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TRIBUNAL MARÍTIMO

AR/FAL PROCESSO Nº 32.035/17


ACÓRDÃO

Comboio formado pelo E/M “CAP JOSÉ ALECRIM XVI” e a balsa “VDA XIX”,
além de quatro embarcações não identificadas. Assalto a bordo, utilizando
embarcações não identificadas. Ação dolosa de meliantes não identificados, com
armas de fogo, mantendo as vítimas sob ameaça. Com pedido de arquivamento da
D. Procuradoria Especial da Marinha. Arquivamento.

Vistos e relatados os presentes autos.


Consta que cerca das 15h, do dia 9 de abril de 2017, um grupo de meliantes
armados, não identificados e utilizando uma embarcação tipo rabeta não identificada, abordaram,
para a prática de assalto armado, o comboio formado pelo R/E “CAP JOSÉ ALECRIM XVI” (nº
de Inscrição 001-145421-1, casco de aço, de 20,78m de comprimento e 7,0m de boca, de 103,0
AB, motor de 915 HP, ano de construção 2015), e a balsa “VDA XIX” (nº de inscrição 001-
145389-3, casco de aço, de 75,0m de comprimento e 16,56m de boca, 1.758 AB, classificada
para carga, sem propulsão, navegação interior, ano de construção 2015), ambas as embarcações
de propriedade de Navegação Cunha Ltda., sob o comando de Jose Antonio Dias da Luz, Piloto
Fluvial, sendo os assaltantes posteriormente apoiados por outros meliantes também armados e
com o uso de outras três embarcações não identificadas, concluindo o assalto cerca de 1h do dia
10 de abril de 2017, no rio Amazonas, ponta da ilha do Urutaí, Gurupá, PA, com danos
materiais, mas sem registro de danos pessoais ou ambientais.
No Inquérito instaurado pela Capitania dos Portos do Amapá foram ouvidas cinco
testemunhas e anexados os documentos de praxe.
Nas fls. 2 e 3 consta o boletim de ocorrências na Polícia Civil do estado do Pará,
Almerim, referente aos fatos em pauta.
Dos depoimentos se extrai que o comboio saiu de Belém cerca das 3h do dia 8 de
abril de 2017, com destino a Manaus, navegando sem anormalidades, até que cerca das 15h,
estando no passadiço como timoneiro de serviço e “prático regional” o Contramestre Fluvial
Albino da Costa Souza, acompanhado do Imediato do comboio, Piloto Fluvial Jósimo Cursino
Martins, quando a cozinheira, que estava na cozinha, ao olhar para a popa do rebocador,
percebeu que três elementos armados de revolveres tinham ingressado no interior do rebocador,
pela popa, através de uma embarcação do tipo rabeta, que permaneceu amarrada a contrabordo
do rebocador até o final do assalto; que a cozinheira subiu as escadas gritando que era um assalto
avisando aos demais tripulantes e se escondeu em seu camarote até que os meliantes permitiram
que a cozinheira saísse e cozinhasse para eles, enquanto os demais tripulantes e os dois

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(Continuação do Acórdão referente ao Processo n° 32.035/2017........................................................)
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representante da empresa permaneceram rendidos, com as mão na cabeça, no convés principal,
por bombordo, nas proximidades da cozinha; em dado momento, com a embarcação sem
timoneiro, encalhou na ilha de São de Salvador e foi liberado o Imediato para desencalhar a
embarcação e que foi mantido no timão até o término do assalto; que, ao anoitecer, chegou um
número maior de meliantes em outra voadeira, trazendo armamento mais pesado e adentraram e
levaram os tripulantes para um camarote e permaneceram saqueando o comboio; mais tarde
chegaram mais duas embarcações de porte médio e fizeram o transporte do óleo diesel e de todo
o material coletado durante a permanência até aquele horário, que também não foram
identificados os nomes dessas embarcações de porte médio; os meliantes, ao final do assalto,
disseram que deixaram combustível suficiente para o comboio se deslocar até a próxima cidade,
de Almerim, PA; todos foram agredidos verbalmente, com ameaças, mas ninguém sofreu danos
físicos; todos os tripulantes e os representantes da empresa foram trancados em um camarote,
exceto o timoneiro que permaneceu refém fora do compartimento, trabalhando para os meliantes
no timão do rebocador, e da cozinheira que permaneceu trancada no seu camarote por algum
tempo, sendo liberada para cozinhar para os meliantes e, depois, foi novamente trancada em seu
camarote.
Foram subtraídos 15.000 litros de óleo diesel, equipamentos eletrônicos do
rebocador, um motor de popa de 15 HP, uma lancha miúda de alumínio, um binóculo, um grupo
motor gerador, dois botijões de GLP, gêneros alimentícios, um forno de micro-ondas, dois rádios
portáteis, um rádio VHF e pertences dos tripulantes e dos representantes da empresa, como
aparelhos de telefone celular, relógios e roupas, além de um aparelho de TV Samsung de
propriedade do Comandante.
No Laudo de Exame Pericial indireto, fls. 75 a 88, realizado no dia 3 de agosto de
2017, consta que as embarcações do comboio, com base na vistoria realizada no município de
Santana, AP, em 27 de abril de 2017, se encontravam em perfeitas condições de conservação e
navegabilidade.
Os Peritos apresentaram a sequência de acontecimentos e consideraram que os
fatores humano, material e operacional não contribuíram e concluíram que a causa determinante
do fato da navegação em pauta foi a ação deliberada e consciente dos meliantes que adentraram
o comboio para a prática de uma ação ilícita, de assalto, rendendo os de bordo com armas de
fogo e com forte ameaça psicológica, consumando as ações delituosas de subtração de bens,
roubo e saque.
No Relatório, fls. 89 a 113, o Encarregado do IAFN, depois de resumir os
depoimentos e o Laudo de Exame Pericial, não apontou possível responsável pelo fato da
navegação em pauta, por entender que não houve participação culposa da tripulação nem dos
dois representantes da empresa que estavam a bordo e que os meliantes não foram identificados.

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(Continuação do Acórdão referente ao Processo n° 32.035/2017........................................................)
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A Douta Procuradoria, fls. 120 a 122, em uniformidade de entendimento com o
Encarregado do IAFN, requereu o arquivamento dos presentes autos, por considerar que o fato
da navegação em pauta decorreu da ação dolosa de meliantes não identificados, utilizando
embarcações não identificadas, resultando em danos materiais, mas sem registro de danos
pessoais ou ao meio ambiente.
Foi publicada Nota para Arquivamento, tendo decorrido o prazo legal sem que
possíveis interessados se manifestassem.
Por todo o exposto, deve-se concordar com a promoção da Douta Procuradoria
Especial da Marinha e mandar arquivar os presentes autos.
Assim,
ACORDAM os Juízes do Tribunal Marítimo, por unanimidade: a) quanto à natureza
e extensão dos fatos da navegação: assalto a bordo do comboio formado pelo E/M “CAP JOSÉ
ALECRIM XVI” e a balsa “VDA XIX”, utilizando embarcações não identificadas, com ação
dolosa de meliantes não identificados, com armas de fogo, mantendo as vítimas sob ameaça, com
danos materiais, mas sem registro de danos pessoais ou ambientais; b) quanto à causa
determinante: ação dolosa de meliantes não identificados, com armas de fogo, mantendo as
vítimas sob ameaça; e c) decisão: julgar os fatos da navegação, tipificados no art. 15, letras “e”
(exposição a risco) e “f” (uso de embarcações para a prática de crime), da Lei nº 2.180/54, como
decorrentes de ação dolosa de pessoas não identificadas, mandando arquivar os presentes autos,
acolhendo a promoção da Douta Procuradoria Especial da Marinha, de fls. 120 a 122.
Publique-se. Comunique-se. Registre-se.
Rio de Janeiro, RJ, em 12 de março de 2019.

FERNANDO ALVES LADEIRAS


Juiz Relator

Cumpra-se o Acórdão, após o trânsito em julgado:


Rio de Janeiro, RJ, em 15 de maio de 2019.

WILSON PEREIRA DE LIMA FILHO


Vice-Almirante (RM1)
Juiz-Presidente
PEDRO COSTA MENEZES JUNIOR
Capitão-Tenente (T)
Diretor da Divisão Judiciária
AUTENTICADO DIGITALMENTE

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Assinado de forma digital por COMANDO DA MARINHA
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Dados: 2019.05.31 15:11:33 -03'00'