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A MORADIA COMO PATRIMÔNIO CULTURAL

discursos oficiais e re-apropriações locais

Roberta Sampaio Guimarães

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-


Graduação em Sociologia e Antropologia / Instituto de
Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do
Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à
obtenção do título de Mestre em Sociologia (com
concentração em Antropologia).

Orientador: Prof. José Reginaldo Santos Gonçalves

Rio de Janeiro
Outubro de 2004

1
A MORADIA COMO PATRIMÔNIO CULTURAL
discursos oficiais e re-apropriações locais

Roberta Sampaio Guimarães

Orientador: Prof. José Reginaldo Santos Gonçalves

Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em


Sociologia e Antropologia / Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de
Mestre em Sociologia (com concentração em Antropologia).

Aprovada por:

______________________________________________
Presidente, Prof. José Reginaldo Santos Gonçalves

_______________________________________________
Prof. Regina Abreu (UNIRIO – PPGMS)

_______________________________________________
Prof. Beatriz Maria Alasia de Heredia (UFRJ – PPGSA)

Rio de Janeiro
Outubro de 2004

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Guimarães, Roberta Sampaio.
A moradia como patrimônio cultural: discursos
oficiais e re-apropriações locais/ Roberta Sampaio
Guimarães. Rio de Janeiro: UFRJ, IFCS, PPGSA,
2004.
108 f. il.; 21 X 29,7 cm.
Orientação do Prof. José Reginaldo Santos
Gonçalves. Dissertação, UFRJ, IFCS, PPGSA, 2004.

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RESUMO

A MORADIA COMO PATRIMÔNIO CULTURAL


discursos oficiais e re-apropriações locais

Roberta Sampaio Guimarães

Orientador: Prof. José Reginaldo Santos Gonçalves

Resumo da dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação


em Sociologia e Antropologia / Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de
Mestre em Sociologia (com concentração em Antropologia).

Essa dissertação busca compreender que valores sociais a transformação de


moradias urbanas em “patrimônios culturais” movimenta através da análise
dos múltiplos usos discursivos da categoria patrimônio entre os diversos
segmentos envolvidos com o tema. Para tanto, aborda a construção política
e conceitual desses símbolos de “memória” e “identidade” pelos
especialistas dos órgãos públicos patrimoniais e a re-apropriação do
discurso desses especialistas pelos segmentos que atuam localizadamente
nas cidades, nos bairros e nas vizinhanças.

Palavras-chaves: patrimônio; patrimônio cultural; vizinhança; moradia; cidade.

Rio de Janeiro
Outubro de 2004

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ABSTRACT

THE HOME AS A CULTURAL PATRIMONY


official speeches and local re-appropriations

Roberta Sampaio Guimarães

Orientador: Prof. José Reginaldo Santos Gonçalves

Abstract da dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação


em Sociologia e Antropologia / Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de
Mestre em Sociologia (com concentração em Antropologia).

This dissertation try to understand what socials values the transformation of


urban homes in “cultural patrimonies” movies through the analysis of the
multiple speech uses of the category patrimony between the different social
segments involved with the subject. For that, approach the political and
conceptual construction of these symbols of “memory” and “identity” for
the specialists of the patrimonial public organs and the re-appropriation of
their speeches for the segments who acting locally in the cities, districts and
neighborhoods.

Key-words: patrimony; cultural patrimony; neighborhood; home; city.

Rio de Janeiro
Outubro de 2004

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AGRADECIMENTOS

Durante a elaboração dessa dissertação de mestrado, pude contar com o apoio de


diversas pessoas e instituições. Gostaria aqui de agradecer a todos os que tornaram a
minha pesquisa viável e também prazerosa.

Ao Prof. José Reginaldo Santos Gonçalves por todo o apoio intelectual, pelo bom
humor e pela paciência que teve comigo, marinheira de primeira viagem nas Ciências
Sociais. Suas observações durante o processo de pesquisa tornaram-na sem dúvida
nenhuma mais desafiadora e interessante.

À Profa. Ana Maria Galano por ter me incentivado a ingressar nas Ciências Sociais e
por ter ampliado o meu olhar social e fotográfico. Sua presença também está em cada
página dessa dissertação. Nunca esquecerei a generosidade e a alegria com que me
orientou no início da minha jornada pelo mundo da pesquisa.

À Profa. Regina Abreu por todos os comentários feitos ainda na defesa do meu projeto
de pesquisa, que contribuíram muito para o seu encaminhamento empírico e teórico. À
Profa. Beatriz Heredia e ao Prof. John Comerford pelo oferecimento do curso
“Comunidade, localidade, nação”, de fundamental importância na produção dessa
dissertação, e também pelo apoio pessoal.

Aos Profs. Gláucia Villas Boas, Gian Mario Giuliani, Maria Laura Cavalcanti e Maria
Ligia Barbosa pelo apoio pessoal e acadêmico oferecido em diversos momentos da
minha passagem pelo curso de mestrado do PPGSA. Às secretárias do PPGSA Cláudia,
Denise e Clara, pela ajuda na solução das sempre complicadas questões burocráticas.

Aos amigos Elizete Ignácio, Márcio Vilar, Rodrigo Folhes, Daniel Granada, Rodrigo
Rosistolato e Maurício Sianes pela generosa troca de experiência de pesquisa e pelo
divertido companheirismo. Aos amigos Madalena Romeo, Juliana Loureiro, Priscila
Barreto, Natália Gaspar, Luiza Pitanga e Eduardo Menezes por todo tipo de incentivo
que me ofereceram e por participarem de diversas maneiras na minha vida. Ao amigo
Stefano Paulino, prematuramente afastado de nossa convivência, pelas longas

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discussões teóricas e mundanas que tivemos. Um amigo extraordinário. À amiga
Fabiene Gama pela incomparável e exemplar alegria com que se envolve com tudo. E
também pelo apoio que me ofereceu na documentação fotográfica dessa dissertação.
São delas algumas das fotos que compõem o terceiro capítulo.

Ao Luzimar Pereira por acompanhar com interesse e carinho cada momento da


realização dessa dissertação. Suas considerações também estão presentes em muitas
dessas páginas.

Aos meus pais, Humberto e Silvia, e ao meu irmão, Rodrigo, por me incentivarem
sempre.

Aos moradores da Vila Imperial pela simpatia com que me receberam em suas casas e
colaboraram com a pesquisa. À funcionária do Arquivo Geral do SPHAN, Zezé, por ter
viabilizado o andamento da minha pesquisa. À presidente da Associação de Moradores
de Botafogo, Regina Chiaradia, por ter disponibilizado seu arquivo pessoal de
reportagens sobre as APACs do Rio de Janeiro e por ter me concedido uma entrevista.
Ao historiador Milton Teixeira também por ter me concedido uma entrevista.

À CAPES por ter me concedido uma bolsa de estudo e, conseqüentemente, viabilizado


financeiramente esta pesquisa.

7
Dedico esta dissertação à memória de meu pai
Humberto S. Guimarães

8
ÍNDICE

Introdução - De moradia a patrimônio cultural .......................................................... 10

Capítulo 1 - O primeiro tombamento ........................................................................... 18


1.1. A proposta de um bem histórico e autêntico .............................................. 20
1.2. Os desafios de uma visão integradora ......................................................... 23
1.3. O patrimônio e a representação da nação ................................................... 32
1.4. Um estudo sociológico sobre a comunidade .............................................. 36

Capítulo 2 – Uma disputa pelos lugares da cidade ...................................................... 45


2.1. O patrimônio e a cidade: primeiros passos ....................................................... 46
2.2. As atuais APACs e seus conflitos ..................................................................... 51

Capítulo 3 – Os moradores: solicitantes e atingidos ................................................... 67


3.1. Os solicitantes: uma APAC para um bairro ameaçado ..................................... 68
3.2. Os atingidos: “Diga não às APACs imorais e tardias!” .................................... 75
3.3. O caso da Vila Imperial .................................................................................... 80

Considerações finais .................................................................................................. 102

Referências bibliográficas ......................................................................................... 105

Anexo - Tabela das Áreas de Proteção do Ambiente Cultural ................................... 107

9
INTRODUÇÃO
DE MORADIA A PATRIMÔNIO CULTURAL

Em 2001, os jornais diários da cidade do Rio de Janeiro começaram a cobrir


exaustivamente os debates em torno da criação de algumas Áreas de Proteção do
Ambiente Cultural - APACs. Embora as primeiras APACs datassem da década de 1980,
foi com a decretação de cinco recente APACs que se conformou um espaço público
conflituoso envolvendo moradores, empresários da construção civil, gestores públicos e
especialistas em geral. O surpreendente interesse pelos “patrimônios culturais” da
cidade foi ocasionado principalmente pelo alvo dos processos de preservação: prédios e
casas residenciais de propriedade das camadas médias e altas da população, localizados
em pontos econômica e simbolicamente valorizados da Zona Sul carioca.

De acordo com matéria do jornal O Globo de 25/07/2001, o “movimento


preservacionista” que deu origem às APACs dos bairros do Leblon, de Laranjeiras, do
Jardim Botânico, de Botafogo e de Ipanema teve início em 1999, quando o então
prefeito Luiz Paulo Conde promulgou a “lei dos apart-hotéis”, que permitia a
construção de apartamentos de 30 m² com apenas uma vaga de garagem para cada duas
unidades. Segundo o relato da presidente da Associação de Moradores e Amigos de
Botafogo – AMAB, Regina Chiaradia1, essas novas construções visavam a utilização
dos lucrativos terrenos ocupados pelas casas antigas e pelos prédios baixos da Zona Sul,
o que provocaria, em sua opinião e na dos demais moradores que mobilizaram o
movimento de preservação das moradias, a “descaracterização” dos bairros e a “perda”
de sua “qualidade de vida”.

Durante a polêmica sobre a construção dos apart-hotéis, foi eleito o prefeito César
Maia, que havia se comprometido durante a campanha eleitoral a atender as
reivindicações dos moradores favoráveis à preservação dos imóveis dos bairros. Logo
no começo de seu mandato, em 2001, ele divulgou a possibilidade da sociedade civil
recorrer ao Departamento Geral do Patrimônio Cultural - DGPC contra os processos já
aprovados de demolições de casas e prédios.

1
Em entrevista concedida a mim em fevereiro de 2003.

10
Além dessa medida de preservação, o prefeito também decretou o primeiro “ambiente
cultural” de sua gestão: a APAC do Leblon, contendo 218 imóveis entre tombados,
preservados e tutelados. Essa iniciativa incentivou as associações de bairro de diversas
regiões da cidade a procurarem a prefeitura com pedidos de preservação de moradias,
fazendo com que, em apenas dois anos, o DGPC iniciasse a discussão e a avaliação da
criação de mais de dez APACs, entre elas as do Humaitá, da Fonte da Saudade, do
Corredor Cultural abrangendo o Catete, o Flamengo e a Glória, da Gávea, da Tijuca, do
Morro da Mangueira, de Copacabana, do Grajaú e de Rocha Miranda.

No entanto, as primeiras APACs decretadas durante o governo César Maia receberam


tantas críticas que o processo de criação de novas áreas foi interrompido pela prefeitura.
Os questionamentos vieram dos mais variados setores da sociedade e abarcaram
diversos aspectos da preservação: os valores enunciados como justificativa para a
preservação das casas e prédios de apartamentos; os critérios adotados para a seleção
dos imóveis; a decretação das APACs em vez de sua aprovação pela Câmara dos
Vereadores; o atrito da ação patrimonial com as legislações urbanísticas dos bairros que
regulam os gabaritos das ruas e o uso do solo; e a interferência sob o direito de
propriedade dos imóveis. Ou seja, a criação de tais “patrimônios culturais” pôs em
ebulição diferentes concepções sobre o que é “ser de” ou “pertencer a” um determinado
bairro, que ponto de vista cultural, histórico ou artístico deveria ser preservado e que
legislação e direito de propriedade deveria prevalecer sobre os bens.

O patrimônio como categoria de pensamento

Para que determinadas casas e prédios sejam enunciados como patrimônios culturais e
representem um passado histórico ou os modos de vida de uma determinada
coletividade, determinadas operações lingüísticas e práticas sociais precisam ser
acionadas. Nos mais diferentes contextos, o termo “patrimônio” é agregado a outros,
como “cultural”, “arquitetônico”, “histórico”, “financeiro”, “familiar”, “genético”, que
são utilizados para definir a idéia de propriedade, de posse de algo. A idéia de
patrimônio se encontra, dessa forma, diretamente relacionada com a de colecionamento,
ou seja, com a prática de ajuntar coisas ou experiências em torno de pessoas, grupos,
regiões, nações ou sociedades.

11
Muitos pesquisadores já observaram nas mais diversas culturas e sociedades algum tipo
de colecionamento, demonstrando que a prática é universal. No entanto, como aponta
José Reginaldo Gonçalves (2003), uma característica diferente foi encontrada nas
coleções das modernas sociedades ocidentais: nelas a acumulação de um grupo de
objetos é feita com o único propósito de guardar, de reter, enquanto em outras culturas
os objetos são colecionados para serem distribuídos, trocados ou destruídos. Esse
aspecto da subjetividade do colecionador ocidental é identificado por James Clifford
(1994) como o produtor de uma “autenticidade possessiva”, que faz o colecionador
considerar que pode construir uma “identidade”, uma diferenciação em relação ao
“outro”, através do agrupamento e classificação de objetos como selos, obras de arte,
receitas culinárias, técnicas de pintura ou, no caso aqui estudado, imóveis residenciais.

Mas sendo as coleções formadas por uma seleção sempre arbitrária de objetos,
antropólogos, sociólogos, historiadores e filósofos vêm buscando compreender qual o
processo de sua construção social. Basicamente, seus estudos se dividem em dois eixos
de análise: a dos mecanismos lingüísticos que operam a transformação dos objetos em
representações de valores abstratos e a das práticas institucionais e políticas de
apropriação e classificação desses objetos.

Krzystof Pomian, a partir do exame da natureza simbólica das coleções, conclui que é a
linguagem que possibilita que objetos representem experiências distantes no tempo e no
espaço. Ou seja, para que um simples objeto seja transformado em um símbolo de
identidade devem ser acionados alguns mecanismos sociais que estruturem suas formas
de representação e percepção. Pomian denomina de “invisível” tudo aquilo que tais
objetos têm a capacidade de evocar através de sua presença ou visibilidade:
acontecimentos históricos, deuses, lugares distantes ou modos de vida. Essa oposição
entre o invisível e o visível é, para o filósofo, “a que existe entre aquilo de que se fala e
aquilo que se apercebe, entre o universo do discurso e o mundo da visão” (1982: 68).
Um conjunto de casas classificadas como patrimônio pode assim representar o passado
de uma cidade ou boas relações de vizinhança.

No entanto, o poder de evocação desses objetos será sempre limitado, como adverte
Susan Stewart, visto que eles nunca alcançarão uma representação completa daquilo que

12
pretendem mediar. Para ela, é justamente o fato de o objeto ser uma codificação pela
linguagem de uma experiência distanciada - um sistema onde a significação “opera não
de objeto para objeto, mas além dessa relação, metonimicamente, de objeto para
evento/experiência” (1984: 136) - que o torna capaz de evocar uma lembrança de um
tempo ou lugar invisível, sem, no entanto, jamais recuperá-lo por inteiro.

A coleção, por ser uma categoria de pensamento, se encontra inserida em um sistema


relativo de valoração de objetos que varia de acordo com as transformações intelectuais
e institucionais da sociedade. E como todo sistema de representação precisa ser
socialmente compartilhado para ser eficaz, poderosas práticas institucionais e políticas
são postas em movimento para se apropriarem de objetos e transformá-los em símbolos
de identidades coletivas. Clifford (1994) aponta que só é possível obter um
distanciamento dos processos arbitrários de classificação das coleções e das relações de
poder que legitimam a apropriação dos objetos em nome de critérios “artísticos” ou
“científicos” com a sua constante contextualização sócio-cultural. Para ele, uma coleção
ideal é aquela que expõe os processos históricos, econômicos e políticos de sua
produção, mostrando ao espectador que, nas representações, as categorias “belo”,
“cultural” e “autêntico” são sempre variáveis.

No caso das práticas que envolvem a categoria patrimônio, Gonçalves também


demonstra que recursos narrativos específicos são utilizados para acionar determinadas
concepções de tempo e cultura e sustentar a apropriação de objetos e sua classificação
em coleções. Segundo o autor, os ideólogos do patrimônio se utilizam de táticas
discursivas de representação para valorizar os aspectos entendidos como “tradicionais”
e “autênticos” das coletividades, excluindo de seus discursos tudo o que é “híbrido” ou
“inautêntico”. Para ele, a tentativa de permanência cultural reflete uma “concepção de
temporalidade na qual a história é vista como um processo incontrolável de destruição”
(1999: 25), sendo que nessa retórica do discurso preservacionista a perda é reconhecida
como um fato histórico exterior e não como um princípio estruturador interno ao
próprio discurso, residindo justamente aí a sua eficácia simbólica e social (Gonçalves,
1996).

De moradia a patrimônio cultural

13
Para que a moradia considerada até então comum fosse enunciada como um
“patrimônio cultural”, um lento e nada consensual processo de disputas conceituais se
desenvolveu no Brasil. Foi somente no final da década de 1970 que bens considerados
sem extraordinários valores históricos ou artísticos começaram a ser valorizados pelos
órgãos dedicados à preservação da identidade e da memória nacionais. Uma das
principais forças impulsionadoras dessa inflexão foi a emergência em âmbito mundial
do conceito antropológico de cultura.

A percepção da noção de cultura como fundamental na constituição de um patrimônio


nacional começou a se delinear no fim da Segunda Guerra Mundial, quando a Unesco
foi criada para tentar diminuir os conflitos entre as nações através da promoção do
diálogo entre suas múltiplas culturas. Na busca pela valorização da diversidade cultural,
o patrimônio passou a ser compreendido como algo que deveria representar, além das
grandes obras de cada nação, as suas mais variadas manifestações humanas. A partir
desse momento, duas concepções se afirmaram: que uma nação não é culturalmente
homogênea, mas constituída de culturas e sub-culturas; e que a noção de cultura
congrega bens materiais e também imateriais, como hábitos, costumes e tradições
(Abreu, 2003).

No Brasil, alguns contornos desse novo conceito de cultura e patrimônio já estavam


presentes na proposta de criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional - SPHAN apresentada por Mário de Andrade ao ministro da Educação
Gustavo Capanema2 em 1936. No entanto, os critérios de classificação dos bens
patrimoniais brasileiros defendidos pelo poeta modernista foram preteridos pela
concepção de nação de Rodrigo Melo Franco de Andrade, primeiro a assumir, em 1937,
a direção do SPHAN. Em seu discurso, a nação era narrada como uma totalidade
cultural que devia ser representada por bens históricos e artísticos que valorizassem suas
dimensões singulares e tradicionais.

Foi somente com a entrada de Aloísio Magalhães na direção do SPHAN, em 1979, que
a nação começou a ser percebida e gradualmente representada como heterogênea, e o
patrimônio como eminentemente “cultural”. Na política de preservação que então

2
Sobre a participação de Mário de Andrade na elaboração do projeto de lei que criou o SPHAN, ver
Chagas, 2003.

14
despontava, a sociedade brasileira passou a ser percebida como composta por uma
grande diversidade cultural que deve ser protegida da homogeneização que os processos
de desenvolvimento tecnológicos e econômicos poderiam gerar. No projeto de política
cultural idealizado por Magalhães, os “bens culturais” eram os portadores da
“identidade nacional” e de sua “autenticidade”, devendo ser utilizados como
instrumentos para o desenvolvimento autônomo do país e contra a massificação cultural
provocada pelo consumo dos produtos industrializados do primeiro mundo. Como
aponta Gonçalves, “diferentemente de Rodrigo, Aloísio vê a fonte dessa autenticidade
não numa „tradição‟ concebida de maneira globalizante, mas na „heterogeneidade
cultural‟, o que equivale a uma concepção pluralista da tradição” (1996: 108).

Com a mudança de percepção do que deveria ser valorizado, transformaram-se também


os alvos das políticas de preservação. Na busca pelas diversas manifestações culturais, o
SPHAN ampliou o seu campo de atuação para novas áreas, buscando a identificação da
“cultura popular”, do “cotidiano das comunidades” e das formas “autênticas” de ser
brasileiro. Além de igrejas católicas, fortes militares, bustos de heróis nacionais e
edificações de estilos arquitetônicos consagrados, uma série de outros bens materiais e
também imateriais começou a ser inventariado e arrolado como patrimônio nacional.

E nesse processo, antropólogos e sociólogos passaram a ser considerados especialistas


fundamentais para operar a tradução das diversas “linguagens culturais” e para certificar
a autenticidade das múltiplas identidades brasileiras. Dentro desse novo quadro social,
político e conceitual, a preservação da habitação comum foi percebida como relevante
culturalmente. Diferente dos monumentos históricos e artísticos, sua preservação não se
baseava na valorização de um passado entendido como tradicional e homogêneo, nem
em características arquitetônicas excepcionais. Mesmo sendo a moradia um bem
material, sua importância foi atribuída aos variados modos de vida que ela era capaz de
representar, ou seja, ao seu valor imaterial de “testemunho de uma época e de sua
comunidade”.

É a partir desse conjunto de operações sociais que a moradia é transformada em


patrimônio cultural e passa a representar metonimicamente um modo de vida
valorizado por seus aspectos harmônicos e coerentes. Discursivamente construída como
objeto-símbolo de “memória” e “identidade”, a moradia passa a ser alvo de medidas de

15
preservação para que não sejam “destruídos” ou “descaracterizados” vestígios materiais
de uma época, determinadas relações de vizinhança ou tradições locais.

No entanto, são muitos os pontos de conflito que esta política patrimonial gera, como
pode ser observado no conjunto de termos de valores opostos utilizados pelos diversos
atores sociais envolvidos com as APACs para se referirem aos mesmos aspectos da
preservação: uns consideram as casas “antigas” e outros, “velhas”; prédios altos são
chamados de “espigões” ou de “modernos”; para uns a cidade está sendo “preservada” e
protegida do “adensamento” e para outros “engessada” e impedida de “crescimento”; a
vizinhança dos bairros está tendo suas “características” mantidas ou sendo “elitizadas”;
e a utilização da lei de preservação é entendia como um “instrumento dos moradores
contra a especulação imobiliária” ou como uma “decretação imposta pelo prefeito”.

Ou seja, se por um lado esse tipo de preservação de “bem cultural” é proposto pelos
especialistas do patrimônio imbuído de uma concepção democrática e pluralista de
sociedade e nação, por outro, ele catalisa uma guerra de representações e lugares,
interferindo diretamente na configuração de espaços físicos e simbólicos da cidade e nos
direitos privados dos proprietários das moradias.

***

A proposta dessa dissertação de mestrado é analisar os diversos usos da categoria


patrimônio pelos especialistas dos órgãos públicos de preservação e sua re-apropriação
pelos moradores das localidades. Para compreender as disputas em torno da definição
da categoria patrimônio nos órgãos públicos brasileiros, abordo no primeiro capítulo as
principais concepções que guiaram a atuação dos especialistas do SPHAN na abertura
do primeiro processo de tombamento federal de uma “habitação coletiva”: a Avenida
Modêlo, localizada no Centro da cidade do Rio de Janeiro.

No segundo capítulo, apresento um breve mapeamento das transformações da categoria


patrimônio na legislação de preservação ambiental e cultural da cidade do Rio de
Janeiro, as imbricações dessa legislação com a urbanística e algumas das distintas
utilizações da categoria nos discursos dos especialistas da prefeitura e dos moradores da
cidade. Dispenso maior atenção à criação das recentes APACs e à arena pública de

16
debate por elas conformada, através da análise das reportagens que foram publicadas
nos jornais diários e que deram visibilidade aos diferentes atores sociais envolvidos na
questão.

No terceiro e último capítulo, apresento as percepções de moradores “atingidos” e


“solicitantes” sobre a decretação das APACs. Os termos “atingidos” e “solicitantes”,
que diferenciam qualitativamente esses moradores, foram utilizados por mim para
acentuar formas distintas de vivenciar a preservação de uma moradia: no primeiro caso,
os proprietários só são comunicados da preservação de seu imóvel pelo órgão
responsável no fim do processo, ou seja, eles não participam da decisão; e no segundo, o
órgão público é procurado pelos moradores para avaliar a possibilidade de seu imóvel
ser incluído na lista de bens tombados e preservados pela APAC. Analiso nesse capítulo
como as concepções de patrimônio dos diferentes moradores operacionalizam valores
que perpassam por todos os domínios de sua vida: moral, estético, econômico, jurídico,
fisiológico etc., se apresentando como um fato social total (Mauss, s/d).

Por fim, considero importante informar que sou carioca e que como moradora da cidade
do Rio de Janeiro vivenciei muitas transformações de sua paisagem, transformações
essas que, com o passar do tempo, foram por mim naturalizadas. Perceber a cidade
como um processo de construção e classificação constante fez com que me interessasse
cada vez mais pelas disputas físicas e simbólicas pelo controle de seus territórios. E se
nesse universo tão rico de possibilidades de pesquisa escolhi a questão do patrimônio
como objeto de análise foi porque nela percebi claramente a produção de tensões sociais
que impeliam seus habitantes a expressarem valores e sensibilidades sobre seu local de
moradia.

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CAPÍTULO 1
O PRIMEIRO TOMBAMENTO

Sobrado, servidão e casas da Avenida Modêlo


Fotos de Edgar Jacintho da Silva / 1983. IPHAN/DID/Arquivo Noronha dos Santos.

A Avenida Modêlo foi o primeiro tombamento realizado pelo SPHAN de uma


“habitação coletiva”3. Localizada na Rua Regente Feijó, centro da cidade do Rio de
Janeiro, a avenida é composta por um sobrado e oito casas térreas. O acesso à Avenida é
permitido pelo portão do sobrado, que leva à servidão e às casas, dispostas de forma
contígua do lado direito do lote, ocupando-o até o fim de seus limites territoriais. No
3
As moradias que são nomeadas corriqueiramente como coletivas nos estudos patrimoniais são as que se
opõem à noção de habitação isolada ou unifamiliar. Essa classificação é utilizada para se referir a
inúmeras tipologias: cortiços, estalagens, avenidas, vilas, hotéis, casas de pensão, prédios de apartamentos
etc.

18
lado esquerdo do lote, se encontram pequenas áreas utilizadas como depósito ou
lavanderia, que são definidas por paredes laterais e pertencem a cada uma das casas,
como uma extensão de seus limites frontais.

O Processo de Tombamento da Avenida Modêlo foi aberto pelo SPHAN em abril de


1983, com o número 1.085-T-83, e foi encerrado em maio de 1986. Ele é composto por
84 páginas datilografadas e tem como conteúdo as propostas e tramitações oficiais dos
especialistas do SPHAN. Além do Processo, o tombamento da Avenida Modêlo
também possui um Inventário, composto por 89 páginas e pelo projeto Vilas e
Congêneres, onde se encontram mais detalhadas as etapas dos estudos realizados sobre
as características patrimoniais do bem. Arquitetos, historiadores e sociólogos
participaram das diferentes etapas de elaboração e discussão do tombamento,
produzindo registros fotográficos, pesquisas no local, entrevistas com os moradores e
levantamento de material bibliográfico e fontes históricas que tornassem mais precisas a
precedência do imóvel.

A análise do tombamento da Avenida Modêlo será aqui apresentada diacronicamente,


seguindo os discursos apresentados pelos especialistas durante o desenvolvimento do
Processo. Nele, há basicamente três tipos de classificação discursiva: “pedido de
tombamento”, “informação” e “ofício”. Essa classificação se baseia na espécie de
conteúdo que o texto apresenta e também na posição institucional de quem profere o
discurso. O “pedido de tombamento” é a análise de um bem proposto como relevante
para o tombamento, produzido por especialista de uma das Divisões Regionais do
SPHAN; a “informação” é todo tipo de estudo ou análise do bem que tramite
internamente no órgão e seja realizada por seus especialistas; e o “ofício” caracteriza as
tramitações legais entre as distintas instâncias governamentais envolvidas no
tombamento.

A proposta dessa análise é que, a partir do entendimento dos patrimônios culturais como
gêneros de discursos, isto é, como formas de expressão que partem de um grupo ou
indivíduo e são direcionadas a outros discursos, seja possível, como sugere Gonçalves
(2002), compreender como é construída e disputada significativamente a categoria
patrimônio, e como outras concepções podem ser operacionalizadas por ela: concepções
norteadoras da hierarquia temporal do bem tombado; da nação por ele representada; dos

19
valores por ele significados; e da percepção do espaço público onde esse bem se
encontra inserido.

1.1. A proposta de um bem histórico e autêntico

A proposta de tombamento da Avenida Modêlo foi apresentada em 29.04.1983 ao


subsecretário do SPHAN, o arquiteto Antônio de Alcântara, pelo diretor da 6ª Diretoria
Regional do SPHAN, Glauco Campello, que anexou a ela a exposição do arquiteto
Edgar Jacintho da Silva e algumas fotografias da avenida. Nesta primeira tramitação
oficial, os materiais considerados pelo diretor da 6ª DR como relevantes para a abertura
do processo de tombamento oferecem pistas sobre as concepções de patrimônio que
norteiam sua atuação: ele considera que a importância do bem em questão se dá
principalmente pelas especificidades de sua tipologia, ou seja, por sua capacidade de
representar algo através de suas características formais (quesito preenchido pelo
arquiteto); e pela permanência de sua integridade física com o passar do tempo
(característica que pode ser observada pelas fotografias). Edgar da Silva inicia a
proposta de tombamento com o seguinte parágrafo:

O conjunto de habitação coletiva denominado “Avenida Modêlo”, situado na Rua


Regente Feijó nº 55 (área do Corredor Cultural, setor 4.1) configura um exemplar
tipológico de expressiva representatividade como testemunho vivo da dinâmica
urbana, quando no virar do século caracterizou esta faixa da cidade como área
periférica do então núcleo citadino, de dimensão restrita.

Ele considera que a representatividade do bem reside em sua capacidade de


testemunhar um aspecto imaterial: a “dinâmica urbana”. Através de sua codificação
lingüística, o objeto é transformado em um símbolo que testemunha algo ausente, no
caso um processo sócio-econômico. O tempo passado é de grande relevância no pedido
de preservação, na medida em que o outro valor atribuído ao bem é o de ser também o
testemunho do “virar do século”. A seguir, o arquiteto explicita melhor o que considera
ser a “dinâmica urbana” representada pela Avenida, utilizando novamente em seu
discurso um sistema de hierarquia temporal.

A peculiaridade deste trecho da trama urbana reside na sua proposta, expressa no


tempo, como área de ocupação mista, ou seja, de finalidade residencial a par de

20
outras destinações como a localização de pequenas oficinas de produção
manufatureira e outras atividades de apoio aos interesses do comércio. E esta
particularidade se acentuava pelo padrão econômico das moradias coletivas que
serviam, à época, às classes de menor poder aquisitivo integrantes da pequena
burguesia constituída principalmente dos artífices, dos funcionários públicos e
entre outras da então prestigiosa classe “caixeiral” ou empregados no comércio,
que em conjunto eram até então consideradas sustentáculos da vida
socioeconômica da incipiente metrópole.

Seu discurso valoriza o caráter popular do bem tombamento, o que amplia o leque de
grupos sociais representados pelo patrimônio nacional, mas o afirma como “testemunho
vivo” que deve a sua “peculiaridade” ou “particularidade” a um “tempo” ou uma
“época”. O bem não é sugerido para tombamento por haver uma valorização de sua
atualidade, das experiências que são ali vividas por seus moradores no tempo presente.
Embora a proposta integre “as classes de menor poder aquisitivo” ao passado histórico
da cidade, ela confere valor somente a esse passado. Adiante, Edgar da Silva apresenta
os aspectos arquitetônicos do bem que, em sua opinião, lhe conferem significação.

A edificação foi erguida no ano de 1888 e apresenta-se praticamente íntegra,


preservando a autenticidade exigível como condição de monumento histórico e
além do mais exibindo as galas artísticas ao gosto do chamado estilo eclético; tudo
isso somado a alguma nobreza qualitativa do material e mão de obra pelo emprego
da pedra de cantaria em toda a altura do paramento do pavimento térreo, nos
enquadramentos das envasaduras de arco pleno, nas bacias e consolos das sacadas;
valores estes acrescidos dos laivos da serralharia dos gradis e o apuro da obra de
marcenaria das esquadrias.

O arquiteto atribui o poder de evocação do imóvel às suas características físicas,


relacionando a imaterialidade da experiência passada à materialidade da habitação.
Segundo seu discurso, um patrimônio é: um bem que mantém formalmente a sua
ligação com o passado através da integridade física de sua construção; dotado de uma
autenticidade4 que pode ser observada na manutenção material de seus aspectos formais

4
O uso corrente do termo “autenticidade” relaciona-o à idéia de verdade, de genuinidade, intimidade.
Seja se referindo a objetos de arte, a bens culturais ou a experiências pessoais, muitos estudiosos utilizam
esta noção como algo inquestionável e imanente ao próprio objeto de estudo. Sobre a problematização do
uso da noção de autenticidade para a classificação de obras de arte, ver Benjamim (1975). Sobre a
utilização da noção na construção narrativa de bens culturais que compõem os chamados patrimônios

21
iniciais, possuindo assim a capacidade de mediar metonimicamente esse tempo passado
e histórico; e deve o seu valor também aos seus méritos artísticos que podem ser
avaliados por seu enquadramento em um estilo acadêmico de arquitetura e pela boa
qualidade do material e da mão de obra utilizados.

Por fim, o arquiteto embasa a proposta de tombamento do bem dizendo ser ele
pertencente a “uma categoria de monumento arquitetônico que não consta até agora
com similar no elenco dos bens tombados postos sob a tutela do Poder Público, e por
sua significação como referência no contexto da gênese urbana da antiga Capital do
País”. Ou seja, argumenta a favor de seu ineditismo tipológico dentro do quadro de
atuação do SPHAN e novamente afirma sua significação histórica.

Edgar da Silva também relembra o fato da Avenida Modêlo estar inserida no perímetro
do Corredor Cultural5 para justificar que “no ato de sua inscrição se considere como
espaço visual de enquadramento do bem tombado, o alinhamento de edificações em
que o mesmo se integra”. É interessante aqui o aparecimento da categoria “espaço
visual” que o arquiteto utiliza em seu discurso para sugerir a preservação dos prédios
vizinhos à Avenida. A idéia de espaço visual desvenda uma abrangência maior das
concepções de “autenticidade” e “integridade” enunciadas pelo especialista, já que para
ele também relevante que o entorno do bem possa evocar o passado e aumentar
conseqüentemente a sensação do espectador estar presenciando um “testemunho vivo”
da história da cidade.

Anexadas ao pedido de tombamento, as fotografias podem ser lidas como um discurso


imagético utilizado para legitimar a proposta do arquiteto. Elas priorizam os aspectos
arquitetônicos da Avenida e ressaltam o sistema de hierarquia temporal norteado para o
passado, na medida em que não retratam pessoas ou atividades sendo desenvolvidas no
local, deixando claro que não é a ocupação presente dos moradores o objeto da proposta
de preservação. O arquiteto inclui de forma secundária em seus registros fotográficos o

nacionais, ver Gonçalves (1988) e Handler (1985). E sobre o uso da noção na classificação das
experiências pessoais, mais especificamente às relacionadas ao turismo, ver MacCannel (1976).
5
O Corredor Cultural, do qual faz parte a Avenida Modelo, foi um projeto patrimonial desenvolvido pela
prefeitura do Rio de Janeiro em 1979, no Centro da cidade, e considerado pioneiro na preservação de uma
“ambiência cultural”. Esse projeto será melhor detalhado no capitulo 2 desta dissertação.

22
espaço aberto da avenida que é utilizado por seus moradores como lavanderia e
depósito dos mais variados objetos.

Segundo pesquisa desenvolvida por outros especialistas do SPHAN no decorrer do


processo da Avenida Modêlo, esses adendos ainda não existiam em 1976, quando um
estudo realizado por estudantes de arquitetura da UFRJ registrou o espaço como um
pátio de uso comum. A não valorização pelo arquiteto das características desse
“puxadinho”, tanto na descrição textual quanto nas fotografias da Avenida Modêlo, nos
sugere que, dentro do sistema de representações patrimoniais deste especialista, o que
não havia sido construído na época que o imóvel deveria testemunhar é considerado
“inautêntico”, merecendo assim ser esquecido em sua representação verbal, imagética
e, conseqüentemente, patrimonial.

1.2. Os desafios de uma visão integradora

Uma política cultural descentralizada

Em 24.08.1983 o subsecretário do SPHAN, Antônio de Alcântara, enviou à


coordenadora do Setor de Tombamento - ST, a arquiteta Dora de Alcântara, a
Informação nº 81/83, onde tecia algumas considerações iniciais sobre a proposta de
tombamento da Avenida Modêlo. Sua exposição apresenta um resumo das razões que,
para ele, fundamentaram a proposta do arquiteto Edgar da Silva:

- Trata-se de exemplar tipológico de expressiva representatividade da dinâmica


urbana do virar do século, portanto, exemplar significativo da gênese da
cidade do Rio de Janeiro;
- A edificação apresenta-se praticamente íntegra, preservando a autenticidade
exigível como condição de monumento histórico;
- As características estilísticas e a qualidade do material e de mão de obra
empregados, principalmente nos serviços de cantaria, serralheria e marcenaria
acrescentam à edificação valores que justificam o seu tombamento sob o
ponto de vista artístico;
- Quanto à utilidade, o conjunto ainda serve como apoio às atividades
comerciais locais.

23
O subsecretário do SPHAN prossegue a sua argumentação sem questionar a validade
desses quatro pontos destacados, indicando concordar com a valorização do bem por
suas características arquitetônicas e históricas. No entanto, no último ponto enumerado
desse trecho, Antônio de Alcântara interpreta que o arquiteto Edgar da Silva se referiu a
atual utilização do imóvel em sua proposta de tombamento, apesar do texto original ser
claro ao se referir “à época” da construção do imóvel, numa reafirmação da valorização
temporal do passado significado pelo bem. Mas ele não vai se prender a esse ponto no
restante de sua Informação.

Nos parágrafos que se seguem, Antônio de Alcântara se dedica mais particularmente a


comentar de forma positiva o fato de a Avenida Modêlo estar inserida no perímetro do
Corredor Cultural da prefeitura do Rio de Janeiro e de o arquiteto ter sugerido também a
preservação do entorno do imóvel. Ele salienta como sendo muito oportuna a ação
conjunta da 6ª DR com os órgãos municipais e cita o trecho das “Diretrizes para
Operacionalização da Política Cultural do MEC” referente ao princípio da
“Descentralização”:

O mecanismo fundamental dessa diretriz é a articulação dos níveis municipal,


estadual e federal, através da efetiva interação de instituições oficiais, entidades
privadas e representantes do fazer e do pensamento das comunidades – os
legítimos portadores do conhecimento de contextos específicos.

Após essa citação, o subsecretário justifica a inclusão da Avenida em um processo de


tombamento complementar à preservação do Corredor Cultural por considerar que nesse
programa não está “bem definida a extensão do conceito de Preservação quando
aplicado a um exemplar que engloba diversas edificações, com diferentes tipos de
tratamento de fachada”. Em sua opinião, o tombamento de uma avenida já preservada
em âmbito local possibilitaria que o SPHAN participasse “da ação dos órgãos
municipais, entidades privadas e comunitárias na região”, conforme sugerido pelo
Ministério de Educação e Cultura.

O subsecretário então propõe a realização de um estudo mais aprofundado do “universo


cultural” a qual o bem pertence, por ainda não estar certo da importância do
tombamento da Avenida Modêlo, considerando-se a “abrangência maior, a nível

24
nacional” da atuação do SPHAN. Contando com a colaboração de dois estagiários, ele
realiza um exame na documentação disponível nos arquivos e biblioteca do órgão
público e faz “contato com algumas pessoas que estão estudando o problema”. A partir
dos dados coletados, Antônio de Alcântara sugere alguns “parâmetros” que podem ser
utilizados na formação de um “projeto-piloto” a ser aplicado no município do Rio de
Janeiro.

Após uma breve introdução histórica sobre o que ele classifica como “Conjuntos de
Habitação” e “Habitações Coletivas”, o subsecretário do SPHAN apresenta uma extensa
lista de itens a serem preenchidos num “estudo mais cuidadoso” onde “essa visão
histórica seja abordada sob o ponto de vista econômico, social, urbanístico e
arquitetônico”. No entanto, não aparece neste projeto-piloto um novo espaço de debate
com a população, nem mesmo com os moradores da Avenida Modêlo. Na concepção de
“descentralização cultural” do diretor, a participação direta da “comunidade” na
discussão da validade do tombamento do imóvel é desconsiderada. No seu
entendimento de conformação de espaço público, a mediação dos órgãos locais de
preservação parece ser suficiente para garantir a representatividade das ações do
SPHAN.

Preservando os aspectos populares

Porém esse esquecimento da pesquisa das experiências cotidianas dos moradores da


Avenida e de suas relações com o imóvel não passou despercebido pela coordenadora
do ST, Dora de Alcântara, que enviou, em 29.08.1983, a Informação nº 86/83 para o
subsecretário do SPHAN. Em seu texto ela chama a atenção, em primeiro lugar, para a
novidade do tema.

Trata-se, por um lado, de programa novo a ser beneficiado por medida de proteção
individuada (no tombamento conjunto de Petrópolis, estão incluídas três vilas
operárias) e, por outro, de um tema que vem despertando interesse crescente,
contando já com razoável bibliografia, bem como estudos em curso, a respeito,
com que tivemos necessidade de entrar em contato, para informar sobre o
processo, de maneira atualizada.

25
Um novo dado sobre o pedido de preservação da Avenida Modêlo aparece nesta
Informação na forma da categoria “proteção individuada”, que envolve algumas
mudanças na valoração dos bens preservados pelo SPHAN. A preservação de uma única
habitação coletiva ainda não era prática nesse órgão, mesmo que ela fosse considerada
possuidora de notável valor arquitetônico, como avalia a proposta do arquiteto Edgar da
Silva. No entanto, outras obras arquitetônicas, como fortes, igrejas e prédios públicos de
estilo modernista, já haviam sido tombadas isoladamente por seus valores históricos e
artísticos.

A diferença da Avenida Modêlo para esses demais bens parece residir no fato de que a
sua proposição é muito mais uma tentativa de inclusão de bens relacionados à história
“popular” no Livro de Tombos do SPHAN do que de valorização de seus aspectos
formais, como enunciado pelo arquiteto Edgar da Silva. O caso citado por Dora de
Alcântara das vilas petropolitanas indica não apenas uma diferença de quantidade, mas
principalmente de qualidade do bem tombado. A preservação de três vilas operárias não
se justifica apenas pela noção de conjunto arquitetônico homogêneo por elas formado,
mas está diretamente relacionada com a história de uma fábrica e de seu valor
econômico e social para a cidade de Petrópolis e para o país. Ela desenvolve mais
adiante este ponto que parece ser o provocador de uma tensão das concepções de
patrimônio atuantes dentro do SPHAN: a preservação de “aspectos populares da
cultura”.

Tratando-se de um programa novo, não poderíamos formar um juízo sobre a


“avenida” proposta, isolada desse conjunto mais amplo, especialmente se
considerarmos que se trata de um tombamento a nível nacional, pois o universo é
amplo. A título de exemplo, somente no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, são
mais de 60 as vilas existentes e de variados tipos.
Outro aspecto que nos preocupa diz respeito ao atendimento à política
cultural do MEC, expressa no III PSECD (1980/85), que indica a necessidade de
valorização cultural de maneira integrada, tanto os aspectos populares quanto os
eruditos tendo que ser desenvolvidos.
A preservação das manifestações culturais populares, em termos
arquitetônicos, é muito oportuna, indispensável mesmo se desejarmos guardar um
quadro mais completo, mais fiel, dos períodos de nossa história arquitetônica.

26
A coordenadora do ST coloca então em debate quais seriam, para ela, as motivações que
estariam guiando o pedido de preservação da Avenida. Pois se elas fossem
simplesmente materiais ou formais, poderiam ser aplicadas em diversas outras
moradias. Mas não são. O que Dora de Alcântara desvenda é que, dentro do SPHAN, a
Avenida Modêlo representa a implementação de uma concepção patrimonial baseada na
“valorização cultural de maneira integrada”, onde os “aspectos populares” participam da
“história arquitetônica” do país. E são as dificuldades inerentes a essa concepção
patrimonial “integradora” que ela aborda com maior ênfase.

Essa preservação encerra, no entanto, complexidade maior porque atinge uma


camada da população, cuja linguagem cultural não nos é suficientemente familiar
para que nos sintamos seguros de estarmos criando benefício para ela, com o
tombamento. O ônus que lhe advirá dessa medida de proteção poderá ser
excessivamente pesado.
O tombamento das vilas insere-se nessa problemática. Mesmo sem um
conhecimento mais abrangente, já temos idéia de que exemplares como a
“Avenida Modêlo”, ou os cortiços existentes na Rua Senador Pompeu, são antigos
e expressivos, com interesse para preservação de um ponto de vista arquitetônico.
Sentimos, porém, como indispensável, no encaminhamento deste caso e de
outros análogos, que tenhamos assessoria de profissionais das áreas de sociologia e
de antropologia, para adequada condução do problema.

Primeiramente, a coordenadora do ST destaca o não conhecimento pelos especialistas


do SPHAN da “linguagem cultural” da camada da população classificada como
“popular”. De fato, o SPHAN, até a virada da década de 1980, não tinha como prática o
tombamento desse tipo de “bem cultural”. Assim, na época da proposta de tombamento
da Avenida Modêlo não haviam sido desenvolvidos ainda critérios claros ou, no
discurso de Antônio de Alcântara, “parâmetros” de análise das manifestações populares,
mesmo as arquitetônicas.

O segundo ponto levantado por Dora de Alcântara, a distância dos especialistas do


patrimônio em relação ao “universo cultural” no qual se insere a Avenida, aparece
colocado de forma ainda mais enfática: não haveria somente um desconhecimento da
“linguagem cultural”, mas também dos impactos, tanto positivos quanto negativos, que
esse tombamento poderá causar na vida cotidiana dessa “camada da população”. É
nesse momento da reflexão que ela indica como conveniente a participação de

27
sociólogos e antropólogos no processo de tombamento. Pois, para a coordenadora do
ST, as questões envolvidas estão para além da capacidade de reflexão de um estudo
histórico ou arquitetônico do bem, devendo abarcar aspectos culturais e sociais que só
podem ser analisados a partir do tempo presente.

Nesta Informação o processo de tombamento da Avenida é debatido à luz de novas


concepções. O tempo valorizado agora também inclui o presente e não apenas o passado
do imóvel, ganhando então importância saber como ele é utilizado e quais são e como
vivem seus moradores; a nação passa a ser representada a partir de valores “culturais” e
não apenas “históricos e artísticos”, sendo essa representação norteada para a inclusão
de uma parcela maior de atores sociais que reflitam os seus diversos aspectos
“populares” e “eruditos”, tornando-a, portanto, uma nação entendida como heterogênea;
o espaço público também se amplia com a entrada dos discursos dos moradores e de
especialistas das Ciências Sociais, e não apenas da Arquitetura. Baseando-se nessas
concepções inovadoras, a Dora de Alcântara propõe um outro estudo a ser desenvolvido
pelo SPHAN, além daquele de viés histórico sugerido por Antônio de Alcântara, e
também outra forma de encaminhamento político e institucional do tombamento.

O contacto com os moradores e (ou) proprietários das vilas operárias


petropolitanas, já tombadas, e da “Avenida Modêlo”, que está parcialmente
preservada, poderia ser objeto de um primeiro trabalho com profissionais daquelas
áreas.
Embora devam ser diferentes as situações, variando para cada conjunto,
algumas abordagens poderão dar-nos umas primeiras indicações quanto aos rumos
mais acertados.
Endossamos a idéia de um “projeto-piloto” aplicado ao Município do Rio de
Janeiro, pela 6ª DR “em que participem órgãos municipais e esta DTC”. Cremos
que seria interessante um contato inicial com o Conselho Municipal de Proteção
do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro e com o Instituto Estadual de Patrimônio
Cultural que certamente poderão articular, com a SPHAN, um eficiente trabalho,
atendendo aos diferentes aspectos do problema e permitindo-nos conferir-lhes a
solução adequada.

Respondendo às demandas de estudo sobre a Avenida Modêlo, a Informação nº138/84


foi remetida em 31.10.1984 à coordenadora do ST pela arquiteta Helena Mendes dos

28
Santos e por mais dois estagiários de História - Márcia Regina Chuva e Roberto
Maldos.

No sentido de se respaldar o tombamento federal no conhecimento mais


abrangente do universo cultural a que a edificação pertence, desenvolveu-se no
Setor de Tombamento da DTC/SPHAN, um trabalho sobre os tipos de habitações
coletivas diretamente relacionadas às “vilas”, procurando-se caracterizar,
classificar e estabelecer as relações quanto à evolução dos diferentes tipos
identificados.
Das etapas desenvolvidas pelo trabalho resultaram o “Relatório” e a
“Proposta para Levantamento”, anexos a este processo. Ambos os documentos
foram encaminhados às DRs, com a finalidade de informá-las sobre os objetivos
do tombamento e auxiliá-las no caso de um provável inventário e, considerando-se
os diferentes aspectos ligados à problemática abordada, foram contactados
profissionais de Arquitetura, História, Sociologia e Antropologia que já vinham
desenvolvendo pesquisas neste sentido, procedendo-se, paralelamente, o
desenvolvimento de trabalhos e teses publicados sobre o tema.
Do que foi apreendido na evolução do trabalho, intitulado “Vilas
Brasileiras”, podemos tirar algumas conclusões que fundamentam a proposta de
tombamento da “Avenida Modêlo”.

A arquiteta Helena dos Santos propõe, portanto, a apresentação da “evolução” dos tipos
identificados como similares às “vilas”. Para isso, ela encaminha no Relatório estudos
sobre a história social das localizações dessas habitações coletivas, de suas tipologias e
da forma como ocuparam os lotes urbanos. Também apresenta uma descrição
arquitetônica do conjunto da Avenida Modêlo e algumas informações sobre o seu estado
atual de conservação e ocupação. Por fim, é exposto no Relatório um “Contexto Carioca
para o Surgimento das „Vilas‟” e um “Histórico da Rua Regente Feijó”. Todo o
Relatório é acompanhado por plantas e mapas da cidade, além de tabelas e gráficos
históricos.

A moradia e sua dinâmica cultural

A Informação nº 147/84 foi enviada pela arquiteta Dora de Alcântara ao diretor da


Divisão de Tombamento e Conservação - DTC do SPHAN, Augusto Telles, em
20.11.1984 contendo as últimas considerações sobre o tombamento da Avenida Modêlo

29
e, em anexo, toda a documentação relativa ao seu processo de pesquisa. Ela ressalta dois
aspectos que considera como fundamentais para uma correta tomada de decisão em
relação ao tombamento desta habitação coletiva.

1º) Verificamos que, na maioria dos casos, os moradores possuem um nível


econômico-social bastante modesto. Preocupou-nos essa constatação porque o
estabelecimento de um diálogo entre grupos de linguagem cultural diversa é
sempre delicado.
Exemplificando, chamaríamos a atenção para o gesto mais freqüente
observado, quando o morador de uma unidade de conjunto habitacional torna-se
proprietário da mesma. Ele procura, imediatamente, individualizar a unidade que
possui, destacando-a das demais por meio de um novo tratamento. Torna-se, então,
difícil opor-lhe a necessidade de manutenção da homogeneidade do conjunto; fica-
nos mesmo a dúvida quanto à validade cultural da medida impeditiva das
alterações pretendidas.

A preocupação da arquiteta em estabelecer um diálogo entre os moradores da Avenida e


os especialistas do SPHAN, já citada na Informação nº 86/83, é exemplificada nesse
momento de conclusão de estudos com a possibilidade de um morador se tornar
proprietário de uma unidade do conjunto habitacional e desejar realizar modificações
em sua moradia. Segundo de Dora de Alcântara, tal impedimento de transformação é
questionável, já que ela considera a intervenção do morador em sua propriedade uma
característica também representativa de seu universo cultural.

Na concepção da arquiteta sobre a atuação do SPHAN é relevante o limite da


propriedade privada, não apenas por seus aspectos legais, mas principalmente pelos
aspectos culturais e sociais que tal propriedade representa para seus moradores, ou seja,
pela forma como ela é vivenciada cotidianamente. Ela cita ainda a experiência de
pesquisadores de Recife que, levando em consideração tal questão, se negaram a incluir
medidas de proteção para “vilas e habitações congêneres” na proposta de legislação
urbana que elaboraram.

Dora de Alcântara trata aqui de uma questão que estará sempre presente nas discussões
sobre a preservação de moradias: a transformação da propriedade. Embora a arquiteta
indique que só a vivência do problema poderá elucidar a validade cultural da medida de

30
preservação, ela se mostra bastante cautelosa quando sugere que somente sejam
tombados “conjuntos que, além de especialmente expressivos, pertençam a um
proprietário único, circunstância em que, obviamente, o problema referido não ocorre; a
homogeneidade do conjunto é, obrigatoriamente, mantida, nesses casos”.

Percebemos então que, não por acaso, a Avenida Modêlo, primeiro exemplar de
habitação coletiva tombado pelo SPHAN, é de propriedade do Estado do Rio de Janeiro.
Ainda assim, a arquiteta propõe, “para uma análise mais profunda deste e de outros
aspectos do intercâmbio com tais comunidades”, que seja desenvolvido um “exercício
de diálogo” através de projetos de acompanhamento de tombamentos desse tipo de
conjuntos habitacionais para que novas ações possam ser mais fundamentadas. Ou seja,
mesmo tomando todas as precauções possíveis para não interferir no “universo cultural”
dos moradores, Dora de Alcântara considera necessário um acompanhamento constante
para a compreensão de quais devem ser os limites de atuação do SPHAN.

O segundo ponto destacado pela arquiteta em sua Informação aborda as características


históricas e sociais da Avenida Modêlo, além de reforçar o ainda restrito conhecimento
dos especialistas do SPHAN sobre o tema “vilas e habitações congêneres”.

2º) Outro aspecto diz respeito ao quadro, ainda relativamente restrito que
possuímos, dessas habitações a nível nacional. Não recebemos suficientes
informações das Diretorias Regionais.
Fica claro, no entanto, que a maior ocorrência se dá nos dois grandes centros
urbanos: Rio de Janeiro e São Paulo. A época de origem é a mesma (em torno de
1880); em São Paulo, apenas conjuntos com padrão construtivo muito modesto; no
Rio de Janeiro, além destes, também alguns mais elaborados.

Dora de Alcântara conclui a sua Informação posicionando-se favoravelmente ao


tombamento da Avenida e indicando a necessidade de um estudo sobre o tratamento
físico que será dado ao conjunto e que deverá contemplar “o produto do diálogo que se
venha a estabelecer com o a pequena comunidade de seus moradores”.

Após o encerramento dos estudos e a aprovação da medida patrimonial pelo ST, o


diretor da DTC, Augusto Telles, encaminhou o processo ao Conselho Consultivo do
SPHAN. O Conselho aprovou a medida e em 13.08.1985 o Ministro da Cultura, Aloísio

31
Pimenta, homologou o tombamento da Avenida Modêlo. A partir desse momento,
foram enviados ofícios para a inscrição da Avenida no Livro do Tombo das Belas Artes
e para comunicar ao governador e ao prefeito do Rio de Janeiro o tombamento do bem.
As tramitações oficiais se encerraram em 30.05.1986.

1.3. O patrimônio e a representação da nação

Do momento de criação do SPHAN até a valorização do conceito de habitação por esse


órgão, muitas noções do que deveria pertencer ao patrimônio nacional foram debatidas
por seus especialistas com o objetivo de construir uma “identidade” e uma “memória”
que consideravam autenticamente brasileiras. Empreendimentos políticos e ideológicos
diversos foram postos em movimento para a preservação de bens significados
metonimicamente como representativos da “cultura nacional”, bens que, segundo os
especialistas do patrimônio, assegurariam a permanência dessa cultura.
Discursivamente, tal política cultural se estruturou no que Gonçalves (1996) cunhou de
“retórica da perda”, recurso narrativo que constrói a percepção da história como um
processo de constante destruição de uma “cultura brasileira” entendida como “íntegra” e
“harmônica” e que legitima as ações patrimoniais como as salvadoras da memória
nacional.

Mas nem sempre os bens preservados que “testemunham” fatos históricos, pessoas e
locais considerados importantes para a conformação da memória e da identidade
nacionais articulam a mesma narrativa sobre a nação. Diferentes concepções de
identidade nacional podem ser flagradas concorrendo entre si ou também mescladas nos
discursos dos especialistas do patrimônio. Como nos sugere Gonçalves (2002) em seu
trabalho sobre as narrativas patrimoniais brasileiras, existem basicamente dois modelos
de discurso que guiam seus especialistas - o da “monumentalidade” e o do “cotidiano”.

O “discurso da monumentalidade” pode ser observado de forma mais predominante nos


processos de tombamento encaminhados a partir dos anos 1930, durante a direção do
SPHAN por Rodrigo Melo Franco de Andrade. Já o “discurso do cotidiano” vai
aparecer mais presente a partir dos anos 1970, na gestão de Aloísio Magalhães. Embora
possamos ter como referência esses dois importantes articuladores do patrimônio, a
finalidade da classificação desses modelos discursivos é auxiliar na análise das

32
narrativas dos diversos especialistas envolvidos com a questão, onde esses modelos
comumente não aparecem de forma pura e nem datados em determinado período das
práticas patrimoniais.

Em linhas gerais, o “discurso da monumentalidade” é norteado por um entendimento


tradicional de nação. Os bens por ele considerados representativos são aqueles
valorizados por serem testemunhos de um passado harmônico e autêntico e por trazerem
agregados a si consagrados valores históricos e artísticos. Segundo essa modalidade
discursiva, a conservação e a permanência desses bens fariam com que a nação não
perdesse a sua ligação com sua memória e identidade, ambas vistas a partir de uma
existência homogênea. Como a nação é percebida como tradicional e culturalmente
única, ou seja, sem conflitos quanto à sua representação, os especialistas que atuam
segundo esse discurso não consideram importante a discussão com a sociedade sobre os
processos de preservação e tombamento de bens, e o espaço público que se conforma a
partir daí é basicamente monolítico.

Por sua vez, o “discurso do cotidiano” é norteado pelo tempo presente, ou seja, pela
valorização das experiências e manifestações observáveis na vida cotidiana dos diversos
segmentos da sociedade. A nação é entendida como sendo composta por múltiplos
grupos e os bens que devem representá-la são significados a partir de valores culturais
que dêem conta dessa diversidade. Por ser um discurso baseado no tempo presente, os
bens preservados não estão fadados a permanecerem imutáveis, pelo contrário, eles são
entendidos como parte de uma dinâmica cultural que os colocam em constante
transformação, fazendo deles bens transitórios. O espaço público que se conforma a
partir desse discurso tende, assim, a ser um espaço polifônico, que agregue à
representação da nação variados grupos, suas culturas e seus pontos de vista.

No processo de tombamento da Avenida Modêlo, podemos notar claramente diferentes


concepções patrimoniais nos discursos dos especialistas do SPHAN. Fazendo um breve
apanhado do que foi visto ponto a ponto nos principais estudos e análises desses
especialistas, temos um quadro mais nítido das variações das noções de nação que ainda
hoje se encontram em disputa nos debates sobre as ações patrimoniais. O que se observa
é que, durante o processo de tombamento da Avenida Modelo, ela foi entendida a partir

33
de variadas perspectivas, que ora se encaminhavam para um discurso “monumentalista”,
ora para um discurso “do cotidiano”.

Mais do que definir como legítimo um outro discurso patrimonial, a análise do processo
de tombamento da Avenida Modêlo tenta iluminar algumas questões concernentes à
prática patrimonial de preservação de habitações no país. Ela indica como os usos das
categorias patrimônio e nação podem variar completamente mesmo quando proferidos
por especialistas de um mesmo órgão patrimonial e em direção a um único objeto e
contexto sócio-cultural. E que tais categorias podem ser estruturadoras de diferentes
discursos de construção da memória e da identidade nacional, interferindo na vida da
população e na projeção de seu futuro.

No pedido de tombamento feito pelo arquiteto Edgar da Silva, o tempo passado norteia
a valorização do bem, entendido dessa forma como representante de uma tradição
nacional que deve, através da medida de preservação, permanecer íntegro e inalterado
(ou autêntico) para testemunhar a sua história. Sendo uma narrativa guiada pela
monumentalidade, os valores que são agregados ao bem são todos relacionados a sua
materialidade, tais como “integridade”, “autenticidade”, “estilo”, “galas artísticas” e
“qualidade” de execução arquitetônica. E embora haja a proposta de inclusão de uma
manifestação entendida como popular nos quadro dos patrimônios do SPHAN, ela não
significa uma percepção diversificada de nação, visto que se remete ao passado e aos
aspectos históricos e artísticos do bem. Sendo um bem “tradicional”, sua representação
não é percebida como possivelmente conflituosa e, conseqüentemente, a participação de
outros atores sociais que não os especialistas do SPHAN não é citada, sugerindo a
conformação de um espaço público monolítico.

Na Informação nº 81/83 assinada pelo subsecretário do SPHAN, o arquiteto Antônio de


Alcântara, é reafirmada a valorização da Avenida Modêlo pelos seus aspectos históricos
e artísticos através da proposição de um estudo norteado para o conhecimento do
passado do bem e de suas características formais. Mas, diferente da proposta do
arquiteto Edgar da Silva, há o indicativo de uma ampliação do espaço público de
discussão com a entrada de outros grupos interessados no tombamento, tais como
especialistas de órgãos municipais e estaduais, representantes de entidades privadas e
representantes comunitários. Essa ampliação, no entanto, é toda norteada para uma

34
concepção tradicional de nação, onde não se coloca em discussão a utilização cotidiana
do bem por seus moradores nem a pertinência cultural do tombamento.

É a Informação nº 86/83 que traz diferentes concepções de patrimônio e nação ao


processo de tombamento da Avenida Modêlo, se aproximando de uma abordagem
discursiva “cotidiana”. Nela, a coordenadora do ST do SPHAN, a arquiteta Dora de
Alcântara, introduz o tempo presente na discussão através da noção de “universo
cultural do bem”. Com esse termo, ela assinala a necessidade do estudo das atividades
cotidianas dos moradores da Avenida e assume a nação como basicamente heterogênea,
composta por múltiplas e pouco conhecidas (especialmente para os especialistas do
SPHAN) realidades culturais. Por reconhecer a nação como diversificada, ela reafirma a
necessidade dos bens tombados serem guiados por uma tentativa de representação dos
aspectos tanto populares quanto eruditos da cultura nacional. Sua ênfase recai, portanto,
sobre os aspectos culturais do bem, e não mais sobre os aspectos históricos e artísticos
evocados pelos dois especialistas anteriores. E para dar conta do universo cultural a ser
investigado pelo órgão patrimonial, ela sugere que se amplie mais o espaço público de
debate, com a entrada de especialistas das áreas de sociologia e antropologia e com a
participação efetiva dos moradores no processo de tombamento.

Os estudos apresentados na Informação nº 138/84 pela arquiteta Helena Mendes dos


Santos podem ser considerados conciliatórios dos discursos “monumentalista” e
“cotidiano” propostos anteriormente. Neles, há uma preocupação de abordar tanto as
questões referentes à história e à arquitetura do bem quanto seus aspectos culturais.
Nessa conciliação, no entanto, há a predominância de um espaço público polifônico e
diversificado, já que foram consideradas as avaliações de sociólogos sobre as
características sócio-culturais da Avenida e seus moradores puderam expressar as suas
opiniões e expectativas em relação ao tombamento.

A Informação nº 147/84 encerra o ciclo de debates sobre a proposta de tombamento da


Avenida Modêlo destacando novamente a valorização dos aspectos culturais do bem.
Nela, a coordenadora do ST, a arquiteta Dora de Alcântara, questiona mais
especificamente a noção de permanência e autenticidade do bem defendidas pelo
discurso de viés “monumentalista”. Para a arquiteta, a dinâmica cultural onde um bem
se acha inserido deve ser mais bem compreendida para que seja culturalmente válido o

35
tombamento. Na sua percepção de bem patrimonial como uma representação das
manifestações e experiências cotidianas, as transformações físicas desse bem não são
necessariamente entendidas como algo negativo, mas como o reflexo de seu caráter
cultural e diverso. E o espaço público deve ser sempre o mais amplo e gregário possível
para que haja um constante diálogo entre a atuação dos especialistas do SPHAN e as
demandas da população envolvida com o tombamento.

1.4. Um estudo sociológico sobre a comunidade

O trabalho entitulado Vilas e Congêneres, coordenado pela arquiteta Dora de Alcântara


e disponível apenas no Inventário da Avenida Modêlo, foi concluído após o seu
tombamento, em dezembro de 1986, e buscou estabelecer um diálogo com os seus
moradores a fim de encaminhar a restauração das habitações. O trabalho é composto por
dois textos: “Projeto de Estudo de Vilas e Congêneres” e “Relatório Final sobre o
Estudo de Caso: Avenida Modêlo”, sendo que este é dividido nos blocos
“Levantamento Social dos Habitantes do Conjunto „Avenida Modêlo‟” e
“Levantamento Arquitetônico”. Desse conjunto de estudos, não será analisado aqui o
texto sobre as características arquitetônicas do bem, por ser ele estritamente técnico e
pouco elucidativo quanto às concepções patrimoniais norteadoras das ações dos
especialistas do SPHAN.

A introdução do “Projeto de Estudo de Vilas e Congêneres” apresenta os objetivos


gerais da pesquisa como: “formar quadros comparativos de exemplares”, “estimular os
moradores a participarem na preservação de seu patrimônio” e “obter uma experiência
interdisciplinar”. A existência do projeto é justificada pela necessidade “de estudo
destes programas (...) insuficientemente contemplados pela proteção institucional” e “do
estabelecimento de contato com os moradores de vilas e congêneres através de
profissionais com experiência em trabalhos com comunidades”. Como se verá adiante, a
categoria “comunidade” será a norteadora do enfoque teórico dos estudos dos
especialistas da área de Ciências Sociais e também se revestirá de uma forte carga
ideológica através do desejo de que a população se envolva na preservação do
patrimônio.

36
A elaboração do “Levantamento Social dos Habitantes do Conjunto „Avenida Modêlo‟”
foi coordenada por um sociólogo, Sérgio Gil Marques dos Santos, com a colaboração de
um estagiário de sociologia, Antônio Luigi Negro. Nele, são duas as categorias que
formam a base da explanação teórica sobre a Avenida: patrimônio e comunidade.
Sérgio dos Santos começa a “Apresentação” do bem caracterizando os moradores da
Avenida Modêlo como “funcionários públicos que obtiveram uma concessão do
governo estadual para lá morarem, mediante comprovação de não possuírem recursos
suficientes para alugar imóveis a preço de mercado”.

Sérgio dos Santos faz então um histórico da ocupação social da Avenida, destacando
que desde a década de 1960, quando o imóvel foi comprado pelo governo do Estado da
Guanabara, não há um contato da administração estadual com os moradores, “seja no
intuito de verificar a necessidade de reformas, seja no de controlar o fluxo de
habitantes”. O sociólogo conclui que foi por causa dessa falta de controle do Estado que
a área se tornou “refúgio de assaltantes, traficantes e toxicômanos”, sendo ocupada por
patrulhas da Polícia Militar durante três anos consecutivos, o que teria acarretado,
segundo ele, “um imenso desprestígio para os moradores do local em suas relações com
a vizinhança da região”.

Esse histórico do passado problemático dos habitantes da Avenida será utilizado mais
adiante no discurso de Sérgio dos Santos, quando ele então avaliará o papel que o
SPHAN pode desempenhar com o tombamento de bens da “cultura popular”. Até o fim
de sua análise, será sempre reforçada a idéia do patrimônio como educador da
população e incentivador da produção de um sentimento de pertença através da união de
sua “comunidade” em torno de um objetivo comum: a preservação do bem patrimonial.
Nos dois últimos parágrafos da “Apresentação”, o sociólogo inicia um comentário sobre
o que ele considera ser uma mudança da relação dos moradores com seu local de
moradia com a possibilidade da restauração da Avenida.

Segundo depoimento de moradores mais antigos, após o tombamento decretado


pela SPHAN em 1983, a situação melhorou um pouco, (...) situada numa área
movimentada diuturnamente no Centro da Cidade do Rio de Janeiro e considerada
“antro de marginais”, a Praça Tiradentes, os moradores da “Avenida Modêlo”
anseiam em ser diferentes. Como funcionários públicos, ainda que de baixa renda,

37
fazem questão de zelar por seu status, vendo na restauração um instrumento de
diferenciação da região.

Sérgio dos Santos introduz o tópico “Estudos de comunidade e patrimônio histórico”


enfatizando a inserção recente dos profissionais de Ciências Sociais nas políticas
públicas patrimoniais e considera que a necessidade da participação desses novos
especialistas foi ocasionada pela valorização do papel da “comunidade” nos processos
de tombamento. E, como base de comparação para o estudo de caso da Avenida
Modelo, o sociólogo utiliza um estudo desenvolvido no Catumbi pelo arquiteto Carlos
Nelson Santos (1981).

No Catumbi, os moradores se mobilizaram, com o apoio da Igreja (no caso, a


paróquia do bairro), quando souberam da existência de um plano urbanístico que
transformaria completamente o local, expulsando-os. Enfrentaram uma luta de
quase dez anos contra os poderes públicos estadual e municipal, saindo
parcialmente vencedores. Tratava-se, portanto, de um movimento organizado, com
meta definida.
No caso específico da “Avenida Modêlo”, a situação é completamente
inversa à do Catumbi. Tem-se aqui um conjunto arquitetônico já tombado por
órgão federal sendo proprietário dos imóveis e terreno o governo estadual.
A partir do exemplo do Catumbi e após ter-se inserido no universo da
“Avenida Modêlo”, pode-se, a priori, colocar uma questão básica que, respondida,
permita um correto e adequado trabalho posterior na área, qual seja, se, a par do
movimento dos moradores do Catumbi, de nítido caráter comunitário, poder-se-ia
entender a “Avenida Modêlo” como comunidade.

O sociólogo enfoca como questão mais relevante do estudo social do bem a averiguação
da existência da Avenida Modêlo como uma “comunidade”. E conduz seu discurso para
a compreensão dessa categoria como sendo o reflexo de um estado de harmonia e
cooperação entre os moradores, condições que considera indispensáveis para a
conservação da propriedade tombada. No terceiro tópico do estudo, “O conceito teórico
de comunidade”, Sérgio dos Santos apresenta um breve desenvolvimento do conceito
sociológico de “comunidade”. Ele demonstra como, em seu aparecimento, esse conceito
era ligado apenas ao meio rural e se refere ao trabalho de Robert Redfield (1955) sobre
o tema.

38
Redfiled define comunidade como um microcosmo fechado, denotativo de uma
totalidade homogênea (concepção holística), com território fixo, onde todos se
relacionam com todos, auto-suficientes em sua perspectiva interna e conscientes de
seus papéis sociais, sendo assim mínimas as possibilidades de mudança social.

Posteriormente, ele comenta que o conceito sofreu transformações a partir da década de


1960 e cita o trabalho sobre as aldeias balinesas, escrito por Clifford Geertz (1967),
como um dos que refutaram a avaliação de comunidade de Redfield.

(Geertz) diz que estas (aldeias) são peculiares, extraordinariamente diversas, tendo
uma estrutura social complexa, sendo organizadas diferenciadamente e o que
possui significância em uma não tem a menor importância em outra. A partir deste
ponto, define sete planos de vivência comunitária ou organização social 6:
1) Orar no mesmo templo;
2) Residência comum;
3) Propriedade da terra;
4) Pertencimento ao mesmo grupo de status social ou casta;
5) Parentesco;
6) Pertencimento comum em uma ou mais organização voluntária;
7) Subordinação legal comum a uma administração governamental.

Sérgio dos Santos faz uma síntese do pensamento de Geertz dizendo que “membros de
uma localidade podem pertencer a comunidades diferentes, que não se insiram no
mesmo espaço geográfico”. E a partir desse momento articula a sua tática de
investigação científica para classificar a Avenida Modêlo. Em sua avaliação, é o
conceito de comunidade desenvolvido por Geertz nos estudo da Ilha de Bali o mais
adequado para analisar o caso da Avenida, por ser a que vem sendo utilizada
“correntemente pelos cientistas sociais que hora trabalham com o tema, mesmo quando
em localidades urbanas”.

O sociólogo então nomeia o terceiro tópico de seu relatório com um título bastante
sugestivo do que virá adiante: “A Avenida Modêlo: inexistência de comunidade”. E

6
A partir da minha leitura do texto original, considero que esta seria uma tradução mais corrreta dos sete
planos propostos por Geertz: 1) a obrigação de participar do culto de um determinado templo; 2) a
moradia comunitária; 3) a posse de uma plantação de arroz sobre um único canal de água; 4) a associação
de membros relacionada ao status social ou casta; 5) laços de parentesco por consangüinidade ou
casamento; 6) a sociedade comum em uma ou outra organização “voluntária”; 7) a subordinação legal
comum a um único governo administrativo oficial.

39
toma “como premissa teórica a conceituação de Geertz”, tentando “adaptá-la” ao caso
estudado. Segundo Sérgio dos Santos, a partir de uma “análise superficial das
entrevistas realizadas com os moradores” pode-se concluir que há na Avenida uma
“ausência significativa de vários itens constituintes de uma organização comunitária”. E
assim, partindo da listagem proposta por Geertz para entender o funcionamento
estrutural da vida social das aldeias balineses7, o sociólogo encaixa aquela distante
realidade social no estudo do cotidiano dos moradores da Avenida Modêlo. Sua
utilização conceitualmente equivocada do trabalho de Geertz vai levá-lo a conclusões
simplistas e de caráter predominantemente quantitativo.

Item por item, Sérgio dos Santos apresenta suas descobertas sobre os costumes dos
moradores das oito casas da Avenida e as relações sociais ali encontradas.
Resumidamente, são eles:
1) A afinidade religiosa é classificada como inexistente, já que o sociólogo
observou uma variedade de afiliações religiosas. Os moradores da Avenida são
católicos, espíritas, umbandistas, sincréticos e participantes de seita cristã não
católica. Em seu conjunto eles não freqüentam um local comum de oração;
2) A residência comum que obviamente se observa é entendida como “força das
circunstâncias”, já que a maioria dos moradores declarou “não se misturar com
seus vizinhos”, donde o sociólogo conclui que esse traço não enseja nenhum tipo
de cooperação ou união, suas prerrogativas de existência de uma “comunidade”;
3) Ele também considera que a propriedade da terra também não é constituinte de
uma “comunidade”, já que o proprietário do imóvel é o Estado;
4) Este item o sociólogo avalia como “complexo”, já que todos os moradores
pertencem à mesma camada social. Porém, em sua avaliação, tal traço em vez de
uni-los os distancia, já que, segundo a análise dos depoimentos coletados, a
pobreza em comum é vivenciada negativamente como “promiscuidade”. Para
Sérgio dos Santos, nem o fato de serem todos funcionários públicos faz com que
se observem afinidades entre os moradores.

7
No estudo sobre a vida balinesa, o que Geertz busca compreender são as estruturas sociais das aldeias a
partir de seus sistemas sociais complexos, ao invés de seguir a tendência de se estudar o universo rural
como uma única construção tipológica. Ele chama a atenção para o fato de que aldeias contíguas podem
ser diferentemente organizadas. É tentando alcançar essas diferenças que ele propõe como recurso
analítico a divisão da estrutura social em planos. Cada plano seria composto por um conjunto de
instituições sociais baseadas numa total diferença de princípios de afiliação, ou seja, em maneiras
distintas de agrupar os indivíduos.

40
5) Neste item o sociólogo é breve: não há incidência de parentesco.
6) Na análise do sociólogo não há quaisquer associações voluntárias visando o bem
comum, seja no referente à manutenção do local de moradia, seja na realização
de reuniões.
7) Para ele, a subordinação a uma autoridade comum não se observa por causa da
presença de invasores, moradores clandestinos e sublocatários, ou seja, ele
considera como “autoridade comum” apenas o governo estadual, proprietário do
imóvel.

A conclusão por parte do sociólogo Sérgio dos Santos da não existência de uma
comunidade no local é colocada nos seguintes termos:

A partir da análise da realidade atinente à “Avenida Modêlo” confrontada com os


preceitos conceituais sócio-antropológicos, nota-se cabalmente a inexistência de
qualquer tipo de vivência comunitária na vila, ou seja, seus habitantes, em
nenhuma instância, formam uma comunidade. O isolamento no interior da área e o
cultivo de amizades fora do local são marcas sintomáticas desta situação.
As disputas, que se puderam observar quando de nossa primeira reunião
geral com os moradores, em torno de questões como consumo de água, energia
elétrica e, posteriormente, nas entrevistas, acerca dos comportamentos alheios,
acirram, ainda mais, a separação. Exacerbando tal estado de coisas, um conflito
latente entre os funcionários públicos (ativos ou inativos), concessionários legais
dos imóveis e os clandestinos. É interessante recordar que a primeira solicitação
feita à equipe de pesquisa foi no sentido de solucionar essa questão. Esse conflito
impede com mais força a formação de uma relação de comunidade.

O sociólogo, portanto, considera que os moradores da Avenida Modêlo se isolam dentro


das suas casas e mantém relações sociais apenas com pessoas de fora do local, donde
conclui que eles não formam uma comunidade, embora cite diversas brigas e uniões
ocasionais que eles já haviam vivenciado na tentativa de modificar questões comuns
referentes à sua moradia. Para ele, a convivência fruto dessas disputas e uniões,
causadas por questões como consumo de água, de energia elétrica ou ocupação irregular
do imóvel, ao invés de assinalarem interesses comuns, demonstram distanciamento.

Na concepção de comunidade do sociólogo, as relações devem ser harmônicas e


pautadas por critérios bastante estanques de atividades associativas. A convivência,

41
mesmo que conflituosa, as fofocas, as associações eventuais entre moradores “legais” e
“ilegais”, nada disso é considerado por ele como aspectos demonstrativos de relações
sociais decorrentes da proximidade territorial e do surgimento de interesses comuns. O
sociólogo, embora seja bem sucedido em apontar que uma localização territorial não
produz por si só uma comunidade, se equivoca ao não perceber claras relações sociais
entre os moradores da Avenida Modêlo.

Sua avaliação da inexistência de uma comunidade na Avenida se pauta por uma


concepção muito próxima à proposta por Redfiled de harmonia e coerência sócio-
cultural. A indevida utilização da proposta analítica de Geertz só evidencia o quanto
este especialista do patrimônio se norteia pelas noções de homogeneidade de cultura
popular que as políticas públicas patrimoniais têm como forte tendência. Esta percepção
da cultura popular como harmônica e homogênea fica ainda mais evidente na proposta
de atuação de Sérgio dos Santos para o SPHAN no caso da Avenida Modêlo.

No tópico “Metodologia: as etapas da pesquisa”, Sérgio dos Santos explica que o


método utilizado de abordagem aos moradores da Avenida foi de entrevista aberta, sem
o uso do gravador “para impedir eventuais inibições”. Foram entrevistados os
responsáveis por cada uma das oito casas. O que ele destaca de mais significativo
durante as visitas dos entrevistadores foi o que avaliou como uma mudança de
comportamento por parte dos moradores da Avenida. O sociólogo novamente enfatiza a
participação positiva dos especialistas do SPHAN no cotidiano da Avenida e o papel
redentor do tombamento da mesma e da elevação de seu status como “patrimônio
histórico tombado por um órgão federal”, que possibilitaram que ela desenvolvesse uma
“vizinhança” e se tornasse mais “limpa” e sem a aparência de um “cortiço”.

O que de alguma forma surpreendeu foi à mudança de comportamento na vila.


Com o desenrolar do trabalho, os moradores passaram a se freqüentar, a comentar
as perguntas feitas durante as entrevistas. Estas informações foram prestadas em
off e os contatos de vizinhança passaram a tornar-se ostensivos. A presença da
equipe pesquisadora, em visitas quase diárias, atenuou sobremaneira os conflitos
existentes; a vila ficou mais limpa sem o aspecto de cortiço que se via no início.

Ele finaliza o “Levantamento Social” com o item “Proposta de atuação e conclusão”.


Em sua avaliação, existem três dados básicos que devem nortear a atuação do SPHAN

42
no caso da Avenida Modêlo: 1) A propriedade do imóvel e do terreno pertence ao
governo estadual; 2) Não há uma uniformidade jurídico-administrativa dos moradores
da vila; 3) A vila não se constitui em comunidade na concepção sócio-antropológica do
termo. Partindo dessas três observações, ele propõe uma linha de ação durante o
processo de restauração do imóvel.

1) (...) o primeiro item da proposta aponta na direção de iniciarem-se


entendimentos com o governo estadual para que, como proprietário do imóvel,
participe da restauração, seja com recursos financeiros, materiais e ou humanos;
2) Este entendimento com o governo estadual visaria também a resolver a questão
dos moradores irregulares (...);
3) Na medida em que não se pode considerar a vila como uma comunidade, deve-
se desenvolver esforços no sentido de seus moradores tornarem-se participantes do
processo de restauração e zelosos de sua conservação.

Para o sociólogo, esse processo de envolvimento dos moradores deve ser desdobrado
nas seguintes etapas:

a) Como já foi apontado, a solução dos moradores irregulares, muitos dos quais
são desagregadores e desarticuladores de uma organização comunitária (...);
b) Articulação da SPHAN com moradores que se disponham a exercer um papel
participante, aproveitando-se lideranças locais. (...) Estas lideranças seriam
reforçadas e reconhecidas pelos demais e respaldadas tanto pela SPHAN quanto
pelo governo estadual.
c) Ação educativa e preventiva junto a essas lideranças e aos demais moradores no
intuito de incutir-lhes os conceitos e a importância do patrimônio e os benefícios
que o zelo, a conservação e a auto-fiscalização realizados podem trazer.

Sérgio dos Santos finaliza o seu trabalho de “Levantamento Social dos Habitantes do
Conjunto da Avenida Modêlo” concluindo que, se naquele momento ela não poderia
ainda ser classificada como constituída por uma comunidade, os seus moradores
possuíam “um potencial de formação comunitária que deveria ser aproveitado e
explorado”. Ou seja, após toda pesquisa sobre o “universo cultural” dos habitantes da
Avenida, ele entende que a participação comunitária deve ser harmônica e estruturada
por princípios de homogeneidade cultural, mesmo que esta seja criada ou estimulada
por agentes externos com um papel educador.

43
A busca pela “comunidade integrada e educada” permanecerá como norteadora de
muitas das concepções patrimoniais relacionadas à moradia, como será visto nos
próximos capítulos. E o conceito de “comunidade” continuará sendo utilizado para
legitimar a valorização da cultura popular pelos órgãos patrimoniais brasileiros,
embasar seus pedidos de preservação e também justificar a participação dos
profissionais de Ciências Sociais. Mesmo que tais especialistas projetem uma realidade
harmônica, como foi o caso de Sérgio dos Santos e sua obsessão de tornar
“comunitária” a Avenida Modêlo para que ela pudesse ser de fato enunciada como um
“patrimônio cultural autêntico”.

44
CAPÍTULO 2
UMA DISPUTA PELOS LUGARES DA CIDADE

O Globo, 05/11/2001.

Jornal do Brasil, 25/07/2001.

O Globo, 26/07/2001.

O Globo, 05/08/2001.

Jornal do Brasil, 28/07/2001.

A ênfase discursiva dos especialistas do SPHAN no encaminhamento do Processo do


Tombamento da Avenida Modêlo recaiu sobre a valorização histórica, artística e cultural
de um conjunto de casas que seria capaz de representar um período do desenvolvimento
urbano, uma forma específica de ocupação do espaço e um modo de vida peculiar a um
determinado segmento da sociedade. Esse processo, no entanto, foi apenas uma das
manifestações, a primeira em âmbito federal, de um ciclo de propostas de preservação
de habitações que surgiram com força na década de 1980. Outras políticas de
patrimônio baseadas na idéia da diversidade cultural também pipocaram de forma
localizada em órgãos públicos estaduais e municipais. Na cidade do Rio de Janeiro,
particularmente com a criação de “ambientes culturais” pela prefeitura, o debate se
ampliou e movimentou diferentes experiências individuais e coletivas de percepção e
utilização do espaço.

45
2.1. O patrimônio e a cidade: primeiros passos

O primeiro programa patrimonial idealizado e implementado na cidade do Rio de


Janeiro destinado a preservar “áreas de interesse cultural” foi o Corredor Cultural do
Centro. Nele, já havia a tentativa da representação de aspectos históricos, artísticos e
culturais da “vida” da cidade através da preservação de um “conjunto de edificações”.
Seus estudos começaram em 1979 e foram concluídos em 1983, tendo como resultado a
preservação de cerca de 1.300 edificações. Os critérios de preservação, bem como a
orientação sobre as reformas necessárias dos bens, foram encaminhados pelo Escritório
Técnico do Corredor Cultural, ligado administrativamente ao Instituto Municipal de
Arte e Cultura Rio Arte – IMAC/ RIOARTE.

Um dos principais articuladores do projeto foi o arquiteto Augusto Ivan de Freitas


Pinheiro, atualmente subsecretário municipal de Urbanismo e diretor do Instituto
Pereira Passos. Ele concedeu, em março de 2004, uma entrevista ao jornal Capital
Cultural – o Jornal do Centro da Cidade, onde explicitou as concepções patrimoniais
que guiaram a seleção dos bens preservados.

A idéia era a de preservar um conjunto de edificações históricas no Centro da


Cidade. Grosso modo, poderíamos dizer que o Centro dispõe de um conjunto
arquitetônico importante da época da Colônia, (...) uma área da época do Império
(...) e finalmente um trecho que representaria a República. (...) A idéia era proteger
e preservar estes três períodos de nossa história e também os monumentos
arquitetônicos desta época, que estão nestes lugares. Queríamos preservar não só a
arquitetura. O Corredor Cultural não tinha o objetivo de preservar apenas os
prédios, mas também preservar um pouco da vida que ainda existia nesses prédios.
(...) Tínhamos a percepção de que era preciso preservar um pouco de nossa vida e
de nossa história representada por estes ambientes.

No embalo dos debates em torno da criação do Corredor Cultural do Centro foi criada,
em 1985, a Área de Proteção Ambiental – APA dos bairros da Saúde, Gamboa, Santo
Cristo e parte do Centro, projeto que ficou conhecido pela abreviação SAGAS. O
arquiteto Luis Eduardo Pinheiro8, atual diretor do Departamento de Inventário e

8
Entrevista concedida a mim em setembro de 2003.

46
Planejamento – DIP/DGPC9, considera essa APA fundamental no processo de
estabilização das práticas patrimoniais de preservação de “ambientes culturais” na
cidade, já que ela contou com uma grande mobilização de seus moradores e com a
participação de diversas instituições públicas ligadas aos governos federal, estadual e
municipal. Segundo seu relato, foi durante o lançamento do Corredor Cultural que os
moradores da Saúde tomaram a iniciativa de organizar uma quinzena de debates sobre a
situação do bairro.

Estava havendo um momento em que a legislação urbanística estava promovendo


a saída de todos os moradores dali do bairro da Saúde. Porque a legislação
urbanística favorecia uma série de atividades incompatíveis com as atividades
residenciais. Aquilo ali estava sendo olhado pelo mercado imobiliário como
quintal do centro, da área central de negócios. Não podia construir edifícios-
garagem no centro da cidade, os estacionamentos tinham que estar situados num
raio de 500 metros. Quando você botava o compasso, os 500 metros caiam na
Saúde. Então, a Saúde estava virando área de estacionamento, área de depósito,
área de frigoríficos, área de oficinas. E com isso, por exemplo, nas ruas estreitas de
lá passavam os caminhões de frigorífico e iam batendo nas fachadas e subiam as
calçadas, estavam pouco se lixando, e isso ia deteriorando muito a qualidade de
vida daquela região. Ela era uma região que desde 1967 não estava recebendo
nenhuma benfeitoria. Então, os moradores queriam a revitalização daquele espaço.

Houve uma significativa mudança nos princípios que nortearam a criação da APA
SAGAS em comparação com os que guiaram as preservações do Corredor Cultural.
Pois se este foi um projeto direcionado por critérios arquitetônicos e históricos, embora
já houvesse a preocupação de englobar a “vida” que ainda ocupava as edificações, o
projeto SAGAS surgiu nitidamente como resposta a um processo de crescimento urbano
que estava “deteriorando” a “qualidade de vida” da região.

A ação patrimonial proposta pelos especialistas da prefeitura no projeto SAGAS teve


como meta principal preservar as condições de vida dos moradores através de uma

9 Segundo Pinheiro, são atribuições do DIP, “inventariar, classificar e propor modos de preservação e
proteção aos bens”. Ao órgão caberia assim “localizar lugares que são merecedores de um legislação de
proteção”; estudar “sítios culturais e imóveis que são solicitados para tombamento”; fazer “uma pré-
avaliação antes de ser encaminhado ao Conselho”e analisar “todos os pedidos de demolição em imóveis –
mesmo que não estejam preservados sob legislação de preservação – construídos até 1937”. Após o
parecer técnico do DIP, é o Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural - CMPC que decide
se os bens serão preservados.

47
intervenção “revitalizadora” no espaço, que seria alcançada pela preservação das
edificações antigas da região e a limitação da atuação do mercado imobiliário. O
interesse enunciado pelos moradores em torno da preservação da região também não
recaiu sobre a valorização de seus aspectos culturais, históricos ou artísticos, mas sobre
a disposição de permanecer em seu local de moradia e mantê-lo inalterado em suas
características, independente dos mecanismos legais que fossem utilizados para esses
fins. Como foi narrado pelo arquiteto:

Quando se criou o projeto SAGAS, a gente verificou que era importante, porque o
vice-governador da época, o Darcy Ribeiro, fez uma visita ao local e, deslumbrado
com aquele espaço, disse “vamos tombar tudo, imediatamente”. E os moradores
disseram assim: “nós não queremos o tombamento, nós não queremos ser
tombados. Nós queremos ser preservados no lugar”.

A criação de uma área de preservação foi assim a forma mais eficaz encontrada por
essa parcela do poder público envolvida com a questão patrimonial de suplantar, mesmo
que momentaneamente, a legislação urbanística e limitar o escopo de atuação do
mercado imobiliário. A valorização dos aspectos culturais e tradicionais da região foi o
enfoque dado às medidas de preservação.

Nós propusemos em 1984 o tombamento de várias coisas que iam desde igrejas
tradicionais, a cortiços - pela primeira vez estávamos tombando cortiços no Rio de
Janeiro - e pinturas de botequim. Quer dizer, uma coisa que é tão carioca e a gente
propôs esse tipo de coisa em 1984. Mas, ainda era a Diretoria [do Patrimônio
Histórico] e ainda não se tinha a legislação [da APAC]. Aí a gente fez esse
tombamento pontual, assim, espalhando pelos três bairros, de maneira bem
espalhada, para que se criasse um sítio – se não me engano, foram 27 bens
tombados -, criando um sítio histórico. Ali dentro já existiam alguns bens
esparsamente tombados pelo Patrimônio Nacional. A gente espalhou mais,
tombando aquela área ali, aguardando que se fizesse uma legislação urbanística
para aquilo. Foi a idéia da APAC, que surgiu como APA e depois com o Plano
Diretor se transformou em APAC.

E foi em 1988, através da publicação do Decreto Municipal nº 7612, que os parâmetros


de criação de uma APA se definiram legalmente. A APA foi então classificada como
uma área que apresenta “características notáveis nos aspectos naturais ou culturais” e

48
que, portanto, deve ser ocupada e utilizada “no sentido da valorização do patrimônio
ambiental” (Art. 1º). Vê-se nessa primeira tentativa de definir legalmente a proteção de
um “patrimônio ambiental” que as fronteiras do que era considerado “natural” e
“cultural” ainda estavam pouco nítidas. É no 2º parágrafo do Artigo 4 que a listagem
das características desejáveis a um bem preservado são melhor delineadas e os seus
“aspectos culturais” aparecem valorizados.

1. Seja integrante de um conjunto de bens de valor cultural na área que está


inserido;
2. Apresente características morfológicas típicas e remanescentes na área na qual
está inserido;
3. Constitua-se em testemunho de várias etapas de evolução urbana da área na
qual está inserido;
4. Possua valor afetivo ou se constitua em marco na história da comunidade.

A partir desses itens, percebe-se que as concepções de patrimônio norteadoras da


seleção de bens preservados por uma APA, já absorvidas as experiências anteriores do
Corredor Cultural e do projeto SAGAS, se direcionaram tanto para a valorização de
suas características históricas e arquitetônicas quanto de suas características culturais.
Embora o texto não ofereça claramente esta divisão e se direcione de uma forma geral
para a preservação de imóveis, é possível flagrar essa distinção na qualificação do
objeto passível de preservação como aquele que contenha “características morfológicas
típicas”, seja “testemunho de várias de evolução urbana” ou possua “valor afetivo” para
a “comunidade”.

A terminologia APAC foi finalmente incorporada às leis municipais em 1992 através da


Lei Complementar nº 16, que instituiu o Plano Diretor Decenal da Cidade do Rio de
Janeiro. Apoiado na política urbana do Artigo 350 da Lei Orgânica do Município, o
Plano Diretor define os critérios de proteção e a relação das características dos bens a
serem preservados por oito tipos diferentes de unidades de conservação, entre elas as
APAs e as APACs.

O Plano Diretor passou a classificar como APA a área “dotada de características


ecológicas e paisagísticas notáveis cuja utilização deve ser compatível com sua
conservação ou com a melhoria de suas condições ecológicas”, e como APAC a área

49
“que apresenta relevante interesse cultural e características paisagísticas notáveis, cuja
ocupação deve ser compatível com a valorização e proteção da sua paisagem e do seu
ambiente urbano e com a preservação de seus conjuntos urbanos”. Ou seja, a partir do
Plano Diretor, há uma divisão clara entre as concepções de preservação ecológica
(anteriormente no Decreto Municipal nº 7612 classificada como natural) e cultural,
ganhando relevância a noção de “ambiência cultural”.

Resumidamente, a lei das APACs permite que o Conselho Municipal de Proteção do


Patrimônio Cultural - CMPC aprove a preservação de áreas e bens imóveis indicados
como de relevante interesse cultural pelos estudos dos especialistas do DGPC, embora o
que seja considerado um bem de “relevante interesse cultural” varie muito de acordo
com a configuração dos especialistas de ambos os órgãos 10. Após passar pelo Conselho,
o projeto para a criação de uma nova APAC é encaminhado ao prefeito que o sanciona
em forma de decreto publicado no Diário Oficial do Município. Até o momento, a
maior parte das APACs foi criada por decreto (Anexo 1), sendo raras as áreas
regulamentadas através de lei votada pela Câmara dos Vereadores.

No que diz respeito aos encaminhamentos práticos da lei, são considerados bens
tombados pelas APACs aqueles de “excepcional valor histórico, artístico ou cultural” e
que, por isso, não podem ser demolidos nem sofrer alterações que os descaracterizem,
seja na parte externa ou interna do imóvel; já os bens preservados são aqueles
identificados como de “relevante interesse para o ambiente cultural urbano” e que não
podem ser demolidos nem sofrer alterações nas características originais de fachada,
telhado ou volumetria, sendo permitida a realização de obras de modernização no seu
interior desde que sigam as condições pré-estabelecidas pelo DGPC; e os bens tutelados
são os que integram a “ambiência do bem ou conjunto preservado” e podem ser
modificados ou demolidos, mas estão sujeitos a restrições do órgão de tutela, como
seguir as características e o gabarito dos prédios vizinhos que estejam tombados ou
preservados.

10
O CMPC, segundo a Lei Municipal nº 161 de 1980, é composto por nove membros, incluindo o seu
Presidente, um representante da Secretaria Municipal de Educação, um representante da Rio Arte e um
membro nomeado livremente pelo prefeito. O DGPC foi criado em 1986, juntamente com a Secretária
Municipal de Cultura, estando seus especialistas diretamente vinculados a esta. Para mais informações
sobre a organização administrativa dos órgãos patrimoniais cariocas, ver Carlos: 1997.

50
2.2. As atuais APACs e seus conflitos

Do surgimento do Corredor Cultural, em 1983, até ao da polêmica APAC do Leblon,


em 2001, quase vinte anos se passaram e muitas outras áreas foram criadas contando
com a participação de variados especialistas norteados também por inúmeros critérios.
No entanto será aqui estudado um período delimitado, a atual gestão do prefeito César
Maia (2001-2004). A definição desse tempo baseado no calendário político-
administrativo visa permitir uma melhor análise do grupo específico de especialistas
que colocou em movimento concepções também específicas de patrimônio e cidade,
além de viabilizar uma observação direta e participativa de como os diversos segmentos
da sociedade vivenciaram as transformações causadas por essas concepções.

Para ser possível alcançar um conjunto significativo de concepções sobre patrimônio e


cidade expressas durante a criação das APACs do Leblon, de Laranjeiras, do Jardim
Botânico, de Botafogo e de Ipanema e permitir uma comparação dialógica, reconstruí
aqui uma arena de debate a partir de depoimentos dados às reportagens jornalísticas11.
Escolhi este material de pesquisa por considerar que as instituições de comunicação são
importantes produtoras e difusoras de valores, principalmente nas grandes cidades12.
Mesmo esbarrando em limitações metodológicas como a edição realizada pelos
jornalistas nas falas dos entrevistados e também a excessiva fragmentação da
informação típica dos jornais diários, tal caminho de análise permite o delineamento das
principais questões que envolvem a preservação de moradias.

Para fins analíticos, as questões suscitadas pela criação das APACs foram classificadas
em quatro temas: representações sobre a cidade; critérios de preservação; imbricações
entre políticas públicas e patrimoniais; e políticas patrimoniais de conservação e
utilização das moradias preservadas. Para complementar a construção da arena de

11
Selecionei nos jornais O Globo e Jornal do Brasil no período de junho de 2001 a junho de 2003 cerca
de 120 matérias e artigos que tratavam diretamente das APACs. Outros jornais de grande circulação na
cidade do Rio de Janeiro, como O Dia, Extra e O Povo, não foram por mim utilizados por apresentarem
um número insignificante de reportagens sobre o tema. Como é de conhecimento público, os jornais O
Globo e Jornal do Brasil são majoritariamente consumidos por leitores das camadas altas e médias da
população, ou seja, pelas camadas mais afetadas pelas decretações das preservações na Zona Sul. Já os
demais jornais acima citados têm como público alvo camadas de menor poder aquisitivo da população,
concentrando suas reportagens em outras regiões da cidade, como Zonas Norte e Oeste, ou mesmo em
outras cidades do estado do Rio de Janeiro.
12
Sobre a importância das instituições de comunicação na configuração do espaço público das grandes
cidades, ver Arantes, 2000.

51
debate, cada um desses temas será introduzido por trechos retirados de três artigos
publicados pela prefeitura no suplemento Rio Estudos nº 24 do Diário Oficial do
Município do Rio de Janeiro em julho de 2002. Intitulado “Os fundamentos e
consequências da APAC do Leblon”, esse conjunto de artigos foi assinado por
integrantes do CMPC no auge da polêmica sobre a decretação da primeira APAC do
governo César Maia. Através dele, é possível entender quais foram as principais
concepções que nortearam os atuais especialistas da gestão municipal no
encaminhamento desse e dos demais projetos de preservação dos “ambientes culturais”.

Representações sobre a cidade

Na série de reportagens analisadas, algumas representações sobre o espaço urbano e sua


preservação foram evocados tanto para apoiar a decretação das APACs quanto para
reprová-la. Nas opiniões expressas pelos membros do CMPC no Rio Estudo nº24 são
flagradas categorias-chave que foram utilizadas pelos especialistas para tentar
convencer os moradores da cidade da importância das medidas que estavam sendo
implementadas.

É público que muitas cidades vêm sofrendo a pressão de grupos econômicos


voltados à construção imobiliária que, sob pretexto “de expansão ou de
modernização”, ignoram os valores culturais dos conjuntos arquitetônicos históricos
ou tradicionais, os destroem, acarretando perdas imensas à qualidade de vida e à
identidade das comunidades que neles residem (Nireu Oliveira Cavalcanti, arquiteto
e conselheiro do CMPC).

Apesar do que se chamou de “engessamento”, o principal objetivo da Apac Leblon é


garantir a continuidade das transformações, evitando que iniciativas meramente
especulativas venham a desfigurar o que é familiar aos cidadãos. Especialmente
considerando que o bairro é funcionalmente adequado, preserva ainda muitas de suas
tradições e, acima de tudo, mantém, pela presença de seus pequenos prédios de
apartamentos, sua beleza singela: bens preciosos de todos os cariocas, patrimônio de
todos os brasileiros (Marcello Alencar, advogado e presidente do CMPC).

Nesses dois trechos, é utilizada uma retórica calcada na idéia da perda da “identidade” e
da “memória” da cidade e de seus habitantes através da “destruição” ou “desfiguração”
dos objetos que as personificariam, no caso, imóveis e logradouros. A “modernização”

52
ou “transformação” são identificadas de forma negativa e associadas à atuação da
construção civil, se opondo discursivamente aos valores positivados “tradição” e
“familiar”. Essas noções de tradição e familiar são associadas à existência de
“comunidades” entendidas como homogêneas, harmoniosas e coesas, guardiãs de todo
um modo de vida e de uma vizinhança de “residentes”. A noção de temporalidade que
guia o empreendimento patrimonial busca assim conciliar os tempos passado e presente
da cidade, preservando seus aspectos “históricos e tradicionais” com a sua atual
ocupação por “comunidades”. Para reforçar a adequação à realidade atual da cidade e o
valor estético dos bens preservados, são evocadas as noções de “funcionalidade” e de
“qualidade de vida” e também celebrada a “beleza singular” de sua paisagem.

A mesma retórica da perda foi utilizada por moradores, especialistas e demais


representantes da prefeitura que defenderam as APACs. Em seus discursos foram
relembrados tanto “bens representativos da nossa história” que já foram demolidos,
quanto reverenciadas edificações que permaneceram na cidade garantindo a
“preservação de sua memória”. Embora a maior parte dos opositores às decretações das
APACs não tenha questionado esse recurso discurso baseado na objetificação de uma
memória e identidade, os construtores civis e alguns moradores insatisfeitos com as
limitações da lei de preservação tentaram revertê-lo argumentando ser possível que a
perda fosse positiva e gerasse melhores edificações para a cidade e seus moradores.

Tom viveu exatamente aqui, nesta casa, onde funciona há 35 anos esta escola. Eu
amo Ipanema. Cresci percorrendo o bairro todo de bicicleta ou patins. Peguei a
época do bonde e conheço muito a sua história. Inclusive damos aulas para alunos
de 3ª e 4ª séries sobre Ipanema. Eles fazem passeios, conhecem construções
antigas daqui. O Brasil precisa ter memória cultural e a preservação é fundamental
– proprietária do Colégio Sarah Dawsey (O Globo, 24/08/2001).

Se a gente fosse fazer um balanço de perdas e danos, eu diria que o Rio perdeu
muito. Imagine o que foi desmontar um morro com o do Castelo, em 1922, o berço
da cidade. Mas ainda temos imóveis bem representativos de vários períodos da nossa
história – coordenadora do Programa de Urbanismo da UFRJ (O Globo, 05/08/2001).

Quando um prédio é demolido, não necessariamente o que é construído em seu


lugar é pior. Alguns prédios antigos [do Leblon] sequer têm garagem - diretor

53
jurídico da Associação dos Dirigentes do Mercado Imobiliário (Jornal do Brasil,
25/07/2001).

As oposições “modernização” e “transformação” X “tradição” e “vizinhança” também


foram utilizadas pelos que se posicionaram contra e a favor das APACs. Nos discursos
dos defensores da preservação, a ameaça promovida pela “especulação imobiliária” e
pelo conseqüente “adensamento populacional” se concentrou principalmente na
percepção da perda de um estilo de vida e de uma relação de vizinhança identificados
como “característicos” dos bairros. Moradores antigos, representantes das associações
de bairro e da prefeitura foram os que mais se valeram desse tipo de argumento para
apoiar as medidas patrimoniais.

Os contrários às medidas de preservação utilizaram discursivamente as noções de


“modernização”, “progresso” e “desenvolvimento” para rebaterem o que consideraram
ser um “engessamento” da cidade e um “elitismo de vizinhança” que desejava evitar
novos moradores aos prestigiados bairros da Zona Sul. Os que produziram esse discurso
foram principalmente os proprietários que se sentiram prejudicados com a decretação
das APACs porque gostariam de vender ou modificar seus imóveis e os representantes
das construtoras que tiveram boa parte de seus trabalhos e lucros paralisados pela
medida de preservação.

O que está acontecendo hoje não é produto de uma ação planejada, e sim uma
reação ao clamor da população. Em fevereiro eu nem pensava em Apacs. Mas há
hoje uma pressão dos moradores; uma espécie de direito de vizinhança antecipado.
No Jardim Botânico e no Leblon, cada dia caía uma casa. Isso acelerou a cidadania
– prefeito (O Globo, 05/08/2001).

A maioria das casas vendidas no bairro está se transformando em restaurantes,


consultórios. Enfim, virando comércio, o que para nós é preocupante. Saem uma,
duas famílias e temos uma população flutuante muito maior – presidente da
Associação de Moradores e Amigos de Ipanema (O Globo, 23/08/2001).

Fomos condenados sem termos cometido crime algum e sem direito à defesa.
Talvez estejamos sendo punidos por querer ter a oportunidade de trocar um prédio
antigo por um novo, que significa modernização e progresso para a cidade –
síndico de prédio do Leblon (Jornal do Brasil, 18/08/2002).

54
Não tenho nada contra construírem um prédio na frente do meu, como aconteceu
recentemente. Acho de um elitismo facistóide este egoísmo dos moradores que
vieram viver em edifícios construídos onde antes havia casas, mas não querem
outros edifícios lhes tirando a vista. Além disso, todo mundo quer morar na Zona
Sul porque ir para a Barra, que seria o caminho natural, é inviável por falta de
infra-estrutura básica – proprietário da Demolidora Carioca (O Globo,
07/04/2002).

Os moradores, a prefeitura e os representantes das associações de bairro também


enfatizaram aspectos fisiológicos das condições de moradia, argumentando a favor da
manutenção da “qualidade de vida”, noção associada à preservação de elementos como
ventilação, iluminação e saneamento dos bairros e das edificações. Numa declaração
mais incisiva, o prefeito da cidade chegou a comparar a ameaça de adensamento
populacional dos bairros da Zona Sul ao risco de sua “favelização”, categoria
comumente utilizada pelos moradores “do asfalto” para se referirem a uma percepção
subjetiva de um estado de precariedade, feiúra e de desestruturação das relações sociais
de um lugar.

Diversas construções antigas da rua já deram lugar a espigões. O bairro não suporta
mais prédios de grande porte, pois não tem infra-estrutura de esgotos para isso –
vice-presidente da Associação de Moradores e Amigos de Botafogo (O Globo,
24/01/2002).

Isso impedirá o surgimento de um paredão de prédios de sete andares que


prejudicaria a iluminação e a ventilação do resto do bairro – presidente da
Associação de Moradores e Amigos do Jardim Botânico (O Globo, 27/12/2001).

No batalhão existe a possibilidade de se construir um hospital particular e tememos


isso. Já os terrenos dos clubes são áreas grandes e podem até dar lugar a vários
prédios. Queremos uma qualidade de vida e a prefeitura vai nos ajudar – presidente
da Associação de Moradores e Amigos do Leblon (O Globo, 09/02/2002).

Se você disser que a única condição de crescimento demográfico de bairros da Zona


Sul é a favelização ou a perda da qualidade de vida nos bairros, viva o engessamento
– prefeito (O Globo, 05/08/2001).

55
Valores estéticos também foram evocados nessa guerra pela classificação e utilização
dos espaços da cidade. Os que se identificaram com a causa preservacionista tenderam a
expressar maior sensibilidade em relação a determinados estilos de casa e, claro, a tipos
de vizinhança que consideraram característicos dos lugares onde moram. É interessante
notar como a valorização de um estilo arquitetônico ou de época foi muitas vezes
associada discursivamente a um tipo de morador que também se busca preservar. A
verticalização da cidade também foi citada por especialistas e moradores como uma das
perdas estéticas relacionadas a sua paisagem, principalmente quando observada em
pontos valorizados da Zona Sul.

Já os opositores das preservações alegaram que mesmo para a paisagem da cidade as


APACs são prejudiciais, visto que na maior parte dos casos os moradores dos imóveis
não podem arcar com o alto custo de sua conservação, deixando então suas propriedades
sem reformas e em precárias condições. Ou seja, onde os defensores das preservações
realçaram a beleza das casas antigas em contraste com os “espigões”, seus críticos
observaram o outro lado da moeda, que é o débil encaminhamento prático da medida
patrimonial na manutenção cotidiana dos imóveis.

A região, que tinha um perfil residencial, acabou se tornando um bairro de passagem,


cheio de lojas comerciais. Um símbolo de como essas mudanças prejudicaram
Botafogo é o edifício Solymar, antigo Rajah. Antes de ele ser construído, havia no
local um casarão de estilo francês – historiador e morador de Botafogo (Jornal do
Brasil, 27/07/2001).

Botafogo foi o bairro que abrigou a elite, a nobreza da cidade e do ciclo de café.
Moraram senadores, deputados e presidentes como Hermes da Fonseca e Epitácio
Pessoa – morador de Botafogo (O Globo, 07/04/2002).

Crescer, até nos bairros já saturados, sempre é possível. É só trocar os prédios de dez
andares pelos de 30. Mas é esse o modelo que a gente quer? Ainda mais numa cidade
que tem um patrimônio paisagístico lindíssimo, vamos querer esconder nossas
montanhas e ter sombras nas praias? – coordenadora do Programa de Urbanismo da
UFRJ (O Globo, 05/08/2001).

Esses prédios „apacados‟ continuam mantendo o seu valor de mercado. Antes de


serem atingidos, eles já guardavam as mesmas características, isto é, não tinham

56
garagem e nem elevadores, então já estavam avaliados anteriormente. O que pode
acontecer é que um edifício antigo e mal-conservado comprometa a beleza do bairro
e da própria cidade. A Apac condena os moradores a conviver com imóveis
abandonados – corretor de imóveis (Jornal do Brasil, 18/08/2002).

Quando os aspectos econômicos foram citados pelos entrevistados, também pôde ser
observada uma série de valores neles embutidos, além das considerações sobre o preço
dos imóveis. A prefeitura e as associações de moradores foram os principais
articuladores do argumento de que o valor do imóvel não seria diminuído com a sua
preservação e sim o poder de especulação de seu terreno. Os moradores que se
opuseram à preservação não raras vezes foram tachados de “aliados” das construtoras
ou de quererem ganhar dinheiro sem ser através do “trabalho”. Os únicos que se
pronunciaram diretamente sobre a questão da desvalorização econômica dos imóveis
foram os construtores civis. Eles defenderam a sua atuação em áreas da Zona Sul
argumentando ser um investimento que garante retorno financeiro e apontaram a
inadequação arquitetônica dos prédios antigos que foram preservados pelas APACs.

Quando o decreto foi assinado, houve quem achasse que sua casa seria
desvalorizada, mas foi justamente o contrário. Todos os imóveis, mesmo os que não
são preservados, foram bastante valorizados. Hoje, não há preço médio na Urca, tem
apartamento de dois quartos vendido por R$ 200 mil – presidente da Associação de
Moradores e Amigos da Urca (O Globo, 31/07/2001).

Vamos fazer um levantamento dos nossos imóveis. Na Gávea não cabe mais nada.
Os descontentes têm que aprender que não se ganha dinheiro com a especulação
imobiliária, e sim com o trabalho – presidente da Associação de Moradores e
Amigos da Gávea (O Globo, 26/07/2001).

Os imóveis são velhos, de arquitetura ultrapassada, sem elevador nem garagem. Só


valem pelo terreno. Tombados, valem muito menos. Os que ganham com isso são os
donos dos imóveis novos desses bairros, que ficarão valorizados. O prefeito está
perseguindo um setor que gera empregos e ajuda a movimentar a economia, que já
está em crise. O jeito vai ser investir mais na Barra da Tijuca – presidente da
imobiliária Patrimóvel (O Globo, 27/07/2001).

Critérios de preservação

57
Os critérios de preservação que foram utilizados para nortear a listagem dos bens que
deveriam compor as APACs também geraram muita polêmica, principalmente entre os
especialistas da prefeitura, os demais especialistas e os moradores que se consideraram
atingidos pela intervenção pública em seus imóveis. Nesses dois trechos do Rio Estudos
nº 24 os principais critérios de preservação da prefeitura são esclarecidos.

A definição de uma Área de Proteção do Ambiente Cultural (Apac) é motivada


pela identificação de um conjunto urbano de características notáveis
principalmente do ponto de vista afetivo, ambiental ou urbanístico, as quais devem
ser protegidas do desaparecimento. É precedida do levantamento exaustivo e da
identificação do patrimônio cultural existente. Parte-se da observação da
composição do ambiente urbano, o que inclui todos os elementos que o formam,
como escala, desenho das vias, edificações, atividades, população e,
principalmente, as relações que todos esses componentes estabelecem entre si
(Marcello Alencar, advogado e presidente do CMPC).

No caso do Leblon, apesar de existirem bens de excelente qualidade arquitetônica,


que foram listados para tombamento (inclusive o prédio da Rua Belfort Vieira, nº
6), tem-se como objeto principal de preservação um conjunto urbano uniforme que
conferiu identidade ao bairro. Assim é que as edificações de 3 ou 4 pavimentos, a
maioria em estilo art-déco e moderno, determinaram uma forma de ocupação
singular para o bairro do Leblon, cuja peculiaridade é alvo de preservação. O fato
de muitos destes imóveis representarem uma "arquitetura ultrapassada", como
classificam alguns dos opositores à preservação, contribui para conferir face
própria à área, onde mora uma população específica, que ainda conta com um
remanescente comércio de bairro, as ruas são tranqüilas e arborizadas (Cláudia
Alves de Oliveira, conselheira-procuradora do município).

Os membros do CMPC se guiaram pelo que eles denominaram de características


“afetivas, ambientais e urbanísticas”, presentes em diversos “elementos que compõem o
ambiente urbano” como “escala, desenho de vias, edificações, atividades e população”.
Ou seja, critérios bastante generalizantes que foram melhor qualificados na criação da
APAC do Leblon. Nela, os aspectos históricos e arquitetônicos dos bens foram os mais
ressaltados, como se pode notar na valorização de edificações de “estilo art-decó e
moderno” que “determinaram uma forma de ocupação singular”. Seu “conjunto urbano”
foi considerado uniforme e sua preservação capaz de conferir ao bairro uma identidade.
Combatendo as críticas de que os critérios adotados estariam preservando uma

58
“arquitetura ultrapassada”, foi utilizada a noção de “face própria da área”, ou seja, foi
argumentado que o bairro tem características urbanas e populacionais específicas que
devem ser mantidas.

Defendendo nos jornais os critérios adotados pela prefeitura apareceram


majoritariamente os membros do DGPC, do CMPC e o secretário das Culturas. Nos
mais variados estudos para a criação de APACs, a valorização dos aspectos
arquitetônicos e históricos das edificações foi reforçada. As críticas feitas aos bens
listados pelas APACs recaíram justamente sobre a não observância nas características
dos imóveis dos critérios definidos pelos especialistas da prefeitura como relevantes.
Arquitetos, historiadores e moradores insatisfeitos com a preservação questionaram a
abrangência da medida, que incluiu imóveis considerados sem notáveis valores
arquitetônicos ou históricos. As sucessivas reformas feitas nas fachadas e a má
conservação das edificações foram argumentadas para comprovar os seus valores
ordinários. E um ano e alguns meses depois da decretação da APAC do Leblon, a
prefeitura admitiu a indefinição de critérios que ainda guiavam os processos de criação
das APACs.

Esse é um exemplo do que Laranjeiras tem a preservar. Esse conjunto de casas


data do início do século passado e está muito bem listado – diretora da Divisão de
Restauração do DGPC (O Globo, 31/08/2001).

A preocupação foi preservar as características arquitetônicas, sem prejudicar o


desenvolvimento do bairro [Jardim Botânico] – secretário municipal das Culturas
(Jornal do Brasil, 27/12/2001).

Não há porque manter prédios que já estão descaracterizados por reformas, só para
se evitar a construção de espigões. Por causa da violência, instalaram-se grades em
janelas e elevaram-se muros, modificando o desenho original (...) Se eles querem
evitar que se construam apart-hotéis, ou frear a especulação imobiliária, devem
usar regras urbanísticas e não normas de preservação de patrimônio público.
Assim estamos desvalorizando os edifícios que realmente são importantes –
presidente Instituto dos Arquitetos do Brasil (Jornal do Brasil, 26/07/2001).

O nosso edifício não tem elevador, está mal conservado, enfim, não tem porque
fazer parte de uma área de preservação. (...) A nossa fachada não tem nada de
histórica, alguns apartamentos já tem até janelas de alumínio, e nem a grade que
cerca é mais a original – síndico de prédio do Leblon (Jornal do Brasil,
13/10/2001).

O Leblon é um caso a parte, que não nos serve mais como modelo. Sou crítico
com relação a esta Apac, que realmente carece de critérios específicos. Estamos
estudando mudanças, tanto que atualmente há um grupo de trabalho analisando o
que pode ser feito para melhorar as Apacs como um todo – secretário municipal
das Culturas (Jornal do Brasil, 19/11/2002).

59
Outra polêmica que cercou a definição de critérios na criação das APACs foi a
priorização da preservação de áreas da Zona Sul da cidade. Embora vários bairros
tenham solicitado o estudo de suas edificações e logradouros ao DGPC, somente os
dessa região se beneficiaram de fato com as decretações, gerando um mal-estar entre as
associações de bairro, que se sentiram discriminadas pela prefeitura. Segundo os
especialistas do patrimônio, a prioridade da Zona Sul se deveu ao assédio do mercado
imobiliário e à grande procura de seus apartamentos por moradores de outras regiões da
cidade, fator que estaria ameaçando as edificações antigas e características dos bairros.

Entre as críticas recebidas pelo favorecimento da Zona Sul na decretação das medidas
de preservação, vale destacar o caso do pedido de criação de uma APAC pelos
moradores do Morro da Mangueira. A solicitação, que foi encaminhada logo após a
decretação da APAC do Leblon e no mesmo conjunto de pedidos de outros bairros,
embora tenha sido feita por um membro do CMPC, foi a única sumariamente recusada
pelo prefeito. Ele declarou que, por estarem localizadas em uma favela, as edificações
apontadas como “importantes na história da comunidade” eram ocupações ilegais, não
podendo ser reconhecidas pelo poder municipal. Segundo o prefeito, para essas áreas o
programa mais adequado para ser implementado seria o Favela-Bairro, que promove a
urbanização e a legalização da propriedade nas favelas do Rio. Dentre as edificações
indicadas para integrarem a APAC da Mangueira, estavam as antigas moradias dos
compositores Cartola e Carlos Cachaça, além da quadra de samba da escola, o Palácio
do Samba.

A situação do Leblon era urgente. Mas já estava em nossa pauta conversar com
Grajaú, Tijuca e Vila Isabel, berço de muita história do Rio – diretor do DGPC (O
Globo, 17/08/2001).

Na Barra a construção está desacelerada. E não se pode dizer que é obstrução da


prefeitura. Nós obstruímos apenas dois ou três apart-hotéis lá. Por isso a prioridade é
a Zona Sul. É onde pode acontecer a renovação pela concentração da classe média –
prefeito (O Globo, 05/08/2001).

60
As pessoas têm preconceito em relação à Zona Norte. Temos coisas históricas,
bonitas. Vamos começar a fazer nosso levantamento – presidente da Associação de
Moradores de Rocha Miranda (O Globo, 28/07/2001).

A preservação não é só para imóveis de arquitetura histórica, mas para todos que são
importantes na história da comunidade [do Morro da Mangueira] – arquiteto membro
do CMPC (O Globo, 29/07/2001).

Imbricações das políticas urbanas e patrimoniais

Outro alvo constante das críticas dirigidas à criação das APACs foi a sobreposição de
sua regulamentação com a legislação urbanística em vigor no município. Moradores,
vereadores e construtores civis acusaram a prefeitura de estar impondo por meio de
decreto formas de utilização do solo e da propriedade privada e o limite do gabarito das
ruas. No Rio Estudos nº 24, há um trecho que trata especificamente deste assunto.

Outra imposição Constitucional é a manutenção da qualidade de vida nas cidades e


do meio ambiente sadio. De conseguinte, foi atribuída aos Municípios a
competência para dispor sobre uso e ocupação do solo, proteção ao meio ambiente
e preservação do patrimônio cultural. Mitigar o direito de propriedade, que não
pode ser mais tido como absoluto, é fundamental ao adequado desenvolvimento
urbano, sendo os limites ao exercício do direito de propriedade definidos por sua
função social, a ser estabelecida no plano diretor da cidade (art. 182, CF). (...) Vale
esclarecer, ainda, que o decreto que cria a APAC do Leblon não está mudando as
normas de uso do solo (zoneamento), gabarito ou qualquer outro parâmetro
urbanístico, o que lhe confere legalidade inatacável (Cláudia Alves de Oliveira,
conselheira-procuradora do município).

Nesse artigo, as decretações das APACs são justificadas através da citação da lei
Constitucional, que delega aos poderes do município dispor sobre o uso e ocupação do
solo, sobre a proteção do meio ambiente e sobre a preservação do patrimônio cultural.
Ela aponta ainda como função do Plano Diretor da cidade mitigar o direito de
propriedade, que deve ser definido prioritariamente por sua função social. E completa
afirmando que as APACs não estariam interferindo em nenhum parâmetro urbanístico.
Embora a defesa da legalidade das decretações tenha sido corretamente embasada, os
seus opositores argumentaram que na prática o que estava sendo proposto era bem
diverso do previsto em lei. E mesmo seus defensores admitiram estarem se utilizando de

61
uma lei patrimonial para interferirem de forma mais ágil no processo de crescimento da
cidade, já que consideram a Câmara dos Vereadores muito suscetível às pressões do
mercado imobiliário.

Em muitos casos, a medida foi tomada para preservar o bairro até que seja aprovada
uma nova legislação urbana que impeça a degradação. Depois disso, podemos até
permitir a demolição de alguns prédios – secretário municipal das Culturas (Jornal
do Brasil, 27/07/2001).

Os projetos enviados à Câmara não têm produzido bons resultados éticos. Eles dão
noticias e depois desaparecem. O decreto é mais ágil. Sugeri aos vereadores que
aproveitassem o momento para transformar a Câmara numa grande comissão
especial para debater a questão urbana – prefeito (O Globo, 05/08/2001).

Todo processo de uma mudança da legislação urbana tem uma discussão demorada
na casa se não é interessante à construção civil – vereador da Comissão de Assuntos
Urbanos (Jornal do Brasil, 27/07/2001).

Vários aspectos legais da decretação das APACs foram questionadas por diversos
segmentos sociais. Os vereadores criticaram a não aprovação das áreas pela Câmara e
também acusaram a prefeitura de, com a medida, estarem acelerando as demolições nos
bairros, já que muitos imóveis foram vendidos às pressas para as construtoras toda vez
que um novo estudo de criação de uma APAC pelo DGPC foi noticiado nos jornais. Já
os especialistas não vinculados aos quadros da prefeitura chamaram a atenção para a má
utilização das leis patrimoniais, que poderiam banalizar as preservações consideradas
balizadas por rígidos critérios históricos e arquitetônicos e também prejudicar a relação
cotidiano dos moradores com as suas moradias.

Quando a Apac é anunciada, as construtoras aceleram as demolições. Precisamos de


uma legislação que proteja toda a cidade e não apenas alguns bairros. Não se faz
política urbanística com decretos – vereador (Jornal do Brasil, 25/03/2002).

Estão usando um instrumento de preservação histórica para fazer legislação


urbanística (...) Das duas uma: ou vão ter que abrir brechas na resolução, o que é
ruim para o caso de resolução histórica; ou os moradores do Leblon vão ter que
consultar o patrimônio cada vez que forem trocar uma esquadria – presidente
Institutos dos Arquitetos do Brasil (Jornal do Brasil, 25/07/2001).

62
Muitos moradores também se opuseram à utilização do decreto para a mitigação do
direito de propriedade e consideraram equivocado o uso de um instrumento patrimonial
para controle urbanístico. No caso mais polêmico, da criação da APAC do Leblon, foi
inclusive fundada pelos moradores do bairro a Associação de Proprietário de Pequenos
Prédios – APPP com o intuito de questionar na Justiça a inclusão de seus imóveis na
área de preservação.

Não quero, de jeito nenhum, que derrubem o meu prédio para fazer espigões. Mas o
que deve ser feito não é simplesmente tombá-lo, e sim criar leis e regras para novas
construções – síndico de prédio no Leblon (Jornal do Brasil, 13/10/2001).

Todos queremos a preservação. Mas não é em cima do direito dos outros que isso vai
acontecer. Vou apoiar qualquer movimento que questione o decreto na Justiça –
morador do Leblon (O Globo, 28/07/2001).

Uma medida dessa ordem não poderia ter sido criada por decreto. O prefeito não
pode legislar dessa forma em questões que envolvem direito de propriedade. Já
estamos devidamente informados e munidos de instrumentos que comprovam essa
alegação – fundador da Associação de Proprietários de Pequenos Prédios (Jornal do
Brasil, 18/08/2002).

Engrossando a lista dos queixosos, os construtores civis acusaram a prefeitura de estar


inviabilizando por decreto projetos de empreendimentos imobiliários que já haviam sido
aprovados pela gestão anterior e estavam sendo encaminhados. Também apontaram
como prejudicial à atuação do setor as variações de gabaritos de uma mesma rua, que a
partir das APACs tiveram os gabaritos diminuídos na parte ocupada por imóveis
tutelados, enquanto nos demais imóveis o gabarito permanecia o indicado pelo Plano de
Estruturação Urbanística. Moradores e construtores civis se mostraram indignados com
a forma como foram conduzidas as criações das APACs, sem que houvesse uma
discussão prévia com nenhum desses segmentos que foram os principais atingidos pelas
decretações.

Os projetos (de novos empreendimentos) têm que ser válidos porque foram
protocolados na legislação anterior. Eles não podem ser alterados. Tem que valer a
legislação passada, senão ficamos reféns das mudanças na legislação. Já imaginou

63
alguém que comprou um terreno para fazer um prédio de dez andares que vai virar
cinco? – presidente da Associação de Dirigentes do Mercado Imobiliário (O Globo,
28/03/2002).

A redução de gabarito não é para uma rua toda, e sim para os imóveis tutelados. Ou
seja, a Rua Dona Mariana, que tinha gabarito de até 11 andares, agora caiu para três
nos imóveis tutelados. Uma duplicidade que não é boa para o mercado – vice-
presidente da Associação de Dirigentes do Mercado Imobiliário (O Globo,
12/02/2003).

O processo já começou errado, já que ficamos sabendo que o prédio estava


preservado através da relação publicada nos jornais. Não recebemos qualquer
notificação oficial, portanto não participamos das discussões. Por outro lado, também
estávamos em entendimento com uma construtora para vendermos esse edifício, que
é muito antigo e não atende às necessidades dos moradores, na maioria idosos –
síndico de prédio no Leblon (Jornal do Brasil, 18/08/2002).

Essa atitude não é uma forma democrática. Toda a sociedade deveria se pronunciar.
Não acredito que o prefeito baixe um decreto desses (...) eu queria um apartamento
melhor, com vaga de garagem. Confesso que estou atônito – morador e participante
da Associação dos Proprietários de Pequenos Prédios do Leblon (Jornal do Brasil,
26/07/2001).

Conservação e uso da moradia

O último item que foi discutido através das matérias jornalísticas foi o referente às leis
de incentivo fiscal, que auxiliariam os proprietários dos imóveis preservados na
manutenção das características arquitetônicas de suas fachadas, exigência prevista na lei
das APACs e fiscalizada pelo DGPC.

O Conselho de Patrimônio está sempre atento à realidade, o que o faz adotar uma
linha de entendimento de que não basta editar o ato de preservação, mas é
necessário criar mecanismos que possibilitem o uso do bem de forma a
proporcionar o exercício de atividade econômica ou o uso residencial adequado às
necessidades modernas, sem prejudicar o patrimônio preservado (Cláudia Alves de
Oliveira, conselheira-procuradora do município).

64
Nesse trecho do artigo publicado no Rio Estudos nº 24, as preocupações em torno da
“realidade” enunciadas pela especialista da prefeitura, ou seja, em torno da manutenção
cotidiana dos imóveis, apontam para uma série de desdobramentos práticos que uma lei
patrimonial precisa dar conta para que seja de fato cumprida e não prejudique os
moradores das edificações preservadas. Mas, no caso das decretações das APACs, a
falta de uma política clara de apoio à conservação e à utilização dos imóveis causou
muitas insatisfações. Embora a prefeitura tenha previsto uma redução do Imposto
Predial de Território Urbano para todos os tombados por uma APAC, esse benefício na
maior parte dos casos não foi concedido aos proprietários, por não terem sido definidas
pela prefeitura que características exatamente deveriam ser preservadas ou mesmo
recuperadas em cada uma das fachadas que compõem o “ambiente cultural”. Outro
problema encontrado para a conservação dos imóveis foi a necessidade do desconto
fiscal ser aprovado pela Câmara dos Vereadores que, como foi demonstrado
anteriormente, pouco participou do processo de criação das APACs.

Não quero assustar as pessoas, mas também não quero que elas fiquem muito
alegres. Em tese, sempre há benefício fiscal para qualquer restrição ao uso de
propriedade. Mas o projeto de lei ainda tem que ser enviado à Câmara. E cada caso é
um caso – secretário municipal de Fazenda (Jornal do Brasil, 30/07/2001).

Haverá a necessidade especificar e detalhar o que se quer preservar da fachada para


que venha a contrapartida [redução do IPTU] – prefeito (O Globo, 28/07/2001).

A falta de uma medida clara de conservação dos imóveis foi criticada por vereadores e
principalmente pelos moradores que, além de não poderem mais demolir suas
propriedades, estão impedidos de fazer reformas ou modificações nos imóveis sem que
essas sejam avaliadas e aprovadas pelo DGPC. Assim, sem a concessão do benefício
fiscal, muitos prédios e casas poderão ter sua conservação prejudicada pelas próprias
limitações da lei.

Os casarões da Joaquim Murtinho são tombados, mas muitos estão caindo aos
pedaços porque seus moradores não têm condições de mantê-los – presidente
Institutos dos Arquitetos do Brasil (O Globo, 28/07/2001).

65
Se o imóvel mereceu ser tombado ou preservado, por que os critérios para concessão
da isenção ou do desconto seriam diferentes? O desconto acaba ficando
condicionado a um subjetivismo que, na prática, torna sem efeito o instrumento de
conservação que é a Apac. (...) Com a decretação da preservação ou do tombamento,
a propriedade do imóvel é relativizada. Se o bem tem importância para toda a cidade,
então a cidade deve contribuir para sua preservação – vereador (O Globo,
20/12/2001).

O prédio foi tombado pelo estado em 1998 e, por isso, não poderia ser demolido.
Depois, com a criação da Apac, tornou-se tutelado pela prefeitura. Apesar disso,
ainda não recebemos nenhum incentivo. Pago um IPTU altíssimo, de R$ 1.100 por
mês, e ainda gasto com a conservação das instalações – diretor do Colégio
Wakigawa. (O Globo, 24/01/2001).

Embora os moradores considerem a isenção do IPTU a melhor medida para a


preservação dos imóveis, a prefeitura devolveu para seus proprietários a capacidade de
se “auto-sustentar”, sugerindo que o bem passasse a ser utilizado comercialmente, em
vez de ser somente moradia. Em áreas residenciais de baixa renda, como no caso do
Centro da cidade, uma das sugestões de preservação é a venda dos imóveis para outros
proprietários que possam arcar com as despesas da conservação, ou seja, sugere-se a
troca da vizinhança. Outro tipo de sugestão muito comum nesses processos de
preservação é a transformação das habitações em “centros culturais”, numa
transformação da área residencial em área cultural e de apelo turístico.

Apenas isenção de IPTU não basta mais. Vamos estudar mecanismos, como, por
exemplo, incentivar o proprietário a tornar o imóvel auto-sustentável, em vez de
deixá-lo abandonado. No caso de um sobrado, ele poderia morar em cima e manter
algum tipo de comércio embaixo – secretário municipal das Culturas (O Globo,
06/11/2001).

Já os imóveis históricos têm que ser preservados por tombamento e revitalização.


Precisam ter atividade, como transformá-los em residência. A solução é dar vida a
esses imóveis. A Marinha vai trazer seus cabos, marinheiros e fuzileiros para viver
no Centro. Os nossos programas habitacionais também estão voltados para isso. Na
Zona Portuária, trataremos das condições de vida e da criação de corredores
artísticos – prefeito (O Globo, 05/08/2001).

66
CAPÍTULO 3
OS MORADORES: SOLICITANTES E ATINGIDOS

Casa solicitada para tombamento na Vila Imperial, em Botafogo


Foto de minha autoria / 2003

Faixas de moradores atingidos pela APAC do Leblon


Foto de Fabiene Gama / 2003

As divergências em torno da construção física e simbólica das paisagens urbanas13


levantam hoje questões sobre quem e como deve gerenciar o espaço. Diversos são os
interesses e as representações dos que participam do debate, que cada vez mais
incorpora novos setores da sociedade para além dos especialistas e administradores
públicos. Sendo uma questão que afeta a todos que desenvolvem uma determinada
13
Para Françoise Dubost (1991), a polissemia do termo paisagem – território, meio-ambiente, natureza,
espaço, campo, sítio... - indica que ele pode ter conteúdos diversos que variam de acordo com a época. No
entanto, atualmente há um certo consenso na definição de paisagem como algo que inclui tanto a
configuração física de um local quanto sua percepção afetiva e estética.

67
atividade em um dado território, representantes do mercado e moradores das localidades
também se apresentam como forças atuantes na configuração e re-configuração do
espaço, embora de maneiras e com poderes distintos.

Especificamente no caso dos processos de preservação patrimonial e suas intervenções


na paisagem urbana, o que se observa comumente é que a não participação de qualquer
um desses setores aumenta o conflito e a fragmentação social das grandes cidades, nem
sempre produzindo o sentimento de pertença a uma coletividade ou “comunidade”,
objetivo constantemente enunciado pelos ideólogos do patrimônio.

Dentre esses setores que se apropriam discursivamente do espaço urbano, vem


ganhando importância política desde a década de 1970, quando os movimentos
“ecológicos” e “de bairros” passaram a atuar nas grandes cidades, os que “moldam” as
paisagens cotidianamente: seus “antigos e tradicionais” moradores e freqüentadores.
Nos discursos dos atores envolvidos no debate das recentes APACs, nota-se que uma
das principais ênfases dos defensores dos processos de preservação das edificações e
logradouros da cidade do Rio de Janeiro recai sobre a necessidade da preservação de um
“modo de vida” característico dos bairros e de sua “vizinhança”.

A percepção desse recurso discursivo suscita duas questões acerca dos mecanismos
sociais de sua construção entre os moradores de tais localidades urbanas: O que faz com
que alguns moradores se percebam tão semelhantes a seus vizinhos a ponto de acharem
seu estilo de vida “ameaçado” pelo crescimento da cidade e pela chegada uma de nova
vizinhança? Quais percepções de moradia e vizinhança fazem com que outros
moradores queiram alterar, vender ou demolir suas casas?

3.1. Os solicitantes: uma APAC para um bairro ameaçado

O caso de criação da APAC de Botafogo, penúltima a ser decretada na gestão de César


Maia, se destaca entre as demais por ter contado com a ativa participação de sua
associação de moradores e amigos durante o seu processo de criação. Embora nem
todos os proprietários da região tenham ficado satisfeitos com a inclusão de seus
imóveis na lista de bens tombados e preservados pela prefeitura, o fato da solicitação ter
sido encaminhada pela associação e estar em estudo há mais de dez anos fez com que

68
ela se destacasse pela maior incidência de moradores que solicitaram junto ao DGPC
que suas moradias se tornassem patrimônio da cidade.

De acordo com a presidente da Associação de Moradores e Amigos de Botafogo -


AMAB, Regina Chiaradia14, o processo de criação da APAC de Botafogo foi demorado
porque houve “pressão das construtoras e falta de vontade política do executivo” tanto
durante o primeiro mandato de César Maia na prefeitura do Rio de Janeiro (de janeiro
de 1993 a dezembro de 1996) quanto no mandato de Luiz Paulo Conde (de janeiro de
1997 a dezembro de 2000). Na opinião de Chiaradia, o que mudou a relação de César
Maia com a questão das APACs foi o voto preservacionista que o elegeu em 2000.
Tendo sido ou não essa a motivação do atual prefeito, logo nos primeiros meses de
posse já pipocavam nos jornais O Globo e Jornal do Brasil notícias sobre as possíveis
áreas a serem preservadas.

Em julho de 2001, três dias após a APAC do Leblon ser criada, a primeira da gestão, o
DGPC divulgava através dos jornais que a APAC de Botafogo estava pronta para ser
decretada (O Globo, 02/08/2001). No entanto, uma série de críticas surgidas após a
criação da APAC do Leblon15 fez com que o DGPC recuasse da proposta e
encaminhasse um novo estudo para redefinir os critérios que guiariam a partir de então
os pedidos de preservação e tombamento (Jornal do Brasil, 11/08/2001).

Desse momento de avaliação dos especialistas do DGPC até a decretação da APAC de


Botafogo, um ano e quatro meses se passaram. Muitos debates apareceram em outras
áreas da cidade e vários estudos para a criação de novas APACs foram realizados,
inclusive os referentes às APACs de Laranjeiras e do Jardim Botânico, ambas
decretadas ainda em 2001. A proposta de criação da APAC de Botafogo só começou a

14
Entrevista concedida a mim em fevereiro de 2003.
15
Na APAC do Leblon, além da desaprovação de alguns especialistas, um grupo de moradores
descontentes com a inclusão de seus imóveis em área preservada criou a Associação dos Proprietários de
Prédios Pequenos - APPP, que na sua fundação já contava com 60 filiados dispostos a recorrer à Justiça
contra a decretação da APAC (O Globo, 31/07/2001). Outro acontecimento que desgastou o processo de
criação das APACs e a imagem do DGPC foi a inclusão de um edifício com menos de um ano de
existência na lista dos bens preservados (Jornal do Brasil, 11/08/2001). Segundo o diretor do
Departamento, Cláudio Murilo, o que ocorreu foi apenas um erro de digitação, mas moradores
informaram à imprensa que há dois anos atrás uma casa foi demolida no mesmo local. Os dois episódios
fizeram com que o DGPC decidisse aprovar uma nova APAC somente depois de analisar os pedidos das
associações de moradores.

69
se definir mais claramente em julho de 2002, quando o DGPC concluiu seu projeto de
preservação para a área e o apresentou aos moradores do bairro (O Globo, 08/07/2002).

A APAC de Botafogo foi finalmente decretada no dia 05 de novembro de 2002, tendo


53 edificações e 6 bens de “interesse cultural e paisagístico” tombados e 591 edificações
preservadas. O bairro foi dividido em 12 sub-áreas de preservação, onde todos os
imóveis ali situados foram automaticamente considerados bens tutelados. A divisão do
bairro em sub-áreas foi justificada pela prefeitura por ser Botafogo “fragmentado em
seu conjunto, oferecendo, no entanto, trechos com características homogêneas que
podem ainda representar uma identidade cultural”16.

No processo de discussão da criação da APAC de Botafogo, uma representante dos


moradores e um especialista não vinculado à prefeitura tiveram especial destaque nos
jornais: a presidente da AMAB, a socióloga Regina Chiaradia, e o presidente do
Sindicato dos Guias Turísticos do Rio de Janeiro, o historiador de arte Milton
Teixeira17, também morador de Botafogo. Ambos foram procurados por mim com o
intuito de desvendar quais concepções sobre patrimônio eles, notórios narradores da
vida do bairro, estavam articulando. Como as reportagens sobre as APACs já
indicavam, as principais questões levantadas em seus discursos sobre a preservação dos
imóveis e dos logradouros se referiram a uma percepção de perda de identidade
histórica, cultural e social do bairro e da cidade; à degradação da qualidade de vida de
seus moradores em função do adensamento populacional; aos critérios que deveriam ser
utilizados na escolha dos símbolos de identidade do bairro e aos limites da intervenção
pública nos direitos privados.

Botafogo tem uma história que remonta Brasil Reino. Enquanto Botafogo já
possuía um acervo arquitetônico notável, Catete era uma piada e Flamengo sequer
existia. Botafogo já era um bairro antiqüíssimo antes de Copacabana, Ipanema e
Leblon existirem. E Botafogo foi um dos bairros que mais sofreu com a
especulação imobiliária nos últimos 30 anos. Você ainda tinha ruas de vilas aqui
dentro do bairro com poste de iluminação a gás. Isso eu peguei. Eu tenho 44 anos,
até 1980 eu peguei. Em 1980 ainda tinha poste com iluminação a gás. Pra você ver
como se manteve uma estrutura antiga. Havia toda uma estrutura de vivência de

16
Trecho do encarte da prefeitura sobre a criação da APAC de Botafogo produzido para ser distribuído
entre os moradores do bairro.
17
Entrevista concedida a mim em fevereiro de 2003.

70
bairro, todo um comércio de bairro. Aí aconteceu a grande tragédia chamada
fusão. E foi feito o projeto de um plano urbanístico básico para a cidade em 1977 e
o Marcos Tamoio decidiu que Botafogo seria o novo centro da cidade. E dava o
próprio exemplo instalando a prefeitura aqui. E a determinação do PUB Rio de 77
era de você gelar o sangue. Desestimular o comércio horizontal, estimular o
comércio vertical, subir shoppings centers e, como se fosse pouco, para reforçar
ainda mais a posição de segundo centro da cidade, o metrô terminava em
Botafogo. Por isso o Rio Sul, o Off-Price e tudo mais. Então a partir de 1977
começam a destruir tudo aqui. (Milton Teixeira)

Eu acho que você tem que ter amor às suas raízes, porque senão no final você vai
contar a história desse país como? “Olha, aqui foi isso, aqui foi aquilo...”. Você
não vai ter uma pedra que conte. Você conta a história de um país com dados
históricos passados através de livros, de fotografias e da arquitetura. Quer dizer, a
arquitetura conta a história da evolução de um país. No final você não vai ter mais
nada. Só vai ter blindex? Será que é isso que a gente quer? (Regina Chiaradia)

Na opinião de Teixeira, o que faz com que Botafogo seja um bairro relevante
culturalmente e merecedor de uma medida de preservação são as características
históricas e arquitetônicas que remeteriam os seus moradores e observadores a um
tempo passado entendido como social e esteticamente belo e harmonioso. Esse passado
é relatado pelo historiador em contraposição discursiva ao processo de “destruição” do
bairro pela especulação imobiliária e pela má administração pública. Segundo ele,
Botafogo começou a “sofrer” a descaracterização de seus antigos e valorizados traços
sócio-culturais quando houve a desestruturação de sua “vivência de bairro”, esta
identificada com a existência de vilas, do pequeno comércio e de um mobiliário urbano
antigo. Como exemplos do fim da vida de bairro harmônica, Teixeira cita a aparição de
costumeiros símbolos de progresso da década de 1970: metrô e shoppings centers.

A mesma retórica da perda guia o discurso da presidente da AMAB, que também


compreende a manutenção dos aspectos físicos do bairro como a permanência de suas
“raízes”, de sua identidade. Ela enfatiza o que considera ter poder de mediação entre os
moradores do bairro e o seu passado: a arquitetura antiga do bairro, em oposição ao
“blindex”, denominação pejorativa dos grandes prédios comerciais com janelas
espelhadas, recurso arquitetônico bastante utilizado nas construções cunhadas pelo
senso comum como “modernas” e realizadas em larga escala na cidade a partir da

71
década de 1970, dentro do processo de “especulação imobiliária” assinalado por
Teixeira.

A gente não tinha noção, nas associações, de como as pessoas estavam iradas com
a questão da qualidade de vida, da preservação da história, da preservação dos
prédios. A gente percebeu isso quando: „Ah vão construir apart-hotel, um montão
de paliteiro, um montão de Rajah por aí‟. As pessoas estavam indignadas. Aí a
gente começou a ver que as pessoas estavam discutindo: „Puxa eu moro aqui há 30
anos, isso modificou. Quando eu vim pra cá a gente sentava na porta, a gente podia
andar com tranqüilidade‟. As pessoas estavam todas muito chateadas porque elas
percebiam nitidamente que tinham tido restrições seriíssimas na sua qualidade de
vida. Elas viviam numa cidade que não era mais aquela: „A calçada não cabe todo
mundo, é um engarrafamento desgraçado, uma poluição sonora do cão‟. (Regina
Chiaradia)

E ele [prefeito Luis Paulo Conde] autorizando a fazer tudo quanto era apart-hotel
em Botafogo. Isso motivou uma reação violenta, se disse que o bairro ia virar um
bairro de pardieiros, o nível de vida ia cair, as vias urbanas de Botafogo não tem
condição de absorver um tráfego maior. Já é um caos, a própria mídia gozando de
Botafogo. O [ator] Miguel Falabella fez uma peça no teatro que ridicularizava o
bairro de Botafogo. O bairro de Botafogo foi moradia da rainha Carlota Joaquina,
hoje é ridicularizado. Que „Botafogo não é bairro, Botafogo é passagem‟. (Milton
Teixeira)

Associado ao sentimento de perda dos símbolos do passado e da identidade, Chiaradia e


Teixeira também apontam aspectos de “qualidade” ou “nível” de vida do bairro que
estariam em extinção. A partir desses dois trechos das entrevistas se identificam as
questões que, segundo os dois narradores, são percebidas como relevantes numa “vida
de bairro”. Primeiro, são apontadas as questões relacionadas aos aspectos fisiológicos
do bairro: limitação da circulação espacial por causa da ameaça da violência;
adensamento populacional e diminuição da iluminação e da ventilação das ruas; tráfego
intenso de veículos, produzindo estresse na população e aumento da poluição do ar e
sonora. Todos esses “males” são entendidos como causados pela “modernização” das
construções, ou seja, por seu processo de verticalização, e pelo incremento dos meios de
transporte e das vias de acesso ao bairro.

72
Em seguida, são citadas as mudanças de vizinhança e de estilo de vida do bairro.
Chiaradia vê na verticalização do bairro, com o apart-hotel sendo o símbolo atual desse
processo de urbanização, a ameaça de tudo se transformar em “Rajah”. O Rajah é um
prédio localizado na Praia de Botafogo que ficou famoso na cidade por ser o palco de
inúmeras ocorrências policiais ligadas à prostituição e ao tráfico de drogas, mas também
tendo em seu currículo alguns casos de homicídio. Edifício de pequenos apartamentos
conjugados e com muitos andares, o Rajah é uma opção para a classe média baixa que
deseja morar na Zona Sul. Seus moradores são constantemente estigmatizados pelos
outros do bairro, sendo comum, quando interpelado por alguém sobre seu local de
moradia, responderem que moram na Praia de Botafogo, omitindo o nome do prédio.
Quando a presidente da AMAB se sente ameaçada pela construção de novos Rajahs,
não se trata, portanto, apenas da repulsa a um modelo arquitetônico que se assemelha a
um “paliteiro”, mas a um tipo de morador que é considerado violento e de práticas
sociais repreensíveis, um tipo de morador que “restringe” sua “qualidade de vida” e
denigre a reputação do bairro.

É essa preocupação com a reputação do bairro que também aparece na fala de Teixeira
quando ele comenta quais foram os moradores ilustres de Botafogo em contraste com os
atuais habitantes dos “pardieiros” (ou seja, de prédios como o Rajah). Ele lamenta a
perda de uma vizinhança nobre que no passado caracterizava o bairro e lhe conferia um
elevado status social. “Pardieiros” e “Brasil Reino” aparecem como uma oposição
discursiva que reafirma a necessidade de medidas de preservação de seus prédios e
logradouros “históricos”. A preocupação com o status do bairro é exposta por Teixeira
no momento em que ele se indigna com a “ridicularização” com que a “mídia” vem
tratando Botafogo.

A expressão “Botafogo não é bairro, Botafogo é passagem” condensa assim toda a


insatisfação com a imagem que vem sendo associada ao bairro e também a seus
moradores, que clamam pelo conhecimento e reconhecimento público de suas
características peculiares, de seus valores culturais, históricos e sociais, enfim, de sua
“identidade”. Mas embora esses dois importantes narradores do bairro percebam de
forma semelhante o processo de “destruição” da história e da vida social do bairro,
quando se trata de definir que critérios devem guiar os processos de preservação das
casas e logradouros, como deve ser representado o bairro e que tipo de objetos devem

73
ser valorizados, eles se posicionam de forma discordante, refletindo o quanto as
concepções sobre patrimônio cultural podem ser variáveis.

Tem prédios em Botafogo que, sinceramente, sou formado em arquitetura, sou


professor de história da arte, e tem prédios aqui que não têm absolutamente valor
nenhum e o pessoal estava se batendo pra tombar: „Ah, vamos tombar, vamos
preservar‟. E que não tem valor nenhum. Não adianta dizer que daqui a 100 anos
vai ter. Um prédio que já foi todo adulterado, já acrescentaram mais 2, 3 andares,
já mexeram aqui, já mexeram ali. Não tem mais valor nenhum. Também não vou
lutar pra preservar aquilo. (Milton Teixeira)

Por exemplo, o Manequinho, é um bem cultural. Ele foi criado como símbolo do
bairro, ficou na Praia de Botafogo a vida inteira e agora está lá no Clube do
Botafogo. É uma estátua que homenageia a fundação do bairro. É um bem cultural.
Como outros. O Mourisco foi jogado no chão, acabou. Mas o espelho d‟água da
Enseada foi tombado para que ela não fosse mais descaracterizada. Por exemplo,
lá em Vila Isabel se tombou uma calçada onde o Noel Rosa gostava de passear. É
um bem cultural. A preservação se dá em várias vias: cultural, histórica,
arquitetônica, paisagística. Uma árvore... A figueira da Rua Faro, que ficou
famosa. Uma associação toda de moradores foi formada por causa da campanha
para se salvar uma figueira. (Regina Chiaradia)

A partir dessas duas declarações, fica claro que as concepções de patrimônio ainda se
encontram em disputa até mesmo entre os agentes do bairro que se mobilizam em torno
da preservação de seus imóveis e logradouros. As concepções de patrimônio do
historiador Teixeira são guiadas por uma visão monumentalista de cultura e cidade. Ele
valoriza principalmente as edificações e logradouros que participaram da história oficial
do bairro, ou seja, daquela contada pelos livros escolares e representada pelos casarões
da nobreza e da elite republicana. Teixeira também considera relevante nesses imóveis o
fato de eles terem sido construídos de acordo com os estilos arquitetônicos canonizados
pela academia de belas-artes, sendo para ele um importante critério de preservação os
seus atuais estados de conservação, ou seja, a manutenção de sua “autenticidade”, de
suas características formais originais. Sua visão, portanto, é norteada mais por valores
“históricos e artísticos” do patrimônio do que por valores “culturais”; mais direcionada
para o tempo passado do que para o presente.

74
Já a socióloga Chiaradia se aproxima mais de uma concepção patrimonial guiada pelos
valores culturais e afetivos que podem ser representados pelos bens tombados e pela sua
importância no cotidiano dos moradores. E em relação ao direito de propriedade e à
intervenção da prefeitura em bens privados, Chiaradia faz coro com os demais
representantes das associações de bairro da cidade e considera que um “patrimônio
histórico” pertence à coletividade, devendo seu morador mantê-lo bem conservado e
inalterado em suas características formais.

É uma questão de você entender que o bem quando tem valor histórico perpassa o
privado, ele passa a ser um bem comum a todos nós. Não que você impeça a pessoa
de vender a casa. Mas, por exemplo, se você tem uma casa que é um patrimônio
histórico você vai se conscientizar que é melhor vendê-la já que você quer jogar ela
no chão. Aquele bem passa a ser um bem sentimental daquela cidade inteira. Todo
mundo tem afeição àquilo ali. Aí quer falar: „Pô, mas é meu, eu quero jogar no
chão‟. Não pode. Simplesmente não pode em lugar nenhum do mundo. (Regina
Chiaradia)

Na opinião da presidente da AMAB, o proprietário deve vender o imóvel caso não tenha
condições ou não queira conservá-lo. Chiaradia não prioriza em seu discurso sobre o
direito de propriedade as questões financeiras e cotidianas que costumam estar em jogo
nas preservações, como a inviabilização da demolição para a construção de prédios com
muitos andares, que revertem para seus proprietários um grande lucro, e a
impossibilidade de se fazer reformas de “modernização”, como a suspensão de muros, a
troca de janelas ou a construção de uma garagem. Ela também faz referência às
experiências de outros países que tem seus patrimônios preservados, numa tentativa
discursiva de naturalizar a questão da preservação das “identidades culturais”.

3.2. Os atingidos: “Diga não às APACs imorais e tardias!”

Se os moradores “solicitantes” não se sentiram plenamente satisfeitos com a medida de


preservação dos seus imóveis e os desdobramentos práticos de conservação propostos
pela prefeitura, muito mais descontentes ficaram os proprietários dos imóveis que foram
“atingidos” pela inclusão de seus bens no decreto-lei das APACs. Durante o ano de
2003, qualquer um que andasse pelas ruas dos bairros do Leblon e de Ipanema não teria

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dificuldades em avistar algumas das muitas faixas que se espalharam nas fachadas dos
edifícios pedindo a “revisão da APAC” e protestando contra a “ditadura da prefeitura”.
Muito presentes na arena de debates reconstruída pela mídia impressa, os atingidos
surgiram como voz política e pública já na decretação da APAC do Leblon, quando
fundaram a Associação de Proprietários de Prédios Pequenos – APPP, e foram
aumentando quantitativamente e ganhando notoriedade à medida que novas áreas de
preservação foram sendo criadas pela cidade.

Em 2003, um grupo de atingidos divulgou, através de um panfleto distribuído pelas


ruas da Zona Sul, suas reivindicações e opiniões sobre o processo das APACs.
Assinaram esse manifesto a APPP, o Fórum de Revitalização da Zona Sul, a
Associação de Moradores e Amigos de Ipanema – AMAI e a Associação da Terceira
Idade e Todas as Idades - ATTI. O título do panfleto destacava a principal linha de
argumentação do discurso dos atingidos: NA “APAC” OU FORA DELA você e o seu
patrimônio já estão prejudicados.

O panfleto chama a atenção da população da cidade, especificamente a que habita a


Zona Sul, de que as decretações das Áreas de Ambiente Cultural desvalorizam não
apenas o “patrimônio” de quem teve seu imóvel atingido pela decretação, como
também o “patrimônio” de todos os outros moradores que moram em regiões com
APACs. Após o título do panfleto, segue um pequeno texto e cinco tópicos que
comentam a criação das APACs. Através deles, é flagrado o conjunto de concepções
sobre patrimônio que guiou esse grupo de atingidos.

A PREFEITURA, beneficiando a especulação imobiliária, tem interferido no


mercado da construção civil, em prejuízo da população, de forma
INCONSTITUCIONAL, ILEGAL e DITATORIALMENTE, através de
“DECRETOS-LEIS”, quando deveria seguir o caminho de PROJETOS DE LEI,
passando pela Câmara dos Vereadores, por Audiências Públicas e ouvindo a todos
nós, os diretamente atingidos. A PREFEITURA vem utilizando os seguintes meios
para isso:

Essa introdução aos tópicos do panfleto cita os principais agentes que são identificados
pelos atingidos como os que prejudicam a população: a “prefeitura” e a “construção
civil”, que estariam agindo conjuntamente para favorecer a “especulação imobiliária”.

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Os atingidos também criticam a falta de diálogo e a não conformação de um espaço
público polifônico para a discussão da criação das APACs. A decretação das APACs é
acusada de “inconstitucional, ilegal e ditatorial” por as áreas de preservação não terem
sido aprovadas através de um projeto de lei votado pela Câmara dos Vereadores e por
não terem sido convocadas Audiências Públicas para ouvir os moradores da cidade.
Após essa introdução, os atingidos denunciam os “meios” que a prefeitura utilizou para
“beneficiar” a especulação imobiliária.

1) PRATICA TERRORISMO, conivente com a especulação imobiliária,


antecipando “NOTÍCIAS” de seus covardes “decretos-leis” com enorme campanha
na mídia. Leva o medo aos proprietários de casas e prédios pequenos, que
aterrorizados vendem às pressas seus imóveis por qualquer preço, desencadeando a
maior onda de demolições já vista na Zona Sul, logicamente licenciadas às carreiras
pela prefeitura, antes do congelamento imposto pelas APACs (Áreas de Proteção do
Ambiente Cultural). Isso tudo beneficia a quem?

Os atingidos identificam a “mídia” como um terceiro grupo que estaria agindo


conjuntamente com a prefeitura e o mercado imobiliário para incentivar a especulação
imobiliária. A prefeitura é assim acusada de “praticar terrorismo”, provocando “medo”
nos proprietários de casas e prédios pequenos, que para não terem seus patrimônios
“congelados” estariam vendendo-os a baixo custo. Os termos “medo” e “terrorismo”
são utilizados pelos atingidos para reforçar a idéia de que o processo de implementação
das medidas de preservação não foi democrático, foi “ditatorial”. O termo
“congelamento” também é usado em contraposição ao termo “preservação”, utilizado
correntemente nos materiais de divulgação da prefeitura e pelos moradores que se
identificam como o movimento preservacionista para se referir à atuação das APACs.

2) CONGELA nos bairro de Ipanema e Leblon o licenciamento de demolições de


prédios pequenos e antigos sem nenhum valor cultural. Após isso, passa a negar o
que antes generosamente permitiu aos especuladores. Dessa forma, castra o direito
dos proprietários de dispor de seus bens ou de se ter a qualidade de vida que se
queira. Castigando o bairro com falta de serviços e manutenção, e aqueles que se
recusam a vender seu imóvel a qualquer preço, entra na estagnação econômica.

Novamente o panfleto dos atingidos utiliza o verbo “congelar” para se referir ao que
seus opositores chamam de “preservar”. Também aparece rapidamente mencionada

77
uma crítica ao critério de preservação de bens “sem nenhum valor cultural”. Os
atingidos se referem então à “castração” do direto de propriedade e utilizam o termo
“qualidade de vida” enfatizando aspectos diferentes dos que são normalmente
conclamados pelos preservacionistas: ao invés de se referirem às vantagens fisiológicas
de moradia e bairro que as edificações baixas proporcionam, como melhor aeração,
iluminação e circulação espacial, os atingidos se referem ao bem-estar financeiro que a
venda dos imóveis pode trazer para seus proprietários e à conseqüente melhoria de suas
condições de moradia, e/ou ao bem-estar também fisiológico que as reformas nos
imóveis também oferecerem, como o conforto de um elevador, de uma garagem ou de
uma grade que os façam se sentir mais seguros. O termo “estagnação econômica”
reforça a idéia de congelamento evocada anteriormente.

3) IMPÕE a esses bens as condições de “TOMBADOS, PRESERVADOS OU


TUTELADOS”, como partes de uma suposta APAC denominada de “SÍTIO
CULTURAL” (isto não existe legalmente!) sem consultar os prejudicados ou as
comunidades. Não realiza qualquer estudo urbanístico sério e o devido
“ressarcimento” a seus proprietários. Assim, a prefeitura impõe de forma covarde a
uma população (na sua maioria composta por idosos e aposentados) viver sem
qualidade de vida, ter gastos extraordinários e uma enorme desvalorização de seu
patrimônio. O QUE É INCONSTITUCIONAL, ILEGAL E IMORAL, pois isto não
é prioridade de nossa população! Isso beneficia a quem???

O terceiro ponto do manifesto reafirma a ilegalidade e a forma impositiva com que


foram decretadas as APACs e denuncia a falta de um estudo “sério” por parte da
prefeitura e a falta de “ressarcimento” aos proprietários dos imóveis que foram
preservados. Indica também que a medida de preservação provocou, além da perda da
“qualidade de vida”, a desvalorização do patrimônio dos moradores, apontados pelo
panfleto como compostos em sua maioria por idosos e aposentados. Outro recurso
narrativo comumente utilizado pelos preservacionista que é aqui re-apropriado pelos
atingidos é a retórica calcada na idéia de perda, no caso não de uma identidade cultural,
mas de uma qualidade de vida e de um direito de propriedade.

4) CONDENA os demais prédios (os mais novos) a “conviverem” com estes


imóveis, que fatalmente se transformarão em cabeças-de-porco, albergues,
prostíbulos, boates, restaurantes ou sonoras academias sem estacionamento. Ou pior.
Cria depósitos de muambeiros e contrabandistas que infernizam a todos, como já

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ocorre no Leblon. Tudo desvalorizando as edificações modernas. Prejudicando
quem?

A retórica da perda é novamente aqui utilizada para se referir a um tema caro aos
preservacionistas: a vizinhança. A manutenção dos prédios que não são “os mais novos”
é apontada aqui como nociva, já que abrigará “fatalmente” uma vizinhança que não se
deseja para o bairro, como a que vive em “cabeças-de-porco, albergues e prostíbulos”,
além de intensificar a circulação dos forasteiros que freqüentarão “as boates, os
restaurantes e as academias”, estabelecimentos que são então associados como atraídos
a ocupar este tipo de edificação baixa e antiga. Dois tipos específicos de freqüentadores
são especialmente rejeitados: os “muambeiros” e “contrabandistas”, que aproveitariam
as casas mal conservadas e abandonadas para fazerem delas depósitos de suas
mercadorias ilegais. O quarto tópico é concluído com uma defesa das “edificações
modernas”, que estariam sendo desvalorizadas por causa da preservação dos imóveis
antigos e “culturais”.

5) DESEQUILIBRA o mercado imobiliário de Ipanema e Leblon, fazendo a


alegria dos construtores e incorporadores que se beneficiaram com o terrorismo
anterior a criação das APACs, que negociam sob pressão e sob estranhas e rápidas
licenças de demolições e construções, gerando um enorme volume de novos
empreendimentos vendidos com preços superiores a R$ 1 milhão, imóveis com o
metro quadrado acima de R$ 15.000,00. Nunca se demoliu tanto na Zona Sul. Isso
beneficia a quem?

O panfleto é então finalizado com o quinto tópico, que repete idéias anteriormente
comentadas e traz como novidade a apresentação de números do “volume de novos
empreendimentos”, utilizados para reforçaram a frase-denúncia “nunca se demoliu tanto
na Zona Sul”, que acusa a prefeitura de estar provocando com as APACs o efeito
inverso do anunciado, no caso, a preservação das edificações dos bairros. O manifesto
encerra seus argumentos citando uma autorização recente de construção de um “aperto-
hotel” no Arpoador, localizado no início da Praia de Ipanema, que, segundo os
atingidos, é “um verdadeiro caso de polícia”. Após esta última denúncia, são
apresentadas curtas frases de indignação e se segue a assinatura dos grupos que
participaram da elaboração do material.

79
3.3. O caso da Vila Imperial18

O tombamento da Vila Imperial foi decretado dentro do contexto de discussões sobre a


preservação da identidade cultural e da vizinhança do bairro de Botafogo. Durante os
estudos que estavam sendo desenvolvidos pelo DGPC, os moradores da vila procuraram
a AMAB para pedir a inclusão de seus imóveis na lista de bens tombados pela APAC.
Em cinco reportagens dos jornais O Globo e Jornal do Brasil, a Vila Imperial mereceu
destaque pelos mais variados aspectos: por suas casas possuírem um estilo arquitetônico
“francês único com suas varandas e jardineiras” (O Globo, 05/11/2002); por ser uma
mediadora temporal, onde “em poucos passos atravessa-se mais de um século” e por
seus moradores estarem movendo um processo contra a construção de um prédio que
está sendo erguido ao lado da vila (O Globo, 23/03/2002); e até mesmo pela curiosidade
do seu acesso ser “feito pela garagem de um prédio” (O Globo, 08/06/2002). Na
entrevista realizada com a presidente da AMAB, Regina Chiaradia, a Vila Imperial foi
especialmente indicada como interessante objeto de estudo por agregar características
que ela ressaltou como socialmente positivas.

Foi lindo! Na Vila Imperial os moradores todos se uniram, pediram o tombamento da


vila, na Rua dos Pássaros. A gente encaminhou e a vila inteira fez uma festa, um
sarau em homenagem à APAC. Foi muito interessante. Mas é um grupo de gente
assim: é um violoncelista da Orquestra Sinfônica, é uma professora de sociologia, é
um cineasta. Então, sabe, é gente cabeça bem feita. E todo mundo se reuniu, a vila
inteira. Então foi uma coisa bem harmoniosa.

Diante de tanta publicidade conhecer a Vila Imperial pode parecer fácil, mas não é. A
vila é um conjunto de quatro casas de dois andares que se localiza atrás da garagem de
um prédio de apartamentos de quatro andares. A sua visão é completamente obstruída
aos pedestres da rua pelo portão da garagem, de alumínio maciço, e o acesso às casas é
controlado por um interfone que funciona de forma autônoma à portaria do prédio.
Atravessando o portão de alumínio, o que se vê é a garagem do prédio, feita com o
aproveitamento do espaço do andar térreo. Só mais ao fundo é que se encontra a vila,
agrupada em torno de uma rua estreita calçada com pés-de-moleque e organizada de
forma simétrica, com duas casas de cada lado. No entorno da vila existe, atualmente, à

18
O nome da vila, da rua onde ela está localizada e de seus moradores foram alterados por mim.

80
esquerda, um terreno onde está sendo erguido um prédio de sete andares e que há
menos de dois anos era também uma vila; à direita, uma vila estreita formada por
quatro casas enfileiradas apenas do lado direito e que se estende até a rua de pedestres;
e, atrás da vila, a área de lazer (playground com piscina) de um prédio de seis andares.

Os habitantes da Vila Imperial podem ser classificados de forma genérica como


profissionais liberais pertencentes às camadas médias da população. Eles compõem
cinco núcleos, já que a casa 02 é dividida em duas partes independentes. A casa 01 é
habitada por Paula e sua filha Clarisse, pela cadela Dalila e pelo cachorro Ferrugem. A
casa 02 é dividida em 02a e 02b. Na 02a mora o jovem casal Edu e Beth. Na 02b
funciona um escritório de arquitetura comandado por Fernanda. Na casa 03 residem o
casal Rodrigo e Vanessa, seu filho Lucas e a cadela Flora. E na casa 04 habitam o casal
Marcio e Isabel, seus filhos João e Luiza e o cachorro Fritz. Todos os moradores
listados foram ouvidos durante a pesquisa, com exceção dos moradores da casa 02a, os
mais recentes da vila.

Durante as entrevistas que realizei19 com os moradores, perguntei sobre os seus locais
atuais e antigos de moradia; a vivência cotidiana na casa e na vila; a convivência com os
outros moradores da vila e com os moradores do prédio da frente; e a experiência do
tombamento da vila pela APAC. No roteiro aplicado, apenas duas perguntas
pressupunham algum conhecimento das discussões que faziam parte do cotidiano da
vila: a pergunta sobre a existência do portão e sobre o tombamento das casas. Todas as
outras poderiam ter sido aplicadas em qualquer vila de casas ou prédio de apartamentos.
O roteiro se norteou pelas seguintes questões:

1. Onde você morava antes de morar aqui?


2. Como era esta casa quando você se mudou?
3. Você fez alguma reforma?
4. A vila mudou de aspecto desde que você se mudou?
5. Quem já morava aqui quando você se mudou?
6. Quem você visita com mais freqüência?
7. Sempre se utilizou aquele portão para entrar na vila?
8. Como você soube da existência das APACs?
9. O que mudou no cotidiano da vila depois que ela foi tombada?

19
As entrevistas foram realizadas por mim entre fevereiro e julho de 2003.

81
As primeiras cinco perguntas do roteiro de entrevistas tinham como objetivo revelar o
investimento material e também afetivo que os moradores da vila tinham feito em suas
moradias. As memórias evocadas pela história da compra da casa e de suas reformas
suscitaram lembranças de questões familiares, de desavenças e de sonhos vividos por
seus moradores e compartilhados com seus vizinhos da vila. Abaixo será apresentado
um resumo dessas experiências em torno da casa e do espaço da vila, onde uma parte do
mundo de seus habitantes se desvenda e a categoria patrimônio ganha a dimensão da
vida afetiva de seus proprietários/colecionadores, deixando de ser algo que evoque
apenas uma percepção de suas posses materiais.

Casa 01: Paula, sua filha Clarisse e os cães Dalila e Ferrugem

A história da família de Paula começa quando ela e seu marido Edgar se casam e se
mudam para um apartamento em Botafogo. Juntos, os dois decidem comprar, em 1975,
a casa 01 da Vila Imperial, que estava sendo vendida por um preço que eles
consideraram baixo. O desejo do casal era comprar também a casa ao lado, de número
03, e construir um casarão com um grande jardim no meio. Edgar, que é arquiteto,
desenvolveu, inclusive, um projeto especialmente para essa futura casa. A casa 03 era
habitada por Dona Graça, que queria vendê-la para o casal, mas não conseguia o
consentimento de seu ex-marido.

Enquanto esperavam a venda da casa 03, Paula e Edgar resolveram alugar a casa 01. O
primeiro inquilino foi um artesão que usava a casa de forma mista, como ateliê no
primeiro andar e moradia no segundo. Depois dele, quem alugou a casa foi o irmão de
Paula. Em 1990, Paula e Edgar se separaram e a casa, que estava no nome de Edgar, foi
transformada propriedade de Paula, que se mudou para lá com as duas filhas
adolescentes. A casa 03 só foi posta à venda em 2000, quando Dona Graça sofreu um
derrame. Apenas diante dessas circunstâncias o seu ex-marido concordou em vendê-la.
Mas nessa época Paula já não via mais sentido em comprar a casa, pois ela estava
desquitada e suas filhas crescidas. A casa 03 foi então comprada por Rodrigo e Vanessa.

As transformações pelas quais passaram a casa 01 foram narradas por Paula a partir do
momento de sua compra. O antigo proprietário da casa morava nela com sua mulher e

82
seus quatro filhos. O primeiro andar era utilizado pela família como depósito de
material de construção, em apoio à atividade do marido, que era pedreiro. O segundo
andar era usado como moradia. O artesão que foi o primeiro inquilino de Paula e Edgar
não fez modificações na estrutura da casa. Já o irmão de Paula fez pequenas reformas de
“maquiagem” na casa, não mexendo em nada na sua parte estrutural.

Quando Paula decidiu se mudar com as filhas para lá, ela fez uma grande obra que só
foi concluída após dois anos. Paula mudou toda a parte elétrica da casa, que não
suportava aparelhos mais modernos como microondas, máquina de lavar roupa e ar
condicionado. Os pisos foram trocados, com exceção do piso de cerâmica portuguesa da
sala, um dos poucos que o primeiro proprietário manteve no original. O espaço onde
havia uma garagem, no primeiro andar, foi fechado e transformado em uma ampla
cozinha e em um quarto de empregada com banheiro. A antiga cozinha, que era
pequena, foi revertida em uma saleta recuada com estante para livros. Todas as portas e
janelas foram raspadas e envernizadas para voltarem ao original, em pinho de riga. As
maçanetas das portas foram o último detalhe de conclusão da reforma. Elas foram
especialmente encomendadas para se aproximarem do modelo original e, quando
chegaram, Paula deu uma festa para comemorar o êxito de toda obra.

Paula manteve o muro de pedras naturais de 1,5 metro nos fundos da casa que havia
sido construído por seu irmão na época em que ele era inquilino e em sua base plantou
um pequeno jardim com buganvílias. O muro, no entanto, foi demolido em 2003, em
decorrência da construção do prédio de sete andares ao lado esquerdo da vila. Como o
muro foi construído avançando 15 centímetros o terreno comprado pela construtora do
prédio, ela solicitou sua demolição. Um novo muro de cimento com 3 metros de altura
foi construído pela construtora em seu lugar.

Casa 02a: casal Edu e Beth - Casa 02b: escritório de arquitetura de Fernanda

A casa 02 é a única que é narrada pelos moradores da vila como tendo sido sempre
ocupada por inquilinos. Atualmente ela é dividida em duas partes autônomas: na casa
02a reside um casal chegado há menos de um ano na vila e na casa 02b funciona há três
anos e meio o escritório de arquitetura comandado por Fernanda. Ela escolheu montar o
seu escritório nessa casa da Vila Imperial por considerá-la bastante espaçosa e barata se

83
comparada a um prédio comercial. Segundo ela, para se conseguir um espaço
semelhante em um prédio comercial seria necessário alugar três salas, o que resultaria
no gasto com três alugueis e três condomínios. Outro fator que também pesou em sua
escolha foi a segurança que a vila oferece. Como os funcionários do escritório
trabalham às vezes até tarde da noite e nos fins-de-semana, Fernanda ponderou que
aquela localização em Botafogo e dentro de um lugar residencial oferecia mais proteção
que um bairro e um edifício comerciais.

Segundo Fernanda, a proprietária da casa a herdou junto com outros imóveis da família
e não se interessa muito pelos assuntos da vila ou pelo estado de conservação da casa.
Antes de Fernanda alugar a casa 02, ela era ocupada por uma família “com cerca de seis
filhos, doze cachorros, gatos, meio cortiço”, que ficou devendo o aluguel durante meses
e que deixou a casa “literalmente destruída”. A antiga família de inquilinos também teve
problemas com a polícia, porque seus filhos “eram metidos com o tráfico”.

Quando Fernanda alugou a casa, ela se propôs a reformá-la desde que o custo da
reforma fosse paulatinamente abatido do aluguel. A proprietária concordou e, pelos
cálculos de Fernanda, em cinco anos o custo da reforma estará totalmente quitado. As
reformas feitas pro Fernanda foram estruturais, pois trocou toda a parte hidráulica,
elétrica e de revestimento. Como a casa virou um escritório de trabalho, a fiação elétrica
teve de ser reforçada para suportar a carga dos equipamentos eletrônicos que ficam
ligados simultaneamente. As paredes ganharam um revestimento texturizado para
“esconder as rachaduras”. As portas e janelas foram todas pintadas de branco. Elas não
foram revertidas para o original de pinho de riga por terem uma camada muito grossa de
tinta, o que oneraria muito sua recuperação. Os pisos foram mantidos no original. Como
a casa estava totalmente infestada de cupins, o teto, que era todo de pinho de riga
pintado de azul, foi arrancado.

Casa 03: casal Rodrigo e Vanessa, seu filho Lucas e a cadela Flora

A história da casa 03 é narrada por seus moradores a partir do momento de sua compra.
O casal Vanessa e Rodrigo começou a sua vida familiar em um prédio no bairro de
Laranjeiras. De lá só saiu em 2001 pra ir morar na vila. Eles procuravam, segundo
Vanessa, a “qualidade de vida” que morar numa casa pode oferecer, mas consideraram

84
que morar em uma casa unifamiliar rodeada por jardim, como as que existem em Santa
Teresa, seria muito inseguro. Resolveram então buscar o formato da vila. O casal já
estava querendo comprar uma casa na Rua dos Pássaros, onde mora o pai de Vanessa,
quando souberam da oferta na Vila Imperial através de um anúncio no jornal. Quando
eles viram o anúncio, pensaram que ele se referia à venda de uma casa na vila que fica
ao lado direito da Vila Imperial. Segundo Vanessa, eles ficaram muito surpresos quando
descobriram que existia uma vila escondida atrás do prédio. Encontraram a casa 03, que
pertencia a Dona Graça, em um “estado lastimável, completamente destruída”. Mas
tiveram “a sensação de que a casa tinha potencial”, e mesmo recebendo a reprovação de
amigos e parentes que achavam uma “roubada” comprar aquela casa, resolveram
investir.

Após a compra da casa, o casal passou nove meses fazendo uma grande reforma. Eles
não mexeram na parte externa da casa, só na estrutura, para reconstruir o que já existia e
estava deteriorado. As janelas, as portas e a escada, que estavam pintadas de branco
com sete camadas de tinta, foram recuperadas para o pinho de riga original. Eles
fizeram também algumas transformações na divisão de cômodos no interior da casa. O
casal ampliou a sala, diminuindo o espaço que era do quintal, já que Rodrigo é músico e
precisava de uma sala ampla para colocar um piano e fazer seus ensaios com outros
músicos. O casal fez também um terceiro andar com a colocação de vigas de madeira,
construindo “uma espécie de mezanino”. As transformações na divisão da casa original,
que só possuía dois quartos, foram motivadas pela necessidade que Rodrigo tinha de um
espaço para trabalhar e para receber as duas filhas dele de outro casamento. O mezanino
em cima do quarto do casal virou assim o escritório de Rodrigo e no mezanino em cima
do quarto de Lucas foi feito um quarto para as meninas.

Casa 04: casal Márcio e Isabel, seus filhos João e Luiza e o cachorro Fritz

A casa 04 já era de propriedade da família de Isabel antes que ela e seu marido Marcio
decidissem morar lá, o que ocorreu em 2000. Segundo sua filha Luiza, a “família inteira
mora na Rua dos Pássaros”, se referindo às cinco irmãs e à mãe de Isabel. Segundo
Luiza, seu avô paterno aplicou todo o dinheiro que tinha comprava em apartamentos
para as filhas naquela rua. Antes de irem morar na vila, o casal Isabel e Marcio morou
por um breve período no apartamento de quatro quartos da mãe de Isabel. A mudança

85
para esse apartamento foi motivada pelo desconforto do apartamento anterior, também
na Rua dos Pássaros, que só tinha dois quartos. Os filhos Luiza e João brigavam tanto
dormindo no mesmo quarto que acharam melhor revezar de três em três meses quem ia
dormir no quarto e quem ficava dormindo na sala. Para resolver a situação, eles
decidiram morar na casa da mãe de Isabel, mas, depois de alguns desentendimentos
familiares, o casal resolveu se mudar para a casa da Vila Imperial.

A casa 04 foi comprada por uma das irmãs de Isabel e seu marido, mas eles desistiram
de se mudar quando o prédio dos fundos começou a construção de uma piscina que
abalou as estruturas da casa, provocando uma enorme rachadura na parede e no chão. A
família de Isabel entrou na justiça contra a construtora do prédio, a Concal, mas até
2003 o processo não havia sido concluído. Então a mãe de Isabel, preocupada com a
situação da casa que podia cair a qualquer momento, decidiu junto com Isabel e Marcio
que a casa seria deles se eles a reformassem.

A casa passou então por uma grande reforma. Além da recuperação de suas estruturas,
foi feita também uma re-divisão dos cômodos. No quarto do casal foi construído um
terceiro andar que aproveitava o pé direito alto da casa. Nele, foi feita uma biblioteca
que também permitia a passagem para um recuado do telhado, utilizado como depósito.
No segundo andar, na parte de trás da casa, eles construíram uma pequena varanda
utilizada para abrigar uma horta de folhas e temperos.

A Vila Imperial

A história da vila contada por seus moradores se confunde com suas próprias histórias
de vida e com o processo de formação da atual vizinhança. As transformações por quais
passaram a vila são narradas como vitoriosas do ponto de vista estético, moral, legal e
fisiológico. Seus moradores evocaram lembranças de suas lutas coletivas e individuais
pela melhoria da vila, fazendo com que a construção da moradia e do patrimônio de
cada núcleo ali residente fosse intensamente vivenciada pelo grupo. Algumas histórias
antigas da vila foram narradas por Paula, proprietária da casa 01 há 28 anos. Ela
testemunhou uma época em que havia problemas de convivência na vila e um grau bem
menor de intimidade entre os moradores. Quando Paula se mudou, em 1990, a casa 03

86
ainda era ocupada por Dona Graça e a casa 04, de propriedade da família de Isabel, já
estava com suas estruturas abaladas pela construção da piscina do prédio de trás.

Paula contou que a casa 02, por ser alugada, foi a que teve o maior fluxo de moradores
durante esse período e também a que causou mais problemas para a vizinhança. Um
ponto interessante em suas histórias é a constante intervenção dos moradores do prédio
da frente para a resolução de problemas ligados aos moradores da vila, participação essa
que os atuais moradores vêm tentando modificar. Paula contou a passagem de quatro
inquilinos pela casa 02.

A primeira família que ocupou a casa era “muito pobre” e seus integrantes trabalhavam
vendendo peixe e camarão na feira. Eles despejavam na rua da vila os baldes onde
ficavam armazenados os alimentos, incomodando a todos com o mau cheiro. Segundo
seu relato, um dia um rapaz da família assaltou a mão armada a bicicleta de um homem
em Botafogo que, sem ser visto, o seguiu até a entrada da vila e chamou a polícia, que
levou o rapaz preso. Os moradores do prédio da frente se sentiram ameaçados com a
presença da família na vila e conseguiram a sua expulsão de lá.

Outro inquilino que causou problemas com a vizinhança foi um rapaz que era traficante
e usava a casa como ponto de venda de drogas. Além disso, o rapaz promovia todo
domingo “um churrasco com pessoas mal-encaradas e armadas”. O prédio também
interviu para a expulsão desse morador. O terceiro ocupante da casa 02 foi um escritório
do Mister Pizza, expulso por não ser permitido manter ponto comercial ali. O último
inquilino citado por Paula foi a produtora da cantora Sandra de Sá, que também por ser
comercial e provocar um fluxo intenso de pessoas na vila foi expulsa.

A casa 02b só começa a ser percebida como parte da boa vizinhança da vila quando se
muda para lá a arquiteta Fernanda e o casal Beth e Edu. Foi iniciativa de Fernanda
retirar a fiação telefônica e elétrica dos domínios do prédio da frente, fazendo uma caixa
telefônica própria para a vila e embutindo os fios de luz nas paredes as casas. Tais
modificações, além de provocarem uma melhoria estética na vila, também a tornaram
mais autônoma em relação ao prédio. Segundo Paula, os inquilinos atuais são ótimos e
não costumam aparecer muito nem circular na vila por terem medo que o prédio da
frente denuncie a situação comercial irregular deles.

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Os moradores ainda têm outros planos para a melhoria da vila, como demolir o muro
dos fundos que foi abalado com a construção da piscina do prédio de trás e erguer em
seu lugar um mais bonito onde esteja escrito o nome da vila e sua data de fundação e
tenha também outros elementos decorativos como luz e uma pequena fonte. A moradora
Paula acha que foi somente com os atuais moradores que a vila se tornou um local
harmônico de moradia. Essa harmonia é comentada por todos e vivenciada no cotidiano
de suas relações sociais, embora não signifique a inexistência de atritos.

As “questões” da “vizinhança”

A sexta e a sétima perguntas do roteiro foram respondidas pelos moradores da vila


abordando um limitado grupo de “questões” que diziam respeito especificamente às
relações de “vizinhança”. Essas duas categorias foram as recorrentemente utilizadas
pelos moradores para definir os assuntos que os envolviam como uma coletividade,
mesmo que fluida. Foi a análise dessas “questões” que possibilitou o desenho do quadro
de relações socais que se desenvolve no local. Essas relações sociais não se mostraram
nem constantes nem uniformes, incluindo ou excluindo os mais diversos indivíduos de
acordo com o contexto, fossem eles moradores ou não da vila, e formando pequenos
grupos de afinidades e conflitos. As “questões” mais significativas encontradas foram: a
troca de favores e as festas coletivas; o estacionamento dos carros; a convivência dos
cachorros; e o portão.

a) a troca de favores

Na Vila Imperial existe uma vida social que se organiza em torno das trocas cotidianas
entre seus moradores e tem como momentos especiais as festas compartilhadas por
todos. Pelo menos por todos os que se reconhecem como “vizinhos”, o que de modo
algum é definido pela moradia ou não na vila. Três núcleos formam efetivamente o que
se entende por “vizinhança” entre os moradores da vila: os da casa 01, 03 e 04, sendo
que, no caso da casa de Paula (casa 01), o compartilhamento das relações ainda é
estendido à participação de sua filha casada, Renata, e ao namorado de Clarisse, Guto,
ex-sócio também do escritório de arquitetura (casa 02b). Os funcionários do escritório

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de Fernanda e o casal Edu e Beth são excluídos do sistema de trocas da vila, embora por
motivos diferentes.

No grupo das trocas, destaca-se a afinidade entre as casas 03 e 04, que se freqüentam
regularmente e são “vizinhos de janela”, já que moram uns de frente aos outros. A troca
entre eles inclui o compartilhamento de objetos domésticos, a oferta de bebida e
comida, a exibição e a apreciação da produção artística e profissional de seus moradores
e a convivência pacífica de seus cachorros. Através dos depoimentos se percebe que há
entra as famílias uma grande integração e a percepção do outro morador como um
semelhante e amigo.

A gente se relaciona muito bem, principalmente aqui com Marcio e Isabel. Se a


gente está na janela um oferece vinho pro outro. (...) Eventualmente a gente vai lá,
assiste vídeo, porque ele é cineasta. De vez em quando eles assistem ensaio também
[Rodrigo é violoncelista] ou eles ouvem de lá. Sempre tem uma coisa assim bem
legal dessa abertura de vizinhança. Muito gostoso isso. (Vanessa – casa 03)

Aí tem a Vanessa. A gente se dá muito bem. Também o Rodrigo. Várias vezes eu


estou indo dormir e está ele tocando. Aí vem um músico que toca violão, que toca
muito bem, eu acho que ele é da Orquestra Sinfônica também, não sei. Mas eles
ficam tocando, dá pra ficar ouvindo. Lá da janela eu fico vendo eles tocando. Sei lá,
é um barato. (Luiza – casa 04)

b) as festas coletivas

A casa de Paula também é incluída no sistema de amizades da vila. A sua participação


sempre é citada positivamente na realização das festas coletivas, de aniversário ou
comemorativa de datas especiais, como na ocasião do tombamento da vila pela APAC.
Mas não foi citada pelos moradores das casas 03 e 04 nenhum tipo de troca cotidiana,
embora também haja um apreço especial pela atividade de Renata, que é veterinária e
trata dos cachorros das três casas.

A gente fez uma festa do tombamento da vila. Foi bem legal. Eles botaram
comidinha em cada casa. A gente primeiro ia fazer bobó de camarão, aí depois a
gente viu que ia dar muito trabalho... Aí a gente „Ah não, vamos encomendar um
negócio‟. Aí o Rodrigo tocou, aí veio o amigo dele tocar também. A gente chamou

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os nossos amigos, cada casa chamou os convidados, enfim. (...) E sempre quando
tem uma festa na casa de alguém todo mundo chama os vizinhos. Teve um dia que a
gente fez um fondue aqui, a gente chamou a Vanessa, que ela que tinha a panela e
tal. Aí o meu pai foi e já chamou a Paula. (Luiza – casa 04)

A exclusão do escritório de arquitetura do sistema de trocas da vila foi apontada por


esse grupo de “vizinhos” como uma exclusão circunstancial e não ocasionada por uma
dificuldade de convivência. O fato de a casa ser ocupada por um escritório faz como que
seus funcionários se posicionem e sejam percebidos de modo diferente em relação aos
moradores. Há também um outro tipo de percepção do que é ter uma boa “vizinhança”
para a arquiteta Fernanda, que considera importante preservar a “individualidade”, já
que, em sua opinião, o tipo de convivência encontrada na vila “é uma convivência que
dá margem a atrito”.

E, enfim, tem problemas aqui mais de quem mora. Porque a gente convive aqui até
às sete da noite, final de semana a gente não está aqui. Então tem problemas mais
íntimos aqui que a gente praticamente não tem que participar. Eu acho que com a
mentalidade moderna, que não é tão antiga assim... As pessoas começaram a se
habituar a uma individualidade que a vila não tem. A vila tem um formato de
convivência que eu acho que a sociedade agora não estaria mais acostumada. Eu
acho que a vila é um prédio que não tem intermediário. Não tem síndico, não tem um
porteiro. Qual a primeira pessoa que você reclama quando tem um problema? É o
porteiro. „Ah, tão fazendo barulho, a música está alta, tem um cachorro latindo‟.
Aqui não tem, então você tem que resolver meio diretamente com as pessoas... E
aqui você convive muito próximo, é próximo mesmo, você está olhando pra casa da
pessoa, você vê tudo o que acontece lá na casa da pessoa. (Fernanda – casa 02b)

Eu tenho uma relação muito boa com a Fernanda, ela é muito legal também. Mas a
Fernanda, no fim de semana ela nunca está aí. A gente até convidou ela pra festa do
Rodrigo, por exemplo, mas ela não veio. Então fica uma relação diferente, porque ali
não é uma residência, é uma firma. E isso também muda um pouco, também
influencia um pouco na relação que nós temos com ela e com os outros aqui. Acho
que é diferente. Uma relação diferente. Mas é um bom relacionamento também.
(Vanessa – casa 03)

Já o casal Beth e Edu, que mora na vila e usa o primeiro andar da casa como um
pequeno escritório de arquitetura, não participa das relações de troca da vila por ter tido

90
um problema com a “questão” do estacionamento dos carros, que será detalhada a
seguir. Ao que parece, a única relação de troca que eles mantêm com os habitantes da
vila é profissional, já que ambos foram estagiários do escritório de Fernanda e
eventualmente prestam serviço a ela. Luiza declarou desconhecer detalhes da vida deles
como, por exemplo, a profissão exata em que os dois trabalham. E Paula sequer sabia
que Beth já havia casado com Edu e também morava na casa, informação dada a ela por
sua filha Clarisse durante a entrevista. Segundo Paula, ela não sabia por que ninguém
“havia sido convidado para o casamento”.

O próprio Edu que trabalha aqui ele mora em cima, mas como o ele é recém-casado
então ele está meio entocadinho, ele não se mistura muito. (Fernanda – casa 02b)

O Edu e a Beth houve um pouco de conflito no início, não sei se eles contaram pra
você. O negócio do carro? É, a confusão do carro... Aí pintou uma coisa assim que a
gente acha que não existe, mas que aconteceu aqui na vila também, que foi uma
briga de vizinhos. (Vanessa – casa 04)

c) o estacionamento dos carros

A questão do estacionamento dos carros é a única que conta com a participação direta
de todos da vila. Por ser uma vila muito estreita, para a saída de qualquer carro das
casas do fundo (03 e 04) é necessário que se manobrem os carros das casas da frente (01
e 02). E como há uma constante movimentação dos moradores da vila, os carros muitas
vezes, para permitir mesmo o estacionamento de outros, são postos mais ao fundo, na
frente das casas 03 e 04. A solução encontrada para facilitar a manobra dos carros foi
todos os moradores deixarem as chaves na ignição, quando não estivessem em casa, ou
uma cópia com os moradores das casas dos fundos. No caso do proprietário do carro
obstrutor da passagem estar na vila, o combinado é que ele manobre o carro “sem cara
feia”, segundo os termos usados por Paula.

Além disso, o número de vagas pertencentes às casas também gera conflito, já que ficou
decidido, antes da chegada de Edu e Beth à vila, que cada casa só poderia ter dois carros
estacionados, o que no caso da casa 02 resultou na disponibilidade de estacionamento de
apenas um único carro para cada núcleo de moradores, o que dificulta que qualquer
visitante de Edu e Beth ou do escritório de arquitetura possa estacionar no interior da

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vila. No caso desse conflito, a motivação da briga se deu pela insatisfação dos
moradores da casa 04, que se sentiram prejudicados pela entrada do novo casal de
moradores e seu carro. Embora o único conflito aberto tenha ocorrido entre os
moradores Edu e Marcio, todas as casas apresentaram queixas ou já se aborreceram de
alguma forma com o assunto. Também existe um mal-estar entre os que consideram ter
“carro bom” e “carro ruim”, diferenciação de status que só foi encontrada nos discursos
dos moradores da vila nessa “questão dos carros”, destoando do tom de igualdade de
relações que permeia o restante dos depoimentos.

Até hoje eu ia falar com ele [Edu], porque ele parou o carro... Assim, não dava nem
para entrar com a bicicleta em casa porque ele parou o carro. Porque aí é assim: pode
por os carros na frente da sua casa, quantos carros couberem. Aí na frente da minha
cabem dois carros, então eu tenho direito a dois carros. (Luiza – casa 04)

O Marcio se indispôs muito com o Edu por causa disso no início. A gente depois até
ficou meio, sabe: „Pega leve‟. Porque ele é um cara tão de boa paz, ficou tão alterado
com esse negócio. A gente até falou, a Isabel falou: „Parece criança né?‟. Só porque
o tal do carro do menino ia começar a atrapalhar... Porque tava tudo dando certo
aqui. A gente estava organizado, como sair. De manhã cedo quem estivesse
estacionado conseguia sair... Com ele lá justamente na passagem complicou tudo.
Mas aí foi muito legal. Acho que ele de novo foi uma pessoa que tentou e conseguiu
se integrar porque ele deu a chave dele. Eu e a Isabel, nós dividimos uma chave do
carro do Edu. Eu acho que são poucas pessoas que fazem isso. Dão a chave de um
carro bom e tudo. (Vanessa – casa 03)

Até todo mundo entender quem tira o carro de quem... Agora todo mundo deixou a
chave no volante, quase todo mundo, as pessoas que tem os carros melhores acham
que não é bom os outros mexerem. Quem tem os carros piores o carro está aí com a
porta aberta, quem quiser entra, mexe... (Fernanda – casa 02b)

d) a convivência dos cachorros

A questão dos cachorros envolve conflitos e afinidades tanto entre os moradores da vila
quanto expande as suas relações sociais com os moradores do prédio da frente. Todos
os cachorros da vila (casas 01, 03 e 04) são percebidos por seus donos como parte
integrante da família e a existência de um conflito entre eles é percebido como um
inibidor de relações, assim como a afinidade é entendida como um prolongamento

92
dessas mesmas relações. Na vila existe uma grande animosidade entre o cachorro de
Paula, Ferrugem e o cachorro de Isabel, Fritz. O conflito foi citado como uma barreira
para o relacionamento dos moradores envolvidos, porque impede que as portas das duas
casas fiquem abertas ao mesmo tempo. Já a casa de Vanessa e Rodrigo não tem sua
relação com os vizinhos prejudicada pela cachorra Flora, que brinca sem problemas
com todos. Os moradores da casa 03 podem deixar, assim, sua porta sempre aberta para
a visita dos vizinhos.

Volto a dizer, eu acho que nós nos relacionamos muito bem aqui com a Paula
também, a gente se dá super bem com a Paula, com as filhas. Uma das filhas é
veterinária da Flora inclusive. Porque a Renata não mora aqui, mas ela está sempre
aqui. Mas talvez eles... Eles também se relacionam muito bem. Mas tem os
problemas dos cachorros. Já te contaram essa história? Ferrugem e Fritz são inimigos
mortais. Um tem que controlar quando o outro abre a porta, senão eles se
engalfinham mesmo. E mesmo quando está um em cima [na varanda da casa] e o
outro embaixo [na calçada], o de baixo fica enlouquecido, quase pulando em cima
pra pegar o outro. Então talvez eles fiquem um pouco... A relação deles eu acho que,
engraçado isso, mas o cachorro eu acho que bloqueia um pouco essa relação
também. Porque essa troca de porta aberta não pode acontecer entre eles, por
exemplo. Eu também, quando a Paula solta o Ferrugem e a Dalila, a Flora fica
pedindo pra sair aí eu solto, aí ficam as nossas duas portas abertas. A Dalila, a
cachorra da Paula entra aqui, roda tudo, vai nos quartos. Então de novo a coisa da
porta aberta. Então eu acho que a relação é de igual pra igual pra todo mundo com
essas coisinhas assim que às vezes bloqueiam um pouco. Essa coisa de cachorro é
uma coisa complicada. (Vanessa – casa 03)

A questão dos cachorros, além de fazer parte do relacionamento do dia-a-dia da vila,


também se estende aos moradores do prédio da frente. Seja positivamente, no caso dos
moradores que também têm cachorros e passam a conhecer as pessoas da vila por causa
dessa afinidade, seja negativamente, já que os cachorros às vezes sujam com seus
excrementos a garagem e fazem barulho, provocando a repreensão dos moradores do
prédio e da síndica, que já chegou a por creolina no chão da garagem. Também se
percebe entre os moradores da vila um sentimento de vergonha quando seus cachorros
sujam a garagem, como se fosse uma incapacidade deles de controlarem seus animais e
por extensão a própria vila. Essa “questão” acabou por apontar novas demandas, como a

93
colocação de um portão que separe a vila da garagem do prédio, o que tornaria a vila
mais autônoma e menos exposta às críticas externas.

Eu conheci muitos [moradores do prédio da frente] por causa dos cachorros. (...)
Tinha uma que o Fritz era apaixonado. Era uma cocker spaniel, acho que é isso. E
ela parecia a Dama e ele parecia o Vagabundo, a gente ficava falando que era a
Dama e o Vagabundo. Aí ela entrou no cio e o Fritz ficava maluco com ela. Mas aí
ela arrumou um da mesma raça, ainda mais que o Fritz era maior do que ela e
também porque era a primeira vez dela. Então ele [dono da cadela] pegou um outro
cachorro da mesma raça e cruzaram. E aí depois disso ele teve filho, o dono dela. Aí
ele tava achando muito confuso cuidar de um cachorro e ainda um filho, aí deu o
cachorro pra mãe dele. Agora a cachorra mora lá em Miguel Pereira, mas vira e
mexe eu estou andando na rua em Miguel Pereira, porque a gente tem casa em
Miguel Pereira, e encontra o cachorro lá. (...) E os cachorros daí meio que sumiram,
nunca mais vi eles no prédio. E aí também aconteceu que essa síndica do prédio é
meio chata, como toda síndica, e ela bota creolina no chão. E ela não quer que os
cachorros fiquem ali, ela proibiu de descerem com cachorro, „Que ficavam latindo,
fazendo barulho‟. E aí bota creolina no chão, e aí o Ferrugem já ficou com a pata
toda cortada. (Luiza – casa 04)

Tem reclamação deles em função dos cachorros. Inclusive nós pensamos, a Paula e a
gente, eles não sabem, estão pensando ainda nisso, a Isabel e o Marcio, a gente
pensou que seria bom fazer um portão aqui, bem na passagem. Bem na entrada. Aí
teriam dois portões. (...). Mas a gente pensou nisso, em primeiro lugar porque nós
ficaríamos aqui realmente como vila. Aí faz um portão bonitinho, bota também o
nome da vila, faz um portão verdinho, aquela coisa. E em segundo lugar porque os
cachorros ficariam limitados a esse espaço. E não haveria mais esse
constrangimento, porque os cachorros vão lá, fazem cocô, nem sempre as pessoas
vão lá limpar. Isso acontece também. Deixarem cocô. Quando você vê, algum carro
passou por cima, é um desastre. Espalha cocô pra tudo quanto é lado da garagem.
(Vanessa – casa 03)

e) o portão

O portão da garagem que dá acesso aos moradores da vila é o principal gerador de


conflitos entre eles e a síndica do prédio da frente. A vila é uma servidão pública e a
colocação do atual portão foi um acordo verbal entre os moradores da vila e do prédio.
Antes do portão maciço de alumínio havia um vazado que, segundo Paula, “tinha mais a

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ver com o clima da vila”. O acordo acertado entre ambas as partes foi que todos os
moradores da vila teriam acesso aos serviços de portaria do prédio, sem nenhuma
cobrança de taxa por causa disso. Como houve uma quebra do acordo por parte da
síndica do prédio, que começou a proibir a utilização de sua portaria pelos moradores da
vila, eles decidiram colocar um interfone ao lado do portão que ligasse diretamente suas
casas com a rua. Mas a “questão” continua bastante polêmica, pois, segundo os
moradores da vila, há na existência do portão tanto pontos negativos, como deixar a
entrada da vila feia e ligada à área de serviço do prédio, quanto positivos, como manter
a vila protegida de possíveis assaltantes.

E aí teve uma época que o porteiro não abria mais a porta pra gente. E também eles
botaram essa porta na garagem e a gente pensou assim „Ah, é até melhor por causa
da nossa segurança botar a porta na garagem‟. Mas o que acontece é que agora o
porteiro não abre mais a porta gente, a gente tem que ser tudo independente. Tem
que levar a chave e tal. E também a gente tem que ficar entrando pela parada de
serviço. Aí sempre quando vem alguém „Ah, é pela garagem‟. Aí a pessoa não
entende direito. (Luiza – casa 04)

Porque quando nós viemos pra cá, por ter colocado o portão, o prédio se
comprometeu a dar entrada pra todo mundo que quisesse vir pra vila. Que tinha um
lado bom, mas tinha um lado péssimo, que eles não sabiam quem eram, então eles
deixavam entrar todo mundo. (...) Então quando a gente veio fez uma certa
campanha „Gente, qualquer casa tem um interfone hoje, ninguém recebe uma pessoa
na porta. Você recebe alguém, você deixa entrar ou não‟. E o porteiro liberava pra
qualquer um. Qualquer pessoa que dissesse „Eu vou na vila‟, ele não ia perguntar se
era convidado de alguém. Ele ia liberar a entrada. A gente entrou, depois veio a
Isabel, depois veio a Vanessa, então quem entrou, os novos, concordou que
segurança era necessário com esse mundo lá fora. (Fernanda – casa 02b)

A revolta entre alguns moradores permaneceu em função do acordo quebrado, e chegou


mesmo a envolver uma ameaça de processo judicial contra o prédio para a retirada do
portão e a liberação da servidão, mas essa ameaça não foi concretizada. Atualmente, a
definição do espaço privado da vila é o que mais mobiliza os moradores, que se sentem
constantemente confundidos com as dependências do prédio e também invadidos em
seu espaço, como no caso da sujeira dos cachorros. A falta de limites claros de onde

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termina a vida privada do prédio e começa a da vila tem produzido novas questões,
como a colocação de um segundo portão, entre suas casas e a garagem.

Não chegou a haver nenhum processo. Houve uma discussão a respeito disso. Então
ficou uma coisa meio de picuinha mesmo. Essa idéia não se fala mais, a gente agora
está mais preocupado mesmo em melhorar um pouco o visual e também melhorar
esse chão aqui, que tem muito buraco, mato nascendo, essas coisas, derrubar aquele
muro e pensar na necessidade do portão. Mais no sentido da gente sobressair como
vila mesmo. De definir o nosso espaço como vila e tudo mais. (Vanessa – casa 03)

A dinâmica das relações sociais

A decomposição em “questões” distintas das experiências cotidianas dos moradores da


Vila Imperial, por eles vivenciadas de maneira contínua e superpostas, torna possível a
análise da dinâmica das relações sociais que formam a sua “vizinhança”. A partir desse
método, percebe-se que o que todos denominam de “vizinhança” pode se referir a
diferentes pessoas e situações e que a participação na vizinhança da vila não é um
simples reflexo da localização da moradia de um indivíduo em um determinado limite
territorial.

Estudando as redes de sociabilidade de famílias do sertão de Pernambuco, Ana Claudia


Marques indica que “se focarmos a atenção sobre um indivíduo, representando-o como
um ponto, em suas ligações representadas como linhas, notamos que ele estará incluído
nos grupos conformados segundo critérios distintos” (2001: 142). Ou seja, embora a
territorialidade seja relevante para a construção de qualquer vizinhança, o sentimento de
pertencer a ela é formado a partir de variadas situações sociais vividas por
agrupamentos distintamente combinados de moradores. A inclusão ou exclusão dos
indivíduos em uma “vizinhança” é, dessa forma, circunstancial, dependendo do grau de
participação desse indivíduo em grupos de interesses e conflitos locais.

É por esse motivo que nem todos os que circulam por um território são percebidos como
“vizinhos”. Como foi visto nos depoimentos dos moradores da Vila Imperial, os únicos
moradores do prédio da frente que foram citados como participantes da vida da vila
foram a síndica e os donos dos cachorros, sendo excluídos de seus relatos todos os
outros, embora o prédio divida o mesmo espaço territorial da vila.

96
Pesquisando os diversos níveis de pertencimentos individuais a comunidades, Bailey
considerou ser necessária a observação analítica dos modelos revelados pela interação
dos indivíduos, em vez da focalização em seus atos individuais. Ele concluiu que o
princípio que rege a formação de uma comunidade é a existência de uma “reputação”
dos indivíduos que a compõem, seja essa “reputação” boa ou ruim. Para Bailey, a
reputação individual varia em grau e intensidade de acordo com a interação do
indivíduo na vida comunitária. Quanto maior o nível de interação, mas importante vai
ser a reputação de um morador, o que não tem nenhuma relação direta com as
qualidades que ele possui, mas sim com o que os outros pensam dele e informam sobre
ele.

No caso dos moradores do prédio da frente da Vila Imperial, aqueles que não estão
envolvidos em nenhuma das questões centrais que aglutinam seus moradores não são
percebidos como participantes da vizinhança, mesmo morando no mesmo local que a
síndica, que embora tenha uma péssima reputação entre os moradores, é incluída na
percepção de sua vizinhança. Da mesma forma, a questão do estacionamento dos carros
envolveu o morador Edu, até então tido como muito reservado e fora do sistema de
vizinhança da vila. Após o episódio, seu nível de participação na vida da vila aumentou
e sua reputação foi socialmente produzida, incluindo-o, mesmo que de forma
conflituosa, na vizinhança da vila.

Mas embora Edu tenha sido incluído nas relações sociais da vila, o poder dele de fazer
um julgamento moral a respeito de qualquer outro morador é ainda muito pequeno, já
que ele não participa da “comunidade moral” da vila, termo cunhado por Bailey. A
comunidade moral é formada por aqueles que compartilham dos mesmos modelos
morais. No caso da vila esse compartilhamento se observa mais nitidamente entre os
moradores da casas 01, 03 e 04. É a partir deles que os sistemas de trocas e festas
coletivas são constituídos e é sempre em torno deles que as questões giram, tanto dos
cachorros, quanto dos carros e do portão, mesmo que eventualmente envolva a
participação do escritório de arquitetura que, como dito anteriormente, se coloca
normalmente numa posição distanciada dos acontecimentos e das relações da vila, ou
seja, opta por se excluir da vizinhança.

97
À primeira vista, pode parecer que a formação da comunidade moral da Vila Imperial
tenha sido ocasionada pelo princípio da antiguidade de seus moradores, o que faria com
que os moradores mais antigos fossem os socialmente mais coesos e, portanto, os
socialmente mais poderosos para julgar a reputação dos novos moradores 20. Mas,
observando-se as épocas de mudança de cada núcleo de moradores para vila, percebe-se
que essa comunidade moral não é de fato antiga (na época da realização das entrevistas,
80% dos moradores da vila residiam nela há menos de quatro anos) e que sua coesão
social se baseia muito mais na “amizade” que os moradores desenvolveram entre si.

Julian Pitt-Rivers define “amizade” como um sistema de contraprestações de acordo


mútuo, onde cada parte oferece e recebe um favor de forma desinteressada. Através
dessa definição, se compreende como o sistema de trocas entre os moradores das casas
01, 03 e 04 os torna uma comunidade moral e também como a arquiteta Fernanda
consegue se auto-excluir dessa comunidade. Fernanda não participa da comunidade
moral da vila porque não deseja ficar presa a nenhum tipo de obrigação para com os
seus vizinhos. Ela se incomoda quando as relações sociais da vizinhança invadem a sua
privacidade, como no caso por ela narrado da circulação de informações entre as suas
secretárias e as empregadas domésticas das casas da vila, fato que não foi abordado no
depoimento de mais nenhum morador.

Através do sistema que rege os princípios da “amizade”, se entende também quais


foram os mecanismos sociais que provocaram a revolta dos moradores da vila contra a
síndica do prédio da frente: ela foi especialmente motivada pelo lado reverso das
relações de amizade e confiança, que é o sentimento de traição, já que na questão da
colocação do portão houve a quebra do “acordo verbal” existente entre eles, tipo de
acordo nitidamente amistoso. A resposta a essa quebra de confiança foi, em primeiro
lugar, uma diminuição da intensidade das relações sociais com o prédio, através da
instalação do interfone, depois a ameaça de uma retaliação judicial e finalmente a
tentativa de exclusão total do espaço privado da vila em relação aos domínios
territoriais do prédio, através da colocação de um portão interno que diferencie as duas
vizinhanças.

20
Sobre o princípio da antiguidade como constituinte de uma comunidade socialmente coesa e poderosa,
ver Elias, 2000.

98
A Vila Imperial e seu patrimônio

Foi Paula, da casa 01, quem mais se dedicou à campanha de inclusão da Vila Imperial
na lista de bens tombados pela APAC de Botafogo. Os moradores das casas 03 e 04
também participaram do processo através da junção dos documentos necessários para o
tombamento da vila e da presença em reuniões com a associação de moradores do
bairro. A inclusão da vila na APAC foi tratada por esse grupo de “vizinhos” como uma
importante “questão”, já que envolvia a permanência de sua “qualidade de vida” e
também do valor econômico e simbólico de seu patrimônio. Sua principal motivação foi
proteger o entorno da vila da construção de qualquer prédio, já que, pela lei das APACs,
todos os imóveis que se encontram ao lado de bens tombados devem também se manter
preservados, não podendo ocorrer nenhuma construção que descaracterize sua
“ambiência cultural”.

Paula começou a se informar sobre o projeto da APAC de Botafogo ainda no governo


de Luis Paulo Conde, quando uma vila nos fundos de sua casa foi demolida por uma
construtora com a intenção de ali se erguer um apart-hotel. Ela então procurou a
presidente da AMAB, Regina Chiaradia, para saber quais eram os procedimentos
necessários para conseguir o tombamento da vila. Nesse ínterim, foi aprovada a lei que
vetava a construção de apart-hotéis na região, o que paralisou a obra ao lado da Vila
Imperial.

Somente após quatro anos de estudos a vila foi tombada no conjunto de imóveis que
compõem a APAC de Botafogo. Segundo Paula, a demora se deu por causa de uma
divisão política dentro da prefeitura e do DGPC, que seriam formados por um grupo
preservacionista e por outro aliado às construtoras. Mas quando a APAC foi decretada,
já havia sido liberada uma licença para a construção de um prédio residencial de sete
andares no terreno desocupado ao lado da Vila Imperial. A construção desse prédio vai
prejudicar, segundo os moradores da vila, a circulação de ar e a iluminação das casas 01
e 03, além de fechar parcialmente a atual paisagem de todos os moradores, que passarão
a ter como vista uma grande empena cega.

Eu e a Paula, acho que a gente está mais desesperada com esse prédio que está sendo
construído. Porque, primeiro o sol que bate aqui na fachada. O Fritz vive pegando sol

99
e também de vez em quando eu deito e fico pegando sol. É um sol que se
construírem um prédio de sete andares não vai ter mais. As minhas plantinhas vão
morrer. E aí também eu boto a cama desse lado aqui porque eu fico com a janela
aberta e fico vendo as estrelas e a lua e do meu ângulo não dá pra ver nenhum prédio,
só dá pra ver esse buraco ali do céu. E se construírem um prédio ali eu não vou mais
abrir a janela. Eu vejo a lua de madrugada, e não vou ver mais nada, vou ver um
prédio na frente. (Luiza – casa 04)

Além da perda da “qualidade de vida”, esse grupo de vizinhos também apontou outros
motivos que seriam relevantes para o tombamento da vila e a preservação de sua
ambiência. A história do país e do bairro que a materialidade da vila poderia evocar foi
um dos aspectos considerados importantes, embora o seu passado não seja
completamente conhecido por nenhum dos moradores, que só sabem ao certo que a vila
é do fim do século XIX.

Três versões diferentes sobre a história da vila foram narradas por seus moradores: que
ali era um dormitório utilizado pelas freiras do Colégio Santo Inácio; que eram as casas
onde os netos do D. Pedro moraram; e que era a vila dos empregados dos netos do D.
Pedro. A única moradora que citou o aspecto arquitetônico das casas da vila foi
Fernanda que, no entanto, não participou do processo de tombamento da Vila Imperial
e considera que as casas já estão muito “descaracterizadas” para serem consideradas um
patrimônio artístico e histórico.

Isso foi Vila Imperial justamente pelo D. Pedro. Foram os netos dele. Quer dizer, eu
acho que só essa história vale a pena preservar. Não sei um exemplo, mas eu acho
que qualquer país que quer crescer tem que respeitar a tradição e a história daquele
país. Em Oxford, na Inglaterra, se você não tivesse preservado aquelas catedrais,
aqueles prédios maravilhosos, você... Hoje em dia, aquela cidade de Oxford, você só
anda de bicicleta no centro ou anda. Você vê estudante, é uma cidade de estudantes.
É a maior cidade talvez do mundo onde tem o intelecto. É preservada por esse
motivo. As cidades mais industriais estão do lado, mais pra lá, ou em outra cidade.
Eles têm lugares. Você não precisa deslocar cidades... (Rodrigo – casa 03)

[Quando eu me mudei] a casa da Paula já tinha essa cara. A do Rodrigo sempre foi
lisa, já tinha perdido todos os ornatos. A da Isabel tem os ornatos todos e ela deu
uma restauradinha de leve. E as janelas já tinham essas grades. Essa casa se você
olhar no conjunto parece que ela está totalmente preservada. Quando você olha a da

100
Isabel você vê o que está faltando na fachada. Está faltando uma sanca... No
conjunto ela parece que está preservada. Se todas estivem que nem a da Isabel aí sim
eu achava que valia um tombamento mesmo, oficial, de fachada. Mas foi um
tombamento mais pelo tipo de logradouro. As casas em si perderam o valor. Tirando
a da Isabel... (Fernanda – casa 02b)

Após todo o processo de luta para a inclusão da vila na APAC de Botafogo, Paula avalia
que o tombamento não serviu para nada. Para ela foi ruim a exposição que a vila ganhou
nos jornais, porque o que os moradores sempre desejaram foi manter a vila escondida e
protegida da violência. E o objetivo de preservar a “ambiência cultural” não foi
alcançado e nem a proposta de isenção de IPTU da prefeitura foi boa, já que o trabalho e
o gasto com a reforma não compensam a economia que será feita com a isenção. O
único êxito que os moradores tiveram com o tombamento foi que a construtora do
prédio ao lado da vila utilizasse um método de perfuração especial para fazer a fundação
do prédio, que não abalasse a estrutura das casas antigas da vila.

Mas enfim, esse nosso envolvimento maior com o negócio da APAC foi com a
esperança de que isso fosse embargar essa obra aí. O que não aconteceu. Porque o
que a Regina Chiaradia explica é que essa obra foi autorizada antes disso aqui entrar
na APAC, de serem tombadas as casas. E aí eles não podem mexer com obras já
autorizadas pela prefeitura. Não deu em nada. Vamos sofrer por muito tempo ainda
com essa história. (Vanessa – casa 03)

Para tentar achar uma solução para a questão, Paula ainda fez algumas reuniões em sua
casa com moradores da vila, amigos profissionais liberais, militantes do Partido dos
Trabalhadores e representantes de um vereador. Porém, a única coisa que atualmente lhe
parece ser viável é entrar com um processo contra a prefeitura por permitir uma
construção que pela lei das APACs é ilegal.

101
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Deparei-me com o tema da preservação de moradias através dos jornais, em 2001,


quando a primeira Área de Proteção do Ambiente Cultural foi decretada no bairro do
Leblon, na cidade do Rio de Janeiro. A movimentação social que o processo gerou, bem
como a nítida disputa entre as políticas patrimoniais e urbanísticas que os casos de
preservação suscitaram, se mostraram aspectos bastante intrigantes do tema.

Quando comecei a entrevistar os envolvidos no debate, percebi que as concepções de


patrimônio, moradia e vizinhança por eles evocadas eram guiadas por diferentes
sensibilidades e interesses, e que eles também construíam distintas narrativas sobre suas
“identidades culturais” e “memórias locais”. O objetivo da pesquisa não se focou,
portanto, na produção de um julgamento sobre quem tinha as melhores intenções ou os
melhores argumentos sobre o assunto da preservação de moradias, mas na tentativa de
compreender quais lógicas discursivas sustentavam as diferentes narrativas.

Encaminhei então a pesquisa para o desvendamento dos primeiros passos dessa onda
preservacionista que atualmente invade não apenas a cidade do Rio de Janeiro, mas
outros tantos grandes centros urbanos brasileiros. Através do levantamento bibliográfico
sobre os processos de tombamento do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional, foi possível mapear as duas principais correntes de pensamento e atuação que
guiaram e guiam até hoje as políticas patrimoniais brasileiras: uma de cunho “histórica e
artística” e outra de cunho “cultural”. Ambas presentes desde o momento da criação do
SPHAN, ambas calcadas discursivamente em uma retórica baseada na idéia da perda de
uma “identidade” e “memória”, embora nem sempre coincidentes na escolha dos alvos
de preservação.

Analisando o processo precursor de preservação de moradias “ordinárias” - o


tombamento da Avenida Modêlo pelo SPHAN - dois fatores me pareceram
especialmente relevantes: que entre os próprios especialistas do SPHAN não havia uma
concepção consensual sobre a representação da nação através de seu patrimônio; e que
a valorização dos chamados “patrimônios culturais” abria espaço para a atuação de

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novos especialistas, no caso os cientistas sociais, e conferia maior importância à opinião
do que se denominou de “representantes das comunidades”.

No mesmo período em que se discutia o “valor cultural” de moradias como a Avenida


Modêlo, surgiu na cidade do Rio de Janeiro uma proposta ampla de preservação de
moradias, o Corredor Cultural do Centro, que se desdobrou no desenvolvimento de um
projeto que interferia diretamente no crescimento urbano da cidade, o SAGAS, base
conceitual da criação das posteriores APACs.

A percepção de novos “universos culturais” pelos especialistas do patrimônio em


conjunto com a participação das “comunidades” na discussão das medidas de
preservação de sua “vizinhança” se mostraram uma combinação politicamente
impactante que se propunha a desestabilizar o gerenciamento do espaço urbano. Se até
o momento os administradores públicos ligados às políticas urbanísticas da prefeitura e
os representantes do mercado imobiliário eram os principais segmentos que disputavam
e dialogavam sobre a ocupação e utilização desse espaço, após a valorização da noção
de “patrimônio cultural” os moradores das localidades se transformaram em importantes
vozes no debate, se posicionando tanto favoráveis como contrários às medidas que
estavam sendo implementadas com a intenção de representar suas “identidades
culturais”.

As declarações enunciadas tanto pelos moradores solicitantes das recentes APACs como
pelos por elas atingidos completa o quadro de análise e aponta para a descentralização
política da questão da preservação de moradias e também para o crescimento
exponencial das divergências em torno do tema. Centrados discursivamente na
valorização de uma determinada “vizinhança”, ambos os tipos de morador da cidade
clamam pela manutenção dos aspectos sociais e morais de suas moradias, relacionando-
as aos laços de amizade, à convivência cotidiana e a um bem-estar fisiológico - embora
essas características possam aparecer associadas a uma “modernização urbana”, no caso
do discurso dos atingidos, ou a uma “preservação urbana”, no caso dos discursos dos
solicitantes.

A questão da representação das identidades culturais se tornou, assim, uma questão


eminentemente política e territorial, que envolve não apenas a disputa pela classificação

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dos objetos símbolos dessa “identidade”, como também a classificação dos espaços e
dos habitantes da cidade. A exclusão de bairros pouco valorizados economicamente no
processo de preservação, a tentativa de se manter uma determinada vizinhança de bairro
e a valorização de casas e prédios construídos segundo os estilos arquitetônicos
acadêmicos são apenas alguns dos indícios de que os interesses enunciados pelos que
participam da questão das APACs perpassam suas concepções sobre patrimônio: através
das APACs, valores morais, estéticos, legais, jurídicos, fisiológicos e econômicos são
constantemente atualizados pelos diferentes segmentos sociais que participam, mesmo
que de forma localizada, na guerra de representações e poderes sobre os lugares e
objetos de desejo da cidade.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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105
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souvenir, the collection. Baltimore, The John Hopkins University Press, 1984.

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ANEXO
Tabela das Áreas de Proteção do Ambiente Cultural21

APAC LEGISLAÇÃO Nº DE IMÓVEIS

1 - Corredor Cultural do Centro Lei de 1984 3000


2 - Santa Tereza Lei de 1984 e Decreto de 1985 2500
3 - Rua Alfredo Chaves - Humaitá Decreto de 1984 e Lei de 1985 20
4 - SAGAS (Saúde, Gamboa, Santo Cristo e Lei de 1987 e Decretos de 1988/ 1183
Centro) 1995/ 200
5 – Urca Decreto de 1988 e 1998 257
6 - Bairro Peixoto Lei de 1989 e Decreto de 1990 97
7 - Entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas Decretos de 1990 e 2000 Espelho d‟água
(tombamento)
8 - Cidade Nova e Catumbi Decretos de 1991/ 1993 e 1994 694
9 - Cosme Velho e Laranjeiras Lei de 1991 112
10 - São José Lei de 1991 Espaço urbano
11 - Cruz Vermelha Decretos de 1992/ 1994/ 1995/ 850
1996/ 1997/ 1999
12 – Lido Decretos de 1992/ 1996/ 1998 84
13 - Companhia de Fiação e Tecidos Decreto de 1992 e Lei de 1993 Conjunto
Confiança (Boulevard) – Vila Isabel (tombamento) arquitetônico
14 - Santa Cruz Decretos de 1993/ 1999 96
15 - São Cristovão, Mangueira e Benfica Lei Complementar de 1993 320
16 - Complexo Industrial da Brahma - Tijuca Decreto de 1994 Conjunto
arquitetônico
17 - Colégio Militar - Tijuca Decreto de 1994 101
18 - Casas Casadas - Laranjeiras Decreto de 1994 74
19 - Entorno do Hipódromo da Gávea Decreto de 1996 28
20 - Rua Teófilo Otoni Decreto de 1997 84
21 - Entorno da Casa - Sede da Fazenda na Decreto de 1997 Conjunto
Serra do Barata arquitetônico
22 - Rua Ribeiro de Almeida Decreto de 1998 09

21
Há um certo desencontro na divulgação dos números de imóveis preservados e de áreas que são
contempladas com uma APAC. Esta tabela é uma aproximação entre os diferentes dados da prefeitura e
dos jornais O Globo e Jornal do Brasil. Tal variação provavelmente ocorre por causa da constante revisão
dos decretos, seja para incluir ou para excluir bens e ruas, e também pela classificação dos bens
pertencentes a uma APAC ser bastante abrangente, incluindo desde grandes áreas preservadas até
tombamentos e entornos espacialmente mais restritos.

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23 - Largo do Estácio Decreto de 2000 21
24 - Ilha de Paquetá Decreto de 1999 427
25 - Arcos da Lapa Decreto de 2001
26 – Leblon Decreto de 2001 218
27 – Laranjeiras Decreto de 2001 464
28 - Jardim Botânico Decreto de 2001 252
29 – Botafogo Decreto de 2002 559
30 – Ipanema Decreto de 2003

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