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VIAGEM PELO

RDBERT AVÉ-LALLEMANT
m 1858, o médico alemão
Robert Avé-Lallemant fez
uma peregrinação pelo Paraná, São
Paulo e Santa Catarina. Dessa expe-
riência resultou uma narrativa dife-
rente daquela que nos oferecem os
registros dos demais viajantes da
época. Lallermant conheceu o País
por mais tempo e tinha uma preocu-
pação que o situava de maneira
provocativa e polêmica diante do que
observava - fazer a critica da contri-
buição de Portugal na formação e
desenvolvimento do Brasil, contras-
tando-a com os sucessos da presen-
ça alemão nos Estados do sul.
Essa postura rendeu-lhe confrontos
exaltados e deixou-nos um docu-
mento precioso sobre o trabalho e o
comportamento dos brasileiros de
quase um século e meio atrás. Neste
livro, publicamos a parte referente à
sua viagem pelo Paraná. Leitura in-
dispensável oferecida pelo "olhar di-
ferente" do autor, que obriga à refle-
xão e reabre discussões. Não encon-
traremos em seus textos o simples
ROBERT AVÉ-LALLEMANT

CONSELHO EDITORIAL
Aroldo Mrrrcí Hnygert
Cassicli.za Lncerda Cclrollo
Geraldo Potrgy
Janril Snege
Margarita Sansotx
Luís Robeuto Soares
Rafael Grecn de Mncedo
Wilsort Marti~is
Todos os direitos desta ediçáo reservados à
Prefeitura Municipal de Curitiba
Coleção Farol do Saber
Coordenação Editorial:
Frí bio Caiizpaizn
Projeto Gráfico: Despedida de Joinville. -Expedição na mata, através da Serra
Jallzil Snege
'
Geral, entre Santa Catarina e Paraná. - Chegada ao
Capa: primeiro Campo da Província do Paraná. . . . . . . . 7
"Mercadode PPriranPrigtlrí"
de Paul Garfirizkel SEGUNDO CAPÍTULO
Gente, de novo. - O caçador de antas do Tijucamas. - A
Projeto gráfico do miolo: Estância do rio do Meio. -Algumas considerações sobre
Harry Avoiz o mate. - Repouso no Rio Negro. - Civilização
Revisão e Preparação: incipiente. -Abandono das matas e chegada ao Campo
Silvnnn Aliizeida Barbedo do Ambrósio. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30

Pesquisa:
Lina Beiiglr i O Campo do Ambrosio. -Bivaque junto de Chico de
Depósito legal junto à Biblioteca Nacional, conforme
Oliveira. - Um francês. - Dificuldades na troca do
Decreto no 1823, de 20 de dezembro de 1907 dinheiro. - Despedida de Wunderwald. - Viagem a pé
Ficha catalográfica preparada pela através dos campos e da mata do Campo Largo. -
Index Consultoria em Informação e Serviços S/C Ltda. Bodas. - Estância de Dona Ana Teixeira. -Viagem para
Curitiba, via São José. - Onde fica a Europa+ . . . . 44
Avé-Lallemant, Robert, 1812-1884
A948 1858, Viagem pelo Paraná / Robert Avé- QUARTO CAPÍTULO
Lal1emant.- Curitiba : Fundação Cultural, 1995. Estada e sucessos na cidade de Curitiba. - Partida para
114 p. - (Farol do Saber) Antonina e Paranaguá. - Estada em Antonina. - Uma 4

lá - Descrições e Viagens. 2. Paraná lápide para dois nobres mortos. . . . . . . . . . . . 60

QUINTO CAPÍTULO
(20. ed.) 981.62 Partida de Antonina. - A "Paraense". -Joaquim Antônio de
910.4 Morais Dutra, o domador dos Coroados. -Vista de
Paranaguá. - Nossa Senhora dos Prazeres. - Cananéia.
16.2)
Iguape e nossa festinha de ação de graças. -
Desenvolvimento material em Iguape. - Partida da barra
~ S S NO BRASIUPRINTED
O IN BRAZIL
de Cananéia para Santos. - Santos. . . . . . . . . . 88
PRIMEIRO

Despedida d e Joinville. -Expedição n a mata, através d a Serra


Geral, e n t r e Santa Catarina e Paraná. - Chegada a o pri-
meiro c a m p o d a Província d o Paraná.

Em 16 de agosto, pelas 8 horas da manhã, despedi-me da


aprazível Joinville, com emoção e saudade; lá passara dias
muito agradáveis. Todavia mais penosa seria a separação da
estimada cidadezinha teuto-brasileira, se não me alegrara um
acompanhamento que jamais esquecerei. Escoltaram-me a ca-
valo os meus melhores amigos de Dona Francisca, especial-
mente o senhor Aubé, que queria acompanhar-me até ao limite
de seu território. Aliás a gentil e jovem esposa do diretor
realizara a façanha de mostrar que um gracioso pé de senhora
podia percorrer a rude picada na floresta até à serraria do
Cubatão.
Dali seguimos alegremente a trote. No cemitério lancei o
último olhar de despedida à amável localidade. Em pouco,
depois de passar por muitos recantos a que me afeiçoara,
através de caminhos da colônia, meus familiares, chegamos a
Anaburgo e logo em seguida às últimas roças. E começou então
a nossa viagem a pé através das selvas.
Já falei, em outro lugar, do caminho para a serraria. Desta
segunda vez também nos acompanharam alegria e bom humor
através da solitária picada. Que daria essa excursão ao roman-
tismo europeu! Onde corria um regato, num momento eram
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cort;id;is algumas pequenas palmeiras com o fac5o (I(* i i ~ i i ~r o nerosa porção de taiá. Nesse tempo, no Cubatão, ainda não
improvisava-se uma ponte; quando um tronco clc (i! vorc o l ~ - havia toalha nem serviço regular de mesa; pequenas tábuas
trufa a picada, era ele contornado ou, se havia csl);iqo, 1):innnvri- serviram de pratos; os dignatários entre nós receberam uma
se, rastejando, por baixo. Tudo ia muito bem; o nosso ri~);riilirlrn espécie de faca e garfo e, sem isso, ajudariam os dedos. Todos
Wunderwald, que marchava na frente, conqiiisio~ivc*i(liitlcli~on beberam num pequeno copo o vinho trazido. Tudo correu
louros. Devo, porém, confessar que a noss;i ~:i;icloiuiij!iilii, excelentemente.
senhora Aubé, ganhou muito merecimciit o i a i i i r(* iiOn, Nii iii Entardeceu e esfriou um pouco. Depois que o senhor e a
bonito vestido de montar, a que não Faltav;~c-OII o Illoot~trrl~ttto1,
senhora Aubé se retiraram, acendemos no centro da casa uma
venceu ela com mais facilidade do q i ~ ri\Os (l\ii\ric tcwli\s tis alegre fogueira e acomodamo-nos em volta dela para dormir.
dificuldades da picada, animando a coliiti;~t l vicijriiiiriu
~ com o Mas, nas primeiras horas da noite, não se podia pensar em
seu exemplo; e na margem de um líilipitlo rcK;ito, oiitlr foriim repouso. Sabe Deus o que se passava conosco. Brincamos a
rapidamente espargidas folhas dc paliiicit.;is, iotlos 116srcccl~c- noite de São João e estávamos todos mudados. Esse o meu
mos de seu farnel alguma coisa p;ir;i coiiic.r. primeiro dia de viagem de Joinville para Curitiba.
Entrementes estalaram na m;it;\ t iios tlc c*spirignr(la.Dos Na manhã seguinte eu não estava tão jovial. Despedimo-
altos ramos caíram duas jacutingas c iilgiiiis tiicnrios, que foram nos. E começou uma difícil viagem na mata. O solo elevava-se
cuidadosamente recolhidos. gradualmente, as águas murmuravam mais alto; mais agrestes
Ao sairmos da mata veio ao nosso ciicoiitro o digno suíço eram as árvores tombadas; afinal, a própria mata obscureceu-
da serraria, senhor Weber. A1gui.m se acliniitiirii piirn informfi-10 se, pois de ambos os lados se elevavam os picos da serra. Do
do prodígio que era a chegada da senhora do tlirctor, no que ele lado do sul do vale do rio da Prata e do rio Seco, subia a picada
não podia acreditar. Entramos, pois, com bandciras dcskal- com muita habilidade. Tanto quanto se pode julgar até agora,
dadas, em nosso quartel de acantonamento e tomamos posse a estrada será excelente.
da serraria do Cubatão. Tornou-se o desfiladeiro mais estreito, solitário e sel-
Mais uma vez senti a plena poesia do maravilhoso lugar! vagem. Ali se abria uma clareira. Diante de nós o mais original
Através da tranqüila Floresta passava, bramindo, o bravio Cuba- dos asilos na floresta. Seis a oito homens, alemães e helvécios,
tão; n o rio da Prata chapinhava a roda hidráulica da serraria, construíam uma casa de palmeiras, comprida e baixa; outra,
por trás da qual passamos sobre uma pinguela, de modo que maior, estava pronta desde semanas, o rancho de Wunderwald.
nos achávamos entre os dois rios. Revoluteavam martins-pes- O rancho de Wunderwald! Este rancho é de fato, o ideal
cadores na água, através da qual passava, com grande esforço,
de cabana silvestre ou casa silvestre. Tem 14 pés de Fundo e 24
um altivo touro. Aqui, nas brenhas, rodeado de pessoas tão
pés de largura, telhado largo com paredes muito baixas. Tudo
amáveis, senti, mais uma vez, não. ser muito fácil a gente
é feito de palmeira, de troncos inteiros ou fendidos, de folhas
separar-se delas para voltar para a mata e aliás para Fazer uma
viagem em picadas e para a qual ainda não se abrira nenhuma. de palmeiras, tudo amarrado com cipó, na melhor ordem, sendo
o conjunto apoiado principalmente em duas grandes palmeiras;
Começou, então, uma linda cena da tarde. A nossa caça
em ambos os lados há, a meia altura, camas de sarrafos de
fora transformada em delicioso petisco, tendo-se cozido ge-
palmeira, forradas com folhas de palmeira; diante delas há,
1 Sistema de traje feminino proposto em 1849 pela reformista americana Amélia Jenks como assentos, algumas traves de murta. No centro arde, n o
Bloomer. Compreendia saias curtas e calças folgadas. N. do T. chão, uma agradável fogueira. Em resumo, no seio de Abraão
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não se pode viver mais feliz do q u e no rancho de Wiiiitlirw;iltl, comida. Faltava-nos ainda u m dos nossos homens. Em marcha
no alto da serra. para a serraria, deixara-se ficar, meio embriagado, com parte
Além disso, estão pendurados em travessas os iiinis vn- dos meus pertences; surpreendera-o a noite com os horrores da
riados objetos: machados e calças velhas, carne scc;i, ~)ol;iiti;is mata e a sinistra solidão. De manhã cedo não se atrevera a
de couro, caça morta e cobertas velhas, panelas, copos (I(: I;ii;i, seguir sozinho; deixou meus objetos junto de u m riacho e
sal, arroz, uma pequena botica, pólvora, chumbo, cspiiij;;irtl;is voltou para Anaburgo, de onde partiu um homem mais cora-
e pistolas. Estávamos dentro da mata e vivíamos coiiio 1)ríl)- joso do que ele, achou as minhas coisas no caminho e com elas
cipes. subiu para o rancho de Wunderwald, no fim do vale do rio Seco.
E diante do palácio de palmeira chamejava, c m l>;iixo, Em 19 de agosto, de manhã cedo, houve lá em cima um
uma clara fogueira, em torno da qual a nossa gente foi-iiinva alegre rebuliço. Os homens arrumavam as suas coisas, comidas,
u m magnífico grupo. Atravessava a floresta um denso ric- roupas, cobertas, panelas de ferro, etc.; mais uma vez Wunder-
voeiro. As copas das árvores pareciam fantasmas; a cena cra wald, o experimentado mateiro, passou tudo emrevista, achan-
muito bonita e nós estávamos intimamente contentes. do e empacotando objetos esquecidos; arrumaram depois es-
Na manhã seguinte fizemos uma bela excursão serrana. pingardas de caça e partimos alegremente os catorze homens
Visitamos íngremes cumes cobertos de mata. Wunderwald para dentro da floresta, na qual devíamos passar, entre animais
mandou derrubar algumas árvores, que se precipitaram, es- selvagens, seis a oito dias.
talando, deixando a descoberto uma bela cadeia de serras. Podía- Entretanto, nem sempre andamos sob augúrios favorá-
mos avistar, a milhas de distância, no interior da Província do veis. Princípio de manhã abafadiço. Sibilava sobre as árvores
Paraná, um oloroso mundo de floresta com magníficos vales. um vento violento e quente; nos píncaros da serra gritavam
Debalde se procura no caos serrano um ponto cultivado; não urus, uma espécie de tinocamu ou melhor inhamu ou galo do
aparece casa, um campo, nenhuma fumaça sobe, nenhum galo mato (~rrrr,em guarani, é galo; Urrrglrai, rabo de galo) anunciando
canta. Rumoreja no abismo o regato e nenhum outro som borrasca; nada porém alterava nosso ânimo; seguimos pela
percebe o ouvido. E tínhamos de atravessar esse caos! Des- estreita picada aberta na véspera.
cemos para o rancho. Os últimos companheiros, o bom padre Não se pense, todavia, que uma picada é um caminho
e Leistico, estimados e bons companheiros, deviam voltar para como na Europa; coisa inteiramente diversa. Um homem, com
a serraria e foram portadores de minhas lembranças. E então um facão de mato, vai na frente do engenheiro; este, com a
fiquei só com meu companheiro Wunderwald.
\
bússola, dá a direção em que o primeiro deve penetrar na
Entrementes a nossa gente tinha aberto, para o lado do floresta. Então têm de ser removidas, naturalmente, as mais
oeste, um bom pedaço de picada. Subimos durante o resto da insignificantes moitas, ervas e canas, de modo que se possa
tarde a bela serra coberta de mata e iniciamos a trabalhosa passar, mas apenas passar. E tão pequena é essa remoção de
peregrinação serrana, que me pareceu ainda mais original do mato que, ficando-se muito atrás do desbravador, mal se lhe
que a minha vida de tropeiro de Lajes a São Josi.. pode reconhecer a trilha e é preciso ter cuidado para não
Para essa viagem pela mata fora necessário contratar doze transviar-se da picada. E, não obstante o pouco que se desbasta,
homens. Aprovisionaram-se para oito dias e traziam consigo a picada prossegue muito lentamente; dificilmente se avança
panelas, as minhas coisas e alguns utensílios domésticos, dc 1.500 a 2.000 braças num dia e no entanto para os carregadores,
modo que, a caminho, pudéssemos ao menos cozinhar a nossa que vêm atrás com a bagagem, o trabalho é extremamente
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12 PRIMEIROCAI>~I'IJI.O
é muito mais fácil, sem dúvida, e guiou-se, depois, pelo vale do
penoso, verdadeiramente mortificante. Trazem a bagagem amar-
Cubatão. As picadas de ambos os engenheiros desapareceram
rada em volta de si e com as mãos e os pés têm de trepar; muitas
completamente e de novo, quem se atrever a fazer a travessia,
vezes as moitas e trepadeiras os prendem Fortemente e dcscm-
tem de valer-se da bússola. O engenheiro Major AIvim só
baraçam uns aos outros. A cada momento uma árvorc caída
chegou até ao fim do vale do rio Seco, onde se acha o rancho
tranca a passagem e é preciso trepar por ela ou passar por baixo.
de Wundenvald. Lá encontramos o seu nome numa árvore.
Ou tão íngreme é a encosta que a gente escorrega e cai num
buraco, num riacho ou num pântano. É, às vezes, aparcnte- Diante de nós trabalho pesado. Em pouco terminou o dia,
mente cômoda a picada, porque a mata parece mais rala, inns antes de alcançada a picada e nos dirigimos, contentes e infa-
aparentemente apenas. Entáo o desbravador ou o engenliciro tigáveis, para oeste e sudoeste. Digo contentes e infatigáveis,
faz um pequeno sinal nas árvores e encontra-se a dircçáo porque de fato, os meus doze pioneiros estavam muito bem
humorados. Eram eles do Holstein, do Meclemburgo, da Re-
tomada e não uma picada propriamente dita. Em resumo, 6
preciso ter aberto caminho na mata pessoalmente, para bem nânia, da Holanda e da Suíça. Os últimos não compreendiam
os primeiros; havia enganos cômicos; censurava um ao outro
compreender o que significa atravessar uma nova picada sobre
a serra Geral, entre as províncias de Santa Catarina e Paraná. o horrendo alemão e motejavam-se mutuamente em alemânico
e em baixo alemão. Apareciam, à esquerda e a direita, magnífi-
E que se obtém em troca de todas as fadigas, trabalhos e
cas árvores, às vezes de enormes dimensões. Medi uma figueira
perigos; Algo que o europeu, mesmo a maioria dos viajantes,
de 38 pés de circunferência, o que dá mais de 12 pés de diâmetro.
náo pode sentir: tem-se a visáo da floresta virgem em sua mais
Fortes troncos conservavam-se abraçados e repousavam hirtos,
secreta profundidade, em seus últimos recantos! Os viajantes
mortos no selvagem abraço, nos odiosos e aniquiladores anéis.
em sua maioria, todos aliás, viajam sempre em estradas e
caminhos, por mais estreitos e menores que sejam; ou navegam Passou sobre nós um temporal e tivemos de rastejar como
em rios e lagos, sempre com certa comodidade, sob a proteçáo nos foi possível. E como já era tarde e, com o mau tempo não
de uma civilização, mesmo incipiente, guiados por um vaquea- tínhamos esperança de continuar penetrando, foi dada a ordem
no, conhecedor de veredas e recantos, um negro, um índio. Não de desembalar e armar o rancho.
assim na picada! Aqui apenas a agulha magnética, muda e A instalação de um local de dormida na mata virgem é,
tranqüila, indica o norte, por mais que se lhe pergunte se é alto, porém, muito original. A bagagem é resguardada para protegê-
se é fundo, se é possível ou impossível passar, subir! Não há Ia provisoriamente da umidade. Ressoa em volta o machado.
mais homem, nem vestígio de homem! Nenhum canto de galo, Primeiramente é preciso conseguir a maior quantidade possível
nenhum ladrido de cão! Por cima da floresta murmura o vento; de folhas da Euterpe edirlis. Abundam em torno essas nobres e
embaixo, no chão, o rio; ao longe troveja a cachoeira; ninguém esbeltas palmeiras. Depois de oito a dez machadadas bem
está com eles; com o animoso grupo humano, só Deus está. aplicadas, abala-se o tronco. Atenção! - grita o cortador e,
Essa uma admirável situação! como num grito de dor, cai para um lado a graciosa rainha da
Diz-se que há trinta anos um boieiro de Curitiba pene- Floresta; com a queda, precipita-se, estalando, um caos de
trara no vale do Cubatão. Era, pois, Wunderwald o segundo a galhos e árvores jovens; às vezes, ao bater em árvores mais
entrar ali. Numa peregrinação de três semanas quase morrera fortes ou no chão, parte-se o tronco em três ou quatro pedaços.
de fome, até que subira o planalto do Paraná. Outro audacioso Passado o ruidoso temporal da derrubada, cortam-se as grandes
mateiro foi o engenheiro Hégreville. Desceu de Curitiba, o que Folhas dísticas e se arrastam para o bivaque. E dessa maneira,
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para u m só rancho, por uma única noite, abatcin-se oito ;i (IOZC acompanhava-nos uma chuvinha úmida e fria. Numa encosta
palmeiras. muito íngreme, apreciamos uma pequena e bonita cachoeira de
Entrementes, outros trabalhadores ergueram iiiiin nriri;i- apenas alguns pés de largura e uns doze de altura, Iímpida e
ção de teto inclinado num ângulo de uns, cinqiicntn gr;iiis, tlc branca, sobre rochas negras; tão delicada e poética, honraria o
uns sete pés de altura na frente e uns trinta de coiiipriiiictito. mais belo parque em grande estilo. Após ligeira pausa ao meio
Depois essa armação é coberta com folhas de palnicir;is, ciijos dia, a nossa bússola continuou a dirigir-nos em direção ao oeste.
folíolos são encaixados uns nos outros com muita 11nbilitl;itlc c Ouvimos a grande distância o trovejar de uma cascata, num
rapidez. Posta uma camada tripla ou quádrupla clc Folli;is, fic;i braço já visitado do Cubatáo, grandiosa talvez, Fora porém do
o teto bastante compacto, mesmo contra uma chuva forte; ;is nosso itinerário. Ouvimos depois um murmúrio muito abaixo
extremidades das folhas que se projetam na Frcntc S ~ Odo- de nós. Descemos. Passava por ali impetuoso regato e, perto de
bradas, formando uma aba do telhado; no chão do rariclio nós, precipitava-se do granito vermelho, a cem pés, num ín-
espalham-se Folhas de palmeira de modo que uma cubra mct;itlc greme leito de pedra. Um grande bloco de pedra, nas escarpadas
da outra; entre as nervuras das folhas deita-se um homem c aí margens, formava pequena gruta, sobre que se debruçavam
temos uma linda cabana verde-escura e uma cama à IA l'fl111c t velhíssimas árvores, contemplando tranqüila e gravemente o
Virgil~ie.Todos que a vêem, podem irromper em gritos de penhasco no fundo. Numa serra destas seguem-se as paisagens
alegria, menos aqueles que nela devem passar a noite; porque umas às outras. Quando um dia a montanha se tornar tran-
o chão é úmido, úmida a cama, úmido o ar, e fria e úmida a sitável, quando essas cachoeiras forem localizadas e tratadas,
temperatura. e delas se possa contemplar o espetáculo da natureza, ganharão
E todavia mesmo os qiic pcrnoitniii cin scmrllinntc rriii- nome esses magníficos sítios e serão evocados.
cho de palmeira enchem-se dc nlcgrin c tlc critiisi;isnio coni a Reencetamos a trabalhosa marcha serra acima. Muitos
maravilhosa morada. Estava cu, pelo niciios, ;ilc~:rcc ciitusias- bambus estorvavam nossos passos. Saiu correndo da alta relva
mado. Claramente chamejavam duas fogiicii;is tli;iiitc clc nosso uma anta e desapareceu. Por muito tempo ouvimos o seu
rancho e deitavam singulares clarócs sol~rc.os troncos da flo- estrépito nas moitas. Moviam-se também macacos na copa de
resta virgem. Em torno do fogo rccoiifoi-~;iiiic., os coiiip;iiilici- alta árvore; debalde tentou-se caçá-los: os tímidos animais
ros nórdicos sentados: um fazia café, oiitso coziiili;iv;i ;i carne sabiam esconder-se muito bem e com eles nada se conseguiu.
seca, um terceiro cortava palmito niiilin 11;iiicl;i tlc ferro, iiin Num terreno fundo e úmido fizemos alto e começou como na
quarto descia ao riacho e trazia água. Perto c no loiigc soavam véspera, a cena de devastação da mata para a construção de um
muitas vozes noturnas através da selva; t a 0 11oiic;i vitl;i dnva rancho. Em pouco se aprontou o teto de palmas, chamejavam
sinal de si durante a noite e no entanto mcsnio cssr ~)oiicoera as fogueiras e estávamos deitados comodamente em nossas
forte, grande, sublime. Assim se passou; marrivillios;iiiici~~c, ;i camas de palha sorvendo o café, apesar da tempestade e do
primeira noite. nevoeiro. Depois dormimos. Tão simples, tão modesto nosso
De novo os sinistros urus nos despertara111 clc iii;iiiIi,i ccclo alojamento noturno e no entanto apareceu um ladrão de noite.
em 20 de agosto e nos intimaram a partir. Toil-iaclo o c;ifC coiri Meia-noite despertei e percebi ruído em nossos utensílios de
Farinha de mandioca, tudo foi arrumado rapidamcntc c pos-sc cozinha, nos quais ficara um pedaço de carne-seca para o
a caravana em movimento. Começou então iim trcclio tlc almoço. Um gambá (Didelltliis) fora até lá e fugiu sem largar a
picada muito incômodo: alternavam-se altos e dcprcssõcs c
16 PRIMEIRO CAPITULO 1858. VIAGEM PELO PARANÁ 17

carne; Foi um prejuízo sensível, pois numa viagem na mata a e assim recomeçamos a nossa Fatigante viagem. Depois de
dieta tem de ser rigorosamente regulada. algumas horas de laboriosa subida, despertou-nos a todos
Na verdade, nenhum uru, mas uma tempestade com profundo espanto a vista de três ranchos desmoronados. Wun-
trovões nos despertou na manhã seguinte. Pouco depois fazia derwald jamais acampara aqui; as modestas ruínas não eram
bom tempo e os pioneiros, contentes e incansáveis e entre tão pouco cabanas de bugres. Conseguintemente, tínhamos de
muitas brincadeiras prosseguiram na viagem mata a dcntro. atribuí-Ias ao engenheiro Hégreville; evidentemente passara
Subimos muito; dos arejados píncaros avistávamos em baixo uma noite aqui com os seus companheiros curitibanos. Pela
o escarpado vale do Cubatão, sem podermos ver o ruidoso rio: segunda vez, pois, tivéramos o prazer de encontrar vestígios
maravilhosa a vista dos íngremes penhascos. humanos em nossa solitária peregrinação. E em que consistiam
No topo de alta árvore aquecia-se ao sol uma jacutinga. esses sinais humanos que nos alegravam< Em alguns paus
Um tiro feliz derrubou a bela ave. Com estranheza encontra- cortados com Facas européias!
mos aqui a tapera de um rancho. Há três anos Wundenvald Procuramos apegar-nos aos poucos vestígios que o corte
erguera, no mesmo sítio, o seu alojamento noturno e com alegre da antiga picada havia deixado nos galhos de árvores, o que nos
exclamação saudamos o lugar, donde o nosso guia já penetrara levou a transviar-nos: evidentemente aqui se tinham cruzado
no planalto do Paraná. Nova tempestade obrigou-nos a apres- as duas picadas antigas, abertas pelos dois engenheiros. A
sar a construção de um pequeno teto de palmeira; uma tarde conseqüência do nosso engano foi considerável perda de tempo.
de sol permitiu-nos bom Fim de viagem através de uma região
um tanto plana. Em seguida novo temporal Forçou-nos a acam- Antes do pôr-do-sol caiu sobre a mata um nevoeiro úmi-
par. Faltavam palmeiras no local, o solo era pantanoso, chovia do. Achamos um lugar pitoresco para o rancho. Perto, material
a cântaros e, no meio do mato, entre árvores velhas, quase não de construção para o bivaque. Estalando, caíram dez a doze
podíamos pensar em levantar um abrigo para a noitc. Contudo, Etiterye, umas trinta a quarenta pequenas iri deram as suas
reunindo as forças, conseguimos. A certa distfincia, algumas largas palmas para a cobertura do teto; e construímos o nosso
palmeiras; o que faltava para completar o teto foi siibstitiiído verde palácio silvestre em grandes dimensões, mais de 40 pés
por grandes folhas de feto arbóreo e bambus bcm cnfolhados. de comprimento e oito pés de fundo, com boas camas de palha
Fez-se assim um rancho, áspero e hirsuto como um porco- de palmeira para dormir. Aos golpes de machado de robusto
espinho, mas apesar de tudo um rancho. E até fogo se pBde cortador tombou soberba araçá (Myrtlrs araça) para alimentar
acender. Passáramos um dia trabalhoso com todas as alternn- continuamente, com a sua boa lenha, as nossas duas Fogueiras
tivas de uma viagem em picada; estávamos no bivaque como noturnas. Estávamos de fato, muito bem acomodados; magni-
depois de travada uma batalha, de uma vitória duramente Ficamente Flamejavam as nossas duas pilhas de lenha; e sa-
alcançada. Mas, para compreender-me, é preciso ter feito uma boreamos com prazer o jantar, para qualquer europeu simples-
excursão semelhante. Seguiu-se uma noite lamentável. A chii- mente desprezível. O luxo de nosso palácio chegou ao ponto
va caía forte e em breve a água invadia tudo. Os que dormiam de passarmos a noite completamente enxutos, embora tenha
acordavam sucessivamente, praguejando, e muito antes de chovido algumas vezes durante a noite. Na mata somos em
romper o dia estávamos de pé, meio aborrecidos, meio sorri- verdade Frugais.
dentes e procurávamos pelo menos conservar o Fogo aceso.
No dia seguinte deixamos, com pesar, o nosso comprido
Muito melhor nos correu o 22 de agosto. A manli5 abrigo verde de palmeira. O cinzento e enevoado crepúsculo
límpida e fresca fazia-nos ficar também alegres e bem dispostos matutino tomou-se manhã cheia de sol, em que caminhamos
18 PRIMEIRO CAP~TULO 1858, VIAGEM PELO PARANÁ 19

valentemente. Puro e azul o céu sobre as íngremes desfiladeiros de ser feito. Sobre mim numerosas orquídeas exalavam o seu
da serra, em cujos vales mais importantes, como por uma forte aroma de baunilha. A minha direita, algumas braças rio
rasgadura, passava abaixo de nós, murmurando, o Cubatrío. JA acima, trovejava a água caindo do penhasco e à minha esquerda
bastante distante de nós continuávamos ouvindo a cachoeira bramia o rápido.
de um de seus braços laterais caindo ruidosamente no rochoso Ao cair o crepúsculo vespertino, tínhamos comido o nossa
vale. modesto jantar. Nossas fogueiras ardiam claramente na mata.
A nossa bússola agora nos apontava o caminho descendo Pela meia-noite culminava o plenilúnio num céu sem nuvens.
no vale do rio. Fatigante a descida. Quase impenetrável cma- Luzes vivas caiam sobre a cachoeira espumante e sobre o
ranhamento de bambus enchia o espaço entre as árvores da brilhante torvelinho do rio. Ao lado das águas iluminadas pela
mata. Cada passo era vencido a golpes de facão. lua, a sombra da floresta parecia profundamente negra. Pe-
De repente se nos deparou um ruidoso rio. Era tinia vista quenas nuvens de névoa flutuavam acima do rio, nas frondes
salutar. Espumando e rumorejando passam as inquietas águas das arvores. Os companheiras dormiam tranqüilamente sob o
em seu caminho de pedra; silenciosas e imóveis pendiam sobre teto de palmeira e, com eles, toda preocupação de um ataque
o rio as sombrias frondes das árvores. Na úmida sombra das dos selvagens. Deus velava sobre todos. Noite maravilhosa;
árvores florescia em grande número uma bela A~iinryllis,cada jamais a esquecerei.
duas flores sobre um grosso e alto pecíolo, cada flor aberta na Partimos no dia seguinte (24 de agosto) e encontramos
largura de um palmo. Sobre elas, no alto, pendiam das copas ainda várias cachoeiras pequenas. Quase tão belas, quanto o
das árvores elegantes flores de fúcsias, misturadas com uma trecho tumultuoso do rio de uns quarenta pés de largura, São
magnífica leguminosa de flores vermelhas. Alguns alccdinídeos as suas partes tranqüilas, com muita propriedade chamadas
esvoaçavam sobre o rio; todo o resto tla natureza animal "poçosJ1,na língua do país. São acumulações de água, profun-
desaparecera inteiramente. das, perfeitamente imóveis, as quais como não se Ihes vê o
Com muitas fadigas chegamos ao Fiiii, rio acima. Mas fundo, parecem completamente verde-negras. Geralmente fer-
todo o vale era semeado de pedras. Atraves dc i i i i i ; ~fenda entre vilham, sobre elas, numerosos insetos; devem ter, na profundi-
elas saia o rio e formava uma cachoeira de apcrias ;ilgtins pés dade, pequenos mas saborosas peixes. A água tranqüila apro-
de altura, porém muito romântica. Aqui, sobrc as pcclras lisas, xima-se tanto da encosta da serra, que muitas vezes o viandante
rodeados pelas claras águas murmurantes, tivcmos de f;izcr corre o perigo de cair num desses poços, se a picada passa muito
alto, pois não se podia pensar em prosseguir. Volta~iiospor perto deles. Vimos mais de urna vez quase verticalmente, a
algumas centenas de passos, tentando passar para o outro ln(lo alguns pés abaixo de nós, a profundidade negra e silenciosa.
do rio. Um pequeno penhasco formava um rápido, iim;i I~arii- O nosso valente guia Wunderwald tomou a direção, que
Ihenta cachoeira. Podíamos passar. A água apenas atC ao jocllio, ele julgou conveniente, para o norte e mesmo para o nordeste,
terrivelmente fria. Sentíamos nos pés nus as angiilosas pedras a fim de atingir breve o planalto da Província do Paraná.
debaixo da água. Desistimos, pois, do rio e subimos mui trabalhosamente uma
Do outro lado, junto ao rio, encontramos uni magnífico elevação muita saliente, da qual não parecia ser possível con-
local para acampar. Em pouco estava a nossa cabana constriiítln tinuar na direçáo indicada. Dificilmente podíamos passear, no
e instalado o nosso pequeno lar. Fiquei sobre uma pcdra lisa alto, através dos milhares de bromeliáceas, fetos e melos-
que descia até ao rio e sorvi com prazer meu café, que acabava tamáceas; em toda parte troncos em decomposiçáo, cheios de
20 PRIMEIRO CAP~TULO 21
1858, VIAGEM PELO PARANA

orquídeas, mas também em toda parte densas moitas de ta- Jamais pé humano pisara esta região, jamais o olho dum
quara estorvavam os nossos passos. Depois de errar longa- viajante contemplara o maravilhoso espetáculo natural. Éra-
mente, tivemos de decidir-nos a descer para o Cubatão e seguir, mos os primeiros civilizados que em fatigante e perigosa pere-
subindo, o seu íngreme leito, em cujo escuro boqueirão avista- grinação penetrávamos até aqui e descobríamos a grandiosa
mos, a distância, uma cachoeira de considerável dimensão, até cachoeira da. alto Cubatão. E como na rápida penetração da -
agora inteiramente desconhecida. civilização, do mar para cá, é provável que dentro de alguns
Chegamos ao rio muito abatidos e extenuados. Enquanto anos já audaciosos pioneiros alemães façam o seu caminho
vagueávamos Iongamente no alto, o dia gradualmente chegava através da bravia serra Geral, entre Santa Catarina e a Província
ao fim e tivemos de fazer bem perto da água o nosso teto de do Paraná e, assim tornem acessíveis aquele vale e a imponente
taquara, pois na região não havia palmeiras. Avançáramos cascata, creio ter o direito de dar ao sublime quadro natural o
apenas algumas centenas de braças; diminuía rapidamente nome de "Cascata TeresaJJ (Tlzeresienfall) em homenagem à
nossa provisão e, com ela, também um pouco da coragem e Augusta Imperatriz do Brasil Dona Teresa Maria Cristina.
alegria de nossa gente. Sob uma chuva com trovoada adorme-
cemos ou antes nos deitamos para dormir e despertamos No alto, acima da cachoeira do Cubatão, já assomam, no
molhados por uma chuva miúda, se é que realmente dormir- ar, imponentes araucárias, anunciando assim a aproximação
mos. E além da desagradável situação, ainda a senha da manhã: do planalto. Duplamente nos agradou o aparecimento delas: de
não comer à saciedade, para não sofrer fome, caso a nossa um lado pressagiavam o fim de nossa aventura e, depois,
demora na mata ainda se prolongue por mais tempo. podíamos ter a esperança de encontrar no chão alguns pinhóes,
Com essa fraca consolação, partimos com a roupa molha- frutos de araucária. Infelizmente, em ambas as coisas nos
da através da mata encharcada e tornamos a vadear o Cubatão enganamos.
para seguir rumo oeste pela sua margem esquerda. Impossível, Subimos um íngreme outeiro a noroeste e tornamos a
porém; o vale tornou-se tão escarpado e agreste que tivemos descer para o Cubatão que, acima de sua grande cascata, segue
de subir a serra por uma íngreme encosta. muita tranqüilamente e não tem, em nenhum dos lados, ter-
reno escarpado, antes, mata úmida e insignificante, através da
Com muita canseira caminhamos. O trovejar daquela
qual prosseguimos. Aqui recebe o rio, pela esquerda, largo
cachoeira aproximava-se cada vez mais, mas também cada vez
regato. Tornamos a vadear o Cubatão, molhados, em jejum,
mais alcantilado se tornava o monte; em vez de andar, tre-
numa temperatura de anfíbios. Da outro lado da trilha fria e
pávamos, com pés e mãos, por entre fortes fetos arbóreos e úmida tive uma alegria que, mesmo para um viajante, é pueril,
mirtáceas de grandes dimensões. pois aos outros parece muito pequena, mas vem do coração.
Da encosta a pique avistávamos a vertiginosa profundi- Florescia no chão úmido em exemplares grandes e numerosos,
dade. Ladeiras escarpadas formavam um amplo vale cercado de uma anêmona branca com leve matiz vermelho, cujo "habitus"
rochas. De lá vinha o Cubatão, saindo de um estreito desfi- e porte me recordaram a nossa primaveril aizerilo~ienerizorosa.
ladeiro e precipitava-se de centenas de pés em serpeante linha Até certa tripartição das folhas aproximava a flor da serra Geral
branca e em vários degraus na garganta do vale. Do tronco com de sua parente nórdica. Foi ela, pois, para mim, no Cubatão de
dois galhos de gigantesca figueira, procurei obter uma vista Santa Catarina, um amável mensageiro da primavera, que me
exata do grandioso quadro natural. Sobressaltou-me uma es- alegrou por todo o dia. Anoiteceu.
pécie de medo. Afigurava-se-me que toda a parede de terra com No meio de um emaranhamento de taquaras, junto de
a sua mata ia soltar-se e precipitar-se nas furiosas águas. palmeiras e araçazeiros, fizemos o acampamento. Tudo úmido
22 PRIMEIRO CAP~TULO 1858, VIAGEM PELO PARANA 23

e miserável e particularmente escassa a nossa provisão. Dis- homens abriria a picada. Foi aceito. Caso chegasse até ao campo
tribuídos com a máxima parcimónia, os nossos alimentos do Paraná, onde pudesse comprar um pedaço de carne - o que
bastariam no máximo para três dias; por mais que fiz6ssemosJ não era de esperar - ele nos traria alimento. E partiu.
não dariam para mais de três dias, não para saciar-nos, mas Entrementes, tentamos melhorar o nosso rancho e con-
para manter-nos. Afora a umidade atorn~entadora,e o forte seguimos um teto compacto e uma fogueira animada. E se-
apetite, quase doentio, passamos bem, graças a Deus; tínhamos camos as roupas, remendamos as calças, um genuíno quadro
pelo menos saúde, exceto um, que sofreu um pouco de disen- holandês na selva brasileira. Profundo silêncio reinava na mata:
teria; dei-lhe um pequeno vomitório, embora ele afirmasse que, nenhum grito de pássaro ressoava e se ressoasse, seria neces-
com tão pouca comida, nada tinha no estôn~ago.Pouco depois sariamente seguido de um tiro de espingarda para trazer à nossa
se restabelecia. panela vazia o emplumado morador das árvores. Em parte
Com frio e fome, fizen~oslaboriosamente uma fogueira. alguma se via uma caça, mesmo um rasto de anta, mas muitas
Muito molhada, fazia a lenha bastante fiimaça. Um vento "veredas de anta" que, como caminhos, passam entre os bam-
traiçoeiro empurrou-a para dentro do rancho, provocando buais. Não se podem, porém, caçar antas sem cão amestrado
tosse geral e derramamento de lágrimas. Tão lastimável, em nessa caça. E não tínhamos cão. Se tivéssemos, não iríamos
suma, nosso estado, que todos acabamos dando gargalhadas, tentar caçar, mas mataríamos e comeríamos o próprio cão.
bem que alguns rogassem rudes pragas 2 mata e jurassem nunca De muito longe ouvíamos ainda o ruído da cascata Teresa.
mais voltar a ela. Durante toda a noite, indesejável chuva fina. Tamanho silêncio que se ouviria até uma agulha cair no chão.
Atravessou o teto e caiu sobre nós; nunca em minha vida me As palmeiras em volta, imóveis. Para medi-las, mandei abater
agachei tanto como aqui, mas em vão: molhei-nie e molhado uma muito esbelta. Estalando, precipitou-se dentro da mata.
fiquei. Com nove polegadas de diâmetro no tronco, em baixo, media
Em 26 de agosto, de manhã, o mesmíssimo quadro! Muita 66 pés de comprimento, uma nobre proporção e esbelteza, que
chuva e pouca comida, a natureza vestida de cinzento, os em outras plantas não é alcançada.
homens com humor cor-de-cinza. Quem mais me pen a 1'izava Pelas 4 horas da tarde soou, a distância, a buzina de
era Wunderwald, porque já tinha feito uma peregrinação se- Wunderwald. Meia hora depois chegou. Tinha aberto picada
melhante e conseqüentemente conhecia a direç5o de nossa valentemente e esperava levar-nos muito breve ao campo do
nova picada e, ao partirmos de Joinville, dera instruçóes aos Paraná. Essa notícia e uma tarde amena nos causaram a melhor
trabalhadores para se abastecerem somente para oito dias. J5 impressão, sem diminuir-nos o apetite, inabalavelmente ótimo.
estavam há dez dias na mata e ainda não podiam ver o fim da Apesar de muito subir e muito trepar, foi também agra-
viagem. Além disso, havia o trabalho de arrastar as minhas dável a manhã seguinte. Avançamos muito na picada aberta na
coisas. Por mais que as dividíssemos em pequenas parcelas, véspera; magnífica e saudável a floresta! Mata de bambus, fetos
eram sempre fatigantes e despertavaili consideravelmente o e bromeliáceas parasíticas. Sobressaíam os araçazeiros e mir-
apetite. Eu próprio era a causa das dificuldades; sem poder ser táceas, além de muitos troncos de sassafrás. Estes espalhavam
considerado imputável, eu absolutamente não podia snl~ci- o seu aroma, quando cortados pelos abridores da picada para
quanto seria extenuante e arriscada uma viagem em picatln. deixar sinais para os que vinham atrás e que frequentemente
Para excitar o menos possível o apetite dos honicns, tinham de descansar. Nenhum alimento substancial os fortifi-
Wunderwald propós um dia de repouso, enquanto ele com (lois cara para o trabalho. Erguiam-se da floresta magníficas palmei-
24 PRIMEIRO CAP~TULO 1858.VIAGEM PELO PARANÁ 25

ras e araucárias. Estimamos algumas em mais de 100 pés de Como Leônidas nas Termópilas, comi, com os meus leais
altura. Eram no entanto excedidas por soberbas pináceas, cujas companheiros, o nosso último almoço para depois, com digni-
gigantescas colunas se elevavam de maneira imponente. Já falei dade e calma espartana, passar fome com eles. Se o processo da
demasiado sobre as araucárias para que deva repetir aqui inanição andasse rapidamente, encontrar-nos-iam numa fila
quanto entusiasmo me despertaram essas árvores colossais, bem ordenada de onze homens mortos de fome. Mas, tais quais
onde quer que as encontrasse. São majestosas colunas que se achavam as coisas, eu sabia com certeza que sãos e salvos e
suportam o teto de folhas do partenon da selva. Um tronco contentes alcançaríamos o planalto, embora com uma rija fome
cilíndrico de quatro a cinco pés de diâmetro, que se eleva em canina.
linha reta a 50 pés, sem esgalhar, é uma vista grandiosa. Entretanto, consertamos radicalmente o nosso rancho;
Com o bom humor que nos provocara o belo dia e o largo suportava bem a chuva e esse melhoramento de nossa situação
trecho de caminho percorrido, tornáramo-nos imprevidentes. Foi para nós como uma vitória alcançada. Sem a refeição do
Num sítio muito adequado construímos o rancho, cobrindo-o meio-dia, estávamos muito contentes. Tentamos caçar, sem
ligeiramente apenas com grandes folhas de feto e alguns bam- resultado. Andei uma hora inteira com a espingarda, mas nada
bus, tanto mais que o tempo permanecera claro e límpido. achei. Assim aconteceu também com alguns dos outros ca-
Choveu à noite e tivemos de expiar a nossa imprevidência; de çadores. Pela tarde pudemos ainda distribuir entre nós uns
manhã estava tudo molhado. restos de comida. Wunderwald não voltou; ele queria chegar
Em 28 de agosto de novo partiu Wundenvald sozinho ao campo do Paraná e nós só podíamos alegrar-nos com a sua
com dois desbravadores de picada. O honrado e incansável resolução. "Em Filipe nos reveremos" -foram as suas palavras
homem gostaria de tirar-nos de nossa apertada situação e de despedida.
alcançar o mais depressa possível o campo, onde, em sua Não em Filipe, não no campo decisivo, mas foi na mata,
primeira expedição, há três anos, vieram ao seu encontro trivialmente, que nos encontramos. Em 29 de agosto eu partira
porcos amontados. Se encontrasse carne, no-la mandaria ime- cedo; deram-nos ainda algum café; dividimo-lo entre nós; tive
diatamente; esse foi o ajuste, mas eu sabia perfeitamente que o privilégio de lavar, com a minha quota de café, a lata de
ele nada encontraria. Na última refeição matinal - se assim se açúcar, na qual, aliás, não havia nenhum açúcar. Depois parti-
podia chamar nossa escassa provisão -todos desejávamos um mos para encontrar o nosso engenheiro no campo e comer ali,
alimento qualquer. O mais fácil seria encontrar uma égua velha conforme ficara combinado, "o porco assado". Seguimos a
na orla do campo. Acontece com essas belezas eqüestres o que picada em direção ao norte e pela última vez passamos o rio
costuma dar-se com as dançarinas e cantoras velhas. Depois de onde reconhecemos o local de dormida de Wunderwald. Uma
gastarem a mocidade, aplaudidas, no largo campo da vida, hora depois encontramos, infelizmente, o nosso engenheiro no
retiram-se para um asilo tranqüilo com melancólico desprezo meio da mata. Havia equivoco e tivemos de regressar. Era, pois,
pelo que perderam: a beleza, a juventude e os aplausos do recomeçar o dia.
mundo. Quase em toda parte, no planalto de Santa Catarina, Apoderou-se dos homens um desagradável estado de
encontrei, à orla dos campos distantes e meio escondidas nas ânimo: todos estavam fracos, silenciosos, exaustos. Os mesmos
moitas, algumas éguas velhas. Como nos agradaria uma delas homens que até então tinham marchado com muito boa von-
na mata. Devíamos estar apenas a meia légua de distância do tade, com infatigável vivacidade e entre constantes brincadei-
campo. ras, agora seguiam calados pela mata: estavam esfomeados, na
26 PRIMEIRO CAPÍTULO 1858. VIAGEM PELO PARANA 27

verdade eu não podia censurar-lhes o cansaço e no entanto em ch5o e que aumentavam em direçáo a determinada vereda. Para
nada podia ajudá-los. a direita a vereda perdia-se na mata; para a esquerda tornava-se
Por duas vezes Wunderwald, do topo de uma árvore, fez mais trilhada e nós a seguimos rapidamente, em ansiosa expec-
o reconhecimento da região. O número de araucárias aumen- tativa.
tava cada vez mais. Tínhamos de segui-las para chegar ao - O campo! - exclamoii a homem que ia na frente; -
campo. Andamos e andamos e nenhum campo apareceu. Os o campo bem perto de nós! Mais dez ou quinze passos e
regatos continuavanl correndo para a direita, para o nordeste, cstávarnos no campo aberto; perto e a distância havia enorme
onde ficava o Cubatão; por mais que subíssemos, nenhum multidão de araucárias dispersas ou densamente reunidas em
campo transparecia através do mato. bosques; no alto, no ar, esvoaçavam e gritavam inúmeros
- Um tiro! - exclamamos nós, quase todos ao mesmo papagaios; julguei-me transportado para o planalto de Santa
tempo. Um tiro ao norte, a menos de meia légua de nós! Catarina e de novo na Estância dos índios.
Disparamos também, duas vezes, três vezes, e Wunder- Estávamos, pois, fora das brenhas. Embora continuás-
wald tocou a sua buzina; depois escutamos largamente, aten- semos sem ter o que comer, todos estávamos contentes. Sobre
tamente, mas na mata nada se mexia. Talvez o caçador solitário uma próxima araucária pousava, gritando, um papagaio. Um
tivesse medo de ser encontrado no meio da mata. E afinal, quem tiro bcm dado c um momento depois estava morta, no chão, a
estaria na mata< avc colorida. Assim, havia possibilidade de conseguir-se algum
Nós, porém, estávamos de bom ânimo. O tiro fora de uma alimento, sc continuássemos a caçada com prudência e habili-
espingarda do Paraná, isso era certo, e o caçador devia morar dade.
perto, o que também era ccrto; e até podíamos ouvir o seu cáo Enquanto alguns começavam a construir um rancho na
latir. orla da mata, eu, com um dos mais resistentes ao cansaço,
tentei descobrir uma casa, gente. E~icontramosuma vereda
Veio, pois, a animação. Voltaram a coragem, a alegria, o
bom humor. E, com isso, parecia chegar o fim da nossa penosa trilhada pelo gado e segiii~no-Ia.Encontramos vestígios huma-
peregrinação. Quando descenios uma planície riquíssima em nos, pois achamos uma gamela de araucária, na qual evidente-
fetos, chegamos a um riachinho que corria para o sudoeste, mente houvera sal para o gado lamber. Pouco depois descobri-
evidentemente o primeiro €i o d'água pertencente ao domínio mos na vereda rastos frescos de pés nus, que seguin~ossubindo
do rio Negro e, portanto, ao Paraná. Havíamos chegado aos um riacho. Mas surpreendeu-nos o crepúsculo, ao passo que
limites extremos da Província do Paraná; isso parecia-nos certo ouvíamos tiros em nosso acampamento. Era natural voltarmos,
e talvez dentro de poucos minutos, de horas, no máximo, pois éramos apenas dois homens e só tínhamos dois tiros
atingiríamos o campo. conosco. De regresso, na semi-obscuridade, perdemos a di-
Para festejar o momento, ofereceu-me Wunderwald a sua reção. Chamamos e ecoou a buzina de Wunderwald. Dobramos
última bolacha de munição. Como um moderno Alexandre, uma ravina. Diante de nós brilhou a fogueira do bivaque dos
rejeitei. Eu náo queria comer nada antes que todos os meus companheiros. Um qiiarto de hora depois estávanios com eles.
companhciros dc viagem também pudessem comer alguma Haviam sido mortos três papagaios. Foram distribuídos
coisa. com os doze trabalhadores, por pouco que um qiiarto de
Daquele riachinho subia-se obliquamente pela mata. Al- papagaio pudesse satisfazer iim niateiro esfomeado desdc dias.
guns minutos depois encontramos vestígios de casco de boi no Para si e para mim, o nosso engenheiro ainda tinha um pedaço
de toucinho. Com isso recebi ainda metade da bolacha de e demorar nela algumas horas, uma vereda na mata é dobrado
munição que eu recusara na mata. Agora podia aceitá-la em constrangimento.
boa consciência, porque os meus companheiros também tinham De repente ouvi Wundenvald falando em voz alta, em
o que comer, embora pouco. português. Aproximei-me rapidamente para ver o que se pas-
Então tive um silencioso desgosto. Apareceram alimentos sava.
que alguns haviam guardado para o caso de maior fome ou
necessidade. Quanto a mim, o direito da própria conservação
também é um direito; mas o direito de sacrificar-se pelos outros
parece muito mais belo. Afinal, em nosso caso não se podia
pensar em verdadeiro perigo; tratava-se apenas de passar um
pouco de Fome. E mesmo assim aqueles precavidos companhei-
ros tinham revelado egoísmo e cautela, para mim, repugnantes.
Por pequeno que fosse o jantar na orla da floresta, foi,
todavia, reconfortante. Enquanto os doze trabalhadores to-
mavam a sua sopa de papagaio e comiam a sua quarta parte,
eu assei numa haste de bambu a meu toucinho e comi-o com
a metade da bolacha. E com infinita satisfação. Sim, não me
envergonho de confessar que, depois de comer o toucinho,
chupei a ponta do bambu enquanto havia nela gosto de tou-
cinho. No antigo e no novo mundo, comi muitos jantares
lucilados, mas não me lembro de nenhum que me tenha sabido
tão bem como o da orla do campo do Paraná no dia 29 de agosto.
Dormirmos deliciosamente a noite; satisfeitos, desperta-
mos de manhã. Verdadeira manhã araucariana: leve nevoeiro;
brilhantes papagaios gritavam nas frondes dos verde-negros
bosques de pinheiro; estava fresco, quase frio e com muito
prazer nos aquecemos um momento na reatiçada fogueira do
bivaque, até que nasceu o dourado e cálido sol.
E então partimos, para achar gente. Seguimos a vereda
que o meu companheiro e eu já tínhamos palmilhado na
véspera por meia milha e dentro em pouco, aliás sem nenhum
prazer para nós, estávamos no meio de uma densa mata, tal
como se uma potência demoníaca nos tivesse levado de novo
ao Cubatão, condenando-nos a novas dificuldades.
Wundenvald ia na frente e os outros o seguiam silen-
ciosamente. Porque, depois de ver a planície do campo aberto
1858, VIAGEM PELO PARANÁ 31

bugres. E não obstante vi homens calmos e corajosos empalide-


cerem com a simples palavra "bugresJJ.
O menino e três homens seguiram para trazer uma anta
que um deles matara adiante do Campinho no dia anterior, mas
não pôde conduzir, pois o animal pesava 10 arrobas, ou sejam,
320 libras. Tínhamos ouvido o tiro, que muito nos alentara.
Fato curioso, o caçador de antas, que ficara conosco, fora o
ULO primeiro homem que Wunderwald encontrara, na mesma re-
gião, quando, três anos antes, aqui chegara em sua viagem
através de picadas. Ambos se reconheceram imediatamente.
Gente, d e novo. - O caçador d e a n t a s d o Tijiicamas. - A Com certa dignidade o caçador de antas tomou um ci-
garro de palha de milho, levou-o à boca, deu três ou quatro
estância d o rio d o Meio. - Algumas considerações sobre
fumadas e passoii-o depois ao nosso companheiro como sinal
o m a t e . - Repouso n o Rio Negro. -Civilização incipiente. de hospitaleiras boas-vindas e de alegria por tornar a vê-lo.
- A b a n d o n o d a s m a t a s e chegada a o C a m p o d o Ambrósio. Examinei o homem dos pés 2 cabeça. Evidentemente era um
índio quase puro, de estatura mediana e bem nutrido, pardo-
Era gente. Apoiados em suas espingardas, armados com claro, de aparência leuco-fleumática, de rosto bom, redondo e
facas de mato, estavam em volta do meu bom engenheiro cabelos negro-escuros. Como cobertura da cabeça tinha um
quatro homens e iim menino, todos t i o espantados de encon- couro cru de bugio. Trazia uma camisa azul, calças de 'linho
trar europeiis quanto nós alegres e atí: entiisiasmados por cinzento até os joelhos, com as pemas nuas do joelho para
termos descoberto os quatro mestiços de índios. Apertanlos as baixo. Além da espingarda tinha ainda duas pistolas e uma faca
mfios uns aos outros, saudamo-nos e conversamos. Há, nesses de mato ao cinto. Este consistia numa pele de gato selvagenl,
encontros na mata, uma confiança admirável, firme como um cuja cauda servia de bainha à faca. Era originalíssimo.
rochedo! Resumidamente Ihes contamos a nossa história nas Perguntamos se tinha comida, se podían~oscomprar al-
matas e picadas e causou viva alegria aos homens pardos, guma coisa. Disse ele que para vender nada tinha, mas teria
calmos e realmente bem constituídos, que europeus se ti- prazer em dar-nos o que tinha no seu rancho, lá em baixo, na
vessem exposto, destemidamente, à trabalhosíssima vida na mata. E seguiu na frente.
mata. "Não encontraram nenhum bugrelJJ-perguntou o mais
Logo depois ele parou, examinou uma árvore seca, tomou
vigoroso entre eles. Dissemos que não. Isso pareceu dar-lhes
o nosso machado e cortou o tronco, a fim de que tivéssemos
prazer. Estranho! Nada -nem a solidão, nem o horror da mata,
combustível. Levamos alguma lenha conosco e seguimos o
nem os abismos, nem as cachoeiras, nem os animais ferozes -
estranho guia através da mata.
amedronta esses homens: só a palavra "bugres" os faz estreme-
cer e empalidecer; só pensar neles já os pert~irba.Vi o assom- Abriu-se uma depressão ampla e clara. No fundo corria
bramento com o espectro dos bugres no Rio Grande, vi-o em um riacho. Perto, uma casa de madeira, pequena e pobre, feita
Tubarão e no Feixo em Santa Catarina, vi-o em Lajes, em de traves de pinheiro e uma cabana menor, evidentemente a
Índios, no rio Bonito, no Trombudo, em toda parte e de novo cozinha. Ao lado da casa, uma horta, cercada com troncos de
na mata do Paraná e no entanto nunca tive ocasião de ver feto arbóreo, na qual eram cultivadas as coiives e outras hor-
32 SECUNDO CAP~TULO 1858, VIAGEM PELO PARANÁ 33

taliças. Com extraordinária pompa floresciam ali três pes- ficaram atônitas. Evidentemente nunca tinham vista seme-
segueiros. Perto da casa um relvado em talude. Além, toda uma lhante instrumento, nem sequer ouvido um trecho de música.
encosta derrubada para uma roça. Comoveu-me a surpresa e alegria delas. Reconheci mais uma
Assim era a primeira estância no planalto do Paraná. vez o poder da música, mesmo a de uma buzina. Tem-se
Saíram do rancho algumas mulheres e crianças, que olharam imposto por meio do Evangelho e por meio de canhões a cultura
admiradas para os recém-chegados. Provavelmente elas, fran- européia a povos selvagens; quem sabe se não seria mais fácil
camente de origem índia, nunca tinham visto tantos homens incutir-lhes os costumes, as leis e a religião por meio do canto
inteiramente brancos. Éramos para elas sucesso inaudito, tal- e especialmente por meio dos instrumentos de soprot Li que
vez um acontecimento na vida dessa gente. uma vez levaram à ópera os caciques de índios que estavam em
negociações com o Congresso de Washington. Cantou uma
O caçador de antas fez uma fogueira, em torno da qual célebre cantora; a princípio os índios ficaram muito espan-
ficamos nós, com verdadeira fome canina. Tomou depois um tados; depois, dominados pelo entusiasmo, arrancaram do
grande pedaço de carne-seca de anta e um menor de porco do corpo os seus ornatos, pele de sariguéia, e as arremessaram aos
mato (Dicotyles).Assou o primeiro numa vara; uma das mulheres pés da cantora até que ela ficou com os mais puros ornatos de
tomou-o e pilou-o num forte tronco de árvore escavado como suas selvas.
gral e colocou-o, depois, numa gamela. Em outra vasilha Foi Em casa das primeiras pessoas que encontramos no Pa-
posta farinha de milho; o caçador de antas estendeu um couro, raná, após trabalhosa peregrinação, passei, pois, uma hora para
pôs sobre ele a estranha comida e os meus cossacos sentaram-se mim inesquecível. Fizemo-lhes presentes de dinheiro e coisas
para comer. que Ihes pudessem agradar. Na despedida, dei a mão a todos;
Comeram formidavelmente. E eu também. A carne de essa gente despertou-me muita compaixão. As mulheres man-
anta sabia maravilhosamente; para mim tinha gosto perfeito daram pedir a Wundenvald que lá na floresta tocasse a buzina
da carne defumada hamburguesa, aliás achei-a mais suculenta mais uma vez. Ele prometeu e nós partimos. O caçador de antas
e mais vermelho-escura do que aquela. A carne de porco do acompanhou-nos até a um riacho Iímpido e escachoante, o rio
mato também estava excelente e desapareceu tão rapidamente das Tijucamas, que atravessamos sobre um tronco de árvore.
quanto a carne de anta, embora fossem enormes as porções. Aqui se despediu o nosso homem. Com todo o coração lhe
Entrementes, não esteve ociosa a hospitalidade do ca- apertei a mão parda e nervosa. Afinal, escreveu-me ele o seu
çador de antas. Ele tinha grandes panelas cheias de pinhão nome: Francisco Bueno Gomes.
cozido. Começou, em grandiosa escala, o segundo prato do Subimos pela floresta um caminho escarpado e do alto
nosso jantar. olhamos em torno. O caçador de antas seguia-nos com a vista,
Por mais gostosos que fossem os pinhóes, não podíamos como se desejasse seguir conosco para a vida da cultura e da
comê-los todos. Uma hora antes podíamos jurar que não ha- civilização. Acenamo-lhes ainda e depois desapareceu no mato.
veria comida suficiente para saciar-nos. A uma das crianças Em cima, na crista da serra, Wundenvald tocou a buzina. Em
ofereci uma moeda inteiramente nova e ela me trouxe bolos de volta o eco repetiu os sons. Depois seguimos mata adentro.
milho, muito gostosos e que, distribuídos entre os homens, Voltávamos, pois, ao convívio humano e saíramos de
ainda foram comidos. nossa opressiva situação, notadamente do perigo da fome, mas
As mulheres mandaram perguntar a Wundenvald para ainda se achava muito distante de nós a civilização. Con-
que servia a sua buzina de sinais. Ele tocou um sinal e elas tinuavam aparecendo novas matas e embora houvesse nelas
1858, VIAGEM PELO PARANÁ 35

alguma claridade para poder-se ver o caminho, todavia era tão vez gozaram eles, depois de nossa partida de Joinville, cômodo
penosa a marcha no solo pantanoso que se poderia preferir a repouso e a esperança de dormida agasalhada, chovesse ou
mais simples picada ao ingrato terreno. fizesse bom tempo durante a noite. A quem tenha tido de
Ao meio-dia passamos, sobre um tronco de árvore, o dormir na mata, na estação mais desfavorável do ano, onde
pequeno rio Bateia e pouco depois entramos numa grande agosto corresponde a fevereiro, não preciso dizer que os meus
clareira, adiante da qual cantou um galo. "Um galo!" - excla- companheiros de mata ficaram contentíssimos. Na vida de um
mamos quase todos nós, alegremente, no mesmo momento. colono há momentos, dias e mesmo semanas em que ele
Porque u m canto de galo é o anunciador de uma bem fundada invejaria a Diógenes no seu tonel. Eu próprio, em minha
habitação humana, o profeta de um princípio de civilização. expediçáo pela mata, vivi semelhantes momentos.
Assim era aqui. No meio da floresta elevava-se uma colina, na Wundenvald e eu fomos levados para junto da família.
qual havia uma pequena estância. Subimos para lá a ver se havia Lá nos sentamos para alguns momentos de repouso e gozei a
possibilidade de achar pousada. vida de pioneiro.
Aqui, aliás, a civilização não fizera muita coisa, já, porém, No chão rústico da pobre casa de madeira -onde só uma
mais do que no rancho do caçador de antas. Formavam a porta dá entrada e nenhuma janela deixa penetrar a luz, a qual,
habitação uma casa feita de grossas tábuas de pinheiro, em porém, toma a liberdade de introduzir-se por todas as fendas
rigor só um espaço com um tapume e dois telheiros de paredes da parede de tábuas - crepitava e chamejava um fogo alegre,
de barro. A alguma distância havia ainda uma barraca de lançando a sua luz vermelha sobre o pequeno mundo índio-
tábuas. Em volta, cercados para vitelas e porcos. brasileiro em torno de mim. Agachamo-nos sobre pequenos
Apesar da pobreza da habitação, fomos recebidos com cepos, pois em tais ranchos naturalmente não há cadèiras,
boa vontade pelos moradores, mas era pouco convidativo o bancos e mesas. Bondosamente a velha da casa nos preparou
pessoal que ia aparecendo para ver-nos. O dono da casa, An- comida e a pôs ao lado do fogo, no chão: com o auxílio de
tônio Ribeiro, era, como sua mulher, de origem índia. Sua filha colheres de metal tomamos a saborosa refeição. Como está a
casara com José dos Santos Barbosa, que representava o papel civilização européia longe, enormemente longe de semelhante
principal e era manifestamente de origem portuguesa, embora choça, de semelhantes moradores da mata! E, no entanto, como
remota. Além disso ainda andavam para lá e para cá alguns a gente agradece a Deus quando, saindo da Floresta úmida,
homens e mulheres, mestiços de índios e brancos; das muitas encontra estes moradores da mata, este rancho!
crianças se podia concluir que alguns formassem casais sobre "Os senhores não encontraram bugresl" - Foi essa a
cujas relações não pude esclarecer-me. Nos confins da civili- primeira pergunta que nos fizeram quando Falamos de nossa
zação não é fácil passar a limpo essas relações. Aquela gente expedição. Sempre os selvagens! Há alguma coisa de terrível na
tinha a rudimentar estância em comum e tudo entre eles luta entre esses homens-animais da selva e o civilizado da
parecia em condomínio. colônia! Por menos numerosos que sejam os primeiros e por
Deram aos nossos homens a pequena casa de tábuas. menos civilização que tenham os últimos, não se pode pensar
Compramo-lhes 16 libras de carne-seca; pouco depois ardiam em transição de uns para as outros, em nenhum tráfego, acordo
duas alegres fogueiras para assar a carne, com a qual receberam ou conciliaçáo. Onde se encontram, espreitam-se e lutam com
os nossos homens excelente farinha de milho e mate de pri- toda a certeza. Onde a flecha de um sai, zumbindo, da embos-
meira qualidade. Foram estendidos couros de boi; pela primeira cada, a espingarda do outro estoura e envia-lhe uma bala
1858. VIAGEM PELO PARANÁ 37
36 SECUNDO CAP~TULO

sibilante contra o corpo nu. O bugre não tem direito algum, barraca e ficaremt Um único olhar do homem bastou para
porque não reconhece nenhum direito. As histórias de roubos, considerar-nos e reconhecer-nos como alemães, pioneiros de
assasiinatos e incêndios em território europeu São horrorosas, Joinville; um único e simples pensamento bastou para concluir
mas São somente exceções, somente infrações de um princípio que éramos um grupo da mesma gente a cujas machadadas a
geralmente aceito e observado. Não assim a vida nas selvas. floresta tombava, fugia a barbaria e bugres e tigres se retiravam
Aqui a regra é a defesa, mesmo o ataque e o assassinato. para as suas cavernas de trogloditas.
O que mais agradeço a Deus é que em minha expedição Na estância havia uma criança de tipo facial genuina-
pela mata nunca tenhamos encontrado bugres. Com o nosso mente índio, que há cinco dias quebrara o braço. Improvisei
armamento, qualquer ataque seria repelido logo no começo uma atadura e mostrei à mãe como poderia ela própria ajustá-la
com uma bala, mas essa bala feriria um homem e o estenderia e disse que a criança se restabeleceria. A menina de sete anos,
no chão. E depoist Depois eu teria de correr para a vítima, muito turbulenta, Ficou notavelmente quieta enquanto eu lhe
mortalmente ferida pela minha própria bala, oferecer-lhe a mão punha a atadura: ela via que eu queria ajudá-la. Nisso, para
e socorrê-la. Quem pode suportar o olhar de semelhante mo- suportar a dor, agiu mais o instinto natural do que uma resoluta
ribundo, acredita que a gente leve a bolsa de ferros, o martirize vontade infantil.
lentamente até matá-lo e depois ainda despedace o seu cadáver! Saí a ver os companheiros. Chamejava alto a fogueira que
Esse quadro da selva é atroz, mas ocorre e poderia desenrolar-se acenderam e lançava a sua luz vermelha sobre as frondes das
diante de meus olhos europeus. escuras araucárias que se elevavam em volta. Na mata murmu-
- O senhor não atiraria no bugre, se o encontrasse< - rava um riacho. A certa distância gritava uma coruja; tudo o
perguntou o meu hóspede. - Se não me atacasse, não - mais era silêncio e em suave paz seguiam as estrelas, no mais
repliquei eu. O outro abanou a cabeça. - O bugre é um bicho puro céu, O seu curso noturno.
- disse ele. E abandonamos o assunto. Penso que, no íntimo, Em casa também ardia o nosso fogo. Sucediam-se cenas
me deram razão. curiosas. A Wunderwald e a mim deram o compartimento
Isso deve bastar para que o leitor europeu compreenda junto do espaço principal, onde havia uma espécie de armação
que a vida na orla extrema da floresta virgem, numa estância de cama feita de cipós entretecidos. Não se podia naturalmente
isolada, é triste e medonha; e que o aparecimento de catorze pensar em roupa de cama, almofadas e cobertas. A bondosa
europeus com princípios humanitários que, vindo da costa em velha pusera, todavia, como travesseiro, uma porção de saias e
trabalhosa expediçáo através da mata, penetram no planalto outras peças de roupa, cuja emanação me era desagradável;
para preparar um caminho para a civilização é, para esses contudo, deitamo-nos como foi possível. Mas a noite era muito
remotos camponeses, um acontecimento universal. Por exem- Fria; através das largas fendas da parede soprava um ar cortante,
plo, já não é digno de admiração que numa estância exposta ao de modo que absolutamente não pudemos dormir e confes-
azar de um ataque de surpresa apareçam subitamente catorze samos que um bivaque na mata, com um bom Fogo, seria
homens com armas e bagagens sem despertarem a mínima melhor do que nosso pretenso alojamento.
suspeita, de modo que o dono da casa sozinho, sem a menor Apenas amanheceu, saímos de casa e fomos aquecer-nos
emoção, embora admirado, Ihes sai ao encontro e os convida, na alegre fogueira dos companheiros. Em pouco estávamos
a eles que só iam perguntar pelo caminho, a passarem a noite desgelados e os outros despertaram. Vieram mais 16 libras de
no seu lar, com os seus, a contentarem-se com a sua pobre carne e uma porção correspondente de farinha de milho e os
1858, VIAGEM PELO PARANÁ 39

meus pacientes companheiros alimentaram-se para mais um impulso da alma humana, do coração, tudo está entretecido e
dia de marcha. Visivelmente, desde ontem, eles tinham aumen- entrelaçado com o ato de preparar o mate, servi-lo e tomá-lo
tado algumas polegadas de diâmetro. em comum. A veneração do café e o perfumado fetichismo do
Wundenvald e eu fomos chamados para o almoço. De chá nada são, nem sequer dão uma idéia da profunda signifi-
novo nos acocoramos com os nossos homens primitivos em cação do mate, na América do Sul, que não se pode descrever
volta do fogo, cada um em seu cepo muito baixo; mantivemos com palavras, nem cantar, nem dizer, nem pintar, nem ins-
nova palestra sobre a lavoura dos alemães nas terras baixas, culpir em mármore. Comparativamente, nada é o célebre "Tlie-
pelo que os homens da mata mostraram muito interesse. Mas re be Irolre of benr~tieshrrgliters" de Byron. Sim, tivesse Moore
há muito brilhava o sol sobre a floresta; nos pessegueiros, que conhecido o mate, a sua amável Peri teria reconquistado as
floresciam viçosamente perto da casa, zumbiam os colibris em portas do paraíso e a felicidade dos imortais com o mais belo
multidão e a nossa gente já tinha embalado tudo. que há, com um maravilhoso diamante, com uma gota demate!
Com muitos agradecimentos pagamos as provisões con- Nas folhudas matas, a centenas de pés de altura, do Rio
sumidas por nós e nossos homens e partimos de novo para a Grande, Santa Catarina, São Paulo e Curitiba e muito além na
mata, pois continuávamos sem encontrar um verdadeiro cam- América do Sul, cresce a árvore encantada que fornece a erva
po. ou erva-mate; e por isso se chama erva1a região particularmente
Atravessamos o pequeno rio do Meio e viajamos algumas abundante em mate2.
horas na mata sabre altos e baixos. Por pior que fosse o caminho A árvore tem o tronco esbranquiçado, esbelto; de algum
em certos pontos, era, todavia, um caminho, às vezes aberto modo semelha, na cor, a nossa bétula. Vi poucos troncos de
através dos matos, até com algum tráfego. Encontramos ho- certa grossura, apenas até um pé de espessura; geralmente São
mens que seguiam com burros carregados, em geral de mate; mais delgados, esbeltos, graciosos. Divide-se em muitos galhos
em muitos lugares ouvimos falar e chamar no mato; muitos e ramos densamente cobertos de folhas alternas.
estavam espalhados a distância, ocupados em "fazer" mate, As Folhas de pecíolo curto, São longamente ovaladas em
como se diz na linguagem profissional. Encontramos grande sentido inverso, ligeiramente denticuladas, tendo, no máximo,
quantidade de troncos desfolhados; de muitas árvores até nove a doze dentículos de cada lado. Muitos dentes têm até um
abateram a copa para mais facilmente colherem os ramos pequeno prolongamento como se fosse formar um acúleo. A
tenros e a folhagem. nervura central da folha, que alcança duas a quatro polegadas
Mate, mate e mais mate! Essa a senha no planalto, a senha de comprimento, sobressai fortemente na Face inferior da folha
nas terras baixas, na floresta e no campo. Distritos inteiros, e recebe, em ordem alternada, as nervuras transversais, no
aliás, províncias inteiras, onde a gente desperta com o mate, máximo seis de cada lado, que se anastomosam entre si por
madraceia o dia com o mate e com o mate adormece. As meio de áreas de inserção, especialmente na orla da folha,
mulheres entram em trabalho de parto e passam o tempo de dando-lhe quase um tipo de mirtácea. Na folha fresca e muito
resguardo sorvendo mate e o último olhar do moribundo cai
certamente sobre o mate. É o mate a saudação da chegada, o
símbolo da hospitalidade, o sinal da reconciliação. Tudo o que 2 Aqui sáo suprimidas duas linhas, em que o autor faz um jogo de palavras com "erva"
e 'Krautn (cr1.n em alemão) e que só oferece algum interesse para os leitores alemács.
em nossa civilização se compreende como amor, amizade, São as seguintes: "Ursyriir~gliclr rrrng Ifcrifn\r,oI Krnrrr i~cdcr~rcir. 1:'sgilirni~cr rirrr cirr Krnrrr,
estima e sacrifício, tudo o que é elevado e profundo e bom nird dicscs Krnrrr, Blnrr, ;si /\Inrc, nlso Itcissr llcrc*n ciri-frrr n l l c ~ r ~ n l ~ l l n-
~ cN.
" . do T.
mais na seca, a orla da folha dobra-se, para baixo, numa ourela onde, em grandes estâncias, São entregues a um engenho
saliente. próprio para mate, ou a um maior. Aqui a erva e a parte lenhosa
A consistência da folha é sólida, meio coriácea e um tanto delgada São piladas e moídas, reduzidas ao pó mais fino pos-
seca, a cor é de um bonito verde um tanto escuro; ao secar, a sível e depois malhadas em sacos de couro cosidos muito
cor escurece mais. O gosto, ligeiramente amargo e aromático, regularmente, o que muito contribui para a valorização do
é siri gerleris! artigo.
Essas as principais qualidades da folha; pelo menos das Esses fardos de mate, preparados de maneira originalís-
que tenho ao lado, sobre a mesa, enquanto escrevo. sima com couros de boi, têm uma enorme significação e difi-
cilmente se pode dar uma idéia da quantidade de uma mer-
Náo é preciso lembrar ao botânico que a erva é aparentada
cadoria da qual nada se sabe na Europa que toma chá e café.
com o nosso Ilex nqrrifoliirrrr nórdico ou explicar, a ele e a outros
Creio não exagerar afirmando que na América do Sul todos os
cientistas, que ela e outros gêneros formam a família natural
que falam espanhol tomam mate e quase metade dos que Falam
das aquifoliáceas ou iliáceas, sobre as quais se pode consultar português lhes seguem o exemplo. Já Falei, alhures, da quanti-
qualquer manual de botânica ou, melhor ainda, estudar em dade de mate que se fabrica. O engenho do rio Pardo podia
nosso Ilex nqrrifoliirrrr nórdico. Mas talvez seja injusto dar ao fornecer 100 arrobas diárias de mate. Uma firma francesa na
Ilex nqirifoliirr~ro atributo de nórdico. No Uruguai, pelo menos, pequena Itaqui exportava por ano 4.000 arrobas. A exportação
vi no chão enorme quantidade de moitas cortadas de Ilex; eram de todo o Rio Grande é estimada em 17.000 arrobas.
usadas para cobrir canoas arrastadas para o seco e protegê-las E se lançarmos um olhar sabre os caminhos do Paraná,
contra o calor do sol, para o que as sólidas folhas eram perfei- especialmente sobre a estrada que, saindo do interior da Ptovín-
tamente apropriadas. Contemplando o arbusto, no Uruguai, cia, conduz, via Morretes, a Paranaguá, podemos dizer, com
eu não podia descobrir nenhuma diferença entre ele e a planta alguma certeza, que uns dois terços dos burros que passam pela
nórdica. E por que não deve ocorrer o Ile.~,se sua parente estrada vão carregados de mate e levam muitos milhares de
próxima, a erva-mate, forma bosques inteiros< arrobas da estranha erva para a Costa.
O melhor tempo para fazer mate - essa é a expressão E se vamos às antigas Missões e ao Paraguai, berço do
profissional - é, no Brasil, de março até ao fim de setembro. mate, de onde veio chamar-se a erva Ilex yrirngirnyerrsis -e esse
Conforme a acessibilidade do lugar e o número dos participan- é o nome clássico do verdadeiro mate - então a fabricação de
tes, seguem então para o erval muitos homens com carretas ou mate é realmente enorme. Os jesuítas ganharam com ele uma
burros e, antes de mais nada, lá edificam um rancho para fortuna colossal e parece que o Paraguai ainda exporta centenas
instalarem uma residência durante semanas ou meses, pois de milhares de arrobas da célebre erva, o genuíno, o verdadeiro
muitas vezes o erval fica até a 30 léguas da morada de origem. chá paraguaio, ao lado do qual o que se tem exportado como
congonha ou mesmo, cassina é apenas uma variedade da planta
Começa então o corte. Vestidos apenas de calças e arma-
ou confusão de nomes.
das com um facão de mato, os ervateiros decepam não somente
as folhas e ramos finos, mas também galhos regularmente Mas o que é que agrada quando se toma o mate, qual o
grossos com tudo o que neles se acha. A folhagem é secada a efeito da erva4
fogo brando e depois pilada, com os ramos finos, em cestas de A infusão tem gosto levemente amargo e aromático e,
bambu especialmente preparadas para esse fim ou em sacos de como qualquer porção de água quente, é diurética. Quanto ao
couro cru. Preparada a porção colhida, é enviada para casa,
1858, VIAGEM PELO PARANÁ 43

mais, abstraindo do simbolismo já citado, nada de importante pelo seu considerável tamanho e magreza. É que, durante a
posso dizer sobre os seus efeitos benéficos. estação desfavorável, os animais não recebem nenhum auxílio.
Mas como o legítimo bebedor de mate o toma quentís- Mais tarde falaremos a respeito.
simo, assim tem ele, certamente, conseqüências desvantajosas. Junto das águas impetuosas do rio Negro passamos uma
Quando sorvia mate, sempre se me desprendia a pele do agradável hora de repouso, depois de termos atravessado a sua
céu-da-boca e atravessando o Rio Grande sempre andei com o defeituosa ponte. Fez-nos bem o cálido sol da manhã pri-
palato queimado. E penso que se podem atribuir ao uso do mate maveril. Em toda parte brotava um verde fresco; em toda parte
muitas gastralgias e formas crônicas de gastrite, embora não florescia uma multidão de afelandras de graciosas flores ver-
possa dizer com certeza que provenha do mate uma consequên- melhas e limbo amarelo; e, em revoada esvoaçavam colibris em
cia desvantajosa visível. Em qualquer caso, seria enorme perda volta das bonitas filhas da primavera. Chegavam tão perto de
de tempo querer discretear sobre o tempo e seu emprego nas nós, em nosso repouso do meio-dia, que poderíamos apanhá-los
regiões onde se bebe o mate. Naquelas regiões não há jornais com as mãos. Esses doidivanas emplumados são às vezes
regulares, nem cafés. O bebedor de mate constrói o seu próprio atrevidos e insolentes. Uma vez a senhora Aubé estava sentada
mundo político e sozinho, diante de sua cuia de mate, é mais na varanda de sua casa e tinha no seio um ramalhete. Um colibri
feliz do que se estivesse sentado num café. do mato se aproximou e teve a audácia de querer sugar as Flores.
Finalmente, pareceu-me digno de nota que se tenha des- Quando compreendeu o seu erro, fugiu como um raio.
coberto nas folhas do mate o princípio essencial do chá, a teína. Lentamente, arquejando, uma tropa de burros carregados
Tanto mais digno de nota me parece porquanto as folhas de subia a íngreme e suja encosta. Um deles perdeu a sua carga e
chá bem desenvolvidas têm extraordinária semelhança com as seguiu de muito bom humor. Perseguiram-no alguns homens
folhas do mate, de modo que, vendo-as umas ao lado das outras, que muito trabalharam com o animal enfurecido. Prosseguimos
nem sempre se pode distingui-las com certeza, por mais dife- e desde ali tivemos a alegria de encontrar sempre vestígios de
rentes que sejam os caracteres de família botânica entre o chá civilização na floresta. Aqui e ali, uma roça aberta na mata, e
e o Iles. entre elas, um pobre rancho cercado de pessegueiros de flores
Mas, sobre a erva e suas diferentes relações, basta! Pelas purpurinas. A cada passo, gritos de crianças e o canto do galo,
11 horas achávamo-nos numa elevação coberta de mato, de até que uma nova mata encubra o pequeno quadro primaveril.
onde descortinávamos belo panorama da serra das Três Barras. Finamente, à tarde encontramos um campo, porém muito
Em contornos bem definidos eleva-se a cordilheira cinzento- pequeno; creio que se chama Campo da Jararaca. Adentramo-
azulada; por ela passa o caminho de Curitiba, capital da Provín- nos em seguida numa floresta de légua e meia de diâmetro, com
cia do Paraná, para São Francisco. Deve ser horrenda a estrada. um caminho largo, mas difícil. Os homens estavam cansados
Ao nordeste desta serra eleva-se outra ainda mais elevada, que com a peregrinação do dia; alguns se atrasaram. Fui adiante
estimo em 5.000 pés de altura. Mas essas avaliações à distância com o infatigável engenheiro, acompanhado de um suíço.
São muito incertas. Depois de muito andar, pudemos finalmente anunciar
Um caminho medonhamente mau nos conduziu, através com a nossa buzina, aos companheiros atrasados na mata, que
de uma depressão do terreno, ao rio Negro, primeiro rio con- havíamos saído da mata e alcançado o Campo do Ambrósio.
siderável que, por intermédio do Iguaçu, corre para o Paraná. Com isso ficavam de fato atrás de nós as florestas existentes
Num pântano do rio me chamaram a atenção algumas vacas entre Santa Catarina e o Paraná.
1858, VIAGEM PELO PARANA 45

encontrara há três anos. Chamava-se Chico de Oliveira e era


coletor de impostos da fronteira, cobrados sobre animais de
casco e de unha conduzidos da Província do Paraná para Santa
Catarina.
Precisamente em frente de sua casa se bifurca o caminho,
de um lado para Curitiba, rumo ao norte, e do outro, para Três
Barras, rumo ao sudeste.
Mas, no campo, não era Fácil achar o caminho. Após meia
légua de marcha, chegamos a uma casinha, completamente
vazia. Em volta pastavam vacas e bezerros. Floresciam den-
O C a m p o do Ambrósio. - Bivaque junto de Chico d e Oliveira. samente os inevitáveis pessegueiros e os igualmente indefec-
- U m francês. - Dificuldades n a troca d o dinheiro. - tíveis colibris tinham-se aproveitado da ausência do dono da
Despedida d e Wunderwald. - Viagem a pé através d o s casa para chafurdar descaradamente nas flores, inflamadas de
vermelho-escuro ante a tempestuosa corte dos indômitos
campos e d a m a t a do C a m p o Largo. - Bodas. - Estância
amantes. Flores de pessegueiros e colibris! O mais gentil epi-
d e D o n a A n a Teixeira. - Viagem para Curitiba, via São
talâmio que em qualquer parte possa produzir a primavera.
José. - O n d e fica a EuropaC
Tivemos de voltar a fim de informarmo-nos com os
moradores do Campo do Ambrósio, onde quer que Fosse, sobre
Não é o Campo do Ambrósio um simples campo relvado;
a casa do Chico de Oliveira. De qualquer modo tinha eu de
antes uma região onde se alternam campinas, matas e de-
encontrar o homem. Como funcionário, ele devia levar em
pressões pantanosas, com o que ganha expressão de isolamento
consideração minha carta aberta, do Presidente de Santa Ca-
e abandono, mormente antes de começar a primavera, quando
tarina, e ajudar-me a achar animais de sela para a continuação
a relva murcha ainda não foi renovada e o gado emagrecido pelo
da viagem. Depois, era sua casa o ponto de onde descia o
inverno ainda se acoita na mata em exemplares pouco nu-
caminho para Três Barras; por aí Wunderwald tinha de regres-
merosos.
sar, - com os nossos companheiros de mata, para as terras
Todavia a vista de uma região ampla e aberta, embora baixas, a fim de, após uma viagem de quatro dias, achar-se de
erma, é maravilhosamente surpreendente e refrigerante para novo em Dona Francisca.
quem, como nós, vagueou no espaço apertado de uma picada
Topamos felizmente com o nosso grupo, recém-saído da
sob a sombra de Florestas úmidas e só por momentos viu uma
mata para atravessar o campo. Uma chuva ligeira nos estorvou
pequena clareira.
um pouco. Mandamos o criado que eu acabava de contratar a
Saudamos, pois, com gritos de alegria o vasto Campo do uma casa a alguns minutos de distância, para informar-se sobre
Ambrósio e, embora não houvesse muita coisa civilizada a o caminho.
observar, muito nos alegrou ver pessegueiros florescendo em
Devidamente informados, partimos pela tarde. De longe
diferentes lugares.
avistamos a casa que nos Fora indicada, mas o crepúsculo
Atravessamos o campo por muito tempo numa direção, chegou cedo demais e, ao cair da noite, nos encontramos, muito
na qual Wunderwald julgava residisse um homem que ele já desagradavelmente, num pântano. Apalpávamos o terreno
46 TERCEIRO CAP~TVLO 1858, VIAGEM PELO PARANÁ 47

com as mãos c os pés c passamos, sondando, como através de de uma cesta de mate, acendemos um logo numa pequena
um lago, com mil dificuldades. Já ladravam os cães no pátio de elevação da margem e o conservamos aceso a fim de que servisse
Chico de Oliveira, quando notamos que nos faltava um me- de luz e os que estavam estudando o terreno pudessem voltar
clemburguês. a reunir-se conosco.
Ainda há poucos minutos estava conosco. Embora um Era escuro, silencioso e ermo. Perto de nós uma espécie
homem vigoroso, sofria de palpitações do coração e não devia de sapo executava a sua música atroz. A pequenos intervalos
ter-se apresentado para a exaustiva peregrinação; durante toda soltava um lamentos0 queixunle, como o de um recém-nascido,
a marcha ele se atrasava e agora desaparecera de todo. Disper- ou melhor, de uma criança moribunda. Todo o pântano parecia
sos como íamos, muito tivemos dc chamar e procurar, até que cheio de lamentosas criancinhas. O som já me desagradara no
afinal apareceu o transviado e, em coluna cerrada, subimos para Campo de São Leopoldo, no Rio Grande; mas era pavoroso para
a casa. mim no escuro da noite e na situação de abandono em que me
0 s cães ladravam furiosamente. Os nossos gritos assus- achava; lembrei-me da "Pfarrestochter von Taubenhain" de
taram-nos e atemorizaram também os moradores da casa. Burger. Ainda por cima um dos bichos rastejou até ao nosso
Tudo bem aferrolhado, não se via nenhum raio de luz, nenhu- fogo, lamentou-se profundamente e de novo desapareceu no
ma resposta aos nossos chamados; tudo na casa parecia morto, pântano. Era muito cômico; rimos unanimemente e tanto mais
embora eu tivesse visto luz, de longe, poucos minutos antes. quando um dos nossos caiu de uma pequena elevação dentro
Não levei a mal a inospitalidade daquela gente. A casa d'água, molhando-se todo.
ficava isolada, numa região Fronteiriça, erma e solitária. Ca- Tarde, porém, chegou a boa notícia de que fora encon-
torze homens que chegavam, gritando de longe, de noite e com trado um abrigo. Tiramos os sapatos e as meias e, como
nevoeiro, lembram uma quadrilha de bandidos. Quem são< cegonhas, atravessamos a água; na frente ia uma luz. Andamos
Que queremt Quem se colocasse na posição dos moradores mais um quarto de légua, de pés descalços, e depois estávamos
faria o mesmo. Mas se se colocasse na minha posição, também diante de uma alegre fogueira. E era pomposo o nosso abrigo!
ficaria, por sua vez, aborrecido e agitado. Afinal de contas, Um homem rico quisera ornar o Campo do Ambrósio com uma
julgava ter chegado ao fim de uma exaustiva excursão pela bonita casa e, para esse fim, escolhera um lugar elevado. A bem
mata e achar-me na casa de um homem que devia auxiliar-me carpintejada armação da casa estava pronta e completa a co-
e encontrava sua porta fechada. berta de telhas muito bonitas. As divisões interiores apenas
Mas, mesmo com essas dificuldades, Wundenvald sabia indicadas, por meio de traves e postes. Enorme quantidade de
abrir uma picada com muita habilidade. Lembrou-se de uma tábuas e vigas preparadas e especialmente muito cavaco e
casa pouco distante da de Chico de Oliveira, onde havia uma outros detritos de madeira para a esplêndida fogueira que
espécie de posta de guarda. Queríamos tentar alcançá-la e acabava de ser acesa no centro do bem coberto recinto.
seguimos o caminho ou a direção para ele e chegamos a um A passo de carga nos apossamos completamente do pa-
lugar onde, em vez do caminho, havia água Iímpida. Felizmente lácio de fadas. Em pouco tempo, com o material existente
ainda tínhamos uma vela. Como o tempo estava inteiramente foram improvisados bancos em torno da fogueira; do lado do
calmo, Wundenvald acendeu-a e com alguns companheiros vento foram colocadas tábuas; o agradável recinto era seco e
passou habilmente a água, que em parte alguma parecia ter quente e unanimemente, confessamos que em toda a nossa
mais de um pé de profundidade. Entrementes, com fragmentos campanha não tivemos um só momento tão alegre como o que
1858, VIAGEM PELO PARANÁ 49

passamos debaixo do telhado novo. No fogo crepitante assou- tia-se, com profunda piedade e entusiasmo que mesmo aqui,
se a carne; ainda tínhamos um bom saldo de nossas 32 libras e em várzeas tão distantes do grande no meridional da América
ainda trazíamos alguns bolos de milho. Até água potável havia. do Sul, há um sopro de primavera e, mais belo ainda, um sopro
Ao irem da construção para as suas casas, os trabalhadores de incipiente civiIização, de incipiente educação, e incipiente
tinham deixado uma enorme cabaça; parecia que por nossa humanização. Pode ser que um europeu, no macio gozo da
causa a tinham enchido de novo. Tudo se reunira para o civilização e no meio de florido parque da Europa, sorria de
sibarítico banquete noturno. Até o fogo exalava aroma agra- mim, caso leia estas linhas, e não compreenda que me entusias-
dável; entre os detritos de madeira, grandes aparas de sassafrás, me com um quadro de ermas araucárias, em cujo primeiro
que espalhavam um cheiro excelente. Diz-se que os Fugger de plano há relva murcha, em cujo fundo apenas se observam três
~ o ~ , hospedaram o Imperador Carlos V, lhe
~ u ~ s b u r quando casinhas e árvores em flor! Pode não compreender, pode sorrir:
aqueceram o aposento com lenha de canela e sândalo. Mas com mas naquela manhã, naquele campo, inspirou-me, no sentido
certeza não se sentiu o espanhol tão bem no solo alemão quanto cultural, um sopro de primavera, "contudo, devia haver pri-
nós na terra brasileira, nos limites extremos do Paraná. mavera". E sentia-me como se um prezado companheiro de
Com cavacos, ponchos e cobertas foi preparada a cama. juventude, um querido amigo de Lubeck, uma natureza mais
Eu só tinha uma preocupação. A nossa fogueira devia ser vista nobre do que milhares de outras, estivesse naquele momento
a qualquer distância. Se a vissem, que pensariam de nós< ao meu lado e me apertasse a mão com a exclamaçáo, sua e
Pensava na possibilidade de um ataque noturno, mas Wunder- minha: "Contudo, deve haver primavera!"
wald despersuadiu-me de quaisquer cuidados. Imaginava ele Vi, então, cerca de um quarto de légua de nós, uma coisa
com toda a razão, que mesmo se alguém ousasse aproximar-se singular. Não confiei em meus olhos e tomei um pequèno
furtivamente para espionar-nos, ficaria contente se pudesse binóculo: na verdade, a passos tranqüilos e graves, vinham dois
escapar sem ser visto. Ademais, catorze homens são, sem bois encangados, atrelados a um arado, que um homem guiava
dúvida, uma força considerável. Onde é que se reuniria gente segundo as regras da arte; era a primeira vez, em minha vida
bastante para atacar catorze homens com vantagem4 americana de muitos anos, que via um arado trabalhando,
Dormimos, pois, sem cuidados e maravilhosamente, até embora tenha visto sinais do seu trabalho nas colônias alemãs.
amanhecer, como ainda não dormira desde que deixei o meu Um arado nos limites dos botocudos e bugres! Desci para
quartinho na casa do senhor Aubé em Joinville. onde estava o homem. Parece que só me observou quando o
E que manhã a de 1" de setembro! Clara, fria e silenciosa. saudei; passou o arado a um negro, veio ao meu encontro e
Em pouco o sol radiante enviava seus raios cálidos sobre os ofereceu-me a mão. Era Chico de Oliveira.
campos e nas matas próximas gritavam os papagaios deses- Em pouco estávamos tão conhecidos que me ofereceu sua
peradamente. Vimos gado disperso no campo e - o que mais assistência. Mas só me podia oferecer um burro de carga para
nos alegrou -à pequena distância, em direções diferentes, três a continuação de minha viagem, pois seus animais ainda es-
casas, em parte bonitas, que ficavam no campo; em volta de tavam metidos nas matas e baixadas. Já estava satisfeito,
cada uma delas floresciam viçosos pessegueiros. No campo as mesmo que tivesse de esperar todo o dia pelo único burro de
sombrias araucárias pareciam graves e recolhidas. Via-se, sen- carga. Podia vender-me também a ração de carne-seca para o
3 Antiga família de banqueiros de Augsburgo, que emprestava dinheiro a príncipes e
regresso dos meus companheiros de mata. E com isso voltei
reis, tendo tido o privilégio de cunhar moedas. - N do T) para o nosso acampamento.
1858, VIAGEM PELO PARANÁ 51

Lá encontrei um visitante, um morador da vizinhança, não me podia trocar dinheiro e nem mesmo Chico de Oliveira;
interessado na construção daquela casa. Pedi-lhe desculpa par eu recebera do último todo o troco que tinha em casa.
todos nós; com grande amabilidade, disse que não havia de que Isso, porém, não constituiu dificuldade. O escrivão deu-
pedir desculpa, antes se regozijava com o feliz acaso que nos me o nome de uma senhora residente a seis léguas de distância,
salvara de nossos apuros. Essa afabilidade tirou-me o acanha- no caminho que eu devia seguir e com quem devia deixar o
mento, sete de nossos mateiros precisavam de um dia de dinheiro a ele destinado. E caso também lá, em casa de dona
descanso e não podiam encontrar melhor local de repouso do Ana Teixeira, não houvesse troco, devia pedir-lhe o nome de
que aquele onde estávamos. Pedi, pois, ao homem, mais vinte uma pessoa na aldeia a nove léguas de distância, a freguesia de
e quatro horas de estada no acampamento; e com a maior São José, a quem podia efetuar o pagamento.
satisfação acedeu ele. Os homens tiveram um descanso ho- No distante Uruguai, nas Missões do Piratinim, encontrei
mérico. um processo original de trocar dinheiro. Toma-se o patacão, a
Chegou pouco depois um segundo brasileiro. Que não moeda de prata, partindo-o, com um cutelo, ou com o machado,
pensaria ele de nosso aparecimento estranho< Era o escrivão em quatro pedaços iguais. Guardei, então, como curiosidade,
Francisco Alves Pereira, igualmente empregado na estrada de um quarto dessas moedas de prata. Não é assim com o dinheiro
rodagem do Paraná para Santa Catarina, homem digno e mo- de papel. Resolveu então a dificuldade a bolrn fides que o povo
desto, e lamento que, com sua boa educação, tenha de viver tem no viajante europeu bem educado; viaja-se um ou dois dias
naquela região solitária. Pediu-me que o visitasse em sua casi- com a sua dívida e paga-a quando aparece oportunidade.
nha, o que fiz com muito prazer. Vi na casa u m inequívoco Pelas 11 horas pode Wundenvald partir com a sua van-
sinal de cultura: uma pequena coleção de livros e um verdadeiro guarda, de regresso, via Três Barras. Separamo-nos como ami-
lar doméstico. Quem teve a paciência de seguir-me através das gos. Deixávamos atrás de nós um pouco de vida, de privações
matas solitárias da serra Geral não achará pueril a menção e perigos em comum. Depois de uma excursão de muitos dias
dessas circunstâncias aparentemente insignificantes. em picada, nunca mais esqueceremos um ao outro. Com cordial
A força armada do Campo do Ambrósio está em casa do alegria e a mais viva simpatia pelo seu destino, sempre me
escrivão. Consta de um soldado, u m jovem negro de boa índole, recordarei do infatigável engenheiro de Joinville, que com a sua
cujo distintivo militar consiste num boné azul orlado de ver- bússola e a sua faca de mato me serviu de guia fiel, abrindo
melho. O segundo, que formava a força da fronteira, desertou caminho de 16 de agosto até setembro, através das selvas da
há pouco tempo; aborrecia-o a solidão do lugar e a falta de serra Geral que, no norte da Província de Santa Catarina
qualquer ocupação. encerra, com seu antemuro oriental, a bacia do rio Paraná.
Com muita bondade vendeu-me o escrivão parte de seu Por trás da primeira colina coberta de araucárias desapare-
pequeno abastecimento de feijão e farinha de milho para a ceram os robustos peregrinos. Entre os escuros pinheiros res-
minha gente que, nos quatro dias de sua viagem de regresso soou ainda a buzina de Wundenvald; no sul distante o caçador
para Joinville, na estrada de Três Barras, corria o perigo de não nórdico dizia-me o último adeus.
encontrar alimento. Tivemos a propósito dificuldade muito Naquela ocasião entrara em casa de Chico de Oliveira um
original. Trazia apenas notas de 20 mil-réis. Reuníramos todo original vagamundo, um francês entroncado, de pele queimada,
o trocado para a nossa gente que, no seu regresso, onde encon- barba espessa e estranha aparência. Trazia para Chico uma
trasse casa, poderia salvar-se de dificuldades. O bom escrivão carta de um compadre e uma carta dessas tem no Brasil enorme
1858, VIACEM PELO PARANÁ 53

Seguimos a estrada, rumo ao norte, e pouco depois fi-


importância. Desejando-se alguma coisa de um homem, basta
cavam atrás de nós a casa de Chico de Oliveira e o Campo do
agarrar-se ao seu compadre para obter tudo. Entre os homens
Ambrósio.
é o compadre o que é o mate entre as plantas - tudo.
Entretanto, a região conserva sempre a mesma fisio-
Pareceu-me conhecer o francês e ele evidentemente a nomia. Tal como no planalto de Santa Catarina, descortina-se,
mim. até aonde a vista alcança, um desordenado campo de relva,
Era muito conhecido no Rio, mas para mim um enigma. mesclado com muitas singenesias, paisagem erma, sem alegria,
Através de certas palestras tinha de considerá-lo uma espécie na qual ininterruptamente, ora aqui, ora ali, aparecem arau-
de flibusteiro ambulante da medicina que intrujava o povo nas cárias, como principais representantes da vegetação, embora
regiões afastadas da inspeção médica e policial. Afirmava ter atenuadas frequentemente por matas verdes. Em alguns pon-
sido professor na escola do senhor Icopke em Petrópolis. Seus tos do horizonte, uma serra azul; os olhos aprazem-se com os
conhecimentos exatos sobre suínos e todos os animais ima- vivos contornos dos montes distantes, pois o campo, que acaba
gináveis e a perspicácia com que tentou negociar em gado com de despertar do sono, a mata monótona e as profundas baixadas
o nosso hóspede deram-me a idéia de que podia ser negociante não oferecem variedade. Nas últimas baixadas, no máximo,
de gado e, respectivamente, boieiro. Disse-me meu criado que alguma água estagnada. Debaixo da relva estremece o chão
o francês era carpinteiro e que como tal trabalhara durante negro quando se pisa nele. São os chamados tremedais. Toda a
semanas, na casa do próprio senhor Aubé. sua formação e especialmente a rica ocorrência de terreno
turfoso, inteiramente semelhante ao nórdico, lembram-me que
Endiabrada gente esses polimorfos franceses, vagando
aqui deve haver tufeiras escondidas e, embora não haja ca-
nas províncias do Brasil e certamente em todo o mundo! Como madas sólidas, se pode cavar turfa, talvez de massas líquidas
classificá-los< Qual a sua forma zoológica original<Mamíferos, que possam secar. Não se encontram, todavia, naquelas bai-
pois mamam o dinheiro no bolso dos ingênuos camponeses. xadas ericn, ertrltern~~ir,
ledrrrn e outras plantas formadoras de
Aves, mas sempre movediças, sempre aves de arribação. Como turfa. Por outro lado a floresta de araucárias oferece tão in-
anfibios se desenvencilham de todas as dificuldades da vida. comensurável provisão de combustível para os próximos sécu-
Têm, pois, alguma coisa de todas as classes de Cuvier; até los que a pesquisa da turfa seria mais interessante do que
radiários São muitas vezes e entre eles encontrei muitos ca- lucrativa.
valeiros da Legião de Honra. Era meu "spahi" um desses ra- Formam salutar contraste com essas campinas ermas
diários. onde só se encontra algum gado, geralmente magro, errando
Estragou-me parte do dia e fiquei muito satisfeito quan- em grupos - as frequentes pequenas baixadas, distantes ape-
do, na manhã seguinte, partiu num cavalo pedido a Chico. nas alguns passos da estrada. Uma dessas baixadas pouco mais
Muito mais tranqüila a minha partida. Chegou o meu tem que uma casinha, onde perambulam galinhas e porcos. Mas
velho burro de carga; o meu criado arrumou meus trens e em sempre, em torno da pobre morada, florescem viçosamente
modesto cortejo partimos, como Caleb e Josué, para a terra pomposos pessegueiros.
estranha. A preço algum pude obter um cavalo de sela de Chico Neste começo de primavera, quase sempre não há gente
de Oliveira. Aliás, eu só podia mostrar-lhe uma carta aberta do em casa. Foram buscar os gados, que ainda se acham metidos
Presidente de Santa Catarina; não trazia recomendação de nas matas próximas, ou lavrar as roças distantes, protegidas
nenhum compadre; assim já me devia julgar feliz em não ter pelo mato contra as inclemências do tempo ou ainda mais
de carregar as minhas próprias coisas.
54 TERCEIRO CAPITULO 1858, VIAGEM PELO PARANÁ 55

longe, a milhas de distância, buscar a "erva" divina, o mate, redondo braço nu dirigia com segurança o cavalo através da
para vendê-lo com bom lucro: fazer mate - essa é a expressão floresta. Algo de excitado e ardente nas duas figuras meridio-
profissional. nais. Pouco depois, acampado num verde da mata, um grupo
Atravessamos, pois, vários distritos, conhecidos pelos semelhante ao anterior. 0 s animais desselados pastavam tran-
nomes de Campo Comprido, Campo do Tabuado e Campinho. qüilamente nas proximidades: evidentemente tinham feito
Pouca gente, quase ninguém. E mais aborrecido fiquei quando, preparativos para um bivaque na floresta.
numa floresta de araucárias, um cavaleiro, um grosseirão sem Soube pouco depois a significação deste maravilhoso
modos, se aproximou de mim e, cavalgando ao meu lado, me cortejo que, então, me pareceu encantador e profundamente
perquiriu de maneira insolente. Queria absolutamente saber poético. Os jovens a cavalo eram recém-casados, cuja união
que mercadorias eu tinha para vender. Essa gente ou semigente conjugal o padre de São José abençoara naquele dia; estavam a
não pode compreender que se ande viajando sem fins mercan- caminho de casa, a nove léguas de distância. Nove léguas, sete
tis, sem ser negociante ambulante. Queria a todo custo com- milhas alemãs, entre a igreja e o tálamo! E nenhum carro para
prar minha sela rio-grandense e, afinal, vender-me o cavalo, um o regresso, nem sequer um caminho transitável, sempre mata,
legítimo sendeiro. Recusei ambas as coisas secamente, e agitei sempre campo, sempre chão turfoso! Mas o jovem curitibano5
no ar, como brincando, minha bengala de araçá, de respeitável e seu cavalo são amigos íntimos e a jovem curitibana senta-se
calibre. Encontrei-me, momentaneamente, em situação de- tão bem e à vontade no seu corcel como a Aniazona de ICiss
sagradável. O sujeito parecia um bandido. Diante de mim a diante do Museu de Berlim. Sem cuidado se pode deixá-las
mata do Campo Largo, de légua e meia de diâmetro. Veio-me, montar na tarde de primavera, na noite de primavera; elas
então, o pensamento de que o flibusteiro podia adiantar-se por sabem achar o caminho e o sangue ardente da juventude
um atalho e esperar-me de emboscada. As minhas pistolas, que certamente não se resfria na estrada que leva a donzela a ser
o criado levava, não estavam carregadas. Eu não queria trair jovem senhora e nova dona de casa, embora entre muitas
nenhuma preocupação e prossegui tranqüilamente. Não tornei palpitações do coração. Palpitações de medo ou de impaciência<
a encontrar o bruto. Não sei!
Deparou-se-me por outro lado algo muito mais bonito. A Noivss na mata, Flores de pessegueiros no campo e um
mata do Campo Largo chegava ao fim; o caminho horrivel- ardente céu azul da tarde sobre mim! E conclui a excursão a pé
mente mau. Aproximaram-se então várias pessoas a cavalo, em através de campos e florestas até a estância de dona Ana
trajes coloridos, num cortejo festivo. Ponchos listrados, boni- Teixeira, onde os seus filhos adultos me receberam hospitalei-
tos e não menos vistosos os ornatos de prata dos arreios. Pouco ramente. O mais velho deu-me segura esperança de poder
depois chegou a cavalo um jovem com duas senhoritas. Ambas alugar-me três animais no dia seguinte.
as moreninhas4 tinham muito boa aparência, igualmente com Na verdade, ter-me-ia sido um tanto penoso continuar
vistosos vestidos coloridos que, ajustados nos seios e nos peregrinando a pé. Desde o dia 16 de agosto, andava a pé,
quadris, traíam lindas formas. Nenhum feio e longo vestido de sempre em veredas ínvias ou péssimas. De pés descalços va-
montar Ihes escondia os pequenos pés, sobre os quais se via a deara rios e pântanos, dormira no mato e ao relento, na chuva
orla de calças rendadas. Uma delas figura realmente bonita. O e no chão úmido e perdera o hábito da cama; além disso fora

4 Em portiiguês no original. - N. do T. 5 Evidenteniente no sentido de paranaense. - N. do T.


56 TERCEIRO CAPÍTULO 1858, VIAGEM PELO PARANÁ 57

minha alimentação ora muito escassa, ora tomada irregular- Tinha meu alto companheiro aspecto original. Um pon-
mente. Devia decerto alegrar-me de poder continuar a viagem cho verde-amarelo lhe esvoaçava sobre os ombros e trazia de
a cavalo. Com razão se admirara o caçador de antas de Tiju- reserva, sobre a sela, um outro vermelho. Um pequeno chapéu
camas nenhum de nós tivesse adoecido. Sou certamente duro de palha lhe caía, inclinado, sobre a cabeça. A sela, os estribos
como o Ferro, contudo a gente se alegra quando de novo e a brida cobertos de prata; uma preciosa manta bordada cobria
consegue comida, um teto enxuto, uma cama suportável e um o animal e dava ao cavaleiro certo aspecto militar em tempo de
cavalo sofrível. paz. Parecia-se com um guarda de honra e não com um homem
E tudo isso, em parte, devia acontecer na estância de dona que me explorava.
Ana Teixeira. Também isso não sem uma silenciosa zanga de Depois de duas léguas de marcha, caiu o cavalo de carga.
minha parte. A minha pequena bagagem pesava apenas 30 libras. Tive de dar
Dona Ana não estava em casa: achava-se com um vizinho, uma gargalhada e fiz a observação de que agora podia contar
de cuja casa saíra um dos cortejos nupciais e não voltou de ao Presidente de curitiba6 uma bonita anedota. Como su-
noite. Dirigia a estância o Filho mais velho, um homem com- pusesse, pelo que eu disse, que ia contar a história do aluguel
prido, magro, de vinte e cinco anos. dos cavalos, o homem ficou furioso e tanto mais furioso por-
Na manhã seguinte mandou buscar três cavalos, que quanto eu dizia, rindo, que certamente contaria a coisa em
estavam abaixo de toda descrição. Pelo uso deles até Curitiba Curitiba.
- seis léguas (4 1/2 milhas geográficas) - exigiu e recebeu de Aproximou-se então uma tropa. Teixeira conhecia o tro-
mim 30 mil réis (24 táleres prussianos) com a desculpa de que peiro e pediu para meu uso dois fortes burros em substituição
tinha de mandar comigo um negro para trazer de volta os de seus rocins. Então avançamos mais depressa.
animais. Muito me aborreceu a conduta do jovem. Pelo passa- Já na paróquia de São José a região se tornou muito mais
porte viu que eu viajava com o conhecimento e por encargo do animada. Marchava no campo maior número de burros carre-
governo de seu país; pelas minhas narrativas sabia que nas gados de mate e outras coisas e mais frequentemente se cru-
últimas semanas eu passara por exaustivas fadigas; e queria zavam os caminhos.
explorar minha aflitiva situação para ganhar dinheiro.
Esses caminhos, embora sejam estradas reais, de modo
Não tugi, nem mugi. Mas quando, ao ser selado, caiu um algum São superfícies planas e ininterruptas. São antes oito a
dos cavalos, perdi um pouco a paciência, porém dissimulei o dezesseis veredas que correm uma ao lado da outra ou se cortam
meu agastamento. Com a fisionomia mais serena do mundo,
e cujo paralelismo e cruzamento oblíquo sempre me lembraram
disse ao homem: a rede de trilhos de uma grande estação ferroviária. Assim como
- Senhor Teixeira, quero pedir-lhe um favor. Guarde a os pares de trilhos se separam, partem as veredas que correm
onça de ouro que lhe paguei e também os cavalos e as minhas juntas, umas para o leste, outras para o oeste. Para o leste segue
coisas. O dia está magnífico e posso muito bem ir a pé com o o importante caminho para Morretes e dali para o porto ma-
meu criado até Curitiba, de onde, depois, mandarei buscar as rítimo de Paranaguá, contornando Curitiba, situada ao norte;
minhas coisas que ficam com o senhor. para o oeste vai um caminho para a região de Príncipe, Lapa e
O homem mordeu os lábios e pediu desculpas. Afinal Rio Negro, partes meridionais da Província do Paraná.
selou o seu próprio cavalo para levar-me com segurança a
Curitiba. E assim partimos, afinal. 6 O autor refere-se ao Presidente da Província do Paraná. - N. do T.
58 TERCEIRO CAPITULO 1858, VIAGEM PELO PARANÁ 59

São José é uma bonita freguesia, uma aldeia com casas Cavalgávamos em silêncio, um ao lado do outro. Eu estava
muito regulares e vistosa igreja, que tem de prover com suas muito bem humorado. Só até São José penetrara a notícia da
bênçãos a parte sudeste da Província até a distância de quinze Europa. Ainda ninguém me tinha perguntado: onde fica a
a vinte léguas. E, sem dúvida, uma enorme paróquia, mas de Europa<
população muito escassa e quase não se pode falar da bênção Depois de São José o caminho é serra abaixo e chega-se a
da igreja e do aperfeiçoamento moral por seu intermédio. duas compridas pontes de madeira sobre uma depressão pan-
Quantas vezes os jovens recém-casados de ontem, morando a
tanosa e um rio algo profundo, chamado rio Grande, por ser o
nove léguas de São José, poderão vir à igreja em sua vida de
maior da circunvizinhança.
casadost Nem sequer uma vez por causa de cada filho que lhes
nasça. Talvez voltem depois dc anos com três ou quatro filhos A mais algumas léguas dali aumentava o número das
de uma vez para batizá-los por atacado; e talvez, então, so- estâncias, oferecia a região muita lavoura e pouco depois, de
mente porque o marido tenha de conduzir um rebanho de bois um outeiro, vimos diante de nós Curitiba, a capital da Provín-
para Curitiba ou grande quantidade de cestas de mate para cia, numa grinalda de pessegueiros em flor.
Morretes ou Paranaguá. No Campo do Ambrósio a situação é Descemos para o aprazível lugar onde, em casa do alemão
pouco melhor do que ao sudeste de Lajes, no planalto de Santa Teodoro Gaspar, encontrei agradável alojamento e pude des-
Catarina. cansar comodamente de minha exaustiva excursão pela flores-
Tão distante quanto a igreja é a escola. Não admira, pois, ta.
que se tope com peculiar ignorância. Muita coisa deixa o
europeu atônito. Precisamente o meu companheiro Teixeira
dava uma prova frisante do afastamento da igreja e da escola,
Quantas vezes me mostrou um lugar, uma casa, um matagal
onde alguém fora atacado e assassinado. Muitas vezes o assas-
sinado era um "belo moçon7.
Conversando com ele, mencionei a Europa. - Onde fica
a Europa< - perguntou. A pergunta embaraçou-me. Apontei
com a mão para o nordeste. E disse: "Para aquele lado, a mais
de duas ou três mil léguas de distância".
- Pode-se ir para lá a cavalot
- Não! Pode-se viajar a cavalo, no máximo, daqui até
Antonina ou Paranaguá e dali se vai por vapor para o Rio de
Janeiro, de onde entáo se pode viajar num grande navio para a
Europa.
O pomposo cavaleiro calou-se por muito tempo, como se
quisesse recordar-se se já alguma vez ouvira falar na Europa.
-

7 Em português no original. - N. do T., frequentemente o assassino é que o cra e, aos


olhos do meu companheiro, o homicídio não parecia ao "belo moço" grande dano.
1858,VIACEM PELO PARANÁ 61

descomedidos levaram, há alguns anos, a uma proposta de


separação da parte nordeste do sudoeste da Província e que foi
aprovada pelas câmaras legislativas. A antiga quinta comarca
de São Paulo, da qual se destaca Curitiba como ponto central
e lugar principal, foi elevada à categoria de Província, em pé de
igualdade com as demais circunscrições e, como tal, recebeu o
QUARTO seu presidente com a devida dotação administrativa e o direito
de futuramente eleger os seus próprios representantes ao Sena-
do e à Câmara dos Deputados do Império.
A nova província foi chamada Província do Paraná. De
Estada e sucessos n a cidade d e Curitiba. - Partida para An- fato o grande rio Paraná é uma das características principais da
tonina e Paranaguá. -Estada e m Antonina. - Uma lápide terra. A maior parte do curso do rio e de seus afluentes da
para dois nobres mortos. margem esquerda pertence à Província. Semelhantemente ao
Uruguai, o rio Grande, principal afluente oriental do Paraná,
Esteve por muito tempo incluído na Província de São nasce, não distante do mar, ao norte do vale do Paraíba. No
Paulo o belo complexo de terras da margem esquerda do rio princípio de seu curso ocidental, entre 20" e 21" de latitude sul,
Paraná, que começa quase a 20" de latitude sul e, com limites este rio Grande sai de seu berço, a Província de Minas Gerais,
ainda não exatamente determinados, se apóia, além do 26" e e forma no seu longo curso, a oeste, sudoeste e sul a orla de São
mesmo do 27" de latitude sul, no Uruguai e no planalto de Santa Paulo e depois a da Província do Paraná. Precisamente dessa
Catarina e, do lado oriental, se desenvolve numa bela costa ao Província recebe o Paraná grandes afluentes: o Paranapanema,
longo do Oceano Atlântico, desde perto do trópico meridional o Tibagi, o Ivaí, o Iguaçu, rios cujos esgalhamentos sulcam
até ao 26" de latitude sul. largamente a antiga comarca de São Paulo.
A Província de São Paulo compreendia 15 a 16 mil milhas Campos e matas são os dois perfis principais do solo e gado e
geográficas quadradas e cerca de 600.000 habitantes. Con- mate os principais. Mas a Província não se nega a quase
sideráveis reinos europeus não tinham tão extensa área, mas nenhuma produção que se procure obter com uma agricultura bem
países menores do Velho Mundo tinham mais habitantes. ordenada e que se tente mais tarde, quando a população for maior.
Por longo tempo ficou indivisa esta colossal Província. Alguns portos ligam a Província com o tráfego marítimo.
Recentemente, recebeu melhor cultura a parte setentrional e Paranaguá é o mais importante deles e pelo qual resolvi fazer
especialmente o nordeste, ao passo que a parte meridional, a minha viagem para São Paulo.
afastada da benéfica influência da capital da Província, ficou A Província tem um magnífico e grande território, mas
numa apagada letargia, embora tenham sido feitos progressos apenas duas cidades, cinco aldeias e dezenove paróquias. O
materiais. número de habitantes pode ser estimado em 80.000.
A enorme distância da capital, a dificuldade da adminis- Esta Província tem um grande rio fronteiriço, mas a sua
tração e dos processos judiciais e provavelmente também a utilização está ainda na infância e os seus afluentes, por causa
necessidade de quebrar o poder de certos partidos políticos dos muitos rápidos e cachoeiras, necessitam de muito trabalho
para que se tornem navegáveis.
62 QUARTO CAPÍTULO 1858, VIAGEM PELO PARANÁ 63

Possui ela também uma bela zona marítima, mas nenhu- Além disso, foram construídos a Câmara de Deputados
ma boa estrada conduz das terras baixas, sobre a serra da costa, provincial, o Tesouro e muitas casas; em resumo, Curitiba, a
para Curitiba; por ora, só burros carregam laboriosamente as velha vila enfezada, marcha com energia para um novo desen-
cargas pela má estrada via Morretes ou Antonina para Para- volvimento.
naguá e vice-versa. E que devo dizer dos habitantes<Não se pode conhecê-los
Na verdade, creio que não conheço outro distrito do sul bem numa visita de passagem. Quanta ao que se vê na popu-
do Brasil que com razão exija tanta indulgência e prometa tão lação, parece ser bastante mestiçada e em toda parte aparecem
brilhante futuro, com o aumento da populaçáo, como a Provín- linhas nítidas de genealogia indígena e africana na multidão, se
cia do Paraná, que apenas acaba de nascer. se pode chamar multidão os poucos milhares de habitantes de
Com plena intenção de usar dessa indulgência sempre Curitiba.
como norma, chegara eu a cidade capital de Curitiba. Por isso Por um feliz acaso Fiquei conhecendo a nata social, a
talvez é que me surpreendeu muito agradavelmente a cidade "linlrte volée" da residência provincial.
de uns 5.000 habitantes. Naturalmente nela nada se encontra O 7 de setembro é, em todo o Brasil, o dia da inde-
de grande ou grandioso. Em tudo, nas ruas e casas e mesmo pendência e é festejado em toda parte como a principal festa
nos homens, se reconhece uma dupla natureza. Uma da velha nacional. Em Curitiba se organizou um baile gigantesco para a
Curitiba, quando ainda não era a capital de uma Província, mas véspera do 7 de setembro e a diretoria teve a amável atenção
um modesto lugar central, a quinta comarca de São Paulo. Aí de convidar-me para a festa.
se vêem ruas não calçadas, casas de madeira e toda espécie de Por mais difícil que me fosse preparar-me para a soleni-
desmazelo, cantos sujos e pragas desordenadas, ao lado das dade, por ter acabado de chegar de uma picada na mata, fui à
quais há muita coisa em ruína e não se pode deixar de reconhecer festa com muito boa vontade e prazer. O baile realizou-se no
evidente decadência e atraso. Na segunda natureza, ao con- novo edifício do Liceu.
trário, expressa-se decisiva regeneração, embora não apareça Diante da casa, grinaldas, guardas e iluminação! Nas
nenhum grandioso estilo Renascença.
bonitas salas do Liceu, vestidos de seda, diamantes, música,
Desde a chegada do Presidente e do pessoal administra- bastante luz! Uniformes da guarda nacional ou do exército
tivo, Curitiba tem o seu palácio. Naturalmente é um simples regular, espadas, decorações nas salas e corredores; na verdade,
rés-do-chão e tem aparência despretensiosa, modesta, mas é
quem chega das brenhas da serra Geral e só em Curitiba
bonito e asseado.
encontra uma cama em ordem - não pode eximir-se a alegre
Para a força militar foi construído um quartel-general,
espanto ao ver desfilar ante seus olhos esses "riiricliorririi" de
que é visto de longe e produz um belo efeito. Como prova de
grandeza mundana e elegância.
que em tempo de paz essa força não abandona os negócios de
Marte, edificou-se uma cadeia, da qual o quartel-general fez Pelas 8 horas estavam reunidos os Iápitas da cidade e os
um quartel geral para os patifes. São em grande número os próceres dos campos, na melhor concórdia, embora me ti-
moradores da cadeia, que guarda como sociedade fechada, para vessem afirmado que o velho ódio de Santa Luzia e Saquarema
julgamento e castigo, muitos maus elementos, cujos crimes ainda continuava ardendo debaixo dos coletes dos curitibanos
foram cometidos antes da formação da nova Província e que e talvez ainda agitasse mais de uma saia-balão das damas
no regime anterior tinham ficado impunes. presentes.
1858. VIACEM PELO PARANÁ 65

Chegou o Presidente com a família e recebeu a saudação Entre os cavalheiros presentes, todos aqueles com quem
do costume e depois Foram dados os vivas usuais à festa do dia. conversei eram homens polidos e bem educados; deles só posso
Em seguida um velho sacerdote leu aos jovens, que aguardavam falar bem e muito bem. E se me pareceu que em alguns homens
impacientemente o começo do baile, um longo discurso sobre e mesmo senhoras a roupa Festiva não assentava bem e que não
o valor e grande significação da independência - discurso a estavam ininterruptamente acordes com as melhores formas e
que se seguiram sonetos de dois fogosos poetas. Eu não podia maneiras sociais, não devo, entretanto, ocultar que o conjunto
aquilatar o valor dessas poesias, mas em milhares de casos o me surpreendeu extraordinariamente.
soneto tem a especial vantagem de só ter catorze linhas. Esta é não só a confissão do hóspede amavelmente con-
Mesmo em muitos sonetos de Petrarca muito apreciei essa boa vidado para a festa como também a do viajante que opina com
qualidade. imparcialidade.
Vieram depois os alegres sussurros, cochichos, sorrisos e Ao lado deste belo desenvolvimento da vida social entre
carícias do baile! Íris espargia as suas belas cores através das os filhos do país, tive também em Curitiba o gosto de ver muito
salas; segundo o compasso da música, que poderia ter sido um bem representado o nosso bom elemento alemão.
pouco melhor, esvoaçavam elas graciosamente como num ca- Desde anos tem-se movido também para a Província do
leidoscópio. Paraná uma pequena corrente humana alemã, que penetrou até
Estavam nos salões do baile umas cem damas nas mais Curitiba e mais para cima.
elegantes "toilettes". Entre elas nenhuma beleza propriamente Quando começava a colônia de São Leopoldo e quase ao
dita; muitas bonitas e todas, naturalmente, amáveis! mesmo tempo se formava a colônia de São Pedro de Alcântara
As amáveis curitibanas que se achavam nos salões eram no Maruim, em Santa Catarina, vieram também numerósos
quase todas senhoras casadas. Senhoritas havia muito poucas. alemães para Curitiba e Foram instalados pelo governo local ao
Casam-se logo que são núbeis, antes de deixarem a escola, e sul desta cidade, até ao Rio Negro. O ponto central dessa
acabam de crescer com os seus filhos. Estavam presentes vários peculiar colonização alemã é a localidade da Lapa, a umas onze
exemplares dessas senhoras jovens, que ainda náo haviam léguas ao sudoeste de Curitiba; devem cultivar o campo, criar
gado e negociar burros uns quinhentos a seiscentos alemães,
abandonado completamente a infância. Uma senhora de quin-
com o que chegaram a uma abastada situação.
ze anos parecia um lírio murcho. Parece-me que esse uso do
casamento infantil denuncia uma profunda desmoralização. Há muitos outros na própria Curitiba e em pequenas
Com alegria eu pensava nos jovens casais da mata do Campo plantações nos arredores, no campo, no Rocio, de onde trazem
Largo: parecia que eles não podiam deixar de casar-se; os do para a capital os produtos da terra. Calculo que são em número
salão, como se tivessem sido obrigados a casar. de algumas centenas; conheci alguns na cidade e mesmo nos
arredores.
Pelas 2 horas depois de meia-noite foi servida uma bela
ceia. O baile durou até pelas 4 horas da manhã. Nos últimos tempos muitos alemães têm subido, pelo
caminho de Três Barras, de Dona Francisca para Curitiba; pode
A presença do Presidente Liberato de Matos e a amabili-
mesmo dizer-se que a quarta parte das pessoas imigradas para
dade do educado homem contribuíram particularmente para a
Dona Francisca foi para Curitiba e ali trabalhou.
animação da festa. A sua senhora era uma figura muito elegante
e de muita vivacidade. Ambos são da Bahia, onde Liberato de Tem-se acusado as más condições da colônia de Dona
Matos foi chefe de polícia. Francisca, mas sem razão.
66 QUARTO CAPÍTULO 1858, VIAGEM PELO PARANÁ 67

A enorme extensão de terras, a facilidade da lucrativa os filhos bem intencionados da nova Província desejam arden-
criação de gado, o crescimento espontâneo do valioso mate na temente que eles venham para cá! Está à frente deles, como
floresta -são as causas de que tenha sido diminuta a laboriosi- fervente partidário da obra de aniquilação contra a mata e a
dade na Província do Paraná e em primeiro lugar na sua parte barbaria o próprio presidente Liberato de Matos.
sudeste, onde é mais lucrativa e onde moderados esforços Para transformar esse desejo, essa viva aspiração em
produzem belos resultados. Em Curitiba o salário é quase o realidade, está sendo feito, precisamente agora, um trabalho
dobro do de Dona Francisca. Jovens que, ao chegarem da importante. Um belo distrito da melhor terra lavradia ao nor-
Europa, pelas condições difíceis ainda existentes nas colônias deste da Província, apenas a um dia de viagem do porto de
alemãs, não podem logo comprar terra, por falta de dinheiro, Antonina e Paranaguá, está sendo medido sob a direção do
ou querem primeiro adquirir alguma experiência trabalhando engenheiro alemão Capitão von Ochcz e preparado para rece-
como jornaleiros, têm escolhido, em grande número, a cidade ber imigrantes alemães. A região recebeu o nome de um rio que
de Curitiba como seu ponto provisório de trabalho. Ali ganha- a rega, o Araçungi ou, abreviadamente Açungi e desperta muito
ram algum dinheiro e, o que é digno de nota, ali adquiriram interesse na Província.
alguns conhecimentos da língua e condições do país e depois, Tanto mais vivo deve ser o nosso interesse pela colônia a
com dinheiro e experiência, regressaram a Dona Francisca para ser fundada, Araçungi ou Açungi, porquanto ela não é especu-
lá estabelecer-se. Sem embargo, alguns, e aliás por vantagens lação privada de flibusteiros usurários, como tem aparecido
financeiras apenas existentes na aparência, se sentem cha- várias, com belos nomes, visando apenas, em seu próprio
mados e encadeados pelos encantos da nova pátria alemã nas interesse, o suor dos alemães. A colônia do Açungi é antes uma
terras baixas de Santa Catarina; involuntariamente me acode fundação do governo, uma colônia de administração provincial.
aquele: Nescio qrrn nntrile sol~irrrdrrlccdii~ecnytos dircit et irn- Se ela conseguir achar para a nova instalação um diretor capaz,
rriernores riori silrir esse srri; devendo-se entender aqui nntnlc solriirr auguro à colônia um brilhante futuro. Sobrepujará com facili-
como o solo no qual e do qual o nosso coração, a nossa alma, dade a débil instalação privada do suíço Perret-Gentil, que fica
corpo e vida crescem e alegremente deitam galhos e flores, uma na costa, não distante de Araçungi. O referido, decerto um
vida entre alemães, com língua alemã e costumes alemães. A honrado helvécio, não pôde, no comércio do Rio de Janeiro,
mim mesmo a vida e maneiras da colônia denominada em conseguir uma existência feliz. Talvez a instalação de sua
homenagem à gentil irmã do Imperador de origem alemã, de colônia fosse apenas um pequeno "coriy de désesl~oir"e dis-
costumes e educação simpáticos aos alemães, me atraíram mais pusesse de limitados recursos.
e me prenderam por mais tempo do que qualquer outro ponto Mas uma colônia deve começar com saúde e alegria,
alemão. devendo estar à sua frente um homem que receba os imigrantes
A atividade dos alemães no Paraná como simples jornalei- com saúde e alegria. Os que vêm de longe, que fizeram uma
ros de passagem ou como colonos estabelecidos tem despertado enorme separação entre si e a pátria, ferida que dificilmente
muita atenção nos últimos anos. Colonização alemã, trabalho sara, dificilmente cicatriza, devem, logo ao chegar, encontrar
alemão, cultura alemã! Esse é o "negro-vermelho-ouro" que, um homem de coração e de ação, que os aconselhe e ajude, e
entre aqueles que sob a bandeira não mais amada na Alemanha não gente que na tempestade da vida naufragou, naufrágio de
não podem ali ganhar o pão, serve de manípulo no longínquo que eles próprios são culpados, porque não sustentaram o leme
Paraná - colonização, trabalho, cultura dos alemães! Todos com força, porque não olharam com confiança para as estrelas
e para o céu.
1858, VIAGEM PELO PARANA 69
68 QUARTO CAPITULO

traram-me dois rapazes botocudos recém-chegados. Num con-


Como estou falando do esforço de colonização no Paraná,
flito com os selvagens coroados os botocudos tiveram de aban-
praticaria uma traição se não mencionasse uma colônia em-
donar os jovens ao inimigo. Os dois companheiros nus Foram
preendida pelo meu muito apreciado e particularmente querido
muito mal tratados. Quando eles queriam aproximar-se da
colega dr. Faivre. O distinto medico e clínico do Rio de Janeiro
aquecedora fogueira dos seus vencedores, eram empurrados
foi ferido por uma dor moral, talvez a dor mais cruel que possa
com tiçóes ardentes aplicados à barriga; numerosas cicatrizes
atingir um homem na vida. Parecia que encontrava a sua
denunciavam o efeito do fogo na barriga dos prisioneiros. Em
felicidade em fazer a felicidade dos outros. Sob os auspícios do
novo conflito de ambas as tribos selvagens os jovens foram
governo e a graciosa proteção da Imperatriz Dona Teresa
reconquistados. Os vencedores botocudos cederam-nos a um
fundou ele uma colônia no distante "Oeste", como são cha-
homem por uma bagatela, creio que um pano de algodão e uma
mados os distritos provinciais logo ao oeste de Curitiba, nas
faca; afinal, chegaram eles a Curitiba: rapazes pardo-amare-
solitárias margens do Ivaí. Quase não se encontra outra colônia
lados, com muito tecido celular, idióticos, com "habitus" mon-
mais solitária, quase não se pode imaginar uma instalação mais
gólicos, irmãos degenerados dos degenerados chineses, fantas-
artificial. Talvez seja uma imagem da dor do meu honrado e
mas da floresta, espectros de homens .
espirituoso amigo. Não posso julgar a colônia Dona Teresa;
dela me deu noticias, oralmente, o presidente da Província; De bom grado os deixo e volto a coisas mais amáveis, aos
creio que ninguém conhece exatamente a Tomi do Ivaí. Há costumes, à civilização, que à vista desses sombrios quadros de
muito pouco tempo os citas sauromáticos, os bugres, pene- brutalidade, são dobradamente humanas para o viajante.
traram naquela região, assassinaram algumas pessoas e arras- Logo ao chegar a Curitiba, fui saudado muito amavel-
taram consigo uma senhora e uma criança. Para lá foi enviada mente pelo Dr. Schmidt, de Brunswicl<; eu já o conhecera no
uma força armada e o futuro e a experiência dirão se com êxito. Rio de Janeiro. Quanto melhor nos conhecemos em Curitiba,
Contudo, momentaneamente, o dr. Faivre está inconsoláve18. tanto mais o estimei. Sadio, jovem e vivo, exerce ele a sua arte
Um cacique daquela região, um daqueles patifes que, conforme hipocrática com todo o zelo; goza, em geral, da estima e
lhes convenha, ora são mansos, ora bravos, queria, segundo se confiança dos curitibanos. Naturalmente, a sua natureza, mes-
supõe, rastejar o inimigo e raptor, resgatar os raptados e clada dos melhores elementos, aspira a deixar as condições da
castigar os bandidos. Talvez um desses caciques saiba mais, Província do Paraná! O Dr. Schmidt formou-se em medicina
sobre o assunto, do que supomos nós, homens civilizados. em Heidelberg, Berlim e Paris e desenvolveu-se na plenitude
Talvez já saiba onde está escondida a mulher, talvez já a tenha humana ao sopro salutar da arte que tão variadamente lhe
em seu poder, se não foi ele próprio quem a raptou e apenas ofereciam as referidas cidades. Antes de partir para o Brasil
quer aparentar trabalho para elevar o seu mérito, a sua recom- viajou ele repetidamente pela Itália e viveu algum tempo em
pensa. Palermo. Que admira, pois, que o meu nobre amigo, assim
Ocorrem ainda com freqüência essas razias, esses raptos, como um grego banido deseja voltar para a sua Atenas, aspire
porque a Província do Paraná apenas em alguns distritos está a regressar às felizes terras da Europa, as únicas onde a nobre
incorporada à humanidade e aos bons costumes. Eu próprio vi cultura e o sentido artístico em marcha desimpedida passaram
em Curitiba duas obras do laboratório da brutalidade. Mos- de nação para nação e em memória de cada passo enfileiraram
monumento ao lado de monumento.
8 Infelizmente, quando eu escrevia em Curitiba a nota acima, o meu nobre amigo já
tinha morrido. Faleceu em 30 de agosto. Só no Rio soube de sua morte. - N. do A.
70 QUARTO CAPÍTULO 1858, VIAGEM PELO PARANÁ 71

Senti-me inteiramente em casa no círculo familiar do passando por Palmeiras, Ponta Grossa e Castro. Embora aque-
senhor Stellfeld, igualmente de Brunswicl<, um farmacêutico las regiões não me pudessem apresentar muita coisa inteira-
digno e muito bem educado, que combateu como oficial na mente nova, pois oferecem campos, matas de araucárias, mate,
guerra do Schleswig-Holstein e depois da decadência das con- criação de gado e os primeiros princípios de uma civilização
dições locais se dirigiu para o Brasil. Casado com uma jovem incipiente, contudo gostaria de fazer a longa expedição de umas
senhora de Holstein, Stellfeld, em cuja casa vive também uma cem milhas até a cidade de São Paulo, para ver o quadro
irmã mais nova, conservou-se fiel à boa lealdade nórdica. Eu completo do "Oeste do Paraná".
gostava de estar naquela casa e sempre serei grato pela amabili- No entanto isso me tomaria muito tempo; na melhor
dade e atenção desartificiosa de tão bem intencionada gente. hipótese, para bem ver e observar, precisava para a expedição,
Vivi, pois, em Curitiba muitos momentos amáveis e três a quatro semanas de tempo. Na pior hipótese ou mesmo
agradáveis em que a gente pensa com prazer ao recordar uma na hipótese muito provável, no caso de encontrar qualquer
viagem. alguns pequenos aborrecimentos, estorvos e dificul- estorvo no caminho, no que pouco ou só com muita lentidão
dades com que as vezes topei não diminuem o que foi agra- me ajudaria a indiferença dos criadores de gado e habitantes
dável, antes o tornam mais picante. dos sertões, gastaria seis a oito semanas na viagem ao Oeste do
Sofri uma dessas contrariedades, por exemplo, quando Paraná. Tive, pois, de decidir-me por um caminho mais curto,
uma manhã numa repartição, na minha segunda visita para resolvendo fazer a curta viagem marítima de Paranaguá a
tratar do negócio que tinha em andamento, o funcionário ainda Santos.
não me atendeu, ao passo que o Presidente, de quem queria Tornou-se impossível mesmo a pequena, mas decerto
despedir-me, já estava recebendo. Em 7 de setembro houve o interessantíssima excursão a uma caverna, para cuja visita e
baile, no dia 8 houve festa religiosa, procissão e espetáculo no regresso são necessários três dias. Já estava tudo combinado e
teatro e assim não podiam os senhores funcionários no dia preparado para um apressado passeio à caverna, quando fui
seguinte estar nos seus postos nas diferentes seções. O homem retardado pela repartição acima mencionada. Mal foi o meu
marcara hora especialmente para mim. "Ele faz sempre assim" negócio despachado quando chegou por um paquete o correio
-disse-me o contínuo da reparti áo "nunca se pode confiar
nas suas promessas!" Paciência! E - S
a perda de tempo é um
esperado do Rio e eu, para poder seguir de Paranaguá para
Santos no mesmo navio, tive de preparar a minha partida, em
verdadeiro cancro do funcionalismo brasileiro, um aforisma da vez de fazer a excursão à gruta.
economia política, sobre cuja confirmação se poderiam escre-
Até o notável eclipse solar de 7 de setembro me escapou.
ver longos comentários.
Precisamente no momento mais importante o céu se cobriu de
Infelizmente muito tempo me tomaram a minha ex-
nuvens. Ficou tão escuro que no meu quarto normalmente tão
cursão pela picada de Joinville, através da serra Geral, e minha
claro eu não podia mais escrever e queria acender a luz. Em
extensa viagem no Rio Grande do Sul. No fim de setembro ou,
alguns lugares livres do céu foram vistas estrelas. Quando o sol
o mais tardar, no principio de outubro devia estar no Rio de
de novo ficou livre das nuvens, estava oculta somente cerca da
Janeiro; lá me chamavam negócios importantes.
terça parte do disco solar, não oferecendo grande interesse.
Tinha o propósito de viajar de Curitiba para Lapa e de lá,
Quase não preciso dizer que também o 8 de setembro foi
em excursão para o norte e o nordeste, seguir para São Paulo
festejado em Curitiba em geral como o importante dia da
9 Em português no original. - N.do T. Virgem Maria. A praça da igreja esteve particularmente inte-
72 QUARTO CAP~TULO 1858, VIACEM PELO PARANÁ 73

ressante nesse dia. Constitui a praça uma grande campina Em tal situação, uma certa arrogância afeta todas as
verde de forma quadrada, emoldurada de casas térreas. No seu condições de vida. Notadamente me parece ainda muito con-
centro se acha a igreja matriz da cidade. Precisamente se siderável a flutuação de certos partidos políticos. Com a sepa-
celebrava a missa com música; a igreja estava cheia de gente, ração da Província do Paraná, não ficou com a velha província-
de modo que apenas se podia olhar para dentro. Parece ter mãe o pecado original de São Paulo, cujo desenfreamento há
chegado muita gente dos arredores. A multidão que estava na anos o arrastou a uma insurreição entre personalidades con-
praça verde da igreja, na maioria em cavalos ricamente ajae- sideradas. Ela continua fermentando no Paraná. A ligeireza
zados, dava uma bonita impressão, embora os cavalos em geral com que os curitibanos correm pelo campo em seus corcéis
fossem medíocres ou maus. pode-se aplicar frequentemente ao seu procedimento político.
De um modo geral, todos os animais da Província, sejam As eleições para o Senado e para a Câmara dos Deputados são
bois ou cavalos, são medíocres e maus. A raça é degenerada e apaixonadíssimas, têm dado ocasião a conflitos sangrentos. Em
fraca e o tratamento do gado muito imperfeito. No verão São José, uma simples aldeia, houve há poucos anos um conflito
correm as animais no campo e sustentam-se com o grosseiro político, no qual, dentro e perto da igreja, foram assassinadas
capim. No chamado inverno tudo fica queimado e destruído dez pessoas e, ao intervir a força armada legal, foram feridos
polo geada noturna e os animais caem numa magreza esque- mais vinte homens. Esse estado de coisas deve ser combatido
lética. Causa dó ver então os bois e cavalos. Arrastam-se, na com toda a seriedade, toda a circunspecçáo, toda a energia. São
maioria, entre as matas e moitas e aí vivem dos renovos de um desabono para a grande Província meridional do Império.
bambu. O homem não os socorre: estábulos e forragem são A inconstante vida a cavalo - denominei-a, certamente com
coisas desconhecidas aqui; ninguém quer ter incômodos, nin- razão, vida de centauro -a eterna matança de gado e salga de
guém quer trabalhar; preferem deixar o gado morrer. carne crua, a caça às onças, antas e emas tendem a impedir
Disso decorrem estranhos episódios. Em Curitiba, capital sentimentos e costumes delicados; e o rio-grandense, o habi-
de uma Província célebre pela sua criação de gado, sempre tante dos campos do Paraná combatem às vezes, com mais
encontrei manteiga velha e mesmo rançosa, aliás recebida da êxito os animais selvagens do que as suas próprias paixões, a
Inglaterra. O queijo que vi era da Holanda. O leite às vezes é cuja vista, a cuja manifestação estremece, horrorizado, o eu-
um artigo caro; às vezes não se encontram ovos e mesmo a ropeu criado entre uma humanidade mais amena e suspira,
carne é cara. Querendo-se alugar ou comprar um cavalo, de- notadamente quando se trata de senhora educada pela Europa,
pende de felizes circunstâncias se se chega à compra ou ao pelo, a muitos respeitos, desmoronado Partenon, pela Acrópole
aluguel, pois entre uma coisa e a outra a vantagem é des- de todo o gênero humano. Em muitos aspectos não são ver-
prezível. Além disso, circula muito dinheiro falso e é preciso dadeiras, mormente para quem conheceu pessoalmente as
que em toda parte a gente se defenda contra embustes. A todo condições do sul, as linhas que encontrei no álbum de uma
momento me aborrecia a falta de seriedade num homem, numa jovem senhora alemã de perfeita educação quando com o seu
firma, numa transação. Em todos os cantos e recantos se vê marido, um oficial empregado no Rio Grande, devia partir do
que falta à gente a concorrência do esforço, do trabalho, do Rio de Janeiro para o Sul do Império:
Wiilst drr irnclr deirr Sodeir zielieir,
procedimento rigorosamente correto. Vivem muito bem, são
Kiird, Iriss Goctlre, Byrorr, Trisso!
arrogantes e pensam que com a insinceridade ainda viverão Sclrnir, tvie drrrcli die Pririipns flielrerr
melhor. \Vilde Gniiclios rrrir derrr Lnço!
74 QUARTO CAPITULO 1858, VIAGEM PELO PARANÁ 75

Urizcri Irctzend urrd das Eirrli! se não tem o seu próprio cavalo, o seu próprio burro; ele é
Sclrlaclrrcri, Sclrlaclrtcrr ist dlis Tlrciriri apenas um homem, um pobre homem, e não um homem-
Voir dcs Partirri Ccstntlcir
cavalo, um centauro. Ao meu criado, que era conhecido em
Bis 211 Dltirrc~rCordillcrc~i!
\i'follte Gott, iclr korrrrt' circlr IrCrrtc Curitiba, deram algumas esperanças para me deixarem ao
Dic Laylatn-Torir c~crtr~clrrcrr menos a expectativa da possibilidade de partir. Ao amanhecer
1O o dia 10 de setembro, despertei-o e mandei-o em busca de
Uird criclr Ircirrrtr~iirtssc~~dc~r,
Lcrrtc!
E contudo há algo de nobre e grandioso na luta da burros ou cavalos, pois eu devia partir sem falta, porque no
civilização contra essas cenas gauchescas, contra esses quadros mesmo dia descia para a costa o correio - último sinal de
de emas, essas caçadas de onças. Por mais lentamente que ande partida.
o boi à frente do arado, ele alcança, afinal, os Fugitivos, avan- Por um preço considerável consegui o que me era indis-
taja-se a eles e por fim os domina. Por mais que, cem vezes, os pensável, em animais, para a viagem. Podíamos, então, selá-los,
pioneiros e campeões da civilização vindos da Europa se Ea- mas apenas isto! Tão magros e fracos eram os cavalos que me
tiguem e até desertem para o acampamento inimigo, a peleja tinham cedido, que me causava compaixão por-lhes a sela em
já está decidida, a vitória já foi definitivamente alcançada. Até cima. De Fato, quanta mais eu via o trato dos cavalos no Sul do
no longínquo sudoeste penetram os cabeças louras nórdicos, Brasil, mormente no Paraná durante o inverno, mais me con-
os sucessores dos anglo-saxãos, como estes fortes homens do vencia que só se podia encontrar um bom cavalo com o meu
futuro - não, homens do presente - penetram em toda parte velho e honrado amigo Major von Sucl<ow,no Rio de Janeiro.
em cortejo triunEal. Assim haja por bem a Providência! Ela A manhã era admirável. Escoltaram-me o dr. Schmidt,
nunca permitiu que as patas destruidoras do cavalo mongol Stellfeld, o meu velho hóspede Teodoro Caspar e ainda um
invasor esmagasse as nobres flores do helenismo, o fruto ma- digno alemão ou, melhor, brasileiro de origem alemã, Agener.
duro e santificante do cristianismo e guiará, protegerá e aben-
Em tropel saímos da cidade.
çoará o Evangelho e a florescência da arte sob o céu sul-ameri-
cano! Sentia-se e via-se a primavera em toda parte. Floresciam
pequenas oxalis de diversas cores, uma bonita berberis, várias
Eu fixara a minha partida de Curitiba para a costa para o
singenesias, entre outras uma semelhante a um crisântemo, de
dia 10 de setembro; sim, eu devia partir naquele dia, se quisesse
disco amarelo com flores marginárias, planta de dois pés de
alcançar o vapor que de Paranaguá seguia para o Rio, via Santos.
altura, que cresce em lagoas e campinas; mais adiante, uma
O meu hóspede Teodoro Gaspar prometeu-me obter os animais
mimosa vermelho-amarelada e ao longe os pêssegos em flor e
necessários para a viagem de treze léguas até Antonina. No dia
ainda o reverdecimento dos campos e especialmente em volta
9 foram feitos todos os preparativos, mas baldados foram todos
de alguns lagos um verde claro, matas de araucárias, à distância
os esforços. Os homens têm animais para o seu uso, mas são
as serras azuladas e, sobre tudo, um céu cor de ametista: assim
precisamente os seus animais, a sua outra natureza, as metades
cavalgávamos no belo dia e sentia-me com feliz disposição de
deles próprios, o segredo do centaurismo nos campos. Com isso
ânimo, apesar da despedida, a uma légua da cidade, de meus
o forasteiro se dá mal; ele é de algum modo traído e vendido,
queridos amigos curitibanos.
10 Tradução em prosa: "I:illio, sc qrierrs irljnrn o Sirl, nbnririoiin C;ocrlrc, R~~rori c Tnsso! 011in A minha direção era para leste, ora mais para o norte, ora
iüiiro ntrmrés dos iliiir/>os iorrciir i~idbirrirosgnriilios, injnirdo üiijns c criins! Alnrnr, irtnrnr,
é o rcirrn dcsdc ns ~rinrgerrsdo lo'nrnrici nré ns iordillieirns nzrris! 011gclrrc,
, yrorii~crnn Driis mais para o sul; passei alguns confluentes do Iguaçu; a regi50
que Iioic rir 1.0s~~irrirssciriil~cdirn ~*ingcirrno I'rnrn e iirnitrinr-180sImrn n I'tírrin!" elevava-se gradualmente e cada vez mais sobressaía a pura
1858. VIAGEM PELO PARANA 77

vegetação de araucárias. Nos lugares abertos, iluminados pelo No primeiro riozinho que decididamente corre para leste,
sol, florescia uma linda iridácea, de apenas meia polegada de no Capivari, encontramos um rancho maior, onde até uma
altura, amarelo-clara, com três largas pétalas externas e três família morava entre os trabalhadores. Junto a um lago estava
pétalas estreitas internas, três anteras subuladas e três esbeltos uma mulher loura e algumas crianças louras; evidentemente,
pistilos, planta realmente característica do campo. cozinhava-se o jantar. Aqui encontrei um suíço ajudante de
O que mais me chamou a atenção, aliás, foi uma árvore engenheiro, que com grande amabilidade me indicou a região
que, segundo me disse o meu arrieiro, só ocorre ao leste de onde certamente acharia pousada para a noite no rancho do
Curitiba e que tenho por um yodocnryrrs, embora não seja do primeiro engenheiro Vilalva.
meu conhecimento que essa peculiar forma intermediária entre Entrementes entardeceu. O sol lançava os seus últimos
as árvores de fronde e as árvores de folhas aciculares seja raios através das araucárias e de outras árvores que já come-
observada naquela região. Os exemplares que vi a leste de çavam a tornar-se numerosas. Cada vez ficava mais silenciosa
Curitiba me recordaram demasiado vivamente alguns belos a floresta. Em alguns lugares encontrávamos tendas de tropei-
ltodocnrltlrs que eu vira no jardim de meu irmão no Rio de ros acampados, diante das quais chamejavam alegres fogueiras
Janeiro para que não os considerasse idênticos. e era cozida a retardada refeição. Nas próximas touceiras de
Com a suave elevação do terreno desaparecia gradual- taquara soava o cincerro da madrinha, indicando o lugar onde
mente a cultura e depois de viajar algumas léguas nos encon- os animais da tropa procuravam o alimento. Nessa vida na
tramos em puras florestas de araucárias. Dentre o mate baixo mata; homens e animais dão à paisagem o tom de profunda paz
se elevavam, imóveis e hirtos, altos exemplares daquele e agradável segurança. Aqui os tropeiros não temem mais
pinheiro do Brasil. Cavalgávamos em silenciosa solidão. ataques dos bugres, os animais nada têm a recear da onça
traiçoeira, que outrora abundava na região. Na floresta encon-
Depois houve ruído na floresta, um grito de despertar da
tramos um pequeno campo, onde anteriormente as tocadores
civilização que se aproximava. Abatiam árvores, removiam
de gado faziam alto com os seus animais. Os bois aqui podiam
terra, aplanavam; um numeroso grupo de homens fazia o
ver mais facilmente quando, na mata, o inimigo se aproximava
primeiro esboço de uma larga estrada. Em pouco encontramos
e repelir com os seus fortes chifres o primeiro ataque e, com
um segundo e a seguir um terceiro grupo, um só constituído esse primeiro, todos os inimigos, pois raramente a onça dá um
de alemães, no qual até havia algum que me conhecia bem do segundo salto quando, no primeiro, não agarra o focinho do
Rio de Janeiro, singular encontro numa floresta de araucárias. touro com uma pata dianteira, com a outra a espádua e, ficando
A diferentes distâncias tinham sido levantados ranchos para de pé sobre as patas traseiras, quebra o pescoço da vitima.
abrigo dos trabalhadores. Antes, exatamente à maneira dos gatos, depois de um golpe
Cheguei afinal à linha de separação das águas, onde as malogrado, volta, envergonhada, para a mata e só algum tempo
últimas águas correm a oeste para o Paraná e a leste, em depois ataca outro animal.
caminho mais curto, para o Oceano Atlântico. Não é visível, Mas o barulho e alegre atividade da construção da estrada
ali, uma clara divisão da cadeia de serras; apenas, descendo-se afugentou todos os animais selvagens para o fundo da mata,
pela floresta sombria se vê à distância, ao oeste, o dorso de uma tornando inteiramente segura a viagem de Curitiba para as
serra, de modo que poderia estabelecer-se a linha de separação terras baixas. Alegre símbolo dessa segurança, dessa paz na
das águas a algumas léguas mais para leste. floresta ofereceram-me o quarto crescente da lua e a brilhante
78 QUARTO C A P ~ T U L O 1858, VIACEM PELO PARANA 79

Vênus que com encantadora fraternidade desciam por trás da Icohler. Tinha também este uma difícil e grandiosa constrtição
mata para o sono n s n u Nlfnrrt's slcclt. de estrada a executar, dedicando-lhe todas as energias. Mas
Cheguei afinal a um grande rancho, em volta de cuja trabalhava na proximidade imediata da capital, com meios
abundantes e especialmente sob as vistas de um príncipe quc
fogueira se moviam muitas pessoas e onde morava o enge-
até agora não deixou e jamais deixará sem recompensa um
nheiro civil Saturnino Francisco de Freitas Vilalva.
merecimento, chegado ao seu conhecimento. Vilalva, o bra-
Com a maior amabilidade me deu agasalho o excelente sileiro, não é tão feliz quanto Kohler, o alemão. O seu em-
engenheiro e, com um homem das proximidades, abrigou meus
preendimento não é menos dificil, porém muito mais extenso
dois arrieiros e cavalos. Falamos em seguida particularmente no espaço, mais importante nas conseqiiências. A estrada de
da estrada que ele está construindo sobre a Graciosa, como é Petrópolis é um belo monumento para o Comandante ICohler;
chamada aquela região serrana. creio que o caminho que sobe a serra da Estrela nunca será
Com efeito, a nova estrada de Antonina, na baía de percorrido pelas pessoas de alta posição que anualmente vão a
Paranaguá, para Ctiritiba, é uma empresa importantíssima. A Petrópolis sem que elas consagrem um pensamento ao mestre
estrada principal até agora existente, aliás a única importante, construtor ferido por uma bala fatal. Pela estrada, pelo menos
subia de Paranaguá para o planalto, passando pelo lugarejo tão bela e sem dúvida mais fácil, de Vilalva, passarão mais tarde
Morretes; era e é um incômodo caminho serrano, no qual só sobretudo tropeiros e negociantes para os quais é mais ou
burros fortes com pequenas cargas podem subir lentamente, menos indiferente quem construiu a estrada e por que embates
pelo que as comunicações com o distrito marítimo e todo o da fortuna passou o homem talentos0 e cumpridor do dever.
planalto são extremamente dificultosas.
Milhares de gritos de papagaios e gralhas azuis me des-
Depois de ter estudado cuidadosamente o terreno, o pertaram em 11 de setembro, antes de romper o dia. Mas, para
referido engenheiro fez um novo traçado na extensão de treze que descrever semelhante manhã na matal Partiram os homens
léguas, do mar até Ciiritiba, para uma cômoda estrada de alegremente para o trabalho, tão alegres quanto o rio do Meio
rodagem para o planalto, mediante cuja execução ficará aberta que passava murmurando debaixo da ponte. Com verdadeira
ao tráfego toda uma Província. Para esse fim foram destinados
alegria passeei de um lado para o outro no belo caminho diante
seiscentos contos, o que equivale a 480.000 táleres prussianos.
do rancho. O meu amável hóspede teve a bondade de ir enviar-
No momento de minha passagem estavam em atividade 170
me o café da manhã que, na serra do Paraná, também sabia
trabalhadores, entre os quais 54 alemães; cada um recebe um
mil-réis e a comida e contudo Faltam trabalhadores. Falta ainda excelentemente.
mais o pronto pagamento do dinheiro; se não me engano, há Partimos depois do almoço. Vilalva acompanhou-me por
meses os trabalhadores têm salários atrasados a receber. algum tempo para mostrar-me a sua estrada, a menina dos seus
Já desde anos está o distinto e incansável Vilalva na olhos.
floresta, longe de todas as comodidades da vida, em ranchos Com admirável elegância serpeia ela através das serras em
precários e, ainda mais, com a esposa doente; no entanto amplas curvas e insignificantes aclives de oito por cento nos
trabalha corajosamente em sua obra, como missão de sua vida, lugares mais íngremes. O leito da estrada, macadamizado com
pois a construção da estrada é uma questão vital para a província. delgada camada de areia, mede vinte palmos de largura. Tem
A situação de Vilalva lembra-me vivamente o meu ami- bordadura de pedra de ambos os lados e no centro um canal de
go, por infelicidade prematuramente falecido, Major Friedrich derivação que a cada cinqüenta passos, por meio de um ralo
1858, VIAGEM PELO PARANA 81

debaixo da estrada, despeja a água para fora. De cada lado, um espuma, apareciam pequenas cachoeiras entre rochas e matos:
pequeno espaço livre, deixando lugar para desvio em qualquer assim passa o viandante o tempo na montanha, enquanto o
parte. caminho o conduz para cima e para baixo em ladeiras por vezes
Em certo ponto da bela estrada mostrou-me Vilalva um escarpadas.
trecho da estrada antiga, que descia de um outeiro. Parecia uma Da extrema e alta orla da serra descortina-se uma vista
ravina vazia; dificilmente se compreende como burros carre- soberba sobre as terras baixas que se estendem por milhas,
gados podiam vencer tal caminho. gracioso caos de florestas e campos, depressões e altas colinas,
Sob a ponte passava ruidosamente o rio Taquari; as por entre as quais serpeia, ao nordeste, um belo rio. Pre-
muitas pedras roladas de seu leito, algumas grandes, Falam do cisamente ao leste uma vasta baía parece penetrar na terra;
furioso tumulto no tempo dos aguaceiros tempestuosos e de muitas ilhas se elevam em formas cônicas. Mas apenas ilusão
outras grandes precipitações pluviais. Por entre rochedos desce ótica. O fundo daquela região cobria-se de nuvens; dentre o
para o vale, murmurando, deliciosa água potável. mar de vapor elevavam-se, em forma de ilhas, picos de serra.
Asperamente descia o caminho. A serra forma aqui verdadeira
Aqui me deixou o meu atencioso engenheiro e regressou
garganta. Em baixo, a chamada Barreira, uma casa onde se
para o trabalho diário.
pagava imposto de trânsito pelos animais de sela. Vindo da
Começou a parte escarpada da região montanhosa, a serra esquerda, passa aqui por baixo de uma ponte um impetuoso
propriamente dita. A estrada velha é muito má, embora, vi- rio, a que se reúnem, depois, vários outros. Aqui também há,
sivelmente, houvessem despendido esforço com ela. Nos lu- no leito do rio, pedras roladas, mas de enormes dimensões.
gares mais íngremes e mesmo em trechos planos, bastante Mostra a sua forma arredondada que, apesar de sua massa,
longos, encontra-se grosseiro calçamento de pedra. Muitas reiteradamente Foram um joguete da água. Quase se duvida da
braças de chão de barro mole ou de ladeiras escorregadias são possibilidade do elemento mole revirar o duro e maciço. E,
cobertas com troncos de árvores: vêm-se largos trechos de contudo isso não padece dúvida. Vi blocos, de cuja frente
caminho cobertos de sólidos troncos, achando-se a gente, no haviam sido arrastadas ruidosamente pedras roladas menores,
sentido literal, num caminho no mato, pois às vezes esses de modo que os blocos maiores já tinham sido rolados pelo seu
troncos saíram do lugar ou foram consumidos; há, entre eles, próprio peso desaprumado. Uma única chuva tempestuosa
buracos profundos e o cavaleiro imprudente corre o perigo de pode encher bastante o riacho torrencial e "bem pode, com
ver o cavalo quebrar a perna. estrépito de trovão, fazer rolar rapidamente a pérfida pedra".
O sol estava sobre a serra. Nas quentes terras baixas ele De fato, na ponte da Barreira, eu não podia reprimir uma
tinha evaporado as emanações úmidas. O fresco vento de leste recordação do célebre avtrl; m e l t a do poeta, com que descreve
as impelia para dentro da serra; em grandes massas eram elas o tormento sem fim de Sísifo.
atraídas pelos píncaros, até que um vento mais forte as apan- Achava-me de novo num opulento mundo tropical, em-
hava, afugentava o horrível nevoeiro e o arrastava consigo. bora a 25" 30' de latitude sul. Há muito tempo as cecrópias,
Bonito jogo de nuvens sobre a serra, um ir e vir, um perseguir palmeiras e estrelícias tinham desbancado o mundo das arau-
e ser perseguido nos altos espaços. Floresciam em redor bonitas cárias; nas sombras úmidas floresciam bonitas comelináceas e,
manétias, um verbasco genuíno e muitas fúcsias elegantes. com elas, muitas outras formas vegetais mais delicadas, que já
Riachos límpidos passavam borbulhando pelo estreito cami- não podem suportar a geada do frio planalto.
nho e precipitavam-se no abismo; como brilhantes colunas de
1858, VIAGEM PELO PARANÁ 83

Da costa marítima ainda me separava uma longa região Nada mais me aborrece do que ver obras, sobretudo
de colinas, que foi percorrida pelos magros cavalos com muito vultosas, começadas e inacabadas, fato muito frequente no
trabalho e extrema lentidão. Verdadeiramente soberba a vista Brasil e que procede da Santa Engrácia de Portugal.
da serra que eu acabava de descer, especialmente a moldura Ao entrar em Antonina chega-se a um bonito campo
meridional da garganta - como se chama, na língua do país, verde, no qual se eleva considerável número de obras iniciadas:
esse desfiladeiro - de forma imponente e de vivos contornos. uma igreja, muros de casas, pilares, etc. Em torno das paredes
É alcantilada - as massas sobem quase verticalmente a alguns destinadas à ruína desde a nascença pastam reses em profunda
milhares de pés de altura, separadas por longos rasgões, que paz. Evidentemente a planície coberta de fragmentos deve ser
lançam densas sombras uns sobre os outros aos raios do sol o Campo Vaccino de Antonina, o velho Forirrrr rorrrnnrrrri, e tem
poente. com ele acentuada semelhança, apenas com a mesma diferença
Forma a terra um peculiar sistema de serras isoladas como existente entre Antonina e Roma. Até agora é essa diferença
ilhas. A serra costeira vinda da Província de São Paulo na ainda muito notável. Mas quando um dia estiver pronta a Via
direção de nordeste para noroeste toma ao sul, na costa do Appia para Curitiba, enfim poderá Antonina tornar-se uma
Paraná, a cerca de 25" de latitude sul, sob o nome de serra Negra, cidade das sete colinas.
a direção ocidental e apoia-se, em ângulo quase reto, na serra Por ora, há, no centro da cidade, uma bonita colina, de
que se estende do norte para o sul, chamada serra do Mar OLI suave ascensão; no seu pico, uma igreja de Nossa Senhora e o
serra Geral, a mesma que se atravessa ao vir de Curitiba para panorama que de lá se descortina é maravilhoso: avista-se a
Antonina. A várias milhas ao sul esgalha essa serra do Mar uma magnifica baía de Antonina, na qual a natureza prodigalizou
forte corda de serras para leste até as proximidades do mar, as liberalmente os seus encantos. Bonita a ampla praça verde ao
quais separam as regióes de Paranaguá e de Guaratuba, porto lado esquerdo da igreja.
meridional da Província do Paraná, ligadas apenas por uma Belas, em parte, as casas de Antonina que estão termi-
faixa costeira. nadas, algumas, aliás, vistosas e magníficas, especialmente na
Neste pequeno e bonito trato de terra, limitado, assim, rua Direita. Muitas, porém, inacabadas e me causam o aborre-
pelas serras por três lados, mas lavado ao oeste pelo mar, cimento a que acima me referi. As possibilidades de um futuro
introduziu este mesmo mar uma mui graciosa e multiforme porto - e quando estiver pronta a estrada de Curitiba terá de
baía, cuja comunicação com o alto é parcialmente impedida por pensar-se nesse porto - são animadoras. O vapor procedente
ilhas, tendo, porém, bastante profundidade para dar livre aces- do Rio de Janeiro, em sua visita à baía de Paranaguá, vem
so a navios comerciais. também a Antonina.
A fundura da barra mais utilizada para passagem é de 30 Causa, pois, a vila de Antonina uma muito boa impressão,
pés. A baía propriamente dita oferece excelentes condições de que gozei mais do que me convinha.
portuárias. Na sua margem esquerda, a cidade de Paranaguá, Quando entrei no lugar, não sabia, na verdade, para onde
rival, em tamanho e importância, de Curitiba, a capital; na dirigir-me. Mostraram-me a casa de um sapateiro, único ale-
parte ocidental da baía encontramos a vila de Antonina, onde mão livre domiciliado em Antonina; porque o outro alemão,
entrei precisamente às 4 horas da tarde de 11 de setembro. morador ali, estava na cadeia por ter praticado ilegalmente a
Para quem vem do interior, fica a vila muito escondida; medicina.
só se avista quando já se está bem perto.
1858, VIAGEM PELO PARANÁ 85

Agradar-me-ia ter seguido de canoa, na mesma tarde, para das pessoas e circunstâncias que me cercavam e aguardar o
Paranaguá, mas mo impediu um forte sueste; e, como não há vapor em Antonina para continuar a minha viagem, tanto mais
hotel no lugar, o sapateiro mandou-me à casa de um barbeiro, quando ele costuma voltar daqui para Paranaguá e lá ficar
com uma alusão de que o homem havia de parecer-me uma algumas horas.
espécie de Fígaro. Muito incômoda me foi, algumas vezes, a falta de hotéis,
O barbeiro indicou-me uma cama num quarto atrás do sobretudo quando me punha em contato com pessoas insu-
salão da barbearia, onde havia mais outra. Muito me desagra- portáveis. Em cidadezinhas solitárias e remotas, em distritos
dou o local, mas sobretudo o pensamento de que já às 2 horas longínquos, onde não chegam viajantes, pode-se não esperar
da manhã seria despertado para velejar, com o terral, para estalagens, mas em cidades do litoral, em pontos terminais de
Paranaguá. importantes estradas comerciais, o europeu instintivamente as
procura e não compreende como o espirito de especulação seja
Entrementes entraram na casa vários jovens, inclusive
tão pequeno que não empreenda um negócio que decidida-
alguns de Paranaguá, que consideravam a casa como um café.
mente tem de render dinheiro. No meu dia de descanso em
Um deles, jovem bem educado, estivera, a serviço da marinha
portuguesa, na Índia e na África e participara da célebre ca- Antonina, um domingo, éramos sete hóspedes ao almoço. A
comida lamentável, a louça e o serviço de mesa, muito maus,
tástrofe no navio de linha "Vasco da Gama" à entrada do Rio
bem como toda a casa, uma casa térrea com uma porta, uma
de Janeiro em 5 de maio de 1849. Bem como outros senhores,
janela para a rua, o salão de barbearia ao lado e que mal tem
ele me conhecia de nome; palestramos sobre astronomia até
espaço para a pequena família.
pelas 11 horas.
Mas o Fígaro da casa não sentia o menor constrangi-
Quase não cabiam os hóspedes na pequena casa do bar-
mento. Segundo uma declaraçáo, uma alusão que fez, ele
beiro. Com que saudade pensava eu em nossos ranchos frios e
conhece no lugar muitos locais para gente jovem, inteiramente
úmidos na serra Geral .
à maneira do antigo Oriente.
O pensamento de que breve seria despertado para fazer
uma viagem noturna num barco aberto na baía de Paranaguá,
E todavia a tonstrina do homem também me recordou a
Grécia e Roma. Ele Ficaria bem em muitas comédias de Plauto
fez-me lembrar de que antes tivesse ficado com o sapateiro
e Terêncio. Várias conversas, que escutei, lembravam-me um
alemão e me alojado em sua pequena oficina. O sofrido Ulisses
Antifo e a amabilidade de Fânio, o célebre Fnrrrry de Terêncio.
morou em casa de uma pastora de porcos, o rei Davi alojou-se
Houve conversas, à mesa, que já se encontram no Bnrrq~retedos
numa caverna, razões bastantes para que eu desejasse a casa
sofistns de Ateneu, apenas com mais graça grega. Um cinzento
do bom sapateiro.
tempo chuvoso me obrigou a ficar, Fastidiosamente, quase o
Para não estar dormindo no momento em que me viessem
dia inteiro, numa casa onde não dispunha de um quarto para
despertar, não adormeci. E durante a noite mudou o tempo; a mim e estava exposto ininterruptamente a tudo o que me
baía começou a marulhar e quando me levantei de manhã me
aborrecia.
disseram o que há muito tempo já sabia, isto é, que com tal
Deve ser essa a razão por que em Antonina me senti mais
tempo não se podia navegar as cinco léguas na baía até Para-
desagradavelmente do que em qualquer outra parte e deploro
naguá. E como no dia 13 o vapor deveria regressar a Paranaguá
cada momento que tive de passar ali a mais do que era ne-
e Antonina, para seguir, via Cananéia e Iguape, para Santos e
cessário.
Rio de Janeiro, resolvi acomodar-me com o lado mais amável
1858. VIAGEM PELO PARANÁ 87

Com verdadeira ansiedade aguardava a chegada do vapor E no entanto ainda queria muito, muitíssin~oda vida. Em
"Paraense" para com ele e nele poder sair dali. dois anos o seu pomar devia estar em magnífica ordem; no ano
Entristeceu-me, nos últimos dias de minha viagem, a seguinte queria encher o seu campo de gado e depois fazer uma
notícia da morte do velho Bonpland. Já em Dona Francisca grande plantação de mate. Tudo isso ele me dizia com tal
ouvira Falar a respeito, mas não dera crédito como coisa certa. serenidade, com tal determinação, que eu o olhava, de fato
Em Curitiba tive de admitir como def nitiva a notícia de que admirado; tinha uma idéia errada; acreditava que nunca mor-
falecera em 4 de maio em sua Estância de Santana, na margem reria, só na morte parecia não querer pensar!
direita do Uruguai. Há tão poucas semanas antes eu estivera Paz a suas cinzas! Jamais, ao recordar um homem digno
em casa dele! Eii não acreditava que ainda viveria mais de seis e distinto, entre milhares de outros que se separaram da exis-
meses; entretanto, não supunha que apenas dezesseis dias tência, me vem tão profundamente do coração um voto de paz
depois de minha visita ele já não estivesse no número dos vivos. do que quando penso em Bonpland. Entre todos, deve pre-
Bonpland era uma das figuras mais originais que eu já vi. cisamente ser citado como um mártir da ciência. Porque na
Ligado, pelo nome, aos maiores nomes do nosso século e do verdade é muito mais fácil cair subitamente, em plena ação, do
vindouro, foi levado pelo destino por veredas mais ásperas do que morrer pela ciência lentamente, dia a dia, hora a hora;
que o seu colaborador. Ao Francês Faltava a força titânica do primeiro, conservado prisioneiro na terra da estagnação espiri-
alemão. Não se pode pensar nem remotamente numa com- tual e, depois privado de todo socorro para ir avante, seguir o
paração entre os dois. Com a alta consideração que me levou à progresso do tempo e poder, segundo o velho costume, adian-
Estância de Santana se misturou uma dor profunda e indes- tar-se-lhe como estrela de primeira grandeza.
critível, quando me sentei ao lado do botânico de oitenta e cinco Aimé Bonpland e Virgil Von Helmreichen! Ambos os
anos e cobrei repouso para observá-lo. Com demasiada rudeza nomes me comoveram maravilhosamente em São Borja, na
a tempestade da vida o dilacerara, demasiado erma se lhe margem do Uruguai. Morei no mesmo quarto em que ambos
tornara a solidão da existência, demasiado longe vivia ele das moraram, aí cruzei eu ambas as carreiras, ambas as vias de
moradas de homens europeus cultos. Uma simples camisa e sofrimento. Ali, no centro da praça de São Borja, se devia erigir
calças lhe bastavam como vestimenta, um rancho, uma choça tima simples lápide e nela inscrever apenas dois nomes, sem
a sua morada; nenhum caminho, propriamente dito, conduz a mais perífrase: "Bonpland e Helmreichen." E as gerações vin-
sua estância: para regressar tive de guiar-me pela bússola. douras reconhecerão o simples texto e consigo exclamarão:
Jamais esquecerei a incumbência que me deu. Quando vi a sua Paz a suas cinzas!
saúde profundamente minada e ele me falou de seus manuscri-
tos e trabalhos interrompidos, considerei de meu dever por A
sua inteira disposição toda a minha pessoa, todas as minhas
Forças: ofereci-lhe tudo o que tinha e a mim mesmo para o seu
serviço. "Diga ao senhor Icasten (um amigo dele em Urii-
guaiana) que me mande uma dizia de facas e garfos!" Era essa
a sua única incumbência e não insisti mais com ele; porque, na
verdade, ele de mim nada, absolutamente nada queria, nada
absolutamente do cientista europeu.
1858, VIAGEM PELO PARANÁ 89

Negociara com a célebre droga de Leroy, prejudicando talvez,


na Vila de Antonina, os interesses de alguém que fizesse o
mesmo negócio. Quando o levaram perante o presidente da
Câmara Municipal e não quiseram reconhecer seu documento
de identidade do Meclemburgo, o tecelão, que com ninguém
podia entender-se, rasgou o documento em presença dos "Senho-
res" reunidos. Isso lhe Foi levado muito a mal. Foi denunciado
QUINTO criminalmente e devia ir a júri, a reunir-se seis meses depois.
Não há no lugar uma só pessoa que conheça ao mesmo tempo
o alemão e o português. Considerei então de meu dever, comu-
nicar o caso ao cônsul geral do Meclemburgo no Rio de Janeiro
Partida d e Antonina. - O "Paraense". -Joaquim Antônio d e
e ver se era possível ajudar o homem metido num horrendo
Morais Dutra, o domador dos coroados. - Vista d e Pa- calabouço.
ranaguá. - Nossa Senhora dos Prazeres. - Cananéia. -
A masmorra onde está o homem é realmente atroz. Como
Iguape e nossa festinha d e ação d e graças. - Desen- se pode suportar tal coisa< A cadeia, a penitenciária de Anto-
volvimento material e m Iguape. - Partida da barra d e nina, é um monumento tão vil que não há expressão para
Cananéia para Santos. - Santos. denominá-lo. Tenho bastante paciência com as Fraquezas, de-
ficiências e injustiças que encontrei em minha viagem. Mas há
Realmente horrível a minha estada em Antonina. Na casa condições que é preciso levar ao pelourinho da opinião pública.
do barbeiro, tudo vulgar, tudo reles e em parte alguma se podia A cadeia de Antonina é uma dessas condições, uma imagem da
evitar essa vulgaridade. O homem pode ter sido marinheiro de humanidade e justiça das autoridades daquela cidade.
um navio negreiro. Esteve evidentemente na costa da África. Enfim, a 14 de setembro, cerca de meio-dia, apareceu ao
Na sua miserável casa ocorriam as maiores misérias: palavras longe, ao leste da baía, o vapor "Paraense". Nunca saí de um
injuriosas sobre hóspedes que não pagavam ou de hóspedes aos lugar de tão bom grado, tão alegremente, como de Antonina.
quais se reclamava dinheiro excessivo. Ali entravam e dali Como despedida, fui ainda muito explorado pelo barbeiro, mas
saiam figuras esquisitas, ainda que entre elas assomassem de boa vontade paguei ao sujeito, pelos três dias em sua
algumas sofrivelmente decentes. Se quisesse por no papel o que ordinaríssima tasca, os 18 mil-réis reclamados (14 táleres prus-
lá observei, poderia sair um vivo esboço para um romance. sianos) e fui para bordo do vapor.
Pertence a uma companhia de navegação Fundada pelo
Cheguei como um mensageiro de um mundo melhor,
conhecido negociante e empresário comercial Ferreira, a qual
embora ninguém me conhecesse em Antonina, salvo um mé-
envia um vapor de quinze em quinze dias até Desterro, em
dico que estava na cadeia.
Santa Catarina, e que na ida e na volta visita os portos mais
Era o pobre diabo um meclemburguês e, a falar verdade, notáveis, com o que, naturalmente, a viagem se torna mais
não era médico, mas um tecelão, chamado Muller. Dou o nome demorada; mas para os que desejam conhecer aquela costa,
sem hesitar porque afinal toda a gente se chama ~ ü l l e r " ! oferece muito o que contemplar e aprender e é de grande
utilidade para os habitantes da Província de Santa Catarina e
1 1 Nome de família muito comum em alemão. - N. do T. do sul de São Paulo.
90 QUINTO CAP~TULO 1858, VIAGEM PELO PARANÁ 91

O vapor toca em Ubatuba, São Sebastião, Santos, Iguape, tes da gente que vai diretamente do Rio para o Rio Grande oii
Cananéia, Antonina, Paranag~iá,Sáo Francisco e Desterro, vice-versa. O s últimos são geralmente negociantes dos referi-
onde ordinariamente costuma chegar depois de uma viagem de dos pontos terminais, os quais, embora constituam sociedade
nove dias, a partir do Rio de Janeiro. Depois de um dia inteiro muito agradável, são tão europeizados, que o viajante obser-
de estada ali, regressa pela mesma rota. vador nada de especial encontra neles.
No momento dois vapores serviam essa linha: o "Ca- Não assim a sociedade do "Paraense"!
tarinense" e o "Paraense", sendo o último mais afamado. Quase o primeiro que encontrei a bordo, era u m homem
E todavia eu poderia chamar o "Paraense" de avô dos cujo conhecimento me teria sido extraordinariamente interes-
vapores brasileiros. Creio que lhe conheço o nome desde que sante se o tivesse encontrado seis meses antes n o Uruguai; era
estou no Brasil. Pertencia antes à Companhia Geral de Na- o mesmo homem que navegara o Uruguai, descendo o rio com
vegação Brasileira e como tal viajou para a Bahia. Foi expulso índios e que demorara alguns dias em São Borja com os seus
pelo "Imperador" e pelo "Imperatriz" e veio para a referida linha coroados, expedição que tive ensejo de mencionar quando de
costeira. minha estada em São Borja.
Quando ouvi o nome "Paraense" como sendo o d o vapor Joaquim Antônio de Morais Dutra, natural da Província
e m que devia fazer a minha viagem para Santos, esperava u m de São Paulo, já estivera, há muitos anos, n o limites da Provín-
péssimo barco, mas, para alegria minha, me enganara; aliás, cia d o Paraná, onde estes, por trás do planalto de Santa Ca-
posso confessar francamente que o "Paraense" me agradou tarina, se apoiam no Uruguai, precisamente naquelas regiões
mais do que os dois vapores acima mencionados, nos quais onde o Iguaçu mais se aproxima do Uruguai e onde tinham os
viajara nas águas meridionais do Brasil. Encontrei-me, sim, seus limites as antigas Missões.
n u m casco velho, mas muito sólido, que, graças às suas largas Ali encontroti ele, em grande quantidade, coroados sel-
proporções, assentava bem na água e manobrava com muita vagens, inteiramente nus. O simples e robiisto criador de gado e
facilidade. A comida e a bebida não tinham a ostentação de lavrador conseguiu entrar com eles em contato muito an~istoso;
outras linhas, mas eram, a meu ver, mais bem preparadas. O amansou-os às centenas, aldeou-os, ensinoii-os a trabalhar e
convés de popa tinha também muito mais espaço para os aliado com o cacique Doble, já várias vezes mencionado, formou
passageiros; podia-se andar desembaraçadamente; em resumo, originalíssima semicultura de uns quinhentos selvagens.
com razão sentia-me completamente satisfeito a bordo do Quase não se pode falar propriamente em usos e costumes
''Paraensel'. numa aglomeração a princípio inteiramente selvagem. A língua
Muito dignos de nota os passageiros que vinham che- deles difere bastante do guarani, embora deste procedam mui-
gando, já desde Antonina. tos elementos linguísticos. Certas denominações importantes,
Agora, em sua maioria, os viajantes do interior da Provín- como, por exemplo, homem, marido, mulher, são inteiramente
cia do Paraná vêm de Curitiba, via Graciosa, para Antonina, e diferentes do guarani.
não mais via Morretes para Paranaguá, quando querem embar- Quando Dutra os encontrou, pareciam pressentir iim ser
car para o Rio; já agora, quando apenas alguns trechos da superior, que charilavani Tupé. Quando Ine ocupei tle Sáo Borjri
estrada nova estão prontos, pode-se inferir, com certeza, que a falei da significação de Tupá. Tupé deve ter a mesma signifi-
futura estrada comercial do planalto para a costa será a via cação. Tinham, pois, a suposição de um Deus sobre si, mas não
Antonina. O s viajantes dessa linha costeira são muito diferen-
92 auINTo CAP~TULO 1858, VIAGEM PELO PARANÁ 93

o investigavam. Reconheciam uma espécie de casamento. salto, mas lá há uma ilha e a um de seus lados se pode navegar.
Quando os pais e irmãos de uma rapariga davam o seu consen- Dutra mostrou-me um mapa interessantíssimo do curso do
timento, o pretendente recebia a sua noiva, sem mais ce- Uruguai entre Passo Fundo e São Borja, mas infelizmente Feito
rimônias, especialmente se era conhecido como bom trepador sem conhecimentos técnicos, sem indicação da direção e das
de árvores e caçador. Mas se uma única pessoa da família era distâncias exatas. Na sua viagem levou mate para vender em
contra o casamento, tinha o pretendente de procurar outra São Borja e, depois de ter apresentado os seus índios ao General
esposa. Geralmente o homem tem mais de uma esposa, fre- Osório, regressou para o seu lugar de residência.
quentemente ciumentas entre si e brigam muito, de modo que Para obter proteção bastante e auxílio em seu singular
eles foram levados a que cada homem só tenha uma; exa- empreendimento, partiu para o Rio, acompanhado de um
tamente conforme os nossos casamentos. coroado e de seu filho de 20 anos. O filho fala perfeitamente a
Todos andavam e ainda andam na maior parte inteira- língua dos coroados. O coroado é um tipo de legitimo índio,
mente nus, embora, segundo Dutra, com o pudor inato às um legitimo china, primo, traço por traço, da grande tribo do
mulheres de todas as nações, as desses selvagens cubram os Império Celeste, mas de rosto cheio, gordo, corpo feminino,
quadris. Afora isso, nenhum cuidado em vestir-se e mesmo as pernas e braços curtos, um homem-mulher de alto a baixo. Tem
moças mostram, sem nenhuma consideração, as formas femin- sobretudo o peito repugnantemente efeminado e todo ele uma
inas, às vezes, muito belas. As narrativas de Dutra me recor- Figura tão desagradável quanto interessante. As três pessoas do
daram as duas nadadoras que vi em minha viagem pelo rio distante Paiquerê - assim chamam os coroados o Paraná -
Uruguai, perto de Itaqui. me pareceram dignas de nota e não me cansava de ouvir falar
Entre eles não há educação infantil especial. Não vai além delas.
do uso da flecha e da lança, pois a caça e as incursões contra os Além desse raro fenômeno do "Oeste da Província do
inimigos, notadamente contra os botocudos, são os traços mais Paraná", me chamava a atenção, a bordo do "Paraense", outro
característicos de sua vida. Fizeram correrias de pilhagem grupo humano. Eram dois oficiais brasileiros com suas esposas
contra os colonos que penetraram nas suas proximidades, e filhos, cujos corpos de tropas tinham sido transferidos da
queimaram as fazendas, assassinaram os homens e raptaram Província do Paraná para o norte do Império, de modo que as
as mulheres que, então, tinham de adaptar-se completamente mencionadas famílias tinham de fazer longa viagem.
à vida selvagem. Quando essas mulheres eram liberadas, po- Despertaram vivamente o meu interesse. Na civilizada
diam levar os filhos consigo, querendo. Todavia algumas delas, Europa ocorrem também essas remoções de tropa, lá também
às vezes, se acostumaram tanto com os selvagens, que ficaram as esposas dos oficiais são obrigadas a desmontar suas casas e,
com eles. com os Filhos, seguirem os maridos, mas lá há caminhos e meios
Graças à influência de Dutra, muita coisa já mudou. de transporte até à estrada de ferro. Não assim com os meus
Moram juntos, num aldeamento, usam roupa, não saqueiam companheiros de viagem! Do remoto interior de Goiás haviam
mais e pode-se confiar neles com segurança, embora ainda eles chegado. Tinham ficado algum tempo no quartel em
furtem objetos de pouca importância. Com esses homens Curitiba e agora deviam viajar até quase ao Equador. Que
semi-civilizados, numa frota de oito canoas, empreendeu Du- viagens fatigantes, primeiro em terra, em caminhos que dificul-
tra a sua expedição a São Borja, 90 léguas rio Uruguai abaixo. tosamente se percorre a cavalo, impossíveis para carros! Depois
Não encontrou estorvo em parte alguma; em certo lugar há um no mar, com muitas criancinhas! Cada senhora, como é fre-
93 QUINTO CAPITULO 1858. VIACEM PELO PARANA 95

quente em casais jovens, amamentava um filho; uma delas, Ao entardecer chegamos a Paranaguá. Os navios grandes
além da criança de peito, tinha mais seis Filhos. Não tinham tinham fundeado a meia milha de distância da cidade, abaixo
criadas. As pobres senhoras enjoaram logo, as crianças de peito de uma cadeia de colinas, numa ilha elevada cujo ancoradouro
choravam e as outras crianças vomitavam e cambaleavam. é bom e seguro, ainda que o afastamento da cidade dificulte
Crianças boas e amáveis, de tão boa índole como nem sempre um pouco a carga e descarga.
se encontra; ajudavam-se mutuamente em seus medos e apu- Brilhava ao longe risonhamente a bonita cidade. Todavia
ros. E, como era muito natural, nós passageiros, em vez de eu náo podia ir a terra na mesma tarde, tanto mais que em
aborrecer-nos com os apuros da meninada, tínhamos os pe- Paranaguá não há hotel onde se possa encontrar hospedagem
quenos em volta de nós e os ajudávamos no que podíamos. Mas certa. E ainda pensava, assustado, no meu barbeiro de Antoni-
admiro a coragem dessas senhoras de oficiais colocadas em tais na. Em nossa vizinhança ancoravam alguns navios. Quanto ao
situações incômodas. Recordam-me as amazonas dos antigos mais a baía tranqüila dava-me a impressão antes de abandono
tempos. Aprenderam a montar e percorrer centenas de milhas do que de movimento comercial.
a cavalo, com uma criança nos braços, e não Ihes causa preocu-
E todavia o vivo movimento comercial que, de certo
pação. Aliás as senhoras prefeririam uma longa viagem através modo, já se faz na baía de Paranagiiá, seiii dúvida se tornara
de províncias solitárias, acampando com as crianças ao relento, cotisidcr,'lvcl. Só rccentcmente n Província do Paraná começa a
a fazerem uma curta viagem marítima. A cavalgadura ser-lhes- tiiovcr-sc IJnrri dcsciivolver siias grandes possibilidades; só re-
ia mais cômoda do que o barco a vapor. centemente se pensa em caminhos para siibir o planalto, como
Caso triste o aparecimento, a bordo, de um louco que eu vimos na estrada sobre a Graciosa; só recentemente se tenta
conhecia de Curitiba. A conselho meu a família mandou-o para trazer para aqui braços humanos para que se efetue o desen-
o grande hospício de alienados da Praia Vermelha, no Rio de volvimento. Até agora foi a natureza que tudo criou e preparou;
Janeiro. Ficava geralmente num Iiigar isolado, na proa, onde a realização pelo trabalho e arte fica para as gerações vindouras.
pouco incomodava os viajantes, embora às vezes os seus gritos Na manhã seguinte olhamos para todas as particulari-
fossem torturantes. Mas nenhum dos passageiros se sentia, ou dades que a baía oferece. Canoas de pescadores sulcavam a
pelo menos se dizia incomodado, pois está profundamente no superfície; pequenas embarcações traziam lenha para aquecer
caráter brasileiro ilimitada compaixão pelos doentes e pelas as nossas caldeiras, outras traziam carga, especialn~entesacos
crianças. de arroz. O que parecia mais maravilhoso era uma canoa
Pelas 3 horas partimos de Antonina em direção E.S.E. O familiar, reacionária da proa à popa, da frente até atrás, um
ar estava cheio de neblina e só indistintamente víamos os picos quadro dos tempos antigos, que, com a cessação do tráfico de
próximos e distantes de serras em torno da baía de Paranaguá. negros da costa da África, está agonizando e, querendo Deus,
Com tempo Iímpido, esta baía é uma das mais belas bacias breve desaparecerá com o progresso da imigração alemã e o
marítimas que se podem ver. Estendendo-se por várias milhas desenvolvimento da lavoura alemã. Na frente da canoa, duas
para todos os lados, a verde superfície da água é recortada por vigorosas negras, que remam virilmente. Uma delas tinha um
genuíno rosto da Costa, sem dúvida procedia de Moçambique.
salit.ncias, cadeias de serra e ilhas, de modo que, viajando-se
Em torno da robusta rapariga tremulava admiravelmente uni
nela o cenário muda constantemente. Quase se poderia com-
vestido de chita de cor, cujas dobras supérÇliias ela prendia
parar o pequeno mar interior com um lago suíço.
entre os joelhos para melhor poder usar o remo. Sobre a cabeça
1858, VIAGEM PELO PAIIANA 97

lanzuda um gigantesco chapéu de palha. Quando a canoa se res; não, porém, os que no baluarte de pedra formam a sua
aproximou de nós, ela, espantada, deixou cair o remo; eviden- guarnição.
temente nunca vira um navio a vapor, nunca ouvira o apito. De fato a estada na fortaleza de Nossa Senhora dos
Na canoa, ao lado da velha dama, certamente senhora da Prazeres é desesperadora. A milhas de distância fica Paranaguá,
tripulação, estavam sentadas algumas mulatas com diversas em toda parte marulha o mar, em parte alguma se vê vestígio
crianças de todos os matizes entre o branco e o negro; uma de sociedade humana. A um sinal dado pelo "Paraense", veio
bonita figura prestava serviços de ama a uma criança branca. até nós uma canoa da fortaleza. Com certa dificuldade recebeu
Atrás um negro meio vestido, tendo na cabeça, enviesado, um ela do vapor uma provisão de milho e voltou, rompendo as
boné colorido, por baixo do qual olhava o alegre rosto brejeiro ondas, para a fortaleza.
de um Davus astuto e folgazão. Havia ainda muitas coisas Do muro da fortaleza doze a dezesseis canhões nos con-
sobre as quais estava a imortal cana, a ática planta do açúcar, templavam, de modo que, em caso de necessidade, a barra pode
que tanto gostam de chupar seja em terra, seja no mar. ser defendida. Outrora a fortaleza estava em muito mau estado.
Lentamente passou por nós aquela canoa e abicou em Quando, nos últimos anos da primeira metade do nosso século,
frente de uma casa de campo. A velha dama foi a primeira a os ingleses procuravam com toda a energia suprimir a impor-
desembarcar e começou a repreender desagradavelmente; até tação de escravos da África para o Brasil e, com numerosos
nós chegava o ruído de seus ralhos. cruzadores, cometeram muitas violências, um navio de guerra
Tudo recorda o imortal Terêncio, para não mencionar o inglês penetrou aqui e aprisionou na baía brasileira três navios.
cáustico Plauto. A navegação matutina na baía de Paranaguá é Mas antes que pudessem ganhar o mar com a presa, armaram-
u m quadro de gênero, tal qual um barco de pesca napolitano se todos os barcos e canoas de Paranaguá e houve diante de
perto de Sorrento, tal qual o nosso navio de pilotagem, quando Nossa Senhora dos Prazeres uma batalha naval e bombardeio
viajávamos com a nossa real e imperial esquadra austríaca entre pela fortaleza, resultando mortos e feridos de ambas as partes.
Cila e Caribdis. Mas onde está o hálito de elegia que sopra entre Um homem de Paranaguá me mostrou, ainda encolerizado, os
a Sicília e a Calábria, onde a notícia dos errores de Ulisses na vestígios das balas inglesas no muro da fortaleza. Parece que,
baía de ParanaguáG! além da violação do direito, naquele tempo também foram
Pelas 10 horas partiu o nosso "Paraense" para o alto mar. ofendidos os seus interesses particulares e, para muita gente, a
A vasta baía de Paranaguá une-se ao mar por vários estreitos, ofensa dos interesses particulares é uma provocação mais viva
dos quais, porém, apenas um é utilizável pelas grandes embar- do que um insulto à bandeira da pátria.
cações, o do centro, entre as ilhas das Peças e do Mel. Embora Isso quisera ter dito a muitos portugueses estabelecidos
pareça isenta de perigo, essa barra sempre exige alguma cautela. e naturalizados no Brasil. Muitos deles devem recordar-se, com
Do seu lado nordeste os recifes estendem-se até longe, água a saudades; dos tempos lucrativos em que ainda florescia o
dentro, ao passo que o lado meridional parece mais tranqüilo. tráfico de escravos com a África e podiam ganhar uma fortuna
A nossa rota, ao partirmos, era S.E. com um carregamento de negros da costa. Muitos ainda dei-
Antes de chegar-se ao mar, passa-se por uma fortaleza na tarão olhares amorosos para Loanda e Inhambana! Natural-
praia, sob alta encosta de pedra, chamada de Nossa Senhora mente, para indivíduos, para os ricos, os proprietários de terras
dos Prazeres. Os que, vindos do mar, penetram na baía e ali se e fazendeiros, era melhor o trabalho escravo. Agora, a lavoura,
acham em águas tranqüilas, podem chamar o lugar dos praze- o trabalho dos braços de imigrantes livres Ihes faz terrível
1858. VIAGEM PELO PARANA 99

concorrência. Sem essa concorrência, sem o ilimitado gozo dos o mar e permite alguma navegação. Ao falarmos sobre Iguape
frutos do trabalho de parte dos que lá trabalham, plantam, e voltaremos a este assunto.
colhem, não é possível o desenvolvimento do Brasil. Ao alvorecer do dia 16 de setembro levantamos ferro na
Com o vento contrário e o mar um pouco agitado, o nosso enseada da Ilha do Abrigo, onde tínhamos passado tranqüila-
navio que, conforme já dissemos, não tinha a força da juven- mente a noite, e avançamos lentamente na esperança de sermos
tude, fez com dificuldade a sua rota para o nordeste e os observados pelo piloto de Cananéia e de sermos conduzidos por
passageiros enjoaram quase sem exceção. Pelas 11 horas da ele para a baía através da perigosa barra. Mas nenhum piloto
noite, depois de passarmos com felicidade por vários pontos apareceu. Algumas ondas muito consideráveis faziam arfar o
críticos, notadamente uma ilha isolada em águas navegáveis, a nosso velho navio; de ambos os lados batiam as ondas e a nossa
situação não era agradável. Então o prudente comandante
Ilha da Figueira, chegamos a uma alta ilha, protegida do sueste
resolveu levar o navio pela perigosa barra, mesmo sem piloto.
pela barra de Cananéia, onde ancoramos e passamos a noite em
Dentro de um quarto de hora era realizada a façanha, embora
completa tranqüilidade. Com toda a razão a ilha se chama do
com susto de parte dos passageiros. A ressaca ficou atrás e o
Abrigo e é bem conhecida de todos os navios que navegam para "Paraense" penetrou tranqüilamente pela entrada do "haff" de
Cananéia e Iguape ou que de qualquer modo tenham de pro- Cananéia, de onde precisamente acabava de sair a canoa do
curar um refúgio naquela latitude. piloto. Navegamos para o norte, em água perfeitamente tran-
A faixa da costa ao norte e ao sul do 25" de latitude sul é qüila, e pouco depois, por trás de uma saliência da serra, víamos
digna de nota. Aqui encontramos uma pronunciada formação o lugarejo Cananéia.
de "haff"12. Começa junto aos 20" 20' de latitude sul e estende- Cananéia está situada sobre uma ilha que fica no "haff".
se para o norte e para o nordeste. A extremidade inferior é um A vila consta de uma velha igreja e de algumas casas e motiva
belo e amplo lago de água salgada, separado do mar por uma uma triste impressão. O lugar já estava fundado em 1500, mas
ilha bastante grande, a Ilha do Cardoso, e a ele ligado por dois nunca teve considerável desenvolvimento, apesar de ser o porto
estreitos. O meridional é o de Superagui, nome que, às vezes, bonito, seguro e profundo. A praia da vila tem, verticalmente,
também se dá à barra setentrional da baía de Paranaguá. uns dezesseis pés de altura e a água na margem é tão profunda,
Ao nordeste da Ilha do Cardoso fica a barra de Cananéia, que grandes embarcações podem encostar bem perto. E con-
que é um perigoso canal. Quem navega da ponta setentrional tudo só havia um navio ancorado ao nosso lado; viam-se,
da Ilha do Abrigo em direção ao noroeste pode bem orientar-se porém, na praia, muitas canoas grandes.
em pleno dia. Mas o canal é estreito e dois bancos de areia Na praia, sobressaiam das águas profundas os destroços
lançam, de ambos os lados; violenta ressaca. do naufrágio de um grande navio. Quando, há poucos meses,
Dessa barra de Cananéia estende-se o "haff" em direção o "Conde de Áquilal', o melhor vapor que navegava na linha
ao nordeste por umas catorze léguas, separado do mar por uma entre Rio e Santa Catarina, acabava de sair de Iguape para
comprida ilha rasa que, na sua massa principal, evidentemente Cananéia, irrompeu fogo a bordo e em poucas horas era ele
é um produto do mar. Na extremidade do nordeste o "haff" de destruido pelas chamas. Diante dos olhos dos passageiros que
modo algum é fechado, antes se liga pela barra de Capara com acabavam de ser salvos, afundou-se no mar o casco ardente.
Ainda aparecem fora da água uma roda e a proa da elegante
12 Haff é uma espécie de laguna, separada do mar por estreita e longa faixa de areia. O
nome éaplicado especialmente a lagunas do Mar Báltico, nacosta da Prússia (Friesclics embarcação e formam uma vista muito desagradável, especial-
Haff, Kurisches Haff e Pommersches Haff). - N. do T. mente para os passageiros que viajam em vapor da mesma linha.
1858, VIAGEM PELO PAKANÁ 101
1O0 QUINTO CAP~TULO
Os habitantes cumprimentam amavclmentc e parecem
O "Paraense", como todos os vapores da linha intermedi- encontrar especial prazer em observar os passageiros do vapor,
ária, tinha de ir a Iguape, de onde deveria voltar a Cananéia e sair o que não se Ihes pode levar a mal, pois a chegada do paquete
pela barra para o alto mar; por isso só ficamos pouco tempo em do rio é o maior acontecimento na vida dos ig~iapenses.Nós
Frente do triste lugarejo. Ihes parecíamos táo dignos d e ser vistos quanto a nós os seus
O "haff" entre Cananéia e Iguape é um estreito lago ou leões de barro.
antes um rio de água salgada de umas doze léguas de extensão, Depois de perambular por meia hora, ocorreu-me a idéia
que o vapor percorreu tranqüilamente em poucas horas. As de que Iguape, por longo tempo, se tornara enfadonho. Num
margens, de ambos os lados, têm poucos pés de altura e sáo pequeno café encontrei um bilhar e - o que muito honra os
cobertas de vegetaçáo um tanto emaranhada. Na terra firme se bons habitantes-uma pequena biblioteca, composta dos mais
elevam, a alguma distância, colinas mais ou menos consi- variados elementos e que pertence a um clube existente na
deráveis, ao passo que a língua de terra, a orladiira de ilhas do cidade. Não é insignificante o número de livros bons, científi-
lado do mar, é inteiramente plana. cos. Ao lado deles se ostentavam i11rrsrrrrr Dcll~lrirri,várias obras
Iguape dá impressão muito diferente de Cananéia e desde de tom mais alegre, e Paulo de I<ock também tinha aqui as
algum tempo foi elevada a categoria de cidade. Até então era honras de cidadania, precisamente como nas bibliotecas de
uma simples vila. ciilpréstimo da Alemanha não faltam os romances de Claurens.
Quando acabamos de ancorar o comandante fez uma Vagueei um pouco até i extremidade nordeste da cidade,
pequena coleta entre os passageiros, a Fim de que houvesse 2 onde um pedregal constitui uma espécie de passeio. Aqui
noite, na igreja iluminada, uma pequena Festa religiosa. Formam a praia bonitos grupos de pedra e oferecem sítios para
Nossa Senhora de Iguape deve ser muito milagrosa, de maravilhosas excursões solitárias. Enormes blocos de pedra
modo que o lugar se tornou um ponto de romaria. De manhã apoiam-se uns nos outros ou pendem uns sobre os outros,
cedo, a milagrosa rainha do céii nos guiara, sem piloto, através formando uma gruta. A margem íngreme é substituída por uma
dos recifes da barra de Cananéia e devia-se agradecer, oficial- depressão, através de cujo terreno pantanoso conduz uma
mente, em sua igreja. E cada iim que tinha de dar graças ao céu vereda de pedras isoladas. Subitamente se chega a uma espécie
concorria de bom grado, alegremente, com seu óbolo. Cons- de campina no meio de altas serras cobertas de mato. Diante
cienciosamente prometemos ao nosso comandante ir à noite à de uma estância solit5ria murmura uma fonte, não se vendo
igreja. Entrementes desembarcamos e visitamos a cidade. ~ x s s o aalguiila; unia canoa se dirige para terra, Fora marulha o
Iguape é uma graciosa e pacífica cidade, bastante regular mar e cm volta hrí uiil silencio mortal; julgar-se-ia esta1 i y i i i i i
e limpa; os 1.500 habitantes moram em casas caiadas, muitas lugar encantado.
delas bonitas e algumas até magníficos sobrados. A mais bela E para quem, vindo do mar, mal póe os pés em terra, mal
casa da cidade, uma soberba casa de esquina, tem, de um lado dá algum passos nesse lugar encantado da praia solitária entre
quinze janelas enfileiradas e, oito a nove, na frente; em cima íngremes serras, que vegetação, que magnífica vegetaçáo!
tem uma "América" e dois terríveis leões, tudo de barro cozido Rivalizam entre si as murtas, palmeiras e cecrópias. Sobre
e esmaltado de branco, que causam um efeito formidável. E, os blocos de pedra, ao lado deles e entre eles, bron~eliáceas,
falando-se das coisas notáveis de Iguape, não devem ser es- calados, melastomáceas, lantanas, apocíneas, asclepiadáceas!
quecidos os leões de barro. Uma soberba eritrina ergue dentre as moitas os seus galhos sem
1858, VIAGEM PELO PARANA 103

Folhas com Flores purpurinas e, ao lado da ardente peralvilha, Quanto tempo fará que os numerosos habitantes primi-
uma anêmica begônia, suspirosa, estende as suas Flores para a tivos da praia de Iguape, os botocudos e coroados, olharam,
luz, ao passo que sobre ambas se debruça uma multicolorida atônitos, para o primeiro europeu que penetrou em suareuniãoL
malpíguia. Aqui, no ermo lugar, a cada passo uma alegria, uma E apenas alguns séculos depois já os descendentes de europeus
íntima satisfação. olhavam, atônitos, para o último coroado que, como um es-
trangeiro, um Fenômeno, um milagre no solo de seu país,
Então soaram os sinos na torre da cidade, chamando-nos
penetrava em sua reunião cristã e, pasmado, os contemplava!
ao "terço", à nossa oração de agradecimento, e regressei rapi-
Digo: o último coroado, pois bem posso considerar todos os
damente à cidade.
coroados vivos, que ainda vagueiam como cadáveres ambulan-
Antes, porém, de chegar à igreja, corri a ver um conhecido, tes, como meros espectros, os últimos de sua outrora poderosa
o engenheiro von Randow, empregado na medição de terras, o tribo. No Brasil também passou o tempo dos peles-vermelhas
único alemão que na época existia na cidade de Iguape, cujo e dominam os Faces pálidas.
encontro não somente era muito agradável, como Foi muito
Sob o estrépito dos Foguetes e o repique dos sinos deixei
interessante.
o bonito templo. Era uma clara noite de luar e tinha agradável
Primeiramente, fomos juntos à nova igreja. Embora ainda aspecto o povo que se dispersava na praça da igreja.
não esteja concluída a nova igreja de Iguape e por isso mesmo
Corii o senhor von Randow fiz uma visita ao Comandante
lhe Falte, mormente na impressão externa total, qualquer har-
Jose Inocêncio Alves Alvim, homem de distinção. Lá nós con-
monia arquitetônica, o interior da nave é limpo e decente com
taram muitas anedotas, algumas muito cômicas, sobre o eclipse
toda a sua simplicidade. A igreja causa uma impressão agra-
do sol. Muita gente acreditava, no dia 7 de setembro, que com
dável, mas muito grave, impressão que ainda não senti em
o eclipse do sol o mundo se subverteria, e se preparou para a
nenhuma igreja brasileira, e que eu chamaria de impressão
morte com cristã resignação. Muitas promessas foram feitas à
protestante. O altar-mor e alguns pequenos altares laterais
milagrosa Mãe de Deus de Iguape e sucedeu aos promitentes o
estavam bem iluminados. Estavam presentes numerosas igua-
que nos sucedeu na barra de Cananéia: atravessamos os recifes
penses, que se ajoelhavam no centro da igreja. Diante do
como eles com Felicidade atravessaram o eclipse. Um homem
altar-mor se ajoelham os passageiros do navio.
da cidade, aliás esclarecido a outros respeitos, a quem disseram
A ladainha, cantada com o acompanhamento de uma que o eclipse só seria total numa estreita Faixa da costa, viajou
Filarmônica, era dissonante, mas isso não perturbava a im- trinta léguas interior a dentro para escapar ao horrível acon-
pressão da igreja, porém me incomodavam os olhares curiosos tecimento e assim, conforme julgava, salvou a vida. Até se
de uns meninos e mulheres para o lugar onde eu estava sozinho. afirmou, de alguns bons paranaguaenses, terem eles acreditado
Em pouco, porém, compreendi a razão disso. Ao meu lado que, visto que o governo mandara vários sábios da Capital e
estava o coroado de bordo, perfeitamente iluminado pela luz um astrônomo vindo especialmente de Paris num vapor de
da igreja, um genuíno Filho das brenhas, que nessa igreja cristã, guerra acompanhado de duas canhoneiras para Paranaguá -
sozinho, era coisa digna de admiração. Imóvel como uma foco principal do eclipse do sol - o eclipse tinha de ser um
estátua de sal, estava ele ali, num pasmo quase sinistro; os seus acontecimento perigoso, cujas conseqüências poderiam ser
pequenos olhos enviesados, antes sem brilho, cintilavam como muito atenuadas pelos sábios e, em caso de necessidade, por
as luzes do altar; a amarela fisionomia mongólica imóvel, mas disparos de artilharia.
o largo e carnudo peito respirava a plenos pulmões.
104 QUINTO CAPITULO 1858, VIAGEM PELO PARANA 1O5

Por mais que se pilheriasse, o eclipse total de 7 de setem- se desenvolveu quase espontaneamente um lugarejo, o Porto
bro não deixou de causar profunda impressão de terror nos do Iguape. Partindo desse portinho, dois pequenos vapores
habitantes da costa de São Paulo e Paraná e muitos julgam ter fazem o tráfego do rio, subindo até ao lugar Xiririca, num
escapado ao grande perigo devido a rápida passagem do Fe- percurso de trinta Iéguas, e trazem produtos agrícolas para
nômeno. armazená-los no Porto do Iguape, de onde depois são transpor-
tados para a cidade de Iguape e de lá para o Rio de Janeiro.
Mas o que acontece com um viajante! A gentil e jovial
senhora do Comandante falou-me, com infinita alegria, de sua Evita-se, pois, assim, o perigo da barra da Ribeira, embora
influência política; de como a outrora Vila de Iguape deve aos pequenas embarcações costeiras entrem no rio Iguape.
seus esforços e pequenas maquinações ter-se tornado cidade, a Mas pretendeu-se evitar mesmo o pequeno caminho do
qual precisava de ter uma boa barra própria. E então recebi a porto à cidade de Iguape e fez-se um canal do "haff" à lagoa do
severa ordem de, no Rio, agir com toda a energia para que a rio, de modo que as canoas podem ir diretamente de Iguape ao
barra de Capara, que forrna a entrada natural para o porto de rio e subi-lo, evitando qualquer perigo de navegação. Todavia
Iguape, seja estudada, medida e provida de um piloto. as margens do canal ainda não estão bastante firmes para que
Prometi-o em sã consciência e despedimo-nos como bons seja utilizado constantemente. Por isso o breve caminho con-
amigos. Eu queria regressar para bordo. Soube então que o tinua a ser a ligação segura do rio com o mar e mais tarde pode
"Paraense" na manhã seguinte ainda receberia carga e que o ser muito facilitado, sendo necessário, com uma via Férrea. O
nosso Comandante queria aproveitar as horas da manhã para solo até o rio é firme e perfeitamente plano.
tomar algumas medidas da referida entrada. Podia eu assim Com tão belas vantagens, que oferece um rio costeiro
atender mui tranqüilamente o amável convite do senhor von aparentemente tão insignificante, o rio Iguape não Faculta
Randow de passar a noite em sua residência e tanto mais que, somente com o seu curso principal o desenvolvimento daquela
com mais algumas horas de estada, eu podia informar-me sobre região. Um afluente meridional, o Jacupiranga, que por sua vez
vários empreendimentos de considerável utilidade para o de- recebe um afluente, o rio da Canja, é também navegável para
senvolvimento daquela região. canoas. Essa ramificação de rios, não grandes, porém muito
Logo ao norte da barra de Capara desemboca um rio no utilizável - precisamente muito utilizável por não serem os
mar, o rio Iguape, que, por pouca extensão que pareça ter no rios grandes nem impetuosos - serve uma vasta região entre-
mapa, é de grande importância para toda a região. Os seus meada de colinas e serras de especial fertilidade.
últimos confluentes vêm das serras de São Paulo e Curitiba e Devido a pouca vistosidade da região, escondida atrás do
aquele Araçungi ou Açungi, de cuja região e respectiva coloni- "haff" e do rio Iguape, aquela terra ficou até hoje em mãos do
zação já falei, é precisamente um de seus afluentes. governo. Com o crescente progresso da lavoura alemã nas
O curso muito sinuoso do rio atravessa regiões férteis, províncias do sul do Brasil e, ao mesmo tempo, a já vultosa
nas quais, além de todos os demais produtos agrícolas, se imigração iniciada para lá, a Direção das Terras Livres, para
cultiva especialmente o arroz. Algumas milhas antes da sua poder atender imediatamente os pedidos dos recém-chegados,
embocadura no mar, na barra da Ribeira, que não C isenta de mandou medir um terreno de duas Iéguas quadradas em pe-
perigo, o rio, tomando a extensão de um lago, chega tão perto quenas seções ao sul do rio, a três léguas ao oeste da cidade de
da cidade de Iguape, que é preciso apenas meia milha para se Iguape, no território banhado pelo Canja e pelo Jacupiranga. A
chegar àquele lago. Conduz até lá um excelente caminho. Ali execução dos trabalhos foi entregue ao senhor von Randow.
1858, VIAGEM PELO PARANÁ 107

Pelos cuidadosos desenhos e mapas preparados por esse A estrada do Iguape vai em linha reta até esse singular
trabalhador alemão pude obter uma idéia dessa nova colônia. porto de água doce; não é propriamente uma estrada, mas uma
As seções são de 500 braças de largura e de fundo e formam, longa praça relvada, firme, em cujas margens crescem, no solo
pois, fazendas, para colonos, muito apreciáveis, especialmente pouco aproveitado, matagais de melastomáceas e de várias
comparadas com os escassos e malsãos pedaços de terra que, outras plantas tropicais. Nos lugares abertos, pastam reses.
por ávido interesse particular, os especuladores de terras ven- Não se pode deixar de ver, na faixa de terra, a preguiça de seus
dem aos imigrantes. Com belas e grandes porções de terra deve donos. No solo frouxo poder-se-iam cultivar mandioca e aipim
começar o trabalho alemão; pai e filhos devem atacar o seu rico com as próprias mãos e com grande lucro. Mas, em vez disso,
solo viribirs tinitis e não correr um para lá e outro para cá preferem comprar o arroz que desce do rio e dedicar-se a todo
gênero de pequenos negócios na cidade. Outros, num modifi-
procurando um escasso pedaço de solo num país onde, desde
cado dolce fnr lrierrte, preferem passar o dia numa canoa, pes-
séculos, um solo ainda intacto anseia, na verdade grita por
cando e secando peixe salgado, quase à moda do bacalhau
braços humanos para o desenvolvimento.
nórdico, mas em pequena escala. Para essa gente a lavoura é
Isso adiante de Iguape! Em distância ainda menor e da sempre penosa em toda parte, bem que reconheçam o seu valor;
mesma maneira e também no mesmo "haff" foi medido adiante não discutem a sua alta importância, e compreendem perfei-
de Cananéia um terreno de duas léguas quadradas. Agradeço à tamente o valor do trabalho agrícola livre. Invejam o trabalho
bondade de nosso compatriota um bonito mapa de orientação da imigração alemã.
daquela região e das terras medidas. Logo que a colônia se No Porto de Iguape presenciei bonita e calma cena mati-
estabeleça e desenvolva, os dois estabelecimentos, o de Iguape nal. Estava na praia um barco a vapor e bem perto dele um
e o de Cananéia, podem, em expansão excêntrica, tocar-se navio de cabotagem. Sobre a superfície da lagoa, cuja margem
dentro de pouco tempo e, crescendo, representar uma terra de oposta ainda estava envolta no nevoeiro matutino, passavam
cultura de primeira importância. canoas. Cantos de galos denunciavam, porém, que do outro
Trata-se, em primeiro lugar, de saber onde serão construí- lado havia habitações humanas. Por cima das brancas massas
das as casas de recepção para os dois pontos ainda separados e de vapores se elevavam colinas cobertas de mato, que brilha-
no entanto tão ligados. Parece que, para esse fim, a região de vam, pingando orvalho, aos raios do sol nascente.
Cananéia é preferida à de Iguape. Naturalmente fica mais perto Formam o porto várias casas e armazéns. Naturalmente,
do tráfego marítimo, embora apenas algumas horas, pois a tudo está no começo, ainda em formação. Em toda parte se
dificuldade da barra de Capara - entrada natural para Iguape sente a falta de braços humanos livres, mas se vê o que será, o
- torna este porto mais distante do mar do que Cananéia. que deve e precisa ser quando vierem braços humanos.
Pode, pois, ser que tenha toda a razão aquela genuína Examinei também o pequeno canal. Primeiro que tudo,
patriota senhora do Comandante Alvim quando me deu ordem deve ser difícil dar-lhe estabilidade: as margens são arenosas e,
de tratar solicitamente, no rio, da barra de Capara. com a escavação que foi feita, abatem continuamente, sobre-
Quando, na manhã seguinte (17 de setembro), eu quis ir tudo quando se eleva um pouco o nível habitual das águas.
para bordo, o nosso Comandante tinha partido para a barra de Todavia as canoas podem utilizá-lo. Com o maior desen-
Capara, com o aparelho necessário, para fazer as medições. volvimento do trafego, eu preferia uma via férrea.
Podia eu, pois, dar ainda um passeio, com o senhor von Ran- Durante horas esperamos, a bordo, pelo nosso coman-
dow, ao Porto de Iguape, na lagoa do rio do mesmo nome. dante. Soprou um vento sudeste bastante forte; por trás da
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língua de terra ouvíamos o mar quebrar-se com mais força e já bivalves, entre os quais se escondem, no limo aderente, nu-
nos preocupávamos com o nosso capitão, quando o seu bote merosos anelídeos marinhos. Em formações mais finas ocorrem
contornou a última curva da língua de terra. igualmente formas zoofíticas ao lado de tenras formações de
A sua ambição náutica estava vivamente excitada. Já uma plantas marinhas, quase como finos e articulados cerâmicos.
vez dois navios desta linha costeira, o "Catarinense" e o "Conde Quando, em 1855, sob bandeira de guerra francesa, viajei do
de Áquilan, tinham utilizado a barra de Capara para entrar no Rio para Brest, muito nos divertia pescar, no mar de sargaço,
"hafF de Cananéia, evitando, assim, 28 léguas de rota. Talvez fucos com as suas legiões de autozoários e outros seres, sobre
os comandantes de ambos aqueles navios conhecessem melhor os quais o meu nobre amigo Burmeister fez, na mesma região,
a barra, talvez fosse preamar; não sei ao certo, mas fora tão inteligentes observações que depois burilou e publicou em
mostrada e provada a possibilidade de atravessar aquela barra. seu "OCE(III'~.
O nosso comandante encontrara 21/2 toesas, mas a entrada, o Pelas 11 horas deixamos a singular Lagoa de Cananéia e
canal da barra, lhe parecia demasiado sinuoso para que ousasse Iguape e o piloto conduziu-nos pela barra e recifes fora para o
navegá-la com o "Paraense" e assim tivemos de partir de novo mar aberto até a Ilha do Abrigo. A pequena canoa do piloto e
para Cananéia. Afinal, era prudente, apesar de um rodeio de 28 de seus dois companheiros fora içada pelo "Paraense". Bai-
Iéguas. Porque se o "Paraense", um casco velho, tão velho como xaram-na. Com grande Iiabilidade os pilotos a alcançaram e
a capa de montar do célebre Mantellied, batesse, ao sair, num afastaram-se com felicidade do vapor trepidante. Um momento
banco de areia, com certeza naufragaria, deixando-nos em depois estava a vela desfraldada e o tronco de murta escavado,
condições muito precárias. como um verdadeiro talassídromo, saltava habilmente sobre a
Partimos, pois, de Iguape pelas 3 horas da tarde em calma superfície ondulada e às vezes parecia afundar-se no salso
navegação fluvial. Ao anoitecer devíamos fazer alto num ponto elemento, acompanhado de pitos de angustia de parte dos
para receber lenha. Essa demora foi aborrecida. Fui dormir e passageiros de bom coração.
quando despertei na manhã seguinte e abri a porta do meu Com um tempo maravilhoso seguinlos em rumo nor-
camarote, brilhava uma aurora dourada sobre Cananéia. deste, ao longo da costa que se afastava. Um ligeiro vento fresco
Passamos algumas monótonas horas da manhã em Frente S.S.E. enfunou com alguma força duas de nossas velas, o mar
do velho lugarejo, mas divertia-nos o movimento na praia e na pouco agitado fazia o nosso navio arfar levemente e nada
água. Quando faltam acontecimentos grandiosos, divertem- perturbava a nossa alegria no magnífico elemento verde, do
nos um grupo de crianças brincando, peixes saltando fora da qual se elevavam ao noroeste belas serras de nevoento con-
água e as gaivotas que os perseguem. Em Iguape comprara uma torno. Quando, pelo fim da tarde, reconhecemos a costa dis-
grande tartaruga ~ ~ d a sgravemente
' ~ , ferida na cabeça, da tante de Iguape, no lado ao norte da barra de Capara, podíanlos
qual eu queria salvar pelo menos o casco. Mas o pescador com alguma probabilidade fixar a nossa chegada a Santos para
estragou a couraça do ventre do grande animal, de modo que a manhã seg~iinte.E, alegres, fomos todos para a cama.
só pude aproveitar a couraça dorsal. Pela nieia-noite me despertou um forte estrondo de tro-
A couraça dorsal é uma pequena praia, um pequeno vão. Em volta desciam relâmpagos sobre o oceano e um vento
museu zoológico. Há, sobre ela, uma multidão de cirrípedes e do nordeste que soprava em nossa direção, assinalava o hori-
zonte do mar na meia obscurecida noite de lua. Lentamente,
13 Suruanã (Chelone mydas). - N. do T. mas em maiores dimensões, subia e descia o nosso navio. Não
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1858, VIACEM PELO PARANA

era uma tempestade no mar, mais ou menos como ocorre em outeiros em parte outeiros pedregosos da grande ilha de Santo
todas as viagens marítimas. E todavia a tempestade se ajuntava Amaro, ao passo que ao oeste limita o braço de mar um solo
a inquietação. O vapor era uma velha carcaça; dele não se podia plano e verdejante. Ali, no alto, se vê sobre um belo outeiro
esperar muito. Demais, o vento nos era contrário e, para uma capela de Monte Serrat, a cujo sopé fica Santos.
justificar completamente a nossa inquietação, nos encontrá-
Diante de uma fortaleza situada numa íngreme encosta
vamos precisamente na latitude e altura de uma regiáo que é
pedregosa, o, barco que entra é chamado e depois visitado.
perigosa para os que nela navegam de noite e com nevoeiro.
Parece cada vez mais habitada a costa verdejante, por trás da
A umas dez milhas geográficas ao sul de Santos existe no qual se estende, a distância de algumas milhas, como um forte
mar um grupo de rochedos dividido em duas partes, chamado baluarte, a serra de São Paulo. Dobra-se, então, para leste e
-as Queimadas, com as quais se deve ter muito cuidado para para-se diante de Santos, que se estende numa extensa linha
não arriscar vidas e bens. Exatamente ali devíamos estar, O ao longo do mar. Despedi-me de meus companheiros de viagem
"Paraensel' marchou com meia força e olhava-se para todos os e fui para terra.
lados. Mas caía uma pesada chuva que nos obrigou a ir para o
Como porto principal da grande Província de São Paulo,
camarote.
Santos é decerto conhecida no comércio mundial e entre agente
Maravilhoso instrumento é a agulha magnética, maravi- que lê para que me seja necessário dar informações precisas
lhosa debaixo da terra, no meio da floresta, no meio da noite sobre ela.
tempestuosa no mar, no meio da planície relvada americana.
A cidade tem cerca de 7.000 habitantes. Estende-se ao
Sentei-me no camarote, tendo diante de mim o meu mapa e a
longo da baía de S.S.E. para N.N.O. com um considerável
minha bússola portátil, que mostrava E.N.E. Depois virou ela
comprimento, sem muita largura. Algumas, aliás muitas casas
OU,antes, virou o nosso barco um semicírculo para S.O.,
são bonitas e vistosas; muitas ruas são retas e largas mas, no
dizendo-me assim, com precisão, em baixo, dentro do navio,
conjunto, Santos ficou muito aquém de minha expectativa.
que em cima do mastro, tinham visto as Queimadas pre-
Que uma cidade de 7.000 habitantes não tenha palácios e
cisamente na rota de nossa embarcaçáo, afastando-se delas.
grandes catedrais, é muito compreensível. Convenho até que
E assim era. Não distante de nós podiam-se ver, à luz dos Santos tem edifícios públicos condignos, igrejas, conventos,
relâmpagos, os funestos rochedos da Queimada Pequena. Um etc., que quase não seriam de esperar em cidade tão pequena.
forte aguaceiro acalmou o mar e pelas 2 horas os passageiros Refiro-me aqui a coisa muito diversa; tenho de censurar aqui
foram deitar-se. um caso muito especial.
A tempestade, embora moderada, durou toda a noite. Ao Subam comigo ao íngreme outeiro da igreja de Monte
romper do dia tornou-se mais violenta. Os elementos desen- Serrat ou Montserrat. Temos diante um quadro encantador,
cadeavam-se, cada vez mais fortes, contra nós, mas cada vez quase majestático. Ao sul e ao sudeste fica o oloroso mar. O
mais nos aproximávamos da bacia protetora; desenhavam-se braço do mar penetra na terra, sinuoso como um rio, primeiro
mais claramente, entre as nuvens, os contornos das escarpadas para o norte e depois para o noroeste e forma várias enseadas
serras, é com um mar suavemente encrespado, penetramos na e reentrâncias. Mas o contorno imediato da baía de pouca
baía de Santos! correnteza, de pouco fluxo e refluxo, de pouco vento, é uma
A entrada da baía de Santos é efetivamente notável por terra plana, pantanosa, em torno da qual se erguem uma serra
causa de sua beleza natural. Do lado de leste elevam-se os muito escarpada e outras serras.
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1858, VIAGEM PELO PARANA 113
Por mais graciosa que seja a paisagem que se desfruta do
alto do Monte Serrat, jamais se lhe pode atribuir o conceito de se via, o que me causou estranheza. Um comandante conscien-
região salubre. Ao contrário, forma uma caldeira com todos os cioso, quando pisa a suja praia da alfândega, não tem nada de
ingredientes com os quais o sol tropical pode guisar uma mais urgente a Fazer do que despachar os seus papéis e ir-se,
multidão de matérias infecciosas. para não por em perigo a vida da sua gente.
E nisso eficazmente cooperam os homens. Do outeiro se O principal artigo de Santos, para a exportação, é ainda
avistam, em baixo, em quase todos os pátios e hortas, lugares o café. Por ano são exportados 160.000 sacos. Outros artigos,
pantanosos, fossas sujas, poças de águas estagnadas. Mas isso como o açúcar, o tabaco, etc., não alcançam volume impor-
não é nada ou apenas amargamente pouco. tante. Com os vapores da linha regular seguem gêneros alimen-
tícios para o Rio, inclusive grande quantidade de toucinho.
A flor da porcaria encontra-se na praia, no cais da cidade.
Aqui é realmente de pasmar. Em toda parte imundície, em toda A importação de todos os produtos industriais europeus
parte fedor, em todos os cantos e recantos matérias pútridas! imagináveis é feita em parte diretamente, mas em maior quan-
E ainda se queixa a gente de ser perseguida pela febre! Que tidade indiretamente, via Rio de Janeiro, cuja forte expansão
magnífico solo deve encontrar o germe da febre que entra aqui comercial evidentemente pesa um pouco sobre Santos e fica no
e como deve ser difícil, aqui, que os não aclimados escapem 2 caminho deste centro comercial de segunda classe.
febre amarela! Como ainda em 1850 assustava desesperadora- É da maior importância para Santos o seu intenso tráfego
mente a simples palavra - febre amarela - no Brasil! E hoje, de navegaçáo com o Rio de Janeiro. Quase não se passam três
passados apenas sete a oito anos, constrói-se ~ i n ltemplo à dias sem que dali chegue ou para lá siga um vapor. O mo-
deusa Febris e conscienciosamente se praticam os seus mis- vimento de passageiros é considerável por causa da capital de
térios na praia imunda de Santos. São Paulo e de toda a Província, cujos habitantes, cada vez mais,
Quando, antes de minha partida, sua excelência o senhor preferem a viagem de 24 horas por mar ao fatigante caminho
Ministro Presidente Marquês de Olinda pediu a minha opinião por terra de duas a três semanas para o Rio de Janeiro.
sobre os meios e processos para afastar da costa brasileira a Dados mais precisos sobre todc esse comércio e na-
minha figadal inimiga desde anos - a febre amarela - eu vegação reservo para mais tarde, se tiver oportunidade de
acreditava na possibilidade dessa expulsão e disse algo a res- compor uma obra estatística sobre o Brasil.
peito, mas então não pensava que, numa conhecida cidade Santos tem um hospital municipal. Poderá ser suficiente
comercial, dentro da zona da febre amarela, se tolerava tal para as necessidades da pequena cidade, mas deixa muito a
acúmulo de fétida imundície. desejar. Em particular fica muito perto do outeiro de Monte
Primeiro é preciso que Santos seja castigada pelo seu Serrat e mesmo por isso me pareceu milito úmido. Parece que
crime contra a saúde pública, antes que mereça libertar-se dó náo são isoladas as doenças cujas emanações podem ser nocivas
flagelo da febre amarela e antes que um médico viajante possa a terceiros. Numa sala havia variolosos misturados com outros
dizer qualquer coisa de bem da cidade. doentes. Dc resto, não faz muito tempo era a mesma prática
O movimento comercial de Santos é bastante consi- seguida no Rio dc Janeiro.
derável, embora, pessoalmente, nada tenha visto de impor- Conheci poucas pessoas em Santos. Tive o prazer de rever
tante. No porto havia um brigue norueguês, dois vapores e uma antigos conhecidos, entre os quais saliento, com alegria e
velha barca totalmente desmantelada; nenhum outro mastro gratidão, os senhores Wedeltind e dr. von der Meden. O último
exerce em Santos a arte hipocrática com zelo e circunspecção.
Devo à sua hospitalidade uma agradável residência na casa do
doutor, cuja família estava ausente, no campo.
Fiz também uma ou outra visita a novos conhecidos,
algumas muito agradáveis e alegres. Parece-me no entanto, que
é preciso viver muito tempo em Santos para poder gozar de
relações sociais agradáveis, embora me tenham cochichado
que, quanto à vida social, Santos é uma cidade incolor, hor-
rivelmente aborrecida e tanto mais o parece ser quanto mais
tempo lá se vive.
Famílias, não conheci. Parece que entre elas não há re-
lações fáceis. Os alemães de Santos - devem viver lá uns
sessenta a oitenta de todas as categorias - parecem muito
isolados do mundo brasileiro, vivendo entre si. Por isso não se
pode falar de uma vida alemã em Santos. Ocupam-se calma,
tranqüila e sensatamente de seus interesses comerciais, pare-
cendo pesar-lhes certa crise comercial; em resumo: uma sadia
vida alemã, uma aproximação para estímulo mútuo, a for-
mação de uma vida familiar alemã, náo vi em parte alguma. O
único empreendimento que devo assinalar entre os alemães -
na maioria protestantes -como expressão de vida em comum,
é que fundaram um cemitério protestante. Parece-me ser um
monumento de vida alemã e por isso julguei que, de passagem,
devia referir-me a ele. Enquanto, porém, for essa a única vida
alemã em comum, desejo aos meus amigos alemães de Santos
que agora passem ao largo do Céstio e que mais tarde desçam
para o Orco em terra alemá. Eu, de minha parte, não gostaria
de ser enterrado em Santos!
"Fue Rafael Greca de Macedo quien,
emulado por los logros de su
predecesor, se ha lanzado a construir
unas bibliotecas para ñiños enforma de
empinadosfaros, multicolores y
vertiginosas @ara quien sufre de mal
de altura). Él me assegura que han sido
diseñadas tomando como inspiración a
la primera biblioteca que recuerda la
história, la de Alejandría, y yo le creo.
iPor qué no le creería, después de
haber visto con mis propios ojos que era
cierto que Curitiba tiene una Ópera
construida no con mármol nifierro ni
concreto sino con alambre?"

Mari0 Vargar Ll
w '

(Premio Nobel)