
66 a 70 anos 2 - 16 12 2 1 1 2 6 2 - 2 21 13 80
71 a 75 anos 3 1 8 2 1 1 2 1 2 - 2 - 18 1 42
76 a 80 anos 2 - 12 6 - - 1 3 - 1 - - 16 2 43
81 a 85 anos - - 7 3 1 - 1 1 3 - 1 - 19 3 39
86 a 90 anos - - - 2 1 1 1 - 4 - - - 2 1 12
91 a 95 anos 1 - - 2 - - 1 - - - - - - 2 6
96 a 100 anos - - - - 2 - - - 1 - - - - - 3
Soma 316 62 1800 1755 73 107 407 436 135 159 186 268 3744 1425 10873

Escravos
Pardos Pardas Crioulos Crioulas Africanos Africanas Total
186 268 819 559 2925 866 5623

Fonte: Biblioteca Pública de Pelotas (reproduzido por ARRIADA, Eduardo. Pelotas: gênese e desenvolvimento urbano. Pelotas: Armazém Literário, 1994, p. 98).

98
Tabela 3.3 – Mapa da população da Vila de São Francisco de Paula de Pelotas em dezembro de 1833. População dividida por nacionalidade, cor, condição
jurídica, freguesia, distritos e fogos (1833)

População divida pelos fogos e Estrangeiros Brasileiros Índios Libertos Escravos Total
freguesias
N. de Brancos Brancos Pardos Pretos Pardos Pretos
Fogos H M H M H M H M H M H M H M
Freguesia Vila 1º Distrito 257 118 24 386 345 11 10 45 58 11 33 37 76 749 360 2263
de São F. 2º Distrito 366 131 26 514 495 11 26 81 93 35 52 42 34 566 338 2444
de Paula Pelotas 3º Distrito 260 37 7 358 351 9 11 101 107 36 34 40 107 1435 359 2992
Boqueirão 4º Distrito 253 10 1 325 336 15 24 110 105 25 18 34 34 573 229 1839
Buena 5º Distrito 263 20 4 217 228 27 36 70 73 28 22 33 17 421 139 1335

Soma 1.399 316 62 1.800 1.755 73 107 407 436 135 159 186 268 3.744 1.425 10.873

Fonte: Biblioteca Pública de Pelotas (reproduzido por ARRIADA, Eduardo. Pelotas: gênese e desenvolvimento urbano. Pelotas: Armazém Literário, 1994, p. 98).

99
A partir dos mesmos indicadores também é possível observar um maior contingente de
escravos concentrados no 3º distrito de Pelotas, onde a maioria das charqueadas estava
estabelecida.26 Nele, a população escrava de cor preta era muito superior aos demais distritos e
a razão de sexo era de 316 homens para cada 100 mulheres, evidenciando a concentração de
homens cativos e africanos no universo das charqueadas. O rápido crescimento do número de
escravos e sua concentração numa área pequena passou a preocupar alguns proprietários
pelotenses, sobretudo os charqueadores, que eram os principais senhores escravistas. Em maio
de 1832, por exemplo, temendo alguma ação das classes subalternas em geral, a Câmara de
vereadores escreveu ao Presidente da Província alertando-o:

(...) sendo esta Vila pela sua posição sujeita ao geral trânsito do povo de
toda a fronteira, e onde diariamente aparecem pessoas desconhecidas, e malfeitores,
além de ter em seu distrito numerosa escravatura, e que por isso é indispensável à
autoridade encarregada da polícia ter a sua disposição uma força com que possa
contar para diligências rápidas (...).27

Meses depois, os vereadores escreveram novamente para avisar que não permitiriam que
os Guardas Nacionais do município fossem destacados para a fronteira, com o fim de defendê-la
contra os supostos invasores uruguaios. Os motivos de tal receio eram bem claros:

Esta Câmara (...) não pode deixar de levar ao conhecimento de V. Exc.


quanto seria perigosa a marcha dos Guardas Nacionais deste município para a
fronteira na presente crise em que os do Estado vizinho apenas fazendo a guerra entre
si enviam emissários disfarçados para revoltarem a escravatura, com a qual, segundo
notícias verídicas, esporão reforçar suas débeis fileiras, sendo bem constante que o
distrito desta vila tem para mais de quatro mil escravos, quase unidos segundo a
posição das charqueadas, e a única força para os conter são os Guardas Nacionais,
que fazem este distrito respeitável.28

Portanto, como os uruguaios estavam em guerra civil, o maior temor era das investidas
de chefes militares estrangeiros com o fim de recrutar possíveis aliados e soldados entre os
escravos, com a promessa de liberdade. Dois anos depois, por motivos semelhantes, o Juiz de
Paz escreveu ao Presidente reclamando da ida dos Guardas Nacionais para outro município,
quando os mesmos:

(...) podem nesta mesma Vila [Pelotas] fazerem o serviço necessário e


conterem alguma insurreição de escravos que os boatos públicos anunciam ser a
arma favorita de que se pretendem servir os desordeiros do Estado vizinho. Tendo
pois esta mesma Vila e seus subúrbios uma multidão desta escravatura e não havendo

26
ARRIADA, Eduardo. Pelotas: gênese e desenvolvimento urbano. Pelotas: Armazém Literário, 1994.
27
Correspondência da Câmara Municipal de Pelotas, 11.05.1832, m. 103, AHRS.
28
Correspondência da Câmara Municipal de Pelotas, 06.08.1832, m. 103, AHRS.
100
força que os faça conter em seus delírios, pode resultar então desastrosos e
irremediáveis males.29

Para as autoridades pelotenses o fato da numerosa escravaria das charqueadas estar


reunida em estabelecimentos bastante próximos seria um atrativo aos “desordeiros” que
poderiam sublevá-los, levando-os para lutar no país vizinho. Mas um outro episódio trouxe um
novo ingrediente para este clima de insegurança que marcou os primeiros anos da década de
1830. Em 1834, começaram a agir nas imediações do município os negros organizados no
quilombo de Manoel Padeiro. De acordo com Caiuá Al-Alam a atuação dos quilombolas trouxe
grande pavor entre as elites locais, pois mostrara aos mesmos “como suas forças eram
insuficientes na hipótese real de que, um dia, os escravos intentassem uma revolta em massa”. 30

A apreensão dos grandes senhores de escravos também se devia pelo simples fato de que
muitas lideranças do quilombo eram ex-escravos de ricos charqueadores que, mesmo fugidos,
continuavam mantendo contato com seus antigos companheiros de cativeiro, obtendo
informações preciosas sobre o que acontecia na casa dos seus senhores. Tendo sido presos
alguns quilombolas envolvidos no episódio, parte de seus planos foram descobertos, sendo o
mais alarmante o fato de eles planejarem saquear a Câmara municipal, os quartéis de Pelotas e
as charqueadas de alguns senhores em busca de mulheres escravas e mantimentos. Uma das
negras detidas confidenciou a uma cativa de um charqueador que “eles sabiam tudo o que
ocorria, fosse na vila, fosse nas charqueadas”. 31

Longe dali, mas na mesma época, estourava a Revolta dos Malês (1835), encerrando um
ciclo de rebeliões escravas que se iniciara na Bahia, em 1807.32 A rebelião em Salvador chegou
até os ouvidos das autoridades no extremo sul do Império, acentuando ainda mais o medo de
que algo parecido ocorresse em Pelotas. Em fevereiro de 1835, os vereadores escreveram
novamente ao Presidente alertando-o de que mesmo com a repressão aos Malês, “podem ainda
os seus efeitos causar danos irreparáveis, porquanto, sendo esta província ordinariamente o
receptáculo dos escravos de má conduta que doutras províncias do Império vêm a vender,
principalmente depois que a do Maranhão deixou de os receber”. O receio dos vereadores

29
Juizado de Paz de Pelotas, 04.07.1834. Justiça, M. 18, Pelotas, AHRS.
30
AL-ALAM, Caiuá Cardoso. A negra forca da princesa: Polícia, pena de morte e correção em Pelotas (1830-
1857). Pelotas: Sebo Içaria, 2008, p. 53. Sobre o mesmo assunto ver também MOREIRA, Paulo; AL-ALAM,
Caiuá; PINTO, Natália. Os calhambolas do General Manoel Padeiro: práticas quilombolas na Serra dos Tapes
(RS, Pelotas, 1835). São Leopoldo: Oikos, 2013.
31
AL-ALAM, Caiuá Cardoso. Op. cit., p. 52-56.
32
REIS, João José. O levante dos malês: uma interpretação política. In: REIS, João José; SILVA, Eduardo.
Negociação e Conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Cia. das Letras, 1999, p. 99-122.
101
baseava-se nas informações de que uma “porção de escravos nagôs e haussás” seria remetida da
Bahia para o porto de Rio Grande e:

(...) já é de acreditar que eles sejam dos implicados naquela


insurreição, e os seus donos os subtraindo à vingança das leis, ou queiram ver-
se livres de escravos cujas (...) por vezes têm posto em prática crimes tão
horrorosos; e sendo evidente que se tais escravos vieram, serão vendidos – a
maior parte – para as charqueadas (...), onde contém de 2 a 3 mil cativos quase
em contato uns dos outros pela proximidade em que se acham ditas
charqueadas, receando-se deste modo que eles venham engrossar o número de
desmoralizados (...), e tentarem desordens (...).33

Não há notícias de que tenha ocorrido algo mais sério do que as ameaças do quilombo
de Manuel Padeiro. O fato é que no imaginário social compartilhado por alguns charqueadores
havia um possível perigo de alguma rebelião acontecer, e tal medo parecia se justificar pelo
grande contingente de trabalhadores escravos num espaço territorial bastante diminuto, como já
foi dito.34 Guardadas as devidas proporções, os índices de percentagem de escravos e da
população africana existentes em Pelotas no início da década de 1830 eram bastante próximos
das principais regiões de plantations açucareiras e cafeeiras do Brasil, o que demonstra o
impacto do tráfico atlântico em Pelotas e como a economia charqueadora dependia dele. Na
Tabela 3.4 busquei indicadores semelhantes para as mencionadas regiões de plantations,
privilegiando os períodos aproximados ao ano do censo pelotense de 1833. Como nem todos os
pesquisadores tiveram acesso a estatísticas mais detalhadas e às listas de habitantes, a
comparação tem alguns limites, mas trata-se somente de um exercício analítico.

Os dados elencados podem variar de município para município dentro de uma mesma
província e na mesma região dependendo do ano em que se observa. No entanto, busquei
estatísticas das localidades mais representativas das determinadas regiões e setores econômicos
e as com melhores informações para a comparação. Além disso, o período em recorte não
corresponde ao auge do agro de cada região. Se em Minas, o complexo cafeeiro dava os seus
primeiros passos, em Vassouras ele já começava a entrar no seu período de expansão. O mesmo
serve para o açúcar, que, passado sua época de grande auge, vinha perdendo espaço para o café
no quadro das exportações brasileiras, fenômeno que parece refletir-se nos dados, ao menos
para estes municípios. Talvez estes indicadores ajudem a mostrar que complexos escravistas
mais jovens, como o cafeeiro e o charqueador, necessitavam importar mais mão de obra do que

33
Correspondência da Câmara Municipal de Pelotas, 27.02.1835, m. 103. AHRS.
34
Conforme Jorge E. Assumpção, na mesma época, um outro charqueador alertou a Câmara de que o perigo
propagado por alguns proprietários reserva-se apenas aos escravos minas e que o temor contra aliciadores orientais
era infundado (ASSUMPÇÃO, Jorge E. Op. cit., p. 269). Tratarei mais da administração dos escravos das
charqueadas no capítulo 6.
102
regiões açucareiras mais estabelecidas, como Campos e Iguape, o que ajudaria a explicar o
menor índice de africanos e a menor razão de sexo destes últimos.

Tabela 3.4 – Comparação da população escrava, razão de africanidade e sexo de Pelotas com
outras regiões de plantations brasileiras (1829-1840)35

Ano População Africanos Razão de sexo


escrava (%) (%)
Pelotas (RS) 1833 51,7 67,4 232

Regiões açucareiras

Campos dos 1836 59,2 53,2 166


Goytacazes (RJ) (1790-1831) (1790-1831)
Oeste paulista (SP) 1829 36,0 56,0 189

Iguape (BA) 1835 54,0 53,1 156

Regiões cafeeiras

Vassouras (RJ) 1840 69,5 68,8 231


(década 1820) (1831-40)
Areias (SP) 1829 45,0 73,5 221,8

Paraibúnas (MG) 1833/35 52,5 48,2 229*


(1831-1840)
Fonte: ver nota (37). Os indicadores entre parênteses foram produzidos pelos autores a partir
da análise de inventários post-mortem. Os demais provem das listas de habitantes.
* A autora calculou o índice somente para os escravos maiores de 10 anos

Assim como em todas as regiões do Brasil, boa parte da população cativa de Pelotas
estava concentrada nas mãos de poucos senhores. Contabilizando o número de escravos
arrolados nos inventários post-mortem do município entre 1800 e 1835, verifiquei que os
proprietários com 50 ou mais cativos, apesar de representarem somente 5,4% dos inventariados,
eram donos de 33,6% dos escravos. A partir da Tabela 3.5 também é possível perceber que
mais de 40% dos donos de escravos em Pelotas eram senhores de pequenos plantéis (de 1 a 4

35
Para Vassouras consultei SALLES, Ricardo. E o vale era escravo: Vassouras, século XIX. Senhores e escravos
no coração do Império. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. Os dados de Santana da Paraibuna foram
retirados de OLIVEIRA, Mônica R. de. Negócios de famílias: mercado, terra e poder na formação da cafeicultura
mineira (1780-1870). Bauru/Juiz de Fora: EDUSC/Funalfa, 2005. Para os indicadores de Areal, consultei LUNA,
Francisco Vidal. Areias: posse de escravos e atividades econômicas (1817-1836). Cadernos N. E. H. D, n. 2, 1995;
LUNA, Francisco Vidal. População e atividades econômicas em Areias (1817-1836). Estudos Econômicos, 24(3),
set/dez, 1994, p. 433-463. Iguape era uma “freguesia açucareira tradicional do Recôncavo baiano” localizada na
comarca de Cachoeira. Seus dados foram retirados de BARICKMAN, Bert. E se a casa-grande não fosse tão
grande? Uma freguesia açucareira do Recôncavo Baiano em 1835. Afro-Ásia, n. 29/30, 2003, p. 79-132. Para o
oeste paulista utilizei LUNA, Francisco; KLEIN, Herbert. Evolução da Sociedade e Economia escravista de São
Paulo, de 1750 a 1850. São Paulo: EDUSP, 2005, p. 77. Os números da tabela reúnem dados reunidos pelos
autores nas consideradas “vilas açucareiras”, ou seja, Campinas, Guaratinguetá, Porto Feliz, Itu, Jundiaí, Mogi
Mirim, Pindamonhangaba, São Sebastião e Piracicaba. Para Campos dos Goitacazes utilizei SOARES, Márcio de
S. Presença africana e arranjos matrimoniais entre os escravos em Campos dos Goitacazes (1790-1831). História:
Questões & Debates, Curitiba, n. 52, 2010, p. 75-90.
103
cativos). Portanto, assim como em outras regiões do Brasil, apesar da concentração verificada, a
posse de cativos estava disseminada por todos os setores da sociedade. A inexistência de listas
de habitantes, como as utilizadas pela historiografia paulista e mineira, impede uma análise
mais abrangente. Tendo em vista as semelhanças apontadas entre Pelotas e as demais regiões
(conforme a Tabela 3.4), não vejo motivos para crer que em Pelotas fosse tão diferente.

Tabela 3.5 – Estrutura de posse de escravos em Pelotas a partir dos inventários


post-mortem (1800-1835)

Plantéis Inventários Escravos


N. % N. %
1a4 77 41,1 184 7,4
5 a 19 78 41,7 743 29,6
20 a 49 22 11,8 738 29,4
50 a 99 07 3,8 447 17,8
Mais de 100 03 1,6 397 15,8
Total 187 100,0 2.509 100,0
Fonte: elaborado a partir de PESSI, Bruno (Org.). Documentos
da escravidão: inventários. Porto Alegre: (CORAG), 2010, v. 1-2.

Uma comparação dos índices de concentração de cativos verificados nos inventários


pelotenses com as demais regiões de plantations mencionadas anteriormente torna-se um tanto
problemática visto que as listas de habitantes são capazes de dar conta de uma amplitude de
pequenos proprietários, algo que os inventários post-mortem possibilitam com muito menor
abrangência. Talvez seja por isso que Ricardo Salles tenha se impressionado com o grau de
concentração da escravaria em Vassouras comparando os dados de seus inventários com as
listas de habitantes de Minas e São Paulo. Nas palavras do autor: “Se em São Paulo, em 1829,
os proprietários de 20 ou mais escravos possuíam 46% da escravaria, em Vassouras, eles
detinham 73,3% do total de cativos, sendo que somente os que eram donos de 50 ou mais
escravos detinham 34,5% deles!”. 36 Ora, utilizando o mesmo tipo de fonte que Salles e
separando somente os inventários entre os anos de análise do autor (1821-1835), percebi que os
donos de 50 ou mais escravos em Pelotas também detinham 34,4% dos escravos, ou seja, o
mesmo índice de Vassouras. Provavelmente, caso existissem listas de habitantes para Pelotas e
Vassouras os índices de concentração seriam menores, o que não significa que apresentariam
uma estrutura de posses igual à de Minas e de São Paulo.

Portanto, Pelotas também parece servir como laboratório de análise para se entender as
regiões de grandes plantéis de escravos no Brasil. Seus dados acerca do percentual de cativos
em relação aos homens livres, a razão de sexo e africanidade e os índices de concentração de

36
SALLES, Ricardo. Op. cit., p. 168.
104
escravos são equivalentes ao das regiões de plantations açucareiras e cafeeiras. Isto demonstra
que a sua economia era bastante dependente do tráfico atlântico e ajuda a explicar o apego da
sua elite à escravidão.37 Neste sentido, a posse de cativos pode servir como ponto de partida
para definir a primeira elite charqueadora em Pelotas. Sabe-se que o tamanho do plantel de
escravos no espaço agrário brasileiro do oitocentos estava bastante relacionado com a posição
dos seus proprietários nas hierarquias socioeconômicas locais. 38 Dos 20 maiores escravistas
pelotenses inventariados entre 1800 e 1835 (possuidores de 35 ou mais cativos) pelo menos 15
(75%) eram proprietários de charqueada. Estes 15 charqueadores, apesar de comporem somente
8% de todos os inventariados no período, concentravam 41% dos escravos e apresentaram um
plantel médio de 69 cativos. Dentre os mesmos, José da Costa Santos foi o maior proprietário
com 172 escravos e José Pinto Martins o menor com 35.

Estes 15 inventariados constituíam-se num grupo representativo do total de


charqueadores do período, uma vez que verifiquei a existência de pelo menos 62 indivíduos
exercendo esta atividade em Pelotas, entre 1790 e 1835. 39 Esta primeira geração de
charqueadores era formada por homens naturais de diversos lugares do Império português.
Localizei esta informação para 48 deles (77,5%).40 Destes, 23 eram nascidos na América
portuguesa, 22 em Portugal e Ilhas, 2 na Colônia de Sacramento e 1 na Espanha. Dos luso-
brasileiros, 3 eram mineiros, sendo um de Diamantina e outro de Mariana, 2 eram do Rio de
Janeiro e 1 era de Recife. Os demais eram nascidos na capitania sul-rio-grandense. Entre os
portugueses, a metade era formada por imigrantes vindos do Minho, 3 eram de Lisboa, 2 de
Coimbra e 1 das Ilhas. A predominância dos minhotos num grupo com forte caráter mercantil
foi comum na época, como atestaram outros autores.41 Portanto, eram homens de diferentes

37
Mas seria equivocado considerar que estas regiões explicassem por si só a escravidão no Brasil, uma vez que,
nos últimos anos, demonstrou-se que parte substancial dos cativos estavam concentrados nas mãos de pequenos
produtores e em regiões voltadas para o abastecimento de gêneros. Tratarei mais deste tema nos capítulos 5 e 6.
38
LUNA, Francisco; KLEIN, Herbert. Op. cit., 2005, p. 138.
39
A listagem foi elaborada a partir de uma relação de charqueadores descrita por João Simões Lopes Neto nos
anos 1920 e reproduzida em MARQUES, Alvarino. Episódios do Ciclo do Charque. Porto Alegre: Edigal, 1987, p.
99-102. Busquei complementar a lista localizando todos os proprietários que possuíam charqueadas em seus
inventários post-mortem (em Pelotas). Acrescentei outros nomes a partir das contribuições de outros autores, como
GUTIERREZ, Ester. Op. cit., OSÓRIO, Helen. Op. cit.; ARRIADA, Eduardo. Op. cit. Muitos tiveram seu
patrimônio inventariado somente depois de 1835 e outros não tiveram seus bens inventariados. Incluí neste grupo
de 62 charqueadores aqueles cujas propriedades estavam instaladas para além das margens do São Gonçalo e do
Pelotas, tanto ao norte, na Estância São Lourenço, quanto ao sul, às margens do rio Piratini. Este grupo é pequeno
(inclui cerca de 10% dos proprietários), mas estes charqueadores e seus familiares tiveram importante destaque na
história de Pelotas e uma análise mais completa da elite charqueadora não poderia deixá-los de fora. Uma listagem
completa de todos os charqueadores em Pelotas no século XIX está reproduzida nos “Anexos” desta tese.
40
As informações foram coletadas nos testamentos, em diferentes genealogias e publicações relacionadas à história
de Pelotas, arroladas na bibliografia final.
41
Ver, por exemplo, PEDREIRA, Jorge. Os homens de negócio da Praça de Lisboa de Pombal ao Vintismo (1755-
1822): diferenciação, reprodução e identificação de um grupo social. Tese de Doutorado. UNL: Lisboa, 1995;
105
locais do Império português e um nascido na Espanha. Trata-se de um perfil um tanto distinto
do complexo saladeril platino, uma vez que nenhum estrangeiro de língua inglesa ou francesa
foi proprietário de uma charqueada pelotense no período.42

A diversidade de locais de procedência e as suas respectivas redes de relações para com


agentes fora da capitania foram fundamentais na montagem do complexo charqueador
escravista em Pelotas. A inserção dos charqueadores em tais redes mercantis, como venho
enfatizando desde o capítulo anterior, viabilizava um melhor acesso ao tráfico atlântico, ao
mercado externo, a espaços de poder político e redes de informações e favores, de amplo ou
curto alcance, dependendo dos indivíduos com quem os mesmos vinculavam-se. Neste sentido,
o fato de um complexo fabril escravista ter sido montado por comerciantes de diferentes
localidades é revelador do nível de interação social e de conexão mercantil em que os mesmos
estavam inseridos. Em suma, o complexo charqueador em Pelotas, assim como no Prata, foi
resultado do investimento particular de alguns negociantes imperiais – na definição de João
Fragoso – com capitais financeiros e relacionais suficientes para tal intento.43

Apesar de compartilharem dos valores escravistas, monárquicos e católicos do Império


português, estes primeiros charqueadores traziam conhecimentos, valores culturais e
experiências distintas para o interior da comunidade pelotense. Um exemplo disso pode ser
dado na própria trajetória de José Pinto Martins. Natural do Porto, José era filho de um cavador
de poços pertencente a uma família de lavradores da freguesia de Mexomil. Migrou para o
Ceará, onde, na companhia de outros 3 irmãos, encabeçou os negócios de charque e comércio
em Aracati por muitos anos.44 Nos fins da década de 1780, Pinto Martins encontrava-se como
negociante em Recife, e menos de 10 anos depois, já estava em Pelotas fabricando charque.
Mesmo residindo no sul do Brasil por mais de 30 anos, suas redes de relações pessoais com o
nordeste mantiveram-se vivas. Em seu testamento, Pinto Martins deixou 200$000 para a Ordem
Terceira de Nossa Senhora do Carmo, em Pernambuco, da qual ele fazia parte, pedindo para
que fossem rezadas “missas pelas almas dos falecidos irmãos terceiros da dita ordem”. Isto

ALMEIDA, Carla. Homens ricos, homens bons: Produção e hierarquização social em Minas Colonial: 1750-
1822. Tese de doutorado Niterói. ICHF/UFF. 2001; OSÓRIO, Helen. Op. cit.
42
Alguns poucos estrangeiros de língua inglesa e francesa arrendaram estabelecimentos de charqueada em Pelotas,
principalmente, após a década de 1830, como Jean Batista Roux e Eugene Salgués.
43
FRAGOSO, João. Mercados e negociantes imperiais: um ensaio sobre a economia do Império português
(séculos XVII e XIX). História: Questões & Debates, n. 36, 2002, p. 99-127. Helen Osório percebeu que as
primeiras gerações de comerciantes no Rio Grande eram formadas por mercadores oriundos do Rio Janeiro
(OSÓRIO, Helen. Op. cit.).
44
Para detalhes a respeito da trajetória dos membros da família ver Habilitação de Familiares, maço. 157, doc.
1267. Direção Geral de Arquivos. Torre do Tombo (Lisboa). O primeiro a utilizar tal fonte com propriedade foi
VIEIRA JÚNIOR, Antônio Otaviano. Op. cit.
106
demonstra que, além das relações mercantis com Recife, Pinto Martins continuou mantendo
relações de caráter pessoal e afetivo na mesma cidade, para onde havia recentemente enviado
um brigue carregado de charque, conforme uma conta no seu próprio inventário. 45

Outro caso pode ser dado na trajetória de Domingos José de Almeida. Nascido em
Diamantina, na capitania das Minas Gerais, Domingos encontrava-se realizando negócios na
Corte, quando partiu para o Rio Grande onde planejara comprar uma tropa de mulas. No
entanto, acabou estabelecendo-se na capitania. 46 Anos depois, por meio do matrimônio, inseriu-
se numa das famílias de charqueadores mais poderosas de Pelotas, onde, ele próprio erigiu uma
charqueada próxima à fábrica de seu sogro. De acordo com Carla Menegat, quando Domingos
foi vereador na Câmara de Pelotas usava exemplos da administração municipal em Minas
Gerais para defender suas propostas.47 Outro caso pode ser dado na trajetória do espanhol
Domingos Rodrigues que, uma vez estabelecido em Pelotas, ergueu sua charqueada e alcançou
riqueza e prestígio notáveis. Seus dois filhos, nascidos no Rio Grande do Sul, dividiram-se
entre os negócios no Uruguai e no Rio de Janeiro.

Pelo fato do Rio ser o principal porto da América portuguesa, os olhares e projetos
destes comerciantes e charqueadores rio-grandenses estavam sempre atentos aos seus fluxos
mercantis. 48 Com a vinda da família real, em 1808, e o estabelecimento da Corte na mesma
cidade, esta proeminência tomou proporções políticas e administrativas ainda maiores. Os
comerciantes de grosso trato do Rio atuavam em setores-chave da economia colonial, como a
exportação de açúcar e café, o abastecimento de alimentos e o tráfico atlântico, entre outros. Por
não participar diretamente do comércio com os portos da África e, até 1808, nem com outros
portos do Atlântico norte, os comerciantes-charqueadores tiveram que estabelecer relações
mercantis com agentes externos ao porto sulino. Neste sentido, a formação de circuitos
mercantis eivados de relações sociais e de redes de reciprocidade entre agentes de diferentes
regiões foi comum na época e tornou-se fundamental para o funcionamento do mercado
colonial e do desenvolvimento das próprias elites locais no interior do Império português.49

Pode-se dizer que ao se estabelecerem na extremadura da América portuguesa, os


comerciantes e charqueadores buscavam reproduzir o mesmo comportamento das suas regiões

45
Inventário de José Pinto Martins, n. 354, m. 15, Rio Grande, 1º cartório de órfãos e provedoria, 1832 (APERS).
46
Carta de Domingos para o presidente da Província Joaquim Antão Fernandes Leão, Pelotas, 07.12.1859. Anais
do AHRS. Porto Alegre: Corag, v. 3, 1978, p. 154.
47
MENEGAT, Carla. Domingos José de Almeida: o Estadista da República Rio-grandense. Curitiba: Instituto
Memória, 2010.
48
OSÓRIO, Helen. Op. cit.
49
FRAGOSO, João; FLORENTINO, Manolo. Op. cit.
107
de origem, além de investir o capital mercantil na produção, mas sem deixar de desprender-se
das práticas e conexões mercantis externas. No entanto, somente uma minoria conseguia atuar
em ambos os ramos de atividades com sucesso. Uma análise mais profunda das atividades
econômicas realizadas pelos charqueadores desta primeira geração revela uma significativa
presença de alguns deles no alto comércio. Pesquisando os inventários dos 62 charqueadores
atuantes na época, elenquei somente aqueles que tiveram seus bens avaliados antes de 1850,
totalizando 28 documentos. Destes 28, pelo menos 7 possuíam embarcações de longo curso,
como sumacas, bergantins e brigues (alguns em sociedade com outros comerciantes).

Como eu já disse, tratava-se de um grupo pequeno. Contudo, os inventários post-mortem


não são suficientes para dar conta deste tipo de pesquisa, pois, muitas vezes, os charqueadores
faleciam numa idade mais avançada de suas vidas, quando já haviam abandonado as atividades
mercantis, buscando uma condição econômica mais segura – algo comum entre os comerciantes
da época.50 Portanto, é necessário buscar mais vestígios da sua atuação mercantil em outras
fontes. Nas escrituras públicas de compra e venda realizadas em Rio Grande entre 1808 e 1835,
por exemplo, 7 charqueadores aparecem negociando embarcações marítimas (alguns mais de
uma vez e 4 deles não são os mesmos que localizei nos inventários), indicando que atuavam no
comércio marítimo. 51 Rastreando os nomes de todos os charqueadores nos livros de matrículas
da Real Junta de Comércio da Corte, entre 1808 e 1835, também foi possível verificar a
presença de 9 deles entre os matriculados como “negociantes de grosso trato” nas praças
mercantis do Rio Grande do Sul.52

Conforme Gabriel Berute, que pesquisou profundamente o corpo mercantil rio-


grandense na primeira metade do oitocentos, os negociantes de grosso trato da capitania
atuavam em diferentes setores do alto comércio. Analisando as listagens elaboradas pelo autor,
também localizei alguns charqueadores pelotenses entre os membros daquela elite mercantil,
atuando principalmente na importação de sal e de escravos e na exportação de gêneros como o
charque e os couros.53 Com exceção de alguns poucos, a grande maioria dos charqueadores,
caso o quisesse, não possuía cabedais para atuar no tráfico atlântico diretamente com a África.
Portanto, o papel dos rio-grandenses estava reservado à consignação e revenda dos cativos a
50
FRAGOSO, João L. R.. Homens de grossa aventura – Acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de
Janeiro (1790-1830). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.
51
Livros de notas do 2º Tabelionato de Rio Grande (1808 a 1850) - APERS. Agradeço a Gabriel Berute tanto pela
busca nominal em seu Banco de Dados quanto pelo fornecimento destas informações.
52
Matrícula dos Negociantes de grosso trato e seus Guarda Livros e Caixeiros. Real Junta do Comércio,
Agricultura, Fábricas e Navegação. Códice 170, volumes 1, 2 e 3 (ANRJ). Uma importante relação dos
comerciantes da época também pode ser verificado em MAGALHÃES, Manoel Antônio de. Almanack da Vila de
Porto Alegre. In: FREITAS, Décio. O capitalismo pastoril. Porto Alegre, EST, 1980, p. 88.
53
BERUTE, Gabriel. Op. Cit., p. 2011.
108
partir do porto de Rio Grande. Examinando os dados fornecidos por Gabriel Berute foi possível
perceber que pelo menos 24 dos 62 charqueadores envolveram-se nesta rede mercantil
registrando escravos nos livros de siza como compradores e vendedores. No total, estes
indivíduos registraram 286 cativos entre 1812 e 1822.54 Um exemplo desde comércio de
consignação pode ser dado no caso do charqueador Miguel da Cunha Pereira. Conforme Berute,
em janeiro de 1815, ele foi consignatário de duas embarcações vindas do Rio de Janeiro. O
bergantim Águia Volante lhe trouxe 26 escravos, 6.000 tijolos de barro e 2.000 telhas e a
sumaca Boa Fé, 10 escravos e 18.000 tijolos de barro. No mês seguinte, o charqueador José da
Costa Santos foi consignatário da carga da sumaca Estrela, vinda do Rio com 81 escravos, 30
sacas com arroz, 48 sacos de açúcar, 600 alqueires de sal, entre outras mercadorias. 55 Estas duas
transações de cativos não foram registrados nos livros de siza, o que indica que a participação
dos charqueadores como intermediários nesse comércio era muito maior, visto o reduzido
período abarcado pelos mencionados livros e os sub-registros desta fonte.

Além disso, segundo Berute, Miguel da Cunha Pereira também negociou escravos com
o interior da capitania, entre os anos de 1813 e 1819. Portanto, é provável que fizesse parte de
uma rede de atravessadores constituída desde a chegada dos escravos nos portos do Rio, Recife
e Salvador até a sua negociação em Pelotas e nos municípios do interior e que os charqueadores
envolvidos com o comércio marítimo de mercadorias estivessem inseridos no interior destas
mesmas cadeias de relações.56 Além disso, apesar de a maioria ter recebido cativos por meio de
consignações, alguns charqueadores parecem ter trazido escravos nas viagens de retorno dos
seus próprios navios, quando do desembarque de charque nos portos do Rio, Bahia e
Pernambuco. Em 1839, Domingos José de Almeida, por exemplo, teve o seu Brigue Leal
apreendido “por ser encontrado com pretos africanos a bordo para o comércio de escravos”. 57

54
Códice da Fazenda (F-69). Sizas de Escravos. Rio Grande: 1812-1822 (AHRS). Agradeço novamente a Berute
pela busca e transcrição referentes a este Códice. Dos 24 charqueadores, 11 foram registrados como vendedores.
No entanto, conforme Berute, não fica claro se os compradores vieram a ser os proprietários dos cativos ou se os
revenderiam. A hipótese da revenda é bastante plausível, sobretudo nos casos onde se comprava uma grande leva
de escravos, como a realizada pelo charqueador José da Costa Santos que, em 26 de novembro de 1819, registrou
138 cativos no livro de sizas.
55
BERUTE, Gabriel. Op. cit., 2011, p. 91-92.
56
Sobre o tráfico atlântico e os traficantes no período ver FLORENTINO, Manolo. Op. cit.; RODRIGUES, Jaime.
De costa a costa. Escravos, marinheiros e intermediários do tráfico negreiro de Angola ao Rio deJaneiro (1780-
1860). São Paulo: Cia das Letras, 2005; REIS, João José; GOMES, Flávio; CARVALHO, Marcus. O alufá Rufino:
tráfico, escravidão e liberdade no Atlântico negro (1822-1853). São Paulo: Cia. das Letras, 2010;
ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O Trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Cia das
Letras, 2000; RIBEIRO, Alexandre. A cidade de Salvador: estrutura econômica, comércio de escravos, grupo
mercantil (1750-1800). Tese de Doutorado: PPGHIS/UFRJ, 2009; BERUTE, Gabriel. Op. cit., 2006.
57
MONQUELAT, A. F. Notas à margem da escravidão. Pelotas: Ed. da UFPel, 2009, p. 52.
109
Entre os importadores de sal, além do mencionado José da Costa Santos, foram
localizados na listagem de Berute, Antônio José de Oliveira Castro, Antônio Francisco dos
Anjos e João Simões Lopes.58 Certamente o número devia ser maior, embora não devesse
envolver muitos outros charqueadores além do pequeno grupo citado até aqui. Estes mesmos
comerciantes também deviam estar envolvidos com as exportações de charque e couros, visto
que era comum os mesmos navios que descarregavam sal retornarem com os produtos das
charqueadas. 59 Estas conexões mercantis também podem ser medidas a partir na análise das
procurações passadas em Rio Grande. Pesquisando tais documentos, entre 1811 e 1850, Berute
verificou que, em Rio Grande, foram passadas 7.745 procurações pra 2.181 pessoas diferentes.
Separando somente os outorgantes que eram comerciantes (1.519 procurações ou 17,8% do
grupo) ele constatou que o Rio de Janeiro concentrava 21,2% das mesmas, enquanto Santa
Catarina, São Paulo, Bahia, Pernambuco e Maranhão somavam 20,6% delas. Portugal foi o
destino de 5,5% das procurações e o Uruguai 0,8% delas. Um dos 10 agentes acionados em
Portugal pelo comerciante Mateus da Cunha Telles foi Manuel Souza Freire & Cia, “um dos
mais importantes negociantes e contratadores de Lisboa”, e que também atuava no tráfico
atlântico com a África e no comércio com Bahia, Pernambuco e Maranhão.60

Cruzando todas estas fontes e listagens mencionadas até aqui, é possível considerar que,
dos 62 charqueadores desta primeira geração, um grupo aproximado de 12 a 15 charqueadores
(19% a 24%, sendo alguns deles aparentados), dependendo dos critérios que se usa, pode ser
analisado de uma forma distinta dos demais, pois tiveram uma relação mais próxima com o
comércio marítimo, seja atuando diretamente nestas atividades por meio de suas embarcações,
seja atuando na exportação e importação consignada a partir do porto de Rio Grande. 61 Mas
nem mesmo este pequeno grupo deve ser visto de forma homogênea. Alguns charqueadores têm
o seu nome mais associado aos negócios marítimos do que outros. Portanto, o comércio de
cabotagem pelas margens do Atlântico sul estava reservado a poucos rio-grandenses –
notadamente a elite econômica na qual comerciantes e charqueadores se destacavam.

58
A listagem dos importadores de sal realizada pelo autor teve como base registros entre 1804-1815 e 1834-1851.
59
SILVEIRA, Josiane Alves da. Rio Grande: portas abertas para as importações de sal no século XIX.
Monografia de conclusão do curso de História da FURG. Rio Grande, 2006. Os dados de exportação de charque e
couro elencados por Berute são posteriores a 1830. Neles aparecem alguns charqueadores, mas os mesmos fogem
do período de análise tratado neste capítulo.
60
BERUTE, Gabriel. Op. cit., 2011, p. 242-243.
61
Os principais eram Antônio José de Oliveira Castro, Antônio Francisco dos Anjos, Domingos Rodrigues,
Domingos de Castro Antiqueira, Antônio José Gonçalves Chaves, Boaventura Rodrigues Barcellos e os seus
irmãos, José Pinto Martins, Antônio Soares de Paiva, José da Costa Santos, Joaquim José da Cruz Secco, entre
outros.
110
Poucos charqueadores devem ter se aventurado em viagens mais longas. Talvez o
Comendador Antônio José de Oliveira Castro tenha sido o que maior sucesso obteve nestas
empreitadas. Matriculado como negociante de grosso trato na Corte desde 1816, ele foi o único
charqueador que esteve presente em todas as listagens organizadas por Gabriel Berute. Em
1848, por ocasião da morte de sua esposa, o advogado de Castro justificou a demora da
avaliação dos bens do casal: “como é notório, tem a casa do suplicante muitas e diversas
transações, cuja liquidação depende de notícias e informações de vários pontos não só do
Império, mas ainda da Europa, para onde dirige seus navios”. Tendo em vista o volume de
negócios que praticava, não causa surpresa que a avaliação dos seus bens, em 1848, apresentava
o maior patrimônio e plantel de escravos de Pelotas na primeira metade do oitocentos – prova
de que o capital mercantil estruturava e organizava o capital produtivo, ou seja, as bases do
complexo charqueador escravista pelotense.62 Contudo, os benefícios decorrentes desta posição
superior na hierarquia social não eram exclusivamente econômicos, como demonstro a seguir.

3.2 UMA ELITE LOCAL NO MUNDO ATLÂNTICO: FAMÍLIAS E REDES MERCANTIS


ENTRE PELOTAS E OS DEMAIS PORTOS DO BRASIL

O comerciante Mateus da Cunha Teles e o charqueador Antônio José de Oliveira Castro,


respectivamente com 45 e 28 procurações passadas, estavam entre os 10 maiores outorgantes
registrados nos livros de notas de Rio Grande analisados por Berute.63 Os maiores procuradores
de Cunha Telles no Rio eram os irmãos João José da Cunha e Francisco José da Cunha. Este
último, que também era Cavaleiro da Ordem de Cristo, era cunhado de Cunha Telles e por aí já
é possível perceber que no interior destas redes mercantis os laços de parentesco eram notórios,
como muitos autores já indicaram. 64 Tais vínculos parentais funcionavam como facilitadores e
colocavam importantes famílias no centro de circuítos comerciais de longa distância. Neste
sentido, Berute verificou a presença de rio-grandenses que, matriculados como negociantes de

62
Inventário de Francisca A. de Castro, n. 293, m. 21, 1848, Pelotas, 1º Cartório de órfãos e provedoria (APERS).
63
BERUTE, Gabriel. Op. cit., 2011, p. 239.
64
RODRÍGUEZ, Manuel Bustos. Cádiz en el sistema atlántico: la ciudad, sus comerciantes y la actividad
mercantil (1650-1830). Universidad de Cádiz, 2005, p. 185-230; KICZA, John E. Empresarios coloniales.
Familias y negocios en la ciudad de México durante los Borbones. México, FCE, 1986; SOCOLOW, Susan. Los
mercaderes del Buenos Aires virreinal: familia y comercio. Buenos Aires, Ediciones de la Flor, 1991. SAMPAIO,
Antônio C. Jucá. Famílias e negócios: a formação da comunidade mercantil carioca na primeira metade do
setecentos. In: FRAGOSO, João; SAMPAIO, Antônio C. J.; ALMEIDA, Carla (Org.). Conquistadores e
negociantes: Histórias de elites no Antigo Regime nos trópicos. América lusa, século XVI a XVIII. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2007, p. 225-264; PEDREIRA, Jorge. Op. cit; OSÓRIO, Helen. Op. cit., FRAGOSO, João;
FLORENTINO, Manolo. Op. cit.
111
grosso trato no Rio, remetiam escravos para o Rio Grande do Sul. 65 Um destes agentes foi o
capitão Antônio Soares de Paiva, que também teve uma charqueada, mas destacou-se por ser
“negociante de grosso trato no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro, e contratador dos
dízimos das carnes e couros do Rio Grande durante vários anos”. Enviando seus navios para o
Rio e o nordeste, o capitão também teve sociedade na arrematação de contratos com
importantes comerciantes cariocas.66

O prestígio social e a riqueza do capitão Paiva possibilitaram bons casamentos aos seus
filhos. Um deles contraiu matrimônio com uma filha do charqueador Domingos de Castro
Antiqueira. Apesar da esposa de Antiqueira ter falecido em 1829, o inventário dos bens do casal
foi aberto somente em 1840. Segundo o seu advogado: “não pode o suplicante proceder
prontamente nos termos do respectivo inventário, em razão de estar embaraçado com a
liquidação de grandes contas que tinha em diferentes praças do Império, de cujo resultado
dependia a fatura do mesmo inventário”.67 Estes negócios devem ter sido importantes e
certamente estavam na base da fortuna deste charqueador. Em 1852, em seu testamento,
Antiqueira, que agora já assinava como Visconde de Jaguari, mandou rezar mil missas no Rio
de Janeiro “por atenção daquelas pessoas com quem tratei negócios”. 68 Além disso, as
procurações passadas em cartório, no ano de 1832, deixam claro quem eram alguns dos seus
parceiros comerciais no interior da província, no Rio e em Pernambuco. No entanto, um dos
mais importantes estava na Bahia. 69 Natural do Rio Grande, Antônio Pedroso de Albuquerque
estabeleceu-se definitivamente em Salvador por conta da Revolta dos Farrapos. Conforme
Pierre Verger, Albuquerque foi um dos comerciantes mais ricos da Bahia. Atuou no tráfico
atlântico no nordeste e no Rio, tendo sido proprietário de 20 navios. Carregava charque para o
nordeste e não causa surpresa que tenha continuado mantendo relações mercantis com sua terra
natal, onde sua família possuía importante prestígio em Rio Pardo.70

65
BERUTE, Gabriel. Op. cit., 2006, p. 143.
66
CARVALHO, Mário Teixeira de. Nobiliário Sul-riograndense. Porto Alegre: Oficinas Gráficas da Livraria do
Globo, 1937, p. 128; OSÓRIO, Helen. Op. cit., 2007, p. 323.
67
Inventário de Maria Joaquina de Castro, n. 74, m. 3, Rio Grande, 1º cartório do cível, 1840 (APERS).
68
Inventário do Visconde de Jaguari, n. 348, m. 25, Pelotas, 1º cartório de órfãos e provedora, 1852 (APERS).
69
Procurações, 1º Tabelionato de Pelotas, Fundo 48, Livro 1, 19v (APERS).
70
VERGER, Pierre. Notícias da Bahia (1850). Salvador: Corrupio, 1981, p. 45; FLORENTINO, Manolo. Op. cit.,
2010, p. 203. O Comendador Antônio Pedroso de Albuquerque diversificou seu capital após o final do tráfico, em
1850, tornando-se “proprietário da fábrica de tecidos Todos os Santos, em Valença, (…) da Companhia de Vapores
Bonfim e Santa Cruz e era um dos diretores da Companhia de Navegação Baiana”. Nesta mesma época, assim
como outros comerciantes, converteu seu capital para a agricultura de exportação: “possuía ainda engenhos em
Itaparica, São Francisco do Conde e Santo Amaro e um total de 560 escravos, conforme seu inventário de 1883”
(VASCONCELLOS, Pedro. Salvador, rainha destronada? (1763-1823). História (São Paulo), v. 30, n. 1, jan/jun,
2011, p. 183-184). Sobre a sua família em Rio Pardo ver LAYTANO, Dante de. Guia histórico de Rio Pardo. Rio
112
Portanto, as margens do Atlântico foram um cenário de intensos fluxos não apenas de
mercadorias, como também de mercadores. Tais movimentos não se davam apenas na direção
do extremo sul, mas, também, no seu sentido oposto. Com relação a isto, Afonso Graça Filho
observou que durante as décadas de 1830 e 1840, o alto comércio de abastecimento na Corte
teve seus principais agentes substituídos por um novo grupo de comerciantes. Segundo o autor,
alguns eram rio-grandenses que migraram para o Rio atraídos por este rentável comércio, como
Militão Máximo de Souza, J. J. Cunha Teles e outros. Como notou Graça Filho, Jean Batiste
Debret teria percebido o início deste processo quando escreveu sobre quem eram estes novos
comerciantes de carne seca na Corte: “todos parentes de correspondentes dos charqueadores”
que “recebem diretamente sua mercadoria nas embarcações que aportam no Rio de Janeiro,
pretexto de que abusam às vezes para aumentar o preço desse gênero quando ocorrem atrasos
nas entregas”.71 O próprio Irineu Evangelista de Souza, posteriormente Visconde de Mauá, foi
um dos jovens rio-grandenses que migraram para a Corte neste período, estabelecendo-se como
caixeiro de João Pereira de Almeida – um dos maiores comerciantes de grosso trato do Rio.

Portanto, tais migrações não representavam uma ruptura com os seus locais de origem.
Comerciantes rio-grandenses que migravam para o Rio ou o nordeste não se desconectavam de
suas redes de relações anteriores e os “forasteiros” que se instalavam em Pelotas pareciam fazer
o mesmo. 72 O pertencimento às redes mercantis nas quais os comerciantes de grosso trato
cariocas estavam inseridos trazia benefícios diversos aos charqueadores, pois, quando bem
manejadas, elas potencializavam a sua posição de elite nas hierarquias sociais locais. Neste
sentido, proponho que as margens do Atlântico sul, sobretudo nas suas cidades portuárias,
sejam vistas também como um espaço de interação social entre negociantes imperiais, repletas
de redes mercantis com conexões as mais diversas, compostas por parentes e parceiros
comerciais 73, e não somente como um espaço de competição entre negociantes de diferentes

Pardo: Prefeitura Municipal de Rio Pardo, 1979. Um dos seus irmãos, Manoel Pedroso de Albuquerque, era
procurador de Antiqueira em Rio Pardo, para onde o charqueador devia remeter escravos e mercadorias diversas.
71
FILHO, Afonso de Alencastro. Os convênios da carestia: crises, organização e investimentos do comércio de
subsistência da Corte (1850-1880). Rio de Janeiro: IFCS/UFRJ, Dissertação de Mestrado, 1992, p. 91; 129.
72
Em 1827, o charqueador José da Costa Santos, natural da freguesia de Santa Rita, na cidade do Rio de Janeiro,
legou em testamento bens para parentes residentes no Rio, mencionando que perdoava a dívida do seu irmão
Serafim para com ele (Inventário de José da Costa Santos, n. 113, m. 9, Pelotas, 1º cartório de órfãos e ausentes,
1827 (APERS)).
73
Neste sentido, conforme Fragoso, “era extremamente difícil para uma casa comercial setecentista manter uma
rede de comércio que envolvesse distantes regiões e diferentes produtos – como era o caso do tráfico atlântico de
escravos – sem o recurso, a relações de reciprocidade que podia, inclusive, chegar a casamentos entre famílias de
sócios. As famílias Velho, Carneiro Leão e Pereira de Almeida – residentes no Rio de Janeiro, majoritárias no
comércio de africanos e nas exportações para Portugal, em princípios do oitocentos – mantinham irmãos, primos
e/ou genros em Lisboa e em outras cidades do além-mar. Ao mesmo tempo, o império aparece como espaço de
circulação de famílias empresariais, a exemplo da experiência dos Loureiro, portugueses com estadias e negócios
no Brasil e na Índia” (FRAGOSO, João. Op. cit., 2002, p. 113-114).
113
praças, onde o papel das mais ricas era apenas subordinar as menos ricas aos desígnios do
acúmulo do capital.

Um exemplo disto pode ser dado na trajetória de Antônio Francisco dos Anjos. Natural
da Colônia de Sacramento, ele deve ter migrado para o Rio Grande após a expulsão dos
portugueses daquela localidade, em 1777. Nos anos 1790, instalado em Pelotas, já é possível
encontrá-lo, juntamente com outros proprietários, realizando requerimentos à Coroa. Com o
tempo, o charqueador tornou-se capitão-mor da localidade. Em 1808, necessitando de um
atestado para ter um requerimento aprovado pela Corte do Rio de Janeiro, Anjos recebeu o
auxílio de um grupo de senhores de grande respeito no Império português:

Nós abaixo assinados, comerciantes desta Praça atestamos, e o juraremos se necessário


for, em como o Capitão Antônio Francisco dos Anjos, morador no Rio Grande, é um
dos principais negociantes daquela Vila, aonde faz umas grandes charqueadas, e faz
navegar um grande número de couros e carnes, não só para esta capital, mas também
para a Bahia e Pernambuco. Rio de Janeiro. [rasurado] de novembro de 1808.
[Assinado] João Gomes Barroso, Amaro Velho da Silva, Elias Antônio Lopes, Manoel
Velho da Silva, Amaro Velho da Silva Sobrinho, Fernando Carneiro Leão, Antônio
Gomes Barroso, Joaquim Antônio Martins.74

Os sobrenomes Carneiro Leão, Gomes Barroso e Velho da Silva eram conhecidos e


respeitados por qualquer comerciante marítimo do Atlântico sul. Tratavam-se de homens
envolvidos no tráfico negreiro e na exportação de açúcar e que estavam inseridos em redes
mercantis de longo alcance.75 Portanto, o capitão-mor Antônio Francisco dos Anjos era
reconhecido como membro da elite local tanto pelos seus pares como pelos grandes
comerciantes do Rio. Ser reconhecido e tratado como o “cacique” de sua aldeia (ou um dos
líderes da mesma) era fundamental para o homem que quisesse ocupar o topo da elite de um
lugar e manter tal posição.76

Contudo, outros proprietários e comerciantes dividiam com o Capitão dos Anjos o posto
de membros da elite local. Em 1815, o visitador D. José da Silva Coutinho considerou que os
homens mais ricos da pequena freguesia eram Domingos de Castro Antiqueira, Domingos
Rodrigues, José Tomas da Silva, Manuel Alves de Moraes, José Pinto Martins, Antônio José
Gonçalves Chaves, Joaquim José da Cruz Secco, Cipriano R. Barcellos e demais irmãos,

74
Seção de Manuscritos. Documentos Biográfios (Antônio Francisco dos Anjos) – BN-RJ.
75
FRAGOSO, João; FLORENTINO, Manolo. Op. cit.
76
Às vezes estas relações mercantis podiam transformar-se em relações de amizade ou até de compadrio, como no
caso de Manuel Fernandes Vieira, importante comerciante e estancieiro, membro das família Silveira descrita
anteriormente, e que tornou-se compadre de Anacleto Elias da Fonseca, um dos mais importante comerciantes de
grosso trato do Rio de Janeiro (HAMEISTER, Martha. Op. cit., 2006, p. 165-166).
114
Agostinho Nunes e o próprio Antônio Francisco dos Anjos.77 Com exceção de Agostinho, os
demais eram todos charqueadores. Além disso, Domingos Rodrigues, Domingos Antiqueira e
José R. Barcellos estavam entre os cinco mais ricos charqueadores com fortuna inventariada na
primeira metade do XIX, o que confere credibilidade ao relato do Bispo. Todos estes
charqueadores atuavam no comércio marítimo e tinham condições de disputar influência e o
poder local com o Capitão dos Anjos.

O prestígio social do mencionado capitão possibilitou bons casamentos para os seus


filhos. Antônio Rafael dos Anjos casou-se com a filha do capitão João Francisco Vieira Braga,
o pai. O filho homônimo de Vieira Braga, que também foi charqueador durante um período
curto de tempo e veio a tornar-se o Conde de Piratini, casou-se com a filha do capitão
Domingos Rodrigues – o charqueador mais rico do período colonial. 78 Assim como Antiqueira,
Vieira Braga, Antônio Francisco dos Anjos e outros, o capitão Domingos Rodrigues também
mantinha negócios diretamente com outros portos do Brasil. Quando faleceu, em 1819, os
inventariantes esperavam uma embarcação sua retornar de Recife. Nesta ocasião, sua viúva
remeteu procurações para Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro, a fim de resolver os trâmites de
seu inventário. Destaque para os procuradores no Rio que eram João Rodrigues Ribas e o
tenente Miguel Ferreira Gomes. 79 O primeiro era o seu próprio filho primogênito que estava
atuando como negociante no Rio, onde investiu no comércio negreiro, conforme a listagem de
traficantes organizada por Florentino. 80 O segundo dispensa comentários. Comerciante de
grosso trato no Rio, Ferreira Gomes concentrou grande parte dos carregamentos de charque
remetidos para o Rio de Janeiro no período.81

Portanto, este pequeno grupo de comerciantes-charqueadores, além de atuar no


comércio marítimo, estava muito bem relacionado com grandes comerciantes de outros portos
brasileiros. O historiador interessado em definir melhor os diferentes estratos e cadeias de
interação social entre o espaço econômico agrário centrado em comunidades locais e os espaços
de poder e comércio mais centrais não pode tratar de forma homogênea as elites de um
município, de uma capitania ou de uma província. Este pequeno grupo de charqueadores que
atuava no comércio marítimo não possuía seu olhar voltado exclusivamente para o âmbito local.
77
MENEGAT, Carla. O tramado, a pena e as tropas: família, política e negócios do casal Domingos José de
Almeida e Bernardina Rodrigues Barcellos (Rio Grande de São Pedro, Século XIX). Porto Alegre: PPG-História
UFRGS, Dissertação de Mestrado, 2009, p. 64.
78
O filho de um charqueador deixou escrito sobre Pelotas no final do setecentos: “Em toda a região, apenas se
destacava da uniforme chateza o sobrado de Domingos Rodrigues, velha construção de 1784, contemporânea dos
primórdios do distrito” (ARRIADA, Eduardo. Op. cit., p. 94).
79
Inventário de Domingues Rodrigues, n. 32, m. 2, Pelotas, cartório de Órfãos e Provedoria, 1818 (APERS).
80
FLORENTINO, Manolo. Op. cit., 2010, p. 256.
81
FRAGOSO, João; FLORENTINO, Manolo. Op. cit., p. 200.
115
Por estabelecerem conexões com a sociedade exterior e serem reconhecidos como os principais
da localidade tanto por comerciantes quanto por autoridades administrativas externas a sua
aldeia, eles se legitimavam enquanto elite regional e, em termos analíticos, não podem ser
tratados como os demais membros de sua comunidade.

Neste sentido, a inserção dos charqueadores pelotenses em redes mercantis atlânticas foi
fator determinante para colocá-los num patamar superior aos charqueadores que não possuíam
cabedais para tanto.82 Quanto maior a inserção do charqueador naquelas redes de comércio
externo maiores eram as chances dele ocupar o topo da hierarquia do grupo, acumulando maior
fortuna, patentes, comendas e ofícios diversos. Neste sentido, os mesmos reuniam elementos
para tornarem-se brokers – no sentido conferido por Edoardo Grendi ao estudar os mercados
em sociedades agrárias e pré-industriais83 – pois eram os mais capacitados para funcionarem
como conectores (mediadores) entre um espaço econômico de trocas mais agrário e não
monetário e um espaço de trocas mais mercantilizado e vinculado ao comércio internacional.
Contudo, esta posição diferencial não precisava ser reconhecida somente pelos “de fora”. A
legitimidade social era uma necessidade entre os seus próprios pares e suas gentes…

3.3 CAPITÃES, COMENDADORES E COMPADRES DE PARDOS: A ORGANIZAÇÃO


SOCIAL NO EM TORNO DAS CHARQUEADAS

Domingos de Castro Antiqueira nasceu em Viamão, município próximo a Porto Alegre,


no ano de 1763, e estabeleceu-se com uma charqueada nas margens do arroio Pelotas no início
do século XIX. Comerciante ativo e grande escravista, ele apoiou, no período joanino, a
expansão do Império português sobre a Banda Oriental, ajudou a financiar a Guerra da
Cisplatina (1825-1828) e combateu os rebeldes na Revolta dos Farrapos (1835-1845). Por conta
da sua fidelidade aos monarcas luso-brasileiros e do seu comprometimento com a Coroa foi
reconhecido Fidalgo Cavaleiro da Casa de S. M. o Imperador, recebeu a comenda da Imperial
Ordem do Cruzeiro e os títulos de Barão e Visconde de Jaguari. 84 Sua trajetória não teria nada
de incomum se não fosse por um detalhe. A mãe de Antiqueira, Maria de Ávila, era filha de

82
Gabriel Berute já havia notado este fator ao examinar as ligações dos comerciantes do Rio Grande do Sul com a
praça do Rio de Janeiro: “As trajetórias (…) dos demais comerciantes mencionados acima, sugerem que existiram
mecanismos através dos quais ao menos uma parte dos comerciantes estabelecidos no Rio Grande tiveram
condições de reunir o cabedal e as relações necessárias para serem matriculados como negociante de grosso trato.
Provavelmente, a manutenção de negócios com o Rio de Janeiro cumpriu um papel de grande importância para
uma possível ascensão na hierarquia mercantil” (BERUTE, Gabriel. Op. cit., 2006, p.145).
83
GRENDI, Edoardo. Microanálise e história social. In: OLIVEIRA, Mônica; ALMEIDA, Carla (Org.). Exercícios
de micro-história. Rio de Janeiro: FGV, 2009, p. 19-38.
84
CARVALHO, Mário T. Op. cit., p. 127-128.
116
índios de uma tribo charrua, tendo se casado com o paraguaio José de Castro Antiqueira. Seu
avô índio era de Salto, na Banda Oriental. Não bastasse ser um nobre de sangue mestiço,
Antiqueira ainda teve um filho ilegítimo com a parda forra Genoveva.85

Esta íntima relação com algumas famílias pertencentes às classes subalternas daquela
sociedade não impediu Antiqueira e outros de ascenderem socialmente e veicular pelos espaços
mais prestigiosos de Pelotas. Entre os bens do seu patrimônio, avaliados em 1829, verificou-se
grande plantel de escravos, imóveis, prataria, jóias e uma carruagem mandada vir diretamente
de Londres. No seu círculo de parentesco, por meio do matrimônio de seus filhos e netos, a
família Antiqueira uniu-se ao capitão Antônio Soares de Paiva, ao marechal Conde de Porto
Alegre, ao Barão de Butuí e aos Silveira Martins. 86 Além disso, ele também foi compadre do
Conde de Piratini e do próprio capitão Paiva. Quando Saint Hilaire esteve na casa deste, em
1822, deixou anotado: “Vários negociantes do Rio Grande e alguns proprietários da vizinhança,
todos muito bem vestidos, estavam reunidos na casa do coletor-geral”.87

O mencionado círculo de parentes de Antiqueira era somente um dos diferentes núcleos


que formavam a elite sul-rio-grandense da época. Grupos formados por comerciantes,
estancieiros, funcionários da Coroa, oficiais das milícias, vereadores e comendadores, muitos
deles aparentados entre si, eles compunham um cenário típico da América portuguesa. Soma-se
a isto o fato de que o reconhecimento da autonomia política e do papel das elites locais no
governo de seus povos constituía-se num traço marcante do Império português.88 E desta
dinâmica surgiu uma prática de distribuição de mercês régias, comendas honoríficas e
distinções que denotavam a posição social dos seus portadores e que ainda estavam vigentes no
início do oitocentos.89 Dos 62 charqueadores, por exemplo, pelo menos 12 receberam a patente
de capitão, 2 a de tenente e 1 a de coronel – dentre os quais estavam muitos dos mais atuantes

85
Genealogia construída por Luiz Antônio Alves. Para maiores detalhes da sua obra “Memorial Açoriano” (que
totaliza 52 volumes de pesquisa genealógica) ver http://www.fuj.com.br/?a=livro (consultado pela última vez em
30.05.2013). Um catálogo mais sintético pode ser consultado em ALVES, Luiz Antônio. Memorial Açoriano:
Genealogia do Século XVIII – Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS: EST Edições. 2005.
86
CARVALHO, Mário T. Op. cit., p. 127-128. Estas famílias, na segunda metade do século XIX, estiveram entre
as mais poderosas do Rio Grande do Sul, concentrando riqueza e grandes cargos políticos no Senado e em
Gabinetes ministeriais.
87
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 113.
88
Como demonstraram BOXER, Charles R. O Império colonial português. São Paulo: Cia. Das Letras, 2002;
FRAGOSO, João; BICALHO, Maria Fernanda; GOUVÊA, Maria de Fátima (Orgs). O Antigo Regime nos
Trópicos: a dinâmica imperial portuguesa. (séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001;
MONTEIRO, Nuno G.; CARDIM Pedro; CUNHA, Mafalda (Org.). Optima Pars: elites ibero-americanas do
Antigo Regime. Lisboa: ICS, 2005.
89
São muitas as pesquisas que evidenciam estas práticas na América portuguesa. Ver, por exemplo, GOMES, José
Eudes. As milícias d’El Rey: tropas militares e poder no Ceará setecentista. Rio de Janeiro: FGV, 2010; STUMPF,
Roberta G.. Cavaleiro do ouro e outras trajetórias nobilitantes: as solicitações de hábitos das ordens militares nas
Minas setecentistas. Brasília. Tese de Doutorado. PPGHIS/UnB, 2009.
117
no comércio marítimo – e outros 6 possuíam comendas honoríficas, denotando um grande
prestígio social local. 90 Uma vez que a participação nos mercados regionais e as concessões de
crédito eram atividades eivadas por relações pessoais, é possível imaginar, como demonstrou
Tiago Gil, o grau de influência que capitães exerciam em tais operações. 91

Soma-se a isto o fato de que a elite dentro da elite charqueadora estava fortemente
aparentada, formando um núcleo que além dos vínculos sociais com comerciantes de fora da
província também possuía laços de parentesco com os próprios charqueadores. Tal traço, como
diversos autores demonstraram, foi comum nas práticas mercantis do período colonial tardio.92
Dos 62 charqueadores aqui analisados, 36 aparecem como padrinhos dos filhos de outros
charqueadores do mesmo grupo nos registros paroquiais de batismo da paróquia de São
Francisco de Paula (Pelotas), entre 1812 e 1825.93 Somado aos laços de parentesco
matrimoniais (considerei sogros e genros, cunhados e charqueadores cujos filhos e filhas
casaram-se unindo ambas as famílias) e consanguíneos (considerei somente irmãos, pais e
filhos, tios e sobrinhos), a teia de relações parentais apresenta uma nítida concentração (ver
Gráfico 3.1). Portanto, Pelotas já nasceu com uma riqueza, prestígio social e status altamente
concentrados nas mãos de poucas famílias.

No Gráfico 3.1, os pontos marcados em preto são comerciantes-charqueadores


matriculados e/ou proprietários de grandes embarcações marítimas e charqueadores com
comendas e/ou patentes de milícias, podendo um único indivíduo concentrar mais de uma
destas distinções.94 A partir dele, pode-se perceber que este grupo, composto por 26
charqueadores (42% dos 62 proprietários), era fortemente aparentado entre si, concentrando a
maioria dos vínculos representados no gráfico. Os charqueadores sem nenhuma das
mencionadas distinções estavam mais soltos e sem laços parentais com outros charqueadores.
90
Estas informações foram coletadas a partir de uma busca nominal nos registros de batismo e casamento de
Pelotas entre 1812 e 1825, nos inventários post-mortem e na bibliografia consultada.
91
Estudando o comércio de tropas entre Viamão, Curitiba e Sorocaba, Gil considerou: “Em primeiro lugar, deve-se
ter em conta a importância dos oficiais, especialmente os capitães, na economia local, como agentes econômicos
diretos, comandando negócios, criações de animais, lavouras, lavras de minérios, dentre outras atividades que
constituíam a base da economia regional. É certo que era uma economia relativamente pobre, se comparada, por
exemplo, com os negócios desenvolvidos na Praça do Rio de Janeiro na mesma época. Mas eram estes capitães
locais, à exemplo dos capitães e coronéis Carneiro Leão e Gomes Barroso, que comandavam a dinâmica
econômica. No caso da rota das tropas, os capitães eram os senhores daquela pobre economia, como os do Rio de
Janeiro eram de grossa aventura” ( GIL, Tiago Luís. Coisas do caminho: tropeiros e seus negócios do Viamão à
Sorocaba (1780-1810). Tese de Doutorado, UFRJ, 2009, p. 227). Sobre a estrutura de organização das milícias e
tropas militares no Império português ver GOMES, José Eudes. Op. cit.
92
Ver nota 64.
93
Tive acesso aos originais dos Livros de Batismo de Livres e Escravos graças à historiadora Dúnia Nunes que me
disponibilizou-os em formato digital. A análise dos dados não teria sido possível sem o auxílio do historiador
Leandro Oliveira, que trabalhou na transcrição dos mesmos. Agradeço a ambos pela gentileza.
94
No geral, 21 atuavam no comércio marítimo, 15 possuíam patentes de oficiais e 6 detinham comendas. Como
alguns deles acumularam qualificativos, o número total chega a 26.
118
Isto evidencia uma prática endogâmica entre as famílias do topo do grupo, sedimentada por
relações de compadrio e parentesco consanguíneo. Neste sentido, pode-se dizer que a primeira
elite do complexo charqueador escravista pelotense parecia formar uma grande família.

Gráfico 3.1 – Vínculos de parentesco entre os 62 charqueadores de Pelotas (1790-1835)95

Fonte: Livro de batismo de livres, n. 1 (Arquivo do Bispado de Pelotas); Testamentos e


Inventários post-mortem de Pelotas (APERS).

Contudo, estes laços parentais não se davam apenas no sentido horizontal e sua
verticalidade não encontrava somente vínculos para cima. Conforme Carvalho, o charqueador
Domingos Antiqueira, neto de índios, possuía uma chácara na Ilha dos Marinheiros, a qual
denominou “Filantropia”, porque “o produto de sua renda contribuía para o bem estar de grande
número de famílias pobres”. Segundo Alves, estas pessoas pobres poderiam ser descendentes da
tribo a qual pertencia o seu avô.96 Difícil avaliar a validade desta hipótese, mas rastreando a
vida de Antiqueira, descobri, em seu inventário, que ele realmente possuía uma Fazenda
chamada “Filantropia” – localizada na Ilha dos Marinheiros. A busca também revelou que, em

95
As representações das redes foram montadas utilizando o software UCINET versão 6 for Windows. Para a
listagem dos charqueadores com suas respectivas siglas ver Anexo 1.
96
Ver nota 80.
119
1820, ele batizou Leopoldino, filho legítimo do índio Joaquim Lencina com Francisca Antônia
– indicando que as afirmações dos autores podem ter um fundo de veracidade. 97

Esta história abre um espaço para se pensar que, assim como outras elites, os
charqueadores também imprimiam sua autoridade local na busca de uma maior legitimação do
exercício de dominação social sobre as camadas mais pobres da sociedade. Sobretudo na época
das safras, os charqueadores e as classes subalternas em geral conviviam e circulavam por
praticamente os mesmos espaços e seria demasiado simples considerar que a sua aproximação
se pautasse exclusivamente em relações de conflito. Não é demais lembrar que, nesta época,
mais da metade da população era escrava e algo próximo de 1/3 era branca. Neste sentido, é
possível perceber que as charqueadas, segundo relatos de contemporâneos, funcionavam como
aldeias aglutinadoras de diferentes setores da sociedade, reunindo grande população de cor,
entre cativos e libertos. Nas palavras do abolicionista Alberto Coelho da Cunha, as charqueadas
possuíam o seu “agregado próprio”:

Onde quer que um estabelecimento de charqueada existisse, pelos seus arredores


tinha-se formado um agrupamento de ranchos de moradia do pessoal de dependência
do movimento da fábrica e nas suas aproximações, situada a uma volta do caminho, a
vendinha a que se iam suprir dos gêneros de consumo diário (…) Nas aproximações
das charqueadas se foram localizando famílias de trabalhadores, colocando os seus
arranchamentos a feição de aldeolas, agasalho de braços prontos a acudir ao içar da
bandeirola que anunciava a hora da matança. Certa animação alegrava as suas
cercanias, por ser incessante, no tempo das safras, o movimento de gente que, a pé e a
cavalo, ou de carroças e carretas, que entravam e saíam pela porteira da charqueada. 98

As impressões de Cunha, que era filho de um charqueador, demonstram que se nas


entressafras aqueles estabelecimentos já eram rodeados por uma população de dependentes, no
período de abate a quantidade de pessoas a orbitarem as pequenas fábricas aumentava bastante.
Mas além dos escritos de Cunha, outros dois relatos, desta vez de contemporâneos que
estiveram em Pelotas na década de 1810, oferecem uma visão interessante do espaço social em
que os galpões de charquear estavam erguidos. Conforme John Luccock:

Uma grande extensão de terra é ali designada pelo nome de charqueadas, sendo
famosa pela sua produção luxuriante e pelo seu gado numeroso e nédio. Vêem-se
casas disseminadas por ali, muitas delas espaçosas, e algumas com certas pretensões

97
Com este exemplo, reforço o fato de que estou analisando somente um grupo de elite. Os charqueadores
batizaram filhos de um grande número de pessoas de diferentes estratos sociais. Mas foge às pretensões desta
pesquisa tratar de todos estes vínculos. Além do mais, eles também casaram seus filhos com famílias de outros
grupos sociais, como criadores e negociantes. O papel das mulheres no interior destas malhas parentais de
compadrio e matrimônio também merece uma pesquisa específica. Para um exemplo de como tal empreitada pode
render bons frutos ver HAMEISTER, Martha. Op. cit.
98
ARRIADA, Eduardo. Op. cit., p. 91-93.
120
ao luxo; existem capelas anexas a muitas delas e em volta de uma encontra-se tamanho
número de habitações menores que o conjunto bem mereceria o nome de aldeia.99

De acordo com o relato do comerciante inglês, muitas das charqueadas possuíam


capelas anexas e numa delas, que ele diz ter visto, um número de habitações menores a cercava.
A associação entre a charqueada com uma aldeia e o destaque dado para as capelas, no centro
do território das mesmas, também foi realizada por Nicolau Dreys:

À pouca distância da cidade e rodeando-a como um centro, estão as charqueadas do


Rio Grande (…) formando cada uma delas um círculo de população especial, tão vasto
às vezes e encerrando um número tal de brancos, de agregados e de negros de serviço,
que parece, à primeira vista, uma verdadeira aldeia com suas ruas e sua capelinha, cujo
campanário domina em certas charqueadas as diversas moradas dos habitantes. 100

Estes trechos não poderiam ser mais eloquentes e destacam, além do caráter
concentrador em termos populacionais, o fator religioso que o espaço charqueador representava
– visto a centralidade de suas capelas e oratórios, algo que destacarei posteriormente. Este
aglomerado de pessoas que rodeavam as charqueadas, fossem familiares, livres pobres,
agregados ou escravos, também pode ser atestado por outros relatos. Conforme Fernando
Osório, a charqueada que Pinto Martins construiu em Pelotas atraiu grande número de pessoas,
algumas das quais empregaram-se por ali, sendo que outras famílias se instalaram em torno do
estabelecimento.101 Nesta ocasião, o próprio Pinto Martins teria se arranchado nas terras da
família Silveira e não estava sozinho, pois daquele mesmo espaço compartilhavam outras
famílias, além de charqueadores, que margeavam os principais rios de Pelotas. 102 Portanto,
neste cenário inicial que marcou o colonial tardio, muitos charqueadores ergueram seus galpões
de charquear em terrenos de terceiros, dividindo-os com um variado número de pessoas de toda
a cor e condição social. Além disso, quando proprietários, os charqueadores podiam permitir
que outras pessoas se arranchassem em suas terras. Conforme Eduardo Arriada, nos terrenos do
charqueador Antônio Pereira da Cruz, por exemplo, estavam estabelecidos Antônio Ferreira das
Fontes, o preto Bartolomeu Correia, Manuel Domingues, Joaquim Silveira e Souza, Manuel do
Nascimento e Manuel Cordova.103

Foi deste “círculo de população especial”, conforme as palavras de Dreys, que também
reunia os agregados, os libertos, os índios e, principalmente os escravos, que Pinto Martins

99
LUCCOCK, John. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil. São Paulo: USP, 1975, p. 142.
100
DREYS, Nicolau. Notícia descritiva da Província do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: IEL, 1961, p. 117-118.
101
OSÓRIO, Fernando. A cidade de Pelotas. Pelotas: Armazém Literário, v. 1, 1997, p. 54-55.
102
MONQUELAT, A. F. Op. cit., p. 124-125.
103
ARRIADA, Eduardo. Op. cit., p. 70. É muito provável que tais relações também reunissem conflitos entre
proprietários e o restante da população que orbitava tais terrenos, mas não tive fôlego para investigá-las de forma
aprofundada.
121
encontrou as mães dos seus herdeiros reconhecidos em testamento. Além dele, que viveu em
estado de solteiro, e Antiqueira, que apesar de ter tido três esposas ao longo da vida, teve filho
com a parda forra Genoveva, o charqueador Ignácio José Bernardes, sócio de Pinto Martins na
charqueada, também teve 3 filhos pardos: José Ignacio Bernardes da Costa, Eugênia Ignacia
dos Prazeres e Ignacia Xavier dos Prazeres. Apesar de não citar o nome da (s) mãe (s), no
mesmo documento o charqueador deixou dois escravos para a parda Domingas Xavier e
mandou descontar os 600$000 que o filho José da Costa gastou na Bahia, sem a sua
autorização, o que pode indicar a sua conexão com os portos do nordeste. O charqueador
também era cirurgião e em seu inventário constam uma série de livros em português e francês,
dos quais falarei em capítulo posterior.104

Estes casos revelam uma abertura, mesmo que ínfima, para a mobilidade social e
geracional de pardos e pretos na sociedade pelotense do período colonial tardio.105 Ao lado do
mulato Domingos José de Almeida e do mestiço de índios Domingos de Castro Antiqueira,
tinha-se, agora, o pardo Liberato Pinto Martins, novo charqueador-herdeiro da comunidade, e
José I. Bernardes da Costa, que herdou a charqueada do pai cirurgião. Ambos eram filhos de
mulheres egressas do cativeiro. Na presente análise, o estudo destas trajetórias torna-se
importante porque ajuda a compreender melhor a heterogeneidade de indivíduos que
compunham a primeira geração de charqueadores. Na segunda metade do oitocentos, por
exemplo, quando a elite charqueadora já estava mais sedimentada social, política e
economicamente, não localizei indivíduos pertencentes às classes subalternas integrando o
mencionado grupo de empresários.

Os casos de charqueadores com filhos ilegítimos talvez não tenham sido raros. O capitão
José Ferreira de Araújo, por exemplo, teve uma exposta batizada em sua casa, filha de pais
incógnitos. Anos depois, o charqueador veio a reconhecer a paternidade da criança. 106 O
charqueador João Duarte Machado, ex-proprietário de uma das mães de um filho de Pinto
Martins, reconheceu em testamento a paternidade de uma “enjeitada” que vivia em sua casa. 107
É bastante provável que outros charqueadores tenham se envolvido e tido filhos com mulheres
pardas, sem que os mesmos tivessem sido reconhecidos em documentos, mas que fossem de
conhecimento dos mais chegados.108 Isto talvez ajude a explicar a indignação do charqueador

104
Inventário de Ignácio J. Bernardes, n. 217, m. 15, Pelotas, 1º cartório de órfãos e provedoria, 1838 (APERS).
105
Sobre esta questão, ver GUEDES, Roberto. Op. cit., 2008.
106
Livro de batismo de livres, n. 1, 06.11.1818, p. 100v (Arquivo do Bispado de Pelotas).
107
Inventário de João Duarte Machado, n. 123, m. 10, Pelotas, 1º cartório de órfãos e provedora, 1828 (APERS).
108
Até porque não foram localizados muitos testamentos dentro do grupo.
122
Antônio José Gonçalves Chaves com relação a estas “íntimas relações” entre proprietários
brancos e mulheres de cor. Em 1822, ele deixou escrito:

Deve a natureza, no progresso de sua procriação, operar igual número de mulheres e


homens; vêm de Portugal muitos homens e suposto que alguns deles escapam à praça
e queiram casar, devem não achar com quem celebrar núpcias, pois dado o caso que os
brancos em tão pequeno número tenham a sua população em geral quantidade nos dois
sexos, não restam mulheres para os que vêm de fora e daqui se seguem celibatários
escandalosos pelas misturas com a gente de cor; e em prejuízo desta resulta uma
população a mais desprezível e uma desmoralização universal.109

Nas palavras de Chaves, a principal justificativa para a “escandalosa” união entre


portugueses e negras, era o pequeno índice de mulheres reinóis que vinham para o Brasil.
Analisando o Livro de casamentos dos livres de Pelotas entre 1812 e 1825 foi possível verificar
que o charqueador tinha razão. Dos 254 matrimônios registrados no documento havia 46 noivos
portugueses e somente 1 mulher reinol. Das Ilhas eram 18 homens para 2 mulheres. Mais de
80% das noivas eram naturais do Rio Grande do Sul. Portanto, era um mercado matrimonial em
que os imigrantes reinóis, caso desejassem se casar, estavam obrigados a unirem-se às mulheres
da terra. Contudo, devido ao pequeno número de famílias de elite, não havia lugar para todos os
que buscassem um “bom” casamento.110 Desta situação decorria algo semelhante ao que
Florentino e Machado identificaram para a freguesia de Inhaúma, no Rio de Janeiro, ou seja, a
mancebia entre mulheres pardas e negras com portugueses solteiros, como os charqueadores
Pinto Martins e Ignácio Bernardes, por exemplo. 111

Pelotas apresentava índices de ilegitimidade tão altos como em outras regiões do


Brasil. 112 Cerca de 21,5% das crianças batizadas na freguesia, entre 1812 e 1825, eram fruto de
relações não abençoadas pela Igreja Católica. 113 Alguns anos depois, quando da sua visita
paroquial em Pelotas, o Bispo Antônio Vieira da Soledade deixou registrado em livro o que
considerava uma “libertinagem”:

O Reverendo Francisco Florêncio da Rocha, natural da Bahia, idade 43 anos, ordenado


na mesma cidade, em 1802, serviu de pároco encomendado nesta freguesia por 2 anos,
onde se prestou a todos, para o bem e para o mal. Clérigo concubinado com escândalos
dos poucos bons que há nesta freguesia, onde é ordinária a mancebia, e por isso pouco
estranhada, e por muitos que não vivem nela, é todavia disfarçada por certa doutrina

109
CHAVES, Antônio José Gonçalves. Memórias ecônomo-políticas sobre a administração pública do Brasil.
Porto Alegre, Cia. União de Seguros Gerais, 1978, p. 62.
110
Livro de casamentos n. 1 (Arquivo do Bispado de Pelotas).
111
FLORENTINO, Manolo; MACHADO, Cacilda. Migrantes portugueses, mestiçagem e alforrias no Rio de
Janeiro imperial. In: FLORENTINO, Manolo (Org.). Tráfico, cativeiro e liberdade (Rio de Janeiro, séculos XVII-
XIX). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, p. 367-388.
112
BRETTEL, Caroline; METCALF, Alida. Costumes familiares em Portugal e no Brasil: paralelos
transatlânticos. População e Família, v. 1, n. 1, 1998, p. 127-152.
113
Livro de batismo de livres, n. 1 (Arquivo do Bispado de Pelotas).
123
de libertinagem que aqui se prega com a liberdade do tempo, muito perniciosa à moral
do Evangelho.114

Além da condenável “mancebia”, os vínculos entre os charqueadores desta primeira


geração e as classes subalternas estreitavam-se mais ainda quando se observa o parentesco
espiritual. Como Pelotas foi elevada à condição de freguesia somente em 1812, até esta data os
oratórios privados espalhados pelas estâncias e charqueadas possuíam grande importância no
exercício dos sacramentos católicos. Antes da instalação da freguesia e da matriz, o visitador
Agostinho Mendes dos Reis anotou a presença de 9 oratórios no povoado de Pelotas. O
prestígio do Capitão-mor Antônio Francisco dos Anjos se destaca novamente, pois destes 9 ele
foi o único proprietário de oratório que teve o seu nome citado, ao invés do nome da fazenda ou
da localidade sede dos mesmos. Possuir um oratório em suas terras era de extrema importância
não apenas no aspecto religioso que tal fenômeno representava, mas também, pelo fato de que o
mesmo devia servir como fonte de influência, poder e status diante da população mais pobre.
Estudando os engenhos de açúcar em Cuba, Fraginals verificou a presença de capelas no
interior das unidades produtivas com os seus respectivos santos padroeiros, denotando a
importância da igreja e das práticas religiosas para a sacarocracia cubana no século XVIII.115

A vida religiosa nas pequenas vilas e freguesias ocupava um espaço central entre as
famílias de elite. Conforme Denise Ognibeni, na década de 1810, os charqueadores, juntamente
com suas esposas, “participavam ativamente nas decisões concernentes aos assuntos religiosos
na nova freguesia, decidindo o local da igreja, patrocinando as obras, realizando procissões com
o santo padroeiro”, além de exercerem cargos e desempenharem papéis de destaque nas
Irmandades e procissões locais. Os padres muitas vezes hospedavam-se nas charqueadas ou
viviam de agregados em algumas propriedades, onde poderiam rezar suas missas nos oratórios
privados dos próprios senhores.116 Por conta disto, na década de 1810, o charqueador José da
Costa Santos, juntamente com sua esposa e suas 4 filhas, solicitaram licença para poder rezar
missa no oratório privado de sua Estância de São Lourenço. O tenente-coronel José Antônio de
Oliveira Guimarães, uma das testemunhas convidadas a depor sobre a idoneidade dos
requerentes, respondeu que o casal vivia “à maneira da nobreza” e que “há na dita Fazenda
114
Visitas Pastorais, Livro VP-21 (1824-1825) - Cúria do Rio de Janeiro.
115
FRAGINALS, Manuel M. O Engenho. São Paulo: Unesp/Hucitec, v. I, 1989, p. 138-139. Schwartz, ao estudar
os engenhos de açúcar do Recôncavo baiano, mencionou que os escravos não iniciavam o trabalho no período da
safra sem antes dos párocos benzerem os estabelecimentos e as máquinas. “Os escravos levavam aquilo tão a sério
quanto os senhores. Recusavam-se a trabalhar se a moenda não fosse abençoada e, durante a cerimônia, muitas
vezes tentavam avançar para receber algumas gotas de água benta no corpo” (SCHWARTZ, Stuart. Segredos
internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550-1835. São Paulo: Cia. das Letras, 1988, p. 96).
116
OGNIBENI, Denise. Charqueadas pelotenses no século XIX: cotidiano, estabilidade e movimento. Porto
Alegre: PPGH/PUC-RS, Tese de Doutorado, 2005, p. 86-91.
124
perto de duzentas pessoas que são da família dos impetrantes”. É difícil saber se todos seriam
de fato seus familiares. No entanto, o próprio requerimento oferece uma pista de quem seriam
estas duzentas pessoas. Segundo a vontade do charqueador:

E as missas que nos dias santos e festas de preceitos no dito oratório se celebrarem
poderão ouvir os suplicantes com todos os seus parentes, consanguíneos ou afins,
familiares e criados, que juntamente com eles habitarem nas mesmas casas, como
também seus hóspedes nobres, com declaração que os ditos parentes, familiares e
hóspedes nobres, somente estando presentes à celebração do Santo Sacrifício da Missa
os mencionados impetrantes (…).117

Interessante notar que por duas vezes eles diferenciaram os parentes consanguíneos e
afins dos “familiares”. Além disso, também é considerada a presença dos criados. No total,
Costa Santos possuía 172 escravos espalhados pela sua Fazenda. O testamento do charqueador,
aberto em 1827, ajuda a explicar quem pertencia a este contingente de parentes, familiares e
criados. No documento ele deixa bens para afilhados, compadres, capatazes, agregados, além de
alforriar um grande número de escravos. 118 É provável que além dos indivíduos mencionados
houvesse muitos outros que não mereceram menção especial do falecido, dentre os quais
podiam estar libertos e índios com suas roças e pequenos rebanhos vacuns espalhados pelas
vastas terras do charqueador.119

Portanto, o compadrio, cuja importância era bastante significativa naquela sociedade,


abria espaços para que os charqueadores estabelecessem laços de parentesco espiritual com
setores das classes subalternas. No Gráfico 3.2, todos os pardos, pretos e índios que encontrei
tendo seus filhos batizados por charqueadores, entre 1812 e 1825, foram marcados em cor
cinza. Também incluí entre estes os pardos filhos ilegítimos de charqueadores citados
anteriormente. Uma visão que entendesse que tais vínculos diminuiriam a condição de elite do
charqueador poderia supor que as alianças com tais setores da sociedade estivessem reservadas
aos charqueadores de menor riqueza e prestígio social. Mas não é isso que se verifica. É
exatamente o setor mais notável da elite charqueadora (grifado em preto) que concentra os laços
parentais com os grupos subalternos (grifados em cinza). Tais vínculos poderiam ser usados
pelos mais pobres como forma de inserir-se em uma rede social de forma mais ou menos
estratégica e, assim, adquirir recursos para beneficiar seus parentes e amigos. Estas teias eram
sem dúvida muito mais amplas, pois não contabilizei os compadres e comadres das esposas e

117
Requerimento de oratório privado de José da C. Santos. Série Breve Apostólico. Notação 394. Cúria do RJ.
118
Inventário de José da Costa Santos, n. 113, m. 9, Pelotas, 1º cartório de órfãos e ausentes, 1827 (APERS).
119
Sou inclinado a pensar nisto pelo grande percentual de libertos na população pelotense recenseada em 1833.
Conforme a Tabela 3.3, eles somavam 1.137 indivíduos (10,5% da população total).
125
dos filhos dos charqueadores e nem acresci nesta análise os batismos de escravos. 120 O
compadrio era o lugar possível para a realização de vínculos parentais entre ricos e pobres, uma
vez que, devido à forte endogamia de classe, o matrimônio não estava aberto aos mesmos. 121

Gráfico 3.2 – Vínculos de parentesco entre os 62 charqueadores de Pelotas com as classes


subalternas a partir dos registros de batismo de livres (1812-1825)

Fonte: Livro de batismo de livres, n. 1 (Arquivo do Bispado de Pelotas);


Testamentos e Inventários post-mortem de Pelotas (APERS).

O estudo do compadrio sob uma perspectiva geracional não deve ser excluído da
análise, que também podia envolver a mobilidade social entre compadres de condição inferior.
Quanto a isto, posso oferecer um exemplo recorrendo novamente ao incansável capitão-mor
Antônio Francisco dos Anjos. Em 1815, ele batizou a pequena Benigna, filha de Manuela
Francisca Moreira e Severino Gonçalves, ambos pretos libertos e casados. Em 1821, a mesma
Manuela teve o filho Herculano pardo batizado pelo genro de Francisco dos Anjos, o capitão
João de Souza Mursa. E em 1824, novamente Manuela convidou um filho de Francisco dos
120
Sobre a importância do compadrio nas redes de relações das famílias de elite e do parentesco espiritual com as
classes subalternas ver HAMEISTER, Martha. Op. cit., 2006; FRAGOSO, João. Efigênia Angola, Francisca Muniz
forra parda, seus parceiros e senhores: freguesias rurais do Rio de Janeiro, século XVIII: uma contribuição
metodológica para a história colonial. Topói, v. 11, n. 21, jul/dez, 2010, p. 74-106; FARINATTI, Luís Augusto. Os
escravos do Marechal e seus compadres: hierarquia social, família e compadrio no Brasil (c.1820-c.1855). In:
XAVIER, Regina (Org.). Escravidão e liberdade: temas, problemas e perspectivas de análise. São Paulo:
Alameda, 2012, p. 143-174.
121
Isto não significa que os charqueadores menos ricos e de menor prestígio não possuíssem tais vínculos, pois a
análise centra-se no 1º livro de batismo dos livres entre 1812 e 1825. Uma pesquisa mais abrangente e que
envolvesse os batismos de escravos poderia trazer resultados adicionais, mas não tive fôlego para tanto.
126
Anjos, Antônio Rafael, para batizar outro filho seu, desta vez no oratório da charqueada. Nesta
ocasião, tanto a criança como o seu pai, Zeferino Inácio da Siqueira, foram classificados pelo
padre como “brancos”, enquanto Manuela não teve sua cor mencionada, o que poderia indicar
uma suposta mobilidade social desta preta liberta, ao longo de 10 anos.122 Mas os grandes
trunfos em arrematar compadres e comadres entre as classes subalternas foram o seu outro filho
Domingos e o mencionado genro Mursa. Este era natural do Rio de Janeiro, e batizou duas
crianças pardas e dois índios, todos filhos de casais diferentes. O capitão Domingos dos Anjos,
por sua vez, batizou outras duas crianças pardas, uma filha de índios e também a pequena Ana,
exposta na casa do charqueador José Ferreira da Araújo, que, anos depois, reconheceu-se ser
filha do próprio charqueador.123

Portanto, o capitão-mor Antônio Francisco dos Anjos, um dos homens mais poderosos
daquela pequena aldeia, reconhecido por visitadores e comerciantes de grosso trato do Rio
enquanto tal, também possuía uma notável malha parental composta por índios, pardos e pretos
forros. Na prática, esta diversificada teia de compadres e parentes, onde brancos ricos com
distinção honorífica ou patentes ocupavam uma posição de destaque, podia ser acessada em
momentos de necessidade, tanto no cotidiano quanto em ocasiões especiais, representando um
pedido ou uma retribuição de algo, como, por exemplo, em situações de recrutamento e guerra,
disputas políticas e territoriais, períodos de safra ou para se obter favores dos mais diversos.

As cartas que o charqueador Domingos José de Almeida enviou para a sua esposa nos
anos de 1835 e 1836 são bastante reveladoras da importância desta malha parental na vivência
de suas famílias. Em junho de 1835, quando Domingos foi a Porto Alegre assumir sua vaga de
deputado provincial, escreveu para a esposa mandando “abraços a nossos filhos e saudações a
teus pais, compadre José Félix, teus irmãos, José Pedro, João da Cunha e a todos de casa”.124
Tendo iniciado a Revolta dos Farrapos, três meses depois, ele tomou parte do lado rebelde.
Nesta ocasião, a dona Bernardina, retirando-se para lugar mais seguro com os filhos do casal,
esteve cercada por esta ampla gama de amigos, parentes e compadres, como fica claro nas
cartas. Domingos sempre as terminava recomendando aos mesmos, para quem pedia favores
diversos. Numa carta em que dava instruções de como agir com os escravos, ele recomenda-a
aos “compadres José Félix, Joaquim, João, Chaves, Chastan, Chevalier e David”. 125 Em outras,
faz referências a mais quatro compadres. Rolino, que também era capataz, Cipriano, Rafael e

122
Conforme o sugerido por GUEDES, Roberto. Op. cit., 2008.
123
Livro de batismo de livres, n. 1 (Arquivo do Bispado de Pelotas).
124
Carta de Domingos para Bernardina, 20.06.1835, CV - 174.
125
Carta de Domingos para Bernardina, 14.03.1836, CV - 195.
127
Belchior, além de muitas outras pessoas, às vezes, denominadas como “amigo”.126 Não
surpreende que, em uma carta de Bernardina para Domingos, ela deixara escapar: “a nossa
família é muita grande”. 127

Com muita atenção, este agregado de dependentes e parentes pode ser verificado em
outras fontes. Em 1821, um escravo do charqueador Gonçalves Chaves matou um parceiro de
cativeiro, vindo a fugir para o mato. Uma das testemunhas, o também charqueador Boaventura
R. Barcellos, disse ter oferecido “o seu capataz e sua gente para procurarem e prenderem a dito
matador e que não sendo preso desta ocasião, o fora depois”.128 Em 1828, por ocasião do
inventário do charqueador João Duarte Machado, foi declarado na avaliação dos bens que um
potreiro fazia divisa com um valo que o charqueador Joaquim José de Assumpção “fez com sua
gente no Banhado”.129 No próprio requerimento do charqueador José da Costa Santos, citado
anteriormente, fica claro que as missas rezadas no seu oratório privado poderiam ser assistidas
por ele, sua esposa, suas filhas, “com todos os seus parentes, consanguíneos ou afins, familiares
e criados, que juntamente com eles habitarem nas mesmas casas”, ou seja, a sua gente. Neste
sentido, se por um lado alguns charqueadores temiam uma rebelião escrava naquelas paragens,
outros estabeleceram alianças espirituais com indivíduos das classes subalternas, num
emaranhado de complexas relações e comportamentos sociais que merecem maiores estudos.

Portanto, creio que este agregado populacional que orbitava às charqueadas devia
manter distintos vínculos com esta elite, desde o parentesco espiritual até as relações de
trabalho, de negócios eventuais ou as abastecendo com gêneros alimentícios produzidos em
suas pequenas roças. Esta convivência podia ser mais ou menos harmônica, mas andava lado a
lado com a dependência econômica e certamente combinava-se com a existência de muitos
embates e conflitos no seu cotidiano. Tal estrutura social, mais característica da fase inicial da
montagem das charqueadas, ou seja, do colonial tardio, possuía alguns traços muito
semelhantes com o que João Fragoso verificou nas unidades açucareiras fluminenses dos
séculos XVII e XVIII. Segundo o autor, aquela paisagem agrária, enquanto espaço econômico
de interação social, reunia verdadeiras aldeias coloniais, onde a nobreza da terra disputava o
poder local aliando-se a outras famílias, relacionando-se com um grupo significativo de

126
Cartas de Domingos para Bernardina, 02.10.1835, 05.01.1836, 23.02.1836, CV - 176, 186 e 191.
127
Carta de Bernardina para Domingos, 19.12.1842, CV – 167. Sobre esta família ver também MENEGAT (2010).
O uso de familiares nas unidades produtivas dos charqueadores será analisado de forma mais detalhada nos
capítulos posteriores.
128
Processo crime n. 119, m. 4, Pelotas, 1821, APERS.
129
Inventário de João Duarte Machado, Pelotas, n. 123, m. 10, 1828, Cartório órfãos e provedoria (APERS).
128
dependentes, parentes e agregados de distintas posições sociais. 130 Portanto, olhando para
Pelotas, me parece que aquele pequeno mundinho construído por charqueadores minhotos,
pernambucanos, mineiros, cariocas e rio-grandenses, no final do setecentos, bebia daqueles
parâmetros socioculturais que caracterizaram àquelas aldeias coloniais, embora a presença de
tais traços estivessem em plena transformação e na segunda metade do século XIX, o
mencionado mundinho já havia se desagregado…

***

Tendo em vista o que foi exposto até aqui, creio ser necessário realizar algumas
considerações finais sobre o espaço de atuação dos comerciantes-charqueadores no interior do
sistema mercantil considerado. Foi possível demonstrar que num total de 62 charqueadores
havia um grupo diminuto, composto por 26 indivíduos que, fortemente aparentados, podiam ser
reduzidos a algo entre 10 ou 13 famílias (dependendo dos critérios que se use), que foi capaz de
destacar-se regionalmente, de receber o reconhecimento de sua posição por parte das elites de
fora da região e de manter relações mercantis com comerciantes de outros portos. Entre os seus
membros mais destacados estavam Antônio Francisco dos Anjos, José da Costa Santos,
Domingos Rodrigues, Domingos de Castro Antiqueira, Antônio José de Oliveira Castro, além
das famílias Rodrigues Barcellos, Gonçalves Chaves, Vieira Braga, Cunha, Soares da Silva,
Azevedo e Souza, Soares de Paiva, seus respectivos parentes, entre outros. Eles concentravam
as maiores fortunas inventariadas e as maiores escravarias entre seus bens. Esta elite dentro da
elite não pode ser vista como os demais charqueadores, comerciantes e estancieiros da
capitania/província que não ocupavam com distinção as esferas sociais e econômicas
anteriormente mencionadas. Eles estavam mais bem posicionados no interior das redes
mercantis com o mercado externo e acumularam mais riquezas, comendas, ofícios e patentes de
ordenanças. Além disso, praticaram uma notável endogamia. Neste sentido, a sua posição
superior na hierarquia regional não passava exclusivamente pela acumulação do patrimônio
material, pois também precisava ser reforçada em outros espaços de atuação e distinção para
além da esfera econômica.131

130
FRAGOSO, João. Fidalgos e parentes de pretos: notas sobre a nobreza principal da terra do Rio de Janeiro
(1600-1750). In: Conquistadores e negociantes: Histórias de elites no Antigo Regime nos trópicos. América lusa,
séculos XVI a XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 33-120.
131
Os mecanismos de reprodução da economia não passavam somente pela lógica do mercado internacional, mas,
também, na exploração econômica das próprias comunidades locais inseridas numa variada gama de atividades e
com uma limitada possibilidade de influência nos rumos da localidade, embora agissem estrategicamente para
melhorarem suas condições de existência.
129
A compreensão das lógicas que estruturavam a formação desta primeira elite de
comerciantes-charqueadores teve importante contribuição na primordial obra de Helen Osório,
que abriu um notável espaço de pesquisa a cerca das elites coloniais no Rio Grande do Sul. No
entanto, comparando as fortunas e atividades dos comerciantes rio-grandenses com os do Rio
de Janeiro, a autora considerou que “o grupo mercantil sediado no Rio Grande do Sul não
abrigou homens de negócio de grosso trato”. Examinando o patrimônio inventariado de ambos
os grupos, Osório considerou que era “incomparável o grau da acumulação mercantil sediada
no Rio de Janeiro em relação ao do extremo Sul”. Portanto, tal posição de “subalternidade” no
interior do sistema mercantil “sublinha a debilidade dos negociantes riograndenses”. 132 Este
quadro interpretativo foi relativizado por Gabriel Berute. Segundo o autor, a afirmação de
Osório deve ser revista no que diz respeito a não existência de comerciantes de grosso trato na
capitania. Os negociantes envolvidos no comércio marítimo de longo curso possuíam uma boa
margem de atuação no interior do sistema mercantil, sendo considerados tanto pelos seus pares
de outras províncias, quanto pela Real Junta de Comércio sediada na Corte como “negociantes
de grosso trato”.133 No que diz respeito à comparação das fortunas é necessário fazer uma outra
ressalva. Com exceção de Brás Carneiro Leão e João Gomes Barroso – cuja riqueza
surpreendeu, inclusive, Jorge Pedreira134 – as demais faixas de fortuna não eram tão
“incomparáveis” com a dos comerciantes-charqueadores mais ricos, pois uma análise do monte-
mor de ambos os grupos não revela fortunas tão distantes como Osório sugeriu.135

132
OSÓRIO, Helen. Op. cit., p. 262; 265; 289; 318.
133
BERUTE, Gabriel. Op. cit., 2006, p. 145.
134
Sobre a riqueza dos dois negociantes cariocas, inferiores aos mais ricos comerciantes de Lisboa, Pedreira
considerou como sendo “quantias que embora inflacionadas pelo alto nível de preços, eram sem dúvida
impressionantes” (PEDREIRA, Jorge. Op. cit., p. 299-300). No capítulo 9 tratarei mais deste tema.
135
Helen Osório baseou sua afirmação comparando as fortunas de ambos os grupos. “Confrontando
especificamente fortunas de negociantes, vê-se que o maior monte-mor encontrado no extremo sul era de 40.000
libras, enquanto, para o Rio de Janeiro, Fragoso apresenta mais de 20 nomes de negociantes de grosso trato que
ultrapassavam as 50.000 libras” (OSÓRIO, Helen. Op. cit., p. 265). Na realidade, os dados elencados por Fragoso
reúnem 20 fortunas superiores a 50 contos de réis. Sobre estes indicadores, que reúnem as maiores fortunas
mercantis inventariadas entre 1794 e 1846, Fragoso comentou: “a riqueza da elite mercantil (…) que retrata, entre
outras, as fortunas daqueles negociantes listados pelo Conde de Rezende, em geral ultrapassa a cifra de 20 mil
libras, podendo superar 50 mil libras. No intervalo de tempo por nós apreendido, não encontramos nenhuma
fortuna agrário-escravista, sem origem mercantil, que alcançasse a cifra de 50 mil libras, fato que reforça a
preeminência de uma elite de negociantes na hierarquia econômica da sociedade colonial e, portanto, a sua
supremacia econômica sobre a aristocracia escravista” (FRAGOSO, João. Op. cit., p. 315). Dos 29 inventários de
charqueadores que reuni entre 1800 e 1850 (período aproximado ao da tabela formulada por João Fragoso), 15
possuíam fortunas acima de 50 contos de réis, sendo que 2 detinham fortunas acima de 50 mil libras. Dialogando
com a obra de Fragoso, Maria Viveiros Araújo também utilizou a faixa de 50 contos de réis (estipulada pelo autor)
para comparar as fortunas dos comerciantes paulistas com a dos cariocas (ARAÚJO, Maria L. Vieiros. Os
caminhos da riqueza dos paulistanos na primeira metade do oitocentos. São Paulo: Hucitec, 2006, p. 51). Sem
dúvida, os comerciantes de grosso trato do Rio de Janeiro eram os mais ricos da América portuguesa e o perfil de
suas fortunas era mais mercantil do que a dos charqueadores, mas creio que a palavra “incomparável” não é
adequada para definir esta relação. A correção dos números utilizados por Osório não afeta a tese da autora, mas
coloca a elite charqueadora e mercantil rio-grandense em uma posição mais importante no interior da hierarquia
130
Contudo, é preciso deixar bem claro que o fato de existirem comerciantes de grosso
trato no Rio Grande do Sul e de suas fortunas não serem tão desprezíveis assim, não significa
que os comerciantes-charqueadores ocupassem uma posição de igualdade com os comerciantes
cariocas. Muito pelo contrário. Estes últimos dominavam o tráfico atlântico de escravos – uma
das chaves da reprodução da sociedade colonial como um todo – e o seu “raio de atuação”,
conforme Fragoso, era muito mais amplo. Além do mais, seus negócios e investimentos eram
muito mais diversificados.136 Portanto, não apenas os charqueadores e fazendeiros, como todos
os setores sociais que necessitavam da mão de obra cativa, dependiam do comércio negreiro e
das redes de relações em que os traficantes estavam inseridos. Tendo em vista que mais de 100
mil escravos foram remetidos para o Rio Grande do Sul e a região do Prata durante o colonial
tardio e as primeiras décadas após a independência do Brasil, o Rio de Janeiro era simplesmente
a “Meca” das elites escravistas e dos negociantes do extremo sul da América. Conforme Berute,
os atravessadores que agiam no interior do tráfico atlântico revendendo “seus escravos a
prestações ou em troca de mercadorias produzidas pelos compradores” tinham a sua
importância “reconhecida pelas autoridades coloniais e, até mesmo, pelos grandes homens de
negócios”. Como a escravidão também foi estrutural na formação do complexo saladeril no Rio
da Prata, é provável que os atravessadores naquela região possuíssem a mesma importância
enquanto elite colonial hispano-americana.137 Neste sentido, manter uma boa relação com os
comerciantes de grosso trato do Rio de Janeiro era fundamental para o bom andamento dos seus
negócios e os charqueadores sabiam muito bem disso.

Como ensinou Fernand Braudel, no interior dos circuitos comerciais de longa distância,
onde a regra era comprar barato e vender caro, ocorria uma transferência dos lucros mercantis
para as mãos dos negociantes mais bem posicionados.138 No entanto, havia espaços suficientes
para que os distintos grupos mercantis, atuantes em diversas regiões dos mencionados Impérios,
mantivessem seus lucros e ocupassem o topo das suas hierarquias sociais locais e regionais
(com seus respectivos limites de atuação, níveis de grandeza e fortuna) sem que

socioeconômica do Atlântico sul e justifica a necessidade de novas pesquisas sobre elites locais e regionais
brasileiras – algo que esta tese buscou contribuir.
136
E neste sentido, o “incomparável” não estava no valor das fortunas acumuladas, mas sim, nas possibilidades e
capacidade de investimentos. Pelotas no início do oitocentos era uma aldeia se comparada à praça mercantil
carioca e não oferecia muitas opções de inversão além de imóveis urbanos, escravos e terras.
137
Como, por exemplo, o saladeirista oriental Francisco de Medina (PRADO, Fabrício. In the shadows of empires:
trans-imperial networks and colonial identity in Bourbon Río de la Plata. Diss. (Ph.D.) - Emory University, 2009).
Soma-se a isto, o que Helen Osório notou ao estudar a arrematação de contratos no centro-sul da América
portuguesa. Estes estavam acessíveis somente aos negociantes cariocas e constituíam-se em outra importante fonte
de enriquecimento, expressando um nítido privilégio de um corpo mercantil mais estabelecido e com maior acesso
à Corte portuguesa (OSÓRIO, Helen. Op. cit.).
138
BRAUDEL, Fernand. Op. cit., p. 357.
131
interrompessem os processos de enriquecimento uns dos outros. Basta ver que qualquer grupo
de elite local ou regional concentra em diferentes proporções os recursos materiais, extorquindo
a riqueza de sua comunidade local.

No caso aqui estudado, ser bem relacionado com um comerciante de grosso trato do Rio
podia representar a compra de sal e escravos por um preço e prazos melhores, evitar que suas
contas fossem liquidadas na ocasião de uma safra ruim ou conseguir favores com fretes e
informações preciosas do mundo dos negócios. Agindo desta forma, os grandes comerciantes e
traficantes cariocas, comendadores e capitães assim como o pequeno grupo de comerciantes-
charqueadores analisado, estariam seguindo a boa e velha tradição do Império português, onde
as grandes autoridades políticas reconheciam, mesmo que de forma hierarquizada, a autonomia
e a importância das elites locais e regionais para o funcionamento do mesmo Império. Esta
dinâmica não subverte a hierarquia política e mercantil que vinha se construindo no Brasil
desde 1808, mas apenas complexifica o processo histórico e oferece um grau de negociação e
de protagonismo às elites locais e regionais maior do que vem sendo aceito por parte da
historiografia.

As elites de um determinado lugar, caso fossem hipoteticamente transpostas para outro


espaço, não seriam obrigatoriamente elites, pois os patamares de riqueza, poder e prestígio
social sempre possuem as suas diferenças, ainda mais em territórios tão amplos como o do
Império português e, posteriormente, o do Brasil. Em regiões mais periféricas as condições
materiais para ocupar os estratos superiores da hierarquia social eram menos exigentes, o que
não significa que os seus detentores não tivessem sua posição reconhecida enquanto tal. Ciosas
de sua posição de elite local e regional, elas barganhavam com os grandes centros de poder,
negociando seu apoio e auxiliando a manter a ordem social local sob a garantia de receber mais
mercês e honras que reforçassem a sua posição.139 Isto ajuda a explicar não apenas as alianças
entre os luso-brasileiros e os chefes indígenas, por exemplo, como também o grande prestígio
que líderes locais da fronteira sul possuíam pela capacidade em arregimentar um grande
número de homens armados.140

139
Sobre este fenômeno na América portuguesa, Charles Boxer escreveu: “os grandes proprietários de terras,
fossem senhores de engenho, criadores de gado ou donos de minas de ouro, mostravam-se cada vez mais ávidos de
títulos, honrarias e postos militares, em busca de poder e prestígio”. Neste sentido, “os governadores coloniais
tinham consciência desse fato e muitas vezes lembraram à Coroa que a distribuição judiciosa de postos e títulos
militares era melhor e mais barato meio para assegurar o que, do contrário, somente a lealdade duvidosa dos
poderosos do sertão garantiria” (BOXER, Charles. Op. cit., p. 322).
140
GIL, Tiago L. Infiéis Transgressores: elites e contrabandistas nas fronteiras do Rio Grande e do Rio Pardo
(1760-1810). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2007.
132
Portanto, ao invés de pensar nas elites locais e regionais do período reservadas aos seus
projetos meramente periféricos, proponho, como já enunciei na introdução desta tese, um outro
modelo onde uma pequena parcela das elites locais – uma elite dentro da elite – conseguia
ocupar este espaço exatamente pelo tipo diferencial de relações sociais que mantinha com os
principais centros econômicos e políticos, no caso aqui proposto o Rio de Janeiro, e pelos
recursos materiais e imateriais que concentrava. Ao dar este salto, este estrato social
transformava-se em elite regional, mas sem deixar de desprender-se dos interesses de sua
comunidade, embora, em termos de visão de mundo e poder de influência, ele estivesse muito
acima dela.

133
4. UMA CIDADE ATLÂNTICA: A POPULAÇÃO PELOTENSE, SUA
ESTRATIFICAÇÃO SOCIOECONÔMICA E A IMIGRAÇÃO ESTRANGEIRA
DURANTE O AUGE E A DECADÊNCIA DAS CHARQUEADAS ESCRAVISTAS
(1850-1890)

A nossa melhor colônia é o Brasil,


depois que deixou de ser colônia nossa

Alexandre Herculano

A dona Felisbina Antunes da Silva era esposa do coronel Anibal Antunes Maciel, um
dos homens mais ricos e poderosos da Pelotas oitocentista. Quando ela faleceu, em 1871, o
casal teve seu patrimônio avaliado em 1.893:256$602 réis. Proprietários de 159 escravos,
ambos também possuíam casas na cidade, uma charqueada, 3 embarcações de grande porte e 5
estâncias no Uruguai, onde pastavam mais de 34 mil cabeças de gado, além de outros bens.1 A
fortuna da dona Felisbina Antunes da Silva era 7.898 vezes maior que a fortuna, se é que se
pode chamar assim, de Felisbina Francisca Domingues. Pobre Felisbina. Não bastasse possuir
como único bem uma casinha “em ruínas”, ainda tinha uma dívida de 246$600 réis, o que
comprometia em mais de ¾ o seu pequeno patrimônio. Das diversas jóias que a Felisbina rica
possuía, apenas uma já seria o suficiente para saldar este débito. O anel de ouro com pedras de
brilhantes, por exemplo, equivalia a quase cinco vezes o valor das dívidas da Felisbina pobre.

Para entender melhor o comportamento social da elite charqueadora pelotense é


necessário conhecer a população do município, sobretudo aqueles grupos que orbitavam ao
redor das charqueadas e as pessoas que viviam na cidade – palco de ostentação do luxo e
riqueza das principais famílias da localidade e onde os charqueadores residiam nas épocas de
entressafra. Nessas ocasiões, enquanto sua numerosa escravaria era empregada em diferentes
serviços, os mesmos, juntamente com suas famílias, desfrutuvam dos muitos espaços de lazer
que a cidade oferecia, compartilhando com estrangeiros de diferentes classes sociais a vida
urbana que cada vez mais se disseminava por Pelotas. Neste sentido, tendo em vista a
pluralidade de pessoas e grupos sociais que formavam a população pelotense, uma divisão da
mesma entre ricos e pobres seria tão ingênua quanto uma divisão entre senhores e escravos. A
Pelotas da segunda metade do oitocentos apresentava uma estratificação social com certo nível

1
Inventário de Felisbina da Silva Antunes. N. 68, m. 2, Pelotas, Cartório do Civel e Crime (APERS).
134
de complexidade que não deve ser desprezada. Entre a Felisbina rica e a Felisbina pobre havia
muitas pessoas de diferentes condições sociais e econômicas.

É certo que a economia pelotense era muito mais que um aglomerado de galpões de
charquear. Entretanto, a cidade, enquanto espaço privilegiado das relações sociais de grande
parte dos pelotenses, só tornara-se uma realidade possível por conta das charqueadas erigidas às
margens dos principais rios do município. 2 Boa parte das atividades econômicas locais tinham
significativas relações com as charqueadas, como a criação de gado, a produção de gêneros
agrícolas, o grande e o pequeno comércio, o artesanato e os demais serviços. A economia
charqueadora gerava impostos para o município e a província, alimentava o tráfico de escravos,
fornecia matéria-prima para as fábricas locais (como sebo, graxa, ossos e couros), empregava
um grande número de marinheiros e trabalhadores eventuais e das famílias charqueadoras saíam
os médicos, os advogados, os juízes e os políticos que, simplesmente, conectavam a cidade com
o mundo exterior.

Os anos 1850 a 1890, analisados neste capítulo, marcam um maior desenvolvimento


socioeconômico de Pelotas se comparado aos anos que precederam a Revolta Farroupilha. Este
período abarca não apenas o auge da indústria charqueadora escravista, como também o início
da sua decadência. São entre estas décadas que a sociedade escravista pelotense encontrou a sua
fase mais madura, atingindo um desenvolvimento pleno da economia, e sua elite é alçada à alta
política, recebendo títulos de nobreza, e acumulando uma riqueza nunca antes vista na
localidade. Por volta da década de 1880, as charqueadas completavam um século de existência
e as famílias fundadoras do povoado ainda possuíam os seus descendentes residindo no
município. Portanto, este capítulo busca perceber como os charqueadores se situavam no
interior da complexa pirâmide social que se constituiu neste período, além dos diversos grupos
que ocupavam os muitos degraus desta mesma hierarquia.

4.1 ESTRUTURA SOCIAL E ECONÔMICA DA SOCIEDADE PELOTENSE A PARTIR DA


ANÁLISE DOS INVENTÁRIOS POST-MORTEM

Para obter uma melhor compreensão acerca da distribuição da riqueza na sociedade


pelotense na segunda metade do século XIX, analisei os patrimônios avaliados em todos os
inventários post-mortem, num intervalo de 5 em 5 anos, entre 1850 e 1890. Esta triagem
resultou num corpo documental de 302 processos. Entretanto, muitos não tiveram

2
ARRIADA, E. Pelotas: gênese e desenvolvimento urbano (1780-1835). Pelotas: Armazém literário, 1994.
135
prosseguimento ou não apresentaram a avaliação dos bens de forma completa, restando 256
documentos.3 É sabido que os inventários post-mortem sobre-representam as camadas mais
abastadas da população analisada, pois não oferecem um mesmo tratamento aos mais pobres da
sociedade, cujos bens praticamente não eram passíveis de serem inventariados.
Paradoxalmente, como já evidenciaram João Fragoso e Renato Pitzer, é mais fácil termos
acesso à população escrava da localidade, pois os mesmos eram propriedade dos inventariados
e como tal deviam ser arrolados e avaliados, do que “às camadas mais miseráveis dos homens
livres pobres”. 4

Entretanto, isto não invalida a utilização desta fonte documental para a análise
pretendida. Com ressalvas e cruzando-se com outras fontes documentais ela pode servir para o
estudo dos estratos sociais mais pobres, mas certamente é privilegiada para investigar a elite
econômica de determinada região e os graus de concentração das fortunas. Neste sentido, os
inventários tornam-se uma fonte privilegiada, pelo seu caráter massivo e recorrente. No
primeiro, ele pode revelar a diversidade entre os grupos sociais da região analisada e no
segundo, ele oferece uma visão dinâmica da mesma, com suas mudanças e permanências. 5

A partir da observação dos patrimônios inventariados é possível perceber que a riqueza


estava concentrada nas mãos de poucas pessoas. Os 10 indivíduos mais afortunados, ou 3,9%
dos inventariados, somavam 611.287 £ (libras esterlinas), ou 53,8% do total avaliado.6 Entre
estas pessoas do topo da hierarquia socioeconômica estavam 5 charqueadores, 3 estancieiros e 2
comerciantes. A Tabela 4.1 permite uma visualização mais detalhada desta concentração de
riqueza no município. A base desta pirâmide socioeconômica revela que 73,8% dos
inventariados detinham apenas 9,9% dos bens avaliados. Levando-se em conta que os
inventários sobre-representam as camadas mais ricas da sociedade, conclui-se que a

3
Esta documentação está sob a guarda do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul – APERS.
4
FRAGOSO, João; PITZER, Renato Rocha. Barões, homens livres pobres e escravos - notas sobre uma fonte
múltipla. Os Inventários Post-mortem. In: Revista Arrabaldes, n. 2, 1988, p. 37.
5
FRAGOSO, João; PITZER, Renato. Op. cit. A utilização de inventários post-mortem e o seu tratamento
quantitativo já tornou-se um método mais que consolidado na historiografia brasileira. Sobre esta e outras
possibilidades de pesquisa em História Agrária ver, por exemplo, LINHARES, Maria Yedda. História Agrária. In:
CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo (orgs.). Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia.
Rio de Janeiro: Campus, 1997, p. 165-184. Também recorro a estas fontes pela inexistência de listas de habitantes
para o Rio Grande do Sul, cujos documentos, desde as pesquisas de Marcílio, têm sido muito importante na
historiografia brasileira (MARCÍLIO, Maria Luíza. A cidade de São Paulo: povoamento e população, 1750-1850.
São Paulo: Pioneira/USP, 1973).
6
Todos os valores em mil réis foram convertidos para libras esterlinas. Tal método, comum entre os historiadores
que realizam este tipo de análise ao estudar a economia brasileira do período, tem em vista diminuir as oscilações
de valores da moeda brasileira e favorecer uma comparação entre períodos diversos, uma vez que a moeda inglesa
era mais estável. A tabela de conversão utilizada foi a de MATTOSO, Kátia de Queiroz. Ser escravo no Brasil.
São Paulo: Brasiliense, 1982, Anexos.
136
concentração de riqueza era ainda maior, pois uma ampla gama de pobres e despossuídos não é
contemplada na documentação.

Tabela 4.1 - Distribuição das riquezas inventariadas por faixas de fortuna


(1850-1890) (em libras esterlinas)

Monte-mor Inventários Inventários Fortuna Fortunas


(libras) (N.) (%) (libras) (%)

Acima de 50 mil 5 1,9 421.249 37,1


De 20 a 50 mil 8 3,1 267.225 23,6
De 10 a 20 mil 9 3,5 124.921 11,0
De 5 a 10 mil 18 7,0 123.803 10,8
De 2 a 5 mil 27 10,6 85.969 7,6
De 1 a 2 mil 43 16,8 60.732 5,3
De 500 a 1 mil 39 15,3 28.562 2,6
De 100 a 500 74 28,9 20.784 1,8
Menos de 100 33 12,9 1.966 0,2

Totais 256 100% 1.135.211 100%


Fonte: Inventários post-mortem dos cartórios de Pelotas (APERS)

Esta desigualdade na distribuição das riquezas foi um traço característico da sociedade


brasileira desde os tempos coloniais. Analisando inventários post-mortem do Rio de Janeiro,
entre 1790 e 1835, Fragoso e Florentino observaram que o “agro e cidade continuaram a
apresentar o décimo superior de suas populações detendo cerca de 2/3 da riqueza, com os cinco
décimos mais pobres possuindo 4% a 8%”. Os autores verificaram que esta estrutura de
concentração também era observada em outras regiões do Vale do Paraíba. 7 Em Lorena,
município cafeicultor paulista, 16,7% dos inventariados concentravam 89,5% da riqueza local
entre 1830 e 1879.8 Em Alegrete, município sul-rio-grandense que tinha na pecuária a sua
principal base econômica, os 10% mais ricos da década de 1860, concentravam 70% da riqueza.
Entre 1825 e 1865, os 50% mais pobres nunca detiveram mais que 10% das fortunas. 9 Esta
mesma concentração de riqueza pode ser observada em diferentes regiões do Brasil como
Minas Gerais, Bahia e Pará, por exemplo.10

7
FRAGOSO, João e FLORENTINO, Manolo. O arcaísmo como projeto: mercado atlântico, sociedade agrária e
elite mercantil em uma economia colonial tardia: Rio de Janeiro, c. 1790 - c. 1840. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2001., p. 172; 175-179.
8
MARCONDES, Renato Leite. A Arte de acumular na gestação da economia cafeeira: formas de enriquecimento
no vale do Paraíba paulista durante o século XIX. Tese de Doutorado em Economia. USP, 1998, p. 129-130.
9
FARINATTI, Luis Augusto. Confins Meridionais: famílias de elite e sociedade agrária na fronteira sul do Brasil
(1825-1865). Santa Maria: Ed. UFSM, 2010, p. 54.
10
Ver, por exemplo, ANDRADE, Marcos Ferreira de. Elites regionais e a formação do Estado Imperial
brasileiro: Minas Gerais – Campanha da Princesa (1799-1850). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2008.;
BATISTA, Luciana Marinho. Muito além dos seringais: Elites, Fortunas e Hierarquias no Grão-Pará (1850-
1870). Dissertação de mestrado. Rio de Janeiro: PPGHIS-UFRJ, 2004; MATTOSO, Kátia de Q. Bahia: Século XIX
(Uma Província no Império). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992; GRAÇA FILHO, Afonso A. A princesa do
Oeste e o mito da decadência de Minas Gerais. São Paulo: Annablume, 2003.
137
Com relação ao perfil do patrimônio dos inventariados, percebe-se que do total de 256
inventários, 149 possuíam imóveis no espaço mais urbano de Pelotas (58,2%) e 142 possuíam
imóveis rurais (55,4%). Refinando estes dados, tem-se que 88 inventários (34,4%) possuíam
exclusivamente imóveis urbanos e 107 (41,7%) somente rurais. A partir destes índices, é
possível considerar que o número de inventariados que residiam na cidade era ligeiramente
maior do que o indicado, pois em muitos documentos não foi possível verificar se os
proprietários de imóveis urbanos e rurais (61 processos) moravam na cidade, mas é provável
que uma parte dos mais ricos o fizesse. A maioria dos charqueadores possuía casas na cidade e
lá residiam em boa parte do ano, como demonstram diversos documentos cartoriais, como
procurações e escrituras públicas, além da sua presença nas listas de qualificação de votantes da
paróquia mais urbanizada do município. 11

Gráfico 4.1 – Distribuição do número de inventários em urbanos e rurais


Pelotas (1850-1890)

25

20

15

10

0
1850 1855 1860 1865 1870 1875 1880 1885 1890

Exclusivamente urbanos Exclusivamente rurais

Fonte: Inventários post-mortem dos cartórios de Pelotas (APERS)

A partir do Gráfico 4.1 é possível verificar que, ao longo do período analisado, houve
um aumento dos inventariados que moravam na cidade, o que pode ser um reflexo da crescente
urbanização no município. Neste sentido, é provável que um índice próximo dos 40% ou 50%
de moradores na cidade devesse ser a realidade pelotense entre as décadas de 1850 e 1880.12
Analisando dados compilados pela Câmara Municipal da época, Ester Gutierrez verificou que,

11
Lista de qualificação de votantes de Pelotas, 1865. Fundo Eleições, maço 2, AHRS.
12
Este índice parece ter sido alcançado em décadas anteriores. Em 1822, por exemplo, um memorialista registrou
que 50% dos 3.400 habitantes da freguesia de São Francisco de Paula (primeiro nome de Pelotas antes de tornar-se
cidade) residiam em 217 prédios urbanos (GUTIERREZ, Ester. Barro e Sangue: mão de obra, arquitetura e
urbanismo em Pelotas (1777-1888). Pelotas: Universitária, 2004, p. 145). O percentual da população urbana
certamente oscilou durante o século XIX. Sabe-se que durante a Guerra dos Farrapos (1835-1845) muitos
moradores abandonaram Pelotas. Tendo em vista que a própria cidade foi crescendo e incorporando novos espaços
ao seu redor, que as migrações eram intensas e que os limites entre o rural e o urbano eram bastante tênues, estes
dados devem ser entendidos como indicadores aproximados.
138
em 1880, Pelotas possuía 3.348 domicílios na cidade, sem contar os prédios públicos, as casas
comerciais, as fábricas, os hospitais e as escolas.13 Se cada propriedade possuísse, em média,
algo entre 4 ou 5 moradores, a população residente no espaço urbano poderia ser estimada entre
13 mil e 17 mil pessoas, o que comporia 44% a 55% da população pelotense na época. 14

Tal índice de moradores na cidade era alto para o contexto rio-grandense da época.
Farinatti encontrou 11% de inventários com este perfil para Alegrete, entre 1825 e 1865, e
Osório localizou 26% para toda a capitania, entre 1765 e 1825. 15 É importante repetir que esta
urbanização possuía um caráter incipiente e que os limites entre o urbano e o rural não eram
muito claros.16 Neste sentido, este “urbano” deve ser entendido a partir dos parâmetros da época
e num contexto regional. A vida na cidade era compartilhada por boa parte da população se
comparada aos outros municípios da província e talvez só fosse comparável a Porto Alegre e
Rio Grande. Diante do olhar dos viajantes e cronistas que escreveram sobre a província, a
cidade de Pelotas se destacava diante das outras, chamando a atenção, inclusive, de um membro
da família real que a visitou nos anos 1860. Conforme o Conde D’Eu:

Pelotas aparece aos olhos encantados do viajante como uma bela e próspera cidade.
As suas ruas largas e bem alinhadas, as carruagens que as percorrem (fenômeno único
na província), sobretudo os seus edifícios, quase todos de mais de um andar, com as
suas elegantes fachadas, dão idéia de uma população opulenta. De fato, é Pelotas a
cidade predileta do que chamarei a aristocracia rio-grandense, se é que se pode
empregar a palavra aristocracia falando-se de um país do novo continente. Aqui é que
o estancieiro, o gaúcho cansado de criar bois e matar cavalos no interior da
campanha, vem gozar as onças e os patacões que ajuntou em tal mister. (...) O rápido
desenvolvimento de Pelotas é um fato notável que não encontra análogo na província
e que pressagia a esta cidade um futuro considerável.17

O Conde D’Eu ainda finalizou escrevendo que, ao invés de Porto Alegre, era Pelotas
que deveria ser a capital da província. A ênfase nesta urbanidade não se trata de algo simplório
para os objetivos desta pesquisa. A vida urbana, como demonstrarei posteriormente, teve
fundamental importância nas práticas sociais da elite charqueadora, de como ela se via e de
como gostava de ser vista. No entanto, a Tabela 4.2 demonstra que, apesar da maioria dos
inventários serem urbanos (ou possuírem imóveis exclusivamente urbanos frente aos

13
GUTIERREZ, Ester. Op. cit.
14
Contudo, a média de moradores por habitação parecia ser maior. Os 14.762 habitantes da paróquia de São F. de
Paula, a mais urbana de Pelotas, residia em 1.829 “casas”, o que rusulta numa média de 8 moradores por habitação.
Não me arrisco a considerar estes índices como equivalentes ao espaço da cidade, porque parte dos moradores da
paróquia residiam nos limites rurais da mesma. Mas caso esta média fosse considerada, o percentual de moradores
na cidade ultrapassaria os 60% (Censo geral de 1872. Disponível em: http//www.ibge.gov.br).
15
FARINATTI, Luis Augusto. Op. cit; OSÓRIO, Helen. Op. cit.
16
Ver, por exemplo, ARRIADA, Eduardo. Op. cit.
17
D’EU, Conde. Viagem Militar ao Rio Grande do Sul. São Paulo: USP, 1981, p. 130-131.
139
exclusivamente rurais), o peso dos investimentos em bens agrários era muito maior. Até a
década de 1870, nunca os imóveis rurais, os escravos e os animais formaram menos de 53% do
total dos patrimônios avaliados.18 A diminuição dos seus valores nos anos 1880 e em 1890 era
resultado não apenas do processo de emancipação dos escravos, da sua abolição e da crise das
charqueadas, como também do nítido aumento da urbanização e da valorização dos imóveis
urbanos que mais do que dobraram a sua representatividade no interior dos bens avaliados.
Portanto, a riqueza material do município estava principalmente vinculada às atividades rurais.
Traço distinto podia ser verificado na análise dos inventários post-mortem dos habitantes do
Rio de Janeiro, entre 1797 e 1870. Neste intervalo de tempo, os percentuais em imóveis urbanos
ficaram sempre entre 24% e 38%, as apólices e ações atingiram 13,1% e 18,6% em 1860/70 e
os bens rurais somados aos escravos, em 1870, foram inferiores a 16% – denotando um perfil
muito mais urbano e mercantil do que Pelotas. 19 Portanto, a urbanidade pelotense era
regionalmente considerável, como já argumentei.

Tabela 4.2 – Perfil do patrimônio dos inventariados em Pelotas (1850-1890) (%)


Imóveis Imóveis Dinheiro Dívidas Ações Escravos Animais Jóias Dívidas Total
rurais urbanos ativas Passivas Invent.

1850/55 40,5 11,8 11,6 19,5 0,7 7,9 6,4 0,05 0,8 25
1860/65 30,0 10,5 12,4 9,4 0,4 20,5 9,0 0,3 4,4 41
1870/75 32,4 21,1 6,0 14,4 1,9 10,3 11,1 0,2 2,5 65
1880/85 36,7 22,2 8,6 9,4 6,7 4,5 8,2 0,02 16,6 70
1890 40,3 26,5 7,2 12,1 6,1 - 0,9 0,1 10,2 55
Fonte: Inventários post-mortem dos cartórios de Pelotas (APERS)

Tanto os valores em imóveis urbanos, quanto em imóveis rurais estavam concentrados


nas mãos de poucas pessoas. O total dos investimentos em todos os imóveis somava 391.871£
em imóveis rurais (sendo 94.247£ em propriedades no Uruguai) e 203.899£ em urbanos.
Levando-se em conta que dos 256 inventários somente 8 possuíam terras avaliadas no Uruguai,
já é possível perceber, comparando os montantes discriminados, o quão valorizados eram os
campos no país vizinho. Talvez a grande diferença entre os possuidores de imóveis urbanos e

18
Em Alegrete, o percentual destes bens formava mais de 80% dos patrimônios inventariados entre 1831 e 1870
(FARINATTI, Luís A. Op. cit., p. 51). Algumas pesquisas vêm demonstrando que após a Lei de Terras, em 1850,
o preço das mesmas sofreu uma grande valorização, o que acabava por se refletir na composição das fortunas dos
inventariados rio-grandenses. Como, por exemplo, GARCIA, Graciela. O Domínio da Terra: conflitos e estrutura
agrária na Campanha Rio-grandense Oitocentista. Dissertação de Mestrado. Porto Alegre: PPG-História da
UFRGS, 2005. Sobre o mesmo tema ver também CRISTILLINO, Cristiano L. Litígios ao Sul do Império: A Lei de
Terras e a consolidação política da Coroa no Rio Grande do Sul (1850-1880). Tese de Doutorado. Niterói: UFF,
2010.
19
FRAGOSO, João L. R.; MARTINS, Maria F. V. As elites nas últimas décadas da escravidão - as atividades
econômicas dos grandes homens de negócios da Corte e suas relações com a elite política imperial, 1850-1880. In:
FLORENTINO, Manolo; MACHADO, Cacilda (Org.). Ensaios sobre escravidão. Belo Horizonte: Ed. UFMG,
2003, p. 144
140
rurais é que a maioria dos proprietários urbanos possuía os seus imóveis na cidade de Pelotas,
enquanto um montante significativo dos imóveis rurais inventariados, e dentre eles os de maior
valor, estavam localizados em outros municípios, como demonstro a seguir.

Figura 4.1 – Mapa da Província do Rio Grande do Sul (1875)

Fonte: Adaptado de FELIZARDO, Julia Netto (Org.) Evolução administrativa do Estado do Rio Grande do
Sul, IGRA – Divisão de Geografia e cartografia e Fundação de Economia e Estatística de Província de São
Pedro a Estado do Rio Grande do Sul – Censos do RS 1803-1950. Porto Alegre, 1981.

Inicio pelas propriedades rurais. Apesar de Pelotas também possuir grandes fazendas,
elas não atingiam as dimensões, a quantidade e a qualidade dos pastos das que formavam a
principal zona pecuarista da província. As grandes estâncias de criação da região da campanha,
no oeste e sudoeste do Rio Grande do Sul, formavam o principal espaço econômico da pecuária
rio-grandense e dividiam a paisagem agrária com pequenos e médios proprietários, além dos

141
arrendatários.20 Com pastagens melhores, as terras do norte do Uruguai também eram cobiçadas
por estes grandes proprietários. Dos 256 inventários entre 1850 e 1890, 142 possuíam imóveis
rurais. Destes, 111 tinham estabelecimentos exclusivamente em Pelotas e 14 possuíam imóveis
rurais exclusivamente fora de Pelotas. Além destes, outros 17 detinham terras tanto em Pelotas,
quanto em municípios vizinhos. Destes 17, outros 5 também possuíam campos de criar no
Uruguai. Os 10 maiores investimentos econômicos em propriedades rurais (excluindo as
propriedades localizadas no Uruguai) somavam 199.847 £, de um total de 297.624 £.21 Ou seja,
10 inventários (7% dos 142 inventários com propriedades rurais) detinham 67% dos valores
investidos em imóveis rurais. Trata-se de uma concentração fundiária bastante alta. Entre os 10
inventariantes mencionados, estão 6 charqueadores, 2 filhos de charqueadores e 1 genro de
charqueador. Três deles possuíam propriedades somente em Pelotas e 7 tanto em Pelotas,
quanto em municípios vizinhos. Outros 3 também eram donos de estâncias no Uruguai.

Tratando-se de um município próximo ao litoral da província e com traços mais


urbanizados do que os demais, é necessário matizar melhor esta concentração de imóveis rurais.
Como já mencionei, os 3 distritos rurais de Pelotas possuíam uma paisagem agrária distinta da
região da campanha, prevalecendo os matos das serras dos Tapes e da Buena, além de outras
pequenas e médias propriedades. Mesmo assim, o município possuía estâncias dedicadas à
criação de gado, apesar dos seus campos e pastos não serem tão valorizados como os da
campanha e do norte do Uruguai, por exemplo.22 Daí o fato de que as grandes fortunas rurais
inventariadas incluíam propriedades fora do município e do próprio país, onde as dimensões, os
valores e as qualidades das mesmas eram maiores. Basta uma comparação entre os valores para
se ter uma ideia mais detalhada. Os imóveis rurais localizados em Pelotas estão presentes em
128 inventários e somam 173.610£. Já as propriedades rurais em outros municípios do Rio
Grande do Sul e no Uruguai estão presentes em apenas 27 inventários, mas totalizam
218.261£.23 Embora também possuíssem terras em Pelotas, os mais ricos investiam o seu

20
Como demonstraram GARCIA, Graciela B. Op. cit; FARINATTI, Luís Augusto. Op. cit.; LEIPNITZ , Guinter
T. Entre contratos, direitos e conflitos: arrendamentos e relações de propriedade na transformação da campanha
rio-grandense: Uruguaiana (1847-1910). Dissertação de Mestrado. PPG-História da UFRGS, 2010.
21
Excluí os bens no Uruguai deste cálculo da concentração porque eles apresentam um valor muito alto, o que iria
distorcer os dados.
22
Em 1858, o governo provincial organizou um mapa estatístico reunindo a quantidade total de animais vacuns por
município. Pelotas, que teve somente os gados vacuns do 3º e 4º distrito recenseados, possuía um rebanho total
estimado em 59.600 reses, ficando entre os últimos municípios em quantidade de animais. As localidades com os
maiores rebanhos eram Alegrete com 762.232 reses e Bagé com 531.640 reses (Mapa numérico das estâncias
existentes dos diferentes municípios da província, de que até agora se tem conhecimento oficial, com declaração
dos animais que possuem e criam, por ano, e do número de pessoas empregadas no seu custeio - Fundo
Estatística, maço 02, AHRS). Agradeço a Leandro Fontella pela digitalização deste documento.
23
Caso a comparação levasse em conta o tamanho das propriedades, provavelmente a diferença se manteria, mas
uma grande parcela dos imóveis não possuía as suas dimensões discriminadas, dificultando este tipo de análise.
142
capital em estâncias de dimensões muito maiores e com uma melhor qualidade de pasto
localizadas fora dos limites do município. Eis aqui uma primeira diferenciação entre os que
eram capazes de realizar esta inversão e os que não possuíam capitais para tanto. Tendo em
vista que os imóveis rurais compunham aproximadamente 40% dos patrimônios inventariados e
que junto com os escravos e os animais eles ultrapassavam os 50%, pode-se concluir que os
charqueadores e seus familiares ocupavam uma posição privilegiada nesta hierarquia
econômica, pois estavam entre os maiores proprietários do município.

A mesma concentração encontrada entre os imóveis rurais é verificada entre os urbanos.


Do total de 203.899£ investidas nestes bens, cerca de 91.318£, ou 44,7%, pertenciam a 10
pessoas (4% de todos os inventários). Estes 10 indivíduos possuíam um patrimônio urbano que
somado reunia 75 casas, 44 terrenos, 9 sobrados, 6 armazéns e 5 meias-águas. 24 Neste pequeno
grupo encontram-se 2 charqueadores e 2 genros de charqueadores. Dos 10 charqueadores
presentes no total dos inventários aqui analisados 8 possuíam casas no espaço urbano pelotense.
A cidade era o local onde eles fechavam muitos de seus negócios com comerciantes locais e
estrangeiros, mas também onde recolhiam informações sobre a política e a economia provincial
e nacional e ostentavam sua riqueza andando em carruagens e frequentando o teatro, os clubes e
associações da cidade, como descreverei posteriormente.25

Associados às estâncias de criação, estavam os rebanhos de gado vacum, matéria-prima


fundamental para as charqueadas. Pelotas também possuía grandes criadores, muito embora as
melhores fazendas destes estivessem localizadas fora do município (como já mencionei). Nos
52 inventários cuja quantidade de reses de criar foi arrolada, ou seja, 20,3% dos totais
inventariados, tem-se 103.191 animais. Assim como os outros bens até agora descritos, a
maioria do gado também estava nas mãos de poucas pessoas. A análise da Tabela 4.3
demonstra que 4 indivíduos, ou 7,7% dos criadores de gado vacum, possuíam 50% do total dos
rebanhos inventariados. Aumentando-se o recorte analítico para os 10 maiores criadores,
verifica-se que os mesmos possuíam mais de 90% dos animais. Entre estes 10 inventariados
estavam 5 charqueadores, o que novamente evidencia a variedade de investimento dos mesmos.
Os números também demonstram que os maiores proprietários de gado também eram donos de
estâncias fora do município de Pelotas, incluindo o Uruguai, onde melhores pastos serviam para

24
Esta concentração já vinha de décadas. Em 1822, por exemplo, Gonçalves Chaves estimou os valores das 217
casas da povoação em 342:500$000, destacando que 37 delas correspondiam a 47% deste montante (CHAVES,
Antônio José Gonçalves. Op. cit).
25
Ver, por exemplo, MULLER, Dalila. “Feliz a população que tantas diversões e comodidades goza”: Espaçõs de
sociabilidade em Pelotas (1840-1870). Tese de Doutorado. PPG-História da Unisinos, 2010.
143
engordar o gado. Desnecessário dizer que os pequenos proprietários criavam seus animais em
modestas terras nos distritos rurais do município ou nos campos de terceiros.

Tabela 4.3 – Concentração dos rebanhos vacuns nos inventários e posse de


fazendas fora de Pelotas

Tamanho do Inventários % Reses % Prop. outros Prop. no


rebanho municípios Uruguai
+ de 10.001 reses 4 7,7 51.536 50,0 100,0% 100,0%
5.001 a 10.000 reses 6 11,5 41.402 40,1 66,6% 33,3%
2.001 a 5.000 reses 1 1,9 2.552 2,4 - -
1.001 a 2.000 reses 2 3,9 3.500 3,5 50,0% -
501 a 1.000 reses 2 3,9 1.430 1,3 50,0% -
101 a 500 reses 11 21,1 1.938 1,8 27,2% -
Até 100 reses 26 50,0 833 0,9 15,3% -
Total 52 100% 103.191 100% - -
Fonte: Inventários post-mortem dos cartórios de Pelotas (APERS)

A extinção do tráfico atlântico de escravos em 1850 constituiu-se em uma ameaça para


aqueles que dependiam da mão de obra cativa na condução de suas atividades econômicas. A
alta dos preços dos escravos na década de 1860, como outros autores já trataram, foi
consequência da diminuição da oferta de mão de obra escrava e da corrida de comerciantes para
adquirir cativos e revendê-los aos grandes centros agroexportadores do sudeste.26 De acordo
com o Gráfico 4.2, a média dos preços dos escravos masculinos em idade produtiva quase
triplicou entre 1850 e 1865. No primeiro período, eles somavam 570$ e 15 anos depois
chegavam à 1:617$. A queda dos preços se iniciou na década seguinte, chegando a 857$ em
1880 e 400$ em 1885, quando a onda abolicionista já havia libertado a maioria dos escravos em
Pelotas. Nos primeiros 10 anos, homens e mulheres cativas equivaliam-se em preços, mas a
partir da década de 1860, acentuou-se um distanciamento em favor dos homens. A grande
queda do valor destes e a quase aproximação com as mulheres nos últimos dois períodos
indicam que a escravidão estava com seus dias contados.

A diminuição da oferta dos escravos e o aumento do seu preço contribuiu para ampliar a
concentração dos cativos nas mãos de poucos senhores, como demonstra a Tabela 4.4. Dos 201
inventários post-mortem, entre 1850 e 1885, 81 (40%) não possuíam cativos arrolados entre
seus bens, o que reforça ainda mais a mencionada concentração dos mesmos no interior da

26
Como, por exemplo, BERGAD, Laird W. Escravidão e História Econômica: demografia de Minas Gerais, 720-
1888. Bauru: EDUSC, 2004; SLENES, Robert W. The demography and economics of Brazilian slavery: 1850-
1888. Tese de Doutorado, Stanford: Stanford University, 1976; CASTRO, Hebe Mattos de. Ao Sul da História:
lavradores pobres na crise do trabalho escravo. São Paulo: Brasiliense, 1987; SCHEFER, Rafael da C. Tráfico
interprovincial e comerciantes de escravos em Desterro (1849-1888). Dissertação de Mestrado. PPG-História da
UFSC, 2006.
144
população. Os 120 restantes somavam 1.304 escravos inventariados. No entanto, 13 deles, ou
10,7 %, detinham 54,5% do total da escravaria. Já os proprietários de 5 ou menos escravos, que
compunham 60% dos inventariados, possuíam apenas 14,6% dos cativos. Entre os 13 maiores
proprietários de escravos estavam 7 charqueadores. Eles eram os únicos a possuírem mais de
100 cativos e formavam a metade dos que detinham entre 51 e 100 cativos. Ainda pode-se
enfatizar que o patrimônio acumulado em vida era diretamente proporcional à posse de
escravos. Destes 13 maiores escravistas pelotenses, 8 estavam entre os 10 mais ricos
inventariados. Numa pesquisa mais aprofundada, Bruno Pessi estudou a posse de escravos em
todos os inventários post-mortem de Pelotas entre 1850 e 1884. Reunindo 1.077 processos, o
autor verificou que 712 deles (66,1%) possuíam cativos arrolados entre seus bens e que 42
(5,9%) eram charqueadores. Estes empresários eram responsáveis pela posse de 2.244 escravos,
ou seja, mais de 1/3 de todos os escravos arrolados nos inventários pelotenses (34,6%).27

Gráfico 4.2 – Preço dos escravos entre 15 e 40 anos (1850-1885) – em mil réis

1800
1600
1400
1200
1000
800
600
400
200
0
1850 1855 1860 1865 1870 1875 1880 1885

Mulheres Homens

Fonte: Inventários post-mortem dos cartórios de Pelotas (APERS)

Além disso, os dados apresentados confirmam o que diversos autores identificaram para
outras áreas do Brasil no mesmo período, ou seja, embora houvesse uma nítida concentração de
cativos nas mãos de poucas pessoas, a posse dos mesmos estava disseminada entre vários
setores sociais, incluindo os pequenos proprietários. 28 Entretanto, o fim do tráfico e o aumento
do valor dos cativos ajudou a dificultar o acesso destes ao tráfico inter-provincial e intra-

27
PESSI, Bruno S. Entre o fim do tráfico e a abolição: a manutenção da escravidão em Pelotas, RS, na segunda
metade do século XIX (1850-1884). Dissertação de Mestrado em História, USP, 2012., p. 72.
28
Isto já foi mencionado no capítulo anterior para a primeira metade do século. Para dados relativos às décadas
posteriores à extinção do tráfico atlântico em todo o Brasil ver MARCONDES, Renato L. Desigualdades regionais
brasileiras: comércio marítimo e posse de cativos na década de 1870. Tese de livre-docência. Ribeirão Preto,
USP, 2005.
145
provincial como compradores, reservando-lhes o papel de vendedores. Tal fenômeno trouxe
dificuldades econômicas para parte das famílias mais pobres e, neste processo, os grandes
senhores foram lentamente drenando parte dos escravos dos pequenos. 29 Um dos reflexos deste
processo foi o aumento do número de inventários sem escravos ao longo do período estudado.
Conforme Pessi, os não possuidores de escravos compuseram 6,1% de todos os inventariados
no quinquênio de 1850-1854, 31,6% no de 1865-1869, e 54,8% no de 1880-1884.30

Tabela 4.4 – Concentração dos plantéis de escravos entre os inventariados (1850-1885)


Tamanho do Número de % de Número de % de
plantel inventários inventários escravos escravos

1a2 31 25,8 41 3,1


3a5 41 34,2 150 11,5
6 a 10 18 15,0 138 10,7
16 a 25 17 14,3 263 20,2
26 a 50 7 5,8 223 17,0
51 a 100 4 3,3 271 20,8
Mais de 100 2 1,6 218 16,7
Total 120 100% 1.304 100%
Fonte: Inventários post-mortem dos cartórios de Pelotas (APERS)

A concentração de bens também era visível no que diz respeito ao dinheiro em moeda e
às dívidas ativas. A quantia total de dinheiro avaliada nos 256 inventários foi de 101.495£, mas
73,6% deste montante estava nas mãos de somente 10 pessoas (3,9% dos inventariados), sendo
que 3 eram charqueadores e outros 3 eram parentes de outros charqueadores. Com relação às
dívidas ativas, o mesmo foi verificado. O valor total destes bens somados era de 153.089£, mas
62% deles pertenciam a 6 indivíduos, ou 2,3% dos inventariados, dentre os quais havia 2
charqueadores. A metade dos maiores credores também estava presente entre os 10 maiores
possuidores de dinheiro. Portanto, um grupo diminuto parecia concentrar a liquidez na
localidade e na ausência de dinheiro, eles eram capazes de possuir uma fatia considerável do
crédito.31 Tal concentração torna-se ainda mais notável quando se percebe que muitos dos
maiores senhores de escravos e animais também surgem no topo da lista dos mais
endinheirados e dos principais proprietários de imóveis rurais e urbanos. Desnecessário dizer
que os charqueadores e seus parentes eram os que mais se destacavam no interior deste grupo.

29
Ver, por exemplo, VARGAS, Jonas M. Das charqueadas para os cafezais? O tráfico inter-provincial de escravos
envolvendo as charqueadas de Pelotas (RS) entre as décadas de 1850 e 1880. In: XAVIER, Regina L. (Org.).
Escravidão e liberdade: temas, problemas e perspectivas de análise. São Paulo: Alameda, 2012.
30
PESSI, Bruno S. Estrutura da posse e demografia escrava em Pelotas entre 1850 e 1884. In: Anais do V Encontro
Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional. Porto Alegre: UFRGS, 2011, p. 14
31
Estes números tornam-se mais importantes ainda numa sociedade com pouca moeda em circulação e cujas
instituições bancárias atendiam uma pequena parte da população.
146
Mas entre eles e os trabalhadores escravos havia uma série de categorias socioeconômicas que
ainda é preciso investigar melhor, como demonstro a seguir.

4.2 UMA CIDADE ATLÂNTICA: PERFIL SOCIO-OCUPACIONAL DE UM ESPAÇO


URBANO REPLETO DE ESTRANGEIROS

Muito já se escreveu sobre a Pelotas do século XIX, mas ainda se sabe pouco sobre a
sua população e como ela estava estratificada em termos sociais e econômicos. As páginas
anteriores evidenciaram uma profunda concentração dos bens materiais nas mãos de uma elite
privilegiada. No entanto, Pelotas era muito mais do que um núcleo charqueador e não estava
polarizada entre os senhores da carne e seus escravos. No final dos anos 1870, o município
possuía quase 30 mil habitantes e a cidade havia se tornado o cenário de um grande número de
profissionais de diferentes áreas, atingindo um notável grau de desenvolvimento econômico e
cultural para os padrões da província. Mas quem eram as pessoas que compartilhavam daquela
época de auge?
Apesar das já conhecidas limitações que envolvem o Censo imperial de 187232, ele é o
documento mais abrangente no que diz respeito ao total da população da época, já que os seus
indicadores não excluem escravos, mulheres, crianças e idosos.33 No entanto, Pelotas constitui-
se num caso diverso da maioria dos municípios rio-grandenses recenseados na época, uma vez
que uma de suas quatro paróquias não teve os seus dados populacionais arrolados. Por conta
disto, e de sub-registros ocorridos no recenseamento, a população escrava do município foi
bastante subestimada.34 Somando as estatísticas das três paróquias recenseadas tem-se um total
de 21.258 habitantes, sendo que a de São Francisco de Paula, com 14.762 almas, era
responsável por mais de 2/3 deste total. Contudo, apesar dos problemas desta fonte, creio que os
dados contidos no censo são bastante favoráveis para o estudo da mencionada paróquia – que
era a que concentrava todos os habitantes da cidade e de seus subúrbios próximos. Como as
estatísticas referentes aos escravos são consideradas as mais imprecisas, analisarei somente a

32
BOTELHO, Tarcísio R. População e nação no Brasil do século XIX. 1998. Tese de Doutorado em História.
USP, 1998; MONASTERIO, Leonardo. O Rio Grande do Sul de 1872: análise setorial da ocupação nos
municípios. In: Anais do II Encontro de Economia Gaúcha. Porto Alegre, 2004, CD-ROM.
33
Censo Geral de 1872 (disponível em: http//www.ibge.gov.br).
34
De acordo com o Censo de 1872, as três paróquias recenseadas somariam 3.590 escravos. No entanto, o registro de
matriculas de escravos para o ano de 1873 marcou 8.141 cativos, ou seja, mais do que o dobro recenseado (VARGAS,
Jonas M. Op. cit.). Não é possível saber o número de escravos na paróquia de N. S. da Conceição do Boqueirão (a que
não foi recenseada em 1872), mas é certo que ela não possuía um contingente tão grande de cativos ao ponto de
completar o restante que faltava para chegar aos mais de 8 mil escravos. O mais provável é que as outras duas
paróquias rurais também tenham apresentado sub-registros.
147
população livre. Isto vai ao encontro dos objetivos deste capítulo, pois é exatamente a
caracterização dos setores intermédios da sociedade pelotense que estou buscando analisar.35

A paróquia de São Francisco de Paula possuía 12.376 habitantes livres, sendo 6.799
homens e 5.577 mulheres. Deste grupo, 9.021 foram classificados como brancos, 1.347 como
pardos, 1.848 como pretos e 160 como caboclos.36 Comparando estes dados com os do
recenseamento realizado no 1º distrito de Pelotas, cerca de 40 anos antes, percebe-se que a sua
paróquia mais urbana alterou significativamente o seu perfil social. Entre 1833 e 1872, a
população total (livre e escrava) residente na localidade mais urbana de Pelotas aumentou de
4.707 para 14.762 pessoas. Se os dados referentes aos escravos estiverem corretos, o número de
cativos teria aumentado de 2.202 para 2.386. No entanto, como a população livre cresceu
bastante, o percentual de escravos teria caído de 46,8% para 16,2%, mas é provável que a queda
tenha sido um pouco menor, visto o já comentado sub-registro de escravos no censo.

No que diz respeito à cor dos seus habitantes, se em 1833 o percentual da população
classificada como branca e residente na vila era de 43,3%, em 1872, conforme o indicado
acima, ela saltou para 72,7%. Apesar do número de escravos ter continuado crescendo no
município de Pelotas até meados da década de 1870, é notável que a população branca
aumentou em taxas maiores. Um dos motivos deste fenômeno, comum em todo o Brasil, foi a
extinção do tráfico atlântico em 1850. No entanto, este branqueamento urbano, ao menos na
cidade de Pelotas, também se explica pela expressiva entrada de imigrantes europeus na urbe.37
O desenvolvimento econômico da região atraiu pessoas de diversas partes da província, de
outras regiões do Império, mas, sobretudo, de outros países. Se em 1833 somente 6,3% dos
moradores da vila foram identificados como estrangeiros, em 1872 a paróquia urbana contava
com 20,4% do total da população formada pelos mesmos. Calculando estes dados somente
entre a população livre, os mesmos índices teriam aumentado de 11,9% para 24,4%.

Em números absolutos, foi um salto de 299 para 3.009 pessoas estrangeiras em menos
de 40 anos e num intervalo de tempo que ainda contou com uma longa guerra civil (ocasião em
que muitas pessoas retiraram-se da localidade). Contudo, destes 3.009 estrangeiros, 361 eram
africanos livres, diminuindo um pouco a presença dos europeus e americanos brancos no espaço

35
A população escrava no mesmo período será tratada no capítulo posterior.
36
Somados os livres com os escravos, a população classificada como preta era de 3.167 e a parda de 2.404.
Entretanto, como o número de escravos da paróquia está sub-representado, é possível que a população de cor na
mesma ultrapassasse os 6.000 habitantes.
37
Embora a população escrava e a população livre de Pelotas tenham crescido entre os anos 1830 e 1870, o
percentual dos cativos em relação ao total caiu bastante. Em 1833, 51% dos habitantes eram cativos, enquanto que,
em 1858, este índice já havia caído para 37,1% e, em 1872, é provável que tenha ficado entre 30% e 33%.
148
urbano. Mesmo assim, para uma pequena cidade como Pelotas, o aumento do número de
estrangeiros em cerca de 9 vezes num intervalo de 4 décadas deve ter resultado num impacto
significativo em sua urbe. Excetuando as regiões de colonização alemã da Província, o
percentual de estrangeiros entre os habitantes livres da cidade de Pelotas só era inferior à Rio
Grande (28,8%) e Itaqui (25,6%) – ambas cidades mercantis, o que explica esta concentração
de estrangeiros. Na cidade do Rio de Janeiro, em 1890, cerca de 30% da população era
estrangeira (70% destes eram portugueses).38 Nesta época, o índice de estrangeiros era bem
menor nas outras capitais de província.39 Mesmo que em proporções populacionais muito
menores, Pelotas parecia-se mais com a Corte – no que diz respeito à grande presença de
estrangeiros na cidade – do que com as principais capitais do Império.

Portanto, por volta do meado do século, do ponto de vista das migrações em escala
global, Pelotas havia se tornado uma das inúmeras localidades das Américas que receberam
europeus em seu território. Conforme René Remond, a emigração de europeus no século XIX
foi um dos “grandes fatos demográficos do mundo”. Entre 1815 e 1914, a população da Europa
cresceu em altos índices, ultrapassando o seu dobro. Em 1800, por exemplo, ela possuía 187
milhões de pessoas e, em 1900, tinha ultrapassado os 400 milhões. As consequências sociais
deste crescimento demográfico associado a momentos de crise econômica e política foram o
pauperismo, o desemprego crônico e a baixa dos salários, levando parte de sua população a
migrar para terras que prometiam uma vida melhor. O grosso da emigração europeia, portanto,
foi constituído principalmente “de camponeses sem terra, de operários sem trabalho e de
burgueses arruinados” e os países que contribuíram mais com este fluxo foram os mais
atingidos pela falta de trabalho e pela miséria. 40

Segundo David Eltis, a partir de 1820, as migrações por todas as partes do mundo
tomaram um perfil cada vez mais voluntário, substituindo a era das migrações forçadas. 41 No
Brasil, ao mesmo tempo em que se intensificava o processo de imigração europeia, sob

38
CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 79.
39
Nas paróquias urbanas de São Paulo (Sé, Santa Efigênia e Consolação) este índice era de 11,8% entre os
habitantes livres. Em Recife, era de 6%, em São Luis, no Maranhão, era de 6,8%, em Salvador, era 5,8% e em
Ouro Preto era 3,3% (Censo geral de 1872. Disponível em: http//www.ibge.gov.br).
40
Calcula-se em cerca de 13 milhões o número de europeus que se expatriaram entre 1840 e 1880. A mesma cifra
voltou a emigrar num intervalo de tempo menor (1880 a 1900). A partir de 1900, o índice atingiu 1 milhão de
pessoas por ano dos que partiam somente para os Estados Unidos. No total, não é exagero afirmar que cerca de 60
milhões deixaram a Europa para estabelecer-se em outros continentes além-mar. Mais da metade foi para os
Estados Unidos e cerca de 8 milhões migraram para a América do Sul (REMOND, René. O século XIX (1815-
1914). São Paulo: Cultrix, 1990, p. 197-199).
41
ELTIS, David. Migração e estratégia na História Global. In: FLORENTINO, Manolo; MACHADO, Cacilda
(Org.). Ensaios sobre a escravidão (1). Belo Horizonte: Editora UFMG, p. 13-35. Eltis reconhece a singularidade
brasileira no que diz respeito ao fluxo voluntário que marcou a colonização portuguesa na América, antes do
século XIX.
149
incentivo das autoridades administrativas, a longa história da entrada de cativos africanos
estava com seus dias contados. Tratavam-se de dois grandes ciclos migratórios distintos (o
primeiro forçado e o segundo voluntário) que caracterizaram a formação do mundo atlântico
entre os séculos XVI e XIX. Pelotas participou de ambos os fluxos migratórios, recebendo um
grande número de africanos na primeira metade do século XIX e um significativo contingente
de europeus não lusófonos em todo o oitocentos, mas, sobretudo, a partir dos anos 1850. Neste
sentido, estudar a imigração para Pelotas é estudar os fluxos migratórios que caracterizaram o
período em diferentes partes do mundo Atlântico, oferecendo um exemplo de como se deu a
interação social entre nativos e estrangeiros numa escala microanalítica.

Para se ter uma maior dimensão desta entrada de estrangeiros em Pelotas seria
necessário saber qual o perfil desta população flutuante que chegava anualmente na cidade,
vindo a estabelecer-se nela ou não. Uma das documentações mais eloquentes com relação à
migração para Pelotas são os passaportes policiais emitidos aos estrangeiros entrados na cidade.
A lista mais completa que localizei com relação aos mesmos reúne todos os que entraram na
cidade ao longo do ano de 1855. Este documento apresenta o nome de 481 pessoas e arrola a
sua nacionalidade, idade, estado civil, profissão e local de procedência. 42 Entretanto, esta fonte
apresenta uma sub-representação do fluxo de pessoas, pois entre os listados não há nenhuma
mulher (apesar de 18,2% dos indivíduos fichados serem casados). Outro problema do
documento é que ele não revela o motivo pelo qual os recém-chegados estavam na cidade, não
sendo possível saber se vinham provisoriamente, se estavam de passagem para outro município
ou se desejavam estabelecer-se em Pelotas. É provável que todos estes, além de outros,
fizessem parte do repertório de motivos do grupo listado.

Analisando os dados do documento, percebe-se que cerca de 59% dos indivíduos


listados eram portugueses. Entre eles é possível verificar um número diversificado de
profissionais. Caixeiros, sapateiros, alfaiates, chapeleiros, mascates, comerciantes,
trabalhadores, barbeiros, marceneiros, carpinteiros, ferreiros, tanoeiros, pedreiros, oleiros, entre
outros. Pelos seus ofícios não é difícil perceber que se tratavam de indivíduos de poucas posses.
A migração de portugueses para o Brasil manteve altos e baixos e foi constante até o século
XX. A facilidade da língua e a presença de parentes nestas terras encorajava a travessia dos
migrantes. Além de Portugal, mais 22 lugares formavam os outros 41%.43 Os franceses são os
segundos mais numerosos (8,5%), seguidos pelos espanhóis (8%), alemães (6,5%), uruguaios

42
Lista de estrangeiros que receberam passaporte policial (1855). Fundo Polícia, Pelotas, Maço 15, AHRS.
43
Para alguns lugares como Espanha e Uruguai são citadas as cidades de onde o listado nasceu e não o país. O
mesmo é percebido para Alemanha e Itália, que ainda não possuíam um estado nacional unificado.
150
(6%) e italianos (5,2%). O restante reunia ingleses, norte-americanos, irlandeses,
dinamarqueses, suíços, suecos, argentinos, paraguaios e austríacos.

Outro item importante é o que se refere à procedência dos indivíduos. A grande maioria
destes estrangeiros (77,5%) vinha de Rio Grande, o que não causa surpresa, pois o porto
marítimo localizava-se nesta cidade. O interessante talvez seja que 22,5% chegava em Pelotas
partindo de outras localidades, o que evidencia que este deslocamento não se dava somente pela
via marítima, mas também pela navegação fluvial e pelas precárias estradas que levavam até o
polo charqueador. Assim, encontram-se entre os locais de procedência o Uruguai (8,5%) e a
Argentina (0,5%), além de estrangeiros vindos da região da campanha (4,2%), da vizinha
Jaguarão (3,8%), de outros municípios próximos como Piratini, Canguçu e Camaquã, e dos
próprios distritos rurais de Pelotas.

Com relação às profissões foram localizados 60 ofícios diversos. O grupo mais


expressivo era formado pelos caixeiros (23%), seguido pelos trabalhadores (12,8%) e
comerciantes (9,3%). Estes números revelam que muitos vinham vender e comprar
mercadorias, além de pagar e cobrar parceiros de negócios ou mandavam seus caixeiros realizar
tais tarefas. Outros vinham buscar trabalhos eventuais podendo então fixar-se na região.
Entretanto, uma boa parte dos estrangeiros exercia ofícios mecânicos e artesanais diversos. A
construção civil, o artesanato com o couro, a madeira ou os metais, as atividades ligadas à
pecuária e à agricultura e ofícios marítimos eram os que mais atraíam. 44 Tais dados convergem
com o informado por Joel Serrão, ou seja, o grosso da emigração portuguesa para o Brasil na
segunda metade do século XIX era formada por pobres trabalhadores rurais e urbanos. 45

A faixa etária dos estrangeiros variava, abarcando crianças de 10 anos até idosos de 63
anos. Cerca de 58,5% dos estrangeiros possuía entre 16 e 30 anos, demonstrando que este fluxo
era majoritariamente de pessoas jovens. O grupo mais representativo era formado pelos
caixeiros portugueses entre 10 e 20 anos, provenientes de Rio Grande. Eles perfaziam 14% dos
listados. Conforme Ana Sílvia Scott, foi comum a vinda de caixeiros para o Brasil integrados a

44
A lista é longa e reunia trabalhadores ligados ao ramo das navegações (armeiro (1), calafate (1), marinheiro (2),
veleiro (2)), aos ofícios artesanais envolvendo couro, madeira, metais e outros materiais (abridor (2), alfaiate (22),
cadeireiro (2), carpinteiro (22), chapeleiro (6), charuteiro (3), correeiro (4), ferreiro (19), marceneiro (13), ourives
(12), afiador (1), curtidor (3), saboneiro (4), penteeiro (1), sapateiro (25), tanoeiro (6)), aos serviços nas
charqueadas ou estâncias (campeiro (3), capataz (1), descarnador (1), graxeiro (2), peão (4)), aos serviços na
lavoura (lavrador (14), roceiro (2), chacareiro (1), serrador (2)), aos ofícios ligados à construção civil (oleiro (2),
pedreiro (6), pintor (1), vitrificador (1)), ao setor de transportes de cargas (carreteiro (9), carretilheiro (1)), às
profissões liberais (cirurgião (1), música (3), violeiro (1), escritor (1)) e à prestação de serviços diversos
(açougueiro (3), aguadeiro (1), barbeiro (4), cozinheiro (6), figurista (1), padeiro (5), taberneiro (1)), entre outros.
45
SERRÃO, Joel. Conspecto histórico da emigração portuguesa. Análise Social, Ano 8, n. 32, 1970, p. 597-617.
151
redes mercantis e de parentesco transatlântica.46 Além disso, os dados da lista de 1855
combinam com o perfil da população estrangeira recenseada em 1872. Descontados os 361
africanos que foram classificados como estrangeiros livres – sem dúvida um número expressivo
– os 2.648 restantes estavam divididos em: 1.495 portugueses, 323 alemães, 256 uruguaios, 201
franceses, 115 espanhóis, 84 italianos e 68 ingleses, apenas para ficar entre os grupos mais
representativos.47 É importante lembrar que estes eram os que residiam no espaço mais urbano
de Pelotas. Os distritos rurais do município também concentravam significativos contingentes
de estrangeiros, sobretudo, europeus.48

Tendo em vista que a imigração que marcou o meado do oitocentos reunia


principalmente jovens e adultos, como demonstram os passaportes policiais de 1855, a presença
estrangeira no seio da população adulta da cidade de Pelotas era ainda maior do que os
percentuais citados anteriormente. De acordo com os dados relativos à paróquia de São
Francisco de Paula em 1872, a população masculina e livre classificada como branca e com
idade entre 11 e 70 anos somava 4.252 pessoas. Ora, se o número de estrangeiros do sexo
masculino era de 2.443 e praticamente todos estavam nesta mesma faixa etária, é provável que
mais da metade dos homens adultos livres residentes no espaço urbano pelotense fosse formada
por estrangeiros! Trazendo ofícios e conhecimentos de outras partes do mundo, estes homens
moviam-se pela cidade contribuindo com serviços cotidianos indispensáveis para a população
local, envolvendo-se com todas as camadas sociais da localidade, além de ocuparem-se de
grande parte da indústria, comércio e artesanato da urbe, como evidencio a seguir.

Através do censo de 1872 pode-se verificar como os habitantes da paróquia de São


Francisco de Paula foram classificados no que diz respeito as suas atividades econômicas. Dos
12.376 habitantes livres da paróquia, 6.063 foram qualificados como “sem profissão”.
Monastério e Zell esclareceram que o alto número destes “sem profissão” deve-se ao fato das

46
SCOTT, Ana Sílvia. As duas faces da imigração portuguesa para o Brasil (décadas de 1820-1930). Anales del
Congreso de Historia Económica de Zaragoza, 2001, p. 3. Ver também ROWLAND, Robert. Velhos e novos
Brasis. In: BETHENCOURT, Francisco. História da Expansão Porguesa. Lisboa: Círculo de Leitores, 1998.
47
O restante era formado por paraguaios (62), argentinos (16), suíços (9), austríacos (7), gregos (3), dinamarqueses
(2), holandeses (2), norte-americanos (2), suecos (2) e boliviano (1).
48
Em 1858, por exemplo, foi fundada a colônia São Lourenço na zona rural de Pelotas. Um dos motivos da
instalação desta colônia foi a excessiva especialização do município na produção das charqueadas e a ausência de
lavouras que suprissem a demanda alimentícia da crescente população. Um ano após a instalação da colônia, a
mesma possuía 206 habitantes. No entanto, cerca de 10 anos depois, a colônia possuía 1.637 almas divididas em
340 famílias, sendo 1.277 protestantes e 360 católicas. Os mesmos cultivavam trigo, centeio, cevada, milho, feijão
e batatas, destinadas ao consumo das cidades de Rio Grande e Pelotas (CAMARGO, Antônio Eleuthério.
Estatística provincial de 1868, Fundo Estatística, AHRS, p. 93).
152
crianças terem sido incluídas neste grupo.49 No caso de Pelotas, a população com 15 anos ou
menos somava 3.513 habitantes. Talvez uma parte dos indivíduos entre 16 e 20 anos, e que
somavam 1.299 moradores, também tenha sido qualificada no grupo citado por não exercer
funções que se enquadrassem nas outras categorias do censo. Contudo, entre os “sem profissão”
estão 1.136 pessoas casadas ou viúvas, o que indica que eram adultas. Destas, 994 eram
mulheres. Portanto, é possível que muitas delas deviam ser “donas de casa”, o que aos olhos
dos censores poderia fazer parte do grupo “sem profissão”. A parcela restante dos “sem
profissão” parecia incluir os considerados “inválidos”, os muito pobres e uma parte dos que
viviam de suas agências.50

A análise que se segue inclui, portanto, os 6.313 habitantes livres e adultos que
possuíam alguma profissão reconhecida pelo censo (4.435 homens e 1.878 mulheres). As
mulheres pelotenses exerciam um número bem menor de atividades econômicas e profissionais
se comparadas aos homens. As principais ocupações femininas eram a de “serviço doméstico”,
que contava com 882 mulheres, e a de “costureira”, que reunia 668 delas. Portanto, cerca de
82,5% das mulheres livres com profissão foram classificadas como costureiras ou serviços
domésticos. Destas, ¾ eram solteiras. Desconheço se outras atividades foram condensadas na
categoria “costureira” (visto o seu alto índice de 35,5% das mulheres com profissão). É um
contingente enorme de trabalhadoras que permanece invisível esperando por algum estudo
específico. As outras mulheres foram classificadas como capitalistas e proprietárias (91),
comerciantes (70), artistas (34) e professoras (14). A única categoria em que as mulheres
estrangeiras conseguiram superar as brasileiras foi na de “artistas”.

Entre os homens, a categoria “comerciantes, guarda-livros e caixeiros” apresentava


1.255 indivíduos ou 28,3% dos homens livres com profissão. 51 Dos homens deste grupo, 59%
eram estrangeiros. Outro grupo com representação significativa eram os operários das
“produções manuais ou mecânicas” que reunia 1.000 homens. Eram 156 operários em metais,
398 em madeiras, 84 em couros e peles, 36 em chapéus, 5 em mineração e 321 em calçados.
Nestas profissões, 67% dos homens eram estrangeiros. Os artistas reuniam 530 homens livres,
sendo 61% de estrangeiros. Penso que a diferença deste grupo de operários para com os
“artistas” é que aqueles eram assalariados e, portanto, não trabalhavam por conta própria. O

49
MONASTERIO, Leonardo; ZELL, Davi. O Rio Grande do Sul de 1872: análise setorial da ocupação nos
municípios. Anais do II Encontro de Economia Gaúcha. Porto Alegre, 20 e 21 de maio de 2004.
50
Segundo o próprio censo, a paróquia possuía 18 cegos, 14 surdo-mudos, 42 aleijados, 10 dementes e 8 alienados.
51
Este índice converge com o encontrado para o total da categoria “comércio” na lista dos estrangeiros entrados na
cidade de Pelotas em 1855 (28%) e da lista de qualificação de votantes de Pelotas de 1865 (23%).
153
grupo dos “manufatores e fabricantes” compunha 250 homens. A grande maioria, ou 87,3%
deles, eram estrangeiros. É possível que muitos fossem patrões dos operários citados.

Segundo Osório, entre 1835 e 1912, podia-se contar em torno de 6 mil firmas que
apareceram e giraram na cidade. Em 1910, existiam 188 fábricas, 278 oficinas e 822 casas de
negócio diversas. No entanto, foi a partir dos anos 1870 que as indústrias e companhias fabris
começaram a se proliferaram por Pelotas. Marcos dos Anjos verificou um grande número de
novas fábricas de fumo, de sabão e velas, de cerveja, de chapéus, de curtição e de massas, entre
outras. Das 38 que foram registradas na Junta Comercial, mais de 52% pertenciam a
estrangeiros e 26% possuíam um dos sócios estrangeiro.52 Estes dados vão ao encontro dos
percentuais do Censo de 1872, uma vez que entre os fabricantes, os operários especializados, os
manufatores e os artistas, a maior parte era composta por estrangeiros. Somados aos índices dos
comerciantes, é possível inferir que estas eram as ocupações econômicas mais acessadas pelos
mesmos. Estes estrangeiros eram na sua maioria homens de setores médios e subalternos,
destacando-se socialmente pela sua inventividade e iniciativa nestes setores econômicos. Uma
pequena parte deles chegou a possuir riqueza e prestígio social considerável. 53

Conforme Anjos, que realizou uma rigorosa pesquisa nos periódicos pelotenses da
época, estes estrangeiros, sobretudo os europeus, colaboraram profundamente com a
modernização da cidade de Pelotas. Entre os mesmos, uma série de engenheiros e arquitetos
contribuíram com projetos na área da urbanização, iluminação, redes de esgoto e abastecimento
de água, entre outros. Datam do início dos anos 1870, a formação da Companhia Hidráulica
Pelotense, o início do trânsito de carros de passageiros realizado pela Companhia Ferro Carril e
Cais de Pelotas e a construção da estação férrea. Além disso, um outro grande número de
europeus também formava um contingente que permanecia por algumas temporadas atuando
em diferentes áreas, para depois seguir viagem por outras cidades da América. Na área cultural
e artística, por exemplo, diversas companhias teatrais, pintores e fotógrafos estrangeiros
enchiam as páginas dos jornais da cidade de anúncios e arrebatavam importante clientela.

52
ANJOS, Marcos H. dos. Estrangeiros e modernização: a cidade de Pelotas no último quartel do século XIX.
Dissertação de Mestrado. PUCRS, 1996, p. 62-67. A descrição de algumas indústrias existentes em Pelotas neste
período ajuda a colorir os números apresentados. Conforme Osório, em 1845, o francês Carlos Ruelle fundou a
primeira fábrica de seges e carros, que, em 1865, recebeu a visita do Imperador D. Pedro II. Também em 1845,
João Barcellos fundou uma chapelaria e 3 anos depois, Antônio Lopes dos Santos abriu sua loja de ourivesaria. Em
1855, Diogo Higgins fundou uma oficina para consertar instrumentos musicais. Em 1860, José Gonçalves
estabeleceu uma Latoaria e, em 1864, Frederico Lang fundou uma fábrica de sabão. O autor ainda cita outros
estabelecimentos como olarias, fábricas de anil, de papel, de louças e carnes em conserva (OSÓRIO, Fernando. A
cidade de Pelotas. Pelotas: Armazém Literário, v. 2, p. 141-142).
53
ANJOS, Marcos Hallal dos. Op. cit.
154
Professores de piano, de línguas, de etiquetas e empregados em escolas particulares também
tinham um importante espaço.54

Neste sentido, Pelotas apenas acompanhava uma tendência das principais cidades do
mundo ocidental. Com o maior desenvolvimento do capitalismo, a vida das pessoas foi
gradualmente sendo deslocada para as cidades. No início do século XIX, gigantes como
Londres e Paris possuíam respectivamente 1 milhão e 500 mil habitantes. Contudo, estas eram
dimensões excepcionais para a época, pois, na Europa, somente estas duas cidades
ultrapassavam os 500 mil habitantes. No entanto, cerca de 100 anos depois, em 1913, este
número já havia chegado a 149.55 Esta maior urbanização colaborou com a disseminação do
estilo de vida burguês, a ampliação dos meios de comunicação e transportes, a circulação de
novas ideias sobre ciência e progresso e tudo isso afetou consideravelmente a vida nas grandes
cidades europeias e americanas. Mas apesar deste novo protagonismo das cidades, a grande
maioria da população mundial ainda era rural. Na própria Europa, em 1913, somente 15% dos
europeus moravam em cidades.56 Neste contexto, se Pelotas possuía uma população urbana
importante ao comparar-se com a grande maioria das cidades do Império (chegando a 15 mil
nos anos 1870), diante das grandes capitais ela era uma pequena vila, pois, nesta época, a
cidade do Rio de Janeiro possuía 275 mil habitantes, Salvador 130 mil e Recife mais de 115
mil. Num patamar inferior, apresentavam-se, entre outras, São Paulo com pouco mais de 30 mil
e Porto Alegre com cerca de 25 mil.57

Na medida em que as cidades cresciam juntamente com a sua população, a demanda por
gêneros alimentícios também aumentava. A partir da segunda metade do século, os distritos
rurais de Pelotas foram alvo de intensa especulação e mais de 60 colônias agrícolas foram
fundadas entre os anos 1860 e 1890. As elites possuidoras de terras na Serra dos Tapes foram as
que mais investiram nestes negócios e os charqueadores e seus familiares tiveram um papel de
destaque neste processo. Em 1869, por exemplo, Custódio Gonçalves Belchior, fundou a

54
ANJOS, Marcos Hallal dos. Op. cit., p. 36-37, 84-95, 102-103. Os italianos dominavam o ramo da hotelaria e, na
Santa Casa e em clínicas particulares, vários médicos europeus exerceram a sua profissão. Para uma análise da
imigração italiana em Pelotas ver POMATTI, Angela B. Italianos na cidade de Pelotas: doenças e práticas de
cura (1890-1930). Dissertação de Mestrado em História, PUCRS, 2011.
55
REMOND, René. Op. cit., p. 137.
56
REMOND, René. Op. cit., p. 137.
57
Neste sentido, é necessário mencionar que o último quartel do século não marcou somente o início da
modernização e o processo de ampliação da urbanização pelotense. Em São Paulo, conforme Zélia C. de Mello, os
anos 1870 representariam a “segunda fundação” da cidade, quando ela se tornou, segundo contemporâneos da
modernização paulista, a “capital dos fazendeiros” e deu seus primeiros passos para tornar-se a “metrópole do
café” (MELLO, Zélia C. de. Op. cit., p. 84). Estudando os padrões de riqueza em Juiz de Fora na passagem do
século XIX para o XX, Rita Almico percebeu que o mesmo período marcou o impulso modernizador e a
urbanização da localidade, refletida na valorização dos imóveis da cidade – processo viabilizado pelo crescente
comércio e riqueza da cafeicultura da Zona da Mata mineira (ALMICO, Rita. Op. cit.).
155
colônia Santa Silvana e, em 1889, Heleodoro de Azevedo e Souza deu o nome de Santa Eulália
à colônia que criou. Os colonos possuíam origens diversas. Em 1848, a colônia D. Pedro II,
cujo maior acionista era o charqueador Antônio Rafael dos Anjos, era formada por irlandeses e
ingleses. Anos mais tarde, a colônia São Feliciano, teve nos franceses os seus primeiros
imigrantes. A colônia São Lourenço, a mais conhecida de todas, era formada por famílias
germânicas.58

No entanto, uma parte da elite pelotense entendia que a vinda de colonos para o trabalho
agrícola não era suficiente para o desenvolvimento da cidade. Em 1861, um charqueador
escreveu ao presidente da Província, esboçando que desejava também a “vinda de outros
colonos senão científicos, inteligentes, como até com capitais, na certeza de que na Pátria a
adotarem deparariam com meios infalíveis de felicitarem suas proles”. 59 Neste sentido,
conforme Anjos, alguns pelotenses defendiam, por intermédio da imprensa, a ideia de que os
europeus deveriam trazer a sua inteligência para além do trabalho agrícola, exercendo os seus
ofícios e saberes como se estivessem nos seus países de origem. Para isso, era preciso criar
indústrias e oferecer o suporte necessário para que eles executassem as suas atividades. 60 E, de
fato, aproveitando-se deste estímulo local, os estrangeiros passaram a participar cada vez mais
da vida urbana pelotense, onde pareciam sentir-se muito à vontade, visto que não eram poucos:

Determinados meses do ano caracterizavam-se por uma expressiva atuação das


sociedades estrangeiras radicadas em Pelotas, em especial as italianas, francesas e
portuguesas. Nos meses de setembro, os italianos comemoravam a unificação italiana,
nos meses de julho, o dia 14 não passava desapercebido pelos franceses e, no 1º de
dezembro, os portugueses festejavam a restauração monárquica. Os jornais noticiavam
as festividades, que variavam de seletas e íntimas reuniões a grandes desfiles pelas
ruas, com direito a fogos de artifício, batismo de estandartes e calorosos discursos,
onde o orador estrangeiro enaltecia a pátria natal e bendizia o país hospedeiro.61

Portanto, os europeus formavam comunidades reconhecidas localmente, onde seus


costumes, festas e identidades coletivas eram mantidos a partir da organização sociedades
diversas. Conforme Anjos, “as associações de elementos de uma mesma nacionalidade se
materializavam, em especial, através da criação de sociedades beneficentes e de auxílio mútuo,
mas também esportivas, literárias e educacionais”. Nelas, “o estrangeiro, além de labutar por
objetivos concretos, participava da elaboração de uma identidade cultural ímpar”. Neste

58
ANJOS, Marcos dos. Op. cit., p. 44-49; 60. Outros investidores seguiram o exemplo, como os herdeiros do
charqueador Domingos de Castro Antiqueira (Colônia São Domingos, 1875), José Bento de Campos (Colônia
Santo Bento, 1899), Manoel Batista Teixeira (Colônia Santa Áurea, 1893), Pedro Nunes Batista (Colônia São
Pedro), Epaminondas Piratinino de Almeida (Colônia Santa Bernardina e Colônia São Domingos).
59
Carta de Domingos José de Almeida ao presidente da Província do Rio Grande do Sul. Pelotas, 04.10.1861.
Anais do Arquivo Histórico do RS, CV-686, p. 154.
60
ANJOS, Marcos dos. Op. cit., p. 52-53.
61
Idem, p. 89.
156
sentido, seus laços com sua terra natal jamais eram desfeitos e os acontecimentos políticos do
velho continente eram acompanhados mesmo do outro lado do Atlântico. 62 Não demorou muito,
também surgiram jornais em sua própria língua, como o italiano “Il Venti Setembro”, de Carlos
Cantaluppi, e o alemão “Deutsche Presse”. 63 Isto também ajuda a explicar a grande importância
que os jornalistas pelotenses davam à cultura, economia e política internacional nas primeiras
páginas de seus periódicos. Não é difícil imaginar que a elite pelotense devia compartilhar de
parte destas informações e debates com os estrangeiros mais notáveis nos clubes, bailes, cafés,
jantares e nas praças da cidade.

Se a população de Pelotas e as dimensões de sua cidade eram bem menores que as


demais capitais brasileiras citadas anteriormente, mas a proporção de estrangeiros era maior que
a das mesmas cidades (com exceção do Rio de Janeiro), é provável que, no seu cotidiano, os
pelotenses que circulavam pelas ruas da urbe mantinham um contato muito mais próximo com
os europeus que compartilhavam deste mesmo espaço se comparados com as elites de outras
regiões.64 Além do mais, estabelecendo vínculos afetivos com os pelotenses, muitos
estrangeiros inseriam-se nas famílias locais por meio de matrimônios e laços diversos.65
Contudo, tendo em vista tal proximidade, não se deve descartar a latente possibilidade de
conflitos entre as diferentes comunidades e grupos sociais, visto as distinções étnicas, culturais,
religiosas e econômicas que caracterizavam a sua população. Escapando das pretensões desta
tese, tal fenômeno ainda merece ser melhor estudado.

No entanto, apesar da considerável importância dos estrangeiros na vida social e na sua


economia, algumas atividades estavam mais restritas a sua participação. Os “capitalistas e

62
“Apesar de distantes de seus países de origem, os estrangeiros continuavam ligados a eles por fortes laços de
subordinação, veneração e por afetos familiares. Através das entidades coletivas organizadas, o contato com a
pátria mãe e a atuação frente a episódios de repercussão internacional tornava-se mais fácil, propiciando, àqueles
estrangeiros envolvidos, um reforço positivo no íntimo de suas cidadanias enfraquecidas. Assim, em 1878, a
comunidade francesa compadeceu-se pela morte de Thiers; em 1883, a comunidade alemã da cidade uniu-se na
tentativa de amenizar o sofrimento das vítimas das inundações e do inverno cruel que abalara a Alemanha naqueles
anos; em 1890, os portugueses em Pelotas fizeram subscrições e angariaram fundos para serem remetidos a
Portugal, caso houvesse um conflito com a Inglaterra (questão da Zambesia); e, durante o ano de 1898, a ‘colônia
espanhola’ mobilizou-se na formação de uma ‘Liga Patriótica’ para angariar donativos a serem enviados ao
governo da Espanha, que se encontrava em guerra com os Estados Unidos” (ANJOS, Marcos. Op. cit., p. 90).
63
ANJOS, Marcos dos. Op. cit., p. 89; 112.
64
A grande presença de estrangeiros era reconhecida pela própria população. Na edição de 20 de julho de 1884, o
Correio Mercantil de Pelotas iniciava uma matéria sobre as Sociedades de Socorros Mútuos da seguinte forma:
“Em todas as cidades populosas como a nossa, onde avulta o elemento estrangeiro, este deve congregar-se (…)”
(apud ANJOS, Marcos dos. Op. cit., p. 89).
65
Os dados do Censo de 1872 contribuem novamente para esta questão. Se entre os brasileiros o número de
mulheres era maior que o de homens, entre os estrangeiros, para cada mulher havia 4 homens. Dos 2.443
estrangeiros do sexo masculino, 935 eram casados, e das 566 mulheres estrangeiras, 187 eram casadas. Portanto
havia um grande número de estrangeiros casados para um pequeno número de mulheres estrangeiras casadas. Estes
dados além de revelarem que os homens migravam muito mais, demonstram que vários deles tendiam a contrair
matrimônio com as mulheres da terra.
157
proprietários” contidos no Censo de 1872 reuniam 97 homens, mas somente 20% eram
estrangeiros. Outro exemplo pode ser dado no grupo dos criadores e lavradores dos subúrbios
da cidade, que somavam 216 pessoas e também apresentavam 80% de brasileiros. Portanto,
ainda era possível vislumbrar um grupo de “estabelecidos” na cidade, notadamente, uma parte
significativa de sua elite. Os estrangeiros, com exceção dos portugueses na primeira metade do
século, praticamente não tiveram acesso ao restrito círculo das fábricas de charque. Cada vez
mais a elite charqueadora fechava-se diante de investidores vindos de fora – algo
completamente distinto do que ocorria no Rio da Prata na mesma época, onde ingleses,
franceses e espanhóis continuavam com entrada franca na indústria da carne, no comércio e na
pecuária, já em moldes capitalistas. 66 Em Pelotas, a única porta aberta aos mesmos era o
matrimônio, visto que alguns ricos charqueadores estabeleceram tais alianças com europeus,
como tratarei num capítulo posterior. Portanto, no final do período aqui estudado, os
estrangeiros ocuparam principalmente os estratos intermédios da sociedade pelotense. Tal
constatação pode indicar que as mencionadas alianças matrimoniais com os charqueadores era
do interesse de ambas as partes, uma vez que inserir-se numa família da elite estabelecida
oferecia um leque de possibilidades aos candidatos a genro estranhos àquela localidade.

Mas ainda é necessário realizar uma última consideração sobre a estratificação social em
Pelotas. Para isso tomarei uso novamente dos inventários post-mortem, acrescendo outras
fontes, como demonstro a seguir.

4.3 OS MUITOS DEGRAUS DA PIRÂMIDE: POR UMA ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL E


ECONÔMICA DA POPULAÇÃO PELOTENSE

Apesar de tratar da maior parte da população, o Censo de 1872 possui um caráter


genérico com relação as suas classificações, por homogeneizar as suas categorias dificultando
uma caracterização das especificidades socio-ocupacionais de cada província e município. Um
exemplo disto pode ser dado com relação à atividade econômica do charqueador. Como na
maioria das outras províncias não existiam charqueadas, o Censo não contempla a categoria
“charqueador” ou “indústria de carnes”, por exemplo. Além disso, como muitos charqueadores
também criavam gado, atuavam no comércio e eram proprietários de vários imóveis, não é
possível saber em que grupo os censores os classificaram. Além disso, uma diversidade de
indivíduos com ofícios característicos das camadas mais pobres da população eram
66
Para uma consideração a cerca desta diferença ver BELL, Stephen. Early industrialization in the South Atlantic:
political influences on the charqueadas of Rio Grande do Sul before 1860. Journal of Historical Geography, n. 19,
1993, p. 399-411. Tratarei disto nos capítulos posteriores.
158
enquadrados em categorias muito genéricas como “profissões manuais e mecânicas” ou
“profissões industriais”, por exemplo. Portanto, o cruzamento dos dados do Censo com os de
outras fontes documentais pode ajudar a enriquecer a presente análise e direcionar os resultados
obtidos para uma proposta de hierarquização socioeconômica.
As listas de qualificação de votantes da paróquia de São Francisco de Paula para os anos
de 1865 e 1880, fornecessem dados importantes para uma aproximação desta diversidade
ocupacional. 67 A análise destes documentos permite verificar qual o perfil socio-ocupacional de
mais da metade dos chefes de família, dos viúvos e dos homens solteiros e maiores de 21 anos
da sede do município, onde muitas das charqueadas faziam limite. 68 O primeiro indicador a ser
destacado é que em 1865 e em 1880, Pelotas apresentou respectivamente 74 e 91 ocupações
econômicas e profissões diversas, o que exemplifica a maior complexidade do documento se
comparado ao Censo. Tratando-se do distrito mais urbano, não causa surpresa que os indivíduos
classificados como comerciantes formavam o grupo de maior representatividade. Em 1865, eles
chegavam a 20,8% e, em 1880, a 23,1% dos votantes.

Analisando mais profundamente as ocupações socio-profissionais da lista de 1865


percebe-se que do total de 718 votantes qualificados, 280 (39%) pertenciam a ocupações
econômicas de setores mais ricos (ou no mínimo intermediários) da saciedade local. Tratavam-
se de comerciantes (150), proprietários (76), criadores (26), charqueadores (14), negociantes
(11) e capitalistas (3). A ausência da discriminação da renda nos impede de confirmar tal
posição para todos os qualificados deste grupo, sobretudo da categoria “comerciante”, que
certamente reunia indivíduos ricos que atuavam comércio de atacado ao lado de varejistas de
pequeno porte. O mesmo serve para os negociantes. Além disso, também não é possível saber o
tamanho dos rebanhos dos criadores. Portanto, o índice de 39% entre os setores mais ricos e
intermédios para ricos deve ser inferior, talvez ficando em torno de 1/4 dos votantes.

Um segundo grupo a ser considerado pode ser chamado de profissão/burocracia e


envolvia os profissionais liberais e empregados públicos. Este é de longe o menor grupo, visto o

67
Lista de qualificação de votantes de Pelotas, 1865 (Fundo Eleições, maço 2, Arquivo Histórico do Rio Grande
do Sul). Lista de qualificação de votantes de Pelotas de 1880 (Biblioteca Pública Pelotense - transcrição
gentilmente cedida pelo Professor Adhemar Lourenço da Silva).
68
Ambos os documentos oferecem uma amostra significativa dos homens livres maiores de 21 anos e com renda
anual superior a 200$000, ou seja, os qualificáveis. Ao contrário do que se defendeu durante muito tempo, uma
parcela significativa da população masculina participava das eleições imperiais, uma vez que a renda não era um
grande empecilho. De acordo com Richard Graham, 50,6% de todos os homens brasileiros livres maiores de 21
anos votaram nas eleições do início da década de 1870 (GRAHAM, Richard. Clientelismo e Política no Brasil do
Século XIX. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997, p. 147). Tendo em vista o grande número de estrangeiros em Pelotas, que
segundo às leis da época só podiam votar caso fossem naturalizados, é provável que os indivíduos arrolados nas
listas de votantes correspondessem a mais da metade da população masculina.
159
alto índice de analfabetismo e a baixa burocratização da sociedade da época. Juntos, eles
reuniam 65 indivíduos, ou seja, 9% dos qualificados como votantes. Merecem destaque os
médicos (8) e os advogados (4) que possuíam um forte prestígio social. Os empregados
públicos somam 27 pessoas, distribuídas em diferentes setores que a lista não discrimina.
Outros grupos importantes são os professores (12) e os militares (5). 69 Um terceiro grupo da
lista que merece menção pertence a estratos médios e baixos da sociedade. Ao todo considerei
373 indivíduos como pertencentes a este grupo, ou seja, 52% do total dos votantes.70 Entre eles
é possível vislumbrar a presença de carpinteiros (37), alfaiates (31), marítimos (22), carreteiros
(19), jornaleiros (19), tropeiros (19), capatazes (8), marceneiros (8), pedreiros (7), lombilheiros
(5), boleeiros (5), pescadores (3), cortadores (3), campeiros (3), entre outros.

Como já foi dito, a lista de votantes de 1880 apresenta o mesmo perfil da anterior,
trazendo somente algumas ocupações profissionais novas, como o surgimento de um repórter,
um redator e dois telegrafistas – indicando que os meios de comunicação haviam atingido um
maior nível de desenvolvimento. Os dois maquinistas presentes nesta lista, por outro lado,
revelam que os meios de transporte haviam entrado na era das ferrovias. Dois gerentes e três
administradores também demonstram uma especialização profissional na condução dos
negócios de indústrias ou empresas. Um dos gerentes qualificados, por exemplo, era Vicente
Lopes dos Santos Filho, cujo pai possuía uma charqueada. A presença de um despachante
também é novidade e talvez sua aparição seja consequência da burocratização do Estado na
segunda metade do século XIX. O fato de haver um cabeleireiro na lista também merece
destaque e indica que as senhoras da elite pelotense estavam demandando não apenas artigos de
luxo, mas também serviços mais sofisticados.

A análise das ocupações econômicas sugere que muitos deles estavam vinculados direta
ou indiretamente ao processo de produção das charqueadas, assim como das atividades ligadas
às mesmas, como a criação de gado e os transportes terrestres e fluviais. Além disso, também

69
Seria um equívoco analítico considerar os membros do grupo profissão/burocracia descolados do grupo das
ocupações econômicas. Uma abordagem que privilegie a investigação das famílias ao invés dos indivíduos,
perceberá que 3 dos 4 advogados mencionados são filhos de charqueadores. O mesmo ocorre para 4 dos 8
médicos. Ou seja, dentro dos setores ocupacionais e profissionais dos extratos médios e ricos da sociedade podia
haver um entrelaçamento parental que caracteriza a própria estratégia das famílias da elite e que podiam reunir
comerciantes, criadores, burocratas, advogados e charqueadores numa mesma parentela. Nos próximos capítulos
esta relação será tratada com maior profundidade.
70
O significado que davam ao exercício do voto não é o mais importante para esta análise, muito embora o
documento tenha sido produzido com fins eleitorais. E é muito provável que a maioria exercesse tal função com
interesse em manterem-se vinculados a uma rede clientelar local, uma vez que era o significado mais imediato que
poderiam dar a tal ato. Para uma análise destas questões ver VARGAS, Jonas M. Entre a paróquia e a Corte: os
mediadores e as estratégias familiares da elite política do Rio Grande do Sul. Santa Maria: Ed. da UFSM/Anpuh-
RS, 2010.
160
havia todos os ofícios que dependiam do couro, do sebo, das carnes e dos chifres e que eram
empregados em setores de transporte terrestre, fluvial e marítimo. Neste círculo de profissionais
que podemos verificar na lista de 1880, estão os açougueiros (2), armadores (3), calafates (2),
capatazes (25), fazendeiros (30), criadores (26), lombilheiros (4), correeiros (3), seleiros (3),
chapeleiros (2), curtidores (2), colchoeiro (1), sirgueiros (2), estafeta (1), marinheiros (81),
sapateiros (53), carreteiros (33), tamanqueiros (3), carneadores (2), trançador (1) e graxeiro (1).
Somados aos 29 charqueadores da lista tem-se que 23% dos qualificados exerciam atividades
que deviam manter relações próximas com as charqueadas ou compartilhavam de interesses
econômicos comuns. Mas este índice é bem maior, uma vez que não adicionei os comerciantes
(313), os proprietários (126) e os que viviam de suas agências (128), pois não é possível saber
em que ramo de atividades os mesmos estavam inseridos.

Portanto, através das próprias classificações ocupacionais é possível identificar uma


estratificação social básica, pois algumas delas eram atividades exclusivas de setores mais
abastados e outras de setores subalternos da sociedade. No entanto, buscando matizar melhor os
níveis da estrutura socioeconômica na qual a sociedade pelotense estava hierarquizada, volto a
utilizar os inventários post-mortem analisados anteriormente. Como se pode observar na Tabela
4.5, classifiquei os indivíduos inventariados em 9 faixas de fortuna desde os mais ricos (com
patrimônios superiores a 50.000£) até os mais pobres (com menos de 100£). Buscando uma
análise mais elaborada, agrupei estas faixas em três grupos de riqueza, cujos limites, apesar da
possível distinção, são um pouco fluídos. As faixas A, B e C reúnem as camadas mais ricas
desta hierarquia e compunham 8,5% do total inventariado. A soma dos imóveis rurais, escravos
e animais apresentam respectivamente 62,1%, 60,0% e 48,6% de seus bens, demonstrando que
a riqueza era diretamente proporcional ao perfil agrário do seu patrimônio. Entretanto, nunca é
demais lembrar que boa parte de suas terras e gado não se encontravam em Pelotas, mas sim,
em outros municípios ou até mesmo em outro país, no caso, o Uruguai. Em contrapartida, pelo
fato dos charqueadores estarem em peso neste grupo mais rico, a grande maioria dos escravos
das faixas A, B e C encontrava-se no próprio município. Dos 22 componentes deste grupo,
somente 2 não possuíam imóveis urbanos. Eles eram proprietários de muitos sobrados, casas e
armazéns na cidade, mas o valor conjunto dos mesmos não superava o de seus imóveis rurais,
visto a alta valorização das terras no período. Como muitos eram charqueadores e comerciantes,
o peso do dinheiro e das dívidas ativas em seus patrimônios apresentava-se bastante alto. O
reduzido volume de suas dívidas passivas indica que os mesmos possuíam uma relativa
autonomia econômica na região.

161
Tabela 4.5 – Perfil dos patrimônios inventariados por faixas de fortuna em libras esterlinas (%)71

Fortunas Imóveis Imóveis Dinheiro Dívidas Ações Escravos Animais Embarc./ Dívidas M.U. M.R. Mist. Total
Inventariadas rurais urbanos Ativas carros Passivas % % % Invent.
n %
A + de 50 mil 40,2 8,2 8,1 18,4 0,3 378 9,5 12,4 0,8 0,02 - - 100 5
B De 20 a 50 mil 44,7 18,8 9,0 7,6 2,4 264 8,2 7,1 1,2 4,5 - 12,5 87,5 8
C De 10 a 20 mil 25,6 16,9 14,5 13,2 4,3 116 10,4 12,6 0,5 3,6 11,2 11,2 77,6 9
D De 5 a 10 mil 18,1 30,5 7,3 12,2 5,4 140 11,2 3,8 0,2 13,4 38,8 16,6 38,8 18
E De 2 a 5 mil 40,1 19,5 10,6 12,8 7,4 132 11,1 1,2 1,1 15,4 33,3 29,6 29,6 27
F De 1 a 2 mil 14,6 42,7 7,0 15,0 3,4 100 9,8 1,6 0,5 11,2 53,5 20,9 18,6 43
G De 500 a 1 mil 26,5 34,1 3,8 7,5 - 88 19,0 4,0 - 18,8 28,2 38,5 28,2 39
H De 100 a 500 25,5 33,0 5,7 5,0 - 77 23,3 3,7 1,2 17,4 39,2 37,8 9,4 74
I Menos de 100 39,5 25,3 4,6 7,7 - 01 - 6,6 - 28,6 24,3 48,4 3,1 33

Total 34,5 17,9 8,9 13,5 2,3 1.296 9,9 8,4 0,8 5,6 34,4 41,7 23,8 256
Fonte: Inventários post-mortem dos cartórios de Pelotas (APERS)

Embora o interesse principal desta tese seja estudar os charqueadores, não é possível
falar da elite econômica pelotense sem reconhecer que a mesma também era formada por ricos
fazendeiros e comerciantes atacadistas. Estas três atividades podiam ser exercidas por um
mesmo indivíduo, mas, no geral, não o eram. Em 1852, por exemplo, 35 comerciantes de
Pelotas, notadamente a elite mercantil da cidade, remeteram um requerimento para a Corte
exigindo uma fiscalização mais eficaz contra o contrabando na fronteira com o Uruguai. 72
Tratavam-se de importadores e exportadores que também fretavam carretas de mercadorias para
a região da campanha. O grupo, que contava com alguns estrangeiros, possuía somente três
indivíduos que vieram a tornar-se charqueadores anos mais tarde, demonstrando tratar-se de um
grupo mercantil que possuía certa autonomia com relação aos negócios envolvendo a
manufatura dos couros e charque. Com relação aos fazendeiros do município, consultei a
relação dos principais criadores de gado do 3º e do 4º distrito de Pelotas, elaborada pelas
autoridades locais em 1858. Num total de 46 proprietários, somente um era charqueador e
nenhum deles estava na lista dos comerciantes de 1852.73
Portanto, tratavam-se de esferas econômicas cuja maioria dos agentes envolvidos
formavam grupos de atuação distintos, embora interagissem social e economicamente. Mas esta
separação deve ser relativizada. Se ela serve para a maioria dos comerciantes, charqueadores e

71
A sigla M.R. significa proprietários que possuíam imóveis exclusivamente rurais e que, por conta disto,
classifiquei como “moradores rurais”. Neste mesmo sentido, M.U. correspondia aos “moradores urbanos” e Mist.
significa “Mistos”, ou seja, o inventariado possuía casas na cidade e no meio rural. Nem todos os índices de M.R,
M.U e Mistos somam 100% porque alguns inventariados não possuíam nenhum imóvel.
72
Requerimento dos comerciantes de Pelotas. Seção dos Manuscritos. Coleção Rio Grande do Sul (Biblioteca
Nacional do RJ).
73
Anexos dos ofícios de 24.03.1858 e 09.04.1858. Fundo Autoridades municipais, Pelotas, AHRS. É possível
verificar em ambas as listas que havia comerciantes e fazendeiros que eram parentes de charqueadores, algo que
irei tratar melhor nos capítulos posteriores.
162
estancieiros, ela não é suficiente para compreender as atividades econômicas da minoria: a elite
dentro da elite econômica. Os mais ricos comerciantes raramente reservavam-se as suas
atividades mercantis, assim como os maiores fazendeiros não ficavam presos à terra. Portanto, o
topo mais rico desta pirâmide socioeconômica costumava diversificar as suas atividades e
investimentos, lembrando o modelo verificado por Fernand Braudel no interior da hierarquia
mercantil europeia entre os séculos XVI e XIX. 74 Tal modelo também se verifica entre os
charqueadores, uma vez que os mais ricos não se reservavam aos negócios com o charque,
atuando na pecuária, no comércio e no prestamismo, como analisarei nos capítulos posteriores.

Um primeiro exemplo pode ser oferecido por Ambrósio Gabino Crespo. Com fortuna
situada na faixa A e um dos assinantes do requerimento dos comerciantes pelotenses de 1852,
ele pertencia à elite mercantil da cidade. Seu patrimônio, inventariado em 1875, estava
constituído de campos no Uruguai com um vasto rebanho e diversas casas espalhadas por
municípios da campanha, como Bagé, Cangussú, D. Pedrito, Lavras e São Gabriel. Na cidade,
Crespo era proprietário de 8 casas e 4 armazéns. Além disso, também possuía ações e mais de
100 contos de réis em ativos pertencentes a sua casa comercial, além de 320 contos de réis em
dívidas ativas.75 Crespo também era sogro do Dr. João Chaves Campello, que foi deputado
provincial e Presidente da Província.

Entre os fazendeiros mais afortunados, pode-se citar o Comendador João Antônio


Martins. Proprietário de diversas estâncias e casas no Uruguai, de 51 escravos e mais de 14 mil
reses de criar, Martins foi o mais rico inventariado da década de 1850. Contudo, ao contrário
das centenas de estancieiros que habitavam a região da campanha, ele estabeleceu-se na cidade
de Pelotas, onde possuía muitas casas, terrenos e um armazém. Martins também detinha mais
de 170 contos de réis em dívidas ativas e mais de 160 contos em dinheiro, sugerindo que devia
atuar como prestamista e, possivelmente, no comércio. A posse de ações no teatro de Pelotas,
livros e um piano indicam o seu gosto pela vida cultural da cidade – muito mais ativa do que
nos municípios rurais da fronteira oeste, onde ele possuía suas fazendas. O Comendador
investiu na educação dos filhos e um de seus netos foi, sem dúvida, um dos políticos de maior
prestígio do sul do Brasil. Além de deputado geral, Gaspar Silveira Martins foi senador e
conselheiro de Estado. Quando faleceu, em 1901, Gaspar era proprietário de mais de 120 mil

74
BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo: Os Jogos das Trocas. São Paulo: Martins
Fontes, 1996.
75
Inventário de Ambrósio Gabino Crespo, n. 84, m. 3, 1875, 1º cartório do cível e crime, Pelotas, APERS.
163
hectares de terra em Bagé, mostrando que a elite política e a elite econômica da província
estavam intimamente conectadas.76

Seguindo na análise da Tabela 4.5, percebe-se que a partir da faixa D até a faixa G, que
reuniam 49.5% dos inventariados, ocorrem algumas alterações na estrutura das fortunas
elencadas. As mais representativas demonstram a ocorrência de uma maior urbanização (nas
faixas D, E e F), acompanhada de uma significativa diminuição dos percentuais em dinheiro e,
em menor medida, das dívidas ativas. Tal urbanização também é acompanhada pela redução do
percentual dos valores investidos em animais. Mas o fator que mais impressiona é o aumento da
representatividade das dívidas passivas com relação aos mais ricos, caracterizando-o como um
grupo mais urbano e endividado. Os inventariados desta faixa também são os com maiores bens
investidos em apólices e ações. Alguns diriam que parte dos indivíduos destas faixas seria
representativa de uma embrionária classe média, mas talvez seja cedo para se enxergar tais
traços naquela sociedade.

Cruzando estes dados com os dos censos e listas de qualificação é possível considerar
que este setor intermediário era formado por profissionais liberais, empregados públicos
diversos, comerciantes e criadores de fortuna mediana, pequenos fabricantes e artesãos, idosos
e viúvas que viviam de rendas, além de trabalhadores diversos. São exemplos deste grupo não
apenas o carpinteiro André Landart, o mercador David Davis, o coronel Francisco Vieira Braga,
o fabricante de chapéus Ricardo Moreira e o negociante de sal Francisco da Costa e Silva, como
também Daniel Olsen, que possuía uma venda no meio da colônia Santa Silvana, Fortunato
Faria, proprietário de uma olaria e Francisco M. Leite, dono de uma fábrica de sabão e velas. A
diversidade dos bens avaliados e as histórias que se pode contar a partir dos próprios
inventários é muito rica.

Comerciantes, artesãos, escravos e trabalhadores diversos, estrangeiros e brasileiros,


deviam dominar o espaço econômico do centro da cidade. O Conde D’Eu impressionou-se com
o comércio de artesanato nas ruas de Pelotas, deixando um depoimento interessante:

É também em Pelotas que, ao pé dos ricaços que estão a descansar, florescem em todo
o seu esplendor as indústrias que alimentam o verdadeiro luxo rio-grandense, o dos
arreios. Essas indústrias, como se sabe, são duas: a dos couros lavrados, cinzelados,
coloridos, bordados de mil maneiras, e a das peças de prata, não menos artisticamente
trabalhadas. As diferentes classes da população estão, porém, bem separadas: em

76
Inventário de João Antônio Martins. N. 317, maço 22, Cartório de órfãos e provedoria de Pelotas, APERS;
CARVALHO, Mário Teixeira de. Nobiliário Sul-riograndense. Porto Alegre: Oficinas Gráficas da
Livraria do Globo, 1937, p. 265; Inventário de Gaspar Silveira Martins. Processo 289, maço 7, Ano 1901, 1º
Cartório do Cível e Crime de Bagé, APERS.
164
certas ruas as residências ricas; noutras, as lojas. Especialmente na rua do Comércio e
na rua S. Miguel se vê uma fila contínua dessas lojas, onde estão expostos estribos,
esporas enormes, peitorais e freios, tudo de prata, ostentando esplendor deslumbrante,
que iguala, não digo já o da Rua do Ouro, de Lisboa, mas até o da “Strada degli
Orefici”, de Gênova.77

Não é raro encontrar os mencionados objetos de prata entre os bens dos inventariados
das faixas de fortuna intermediárias e até nas mais pobres, o que demonstra o amplo consumo
destes artigos. Um exemplo pode ser dado com José da Silva Lisboa, que não possuía
praticamente nenhum bem passível de ser avaliado a não ser seus móveis, entre os quais
estavam 1 bomba de prata, 1 espada, alguns livros e 1 relógio de ouro. Assim como ele, Manoel
Pacheco possuía uma pequena porção de terras na serra da Buena, com 20 cabeças de gado e
outros poucos animais, 2 carretas velhas, 1 enxada, 1 machado, além de 2 bombas e 1 par de
esporas de prata.78 Ambos pertenciam aos setores mais pobres da sociedade, que reuni nas
faixas H e I. Estas faixas compunham 41,8% dos inventariados. Contudo, é importante não
esquecer que os indivíduos pertencentes às mesmas não estavam na pior situação da pirâmide
social, pois abaixo deles havia pessoas miseráveis, cujos bens não eram passíveis de serem
inventariados.

As faixas mais pobres desta pirâmide social estavam ocupadas tanto por artesãos e
trabalhadores, como o pedreiro Sebastião Idiart, o funileiro Antônio Braga e a costureira Ana
Behocaray, quanto por pequenos criadores como George Motz. Uma parte significativa era
formada por pequenos lavradores espalhados pelos distritos rurais do município. Os
sobrenomes estrangeiros reforçam ainda mais o que venho descrevendo até aqui com relação a
sua presença na sociedade pelotense. Eles estavam distribuídos em todas as camadas sociais,
desde pobres lavradores como Pedro Koesgen, que plantava milho e criava porcos na serra dos
Tapes, até médios proprietários como Theodoro Dux e comerciantes bem estabelecidos como
Chistobal de Leon e José Calero.

Apesar do tratamento conjunto dado às duas últimas faixas de fortuna, a faixa I


apresenta características distintas da H, demonstrando que havia limites aos que ocupavam a
base da pirâmide. Primeiro, na faixa I ocorre um retorno no predomínio dos imóveis rurais
sobre os urbanos e uma elevação na importância do valor dos animais. Segundo, ela é

77
D’EU, Conde. Viagem Militar ao Rio Grande do Sul. São Paulo: USP, 1981.
78
Inventário de Ana Maria Pacheco, n. 391, m. 27, 1º cartório de órfãos e provedoria, 1855, Pelotas, APERS;
Inventário de José Pereira Lisboa, m. 108, 1880, 1º cartório de órfãoes e ausentes, Pelotas, APERS.
165
despossuída de escravos e altamente endividada se comparada à faixa H. 79 Disto conclui-se que
na medida em que as fortunas vão afastando-se do setor intermédio, tanto para cima da
pirâmide quanto para baixo, elas retomam os maiores percentuais do patrimônio investido em
bens rurais, denotando que tanto pobres quanto ricos vinculavam seu patrimônio aos bens
agrários. Pertenciam, por exemplo, a esta última faixa de fortuna o português Manoel
Guilherme que era ferreiro, Manoel Gonçalves que era alfaiate e Custódio Lima, que era patrão
de um iate e deixou como único bem o dinheiro de seu bolso. A Felisbina pobre, de quem falei
quando iniciei este capítulo, também pertencia a este grupo.

Além destas, outras considerações podem ser realizadas com relação à análise dos
inventários. As últimas três faixas (que somam 146 inventários) não apresentam nenhum
investimento em ações ou apólices e, com exceção de 1 inventário na faixa H, não possuíam
embarcações ou carros. Portanto, a composição de suas fortunas era mais simplificada e alguns
bens eram vedados aos mesmos. Nas faixas G e H, os escravos eram bens que pesavam bastante
nos patrimônios dos mesmos, chegando a perfazer quase ¼ dos valores inventariados na
segunda. Os indivíduos destas faixas eram, na sua grande maioria, pequenos proprietários de
escravos, apresentando uma média de 2,6 cativos, sendo que somente um deles possuía mais de
10 escravos. Seus poucos cativos representavam parte fundamental da sua economia doméstica,
podendo alugá-los, por exemplo. Para este grupo, o aumento do preço dos escravos e das terras
e o difícil acesso aos mesmos deve ter sido mais marcante, pois os cativos envelhecidos,
doentes ou falecidos deviam ser substituídos com extrema dificuldade, visto o aumento dos
preços dos mesmos.

Peço ao leitor que retorne à Tabela 4.3 para uma última consideração. A partir dela é
possível verificar que o percentual de dinheiro diminui nas últimas décadas na mesma
proporção em que as dívidas passivas aumentam bastante. Tal fenômeno tem relação direta com
o que foi mencionado anteriormente, visto que foram as camadas sociais menos privilegiadas as
que mais se endividaram. Se os 22 inventários que apresentaram as maiores fortunas
inventariadas (acima de 10.000£) tinham um percentual de dívidas passivas inferior a 3%, os 33
mais pobres (com fortuna inferior a 100£) tinham 28,6% do seu patrimônio comprometido em
dívidas. Somente 1 destes 33 inventariados mais pobres possuía escravos. A grande maioria das
pessoas pertencentes a esta faixa mais pobre concentrou-se exatamente no final do período
analisado, pois 26 dos 33 indivíduos deste grupo foram inventariados em 1880, 1885 e 1890.

79
É bem verdade que 12 inventários são de 1890. Entretanto as outras faixas também possuem inventários desta
data e o número de cativos á bem mais alto. Portanto, a ausência de escravos é mais pela pobreza do que pela
época em que os inventários foram abertos.
166
Portanto, é muito provável que o agravamento as crises nas charqueadas entre os anos 1860 e
1870 e o início de sua decadência nos anos 1880 tenha afetado a economia local, favorecendo o
empobrecimento de muitas famílias de setores médios, colocando-os, anos depois, entre os mais
pobres e endividados. A decadência das charqueadas pode ter afetado muitos dos que
dependiam direta e indiretamente dos bens das mesmas. A diminuição do volume de dinheiro
deve ter diminuído o consumo de muitos artigos, afetando a produção de pequenos alfaiates,
carpinteiros e artesãos em geral, sem contar os setores ligados à pecuária, transporte e
comércio. Com a crise econômica, o fluxo de pessoas endinheiradas na cidade também deve ter
diminuído, prejudicando a economia local e seus negócios. Tal fenômeno deve ter obrigado
muitos a se endividarem. Portanto, a economia das charqueadas foi capaz de gerar grandes
fortunas, mas, com a decadência iniciada nos anos 1880, também trouxe inevitavelmente
grande pobreza, pois cada uma das crises conjunturais era capaz de liquidar, de forma indireta,
a economia dos pequenos, drenando seus escravos e demais recursos econômicos.

Como este é um estudo sobre um grupo de elite tive que resistir à tentação de investigar
mais profundamente a vida dos homens livres pobres, cujas histórias insistiam em aparecer nas
mais variadas fontes. Eram, na sua maioria, trabalhadores que viviam na cidade, colonos
europeus com uma pequena data de terras e um diminuto rebanho e lavradores nacionais e
libertos espalhados pela Serra dos Tapes e em outras localidades rurais do município. Sua mão
de obra era essencialmente familiar, mas eles podiam gabar-se por estar acima de outros mais
miseráveis, que deviam vagar em busca de meios de subsistência ou atividades provisórias na
cidade e nas zonas rurais.

Por mais de duas gerações, algumas famílias da elite pelotense viram a cidade
transformar-se e alterar o seu perfil social diante dos seus próprios olhos. Como foi visto no
capítulo 3, durante o colonial tardio, Pelotas podia ser tratada como uma cidade “negra”, visto a
pequena proporção de habitantes brancos. Passado mais de meio século, sua pretensiosa elite
buscou fazer dela uma cidade “europeia”. Neste duplo movimento, ela jamais deixou de ser
uma cidade atlântica, recebendo um grande número de migrantes forçados e voluntários, das
mais diversas regiões da Europa, da América e da África, desde o início da sua história. Neste
sentido, as transformações ocorridas no mundo atlântico oitocentista podiam ser observadas nas
próprias ruas da cidade, perante uma diversidade de línguas, de cores, de culturas. Era sobre
esta base social extensa e complexa que os charqueadores ocupavam o topo da hierarquia
socioeconômica local. Quando o Conde D’Eu falou dos “ricaços que estavam a descansar” na
cidade diante do comércio que tomava as ruas, era destes empresários que estava falando. Nos

167
anos 1870, os charqueadores, com suas esposas e filhos deviam compor entre 1,5 e 2% da
população total de Pelotas, mas concentravam uma riqueza muito superior.

Contudo, esta elite sofria de uma existência profundamente paradoxal, pois aos olhos de
muitos europeus, Pelotas não representava somente luxo e dinheiro, mas também a barbárie. A
origem de suas fortunas, ou seja, da mencionada riqueza que assegurava o luxo, a educação e o
lazer de suas famílias era fruto de um espetáculo “horrendo”, nas palavras do norte-americano
Herbert Smith. Neste sentido, a escravização de milhares de trabalhadores negros e a matança
desenfreada de milhões de cabeças de gado contrastava com a pretensa civilidade que os
mesmos buscavam demonstrar nos espaços urbanos de sociabilidade. E o cheiro que exalava
dos estabelecimentos e nas margens fluviais causava certa repugnância aos mesmos europeus
que os charqueadores queriam tanto agradar. Para entender melhor esta elite é preciso conhecer
como ela acumulava a sua riqueza, ou seja, é necessário entender o funcionamento das
charqueadas e o espetáculo “horrendo” da matança. Convido o leitor a cerrar as narinas, pois
nas próximas páginas adentraremos no interior destes estabelecimentos…

168
5. “A CONFUSÃO QUE, ENTRETANTO, É ORDEM”: AS UNIDADES
PRODUTIVAS, O MUNDO DO TRABALHO NAS CHARQUEADAS E O
TRÁFICO INTERPROVINCIAL DE ESCRAVOS

Há um não sei o que de revoltante e ao mesmo tempo cativador nestes grandes


matadouros; os trabalhadores negros, semi-nus, escorrendo sangue; os animais
que lutam, os soalhos e sargetas correndo rubros, os feitores estolidos, vigiando
imóveis sessenta mortes por hora, os montes de carne fresca dissorando, o vapor
assobiando das caldeiras, a confusão, que entretanto é ordem: tudo isto
combina-se para formar uma pintura tão peregrina e hórrida quanto pode caber
na imaginação. De toda esta carnificina dimanou a riqueza de Pelotas, uma das
mais prósperas entre as cidades menores do Brasil.

Herbert Smith, naturalista norte-americano, 1882.

Com seu olhar perspicaz, Smith notou que por trás de uma suposta “confusão” aos olhos
do observador comum escondia-se uma verdadeira “ordem” sob a direção do charqueador. Um
aglomerado de instalações com escravos trabalhando desordenadamente não poderia render
lucros tão significativos aos seus senhores.1 Apesar das dificuldades enfrentadas pelos
primeiros charqueadores, ainda no colonial tardio, o nível de organização atingido no último
quartel do século XIX parecia ter se configurado na prática costumeira, depois de décadas de
trabalho no ramo, e sem um maior auxílio de manuais ou de um conhecimento técnico e
científico mais aprimorado. Tratava-se de uma ordem com uma racionalidade própria e que
tinha na organização do trabalhado escravo as suas engrenagens mais profundas. No entanto, ao
menos para os observadores estranhos àquele mundo, ela não era a única ordem possível. A
confusão aos olhos de um estrangeiro decorria do fato de que a mão de obra empregada nas
charqueadas era escrava, ao contrário das demais fábricas na Europa ou em outras partes das
Américas. Neste sentido, os relatos de viajantes e testemunhos da época sempre devem ser
contextualizados e no caso daqueles que deixaram depoimentos sobre a escravidão no Brasil o
perigo parece ser ainda maior. Suas posições, quando à favor ou contra a escravidão no mundo
moderno, geralmente condicionavam as suas opiniões.2

Este capítulo trata do perfil da mão de obra escrava no complexo charqueador pelotense
e de como os cativos estavam distribuídos nas unidades produtivas dos charqueadores. Apesar
do tema já ter sido tratado parcialmente por outros autores, ofereço uma análise mais complexa,
1
Como será tratado no capítulo 9.
2
Ver, por exemplo, SLENES, Robert. Na Senzala uma flor – esperanças e recordações na formação da família
escrava, Brasil, sudeste, século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
169
a partir de outros critérios metodológicos e da proposição de questões ainda não tratadas com
relação a este tema.3 O presente capítulo é melhor compreendido se lido conjuntamente com o
seguinte. Enquanto este oferece um tratamento mais quantitativo acerca do tema, o posterior
trata mais qualitativamente da administração dos trabalhadores nas charqueadas, as tensões
sociais entre estes e os seus senhores/patrões, assim como as formas de viabilizar a existência
do complexo charqueador escravista por quase um século.

5.1 POR DENTRO DA CHARQUEADA: AS ETAPAS DE PRODUÇÃO DO CHARQUE,


DOS COUROS E DOS DEMAIS PRODUTOS

Os melhores documentos para se compreender o mundo do trabalho nestas fábricas são


os processos-crime envolvendo conflitos no interior das charqueadas, os inventários post-
mortem de charqueadores e os relatos dos contemporâneos que conheceram estas propriedades.
A análise a seguir busca evidenciar o processo de produção do charque e dos couros desde a
chegada dos animais vacuns nas charqueadas até o encaminhamento dos produtos beneficiados
para o porto de Rio Grande, mas sem preocupar-se com os mercados do gado e dos efeitos
produzidos, uma vez que estas etapas serão descritas em capítulos posteriores, pois merecem
uma análise mais específica.

Todas as charqueadas ficavam dispostas nas margens fluviais do município, sendo que
quase 90% delas nas do São Gonçalo e do Pelotas. Se os estabelecimentos concentravam-se
mais próximos aos rios, o restante do terreno da charqueada, sobretudo no núcleo fabril,
estendia-se por mais de um quilômetro em direção ao logradouro público, formando extensas
faixas de terra paralelas umas as outras. Este tipo de disposição espacial caracterizava boa parte
dos estabelecimentos sem que o complexo fabril propriamente dito primasse por uma estrita
homogeneidade. Na década de 1880, por exemplo, Louis Couty disse que não havia um modelo

3
CORSETTI, Berenice. Estudo da charqueada escravista gaúcha no século XIX. Niterói: ICHF/UFF, Dissertação
de Mestrado, 1983; GUTIERREZ, Ester J. B. Negros, charqueadas & olarias: um estudo sobre o espaço
pelotense. Pelotas: UFPel, 2001; ASSUMPÇÃO, Jorge Euzébio. Pelotas: escravidão e charqueadas (1780-
1888). Porto Alegre, PPGH/PUC-RS, Dissertação de Mestrado, 1995; MAESTRI, Mário. O escravo no Rio
Grande do Sul: a charqueada e a gênese do escravismo gaúcho. Porto Alegre: EST, 1984. Mais recentemente,
alguns trabalhos renovaram os seus olhares para este mesmo objeto. Ver, por exemplo, PESSI, Bruno. O Impacto
do fim do tráfico na escravaria das charqueadas pelotenses (c. 1846 – c. 1874). Monografia de Graduação em
História, UFRGS, 2008; PINTO, Natália Garcia. A benção compadre: experiências de parentesco, escravidão e
liberdade em Pelotas (1830-1850). Dissertação de Mestrado em História, Unisinos, 2012.
170
de organização espacial bem definido para as charqueadas, apesar de a diferença de tamanho
entre as maiores e as menores não ser tão grande.4

A análise dos inventários post-mortem demonstra que uma charqueada podia ser
composta por diversas benfeitorias e possuir inúmeros equipamentos e utensílios no seu espaço
de trabalho, variando de acordo com a riqueza do seu proprietário. Nas primeiras décadas do
século XIX foi comum os encarregados em arrolar os bens separarem as instalações no
momento da avaliação, destacando a barraca de couros, o galpão de charquear, a graxeira, a
mangueira, a senzala, o forno de secar sal, os varais, as caldeiras, entre outros. Com o tempo, e,
sobretudo na segunda metade do oitocentos, estas mesmas instalações passaram a ser avaliadas
unicamente sob a denominação de “um estabelecimento de charqueada” ou “uma charqueada”,
sem discriminar todas as suas benfeitorias. A organização das mesmas, assim como as técnicas
de preparo do produto e dos subprodutos, como sebo, graxa e couros, nem sempre foram
realizadas da mesma forma, mudando ao longo do tempo.5

Apesar de muitos viajantes estrangeiros terem registrado as atividades das charqueadas,


as melhores descrições do processo de produção do charque foram realizadas por três viajantes
estrangeiros. Os franceses Nicolau Dreys (1839) e Louis Couty (1880) e o norte-americano
Herbert Smith (1882) deixaram preciosos relatos sobre o funcionamento das charqueadas
escravistas do oitocentos.6 A distância do primeiro para os outros dois relatos permite uma
comparação das mudanças tecnológicas em mais de 60 anos, uma vez que as anotações de
Dreys referem-se ao período entre 1817 e 1827, quando ele residiu na província.7 Todo o
processo se resumia em poucas etapas: à chegada das tropas de gado na charqueada e sua
permanência na mangueira seguiam-se o seu abate, o transporte do animal para a cancha, a
esfolação, a despostação (esquartejamento), o retalhamento das carnes (charqueamento), o
salgamento das mesmas, o empilhamento das mantas, o seu secamento nos varais e o posterior
transporte via fluvial para o porto de Rio Grande, onde a mercadoria seguia o rumo das
margens do Atlântico. A seguir descreverei minuciosamente todas estas etapas 8, com exceção
da primeira e da última, pois tanto a compra do gado quanto a venda do produto final, como já
mencionei, serão tratadas em capítulos posteriores.

4
COUTY, Louis. A erva-mate e o charque. Pelotas: Seiva, 2000, p. 130.
5
Tal fenômeno já foi evidenciado por CORSETTI, Berenice. Op. cit.; GUTIERREZ, Ester. Op. cit.
6
DREYS, Nicolau. Notícia descritiva da Província do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: IEL, 1961; SMITH,
Herbert. Do Rio de Janeiro a Cuiabá, 1922; COUTY, Louis. Op. cit.
7
Outros viajantes deixaram relatos sobre as charqueadas pelotenses e serão devidamente mencionados ao longo
dos capítulos.
8
Uma exposição semelhante foi realizada por CORSETTI, Berenice. Op. cit.; GUTIERREZ, Ester. Op. cit.
Contudo, tanto no presente capítulo, quanto no posterior, trago novos elementos de análise.
171
a) O abate

Geralmente no mês de novembro, o hasteamento de uma bandeira vermelha na entrada


da charqueada era um sinal entendido por todos. Potreiros e mangueiras arrebatavam-se de gado
gordo vindo de diversas partes da fronteira. Escravos e trabalhadores livres eram mobilizados
nas muitas etapas de produção. Iates carregados de sal congestionavam as vias fluviais que
levavam até às charqueadas. Comerciantes, caixeiros, peões, tropeiros e gente de todo o tipo
animavam os arredores dos estabelecimentos. Os escravos carneadores afiavam suas facas. Os
capatazes tinham certeza de muito trabalho em frente. Estava aberta a safra. Durante todo o
verão até quase chegar o inverno do outro ano, algo entre 300 e 400 mil cabeças de gado eram
abatidas nas mais de 30 charqueadas que pontilhavam as margens do São Gonçalo e do Pelotas.

Após a fase de engorda, quando as reses pastavam nos vastos campos da região da
campanha rio-grandense ou do norte do Uruguai, as tropas de gado eram levadas por terra até
Pelotas, distante muitas léguas daquelas estâncias. De acordo com Nicolau Dreys, nos anos
1820, havia três formas de se abater os novilhos. Duas delas eram bastante semelhantes e
naquela época já vinham entrando em desuso. É necessário descrevê-las para entender o
significado da inovação trazida pela terceira. Na primeira, os peões montados a cavalo
aproximavam-se do animal recolhido a um curral aberto. Um dos peões posicionava-se diante
do boi e agitava um “poncho colorado”, até que o novilho se sentisse atraído e perseguia-o pelo
campo. Instantaneamente, outro peão disparava com uma lança afiada e comprida cortando-lhe
o jarrete e, depois disso, o mesmo se posicionava estrategicamente para abater a próxima rês.
Assim que o animal ferido e ainda vivo caía, um escravo tomava conta do mesmo para sangrá-
lo. Dreys diz que este método era perigoso, mas era tido como uma aventura entre os peões. Na
segunda forma, um peão a cavalo laçava um novilho no curral. Se o boi corresse sobre o
cavaleiro, este disparava fazendo com que o animal o seguisse para o campo aberto onde outro
peão o abatia (assim como na primeira forma). Mas se o animal resistisse, o peão arrastava-o,
dando início a uma briga entre ambos até que o boi fazia força para se livrar do laço. E era neste
momento que outro peão lhe cortava a articulação das pernas fazendo o animal tombar, para
logo desfechar um golpe fatal. 9

Na opinião de Dreys, estes dois métodos eram muito inseguros para os trabalhadores e
muito cruel com os animais. A terceira forma de abate havia se tornado dominante nas
charqueadas e indicava uma melhor organização desta indústria na época se comparado aos
tempos coloniais. O gado cercado no curral era “impelido na direção de dois corredores

9
DREYS, Nicolau. Op. cit., p. 133-134.
172
separados um do outro por uma espécie de esplanada” que estava erguida a 7 ou 8 palmos do
chão. Quando o boi aparecia num destes corredores estreitos, um peão, de pé sobre a esplanada,
o laçava. A corda usada pelo peão estava atada fora do recinto a uma roda de ferralho (uma
engrenagem, como um torno) manejada por dois escravos. Laçado, o animal era puxado pela
força do torno até encostar a cabeça no cercado onde, do lado de fora, um especialista
(“ordinariamente um capataz”), sobre uma espécie de pedestal, cravava uma faca na nuca do
boi, que logo perdia os seus movimentos.10

Mais de 50 anos depois, as descrições de Herbert Smith e de Louis Couty revelavam


algumas alterações. Quando o gado chegava à charqueada era mantido por muitas horas em
cercados que se chamavam mangueiras. Estas se afunilavam numa das extremidades que se
comunicava com um curral menor chamado mangueira de matança, capaz de conter trinta
cabeças de gado juntamente cercadas. Tendo entrado todo o gado na mangueira de matança, a
mesma era fechada. Até aqui não há muita diferença do descrito por Dreys. Mas de acordo com
Smith, este recinto estava pavimentado com pedras lisas e escorregadias e chapas inclinadas
para a extremidade oposta à entrada. Por fora da cerca, e rodeando-a, havia um passeio de
tabuões por onde os trabalhadores se locomoviam à vontade a uma altura superior a do animal.
Um dos bois aparecia no brete e era logo laçado por um escravo que lhe esperava atento. Este
laço possuía sua extremidade presa a uma junta de bois que movimentavam um guincho e,
mesmo que o animal resistisse, logo vinha a escorregar e deslizava próximo do cercado, onde o
desnucador, um capataz treinado (assim como nos anos 1820), o esperava com um punhal
comprido e muito afiado. A introdução da lâmina no bulbo deixava a rês imobilizada.

Segundo Smith, toda a operação do abate de uma rês levava um minuto e num só dia era
possível abater de 600 a 700 animais, o que não significa que tal capacidade era empregada,
pois se abatia bem menos em um dia de trabalho. Sessenta anos antes, Dreys disse que a
operação de abate poderia levar até dois minutos, mas não mencionou quantos animais podiam
ser abatidos por dia. Dreys também não fez referência à existência de um declive escorregadio,
citado por Smith. É possível que tal dispositivo tenha facilitado o procedimento, economizando
força e tempo de trabalho. Mas tanto o terceiro modo de abate descrito por Dreys quanto a
maneira descrita por Couty e Smith traziam uma nítida racionalização de tempo e mão de obra
se comparada à forma do abate em campo aberto dos fins do setecentos. Tratava-se de uma
reutilização espacial dos terrenos que alterou toda a dinâmica de charquear. Seria esta uma das

10
DREYS, Nicolau. Op. cit., p. 134.
173
inovações trazidas por José Pinto Martins nos fins do século XVIII? Não é possível afirmar,
mas no seu inventário (1827) estava presente tanto a “mangueira” quanto o “guindaste”. 11

b) Da esfolação ao charqueamento

Após a queda de um bovino era necessário retirá-lo do corredor para que a operação
reiniciasse e outro novilho fosse rapidamente abatido. O processo de transporte do boi para a
cancha, ou seja, o espaço externo e contíguo ao local de abate onde as operações seguintes
eram realizadas, foi descrito diferentemente na época de Dreys (década de 1820) e na de Smith
e Couty (década de 1880). Conforme Dreys, após o novilho ter sido abatido, um guindaste,
rodando sobre seu eixo, elevava o animal asfixiado e preso pelo laço para fora do cercado do
curral e o transportava para a cancha.12 Se nos anos 1820 a introdução do guindaste giratório foi
inovadora, nos relatos da década de 1880, ele já não estava mais presente. Smith escreveu que
após o novilho ser abatido, uma porta se abria quase que instantaneamente e o animal, que
ainda urrava e apresentava contrações, caía sobre um carro ou vagão, onde era puxado por
escravos, estando um deles a cavalo.13 Alguns charqueadores, como José Inácio da Cunha e
Tomás José de Campos, apresentaram trilhos instalados no pátio da charqueada, onde o vagão
deslizava carregando os animais abatidos até à cancha. 14

Chegando à cancha diversos escravos eram encarregados de executar as operações


seguintes. A cancha ficava praticamente contígua à mangueira de matança e constituía-se num
espaço circular com um piso de laje lisa e coberto por um telheiro.15 Conforme Gutierrez podia
haver duas canchas, uma de cada lado dos trilhos. Cada cancha comportaria de 20 a 40 animais.
Quando chegava na cancha, o boi era rapidamente derrubado do vagão por dois cativos ou
puxado por uma corda fixada a uma das patas dianteiras, sendo então arrastado por um escravo
a cavalo. Logo que era largado no piso da cancha, os escravos executavam as operações
restantes. De acordo com Gutierrez, algumas vezes as reses apresentavam reflexos muito
marcados, em outras tentavam levantar-se e executavam movimentos desordenados, emitindo
gritos afônicos durante a hemorragia. Ao abrir o pescoço da rês buscava-se enterrar uma faca no
seu coração (que ainda batia) dando início ao processo da sangria. Este era um procedimento
indispensável que retirava do animal cerca de 12 a 13 kg de sangue e caso não fosse executado

11
Inventário de José Pinto Martins, n. 354, m. 15, 1832, 1º cart. órfãos e provedoria, Rio Grande (APERS).
12
DREYS, Nicolau. Op. cit., p. 133-134.
13
SMITH, Herbert. Op. cit., p. 135-142.
14
GUTIERREZ, Ester. Op. cit., p. 187-188. Inventário de Virgínia Louzada de Campos, n. 335, m. 23, 1851,
Pelotas, 1º cart. órfãos e provedoria (APERS); Inventário de José Inácio da Cunha, n. 600, m. 38, 1865, 1º cart. de
órfãos e ausentes, Pelotas (APERS).
15
DREYS, Nicolau. Op. cit., p. 133-134.
174
a carne passava a cheirar mal, tomando um aspecto visual nada agradável. Durante esta
operação os cativos ficavam cobertos de sangue e o restante do esfolamento durava poucos
minutos.16 Conforme Dreys, a disposição da cancha e da escoação dos resíduos era tão bem
feita que após as operações quase não se detectava vestígios da matança.17

Esfolado e sem vida, iniciava-se o esquartejamento ou a despostação do animal.


Conforme Couty, a rês fornecia 11 pedaços: o lombo, as duas mantas, o “colchão”, os músculos
anteriores do membro posterior, o “tatu” ou “pato”, os músculos posteriores do mesmo
membro, e as duas paletas (“paleta de dentro” e “paleta de fora”). Para alimentar o pessoal
empregado nas charqueadas e os escravos eram reservadas as costelas. A cabeça, o tronco e as
vísceras eram separadas e colocadas ao redor das canchas, onde outros cativos as recolhiam. O
espaço era rapidamente esvaziado a espera dos próximos animais a serem esquartejados. Toda a
operação da despostação, segundo Couty, durava de cinco a seis minutos.18

Em um ou mais galpões, um grupo de escravos com suas facas devidamente afiadas


esperava as partes do animal para dar início às etapas seguintes. Os pedaços que eram
transportados até ali ficavam suspensos em suportes especiais chamados tendidas, onde era feita
a desossa. Os ossos eram separados e as carnes enviadas para outros escravos. Dava-se início à
charquia, a operação mais delicada de todas. O objetivo era transformar os grandes pedaços de
carne com formatos irregulares em mantas de 1,5 cm de espessura com superfícies de 1,50
metros de largura. Esta operação era realizada por dois experientes escravos, colocados um de
cada lado diante da carne estendida sobre uma barra de madeira. A habilidade dos escravos
carneadores era tão grande que, nos anos 1820, surpreendeu o viajante Friedrich von Weech:

É obra de poucos minutos agarrar o animal, matá-lo, esticá-lo e fracioná-lo e


estamos convencidos de que 60 açougueiros europeus não estão em condições de
competir com 20 peões do Rio Grande do Sul. Tais homens, dedicando-se
somente a este trabalho desde a mais tenra juventude, atingem nele uma prática
tão extraordinária, que podem chegar a enviar ao salgadeiro, num único dia, de 70
a 80 bois.19

Durante a charquia era comum os escravos deixarem o galpão para afiarem suas facas
retornando ao serviço em seguida.20

16
GUTIERREZ, Ester. Op. cit., p. 187-189.
17
DREYS, Nicolau. Op. cit., p. 133-134.
18
COUTY, Louis. Op. cit., p. 97-112.
19
WEECH, Friedrich Von. A agricultura e o comércio do Brasil no sistema colonial. São Paulo: Martins Fontes,
1992 apud OGNIBENI, Denise. Charqueadas pelotenses no século XIX: cotidiano, estabilidade e
movimento. Porto Alegre: PPGH/PUC-RS, Tese de Doutorado, 2005, p. 132.
20
CUNHA, Alberto C. da. Um episódio de charqueada. In: MOREIRA, Maria Eunice (Org.). Narradores do
Partenon Literário. Porto Alegre: IEL/CORAG, 2002, p. 41-49.
175
c) Do salgamento ao secamento nos varais

De acordo com Dreys, após a retalhação, levavam-se as mantas de carne para outro
galpão chamado “salgadeiro”, que era um “vasto alpendre guarnecido de todos os lados, até
mesmo no chão, de folhas de butiá”. 21 Assim que as mantas eram entregues, alguns escravos
colocavam as mantas sobre mesas côncavas cheias de sal, onde cativos especializados, os
salgadores, as impregnavam com o produto.22 Depois de salgada, a carne era empilhada no
próprio galpão. Conforme Smith, o empilhamento era realizado em camadas, sendo uma de sal,
outra de carne e assim por diante. As pilhas formavam uma espécie de cúpula de base
quadrangular que diminuía no sentido da altura e chegava a muitos metros. Para comprimir a
base da pilha com fim de torná-la o mais horizontal possível e favorecer o restante do
empilhamento recorria-se a mais ou menos cinco cativos que de pé, em cima das pilhas, e
usando as mãos ou outras ferramentas conseguiam o resultado desejado. Uma pilha formada
com as carnes de 200 bois media aproximadamente 5 metros de comprimento e de largura, com
0,8 metros de altura nas pontas e 1,3 metros no centro. O empilhamento possuía um duplo
efeito de impregnar a carne com o sal e de escorrer os líquidos contidos nela por meio da
própria pressão. Este efeito era aumentado reempilhando-se as mesmas carnes no dia seguinte,
de modo que as camadas de cima, tiradas primeiro, formavam a base da nova pilha. Ao longo
desta operação, o sal derretido e supérfluo que escorria das pilhas caía depositado em
reservatórios inferiores conhecidos como tanques. Nestes recipientes eram colocadas,
posteriormente, as costelas, línguas e outras partes que os proprietários achassem conveniente
conservar na salmoura. Em toda esta operação utilizava-se uma média de 10 kg de sal para cada
animal, podendo a quantidade variar conforme o seu tamanho.23 Uma charqueada que abatesse
20 mil reses numa safra, consumiria 200 toneladas de sal na mesma.

Passados um dia ou dois, se o tempo estivesse suficientemente favorável, as carnes


salgadas eram desempilhadas e transportadas para fora do galpão onde se iniciava a etapa do
secamento. As mantas de carne eram estendidas nos varais – barras de madeira bastante longas
que eram colocadas transversalmente a um metro e meio do solo, aproximadamente. No fim da
tarde, as carnes eram amontoadas em vários pontos dos varais e cobertas com lonas.
Encontrando um tempo com sol este processo levava de 5 a 6 dias. Caso contrário, eram
necessários 15 ou mais dias. Segundo Couty, após o secamento, a carne era colocada em uma

21
DREYS, Nicolau. Op. cit., p. 133-134.
22
COUTY, Louis. Op. cit., p. 105.
23
GUTIERREZ, Ester. Op. cit., p. 189.
176
pilha definitiva e separada em duas qualidades diferentes. 24 Conforme Dreys, cada boi podia
dar, em média, de 4 a 5 arrobas de charque (60 a 75 Kg). 25

d) O tratamento dos sub-produtos: a graxa, o couro, o sebo e outros

O charque era somente um dos produtos fabricados nas charqueadas. Muito antes dele
ter se tornado mercadoria importante, o couro já ocupava um papel de destaque no circuito
mercantil que envolvia o Rio Grande, as capitanias do Brasil e a Europa. O tratamento do couro
nas charqueadas pelotenses também sofreu alterações ao longo do período analisado. Na
primeira metade do oitocentos estacava-se o couro no chão para o seu secamento, dando-lhe um
declívio para deixar correr as águas. Mas na época de Smith e Couty os couros eram banhados
em tanques de salmoura, como se faziam nas charqueadas platinas. Ao sair da fossa, os couros
eram amplamente polvilhados de sal e dobrados em dois, de maneira que os pelos ficassem para
o lado de fora. Depois eram dispostos, um ao lado dos outros, em camadas de couros alternadas
por camadas espessas de sal. Desta forma eram colocados em barracas especiais, onde
formavam pilhas extensas, retangulares ou quadrangulares, e de pouca elevação, contendo de
10 a 15 camadas expostas umas sobre as outras. Uma vez salgado e empilhado, o couro
conservava-se por longo tempo e estava pronto para ser exportado para a Europa, onde se
estimava muito o produto preparado desta forma, conhecido como couro salgado.26

Mudanças na forma do preparo dos sebos e das graxas também aconteceram. Estes dois
produtos constituíam-se nas partes gordurosas do boi, sendo a graxa uma gordura mais fina e o
sebo a mais grosseira. Sua utilidade era industrial, pois eram empregados na fabricação de
sabão, velas e ceras, embora a graxa, muitas vezes, também fosse utilizada para fins
comestíveis. Na época de Dreys, os ossos, a cabeça e as extremidades do animal eram
colocados numa caldeira fervente, servindo, com os miolos e o tutano, à preparação da graxa,
que era, depois, encerrada na bexiga e nos intestinos grossos, para ser comercializada. Chamo
atenção para este momento do preparo do produto, pois conforme Debret, era a única etapa em
que ele viu mulheres escravas trabalhando no interior das charqueadas. Elas eram as
responsáveis por ensacar estes sub-produtos, atividade que não exigia força.27 Ainda de acordo

24
COUTY, Louis. Op. cit.
25
DREYS, Nicolau. Op. cit., p. 142.
26
COUTY, Louis. Op. cit.
27
DEBRET, Jean-Batiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. São Paulo: USP, T. 1, 1972, p. 243. De fato,
examinando todos os plantéis de escravos dos charqueadores, foi somente na graxeira que encontrei mulheres e
somente num inventário, que será tratado no capítulo 9.
177
com Dreys, as partes mais sebáceas eram socadas na mesma caldeira para comporem uns pães
de sebo grosseiro, que também eram vendidos.

A grande inovação com relação à extração destes produtos foi a instalação das graxeiras
a vapor, verificáveis nos inventários post-mortem a partir das décadas de 1840 e 1850.
Conforme o charqueador Domingos José de Almeida, numa carta a outro empresário, ele teria
incentivado a introdução destas instalações em Pelotas.28 As graxeiras a vapor proporcionavam
um melhor aproveitamento de todas as partes do animal, oferecendo sub-produtos de melhor
qualidade e produzidos em menor tempo. De acordo com Couty, para o preparo da graxa eram
lançados cabeças, encéfalos, estômagos, corações e certas vísceras de 150 a 200 animais. O
cozimento, feito a vapor de pressão, durava de 36 a 50 horas. Ao lado da caldeira, os
proprietários colocavam pipas e barricas prontas para serem cheias. Algumas delas chegavam a
medir 4 ou 5 metros de altura. Na elaboração do sebo, entravam os intestinos e as membranas
envolventes do peritônio. O seu período de cozimento era menor que o da graxa. Este era feito
em cubas menores, de madeira grossa, reforçadas com aros de ferro, as quais tinham uma
abertura lateral na parte de baixo, por onde o sebo escorria. 29

A charqueada ainda aproveitava outros subprodutos do animal. As línguas eram


vendidas a estabelecimentos especiais que as preparavam e colocavam no mercado. Os chifres
também eram exportados para diversos usos artesanais e o sangue, em algumas charqueadas,
era utilizado para se fazer gelatina. Das canelas se extraía o óleo de mocotó, utilizado com
efeitos medicinais. Com a introdução dos vapores na graxeira, os ossos receberam uma
importância que não possuíam. Eles passaram a ser incinerados nas fornalhas que produziam
este vapor e suas cinzas eram exportadas para a Europa, onde serviam como fertilizante.
Portanto, em meados dos oitocentos, o preparo das gorduras e do sebo passou a exigir aparelhos
especiais e dispendiosos, em que se empregava o vapor de alta pressão. Todo este investimento
era justificável, pois segundo Couty, estes sub-produtos representavam para o charqueador a
metade do preço do animal, e ofereciam grandes lucros à charqueada. 30

Todo o processo descrito até aqui provocava certa repugnância entre os viajantes
estrangeiros. Em 1822, Saint-Hilaire deixou registrado: “Apesar de ter cessado, há meses, a
matança nas charqueadas, ainda nos arredores há um forte cheiro de açougue, donde se pode
fazer ideia do que não será esse odor no tempo da matança”. Na época da safra, concluía ele,
“não se pode aproximar das charqueadas sem ser logo coberto pelas moscas. Ao imaginar essa
28
Carta de Domingos para Manoel L. Nascimento, 15.11.1862. CV – 792, in: Anais do AHRS, v. 3, 1978.
29
COUTY, Louis. Op. cit., p. 124-127.
30
COUTY, Louis. Op. cit., p. 121-127; GUTIERREZ, Ester. Op. cit., p. 190.
178
multidão de animais decapitados, o sangue a correr em borbotões, a prodigiosa quantidade de
carne exposta nos secadores, vejo que tais lugares devem inspirar contrariedade e pavor”.
Quando passou nas charqueadas do rio Jacuí, próximas de Porto Alegre, Saint Hilaire escreveu:
“Antes de chegarmos, sua situação foi-nos anunciada por nuvens de urubus, que escureciam o
céu”.31 Na mesma época, o visconde de São Leopoldo deixou um registro semelhante: “Seria
útil que se prescrevessem regulamentos coercitivos para a limpeza e asseio das charqueadas,
pois que a demora do sangue, urina e resíduos dos animais, além de ser uma origem de
infecção, torna esses lugares nojentos, e só serve de multiplicar uma praga de moscas e de
daninhos ratos, tão grandes que chegam a intimidar os gatos”.32 Herbert Smith, em 1882,
deixou uma impressão semelhante. Mal chegava ao canal de São Gonçalo e “já os nossos
narizes nos tinham contado outra história, e nuvens de urubus voavam suspeitamente junto a tal
coisa. Era a carne seca ou charque no processo de preparação”.33 Na época, estimou-se que nos
dias de abate cada charqueada largava cerca de 6,5 toneladas de sangue nos rios.

5.2 O PERFIL DOS TRABALHADORES CATIVOS E SUA DISTRIBUIÇÃO NAS


UNIDADES PRODUTIVAS

Parafraseando o comentário que o jesuíta André João Antonil fez com relação aos
engenhos de açúcar nos séculos XVII e XVIII, pode-se dizer que os escravos eram as mãos e os
pés do charqueador. Como foi visto até aqui, sem a existência da escravidão africana e o tráfico
atlântico a montagem do complexo charqueador ficaria fortemente comprometida. Mas qual as
características da escravidão nas charqueadas pelotenses? De início, é necessário investigar
melhor como os mesmos estavam divididos nas unidades produtivas destes proprietários. Para
realizar esta análise e chegar o mais perto possível da distribuição de funções dos mesmos
cativos, selecionei, entre os 45 inventários post-mortem de charqueadores (1831-1885),
somente aqueles em que mais de 80% das ocupações dos escravos foram mencionadas no
inventário, resultando em 17 documentos.34 Analisando tais inventários, proponho uma divisão
em quatro grupos de atividade distintos no qual os escravos podiam estar divididos: a) os
ligados diretamente à produção do charque, trabalhando no interior dos estabelecimentos; b) os

31
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem ao Rio Grande do Sul, 1820-1821. São Paulo: USP, 1974.
32
PINHEIRO, José F. Fernandes. Anais da Província de São Pedro. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982.
33
SMITH, Herbert. Op. cit., p. 135-142.
34
No caso dos inventários com plantéis avaliados mais de uma vez (quando os bens do casal eram avaliados na
morte de um cônjuge e, anos depois, o do viúvo) foram mantidos somente aqueles que possuíam informações mais
completas.
179
que eram empregados em atividades acessórias às charqueadas e externas aos estabelecimentos;
c) os artesãos especializados em algum ofício; d) os de serviço doméstico. Esta divisão não era
rígida. É muito provável que em alguns momentos no auge da matança, e conforme as
necessidades do proprietário, os campeiros, marinheiros e artesãos diversos fossem realocados
para as tarefas no interior da charqueada. 35

a) Entre os trabalhadores da charqueada, verificavam-se os carneadores, descarneadores,


charqueadores, tripeiros, salgadores, sebeiros, chimangos, graxeiros e serventes, além dos
aprendizes. Estes escravos eram, sem dúvida, as engrenagens da charqueada. Na maior parte
dos inventários, eles ficavam entre 40% e 65% de todo o plantel do proprietário, atingindo uma
média geral próxima dos 56% (com o mínimo em 36% e o máximo em 90% do plantel de um
charqueador). No interior deste grupo de escravos, os mais numerosos eram os carneadores. Em
alguns plantéis eles compunham a metade dos escravos deste grupo e em outros chegavam a 2/3
do mesmo. Os segundos mais numerosos eram os escravos salgadores e os serventes, seguidos
pelos chimangos e graxeiros. Os serventes aparecem em alguns plantéis como “serventes de
charqueada”. Os menos comuns eram os tripeiros, os descarnadores e os sebeiros.

Observados com atenção, estas sub-ocupações parecem revelar a própria transformação


e especialização no interior das charqueadas. Carneadores e graxeiros aparecem nos inventários
desde a década de 1810. Os serventes, os salgadores e os sebeiros só começam a aparecer a
partir da década de 1820. Os primeiros chimangos discriminados como tal só surgem nos
plantéis da década de 1840. Os escravos mais especializados como os tripeiros surgem somente
nos inventários da década de 1850 e os descarnadores na década de 1860.36 Tal fenômeno não
significa que as atividades executadas pelos tripeiros e descarnadores, por exemplo, não eram
realizadas anteriormente, mas sim, que a intensificação das mudanças de ordem técnica passou
a exigir cada vez mais o treinamento e a especialização de alguns escravos do plantel, ao ponto
de eles serem reconhecidos pelos avaliadores como experts naquele ofício.

Com relação ao treinamento é importante dar destaque aos “aprendizes”. Eles estão
ausentes nos inventários das décadas de 1810 a 1830, começando a aparecer somente na década

35
Também é provável que esta divisão fosse menos rígida entre os menores plantéis, podendo os escravos exercer
mais de uma função ao mesmo tempo. Mas o fato de eles serem avaliados nos inventários com uma especialização
e declararem as mesmas quando informantes ou réus em processos-crime significa que havia um grau de
especialização que precisa ser levado em conta. Uma análise neste sentido foi realizada por Berenice Corsetti e
Ester Gutierrez. Contudo, acrescentei outras considerações e diferentes metodologias de tratamento e exposição
dos dados pesquisados.
36
Uma consideração semelhante foi feita por PESSI, Bruno S. A organização do trabalho escravo nas charqueadas
pelotenses na segunda metade do século XIX. Anais da VIII Mostra de pesquisa do APERS. Porto Alegre:
CORAG, 2010, p. 97-114.
180
de 1840. Os aprendizes de carneador eram os mais numerosos, visto esta ser uma das atividades
mais difíceis de ser executada na charqueada. Os aprendizes de salgador também estavam
presentes nos plantéis e junto deles há os que somente foram definidos como “aprendiz”. Eles
também poderiam ser aprendizes de graxeiro, pois encontrei dois mestres graxeiros, entre os
escravos. Tal fenômeno revela uma preocupação do proprietário em treinar seu plantel para
otimizar a produção, algo que apresentava traços de uma maior racionalização do trabalho.

Sobre isto há outro fator interessante. Os descarnadores, tripeiros, aprendizes e mestres


estão presentes somente nos maiores plantéis, geralmente os acima de 70 escravos, mas,
sobretudo, entre os inventariados com mais de 100 cativos. Seria a riqueza e o número de
escravos pré-condição para uma especialização do plantel? Ou seria o contrário? Charqueadores
com uma visão mais “avançada” de organização do trabalho na charqueada teriam maiores
chances de enriquecer podendo assim ampliar seu plantel? Creio que um fator complementasse
o outro, mas me inclino a pensar que, naquela conjuntura, a fortuna sorriu aos mais
empreendedores – questão que será tratada de forma mais aprofundada no capítulo 9. A seguir,
escolho alguns exemplos para demonstrar tal fenômeno.

Nos inventários das décadas de 1810 a 1840, a maioria dos documentos apresentava
uma precária divisão do trabalho. O plantel menos especializado era o de Domingos Rodrigues
(1818), cujos 42 escravos foram descritos com a ocupação “serviço da casa e da charqueada”. 37
Portanto, não havia uma distinção muito clara sobre as atividades dos cativos. Pode-se
argumentar que foi desleixo do escrivão e dos avaliadores ou que a feitura dos documentos da
época não especificava estas ocupações. Entretanto, estas hipóteses não se verificam nos outros
inventários da mesma época. Em contrapartida, o mais especializado daquele período era o
plantel de José Pinto Martins (1827), aquele que foi visto por muitos como o mito fundador das
charqueadas em Pelotas e que teria inovado na organização fabril do município nos fins do
século XVIII.38 A especialização do seu estabelecimento se comparada aos de sua época é mais
um indício de que seu papel como empreendedor local foi importante.

No entanto, como um divisor de águas, o inventário de Maria Augusta da Fontoura


(1845) destoa dos outros de sua época.39 Ela era esposa do charqueador Joaquim José de
Assumpção. No seu plantel de 125 escravos, o número de aprendizes é muito maior que o dos
outros. Havia 4 aprendizes de carneador e 3 de salgador, além de outros 3 denominados
somente “aprendizes”. Fora da charqueada havia 2 aprendizes de campeiros, 1 de carpinteiro e
37
Inventário de Domingos Rodrigues, n. 32, m. 2, 1818, Pelotas, 1º cart. órfãos e provedoria (APERS).
38
Inventário de José Pinto Martins, n. 354, m. 15, 1832, 1º cart. órfãos e provedoria, Rio Grande (APERS).
39
Inventário de Maria A. da Fontoura, n. 514, m. 22, 1845, 1º cart. órfãos e provedoria, Rio Grande (APERS)
181
1 de calafate. Talvez este charqueador possuísse uma visão mais empresarial sobre a forma de
organização do trabalho em sua unidade produtiva e possa ter influenciado os outros a seguirem
o seu padrão. Seu filho homônimo herdou o estabelecimento paterno e tornou-se o Barão de
Jarau. Se o pai apresentou uma fortuna mediana em sua época, o filho foi o charqueador mais
rico de Pelotas na segunda metade do oitocentos. Portanto, a herança de Joaquim para o filho
não foi composta somente por bens materiais, mas também por conhecimentos técnicos e uma
prática de organizar a produção e o trabalho escravo de forma mais especializada, ou seja, uma
herança imaterial que deve ter auxiliado o filho a ampliar a fortuna do pai. 40

b) Um outro grupo de escravos importante era formado por aqueles que realizavam
tarefas acessórias à charqueada, sem ser diretamente ligadas à matança e fabricação do charque
e dos sub-produtos. Algumas delas estavam quase integradas ao estabelecimento. Os mais
importantes eram os campeiros, encarregados de tratar das reses nos potreiros da charqueada
antes do abate, e os marinheiros, que trabalhavam no transporte fluvial e marítimo dos produtos
da charqueada. Muitos campeiros também eram empregados nas estâncias dos charqueadores,
geralmente em outros municípios. No serviço do transporte terrestre havia os carreteiros e
carroceiros. E trabalhando nas chácaras e lavouras dedicadas a abastecer a charqueada de
alimentos havia os tafoneiros, roceiros e lavradores.

Mas nem todos os plantéis possuíam escravos deste grupo. Os marinheiros só estavam
presentes entre os que tinham alguma embarcação e os campeiros eram mais comuns entre os
que possuíam estâncias. O mesmo serve para os roceiros, lavradores e tafoneiros com relação às
lavouras e chácaras. Na maioria dos inventários, os escravos deste grupo perfaziam de 10% a
15% dos plantéis, havendo casos com um mínimo de 2% e outros com um máximo de 32%. A
posse de tais cativos também podia indicar uma importante busca de autossuficiência das
unidades produtivas no que diz respeito ao transporte fluvial e marítimo, ao abastecimento de
alimentos para os cativos e de gado para a charqueada.41 Aníbal Antunes Maciel, por exemplo,
era o charqueador com o maior número de escravos campeiros. Eles totalizavam 20 cativos com
este ofício. Analisando seu inventário, percebe-se que o coronel Aníbal era o dono do maior

40
No entanto, esta especialização, que se intensificou a partir de meados dos oitocentos, não foi linear e evolutiva e
nem envolveu todos os escravos e plantéis. Um plantel com aprendizes e descarnadores também era composto de
escravos sem um ofício definido ou escravos com dois ofícios, como alfaiate/salgador ou carpinteiro/carneador.
Algo até certo ponto compreensível para uma empresa que funcionava somente durante seis a sete meses ao ano.
Portanto, é possível que alguns charqueadores tenham especializado o seu plantel servindo de exemplo para outros,
mas tal fenômeno apresentou um processo gradativo e certamente cheio de percalços.
41
Como se verá no capítulo7, a autossuficiência no abastecimento de gado era impossível de ser alcançada.
182
rebanho entre os charqueadores. Ele possuía mais de 34 mil reses de criar pastando nas suas
estâncias. O mesmo serve para a relação entre o número de marinheiros e o de embarcações.42

Neste grupo também localizei aprendizes de campeiro e de marinheiro. Os aprendizes de


campeiro eram muito jovens, tendo 12 ou 13 anos. 43 Com relação aos marujos, destaco os
“aprendizes de marinheiro de brigue”. E aqui é possível fazer duas considerações. A primeira é
de que, assim como outros ofícios, também havia treinamento para ser marinheiro dentro da
própria charqueada. A segunda é a de que havia uma separação entre os marinheiros de um iate
e os que podiam ultrapassar esta barreira, podendo estar a bordo de um brigue, uma embarcação
de maior porte, utilizada em viagens marítimas de longo curso e que exigia um maior
treinamento. A presença de escravos com o apelido de “capitão” sugere que os mesmos deviam
treinar estes aprendizes.

c) Outro grupo importante no plantel dos charqueadores eram os escravos artesãos ou


com ofícios especializados. Entre eles existiam carpinteiros, alfaiates, sapateiros, pedreiros,
tanoeiros, lombilheiros, marceneiros, oleiros, correeiros e ferreiros. Considerei que as mulheres
costureiras também deveriam fazer parte deste grupo. Eles podiam compor entre 3% e 12% do
plantel, com uma média de 6%. Os carpinteiros eram os mais numerosos, seguidos dos
pedreiros, sapateiros e alfaiates. Este grupo era muito importante nas charqueadas, pois seus
serviços eram utilizados para reformar o próprio estabelecimento e seus equipamentos, visto
que as instalações deviam sofrer uma manutenção anual. Além do mais, como já mencionei,
suas atividades também eram importantes na construção civil e na fabricação de vestimentas
para os escravos. A possibilidade de alugar os seus trabalhos, também os tornava um grupo
importante. Entre os mesmos também verifica-se um número significativo de aprendizes, mas
estes já estavam presentes nos inventários dos fins do século XVIII e início do XIX e não
causam muita surpresa, pois estes ofícios mecânicos sempre foram praticados por escravos,
envolvendo relações entre mestres e aprendizes. Outro fator importante do grupo é que muitos
escravos exerciam este ofício combinado com outro que dizia respeito a alguma tarefa realizada
no interior da charqueada, surgindo cativos discriminados como pedreiro/carneador,
servente/sapateiro, graxeiro/carpinteiro, alfaiate/salgador/ tanoeiro/tripeiro, entre outros.

d) O último grupo reúne os escravos de serviço doméstico ou ligados a atender as


necessidades mais pessoais do charqueador e de sua família. Entre os mesmos encontram-se as

42
Inventário de Felisbina da S. Antunes, n. 68, m. 2, Pelotas, Cartório do Civel e Crime; Inventário de Anibal A.
Maciel, n. 815, m. 48, 1875, 1º cart. órfãos e provedoria, Pelotas (APERS).
43
Como será evidenciado a seguir, existiam crianças escravas classificadas como “campeiras” com idades menores
do que os 12 anos.
183
mucamas, lavadeiras, cozinheiras, engomadeiras, copeiros e serviços domésticos. Também
coloquei neste grupo os boleeiros, visto conduzirem seus senhores diariamente pela cidade.
Como pode-se perceber, é neste grupo que as mulheres se faziam mais representadas. As tarefas
realizadas por este grupo também eram essenciais para o senhor, mas a sua quantidade também
devia revelar um maior status social. É possível que algumas das cozinheiras aqui elencadas
trabalhassem nas charqueadas preparando a comida para os demais cativos e que alguns
serventes colocados no primeiro grupo aqui analisado estivessem presentes neste, conforme se
percebe nos inventários. O trânsito de escravos entre as instalações da charqueada e a casa do
senhor devia ser corrente, mesmo quando este morava na cidade. Apesar dos seus plantéis
apresentarem uma razão de sexo muito alta (os homens perfaziam 82% dos escravos) em mais
de 85% deles havia crianças, o que indica a existência de laços familiares, e, portanto, do
contato entre as distintas senzalas (charqueada, estâncias e chácaras) e a casa do senhor, mas
também, possivelmente, das escravas do charqueador com libertos e homens livres pobres.

A observação individualizada de alguns plantéis auxilia a perceber a divisão do trabalho


no interior das unidades produtivas. A análise da escravaria do casal José Antônio Moreira e
Leonídia Gonçalves (o Barão e a Baronesa do Butuí) serve para complexificar esta análise, pois
seus inventários trazem informações não existentes em outros plantéis. 44 A Baronesa faleceu
em 1867 e o Barão em 1877. Em 1867, foram arrolados 132 escravos e, em 1877, 158. No
interior do segundo processo foi anexada a cópia dos registros de matrícula dos escravos do
inventariado, realizadas em 1872/1873, com detalhes sobre a idade, naturalidade, profissão,
estado civil e filiação de 142 cativos. 45 O diferencial da documentação envolvendo o Barão de
Butuí é que o escrivão anotou o local em que moravam e trabalhavam os respectivos escravos,
algo não verificável com tamanhos detalhes para os outros charqueadores. Entretanto, todos
foram matriculados como “serviço de charqueada”. Como no inventário de 1867 os escravos
tiveram suas especialidades discriminadas, cruzei os dois documentos para compreender como
o plantel do casal estava dividido entre as diferentes unidades produtivas do charqueador.

A partir da cópia das matrículas de 1872, o plantel de escravos do Barão de Butuí estava
dividido da seguinte forma: residentes na cidade (27), na charqueada (79), na Serra dos Tapes
(3), na Estância de Poncho Verde, localizada no município de Bagé (18), a bordo da Barca
Pombinha (5), do Patacho Moreira (3), do Iate Santa Rita (4) e do Iate Novo São Jerônimo (3).

44
Inventário do Barão e da Baronesa de Butuí. Pelotas, n. 647, m. 41, 1867/1877, 1º cart. órfãos e provedoria,
Pelotas (APERS).
45
Sobre a legislação que ordenava a feitura dos registros das matrículas dos escravos e as possibilidades de
pesquisa com esta documentação ver SLENES, Robert. O que Rui Barbosa não queimou: Novas Fontes para o
Estudo da Escravidão no Século XIX. Estudos Econômicos, v. 13, n. 1, jan./abr. 1983, pp. 117-149.
184
A partir desta divisão já é possível perceber que 55% do plantel residia na charqueada, 19% na
cidade, onde o Barão possuía dois sobrados e diversas casas e terrenos. Na estância e na chácara
nos Tapes estavam 15% deles e a bordo e alguma embarcação encontravam-se 10%.

Na charqueada havia 68 homens adultos e 2 mulheres adultas, 5 meninos e 4 meninas


menores de 12 anos. As crianças eram filhas das escravas Carlota (2), que não pertencia mais ao
plantel, Regina (4) que trabalhava na charqueada no serviço doméstico, e Agostinha (3), que era
engomadeira e morava na cidade. 46 Das crianças, todas não possuíam ofício, com exceção do
menino Norberto, que com 12 anos já era servente de charqueada e devia estar aprendendo
algum ofício mais especializado. Dos homens adultos, um prestava serviços domésticos e outro
era o cozinheiro da charqueada. O restante foi definido como “servente de charqueada”. Mas
cruzando com os dados do inventário da Baronesa, de 1867, é possível discriminar a sua função
no estabelecimento. Destes 66 escravos, 19 eram carneadores, 11 eram chimangos, 10 eram
salgadores e 2 eram descarnadores. Havia também 1 graxeiro/carpinteiro e 1 chimango/alfaiate.
Para os outros 22 não foi possível definir a especialização. Portanto, como afirmei
anteriormente, a razão de sexo no estabelecimento de charqueada era maior que a do plantel
inteiro do charqueador. Enquanto no primeiro somava-se 97% de homens (contando apenas os
adultos) ou 92% (somando as crianças), no plantel total tinha-se 92% e 87%, respetivamente.

Na estância do Ponche Verde havia 11 homens adultos, 3 mulheres adultas, 3 meninas e


1 menino. Dos 11 homens, 10 eram campeiros e 1 cozinheiro. Entre as mulheres havia 1
costureira, 1 roceira e 1 doméstica. Observe-se que na estância, a diferença dos sexos era menor
(78% entre os adultos), embora ainda fosse alta. Os 3 escravos da Serra dos Tapes eram
roceiros e os 15 escravos nas embarcações, com exceção do cozinheiro José, eram todos
marinheiros. Dos 27 escravos residentes na cidade, havia 18 homens adultos, 5 mulheres
adultas, 3 meninos e 1 menina. Entre os mesmos, estavam 2 escravos alfaiates, 2 carpinteiros, 4
pedreiros, 1 sapateiro, 2 copeiros, 2 cozinheiros, 1 boleeiro, 3 costureiras, 2 engomadeiras, 1
lavadeiro, 2 serventes e 1 campeiro que estava na cidade para ser vendido. É muito provável
que os escravos com ofícios artesanais que viviam na cidade fossem alugados auferindo
significativos lucros ao senhor.

46
Não foi possível saber quem eram os pais das crianças. Sobre os limites do uso de inventários post-mortem para
estudo da família escrava em Pelotas ver PESSI, Bruno S. A família escrava em Pelotas na segunda metade do
século XIX a partir de inventários post-mortem. Anais da IX Mostra de pesquisa do APERS. Porto Alegre:
CORAG, 2010, p. 245-264. Para o estudo da família escrava em Pelotas na primeira metade do século XIX ver
PINTO, Natália. Op. cit. Sobre o uso de fontes paroquiais e o estudo da escravidão em Pelotas ver COUTO,
Mateus de O. A pia e a cruz: a demografia dos trabalhadores escravizados em Herval e Pelotas (1840-1859).
Passo Fundo: UPF, 2011.
185
Portanto, verificam-se crianças na charqueada, na cidade e na estância em Bagé. Creio
tratar-se de três núcleos escravistas distintos, muito embora, como já mencionei, havia trânsito
entre os mesmos. É provável que os pais destas 17 crianças estivessem trabalhando nos mesmos
núcleos, muito embora os filhos da escrava Agostinha, residente na cidade, estivessem na
charqueada. Estes 17 escravos num plantel de 142 significavam que 12% do total do plantel era
renovado com as chamadas “crias de casa”. Analisando somente a charqueada, este valor
mantem-se em 11%. Tratava-se de um índice superior à média total de crianças de 6,9%
apresentada para todas as charqueadas entre os anos 1866 e 1885, que será analisado mais
adiante. Um dos fatores que potencializava a reprodução natural de cativos era a posse de
estâncias, chácaras e a presença de escravas domésticas, uma vez que, como foi demonstrado,
havia somente duas mulheres na charqueada. Portanto, privilegiados eram os escravos que
conseguissem circular para além das charqueadas, para, quem sabe, ir ao encontro de uma das
demais cativas do senhor. O número de mulheres adultas fora da charqueada era 4 vezes
superior ao número de mulheres na charqueada. Contudo, o círculo de relações afetivas dos
escravos não se restringia às senzalas do charqueador, podendo, como demonstrarei no capítulo
posterior, estender-se para fora do cativeiro.

Portanto, a análise do plantel do Barão de Butuí é um bom exemplo de como um


charqueador rico dividia a sua escravaria. É necessário destacar que 85% dos cativos arrolados
nas matrículas eram comprados (como a fonte indica). Com relação aos seus valores (mas sem
levar em conta as idades) os mais caros eram os carneadores, com uma média de 1:420$,
seguidos pelos copeiros (1:400$), cozinheiros (1:400$), campeiros (1:340$), salgadores
(1:100$) e carpinteiros (1:000$). O alto valor dos cozinheiros e copeiros demonstra os gastos de
Butuí com os escravos domésticos, além da sua preocupação em investir na distinção social, o
que denota o comportamento de uma família de elite. É necessário também referendar que
somente 55,6% do plantel concentrava-se na charqueada. Portanto, para atuar com sucesso em
outras atividades econômicas (pecuária e alto comércio) os charqueadores necessitavam de uma
extensa mão de obra. Isto ajuda a compreender porque os plantéis dos 12 charqueadores mais
ricos de Pelotas na segunda metade do oitocentos (aqueles que legaram mais de 50 mil libras e
que serão analisados mais profundamente nos capítulos seguintes) possuíam uma média de
escravos bem acima dos menos ricos (115 cativos contra 56 da média geral). Neste sentido, o
tamanho da escravaria era diretamente proporcional à riqueza acumulada pelo charqueador e a
amplitude de seus investimentos.

186
Analisando o trabalho cativo nas charqueadas, Fernando H. Cardoso formulou a tese da
“economia de desperdício” nestes estabelecimentos. Tal afirmação sustentava-se no fato de que
a safra nas charqueadas durava em torno de 6 a 7 meses (novembro a maio). Inspirado em Louis
Couty, ele afirmou que numa empresa capitalista, com o término da matança, os empregados
seriam dispensados e recontratados na próxima safra, enquanto que nas charqueadas os
senhores eram obrigados a manter o sustento de seus plantéis improdutivos por mais um
semestre.47 Berenice Corsetti e Ester Gutierrez já refutaram esta afirmação, pois havia uma
série de atividades para além das charqueadas, em que os escravos podiam ser empregados.48

Além da charqueada, muitos empresários também possuíam olarias, algo que não era
privilégio dos charqueadores mais ricos. Somavam-se às mesmas as carpintarias, ferrarias,
fábrica de curtumes, de colas ou estaleiros que podiam compor o patrimônio de outros
charqueadores. Nas chácaras e datas de terras de matos (muito mais comuns do que os
estabelecimentos citados acima) o trabalho cativo também era importante. Dali provinha parte
da alimentação dos cativos, mas também a madeira para o forno das graxeiras à vapor e das
olarias. Estudando um importante charqueador da época, Carla Menegat também constatou que
os extensos pomares presentes nas propriedades permitiam que parte da escravaria tivesse seus
serviços direcionados para a produção de alimentos, as olarias, as fábricas de sebo e velas e as
atafonas. Analisando as cartas escritas pelo charqueador, a autora verificou que o empresário
deixava claro aos capatazes a importância da produção de alimentos, recomendando que fosse
muito bem cuidada e que se vigiasse a escravaria. A plantação de mandioca tinha nas suas
terras a dupla função de manter os escravos ocupados e de prover sua alimentação. Ela era um
apêndice importante da charqueada, além de permitir as negociações do excedente. 49

Ainda é necessário realizar uma análise mais aprofundada do perfil dos plantéis dos
charqueadores pelotenses. A análise de 48 inventários post-mortem de charqueadores (entre
1831 e 1885) que, quando faleceram, ainda possuíam seus estabelecimentos, ajuda a definir

47
CARDOSO, Fernando Henrique. Capitalismo e escravidão no Brasil meridional: o negro na sociedade
escravocrata do Rio Grande do Sul. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
48
CORSETTI, Berenice. Op. cit.; GUTIERREZ, Ester. Op. cit.
49
MENEGAT, Carla. O tramado, a pena e as tropas: família, política e negócios do casal Domingos José de
Almeida e Bernardina Rodrigues Barcellos (Rio Grande de São Pedro, Século XIX). Porto Alegre: PPG-História
UFRGS, Dissertação de Mestrado, 2009, p. 147. Alberto Coelho da Cunha, filho do charqueador José Ignácio da
Cunha, quinta maior fortuna entre estes, escreveu que: “Fazendo concorrência aos modestos agricultores, os
estancieiros e abastados charqueadores se consideravam em dever de também possuírem datas de matos na Serra”.
Cunha refere-se à Serra dos Tapes, que era coberta por uma grande e densa mata, de onde se extraíam as melhores
madeiras. Sobre o aproveitamento daquelas terras, o autor comentou: “A mais extensa cultura de então faziam-na
os charqueadores, quase todos proprietários de datas, que, no intervalo das safras, para continuarem a tirar proveito
do capital, punham a negrada a derrubar matos e a plantar milho e feijão”. Daí entende-se a presença de roceiros,
serradores, marceneiros, lustradores, mas, sobretudo, carpinteiros nos plantéis dos charqueadores (GUTIERREZ,
Ester. Op. cit., p. 123).
187
alguns fatores a este respeito. Os documentos reúnem 2.732 escravos, mas nem todos trazem as
informações de ocupação, idade, naturalidade e preço. No que diz respeito ao sexo dos escravos
tem-se 440 mulheres e 2.290 homens (2 não tiveram a informação identificada), o que resulta
numa alta razão de sexo de 520 homens para cada 100 mulheres. No entanto, este era o índice
referente ao plantel total dos senhores (somando escravos da charqueada com os domésticos,
marinheiros, campeiros, entre outros) e não aos que trabalhavam exclusivamente na
charqueada. Como foi visto anteriormente, o número de homens com relação às mulheres no
trabalho da charqueada era muito maior.

Para analisar o preço dos escravos das charqueadas selecionei somente os escravos
adultos (incluí nesta faixa os cativos entre 15 e 40 anos) e excluí todos aqueles avaliados como
“doentes”, “quebrados” ou com alguma anotação dos avaliadores que fizesse diminuir o seu
valor.50 Também converti os valores anuais para libras esterlinas calculando as médias
quinquenais. 51 A partir do Gráfico 5.1 percebe-se que até 1860 o preço das mulheres
acompanhou o dos homens, para estacionar-se na década de 1860 e sofrer uma queda brusca
após a Lei do Ventre-Livre (1871). Enquanto isto, os preços dos escravos homens mantiveram-
se em ascensão até atingir os 1:600$ em 1861-65, para depois iniciar uma queda. Na década de
1880, quando a escravidão já estava condenada, os valores dos escravos de ambos os sexos
encontravam-se num notável declínio (além disso, neste último período, não havia mulheres
sadias nos inventários com informações do preço e da idade). Os índices também demonstram
que no período em que o tráfico esteve vigente, mesmo que considerado ilegal pela Lei de
1831, os preços dos escravos mantiveram-se relativamente baixos e estáveis.

Para refinar melhor a análise destes dados separei os inventários em três períodos
distintos. O primeiro elenca inventariados antes da Lei Eusébio de Queiroz, o segundo reúne
cativos inventariados durante a fase de grande ascensão dos preços dos escravos adultos nas
charqueadas de Pelotas e o terceiro reúne os inventariados durante a fase da queda dos mesmos
até o fim da escravidão. Analisando a Tabela 5.1 percebe-se que a média de escravos foi
decrescente ao longo de todo o período, enquanto a razão de sexo aumentou, chegando a 850
escravos homens para cada 100 mulheres nos últimos decênios.52 Ester Gutierrez defendeu que

50
Eliminei da análise duas cativas de Inácio Rodrigues Barcellos avaliadas em 1863. Desconheço o motivo, mas os
seus valores em mil réis correspondiam a 1/5 do da grande maioria das mulheres cativas do mesmo período, o que
causaria uma grande distorção na curva “1861-1865” do gráfico.
51
Juntei os anos 1831-35 a 1836-40 porque como o Judiciário esteve paralisado em Pelotas durante a Guerra dos
Farrapos, existem poucos processos para o período.
52
Estabelecendo uma análise de 5 em 5 anos, Bruno Pessi percebeu que entre 1850/54 e 1880/84 a média caiu de
59,5 para 44,3 cativos por charqueador. Contudo, neste meio tempo, elas oscilaram bastante, chegando a 81,2
escravos em 1865/69 e 42,9 escravos em 1870/74 (PESSI, Bruno. Op. cit., 2012, p. 74).
188
não houve redução nos plantéis dos charqueadores ao longo do período, pois a média da década
de 1880 teria sido superior à média de todas as décadas anteriores. 53 No entanto, incorporando
uma quantidade maior de inventários de charqueadores entre 1850 e 1884, Bruno Pessi
demonstrou que, embora os indicadores apresentassem oscilações, houve uma diminuição dos
mesmos.54 De fato, de acordo com os inventários que pesquisei e a ampliação da escala em
longa duração (estabelecendo para isto períodos analíticos de 15 a 20 anos), é possível perceber
que a média dos plantéis dos charqueadores caiu ao longo dos anos. Observando os mesmos
inventários por décadas, percebi que nos anos 1840 a média era de 65 escravos por charqueada.
Na década de 1850, esta média cai bastante, chegando a 51 cativos. Na década de 1860 ela volta
a subir para 59 escravos. Na década de 1870 cai para 55 cativos e entre 1881 e 1885, apresenta
uma média de 42 escravos – a menor de todo o período.

Gráfico 5.1 – Preço dos escravos adultos (de 15 a 40 anos) e sadios nas charqueadas de
Pelotas (1831-1885) (em libras esterlinas)

200
180
160
140
120
100
80
60
40
20
0

Mulheres Homens

Fonte: Inventários post-mortem dos cartórios de Pelotas (1831-1885) (APERS)

Contudo, a queda da média de escravos por plantel precisa ser melhor matizada, pois,
como será visto a seguir, até o meado dos anos 1870 a população cativa em Pelotas manteve-se
em crescimento. No entanto, se os charqueadores estavam sofrendo uma diminuição na média
dos seus plantéis, o maior número de homens escravos em relação às mulheres escravas (em
nítido crescimento) demonstra que enquanto um grupo devia estar comprando novos cativos
homens no tráfico interno um outro grupo não conseguia obter o mesmo sucesso na reposição
dos escravos velhos e doentes. Portanto, não é adequado falar em uma crise geral de braços no

53
GUTIERREZ, Ester. Op. cit., p. 178.
54
PESSI, Bruno. Op. cit., 2008.
189
setor, mas sim, numa crise que afetou um grupo de charqueadores, mas não afetou outro. 55
Além disso, também é possível verificar que a Lei do Ventre Livre (1871) retirou o interesse
dos charqueadores em repor os seus plantéis com mulheres cativas, colaborando com a maior
diminuição do número de escravas em termos absolutos, se comparadas aos homens.

Tabela 5.1 – Número de escravos e razão de sexo por período (1831-1885)

1831-1850 1851-1865 1866-1885 Total

Inventários 15 19 14 48
Escravos 1.016* 1.022* 694 2.732
Média por inv. 67,7 53,8 49,5 56,9
Homens 830 (81,7%) 839 (82%) 621 (89,4%) 2.290
Mulheres 185 182 73 440
Razão de sexo 448 461 850 520
Fonte: Inventários post-mortem dos cartórios de Pelotas (1831-1885) (APERS)
* Um cativo não teve o sexo identificado

Na Tabela 5.2 separei os cativos em 4 faixas etárias. O foco principal foi definir a
representatividade dos escravos adultos nos plantéis, tendo elencado nesta categoria os escravos
de 15 a 40 anos, como já disse. Decidi separar as crianças em dois grupos, tendo como critério a
primeira idade em que elas foram classificadas com um ofício de trabalho. Como o pequeno
Clemente, de 8 anos, foi arrolado como “campeiro” do charqueador João Simões Lopes escolhi
esta idade como um divisor.56 A Tabela demonstra que a média de escravos adultos entre os
plantéis apresentou uma grande queda, ao mesmo tempo em que a razão de sexo quase dobrou
do primeiro para o segundo período, reforçando o que foi dito acima. O número alto de homens
idosos no primeiro período indica a intensidade do tráfico atlântico na primeira metade do XIX.
Além disso, analisando em conjunto os indicadores de razão de sexo entre os idosos (956 no
primeiro período e 2.476 no último) com a ainda significativa presença de homens adultos entre
1866-1885, pode-se verificar a permanência dos efeitos do tráfico, desta vez juntamente com o
comércio interno, mesmo às vésperas do fim da escravidão. Além disso, o grande aumento da
razão de sexo entre as crianças B no último período indica que as mesmas também estavam
presentes no circuito mercantil interno. Analisando os mesmos dados ainda é possível perceber

55
Mais adiante demonstro que foi exatamente isto o que aconteceu, ou seja, um grupo de charqueadores conseguiu
resistir com algum sucesso ao fim do tráfico atlântico e o aumento do preço dos escravos, às custas de outros
escravistas com menores condições, entre os quais estavam charqueadores arruinados.
56
Pesquisando o perfil dos escravos traficados para o Rio Grande do Sul, Gabriel Berute localizou uma grande
quantidade de crianças e jovens. Para o autor, tal perfil se explica pelo fato de que o ofício de campeiro era
ensinado a escravos bem jovens e que a própria atividade podia ser exercida pelos mesmos, pois não exigia força e
sim destreza com o cavalo (BERUTE, Gabriel Santos. Op. cit., 2006).
190
que no último período os escravos idosos somavam quase a metade do plantel dos senhores,
apresentando, como em outras regiões, um envelhecimento do plantel dos charqueadores.

Tabela 5.2 – Faixa etária e sexo dos escravos dos charqueadores (1831-1885)

1831-1850 1851-1865 1866-1885 Total


Sexo
Adultos M 419 (82,9%) 445 (90,1%) 228 (88,7%) 1.092
De 15 a 40 anos F 86 (17,1%) 49 (9,9%) 29 (11,3%) 164
Média por invent. 33,6 26 18,3 26,1

Razão de Sexo 487 908 786 665

Subtotal 505* (49,7%) 494 (48,4%) 257 (37,1%) 1.256* (45,9%)

Crianças A M 24 21* 12 57
De 1 mês a 7 anos F 21 21 8 50
Crianças B M 28 12 20 60
De 8 a 14 anos F 20 10 8 38
Subtotal 93 (9,1%) 64 (6,2%) 48 (6,9%) 205 (7,4%)

Idosos M 239 231 322 792


Acima de 41 anos F 25 27 13 65
Subtotal 265* (26,2%) 258 (25,3%) 335 (48,2%) 858 (31,4%)

Idade não identificada 153 (15%) 206 (20,1%) 54 (7,8%) 413 (15,1%)

Total 1.016* 1.022* 694 2.732

Fonte: Inventários post-mortem dos cartórios de Pelotas (1831-1885) (APERS)


* Um cativo não teve o sexo identificado

A Tabela 5.3 busca investigar o percentual de africanos nos plantéis dos charqueadores.
Vimos no capítulo 3 que 67,4% dos 5.623 escravos recenseados em Pelotas no ano de 1833
eram africanos, denotando um significativo vínculo da economia local com o tráfico atlântico.
Os dados apresentados confirmam esta tendência nos inventários entre 1831 e 1850, quando
67,8% dos escravos com informações eram africanos. Entre 1851 e 1865, este índice diminui
em 5,6%, vindo a apresentar uma grande queda no último período, como seria de se esperar.
Dos 252 escravos com informações sobre a sua naturalidade entre 1875 e 1885, 101 (40%)
eram africanos. Assim como nas outras tabelas, a razão de sexo também aumenta ao longo de
todo o período atingindo grandes índices entre africanos (4.340) e crioulos (748) nos últimos
anos, parecendo demonstrar que as charqueadas sempre mantiveram-se fortemente vinculadas
primeiro ao tráfico atlântico (até a sua abolição em 1850) e depois ao tráfico interno de escravos
(visto o alto índice de homens adultos nos últimos decênios). Portanto, torna-se ainda mais

191
evidente que o declínio da escravidão foi um dos grandes responsáveis pelas crises sofridas
pelas charqueadas pelotenses.57

Tabela 5.3 – Africanidade e sexo nos plantéis dos charqueadores (1831-1885)

1831-1850 1851-1865 1866-1885 Total

Africanos 314 422 222 958


H 270 M 42 H 386 M 36 H 217 M 5 H 873 M 83
86% 14% 91,5% 8,5% 97,7% 2,3% 91,1% 8,9%

Crioulos 149 256* 263 668


H 99 M 50 H 171 M 84 H 232 M 31 H 502 M 165
66,4% 33,6% 66,8% 33,2% 88,2% 11,8% 75,1% 24,9%

Africanidade 67,8% 62,2% 45,7% 58,9%


Não Identificados 554 (54,5%) 344 (33,6%) 209 (30%) 1.107 (40%)
Totais 1.016 1.022 694 2.732

Fonte: Inventários post-mortem dos cartórios de Pelotas (1831-1885) (APERS)


* Um cativo não teve o sexo identificado

Somando estas informações às da Tabela 5.4, percebe-se que o grande número de


africanos idosos entre 1831 e 1850 confirmam o tráfico para o período de montagem das
charqueadas (1790-1820). A grande permanência de idosos africanos nos anos 1870, também
evidencia que o comércio ilegal de escravos manteve-se forte após a Lei de 1831, como já
mencionei. Além disso, a média de escravos acima dos 50 anos nos maiores plantéis do agro
fluminense (de 1810 a 1830) ficava em torno de 15%58, enquanto em Pelotas, no período (1831-
50), era de 10,5%.59 Tendo em vista a permanência da alta razão de sexo entre os crioulos
adultos no último período, percebe-se novamente como os charqueadores conseguiram manter
plantéis produtivos, mesmo numa época de crise de mão de obra e envelhecimento dos cativos.

A Tabela 5.4 demonstra que a taxa de africanidade entre os adultos despencou do


primeiro e o terceiro período, na mesma medida em que o percentual de homens crioulos
aumentou. Entre os idosos, o aumento do percentual de crioulos e de africanos merece destaque
e a pequena presença de escravas neste grupo revela o forte vínculo das charqueadas com o

57
Como vários autores já haviam indicado, mas que aqui reforço com outros dados o peso deste processo
(MAESTRI, Mário. Op. cit.; CORSETTI, Berenice. Op. cit.; GUTIERREZ, Ester. Op. cit.; ASSUMPÇÃO, Jorge
E. Op. cit.; PESSI, Bruno. Op. cit.
58
FLORENTINO, Manolo; MACHADO, Cacilda. Famílias e mercado: tipologias parentais de acordo ao grau de
afastamento do mercado de cativos (século XIX). Afro-Ásia, n. 24, 2000, p. 56. Para uma análise mais aprofundada
ver FLORENTINO, Manolo; GOÉS, José R. A paz nas senzalas: famílias escravas e tráfico atlântico. Rio de
Janeiro (c.1790 – c.1850). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997.
59
No já citado Censo de Pelotas de 1833, verifica-se que este mesmo percentual no município era de 7,6%.
192
mercado de escravos. Portanto, os plantéis dos charqueadores foram marcados por um notável
desequilíbrio entre os sexos. Isto também se refletia no número de crianças com 7 anos ou
menos (Tabela 5.2). No primeiro período tem-se 4,4% de crianças neste grupo, índice que foi
de 4,1% e 2,8% nos períodos posteriores. Somando as categorias crianças A e B tem-se,
respetivamente, 9,1%, 6,1% e 6,9%. Tratava-se de um baixo índice que pode ser explicado pelo
pequeno número de mulheres nas senzalas do charqueador. Analisando dados referentes às
plantations de café e açúcar no oitocentos, Florentino e Machado verificaram que unidades com
plena inserção no mercado de escravos apresentaram índices entre 15% e 25% de crianças. 60

Tabela 5.4 – Africanidade e sexo entre escravos adultos e idosos (1831-1885)

1831-1850 1851-1865 1866-1885 Total


Sexo
Africanos adultos M 157 (82,2%) 229 (94,2%) 18 (94,7%) 404
De 15 a 40 anos F 33 (17,2%) 14 (5,8%) 1 (5,3%) 48
Subtotal 191* 243 19 453*
Crioulos adultos M 44 (67,7%) 94 (81,1%) 150 (90,3%) 288
De 15 a 40 anos F 21 (32,3%) 22 (18,9%) 16 (9,7%) 59
Subtotal 65 116 166 347
Africanidade (adultos) 74,6% 67,7% 10,3% 56,6%
Total 256 359 185 800
Africanos idosos M 95 (92,2%) 130 (92,2%) 196 (98%) 421
F 9 (7,8%) 11 (7,8%) 4 (2%) 24
Subtotal 104 141 200 445
Crioulos idosos M 21 (80,7%) 26 (83,8%) 61 (93,8%) 108
F 5 (19,3%) 5 (16,2%) 4 (6,2%) 14
Subtotal 26 31 65 122
Africanidade (idosos) 80% 82,9% 75,4% 78,5%
Total 130 172 265 567

Fonte: Inventários post-mortem dos cartórios de Pelotas (1831-1885) (APERS)

Com relação à razão de sexo, enquanto nos plantéis analisados por Florentino e
Machado os homens ficavam na casa dos 53% (Engenho Novo da Pavuna (1852)) e 59%
(Fazenda Resgate (1872)), em Pelotas a média era de 82% no período. Portanto, se o plantel da
Fazenda Resgate, em Bananal, durante a década de 1860, conseguia reproduzir-se de forma
natural61, o mesmo não pode ser dito para as charqueadas. Neste sentido, estes estabelecimentos

60
FLORENTINO, Manolo; MACHADO, Cacilda. Op. cit., p. 53.
61
FLORENTINO, Manolo; MACHADO, Cacilda. Op. cit., p. 57.
193
constituíam-se em unidades fabris com um perfil de mão de obra um tanto distinto das
plantations açucareiras e cafeicultoras. A menor presença de mulheres fez aumentar a sua
dependência para com o mercado de escravos, pois elas apresentavam uma baixa reprodução
natural e certamente um menor índice de famílias conjugais, o que não significa que os cativos
não estivessem imersos em malhas parentais na senzala e mantivessem relações fora dela. Mas
num contexto de fechamento do tráfico atlântico pós-1850, tratava-se de um enorme problema a
ser revolvido por estes empresários. Neste sentido, como os charqueadores fizeram para manter
suas fábricas funcionando num contexto de diminuição do número de cativos nos
estabelecimentos? É o que busco entender nas próximas páginas.

5.3 DAS CHARQUEADAS PARA OS CAFEZAIS? O TRÁFICO INTER-PROVINCIAL E A


CONCENTRAÇÃO DE ESCRAVOS NA ELITE CHARQUEADORA PELOTENSE

A Lei Eusébio de Queiroz (1850) e a Lei do Ventre-livre (1871) representaram uma


ameaça à elite charqueadora que dependia do contínuo fluxo de cativos para manter sua
produção. Enquanto a primeira Lei anunciava que a diminuição da mão de obra nas próximas
décadas seria questão de tempo, a segunda deu a certeza de que este processo se aceleraria cada
vez mais. Como se sabe, nos anos posteriores, a escravidão foi perdendo sua legitimidade,
vindo a definhar completamente nos fins da década de 1880. Até pouco tempo, a maioria dos
estudos sobre o tráfico inter-provincial que marcou as décadas que antecederam a Lei Áurea
(1888) analisaram principalmente as províncias agroexportadoras. Neste mesmo sentido, as
regiões com uma economia mais voltada para o abastecimento do mercado interno eram quase
que exclusivamente vistas como perdedoras de escravos no interior destes circuitos.
Recentemente, novas pesquisas vêm dedicando-se a investigar mais profundamente estas
regiões, onde plantéis bem menores compunham o patrimônio das elites locais. 62 No caso do
Rio Grande do Sul, a visão que destaca somente a perda de escravos ganhou força com o estudo
de Robert Conrad. De acordo com o autor, a província foi de longe a que mais perdeu cativos
na década de 1870.63

62
Ver, por exemplo, FLAUSINO, Camila Carolina. Negócios da Escravidão: tráfico interno de escravos em
Mariana, 1850-1886. PPG em História da UFJF, 2006 (Dissertação de Mestrado); SCHEFFER, Rafael da C.
Tráfico inter-provincial e comerciantes de escravos em Desterro, 1849-1888. Dissertação de mestrado, UFSC,
2006; ARAÚJO, Thiago L. de. Escravidão, fronteira e liberdade: políticas de domínio, trabalho e luta em um
contexto produtivo agropecuário (vila de Cruz Alta, província do Rio Grande do Sul, 1834-1884). Dissertação de
mestrado. Porto Alegre: UFRGS, 2008 (Dissertação de Mestrado).
63
CONRAD, Robert. Os últimos anos da escravatura no Brasil, 1850-1888. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1978, p. 351.
194
A obra de Conrad acabou tornando-se referência fundamental sobre o tema e induziu os
historiadores a interpretarem outros dados estatísticos à luz de suas contribuições. Amparando-
se no censo geral de 1872, muitos encontraram estatísticas bastante contundentes para sustentar
a suposta perda de escravos no Rio Grande do Sul, ainda na década de 1860. Em 1872, a
população cativa recenseada na província foi de 67.791 escravos. Já os indicadores de 1863
apresentavam 77.419 cativos, ou seja, num intervalo de 9 anos, o Rio Grande do Sul teria
subtraído quase 10 mil escravos – mais de mil por ano.64 O mesmo vale para a população cativa
de Pelotas. Se em 1858 o município possuía 4.788 escravos, no censo de 1872 apresentava uma
população cativa de 3.575, ou seja, 1.213 a menos.

Seguindo estas estatísticas, pesquisadores que se dedicaram ao estudo das charqueadas


de Pelotas, de longe as unidades produtivas com os maiores plantéis de escravos da província,
acabaram concluindo que a sua economia teria sido duramente afetada por esta precoce perda
de cativos. Berenice Corsetti, por exemplo, considerou que “a partir de 1850, a questão da mão
de obra para as charqueadas gaúchas deve ser examinada dentro de um contexto que passou a
configurar a conhecida ‘crise de braços’”. Desde então, o Rio Grande do Sul teria começado a
perder cativos para o sudeste, o que “se constituiu em elemento expressivo no processo de
desarticulação” da economia charqueadora pelotense.65 Duas décadas depois, Leonardo
Monastério defendeu que a “realocação” da mão de obra do Rio Grande do Sul para o sudeste
cafeeiro foi uma das principais causas da decadência das charqueadas em Pelotas. 66

No entanto, o número de escravos contidos no censo geral de 1872 estava longe de


corresponder à realidade. Num artigo clássico, Robert Slenes apontou que a população cativa
sul-rio-grandense foi bastante subestimada. 67 Analisando dados extraídos dos registros de
matrículas dos cativos, anexos aos Relatórios da Diretoria Geral de Estatística do Império,
Slenes verificou que, em 1873, o Rio Grande do Sul possuía 83.370 escravos e não os 67.791
arrolados no censo. Portanto, até este ano, o número de cativos na província teria aumentado e
não diminuído, como se acreditava.68 O mesmo vale para Pelotas. Analisando os relatórios da

64
Ver Censo geral de 1872 (disponível em: http//www.ibge.gov.br). Relatório do Presidente da Província do Rio
Grande do Sul Espiridião Eloy de Barros Pimentel, 1864, p. 46.
65
CORSETTI (1983, p. 142-144). Esta tese da “crise de braços” na economia rio-grandense (na década de 1860)
recebeu uma importante crítica de ARAUJO, Thiago. Op. cit.
66
MONASTÉRIO, Leonardo. A decadência das charqueadas gaúchas no século XIX: uma nova explicação. In:
Anais do VIII Encontro Nacional de Economia Política. Florianópolis: SEP, 2003.
67
SLENES, Robert. Op. cit., 1983.
68
Obviamente que uma afirmação sobre o aumento ou a diminuição de escravos entre 1863 e 1873 depende da real
população cativa para o primeiro marco temporal. Mas mesmo que as estatísticas de 1863 possam estar
subestimadas, os dados da matrícula de 1873 ajudam a refutar qualquer idéia acerca da suposta crise de braços.
Neste sentido, ver ARAÚJO, Thiago L. de. Novos dados sobre a escravidão na Província de São Pedro. In: Anais
do V Encontro de Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional. Porto Alegre: UFRGS, 2011; MATHEUS,
195
DGE – os mesmos estudados por Slenes – verifiquei que, em 1873, Pelotas possuía 8.141
escravos e não 3.575, como o censo de 1872 apontava. 69

Portanto, a grande queda das estatísticas referentes à população cativa rio-grandense foi
posterior a 1873. Na província inteira, entre 1874 e 1884, esta população diminuiu em 15.302
escravos.70 É neste período que se intensificou a saída de cativos para o sudeste cafeeiro.
Segundo Slenes, a segunda metade da década de 1870 marcou o auge das transferências de
cativos para os cafezais do sudeste. Entre 1877 e 1879, de 17% a 25% dos escravos
comercializados em Campinas provinham do Rio Grande do Sul. Para o autor, “o declínio da
produção escravista de charque”, na década de 1870, teria estimulado o fluxo de cativos para a
região.71 De fato, em 1876, Pelotas contava com 7.556 escravos e, em 1884, possuía 5.918.72
Portanto, a diminuição teria se iniciado em 1874, mas se intensificado entre 1877 e 1884.
Contudo, tal afirmação de que houve uma relação direta entre a crise das charqueadas e a saída
de cativos precisa ser verificada empiricamente. Para tanto, é necessário analisar qual foi a
proporção de cativos alforriados e falecidos entre 1874 e 1884 e se as charqueadas de Pelotas
perderam tantos escravos para o tráfico inter-provincial.

Primeiramente, deve-se atentar para um processo ocorrido ao longo do século XIX e que
apresentou uma crescente concentração de riquezas e de escravos entre os charqueadores de
Pelotas. De acordo com a Tabela 5.5, onde elenco somente inventários de charqueadores, é
possível verificar que as maiores fortunas localizadas entre os mesmos situam-se exatamente no
período da mencionada “crise” das charqueadas (a partir da década de 1870, quando as
exportações sofrem diminuições pontuais). As riquezas acima de 100 mil libras só começam a
aparecer nos inventários deste período. No entanto, este enriquecimento foi acompanhado pelo
aumento da desigualdade da distribuição das fortunas, denotando uma maior concentração das
mesmas nas mãos de alguns charqueadores em índices superiores aos das décadas anteriores.

Marcelo. Escravidão, pecuária e liberdade: o Livro de classificação de escravos (Alegrete, década de 1870).
História Unisinos, n. 17, Jan./Abr. 2013, p. 24-36.
69
Relatório da Diretoria Geral de Estatística apresentado ao Ministério do Império pelo Conselheiro Manoel
Francisco Correa. Rio de Janeiro: Tipografia Franco-Americana, 1874, p. 187. Este relatório e os citados doravante
estão disponíveis no site: http://memoria.nemesis.org.br. (Consultados em 10.06.2011).
70
CONRAD, Robert. Op. cit., p. 217.
71
SLENES, Robert. Grandeza ou decadência? O mercado de escravos e a economia cafeeira da província do Rio
de Janeiro, 1850-1888. In: COSTA, Iraci (org.) Brasil: história econômica e demográfica. São Paulo: Instituto de
Pesquisas Econômicas, USP, 1986, p. 133.
72
Relatório da Diretoria Geral de Estatística apresentado ao Ministério do Império pelo Conselheiro Manoel
Francisco Corrêa. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1878, p. 142; LONER, Beatriz. 1887: A Revolta que
oficialmente não houve ou de como abolicionistas se tornaram zeladores da ordem escravocrata. In: História em
Revista, Pelotas, v. 3, 1997, p. 30.
196
Ainda de acordo com a Tabela 5.5, entre 1871 e 1885, 13,3% dos inventários
concentravam 56,6% da riqueza. No período posterior, 25% dos inventariados detinham 74,5%
dos bens. Entre 1871 e 1885, o limbo desta pirâmide econômica compunha 33,2% dos
charqueadores que detinham somente 3,3% da riqueza e no último período 37,5% deles
somavam apenas 2,8% dos montantes. Portanto, tais patrimônios foram acumulados também
em detrimento da ruína econômica de outras famílias charqueadoras. É bem verdade que antes
de 1870 já havia uma desigualdade na distribuição das riquezas, mas os índices de concentração
dos últimos dois períodos e a diferença entre os que ocupavam o topo da hierarquia econômica
e os que estavam na base tornaram-se muito maiores. Tanto entre 1846 e 1855, quanto entre
1856 e 1870, a fortuna do charqueador mais rico era 16 vezes maior que a do charqueador mais
pobre. No entanto, entre 1871 e 1885, o montante do mais rico era 64 vezes maior que o do
mais pobre, e no último período esta diferença atingiu 87 vezes.73

Tabela 5.5 – Concentração de riqueza entre os charqueadores de Pelotas a partir dos


inventários post-mortem, em libras esterlinas (%)

Até 5.000 5.000 a 10.000 10.000 a 20.000

Inventários Riqueza Inventários Riqueza Inventários Riqueza

1815-1845 16,6 4,1 33,3 18,9 33,3 30,7


1846-1855 14,2 2,4 21,4 5,9 14,2 9,9
1856-1870 - - 26,6 7,5 20,0 11,5
1871-1885 26,6 1,9 6,6 1,4 20,0 5,9
1886-1900 25,0 1,3 12,5 1,5 12,5 3,2

20.000 a 50.000 50.000 a 100.000 Mais de 100.000 Totais

Inventários Riqueza Inventários Riqueza Inventários Riqueza Inv. Riq.

1815-1845 16,6 46,2 - - - - 06 82.208


1846-1855 28,5 28,2 21,4 53,4 - - 14 341.410
1856-1870 40,0 39,5 13,3 41,0 - - 15 432.839
1871-1885 20,0 15,8 13,3 18,2 13,3 56,6 15 652.451
1886-1900 12,5 6,1 12,5 13,4 25,0 74,5 08 490.229

Totais 58 2.004.137
Fonte: Inventários post-mortem dos charqueadores de Pelotas (APERS)

A concentração de renda, que se acentuou na década de 1870, veio acompanhada de


uma concentração de cativos e de um aumento da distância entre os maiores plantéis e os
menores plantéis inventariados. Dividindo os inventários entre 1846 e 1885 em períodos de 10
anos, é possível verificar que no primeiro (1846-1855) 14% dos inventários possuíam 30% dos
escravos, mas no terceiro (1865-1875), 16% dos inventários detinham 49% dos escravos. No
decênio seguinte, 2 charqueadores (28% dos inventariados) possuía 60% dos escravos. Mas se
73
Tratarei mais das fortunas dos charqueadores no capítulo 9.
197
um diminuto topo conseguiu manter plantéis superiores a 150 cativos em todas as décadas, na
parte de baixo desta pirâmide percebe-se que o número de charqueadores com plantéis menores
que 25 escravos aumentou ao longo do tempo. De 1846 a 1870, somente 2 inventariados
apresentaram este índice. Mas entre 1871 e 1885, 6 proprietários possuíam um plantel nesta
faixa – considerada pequena para os padrões das charqueadas. Portanto, a desigualdade entre o
maior escravista e o menor escravista aumentou muito durante as décadas. Enquanto na
primeira faixa o proprietário de cativos possuía 3,1 vezes o plantel do último, na última faixa o
plantel do maior era 19,8 vezes maior que o do último.

Portanto, o topo da elite charqueadora resistiu muito mais aos problemas relativos à mão
de obra, o que não ocorreu com outros charqueadores menos afortunados. Esta concentração de
riqueza ajudou a condicionar quem vendeu e quem comprou escravos após a extinção do tráfico
atlântico. No entanto, isto não significa dizer que estes charqueadores da base da pirâmide
perderam seus cativos para o sudeste cafeicultor. Conforme mencionei anteriormente, até 1874,
a população cativa da província apresentou índices crescentes. Portanto, foi após esta data que
as estatísticas apontam uma queda do número de escravos e um aumento da saída de cativos
rio-grandenses para o sudeste.

A partir de agora analisarei as escrituras públicas de compra e venda de escravos e as


procurações de venda de cativos realizadas no município de Pelotas. O primeiro corpo
documental engloba o período de 1850 a 1884, e reúne os negócios efetuados diretamente entre
ambas as partes envolvidas.74 O segundo grupo de fontes debruça-se sobre as vendas realizadas
por procuração, reunidas exclusivamente nos Livros de Procurações, e elencam o período entre
1874 e 1880. São nestes documentos que o tráfico inter-provincial se torna mais nítido.75
Observando esta fonte é possível perceber que boa parte dos procuradores encarregados de
vender os escravos era de fora de Pelotas.76 Antes de começar a análise é necessário dizer que
não descarto o fato de que negociações não registradas em cartório deviam ocorrer. Até a
década de 1860, as escrituras de compra e venda de escravos não eram obrigatórias e isto deve

74
Livros de Transmissões e notas, Registros Diversos e Registros Ordinários do 1º, 2º e 3º Tabelionatos de Pelotas,
Fundo 48, APERS.
75
Sobre este tipo de transações ver também SLENES, Robert. Op. cit., 1976, p. 155-158.
76
Livros de Procurações do 1º, 2º e 3º Tabelionatos de Pelotas e 3º e 4º Distrito de Pelotas, Fundo 48, APERS.
Também existe um número diminuto de procurações deste tipo nos livros de Registros Ordinários, na década de
1860, mas não os incluí na presente análise por privilegiar o período de maior saída de cativos. Além do mais, os
livros específicos de procurações iniciam-se exatamente no ano de 1874 e se estendem até o período republicano.
No entanto, não localizei nenhuma venda por procuração a partir de 1881, daí o marco temporal final de 1880. Tal
fenômeno explica-se pelo fato de que entre 1879 e 1880, as Assembléias Legislativas de São Paulo e Minas Gerais
votaram impostos de 1:000$ a 2:000$ por cada escravo entrado nas suas províncias (BAKOS, Margareth. RS:
Escravidão & Abolição. Porto Alegre. Mercado Aberto, 1982, p. 67). Tal medida diminuía muito os lucros obtidos
no tráfico, inibindo-o.
198
ser levado em conta. Entretanto, foi na década de 1870, que a população cativa de Pelotas
começou a diminuir. Mesmo com a impossibilidade de trabalhar com os sub-registros e as
lacunas documentais, creio que as escrituras públicas e as procurações aqui analisadas fornecem
uma base aproximada do volume de escravos que Pelotas perdeu para o tráfico inter-
provincial. 77

As escrituras públicas de compra e venda de escravos em Pelotas, entre 1850 e 1884,


reúnem 50 transações envolvendo 334 cativos (Tabela 5.6). A maior negociação envolveu 56
escravos numa única escritura, quando além dos cativos, o charqueador Cipriano Rodrigues
Barcellos e o seu genro e sócio Domingos Pinto Mascarenhas também venderam o seu
estabelecimento com todos os pertences, potreiros e o iate Benjamim para Cândido Antônio
Barcellos.78 Mas 29 escrituras, ou 58% das mesmas, envolviam somente um escravo,
perfazendo a maioria das escrituras. No entanto, reunidas elas englobavam somente 8,6% dos
cativos negociados.

Tabela 5.6 – Escravos negociados por escritura em Pelotas (1850-1884)

Escravos Escrituras Escravos


por escritura
1 29 58,0% 29 8,6%
2 9 18,0% 18 5,3%
3 1 2,0% 3 0,9%
4 1 2,0% 4 1,2%
De 10 a 20 4 8,0% 61 18,2%
De 21 a 30 2 4,0% 54 16,2%
De 31 a 40 2 4,0% 67 20,3%
De 41 a 50 1 2,0% 42 12,5%
De 51 a 60 1 2,0% 56 16,8%

Total 50 100% 334 100%


Fonte: Livros de Transmissões e notas, Registros Diversos e Registros
Ordinários do 1º, 2º e 3º Tabelionatos de Pelotas, Fundo 48, APERS.

Analisando estes mesmos documentos para outros municípios do Rio Grande do Sul,
Rafael Scheffer trouxe números importantes sobre o comércio interno na província e que
possibilitam algumas comparações. Se entre 1850 e 1884, Pelotas teve 334 cativos negociados,
Porto Alegre, entre 1854 e 1884, teve 1739 escravos transacionados. Para o mesmo período,

77
Ao contrário do Rio de Janeiro e de São Paulo, por exemplo, no Rio Grande do Sul não vigorou uma taxa fixa
para a cobrança das meias-sisas – imposto de transmissão de escravos. O valor cobrado era de 6% sobre as
transações. A ausência de uma taxa fixa nos impossibilita calcular o número de escravos negociados por município
a partir do total arrecadado nas coletorias, como fez Slenes para o Rio de Janeiro (SLENES, Robert. Op. cit., 1986,
p. 121-124).
78
Transmissões e Notas, Pelotas, 1º Tabelionato, Fundo 48, Livro 9, APERS, p. 105.
199
Rio Grande teve 487, Cruz Alta 549 e Alegrete 139 cativos comercializados. 79 A partir destes
dados percebe-se que os índices da capital são muito altos se comparados aos outros
municípios. Analisando os dados dos Relatórios da DGE percebe-se que Porto Alegre está entre
os municípios que mais perderam cativos na década de 1870, enquanto Pelotas posiciona-se
entre os que menos perderam. 80 Portanto, se os escravistas de Porto Alegre estiveram mais
vulneráveis ao comércio interno, os de Pelotas conseguiram resistir mais a tais transações, seja
para fora do município, seja para fora da Província.

No entanto, as escrituras públicas não trazem muitas informações a respeito dos


compradores e vendedores de escravos. Mas como venho pesquisando há anos a população e as
elites de Pelotas e possuo uma base de dados com centenas de nomes de habitantes (composta
por diferentes fontes pesquisadas), consegui determinar ao menos os que são estabelecidos no
município. Das 50 escrituras relacionadas, pelo menos 25 (50%) possuíam compradores que
residiam no próprio município. Entretanto, estas 25 pessoas compraram 303 escravos, ou seja,
90,7% do total. Portanto, a grande maioria dos escravos negociados nas escrituras permaneceu
no município e não foi enviada para o sudeste do Brasil. Dos outros 9,3% de cativos que foram
vendidos para proprietários que creio serem de fora do município, nenhum pertencia a um
charqueador. Portanto, de acordo com este corpo documental, nenhum dos escravos vendidos
para fora de Pelotas (e da Província) fazia parte do plantel de alguma charqueada. Dos 31
escravos vendidos para fora de Pelotas, 17 eram homens e 14 mulheres. Além do mais, 20 deles
foram negociados após 1874.

Contudo, isto não significa que os charqueadores não vendessem seus escravos. Das 50
escrituras, 19 apresentaram estes proprietários envolvidos como compradores e 11 como
vendedores, sendo que destas vendas, 10 foram para charqueadores. O total de escravos
negociados entre dois charqueadores ou entre um charqueador e um familiar próximo são de
279 cativos, ou seja, 83,5% dos escravos negociados pertenciam aos charqueadores e, portanto,
foram transferidos de um proprietário para outro. Tal índice revela uma enorme concentração
nestas transações, mas também que alguns destes empresários vinham sentindo as dificuldades
financeiras do período, tendo que repassar parte do seu patrimônio para outros concorrentes.
Portanto, estas transações revelam que a grande maioria destes escravos continuou a
permanecer no município. Cruzando estes dados com os verificados anteriormente sobre a

79
SCHEFFER, Rafael da Cunha. Comércio de escravos no Rio Grande do Sul (1850-1888): transferências intra e
interprovinciais, perfis de cativos negociados e comerciantes em cinco municípios gaúchos. In: Anais do V
Encontro de Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional. Porto Alegre: UFRGS, 2011, p. 2.
80
Relatório de 1878. Op. cit., p. 142.
200
concentração de renda e de cativos, é possível perceber que os charqueadores compradores
eram exatamente os mais ricos do grupo inventariado ou os seus próprios filhos. Juntos, José
Antônio Moreira, João Simões Lopes, Antônio José da Silva Maia, Dr. Antônio José Gonçalves
Chaves, Aníbal Antunes Maciel, Antônio José de Oliveira Castro, Possidônio Mâncio Cunha e
Cândido Antônio Barcellos, compraram 58,6% de todos os escravos negociados no período ou
70,3% dos escravos negociados somente entre charqueadores. Portanto, os charqueadores mais
pobres tiveram sua escravaria drenada pelos charqueadores mais ricos. Estas transações foram
intensas nas três primeiras décadas e tenderam a cair na última, pois 105 cativos foram
vendidos nos anos 1850, 90 nos anos 1860, 96 na década de 1870 e 43 na de 1880.

Além do mais, é provável que muitas outras transações comerciais entre os


charqueadores envolvendo escravos foram realizadas sem que tenham sido registradas nos
livros de notas dos tabelionatos. Um exemplo pode ser dado no processo de liquidação da
charqueada da Viúva Vianna & Filho, entre 1864-1866. Dos 38 escravos leiloados, 15 foram
comprados por charqueadores, dentre os quais estavam aqueles pertencentes ao grupo dos mais
ricos, como José Antônio Moreira (o Barão de Butuí), Felisberto Inácio da Cunha (o Barão de
Corrientes) e Joaquim da Silva Tavares (o Barão de Santa Tecla). 81 Nenhuma destas compras
foi registrada em cartório e, portanto, elas não estão contabilizadas no cálculo realizado acima.
Os charqueadores deviam estar sempre atentos aos leilões dos falidos, pois se tratava de uma
grande oportunidade de levantar mais mão de obra para suas fábricas.

Como mencionei anteriormente, para obter uma visão mais privilegiada do tráfico inter-
provincial é necessário analisar as procurações de venda de escravos assinadas em Pelotas para
outras localidades. A partir da leitura das mesmas, localizei 382 escravos sendo negociados por
procuração entre 1874 e 1880.82 Trata-se de um número muito grande de cativos negociados
num curto espaço de tempo e que supera de longe as transações realizadas nas escrituras
públicas analisadas anteriormente. Pouco mais de 90% das procurações analisadas negociam
somente um escravo. As demais envolvem mães com filhos menores ou no máximo dois
escravos. Além do mais, os anos iniciais apresentaram um fluxo de vendas maior que os finais,
demonstrando que no fim da década de 1870 a inserção de Pelotas no tráfico interno vinha se
enfraquecendo.83

81
Processo de Liquidação de Vianna & Filhos, n. 2.568, m. 74, 2º cartório do cível, Pelotas, 1865 (APERS).
82
Na realidade localizei 403 cativos sendo negociados. Entretanto, 21 deles tratavam-se dos mesmos escravos
sendo vendidos outra vez pelo mesmo senhor, o que indica que a primeira transação havia fracassado.
83
Como se pode verificar: em 1874 (42 cativos vendidos), em 1875 (115), em 1876 (116), em 1877 (41), em 1878
(33), em 1879 (31), em 1880 (4). A partir das procurações que pesquisei em Pelotas foi possível localizar 169
indivíduos ou firmas diferentes envolvidas neste comércio. Destes, 104 (61,5%) negociaram somente 1 escravo e
201
Nem todos os negócios analisados envolviam a saída de escravos de Pelotas para o
exterior da província. Dos 382 escravos negociados por procuração, 83 (21,7%) não pertenciam
a senhores de Pelotas. Tratavam-se, na verdade, de proprietários de municípios vizinhos que
foram até Pelotas para venderem seus escravos ou enviaram procuradores para tal fim. 84 Esta
simples informação revela que Pelotas, como núcleo urbano e comercial de destaque na
Província, também era um pólo que reunia muitos compradores de cativos. Portanto, ao invés
de somente adentrarem o interior da província procurando escravos para comprar, creio que os
traficantes também permaneciam em Pelotas e Rio Grande a espera dos mesmos.85

Portanto, como 83 dos 382 escravos pertenciam a senhores de outros municípios,


somente 299 eram de proprietários de Pelotas. Mas ainda é necessário fazer outra ressalva.
Destes 299 escravos, 47 foram vendidos por procuração para municípios da própria província,
ou seja, não entraram no circuito do tráfico inter-provincial. Destes 47 escravos, 18 eram de
distritos rurais de Pelotas e foram vendidos na própria cidade. 86 Trata-se de uma outra
modalidade de comércio que poderia ser chamada de intra-municipal e que transferia mão de
obra de pequenos senhores de áreas rurais para outros mais bem capitalizados. Infelizmente não
é possível saber quais proprietários em Pelotas foram os compradores destes escravos, pois o
documento traz apenas o nome do procurador, autorizando-o a vendê-lo pelo maior preço
possível. Mas como vimos que um grupo de charqueadores drenou boa parte dos cativos
comercializados pelas escrituras públicas é possível que alguns deles possam ter comprado
estes escravos também.

Portanto, dos 382 escravos negociados, 252 (66%) pertenciam a proprietários pelotenses
e foram remetidos por procuração para o sudeste do Brasil. 87 Como estou interessado no tráfico
inter-provincial e na participação do plantel dos charqueadores no mesmo, analisarei somente

não voltaram a aparecer nos registros. Mas no topo deste grupo, 5 comerciantes concentraram 47% dos escravos
transacionados. Só a firma Bastos, Souza & Cia negociou 96 dos 382 cativos ou 25,1% do total. Em seguida,
aparecem Angelino Soveral com 29 escravos negociados, João José Ribeiro Guimarães com 21 cativos, Leivas,
Saraiva & Cia com 20 e Duarte Souza & Cia com 16.
84
Os mais destacados eram Canguçu (22), Piratini (17), Caçapava (7) e Jaguarão (5).
85
Destes 83 escravos que pertenciam a senhores de fora de Pelotas, somente 14 tiveram procurações assinadas para
serem vendidos exclusivamente em Pelotas. Portanto, a maioria era destinada para outros mercados, sobretudo no
sudeste do Império. Destes 83 cativos, 66 tiveram procurações passadas para serem vendidos no sudeste. Estas
podiam aparecer como procurações passadas para o Rio de Janeiro (15 casos) ou “qualquer parte do Império” (51
casos). Cruzando o nome dos agentes envolvidos neste comércio, creio que os escravos encaminhados para “todo o
Império” também eram enviados para o Rio e daí para os cafezais do sudeste. Tal definição devia ser necessária
para não causar empecilho nos casos dos escravos serem vendidos em São Paulo com a mesma procuração.
86
Destes 47 escravos, 6 foram vendidos para Rio Grande, 5 para Porto Alegre, 3 para Alegrete, 2 para Santa
Vitória do Palmar, 1 para Santa Maria, 1 para Bagé, 1 para Canguçu e o restante tiveram procurações para serem
vendidos em qualquer parte da província. Algumas destas transações são realizadas entre parentes.
87
Destas 252 procurações, 249 foram assinadas para o Rio ou Império, 2 para São Paulo ou Rio e 1
exclusivamente para Minas Gerais. Como já mencionei, as procurações enviadas para o Império também
envolviam comerciantes estabelecidos no Rio.
202
este grupo de cativos. É somente nele que encontrei charqueadores vendendo escravos. Destes
252 cativos, 92 eram mulheres e 160 eram homens. Portanto, as mulheres também compuseram
de forma significativa o grupo de escravos remetidos para o sudeste, pois totalizaram 36,5% dos
cativos vendidos. As idades destes escravos vão desde crianças de poucos anos negociadas
juntamente com suas mães até adultos de 52 anos. Separando somente os escravos entre 15 e 40
anos temos 69 mulheres (75% das negociadas) e 120 homens (75% dos negociados).

Quanto à naturalidade dos escravos, verifica-se que somente 10 não apresentaram tais
informações. Do restante, 218 (90%) haviam nascido no Rio Grande do Sul, mas também
existiam crioulos provenientes de outras províncias, como Bahia (6), Pernambuco (4), Mato
Grosso (1), São Paulo (1), Maranhão (1), Minas Gerais (1), Paraná (1) e Santa Catarina (1). Do
grupo total de escravos negociados, somente 7 eram africanos, ou seja, 2,7%. Trata-se de um
índice bastante pequeno para uma localidade onde a presença de africanos nos inventários após
1850 alcançou uma média de 31,8%.88 As fontes não revelam se havia uma preferência dos
comerciantes por escravos crioulos e se os mesmos seriam mais fáceis de serem vendidos aos
cafeicultores, mas outras pesquisas podem contribuir com este ponto.89

O fato é que a análise da naturalidade dos cativos revela que alguns deles, como o
carneador João Baiano, migraram forçosamente para outra região pela segunda vez,
vivenciando uma realidade sócio-econômica e cultural distinta. É possível que João tivesse
trabalhado cortando cana ou plantando fumo na Bahia ou até mesmo em um engenho de açúcar
de algum proprietário empobrecido. Chegando em Pelotas, foi empregado na charqueada de
Junius Brutus de Almeida, onde teve que aprender o ofício de carneador e adaptar-se ao
rigoroso inverno da região. Em 1875, o destino lhe reservara outra viagem sem volta. Desta
vez, João Baiano foi vendido para comerciantes cariocas para provavelmente servir como mão
de obra em alguma fazenda de café, em São Paulo.

Quanto às profissões dos mesmos 252 escravos, 81 não apresentaram informações ou


não possuíam ofícios. 90 Entre os homens, havia 37 campeiros, de longe o grupo mais
representativo. Também merecem destaque os cozinheiros (11), os copeiros (10), os roceiros

88
PESSI, Bruno S. Estrutura da posse e demografia escrava em Pelotas entre 1850 e 1884. In: Anais do V Encontro
Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional. Porto Alegre: UFRGS, 2011, p. 14
89
Estudando o tráfico interno em Mariana, Camila Flausino localizou 10,9% de africanos sendo negociados na
década de 1860 e 9,3% na década de 1870 (FLAUSINO, Camila. Op. cit., p. 80). Mas estas transações não
envolviam regiões não-cafeicultoras para regiões cafeicultoras, como a totalidade das transações de Pelotas, por
exemplo.
90
Dos que não tiveram a ocupação declarada no documento, 37 eram maiores de 14 anos, 22 tinham 14 anos ou
menos e 6 não tiveram a idade revelada. Dos que foram classificados como “sem ofício”, 13 possuíam 14 anos ou
menos e 3 eram maiores de 14 anos.
203
(8), os serventes (6), os marinheiros (5), os serviçais domésticos (5) e os carpinteiros (4). Entre
as mulheres, as cozinheiras eram as mais vendidas, somando 20 cativas. As mesmas eram
seguidas pelas serviçais domésticas (16), as costureiras (8), as lavadeiras (8), as mucamas (3) e
as engomadeiras (2). É possível verificar que, apesar do número significativo de campeiros,
uma boa parte dos escravos exercia atividades mais vinculadas aos serviços domésticos.

A partir das profissões elencadas acima já é possível extrair conclusões sobre a pouca
participação das charqueadas no tráfico inter-provincial. Para matizar melhor estas informações,
separei todos os senhores dos 252 escravos vendidos em dois grupos: os charqueadores e os
não-charqueadores. Do total de escravos, somente 29 (ou 11,5%) pertenciam ao grupo dos
charqueadores, que reunia 19 proprietários. O empresário que mais vendeu cativos para o
sudeste foi Junius Brutus de Almeida, que remeteu 6 escravos. José Antônio Moreira Júnior
vendeu 3, e mesmo assim foram cativos herdados do seu avô. Outros 3 charqueadores
venderam 2 escravos cada. O restante perdeu somente um escravo para os cafezais do sudeste.

Arrolando o sexo e a profissão dos escravos vendidos, a participação do plantel das


charqueadas no tráfico torna-se ainda mais irrisória. Dos 29 escravos negociados, 4 eram
mulheres, sendo uma doméstica, uma cozinheira e outras duas sem ocupação declarada.
Portanto, não estavam vinculadas diretamente ao rude serviço das charqueadas. Sobram,
portanto, 25 homens. Para 7 deles não foi declarada a ocupação. Do restante, havia 4 campeiros,
4 marinheiros, 3 copeiros, 3 carneadores, 2 cozinheiros, 1 cangueiro, 1 calafate e 1 carpinteiro.
Não é possível saber se os escravos campeiros estavam exercendo seus ofícios nas charqueadas
ou nas estâncias dos seus senhores localizadas em outros municípios.

Apesar da importância de todos os escravos arrolados, é necessário dizer que havia


somente 3 carneadores, ofício diretamente vinculado ao trabalho no interior das charqueadas,
entre os cativos vendidos para o sudeste. A venda de cozinheiros, copeiros e domésticas talvez
revele que alguns charqueadores preferiam abrir mão de uma vida senhorial rodeada por
serviçais, a ter que diminuir a mão de obra especializada em suas fábricas. Portanto, dos 252
escravos que Pelotas perdeu para o tráfico inter-provincial entre 1874 e 1880, somente 29
pertenciam a charqueadores e destes só 3 eram carneadores. Pode-se somar a estes os campeiros
e marinheiros, economicamente importantes, mas que prestavam serviços principalmente fora
dos galpões de charquear. Estes 11 cativos perfaziam 4,3% dos escravos que Pelotas perdeu
para o tráfico inter-provincial e representam 0,07% dos 15.448 cativos que a província inteira
perdeu por óbitos, alforrias e tráfico interno, entre 1874 e 1884.

204
Se as charqueadas participaram do tráfico inter-provincial de escravos, certamente não
foram como vendedoras, mas sim como compradoras de cativos. Investigando os dados
referentes à naturalidade dos escravos nos inventários de charqueadores abertos após 1872, é
possível verificar uma significativa parcela de cativos nascidos no nordeste brasileiro nos
plantéis das charqueadas.91 Dentre os 142 escravos do plantel do Barão de Butuí, 18 (12,6%)
eram naturais do nordeste. Tratava-se de 16 cativos baianos, 1 sergipano e 1 cearense. Do
plantel de 120 escravos do coronel Aníbal Antunes Maciel, 7 (6%) eram “nordestinos”, sendo 4
baianos e 3 pernambucanos. Mas não eram somente os charqueadores ricos que participavam
ativamente deste tráfico. No plantel de um charqueador como Domingos Soares Barbosa, que
apresentou uma fortuna mediana de 9 mil libras, este índice foi de 19,5%. Dos seus 83 escravos,
9 eram cearenses, 3 baianos, 3 pernambucanos e 1 paraibano. Portanto, quase 1/5 do seu plantel
havia sido comprado de senhores do nordeste.92 Esta entrada de cativos de outras províncias
para o Rio Grande do Sul também foi verificada por Rafael Scheffer. Ao analisar as escrituras
de notas em Rio Grande, o autor verificou que 25% dos escravos negociados vinham de outras
províncias, sendo o Rio de Janeiro o principal fornecedor de cativos com 13,7%, seguido por
Pernambuco, Santa Catarina e a Bahia. 93 Uma carta enviada pelo comerciante baiano Antônio
Vieira da Silva ao comerciante e charqueador de Pelotas, Manoel das Neves Lobos, ilustra bem
este fluxo de cativos do nordeste para o Rio Grande do Sul:

Bahia, 15 de junho de 1861. Amigo e Sr. Nesta ocasião, segue a nossa Barca
Henriqueta a sua consignação e lastro de sal do Assú e também com alguma carga a
frete levando também 22 escravos para V. Mce. os vender pelo melhor preço que
puder, bem entendido dos preços que vão marcados da lei para cima, sendo que V.
Mce. os não possa vender pelos preços marcados V. Mce. me avisará logo no primeiro
vapor para eu dar as minhas ordens para fazer seguir para o Rio de Janeiro (…).94

Tendo em conta o grande fluxo de navios que retornavam do nordeste para o Rio
Grande do Sul (nos anos 1870, mais de 80% do charque era remetido para Salvador e Recife),
não é difícil concluir que ao invés de perder escravos para os cafezais, como se defendeu, os
charqueadores foram responsáveis, mesmo que em menor medida, pela baixa dos cativos do

91
Como é sabido, deste ano em diante as cópias das matrículas dos escravos deviam ser obrigatoriamente anexadas
aos inventários. Estes documentos trazem informações importantes sobre as profissões, naturalidade, filiação dos
cativos, entre outros. Conforme informado na introdução desta tese, uso o termo “nordeste” para facilitar a
compreensão do leitor, uma vez que o mais adequado para a época, em se tratando daquela região, era chamá-la de
“norte” do país.
92
Inventário do Barão e da Baronesa de Butuí. N. 647, m. 41, 1º cartório de órfãos e provedoria, Pelotas,
1867/1877 (APERS); Inventário de Aníbal Antunes Maciel, N. 815, m. 48, 1º cartório de órfãos e provedoria,
Pelotas, 1875 (APERS); Inventário de Domingos Soares Barbosa. N. 943, m. 54, 1º cartório de órfãos e
provedoria, Pelotas, 1881 (APERS).
93
SCHEFFER, Rafael. Op. cit., p. 16.
94
Processo de Liquidação de Vianna & Filhos, n. 2.568, m. 74, 2º cartório do cível, Pelotas, 1865 (APERS).
205
nordeste, o que de certa forma inverte as explicações clássicas sobre a relação da mão de obra
escrava, a crise nas charqueadas e sua inserção no tráfico interno. Na década de 1870, Pelotas
ainda era uma grande compradora de cativos. Em 1876, por exemplo, 217 escravos haviam
entrado no município 95, ou seja, muito mais do que os 116 vendidos por procuração para os
cafezais do sudeste naquele mesmo ano. Analisando também a segunda metade da década de
1870, Rafael Scheffer verificou que 29,6% das procurações para venda de escravos passadas
em Alegrete, município rio-grandense da fronteira oeste, autorizavam a negociação dos mesmos
em Pelotas.96 Tal fluxo que tinha como destino Pelotas deve ter se repetido em outros
municípios do interior do Rio Grande do Sul, pois Pelotas foi a localidade da província que
apresentou o maior êxito em retardar a perda de cativos durante o auge do tráfico inter-
provincial. Comparando os dados da população escrava no Rio Grande do Sul entre 1859 e
1884, percebe-se que Pelotas foi um dos dois municípios que não tiveram sua população cativa
diminuída neste intervalo de tempo. 97 Além do mais, em 1884, Pelotas constituía-se no
município com o maior número de escravos na Província, lugar que havia sido ocupado por
Porto Alegre na década precedente.98 Portanto, além de estender seus braços para o exterior da
província, comprando cativos do nordeste, um pequeno grupo de charqueadores parecia estar
drenando parte da escravaria dos municípios vizinhos e da própria população pelotense.99 Isto
tudo ajuda a explicar a permanência da alta razão de sexo entre os plantéis dos charqueadores
dos anos 1860 ao ano 1880.

Não é possível saber a quantidade de escravos vendidos e comprados em Pelotas, cujas


transações não foram registradas em cartório. Mas creio que as compras devem ter compensado
as vendas, pois, conforme os dados que apresentarei agora, os números de escravos vendidos
por Pelotas que analisei até aqui são próximos do que de fato o município teria perdido no
período. Somando as vendas por procurações com as vendas por escrituras, é possível verificar
que Pelotas perdeu 272 escravos entre 1874 e 1884. Estes números podem ser testados
comparando a população cativa de Pelotas entre 1873 e 1884. Se em 1873 Pelotas teve 8.141

95
Relatório da DGE. Op. cit., 1878, p. 142.
96
SCHEFFER, Rafael. Op. cit., p. 6.
97
BAKOS, MArgareth. Op. cit., p. 22-23. O outro município foi Santa Maria.
98
Relatório da DGE. Op. cit., 1878, p. 142.
99
Este fenômeno não é uma peculiaridade sul-rio-grandense. Em outras províncias, grandes proprietários de terra
conseguiram ter mais sucesso em manter os seus plantéis, em detrimento dos médios e pequenos proprietários.
Mas como já mencionei, em Pelotas nem todos conseguiram participar deste mercado como compradores, pois as
crises que afetaram o setor desde a década de 1850 derrubaram muitas famílias charqueadoras, como será tratado
em capítulos posteriores. Richard Graham e Erivaldo Neves, por exemplo, demonstraram esta tendência para a
Bahia (GRAHAM, Richard. “Nos tumbeiros mais uma vez? O comércio interprovincial de escravos no Brasil”.
Afro-Ásia, n. 27, 2002, p. 121-160; NEVES, Erivaldo Fagundes. Sampauleiros traficantes: comércio de escravos
do alto sertão da Bahia para o Oeste cafeeiro paulista. In: Afro-Ásia, n. 24, 2000).
206
escravos matriculados e em 1884 contava com 5.918, significa que sofreu uma diminuição de
2.223 cativos no período. Esta diminuição foi resultado dos óbitos, das alforrias e das vendas
para fora da Província. Entre 1874 e 1884, conforme Beatriz Loner, foram arrolados 1.175
óbitos de escravos em Pelotas. 100 Com relação às manumissões, Jorge Euzébio Assumpção
localizou 893 escravos sendo libertados em Pelotas, entre 1874 e 1883. 101 Portanto, somando-se
os óbitos, as alforrias e os escravos negociados, tem-se 2.340 cativos. É um número que supera
os 2.223 cativos mencionados acima, mas apresenta uma margem de erro totalmente aceitável,
uma vez que os censos e estatísticas da época não primavam por uma exatidão. A diferença
também pode ter sido consequência da entrada de cativos em Pelotas que não foram registradas
em cartório. Portanto, estas cifras revelam que as alforrias e os óbitos foram os grandes
responsáveis pela diminuição do número de cativos no município perfazendo 38% e 50% das
perdas no período.102

Assim sendo, não houve uma crise nas charqueadas capaz de provocar um grande
deslocamento dos seus escravos para o sudeste e nem a suposta perda dos escravos das
charqueadas para os cafezais estava na raiz da crise final das charqueadas, como alguns autores
defenderam. Amparado na mencionada tese de Berenice Corsetti, Robert Slenes argumentou
neste sentido ao perceber que entre 1877 e 1879 cerca de 17% a 25% dos escravos
comercializados em Campinas provinham do Rio Grande do Sul. 103 Entretanto, foi exatamente
entre os anos de 1877 e 1879 que a economia charqueadora apresentou um rápido salto
econômico. Além das exportações de charque e dos preços do produto terem aumentado em tal
conjuntura (ver os Gráficos 8.1 e 8.2 no capítulo 8), a safra de 1877/1878 apresentou um
enorme incremento em termos de abate. Se em 1877, foram abatidos 307.837 novilhos, no ano
posterior este índice alcançou os 414.147, ou seja, o maior entre 1875 e 1890 (ver o Gráfico 7.1
no capítulo 7). Portanto, é difícil pensar que os anos entre 1877 e 1879 possam ter sido
desanimadores tanto para os criadores de gado (visto que o número de novilhos remetidos da
região da campanha para Pelotas aumentou bastante) quanto para os charqueadores ao ponto de
configurarem uma crise que os levasse a vender seus escravos para os cafezais do sudeste.

Portanto, o aumento do fluxo de escravos rio-grandenses para o sudeste na década de


1870 realmente existiu, mas não significa que sua saída tenha sido consequência de uma
suposta crise nas charqueadas, uma vez que regiões inteiras que não apresentavam conexões

100
LONER, Beatriz. Op. cit., p. 30.
101
ASSUMPÇÃO, Jorge E. Op. cit., p. 290.
102
É muito provável que tal afirmação também sirva para todo o Rio Grande do Sul, diminuindo o impacto do
tráfico interno na escravaria provincial – defendido por Robert Conrad.
103
SLENES, Robert. Op. cit., 1986, p. 133.
207
com o comércio de gado para Pelotas foram grandes perdedoras de cativos no período.104 O Rio
Grande do Sul, nesta época, era muito mais do que um gigante campo destinado a engordar e
abater bovinos. A economia provincial entre as décadas de 1850 e 1880 apresentou uma
significativa produção de alimentos agrícolas que, além de abastecer o mercado interno na
província e fora dela, não dependia das pulsações da economia charqueadora.105 Portanto, não é
possível relacionar diretamente as substanciais saídas de escravos da província com a crise das
charqueadas pelotenses sem verificar quais eram as regiões e os senhores que estavam perdendo
cativos e quais os escravos do seu plantel estavam sendo vendidos.106 O processo que marcou as
décadas finais da monarquia apresentou uma nítida drenagem de mão de obra dos ricos
charqueadores para com os pequenos e médios. Em se tratando de um estudo sobre elites, é
possível considerar que estes charqueadores mais ricos compunham um importante setor da
elite regional que conseguiu impor-se sobre os demais concorrentes tanto no meio mercantil
quanto no meio agrário. Concentrando riqueza e mão de obra, este charqueadores conseguiram
resistir às crises que afetaram o setor entre as décadas de 1850 e 1880 e que serão tratadas nos
capítulos posteriores. Contudo, numa conjuntura em que os plantéis se renovavam
continuamente e na qual o número de mulheres era bastante pequeno, como os charqueadores
administravam seus escravos? Tratarei disto no capítulo posterior.

104
Como, por exemplo, os municípios de Porto Alegre e São Leopoldo, que estão entre os que mais perderam
escravos para o tráfico (Relatório da DGE. Op. cit., 1878, p. 142). Passo Fundo, Cachoeira do Sul e Triunfo, por
exemplo, também sofreram uma enorme perda entre 1859 e 1884 (BAKOS, Margareth. Op. cit., p. 22-23).
105
Sobre a produção agrícola na Província ver ZARTH, Paulo A. História Agrária do Planalto Gaúcho. Ijuí:
Editora da UNIJUÍ, 1997; ROCHE, Jean. A colonização alemã e o Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora
Globo, 1969; FARINATTI, Luis A. Sobre as Cinzas da Mata Virgem: os lavradores nacionais na província do
Rio Grande do Sul (Santa Maria: 1845-1880). Dissertação de Mestrado. PPGH-PUCRS, 1999. Sobre como as
exportações rio-grandenses de farinha, feijão e milho haviam se intensificado nas décadas de 1850 e 1860,
chegando inclusive, em alguns anos, a superar Minas Gerais no abastecimento da Corte, ver GRAÇA FILHO,
Afonso de A. Os convênios da carestia: crises, organização e investimentos do comércio de subsistência da Corte
(1850-1880). Rio de Janeiro: UFRJ, Dissertação de Mestrado, 1992, p. 33-34. Para uma análise da importância da
produção agrícola rio-grandense na época ver SOARES, Sebastião Ferreira. Notas estatísticas sobre a produção
agrícola e carestia dos gêneros alimentícios no Império do Brasil. Rio de Janeiro: IPEA/INPES, 1977.
106
Camila Flausino chegou a conclusões interessantes ao estudar o tráfico interno em Mariana. Contrariando uma
historiografia tradicional que insistia na perda de cativos das regiões auríferas após a crise mineradora, a autora
demonstrou que as transações de escravos foram, sobretudo, intra-municipais. Cerca de 61% dos cativos vendidos
entre 1850 e 1886 permaneceram em Mariana. A tese de que os municípios cafeicultores drenaram os escravos das
regiões auríferas também foi relativizada, pois somente 6,9% dos negociados tiveram como destino os cafezais
(FLAUSINO, Camila. Op. cit., p. 111-116).
208
6. SENHOR E PATRÃO: OS CHARQUEADORES, A ADMINISTRAÇÃO
DOS ESCRAVOS E O MUNDO DO TRABALHO NAS CHARQUEADAS

I ain’t gonna work on Maggie’s farm no more


No, I ain’t gonna work on Maggie’s farm no more
Well, I wake in the morning
Fold my hands and pray for rain
I got a head full of ideas
That are drivin’ me insane
It’s a shame the way she makes me scrub the floor
I ain’t gonna work on Maggie’s farm no more

Bob Dylan - Maggie’s Farm (1965)

Em janeiro de 1886, o presidente da Província do Rio Grande do Sul escrevia ao


Ministro do Império solicitando o seguinte:

Joaquim da Silva Tavares, irmão do Barão de Itaqui e do Dr. Francisco da Silva


Tavares, libertou, no mesmo município de Pelotas e em igualdade de condições, 68
cativos, tornando-se merecedor de que o Governo Imperial, em remuneração de tão
assinalado serviço à humanidade, conceda-lhe o título de Barão de Pirahy ou de Santa
Tecla. Para que V. Ex. se digne de apreciar a importância daquele ato de abnegação,
informo, ainda, a V. Ex. que, em consequência dele, as charqueadas daquele cidadão
acham-se hoje abandonadas, porque muitos dos libertos sob condição de prestação de
serviços têm deixado de cumprir a obrigação do respectivo contrato.1

No meado dos anos 1880, tanto o Império quanto a economia charqueadora e a


escravidão – um casamento que havia dado certo por mais de 60 anos – agonizavam
nitidamente. Os Silva Tavares, que já haviam defendido a monarquia com toda a sua força em
1835, contribuíram com o Império em todas as guerras que marcaram o período, vindo a sofrer
as consequências da mencionada decadência das charqueadas. Anos antes, quem poderia
imaginar que no seio de família tão poderosa, nem os seus ex-escravos os respeitariam,
quebrando os contratos de trabalho firmados com seus ex-senhores? O título de Barão de Santa
Tecla foi o seu prêmio de consolação. O estatuto nobiliárquico como compensação econômica
estava distante do que um dia havia sido. Conforme José Murilo de Carvalho os títulos de
nobreza apresentaram um forte boom nos anos 1870 e 1880 como uma espécie de indenização

1
Ofício do Presidente da Província para o Ministro do Império, 02.01.1886, SPE-IJJ9 (Arquivo Nacional do Rio
de Janeiro).
209
por perdas materiais relativas ao fim da escravidão.2 E no caso dos charqueadores que viveram
naqueles tempos finais da monarquia o que não faltaram foram perdas...

Como será visto nos próximos capítulos, as décadas de 1850 e 1870 foram marcadas por
grandes flutuações dos preços dos couros e do charque, por crises de superprodução, perda de
mercados consumidores para os concorrentes platinos e o aumento dos preços do gado. Por
conta disto, um grande número de charqueadores faliu. No terreno legal, a Lei Eusébio de
Queiroz (1850) os obrigou a recorrer ao mercado inter e intra-provincial para abastecer
continuamente os seus plantéis pagando preços cada vez mais elevados. A Lei do Ventre Livre
(1871), que, entre outras questões, regulamentou as manumissões e ofereceu maiores garantias
jurídicas aos escravos contra os seus senhores, trouxe a certeza de que a presença da mão de
obra cativa nos estabelecimentos não duraria mais muito tempo. Se os charqueadores pelotenses
conseguiram resistir às investidas dos comerciantes de escravos prontos para levarem seus
trabalhadores para os cafezais do sudeste do Brasil, eles não encontraram uma solução
definitiva que possibilitasse uma transição do trabalho escravo para o trabalho assalariado nas
charqueadas. Neste capítulo exercito algumas reflexões a este respeito.

Neste sentido, a história do Barão de Santa Tecla e de sua escravaria está inserida num
contexto maior que caracterizou o mundo das charqueadas na segunda metade do século e que
tem relação não apenas com as expectativas de futuro dos senhores, como também, com as
expectativas de futuro dos próprios escravos (dentro e fora do cativeiro), pois entendo que estes
processos podem ser melhor compreendidos quando analisados conjuntamente. Assim sendo, as
tentativas para escapar da crise de braços que se anunciava afetaram, mesmo que
desigualmente, a vida dos senhores e dos seus escravos.3

Entretanto, algumas das reflexões realizadas neste capítulo talvez não se encaixem
perfeitamente para a grande maioria dos senhores de escravos do Brasil. Hoje, já se tem como

2
CARVALHO, José M. de. A Construção da Ordem: a elite política imperial e Teatro de Sombras: a política
Imperial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p. 320-322.
3
Embora já se tenha escrito bastante sobre a escravidão em Pelotas, uma análise mais aprofundada a respeito deste
processo não foi realizada. Ver, por exemplo, CARDOSO, Fernando H. Capitalismo e escravidão no Brasil
meridional: o negro na sociedade escravocrata do Rio Grande do Sul. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977;
CORSETTI, Berenice. Estudo da charqueada escravista gaúcha no século XIX. Niterói: ICHF/UFF, Dissertação
de Mestrado, 1983; MAESTRI FILHO, Mário. O escravo no Rio Grande do Sul: a charqueada e a gênese do
escravismo gaúcho. Porto Alegre: EST, 1984; GUTIERREZ, Ester J. B. Negros, charqueadas & olarias: um
estudo sobre o espaço pelotense. Pelotas: UFPel, 2001; ASSUMPÇÃO, Jorge E. Pelotas: escravidão e
charqueadas (1780-1888). Porto Alegre, PPGH/PUC-RS, Dissertação de Mestrado, 1995; MONASTÉRIO,
Leonardo M. FHC errou? A economia da escravidão no Brasil meridional. In: História e Economia Revista
Interdisciplinar da Brazilian Business School. São Paulo: Terra Comunicação Editorial, v.1, n. 1, 2005, p. 13-28;
PESSI, Bruno S. A organização do trabalho escravo nas charqueadas pelotenses na segunda metade do século XIX.
Anais da VIII Mostra de pesquisa do APERS. Porto Alegre: CORAG, 2010, p. 97-114.
210
algo amplamente aceito, um dos aspectos que caracterizava a escravidão era a preponderância
dos pequenos proprietários de cativos. Além disso, o tipo de trabalho executado nas
charqueadas e a sua alta razão de sexo as tornam mais exceção do que regra. Portanto, o leitor
pode se perguntar: qual a representatividade da presente análise? Respondo que qualquer estudo
das relações entre senhores e escravos é representativa da história desta instituição que marcou
praticamente todas as sociedades do mundo ocidental.4 Quando se aceita a heterogeneidade e a
diversidade de tais sociedades, percebe-se a necessidade de se estudar cada vez mais este
mosaico de formações socioeconômicas surgidas nos quadros do escravismo moderno.5 Isto não
significa que não existam pontos comuns nas mais diferentes sociedades escravistas. De início,
afirmo que um dos principais aspectos (e talvez um dos principais interesses no presente
estudo) é o fator econômico da relação social entre senhores e escravos. Nas charqueadas de
Pelotas, a exploração do trabalho cativo tomou proporções notáveis. Mas, uma vez que estamos
lidando com seres humanos, deve-se pensar que cada senzala possuía os seus caprichos e cada
senhor possuía as suas formas de punir os desobedientes e premiar os bem comportados. Em
relações que alternavam estabilidade e conflito 6, busco contribuir com a compreensão da
maneira na qual o charqueador se comportava enquanto senhor de escravos e enquanto patrão
de uma empresa que visava obter lucros no mercado.7

6.1 A CABEÇA DO SENHOR, AS MÃOS DO CAPATAZ: AS TRANSFORMAÇÕES NO


MUNDO DO TRABALHO NAS CHARQUEADAS ESCRAVISTAS NA SEGUNDA
METADE DO OITOCENTOS

A partir da década de 1840, as graxeiras a vapor importadas da Europa, um novo


equipamento que necessitava de operadores com maior treinamento, foram adotadas por muitos
charqueadores pelotenses. Além de ampliar a quantidade produzida de graxa e sebo, o novo

4
PATTERSON, Orlando. Escravidão e morte social: um estudo comparativo. São Paulo: EDUSP, 2011.
5
BLACKBURN, Robin. A construção do escravismo no novo mundo: do Barroco ao Moderno (1492-1800). Rio
de Janeiro: Record, 2003.
6
Algo também amplamente aceito pela historiografia brasileira desde os anos 1980. Ver, por exemplo, o clássico
REIS, João José; SILVA, Eduardo. Negociação e Conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo:
Cia. das Letras, 1999.
7
Alguns charqueadores também eram absenteístas se pensarmos naqueles que detinham estâncias a dezenas e até
centenas de quilômetros de Pelotas. Mas como esta pesquisa não trata das relações de trabalho nas estâncias, darei
maior atenção ao mundo das charqueadas. Com relação ao trabalho cativo nas estâncias ver OSÓRIO, Helen.
Escravos da Fronteira: trabalho e produção no Rio Grande do Sul, 1765-1825. In: Anales de la XIX Jornada de
História Económica. AAHE, S. M. de los Andes, CD-ROM, 2003; FARINATTI, Luis A. Confins Meridionais:
famílias de elite e sociedade agrária na fronteira sul do Brasil (1825-1865). Santa Maria: UFSM, 2010; ARAÚJO,
Thiago L. de. Escravidão, fronteira e liberdade: políticas de domínio, trabalho e luta em um contexto produtivo
agropecuário (vila de Cruz Alta, província do Rio Grande do Sul, 1834-1884). Dissertação de Mestrado em
História, UFRGS, 2008; MATHEUS, Marcelo S. Fronteiras da liberdade: escravidão, hierarquia social e alforria
no extremo sul do Império do Brasil. São Leopoldo: Oikos/Unisinos, 2012.
211
maquinário oferecia um melhor aproveitamento das vísceras e outras partes dos novilhos e
acelerava o seu processo de fabricação. Tal mudança tecnológica, mesmo que limitada,
evidencia algo que outros historiadores já trataram, ou seja, os charqueadores não se
mantiveram inertes com relação às instalações de suas fábricas, mas investiram em inovações
que buscavam aumentar a produtividade e os ganhos da empresa. 8 Estas inversões, na realidade,
faziam parte de um processo muito mais amplo e que envolvia transformações de ordem
econômica e sociocultural. Como resultado da Lei Eusébio de Queiroz (1850) e do processo de
expansão do capitalismo e dos investimentos britânicos no Brasil, a segunda metade do
oitocentos foi marcada por muitos debates a respeito do uso da mão de obra escrava e livre nas
lavouras brasileiras9, pela introdução de mudanças pontuais em equipamentos e técnicas para
desenvolver melhor a produção em diversos setores econômicos 10 e inversões em outras áreas,
como as altas finanças e as sociedades comerciais, demonstrando um espaço aberto para
debates e investimentos de capitais, antes presos ao tráfico atlântico, por exemplo.11

Entre os ricos proprietários, o trabalho livre e escravo, as inovações tecnológicas e o


aumento da produção eram temas tratados conjuntamente e as alterações num destes aspectos
podia afetar e exigir mudanças nos outros. Com relação às charqueadas pelotenses, é sabido
que, apesar das raras exceções, elas nunca abriram mão do uso da mão de obra escrava. Assim

8
CORSETTI, Berenice. Op. cit.; GUTIERREZ, Ester. Op. cit.
9
Ver, por exemplo, EISENBERG, Peter. A mentalidade dos fazendeiros no Congresso Agrícola de 1878. In:
LAPA, José R. Amaral (Org.). Modos de produção e realidade brasileira. Petrópolis: Vozes, 1980, p. 167-194.
10
Para uma análise das mudanças nos engenhos de açúcar e os investimentos em sua modernização ver
EISENBERG, Peter. Modernização sem mudança: a indústria açucareira em Pernambuco (1840-1910). Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1977. Na Companhia mineradora de Morro Velho, em São João del Rei, Douglas Libby
demonstrou o impacto das máquinas de estilhaçar pedras e da dinamite na economia mineradora (LIBBY, Douglas.
Trabalho escravo e capital estrangeiro no Brasil: o caso de Morro Velho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984, p. 115;
121). Na pecuária, a introdução de raças bovinas e ovinas estrangeiras trouxe um aumento nos rendimentos da
carne por animal e marcou o cenário de inovações do cone sul americano (BARSKY, Osvaldo;
DJENDEREDJIAN, Julio. Historia del capitalismo agrario pampeano. La expansión ganadera hasta 1895.
Buenos Aires: Universidad de Belgrano/Siglo XXI; GARCIA, Graciela. Terra, trabalho e propriedade: a
Estrutura agrária da campanha rio-grandense nas décadas finais do período imperial (1870-1890). Tese de
Doutorado em História: UFF, 2010, p. 78). Para as charqueadas, Corsetti já realizou um inventário a respeito das
principais inovações técnicas do período (as mesmas que descrevi no capítulo anterior) (CORSETTI, 1983, p. 152-
177). Uma análise do mesmo na indústria algodoeira pode ser vista em CANABRAVA, Alice. O algodão em São
Paulo. São Paulo: T. A. Queiroz, 1984. Na cafeicultura, tanto para as inovações quanto para a ausência delas, ver
STEIN, Stanley. Vassouras: um município brasileiro do café, 1850-1900. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990;
FRAGOSO, João. Sistemas agrários em Paraíba do Sul: um estudo de relações não-capitalistas de produção
(1850-1920). Dissertação de mestrado em História, UFRJ, 1983.
11
Ver, por exemplo, GUIMARÃES, Carlos Gabriel. Bancos, Economia e Poder no Segundo Reinado: o caso da
Sociedade Bancária Mauá, MacGregor e Cia (1854-1866). São Paulo: USP. Tese de Doutorado, 1997;
GRAHAM, Richard. Grã-Bretanha e o início da modernização no Brasil. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1973;
FRAGOSO, João L. R.; MARTINS, Maria F. V. As elites nas últimas décadas da escravidão - as atividades
econômicas dos grandes homens de negócios da Corte e suas relações com a elite política imperial, 1850-1880. In:
FLORENTINO, Manolo; MACHADO, Cacilda (Org.). Ensaios sobre escravidão. Belo Horizonte: Ed. UFMG,
2003, p. 143-164. Tratarei da forma como os charqueadores se comportaram com relação a estas novas
oportunidades de investimento no capítulo 9.
212
sendo, as inovações tecnológicas e a racionalização da produção tiveram que ser realizadas
dentro dos quadros de uma empresa escravista, o que não poderia deixar de afetar o mundo do
trabalho nas charqueadas, provocando algumas alterações na sua organização e tendo que se
adaptar a outras. Tais transformações envolveram pelo menos três aspectos durante a segunda
metade do oitocentos: o uso da mão de obra livre assalariada em alguns setores dos
estabelecimentos, os incentivos monetários aos cativos como estímulo ao aumento da produção
e a tentativa de uma maior racionalização da produção para compensar a queda da média dos
plantéis nas charqueadas.

Foi na trilha da inovação trazida pelas graxeiras que os assalariados entraram para
dentro dos estabelecimentos da charqueada e se disseminaram pelas fábricas. Em 1862, por
exemplo, quando os deputados provinciais rio-grandenses discutiam aspectos relativos aos
mercados consumidores do charque, às outras formas de conservação das carnes e ao trabalho
escravo, o charqueador Manoel Lourenço do Nascimento, representante de Pelotas, respondeu
ao deputado Felipe Neri:

Não questiono que o braço escravo seja um mal, e é por isso que os charqueadores
tratam de removê-lo, tanto que se o nobre Deputado fosse hoje a um desses
estabelecimentos, veria que já as graxeiras, a salga de couro e outros trabalhos são
feitos por braços livres. Antigamente, em qualquer daqueles estabelecimentos, não se
via homens livres além do capataz e algum patrão de iate (…).12

Conforme Nascimento, podia-se verificar o uso de trabalhadores livres em diferentes


espaços da charqueada. Na liquidação da empresa da firma Viúva Vianna & Filhos, por
exemplo, foi possível verificar a cobrança de salários por dois capatazes, um rondador, o patrão
do iate e os peões da charqueada.13 Algumas charqueadas também possuíam guarda-livros e
outras, além destes, podiam apresentar um administrador – uma espécie de gerente de produção
(que podia ser um parente do charqueador) mas que talvez só veio a aparecer nas últimas
décadas. 14 Contudo, com relação aos trabalhadores de menor prestígio, o assalariamento era
algo bastante precário. Analisando o trabalho livre nas charqueada, Denise Ognibeni afirmou
que o pagamento destes trabalhadores era “protelado conforme a vontade do patrão”.15 De fato,

12
Neri defendia que o uso do trabalho escravo era um dos fatores da crise pela qual as charqueadas vinham
passando. Ver discursos dos dias 02.10.1862 e 04.11.1862 (PICCOLO, Helga. Coletânea de Discursos
parlamentares da Assembléia Legislativa Provincial. Porto Alegre: ALRS, v. 1, 1998). Na realidade, como
demonstrarei nos capítulos posteriores, um dos grandes motivos da crise dos anos 1860 foi a superprodução de
charque que fez baixar os preços do produto. Tanto no Rio Grande do Sul, como em Montevidéu e Buenos Aires, a
década foi marcada pela busca de novos mercados para além das plantations de Cuba e do Brasil.
13
Processo de Liquidação da Viúva Vianna & Filhos, n. 2.568, m. 74, 2º cartório do cível, Pelotas, 1865 (APERS).
14
Ver, por exemplo, processo-crime n. 1176, m. 32, Tribunal do Júri, Pelotas, 1881 (APERS).
15
OGNIBENI, Denise. Charqueadas pelotenses no século XIX: cotidiano, estabilidade e movimento. Porto Alegre:
PPGH/PUC-RS, Tese de Doutorado, 2005, p. 117.
213
na liquidação da firma mencionada acima, o patrão do iate cobrou salários referentes aos
últimos 20 anos de trabalho. Suas anotações revelavam que ele era pago eventualmente e que o
charqueador se utilizava tanto de dinheiro quanto de mercadorias e bens diversos para
remunerá-lo. Com os totais que recebeu ao final do processo judicial, o trabalhador comprou
um escravo marinheiro da massa falida dos charqueadores (talvez seu companheiro de trabalho
durante anos) e deve ter dado um importante salto em termos de mobilidade social, podendo
fazer fretes por sua conta.16

Portanto, o trabalho assalariado na charqueada constituía-se numa relação social e


econômica muito complexa, pois ao mesmo tempo em que ele se sustentava nos vínculos de
dependência dos empregados para com o patrão, também devia estimular os trabalhadores a
buscarem relações de trabalho melhores em outras charqueadas ou ramo de atividades. E isto
talvez fosse muito comum, pois, conforme Louis Couty, um dos motivos pelos quais os
charqueadores preferiam utilizar escravos ao invés de assalariados livres era a inconstância e
sazonalidade destes últimos. Para os charqueadores, os escravos seriam menos difíceis de
controlar.17 Uma vez que a inconstância do trabalho livre era uma das grandes queixas dos
charqueadores, cabia ao empresário criar mecanismos para manter aqueles trabalhadores por
perto e em tempo disponível na safra.18 A análise de alguns processos criminais nos quais os
mesmos eram testemunhas permitiu verificar que muitos destes trabalhadores moravam na
própria charqueada, em quartos exclusivos para os mesmos e tinham alimentos fornecidos pelo
próprio charqueador, que provavelmente eram descontados dos seus salários. 19 De acordo com
Ognibeni, aos empregados “restava manter uma relação de maior dependência usufruindo como
pagamento, de seu local de moradia este, em alguns casos, associado a outros suprimentos
como alimentação e terras para roçar”.20 Nos saladeros platinos, os patrões também utilizavam
a alimentação como parte do pagamento dos trabalhadores. Couty diz que além dos
vencimentos, cada operário recebia de 3 a 4 quilos de carne por dia de trabalho.

16
Processo de Liquidação da Viúva Vianna & Filhos, n. 2.568, m. 74, 2º cartório do cível, Pelotas, 1865 (APERS).
17
COUTY, Louis. A Erva mate e o Charque. Pelotas: Seiva, 2000 [1880].
18
O problema da inconstância dos trabalhadores livres nos saladeros e charqueadas e nas estâncias da campanha e
da região platina não foi incomum. Ver, por exemplo, MONTOYA, Alfredo. Historia de los saladeros argentinos.
Buenos Aires: Ed. Raigal, 1956, p. 17-19; MONSMA, Karl. Esclavos y trabajadores libres en las estancias del
siglo XIX. Un estudio comparativo de Rio Grande do Sul y Buenos Aires. In: REGUERA, Andrea; HARRES,
Marluza. (Org.). De la región a la nación. Formas históricas en la construcción del Estado: identidad y
representación. Brasil y Argentina en perspectiva comparada (ss. XIX y XX). Tandil: Universidad Nacional del
Centro de la Provincia de Buenos Aires, 2012, p. 83-120; FARINATTI, Luís A. Op. cit.
19
Processo-crime n. 1194, m. 33, Apelação crime, Pelotas, 1882, APERS; Inventário de José P. Sá Peixoto, n. 276,
m. 19, 1847, 1º cart. órfãos e provedoria, Pelotas (APERS).
20
OGNIBENI, Denise. Op. cit., p. 117.
214
Soma-se a isto o fato de que os trabalhadores não estavam descolados do mundo rural
do qual as charqueadas também faziam parte. Sua sazonalidade era motivada por uma vida
social e econômica que devia vinculá-los a outras pessoas de fora da charqueada, sobretudo
seus familiares. Neste sentido, os trabalhadores também possuíam as suas estratégias de
sobrevivência na qual o trabalho na charqueada podia ser somente uma das atividades
realizadas pelos mesmos. 21 Nas firmas mineradoras inglesas instaladas em São João del Rei,
por exemplo, os britânicos encontraram grande dificuldade em lidar com a sazonalidade dos
trabalhadores. Após os feriados e dias santos, muitos não iam trabalhar, fazendo o mesmo nas
épocas de colheitas – o que demonstra seu vínculo familiar com outros setores produtivos e que
o trabalho nas minas era encarado como uma atividade entre outras possíveis. Ou seja, os
patrões tinham que negociar com os trabalhadores livres para garantir sua permanência nas
fábricas. Conforme Libby, este era o principal fator pelo qual os ingleses preferiam a mão de
obra escrava nas minas, pois o controle sobre os mesmos era maior22 (mesmo argumento dos
charqueadores, na visão de Couty). Neste sentido, os trabalhadores assalariados tanto em Minas
quanto em Pelotas não devem ser vistos como operários clássicos. E isto funcionava igualmente
em Montevideu. Conforme Barran e Nahum, o saladeiro era uma empresa rural, com técnicas
de trabalho mais rústicas, realizadas por peões acostumados com a vida campeira. Foi somente
com a chegada dos frigoríficos que o complexo fabril das carnes tornou-se um verdadeiro
espaço de trabalho característico de operários urbanos. 23

Portanto, a dependência pessoal foi fator marcante nas relações de trabalho livre nas
charqueadas e parecia ser um mecanismo utilizado pelos charqueadores para poder contar com
estes trabalhadores eventuais por perto. Mas esta relação devia ser bastante tensa para aqueles
que não se enquadravam na lógica empregada pelo patrão. O próprio Couty, que era um crítico
da escravidão e estimulava o assalariamento do trabalho nas charqueadas, lamentava que “as
condições dessa transformação” do trabalho cativo ao trabalho livre seriam “bem complicadas”,
recomendando aos charqueadores: “será preciso também, e eu insisto neste ponto que poderia
parecer acessório, romper com hábitos seculares e não querer submeter operários livres e
responsáveis (…) à vigilância perpétua e aos procedimentos de direção que são necessários com
os escravos”.24 Indignado, Couty parecia sugerir que os charqueadores tratavam alguns dos seus

21
Um caso semelhante envolvendo os peões de estância no Rio Grande pode ser visto em FARINATTI, Luís A.
Op. cit.
22
LIBBY, Douglas. Op. cit., p. 100-102.
23
BARRAN, José Pedro; NAHUM, Benjamin. Historia Rural del Uruguay moderno (1851-1885). Montevideo:
Ediciones de la Banda Oriental, 1967, p. 101.
24
COUTY, Louis. Op. cit., 2000, p. 153.
215
assalariados como se fossem escravos. Um caso ocorrido em 1881, um ano depois da obra de
Couty, confirma sua afirmação. Num dos interrogatórios relativos ao crime de um escravo na
charqueada de Paulino T. da Costa Leite, o charqueador testemunhou afirmando que o graxeiro
João César de Castro, que ele havia demitido, apareceu em sua casa “dizendo que estava pobre,
sem recursos, desempregado no meio da safra e com família para sustentar”. O graxeiro, que
morava numa peça alugada pelo capataz, reclamou ao charqueador “que vivia num inferno,
porque o capataz até com carne lhe faltava para o seu sustento”.25

Numa sociedade onde as classes subalternas também eram ciosas dos espaços de
autonomia que conseguiam adquirir, morar na charqueada e ser alimentado por um capataz era
quase viver em condições semelhantes a dos próprios escravos, e isto devia incomodar muito os
trabalhadores livres que viviam na charqueada. Neste sentido, é possível compreender a
instabilidade da mão de obra assalariada também a partir do não pagamento corrente dos
salários e do mau tratamento que os mesmos recebiam. Talvez seja este um dos motivos pelo
qual as experiências de trabalho com os mesmos tenham fracassado. Entrevistando um
charqueador, Couty disse que as tentativas de contratarem carneadores assalariados na
charqueada não obtinham o sucesso desejado. Além disso, conforme o autor, a combinação de
homens livres e escravos no espaço de trabalho provocava inúmeros inconvenientes. Conforme
Couty, os charqueadores também não confiavam a operação das graxeiras a vapor aos escravos,
contratando trabalhadores livres para o mesmo serviço.26 Num contrato estabelecido entre os
irmãos Barcellos e Antônio J. de Oliveira Leitão, em 1861, os mesmos estipulavam que o
trabalho na extração dos sebos e graxas deveria ser realizado por um “graxeiro branco”.27
Observe-se que, mais do que a condição jurídica, o contrato estabelecia a cor do graxeiro,
indicando que o ofício deveria ser exercido por homens livres sem raízes no cativeiro, dando a
entender que os charqueadores não confiavam nos escravos e libertos para exercerem certos
tipos de atividade na charqueada.

Tal comportamento era muito diverso da postura dos empresários ingleses em São João
del Rey, por exemplo. De acordo com Libby, os escravos das minas trabalhavam como
maquinistas, eram promovidos para setores de supervisão e operadores de máquinas de

25
O charqueador disse que mandara seu filho “despedi-lo para não ter empregados que em vez de viverem no
trabalho da charqueada se ausentavam preterindo obrigações”. O patrão teria lhe dito que “de fome não havia de
morrer, que continuaria a dar-lhe vencimentos até que encontrasse emprego” e que talvez ele mesmo o empregasse
na sua chácara ou na fábrica de cola, mas na charqueada não mais (Processo-crime n. 1194, m. 33, Apelação crime,
Pelotas, 1882, APERS).
26
COUTY, Louis. Op. cit., 2000, p. 149-152.
27
Contrato de Sociedade entre os irmãos Luís, Eleutério e Boaventura Teixeira Barcellos e Antônio José de
Oliveira Leitão, Códice JC-20, Fundo Junta Comercial, AHRS.
216
estilhaçar, entre outros. As promoções incluíam as próprias mulheres cativas. 28 Segundo o
autor, tratava-se de um gerenciamento que oferecia certa confiança à capacidade do trabalho
técnico dos escravos. Além disso, os britânicos colocavam lado a lado o trabalho livre e o
cativo em praticamente todas as suas unidades de produção, algo que os charqueadores
preferiam não realizar. E a experiência não deve ter sido “traumática” nem para os escravos e
nem para os britânicos, uma vez que os escravos alforriados voltavam a trabalhar na empresa
como assalariados e a Companhia mineradora foi uma das empresas mais lucrativas do
Império.29 Confiando-se nos depoimentos dos charqueadores dados a Couty é possível verificar
que isto não ocorria em Pelotas, ou seja, os libertos dificilmente voltavam a trabalhar nas
charqueadas dos seus ex-senhores.30 Portanto, se ingleses e pelotenses concordavam a respeito
do emprego dos escravos para superar os problemas da inconstância do trabalho livre, suas
posições com respeito às capacidades dos cativos e dos libertos eram distintas.

Mas os escravos alforriados não retornavam para as charqueadas como assalariados


porque não queriam ou porque os charqueadores não possuíam interesse? Esta é uma pergunta
complexa e que talvez tenha uma resposta positiva para ambas as opções. Mas para começar a
refletir sobre a mesma é preciso iniciar a análise de duas questões fundamentais no período e
que vinham alterando o mundo do trabalho nas charqueadas: a racionalização do trabalho e os
pagamentos de prêmios por produtividade. Como mencionei anteriormente, para contornar a
diminuição do número de escravos nas fábricas e aumentar a produção diante das baixas de
preços do charque, outras soluções foram tentadas pelos charqueadores. Uma primeira
transformação dizia respeito ao próprio aproveitamento do espaço de trabalho e da divisão dos
escravos em tarefas diversas, otimizando o tempo e, mesmo que com muitos limites,
racionalizando a produção. Como afirmei no capítulo anterior, se os carneadores e graxeiros
apareciam nos inventários desde a década de 1810, os salgadores e os sebeiros só começam a
aparecer a partir da década de 1820. Os primeiros chimangos discriminados como tal só surgem
nos plantéis da década de 1840. E os escravos mais especializados como os tripeiros e os
descarnadores surgem somente nos inventários da década de 1850 e 1860, respectivamente.

28
De todos os inventários de charqueadores consultados encontrei mulheres escravas trabalhando como graxeiras
em somente um deles (Inventário de João S. Lopes, m. 366, m. 26, 1853, Cartório de órfãos e provedoria, Pelotas).
29
LIBBY, Douglas. Op.cit., p. 31-35; 103.
30
Não localizei documentos que divergissem da informação de Couty. De qualquer forma, esta questão ainda está
em aberto, esperando novas pesquisas.
217
Nos dias de matança a jornada de trabalho começava por volta da meia-noite e estendia-
se até o meio-dia, com pelo menos uma parada no meio do turno.31 As tarefas eram realizadas
sob a máxima capacidade de divisão de trabalho para os padrões das charqueadas32 e os
escravos as realizavam organizados em turmas, sob o ritmo das canções entonadas pelos
mesmos.33 Neste processo, os escravos faziam “marcas” especiais nos couros e nas mantas de
charque. 34 E para quê se usavam tais marcas? Por um outro motivo que envolvia uma alteração
ainda mais importante no processo produtivo. Junto destas mudanças, os charqueadores
também criaram um sistema de gratificação monetária ao número de novilhos carneados além
da cota diária. Conforme Couty, que entrevistou um charqueador a respeito, o sistema teve uma
boa resposta por parte dos escravos. O controle da produção realizava-se na contagem do
número de pares de orelhas que o carneador retirava das reses preparadas por ele, entregando as
mesmas ao capataz no final da jornada. Segundo Couty, os charqueadores costumavam pagar
entre $30 e $35 réis por cada novilho preparado a mais e, por conta deste estímulo, o ritmo de
trabalho dos cativos tornara-se intenso. A média de novilhos antes preparados era de 6 a 8
animais por carneador. Depois do novo dispositivo ela saltou para 12 a 14 animais. 35

Conforme Couty, “vê-se que o escravo pode fazer verdadeiras economias. Alguns
escravos do Sr. da Costa, onde este excelente uso é antigo, já puderam libertar-se”.36 Este novo
sistema podia render mais de 2$ por dia de abate. Contabilizando 20 dias de matança no mês,

31
GUTIERREZ, Ester. Op. cit., p. 211. Detalhes minuciosos da jornada de trabalho nas charqueadas de Pelotas
foram descritas por Alberto Coelho da Cunha em seu conto “Um episódio de charqueada”, publicado em 1872 na
Revista do Partenon Literário de Porto Alegre. Cunha era filho de um rico charqueador e aderiu ao movimento
abolicionista na década de 1870 (CUNHA, Alberto C. da. Um episódio de charqueada. In: MOREIRA, Maria
Eunice (Org.). Narradores do Partenon Literário. Porto Alegre: IEL/CORAG, 2002, p. 41-49).
32
Conforme Libby, para os padrões da época a divisão de trabalho nas fábricas era um procedimento que fazia
toda a diferença na produção. “Ela é típica de empreendimentos capitalistas do século passado, cujos níveis
tecnológicos não eram muito elevados, mas que conseguiam aumentar a produtividade pela organização racional
da força de trabalho” (LIBBY, Douglas. Op. cit., p. 111). Couty nunca disse que não havia divisão de trabalho nas
charqueadas pelotenses. O que o observador francês afirmou foi que, numa comparação com a divisão do trabalho
nos saladeros platinos, as charqueadas apresentavam uma organização muito incipiente e desordenada nos dias em
que não havia matança. Nestas ocasiões os escravos realizavam tarefas diversas (carregar e descarregar os iates,
por exemplo, exigia um dia inteiro de trabalho) onde eram mobilizados conjuntamente, sem divisão de tarefas
(COUTY, Louis. Op. cit.).
33
Alberto Cunha narrou que o escravo Felipe Maranhão, carneador idoso, já não usava sua afiada faca “como
ontem acompanhada de uma canção alegre” (CUNHA, Alberto C. Op. cit., p. 43). Em março de 1853, o escravo
Nicolau, marinheiro do charqueador Joaquim José de Assumpção, foi castigado por não cantar enquanto içava as
cordas do navio (Processo-crime n. 32, 1853, Tribunal do Júri, Pelotas, APERS).
34
COUTY, Louis. Op. cit., p. 149-150.
35
COUTY, Louis. Op. cit., p. 149-150. O pagamento de prêmios aos escravos também foi estipulado no contrato
de sociedade em uma charqueada mencionado anteriormente (Contrato de Sociedade entre Boaventura Teixeira
Barcellos e Antônio José de Oliveira Leitão, Códice JC-20, Fundo Jundo Comercial, AHRS).
36
COUTY, Louis. Op. cit., p. 150). Em julho de 1879, em meio a uma investigação de uma quadrilha que roubava
charque dos varais dos estabelecimentos, a polícia prendeu os suspeitos e requisitou que os charqueadores
enviassem seus escravos até a delegacia para reconhecerem as suas mantas de charque. E, de fato, os carneadores
as reconheceram devido às marcas que realizavam nas mesmas (Jornal do Comércio de Pelotas de 02.07.1879 e
03.07.1879 (Biblioteca Pública Pelotense)).
218
um cativo acumularia 280$ numa safra – isto sem contar outros ganhos com diferentes
atividades que ele poderia exercer. 37 Portanto, a relação entre o aumento do ritmo de trabalho
com a compra da liberdade era totalmente factível. 38 Mas o dinheiro ganho não servia apenas
para juntar pecúlio. É provável que estes carneadores fossem procurados para ajudar outros
escravos e acabavam se tornando figuras importantes dentro do plantel de uma charqueador.
Contudo, como resultado deste mesmo processo, um grupo de trabalhadores acabava se vendo
em desvantagem. Como notou Alberto da Cunha, os escravos mais velhos, por exemplo, não
conseguiam acompanhar o ritmo acelerado dos mais jovens. 39 Além disso, a grande capacidade
de acumular pecúlio por parte dos carneadores provocou a inflação dos preços pagos pelas
cartas de alforria nas senzalas dos charqueadores. Os valores pagos pelas mesmas, entre os anos
1860 e 1870, estavam entre os mais altos de todo o Rio Grande do Sul. Em 1868, por exemplo,
o carneador Firmino Mina pagou 3:000$ por sua liberdade – cifra muito acima do verificável
em outros municípios da província.40 Com esta quantia, o seu ex-senhor podia comprar de dois
a três escravos no mercado local. Exemplos como este justificavam mais ainda a permanência
da escravidão como uma instituição economicamente rentável para o charqueador, numa
complexa relação compartilhada por senhores e escravos. Por outro lado, o aumento do valor
pago pelas alforrias poderia dificultar o acesso à liberdade para aqueles que não possuíam
condições de acúmulo semelhante aos carneadores mais produtivos ou que não pertencessem ao
círculo de relações dos mesmos. 41

Contudo, nem todos os escravos estavam dispostos a pagar tamanhas quantias ou utilizar
o seu dinheiro somente com a finalidade de se alforriar. A partir das conversas que teve com os

37
Douglas Libby diz que um escravo trabalhador nas minas de São João del Rey podia receber anualmente em
horas-extras até 10% do seu próprio valor (LIBBY, Douglas. Op. cit., p. 99). Tendo em vista que a média mais
alta dos cativos adultos inventariados nas charqueadas de Pelotas foi de 1:500$, percebe-se que o potencial de
acúmulo de pecúlio na charqueada poderia ser bem maior.
38
Neste sentido, os ingleses instalados em Minas perceberam que a ideia de liberdade era tão estimulante no
universo do trabalho cativo que a Companhia mineradora implementou um programa de concessão de alforrias.
Entre 1861 e 1866, por exemplo, 97 escravos foram libertos por meio do mesmo. Contudo, muitos deles
retornavam para o trabalho das minas (LIBBY, Douglas. Op. cit., p. 103).
39
CUNHA, Alberto C. da. Op. cit.
40
Assim como ele, muitos outros cativos de charqueada pagaram valores superiores a 2:000$, cifra menos comum
de se encontrar em outros municípios da província se comparados a Pelotas. O preço de 3:000$ foi o mais alto que
localizei ao pesquisar as alforrias pagas em todos os municípios do Rio Grande do Sul durante o século XIX. Esta
busca só foi possível por conta da publicação das mesmas cartas de liberdade organizadas pelo Arquivo Público do
Rio Grande do Sul. Escravos dos charqueadores Honório Luís da Silva e Manoel Francisco Moreira, e dos
comerciantes de charque Domingos Félix da Costa e família Cardia, também pagaram o valor de 3:000$. Fora
estes, somente um outro senhor recebeu uma quantia igual por ter libertado seu cativo (ARQUIVO PÚBLICO DO
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL. Documentos da escravidão catálogo seletivo de cartas de liberdade
acervo dos tabelionatos do interior do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, CORAG, v. I e II, 2006).
41
Como se verá a seguir, os carneadores ajudavam outros cativos a se libertarem. Por este motivo, penso que os
valores pagos por outros escravos para se alforriarem tenderiam a aumentar, pois os charqueadores deviam saber
que os carneadores ajudavam alguns de seus companheiros de cativeiro.
219
charqueadores, Couty declarou: “É preciso confessar que, na maioria das vezes, [os
carneadores] fazem de seus ganhos outros usos, pois eles pouco desejam uma liberdade
comprada por trabalho ou privações”. 42 Além disso, penso que eles podiam continuar
trabalhando mais um tempo na charqueada para conseguir melhores condições e preparar-se
para uma condição mais segura em sua vida pós-cativeiro, tanto para si, quanto para seus
familiares. Tratava-se de uma estratégia muito bem traçada e que podia ser potencializada caso
o escravo contasse com outros parentes em situação semelhante ou pessoas que ele tinha
interesse em ajudar.43 Um caso envolvendo um escravo de Joaquim da Silva Tavares
exemplifica bem esta situação. Em novembro de 1861, o preto mina Joaquim, carneador, 28
anos, assassinou a preta liberta Juliana com uma facada, dentro da casa da mesma. Perguntado
do motivo pelo qual cometeu o crime, o réu respondeu: “que vivendo com uma preta Juliana, a
quem ele havia forrado, e recebendo dela ingratidões, apaixonou-se a ponto de a assassinar em
novembro do ano passado, e que hoje está arrependido de cometer esse crime”. 44

Esse não foi o único crime envolvendo carneadores apaixonados por forras e cativas que
viviam distante das charqueadas. Em dezembro de 1868, por exemplo, o preto mina José, 50
anos, escravo marinheiro do charqueador José Antônio Moreira, matou Sofia alegando ter
emprestado mais de 1:000$ para ela se alforriar, mas a vítima teria usado o dinheiro para
libertar um outro escravo com qual vivia.45 Em março de 1871, o cativo Joaquim Angola, 40
anos, cozinheiro e carneador, matou com uma facada um outro preto que estava na casa da preta
Martha, com quem Joaquim “tinha relações”. 46 O número de casos envolvendo carneadores,
salgadores e outros escravos com pretas cativas e forras que viviam na cidade ou na Serra dos
Tapes devia ser muito maior, visto que foram poucos os que perderam a cabeça por ciúmes,
vindo a deixar seus vestígios em processos criminais.

Como o número de mulheres era cada vez menor nas senzalas do charqueador (ver
capítulo 5), ficava difícil para os escravos constituir família ou relacionar-se com outras
escravas dentro do seu próprio plantel ou no dos vizinhos. Neste sentido, é provável que muitos
carneadores insistissem com seus senhores para poderem ter a oportunidade de eventualmente
sair ao encontro de outras pessoas do seu interesse. O charqueador podia, inclusive, negociar tal
autonomia aos escravos mais produtivos durante a jornada semanal, por exemplo. No mesmo
processo criminal mencionado acima é interessante notar que o escravo Joaquim havia recebido

42
COUTY, Louis. Op. cit., p. 150.
43
Ver, por exemplo, MATHEUS, Marcelo S. Op. cit.
44
Processo-crime n. 587, Tribunal do Júri, Pelotas, 1861 (APERS).
45
Processo-crime n. 264, Tribunal do Júri, Pelotas, 1869 (APERS).
46
Processo-crime n. 925, Tribunal do Júri, Pelotas, 1871 (APERS).
220
um recado da preta Martha dizendo que a mesma o esperava em sua casa. Era uma quarta-feira.
Contudo, ele mandou respondê-la que neste dia não poderia e que ela esperasse mais 4 dias. Ou
seja, o escravo marcou o seu encontro para um domingo, sabedor de que era a sua folga e, de
fato, cumpriu o prometido à Martha. Portanto, Joaquim conhecia os seus limites e suas
obrigações para com o charqueador, mesmo porque os mesmos deviam ter sido fixados a partir
de uma negociação entre ele e o seu senhor.47 Neste sentido, é provável que um grupo de
carneadores atingisse uma notável importância dentro da senzala podendo negociar em
melhores condições com os senhores e capatazes.48

Além disso, alguns cativos também estavam em melhores condições de fazer uma boa
leitura do contexto em que se encontravam. A cautela dos escravos carneadores em migrar
instantaneamente para a vida de liberto era ainda mais compreensível no caso de os mesmos
observarem com atenção a forma como alguns trabalhadores assalariados viviam suas vidas
fora da charqueada. A situação dos operários livres das indústrias da carne não era muito digna
nem em Pelotas e nem em outros países. Nos saladeros platinos, por exemplo, Barran e Nahum
afirmaram que a situação dos trabalhadores tendeu a piorar ao longo do século XIX, por conta
das crises enfrentadas pelo setor e da mão de obra mais abundante. Um traço constante era “el
empleo de niños que sólo se encuentra en las formas primeras de la acumulación capitalista”
junto com demais operários que enfrentavam “las grandes jornadas de dieciséis, dieciocho y
aún más horas, señalan el máximo grado de tensión de las fuerzas del trabajador”. Em suma,
tratava-se de “una brutal plusvalía, que sólo la industria europea en los albores de la revolución
industrial presenció”. 49

Analisando os horários de trabalho dos escravos na Companhia mineradora Morro


Velho, em São João, Libby percebeu que na primeira metade do século, elas totalizavam 12
horas diárias, com duas equipes se intercalando nos trabalhos. Contudo, depois que a imprensa
inglesa começou a pressionar a companhia britânica instalada no Brasil, as jornadas diminuíram
para 8 horas, com três equipes se dividindo nas tarefas. Conforme Libby, “pelo menos
teoricamente, o regime de horários em Morro Velho poderia ser comparado muito
favoravelmente com os horários vigentes na indústria britânica do mesmo período”. 50 O próprio
Couty, que defendia o assalariamento do operário platino em detrimento da escravidão em
Pelotas, descreveu a situação difícil enfrentada pelos trabalhadores dos saladeros. De acordo

47
Processo-crime n. 925, Tribunal do Júri, Pelotas, 1871 (APERS).
48
Com relação a isto ver MATHEUS, Marcelo S. Op. cit.
49
BARRAN, Jose P.; NAHUM, Benjamin. Op. cit., p. 101.
50
LIBBY, Douglas. Op. cit., p. 124. Para um retrato contemporâneo das condições de vida dos operários ingleses
ver ENGELS, Friedrich. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Boitempo, 2008.
221
com ele, o saladeirista possuía vantagem sobre o charqueador, porque em situações de baixa ele
“pode, mesmo, fechar seu saladeiro e estará seguro de encontrar, quando ele reabrir, operários
em quantidade suficiente. Esses operários devem aproveitar, como o saladeirista, anos
favoráveis e grandes abates para se prevenir contra o desemprego: eles lutam individualmente
por sua vida”.51

Nos Estados Unidos, a situação dos operários da indústria da carne também era
lastimável, tornando-se mundialmente conhecida através do romance The Jungle (1906), de
Upton Sinclair. O livro atacava as condições de fabricação das carnes e dos trabalhadores nos
frigoríficos de Philipp Armour, o Barão das carnes de Chicago. Liderando diversas greves nos
anos 1880, os operários exigiam uma jornada de trabalho de 8 horas e o direito de sindicalizar-
se, mas eram seguidamente reprimidos de forma violenta por milícias formadas pelos próprios
empresários do setor.52 Conforme James Green, enquanto trabalhadores norte-americanos (com
uma família de 5 membros) recebiam um salário básico de 15,40 dólares por semana, os
trabalhadores dos frigoríficos venciam 9,50 dólares. Convertendo para mil réis, no ano de 1885,
este valor equivalia a quase 24$, o que daria cerca de 100$ mensais e 1:200$ anuais. 53 Em
Montevideu, os saladeiristas pagavam aos seus carneadores, em cada safra, algo entre 1:000$ e
1:600$, dependendo do valor das diárias.54 Era mais de 3 vezes o salário de um peão de
charqueada.55 Contudo, qualquer comparação mais aprofundada com o trabalho nas
charqueadas deve envolver os custos de vida com alimentação e moradia de um trabalhador em
Chicago, Montevidéu e Pelotas, algo que esta pesquisa não pretendeu realizar. 56

51
COUTY, Louis. Op. cit., p. 146.
52
GREEN, James. Death in the Haymarket: a story of Chicago, the first labor movement and the bombing that
divided gilded age America. New York: Pantheon Books, p. 103-104; 158-160.
53
Para a conversão utilizei MOURA FILHO, Heitor P. Taxas Cambiais do Mil-Réis. Exchange rates of the mil-
reis (1795-1913). MPRA Paper N. 5210. Disponível em <http://mpra.ub.uni-muenchen.de/5210/>, 2006.
54
Conforme Couty, os carneadores recebiam de 25 a 40 francos por dia. Tendo em vista a taxa de câmbio
calculada por Couty e a estimativa de que estes trabalhadores carneavam 25 dias por mês, o vencimento em 5
meses podia rondar entre 1:000$ e 1:600$, como foi dito (COUTY, Louis. Op. cit., p. 143).
55
A partir do processo de Liquidação da firma Viúva Vianna & Filhos foi possível verificar alguns trabalhadores
livres cobrando seus salários referentes à safra que se encerrava. A partir dos mesmos, é possível calcular os
respectivos vencimentos anuais para o capataz (1:536$), o patrão do iate (480$), o graxeiro (384$), o camarada do
iate (320$), o peão da casa (340$) e o rondador (337$). Os empresários não utilizaram carneadores livres. Mas
como os graxeiros exerciam um serviço bastante especializado é provável que um carneador não recebesse mais do
que isto. Os serviços de um escravo carneador, estipulados na mesma fonte, eram calculados em 30$ mensais
(Processo de Liquidação da Viúva Vianna & Filhos, n. 2.568, m. 74, 2º c. do cível, Pelotas, 1865 (APERS).
56
Ao comparar o salário dos trabalhadores livres brasileiros com o dos europeus na Companhia mineradora de São
João del Rey, Libby chegou aos mesmos índices, ou seja, os europeus recebiam 3,4 vezes o salário dos brasileiros,
exercendo as mesmas funções. Nos anos 1860, o salário dos broqueiros brasileiros era de 37$500 por mês (pouco
mais que o de um peão de charqueada ou do valor do trabalho de um escravo de charqueada na mesma época, que
ficavam em 30$) (LIBBY, Douglas. Op. cit., p. 104-105). Portanto, o trabalho assalariado exercido por um
brasileiro em comparação com um estrangeiro era muito desvalorizado tanto em Pelotas quanto em São Joao.
222
Portanto, não há como refletir sobre os projetos individuais e coletivos dos trabalhadores
livres e escravos empregados em setores fabris no século XIX e não pensar em suas condições
de trabalho e de vida. Neste sentido, ao ponderarem sobre a sua condição após o cativeiro,
realizando cálculos sociais (como qualquer trabalhador o faz) acerca das suas condições e o que
poderia estar em jogo em cada uma de suas escolhas, os carneadores eram muito mais
inteligentes do que Couty poderia supor. Talvez até mesmo um ex-companheiro de cativeiro
que tenha se alforriado e caído em condições de precariedade podia lhe servir como exemplo.
Neste sentido, alguns escravos possuíam uma noção muito clara do contexto em que se
encontravam e deviam buscar gerenciar os seus recursos de uma forma que sua vida de liberto
não fosse pior que a sua vida de cativo.57

A afirmação feita por Couty de que dificilmente os escravos alforriados retornavam para
trabalhar nas charqueadas pode ser interpretada de várias formas. A primeira delas é que muitos
deles conseguiam uma nova vida na qual não precisavam mais se sujeitar a um serviço
reconhecidamente muito desgastante. A segunda é a de que, mesmo em situação de miséria,
eles não desejavam retornar para a administração do seu ex-senhor. E a terceira é que seus
próprios ex-senhores não desejavam contar com o seu trabalho nas fábricas, visto a
“inconveniência” de misturar livres e cativos na matança. Obviamente que estas escolhas
variavam de senhor para senhor e de escravo para escravo, visto que muitos libertos deviam
continuar mantendo relações com a família senhorial, como outras pesquisas atestam. 58

Portanto, a política de incentivos monetários implantada pelos charqueadores, nos casos


de sucesso, tornava o investimento em escravos ainda mais rentável. Contudo, o aumento da
produção talvez tenha ultrapassado os limites suportáveis por muito cativos, gerando certas
tensões nas relações de trabalho nas charqueadas. Uma das formas que encontrei para testar
minha hipótese foi a análise dos processos criminais envolvendo escravos de charqueadores.
Tendo em vista que o número de charqueadas manteve-se constante entre as décadas de 1830 e
1870 e que a média dos plantéis de cativos por charqueada diminuiu, o aumento do número de
crimes durante o mesmo período merece ser levado em conta.59 Uma análise qualitativa dos
conflitos envolvendo capatazes e as brigas dentro das charqueadas pode revelar uma possível
57
MATHEUS, Marcelo S. Op. cit.
58
Ver, por exemplo, MATHEUS, Marcelo. Op. cit.
59
Não descarto a hipótese de que os processos criminais também aumentaram devido a ampliação do aparato
judicial e a maior interferência da esfera estatal nas relações de trabalho nas charqueadas. Contudo, uma alteração
mais profunda na estrutura judicial pelotense só ocorreu em 1875, quando ela foi elevada à comarca. Antes disso,
os feitos eram julgados em Rio Grande. O baixo índice de crimes nas primeiras décadas talvez indique que alguns
conflitos fossem resolvidos no nível da unidade produtiva, sem muita interferência de poderes externos. As
charqueadas ficaram quase que inativas entre 1836 e 1841 e isto certamente também afetou os índices. De qualquer
forma, trata-se apenas de um indicador que merece pesquisas futuras.
223
tensão entre feitores (sob à orientação do charqueador para que aumentassem a produção) e
escravos (que procuravam imprimir o seu próprio ritmo ao trabalho).60 Disto resultavam
inúmeros conflitos cujo desfecho mais grave era a morte ou do capataz ou dos escravos. 61

Gráfico 6.1 – Processos criminais envolvendo escravos de charqueadores pelotenses (1830-1888)

Fonte: Construído a partir de PESSI, Bruno; SILVA, Graziela (Org.). Documentos da


escravidão: processos crime: o escravo como vítima ou réu. Porto Alegre: CORAG,
2010.

Em julho de 1856, o escravo Inácio, 27 anos e trabalhador de charqueada, assassinou o


capataz de José Antônio Moreira após uma briga com o dito empregado. 62 Em setembro de
1864, o preto mina Matheus, roceiro, 45 anos, matou o capataz Francisco J. de Campos a
facadas, depois de uma discussão na charqueada de Antônio José de Azevedo Machado. 63 Em
dezembro de 1873, o capataz João P. Villar, depois de desferir “bordoadas” e castigar o escravo
Feliciano, 22 anos e servente de charqueada de Joaquim J. de Assumpção, foi assassinado pelo
mesmo cativo que usava uma faca. 64 Numa madrugada de janeiro de 1880, o escravo Faustino,
de 18 anos de idade e alugado ao charqueador Domingos S. Barbosa, por conta de desavenças
com o capataz Antônio de O. Graça, o matou com algumas cacetadas na cabeça. O capataz
havia dito que lhe colocaria nos ferros, o que motivou o cativo a planejar a sua morte.65

Acompanhando com atenção as queixas dos escravos, é possível verificar que os


motivos dos conflitos entre capatazes e escravos decorriam dos excessivos castigos aplicados

60
Para uma análise neste sentido ver SILVA, Róger Costa da. Criminalidade e escravidão, Pelotas, segunda
metade do século XIX. In: Anais do 5º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional. Porto Alegre:
UFRGS, 2011, p. 1-18.
61
Para um apanhado geral destes conflitos, questões relativas às fugas e a resistência escrava nas charqueadas de
Pelotas ver ASSUMPÇÃO, Jorge E. Op. cit.
62
Processo-crime n. 788, Tribunal do Júri, Pelotas, 1856 (APERS).
63
Processo-crime n. 668, Tribunal do Júri, Pelotas, 1864 (APERS).
64
Processo-crime n. 965, Tribunal do Júri, Pelotas, 1873 (APERS).
65
Processo-crime n. 1.147, Tribunal do Júri, Pelotas, 1880 (APERS).
224
não apenas para corrigir a sua má conduta como também as falhas decorrentes de seus serviços
na charqueada. Em janeiro de 1879, por exemplo, o escravo Antônio, 40 anos, cozinheiro e
carneador, foi castigado pelo capataz por não conseguir cortar os couros que preparava da
maneira correta, os estragando.66 Em janeiro de 1873, Feliciano matou o capataz por ele o haver
“mandado trepar para cima de uma pilha de carne verde para trabalhar e ele réu lhe dissera não
poder fazê-lo por ter os pés e as mãos ardidas do sal”. 67 O escravo Matheus, citado acima,
também revoltou-se com o capataz pois não queria trabalhar “no valo” que cercava o terreno da
charqueada, alegando estar com os pés rachados.68 O aumento dos ritmos de produção e a
pressa dos escravos em aumentar suas tarefas foi capaz de provocar um infeliz acidente na
charqueada de Manoel Jacintho Lopes. Eram cerca de 4 horas da madrugada quando Manoel,
34 anos, baiano, ao retornar correndo com um grande pedaço de carne para o galpão de
charquear, esbarrou no cativo Joaquim, ferindo-o mortalmente com sua faca. Os demais
carneadores e trabalhadores assalariados confirmaram a versão do réu, alegando que o local de
trabalho estava muito pouco iluminado (a matança era realizada de madrugada sob as luzes de
seis lampiões, sendo que no galpão de charqueada havia somente 2 deles) o que favoreceu o
acidente. Manoel foi absolvido.69

Como foi dito, as queixas contra os excessos de castigos também eram comuns. 70 Talvez
eles estivessem excedendo o nível outrora suportado pelos escravos. Por estarem convivendo
com trabalhadores livres no interior das charqueadas, recebendo dinheiro como pagamento por
seus serviços e vendo alguns parceiros de cativeiro se libertando é provável que os mesmos já
não aceitassem mais o tratamento que lhes era conferido anteriormente. Talvez esta fosse uma
das “inconveniências” reclamadas pelos charqueadores em misturar escravos e assalariados nos
galpões de charquear.71 Os cativos estavam sujeitos a medidas disciplinares que não envolviam
os assalariados, como dormir sob uma senzala trancada e ter seus espaços de autonomia
restringidos pelo senhor. Neste sentido, ao não serem castigados (e caso o fossem, não devia ser
na mesma proporção) os assalariados deviam oferecer exemplos de conduta que podiam ser
internalizados pelos escravos mais zelosos de sua posição na senzala.

66
Processo-crime n. 1.135, Tribunal do Júri, Pelotas, 1879 (APERS).
67
Processo-crime n. 965, Tribunal do Júri, Pelotas, 1873 (APERS).
68
Processo-crime n. 668, Tribunal do Júri, Pelotas, 1864 (APERS).
69
Processo-crime n. 926, Tribunal do Júri, Pelotas, 1871 (APERS).
70
Neste sentido, ver também SILVA, Róger da Costa. Op. cit.
71
COUTY, Louis. Op. cit.
225
A análise dos processos criminais também revela que as charqueadas estavam longe de
se constituírem em “penitenciárias”, como declarou Nicolau Dreys. 72 A mobilidade com que
alguns escravos do serviço das charqueadas circulavam pela cidade era algo notável. 73 Além
daqueles carneadores que saíam ao encontro de libertas com quem mantinham relações afetivas,
encontram-se vários crimes e conflitos praticados por escravos dos charqueadores enquanto
andavam pela cidade, como o preto Joaquim, assassinado a machadadas por não pagar uma
dívida de jogo que contraiu na cidade ou o escravo Porfírio que matou seu companheiro de
cativeiro no caminho da Serra dos Tapes, porque desconfiou que o mesmo o estava roubando.74
O pardo João, em 1855, após cometer um crime em Pelotas, foi até Porto Alegre (distante mais
de 250 Km) pedir proteção ao seu senhor moço, que, na ocasião, era deputado provincial. 75 E,
em 1882, apenas para dar mais um exemplo, o carneador Ulisses, depois de sua jornada de
trabalho, foi dar um passeio na cidade onde consumiu bebida alcoólica em algum bolicho e
depois foi até uma loja comprar ceroulas, ocasião em que foi acusado de furto.76

Entretanto, esta margem de locomoção não devia estar acessível a todos e alguns
escravos, aos olhos do senhor, deviam possuir mais direitos do que outros. Como foi dito
anteriormente, é possível que os carneadores e outros escravos tivessem mais privilégios. Não
surpreende que os casos de crime envolvendo relacionamentos passionais com libertas
envolviam carneadores e marinheiros. Estes últimos deviam conhecer um grande número de
pessoas fora da charqueada. Além disso, por conta de sua circulação e da leitura que faziam do
meio social no qual viviam, alguns escravos também conseguiam tecer uma rede de alianças
mais ampla, envolvendo forros e homens livres, vindo a utilizá-las em caso de necessidade. Em
1879, o escravo carneador Antônio, com medo de ser castigo novamente pelo capataz de sua
charqueada, foi ao encontro de outros charqueadores para procurar “apadrinhar-se”. E, de fato,
o carneador foi protegido e escapou, momentaneamente, de ser castigado na charqueada de seu

72
DREYS, Nicolau. Notícia descritiva da Província do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: IEL, 1961. Esta
constação já havia sido realizada por Caiuá Al Alam ao estudar a escravidão e criminalidade em Pelotas na
primeira metade do século XIX (AL-ALAM, Caiuá Cardoso. A negra forca da princesa: Polícia, pena de morte e
correção em Pelotas (1830-1857). Pelotas: Sebo Icária/ Edição do autor, 2008, p. 53).
73
Na realidade, isto foi uma constante na vida dos escravos de diversas regiões, pois faz anos que a historiografia
brasileira vem demonstrando a mobilidade dos cativos tanto nas cidades quanto nos meios rurais. Ver, por
exemplo, MATTOSO, Kátia M. de Queirós. Ser escravo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1982; REIS, João José.
Domingos Sodré – um sacerdote africano: escravidão, liberdade e candomblé na Bahia do século XIX. São Paulo:
Cia das Letras, 2008; CHALHOUB, Sidney. Visões da Liberdade: uma história das últimas décadas da
escravidão na corte. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1990; MATTOS, Hebe. Das cores do silêncio: os
significados da liberdade no Sudeste escravista (Brasil, século XIX). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995.
74
Processo-crime n. 623, Tribunal do Juri, Pelotas, 1862 (APERS).
75
Processo-crime n. 463, Tribunal do Juri, Pelotas, 1855 (APERS).
76
Processo-crime n. 1.200, Tribunal do Juri, Pelotas, 1882 (APERS).
226
senhor.77 Outros escravos, aliados a pequenos mercadores, roubavam charque e couros,
revendendo-os na cidade – empreitada que rendia certos ganhos econômicos, mas também
podia resultar em problemas com a polícia. 78

O fato é que cada charqueada possuía um número muito grande de escravos para que o
senhor os tratasse de forma igual e tivesse um controle rígido sobre os mesmos. Nesta última
tarefa ele devia ser auxiliado pelo capataz, mas não era fácil encontrar trabalhadores de
confiança para tal função. Com o objetivo de acelerar a produção, impor disciplina aos escravos
e não desapontar o charqueador, os capatazes viam-se diante de uma situação bastante delicada,
pois a insatisfação dos cativos e a revolta de alguns deles tinham neles os alvos mais imediatos.
E tendo em vista o aumento do número de mortes e ataques aos capatazes mencionados
anteriormente é certo que estes trabalhadores sabiam da sua condição e do perigo que corriam
quando se excediam nos castigos. Um caso muito interessante ocorrido em janeiro de 1873
pode servir como exemplo. Após o assassinato do capataz Villar, na charqueada de Joaquim J.
de Assumpção, todos os escravos manifestaram que o seu administrador os tratava mal, o que
motivou o crime. Para confirmar as informações dos cativos, as autoridades judiciais mandaram
perguntar sobre a conduta de Villar nos demais lugares em que ele trabalhou. Em maio do
mesmo ano, foram consultados três charqueadores que deram as seguintes respostas:

“Em resposta à carta que V. Sª me dirigiu tenho a responder ao primeiro quesito que
João Paredes Villar durante o tempo em que foi capataz de minha charqueada era
ríspido com os escravos e que muitas vezes tive de contê-lo nos castigos que fazia. É
esta a resposta que tenho a dar a V. S.ª podendo fazer dela o uso que quiser” (João
Maria Chaves).
“Em resposta à carta supra de V. S.ª tenho a dizer-lhe que é verdade que o falecido
João Paredes Villar, há 18 anos, mais ou menos, esteve como capataz na minha
charqueada, e que durante o tempo em que esteve como empregado mostrou sempre
um gênio rigorosíssimo e até bárbaro para com os escravos, castigando-os as vezes tão
imoderadamente que via-me na necessidade de intervir, afim de evitar uma desgraça.
Pode V. S.ª fazer desta o que lhe convier” (José Bento de Campos).
“Respondendo a carta de V. S.ª, quanto ao primeiro quesito declaro que esteve na
administração da charqueada nos anos de 1861 a 1867, quanto ao segundo quesito
declaro que João Paredes Villar é um homem que tinha a mania de dar bordoadas
imoderadamente por simples gosto nos escravos, ao ponto de ter eu por muitas vezes
de sujeitá-lo obrigando-o a reprimir seu gênio extraordinariamente ríspido; na verdade
era nesse sentido um louco. É esta a resposta que tenho a dar-lhe fazend V. S.ª dele o
uso que lhe convier (Major José Quirino Candiota).79

Os depoimentos convergiam com os relatos de testemunhas e escravos no processo. Se


por um lado os senhores demonstravam um senso de proteção que os escravos podiam recorrer,

77
Processo-crime n. 1.135, Tribunal do Juri, Pelotas, 1879 (APERS).
78
Processo-crime n. 255, Vara cível e crime, Pelotas, 1876 (APERS).
79
Processo-crime n. 965, Tribunal do Júri, Pelotas, 1873 (APERS).
227
por outro, mesmo achando Villar um louco, o Major Candiota o deixou trabalhando por 6 anos
em sua charqueada. Como demonstrarei adiante, é certo que alguns charqueadores
condenassem os exageros de seus capatazes, até porque não desejavam perder seus escravos por
tamanho descontrole e deixar a senzala em desarmonia, mas, ao que parece, alguns não se
opunham em tolerar feitores rígidos por algum tempo, desde que sua escravaria não lhes
dessem problemas. Em suma, senhores, capatazes e escravos apresentavam uma relação
triangular extremamente complexa. Conforme Eugene Genovese, estudioso da escravidão nas
plantations algodoeiras do sul dos Estados Unidos, os cativos habilmente tentavam jogar o
senhor contra os capatazes e muitas vezes o conseguiam. 80 Os capatazes, em resposta, deviam
jurar vingança aos mesmos. Contudo, é importante que se diga que em outros processos
criminais houve capatazes cuja conduta foi considerada boa pelos cativos.81 Neste sentido, se os
charqueadores e os capatazes classificavam os escravos em desobedientes e obedientes, os
cativos também possuíam suas formas de classificar senhores e capatazes.82

Neste contexto de aumento da criminalidade nas charqueadas, o ano de 1881 tornou-se


um marco, pois foi a primeira e única vez em que um senhor foi interrogado como um dos réus
no processo. Os irmãos Costa Leite, proprietários da charqueada, não pertenciam a uma família
tradicional no ramo dos negócios. Eram comerciantes portugueses que decidiram investir nas
charqueadas por volta dos anos 1860 e que, talvez, não tivessem muito jeito e nem experiência
no tratamento com os cativos, visto o excesso desmedido dos castigos que os levaram à Justiça
pela morte de um escravo. O caso tomou as páginas da imprensa local e o charqueador, furioso,
demitiu três dos seus empregados que o haviam denunciado à polícia.83 No calor do movimento
abolicionista que vinha se fortalecendo, o episódio tomou proporções nacionais. Em 1881, o
próprio Joaquim Nabuco manifestou-se sobre o caso. A Gazeta da Tarde do Rio de Janeiro
registrava em sua capa um discurso inteiro do deputado abolicionista onde se podia ler num
trecho: “No extremo sul as mesmas atrocidades dos charqueadores da fronteira, matando em

80
GENOVESE, Eugene D. A terra prometida: o mundo que os escravos criaram. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1988, p. 33-41.
81
Ver, por exemplo, Processo-crime n. 1.147, Tribunal do Júri, Pelotas, 1880 (APERS).
82
Conforme Genovese, “os escravos tiravam proveito desses conflitos para facilitar as coisas para si, e até mesmo
alguns duros senhores de vez em quando intervinham em favor deles (…). Os senhores demitiam os
administradores por diversos motivos. Despediam os que tratavam os escravos com excessiva leniência ou, com
muito mais frequência, os que demonstravam em relação a eles dureza excessiva (…). Havia limites, que os
escravos conheciam, pois eles mesmos os haviam ajudado a fixar, além dos quais normalmente um administrador
não ousava ir (…). Alguns senhores acusavam seus administradores de se comportarem com demasiada
familiaridade, mas essa acusação poderia significar muitas coisas, desde deitar-se com as negras até se preocupar
demais com o bem-estar dos escravos” (GENOVESE, Eugene. Op. cit., p. 34-43).
83
Processo-crime n. 1194, m. 33, Apelação crime, Pelotas, 1882, APERS.
228
surras os míseros escravos, como acaba recentemente de praticar um potentado em Pelotas”.84
Nos anos 1880, alguns motins de escravos agitaram Pelotas e na mesma época os
charqueadores começaram a libertar seus cativos em grandes levas, lhes impondo contratos com
cláusulas de trabalho – prática cada vez mais comum naquele contexto e que precisa ser melhor
estudado por outros pesquisadores.85

Portanto, no início dos anos 1880, o fim da escravidão era uma realidade já esperada por
todos, mas os charqueadores não tiveram tanta habilidade para conduzir o processo de transição
do trabalho cativo para o trabalho livre. A partir dos relatos de Couty, e das fontes pesquisadas
e analisadas neste e no capítulo anterior, é possível considerar que os charqueadores
continuaram utilizando a mão de obra cativa nas suas fábricas por três motivos principais. O
primeiro deles é que tal investimento era economicamente rentável. Por volta dos anos 1860 e
1870, um trabalhador assalariado exigia 360$ anuais por serviços de charqueada (e, mesmo que
se argumente que os peões não trabalhassem os 12 meses do ano, foi este o valor que a firma
Viúva Vianna & Filhos teve que pagar aos mesmos). O valor do trabalho de um escravo, na
mesma época, era calculado em 30$ mensais, ou seja, não havia muita diferença com relação ao
custo do trabalho de ambos. Entretanto, o charqueador gastava uma média de 50$ anuais por
escravo com as despesas básicas e mais o valor investido em sua compra. 86 O preço de 1:500$
foi a média dos cativos homens adultos inventariados no meado da década de 1860 (estou
escolhendo o valor mais alto de todo o período). Calculando este investimento inicial de 1:500$
somados aos 250$ relativos a 5 anos de sustento, posso dizer que, com o trabalho do escravo, o
senhor amortizava o investimento inicial e mais as despesas básicas em 5 anos (360$ x 5 anos =
1:800$). Contudo, o retorno do capital investido na compra do escravo podia ser maior ou
menor de acordo com o preço pago pelo mesmo. Em 1866, por exemplo, no leilão dos escravos
da massa falida da Vianna & Filhos, 16 dos 31 escravos arrematados foram comprados por
charqueadores (14 eram homens). Eles pagaram preços muito variados, desde 610$ até 1:750$,
com uma média de 1:230$.87

84
Gazeta da Tarde. 12.05.1881 (Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro).
85
Para uma análise das tensões entre charqueadores e escravos nos anos 1880 ver LONER, Beatriz. 1887: A
Revolta que oficialmente não houve ou de como abolicionistas se tornaram zeladores da ordem escravocrata. In:
História em Revista, Pelotas, v. 3, 1997.
86
A média de 50$ foi declarada pelos relatórios da Companhia mineradora inglesa estudada por Libby e coincidem
com o que calculei para as charqueadas pelotenses, como será tratado no capítulo 9 (LIBBY, Douglas. Op. cit., p.
104). Estes cálculos podem ser refeitos no que diz respeito aos trabalhadores livres das charqueadas, pois não foi
possível saber se o charqueador fornecia alimentos aos mesmos, o que aumentaria os gastos com o trabalho
assalariado e justificaria mais ainda o uso dos cativos dentro da lógica dos rendimentos da empresa.
87
Processo de Liquidação da Viúva Vianna & Filhos, n. 2.568, m. 74, 2º cartório do cível, Pelotas, 1865 (APERS).
229
Portanto, o investimento dos charqueadores em escravos, entre os anos 1850 e 1870,
pareceu-me economicamente racional, ainda mais nos casos em que os carneadores livres
cobravam salários maiores do que o calculado anteriormente e os escravos eram comprados por
preços menores. Se o escravo trabalhasse para o charqueador por cerca de 4 ou 5 anos – algo
bastante plausível e que constituía-se numa média de tempo de serviço que os charqueadores
costumavam exigir nas cartas de alforria com contratos de trabalho realizados nos anos 1880 –
o investimento era viável, ainda mais nos casos em que se pagasse menos de 1:500$ por
escravo. Contudo, se forem levados em conta outros dois fatores alegados pelos charqueadores,
a utilização dos cativos torna-se ainda mais compreensível. Segundo Couty, o Sr. Costa lhe
confidenciou que a transição do trabalho escravo para o trabalho livre envolvia muitos fatores.
O charqueador tinha plena consciência de que continuar utilizando escravos nas charqueadas
não era uma boa solução se fossem pensar na conjuntura emancipacionista da época, mas ele
dizia que os charqueadores viam-se obrigados a utilizá-los porque os trabalhadores livres eram
muito inconstantes e que não havia colonos europeus disponíveis para substituir todos os
cativos de uma charqueada.88

Contudo, entre os charqueadores não havia um consenso sobre o que ser feito. Couty
alegava que o trabalho dos colonos alemães não era adequado e que os charqueadores não
queriam trazer trabalhadores do Prata. Outros empresários achavam que a utilização dos
escravos ainda estava de bom tamanho e apenas alguns poucos eram mais favoráveis em
investir capitais para financiar a vinda de colonos da Europa. De fato, como os libertos e os
trabalhadores livres da região haviam sido descartados pelos charqueadores de um suposto
processo de transição, a saída, para alguns, seria o incentivo à vinda de colonos europeus ou
trabalhadores da região do Prata. Este, por exemplo, foi um modelo adotado tanto pelos
cafeicultores paulistas quanto pelos saladeiristas platinos.89 Contudo, os charqueadores

88
COUTY, Louis. Op. cit., p. 150-153.
89
Ver, por exemplo, COSTA, Emília Viotti da. Da monarquia à república: momentos decisivos. São Paulo:
UNESP, 1999, p. 195-232; HALL, Michael; STOLCKE, Verena. A introdução do trabalho livre nas fazendas de
café em São Paulo. In: Revista Brasileira de História, n. 6, set., 1983; EISENBERG, Peter. Op. cit., 1980.
Conforme Couty, “no Rio da Prata, não somente são estrangeiros que instalaram a maioria dos saladeros, mas são
também estrangeiros – franceses, italianos, espanhóis – que preparam a carne-seca; e as equipes de operários
contam, sobretudo, com um grande número de bascos franceses e espanhóis. Foram também bascos que se tentou,
há alguns anos, trazer a Pelotas; a tentativa teve resultados muito incompletos e há muito tempo que não mais
permanece nas charqueadas um só dos operários contratados” (COUTY, Louis. Op. cit., p. 152). Barran e Nahum
confirmam a enorme presença de operários europeus nos saladeiros (BARRAN, Jose P.; NAHUM, Benjamin. Op.
cit., p. 100). Uma visão mais a longo prazo compartilhada por todos os charqueadores talvez os tivessem
condicionado a buscar outras alternativas. Mas isto jamais ocorreu. E aqui tendo a concordar com Bell. A maior
presença de estrangeiros entre os saladeros não apenas motivava os mesmos a trazerem operários europeus para o
Prata como também mobilizavam mais capitais em tais empreitadas (BELL, Stephen. Early industrialization in the
South Atlantic: political influences on the charqueadas of Rio Grande do Sul before 1860. In: Journal of Historical
Geography, 19, 4, 1993, p. 399-411.
230
pelotenses pareciam não ter nenhum espírito associativo neste sentido. Em 1862, na Assembleia
Legislativa, um charqueador discursou dizendo ser contra as associações porque isto traria a
política para dentro dos negócios e ele não via com bons olhos estas disputas partidárias.90
Enquanto os saladeiristas platinos conseguiam entrar em consenso para resolver seus
problemas91, os charqueadores não tiveram o mesmo sucesso. Além disso, não há notícias de
que eles tenham enviado representantes para os Congressos Agrícolas ocorridos em Recife e no
Rio de Janeiro (1878) e, nem mesmo em nível provincial, os mesmos pareceram organizar algo
do tipo para discutir o problema da mão de obra. 92

Dentro da perspectiva de uma elite escravista que via-se numa conjuntura desfavorável
com relação à oferta de braços, creio que os charqueadores acertaram em implantar um sistema
de incentivos monetários relacionados à produção escrava. Com isso, eles compensaram a perda
de mão de obra após o fim do tráfico e criaram uma expectativa bastante real de liberdade para
aqueles que ampliassem as suas tarefas diárias. Mas insistindo em tal medida sem promover os
cativos para o assalariamento pleno e melhorar as condições de vida dos trabalhadores livres,
tal medida era mais uma sobrevida para a charqueada escravista do que uma solução para o
setor. Contudo, até mesmo neste simples dispositivo havia empresários que não o aprovavam.
Conforme Couty, alguns charqueadores achavam que os prêmios pagos eram uma despesa
adicional e que na pressa de realizarem suas tarefas os escravos preparavam um produto final
com qualidade inferior. Mas Couty diz que esta era a opinião de um “conhecido” charqueador.
Acredito que talvez fosse um velho charqueador pelotense e, neste sentido, os empresários mais
novos, como o Sr. Costa, deviam ter que encarar o choque de gerações que marcou os anos
1870 e 1880, tendo que convencer os velhos escravistas de que uma mudança era necessária.
Mesmo não tendo sido sua única causa, o fim da escravidão marcou um declínio irrecuperável
para a indústria charqueadora pelotense.

Portanto, não se pode dizer que não havia saída para o complexo charqueador escravista
pelotense. No que diz respeito à mão de obra pode-se inclusive supor que os escravos estavam
internalizando a relação direta entre produtividade e retribuição monetária. Neste sentido, é
possível que eles estivessem se adaptando mais facilmente ao novo mundo capitalista que seria

90
Ver discursos dos dias 02.10.1862 e 04.11.1862 (PICCOLO, Helga. Op. cit.).
91
BARRAN, Jose P.; NAHUM, Benjamin. Op. cit.
92
Conforme o cálculo realizado por José Murilo de Carvalho, não havia representantes do Rio Grande do Sul no
Congresso do Rio de Janeiro (CARVALHO, José Murilo de. Introdução. In: Congresso agrícola do Rio de Janeiro
(1878). Rio de Janeiro: Fundação Casa Rui Barbosa, Edição fac-similar, 1988, p. v-ix). Eisenberg também não
menciona a presença de representantes rio-grandenses (EISENBERG, Peter. Op. cit., 1980). Para uma análise do
comportamento dos deputados provinciais do Rio Grande do Sul a respeito da mão de obra escrava e do processo
emancipacionista ver BAKOS, Margaret. RS: escravismo & abolição. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982.
231
instalado nas charqueadas e frigoríficos no século XX do que os próprios charqueadores.
Portanto, parafraseando Marcelo Matheus, “pode-se dizer que Fernando H. Cardoso acertou
errando”.93 Como afirmou Cardoso, no final dos anos 1870, os charqueadores pareciam não ter
se libertado totalmente da sua visão de mundo senhorial. 94 Contudo, em nossa opinião, o
problema não foi a utilização dos cativos em si, como defendeu o autor.95 Atualmente já está
mais do que aceito que o trabalho escravo era economicamente rentável não somente em
Pelotas como também nos cafezais do sudeste, nas minas de São João, nas fazendas de algodão
dos Estados Unidos e em diversas outras sociedades, por exemplo.96 O problema talvez tenha
sido a descrença por parte dos charqueadores de que os libertos poderiam ser agentes da
mencionada transição, a desvalorização das condições de vida dos trabalhadores livres
assalariados, a incapacidade de associação para patrocinar a entrada de trabalhadores colonos e
o pensamento a curto prazo com relação aos seus investimentos econômicos no período.

6.2 APRENDENDO A SER SENHOR: A ADMINISTRAÇÃO DOS ESCRAVOS NA


PRIMEIRA GERAÇÃO DE CHARQUEADORES

Para compreender melhor o que os charqueadores pensavam sobre a administração dos


seus escravos seria necessário ultrapassar este espaço intermediado pelo capataz, assim como os
testemunhos dos processos crimes, nos quais as atitudes do charqueador aparecem somente
através de depoimentos de terceiros ou dos “filtros” característicos das fontes policiais.97 Nas
próximas páginas busco examinar alguns vestígios deste mosaico de formas de administração
escrava a partir dos próprios escritos de alguns charqueadores ou ex-charqueadores, além do
cruzamento com outras fontes documentais.

Começo pelo charqueador Antônio José Gonçalves Chaves. Natural da comarca de


Chaves, em Portugal, estima-se que ele tenha nascido por volta de 1790 e chegado ao Brasil,
em 1805, vindo a estabelecer-se no porto de Rio Grande, onde trabalhou inicialmente como
caixeiro. Desembarcando num momento favorável para os negócios do charque e dos couros
com o Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, Chaves aparentou-se por meio do matrimônio e do
compadrio com uma das principais famílias da terra, vindo a tornar-se um dos comerciantes-

93
MATHEUS, Marcelo S. Op. cit.
94
CARDOSO, Fernando H. Op. cit.
95
A postura de Cardoso deveu-se muito ao fato de ele ter aceito as ideias de Couty acriticamente sem pensar que o
viajante francês esteve em Pelotas no início da década de 1880. Nesta época, a escravidão realmente já estava
condenada, o que certamente influiu no seu relato e na comparação com os saladeros platinos.
96
GRAHAM, Richard. Escravidão e desenvolvimento econômico: Brasil e Sul dos Estados Unidos no século XIX.
In: Estudos Econômicos, n. 13, Jan./Abr., 1983, p. 223-257.
97
CHALHOUB, Sidney. Op. cit.
232
charqueadores mais respeitados da região. O enriquecimento levou-o à política. Em 1828, ele
ocupou uma cadeira no conselho administrativo da Província, em 1832, foi eleito vereador em
Pelotas e, em 1835, tornou-se deputado provincial. 98

Chaves era tido pelos seus contemporâneos como um sujeito bastante inventivo. O seu
projeto mais ambicioso foi a construção do primeiro navio a vapor da região sul, chamado
“Liberal”. A embarcação navegou por águas do atlântico no início da década de 1830. Suas
peças foram trazidas dos Estados Unidos, país para qual se exportava couros secos e se
importava trigo. Os couros salgados eram enviados principalmente para a Inglaterra e a França,
onde constituíam matéria-prima fundamental para as indústrias daquele país. Este comércio foi
tão rotineiro que, no caso de Chaves, as relações mercantis acabaram sendo extrapoladas para a
vida familiar, pois uma das suas filhas casou-se com um comerciante inglês chamado Robert
Barker e outro filho foi enviado para estudar Medicina, em Paris.

Portanto, estas trocas mercantis também favoreciam a circulação de idéias, vindas tanto
da Europa, quanto dos Estados Unidos e dos portos vizinhos do Prata. Quando Saint-Hilaire
esteve hospedado na casa de Chaves, notou tudo isto: “O Sr. Chaves é um homem culto,
sabendo o latim, o francês, com leituras de história natural, conversando muito bem”, em suma,
“um dos homens mais esclarecidos da região”. 99 Todo este conhecimento de Chaves, assim
como suas opiniões sobre política e economia, foi transposto para o papel entre os anos de 1817
e 1822, sendo impresso num único volume. Seu livro estava dividido em cinco memórias,
sendo a terceira dedicada exclusivamente à escravidão. Nesta, Chaves buscou defender a
extinção do comércio de escravos para o Brasil sob a luz das novas ideias da economia política.
Para ele a escravidão era um mal tanto para a economia do Brasil, quanto para o
desenvolvimento político do Estado.100

Naquela época, a condenação da escravidão e do tráfico no Brasil também foram


defendidas por outros letrados luso-brasileiros e portugueses, como João Severiano Maciel da
Costa (1821) e José Bonifácio de Andrada e Silva (1823). Mas ao contrário de Bonifácio e
outros anti-escravistas, Chaves era proprietário de muitos escravos o que torna curiosa a sua
posição. Talvez seja por isso que a solução proposta por ele foi uma transição lenta. Para não
provocar uma crise econômica, Chaves defendeu que o tráfico fosse extinto em 18 meses, mas

98
Dados biográficos sobre Chaves podem ser obtidos em FRANCO, Sérgio da Costa. Livro e seu autor. In:
CHAVES, Antônio José Gonçalves. Memórias ecônomo-políticas sobre a administração pública do Brasil. Porto
Alegre, Cia. União de Seguros Gerais, 1978, p. 15-18.
99
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 103.
100
CHAVES, Antônio José Gonçalves. Op. cit., p. 53-77.
233
que só fossem considerados libertos os filhos dos cativos nascidos a partir de então (mas apenas
quando completassem 25 anos). Chaves argumentou que a abolição total só seria possível
quando a “nossa força física” exceder a “raça preta”. Uma de suas preocupações era que o
Brasil virasse outro São Domingos, algo manifesto por outras elites senhoriais da época.101

A visão de mundo de Chaves e o tipo de negócios que ele possuía certamente


influenciavam na forma como ele administrava a sua escravaria. Chaves faleceu em
Montevidéu, no ano de 1837, para onde migrou com sua família e escravos após a eclosão da
Guerra dos Farrapos, em 1835. Tendo aderido o lado rebelde, Chaves preferiu retirar-se do país
para tentar seguir com seus negócios, desta vez no país vizinho. Estabelecido em Montevidéu,
Chaves alugou 30 de seus escravos para um saladeirista uruguaio chamada Francisco Nieto.
Terminado o contrato, os escravos não quiseram mais retornar para a fábrica de Chaves,
preferindo servir ao senhor uruguaio. Pressionado pelos escravos, em outubro de 1837, Nieto
comunicou ao alcaide ordinário de Montevidéu:

Havendo contratado em meu Saladeiro, pelo tempo de cinco meses, trinta escravos do
Sr. Chaves, estes infelizes adquiriram por mim um certo carinho, talvez consequência
dos bons tratos que lhes dispensei e, ao devolvê-los a seu Amo ao final deste tempo,
alguns deles me suplicaram que os comprasse; porém, crendo que eles não pudessem
ser vendidos, me neguei às suas reiteradas e comoventes solicitações. Sem mais, Sr.
Alcaide, se passou desde então; no entanto, não há uma única semana na qual alguns
deles não venham à minha casa, movidos pelo mesmo intento; acrescente-se a isto,
todavia, as crueldades de que eram vítimas em seus sofrimentos, não somente pelos
castigos que devem infligir-lhes, como também pelo incessante trabalho; e
contrariando a disposição de nossas leis, não têm eles um momento próprio, nem
mesmo o Domingo – diziam alguns, acrescentando que à noite, os encerravam à
chave, o que se há provado pelas circunstâncias de suas fugas; e, para dar a última mão
a este quadro, asseguraram que seu Senhor os obriga a se converterem em verdugos de
seus próprios irmãos, seus companheiros de desgraça, açoitando-se reciprocamente
quando lhes cabia o castigo, até o enterro; pois que, nos últimos dias, deram
quatrocentos açoites em um companheiro, deixando-o por morto.102

Nieto informava ainda que pediu às autoridades que encontrassem um meio legal de
obrigar Chaves a alforriar os escravos. Neste ínterim, Chaves veio a falecer num naufrágio. 103 O
processo não teve desfecho e não se sabe do destino dos escravos, sendo possível que muitos
permaneceram com os herdeiros de Chaves. Também não há como saber se Nieto estava
exagerando nas denúncias. No entanto, a partir de outros indícios que tratarei a seguir, creio que

101
CHAVES, Antônio José Gonçalves. Op. cit., p. 72-73). Para uma análise sobre a retórica do perigo do
haitianismo entre as elites brasileiras da época ver MARQUESE, Rafael; PARRON, Tâmis. Revolta Escrava e
política da escravidão: Brasil e Cuba, 1791-1825. Revista de Índias, v. LXXI, n. 251, 2011m p. 20-52.
102
MONQUELAT, A. F. Charqueadores, Saladeristas y Esclavistas. Pelotas: UFPel, 2010, p. 32-33.
103
MONQUELAT, A. F. Op. cit., p. 32-33. Não foi a única vez que um charqueador pelotense, emigrado em
Montevidéu, deu problemas às autoridades uruguaias por conta de seus excessos no tratamento dos cativos. Em
1837, José P. de Sá Peixoto espancou um escravo de sua charqueada até a morte, fazendo com que cerca de 9 de
seus cativos fossem denunciá-lo para a polícia local (MONQUELAT, A. F. Op. cit., 38-39).
234
Chaves era para eles um mau senhor, ao contrário de Nieto. A partir de um acontecimento
ocorrido em 1821, na charqueada que Chaves possuía em Pelotas, é possível crer que não havia
invenção em nada do que Nieto relatou.

Em outubro de 1821, o escravo Chico campista, que trabalhava na charqueada de


Chaves, foi condenado à prisão por ter assassinado com uma facada o capataz do
estabelecimento. As justificativas do réu, confirmadas pelas testemunhas, eram de que o
capataz lhe havia xingado, pois o charque estendido por ele estava tocando as pontas no chão.
Chico argumentou que o varal era muito baixo e não tinha como evitar isto. O capataz lhe bateu
com o chicote e Chico revidou com uma faca. O réu também mencionou os excessos do capataz
e que ele teve que estender as mantas de charque sozinho, quando o certo seria trabalhar em
dupla com outro escravo. Mas a principal queixa do réu foi de que tudo isto aconteceu num dia
de domingo, ou seja, no dia de descanso, nas palavras do escravo, ou no dia “de guarda em
honra de Deus pela Igreja e pela Lei” de acordo com o advogado de defesa. 104

A partir deste caso é possível verificar algumas reclamações que lembram muito as dos
escravos de Chaves no Uruguai. O excesso de trabalho imposto aos escravos, a execução de
tarefas aos domingos, os castigos exagerados, a proibição das saídas noturnas, ou seja, uma
rígida disciplina combinada com uma exploração da mão de obra acima do suportável pelos
cativos. Isto fica evidente no juízo que os mesmos fizeram ao escolherem Nieto como um bom
senhor, dentro dos critérios que os próprios escravos possuíam. A forma como Chaves
governava sua escravaria extrapolou a senzala, tornando-se pública. De acordo com Saint-
Hilaire, “ele e sua mulher só falam a seus escravos com extrema severidade, e estes parecem
tremer diante dos seus patrões”.105

Se Saint-Hilaire exagerou em suas colocações, outras fontes permitem supor que este
exagero não foi desmedido. Nas Memórias redigidas por Chaves, ele mesmo expõe a sua visão
sobre os escravos, fornecendo pistas sobre a gestão escravista que ele realizava. Sobre a
possibilidade de casamento e constituição de família entre os cativos, Chaves foi claro: “O
senhor não quer que o escravo case porque o incomoda com isso e acontece também não ter
fundos para comprar-lhe mulher, ao mesmo tempo que é inconciliável casá-lo fora de casa”. O
casamento, para Chaves, seria uma forma de atingir a “procriação tardia”, mas a mesma não era
economicamente vantajosa. Em sua opinião, os grandes fazendeiros conseguiam escravos
robustos por preço baixo e, portanto, não investiam da procriação, pois não “vale (segundo a

104
Processo-crime, n. 174, m. 07, Ano 1824, Tribunal do Júri, Porto Alegre, APERS.
105
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Op. cit., p. 119.
235
frase de muitos) a pena de cuidar de crianças”. Taxativo, Chaves conclui: “É certamente
claríssimo que a procriação desta classe [escrava] é em si mesma inoperável” e “se chegam a
consentir alguns casais, não prestam às ditas crianças os necessários socorros, pelo que morrem
à míngua”. 106 Sobre o tratamento das crianças, cabe aqui citar algo que chamou a atenção de
Saint Hilaire quanto esteve na casa de Chaves:

Há sempre na sala um negrinho de dez a doze anos, que permanece de pé, pronto a ir
chamar os outros escravos, a oferecer um copo de água e a prestar pequenos serviços
caseiros. Não conheço criatura mais infeliz do que esta criança. Não se assenta, nunca
sorri, jamais se diverte, passa a vida tristemente apoiado à parede e é, frequentemente,
martirizado pelos filhos do patrão.107

Sobre isto, Chaves esclareceu: “Um menino é desde seus primeiros dias acostumado a
horrorosos castigos feitos aos escravos (com que se encaminha à ferocidade) e palavras pouco
edificantes das suas famílias para com seus domésticos”. 108 Portanto, as opiniões que Chaves
possuía sobre os escravos convergiam com as afirmações de Saint Hilaire e as declarações do
saladeirista Nieto. Ainda sobre o tratamento dos cativos, Chaves afirmou com ênfase não
apenas a sua posição, mas, na opinião dele, a dos luso-brasileiros em geral: “nós tratamos mal
os escravos”, pois eles são nossos “inimigos internos” ou “inimigos domésticos”. Para Chaves,
a excessiva presença destes na população brasileira, algo que segundo ele chegava a ¾ do total,
era uma grave ameaça. Chaves complementou seu raciocínio dizendo “que enquanto não
melhorarmos em proporção de forças físicas, não podem nossas leis outorgar-lhes as
beneficências que sua desgraçada condição tão imperiosamente reclama”. Só quando a classe
livre ultrapassar a classe escrava em número de habitantes “que as leis podem conceder todos
os bens até concluir a sua emancipação”. Para comprovar suas ideias, ele cita o caso da Bahia
que “na imprudência de consentir entre si tão extraordinário número de escravos” vem
constituindo-se num grande foco de revoltas. Daí a necessidade de cessar com o tráfico, pois só
assim, dizia Chaves, “escaparemos ao iminente risco da desastrosa e tremenda catástrofe dos
franceses na Ilha de São Domingos”. 109

O que fica mais claro nos escritos de Chaves é que ele constituía-se em mais um entre os
muitos membros das elites escravistas no Brasil oitocentista atraídos pelas teses da economia

106
CHAVES, Antônio José Gonçalves. Op. cit., p. 61. A ampla produção sobre a família escrava no Brasil
demonstra que Chaves estava completamente equivocado no que diz respeito aos demais senhores de grandes
plantéis. Ver, por exemplo, os clássicos FLORENTINO, Manolo; GOÉS, José R. A paz nas senzalas: famílias
escravas e tráfico atlântico. Rio de Janeiro (c.1790 – c.1850). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997;
SLENES, Robert. Na senzala uma flor. Esperanças e recordações na formação da família escrava – Brasil.
Sudeste, século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
107
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Op. cit., p. 119-120.
108
CHAVES, Antônio José Gonçalves. Op. cit., p. 66.
109
CHAVES, Antônio José Gonçalves. Op. cit., p. 62-63; 66; 71.
236
política. Adaptando as mesmas às singularidades brasileiras, ele buscou aplicá-las em seus
estabelecimentos combinando-as com uma rigorosa disciplina. Mas a tarefa era difícil. Na
opinião de Chaves, o emprego de uma racionalidade econômica por meio do uso do trabalho
escravo não era possível. Citando uma frase de Adam Smith, ele afirmava: “o escravo – diz um
economista – consome o mais que pode e trabalha o menos que pode”. Por sua “indigência
corporal e espiritual”, o escravo “jamais pode ter faculdades para dirigir bem o trabalho de que
é encarregado”. Seguindo esta lógica, creio que Chaves também devesse considerar que os
cativos não poderiam ter roças próprias, pois seriam incapazes de gerir as mesmas de forma
autônoma. Ainda sobre esta questão, Chaves afirmou: “Nada pode cooperar mais eficazmente
para os trabalhos produtivos de uma nação do que a subdivisão do mesmo trabalho” e, portanto,
o Brasil estava em condições desvantajosas, pois não poderia haver subdivisão do trabalho no
uso de mão de obra escrava. Por tudo isso, afirmava Chaves: “mais vale um casal de gente livre
do que mil negros cativos”.110

Em suas Memórias, o recurso narrativo de Chaves tendia, em muitos parágrafos, a


converter as suas opiniões individuais para as opiniões de todos os luso-brasileiros, onde o
“nós” torna-se o sujeito escritor da obra. Mesmo que suas opiniões fossem aceitas por outros
escravistas, algumas delas não eram. Muitos senhores deviam compartilhar do perigo do
haitianismo, mas nem por isso desejavam a extinção total do tráfico e da escravidão. Outros,
como Bonifácio, eram anti-escravistas, mas não achavam que a melhor solução fosse direcionar
o governo dos escravos com uma rigorosa disciplina, castigos excessivos e alta vigilância.
Como notou Guedes, Bonifácio projetava, com a extinção do tráfico, que os escravos servissem
aos seus senhores “com fidelidade e amor” e “de inimigos se tornariam amigos e clientes”. Para
Bonifácio, “a situação mais deliciosa” seria ver um senhor viver sem medo entre seus escravos,
como se pertencesse a uma mesma família. 111 Analisando os escritos de Bonifácio, Guedes
percebeu que para o autor “o casamento entre escravos e suas economias próprias – suas
terrinhas, suas caças e suas pescas – eram de fundamental importância e transformariam
escravos em amigos e clientes, evitando um São Domingo abaixo da linha do Equador”. 112

Para evitar o perigoso São Domingo, Chaves e Bonifácio concordavam na extinção do


tráfico. No entanto, o primeiro não desejava uma vivência em harmonia entre senhores e

110
CHAVES, Antônio José Gonçalves. Op. cit., p. 60-61; 69.
111
SILVA, José Bonifácio de Andrada e. Representando à Assembléia Geral Constituinte e Legislativa do Império
do Brasil sobre a escravatura. In: Obra política de José Bonifácio. Brasília: Senado Federal, 1973, p. 94-97.
112
GUEDES, Roberto. Autonomia escrava e (des) governo senhorial na cidade do Rio de Janeiro da primeira
metade do século XIX. In: FLORENTINO, Manolo (Org.). Tráfico, cativeiro e liberdade: Rio de Janeiro, séculos
XVII-XIX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, p. 247.
237
escravos, não via com bons olhos a família escrava e não permitia grandes espaços de
autonomia ao cativeiro. Entre tratar bem dos cativos para aproveitar melhor sua força de
trabalho ou explorá-los economicamente sem conter os exageros, Chaves aproximou-se mais do
segundo comportamento, impondo ritmos de trabalho excessivos aos seus escravos, sob
rigorosa disciplina e castigos em demasia.

Mas nem todos agiam desta forma. João Francisco Vieira Braga parece ter buscado
seguir um outro modelo de administração dos cativos. Filho de um rico comerciante, Vieira
Braga nasceu em Piratini-RS (1793), cresceu entre estancieiros e desde cedo acostumou-se com
o ambiente belicoso da fronteira. Na vida adulta dedicou-se ao comércio no porto de Rio
Grande e também possuiu uma charqueada, tendo, nas décadas de 1810 e 1820, fechado vários
contratos com o Estado, vendendo provisões para os exércitos estacionados na região, de onde
alavancou a sua riqueza. Neste ínterim, Vieira Braga comprou a Estância da Música, em
Piratini, quase fronteira com o Uruguai. No início da década de 1830, ele já não possuía mais a
sua charqueada, mas, além dos seus negócios, gastava boa parte do seu tempo administrando as
propriedades de sua mãe. Como permanecia residindo em Rio Grande, cerca de 150 km distante
da propriedade que comprara, Vieira Braga remetia instruções ao seu capataz de como deveria
administrar o estabelecimento. São estas instruções, escritas em 1832, que utilizarei para
analisar a forma como este senhor governava a sua escravaria. 113

Vieira Braga empregava seus escravos em praticamente todos os serviços da


propriedade, tanto na pecuária e na agricultura, quanto no conserto e na construção de
benfeitorias. Os escravos também eram emprestados ao afilhado e ao cunhado, além de serem
encaminhados aos postos da estância para auxiliarem na guarda e no plantio de alimentos para
sua subsistência. De acordo com Guilhermino César, para alimentar o posteiro 114, sua família e
o escravo também haveria quatro vacas. Neste sentido, Vieira Braga era bastante diligente. Uma
das medidas mais importantes para ele era fazer plantar bastante milho, feijão, abóbora,
hortaliça e algum trigo, “para que haja tudo de fartura, a fim de poupar-se as muitas
carneações”.115 E sobre a alimentação dos cativos, ele ordenava: “a comida para os escravos

113
“Instruções para o Sr. João Fernandes da Silva, capataz da Estância da Música, escritas por João Francisco
Vieira Braga, 20.07.1832”. In: CÉSAR, Guilhermino. O Conde de Piratini e a Estância da Música:
Administração de um latifúndio rio-grandense em 1832. Porto Alegre/ Caxias do Sul: EST/IEL, 1978. Os dados
biográficos sobre Vieira Braga foram reunidos na mesma publicação.
114
Os postos eram localizados nos limites da estância e estavam providos de casas de moradia, mangueiras e outras
benfeitorias, onde o proprietário colocava um “posteiro” para lhe reparar o gado e as benfeitorias (CÉSAR,
Guilhermino. Op. cit., p. 39).
115
Os escravos também eram empregados no plantio de outros ramos. Uma das ordens de Vieira Braga dizia:
“Plantar-se também muitos pessegueiros, alamos, vimes e salsos, para que venha a haver lenha com fartura, e
aumentar-se o arvoredo de Espinhos na quinta” (Instruções ao capataz..., p. 40).
238
deverá ser feita por um deles, para que cada um [não] se veja na necessidade de ir fazer, do que
resultaria perda de serviço, e andarem mal comidos”. Para complementar a dieta e estimular os
escravos a produzirem, ele permitia que os mesmos possuíssem roças próprias e criassem
animais: “Os escravos podem plantar e criar galinhas tendo milho para as sustentar”. 116

Observa-se, portanto, um cuidado com a alimentação dos escravos e o incentivo para


que plantassem. O mesmo comportamento era tomado com relação às vestimentas dos cativos.
Em uma das ordens, Braga escreveu: “A roupa que se der aos escravos será lançada em assento
para saber-se, e deverá um deles lavar a roupa de todos para que andem limpos, assim como as
chergas dos arreios serão lavadas todas as vezes que se possa para que não venham a maltratar
os cavalos”. Em outra ordem, o senhor detalhou melhor como deveriam ser distribuídas outras
vestimentas, demonstrando uma diferenciação para com as crianças e roupas especiais para
alguns escravos: “Dará uma muda de roupa de algodão a cada um dos escravos que lá estão,
advertindo que as três mudas dos mais pequenos que vão para os moleques Claudino, Evaristo e
Moisés, e vão também 4 ponches para serem dados aos negros Domingos Pernambuco, José
Bolieiro, Manoel Aguiar e Matheus campeiro, sendo o deste forrado de baeta”. 117 Observa-se,
portanto, que entre os escravos que receberam ponches está um boleeiro, que devia ter mais
contato pessoal com Vieira Braga, e que Matheus recebia um ponche reforçado de baeta,
certamente para protegê-lo mais do frio e da chuva. De todos os campeiros ele foi o único que
recebeu tal distinção. Analisando o mesmo documento, Guilhermino César se perguntou: “Não
seria uma prova de apreço dada ao melhor tropeiro da estância?”. Creio que sim.

Outra preocupação de Vieira Braga dizia respeito à saúde física e espiritual dos cativos.
Sobre o primeiro, ele recomendou ao capataz “prestar todo o bom tratamento aos escravos e
muito especialmente nas ocasiões em que estejam doentes”. Para isto, disse que o seu afilhado
iria entregá-lo um papel de como se fazer alguns remédios. Com relação ao segundo, Vieira
Braga mandou que ele fizesse “os negros rezarem o terço todas as noites e ensinar a doutrina
aos que a não souberem”. Por fim, ele concedia certas “regalias” aos cativos, mas sempre
pensando em economizar as rendas da estância: “Dar mensalmente aos escravos três palmos de
fumo em quanto o houver no rolo que deixei, pois não se deve comprar pelo alto preço que se
vende. Em dias de muito frio e chuva também se lhes dará um ponche de água quente com
aguardente e açúcar”.118

116
Instruções ao capataz..., p. 42-43.
117
Instruções ao capataz..., p. 46.
118
Instruções ao capataz..., p. 43-46.
239
As Instruções constituem-se num documento com características diferentes, por
exemplo, dos conhecidos Manuais escravistas. Sua intenção não era “educar” os senhores a
realizarem uma boa gestão administrativa do plantel. Nesse sentido, as Instruções revelam mais
uma preocupação da prática cotidiana do que com uma teoria do governo dos escravos, por
exemplo. 119 A análise de outros dois documentos envolvendo a escravaria de Vieira Braga pode
ajudar a compreender melhor a forma como ele governava os seus cativos. No inventário de sua
mãe, e no qual ele era o testamenteiro e inventariante, fica nítida a gestão que ele exercia sobre
os negócios da família.120 Na avaliação do patrimônio, ocorrido em 1847, foram arrolados 136
escravos – o terceiro maior plantel inventariado em Pelotas entre 1800 e 1850. O que deve ser
destacado de início é o grande equilíbrio entre homens e mulheres se comparado aos plantéis
dos grandes escravistas estudados no capítulo anterior. Os 19 inventários (14 de charqueadores
e 5 de estancieiros) que detinham plantéis com 50 cativos ou mais somavam 1.612 escravos,
sendo 1.234 homens. Estes números evidenciam uma razão de sexo de 327 homens para cada
100 mulheres. Este índice elevado de Pelotas deve-se ao caráter fabril das charqueadas, onde os
proprietários adquiriam cativos quase que exclusivamente para os trabalhos nos galpões de
charquear, como já foi dito. Ao se analisar somente os plantéis dos 14 charqueadores do grupo
mencionado, a razão de sexo aumenta de 327 para 403.121

Contudo, o plantel administrado por Vieira Braga, onde figuravam 70 homens e 66


mulheres, possuía uma razão de sexo de 106, revelando um grande equilíbrio comparável a
algumas plantations escravistas após o fim do tráfico atlântico. O inventário felizmente
apresenta uma minúcia na descrição da filiação de todos os cativos. Analisando o rol é possível
perceber que 64 dos 136 escravos eram filhos de cativas do mesmo plantel, ou seja, 47% dos
mesmos. Trata-se de um alto índice de reprodução natural no interior da própria escravaria que,
ao longo do tempo, possibilitou Vieira Braga dobrar o seu plantel somente com “as crias da
casa”. A relação apresenta 28 mães diferentes. Florinda Rosa foi a que deu mais filhos cativos
ao senhor, somando 7 rebentos. Rosa Catarina teve 6, Rosa Antônia e Simpliciana tiveram 5
filhos cada uma, Ana, Rosa, Eva e Rosa Camundá tiveram 3 filhos cada, Eleutéria, Felizarda,
Justina, Lucrecia e Mandú tiveram 2 filhos cada, e outras 14 cativas tiveram somente 1 filho.

119
Para uma análise destes manuais ver MARQUESE, Rafael de B. Feitores do corpo, missionários da mente:
Senhores, letrados e o controle dos escravos nas Américas (1660-1860). São Paulo: Cia. das Letras, 2004.
120
Inventário de Maria Angélica Barbosa, n. 286, m. 20, Ano 1847, Pelotas, 1º Cartório de órfãos e provedoria –
APERS. Trabalhando com as dezenas de cartas trocadas entre Vieira Braga e seus familiares, Karl Monsma
considerou o mesmo (MONSMA, Karl. Repensando a escolha racional e a teoria da agência: fazendeiros de gado e
capatazes no século XIX. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 15, n. 43, 2000, p. 83-113).
121
Inventários post-mortem dos cartórios de Pelotas (APERS).
240
Conforme Manolo Florentino, os inventários não são as melhores fontes para localizar
as famílias escravas122, mas cruzando o número de homens com o de mulheres adultas verifica-
se um nítido equilíbrio entre os sexos. Entre os homens, tem-se 36 adultos com 18 anos ou mais
(sendo 23 africanos) e com uma média de idade de 41,5 anos. Entre as mulheres, verifica-se 34
adultas com 16 anos ou mais (sendo 14 africanas) e uma média de idade de 33,9 anos. Com 15
anos ou menos, verificou-se 35 escravos (média de 7,4 anos), sendo que somente 2 meninos de
12 anos não eram filhos de escravas do plantel. Portanto, acredito que existiam muitos casais
nas senzalas administradas por Vieira Braga e que, além da vontade dos cativos em formarem
estas famílias, também devia haver um incentivo e empenho por parte do senhor para tal fim,
podendo o mesmo comprar algumas escravas visando o equilíbrio de sexo na senzala. 123

Um dos incentivos à formação de famílias e à reprodução natural no interior do plantel


podia ser a concessão da liberdade às cativas que oferecessem mais rebentos ao seu senhor.
Neste sentido, examinando as cartas de alforria passadas por Braga foi possível perceber que a
escrava Florinda Rosa foi liberta após pagar 600$000 ao seu senhor, sendo que 250$000 foram
pagos pela mãe da cativa, a preta forra Rosa Camundá (ex-escrava da família Vieira Braga) e o
restante pelos irmãos de Vieira Braga. 124 Destaco esta carta, pois Florinda Rosa foi a campeã
em fornecer rebentos para a família, tendo tido 7 filhos como já mencionei. Mas a preta forra
Rosa Camundá não pararia por aí. Cerca de seis anos depois pagou 1:100$000 a Vieira Braga
pela liberdade de seu filho Manoel. O senhor aceitou a oferta, “com a condição, porém, de viver
sempre em companhia de sua mãe, para fazer-lhe todo o serviço que ela precise, tratando-a com
toda a caridade que requer a sua avançada idade, e se assim o não fizer ficará de nenhum efeito
esta carta”.125 Rosa havia dado 3 filhos ao plantel do senhor e, por intermédio da mencionada
Florinda, outros 7 netos. Florinda foi a única escrava libertada em cartório por Vieira Braga no
período, o que reforça a ideia de recompensa pelos escravos dados ao seu senhor.

Além do mais, é possível que Rosa Camundá e Florinda, assim como o campeiro
Matheus, fossem especiais aos olhos da família Vieira Braga, o que lhe fez aceitar a oferta da
preta forra. Com relação a esta hierarquia no interior da senzala, ainda é possível fazer outra
referência a partir do inventário. Dos 136 escravos elencados, somente um cativo foi libertado
no testamento passado pela falecida mãe de Vieira Braga. Era a escrava Clara, de cor parda e de
122
FLORENTINO, Manolo. Em costas negras: uma história do tráfico de escravos entre a África e o Rio de
Janeiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 55.
123
Para uma análise da família escrava em Pelotas e, em particular, deste mesmo plantel ver PINTO, Natália
Garcia. A benção compadre: experiências de parentesco, escravidão e liberdade em Pelotas (1830-1850).
Dissertação de Mestrado. Unisinos, 2012.
124
Livro de Registros Diversos, 2º Tabelionato, Pelotas, 1852, Livro 4, p. 12v.
125
Livro de Registros Diversos, 2º Tabelionato, Pelotas, 1852, Livro 5, p. 32v.
241
35 anos. Das 66 mulheres, Clara foi uma das duas únicas cativas descritas como de “serviço
doméstico”. Portanto, Clara havia recebido a liberdade de sua senhora provavelmente por
serviços prestados ao longo de sua vida e por estar presente em sua casa, muito próxima,
cuidando-a. O mais interessante é que a outra escrava de “serviço doméstico” era a filha de
Clara, aliás, a única filha da cativa, chamada Arminda, parda, de 17 anos. Penso que isto
demonstre que o serviço doméstico realizado por Clara sustentava-se numa relação de plena
confiança da senhora para com a cativa, confiança e lealdade que estava sendo passada para a
filha da cativa por meio de sua própria mãe.

Com tudo o que foi descrito sobre a forma como Vieira Braga governava seus cativos e
os de sua mãe é possível verificar uma administração bastante diversa da analisada no caso de
Chaves. Enquanto este charqueador não oferecia um bom tratamento aos seus escravos adultos
e crianças, exagerava nos castigos, cerceava sua autonomia, inviabilizando a formação de
famílias, Vieira Braga permitia aos seus escravos possuírem roças próprias e criarem animais,
dedicava grande importância à alimentação, às vestimentas e ao cuidado da saúde dos escravos.
Além disso, ele também encorajou a formação de famílias e estimulou a hierarquia entre os
cativos, premiando-os com distinções no uso de roupas, com cartas de alforrias e com
ocupações distintas, como a de escrava doméstica. Uma outra notável medida foi encaminhar os
cativos na prática da religião católica, buscando consolidar a harmonia na senzala. Além de
estar cumprindo as suas obrigações para com a legislação eclesiástica.126

Um outro bom exemplo envolve o charqueador José da Costa Santos. Nascido no Rio de
Janeiro, ele estabeleceu-se com sua charqueada em Pelotas, na Fazenda São Lourenço,
localizada mais ao norte do município. Numa carta escrita por ele ao amigo Vieira Braga (o
mesmo proprietário analisado acima), Santos relatou um episódio ocorrido em sua charqueada.
O seu capataz, crendo que um dos escravos havia roubado três bexigas de graxa do
estabelecimento, o espancou tão violentamente que o mesmo veio a morrer dias depois.
Indignado, Costa Santos escreveu: “foi forte crueldade dar em um escravo velho por valor de 3
bexigas de graxa que não eram suas e sim minhas e depois não mandar tratar deste infeliz que
tanto trabalhou para esta casa (…) e tendo morrido 12 escravos nesta casa não tenho sentido

126
Conforme as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, “os pais, mestres, amos e senhores” tinham o
dever de “ensinar ou fazer ensinar a doutrina cristã aos filhos, discípulos, criados e escravos”. Ver: VIDE,
Sebastião Monteiro da. Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. Brasília: Senado Federal, 2007, Livro 1,
Título 2 (II), pp. 2-3. Com relação a este aspecto ver também GENOVESE, Eugene. Op. cit.; HAMEISTER,
Martha D. Para dar calor à nova povoação: estudo sobre estratégias familiares a partir dos registros batismais da
Vila do Rio Grande (1738-1763). Tese de Doutorado em História, UFRJ, 2006.
242
como este pelo triste modo com que fez este maldito dar fim a seus dias”. 127 A partir da leitura
do seu testamento, escrito 5 anos depois, fica evidente que o charqueador estava sendo sincero:

Determino que se digam duas capelas de missas pela alma de meu Pai, duas capelas
pelas de meus irmãos e irmãs, duas capelas pelas do Purgatório, uma capela pelas dos
meus escravos falecidos, uma capela pelas de todos os cativos, uma por tenção de
minha mãe e uma por tenção de meus escravos vivos (…) Deixo libertos desde o dia
do meu falecimento os meus escravos Domingos Velho, João Romão, Joaquim das
Ovelhas, Francisco Monjolo e sua mulher, Antônio casado com a preta Joana, e
Antônio Velho, marinheiro. Desde o dia em que ficar desempenhada a minha fazenda
do que atualmente deve, ficarão forros os escravos seguintes: o pardo Isidoro Santana,
Anastácio e sua mulher, Maria Caffe, Antônio Campeiro, o pardo Agostinho: além
destes ficarão forros mais dez escravos dos mais velhos da fazenda.128

Portanto, no juízo dos escravos, Costa Santos devia ser um senhor muito melhor do que
Chaves. A preocupação dele com a vida religiosa dos cativos, algo que Vieira Braga também
compartilhava, merece ser destacada. No capítulo 3, mencionei que o mesmo Costa Santos
requisitou às autoridades religiosas do Rio o direito de possuir um oratório privado em sua
propriedade. O desejo do charqueador era de que pudessem ouvir as missas, além de sua esposa
e suas filhas, “os seus parentes, consanguíneos ou afins, familiares e criados, que juntamente
com eles habitarem nas mesmas casas, como também seus hóspedes nobres, com declaração
que os ditos parentes, familiares e hóspedes nobres, somente estando presentes à celebração do
Santo Sacrifício da Missa os mencionados impetrantes”.129 Certamente, o oratório serviria para
casar seus escravos e batizar os seus filhos. Estudando os plantéis de escravos em Pelotas, entre
1830 e 1850, Natália Pinto verificou a importância dos sacramentos católicos na vida dos
escravos e senhores. Dentre as contribuições de sua pesquisa, menciono o papel do batismo e
do compadrio entre os cativos dos charqueadores, cuja autora analisou de forma mais
aprofundada. Selecionando o plantel de dois grandes charqueadores do período, os
comendadores João Simões Lopes e Boaventura Rodrigues Barcellos, Pinto percebeu como
alguns escravos constituíam-se em padrinhos e madrinhas de prestígio, concentrando um
grande número de afilhados.130

O crioulo José, por exemplo, batizou 12 africanos adultos e uma criança crioula, filha
legítima de um casal de africanos. Conforme Pinto, ele era o escravo mais antigo da senzala de
Simões Lopes. “Quiçá ele fosse elemento importante no processo de socialização dos escravos

127
José da Costa Santos a João F. Vieira Braga, 05.08.1822, BRG, Lata 25 apud MONSMA, Karl. Escravidão nas
estâncias do Rio Grande do Sul: estratégias de dominação e de resistência. In: Anais do V Encontro Escravidão e
Liberdade no Brasil Meridional. Porto Alegre: UFRGS, 2011, p. 4.
128
Inventário de José da Costa Santos, n. 113, m. 9, Pelotas, 1º cartório de órfãos e ausentes, 1827 (APERS).
129
Requerimento de oratório privado de José da Costa Santos. Série Breve Apostólico. Notação 394. Cúria do Rio
de Janeiro.
130
PINTO, Natália. Op. cit.
243
adultos recém-chegados na propriedade, ensinando-lhes os ditames e as normas do rotineiro
trabalho nas charqueadas”. Além disso, ele deveria ser um “importante conector entre o mundo
dos escravos e o mundo senhorial, podendo apaziguar os possíveis conflitos e tensões existentes
dentro da comunidade escrava”, negociando “por direitos ou costumes que, possivelmente
trouxessem mais ‘sossego’ ao mundo senzalesco”.131 Segundo a autora, “os escravos também
procuravam estreitar laços de compadrio com pessoas livres, e algumas dessas eram familiares
de seus proprietários”. No caso de Boaventura Barcellos, dois de seus escravos foram batizados
por um casal de filhos seus. Neste sentido:

A decisão de tornar-se um compadre ou comadre de um familiar do senhor, livre,


escravo ou forro, poderia ser barganhada em um campo de sucesso ou de fracassos.
Tudo dependia da margem negociada entre as forças envolvidas nesse jogo. Ou
melhor, ressaltamos que não deveria ser apenas uma escolha dos escravos o
apadrinhamento com o senhor. Deveria ser uma distinção feita pelo senhor e, ao
mesmo tempo, um indicativo do reconhecimento que o senhor tinha da importância
daqueles cativos no pleno funcionamento da senzala.132

De acordo com Pinto, “os escravos ao escolherem um círculo de relações se


hierarquizavam”, pois “os laços que ligavam alguns escravos, excluíam outros, marcando ainda
mais uma hierarquia entre eles”. Portanto, os escravos que concentravam um grande número de
afilhados entre os cativos africanos “poderiam ter sido um elo no processo de socialização na
comunidade escrava via o ritual do batismo” ao mesmo tempo em que os cativos que tornavam-
se compadres de homens livres, forros e parentes próximos do senhor podiam servir como
mediadores de conflitos entre a casa senhorial e a senzala.133

Observando as práticas de Simões Lopes e Boaventura Barcellos com relação ao


batismo de seus escravos, observa-se um outro mecanismo que, embora não se resumisse a isto,
contribuía com o processo de administração dos seus cativos. Se houvesse a possibilidade de
vislumbrar a forma como outros charqueadores governavam a sua numerosa escravaria nas
charqueadas certamente apareceriam outras características a serem destacadas, mas por mais
que eu tenha pesquisado não foi possível identificar mais vestígios. O fato é que elas variavam
de senhor para senhor. Contudo, em praticamente todas elas é provável que se encontrasse certa
dose de paternalismo combinada com uma rigorosa disciplina, sendo que a dose de um ou de

131
Neste sentido, Pinto também analisou o papel da preta mina Delfina, madrinha-rainha no interior do plantel do
charqueador Boaventura Barcellos. “Pensando, principalmente no caso do apadrinhamento feito pela africana
Delfina, com seus parceiros étnicos, talvez indique que ela fosse uma conexão ou uma ponte de ligação, capaz de
unir em torno de si os africanos recém-chegados, organizando as relações e a convivência social dentro da senzala,
talvez reproduzindo padrões culturais em comum com o novo grupo de parceiros inseridos na comunidade escrava,
e evitando dissabores e rusgas no mundo da senzala do comendador Boaventura” (PINTO, 2012, p. 127-128).
132
PINTO, Natália. Op. cit., p. 131-134.
133
PINTO, Natália. Op. cit., p. 131-134.
244
outro era construída na relação dos charqueadores com os escravos. Conforme Carlos
Engemann “tanto a comunidade modelava o senhor, quanto o senhor definia a comunidade,
ainda que o fizessem em graus e intensidades diferentes”. 134

Estudando as teorias de gestão escravista entre os séculos XVII e XIX, Rafael Marquese
dedicou um espaço importante ao Manual do agricultor brasileiro, cuja primeira edição, escrita
por Carlos Taunay, datava de 1839.135 Neste sentido, é possível verificar nos escritos de Taunay
elementos característicos tanto da forma como Chaves administrava a sua escravaria, quanto da
forma como Costa Santos e Vieira Braga o faziam, e que deviam ser comuns a outros senhores
de grandes plantéis espalhados pelo Brasil. As semelhanças com Chaves se iniciam na não
aceitação do que Rafael Marquese chamou de “tese do bem positivo”, ou seja, a ideia de que a
instituição escravista era essencialmente benéfica para os africanos. Para Taunay, o cativeiro
representava uma “violação do direito natural”. Mas mesmo assim, ele defendia a escravidão,
devido a sua importância econômica para o Império. Embora Chaves não defendesse a
escravidão de forma tão nítida, ambos eram contrários a uma abolição abrupta, pois a mesma
poderia acarretar num novo São Domingos. Outro ponto de contato entre ambos era a
consideração da inferioridade racial do negro. Este era como um adolescente branco, incapaz de
atingir uma maturidade necessária para seu auto-governo.136

Concordando com Adam Smith, como Chaves já o fizera, Taunay considerava que os
negros eram inimigos de toda ocupação regular e trabalho. Para que os objetivos do senhor
fossem alcançados era necessário sujeitar os escravos a uma rigorosa disciplina e mostrar-lhes o
castigo inevitável. “Coação e medo, portanto, conformavam o eixo da administração dos
escravos no entender de Taunay, pois só assim seria possível forcejar os cativos a cumprirem as
determinações laborais do senhor”. Daí Taunay defender uma “vigilância de todos os
momentos”, uma “disciplina semelhante à militar” e “feitores que não o percam de vista um só
minuto”. O meio de se obter a coação e se interiorizar o medo seria a aplicação dos castigos à
vista de toda a escravatura, com a finalidade de ensinar e intimidar os demais negros. Mas
fazendo uma ressalva que se distanciava de Chaves, ele defendia que o excesso de castigo e sua
repetição embrutecia o cativo ao invés de corrigi-lo. Portanto, o senhor deveria ser justo e os
castigos deveriam ser moderados e variados de acordo com a culpa. 137

134
ENGEMANN, Carlos. De laços e de nós. Rio de Janeiro: Apicuri, 2008, p. 149.
135
MARQUESE, Rafael. Op. cit.
136
MARQUESE, Rafael. Paternalismo e governo dos escravos nas sociedades escravistas oitocentistas: Brasil,
Cuba e Estados Unidos. In: FLORENTINO, Manolo; MACHADO, Cacilda (Org.). Ensaios sobre escravidão. Belo
Horizonte: Editora da Universidade Federal de Minas Gerais, 2003, p. 123-124.
137
MARQUESE, Rafael. Op. cit., 2003, p. 124-125.
245
Conforme Marquese, Taunay reconhecia que o nível de tensão na propriedade se
elevaria a patamares alarmantes caso o senhor fundamentasse seu governo somente na coação e
no medo. Como o cativo era visto como um homem-criança, daí a necessidade de conjugar a
disciplina com o paternalismo e a orientação católica. E é neste ponto que Taunay começa a se
afastar de Chaves e se aproximar de Vieira Braga. Segundo Taunay, um dos principais fatores
para evitar a tensão nas senzalas era “inculcar nos negros a doutrina do catolicismo romano”.
Esta era a melhor forma para conservar a obediência ao senhor, boa ordem e subordinação. O
objetivo da direção religiosa e moral dos escravos era deixá-los parecidos com as propriedades
inacianas do século XVIII.138 Demonstrei anteriormente que Vieira Braga também insistia em
incutir o catolicismo entre os escravos, ao contrário de Chaves, que não guardava nem os
domingos aos cativos.

Outra recomendação de Taunay era premiar escravos de boa conduta e os diligentes em


suas tarefas. O deslocamento dos mesmos para a função de feitores inferiores seria uma das
medidas possíveis. A promoção seria evidenciada por insígnias de pequena monta, tais como
vestimentas ou bonés mais brilhantes. Taunay também era partidário dos métodos de
administração escravista empregados pelos jesuítas. Daí a importância que ele dava às famílias
escravas. A proteção às grávidas, o cuidado com as crianças, a não obrigatoriedade do
casamento religioso foram alguns destes traços.139 Ora, Vieira Braga também investiu em
distinções no interior da escravaria, alimentando a hierarquia entre os cativos, e deu
importância notável às famílias escravas. Em suma, Taunay delineou um conjunto de regras
básicas que cuidavam da alimentação, das vestimentas, da habitação, do trabalho diário, dos
castigos, da direção religiosa e moral e das relações entre negros e negras. Ele também advogou
a elevação da quantidade e qualidade de vestimentas e alimentos fornecidos aos cativos e a
melhoria do estado sanitário da moradia escrava.

Para Taunay, saber dosar o paternalismo com a disciplina era a chave da gestão
escravista. A obrigação do catolicismo dominical seria compensada com a liberdade para a
realização dos seus folguedos africanos após o jantar. Nesta ocasião, o senhor deveria atribuir a
cachaça entre os cativos, pois a comunicação dos escravos com as tavernas de beira de estrada
deveria ser rigorosamente proibida, sob pena de severos castigos. Como demonstrei
anteriormente, Vieira Braga também distribuía fumo e ponche com aguardente aos seus
escravos e os cativos que andassem embriagados à noite também deveriam ser punidos. Outro

138
Idem, p. 125.
139
Idem, p. 125-126.
246
ponto de convergência entre o Manual de Taunay e a administração de Vieira Braga diz
respeito à concessão de alforrias para as escravas que contribuíssem com o aumento do plantel
de seu senhor. Taunay aconselhava que as cativas que dessem ao senhor 6 filhos ou mais
deveriam ser libertadas tanto por terem fornecido um grande número de rebentos ao seu senhor,
como para servirem de exemplo às outras companheiras de cativeiro.

Além disso, Vieira Braga demonstrou ser muito diligente com as finanças da estância e
não poupar esforços para defender sua propriedade. Nas instruções ao seu capataz, ele ordenou
não permitir em hipótese alguma que alguém se arranchasse nos campos dele ou tentasse medir
suas terras sem seu consentimento. Com relações aos animais, se alguém lhe roubasse algum
gado era para chamar o filho do Sr. Garcez para “fazer-se tudo o mais que for necessário contra
o ladrão”.140 Portanto, os escritos de Taunay convergiam bastante com as práticas de Vieira
Braga, mesmo porque ele também imprimia certa disciplina aos seus cativos, como as
entrelinhas das fontes que examinei indicam. Neste sentido, o “Manual do Agricultor”, redigido
no final da década de 1830, reproduzia práticas de administração escrava mais antigas e que
deviam ser compartilhadas por grandes senhores em diferentes partes do Brasil (inclusive os
cafeicultores que Taunay conheceu). E acredito que foi a partir da observação destas práticas,
muitas delas certamente costumeiras e realizadas desde o período colonial, que Taunay,
agregando novas ideias características do século XIX, escreveu o seu manual.

Para finalizar o capítulo, gostaria de colocar uma outra questão. Havia uma forma mais
correta de se administrar uma grande escravaria? Seguindo padrões distintos de administração
dos escravos, tanto Vieira Braga, quanto Chaves e Costa Santos atingiram o topo da elite
econômica em Pelotas, revelando que era possível se obter sucesso tratando seus escravos de
formas distintas. No entanto, como explicar tamanha diferença entre os dois modelos de
administração dos escravos? Para além das individualidades dos seus senhores, creio ser
possível buscar elementos de outra ordem. O primeiro a ser apontado era a localidade das
propriedades de Chaves, Costa Santos e Vieira Braga. Enquanto a estância deste estava
localizada há muitos quilômetros do litoral, afastada de outras escravarias, e a charqueada de
Costa Santos também ficava numa grande estância no norte do município de Pelotas, a
charqueada de Chaves estava cravada no núcleo fabril do município, cercada por outras fábricas
que concentravam centenas de escravos.141

140
Instruções ao capataz..., p. 42-43.
141
E isto ajuda a compreender o temor de alguns senhores desta lcalidade com relação a uma revolta escrava no
início dos anos 1830 (ver capítulo 3).
247
Uma outra questão talvez mais importante era a atividade econômica em que os
escravos estavam empregados. A historiografia rio-grandense é enfática em afirmar que o
trabalho nas charqueadas era mais duro do que nas estâncias de criação. Mesmo que se possa
relativizar tal afirmação, creio que o tipo de atividade ajudasse a condicionar a forma do
governo dos escravos, mas não acredito numa determinação dada a priori. Talvez alguns
escravos fossem mais bem tratados na charqueada de José da Costa Santos do que na estância
de algum grande criador, por exemplo. Portanto, outros fatores também influíam sobre este
fenômeno. De acordo com Saint-Hilaire: “Já tenho declarado que nesta capitania os negros são
tratados com brandura e que os brancos com eles se familiarizam mais do que noutros lugares.
Isto é verdadeiro para os escravos das estâncias, que são poucos, mas não o é para os das
charqueadas que, sendo em grande número e cheios de vícios trazidos da capital, devem ser
tratados com mais rigor”.142 Talvez Saint-Hilaire se referisse aos africanos ou aos escravos
ladinos chegados de outras províncias, sobretudo da “capital” (Rio de Janeiro).143 Conforme
Libby, as Companhias mineradoras inglesas também não gostavam de comprar os escravos
vindos do Rio, preferindo os de Minas Gerais.144

Na avaliação de Saint Hilaire, o tamanho do plantel e a origem dos escravos influíam na


forma que os mesmos eram tratados, algo que tendo a concordar. Como demonstraram algumas
pesquisas, na paisagem agrária do Brasil, os grandes plantéis acima de 50 escravos,
compunham a minoria das propriedades. 145 Creio que tudo isto influía nos tipos de políticas de
dominação senhorial. Somam-se a isto os escravos urbanos, que gozavam de outro tipo de
autonomia e estavam sujeitos a outras formas de disciplina e controle. Para Guedes, nas
cidades, as roças próprias e os casamentos “eram realidades intangíveis para a grande maioria
dos escravos, o que inviabilizava qualquer política de domínio fundada sobre estas bases”.146
Portanto, as formas de administração da escravaria de Vieira Braga e Chaves eram somente
duas entre as possíveis e é importante considerar que os estudos sobre as relações entre
senhores e escravos na sociedade brasileira ainda merecem mais análises, tratando-se de um
problema de pesquisa aberto a muitas investidas.

142
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Op. cit., p. 114.
143
E de fato, pela alta razão de sexo e o elevado índice de africanidade, as charqueadas deveriam estar mais
conectadas ao tráfico atlântico do que as estâncias da fronteira.
144
LIBBY, Douglas. Op. cit.
145
MARCONDES, Renato Leite. Desigualdades regionais brasileiras: comércio marítimo e posse de cativos na
década de 1870. Tese de livre-docência. Ribeirão Preto, USP, 2005.
146
GUEDES, Roberto. Op. cit.
248
7. OS MERCADOS DO GADO, A EXPANSÃO AGRÁRIA NA
FRONTEIRA E A GUERRA COMO RECURSO ECONÔMICO

Na paz, prepara-te para a guerra. Na guerra, prepara-te para a paz


Sun Tzu

Toda a charqueada necessitava de muitas tropas de novilhos para tocar seus negócios,
mas nem todo o charqueador era um grande criador de gado. Com raras exceções, por maior
que fosse o rebanho de um charqueador, ele não era capaz de suprir nem 5% do número total de
reses abatidas em seu estabelecimento durante uma safra. Conforme Farinatti, a taxa de
reprodução anual do rebanho de um estancieiro da região da campanha devia chegar a 20%.
Mas como somente os machos eram vendidos para o abate nas charqueadas, cerca de 10% do
total das reses eram negociadas anualmente.1 O charqueador de Pelotas com o maior número de
cabeças de gado entre os seus bens possuía mais de 34 mil reses. Portanto, ele poderia abater
anualmente em sua charqueada cerca de 3.400 reses de seu próprio rebanho. Como um grande
charqueador abatia algo entre 20 e 25 mil novilhos numa safra2, ele podia compor de 13 a 17%
da matéria-prima animal a partir do custeio de suas próprias estâncias no Uruguai. Mas tal
situação foi única. Tendo em vista que o segundo charqueador com o maior rebanho
inventariado detinha 13 mil reses e a grande maioria dos mesmos ou não possuía animais de
criar ou era dono de pequenos rebanhos, como demonstrarei a seguir, pode-se concluir que mais
de 95% do gado abatido nas charqueadas era comprado de estancieiros e tropeiros de outras
regiões.3 Portanto, não se pode falar em autoabastecimento de novilhos para nenhum destes
empresários. Todos os charqueadores dependiam totalmente dos mercados de gado.

No entanto, havia um problema. Os rebanhos da província não eram suficientes para


manter os altos níveis de abate das charqueadas pelotenses. Na década de 1860, eles alcançaram
uma média de quase 400 mil reses por ano. Como notou Alvarino Marques, “Pelotas estava
abatendo mais gado que o produzido em toda a região sul do Rio Grande”. Portanto, como a
indústria charqueadora pelotense se mantinha? “A diferença era coberta pela introdução – para
não dizer contrabando – de gado uruguaio, em número aproximado de 100 mil reses por ano”. 4
Não existem dados precisos sobre este comércio e muito menos sobre o contrabando, mas, em

1
FARINATTI, Luis Augusto. Confins Meridionais: famílias de elite e sociedade agrária na fronteira sul do Brasil
(1825-1865). Santa Maria: Ed. UFSM, 2010, p. 148.
2
Correio Mercantil. Edição de 20.07.1875 (Biblioteca Pública de Pelotas).
3
Tratarei do tamanho dos rebanhos dos charqueadores a seguir.
4
MARQUES, Alvarino da Fontoura. Episódios do Ciclo do Charque. Porto Alegre: Edigal, 1987, p. 92.
249
1864, o Presidente da Província declarou que o Rio Grande do Sul absorveu mais de 130 mil
reses do país vizinho.5 Portanto, tendo em vista estes números, fica evidente que o gado
uruguaio foi indispensável na manutenção dos altos índices de abate das charqueadas pelotenses
(Gráfico 7.1). É provável que sem as tropas vindas de Cerro Largo e Tacuarembó a economia
charqueadora não teria se desenvolvido da mesma forma, podendo estagnar-se muito cedo.

Gráfico 7.1 – Número de reses abatidas nas charqueadas de Pelotas (1862-1890)

500.000
450.000
400.000
350.000
300.000
250.000
200.000
150.000
100.000
50.000
0

Fonte: PIMENTEL, Fortunato. Charqueadas e frigoríficos: aspectos gerais da indústria


pastoril do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Livraria Continental, s/d.

A análise do gráfico também possibilita perceber que apesar da leve diminuição (sempre
oscilante) dos ritmos de abate na década de 1870, é somente nos anos 1880 que a indústria
charqueadora viu-se numa profunda crise. Este problema será tratado ao longo deste capítulo e
do posterior. No momento interessa compreender melhor as relações dos ritmos de abate com o
mercado de gados. De acordo com o mapa numérico das estâncias da Província e animais que
possuem, contabilizados em 1858, o Rio Grande do Sul tinha cerca de 3,5 milhões de cabeças
de gado vacum distribuídas em 15 municípios. No entanto, este número era bem maior, visto
que nestes locais alguns distritos não tiveram seus rebanhos recenseados e outros 11 municípios
nem sequer remeteram as suas estatísticas para a Presidência da Província. Entre estes últimos,
havia importantes regiões de criação de gado como Uruguaiana, Caçapava, São Gabriel e Cruz
Alta, por exemplo.6 Portanto, não seria exagero considerar que havia mais de 5 milhões de reses
pastando nos campos da província. Apesar da taxa de reprodução dos rebanhos ser considerada

5
Relatório Presidente da Província do Rio Grande do Sul, Espiridião Eloy de Barros, de 1864, p. 60.
6
Mapa numérico das estâncias… Fundo Estatística, maço 02, AHRS.
250
de 20% pela maioria dos especialistas, o número de animais que criam por ano realizado pelos
recenseadores foi calculado em 15%, o que resulta em 7,5% machos. Portanto, numa população
bovina de 5 milhões de reses, algo entre 375 e 500 mil novilhos estariam disponíveis para
serem negociados anualmente, dependendo da taxa de reprodução que se aceite.

Mas antes que se conclua qualquer questão a respeito destes dados, outros três
importantes fatores devem ser considerados. Primeiramente, conforme Alvarino Marques, foi
somente a partir da década de 1870 que os rebanhos da região norte do Rio Grande do Sul
começaram a ser remetidos para Pelotas. Antes disso, apenas os municípios ao sul do rio Ibicuí,
na região da campanha, e da região central da província, estavam inseridos no espaço
econômico pecuarista que abastecia as charqueadas pelotenses. Em segundo lugar, Pelotas não
era o único polo charqueador do sul da província. Os municípios de Jaguarão e Rio Grande
também recebiam grandes levas de gado. Em 1854 e 1855, por exemplo, as 9 charqueadas
existentes em Jaguarão abateram respectivamente 35.163 e 41.697 reses e as 7 fábricas em Rio
Grande abateram 15.100 e 14.000, nos mesmos anos.7

Terceiro, nem todo o gado criado no Rio Grande do Sul era remetido para as
charqueadas. No ano de 1874, por exemplo, a população pelotense teve 11.538 reses destinadas
para o seu próprio consumo. Na década de 1880, Pelotas e Rio Grande juntas consumiram
anualmente cerca de 30 mil reses. 8 Ora, os habitantes livres de ambas as cidades perfaziam
cerca de 10% da população provincial (realizando o mesmo cálculo com os escravos, o índice
era quase o mesmo). Se a taxa de consumo de carne bovina entre os habitantes dos demais
municípios da província acompanhava os mesmos ritmos destas duas localidades, seria possível
considerar que, na década de 1870, cerca de 200 mil reses foram abatidas anualmente para o
abastecimento da população provincial. Isto daria um consumo per capita de carne bovina em
torno de 90 a 100 kg por ano (calculando-se que uma rês poderia render 180 a 210 kg de carne
com osso).9 Trata-se de uma estimativa bastante plausível. Em 1861, o Uruguai inteiro, cuja
população aproximava-se da do Rio Grande do Sul, consumiu 293 mil reses. 10 Buenos Aires,
por exemplo, apresentou um índice de consumo per capita de 100 a 120 kg, na mesma década.
Com uma população 10 vezes maior que Pelotas, a capital argentina, em 1867, recebeu 468.909

7
MARQUES, Alvarino. Op. cit., p. 123; Ofício de 24.03.1856. Autoridades Municipais de Rio Grande, maço 215-
A. AHRS. A transcrição dos dados de Rio Grande foram gentilmente cedidos por Vinícius Oliveira.
8
PIMENTEL, Fortunato. Op. cit., p. 100.
9
COUTY, Louis. A Erva mate e o Charque. Pelotas: Seiva, 2000 [1882], p. 119. Barran e Nahum dizem que em
Montevideu, na segunda metade do oitocentos, cada bovino podia render 161 kg de carne, osso e gorduras
(BARRAN, José Pedro; NAHUM, Benjamin. Historia Rural del Uruguay moderno (1851-1885). Montevideo:
Ediciones de la Banda Oriental, 1967, p. 162).
10
BARRAN, Jose P.; NAHUM, Benjamin. Op. cit., p. 124.
251
ovinos e 578.000 vacuns para alimentação de seus moradores.11 Portanto, mesmo que o Rio
Grande do Sul consumisse menos de 200 mil reses anuais para o abastecimento das cidades, tais
números não podiam ser desconsiderados pelos administradores e charqueadores, pois era um
gado perdido na safra pelotense.12

Neste sentido, a dependência das charqueadas de Pelotas para com o gado criado no
Uruguai era um fator estrutural na economia regional, dependendo da entrada de tropas que
podiam somar mais de 100 mil reses por safra.13 O leitor pode não ter muita dimensão do que
significava este grande contingente de bovinos negociados anualmente nas charqueadas.
Apenas para uma comparação, em 1854 a província de São Paulo inteira possuía 532 fazendas
de criação com 35 mil cabeças de gado.14 No Paraná, por sua vez, havia quase 65 mil reses, em
1825.15 Isto demonstra que os saques, contrabandos e arreadas, cada vez mais comuns na
fronteira, não envolviam interesses econômicos de pouca monta. As dezenas de milhares de
bovinos roubados e contrabandeados traziam vultosos prejuízos aos proprietários, ajudando a
compreender a gravidade dos conflitos que se sucederam na fronteira e porque os estancieiros
incomodavam tanto o Império com tais assuntos. Alguns deles, como José Luís Martins,
declararam ter sofrido um saque de 40 mil reses de seus campos, ou seja, teriam perdido
rebanhos equivalentes aos totais de uma província brasileira!16

Devido à abundância de rebanhos gordos e estâncias com boas pastagens, os


charqueadores de Pelotas possuíam um interesse direto no espaço agrário da região da
campanha e do norte do Uruguai. Neste sentido, é necessário investigar a importância destas
propriedades (tanto brasileiras quanto uruguaias) na constituição do patrimônio material dos
charqueadores de Pelotas e que consequências políticas e econômicas este interesse
desencadeou. A preocupação destes empresários escravistas pode ser simplificada em três
11
Entre 1867 e 1876, Buenos Aires e os arredores receberam mais de 3 milhões de reses para alimentação.
BARSKY, Osvaldo; DJENDEREDJIAN, Julio. Historia del capitalismo agrario pampeano. La expansión
ganadera hasta 1895. Buenos Aires: Universidad de Belgrano/Siglo XXI, p. 347-357.
12
Em Buenos Aires, por exemplo, os primeiros saladeiristas enfrentaram muitos problemas com as autoridades
administrativas e a população portenha, pois desviavam grande parte do gado destinado à alimentação dos
habitantes, provocando a carestia no abastecimento (GIBERTI, Horacio. Historia Económica de la ganadería
argentina. Buenos Aires: Solar, 1981). Buenos Aires, nos anos 1820, abatia quase 75 mil reses anualmente para
abastecer somente o seu espaço urbano. O consumo de carne vacum percapita na cidade, no fim do século XVIII,
era de 193 kg por ano (GARAVAGLIA, Juan C. De la carne al cuero: los mercados para los productos pecuarios
(Buenos Aires y su campaña, 1700-1825). Anuario del IEHS. Tandil, n. 9, 1994, p. 61-95).
13
Barran e Nahum afirmam que o Brasil recebia 250 mil reses por ano, durante os anos 1860, mas não é possível
saber se estes animais foram todos remetidos para o Rio Grande do Sul (BARRAN; NAHUM, 1967, p. 124).
14
LUNA, Francisco; KLEIN, Herbet. Escravidão africana na produção de alimentos. São Paulo no século XIX. In:
Estudos Econômicos, v. 40, n. 2, 2010, p. 297, p. 315.
15
GUTIERREZ, Horácio. Fazendas de gado no Paraná escravista, Revista Topói, 2004, p. 110. Comparando tais
números com os do Rio Grande do Sul, o autor considerou que “a produção e o número de fazendas paranaenses
tornava-se uma ninharia”.
16
Ofício de 1849. Avisos do Ministério de Estrangeiros. B1-027 (AHRS).
252
pontos: a) manter o contínuo fluxo de tropas de gado do território uruguaio para as charqueadas
pelotenses; b) defender o que entendiam como seu direito de propriedade no território uruguaio
(o que incluía terras, escravos e rebanhos); c) garantir a sua proeminência diante das crescentes
exportações dos saladeros platinos para os mercados atlânticos. A livre concorrência esteve
longe de servir como suporte exclusivo nesta disputa, sendo a guerra, a diplomacia e a ação
parlamentar os mecanismos de caráter fundamental para garantir o desenvolvimento econômico
do complexo charqueador-escravista pelotense. Neste sentido, política, guerra, mercado de
gados e terras e comércio de charque estavam tão intimamente ligados que é difícil definir onde
um influenciava o outro, como demonstro nas páginas a seguir.

7.1 NA TRILHA DOS LATIFÚNDIOS: A EXPANSÃO AGRÁRIA RUMO À REGIÃO DA


FRONTEIRA COM O URUGUAI

O avanço rio-grandese em direção às propriedades uruguaias remontava ao início do


século, quando o projeto expansionista luso-brasileiro foi posto em prática a partir de
intervenções militares no referido território. Estas investidas, associadas ao conflituoso
processo de separação da Banda Oriental com a Coroa Espanhola, entre outros fatores,
acabaram por favorecer a anexação da região ao Império do Brasil, sob a denominação de
província Cisplatina.17 A partir deste período e até o meado do século, o norte daquela região
passou a ser gradualmente povoado por grandes levas de famílias luso-brasileiras que se
estabeleciam com estâncias de criação, o que favoreceu o desenvolvimento do complexo
charqueador em Pelotas. Estima-se que, somente durante a ocupação da Cisplatina, mais de 2
milhões de reses foram levadas do Uruguai para o Rio Grande do Sul.18 Desnecessário dizer
que o mesmo processo trouxe inúmeros prejuízos para a indústria saladeril oriental.

Durante o período da ocupação brasileira na Cisplatina, centenas de estancieiros


migraram para o território vizinho, tornando-se proprietários na região fronteiriça. No entanto,
de acordo com Eliane Zabiella, o avanço brasileiro sobre as terras uruguaias durante a Guerra

17
Para uma análise dos projetos que se sucederam ao processo de independência no Uruguai e também na sua
relação com o Império luso-brasileiro ver FREGA, Ana; ISLAS, Ariadna (Org.). Nuevas miradas en torno al
artiguismo. Montevidéu: Dpto. de Publicaciones de la FHCE, 2001; OSÓRIO, Helen. A revolução artiguista e o
Rio Grande do Sul: alguns entrelaçamentos. In: Cadernos do CHDD. Brasília, Ano 6, 2007, p. 3-32; MIRANDA,
Márcia Eckert. A Estalagem e o Império: crise do Antigo Regime, fiscalidade e fronteira na Província de São
Pedro (1808-1831). São Paulo: Editora Hucitec, 2009.
18
MARQUES, Alvarino. Op. cit., p. 55. Acompanhando os dados compilados por Marques é possível ver o
impacto desta entrada de animais na paisagem agrária rio-grandense. Se em 1787, a capitania contava com 651.619
reses em seus campos de criação, e em 1811 ela possuía cerca de 1.298 milhões, em 1822, por exemplo, este índice
havia mais que triplicado, chegando a 5 milhões.
253
Grande (1838-1851)19 foi maior que em qualquer outra época. Ao longo do mencionado
conflito, o preço das propriedades declinou, custando 0,60 centésimos de peso por hectare, o
que animou os compradores. Somadas às buscas de gado na época da Cisplatina, este avanço do
capital rio-grandense sobre as terras orientais arruinou a antiga classe latifundiária uruguaia ao
quase destruir a pecuária e a sua indústria saladeril. Em 1850, os brasileiros possuíam 428
estâncias no norte do Uruguai, do qual eram conhecidas as dimensões e o número de cabeças de
gado para 191 delas. Estas terras ocupavam uma superfície de 693 léguas quadradas com
914.000 cabeças de gado vacum. Zabiella estima, a partir de alguns cálculos e considerações, a
possibilidade de que cerca de 2 milhões de reses tenham existido ao mesmo tempo em todas
aquelas 428 estâncias pertencentes aos rio-grandenses. 20

A expansão agrária e a migração de rio-grandenses para aqueles campos


impressionavam pela sua velocidade e pelo contingente de pessoas. Em 1845, na Câmara dos
deputados, o representante da Bahia, o Sr. Silva Ferraz, declarou:

Vejo senhores, que teneis uma idéia muito equivocada do poder e dos recursos do
Império. Vós creeis que ali na linha ou divisa material do Jaguarão vão encontrar um
povo completamente distinto do que se chama Império do Brasil, mas é preciso que
saibais que felizmente não é assim. Ao passar ao outro lado do Jaguarão, senhores, o
traje, o idioma, os costumes, as moedas, os pesos, as medidas, tudo, até a outra banda
do rio Negro, tudo, tudo, senhores, até a terra, é brasileira.21

Examinando diversos documentos nos arquivos uruguaios, Zabiella verificou que, de


fato, os brasileiros ocupavam cargos tanto na Justiça quanto na administração local, como
Simão de Brum da Silveira, que foi Tenente Alcaide em Olimar (1836). Esta presença era tão
marcante que, na segunda metade do XIX, as autoridades uruguaias ordenaram que os
documentos oficiais produzidos no interior do país fossem escritos somente em língua
espanhola e não mais em português. Nas listas de habitantes, a participação de brasileiros, com
seus agregados e escravos, também era notável e, na época das eleições, havia candidatos tanto
orientais quanto rio-grandenses disputando os votos da população.22 Portanto, não havia
nenhum exagero no discurso do deputado baiano. Em 1860, os brasileiros representavam 11%
da população total do Uruguai23 e ocupavam cerca de 30% do território deste país. Neste

19
A Guerra Grande (1838-1851) foi um conflito iniciado no Uruguai entre os partidários de Manuel Oribe e
Fructuoso Rivera e que, depois da queda do primeiro, tomou proporções transnacionais, envolvendo caudilhos das
províncias argentinas e autoridades políticas e militares platinas e brasileiras, encerrando-se com a intervenção do
Império brasileiro na região, em 1851.
20
ZABIELLA, Eliane. A presença brasileira no Uruguai e os Tratados de 1851 de Comércio e Navegação, de
Extradição e de Limites. Dissertação de Mestrado em História, UFRGS, 2002, p. 23-25.
21
ZABIELLA, Eliane. Op. cit. p. 25.
22
ZABIELLA, Eliane. Op. cit., p. 25-27.
23
CORSETTI, Berenice. Estudo da charqueada escravista gaúcha no século XIX. Niterói: ICHF/UFF,
Dissertação de Mestrado, 1983, p. 55.
254
sentido, pode-se dizer que, em meados do século, aquela região era praticamente um apêndice
econômico e social dos estancieiros rio-grandenses.24

Mas se o avanço luso-brasileiro sobre as estâncias uruguaias e da região da campanha


sul-rio-grandense havia se iniciado durante o colonial tardio, os charqueadores pelotenses
começaram a investir seus capitais nestas regiões de forma mais incisiva somente após este
período. O Gráfico 7.2 representa as transações de compra e venda registradas nas escrituras
públicas nos tabelionatos de Pelotas (entre 1832 e 1890) e as propriedades rurais avaliadas nos
inventários post-mortem dos charqueadores (entre 1820 e 1900).25 De acordo com o gráfico, o
auge dos investimentos nas duas regiões mencionadas ocorreu entre as décadas de 1850 e 1870.
Somando as referências de propriedade no Uruguai e na campanha rio-grandense encontradas
nos inventários post-mortem e nas escrituras públicas temos que cerca de 82,5% das mesmas
concentram-se nestas três décadas. É provável que as estâncias inventariadas na década de 1850
tenham sido compradas anteriormente, como indica o aumento das escrituras nos anos 1840.26

Gráfico 7.2 - Presença de propriedades rurais pertencentes a charqueadores de Pelotas nos


inventários e nos livros de notas (1820-1900)

30
25
20
15
10
5
0
1820 1830 1840 1850 1860 1870 1880 1890

Escrituras Inventários

Fonte: Livros de notas do 1º, 2º e 3º Tabelionato de Pelotas (1832-1890) e


Inventários post-mortem de Pelotas (APERS).

Os investimentos em imóveis rurais tinham uma região-alvo certa (Figura 7.1). Cerca de
2/3 das 106 referências encontradas e indicadas no Gráfico 1 (31 em inventários e 75 em
escrituras públicas) concentraram-se em quatro regiões localizadas exatamente na fronteira

24
SOUZA, Susana B. e PRADO, Fabrício. Brasileiros na fronteira uruguaia: economia e política no século XIX.
In: GRIJÓ, Luiz A.; KUHN, Fábio; GUAZZELLI, César A. B.; NEUMANN, Eduardo. Capítulos de história do
Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EDUFRGS, 2004.
25
Livros de notas do 1º, 2º e 3º Tabelionato de Pelotas (1832-1890) e Inventários de Pelotas (APERS).
26
Também é possível que outras compras tenham sido registradas nos cartórios dos respectivos municípios ou até
no país vizinho, mas não tive fôlego para realizar esta busca. No entanto, o cruzamento com os inventários post-
mortem ajudaram a sanar, em parte, este problema.
255
divisória entre os dois países: em Tacuarembó (27), Cerro Largo (15), Bagé (14) e Jaguarão
(14). No Uruguai, além dos Departamentos de Tacuarembó e Cerro Largo, também encontrei
referências em Salto (4), Paysandu (2), Montevidéu (2), Durazno (1) e outras duas com a
localização imprecisa. Percebe-se aqui que exatamente 50% das referências em inventários
post-mortem e escrituras públicas somadas tratavam-se de investimentos em propriedades rurais
no Uruguai. Ou seja, as terras do país vizinho concentraram os interesses diretos dos
charqueadores pelotenses que realizaram altos investimentos de capital nos mesmos.

Figura 7.1 – Mapa das regiões-alvo dos investimentos realizados pelos charqueadores em estâncias
e campos de criação fora de Pelotas (1810-1900)

Fonte: Inventários post-mortem de Pelotas, 1832-1900 (APERS). Escrituras públicas de compra venda,
1º, 2º, e o 3º Tabelionatos de Pelotas, 1832-1890 (APERS). Os círculos representam referências de
estâncias e campos tanto nos inventários quanto nas escrituras públicas. Os círculos pequenos
correspondem a 1 referência e os círculos grandes representam 10 referências.

Os charqueadores pelotenses sempre estiveram atentos a este processo de expansão


agrária rumo à fronteira sudoeste. Devido aos bons pastos e a relativa proximidade com Pelotas
(se comparadas a outras regiões) as estâncias dos municípios e departamentos acima
256
mencionados eram bastante cobiçadas. Em 1863, por exemplo, o coronel Tomás José de
Campos, charqueador pelotense, comprou de José Rodrigues Candiota 13 e ½ sortes de campo
em Cerro Largo pagando o valor de 54:000$ de réis. A maior compra de uma estância no
Uruguai foi feita por Antônio José de Oliveira Leitão, que foi sócio dos irmãos Barcellos em
uma charqueada entre os anos 1850 e 1860. Em 1859, Leitão comprou um campo em
Tacuarembó e pagou o valor de 135:000$ de réis pela propriedade rural. Contudo, os maiores
valores investidos em estâncias se deram em propriedades do lado