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AS BEM-AVENTURANÇAS EM MATEUS

Uma proposta de estrutura literária

por

Paulo Roberto Garcia

em cumprimento parcial das exigências de Pós-Graduação e Pesquisa

para a obtenção do grau de Mestre em Ciências da Religião

Instituto Metodista de Ensino Superior

São Bernardo do Campo, SP, Brasil

1995
BANCA EXAMINADORA

_________________________
Presidente

_________________________
1º examinador

_________________________
2º examinador
GARCIA, Paulo Roberto, As bem-aventuranças em Mateus - Uma

proposta de estrutura literária, São Bernardo do Campo, Instituto Metodista de

Ensino Superior - IMS, 1995.

SINOPSE

A estrutura literária, como parte da exegese bíblica, não se constitui em

elemento fundamental da pesquisa latino-americana. Já as bem-aventuranças

em Mateus têm recebido um olhar de desconfiança à proporção que, ao

apresentar sua primeira bem-aventurança voltada aos pobres em espírito,

parece apontar para uma espiritualização das palavras de Jesus. Na verdade,

tanto a primeira afirmação, sobre a estrutura, como a segunda, sobre as bem-

aventuranças, se constituem em desafios a serem superados. A estrutura

literária é um elemento importante, na medida em que as propostas de

estrutura relacionam-se com as hipóteses de compreensão do texto. Já as

bem-aventuranças de Mateus se constituem em um código de pertença a uma

comunidade que vive o discipulado radical. Isso pode ser percebido quando se

procura estudar o texto a partir de uma estrutura que nele não é muito

explorada: o quiasmo.
GARCIA, Paulo Roberto, The Matthew’s beatitudes - a proposed Literary

structure, São Bernardo do Campo, Instituto Ecumênico de Pós-graduação em

Ciências da Religião, 1995.

ABSTRACT

The literary structure, as part of biblical exegesis, does not constitute a

fundamental element of Latin American research. The beatitudes in Matthew

have received looks of distrust to the degree that, in presenting its first blessing

directed to the poor in spirit, it appears to point to a spiritualization of the words

of Jesus. In truth, as much the first affirmation, about structure, as the second,

about the blessings, constitute challenges to be overcome. The literary

structure is an important element because in the proposal of the structure to be

connect with the hypotheses fo the comprehension of the text. Already the

beatitudes of Matthew constitute a code pertaining to a community of radical

discipleship. This can be perceived when studying the text on the thesis of a

structure that has not been well explored: chiasmus.


Agradecimentos

A Deus, pela força do Espírito que sopra sobre o continente e alimenta a

esperança, mesmo contra toda desesperança.

A Margarida, companheira, amada, luz de meu caminho. Aquela que

acompanhou, incentivou e valorizou o processo de produção deste trabalho.

Ao Paulo André e A Michelle, meus filhos, que nas interrupções durante a

execução deste trabalho me lembravam da vida, do amor e das relações entre

as pessoas, elementos fundamentais para que Bíblia e vida caminhem juntas.

Ao Archibald, meu orientador. Professor, orientador e amigo, que gastou

de seu tempo e de seu saber na orientação.

Ao Milton Schwantes, professor e amigo. Que muito me ensinou sobre a

leitura popular da Bíblia e pelo incentivo a retomar o mestrado nesta instituição

de ensino.

Ao Paulo Nogueira, professor e amigo. Pela companhia no trabalho

docente e pelo tempo gasto em trocar idéias sobre este trabalho.

A Faculdade de Teologia, que me ofereceu condições de fazer esse

curso e de elaborar este trabalho.


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 6

A professores e professoras da Faculdade de Teologia, que participaram

de minha formação e compartilharam comigo a carreira docente. Aqui, furto-me

de mencionar nomes, pois foram muitos.

A Igreja Metodista, lugar onde minha vida ganhou novo sentido, e onde

eu descobri a fé, a esperança e a Bíblia.

Ao Programa de Assessoria A Pastoral do Cedi (Centro Ecumênico de

Documentação e Informação), onde aprendi muito com os irmãos e irmãs

amigos(as), que muito me incentivaram.

Ao Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião, onde

foi possível realizar este curso.

A Janidair, secretária do IEPG, que me orientou nas questões

burocráticas acadêmicas com paciência e bom humor.

A tantos outros e outras que participaram desse processo.


SUMÁRIO

SINOPSE ..................................................................................................................................................... 3

ABSTRACT ................................................................................................................................................ 4

AGRADECIMENTOS ............................................................................................................................... 5

INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................... 9
AS MOTIVAÇÕES ...................................................................................................................................... 9
1. O desafio de abordar um texto de um Evangelho ................................................................................ 9
2. A motivação de trabalhar as bem-aventuranças ................................................................................ 13
3. O desafio de olhar o texto a partir da estrutura literária .................................................................. 14
CAPÍTULO I ............................................................................................................................................ 16
ABORDAGEM LITERÁRIA ..................................................................................................................... 16
1. TRADUÇÃO ....................................................................................................................................... 16
2. COMPARAÇÃO ENTRE OS TEXTOS DE MATEUS E LUCAS ........................................................ 17
2.1 Primeira bem-aventurança ............................................................................................................................ 21
2.2 Segunda bem-aventurança ............................................................................................................................. 22
2.3 Terceira bem-aventurança ............................................................................................................................. 24
2.4 Quarta bem-aventurança................................................................................................................................ 25
2.5 Quinta, sexta e sétima bem-aventurança........................................................................................................ 27
2.6 Oitava bem-aventurança ................................................................................................................................ 29
CAPÍTULO II ........................................................................................................................................... 32
DELIMITAÇÃO E ESTRUTURA LITERÁRIA ....................................................................................... 32
1. Nove bem-aventuranças ..................................................................................................................... 32
1.1. Problemas literários dos versículos 11 e 12 ................................................................................................. 33
1.2. Propostas de estruturação em nove bem-aventuranças ................................................................................. 35
2. Sete bem-aventuranças com uma glosa .............................................................................................. 36
2.1. Problemas literários em relação às bem-aventuranças aos mansos e aos versículos 11 e 12 ........................ 37
3. Oito bem-aventuranças ...................................................................................................................... 39
3.1 Oito divididas em duas sequências de quatro ................................................................................................ 40
3.2 Oito bem-aventuranças formando um quiasmo ............................................................................................. 42
CAPÍTULO III ......................................................................................................................................... 44
A ESTRUTURA DAS BEM-AVENTURANÇAS - UM QUIASMO ......................................................... 44
1. Pobres em espírito e perseguidos por causa da justiça...................................................................... 48
1.1. Bem-aventurados.......................................................................................................................................... 48
1.2. Pobres em espírito e perseguidos por causa da justiça ................................................................................. 50
1.2.1. Em espírito ............................................................................................................................................ 50
1.2.2. Justo ...................................................................................................................................................... 57
1.2.3. A convergência dos termos - o conflito no campo social ...................................................................... 60
2.1. Aflitos........................................................................................................................................................... 64
2.2. Fazedores da Paz .......................................................................................................................................... 67
3. Mansos e puros de coração ................................................................................................................ 69
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3.1. Mansos ......................................................................................................................................................... 70


3.1.1. O Manso em I Pedro ............................................................................................................................. 70
3.1.2 O manso em Mateus............................................................................................................................... 72
3.2. Puros de Coração ......................................................................................................................................... 77
3.2.1. Pureza e coração ................................................................................................................................... 79
3.3. Pureza de coração e mansos - uma conclusão .............................................................................................. 82
4. Famintos e sedentos de justiça e os misericordiosos ......................................................................... 84
4.1. Os misericordiosos ....................................................................................................................................... 84
4.2. Os famintos e sedentos de justiça ................................................................................................................. 86
4.3. Serão fartos e serão misericordiados ............................................................................................................ 88
CONCLUSÃO .......................................................................................................................................... 92

BIBLIOGRAFIA .................................................................................................................................... 101


INTRODUÇÃO

AS MOTIVAÇÕES

Por que estudar um texto neotestamentário tão conhecido como o das

bem-aventuranças de Mateus?

As bem-aventuranças de Mateus, junto com o Pai Nosso e o Salmo 23,

formam um grupo de textos conhecidos em todo o mundo, tanto por cristãos e

cristãs, como por aqueles e aquelas que não professam a fé cristã.

Isso, por si só, já é um grande desafio: estudar um texto com tantas

interpretações diferentes. Mas, reconhecemos ainda três desafios que o texto

nos coloca, e que veremos a seguir:

1. O DESAFIO DE ABORDAR UM TEXTO DE UM EVANGELHO

A leitura bíblica na América Latina tem vivido nos últimos anos um

período que alguns denominam de primavera bíblica. Em todos os rincões da

América Latina a Bíblia foi sendo redescoberta, retrabalhada. Pela porta dos

fundos os povos dos países desse nosso continente foram adentrando na

leitura da Bíblia1.

Nesse movimento, uma característica marcante foi a grande produção de

textos oriundos da reflexão popular da Bíblia. Multiplicaram-se as publicações,

1 Mesters, Carlos. Por traz das palavras. p. 13 a 19.


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 10

cursos, encontros e outras atividades ligadas à Bíblia. A porta de entrada que

esse movimento usou .foi o Antigo Testamento2. A partir do Êxodo, a Bíblia foi

se abrindo ao continente, motivando grupos, fortalecendo esperanças.

Não é de se estranhar que do Antigo Testamento foram surgindo

trabalhos mais profundos e sistematizados. O saber acumulado foi provocando

a reflexão e a sistematização pelos biblistas latino-americanos.

Contudo, o quadro da produção bíblica no continente tem mudado nos

últimos anos. Baseado na Bibliografia Bíblica Latino-Americana,3 uma

publicação que desde 1989 faz um levantamento da produção bíblica na

América Latina, montamos o quadro abaixo.

2 Os nomes dos biblistas que veiculavam esse nova reflexão estavam ligados ao Antigo Testamento.
Nomes como Milton Schwantes, Carlos Mesters, Frei Gorgulho, entre outros, foram responsáveis pela
redescoberta da Bíblia e do Antigo Testamento no Brasil e na América Latina.
3 Schwantes, Milton, et alli, Bibliografia Bíblica Latino-Americana. Volumes 1 a 5.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 11

QUADRO DEMONSTRATIVO DE PRODUÇÃO NA ÁREA BÍBLICA4

ANO ANTIGO TESTAMENTO NOVO TESTAMENTO

Penta Histór. Profét Escrito Deut Total Ev/Atos Paulo Catól. Apocal Total

t . .

Mat.

1988 80 26 86 92 4 322 308 54 94 11 8 623

1989 76 30 91 88 11 332 553 100 97 28 26 823

1990 139 43 140 119 17 514 805 238 149 26 39 1197

1991 162 32 136 229 11 650 651 92 150 24 22 983

1992 144 52 142 72 6 477 680 111 117 41 29 979

601 183 595 600 49 2295 2997 595 607 130 124 4605

Observações:
1. Na coluna dos Evangelhos e Atos, os números correspondem à soma de Mateus, Marcos, Lucas, João e
Atos.
2. A divisão agrupando os livros da Bíblia é a mesma usada pela Bibliografia Bíblica Latino-Americana.

Pelo dados levantados podemos perceber que a produção e a reflexão

bíblica têm, nos últimos cinco anos, se concentrado no Novo Testamento. Os

títulos produzidos no espaço neotestamentário correspondem ao dobro dos

produzidos no escopo veterotestamentário.

Percebemos ainda que a produção baseada nos Evangelhos respondem

por 65% de todos os títulos na área neotestamentária. Mateus tem o mesmo

número de títulos que os dedicados ao conjunto dos profetas.

4 Conforme fonte citada acima.


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 12

Essa vasta produção tem uma característica marcante. Dos artigos que

enfocam os Evangelhos, a maior parte se constitui de reflexões, roteiros

homiléticos e pequenas meditações.

Isso aponta a um desafio: do mesmo modo que no Antigo Testamento,

onde a reflexão popular criou um saber que provocou o surgimento de

trabalhos sistematizados, é necessário reflexões sistematizadas na área

neotestamentária.

Poderíamos, apontar alguns exemplos disto. O primeiro, vemos na série

"Comentário Bíblico"5. Para atingir o objetivo de comentar toda a Bíblia, vários

volumes já foram publicados, dando conta de diversos livros do Antigo

Testamento (Ageu, Ester, Rute e Zacarias) e outros do Novo Testamento (Atos

dos Apóstolos, Colossenses e Filemon, Efésios, Filipenses e Gálatas). Até o

momento, contudo, nenhum comentário aos Evangelhos foi publicado.

O segundo, percebemos olhando mais especificamente para Mateus. No

Brasil, nesse período enfocado no quadro acima, só três apresentam um

esforço de comentar, de forma sistematizada, o Evangelho como um todo. Um

do Frei Gorgulho e Ana Flora Anderson em 19846, outro do Pe. Luiz Mosconi

em 19907, e outro do Pe. Ivo Storniolo, também de 19908.

5 Essa série é editada pelas editoras Sinodal, Vozes e Impressa Metodista e representa um esforço
ecumênico dos biblistas latino-americanos em produzir comentários a todos os livros da Bíblia numa
perspectiva latino-americana.
6 Anderson, Ana Flora & Gorgulho, Gilberto. Não tenham medo. 1984.
7 Mosconi, Luis. Evangelho Segundo Mateus. In série: "A palavra na vida", CEBI - Centro de Estudos
Bíblicos, 1990.
8 Storniolo, Ivo, Como ler o Evangelho de Mateus, 1990.
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Dessa forma, frente à produção abrangente no meio popular, o desafio

que se coloca é da produção de textos mais sistematizados, abordando, de um

modo especial, os Evangelhos.

2. A MOTIVAÇÃO DE TRABALHAR AS BEM-AVENTURANÇAS

A opção pelas bem-aventuranças surge por dois motivos. Primeiro, por

um interesse por esse texto, que já foi alvo de um trabalho anterior9. Neste

trabalho priorizamos o Evangelho de Lucas. Naquele momento nos parecia

que Lucas falava mais à realidade latino-americana e Mateus não tanto. O que

nos levou, naquela época, a chegar a esta conclusão foi, principalmente, o fato

de Lucas não conter a adjetivação ao termo “pobre” (em espírito) e, com a

presença dos “ais”, o texto tornava-se mais contundente à realidade latino-

americana. Hoje, com base nas pesquisas pessoais, e nos trabalhos surgidos,

percebemos que Mateus tem tanta importância para a América Latina como o

Evangelho de Lucas. Por isso, este trabalho atual visa "pagar" uma dívida

antiga com as bem-aventuranças em Mateus.

Segundo, pelo desafio, como já apresentamos no início dessa introdução,

de trabalhar num campo onde temos muito material das mais diversas linhas.

Basta citar que mesmo religiões sem proximidade com o cristianismo já

comentaram o Sermão do Monte e as bem-aventuranças. Um exemplo disso

está no livro O Sermão da Montanha - segundo o Vedanta, escrito por um

swami hindu, adepto de Krishna, Prabhavananda (esse é seu nome religioso).

Na introdução encontramos:

9 Garcia, Paulo R., As bem-aventuranças e os ais em Lucas, monografia, Faculdade de Teologia da


Igreja Metodista, 1983.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 14

Não deveria ser novidade, no seio de uma comunidade cristã,


um livro sobre o Sermão da Montanha, que é o próprio cerne do
ensinamento cristão. Mas, sendo este livro escrito por um swami
hindu, adepto do vedanta e do evangelho de Sri RamaKrishna,
livro que, ademais, não apenas interpreta mas também enaltece o
Sermão, como se fora do próprio RamaKrishna - então,
certamente, o menos que se pode dizer dele é que é incomum.10

Num texto que mereceu tantas abordagens diferentes, é desafiante

buscar descobrir novas portas de entrada, novas perspectivas de trabalho.

3. O DESAFIO DE OLHAR O TEXTO A PARTIR DA ESTRUTURA LITERÁRIA

Finalmente, a opção de abordar o texto a partir da definição de sua

estrutura literária visa a buscar uma porta de entrada que não é muito

explorada. Isso porque há uma tendência de reduzir a discussão literária

apenas ao ambiente acadêmico, colocando-a em espaços áridos da vida

cotidiana.

Contudo, as questões literárias, como por exemplo a estrutura, estão

diretamente conectadas às hipóteses de interpretação do texto. O nosso

objetivo neste trabalho, portanto, será, a partir da comparação das diversas

propostas de estrutura das bem-aventuranças, propor uma estrutura a elas.

Assim, trabalharemos no primeiro capítulo as questões introdutórias do

texto, ou seja, a tradução; o paralelo ao texto em Lucas; o trabalho redacional

que pode ser compreendido na comparação dos textos paralelos; e as

características próprias do trabalho redacional do autor.

10 Prabhavananda, Swami. O Sermão da Montanha - segundo o Vedanta. p. 7.


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 15

No segundo capítulo vamos mostrar as diversas propostas de estruturas

literárias dadas às bem-aventuranças. Nesse capítulo teremos mais um

levantamento sobre as tendências da exegese bíblica em estruturar as bem-

aventuranças, quer incluindo os versículos 11 e 12, quer excluindo-os; quer

mantendo o versículo 5, quer excluindo-o; quer tratando cada bem-

aventurança como um texto isolado, quer trabalhando o conjunto como uma

unidade, ou ainda dividindo esse conjunto em dois blocos.

No terceiro capítulo, vamos propor uma estrutura literária pouco

explorada nas abordagens das bem-aventuranças: o quiasmo. Contudo, mais

que propor a estrutura, estaremos, ao mesmo tempo que a demonstramos,

levantando o significado e os desafios que elas continham para a comunidade

de Mateus. Nessa perspectiva de leitura, estaremos buscando apontar as bem-

aventuranças como um código de pertença a uma comunidade sofrida, um

código que apontava para um discipulado radical. Com isso, na confrontação

desta proposta e interpretação com as propostas e interpretações mais

freqüentes deste texto, estaremos questionando as propostas de estruturas

literárias como propostas que trazem embutidas uma pré-compreensão do

texto.
CAPÍTULO I

ABORDAGEM LITERÁRIA

1. TRADUÇÃO

Nossa primeira abordagem da perícope se dará em termos de tradução.

Embora pouco valorizada, a tradução desempenha um papel importante na

exegese bíblica. Julius Wellhausen defendia que uma boa tradução, exata e

inteligente, permitia reduzir o número de notas e comentários explicativos.1

Estaremos usando nesse trabalho a tradução abaixo2, baseada no texto

grego de Nestle-Alland, em suas 26ª e 27ª edições.

Mateus 5.3-10

3. Bem-aventurados os pobres em espírito,


porque deles é o Reino dos Céus.
4. Bem-aventurados os aflitos,
porque eles serão consolados.
5. Bem-aventurados os mansos,

1 Wellhausen, Julius. apud Bovon, François, et alii. Exegesis, p. 92.


2 Todas as vezes que usarmos o texto das bem-aventuranças em Mateus estaremos nos baseando nesta
tradução. Para o paralelo lucano das bem-aventuranças estaremos usando uma tradução realizada a partir
dos mesmos textos gregos usados em Mateus. Nos demais textos bíblicos citados será usada a tradução de
João Ferreira de Almeida (Almeida) Edição Revista e Corrigida, exceto em textos que necessitem de uma
tradução do original, que nesse caso isso será indicada logo após o texto.
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porque eles herdarão a terra.


6. Bem-aventurados os famintos e sedentos de justiça,
porque eles serão fartos.
7. Bem-aventurados os misericordiosos,
porque eles serão misericordiados3.
8. Bem-aventurados os puros de coração,
porque eles verão a Deus.
9. Bem-aventurados os "fazedores da paz"4,
porque eles serão chamados filhos de Deus.
10. Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça
porque deles é o Reino dos Céus.

Mateus 5.11-125

Bem-aventurados sois quando vos injuriarem,


e perseguirem, e falarem todo mal contra vós [mentindo]6 por minha
causa.
Alegrai-vos e regozijai-vos,
porque a vossa recompensa é grande nos céus,
pois assim perseguiram os profetas antes de vós.

2. COMPARAÇÃO ENTRE OS TEXTOS DE MATEUS E LUCAS

3 A tradução "misericordiados" não é usual na língua portuguesa, embora não sendo gramaticalmente
incorreta. Ela é usada aqui para enfatizar o passivo, que é importane na estrutura, conforme veremos no
terceiro capítulo.
4 Estamos traduzindo o termo apax eirenopoios pelo sentido das palavras que o compõem: eirene
(paz) e poiéo (fazer).
5 Estamos apresentando a tradução destes versículos separadamente porque, conforme veremos na
delimitação, eles não pertencem ao conjunto anterior das bem-aventuranças.
6 A palavra mentindo está entre colchetes pois, segundo as informações que aparecem no aparato
crítico e no texto de Nestle-Alland, Novum Testamentum Graece, p. 9, não deve fazer parte do original.
É, possivelmente, um acréscimo posterior influenciado pelo paralelo (Lucas). Como se costuma fazer com
os textos que, embora não fazendo parte do original, têm um largo uso desde as tradições mais antigas
dos documentos da Igreja, ele é colocado na tradução entre colchetes.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 18

Quando comparamos os textos das bem-aventuranças em Mateus e

Lucas, percebemos que eles possuem diferenças marcantes. Um primeiro

passo em nosso trabalho é estabelecer essas diferenças, buscando

determinar, na medida do possível, se elas provêm do trabalho redacional de

Mateus ou de Lucas, ou se são frutos do processo de transmissão do texto em

sua fase anterior à redação do Evangelho.

Antes de comparar cada bem-aventurança entre Mateus e Lucas,

devemos estabelecer um comparativo destas duas versões em seu conjunto.

MATEUS 5 LUCAS 6
3. Bem-aventurados os pobres em espírito, 20b. Bem-aventurados vós7, os pobres,
porque deles é o Reino dos Céus. porque vosso é o Reino de Deus.
4. Bem-aventurados os aflitos, 21b. Bem aventurados vós, que agora chorais,
porque eles serão consolados. porque rireis.

5. Bem-aventurados os mansos,8
porque eles herdarão a terra.

6. Bem-aventurados os famintos e sedentos de 21a. Bem-aventurados vós, que agora sois


justiça, famintos,
porque eles serão fartos. porque sereis fartos

7. Bem-aventurados os misericordiosos,
porque eles serão misericordiados.
8. Bem-aventurados os puros de coração,
porque eles verão a Deus.
9. Bem-aventurados os "fazedores da paz",
porque eles serão chamados filhos de Deus.
10. Bem-aventurados os perseguidos por
causa da justiça
porque deles é o Reino dos Céus.

11. Bem-aventurados sois quando vos 22. Bem-aventurados sereis quando os homens
injuriarem, vos aborrecerem,
e perseguirem, e falarem todo mal contra vós e quando vos separarem, e vos injuriarem, e
[mentindo] por minha causa. rejeitarem o vosso nome como mau, por causa
do filho do homem.
12. Alegrai-vos e regozijai-vos, 23. Sedes alegrados9 nesse dia, exultai;

7 Nessa tradução estamos inserindo o “vós”, como aparece na tradução Almeida, para caracterizar
que as bem-aventuranças lucanas aparecem na segunda pessoa do plural, enquanto as mateanas aparecem
na terceira pessoa do plural. A diferenciação de pessoa aparece no segundo termo da bem-aventurança.
8 Estamos apresentando em itálico as bem-aventuranças que não possuem paralelo em Lucas.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 19

porque a recompensa vossa é grande nos eis que a recompensa vossa é grande no céu,
céus,
pois assim perseguiram os profetas antes de pois assim faziam os seus pais aos profetas.
vós.

24. Porém, ai de vós ricos,


porque já tendes vossa consolação.
25a. Ai de vós, os que agora sois fartos,
porque tereis fome.
25b. Ai de vós, os que agora rides,
porque vós lamentareis (pentésete) e chorareis
(klaúsete).
25. Ai de vós, quando falarem bem de vós
todos os homens,
desse modo faziam aos falsos profetas os
vossos pais.

Abaixo, apresentamos o mesmo paralelo, desta feita com o texto lucano

dos “aís” na forma sinótica.

MATEUS 5 LUCAS 6 LUCAS 6 - AIS

3. Bem-aventurados os pobres 20b. Bem-aventurados 24. Porém, ai de vós ricos,


em espírito, vós10, os pobres,
porque deles é o Reino dos Céus. porque vosso é o Reino de porque já tendes vossa
Deus. consolação.
4. Bem-aventurados os aflitos 21b. Bem aventurados vós, 25b. Ai de vós, os que agora
(pentoúntes), que agora chorais rides,
(klaíontes),
porque eles serão consolados. porque rireis. porque vós lamentareis
(pentésete) e chorareis
(klaúsete).

5. Bem-aventurados os mansos,11
porque eles herdarão a terra.

6. Bem-aventurados os famintos e 21a. Bem-aventurados vós, 25a. Ai de vós, os que agora


sedentos de justiça, que agora sois famintos, sois fartos,
porque eles serão fartos. porque sereis fartos. porque tereis fome.

7. Bem-aventurados os
misericordiosos,
porque eles serão
misericordiados.
8. Bem-aventurados os puros de
coração,

9 Traduzimos sedes alegrados para enfatizar que é a mesma palavra de Mateus, mas no imperativo
passivo.
10 Nessa tradução estamos inserindo o “vós”, como aparece na tradução Almeida, para caracterizar
que as bem-aventuranças lucanas aparecem na segunda pessoa do plural, enquanto as mateanas aparecem
na terceira pessoa do plural. A diferenciação de pessoa aparece no segundo termo da bem-aventurança.
11 Estamos apresentando em itálico as bem-aventuranças que não possuem paralelo em Lucas.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 20

porque eles verão a Deus.


9. Bem-aventurados os
"fazedores da paz",
porque eles serão chamados
filhos de Deus.
10. Bem-aventurados os
perseguidos por causa da justiça
porque deles é o Reino dos Céus.

11. Bem-aventurados sois quando 22. Bem-aventurados 25. Ai de vós, quando falarem
vos injuriarem, sereis quando os homens bem de vós todos os homens,
vos aborrecerem,
e perseguirem, e falarem todo mal e quando vos separarem, e
contra vós [mentindo] por minha vos injuriarem, e rejeitarem
causa. o vosso nome como mau,
por causa do filho do
homem.
12. Alegrai-vos e regozijai-vos, 23. Sedes alegrados nesse
dia, exultai;
porque a recompensa vossa é eis que a recompensa
grande nos céus, vossa é grande no céu,
pois assim perseguiram os pois assim faziam os seus desse modo faziam aos falsos
profetas antes de vós. pais aos profetas. profetas os vossos pais.

Na comparação entre as duas versões das bem-aventuranças, podemos

perceber que Mateus apresenta um número maior delas (aos mansos, aos

misericordiosos, aos puros de coração, aos fazedores da paz, aos perseguidos

por causa da justiça). Contudo, a versão de Lucas apresenta uma série de “ais”

numa relação direta com suas bem-aventuranças. Para cada bem-aventurança

há um “ai” correspondente.

Além disso, o texto de Mateus apresenta uma inversão em relação ao de

Lucas, entre a bem-aventurança aos famintos (Mt 5.6 e Lc 6.21a) e a bem-

aventurança aos aflitos (Mt 5.4 e Lc 6.21b).

Uma outra diferença, que vai aparecer em quase todo o conjunto das

bem-aventuranças, é que, enquanto Lucas apresenta as suas na segunda

pessoa do plural, Mateus as apresenta na terceira pessoa do plural. A exceção

se dá somente na segunda parte das bem-aventuranças de Mateus, que desde


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 21

a tradução estamos tratando em separado, que é a bem-aventurança aos

perseguidos (versículos 11 e 12), que aparece em Mateus também na segunda

pessoa do plural.

Finalmente, outra diferença que estará presente nos macarismos lucanos

(exceto no primeiro), é o acréscimo de nun (agora) ao final de cada situação

descrita, sendo que neste caso, essa expressão é uma característica redatorial

de Lucas.

A partir dessa visão conjunta das diferenças entre as bem-aventuranças

de Mateus e Lucas, passaremos agora a abordar cada bem-aventurança.

2.1 Primeira bem-aventurança

Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino


dos Céus. (Mateus)

Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de


Deus. (Lucas)12

Podemos iniciar com o final do versículo, onde Reino de Deus em Lucas

é substituído por Reino dos Céus em Mateus. É uma característica de Mateus

o uso da expressão Reino dos Céus (Cf 5.3, 10, etc). Tanto que enquanto ela

aparece 32 vezes no Evangelho de Mateus, ela não ocorre nos Evangelhos de

Lucas e Marcos.13

12 Usaremos nessa parte a tradução do texto de Lucas que se encontra na comparação acima entre as
duas versões das bem-aventuranças.
13 Allison, Dale C.. The Sermon on the Mount. p. 410.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 22

A diferença mais significativa que aparece na comparação desses dois

versículos está na inclusão "em espírito". Ela provém da tradição que Mateus

recebe ou é uma inclusão própria do autor?

Esta questão divide os estudiosos. Enquanto Jeremias acredita ser uma

alteração do evangelista14, Luz aponta para a possibilidade de um trabalho

redacional anterior15. Dupont, a fim de se posicionar a favor da inclusão

Mateana, apresenta uma longa relação de estudiosos que defendem que essa

expressão é uma "adição do evangelista"16. Já Davies e Allison, para defender

a inclusão como um trabalho redacional de Mateus, apresentam quatro

motivos: primeiro, que em outra passagem oriunda de Q (Mt 11.5 e Lc 7.22) o

termo pobre aparece sem qualificação; segundo, que a qualificação rompe o

"paralelismo" de Q, onde em cada bem-aventurança há um único sujeito sem

qualificação; terceiro, que no paralelo em Lucas, no último "ai", o rico aparece

sem qualificação; por último, é comum Mateus adicionar frases ou palavras

qualificativas (5.6a, 32; 6.13b; 13.12b; 19.9)17.

Seguindo a linha de Dupont, Jeremias, Davies e Allison, e outros,

estaremos considerando essa inclusão como um acréscimo mateano. A

justificativa da finalidade desse acréscimo será apresentada no terceiro

capítulo, onde estaremos aprofundando o significado desta bem-aventurança

para a comunidade de Mateus.

2.2 Segunda bem-aventurança

14 Jeremias, Joachin. O Sermão da Montanha, p. 34. Devemos destacar que neste texto Jeremias
permanece reticente nessa questão.
15 Luz, Ulrich. Matthew 1-7, p. 226-227.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 23

Bem-aventurados os aflitos (pentountes) porque eles serão


consolados. (Mateus)

Bem-aventurados vós, os que agora chorais (klaiontes), porque


rireis. (Lucas)

No caso desta bem-aventurança, a dificuldade está em se apresentar

semelhanças. Elas têm relação apenas no sentido da frase, mas os termos são

por demais diferentes.

A primeira diferença está em que, enquanto Lucas utiliza o verbo klaió

(chorar, lamentar), Mateus utiliza o verbo penteo (estar triste, aflito).

O verbo chorar (klaió), aparece 40 vezes no Novo Testamento, sendo

mais comum a Lucas, que o usa 11 vezes no Evangelho, do que a Mateus (2

vezes) e Marcos (4 vezes).18

Já o verbo estar triste (penteo) é um verbo que aparece somente duas

vezes em Mateus, uma vez em Marcos e uma vez em Lucas. O interessante é

que a única vez que aparece em Lucas está no “ai” aos que riem (6.25b), que

se relaciona com essa bem aventurança. Para os que no presente momento

estão rindo, Lucas apresenta que eles irão lamentar (pentésete) e chorar

(klaúsete).19

A constatação de que o termo chorar é comum a Lucas, somada à

presença do termo lamentar no “aí” correspondente à nossa bem-aventurança,

16 Dupont, Jaques. Les Béatitudes, Vol I, p. 211


17 Davies, W.D. & Allison, Dale C., The Gospel According to Saint Matthew, p. 442.
18 De Gruyter, Walter (Ed.), Concordance to the Novum Testamentum Graece, p. 1037.
19 idem, p. 1496.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 24

poderia apontar que o termo usado por Mateus é mais antigo, sendo que

Lucas mudou-o dentro de suas características literárias.

A segunda diferença aparece na promessa do segundo verso. Enquanto

Lucas prevê uma inversão de situação - passar do choro ao riso - Mateus

prevê uma ação “curativa” ao mal descrito no primeiro verso - diante da aflição,

ser consolado.

A terceira diferença refere-se à posição da bem-aventurança nas duas

tradições, já apresentada na visão global das duas versões. Enquanto para

Lucas ela é a terceira petição, logo após a dos que têm fome, para Mateus ela

é a segunda, precedendo a bem-aventurança aos que têm fome e sede de

justiça.

2.3 Terceira bem-aventurança

Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra.

(Mateus - não há paralelo em Lucas)

O versículo como um todo é uma característica exclusiva de Mateus.

Neste caso, podemos mais facilmente mostrar que o texto é fruto do trabalho

redacional de Mateus.

O que se destaca, em primeiro lugar, é o uso da palavra manso. Ela é

usada quatro vezes no Novo Testamento, sendo 1 vez em I Pedro (3.4) e 3

vezes em Mateus (5.5, 11.29, 21.5). Embora seja pequena sua ocorrência no

Novo Testamento, ela é quase uma exclusividade de Mateus.


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 25

Também a palavra terra merece destaque. Ela aparece 25020 vezes no

Novo Testamento, sendo que a grande incidência está no Apocalipse (82

vezes) e em Mateus (43 vezes), contra Lucas (25 vezes) e Marcos (19 vezes).

Pela ocorrência dessas duas palavras, e também pela importância da

palavra manso para o Evangelho de Mateus, conforme veremos no terceiro

capítulo, podemos apontar este versículo como fruto do trabalho redacional de

Mateus.

2.4 Quarta bem-aventurança

Bem-aventurados os famintos e sedentos de justiça, porque eles


serão fartos. (Mateus)

Bem-aventurados vos, que agora são famintos, porque sereis


fartos. (Lucas)

A diferença que marca esta bem-aventurança está no acréscimo de

Mateus: "...e sede de justiça".

Esta é uma das bem-aventuranças que, excetuando-se o acréscimo

acima mencionado e as questões já vistas sobre o tempo verbal e o acréscimo

do "agora", tem seu paralelo perfeito em Lucas. As palavras usadas são as

mesmas.

Quanto ao acréscimo da expressão "e sede de justiça", por vários

argumentos podemos creditá-la ao trabalho redatorial de Mateus.

20 De Gruyter, Walter (Ed), op. cit., p. 307.


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 26

Um primeiro argumento está nas características próprias do evangelho.

Uma delas consiste em que é comum no evangelho o uso de palavras

chaves21, sendo que a palavra justiça (dikaiosynen) é uma delas. Além disso,

frases qualificativas, como vimos acima no acréscimo de "em espírito" à

primeira bem-aventurança, é também uma característica de Mateus.

Para exemplificar essa caracterísitica, vamos abaixo listar algumas

expressões em que Mateus usa frases qualificatativas:

1. Homem sensato (7.24, 26), enquanto Lucas usa apenas homem

(6.47, 49);

2. manso e humilde de coração (11.29);

3. Senhor, Filho de Daví (15.22), enquanto o paralelo em Marcos é

Senhor (7.28);

4. geração má e adúltera (16.4), enquanto o paralelo em Marcos é

geração (8.12) e em Lucas é geração má (11.29);

5. Messias, o Filho do Deus Vivo (16.16), enquanto Marcos usa

Messias (Mc 8.29) e Lucas o Cristo de Deus (9.20).

Um segundo argumento está na importância dessa palavra para Mateus.

Ela aparece em pontos chaves do Evangelho. Ela é encontrada no batismo de

Jesus (3.15); três vezes no capítulo 5 (5.6,10,20); na discussão da esmola

como prática da justiça (6.1), como característica do Reino de Deus (6.33) e na

discussão do caminho de João (21.32).

21 Luz, Ulrich. op. cit., p. 39.


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 27

Das sete vezes que ela aparece no Evangelho, cinco vezes ocorre no

Sermão do Monte, sendo duas delas nas bem-aventuranças. Já no Evangelho

de Lucas essa palavra ocorre uma única vez em um texto que não tem paralelo

em Mateus (Lucas 1.75).

Um terceiro argumento encontra-se no fato de que essas duas palavras -

fome e sede - aparecem juntas num outro texto importante do evangelho,

associadas às práticas dos justos:

Porque tive fome e me deste de comer; tive sede e destes-


me de beber, era estrangeiro e hospedastes-me;
(............................................................................................)
Então os justos lhe responderão, dizendo (...)
(Mateus 25.35-37 - Almeida, grifo meu).

Deste modo, podemos afirmar que essa inclusão faz parte do trabalho

redacional de Mateus, significando, inclusive, uma ênfase para o relato das

bem-aventuranças.

2.5 Quinta, sexta e sétima bem-aventurança

Bem-aventurados os misericordiosos, porque serão


misericordiados.

Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus.

Bem-aventurados os fazedores da paz, porque eles serão


chamados filhos de Deus. (Mateus)
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 28

Temos aqui um bloco de bem-aventuranças que não têm paralelos em

Lucas. Sendo material exclusivo de Mateus, volta a pergunta se é fruto do

trabalho redacional mateano ou se essas inclusões se dão no processo da

transmissão do texto.

O termo misericórdia é usado em Mateus com uma freqüência maior

que nos demais sinóticos. Ele aparece oito vezes em Mateus (5.7; 9.27; 15.22;

17.15; 16.24; 18.33; 20.30ss), contra três vezes em Marcos (sendo que dois

textos têm paralelos em Mateus e Lucas) e quatro vezes em Lucas (sendo que

todos têm paralelo em Mateus).22

Deste modo, temos dois textos com influência marcana (Mateus 9.27;

20.30-31), um texto com provável influência da fonte "Q" (Mt 17.15 paralelo a

Lc 17.13) e quatro textos exclusivos de Mateus (5.7; 15.22; 16.24; 18.33). Isso

aponta que metade das ocorrências desta palavra no Evangelho são

exclusivas dele, confirmando uma predileção de Mateus pelo uso deste termo.

Já o termo coração, embora sua ocorrência maior aconteça em Lucas

(22 vezes), ela é muito comum em Mateus (16 vezes), sendo que em cinco

lugares ela é exclusiva (5.8, 28; 11.29; 12.40;18.35).23

No Novo Testamento a palavra coração assume sentidos diversos, mas o

coração é considerado, em todos esses sentidos, como o principal órgão da

vida física e espiritual do ser humano. Ele é o centro da vida interior do ser

22 De Gruyter, Walter (Ed.), op. cit., p. 601.


23 idem, p. 982 a 983.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 29

humano. Nele reside as emoções, sentimentos e paixões. É o lugar da

compreenção, do pensamento e da reflexão, e das resoluções.24

O termo "puros" ocorre poucas vezes nos sinóticos (quatro vezes), sendo

três vezes em Mateus e uma vez em Lucas (no texto paralelo a Mateus).

Já o termo "fazedores da paz" é especial, pois ele é um apax, ou seja,

ele ocorre no Novo Testamento uma única vez, que é nesta passagem.

Quanto ao título "filhos de Deus" temos:

El título uios (tou) Teou aparece 50 veces en el Nuevo


Testamento, 45 de las cuales se aplica a Jesús: 29 en los
Evangelios y Hechos y 16 en las Cartas y Apocalipsis. En las cinco
restantes, el título se aplica: a "los artífices de la paz" (Mt 5,9); a
los resucitados (Lc20,36); a los que se dejan llevar por el Espíritu
de Dios (Rom 8,1); a los cristianos, por estar adheridos al Mesías
(Gal 3,26); y, en Rom 8,19, se habla de que la humanidad aguarda
impaciente que se revele lo que es ser hijos de Dios...25

Vemos que o uso desse título para pessoas não é comum nos

Evangelhos, o que apontaria para uma possível tradição anterior.

Com isso, percebemos que esse material exclusivo de Mateus, embora

tenha sinais de tradições anteriores, não deixa de ter um forte colorido

mateano.

2.6 Oitava bem-aventurança

24 Kittel, Gerhard. Theological Dictionary of the New Testament. p. 613 a 614.


25 Camacho, Fernando. La Proclama Del Reino, p. 98.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 30

Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque

deles é o Reino dos Céus. (Mateus)

Inicialmente, por uma questão que trataremos no próximo capítulo - a

delimitação - podemos afirmar que no conjunto das bem-aventuranças de

Mateus, neste capítulo 5, esta é a última. Por isso achamos importante abordá-

la separadamente das anteriores que, como esta, não têm paralelo em Lucas.

Esta bem-aventurança traz como característica a expressão "da justiça",

que é uma forte marca de Mateus, conforme vimos acima. O que não podemos

precisar é se esta bem-aventurança é uma tradição anterior a Mateus, e

recebeu o acréscimo mateano "da justiça", ou se toda ela é fruto do seu

trabalho redacional.

O que podemos perceber é que esta bem-aventurança aparece no

conjunto das anteriores, que não têm paralelos em Lucas. Ela é caracterizada

por ser escrita na terceira pessoa do plural, com dois membros, seguindo a

mesma estrutura das sete anteriores, e distinguindo-se do relato a seguir,

conforme veremos no próximo capítulo.

O mais importante é que ela se constitui em um fecho do relato. A mesma

promessa da primeira bem-aventurança (porque deles é o Reino dos Céus) se

repete aqui, formando uma moldura que engloba o conjunto das demais seis

bem-aventuranças.

Concluindo este capítulo, podemos apontar que as bem-aventuranças em

Mateus se constituem numa tradição recebida e retrabalhada. Nos próximos


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 31

capítulos elas serão examinadas em seu conjunto, na sua estrutura, visando

detectar o significado que elas assumem para a comunidade.


CAPÍTULO II

DELIMITAÇÃO E ESTRUTURA LITERÁRIA

Estaremos neste capítulo visualizando as propostas mais comuns de

estruturação literária das bem-aventuranças em Mateus. O fato de embutirmos

nessa discussão o problema da delimitação decorre do fato que as propostas

de estrutura estão em relação direta com a delimitação, conforme veremos.

Para isso, vamos partir das propostas de estrutura que organizam as

bem-aventuranças em número de nove e depois em oito. Ao apresentar estas

propostas de estruturação, estaremos, ao mesmo tempo, discutindo a questão

básica da delimitação.

1. NOVE BEM-AVENTURANÇAS

Nesta proposta de delimitação, e conseqüentemente de estrutura, nos

defrontamos com um número de nove bem-aventuranças na introdução do

Sermão do Monte.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 33

Para os que defendem essa estruturação, os vs 11 e 12 da perícope das

bem-aventuranças devem ser considerados como parte do conjunto. Contudo,

existem diversos problemas, quanto a essa delimitação, que veremos a seguir.

1.1. Problemas literários dos versículos 11 e 12

Bem-aventurado sois quando vos injuriarem e perseguirem e

falarem todo mal contra vós [mentindo] por minha causa.

Alegrai-vos e regozijai-vos, porque a vossa recompensa é grande

nos céus, pois assim perseguiram os profetas antes de vós.

Os problemas que temos para relacionar estes versículos com os

anteriores são vários. Em primeiro lugar eles aparecem num tempo verbal

diferente dos versículos anteriores. Enquanto as oito bem-aventuranças

anteriores aparecem na terceira pessoa do plural, essa nona bem-

aventurança é formulada na segunda pessoa do plural. Em segundo lugar,

como demonstraremos abaixo, a estrutura dessa nona bem-aventurança difere

das bem-aventuranças anteriores. Em terceiro lugar a fórmula introdutória é

diferente. Enquanto as bem-aventuranças anteriores usam a fórmula “bem-

aventurados os ...” a bem-aventurança destes versículos usa “bem-aventurado

sois quando ...”. Essas diferenças levam especialistas na fonte Q, como por

exemplo John Kloppenborg, a afirmarem que, mesmo na fonte Q essa bem-

aventurança não forma uma unidade com as anteriores.1

Para demonstrar a diferença de estrutura dessa bem-aventurança com o

conjunto de bem-aventuranças que a precede, comparamosa primeira bem-


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 34

aventurança (que possui a mesma estrutura das outras sete subseqüentes)

com essa nona :

versículo 3:

Bem-aventurados os pobres em espírito, [situação]


porque deles é o Reino dos Céus. [promessa]

versículos 11 e 12:

Bem-aventurados sois quando vos injuriarem, [situação]


e perseguirem, e falarem todo mal contra vós [excurso]
[mentindo] por minha causa. Alegrai-vos e regozijai-vos,
porque a vossa recompensa é grande nos céus, [promessa]
pois assim perseguiram os profetas antes de vós. [excurso]

A estrutura das oito primeiras bem-aventuranças é similar. Tem-se a

descrição da situação que provoca a proclamação da bem-aventurança, que é

introduzida pelo termo makarioi (bem-aventurados), seguido de uma promessa,

que é introduzida pela conjunção oti (porque).

A nona bem-aventurança, como podemos perceber, foge totalmente do

esquema. Após a introdução, que usa o mesmo termo das oito anteriores

(bem-aventurado), segue-se um longo excurso, fazendo uma descrição da

situação. A conjunção "porque" introduz a promessa. Finalmente, e desta feita

introduzida pela conjunção "pois" e não pela conjunção "porque", temos a

1 Kloppenborg, John S.. The formation of Q. p. 172 a 173.


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 35

parte final, que não é uma promessa, mas sim uma explicação do porquê de

ser bem-aventurado.

Embora as diferenças sejam contundentes, muitos estudiosos defendem

que essa nona bem-aventurança faz parte do conjunto das anteriores. São

esses que defendem um conjunto de nove bem-aventuranças, onde essa

última não pode ser separada das anteriores:

The beatitude in 5:11-12 should not be, as it sometimes is,


excluded from the total number of beatitudes and joined not with
5:3-10 but 5:13 (...) Hence, 5:11-12, which is thematically so closely
related to 5:10 (both concern persecution), should not be separated
from 5:3-10.2

Vamos, a seguir, examinar como essas bem-aventuranças, na proposta

de um conjunto de nove, se estruturam.

1.2. Propostas de estruturação em nove bem-aventuranças

Alguns autores defendem que essas nove bem-aventuranças formam um

conjunto estruturado na base do número 3 (3 x 3= 9).3

A ênfase no número 3, segundo os defensores dessa estrutura, se dá a

partir da tendência de Mateus em trabalhar com vários esquemas numéricos,

2 Allison, Dale C.. The structure of the Sermon on the Mount, p. 429. Esta citação é uma nota de
rodapé à següinte frase: "The sermon is headed by nine beatitudes, 5:3-12". Concorda também com a
unidade formada pelas 9 bem-aventuranças Kodjak, Andreis, A structural analysis of the Sermon on the
Mount, p. 42 a 50.
As bem-aventuranças em 5.11-12, não deveriam ser, como algumas vezes são, excludas do número
total de bem-aventuranças e ligadas não a 5.3-10, mas a 5.13 (...) Portanto, 5.11-12, que é tematicamente
fiel ao relato de 5.10 (ambas tratam de perseguição), não deveria ser separado de 5.3-10.
3 Cf. Allison, Dale C., The Sermon on the Mount, p. 406.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 36

onde o número 3 é um dos números importantes (junto com o 2, 4 e 7)4. Esta

estrutura confirmaria, portanto, esta tendência.

Outros autores apontam uma outra possibilidade de estruturação do

conjunto de nove bem-aventuranças a partir de um possível paralelo a Isaias

61, sendo que algumas apontam isso mais que as outras. Deste modo, a

primeira bem-aventurança teria o seu paralelo em 61.1, a segunda teria seu

paralelo em 61.2, a terceira em 61.7, a quarta em 61.3,8,11, a quinta não tem

paralelo, a sexta em 61.1, a sétima não tem paralelo, a oitava em 61.3,8,11, e

a nona em 61.10-11.5

Encontramos, também uma proposta que coloca o conjunto de nove bem-

aventuranças formado por duas partes. A primeira seria formada pelo conjunto

de oito bem-aventuranças, estruturadas em dois blocos de quatro. A segunda

é formanda pela nona bem-aventurança. A nona bem-aventurança seria o

ponto culminante da estrutura anterior. A mudança do tempo verbal se

explicaria devido estar presente no texto a figura do que fala "por minha

causa".6

2. SETE BEM-AVENTURANÇAS COM UMA GLOSA

Os defensores da estrutura formada por sete bem-aventuranças, para


alcançar esse número, apontam alguns problemas literários, os quais
detalharemos abaixo.

4 Luz, Ulrich, Matthew 1-7, p. 38. Luz não apoia uma estrutura na forma apresentada, contudo, ele
levanta o assunto da importância dos números em seu livro.
5 Davies, W.D., & Allison Dale C., The Gospel According to Saint Matthew, p. 436 a 437.
6 Stenger, W., Los Métodos de la Exégesis Bíblica, p. 302 a307.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 37

2.1. Problemas literários em relação às bem-aventuranças aos

mansos e aos versículos 11 e 12

Nessa proposta são abordados dois problemas no conjunto das bem-

aventuranças: a nona bem-aventurança e a bem aventurança aos mansos.

Em relação à nona bem-aventurança, com as constatações das

dificuldades levantadas no tópico anterior, chega-se a uma conclusão

diferente. Considera-se que ela não faz parte do conjunto das oito bem-

aventuranças. Com isso, nossa relação estaria reduzida a oito bem-

aventuranças.

A partir desse grupo de oito bem-aventuranças, é levantado um problema

em relação à bem-aventurança aos mansos. Vários documentos de peso,

principalmente ocidentais, e comentaristas apoiam uma inversão na ordem

desta bem-aventurança com a dos aflitos, ocupando a dos mansos a segunda

posição7. Isso, inclusive, explica porque algumas Bíblias da Igreja Católica

Romana trazem essa ordem no texto.

7 Conforme encontramos no aparato crítico de Nestle-Alland, Novum Testamentum Graece, 27ª Ed, p.
9, os documentos que apoiam a inversão são: os ocidentais D, 33 (que é chamado de "Rainha dos
Cursivos"); as versões Antiga Latina e Vulgata (lat), Siríaca Curetoriana (syc), Coptica Bohairica (boms);
os pais da Igreja Origines (Or) e Eusébio de Cesaréia (Eu). Alem disso, cf. Nestle-Alland, p. 748,
Tischendorf e Bover defendem essa inversão. Metzger, Bruce M., A Textual Commentary on The Greek
New Testament, p. 12 afirma:
If verses 3 and 5 had originally stood together, with their rhetorical antithesis of
heaven and earth, it is unlikely that any scribe would have thrust ver. 4 between them. On
the other hand, as early as the second century copyist reversed the order of the two
beatitudes so as to produce such an antithesis and to bring ptochói and praêis into closer
connection.
“Se os versos 3 e 5 tinham originalmente ficados juntos, com suas antíteses retóricas
de céu e terra, é indiferente que qualquer escriba tenha colocado o versículo 4 entre elas.
Por outro lado, no começo do segundo século, copistas reverteram a ordem das duas bem-
aventuranças assim como o produto delas, uma antítese, colocando ptochói (pobres) e
praêis (mansos) em uma conexão mais próxima.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 38

Embora a crítica textual busque fixar qual possibilidade se aproxima do

texto mais antigo, essa flutuação da bem-aventurança entre a segunda e

terceira posição poderia indicar uma outra possibilidade, a de que esta bem-

aventurança seria uma glosa, compondo então sete bem-aventuranças, um

número importante para Mateus:

The variation in order has led many scholars to hold that the
blessing on the `gentle' is an interpolation, and that the sequence
as it left the hand of Matthew included only seven beatitudes
(Wellhausen, T. W. Manson, Lagrange, Bultmann, J. Schmid,
Dodd, and many others). We would then have another example of
Matthew's predilection for the number seven - seven Woes in
chapter 23, seven petitions in the Lord's Prayer; three groups of
twice seven in the genealogy; seven parables in the collection of
chapter 13; the charge to forgive not seven times but seventy-
seven times (18:21). And it is observed that fluctuations of order in
the witnesses is itself evidence of some weakness in the attestation
(T. W. Manson, Sayings, p. 152). It is recognized by all that the
beatitude is based on Psalm 37:11 as rendered in LXX (Ps.
36:11).8

Defendendo esta bem-aventurança como uma glosa ainda encontramos:

Mesmo com as possibilidades apontadas, quer de glosa, quer de inversão de ordem, ainda assim, frente
ao peso documental que apóia o texto na ordem fixada porNestle-Alland, iremos trabalhar com o texto
fixado por eles na 26ª e 27ª ed. de seu Novum Testamentum Graece.
8 Beare, Francis Wrigth, The Gospel Accordin to Matthew, p. 128.
A variação na ordem tem levado muitos estudiosos a sustentar que a bem-aventurança
aos mansos é uma interpolação, e que a seqüência deixada por Mateus incluiria somente
sete bem-aventuranças (Wellhausen, T. W. Manson, Lagrange, Bultmann, J. Schmid,
Dodd, e muitos outros). Nós teríamos, então, outro exemplo da predileção de Mateus pelo
número sete - sete “ais” no capítulo 23, sete petiçoes na oração do Pai-Nosso, três grupos
de duas vezes sete na genealogia, sete parábolas na coleção do capítulo 13; a obrigação de
perdoar não sete vezes, mas setenta vezes sete (18.21). E é observado que a flutuação na
ordem nos documentos (testemunhos) é, por si mesma, evidência de uma debilidade na
fixação do texto [na afirmação] (T. Manson). É reconhecido por todos que a bem-
aventurança é baseada no Salmo 37.11 a partir da LXX (Sl 36.11).
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 39

(...) It has been suggested that verse 5 (quoting Ps 37 [LXX


36].11) may be a gloss, and that verse 11 (the last Beatitude) may
have originally belonged elsewhere: that would bring the number to
seven, which is a favorite number for grouping in Matthew's
gospel...9

Assim, na proposta que é defendida por alguns autores é de que no

evangelho de Mateus o original seriam 7 bem-aventuranças, enfatizando com

isso o número 7, um dos números que o Evangelho de Mateus aprecia

trabalhar.

3. OITO BEM-AVENTURANÇAS

Encontraremos vários apoios à delimitação em oito bem-aventuranças,

compreendendo os versículos 3 a 10.10

Connected with the phenomenon of the series of macarisms


is the question of the number of the macarisms. Ten macarisms in
all are brought together in Matt. 5:3.12. The number ten is hardly
fortuitous, but corresponds to an ordering principle, frequently
encountered in Jewish literature, which symbolizes perfection. But
matters are still more complicated, for, in Matt. 5:3-12, two strata
can clearly be distinguished. In Matt. 5:3-10, a series of eight
macarisms, largely parallel in form, have been brought together;
each consists of a distich in the third person plural, the second line
of which is invariably introduced by oti ("that"). In patristic exegesis,
the number eight (according to other reckonings, the number

9 Hill, D., The Gospel of Matthew, p. 110.


(...) tem sido sugerido que o versículo 5 (paralelo ao Salmo 37 [LXX 36].11) pode ser
uma glosa, e o versículo 11 (a última bem-aventurança) pode ser, originalmente,
pertencente a outro bloco (outro lugar), o que comporia o número de sete, o qual é um
número de agrupamento predileto do Evangelho de Mateus.
10 Camacho, Fernando. La Proclama del Reino, p. 45ss; Luz, Ulrich, Matthew 1-7, p. 226 a 229;
Byrskog, Samuel, Jesus the Only Teacher. p. 352 a 353.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 40

seven) is discussed at great length, for it, too, must be explained in


terms of number-symbolism. The number eight (or seven)
symbolizes perfection as well. In Matt. 5:11-12, two further
macarisms have been added secondarily. These secondary
expansions bring about changes in form, though it is not clear for
what reason. In any case, the symbolism remains constant, since
both the number eight (seven) and the number ten express
perfection. As a theologumenon, perfection plays an important role
in the SM.11

Dentro dessa delimitação em oito bem-aventuranças, que é a que

assumimos para esse trabalho, encontramos diversas propostas de estrutura,

que estaremos detalhando a seguir.

3.1 Oito divididas em duas sequências de quatro

A proposta de estruturação das oito bem-aventuranças divididas em dois

grupos, formando duas sequências de quatro é a mais comum:

The final grouping occurred when the evangelist aligned his


tradition with Isa 61:1-3. He apparently added 5:10, rearranged the
order of the second and third (5:4, 6; cf Luke) and expanded 5:3

11 Betz, Hans-Dieter, Essays on the Sermon on the Mount, p. 23.


Conecctado com o fenômeno da série de macarismos está o número de macarismos.
Dez macarismos ao todo são agrupados em Mt 5. 3-12. O número dez é dificilmente
fortuito, mas corresponde a um princípio de organização freqüentemente encontrado na
literatura judaica, como símbolo de perfeição. Mas os problemas são ainda mais
complicados, pois, em Mt 5.3-12, dois extratos podem ser claramente distinguidos. Em
Mt 5.3-10, a série de oito macarismos, em grande parte paralelos na forma, tem sido
agrupada; cada um consiste de um grupo de dois versos na terceira pessoa do plural, a
segunda linha é invariavelmente introduzida por “oti” (porque). Na exegese patrística, o
número oito (de acordo com outras contas o número 7) é muito discutido, devendo
também, por isso, ser explicado nos termos de número simbólico. O número oito (ou sete)
simboliza a perfeição. Em Mt 5.11-12, dois novos macarismos foram agregados
secundariamente. Essas expansões secundárias trazem mudanças na forma, embora não é
clara por que razão. Em qualquer caso, o simbolismo permanece constante, uma vez que
ambos, o número oito (sete) e o número dez expressam perfeição. Como um
theologumenon, a perfeição tem um grande papel no Sermão do Monte.”
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 41

and 5:6. This work has resulted in two groups of four Beatitudes
(5:3-6; 5:7-10). The first, beginning with the same allusion to Isa
61.1-3 (cf. 5:3), and the second, concluding with the same allusion
(cf. 5:10), form an inclusio. Furthermore, the first Beatitude of each
group concludes with a specific reference to dikaiosinen (5:6,10).12

A primeira seqüência costuma ser apresentada com uma característica

literária interessante, onde os quatro destinatários iniciam com a letra "p" do

alfabeto grego: ptochoi (pobre), penthountes (aflitos), praeis (mansos) e

peinontes (famintos).13 Essa parte é chamada por muitos estudiosos de "seção

p".14

Esse arranjo em duas sequências de quatro dá a cada seqüência um

sentido diferenciado:

Las ocho primeras bienaventuranzas se componen de dos


grupos de cuatro. En el primer grupo se alaba más bien um
padecimiento; en el segundo grupo, uma determinada postura...15

Assim, teríamos nessa divisão de dois grupos de oito, um grupo

atentando para os obstáculos enfrentados pela vida cristã, e o outro grupo para

a ética de vida desses que enfrentam esses obstáculos. Como se pode

12 Guelich, Robert. A., The Matthean beatitudes..., p. 432 (grifo meu).


O agrupamento final ocorreu quando o evangelista alinhou sua tradição com Isaias
61.1-3. Ele aparentemente agregou 5.10, rearranjando a ordem da segunda e terceira
(5.5,6 conforme Lc) e expandiu 5.3 e 5.6. Esse trabalho resultou em dois grupos de quatro
bem-aventuranças (5.3-6 e 5.7-10). O primeiro, começando com a mesma alusão à Is
61.1-3 (cf 5.3), e o segundo, conclui com a mesma alusão (cf 5.10), formando um
inclusio. Além do mais, a primeira bem-aventurança de cada grupo conclui com uma
referência específica a dikaiosinen.
13 Lambrecht, J., The Sermon on the mount, p. 61.
14 Luz, Ulrich, op. cit., p. 228.
15 Schweizer, Eduard, El Sermón de la Montaña, p. 18. Concordam com essa divisão e classificação:
Strecker, G., The Sermon on The Mount, pg 30, onde ele chama o primeiro grupo de quatro de "carga que
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 42

perceber na amostra de autores que concordam com essa posição, ela tem

uma aceitação maior entre os comentaristas.

3.2 Oito bem-aventuranças formando um quiasmo

Uma outra forma de estruturar as bem-aventuranças é na forma de um

quiasmo. O quiasmo é uma estrutura literária em que as frases formam

múltiplas molduras que vão se complementando.

Nossa opção pelo quiasmo neste trabalho deve-se a alguns motivos.

Primeiro, que é a estrutura com o menor número de defensores. A grande

maioria, conforme vimos acima, vai defender a estruturação em dois grupos de

quatro bem-aventuranças ou, como em muitos casos, não defende estrutura

nenhuma, trata cada bem-aventurança isoladamente. Como o quiasmo é uma

estrutura largamente encontrada na literatura bíblica, e como Mateus tem uma

predileção por esta estrutura16, devemos verificar se ela não está presente

também nesse texto das bem-aventuranças. Desse modo, é uma estruturação

que vale a pena ser testada.

Entre os poucos defensores dessa estrutura encontramos: Davies e

Allinson, que apresentam a possibilidade, mas não assumem essa estrutura17;

Carlos Bravo G., que a defende em um artigo, embora ele apresente a

estrutura em forma de quiasmo, mas desenvolva seu trabalho agrupando as

bem-aventuranças em dois blocos18; e Ivoní Raimer, que defende essa

a humanidade carrega" (burden that humanity bears) e o segundo grupo de "o modo que o povo atua" (to
the way that people act); Luz, Ulrich. op. cit., p. 230.
16 Luz, Ulrich, Matthew..., p. 40.
17 Davies & Allison, op. cit., p. 429 a 431.
18 Bravo G., Carlos, Mateus: boas novas para os pobres perseguidos, p. 33
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 43

estrutura em um breve artigo, mas liga essa estrutura aos versículos 11 e 12

na perspectiva dos que, conforme apresentamos no início deste capítulo,

apontam essa que seria uma nona bem-aventurança como o clímax da

perícope19.

Segundo, porque as propostas de estrutura implicam em uma proposta

de leitura. A estruturação em dois conjuntos de quatro bem-aventuranças

invariavelmente acabam por apresentar uma divisão entre necessidades

materiais (as quatro primeiras) e necessidades espirituais (as quatro últimas).

Terceiro - que é a conseqüência da segunda - o quiasmo, como uma

proposta de estrutura, apresenta uma outra possibilidade de apropriação da

perícope que merece ser aprofundada.

Assim sendo, estaremos, no próximo capítulo, abordando as bem-

aventuranças estruturadas na forma de um quiasmo.

19 Reimer, Ivoní R., 4º domingo após a Epifânia, p. 64 a 68.


CAPÍTULO III

A ESTRUTURA DAS BEM-AVENTURANÇAS - UM QUIASMO

Neste capítulo estaremos propondo uma estrutura para o texto das bem-

aventuranças delimitado no capítulo anterior. Ao propor uma estruturação,

estaremos, paralelamente, buscando levantar sinais que nos permitam

compreender a situação que marcava a comunidade e o que esse texto

apontava frente a essa situação. Isso porque nenhum texto tem existência

autônoma da realidade que o cerca1. Ele transpira os eventos que o cerca e

dialoga com eles. Dessa forma, estaremos buscando os sinais dessa realidade

no texto das bem-aventuranças, e qual a forma de diálogo que ele mantém.

O interesse pela estrutura está em que, na proposta de estrutura, já está

embutida uma resposta possível do texto à realidade da comunidade. Para

1 Overmann, J.Andrew., Matthew's Gospel and formative judaism, p. 2.


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 45

isso, é fundamental estabelecer qual a forma de relação que existe entre as

quatro primeiras bem-aventuranças e as quatro últimas.

Ulrich Luz, na discussão sobre as interpretações que as bem-

aventuranças sofreram, classifica-as em três grupos. Poderemos perceber

nessa discussão que cada posição pressupõe uma proposta de estruturação.

O primeiro enfatiza a "concessão da graça". Ele se fundamenta nas quatro

primeiras bem-aventuranças, onde algumas categorias são apresentadas

como carentes e, por isso, dependentes da graça divina. O segundo considera

as bem-aventuranças como "admoestações éticas". Elas consistem em um

caminho que leva o indivíduo a ascender espiritualmente. O caminho da

perfeição. Assim, elas se constituem em ideal ético a ser atingido. Essa

interpretação marcou a Igreja na Idade Média, e cada bem-aventurança tem

seu sentido independente das demais. O terceiro reconhece as bem-

aventuranças como uma "regra para a vida da comunidade". As quatro últimas

bem-aventuranças apontam a vida que surge da graça, apresentada nas

quatro primeiras.2

Nesse último grupo, no qual se insere Luz, e no qual nós nos

localizamos, Luz apresenta algumas interpretações clássicas, como a de

Zinzendorf, que dividindo as bem-aventuranças em dois grupos de quatro,

como vimos acima, compreende que elas são o caminho daqueles que "têm

fome e sede da graça". Outra interpretação apresentada é a de Bonhoeffer,

que contrariamente à tendência de dividir as bem-aventuranças em dois

grupos de quatro, vai interpretar as bem-aventuranças como uma unidade de

2 Luz, Ulrich, Matthew, p. 230


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 46

conduta. Essa divisão, para ele, é irrelevante, o importante é que o texto fala

da vida de discipulado onde a comunidade que vive a mensagem do texto

perde tudo e encontra tudo em Cristo.3

Como afirmamos, nossa proposta nos coloca no terceiro grupo proposto

por Luz, onde as bem-aventuranças se constituem em norma para a vida da

comunidade. Contudo, frente às propostas representadas por Zinzendorf

(estruturação em dois grupos de quatro bem-aventuranças) e Bonhoeffer (oito

bem-aventuranças como uma unidade), propomos um caminho diferente, que

é a estruturação das bem-aventuranças como um quiasmo.

As bem-aventuranças seguem uma estrutura literária que


ajuda a retê-las na memória. Além disso, os diferentes termos são
colocados simetricamente de tal maneira que, quanto à forma
gramatical, a primeira (a) corresponde à última (a'): (sic) a segunda
(b) à penúltima (b'); a terceira (c) à sexta (c'); a quarta (d) à quinta
(d'). Mas não se trata simplesmente de uma estrutura para facilitar
a memória: a estrutura quiástica ou inclusiva marca o
paralelismo também nos conceitos(...)4

O quiasmo não é uma estrutura estranha a Mateus, tanto que ele é

descrito como um Evangelho que traz um considerável número de quiasmos,

sendo isso uma marca em seu estilo5.

3ídem, ibidem.
4 Bravo G., Carlos, Mateus: Boas-novas para os pobres-perseguidos, p. 33 (grifo meu).
5 Cf. Luz, Ulrich, Matthew 1 a 7, p. 40 a 49. Luz aponta essa caracteristica marcante do evangelho,
apontando como exemplo o Sermão do Monte como um todo e diversas outras passagens. Ele não faz isso
para as bem-aventuranças, mas aponta numa nota de rodapé que existe um quadro enorme de
possibilidades de quiasmos em Mateus. Contudo, ele destaca que é necessário ser cauteloso, buscando
determinar essa forma literária em textos que tenham uma unidade estrutural (textual) muito clara.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 47

Nossa proposta é de que, dentro dessa característica mateana, as bem-

aventuranças se estruturam da seguinte forma:

Mateus 5.3-10

A 3. Bem-aventurados os pobres em espírito,


porque deles é o Reino dos Céus.
B 4. Bem-aventurados os aflitos,
porque eles serão consolados.
C 5. Bem-aventurados os mansos,
porque eles herdarão a terra.

D 6. Bem-aventurados os famintos e sedentos de


justiça,
porque eles serão fartos.
D' 7. Bem-aventurados os misericordiosos,
porque eles serão misericordiados.

C' 8. Bem-aventurados os puros de coração,


porque eles verão a Deus.
B' 9. Bem-aventurados os "fazedores da paz",
porque eles serão chamados filhos de Deus.
A' 10. Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça,
porque deles é o Reino dos Céus.

Visualizando a estrutura proposta percebemos que a perícope abre e

fecha com o Reino dos Céus como promessa. A partir desta moldura, com o
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 48

conseqüente macarismo, temos outras molduras internas que centram a

atenção nos versículos 6 e 7, centro de nossa estrutura6.

A seguir, estaremos abordando as bem-aventuranças a partir dos pares

definidos na estrutura (A com A'; B com B' etc). Estaremos destacando os

elementos que apontam para a complementaridade dos pares bem como os

desafios que eles, como norma para a vida da comunidade, colocam.

1. POBRES EM ESPÍRITO E PERSEGUIDOS POR CAUSA DA JUSTIÇA

1.1. Bem-aventurados

Uma primeira abordagem ao texto deve se ater no significado do termo

macárioi, que traduzimos por bem-aventurados.

Esse termo era de uso comum no mundo helênico, servindo para

designar pessoas que possuíam atributos que poderiam ser creditados aos

deuses. Já no Antigo Testamento, ele designava pessoas que eram

caracterizadas por sua piedade. No intertestamento, ele muda de sentido e

passa a designar não mais a felicidade nesta vida, mas a felicidade que

caracterizaria a vida no Reino de Deus.7

6 Reimer, Ivoni R. , 4º Domingo Após a Epifânia, p. 64 a 68. Nesse auxílio homilético Ivoni propõe
uma estrutura semelhante, sendo que a moldura inicial é a mesma (vs 3 e 10), depois dividindo-se em dois
blocos, no primeiro as "conseqüências reais da injustiça"(vs 3, 4 e 5) e no segundo as "concretizações da
prática da justiça" (vs 7, 8 e 9). Ao centro, o vs 6 com o "clamor pela justiça".
7 Garland, David E., Reading Matthew, p. 52 a 53.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 49

No Evangelho de Mateus, as bem-aventuranças anunciam a proximidade

do Reino de Deus. Nos escritos que circulavam no mundo judaico nesse

período8 percebemos ênfases distintas:

Sirach looked back to a golden past and considered those


blessed who saw Elijah (48.11). The author of the Psalms of
Solomon looked forward to a magnificent future and ascribed
blessing on those who will be born in the days of the mesiah and
see the good fortune of Israel and the good things of the Lord
(17.44; 18.6)9.

Para o Evangelho de Mateus, o Reino se encontra próximo. Enquanto os

fariseus pregavam a necessidade do ressurgimento de Elias, como marca do

aparecimento do Reino, Jesus vai declarar que Elias já surgiu na figura de

João Batista e não foi reconhecido pelo povo (17.12) e, dessa forma, o Reino

de Deus já está próximo. Isso é o que vai ser percebido em 13.16-17:

Mas bem-aventurados os vossos olhos, porque vêem, e os


vossos ouvidos, porque ouvem.
Porque em verdade vos digo que muitos profetas e justos
desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que vós
ouvis, e não ouviram. (Almeida)

Percebemos que esta promessa é semelhante à dos Salmos de Salomão,

no que prega a felicidade daqueles que nascerem nos dias do Messias. Ao

8 Não estamos usando a expressão “nesse período” no conceito de redação mas de circulação. Os dois
escritos citados por Garland, Jesus Sirach e Salmos de Salomão foram escritos entre o final do 2º século e
início do 1º século antes da era cristã. Contudo, estes textos circulavam na sociedade da época, sendo
encontradas partes deles nas escavações em Qunram.
9 Garland, David E., op. cit., p. 53.
Sirach olhou para um passado dourado e considerou bem-aventurados aqueles que
viram Elias (48.11). O autor dos Salmos de Salomão olhou adiante, para um futuro
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 50

mesmo tempo, esta passagem agrupa duas categorias que são importantes

em Mateus, e que ecoam em nosso texto: a) os justos (os que têm fome de

justiça) e b) os profetas, que serão descritos no texto que se segue ao nosso (e

que aparece na forma de bem-aventurança) como os perseguidos. Os

discípulos de Jesus, em Mateus, são os destinatários das bem-aventuranças,

são os privilegiados de contemplar esses dias.10

Merece destaque uma diferença do uso do termo “bem-aventurado” no

Antigo Testamento (Septuaginta) e em nosso texto. Enquanto na Septuaginta o

termo aparece majoritariamente no singular11, nas bem-aventuranças em

Mateus ele aparece no plural. O bem-aventurado não é um discípulo, mas é

um grupo. Isso reforça o que iremos apontar mais adiante, que o discurso das

bem-aventuranças em Mateus consiste num código para a comunidade.

1.2. Pobres em espírito e perseguidos por causa da justiça

1.2.1. Em espírito

magnífico e atribuiu a bem-aventurança àqueles que nascessem nos dias do Messias e


vissem a boa sorte de Israel e as boas coisas do Senhor.
10 Garland, David E., op. cit., p. 53. Sobre essa questão dos destinatários do Sermão do Monte e das
bem-aventuranças, ver o livro de Juan Mateos e Fernando Camacho, O Evangelho de Mateus, onde se
defende que, embora o Sermão do Monte principie com Jesus ensinando frente a uma multidão, o discurso
de Jesus tem um destinatário específico: os discípulos. Que o Sermão é um desafio a um novo Israel, ou à
Igreja, concorda Gerhard Lohfink, El sermón de la montanha. Para quién? em seu livro, ele possui um
apêndice com uma discussão sobre o tema. Nós estaremos, neste trabalho, concordando que o Sermão, em
especial as bem-aventuranças, têm como pano de fundo a comunidade de Mateus.
Luise Schottroff e W. Stegemann em Jesus de Nazaret - esperanza de los pobres, defendem que já a
própria redação de Q havia mudado os destinatários originais preservados em Lucas para os discípulos
pobres de Jesus.
11 HATCH, Edwin & REDPATH, H.. A Concordance to the Septuagint. Vol 2, p. 892. Enquanto
bem-aventurado (singular) ocorre 45 vezes, bem-aventurados (plural) ocorre 12 vezes (consultado
somente o termo no nominativo).
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 51

Já na abertura das bem-aventuranças nos deparamos com um problema.

O qualificativo "em espírito" se constitui em uma espiritualização das bem-

aventuranças?

A história interpretativa das bem-aventuranças é controversa


e, desde os primeiros séculos d.C. até os nossos dias, não há
consenso na interpretação. Costuma-se dizer que Mateus, em
contraposição a Lucas, "espiritualiza" as bem-aventuranças.12

Um exemplo dessa busca de espiritualizar as bem-aventuranças

podemos ver a seguir:

El detalle "en espíritu", como se acepta generalmente, fue


añadido por Mateo. Le indujo a ello, seguramente, una
preocupación catequética: sus destinatarios corrían peligro de
comprender mal esta bienaventuranza, y de restringirla a una
categoría social. El evangelista, al añadir esta precisión a la
palabra del Señor, no hace más que darle caráter más explícito. En
efecto, nos equivocaríamos gravemente acerca del sentido de la
palabra pobre, si, en el contexto del Sermón del Monte, e incluso
anteriormente en el contexto de AT, la restringiéramos para hacer
que designase exclusivamente una categoría social. Esta palabra
se enriqueció y espiritualizó, y designa una actitude de espíritu,
inspirada por un sentimiento de dependencia con respecto a Dios,
de acogerse a su ayuda, de desconfiar de sí y confiar únicamente
en Dios.13

A adjetivação do termo “pobre” apresenta possibilidades diferentes de

interpretação. Cada autor escolhe um caminho e, dessa forma, elas se

12 Reimer, Ivoni R., op. cit., p. 64. Ivoni não concorda com essa afirmação. Ela vai apontar como
motivo para a essa expressão o contexto sócio-histórico da comunidade.
13 Troadec, H.. Comentario a los Evangelios Sinópticos, p. 68.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 52

multiplicam. Um consenso, pelo menos, encontramos. A maioria dos autores

citados em nossa bibliografia concordam que o termo "pobre" no grego (ptchoi)

se refere ao hebraico anawim.

A palavra anawin, no Antigo Testamento, designa sempre uma categoria

concreta, a dos pobres. Pobres no sentido sociológico do termo, e pode ser

traduzida por "encurvados", ou seja, os pobres que não têm forças para se

defender.14

Como a palavra anawin, recebendo o adjetivo "em espírito", pode ser

traduzida? De que forma essa adjetivação muda o conceito de anawin?

Queremos partir de uma hipótese. De que o termo em espírito não

espiritualiza a palavra pobre, muito pelo contrario, ele aponta o motivo que

levou a comunidade a ser pobre. Em outras palavras, pela opção da vida "em

espírito", a comunidade passa a ser pobre.

Inicialmente devemos observar o uso que Mateus faz da palavra

"espírito". Ela não é de uso comum no Evangelho. Enquanto Marcos usa 23

vezes o termo, e Lucas 36 vezes, Mateus usa esse termo apenas 19 vezes.

Vejamos as ocorrências:

Espírito com relação ao Espírito Santo:

• Mt 1.18 - Maria... achou-se grávida pelo Espírito Santo

• Mt 3.11 - Eu (João Batista) vos batizo com água, aquele... com o

Espírito Santo
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 53

• Mt 3.16 - Batizado, Jesus...os céus se abriram... Espírito de Deus

• Mt 4..1 - Jesus, levado pelo Espírito (// Mc 1.16, Lc 4.1. Lucas usa

E.Santo)

• Mt 12.28 - Mas se é pelo Espírito de Deus que expulso demónios

(// Lc 11.20, sendo que Lucas usa Dedo de Deus)

• Mt 12.31 - toda blasfêmia é perdoada ... blasfêmia contra o

Espírito (// Lc 12.10, // Mc 3.29. Marcos usa E.Santo)

• Mt 28.19 - ide...batizando-as em nome... Espírito Santo...

Espírito (humano ou imundo):

• Mt 5.3 - Bem-aventurados... Pobres em espírito

• Mt 8.16 - expulsou os espíritos... (// Mc 1.34 demônios // Lc 4.41

demônios)

• Mt 10.1 - deu autoridade de expulsar espíritos imundos (// Mc

3.15 - demônios, // Lc 9.1 - demônios)

• Mt 12.43 - ...espírito imundo sai do homem (// Lc 11.24 idênt.)

• Mt 12.45 - ... sete espíritos piores... (// Lc 11.24 idênt.)

• Mt 26.41 - vigiai e orai... o espírito está pronto... (// Mc 14.38, Lc

22.39-45 omite o espírito pronto)

14 Camacho, Fernando., La proclama del Reino, p. 55 a 58.


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 54

• Mt 27.50 - Jesus... entregou o espírito ( Lucas põe um Salmo -

em tuas mãos entrego... e na morte usa expirou, que é paralelo a Marcos).

Percebemos que o uso da palavra espírito não é chave para Mateus. Não

encontramos nestes textos acima citações, que a exemplo do uso do termo

justiça, impliquem em trabalho redatorial do autor demonstrando predileção

pelo tema. Daí, nas bem-aventuranças, o termo deve ter um significado ligado

ao contexto da perícope.

Outro ponto a se destacar está contido nas próprias bem-aventuranças. O

"pobre em espírito" aparece em uma clara ligação aos "perseguidos por causa

da justiça". São dois substantivos adjetivados. Os pobres são pobres em

espírito. Os perseguidos são perseguidos por causa da justiça. Também, os

dois têm como prêmio o Reino dos Céus. Eles se equivalem e, em nossa

proposta de estrutura, se complementam.

Será possível estabelecer uma ligação entre pobres e perseguidos? Essa

ligação seria possível também entre "em espírito" e "por causa da justiça"?

Chama a atenção o texto de Mt 6.25-34. Neste texto temos a

recomendação: "Mas buscai primeiro o Reino de Deus, e sua justiça, e todas

estas coisas vos serão acrescentadas" (Mt 6.33. Almeida - grifo meu).

O acréscimo da expressão "e sua justiça" é de Mateus. O paralelo em

Lucas (12.31) não possui esta expressão. A perícope, como um todo, coloca

as preocupações com a sobrevivência. Isso percebemos na primeira

exortação: "Não ajunteis tesouros na terra..." (6.19 - Almeida) e na exortação

que encabeça a unidade que contém o texto de 6.33: "Não andeis cuidadosos
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 55

quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber;

nem pelo vosso corpo, pelo que haveis de vestir" (6.25 - Almeida, grifo meu).

Embora o texto de Mt 6.33 tenha sido recebido pela comunidade mateana na

forma apresentada por Lucas, ao acrescentar a expressão "e sua justiça" o

evangelista vincula o termo “justiça” às questões ligadas à sobrevivência.

Em Mateus 13, no discurso em parábolas, aparecem duas parábolas

exclusivas de Mateus. A do tesouro e a da pérola. Nelas, o Reino de Deus é

comparado a um tesouro encontrado no campo. O trabalhador que o

encontrou, para possuir o tesouro, necessita vender tudo o que tem para

comprar o campo. Do mesmo modo, o Reino é comparado com uma pérola

valiosa que, uma vez encontrada por um negociante, para possuí-la, necessita

vender tudo o que tem.

Encontrar o Reino de Deus, nessa perspectiva, é o contrário a possuir

bens. O texto pode sugerir que para fazer parte do Reino é necessária uma

opção entre o acúmulo ou o Reino. Nesse capítulo, a conclusão dada à

parábola da rede acrescenta um julgamento e premiação aos justos.

A história do jovem rico (Mt 19.16-22) é paradigmática. É um jovem

fariseu, rico, que não quer abandonar seus bens e ficar pobre para seguir a

Jesus. É o inverso da situação vista anteriormente. Aqui, a posse de bens foi

empecilho para o ingresso no Reino.

Es éste el único relato de vocación no respondida


afirmativamente en todo el NT. El recuerdo del encuentro del
hombre bueno tanto como rico, con Jesús sirvió a la comunidad
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 56

cristiana para darse respuesta a la cuestión de los bienes en el


siguimiento de Jesús.15

O texto de 6.19-24 estabelece uma diferença entre o tesouro no céu e

tesouro na terra. A riqueza neste texto é apresentada como um problema. É

um risco ajuntar tesouro na terra, onde há traça, caruncho e ladrão. A

conclusão é uma frase dura: onde está o tesouro, aí está o coração. Esta frase

aparece em Lucas (12.33-34) em um contexto diferente. O contexto de Lucas é

o do incentivo à esmola. Já em Mateus, a ênfase é no ajuntar tesouro.

A segunda perícope apresenta o olho como a lâmpada do corpo. Algo

importante a se destacar é o uso da expressão olho bom.

El ejemplo, por su parte, aparece en los versos 22s, utilizando


un semitismo. Para el hebreo "un ojo bueno" es una persona
desprendida, mientras que un "ojo maligno" es una persona tacaña
y envidiosa. Véanse Proverbios 11.25; 22.9 y Deuteronomio 15.9.
Esto parece significar que si uno se desprende de las riquezas
podrá ser como una luminaria: "todo tu cuerpo estará lleno de luz";
y al contrario, si uno vive aferrándose a las riquezas "todo tu
cuerpo estará en tinieblas".16

Finalmente, a terceira perícope retoma o tema da riqueza. Não se pode

servir a dois senhores é o ensinamento. Cabe uma opção, ou Deus ou o

dinheiro (mamon).

Nesses exemplos, destaca-se uma ênfase que a comunidade tem em

relação à posse de bens. Percebe-se que não é possível conjugar o pertencer

15 Bartolomé, Juan J., Pobreza de vida y sequimiento de Jesus, p. 94.


16 Gorin, O., El sermon del monte, p. 19.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 57

ao Reino, ou à comunidade, e possuir bens. Outro detalhe que pode ser

percebido é uma vinculação entre a situação econômica e o termo “justiça” ou

“justo”.

1.2.2. Justo

O termo justo é um termo característico da literatura da época. É uma

característica do que é chamado por Overman como "linguagem do

sectarismo"17. Sobre isso, ele afirma:

Two terms that are characteristic of these sectarian


commuities and are regularly found in their writings are "lawless"
and "righteous".18

Nessa linguagem, os fora da lei, rebeldes (lawless - sem lei) e os justos

(righteous) são dois termos importantes. 4 Esdras (cap 7-9) descreve os

justos como a pequena comunidade de fé. Também 2 Baruch 14 oferece uma

descrição dos justos.19 É importante destacar que essa é uma linguagem em

oposição a uma classe que, sendo dominante, oprime as pequenas

comunidades que se apegam a essas expressões:

Another document which dates from approximately de same


period as the Qumran writings, 1 Enoch, holds a similar view of
those who are in power. They are corrupt and faithless and soon
will be judged. The author describes them above all as
"sinners"(96.22, 98.4, 100.7). These sinner commit idolatry (99.7,
104.9), blaspheme (94.9, 96.7) and curse (95.4). They oppress the

17 Overman, J.Andrew. Matthew's Gospel and Formative Judaism, p. 16ss.


18 idem ibidem, p. 17.
“Dois termos que são características destas comunidades sectárias e são encontrados em seus escritos
são: “rebeldes” e “justos”.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 58

righteous and just (94.6, 96.7, 97.6). They bear false witness en
order to persecute the righteous (95.6, 99.1). They coerce the
righteous with their power (96.8) and pervert the law for their own
means (99.2).20

A pergunta que se pode fazer é: qual a vinculação entre essas

expressões e a situação econômica?

Para responder, precisamos adentrar em um conflito que permeia a

comunidade de Mateus, que é o conflito com os fariseus. Tanto que, no

Sermão do Monte, uma das advertências é de que se a justiça dos discípulos

(da comunidade) não exceder a de escribas e fariseus, eles não herdarão o

Reino dos Céus (Mt 5.20).

Esse conflito tem dois níveis, um teológico e outro econômico.

A comunidade vive no último terço do primeiro século. Após a guerra

judaica o Templo foi destruído. A religião judaica passou a se estruturar sob

uma nova força, a dos fariseus.

... um importante grupo de fariseus, reunidos em torno de


Yohanan ben Zakkai, se opõe à guerra, por considerar inútil uma
resistência que comprometeria seriamente o destino de Israel.
(............................................................................................)

19 idem, p. 17.
20 idem, p. 10.
“Outro documento que data aproximadamente do mesmo período dos escritos de
Qunran, I Enoch, abrange uma visão similar daqueles que têm o poder. Eles são corruptos
e infiéis e rapidamente serão julgados. O autor descreve a todos como pecadores (96.22;
98.4; 100.7). Esses pecadores cometem idolatria (99.7;104.9); blasfêmia (94.9; 96.7) e o
maldizer (95.4). Eles oprimem os justos (íntegros) e os justos (94.6; 96.7; 97.6). eles
pagam falso testemunho e ordenam a persequição dos justos (95.6; 99.1). Eles coagem os
justos com seu poder (96.8) e pervertem a lei com a sua interpretação (99.2).”
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 59

(...) Poucos anos depois, talvez entre 75 e 80, Yohanan ben


Zakkai, chefe dos que se haviam oposto à resistência armada a
Roma, e que havia fugido de Jerusalém durante as hostilidades de
66-70, empreende a magna tarefa de reorganizar os judeus em
torno à Sinagoga. Jâmnia pretende ser o início do fim do
sectarismo cuja variedade desconcertava o povo. O assim
chamado "Concílio de Jâmnia" (por volta do ano 90) é o fato mais
significativo neste processo. Significa o estabelecimento do
rabinato como corpo normativo para o judaísmo. Uma hipótese
razoável é a seguinte: vários judeus, entre os quais Yohanan, se
estabeleceram em Jâmnia durante ou depois do cerco de
Jerusalém. Depois do ano 70 se estabelecerá uma escola rabínica
em Jâmnia, com a autorização de Roma. Sua finalidade será
unificar o fragmentado judaísmo, formando uma coalizão.21

Esse novo judaismo, que está se estabelecendo, vem marcado pela

relação com os dominantes, os romanos, e pela oposição a todos os pequenos

movimentos que eram característicos do judaísmo do Templo.

Esses dois aspetos vão marcar a relação dessa nova liderança judaica

com a comunidade de Mateus. Isso é o que vamos detalhar a seguir.

O conflito teológico

No estabelecimento de um novo judaismo, a liderança farisaica vai

estabelecer um expurgo dos pequenos movimentos judaicos que anteriormente

coexistiam dentro do judaismo. Entre esses movimentos, encontrava-se o

movimento dos cristãos.

21 Bravo G., Carlos. Mateus: Boas-novas para os pobres-perseguidos, p. 31 (grifo meu).


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 60

Um dos sinais dessa ortodoxia que expurgava os pequenos movimentos,

encontramos numa bênção (maldição) contra os nazarenos (os cristãos):

E que não haja esperança para os apóstatas, e que o reino


insolente seja imediatamente erradicado em nossos dias. E que
pereçam de imediato os nazarenos e os herejes e que sejam
apagados do livro da vida e não sejam inscritos com os justos.22

Isso colocava para os pertencentes aos cristãos a obrigatoriedade de

optar entre abandonar a sinagoga a fim de permanecer na fé cristã ou negar a

fé cristã visando sua integração à sinagoga.23

Dessa forma, o evangelho de Mateus, num primeiro nível, discute com

essa realidade, buscando levar o povo da comunidade cristã ao exercício da

fidelidade ao Reino de Deus.

1.2.3. A convergência dos termos - o conflito no campo social

No conflito teológico encontramos um consenso maior entre os diversos

autores, na medida que eles reconhecem essa dimensão da postura teológica

de Mateus como enfrentamento a um novo judaísmo que vai se formando.

Contudo, quando o conflito entra no campo social, as leituras divergem.

Conforme propomos no início deste item, gostaríamos de buscar uma

vinculação entre pobres e perseguidos. Isto aparece na maioria dos autores,

que localizam o conflito que descrevemos acima como pano de fundo do

22 Schurer, Emil, História del Pueblo Judio en Tiempos de Jesus. p. 596. Tradução de Bravo G,
Carlos. Mateus: Boas-novas para os pobres-perseguidos, in Ribla - Revista de Interpretação Bíblica
Latino-Americâna, Nº 13, p. 32. Nessa tradução Carlos omite a frase final da benção, que é uma frase de
louvor: “Bendito eres, Señor, que humillas al insolente”.
23 Bravo G, Carlos, op. cit., p. 32.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 61

Evangelho. Já quando se trata de buscar o significado da adjetivação "em

espírito", dada aos pobres, a situação muda. Encontramos diversas

interpretações para o significado da pobreza em espírito, cujas pesquisas F.

Camacho sintetiza da seguinte forma:

(...) a) "Los desapegados interiormente de los bienes


materiales".
b) "Los humildes".
c) "Los que son conscientes ante Dios de su indigencia
espiritual".
(...) La adicion Toi pneumati matiza, de una forma y otra, el
estado de pobreza material denotado por ptochos, pero sin que, en
ningun caso, este quede por completo interiorizado o transpuesto.
Con la adición Mateo pretendería:
a) Indicar la aceptación voluntaria de ese estado.
b) Expressar resignación ante el estado de pobreza.
c) Señalar la intensidad del estado.
d) Resaltar el aspecto religioso del mismo.
e) Suavizar la carga socio-económica del término .
f) determinar la esfera en que se fundamenta la pobreza.
(...) El dativo toi pneumati designa el objeto de que están
faltos los ptochoí. La naturaleza de ese objeto varia según las
diversas interpretaciones:
a) "Los faltos de ingenio y erudición".
b) "Los faltos de fuerza y coraje".
c) "Los que carecen del Espíritu y tienen necesidad de él".
d) "Los ignorantes de la Ley": la expresion de Mateo
designaria a los 'am-há-arez", es decir, al pueblo sencillo, ignorante
de la Ley e incapaz de cumplir las minucias legales, despreciado
por los líderes religiosos: letrados y fariseos".24

24 Camacho, Fernando, La Proclama del Reino, p. 107 a 108. Definindo os pobres em espírito como
humildes temos VV.AA. A mensagem das bem-aventuranças, p. 63 a 69.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 62

Nesta síntese que Camacho faz, podemos perceber que a adição "em

espírito" traz para o estudo do texto um número grande de possibilidades de

interpretação. Contudo, além do consenso sobre a origem do termo pobre,

temos também um certo consenso que a mudança de “pobre” para “pobre em

espírito” muda o termo da esfera social para a esfera religiosa.25

Quando olhamos os textos que marcam o Evangelho de Mateus e

vinculam à opção religiosa a situação econômica, conforme fizemos acima,

podemos perceber que há uma ligaçãoentre a questão religiosa e a situação

social da comunidade. Desse modo poderíamos apontar para uma situação em

que a comunidade de Mateus, ao fazer opção pelo Reino, teria como

conseqüência a pobreza material.

Klaus Wengst, ao comentar, no evangelho de João26, as conseqüências

de um conflito com a sinagoga e uma possível exclusão dela afirma:

Tal estigmatización de los judeocristianos como herejes y la


expulsión conseguiente de la comunión sinagogal no era
simplemente una medida religiosa, sino un acto que alteraba
sustancialmente todas las circunstancias de la vida. Tenia afectos,
sobre todo, en el plano económico.27

Para sustentar isso, Wengst vai basear sua pesquisa no comportamento

do judaísmo que surge depois da destruição do Templo, frente aos

25 Davies, W.D; Allison, Dale C.; Matthew, p. 443 a 444.


26 Wengst, Klaus, Interpretación del evangelio de Juan, p. 53 a 67. Neste capítulo, Wengst trabalha as
Medidas Judaicas contra a comunidade joanina. Embora o alvo seja a comunidade de João, ele aborda de
modo amplo as conseqüências das medidas, usando, inclusive, o comentário a Mateus para apontar essa
conjuntura (veja, por exemplo, a nota 3, p. 55).
27 Wengst, Klaus. op. cit., p. 64.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 63

movimentos que existíam no seio do judaismo do Templo. Os desdobramentos

da "bênção aos hereges", que vimos acima, levam a algumas posturas contra

os cristãos descritas em documentos rabínicos:

No se les vende (a los minim) ni se les compra, no se negocia


con ellos, no se enseña a sus hijos ningún oficio ni se permite que
curen a posesiones (esclavos y ganados) ni a personas (...) No hay
que hacer negocios con los minim ni dejarse curar por ellos, ni
siquiera para prolongar la vida una hora (...) A los paganos y a
aquellos que apacientan o crían ganado menor no hay que
favorecerlos, pero tampoco perseguirlos. A los minim y a los
renegados y a los delatores no hay que favorecerlos y hay que
perseguirlos.28

Embora alguns destes textos rabínicos (em especial a última parte da

citação) podem ser datados do final do primeiro século, eles sintetizam o

processo de discriminação e perseguição econômica que vai marcar o

judaísmo farisaico na relação com os cristãos.

O contexto do Evangelho nas passagens examinadas, somado ao

comportamento crescente de perseguição aos cristãos demonstrado nestes

documentos, apontam para uma vinculação direta entre a perseguição religiosa

e a pobreza econômica.

Deste modo, poderíamos apontar que o pobre em espírito é aquele que,

na opção de fé pelo cristianismo (espírito) terá de abdicar dos bens terrenos

(Mt 13.44-46), vindo a ser economicamente pobre. Por isso, aos pobres que

28 Wengst, Klaus. op. cit., p. 64 a 65.


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 64

ficaram pobres pela opção cristã, sendo perseguidos por causa da justiça

(justiça da comunidade cristã), é prometido o Reino dos Céus.

É uma linguagem de seita, conforme apresentamos acima, que busca

viabilizar a existência da comunidade em meio a essa situação de pressão

religiosa e econômica.

2. Bem-aventurados os aflitos e os "fazedores da paz"

2.1. Aflitos

Neste par, encontramos um reflexo mais direto da situação da

comunidade. Enquanto Lucas usa o termo "os que choram" (oi klaiontes),

Mateus usa "os aflitos" (oi pentountes):

(...) Mateus, na segunda bem-aventurança, substitui o amplo


"chorar" de Lc 6.21b pelo termo estar de luto, "prantear" (Mt 5.4):
Mateus inclui nessa bem-aventurança a experiência do povo que
chora por causa da situação de luto, surgida com a guerra dos
romanos contra o povo judeu e também por causa da decorrente
perda do templo. Portanto, bem-aventuradas são as pessoas que
estão enlutadas, que sofrem/sofreram a experiência da morte, e
por isso lamentam e choram. O luto, acompanhado de choro, é o
sinal da inconformidade com essa situação de sofrimento e, ao
mesmo tempo, sinal de que a esperança das pessoas enlutadas
está depositada no Reino dos céus, e não nos poderes desse
mundo. É por isso que essas pessoas têm a promessa de consolo,
o qual transforma a situação do sofrimento atual.29

29 Reimer, Ivoni R., op. cit., p. 65. Davies W. D. & Allison, Dale C., Matthew, p. 447, discordam de
Ivoni Reimer na medida em que defendem que o termo usado por Mateus é oriundo da fonte Q, sendo que
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 65

Na citação acima, Ivoni R. Reimer faz uma síntese da influência da

situação da comunidade na redação do texto. Essa abordagem coloca as bem-

aventuranças no contexto da comunidade. O que devemos perguntar é se a

causa da aflição (luto na tradução de Ivoni R. Reimer) é a destruição do templo

ou a situação de perseguição que a comunidade enfrenta. Isso é o que

buscaremos vislumbrar nesse item.

Carlos Bravo irá definir os aflitos como aqueles que sofrem (essa é a

tradução que ele usa) "devido a perda da identidade como povo de Deus"30.

Com isso ele caminha pela trilha proposta por Ivoni Reimer, contudo, ele

apresenta essa bem-aventurança como parte de um conjunto que aponta para

a "impotência" que não consegue fazer prevalecer seus direitos. Ao sofrimento

da perda da identidade, Carlos Bravo irá somar a falta de poder para fazer

prevalecer seus direitos.

O autor Segundo Galiléia, diferentemente dos autores anteriores, liga a

bem-aventurança dos aflitos aos que têm fome e sede de justiça. Desse modo,

para ele, os aflitos são aqueles que "movidos por intenso anseio da vinda do

Reino, sofrem e se afligem por isso".31 Esta interpretação soa diferente de

todas as anteriores. Porém, embora não apoiemos esta interpretação,

devemos destacar a vinculação que ela irá estabelecer com a conjuntura:

foi Lucas que alterou o termo com finalidades redacionais. Nos concordamos com a posição de Davie e
Allison pelos motivos mencionados no capítulo anterior. Contudo, concordamos com a posição de Ivoni
Reimer que essa bem-aventurança reflete a situação da comunidade, entretanto, questionaremos a
interpretação de Ivcni sobre o motivo da alteração.
30 Bravo G., Carlos. op. cit., p. 35.
31 Galiléia, Segundo. Espiritualidade da Evangelização, p. 69,
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 66

Mas a santidade e a justiça do Reino também têm uma


dimensão social (...) Quanto mais forte for o pecado social e mais
fraca a influência da lei de Cristo na sociedade, tanto mais a justiça
bíblica evocará e privilegiará a justiça social. Nesse caso (como é o
da América Latina), a aflição e a fome e sede do Reino que Jesus
pede a seus seguidores assumirão uma forte tônica de justiça
social, de libertação dos pobres e oprimidos e de exigência de luta
por uma sociedade melhor (mais fiel aos valores do Reino, mais
santa).32

Dentro da perspectiva de localizar o texto dentro do contexto da

comunidade, um contexto de perseguição e opressão, podemos olhar para a

tradição vetero-testamentária, onde o estar aflito é situado dentro da relação

do Deus que ouve o clamor do povo, com o povo que, em meio a uma situação

de opressão, clama a Deus pedindo por justiça. Essa relação encontramos, por

exemplo, no Salmo 34.19: "O Senhor está próximo dos que têm o coração

aflito e auxilia os que têm ânimo triturado".33

Assim, voltando ao nosso texto:

(...) "Os que sofrem" [os aflitos em nossa tradução]: o verbo


grego denota dor profunda que não pode deixar de se manifestar
no exterior. Não se trata de dor qualquer; o texto é inspirado em Is
61.1, onde os que sofrem formam parte da enumeração que inclui
os cativos e prisioneiros. No texto profético se trata da opressão de
Israel, e o Senhor promete seu consolo para tirar seu povo da
aflição, do luto e do abatimento.

32 Galiléia, Segundo. op. cit., p. 71.


33 Lapide, Pinchas. O Sermão da Montanha - Utopia ou Programa?, p. 32.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 67

"Os que sofrem" são, portanto, vítimas de opressão tão dura,


que não podem conter sua dor. Como em Is 61,1, o consolo
significa o fim da opressão.34

O uso da expressão aflitos, portanto, não pode se resumir ao sofrimento

causado pela perda da identidade ou a destruição do templo, mas deve ser

entendido à luz do sofrimento decorrente da perseguição ou opressão externa.

2.2. Fazedores da Paz

A expressão "eirenopoioí", é um desafio para este trabalho. Isso porque

ela é uma palavra que aparece uma única vez no Novo Testamento.35 Por isso,

é muito difícil determinar qual o sentido que essa palavra teria no contexto da

comunidade. Assim, devemos buscar encontrar pistas que nos ajudem a

determinar esse sentido.

Várias definições do termo podem ser dadas, como as que percebemos

abaixo:

... The "son of peace" may be someone whose eschatological


destiny is peace, in analogy with the "sons of light" (so Josef
Schmid on Luke 10.6, RNT, 1960), or who accepts the Gospel and
thereby embarks on what Rom. 3:17 calls the "way of peace,"
becoming what Matt. 5:9 calls a "peacemaker," or who extends
hospitality with a peace greeting, or who combines these features.36

34 Mateos, Juan. Camacho, Fernando. O Evangelho de Mateos, p. 58.


35 O substantivo "eirenepoiós" só aparece no texto de Mateus. Há uma ocorrência do verbo
"eirenepoieo" em Colossenses 1.20 :
"e reconciliar por ele e para ele todos os seres, os da terra e os dos céus, realizando a paz pelo sangue
da sua cruz". (Bíblia de Jerusalém)

36 Woodruff, Archibald M., EIPHNH in the Pauline Corpus, p. 40


O “filho da paz”pode ser alguém cujo destino escatológico é paz, em analogia com os
“filhos da luz” (cf Josef Schmid em Lucas 10.6, RNT, 1960); ou quem aceita o evangelho
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 68

Sobre o nosso texto, ele pode receber algumas interpretações, alguns

modos de compreender o que significa fazer a paz:

The other possibly ethical instance of "making peace" in the


NT is the beatitude Matt. 5:9: "Blessed are the peacemakers, for
they will be called sons of God" (...) "Peacemakers" can have at
least four possible meanings: (a) one who resolves conflicts to
which he himself is not a party, (b) the bringer of a pax Messianica
which somehow resembles the pax Romana, (c) an apostle who
transmits the Gospel by saying, "Peace!" in God's name, or (d) one
whose way of living is such as to reconcile others to himself.37

Percebe-se que existe uma diversidade de interpretações. Para

buscarmos um caminho que nos possibilite uma compreensão do termo,

podemos buscar no Novo Testamento textos que nos auxiliem nessa tarefa.

No Novo Testamento encontramos diversas referências à "paz". Muitas delas

podem ser lidas junto com o texto de Mateus, aclarando assim o seu sentido.

Através da discussão do uso do termo em I Pd 3.11, II Pd 3.14, Hb 12.11-14, a

paz pode ser entendida como uma busca do bem-estar entre os cristãos38.

Com isso, dentro da linha das outras bem-aventuranças, fazer a paz pode ser

e assim assume o que Rom 3.17 chama de “caminho da paz”, tornando-se o que Mt 5.9
chama como “fazedores da paz”; ou quem oferece hospitalidade com o oferecimento de
paz; ou quem combina esses elementos.
37 idem ibidem, p. 97.
A outra possibilidade de instância ética de “fazer a paz” no NT é a bem-aventurança
de Mt 5.9 : “Bem-aventurados os fazedores da paz, pois eles serão chamados filhos de
Deus” (...) “Fazedores da paz” pode ter pelo menos quatro interpretações possíveis: a)
alguém que resolve conflitos, do qual ele não é parte; b) quem traz a Pax Messiânica que,
de alguma forma, assemelha-se a Pax Romana; c) um apóstolo que transmite o evangelho
dizendo “paz!” em nome de Deus; ou d) alguém que tem seu modo de vida como um
reconciliar o outro consigo mesmo”.
38 idem ibidem, p. 69 a 72.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 69

uma exortação à construção de uma prática de vida que possibilite o bem-estar

mútuo. Seria um desafio à comunidade.

Por outro lado, a expressão pode estar ligada a um contexto mais político

da época. Isso porque "In Hellenistic Greek, eirenopoiós 'peacemaker' is an

epithet of emperors"39. Assim, na busca do bem-estar em paz, a comunidade

buscava uma alternativa para a "vida em paz" que era oferecida pelo império

romano e seus seguidores.

Com isso, podemos afirmar que, do mesmo modo que discutimos acima o

conceito de "justiça" a partir de uma oposição ao grupo dominante da religião

judaica, esse mesmo processo acontece aqui em relação ao poder maior -

Roma. Enquanto os romanos, e aqueles que se colocam em uma relação de

submissão a eles (a liderança farisaica), estabelecem a paz a partir do

imperador e seu poder bélico, a comunidade de Mateus é desafiada a fazer a

paz a partir de critérios diferentes.

A comunidade é desafiada a fazer a paz a partir dos aflitos, uma paz que

seja consolação e bem-estar. Os que praticam essa paz são filhos de Deus.

Enquanto a paz romana, como paz do imperador, não estabelece a filiação

divina, muito pelo contrário, diviniza o imperador, essa paz aponta um modo de

ser divino para a práxis da comunidade. Em meio à aflição, a comunidade é

chamada a estabelecer uma paz que aponte Deus como Pai.

3. MANSOS E PUROS DE CORAÇÃO

39idem ibidem, p. 94.


“No grego helênico, eirenopoiós, fazedor da paz, é um epíteto do imperador”.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 70

3.1. Mansos

A vinculação entre essas duas bem-aventuranças pode ser percebida

pela ocorrências da palavra manso no Novo Testamento e, especialmente no

Evangelho de Mateus.

A palavra manso (praeis) aparece somente quatro vezes no Novo

Testamento, sendo uma em I Pedro (3.4) e as demais em Mateus. O termo

mais comum ao Novo Testamento é mansidão (praûtetes), em especial nos

escritos da escola paulina. A mansidão é sempre apresentada como uma das

virtudes que caracteriza o ser cristão. A ocorrência desse termo se dá em I Co

4.21, II Co 10.1, Gl 5.23; 6.1, Ef 4.2, Cl 3.12, II Tm 2.25, Tt 3.2, Tg 1.21; 3.13, I

Pd 3.15.

Já a expressão manso como um sinônimo de pessoa ocorre, como vimos

acima, quatro vezes. Em Mateus ela ocorre três vezes (5.5, 11.29, 21.5). A,

primeira é nossa bem-aventurança, as demais são:

Tomai sobre vos o meu jugo, e aprendei de mim, que sou


manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para
vossas almas (11.29 - Almeida, grifo meu);
Dizei à filha de Sião: Eis que teu rei aí te vem, manso e
assentado sobre uma jumenta, e sobre um jumentinho, filho de um
animal de carga. (21.5 - Almeida, grifo meu).

A nossa atenção deve ser colocada no uso da expressão em I Pedro e

em Mateus. Isso é o que veremos a seguir.

3.1.1. O Manso em I Pedro


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 71

Em I Pedro, a expressão está ligada a preceitos para a vida dos cristãos

no mundo em que estão inseridos.

Semelhantemente, vós mulheres sede sujeitas aos vossos


próprios maridos; para que também, se alguns não obedecem à
palavra, pelo porte de suas mulheres sejam ganhos sem palavra;
considerando a vossa vida casta, em temor.
O enfeite delas não seja o exterior, no frisado dos cabelos, no
uso de jóias de ouro, na compostura de vestidos; Mas o homem
encoberto no coração; no incorruptível trajo de um espírito manso
e quieto, que é precioso diante de Deus. (I Pd 3.1-4 - Almeida,
grifo meu).

O interessante é que I Pedro pode ser localizada em um período próximo

ao do Evangelho de Mateus e, o que é mais importante, dentro da mesma

conjuntura:

...leva-me a sugerir uma data para 1 Pedro que se situa


dentro do período flaviano (69-96 d.C.).
É a época em que, em conseqüência da primeira guerra
judaica (66-70 d.C.), os cristãos da Ásia Menor estavam em fase
de emergir como seita distinta do seu meio original judaico,
distinguindo-se ao mesmo tempo dos tipos de associação e culto
pagãos. (...) Os interesses teológicos refletiam a nova situação.
Não mais a Lei, o templo e a circuncisão constituíam os pontos
predominantes de tensão sociorreligiosa, como ocorria antes para
Paulo. Em pauta estava o caráter distinto da seita e sua abertura
quer para judeus como para gentios. Interesse principal tornaram-
se a legitimação teológica da ruptura com o judaismo e o caráter
étnico misto de sua composição. Assim sendo, a situação que se
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 72

reflete em 1 Pedro coincide com a dos Atos dos Apóstolos e


Evangelhos.40

Dentro dessa conjuntura, os preceitos apresentados visavam


regulamentar a vida dos cristãos que enfrentavam as contradições da

sociedade na qual eles estavam inseridos:

... O cristianismo na sua qualidade de seita não constituía


somente fenômeno religioso, mas também social. Para os
membros, representava lugar onde se sentiam em casa os muitos
deslocados e sem casa e sem pátria. Tratava-se de sociedade
alternativa e auto-suficiente, onde as pessoas podiam cultivar em
comum valores e ideais divergentes dos da sociedade mais vasta.
Como seita, o cristianismo exercia atração sobre as pessoas que já
se achavam em tensão com o mundo. Com base em sua
conversão, a seita lhes oferecia meios adequados para suportar e
até aceitar aquela tensão. A mudança proposta não dizia respeito
às estruturas da sociedade, mas às atitudes do coração e da
consciência (2,19-20; 3,3-4.15-16.21) das pessoas que desejavam
fazer a experiência da verdadeira fraternidade. A comunidade,
constituída por pessoas desejosas de passar por essa forma de
conversão, significava, porém, uma forma implícita de protesto
pessoal organizado.41

Deste modo, a palavra manso surge, em I Pedro, dentro de um contexto

de viabilização da vida como seita em meio à sociedade. Isso aponta que essa

palavra se une, como uma forma de viver na sociedade, às outras palavras que

vimos que, são características do discurso de seita.

3.1.2 O manso em Mateus

40 Elliott, John H., Um Lar Para Quem Não Tem Casa, p. 86.
41 Elliott, John H., op. cit., p. 78 (grifos meus).
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 73

Como citamos acima, das quatro vezes que essa palavra é usada no

Novo Testamento, três delas aparece em Mateus. Dessas três vezes que ela

ocorre em Mateus, duas delas estão diretamente associadas a uma descrição

de Jesus.

A primeira, fora nossa bem-aventurança, ligada a Jesus é: "Tomai sobre

vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e

encontrareis descanso para vossas almas (11.29 - Almeida, grifo meu). O texto

enfatiza que o próprio Jesus é manso. É uma característica de Jesus que a

comunidade será desafiada a seguir. É importante ressaltar também que neste

texto, semelhante à estrutura das bem-aventuranças que propomos, há

formação de um par entre os mansos e os puros de coração; aqui as

características de Jesus são o ser manso e o ser humilde de coração.

A segunda ocorrência é uma citação do Antigo Testamento, baseada na

Septuaginta: "Dizei à filha de Sião: Eis que teu rei aí te vem, manso e

assentado sobre uma jumenta, e sobre um jumentinho, filho de um animal de

carga". (21.5 - Almeida, grifo meu). Nesta citação existem diferenças com o

texto da Septuaginta: uma delas é que nas características do rei que vem, o

texto da Septuaginta coloca “justo (dikaios) e salvador”. Contudo, a palavra

“manso” aparece em Zacarias e em Mateus.

Em Mateus, esse texto é usado para estabelecer uma comparação entre

Jesus e os reis conhecidos. No texto temos uma característica do rei Jesus.

Diferente dos reis conhecidos, entre eles César de Roma, que eram fortes e

vinham montados em cavalos de batalha, Jesus aparece montado em jumenta


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 74

e jumentinho, que o texto faz questão de frisar que são animais de carga, do

trabalho humilde.

A partir do que levantamos acima, qual seria o significado da palavra

manso em nossa bem-aventurança?

Essa bem-aventurança não é uma novidade literária. Ela é oriunda de um

Salmo do Antigo Testamento, o Salmo 37.

Nesse Salmo, o vs 11 na Septuaginta (LXX)42 aparece na seguinte forma:

"oi de praeis kleronomésousin gên"43, enquanto em Mateus encontramos:

"oi praeis oti autoi kleronomésousin ten gên"44.

Percebe-se a dependência que o texto de Mateus tem em relação à LXX.

Para buscar compreender o significado de manso para Mateus, devemos

levantar duas perguntas: o que significa a palavra manso; e, qual o contexto do

Salmo 37?

A palavra manso (praeis) na LXX é a tradução da palavra hebraica

'anawin, que pode ser traduzida por "oprimido, humilhado, miserável, aflito,

humilde"45. Essa palavra vem do verbo 'anah que significa "abaixar-se,

agachar-se; estar oprimido (...) curvar-se, humilhar-se, ser oprimido, ficar

42 Na Septuaginta (LXX), tradução do Antigo Testamento para o Grego, o salmo aparece com o
número 36.
43 Rahlfs, Alfred., Septuaginta, p. 36 a 37, (grifo meu).
44 Nestle, Erhard & Alland, Kurt. Novun Testamentun Graece, p. 9 (grifo meu).
45 Kirst, Nelson et alli, Dicionário Hebraico-Português & Aramaico-Português, p. 183.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 75

fraco"46. Esse verbo aparece por volta de oitenta vezes nos Salmos47 e tem o

significado de uma situação de opressão imposta por outrem.

Fazendo a análise dos textos do Antigo Testamento onde


aparece esta palavra, observamos a miúdo o aspecto de
imposição. Quer dizer, a pessoa oprimida é submetida pela força.
A opressão não é um fato que surge em virtude das forças naturais
do mundo: há pessoas que a impõem. O exemplo mais apropriado
de imposição é quando se usa 'anah para designar a violação da
mulher. Nesses atos, não só se humilha a pessoa (para a moral
israelita, violar uma donzela era desonrá-la), mas também se dá
uma imposição do mais forte (...)48

A humilhação, ou a sujeição, não são estados em que os seres humanos

se colocam voluntariamente. A humilhação ou a sujeição voluntária só se dá

na relação com Deus49. Contudo, essa não é a situação do Salmo 37 e, não há

nada que indique que o manso da bem-aventurança o é em relação a Deus.

Desse modo, o praeis na LXX não corresponde à tradução que ele

recebeu na língua portuguesa - o manso. A idéia que prevalece na LXX é a do

encurvado, daquele que não consegue fazer valer os seus direitos. O oprimido.

No Salmo 37, o que temos é exatamente essa situação. O Salmo fala da

situação do injustiçado, que quer ver sua justiça triunfar (vs 6). O ímpio trama

contra o justo e "range os dentes" (vs 12), usa da violência (vs 14); mente (vs

21); atenta contra a vida do justo (vs 32). Nessa situação, o justo é chamado a

46 idem
47 Tamez, Elza. A Bíblia dos Oprimidos, p. 26.
48 Tamez, Elza. op. cit., p. 28 a 29.
49 Tamez, Elza, op. cit., p. 29.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 76

esperar em Deus. Contudo, não é uma espera passiva. O Salmo responde a

uma situação concreta e desafia a comunidade.

Tem-se a impressão de que o conselheiro deseja responder à


problemática de uma conjuntura muito concreta. A terra está em
jogo. Parece que há gente que já não acredita mais na promessa,
está decepcionada, não tem mais forças para resistir, nem deseja
insistir.
(.........................................................................................)
A ênfase do texto não é no automatismo da retribuição, mas
na chamada confiança inabalável em Javé. Mesmo sem ver o que
deseja, o justo é chamado a abandonar-se completamente nas
mãos de seu Deus, pois nele está sua certeza maior e sua
segurança, segurança definitiva.
(..........................................................................................)
E o texto deixa bem claro que ser fiel é assumir para si
mesmo o caminho de Deus. Não se trata de mera crença ou de
sentimentos crédulos. Trata-se de encaminhar-se por uma prática
de vida de acordo com a aliança, situando-se no seio da
comunidade dos pobres de Deus, e esse Deus é Javé e não um
ídolo. (...) Javé é experiência histórica de libertação. Por isso, o
poema não vê nenhuma contradição em dizer: "Os pobres
possuirão a terra", e ordenar: "Assenta tua tenda na terra e
apascenta teu rebanho com segurança" (v. 3). Esperar a posse da
terra como dom de Deus é já dar o primeiro passo (cf. Ex 14,15)
para ocupá-la como conquista humana. Graça e luta na Bíblia
nunca se opõem.50

O manso, no Salmo 37, é o que sofre injustiça, em especial em relação à

terra. O Salmo é um desafio à esperança ativa em Deus. É uma promessa que

50 Soares, Sebastião A. G.; Os pobres possuirão a terra - Conselhos do Salmo 37, p. 32 a 34.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 77

desperta esperança e convoca a uma prática. Nesse sentido é que o termo vai

ser retomado por Mateus:

No Novo Testamento o texto das bem-aventuranças segundo


Mateus retoma a promessa contida no Salmo 37 (...) É evidente
em Mt a identificação entre "terra" e "céus", pois trata-se do Reino
de Deus, e no reinado de Deus, sua vontade se faz na terra como
no céu. Ao justo está destinada a herança de Deus. É ele o
herdeiro do mundo (cf. Rm 4,13), toda a obra da criação lhe foi
entregue, pois é filho de Deus (cf. Gálatas).51

O manso, para Mateus, retoma o conceito do Salmo 37 e aplica à sua

realidade, relendo, dessa forma, essa tradição e dando um novo sentido a ela

a partir de sua realidade:

São os não violentos (praeis, cf Sl 37,1.7.11), isto é, os


pobres que, tendo perdido sua independência econômica e sua
liberdade devido à cobiça dos malvados, não podem fazer valer
seu protesto diante da usurpação de sua terra; a comunidade de
Mateus, expulsa da Sinagoga, sem possibilidade de defender-
se, parece não ter direito à terra prometida, garantia da
fidelidade de Deus para com eles.52

Em meio à realidade de exclusão que permeia a comunidade, o ser

manso não é uma característica passiva, como o termo denota em nossa

língua, mas é uma postura ativa, fundamentada na confiança em Deus.

3.2. Puros de Coração

51 Soares, Sebastião A. G., op. cit., p. 34.


52 Bravo G., Carlos. op. cit., p. 35 (grifo meu).
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 78

Semelhante à bem-aventurança que vimos acima, esta também faz

alusão ao saltério. Provavelmente temos uma citação, não de forma literal,

mas como uma forte dependência literária do Salmo 24.3-4. Enquanto em

nossa bem-aventurança encontramos "Makárioi oi Kataroi tê Kardía"53 nesse

Salmo, na Septuaginta54, encontramos "Katarós tê Kardía". 55

Quem subirá ao monte do Senhor, ou quem estará no seu


lugar santo? O inocente de mãos e puro de coração, que não
coloca sobre coisas vãs a sua alma, e não jura sobre engano ao
próximo dele. (Salmo 24.3-4. Tradução da Septuaginta, grifo meu).

Nesse Salmo não encontramos o "ver a Deus" associado à "pureza de

coração". Contudo, encontramos uma busca de estar no monte do Senhor e no

Seu lugar santo. Isso poderia ser interpretado como estar na presença de

Deus:

O segundo texto se encontra no Targum Palestino do


Levítico. O capítulo 8 do Levítico apresenta-nos a cerimônia solene
da consagração de Aarão e seu filhos e, no capítulo 9, o sacrifício
oferecido pelos novos sacerdotes e por todo o povo. "Toda a
assembléia aproximou-se e manteve-se de pé diante do Senhor".
Moisés declarou então: "Isto é o que o Senhor ordenou que
fizésseis para que se vos manifeste a sua glória" (Lv 9,5-6).
Quanto ao Targum, eis como ele interpreta: "Toda a assembléia se
aproximou e se manteve de pé com um coração perfeito diante do
Senhor. E Moisés disse: 'Eis o que o Senhor vos ordenou que

53 Nestle, Erhard & Alland, Kurt. Novun Testamentun Graece, p. 9 (grifo meu).
54 Rahlfs, Alfred. Septuaginta, p. 22, (grifo meu). Na LXX esse Salmo é o de número 23.
55 Davies, W.D., Allison, Dale C., op. cit., p. 455 a 456.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 79

fizésseis: tirai de vossos corações a inclinação para o mal e logo a


glória da Xequiná (da presença) de Deus vos será revelada".(...)56

Com isso, podemos apontar para uma possível dependência da bem-

aventurança ao Salmo 24, como o faz a maioria dos autores57. Mas a questão

que deve ser enfocada é o que significa, para Mateus, puro de coração.

3.2.1. Pureza e coração

É importante abordar esta questão, porque há uma tendência muito

grande, em nossa cultura, de colocar esse tipo de expressão no contexto da

piedade pessoal, da "castidade", da inocência em meio à sociedade corrupta.58

A questão da pureza nas sociedades marcadas pela relação religiosa e

de poder com o farisaismo era uma questão muito séria. A sociedade era

qualificada pela legislação farisaica a partir da conceituação de puro ou

impuro.

Muitos dos conflitos apresentados nos Evangelhos entre Jesus e os

grupos religiosos localizavam-se nessa discussão, questionavam os rituais de

pureza. Isso em Mateus é muito comum, sendo que em alguns textos que

Mateus tem como fonte o Evangelho de Marcos, ele tende a acentuar essa

questão de pureza e impureza. Isso percebemos no texto de Mt 15.1-20

56 VV. AA., A mensagem das bem-aventuranças, p. 75 (sublinhado meu). O autor acrescenta a essa
citação uma nota de rodapé que achamos importante reproduzir aqui:
No tempo de Jesus, a Bíblia era lida nas sinagogas em hebraico, embora essa língua há
muito tempo não fosse mais falada. A leitura era seguida de uma tradução em aramaico, a
lingua falada, tradução essa bastante livre, parafraseada: é o que denominamos targum. Os
textos targúmicos são muito interessantes para nós, porque nos mostram como eram
entendidos certos textos no tempo de Cristo.
57 Não vamos colocar a lista de autores que apoiam essa dependência porque é muito extensa, contudo
podemos citar alguns a título de amostragem: Davies e Allinson; Carlos Bravo G.; Segundo Galiléia e
outros.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 80

(paralelo a Marcos 7.1-23)59. Vamos abaixo apresentar um quadro,

comparando Mt 15.11s,18-20 com o paralelo em Marcos (ed Almeida, com

grifos meus):

MARCOS 7 MATEUS 15

15. Nada há, fora do homem, 11. O que contamina o homem


que, entrando nele, o possa não é o que entra na boca, mas o
contaminar; mas o que sai dele isso é que sai da boca isso é o que
que contamina o homem. contamina o homem.
18. E ele disse-lhes: Assim
também vós estais sem 17. Ainda não compreendeis
entendimento? Não compreendeis que
que tudo o que de fora entra no
homem não o pode contaminar,
19. porque não entra no seu tudo o que entra pela boca
coração, mas no ventre, e é lançado desce para o ventre, e é lançado
fora, ficando puras todas as comidas? fora?
20. E dizia: O que sai do 18. Mas o que sai pela boca,
homem, isso contamina o homem. procede do coração, e isso
contamina o homem.
21.Porque do interior do 19. Porque do coração
coração dos homens
saem procedem
os maus pensamentos, os os maus pensamentos, mortes
adultérios, as prostituições, os (fónoi), adultérios, prostituição,
homicídios (fónoi), furtos,
22. Os furtos,
a avareza, as maldades, o
engano, a dissolução, a inveja, a falsos testemunhos
(pseudomarturíai)
blasfêmia, a soberba, a loucura. e blasfêmias.
23. Todos esses males 20. São essas coisas que
procedem de dentro e contaminam o contaminam o homem; mas comer
homem. sem lavar as mãos, isso não
contamina o homem.

58 Bravo G., Carlos. op. cit., p. 35.


59 cf VV. AA., A mensagem das bem-aventuranças, p. 79 a 80.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 81

Podemos perceber, nesta comparação, que Mateus retrabalha o texto de

Marcos, alterando alguns pontos. Enquanto Marcos aponta que o problema

está naquilo que "sai do homem" (vs 20), para Mateus está em que aquilo que

"sai pela boca, procede do coração". Mateus reforça aqui o que encontramos

em Marcos (vs 19 e 21), que é do coração que procedem todos os tipos de

atitudes que contaminam o ser humano, tanto que Marcos afirma que o

alimento que entra pela boca "não entra no seu coração".

Essa tônica de Marcos, em que o coração é o lugar em que a impureza

se localiza, é enfatizada em Mateus no versículo 18, como afirmamos acima, e

no versículo 19 onde ele não usa a expressão de Marcos "interior do coração"

(vs 21) e reelabora a lista do mal que procede do coração.

Na reelaboração, Mateus corta uma série de atributos malignos que

aparecem no texto de Marcos (a avareza, as maldades, o engano, a

dissolução, a inveja) mas acrescenta um, que é significativo: o falso

testemunho. Isso apontaria para um aspecto da comunidade.

Esta lista, retrabalhada, aponta para a conjuntura da comunidade de

Mateus, da mesma forma que nossas bem-aventuranças.

O queremos destacar é que Mateus conserva a tradição que o mal, a

impureza, procede do coração. Como vimos no primeiro capítulo, o coração é o

centro da vida interior do ser humano. Nele reside as emoções, sentimentos e

paixões. É o lugar da compreenção, do pensamento e da reflexão, e das

resoluções. Assim, a discussão sobre os “puros de coração” não se encerra

dentro das normas de comportamento social. É uma discussão que se dá no


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 82

campo da ideologia religiosa com a qual a comunidade de Mateus está

estabelecendo um embate.

Para o judaismo farisaico, a pureza consistia em guardrar uma série de

preceitos.

La finalidad de toda la educación impartida en la familia, la


escuela y la sinagoga era convertir en “discípulo del Señor” a todo
el pueblo de Israel. El ciudadano corriente tenía que conocer y
poner en práctica lo que la Torá le exigía. Toda su vida debía
amoldarse a los preceptos y mandatos de la “instrucción” (twrh) o
“iluminación” (‘wryyt’). La obediencia a aquellas normas, de las que
se creía firmemente que habían sido establecidas por Dios mismo,
era considerada por los estudiosos de la Torá, tanto fariseus como
rabinos, como el medio único de poner en práctica el mandato
celeste: “Seréis para mí un reino de sacerdotes y una nación
santa“ (Ex 19,5). De hecho, en el siglo I d. C. se había convertido
la sumisión a la Torá en parte tan esencial del judaísmo, que
Josefo podía afirmar: “Hoy ... la violación de las leys se ha
convertido en todas las naciones en un arte sutil. Nada de eso
ocurre entre nosotros. Se nos despoja la riqueza, de las ciudades,
de toda cosa buena, pero nustra Ley permanece inmortal, y no hay
un judío que, aunque esté lejos de su país, tema más a un déspota
cruel que a su propia Ley”. 60

Nessa visão, a pureza estava no exterior do ser humano, o fundamental

era praticar os mandamentos. Mateus, nesse embate teológico, divergindo

dessa postura, coloca a pureza no interior do ser humano, no coração.

3.3. Pureza de coração e mansos - uma conclusão


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 83

Com isso a bem-aventurança ganha um sentido diferente, à medida que

se estabelece uma nova compreenção da pureza de coração:

A 'pureza de coração' obviamente nada tem a ver com a


compreensão redutivista ocidental da 'pureza' enquanto
relacionada com a 'castidade'. Tem a ver com as 'mãos inocentes'
do salmo 24,4 ou com o salmo 15. Supõe não alimentar más
intenções que desencadeiam ações más contra o próximo, exige
transparência pela qual se pode confiar no outro, condição
fundamental de acesso à experiência de Deus. Esse se manifesta
ao homem que tira os obstáculos de seu coração.61

Nesta posição acima, percebemos uma ruptura, na medida em que o

autor localiza e reconceitua a pureza de coração a uma prática de justiça.

Contudo, queremos acrescentar a isso o conflito teológico que está por detrás

desse conceito.

Quem são os "puros de coração"? Aqueles que arrancaram


de seu espírito as más tendências. Trata-se da pureza segundo a
ética do Evangelho, para se aproximar do Deus santo, cuja
santidade se revela como moral e não como ritual. Nessa bem-
aventurança, Jesus supera o legalismo e o ritualismo de sua
época, colocando a pureza e a santidade não no exterior, mas sim
na tendência radical do coração.62

A prática da justiça, como fruto de um coração puro, é uma confrontação

a uma outra prática, de uma justiça fruto de um exercício dos preceitos da

60 Schürer, Emil, Historia del pueblo judio en tiempos de Jesus - Instituiciones Políticas y Religiosas,
pg 601 a 602.
61 Bravo G., Carlos. op. cit., p. 35.
62 Galiléia, Segundo. A Igreja das Bem-aventuranças, p. 87 a 88. Embora o autor não faça a leitura a
partir da confrontação da justiça da comunidade de Mateus com a justiça do fariseus, ele aponta essa
ruptura entre legalismo e práxis.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 84

Torá. Os que seguem esta prática, como vimos acima, em especial no primeiro

par de bem-aventuranças, estão por oprimir a comunidade. Por isso, a

vinculação entre a bem-aventurança aos mansos e esta dos puros de coração.

O que provoca a situação de oprimidos (mansos) é uma prática de justiça que

não parte de um coração puro.

A recompensa por essa prática é o ver a Deus, que é uma expressão

pouco usual, e que preferimos conceituar, como vimos acima, como uma

releitura do Salmo 24. É na prática da justiça que emana dos corações puros

que os oprimidos verão a Deus e herdarão a terra.

4. FAMINTOS E SEDENTOS DE JUSTIÇA E OS MISERICORDIOSOS

Estamos no cerne das bem-aventuranças. Por isso o tema da justiça

reaparece. Já foi trabalhada anteriormente a ênfase que a comunidade dá

nessa discussão do justo/justiça. Esse é um termo que caracteriza a seita e

que estabelece, ao mesmo tempo, um confronto com o discurso oficial do

judaísmo formativo.

4.1. Os misericordiosos

Ao termo justiça, que caracteriza a comunidade, o texto das bem-

aventuranças agrega os misericordiosos (eleémones). Esse termo ocorre cerca

de 12 vezes no Novo Testamento (não considerando os paralelos). Na

Septuaginta, habitualmente traduz o termo hannûn.63

63 Davies, W. D. & Allison, Dale C.. op. cit., p. 454. O termo hannûn, de hanan, é traduzido em
português por misericórdia.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 85

El adjetivo eleemon significa, en griego clásico, "compasivo",


"misericordioso", "piadoso". En los LXX, donde traduce
principalmente los términos hebreos hanûn (12 veces) y hesed (3
veces), conserva estas significaciones, con la particularidad de que
el adjetivo se aplica casi siempre a Dios; esto mismo ocurre en la
literatura judaica. En uno y otro caso "la misericordia" aparece
como un atributo esencial de Dios en su conducta con los
hombres.64

A misericórdia, em Mateus, pode ser compreendida por dois caminhos

diferentes, que podem ser considerados complementares (ou não): a prática

de perdoar e o auxílio aos necessitados. Estaremos optando pelo segundo

caminho, o auxílio aos necessitados, como possibilidade de interpretação.65

A prática da misericórdia é apresentada, como vimos acima, como uma

característica da ação divina. O povo vive debaixo da misericórdia de Deus.

Diante desse atributo divino, o povo é desafiado, da mesma forma, a viver a

misericórdia.

Contudo, a misericórdia não é apenas um sentimento interior, mas sim

uma prática concreta em favor do "oprimido, do estrangeiro, do órfão e da

viúva"66.

64 Camacho, Fernando. La Proclama del Reino, p. 85.


65 VV. AA., A Mensagem das Bem-aventuranças, p. 69 a 71 apresenta esses dois conceitos,
apontando para uma convergência entre eles. Beare, F.W., The Gospel According to Matthew, p. 131,
embora reconheça o sentido amplo da expressão misericórdia, aponta que no texto das bem-aventuranças,
a palavra, primariamente, pode significar perdão. Davies & Allison, op. cit., pg 454, preferem apresentar a
interpretação do perdão como uma possibilidade: "with the emphasis upon pardon?". Garland, D. E.,
Reading Matthew, 56 a 57 só aponta para a prática da misericórdia, sem apresentar a possibilidade de se
interpretar como perdão. Deste modo, tendo registrado essas possibilidades, estaremos trabalhando a
partir do auxílio aos necessitados como melhor possibilidade de interpretação.
66 Garland, David E., Reading Matthew, 56 a 57.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 86

São os que atuam em favor do próximo, movidos pela


misericórdia (eleémones). O termo misericórdia (coração voltado
para o miser) supõe a eficácia; nunca se reduz a misericórdia a
uma mera sensibilidade intimista que se detém num vago
sentimento de solidariedade ineficaz para mudar a situação em
favor do miser. Misericórdia e fidelidade serão características do
Deus que atua em favor de seu povo no AT.67

4.2. Os famintos e sedentos de justiça

Como já apresentamos anteriormente, esse termo (justiça) corresponde a

uma característica do Evangelho de Mateus. No discurso mateano o "ser justo"

corresponde a um desafio para a comunidade.

En los LXX, dikaiosyne traduce principalmente los siguientes


términos hebreos: sedaqah (134 veeces), sedeq (81 veces), hesed
(8 veces), sadiq (6 veces) y 'emet (6 veces). Principio fundamental
de la fe veterotestamentaria es que Dios establece el derecho y, en
cuanto Dios justo, se vincula a él. La justicia de Dios se realiza en
primer lugar con relación al pueblo de la alianza. La dikaiosyne
designa así la actuación salvífica y fiel de Dios para con su pueblo.
Esa actitud divina exige una correspondencia por parte del hombre:
éste, para ser justo, ha de actuar conforme a la voluntad de Dios
(...)68

Contudo, esse "ser justo" deve acontecer nos moldes da compreensão

da comunidade e não nos moldes da compreensão da religiosidade oficial.

Desse modo, o evangelho apresenta diversos modelos de pessoas que foram

67 Bravo G., Carlos. op. cit., p 35.


68 Camacho, Fernando. op. cit., p. 78.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 87

chamadas justas pela comunidade, e que, para a religiosidade oficial, não

consistiam em modelos de justiça.69

Por outro lado, nesse texto, temos os "famintos e sedentos de justiça". O

que isso aponta? Para um desejo e uma espera da ação divina? Ou para uma

forma de ser do justo? Isso seria uma carência ou um modo de ser nesse

mundo? Na história da Igreja, essas duas formas de interpretar a passagem

foram contempladas.70 Contudo, no sentido das bem-aventuranças a fome e

sede de justiça apontam uma forma do ser cristão no conceito da comunidade

mateana. Fome e sede podem ser interpretadas como "desejo de" ou até a

"aspiração por". Com isso o que tem fome e sede de justiça, ou o que "aspira

pela justiça" é o que vive sob a direção de Deus.71

Com isso, as duas bem-aventuranças que se constituem no centro das

bem-aventuranças apontam para um desafio ao "ser cristão". A comunidade é

desafiada a aspirar à justiça e a praticar a misericórdia. Esses dois atributos

69 Veja por exemplo Mt 1.18-25, onde José é chamado de justo porque, não querendo cumprir a lei,
que condenava Maria e a criança à morte, resolve abandoná-la. Com isso ele recebia o peso da lei e
preservava a vida da mulher e da criança. O justo aqui é o que preserva a vida da mulher e da criança.
Do mesmo modo, em Mt 23.29-39 os escribas e fariseus são acusados de enfeitar os túmulos dos
profetas e dos justos, lamentando o que os pais fizeram. Embora a ênfase da perícope é o sangue dos
profetas, ela recebe um corte literário passando para o "sangue justo" (vs 35) que cairá sobre a cabeça dos
escribas e fariseus e tem em toda sua parte final (vs 34-39) um discurso sobre a perseguição que esses
representantes da religiosidade oficial vão promover sobre os seguidores de Jesus.
Na parábola do julgamento (Mt 25.31-46), o justo é aquele que faz a vontade do pai e recebe por
herança o Reino. Aqui são retomadas as promessas das bem-aventuranças. Contudo, o justo é aquele que
alimentou aos famintos, saciou a sede dos sedentos, hospedou os estrangeiros, vestiu o nu, visitou os
doentes e acompanhou os presos. Ser justo é ter uma prática de solidariedade aos pequeninos.
Por outro lado, quando os fariseus criticam a Jesus, por Ele sentar com pecadores à mesa (Mt 9.9-14),
e aqui está presente o conceito farisaico de justo, a resposta é que Jesus não veio salvar o justo (no
conceito farisaico) mas sim o pecador (também no conceito farisaico). Tanto que ao final do texto
encontramos a frase: "Misericórdia quero, e não sacrifício". Aqui aparece uma citação do Antigo
Testamento (Os 6.6), Mateus retoma o sacrifício não como a prática sacrificial ligada ao Templo, que não
existia mais, mas a prática do guardar os preceitos da Lei. Assim, a aspiração é pela misericórdia, prática
dos justos segundo Mateus, e não sacrifícios (guardar os preceito da Lei), prática dos justos segundo os
fariseus.
As bem-aventuranças condensam todos esses desafios que o Evangelho apresenta.
70 Ver Luz, Ulrich. op. cit., p. 238.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 88

são atributos divinos. A comunidade é chamada a fazer a vontade do Pai,

reproduzindo em suas vidas os atributos próprios Dele. Por isso, um dos

desafios presentes no Sermão do Monte é: "Sede vós perfeitos, como é

perfeito o vosso Pai que está nos céus" (Mt 5.48, ed. Almeida).

4.3. Serão fartos e serão misericordiados

Devemos olhar que aqui a estrutura apresenta um detalhe interessante72:

71 Luz, Ulrich, op. cit., p. 238.


72 Essa estrutura é apresentada por Bravo G., Carlos, op. cit., p. 33. Embora o autor assuma essa
estrutura, no trabalho com o texto ele agrupa as bem-aventuranças em dois grupos nos moldes dos autores
apresentados no capítulo anterior. Davies & Allinson, op. cit., p. 429-431, apresentam essa estrutura
como proposta de alguns autores, embora sem assumi-la no trabalho.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 89

A 3 Bem-aventurados os pobres em espírito,


porque deles é o Reino dos Céus. Presente
B 4 Bem-aventurados os aflitos,
porque eles serão consolados. Futuro Passivo
C 5 Bem-aventurados os mansos,
porque eles herdarão a terra. Futuro Ativo

D 6 Bem-aventurados os famintos e sedentos de justiça,


porque eles serão fartos. Futuro Passivo
D' 7 Bem-aventurados os misericordiosos,
porque eles serão misericordiados. Futuro Passivo

C' 8 Bem-aventurados os puros de coração,


porque eles verão a Deus. Futuro Ativo
B' 9 Bem-aventurados os "fazedores da paz",
porque eles serão chamados filhos de Deus. Futuro Passivo
A' 10 Bem-aventurados os perseguidos por causa da
justiça,
porque deles é o Reino dos Céus. Presente

Todo o texto, dentro de nossa proposta de um quiasmo, apresenta uma

estrutura que alterna os tempos verbais na sequência abaixo:

AA’ - Pobres em espírito e perseguidos: Presente

BB’ - Aflitos e fazedores da paz: Futuro Passivo

CC’- Mansos e puros de coração: Futuro Ativo

DD’- Famintos e sedentos de justiça e os misericordiosos: Futuro

Passivo.

As duas promessas, como centro da estrutura, se encontram no futuro

passivo, ou seja, correspondem a uma ação externa àqueles que são objeto
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 90

da promessa. Os famintos e sedentos de justiça serão fartos e os

misericordiosos serão misericordiados73.

O interessante é que nas duas bem-aventuranças aqueles que são objeto

da promessa se constituem naqueles que têm sua práxis espelhada na práxis

de Deus. São misericordiosos porque Deus é misericordioso, e "anseiam por"

justiça porque o próprio Deus o faz. Esses receberão no futuro a plenitude

daquilo que eles praticam hoje. Esse texto reflete a mesma atitude da parábola

do julgamento (Mt 25.31-44), onde aqueles que tiveram uma práxis

caracterizada pela solidariedade/misericórdia aos que sofrem - famintos,

sedentos, estrangeiros, nus, enfermos, presos - são chamados de justos e

receberão "por herança o reino".

Diante da situação de opressão que a comunidade vivia, o código de

"pertença", ou seja, aquilo que conferia identidade a seus participantes, era o

desafio de reproduzir a práxis divina da misericórdia e da justiça para com os

pequeninos (da comunidade e fora dela). O Reino dos Céus era a promessa

àqueles que possuíam essa práxis. Por isso a primeira e a última bem-

aventurança aparecem no presente. A comunidade que vive a justiça e a

misericórdia já possui o Reino dos Céus. A fidelidade a essa práxis trará no

futuro essa herança em plenitude.

Com isso, a comunidade encontra nesse texto uma identidade enquanto

comunidade cristã, um desafio enquanto princípio organizativo e um consolo

enquanto promessas futuras. Esses atributos fortalecem a comunidade a

73 Conforme apresentamos no primeiro capítulo, o uso de misericordiados, que não é uma palavra
corrente na lingua portuguesa, embora não esteja gramaticalmente incorreta, tem por finalidade enfatizar
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 91

enfrentar os conflitos que marcam sua existência. Nesse texto, encontramos

um rígido e radical código de pertença.

O nosso texto não é um simples código de moral que dá conta da

realidade material e espiritual, separadas por uma estrutura que divide as bem-

aventuranças em dois blocos. É um código de pertença que vincula a realidade

social e a profissão de fé cristã de forma indivisível, de tal forma que, para

pertencer a essa comunidade, há de ficar claro que a subsistência econômica

ficará comprometida.

Por outro lado, aqueles que assumirem esse compromisso, já serão

possuidores do Reino dos Céus no presente, pois em sua práxis já germina a

herança que no futuro será recebida em plenitude.

esse passivo, que na estrutura é fundamental.


CONCLUSÃO

Ao propor trabalhar uma estrutura literária de um texto bíblico, corre-se o

perigo de ingressar por caminhos áridos, distantes da vida e que podem

resultar, em última instância, em um fruto que alimenta poucos.

Na América Latina, quando se trata de produção bíblica, o desafio é, nas

palavras do profeta Ezequiel (capítulo 37), descobrir palavras que possam

devolver ao nosso povo, que é um amontoado de ossos em meio ao vale da

desesperança, as carnes, os nervos e o espírito, a fim de que eles se

levantem e marchem.

Assim, muitas vezes não se aborda discussões deste teor. Estrutura

literária não se constitui em desafio a uma exegese latino-americana. Contudo,

o que percebemos ao abordar as bem-aventuranças é que, na medida que se

propõe uma estruturação literária a um texto, junto com ela já se embute nele

uma pré-interpretação.
As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 93

Por isso, em nossa pesquisa percebemos que, na medida em que

detalhávamos a estrutura literária das bem-aventuranças, ia surgindo o pulsar

da vida da comunidade de Mateus, a qual assumia o desafio de, em meio à

opressão, viver a radicalidade da fé cristã.

As bem-aventuranças em Mateus, texto chave do Evangelho, não apenas

abrem o Sermão do Monte, mas dialogam com diversas partes do livro, em

especial os capítulos 24 e 25 (mais especificamente a parábola do grande

julgamento). Ao fazer isso, elas aparecem como um desafio para uma prática

de vida da comunidade. Elas se tornam em desafio á práxis dos justos.

Determinar qual práxis que as bem-aventuranças propõem passa pela

determinação da estrutura literária.

Enquanto alguns estudiosos caminham pela leitura das bem-

aventuranças como um texto corrido que anunciam as virtudes que um cristão

deve apresentar, outros dividem o texto em duas partes:

Las ocho primeras bienaventuranzas se componen de dos


grupos de cuatro. En el primer grupo se alaba más bien um
padecimiento; en el segundo grupo, uma determinada postura...1

Com isso, aos cristãos que sofrem, mas que têm determinada postura

frente à sociedade em que vivem, prometem-se esperanças futuras. O

problema dessa postura é que não há um desafio a uma prática radical de uma

fé e esperança que se inscrevam na história, muito pelo contrário, ela acaba

sendo a-histórica.

1 Schweizer, E., El Sermón de la Montaña, p. 18.


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 94

No fundo, as propostas de estruturação das bem-aventuranças em dois

blocos acabam por trazer embutido nelas o conceito de separação entre fé e

história.

Quando iniciamos uma leitura do texto a partir de uma estrutura

quiasmática, outra proposta de interpretação, outras realidades e outros

desafios começaram a surgir.

Diferentemente do Antigo Testamento (Septuaginta), onde a maioria das

“bem-aventuranças” aparecem no singular, nesse texto elas aparecem no

plural. Isso aponta que a ênfase do texto é voltada à comunidade de Mateus e

não a indivíduos isolados.

No primeiro nível da estrutura, são colocadas juntas duas expressões:

"pobres em espírito" e os "perseguidos por causa da justiça".

"Pobres em espírito" e os "perseguidos por causa da justiça" se

constituem em termos que se complementam e apontam o desafio e a

conseqüência da fé radical.

A perseguição se dá por causa da justiça, onde justiça/justo é um

conceito que define o “codigo de pertença” a essa comunidade. Nesse código,

ser justo não é ser alguém que pratica os preceitos da Lei, mas sim aquele que

tem uma práxis caracterizada pela solidariedade frente aos pequeninos.

Nesse período, os fariseus firmavam-se como grupo dominante entre os

judeus, iniciando uma prática de perseguição e opressão a todos os pequenos


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 95

grupos que não tinham a prática da Lei como o centro da vida. Entre esses

grupos, encontrava-se a comunidade de Mateus.

Dentro do discurso desse grupo dominante encontrava-se uma ênfase na

prática da justiça. Contudo a justiça para eles estava ligada a uma prática da

Lei, uma justiça legalista. Por isso o evangelho vai desafiar a comunidade:

"Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e

fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus." ( 5.20).

A prática da justiça que excedia a dos escribas e fariseus tinha duas

conseqüências diretas para a comunidade. A primeira era a perseguição. A

segunda, decorrente da primeira, era a falta de possibilidade de sobrevivência

dentro do sistema econômico e a conseqüente pobreza.

Por isso a comunidade era pobre "em espírito". Pela opção de fé a

situação econômica acabava deteriorada. Com isso conseguimos entender as

parábolas do capítulo 13, em especial as do tesouro no campo e da pérola de

grande valor. Uma vez que se encontra o Reino de Deus, a pessoa tem de

perder (vender nas parábolas) todos os seus bens para possuí-lo.

Pobres em espírito e perseguidos por causa da justiça, nesse contexto,

são sinônimos. Por isso, a promessa é a mesma. Não temos aqui uma

separação entre a “vida espiritual” (pobre em espírito) e a “vida material”

(perseguido por causa da justiça). O que temos é uma opção radical de fé que

tem conseqüencias em todos os segmentos da vida.

No segundo nível da estrutura são agrupados os aflitos com os

“eirenopoios” (fazedores da paz).


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 96

Enquanto alguns buscam localizar a aflição que caracteriza a comunidade

na perda da identidade decorrida da destruição do Templo, preferimos

localizá-la, dentro da tradição vétero-testamentária, na relação do povo que

busca, em meio a uma situação de opressão, o Deus que ouve e faz justiça. A

aflição é decorrente da situação em que eles vivem.

Essa situação é provocada por uma opção de fé que contradiz os

poderes local e internacional. O poder local (grupo de fariseus) consolida sua

existência e a prática da fé nos moldes da prática da Lei, debaixo da “pax”

romana, caracterizada pela paz da força militar.

A comunidade vive a aflição de quem é perseguida porque rompe com

essa proposta de estruturação da vida e da fé e assume uma postura radical,

caracterizada pela busca da viabilização de uma paz que é exercida em meio à

prática da solidariedade aos pequeninos (conforme a parábola do grande

julgamento, texto que tem relação muito forte com as bem-aventuranças).

No terceiro nível encontramos os “mansos” assossiados aos “puros de

coração”

Em relação aos mansos, os escritos religiosos criam, invariavelmente, a

figura do que é passivo frente aos poderes, do que não reage aos chamados

“poderes mundanos”. Na verdade esse termo, na Bíblia, aponta para uma

outra direção.

Manso aparece em Mateus como uma característica de Jesus, que no

Evangelho se auto-intitula manso (11.29), e enfrenta Jerusalém e os poderes


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 97

dominantes como o "rei manso", montado em um jumentinho (21.5). Assumir

essa característica é um desafio a ser assumido pela comunidade.

A partir do Salmo 37, de onde foi extraída essa bem-aventurança, o

manso é o oprimido, o encurvado, a quem os poderosos armam as mais

variadas ciladas. É aquele que perdeu direitos, perdeu sua herança, que não

tem como defender-se. Assim, a esses, a bem-aventurança aponta a

promessa que caracteriza a fidelidade de Deus: a herança da terra.

Ao associar o “manso” com o “puro de coração”, as bem-aventuranças,

mais uma vez, fortalecem o contexto da comunidade. A expressão “puros de

coração” reforça a discussão de que a situação da comunidade é decorrente

de uma tomada radical de posição frente a uma forma de organizar a vida e a

fé que não corresponde ao que a comunidade acredita.

A prática de fé, segundo a comunidade, acontece a partir do coração, ou

seja, é uma postura que nasce daquilo que sente, acredita e decide cada

membro que a compõe. Não é uma prática exterior de preceitos, leis, como

defendem aqueles que oprimem a comunidade. É uma postura desvestida do

mal, nela não há lugar para uma das características do mal, que é o "falso

testemunho" (15.19). O "falso testemunho" é um dos componentes de uma

perseguição.

A justiça da comunidade, diferente da justiça de escribas e fariseus,

propicia a vida e não se vale de "falso testemunho" para promover a morte. O

coração dos mansos é puro, isento da maldade que caracteriza escribas e

fariseus, os quais roubam da comunidade seus direitos, herança e


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 98

possibilidade de viabilizar economicamente a vida. Tornam a comunidade um

grupo de “praeis” (mansos).

Pela fidelidade frente a essa situação a comunidade herdará aquilo que

os poderesosos usurparam - a terra - e estará apta a ver a Deus e a estar em

Sua presença.

No centro da estrutura encontramos os “famintos e sedentos de justiça” e

os “misericordiosos”.

Aqui está o cerne do desafio a uma práxis radical de fé. Fazer parte da

comunidade é ter fome e sede de justiça. Uma justiça que é caracterizada por

uma práxis que contraria o discurso oficial. Não se é justo por cumprir a Lei. A

justiça está em defender a vida da criança e da mulher (1.18-25), em ter as

mãos livres do sangue inocente (23.29-39) e em fazer a vontade do Pai, que é

a prática de solidariedade aos famintos, aos sedentos, aos estrangeiros, aos

nús, aos doentes e aos presos (25.31-46).

De igual modo, a prática da misericórdia é também uma prática de auxílio

aos necessitados. Ela pressupõe uma práxis solidária. Com isso, ela reafirma o

sentido da expressão “famintos e sedentos de justiça”.

O que temos nas bem-aventuranças, e que aparece como centro da

estrutura, é um código de pertença à comunidade cristã de Mateus. O centro

desse código é a prática da justiça solidária que tem como alvo prioritário a

vida dos excluídos.


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 99

Esse código surge a partir de uma situação concreta da comunidade. Em

meio á exclusão religiosa/econômica a comunidade é desafiada a viver uma

vida de fidelidade. Contudo, essa fidelidade provoca a inviabilização da vida

econômica, a perseguição por parte daqueles que não vivem de acordo com

esse código.

As bem-aventuranças trazem as marcas de um discurso de seita. Na

radicalidade do discurso de quem assume organizar a vida à margem, e contra

o sistema político/religioso, encontramos o desafio que elas representam para

a comunidade. Uma prática que inviabiliza a sobrevivência econômica, mas

que é o verdadeiro discipulado.

Para a América Latina o texto é desafio para as comunidades cristãs.

Essa abordagem radical se constitui em fonte de inspiração e desafio, a ser

revisitada para encontrar em suas águas o frescor da promessa que possibilite

às pequenas comunidades assumirem uma práxis radical de enfrentamento

àquelas expressões de religião que representam o casamento com o poder

opressor e que subsiste na forma de legitimação desse poder que tem como

uma de suas características demoníacas a exclusão.

O discipulado que é caracterizado pela radicalidade no seguimento do

Cristo se torna uma possibilidade para a vida. Palavras que devolvem a corpos

sofridos e quebrados o Espírito. Espírito de vida.

Abordar as bem-aventuranças em estruturas que fragmentam a vida em

“espiritual” e “material” é uma forma de domesticar o Evangelho e o código


As Bem-aventuranças em Mateus - Uma Proposta de Estrutura Literária - Página 100

radical de pertença que elas expressam. É uma forma de esvaziar o conteúdo

revolucionário delas.
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