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DADOS DE COPYRIG HT

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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."
© Corm ac McCarthy 1985
Todos os direitos desta edição reservados à
Editora Obj etiva Ltda.
Rua Cosm e Velho, 103
Rio de Janeiro — RJ — Cep: 22241-090
Tel.: (21) 2199-7824 — Fax: (21) 2199-7825
www.obj etiva.com .br
Título original
Blood Meridian; or the Evening Redness in the West
Capa
Rodrigo Rodrigues
Im agem de capa
Ilj a Masik / Shutterstock
Revisão
Diogo Henriques
Tam ara Sender
Lilia Zanetti

Editoração eletrônica
Abreu’s Sy stem Ltda.

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.
M115m
McCarthy, Corm ac, 1933-
Meridiano de sangue ou O rubor crepuscular no Oeste / Corm ac McCarthy ; tradução de Cássio de Arantes Leite. — Rio de Janeiro : Obj etiva, 2009.
Tradução de: Blood Meridian; or the Evening Redness in the West
ISBN 978-85-60281-93-0
1. Ficção am ericana. I. Leite, Cássio de Arantes II. Título. III. Título: O rubor crepuscular no Oeste

09-3407. CDD: 813


CDU: 821.111 (73)-3
O autor agradece à Lyndhurst Foundation, à John Simon Guggenheim Memorial Foundation e à John D. and Catherine MacArthur Foundation. E também gostaria de expressar sua gratidão a Albert Erskine, seu editor

por vinte anos.


Pois suas ideias são terríveis e seus corações são fracos. Seus atos de piedade e de crueldade são absurdos,
sem calma, como que irresistíveis. Enfim, vocês temem o sangue cada vez mais. Vocês temem o sangue e o
tempo.
PAUL
VALÉRY

Não se deve pensar que a vida da escuridão está mergulhada no sofrimento e perdida como que no pesar. Não
existe pesar. Pois o pesar é algo que é tragado pela morte, e a morte e o momento em que se morre são a
própria vida da escuridão.
JACOB
BOEHME

Clark, que chefiou a expedição do ano passado à região de Afar, no norte da Etiópia, e seu colega da
Universidade da Califórnia em Berkeley, Tim D. White, também afirmaram que um reexame do crânio fóssil
de 300 mil anos de idade encontrado anteriormente nessa mesma região exibe sinais de ter sido escalpelado.
The Yuma Daily Sun, 13 de j unho de 1982
I

INFÂNCIA NO TENNESSEE — PARTIDA — NEW ORLEANS — BRIGAS — BALEADO — PARA


GALVESTON — NACOGDOCHES — REVERENDO GREEN — JUIZ HOLDEN — UM CONFRONTO
— TOADVINE — O INCÊNDIO DO HOTEL — FUGA.

Vej am a criança. O m enino é pálido e m agro, usa um a cam isa de linho puída e esfarrapada. Atiça o fogo na
copa. Lá fora estão os escuros cam pos arados entrem eados de fiapos de neve e além deles as florestas ainda m ais
escuras que abrigam uns poucos lobos rem anescentes. Sua fam ília é tida por cortadores de lenha e carregadores de
água m as seu pai na verdade sem pre foi um m estre-escola. Ele se afoga na bebida, cita poetas cuj os nom es hoj
e estão esquecidos. O m enino se agacha j unto ao fogo e o observa.
A noite em que você nasceu. Trinta e três. Os Leonídeos, era com o cham avam . Deus, com o choviam estrelas.
Busquei o negrum e, buracos no firm am ento. A Ursa despedaçada.
A m ãe m orta há catorze anos nutriu no próprio seio a criatura que a levaria deste m undo. O pai nunca m enciona seu
nom e, a criança não o sabe. Ele tem um a irm ã que nunca verá novam ente. Ele observa, pálido e suj o.
Não sabe ler nem escrever e em seu íntim o j á incuba o gosto pela violência im pensada. Toda a história presente nesse
sem blante, a criança o pai do hom em .
Aos catorze anos foge. Não voltará a ver a cozinha gelada na escuridão que precede a aurora. A lenha, as tinas.
Peram bula para oeste até Mem phis, m igrante solitário na paisagem plana e pastoral. Pretos nos cam pos, m
agros e curvados, dedos com o aranhas em m eio aos casulos de algodão. Um a ensom brecida agonia no horto.
Contra o declínio do sol silhuetas se m ovem ao crepúsculo letárgico através de um horizonte de papel. Um
lavrador escuro e solitário atrás de m ula e grade pelo aluvião encharcado de chuva rum o à noite.
Um ano depois está em Saint Louis. É levado a New Orleans a bordo de um a chata. Quarenta e dois dias no rio.
À noite os vapores uivam m orosos pelas águas negras, ilum inados com o cidades à deriva. Eles desm ontam a
barcaça e vendem a m adeira e ele cam inha pelas ruas e ouve línguas que nunca ouvira antes. Mora em um quarto
acim a do pátio nos fundos de um a taverna e desce à noite com o algum a fera de contos de fada para brigar com
os m arinheiros. Não é grande, m as tem pulsos grandes, m ãos grandes. Os om bros são estreitos. O rosto da criança
perm anece curiosam ente intocado por trás das cicatrizes, os olhos singularm ente inocentes. Lutam com punhos,
com pés, com garrafas ou facas. Todas as raças, todos os tipos. Hom ens cuj a fala soa com o o grunhido de grandes
m acacos. Hom ens de terras tão distantes e exóticas que parado ali vendo-os sangrar na lam a ele sente que a
própria hum anidade foi vingada.
Certa noite um contram estre m altês dá um tiro em suas costas com um a pequena pistola. Girando para
confrontar o hom em é baleado de novo pouco abaixo do coração. O hom em foge e ele se apoia no balcão com o
sangue correndo por sua cam isa. Os outros desviam o olhar. Após um instante ele senta no chão.
Jaz em um catre no quarto de cim a por duas sem anas aos cuidados da m ulher do taverneiro. Ela traz suas refeições,
leva em bora seus dej etos. Um a m ulher de ar austero com um corpo fibroso com o o de um hom em .
Quando está recuperado não tem dinheiro para pagá-la e parte à noite e dorm e na beira do rio até encontrar um barco que
o leve dali. O barco está de saída para o Texas.
Só agora a criança se despe enfim de tudo que foi. Suas origens tornam -se rem otas com o seu destino e nunca m
ais outra vez por m ais voltas que o m undo dê haverá plagas tão selvagens e bárbaras a ponto de pôr à prova se a
m atéria da criação pode ser m oldada à vontade do hom em ou se o seu próprio coração não é um a argila de outro
tipo. Os passageiros são um bando desconfiado. Enclausuram o olhar em cautela e um não pergunta ao outro o
que o traz ali. Ele dorm e no convés, um peregrino entre outros. Observa o litoral escuro que sobe e desce.
Cinzentas aves m arinhas de ar apalerm ado. Voos de pelicanos ao longo da costa acim a das vagas cinzentas.
Desem barcam a bordo de um a barca, colonos e suas posses, todos exam inando o baixo contorno do litoral, a fina
angra de areia e pinheiros flutuando na neblina.
Cam inha pelas ruas estreitas do porto. O ar cheira a sal e serragem fresca. À noite prostitutas o cham am da
escuridão com o alm as carentes. Um a sem ana depois está de partida outra vez, na bolsa o punhado de dólares
que ganhou, cam inha sozinho pelas estradas arenosas da noite sulista, os punhos cerrados nos bolsos de algodão
do casaco vagabundo. Estradas de terra elevadas no pântano. Bandos de garças brancas com o velas por entre o m
usgo. O vento é cortante e folhas trotam à beira do cam inho e desabalam pelos cam pos noturnos. Ele segue o rum
o norte através de pequenos povoados e fazendas, trabalhando em troca de pagas diárias e cam a e com ida. Vê
um parricida sendo enforcado em um a aldeia na encruzilhada e os am igos do hom em correm e puxam suas pernas
e ele pende m orto da corda enquanto a urina escurece sua calça.
Trabalha em um a serraria, trabalha em um a casa para pacientes de difteria. Aceita com o pagam ento de um
fazendeiro um a m ula velha e no dorso desse anim al na prim avera do ano de m il oitocentos e quarenta e nove
atravessa a atual república de Fredonia e entra no vilarej o de Nacogdoches.

O reverendo Green vinha se apresentando diante de um a casa lotada diariam ente desde que a chuva com eçara a
cair e a chuva vinha caindo fazia duas sem anas. Quando o kid se enfiou dentro da tenda de lona esfarrapada
havia espaço para ficar de pé j unto às paredes, um lugar ou dois, e de tal form a tresandavam os corpos m olhados
e sem banho que estes saíam de súbito para o aguaceiro vez e outra em busca de ar fresco antes que a chuva os
obrigasse a entrar novam ente. Perm aneceu com outros com o ele na parede do fundo. A única coisa que poderia
tê-lo diferenciado em m eio àquela m ultidão era o fato de que não estava arm ado.
Am igos, disse o reverendo, ele não conseguia ficar de fora desses antros do inferno, antros do inferno bem aqui em
Nacogdoches. Eu disse a ele, disse: Vai levar o filho de Deus ali dentro com você? E ele disse: Oh, não.
Não, não vou. E eu disse: Não sabe que ele disse eu vou seguir você por todo o sem pre até o fim da j ornada?
Bem , ele disse, não pedi a ninguém pra ir aonde quer que sej a. E eu disse: Am igo, não precisa pedir. Ele vai acom
panhar você em cada passo do cam inho, querendo ou não. Eu disse: Am igo, não pode se livrar dele. Ora.
Vai arrastá-lo a ele, a ele, àquele antro do inferno ali?
Já viu um lugar onde chove desse j eito?
O kid observava o reverendo. Virou para o hom em que falava. Usava longos bigodes à m oda dos tropeiros e
portava um chapéu de abas largas com um a copa baixa e redonda. Era levem ente estrábico e observava o kid
gravem ente, com o que ansioso por saber sua opinião sobre a chuva.
Acabei de
chegar, disse o
kid. Bom ,
nunca vi nada
igual.
O kid concordou com a cabeça. Um suj eito enorm e vestindo um im perm eável de oleado entrara na tenda e rem
overa o chapéu. Era calvo com o um a rocha e não tinha traço de barba e nenhum a sobrancelha acim a dos olhos,
tam pouco cílios. Ultrapassava os dois m etros e dez de altura e continuou fum ando seu charuto até m esm o ali
naquela casa nôm ade de Deus e ao que parecia rem overa o chapéu apenas para sacudir a chuva e agora o enfiava
novam ente.
O reverendo interrom pera por com pleto o serm ão. Não se ouvia um som dentro da tenda. Todos fitavam o hom
em . Ele aj eitou o chapéu e então abriu cam inho até o púlpito de engradado onde ficava o reverendo e ali fez m
eia-volta para se dirigir à congregação do reverendo. Seu rosto era sereno e estranham ente infantil. Tinha m ãos
pequenas. Estendeu-as.
Senhoras e senhores, sinto que é m eu dever inform á-los que o hom em que conduz este culto é um im postor.
Não possui quaisquer docum entos de ciência teológica de nenhum a instituição reconhecida ou im provisada.
Carece inteiram ente da m ínim a capacitação ao ofício que usurpou e lim itou-se a m em orizar um as poucas
passagens do bom livro com o propósito de em prestar a seus serm ões fraudulentos algum débil sabor da devoção
que despreza. Na verdade, o cavalheiro nesse instante diante de vocês fazendo-se passar por m inistro do Senhor é
não só totalm ente analfabeto com o tam bém procurado pela lei nos estados do Tennessee, Kentucky, Mississippi e
Arkansas.
Ai, Deus, clam ou o reverendo. Mentiras, m entiras! Com eçou a ler febrilm ente de sua bíblia aberta.
Por um a variedade de acusações a m ais recente das quais envolveu um a m enina de onze anos — onze, repito —
que dele se aproxim ou em confiança e à qual o surpreenderam no ato de violar enquanto ainda traj ado nas vestes de
seu Deus.
Um gem ido percorreu a m ultidão. Um a senhora caiu de j oelhos.
Este é ele, gem eu o reverendo, choram ingando. Este é ele. O diabo. Aqui está ele.
Vam os enforcar esse m erda, exclam ou um bruto repulsivo no m eio do grupo, virando para os fundos.
Nem três sem anas atrás fugiu correndo de Fort Sm ith Arkansas por m anter intercurso com um a cabra. Isso m esm o,
senhoras, foi o que eu disse. Um a cabra.
Quero ser um m aldito de um cego se não vou atirar nesse filho da puta, disse um suj eito erguendo-se em um canto
distante da tenda, e puxando um a pistola de sua bota fez m ira e disparou.
O j ovem tropeiro na m esm a hora sacou um a faca de sua roupa, rasgou a tenda e evadiu-se sob a chuva. O kid
o seguiu. Curvados, correram através da lam a na direção do hotel. O tiroteio j á era geral dentro da tenda e um a
dezena de passagens haviam sido abertas na lona e a m ultidão saía, as m ulheres gritando, gente atropelada, gente
pisoteada na lam a. O kid e seu parceiro chegaram à varanda do hotel e lim param a água de seus olhos e viraram
para olhar. Ao fazê-lo, a tenda com eçou a balançar e a vergar e com o um a gigantesca m edusa ferida vagarosam
ente tom bou arrastando ao chão as paredes de lona rotas e os cabos puídos.
O calvo j á estava no balcão quando entraram . Na m adeira lustrosa diante dele havia dois chapéus e um punhado
duplo de m oedas. Ele ergueu o copo m as não para eles. Ficaram de pé j unto ao balcão e pediram uísque e o kid
tirou seu dinheiro m as o barm an em purrou de volta com o polegar e abanou a cabeça.
Esta é por conta do j uiz, disse.
Beberam . O tropeiro baixou o copo e fitou o kid, ou pareceu fazê-lo, não dava para ter certeza sobre a direção de
seu olhar. O kid olhou para a ponta do balcão, onde estava o j uiz. O balcão era tão alto que não era qualquer hom
em que conseguia apoiar os cotovelos no tam po, m as batia apenas na altura da cintura do j uiz e este perm anecia
com a palm a das m ãos apoiada na m adeira, ligeiram ente curvado, com o que prestes a dar um a nova declaração.
Agora entravam hom ens em profusão pela porta, sangrando, cobertos de lam a, praguej ando. Reuniram -se em
torno do j uiz. Um destacam ento era m ontado para ir atrás do pregador.
Juiz, com o sabia dos
podres daquele vagabundo?
Podres? disse o j uiz.
Quando esteve
em Fort Sm
ith? Fort Sm
ith?
De onde conhecia o hom em
pra saber tudo aquilo sobre
ele? Quer dizer o reverendo
Green?
Isso m esm o. Im agino que o senhor
estava em Fort Sm ith antes de vir pra cá.
Nunca estive em Fort Sm ith em toda m
inha vida. Duvido que ele tenha estado.
Olharam uns para os outros.
Então onde foi que cruzou com ele?
Nunca pus os olhos no suj eito até
hoj e. Nem sequer ouvi falar dele.
Ergueu o copo e bebeu.
Um silêncio estranho pairou no am biente. Os hom ens pareciam efígies de barro. Então alguém enfim com eçou a rir.
Depois outro. Fogo todos riam j untos. Pagaram um a bebida para o j uiz.

Estava chovendo havia dezesseis dias quando conheceu Toadvine e ainda chovia. Ele continuava no m esm o saloon
e bebera todo seu dinheiro, salvo dois dólares. O tropeiro partira, praticam ente ninguém no lugar. A porta aberta
perm itia ver a chuva caindo no terreno vazio atrás do hotel. Esvaziou seu copo e saiu. Havia tábuas colocadas
através da lam a e ele se guiou pela faixa de luz pálida vinda da porta na direção das latrinas de m adeira no fundo
do terreno. Outro hom em voltava das latrinas e encontraram -se no m eio do cam inho de tábuas estreitas. O suj eito
diante dele cam baleava ligeiram ente. A aba úm ida do chapéu caía em seus om bros, exceto na testa, onde estava
puxada para trás. Segurava frouxam ente um a garrafa. Melhor sair do cam inho, disse.
O kid não ia fazer isso e achou que não valia a pena discutir. Chutou o hom em no m axilar. O hom em caiu e voltou a
ficar de pé. Disse: Vou te m atar.
Golpeou com a garrafa e o kid abaixou e golpeou outra vez e o kid deu um passo para trás. Quando o kid o
atingiu o hom em quebrou a garrafa na lateral de sua cabeça. Saiu das tábuas para a lam a e o hom em se lançou
atrás dele com o gargalo denteado e tentou enfiá-lo em seu olho. O kid o rechaçava com as m ãos e os dois estavam
grudentos de sangue. Ele tentava alcançar a faca em sua bota.
Vou acabar com a sua raça, disse o hom em . Pelej aram na escuridão do terreno, perdendo as botas. O kid estava
com sua faca agora e circulavam com o dois caranguej os e quando o hom em investiu ele abriu um rasgo em sua
cam isa. O hom em j ogou fora a garrafa e puxou um a enorm e faca bowie de trás da cabeça. Seu chapéu caíra e
seus cachos negros e viscosos pendiam -lhe em torno e ele sistem atizara suas am eaças a um a única palavra m atar
com o um m antra m aníaco.
Aquele ali vai virar picadinho, disse um dos
vários suj eitos parados nas tábuas assistindo.
Tem atar tem atar espum ava o hom em forcej
ando para a frente.
Mas algum outro veio pelo terreno, sons firm es e sonoros de sucção com o um a vaca. Ele brandia um shellalegh
im enso. Alcançou prim eiro o kid e quando vibrou sua clava o kid caiu de cara na lam a. Teria m orrido se alguém
não o virasse.
Quando acordou era dia e a chuva cessara e viu-se erguendo o olhar para o rosto de um hom em
de cabelos longos com pletam ente coberto de lam a. O hom em dizia algum a coisa para ele. O
quê? disse o kid.
Eu disse estam
os quites?
Quites?
Quites. Porque se quer m ais algum a coisa de m im j uro pelo dem ônio que vai ter.
Ele olhou para o céu. Muito alto, m uito pequeno, um
abutre. Olhou para o hom em . Meu pescoço está quebrado?
disse. O hom em ergueu o olhar para o terreno e cuspiu e
tornou a encarar o rapaz. Consegue levantar?
Sei lá. Não tentei.
Não queria
quebrar seu
pescoço. Não.
Queria te m atar.
Ninguém conseguiu ainda. Cravou as garras no barro e im pulsionou o corpo. O
hom em sentava nas tábuas com as botas do lado. Não tem nada quebrado aí, disse.
O kid observou o dia com um olhar duro. Onde estão m inhas botas? disse.
O hom em estreitou os olhos. Flocos
de lam a seca caíram do seu rosto.
Vou ter que m atar algum filho da
puta se pegaram m inhas botas.
Ali parece um a.
O kid atravessou o barro com esforço e apanhou um a bota. Andou
penosam ente pelo terreno apalpando m ontículos de lam a possíveis.
Essa é sua faca? disse.
O hom em estreitou os olhos. Parece que sim , disse.
O kid a j ogou em sua direção e ele se curvou e a apanhou e lim pou a im ensa lâm ina na perna da calça. Pensei que
alguém tinha te roubado, disse para a faca.
O kid encontrou a outra bota e se aproxim ou e sentou nas tábuas. Tinha as m ãos enorm es com a lam a e lim pou um a
delas rapidam ente no j oelho e deixou-a pender outra vez.
Ficaram sentados lado a lado observando o terreno barrento. Havia um a cerca de estacas nos lim ites do terreno
e além dela um m enino tirava água de um poço e havia galinhas ali. Um hom em veio pela porta da tasca e andou
pelas tábuas na direção da casinha. Parou onde estavam sentados e olhou para os dois e então desviou pisando na
lam a. Após algum tem po voltou e pisou na lam a outra vez contornando e depois subiu de novo nas tábuas.
O kid olhou para o outro. Sua cabeça era esquisitam ente estreita e seu cabelo estava em plastrado de lam a em
um penteado bizarro e prim itivo. Em sua testa haviam sido m arcadas a fogo as letras H T e m ais abaixo e quase
entre os olhos a letra F e os sinais eram largos e vivos com o se o ferro houvesse sido deixado por tem po dem ais.
Quando se virou para olhar o kid o kid viu que não tinha orelhas. Ficou de pé e em bainhou a faca e cam inhou
pelas tábuas com as botas na m ão e o kid se ergueu e o seguiu. A m eio cam inho do hotel o hom em parou e
olhou para o barro e então sentou nas tábuas e enfiou as botas com lam a e tudo. Depois ficou de pé e se m eteu
pelo terreno para apanhar algo.
Dá só um a olhada nisso, disse. A droga do m eu chapéu.
Não dava para dizer o que era, um negócio m orto. Ele o sacudiu e o enfiou na cabeça e foi em frente e o kid o seguiu.
A taverna era um recinto com prido e estreito com paredes revestidas de lam bris envernizados. Havia m esas j
unto à parede e escarradeiras no chão. Nada de clientes. O barm an ergueu os olhos quando entraram e um negro
que estava varrendo o chão encostou a vassoura na parede e saiu.
Cadê o Sidney ? disse o
hom em em seu traj e de
lam a. Na cam a, eu acho.
Foram em frente.
Toadvine,
cham ou o
barm an. O kid
olhou para trás.
O barm an saíra de trás do balcão e ia atrás deles. Cruzaram a porta através do saguão do hotel na direção da
escada deixando um a variedade de form as enlam eadas atrás de si pelo assoalho. Quando subiam a escada o
funcionário na recepção curvou-se e os cham ou.
Toadvine.
Ele parou e
olhou para
trás. Ele vai
atirar em
vocês.
O
Sidne
y?O
Sidne
y.
Continuaram a subir a escada.
Após o últim o lance ficava um longo corredor com um a j anela na ponta. Havia portas envernizadas nas paredes e tão
próxim as que poderiam ter sido arm ários. Toadvine seguiu adiante até chegar ao fim do corredor.
Ficou à escuta na últim a
porta e olhou para o kid.
Tem um fósforo?
O kid procurou nos bolsos e sacou um a caixinha am assada e cheia de m anchas.
O hom em a pegou. Preciso de um pouquinho de m echa aqui, disse. Estava esm agando a caixa e em pilhando os
pedaços contra a porta. Acendeu um fósforo e ateou fogo na pilha. Em purrou a pequena pilha de m adeira queim
ando por baixo da porta e acrescentou m ais fósforos.
Ele está aí dentro? disse o rapaz.
Isso é o que a gente vai dar um j eito de descobrir.
Um a espiral escura de fum aça subiu, um a cham a azulada de verniz queim ando. Agacharam -se no corredor e
assistiram . Fiapos de fogo com eçaram a subir pelas alm ofadas e as cham as foram cuspidas de volta. Os dois
observando pareciam form as escavadas de um pântano.
Bate na porta agora, disse Toadvine.
O kid ficou de pé. Toadvine se ergueu e esperou.
Ouviam as cham as estalando dentro do quarto. O kid
bateu. Melhor bater m ais forte que isso. O hom em
bebe um bocado.
Ele fechou o punho e esm
urrou a porta um as cinco
vezes. Que diabo, disse um a
voz.

vem .
Esper
aram
.
Seu grande filho dum a puta, disse a voz. Então a m açaneta girou e a porta abriu.
Vestia roupa de baixo e segurava na m ão a toalha usada para girar a m açaneta. Quando deu com os dois girou
nos calcanhares e com eçou a voltar por onde viera m as Toadvine agarrou-o pelo pescoço e com um a torção atirou-
o ao chão e segurando-o pelos cabelos com eçou a arrancar um olho da órbita usando o polegar. O hom em agarrou
seu pulso e m ordeu.
Chuta a boca dele, gritou Toadvine. Chuta.
O kid atravessou o quarto até passar pelos dois, girou e deu um chute no
rosto do hom em . Toadvine segurava sua cabeça para trás pelos cabelos.
Chuta, gritou. Vam os, chuta ele, veado.
Ele chutou.
Toadvine m exeu a cabeça ensanguentada e olhou para ela e deixou que caísse no assoalho e ficou de pé e foi sua
vez de chutar o hom em . Dois suj eitos observavam do corredor. A porta ardia inteira, bem com o parte da parede e
do teto. Saíram e seguiram pelo corredor. O recepcionista vinha subindo a escada de dois em dois degraus.
Toadvine seu filho da puta, disse.
Toadvine estava quatro degraus acim a dele e quando o chutou atingiu sua garganta. O recepcionista sentou na
escada. Quando o kid passou por ele acertou-o na lateral da cabeça e o recepcionista desabou e com eçou a
deslizar na direção do patam ar. O kid pulou por cim a dele e desceu ao saguão e atravessou a porta da frente e saiu.
Toadvine corria pela rua gesticulando com os punhos acim a da cabeça e rindo com o louco. Parecia um
grande boneco de vodu que ganhara vida e o kid parecia outro. Atrás deles as labaredas queim avam um dos
cantos no topo do hotel e nuvens de fum aça escura ascendiam na quente m anhã texana.
Ele deixara a m ula com um a fam ília de m exicanos que cuidava de anim ais na periferia da
cidade e chegou ali com olhar esgazeado e sem fôlego. A m ulher abriu a porta e olhou para ele.
Vim pegar m inha m ula, ofegou.
Ela ficou olhando para o hom em por um instante, depois gritou na direção dos fundos. Ele contornou a casa.
Alguns cavalos estavam am arrados no terreno e havia um a carroça chata encostada na cerca com uns perus
em poleirados fitando o vazio. A velha senhora chegara à porta dos fundos. Nito, gritou. Hay un caballero aquí.
Venga.
Ele atravessou o barracão até a sala dos arreios e pegou sua sela arruinada e seu rolo de coberta e os trouxe
consigo. Encontrou a m ula e a desam arrou e aparelhou-a com o cabresto de couro cru e a levou até a cerca.
Apoiou-se com o om bro no anim al e j ogou a sela por cim a e o encilhou, a m ula j ogando e refugando e batendo a
cabeça na cerca. Levou-a através do terreno. A m ula continuava sacudindo a cabeça com o se houvesse algum a
coisa em suas orelhas.
Levou-a até a estrada. Ao passar pela casa a m ulher veio cam inhando em sua direção. Quando viu que
enfiava o pé no estribo com eçou a correr. Ele se aprum ou na sela escangalhada e incitou a m ula adiante. Ela
parou no portão e observou-o partir. Ele não olhou para trás.
Quando passou de novo pela cidade o hotel estava em cham as e os hom ens assistiam sentados ao incêndio, uns
segurando baldes vazios. Alguns hom ens assistiam ao fogo no dorso de cavalos e um desses era o j uiz. Quando o
kid passou o j uiz virou e o viu. Ele girou o cavalo, com o se quisesse que o anim al tam bém o visse. Quando o kid
olhou para trás o j uiz sorriu. O kid espicaçou a m ula e seguiram afundando no barro e passando pelo velho forte
de pedra j unto à estrada para oeste.
II

ATRAVÉS DA PRADARIA — UM EREMITA — O CORAÇÃO DE UM NEGRO — UMA NOITE


TEMPESTUOSA — RUMO OESTE OUTRA VEZ — VAQUEIROS — A BONDADE DELES — EM
MARCHA OUTRA VEZ — A CARROÇA DOS MORTOS — SAN ANTONIO DE BEXAR — UMA
CANTINA MEXICANA — OUTRA BRIGA — A IGREJA ABANDONADA — OS MORTOS NA
SACRISTIA — NO VAU — BANHO NO RIO.

Agora são chegados os dias de m endicância, dias de roubo. Dias de cavalgar aonde nenhum a outra alm a se
aventurou senão ele. Deixou para trás a terra dos pinheirais e o sol crepuscular desce perante seus olhos além de um
a baixada sem -fim e a escuridão cai por aqui com o um estrondo de trovão e um vento gelado faz o m ato bater os
dentes. O céu noturno espraia-se tão coberto de estrelas que m al há espaços negros e elas caem à noite em arcos
m elancólicos e são em tal quantidade que seu núm ero não dim inui.
Ele evita a estrada real por m edo de cruzar com pessoas. Os pequenos coiotes uivam a noite toda e a aurora vem
a seu encontro em um a depressão relvada que usou para se proteger do vento. A m ula m anca assom a a seu lado
e fita o leste por causa da luz.
O sol que nasce é da cor do aço. Sua som bra m ontada estende-se por quilôm etros diante dele. Usa na cabeça
um chapéu feito de folhas e elas secaram e racharam com o sol e seu aspecto é o de um espantalho fugido de
algum a plantação onde costum ava afugentar os pássaros.
Ao fim do dia avista um a espiral de fum aça ascendendo oblíqua entre as colinas baixas e antes que a noite
chegue está cham ando à porta de um velho anacoreta abrigado na terra com o um m egatério. Solitário, m eio
louco, os olhos orlados de verm elho com o que enclausurados em suas gaiolas com aram e em brasa. Mas de
constituição considerável apesar de tudo. Observou m udo o kid apear rigidam ente da m ula. Um vento indócil
soprava e seus trapos esvoaçaram .
Vi a fum aça, disse o kid. Achei que talvez pudesse arranj ar um gole d’água para um hom em .
O velho erem ita coçou o cabelo im undo e fitou o chão. Virou e entrou em sua m orada e o kid o seguiu.
Lá dentro escuridão e o cheiro do subterrâneo. Um pequeno fogo ardia no piso de terra batida e a única m obília
era um a pilha de peles em um canto. O velho se m oveu na penum bra, a cabeça curvada para evitar o teto baixo
de raízes retorcidas e barro. Apontou para um balde no chão. O kid abaixou e apanhou a cabaça que ali boiava e a
m ergulhou e bebeu. A água era salgada, sulfurosa. Bebeu m ais.
Posso levar água pra m inha m ula velha ali fora?
O velho com eçou a socar a palm a da m
ão e a lançar olhares furiosos em torno.
Posso m uito bem buscar água fresca. Só
m e diz onde.
Com o pensa em dar água pra ela?
O kid olhou para o balde e
olhou em torno da caverna
escura. Não vou beber depois
de nenhum a m ula, disse o
erem ita.
Não tem aí nenhum balde velho ou qualquer coisa?
Não, exclam ou o erem ita. Não. Não tenho. Com os punhos
fechados, batia com am bas as m unhecas contra seu peito.
O kid ficou de pé e olhou na direção da porta. Vou procurar
um pouco, disse. Pra que lado é o poço?
Subindo a colina,
só seguir a trilha.
Está m uito
escuro pra ver lá
fora.
A trilha é funda. Segue seu passo. Segue sua m ula. Eu não vou.
Ele saiu sob o vento e procurou a m ula m as a m ula não estava lá. Ao longe para o sul relâm pagos brilhavam sem
som . Subiu a trilha entre o açoite das m oitas e encontrou a m ula j unto ao poço.
Um buraco na areia com pedras em pilhadas em torno. Um pedaço de couro seco com o tam pa e um a pedra
fazendo peso. Havia um balde de couro cru com um a concha de couro cru e um a corda ensebada de couro
curtido. O balde tinha um a pedra am arrada à concha para aj udar a afundar e encher e ele o baixou até a corda em
sua m ão afrouxar com a m ula observando-o por sobre o om bro.
Puxou três baldes cheios e segurou-os para que a m ula não os entornasse e depois pôs
a tam pa de volta no poço e conduziu a m ula de volta pela trilha até a habitação.
Agradeço pela água, disse, da entrada.
O erem ita apareceu envolto em
trevas. Pode ficar aqui com igo,
disse. Tudo bem .
Melhor ficar. Vem
um a tem pestade.
Acha m esm o?
Acho e
acho
certo.
Bom .
Traz sua cam a. Traz suas coisas.
Ele desencilhou a m ula e baixou a sela ao chão e prendeu um a das patas dianteiras à traseira e entrou com
seu rolo de cobertor. Não havia luz exceto o fogo e o velho ali sentava de pernas cruzadas com o um alfaiate.
À vontade, à vontade, disse. Onde pôs a sela?
O kid apontou com o queixo.
Não deixe ali fora que algum bicho pode
com er. É tudo fam into por essas bandas.
Ao sair topou com a m ula no escuro. O
anim al tentava olhar o fogo.
Sai daí, sua idiota, disse. Apanhou a sela e voltou a entrar.
Agora fecha a porta antes que o vento leve a gente em bora, disse o velho.
A porta eram um as tábuas presas por dobradiças de couro curtido.
Ele a arrastou pelo chão e a prendeu com o trinco de couro curtido.
Parece que você é um desses desencam inhados, disse o erem ita.
Nada disso, sem pre andei no cam inho certo.
Fez um gesto rápido com a m ão, o velho. Não, não, disse. Quero dizer, você se perdeu e veio parar
aqui. Foi um a tem pestade de areia? Afastou-se da estrada no m eio da noite? Foi roubado por ladrões?
O kid pensou a respeito. É, disse. A gente m ais ou m enos se extraviou da estrada.
Sabia que sim .
Há quanto
tem po vive
aqui? Aqui?
O kid sentava sobre o cobertor enrolado diante do velho do outro lado do fogo. Aqui, disse. Neste lugar.
O velho não respondeu. Virou a cabeça subitam ente de lado e apertou o nariz entre o polegar e o indicador e
soprou dois fios de ranho no chão e lim pou os dedos na costura do j eans. Venho do Mississippi. Mexia com
escravos, não ligo de contar. Fazia um bom dinheiro. Nunca m e pegaram . Mas cansei daquilo. Cansei dos negros.
Espera, vou m ostrar um negócio.
Virou e rem exeu entre as peles e estendeu sobre as cham as um a pequena coisa escura. O kid a virou em sua m
ão. Um coração de hom em , seco e enegrecido. Devolveu-o e o velho o segurou na palm a da m ão com o que
sentindo o peso.
Tem quatro coisas que podem destruir o m undo, disse. Mulher, uísque, dinheiro e negros.
Ficaram em silêncio. O vento uivava no pedaço de cham iné enfiado através do teto
para expelir a fum aça. Depois de uns instantes o velho deixou o coração de lado.
Esse negócio m e custou duzentos dólares, disse.
Deu duzentos dólares nisso aí?
Dei, pois esse era o preço que puseram no preto filho da puta onde isso ficava dentro.
Buscou no canto e apanhou um velho tacho escurecido de latão, ergueu a tam pa e rem exeu ali dentro com o
dedo. Eram os restos de lebres m agras da pradaria enterrados na gordura fria e cobertos por um bolor azulado
felpudo. Voltou a tam par a panela e a pôs sobre o fogo. Não é m uito m as a gente divide, disse.
Agradeço.
Perdeu seu cam inho no escuro, disse o velho. Cutucou o
fogo, erguendo pequenas lascas de osso no m eio das
cinzas. O kid não respondeu.
O velho balançou a cabeça para trás e para a frente. É duro o cam inho do
transgressor. Deus fez este m undo, m as não o fez bom para todos, não é?
Não parece que pensava m uito em m im .
Sei, disse o velho. Mas onde chega o hom em com suas
ideias. Que m undo j á viu de que gostasse m ais?
Posso im aginar m uito lugar m elhor e m uita vida m
elhor.
Consegue
fazer
existir? Não.
Não. Um m istério. Um hom em sofre pra entender sua m ente porque sua m ente é tudo que ele tem pra
entender a m ente. Pode entender o coração, m as isso não quer fazer. E é o certo. Melhor nem olhar ali dentro. Não
é o coração de um a criatura que pende pro cam inho que Deus traçou pra ela. A baixeza é encontrada na m enor
das criaturas, m as quando Deus criou o hom em o diabo estava bem ali do lado. Um a criatura capaz de fazer
qualquer coisa. Fazer um a m áquina. E um a m áquina pra fazer um a m áquina. E m al que pode se perpetuar
sozinho por m il anos, sem ninguém pra cuidar dele. Acredita nisso?
Não sei.
Pode acreditar.
Quando o grude do hom em esquentou ele o repartiu e com eram em silêncio. A trovoada se m ovia no rum o
norte e não dem orou m uito para os estrondos estourarem acim a de suas cabeças e pedaços de ferrugem com
eçarem a pingar pela cham iné. Eles se curvaram sobre os pratos e rasparam a gordura com os dedos e beberam da
cabaça.
O kid saiu e areou sua caneca e seu prato e voltou batendo lata com lata com o que para espantar algum
fantasm a oculto na ravina seca sob a escuridão. Massas de nuvens tem pestuosas recuavam na distância
estrem ecendo contra o céu eletrificado e eram novam ente sugadas pelo negror. O velho escutava com um ouvido
atento aos uivos da terra desolada lá fora. O kid fechou a porta.
Não teria algum tabaco
aí com você, hein?
Não tenho, disse o kid.
Não achei
que tivesse.
Acha que
vai chover?
É bem provável. Com o tam bém pode ser que não.
O kid fitava o fogo. Já com eçava a cochilar. Por fim se ergueu e abanou a cabeça. O erem ita o observava por sobre as
cham as fracas. Vai lá e arrum a sua cam a, disse.
Ele foi. Abrindo seus cobertores sobre a terra batida e arrancando as botas m alcheirosas. O tubo da cham iné
gem ia e ele ouvia a m ula pisotear e bufar lá fora e em seu sono debatia-se e m urm urava com o um cão
sonhando.
Acordou em algum m om ento no m eio da noite com o abrigo na total escuridão e o erem ita curvado sobre ele quase
em sua cam a.
O que quer? disse. Mas o erem ita se afastou rastej ando e de m anhã quando acordou o lugar estava vazio então
apanhou suas coisas e saiu.
Por todo o dia observou ao norte um a tênue linha de poeira. Parecia im óvel e não foi senão no fim do
entardecer que percebeu que vinha em sua direção. Atravessou um a floresta de carvalhos vivos e bebeu de um
regato e seguiu ao crepúsculo e acam pou sem fazer fogueira. Os pássaros o acordaram quando deitava em um
bosque seco e poeirento.
Ao m eio-dia estava na pradaria outra vez e o pó na direção norte alongava-se pela linha da terra. Ao anoitecer as
prim eiras cabeças de um rebanho ficaram visíveis. Bestas de aspecto cruel e patas longilíneas envergando chifres
enorm es. Nessa noite ele se sentou no acam pam ento dos vaqueiros e com eu feij ões e bolachas duras e ouviu
sobre a vida pelas trilhas.
Vinham de Abilene, j á quarenta dias viaj ando, a cam inho dos m ercados na Louisiana. Seguidos por
m atilhas de lobos, coiotes, índios. O gado gem ia em torno deles por quilôm etros sob a escuridão.
Não fizeram pergunta algum a, eles próprios um bando m altrapilho. Alguns de raças m estiças,
negros libertos, um ou dois índios.
Minhas coisas
foram roubadas,
disse. Eles
balançaram a
cabeça à luz do
fogo.
Levaram tudo que eu tinha. Não m e ficou nem um a faca.
Se quiser pode se j untar com a gente. A gente
perdeu dois hom ens. Se m andaram pra
Califórnia. Vou pros lados de vocês.
Acho que pode querer ir
pra Califórnia tam bém .
Pode ser. Não resolvi.
Os rapazes que iam com a gente se j untaram com um bando do
Arkansas. Estavam indo pra Bexar. Vão seguir até o México e depois
oeste. Aposto que seus rapazes estão em Bexar bebendo com o gam bás.
Aposto que o velho Lonnie se acabou de
tanto trepar com as prostitutas da cidade.
Que distância fica Bexar?
Uns dois dias.
Mais longe que isso.
Acho que uns quatro.
Com o dá pra ir se o
suj eito quiser?
Você atravessa direto pro sul e
chega na estrada em m eio dia.
Tá indo pra Bexar?
Pode ser.
Se encontrar m eu velho am igo Lonnie por lá diz pra ele dar um a por m im . Diz que o Oren m andou. Ele vai te pagar
um a bebida se não torrou todo o dinheiro.
De m anhã com eram panqueca com m elado e os vaqueiros encilharam os cavalos e seguiram cam inho. Quando
encontrou sua m ula havia um a pequena bolsa de fibra am arrada à corda do anim al e dentro um punhado de feij
ões secos e um pouco de pim enta e um a velha faca greenriver com um cabo feito de cordão. Selou a m ula de dorso
ferido e cheio de falhas, os cascos rachados. Costelas com o espinha de peixe. Manquitolaram através da planície
sem fim .
Chegou a Bexar ao anoitecer do quarto dia e parou a m ula em um pequeno m orro e avistou a cidade, as
tranquilas casas de adobe, a fileira de carvalhos verdes e álam os que acom panhava o curso do rio, a praça cheia de
carroções com suas lonas de osnaburg e os prédios públicos caiados e o dom o m ourisco da igrej a proj etando-se
em m eio às árvores e o forte e o elevado paiol de pedra m ais ao longe. Um a leve brisa agitou as frondes de seu
chapéu, seu cabelo ensebado cheio de nós. Tinha os olhos escuros e encovados no rosto espectral e um fedor
pestilento subia do cano de suas botas. O sol acabara de se pôr e a oeste surgiam veios de nuvens verm elho-sangue
de onde subiam pequenos noitibós do deserto com o fugitivos de um grande incêndio no fim do m undo. Ele expeliu
um a cusparada seca e branca e fincou os estribos de m adeira rachada nas costelas da m ula e puseram -se em
vacilante m archa outra vez.
Desceu um a estreita estrada arenosa e no cam inho encontrou um a carroça de m ortos e sua carga de cadáveres,
com um pequeno sino abrindo passagem e um a lanterna balançando na cancela. Três hom ens sentavam à boleia,
não diferentes dos próprios m ortos ou de espíritos, tão brancos estavam com a cal e quase fosforescentes ao sol
poente. Um a parelha de cavalos puxava o carro e seguiram adiante pela estrada envoltos em um tênue m iasm
a de fenol e sum iram de vista. Ele virou e observou-os partir. Os pés descalços dos m ortos sacolej ando rigidam
ente de um lado para outro.
Escurecera quando entrou na cidade acom panhado por um a com itiva de cães aos ladridos, rostos abrindo
cortinas nas j anelas ilum inadas. O leve retinir dos cascos da m ula ecoando nas ruelas vazias. A m ula farej ou o ar
e dobrou um a aleia estreita, dando em um a praça onde sob o céu estrelado viam -se um poço, um a gam ela, um
varão de am arrar anim ais. O kid apeou e pegou o balde na beirada de pedra e o baixou ao poço. Um leve som de
água espirrando. Puxou o balde, a água pingando no escuro. Afundou a cabaça e bebeu e a m ula cutucou seu
cotovelo com o focinho. Quando term inou pôs o balde na rua e sentou na beira do poço e observou a m ula beber do
balde.
Atravessou a cidade puxando o anim al. Não se via vivalm a. Pouco depois chegou a um a plaza e ouviu violões e
um a corneta. No extrem o oposto havia luzes vindas de um café e risadas e gritos agudos. Conduziu a m ula através
da praça e chegou até lá passando por um longo pórtico em direção às luzes.
Viu um a trupe de dançarinos na rua e usavam roupas espalhafatosas e gritavam em espanhol. Ele e a m ula perm
aneceram no lim iar das luzes e observaram . Velhos sentavam ao longo da parede da taverna e crianças brincavam
na terra. Usavam roupas estranhas todos eles, os hom ens com chapéus escuros de copa achatada, cam isões
brancos, calças de abotoar na lateral das pernas e as m eninas com os rostos pintados de cores berrantes e pentes de
tartaruga nos cabelos negros violáceos. O kid atravessou a rua com a m ula e a am arrou e entrou no café. Alguns
hom ens estavam de pé j unto ao balcão e pararam de conversar quando ele entrou. Ele atravessou o piso de
cerâm ica encerado passando por um cachorro adorm ecido que abriu um olho e o observou e foi ao balcão e pôs as
duas m ãos sobre os ladrilhos. O barm an acenou com a cabeça. Dígam e, disse.
Não tenho dinheiro m as preciso de um a bebida.
Eu tiro as fezes ou lim po o chão ou qualquer
coisa. O barm an olhou através do bar para um a m
esa onde dois suj eitos j ogavam dom inó.
Abuelito, disse. O m ais velho dos dois ergueu a
cabeça.
Que dice el m uchacho.
O velho olhou para o kid e
voltou aos seus dom inós.
O barm an deu de om
bros.
O kid virou para o velho. Fala am ericano? disse.
O velho ergueu os olhos de seu j
ogo. Fitava o kid sem expressão.
Diga a ele que trabalho em troca
de bebida. Não tenho dinheiro.
O velho apontou com o queixo e
fez um estalo com a língua.
O kid olhou para o barm an.
O velho fechou o punho com o polegar apontado para cim a e o dedo m ínim o para baixo e j ogou a cabeça para
trás e entornou um a bebida im aginária pela garganta. Quiere hecharse una copa, disse. Pero no puede pagar. Os
hom ens no balcão assistiam .
O barm an olhou para o kid.
Quiere trabaj o, disse o velho. Quién sabe. Voltou
a suas peças e fez sua j ogada sem m ais conversa.
Quieres trabaj ar, disse um dos hom ens ao balcão.
Com eçaram a rir.
Do que estão rindo? disse o rapaz.
Pararam . Alguns olharam para ele, alguns franziram a boca ou deram de om bros. O rapaz virou
para o barm an. Diacho, sei que tem algum a coisa que posso fazer em troca de um a bebida. Um
dos hom ens no balcão disse qualquer coisa em espanhol. O rapaz os fuzilou com o olhar.
Piscaram entre si, apanharam seus copos.
Ele virou outra vez para o barm an. Fitou-o com
olhos som brios e estreitados. Varrer o chão,
disse. O barm an piscou.
O kid deu um passo para trás e fez m ovim entos de varrer, um a pantom im a
que dobrou os hom ens em risadas silenciosas. Varrer, disse, apontando o chão.
No está sucio, disse o barm an.
Ele varreu de novo. Varrer, droga, disse.
O barm an deu de om bros. Foi até a ponta do balcão e apanhou um a vassoura e a trouxe. O rapaz a pegou e se dirigiu
aos fundos do bar.
Era um espaço bem am plo. Ele varreu os cantos escuros e silenciosos com árvores em vasos. Varreu em volta
das escarradeiras e varreu em volta dos j ogadores na m esa e varreu em volta do cachorro. Varreu a frente do
balcão e quando chegou ao lugar onde os hom ens bebiam endireitou o corpo e apoiou na vassoura e olhou para
eles. Conversaram quietam ente entre si até que enfim um tirou seu copo do balcão e recuou. Os outros fizeram o
m esm o. O kid passou varrendo por eles em direção à porta.
Os dançarinos haviam sum ido, assim com o a m úsica. Do outro lado da rua havia um hom em sentado em um
banco fracam ente ilum inado pela luz que vazava através da porta do café. A m ula perm anecia onde ele a am
arrara. Bateu a vassoura nos degraus e voltou a entrar e levou a vassoura para o canto onde o barm an a apanhara.
Então se aproxim ou do balcão e aguardou.
O barm an o ignorou.
O kid bateu no tam po com os nós dos dedos.
O barm an virou e pôs a m ão
no quadril e franziu os lábios.
Que tal aquela bebida agora,
disse o kid.
O barm an não se m exeu.
O kid fez os m ovim entos de beber que o velho fizera
e o barm an abanou seu pano para ele com indolência.
Andale, disse. Fez um gesto de enxotar com o dorso da
m ão.
O rosto do kid se turvou. Seu filho da puta, disse. Fez m enção de contornar o balcão. A expressão do barm an
não m udou. Sacou de sob o balcão um a antiquada pistola m ilitar de pederneira e puxou o cão para trás com a
alm ofada do dedo m ínim o. Um enorm e clique tenso no silêncio. Copos tilintaram ao longo do balcão. Depois
cadeiras foram arrastadas pelos j ogadores perto da parede.
O kid estacou. Velho, cham ou.
O velho não respondeu. Não se ouvia som algum
no café. O kid virou para buscá-lo com o olhar.
Está borracho, disse o velho.
O rapaz fitou o barm an nos olhos.
O barm an acenou com a pistola na direção da porta.
O velho falou algo para o bar em espanhol. Depois falou com o barm an. Depois m eteu o chapéu e saiu.
O rosto do barm an perdeu a cor. Quando contornou a ponta do balcão pousara a pistola e carregava um a alavanca de
abrir barris num a das m ãos.
O kid retrocedeu até o centro do bar e o barm an avançou pesadam ente em sua direção com o um hom em incum
bido de um a tarefa desagradável. Golpeou duas vezes na direção do kid e o kid pulou duas vezes para a direita.
Então ele recuou. O barm an estacou. O kid se içou agilm ente sobre o balcão e apanhou a pistola. Ninguém se m
oveu. Ele abriu a caçoleta raspando-a contra o tam po do balcão e descarregou a escorva e então voltou a pousar a
pistola. Então escolheu um par de garrafas cheias nas prateleiras às suas costas e contornou a ponta do balcão com
um a em cada m ão.
O barm an continuava no centro do bar. Respirava com esforço e girava, seguindo os m ovim entos do kid.
Quando o kid se aproxim ou ele ergueu a ferram enta. O kid agachou agilm ente com as garrafas e am eaçou um
golpe e então quebrou a garrafa direita na cabeça do hom em . Sangue e álcool se derram aram e os j oelhos do hom
em dobraram e seus olhos se reviraram . O kid j á largara o caco de gargalo e com um m ovim ento ágil de salteador
j ogara a segunda garrafa para a m ão direita sem deixá-la cair no chão e golpeou o crânio do barm an com a
segunda garrafa e cravou o estilhaço restante em seu olho conform e ele tom bava.
O kid olhou em torno pelo bar. Alguns dos hom ens carregavam pistolas em seus cintos m as ninguém se m
oveu. O kid pulou por cim a do balcão e apanhou outra garrafa e a enfiou sob o braço e saiu pela porta. O
cachorro se fora. O hom em no banco tam bém se fora. Desam arrou a m ula e puxou-a através da praça.
Acordou na nave de um a igrej a em ruínas, piscando para o teto em abóbada e as paredes altas e precárias com
seus afrescos desbotados. O chão da igrej a estava coberto por um a grossa cam ada de guano seco e excrem ento
de vacas e ovelhas. Pom bos esvoaçaram por entre os pilares de luz poeirenta e três abutres claudicavam no coro
em torno da carcaça descarnada de algum anim al m orto.
Sua cabeça estava em torm ento e sua língua inchada de sede. Sentou e olhou em volta. Havia deixado a garrafa
sob a sela e a encontrou e ergueu e sacudiu e puxou a rolha e bebeu. Sentou de olhos fechados, o suor brotando
da testa. Então abriu os olhos e deu outro gole. Os abutres desceram um de cada vez e foram saltitando para a
sacristia. Após algum tem po ele ficou de pé e saiu para procurar a m ula.
Não estava em parte algum a. A m issão ocupava oito ou dez ares de um terreno cercado, um a área estéril com
algum as cabras e burros. Nas paredes de barro do cercado havia choupanas habitadas por fam ílias invasoras e
algum as fogueiras para cozinhar lançavam sua débil fum aça sob o sol. Ele contornou a lateral da igrej a e entrou
na sacristia. Abutres se afastaram em m eio a palha e reboco com o enorm es aves dom ésticas. Os arcos do dom
o acim a estavam cobertos por um a m assa escura peluda que se agitava e respirava e piava. Dentro do lugar havia
um a m esa de m adeira com alguns potes de cerâm ica e ao longo da parede do fundo j aziam os restos de vários
corpos, entre eles um a criança. Ele atravessou a sacristia outra vez até a igrej a e apanhou sua sela. Bebeu o resto da
garrafa e j ogou a sela sobre o om bro e saiu.
A fachada do edifício abrigava um a série de santos em seus nichos que haviam sido alvej ados por tropas am
ericanas experim entando os rifles, as estátuas m utiladas sem orelhas e narizes e a pedra delas m osqueada de
m anchas escuras de chum bo oxidado. As im ensas portas entalhadas e alm ofadadas pendiam frouxas das
dobradiças e um a Virgem de pedra esculpida segurava no colo um m enino sem cabeça. O kid piscava sob o dia
escaldante. Então viu os rastros da m ula. Eram um a perturbação quase im perceptível na poeira que saía pela porta
da igrej a e cruzava o terreno até o portão na parede leste. Aj eitou a sela m ais alto em seu om bro e foi atrás.
Um cachorro à som bra do pórtico se levantou e cam baleou desanim ado sob o sol até que passasse e então cam
baleou de volta. Ele tom ou a estrada que descia a colina na direção do rio, um perfeito farrapo hum ano. Entrou
em um bosque profundo de pecãs e carvalhos e a estrada subia num aclive e pôde ver o rio m ais abaixo. Pretos
lavavam um a carruagem no vau e ele desceu a colina e parou à beira d’água e após algum tem po os cham ou.
Eles j ogavam água sobre a laca negra e um deles se ergueu e
virou para olhar. A correnteza batia na altura dos j oelhos dos
cavalos. O quê? gritou o preto.
Viram
um a m
ula?
Mula?
Perdi um a m ula. Acho que veio por aqui.
O preto esfregou o rosto com o dorso da m ão. Algum a coisa veio pela estrada faz um a hora. Acho que desceu o
rio por ali. Podia ser um a m ula. Não tinha rabo nem pelo que desse pra cham ar por esse nom e m as orelha com
prida tinha.
Os outros dois pretos sorriram . O kid olhou naquela direção. Cuspiu e tom ou a trilha entre os salgueiros e a várzea de
capim .
Encontrou-a cerca de cem m etros rio abaixo. Estava m olhada até a barriga e olhou para ele e então baixou a
cabeça outra vez para o luxuriante capim da m argem . Ele deixou cair a sela e pegou a corda que se arrastava
pelo chão e am arrou o anim al em um galho e o chutou sem grande convicção. A besta se m oveu ligeiram ente
para o lado e continuou a pastar. Ele levou a m ão à cabeça m as perdera o chapéu absurdo em algum lugar. Desceu
entre as árvores e ficou observando o turbilhão de água fria. Então vadeou o rio com o o m ais lam entável dos
candidatos a um batism o.
III

CHAMADO A INGRESSAR NUM EXÉRCITO — CONVERSA COM O CAPITÃO WHITE — SUAS


OPINIÕES — O ACAMPAMENTO — NEGOCIA SUA MULA — UMA CANTINA NO LAREDITO —
UM MENONITA — COMPANHEIRO MORTO.

Estava deitado nu sob as árvores com seus trapos estendidos acim a dele quando outro cavaleiro descendo o rio puxou as
rédeas e parou.
Ele virou a cabeça. Através dos salgueiros
via as patas do cavalo. Rolou de bruços. O
hom em apeou e ficou ao lado do cavalo.
Ele esticou o braço e pegou
a faca de cabo de cordão.
Salve lá, disse o cavaleiro.
Ele não respondeu. Moveu-se para o
lado para ver m elhor através dos galhos.
Salve lá. Pra onde vai?
O que quer?
Só conversar
com sua
pessoa. Sobre o
quê?
Com os diabos, pode sair. Sou branco e cristão.
O kid esticava o braço através dos salgueiros tentando alcançar as calças. O
cinto estava pendurado e ele deu um puxão m as os galhos prendiam um a
perna. Droga, disse o hom em . Não está trepado na árvore, está?
Por que não segue em frente e m e deixa em paz, diacho.
Só quero falar com você. Não
era pra te deixar tão nervoso.
Mas deixou.
Foi você que acertou a cabeça daquele m
exicano ontem à noite? Não sou da lei.
Quem quer saber?
O capitão White. Ele quer cham ar o
suj eito para entrar para o exército.
Exército?
Sim
senhor.
Que
exércit
o?
A com panhia do capitão White. A gente
está se reunindo pra lutar com os m
exicanos. A guerra acabou.
Ele diz que não. Onde está você?
Ele ficou de pé e puxou as calças do lugar onde estavam penduradas e vestiu. Calçou as botas e enfiou a faca no cano
direito e saiu do m eio dos salgueiros vestindo a cam isa.
O hom em estava sentado na relva de pernas cruzadas. Suas roupas eram de cam urça e usava um chapéu-
coco preto de seda coberto de poeira e m ordia um a cigarrilha m exicana com o canto da boca. Quando viu o
tipo que se aproxim ava por entre os salgueiros abanou a cabeça.
A sorte tem andado m eio ruim
pro seu lado, não, filho? disse.
A sorte não tem andado pro m
eu lado.
Disposto a ir
pro México?
Não tem nada
pra m im lá.
É um a chance de m elhorar de vida. Melhor
tom ar algum a atitude antes que afunde de
vez. O que é que eles dão pra gente?
Cada hom em recebe um cavalo e m unição. Im
agino que a gente arrum e um as roupas, no seu
caso. Não tenho rifle.
A gente
consegue
um . E a
paga?
Com os diabos, não vai precisar de paga nenhum a. Pode guardar pra você tudo que achar. A gente tá indo pro
México. Butim de guerra. Não tem um hom em na com panhia que não vire proprietário dos grandes. Quanta
terra você tem hoj e?
Não conheço coisa nenhum a da vida m ilitar.
O hom em olhou para ele. Tirou a cigarrilha apagada do m eio dos dentes e
virou a cabeça e cuspiu e tornou a enfiá-la na boca. De onde você é? disse.
Tennessee.
Tennessee. Bom duvido que não saiba atirar com um rifle.
O kid agachou na relva. Olhou o cavalo do hom em . O cavalo estava aparelhado em couro trabalhado com
adornos de prata. Havia um a m ancha branca em sua cabeça e nas quatro canelas e m astigava enorm es tufos do
rico capim . De onde você é, disse o kid.
Tenho andado pelo Texas desde trinta e oito. Se não tivesse topado com o capitão White não sei onde estaria hoj
e. Eu era um a visão m ais deprim ente até do que você e ele apareceu e m e ergueu com o Lázaro. Pôs m eus passos
no cam inho da retidão. Eu tinha m e entregado à bebida e às prostitutas dum j eito que nem o inferno ia m e querer.
Ele enxergou algum a coisa em m im que valia a pena salvar e eu enxerguei o m esm o em você. O que diz?
Não sei.
Pelo m enos vem com igo e conhece o capitão.
O rapaz puxou um punhado de relva. Olhou o cavalo outra vez. Bom , disse. Acho que m al não vai fazer.
Cavalgaram através da cidade com o recrutador esplêndido sobre o cavalo de patas m alhadas e o kid atrás dele
na m ula com o alguém que o outro houvesse capturado. Cavalgaram por ruas estreitas onde as cabanas de palha
fum egavam sob o calor. Mato e opúncias cresciam nos telhados e cabras andavam em torno deles e em algum
lugar daquele reino de lam a pequenos sinos tocavam fracam ente o dobre fúnebre. Viraram na Rua do Com
ércio atravessando a Praça Principal em m eio a m ontes de carroças e cruzaram outra praça onde m eninos
vendiam uvas e figos em carrinhos de m ão. Cães esqueléticos se esquivavam à passagem deles. Seguiram pela
Praça Militar e passaram pela ruazinha onde o rapaz e a m ula haviam bebido água na noite anterior e havia grupos
de m ulheres e garotas no poço e diversos form atos de j arros de cerâm ica cobertos de vim e espalhados em volta.
Passaram por um a pequena casa onde as m ulheres se lam uriavam ali dentro e o pequeno carro funerário
aguardava na porta com os cavalos pacientes e im óveis sob o calor e as m oscas.
O capitão estava aloj ado em um hotel acim a de um a praça onde havia árvores e um pequeno gazebo verde com
bancos. Um portão de ferro na frente do hotel se abriu para um passadiço com um pátio nos fundos. As paredes
eram caiadas e decoradas com pequenos azulej os ornam entais coloridos. O aj udante do capitão usava botas de
couro trabalhado com tacões altos que ecoaram vivam ente nos ladrilhos e nos degraus que iam do pátio para os
quartos acim a. No pátio havia plantas vicej antes recém -regadas e exalando vapor. O aj udante do capitão m
archou a passos largos pela com prida varanda e bateu firm em ente na porta do final. Um a voz disse a eles que
entrassem .
Sentava-se a um a m esa de vim e escrevendo cartas, o capitão. Perm aneceram de pé aguardando, o aj udante
com o chapéu preto nas m ãos. O capitão continuou a escrever sem erguer os olhos. Lá fora o kid podia ouvir
um a m ulher falando em espanhol. Fora isso tudo que se ouvia era o raspar da pena do capitão.
Quando term inou pousou a caneta e ergueu o rosto. Olhou para seu hom em e então olhou para o kid e então
curvou a cabeça para ler o que havia escrito. Balançou a cabeça para si m esm o e polvilhou a carta com areia
tirada de um a caixinha de ônix e a dobrou. Tirando um fósforo de um a caixa sobre a m esa ele o acendeu e
segurou j unto a um bastão de cera de lacre até que um pequeno m edalhão verm elho coagulou sobre o papel.
Sacudiu a m ão para apagar o fósforo, soprou brevem ente o papel e im prim iu o sinete de seu anel. Então
prendeu a carta entre duas caixas que estavam sobre a m esa e reclinou na cadeira e olhou para o kid outra vez.
Balançou a cabeça gravem ente. Sentem , disse.
Acom odaram -se em um a espécie de escabelo com espaldar alto feito de algum a m adeira escura. O aj udante
do capitão tinha um grande revólver em seu cinto e quando sentou girou o cinto de form a que a arm a ficasse
aninhada entre suas coxas. Jogou o chapéu por cim a e se recostou. O kid cruzou as botas deploráveis um a atrás da
outra e sentou ereto.
O capitão em purrou a cadeira para trás e deu a volta na m esa. Parou ali por um bom tem po e então içou o
corpo sobre a m esa e sentou com as pernas pendentes. Havia fios grisalhos em seu cabelo e nos bigodes
retorcidos que usava, m as não era velho. Então você é o suj eito, disse.
Que suj eito? disse o kid.
Que suj eito
senhor, disse o aj
udante. Qual sua
idade, filho?
Dezenove.
O capitão balançou a cabeça. Estava m
edindo o rapaz. O que aconteceu com
você? Com o?
Diga senhor,
disse o
recrutador.
Senhor?
Eu disse o que aconteceu com você.
O kid fitou o hom em sentado diante dele. Baixou os olhos e
voltou a encarar o capitão. Fui atacado por ladrões, disse.
Ladrões, disse o capitão.
Levaram tudo que eu tinha.
Meu relógio e tudo m ais.
Você tem um rifle?
Agora não tenho m ais.
Onde foi que roubaram você.
Não sei. Não tinha nom e o
lugar. Era no m eio do nada.
De onde você estava vindo?
Eu estava vindo de
Naca, Naca...
Nacogdoches?
Isso.
Sim
senhor.
Sim
senhor.
Quantos
estavam por
lá? O kid o
encarou.
Ladrões. Quantos ladrões.
Sete ou oito, acho. Levei um a
pancada na cabeça com um
porrete. O capitão o fitou de
soslaio. Eram m exicanos?
Alguns. Mexicanos e negros. Tinha um ou dois brancos com eles. Estavam com um rebanho de
gado que roubaram . A única coisa que deixaram com igo foi m inha velha faca que eu tinha na
bota. O capitão balançou a cabeça. Cruzou as m ãos entre os j oelhos. O que pensa do tratado?
disse.
O kid olhou para o hom em no banco a seu lado. Estava com os olhos
fechados. Olhou para seus polegares. Não sei nada sobre isso, disse.
Receio que sej a o caso da m aioria dos am ericanos, disse o capitão.
De onde você é, filho?
Tennessee.
Não esteve com os
Voluntários em Monterrey,
esteve? Não senhor.
Acho que o bando de suj eitos m ais coraj osos que j á vi sob um fogo cerrado. Im agino que m ais hom ens do
Tennessee sangraram e m orreram no cam po de batalha do norte do México do que de qualquer outro estado.
Sabia disso?
Não senhor.
Foram traídos. Lutaram e m orreram lá naquele
deserto e então foram traídos por seu próprio
país. O kid ficou em silêncio.
O capitão se curvou para a frente. Lutam os por aquilo. Perdem os am igos e irm ãos ali. E então por Deus se não
entregam os tudo de volta. De volta para um bando de bárbaros que até o m ais parcial a favor deles vai adm itir
que não têm ideia neste m undo de Deus do que sej a honra ou j ustiça ou do significado de um governo republicano.
Um povo que de form a tão covarde vem pagando tributo por cem anos a tribos de selvagens nus. Abrindo m ão
de suas colheitas e cabeças de gado. Minas fechadas. Cidades inteiras abandonadas. Enquanto um a horda de pagãos
varre a terra saqueando e m atando em total im punidade. Nem um a m ão sequer se ergue contra eles. Que tipo de
gente é essa? Os apaches nem sequer atiram neles. Sabia disso? Matam às pedradas. O capitão balançou a cabeça.
Parecia ficar triste com o que tinha de contar.
Sabia que quando o coronel Doniphan tom ou a cidade de Chihuahua infligiu m ais de m il baixas ao inim igo e
perdeu um só hom em e que este foi quase um suicídio? Com um exército de tropas irregulares sem soldo que o
cham avam de Bill, estavam sem inus e tinham cam inhado para o cam po de baralha desde o Missouri?
Não senhor.
O capitão se curvou para trás e cruzou os braços. Estam os lidando aqui é com um a raça de degenerados, disse.
Um a raça de m estiços, não m uito m elhor que negros. E talvez nem isso. Não existe governo no México. Diabo,
não existe Deus no México. Nunca vai existir. A gente está lidando com um povo absolutam ente incapaz de se
governar sozinho. E sabe o que acontece com povos que não conseguem se governar sozinhos? Isso m esm o.
Outros vêm e governam por eles.
Já existem por volta de catorze m il colonos franceses no estado de Sonora. Ganharam terras de graça para ficar.
Ganharam ferram entas e gado. Mexicanos esclarecidos encoraj am isso. Paredes j á anda pedindo secessão do
governo m exicano. Preferem ser dom inados por aqueles com edores de rãs do que por ladrões e im becis. O
coronel Carrasco está pedindo a intervenção am ericana. E vai conseguir.
Bem agora estão form ando em Washington um a com issão para vir para cá e fixar as linhas de fronteira entre
nosso país e o México. Creio não restar a m enor dúvida de que Sonora vai acabar se tornando território dos Estados
Unidos. Guay m as um porto am ericano. Os am ericanos vão poder chegar na Califórnia sem precisar passar por
nossa inculta república irm ã e nossos cidadãos enfim vão ficar protegidos das notórias súcias de cortadores de
garganta que no atual m om ento infestam os cam inhos que são obrigados a percorrer.
O capitão observava o kid. O kid parecia desconfortável. Filho, disse o capitão. Cabe a nós serm os os instrum
entos de libertação em um a terra som bria e turbulenta. Isso m esm o. Som os a vanguarda do ataque. Tem os o
apoio tácito do governador Burnett da Califórnia.
Curvou-se para a frente e pôs as m ãos nos j oelhos. E som os nós que vam os dividir o butim . Vai haver um trato
de terra pra cada hom em da m inha com panhia. Boas pastagens. As m elhores do m undo. Um a terra rica em m
inérios, em ouro e prata além de toda im aginação, diria eu. Você é j ovem . Mas não subestim o sua pessoa.
Dificilm ente m e equivoco com um hom em . Creio que pretende deixar sua m arca neste m undo. Estou errado?
Não senhor.
Não. E acho que não é o tipo de suj eito que abandona pra um a potência estrangeira um a terra em que am
ericanos lutaram e m orreram . E guarde m inhas palavras. A m enos que os am ericanos tom em um a atitude,
pessoas com o você e eu que levam o país a sério enquanto aqueles filhinhos de m am ãe lá em Washington não
tiram a bunda da cadeira, a m enos que tom em os um a atitude, o México — e quero dizer o país inteiro — um dia
se curvará a um a bandeira europeia. Com ou sem Doutrina Monroe.
A voz do capitão se tornara suave e intensa. Inclinou a cabeça para o lado e fitou o kid com um a espécie de
benevolência. O kid esfregou as palm as das m ãos nos j oelhos do j eans im undo. Olhou de esguelha para o hom
em a seu lado m as o suj eito parecia adorm ecido.
E que tal um
a sela? disse.
Sela?
Sim senhor.
Não tem
um a
sela? Não
senhor.
Pensei que
tivesse um
cavalo. Um a m
ula.
Sei.
Tenho um a casca velha que ponho em cim a da m ula m as não sobrou grande coisa. Da
m ula tam bém não sobra grande coisa. Ele disse que eu receberia um cavalo e um rifle.
O sargento Tram m el disse?
Não prom eti a ele
nenhum a sela, disse o
sargento. A gente arrum a
um a sela.
Mas eu disse que um as roupas a gente arrum a, capitão.
Certo. As tropas podem ser irregulares m as não
querem os que pareçam uns rabicós, querem os?
Não senhor.
Tam bém não tem os m ais
nenhum cavalo dom ado, disse o
sargento. A gente dom a um .
Aquele suj eito que era tão bom
em dom ar j á não está de
serviço. Sei disso. Arranj a outro.
Sim senhor. Quem sabe esse hom
em saiba dom ar. Já dom ou cavalo?
Não senhor.
Não precisa vir com
senhor pra m im .
Sim senhor.
Sargento, disse o
capitão, descendo da m
esa. Sim senhor.
Alista esse hom em .
O acam pam ento era rio acim a nos lim ites da cidade. Um a tenda rem endada de velhas lonas de carroção, algum
as choças de galhos e m ais além um curral em oito tam bém feito de galhos com pequenos pôneis m alhados
am uados sob o sol.
Cabo,
gritou o
sargento.
Ele não tá
aqui.
Ele desm ontou e m archou na direção da tenda e com um puxão na lona entrou. O kid ficou
sentado na m ula. Três hom ens sentados à som bra de um a árvore o estudaram . Salve lá, disse
um . Salve lá.
É um hom
em novo?
Provável.
O capitão disse quando vam os
partir desse buraco pestilento?
Não disse não.
O sargento veio da
tenda. Onde ele está?
disse. Foi até a cidade.
A cidade, disse o sargento. Vem cá.
O hom em levantou do chão e andou lentam ente até
a tenda e parou com as m ãos apoiadas nas ancas.
Esse hom em aí não tem roupas, disse o sargento.
O suj eito balançou a cabeça.
O capitão deu um a cam isa pra ele e um dinheiro pra consertar as botas.
A gente precisa arrum ar pra ele um a m ontaria e conseguir um a sela.
Um a sela.
Aquela m ula deve dar o suficiente pra arranj ar um a de algum tipo.
O hom em olhou para a m ula e se virou outra vez e estreitou os olhos para
o sargento. Curvou-se e cuspiu. Aquela m ula ali não vale nem dez dólares.
O que der deu.
Mataram outro boi.
Não quero ouvir falar disso.
Não consigo fazer nada com eles.
Vou dizer pro capitão. Os olhos dele vão
revirar até soltar do eixo e cair no chão.
O hom em cuspiu outra vez. Bom , é a
verdade, j uro por Deus.
Cuide desse hom
em agora. Vou
indo. Certo.
Nenhum deles
está doente?
Não.
Graças a Deus.
Aprum ou o corpo na sela e tocou o pescoço do cavalo levem ente com as rédeas. Olhou para trás e abanou a cabeça.
Ao anoitecer o kid e dois outros recrutas foram à cidade. Havia tom ado banho e se barbeado e usava um par
de calças de veludo azul e a cam isa de algodão que o capitão lhe dera e a não ser pelas botas parecia um hom
em novo em folha. Seus com panheiros m ontavam pequenos cavalos coloridos que quarenta dias antes haviam sido
anim ais selvagens das planícies e refugavam e am eaçavam em pinar e m ordiam com o tartarugas.
Espera só até ter um desses, disse o
segundo-cabo. Vai ver o que é diversão.
Esses cavalos são ótim os, disse o outro.
Ainda ficaram um ou dois lá atrás que talvez sirvam de m ontaria pra você.
O kid olhava para eles do alto de sua m ula. Cavalgavam um de cada lado com o a escoltá-lo e a m ula trotava
com a cabeça erguida, os olhos se agitando nervosam ente. Qualquer um deles j oga você de cabeça no chão,
disse o segundo-cabo.
Atravessaram um a praça lotada de carros e gado. Com im igrantes e texanos e m exicanos e com escravos e
índios lipans e delegações de karankawas altos e austeros, os rostos tingidos de azul e as m ãos segurando os cabos
de suas lanças de dois m etros de com prim ento, selvagens sem inus que com suas peles pintadas e seu assim
propalado gosto por carne hum ana pareciam presenças absurdas até m esm o naquele grupo fantástico. Os recrutas
cavalgavam com os anim ais na rédea curta e passaram pelo prédio do tribunal e ao longo dos altos m uros do
cárcel com cacos de vidro incrustados na últim a cam ada de tij olos. Na Praça Principal um a banda se reunira e
afinava seus instrum entos. Os cavaleiros dobraram a Rua Salinas passando por pequenas casas de j ogo e bancas de
café e havia nessa rua diversos m exicanos seleiros e com erciantes e donos de galos de rinha e sapateiros e
fabricantes de botas em pequenas bancas ou oficinas de barro. O segundo-cabo era do Texas e falava um pouco de
espanhol e se dispôs a negociar a m ula. O outro rapaz era do Missouri. Estavam bem -hum orados, asseados e
penteados, todos de cam isa lim pa. Todos antecipando um a noitada de bebedeira, talvez de am or. Quantos j ovens
não voltaram para casa frios e m ortos depois de noites exatam ente com o essa e de planos exatam ente com o
esses.
Trocaram a m ula aparelhada com o estava por um a sela texana de vaqueiro, um a arm ação sim ples coberta de
couro cru, não nova, m as sólida. Por um a rédea e um freio que eram novos. Por um a m anta de lã feita em Saltillo
que estava em poeirada, fosse nova ou não. E finalm ente por um a m oeda de ouro de dois dólares e m eio. O texano
olhou para a pequena peça na palm a da m ão do kid e pediu m ais dinheiro m as o fabricante de arreios abanou a
cabeça e ergueu as m ãos com total determ inação.
E quanto a m inhas
botas? disse o kid.
Y sus botas, disse o
texano.
Botas?
Sí. Fez um a m ím ica de costurar.
O fabricante de arreios baixou os olhos para as botas. Entortou os dedos em concha em um ligeiro gesto de im
paciência e o kid tirou suas botas e pisou no chão descalço.
Quando tudo estava term inado ficaram ali na rua olhando um para o outro. O kid carregava os
novos arreios no om bro. O segundo-cabo olhou para o rapaz do Missouri. Tem algum dinheiro,
Earl? Nem um centavo de cobre.
Bom , eu tam bém não. Melhor ir andando e voltar praquele buraco m iserável.
O kid aj eitou o peso dos petrechos no om bro. A gente ainda tem essa águia de ouro pra beber, disse.

As som bras do crepúsculo j á caíram sobre Laredito. Morcegos deixam seus poleiros no prédio do tribunal e
sobrevoam e circulam o quarteirão. Cheiro de carvão em brasa enche o ar. Crianças e cachorros agacham j unto aos
alpendres de barro e galos de briga batem asas e param nos galhos das árvores frutíferas. Seguem a pé, esses cam
aradas, passando ao longo de um m uro nu de adobe. A m úsica da banda ecoa fracam ente através da praça.
Passam por um a carroça de água na rua e passam diante de um buraco na parede onde ao fogo pálido de um a forj a
um velho m artela form as no m etal. Passam por um a j ovem parada na porta cuj a beleza com bina com as flores
em torno.
Finalm ente chegam a um a porta de m adeira. Esta é presa por dobradiças a um a porta ou portão m aior e os três
têm de transpor os dois palm os de degrau da soleira onde botas aos m ilhares rasparam na m adeira, onde tolos às
centenas tropeçaram ou caíram ou cam balearam bêbados para a rua. Atravessam um pátio e passam j unto a um a
latada tom ada por um a velha videira onde pequenas galinhas bicam sob a penum bra entre os caules lenhosos
retorcidos e estéreis e entram na cantina onde os lam piões estão acesos e passam curvados por sob um a viga baixa
para encostar a barriga no balcão um dois três.
Há ali um velho m enonita perturbado e ele se vira para exam iná-los. Um hom em m agro de colete de couro,
chapéu preto de aba reta enterrado na cabeça, um fino contorno de suíças. Os recrutas pedem copos de uísque e
entornam e pedem m ais. Joga-se m onte em m esas j unto à parede e prostitutas em outra m esa olham para os
recrutas. Os recrutas apoiam -se de lado no balcão com os polegares nos cintos e observam o bar. Conversam em
voz alta sobre a expedição e o velho m enonita balança tristem ente a cabeça e dá um gole em sua bebida e resm
unga.
Vão deter vocês no rio, diz.
O segundo-cabo olha por sobre os om bros
para os com panheiros. Tá falando com igo?
No rio. Fiquem sabendo. Vão trancafiar até
o últim o hom em .
Quem vai?
O Exército dos Estados
Unidos. O general
Worth. O diabo que vão.
Reze pra que sim .
Ele olha para os com panheiros. Inclina na
direção do m enonita. O que isso quer dizer,
velho? Cruzem aquele rio com seu exército de
flibusteiros e não vão cruzar de volta.
Ninguém quer cruzar de
volta. Vam os pra
Sonora. E desde quando
isso é da sua conta,
velho?
O m enonita fita as trevas ensom brecidas perante os hom ens conform e lhe são refletidas no espelho acim a do
balcão. Vira-se para eles. Seus olhos estão úm idos, fala vagarosam ente. A ira de Deus está adorm ecida. Ficou
escondida um m ilhão de anos antes dos hom ens e só os hom ens têm o poder de despertá-la. O inferno não encheu
nem a m etade. Escutem o que estou falando. Vão levar a guerra criada por um louco a um a terra estrangeira. Vão
acordar bem m ais que os cães.
Mas eles m andaram o velho calar a boca e o xingaram até que se afastasse para a outra ponta do balcão resm ungando,
e com o poderia ser diferente?
É com o essas coisas term inam . Em confusão e im precações e sangue. Continuaram bebendo e o vento soprava
nas ruas e as estrelas que estiveram acim a de suas cabeças estavam baixas a oeste e aqueles j ovens se
desentenderam com outros e foram ditas palavras que não poderiam m ais ser retiradas e ao alvorecer o kid e o
segundo-cabo estavam de j oelhos diante do rapaz do Missouri cuj o nom e fora Earl e diziam seu nom e m as ele
nunca m ais respondeu. Jaz de lado na poeira do pátio. Os hom ens foram em bora, as prostitutas foram em bora.
Um velho varria os ladrilhos do piso dentro da cantina. O m enino tinha o crânio rachado em m eio a um a poça de
sangue, ninguém sabia o autor. Um terceiro atravessou o pátio ao encontro deles. Era o m enonita. Um vento
quente soprava e a leste despontava um a luz cinzenta. As aves em poleiradas entre a videira com eçaram a se m
exer e a cacarej ar.
Não existe alegria na taverna com o na estrada que conduz a ela, disse o m enonita. Segurava o chapéu nas m ãos e
agora o enfiava na cabeça outra vez e virou e saiu pelo portão.
IV

PARTINDO COM OS FLIBUSTEIROS — EM SOLO FORASTEIRO — ALVEJANDO ANTÍLOPES —


PERSEGUIDOS PELO CÓLERA — LOBOS — CONSERTOS DE CARRO — UM VASTO DESERTO
— TEMPESTADES NOTURNAS — A MANADA FANTASMA — UMA PRECE PELA CHUVA —
UMA FAZENDA NO DESERTO — O VELHO — NOVO PAÍS — UMA CIDADE ABANDONADA —
TOCADORES DE REBANHO NA PLANÍCIE — ATAQUE COMANCHE.

Cinco dias depois no cavalo do m orto ele seguiu os cavaleiros e carroças através da praça e saiu da cidade pela
estrada país adentro. Passaram por Castroville onde coiotes haviam desencavado os m ortos e espalhado seus ossos
e cruzaram o rio Frio e cruzaram o Nueces e deixaram a estrada de Presidio e viraram para o norte com batedores
postados à frente e na retaguarda. Cruzaram o del Norte à noite e transpuseram o vau raso e arenoso para dar em
um a vastidão desolada.
A aurora os colheu em um a longa fila sobre a planície, as carroças de m adeira seca gem endo, os cavalos
bufando. Um baque surdo de cascos e o ruído m etálico da carga e o tilintar leve e constante dos arreios. Exceto
pelos tufos esparsos de ceanotos e opúncias e pelos raros trechos de m ato em aranhado o solo era estéril e havia m
orros baixos ao sul e estes tam bém estéreis. Na direção oeste o horizonte se distendia achatado e reto com o um
prum o de m adeira.
Nesses prim eiros dias não viram caça algum a, nenhum a ave salvo abutres. Avistaram rebanhos distantes de
ovelhas e cabras em m ovim ento na linha do horizonte em m eio a cachecóis de poeira e com eram a carne de
asnos selvagens abatidos na planície. O sargento levava no coldre de sua sela um pesado rifle Wesson que em
pregava um encaixe de falsa boca e cartucho de papel e disparava um a bala cônica. Com essa arm a m atou os
pequenos porcos selvagens do deserto e m ais tarde quando com eçaram a encontrar bandos de antilocapras ele
parava sob o lusco-fusco com o sol oculto sob o horizonte e aparafusando um bipé na parte de baixo do cano
m atava esses anim ais enquanto pastavam a distâncias de oitocentos m etros. O rifle tinha um a alça de m ira no
encaixe da coronha e ele estim ava a distância e m edia o vento e calibrava a m ira com o um hom em que usasse
um m icrôm etro. O segundo-cabo ficava j unto a seu cotovelo com um a luneta e cantava os tiros alto ou baixo
caso errasse e um carro aguardava por perto até que houvesse alvej ado um a sequência de três ou quatro para então
partir estrepitosam ente através do território cada vez m ais frio com os peleiros chacoalhando e sorrindo na traseira.
O sargento nunca guardava a arm a senão depois de lim par e lubrificar o cano.
Iam bem arm ados, cada hom em com um rifle e m uitos com os revólveres Colt de cinco tiros de pequeno
calibre. O capitão portava um par de revólveres dragoon em coldres presos ao cepilho da sela de m odo a tê-los um
diante de cada j oelho. Essas arm as eram artigos dos Estados Unidos, patente Colt, e ele as com prara de um
desertor em um a cocheira de Soledad e pagara oitenta dólares em ouro por elas m ais os coldres e o m olde e
polvorinho que as acom panhavam .
O rifle que o kid portava fora serrado e redim ensionado até ficar de fato bem leve e o m olde do novo calibre era
tão pequeno que ele tinha de fazer os cartuchos das balas com cam urça. Ele havia disparado algum as vezes e os
tiros iam aonde bem entendiam . Carregava-o à sua frente sobre o arção da sela, pois não tinha coldre. Fora
carregado desse m esm o m odo antes, Deus sabe por quantos anos, e a coronha estava m uito gasta em baixo.
Quando a escuridão caía os hom ens voltaram com a carne. Os peleiros haviam enchido a carroça com prosópis,
tanto as ram as com o os tocos desencavados com os cavalos, e descarregaram a lenha e com eçaram a esquartej
ar os antílopes eviscerados no chão do veículo com suas facas bowie e m achadinhas, rindo e retalhando num a
orgia de sangue, um a cena m efítica à luz de lam piões seguros por terceiros. Quando as trevas eram com
pletas os cortes de costelas inclinavam -se fum egantes perto das fogueiras e um a j usta era disputada pelos carvões
com paus afiados onde haviam sido espetados nacos de carne e ouviam -se um retinir de cantis e um a troça
incessante. E dorm iram nessa noite nas planícies frias de um a terra estrangeira, quarenta e seis hom ens em
brulhados em seus cobertores sob as m esm íssim as estrelas, os coiotes tão parecidos em seus lam entos e todavia
tudo ali tão m udado e tão estranho.
Levantavam acam pam ento e partiam antes que o dia despontasse e com iam carne fria e bolacha dura e não
faziam fogo. O sol se erguia sobre um a coluna j á estropiada após seis dias de m archa. Entre suas roupas havia
pouca harm onia e entre seus chapéus ainda m enos. Os pequenos cavalos m alhados trotavam de m odo arisco e
truculento e um asqueroso enxam e de m oscas pelej ava constantem ente no chão do carro de caça. A poeira
erguida pelo grupo se dispersava e sum ia rápido na im ensidão daquela paisagem e não se via outro pó pois o pálido
vivandeiro que seguia em sua esteira viaj a invisível e seu cavalo esquálido e sua carreta esquálida não deixam
rastro algum em solos com o esse ou em qualquer outro solo. Junto a m ilhares de fogueiras sob o crepúsculo
cobalto ele m onta seu arm azém e é um com erciante irônico e sorridente apropriado para seguir cam panhas ou
desentocar hom ens de seus buracos exatam ente nessas paragens desm aiadas aonde foram para se esconder de
Deus. Nesse dia dois soldados ficaram doentes e um m orreu antes de escurecer. Pela m anhã havia outro enferm o
para tom ar seu lugar. Dois deles deitavam -se entre as sacas de feij ão e arroz e café no carro de suprim entos com
cobertores sobre seus corpos para protegê-los do sol e os trancos e o sacolej ar do veículo quase destacavam em
pregas seus ossos de sua carne de m odo que gritaram para serem deixados e então m orreram . Na escuridão da
alta m adrugada os hom ens pararam para abrir suas covas com escápulas de antílope e então as cobriram de
pedras e se puseram novam ente em m archa.
Seguiram sua m archa e o sol a leste lançou pálidas estrias de luz e depois um a faixa m ais profunda de cor com
o sangue filtrando para o alto em súbitas distensões planas e fulgurantes e onde a terra era absorvida pelo céu no
lim iar da criação a ponta do sol surgiu do nada com o a cabeça de um enorm e falo verm elho até que clareasse a
orla invisível e se aboletasse gordo e pulsante e m alévolo às costas deles. As som bras das pedras m ais ínfim as
corriam com o riscos de lápis através da areia e as form as dos hom ens e suas m ontarias avançavam alongadas
diante deles com o filam entos da noite da qual em ergiam , com o se fossem tentáculos a puxá-los para as trevas
que estavam por vir. Cavalgavam de cabeça baixa, sem rosto sob os chapéus, com o um exército adorm ecido em m
ovim ento. Na m etade da m anhã m ais um hom em m orreu e o ergueram do carro onde suj ara as sacas entre as
quais se deitara e o enterraram e seguiram adiante.
Agora lobos haviam aparecido para segui-los, grandes lobos cinzentos com olhos am arelos que m archavam
lepidam ente ou se agachavam sob o calor bruxuleante para observá-los na pausa da m etade do dia. Em m archa
outra vez. Trotando, andando ora furtivos, ora preguiçosos com os com pridos focinhos j unto ao chão. À noite
seus olhos piscavam e brilhavam além do halo das fogueiras e pela m anhã quando os cavaleiros punham -se
em m ovim ento sob a escuridão fria podiam ouvir os rosnados e estalos de suas bocas atrás de si conform e
pilhavam o acam pam ento em busca de restos.
As carroças ficaram tão secas que gingavam de um lado para outro com o cachorros e a areia as estava com
endo. As rodas encolheram e os raios dançavam em seus cubos e m atraqueavam com o hastes de um tear e à
noite eles enfiavam raios im provisados nos encaixes e os am arravam com tiras de couro cru e cravavam cunhas
entre o ferro dos aros e as cam bas rachadas de sol. Seguiam cam baleando, o rastro de seu esforço oscilante
com o os de um a cascavel na areia. As cavilhas nas pinas caindo frouxas e ficando para trás. Rodas com eçando a
se desm antelar.
Dez dias e quatro m ortos depois viram -se atravessando um a planície de puro púm ice onde nenhum arbusto,
nenhum m ato crescia até onde a vista alcançava. O capitão ordenou que fizessem alto e cham ou o m exicano que
servia de guia. Conversaram e o m exicano gesticulou e o capitão gesticulou e depois de algum tem po retom aram a
m archa.
Pra m im isso parece a estrada pro
inferno, disse um hom em nas
fileiras. O que ele acha que os
cavalos vão com er?
Acho que é pra eles sim plesm ente se contentarem em roer essa areia que nem galinhas e ficar esperando o m ilho
aparecer.
Dentro de dois dias com eçaram a encontrar ossos e roupas abandonadas. Viram esqueletos sem ienterrados de m
ulas com os ossos tão brancos e polidos que pareciam incandescentes até m esm o sob o calor causticante e viram
paneiros e albardas e os ossos de hom ens e viram um a m ula inteira, a carcaça seca e enegrecida dura com o ferro.
E m archaram . O branco sol m eridiano os surpreendeu através da vastidão com o um exército fantasm a, tão
pálidos estavam de pó, com o vultos de figuras apagadas em um a lousa. Os lobos trotavam ainda m ais pálidos e
agrupavam -se e sobressaltavam -se e erguiam os com pridos focinhos no ar. À noite os cavalos eram alim
entados com a m ão de sacos de farinha e bebiam de baldes. A doença se fora. Os sobreviventes perm aneciam
em silêncio naquele vazio cheio de crateras e observavam as estrelas dardej antes riscando o negror. Ou dorm
iam com os corações alheios batendo na areia com o peregrinos exaustos sobre a face do planeta Anareta, presas de
um a roda inefável girando na noite. Seguiram sua m archa e o polim ento abrasivo do púm ice deu ao ferro das
rodas o brilho do crom o. Ao sul as cordilheiras azuis assom avam sobre sua própria im agem m ais pálida na areia
com o reflexos em um lago e não havia m ais lobos agora.
Passaram a viaj ar à noite, j ornadas silenciosas a não ser pela rolagem das carroças e a respiração ofegante dos
anim ais. Sob o luar um estranho grupo de anciãos com a poeira branca nos bigodes e sobrancelhas. Marcharam e
m archaram e as estrelas colidiam e rasgavam o firm am ento com arcos que m orriam além das m ontanhas
negras com o nanquim . Acabaram por conhecer bem o céu noturno. Olhos ocidentais que percebem m ais
construções geom étricas do que os nom es dados pelos antigos. Atrelados à estrela polar m archaram ao giro da
Ursa enquanto Órion subia a sudoeste com o um grande papagaio elétrico na ponta de um a linha. A areia brilhava
azul sob o luar e as rodas de ferro dos carros rolavam entre as form as dos cavaleiros em aros cintilantes que
oscilavam e cam bavam num a navegação ferida e vaga com o esguios astrolábios e as ferraduras polidas dos
cavalos seguiam subindo e descendo com o um a m iríade de olhos faiscantes através da areia do deserto.
Observaram tem pestades tão distantes que não podiam ser ouvidas, os relâm pagos silenciosos fulgurando
distendidos na superfície do céu e a espinha negra e fina da cadeia m ontanhosa vibrando para então ser sugada de
volta pela escuridão. Viram cavalos selvagens correndo na planície, m artelando a própria som bra noite adentro e
lançando à luz da lua um a poeira vaporosa com o a m ancha m ais pálida de sua passagem .
Por toda a noite o vento soprou e a poeira fina pôs seus dentes irritadiços. Areia em tudo, pedregulhos em tudo
que com iam . Pela m anhã um sol cor de urina subiu ofuscado por cortinas de pó em um m undo opaco e sem
feitio. Os anim ais definhavam . Pararam e m ontaram um acam pam ento rude sem m adeira ou água e os pôneis m
iseráveis am ontoaram -se e choram ingaram com o cães.
Nessa noite atravessaram um a região elétrica e selvagem onde estranhas form as de fogo azul suave dançavam
acim a do m etal dos arreios e as rodas das carroças giravam em arcos de fogo e pequenas form as de luz azul
pálida vinham pousar nas orelhas dos cavalos e nas barbas dos hom ens. Por toda a noite relâm pagos difusos sem
origem definida estrem eceram a oeste atrás das m assas tem pestuosas de nuvens da m eia-noite, provocando um
dia azulado no deserto distante, as m ontanhas no horizonte súbito abruptas e negras e lívidas com o um a terra
longínqua de algum a outra ordem cuj a genuína geologia fosse não pedra m as m edo. Os trovões aproxim avam -se
a sudoeste e raios ilum inavam todo o deserto em torno deles, azul e estéril, grandes extensões estrondeantes
expelidas da noite absoluta com o algum reino dem oníaco sendo invocado ou um a terra changeling que com a
chegada do dia não deixaria m ais vestígio ou fum aça ou destruição do que qualquer sonho perturbador.
Pararam no escuro para descansar os anim ais e alguns hom ens guardaram suas arm as nas
carroças por m edo de atrair raios e um suj eito cham ado Hay ward rezou pedindo chuva.
Ele rezou: Deus Todo-Poderoso, se não estiver m uito além da ordem das coisas em seu
plano infinito quem sabe poderíam os ter um pouco de chuva por aqui.
Reza m ais alto, gritaram alguns, e prostrando-se de j oelhos ele gritou em m eio aos trovões e à ventania: Senhor estam
os secos com o charque por aqui. Só um as gotas para os rapazes aqui na pradaria e tão longe de casa.
Am ém , disseram , e subindo nas m ontarias continuaram a m archa. Em um a hora o vento esfriou e gotas de
chuva do tam anho de m etralhas caíram sobre eles brotando da escuridão selvagem . Sentiram o cheiro de pedra m
olhada e o doce cheiro dos cavalos m olhados e do couro m olhado. Continuaram em m archa.
Marcharam sob o calor do dia seguinte com os barriletes de água vazios e os cavalos perecendo e ao anoitecer
esses eleitos, estropiados e brancos de poeira com o um a com panhia de m oleiros arm ados e m ontados
vagando em dem ência, deixaram o deserto por um desfiladeiro entre os baixos m orros rochosos e desceram até um
j acal solitário, um a choupana tosca de taipa com um estábulo e currais rudim entares.
Paliçadas de ossos dividiam os arredores pequenos e poeirentos e a m orte parecia ser a característica m ais proem
inente da paisagem . Estranhas cercas polidas pela areia e o vento e alvej adas e trincadas pelo sol com o porcelana
antiga com rachaduras secas e m arrons da intem périe e onde nada vivo se m ovia. As form as enrugadas dos
cavaleiros passaram tilintando pela terra seca cor de bistre e pela fachada de barro do j acal, os cavalos estrem
ecendo, farej ando água. O capitão ergueu a m ão e o sargento falou e dois hom ens desm ontaram e avançaram com
rifles na direção da cabana. Em purraram a porta feita de couro cru e entraram . Instantes depois reapareceram .
Tem alguém por aqui. As brasas estão acesas.
O capitão perscrutou a distância com expressão cautelosa. Desm ontou com a paciência de alguém acostum ado a
lidar com a incom petência e foi na direção do j acal. Quando saiu observou os arredores m ais um a vez. Os cavalos
se agitavam e faziam tilintar os arreios e pisoteavam e os hom ens puxavam suas queixadas para baixo e diziam
coisas rudes para eles.
Sarg
ento.
Sen
hor.
Essa gente não pode estar longe. Vej a se consegue encontrar alguém
. E vej a se tem algum a forragem por aqui para os anim ais.
Forragem ?
Forragem .
O sargento apoiou a m ão na patilha da sela e olhou em torno do lugar onde estavam e balançou a cabeça e apeou.
Passaram por dentro do j acal e pelo cercado atrás e foram para o estábulo. Não havia anim al algum e nada além
de um a baia cheia até a m etade com sotol seco a título de ração. Saíram pelos fundos e deram com um a fossa
entre as pedras onde havia água e um fino riacho corria sobre a areia. Viam -se m arcas de cascos em torno do
tanque e estrum e seco e pequenos pássaros corriam despreocupados ao longo da m argem do pequeno regato.
O sargento estivera agachado sobre os calcanhares e agora ficava de pé e cuspia. Bom ,
disse. Tem algum a direção aqui onde não dê pra enxergar por trinta quilôm etros? Os
recrutas exam inaram a vastidão deserta.
Não acho que faz tanto tem po assim que o pessoal desse lugar foi em bora.
Beberam e voltaram na direção do j acal.
Cavalos eram conduzidos pelo cam inho
estreito. O capitão tinha os polegares no cinto.
Não consigo im aginar onde foram se m eter, disse o sargento.
O que tem
no barracão.
Palha velha
e seca.
O capitão enrugou a testa. Eles deviam ter um a cabra ou um porco. Algum a coisa. Galinhas.
Instantes depois dois hom ens vieram do estábulo arrastando um velho. Estava coberto de poeira e palha seca e
tapava os olhos com o braço. Foi arrastado gem endo aos pés do capitão onde tom bou prostrado e envolto no que
pareciam faixas de algodão branco. Tapou as orelhas com as m ãos proj etando os cotovelos adiante com o que
cham ado a testem unhar algum evento aterrador. O capitão desviou o rosto de noj o. O sargento o cutucou com o
dedão da bota. Qual o problem a com ele? disse.
Está se m ij ando, sargento. Está se m ij ando. O capitão
fez um gesto para o hom em com as m ãos enluvadas.
Senhor.
Tirem ele daqui, diacho.
Quer que o Candelario fale com ele?
É m eio retardado. Tirem esse hom em daqui.
Arrastaram o velho para longe. Com eçara a balbuciar algum a coisa m as ninguém deu ouvidos e pela m anhã ele sum
ira.
Bivacaram j unto ao tanque e o ferrador cuidou das m ulas e dos pôneis que haviam perdido as ferraduras e
trabalharam no reparo das carroças à luz do fogo até bem avançada a noite. Puseram -se em m archa sob a aurora
escarlate em que céu e terra se encontravam em um plano fendido a lâm ina. Ao longe pequenos arquipélagos
escuros de nuvem e o vasto m undo de areia e arbustos abreviado ao m ergulhar no vazio sem m argens acim a onde
aquelas ilhas azuis estrem eciam e a terra ficava incerta, gravem ente adernada e fixava o curso através dos m atizes
de rosa e das trevas além da aurora rum o à m ais rem ota chanfradura do espaço.
Cavalgaram por regiões pedregosas m ulticoloridas proj etadas em cortes denteados e saliências de rocha
plutônica erigidas em falhas e anticlinais curvadas sobre si m esm as e partidas com o tocos de grandes árvores
petrificadas e rochas que o raio houvesse fendido em dois, infiltrações explodindo em vapor em algum a antiga tem
pestade. Passaram por solidificações m agm áticas de rocha m arrom descendo pelos estreitos espinhaços dos cum
es e sobre a planície com o as ruínas de antigos m uros, por toda parte esses augúrios da m ão do hom em antes que
o hom em ou qualquer coisa viva existisse.
Atravessaram um vilarej o em ruínas então e em ruínas hoj e e acam param j unto aos m uros de um a elevada
igrej a de barro e queim aram as vigas do teto para fazer fogo enquanto coruj as pousadas nos arcos piavam no
escuro.
No dia seguinte no horizonte ao sul viram nuvens de poeira que se estendiam através da terra por quilôm etros.
Seguiram sua m archa, observando a poeira até que se aproxim asse, e o capitão ergueu a m ão para fazerem alto
e tirou do alforj e seu velho telescópio de cavalaria de latão e o abriu e esquadrinhou vagarosam ente o território. O
sargento parou com seu cavalo ao lado dele e após algum tem po o capitão lhe estendeu a luneta.
Um diacho de um
rebanho qualquer.
Acho que são
cavalos.
Que distância
avalia que estão?
Difícil dizer.
Cham a o Candelario aqui.
O sargento virou e fez um gesto para o m exicano. Quando subiu até onde estavam ele lhe estendeu a luneta e o
m exicano a ergueu diante do olho e estreitou a vista. Então baixou o instrum ento e observou a olho nu e então
ergueu a luneta e olhou outra vez. Depois ficou sentado no cavalo com a luneta j unto ao peito com o um crucifixo.
Então? disse
o capitão.
Ele
balançou a
cabeça.
Que diabo isso quer
dizer? Não são búfalos,
são? Não. Acho que
podem ser cavalos.
Me dá a luneta.
O m exicano passou o telescópio e ele olhou o horizonte outra vez e fechou o cilindro com a alm ofada do m indinho e
enfiou o instrum ento de volta no alforj e e ergueu a m ão e seguiram em frente.
Eram bois, m ulas, cavalos. Havia m uitos m ilhares de cabeças e avançavam a quarenta e cinco graus na direção
da com panhia. No fim da tarde cavaleiros eram visíveis a olho nu, um punhado de índios esfarrapados corrigindo os
flancos externos da m anada com seus pôneis ligeiros. Outros de chapéu, talvez m exicanos. O sargento reduziu a m
archa para em parelhar com o capitão.
O que acha disso, capitão?
Pra m im parece um bando de pagãos
ladrões de gado, é o que parece. E
você? A m esm a coisa.
O capitão olhou com a luneta. Já
devem ter visto a gente, disse.
Já viram a gente.
Quantos
cavaleiros acha
que são? Um a
dúzia, quem
sabe.
O capitão bateu com o instrum ento na m ão
enluvada. Não parecem preocupados, parecem ?
Não senhor. Não parecem .
O capitão deu um sorriso lúgubre. Pode ser que a gente ainda tenha um pouco de ação por aqui antes do dia acabar.
O início da m anada com eçou a passar por eles em um m anto de pó am arelo, reses de patas longilíneas e
costelas proem inentes com chifres que cresciam tortos e nunca dois iguais e pequenas m ulas m agras cor de
carvão que andavam lado a lado e erguiam as cabeças em form a de m alho acim a dos dorsos um as das outras e
então m ais bois e finalm ente os prim eiros boiadeiros cavalgando pelos flancos e m antendo o gado entre si e a com
panhia a cavalo. Atrás deles vinha um bando de várias centenas de pôneis. O sargento procurou Candelario. Por m
ais que retrocedesse o olhar ao longo das fileiras não o pôde encontrar. Instigou o cavalo através da coluna e se
dirigiu para a outra ponta. Os últim os tocadores surgiam agora em m eio à poeira e o capitão gesticulava e gritava.
Os pôneis haviam com eçado a se desviar da m anada e os tocadores abriam cam inho às chicotadas na direção
dessa com panhia arm ada que cruzava seu cam inho na planície. Já se podia ver por entre a poeira pintados sobre o
couro dos pôneis asnas e m ãos e sóis nascentes e pássaros e peixes de todos os feitios com o vestígios de trabalho
antigo sob o selante de um a tela e agora tam bém se podia ouvir acim a do m artelar dos cascos desferrados o
sopro das quenas, flautas de ossos hum anos, e alguns dentre a com panhia com eçaram a olhar para trás em suas
m ontarias e outros a se atropelar em confusão quando de um ponto além daqueles pôneis assom ou um a horda
fantástica de lanceiros e arqueiros a cavalo portando escudos adornados com pedaços de espelhos quebrados que
lançavam m il sóis fragm entados contra os olhos de seus inim igos. Um a legião m edonha, às centenas em núm
ero, sem inus ou vestidos em traj es áticos ou bíblicos ou ataviados com o num sonho febril com as peles de anim
ais e ornatos de seda e peças de uniform e ainda m arcadas pelo sangue de seus donos originais, capotes de dragoons
trucidados, casacos de cavalaria com galões e alam ares, um de cartola e outro com um guarda-chuva e m ais outro
com longas m eias brancas de m ulher e um véu de noiva m anchado de sangue e alguns com cocares de penas de
grou ou capacetes de couro cru ostentando chifres de touro ou búfalo e um m etido em um fraque ao contrário e de
resto nu e outro com a arm adura de um conquistador espanhol, o peitoral e as espaldeiras com fundas m ossas de
antigos golpes de m aça ou sabre feitos em outro país por hom ens cuj os ossos eram agora pó e m uitos ainda com
suas tranças entrelaçadas ao pelo de outras feras a ponto de arrastar no chão e as orelhas e rabos de seus cavalos
ornam entados com retalhos de tecidos coloridos brilhantes e um cuj o anim al tinha a cabeça inteira pintada de
escarlate e os rostos de todos os cavaleiros lam buzados de tinta de um j eito espalhafatoso e grotesco com o um a
com panhia de palhaços a cavalo, hilários m ortais, todos ululando em um a língua bárbara e caindo sobre eles com
o um a horda de um inferno ainda m ais horrível que o m undo sulfuroso do j uízo cristão, guinchando e gritando e
am ortalhados em fum aça com o esses seres vaporosos de regiões além da j usta apreensão onde o olho erra e os
lábios balbuciam e babam .
Oh m eu deus, disse o sargento.
Um a sonora revoada de flechas atravessou a com panhia e hom ens cam balearam e tom baram de suas m
ontarias. Cavalos em pinavam e m ergulhavam e as hordas m ongólicas os envolveram pelos flancos e viraram e
investiram à plena carga com suas lanças.
A com panhia cessara de avançar a essa altura e os prim eiros tiros foram disparados e a fum aça cinza dos rifles
rolou em m eio à poeira conform e os lanceiros abriam brechas nas fileiras. O cavalo do kid afundou sob seu corpo
com um longo suspiro pneum ático. Ele j á havia disparado seu rifle e agora estava no chão e m exia na bolsa de m
unição. Um hom em a seu lado tinha um a flecha cravada no pescoço. Estava levem ente curvado com o que
rezando. O kid pensou em extrair a ponta de ferro farpada ensanguentada m as então viu que o hom em tinha outra
flecha enterrada até as penas em seu peito e estava m orto. Por toda parte havia cavalos caídos e hom ens se
debatendo e ele viu um hom em abaixado carregando seu rifle com o sangue escorrendo de seus ouvidos e viu hom
ens com seus revólveres desm ontados tentando encaixar os tam bores de reserva carregados que tinham consigo
e viu hom ens de j oelhos que curvaram o corpo e cravaram os dedos na própria som bra no chão e viu hom ens
perfurados por lanças e agarrados pelos cabelos e escalpelados ainda de pé e viu os cavalos de batalha atropelando
os caídos e um pequeno pônei de cara branca com um olho toldado esticou o pescoço do m eio das som bras e deu
um a dentada em sua direção e depois sum iu. Entre os feridos alguns pareciam aturdidos e sem discernim ento e
alguns estavam pálidos sob as m áscaras de pó e outros se borraram ou cam baleavam atordoados para as lanças
dos selvagens. Agora arrem etendo um friso selvagem de cavalos im petuosos de olhar esgazeado e dentes
arreganhados e cavaleiros nus com punhados de flechas travados entre os m axilares e seus escudos trem eluzindo
entre a poeira e no extrem o oposto das fileiras desbaratadas em m eio ao sopro das flautas de osso e dobrando-se
lateralm ente em suas m ontarias com um calcanhar preso à correia das cernelhas e os corpos ligeiram ente curvos
flexionados sob o pescoço distendido dos pôneis até que houvessem circundado a com panhia e cortado suas
fileiras em dois para então se reerguer com o bonecos de parques de diversões, alguns com rosto de pesadelo
pintado no peito, perseguindo os saxões sem cavalo e trespassando-os com suas lanças e esm agando-os com suas
clavas e pulando de suas m ontarias com facas e correndo pelo solo com um peculiar trote genuvaro com o criaturas
im pelidas a m odos antinaturais de locom oção e arrancando as roupas dos m ortos e agarrando-os pelos cabelos e
passando suas lâm inas em torno do crânio de vivos e m ortos igualm ente e rasgando e erguendo as perucas
sangrentas e retalhando e dilacerando os corpos despidos, arrancando m em bros, cabeças, eviscerando os
estranhos torsos brancos e segurando no ar enorm es punhados de tripas, genitais, alguns selvagens tão besuntados
de sangue que poderiam ter se espoj ado sobre ele com o cães e alguns que caíram sobre os m oribundos e os sodom
izaram com gritos agudos para os com panheiros. E agora os cavalos dos m ortos vinham num tropel saídos da
fum aça e do pó e se revolviam com abas de couro abanando e crinas desgrenhadas e olhos esbranquiçados de m
edo com o os olhos de um cego e alguns estavam em plum ados com flechas e outros vazados de lanças e vacilando
e vom itando sangue enquanto circulavam pela área da carnificina e galopavam para sum ir de vista outra vez. A
poeira estancava o sangue das cabeças úm idas e expostas dos escalpelados que com a orla de cabelo sob as feridas
e tonsurados até o osso agora j aziam com o m onges m utilados e nus no pó estagnado de sangue e por toda parte
os m oribundos se lam uriavam e gem iam coisas ininteligíveis e os cavalos j aziam gritando.
V

SEM RUMO NO BOLSON DE MAPIMI — SPROULE — ÁRVORE DOS BEBÊS MORTOS — CENAS
DE UM MASSACRE — SOPILOTES — OS ASSASSINADOS NA IGREJA — NOITE ENTRE OS
MORTOS — LOBOS — AS LAVADEIRAS NO VAU — CAMINHADA PARA OESTE — MIRAGEM
— UM ENCONTRO COM BANDIDOS — ATACADO POR UM VAMPIRO — CAVANDO UM POÇO
— UMA ENCRUZILHADA NO NADA — A CARRETA — MORTE DE SPROULE — PRESO — A
CABEÇA DO CAPITÃO — SOBREVIVENTES — A CAMINHO DE CHIHUAHUA — A CIDADE — A
PRISÃO — TOADVINE.

Com a escuridão um a alm a ergueu-se m ilagrosam ente do m eio do m orticínio recente e fugiu sob o luar. O
terreno onde ficara caído estava em papado de sangue e da urina das bexigas esvaziadas dos anim ais e ele seguiu
em frente suj o e m alcheiroso com o algum fétido filhote da fêm ea encarnada da própria guerra. Os selvagens
haviam se deslocado para terras elevadas e ele pôde ver a luz de suas fogueiras e ouvir seus cantos, um a cantoria
estranha e lam entosa vinda ali do alto onde tinham ido assar as m ulas. Abriu cam inho em m eio aos pálidos e
desm em brados, em m eio aos cavalos prostrados e escarrapachados, e tom ou tento das estrelas e partiu para o sul
a pé. A noite assum ia m il e um a form as ali naqueles erm os e ele m antinha os olhos fixos no terreno diante de si.
A luz das estrelas e a lua m inguante lançavam um a tênue som bra de suas andanças na escuridão do deserto e ao
longo de todos os cum es os lobos uivavam e se deslocavam para o norte em direção à m atança. Andou a noite
inteira e ainda assim conseguia ver as fogueiras atrás de si.
Com a luz do dia ele rum ou na direção de uns afloram entos rochosos por um quilôm etro e m eio no fundo do
vale. Estava escalando o penhasco de m atacões quando escutou um a voz cham ando de algum lugar naquela
vasteza. Olhou para a planície m as não viu ninguém . Quando a voz cham ou outra vez ele se virou e sentou para
descansar e logo avistou algum a coisa se m ovendo pela ram pa, um farrapo de hom em subindo em sua direção
pelos deslizam entos de tálus. Escolhendo o cam inho com cuidado, olhando por sobre o om bro. O kid podia ver
que nada o seguia.
Levava um cobertor sobre os om bros e tinha a m anga da cam isa rasgada e escura de
sangue e segurava o braço j unto do corpo com a m ão livre. Seu nom e era Sproule.
Oito deles haviam escapado. Seu cavalo levara várias flechadas e desabara sob ele no
m eio da noite e os dem ais haviam seguido adiante, o capitão entre eles.
Sentaram lado a lado entre as rochas e
observaram o dia se alongando na planície
abaixo. Salvou algum de seus pertences? disse
Sproule.
O kid cuspiu e abanou a
cabeça. Olhou para
Sproule. Seu braço está m
uito ruim ?
O outro o puxou para j unto do corpo. Já vi pior, disse.
Ficaram sentados observando
aquelas extensões de areia e rocha e
vento. Que tipo de índios eram
aqueles?
Não sei.
Sproule tossiu profundam ente no punho fechado. Puxou o braço ensanguentado para j unto do corpo. Com os diabos
se não são um belo aviso para os cristãos, disse.
Deitaram à som bra de um a saliência rochosa até depois do m eio-dia, lim pando um lugar na poeira de lava
cinzenta para dorm ir, e ao entardecer puseram -se em m archa descendo pelo vale no rastro da guerra e eram
m inúsculos e se m oviam m uito lentam ente na im ensidão da paisagem .
Quando chegou o anoitecer subiram rum o à borda rochosa outra vez e Sproule apontou um a m ancha escura na
vertente do penhasco estéril. Parecia o negro de fogueiras extintas. O kid fez um a viseira com a m ão para olhar.
Os paredões concoidais do cânion ondulavam sob o calor com o panos pregueados.
Pode ser um a
bica, disse
Sproule. É um a
bela cam inhada
até lá.
Bom , se estiver vendo algum a
água m ais perto a gente vai
atrás. O kid olhou para ele e
puseram -se em m archa.
O lugar ficava acim a de um a depressão e o cam inho era um a confusão de rochas caídas e escória e plantas com feitio
de baioneta e aspecto m ortífero. Pequenos arbustos de cor preta e verde-oliva calcinavam ao sol.
Cam balearam subindo o leito de argila gretada de um curso d’água seco. Descansaram e retom aram a m archa.
A fonte ficava bem no alto entre as saliências, água vadosa pingando na rocha negra escorregadia e nos m ím ulos
e nos zigadenos com o um pequeno e perigoso j ardim suspenso. A água que chegava ao fundo do cânion não
passava de um gotej am ento e os dois se curvavam alternadam ente com lábios franzidos para a pedra com o
devotos em um santuário.
Passaram a noite em um a caverna rasa abaixo desse ponto, um antigo relicário de lascas de sílex e cascalhos
esparram ados pelo chão de pedra em m eio a contas de conchas e ossos polidos e carvão de antigas fogueiras.
Com partilharam o cobertor contra o frio e Sproule tossia contidam ente no escuro e levantavam de tem pos em tem
pos para descer e beber j unto à pedra. Partiram antes do nascer do sol e a aurora os colheu novam ente na
planície.
Seguiram o terreno pisoteado deixado pelos guerreiros e à tarde encontraram um a m ula que não pudera
prosseguir e fora perfurada por lanças e abandonada sem vida e depois encontraram outra. O cam inho foi se
estreitando entre rochedos e após algum tem po chegaram a um arbusto de cuj os ram os pendiam bebês m ortos.
Pararam lado a lado, hesitantes sob o calor. Aquelas pequenas vítim as, sete, oito delas, haviam sido perfuradas
no m axilar inferior e estavam desse m odo penduradas pelas gargantas nos galhos partidos de um pé de prosópis
para fitar cegam ente o céu nu. Calvas e pálidas e inchadas, larvais de algum ser indefinido. Os desterrados
passaram m ancando, olharam para trás. Nada se m exia. Ao entardecer chegaram a um vilarej o na planície onde
a fum aça ainda subia das ruínas e tudo fora reduzido à m orte. De certa distância parecia um forno de olaria
decrépito. Perm aneceram do lado de fora dos m uros por um longo tem po escutando o silêncio antes de entrar.
Seguiram lentam ente pelas pequenas ruas de lam a. Havia cabras e ovelhas trucidadas em seus cercados e
porcos m ortos na lam a. Passaram por choupanas de lam a onde as pessoas j aziam m ortas em todas as posturas de
m orte nas portas e nos pisos, despidas e inchadas e estranhas. Encontraram pratos de com ida largados pela m
etade e um gato veio e sentou sob o sol e observou-os sem interesse e as m oscas zum biam por toda parte no ar
quente e m ortiço.
No fim da rua chegaram a um a plaza com bancos e árvores onde urubus se am ontoavam em colônias negras
pútridas. Um cavalo m orto j azia na praça e algum as galinhas bicavam um a área com farinha espalhada j unto a
um a porta. Postes carbonizados fum egavam onde os telhados haviam cedido e havia um burro parado na porta
aberta da igrej a.
Sentaram em um banco e Sproule segurou o braço ferido j unto ao
peito e balançou para a frente e para trás e piscou os olhos sob o sol.
O que quer fazer? disse ao kid.
Tom ar um
gole
d’água.
Fora isso.
Não sei.
Quer
tentar
voltar?
Pro
Texas?
Não sei de outro lugar.
A gente não vai
conseguir nunca.
Bom , então diz
você.
Não tenho nada pra dizer.
Ele estava tossindo outra vez. Segurou o peito com a m
ão boa e ficou com o que tentando recuperar o fôlego.
Qual seu problem a, resfriado?
Sou
tísico.
Tísico?
Balançou a cabeça. Vim pra cá por causa da saúde.
O kid olhou para ele. Abanou a cabeça e ficou de pé e atravessou a plaza na direção da igrej a. Havia abutres
agachados entre as velhas m ísulas de m adeira entalhada e apanhou um a pedra e atirou na direção deles m as
nem se m overam .
As som bras haviam se alongado na plaza e pequenas espirais de poeira m oviam -se pelas ruas de terra crestada.
Os pássaros necrófagos pousavam nas quinas m ais elevadas das casas com as asas estendidas em atitudes de
exortação com o pequenos bispos negros. O kid voltou e apoiou um pé no banco e se inclinou dobrando o j oelho.
Sproule continuava sentado com o antes, ainda segurando o braço.
Esse filho da puta tá acabando com igo, disse.
O kid cuspiu e olhou o fim da
rua. Melhor ficar aqui essa noite.
Acha que não vai ter problem a?
Com o assim ?
E se os índios
voltarem ?
Pra que eles
iam voltar?
Bom , e se
eles voltarem
? Eles não
vão voltar.
Segurou o braço.
Pena que você não tem
um a faca aí, disse o kid.
Pena que você não tem .
Tem carne aqui se o
suj eito tiver um a faca.
Não estou com fom e.
Acho que a gente devia dar um a
fuçada nessas casas e ver o que tem
por aí. Vai você.
A gente precisa encontrar um lugar pra dorm ir.
Sproule olhou para ele. Não
preciso ir pra lugar nenhum ,
disse. Bom . Faça com o quiser.
Sproule tossiu e
cuspiu. Pode deixar,
disse. O kid virou e
desceu a rua.
As portas eram baixas e ele tinha de se curvar para desviar das vigas do lintel, descendo os degraus e penetrando
nos am bientes frescos e terrosos. Não havia m obília exceto catres para dorm ir, talvez um pequeno arm ário de
despensa. Foi de casa em casa. Em um côm odo os ossos de um pequeno vulto negro e fum egando. Em outro um
hom em , a carne queim ada esticada e tesa, os olhos cozidos nas órbitas. Havia um nicho na parede de barro com
estatuetas de santos vestidos com roupas de bonecas, as toscas faces de m adeira pintadas de cores brilhantes.
Ilustrações cortadas de um j ornal velho e coladas na parede, um retrato pequeno de um a rainha, um a carta de
tarô correspondente ao quatro de copas. Havia réstias de pim entas secas e algum as cabaças. Um a garrafa de vidro
contendo ervas. Do lado de fora um quintal de terra batida com cercado de ocotillo e um forno de barro redondo
com um a abertura onde coalho preto trem ulava sob a luz do interior.
Encontrou um pote de argila com feij ões e algum as tortilhas secas e levou tudo para um a casa no fim da rua
onde as brasas do teto ainda fum egavam e esquentou a com ida nas cinzas e com eu, agachado ali com o algum
desertor vasculhando as ruínas de um a cidade da qual fugira.
Quando regressou à praça Sproule sum ira. Tudo estava m ergulhado em som bras. Atravessou a praça e subiu
os degraus de pedra até a porta da igrej a e entrou. Sproule estava parado no átrio. Arcobotantes de luz desciam das
elevadas j anelas na parede oeste. Não havia bancos na igrej a e no piso de pedra estava um a pilha de corpos
escalpelados e nus e parcialm ente com idos das cerca de quarenta alm as que haviam se entrincheirado naquela
casa de Deus contra os pagãos. Os selvagens haviam aberto buracos no telhado e os abateram dali do alto e o chão
estava coberto de hastes de flechas partidas usadas para arrancar as roupas dos m ortos. Os altares haviam sido
derrubados e o sacrário saqueado e o grande Deus adorm ecido dos m exicanos extirpado de seu cálice dourado. As
pinturas prim itivas de santos em suas m olduras pendiam tortas nas paredes com o se um terrem oto houvesse
afligido o lugar e um Cristo m orto em um esquife de vidro estava em pedaços no chão do coro.
Os m ortos j aziam em um a im ensa poça de seu sangue com unal. O líquido coagulara num a espécie de
gelatina atravessada de todos os lados pelos rastros de lobos ou cães e ao longo das beiradas secara e rachara com o
um a cerâm ica cor de borgonha. O sangue se esparram ara em línguas escuras pelo chão e o sangue rej untara as
laj es e escorrera até o átrio onde as pedras estavam m arcadas pelos pés dos fiéis e de seus pais antes deles e fios
de sangue haviam descido pelos degraus e gotej ado das pedras por entre os rastros verm elho-escuros dos
carniceiros.
Sproule se virou e olhou para o kid com o se soubesse o que estava pensando m as o kid apenas abanou a cabeça.
Moscas trepavam pelos crânios sem pele e sem pelos dos m ortos e m oscas passeavam em seus globos oculares
enrugados.
Vam os, disse o kid.
Cruzaram a praça com a últim a luz e desceram a rua estreita. Na porta j azia um a criança m orta com dois
abutres em cim a. Sproule tentou enxotar os abutres com a m ão boa e eles bateram as asas e sibilaram e se
agitaram desgraciosam ente m as não voaram .
Puseram -se em m archa pela m anhã com a prim eira luz enquanto lobos esgueiravam -se pelas portas e
dissolviam -se na neblina das ruas. Tom aram a estrada sudoeste por onde os selvagens vieram . Um pequeno riacho
arenoso, álam os, três cabras brancas. Vadearam um trecho onde m ulheres haviam sido m ortas ao lavar roupa.
Avançaram laboriosam ente o dia todo através de um a terra dam nata de escória fum egante, passando de tem pos
em tem pos pelas form as intum escidas de m ulas ou cavalos m ortos. Ao anoitecer haviam consum ido toda a água
que levavam . Adorm eceram na areia e acordaram nas horas frias e escuras da m adrugada e seguiram em frente e
percorreram a terra calcinada até beirar o desfalecim ento. À tarde toparam em seu cam inho com um a carreta, tom
bada sobre o varal, as grandes rodas feitas de seções do tronco de um álam o e presas aos eixos de m adeira com
espigas. Rastej aram sob sua som bra e dorm iram até escurecer e seguiram em frente.
Um fiapo de lua que estivera no céu o dia todo sum ira e seguiram a trilha através do deserto pela luz das estrelas,
as Plêiades m inúsculas bem acim a de suas cabeças e a Ursa Maior cam inhando sobre as m ontanhas para o norte.
Meu braço está
cheirando m al, disse
Sproule. O quê?
Disse que m eu braço
está cheirando m al.
Quer que eu dê um a
olhada?
Pra quê? Não vai
poder fazer nada.
Bom . Você é
quem sabe.
Pode deixar, disse Sproule.
Seguiram em frente. Por duas vezes na noite ouviram as pequenas cascavéis da pradaria sacudindo o chocalho
entre os arbustos e sentiram m edo. Ao alvorecer estavam escalando entre xisto e dolerito e sílex sob um a escura
parede m onoclinal onde se proj etavam torres com o profetas de basalto e passaram ao lado da estrada em que se
viam pequenas cruzes de m adeira fincadas em m ontículos de pedras onde viaj antes haviam ido ao encontro da m
orte. A estrada serpenteando entre as colinas e os desterrados arrastando-se pelas curvas íngrem es, enegrecendo sob
o sol, os globos oculares em fogo e os espectros coloridos fugindo em seu cam po periférico. Escalando por entre
ocotillos e opúncias onde as rochas estrem eciam e sum iam ao sol, rocha e nenhum a água e o cam inho arenoso e
ficavam de olho em qualquer coisa verde que pudesse ser indício de água m as água não havia. Com os dedos com
eram piñoles de um saco e seguiram em frente. Pelo calor do m eio-dia e então o crepúsculo onde lagartos ficavam
com seus queixos de couro nivelados às rochas refrescantes e rechaçavam o m undo com débeis sorrisos e olhos
com o pires de pedra rachada.
Galgaram a m ontanha ao pôr do sol e puderam enxergar por quilôm etros. Um im enso lago se esparram ava sob
eles com as distantes m ontanhas azuladas assom ando em m eio à inerte extensão de água e a form a de um falcão
flutuando e árvores que bruxuleavam sob o calor e um a cidade distante m uito branca contra o azul e colinas som
breadas. Sentaram e observaram . Viram o sol descer sob a borda serrilhada da terra a oeste e viram o sol se
inflam ar atrás das m ontanhas e viram a superfície do lago escurecer e a silhueta da cidade se dissolver acim a dela.
Dorm iram entre as rochas com o rosto para o céu com o hom ens m ortos e pela m anhã quando levantaram não
havia cidade nem árvores nem lago apenas um a planície estéril e poeirenta.
Sproule gem eu e caiu prostrado entre as rochas. O kid olhou para ele. Havia bolhas em seu lábio inferior e seu
braço sob a cam isa rasgada estava inchado e algum a coisa repugnante supurara por entre as m anchas de sangue
m ais escuras. Ele virou para trás e abarcou o vale com o olhar.
Ali vem vindo alguém , disse.
Sproule não respondeu. O kid
olhou para ele. Sério, disse.
Índios, disse Sproule. Não é?
Não sei. Longe
dem ais pra
dizer. O que
quer fazer?
Não sei.
O que
aconteceu com
o lago? Eu é
que vou saber.
A gente viu, os dois.
A pessoa vê o que quer ver.
Então por que não estou vendo
agora? O diabo sabe com o eu
queria. O kid olhou a planície
abaixo.
E se forem
índios? disse
Sproule. É
provável que sej
a.
Onde a gente pode se esconder?
O kid cuspiu seco e lim pou a boca com o dorso da m ão. Um lagarto saiu de sob um a pedra e se acocorou com
os pequenos cotovelos erguidos sobre a m ancha espum osa e sorveu tudo e voltou outra vez para a pedra deixando
apenas um a leve m arca na areia que evaporou quase instantaneam ente.
Esperaram o dia todo. O kid fez incursões pelos cânions à procura de água m as não encontrou nenhum a. Nada
se m ovia naquele purgatório desolado exceto aves de rapina. No início da tarde puderam avistar os cavaleiros pela
estrada íngrem e e sinuosa subindo a face da m ontanha abaixo deles. Mexicanos.
Sproule sentava com as pernas esticadas diante do corpo. Fiquei triste porque pensei que m inhas velhas botas vão
durar m ais que eu, disse. Ergueu o rosto. Pode ir, disse. Se salve você. Acenou com a m ão.
Estavam abrigados sob um a saliência de rocha em um a som bra exígua. O kid não respondeu. Em um a hora
puderam escutar o raspar seco de cascos entre as pedras e o entrechoque m etálico dos arreios. O prim eiro
cavalo a dobrar a colina rochosa e passar através do desfiladeiro na m ontanha foi o grande baio do capitão e ia com
a sela do capitão m as o capitão não ia nele. Os refugiados ficaram ao lado da estrada. Os cavaleiros tinham a pele
queim ada e pareciam esfalfados após a m archa sob o sol e m ontavam seus cavalos com o se nada pesassem .
Havia sete deles, oito. Usavam chapéus de abas largas e roupas de couro curtido e carregavam escopetas de través
no cepilho de suas selas e ao passarem por eles o líder sobre o cavalo do capitão acenou gravem ente com a cabeça
e tocou a aba do chapéu e seguiram em frente.
Sproule e o kid os acom panharam com o olhar. O kid cham ou e Sproule com eçara a trotar desaj eitado atrás dos
cavalos.
Os cavaleiros com eçaram a se curvar nas selas e a oscilar com o bêbados. Suas cabeças balançavam . Suas
gargalhadas ecoaram entre as rochas e deram m eia-volta nas m ontarias e pararam e ficaram olhando os viaj
antes com largos sorrisos.
Qué quiere? exclam ou o líder.
Os cavaleiros riram e deram tapinhas uns nos outros. Haviam tocado os
cavalos e com eçaram a andar em torno. O líder virou para a dupla a pé.
Buscan a los indios?
Com isso alguns hom ens desm ontaram e caíram nos braços uns dos outros às lágrim as no m aior
descaram ento. O líder olhou para eles e sorriu, seus dentes brancos e m aciços, feitos para m astigar e
pilhar. Birutas, disse Sproule. São birutas.
O kid ergueu o rosto para o
líder. Que tal um gole d’água,
disse. O líder parou de sorrir,
fechou o rosto. Água? disse.
Não tem os água
nenhum a, disse
Sproule. Mas am igo,
com o não? Aqui m
uito seco.
Esticou o braço para trás sem se virar e um cantil de couro foi passado de m ão em m ão pelos cavaleiros até
chegar a sua m ão. Sacudiu-o e ofereceu. O kid puxou a rolha e bebeu e parou ofegante e bebeu outra vez. O
líder esticou o braço e bateu no cantil. Basta, disse.
Ele continuou dando goles. Não pôde ver o rosto do cavaleiro se turvando. O hom em tirou um a bota do estribo e
chutou o cantil das m ãos do kid deixando-o por um m om ento num gesto congelado de exclam ação com o cantil
subindo e girando no ar e os lóbulos de água cintilando sob o sol antes que caísse ruidosam ente sobre as rochas.
Sproule cam baleou em sua direção e o apanhou onde estava tom bado entornando o conteúdo e com eçou a beber,
olhando por sobre a borda. O cavaleiro e o kid se encaravam . Sproule sentou ofegando e tossindo.
O kid cam inhou entre as rochas e tirou o cantil dele. O líder cutucou o cavalo com os j oelhos e puxou um a
espada de um a bainha sob a perna e curvando-se para a frente correu a lâm ina por sob a correia e a ergueu. A
ponta da espada ficou a m eio palm o do rosto do kid e a correia do cantil estava pendurada na lateral da lâm ina. O
kid não se m ovia e o cavaleiro ergueu o cantil de suas m ãos suavem ente e deixou que deslizasse pela lâm ina e
fosse repousar a seu lado. Virou para os hom ens e sorriu e estes m ais um a vez com eçaram a cacarej ar e a dar
socos uns nos outros com o m acacos.
Im pulsionou a rolha pendurada por um a tira de couro e a enfiou no bocal com o canto da m unheca.
Jogou o cantil para o hom em de trás e baixou o rosto para os viaj antes. Por que vocês não esconde?
disse. De você?
De eu.
A gente
estava com
sede. Muita
sede. Hein?
Não responderam . Batia a lateral da espada levem ente contra a m açaneta da sela e parecia form ar palavras em
sua cabeça. Curvou-se ligeiram ente para a frente. Quando os cordeiros está perdido na m ontanha, disse. Eles
lloran. Às vezes m ãe aparece. Às vezes lobo. Sorriu para os dois e ergueu a espada e a enfiou de volta no lugar de
onde a tirara e virou o cavalo agilm ente e trotou entre os dem ais cavalos atrás dele e os hom ens m ontaram e
foram atrás e logo todos haviam sum ido.
Sproule sentou im óvel. O kid o fitou m as ele desviou o rosto. Estava ferido em um país inim igo longe de casa e
em bora seus olhos apreendessem as pedras estranhas em torno o vazio ainda m ais am plo além delas parecia
engolir sua alm a.
Desceram a m ontanha, pisando nas rochas com as m ãos esticadas diante do corpo e suas som bras eram
retorcidas no terreno irregular com o criaturas buscando as próprias form as. Chegaram no fundo do vale ao
crepúsculo e puseram -se em m archa pela terra azul e cada vez m ais fria, as m ontanhas a oeste um a linha de laj
es denteadas atravessando o m undo de ponta a ponta e o m ato seco sacudido e enroscado por um vento vindo de
lugar nenhum .
Cam inharam até penetrar na escuridão e dorm iram com o cachorros na areia e desse m odo dorm iam quando
um a form a negra vinda do chão bateu asas dentro da noite e pousou no peito de Sproule. A fina arm ação óssea
dos dedos esticava as asas coriáceas com que se firm ava para cam inhar. Um focinho achatado e enrugado,
pequeno e m aligno, lábios arreganhados e franzidos em um sorriso terrível e dentes pálidos azulados sob a luz das
estrelas. Curvou-se sobre a presa. Destram ente abriu dois estreitos sulcos em seu pescoço e dobrando as asas em
cim a dele com eçou a beber seu sangue.
Não suave o bastante. Ele acordou, levou a m ão ao lugar. Soltou um grito e o m orcego hem atófago esvoaçou e
recuou de seu peito e se equilibrou outra vez e guinchou e estalou os dentes.
O kid se levantara e pegara um a pedra m as o m orcego pulou para longe e desapareceu na escuridão. Sproule
agarrava o próprio pescoço e balbuciava histericam ente e quando viu o kid ali de pé olhando para ele estendeu as
m ãos ensanguentadas em sua direção com o que num gesto acusatório e então tapou os ouvidos e gritou com o se
ele próprio não fosse escutar, um uivo de tal afronta com o que a suturar um a cesura na pulsação do m undo. Mas
o kid sim plesm ente cuspiu na escuridão do espaço entre os dois. Conheço a sua laia, disse. O que deixa você rem
oído é o que corrói você por dentro.
De m anhã atravessaram um leito seco e o kid subiu por ele à procura de um tanque ou sum idouro m as não
encontrou nada. Parou j unto a um a cavidade no solo e com eçou a abrir um buraco com um osso e depois de cavar
a areia por cerca de m eio m etro a areia ficou úm ida e então um pouco m ais e um lento fio d’água com eçou a
preencher os sulcos que ele abria com os dedos. Arrancou a cam isa e enfiou na areia e ficou observando o m odo
com o escurecia e observou a água subir devagar entre as pregas do tecido até j untar m ais ou m enos o que daria
um a caneca cheia e aí baixou a cabeça na escavação e bebeu. Depois sentou e observou a cam isa encharcar
novam ente. Fez isso por m ais ou m enos um a hora. Então vestiu a cam isa e percorreu de volta o leito seco.
Sproule não quis tirar a cam isa. Tentou
sorver a água e encheu a boca de areia.
Será que dava pra você m e em prestar a
cam isa, disse.
O kid estava agachado no cascalho seco do leito. Cada um bebe com a sua, disse.
Ele tirou a cam isa. Havia grudado na pele e um pus am arelo corria. Seu braço inchara do tam anho da coxa e
estava com descolorações contrastantes e pequenos verm es se agitavam na ferida aberta. Ele em purrou a
cam isa no buraco e se curvou e bebeu.
À tarde toparam com um a encruzilhada, na falta de nom e m elhor. Um tênue vestígio de carroças que vinha
do norte e cruzava sua trilha e seguia para o sul. Ficaram esquadrinhando a paisagem à procura de algum ponto
de orientação naquele vazio. Sproule sentou onde os cam inhos se cruzavam e lançou um olhar das profundas
cavernas de seu crânio onde estavam aloj ados seus olhos. Disse que não sairia dali.
Ali tem um
lago, disse o
kid. Ele não
olhou.
O lago bruxuleava na distância. As m argens bordej adas de sal. O kid o exam inou e exam inou as
trilhas. Após alguns instantes apontou o queixo para o sul. Acho que esse aqui é o cam inho m ais
usado. Tudo bem , disse Sproule. Vai você.
Faça com o quiser.
Sproule observou o outro ir. Após alguns instantes ficou de pé e foi atrás.
Haviam percorrido talvez três quilôm etros quando pararam para descansar, Sproule sentando com as pernas
esticadas e as m ãos no colo e o kid de cócoras a poucos passos. Piscando e barbudos e im undos em seus trapos.
Esse som parece de trovão pra você? disse Sproule.
O kid
ergueu a
cabeça.
Ouve.
O kid olhou para o céu, azul pálido, lím pido a não
ser pelo sol queim ando com o um buraco branco.
Dá pra sentir no chão, disse Sproule.
Não é
nada.
Ouve.
O kid ficou de pé e olhou em volta. Ao norte, um a pequena agitação de pó. Ele observou. A poeira não subia nem se
dissipava.
Era um a carreta, rolando penosam ente pela planície, um a pequena m ula a puxar. Podia ser que o condutor
pegara no sono. Quando viu os fugitivos na trilha a sua frente deteve a m ula e com eçou a esticar a rédea para dar
m eia-volta e conseguiu de fato fazê-la virar m as a essa altura o kid agarrara a testeira de couro cru e segurava o
anim al com firm eza. Sproule veio atrás m anquitolando. Da traseira da carroça duas crianças espiavam . Estavam
tão pálidas de pó, o cabelo branco e os rostos encovados, que pareciam pequenos gnom os ali agachados. Ao ver o
kid diante dele o condutor se encolheu todo e a m ulher a seu lado com eçou a chilrear e a guinchar e a apontar
de um horizonte para outro m as ele içou o corpo para dentro do carro e Sproule veio se arrastando m ais atrás e
ficaram fitando intensam ente a quente cobertura de lona enquanto os dois pequenos desam parados recuaram para
um canto e os observaram com seus olhos negros de cam undongo e o carro retom ou o rum o sul e seguiu rodando
com um crescente estrépito surdo e o chocalhar da carga.
Havia um a j arra de barro com água pendurada em um a tira de couro na arm ação da lona e o kid a pegou e
bebeu e passou para Sproule. Depois pegou de volta e bebeu o resto. Deitaram no chão da carroça entre um as
peles velhas e sal esparram ado e depois de algum tem po dorm iram .
Estava escuro quando entraram na cidade. O solavanco do carro parando foi o que acordou os dois. O kid se
levantou e olhou para fora. Um a rua de terra à luz das estrelas. A carroça vazia. A m ula ofegava e batia os
cascos no chão. Depois de algum tem po o hom em veio das som bras e os conduziu por um a passagem até um
quintal e recuou a m ula até que o carro estivesse lado a lado com um m uro e então desatrelou o anim al e o levou
para outro lugar.
Ele se deitou de novo no piso torto da carroça. Fazia frio na noite e ficou com os j oelhos encolhidos sob um
pedaço de couro que cheirava a m ofo e urina e dorm iu e acordou a noite toda e por toda a noite cachorros latiram
e ao nascer do dia galos cantaram e ele escutou cavalos na rua.
Com a prim eira luz cinzenta m oscas com eçaram a pousar sobre ele. Tocaram seu rosto e o acordaram e ele as
espantou. Depois de algum tem po sentou.
Estavam em um pátio deserto com m uros de barro e havia um a casa feita de caniços e argila. Galinhas andavam
em volta cacarej ando e ciscando. Um m enininho saiu da casa e abaixou as calças e cagou no quintal e se ergueu e
entrou outra vez. O kid olhou para Sproule. Estava deitado com o rosto enterrado nas tábuas da carroça. O cobertor o
cobria parcialm ente e m oscas cam inhavam sobre ele. O kid esticou o braço para sacudi-lo. Era um pedaço de pau
duro e frio. As m oscas voaram , depois pousaram outra vez.
O kid m ij ava ao lado do carro quando os soldados a cavalo entraram no quintal. Prenderam -no e am arraram suas m
ãos às costas e inspecionaram a carreta e conversaram entre si e então o conduziram pela rua.
Foi levado a um a construção de adobe e deixado em um a sala vazia. Ficou sentado no chão vigiado por um rapaz de
olhos arregalados segurando um velho m osquete. Após algum tem po vieram e o levaram outra vez.
Conduziram -no pelas estreitas ruas de terra e ele ouviu um a m úsica com o de fanfarra cada vez m ais alta. Prim
eiro crianças cam inharam com ele e então os velhos e finalm ente um aj untam ento de aldeães de pele escura
vestidos todos com roupas brancas de algodão com o assistentes de um sanatório, as m ulheres em rebozos escuros,
algum as com o peito exposto, os rostos verm elhos de alm agre, fum ando cigarrilhas. A m ultidão cresceu e os
guardas com suas espingardas no om bro faziam cara feia e gritavam para os que em purravam e seguiram ao longo
do elevado m uro de adobe de um a igrej a e entraram na plaza.
Um a feira tinha lugar ali. Um a exibição itinerante de panaceias, um circo prim itivo. Passaram por
robustas gaiolas de salgueiro cheias de cobras venenosas, com grandes serpentes verdes de algum a latitude m
ais m eridional ou m onstros-de-gila com a boca negra úm ida de veneno. Um leproso velho e m uito m agro
segurava punhados de tênias tiradas de um pote para que todos vissem e apregoava seus rem édios contra elas e
foram em purrados por outros boticários grosseiros e por vendedores e pedintes até que todos chegaram enfim
diante de um suporte de m adeira sobre o qual estava um a botij a de vidro com m escal cristalino. Nesse vasilham e
com os cabelos flutuando e os olhos virados para o alto em um rosto lívido havia um a cabeça hum ana.
Arrastaram -no adiante com gritos e gestos. Mire, m ire, exclam avam . Ele ficou diante do recipiente e insistiram
que olhasse e balançaram o vidro até girar de m odo que a cabeça ficasse de frente para ele. Era o capitão White.
Recentem ente em guerra entre os pagãos. O kid fitou os olhos im ersos vazios do antigo com andante. Olhou em
torno para os aldeães e os soldados, todos os olhos sobre ele, e cuspiu e lim pou a boca. Ele não é nada m eu, disse.

Jogaram -no em um velho curral de pedra com três outros refugiados m altrapilhos da expedição. Ficavam sentados
contra a parede com ar abestalhado ou circundavam o perím etro sobre o rastro seco de m ulas e cavalos e vom
itavam e cagavam sob os apupos de m eninos pequenos em poleirados no parapeito.
Conversou com um rapazote m agro da Georgia. Trem i m ais que um cachorro, disse o
rapaz. Fiquei com m edo porque achei que ia m orrer e depois fiquei porque achei que não
ia. Vi um hom em cavalgando o cavalo do capitão aí pelo deserto, disse o kid.
Sei, disse o georgiano. Mataram ele e o Clark e um outro rapaz que não sei o nom e. A gente chegou na cidade e
logo no dia seguinte m eteram a gente no calabozo e esse m esm o filho da puta estava aí com os guardas rindo e
bebendo e j ogando cartas, ele e o j efe, pra ver quem ficava com o cavalo do capitão e quem ficava com a pistola.
Você deve ter visto a cabeça do capitão.
Vi.
A pior coisa que j á vi na vida.
Deviam ter enfiado ela num vidro de conserva faz tem po. E a m inha tam bém , pra ser j usto. Só por seguir um im
becil daqueles.
Iam de parede em parede à m edida que o dia avançava para se proteger do sol. O rapaz da Georgia contou a ele
de seus cam aradas frios e m ortos exibidos sobre laj es no m ercado. O capitão decapitado em um chiqueiro, m
eio com ido pelos porcos. Fincou o calcanhar na terra e abriu um lugarzinho para descansar o pé. Estão se
preparando pra m andar a gente pra cidade de Chihuahua, disse.
Com o você sabe?
É o que
dizem . Não
sei. Quem
disse?
O m aruj o ali. Ele fala essa língua deles.
O kid fitou o hom em de quem ele falava. Abanou a cabeça e cuspiu seco.
Durante todo o dia m eninos pequenos escalavam o m uro de tem pos em tem pos para observá-los e apontar e
tagarelar. Cam inhavam ao longo do parapeito e tentavam m ij ar nos que estavam adorm ecidos à som bra m as os
prisioneiros perm aneciam alerta. Alguns no com eço j ogaram pedras m as o kid apanhou um a do tam anho de um
ovo em m eio à terra e com um arrem esso destro derrubou um a criança pequena sem nenhum outro som além do
baque surdo da aterrissagem no outro lado.
Agora você arranj ou pra
nossa cabeça, disse o
georgiano. O kid olhou para
ele.
Vão vir aqui com chicotes e não sei m ais o quê.
O kid cuspiu. Vão vir nada pra não levar um a surra com o próprio chicote.
E não foram m esm o. Um a m ulher trouxe tigelas de feij ões e tortilhas cham uscadas em um prato de barro
cru. Parecia nervosa e sorriu para eles e escondera doces por baixo do xale e havia pedaços de carne no fundo
das tigelas que vieram de sua própria m esa.
Três dias depois no dorso de pequenas m ulas de j oelhos eczem atosos partiram rum o à capital com o o previsto.

Cavalgaram cinco dias pelo deserto e por m ontanhas e através de pueblos poeirentos onde o populacho saía para
vê-los. Sua escolta em variados traj es de requinte carcom idos pelo tem po, os prisioneiros em trapos. Haviam
ganho cobertores e agachados j unto às fogueiras no deserto à noite queim ados de sol e ossudos e em brulhados
nesses sarapes pareciam os servos m ais com penetrados de Deus. Nenhum dos soldados falava inglês e orientavam
seus cativos com grunhidos ou gestos. Estavam fracam ente arm ados e m orriam de m edo dos índios. Enrolavam
seu tabaco em cascas de m ilho e sentavam diante do fogo em silêncio e esticavam os ouvidos para a noite. A
conversa quando havia era sobre bruxas ou pior e sem pre tentavam pinçar na escuridão algum a voz ou grito
entre os gritos que não fosse fera natural. La gente dice que el coy ote es un bruj o. Muchas veces el bruj o es un
coy ote.
Y los indios tam bién. Muchas
veces llam an com o los coy
otes. Y qué es eso?
Un tecolote.
Nada m as.
Quizás.
Quando cavalgaram pela garganta nas m ontanhas e avistaram a cidade dim inuta ao longe o sargento da
expedição ordenou que fizessem alto e falou com o hom em de trás e este por sua vez desm ontou e apanhou tiras
de couro cru no alforj e em sua sela e se aproxim ou dos prisioneiros e gesticulou para que cruzassem os pulsos e os
esticassem , m ostrando com o com as próprias m ãos. Am arrou um por um dessa m aneira e seguiram em frente.
Entraram na cidade sob um corredor de vísceras podres j ogadas sobre eles, conduzidos com o gado pelas ruas
pavim entadas com gritos elevados em sua esteira para a soldadesca que sorria do m odo apropriado e acenava com
a cabeça entre as flores e copos oferecidos, tocando os caça-fortunas m altrapilhos através da plaza onde um a fonte
j orrava e ociosos se reclinavam em bancos de pórfiro branco esculpido e passaram pelo palácio do governo e
depois pela catedral onde urubus se acocoravam ao longo dos entablam entos em poeirados e entre os nichos na
fachada esculpida bem ao pé das estátuas do Cristo e dos apóstolos, as aves ostentando suas próprias vestes negras
em posturas de estranha benevolência enquanto em torno delas adej avam ao vento os escalpos secos de índios m
assacrados pendurados em cordas, os cabelos longos e cinzentos ondulando com o filam entos de criaturas m
arinhas e os couros cabeludos ressecados batendo contra as pedras.
Passaram por velhos esm oleiros à porta da igrej a que estendiam as palm as das m ãos profundam ente vincadas e
aleij ados esfarrapados de olhar lacrim oso e crianças adorm ecidas nas som bras com m oscas andando em seus
rostos sem sonhos. Cobres enegrecidos em um prato m etálico, os olhos m urchos do cego. Escribas agachados nos
degraus com suas penas e tinteiros e tigelas de areia e leprosos gem endo pelas ruas e cachorros esfolados que
pareciam feitos inteiram ente de osso e vendedores de tam ales e velhas com o rosto escuro e sulcado com o a terra
arada agachadas na sarj eta diante de braseiros onde tiras enegrecidas de carne indefinível chiavam e crepitavam .
Pequenos órfãos circulavam em volta com o anões raivosos e loucos e bêbados babando e agitando os braços nos
pequenos m ercados da m etrópole e os prisioneiros passaram pela carnagem das barracas de açougue e o odor
pegaj oso das vísceras penduradas negras de m oscas e as carnes esfoladas em grandes nacos verm elhos agora
escurecidos com o avançar do dia e os crânios escorchados e nus de vacas e ovelhas com seus baços olhos azuis
esbugalhados de horror e os corpos rígidos de veados e pecaris e patos e codornizes e papagaios, todas as criaturas
selvagens da terra em torno pendendo de cabeça para baixo nos ganchos.
Receberam ordem de desm ontar e foram levados a pé em m eio à m ultidão e desceram um a velha escadaria de
pedra e cruzaram um a soleira de porta gasta com o sabão e depois um a poterna de ferro para dar em um a fria
adega de pedra havia m uito transform ada em prisão a fim de tom ar seu lugar entre os fantasm as de antigos m
ártires e patriotas enquanto a porta era fechada com estrépito m etálico às suas costas.
Quando a cegueira deixou seus olhos conseguiram divisar vultos agachados j unto à parede. O farfalhar em
leitos de feno com o ninhos de cam undongos sendo perturbados. Um ronco leve. Do lado de fora um a carroça
m atraqueando e o m artelar surdo de cascos pela rua e através das pedras um retinido abafado dos m alhos de um
ferreiro em algum a outra parte da m asm orra. O kid olhou em torno. Pedaços enegrecidos de pavios j aziam aqui e
ali em poças de gordura suj a pelo chão de pedra e fios ressecados de cusparadas pendiam das paredes. Alguns nom
es entalhados onde a luz chegava. Ele se agachou e esfregou os olhos. Alguém em roupas de baixo passou diante
dele até um balde no centro da prisão e parou e m ij ou. Esse hom em então se virou e veio em sua direção. Era alto
e tinha o cabelo nos om bros. Arrastou os pés através da palha e baixou o rosto para fitá-lo. Não m e conhece,
conhece? disse.
O kid cuspiu e estreitou os olhos para ele. Conheço, disse. O seu couro eu conheço até num curtum e.
VI

PELAS RUAS — BRASSTEETH — LOS HERÉTICOS — UM VETERANO DA ÚLTIMA GUERRA —


MIER — DONIPHAN — A SEPULTURA DOS LIPANS — CAÇADORES DE OURO — CAÇADORES
DE ESCALPOS — O JUIZ — LIBERTADOS DA PRISÃO — ET DE CEO SE METTENT EN LE PAYS.

Com a luz do dia os hom ens se ergueram do feno e agacharam sobre os quadris e fitaram os recém -chegados
sem curiosidade. Estavam sem inus e chupavam entre os dentes e fungavam e se aj eitavam e se catavam com o
m acacos. Um a luz tím ida revelara um a pequena j anela elevada em m eio à escuridão e um vendedor am bulante
m adrugador com eçou a apregoar suas m ercadorias.
O desj ej um consistiu de tigelas de piñole frio e foram acorrentados com grilhões e enxotados para a rua
retinindo e fedendo. Vigiados o dia todo por um depravado de dentes de ouro que portava um látego trançado de
couro cru e os fustigava de j oelhos nas sarj etas para que j untassem a im undície. Abaixo das rodas dos carrinhos
dos am bulantes, das pernas dos m endigos, arrastando atrás de si seus sacos de lixo. À tarde sentaram à som bra de
um m uro e com eram sua refeição e observaram dois cães unidos andando de lado pela rua.
O que acha da vida na
cidade? disse Toadvine.
Um a bela de um a
droga, até agora.
Fico esperando que caia no m eu agrado m as por enquanto nada.
Observaram furtivam ente o capataz quando passou, as m ãos
cruzadas às costas, o quepe caído sobre um olho. O kid cuspiu.
Já tinha visto ele antes, disse Toadvine.
Visto quem antes.
Sabe quem . O velho Brassteeth ali.
O kid seguiu com os olhos a figura que cam inhava.
Minha m aior preocupação é que algum a coisa aconteça
com ele. Rezo todo dia para que o Senhor cuide dele.
Com o você acha que vai sair dessa enrascada em que se
m eteu?
Vam os sair. Não
é com o o cárcel.
O que é o cárcel?
A penitenciária. Lá tem velhos peregrinos
que vieram pela trilha desde os anos vinte.
O kid observou os cães.
Após algum tem po o guarda voltou pela parede chutando os pés dos que dorm iam . O guarda m ais j ovem
carregava a escopeta engatilhada com o se pudesse acontecer algum a fantástica revolta entre aqueles delinquentes
acorrentados e m altrapilhos. Vam onos, vam onos, gritava. Os prisioneiros se ergueram e saíram arrastando os pés
sob o sol. Um pequeno sino soava e um coche vinha subindo pela rua. Eles pararam no m eio-fio e tiraram os
chapéus. O guião passou tocando a sineta e depois veio o coche. Tinha um olho pintado na lateral e era puxado por
quatro m ulas, levando a hóstia a algum a alm a. Um padre gordo cam baleava atrás carregando um a im agem . Os
guardas estavam entre os prisioneiros arrancando os chapéus das cabeças dos recém -chegados e enfiando-os em
suas m ãos infiéis.
Quando o coche passou voltaram a cobrir a cabeça e seguiram em frente. Os cães continuavam colados. Dois
outros cães ficavam por perto, agachados em suas peles frouxas, m eras carcaças de cachorros de couro esfolado
vendo os cães acoplados e então os prisioneiros com suas correntes ruidosas subindo a rua. Tudo bruxuleando
ligeiram ente sob o calor, todas essas form as de vida, com o m ilagres m uito degradados. Im agens grosseiras vom
itadas de ouvir dizer depois que os seres propriam ente ditos houvessem desvanecido na m ente dos hom ens.
Ele se arranj ara em um catre entre Toadvine e outro suj eito do Kentucky, um veterano da guerra. Esse hom em
regressara para reclam ar um certo am or de olhos escuros que deixara para trás dois anos antes quando a unidade
de Doniphan se deslocava no rum o leste para Saltillo e os oficiais tiveram de repelir de volta centenas de j ovens
vestidas de rapazes que seguiam pela estrada atrás do exército. Agora ficava solitário na rua em suas correntes,
estranham ente recatado, os olhos fixos acim a das cabeças dos m oradores locais, e à noite contava aos dois sobre
seus anos no oeste, um guerreiro afável, um hom em reservado. Estivera em Mier onde com bateram até que o
sangue corresse aos galões pelas canaletas e sarj etas e pelas biqueiras das azoteas e contou a eles com o os frágeis
sinos antigos espanhóis explodiam quando atingidos e com o ele sentou contra um m uro com a perna em
frangalhos esticada diante do corpo sobre as pedras de pavim entação escutando um a calm aria nos disparos que se
tornou um estranho silêncio e nesse silêncio cresceu um rum or baixo que ele tom ou por um trovão até que um a
bala de canhão dobrou a esquina rolando sobre as pedras com o um a bola de boliche im previsível e passou por ele
e desceu a rua e desapareceu de vista. Contou com o haviam tom ado a cidade de Chihuahua, um exército de tropas
irregulares que lutava usando farrapos e roupas de baixo e com o as balas de canhão eram de cobre m aciço e
vinham trotando pela relva com o sóis desgovernados e até os cavalos aprenderam a dar um passo para o lado ou
abrir as patas e com o as dam as da cidade subiam as colinas em suas caleches para fazer piqueniques e assistiam à
batalha e com o à noite sentados j unto às fogueiras eles escutavam os gem idos dos feridos m orrendo na planície e
viam sob a luz da lanterna a carroça dos m ortos se m ovendo entre os corpos com o um carro funerário saído do lim
bo.
Tenacidade não lhes faltava, disse o veterano, m as não sabiam lutar. Não recuavam . A gente ouvia histórias
de com o foram encontrados acorrentados aos reparos de seus canhões, soldados do trem de artilharia e tudo m
ais, m as se era verdade nunca vi. A gente enfiou pólvora nessas fechaduras aí. Explodim os os portões. As pessoas
aqui dentro pareciam ratos pelados. Os m exicanos m ais brancos que alguém j á viu. Curvaram -se até o chão e com
eçaram a beij ar nossos pés e coisas assim . O velho Bill, ele sim plesm ente soltou todo m undo. Diabos, nem sabia
o que tinham feito. Apenas disse a eles que não roubassem . Claro que roubaram tudo em que conseguiram pôr as
m ãos. Açoitam os dois deles e os dois m orreram com a surra e j á no dia seguinte outro bando fugiu com um as m
ulas e o Bill m andou enforcar os im becis sem nem pestanej ar. E foi assim tam bém que m orreram . Mas nunca
pensei que eu m esm o um dia estaria aqui dentro.
Estavam sentados de pernas cruzadas à luz de um a vela com endo em
tigelas de argila com os dedos. O kid ergueu o rosto. Enfiou o dedo na
tigela. Que é isso? disse.
É carne de touro de prim eira, filho. Da
corrida. Vai ganhar isso no dom ingo à
noite. Melhor continuar m astigando. Não
deixe que ela perceba que você está am
arelando.
Ele m astigou. Mastigou e contou a eles do encontro com os com anches e eles m astigavam e ouviam e balançavam a
cabeça.
Ainda bem que essa festa eu perdi, disse o veterano. Aqueles são uns filhos da puta cruéis. Sei de um suj eito lá
no Llano, perto dos colonos holandeses, eles o pegaram , levaram seu cavalo e tudo m ais. Deixaram o hom em a
pé. Ele chegou em Fredericksburg rastej ando de quatro e nu em pelo uns seis dias depois e sabem o que eles tinham
feito? Cortado fora as solas dos pés.
Toadvine abanou a cabeça. Fez um gesto na direção do veterano. O Granny rat aqui conhece bem eles, disse para o kid.
Com bateu eles. Não foi, Granny ?
O veterano fez um gesto com a m ão. Atirei em alguns roubando cavalos, só isso. Lá pros lados de Saltillo. Nada
de m ais. Tinha um a caverna por lá que tinha servido de sepultura lipan. Devia ter ao todo uns m il índios ali dentro.
Estavam com suas m elhores vestim entas e cobertores e tudo m ais. Estavam com seus arcos e suas facas, sei lá o
quê. Contas. Os m exicanos levaram tudo. Deixaram os corpos pelados. Carregaram tudo. Levavam índios
inteiros pra casa e punham eles num canto com roupa e tudo m ais m as eles com eçavam a desm anchar quando
saíam daquele ar da caverna e tiveram que j ogar fora. Quando j á não tinha quase m ais nenhum teve uns am
ericanos que entraram lá e escalpelaram o que sobrou deles e tentaram vender os escalpos em Durango. Não sei se
conseguiram ou não. Im agino que alguns daqueles inj ins j á tinham m orrido fazia uns cem anos.
Toadvine estava raspando a gordura de sua tigela com um a tortilha dobrada. Estreitou os olhos para o kid sob a luz da
vela. Quanto acha que a gente consegue pelos dentes do nosso velho Brassteeth? disse.

Viram argonautas esfarrapados dos States conduzindo m ulas pelas ruas a cam inho do sul através das m ontanhas
para o litoral. Caçadores de ouro. Degenerados itinerantes sangrando no rum o oeste com o um a praga
heliotrópica. Balançavam a cabeça ou falavam com os prisioneiros e deixavam cair tabaco e m oedas na rua ao lado
deles.
Viram j ovenzinhas de olhos negros com o rosto pintado fum ando cigarrilhas, andando de braços dados e
lançando-lhes olhares im pudentes. Viram o governador em pessoa ereto e form al em sua aranha estofada de seda
deixar estrepitosam ente as portas duplas do pátio do palácio e viram certo dia um bando de hum anos de
aspecto m alévolo m ontados em pôneis índios desferrados cavalgando m eio bêbados pelas ruas, barbudos,
bárbaros, traj ados em peles de anim ais costuradas com tendões e m unidos de arm as de todo gênero, revólveres
de enorm e peso e facas bowie do tam anho de clay m ores e rifles curtos de cano duplo com bocas em que dava
para enfiar o polegar e os xairéis de seus cavalos feitos de pele hum ana e os j aezes de cabelo hum ano trançado e
adornados com dentes hum anos e os cavaleiros usando escapulários ou colares de orelhas hum anas secas e
enegrecidas e os cavalos de aspecto indócil e olhar bravio arreganhando os dentes com o cães ferozes e
cavalgando tam bém com o bando um certo núm ero de selvagens sem inus bam bos sobre a sela, perigosos, im
undos, brutais, o grupo todo com o um a visita divina de algum a terra pagã onde eles e outros com o eles se alim
entavam de carne hum ana.
À testa do grupo, desproporcional e infantil no rosto sem pelos, ia o j uiz. Tinha as m açãs coradas e sorria e fazia
m esuras para as dam as e tirava o chapéu im undo. O dom o enorm e de sua cabeça quando a descobria era de um a
brancura ofuscante e seus contornos de tal m aneira perfeitam ente delim itados que pareciam ter sido pintados. Ele
e a horda nauseabunda da ralé que ia com ele cruzaram as ruas pasm adas e pararam diante do palácio do
governador, onde seu líder, um hom em pequeno de cabelos pretos, pediu entrada chutando as portas de carvalho
com sua bota. As portas foram abertas na m esm a hora e entraram , todos eles, e as portas voltaram a ser
fechadas.
Senhores, disse Toadvine, quero ser um a bosta de cavalo se não sei o que é tudo isso.
No dia seguinte o j uiz na com panhia dos dem ais ficou na rua fum ando um charuto e balançando nos
calcanhares. Ele usava um belo par de botas de pelica e exam inava os prisioneiros aj oelhados na sarj eta
apanhando a im undície com as m ãos nuas. O kid observava o j uiz. Quando os olhos do j uiz caíram sobre o kid
ele tirou o charuto do m eio dos dentes e sorriu. Ou pareceu sorrir. Então voltou a enfiar o charuto entre os dentes.
Nessa noite Toadvine convocou um a reunião e se agacharam j unto à parede e falaram aos sussurros.
O nom e dele é Glanton, disse Toadvine. Fez um contrato com Trias. Vão pagar a ele cem dólares a cabeça por
escalpos e m il pela cabeça de Góm ez. Disse a ele que som os três. Senhores, estam os de saída desse buraco de
m erda.
Não tem os arm a nem nada.
Ele sabe disso. Ele disse que pegava qualquer um com m ão certeira e que tiram da parte deles. Então não
pareçam com o se não fossem uns belos de uns m atadores de índios m uito tarim bados porque eu disse que a
gente era três dos m elhores.
Três dias depois cavalgavam em fila única pelas ruas com o governador e seu grupo, o governador em um
garanhão cinza-claro e os m atadores em seus pequenos pôneis de batalha sorrindo e distribuindo m esuras e as
lindas j ovens de pele escura atirando flores das j anelas e algum as j ogando beij os e m eninos pequenos correndo
ao lado do cortej o e velhos acenando com os chapéus e gritando vivas e Toadvine e o kid e o veterano à retaguarda,
os pés do veterano m etidos em tapaderos pendendo rente ao chão, tão longas as suas pernas, tão curtas as do
cavalo. E atravessaram o lim ite da cidade passando pelo velho aqueduto de pedra onde o governador lhes deu as
bênçãos e bebeu à saúde e ao sucesso deles num a cerim ônia sim ples e desse m odo tom aram a estrada país
adentro.
VII

JACKSON PRETO E JACKSON BRANCO — UM ENCONTRO NOS ARREDORES DA CIDADE —


COLTS WHITNEYVILLE — UM PLEITO — O JUIZ ENTRE DOIS LADOS — ÍNDIOS DELAWARES
— O VANDIEMENLANDER — UMA HACIENDA — A CIDADE DE CORRALITOS — PASAJEROS
DE UN PAÍS ANTIGUO — CENÁRIO DE UM MASSACRE — HICCIUS DOCCIUS — LEITURA DA
SORTE — SEM RODAS SOBRE UM RIO ESCURO — O VENTO CRUEL — TERTIUM QUID — A
CIDADE DE JANOS — GLANTON TIRA UM ESCALPO — JACKSON ENTRA EM CENA.

No grupo seguiam dois hom ens cham ados Jackson, um preto, o outro branco, am bos de prenom e John. O rancor
reinava entre os dois e quando cavalgavam pelas escarpas das m ontanhas desoladas o branco atrasava o cavalo
para em parelhar com o outro e usava sua som bra para se proteger e sussurrava para ele. O preto parava ou incitava
o cavalo para se livrar do outro. Com o se o branco estivesse com etendo algum a profanação de sua pessoa,
houvesse topado com algum rito adorm ecido em seu sangue escuro ou sua alm a escura pelo qual a form a
delineada pelo sol naquele solo rochoso sobre a qual pisava carregasse algo do próprio hom em e nisso residisse
perigo. O branco ria e cantarolava coisas para ele que soavam com o palavras de am or. Todos observavam para
saber onde isso ia dar m as ninguém adm oestava nem um nem outro para que parassem com aquilo e quando
Glanton olhava a traseira da coluna de tem pos em tem pos parecia sim plesm ente verificar suas presenças entre o
bando e seguia adiante.
Mais cedo nessa m anhã a com panhia tivera um encontro em um pátio atrás de um a casa nos arredores da
cidade. Dois hom ens descarregaram de um carroção um a caixa de equipam ento m ilitar com letras estam padas
do arsenal de Baton Rouge e um j udeu prussiano cham ado Spey er abriu a caixa com um form ão de craveiras e
um m artelo de ferrador e puxou um pacote achatado de papel pardo transparente de gordura com o um papel de
padeiro. Glanton abriu o em brulho e deixou que o papel caísse no chão de terra. Em sua m ão segurava um
revólver de patente Colt de cano longo e seis tiros. Era um a arm a im ensa destinada ao uso de dragoons e em seu
tam bor alongado ia o correspondente à carga de um rifle e carregada pesava cerca de cinco libras. Pistolas com o
essa podiam fazer um a bala cônica de m eia onça penetrar quinze centím etros em m adeira de lei e havia quatro
dúzias delas na caixa. Spey er estava abrindo os j ogos de m oldes de balas e os polvorinhos e ferram entas e o j uiz
Holden desem brulhava m ais um a pistola. Os hom ens fecharam um a roda em torno. Glanton lim pou o cano e as
câm aras da arm a e apanhou o polvorinho que Spey er lhe passou.
Parece um bocado sólida, disse um .
Ele encheu o tam bor e enfiou um a bala e a aj ustou no lugar com a alavanca articulada presa sob o cano. Depois
que todas as câm aras estavam carregadas colocou os fulm inantes e olhou em volta. Naquele pátio além de com
erciantes e clientes havia um certo núm ero de coisas vivas. A prim eira delas sobre a qual Glanton deitou os olhos
foi um gato que nesse preciso m om ento surgiu no topo de um m uro do lado oposto tão silenciosam ente quanto
um pássaro pousando. O anim al com eçou a cam inhar entre os pontiagudos cacos de vidro encravados na alvenaria
de barro. Glanton ergueu a arm a im ensa na m ão e puxou o cão com o polegar. A explosão no silêncio absoluto foi
im ensa. O gato sim plesm ente desapareceu. Nada de sangue ou guinchos, apenas evaporou. Spey er olhou sem
graça para os m exicanos. Estavam observando Glanton. Glanton voltou a puxar o cão com o polegar e apontou com
a pistola. Um bando de galinhas que ciscavam na poeira seca no canto do pátio se agitou nervosam ente, as
cabeças em ângulos variados. A pistola rugiu e um a ave explodiu num a nuvem de penas. As outras com
eçaram a correr em udecidas, os longos pescoços esticados. Ele fez fogo outra vez. Um a segunda ave rodopiou e
caiu estrebuchando. As outras esvoaçaram , pipilando debilm ente, e Glanton virou a pistola e atirou em um a
pequena cabra parada com a garganta apoiada no m uro de puro terror e o anim al tom bou m orto na poeira e ele
atirou em um a botelha de argila que explodiu num a chuva de cacos e água e ergueu a pistola e apontou na
direção da casa e tocou o sino em sua torre de barro acim a do telhado, um dobre solene que pairou no vazio após os
ecos dos tiros terem m orrido.
Um a névoa de fum aça cinza pairava sobre o pátio. Glanton travou o cão em m eio-gatilho e girou o tam bor e
voltou a baixar o cão. Um a m ulher apareceu na porta da casa e um dos m exicanos disse algo e ela voltou a
entrar.
Glanton olhou para Holden e depois olhou
para Spey er. O j udeu sorria nervosam ente.
Elas não valem cinquenta dólares.
Spey er ficou sério. E sua vida vale o quê? disse.
No Texas quinhentos m as a pessoa precisa
descontar a prom issória com a própria pele.
Mister Riddle acha que é um preço j usto.
Mister Riddle não está pagando.
Quem está adiantando o dinheiro é ele.
Glanton virou a pistola em
sua m ão e a exam inou.
Pensei que estivesse
fechado, disse Spey er.
Não tem nada fechado.
Elas foram com pradas pra guerra.
Nunca m ais vai ver iguais.
Enquanto o dinheiro não m uda de
m ão não tem nada fechado.
Um destacam ento de soldados, dez ou
doze, chegou da rua com arm as de
prontidão. Qué pasa aquí?
Glanton olhou para os
soldados sem interesse.
Nada, disse Spey er.
Todo va bien.
Bien? O sargento olhava
para as aves m ortas, a
cabra. A m ulher apareceu
na porta outra vez.
Está bien, disse Holden. Negocios del Governador.
O sargento olhou para eles e
olhou para a m ulher na porta.
Som os am igos del Señor
Riddle, disse Spey er.
Andale, disse Glanton. Você e esses seus negroides bunda-m oles.
O sargento deu um passo à frente e assum iu um a postura de autoridade. Glanton cuspiu. O j uiz j á se
interpusera no espaço entre os dois e agora puxava o sargento de lado e com eçava a conversar com ele. O
sargento ficou sob o braço do outro e o j uiz falava anim adam ente e fazia gestos expansivos. Os soldados
agacharam na poeira com os m osquetes e observavam o j uiz sem expressão.
Não dá dinheiro pra esse filho da puta, disse Glanton.
Mas o j uiz j á vinha trazendo o hom em para fazer um a apresentação form al.
Le presento al sargento Aguilar, exclam ou, estreitando o m ilitar m altrapilho em seu abraço. O sargento
estendeu a m ão com ar m uito sério. Ela ocupou aquele espaço e a atenção de todos que estavam ali com o se
fosse algo sendo apresentado para validação e então Spey er deu um passo adiante e a apertou.
Mucho gusto.
Igualm ente, disse o sargento.
O j uiz o escoltou perante a com panhia um a um , o sargento todo form al e os am ericanos m urm urando
obscenidades ou sacudindo a cabeça em silêncio. Os soldados agachavam sobre os calcanhares e observavam
cada m ovim ento daquela farsa com o m esm o ar enfastiado e enfim o j uiz parou diante do negro.
Aquele rosto escuro irritado. Ele o exam inou e puxou o sargento m ais perto para que o observasse m elhor e
então com eçou sua laboriosa apresentação em espanhol. Esboçou para o sargento um problem ático percurso do
hom em diante deles, suas m ãos traçando com um a destreza m aravilhosa com que m ultiplicidade de form as as
veredas se com binaram ali na autoridade últim a do inextinto — tais foram suas palavras — com o fios sendo
puxados pelo buraco de um a argola. Aduziu para a consideração geral referências aos filhos de Cam , as tribos
perdidas dos israelitas, certas passagens dos poetas gregos, especulações antropológicas quanto à propagação das
raças em sua dispersão e isolam ento m ediante a ação de cataclism o geológico e um a apreciação das
características raciais com respeito a influências clim áticas e geográficas. O sargento escutou isso e coisas m ais
com grande atenção e quando o j uiz encerrou deu um passo adiante e estendeu a m ão.
Jackson o ignorou.
Ele olhou para o j
uiz. O que você disse
pra ele, Holden?
Não o insulte, hom em .
O que você disse pra ele?
O rosto do sargento se anuviara. O j uiz conduziu-o pelo om bro e se curvou e falou em seu
ouvido e o sargento balançou a cabeça e deu um passo para trás e bateu continência para o
negro. O que você disse pra ele, Holden?
Que apertar as m ãos não
era um costum e em seu
país. Antes disso. O que
você disse pra ele antes
disso?
O j uiz sorriu. Não é necessário, disse, que os im plicados aqui se encontrem em posse dos fatos concernentes a
seu caso, pois seus atos irão no fim das contas se adaptar à história com ou sem a sua com preensão. Mas é um a
questão de coerência com as noções de princípio j usto que esses fatos — na m edida em que possam prontam
ente prestar-se a tanto — encontrem um repositório no testem unho de terceiros. O sargento Aguilar é j ustam
ente essa terceira parte e qualquer m enosprezo a sua posição não é senão um a consideração secundária quando
com parada a divergências nesse protocolo m ais am plo exigido pela agenda form al de um destino absoluto.
Palavras são coisas. As palavras de cuj a posse ele ora usufrui não lhe podem ser espoliadas. A autoridade delas
transcende a ignorância desse hom em quanto ao significado que possuem .
O negro suava. Um a veia escura em sua têm pora pulsava com o um rastilho. O grupo escutara o j uiz em
silêncio. Alguns sorriam . Um assassino m eio retardado do Missouri gargalhou inaudivelm ente com o um asm
ático. O j uiz se voltou outra vez para o sargento e conversaram entre si e o j uiz e ele foram até o lugar do pátio
onde estava o engradado e o j uiz lhe m ostrou um a das pistolas e explicou seus m ecanism os com grande
paciência. Os hom ens do sargento haviam se erguido e aguardavam . No portão o j uiz esm olou algum as m oedas
na palm a da m ão de Aguilar e apertou form alm ente a m ão de cada subalterno esfarrapado e elogiou-os pela
postura m ilitar e eles saíram para a rua.
Nesse m esm o dia com o sol a pino os guerrilheiros cavalgavam cada hom em arm ado de um par de pistolas e tom
avam a estrada país adentro, com o j á foi dito.

A patrulha de reconhecim ento regressou ao anoitecer e os hom ens desm ontaram pela prim eira vez nesse dia e
descansaram seus cavalos na exígua baixada enquanto Glanton conferenciava com os batedores. Então
cavalgaram até escurecer e m ontaram acam pam ento. Toadvine e o veterano e o kid ficaram acocorados a um a
pequena distância das fogueiras. Não sabiam que haviam sido incorporados àquela com panhia no lugar de três
suj eitos trucidados no deserto. Observavam os delawares, dos quais havia um certo núm ero no grupo, e estes tam
bém ficavam um pouco à parte, agachados sobre os calcanhares, um deles m oendo grãos de café com um a rocha
em um couro de veado enquanto os outros fitavam fixam ente o fogo com olhos negros com o a boca de um a arm
a. Nessa noite o kid veria um deles rem exer os carvões em brasa com a m ão à procura do lum e certo para
acender o cachim bo.
Já se arrum avam pela m anhã antes do raiar do dia e term inaram e selaram suas m ontarias assim que a luz foi
suficiente para enxergar. As m ontanhas serrilhadas eram puro azul sob a aurora e por toda parte pássaros trinavam
e o sol quando apareceu surpreendeu a lua a oeste de m odo que um astro se opunha ao outro através da terra, o sol
com sua brancura incandescente e a lua um a réplica pálida, com o se fossem as pontas do cano de um a m esm a
arm a além de cuj as bocas ardessem m undos inapreensíveis à razão. Conform e os cavaleiros avançavam em m
eio aos arbustos de prosópis e piracanta em fila única com o suave retinir das arm as e o tilintar dos freios o sol
subia e a lua descia e dos cavalos e das m ulas encharcadas de orvalho com eçou a em anar vapor de seus corpos e
som bras.
Toadvine travara diálogo com um suj eito de Vandiem en’s Land cham ado Bathcat que viera para o oeste fugido
da lei. Era natural do País de Gales e tinha apenas três dedos na m ão direita e poucos dentes. Talvez enxergasse
em Toadvine um colega fugitivo — um crim inoso sem orelhas e m arcado a ferro que fizera suas escolhas na vida
assim com o ele — e propôs um a aposta sobre qual Jackson m ataria qual.
Não conheço aqueles
rapazes, disse Toadvine.
Então que tal?
Toadvine cuspiu de lado em silêncio e olhou para
o hom em . Não sinto vontade de apostar, disse.
Não é chegado num j ogo?
Depende do j ogo.
O pretinho vai dar cabo do outro. Apostas na m esa.
Toadvine olhou para ele. O colar de orelhas hum anas que usava parecia um a fiada de figos secos. Era um hom
em grande e de aspecto cruel e tinha um a pálpebra caída onde um a faca seccionara os pequenos m úsculos e estava
equipado com artigos de toda classe, do m ais fino ao m ais ordinário. Usava botas de qualidade e carregava um
elegante rifle com ornam entos de alpaca m as o rifle ia pendurado em um cano de bota cortado e sua cam isa
era um farrapo e seu chapéu rançoso.
Nunca caçou os
aborígenes antes, disse
Bathcat. Quem disse?
Eu sei.
Toadvine
não
respondeu.
Vai ver com
o são vivos.
Foi o que
ouvi dizer.
O vandiem enlander sorriu. Mudou m uita coisa, disse. Quando cheguei nesta terra tinha selvagens até no San
Saba e que m al tinham visto um hom em branco. Eles se aproxim aram do nosso acam pam ento e a gente dividiu
o rancho com eles e eles não conseguiam tirar os olhos das nossas facas. No dia seguinte trouxeram um bando
inteiro de cavalos até o acam pam ento pra negociar. A gente não sabia o que eles queriam . Eles tinham suas
próprias facas, feitas do j eito deles. Mas o negócio, sabe, o negócio é que nunca tinham visto osso serrado num
guisado antes.
Toadvine relanceou a fronte do hom em m as o chapéu dele estava enterrado quase até os olhos. O hom em sorriu
e em purrou o chapéu ligeiram ente para trás com o polegar. A im pressão da fita ficou em sua testa com o um a
cicatriz m as não se via outra m arca. Apenas no lado interno de seu antebraço havia um núm ero tatuado que
Toadvine veria em um a casa de banho em Chihuahua e depois de novo ao desprender o torso de um hom em preso
pelos calcanhares com um espeto no galho de um a árvore lá pelos erm os de Pim ería Alta no outono desse ano.
Cavalgaram entre pés de cholla e nopal, um a floresta anã de coisas espinhentas, por um desfiladeiro rochoso
através das m ontanhas e descendo entre artem ísias e agaves em flor. Atravessaram um a vasta planície
desértica de capim pontilhada de palm illa. Nas encostas havia paredões de pedra cinzenta que acom panhavam as
linhas descendentes das cristas para então se esparram ar confusam ente pela planície. Não fizeram paradas no
auge do calor nem tam pouco para a siesta e o olho de algodão da lua aboletava-se em pleno dia na garganta das m
ontanhas a leste e eles ainda cavalgavam quando ela os alcançou em seu m eridiano da m eia-noite, esculpindo
na planície sob si um cam afeu azul daqueles peregrinos aterradores chacoalhando com suas tralhas rum o ao norte.
Passaram a noite no curral de um a hacienda onde por toda a noite os hom ens m antinham as fogueiras acesas nas
azoteas ou telhados. Duas sem anas antes disso um grupo de cam poneses fora trucidado às enxadadas com suas
próprias ferram entas e parcialm ente com ido pelos porcos enquanto os apaches reuniam todo o gado que podiam e
desapareciam nas m ontanhas. Glanton m andou m atar um a cabra e fizeram isso no curral com os cavalos
assustados e trem endo e sob o fulgor lum inoso das fogueiras os hom ens se acocoraram e assaram a carne e a com
eram com suas facas e lim param os dedos nos cabelos e se viraram para dorm ir sobre o chão de terra batida.
Ao crepúsculo do terceiro dia entraram na cidade de Corralitos, os cavalos afundando os cascos na pasta de cinzas
e o sol brilhando verm elho através da fum aça. As cham inés das fundições perfilavam -se contra um céu cinéreo e
as luzes inform es das fornalhas faiscavam sob o vulto das m ontanhas. Chovera durante o dia e as j anelas ilum
inadas das casas de barro pouco elevadas se refletiam nas poças ao longo da rua alagada de onde grandes suínos
encharcados se erguiam grunhindo ante o avanço dos cavalos com o dem ônios aparvalhados debandando de um
pântano. As casas tinham seteiras e parapeitos defensivos e o ar estava im pregnado com os vapores do arsênico. As
pessoas haviam saído para ver os texanos, com o os cham avam , perfilando-se solenem ente ao longo do cam inho e
reagindo aos m ínim os gestos deles com expressão adm irada, com ares de assom bro.
Acam param na plaza, enegrecendo os álam os com suas fogueiras e expulsando os pássaros adorm ecidos, as
cham as ilum inando o desafortunado vilarej o em seus recônditos m ais obscuros e atraindo até os cegos que
vinham cam baleando com as m ãos esticadas à frente do corpo na direção daquele suposto dia. Glanton e o j uiz
com os irm ãos Brown se dirigiram à hacienda do general Zuloaga onde foram recebidos e convidados a j antar e a
noite transcorreu sem qualquer incidente.
Pela m anhã quando haviam selado suas m ontarias e estavam reunidos na praça para partir foram abordados por
um a fam ília de prestidigitadores itinerantes em busca de passagem segura para o interior até Janos. Glanton m
ediu-os de seu posto à testa da coluna. Seus pertences estavam am ontoados em paneiros escangalhados atrelados
aos dorsos de três burros e eram um hom em e sua esposa e um m enino e um a m enina crescidos. Traj avam
fantasias de bobos bordadas com estrelas e crescentes e as cores outrora alegres estavam apagadas e esm aecidas
da poeira da estrada e pareciam um a gente correta lançada naquela terra vil. O velho se adiantou e segurou a rédea
do cavalo de Glanton.
Tira a m ão do cavalo, disse Glanton.
Ele não falava nada de inglês m as fez com o ordenado. Com eçou a expor seu caso. Gesticulava, apontava para
os outros. Glanton o observava, deus sabe se escutando algum a coisa. Virou e olhou para o m enino e para as duas
m ulheres e depois voltou a baixar os olhos para o hom em .
O que são vocês? disse.
O hom em pôs a m ão em concha atrás da orelha na
direção de Glanton e ergueu o rosto de boca aberta.
Eu disse o que são vocês? São um show?
Ele olhou para os outros.
Um show, disse Glanton. Bufones.
O rosto do hom em se ilum inou. Sí, disse. Sí, bufones. Todo. Virou para o m enino. Casim ero! Los perros!
O m enino correu até um dos burros e com eçou a rem exer na bagagem . Voltou com um par de anim ais pelados
e orelhudos de coloração castanho-clara pouco m aiores que ratos e atirou-os no ar e os am parou na palm a das m
ãos onde com eçaram a fazer piruetas tolas.
Mire, m ire! exclam ou o hom em . Estava rem exendo em seus bolsos e logo com eçava a fazer m alabarism os
com quatro pequenas bolas de m adeira diante do cavalo de Glanton. O cavalo bufou e ergueu a cabeça e Glanton
se curvou sobre a sela e cuspiu e lim pou a boca com o dorso da m ão.
É ou não é um espetáculo deprim ente de m erda, disse.
O hom em seguia com o m alabarism o e cham ava as m ulheres por sobre o om bro e os cães
dançavam e as m ulheres se ocupavam na preparação de algum a coisa quando Glanton falou para o suj
eito. Chega dessa palhaçada de m erda. Se quer viaj ar com a gente venham atrás. Não prom eto nada.
Vam onos.
Com eçou a andar. O grupo se pôs em m ovim ento ruidosam ente e o m alabarista correu tocando as m ulheres
na direção dos burros e o m enino perm aneceu de olhos arregalados com os cachorros debaixo do braço até que o
hom em falou com ele. Cavalgaram em m eio ao povaréu passando por im ensos cones de escória e refugo. As
pessoas os assistiram partir. Alguns hom ens estavam de m ãos dadas com o nam orados e um a criança pequena
conduziu um cego por um a corda até um ponto de observação.

Ao m eio-dia cruzaram o leito pedregoso do rio Casas Grandes e cavalgaram ao longo de um terraço acim a do
arroio desolador passando por um a área coberta de ossos onde soldados m exicanos haviam m assacrado um
acam pam ento apache alguns anos antes, m ulheres e seus filhos, os ossos e crânios espalhados pelo terraço por m
ais de m eio quilôm etro e os m em bros m inúsculos e crânios de papel desdentados de bebês com o a ossatura de
pequenos m acacos no local do m orticínio e velhos restos de cestaria exposta à intem périe e potes quebrados no
cascalho. Seguiram em frente. O rio estabelecia o curso de um corredor verde-claro de árvores descendo as m
ontanhas estéreis. A oeste assom ava a irregular Carcaj e ao norte os picos pálidos e azulados das Anim as.
Montaram acam pam ento essa noite em um platô varrido pelo vento entre pés de piñon e j uníperos e as
fogueiras se inclinavam na escuridão e as colunas quentes de fagulhas lam biam o ar entre os arbustos. Os
saltim bancos descarregaram os burros e com eçaram a arm ar um a grande tenda cinza. Sím bolos arcanos estavam
rabiscados na lona que esvoaçou e se agitou bruscam ente, ergueu-se acim a de suas cabeças, enfunou-se e os
envolveu a todos. A m enina tom bara ao chão segurando um a ponta. Com eçou a ser arrastada pela areia. O m
alabarista dava passinhos. Os olhos da m ulher perm aneciam estáticos contra a luz. Sob os olhares da com panhia os
quatro presos à lona estalante foram arrastados em udecidos para longe das vistas e para além do alcance da lum
inosidade da fogueira e para o deserto ululante com o suplicantes agarrados à barra da saia de um a deusa
selvagem e colérica.
Os que estavam de sentinela viram a tenda rolar horrivelm ente noite adentro. Quando a fam ília de saltim bancos
voltou eles discutiam entre si e o hom em foi novam ente até o lim iar da luz do fogo e perscrutou o negrum e
furioso e disse algum as palavras nessa direção e gesticulou com o punho e não voltou enquanto a m ulher não m
andou o m enino buscá-lo. Agora sentava fitando as cham as enquanto a fam ília desfazia a bagagem . Eles o
observavam com apreensão. Glanton tam bém observava.
Showm an, disse.
O m alabarista ergueu o
rosto. Pôs um dedo no
peito. Você, disse Glanton.
Ele se levantou e avançou arrastando os pés. Glanton
fum ava um a cigarrilha preta. Olhou para o m alabarista.
Sabe ler a sorte?
Os olhos do m alabarista oscilaram . Cóm o? disse.
Glanton enfiou a cigarrilha na boca e fez que dava cartas com as m ãos. La baraj a, disse. Para adivinar la suerte.
O m alabarista j ogou um a das m ãos para o ar. Sí, sí, disse, balançando a cabeça com vigor. Todo, todo. Ergueu
um dedo e então se virou e se dirigiu à pilha de trastes que j á fora descarregada dos burros. Quando voltou sorria
afavelm ente e m anipulava as cartas com grande m aestria.
Venga, cham ou. Venga.
A m ulher o seguiu. O m alabarista agachou diante de Glanton e falou com ele em voz baixa. Virou e olhou para a
m ulher e em baralhou as cartas e ficou de pé e tom ou a m ulher pela m ão e a levou através do terreno para longe
do fogo e a fez sentar com o rosto voltado para a noite. Ela arrepanhou a saia e se acom odou e ele puxou um lenço
da cam isa e usou-o para vendar seus olhos.
Bueno, exclam
ou. Puedes ver?
No.
Nada?
Nada, disse a
m ulher.
Bueno, disse
om
alabarista.
Ele se virou com o baralho de cartas e avançou na direção de Glanton. A m
ulher perm aneceu sentada com o um a pedra. Glanton o repeliu com a m ão.
Los caballeros, disse.
O m alabarista se virou. O negro estava agachado j unto ao fogo observando e quando o m alabarista fez um leque com
as cartas ele se levantou e avançou.
O m alabarista ergueu o rosto para ele. Fechou o leque e abriu novam ente e passou a m ão esquerda sobre elas e as
ofereceu e Jackson puxou um a carta e olhou para ela.
Bueno, disse o m alabarista. Bueno. Fez um gesto de cautela com o indicador colado aos lábios finos e recebeu a
carta e a segurou no alto e girou com ela na m ão. A carta estalou audivelm ente um a única vez. Ele olhou para o
grupo sentado em volta da fogueira. Eles fum avam e observavam . Fez um vagaroso m eneio diante de si com a
carta estendida. Ela trazia a im agem de um arlequim e um gato.
El tonto, disse a m ulher. Ergueu o queixo ligeiram ente e com eçou a entoar um a cantilena. O consulente negro
aguardava com ar solene, com o um hom em no banco dos réus. Seus olhos passeavam pelo grupo. O j uiz sentava
contra o vento j unto à fogueira, de torso nu, ele próprio um a grande divindade pálida, e quando os olhos do negro
cruzaram com os seus ele sorriu. A m ulher parou. O vento soprava línguas de fogo.
Quién, quién, gem
eu o m alabarista.
Ela fez um a
pausa. El negro,
disse.
El negro, gem eu o m alabarista, girando com a carta. Suas roupas estalavam ao
vento. A m ulher ergueu a voz e falou novam ente e o preto virou para os com
panheiros. O que ela disse?
O m alabarista havia se virado e
fazia ligeiras m esuras para o
grupo. O que ela disse? Tobin?
O ex-padre abanou a cabeça.
Idolatria, Pretinho, idolatria. Deixa ela
pra lá. O que ela disse, Juiz?
O j uiz sorriu. Com o polegar estivera desaloj ando pequenas vidas das dobras de sua pele sem pelos e agora
esticava a m ão com o polegar e o indicador em pinça num gesto que parecia ser de abençoar até atirar algum a
coisa invisível no fogo a sua frente. O que ela disse?
O que ela disse.
Acho que o que ela quis dizer foi que na
sua sorte residem as sortes de todos nós.
E que sorte é essa?
O j uiz sorriu brandam ente, a testa pregueada não
diferente da de um golfinho. É chegado num a bebida,
Jackie? Tanto quanto qualquer um .
Acho que ela o advertiu contra o dem ônio do
rum . Um conselho bastante prudente, o que
acha? Isso não é leitura da sorte coisa nenhum a.
Exato. O padre tem razão.
O negro franziu o rosto para o j uiz m as o j uiz se curvou para a frente a fim de encará-lo. Não vinques esta fronte cor
do sable para m im , m eu am igo. Ao final tudo ser-te-á revelado. A você e a todos os hom ens.
Agora alguns dentre o grupo sentados ali pareciam pesar as palavras do j uiz e alguns se viraram para
encarar o negro. Ele ocupou com desconforto esse lugar de honra até que finalm ente recuou da luz do fogo e
o m alabarista ficou de pé e fez um m ovim ento com as cartas, abrindo-as em um leque diante de si e então
percorreu o círculo passando pelas botas dos hom ens com as cartas estendidas com o se fossem encontrar sua
própria vítim a.
Quién, quién, ele sussurrava entre a com panhia.
Eles relutavam , todos eles. Quando passou diante do j uiz o j uiz, sentado com a m
ão espalm ada sobre a am pla superfície de sua barriga, ergueu um dedo e apontou.
O j ovem Blasarius ali, disse.
Cóm
o?
El j
oven
.
El j oven, sussurrou o m alabarista. Olhou em torno de si vagarosam ente com um ar de m istério até deitar os
olhos sobre o rapaz em questão. Moveu-se em m eio aos aventureiros acelerando o passo. Parou diante do kid,
agachou com as cartas e abriu o leque em um gesto lento e harm onioso sem elhante aos m ovim entos de certos
pássaros fazendo a corte.
Una carta, una carta, ofegou.
O kid olhou para o hom em e
olhou para o grupo em torno.
Sí, sí, disse o m alabarista,
oferecendo as cartas.
Ele tirou um a. Nunca vira cartas daquele tipo antes, em bora a que segurava lhe
parecesse fam iliar. Virou-a de ponta-cabeça e a exam inou e depois a virou de
volta. O m alabarista tom ou a m ão do rapaz na sua e virou a carta para poder ver.
Então apanhou a carta e segurou-a estendida.
Cuatro de copas, exclam ou.
A m ulher ergueu a cabeça. Era com o um m
anequim vendado despertado por cordões.
Cuatro de copas, disse. Moveu os om bros. O
vento passou entre suas roupas e seu cabelo.
Quién, exclam ou o m alabarista.
El hom bre... ela disse. El hom bre m ás j oven. El m uchacho.
El m uchacho, exclam ou o m alabarista. Virou a carta para que todos a vissem . A m ulher estava sentada com o
aquela interlocutora cega entre Booz e Jaquin ilustrada na única carta do baralho do m alabarista que não quereriam
ver surgir, verdadeiras colunas e verdadeira carta, falsa profetisa para todos. Ela com eçou a cantoria.
O j uiz ria em silêncio. Curvou-se ligeiram ente para ver m elhor o kid. O kid olhou para Tobin e para David
Brown e para o próprio Glanton m as ninguém ria. O m alabarista aj oelhado diante dele o encarava com estranha
intensidade. Seguiu o olhar do kid até o j uiz e voltou a fitar o rapaz. Quando o kid baixou o olhar para ele o hom
em sorriu um sorriso m aligno.
Sai de perto de m im , com o diabo, disse o kid.
O m alabarista curvou a orelha para a frente. Um gesto com um e reconhecível em qualquer língua. A orelha era
escura e disform e, com o se, ao ser oferecida assim dessa m aneira, houvesse sofrido não poucos golpes, ou talvez
as próprias notícias que os hom ens tinham para ele a houvessem arruinado. O kid se dirigiu a ele outra vez m as um
hom em cham ado Tate do Kentucky que assim com o Tobin e outros dentre eles lutara com os Rangers de
McCulloch curvou-se e sussurrou para o adivinho m altrapilho e ele ficou de pé e fez um a ligeira m esura e se
afastou. A m ulher interrom pera a cantoria. O m alabarista perm aneceu sob o açoite do vento e o fogo cuspiu um a
longa labareda ardente rente ao chão. Quién, quién, ele exclam ou.
El j efe, disse o j uiz.
Os olhos do m alabarista pousaram sobre Glanton. Este quedava im óvel. O m alabarista olhou para a velha
sentada em seu lugar, de frente para a escuridão, oscilando suavem ente em seus trapos, apostando corrida com a
noite. Ergueu o dedo para os lábios e abriu os braços num gesto de incerteza.
El j efe, sibilou o j uiz.
O hom em se virou e percorreu o grupo em torno do fogo e parou diante de Glanton e agachou e lhe ofereceu as
cartas, abrindo-as nas duas m ãos. Se disse algum a coisa suas palavras foram varridas sem que ninguém ouvisse.
Glanton sorriu, os olhos apertados contra os salpicos de areia. Estendeu a m ão e esperou, olhou para o m
alabarista. Então apanhou um a carta.
O m alabarista fechou o baralho e o enfiou entre as roupas. Fez m enção de apanhar a carta na m ão de Glanton.
Talvez a houvesse tocado, talvez não. A carta evaporou. Estava na m ão de Glanton e depois não estava m ais. Os
olhos do m alabarista se m overam num átim o para o escuro aonde ela fora. Talvez Glanton houvesse visto a frente
da carta. O que teria significado para ele? O m alabarista esticou os braços para aquele caos inóspito além da luz do
fogo m as ao fazê-lo perdeu o equilíbrio e tom bou de frente sobre Glanton e criou um m om ento de estranha
ligação com seus braços de hom em velho em cim a do líder, com o que a consolá-lo em seu seio esquelético.
Glanton praguej ou e o em purrou e nesse
m om ento a velha com eçou a cantar.
Glanton ficou de pé.
Ela elevou o queixo, tartam
udeando dentro da noite.
Faz ela calar a boca, disse
Glanton.
La carroza, la carroza, gem eu a m egera. Invertido. Carta de guerra, de venganza. La ví sin ruedas sobre un río
obscuro...
Glanton a cham ou e ela parou com o se o tivesse escutado m as não era
o caso. Parecia captar algum novo rum o no curso de seus vaticínios.
Perdida, perdida. La carta está perdida en la noche.
A garota que esse tem po todo perm anecera no lim iar das trevas plangentes fez o sinal da cruz em
silêncio. O velho m alabarista estava de j oelhos no ponto onde fora em purrado. Perdida, perdida,
sussurrava. Un m aleficio, gem eu a velha. Qué viento tan m aleante...
Por deus se não vai calar a boca,
disse Glanton, puxando o revólver.
Carroza de m uertos, llena de
huesos. El j oven qué...
Com o um enorm e e pesado dj im o j uiz avançou através do fogo e as cham as o conceberam com o se ele fosse
de algum m odo natural a seu elem ento. Passou os braços em torno de Glanton. Alguém arrancou a venda da m
ulher e ela e o m alabarista foram enxotados às bofetadas e quando a com panhia se arrum ou para dorm ir e a
fogueira agonizante rugia sob o açoite do vento com o um a coisa viva aqueles quatro ainda se agachavam na orla
da luz entre seus estranhos pertences e observavam o m odo com o as cham as desiguais vergavam ao sabor do
vento com o que sugadas por algum m aelstrom ali no m eio do nada, algum vórtice naquela vastidão desolada para
o qual tanto a passagem do hom em com o seus j uízos houvessem sido abolidos. Com o se para além da vontade ou
da fatalidade ele e suas bestas e seus adornos se m ovessem tanto em cartas com o em essência confiados às m ãos
de um terceiro e outro destino.
Pela m anhã quando retom aram a m archa era um desses dias desm aiados com o sol sem se erguer e o vento
arrefecera durante a noite e as coisas da noite haviam ficado para trás. O m alabarista em seu burro trotou até a
testa da coluna e em parelhou com Glanton e seguiram lado a lado e desse m odo cavalgavam à tarde quando o
grupo adentrou a cidade de Janos.

Um antigo presidio m urado com posto inteiram ente de barro, um a igrej a alta de barro e torres de observação de
barro e tudo isso banhado pela chuva e cheio de calom bos e se desfazendo em flácida decadência. A chegada dos
cavaleiros alardeada por vira-latas desnutridos que uivaram dolorosam ente e se esgueiraram por entre paredes desm
oronando.
Passaram pela igrej a onde velhos sinos espanhóis esverdeados da idade pendiam de um a trave entre dólm ens
de barro pouco elevados. Crianças de olhos encovados observavam dos casebres m iseráveis. O ar era pesado da
fum aça de carvão queim ando e desocupados sentavam -se m udos às portas e inúm eras casas haviam desabado e
as ruínas eram usadas com o cercados de anim ais. Um velho de olhar pegaj oso se acercou deles e estendeu a m
ão. Una corta caridad, gem eu roucam ente para os cavalos que passavam . Por Dios.
Na praça dois dos delawares e o batedor Webster estavam acocorados no chão j unto a um a m ulher
encarquilhada da cor da argila branca. Um a coruj a velha e seca, quase sem roupas, as tetas com o berinj elas
enrugadas pendendo sob o xale que a cobria. Fitava fixam ente o chão e não ergueu o rosto nem quando os cavalos
pararam diante dela.
Glanton esquadrinhou a praça. A cidade parecia vazia. Havia um a pequena guarnição estacionada ali m as
nenhum soldado apareceu. A poeira era soprada pelas ruas. Seu cavalo se curvou e cheirou a velha e contraiu a
cabeça e estrem eceu e Glanton deu tapinhas no pescoço do anim al e apeou.
Ela estava em um acam pam ento de charqueio uns dez
quilôm etros rio acim a, disse Webster. Não consegue andar.
Quantos tem lá?
Uns quinze ou vinte, a gente acha. Não tinham
gado nem nada. Não sei o que ela estava fazendo
lá. Glanton m udou de lado diante do cavalo,
passando as rédeas pelas costas.
Cuidado aí, capitão. Ela m orde.
Ela erguera os olhos na altura de seus j oelhos. Glanton em purrou o cavalo
para trás e puxou um a das pesadas pistolas do coldre na sela e engatilhou.
Cuidado aí vocês.
Vários hom ens deram um passo para trás.
A m ulher ergueu o rosto. Nem coragem nem prostração nos olhos velhos. Ele apontou com a m ão esquerda e ela
seguiu sua m ão com o olhar e ele pôs a pistola em sua cabeça e disparou.
A detonação encheu toda a pracinha desolada. Alguns cavalos se alarm aram e bateram os cascos. Um buraco do
tam anho de um punho estourou do outro lado da cabeça da m ulher em um grande vôm ito de m atéria verm
elha e ela desabou e ficou irrem ediavelm ente estatelada no próprio sangue. Glanton j á travara a arm a em m eio-
gatilho e se livrara da escorva gasta com o polegar e se preparava para recarregar o tam bor. McGill, disse.
Um m exicano, único de sua raça
entre aquela com panhia, avançou.
Pega o recibo pra nós.
Ele puxou um a faca de esfolar do cinto e se encam inhou na direção da velha e agarrou a cabeleira e com um a torção
de pulso passou a lâm ina da faca em torno do crânio e arrancou o escalpo.
Glanton olhou para os hom ens. Estavam parados e uns olhavam para a m ulher, outros j á cuidavam de suas m
ontarias ou de seus petrechos. Só os recrutas olhavam para Glanton. Ele aloj ou o proj étil esférico na boca da arm
a e então ergueu os olhos e esquadrinhou a praça. O m alabarista e sua fam ília estavam perfilados com o testem
unhas e além deles nas longas fachadas de barro os rostos que haviam espreitado das portas e j anelas sem cortinas
desapareceram com o m arionetes em um balcão ante o vagaroso m ovim ento de seus olhos. Ele aloj ou a bala com
a alavanca e encaixou o fulm inante e girou a pesada pistola na m ão e a devolveu ao coldre j unto à espádua do
cavalo e tom ou o troféu gotej ante da m ão de McGill e o virou sob o sol do m odo com o um hom em exam inaria
a pele de um anim al e então o estendeu de volta e apanhou as rédeas do chão e conduziu seu cavalo através da
praça na direção da água no vau.
Acam param em um bosque de álam os do outro lado do riacho, pouco além dos m uros da cidade, e ao
escurecer vagaram em pequenos grupos pelas ruas esfum açadas. O pessoal do circo havia erguido um a pequena
lona na plaza poeirenta e fixado em torno estacas encim adas por fogaréus com óleo aceso. O m alabarista batia em
um a espécie de tam bor de folha de flandres e couro cru e apregoava com voz aguda e nasalada o program a de
apresentações enquanto a m ulher gritava Pase pase pase com am plos gestos circulares com o se fosse o m aior dos
espetáculos. Toadvine e o kid observavam a m ultidão em m ovim ento. Bathcat se curvou e falou com eles.
Olhem lá, rapazes.
Viraram para olhar o lugar indicado. O preto estava nu da cintura para cim a atrás da tenda e enquanto o m
alabarista se virava com um am plo gesto do braço a garota lhe deu um em purrão e ele se afastou abruptam ente
da tenda e saiu andando com estranhas poses sob o incerto clarão das tochas.
VIII

OUTRA CANTINA, OUTROS CONSELHOS — MONTE — UM ESFAQUEAMENTO — O CANTO


MAIS ESCURO DA TAVERNA O MAIS CONSPÍCUO — O SEREÑO — RUMO NORTE — O
ACAMPAMENTO DE CHARQUEIO — GRANNYRAT — SOB OS PICOS DAS ANIMAS — UM
CONFRONTO E UMA MORTE — OUTRO ANACORETA, OUTRA AURORA.

Pararam do lado de fora da cantina e j untaram suas m oedas e Toadvine em purrou para o lado o couro seco
pendurado a título de porta e entraram em um am biente onde tudo era escuridão e form as vagas. Um lam pião
solitário pendia de um a viga no teto e em m eio às som bras vultos escuros fum avam . Atravessaram o bar até o
balcão de ladrilhos cerâm icos. O lugar recendia a m adeira queim ada e suor. Um hom enzinho m agro apareceu
diante deles e pôs as m ãos cerim oniosam ente sobre o ladrilho.
Dígam e, disse.
Toadvine tirou o chapéu e o pousou sobre o
balcão e passou a garra escura da m ão pelos
cabelos. O que tem aí que um hom em pode beber
com o m ínim o risco de ficar cego ou m orrer.
Cóm o?
Jogou o polegar na direção da garganta. O que tem pra beber, disse. O barm an se virou e olhou para
suas m ercadorias. Parecia não ter certeza se havia algum a coisa ali capaz de atender às exigências.
Mescal?
Bom pra
todo m
undo? Pode
pôr, disse
Bathcat.
O barm an serviu as doses de um j arro de cerâm ica em três copos de lata am
assados e as em purrou para a frente com cuidado com o fichas em um j ogo.
Cuánto, disse Toadvine.
O barm an pareceu
assustado. Seis?
disse. Seis o quê?
O suj eito
ergueu seis
dedos.
Centavos,
disse Bathcat.
Toadvine j ogou os cobres sobre o balcão e esvaziou o copo e pagou outra vez. Gesticulou para os três copos com
um m eneio de indicador. O kid apanhou seu copo e virou e o pousou outra vez sobre o balcão. A bebida era m
alcheirosa, am arga, sabendo levem ente a arbusto de creosoto. Ele estava de pé com o os dem ais com as costas
para o balcão e olhou pelo bar. Em um a m esa no canto m ais distante hom ens j ogavam cartas à luz de um a única
vela de sebo. Ao longo da parede oposta agachavam -se silhuetas com o que excluídas da luz e observando os am
ericanos sem qualquer expressão.
Taí um j ogo pra vocês, disse Toadvine. Jogar m onte no escuro com um bando de negroides. Ergueu o copo e o
esvaziou e pousou no balcão e contou as m oedas restantes. Um hom em saído da penum bra vinha arrastando os
pés na direção deles. Tinha um a garrafa sob o braço e a pôs sobre os ladrilhos cuidadosam ente j unto com seu copo
e falou com o barm an e o barm an lhe trouxe um a j arra de cerâm ica com água. Virou a j arra de m odo que a
alça ficou a sua direita e olhou para o kid. Era velho e usava um chapéu de copa achatada de um tipo que j á não
era m ais visto com frequência naquele país e vestia calça e cam isa de algodão brancas e suj as. As huaraches que
usava pareciam dois peixes secos e enegrecidos presos por correias às solas de seus pés.
Vocês são texas? disse.
O kid olhou para Toadvine.
Vocês são texas, disse o velho. Eu ficar Texas três anos. Estendeu a m ão. O indicador estava am putado na prim
eira j unta e talvez estivesse m ostrando a eles o que acontecera no Texas ou talvez m eram ente indicando os anos.
Baixou a m ão e virou para o balcão e pôs vinho dentro do copo e apanhou a j arra d’água e então parcim oniosam
ente batizou a bebida. Bebeu e baixou o copo e virou para Toadvine. Usava as suíças brancas até a ponta do queixo
e esfregou-as com o dorso da m ão antes de erguer o rosto outra vez.
Vocês são sociedad de guerra. Contra los barbaros.
Toadvine não entendia. Parecia um bronco cavaleiro m edieval a quem um troll propusesse enigm as.
O velho pendurou um rifle fantasm a no om bro e fez um ruído com a
boca. Olhou para os am ericanos. Vocês m atar apache, não?
Toadvine olhou para Bathcat. O que ele quer? disse.
O vandiem enlander passou a m ão de três dedos sobre a boca m as sem
dem onstrar qualquer sim patia. O velho está m am ado, disse. Ou é m
aluco. Toadvine fincou os cotovelos nos ladrilhos às suas costas. Olhou
para o velho e cuspiu no chão. Mais louco que um negro fuj ão, hein?
disse.
Houve um gem ido no canto m ais distante do bar. Um hom em ficou de pé e cam inhou j unto à parede e se
curvou para falar com outros. Os gem idos voltaram e o velho passou a m ão no rosto duas vezes e beij ou as pontas
dos dedos e ergueu o rosto.
Quantos dinheiros eles
pagam vocês? disse.
Ninguém disse nada.
Vocês m atar Góm ez eles paga m uitos dinheiros.
O hom em no escuro na parede do fundo gem eu outra vez. Madre de Dios, exclam ou.
Góm ez, Góm ez, disse o velho. Mesm o Góm ez. Quem pode enfrentar os tej anos?
Eles soldados. Que soldados tan valientes. La sangre de Góm ez, sangre de la gente...
Ergueu o rosto. Sangue, disse. Esse país ganha m uito sangue. Esse México. Esse é
país sedento. O sangue de m il Cristos. Nada.
Fez um gesto na direção do m undo m ais além onde toda a terra estava m ergulhada em trevas e tudo era um a
grande ara m aculada. Ele virou e se serviu de vinho e voltou a adicionar água do j arro, velho cheio de tem
perança, e bebeu.
O kid o observava. Observou-o beber e observou-o lim par a boca. Quando se virou
parecia que não falava nem com o kid nem com Toadvine, m as pareceu se dirigir ao
bar. Rezo para o Deus deste país. Digo isso para vocês. Rezo. Não vou na igrej a. O
que é m inha necessidade pra falar com aqueles bonecos lá? Eu falo aqui.
Apontou o próprio peito. Quando virou para os am ericanos sua voz se suavizou outra vez. Vocês ótim os
caballeros, disse. Vocês m atam bárbaros. Eles não podem esconder de vocês. Mas tem outro caballero e eu acho
que nenhum hom em se esconde dele. Eu fui soldado. É com o sonho. Quando até os ossos som em no deserto os
sonhos é que conversam com você, você nunca m ais acorda.
Esvaziou seu copo e apanhou sua garrafa e se afastou suavem ente em suas sandálias para o canto m ais escuro e
distante da cantina. O hom em perto da parede gem eu outra vez e invocou seu deus. O vandiem enlander e o barm
an conversaram entre si e o barm an fez um gesto na direção da penum bra no canto e abanou a cabeça e os am
ericanos deram seus últim os tragos e Toadvine em purrou os poucos tlacos para o barm an e saíram .
Aquele era o filho
dele, disse Bathcat.
Quem ?
O rapaz no canto
ferido com um a
faca. Ele estava
ferido?
Um dos suj eitos na m esa o cortou.
Estavam j ogando carta e um deles o
cortou. Por que não vai em bora.
Fiz essa m esm a
pergunta pra ele.
O que foi que ele
disse?
Tinha um a pergunta pra m im . Disse ir pra onde?
Seguiram através das ruas estreitas e m uradas na direção do portão e das fogueiras do acam pam ento m ais além .
Um a voz exclam ava. Dizia: Las diez y m edia, tiem po sereño. Era o vigia em sua ronda e passou por eles com a
lanterna entoando suavem ente a hora.

Na escuridão que precede a aurora os sons do am biente descrevem a cena que se seguirá. Os prim eiros cham ados
dos pássaros nas árvores ao longo do rio e o retinir dos arreios e o resfolegar dos cavalos e o delicado som que fazem
ao pastar. No vilarej o escuro galos j á com eçaram . O ar cheira a cavalos e carvão. O acam pam ento com eçou a se
agitar. Sentadas em torno sob a luz cada vez m aior estão as crianças da pequena cidade. Nenhum desses hom ens
que se levantam sabe por quanto tem po elas perm aneceram ali na escuridão e no silêncio.
Quando atravessaram a praça a pele-verm elha m orta j á sum ira e a poeira estava recém -revolvida. No topo das
estacas viam -se as lam parinas do m alabarista negras e sem vida e a fogueira estava fria diante da lona.
Um a velha que estivera cortando lenha se aprum ou e ficou segurando o m achado com as duas m ãos quando passaram .
Cavalgaram pelo acam pam ento índio saqueado no m eio da m anhã, as m antas enegrecidas de carne dispostas
sobre os arbustos ou penduradas em postes com o um a roupa de lavanderia estranha e escura. Peles de veado
estavam esticadas com estacas no chão e ossos brancos ou ocre j aziam esparram ados pelas rochas num m atadouro
prim itivo. Os cavalos retesaram as orelhas e aceleraram a m archa. Seguiram em frente. De tarde o Jackson preto
os alcançou, sua m ontaria exaurida e quase sem fôlego. Glanton girou na sela e o m ediu com o olhar. Então
cutucou o cavalo adiante e o negro se j untou aos pálidos com panheiros e todos seguiram viagem com o antes.
Só deram pela ausência do veterano ao anoitecer. O j uiz cam inhava entre a
fum aça das fogueiras de cozinhar e se agachou diante de Toadvine e do kid.
O que aconteceu com o Cham bers, disse.
Acho
que
desistiu.
Desistiu.
Acho que sim .
Ele estava com a
gente de m anhã?
Não que eu saiba.
Eu im aginava que você fosse o responsável pelo seu grupo.
Toadvine cuspiu. Parece que ele é o
responsável por sua própria pessoa.
Quando foi a últim a vez que viu ele.
Vi ele ontem
à noite.
Mas não hoj
e de m anhã.
Hoj e de m
anhã não.
O j uiz ficou olhando para o outro.
Diabos, disse Toadvine. Calculei que soubesse que tinha ido em
bora. Não é com o se fosse tão pequeno que você não daria pela
falta. O j uiz olhou para o kid. Olhou para Toadvine outra vez.
Então ficou de pé e voltou.
Pela m anhã dois delawares haviam sum ido. O grupo seguiu em frente. Na m etade do dia haviam com eçado a
escalar em direção ao passo m ontanhoso. Cavalgando para cim a entre pés de lavanda brava ou iúca, sob os picos
das Anim as. A som bra de um a águia que alçara voo daquela fortaleza alta e escarpada cruzou a fila de cavaleiros
lá em baixo e eles ergueram o rosto para observar sua traj etória naquele vazio azul im aculado e insensível.
Seguiram a m archa ascendente em m eio a pés de piñon e carvalhos anões e cruzaram o desfiladeiro através de um
a elevada floresta de pinheiros e continuaram em frente pelas m ontanhas.
Ao anoitecer chegaram a um a m esa com vista para todo o território ao norte. O sol a oeste m ergulhava num a
conflagração de onde ascendia um a coluna uniform e de pequenos m orcegos do deserto e para o norte ao longo
do trêm ulo perím etro do m undo o pó era soprado pelo vazio com o a fum aça de exércitos distantes. As m
ontanhas de papel pardo am arrotado esparram avam -se em nítidas dobras som breadas sob o longo lusco-fusco
azulado e a m édia distância o leito vitrificado de um lago seco trem eluzia com o o m are im brium e bandos de
veados deslocavam -se para o norte sob a derradeira luz crepuscular, acossados na planície por lobos da cor do
chão do deserto.
Montado em seu cavalo Glanton contem plou longam ente o cenário. Esparso sobre a m esa o m ato seco era
açoitado ao vento com o o prolongado eco terreno de lanças e chuços em antigos confrontos nunca registrados. O
céu parecia todo ele inquietação e a noite engoliu rapidam ente a região escurecida e pequenos pássaros cinzentos
voaram com débeis gritos ao encalço do sol. Ele instigou o cavalo estalando a língua. E assim penetrou e
penetraram todos na incerta perdição das trevas.
Acam param essa noite na planície que se estendia ao sopé de um a escarpa de tálus e o assassinato que vinha
sendo aguardado teve lugar. O Jackson branco se em bebedara em Janos e cavalgara de olhos verm elhos e
expressão som bria por dois dias através das m ontanhas. Ele agora sentava descom posto e sem as botas j unto ao
fogo tom ando aguardente de sua garrafinha m etálica, circundado pelos com panheiros e pelos gritos dos lobos e a
providência da noite. Estava desse m odo acom odado quando o negro se aproxim ou da fogueira e deixou cair seu
apisham ore e sentou sobre ele e pôs-se a acender o cachim bo.
Havia duas fogueiras no acam pam ento e nenhum a regra real ou tácita quanto a quem deveria usar qual. Mas
quando o branco olhou para a outra fogueira viu que os delawares e John McGill e os novatos da com panhia haviam
feito sua refeição ali e com um gesto e um a praga pastosa advertiu o negro para que se afastasse.
Ali naquele lugar distante do j uízo dos hom ens todas as alianças eram frágeis. O negro ergueu o rosto do
fornilho do cachim bo. Em torno daquele fogo havia hom ens cuj os olhos rebatiam a luz com o carvões em brasa
socados em seus crânios e hom ens cuj os olhos não, m as os olhos do hom em negro eram com o corredores para a
travessia da noite nua e irrem ediável de algum ponto deixado para trás a algum ponto ainda por vir. Qualquer hom
em dessa com panhia pode sentar onde achar m elhor, disse.
O branco balançou a cabeça, um olho entrecerrado, o lábio frouxo. Seu cinturão j azia enrolado no
chão. Ele esticou o braço e puxou o revólver e engatilhou. Quatro hom ens levantaram e se afastaram .
Vai atirar em m im ? disse o negro.
Se não sum ir com essa sua fuça negra pra longe dessa fogueira vai m orrer igual um cachorro.
Ele olhou para onde Glanton estava sentado. Glanton o observava. Enfiou o cachim
bo na boca e ficou de pé e apanhou a m anta de pele de bisão e a dobrou sob o braço.
É sua palavra final?
Tão final com o o j uízo divino.
O preto olhou m ais um a vez por cim a das cham as para Glanton e então sum iu escuridão adentro. O branco
desengatilhou o revólver e o pousou no chão diante de si. Dois outros voltaram a se acercar do fogo e ficaram de pé
pouco à vontade. Jackson sentava com as pernas cruzadas. Tinha um a das m ãos no colo e a outra esticada sobre o j
oelho segurando um a cigarrilha preta. O hom em m ais próxim o dele era Tobin e quando o negro surgiu da
escuridão segurando sua bowie com as duas m ãos com o um instrum ento cerim onial Tobin fez m enção de se
levantar. O branco ergueu o olhar ébrio e o preto avançou e com um único golpe decepou sua cabeça.
Duas cordas espessas de sangue escuro e duas m ais finas subiram com o serpentes do toco de seu pescoço e num
arco foram sibilar dentro do fogo. A cabeça rolou para a esquerda e parou aos pés do ex-padre onde quedou de
olhos aterrorizados. Tobin sacudiu as pernas para se afastar e se ergueu e deu um passo para trás. O fogo cuspia
vapor e enegrecia e um a nuvem de fum aça cinza subiu e os arcos colunares de sangue lentam ente arrefeceram
até que apenas o pescoço borbulhava suavem ente com o um guisado e depois tam bém isso parou. Continuava
sentado com o antes, exceto pela cabeça ausente, encharcado de sangue, a cigarrilha ainda entre os dedos, curvado
na direção da gruta escura e fum egante em m eio às cham as para onde sua vida tinha ido.
Glanton ficou de pé. Os hom ens se afastaram . Ninguém falou. Quando partiram pela m anhã o hom em
decapitado sentava-se com o um anacoreta assassinado descalço nas cinzas e de cam isão. Alguém levara sua arm
a m as as botas continuavam onde as deixara. O grupo seguiu em frente. Não haviam avançando nem um a hora
pela planície quando foram atacados pelos apaches.
IX

UM AMBUSCADO — O APACHE MORTO — TERRA OCA — UM LAGO DE GIPSITA —


TREBILLONES — CAVALOS CEGOS NO BRANCOR — REGRESSO DOS DELAWARES —
HERANÇA — A CARRUAGEM FANTASMA — AS MINAS DE COBRE — OCUPANTES —
CAVALO MORDIDO POR SERPENTE — O JUIZ SOBRE A EVIDÊNCIA GEOLÓGICA — O
MENINO MORTO — DA PARALAXE E ORIENTAÇÃO ERRÔNEA DAS COISAS PASSADAS — OS
CIBOLEROS.

Estavam cruzando a m argem oeste da play a quando Glanton fez alto. Ele girou na sela e pousou a m ão na patilha
de m adeira e olhou na direção do sol onde este acabara de despontar acim a das m ontanhas nuas e m osqueadas
de som bras a leste. O chão seco da play a estava liso e isento de qualquer rastro e as m ontanhas em suas ilhas
azuis pairavam sem faldas no vazio com o tem plos flutuantes.
Toadvine e o kid perm aneciam em seus cavalos contem plando aquela desolação com os dem ais. Na extensão
distante da play a um oceano frio rebentava e água desaparecida havia m ilhares de anos esparram ava-se em m
arolas prateadas sob o vento m atinal.
Parece o barulho de um a m
atilha de cães, disse Toadvine.
Pra m im parecem gansos.
De repente Bathcat e um dos delawares viraram seus cavalos e os fustigaram e gritaram e a com panhia fez m
eia-volta e se agrupou e com eçou a percorrer num a fila o leito do lago na direção da exígua linha de arbustos que
delim itava a m argem . Hom ens pulavam de seus cavalos e os m anietavam instantaneam ente com peias de corda
arranj adas de im proviso. No instante em que term inaram de prender seus anim ais e haviam se atirado ao solo
sob a m oita de creosoto com arm as a postos os cavaleiros com eçaram a surgir distantes no leito do lago, um fino
friso de arqueiros a cavalo que bruxuleavam e guinavam sob o calor crescente. Cruzaram a frente do sol e
evaporaram um a um para então reaparecer e eram negros sob o sol e cavalgavam através daquele m ar evaporado
com o fantasm as estorricados com as patas dos anim ais pisoteando e agitando a espum a que não era real e se
perderam sob o sol e se perderam no lago e trem eluziram e se agruparam em um borrão para então dispersar
novam ente e cresceram plano a plano em lúridos avatares e com eçaram a se am algam ar e então com eçou a
aparecer acim a deles no céu puncionado pela aurora um sím ile infernal de suas hordas cavalgando em fileiras
gigantescas e invertidas e as patas dos cavalos incrivelm ente alongadas pisoteando os cirros finos e elevados e os
ululantes antiguerreiros pendendo de suas m ontarias im ensos e quim éricos e os gritos altos e selvagens
repercutindo através daquela bacia achatada e estéril com o os gritos de alm as invadindo por algum rasgo no
tecido das coisas o m undo inferior.
Vão desviar para a direita, gritou Glanton, e conform e o dizia foi o que fizeram , por conveniência do braço com
o arco. As flechas vieram flutuando no azul com o sol batendo em suas penas e então subitam ente ganharam
velocidade e passaram com um silvo declinante com o o voo de patos selvagens. O prim eiro rifle espocou.
O kid deitava de bruços segurando o im enso revólver Walker nas duas m ãos e disparando os tiros devagar e
com cuidado com o se j á tivesse feito tudo isso antes em sonho. Os guerreiros passaram à distância de trinta
m etros, uns quarenta deles, cinquenta, e seguiram em frente rum o à m argem do lago e com eçaram a se
desintegrar nos serrilhados planos de calor e a se separar silenciosam ente e a evaporar.
A com panhia perm anecia sob a m oita de creosoto recarregando as arm as. Um dos pôneis estava deitado na
areia respirando cadenciadam ente e outros suportavam as flechas cravadas com curiosa paciência. Tate e Doc Irving
retrocederam para cuidar deles. Os dem ais perm aneceram de olhos fixos na play a.
Saíram de trás dos arbustos, Toadvine e Glanton e o j uiz. Apanharam um m osquete curto de cano estriado em
brulhado em couro cru e enfeitado na coronha com tachas de latão em m otivos variados. O j uiz olhou para o norte
ao longo da m argem pálida do lago seco onde os pagãos haviam sum ido. Estendeu o rifle para Toadvine e
seguiram em frente.
O hom em m orto tom bara em um leito arenoso. Estava nu exceto pelas botas de pele e as folgadas calças m
exicanas. Suas botas tinham dedões pontudos com o borzeguins e solado de parfleche e canos altos enrolados sob
os j oelhos e am arrados. A areia no leito estava escura de sangue. Ficaram ali sob o calor sem vento na m argem do
lago seco e Glanton o virou de costas com sua bota. O rosto pintado surgiu, areia colada ao globo ocular, areia
colada à banha rançosa com que untara o torso. Dava para ver o buraco onde a bala do rifle de Toadvine penetrara
acim a da costela inferior. O cabelo do hom em era com prido e negro e baço de poeira e nele andavam alguns
piolhos. Havia faixas de tinta branca nas m açãs e asnas de tinta acim a do nariz e desenhos em tinta verm elha
escura sob os olhos e no queixo. Era velho e exibia um ferim ento de lança cicatrizado logo acim a do ilíaco e um
antigo ferim ento de sabre na face esquerda indo até o canto do olho. Esses ferim entos estavam adornados com im
agens tatuadas em toda a extensão, talvez obscurecidas pela idade, m as sem referente no deserto conhecido em
torno.
O j uiz agachou com a faca e cortou a correia da bolsa de guerra feita de pele de felino que o hom em carregava e
esvaziou o conteúdo sobre a areia. Dentro havia um a viseira de rêm iges de corvo, um rosário de sem entes
frutíferas, algum as pederneiras, um punhado de pelotas de chum bo. Continha ainda um cálculo ou bezoar originado
nas entranhas de algum anim al e o j uiz exam inou aquilo e o enfiou no bolso. Os dem ais pertences ele os espalhou
com a palm a da m ão com o se houvesse algo ali a ser lido. Então abriu a calça do hom em com sua faca. Atada j
unto aos genitais escuros havia um a bolsinha de pele que o j uiz cortou e tam bém guardou no bolso do colete. Por
últim o agarrou as negras m adeixas e ergueu-as da areia e tirou o escalpo. Depois se ergueram e voltaram ,
deixando-o a perscrutar com olhos progressivam ente secos o calam itoso avanço do sol.
Cavalgaram o dia todo por um a gastine pálida esparsam ente pontilhada de arm olões e pânicos. Ao anoitecer
penetraram em um a terra oca que reverberava tão sonoram ente sob os cascos dos cavalos que eles pisavam e
saíam de lado e rolavam os olhos com o anim ais de circo e nessa noite deitados no chão todos escutaram , cada um
deles, o trovej ar surdo de rocha desm oronando em algum lugar m uito abaixo de onde estavam , nas pavorosas
profundezas do m undo.
No dia seguinte atravessaram um lago de gipsita tão fina que os pôneis não deixavam rastro algum sobre ela. Os
cavaleiros usavam m áscaras de carvão de osso esfregadas em torno dos olhos e alguns haviam enegrecido os
olhos de seus cavalos. O sol refletido na bacia queim ava-lhes a parte inferior do rosto e as som bras de cavalo e
cavaleiro eram desenhadas sobre o pó branco fino no m ais puro índigo. Muito longe ao norte no deserto j atos de
poeira erguiam -se oscilando com o brocas sobre a terra e alguns hom ens contaram que tinham ouvido falar de
peregrinos sendo erguidos com o dervixes nesses torvelinhos sem direção para serem largados de ossos partidos e
sangrando outra vez sobre o deserto e ali talvez assistir ao que os destruíra seguir seu cam inho cam baleante com o
algum dj im bêbado e se dissolver um a vez m ais nos elem entos dos quais se originou. Daquele redem oinho
nenhum a voz em ergia e o peregrino caído com seus ossos quebrados podia gritar e em sua agonia se enfurecer, m
as fúria contra o quê? E se a casca seca e enegrecida dele for encontrada entre as areias por viaj antes do porvir
quem poderá adivinhar o instrum ento de sua aniquilação?
Nessa noite sentaram j unto ao fogo com o fantasm as em suas barbas e roupas em poeiradas, absortos,
pirólatras. As cham as m orreram e pequenos tições saíram rolando pela planície e a areia rastej ou no escuro a
noite toda com o exércitos de piolhos em m archa. À noite alguns cavalos com eçaram a relinchar e o rom per do
dia revelou diversos deles tão enlouquecidos com a cegueira da neve que tiveram de ser abatidos. Quando partiram
o m exicano a quem cham avam McGill m ontava seu terceiro cavalo em tantos dias. Não pudera pretej ar os
olhos do pônei em que viera cavalgando desde o lago seco pois que para tanto teria necessitado um a focinheira com
o de cão e o cavalo em que agora andava era ainda m ais indócil e restavam apenas três anim ais no caballado.
Nessa tarde os dois delawares que os haviam deixado um dia após saírem de Janos alcançaram -nos quando
faziam um a pausa para o alm oço j unto a um poço. Com eles ia o cavalo do veterano, ainda selado. Glanton foi
até o anim al e pegou as rédeas soltas e o puxou para perto da fogueira onde retirou o rifle do coldre e o estendeu
para David Brown e então com eçou a rem exer a bolsa de couro presa à patilha e a j ogar os parcos pertences do
veterano no fogo. Desprendeu as correias da cilha e soltou os outros equipam entos e em pilhou tudo sobre as cham
as, cobertores, sela, tudo, a lã e o couro ensebados desprendendo um a fum aça fétida e cinzenta.
Então seguiram em frente. Tom aram o rum o norte e por dois dias os delawares leram as fum aças nos cum es
distantes e depois as fum aças cessaram e não voltaram . Quando penetravam os contrafortes toparam com um a
velha diligência em poeirada com seis cavalos nos tirantes pastando o capim seco em um a dobra no m eio do
burgau estéril.
Um a delegação se encam inhou à carruagem e os cavalos sacudiram as cabeças e refugaram e fugiram a trote. Os
cavaleiros acossaram -nos pela bacia até que circulassem com o cavalos de papel colhidos pelo vento e trouxessem a
diligência m atraqueando a reboque com um a roda quebrada. O preto cam inhou acenando com o chapéu e gritando
palavras para que sossegassem e se aproxim ou dos cavalos atrelados ao varal com o chapéu estendido e conversou
com eles que trem iam sem se m over até conseguir alcançar as rédeas caídas no chão.
Glanton passou por ele e abriu a porta da carruagem . O interior do coche estava cheio de estilhaços de m adeira
nova e um hom em m orto caiu porta afora e pendeu de cabeça para baixo. Havia m ais um hom em dentro e um
m enino j ovem e ali j aziam com suas arm as naquele seu carro funerário em m eio a um fedor capaz de espantar
um abutre de um carrinho de m iúdos. Glanton apanhou as arm as e a m unição e passou para os outros. Dois hom
ens treparam no tej adilho de carga e cortaram as cordas e a lona puída e com um pontapé derrubaram um
pequeno baú e um a velha caixa de despachos de couro cru e abriram os dois. Glanton cortou as correias da caixa
de despachos com sua faca e virou a caixa na areia. Cartas escritas para todos os destinos que não aquele com
eçaram a deslizar e se afastar descendo pelo cânion. Havia alguns sacos com am ostras de m inério dentro da caixa
e ele os esvaziou no chão e rem exeu os m ontinhos de m inério com o pé e olhou em torno. Voltou a olhar dentro do
coche e então cuspiu e virou e observou os cavalos. Eram cavalos grandes am ericanos m as com pletam ente
esgotados. Ordenou que soltassem dois deles dos tirantes e então fez um gesto para que o negro largasse o cavalo
guia e agitou o chapéu para os anim ais. Eles partiram pelo solo do cânion, desem parelhados e com m ovim entos
de vaivém nos arreios, a diligência oscilando na suspensão de couro e o m orto balançando pela porta que batia. Dim
inuíram a m archa na planície rum ando para oeste, prim eiro o som e depois a form a deles se dissolvendo no calor
que subia da areia até não serem m ais que um cisco contorcendo-se naquele vazio alucinatório e então absolutam
ente nada. Os cavaleiros seguiram em frente.
Por toda a tarde cavalgaram em fila única através das m ontanhas. Um pequeno gavião cinzento passou em voo
rasante por eles com o que procurando o estandarte da com panhia e então disparou pela planície abaixo com suas
esguias asas falconídeas. Cavalgaram por cidades de arenito no crepúsculo desse dia, passando por castelos e torres
e baluartes m oldados pelo vento e por celeiros de pedra ao sol e à som bra. Cavalgaram através de m arga e
terracota e fendas de xisto rico em cobre e cavalgaram através de um a plataform a arborizada e saíram em um
prom ontório dom inando um a caldeira inóspita e desolada onde ficavam as ruínas abandonadas de Santa Rita del
Cobre.
Ali m ontaram seu acam pam ento sem fogo nem água. Enviaram batedores e Glanton cam inhou pelo
despenhadeiro e sentou ao crepúsculo observando a escuridão se adensar no abism o para ver se algum a luz se
revelava ali em baixo. Os batedores voltaram no escuro e continuava escuro pela m anhã quando a com panhia m
ontou e partiu.
Entraram na caldeira sob um a aurora m eio acinzentada, cavalgando em fila indiana pelas ruas xistosas entre
velhos prédios de adobe abandonados havia doze anos quando os apaches bloquearam as caravanas de carroções
vindas de Chihuahua e sitiaram os m ineradores. Os m exicanos fam intos tentaram percorrer a pé a longa j ornada
para o sul m as nenhum deles j am ais chegou. Os am ericanos em seus cavalos deixaram para trás a escória e o
cascalho e as silhuetas escuras das cham inés e deixaram para trás a fundição onde se acum ulavam pilhas de m
inério e os carroções e vagonetes entregues à intem périe brancos com o ossos sob a aurora e os escuros vultos de
ferro do m aquinário abandonado. Cruzaram um arroio pedregoso e cavalgaram através daquele terreno revolvido
até um a suave elevação onde ficava o antigo presidio, um a enorm e construção triangular de adobe com torres
redondas nos cantos. Havia um a única porta na m uralha leste e quando se aproxim aram puderam avistar a fum aça
que haviam farej ado no ar m atinal.
Glanton bateu na porta com sua clava forrada de couro cru com o um viaj ante diante de um a estalagem . Um a
luz azulada se difundia pelas colinas em torno e os picos m ais elevados ao norte recebiam a única luz do sol que
havia enquanto toda a caldeira ainda estava m ergulhada nas som bras. O eco de suas batidas retum bou pelos m
uros de pedra austeros e rachados e voltou. Os hom ens continuaram sobre suas selas. Glanton chutou a porta.
Apareçam se forem
brancos, cham ou.
Quem está aí?
gritou um a voz.
Glanton
cuspiu.
Quem é?
gritaram .
Abra,
disse
Glanton.
Aguardaram . Correntes m atraquearam contra a m adeira. Um vão se abriu com um rangido na porta alta e um
hom em se postou diante deles com um rifle em posição. Glanton cutucou o cavalo com o j oelho e o anim al ergueu
a cabeça pelo vão e forçou passagem e todos entraram .
Na escuridão pardacenta do interior da praça-forte desm ontaram e prenderam as m ontarias. Velhos carroções
de carga eram vistos aqui e ali, alguns despoj ados de suas rodas por viaj antes. Um a lam parina ardia em um dos
prédios e vários hom ens estavam à porta. Glanton atravessou o triângulo. Os hom ens abriram cam inho. Pensam os
que fossem os inj ins, disseram .
Eram os quatro restantes de um grupo de sete que se aventurara pelas m ontanhas para explorar m etais preciosos.
Havia três dias que se refugiavam no antigo presidio, vindos do deserto ao sul onde foram perseguidos pelos
selvagens. Um dos hom ens havia sido alvej ado na região inferior do peito e estava apoiado na parede dentro da
casa do com andante. Irving entrou e olhou para ele.
O que fizeram
por ele? disse.
Não fizem os
nada.
O que querem que
eu faça por ele?
Ninguém pediu
pra você fazer
nada.
Ótim o, disse Irving. Porque não tem nada a ser feito.
Olhou para eles. Estavam im undos e esfarrapados e m eio fora de si. Vinham fazendo incursões pelo arroio à
noite para obter lenha e água e se alim entando da carcaça de um a m ula eviscerada e m alcheirosa no canto m
ais distante do pátio. A prim eira coisa pela qual perguntaram foi uísque e a segunda tabaco. Não tinham m ais que
dois anim ais e um deles fora picado por um a cobra no deserto e a besta em questão agora se encontrava ali no
quartel com a cabeça enorm em ente inchada e grotesca com o um a concepção equina fabulosa saída de um a
tragédia ática. A picada havia sido desferida j unto às narinas e os olhos protuberantes apontavam na cabeça
desfigurada em um horror agônico e o anim al cam baleou gem endo na direção dos cavalos agrupados da com
panhia com o com prido focinho deform ado balançando e babando e a respiração arfante nos sufocados tubos de
sua garganta. A pele havia se fendido no dorso nasal e o osso brilhava em m eio a um a brancura rosada e suas
pequenas orelhas pareciam m echas de papel retorcido enfiadas de am bos os lados de um a peluda m assa para
pães. Os cavalos am ericanos com eçaram a se agitar e a dispersar ao longo do m uro ante sua aproxim ação e o
anim al cam baleou às cegas atrás deles. Seguiu-se um a com oção de pisoteios e coices e os cavalos com eçaram a
circundar o forte. Um pequeno garanhão sarapintado pertencente a um dos delawares destacou-se da rem uda e
escoiceou a criatura duas vezes e então virou e enterrou os dentes em seu pescoço. Da garganta do cavalo
desvairado saiu um som que trouxe os hom ens até a porta.
Por que não m atam o
pobre-diabo? disse Irving.
Quanto antes m orrer antes
apodrece, disseram .
Irving cuspiu. Estão pensando em com er
aquilo com picada de cobra e tudo?
Olharam uns para os outros. Não sabiam .
Irving abanou a cabeça e saiu. Glanton e o j uiz olharam para os ocupantes do forte e os ocupantes olharam para o
chão. Algum as vigas do telhado haviam cedido parcialm ente e o chão estava coberto de barro e pedregulhos.
Nessa fortaleza arruinada penetrava agora obliquam ente o sol m atinal e Glanton pôde ver agachado a um canto
um garoto m exicano ou m estiço de uns doze anos de idade. Tudo que vestia eram um as calças até os j oelhos e
sandálias im provisadas de couro não curtido. Devolveu o olhar de Glanton com um a espécie de insolência
aterrorizada.
Quem é essa
criança? disse o j
uiz. Deram de om
bros, desviaram o
rosto. Glanton
cuspiu e abanou a
cabeça.
Postaram guardas na azotea e tiraram as selas dos cavalos e os levaram para pastar e o j uiz foi até um a das alim
árias e esvaziou a carga dos paneiros e pôs-se a explorar as instalações. De tarde sentou no pátio do quartel
quebrando am ostras de m inério com um m artelo, o feldspato rico em óxido verm elho de cobre e pepitas nativas
em cuj os lóbulos orgânicos ele pretendeu ler inform ações sobre as origens da terra, m inistrando um a
conferência extem porânea de geologia a um a reduzida plateia que balançava a cabeça e cuspia. Alguns citaram
para ele as escrituras tentando frustrar sua ordenação das eras a partir do caos prim ordial e outras
pressuposições apostáticas. O j uiz sorriu.
Livros m
entem ,
disse. Deus
não m ente.
Não, disse o j uiz. Não m
ente. E eis aqui suas
palavras. Segurou um
pedaço de rocha.
Ele fala nas pedras e nas árvores, os ossos das coisas.
Os ocupantes m altrapilhos assentiam com a cabeça entre si e em pouco tem po reputavam -no correto, aquele
hom em de saber, em todas suas especulações, e tal o j uiz encoraj ou até se tornarem genuínos prosélitos da nova
ordem , m om ento em que se pôs a rir e zom bar de sua estupidez.
Nessa noite a m aior parte da com panhia se aquartelou sob as estrelas na argila seca da praça-forte. Antes
do am anhecer a chuva os forçaria a se abrigar, am ontoados nos escuros aloj am entos de barro ao longo da m
uralha sul. Na casa do com andante m ontaram um a fogueira no chão e a fum aça subiu através do telhado
desabado e Glanton e o j uiz e seus lugares-tenentes sentaram -se em torno das cham as e fum aram seus cachim bos
enquanto os ocupantes ficavam m ais afastados m astigando o tabaco que haviam recebido e cuspindo na parede. O
m enino m estiço os observava com seus olhos escuros. A oeste entre as colinas baixas e escuras puderam ouvir um
lam ento de lobo que levou inquietação aos ocupantes e os caçadores sorriram entre si. Em um a noite tão prenhe de
clam ores com o os ganidos chacais de coiotes e os pios de coruj as o uivo daquele velho lobo m acho era o único
som que eles sabiam provir de sua form a legítim a, um lobo solitário, provavelm ente cinzento no focinho,
pendendo da lua com o um a m arionete com sua longa boca balbuciante.
A noite foi ficando cada vez m ais fria e um a agitação tem pestuosa de vento e chuva com eçou a soprar e logo
em seguida todo o bestiário selvagem daquela terra em udeceu. Um cavalo enfiou sua cara com prida e úm ida pela
porta e Glanton ergueu o rosto e falou com o anim al e este alçou a cabeça e contraiu o lábio e sum iu dentro da
chuva e dentro da noite.
Os ocupantes do quartel observaram isso com o observavam tudo com seus olhos inquietos e um deles asseverou
que j am ais tom aria um cavalo por anim al de estim ação. Glanton cuspiu no fogo e olhou para o hom em ali
sentado sem cavalo e em trapos e abanou a cabeça diante da m aravilhosa invenção da estupidez em todas suas form
as e feitios. A chuva am ainara e na quietude um prolongado crepitar de trovão rolou acim a de suas cabeças e
reverberou entre os rochedos e então a chuva redobrou de força até virar um aguaceiro vertendo pela abertura negra
do teto e se vaporizando e chiando na fogueira. Um dos hom ens se levantou e arrastou as extrem idades
apodrecidas de um as velhas traves e as em pilhou sobre as cham as. A fum aça se espalhou ao longo das vigas
cedidas acim a deles e pequenos regatos de argila líquida com eçaram a escorrer do telhado de sapê. Lá fora o
presidio se via sob cortinas d’água que em raj adas de vento a tudo fustigavam e a luz da fogueira proj etando-se
através da porta lançava um a faixa pálida naquele oceano raso no qual os cavalos ficavam com o espectadores de
beira de estrada à espera de algum acontecim ento. De tem pos em tem pos um dos hom ens se levantava e saía e sua
som bra caía entre os anim ais e eles erguiam e baixavam as cabeças gotej antes e chapinhavam com seus cascos
e então voltavam a aguardar sob a chuva.
Os hom ens que haviam estado de sentinela entraram na casa e postaram -se fum egantes diante do fogo. O preto
parou à porta sem entrar nem sair. Alguém afirm ara ter visto o j uiz nu em cim a das m uralhas, im enso e pálido
sob a revelação dos relâm pagos, m archando pelo perím etro ali em cim a e declam ando à velha m aneira épica.
Glanton observava o fogo em silêncio e os hom ens se aj eitaram com seus cobertores nos lugares m ais secos do
chão e logo todos dorm iam .
Pela m anhã a chuva cessara. A água se acum ulava em poças no pátio e o cavalo picado j azia m orto com sua
cabeça inform e estendida na lam a e os outros anim ais haviam se agrupado no canto nordeste sob a torre e estavam
de frente para o m uro. Os picos ao norte exibiam a brancura da neve sob o sol que acabara de nascer e quando
Toadvine saiu para o novo dia o sol roçava na parte superior das m uralhas da fortificação e o j uiz perm anecia
tranquilo em m eio ao suave vapor palitando os dentes com um espinho com o se houvesse acabado de com er.
Dia, disse
o j uiz.
Dia, disse
Toadvine.
Parece que vai lim par.
Já lim pou, disse Toadvine.
O j uiz girou a cabeça e olhou na direção do baluarte cobalto im aculado do dia visível. Um a
águia cruzava a garganta com o sol m uito branco em sua cabeça e nas penas da cauda.
Assim é, disse o j uiz. Assim é.
Os ocupantes saíram e ficaram à toa pelo quartel piscando com o pássaros. Haviam confabulado e decidido j
untar-se à com panhia e quando Glanton chegou ao pátio conduzindo seu cavalo o porta-voz do grupo se adiantou
para inform á-lo da decisão. Glanton nem sequer olhou para ele. Entrou na casa e pegou sua sela e equipam entos.
Nesse ínterim alguém encontrara o m enino.
Estava de bruços e sem roupa em um dos aloj am entos. Espalhados em torno pela terra havia um grande núm ero
de ossos velhos. Com o se ele assim com o outros antes dele houvesse topado com um lugar habitado por algum a
criatura hostil. Os ocupantes se agacharam e ficaram ao redor do cadáver em silêncio. Logo iniciavam um a
conversa absurda sobre os m éritos e virtudes do m enino m orto.
Na fortificação os caçadores de escalpo m ontaram e viraram seus cavalos na direção dos portões que agora
estavam abertos para o leste dando as boas-vindas à luz e encoraj ando sua j ornada. Quando saíam os
condenados albergados naquele lugar vieram arrastando o m enino para fora e o deixaram cair na lam a. Seu
pescoço fora quebrado e sua cabeça pendia em ângulo reto e baqueou estranham ente quando o puseram no chão.
As colinas além da m ina refletiam -se acinzentadas nas poças d’água do pátio e a m ula parcialm ente com ida j
azia na lam a com o quarto traseiro faltando com o que saída do crom o de um a guerra m edonha. Dentro da
caserna sem porta o hom em baleado cantava hinos de igrej a e praguej ava contra Deus, alternadam ente. Os
ocupantes ficaram em volta do m enino m orto com suas arm as im prestáveis em posição de descanso com o um a
andraj osa guarda de honra. Glanton lhes cedera m eia libra de pólvora para os rifles e alguns escorvadores e um
pequeno lingote de chum bo e quando a com panhia partia em seus cavalos alguns se viraram para olhar, três
hom ens parados sem expressão. Ninguém ergueu a m ão em adeus. O m oribundo j unto às cinzas da fogueira
cantava e conform e cavalgavam porta afora puderam escutar os hinos de sua própria infância e continuaram a
escutar à m edida que subiam pelo arroio e cavalgavam entre os pequenos j uníperos ainda úm idos da chuva. O
m oribundo entoava os cânticos com voz m uito lím pida e convicta e os cavaleiros rum ando para o interior do país
talvez tenham retardado o passo para m ais longam ente escutá-lo pois que eram eles próprios bem esse tipo de
pessoas.

Cavalgaram nesse dia entre colinas baixas estéreis salvo pelos arbustos de vegetação perene. Por toda parte naquele
prado elevado veados pulavam e debandavam e sem deixar suas selas os caçadores abateram inúm eros deles e
os estriparam e em balaram e ao anoitecer haviam conquistado o séquito de m eia dúzia de lobos de tam anho e cor
variados que trotavam atrás deles em fila indiana e ficavam olhando por cim a dos próprios om bros para verificar
se cada um ia em seu devido lugar.
Fizeram alto ao crepúsculo e m ontaram um a fogueira e assaram a carne. A noite estava bem fechada e não se
viam estrelas. Ao norte podiam avistar outras fogueiras que ardiam verm elhas e lúgubres ao longo das arestas
invisíveis. Com eram e seguiram adiante, deixando a fogueira no chão atrás de si e, conform e cavalgaram através
das m ontanhas, aquela fogueira pareceu ter sua localização alterada, ora aqui, ora ali, avançando ou m udando de
lugar inexplicavelm ente ao longo do flanco do m ovim ento deles. Com o algum fogo-fátuo surpreendido pela noite
na estrada que deixavam para trás e que todos podiam ver e sobre o qual ninguém falava. Pois essa vontade de
iludir que existe em coisas lum inosas pode se m anifestar igualm ente em retrospecto e assim m ediante ardil de
algum a dada parte de um a j ornada j á cum prida pode tam bém endereçar hom ens a destinos fraudulentos.
Conform e cavalgaram nessa noite pela m esa viram se aproxim ar em sua direção com o se fosse sua própria im
agem um grupo de cavaleiros destacado das trevas pelo clarão interm itente dos relâm pagos sem chuva ao norte.
Glanton fez alto em seu cavalo e a com panhia parou atrás dele. Os cavaleiros silenciosos continuaram assom ando.
Quando estavam a cem m etros de distância tam bém fizeram alto e todos perm aneceram em silenciosa
especulação quanto àquele encontro.
Quem são vocês?
gritou Glanton.
Am igos,
nosotros som os
am igos.
Contavam todos o núm ero
de hom ens uns dos outros.
De dónde viene? gritaram
os forasteiros.
A dónde va? gritou o j uiz.
Eram ciboleros vindos do norte, seus cavalos de carga cheios de carne-seca. Traj avam peles costuradas com
ligam entos de anim ais e sentavam em suas selas à m aneira de hom ens que raram ente desciam delas.
Portavam lanças com as quais caçavam o arisco bisão nas planícies e essas arm as eram enfeitadas com borlas de
penas e tecidos coloridos e alguns portavam arcos e outros portavam velhos m osquetes de pederneira cuj as
bocas estavam arrolhadas com tam pões tam bém enfeitados de borlas. Carregavam a carne-seca em brulhada em
couro cru e a não ser pelas poucas arm as que traziam consigo eram tão inocentes do artifício civilizado quanto o
m ais rude selvagem daquela terra.
Parlam entaram sem desm ontar e os ciboleros acenderam suas cigarrilhas e contaram que se dirigiam aos m
ercados de Mesilla. Os am ericanos podiam ter negociado em troca de algum a carne m as não portavam m
ercadorias de valor equivalente e a disposição para o escam bo era estranha entre eles. E desse m odo aqueles
grupos se separaram na planície à m eia-noite, cada um percorrendo o cam inho pelo qual o outro viera,
perseguindo com o cabe a todo viaj ante inversões sem fim das j ornadas de outros hom ens.
X

TOBIN — A ESCARAMUÇA NO LITTLE COLORADO — A KATABASIS — COMO SURGIU O


HOMEM INSTRUÍDO — GLANTON E O JUIZ — UM NOVO RUMO — O JUIZ E OS MORCEGOS
— GUANO — OS DESERTORES — SALITRE E CARVÃO — O MALPAIS — MARCAS DE
CASCOS — O VULCÃO — ENXOFRE — A MATRIZ — O MASSACRE DOS ABORÍGENES.

Nos dias que se seguiram sum iu todo vestígio dos gileños e eles penetraram ainda m ais fundo nas m ontanhas.
Junto a fogueiras feitas com m adeiras claras com o osso vindas à deriva das terras altas acocoravam -se em
silêncio enquanto as cham as dançavam ao vento noturno ascendente naquelas depressões pedregosas. O kid sentava
de pernas cruzadas arrum ando um a correia com a sovela que tom ara em prestada do ex-padre Tobin e o
renegado sem batina o observava trabalhando.
Você j á fez isso antes, disse Tobin.
O kid lim pou o nariz com a m anga da cam isa
im unda e virou a tira em seu colo. Eu não, disse.
Bom , você tem m ão pra isso. Mais do que eu.
Há pouca equidade nos dons que o Senhor
concede. O kid ergueu o rosto para ele e depois
voltou a se debruçar sobre o trabalho.
Assim é, disse o ex-padre.
Olhe em volta. Exam ine o j
uiz. Já cansei de exam inar o j
uiz.
Vai ver ele não é do seu agrado, m uito j usto. Mas o hom em leva j eito pra tudo.
Nunca o vi se entregar a um a tarefa em que não m ostrasse engenho pra coisa. O
kid passou o fio lubrificado pelo couro e esticou com um puxão.
Ele fala holandês,
disse o ex-padre.
Holandês?
Isso.
O kid encarou o ex-padre, se debruçou em seu conserto.
Fala, porque j á ouvi falar. Um a vez topam os com um bando de peregrinos estúpidos lá pros lados do Llano e o
velho que era o chefe deles foi logo falando em holandês com o se a gente estivesse no país dos holandeses e o j
uiz respondeu sem nem piscar. Glanton quase caiu do cavalo. A gente nunca tinha ouvido ele falar assim . Quando
perguntam os onde aprendeu sabe o que ele disse?
O que ele disse?
Disse que com um holandês.
O ex-padre cuspiu. Eu não aprendia
nem com dez holandeses. E você?
O kid abanou a cabeça.
Não, disse Tobin. Os dons do Todo-Poderoso são aferidos e sopesados em um a balança peculiar a ele próprio.
Não é contabilidade j usta e não tenho dúvida de que ele seria o prim eiro a adm itir se alguém chegasse e
perguntasse na lata.
Quem ?
O Todo-Poderoso, o Todo-Poderoso. O ex-padre abanou a cabeça. Olhou através do fogo para o j uiz. Aquela
criatura enorm e e sem um fio. De olhar pra ele você não diz que dança m elhor que o diabo em pessoa, diz?
Deus, com o o hom em dança, a gente tem que adm itir. E toca violino. É o m aior violinista que j á ouvi na vida e
não se fala m ais nisso. O m aior. Sabe abrir um a picada no m ato, atirar com o rifle, m ontar a cavalo, rastrear um
veado. Já conheceu o m undo todo. Ele e o governador sentaram até a hora do café e foi Paris isso e Londres aquilo
em cinco línguas, você pagava pra ouvir. O governador é um hom em instruído, com o não, m as o j uiz...
O ex-padre abanou a cabeça. Ah, talvez sej a o m odo com o o Senhor m ostra em que baixa conta tem a gente de
instrução. O que ela podia significar pra alguém que sabe tudo? Ele é dono de um am or incom um pelo hom
em com um e a sabedoria divina reside nas m enores coisas, então pode m uito bem ser que a voz do Todo-Poderoso
sej a ouvida m ais profundam ente nesses seres que vivem eles próprios no silêncio.
Observou o kid.
Pois sej a com o for, disse, Deus fala nas m enores criaturas.
O kid achou que estivesse se referindo a pássaros ou coisas que rastej am m as o ex-padre,
observando, a cabeça ligeiram ente para trás, disse: Hom em nenhum está exim ido dessa
voz. O kid cuspiu no fogo e se debruçou sobre o trabalho.
Não ouço voz nenhum a, disse.
Quando ela se calar, disse Tobin,
vai perceber que ouviu a vida
toda. É isso m esm o?
É.
O kid virou o couro em seu colo. O ex-padre observava.
À noite, disse Tobin, quando os cavalos estão pastando e a
com panhia está dorm indo, quem ouve eles pastando?
Ninguém ouve, se está todo m undo dorm indo.
Isso. E se eles param
de pastar quem
acorda? Todo m undo.
Isso, disse o ex-padre. Todo m undo.
O kid ergueu o rosto. E o j
uiz? A voz fala com ele?
O j uiz, disse Tobin. Ficou
sem responder.
Eu j á tinha visto ele antes, disse o kid. Em Nacogdoches.
Tobin sorriu. Todo m undo na com panhia diz que j á encontrou aquele tinhoso com alm a de fuligem em algum outro
lugar.
Tobin esfregou a barba no dorso da m ão. Ele salvou todo m undo aqui, tenho que adm itir. Quando a gente veio
descendo pelo Little Colorado não tinha nem um a libra de pólvora na com panhia. Libra. O que tinha m al dava
um a dracm a. Lá estava ele sentado num a pedra no m eio do m aior deserto que alguém j á viu. Agachado na pedra
sem m ais nem m enos com o um suj eito esperando um a diligência. Brown achou que fosse m iragem . Era capaz
até de ter dado um tiro pra ver, se tivesse algum a coisa com que atirar.
Com o foi que ficaram sem pólvora?
Gastam os tudo com os selvagens. Nove dias enfiados num a caverna, perdem os quase todos os cavalos. Eram
trinta e oito hom ens quando saím os de Chihuahua City e catorze quando o j uiz encontrou a gente. Com
pletam ente arrasados, fugindo. Cada cupincha desse nosso bando sabia que naquele território esquecido por deus
em algum lugar tinha um a depressão ou paredão sem saída ou quem sabe até só um a pilha de pedras e que a
gente ia ficar encurralado e com as arm as vazias. O j uiz. Ao dem ônio o que lhe é de direito.
O kid segurava o arreio num a m ão, a sovela na outra. Olhava para o ex-padre.
A gente tinha ficado na planície a noite toda e boa parte do dia seguinte. Os delawares paravam de vez em
quando e pulavam no chão pra escutar. Não tinha pra onde correr e nenhum lugar onde se esconder. O que
queriam escutar não sei dizer. A gente sabia que os m alditos negroides estavam por perto em algum lugar e quanto
a m im isso j á era inform ação m ais do que suficiente. Não precisava de m ais nenhum a. Aquele nascer do sol
que a gente tinha visto podia bem ter sido o últim o. Ninguém tirava o olho da trilha que a gente deixava, não sei até
onde dava pra ver. Vinte, trinta quilôm etros.
Então m ais ou m enos no m eridiano daquele dia topam os com o j uiz sentado na sua pedra naquela vastidão,
sozinho da silva. Sim senhor, e que pedras que nada, aquela era a única. Irving disse que tinha trazido com ele. Eu
disse que era um m arco pra diferenciar o hom em no m eio daquele nada. Levava j unto o m esm íssim o rifle que
você vê com ele agora, todo enfeitado em alpaca e o nom e que ele batizou inscrito em fio de prata na coronha em
latim : Et In Arcadia Ego. Um a referência ao letal da arm a. É bastante com um um hom em dar nom e pra arm a.
Já vi Sweetlips e Hark From The Tom bs e todo tipo de nom e de m ulher. Mas a dele é a prim eira e única que j á vi
com um a inscrição dos clássicos.
E lá estava. Nada de cavalo. Só ele e suas pernas cruzadas, sorrindo quando a gente chegou perto. Com o se
estivesse à espera. Tinha um a velha m aleta de lona e um capote velho de lã j ogado em cim a do om bro. Na
m aleta ele levava um par de pistolas e um belo sortim ento de m etal sonante, ouro e prata. Nem cantil não tinha.
Era com o se... Não dava pra im aginar de onde tinha saído. Ele disse que estava com um grupo de carroções e
que desceu pra continuar sozinho.
Davy queria era deixar ele ali m esm o. Não foi com a cara da vossa excelência e não vai até hoj e. Glanton só
exam inava o outro. Era trabalho do cão tentar quando m uito adivinhar o que estava pensando daquela figura ali
naquele lugar. Quanto a m im não sei até hoj e. Eles têm um a ligação secreta. Algum a aliança m aligna. Repara
bem . Vai ver com o tenho razão. Pediu a últim a das duas bestas de carga que a gente tinha e cortou as cilhas e
largou as bolsas onde elas caíram e o j uiz m ontou e ele e o Glanton cavalgaram lado a lado e logo estavam
conversando com o dois irm ãos. O j uiz sentou no anim al em pelo com o um índio e cavalgou com sua valise e seu
rifle pendurados na cernelha e olhava em volta com o ar m ais satisfeito desse m undo, com o se tudo tivesse saído
exatam ente com o tinha planej ado e o dia não pudesse estar m elhor.
A gente não tinha ido m uito longe quando ele fixou um novo curso um as nove m eias-quartas pro leste. Indicou
um a cadeia de m ontanhas a uns cinquenta quilôm etros de distância e seguim os nesse rum o e nenhum de nós
perguntou por quê. A essa altura Glanton j á pusera ele a par da situação em que tinha se m etido m as se ficar sem
arm as em pleno nada com m eia nação apache nos calcanhares deixava ele preocupado isso foi coisa que
guardou só pra si m esm o.
O ex-padre fizera um a pausa para acender o cachim bo que se apagara, rem exendo o fogo para achar um tição
com o fizeram os batedores peles-verm elhas e depois pondo de volta entre as cham as com o se tivesse um lugar
apropriado ali.
Agora, o que você im agina que tinha naquelas m ontanhas pra onde a gente estava indo? E com o foi que ele ficou
sabendo? Com o encontrar aquilo? Com o fazer funcionar?
Tobin parecia form ular essas perguntas para si m esm o. Estava observando o fogo e dando cachim badas. Com
o, com o, repetiu. A gente chegou no sopé da m ontanha antes da noite e subiu por um arroio seco e fom os em
frente acho que até a m eia-noite e acam pam os sem lenha nem água. De m anhã dava pra ver eles na planície ao
norte a uns quinze quilôm etros. Vinham em fileiras de quatro e seis cavalos em parelhados e o bando não era
nada pequeno e não pareciam com a m enor pressa.
O j uiz tinha ficado acordado a noite toda pelo que as vedetas disseram . Observando os m orcegos. Ele andava
até a encosta da m ontanha e tom ava nota em um caderninho e depois voltava. Im possível estar m ais bem -
disposto. Dois hom ens tinham desertado no m eio da noite e com isso eram doze de nós e com o j uiz treze. Exam
inei ele o m elhor que pude, o j uiz. Nesse dia e depois. Ele parecia um lunático e depois não. Já o Glanton esse eu
sem pre soube que era louco.
Partim os com a prim eira luz por um a pequena depressão arborizada. A gente estava na vertente norte e tinha
salgueiros e alnos e cerej eiras crescendo nas pedras, só árvores pequenas. O j uiz parava pra sua botânica e depois
alcançava o grupo. Benza Deus. Prendendo folhas no seu caderninho. Juro que nunca vi nada parecido e o tem po
todo os selvagens logo ali debaixo do nosso nariz. Em seus cavalos naquela bocaina. Deus m eu, nem com um a
cãibra no pescoço eu ia conseguir tirar os olhos daquilo e tinha um a centena deles m as parecia um a coisa só.
Chegam os num terreno rochoso onde só tinha j unípero e fom os em frente. A gente nem tentava despistar os
rastreadores deles. Cavalgam os o dia todo. A gente não via m ais os selvagens porque eles estavam ao abrigo da m
ontanha em algum lugar nas encostas abaixo da gente. Assim que com eçou a escurecer e os m orcegos saíram
voando em volta o j uiz alterou nossa rota outra vez, indo atrás segurando o chapéu, olhando os anim aizinhos. A
gente se separou e acabou se dispersando entre os j uníperos e param os pra reagrupar e descansar os cavalos.
Ficam os sentados no escuro, ninguém dizia um a palavra. Quando o j uiz voltou ele e o Glanton sussurraram um
com o outro e então a gente seguiu em frente.
Guiam os os cavalos no escuro. Nada de trilha, só ram pas de pedras deslizando. Quando a gente chegou na
caverna alguns hom ens pensaram que a ideia dele era a gente ficar escondido ali e que afinal de contas o hom em
era m esm o um perfeito m entecapto. Mas ali tinha nitro. Nitro, viu. A gente deixou tudo que tinha na entrada da
caverna e enchem os nossos sacos e paneiros e alforj es com a terra da caverna e saím os de m anhã. Quando a
gente chegou no topo da ladeira em cim a desse lugar e olham os pra trás vim os um a m assa enorm e de m orcegos
sendo sugados pra dentro da caverna, m ilhares de criaturas, e continuaram assim por um a hora ou m ais e até
depois quando não dava m ais pra ver.
O j uiz. Deixam os ele num desfiladeiro alto, um regato de água clara. Ele e um dos delawares. Ele disse pra
gente contornar a m ontanha e voltar em quarenta e oito horas. Descarregam os todos os fardos no chão e levam
os os dois cavalos com a gente e ele e o delaware com eçaram a levar os paneiros e os sacos pelo riacho acim a.
Vendo o suj eito se afastar disse pra m im m esm o que nunca m ais ia pôr os olhos naquele hom em outra vez.
Tobin olhou para o kid. Nunca m ais na vida. Achei que o Glanton fosse largar ele lá. Seguim os em frente. No
dia seguinte do outro lado da m ontanha encontram os os dois rapazes que tinham desertado. Pendurados de cabeça
pra baixo num a árvore. Tinham sido esfolados e vou dizer pra você que isso não faz nada bem pra aparência de um
hom em . Mas se os selvagens ainda não tinham adivinhado agora podiam ter certeza. Que nenhum de nós tinha
nem um isto de pólvora.
A gente não cavalgava os anim ais. Só puxava, m antendo eles longe das pedras, segurando os focinhos se
bufavam . Mas nesses dois dias o j uiz lixiviou o guano com água do regato e cinza de m adeira e precipitou e
construiu um forno de barro e queim ou carvão ali dentro, apagava o fogo de dia e punha pra queim ar outra vez
depois de escurecer. Quando encontram os ele ele e o delaware estavam abaixados no riacho pelados dos pés à
cabeça e prim eiro pareceu que os dois estavam bêbados m as com o quê ninguém sabia dizer. O topo da m
ontanha coberto inteirinho de índios apaches e lá estava ele. Ficou de pé quando viu a gente e foi até os salgueiros e
voltou com um par de sacos e num deles tinha um as oito libras de cristal de salitre puro e na outra um as três libras
de um carvão de alno finíssim o. Ele tinha feito carvão em pó m oendo no oco de um a rocha, dava pra fabricar
nanquim com aquilo. Am arrou as sacolas e pendurou no cepilho da sela do Glanton e ele e o índio puseram a roupa
e foi um alívio pra m im porque nunca vi um hom em crescido sem um pelo no corpo e ele pesando trezentas e trinta
e seis libras que era o que pesava nessa época e pesa hoj e. E isso eu garanto, porque fui eu que contei a m arca de
vinte e quatro stone com estes olhos que a terra há de com er no travessão de um a balança pra gado em Chihuahua
City nesse m esm o m ês e ano.
Descem os a m ontanha sem nenhum batedor, nada. Sim plesm ente fom os direto. A gente estava caindo de sono.
Já tinha escurecido quando chegam os na planície e a gente se reagrupou e contou as cabeças e então fom os em
frente. A lua estava quase três quartos cheia e crescente e a gente parecia uns cavaleiros de circo, sem fazer um
ruído, os cavalos pisando em ovos. Não tinha com o saber onde é que estavam os selvagens. O últim o sinal que
a gente tinha tido da proxim idade deles foram os pobres coitados escorchados na árvore. Seguim os reto direto no
rum o oeste pelo deserto. Doc Irving estava na m inha frente e brilhava tanto que dava pra contar os cabelos na
cabeça dele.
A gente andou a noite toda e perto de am anhecer assim que a lua sum iu encontram os um bando de lobos. Eles
dispersaram e voltaram , fazendo tanto barulho quanto se fossem fum aça. Eles se espalhavam e tocaiavam e
rodeavam os cavalos. Uns atrevidos. A gente tentava espantar com as peias e eles desviavam , não dava pra escutar
um m ovim ento naquele caliche, só quando arfavam ou rosnavam e ganiam ou estalavam os dentes. Glanton
parou e os bichos deram a volta e se esquivaram e voltaram . Dois dos delawares retrocederam um pouco pra
esquerda — uns tipos m ais coraj osos que eu — e é claro que encontraram a presa. Era um m acho j ovem de
antílope que tinham m atado fazia pouco tem po, na noite anterior. Estava com ido pela m etade e a gente pulou em
cim a daquilo com as facas e tiram os o resto da carne pra gente e com em os crua nas selas e era a prim eira
carne que a gente via em seis dias. Que buraco no estôm ago. Andando pelas m ontanhas atrás de pinhas com o
ursos e satisfeitos de achar quando m uito isso. Não deixam os m uito m ais do que osso pros coitados, m as eu
nunca ia m atar um lobo e sei de outros hom ens dessa m esm a inclinação.
Esse tem po todo o j uiz m al disse um a palavra. Então quando am anheceu a gente estava perto de um m alpais
im enso e vossa excelência trepa num as rochas de lava que tinha por lá e se aj eita e com eça a fazer um discurso.
Era com o um serm ão m as não um serm ão de algum tipo que qualquer um de nós j á tivesse ouvido um dia.
Depois do m alpais tinha um pico vulcânico e com o nascer do sol ele ficou de m uitas cores e tinha uns passarinhos
escuros cortando o vento e o vento soprava o capote surrado do j uiz e ele apontou praquela m ontanha árida e
solitária e pronunciou um discurso com que finalidade não sei dizer, na hora ou agora, e concluiu dizendo pra nós
que nossa m ãe terra, com o cham ou, era redonda com o um ovo e que o interior dela continha tudo que havia de
bom . Então ele virou e conduziu o cavalo em que vinha m ontando através daquele terreno de escória preta
parecendo vidro, traiçoeiro tanto pra um hom em com o pra um anim al, e a gente atrás dele com o discípulos de um
novo credo.
O ex-padre interrom peu-se e bateu com o cachim bo apagado no calcanhar da bota. Olhou para onde o j uiz estava
sentado de tronco nu j unto à fogueira com o de hábito. Virou e encarou o kid.
O m alpais. Um labirinto. Você topava com um prom ontório de nada e qualquer greta m ais escarpada era um
estorvo, você não se atrevia a pular. As beiradas de vidro preto afiado e as pedras duras afiadas no fundo. A gente
conduzia os cavalos com todo cuidado e m esm o assim eles sangravam em volta dos cascos. As botas ficaram em
pedaços. Escalando aquelas velhas placas desabadas e acidentadas dava pra ver direitinho com o as coisas tinham
acontecido naquele lugar, as rochas derretidas e depois esfriadas todo enrugadas com o um pudim , a terra
despedaçada toda até o núcleo fundido lá dela. Onde todo m undo sabe que é o paradeiro do inferno. Porque a terra
é um globo no vazio e a verdade é que não tem nem alto nem baixo e tem hom ens nessa com panhia além de m
im que tam bém viram uns cascozinhos fendidos gravados na pedra ágeis com o de corça pequena saltitando m as
que corçazinha algum dia j á andou em rocha derretida? Não sou de ir além das escrituras m as pode acontecer de
ter havido pecadores de m aldade tão notória que o fogo cuspiu eles pra cim a outra vez e eu entendi m uito bem
com o num passado rem otíssim o uns diabretes com seus garfos tinham atravessado aquele vôm ito flam ej ante
pra buscar de volta aquelas alm as que por um infortúnio tinham sido regurgitadas da danação pras cam adas m
ais exteriores do m undo. Sim senhor. É um a ideia, só isso. Mas em algum lugar no esquem a das coisas esse m
undo deve tocar o outro. E algum a coisa deixou aqueles cascozinhos m arcados no j orro de lava porque eu m esm o
vi eles ali.
O j uiz, ele parecia incapaz de tirar os olhos daquele cone m orto que brotava do m eio do deserto com o um
cancro enorm e. A gente seguia atrás solene que nem coruj a então ele virou pra olhar e m orreu de rir quando viu
nossa cara. No sopé da m ontanha a gente tirou a sorte e m andam os dois hom ens seguir em frente com os cavalos.
Fiquei olhando eles indo. Um tá sentado no fogo aqui essa noite e eu vi ele ir em bora puxando os cavalos pelo
terreno cheio de escória com o um condenado.
E não acho que a gente m esm o tam bém não estivesse condenado. Quando olhei pra cim a ele j á estava de corpo
e alm a no alto da ram pa, o j uiz, o saco em cim a do om bro e o rifle de caj ado. E lá fom os nós todos. Nem bem
chegam os na m etade j á dava pra ver os selvagens na planície. Continuam os subindo. Pensei que na pior hipótese
a gente podia se atirar dentro da caldeira pra não ser levado por aqueles dem ônios. Continuam os a subir e acho que
era lá pelo m eio-dia quando chegam os no topo. Mortos. Os selvagens nem a quinze quilôm etros. Olhei pros hom
ens em volta de m im e posso afirm ar que não pareciam essas coisas. Toda a dignidade deles se fora. Bons
corações, todos eles, nesses dias assim com o hoj e, e não gostei de ver os pobres daquele j eito e achei que o j uiz
tinha sido m andado pro m eio de nós com o um a m aldição. Mas ele provou que eu estava enganado. Na época foi.
Hoj e eu fico dividido outra vez.
Ele com aquele tam anho todo dele foi o prim eiro a chegar na beirada do cone e ficou olhando em volta com o se
tivesse subido só pela vista. Daí sentou e com eçou a descascar a rocha com a faca. Um por um a gente foi
chegando e ele ali sentado de costas praquele abism o e sem parar de raspar e gritou pra gente que fizesse a m esm
a coisa. Era enxofre. Um m aná de enxofre em toda a borda da caldeira, am arelo brilhante e cintilando aqui e
ali com os flocos pequenos de sílica m as na m aior parte puro afloram ento de súlfur. A gente lascou aquilo e m oeu
bem fino com as facas até j untar um as duas libras e então o j uiz pegou as sacolas e foi até um a cavidade na pedra
e despej ou o carvão e o nitro e rem exeu com a m ão e j ogou o enxofre dentro.
Eu não sabia se a gente não ia ter que sangrar naquilo feito um franco-m açom , m as não foi o caso. Ele m
isturou aquilo a seco com as m ãos e o tem po todo os selvagens lá em baixo na planície chegando cada vez m ais
perto e quando virei vi o j uiz de pé, o gigante xucro sem pelo, e ele tinha tirado o pau pra fora e estava m ij ando na
m istura, m ij ando com gosto e com a outra m ão levantada e gritou pra gente fazer a m esm a coisa.
A gente j á tava na beira da loucura m esm o. Todo m undo se alinhou. Até os delawares. Todo m undo m enos o
Glanton e ele era um a esfinge. Puxam os os m em bros pra fora e com eçam os e o j uiz de j oelhos revolvendo a m
assa com os braços nus e o m ij o respingando pra todo lado e ele gritando pra gente m ij a, hom em , m ij a pelo am
or da sua alm a, não está vendo os peles-verm elhas ali, e rindo o tem po todo e sovando a m assa enorm e em um a
pasta negra asquerosa, o pão do dem ônio pelo cheiro fétido daquilo e ele não diferente de um m aldito padeiro
negro pelo que im agino e ele puxa sua faca e usa de espátula pra espalhar o troço nas pedras viradas pro sul,
esparram ando em um a cam ada fina com a lâm ina e observando o sol com um olho e coberto do negro de fum o e
fedendo a m ij o e enxofre e sorrindo e m anej ando a faca com um a habilidade m agnífica com o se tivesse feito
aquilo todos os dias de sua vida. E quando term inou reclinou pra trás e sentou e lim pou as m ãos no peito e então
observou os selvagens e daí todo m undo tam bém olhou.
Eles tinham chegado no m alpais a essa altura e tinham um rastreador que estava seguindo a gente passo a passo
naquela rocha nua, descendo de volta cada vez que subia num topo sem saída e cham ando os outros. Vai saber o
que conseguia seguir. O cheiro, talvez. Logo deu pra ouvir a voz deles lá em baixo. Então eles viram a gente.
Bom , Deus em sua glória sabe o que pensaram . Estavam espalhados pela lava e um deles apontou e todos
olharam pra cim a. Abism ados, com certeza. Vendo onze hom ens em poleirados na beirada m ais alta daquele atol
escaldante com o pássaros desnorteados. Parlam entaram e ficam os vendo se iam despachar um grupo atrás dos
cavalos m as não fizeram isso. A avidez falou m ais alto que tudo e dispararam pra base do cone, escalando aos
trancos e barrancos pela lava pra ver quem chegava prim eiro.
A gente tinha pelos m eus cálculos um a hora. Olham os pros selvagens e olham os pra m atriz asquerosa do j uiz
secando nas rochas e olham os pra um a nuvem chegando na direção do sol. Um por um fom os largando de
observar as rochas ou os selvagens porque a nuvem parecia m esm o ir direto pro sol e ia levar a m aior parte de um
a hora pra cruzar a frente dele e essa era a últim a hora que a gente tinha. Bom , o j uiz estava sentado anotando na
sua caderneta e viu a nuvem tanto quanto qualquer outro hom em e pôs o livro no chão e ficou olhando pra ela e
todo m undo tam bém ficou. Ninguém abria a boca. Não teve um que praguej ou ou que rezou, a gente só olhava.
E a nuvem só passou raspando pelo sol e foi em frente e nenhum a som bra caiu sobre a gente e o j uiz apanhou seu
livrinho e voltou a fazer anotações com o antes. Fiquei olhando pra ele. Então desci e experim entei um pouco
daquele negócio com a m ão. Aquilo desprendia calor. Cam inhei pela beirada e os selvagens vinham subindo por
todos os quadrantes porque não tinha um cam inho m ais favorável naquela encosta careca e cascalhenta. Procurei
um a pedra qualquer pra j ogar lá em baixo m as não tinha nada de tam anho m aior que um punho, só o pedregulho
m oído e as placas cheias daquele burgau. Olhei pro Glanton e ele estava olhando pro j uiz e parecia que tinha
perdido o j uízo.
Então o j uiz fechou seu livrinho e pegou a cam isa de couro e estendeu ela naquela cavidade na pedra e m andou
a gente levar o negócio pra ele. Todo m undo sacou a faca e com eçam os a raspar e ele m andou a gente tom ar
cuidado pra não fazer as facas faiscar naquele pedernal. E j untam os um am ontoado na cam isa e ele com eçou a
picar e a m oer com a faca dele. E capitão Glanton, ele gritou.
Capitão Glanton. Dava pra acreditar naquilo? Capitão Glanton, ele diz. Vam os carregar aquele seu canhão e ver que
tipo de coisa tem os aqui.
Glanton veio com seu rifle e encheu o carregador e carregou os dois canos pivotantes e revestiu duas balas e as
em purrou no lugar e enfiou os fulm inantes e deu um passo na direção da borda. Mas o que o j uiz tinha em m
ente era coisa bem diferente.
Nas entranhas dessa coisa aí em baixo, ele diz, e Glanton nem titubeou. Desceu a inclinação da borda interna até
o lugar onde term inava aquela fornalha m edonha e ergueu a espingarda e m irou bem no fundo e engatilhou o
cão e m eteu fogo.
O barulho que fez não foi coisa deste m undo. Fiquei todo arrepiado. Ele disparou os dois canos e olhou pra gente
e olhou pro j uiz. O j uiz só acenou e continuou m oendo e então cham ou todo m undo pra encher os cornos e os
polvorinhos e assim a gente foi, um por um , passando num círculo por ele com o num a com unhão. E quando todos
receberam sua cota ele encheu o próprio frasco e sacou as pistolas e com eçou a carregar. O prim eiro dos selvagens
não estava a m ais que duzentos m etros na vertente. A gente tava pronto pra abrir fogo com tudo em cim a deles m
as m ais um a vez o j uiz fez que não. Disparou suas pistolas dentro da caldeira, espaçando os tiros, e descarregou
todas as dez câm aras e avisou a gente pra sair de vista enquanto ele recarregava os trabucos. Todo aquele tiroteio
tinha feito os selvagens hesitar sem dúvida porque m uito provavelm ente calculavam que a gente estivesse com
pletam ente sem pólvora. E daí o j uiz, ele sobe na borda e tinha com ele um a bela cam isa de linho branco que tirou
da bolsa e acenou pros peles-verm elhas e gritou pra eles em espanhol.
Era de encher os olhos de lágrim a, só você vendo. Todo m undo m orto m enos eu, ele disse. Piedade. Todos m
uertos. Todos. Acenando com a cam isa. Deus, aquilo fez eles subirem pela encosta ganindo com o uns cachorros e
ele vira pra gente, o j uiz, com aquele sorriso dele, e diz: Senhores. Foi só o que disse. Estava com as pistolas
enfiadas no cinto atrás das costas e puxou cada um a com um a m ão e o hom em é tão capaz com qualquer m ão
igual um a aranha, ele escreve com as duas m ãos e um a vez vi ele fazer isso, e aí com eçou a m atar índio. Não
precisou pedir duas vezes. Deus, foi um a carnificina. Na prim eira descarga m atam os um a dúzia e não houve m
ais trégua. Antes que o últim o pobre-diabo de um negroide rolasse pro fundo da encosta j á tinha cinquenta e oito
deles m assacrados no m eio dos pedregulhos. Eles sim plesm ente escorregavam pela vertente com o a lim padura
num a canoura, uns virando desse lado, outros de outro, e se am ontoando com o um a cadeia hum ana na base da m
ontanha. A gente apoiou o cano dos rifles no enxofre e derrubam os m ais nove correndo na lava. Era um tiro ao
alvo, é o que era. Todo m undo apostava. O últim o a ser atingido estava a um a boa fração de quilôm etro das bocas
das arm as e correndo feito um condenado. Foi um a fuzilaria certeira pra todo lado e nem um tiro perdido pela
tropa com aquela pólvora esquisita.
O ex-padre virou e olhou para o kid. E esse foi o j uiz da prim
eira vez que eu vi ele. Sim senhor. Um a criatura a ser exam
inada. O kid olhou para Tobin. Ele é j uiz do quê? disse.
Ele é j uiz
do quê?
Ele é j uiz
do quê.
Tobin olhou por sobre o fogo. Ah, j ovem , disse. Silêncio, agora. O hom em vai ouvir você. Tem orelha de raposa.
XI

NAS MONTANHAS — OLD EPHRAIM — MORTE DE UM DELAWARE — A BUSCA — OUTRA


HERANÇA — NA GARGANTA — AS RUÍNAS — KEET SEEL — A SOLERETTE —
REPRESENTAÇÕES E COISAS — O JUIZ CONTA UMA HISTÓRIA — MULA PERDIDA — POÇOS
DE MESCAL — CENA NOTURNA COM LUA, FLORES, JUIZ — O POVOADO — GLANTON SOBRE
O MANEJO DE ANIMAIS — A TRILHA DE SAÍDA.

Cavalgaram pelas m ontanhas e sua j ornada os conduziu através de altos pinheirais, o vento nas árvores, chilros
solitários. As m ulas desferradas ziguezagueando entre a relva seca e as agulhas de pinheiros. Nas coulees azuis das
encostas ao norte estreitos resíduos de neve antiga. Cavalgaram pela trilha escarpada e sinuosa através de um
bosque solitário de álam os onde as folhas caídas forravam o cam inho escuro e úm ido com o m inúsculos discos
dourados. As folhas trem eluziam num a m iríade de cintilações ao longo das pálidas galerias e Glanton pegou um a
e a virou com o um delicado leque pela hastezinha e a segurou diante dos olhos e a deixou cair e a perfeição
daquilo não lhe escapou. Cavalgaram através de um a depressão estreita recoberta por folhas com o telhas de gelo e
ao crepúsculo cruzaram um a aresta elevada onde pom bos selvagens arrem etiam a favor do vento e passavam no
desfiladeiro a m enos de um m etro do chão, desviando ariscam ente por entre os pôneis e m ergulhando no abism o
azul abaixo. Seguiram cavalgando por um a escura floresta de abetos, os pequenos pôneis espanhóis aspirando
o ar rarefeito, e bem ao anoitecer quando o cavalo de Glanton transpunha um tronco caído um urso esguio e
castanho-dourado ergueu-se da baixada onde se alim entava do outro lado e os encarou com seus baços olhos
suínos. O cavalo de Glanton refugou e Glanton achatou o corpo contra a espádua do cavalo e puxou sua pistola.
Um dos delawares vinha logo atrás e o cavalo em que m ontava estava em pinando e ele tentava dom iná-lo,
socando-
o perto da cabeça com o punho, e o com prido focinho do urso oscilou na direção dos cavaleiros com um grunhido
de espanto, num a perplexidade além da conta, um a carniça qualquer pendurada entre os m axilares e a boca
tingida de verm elho com o sangue. Glanton fez fogo. A bala acertou o peito do urso e o urso se curvou com um
gem ido estranho e agarrou o delaware e o ergueu do cavalo. Glanton atirou outra vez no espesso rufo peludo
diante do om bro do urso conform e este se virou e o hom em pendurado entre os m axilares do urso os encarou de
m andíbula colada à da fera e um braço em torno de seu pescoço com o um desvairado desertor em um gesto
desafiador de cam aradagem . O ar da floresta se encheu do tum ulto de gritos e vergastadas de hom ens fustigando
cavalos para que obedecessem . Glanton engatilhou a pistola um a terceira vez quando o urso girou com o índio
pendurado em sua boca com o um boneco e o atropelou em um oceano de pelos cor de m el lam buzados de
sangue tresandando a putrefação e ao odor subterrâneo da própria criatura. O tiro subiu e subiu, um pequeno
caroço de m etal varando o ar rum o aos longínquos cinturões de m atéria m ovendo-se em m uda fricção para
oeste acim a deles todos. Saraivadas de rifles soaram e a fera trotou horrivelm ente floresta adentro com seu refém
e então sum iu nas profundezas escuras das árvores.
Os delawares foram atrás do anim al por três dias enquanto o grupo seguiu em frente. No prim eiro dia
rastrearam o sangue e viram onde a criatura repousara e onde os ferim entos haviam estancado e no dia seguinte
rastrearam as m arcas de arrasto na cam ada de hum o de um a floresta elevada e no dia depois desse rastrearam
apenas o m ais tênue vestígio através de um a elevada m esa rochosa e então nada. Buscaram freneticam ente
algum sinal até escurecer e dorm iram sobre a pedra nua e no dia seguinte se levantaram e procuraram por toda
aquela região inóspita e rochosa ao norte. O urso levara seu irm ão de sangue com o um a fera de contos de fada e
a terra os engolira além de toda esperança de resgate ou com utação da pena últim a. Voltaram para os cavalos e
regressaram . Nada se m ovia naquela vastidão elevada a não ser o vento. Não disseram palavra. Eram hom ens
de outro tem po em bora carregassem nom es cristãos e tinham vivido toda sua vida em um a vastidão selvagem
com o seus pais antes deles. Aprenderam sobre a guerra guerreando, em purrados por gerações desde o litoral leste
através de todo um continente, desde as cinzas em Gnadenhutten até as pradarias e através das rotas de fuga para as
terras sanguinolentas do oeste. Se grande parte do m undo era m istério as fronteiras desse m undo não o eram , pois
elas não conheciam m edida ou lim ite e aí dentro encerrados estavam criaturas ainda m ais horríveis e hom ens de
outras cores e seres sobre os quais hom em algum deitara os olhos e contudo nenhum a dessas coisas m ais
forasteira do que forasteiros eram seus próprios corações em seus peitos, fossem quais fossem a vastidão e as feras
aí dentro encerradas.
Cruzaram a trilha do grupo cedo no dia seguinte e ao cair da noite do dia depois desse eles os alcançaram . O
cavalo do guerreiro desaparecido continuava com o caballado selado com o quando haviam partido e eles
descarregaram as bolsas e repartiram o espólio entre si e o nom e daquele hom em nunca m ais foi pronunciado. Ao
anoitecer o j uiz se aproxim ou do fogo e sentou com os dois e interrogou-os e fez um m apa sobre o solo e o
estudou. Depois ficou de pé e o apagou com as botas e pela m anhã todo m undo se pôs em m archa com o antes.
A trilha passava agora através de arbustos de carvalho pigm eu e ílex e sobre um terreno pedregoso onde árvores
negras fincavam as raízes nos veios das encostas. Cavalgaram em m eio aos raios do sol e o capim alto e no fim da
tarde viram -se na beira de um a escarpa que parecia assinalar o lim ite do m undo conhecido. Abaixo deles sob a luz
em palidecida esparram avam -se a nordeste as planícies abrasadas de San Agustin, a terra flutuando em um a
prolongada curvatura silenciosa sob vultos distorcidos de fum aça oriundos dos depósitos subterrâneos de carvão
que ali ardiam havia m ilhares de anos. Os cavalos percorriam o cam inho ao longo da borda com cuidado e os
cavaleiros lançavam olhares variados para aquela terra nua e antiga.
Nos dias que estavam por vir eles seguiriam através de um a região onde as rochas cozinhavam a carne da m ão
que as tocasse e onde para além de pedras nada m ais havia. Cavalgaram em um a estreita coluna ao longo de um a
trilha forrada com bostas secas e redondas de cabras e avançaram desviando o rosto da parede rochosa e do ar
cozido de forno que ela rebatia, as form as negras oblíquas dos hom ens a cavalo estam padas na pedra com um a
definição austera e im placável com o de form as capazes de violar seu próprio pacto com a carne que as criava
para seguir autonom am ente pela rocha nua sem relação com sol ou hom em ou deus.
Dessa região desceram por um profundo desfiladeiro, cascos retinindo na pedra, fendas de som bra azul e fresca.
Na areia seca do leito do arroio antigos ossos e form as quebradas de cerâm ica pintada e gravados nas rochas
acim a deles pictogram as de cavalo e pum a e tartaruga e os cavaleiros espanhóis com seus m orriões e broquéis
desdenhando da rocha e do silêncio e do próprio tem po. Aloj ados nas falhas e rachaduras trinta m etros acim a
deles viam -se em aranhados de palha e restos naufragados de antigas águas elevadas e os cavaleiros podiam
escutar o m urm úrio de trovão em algum a distância indecifrável e ficavam de olho na estreita faixa de céu sobre
suas cabeças atentos a qualquer sinal de escuridão prenhe de chuva im inente, vencendo dificultosam ente os flancos
m uito estreitos do cânion, as rochas brancas secas do leito do rio m orto arredondadas e lisas com o ovos arcanos.
Nessa noite acam param nas ruínas de um a cultura ainda m ais antiga nas profundezas das m ontanhas
rochosas, um pequeno vale com um regato de águas lím pidas e boa pastagem . Moradias de barro e pedra
em paredavam -se sob um a saliência no penhasco e o vale era riscado pelas obras de antigas acéquias. A areia fofa
no leito do vale tinha cacos de cerâm ica e pedaços enegrecidos de m adeira por toda parte e era cruzada e
recruzada por rastros de veados e outros anim ais.
O j uiz cam inhou pelas ruínas ao crepúsculo, o interior das construções ainda preto da fum aça de lenha, sílex
antigo e cerâm ica quebrada entre as cinzas e pequenos sabugos de m ilho ressecados. Algum as escadas de m
adeira apodrecidas continuavam apoiadas nas paredes das m oradias. Ele peram bulou pelas kivas em ruínas
recolhendo pequenos artefatos e sentou no alto de um m uro elevado e rabiscou esboços em seu caderninho até ficar
sem luz.
A lua cheia surgiu sobre o cânion e um silêncio austero reinou no pequeno vale. Talvez a própria som bra os
dissuadisse de circular pois dos coiotes não se ouvia som algum naquele lugar assim com o do vento ou de
pássaros e sim apenas o do escasso curso d’água correndo pela areia nas trevas longe de suas fogueiras.
Durante todo o dia o j uiz fizera pequenas incursões por entre as rochas da garganta pela qual vieram e agora j
unto ao fogo ele estendia um pedaço de lona de carroça no chão e separava seus achados e os arrum ava diante de
si. Em seu colo m antinha o livrinho de couro e pegava cada peça, sílex ou fragm ento cerâm ico ou ferram enta ou
osso, e habilm ente a desenhava no livro. Desenhava com a naturalidade da prática e não se viam rugas naquele
cenho calvo tam pouco pregas naqueles lábios estranham ente infantis. Seus dedos traçaram a im pressão de antigo
vim e de salgueiro em um pedaço de cerâm ica e ele pôs isso em seu livro com delicados som breados, um a
econom ia de riscos do lápis. É um desenhista assim com o é outras coisas, sobrem aneira apto à tarefa. Ergue os
olhos de tem pos em tem pos para o fogo ou para os com panheiros de arm as ou para a noite m ais além . Por últim
o pôs diante de si o calçado de um a arm adura forj ada em um a oficina de Toledo três séculos antes, um pequeno
tapadero de m etal frágil e corroído pelo desgaste. O j uiz o desenhou de perfil e em perspectiva, acrescentando as
dim ensões com sua caligrafia esm erada, escrevendo notas à m argem .
Glanton olhava para ele. Quando term inou ele pegou o pequeno sapato de folha m etálica e o girou em sua m
ão e exam inou outra vez e depois esm agou-o num a bola e o j ogou no fogo. Apanhou os outros artefatos e tam
bém os j ogou no fogo e bateu o pedaço de lona e o dobrou e guardou entre os dem ais pertences j unto com o
caderninho. Depois sentou com as m ãos em concha sobre o colo e pareceu m uito satisfeito com o m undo, com o
se houvessem pedido seu conselho no ato da criação.
Um suj eito do Tennessee cham ado Webster estivera olhando para ele e perguntou ao j uiz o que pretendia fazer
com aquelas anotações e esboços e o j uiz sorriu e disse que sua intenção era expurgá-los da m em ória do hom
em . Webster sorriu e o j uiz riu. Webster olhou para ele de soslaio e disse: Bom , você aprendeu a arte de rabiscar
em algum lugar e seus desenhos são m uito parecidos com as próprias coisas. Mas hom em nenhum pode pôr o m
undo todo em um livro. Do m esm o j eito que um livro com o m undo todo desenhado não é ele.
Belas palavras, Marcus, disse o j uiz.
Mas não m e desenhe, disse Webster. Porque não quero estar nesse seu livro.
Meu livro ou qualquer outro livro, disse o j uiz. As coisas que estão por vir não se desviam um isto do livro em que
estão escritas. Com o poderiam ? Esse seria um livro falso e um livro falso não é livro nenhum .
Seu dom de falar por enigm as é form idável e no j ogo de palavras não vou m edir forças com você. Apenas
poupe m inha fuça curtida desse seu livrinho pois não quero ver ela sendo m ostrada por aí vai saber pra que
estranhos.
O j uiz sorriu. Estej a ou não em m eu livro, cada hom em é o tabernáculo de seu sem elhante e este por sua vez
abriga o próxim o e assim por diante num a com plexidade infinita de existência e testem unho até os m ais rem
otos confins do m undo.
Pelo m eu próprio testem unho respondo eu, disse Webster, m as a essa altura os outros haviam com eçado a
troçar de sua presunção, e afinal de contas quem ia querer ver a droga do seu retrato e haveria brigas na m ultidão
aguardando que lhe rem ovessem o pano da frente e talvez cobrissem o quadro de alcatrão e penas, na falta do
artigo em si. Até que o j uiz ergueu a m ão e pediu trégua e explicou a eles que os sentim entos de Webster eram de
natureza diferente e não de form a algum a m otivados pela vaidade e que em certa ocasião ele desenhara o retrato
de um velho de Hueco e sem o saber agrilhoara o hom em a sua própria im agem . Pois ele não conseguia m ais
dorm ir de m edo que algum inim igo o pegasse e desfigurasse e tão fiel era o retrato que ele não suportava vê-lo am
assado nem que alguém o tocasse e em preendeu um a j ornada com aquilo através do deserto até o lugar onde
ouvira dizer que o j uiz estava e pediu seu conselho sobre com o preservar aquele negócio e o j uiz o conduziu pelas
profundezas das m ontanhas e enterraram o retrato no chão de um a caverna onde até onde o j uiz podia dizer
continuava enterrado.
Quando term inou de contar isso Webster cuspiu e lim pou a boca e encarou o j
uiz outra vez. Esse hom em , disse, não passava de um selvagem ignorante.
Assim é, disse o j uiz.
Não é o caso com igo.
Muito bem , disse o j uiz, se esticando para puxar
a valise. Não faz obj eção a que o desenhe então?
Não vou posar pra retrato nenhum , disse Webster.
Mas não é nada disso que eu estava falando.
A com panhia fez silêncio. Alguém se levantou para atiçar o fogo e a lua subiu no céu e ficou cada vez m enor
acim a das habitações em ruínas e o pequeno curso d’água se entrelaçando pelas areias do leito do vale reluzia com
o um a cota de m alha e exceto pelo som vindo dele não se ouvia m ais nenhum outro som .
Que tipo de índios
viviam aqui, Juiz?
O j uiz ergueu o
rosto.
Índios m ortos, eu
diria, o que acha,
Juiz? Não tão m
ortos assim , disse o
j uiz.
Eram uns pedreiros passáveis, na m inha opinião. Já
esses negroides de hoj e por aí não chegam nem perto.
Não tão m ortos assim , disse o j uiz. Então lhes contou
outra história e a história que lhes contou foi a seguinte.
Nas terras oestes das Alleghenies há alguns anos quando ali ainda era um a vastidão solitária havia um hom em
que m antinha um a loj a de arreios j unto à estrada Federal. Ele seguia nisso porque era seu ofício e contudo não
ganhava quase nada com aquilo pois m uito raram ente algum viaj ante passava pelo lugar. Desse m odo com o tem
po adquiriu o hábito de se vestir de índio e se postar alguns quilôm etros depois da oficina e esperar ali na beira da
estrada para perguntar a quem quer que viesse por aquele cam inho se não lhe daria algum dinheiro. Até então não
fizera m al algum a ninguém .
Um dia um certo hom em apareceu e o seleiro ataviado em suas contas e penas saiu de trás de sua árvore e pediu
a esse certo hom em algum as m oedas. Este era um hom em j ovem e se recusou e tendo percebido que o seleiro
era um hom em branco se dirigiu a ele de um a form a que o deixou envergonhado de m odo que o seleiro convidou
o j ovem a visitar sua m orada a alguns quilôm etros de distância na estrada.
Esse seleiro vivia em um a casa que construíra de cortiça e tinha esposa e dois filhos todos os quais o reputavam
louco e só estavam à espera de um a chance de fugir dele e daquele lugar erm o onde ele os enfiara. Desse m
odo deram as boas-vindas ao convidado e a m ulher serviu-lhe um a refeição. Mas enquanto com ia o velho com
eçou outra vez a m endigar dinheiro e disse com o eram pobres o que de fato eram e o viaj ante escutou suas
palavras m elífluas e então tirou duas m oedas cuj a cunhagem o velho nunca vira e o velho tom ou as m oedas e as
exam inou e as m ostrou para seu filho e o estranho term inou a refeição e disse para o velho que ele podia ficar
com aquelas m oedas.
Mas a ingratidão é m ais com um do que vocês im aginam e o seleiro não se deu por satisfeito e com eçou a
perguntar se o outro porventura não teria m ais um a m oeda daquelas para sua esposa. O viaj ante em purrou o prato
e virou em sua cadeira e passou um sabão no velho e conform e lhe aplicava essa descom postura o velho escutou
coisas que costum ava saber m as esquecera e ainda escutou algum as outras coisas novas de quebra. O viaj ante
concluiu dizendo ao velho que ele era um caso perdido perante Deus e perante os hom ens e continuaria assim
enquanto não acolhesse o próxim o em seu coração assim com o acolheria a si m esm o caso desse com sua própria
pessoa sofrendo necessidade em algum lugar deserto do m undo.
Pois bem , enquanto concluía esse discurso passou pela estrada um preto puxando um carro funerário para um
outro igual a ele e o carro estava pintado de rosa e o preto estava vestido com roupas de todas as cores com o um
palhaço carnavalesco e o j ovem apontou aquele preto que passava na estrada e disse que até m esm o um negroide
preto...
Aqui o j uiz fez um a pausa. Estivera contem plando o fogo e ergueu a cabeça e olhou em torno. Sua narrativa era m
uito à m aneira de um a récita. Ele não perdera o fio da m eada. Sorriu para os ouvintes em volta.
Disse que até m esm o um negroide preto m aluco nada m ais era que um hom em entre outros hom ens. E então o
filho do velho se levantou e aí foi sua vez de com eçar um serm ão, apontando para a estrada e reivindicando que
um lugar fosse posto à m esa para o negro. Ele usou essas palavras. Que um lugar fosse posto. Claro que a essa
altura o negro e o carro funerário j á haviam sum ido de vista.
Com isso o velho teve um a recaída e adm itiu contrito e solene que o rapaz tinha razão e a velha sentada perto do
fogo quedava pasm a com tudo isso que ouvira e quando o convidado anunciou que era chegada a hora de partir ela
tinha lágrim as nos olhos e a garotinha saiu de trás da cam a e se agarrou às roupas dele.
O velho se ofereceu para acom panhá-lo pela estrada e conduzi-lo em parte de sua j ornada e tam bém para
aconselhá-lo quanto ao rum o a tom ar e qual não tom ar num a certa bifurcação pois dificilm ente haveria algum a
sinalização naquela parte do m undo.
Conform e cam inhavam conversaram sobre a vida em paragens tão erm as onde as pessoas que você encontrava
encontrava apenas um a vez para então nunca m ais e assim de pouquinho em pouquinho chegaram à bifurcação na
estrada e aqui o viaj ante disse ao velho que lhe fizera com panhia por tem po suficiente e agradeceu e despediram -
se um do outro e o estranho seguiu seu cam inho. Mas o seleiro pareceu incapaz de tolerar a perda de sua com
panhia e o cham ou e foi com ele um pouco m ais além pela estrada. E de pouquinho em pouquinho chegaram a
um lugar onde a estrada sum ia na escuridão de um a floresta profunda e nesse ponto o velho m atou o viaj ante.
Ele o m atou com um a pedra e tom ou suas roupas e tom ou seu relógio e seu dinheiro e o enterrou num a cova rasa
na beira da estrada. E então foi pra casa.
No cam inho rasgou as próprias roupas e infligiu ferim entos a si m esm o com um sílex e contou à esposa que
haviam sido surpreendidos por ladrões e que o j ovem viaj ante fora m orto e só ele escapara. Ela com eçou a
chorar e depois de algum tem po obrigou-o a levá-la ao lugar do ocorrido e colheu a prím ula brava que crescia em
abundância naquelas redondezas e pôs as flores sobre as pedras e ali voltou inúm eras vezes até que lhe
chegasse a velhice.
O seleiro viveu para ver seu filho crescer e nunca m ais fez m al algum a quem quer que fosse. Quando estava em
seu leito de m orte m andou cham ar o rapaz e contou a ele o que fizera. E o filho disse que o perdoava se tal lhe
com petia fazê-lo e o velho disse que a ele com petia fazê-lo e depois m orreu.
Mas o rapaz não sentia pena pois tinha invej a do hom em m orto e antes de ir em bora visitou aquele lugar e rem
oveu as pedras e desencavou os ossos e os espalhou pela floresta e então foi em bora. Foi em bora para o oeste e se
tornou ele próprio um assassino de hom ens.
A velha continuava viva nessa época e nada sabia do que se passara e achou que anim ais selvagens haviam
escavado e espalhado os ossos. Pode ter acontecido de não ter encontrado todos os ossos m as os que encontrou
ela devolveu à cova e os cobriu e em pilhou as pedras sobre eles e depois levou flores ao lugar com o antes. Quando
ficou velha contava às pessoas que era seu filho enterrado ali e talvez a essa altura assim fosse de fato.
Aqui o j uiz ergueu o rosto e sorriu. Houve um silêncio, então todos
com eçaram a gritar ao m esm o tem po algum tipo de contestação.
Ele não era nenhum seleiro era um sapateiro e saiu livre das
acusações, exclam ou um .
E outro: Ele nunca viveu em deserto nenhum , tinha
um a oficina bem no centro de Cum berland Mary
land. Nunca souberam de onde vinham os ossos. A
velha era m aluca, todo m undo sabia.
Esse era m eu irm ão que ia naquele caixão e era um m enestrel vindo de Cincinnati Ohio levou um tiro e m orreu por
causa de um a m ulher.
E m ais protestos até que o j uiz ergueu as duas m ãos pedindo silêncio. Esperem um pouco, disse. Pois há um
adendo ao relato. Havia um a j ovem noiva à espera do viaj ante com cuj os ossos estam os fam iliarizados e ela
carregava um a criança em seu ventre que era o filho do viaj ante. Pois bem , esse filho de um pai cuj a existência
neste m undo é histórica e especulativa até m esm o antes que o filho nele adentrasse está em m aus lençóis. Por
toda a vida ele carrega diante de si a im agem de um a perfeição que j am ais conseguirá atingir. O pai m orto
defraudou o filho de seu patrim ônio. Pois é à m orte do pai que um filho tem direito e é ela que lhe constitui a
herança, m ais do que seus bens. Ele não ouvirá a respeito dos m odos vis e m esquinhos que endureceram o hom
em em vida. Não o verá se debatendo em m eio às estultícias de sua própria m aquinação. Não. O m undo que
herda lhe presta falso testem unho. Ele está esm agado perante um deus insensível e j am ais encontrará seu cam
inho.
O que é verdadeiro para um hom em , disse o j uiz, é verdadeiro para m uitos. O povo que outrora aqui viveu
cham ava-se anasazi. Os antigos. Eles abandonaram essas paragens, acossados pela seca ou doença ou por bandos
errantes de saqueadores, abandonaram essas paragens eras atrás e deles não ficou m em ória. São rum ores e
espectros nesta terra e são m uito reverenciados. As ferram entas, a arte, a construção — essas coisas perm anecem
com o um j ulgam ento sobre as raças posteriores. E contudo nada resta a elas com que contender. Os antigos se
foram com o fantasm as e os selvagens percorrem esses cânions ao som de um a antiga risada. Em suas rudes
choupanas acocoram -se nas trevas e escutam o m edo vazando da pedra. Toda progressão de um a ordem superior
para um a inferior é m arcada por ruínas e m istério e o resíduo de um a cólera anônim a. Sej a. Eis os pais m ortos.
Seus espíritos estão sepultados na rocha. Jazem sobre a terra com o m esm o peso e a m esm a ubiquidade. Pois todo
aquele que ergue um abrigo de caniços e peles uniu seu espírito ao destino com um das criaturas e afundará de volta
na lam a prim ordial quase sem um gem ido sequer. Mas aquele que constrói na pedra busca alterar a estrutura do
universo e tal se deu com esses pedreiros por m ais prim itiva que sua obra possa nos parecer.
Ninguém disse palavra. O j uiz sentava sem inu e suando em bora a noite
estivesse fresca. Ao cabo de um instante o ex-padre Tobin ergueu o rosto.
Um a coisa que m e ocorre, disse, é que tanto um filho com o o outro é
igual em term os de desvantagem . Então qual é o m odo de criar um a
criança?
Em tenra idade, disse o j uiz, deviam ser deixadas em um poço com cães selvagens. Deviam deslindar a partir
das próprias deduções a única de três portas que não abrigasse leões selvagens. Deviam ser forçadas a correr nuas
no deserto até...
Um m om ento, disse Tobin. A questão foi proposta com a m aior das seriedades.
Assim com o a resposta, disse o j uiz. Se Deus tencionasse interferir na degenerescência da hum anidade j á não
o teria feito a essa altura? Lobos separam as crias fracas, hom em . A que outra criatura caberia? E acaso a raça
hum ana não é ainda m ais predatória? É da natureza do m undo vicej ar e florir e m orrer m as nos negócios do hom
em não há definham ento e o zênite de sua expressão sinaliza o com eço da noite. Seu espírito está exausto no auge
de sua realização. Seu m eridiano é ao m esm o tem po seu escurecer e o ocaso de seu dia. Ele am a o j ogo? Pois
que aposte tudo. Isso que veem aqui, essas ruínas tão veneradas pelas tribos de selvagens, acham que voltarão a
existir? Sem pre. E novam ente. Com outro povo, com outros filhos.
O j uiz olhou em torno. Estava sentado j unto ao fogo nu exceto pelas calças e repousava as m ãos sobre os j
oelhos com a palm a virada para baixo. Seus olhos eram fendas vazias. Ninguém na com panhia fazia a m enor ideia
sobre o que significava aquela postura, e contudo tão parecido com um ícone estava ele ali sentado que se m
ostravam m ais e m ais cautelosos e conversavam com circunspecção entre si com o que não querendo acordar um a
criatura que seria m elhor deixar dorm indo.

No crepúsculo do dia seguinte quando cavalgavam pela borda oeste perderam um a das m ulas. O anim al deslizou
pela parede do cânion com os conteúdos dos paneiros explodindo m udam ente no ar quente e seco e ao cair
atravessou raios de sol e faixas de som bra, girando naquele vácuo desolado até sum ir de vista em um precipício de
espaço azul e frio que a libertou para sem pre das lem branças na m ente de qualquer coisa viva que existisse.
Montado em seu cavalo Glanton exam inou as profundezas im placáveis sob si. Um corvo longínquo alçara voo no
penhasco abaixo para descrever círculos e crocitar. Na luz penetrante a parede rochosa e íngrem e se revestia de
estranhos contornos e os cavaleiros sobre aquele prom ontório pareciam m uito pequenos até para eles m esm os.
Glanton olhou para cim a, brevem ente, com o se houvesse algo a averiguar naquele céu perfeito de porcelana, e
então instigou o cavalo com um estalo de língua e foram em frente.
Atravessando as elevadas m esas nos dias que se seguiram deram com buracos m uito gastos no chão onde os
índios haviam cozido m escal e atravessaram estranhas florestas de m aguey — o agave ou planta centenária —
com im ensas hastes floridas que se erguiam a m ais de dez m etros no ar do deserto. Toda m anhã quando selavam
os cavalos observavam as m ontanhas pálidas a norte e a oeste à procura de qualquer indício de fum aça. Não
viram nenhum . Os batedores j á teriam partido, cavalgando no escuro antes que o sol nascesse, e não regressariam
senão à noite, localizando o acam pam ento naquela vastidão carente de coordenadas pela luz dem asiado pálida das
estrelas ou as trevas absolutas onde a com panhia se aninhava entre as pedras sem fogo ou pão ou cam aradagem
não diferente de um bando de m acacos. Acocoravam -se em silêncio com endo a carne crua do que os delawares
haviam abatido com flechas na planície e dorm iam em m eio aos ossos. A lua lobular ergueu-se sobre os vultos
escuros das m ontanhas obscurecendo as estrelas a leste e ao longo da aresta próxim a as inflorescências brancas de
iúcas vicej antes se agitaram com o vento e no m eio da noite m orcegos surgiram de algum a região inferior do m
undo para pairar com asas coriáceas com o satânicos colibris negros e se alim entar entre suas pétalas. Muito além
da aresta e ligeiram ente elevado em um a saliência de arenito agachava-se o j uiz, pálido e nu. Ergueu a m ão e os
m orcegos esvoaçaram confusos e então a abaixou e ficou sentado com o antes e logo eles voltaram a se alim
entar.

Glanton se recusava a voltar. Seus cálculos quanto ao inim igo incluíam todo tipo de dissim ulação. Falava de em
boscadas. Até m esm o ele com todo seu orgulho teria sido incapaz de acreditar que um a com panhia de dezenove
hom ens evacuara um a área de vinte e seis m il quilôm etros quadrados de todo hum ano vivente. Dois dias depois
quando os batedores regressaram no m eio da tarde e relataram terem encontrado os povoados apaches
abandonados ainda se recusava a tentar qualquer investida. Acam param na m esa e fizeram falsas fogueiras e perm
aneceram a noite toda com seus rifles naquele chaparral pedregoso. Pela m anhã m ontaram nos cavalos e desceram
por um vale inóspito pontilhado de choupanas de capim e vestígios de antigas fogueiras de cozinhar. Desm ontaram
e andaram entre os abrigos, frágeis estruturas de brotos de árvore e m ato fincadas no terreno e encurvadas no topo
para form ar um a cabana arredondada sobre as quais alguns farrapos de peles ou de velhos cobertores haviam sido
deixados. O chão estava forrado de ossos e lascas de sílex ou de quartzito e encontraram cacos de j arros e pedaços
de velhos cestos e pilões de pedra quebrados e fendas de vagens secas da prosópis e a boneca de palha de um a
criança e um violino prim itivo de um a só corda que estava quebrado e parte de um colar de sem entes secas de
m elão.
As portas das choupanas batiam na cintura e eram voltadas para o leste e poucos abrigos daqueles tinham altura
suficiente para alguém ficar de pé ali dentro. O últim o em que Glanton e David Brown entraram era guardado
por um cão enorm e e feroz. Brown sacou a pistola de seu cinto m as Glanton o deteve. Aj oelhou em um a perna e
falou com o anim al. Este se agachava contra a parede no fundo do hogan e m ostrava os dentes e sacudia a cabeça
de um lado para outro, as orelhas retraídas ao longo do crânio.
Ele vai m order
você, disse
Brown. Me dá
um pedaço de
charque.
Ele ficou de cócoras, falando
com o cão. O cão olhava para
ele. Não vai conseguir am ansar
o filho da puta, disse Brown.
Consigo am ansar qualquer coisa que com a. Me dá um pedaço de charque.
Quando Brown voltou com a carne-seca o cachorro lançava olhares inquietos em torno. Quando cavalgavam no rum o
oeste deixando o cânion ele trotava com um a leve coxeadura atrás do cavalo de Glanton.
Seguiram por um a antiga trilha rochosa e íngrem e que levava para fora do vale e cruzava um desfiladeiro
elevado, as m ulas escalando as saliências com o cabras. Glanton conduzia seu cavalo e cham ava pelos outros, e
contudo a escuridão os engolfou e foram surpreendidos pela noite ali naquele ponto, dispersos ao longo de um a
falha na parede da garganta. Ele os guiou praguej ando trilha acim a m ergulhado no m ais profundo breu m as o
cam inho foi ficando de tal m odo estreito e o apoio para pisar tão arriscado que se viram obrigados a parar. Os
delawares voltaram a pé, tendo deixado seus cavalos no topo do desfiladeiro, e Glanton am eaçou m eter um a
bala em cada um se fossem atacados ali naquele lugar.
Passaram a noite com cada hom em aos pés de seu cavalo no ponto onde haviam parado na trilha entre a
ascensão abrupta e a queda abrupta. Glanton sentava à testa da coluna com as arm as pousadas diante de si. Olhava
para o cachorro. Pela m anhã se levantaram e seguiram em frente, reunindo-se aos dem ais batedores com seus
cavalos no topo do desfiladeiro e m andando-os outra vez fazer o reconhecim ento. Cavalgaram pelas m ontanhas o
dia todo e se Glanton dorm iu ninguém o viu fazê-lo.
Os delawares haviam estim ado que o povoado estava vazio havia dez dias e os gileños tinham debandado em
pequenos grupos por todas as saídas possíveis. Não havia trilha a seguir. A com panhia seguiu através das m
ontanhas em fila única. Os batedores sum iram por dois dias. No terceiro entraram no acam pam ento m ontados em
seus cavalos quase exauridos. De m anhã tinham visto fogueiras no topo de um a fina m esa azul oitenta quilôm
etros ao sul.
XII

CRUZANDO A FRONTEIRA — TEMPESTADES — GELO E RELÂMPAGO — OS ARGONAUTAS


CHACINADOS — O AZIMUTE — ENCONTRO — CONSELHOS DE GUERRA — O MASSACRE
DOS GILEÑOS — MORTE DE JUAN MIGUEL — OS MORTOS NO LAGO — O CHEFE — UMA
CRIANÇA APACHE — NO DESERTO — FOGUEIRAS NOTURNAS — EL VIROTE — UMA
OPERAÇÃO — O JUIZ TIRA UM ESCALPO — UN HACENDADO — GALLEGO — CIUDAD DE
CHIHUAHUA.

Ao longo das duas sem anas seguintes cavalgaram à noite, não fizeram fogo. Haviam arrancado as ferraduras de
seus cavalos e enchido os buracos dos cravos com argila e os que ainda tinham tabaco usavam suas bolsas para
cuspir dentro e dorm iam em cavernas e na rocha nua. Conduziam os cavalos pelos rastros que deixavam ao desm
ontar e enterravam suas fezes com o gatos e quase não trocavam palavra entre si. Atravessando aqueles áridos
veios de cascalho à noite pareciam rem otos e insubstanciais. Com o um a patrulha condenada a cavalgar por um a
antiga m aldição. Um a criatura pressentida nas trevas pelo rangido do couro e o tilintar do m etal.
Cortaram a garganta dos anim ais de carga e charquearam e repartiram a carne e viaj aram sob o m anto das m
ontanhas bravias por um a am pla planície sódica com trovões sem chuva ao sul e rum ores de luz. Sob um a lua
quase cheia cavalo e cavaleiro iam m anietados a suas som bras no chão azul de neve e a cada clarão de relâm pago
trazido com o avanço da tem pestade essas form as coincidentes em pinando com terrível redundância atrás deles
com o um terceiro aspecto de sua presença trepidavam negras e turbulentas sobre o solo escalvado. Cavalgaram .
Cavalgaram com o hom ens investidos de um propósito cuj as origens eram anteriores a eles, com o legatários de
sangue de um a ordem im perativa e rem ota. Pois em bora cada hom em entre eles fosse distinto em si m esm o,
com binados form avam algo que não existira antes e nessa alm a com unal havia plagas desertas dificilm ente m ais
apreensíveis do que aquelas regiões esm aecidas em antigos m apas onde vivem m onstros e onde nenhum a outra
coisa do m undo conhecido existe salvo supostos ventos.
Cruzaram o del Norte e cavalgaram no rum o sul por um a terra ainda m ais hostil. Durante todo o dia se
agacharam com o coruj as à som bra avara da acácia perscrutando aquele m undo cozido. Diabos de poeira
rem oinhavam no horizonte com o a fum aça de fogueiras distantes m as de coisa vivente não se via sinal. Miraram
o sol em seu circo e ao lusco-fusco cavalgaram para o frescor da planície onde o céu do poente estava da cor do
sangue. Em um poço no deserto desm ontaram e beberam de m axilar colado com o dos cavalos e voltaram a m
ontar e seguiram em frente. Os pequenos lobos do deserto ganiam nas trevas e o cão de Glanton trotava sob o
ventre do cavalo, seus passos entre os cascos um a precisa cerzidura.
Nessa noite foram visitados por um a praga de granizo saída de um céu im aculado e os cavalos refugaram e gem
eram e os hom ens desm ontaram e sentaram no chão com as selas sobre a cabeça enquanto o granizo pululava na
areia com o pequenos ovos luzidios extraídos por um a concocção alquím ica das trevas do deserto. Quando
puseram as selas outra vez e seguiram em frente cavalgaram por quilôm etros de pavim entação gelada enquanto
um a lua polar pairava acim a da borda do m undo com o o olho de um gato cego. À noite passaram pelas luzes de
um vilarej o na planície m as não se afastaram de seu curso.
Perto de raiar o dia avistaram fogueiras no horizonte. Glanton enviou os delawares. A estrela-dalva j á cintilava
pálida a leste. Quando regressaram acocoraram -se j unto com Glanton e o j uiz e os irm ãos Brown e conversaram e
gesticularam e então todos voltaram a m ontar e seguiram em frente.
Cinco carroções fum egavam no solo do deserto e os cavaleiros desm ontaram e cam inharam em silêncio entre
os corpos dos argonautas, aqueles probos peregrinos sem nom e entre as pedras com seus terríveis ferim entos, as
vísceras esparram ando-se por seus flancos e os troncos nus crivados de flechas. Alguns pela barba eram hom ens e
contudo ostentavam entre as pernas estranhas chagas m enstruais e não as partes m asculinas pois estas haviam
sido am putadas e pendiam escuras e estranhas de suas bocas sorridentes. Em suas perucas de sangue seco j aziam
contem plando com olhos de m acaco o irm ão sol agora subindo a leste.
Os carroções não passavam de arm ações em brasa com as form as enegrecidas de arcos de ferro e aros de
rodas, os eixos incandescentes estrem ecendo verm elhos no coração dos carvões. Os cavaleiros se agacharam j
unto às cham as e ferveram água e beberam café e assaram carne e deitaram para dorm ir entre os m ortos.
Quando a com panhia se pôs em m archa ao anoitecer continuaram no rum o sul com o antes. O rastro dos
assassinos seguia para oeste m as eram hom ens brancos que atacavam viaj antes naquela terra desolada e
disfarçavam suas obras com o se fossem dos selvagens. As ideias de acaso e destino são de interesse de hom ens em
penhados em diligências tem erárias. A trilha dos argonautas term inava em cinzas com o o narrado e na
convergência de vetores tais num a vastidão tal onde o ardor e a em presa de um a pequena nação haviam sido
tragados e aniquilados por outra o ex-padre indagou se não seria possível enxergar a m ão de um deus cínico
conduzindo com austeridade dem asiada e dem asiada perplexidade fingida um a congruência assim tão letal. O
posicionam ento de testem unhas vindas por um terceiro e totalm ente diverso cam inho talvez pudesse tam bém ser
invocado com o um a evidência aparente a desafiar o acaso, em bora o j uiz, tendo adiantado seu cavalo a fim de em
parelhar com os que desse m odo especulavam , afirm asse que aquilo expressava a natureza m esm a do testem
unho e que aquela contiguidade não constituía um a terceira coisa m as antes a prim ordial, pois o que se poderia
asseverar ocorrido se inobservado?
Os delawares seguiam em frente à m eia-luz e o m exicano John McGill liderava a coluna, descendo de tem pos
em tem pos de seu cavalo para deitar de bruços e divisar os cavaleiros no deserto adiante deles e então voltar a m
ontar sem deter seu pônei ou a com panhia que o seguia. Moviam -se com o m igrantes guiados por um a estrela
errante e seu rastro através da terra refletia em sua tênue arcatura os m ovim entos do próprio globo. A m assa de
nuvens a oeste pairava sobre as m ontanhas com o a urdidura escura do próprio firm am ento e as extensões
inculcadas de estrelas das galáxias pendiam em um a vasta aura acim a das cabeças dos cavaleiros.
Duas m anhãs m ais tarde os delawares voltaram de seu reconhecim ento m atinal e relataram que os gileños acam
pavam às m argens de um lago raso a m enos de quatro horas para o sul. Iam com eles suas m ulheres e crianças e
eram em grande núm ero. Glanton ao se erguer da confabulação cam inhou sozinho pelo deserto e perm aneceu por
um longo tem po de olhar perdido na escura direção austral.
Aprestaram as arm as, esvaziando-as de suas cargas e voltando a carregá-las. Conversaram em voz baixa entre si
em bora o deserto ao redor fosse com o um a im ensa placa estéril trem ulando suavem ente sob o calor. À tarde um
destacam ento levou os cavalos para beber água e depois os trouxe de volta e com a chegada da noite Glanton e seus
lugares-tenentes seguiram os delawares para observar a posição do inim igo.
Haviam fincado um pedaço de pau no chão de um a elevação a norte do acam pam ento e quando o ângulo de
inclinação da Ursa se aproxim ou desse m arco Toadvine e o vandiem enlander puseram a com panhia em m
ovim ento e cavalgaram no rum o sul atrás dos dem ais atrelados a cordas do m ais rude destino.
Atingiram o extrem o norte do lago nas horas frescas que precedem a aurora e seguiram contornando a m argem
. A água era de um negror profundo e ao longo da praia se depositava um a faixa de espum a e podiam escutar
patos tagarelando no lago à distância. Os braseiros das fogueiras no acam pam ento brilhavam num a curva suave
abaixo de onde estavam com o as luzes de um porto distante. Diante deles naquele areal isolado um cavaleiro
solitário aguardava em seu cavalo. Era um dos delawares e virou seu cavalo sem dizer palavra e eles o seguiram
através do m ato e saíram no deserto.
O grupo estava agachado em um bosque de salgueiros a oitocentos m etros das fogueiras do inim igo. Haviam
coberto a cabeça dos cavalos com m antas e os anim ais encapuzados estavam rígidos e cerim oniosos atrás
deles. Os cavaleiros recém -chegados desm ontaram e prenderam seus cavalos e sentaram no chão e ouviram o que
Glanton tinha a dizer.
Tem os um a hora, talvez m ais. Quando a gente entrar, é cada um
por si. Não deixem nem um desses cães sair com vida se puderem .
Quantos tem lá, John?
Você aprendeu a
cochichar num a
serraria? Tem o
suficiente, disse o j uiz.
Não gastem pólvora e bala em nada que não atire de volta. Se a gente não m atar cada negroide aqui a gente m erece
ser açoitado e m andado pro lugar de onde veio.
E isso foi tudo quanto confabularam . A hora seguinte levou um a eternidade. Conduziram os cavalos vendados e
postaram -se com vista para o acam pam ento m as ficaram observando o horizonte a leste. Um pássaro cantou.
Glanton virou para seu cavalo e tirou seu capuz com o um falcoeiro pela m anhã. Um vento com eçara a soprar e o
cavalo ergueu a cabeça e farej ou o ar. Os outros hom ens fizeram o m esm o. Os cobertores perm aneceram onde
caíram . Montaram , pistolas na m ão, porretes feitos de couro cru e seixos laçados em torno dos pulsos com o o
acessório de algum j ogo equestre prim itivo. Glanton girou na sela e olhou para eles e então cutucou o cavalo.
Quando trotavam rum o à praia salina branca um velho se ergueu nos arbustos onde estivera abaixado e virou para
encará-los. Os cachorros que estavam esperando em torno para com petir por suas fezes dispararam aos ganidos.
Patos com eçaram a voar sozinhos e aos pares no lago. Alguém derrubou o velho com um a cacetada e os cavaleiros
m eteram as esporas em suas m ontarias e em parelharam na direção do acam pam ento atrás dos cães com suas m
aças rodopiando e os cães uivando em um tableau vivant de um a caçada diabólica, os guerrilheiros em núm ero de
dezenove fazendo carga contra o acam pam ento onde dorm iam m ais de m il pessoas.
Glanton arrem eteu diretam ente contra a prim eira choça e atropelou os ocupantes sob os cascos do cavalo. Form
as hum anas saíram atabalhoadas das entradas baixas. Os cavaleiros invadiram a aldeia a pleno galope e fizeram m
eia-volta e voltaram . Um guerreiro se interpôs em seu cam inho e brandiu um a lança e Glanton o abateu com um
tiro. Mais três correram e ele m atou os dois prim eiros com tiros tão consecutivos que tom baram j untos e o
terceiro pareceu se desfazer em pedaços conform e corria, atingido por m eia dúzia de balas.
Nesse prim eiro m inuto a carnificina se tornara generalizada. Mulheres gritavam e as crianças nuas e um
velho avançou cam baleante agitando um as pantalonas brancas. Os cavaleiros m oviam -se entre eles e os m
assacravam com porretes ou facas. Um a centena de cachorros presos a cordas uivava e outros corriam
enlouquecidos entre as cabanas desferindo dentadas uns nos outros e nos cães am arrados e o tum ulto e o clam or
não cessavam nem dim inuíam desde o prim eiro m om ento em que os hom ens invadiram a aldeia. Já um a série de
cabanas ardia em cham as e toda um a coluna de fugitivos com eçara a fluir para o norte ao longo da m argem
choram ingando desvairadam ente com os cavaleiros entre eles com o vaqueiros m unidos de clavas abatendo prim
eiro os retardatários.
Quando Glanton e seus oficiais voltaram à carga contra a aldeia as pessoas fugiam sob os cascos dos cavalos e os
cavalos em pinavam e pisoteavam e alguns dos hom ens apeados corriam entre as cabanas com tochas e arrastavam
as vítim as para fora, lam buzadas e pingando sangue, golpeando os m oribundos e decapitando os que se aj
oelhavam pedindo clem ência. Havia no acam pam ento um a certa quantidade de escravos m exicanos e estes
saíram correndo gritando em espanhol e tiveram a cabeça esm agada ou foram abatidos com tiros e um dos
delawares em ergiu da fum aça segurando um bebê nu em cada m ão e se agachou j unto a um círculo de pedras
com restos de com ida e os balançou pelos calcanhares um de cada vez e esm agou suas cabeças contra as pedras de
m odo que os m iolos espirraram pela fontanela em um vôm ito sanguinolento e hum anos pegando fogo corriam
dando guinchos com o berserkers e os cavaleiros os abatiam com seus facões e um a j ovem correu e abraçou as
patas dianteiras ensanguentadas do cavalo de batalha de Glanton.
Nesse ponto um reduzido bando de guerreiros havia m ontado em anim ais da rem uda dispersa e avançou na
direção da aldeia e disparou um a chuva de flechas entre as cabanas incendiadas. Glanton puxou o rifle do coldre e
baleou os dois cavalos da ponta e guardou o rifle e sacou a pistola e com eçou a atirar entre as orelhas de seu próprio
cavalo. Os índios m ontados se atrapalharam entre os cavalos caídos e escoiceando e se debateram e andaram
aos círculos e foram abatidos um a um até que a dúzia de sobreviventes restante deu m eia-volta e fugiu pelo lago
ultrapassando a coluna gem ente de fugitivos para desaparecer num a esteira fum acenta de cinza sódica.
Glanton girou seu cavalo. Os m ortos j aziam na água rasa com o vítim as de algum desastre m arítim o e estavam
espalhados pelo refluxo salgado em um caos de sangue e entranhas. Alguns cavaleiros rebocavam corpos para
fora das águas ensanguentadas do lago e a espum a que rolava suavem ente na praia era rósea pálida ao raiar da luz.
Moviam -se entre os m ortos ceifando as longas m elenas negras com suas facas e abandonando as vítim as de
crânio ulcerado e tão estranhas em suas sanguíneas coifas am nióticas. Os cavalos extraviados da rem uda passaram
galopando pela m argem fétida e desapareceram na fum aça e depois de algum tem po galoparam de volta. Os
hom ens vadeavam as águas verm elhas talhando os m ortos a esm o e alguns copulavam com os corpos
ensanguentados de j ovens m ortas ou agonizantes na praia. Um dos delawares passou com um a coleção de
cabeças com o um estranho vendedor a cam inho do m ercado, o cabelo enrolado em torno de seu pulso e as
cabeças pendentes girando j untas. Glanton sabia que o deserto reclam aria cada m inuto passado ali naquele
território e cavalgou entre os hom ens instando-os a se apressar.
McGill surgiu por entre o fogo crepitante e parou fitando lugubrem ente a cena em torno. Havia sido varado por
um a lança e tinha o cabo da arm a diante de si. Fora m anufaturada com um a haste de sotol e a ponta curva feita
de um velho sabre de cavalaria atado à haste despontava na base de suas costas. O kid veio vadeando a água e se
aproxim ou e o m exicano sentou com cuidado na areia.
Sai de perto dele, disse Glanton.
McGill virou para fitar Glanton e quando virou Glanton ergueu a pistola e deu um tiro em sua cabeça. Enfiou a
arm a no coldre e apoiou o rifle descarregado verticalm ente em sua sela e segurou-o com o j oelho enquanto despej
ava pólvora pelos canos. Alguém gritou para ele. O cavalo estrem eceu e recuou e Glanton falou docem ente em
seu ouvido e revestiu duas balas com cartuchos e aloj ou-as nas câm aras. Olhava para o norte onde um bando de
apaches a cavalo agrupava-se delineado contra o céu.
Estavam talvez a m eio quilôm etro de distância, cinco, seis deles, seus gritos sum idos, indistintos. Glanton
prendeu o rifle sob o braço e enfiou o fulm inante em um cilindro e girou os canos e carregou o outro. Não tirava os
olhos dos apaches. Webster desceu de seu cavalo e puxou o rifle e tirou a vareta dos aros de m etal e se apoiou
sobre um j oelho, a vareta a prum o na areia, descansando a frente da coronha no punho com que segurava a
vareta. O rifle era de dois gatilhos e ele arm ou o de trás e encostou a face no apoio de rosto da coronha. Calculou
a força do vento e calculou pelo sol na lateral da m ira de prata e apontou alto e disparou. Glanton estava im óvel na
sela. O tiro ecoou surdo e seco no vazio e a fum aça cinza flutuou para longe. O líder do grupo no ponto elevado
m ontava em seu cavalo. Então vagarosam ente pendeu para o lado e desabou no chão.
Glanton deu um urro e saiu em disparada. Quatro hom ens o seguiram . Os guerreiros na elevação haviam desm
ontado e erguiam o hom em caído. Glanton virou na sela sem tirar os olhos dos índios e estendeu seu rifle para o
m ais próxim o. Esse hom em era Sam Tate e ele apanhou o rifle e refreou o cavalo tão bruscam ente que quase o
derrubou. Glanton e m ais três seguiram adiante e Tate puxou a vareta para servir de apoio e se agachou e fez fogo.
O cavalo que carregava o chefe ferido vacilou, continuou a correr. Ele girou os canos e disparou o segundo tiro e o
anim al afundou no chão. Os apaches puxaram as rédeas com gritos agudos. Glanton se curvou para a frente e
falou no ouvido do cavalo. Os índios içaram seu líder para um a nova m ontaria e cavalgando em duplas instigaram
os cavalos e partiram outra vez. Glanton havia sacado a pistola e gesticulou com ela para os hom ens que vinham
atrás e um deles freou o cavalo e pulou para o chão e deitou de bruços e sacou e engatilhou sua própria pistola e
puxou para baixo a alavanca de carregar e cravou-a na areia e segurando a arm a com as duas m ãos e com o
queixo enterrado no solo fez m ira ao longo do cano. Os cavalos estavam a duzentos m etros e em grande
velocidade. Com o segundo tiro o pônei que levava o líder em pinou e um cavaleiro a seu lado esticou o braço e
segurou as rédeas. Tentavam tirar o líder do anim al ferido em pleno galope quando o anim al desabou.
Glanton foi o prim eiro a se aproxim ar do m oribundo e aj oelhou com aquela cabeça exótica e bárbara aninhada
entre suas coxas com o um a pestilenta enferm eira estrangeira e confrontou os selvagens com seu revólver. Eles
descreveram círculos pela planície e brandiram seus arcos e atiraram algum as flechas em sua direção e então
fizeram m eia-volta e se afastaram . O sangue borbulhava no peito do hom em e ele revirou os olhos, j á vítreos,
os m inúsculos vasos se rom pendo. Em cada um a daquelas duas poças negras brilhava um sol pequeno e perfeito.
Ele cavalgou de volta ao acam pam ento à testa de sua pequena coluna com a cabeça do chefe em seu cinto
pendurada pelos cabelos. Os hom ens preparavam enfiadas de escalpos com tiras de látego de couro e alguns dos
m ortos exibiam largas fatias de pele cortadas de suas costas para serem usadas na feitura de cintos e arreios. O m
exicano m orto McGill fora escalpelado e os crânios ensanguentados j á com eçavam a enegrecer sob o sol. A m
aioria das choças fora queim ada e com o m oedas de ouro haviam sido encontradas alguns hom ens revolviam as
cinzas fum egantes com os pés. Glanton os tocou praguej ando dali e apanhou um a lança e cravou-a na terra com a
cabeça na ponta balançando com um a expressão lúbrica com o um a cabeça carnavalesca e indo e vindo em seu
cavalo bradou ordens de reunir o caballado e partir. Ao virar o cavalo viu o j uiz sentado no chão. O j uiz tirara o
chapéu e bebia água de um a garrafa de couro. Ergueu os olhos para Glanton.
Não é ele.
O que não é?
O j uiz apontou com o queixo. Esse.
Glanton girou a lança. A cabeça com suas
longas m adeixas escuras ficou de frente para
ele. Quem você acha que é se não é ele?
O j uiz abanou a cabeça. Não é Góm ez. Voltou a apontar na
direção daquilo. Esse senhor é sangre puro. Góm ez é m
exicano. Ele não é m exicano puro.
Ninguém é m exicano puro. É a m esm a coisa que ser m estiço
puro. Mas esse não é Góm ez porque eu vi Góm ez e esse não é
ele. Dá pra passar por ele?
Não.
Glanton olhou para o norte. Baixou os olhos para
o j uiz. Não viu m eu cachorro por aí viu? disse.
O j uiz abanou a cabeça. Pretende levar todos
esses cavalos?
Até ser
obrigado a
largar. Isso
não deve
dem orar.
Não.
Quanto tem po acha que vai levar pra esses brutos se reagruparem ?
Glanton cuspiu. Não era um a pergunta e
não respondeu. Onde está seu cavalo? disse.
Sum iu.
Bom , se está planej ando seguir com a gente é m elhor arrum ar outro. Olhou a cabeça na estaca. Você era só um
a droga de um chefe, disse. Instigou o cavalo com os calcanhares e andou pela beira do lago. Os delawares
vadeavam a água tateando com os pés em busca de corpos afundados. Ele ficou parado por um m om ento e então
virou o cavalo e trotou através do acam pam ento saqueado. Cavalgava alerta, a pistola sobre a coxa. Seguiu o
rastro vindo do deserto por onde haviam atacado. Quando voltou tinha consigo o escalpo do velho do início que se
pusera de pé entre os arbustos na aurora.
Um a hora depois m archavam no rum o sul m ontados em seus cavalos deixando para trás na m argem flagelada
do lago um a hecatom be de sangue e sal e cinzas e conduzindo diante de si m eio m ilhar de cavalos e m ulas. O j
uiz cavalgava à testa da coluna carregando na sela a sua frente um a estranha criança escura coberta de cinzas. Parte
de seu cabelo fora consum ido pelo fogo e ia sobre o cavalo m uda e estoica observando a terra avançar diante de
si com im ensos olhos negros com o um changeling. Os hom ens à m edida que cavalgavam enegreciam sob o sol
devido ao sangue em suas roupas e em seus rostos e então em palideceram lentam ente com a poeira erguida até
assum ir m ais um a vez a cor da região pela qual passavam .
Cavalgaram o dia todo com Glanton cobrindo a retaguarda da coluna. Perto do m eio-dia o cão os alcançou. Seu peito
estava escuro de sangue e Glanton o carregou sobre o cepilho da sela até que recuperasse as forças.
Por toda a prolongada tarde ele trotou à som bra do cavalo e quando chegou o crepúsculo trotava ao longe na planície
onde as form as com pridas dos cavalos deslizavam sobre o chaparral em pernas de aranha.
Quando fizeram alto Glanton ordenou que se m ontassem fogueiras e cuidassem dos feridos. Um a das éguas
parira no deserto e a frágil cria não tardou a ser pendurada em um espeto de paloverde acim a do borralho
quente enquanto os delawares passavam entre si um a cabaça contendo o leite coalhado extraído de seu estôm ago.
De um a ligeira elevação a oeste do acam pam ento as fogueiras do inim igo eram visíveis quinze quilôm etros ao
norte. A com panhia acocorou-se em suas peles ensanguentadas endurecidas e contou os escalpos e pendurou-os em
estacas, os cabelos negros violáceos sem viço encrostados de sangue. David Brown passou entre esses carniceiros
exauridos quando se agachavam j unto às cham as m as não conseguiu encontrar nenhum cirurgião para si. Havia
um a flecha em sua coxa, penas e tudo, e ninguém queria pôr a m ão. Muito m enos Doc Irving, pois Brown o cham
ava de papa-defunto e barbeiro e m antinham distância um do outro.
Rapazes, disse Brown, eu cuidaria disso
sozinho m as não consigo segurar firm e.
O j uiz ergueu os olhos e sorriu.
Que tal você, Holden?
Não, Davy, eu não. Mas
lhe digo o que vou fazer.
O que é.
Vou redigir um a apólice de seguro para sua pessoa
contra qualquer infortúnio exceto corda no pescoço.
Então vai pro inferno.
O j uiz riu. Brown fuzilou em torno.
Ninguém aqui dá um a m ão?
Ninguém respondeu.
Vão todos pro inferno, então.
Sentou e esticou a perna no chão e ficou olhando para ela, m ais ensanguentado ele do que a m aioria ali.
Agarrou a haste e pressionou-a com força. O suor corria em sua fronte. Segurava a perna e praguej ava em voz
baixa. Alguns assistiam , outros não. O kid ficou de pé. Deixa que eu tento, disse.
Bom rapaz, disse Brown.
Puxou a sela para servir de encosto. Virou a perna para a luz do fogo e dobrou o cinto e o segurou e sibilou para o
rapaz aj oelhado. Segura com vontade, m eu j ovem . E em purra dum a vez. Então prendeu o cinto entre os dentes e
se reclinou.
O kid agarrou a haste perto da coxa do hom em e j ogou todo seu peso em cim a. Brown cravou as garras no chão
de am bos os lados do corpo e sua cabeça se dobrou para trás e seus dentes úm idos brilharam ao clarão da fogueira.
O kid aj ustou a m ão outra vez e fez força de novo. As veias no pescoço do hom em pareciam cordas e ele rogou
pragas contra a alm a do rapaz. Na quarta tentativa a ponta da flecha surgiu por entre a carne da coxa do hom em e o
sangue correu pelo chão. O kid sentou sobre os calcanhares e passou a m anga da cam isa pela testa.
Brown deixou o cinto cair
de seus dentes. Saiu? disse.
Saiu.
A ponta? É a ponta? Fala, hom em .
O kid sacou a faca e cortou a ponta ensanguentada com um m ovim ento destro e estendeu-a para o outro. Brown
segurou-a à luz do fogo e sorriu. A ponta era de cobre m artelado e estava torta nas am arras em papadas de sangue
que a prendiam à haste m as não se soltara.
Bom m enino, ainda vai dar um açougueiro de prim eira um dia. Agora puxa isso daí.
O kid extraiu a haste da perna do hom em suavem ente e o hom em se arqueou no chão em um ostensivo gesto
fem inino e ofegou asperam ente entre os dentes. Perm aneceu ali deitado por um m om ento e depois sentou e tom
ou a haste do kid e atirou-a no fogo e ficou de pé e foi preparar um lugar para dorm ir.
Quando o kid voltou para seu próprio cobertor o
ex-padre se curvou para ele e sibilou em seu
ouvido. Idiota, disse. O am or de Deus não dura pra
sem pre.
O kid virou para encará-lo.
Não sabe que se ele fosse levava você j unto? Você ia j unto com ele, rapaz. Com o um a noiva pro altar.
Ficaram de pé e se puseram em m archa em algum m om ento depois da m eia-noite. Glanton havia ordenado que as
fogueiras fossem alim entadas e cavalgaram com as cham as ilum inando todo o terreno em volta e as silhuetas dos
arbustos do deserto dançando sobre as areias e os cavaleiros pisando sobre as próprias som bras alongadas e trêm
ulas até m ergulharem na escuridão que tão bem lhes convinha.
Os cavalos e as m ulas esparram avam -se ao longe pelo deserto e eles os reuniram por quilôm etros ao sul e os
tocaram adiante. Os relâm pagos de verão difusos recortavam na noite escuras cadeias m ontanhosas na borda
extrem a do m undo e os cavalos sem ibravios na planície a sua frente trotavam sob a azulada luz estroboscópica
com o cavalos bruxuleantes conj urados do abism o.
Sob a aurora vaporosa o grupo esfarrapado e ensanguentado cavalgando com seus fardos de couram a parecia m
enos um bando vitorioso do que a retaguarda arrasada de algum exército desbaratado batendo em retirada pelos m
eridianos do caos e da noite rem ota, cavalos cam baleando, os hom ens oscilando entorpecidos nas selas. O dia
puncionado de luz revelou o m esm o território estéril em volta e a fum aça de suas fogueiras da noite anterior proj
etava-se fina e im óvel ao norte. A poeira pálida do inim igo que iria caçá-los até os portões da cidade não parecia
ter se aproxim ado e prosseguiram em sua m archa vacilante sob o calor crescente conduzindo os cavalos excitados
diante de si.
No m eio da m anhã pararam em um a poça estagnada que j á fora pisoteada por trezentos anim ais, os cavaleiros
enxotando-os da água e desm ontando para beber com seus chapéus e depois voltando a cavalgar pelo leito seco do
riacho com os cascos a ressoar no solo pedregoso de rochas secas e m atacões e então o solo do deserto outra vez
verm elho e arenoso e as m ontanhas constantes em volta deles esparsam ente relvadas e pontilhadas de ocotillo e
sotol e os seculares agaves florindo com o um a fantasm agoria em um a terra febril. Ao crepúsculo enviaram
cavaleiros no rum o oeste para m ontar fogueiras na pradaria e a com panhia se deitou no escuro e dorm iu com os
m orcegos voando silenciosam ente acim a de suas cabeças entre as estrelas. Quando m ontaram e partiram na m
anhã seguinte ainda estava escuro e os cavalos prestes a desfalecer. O dia revelou que os pagãos tinham avançado m
uito em seu encalço. Travaram a prim eira refrega na alvorada seguinte e seguiram pelej ando por oito dias e oito
noites consecutivas na planície e entre os rochedos nas m ontanhas e dos m uros e azoteas de haciendas
abandonadas e não perderam um hom em sequer.
Na terceira noite perm aneceram agachados nos bastiões de antigas m uralhas decrépitas de barro com as
fogueiras do inim igo a m enos de um quilôm etro e m eio de distância no deserto. O j uiz sentava com o m enino
apache diante do fogo e a criança observava tudo com seus olhos negros de frutos silvestres e alguns hom ens
brincavam com ela e a faziam rir e davam -lhe charque e ela ficava sentada m astigando e observando com ar
sério as figuras que passavam acim a dela. Cobriram -na com um a m anta e pela m anhã o j uiz a em balava em
um j oelho enquanto os hom ens selavam seus cavalos. Toadvine o viu com a criança ao passar com sua sela m as
quando voltou dez m inutos depois puxando o cavalo a criança estava m orta e o j uiz tirara seu escalpo. Toadvine
encostou o cano da pistola no im enso dom o da cabeça do j uiz.
Holden, seu desgraçado.
Ou você atira ou tira isso daí. Agora.
Toadvine enfiou a pistola no cinto. O j uiz sorriu e lim pou o escalpo na perna da calça e ficou de pé e lhe deu as
costas. Dez m inutos depois estavam na planície outra vez em plena fuga dos apaches.
Na tarde do quinto dia cruzavam a passo um a depressão seca do terreno, conduzindo os cavalos diante de si, os
índios em seus calcanhares fora do alcance dos rifles gritando para eles em espanhol. De tem pos em tem pos
alguém da com panhia desm ontava com rifle e vareta de lim peza em punho e os índios se dispersavam com o
codornizes, puxando os pôneis consigo e ficando atrás deles. A leste vibrando sob o calor despontava a linha tênue
de m uros brancos de um a hacienda e as árvores esguias e verdes e rígidas proj etavam -se dali com o um a cena
em um dioram a. Um a hora depois conduziam os cavalos — agora talvez um a centena de cabeças — ao longo
desses m uros e por um a trilha batida rum o a um a fonte. Um j ovem se aproxim ou e lhes deu as boas-vindas form
alm ente em espanhol. Ninguém respondeu. O j ovem cavaleiro olhou ao longo do riacho onde os cam pos eram
atravessados por acéquias e onde os trabalhadores em seus em poeirados traj es brancos espalhavam -se im óveis
com enxadas entre o algodão novo ou o m ilharal a bater na cintura. Voltou a olhar para o noroeste. Os apaches,
setenta, oitenta deles, acabavam de passar pelo prim eiro de um a série de j acales e se m oviam em fila ao longo da
vereda para a som bra das árvores.
Os peões nos cam pos viram -nos quase ao m esm o tem po. Jogaram as ferram entas de lado e com eçaram a
correr, uns aos gritos, outros com as m ãos acim a das cabeças. O j ovem don olhou para os am ericanos e olhou
outra vez para os selvagens se aproxim ando. Gritou algum a coisa em espanhol. Os am ericanos tocaram os cavalos
da fonte na direção de um bosque de álam os. Da últim a vez em que o viram ele havia puxado um a pequena pistola
da bota e se virara para enfrentar os índios.
Nessa noite conduziram os apaches através da cidade de Gallego, a rua um a sarj eta lam acenta patrulhada por
porcos e cães esfolados m iseráveis. O lugar parecia deserto. O m ilho novo nos cam pos à beira da estrada fora
banhado por chuvas recentes e estava branco e lum inoso, alvej ado quase ao ponto da transparência pelo sol.
Cavalgaram a m aior parte da noite e no dia seguinte os índios continuavam por perto.
Confrontaram -nos m ais um a vez em Encinillas e confrontaram -nos nos desfiladeiros áridos que iam na direção
de El Sauz e m ais além nos contrafortes pouco elevados de onde j á podiam avistar os pináculos das igrej as na
cidade ao sul. No dia vinte e um de j ulho do ano de m il oitocentos e quarenta e nove entraram na cidade de
Chihuahua para serem saudados com o heróis, conduzindo os cavalos m ulticoloridos diante de si através da poeira
das ruas em um pandem ônio de dentes e de olhos esbranquiçados. Meninos pequenos corriam entre os cascos e os
vitoriosos em seus trapos ensanguentados sorriam sob a im undície e o pó e o sangue encrostado conform e
carregavam em estacas as cabeças dessecadas do inim igo em m eio àquela fantasia de m úsica e flores.
XIII

NOS BANHOS — COMERCIANTES — TROFÉUS DE GUERRA — O BANQUETE — TRIAS — O


BAILE — NORTE — COYAME — A FRONTEIRA — HUECO TANKS — MASSACRE DOS TIGUAS
— CARRIZAL — UMA NASCENTE NO DESERTO — OS MEDANOS — UMA INQUIRIÇÃO
ACERCA DE DENTES — NACORI — A CANTINA — UM ENCONTRO DESESPERADO — NAS
MONTANHAS — UMA ALDEIA DIZIMADA — LANCEIROS A CAVALO — UMA ESCARAMUÇA
— NO ENCALÇO DOS SOBREVIVENTES — AS PLANÍCIES DE CHIHUAHUA — MASSACRE DOS
SOLDADOS — UM ENTERRO — CHIHUAHUA — RUMO OESTE.

Seu avanço foi engrossado por novos cavaleiros, por m eninos no dorso de m ulas e velhos de chapéus trançados e
um a delegação que se encarregou dos cavalos e m ulas capturados e os tocou pelas ruas estreitas na direção da
praça de touros onde poderiam ser deixados. Os com batentes m altrapilhos avançavam em ondas, alguns agora
segurando no alto copos que lhes haviam sido passados, acenando com seus chapéus putrescentes para as dam as
aglom eradas nos balcões e elevando as cabeças pendulares com aquelas estranhas expressões de enfado com que
suas feições de pálpebras caídas se revestiram ao secar, todos agora tão esprem idos pela m ultidão em torno
que pareciam a vanguarda de algum a rebelião escangalhada e precedida por um a dupla de arautos tocando tam
bores sendo um deles atoleim ado e estando am bos descalços e por um outro na corneta que m archava com o
braço erguido acim a da cabeça em um gesto m arcial ao m esm o tem po em que soprava seu instrum ento. Desse
m odo passaram pelo im ponente pórtico do palácio do governador, percorrendo as gastas soleiras de pedra e
adentrando o pátio onde os cascos lascados dos cavalos desferrados dos m ercenários chocavam -se contra as pedras
do pavim ento com um curioso m atraquear de casco de tartaruga.
Centenas de m oradores esprem iam -se em volta quando os escalpos secos foram contados sobre as pedras.
Soldados com m osquetes m antinham a m ultidão para trás e as m oças observavam os am ericanos com im ensos
olhos negros e garotos se aproxim avam rastej ando para tocar os troféus m acabros. Havia cento e vinte e oito
escalpos e oito cabeças e o lugar-tenente do governador e sua com itiva desceram para o pátio a fim de lhes dar as
boas-vindas e adm irar seu feito. Prom eteram -lhes todo o pagam ento em ouro a ser feito durante o j antar em sua
hom enagem no Riddle and Stephens Hotel e com isso os am ericanos soltaram um viva de aprovação e voltaram
a subir nos cavalos. Velhas m etidas em rebozos pretos se aproxim aram para beij ar a bainha de suas cam isas
fétidas e estendiam suas m ãos pequenas e escuras em sinal de bênção e os cavaleiros fizeram m eia-volta em
suas m ontarias esqueléticas e abriram cam inho entre a turba ruidosa para ganhar as ruas.
Dirigiram -se aos banhos públicos onde entraram um por um dentro da água, cada qual m ais branco que o
anterior e todos tatuados, m arcados a ferro, suturados, as enorm es cicatrizes enrugadas criadas sabe-se Deus onde
por que bárbaros cirurgiões através de peitos e abdom ens com o rastros de m ilípedes gigantescos, alguns deform
ados, dedos faltando, olhos, suas testas e braços estam pados com letras e núm eros com o se fossem artigos à
espera de um inventário. Cidadãos de am bos os sexos encostavam nas paredes e observavam a água se transform
ar em um m ingau ralo de sangue e suj eira e ninguém conseguia tirar os olhos do j uiz que fora o últim o de todos a
se desvestir e agora percorria o perím etro dos banhos com um charuto na boca e o ar régio, experim entando as
águas com o dedão, surpreendentem ente m ignon. Brilhava com o a lua tal sua palidez e nem um único cabelo
podia ser visto em parte algum a daquele vasto corpanzil, fosse em qualquer reentrância, fosse nos grandes buracos
de seu nariz, e tam pouco em seu peito, nem em seus ouvidos, nem absolutam ente o m enor tufo acim a de seus
olhos, nem tam bém nas pálpebras. O dom o im enso e reluzente de seu crânio nu parecia um a touca de banho
enterrada na cabeça cuj a pele no m ais era bronzeada do rosto ao pescoço. Quando o grande volum e im ergiu no
banho as águas subiram consideravelm ente e depois de afundar até o nível do olhar ele esquadrinhou em torno com
perceptível prazer, os olhos ligeiram ente franzidos, parecendo sorrir sob a água com o um m anati pálido e inchado
subindo à tona de um pântano enquanto atrás da orelha pequena e colada o charuto preso fum açava suavem ente
acim a da superfície.
Nesse m om ento com erciantes haviam espalhado suas m ercadorias pelos ladrilhos cerâm icos atrás deles,
ternos de corte e tecido europeus e cam isas de sedas coloridas e chapéus de pelo de castor e finas botas de couro
espanhol, bengalas com castão de prata e chicotes de equitação com rem ate de prata e selas com acabam ento de
prata e cachim bos entalhados e pistolas de ocultar na m anga e um a coleção de espadas de Toledo com punho
de m arfim e lâm inas lindam ente buriladas e barbeiros arrum avam suas cadeiras para acolhê-los, apregoando os
nom es de clientes célebres que haviam atendido, e todos esses negociantes garantindo à com panhia crédito nos
term os m ais generosos.
Quando atravessaram a praça vestidos em seu novo guarda-roupa, alguns com as m angas do casaco m al
ultrapassando os cotovelos, os escalpos estavam sendo pendurados na grega de ferro do gazebo com o decorações
de algum a bárbara com em oração. As cabeças decepadas haviam sido erguidas em estacas acim a dos postes de
ilum inação de onde contem plavam agora com seus olhos cavos e gentios os couros secos de seus sem elhantes e
antepassados pendurados contra a fachada de pedra da catedral ecoando fracam ente ao sabor do vento. Mais
tarde quando os postes foram acesos as cabeças sob o clarão suave vindo de baixo assum iram a expressão de m
áscaras trágicas e em poucos dias iriam ficar m osqueadas de branco e de aspecto inteiram ente leproso com os
excrem entos dos pássaros em poleirados em cim a delas.

Aquele Angel Trias que era o governador fora m andado para o estrangeiro na j uventude a fim de receber sua
educação e era am plam ente versado nos clássicos e ainda um estudioso de línguas. Era tam bém um hom em
chegado às coisas viris e os rudes guerreiros que contratara para a proteção do estado pareciam anim ar algum a
cham a em seu peito. Quando o lugar-tenente convidou Glanton e seus oficiais para j antar Glanton respondeu que
ele e seus hom ens não faziam o rancho separados. O lugar-tenente deu o braço a torcer com um sorriso e Trias
reagiu da m esm a form a. Chegaram bem -arrum ados, barbeados e de cabelos aparados e traj ados em suas novas
botas e acessórios elegantes, os delawares estranham ente austeros e am eaçadores com seus fraques curtos, todos
se reunindo em torno da m esa que lhes fora preparada. Charutos foram oferecidos e serviram -se cálices de
xerez e o governador postado na cabeceira da m esa deu-lhes as boas-vindas e ordenou a seu cam areiro que todas
as necessidades deles fossem observadas. Soldados os atendiam , buscando taças extras, servindo vinho,
acendendo charutos com um a m echa em um a caixa de prata feita exatam ente com esse propósito. O j uiz foi o
últim o a chegar, vestido em um terno fino de linho cru cortado para ele nessa m esm a tarde. Peças inteiras de
tecido haviam sido consum idas em sua fabricação, bem com o exércitos de alfaiates. Seus pés estavam calçados
em botas de pelica cinza cuidadosam ente engraxadas e em suas m ãos segurava um panam á entrançado a partir
de dois outros chapéus m enores num trabalho de tal m eticulosidade que as em endas m al se notavam .
Trias j á tom ara seu assento quando o j uiz entrou m as nem bem o notou voltou a se pôr de pé e apertaram as m
ãos cordialm ente e o governador fez com que se sentasse a sua direita e de im ediato principiaram a entabular
conversa num a língua ininteligível a quem quer que fosse naquele recinto salvo um ou outro epíteto de baixo calão
desgarrado do norte. O ex-padre sentava diante do kid e ergueu as sobrancelhas e fez um gesto de cabeça em direção
à ponta da m esa com um revirar de olhos. O kid, em seu prim eiro colarinho engom ado da vida e seu prim eiro
plastrom , quedava do lado oposto m udo com o um m anequim de alfaiate.
A essa altura a m esa era servida a pleno vapor e os pratos vinham em contínua sucessão, peixe e aves e carne
bovina e caça da região e um leitão assado num a travessa e bandej as de petiscos e trifles e frutas cristalizadas e
garrafas de vinho e de brande dos vinhedos de El Paso. Brindes patrióticos foram erguidos, os aj udantes-de-ordens
do governador erguendo suas taças a Washington e Franklin e os am ericanos respondendo com ainda m ais heróis
de seu próprio país, ignorantes igualm ente de diplom acia e de qualquer nom e no panteão de sua república irm ã.
Avançaram na com ida e continuaram a com er até devorar prim eiro o banquete e depois a despensa do hotel por
com pleto. Mensageiros foram enviados pela cidade à cata de m ais coisas apenas para que isso tam bém sum isse e
outros foram m andados até que o cozinheiro do Riddle barrasse a porta com o próprio corpo e os soldados que
serviam com eçassem sim plesm ente a despej ar im ensas bandej as de tortas doces, torresm os, rodas inteiras de
queij o — tudo que conseguissem achar — sobre a m esa.
O governador tilintara sua taça e ficara de pé para discursar em seu inglês esm erado, m as os m ercenários
estufados e arrotando trocavam olhares m aliciosos e pediam m ais bebida e alguns não paravam de vociferar
brindes, agora degringolando em votos de boa saúde às prostitutas de inúm eras cidades sulistas. O tesoureiro foi
apresentado sob vivas, assovios, o erguer de copos transbordantes. Glanton se encarregou da com prida bolsa de
lona estam pada com a cártula do estado e interrom pendo o governador ficou de pé e despej ou todo o ouro sobre a
m esa entre ossos e cascas e peles torradas e poças de bebida entornada e em um a partilha rápida e sum ária dividiu
a pilha de ouro com a lâm ina de sua faca de m odo que cada hom em recebesse o soldo com binado sem m aiores
cerim ônias. Um a espécie de banda de skiffle com eçara a vibrar um a m elodia lúgubre em um canto do recinto e o
prim eiro a se pôr de pé foi o j uiz que conduziu os m úsicos com seus instrum entos ao salão de baile adj acente
onde diversas dam as que haviam sido m andadas cham ar j á aguardavam sentadas em bancos j unto às paredes e
se abanavam sem alarm e aparente.
Os am ericanos afluíram ao salão de danças, sozinhos e aos pares e em grupos, em purrando cadeiras,
derrubando cadeiras e deixando-as caídas. Lam parinas de parede com seus refletores de folha de flandres haviam
sido acesas por todo o recinto e os convivas ali reunidos proj etavam som bras conflitantes. Os caçadores de escalpo
sorriam para as m ulheres, parecendo uns broncos em suas roupas encolhidas, chupando os dentes, arm ados com
facas e pistolas e de expressão desvairada no olhar. O j uiz reuniu-se em detida conferência com a banda e logo um
a quadrilha com eçou a tocar. Um a agitação de corpos sacudindo e pés sapateando se seguiu enquanto o j uiz,
afável, galante, acom panhava prim eiro um a dam a depois outra executando passos com fluente elegância. Perto
da m eia-noite o governador pedira licença e m em bros da banda com eçaram a sair. Um gaitista de rua cego
estava aterrorizado sobre a m esa do banquete entre os ossos e as travessas e um a horda de prostitutas de aparência
espalhafatosa se infiltrara no baile. O fogo das pistolas logo se tornou generalizado e Mr. Riddle, no papel de
cônsul am ericano na cidade, desceu ao salão para repreender os farristas e foi enxotado com am eaças. Brigas
estouraram . Mobília foi quebrada, hom ens brandindo pernas de cadeira, castiçais. Duas prostitutas se
engalfinharam e voaram sobre um aparador e foram ao chão em um estrépito de copos de brande partidos. Jackson,
pistolas em punho, desabalou pela rua afora j urando Cascar chum bo no rabo do Cristo, aquele branco pernudo
filho da puta. Ao raiar do dia os vultos de beberrões inconscientes roncavam espalhados pelo chão entre m anchas
negras de sangue seco. Bathcat e o gaitista dorm iam sobre a m esa do banquete abraçados um ao outro. Um a fam
ília de ladrões andava nas pontas dos pés por entre os escom bros vasculhando o bolso dos adorm ecidos e os restos
de um a fogueira que consum ira boa parte da m obília do hotel fum egava na rua diante da porta.
Essas e outras cenas com o essas se repetiram noite após noite. Os m oradores recorreram ao governador m as
este era m uito parecido com o aprendiz de feiticeiro que de fato conseguiu levar o diabrete a cum prir sua vontade
m as depois não encontrou m eios de fazê-lo parar. Os banhos se transform aram em prostíbulo, os serviçais foram
expulsos. O chafariz branco de pedra no m eio da plaza se enchia à noite de bêbados sem roupa. Cantinas eram
evacuadas quase com o que a um alarm e de incêndio com o aparecim ento de qualquer dupla que fosse de hom ens
da com panhia e os am ericanos se viam em tavernas fantasm as com bebidas sobre as m esas e charutos ainda
queim ando nos cinzeiros de argila. Entravam e saíam pelas portas com os cavalos e quando o ouro com eçou a
escassear os loj istas se viram presenteados com prom issórias rabiscadas em papel pardo num a língua
estrangeira em troca de prateleiras inteiras de m ercadorias. Loj as com eçaram a fechar. Pichações de carvão
apareciam nas paredes caiadas. Mej or los indios. As ruas ao entardecer eram evacuadas e não havia paseos e as
donzelas da cidade eram trancadas atrás de portas e j anelas pregadas com tábuas para não serem m ais vistas.
No dia quinze de agosto eles partiram . Um a sem ana depois um bando de vaqueiros relatou tê-los visto invadindo o
vilarej o de Coy am e cento e trinta quilôm etros a nordeste.

O vilarej o de Coy am e estivera por anos suj eitado a contribuir anualm ente para Góm ez e seu bando. Quando
Glanton e seus hom ens entraram foram recebidos com o santos. Mulheres corriam ao lado dos cavalos para tocar
suas botas e im pingiam -lhes regalos de todo tipo até todos eles verem -se estorvados por m elões e tortas e galinhas
am arradas am ontoados no arção de suas selas. Quando partiram três dias depois as ruas estavam desertas, nem
sequer um cão a segui-los pelos portões.
Viaj aram no rum o nordeste até a distante cidade de Presidio na fronteira do Texas e atravessaram os cavalos e
cavalgaram pingando pelas ruas. Território onde Glanton podia ser preso. Ele seguiu sozinho pelo deserto e parou
m ontado em seu cavalo e ele e o cavalo e o cão ficaram olhando para a terra ondulada coberta de vegetação
rasteira e as prosaicas colinas estéreis e as m ontanhas e a região plana de arbustos e a planície se desenrolando
m ais além onde seiscentos quilôm etros a leste estavam a esposa e a criança que j am ais tornaria a ver. Sua som
bra proj etava-se alongada diante dele sobre o estriado leito de areia. Ele não a seguiria. Havia tirado o chapéu
para que o vento do anoitecer o refrescasse e depois de algum tem po tornou a enfiá-lo e virou o cavalo e voltou.
Vagaram pela fronteira por sem anas à procura de algum sinal dos apaches. Prontos para o com bate naquela
planície m oviam -se em um a constante elisão, agentes autorizados do presente dividindo o m undo que
encontravam e deixando o que havia sido e o que nunca m ais seria igualm ente extintos no solo atrás de si.
Cavaleiros espectrais, pálidos de pó, anônim os nas am eias do calor. Mais do que tudo pareciam inteiram ente ao
acaso, prim evos, provisórios, carentes de ordem . Com o seres incitados a sair da rocha absoluta e condenados em
sua com pleta obscuridade e em nenhum grau diferentes de seus m eros vultos a vagar vorazes e am aldiçoados e m
udos com o górgonas cam baleantes pelas vastidões brutais de Gondwana em um tem po anterior à nom enclatura e
em que o um era o todo.
Abatiam anim ais selvagens e tom avam o que necessitavam a título de com issão dos pueblos e estancias por
onde passavam . Ao anoitecer certo dia quando quase avistavam a pequena cidade de El Paso olharam para o
norte onde os gileños invernavam e se deram conta de que não iriam para lá. Acam param essa noite nos Hueco
Tanks, um agrupam ento de cisternas de pedra naturais no deserto. As rochas do lugar por toda parte onde
houvesse abrigo estavam cobertas de antigas pinturas e o j uiz logo andava em m eio a elas copiando-as em sua
diversidade para levar consigo. Eram de hom ens e anim ais e da caça e havia pássaros curiosos e m apas arcanos e
havia form as de tão singular visão que j ustificavam todo m edo do hom em e das coisas que nele existem . Dessas
gravuras — algum as de cores vivas — viam -se centenas, e contudo o j uiz cam inhava em m eio a elas com
segurança, esboçando apenas as que precisava. Depois que term inou e enquanto ainda havia luz regressou a um a
determ inada saliência na pedra e ficou algum tem po sentado e voltou a exam inar o trabalho ali. Então se
levantou e com um pedaço de sílex quebrado raspou um dos desenhos, apagando todo seu vestígio e deixando
apenas um a área riscada na pedra onde antes estivera. Então apanhou seu livrinho e voltou para o acam pam ento.
Pela m anhã foram para o sul. Trocavam poucas palavras entre si, tam pouco discutiam . Três dias depois cruzaram
com um bando de pacíficos tiguas acam pados na m argem do rio e os m assacraram até a últim a alm a.
Na véspera desse dia agachavam -se j unto ao fogo que chiava com a chuva fina e suave e fundiam balas e
recortavam cartuchos com o se a sorte dos aborígenes houvesse sido m oldada por um a força com pletam ente
alheia. Com o se tais destinos estivessem prefigurados na própria rocha para que aqueles dotados de olhos os lessem
. Nenhum hom em se apresentava para vir em sua defesa. Toadvine e o kid conferenciaram entre si e quando o
grupo se pôs em m archa no dia seguinte com o sol em seu apogeu em parelharam os cavalos a trote com o de
Bathcat. Cavalgavam em silêncio. Esses filhos da puta não fizeram m al a ninguém , disse Toadvine. O
vandiem enlander olhou para ele. Olhou para as letras lívidas tatuadas em sua testa e para os longos cabelos
ensebados pendentes de seu crânio sem orelhas. Olhou para o colar de dentes de ouro em seu peito. Seguiram
cavalgando.
Aproxim aram -se daquelas tendas m iseráveis à luz alongada do dia agonizante, m ovendo-se contra o vento pela
m argem sul do rio onde podiam sentir o cheiro da lenha queim ando nas fogueiras. Quando os prim eiros cachorros
latiram Glanton esporeou o cavalo e saíram de trás das árvores e atravessaram o trato árido com os longos pescoços
dos anim ais proj etados da poeira com o um a m atilha ávida e os cavaleiros os chicoteando na direção da luz do
sol onde as silhuetas das m ulheres erguendo-se de suas tarefas delinearam -se achatadas e rígidas por um instante
antes que pudessem se dar conta plenam ente da realidade daquele pandem ônio de pó arrem etendo num
tropel em sua direção. Paralisadas em estupor, descalças, vestidas com o algodão cru daquelas terras. Seguravam
colheres de pau, crianças nuas. Com o prim eiro fogo um a dúzia se dobrou e caiu.
Os dem ais com eçaram a correr, gente velha j ogando as m ãos para o alto, crianças dando passinhos incertos e
pestanej ando sob o tiroteio. Alguns j ovens apareceram com arcos esticados e foram baleados e então os cavaleiros
avançaram por toda a aldeia atropelando as choças de colm o e distribuindo cacetadas em m eio à gritaria
generalizada.
Muito depois de escurecer nessa noite com a lua j á bem alta um grupo de m ulheres que subira o rio para secar
peixe regressou à aldeia e vagou aos prantos pelas ruínas. Algum as fogueiras ainda fum egavam no chão e
cachorros m oviam -se furtivam ente por entre os cadáveres. Um a velha aj oelhou j unto às pedras enegrecidas
diante de sua porta e enfiou alguns galhos entre os carvões e soprou até reavivar as cham as no m eio das cinzas e
com eçou a endireitar os potes tom bados. A toda sua volta os m ortos j aziam com os crânios esfolados com o
pólipos úm idos azulados ou m elões lum inescentes esfriando sobre um a m eseta lunar. Nos dias que se seguiriam
os frágeis negros rébus de sangue naquelas areias iriam trincar e rachar e se dissipar de m odo que no ciclo de
poucos sóis todo vestígio da destruição daquele povo seria apagado. O vento do deserto cobriria de sal suas ruínas e
não haveria m ais nada, nem fantasm a nem escriba, para contar a algum peregrino de passagem com o era aquele
povo que vivera naquele lugar e naquele lugar m orrera.
Os am ericanos entraram na cidade de Carrizal no fim da tarde do segundo dia depois desse, seus cavalos
engrinaldados com os escalpos m alcheirosos dos tiguas. O povoado se encontrava praticam ente em ruínas. Muitas
casas estavam vazias e o presidio desabava de volta à terra com a qual fora erguido e as expressões dos próprios
habitantes pareciam exibir a vacuidade de antigos terrores. Observaram a passagem daquela flotilha
ensanguentada por suas ruas com olhares baços e som brios. Aqueles cavaleiros pareciam vir de um a j ornada
desde um m undo legendário e deixavam atrás de si um a estranha esteira m aculada com o um a pós-im agem no
olho e o ar que agitavam ficava alterado e elétrico. Passaram rente aos ruinosos m uros do cem itério onde os m
ortos eram dispostos em nichos sobre cavaletes e o chão estava coberto de ossos e crânios e potes quebrados com o
um ossuário ainda m ais antigo. Mais gente m altrapilha apareceu nas ruas em poeiradas atrás deles e ficou
assistindo-os passar.
Nessa noite acam param j unto a um a fonte term al no topo de um a colina em m eio a antigos indícios de
alvenaria espanhola e tiraram a roupa e entraram na água com o fiéis enquanto im ensas sanguessugas brancas se
afastavam ondulando pelas areias. Quando partiram ao am anhecer continuava escuro. Relâm pagos brilhavam nas
cadeias serrilhadas no sul longínquo, silentes, as m ontanhas abruptas reveladas azuis e desoladas no vazio. O dia
irrom peu acim a de um a faixa esfum açada de deserto som breada por nuvens escuras em que os cavaleiros
podiam contar cinco diferentes tem pestades espaçadas ao longo da orla arredondada da terra. Avançavam sobre
pura areia e os cavalos labutavam com esforço tal que os hom ens eram obrigados a desm ontar e puxá-los, forcej
ando pelas m orenas íngrem es onde o vento soprava o púm ice branco das cristas com o a espum a de vagas m
arinhas e na areia se desenhavam frágeis form as concoidais e nada m ais havia ali a não ser ossos polidos esparsos.
Passaram o dia todo em m eio a dunas e ao anoitecer descendo pelas derradeiras elevações arenosas em direção à
planície entre arbustos de catclaw e crucifixion thorn não passavam de um am ontoado crestado e exaurido de hom
ens e bestas. Harpias alçaram voo de um a m ula m orta aos gritos e se afastaram descrevendo um arco no rum o
oeste e depois m ergulhando no sol quando eles adentraram com os cavalos na planície.
Duas noites m ais tarde bivacados em um desfiladeiro nas m ontanhas podiam enxergar as luzes distantes da
cidade m ais abaixo. Acocoraram -se ao longo de um a aresta xistosa na parede da garganta ao abrigo do vento
com as fogueiras dançando agitadas e observaram as lam parinas cintilando no leito azul da noite a cinquenta
quilôm etros de distância. O j uiz passou na frente deles na escuridão. Centelhas da fogueira voaram com o vento.
Ele tom ou seu lugar entre as placas de xisto cobertas de vegetação rala e assim perm aneceram com o seres de um
a era antiga observando as luzes distantes se apagarem um a a um a até a cidade na planície se encolher e se
resum ir a um pequeno núcleo lum inoso que podia ser um a árvore em cham as ou algum acam pam ento solitário
de viaj antes ou talvez algum fogo além de toda ponderabilidade.

Conform e saíam pelos elevados portões de m adeira do palácio do governador dois soldados que ali estavam
contando seu núm ero quando passavam adiantaram -se e seguraram o cavalo de Toadvine pela testeira. Glanton
passou à sua direita e seguiu adiante. Toadvine estacou em sua sela.
Glanton!
Os cascos dos cavalos ecoavam na rua. Glanton, logo além dos portões, olhou para trás. Os
soldados falavam com Toadvine em espanhol e um deles tinha um a escopeta apontada para ele.
Não estou com os dentes de ninguém , disse Glanton.
Vou m atar esses im becis aqui m esm o.
Glanton cuspiu. Olhou para o fim da rua e olhou para Toadvine. Então desm ontou e puxou o cavalo voltando pelo
pátio. Vam onos, disse. Ergueu o rosto para Toadvine. Desce do cavalo.
Deixaram a cidade sob escolta dois dias depois. Mais de um a centena de soldados a acom panhá-los ao longo da
estrada, desconfortáveis em seus traj es e arm as variados, dando puxões nas rédeas e pontapés nos lom bos de seus
cavalos através do baixio onde os cavalos dos am ericanos haviam parado para beber água. Nos contrafortes acim a
do aqueduto desviaram de lado e os am ericanos passaram em fila por eles e seguiram serpenteando em m eio às
rochas e cactos de nopal e foram dim inuindo entre as som bras até sum ir.
Cavalgaram no rum o oeste m ontanhas adentro. Passaram por pequenos vilarej os tirando o chapéu para pessoas
que iriam assassinar antes que o m ês term inasse. Pueblos de barro eram com o cidades assoladas pela peste com
as plantações apodrecendo nos cam pos e o gado que os índios não haviam levado vagando a esm o e ninguém para
reuni-lo ou cuidar dele e m uitos vilarej os quase esvaziados da população m asculina onde as m ulheres e crianças
agachavam -se aterrorizadas em suas choupanas de ouvidos atentos até que o últim o som de casco m orresse na
distância.
Na cidade de Nacori havia um a cantina e ali a com panhia apeou e aglom erando-se diante da porta entraram e
sentaram -se às m esas. Tobin se ofereceu para vigiar os cavalos. Ficou de pé olhando para os dois lados da rua.
Ninguém prestou a m enor atenção nele. Aquela gente j á vira am ericanos aos m ontes, com boios e m ais com
boios em poeirados se arrastando havia m eses longe de sua própria terra, sem ienlouquecidos com a enorm idade
de sua própria presença naquela vastidão im ensa e saciada de sangue, usurpando farinha e carne ou entregando-se a
um gosto latente pelo estupro entre as garotas de olhos cor de am eixa daquela terra. Agora era quase um a hora
passada do m eio-dia e vários trabalhadores e com erciantes atravessavam a rua na direção da cantina. Quando
passaram pelo cavalo de Glanton o cachorro de Glanton se ergueu com os pelos eriçados. Desviaram ligeiram
ente e seguiram em frente. Nesse m esm o instante um a delegação de cães do vilarej o com eçou a cruzar a plaza,
cinco, seis deles, olhos fixos no cão de Glanton. No m om ento em que faziam isso um m alabarista puxando um
cortej o fúnebre dobrou a rua e pegando um foguete entre vários sob seu braço aproxim ou-o da cigarrilha em sua
boca e lançou-o na praça, onde explodiu. O bando de cães se sobressaltou e recuou, exceto por dois deles que
continuaram na rua. Dentre os cavalos m exicanos presos em suas peias à trave diante da cantina alguns
escoicearam e os outros pisotearam o chão nervosam ente. O cachorro de Glanton não tirava os olhos dos hom
ens vindo na direção da porta. Nenhum dos cavalos am ericanos sequer esticou um ouvido. A dupla de cães que
atravessava a frente da procissão funerária desviou dos coices e rum ou para a cantina. Mais dois foguetes
explodiram na rua e agora o restante da procissão se tornava visível, um violinista e um corneteiro à frente tocando
um a m elodia rápida e anim ada. Os cães se viram presos entre o funeral e os anim ais dos m ercenários e pararam
e achataram as orelhas e com eçaram a sair de lado e a trotar. Finalm ente dispararam pela rua atrás dos que
carregavam o féretro. Esses detalhes deviam ter levado os trabalhadores que entravam na cantina a assum ir um
a posição m ais apropriada. Haviam se virado e agora estavam de costas para a porta segurando os chapéus j unto ao
peito. O cortej o passou com um andor sobre os om bros e os transeuntes puderam ver em seu vestido m ortuário
entre as flores o rosto cinzento de um a j ovem sacolej ando rigidam ente. Logo atrás vinha seu caixão, feito de
couro cru pretej ado com graxa, carregado por hom ens traj ados de negro e parecendo bastante com um barco
tosco feito de pele. Em seguida vinha um grupo de pranteadores, parte dos hom ens bebendo, as velhas em seus
xales negros chorando e sendo am paradas para evitar os buracos da rua e crianças trazendo flores e fitando tim
idam ente os espectadores conform e passavam .
Dentro da cantina os am ericanos nem bem haviam sentado quando um insulto m urm urado em um a m esa ao
lado levou três ou quatro deles a ficar de pé. O kid se dirigiu à m esa em seu espanhol estropiado e perguntou qual
daqueles ébrios rabugentos abrira a boca. Antes que alguém adm itisse o que quer que fosse o prim eiro foguete do
enterro explodia na rua com o se contou e todo o grupo dos am ericanos correu para a porta. Um bêbado à m esa
ficou de pé com um a faca e cam baleou atrás deles. Seus am igos o cham aram m as com um gesto ele os
desprezou.
John Dorsey e Henderson Sm ith, dois j ovens do Missouri, foram os prim eiros a chegar à rua. Logo em seguida
vieram Charlie Brown e o j uiz. O j uiz conseguia ver por cim a de suas cabeças e ergueu a m ão para os que vinham
atrás. O féretro passava nesse instante. O violinista e o cornetista faziam pequenas m esuras um para o outro e seus
passos sugeriam o estilo m arcial da m úsica que tocavam . É um enterro, disse o j uiz. Conform e dizia isso o
bêbado m unido da faca agora oscilando na soleira cravou a lâm ina nas costas de um hom em cham ado Grim ley.
Ninguém o viu além do j uiz. Grim ley apoiou a m ão no batente de m adeira rústica da porta. Me m ataram , disse.
O j uiz sacou a pistola e a ergueu acim a das cabeças dos hom ens e acertou o bêbado no m eio da testa.
Os am ericanos do lado de fora da porta olhavam quase todos para o cano da arm a do j uiz quando ele disparou e
a m aioria se j ogou no chão. Dorsey rolou agilm ente e ficou de pé e trom bou com os trabalhadores que prestavam
seus respeitos ao cortej o. Estavam levando os chapéus à cabeça quando o j uiz abriu fogo. O hom em m orto tom
bou para trás na cantina, sangue j orrando de sua cabeça. Quando Grim ley se virou puderam ver o cabo de m
adeira da faca proj etando-se de sua cam isa ensanguentada.
Outras facas j á entravam em ação. Dorsey atracava-se com os m exicanos e Henderson Sm ith sacara sua bowie
e quase decepara o braço de um suj eito e o hom em ficou ali parado com o escuro sangue arterial espirrando por
entre seus dedos que tentavam estancar o ferim ento. O j uiz aj udou Dorsey a ficar de pé e recuaram para a cantina
com os m exicanos m eneando e estocando as facas em sua direção. De dentro vinha o som ininterrupto de tiros e o
vão da porta se enchia de fum aça. O j uiz se virou no lim iar e passou por cim a dos diversos corpos caídos ali. No
interior as pistolas im ensas rugiam sem interrupção e os vinte e tantos m exicanos do lugar estavam esparram ados
em todas as posições retalhados pelas balas em m eio às cadeiras caídas e m esas com as lascas recém -arrancadas
da m adeira e as paredes de barro perfuradas de alto a baixo pelas grandes balas cônicas. Os sobreviventes
tentavam ganhar a luz do dia pela porta afora e o prim eiro a chegar topou com o j uiz ali e brandiu a faca em sua
direção. Mas o j uiz era com o um gato e desviou do hom em e agarrou seu braço e o quebrou e ergueu o hom em
pela cabeça. Ele o encostou contra a parede e sorriu para ele m as o hom em com eçara a sangrar pelos ouvidos e o
sangue escorria por entre os dedos do j uiz e sobre suas m ãos e quando o j uiz o soltou havia algum a coisa errada
com sua cabeça e ele deslizou para o chão e não voltou a se erguer. Os que estavam atrás dele haviam nesse m
eio-tem po recebido um a enorm e descarga de tiros e a porta ficou abarrotada com os m ortos e m oribundos
quando de repente um silêncio grande e reverberante dom inou o am biente. O j uiz estava de costas para a parede.
A fum aça pairava com o um nevoeiro e as silhuetas encobertas perm aneceram paralisadas. No centro do
estabelecim ento Toadvine e o kid estavam de costas um para o outro com suas pistolas erguidas com o duelistas.
O j uiz se dirigiu à porta e gritou através da pilha de corpos para o ex-padre que esperava j unto dos cavalos com a
pistola na m ão.
Os extraviados, Padre, os extraviados.
Não haviam m atado em público em um a cidade daquele porte m as não dava para evitar. Três hom ens corriam
pela rua e dois outros andavam a largas passadas através da praça. Afora isso não circulava vivalm a. Tobin se
adiantou entre os cavalos e ergueu a enorm e pistola com as duas m ãos e com eçou a atirar, a arm a escoiceando e
voltando a baixar e os corredores cam baleando e desabando de frente. Ele abateu os dois na plaza e m irou e
acertou os que corriam pela rua. O últim o caiu em um vão de porta e Tobin virou e puxou a outra pistola de seu
cinto e contornou o cavalo e olhou para o fim da rua e para a praça à procura de qualquer sinal de m ovim ento ali
ou entre as construções. O j uiz se afastou da porta no interior da cantina onde os am ericanos olhavam uns para os
outros e para os corpos num a espécie de perplexidade. Olharam para Glanton. Seus olhos chispavam através do
am biente enfum açado. O chapéu estava pousado sobre um a m esa. Ele foi até lá e o apanhou e o enfiou na cabeça
e o aj eitou. Olhou em torno. Os hom ens recarregavam as câm aras esvaziadas de suas pistolas. Cabelo, rapazes,
ele disse. A fonte nesse nosso ram o ainda não secou.
Quando saíram da cantina dez m inutos m ais tarde as ruas estavam desertas. Haviam escalpelado todos os m
ortos, patinando sobre um piso que costum ava ser de terra batida e agora era um a lam a cor de vinho. Havia vinte
e oito m exicanos dentro da taverna e m ais oito na rua incluindo os cinco que o ex-padre m atou. Montaram . Grim
ley sentava apoiado de lado contra a parede de barro do prédio. Não ergueu o olhar. Segurava a pistola no colo e
olhava para o fim da rua e eles viraram e cavalgaram pelo lado norte da plaza e sum iram .
Levou trinta m inutos para alguém aparecer na rua. Falavam aos sussurros. Quando se aproxim aram da cantina
um dos hom ens ali dentro surgiu no vão da porta com o um fantasm a ensanguentado. Havia sido escalpelado e o
sangue escorria por toda parte entrando em seus olhos e ele pressionava um im enso buraco em seu peito onde um a
espum a rósea borbulhava ao inspirar e expirar. Um dos m oradores pousou a m ão em seu om bro.
A dónde vas? disse.
A casa, disse o hom em .

A cidade seguinte em que passaram ficava a dois dias de distância penetrando pelas sierras. Nunca souberam com o
se cham ava. Um a sucessão de barracos de lam a erguidos no planalto inóspito. Quando chegaram as pessoas
correram deles com o bichos assustados. Os gritos que davam uns para os outros ou talvez sua visível fragilidade
pareceu incitar algum a coisa em Glanton. Brown o observou. Ele instigou o cavalo e sacou a pistola e o pueblo
sonolento foi esm agado incontinente num a carnificina dantesca. Muitos haviam corrido para a igrej a onde se aj
oelhavam agarrando o altar e desse refúgio foram arrastados aos uivos um a um e um a um foram trucidados e
escalpelados ali m esm o sobre o piso. Quando os cavaleiros passaram por esse m esm o vilarej o quatro dias depois
os m ortos continuavam j ogados nas ruas e os abutres e porcos se alim entavam deles. Os carniceiros observaram
em silêncio enquanto a com panhia passava cuidadosam ente com o figurantes em um sonho. Quando o últim o m
em bro do bando se foi voltaram a se alim entar.
Seguiram pelas m ontanhas adentro sem repouso. Percorreram um a trilha estreita em m eio a um bosque de
pinheiros negros durante o dia e depois de escurecer e sem pre em silêncio exceto pelo rangido dos arreios e o
resfolegar dos cavalos. A casca fina da lua pairava em borcada acim a dos picos denteados. Chegaram a um a cidade
na m ontanha pouco antes de clarear onde não havia lam parinas acesas nem vigias nem cães. No alvorecer
cinzento sentaram -se contra um a parede à espera do dia raiar. Um galo cantou. Um a porta bateu. Um a velha veio
pelo cam inho e passou pelas paredes rebocadas de barro da pocilga em m eio à névoa carregando um a canga de j
arros. Ficaram de pé. Fazia frio e seu hálito flutuou vaporoso em torno deles. Baixaram os paus do curral e
conduziram os cavalos para fora. Cavalgaram pela rua. Pararam . Os anim ais j ogavam de lado e batiam os cascos
com o frio. Glanton puxara a rédea e sacara a pistola.
Um a com panhia de tropas a cavalo saiu de trás de um m uro no extrem o norte do vilarej o e dobrou a rua.
Usavam barretinas altas com placas de m etal na frente e penachos de crina e vestiam casacos verdes adornados
com galões e alam ares escarlates e estavam arm ados com lanças e m osquetes e suas m ontarias ricam ente aj
aezadas e entraram na rua em avanços laterais e curvetas, cavaleiros em pinados nas cavalgaduras, todos eles j
ovens galantes. A com panhia olhou para Glanton. Ele guardou a pistola e puxou o rifle. O capitão dos lanceiros
havia erguido o sabre para deter a coluna. No instante seguinte a rua estreita se encheu da fum aça dos rifles e
um a dúzia de soldados tom bou m orta ou m orrendo no chão. Os cavalos refugaram e relincharam e caíram uns
sobre os outros e os hom ens cuspidos de suas selas ergueram -se a custo para dom inar suas m ontarias. Um a
segunda descarga varreu suas fileiras. Tom baram em tum ulto. Os am ericanos sacaram as pistolas e fincaram os
calcanhares nos cavalos e subiram a rua.
O capitão m exicano sangrava de um ferim ento de bala no peito e aprum ou-se nos estribos para rechaçar a
carga com seu sabre. Glanton o baleou na cabeça e o em purrou do cavalo com a bota e abateu m ais três atrás
dele em sucessão. Um soldado no chão apanhara um a lança e corria em sua direção de arm a em punho e um
dos cavaleiros se curvou no m eio da escaram uça selvagem e cortou sua garganta e foi em frente. Na um idade
m atinal a fum aça sulfurosa pairava sobre a rua com o um a m ortalha cinzenta e os lanceiros coloridos tom bavam
sob os cavalos naquela névoa am eaçadora com o soldados chacinados em um sonho, de olhos arregalados e rij os
e m udos.
Alguns em m eio à retaguarda haviam conseguido virar suas m ontarias e com eçaram a retroceder pela rua e os
am ericanos golpeavam os cavalos sem cavaleiro com os canos de suas pistolas e os cavalos trom bavam e arrem
etiam com os estribos voando perigosam ente e em pinavam com os longos focinhos e em pinavam e pisoteavam os
m ortos. Eles os rechaçaram aos golpes e instigaram seus cavalos a passar no m eio e subir a rua até o ponto onde
ela afunilava e subiram a m ontanha e fizeram fogo contra os lanceiros em fuga que fugiam aos trancos e barrancos
num rastro ruidoso de pedregulhos rolados.
Glanton enviou um destacam ento de cinco hom ens atrás deles e ele e o j uiz e Bathcat fizeram m eia-volta.
Encontraram o restante de sua com panhia subindo a rua e eles deram a volta e os seguiram e foram pilhar os
cadáveres caídos na rua com o m úsicos de banda e espatifaram seus m osquetes contra as paredes das casas e
quebraram suas espadas e lanças. Quando partiam encontraram os cinco batedores de regresso. Os lanceiros
haviam saído da trilha e se espalhado pela m ata. Duas noites m ais tarde acam pados em um butte dando para a
vasta planície central avistaram um ponto lum inoso no m eio do deserto com o se fosse o reflexo de um a única
estrela num lago do m ais com pleto negror.
Confabularam . Naquela rude m eseta de pedra as cham as da fogueira dançavam e rodopiavam e exam inaram
a escuridão absoluta estendendo-se sob onde estavam com o o abrupto lim iar na face do m undo. Que
distância acha que estão, disse Glanton.
Holden abanou a cabeça. Ganharam m eio dia sobre a gente. Não são
m ais do que doze, catorze. Não vão m andar hom ens na frente.
Estam os longe de Chihuahua City ?
Quatro dias. Três. Cadê o Davy ?
Glanton se virou. Quanto tem po até Chihuahua, Davy ?
Brown ficou de pé dando as costas para o fogo. Balançou a
cabeça. Se aqueles são eles eles podem estar lá em três dias.
Acha que dá pra alcançar eles?
Não sei. Vai depender de perceberem se a gente está atrás.
Glanton virou e cuspiu no fogo. O j uiz ergueu o braço branco e despido e procurou algum a coisa sob a axila
com os dedos. Se a gente conseguir sair dessa m ontanha ao raiar do dia, disse, acho que dá pra alcançar. Se não é
m elhor ir pra Sonora.
Eles podem estar
vindo de Sonora.
Então é m elhor
acabar com eles.
A gente podia levar esses escalpos pra Ures.
A fogueira se achatou contra o solo, voltou a erguer-se. Melhor ir atrás deles, disse o j uiz.
Cavalgaram através da planície ao alvorecer conform e dissera o j uiz e nessa noite puderam ver a fogueira dos
m exicanos refletida no céu a leste além da curvatura da terra. Durante todo o dia seguinte cavalgaram e durante
toda a noite, sacolej ando e oscilando com o um a delegação de epilépticos quando dorm iam em suas selas. Na m
anhã do terceiro dia puderam ver os cavaleiros a sua frente na planície recortados contra o sol e ao anoitecer
puderam contar seu núm ero que se arrastava penosam ente sobre a vastidão m ineral desolada. Quando o sol surgiu
os m uros da cidade despontaram pálidos e tênues sob a luz incipiente trinta quilôm etros para o leste. Detiveram os
cavalos. Os lanceiros enfileiravam -se ao longo da estrada vários quilôm etros ao sul. Não havia m otivo para que
parassem e em parar residia tão pouca esperança quanto em seguir cavalgando m as j á que era isso que faziam eles
continuaram a cavalgar e os am ericanos instigaram os cavalos e voltaram a avançar.
Por algum tem po cavalgaram quase paralelam ente na direção dos portões da cidade, am bos os grupos
ensanguentados e m altrapilhos, os cavalos cam baleantes. Glanton gritou que se rendessem m as continuaram a
cavalgar. Ele puxou seu rifle. Vacilavam pela estrada com o criaturas entorpecidas. Ele puxou as rédeas de seu
cavalo e o anim al parou com as pernas afastadas e os flancos arquej ando e ele ergueu o rifle e disparou.
Os outros na m aior parte j á não estavam nem sequer arm ados. Havia nove deles e pararam e viraram e então
foram à carga através daquele terreno interm itente de pedra e arbusto e foram m ortos no espaço de um m
inuto.
Os cavalos foram segurados pelas rédeas e trazidos de volta à estrada e as selas e arreios cortados fora. Os corpos
dos m ortos foram despidos e seus uniform es e arm as foram queim ados j unto com as selas e dem ais equipam
entos e os am ericanos cavaram um buraco na estrada e os enterraram num a vala com um , os corpos nus com seus
ferim entos com o vítim as de experim entação cirúrgica deitados no buraco fitando cegos e boquiabertos o céu do
deserto enquanto a terra era j ogada sobre eles. Pisotearam o local com seus cavalos até que voltasse a adquirir a
aparência do restante da estrada e as fecharias das arm as e lâm inas dos sabres e argolas das cilhas foram
retiradas das cinzas da fogueira e levadas dali e enterradas em um lugar separado e os cavalos sem dono enxotados
para o deserto e ao anoitecer o vento carregou as cinzas e à noite o vento soprou e varreu as últim as correias fum
egantes e incitou à derradeira corrida frágil de fagulhas fugitivas com o centelhas de pederneira na escuridão
unânim e do m undo.
Entraram na cidade exaustos e im undos e tresandando ao sangue dos cidadãos para cuj a proteção haviam sido
contratados. Os escalpos dos aldeães trucidados foram pendurados nas j anelas da casa do governador e os
guerrilheiros receberam sua paga dos cofres quase exauridos e a Sociedad foi dissolvida e o contrato de recom
pensa rescindido. Um a sem ana após deixarem a cidade haveria cartazes anunciando um a som a de oito m il pesos
pela cabeça de Glanton. Cavalgaram pela estrada norte com o qualquer grupo com destino a El Paso m as antes até
que chegassem a sum ir de vista da cidade desviaram suas m ontarias trágicas para o oeste e seguiram
insensatos e m eio desatinados em direção ao térm ino verm elho daquele dia, em direção às terras crepusculares e
ao distante pandem ônio do sol.
XIV

TEMPESTADES NA MONTANHA — TIERRAS QUEMADAS, TIERRAS DESPOBLADAS — JESÚS


MARÍA — A ESTALAGEM — LOJISTAS — UMA BODEGA — O VIOLINISTA — O PADRE — LAS
ANIMAS — A PROCISSÃO — CAZANDO LAS ALMAS — GLANTON TEM UM ACESSO — CÃES
À VENDA — O JUIZ PRESTIDIGITADOR — A BANDEIRA — UM TIROTEIO — UM ÊXODO — A
CONDUCTA — SANGUE E MERCÚRIO — NO VAU — JACKSON RESGATADO — A SELVA —
UM HERBORISTA — O JUIZ COLETA ESPÉCIMES — A ABORDAGEM DE SEU TRABALHO
COMO CIENTISTA — URES — O POPULACHO — LOS PORDIOSEROS — UM FANDANGO —
CÃES PÁRIAS — GLANTON E JUIZ.

Por todo o norte a chuva arrancara gavinhas negras dos torreões de nuvens trovej antes com o traçados de negro de
fum o no fundo de um béquer e à noite puderam escutar o rufar da chuva a quilôm etros de distância na pradaria.
Subiram por um a garganta rochosa e relâm pagos delinearam as m ontanhas distantes e trem eluzentes e relâm
pagos vibraram sonoram ente as pedras em torno e penachos de fogo azulado agarravam -se aos cavalos com o
elem entais incandescentes im possíveis de espantar. Suaves halos de fundição avançavam sobre o m etal dos
arreios, luzes percorrendo azuis e líquidas os canos das arm as. Lebres enlouquecidas disparavam e paralisavam sob
o clarão azul e m uito acim a entre aqueles penhascos estrepitosos falcões em poleirados agachavam -se em suas
plum agens m osqueadas ou revelavam um olho am arelo aos estouros da trovoada sob seus pés.
Cavalgaram por dias em m eio à chuva e cavalgaram com chuva e granizo e depois com chuva outra vez.
Naquela luz cinzenta tem pestuosa cruzaram um a planície inundada com as form as dos cavalos em suas longas
patas refletidas na água entre nuvens e m ontanhas e os cavaleiros avançaram a custo com preensivelm ente céticos
quanto às cidades bruxuleantes na praia distante daquele m ar sobre o qual por m ilagre m archavam . Escalaram
ram pas ondulantes e relvadas onde passarinhos fugiram chilrando na direção do vento e um abutre se ergueu
pesadam ente por entre ossos com asas fazendo uup uup uup com o o brinquedo de um a criança pendurado em um
fio e no longo pôr do sol verm elho os lençóis líquidos na planície sob eles eram com o m arés de sangue prim
ordial.
Atravessaram um prado m ontanhoso atapetado de flores silvestres, acres de senécio dourado e zínias e gencianas
de um roxo profundo e trepadeiras com corolas azuis e um a vasta planície de pequenas flores variadas esparram
ando-se rum o à orla do m undo com o um gingham estam pado até as m ais longínquas serranias azuis de névoa e
as cordilheiras adam antinas que se erguiam do nada com o o dorso de m onstros m arinhos em um a aurora
devoniana. Chovia novam ente e cavalgavam recurvos sob im perm eáveis talhados de peles sebentas sem icuradas
e assim encapelados sob a chuva cinzenta e furiosa pareciam guardiães de um a seita obscura enviados a buscar
prosélitos entre as próprias feras da terra. O país adiante deles estendia-se envolto em nuvens e trevas.
Cavalgaram através do longo lusco-fusco e o sol se pôs e lua algum a se ergueu e a oeste as m ontanhas
estrem eceram um a vez depois outra e m ais outra em fotogram as fragorosos e arderam em um a escuridão final e
a chuva sibilou na terra noturna e cega. Subiram pelos contrafortes entre pinheiros e rocha nua e subiram entre j
uníperos e espruces e os raros agaves gigantes e as hastes proem inentes das iúcas com suas inflorescências pálidas
silentes e sobrenaturais entre as plantas perenes.
À noite acom panharam um a torrente de m ontanha em um a garganta furiosa estrangulada por rochas m usgosas
e cavalgaram sob grutas escuras onde a água gotej ava e espirrava e tinha gosto de ferro e viram filam entos
prateados de cascatas ram ificadas nas faces de buttes distantes que pareciam sinais e m ilagres no próprio firm am
ento de tão escuro o solo em suas bases. Atravessaram um bosque enegrecido pela queim ada e cavalgaram por um
a região de rocha fendida onde se viam enorm es m atacões partidos ao m eio com suaves rostos assim étricos e nos
aclives desses terrenos ferruginosos antigos cam inhos do fogo e os esqueletos enegrecidos de árvores destruídas
em tem pestades m ontanhosas. No dia seguinte com eçaram a deparar com azevinho e carvalho, florestas de m
adeira dura m uito parecidas com as que haviam abandonado em sua j uventude. Em bolsas nos aclives nortes o
granizo j azia aninhado com o tectitos entre as folhas e as noites eram frias. Viaj aram pelas terras altas e
penetraram fundo nas m ontanhas onde as tem pestades tinham seus covis, um a região ígnea de clangores onde
línguas de fogo brancas corriam pelos picos e o solo desprendia o cheiro de queim ado do sílex partido. À noite os
lobos nas florestas escuras do m undo sob eles cham avam -nos com o se fossem am igos do hom em e o cão de
Glanton trotava choram ingando entre as incansáveis articulações das pernas dos cavalos.
Nove dias após terem deixado Chihuahua passaram por um desfiladeiro nas m ontanhas e com eçaram a descer
por um a trilha talhada na m aciça face rochosa de um a escarpa trezentos m etros acim a das nuvens. Um im
enso m am ute de pedra os observava do cinzento paredão alcantilado acim a deles. Iam em fila indiana.
Atravessaram um túnel aberto na pedra e do outro lado quilôm etros sob eles em um a garganta avistaram os
telhados de um a cidade.
Desceram os sinuosos ziguezagues rochosos e cruzaram leitos de riachos onde pequenas trutas paravam em
suas barbatanas opacas e exam inavam os focinhos dos cavalos bebendo. Mantos de névoa com odor e gosto de m
etal ascendiam pela garganta e subiam além deles e seguiam se m ovendo através dos bosques. Instigaram os
cavalos pelo vau e pela vereda abaixo e às três da tarde sob um a garoa fina ingressaram na antiga cidade de
pedra de Jesús María.
Os cascos ecoavam pelo pavim ento m olhado coberto de folhas e atravessaram um a ponte de pedra e cavalgaram
pela rua sob os beirais gotej antes dos edifícios avarandados e ao longo de um a torrente de m ontanha que cruzava a
povoação. Partículas de m inério haviam se depositado entre as rochas polidas do rio e as colinas acim a da cidade
exibiam por toda a superfície túneis e andaim es e um a infinidade de galerias e pilhas de escória. A chegada da
choldra m ontada foi saudada aos uivos por alguns cachorros m olhados agachados nas soleiras e eles dobraram um
a rua estreita e pararam pingando diante da porta de um a estalagem .
Glanton socou a porta e ela foi aberta e um m enino olhou pela fresta. Um a m ulher apareceu e olhou para eles e
voltou a entrar. Finalm ente um hom em veio e abriu o portão. Estava ligeiram ente bêbado e segurou o portão
enquanto os hom ens a cavalo entravam um a um no pequeno pátio inundado e então ele fechou o portão a suas
costas.
Pela m anhã a chuva cessara e eles apareceram nas ruas, m altrapilhos, fedorentos, ornam entados com partes
hum anas com o canibais. Levavam as im ensas pistolas enfiadas nos cintos e as peles repugnantes que vestiam
estavam profundam ente m anchadas de sangue e fum aça e fuligem de pólvora. O sol saíra e as velhas aj oelhadas
com baldes e trapos esfregando as pedras diante das loj as viravam e os seguiam com o olhar e os donos arrum
ando suas m ercadorias acenavam com a cabeça um bom -dia cauteloso. Eram um a estranha clientela naquele com
ércio. Paravam piscando diante das entradas onde se expunham fringilídeos dentro de pequenas gaiolas de vim e e
papagaios de plum agem verde e brônzea que ficavam em um só pé e crocitavam desconfiados. Havia ristras de
frutas secas e de pim entas e punhados de panelas penduradas com o carrilhões e havia odres de couro de porco
cheios de pulque que pendiam das vigas com o suínos inchados num pátio de abatedouro. Pediram copos. Um
violinista apareceu e se agachou na soleira de pedra e em punhou seu arco e com eçou a tocar algum a m
elodia m ourisca e ninguém que passava por ali em seus afazeres m atinais conseguia tirar os olhos daqueles
gigantes pálidos asquerosos.
Perto do m eio-dia haviam encontrado um a bodega tocada por um hom em cham ado Frank Carroll, um a
espelunca de teto baixo em um antigo estábulo cuj as portas caídas perm aneciam abertas para a rua e adm itiam a
única luz am biente. O violinista os seguira no que parecia ser a m aior das tristezas e assum iu seu posto diante da
entrada onde podia assistir os estrangeiros beber e bater com seus dobrões de ouro sobre a m esa. Junto à porta
recostava-se um velho tom ando sol e ele se curvava com um a corneta acústica de chifre de bode colada ao ouvido
na direção da balbúrdia cada vez m aior ali dentro e balançava a cabeça em contínua aprovação em bora nem um a
única palavra fosse proferida em qualquer língua de que tivesse algum entendim ento.
O j uiz estivera observando o m úsico e o cham ou e atirou um a m oeda que tilintou sobre as pedras. O violinista
a ergueu brevem ente para a luz com o se pudesse ser falsa e depois sum iu com ela entre suas roupas e enfiou o
instrum ento sob o queixo e com eçou a tocar um a m elodia que j á era antiga entre os charlatães espanhóis
duzentos anos antes. O j uiz se dirigiu à porta ilum inada pelo sol e executou sobre as pedras um a série de passos
com um a estranha precisão e ele e o violinista pareciam m enestréis de outro m undo que se encontravam por
acaso naquele vilarej o m edieval. O j uiz tirou o chapéu e fez um a m esura a duas senhoras que haviam atravessado
a rua para evitar a espelunca e deu am plas piruetas com seus pezinhos afetados e entornou pulque de seu copo
dentro da corneta acústica do velho. O velho rapidam ente tam pou o chifre com a alm ofada do polegar e o segurou
com cuidado diante de si enquanto escavava o ouvido com um dedo e então ele bebeu.
Ao escurecer as ruas se encheram de lunáticos dipsôm anos cam baleando e praguej ando e tocando os sinos da
igrej a com tiros de pistolas em um charivari blasfem o até que o padre saiu brandindo perante si o Cristo
crucificado a exortá-los com fragm entos de latim em um cântico m onocórdio. Esse hom em foi espancado no m
eio da rua e cutucado obscenam ente e atiraram m oedas de ouro sobre ele conform e ficava caído agarrado a sua
im agem . Quando se pôs de pé desdenhou de pegar as m oedas até que uns m eninos correram para j untá-las e
então ele lhes ordenou que as trouxessem até ele enquanto os bárbaros apupavam e erguiam brindes em sua
hom enagem .
Os espectadores dispersaram , a rua estreita se esvaziou. Alguns dos am ericanos haviam m ergulhado nas águas
frias do regato e fizeram um pouco de algazarra e depois pingando subiram com dificuldade de volta à rua e ali
ficaram sinistros e vaporosos e apocalípticos sob a luz fraca dos lam piões. A noite estava fria e cam inharam
trôpegos e fum egantes pelo piso de pedra da cidade com o feras de contos de fada e então a chuva tornou a cair
m ais um a vez.
O dia seguinte era a festa de Las Anim as e havia um a procissão pelas ruas e um a carroça puxada a cavalo
levando um Cristo grosseiro em um catafalco velho e m anchado. Acólitos laicos iam atrás em um grupo e o
padre seguia na frente tocando um pequeno sino. Um a congregação de pés descalços e traj es negros m archava no
fim carregando cetros feitos de ram os. O Cristo sacolej ava ao passar, um a m iserável figura de palha com cabeça
e pés esculpidos. Usava um a coroa de sarças da m ontanha e em sua fronte haviam sido pintadas gotas de sangue e
em suas velhas m açãs de m adeira seca lágrim as azuladas. Os aldeães aj oelhavam e se benziam e alguns davam
um passo à frente e tocavam a veste da im agem e depois beij avam as pontas dos dedos. A procissão passou
arrastando-se pesarosam ente e crianças pequenas sentavam às portas com endo bolos de caveira e observando o
cortej o e a chuva nas ruas.
O j uiz sentava solitário na cantina. Ele tam bém observava a chuva, os olhos m iúdos no im enso rosto sem pelos.
Havia enchido os bolsos com docinhos de caveira e ficava j unto à porta oferecendo-os para crianças que passavam
na calçada sob os beirais m as elas se afastavam ariscas com o potrinhos.
Ao anoitecer grupos de m oradores desceram do cem itério na encosta da colina e m ais tarde no escuro à luz de
velas ou de candeeiros saíram outra vez e subiram até a igrej a para rezar. Não houve um que não passasse por
bandos de am ericanos ensandecidos pela bebida e os encardidos visitantes tiravam o chapéu estupidam ente e
oscilavam e sorriam fazendo insinuações obscenas para as j ovens. Carroll fechara sua baiuca sórdida ao
entardecer m as teve de abri-la novam ente para evitar que as portas fossem despedaçadas. Em algum m om ento
à noite um grupo de cavaleiros com destino à Califórnia chegou, todos prostrados de exaustão. E contudo dentro
de um a hora punham -se em m archa novam ente. Perto da m eia-noite quando as alm as dos m ortos ao que se
dizia saíam a peram bular os caçadores de escalpo estavam outra vez uivando nas ruas e descarregando suas
pistolas a despeito da chuva ou da m orte e isso continuou esporadicam ente até a aurora.
Próxim o ao m eridiano do dia seguinte Glanton em sua bebedeira foi tom ado por um a espécie de acesso e saiu
cam baleando enlouquecido e desgrenhado pelo pequeno pátio e com eçou a abrir fogo com suas pistolas. À tarde
viu-se am arrado a sua cam a com o um alienado com o j uiz sentado a seu lado refrescando sua testa com trapos
m olhados e lhe falando em voz baixa. Lá fora vozes gritavam pelas encostas íngrem es das colinas. Um a m
enina sum ira e grupos de m oradores saíam para procurar nos poços da m ina. Depois de algum tem po Glanton
dorm iu e o j uiz se levantou e saiu.
Estava cinza e chovendo, folhas caíam sopradas pelo vento. Um adolescente esfarrapado saiu por um a porta j
unto a um a calha de m adeira e cutucou o cotovelo do j uiz. Trazia dois filhotes sob o pano da cam isa e ofereceu-
os para venda, estendendo um pelo pescoço.
O j uiz olhava para o fim da rua. Quando baixou o rosto o rapaz puxou
o outro cachorro. Eles pendiam m olem ente. Perros a vender, disse.
Cuánto quieres? disse o j uiz.
O rapaz olhou para um anim al e depois para o outro. Com o se fosse escolher algum que se adequasse à
personalidade do j uiz, cães assim existindo em algum lugar, talvez. Ofereceu o anim al da m ão esquerda. Cincuenta
centavos, disse.
O filhote se contorceu e resistiu em sua m ão com o um anim al tentando sair de um buraco,
os olhinhos azuis pálidos im parciais, com m edo igualm ente do frio e da chuva e do j uiz.
Am bos, disse o j uiz. Vasculhou os bolsos à procura de m oedas.
O vendedor tom ou isso por um ardil para pechinchar e voltou a exam inar os cães a fim de determ inar m elhor o
preço, m as o j uiz desencavara de suas roupas im undas um a pequena m oeda de ouro que daria para com prar um
canil inteiro de cachorros daqueles. Ele depositou a m oeda na palm a da m ão e a estendeu e com a outra m ão tirou
os cãezinhos de seu dono, segurando-os no punho fechado com o um par de m eias. Fez um gesto com o ouro.
Andale, disse.
O rapaz fitava a m oeda de olhos arregalados.
O j uiz fechou o punho e o abriu. A m oeda sum ira. Gesticulou com os dedos no ar vazio e levou a m ão à orelha
do rapaz e fez sair de trás a m oeda e lhe deu. O rapaz segurou a m oeda com as duas m ãos diante de si com o um
pequeno cibório e ergueu o rosto para o j uiz. Mas o j uiz j á se fora, os cães a pender. Atravessou a ponte de pedra
até a m etade e parou fitando as águas caudalosas e ergueu os cães e os j ogou ali em baixo.
No extrem o oposto a ponte dava para um a ruela que acom panhava o rio. O vandiem enlander estava ali sobre
um a m ureta de pedra urinando dentro do rio. Quando viu o j uiz atirando os cãezinhos da ponte sacou a pistola e
cham ou.
Os cães desapareceram na espum a. Foram arrastados prim eiro um depois o outro por um a vasta corrente
esverdeada sobre superfícies de pedra polida até um pequeno represam ento m ais abaixo. O vandiem enlander
ergueu e engatilhou a pistola. Nas águas cristalinas do tanque folhas de salgueiro giravam com o carpas cor de j
ade. A pistola escoiceou em sua m ão e um dos cachorros pulou dentro d’água e ele engatilhou novam ente e
disparou novam ente e um a m ancha rósea aflorou. Engatilhou e disparou um a terceira vez e o outro cachorro tam
bém desabrochou e afundou.
O j uiz atravessou o restante da ponte. Quando o rapaz correu e olhou para a água ainda segurava a m oeda. O
vandiem enlander estava na rua do outro lado com o pau em um a m ão e o revólver na outra. A fum aça flutuara
correnteza abaixo e não se via coisa algum a no tanque.
Em algum m om ento no fim da tarde Glanton acordou e deu um j eito de se libertar de suas am arras. A prim
eira notícia que tiveram dele foi que estava diante do cuartel onde arrancou a bandeira m exicana com sua faca e a
am arrou ao rabo de um a m ula. Depois m ontou no anim al e o fustigou através da praça arrastando a bandera
sagrada na lam a atrás de si.
Fez um circuito pelas ruas e voltou a sair na plaza, chutando cruelm ente os flancos do anim al. Quando se virava
um tiro foi disparado e a m ula tom bou m orta sob ele com um a bala de m osquete aloj ada no cérebro. Glanton
rolou agilm ente e Ficou de pé atirando para todos os lados. Um a velha tom bou com um baque surdo nas pedras.
O j uiz e Tobin e Doc Irving saíram correndo do estabelecim ento de Frank Carroll e se agacharam à som bra de
um m uro e com eçaram a atirar contra as j anelas no alto. Mais m eia dúzia de am ericanos dobrou um a esquina no
extrem o oposto da praça e num a chuva de balas dois deles caíram . Pedaços de chum bo sibilavam ricocheteando
das pedras e a fum aça dos tiros pairava sobre as ruas no ar úm ido. Glanton e John Gunn haviam conseguido
avançar ao longo dos m uros até o barracão atrás da posada que servia de estábulo e com eçaram a puxar os
cavalos para fora. Mais três hom ens da com panhia entraram correndo no pátio e com eçaram a transportar os
aprestos para fora do prédio e a selar os cavalos. O fogo cruzado na rua agora era contínuo e dois am
ericanos tom baram m ortos e outros gritavam caídos. Quando a com panhia partiu trinta m inutos depois saíram sob
um corredor de tiros esporádicos de espingarda e pedras e garrafas e deixaram seis dos seus para trás.
Um a hora m ais tarde foram alcançados por Carroll e outro am ericano cham ado Sanford que estivera m orando
na cidade. O povo ateara fogo ao saloon. O padre batizara os am ericanos feridos e então dera um passo para trás
enquanto eram executados com um tiro na cabeça.
Antes do escurecer toparam com um a conducta de cento e vinte e duas m ulas subindo penosam ente a encosta
oeste da m ontanha carregando frascos de m ercúrio para as m inas. Dava para ouvir os estalos dos chicotes e os
gritos dos arrieros na estrada em ziguezague m uito abaixo deles e viam os anim ais esfalfados arrastando-se com o
cabras ao longo de um a falha no paredão de rocha pura. Má sorte. Vinte e seis dias desde o m ar e a m enos de
duas horas das m inas. As m ulas ofegavam e derrapavam no tálus e os condutores em seus traj es puídos e
coloridos instigavam -nas adiante. Quando o prim eiro deles viu os cavaleiros m ais acim a ele se endireitou nos
estribos e olhou para trás. A coluna de m ulas serpenteava trilha abaixo por m eio quilôm etro ou m ais e conform e
se aglom eravam e paravam havia seções do com boio visíveis em diferentes curvas do ziguezague abaixo, oito e
dez m ulas, de frente ora para cá, ora para lá, o rabo de cada anim al pelado com o osso ao ser roído pelo de
trás e o m ercúrio dentro dos frascos de guta-percha palpitando pesadam ente com o se as bestas carregassem
criaturas secretas, pares de anim ais que se agitavam e respiravam apreensivos no interior das m ochilas estufadas.
O m uleteiro virou e olhou a trilha acim a. Glanton j á estava sobre ele. O hom em saudou o am ericano cordialm
ente. Glanton passou direto e em silêncio, apossando-se do lado m ais alto daquele estreito rochoso e flanqueando a
m ula do recoveiro perigosam ente entre os xistos soltos. O rosto do outro se enevoou e ele virou e gritou para os
que vinham atrás pela trilha. Os dem ais cavaleiros passavam por ele agora em purrando-o, seus olhos estreitados e
seus rostos pretos com o de foguistas com a fuligem da pólvora. Ele desceu da m ula e puxou a escopeta de sob a
aba da sela. David Brown estava a sua frente a essa altura, a pistola j á na m ão no lado oposto do cavalo. Ele a
passou por cim a do cepilho e atingiu o hom em direto no peito. O suj eito caiu sentado pesadam ente e Brown
disparou outra vez e ele rolou pelas rochas rum o ao abism o.
O restante da com panhia m al se dera o trabalho de virar para ver o que acontecera. Atiravam todos à queim a-
roupa na direção dos m uleteiros. Estes caíam de suas m ontarias e ficavam sobre a trilha ou deslizavam pela
escarpa e desapareciam . Os condutores m ais abaixo haviam virado os anim ais e tentavam fugir de volta pela trilha
e as bestas sobrecarregadas com eçaram a escalar com olhos brancos arregalados a parede íngrem e do
despenhadeiro com o se fossem enorm es ratos. Os cavaleiros enfiavam -se entre elas e a rocha e m etodicam ente
as faziam despencar pela escarpa, os anim ais caindo em silêncio com o m ártires, girando estupefatos no ar vazio
e eclodindo nas pedras do fundo em assom brosas explosões de sangue e prata conform e os frascos se rom piam e
o m ercúrio aflorava trêm ulo no ar em enorm es lóbulos e lençóis e pequenos satélites oscilantes e com todas suas
form as se agrupando em baixo e correndo pelos arroios rochosos com o o vazam ento de algum a m atéria alquím
ica elem ental extraída por decocção das trevas secretas no coração da terra, o veado dos Antigos em fuga
desabalada pela encosta da m ontanha e brilhante e rápido pelas sendas secas dos canais de tem pestade am oldando-
se às cavidades na rocha e precipitando-se de saliência em saliência declive abaixo trem eluzente e ágil com o
enguias.
Os m uleteiros ganharam um a plataform a na trilha onde o precipício era quase transponível e avançaram e
caíram ruidosam ente sobre as ram agens de j uníperos e pinheiros atarracados em um a confusão de gritos
enquanto os cavaleiros tangiam as m ulas que haviam ficado para trás nessa m esm a direção e passaram
cavalgando furiosam ente pela trilha rochosa com o se fossem eles próprios hom ens à m ercê de algo terrível.
Carroll e Sanford haviam se separado da com panhia e quando chegaram à cornij a onde o últim o dos arrieros
desaparecera frearam os cavalos e se voltaram para olhar a trilha acim a. Estava vazia exceto por alguns hom ens m
ortos da conducta. Meia centena de m ulas fora precipitada pela escarpa e na curva do despenhadeiro puderam ver
as form as escangalhadas dos anim ais espalhadas pelas rochas e viram as form as prateadas do m ercúrio brilhando
em poças à luz crepuscular. Os cavalos pisotearam o chão e arquearam os pescoços. Os cavaleiros olharam lá em
baixo para o abism o calam itoso e olharam um para o outro m as nada havia a conversar e puxaram as rédeas dos
cavalos fazendo m eia-volta e os esporearam m ontanha abaixo.
Alcançaram a com panhia ao anoitecer. Os hom ens haviam desm ontado na m argem oposta de um rio e o kid e
um dos delawares estavam enxotando os cavalos espum osos para longe da beira d’água. Eles entraram com seus
anim ais pelo vau e atravessaram , a água batendo na barriga dos cavalos e os cavalos avançando cuidadosam ente
sobre as rochas e lançando olhares nervosos rio acim a onde um a catarata trovej ava saída de um a floresta escura
para dentro do tanque variegado e borbulhante abaixo. Quando term inaram de cruzar o vau e saíram do outro lado o
j uiz se adiantou e segurou o cavalo de Carroll pelo freio.
Onde está o preto? disse.
Ele olhou para o j uiz. Os olhos deles estavam quase no
m esm o nível e ele no dorso do cavalo. Não sei, disse.
O j uiz olhou para Glanton. Glanton cuspiu.
Quantos hom ens você viu na praça?
Não dava tem po de ficar contando. Que
eu saiba, tinha uns três ou quatro
baleados. Mas o preto não?
Ele eu não vi.
Sanford avançou com o cavalo. Não tinha preto nenhum na praça, disse. Vi que acertaram uns e os suj eitos eram tão
brancos quanto você e eu.
O j uiz soltou o cavalo de Carroll e foi buscar seu próprio anim al. Dois dos delawares se separaram da com
panhia. Quando tom aram a trilha estava quase escuro e a com panhia se em brenhara na m ata e pusera sentinelas
no vau e não fizeram fogueira.
Nenhum cavaleiro veio pela trilha. A noite de início estava escura m as a prim eira troca de guarda assistiu-a com
eçar a clarear e a lua apareceu acim a do cânion e viram um urso descer e parar no lado oposto do rio e experim
entar o ar com seu nariz e voltar. Perto do rom per do dia o j uiz e os delawares regressaram . O preto vinha com
eles. Estava nu a não ser por um cobertor com que se em brulhara. Não tinha sequer as botas. Montava um a das
m ulas de rabo de osso da conducta e trem ia de frio. A única coisa que conservara consigo era sua pistola.
Segurava-a contra o peito sob o cobertor pois não tinha nenhum outro lugar onde carregá-la.

O cam inho que descia pelas m ontanhas na direção do oceano a oeste conduziu-os por desfiladeiros verdes
sufocados de trepadeiras onde periquitos e araras coloridas os observavam e gritavam . A trilha acom panhava um
rio e suas águas estavam cheias e lam acentas e havia inúm eros baixios e eles atravessavam e tornavam a
atravessar o rio seguidam ente. Cascatas esbranquiçadas precipitavam -se dos paredões íngrem es da m ontanha
acim a, explodindo j unto à elevada rocha lisa em nuvens de vapores caóticos. Em oito dias não cruzaram com
nenhum outro viaj ante. No nono dia avistaram um velho tentando se afastar na trilha abaixo deles, vergastando um
par de burros para dentro da m ata. Quando chegaram nesse ponto fizeram alto e Glanton penetrou na m ata onde a
folhagem úm ida fora aberta e seguiu o rastro do velho sentado entre a vegetação solitário com o um gnom o. Os
burros ergueram o olhar e torceram as orelhas e então baixaram as cabeças para voltar a pastar. O velho o
observava.
Por qué se
esconde? disse
Glanton. O velho
não respondeu.
De dónde viene?
O velho parecia desinclinado a considerar sequer a ideia de um diálogo. Agachava-se entre as
folhas com os braços cruzados. Glanton se curvou e cuspiu. Apontou os burros com o queixo.
Qué tiene allá?
O velho deu de om bros. Hierbas, disse.
Glanton olhou para os anim ais e olhou para o velho.
Virou o cavalo na direção da trilha e foi se j untar ao
grupo. Por qué m e busca? exclam ou o velho atrás dele.
Seguiram em frente. Havia águias e outros pássaros no vale e m uitos veados e orquídeas silvestres e espessos
bam buzais. O rio ali era considerável e passava por im ensos m atacões e quedas-d’água brotavam por toda
parte da selva elevada e fechada. O j uiz agora passara a cavalgar à testa com um dos delawares e m antinha o rifle
carregado com as pequenas sem entes duras do fruto do nopal e ao anoitecer lim pava habilm ente os pássaros
coloridos que abatera, esfregando suas peles com pólvora e em palhando-os com bolas de capim seco para então
guardá-los em bolsas que levava consigo. Apertava as folhas de árvores e plantas em seu livro e tocaiava as
borboletas da m ontanha na ponta dos pés segurando a cam isa esticada com as duas m ãos, falando com elas aos
sussurros, não m enos um curioso obj eto de investigação ele próprio. Toadvine sentava observando-o enquanto
fazia suas anotações no caderninho, segurando o livro na direção do fogo em busca de luz, e perguntou qual era seu
propósito naquilo tudo.
A pena do j uiz parou de riscar. Olhou
para Toadvine. Então continuou a
escrever. Toadvine cuspiu no fogo.
O j uiz continuou a escrever e depois fechou o livro e o deixou de lado e j untou as m
ãos e passou-as sobre o nariz e a boca e pousou a palm a das m ãos sobre os j oelhos.
Tudo que existe, disse. Tudo que na criação existe sem m eu conhecim ento existe sem
m eu consentim ento.
Olhou em torno da floresta escura onde estavam bivacados. Apontou a cabeça na direção dos espécim es que
coletara. Essas criaturas anônim as, disse, talvez pareçam pequenas ou coisa nenhum a no m undo. Mas a m enor m
igalha pode nos devorar. Qualquer coisinha m inúscula debaixo dessa pedra aí que não sej a do conhecim ento do
hom em . Só a natureza pode escravizar o hom em e só quando a existência da últim a entidade tiver sido
desencavada e exposta diante dele é que ele se tornará do m odo apropriado o suserano da terra.
O que é suserano?
Um guardião. Um
guardião ou senhor.
Por que não diz
guardião então?
Porque ele é um tipo especial de guardião. Um suserano governa até onde
há outros governantes. Sua autoridade revoga qualquer deliberação local.
Toadvine cuspiu.
O j uiz pôs as m ãos no chão. Olhou para seu inquiridor. Isso é o que reivindico, disse. E contudo por toda parte
existem bolsas de vida autônom a. Autônom a. Para que isso possa ser m eu nada deve ter perm issão de acontecer
sobre ela a não ser por m inha determ inação.
Toadvine sentou com as botas cruzadas diante do fogo. Hom em nenhum pode tom ar conhecim ento de tudo que existe
sobre a terra, disse.
O j uiz inclinou a enorm e cabeça. O hom em que acredita que os segredos do m undo estão escondidos para sem
pre vive em m istério e m edo. A superstição o arrasta para o fundo. A erosão da chuva vai apagar os feitos de sua
vida. Mas o hom em que im põe a si m esm o a tarefa de descoser o fio que ordena a tapeçaria terá m ediante a m
era decisão assum ido o com ando do m undo e é som ente assum indo o com ando que levará a efeito um m odo de
ditar os term os de seu próprio destino.
Não vej o o que isso tem a ver com pegar passarinho.
A liberdade dos pássaros m e insulta.
Por m im estavam todos num
zoológico. Ia ser um diabo de um
zoológico.
O j uiz sorriu. É, disse. Que sej a.
À noite um a caravana passou, as cabeças dos cavalos e m ulas em buçadas em sarapes, conduzidos
silenciosam ente na escuridão, os cavaleiros acautelando-se uns aos outros com os dedos nos lábios. O j uiz sobre
um im enso m atacão dando para a trilha observou sua passagem .
Pela m anhã retom aram a m archa. Vadearam o lam acento rio Yaqui e cavalgaram por cam pos de girassóis que
atingiam a altura de um hom em a cavalo, os discos inertes voltados para oeste. O território com eçava a se
descortinar e com eçaram a encontrar plantações de m ilho nas encostas das colinas e algum as clareiras na região
selvagem onde se erguiam cabanas colm adas e pés de laranj a e tam arindo. De hum anos nem sinal. No dia dois
de dezem bro do ano de m il oitocentos e quarenta e nove adentraram a cidade de Ures, capital do estado de Sonora.
Nem bem haviam trotado por m etade do vilarej o e j á arrastavam atrás de si um séquito de escum alha sem
paralelo em variedade e sordidez com qualquer outro com que j á houvessem cruzado, m endigos e procuradores
de m endigos e prostitutas e cafetões e vendedores e crianças im undas e delegações com pletas de cegos e aleij
ados e pedintes im portunos todos choram ingando por dios e alguns iam a cavalinho nas costas de outros e os
im peliam adiante e grande núm ero de gente de todas as idades e condições que estava m eram ente curiosa.
Mulheres de fam a local observavam ociosam ente de balcões por onde eles passavam com os rostos m aquiados de
índigo e alm agre espalhafatosos com o os traseiros de m acacos e espiavam por trás de seus leques com um a
espécie de tim idez ostensiva com o se fossem travestis em um m anicôm io. O j uiz e Glanton cavalgavam à testa da
pequena coluna e conferenciavam entre si. Os cavalos galopavam a cânter nervosam ente e quando os cavaleiros
esporeavam um a m ão ocasional que agarrava o j aez de suas m ontarias essas m ãos se recolhiam em silêncio.
Pousaram essa noite em um a hospedaria na periferia da cidade dirigida por um alem ão que deixou o
estabelecim ento a seu inteiro dispor e não m ais foi visto nem para servi-los nem para receber pagam ento.
Glanton andou pelos quartos altos e em poeirados com seus tetos de vim e e finalm ente encontrou um a velha
criada apavorada no que deveria ser um a cozinha em bora não contivesse nenhum obj eto culinário salvo um
braseiro e alguns potes de cerâm ica. Ordenou que com eçasse a trabalhar aquecendo água para os banhos e enfiou
um punhado de m oedas de prata em sua m ão e encarregou-a de lhes preparar um a refeição de algum tipo. Ela
arregalou os
olhos para as m oedas sem se m over até ser enxotada dali e se afastou pelo corredor segurando as m oedas nas m
ãos em concha com o se fosse um passarinho. Subiu a escada e desapareceu gritando para alguém e logo várias
m ulheres andavam atarefadas pelo lugar.
Quando Glanton virou para voltar ao saguão de entrada viu quatro ou cinco cavalos que haviam entrado. Fez com
que saíssem da frente com seu chapéu e foi até a porta e então fitou a m ultidão silenciosa de espectadores lá
fora.
Mozos de cuadra, cham ou. Venga. Pronto.
Dois m eninos abriram cam inho e se aproxim aram da porta e um certo núm ero m ais veio atrás. Glanton
gesticulou para que o m ais alto deles se adiantasse e pôs a m ão no alto de sua cabeça e o girou e exam inou os
outros. Este hom bre es el j efe, disse. O j efe perm aneceu im óvel e solene, olhos inquietos em torno. Glanton o
girou novam ente pela cabeça e olhou para ele.
Te encargo todo,
entiendes? Caballos,
sillas, todo. Sí. Entiendo.
Bueno. Andale. Hay caballos en la casa.
O j efe virou e gritou os nom es dos am igos e m eia dúzia se adiantou e todos entraram no prédio. Quando
Glanton passou pelo saguão estavam conduzindo os anim ais — notórios assassinos de hom ens, alguns deles — na
direção da porta, ralhando, o m enor dos garotos pouco m ais alto que as pernas do anim al que tom ara a seu
encargo. Glanton tornou aos fundos do prédio e procurou pelo ex-padre, a quem se com prazia em m andar buscar
prostitutas e bebida, m as não o pôde encontrar. Tentando pensar em em issários cuj o m ero regresso fosse m inim
am ente razoável de se esperar decidiu-se por Doc Irving e Shelby e lhes deu um punhado de m oedas e foi de
novo à cozinha.
À noite havia m eia dúzia de cabritos assando em espetos no pátio atrás da hospedaria, suas silhuetas enegrecidas
reluzindo sob a luz enfum açada. O j uiz passeava pelo terreno em seu terno de linho e coordenava os cozinheiros m
eneando o charuto e ele por sua vez era seguido por um a banda de cordas de seis m úsicos, todos eles velhos, todos
sérios, que o acom panhavam aonde quer que fosse sem pre resguardando cerca de três passos de distância e o tem
po todo tocando. Um odre de pulque pendia de um tripé no centro do pátio e Irving regressara com algo entre
vinte e trinta prostitutas de todas as idades e tam anhos e apareceram estacionados diante da porta do prédio
verdadeiros com boios de carroções e carrinhos de m ão cuidados por vivandeiros im provisados apregoando
cada um sua lista de itens e cercados por um público inquieto de m oradores e dúzias de cavalos sem iam
ansados para vender que em pinavam e relinchavam e um gado de aspecto tão deplorável quanto as ovelhas e os
porcos todos com seus donos até que a cidade da qual Glanton e o j uiz haviam esperado se livrar encontrava-se
quase inteira a sua porta em um carnaval com prom etido com aquele clim a de festividade e feiura crescente tão
com um aos aj untam entos naquelas paragens do m undo. A fogueira no pátio fora atiçada a tal altura que da rua
todo o fundo do prédio parecia arder em cham as e novos com erciantes com seus artigos e novos espectadores não
paravam de chegar j unto com grupos taciturnos de índios y aqui vestindo tangas que vinham oferecer a força de
seus braços.
À m eia-noite havia fogueiras na rua e danças e bebedeiras e a casa ressoava com os gritos agudos das prostitutas
e m atilhas de cães rivais haviam se infiltrado no pátio agora enfum açado e parcialm ente às escuras onde irrom
peu um a horrível briga por causa das ossadas torradas dos cabritos e onde o prim eiro tiroteio da noite estourou e os
cães feridos uivaram e se arrastaram em torno até Glanton sair pessoalm ente para m atá-los com sua faca, um a
cena fantasm agórica à luz oscilante, os cães feridos em silêncio exceto pelo entrechocar de seus dentes,
arrastando-se no chão com o focas ou outras criaturas e encolhendo-se j unto às paredes enquanto Glanton cam
inhava de um em um e abria seus crânios com a im ensa faca guarnecida de cobre que levava no cinto. Nem bem
entrara de volta pelos fundos da casa e outros cachorros j á rosnavam perto dos espetos.
Nas derradeiras horas da m adrugada a m aioria das lam parinas no albergue se apagara e os quartos estavam
cheios de bêbados roncando. Os vivandeiros e seus carrinhos haviam sum ido e os círculos enegrecidos das
fogueiras extintas eram com o crateras de bom bas, as achas de lenha fum egantes arrastadas para alim entar um a
últim a fogueira rem anescente em torno da qual sentavam velhos e m eninos fum ando e contando casos. Quando
as m ontanhas a leste com eçaram a se delinear contra a aurora estes tam bém foram em bora. No pátio dos
fundos do estabelecim ento os cães sobreviventes haviam espalhado ossos por todos os lados e os cachorros m
ortos j aziam em cascalhos escuros de seu próprio sangue seco no pó da terra e galos haviam com eçado a cantar.
Quando o j uiz e Glanton apareceram na porta da frente em seus ternos, o j uiz de branco e Glanton de preto, a
única pessoa por perto era um dos pequenos cavalariços adorm ecido nos degraus.
Joven, disse o j uiz.
O m enino ficou
de pé num pulo.
Eres m ozo del
caballado?
Sí señor. A su servicio.
Nuestros caballos, disse. Ia descrever os anim ais m as o m enino j á disparara.
Fazia frio e um vento soprava. O sol não nascera. O j uiz esperou nos degraus e Glanton cam inhava de um lado
para outro exam inando o chão. Em dez m inutos o m enino e m ais um apareceram conduzindo dois cavalos selados
e escovados em um trote elegante pela rua, os m eninos correndo a toda, descalços, o bafej ar dos cavalos em nuvens
visíveis e suas cabeças sacudindo vigorosam ente de um lado a outro.
XV

UM NOVO CONTRATO — SLOAT — O MASSACRE NO NACOZARI — ENCONTRO COM ELIAS


— PERSEGUIDOS NO RUMO NORTE — UM SORTEIO — SHELBY E O KID — UM CAVALO
MANCO — UMA NORTADA — UMA EMBOSCADA — FUGA — GUERRA NAS PLANÍCIES —
UMA DESCIDA — A ÁRVORE EM CHAMAS — NO RASTRO — OS TROFÉUS — O KID SE
REÚNE COM SUA UNIDADE — O JUIZ — UM SACRIFÍCIO NO DESERTO — OS BATEDORES
NÃO REGRESSAM — O OGDOAD — SANTA CRUZ — A MILÍCIA — NEVE — UM HOSPÍCIO —
O ESTÁBULO.

No dia cinco de dezem bro tom aram o rum o norte sob a escuridão fria que precedia o raiar do dia levando consigo
um contrato assinado pelo governador do estado de Sonora para o fornecim ento de escalpos apaches. As ruas
estavam silenciosas e vazias. Carroll e Sanford haviam desertado da com panhia e com eles agora ia um rapaz de
nom e Sloat que adoecera e fora deixado para m orrer naquele lugar por um a das caravanas do ouro com destino à
costa sem anas antes. Quando Glanton perguntou a ele se era aparentado ao com odoro de m esm o nom e o rapaz
cuspiu tranquilam ente e disse Não, nem ele com igo. Cavalgava à testa da coluna e j á devia estar se vendo bem
longe daquele lugar m as se deu graças a algum deus ele o fez antes do tem po pois aquela terra ainda tinha contas a
aj ustar com sua pessoa.
Seguiram rum o norte pelo vasto deserto de Sonora e naquela vastidão cauterizada vagaram a esm o por sem anas
perseguindo rum ores e som bras. Uns poucos bandos dispersos de salteadores chiricahuas supostam ente avistados
por criadores de gado em algum rancho m iserável e desolado. Uns peões em boscados e trucidados. Duas sem anas
depois m assacraram um pueblo no rio Nacozari e dois dias depois quando m archavam na direção de Ures com os
escalpos encontraram um destacam ento arm ado da cavalaria de Sonora nas planícies a oeste de Baviácora sob o
com ando do general Elias. Ao travar com bate para fugir três m em bros do grupo de Glanton foram m ortos e m
ais sete ficaram feridos, quatro deles sem condições de cavalgar.
Nessa noite puderam ver as fogueiras do exército a m enos de quinze quilôm etros ao sul. Passaram a noite no
escuro e os feridos pediam água e na quietude fria de antes da aurora as fogueiras ao longe ainda ardiam . Ao nascer
do sol os delawares entraram no acam pam ento e se acom odaram no chão j unto a Glanton e Brown e o j uiz. Sob a
luz levantina as fogueiras na planície se desvaneceram com o um sonho ruim e a paisagem da região se revelou
cintilante e árida sob o ar puro. Elias se pusera em m ovim ento na direção deles com m ais de quinhentos soldados.
Levantaram e com eçaram a selar os cavalos. Glanton abaixou e apanhou um a alj ava feita de pele de ocelote e
separou as flechas dentro dela de m odo que houvesse um a para cada hom em e rasgou um pedaço de flanela verm
elha em tiras e as am arrou na base da haste de quatro delas e depois voltou a guardar as flechas separadas dentro da
alj ava.
Sentou no chão com a alj ava de pé entre os j oelhos enquanto a com panhia passava em fila. Quando o kid
escolhia entre as hastes para puxar um a viu o j uiz olhando para ele e parou. Olhou para Glanton. Tirou a m ão da
seta que escolhera e escolheu outra e foi esta que ele puxou. Tinha a borla verm elha. Olhou para o j uiz outra vez e
o j uiz não estava olhando e foi em frente e tom ou seu lugar com Tate e Webster. Por últim o se j untou a eles um
texano de nom e Harlan que puxara a últim a flecha e os quatro esperaram j untos enquanto o restante selava os
cavalos e os conduziam dali.
Dos feridos dois eram delawares e um m exicano. O quarto era Dick Shelby e ficou sozinho assistindo aos
preparativos da partida. Os delawares rem anescentes na com panhia conferenciaram entre si e um deles se
aproxim ou dos quatro am ericanos e estudou um por um . Passou cam inhando por eles e fez m eia-volta e tom ou a
flecha de Webster. Webster olhou para Glanton parado com seu cavalo. Depois o delaware tom ou a flecha de
Harlan. Glanton virou e com a testa apoiada nas costelas do cavalo apertou a cilha e depois m ontou. Aj eitou o
chapéu. Ninguém falou. Harlan e Webster foram buscar seus anim ais. Glanton perm aneceu sentado sobre a sela
enquanto a com panhia passava em fila e então virou e seguiu os dem ais pela planície.
O delaware fora buscar seu cavalo e o trouxe ainda preso à peia através do terreno arenoso revolvido onde os hom
ens haviam dorm ido. Dos índios feridos um estava em silêncio, respirando pesadam ente com os olhos fechados. O
outro cantava ritm icam ente. O delaware deixou cair as rédeas e tirou sua clava de guerra de dentro da bolsa e parou
diante dele abrindo as pernas para se firm ar e ergueu a clava e esm agou sua cabeça num único golpe. O hom em se
dobrou com um pequeno espasm o e estrem eceu e ficou im óvel. O outro foi despachado da m esm a form a e então
o delaware ergueu a perna do cavalo e desfez a m aniota e liberou a perna e ficou de pé e guardou a corda e a clava
na bolsa e m ontou e virou o cavalo. Olhou para os dois hom ens de pé. Seu rosto e seu peito estavam respingados de
sangue. Cutucou o cavalo com os calcanhares e partiu.
Tate se acocorou na areia, as m ãos pendentes
diante do corpo. Virou e olhou para o kid.
Quem cuida do m exicano? disse.
O kid não respondeu. Olharam para Shelby. Ele os observava.
Tate segurava um punhado de seixos na m ão e soltava
as pedrinhas na areia um a por um a. Olhou para o kid.
Vai em bora se quiser, disse o kid.
Ele olhou para os delawares m ortos em seus
cobertores. Pode ser que você não faça, ele
disse. Isso não é problem a seu.
Glanton
pode
voltar.
Pode ser.
Tate olhou para o lugar onde o m exicano estava deitado e
voltou a olhar para o kid. Ainda é m inha obrigação, disse.
O kid não respondeu.
Você sabe o que eles
vão fazer com eles?
O kid cuspiu. Im
agino, disse.
Não im agina não.
Eu disse que você pode ir. Faz o que você quiser.
Tate se ergueu e olhou para o sul m as o deserto nessa direção estendia-se em toda sua claridade desabitado de
quaisquer exércitos em aproxim ação. Encolheu os om bros contra o frio. Inj ins, disse. Pra eles isso não significa
nada. Atravessou o acam pam ento e voltou com seu cavalo e o aprestou e m ontou. Olhou para o m exicano
ofegando fracam ente, um a espum a rósea em seus lábios. Olhou para o kid e então cutucou o pônei através das
esparsas acácias e partiu.
O kid sentou na areia e ficou olhando para o sul. O m exicano tinha os pulm ões perfurados e m orreria de um j
eito ou de outro m as Shelby estava com o quadril fraturado por um a bala e perm anecia lúcido. Ele olhava para o
kid. Era de um a fam ília proem inente do Kentucky e frequentara o Transy lvania College e com o tantos outros j
ovens de sua condição fora para o oeste por causa de um a m ulher. Observava o kid e observava o gigantesco sol
em poleirado em ebulição na m argem do deserto. Qualquer ladrão de diligências ou j ogador saberia que o prim
eiro a falar sairia derrotado m as Shelby j á não tinha m ais nada a perder.
Por que não vai em frente e
acaba logo com isso? disse.
O kid olhou para ele.
Se eu tivesse um a arm a
acabava com você, disse
Shelby. O kid não respondeu.
Sabe que sim , não sabe?
Mas você não tem um a arm a, disse o kid.
Voltou a olhar para o sul. Algo se m ovia, talvez as prim eiras ondas de calor. Não se via
poeira algum a tão cedo na m anhã. Quando olhou para Shelby outra vez Shelby estava
chorando. Você não vai m e agradecer se eu largar você aqui, disse.
Então anda logo seu filho da puta.
O kid não se m oveu. Um vento fraco soprava do norte e alguns pom
bos haviam com eçado a arrulhar na m oita de greasewood atrás deles.
Se quiser eu vou em bora e deixo você aí.
Shelby não respondeu.
Ele fez um sulco na areia com o
calcanhar da bota. Você é quem
diz. Me deixa um a arm a?
Sabe que não posso
deixar arm a nenhum
a. Você não é m elhor
que ele. É?
O kid não
respondeu.
E se ele
voltar.
Gla
nton
. É.
E se
voltar.
Vai m
em
atar.
Não ia m udar
grande coisa pra
você. Seu filho da
puta.
O kid ficou de pé.
Não quer m e
esconder?
Esconder você?
É.
O kid cuspiu. Não dá pra
esconder. Onde você vai se
esconder? Ele vai voltar?
Sei lá.
Que lugar m ais
horrível pra m
orrer. Qual lugar é
bom ?
Shelby lim pou os olhos com o
dorso do pulso. Dá pra ver eles?
disse. Ainda não.
Você m e põe debaixo daquele arbusto?
O kid virou e olhou para ele. Voltou a fitar as lonj uras austrais e então cruzou a bacia e se agachou atrás de
Shelby e passou os braços sob ele e o ergueu. A cabeça de Shelby pendeu para trás e ele olhou para o alto e então
agarrou a coronha da pistola do kid enfiada em seu cinto. O kid segurou seu braço. Pôs o outro de volta no chão e
recuou e o soltou. Quando voltou pela bacia conduzindo o cavalo o hom em estava chorando de novo. Tirou a
pistola do cinto e a enfiou entre seus pertences am arrados ao cepilho e pegou seu cantil e foi até ele.
Havia virado o rosto. O kid encheu o cantil dele com o seu e o arrolhou com o tam pão
pendurado em um a correia e apertou com o canto da m unheca. Então ficou de pé e olhou para
o sul. Lá vêm eles, disse.
Shelby soergueu-se apoiado em um cotovelo.
O kid olhou para ele e olhou para o agrupam ento tênue e inform e ao longo do horizonte ao sul. Shelby deitou de
volta. Tinha os olhos fixos no céu. Nuvens escuras se aproxim avam do norte e o vento soprava com m ais força.
Um punhado de folhas veio rolando dos arbustos de salgueiros na orla da areia e depois rolou de volta à m oita.
O kid foi até o cavalo do outro lado e apanhou a pistola e a enfiou em seu cinto e pendurou o cantil na m
açaneta da sela e m ontou e virou para olhar o hom em ferido. Então partiu.
Trotava para o norte na planície quando avistou outro cavaleiro nas redondezas à sua frente talvez a um quilôm etro
e m eio de distância. Não conseguiu distingui-lo bem e seguiu m ais devagar. Após algum tem po pôde ver que o
cavaleiro conduzia o cavalo a pé e após algum tem po viu que o cavalo não andava direito.
Era Tate. Ele sentou na beira do cam inho e ficou observando o kid se aproxim ar. O cavalo se apoiava em três
pernas. Tate não disse nada. Tirou o chapéu e olhou ali dentro e tornou a enfiá-lo. O kid estava virado na sela e
olhava para o sul. Então olhou para Tate.
Ele
consegue
andar?
Mais ou m
enos.
Apeou e ergueu a pata do cavalo. A ranilha estava fendida e sangrando e a espádua do anim al trem ia. Baixou o
casco no chão. O sol se elevara cerca de duas horas no céu e agora se via poeira no horizonte. Ele olhou para Tate.
O que quer fazer?
Sei lá. Andar com ele um
pouco. Ver com o se sai.
Não vai aguentar.
Já sei.
A gente podia
revezar no m
eu. Ou você
pode seguir em
frente. De um j
eito ou de outro
eu vou.
Tate o encarou. Vai
em bora se quiser,
disse. O kid cuspiu.
Vam os, disse.
Odeio largar a sela. Odeio largar o cavalo tam bém por pior que estej a.
O kid apanhou as rédeas de seu cavalo no chão. É capaz de você m udar de ideia sobre o que odeia largar, disse.
Puseram -se em m archa conduzindo os dois cavalos. O anim al ferido tentava parar a todo m om ento. Tate o incitava
de m odo afetuoso. Vam os, seu palerm a, disse. Não vai gostar daqueles negroides tanto quanto eu.
Ao m eio-dia o sol era um borrão pálido acim a de suas cabeças e um vento frio soprava do norte. Hom em e
anim al curvavam -se contra ele. O vento os espicaçava com grãos de areia e baixaram os chapéus para proteger o
rosto e foram em frente. Mato seco do deserto passava por eles j unto com as tum ultuosas areias m igrantes. Um a
hora depois não havia rastro visível do grupo principal de cavaleiros diante deles. O céu era cinza e uniform e em
todas as direções em que seus olhares alcançavam e o vento não am ainava. Após algum tem po com eçou a nevar.
O kid havia desam arrado a m anta e se enrolara com ela. Virou e ficou de costas para o vento e o cavalo se
curvou e encostou a cabeça em seu rosto. Havia gelo nos cílios do anim al. Quando Tate se aproxim ou ele parou e
ficaram olhando na direção do vento para onde a neve era soprada. Não podiam enxergar m ais do que uns poucos
passos.
Parece o inferno, ele disse.
Seu cavalo não consegue achar o cam inho?
Diacho, não. Mal consigo fazer ele
continuar acom panhando a gente.
Se a gente perder o rum o pode dar
de cara com os espanhóis.
Nunca vi ficar
tão frio tão
rápido. O que
você quer fazer.
Melhor continuar andando.
A gente podia tentar chegar num terreno m ais elevado. Contanto que a
gente continue a subir vai saber que não está andando em um círculo.
A gente vai ficar pra trás. Nunca vam os achar o Glanton.
Pra trás a gente j á está.
Tate virou e lançou um olhar desanim ado na direção norte de onde os flocos eram soprados rodopiando. Vam os
andando, disse. A gente não pode continuar aqui.
Seguiram conduzindo os cavalos. O chão j á estava branco. Revezavam m ontando no cavalo bom e puxando o
m anco. Subiram durante horas por um longo leito rochoso e a neve não arrefeceu. Com eçaram a percorrer um
trecho de piñon e carvalho anão e cam po aberto e a neve nesses prados elevados logo chegava a um pé de
profundidade e os cavalos bufavam e bafej avam com o m arias-fum aças e tanto o frio com o a escuridão eram
cada vez m ais intensos.
Estavam em brulhados em seus cobertores e dorm indo na neve quando os batedores da guarda avançada de Elias
os encontraram . Haviam cavalgado a noite toda atrás da única trilha existente, forçando a m archa para não perder
de vista as depressões rasas que se enchiam de neve. Eram em cinco e se aproxim aram por entre as plantas
perenes no escuro e quase tropeçaram nos hom ens adorm ecidos, dois calom bos na neve, um deles eclodindo e
repentinam ente revelando um a figura sentada com o um a terrível incubação.
A neve cessara. O kid pôde ver os soldados e seus anim ais claram ente naquele terreno branco, os hom ens em
plena passada e os cavalos soprando no ar frio. Estava com as botas em um a m ão e a pistola na outra e saltou do
cobertor e ergueu a pistola e a descarregou no peito do hom em m ais próxim o e virou-se para correr. Seu pé
derrapou e caiu sobre um j oelho. Um m osquete disparou atrás dele. Voltou a se erguer, descendo a toda um a
clareira ensom brecida de piñones e correndo ao longo da face da encosta. Houve outros tiros atrás dele e quando se
virou pôde ver um hom em descendo em m eio às árvores. O hom em parou e ergueu os cotovelos e o kid se atirou
de bruços. A bala do m osquete passou triscando entre os galhos. Ele rolou para o lado e engatilhou a pistola. Devia
estar entupida de neve porque quando disparou um aro de luz laranj a espirrou em volta do cano e o tiro fez um
som esquisito. Apalpou para ver se a arm a havia estourado m as não. Não conseguia m ais avistar o outro e se
ergueu e saiu correndo. No sopé da encosta sentou ofegante sob o ar gelado e calçou as botas e olhou para trás por
entre as árvores. Nada se m ovia. Ergueu-se e enfiou a pistola no cinto e foi em frente.

Quando o sol nasceu estava agachado sob um prom ontório rochoso fitando a paisagem ao sul. Ficou ali por um a
hora ou m ais. Um bando de veados subiu se alim entando pelo extrem o oposto do arroio e se alim entando seguiu
adiante. Após algum tem po ele ficou de pé e seguiu ao longo da aresta.
Cam inhou o dia todo por aquelas regiões m ontanhosas e bravias, com endo punhados de neve dos ram os das
árvores perenes conform e avançava. Seguiu trilhas de anim ais em m eio aos abetos e quando anoitecia m archou
ao longo da borda de onde avistava o deserto inclinado a sudoeste m anchado de trechos de neve que reproduziam
vagam ente os padrões da cobertura de nuvens j á se m ovendo para o sul. O gelo endurecera nas rochas e a
m iríade de pingentes nas coníferas cintilava verm elho-sangue refletindo a luz crepuscular que se difundia através
da pradaria a oeste. Sentou recostado contra um a pedra e sentiu o calor do sol no rosto e o ficou observando
ganhar volum e e fulgurar e se exaurir arrastando consigo todos aqueles rosas e verm elhos e escarlates do céu. Um
vento gelado com eçou a soprar e os j uníperos na neve escureceram de repente e então tudo foi quietude e frio.
Ele ficou em pé e se pôs em m archa, apressando-se ao longo das rochas xistosas. Cam inhou a noite toda. O
curso das estrelas seguiu em seu arco anti-horário e a Ursa Maior girou e as Plêiades cintilaram no teto da
abóbada. Cam inhou até os dedos de seus pés ficarem m ais e m ais dorm entes e ressoarem com o um verdadeiro
chocalho dentro das botas. Seu traj eto pela borda o conduzia cada vez m ais profundam ente nas m ontanhas ao
longo da beirada de um a enorm e garganta e ele não via lugar algum por onde descer e sair daquelas alturas. Sentou
e tirou as botas com esforço e segurou os pés congelados um de cada vez entre os braços. Não conseguiu aquecê-los
e seu queixo convulsionava de frio e quando tentou calçar as botas outra vez seus pés eram com o duas m aças que
tentava enfiar ali dentro. Assim que enfiou as botas e se levantou e pisou sem sentir os pés ele se deu conta de que
não poderia m ais parar até o sol nascer.
O frio aum entou e a noite se estendia longam ente diante dele. Continuou em m ovim ento, seguindo na escuridão
pelos espinhaços rochosos despidos de neve pelo vento. As estrelas ardiam com um a fixidez desvelada e ao longo
da noite foram ficando m ais próxim as até que pouco antes do alvorecer ele cam inhava tropegam ente por penedos
diabásicos em um a crista às portas do firm am ento, um a extensão de rocha nua tão envolta naquela m orada
cintilante que as estrelas flutuavam esparram adas a seus pés e fragm entos m igratórios de m atéria em com bustão
passavam ininterruptam ente a sua volta em rotas não m apeáveis. Na luz que precede a aurora ele enveredou por
um prom ontório e aí recebeu antes de qualquer outra criatura naquelas paragens o calor do sol que se erguia.
Adorm eceu enrodilhado entre as pedras, a pistola aninhada no peito. Seus pés degelaram e queim aram e ele
acordou e ficou olhando para o céu azul de porcelana onde m uito elevados dois falcões-negros circulavam
vagarosam ente em torno do sol num a perfeita oposição com o pássaros de papel presos a um eixo.
Seguiu para o norte o dia todo e na alongada luz do anoitecer avistou daquela elevada aresta a colisão de exércitos
rem otos e silenciosos na planície abaixo. Os pequenos cavalos negros circulavam e a paisagem m udava à luz
em baciada e as m ontanhas m ais além avultavam em silhuetas escuras. Os cavaleiros distantes galopavam e se
evadiam e um débil fiapo de fum aça passou acim a deles e m overam -se adiante na direção das som bras cada vez
m ais profundas do leito do vale deixando atrás de si as form as de hom ens m ortais que haviam perdido suas vidas
naquele lugar. Assistiu a tudo aquilo passar m udo e ordenado e inapreensível sob seus olhos até que os com
batentes a cavalo houvessem sum ido no súbito véu de trevas que se abateu sobre o deserto. Toda aquela terra se
tornou fria e azul e indistinta e o sol brilhava apenas nas rochas elevadas onde estava. Continuou andando e logo
se viu ele tam bém m ergulhado na escuridão e o vento veio subindo pelo deserto e ram ificadas fiações de raios se
recortavam seguidam ente ao longo do extrem o oeste do m undo. Abriu cam inho através da escarpa até chegar a
um a fissura no paredão cortada por um cânion que penetrava de volta nas m ontanhas. Ficou observando esse abism
o onde as copas da vegetação perene retorcida sibilavam ao vento e então com eçou a descida.
A neve se depositava em profundas bolsas na encosta e ele descia afundando os pés e se equilibrando apoiado nas
rochas nuas até suas m ãos ficarem adorm ecidas de frio. Atravessou cuidadosam ente um declive de cascalho e
desceu pelo lado oposto entre pedregulhos e arvoretas retorcidas. Caía e voltava a cair, lutando para achar um
ponto de apoio na escuridão, erguendo-se e tateando o cinto para sentir a pistola. Nessa labuta passou toda a
noite. Quando atingiu um a área de plataform a acim a do leito do cânion ouviu um regato correndo no desfiladeiro
abaixo dele e seguiu tropeçando com as m ãos sob as axilas com o o fugitivo de um m anicôm io em um a cam isa
de força. Chegou a um leito seco arenoso e desceu por ele e assim finalm ente se viu outra vez no deserto onde
ficou tiritando de frio e olhando estupidam ente para cim a à procura de algum a estrela no céu encoberto.
A m aior parte da neve fora levada pelo vento ou derretera na planície onde agora se encontrava. Tem pestades
sucessivas eram sopradas em sentido norte-sul e o trovão retum bou na distância e o ar estava frio e cheirava a rocha
úm ida. Ele correu tropicando através da depressão estéril, nada além de esparsos tufos de relva e a palm illa am
plam ente dispersa erguendo-se solitária e silenciosa contra o céu baixo com o outros seres colocados ali. A leste as
m ontanhas despontavam negras no deserto e diante dele havia escarpas ou penhascos que se proj etavam com o
prom ontórios m aciços e som brios sobre o solo do deserto. Seus pés eram dois tocos sem icongelados e insensíveis
ecoando a cada passo. Estava sem com ida fazia quase dois dias e tivera pouco descanso. Esm iuçava o terreno
adiante sob o clarão periódico dos relâm pagos e seguia m archando e desse m odo contornou um cabo rochoso
escuro à sua direita e parou, trem endo e soprando dentro das m ãos entorpecidas. Distante a sua frente um fogo
ardia na pradaria, um a cham a solitária açoitada pelo vento que se avivava e sum ia e lançava fagulhas dispersas na
direção da tem pestade com o esfoliações quentes sopradas por algum a forj a m isteriosa uivando na vastidão. Ficou
sentado observando. Não conseguia avaliar a distância. Deitou de bruços para divisar o terreno contra a lum
inosidade vinda de cim a e ver que hom ens eram aqueles m as não havia lum inosidade nem cim a. Perm aneceu
observando por longo tem po m as não viu m ovim ento algum .
Quando voltou a andar o fogo parecia recuar diante dele. Vultos em bando passaram entre ele e a luz. Depois novam
ente. Lobos talvez. Seguiu em frente.
Era um a árvore solitária queim ando no deserto. Um a árvore heráldica à qual a tem pestade ateara fogo ao
passar. O peregrino solitário atraído até ela viaj ara de m uito longe para estar ali e se aj oelhou na areia quente e
estendeu as m ãos dorm entes enquanto por todo lado naquele círculo faziam -lhe com panhia tropas auxiliares m
enores batendo em retirada no dia caótico, pequenas coruj as que se agachavam silenciosam ente ora num a pata
ora noutra e tarântulas e solpugas e escorpiões-vinagre e as ferozes aranhas caranguej eiras e m onstros-de-gila com
bocas escuras com o de um chow-chow, m ortíferos para o hom em , e os pequenos basiliscos do deserto que
esguicham sangue pelos olhos e as inofensivas heterodons com o divindades graciosas, silenciosas e iguais, ali ou
em Jidá ou na Babilônia. Um a constelação de olhos ígneos bordej ando o anel de luz circunscritos todos a um a
trégua precária perante aquela tocha cuj o brilho afundara as estrelas em sua orbe.
Quando o sol surgiu ele j azia adorm ecido sob o esqueleto fum egante de galhos enegrecidos. A tem pestade
havia m uito se dirigira para o sul e o novo céu era frio e azul e a espiral de fum aça da árvore queim ada proj etava-
se verticalm ente na aurora im obilizada com o um com prido estilo m arcando a hora com sua som bra singular e im
perceptivelm ente arfante sobre a face de um terreno que em tudo m ais não exibia qualquer outro ponto de
referência. Todas as criaturas que o haviam acom panhado em sua vigília noturna tinham partido e em torno dele
viam -se apenas os estranhos padrões coraliform es do fulgurito em sulcos calcinados de areia fundida deixados
pelos raios globulares em seu cam inho pelo solo à noite sibilando e fedendo a enxofre.
Sentado de pernas cruzadas à m aneira de um alfaiate no olho causticado daquela vastidão ele observou os extrem
os do m undo se distendendo em um a conj ectura bruxuleante que circundava o inteiro contorno do deserto. Após
algum tem po ficou de pé e se encam inhou à borda da depressão e subiu o leito seco de um arroio, seguindo os
pequenos rastros diabólicos de queixadas até dar com o bando bebendo em um a poça de água parada. Os anim
ais fugiram em disparada aos grunhidos pelo chaparral e ele se deitou na areia úm ida e revolvida e bebeu e
descansou e bebeu outra vez.
À tarde com eçou a percorrer o leito do vale com o peso da água sacudindo em sua barriga. Três horas m ais
tarde pisava sobre o am plo arco do rastro de cavalos vindo do sul por onde o grupo havia passado. Seguiu ao
longo do rastro e discerniu cavaleiros individuais e calculou seu núm ero e calculou que cavalgavam a m eio galope.
Acom panhou a trilha por vários quilôm etros e pôde perceber pela alternância de rastros repisados que todos
aqueles cavaleiros haviam passado j untos e pôde perceber pelas pequenas rochas viradas e buracos pisoteados
que haviam passado à noite. Perscrutou o sul longínquo com a m ão em viseira à procura de algum a poeira ou
rum or de Elias. Nenhum sinal. Seguiu em frente. Um quilôm etro e m eio depois deparou com um a estranha m
assa enegrecida na trilha com o a carcaça calcinada de algum a besta profana. Circundou a coisa. Pegadas de lobos
e coiotes sobrepunham -se às de cavalos e botas, pequenos ataques e investidas que avançavam sobre as extrem
idades daquela form a incinerada e recuavam outra vez.
Eram os restos dos escalpos colhidos no Nacozari e haviam sido queim ados sem a devida gratificação em um a
fogueira verde e m alcheirosa de m odo que nada restasse dos poblanos salvo aquele coágulo carbonizado de suas
vidas pretéritas. A crem ação fora realizada sobre um a elevação de terreno e ele exam inou cada palm o do
território em torno m as nada havia para ser visto. Foi em frente, seguindo a trilha com sua sugestão de
perseguição e trevas, rastreando-a sob o lusco-fusco cada vez m ais profundo. Com o pôr do sol veio o frio intenso,
em bora nem de longe tão intenso quanto o das m ontanhas. O j ej um o enfraquecera e sentou na areia para
descansar e acordou esparram ado e todo torto no chão. A lua nascera, um a m eia-lua estacionada com o um barco
de criança no espaço entre as m ontanhas de papel preto a leste. Ele se levantou e seguiu em frente. Coiotes ganiam
em algum lugar e seus pés lhe faltavam . Mais um a hora progredindo dessa form a e encontrou um cavalo.
O anim al estava parado na trilha e se afastou no escuro e parou outra vez. Ele estacou com a pistola na m ão. O
cavalo passou por ele, um a form a negra, se com cavaleiro ou sem , ele não sabia dizer. O anim al circulou e voltou.
Ele falou com o cavalo. Podia escutar sua profunda respiração pulm onar em algum lugar e ouvi-lo se m over e
quando voltou sentiu seu cheiro. Seguiu-o por quase um a hora, dizendo-lhe palavras, assobiando, buscando-o com
as m ãos estendidas. Quando chegou perto o bastante para finalm ente tocá-lo ele o segurou pela crina e o anim al
saiu trotando com o antes com ele correndo ao lado e se agarrando até finalm ente conseguir enroscar suas pernas
em um a das patas dianteiras e fazê-lo ir ao chão em tum ulto.
Foi o prim eiro a se erguer. O anim al lutava para ficar de pé e ele pensou que estivesse ferido com a queda m as
não estava. Encilhou o cinto em torno do focinho e m ontou e o anim al se levantou e ficou parado trem endo sob
ele com as patas afastadas. Deu uns tapinhas na cernelha do cavalo e falou com ele e o cavalo avançou hesitante.
Im aginou que fosse um a das bestas de carga com pradas em Ures. O cavalo parou e ele o instigou para que
seguisse adiante m as nada aconteceu. Enfiou os calcanhares sob as costelas e o anim al se agachou sobre as ancas
e saiu de lado com o um caranguej o. Ele se esticou e soltou o cinto do focinho e cravou-lhe as botas para que
andasse e desferiu-lhe um a chicotada com o cinto e o cavalo pôs-se a trotar lestam ente. Agarrou um belo punhado
de crina retorcida em seu punho e enfiou a pistola em segurança na cintura e seguiu em frente, em poleirado em
pelo sobre a espinha do anim al com a articulação das vértebras se fazendo sentir palpável e distinta sob a pele.
A eles veio se reunir em sua m archa outro cavalo que surgiu do deserto e cam inhou ao seu lado e continuava j
unto quando chegou o alvorecer. À noite tam bém os rastros dos cavaleiros foram engrossados por um grupo m
aior e era um cam inho am plo e m uito repisado agora que seguia pelo leito do vale para o norte. Com a luz do dia
ele se curvou com o rosto contra a espádua do cavalo e exam inou a trilha. Eram pegadas de pôneis índios
desferrados e som avam talvez um a centena deles. E não era que haviam se j untado aos cavaleiros m as antes o
contrário. Instigou o anim al. O cavalinho que surgira para acom panhá-los à noite ficara algum as léguas para trás
e agora andava a furta-passo de olho neles e o cavalo que ele m ontava estava agitado e hostil pela falta d’água.
Perto do m eio-dia a m ontaria com eçou a vacilar. Seu cavaleiro tentou convencê-lo a sair da trilha para agarrar
o outro cavalo m as o anim al se recusou a abandonar a rota que estava determ inado a seguir. Ele chupou um seixo
e esquadrinhou a região. Então viu cavaleiros a sua frente. Antes não estavam lá, depois de repente estavam . Ele se
deu conta de que era a proxim idade deles que trouxera inquietação aos dois cavalos e continuou em frente
observando ora os anim ais, ora o horizonte ao norte. O pangaré em que ia m ontado trem ia e seguia adiante com
esforço e após algum tem po ele pôde ver que os cavaleiros usavam chapéus. Instigou o cavalo a se apressar e
quando alcançou o grupo haviam todos parado e estavam sentados no chão observando sua aproxim ação.
O aspecto deles era péssim o. Estavam esgotados e ensanguentados e com círculos escuros em torno dos olhos e
haviam atado os ferim entos com trapos de linho im undos e m anchados de sangue e tinham as roupas encrostadas
de sangue seco e pó preto de pólvora. Os olhos de Glanton em suas órbitas negras eram centroides cham ej antes de
m orticínio e ele e seus cavaleiros exauridos fitavam m alevolam ente o kid com o se este não fizesse parte de seu
grupo ainda que tão irm anados estivessem na m iséria de suas circunstâncias. O kid desceu deslizando do cavalo e
ficou entre eles descarnado e tostado e de olhar desvairado. Alguém lhe atirou um cantil.
Haviam perdido quatro hom ens. Os dem ais iam na frente em patrulha de reconhecim ento. Elias atravessara as
m ontanhas em m archa forçada por toda a noite e todo o dia seguinte e caíra sobre eles em plena nevasca no escuro
na planície sessenta quilôm etros ao sul. Haviam sido acossados para o norte pelo deserto com o gado e tom aram
deliberadam ente a trilha do bando de guerreiros a fim de despistar seus perseguidores. Não faziam ideia da
distância que os separava dos m exicanos m ais atrás nem da distância que os separava dos apaches m ais à frente.
Ele bebeu do cantil e olhou para os com panheiros. Dos que faltavam não havia com o saber quais haviam
avançado com os batedores e quais estavam m ortos no deserto. O cavalo que Toadvine lhe trouxe era o que o
recruta Sloat cavalgara ao sair de Ures. Quando se puseram em m archa m eia hora m ais tarde dois dos cavalos não
conseguiram se levantar e foram deixados para trás. Montou em um a sela escorchada e desconj untada no cavalo
do m orto e cavalgou caído e cam baleante e logo suas pernas e braços pendiam frouxos e sacolej ava adorm ecido
ao sabor da m archa com o um a m arionete a cavalo. Acordou e deu com o ex-padre a seu lado. Voltou a dorm ir.
Quando acordou outra vez era o j uiz quem estava lá. Tam bém ele perdera o chapéu e m ontava com um a
grinalda de arbustos do deserto coroando-lhe a cabeça com o um egrégio bardo das terras salgadas e contem
plava o refugiado com o m esm o sorriso, com o se o m undo lhe parecesse som ente a ele um lugar agradável.
Cavalgaram pelo restante daquele dia, atravessando colinas ondulantes cobertas de cholla e whitethorn. De tem
pos em tem pos um dos cavalos de reserva parava vacilante na trilha e ia ficando cada vez m enor atrás deles.
Desceram por um longo declive na direção norte sob o anoitecer azul e frio e atravessaram um a baj ada árida
pontilhada apenas de ocotillos esporádicos e tufos de gram a e acam param na área plana e por toda a noite o vento
soprou e podiam ver outras fogueiras queim ando no deserto ao norte. O j uiz se afastou e foi olhar os cavalos e
selecionou dentre a deprim ente rem uda o anim al m enos prom issor em aparência e o separou. Depois voltou e
passou pela fogueira e pediu que alguém o segurasse. Ninguém se levantou. O ex-padre curvou-se para o kid.
Não ouve o que ele diz, j ovem .
O j uiz cham ou novam ente da escuridão além do fogo e o ex-padre pousou um a m ão adm
onitória no braço do rapaz. Mas o kid ficou de pé e cuspiu no fogo. Ele se virou e encarou o ex-
padre. Acha que tenho m edo dele?
O ex-padre não respondeu e o kid virou e m ergulhou na escuridão onde o j uiz aguardava.
Ficou segurando o cavalo. Apenas seus dentes brilhavam à luz do fogo. Juntos conduziram o anim al para m ais
longe e o kid segurou a reata trançada enquanto o j uiz apanhava um a pedra redonda pesando um as cem libras e
esm agava o crânio do cavalo com um único golpe. O sangue esguichou de suas orelhas e o anim al baqueou no
solo com tanta força que um a das patas dianteiras quebrou sob seu peso com um estalo seco.
Esfolaram as ancas sem estripar o anim al e os hom ens cortaram filés e os assaram na fogueira e cortaram o
restante da carne em tiras e penduraram para defum ar. Os batedores não apareceram e eles postaram sentinelas
e viraram para dorm ir cada hom em com sua arm a j unto ao peito.
Na m etade da m anhã do dia seguinte atravessaram um a depressão alcalina onde fora convocada um a reunião
de cabeças hum anas. A com panhia fez alto e Glanton e o j uiz avançaram . As cabeças eram em núm ero de oito e
cada um a usava um chapéu e form avam um círculo voltado para fora. Glanton e o j uiz contornaram a cena e o j
uiz parou e apeou e virou um a das cabeças com a ponta da bota. Com o que para se convencer de que nenhum
hom em estava enterrado na areia sob ela. As dem ais cabeças fitavam cegam ente o vazio com seus olhos
enrugados com o com panheiros de algum a j usta iniciativa que houvessem firm ado um pacto de silêncio e de m
orte.
Os cavaleiros olharam para o norte distante. Seguiram cavalgando. Além de um a rasa elevação entre a cinza fria
j aziam as arm ações enegrecidas de um par de carroções e os troncos nus do grupo. O vento soprara as cinzas e
os eixos de ferro assinalavam o form ato dos carroções assim com o as sobrequilhas fazem com os esqueletos de
navios no leito do oceano. Os corpos estavam parcialm ente devorados e corvos saíram voando ante a aproxim ação
dos cavaleiros e um a dupla de abutres saiu saltitando pela areia com as asas estendidas com o asquerosas coristas,
as cabeças de aspecto cozido sacudindo obscenam ente.
Seguiram em frente. Atravessaram um estuário seco na planura do deserto e à tarde cavalgaram por um a série de
gargantas estreitas para desem bocar em um a região de colinas ondulantes. Podiam sentir o cheiro de fogueiras de
piñon e antes do escurecer chegaram ao povoado de Santa Cruz.
Essa cidade com o todos os presidios ao longo da fronteira decaíra m uito de sua antiga condição e inúm eros
prédios estavam desabitados e em ruínas. O anúncio da chegada dos cavaleiros os precedera e de am bos os lados
do cam inho perfilavam -se m oradores observando m udam ente sua passagem , velhas em rebozos negros e hom
ens m unidos de antigos m osquetes e espingardas de pederneira ou arm as fabricadas com partes toscam ente
adaptadas a coronhas de m adeira de álam o talhadas às m achadadas com o se fossem arm as de brinquedo para m
eninos. Entre eles havia até m esm o arm as sem fecharia algum a que eram acionadas encostando-se um a
cigarrilha contra o orifício atrás do cano para disparar as pedras tiradas do rio com que haviam sido carregadas,
que saíam silvando através do ar em voos excêntricos ao seu bel-prazer com o traj etos de m eteoritos. Os am
ericanos instigaram os cavalos a seguir em frente. Com eçara a nevar outra vez e um vento frio soprou pela rua
estreita à frente deles. Mesm o em seu estado deplorável não deixavam de fuzilar de suas selas aquela m ilícia
bonachona com indisfarçável desprezo.
Esperaram entre os cavalos na pequena alam eda depauperada enquanto o vento rapinava as árvores e os pássaros
aninhados sob o lusco-fusco cinzento gritavam e agarravam -se aos galhos e a neve redem oinhava e soprava
pela pequena praça e envolvia os vultos dos edifícios de barro adiante e em udecia os pregões dos am bulantes que
os haviam seguido. Glanton e o m exicano cham ado por ele regressaram e a com panhia m ontou e seguiu em fila
pela rua até chegar a um velho portão de m adeira que dava para um pátio. O pátio estava salpicado de neve e ali
dentro havia algum as aves dom ésticas e outros bichos — cabras, um burro — que arranharam e rasparam
estupidam ente os m uros assim que os cavaleiros entraram . A um canto via-se um tripé de paus enegrecidos e
havia um a grande m ancha de sangue parcialm ente coberta pela neve e que exibia um débil tom rosa pálido sob a
derradeira luz. Um suj eito saiu da casa e ele e Glanton conversaram e o hom em falou com o m exicano e então fez
um gesto para que deixassem o frio e entrassem .
Sentaram no chão de um a sala com prida com teto alto e vigas m anchadas de fum aça enquanto um a m ulher e
um a m enina traziam tigelas de guisado de cabra e um a travessa de argila cheia de tortilhas azuis e serviram - lhes
tigelas de feij ão e café e m ingau de farelo de m ilho onde boiavam pequenos torrões de açúcar m ascavo
piloncillo. Lá fora reinava a escuridão e a neve caía rodopiando. Não havia fogo no am biente e a com ida fum
egava pesadam ente. Quando term inaram de com er perm aneceram sentados fum ando e as m ulheres recolheram
as tigelas e depois de algum tem po um m enino apareceu com um a lanterna e os guiou para fora.
Atravessaram o pátio entre os cavalos resfolegantes e o m enino abriu um a porta de m adeira rústica em um
barracão de adobe e ficou de lado segurando o lam pião. Eles trouxeram suas selas e cobertores. No pátio os
cavalos batiam os cascos no chão, de frio.
O barracão abrigava um a égua com um potro ainda não desm am ado e o m enino fez m enção de levá-la para
fora m as disseram -lhe que a deixasse. Apanharam palha em um a baia e esparram aram -na no chão e ele ficou
segurando a luz para eles enquanto preparavam suas cam as. O celeiro cheirava a barro e palha e esterco e sob a luz
suj a e am arelada do lam pião seus hálitos bafej avam visivelm ente no frio. Quando term inaram de arrum ar os
cobertores o m enino baixou o lam pião e saiu para o pátio e fechou as portas atrás de si, deixando-os na escuridão
m ais profunda e absoluta.
Ninguém se m oveu. No gélido estábulo a porta sendo fechada talvez tenha evocado em alguns corações outras
hospedarias e não de suas escolhas. A égua farej ava com inquietação e o j ovem potro batia os cascos no chão.
Então um a um com eçaram a tirar as roupas de cim a, os im perm eáveis de pele e sarapes e coletes de lã crua, e
um a um propagaram em torno de si um grande crepitar de faíscas e cada hom em foi visto usando um a m
ortalha de fogo m uito pálido. Seus braços erguidos puxando as roupas eram lum inosos e cada um a daquelas alm
as obscuras estava envolta em form as audíveis de luz com o se sem pre houvesse sido assim . A égua no canto
oposto do estábulo bufou e recuou com a lum inosidade em seres tão m ergulhados nas trevas e o cavalinho virou e
escondeu o rosto na m alha de veias do flanco da m ãe.
XVI

O VALE DE SANTA CRUZ — SAN BERNARDINO — TOUROS BRAVOS — TUMACACORI — A


MISSÃO — UM EREMITA — TUBAC — OS BATEDORES DESAPARECIDOS — SAN XAVIER DEL
BAC — O PRESIDIO DE TUCSON — CARNICEIROS — OS CHIRICAHUAS — UM ENCONTRO
ARRISCADO — MANGAS COLORADO — TENENTE COUTS — RECRUTAMENTO NA PLAZA —
UM HOMEM SELVAGEM — OWENS ASSASSINADO — NA CANTINA — EXAME DE MR. BELL
— O JUIZ SOBRE A EVIDÊNCIA — DOGFREAKS — UM FANDANGO — JUIZ E METEORITO.

Estava ainda m ais frio pela m anhã quando partiram . Não se via vivalm a nas ruas e nenhum rastro na neve que acabara
de cair. Na periferia da cidade observaram o ponto em que lobos atravessaram a estrada.
Cavalgaram à m argem de um regato com um a película de gelo fino, por um pântano congelado onde patos
andavam de um lado para outro com seus resm ungos. Nessa tarde cruzaram um vale luxuriante onde o capim
hibernal m orto batia nos ventres dos cavalos. Cam pos vazios onde as colheitas haviam apodrecido e pom ares de m
acieiras e m arm eleiros e rom ãzeiras onde os frutos haviam secado e caído no chão. Encontraram bandos de
veados nos prados e rastros de gado e nessa noite sentados em torno do fogo assando as costelas e os pernis de um a
j ovem corça escutaram os m ugidos de touros no escuro.
No dia seguinte passaram pelas ruínas da antiga hacienda em San Bernardino. Naquela invernada viram touros
tão antigos que ostentavam m arcas espanholas em seus traseiros e vários desses anim ais arrem eteram contra a
com panhia e foram abatidos e deixados no chão até que de um arvoredo de acácias em um leito seco veio
correndo m ais um e enterrou os chifres profundam ente nas costelas do cavalo m ontado por Jam es Miller. Ele
rem overa o pé do estribo ao ver o anim al se aproxim ando e o im pacto quase o arrancou da sela. O cavalo
relinchou e escoiceou m as o touro fincara as patas no chão e ergueu o outro anim al com cavaleiro e tudo no alto
antes que Miller conseguisse sacar a pistola e quando encostou o cano na testa do touro e disparou e todo o grotesco
aglom erado desabou ele pulou fora do desastre e se afastou em revolta com a arm a fum egante pendurada na m
ão. O cavalo forcej ava para se pôr de pé e ele voltou e o abateu e enfiou a arm a no cinto e com eçou a
desafivelar as correias da cilha. O cavalo caíra bem em cim a do touro m orto e foi preciso puxar com m uita força
para liberar a sela. Os dem ais cavaleiros haviam parado para assistir e alguém enxotou adiante o últim o cavalo
extra da rem uda m as fora isso ninguém ofereceu qualquer aj uda.
Foram em frente, seguindo o curso do Santa Cruz, atravessando bosques de álam os im ensos enraizados no leito
seco. Não voltaram a topar com o rastro dos apaches e não viram sinal dos batedores desaparecidos. No dia seguinte
passaram pela antiga m issão em San José de Tum acacori e o j uiz se afastou da trilha para procurar a igrej a que
ficava a cerca de um quilôm etro e m eio dali. O j uiz fizera um a breve dissertação acerca da história e da
arquitetura da m issão e os que o haviam escutado não conseguiam acreditar que j am ais pusera os pés naquele
lugar. Três m em bros do grupo foram com ele e Glanton observou-os ir com um som brio pressentim ento. Ele e os
dem ais seguiram cavalgando por um a curta distância e então ele parou e deu m eia-volta.
A antiga igrej a estava em ruínas e os portões abertos davam para o adro cercado por m uros elevados. Quando
Glanton e seus hom ens passaram pelo pórtico em ruínas viram quatro cavalos sem cavaleiros no terreno vazio entre
árvores frutíferas m ortas e um a videira. Glanton ia com o rifle na vertical a sua frente, o coice da coronha
apoiado na coxa. Seu cachorro seguia o cavalo e se aproxim aram cautelosam ente das paredes instáveis da igrej
a. Iam passando com os cavalos pela porta m as assim que se aproxim aram ouviram um tiro de rifle no interior e
pom bos alçaram voo e eles desceram de suas m ontarias e se agacharam atrás delas com seus rifles. Glanton
olhou para os outros às suas costas e então conduziu o cavalo m ais à frente de m odo que pudesse ver ali dentro.
Parte da parede no alto havia desabado e tam bém a m aior parte do telhado e havia um hom em caído no chão.
Glanton conduziu o cavalo pela sacristia e ele e os dem ais pararam olhando para baixo.
O hom em no chão encontrava-se às portas da m orte e estava vestido inteiram ente com roupas caseiras de pele
de ovelha, incluindo as botas e um estranho gorro. Viraram -no sobre os ladrilhos cerâm icos rachados e seu m
axilar se m oveu e um fio de sangue escorreu por seu lábio inferior. Seus olhos estavam baços e ali havia m edo e
havia algum a outra coisa tam bém . John Prewett apoiou a coronha do rifle no chão e entornou o chifre com a
pólvora para recarregar a arm a. Vi um outro correndo, disse. São dois.
O hom em no chão com eçou a se m exer. Tinha um braço pousado na virilha e m oveu-o vagarosam ente e apontou. Se
para eles ou para a altura de onde havia caído ou para seu destino na eternidade ninguém soube dizer.
Daí m orreu.
Glanton olhou em torno pelas ruínas. De onde saiu esse filho da puta? disse.
Prewett apontou com a cabeça o parapeito de barro esfacelado. Estava ali em
cim a. Não sabia quem era. E ainda não sei. Derrubei o filho da puta com um
tiro. Glanton olhou para o j uiz.
Acho que era um im becil, disse o j uiz.
Glanton conduziu seu cavalo através da igrej a e saiu por um a pequena porta na nave que dava para o pátio.
Estava sentado ali quando trouxeram o outro erem ita para fora. Jackson o cutucava adiante com o cano de seu
rifle, um hom enzinho m agro, não j ovem . O que eles tinham m atado era seu irm ão. Haviam desertado de um
navio na costa m uito tem po antes e chegado até aquele lugar. Estava aterrorizado e não falava nenhum inglês e
pouco espanhol. O j uiz conversou com ele em alem ão. Estavam ali havia anos. O irm ão perdera o tino naquele
lugar e o hom em que agora se apresentava diante deles em suas peles e botinas peculiares tam bém não era
inteiram ente são. Deixaram -no lá m esm o. Quando se afastavam ele trotava para cim a e para baixo pelo pátio,
cham ando. Parecia não ter consciência de que o irm ão j azia m orto dentro da igrej a.
O j uiz em parelhou com Glanton e
cavalgaram lado a lado pela estrada.
Glanton cuspiu. Só não atirei naquele
outro tam bém nem sei por quê, disse.
O j uiz sorriu.
Não gosto de ver um branco nesse estado, disse Glanton. Holandês ou o que for. Não gosto de ver.
Seguiram rum o norte acom panhando o rastro do rio. O arvoredo estava desfolhado e as folhas no chão acum
ulavam -se com o escam as de gelo e os ram os pintalgados e ossudos dos álam os recortavam -se rígidos e pesados
contra o m anto acolchoado do céu. Ao anoitecer passaram por Tubac, abandonada, o trigal m orto nos cam pos
hibernais e as ruas invadidas de m ato. Havia um cego sentado nos degraus diante de um a casa na plaza e quando
passaram esticou a cabeça para escutar.
Seguiram até o deserto para acam par. Nenhum vento soprava e o silêncio reinante era enorm em ente apreciado
por todo tipo de fugitivo assim com o o próprio terreno descam pado sem m ontanha algum a nas proxim idades
contra a qual vultos inim igos pudessem se cam uflar. Puseram -se de pé e selaram os cavalos pela m anhã antes da
aurora, todos cavalgando j untos, arm as de prontidão. Ia cada hom em esquadrinhando o terreno e o m ovim ento
da m ais ínfim a criatura era captado pela percepção coletiva até com por um a federação vigilante de fios invisíveis
avançando pela paisagem num a ressonância única. Passaram por haciendas abandonadas e por túm ulos na beira
da estrada e no m eio da m anhã voltaram a se deparar com o rastro dos apaches vindo do deserto a oeste e
avançando diante deles através da areia fofa do leito de rio. Os cavaleiros apearam e pegaram am ostras da areia
rem exida em torno dos rastros e a testaram entre os dedos e calcularam sua um idade contra o sol e deixaram -na
cair de volta e olharam ao longe rio acim a por entre as árvores desfolhadas. Montaram outra vez e seguiram em
frente.
Encontraram os batedores desaparecidos pendurados de cabeça para baixo pelas pernas nos galhos de um a
paloverde enegrecida pelo fogo. Tinham os tendões dos calcanhares perfurados por agulhas afiadas de m adeira
verde e pendiam cinzentos e nus sobre as cinzas dos carvões extintos onde haviam sido assados até as cabeças
ficarem carbonizadas e os m iolos ferverem dentro do crânio e o vapor sair assobiando por suas narinas. Suas
línguas haviam sido puxadas para fora e trespassadas com paus afiados e esticadas e tiveram as orelhas
arrancadas e seus torsos foram abertos com sílex até as entranhas ficarem penduradas em seus peitos. Alguns
dos hom ens se adiantaram com facas na m ão e desceram os corpos e deixaram -nos caídos nas cinzas. As duas
form as negras eram os últim os delawares e as outras duas eram o vandiem enlander e um suj eito do leste cham
ado Gilchrist. Não conheceram favor nem discrim inação entre seus anfitriões bárbaros m as sofreram e m orreram
com im parcialidade.
Seguiram nessa noite através da m issão de San Xavier del Bac, a igrej a solene e austera à luz das estrelas. Não
se ouvia um único latido. Os aglom erados de habitações dos papagos pareciam desertos. O ar estava frio e lím
pido e o território ali e m ais além m ergulhado num a escuridão que não era reclam ada sequer por um a coruj a.
Um m eteoro verde-claro surgiu subindo pelo leito do vale atrás deles e passou acim a de suas cabeças para
evaporar silencioso no vácuo.
Ao alvorecer nas cercanias do presidio de Tucson atravessaram as ruínas de inúm eras haciendas e passaram por
outros m arcos de beira de estrada onde pessoas tinham sido assassinadas. No fundo da planície havia um a pequena
estância onde as casas ainda fum egavam e ao longo dos segm entos de um a cerca construída com cactos secos em
poleiravam -se abutres lado a lado de frente para o leste e para o sol im inente, erguendo um a pata depois a outra e
estendendo as asas com o m antos. Viram os ossos de porcos m ortos em um cercado com m uros de barro e viram
um lobo em um canteiro de m elões que se agachou entre os cotovelos m agros e observou-os passar. A cidade
ficava ao norte na planície em um a linha fina de m uros claros e agruparam os cavalos j unto a um a m orena baixa
de cascalho e a exam inaram e depois exam inaram a região e as cadeias m ontanhosas áridas m ais além . As
pedras do deserto j aziam com suas m aniotas escuras de som bra e um vento soprava da direção onde o sol se
aboletava gordo e pulsante nos confins orientais do m undo. Estalaram a língua incitando os cavalos e saíram pela
planura no rastro da trilha apache diante deles, de dois dias antes e indicativa de um a centena de hom ens.
Montavam com os rifles sobre os j oelhos, cavalgando em leque, lado a lado. O nascer do sol no deserto refulgiu
acim a do solo diante deles e pom bos de colarinho alçaram voo do chaparral sozinhos e aos pares e se afastaram
arrulhando fracam ente. Mil m etros adiante puderam ver os apaches acam pados ao longo da m uralha sul. Seus
cavalos pastavam entre os salgueiros na bacia do rio tem porário a oeste do povoado e o que pareciam ser rochas
ou escom bros ao pé do m uro era um aglom erado deplorável de toldos e choupanas m ontados com estacas e peles
e lonas de carroções.
Seguiram em frente. Cães com eçaram a ladrar. O cachorro de Glanton cobria um a área indo e vindo nervosam ente e
um a delegação de cavaleiros fora enviada do acam pam ento.
Eram chiricahuas, vinte, vinte e cinco deles. Mesm o com o sol acim a do horizonte a tem peratura perm anecia
glacial e contudo m ontavam sem inus, nada além de botas e os panos sobre as virilhas e os capacetes de couro em
plum ados que usavam , selvagens da idade da pedra lam buzados de argilas coloridas em em blem as obscuros,
grudem os, fétidos, a pintura de seus cavalos pálida sob o pó e os anim ais indóceis e bafej ando no ar frio. Portavam
lanças e arcos e alguns tinham m osquetes e exibiam cabelos longos e negros e olhos negros dardej antes que se m
oviam entre os cavaleiros exam inando suas arm as, as escleróticas inj etadas e opacas. Não proferiram palavra
algum a nem m esm o entre si e entraram com seus cavalos no m eio do grupo em um a espécie de m ovim ento
ritual com o se determ inados pontos do terreno tivessem de ser percorridos em determ inada sequência com o num
a brincadeira de criança, ainda que na im inência de algum terrível castigo.
O líder desses guerreiros chacais era um hom enzinho escuro traj ado com sobras de atavios m ilitares m exicanos
e carregava um a espada e tam bém carregava em um boldrié surrado e espalhafatoso um dos Colts Whitney
ville que pertencera aos batedores. Parou com seu cavalo diante do de Glanton e avaliou a posição dos outros
cavaleiros e então perguntou em bom espanhol sobre o destino deles. Mal term inara de falar quando o cavalo
de Glanton deu um a estocada com os m axilares e m ordeu a orelha do outro cavalo. Sangue espirrou. O anim al
gritou e recuou e o apache lutou para se m anter na sela e puxou a espada e se pegou encarando a negra lem
niscata que era a boca de cano duplo do rifle de Glanton. Glanton estapeou com força o focinho de seu cavalo duas
vezes e o cavalo abanou a cabeça com um olho piscando e sangue pingando da boca. O apache deu um puxão na
cabeça de seu pônei e quando Glanton girou para fitar seus hom ens viu-os paralisados de olhos fixos nos selvagens,
eles e suas arm as conectados num a construção tensa e frágil com o esses quebra-cabeças onde a colocação de cada
peça depende da que está em sua proxim idade im ediata de m odo que nenhum a pode ser rem ovida sem que a
estrutura toda venha abaixo.
O líder foi o prim eiro a falar. Gesticulou para a orelha ensanguentada de sua m ontaria e disse
palavras ferozes em apache, os olhos negros evitando Glanton. O j uiz avançou com seu cavalo.
Vay a tranquilo, disse. Un accidente, nada m ás.
Mire, disse o apache. Mire la orej a de m i caballo.
Firm ou a cabeça do anim al m as este se soltou com um tranco e agitou a orelha ferida de m odo que o sangue
espirrou sobre os cavaleiros. Sangue de cavalo ou o sangue que fosse um trem or percorreu a periclitante arquitetura
e os pôneis perm aneceram hirtos e trêm ulos à lum inosidade averm elhada do sol nascente enquanto o deserto sob
eles zum bia surdam ente com o um tam bor. As propriedades elásticas dessa trégua não ratificada foram testadas
no lim ite de sua m áxim a tensão quando o j uiz se aprum ou ligeiram ente na sela e ergueu o braço e proferiu um a
saudação a alguém além deles.
Outros oito ou dez guerreiros a cavalo vindos da m uralha haviam se aproxim ado. O líder era um suj eito im enso
com um a cabeça im ensa e vestia um m acacão cortado na altura dos j oelhos para acom odar as perneiras de seus
m ocassins e usava um a cam isa xadrez e um lenço verm elho. Não portava arm a algum a m as os hom ens que o
ladeavam estavam arm ados com rifles de cano curto e tam bém carregavam as pistolas das selas e outros equipam
entos dos batedores m ortos. Quando avançaram os dem ais selvagens m ostraram deferência e abriram espaço. O
índio cuj o cavalo fora m ordido apontou o ferim ento m as o líder se lim itou a balançar a cabeça de um m odo
afável. Virou sua m ontaria a quarenta e cinco graus do j uiz e o anim al arqueou o pescoço e ele o m ontava com
garbo. Buenos días, disse. De dónde viene?
O j uiz sorriu e tocou a coroa m urcha em sua testa, provavelm ente esquecendo que estava sem chapéu.
Apresentou seu chefe Glanton com toda form alidade. Cum prim entos foram trocados. O nom e do hom em era
Mangas e era um suj eito cordial e falava bom espanhol. Quando o cavaleiro do cavalo ferido voltou a apresentar
sua queixa para deliberação o hom em apeou e tom ou a cabeça do anim al em suas m ãos e a exam inou. Tinha o
andar genuvaro apesar de toda a altura e era dotado de estranhas proporções. Ergueu o rosto para os am ericanos e
depois olhou para os outros cavaleiros e m eneou a m ão na direção destes.
Andale, disse. Virou para Glanton. Ellos son am igables. Un poco borracho, nada m ás.
Os cavaleiros apaches haviam com eçado a se separar dos am ericanos com o hom ens se desvencilhando de um
espinheiro. Os am ericanos m antinham os rifles na vertical e Mangas conduziu o cavalo ferido adiante e virou sua
cabeça para o alto, contendo o anim al apenas com as m ãos, o olho branco revirando selvagem ente. Após algum a
discussão ficou claro que fosse qual fosse a m ulta fixada pelo prej uízo ocorrido ali nenhum a outra espécie seria
aceitável a título de com pensação que não uísque.
Glanton cuspiu e encarou o hom em . No hay whiskey, disse.
O silêncio reinou. Os apaches olhavam uns para os outros. Olharam para as
bolsas e os cantis e as cabaças pendurados nas selas. Cóm o? disse Mangas.
No hay whiskey, disse Glanton.
Mangas largou a tosca testeira de couro do cavalo. Seus hom ens olharam para
ele. Ele olhou para o povoado fortificado e olhou para o j uiz. No whiskey ?
disse. No whiskey.
O seu entre os rostos enevoados parecia im perturbado. Exam inou os am ericanos, seus equipam entos. De fato
não pareciam hom ens capazes de ter uísque que não houvessem bebido. O j uiz e Glanton perm aneciam em suas
m ontarias sem nada m ais a oferecer a título de parlam entaçao.
Hay whiskey en Tucson, disse Mangas.
Sin duda, disse o j uiz. Y soldados tam bién. Avançou com o cavalo, o rifle num a m ão e as
rédeas na outra. Glanton se m oveu. O cavalo atrás fez um m ovim ento. Então Glanton parou.
Tiene oro? disse.
Sí.
Cuánto
.
Bastan
te.
Glanton olhou para o j uiz depois de novo para
Mangas. Bueno, disse. Tres días. Aquí. Un barril de
whiskey. Un barril?
Un barril. Cutucou o pônei e os apaches abriram cam inho e Glanton e o j uiz e os que iam com eles os seguiram
em fila única na direção da cidadela de barro decrépita que fulgurava com o brasa ao alvorecer hibernal da planície.

O tenente encarregado da pequena guarnição cham ava-se Couts. Estivera no litoral sob o com ando do m aj or
Graham e regressara a esse lugar havia quatro dias para dar com a cidade sob um cerco inform al dos apaches.
Em briagavam -se com o tiswin ferm entado por eles próprios e houvera tiroteios à noite durante duas noites
seguidas e o clam or por uísque era incessante. As tropas haviam m ontado um a colubrina de doze libras carregada
com balas de m osquete sobre o m uro e Couts esperava que os selvagens fugissem quando não conseguissem m ais
nada para beber. Era m uito form al e se dirigia a Glanton com o capitão. Nenhum dos guerrilheiros m altrapilhos
sequer desm ontara. Ficaram olhando em torno pelo povoado m elancólico e arruinado. Um burro de olhos
vendados am arrado a um a vara girava um m oedor de argila, circulando infinitam ente, a haste de m adeira
rangendo nas roldanas. Galinhas e alguns pássaros ciscavam ao pé do m oinho. A vara ficava a um m etro e m eio
do chão e contudo as aves se abaixavam ou agachavam cada vez que ela passava acim a de suas cabeças. Na
poeira da plaza j azia um certo núm ero de hom ens aparentem ente dorm indo. Brancos, índios, m exicanos.
Alguns cobertos com m antas, outros não. No extrem o oposto da praça havia um pelourinho escurecido na base
com a urina dos cães. O tenente seguia seus olhares. Glanton em purrou o chapéu para trás e o fitou do alto de seu
cavalo.
Onde é que um hom em pode tom ar um a bebida aqui neste pardieiro? disse.
Foi a prim eira coisa que qualquer um deles disse. Couts os exam inou. Exauridos e desvairados e queim ados de
sol. Os vincos e poros de suas peles estavam encardidos da fuligem de pólvora de lim parem os canos das arm
as. Até m esm o os cavalos pareciam diferentes de quaisquer outros que houvessem visto, enfeitados com o estavam
com cabelos e dentes e peles hum anos. Exceto por suas arm as e fivelas e um as poucas peças de m etal nos arreios
dos anim ais não havia coisa algum a nos recém -chegados que sugerisse sequer a descoberta da roda.
Tem m uito lugar, disse o tenente. Mas nenhum aberto ainda, eu acho.
Nisso a gente pode dar um j eito, disse Glanton. Cutucou o cavalo. Não voltou a falar e nenhum dos outros
dissera palavra. Conform e atravessaram a plaza alguns dos ociosos puseram a cabeça para fora de seus
cobertores e os observaram .
O bar em que entraram era um recinto quadrado de barro e o proprietário veio servi-los ainda em
roupa de baixo. Sentaram em um banco a um a m esa de m adeira na penum bra bebendo som briam
ente. De onde vocês todos? disse o proprietário.
Glanton e o j uiz saíram para ver se podiam recrutar alguém dentre a m alta de ociosos descansando no chão da
praça. Uns estavam sentados, olhos apertados contra o sol. Um suj eito com um a bowie se oferecia para duelar
com qualquer um disposto a apostar em quem era dono da m elhor lâm ina. O j uiz andava entre eles com o seu
sorriso.
Capitão o que é que vocês dois carregam aí nesses em bornais?
Glanton virou. Ele e o j uiz portavam os alforj es sobre os om bros. O suj eito que
falara estava encostado em um poste com um j oelho dobrado para apoiar o cotovelo.
Essas bolsas? disse Glanton.
Essas bolsas.
Essas bolsas aqui estão cheias de ouro
e prata, disse Glanton, porque estavam
. O vagabundo sorriu e cuspiu.
É por isso que ele quer ir pra Califórnia, disse um outro. Por causa que nessa cabeça dele j á acabou de conseguir um a
m ochila cheia de ouro.
O j uiz sorriu com benevolência para os vadios. Vocês podem é pegar um
resfriado aqui fora, disse. Quem quer ir atrás das j azidas de ouro agora m
esm o. Um hom em ficou de pé e se afastou alguns passos e com eçou a m ij
ar na rua.
Quem sabe o hom em selvagem vai com vocês, exclam
ou outro. Ele e o Cloy ce vão ser bem úteis pro trabalho.
Estão tentando ir j á faz bastante tem po.
Glanton e o j uiz foram procurá-los. Um a tenda precária feita com um oleado velho. Um a placa dizendo: The
Wild Man 25 Cents. Atrás de um a lona de carroção havia um a j aula tosca de estacas de paloverde com um im
becil nu agachado dentro. O piso da j aula estava coberto de im undície e com ida j ogada e m oscas andavam por
todos os lados. O idiota era pequeno e deform ado e seu rosto estava lam buzado de fezes e ficou espiando os dois
num estupor hostil e m astigando bosta em silêncio.
O proprietário veio dos fundos sacudindo a cabeça para eles. Não pode entrar ninguém aqui. A gente ainda não abriu.
Glanton olhou para a gaiola abj eta. A tenda cheirava a óleo e fum
aça e excrem ento. O j uiz se agachou para exam inar o im becil.
Essa criatura é sua? disse Glanton.
É. Ele é.
Glanton cuspiu. Um hom em contou pra
gente que você quer ir pra Califórnia.
Bom , disse o proprietário. É, isso m esm
o. Isso m esm o.
O que pensa em
fazer com essa
coisa? Levar ele
com igo.
Com o pretende transportar ele?
Tenho um pônei e um
carrinho. Pra transportar ele
dentro. Tem dinheiro?
O j uiz ficou de pé. Esse é o capitão Glanton, disse. Está chefiando um a expedição para a Califórnia. Ele planej
a levar alguns passageiros sob a proteção de sua com panhia contanto que a pessoa possa desem bolsar suficiente.
Bom hã é. Tenho um pouco.
Quanto dinheiro é isso m ais ou m
enos? Quanto você tem ? disse
Glanton.
Bom . O suficiente, im agino. Im agino que m eu dinheiro sej a suficiente.
Glanton estudou o hom em . Vou dizer o que vou fazer com você,
disse. Quer m esm o ir pra Califórnia ou é só da boca pra fora?
Califórnia, disse o proprietário. Não tenha dúvida.
Levo você por cem dólares, pagam ento adiantado.
Os olhos do hom em foram de Glanton para o j uiz e voltaram . Quem dera eu tivesse tudo isso, disse.
A gente vai ficar aqui por uns dias, disse Glanton. Consegue
m ais alguns passageiros e a gente aj usta a tarifa de acordo.
O capitão vai tratar você direito, disse o j uiz. Pode ter
certeza disso.
Sim senhor, disse o proprietário.
Quando passaram diante da j aula ao sair Glanton virou para olhar o
idiota outra vez. Você deixa as m ulheres verem essa coisa? disse.
Sei lá, disse o proprietário. Nunca nenhum a pediu.
Ao m eio-dia a com panhia achara um lugar para com er. Havia três ou quatro hom ens ali dentro quando
entraram e os hom ens se levantaram e saíram . Havia um forno de barro no terreno atrás do prédio e a carcaça de
um carroção arruinado com um as panelas e um a chaleira em cim a. Um a velha em um xale cinza estava cortando
chuletas com um m achado, assistida por dois cachorros. Um suj eito alto usando um avental m anchado de sangue
entrou vindo dos fundos e olhou para eles. Ele se curvou e apoiou as duas m ãos na m esa diante deles.
Senhores, disse, a gente não se incom oda de servir gente de cor. Com m
uita satisfação. Mas só pede pra sentar naquela outra m esa ali. Logo ali.
Recuou um passo e estendeu a m ão em um estranho gesto de
hospitalidade. Seus clientes olharam uns para os outros.
Do que diabos
ele está falando?
Logo ali, disse o
hom em .
Toadvine olhou para a outra ponta da m esa onde Jackson estava sentado. Muitos olhavam para Glanton. Suas
m ãos repousavam no tam po diante dele e sua cabeça estava ligeiram ente inclinada para o lado com o um
hom em tom ado de graça. O j uiz sorria, braços cruzados. Estavam todos m eio tocados.
Ele acha que a gente é negro.
Perm aneceram em silêncio. A velha no pátio com eçara a entoar um a m elodia chorosa e o hom em
continuava com as m ãos estendidas. Em pilhados j unto à porta estavam as m ochilas e os coldres e as arm as
da com panhia.
Glanton ergueu o rosto.
Olhou para o hom em .
Qual é seu nom e?
disse.
Meu nom e é Owens. Sou o dono do lugar.
Mister Owens, se o senhor fosse outra coisa que não um diabo de um estúpido era só dar um a olhada nesses hom
ens aqui pra perceber sem a m enor som bra de dúvida que não vão m exer um a palha nem sair de onde estão
sentados nem ir pra diabo de lugar nenhum .
Bom então não posso servir vocês.
Quanto a isso o senhor faça com o achar m elhor. Pergunta pra ela o que tem , Tom m y.
Harlan estava sentado na ponta da m esa e girou o tronco e gritou para a m
ulher j unto às suas panelas perguntando em espanhol o que tinha para com
er. Ela olhou na direção da casa. Huesos, disse.
Huesos, disse
Harlan.
Manda ela
trazer, Tom
m y.
Ela não vai trazer coisa nenhum a se eu não m
andar ela trazer. O dono disso aqui sou eu.
Harlan gritava para a porta aberta.
Tenho certeza absoluta que aquele
hom em ali é negro, disse Owens.
Jackson ergueu o rosto para ele.
Brown se virou
para o
proprietário. Tem
um a arm a aí?
disse.
Arm a?
Arm a. Tem
um a arm a aí.
Pois aqui não
tenho.
Brown puxou um pequeno Colt de cinco tiros do cinto e j ogou para
ele. O hom em o apanhou e ficou segurando sem saber o que fazer.
Agora tem um a. Agora atira no negro.
Peraí um m inuto,
diacho, disse
Owens. Atira, disse
Brown.
Jackson ficara de pé e puxara um a das enorm es pistolas de
seu cinto. Owens apontou a pistola para ele. Abaixa isso aí,
disse. Melhor deixar as ordens pra lá e m andar o filho da puta
pro inferno.
Abaixa isso. Diabo, hom
em . Manda ele abaixar.
Atira nele.
Ele engatilhou a pistola.
Jackson atirou. Sim plesm ente passou a m ão esquerda sobre o topo do revólver que segurava num gesto breve
com o um a fagulha de pederneira e o cão desceu. A enorm e pistola escoiceou e um punhado generoso dos m
iolos de Owens saiu voando por trás de seu crânio e foi pousar no chão às suas costas com um baque viscoso. Ele
desabou sem um ai e caiu estatelado de cara no chão com um olho aberto e o sangue brotando pelo buraco nos
fundos de sua cabeça. Jackson sentou. Brown se levantou e foi buscar a pistola e baixou o cão no lugar e a enfiou no
cinto. Negro m ais ruim que esse eu tou pra ver, disse. Vai buscar uns pratos, Charlie. Duvido que a senhora ainda
estej a por aí em algum lugar.
Estavam bebendo em um a cantina nem a trinta m etros da cena quando o tenente e m eia dúzia de soldados arm
ados entraram no estabelecim ento. A cantina se resum ia a um único salão e havia um buraco no teto por onde um
facho de sol penetrava para ilum inar o chão de terra batida e as figuras que cruzavam o am biente desviavam com
cuidado da borda da coluna de luz com o se esta pudesse queim ar ao toque. Eram um a freguesia calej ada e
arrastavam os pés até o balcão e voltavam em seus trapos e peles com o gente das cavernas ocupada em algum
escam bo inom inável. O tenente contornou o solário pestilencial e parou diante de Glanton.
Capitão, viem os levar sob custódia quem quer que
tenha sido o responsável pela m orte de Mister Owens.
Glanton ergueu o rosto. Quem é Mister Owens? disse.
Mister Owens é o cavalheiro que cuidava
das refeições por aqui. Levou um tiro.
Pobre coitado, disse Glanton. Se acom
ode aí.
Couts ignorou o convite. Capitão, não
pretende negar que um de seus hom ens
atirou nele? É exatam ente o que vou fazer,
disse Glanton.
Capitão, isso não tem cabim ento.
O j uiz em ergiu do escuro. Tarde, tenente, disse. Esses hom ens são as testem unhas?
Couts olhou para o cabo. Não, disse. Testem unha nenhum a. Diabo, capitão. Todo m undo viu vocês entrando no
lugar e viu saindo depois que o tiro foi disparado. Vai negar que você e os seus hom ens estavam alm oçando lá?
Negar cada diabo de palavra que você disse aí, disse Glanton.
Bom j uro por deus que posso provar que vocês com eram lá.
Queira por gentileza dirigir suas observações a m inha pessoa, tenente, disse o j uiz. Represento o capitão
Glanton em todas as questões legais. Creio que deve saber antes de m ais nada que o capitão não tenciona ser
cham ado de m entiroso e eu pensaria duas vezes antes de m e bater com ele num affaire d’honneur. Segundo, estive
com ele o dia inteiro e posso lhe assegurar que nem ele nem nenhum dos hom ens dele j am ais pôs os pés no
estabelecim ento ao qual o senhor alude.
O tenente pareceu perplexo ante a nudez descabelada daquelas negativas. Olhava do j uiz para Glanton e de volta ao
prim eiro. Com os diabos, disse. Então se virou e abriu cam inho entre os hom ens e saiu.
Glanton inclinou a cadeira e recostou na parede. Haviam recrutado dois hom ens entre os indigentes do lugar, um
a dupla nada prom issora de bocas-aberras sentados na ponta do banco com o chapéu na m ão. O olhar am
eaçador de Glanton passou por eles e foi pousar no proprietário do im becil sentado sozinho do outro lado do bar
olhando para ele.
É chegado num a
bebida? disse
Glanton. Com o é?
Glanton soltou o ar
lentam ente pelas
narinas. Sou, disse o
hom em . Sou, é.
Havia um balde de m adeira com um sobre a m esa diante de Glanton com um a concha cilíndrica de lata m
ergulhada e cheio até m ais ou m enos um terço com o uísque caseiro tirado de um barril no balcão. Glanton fez
sinal com a cabeça.
Eu não vou servir você.
O proprietário se levantou e apanhou seu copo e atravessou o bar até a m esa. Apanhou a concha e
encheu o copo e pôs a concha de volta na vasilha. Fez um gesto ligeiro com o copo e o ergueu e
esvaziou. Muito grato.
Onde está seu m acaco?
O hom em olhou para o j uiz.
Olhou para Glanton outra vez.
Não costum o sair m uito com
ele.
Onde você conseguiu aquela coisa?
Deixaram pra m im . Mam ãe m orreu. Não tinha ninguém pra cuidar dele. Mandaram ele pra m im . Joplin
Missouri. Só enfiaram num a caixa e puseram no navio. Cinco sem anas, levou. Ele não se incom odou nem um
pouco. Abri a caixa e lá estava ele, sentado.
Sirva-se de m ais um a aí.
Ele pegou a concha e encheu seu copo outra vez.
Em carne e osso. Nunca ergui a m ão pra ele.
Mandei fazer um a roupa de pelos m as ele com
eu. Alguém nesse povoado j á viu o filho da puta?
Claro. Claro que j á. Preciso chegar na
Califórnia. Dá pra cobrar m eio dólar, lá.
Tam bém pode acontecer de ganhar
alcatrão e penas por lá.
Já m e aconteceu. No estado do Arkansas. Disseram que eu tinha dado algum a coisa pra ele. Drogado. Tiraram
da j aula e esperaram m elhorar m as é claro que não m elhorou. Trouxeram um pregador especial pra rezar perto
dele. No fim m e devolveram . Eu podia ser alguém no m undo se não fosse por ele.
Se estou entendendo direito, disse
o j uiz, o im becil é seu irm ão?
Isso m esm o, m oço, disse o hom
em . Essa é a pura verdade.
O j uiz esticou as m ãos e pegou na cabeça do hom em e com eçou a explorar seus contornos. Os olhos do hom
em se m oviam inquietos e ele agarrou os pulsos do j uiz. O j uiz cobria a cabeça inteira em seu aperto com o um
curandeiro pela fé im enso e perigoso. O hom em ficou na ponta dos pés com o que para se acom odar m elhor às
exam inações do outro e quando o j uiz o soltou ele recuou um passo e fitou Glanton com olhos brancos em m eio à
penum bra. Os recrutados na ponta do banco perm aneciam sentados com o queixo caído e o j uiz estreitou um olho
na direção do hom em e o estudou e depois esticou os braços e o agarrou outra vez, prendendo-o pela testa enquanto
o apalpava com a alm ofada do polegar. Quando o j uiz o soltou o hom em deu um passo para trás e caiu por cim a
do banco e os recrutados com eçaram a se sacudir convulsivam ente e exalar risadas asm áticas e grasnar. O
proprietário do idiota olhou em torno pela tasca extravagante, indo de rosto em rosto com o se nenhum deles lhe
bastasse. Aprum ou o corpo e passou pela ponta do banco em direção à saída. Quando estava no m eio do cam
inho o j uiz o cham ou.
Ele sem pre foi
assim ? disse o j
uiz. Sim senhor.
Nasceu desse j
eito.
Virou para ir. Glanton esvaziou o copo e o pousou diante de si e ergueu o rosto. E você? disse. Mas o proprietário j á
em purrara a porta e desaparecera na luz ofuscante lá fora.
O tenente voltou ao anoitecer. Ele e o j uiz sentaram j untos e o j uiz repassou questões legais com ele. O tenente
balançava a cabeça, os lábios franzidos. O j uiz traduziu para ele term os latinos de j urisprudência. Mencionou casos
do direito civil e m arcial. Citou Coke e Blackstone, Anaxim andro, Tales.
Pela m anhã um novo problem a surgiu. Um a j ovenzinha m exicana fora raptada. Partes de suas roupas haviam
sido encontradas rasgadas e ensanguentadas sob a m uralha norte, de onde só podia ter sido j ogada. No deserto
viam -se m arcas de arrasto. Um sapato. O pai da criança se aj oelhava agarrando um trapo m anchado de sangue j
unto ao peito e ninguém o conseguiu persuadir a se levantar e sair. Nessa noite acenderam -se fogueiras pelas ruas
e um boi foi m orto e Glanton e seus hom ens serviram de anfitriões a um a hoste variegada de cidadãos e soldados e
índios am ansados ou tontos com o seus irm ãos do lado de lá dos portões os cham avam . Um barril de uísque foi
aberto e logo havia hom ens cam baleando em m eio à fum aceira. Um com erciante da cidade trouxe um a ninhada
de cães sendo que um deles tinha seis patas e outro duas e um terceiro quatro olhos na cabeça. Ofereceu-os a
Glanton para que os com prasse e Glanton o enxotou dali com um a advertência e am eaçou m eter-lhes um a bala.
O boi foi trinchado até os ossos e até os ossos foram levados e vigas foram arrastadas dos prédios em ruínas e em
pilhadas sobre o fogo. A essa altura vários hom ens de Glanton estavam nus e tropeçando em volta e o j uiz logo
os pôs para dançar com um violino tosco que havia tom ado de alguém e as peles im undas de que haviam se
despido fum egaram e em pestaram o ar e pretej aram em m eio às cham as e as fagulhas verm elhas ascenderam
com o as alm as das m inúsculas vidas que elas haviam abrigado.
À m eia-noite os cidadãos tinham se retirado e hom ens arm ados e nus socavam as portas exigindo bebida e m
ulheres. Às prim eiras horas da m anhã quando as fogueiras haviam se desintegrado em pilhas de brasas e algum
as centelhas flutuavam ao sabor do vento pelas frias ruas de barro cães ferozes trotavam em torno da fogueira do
churrasco agarrando lascas de carne enegrecidas e hom ens enrodilhavam -se nus j unto às soleiras segurando os
cotovelos e roncando sob o frio.
Ao m eio-dia circulavam outra vez, vagando de olhos verm elhos pelas ruas, vestidos na m aior parte com novas
calças e cam isas. Foram buscar os cavalos restantes no ferrador e o suj eito lhes ofereceu um a bebida. Era um
hom enzinho robusto de nom e Pacheco e usava por bigorna um im enso m eteorito de ferro na form a de um
enorm e m olar e o j uiz num a aposta ergueu a coisa e em um a nova aposta ergueu-a acim a da cabeça. Vários
hom ens se acotovelavam para tocar o ferro e para tentar m ovê-lo do lugar, e o j uiz tam pouco perdeu a
oportunidade de expor seus conhecim entos acerca da natureza férrica dos corpos celestiais, bem com o de suas
faculdades e supostos poderes. Traçaram -se duas linhas na terra a três m etros de distância e um a terceira rodada
de apostas foi feita, m oedas de m eia dúzia de países tanto de ouro com o de prata e até algum as boletas ou letras
de câm bio das m inas perto de Tubac. O j uiz agarrou o enorm e fragm ento de escória que viaj ara sabe-se lá por
quantos m ilênios desde qual incalculável rincão do universo e o ergueu acim a da cabeça e com uns passinhos
incertos o arrem essou adiante. O astrólito ultrapassou a m arca em pelo m enos trinta centím etros e ele não
precisou dividir com ninguém o m etal sonante em pilhado em um cobertor aos pés do ferrador pois nem sequer
Glanton se dispusera a dar seu endosso àquela terceira tentativa.
XVII

SAÍDA DE TUCSON — UMA NOVA TANOARIA — UMA TRANSAÇÃO — FLORESTAS DE


SAGUARO — GLANTON DIANTE DO FOGO — COMANDADOS DE GARCIA — O
PARASSELÊNIO — FOGO DIVINO — O EX-PADRE SOBRE ASTRONOMIA — O JUIZ SOBRE O
EXTRATERRENO, A ORDEM, A TELEOLOGIA DO UNIVERSO — TRUQUE COM MOEDA — O
CÃO DE GLANTON — ANIMAIS MORTOS — AS AREIAS — UMA CRUCIFICAÇÃO — O JUIZ
SOBRE A GUERRA — O PADRE NADA DIZ — TIERRAS QUEBRADAS, TIERRAS
DESAMPARADAS — AS TINAJAS ATLAS
— UN HUESO DE PIEDRA — O COLORADO — ARGONAUTAS — YUMAS — BALSEIROS
— PARA O ACAMPAMENTO DOS YUMAS.

Partiram ao crepúsculo. O cabo na guarita sobre o pórtico saiu e gritou que parassem m as não foi obedecido. Eram
vinte e um hom ens e um cachorro e um a pequena carroça aberta a bordo da qual o idiota e sua j aula haviam sido
am arrados com o que para um a viagem m arítim a. Am arrado atrás da j aula ia o barril de uísque que haviam
esvaziado na noite anterior. O barril fora desm ontado e rem ontado por um hom em que Glanton designara tanoeiro
pro tem pore da expedição e agora levava dentro um odre com um feito de estôm ago de ovelha contendo cerca de
três quartos de uísque. O saco ficava preso ao batoque no lado interno e o restante do barril estava cheio d’água.
Assim providos passaram através dos portões e além das m uralhas rum o à pradaria que se esparram ava palpitante
sob as faixas de luz e som bra nos estertores do dia. O carrinho sacolej ava e rangia e o idiota se agarrava às barras
de sua gaiola e gem ia roucam ente para o sol.
Glanton cavalgava à testa da coluna em um a sela Ringgold nova com enfeites de ferro que adquirira e usava um
chapéu novo que era preto e lhe caía bem . Os recrutas agora em núm ero de cinco riam uns para os outros e se
viravam olhando a sentinela. David Brown seguia na retaguarda e deixava ali o irm ão pelo que se revelaria ser para
sem pre e seu hum or estava péssim o o bastante para que desse cabo da sentinela sem nenhum a provocação.
Quando a sentinela cham ou outra vez ele girou com o rifle e o hom em teve o bom senso de se abaixar atrás do
parapeito e não se ouviu m ais sua voz. No longo lusco-fusco os selvagens vieram ao encontro deles e a troca do
uísque se deu sobre um a m anta de Saltillo aberta no chão. Glanton prestou pouca atenção às negociações. Quando
os selvagens depositaram ouro e prata a contento do j uiz Glanton pisou sobre o cobertor e j untou as m oedas
com o calcanhar da bota e depois se afastou e ordenou a Brown que apanhasse o cobertor. Mangas e seus lugares-
tenentes trocaram olhares som brios m as os am ericanos m ontaram e partiram e ninguém olhou para trás a não
ser os recrutas. Estes estavam inteirados dos detalhes do negócio e um deles em parelhou com Brown e perguntou se
os apaches não viriam atrás.
Eles não cavalgam à noite, disse Brown.
O recruta virou e olhou para as figuras reunidas em
torno do barril naquela vastidão nua e penum brosa.
Por que não? ele disse.
Brown cuspiu. Porque fica escuro, disse.
Afastaram -se do povoado tom ando o rum o oeste pela base de um a pequena m ontanha e cruzando um a colônia
de cães-da-pradaria forrada com velhos cacos de cerâm ica de um a olaria que outrora funcionara ali. O dono do
idiota cavalgava à esquerda da j aula de estacas e o idiota se agarrava às barras e observava a terra passar em
silêncio.
Cavalgaram à noite entre florestas de saguaro subindo as colinas a oeste. O céu estava inteiram ente toldado e
essas colunas estriadas pelas quais passavam no escuro eram com o ruínas de tem plos vastos ordenados e graves
e silentes salvo pelos pios suaves de m ochos-anões em seu m eio. Aglom erados espessos de cholla cobriam o
terreno e punhados do cacto agarravam -se aos cavalos com aguilhões capazes de perfurar a sola de um a bota e
atingir os ossos do pé e um vento com eçou a soprar através dos m ontes e por toda a noite sibilou com o som de um
a cobra peçonhenta em m eio àquela extensão incom ensurável de espinhos. Seguiram adiante e a terra foi ficando
m ais e m ais m esquinha e chegaram à prim eira de um a série de j ornadas onde não haveria nenhum a água e ali
acam param . Nessa noite Glanton ficou por um longo tem po contem plando o braseiro da fogueira. Em torno dele
seus hom ens dorm iam m as tanta coisa m udara. Muitos j á não estavam m ais ali, tendo desertado ou m orrido. Os
delawares haviam sido todos m ortos. Ele quedava observando o fogo e se acaso ali enxergou augúrios não lhes deu
im portância. Viveria para ver o m ar ocidental e estava à altura do que quer que sucedesse pois ele era com pleto
em todos os m om entos. Quer sua história transcorresse concom itantem ente à dos hom ens e nações, quer
cessasse. Repudiara havia m uito todo o peso da consequência e concedendo com o o fazia que os destinos dos hom
ens estão todos traçados ainda assim arrogava conter em si tudo que ele algum dia seria no m undo e tudo que o m
undo seria para ele e m esm o que os term os de seu contrato estivessem escritos na própria pedra prim ordial
reivindicava o direito à ação e tal o afirm ava e conduzia o sol im placável a sua derradeira tenebrosidade com o
se estivesse sob seu com ando desde o início dos tem pos, antes de haver cam inhos onde quer que fosse, antes de
haver hom ens ou sóis a passar sobre eles.
A sua frente estava sentado o volum e vasto e abom inável do j uiz. Sem inu, rabiscando em seu livrinho. Na
floresta espinhenta pela qual haviam acabado de passar os pequenos lobos do deserto latiram e na planície árida
adiante outros responderam e o vento abanou os carvões que ele contem plava. Os esqueletos de cholla ali
fulgurando em sua cestaria incandescente pulsavam com o holotúrias cham ej antes na escuridão fosfórica das
profundezas do m ar. O idiota em sua j aula fora puxado para perto do fogo e fitava as cham as incansavelm ente.
Quando Glanton ergueu a cabeça viu o kid do outro lado da fogueira, agachado em seu cobertor, observando o j
uiz.
Dois dias depois encontraram um a legião m altrapilha sob o com ando do coronel Garcia. Eram tropas de Sonora
à procura de um bando de apaches liderados por Pablo e seu núm ero m ontava a um a centena de cavaleiros.
Alguns deles estavam sem chapéu e outros sem pantalonas e ainda outros nada vestiam sob os casacos e suas arm as
estavam em petição de m iséria, velhas espingardas de pederneira e m osquetes Tower, uns com arcos e flechas
ou nada além de cordas para garrotear o inim igo.
Glanton e seus hom ens passaram a com panhia em revista com perplexidade insensível. Os m exicanos os
rodeavam com as m ãos estendidas pedindo tabaco e Glanton e o coronel trocaram cortesias rudim entares e então
Glanton abriu cam inho entre a horda de im portunos. Eram de outra nação, aqueles cavaleiros, e toda aquela terra ao
sul de onde haviam se originado e quaisquer regiões a leste para onde se dirigiam eram -lhe destituídas de
significado e tanto o solo com o qualquer viandante nele pisando rem otos e de substancialidade discutível. Esse
sentim ento se fez transm itir por si m esm o à com panhia antes que Glanton sequer houvesse se afastado inteiram
ente e cada hom em virou seu cavalo e cada hom em o seguiu e nem m esm o o j uiz abriu a boca para se escusar ao
deixar aquele encontro.
Cavalgaram pela escuridão adentro e a vastidão alva de luar se estendia adiante fria e pálida e a lua pairava em um
halo acim a de suas cabeças e nesse halo residia um sim ulacro de lua com seus próprios m ares frios e nacarados.
Acam param em um a plataform a baixa onde paredes de agregado seco assinalavam o antigo curso de um rio e m
ontaram um a fogueira em torno da qual sentaram em silêncio, os olhos do cão e do idiota e de alguns outros
hom ens cintilando verm elhos com o brasas em suas órbitas quando viravam a cabeça. As cham as dançavam ao
vento e os tições em palideciam e avivavam e em palideciam e avivavam com o o batim ento sanguíneo de algum a
criatura viva eviscerada sobre o chão a sua frente e eles contem plavam o fogo que de fato contém em si parte do
próprio hom em pois que este o é m enos sem ele e se vê separado de suas origens e se torna um exilado. Pois
cada fogo é todos os fogos, o prim eiro fogo e o últim o que um dia haverá de ser. Após algum tem po o j uiz se
levantou e se afastou para algum a m issão obscura e depois de alguns instantes alguém perguntou ao ex-padre se
era verdade que em certa época houvera duas luas no céu e o ex-padre espreitou a falsa lua sobre eles e disse que
podia m uito bem ser que sim . Mas decerto o sábio Deus altíssim o em sua consternação pela proliferação de
lunáticos nessa terra devia ter lam bido um polegar e se curvado lá no caos e beliscado o astro e o extinguido com
um chiado. E acaso fosse capaz de encontrar algum outro m eio pelo qual os pássaros pudessem corrigir suas rotas
na escuridão ele o teria feito tam bém com essa.
Foi proposta em seguida a questão de haver em Marte ou em outros planetas no vácuo hom ens ou criaturas com
o eles e nesse ponto o j uiz que voltara para j unto do fogo e estava ali de pé sem inu e suando falou e afirm ou que
não havia e que não existiam hom ens em parte algum a do universo salvo os que se encontravam sobre a Terra.
Todos ouviram conform e falava, os que se viraram para observá-lo e os que não o fizeram .
A verdade sobre o m undo, disse, é que tudo é possível. Não o houvessem visto todos vocês desde o nascim ento e
desse m odo o dessecado de toda sua estranheza ele se lhes revelaria tal com o é, um truque com cartola num
espetáculo m am bem be, um sonho febril, um transe superpovoado de quim eras sem análogo nem precedentes, um
parque de diversões itinerante, um a feira am bulante cuj o destino últim o após incontáveis tendas erguidas em
incontáveis terrenos barrentos é inexprim ível e calam itoso além de todo entendim ento.
O universo não é coisa que conheça algum a restrição e a ordem que nele reina não é com pelida por qualquer
latitude em sua concepção a repetir o que quer que exista em um a parte em qualquer outra dada parte. Mesm o
neste m undo m ais coisas existem sem nosso conhecim ento do que com ele e a ordem que vocês enxergam na
criação é a que vocês m esm os puseram ali, com o um fio em um labirinto, de m odo a não se perder do cam inho.
Pois a existência tem sua própria ordem e esta nenhum a m ente hum ana pode abarcar, sendo a própria m ente
apenas m ais um fato entre outros.
Brown cuspiu no fogo. Isso é só m ais um a das suas m aluquices, disse.
O j uiz sorriu. Pousou as palm as das m ãos sobre o peito e inalou o ar noturno e deu um passo
adiante e se acocorou e estendeu a m ão. Virou essa m ão e havia um a m oeda de ouro entre seus
dedos. Onde está a m oeda, Davy ?
Vou dizer onde pode enfiar a m oeda.
O j uiz fez um m eneio com a m ão e a m oeda cintilou no ar sobre a fogueira. Devia estar am arrada a um a
linha sutil, de crina de cavalo, talvez, pois contornou o fogo e retornou ao j uiz e ele a apanhou em sua m ão e
sorriu. O arco dos corpos que circulam é determ inado pelo com prim ento de suas peias, disse o j uiz. Luas, m
oedas, hom ens. Sua m ão ia e vinha com o que puxando algo do punho fechado em um a série de m ovim entos
alongados.
Não tire os olhos da m oeda, Davy, disse.
Arrem essou-a e ela descreveu um arco através do fogo e sum iu na escuridão m ais além . Ficaram observando a
noite onde sum ira e observavam o j uiz e observando uns este e outros aquela constituíam um a testem unha com
um .
A m oeda, Davy, a m oeda, sussurrou o j uiz. Sentou ereto e ergueu a m ão e sorriu para o grupo.
A m oeda regressou do m eio da noite e atravessou o fogo com um zunido tênue e agudo e a m ão erguida do j uiz
estava vazia e então segurava a m oeda. Um suave som espalm ado e lá estava a m oeda. Ainda assim alguns
alegaram que j ogara a m oeda fora e exibira outra igual e fizera o som com a língua pois se tratava de um
habilidoso velho prestidigitador e com o ele próprio o afirm ara ao guardar a m oeda todos os hom ens sabiam que
havia m oedas e falsas m oedas. Pela m anhã alguns chegaram até a peram bular pelo terreno onde a m oeda sum
ira m as se alguém a encontrou guardou-a consigo e quando o sol nasceu haviam m ontado e cavalgavam novam
ente.
O carrinho com o idiota em sua j aula sacolej ava por últim o e agora o cão de Glanton ficava para trás para trotar
a seu lado, talvez por conta de algum instinto protetor com o o que as crianças evocam em anim ais. Mas Glanton
cham ou o cachorro para perto de si e quando este não veio ele retardou o passo ao longo da pequena coluna e se
curvou e o açoitou cruelm ente com sua corda de m aniota e o obrigou a seguir a sua frente.
Com eçaram a topar com correntes e albardas, balancins, m ulas m ortas, carroções. Arm ações de selas cuj o
couro fora roído por com pleto e que j aziam sob a intem périe brancas com o osso, ligeiras chanfraduras das m
ordiscadas de cam undongos nas beiradas da m adeira. Cavalgaram por um a região onde o ferro não enferruj a nem
a folha de flandres se deslustra. As arcadas de costelas do gado m orto sob pedaços de couro seco j aziam com o
destroços de barcos prim itivos em borcados naquele vazio sem praias e eles passaram em palidecidos e austeros
pelas form as negras e dessecadas de cavalos e m ulas que viaj antes haviam posto de pé. Esses anim ais
estorricados haviam m orrido com os pescoços esticados em agonia na areia e agora eretos e cegos e oscilando de
lado com fragm entos de couro enegrecido pendendo da grega de suas costelas curvavam -se com as com pridas
bocas gritando para a sucessão de sóis que passava acim a. Os cavaleiros seguiram em frente. Cruzaram um vasto
lago seco com um a cadeia de vulcões extintos perfilada além de sua m argem com o obras de enorm es insetos.
Ao sul esparram avam -se form as irregulares de escória em um m anto de lava até onde a vista alcançava. Sob os
cascos dos cavalos a areia de alabastro m oldava-se em espiras estranham ente sim étricas com o lim alha de ferro
em um cam po m agnético e esses padrões desabrochavam para logo em seguida se retrair, repercutindo através
daquele solo harm ônico e então rodopiando para desaparecer em um torvelinho sobre a play a. Com o se o
próprio sedim ento das coisas contivesse ainda algum resíduo senciente. Com o se o trânsito daqueles cavaleiros
fosse algo de tão profundam ente terrível que tivesse de ficar registrado até na m ais extrem a granulação da
realidade.
Em um a elevação no extrem o oeste da play a eles passaram por um a rústica cruz de m adeira onde m aricopas
haviam crucificado um apache. O cadáver m um ificado pendia de seu m astro com a boca escancarada num buraco
brutal, um a coisa de couro e osso areada pelos ventos abrasivos de púm ice vindos do lago e com a branca arm
ação das costelas entrevendo-se pelos farrapos de pele que pendiam de seu peito. Seguiram em frente. Os cavalos m
archavam som briam ente no solo alienígena e a terra redonda rolava sob eles em silêncio com o um a m ó girando
no vácuo ainda m aior onde estavam contidos. Na austeridade neutra daquela região a todos os fenôm enos era
legada um a estranha equanim idade e nem um a única criatura fosse um a aranha fosse um a pedra fosse um a
folha de m ato podia reclam ar precedência. A própria clareza desses entes desm entia sua fam iliaridade, pois o
olhar atribui predicado ao todo com base em algum traço ou parte e ali nenhum a coisa era m ais lum inosa que
outra e nenhum a m ais ensom brecida e na dem ocracia óptica de tais panoram as toda preferência é tornada em
capricho e um hom em e um a pedra veem -se dotados de afinidades insuspeitas.
Foram ficando cada vez m ais esqueléticos e descarnados sob os sóis brancos desses dias e seus olhos encovados
e exauridos eram com o de sonâm bulos surpreendidos pelo dia. Recurvados sob os chapéus pareciam fugitivos
em algum a escala m ais grandiosa, com o seres que atiçassem a avidez do sol. Até o j uiz foi ficando cada vez m
ais silencioso e especulativo. Falava na pessoa se purgar dessas coisas que reivindicam a posse de um hom em m
as o público a quem dirigia seus com entários considerava-se por aqui de quaisquer reivindicações que fossem .
Seguiram em frente e o vento soprou o fino pó cinza diante deles e aquilo que m archava era um exército de
barbas cinza, hom ens cinza, cavalos cinza. As m ontanhas ao norte perfilavam -se no sentido do sol em pregas
corrugadas e os dias eram frios e as noites geladas e sentavam em torno do fogo cada um em sua orbe de trevas
naquela orbe de escuridão enquanto o idiota assistia de sua j aula no lim iar da luz. Com o fundo de um m achado o j
uiz partiu a tíbia de um antílope e o tutano quente pingou fum egante sobre as pedras. Todos o observavam . O
assunto era a guerra.
O livro santo diz que aquele que vive pela espada m orrerá pela espada, disse o negro.
O j uiz sorriu, o rosto reluzindo de gordura. Que hom em j usto esperaria que fosse de outro m odo? disse.
O livro santo de fato considera a guerra um m al, disse Irving. Mas dentro dele tem um m onte de histórias sangrentas
de guerra.
Não faz diferença o que o hom em pensa da guerra, disse o j uiz. A guerra perdura. É a m esm a coisa que
perguntar o que o hom em pensa da pedra. A guerra sem pre vai existir. Antes do hom em aparecer, a guerra estava a
sua espera. A ocupação suprem a à espera do praticante suprem o. Assim foi e assim será. Assim e de m ais nenhum
outro j eito.
Virou para Brown, de quem partira entre dentes algum resm ungo ou obj eção. Ah Davy, disse. Mas é sua
ocupação que estam os exaltando aqui. Por que não dem onstra em vez disso algum reconhecim ento. Que cada
qual sej a grato pela sua.
Minha
ocupação
? Com
certeza.
Qual é m inha ocupação?
A guerra. A guerra é
sua ocupação. Ou
não? E sua não é.
Minha tam bém . Sem dúvida.
E todos aqueles caderninhos e ossos e outras coisas?
Todas as dem ais ocupações
estão contidas nessa da
guerra. É por isso que a
guerra perdura?
Não. Perdura porque os j ovens são loucos por ela e os velhos adoram ver
essa paixão que há neles. Os que com bateram e os que não com bateram .
Essa é sua opinião.
O j uiz sorriu. Os hom ens nasceram para os j ogos. Nada m ais. Qualquer criança sabe que brincar é m ais nobre
que trabalhar. Sabe tam bém que o valor ou m érito de um j ogo não é inerente ao j ogo em si m as antes ao valor
do que está em risco. Jogos de azar exigem um a aposta para significar algum a coisa. Jogos esportivos envolvem a
habilidade e força dos oponentes e a hum ilhação da derrota e o orgulho da vitória são em si m esm os aposta
suficiente pois estão indissociavelm ente ligados ao valor dos envolvidos e os definem . Mas sej a qual for a prova,
se de sorte ou valor, todo j ogo aspira à condição de guerra pois nesse caso o que se aposta suprim e tudo, j ogo,
j ogadores, tudo.
Im aginem dois hom ens j ogando cartas sem outra coisa para apostar além de suas vidas. Quem j á não ouviu
falar de algo assim ? A virada de um a carta. Para esse j ogador o universo inteiro avançou laboriosam ente em todo
seu fragor para chegar a esse m om ento que dirá se ele vai m orrer na m ão daquele hom em ou se aquele hom em
m orrerá na sua. Que confirm ação m ais definitiva do valor de um hom em pode haver que essa? Essa
intensificação do j ogo a sua condição suprem a não adm ite qualquer discussão relativa à ideia de destino. A seleção
de um hom em em detrim ento de outro é um a preferência absoluta e irrevogável e é um estúpido genuíno aquele
capaz de supor um a decisão assim tão profunda sem um agente ou significação, um a coisa ou outra. Em tais
disputas em que o que está em j ogo é a aniquilação do derrotado as decisões são cristalinas. Esse hom em
segurando esse arranj o particular de cartas em sua m ão é por isso rem ovido da existência. Essa é a natureza da
guerra, cuj a aposta é ao m esm o tem po o j ogo e a autoridade e a j ustificação. Vista dessa form a, a guerra é a
form a m ais legítim a de divinação. Significa pôr à prova a vontade de um indivíduo e a vontade de outro no
contexto dessa vontade m ais am pla que, ao ligar as deles, é por conseguinte forçada a selecionar. A guerra é o j
ogo suprem o porque a guerra é em últim a instância um forçar da unidade da existência. A guerra é deus.
Brown exam inou o j uiz. Você ficou
louco, Holden. Enlouqueceu de vez.
O j uiz sorriu.
A força não torna j usto, disse Irving. O hom em que vence um com bate não está j ustificado m oralm ente.
A lei m oral é um a invenção da hum anidade para destituir de seus direitos os fortes em favor dos fracos. A lei da
história a subverte a cada avanço. Um ponto de vista m oral j am ais pode se provar j usto ou inj usto por nenhum
teste últim o. Ao tom bar m orto em duelo um hom em não é visto com o tendo dem onstrado o erro de seus pontos
de vista. Seu próprio envolvim ento em tal prova fornece a evidência de um ponto de vista novo e m ais am plo. A
predisposição das partes envolvidas em se abster de m aiores discussões pela trivialidade que de fato im plicam e
em apelar diretam ente aos foros do absoluto histórico indica claram ente a pequena im portância das opiniões e a
enorm e im portância das divergências que lhes são concernentes. Pois a discussão é de fato trivial, m as não o são
as vontades isoladas por cuj o interm édio tornam -se m anifestas. A vaidade do hom em pode m uito bem se acercar
do infinito em capacidade m as seu conhecim ento perm anece im perfeito e por m ais que venha a valorizar seus j
uízos no fim de tudo ele deve subm etê-los a um a instância superior. Aqui não cabe qualquer recurso excepcional.
Aqui considerações de equidade e retidão e direito m oral são tornadas nulas e inafiançáveis e aqui os pontos de
vista dos litigantes são desprezados. Decisões de vida e m orte, do que deve existir e do que não deve,
transcendem toda a questão da j ustiça. A escolhas dessa m agnitude toda escolha m enor se subordina, m oral,
espiritual, natural.
O j uiz percorreu a roda com o olhar à procura
de oponentes. Mas e o padre o que diz? disse.
Tobin ergueu o rosto. O padre não diz nada.
O padre não diz nada, disse o j uiz. Nihil dicit. Mas o padre j á disse. Pois o padre pendurou os traj es de seu ofício e
em punhou as ferram entas dessa vocação m ais elevada a que todos os hom ens prestam deferência.
Tam bém o padre rej eitou servir a deus para ser ele próprio um deus.
Tobin sacudiu a cabeça. Você tem a língua blasfem a, Holden. E pra
falar a verdade nunca cheguei a padre m as fui só um noviço da ordem .
Mestre padre ou padre aprendiz tanto faz, disse o j uiz. Os hom ens de
deus e os hom ens de guerra guardam estranhas afinidades.
Não vou secundar você em suas
opiniões, disse Tobin. Não m e peça
isso. Ah Padre, disse o j uiz. O que
poderia eu pedir que você j á não
tivesse dado?

No dia seguinte atravessaram o m alpais a pé, conduzindo os cavalos sobre um leito de lago coberto de lava e cheio
de fissuras e preto-averm elhado com o um a bacia de sangue coagulado, vencendo aquelas vítreas badlands de âm
bar-am arelo escuro com o os rem anescentes de algum a obscura legião lutando por deixar um a terra am
aldiçoada, em purrando o carrinho com os om bros sobre as gretas e saliências, o idiota agarrado às barras e
exclam ando roucam ente para o sol com o um deus estranho e indom ável de um a raça de degenerados. Cruzaram
um a extensão silicosa de escória cim entada e cinzas vulcânicas im ponderável com o o piso exaurido do inferno e
ascenderam por um a cadeia baixa de colinas estéreis de granito até um prom ontório árido onde o j uiz,
triangulando com base em pontos conhecidos da paisagem , recalculou o curso da com panhia. Um a planura de
cascalho esparram ava-se em direção ao horizonte. No sul longínquo além dos negros m ontes vulcânicos assom
ava um a crista albina solitária, areia ou gipsita, com o o dorso de algum pálido leviata subindo à tona entre escuros
arquipélagos. Seguiram em frente. Após um dia de viagem chegaram aos tanques rochosos e à água que buscavam e
beberam e baldearam água dos tanques m ais elevados para os tanques secos abaixo, para os cavalos.
Em qualquer bebedouro de deserto existem ossos m as o j uiz nessa noite trouxe para j unto do fogo um com o
ninguém nunca vira antes, um enorm e fêm ur de algum m onstro havia m uito extinto que ele encontrara exposto
pela intem périe em um a escarpa e do qual agora tirava as dim ensões com um a fita m étrica que carregava
consigo e esboçava em seu diário. Todos naquela com panhia j á haviam escutado o j uiz discorrer sobre
paleontologia exceto os novos recrutas e estes sentavam em torno e o observavam e lhe propunham todas as
questões que eram capazes de form ular. Ele as respondia com cuidado, esm iuçando suas próprias perguntas para
eles, com o se pudessem se constituir em aprendizes de eruditos. Eles abanavam a cabeça estultam ente e
esticavam os braços para tocar aquele pilar de osso m anchado e petrificado, talvez para sentir com os dedos as im
ensidades tem porais de que o j uiz falava. O dono do im becil desceu-o de sua j aula e o am arrou j unto à fogueira
com um a corda trançada de crina de cavalo à prova de ser roída e ele ficou de pé e inclinado em sua coleira com as
m ãos esticadas com o se ansiasse pelo fogo. O cachorro de Glanton se ergueu e o ficou observando e o idiota
balançava e babava com seus olhos baços enganosam ente abrilhantados pelas cham as. O j uiz segurava o fêm ur
na vertical de m odo a m elhor ilustrar suas analogias com os ossos predom inantes na região e então o deixou cair
na areia e fechou o livro.
Não há m istério nenhum nisso, disse.
Os recrutas pestanej aram estupidam ente.
Seus corações desej am a revelação de algum m istério. O m istério é que não existe m istério.
Ergueu-se e se afastou para sum ir na escuridão além do fogo. Pois sim , disse o ex-padre observando, o cachim
bo apagado na boca. Mistério nenhum . Com o se ele não fosse m istério suficiente, em busteiro danado dos
infernos.

Três dias m ais tarde chegaram ao Colorado. Pararam na beira do rio observando as águas turvas e cor de argila
descendo pelo deserto em um a efervescência m onótona e uniform e. Dois grous alçaram voo da m argem e
bateram asas para longe e os cavalos e m ulas puxados pela ribanceira se aventuraram hesitantes nos baixios entre
os redem oinhos e puseram -se a beber e erguer os focinhos gotej antes para observar a passagem da correnteza e
a m argem oposta.
Rio acim a encontraram um acam pam ento com os rem anescentes de um a caravana de carroções dizim ada
pelo cólera. Os sobreviventes andavam sob o sol a pino entre os fogos com os alim entos ou arregalavam olhos
encovados para os dragoons m altrapilhos surgindo a cavalo por entre os salgueiros. Suas posses estavam
espalhadas sobre a areia e os pertences m iseráveis dos falecidos haviam sido separados para serem repartidos
entre eles. No acam pam ento viam -se alguns índios y um as. Os hom ens usavam o cabelo longo repicado à faca
ou em plastrado com perucas de lam a e peram bulavam em torno com um andar bam boleante segurando pesadas
clavas em suas m ãos. Tanto os hom ens com o as m ulheres exibiam tatuagens no rosto e as m ulheres andavam
nuas exceto pelas saias de casca de salgueiro entrançadas em cordas finas e m uitas delas eram form osas e m
uitas m ais m ostravam as m arcas da sífilis.
Glanton m ovia-se entre aquele arraial calam itoso com o cão a reboque e o rifle na m ão. Os y um as estavam
atravessando a nado para o outro lado do rio as poucas m ulas lam entáveis que haviam restado ao grupo e ele
parou na m argem e os observou. Rio abaixo haviam afogado um dos anim ais e puxaram -no em terra para ser
esquartej ado. Um velho com um casaco de shacto e um a com prida barba sentava com as botas de um lado e os
pés dentro do rio.
Onde estão seus
cavalos todos? disse
Glanton. A gente com
eu.
Glanton estudou o rio.
Com o
pretendem
atravessar? De
balsa.
Olhou do outro lado do rio no ponto onde o hom em
indicara. O que ele ganha pra atravessar vocês? disse.
Um dólar a cabeça.
Glanton virou e estudou os peregrinos na m argem . O cachorro bebia água e ele disse algum a coisa para o anim al e o
cachorro subiu e sentou perto de seu j oelho.
A balsa partiu da m argem oposta e cruzou a água rio acim a até um atracadouro feito de troncos trazidos pela
correnteza. O barco era construído com a estrutura principal de um par de carroções m ontados um no outro e
calafetados com piche. Um grupo de pessoas j ogara suas bagagens em cim a do om bro e aguardava. Glanton se
virou e subiu a ribanceira para buscar seu cavalo.
O balseiro era um m édico do estado de Nova York cham ado Lincoln. Ele estava supervisionando o em barque
da carga, os passageiros subindo a bordo e agachando ao longo das am uradas da barcaça com seus em brulhos e
lançando olhares incertos para o am plo volum e d’água. Um cão em parte m astim sentava na m argem
observando. Com a aproxim ação de Glanton ele se levantou e eriçou o pelo. O m édico virou e protegeu os olhos
do sol com a m ão e Glanton se apresentou. Apertaram as m ãos. Prazer, capitão Glanton. Ao seu dispor.
Glanton balançou a cabeça. O m édico deu instruções aos dois suj eitos que trabalhavam para ele e ele e Glanton
cam inharam pela trilha rio abaixo, Glanton puxando o cavalo e o cão do m édico os seguindo a cerca de dez passos
de distância.
O grupo de Glanton estava acam pado em um a plataform a de areia parcialm ente som breada pelos salgueiros
ribeirinhos. Quando ele e o m édico se aproxim aram o idiota se ergueu em sua j aula e agarrou as barras e com
eçou a soltar pios de coruj a com o que advertindo o m édico a voltar por onde viera. O m édico passou longe da
criatura, olhando de soslaio para seu anfitrião, m as os lugares-tenentes de Glanton haviam se aproxim ado e logo o
m édico e o j uiz absorviam -se num a conversa para exclusão de todos os dem ais.
Ao anoitecer Glanton e o j uiz e um destacam ento de cinco cavalgaram rio abaixo rum o ao acam pam ento dos y
um as. Atravessaram um pálido bosque de salgueiros e sicôm oros exibindo escam as de argila das cheias do rio e
passaram por antigas acéquias e pequenos cam pos invernais onde as cascas secas de m ilho farfalhavam levem
ente com o vento e cruzaram o rio no vau do Algodones. Quando os cães os anunciaram o sol j á se pusera e a terra
a oeste era verm elha e brum osa e cavalgavam em fila indiana num cam afeu delineado pela luz bordô com seus
lados escuros voltados para o rio. As fogueiras do acam pam ento fum açavam entre as árvores e um a delegação
de selvagens a cavalo veio a seu encontro.
Fizeram alto e perm aneceram nos cavalos. O grupo que se aproxim ou traj ava atavios de tal bufonaria e contudo
m archava com tal fleum a que os hom ens brancos m al conseguiram m anter a com postura. O líder era um suj
eito cham ado Caballo en Pelo e esse velho m ongólico usava um sobretudo de lã preso por um cinto que teria
sido adequado a um clim a m uito m ais frio e por baixo um a blusa fem inina de seda bordada e pantalonas de
cassineta cinza. Era pequeno e rij o e perdera um olho para os m aricopas e saudou os am ericanos com um
estranho olhar de esguelha e priápico que podia ao m esm o tem po ser um sorriso. À sua direita ia um chefe m
enor cham ado Pascual usando um casaco com galões esfarrapado e que exibia no nariz um osso enfeitado com
pequenos pingentes. O terceiro era o hom em cham ado Pablo e traj ava um casaco escarlate com alam ares e
dragonas de fio prateado desbotados. Estava descalço e com as pernas descobertas e em seu rosto havia um par de
óculos verdes redondos. Assim ataviados pararam diante dos am ericanos e acenaram com a cabeça austeram ente.
Brown cuspiu no chão com
asco e Glanton abanou a
cabeça. É ou não é um bando
de negroides destram belhados,
disse.
Apenas o j uiz pareceu avaliá-los com o devido vagar e o fez com sobriedade, j
ulgando com o deve ter feito que as coisas dificilm ente são o que parecem .
Buenas tardes, disse.
O m ongol apontou com o queixo, um pequeno gesto vago de algum a am biguidade. Buenas tardes, disse. De dónde
viene?
XVIII

REGRESSO AO ACAMPAMENTO — O IDIOTA É SOLTO — SARAH BORGINNIS — UMA


CONFRONTAÇÃO — BANHO NO RIO — O TUMBRIL INCENDIADO — JAMES ROBERT NO
ACAMPAMENTO — OUTRO BATISMO — O JUIZ E O TOLO.

Quando deixaram o acam pam ento dos y um as foi na escuridão da alta m adrugada. Câncer, Virgem e Leão
percorriam a eclíptica no céu noturno m eridional e a norte a constelação de Cassiopeia ardia com o a assinatura de
um a bruxa na face negra do firm am ento. Na parlam entação que durou a noite toda haviam chegado a um acordo
com os y um as de j untar forças para tom ar a balsa. Cavalgaram rio acim a entre árvores m anchadas pelas cheias
conversando em voz baixa entre si com o hom ens voltando tarde de um a reunião social, de um casam ento ou de
um enterro.
Ao raiar do dia as m ulheres perto do ancoradouro haviam descoberto o idiota em sua j aula. Fizeram um a roda
em torno dele, ao que parecia im perturbáveis diante da nudez e im undície. Cantarolaram palavras de carinho para
ele e conferenciaram entre si e um a m ulher de nom e Sarah Borginnis liderou o grupo à procura do irm ão. Era um
a m ulher enorm e de rosto rubicundo e lhe passou um a descom postura daquelas.
Com o o senhor se cham
a afinal de contas? disse.
Cloy ce Bell, senhora.
E ele?
O nom e dele é Jam es Robert m
as ninguém cham a ele assim não.
Se sua m ãe visse ele desse j eito
o que o senhor acha que ia dizer.
Sei lá. Já m orreu.
O senhor não
tem vergonha?
Não senhora.
O senhor não m e responda.
Não estou respondendo. Se quiser pode levar ele em bora.
Dou pra senhora. Não posso fazer m ais do que j á fiz.
Diabos m e carreguem se o senhor vale algum a coisa.
Virou-se para as outras m ulheres.
Vocês aí m e aj udem . A gente precisa dar um banho nele e
arrum ar um as roupas pra ele. Alguém vai buscar um sabão.
Senhora, disse o proprietário.
Vocês aí vam os levar ele pro rio.

Toadvine e o kid passaram por elas no m om ento em que arrastavam o carrinho. Saíram da frente e observaram -nas ir. O
idiota agarrava as barras e piava para a água e algum as m ulheres haviam com eçado a entoar um hino.
Pra onde estão levando aquela coisa? disse Toadvine.
O kid não sabia. Em purravam o carrinho de ré pela areia fofa na direção da m argem do rio e
deixaram que descesse a ribanceira e abriram a j aula. A tal da Borginnis parou diante do im becil.
Jam es Robert venha pra fora.
Esticou o braço e o tom ou pela m ão. Ele espiou a água atrás dela, depois foi em sua direção.
Um suspiro percorreu o grupo de m ulheres, várias das quais haviam erguido as saias e prendido na cintura e agora
esperavam no rio para recebê-lo.
Ela o carregou, com ele agarrado a seu pescoço. Quando os pés dele tocaram o chão ele se virou para a água. A m
ulher ficou suj a de fezes m as pareceu não se dar conta. Olhou para trás para as que ficaram na m argem . Queim
em aquela coisa, disse.
Alguém correu até a fogueira para apanhar um a m adeira em brasa e enquanto
conduziam Jam es Robert para dentro das águas trouxeram o tição até a j aula e atearam
fogo. Ele tentava agarrar as saias, estendia a m ão em garra, balbuciando, babando.
Ele está vendo ele m esm o no reflexo, disseram .
Chiu. Im aginem engaiolar essa criança com o um anim al selvagem .
O fogo da pequena carroça em cham as crepitou no ar seco e o ruído deve ter cham ado a atenção do idiota pois
virou os olhos m ortiços e encovados nessa direção. Ele percebe, disseram . Todas concordaram . A Borginnis
vadeou o rio com seu vestido flutuando inflado em torno do corpo e o puxou para o fundo e o girou no torvelinho
em seus grandes braços robustos m esm o sendo o hom em adulto que era. Ergueu-o no colo, cantarolou para ele.
O pálido cabelo da m ulher boiava na água.
Seus antigos com panheiros o viram nessa noite diante das fogueiras dos m igrantes em um terno grosseiro de lã
trançada. O pescoço fino virava cautelosam ente no colarinho da cam isa grande dem ais. Haviam besuntado seu
cabelo e penteado para trás bem rente ao crânio de m odo que parecia com o que pintado ali. Deram -lhe doces e
ele ficou sentado babando e fitando o fogo, para grande adm iração de todos. No escuro o rio seguia correndo e
um a luz cor de peixe subiu no deserto a leste e proj etou suas som bras lateralm ente sob a luz fria. As fogueiras m
inguaram e a fum aça pairou cinzenta e enclausurada na noite. Os pequenos lobos chacais ganiam do outro lado do
rio e os cães no acam pam ento se agitavam e m urm uravam . Borginnis levou o idiota a seu catre sob a lona de um
carroção e o despiu deixando-o com a nova roupa de baixo e o enfiou sob a coberta e lhe deu um beij o de boa-noite
e o acam pam ento m ergulhou lentam ente no silêncio. Quando o idiota atravessou aquele anfiteatro azul e fum
acento estava nu outra vez, bam boleando entre as fogueiras com o um m egatério despelado. Parou e farej ou o
ar e seguiu adiante em seu passo arrastado. Passou longe do atracadouro e cam baleou entre os salgueiros da m
argem do rio, choram ingando e golpeando coisas na noite com os braços finos. Depois parou solitário à beira
d’água. Piou fracam ente e o som de sua voz afastou-se dele com o um a dádiva que tam bém se fazia necessária de
m odo que eco nenhum lhe foi devolvido. Entrou na água. Mal o rio lhe cobria a cintura perdeu o pé e afundou e
sum iu de vista.
Acontece que o j uiz em um a de suas peram bulações notívagas passava bem nesse local ele próprio nu em pelo
— encontros com o esses sendo m ais com uns do que os hom ens supõem ou então quem sobreviveria a qualquer
travessia noturna — e entrou no rio e resgatou o idiota que se afogava, segurando-o no alto pelos tornozelos com o
um a enorm e parteira e batendo-lhe nas costas para fazer a água sair. Um a cena de nascim ento ou um batism o ou
algum ritual ainda por celebrar em um cânon qualquer. Ele torceu o cabelo da criatura e aninhou o tolo nu e
soluçante em seus braços e o carregou até o acam pam ento onde o restituiu a seus cam aradas.
XIX

O OBUS — ATAQUE DOS YUMAS — UMA ESCARAMUÇA — GLANTON SE APOSSA DA BALSA


— O JUDAS ENFORCADO — O COFRE — UMA DELEGAÇÃO PARA A COSTA — SAN DIEGO —
ARRANJOS PARA SUPRIMENTOS — BROWN NO FERRADOR — UMA DISPUTA — WEBSTER E
TOADVINE LIBERTADOS — O OCEANO — UMA ALTERCAÇÃO — UM HOMEM QUEIMADO
VIVO — BROWN IN DURANCE VILE — HISTÓRIAS DE TESOURO — UMA FUGA —
ASSASSINATO NAS MONTANHAS — GLANTON PARTE DE YUMA — O ALCAIDE ENFORCADO
— REFÉNS
— REGRESSA A YUMA — O MÉDICO E O JUIZ, O PRETO E O TOLO — ALVORECER NO RIO —
CARROÇAS SEM RODAS — ASSASSINATO DE JACKSON — O MASSACRE YUMA.

O m édico rum ava para a Califórnia quando a balsa caiu em sua posse em grande parte por acaso. Nos m eses que
se seguiram acum ulou um a riqueza considerável em ouro e prata e j oias. Ele e os dois hom ens que
trabalhavam sob suas ordens haviam fixado residência na m argem oeste do rio num ponto dom inando o
atracadouro entre os pilares estruturais de um a fortificação inacabada de pedra e barro na encosta de um a colina.
Além do par de carroções de carga que herdara da unidade sob com ando do m aj or Graham tinha consigo tam
bém um obus de m ontanha — um canhão de bronze de doze libras com um a boca do tam anho de um prato — e
a peça de artilharia perm anecia parada e descarregada em seu reparo de m adeira. Nos aloj am entos rústicos do m
édico ele e Glanton e o j uiz j unto com Brown e Irving sentavam bebericando chá e Glanton resum iu para o m
édico algum as de suas aventuras entre os índios e o aconselhou enfaticam ente a proteger sua posição. O m édico
obj etou. Afirm ou que se dava perfeitam ente bem com os índios. Glanton disse na sua cara que qualquer hom em
que confiasse em um índio era um tolo. O m édico ficou verm elho m as m ordeu a língua. O j uiz interveio.
Perguntou ao doutor se considerava os peregrinos am ontoados na m argem oposta com o estando sob sua proteção.
O m édico disse que era assim m esm o que os considerava. O j uiz falou de m odo ponderado e solícito e quando
Glanton e seu destacam ento desceram a encosta para atravessar de volta a seu acam pam ento tinham a perm issão
do m édico para fortificar a colina e carregar o obus e com esse fim aprestaram -se a fundir o restante de seu chum
bo até obter cerca de um chapéu de balas de rifle.
Carregaram o obus ao anoitecer com algo com o um a libra de pólvora e a fornada com pleta de proj éteis e rolaram
laboriosam ente o canhão para um ponto de vantagem dom inando o rio e o atracadouro m ais abaixo.
Dois dias depois os y um as atacaram o ancoradouro. A barcaça estava na m argem oeste do rio descarregando
carga com o o com binado e os viaj antes esperavam em torno para apanhar seus pertences. Os selvagens surgiram
m ontados e a pé do m eio dos salgueiros sem o m enor aviso e enxam earam através do terreno aberto na direção
da balsa. Na colina acim a deles Brown e Long Webster m iraram o obus e o firm aram e Brown esm agou seu
charuto aceso no ouvido do canhão.
Mesm o no alto daquele terreno aberto a concussão foi im ensa. O obus em seu reparo pulou acim a do chão e
recuou com estrépito em m eio à fum aceira sobre a argila com pactada. Um a terrível destruição varreu a planície
aluvial abaixo do forte e m ais de um a dúzia de y um as j azia m orto ou se contorcendo na areia. Um enorm e lam
ento ecoou entre eles e Glanton e seus cavaleiros saíram em fila do litoral arborizado rio acim a e arrem eteram
e eles uivaram de fúria com a traição. Seus cavalos com eçaram a se m over em confusão e eles os puxavam e
disparavam flechas contra os dragoons cada vez m ais próxim os e foram alvej ados em saraivadas de tiros de
pistola e os desem barcados no ancoradouro tentavam atabalhoadam ente pegar suas arm as em m eio à bagagem e
se aj oelharam e fizeram fogo de onde estavam enquanto as m ulheres e crianças ficavam de bruços entre os baús e
engradados. Os cavalos dos y um as em pinavam e relinchavam e pisoteavam violentam ente a areia fofa exibindo
os arcos das narinas e seus olhos brancos e os sobreviventes correram para os salgueiros de onde haviam em ergido
deixando no cam po os feridos e os m oribundos e os m ortos. Glanton e seus hom ens não os perseguiram . Desm
ontaram e cam inharam m etodicam ente entre os caídos despachando seus hom ens e cavalos igualm ente cada um
com um a bala de pistola nos m iolos sob os olhares dos passageiros da balsa e então tiraram os escalpos.
O m édico perm aneceu em silêncio no parapeito baixo do forte e assistiu aos corpos sendo arrastados pelo
atracadouro e chutados para dentro do rio. Virou-se e fitou Brown e Webster. Haviam puxado o obus de volta à
posição e Brown sentava despreocupado sobre o cano quente fum ando seu charuto e observando a atividade lá em
baixo. O m édico se virou e cam inhou de volta a seus aposentos.
No dia seguinte ele tam pouco apareceu. Glanton se encarregou da operação da balsa. Pessoas que haviam
esperado três dias para fazer a travessia por um dólar a cabeça ficavam sabendo agora que a passagem custava
quatro dólares. E até m esm o essa tarifa não continuou a valer por m ais que alguns dias. Logo eles operavam um a
espécie de balsa procustiana onde as passagens eram fixadas sob m edida para acom odar a carteira do viaj ante. No
fim todos os pretextos foram deixados de lado e os im igrantes passaram a ser sum ariam ente roubados. Viaj antes
eram espancados e tinham suas arm as e pertences confiscados e viam -se atirados ao deserto desam parados e
reduzidos à m endicância. O m édico desceu para repreendê-los e recebeu sua cota dos ganhos e foi m andado de
volta. Cavalos eram tom ados e m ulheres violentadas e corpos com eçaram a passar flutuando rio abaixo pelo
acam pam ento dos y um as. Conform e esses abusos se m ultiplicavam o m édico se entrincheirou em seus aloj am
entos para não m ais ser visto.
No m ês seguinte um a com panhia do Kentucky sob o com ando do general Patterson chegou e recusando-se
a negociar com Glanton construiu um a balsa m ais abaixo e atravessou o rio e seguiu em frente. Essa em
barcação caiu nas m ãos dos y um as e foi operada por um hom em de nom e Callaghan, m as alguns dias depois a
balsa foi incendiada e o corpo decapitado de Callaghan desceu anonim am ente a correnteza do rio, um abutre
pousado entre suas om oplatas em preto clerical, passageiro silencioso rum o ao oceano.
A Páscoa nesse ano caiu no últim o dia de m arço e ao alvorecer desse dia o kid j unto com Toadvine e um rapaz
cham ado Billy Carr cruzaram o rio para cortar postes de salgueiro em um ponto onde essas árvores cresciam perto
do rio acim a do acam pam ento dos im igrantes. Passando por esse lugar ainda antes da luz encontraram um grupo
de sonoranos por ali e viram pendurado em um patíbulo um pobre Judas feito de palha e velhos trapos exibindo no
rosto de lona um a carranca pintada que refletia na m ão que a executara nada além de um a concepção infantil
sobre o hom em e seu crim e. Os sonoranos estavam de pé bebendo desde a m eia-noite e haviam acendido um a
fogueira na plataform a de adobe onde o patíbulo fora m ontado e quando os am ericanos passaram na orla do acam
pam ento eles os cham aram em espanhol. Alguém voltara da fogueira trazendo um longo bam bu com um a estopa
acesa na ponta e punham fogo no Judas. As roupas esfarrapadas estavam cheias de busca-pés e foguetes e quando
o fogo se alastrou o boneco com eçou a se desfazer pedaço por pedaço em um a chuva de trapos e palhas em
cham as. Até que no fim um a bom ba em suas calças explodiu e fez tudo voar pelos ares com um fedor de fuligem
e enxofre e os hom ens deram vivas e os m eninos atiraram um as últim as pedras contra os restos enegrecidos
pendurados na forca. O kid foi o últim o a passar pela área e os sonoranos o cham aram e lhe ofereceram vinho de
um odre de pele de cabra m as ele aj eitou os om bros em seu casaco esfarrapado e apertou o passo.
Nessa altura Glanton escravizara um certo núm ero de sonoranos e m antinha equipes deles trabalhando na
fortificação da colina. Tam bém estavam detidos em seu acam pam ento um a dúzia ou m ais de índios e garotas
m exicanas, algum as pouco m ais que crianças. Glanton supervisionava com algum interesse a construção das m
uralhas a sua volta m as no m ais deixava que seus hom ens tocassem o negócio da travessia com terrível
indiferença. Parecia pouco se dar conta da riqueza que iam acum ulando em bora diariam ente abrisse o cadeado de
latão usado para trancar o baú de m adeira e couro em seu aloj am ento e erguesse a tam pa e esvaziasse sacos
inteiros de obj etos de valor ali dentro, o baú j á contendo m ilhares de dólares em m oedas de ouro e prata, bem com
o j oias, relógios, pistolas, ouro puro em bolsinhas de couro, lingotes de prata, facas, talheres e bandej as de prata,
dentes.
No dia dois de abril David Brown partiu j unto com Long Webster e Toadvine para a cidade de San Diego na
antiga costa m exicana com o propósito de obter suprim entos. Levaram consigo um pequeno com boio de bestas
de carga e saíram ao pôr do sol, deixando as árvores para trás e virando-se para olhar o rio e então fazendo os
cavalos descerem de lado pelas dunas e m ergulhando no lusco-fusco azulado e frio.
Atravessaram o deserto em cinco dias sem nenhum incidente e subiram a cadeia costeira e conduziram as m
ulas pela neve no desfiladeiro e desceram a encosta oeste e entraram na cidade sob um a garoa branda. Suas roupas
de pele estavam pesadas de água e os anim ais m anchados com o sedim ento que escorria deles e de seus j aezes.
Um a cavalaria dos Estados Unidos passou por eles na lam a da rua e bem ao longe podiam ouvir o estouro do m
ar contra o litoral cinzento e pedregoso.
Brown tirou da m açaneta de sua sela um m orral de fibra cheio de m oedas e os três apearam e entraram em um a
venda de uísque e sem dizer palavra esvaziaram o bornal sobre o balcão do m erceeiro.
Havia dobrões cunhados na Espanha e em Guadalaj ara e m eios dobrões e dólares de ouro e m inúsculas m oedas
de ouro de m eio dólar e m oedas francesas de dez francos e águias de ouro e m eias águias e m oedas com furo e
dólares cunhados na Carolina do Norte e na Georgia de ouro puro de vinte e dois quilates. O m erceeiro as pesou em
pilhadas em um a balança com um , separadas pelo tipo, e puxou rolhas e serviu doses generosas em copos de lata
com as m edidas em gills gravadas no m etal. Eles beberam e pousaram os copos e ele em purrou a garrafa sobre as
tábuas rústicas m al-serradas do balcão.
Haviam trazido um a lista dos suprim entos encom endados e quando entraram em um acordo quanto ao preço da
farinha e do café e de alguns outros gêneros saíram para a rua cada um com um a garrafa na m ão. Desceram da
calçada de pranchas de m adeira e atravessaram a rua enlam eada e passaram por fileiras de choupanas rústicas e
cruzaram um a pequena plaza além da qual era possível avistar as ondas da m aré vazante e um pequeno acam pam
ento de barracas e um a rua onde as m oradias atarracadas eram feitas de peles e dispostas com o botes curiosos ao
longo da ourela de sea oats acim a da praia e negras retintas e reluzentes sob a chuva.
Foi em um a delas que Brown acordou na m anhã seguinte. Da noite anterior pouco se lem brava e não havia m
ais ninguém com ele ali dentro da cabana. O que sobrara do dinheiro estava em um a bolsa em torno de seu pescoço.
Ele em purrou a porta feita de couro esticado num a m oldura de m adeira e saiu em m eio à escuridão e à névoa.
Não haviam abrigado nem alim entado os anim ais e ele voltou até a m ercearia onde estavam am arrados e sentou
na calçada e observou a luz da aurora descendo pelas colinas atrás da cidade.
Ao m eio-dia estava de olhos verm elhos e fedendo diante da porta do alcaide para exigir a libertação de seus com
panheiros. O alcaide saiu pelos fundos e pouco depois chegaram um cabo am ericano e dois soldados que o
advertiram a ir em bora. Um a hora m ais tarde estava na oficina do ferrador. Parou cautelosam ente na entrada
espiando a penum bra até conseguir divisar a form a das coisas ali dentro.
O ferrador estava em sua bancada e Brown entrou e pousou diante dele um estoj o de m ogno lustroso em cuj a
tam pa se via pregada um a placa de latão com um nom e. Ele destravou os fechos e abriu o estoj o e tirou de seu
nicho um par de canos de espingarda e apanhou a coronha com a outra m ão. Encaixou os canos na culatra de
patente e apoiou a arm a na bancada em posição vertical e fixou o pino de segurança para travar o encaixe.
Engatilhou os dois cães com os polegares e voltou a baixá-los. A espingarda era de fabricação inglesa e tinha canos
dam asquinados e fecharias trabalhadas e na coronha de m ogno viam -se os nós da m adeira. Ergueu o rosto. O
ferrador estava olhando para ele.
O senhor
trabalha com
arm as? De vez
em quando.
Preciso que m e cortem esses canos.
O hom em pegou a arm a e segurou em suas m ãos. Havia um a nervura central em relevo entre os canos e
trabalhado em ouro o nom e do fabricante, Londres. Duas guarnições de platina cingiam a culatra de patente e as
fecharias e os cães eram enfeitados com ornatos de arabescos burilados profundam ente no aço e havia perdizes
gravadas na frente e atrás do nom e do fabricante aí. Os canos arroxeados haviam sido fundidos a partir de cintas
triplas e o ferro e aço m artelados exibiam um padrão de ondulações com o se fossem rastros de um a serpente
estranha e antiga, rara e bela e letal, e os veios verm elho-escuros da m adeira da coronha evocavam plum as e em
seu canto inferior havia um a pequena caixa de fulm inantes de prata acionada a m ola.
O ferrador virou a arm a em suas m ãos e olhou para Brown. Olhou para o estoj o. Era forrado de baeta verde e
possuía pequenos com partim entos sob m edida contendo um cortador de cartuchos, um polvorinho de peltre, bicos
de lim peza, um carregador de fulm inantes de patente, tam bém de peltre.
Precisa o quê? ele disse.
Serrar os canos. Por aqui, m ais ou m
enos. Atravessou um dedo no m eio da
arm a. Não posso fazer isso.
Brown olhou
para ele. Não
pode? Não
senhor.
Ele olhou em torno da oficina. Bom , disse. E eu que pensava que
qualquer idiota do inferno era capaz de serrar os canos de um a
espingarda. O senhor não bate bem . Por que alguém ia querer serrar os
canos de um a arm a dessas?
O que foi que disse? disse Brown.
O hom em estendeu a arm a nervosam ente. Só quis dizer que não vej o por que
alguém ia querer estragar um a arm a boa com o essa aqui. Quanto o senhor quer
nela? Não está à venda. O senhor acha então que não bato bem ?
Não acho não.
Não quis dizer
isso. Vai cortar
os canos ou não
vai?
Não posso.
Não pode ou não quer?
Escolha o que m elhor lhe convier.
Brown apanhou a
espingarda e a pousou na
bancada. Quanto custa pra
fazer o serviço? disse.
Não vou fazer.
Se um hom em quisesse fazer
qual seria um preço j usto?
Sei lá. Um dólar.
Brown enfiou a m ão no bolso e puxou um punhado de m oedas. Pôs um a m oeda de ouro de dois dólares e m eio em
cim a da bancada. Bom , disse. Estou pagando dois dólares e m eio.
O ferrador olhou para a m oeda nervosam ente. Não preciso do seu
dinheiro, disse. Não pode m e pagar pra estragar um a arm a dessas.
O senhor acabou de ser pago.
Não fui não.
Aí está o dinheiro. Agora ou o senhor se m ete a serrar ou o senhor
negligencia o seu m ister. E nesse caso eu vou enfiar isso aqui no seu
rabo. O ferrador não tirava os olhos de Brown. Com eçou a recuar para
longe da bancada e então se virou e saiu correndo.
Quando o sargento da guarda chegou Brown havia prendido a espingarda no torno de bancada e estava
trabalhando nos canos com um a serra de arco. O sargento deu a volta até onde pudesse enxergar seu rosto. O que
foi? disse Brown.
Esse hom em disse que o
senhor am eaçou a vida
dele. Que hom em ?
Esse hom em aqui. O sargento
apontou a porta do barracão com o
queixo. Brown continuava a serrar.
Cham a isso de hom em ? disse.
Nunca falei pra ele que ele podia vir aqui e
usar m inhas ferram entas, disse o ferrador.
E quanto a isso? disse o sargento.
E quanto a quê?
Com o responde a
queixa desse hom em
? O suj eito é um m
entiroso.
Nunca am
eaçou ele?
Correto.
O diabo que não.
Am eaçar não am eaço ninguém . Disse que ele ia
levar um a sova e se eu digo isso você pode
escrever. Não cham a isso de am eaça?
Brown ergueu o rosto. Não foi am eaça. Foi prom essa.
Curvou-se sobre o trabalho outra vez e com m ais algum as serradas os canos caíram no chão. Pousou a serra e
abriu as m andíbulas da m orsa e ergueu a espingarda e rem oveu o pino que prendia os canos à coronha e guardou
as partes no estoj o e fechou a tam pa e depois os fechos.
Qual o m otivo da
discussão? disse o
sargento. Que eu saiba
não teve discussão
nenhum a.
Melhor perguntar pra ele onde foi que arrum ou essa arm a que
ele acabou de estragar. Ele roubou em algum lugar, pode apostar.
Onde conseguiu a espingarda? disse o sargento.
Brown se abaixou e apanhou os canos serrados. Tinham cerca de cinquenta centím etros de com prim ento e ele
os segurava pela ponta m ais estreita. Contornou a bancada e passou pelo sargento. Enfiou o estoj o debaixo do
braço. Virou ao chegar à porta. O ferrador sum ira de vista. Ele olhou para o sargento.
Acho que o hom em acaba de retirar a queixa, disse. Bem capaz que estivesse de fogo.

Quando atravessava a praça na direção do pequeno cabildo de barro encontrou Toadvine e Webster, que haviam
acabado de ser soltos. Pareciam anim ais selvagens e cheiravam m al. Os três desceram para a praia e ficaram
contem plando as longas vagas cinzentas e passando a garrafa de Brown de m ão em m ão. Nenhum deles j am ais
vira o oceano antes. Brown desceu e m ergulhou a m ão no lençol de espum a que corria sobre a areia escura.
Ergueu-a e provou o sal em seus dedos e olhou para um lado da praia depois para o outro e então eles subiram e
voltaram à cidade.
Passaram a tarde bebendo em um a bodega lazarenta tocada por um m exicano. Alguns soldados entraram . Um
a altercação com eçou. Toadvine ficou de pé, cam baleante. Um apaziguador se adiantou do m eio dos soldados e
logo os envolvidos tornavam a sentar. Mas m inutos depois quando voltava do balcão Brown entornou um j arro de
aguardiente sobre um j ovem soldado e ateou fogo nele com seu charuto. O hom em correu para fora sem um som
exceto o vuush das cham as e as cham as eram azuladas e pálidas e depois invisíveis sob a luz do sol e ele lutou
para apagá-las na rua com o um hom em atacado por abelhas ou pela loucura e então se j ogou no chão e foi consum
ido pelo fogo. Quando se aproxim aram com um balde d’água era um a form a enegrecida e enrugada na lam a com
o um a gigantesca aranha.
Brown acordou em um a cela pequena e escura algem ado e enlouquecido de sede. A prim eira coisa que verificou foi a
bolsinha de m oedas. Continuava dentro de sua cam isa. Levantou da palha e encostou o olho na seteira.
Era dia. Gritou para que alguém aparecesse. Sentou e com as m ãos acorrentadas contou as m oedas e voltou a guardá-las
na bolsa.
Ao anoitecer um soldado lhe trouxe o j antar. O nom e do soldado era Petit e Brown lhe m ostrou seu colar de
orelhas e lhe m ostrou suas m oedas. Petit disse que não queria tom ar parte em seus esquem as. Brown lhe contou
com o tinha trinta m il dólares enterrados no deserto. Contou-lhe sobre a balsa, pondo-se no lugar de Glanton.
Mostrou-lhe as m oedas m ais um a vez e falou com fam iliaridade sobre seus locais de origem , suplem entando as
inform ações extraídas do j uiz com outras im provisadas. Meio a m eio, sibilou. Você e eu.
Exam inou o recruta através das barras. Petit esfregou a m anga na
testa. Brown voltou a guardar as m oedas no saco e o ofereceu para
ele. Não acha que podem os confiar um no outro? disse.
O rapaz ficou segurando a bolsa de m oedas com ar indeciso. Fez m
enção de devolvê-las através das barras. Brown se afastou e ergueu as m
ãos. Não sej a bobo, sibilou. O que acha que eu não teria feito pra ter um
a chance dessas na sua idade?
Quando Petit se foi ele sentou na palha e olhou para o fino prato m etálico de feij ões e tortilhas. Após algum tem po
com eu. Lá fora voltara a chover e pôde escutar cavaleiros passando na lam a da rua e logo escureceu.
Partiram duas noites depois. Iam cada um com um cavalo de m ontaria passável e um rifle e um cobertor e
levavam um a m ula que carregava um a provisão seca de m ilho e carne e tâm aras. Subiram pelas colinas úm idas
e na prim eira luz Brown ergueu o rifle e alvej ou o rapaz na parte de trás da cabeça. O cavalo avançou bruscam
ente e o rapaz tom bou para trás, toda a tam pa traseira do crânio destruída e os m iolos à m ostra. Brown parou sua
m ontaria e apeou e recuperou a bolsa de m oedas e pegou a faca do rapaz e seu rifle e seu polvorinho e seu casaco
e decepou as orelhas da cabeça do rapaz e prendeu-as em seu escapulário e então voltou a m ontar e seguiu em
frente. A m ula o seguiu e após algum tem po o m esm o fez o cavalo que o rapaz m ontara.

Quando Webster e Toadvine entraram no acam pam ento em Yum a não tinham nem os suprim entos nem as m ulas
com que haviam partido. Glanton cham ou cinco hom ens e saiu ao crepúsculo deixando o j uiz encarregado da
balsa. Chegaram a San Diego na calada da noite e se inform ando foram para a casa do alcaide. O hom em
atendeu à porta em cam isolão e gorro de dorm ir segurando um a vela diante de si. Glanton o em purrou de volta à
sala e m andou seus hom ens para os fundos de onde se ouviu incontinênti gritos de m ulher e bofetadas surdas e
depois silêncio.
O alcaide era um hom em na casa dos sessenta e virou-se para correr em auxílio da m ulher e foi derrubado com
um a pancada de cano de pistola. Ficou de pé outra vez segurando a cabeça. Glanton em purrou-o para o côm odo
dos fundos. Em sua m ão levava um a corda j á preparada com um nó corrediço e virou o alcaide e enfiou a corda
sobre sua cabeça e retesou-a. A esposa sentava na cam a e ao ver isso com eçou a gritar outra vez. Um de seus
olhos estava inchado e se fechava rapidam ente e agora um dos recrutas a atingiu bem no m eio da boca e ela caiu
na cam a desarrum ada e pôs as m ãos sobre a cabeça. Glanton segurou a vela no alto e ordenou a um dos
recrutas que subisse nos om bros de seu colega e o rapaz tateou ao longo do topo de um a das vigas até encontrar
um espaço e então enfiou a ponta da corda por ele e a desceu e eles se penduraram na corda e ergueram o alcaide
m udo e se debatendo no ar. Não haviam am arrado suas m ãos e ele apalpava freneticam ente acim a da cabeça
tentando segurar a corda e içar o próprio corpo para evitar o estrangulam ento e chutava com os pés e girava
devagar à luz da vela.
Válgam e Dios, engasgou. Qué quiere?
Quero m eu dinheiro, disse Glanton. Quero m eu
dinheiro e quero m inhas m ulas e quero David
Brown. Cóm o? ofegou o velho.
Alguém acendera um lam pião. A velha senhora se ergueu e viu prim eiro a som bra e depois o
vulto de seu m arido pendurado na corda e com eçou a rastej ar pela cam a em sua direção.
Dígam e, ofegou o alcaide.
Alguém fez m enção de agarrar a esposa m as Glanton im pediu com um gesto e ela desceu cam baleando da
cam a e agarrou o m arido na altura dos j oelhos para segurá-lo no alto. Soluçava e im plorava m isericórdia igualm
ente a Glanton e a Deus.
Glanton deu a volta para onde pudesse ver o rosto do hom em . Quero m eu dinheiro, disse. Meu
dinheiro e m inhas m ulas e o hom em que m andei vir aqui. El hom bre que tiene usted. Mi com
pañero. No no, ofegou o enforcado. Búscale. Nenhum hom em aqui.
Onde
está?
Não
está
aqui.
Está, está sim . Está no j uzgado.
No no. Madre de Jesús. Não
aqui. Foi em bora. Siete, ocho
días. Onde é o j uzgado?
Cóm o?
El j uzgado. Dónde está?
A velha tirou um braço tem po suficiente para apontar, o rosto apertado contra a perna do hom em . Allá, disse. Allá.
Dois hom ens saíram , um segurando o toco da vela e protegendo a cham a com a m ão em concha. Quando voltaram
relataram que o pequeno cárcere nos fundos do prédio estava vazio.
Glanton estudou o alcaide. A velha bam boleava visivelm ente. Haviam enrolado parcialm ente a corda na coluna
traseira da cam a e ele afrouxou a corda e o alcaide e sua esposa desabaram no chão.
Deixaram -nos am arrados e am ordaçados e saíram para procurar o m erceeiro. Três dias depois o alcaide e o m
erceeiro e a esposa do alcaide foram encontrados am arrados em m eio ao próprio excrem ento em um a cabana
abandonada à beira do oceano doze quilôm etros ao sul do povoado. Havia sido deixado para eles um tacho com
água de onde bebiam com o cães e uivaram para o estouro das ondas ali no m eio do nada até ficarem m udos
com o pedras.
Glanton e seus hom ens passaram dois dias e noites nas ruas enlouquecidos pelo álcool. O sargento encarregado
da pequena guarnição de tropas am ericanas os confrontou em um estabelecim ento de bebidas no anoitecer do
segundo dia e ele e os três hom ens que o acom panhavam foram espancados até perderem os sentidos e despoj
ados de suas arm as. Ao raiar do dia quando os soldados chutaram a porta da estalagem não havia ninguém por lá.
Glanton regressou sozinho a Yum a, seus hom ens tendo ido atrás das j azidas de ouro. Naquela vastidão forrada
de ossos encontrou bandos m iseráveis de viaj antes a pé que o cham avam e hom ens m ortos onde haviam caído e
m oribundos e grupos de gente em volta de um últim o carroção ou carroça berrando roucam ente para as m ulas ou
bois e dando-lhes vergastadas para seguir adiante com o se carregassem naqueles frágeis caissons a própria arca da
aliança e esses anim ais iriam m orrer assim com o as pessoas que iam com eles e gritavam para o cavaleiro solitário
advertindo-o sobre o perigo no atracadouro e o cavaleiro seguia em frente no contrafluxo da m aré de refugiados
com o algum herói célebre indo ao encontro de fosse lá que fera da guerra ou peste ou fom e a ser arrostada com seu
queixo altivo im placável.
Quando chegou a Yum a estava bêbado. Atrás de si num a corda puxava dois pequenos j egues carregados com
uísque e bolachas duras. Montava em seu cavalo e contem plava o rio que era o guardião das encruzilhadas de todo
aquele m undo e seu cachorro veio até ele e farej ou seu pé no estribo.
Um a garotinha m exicana estava agachada nua à som bra do m uro. Observou-o passar, cobrindo os seios com as
m ãos. Usava um a coleira de couro cru no pescoço e estava acorrentada a um poste e havia um a tigela de argila
com pedaços enegrecidos de carne a seu lado. Glanton am arrou os j egues ao poste e entrou a cavalo.
Não se via vivalm a. Desceu até o atracadouro. Quando olhava para o rio o m édico desceu tropeçando pela
ribanceira e agarrou o pé de Glanton e com eçou a im plorar com ele em um palavrório sem sentido. Descuidava
a própria pessoa havia sem anas e estava im undo e desgrenhado e puxava a perna da calça de Glanton e apontava a
fortificação na colina. Aquele hom em , disse. Aquele hom em .
Glanton tirou a bota do estribo e em purrou o m édico com o pé e virou o cavalo e voltou subindo a colina.
Avistou a silhueta do j uiz de pé no topo da elevação recortado contra o sol crepuscular com o um enorm e
arquim andrita calvo. Estava em brulhado em um m anto de tecido m acio sob o qual nada vestia. O negro Jackson
saiu de um a das casam atas de pedra traj ado de form a sim ilar e parou a seu lado. Glanton voltou cavalgando ao
longo da crista da colina e foi para suas acom odações.
Por toda a noite o som de tiros espocou de form a interm itente através da água e tam bém risadas e ébrias im
precações. Quando o dia nasceu ninguém apareceu. A balsa flutuava presa em suas am arras e do outro lado do
rio um hom em desceu ao atracadouro e soprou um a corneta e esperou e depois voltou por onde viera.
A balsa perm aneceu inativa o dia todo. Ao anoitecer a bebedeira e a orgia haviam recom eçado e os gritos das j
ovens atravessavam o ar por sobre as águas para chegar aos peregrinos enrodilhados em seu acam pam ento.
Alguém dera uísque m isturado com salsaparrilha para o idiota e a criatura incapaz de m uita coisa além de andar
com eçara a dançar perante o fogo com saltitantes passos sim iescos, m ovendo-se com grande seriedade e
estalando os lábios úm idos e m olengos.
Ao alvorecer o negro saiu para o atracadouro e com eçou a urinar no rio. A barcaça estava m ais abaixo
encostada na m argem com alguns dedos de água arenosa acum ulados nas tábuas do deque. Puxando as vestes em
torno do corpo ele subiu a bordo do banco do rem ador e ficou ali oscilando. A água corria pelas tábuas em sua
direção. Ficou parado olhando. O sol ainda não surgira e fiapos baixos de brum a pairavam sobre a água. Rio abaixo
alguns patos saíram dos salgueiros. Circularam pela água turbulenta e depois bateram asas ao chegar ao m eio do rio
e alçaram voo e descreveram um círculo e seguiram seu rum o rio acim a. No piso da barcaça havia um a pequena
m oeda. Talvez outrora ocultada sob a língua de algum passageiro. Abaixou-se para apanhá-la. Aprum ou-se e lim
pou a suj eira da m oeda e a segurou no alto e quando fazia isso um a longa flecha de bam bu atravessou a parte
superior de seu abdôm en e seguiu voando e foi cair m uito ao longe no rio e afundou e subiu à tona outra vez para
com eçar a girar e ser levada pela correnteza.
Olhou em volta, seu m anto suspenso em torno dele. Segurava o ferim ento e com a outra m ão tateava furiosam
ente o tecido à procura das arm as que não estavam lá porque estavam em outro lugar. Um a segunda flecha passou
por ele à esquerda e duas m ais o atingiram e se aloj aram com firm eza em seu peito e em sua virilha. Tinham
pouco m ais de um m etro de com prim ento e bam bolearam ligeiram ente com seus m ovim entos com o varas
cerim oniais e ele agarrou a coxa onde o escuro sangue arterial j orrava ao longo da haste e deu um passo na direção
da m argem e tom bou de lado dentro do rio.
A água era rasa e ele se m ovia debilm ente para recuperar o equilíbrio quando o prim eiro dos y um as pulou a
bordo da barcaça. Com pletam ente nu, o cabelo tingido de laranj a, o rosto pintado de preto com um a linha
escarlate dividindo-o ao m eio do alto da testa ao queixo. Bateu com os pés duas vezes nas tábuas e abriu os braços
com o um taum aturgo selvagem saído de um dram a atávico e se esticou e agarrou o negro pelo m anto em m eio
às águas averm elhadas e o ergueu e despedaçou sua cabeça com a clava de guerra.
Enxam earam colina acim a na direção do forte onde os am ericanos dorm iam e alguns iam a cavalo e outros a
pé e todos eles arm ados com arcos e clavas e seus rostos pretej ados ou esbranquiçados de pintura e os cabelos
duros de barro. O prim eiro aloj am ento em que entraram foi o de Lincoln. Quando em ergiram alguns m inutos
depois um deles carregava a cabeça gotej ante do m édico pelo cabelo e outros arrastavam atrás de si o cachorro do
m édico, preso pelo focinho, contorcendo-se e golpeando através da lam a seca do pátio. Entraram em um a choça
de estacas de salgueiro e lona e m ataram Gunn e Wilson e Henderson Sm ith um de cada vez conform e se
erguiam bêbados e seguiram adiante por entre os rústicos m uros inacabados em total silêncio reluzindo de tinta e
oleosidade e sangue em m eio a faixas de luz onde o sol nascente agora tocava os terrenos m ais elevados.
Quando entraram no aposento de Glanton ele se soergueu confusam ente e lançou olhares coléricos em torno. O
pequeno quarto de barro que ocupava era inteiram ente preenchido pela cam a de latão que extorquira de algum
a fam ília de peregrinos e sentou-se nela com o um depravado barão feudal com suas arm as penduradas em um
suntuoso arranj o nos ornam entos da cabeceira. Caballo en Pelo subiu na cam a de casal com ele e ficou ali
enquanto um dos m em bros da delegação que o acom panhava lhe estendeu pelo lado direito um m achado com um
cuj o cabo de cária era entalhado com m otivos pagãos e rem atado por um a borla de plum as de aves de rapina.
Glanton cuspiu.
Anda logo seu negroide verm elho do inferno, disse, e o velho ergueu o m achado e partiu ao m eio a cabeça de John
Joel Glanton até a goela.
Quando invadiram os aposentos do j uiz encontraram o idiota e um a garota de cerca de doze anos encolhendo-se
nua no chão. Atrás deles tam bém nu estava o j uiz. Segurava apontado para eles o cano de bronze do obus. O reparo
de m adeira j azia no chão, as braçadeiras dos m ancais arrancadas e retorcidas. O j uiz tinha o canhão debaixo do
braço e segurava o charuto aceso acim a do ouvido da peça. Os y um as caíram uns sobre os outros ao recuar e o j
uiz enfiou o charuto na boca e pegou sua valise e saiu pela porta e sem pre andando de costas desceu a ribanceira. O
idiota, que m al lhe batia na cintura, ficou o tem po todo colado ao seu lado, e j untos entraram pelo bosque na base
da colina e sum iram de vista.

Os selvagens m ontaram um a fogueira sobre a colina e alim entaram -na com a m obília dos aloj am entos dos hom
ens brancos e ergueram o corpo de Glanton e o seguraram no alto à m aneira de um cam peão m orto e então o
arrem essaram nas cham as. Haviam am arrado o cachorro ao corpo do dono e o anim al foi arrastado j unto em um
sati de uivos para desaparecer crepitando sob os turbilhões de fum aça da m adeira verde. O torso do m édico foi
arrastado pelos tornozelos e erguido e atirado dentro da pira e o m astim do m édico tam bém foi j ogado nas cham
as. Ele deslizou se debatendo pelo lado oposto e as correias com que fora preso devem ter se queim ado e partido
pois o anim al com eçou a se afastar rastej ando da fogueira cham uscado e cego e fum egante e foi lançado de volta
com um a pá. Os dem ais corpos em núm ero de oito foram em pilhados sobre o fogo onde chiaram e federam e a
fum aça espessa desceu rolando na direção do rio. A cabeça do m édico fora espetada em um a estaca e carregada
por algum tem po até que tam bém ela teve as labaredas por destino. As arm as e roupas foram repartidas sobre
a argila e repartidos tam bém foram o ouro e a prata tirados do baú rachado às m achadadas que haviam arrastado
para fora. Tudo m ais foi am ontoado em cim a das cham as e enquanto o sol se erguia e brilhava em seus rostos
espalhafatosos sentaram -se no chão cada um com seus novos pertences diante de si e contem plaram o fogo e fum
aram seus cachim bos com o o faria um a trupe pintada de m ím icos recuperando as forças em um lugar assim tão
rem oto e longe das cidades e do populacho que os apupava através das lam parinas fum egantes da ribalta, vislum
brando cidades por vir e a pobre fanfarra de trom pete e tam bor e as rústicas tábuas sobre as quais seus destinos
estavam inscritos pois essas pessoas não eram m enos com pelidas e escravizadas e contem plavam com o a
prefiguração de seu próprio fim os crânios carbonizados de seus inim igos incandescendo perante seus olhos e
fulgurando com o sangue entre as brasas.
XX

A FUGA — NO DESERTO — PERSEGUIDOS PELOS YUMAS — UM CONTRA-ATAQUE —


ALAMO MUCHO — OUTRO FUGITIVO — UM CERCO — TIRO AO ALVO — FOGUEIRAS À
NOITE — O JUIZ VIVE — BARGANHA NO DESERTO — COMO O EX-PADRE VEM A DEFENDER
O HOMICÍDIO — EM MARCHA — OUTRO ENCONTRO — CARRIZO CREEK — UM ATAQUE —
ENTRE OS OSSOS — DE VIDA OU MORTE — UM EXORCISMO — TOBIN BALEADO — UMA
DELIBERAÇÃO — O SACRIFÍCIO DOS CAVALOS — O JUIZ SOBRE PERDAS E DANOS —
OUTRA FUGA, OUTRO DESERTO.

Toadvine e o kid bateram em retirada com batendo rio acim a em m eio às sam am baias da m argem com o estrépito
das flechas ecoando pelos bam bus a toda sua volta. Saíram dos espessos salgueirais e escalaram as dunas e
desceram do lado oposto e reapareceram , dois vultos escuros em agonia sobre as areias, ora correndo, ora se
esquivando, o estam pido da pistola surdo e am ortecido em cam po aberto. Os y um as que transpuseram a crista das
dunas eram em núm ero de quatro e não os seguiram m as antes fixaram o curso deles no terreno ao qual haviam
confiado sua sorte e então deram m eia-volta.
O kid tinha um a flecha na perna e a ponta raspava no osso. Ele parou e sentou e quebrou a haste alguns centím
etros acim a do ferim ento e então voltou a ficar de pé e seguiram em frente. No topo da subida pararam e olharam
para trás. Os y um as j á haviam deixado as dunas e os dois podiam ver a fum aça subindo escura ao longo da
ribanceira. A oeste o território nada era além de ondulantes m ontes de areia onde um hom em podia se ocultar m
as não havia um lugar onde o sol não o encontraria e som ente o vento podia apagar seu rastro.
Consegue
andar? disse
Toadvine. Que
rem édio.
Quanta água
você tem ?
Não m uita.
O que
quer
fazer? Sei
lá.
A gente podia voltar escondido
pro rio e esperar, disse Toadvine.
Esperar o quê?
Ele olhou para o forte outra vez e olhou para a haste quebrada
na perna do kid e o sangue j orrando. Quer tentar arrancar isso?
Não.
O que você
quer fazer.
Continuar
fugindo.
Corrigiram sua rota e tom aram a trilha que os grupos nos carroções haviam seguido e seguiram por toda a longa
m anhã e o dia e o fim do dia. Quando a noite chegou sua água havia acabado e avançaram laboriosam ente sob a
vagarosa roda das estrelas e adorm eceram trem endo entre as dunas e se levantaram ao alvorecer e partiram
novam ente. A perna do kid enrij ecera e ele m ancava atrás do outro usando parte de um varal de carroção com
o m uleta e por duas vezes instou Toadvine a deixá-lo para trás m as ele não o fez. Antes do m eio-dia os aborígenes
apareceram .
Eles os viram se reunindo contra o pano de fundo trêm ulo do horizonte leste com o m arionetes om inosas.
Estavam sem cavalos e pareciam correr levem ente e ao fim de um a hora j á as flechas voavam sobre os
refugiados.
Seguiram em frente, o kid de pistola na m ão, andando e se esquivando das setas vindas nos raios do sol, com as
hastes reluzindo contra o céu esbranquiçado e encolhendo num a vibração aflautada para então se cravar com um
estertor súbito no chão. Eles partiam as flechas ao m eio para im pedir que fossem reutilizadas e percorriam a areia
de lado custosam ente com o caranguej os até as flechas ficarem tão espessas e próxim as que pararam para opor
resistência. O kid se j ogou sobre os cotovelos e engatilhou e m irou o revólver. Os y um as estavam a cem m etros e
soltaram um grito e Toadvine se apoiou sobre um j oelho j unto ao kid. A pistola deu um coice e a fum aça cinza
pairou im óvel no ar e um dos selvagens desabou com o um ator através de um alçapão. O kid engatilhara a pistola
novam ente m as Toadvine pousou a m ão sobre o cano e o kid ergueu o rosto para ele e baixou o cão e então
sentou e recarregou a câm ara vazia e ficou de pé com esforço e apanhou sua m uleta e foram em frente. Atrás de
si na planície podiam escutar o tênue clam or dos aborígenes conform e se aglom eravam ao redor daquele que
fora abatido.
A horda pintada seguiu em seu encalço o dia todo. Estavam havia vinte e quatro horas sem água e o m ural
austero de céu e areia com eçava a bruxulear e a rodopiar e as flechas periódicas brotavam oblíquas pelas areias
em torno deles com o caules em penachados de plantas m utantes do deserto se propagando furiosam ente em m eio
ao seco ar do deserto. Não pararam . Quando alcançaram os poços d’água em Alam o Mucho o sol apontava baixo
diante deles e havia um a figura sentada na beira da depressão. Essa figura se levantou e esperou indistinta sob as
lentes distorcidas daquele m undo e então estendeu a m ão, se em sinal de boas-vindas ou de advertência não
sabiam dizer. Eles protegeram os olhos e m anquitolaram adiante e a figura no poço os cham ou. Era o ex-padre
Tobin.
Estava sozinho e desarm ado.
Em quantos vocês estão? disse.
Só isso que você está vendo,
disse Toadvine.
O resto não escapou? Glanton? O j uiz?
Não responderam . Deslizaram até o leito da fossa onde havia alguns dedos de água e se aj oelharam e beberam .
A cavidade que continha a nascente tinha talvez uns quatro m etros de diâm etro e eles se acom odaram no
declive interno da saliência e observaram os índios surgindo em leque pela planície, m ovendo-se na distância a um
trote vagaroso. Dispostos em pequenos grupos pelos pontos cardeais com eçaram a lançar suas flechas contra os
defensores e os am ericanos anunciavam a aproxim ação de cada nova chuva com o oficiais de artilharia, deitados
ali naquele barranco exposto e olhando por sobre a beirada na direção dos atacantes em seus quadrantes, as m ãos
cravadas no solo ao lado do corpo e as pernas flexionadas, tensos com o gatos. O kid parou com pletam ente de
disparar e logo os selvagens na m argem oeste que contavam com a luz m ais propícia puseram -se em m ovim ento.
Nas im ediações da fossa havia m ontículos de areia de velhas escavações e talvez a intenção dos y um as fosse
chegar até elas. O kid deixou seu posto e se deslocou para a borda oeste da cavidade e com eçou a fazer fogo contra
os hom ens de pé ou acocorados sobre os quadris com o lobos ali na depressão bruxuleante. O ex-padre se aj oelhou
ao lado do kid e olhou para trás e segurou o chapéu entre o sol e a frente da pistola do kid e o kid firm ou a pistola
com as duas m ãos na beira do terreno escavado e com eçou a atirar. No segundo disparo um dos selvagens tom
bou e perm aneceu inerte. O tiro seguinte fez outro deles rodopiar e sentar e então se erguer e dar alguns passos
para cair sentado outra vez. O ex-padre sussurrava palavras de encoraj am ento j unto a seu cotovelo e o kid puxou
o cão para trás com o polegar e o ex-padre aj eitou o chapéu para proteger a m ira da arm a e o olho que m irava
sob um a única som bra e o kid disparou novam ente. Havia m irado no ferido sentado na depressão e o tiro o pôs m
orto de esticado no chão. O ex-padre assobiou baixinho.
Sim senhor, que frieza, sussurrou. Mas a tarefa não requer pouca perícia e m esm o assim você não perde o brio.
Os y um as pareceram paralisados com esses reveses e o kid arm ou a pistola e abateu m ais um do grupo antes
que com eçassem a dar por si e a recuar, levando os m ortos consigo, disparando um a saraivada de flechas e
vociferando pragas sanguinárias em sua língua da idade da pedra ou invocações a sej a lá que deus da guerra ou do
destino pudesse lhes dar ouvidos e batendo em retirada através da depressão até ficarem de fato m uito
pequenos.
O kid m eteu a tiracolo o polvorinho e a bolsa de m unição e deslizou pelo declive até o leito do poço onde cavou
um segundo buraco pequeno com a velha pá deixada ali e na água que brotou lavou as câm aras do tam bor e lavou
o cano e com um graveto em purrou pedaços de sua cam isa pelos furos até ficarem lim pos. Então rem ontou a
pistola, batendo no pino do cano até o tam bor ficar bem aj ustado e pousando a arm a na areia quente para secar.
Toadvine contornara a escavação até se aproxim ar do ex-padre e ficaram observando a retirada
dos selvagens no calor bruxuleante que pairava sobre a depressão com a derradeira luz do sol.
Que m ira certeira, hein?
Tobin balançou a cabeça. Baixou o olhar pelo poço para onde o kid estava sentado carregando a pistola, girando
as câm aras cheias de pólvora e m edindo um a por um a com o olho, aj ustando as balas com a rebarba da m
oldagem para baixo.
Com o estam os de m unição?
Mal. Só m ais uns tiros, não m uitos.
O ex-padre balançou a cabeça. A escuridão se aproxim ava e na terra verm elha a oeste os y um as se agrupavam , as
silhuetas recortadas contra o sol.
Por toda a noite suas fogueiras arderam no arco negro do m undo e o kid desencaixou o pino do cano de sua
pistola e usando o cano com o um a luneta percorreu todo o perím etro de areia quente do poço e observou cada
fogueira detidam ente para detectar m ovim entos. Dificilm ente haverá no m undo um a vastidão tão inóspita que
criatura algum a solte seu grito na noite e contudo ali estava um a e eles escutavam sua própria respiração nas trevas
e no frio e escutavam a sístole nas fibras de seus corações cor de rubi aloj ados dentro deles. Quando raiou o dia as
fogueiras haviam se extinguido e delgados resíduos de fum aça despontavam pela planície em três pontos
separados da circunferência e o inim igo sum ira. Atravessando a depressão ressequida na direção deles vindo do
leste vinha um a enorm e figura acom panhada por outra m enor. Toadvine e o ex-padre olharam .
O que pode ser aquilo?
O ex-padre abanou a cabeça.
Toadvine fechou a m ão em concha e assoprou um assobio forte para o kid ali em baixo. Ele se soergueu com a pistola.
Escalou arduam ente o declive com a perna dura. Os três ficaram olhando.
Eram o j uiz e o im becil. Os dois estavam nus e aproxim avam -se através do alvorecer no deserto com o seres
de caráter pouco m ais que tangencial em relação ao m undo com o um todo, suas silhuetas ora vívidas sob a
claridade ora fugazes sob a estranheza da m esm íssim a luz. Com o criaturas cuj a natureza prodigiosa as torna am
bíguas. Com o criaturas tão carregadas de significado que suas form as são indistintas. Os três no poço olhavam
m udos para essa travessia irrom pendo do raiar do dia e ainda que não restasse a m enor dúvida sobre o que era
aquilo que se aproxim ava ninguém proferia um nom e. Avançavam a passo arrastado, o j uiz rosa pálido sob seu
talco de pó com o um recém -nascido, o im becil m uito m ais escuro, claudicando j untos através da depressão nos
extrem os m ais rem otos do exílio com o um rei obsceno despoj ado de sua investidura e abandonado j unto com seu
bobo para m orrer no m eio do nada.
Os que viaj am por lugares desertos de fato cruzam com criaturas que ultrapassam toda descrição. Os que
observavam do poço ficaram de pé para m elhor testem unhar aquela chegada. O im becil vinha quase a trote para
acom panhar o passo. O j uiz vestia sobre a cabeça um a peruca de lam a seca do rio da qual se proj etavam
vestígios de palha e capim e am arrado na cabeça do im becil estava um farrapo de pelo com o sangue enegrecido
virado para fora. O j uiz carregava na m ão um a pequena bolsa de lona e vinha drapej ado de carne com o um a
espécie de penitente m edieval. Subiu com esforço o aclive da escavação e deu bom -dia com a cabeça e ele e o
idiota deslizaram pelo barranco e se aj oelharam e com eçaram a beber.
Até m esm o o idiota, que precisava ser alim entado pela m ão. Aj oelhou ao lado do j uiz e sugou ruidosam ente a
água m ineral e ergueu os escuros olhos larvais para os três hom ens acocorados acim a dele na borda do poço e
então se curvou e voltou a beber.
O j uiz atirou de lado as cartucheiras de carne crestada e a pele por baixo surgiu estranham ente m osqueada de
rosa e branco no form ato daquilo. Pousou no chão o pequeno solidéu de barro e espalhou água sobre o crânio queim
ado e descascando e depois no rosto e bebeu outra vez e sentou na areia. Ergueu o rosto para os velhos com
panheiros. Sua boca estava rachada e a língua inchada.
Louis, disse. Quanto
quer nesse chapéu?
Toadvine cuspiu. Não
está à venda, disse.
Tudo está à venda,
disse o j uiz. Quanto
quer?
Toadvine olhou inquietam ente para o ex-padre. Olhou
para o fundo do poço. Preciso do m eu chapéu, disse.
Quanto?
Toadvine apontou as fiadas de carne com o queixo.
Pelo que im agino vai querer trocar esse tirante aí por
ele. De j eito nenhum , disse o j uiz. Isso que tenho
aqui é pra todo m undo. Quanto quer no chapéu?
Quanto dá? disse Toadvine.
O j uiz exam inou o outro. Vou dar cem dólares, disse.
Ninguém falou nada. O idiota acocorado sobre os quadris tam bém parecia aguardar o desfecho daquela barganha.
Toadvine tirou o chapéu e olhou para ele. Seus longos cabelos negros colavam -se nos lados de sua cabeça.
Não vai servir, disse.
O j uiz citou para ele algum a expressão em latim . Sorriu. Isso não é problem a seu, disse.
Toadvine enfiou o chapéu de volta e o aj ustou. Im agino que sej a isso que está levando aí nessa bolsa, disse.
Im aginou certo,
disse o j uiz.
Toadvine olhou
na direção do sol.
Dou cento e vinte e cinco e não se
fala m ais nisso, disse o j uiz.
Deixa eu ver o m etal.
O j uiz desafivelou e virou a bolsa, esvaziando o conteúdo na areia. Continha um a faca e m ais ou m enos m eio
balde de m oedas de ouro de todos os valores. O j uiz pôs a faca de lado e esparram ou as m oedas com a palm a da
m ão e ergueu o rosto.
Toadvine tirou o chapéu. Desceu pelo declive. Ele e o j uiz se agacharam cada um de um lado do tesouro do j uiz
e o j uiz separou a quantia com binada, em purrando as m oedas com o dorso da m ão com o um crupiê. Toadvine
estendeu o chapéu e j untou as m oedas e o j uiz apanhou a faca e cortou a fita do chapéu na parte de trás e fez um
corte na aba e abriu a copa e então enterrou o chapéu em sua cabeça e ergueu o rosto para Tobin e o kid.
Venham até aqui, disse. Venham aqui em baixo e vam os dividir essa carne.
Ninguém se m exeu. Toadvine j á segurava um pedaço com as duas m ãos e dava puxões com os dentes. Fazia
frio ali no poço e o sol m atinal batia apenas na borda superior. O j uiz recolheu as m oedas restantes de volta na m
aleta e a deixou de lado e se curvou para beber novam ente. O im becil estivera observando seu reflexo na poça e
observou o j uiz beber e observou a água entrando em repouso outra vez. O j uiz lim pou a boca e olhou as
figuras m ais acim a.
Com o andam de arm as? disse.
O kid passara um pé pela beirada do poço e agora o
puxava de volta. Tobin não se m oveu. Estava observando
o j uiz. A gente só tem um a pistola, Holden.
A gente?
disse o j
uiz. O j
ovem aqui.
O kid se pusera de pé outra vez. O ex-padre ficou a seu lado.
O j uiz no leito do poço se ergueu igualm ente e aj eitou o chapéu e prendeu a m aleta debaixo do braço com o um
advogado im enso e nu que a terra houvesse levado à insanidade.
Meça bem suas ideias, Padre, ele disse. Estam os todos no m esm o barco. O sol ali é com o o olho de
Deus e vam os ficar todos igualm ente cozidos aqui nessa enorm e grelha silicosa, posso garantir a você.
Não sou padre e não dou ideias, disse Tobin. O j ovem é livre pra ir e vir.
O j uiz sorriu. Inteiram ente, disse. Olhou para Toadvine e sorriu de novo para o ex-padre. E
então? disse. Vam os ficar bebendo nesses buracos um de cada vez com o bandos de m acacos
rivais? O ex-padre olhou para o kid. Estavam de frente para o sol. Ele se agachou, de m odo a m
elhor se dirigir ao j uiz ali em baixo.
Acha que existe um cartório onde a pessoa pode registrar os poços do deserto?
Ah, Padre, você conhece essas repartições m elhor do que eu. Não reclam o nenhum direito aqui. Já disse
antes, sou um suj eito sim ples. Sabe que é bem -vindo pra descer até aqui e beber e encher o seu cantil.
Tobin não se m oveu.
Me passa o cantil, disse o kid. Havia tirado a pistola do cinto e deu-a para o ex-padre e apanhou o frasco de couro e
desceu o barranco.
O j uiz o seguiu com os olhos. O kid contornou o leito do poço, qualquer lugar ali facilm ente ao alcance do j uiz,
e aj oelhou diante do im becil e puxou o tapulho do cantil e subm ergiu o frasco na depressão. Ele e o im becil
ficaram observando a água entrar pelo gargalo do frasco e observaram o borbulhar e observaram quando cessou. O
kid arrolhou o cantil e se curvou e bebeu da poça e então sentou e olhou para Toadvine.
Você vem com a gente?
Toadvine olhou para o j uiz. Não sei, disse. Estou
suj eito a prisão. Vão m e prender na Califórnia.
Prender você?
Toadvine não respondeu. Estava sentado na areia e fez um tripé com os dedos e os enfiou na areia diante de si
e então ergueu a m ão e a girou e enfiou os dedos outra vez na areia de m odo que havia seis buracos na form a
de um a estrela ou um hexágono e então ele desm anchou tudo outra vez. Ergueu o rosto.
Quem ia pensar que um hom em podia ficar sem terra pra onde ir num lugar com o esse, hein?
O kid se levantou e pendurou o cantil pela correia no om bro. A perna de sua calça estava preta de sangue e o
toco ensanguentado da haste despontava em sua coxa com o se fosse um cabide para pendurar utensílios. Cuspiu
e lim pou a boca com o dorso da m ão e olhou para Toadvine. O que acabou pra você não foi a terra, disse. Então
atravessou a fossa e escalou o talude. O j uiz o seguiu com os olhos e quando o kid chegou à luz do sol no topo ele
virou e olhou para trás e o j uiz segurava a m aleta aberta entre as coxas nuas.
Quinhentos dólares, disse. Pólvora e balas inclusas.
O ex-padre estava ao lado do kid. Acaba com ele, sibilou.
O kid apanhou a pistola m as o ex-padre agarrou seu braço sussurrando e quando o kid se livrou do agarrão ele falou
em voz alta, tam anho era seu m edo.
Não vai ter um a segunda chance, j ovem . Anda. Ele está nu. Está desarm ado. Pelo sangue do Cristo, acha
que é capaz de levar a m elhor se não for desse j eito? Anda, j ovem . Acaba com ele pelo am or de Deus. Acaba
com ele ou j uro que isso vai custar sua vida.
O j uiz sorria, cutucou a têm pora. O padre, disse. O padre tom ou sol dem ais. Setecentos e cinquenta, e é m inha m
elhor oferta. Aproveita a falta de concorrência.
O kid enfiou a pistola no cinto. Então com o ex-padre insistindo em seu cotovelo contornou a cratera e tom aram
o rum o oeste através da depressão. Toadvine escalou o barranco e os observou. Após algum tem po não havia m
ais nada para olhar.
Nesse dia o cam inho que tom aram conduziu-os por um vasto m osaico pavim entado de m inúsculos blocos
de j aspe, cornalina, ágata. Mil acres de largura com o vento cantando ao passar nos interstícios livres de sedim
entos. Atravessando esse terreno na direção leste m ontado em um cavalo e puxando outro vinha David Brown. O
cavalo que conduzia tinha sela e arreios e o kid parou com os polegares no cinto e observou conform e ele se
aproxim ou e parou olhando para os dois antigos cam aradas.
Disseram que você estava no j uzgado, disse Tobin.
Estava, disse Brown. Não estou m ais. Seus olhos catalogavam cada detalhe dos dois. Olhou o pedaço
de haste de flecha proem inente na perna do kid e fitou o ex-padre nos olhos. Cadê suas coisas? disse.
Está olhando pra elas.
Se
desentenderam
com o Glanton?
Glanton m orreu.
Brown cuspiu um a m ancha branca seca na placa vasta e trincada daquela terra. Tinha um a pedrinha na
boca para segurar a sede e a m udava de lugar em sua m axila e olhava para eles. Os y um as, disse. Isso,
disse o ex-padre.
Todos m ortos?
Toadvine e o j uiz
estão no poço pra
lá. O j uiz, disse
Brown.
Os cavalos fitavam desalentados o
chão de pedra am alucado onde
pisavam . O resto bateu as botas? Sm
ith? Dorsey ? O negro?
Todo m undo, disse Tobin.
Brown olhou para o leste através do
deserto. Qual a distância até o poço?
A gente partiu m ais ou m enos um a
hora depois que nasceu o dia.
Ele está
arm
ado?
Não
está.
Ele exam inou seus rostos. O padre não m ente, disse.
Ninguém disse palavra. Ele ficou em sua sela m anuseando o escapulário de orelhas ressecadas. Então virou o
cavalo e seguiu em frente, puxando o anim al sem cavaleiro atrás de si. Cavalgou olhando para trás para os
dois. Então parou novam ente.
Viram ele m orto? gritou. Glanton?
Eu vi, gritou o ex-padre. Pois tinha m esm o.
Ele seguiu em frente, ligeiram ente virado na sela, o rifle no j oelho. Continuou de olho nos peregrinos às suas
costas e eles nele. Quando estava m uito dim inuído naquela depressão de terreno eles deram m eia-volta e
seguiram em frente.

Próxim o ao m eridiano do dia seguinte haviam com eçado outra vez a topar com obj etos abandonados pelas
caravanas, ferraduras j ogadas e pedaços de arreios e ossos e as carcaças secas de m ulas com as alparej as ainda
afiveladas. Cam inharam pelo arco tênue de um a antiga m argem de lago onde conchas quebradas j aziam frágeis e
estriadas com o cacos de cerâm ica em m eio às areias e no início do anoitecer desceram por entre um a sucessão
de dunas e m ontes de terra escavada até Carrizo Creek, um a bica que brotava das pedras e corria pelo deserto para
sum ir outra vez. Milhares de ovelhas haviam perecido ali e os viandantes cam inhavam entre os ossos am
arelecidos e carcaças com fiapos de lã puída e aj oelhavam entre ossos para beber. Quando o kid ergueu a cabeça
gotej ante da água um a bala de rifle agitou seu reflexo na poça em círculos concêntricos e os ecos do tiro
reverberaram pelas encostas cobertas de ossos e repercutiram pelo deserto afora até sum ir.
Ele rolou sobre a barriga e se arrastou para o lado, esquadrinhando o horizonte. Viu prim eiro os cavalos,
parados frente a frente de narinas coladas em um vão entre as dunas ao sul. Viu o j uiz vestido com as roupas
em endadas de seus sócios m ais recentes. Segurava o rifle na vertical pela boca e despej ava pólvora de um frasco
pelo cano. O im becil, nu a não ser por um chapéu, punha-se de cócoras na areia a seus pés.
O kid rastej ou o m ais rápido que pôde para um a parte m ais baixa do terreno e Ficou deitado de pistola em
punho com o riacho exíguo passando j unto a seu cotovelo. Virou para procurar o ex-padre m as não o encontrou.
Podia ver através da treliça de ossos o j uiz e seu protegido na colina sob o sol e ergueu a pistola e a apoiou no dorso
de um a pelve putrefata e disparou. Viu a areia pular na encosta atrás do j uiz e o j uiz m irou com seu rifle e
disparou e a bala passou triturando ossos e os ecos dos tiros retum baram através das dunas.
O kid ficou deitado na areia com o coração m artelando. Voltou a puxar o cão com o polegar e ergueu a cabeça. O
idiota perm anecia sentado com o antes e o j uiz m archava calm am ente contra a linha do horizonte procurando um
ponto vantaj oso por sobre as pilhas de ossos feitas pelo vento abaixo dele. O kid com eçou a se m over outra vez.
Arrastou-se de barriga até o regato e bebeu, segurando no alto a pistola e o polvorinho e sorvendo a água. Depois
atravessou para o lado oposto do curso e ao longo de um corredor revolvido através da areia que lobos haviam
percorrido incontáveis vezes. Em algum lugar a sua esquerda pensou ter ouvido o ex-padre cham á- lo com um
sibilo e ouvia o som do regato correndo e ficou parado escutando. Travou o cão em m eio-gatilho e rodou o tam bor
e recarregou a câm ara vazia e arm ou os fulm inantes e esticou o pescoço para olhar. A aresta baixa por onde o j
uiz avançara estava vazia e os dois cavalos vinham em sua direção através da areia pelo sul. Engatilhou a pistola e
ficou observando. Eles se aproxim avam livrem ente pelo declive estéril, cabeceando o ar, as caudas espanando.
Então percebeu o idiota trotando tropegam ente atrás dos anim ais com o um com balido pastor neolítico. A sua
direita viu o j uiz assom ar nas dunas e fazer um reconhecim ento e se abaixar para sum ir outra vez. Os cavalos
continuaram a seguir em frente e um ruído surgiu atrás dele e quando o kid virou o ex-padre estava no corredor
sibilando para ele.
Atira nele, exclam ou.
O kid girou de volta para procurar o j uiz m as o ex-
padre cham ou novam ente com seu sussurro rouco.
O bobo. Atira no bobo.
Ele ergueu a pistola. Os cavalos passaram prim eiro um depois o outro por um vazio entre as paliçadas am
arelecidas e o im becil bam boleou atrás e desapareceu. Ele procurou Tobin às suas costas m as o ex-padre sum ira.
Moveu-se pelo corredor até chegar de novo ao regato, j á ligeiram ente turvo devido aos cavalos bebendo m ais
acim a. Sua perna com eçara a sangrar e ele a encharcou na água fria e bebeu e com a palm a da m ão m olhou a
nuca. Os padrões m arm óreos de sangue brotando de sua coxa eram com o m inúsculas sanguessugas rubras na
correnteza. Ele olhou para o sol.
Oi gritou o j uiz, a voz distante a oeste. Com o se houvesse cavaleiros recém -chegados ao regato e ele os saudasse.
O kid ficou à escuta. Não havia novos cavaleiros. Após algum tem po o j uiz cham ou novam ente. Sai daí, gritou. Tem
água pra todo m undo.
O kid pusera seu polvorinho às costas para im pedir que a água do córrego o m olhasse e ergueu a pistola e esperou.
Mais acim a os cavalos haviam parado de beber. Então voltaram a beber outra vez.
Quando atravessou o regato de novo até a m argem oposta topou com as m arcas de m ão e pé deixadas pelo ex-
padre em m eio aos vestígios de felinos e raposas e pequenos porcos do deserto. Penetrou em um a clareira naquele
m onturo esdrúxulo e ficou à escuta. Sua calça de couro estava pesada e dura com a água e sua perna latej ava. Um
a cabeça de cavalo surgiu acim a das ossadas pingando água pelo focinho a uns trinta m etros dali e então voltou a
abaixar. Quando o j uiz cham ou a voz veio de outro lugar. Gritou que fizessem as pazes. O kid observou um a
pequena caravana de form igas m archando entre as arcadas de costelas ovinas. Ao fazer isso seus olhos cruzaram
com os de um a pequena cascavel enrolada sob um a aba de pele. Lim pou a boca e com eçou a se m over outra vez.
Em um cul-de-sac os rastros do ex-padre term inavam e faziam m eia-volta. Escutou. Faltavam horas para
escurecer. Após algum tem po ouviu o idiota balbuciando em algum lugar entre as ossadas.
Ouviu o vento soprando vindo do deserto e ouviu a própria respiração. Quando ergueu a cabeça para olhar
viu o ex-padre tropicando entre os ossos e em punhando no alto um a cruz que fizera de tíbias de carneiro am
arradas com tiras de couro e ele brandia aquela coisa diante de si com o um rabdom ante enlouquecido na aridez do
deserto e gritava em um a língua ao m esm o tem po estrangeira e extinta.
O kid ficou de pé, segurando o revólver com as duas m ãos. Girou nos calcanhares. Viu o j uiz e o j uiz se
deslocara para um quadrante com pletam ente diferente e tinha j á o rifle apoiado em seu om bro. Quando disparou
Tobin rodopiou virando de frente para o lugar de onde tinha vindo e caiu sentado ainda segurando a cruz. O j uiz
pousou o rifle e apanhou outro. O kid tentou firm ar o cano da pistola e atirou e então abaixou na areia. A pesada
bala do rifle passou acim a de sua cabeça com o um asteroide e atravessou estalando e estilhaçando os ossos
espalhados pela elevação de terreno m ais além . Ele ficou de j oelhos e procurou o j uiz m as o j uiz não estava lá.
Recarregou a câm ara vazia e com eçou a se m over novam ente sobre os cotovelos na direção do ponto onde vira o
ex-padre cair, localizando-se pelo sol e parando de tem pos em tem pos para escutar. O chão estava todo pisoteado
com os rastros de predadores vindos das planícies por causa da carniça e o vento que passava entre as dunas
carregava um a fetidez acre com o o odor de um pano de prato rançoso e não se escutava outro som além do
vento em parte algum a.
Encontrou Tobin aj oelhado no regato lavando a ferida com um pedaço de linho arrancado da cam isa. A bala
atravessara com pletam ente seu pescoço. Não atingira por m uito pouco a artéria carótida m as m esm o assim ele
não conseguia estancar o sangue. Olhou para o kid agachado entre os crânios e as costelas sem elhantes a forcados.
Você precisa m atar os cavalos, disse. Não tem
outra chance de sair daqui. A cavalo ele alcança
você. A gente podia levar os cavalos.
Não sej a idiota, j ovem .
Que outra isca ele tem ?
A gente pode sair
quando escurecer.
Acha que nunca vai ser dia outra vez?
O kid olhou para ele.
Isso aí não para? disse.
Para nada.
O que
você
acha?
Preciso
fazer
parar.
O sangue escorria
entre seus dedos.
Onde está o j uiz?
disse o kid.
Boa pergunta.
Se a gente m atar ele a gente pode pegar os cavalos.
Você não vai m atar ele. Não sej a idiota. Atira nos cavalos.
O kid percorreu o regato arenoso e
raso com o olhar na direção da
nascente. Vai em frente j ovem .
Ele olhou para o ex-padre e para as vagarosas gotas de sangue caindo na água com o botões de rosa desabrochando e
inchando e em palidecendo. Moveu-se córrego acim a.
Quando chegou ao trecho do regato onde os cavalos entraram viu que haviam sum ido. A areia na m argem por
onde tinham saído ainda estava m olhada. Em purrou o revólver diante do corpo, deslocando-se apoiado nas m
unhecas. Com toda aquela precaução deu com o idiota olhando para ele antes que o notasse.
Sentava-se im óvel em um caram anchão de ossos com a luz interrupta do sol estam pada sobre seu rosto vazio e
o observava com o um a criatura selvagem na floresta. O kid o encarou e então passou rápido por ele no rastro dos
cavalos. O pescoço m olengo pivotou vagarosam ente e o queixo inerte babou. Quando olhou para trás ele
continuava a observá-lo. Repousava os pulsos na areia diante de seu corpo e em bora seu rosto fosse destituído de
expressão parecia todavia um a criatura afligida por enorm e angústia.
Quando avistou os cavalos estavam em um a elevação acim a do regato e olhando na direção oeste. Ele parou em
silêncio e exam inou o terreno. Então se deslocou pela beirada do leito e sentou com as costas apoiadas nas proem
inências de ossos e engatilhou a pistola e descansou um pouco com os cotovelos sobre os j oelhos.
Os cavalos o tinham visto saindo do rego e agora olhavam para ele. Ao ouvir a pistola engatilhar retesaram as
orelhas e com eçaram a cam inhar em sua direção através da areia. Ele alvej ou o cavalo da frente no peito e o anim
al tom bou e ficou respirando pesadam ente com o sangue brotando por sua narina. O outro parou e hesitou e ele
engatilhou a pistola e o acertou quando se virava. O cavalo com eçou a trotar entre as dunas e ele disparou novam
ente e as patas dianteiras do anim al se dobraram e ele desabou para a frente e rolou sobre o flanco. Ergueu a cabeça
um a única vez e então perm aneceu im óvel.
Ficou à escuta. Nada se m exia. O prim eiro cavalo continuava com o caíra, a areia em torno de sua cabeça
escurecendo com o sangue. A fum aça saiu flutuando abaixo pelo riacho e foi afilando e se dispersando até sum ir.
Ele recuou de volta para o rego e se agachou sob as costelas de um a m ula m orta e recarregou a pistola e então
seguiu em frente outra vez na direção do regato. Não voltou pelo cam inho que viera e não voltou a ver o im becil.
Quando chegou ao córrego bebeu e m olhou a perna e ficou escutando com o antes.
Largue a arm a j
á, disse o j uiz.
Ficou paralisado.
A voz não estava nem a quinze m etros de distância.
Sei o que você fez. O padre enfiou isso na sua cabeça e vou tom ar com o atenuante tanto no ato com o na
intenção. O que faria por qualquer hom em em seu delito. Mas resta a questão da propriedade. Me traz essa pistola
agora m esm o.
O kid continuou sem se m exer. Escutou o j uiz vadeando o regato m ais acim a. Ia fazendo um a lenta contagem
consigo m esm o. Quando a água turva chegou ao ponto onde estava parou de contar e deixou cair na correnteza um
trançado de m ato seco e segurou-o com o um a isca. Ao atingir a m esm a contagem aquilo praticam ente sum ira
entre os ossos. Ele saiu da água e olhou para o sol e com eçou a voltar para o ponto onde deixara Tobin.
Encontrou os rastros do ex-padre ainda úm idos onde se afastara do regato e a trilha de seu avanço m arcada com
sangue. Seguiu através da areia até chegar ao lugar onde o ex-padre havia girado o corpo e sibilava para ele de seu
local de esconderij o.
Acabou com
eles, j ovem ?
Ele ergueu a
m ão.
Certo. Ouvi os tiros, todos os três.
O bobo tam bém , não foi, j ovem
? Ele não respondeu.
Bom rapaz, sibilou o ex-padre. Havia usado a cam isa para fazer um a atadura no pescoço e tinha o tronco nu e
se agachava em m eio àquela paliçada nauseabunda e olhava para o sol. As som bras se alongavam pelas dunas e
na penum bra as ossadas dos anim ais que ali haviam perecido j aziam enviesadas num a curiosa congregação de
arm aduras indecifráveis sobre as areias. Tinham cerca de duas horas até a escuridão e foi isso que disse o ex-
padre. Deitaram sob a pele seca com o tábua de um boi m orto e ficaram ouvindo os cham ados do j uiz. Ele enum
erava questões de j urisprudência, m encionava casos. Expunha as leis concernentes a direitos de propriedade sobre
bestas m ansuetas e citou casos de confisco adj udicatório na m edida em que os j ulgava pertinentes à corrupção de
sangue dos proprietários precedentes e delinquentes dos cavalos ora m ortos entre os ossos. Então falou de outras
coisas. O ex-padre se curvou na direção do kid. Não escute, disse.
Não estou
escutando.
Tape os
ouvidos.
Tape você.
O padre levou as m ãos às orelhas e olhou para o kid. Seus olhos brilhavam com a perda de sangue e estava tom ado de
enorm e gravidade. Vam os, sussurrou. Acha que ele está falando com igo?
O kid virou para o outro lado. Prestou atenção no sol aboletado na borda oeste daquela vastidão e não m ais
conversaram até a chegada da escuridão quando então se levantaram e com eçaram a sair dali.
Esgueiraram -se da bacia e partiram através das dunas pouco acentuadas e olharam para trás um a últim a vez para o
vale onde trem eluzindo sob o vento na borda da m uralha ardia a fogueira do j uiz para quem quisesse ver.
Eles não especularam quanto à natureza do que queim ava à guisa de com bustível e j á estavam bem avançados no
deserto antes que a lua surgisse.
Havia lobos e chacais naquela região e seus lam entos se fizeram ouvir por toda a prim eira parte da noite até o
nascer da lua para então cessar com o que surpreendidos pelo seu aparecim ento. Então recom eçaram . Os
peregrinos estavam enfraquecidos dos ferim entos. Deitavam para descansar m as nunca por tem po dem asiado e
nunca sem antes esquadrinhar o horizonte leste à procura de qualquer silhueta intrusa e trem iam com o austero
vento do deserto que vinha sabe-se lá de que desapiedada direção e soprava frio e estéril e carregando notícias de
coisa algum a. Quando o dia chegou se encam inharam até um a ligeira elevação naquela planura infinita e se
agacharam no xisto solto e observaram o nascim ento do sol. Fazia frio e o ex-padre em seus trapos e seu colarinho
de sangue abraçava o próprio corpo. Naquele pequeno prom ontório adorm eceram e quando acordaram era o m
eio da m anhã e o sol j á ia bem adiantado. Sentaram e olharam . Vindo a seu encontro a m eia distância na planície
avistaram a figura do j uiz, a figura do bobo.
XXI

NÁUFRAGOS NO DESERTO — VOLTANDO PELO PRÓPRIO RASTRO — UM ESCONDERIJO — O


VENTO ESCOLHE UM LADO — O JUIZ VOLTA — UM DISCURSO — LOS DIEGUEÑOS — SAN
FELIPE — HOSPITALIDADE DOS SELVAGENS — NAS MONTANHAS — GRIZZLIES — SAN
DIEGO — O MAR.

O kid olhou para Tobin m as o ex-padre não exibia qualquer expressão ali sentado. Tinha o aspecto extenuado e m
iserável e os viandantes que se aproxim avam pareceram não evocar qualquer reconhecim ento nele. Ergueu
ligeiram ente a cabeça e falou sem olhar para o kid. Vai em bora, disse. Salve sua pele.
O kid apanhou o frasco de água entre as lascas de xisto e desarrolhou e bebeu e a estendeu para o outro. O ex-padre
bebeu e ficaram olhando e então se levantaram e fizeram m eia-volta e partiram novam ente.
Estavam extrem am ente debilitados devido aos ferim entos e à fom e e constituíam um a visão lam entável em
seu trôpego avanço. Perto do m eio-dia a água acabara e pararam estudando o vazio em torno. Um vento soprava
do norte. Suas bocas estavam secas. O deserto que os arrastara era um deserto absoluto e inteiram ente destituído
de qualquer aspecto distintivo e nada assinalava seu progresso sobre ele. A terra despencava igualm ente em todos
os lados de sua arcatura e era por tais delim itações que se viam circunscritos e onde quer que estivessem ali era o
centro. Ergueram -se e foram em frente. O céu era pura lum inosidade. Não havia trilha a seguir exceto os
pedaços de refugos deixados por viaj antes e em igual quantidade os ossos de hom ens cuj as covas haviam sido
expostas pelo vento nas areias concoidais. Ao entardecer o terreno com eçou a se elevar diante deles e no topo de
um a m orena rasa eles pararam e olharam atrás de si para dar com o j uiz praticam ente com o antes a cerca de três
quilôm etros de distância na planície. Seguiram em frente.
A proxim idade de qualquer bebedouro naquele deserto se fazia notar pelas carcaças de anim ais perecidos em
núm ero cada vez m aior e tal se dava agora, com o se no entorno dos poços houvesse algum perigo letal para as
criaturas. Os andarilhos olharam para trás. O j uiz perm anecia fora de seu cam po visual além da crista. A sua frente
j aziam as tábuas esbranquiçadas de um carroção e m ais adiante as form as de m ulas e bois com o couro tão pelado
quanto lona pela constante abrasão da areia.
O kid parou estudando esse lugar e então retrocedeu cerca de cem m etros sobre os próprios passos e ficou
olhando para suas pegadas pouco fundas na areia. Olhou para a ram pa da m orena m oldada pelo vento que haviam
descido e se aj oelhou e encostou a m ão no solo e ficou escutando o fraco assobio silicoso do vento.
Quando ergueu a m ão havia um a fina aresta de areia que fora soprada contra ela e
ficou observando essa aresta se desm anchar vagarosam ente diante de seus olhos.
Quando voltou à presença do ex-padre este exibia um aspecto grave. O kid se aj
oelhou e o exam inou ali sentado.
A gente precisa
se esconder,
disse. Esconder?
É.
Onde pretende
se esconder?
Aqui. A gente
se esconde aqui.
Não dá pra se
esconder, j
ovem . Dá pra
se esconder.
Acha que ele não vai seguir seu rastro?
O vento está levando em
bora. Sum iu daquela ram pa
ali. Sum iu?
Tudo.
O ex-padre
abanou a cabeça.
Vam os. A gente
precisa
continuar. Não
dá pra se
esconder.
Fica em pé.
O ex-padre abanou a
cabeça. Ah, j ovem ,
disse. Fica em pé, disse o
kid.
Vai em bora, vai. Acenou com a m ão.
O kid falou com ele. Ele não é nada. Você m esm o disse. Os hom ens são
feitos do pó da terra. Você disse que isso não era nenhum a para... para...
Parábola.
Nenhum a parábola. Que isso era um fato consum ado
e que o j uiz era um hom em com o qualquer outro.
Enfrenta ele então, disse o ex-padre. Enfrenta ele se é
assim .
E ele com um rifle e eu com um a pistola. Ele com dois rifles. Levanta daí.
Tobin se levantou. Cam baleou, se apoiou no kid. Partiram , desviando da trilha soprada pelo vento e passando pelo
carroção.
Passaram pela prim eira arm ação de ossos e seguiram em frente até onde um par de m ulas j azia m orto com
seus tirantes e ali o kid se aj oelhou com um pedaço de tábua e com eçou a cavar um abrigo, de olho no horizonte
a leste conform e trabalhava. Depois deitaram de bruços sob a proteção daqueles ossos acres com o carniceiros
saciados e aguardaram a chegada do j uiz e a passagem do j uiz, se é que ele iria m esm o passar assim .
Não tiveram de esperar m uito. Ele surgiu na elevação e parou m om entaneam ente antes de prosseguir, ele e seu
m ancebo babão. O terreno a sua frente era soprado em suaves ondulações e em bora m uito propício a um
reconhecim ento ali do alto o j uiz não perscrutou a região nem deu m ostras de ter perdido os fugitivos de seu raio
de visão. Desceu a crista e com eçou a atravessar a im ensidão plana, o idiota à frente com um a guia de couro.
Carregava os dois rifles que pertenceram a Brown e levava um par de cantis cruzados sobre o peito e carregava um
polvorinho de chifre e outro com um e sua valise e um bornal de lona que tam bém devia ter pertencido a Brown.
O m ais estranho de tudo era o guarda-sol feito de retalhos de pele podre esticados em um a arm ação de costelas am
arradas com pedaços de tirante. O cabo havia sido a pata dianteira de algum a criatura e o j uiz que se aproxim ava
vinha vestido em pouco m ais que serpentinas tão dilacerado era seu traj e para acom odar sua figura. Segurando
diante de si aquela som brinha m órbida com o idiota em sua coleira de couro cru conduzido pela guia ele parecia
um em presário degenerado fugindo de algum espetáculo m am bem be e da ira dos cidadãos que o haviam
depredado.
Avançaram pela planície e o kid de barriga na chafurda de areia os observou através das costelas das m ulas m
ortas. Ele conseguia enxergar suas próprias pegadas e as de Tobin cruzando a areia, leves e suavizadas m as
pegadas m esm o assim , e olhava para o j uiz e olhava para as pegadas e escutava a areia se m ovendo no solo do
deserto. O j uiz estava talvez a cem m etros quando parou e inspecionou o terreno. O idiota se acocorou com as
m ãos no chão e retesou a correia da trela qual um lêm ure de um a espécie sem pelos. Girou a cabeça e farej ou
o ar, com o se estivesse sendo usado para rastrear. Havia perdido o chapéu, ou talvez seu dono houvesse reclam
ado sua posse, pois o j uiz usava agora um par de pam pooties cortadas de um pedaço de couro e atadas às solas de
seus pés num envoltório de cânham o resgatado de algum destroço no deserto. O im becil deu um puxão em sua
coleira e gem eu roucam ente, os antebraços pendentes diante do peito. Quando ultrapassaram o carroção e
continuaram em frente o kid soube que estavam além do ponto onde ele e Tobin haviam se desviado da trilha.
Olhou as pegadas. Form as tênues que recuavam através das areias e desapareciam . O ex-padre a seu lado agarrou
seu braço e sibilou e gesticulou na direção do j uiz e o vento estalou os farrapos de pele na carcaça e o j uiz e o
idiota seguiram seu cam inho pelas areias e sum iram de vista.
Ficaram ali sem dizer palavra. O ex-padre se soergueu ligeiram ente e
espiou lá fora e depois olhou para o kid. O kid baixou o cão da pistola.
Não vai ter outra chance com o essa.
O kid enfiou a pistola no cinto e
ficou de j oelhos e olhou em
volta. E agora?
O kid não respondeu.
Ele vai estar
esperando no próxim
o poço. Deixa
esperar.
A gente podia
voltar pro
riacho. E fazer o
quê?
Esperar algum
grupo aparecer.
Aparecer de
onde? Não tem
balsa. Tem caça
que vai no
riacho.
Tobin olhava para fora através dos ossos e pele. Quando o kid
não respondeu olhou para ele. A gente podia ir pra lá, disse.
Sobraram quatro tiros, disse o kid.
Ficou de pé e esquadrinhou a área putrefata e o ex-padre se levantou e olhou j unto com ele. O que viram foi o j uiz
voltando.
O kid praguej ou e m ergulhou de bruços. O ex-padre se agachou. Afundaram quanto puderam na chafurda e com os
queixos na areia com o lagartos ficaram vendo o j uiz atravessar o terreno a sua frente outra vez.
Com o bobo na correia e seus petrechos e o guarda-sol balançando ao vento com o um a grande flor negra ele
passou entre os destroços até chegar de novo à crista da m orena arenosa. Ali no topo da encosta se virou e o
im becil se acocorou j unto a seus j oelhos e o j uiz abaixou o guarda-sol a sua frente e se dirigiu ao terreno
circundante.
O padre levou você a isso, rapaz. Sei que não ia se esconder. Sei tam bém que você não tem o coração de um
assassino com um . Passei na frente da sua m ira duas vezes na últim a hora e vou passar um a terceira. Por que
não aparece?
Assassino nenhum , bradou o j uiz. E nenhum guerrilheiro tam pouco. Tem um lugar com defeito no tecido do
seu coração. Acha que eu não ia saber? Só você era insubordinado. Só você reservava um cantinho da alm a pra m
ostrar clem ência pelos pagãos.
O im becil ficou de pé e levou as m ãos ao rosto e soltou um gem ido agourento e voltou a sentar.
Acha que m atei Brown e Toadvine? Eles estão vivos com o você e eu. Estão vivos e na posse dos frutos de suas
escolhas. Com preende? Pergunte ao padre. O padre sabe. O padre não m ente.
O j uiz ergueu o guarda-sol e aj eitou seus fardos. Pode ser, exclam ou, pode ser que você tenha visto esse lugar
num sonho. Que você ia m orrer aqui. Então ele desceu a m orena e passou m ais um a vez pela ossaria conduzido
pelo bobo atrelado até os dois se tornarem bruxuleantes e insubstanciais sob as ondas de calor para então
desvanecer com pletam ente.

Teriam m orrido se os índios não os tivessem encontrado. Por toda a prim eira parte da noite haviam m antido Sirius
a sua esquerda no horizonte sudoeste e Cetus ao longe vadeando o vácuo e Órion e Betelgeuse girando acim a de
suas cabeças e dorm iram enrodilhados e trem endo na escuridão das planícies e acordaram para dar com os céus
totalm ente transform ados e as estrelas pelas quais haviam progredido não m ais encontráveis, com o se seu sono
houvesse abarcado estações inteiras. Na aurora ruiva viram perfilados ao longo de um a elevação a norte os
selvagens sem inus agachados ou em pé. Levantaram e seguiram em frente, suas som bras m uito alongadas e
estreitas im itando dissim uladas cada m em bro fino e articulado em seu m ovim ento. As m ontanhas a oeste
estavam brancas com o raiar do dia. Os aborígenes se deslocavam ao longo da crista arenosa. Após algum tem po o
ex-padre sentou e o kid acim a dele parou segurando a pistola e os selvagens desceram as dunas e se aproxim aram
com corridinhas e paradas súbitas através da planície com o duendes pintados.
Eram diegueños. Estavam arm ados com arcos curtos e se j untaram em torno dos andarilhos e se aj oelharam e
lhes deram água de um a cabaça. Já tinham visto peregrinos assim antes e com aflições ainda m ais terríveis.
Arrancavam um a sobrevivência desesperada daquela terra e sabiam que nada a não ser um a perseguição
selvagem podia arrastar hom ens a tal vicissitude e estavam sem pre atentos a que essa coisa se am algam asse de
sua tem ível incubação na casa do sol e se m aterializasse no lim iar do m undo oriental e quer fossem exércitos ou
epidem ia ou pestilência ou algo inteiram ente indescritível aguardavam com um a estranha im parcialidade.
Conduziram os refugiados a seu acam pam ento em San Felipe, um aglom erado de cabanas toscas feitas de
caniços e que abrigava um a população de criaturas im undas e m iseráveis vestidas na m aior parte com as cam isas
de algodão dos argonautas que haviam passado por ali, só as cam isas e m ais nada. Foram buscar para eles um
guisado de lagartos e roedores aquecido em tigelas de cerâm ica e um a espécie de piñole feito de gafanhotos secos
e m oídos e agacharam em torno e os observaram com grande seriedade enquanto com iam .
Um deles esticou a m ão e tocou o cabo do revólver no cinto do kid e depois voltou a encolher o braço. Pistola, disse.
O kid com ia.
Os selvagens
balançaram a
cabeça. Quiero m
irar su pistola, disse
o hom em .
O kid não respondeu. Quando o hom em esticou o braço na direção da arm a ele interceptou sua m
ão e a afastou. Quando soltou o hom em avançou outra vez e o kid em purrou sua m ão outra vez.
O hom em sorriu. Esticou o braço pela terceira vez. O kid pôs a tigela entre as pernas e sacou o
revólver e engatilhou e encostou o cano na testa do hom em .
Ficaram absolutam ente im óveis. Os dem ais observavam . Após algum tem po o kid baixou a pistola e desarm ou
o cão e a enfiou no cinto e pegou a tigela e com eçou a com er outra vez. O hom em fez um gesto na direção da
pistola e falou com os am igos e todos balançaram a cabeça e continuaram sentados com o antes.
Qué pasó con ustedes.
O kid observava o hom em por sobre a beirada
de sua tigela com os olhos escuros e
encovados. O índio olhou para o ex-padre.
Qué pasó con ustedes.
O ex-padre em seu plastrom preto e encrostado virou todo o tronco para olhar o hom em que falara.
Olhou para o kid. Com ia com os dedos e lam beu-os e lim pou-os na perna im unda de suas calças.
Las y um as, disse.
Eles fizeram som de chupar
no ar e estalaram as línguas.
Son m uy m alos, disse o
hom em .
Claro.
No tiene com pañeros?
O kid e o ex-padre olharam um para o outro.
Sí, disse o kid. Muchos. Fez um gesto para o leste. Llegarán. Muchos com pañeros.
Os índios receberam a notícia sem se alterar. Um a m ulher trouxe m ais piñole m as haviam ficado sem com er por tem
po dem ais para sentir algum apetite e recusaram com um gesto de m ão.
À tarde banharam -se no riacho e dorm iram no chão. Quando acordaram eram observados por um grupo de
crianças nuas e alguns cães. Quando passearam pelo acam pam ento viram os índios sentados ao longo de um a
saliência de rocha olhando infatigavelm ente para o território a leste à espera de qualquer coisa que pudesse
vir dali. Ninguém lhes falou nada a respeito do j uiz e eles não perguntaram . Os cachorros e as crianças os
acom panharam quando deixavam o acam pam ento e eles tom aram a trilha que subia pelas colinas baixas a oeste
para onde o sol j á se encam inhava.
Chegaram a Warner’s Ranch no fim do dia seguinte e recobraram as forças nas term as sulfurosas que brotavam
ali. Não havia ninguém por perto. Seguiram em frente. As terras a oeste eram onduladas e relvosas e m ais além m
ontanhas corriam em direção ao litoral. Dorm iram essa noite entre cedros anões e pela m anhã a relva estava
congelada e ouviam o vento na relva congelada e ouviam os cham ados de pássaros que pareciam um encantam
ento contra as m elancólicas regiões vazias de onde vinham .
Por todo o dia subiram através de um parque elevado coberto de árvores-de-j osué e orlado de picos graníticos
lisos. Ao anoitecer bandos de águias alçaram voo através do desfiladeiro diante deles e viram naquelas
plataform as gram adas as enorm es silhuetas bam boleantes de ursos com o se fossem gado pastando em algum
chaparral m ontanhoso. Havia pequenos acúm ulos de neve ao abrigo do vento nas saliências rochosas e à noite a
neve caía levem ente sobre eles. Veios de névoa sopravam pelas encostas quando se puseram em m archa trem
endo de frio ao alvorecer e na neve recente viram os rastros de ursos que haviam descido para farej á-los pouco
antes do raiar do dia.
Nesse dia não surgiu o sol m as apenas um a palidez na cerração e a terra ficou branca de geada e os arbustos
eram com o isôm eros polares de suas próprias form as. Carneiros selvagens sum iam com o fantasm as em m eio às
ravinas pedregosas e o vento descia em rem oinhos cortantes e cinzentos da brum a gélida acim a deles, um a região
enevoada de vapores furiosos sendo soprados garganta abaixo com o se o m undo todo estivesse em cham as.
Falavam cada vez m enos entre si até finalm ente caírem no m ais com pleto silêncio com o norm alm ente
acontece com viaj antes que se aproxim am do final de um a j ornada. Bebiam nos regatos gelados da m
ontanha e m olhavam suas feridas e m ataram um a j ovem corça j unto a um a nascente e com eram quanto
puderam e defum aram finas tiras de carne para levar consigo. Em bora não avistassem m ais ursos eles viam
vestígios de sua proxim idade e se afastaram através das encostas um a boa m ilha de seu acam pam ento de
charqueio antes de parar para passar a noite. Pela m anhã cruzaram um leito de aerólitos aglom erados naquele
chaparral que eram com o os ovos fossilizados de algum a ave prim eva. Percorreram a linha da som bra sob as m
ontanhas andando sob o sol apenas o suficiente para obter seu calor e nessa tarde avistaram o m ar pela prim eira
vez, m uito abaixo de onde estavam , azul e sereno sob as nuvens.
A trilha descia por entre as colinas baixas e ia de encontro à rota dos carroções e seguiram por onde rodas
travadas haviam derrapado e os aros de ferro haviam riscado a rocha e o oceano ali em baixo se escureceu até
ficar negro e o sol desceu e a terra em torno ficou azul e fria. Adorm eceram tiritando sob um a bossa arborizada
em m eio a pios de coruj as e o arom a de j unípero enquanto as estrelas enxam eavam na noite abism al.
Era o anoitecer do dia seguinte quando entraram em San Diego. O ex-padre saiu para procurar um m édico m as o
kid peram bulou pelas rústicas ruas de barro e entre os casebres de couro enfileirados e atravessou a orla de cascalho
em direção à praia.
Um a faixa de algas cor de âm bar assinalava a linha da m aré com o um em aranhado de tripas em borrachadas.
Um a foca m orta. Além da baía interior parte de um recife em um a linha fina com o algum a coisa soçobrada sendo
denteada pela m arola. Ele se agachou na areia e contem plou o sol batendo na superfície m artelada da água. Ao
longe ilhas de nuvens singravam um sobreoceano etéreo cor de salm ão. Silhuetas de aves m arinhas. O estouro
surdo da rebentação ao longo da praia. Um cavalo parado fitava a distância por sobre as águas progressivam ente m
ais escuras e um potrinho se afastou cabriolando e trotou e depois voltou.
Sentou contem plando o sol que m ergulhava chiando nas vagas. O cavalo se recortava negro contra o céu. As
ondas estrondeavam no escuro e o couro negro do m ar arquej ava sob as incrustações cintilantes das estrelas e as
longas cristas esbranquiçadas galopavam na noite e estouravam contra a areia.
Ele se levantou e virou na direção da cidade e suas luzes. Poças de m aré brilhantes com o cadinhos de fundição
entre as rochas escuras onde caranguej os fosforescentes escalavam de volta. Ao passar pelo capim da praia ele
olhou para trás. O cavalo não se m overa. A luz de um navio piscou entre as vagas. O potro recostava no cavalo
com a cabeça baixa e o cavalo tinha os olhos fixos ao longe, onde o entendim ento hum ano não alcança, onde as
estrelas se afogam e as baleias carregam suas vastas alm as pelo oceano negro absoluto.
XXII

NA PRISÃO — O JUIZ FAZ UMA VISITA — UMA ACUSAÇÃO — SOLDADO, PADRE,


MAGISTRADO — SOLTURA — PROCURA UM CIRURGIÃO — A PONTA DA FLECHA
REMOVIDA DE SUA PERNA — DELÍRIO — VIAGEM PARA LOS ANGELES — UM
ENFORCAMENTO PÚBLICO — LOS AHORCADOS — À PROCURA DO EX-PADRE — OUTRO
BOBO — O ESCAPULÁRIO — PARA SACRAMENTO — UM VIAJANTE NO OESTE —
ABANDONA O GRUPO — OS IRMÃOS PENITENTES — A CARROÇA DA MORTE — OUTRO
MASSACRE — A ANCIÃ NOS ROCHEDOS.

Voltando através das ruas e passando diante das j anelas ilum inadas de am arelo e pelos cães latindo encontrou um
destacam ento de soldados m as com a escuridão eles o tom aram por um velho e seguiram em frente. Ele entrou em
um a taverna e sentou em um canto na penum bra observando os grupos de hom ens em torno das m esas.
Ninguém perguntou o que queria naquele lugar. Parecia à espera de que alguém viesse a sua procura e após algum
tem po quatro soldados entraram e o prenderam . Nem sequer perguntaram seu nom e.
Na cela com eçou a falar com estranha urgência de coisas que poucos hom ens presenciaram em um a vida inteira
e os carcereiros disseram que sua cabeça havia saído dos eixos com os atos sanguinários de que participara.
Certa m anhã acordou para dar com o j uiz diante de sua cela, chapéu na m ão, sorrindo para ele. Vestia um terno
de linho cinza e usava botas novas e engraxadas. Seu casaco estava desabotoado e no colete exibia um a corrente
de relógio e um alfinete de gravata e no cinto um gram po forrado de couro com um a pequena derringer com
enfeites de prata e cabo em m adeira de lei. Lançou um olhar pelo corredor do rústico edifício de barro e enfiou o
chapéu e sorriu outra vez para o prisioneiro.
Então, disse.
Com o vai?
O kid não
respondeu.
Vieram m e perguntar se você foi sem pre louco, disse o j uiz.
Disseram que era a terra. Que essa terra enlouquecia as pessoas.
Onde está o Tobin?
Contei a eles que o cretino era um respeitado Doutor em Teologia no Harvard College ainda bem recentem ente, em m
arço deste ano. Que conservara o j uízo m esm o tendo viaj ado tão a oeste com o as Aquarius Mountains.
Foi a terra depois disso que levou seu j uízo em bora. Junto com as roupas dele.
E Toadvine e Brown. Onde estão?
No deserto onde vocês largaram eles. Que coisa m ais cruel.
Seus com panheiros de arm as. O j uiz abanou a cabeça. O
que vão fazer com igo?
Acho que planej am
pendurar você pelo
pescoço. O que disse pra
eles?
Disse a verdade. Que você foi o responsável. Não que a gente saiba todos os detalhes. Mas eles entendem que foi
você e ninguém m ais que m oldou os eventos na direção de um curso tão calam itoso. Culm inando com o m
assacre no vau do rio perpetrado pelos selvagens com quem você conspirou. Os m eios e os fins não são m uito im
portantes aqui. Meras especulações vazias. Mas m esm o que você carregue o esquem a do seu plano assassino j
unto com você para a cova de um j eito ou de outro ele será revelado em toda sua infâm ia ao seu Criador e assim
sendo igualm ente será dado a conhecer até ao m ais hum ilde dos hom ens. Tudo em seu devido tem po.
Você é que é o louco, disse o kid.
O j uiz sorriu. Não, disse. Eu nunca. Mas pra que ficar aí espreitando
das som bras? Venha até aqui pra gente poder conversar, eu e você.
O kid estava de pé encostado na parede do fundo. Ele próprio pouco
m ais que um a som bra.
Venha até aqui, disse o j uiz. Venha até aqui, porque tenho m ais coisas a dizer.
Olhou pelo corredor. Não tenha m edo, disse. Vou falar em voz baixa. Não é pros ouvidos
do m undo m as só pros seus. Deixa eu te ver. Não sabe que te am ei com o um filho?
Esticou os braços através das barras. Venha aqui, disse. Deixa eu tocar em você.
O kid continuou de costas para a parede.
Venha até aqui se não
tem m edo, sussurrou o j
uiz. Não tenho m edo de
você.
O j uiz sorriu. Falou baixinho na direção do cubículo escuro de barro. Você se ofereceu, disse, para tom ar parte
num a obra. Mas serviu de testem unha contra si m esm o. Levou a j ulgam ento seus próprios atos. Pôs as próprias
suposições na frente dos j ulgam entos da história e rom peu com o corpo com o qual se com prom etera a tom ar
parte e envenenou esse corpo em toda sua em presa. Escuta aqui, hom em . Lá no deserto foi a você que falei, a
você e a m ais ninguém , e você m e fez ouvidos m oucos. Se a guerra não é sagrada o hom em nada é além de barro
burlesco. Até m esm o o cretino do padre agiu de boa-fé segundo seu papel. Pois de nenhum hom em se exigiu dar
m ais do que possuía nem tam pouco era o quinhão de nenhum hom em com parável ao do outro. Apenas se
esperava de cada um que entregasse seu espírito ao espírito coletivo e teve um que se recusou. Sabe m e dizer
quem foi?
Foi você, sussurrou o kid. Quem recusou foi você.
O j uiz o observou através das barras, abanou a cabeça. O que une os hom ens, disse, não é a partilha do pão m as
a partilha dos inim igos. Mas se eu fosse seu inim igo com quem você teria m e partilhado? Com quem ? O padre?
Onde ele está agora? Olha aqui. Nossas anim osidades estavam form adas e à nossa espera até m esm o antes da
gente se conhecer. Contudo, m esm o assim você podia ter m udado tudo.
Você, disse o kid. Foi você.
Eu, nunca, disse o j uiz. Escuta. Acha que o Glanton
era bobo? Não sabe que ele ia acabar m atando você?
Mentira, disse o kid. Mentiras e m ais m entiras.
Pense m elhor, disse o j uiz.
Ele nunca tom ou parte nas suas loucuras.
O j uiz sorriu. Puxou o relógio do colete e o abriu e segurou contra a luz fraca.
E m esm o que você não arredasse pé de suas convicções, disse, que convicções seriam essas?
Ergueu o rosto. Fechou a tam pa e devolveu o instrum ento ao seu lugar. Hora de ir, disse. Tenho o que fazer.
O kid fechou os olhos. Quando abriu o j uiz se fora. Nessa noite cham ou o cabo para que se aproxim asse e os
dois sentaram cada um de um lado das barras enquanto o kid contava ao soldado sobre a pilha de m oedas de ouro
e prata escondida nas m ontanhas não m uito longe dali. Falou por longo tem po. O cabo pousara a vela no chão
entre eles e o observou com o alguém faria com um a criança tagarela e m entirosa. Quando term inou o cabo ficou
de pé e levou a vela consigo, deixando-o no escuro.
Foi solto dois dias depois. Um padre espanhol viera batizá-lo e j ogara água através das barras com o um padre
esconj urando espíritos. Um a hora m ais tarde quando vieram buscá-lo sentia vertigem de tanto m edo. Foi
levado perante o alcaide e o hom em conversou com ele de um j eito paternal na língua espanhola e depois ele foi
deixado na rua.
O m édico que encontrou era um j ovem de boa fam ília vindo do leste. Cortou suas calças com um a tesoura e
olhou para a haste enegrecida da flecha e cutucou a ponta. Um a fístula leve se form ara em torno. Está
doendo? disse.
O kid não respondeu.
Apertou a ferida com o polegar. Disse que
poderia fazer a cirurgia e que custaria cem
dólares. O kid se levantou da m esa e foi em
bora m ancando.
No dia seguinte quando estava sentado na plaza um m enino apareceu e o conduziu de novo ao barracão atrás do hotel
e o m édico lhe disse que a operação seria de m anhã.
Vendeu a pistola para um inglês por quarenta dólares e acordou com a aurora em um pedaço de terra debaixo
de um as tábuas para onde rastej ara à noite. Chovia e percorreu as ruas enlam eadas e vazias e esm urrou a porta
do m erceeiro até que o hom em o deixasse entrar. Quando apareceu no consultório do cirurgião estava m uito
bêbado, escorando-se no batente da porta, segurando na m ão um a garrafa de quarto cheia pela m etade de uísque.
O assistente do cirurgião era um estudante de Sinaloa que viera fazer seu aprendizado ali. Seguiu-se
um a discussão à porta até que o cirurgião em pessoa se aproxim ou vindo dos fundos do prédio.
Vai ter que voltar am anhã, disse.
Não planej o estar m ais sóbrio am anhã.
O cirurgião olhou para ele. Tudo
bem , disse. Me dá o uísque aqui.
Entrou e o aprendiz fechou a porta
às suas costas.
Não vai precisar do uísque,
disse o m édico. Me dá ele
aqui. Com o não vou precisar?
A gente tem éter etílico.
Não vai precisar do
uísque. É m ais forte?
Muito m ais forte. De qualquer j eito não
posso operar um hom em caindo de bêbado.
Ele olhou para o assistente e então olhou
para o cirurgião. Pousou a garrafa na m esa.
Bom , disse o cirurgião. Quero que vá com o Marcelo. Ele vai preparar um
banho pra você e arranj ar um a roupa lim pa e m ostrar onde pode se deitar.
Puxou o relógio do colete e o segurou na palm a da m ão e olhou as horas.
São oito e quinze. Você vai ser operado à um a. Descanse um pouco. Se precisar de qualquer coisa é só dizer.
O assistente o conduziu através do pátio até um a casa de adobe caiada nos fundos. Um a edícula com quatro cam
as de ferro todas vazias. Tom ou banho em um a grande caldeira de cobre rebitada que parecia a sucata de algum
navio e deitou no colchão rústico e escutou crianças brincando em algum lugar do lado de lá da parede. Não dorm
iu. Quando vieram buscá-lo continuava bêbado. Foi levado dali e deitado em um a m esa de cavaletes na sala
vazia contígua à edícula e o assistente pressionou um pano gelado contra seu nariz e lhe disse para respirar fundo.
Naquele sono e nos sonos que se seguiram o j uiz o visitou. Quem m ais? Um enorm e m utante indolente,
silencioso e sereno. Fossem quais fossem seus antecedentes ele era algo inteiram ente diverso da som atória total e
tam pouco existia algum sistem a pelo qual decom pô-lo até suas origens pois com ele isso não funcionava. Quem
quer que se propusesse a escarafunchar sua história através de sabe-se lá que em aranhado de ventres e
escriturações fatalm ente acabaria ofuscado e em udecido às m argens de um vazio sem térm ino ou origem e fosse
qual fosse a ciência de que lançasse m ão para se debruçar sobre a poeirenta m atéria prim ordial que sopra do
fundo dos m ilênios não descobriria vestígio algum de qualquer ovo atávico fundam ental pelo qual determ inar seu
com eço. No recinto branco e vazio lá estava ele em seu terno sob m edida com o chapéu na m ão a perscrutá-lo
com os suínos olhinhos sem cílios dentro dos quais aquela criança havia apenas dezesseis anos sobre a terra podia
ler corpos inteiros de veredictos insondáveis perante os tribunais dos hom ens e ver seu próprio nom e que em
nenhum outro lugar teria conseguido sequer decifrar registrado nos autos com o algo j á consum ado, um viaj ante
conhecido em j urisdições existentes exclusivam ente nas reivindicações de posse de certos pensionários m ilitares
ou em antigos m apas desatualizados.
Em seu delírio revirou os lençóis do catre à procura de arm as m as não encontrou nenhum a. O j uiz sorria. O
bobo não estava m ais lá m as sim outro hom em e esse outro hom em ele nunca conseguia ver inteiram ente m as
parecia um artesão e um trabalhador em m etal. O vulto do j uiz o im pedia de enxergá-lo ali agachado em sua
ocupação m as era um forj ador a frio que trabalhava com m artelo e cunho, talvez sob algum a acusação e exilado
do fogo dos hom ens, m artelando com o se fosse seu próprio destino conj etural por toda a noite de sua gênese um a
cunhagem para um a aurora que não viria. É esse m oedeiro falso com cinzéis e punções que busca cair nas boas
graças do j uiz e se em penha em fabricar a partir da escória fria bruta no crisol um a face capaz de passar, um a im
agem que torne essa m oeda residual corrente nos m ercados onde os hom ens com erciam . Disso é o j uiz j uiz e a
noite não tem fim .

A luz am biente m udou, um a porta fechou. Ele abriu os olhos. Sua perna estava enfaixada com panos e erguida
com o apoio de pequenos rolos de esteira de j unco. Sua sede era desesperadora e sua cabeça latej ava e sua perna
era com o um a visita nociva na cam a j unto com ele tal a dor. Pouco depois o assistente apareceu trazendo água.
Ele não voltou a dorm ir. A água que bebeu correu através de sua pele e encharcou a roupa de cam a e ele
perm aneceu im óvel com o que para enganar a dor e seu rosto estava cinzento e exaurido e o cabelo com prido úm ido e
desgrenhado.
Um a sem ana m ais e j á coxeava pela cidade com as m uletas que o cirurgião providenciara. Indagava em todas as
portas por notícias do ex-padre m as ninguém o conhecia.
Em j unho desse ano estava em Los Angeles aloj ado em um a estalagem que não passava de um albergue
noturno, ele e quarenta outros hom ens de todas as nacionalidades. Na m anhã do dia onze todos se levantaram
ainda no escuro e saíram para presenciar um enforcam ento público no cárcel. Quando ele chegou a luz surgia
palidam ente e j á havia um a tal horda de espectadores no pórtico que m al conseguia enxergar os procedim entos.
Ficou na periferia da m ultidão enquanto o dia nascia e discursos eram proferidos. Então de m odo abrupto duas
figuras am arradas ascenderam verticalm ente em m eio a seus sem elhantes até o topo da guarita sobre o pórtico
e ali ficaram penduradas e ali m orreram . Garrafas passaram de m ão em m ão e os espectadores que haviam perm
anecido em silêncio com eçaram a falar outra vez.
Ao anoitecer quando voltou a esse lugar j á não se via m ais vivalm a. Um guarda recostado na porta da guarita m
astigando tabaco e os enforcados na ponta de suas cordas pareciam bonecos para espantar os pássaros.
Quando se aproxim ou viu que eram Toadvine e Brown.
Tinha pouco dinheiro e logo dinheiro nenhum m as vivia pelas tascas e casas de j ogo, rinhas e bodegas. Um j
ovem silencioso em um terno grande dem ais e as m esm as botas arruinadas com que cruzara o deserto. De pé j
unto à porta de um saloon vicioso com os olhos inquietos sob a aba do chapéu e à luz de um a lum inária de parede
incidindo lateralm ente em seu rosto foi tom ado por um prostituto e ganhou bebidas e então o conduziram aos
fundos do estabelecim ento. Deixou o cliente sem sentidos em um quartinho onde não havia luz algum a. Outros
hom ens encontraram -no ali no desem penho de seus próprios sórdidos intentos e outros hom ens levaram sua bolsa
e seu relógio. Mais tarde ainda alguém levou seus sapatos.
Não teve notícia do ex-padre e desistira de perguntar. De volta a seu pouso certa m anhã ao raiar do dia sob um a
chuva cinzenta viu um rosto babão em um a j anela no andar de cim a e subiu pela escada e bateu na porta. Um a
m ulher em um penhoar de seda abriu a porta e olhou para ele. Atrás dela no quarto um a vela ardia sobre a m esa e à
luz pálida na j anela um m eio retardado sentava em um chiqueirinho j unto com um gato. Virou para olhá-lo, não o
bobo do j uiz m as algum outro bobo. Quando a m ulher lhe perguntou o que queria deu m eia-volta sem dizer
palavra e desceu a escada debaixo de chuva e ganhou as ruas enlam eadas.
Com os últim os dois dólares com prou de um soldado o escapulário de orelhas pagãs que Brown usara ao subir
no cadafalso. Ele o usava na m anhã seguinte quando se engaj ou a serviço de um condutor independente vindo do
estado do Missouri e o usava quando partiram para Frem ont no rio Sacram ento com um com boio de carroções e
bestas de carga. Se o condutor sentiu algum a curiosidade acerca do colar ele a guardou para si.
Perm aneceu nessa atividade por alguns m eses e foi em bora sem o m enor aviso. Viaj ava pelo país de um lugar
para outro. Não evitava a com panhia de outros hom ens. Era tratado com certa deferência com o alguém que aj
ustara contas com a vida pagando m ais do que seus anos teriam a dever. Nessa altura conseguira um cavalo e um
revólver, algum equipam ento rudim entar. Trabalhava em ocupações diferentes. Tinha consigo um a bíblia
encontrada nos acam pam entos de m ineração e carregava com ele esse livro do qual não sabia ler um a única
palavra. Com suas roupas escuras e frugais alguns o tom avam por um a espécie de pregador m as ele não lhes
dava fé de coisa algum a, nem das coisas que tinham diante de si nem das coisas ainda por vir, ele m enos do que
qualquer outro hom em . Eram rem otos dem ais para as notícias os lugares por onde andava e nesses tem pos
incertos os hom ens brindavam à saúde de soberanos depostos e davam vivas à coroação de reis assassinados e j á
sepultados. Até m esm o de histórias assim tão com ungadas ele não tinha inform ação e em bora fosse o costum e
naquela vastidão parar para qualquer viaj ante e trocar as novas ele parecia viaj ar sem tom ar tento do que quer que
fosse, com o se os acontecim entos do m undo fossem por dem ais nefastos para que deles tom asse parte, ou talvez
por dem ais triviais.
Viu hom ens m ortos com arm as e com facas e com cordas e viu brigas até a m orte por causa de m ulheres cuj
o valor elas próprias haviam fixado em dois dólares. Viu navios do país da China atracados nos pequenos portos e
fardos de chá e sedas e especiarias sendo abertos com espadas por hom enzinhos am arelos cuj o falar parecia o de
gatos. Naquela costa solitária onde as rochas íngrem es em balavam com o um a bateia o oceano escuro e m
arulhante ele viu abutres planando cuj a envergadura de tal m odo apequenava os pássaros m enores que as águias
guinchando m ais abaixo eram com o andorinhas-do-m ar ou m açaricos. Viu pilhas de ouro que um chapéu m al
teria conseguido cobrir sendo apostadas na virada de um a carta e perdidas e viu ursos e leões soltos em covas para
lutar até a m orte contra touros selvagens e passou duas vezes pela cidade de San Francisco e por duas vezes a
viu arder em cham as e não m ais voltou, viaj ando a cavalo pela estrada para o sul onde por toda a noite a silhueta
da cidade ardeu contra o céu e ardeu novam ente nas águas negras do m ar onde golfinhos subiam à tona em m
eio às cham as, fogo no lago, em m eio à queda de vigas queim ando e os gritos dos que não tinham salvação. Nunca
m ais voltou a ver o ex-padre. Do j uiz escutava rum ores por toda parte.
Na prim avera de seus vinte e oito anos partiu com outros pelo deserto a leste, um dentre cinco contratados para
guiar um grupo através da vastidão até suas casas no coração do continente. Sete dias após deixar o litoral ele os
abandonou em um poço no deserto. Eram apenas um bando de peregrinos de regresso ao lar, hom ens e m ulheres j
á cobertos pelo pó e esgotados da viagem .
Virou o rosto do cavalo para o norte na direção da cordilheira rochosa que se esparram ava em um a linha fina
sob o lim ite do céu e cavalgou com as estrelas m orrendo e o sol nascendo. Eram plagas que nunca j am ais
percorrera e não havia trilhas a seguir naquelas m ontanhas e tam pouco trilha a indicar a saída. E contudo nas
profundezas m ais recônditas daquelas rochas encontrou hom ens que pareciam incapazes de tolerar o silêncio do
m undo.
Avistou-os pela prim eira vez arrastando-se através da planície sob o lusco-fusco entre ocotillos em flor que cham
ej avam à luz derradeira com o candelabros cornígeros. Eram liderados por um pitero assoprando seu sím ile de
clarinete e a seguir em procissão ia um a algazarra de pandeiros e m atracas e hom ens nus da cintura para cim a
usando m antos negros e capuzes que se autoflagelavam com látegos de iúca trançada e hom ens que
carregavam nas costas nuas enorm es fardos de cholla e um hom em am arrado a um a corda que era puxado de um
lado para outro pelos com panheiros e um hom em encapuzado com um a veste talar branca carregando um a pesada
cruz de m adeira sobre os om bros. Estavam todos eles descalços e deixavam um rastro de sangue nas rochas e atrás
deles seguia um a rústica carreta sobre a qual se via um esqueleto de m adeira esculpida que chacoalhava
rigidam ente em punhando diante de si um arco e flecha. Com partilhava sua carroça com um carregam ento de
pedras e rodava sobre as rochas puxado por cordas presas às cabeças e tornozelos dos penitentes e era acom
panhado por um a delegação de m ulheres levando pequenas flores do deserto nas m ãos fechadas ou archotes de
sotol ou lanternas prim itivas de lata perfurada.
A torturada seita cruzou vagarosam ente o terreno sob o despenhadeiro onde o observador se encontrava e seguiu
seu cam inho por sobre o leque de pedregulhos arrastados pela água da ravina acim a deles e em m eio a lam
úrias e acordes e estrépitos passaram entre as paredes de granito para o lado m ais elevado do vale e desapareceram
na escuridão im inente com o arautos de algum a calam idade além das palavras deixando para trás sobre a rocha
apenas pegadas ensanguentadas.
Ele fez seu bivaque em um a baixada inóspita e ele e o cavalo deitaram lado a lado e por toda a noite o vento seco
soprou do deserto e o vento era quase silencioso pois não havia em que ressoar entre aquelas rochas. Ao alvorecer
ele e o cavalo perm aneceram contem plando o leste onde a luz com eçava a surgir e então ele selou o cavalo e
desceram por um a trilha de vegetação esparsa através de um cânion onde encontrou um tanque profundo sob
um a elevação de m atacões. A água ficava na escuridão e as pedras eram frias e ele bebeu e levou água para o
cavalo em seu chapéu. Depois conduziu o anim al até o alto do cum e e prosseguiram , o hom em observando o
planalto a sul e as m ontanhas a norte e o cavalo atrás, cascos retinindo.
Pouco depois o cavalo com eçou a sacudir a cabeça e logo se recusava a prosseguir. Ele parou com a m ão no
cabresto exam inando a região. Então avistou os peregrinos. Estavam esparram ados abaixo dele em um a coulee
rochosa m ortos no próprio sangue. Ele puxou seu rifle e agachou e ficou à escuta. Conduziu o cavalo para a som bra
do paredão rochoso e o prendeu com a peia e se m oveu ao longo da rocha e desceu a vertente.
Os penitentes j aziam esfaqueados e trucidados entre as pedras nas m ais diversas posições. Muitos tom baram
próxim os à cruz caída e alguns haviam sido m utilados e outros decapitados. Talvez tivessem se reunido ao pé da
cruz em busca de proteção m as o buraco dentro do qual ela fora fixada e o m onte de pedras em torno de sua base
revelavam com o havia sido derrubada e com o o pretenso cristo encapuzado fora passado no fio das lâm inas e
estripado e agora j azia com os pedaços de corda pelos quais havia estado am arrado ainda presos em torno dos
pulsos e tornozelos.
O kid se levantou e olhou em torno para a cena desoladora e então viu solitária e ereta em um pequeno nicho nas
rochas um a velha aj oelhada e cabisbaixa em seu rebozo desbotado.
Passou entre os cadáveres e parou diante dela. Era m uito velha e tinha o rosto cinzento e curtido e a areia se
acum ulara nas pregas de sua roupa. Não ergueu o rosto. O xale que cobria sua cabeça tinha as cores m uito
esm aecidas e contudo o tecido exibia com o que um padrão de patente com figuras de estrelas e crescentes e
outros sím bolos de um a proveniência que lhe era desconhecida. Falou com ela em voz baixa. Disse-lhe que era
am ericano e que estava m uito longe da terra onde nascera e que não possuía fam ília e que viaj ara m uito e vira m
uitas coisas e estivera na guerra e passara por extrem as dificuldades. Disse-lhe que ia levá-la para um lugar seguro,
algum grupo de seus conterrâneos que iriam acolhê-la e que ela deveria se j untar a eles pois não iria deixá-la
naquele lugar ou certam ente m orreria.
Ele aj oelhou sobre um a perna, descansando o rifle diante de si com o um caj ado. Abuelita, disse. No puedes
escucharm e?
Esticou a m ão dentro do pequeno recesso e tocou seu braço. Ela se m oveu ligeiram ente, todo seu corpo, leve e rígido.
Não pesava nada. Era apenas um a casca seca e estava m orta naquele lugar havia m uitos anos.
XXIII

NAS PLANÍCIES DO NORTE DO TEXAS — UM VELHO CAÇADOR DE BISÕES — AS MANADAS


MILENARES — OS CATADORES DE OSSOS — NOITE NA PRADARIA — VISITANTES —
ORELHAS APACHES — ELROD QUER BRIGA — UM ASSASSINATO — LEVANDO O MORTO —
FORT GRIFFIN — A COLMEIA — UM SHOW NO PALCO — O JUIZ — MATANDO UM URSO — O
JUIZ FALA SOBRE OS VELHOS TEMPOS — PREPARATIVO PARA A DANÇA — O JUIZ SOBRE A
GUERRA, O DESTINO, A SUPREMACIA DO HOMEM — O SALÃO DE BAILE — A PROSTITUTA
— AS LATRINAS E O QUE SE ENCONTROU POR LÁ — SIE MÜSSEN SCHLAFEN
ABER ICH MUSS TANZEN.

No final do inverno de m il oitocentos e setenta e oito ele estava nas planícies do norte do Texas. Atravessou o
Double Mountain Fork do rio Brazos certa m anhã quando um a película de gelo fino cobria a m argem arenosa e
cavalgou por um a floresta anã sinistra de prosópis negras e retorcidas. Montou seu acam pam ento nessa noite em
um trecho de terreno elevado onde um a árvore derrubada por um raio form ava um a proteção contra o vento.
Nem bem pusera sua fogueira para queim ar avistou através da pradaria na escuridão outra fogueira. Com o a sua
ela se contorcia ao vento, com o a sua aquecia um só hom em .
Era um velho caçador acam pado e o caçador com partilhou seu tabaco com ele e lhe falou sobre o bisão e dos
em bates que tivera com eles, deitado em um a cavidade em algum a elevação com os anim ais m ortos espalhados
pelo terreno em volta e a m anada com eçando a circular confusa e o cano do rifle tão quente que os pequenos
retalhos de lim peza chiavam ali dentro e os anim ais aos m ilhares e às dezenas de m ilhares e as peles esticadas
cobrindo verdadeiras m ilhas quadradas de terreno e as equipes de peleiros se revezando dia e noite e a sucessão de
sem anas e de m eses atirando e atirando até as estrias do cano ficarem lisas e o encaixe da coronha ficar solto e as
m anchas am arelo-azuladas dos om bros aos cotovelos e os carroções em com boios gem endo através da pradaria
e as j untas de vinte e de vinte e dois bois e os couros enrij ecidos às toneladas e centenas de toneladas e as carnes
apodrecendo no chão e o ar zunindo de m oscas e os abutres e os corvos e a noite um horror de rosnados e de presas
rasgando com os lobos m eio enlouquecidos se espoj ando na vertigem da carniça.
Vi carroças Studebaker com parelhas de seis e oito bois rum ando para os cam pos de caça sem outra carga que
não chum bo. Galena pura e m ais nada. Toneladas. Só aqui nessa região entre o rio Arkansas e o Concho foram
oito m ilhões de carcaças pois foi esse tanto de peles que chegou no term inal do trem . Faz uns dois anos a gente
saiu de Griffin pra um a últim a caçada. Vasculham os o território. Seis sem anas. Até que acabam os encontrando
um bando de oito anim ais e m atam os e fom os em bora. Sum iram . Sum iram todos até o últim o exem plar que um
dia Deus pôs neste m undo com o se nunca tivessem existido.
O vento soprou fagulhas irregulares. A pradaria em torno estava m ergulhada no silêncio. Além da fogueira fazia
frio e a noite era clara e as estrelas caíam . O velho caçador se em brulhou na m anta. Fico pensando se existem
outros m undos assim , ele disse. Ou se esse aqui é o único.

Quando topou com os catadores de ossos vinha cavalgando havia três dias por um a região que nunca vira. As
planícies eram ressequidas e de aparência incendiada e as arvoretas negras e deform adas e povoadas de corvos e
por toda parte as m atilhas rudes de lobos chacais e os ossos desarranj ados e brancos causticados de sol das m
anadas extintas. Ele apeou e conduziu o cavalo. Aqui e ali por entre os arcos das costelas discos achatados de chum
bo escurecido com o m edalhões de algum a antiga ordem de caçadores. A distância j untas de bois sob os varais em
passo arrastado e as carroças pesadas rangendo secam ente. Dentro desses tabuleiros os catadores j ogavam os
ossos, derrubando a chutes a arquitetura calcinada, partindo os esqueletos m aiores com m achados. Os ossos
chacoalhavam nos carros, o avanço pesado sob um pó pálido. Ele os observou passar, m altrapilhos, im undos, os
bois esfolados e de olhar desvairado. Ninguém lhe dirigiu a palavra. A distância ele avistou um a caravana de
carroças m ovendo-se para o nordeste com im ensas cargas de ossos precariam ente equilibradas e m ais ao norte
outros grupos de catadores trabalhando.
Montou e seguiu em frente. Os ossos haviam sido j untados em m edas de trinta m etros de altura e centenas de
com prim ento ou em grandes m ontanhas cônicas encim adas pelos sím bolos ou m arcas de seus proprietários. Ele
em parelhou com um a das carroças sacolej antes, um m enino m ontado no boi esquerdo da roda e conduzindo os
anim ais com um a brida e um a vergasta. Dois rapazes acocorados sobre um a pilha de crânios e ossos da pelve o
relancearam de seu poleiro.
A planície ficou pontilhada com suas fogueiras à noite e ele sentou de costas para o vento e bebeu de um cantil do
exército e com eu um punhado de m ilho torrado com o j antar. Por todas aquelas extensões os lam entos e ganidos
dos lobos fam intos se faziam ouvir sem cessar e ao norte os relâm pagos silenciosos encordoavam um a lira
quebrada na m argem escura do m undo. O ar cheirava a chuva m as nenhum a gota caiu e os rangentes carros de
ossos passavam na noite com o vultos de navios e ele podia farej ar os bois e escutar suas respirações. O odor
rançoso dos ossos estava por toda parte. Por volta da m eia-noite um grupo o saudou quando se agachava diante
das brasas.
Acheguem -se, ele disse.
Saíram das som bras, farrapos hum anos taciturnos vestidos com peles. Portavam antigas arm as m ilitares a não
ser por um deles que carregava um rifle de caçar bisões e não tinham casacos e um deles usava um as botas de
couro não curtido escorchadas dos j arretes de algum anim al e com as biqueiras am arradas por um a tira.
Noite, forasteiro, exclam ou a m ais velha das crianças.
Ele olhou para eles. Estavam em quatro m ais um m enino não m
uito crescido e pararam na orla da luz e se aj eitaram por ah.
Acheguem -se, disse ele.
Avançaram um pouco m ais. Três se
agacharam e dois ficaram em pé.
Onde estão seus petrechos? disse um
.
Ele não está atrás dos ossos.
O senhor não teria aí consigo um
bocadinho de tabaco nos bolsos,
teria? Ele abanou a cabeça.
Tam bém nem um
bocadinho de uísque, eu
acho. Ele não tem
uísque.
Pra onde o senhor tá indo?
O senhor tá indo
pra Griffin m
ister? Ele os
observou. Estou,
disse.
Pra ir na zona
aposto que é.
Ele não tá
indo na zona.
Lá é cheio de m ulher, em Griffin.
Ele j á deve ter ido lá m
ais do que você, diacho.
O senhor j á teve em
Griffin m ister?
Ainda não.
Muita m ulher-dam a. A dar com pau.
Dizem que a pessoa pega gonorreia a um dia de cavalo se o vento soprar de j eito.
Elas ficam sentadas num a árvore na frente do lugar e a pessoa pode olhar pra cim a e ver as calças delas. Contei
oito nessa árvore um a noite bem cedo. Em poleiradas lá que nem racum e fum ando cigarro e cham ando a pessoa.
Vai ser a m aior cidade do vício de todo o Texas.
A pessoa tá pra ver um lugarzinho m
ais anim ado pra um assassinato.
Briga de faca. A baixeza que a
pessoa quiser tem .
Ele olhava de um para outro. Esticou o braço e apanhou um pau e cutucou o fogo e
depois j ogou o pau no m eio da fogueira. Todo m undo aí é chegado num a baixeza?
disse. A gente não senhor.
E de uísque todo m undo gosta.
Ele só falou por falar. Ele não é de bebida.
Diacho, você acabou de ver ele no uísque não faz nem um a hora.
E eu vi ele botar as tripas pra fora tam bém . O que são
essas coisas que o senhor tem aí no pescoço m ister?
Ele puxou o curtido escapulário da cam isa e olhou.
Orelhas, disse.
Éo
quê
?
Orel
has.
Que tipo de orelha?
Ele esticou o cordão e baixou os olhos para elas. Estavam
perfeitam ente negras e duras e secas e sem form ato algum .
De gente, disse. Orelha de gente.
Até parece, disse o que estava com o rifle.
Não cham a o hom em de m entiroso Elrod, é capaz dele m eter um tiro em
você. Deixa a gente dar um a olhada nisso aí m ister se o senhor não se im
porta. Ele passou o escapulário pela cabeça e deu para o garoto que falou.
Todos se j untaram em volta e apalparam os pingentes secos esquisitos.
De negros, não é? disseram .
Cortam as orelhas dos negros pra
poder reconhecer quando eles fogem
. Quantas tem m ister?
Não sei. Era um a
centena, quase.
Ergueram a coisa e
giraram à luz do
fogo. Meu deus,
orelhas de negros.
Não é de
negros.
Não é?
Não.
É do
quê?
Inj
ins.
O cacete.
Elrod tô avisando.
Com o podem ser tão pretas se não são de negros.
Ficaram desse j eito. Foram ficando m
ais escuras até não dar pra ficar m ais.
Onde o senhor conseguiu?
Matou os filhos da puta. Não foi m ister?
O senhor era batedor nas pradarias, não foi?
Com prei essas orelhas na Califórnia de um
soldado num saloon que não tinha dinheiro pra
beber. Estendeu a m ão e apanhou o escapulário
deles.
Puxa. Aposto que ele era um batedor na pradaria que m atou os filhos da puta até não sobrar m ais nenhum .
O que se cham ava Elrod seguiu os troféus com o queixo e farej ou o ar. Não
entendo o que o senhor quer andando com essas coisas, disse. Eu não andava.
Os outros olharam para ele com nervosism o.
O senhor não tem com o saber de onde vêm essas orelhas. O suj eito que o senhor
com prou elas dele pode ter dito que era de inj ins m as não é por isso que é
verdade. O hom em não respondeu.
Essas orelhas podem ser de canibal ou de qualquer tipo de negro estrangeiro. Me contaram que dá pra com prar
a cabeça inteira lá em New Orleans. Os m arinheiros trazem e a pessoa pode com prar por cinco dólares essas
cabeças a hora que quiser.
Cala a boca Elrod.
O hom em ficou sentado segurando o colar nas m ãos. Não eram canibais, disse. Eram apaches. Conheço
o hom em que arrancou elas. Conheci ele e cavalguei com ele e vi ele ser pendurado pelo pescoço. Elrod
olhou para os outros e sorriu. Apaches, disse. Aposto que esses apaches aí eram de deixar o cabelo em pé,
e vocês o que acham ?
O hom em ergueu o rosto cansado. Não está
m e cham ando de m entiroso, está, filho?
Não sou seu filho.
Quantos
anos você
tem ? Isso
não é da sua
conta.
Quantos
anos você
tem ? Ele
tem quinze.
Cala a boca seu idiota.
Ele virou para o hom em . Ele não fala por m im , disse.
Já falou. Eu tinha quinze anos
quando levei m eu prim eiro
tiro. Eu nunca levei tiro nenhum
.
Mas tam bém ainda
não fez dezesseis.
Vai querer m e dar
um tiro?
Estou é m e
segurando pra
não dar. Vam
’bora Elrod.
Você não atira em ninguém não m oço. Só se for
pelas costas ou quando o suj eito estiver dorm
indo. Elrod a gente tá indo.
Já fui logo percebendo seu tipo
assim que pus os olhos em cim a.
Melhor ir indo.
Fica aí sentado falando em m eter bala em alguém . Em m im ninguém ainda não m eteu bala nenhum a.
Os outros quatro aguardavam no lim iar da lum inosidade. O m ais novo
dentre eles lançava olhares para o santuário escuro da noite na pradaria.
Vai indo, o hom em disse. Estão esperando você.
O m enino cuspiu na fogueira do hom em e lim pou a boca. Mais além na pradaria para os lados do norte passava
um com boio de carroças e os bois sob a canga eram pálidos e silenciosos sob a luz das estrelas e as carroças
rangiam debilm ente na distância e um a lanterna com um vidro verm elho ia na rabeira com o um olho hostil. A
região era cheia de crianças violentas orfanadas pela guerra. Seus colegas haviam com eçado a voltar para buscá-
lo e talvez isso o tivesse encoraj ado ainda m ais e talvez houvesse dito outras coisas para o hom em pois quando
chegaram perto da fogueira o hom em se pusera de pé. Vocês m antenham ele longe de m im , disse. Se ele aparecer
aqui de novo eu m ato ele.
Depois que foram em bora ele alim entou o fogo e foi buscar o cavalo e tirou as peias e o am
arrou e selou e então se afastou para um lado e abriu o cobertor e então se deitou no escuro.
Quando acordou ainda não havia luz a leste. O m enino estava de pé ao lado das cinzas da
fogueira com o rifle na m ão. O cavalo havia bufado e agora bufava outra vez.
Eu sabia que você ia estar escondido, exclam ou o m enino.
Ele em purrou a coberta e rolou de bruços e engatilhou a pistola e apontou para o céu onde os aglom erados de
estrelas ardiam por toda a eternidade. Centrou a m ira na ranhura canelada da alça e segurando a arm a assim girou-a
pelo escuro das árvores com am bas as m ãos até chegar à form a m ais escura do intruso.
Estou bem aqui, disse.
O m enino girou com o rifle e fez fogo.
Você não ia viver m uito m esm o, disse o hom em .
Era a aurora cinzenta quando os outros apareceram . Não tinham cavalos. Conduziram o m enino m enor
ao local onde o rapazinho m orto j azia de costas com as m ãos zelosam ente cruzadas sobre o peito. A
gente não querem os problem a m ister. Só querem os levar ele com a gente.
Podem levar.
Eu sabia que a gente ia acabar enterrando ele aqui nessa pradaria.
Eles vieram pra cá do Kentucky m ister. O baixinho aqui e o irm ão dele. A m ãe dele e o pai dele m orreu os
dois. O vô dele quem m atou foi um lunático e enterraram ele na floresta que nem um cachorro. Ele não sabe o
que é ter sorte na vida e agora ficou sozinho no m undo.
Randall dá um a boa olhada no hom em que fez você virar órfão.
O órfão em suas roupas grandes dem ais segurando o velho m osquete com a coronha em endada olhou para ele
sem j eito. Devia ter uns doze anos e m ais do que lerdo parecia doente da cabeça. Dois outros vasculhavam os
bolsos do m enino m orto.
Onde tá o rifle dele m ister?
O hom em continuou com a m ão no cinto. Fez um gesto de cabeça na direção do rifle encostado em um a árvore.
Foram buscar e deram para o irm ão. Era um a Sharp calibre cinquenta e segurando aquilo e o m osquete lá ficou ele
absurdam ente arm ado, os olhos dançando.
Um dos m eninos m ais velhos estendeu-lhe o chapéu do m enino m orto e depois virou para o hom em . Ele
pagou quarenta dólares nesse rifle em Little Rock. Em Griffin você com pra eles por dez. Não valem nada.
Randall, tá pronto pra ir?
Ele não aj udou a carregar porque era m uito pequeno. Quando se puseram em m archa através da pradaria com o
corpo do irm ão sobre os om bros ele seguiu m ais atrás levando o m osquete e o rifle do m enino m orto e o chapéu
do m enino m orto. O hom em os acom panhou com o olhar. Não havia nada ali. Sim plesm ente carregavam o
corpo pela vastidão coberta de ossos na direção do horizonte vazio. O órfão virou um a vez para olhar para ele e
então apertou o passo e alcançou os dem ais.

À tarde atravessou o vau do McKenzie no Clear Fork do rio Brazos e ele e o cavalo andaram lado a lado sob o
lusco-fusco na direção da cidade onde em m eio ao crepúsculo longo e verm elho e à escuridão o agregado
aleatório das lam parinas form ava lentam ente um a falsa costa de abrigo aninhada na planície baixa diante deles.
Passaram por im ensos am ontoados de ossos, diques colossais com postos de crânios com chifres e costelas em
crescente com o antigos arcos de m arfim em pilhados após o desfecho de algum a batalha lendária, gigantescos m
olhes de ossos esparram ando-se em curva pela planície para sum ir na noite.
Entraram na cidade sob um a chuva fina. O cavalo relinchou baixinho e farej ou tim idam ente os j arretes dos
outros anim ais am arrados diante dos lupanares ilum inados por onde passaram . Música de violino ecoava pela
solitária rua enlam eada e cachorros m agros atravessavam seu cam inho indo de um a som bra a outra. No fim da
cidade ele conduziu o cavalo até um varão e o am arrou entre outros e então subiu os degraus baixos de m adeira
banhados pela luz fraca que vinha da porta. Virou a cabeça e olhou um a últim a vez para a rua e para as j anelas
acesas dispostas aleatoriam ente na escuridão e para a luz pálida e agonizante a oeste e as colinas baixas e escuras
em volta. Então em purrou a porta e entrou.
Um a canalha vagam ente agitada coagulara ali dentro. Com o se a estrutura de tábuas grosseiras erigida para seu
confinam ento ocupasse um derradeiro ralo para o qual haviam gravitado vindos das planícies circundantes. Um
velho em um traj e tirolês arrastava os pés entre as m esas rústicas com o chapéu estendido enquanto um a garotinha
de avental girava a m anivela de um realej o e um urso num a crinolina rodopiava estranham ente sobre um tablado
delim itado por um a fileira de velas de sebo que gotej avam e crepitavam em suas poças de gordura.
Ele abriu cam inho por entre a turba até o balcão onde vários hom ens em cam isas apolainadas tiravam cervej a
ou serviam doses de uísque. Meninos pequenos trabalhavam atrás deles indo buscar engradados de garrafas e bandej
as de copos fum egantes na copa nos fundos. O balcão era coberto de zinco e ele fincou os cotovelos em cim a e j
ogou um a m oeda girando a sua frente e a fez parar de girar com um tapa.
Fale agora ou cale-se para
sem pre, disse o barm an.
Um uísque.
Uísque será. Ele pôs um pequeno copo de vidro sobre o tam po e desarrolhou um a garrafa e serviu cerca de m eio gill
e pegou a m oeda.
Ele parou olhando para o uísque. Então tirou o chapéu e o pousou sobre o balcão e apanhou o copo e bebeu num
gesto determ inado e baixou o copo vazio outra vez. Lim pou a boca e se virou e apoiou os cotovelos sobre o balcão
atrás de si.
Observando-o através das cam adas de fum aça sob a luz am arelada estava o j uiz.
Ele sentava a um a das m esas. Usava um chapéu redondo de aba estreita e estava rodeado por todo tipo de hom
em , vaqueiro e criador de gado e condutor de carroção e boiadeiro e transportador em caravanas e m ineiro e
caçador e soldado e m ascate e j ogador e andarilho e bêbado e ladrão e estava entre o rebotalho desta terra que m
endigava havia um m ilênio e estava entre os descendentes salafrários das dinastias do leste e no m eio de toda
essa chusm a variegada sentava-se j unto e no entanto sozinho com o se ele fosse um hom em de um a espécie
inteiram ente outra e parecia pouco ou nada m udado em todos aqueles anos.
Ele deu as costas para aquele olhar e baixou o rosto para o copo vazio entre seus punhos. Quando voltou a erguer o
rosto o barm an olhava para ele. Ergueu o dedo indicador e o barm an trouxe o uísque.
Pagou, ergueu o copo e bebeu. Atrás do balcão havia um espelho com prido m as tudo que se via nele eram fum aça e
fantasm as. O realej o gem ia e rangia e o urso com a língua de fora girava pesadam ente sobre as tábuas.
Quando se virou o j uiz estava de pé e conversando com outros hom ens. O showm an abria cam inho entre a m
ultidão sacudindo as m oedas em seu chapéu. Prostitutas vestidas de m aneira espalhafatosa saíam por um a porta
nos fundos do estabelecim ento e ele as observou e observou o urso e quando voltou a olhar para o outro lado do bar
o j uiz não estava m ais lá. O showm an parecia envolvido em algum a altercação com os hom ens de pé j unto à m
esa. Outro hom em se levantou. O showm an fez um gesto com seu chapéu. Um deles apontou na direção do balcão.
Ele abanou a cabeça. Suas vozes eram incoerentes no m eio do burburinho. Sobre o tablado o urso dançava com
todo o ânim o de que era capaz e a garota girava a m anivela do realej o e a som bra do núm ero que a luz das velas
proj etava na parede talvez houvesse pedido por referentes em qualquer m undo ilum inado pela luz do dia. Quando
olhou de novo o showm an havia enfiado o chapéu de volta na cabeça e postava-se com as m ãos nos quadris. Um
dos hom ens puxara do cinto um a pistola de cavalaria de cano longo. Ele virou e m irou a pistola na direção do
palco.
Alguns se j ogaram no chão, outros sacaram as próprias arm as. O dono do urso ficava com o um proprietário de
barraca de tiro ao alvo. O estam pido trovej ou e no terrível desfecho todo o som do am biente cessou. O urso fora
baleado no m eio do corpo. Deixou escapar um gem ido baixo e com eçou a dançar m ais rápido, dançando em
silêncio a não ser pelo ruído espalm ado de suas enorm es alm ofadas contra as tábuas. O sangue descia escorrendo
por sua virilha. A garotinha presa em suas correias ao realej o ficou paralisada em pleno giro ascendente da m
anivela. O hom em com a pistola fez fogo outra vez e a arm a recuou e rugiu e cuspiu um rolo de fum aça negra e o
urso gem eu e com eçou a oscilar com o um bêbado. Levara a pata ao peito e um fio de sangue espum oso pendia de
seu m axilar e com eçou a cam balear e a em itir lam úrias com o um bebê e deu uns poucos passinhos derradeiros,
dançando, para desabar sobre o tablado.
Alguém agarrara o braço do atirador e a pistola abanava no alto. O dono do
urso perm anecia estupefato, agarrando a aba de seu chapéu do velho m undo.
Matou o m aldito urso, disse o barm an.
A garotinha desafivelara as correias do realej o e o instrum ento caiu arquej ante no chão. Ela correu e se aj
oelhou segurando a cabeçorra felpuda nos braços e com eçou a balançar para a frente e para trás aos soluços. A
m aioria dos hom ens no saloon estava de pé e perm anecia no m eio do am biente am arelo enfum açado com as m
ãos repousando nas arm as. Bandos de prostitutas fugiam se atropelando pelos fundos e um a m ulher trepou no
tablado e passou pelo urso e ergueu as m ãos.
Acabou, disse. Já acabou.
Acredita que j á acabou, filho?
Ele se virou. O j uiz estava j unto ao balcão olhando para ele do alto de sua estatura. Sorriu, rem oveu o
chapéu. O enorm e dom o pálido de seu crânio reluzia com o um im enso ovo fosforescente à luz dos lam
piões. Os últim os de verdade. Os últim os de verdade. Diria que ficaram todos pelo cam inho, tirando tu e
eu. O que acha?
Tentou olhar atrás dele. O corpanzil cobria tudo que havia além . Escutou a m ulher anunciando o início da dança no
salão dos fundos.
E alguns ainda por nascer m otivos haverão de ter para am aldiçoar a alm a do
Delfim , disse o j uiz. Virou-se ligeiram ente. Tem po de sobra para a dança.
Não pretendo dançar coisa nenhum a.
O j uiz sorriu.
O tirolês e outro suj eito se debruçavam sobre o urso. A garota chorava, a frente de seu vestido verm elha de
sangue. O j uiz se curvou sobre o balcão e apanhou um a garrafa e fez a rolha saltar com o polegar. A rolha voou
ganindo para a escuridão acim a dos lam piões com a força de um a bala. Ele entornou um a enorm e dose pela
garganta e se apoiou de costas no balcão. Mas você está aqui para a dança, disse.
Preciso ir.
O j uiz fez um ar ofendido. Já vai? disse.
Ele balançou a cabeça afirm ativam ente. Estendeu a m ão e apanhou
o chapéu sobre o balcão m as não o levou à cabeça nem se m oveu.
Que hom em deixaria de ser um dançarino se pudesse ser um , disse
o j uiz. É um a coisa m aravilhosa, a dança.
A m ulher se aj oelhava e passava o braço em torno da garotinha. As velas crepitavam e o enorm e volum e
peludo do urso m orto em sua crinolina j azia com o algum m onstro abatido enquanto com etia atos antinaturais.
O j uiz encheu o copo que estava vazio ao lado do chapéu e o em purrou com o dedo.
Beba, disse. Beba. Esta noite pode acontecer de tua alm a te ser reclam ada.
Ele olhou para o copo. O j uiz sorriu e fez um gesto com a garrafa. Ele apanhou o copo e bebeu.
O j uiz o observava. O que estava passando por sua cabeça esse
tem po todo, disse, que se não abrisse a boca não ia ser
reconhecido? Foi você que m e viu.
O j uiz ignorou isso. Reconheci você assim que o vi e contudo você foi um a decepção pra m
im . Na época e hoj e. Mas sej a com o for no fim das contas dou com você aqui com igo.
Não estou com você.
O j uiz ergueu o sobrolho calvo. Não? disse. Olhou em torno de si com
expressão perplexa e ardilosa e seus dotes dram áticos eram bastante
passáveis. Não vim aqui a sua procura.
Então procurava o quê? disse o j uiz.
O que eu ia querer com você? Vim aqui
pelo m esm o m otivo que qualquer um .
E que m otivo seria esse?
Que m otivo é o quê?
Por que esses hom
ens estão aqui.
Estão aqui pra se
divertir um pouco.
O j uiz olhava para ele. Com eçou a apontar vários hom ens no saloon e a perguntar se aqueles hom ens
estavam ali para se divertir ou se na verdade não faziam a m ais rem ota ideia do m otivo por que estavam
ali. Nem todo m undo precisa de um m otivo pra estar em algum lugar.
Assim é, disse o j uiz. Eles não precisam de um m otivo. Mas
a ordem não deixa de existir por causa da indiferença deles.
Ele fitou o j uiz com ar desconfiado.
Deixa eu colocar dessa form a, disse o j uiz. Se isso é assim m esm o que eles não têm m otivo nenhum e m esm o
assim eles estão aqui será que não estão aqui por um m otivo de algum a outra ordem ? E se assim é você consegue
adivinhar que outra ordem essa seria?
Não. E
você,
consegue?
Eu sei m
uito bem .
Encheu o copo m ais um a vez e ele próprio bebeu da garrafa e lim pou a boca e se virou para observar o am
biente. Isso é um a orquestração para um acontecim ento. Para um a dança, na verdade. Os participantes serão
inform ados de seus papéis no devido tem po. Por ora ter chegado aqui é quanto basta. Com o a dança é o negócio
que nos interessa e ela contém inteiram ente dentro de si seu próprio arranj o e história e conclusão não há
necessidade de que os dançarinos tam bém contenham essas coisas em si m esm os. Em qualquer acontecim ento a
história de todos não é a história de cada um nem tam pouco a som a dessas histórias e ninguém aqui no final
pode entender o m otivo de sua presença pois ninguém tem com o saber nem m esm o no que o acontecim ento
consiste. Na verdade, se a pessoa soubesse é bem provável que se ausentasse e com o você pode ver isso não pode
ser parte do plano se é que algum plano há.
Sorriu, seus grandes dentes brilharam . Bebeu.
Um acontecim ento, um a cerim ônia. A orquestração disso. A abertura traz em si certos sinais de seu caráter
decisivo. Ela inclui o sacrifício de um grande urso. A progressão da noite não parecerá estranha ou incom um
nem m esm o para os que questionam a retidão dos eventos assim ordenados.
Um a cerim ônia então. Alguém poderia perfeitam ente argum entar que não existem categorias de cerim ônia
nenhum a m as apenas cerim ônias de grau m ais elevado ou inferior e em deferência a esse argum ento direm os
que isso é um a cerim ônia de certa m agnitude talvez m ais com um ente cham ada de um ritual. Um ritual inclui o
derram am ento de sangue. Rituais que deixam de cum prir esse requisito nada são além de rituais faj utos. Aqui
todo hom em identifica o falso logo de cara. Não tenha dúvida. Aquele sentim ento no peito que evoca a lem brança
de solidão de um a criança com o quando as dem ais foram em bora e tudo que restou foi o j ogo com sua
participante solitária. Um j ogo solitário, sem oponente. Onde apenas as regras estão sob risco. Não vire a cara. Não
estam os falando de m istérios. Logo você, dentre todos os hom ens, não pode desconhecer esse sentim ento, o vazio
e o desespero. É contra isso que pegam os em arm as, não é? Acaso não é sangue o agente aglutinador na argam
assa que dá a liga entre nós? O j uiz se curvou para m ais perto. O que acha que é a m orte, hom em ? De quem
estam os falando quando falam os de um hom em que existiu e não existe m ais? Serão esses enigm as incom
preensíveis ou não farão parte da j urisdição de todo hom em ? O que é a m orte senão um agente? E quem ela tem
em m ente? Olhe pra m im .
Não gosto dessa conversa de louco.
Nem eu. Nem eu. Tenha paciência. Olhe pra eles agora. Pegue um hom em , qualquer um . Aquele suj eito ali.
Olhe pra ele. Aquele hom em sem chapéu. Você sabe qual é a opinião que ele tem sobre o m undo. Dá para ler no
rosto dele, na postura. E contudo sua queixa de que a vida de um hom em não é nenhum negócio da china m ascara
a verdadeira questão em seu caso. A de que os hom ens não fazem o que desej am fazer. Que nunca fizeram , nunca
vão fazer. É assim que as coisas se dão com ele e sua vida é tão estorvada pela dificuldade e de tal form a se desvia
da arquitetura pretendida que constitui pouco m ais que um a choupana itinerante dificilm ente adequada para
abrigar até m esm o o espírito hum ano. Pode ele afirm ar, um hom em desses, que não existe nada de m aligno
voltado contra sua pessoa? Nenhum poder e nenhum a força e nenhum a causa? Que tipo de herético poderia
duvidar tanto do agente quanto do queixoso? Será que ele é capaz de acreditar que o fracasso de sua existência está
desobrigado de vínculos? Sem penhoras, sem credores? Que tanto deuses de vingança com o de com paixão
j azem adorm ecidos em suas criptas e sej am nossos clam ores por um a prestação de contas ou pela destruição sum
ária dos livros-razões eles estão fadados a suscitar apenas o m esm o silêncio e que é esse silêncio que vai
prevalecer? A quem ele dirige suas palavras, hom em ? Consegue ver?
E de fato o hom em falava sozinho e percorria com olhar sinistro aquele am biente onde não parecia haver para ele am
igo algum .
Um hom em busca o próprio destino e o de m ais ninguém , disse o j uiz. Quer queira quer não. Qualquer um
que fosse capaz de descobrir seu próprio destino e portanto de eleger algum curso contrário conseguiria quando
m uito atingir a m esm íssim a localização na m esm a hora designada, pois o destino de cada hom em é tão grande
quanto o m undo que ele habita e contém dentro de si igualm ente todas as oposições. Esse deserto no qual tantos
foram subj ugados é vasto e exige grandeza de coração m as tam bém é no fim das contas vazio. É im piedoso, é
estéril. Sua verdadeira natureza é a pedra.
Encheu o copo. Beba, disse. O m undo continua a girar. Tem os dança todas as noites e esta não é exceção. O
cam inho direto e o tortuoso são um só e agora que você está aqui de que valem os anos decorridos desde a últim a
ocasião em que nos encontram os? As lem branças do hom em são incertas e o passado que ocorreu difere pouco do
passado que não.
Ele pegou o copo que o j uiz encheu e bebeu e então voltou a baixá-lo. Olhou para o j uiz. Estive em toda parte, disse.
Este é só m ais um lugar.
O j uiz arqueou a fronte. Você postou algum a testem unha? disse. Para
notificá-lo sobre a continuidade da existência desses lugares depois que saiu
deles? Isso é ridículo.
É? Ontem , onde está? Onde estão Glanton e Brown e onde está o padre? Curvou-se para m ais perto. Onde está
Shelby, que você deixou à m ercê de Elias no deserto, e onde está Tate, que você abandonou nas m ontanhas? Onde
estão as dam as, ah, aquelas dam as belas e carinhosas com quem você dançou no baile do governador quando era
um herói ungido com o sangue dos inim igos da república que escolheu defender? E onde está o violinista e onde
está a dança?
Quem sabe você pode m e dizer.
Vou dizer o seguinte. Quanto m ais a guerra cai em desonra e sua nobreza é questionada, m ais esses hom ens
honrados que reconhecem a santidade do sangue vão ser excluídos da dança, que é o direito do guerreiro, e por
isso a dança vai se tornar um a falsa dança e os dançarinos falso dançarinos. E contudo sem pre haverá aquele
que é um autêntico dançarino e será que você consegue adivinhar quem pode ser?
Você é que não.
Suas palavras têm m ais verdade do que im agina. Mas vou dizer um a coisa. Som ente aquele hom em que se
consagrou inteiram ente ao sangue da guerra, que conheceu o fundo do poço e viu o horror de todos os ângulos e
aprendeu enfim o apelo que ele exerce no m ais fundo de seu íntim o, só esse hom em sabe dançar.
Até um anim al estúpido sabe dançar.
O j uiz pousou a garrafa no balcão. Me escute, hom em , disse. Só tem espaço no palco para um a fera, um a e m
ais nenhum a. Todas as outras estão destinadas à noite que é eterna e sem nom e. Um a a um a elas descerão para
m ergulhar nas trevas diante da ribalta. Ursos que dançam , ursos que não.

Ele se deixou levar j unto com a m ultidão na direção da porta nos fundos. Na antessala havia hom ens sentados j
ogando cartas, indistintos sob a fum aça. Foi em frente. Um a m ulher recolhia as fichas dos hom ens conform e eles
passavam em direção ao barracão nos fundos do prédio. Ela ergueu o rosto para fitá-lo. Não tinha tirado ficha. Ela
o m andou para a m esa onde havia um a m ulher vendendo as fichas e enfiando o dinheiro com um pedaço de telha
de m adeira através de um a fenda estreita em um cofre de ferro. Ele pagou seu dólar e apanhou o tento de latão
estam pado e o entregou ao chegar na porta e passou.
Viu-se em um am plo salão com um a plataform a para os m úsicos de um lado e um enorm e fogão rústico de
chapa de ferro do outro. Batalhões inteiros de prostitutas percorriam o andar. Em seus penhoares m anchados, m
eias verdes e calças cor de m elão peram bulavam através da luz oleosa e enfum açada com o libertinas de m entira,
ao m esm o tem po infantis e lascivas. Um a pigm eia de um a prostituta escura segurou seu braço e sorriu para ele.
Vi você na m esm a hora, disse. Eu sem pre fico com quem eu quero.
Ela o conduziu por um a porta onde um a velha m exicana entregava toalhas e velas e subiram com o refugiados de
algum sórdido desastre a escadaria de tábuas às escuras até os quartos do andar de cim a.
Deitado no cubículo m inúsculo com as calças nos j oelhos ele a observava. Observou-a apanhar as roupas e se
vestir e observou-a segurar a vela perto do espelho e exam inar seu rosto ali. Ela se virou e olhou para ele. Vam
os, disse. Preciso ir.
Vai indo.
Não pode ficar aqui. Vam os. Preciso ir.
Ele sentou e j ogou as pernas pela beirada do estreito catre de ferro e ficou de pé e puxou as calças e abotoou e
afivelou o cinto. Seu chapéu estava no chão e ele o apanhou e o bateu na lateral da perna e o pôs na cabeça.
O que você precisa é descer lá em baixo e tom ar um a bebida, ela disse. Vai se sentir bem .
Já estou m e sentindo bem .
Ele saiu. No fim do corredor se virou e olhou para trás. Então desceu as escadas. Ela aparecera na porta. Parou
no corredor segurando a vela e escovando o cabelo para trás com um a m ão e observou-o descer na escuridão
da escada e então fechou a porta atrás de si.
Ele parou diante da pista de dança. Um a roda de pessoas tom ara conta do salão e davam -se as m ãos e sorriam
e gritavam uns para os outros. Um violinista sentava em um banquinho no palco e um hom em andava de um lado
para outro cham ando a ordem da dança e fazendo gestos e batendo os pés do j eito que queria que eles fizessem .
Do lado de fora no terreno às escuras grupos de tonkawas m iseráveis pisavam na lam a com os rostos
com postos em estranhos retratos de desnorteio dentro do enquadram ento de caixilhos das j anelas ilum inadas. O
violinista se levantou e levou o violino ao queixo. Alguém gritou e a m úsica com eçou e a roda de dançarinos se
pôs a girar pesadam ente com um grande arrastar de pés. Ele saiu pelos fundos.
A chuva cessara e o ar estava frio. Ele parou no pátio. Estrelas riscavam o céu em m iríades e ao acaso,
precipitando-se ao longo de breves vetores desde suas origens na noite até seus destinos no pó e no nada. Dentro do
salão o violino guinchava e os dançarinos arrastavam os pés e pisoteavam com força. Na rua hom ens gritavam
procurando a garotinha cuj o urso fora m orto pois ela sum ira. Eles percorriam os terrenos escuros com lam piões e
archotes cham ando seu nom e.
Ele se m eteu pelo passeio de tábuas rum o às latrinas. Parou do lado de fora à escuta das vozes que sum iam na
distância e olhou outra vez para os rastros silenciosos das estrelas m orrendo acim a das colinas escuras. Então abriu
a rústica porta de tábuas das latrinas e entrou.
O j uiz sentava na retrete. Estava nu e se levantou sorrindo e o apertou nos braços contra sua carne im ensa e terrível e
depois fechou a tranca de m adeira às costas dele.
No saloon dois hom ens que queriam com prar a pele procuravam pelo dono do urso. O urso j azia sobre o tablado
num a im ensa poça de sangue. Todas as velas haviam se extinguido exceto um a que gotej ava vacilante em sua
gordura com o um círio votivo. No salão de baile um j ovem se j untara ao violinista e m arcava o ritm o da m úsica
com um par de colheres que batia entre os j oelhos. As prostitutas no chassé dançavam sem inuas, algum as com os
seios à m ostra. No pátio enlam eado atrás do prédio dois hom ens cam inhavam pelas tábuas na direção das latrinas.
Um terceiro ali de pé urinava na lam a.
Tem alguém aí dentro? disse o prim eiro hom em .
O que esvaziava a bexiga não ergueu o rosto.
Eu não entrava aí dentro se fosse você, disse.
Tem alguém aí dentro?
Melhor não entrar.
Ele se aprum ou com um puxão e abotoou as calças e cruzou com eles ao cam inhar pelo passadiço na
direção das luzes. O prim eiro hom em o observou indo em bora e então abriu a porta das latrinas.
Bom Deus todo-poderoso, disse.
O que foi?
Ele não respondeu. Passou pelo outro e voltou pelas tábuas. O outro hom em ficou olhando para ele conform e se
afastava. Então abriu a porta e olhou.
No saloon haviam rolado o urso m orto para um a lona de carroção e pediam por aj uda a ninguém em particular.
Na antessala a fum aça de tabaco circulava as lam parinas com o um a neblina m aligna e os hom ens apostavam e
davam cartas num m urm úrio baixo.
Houve um a pausa na dança e um segundo violinista subiu ao palco e am bos dedilharam as cordas e giraram as
pequenas tarraxas de m adeira dura até se darem por satisfeitos. Inúm eros dançarinos cam baleavam bêbados pelo
salão e alguns haviam se livrado das cam isas e paletós e ficaram de peito desnudo e suando ainda que o am biente
estivesse frio o bastante para enevoar o hálito. Um a prostituta enorm e batia palm as sobre o palco e clam ava
ebriam ente pedindo m úsica. Não vestia outra coisa além de um par de ceroulas m asculinas e algum as de suas
colegas traj avam igualm ente o que pareciam ser troféus — chapéus ou pantalonas ou fardas de sarj a azul da
cavalaria. Quando a m úsica voltou a tocar houve um grito geral de anim ação e um m estre de cerim ônias cham ou
a dança e os dançarinos saíram batendo os pés e gritando e trom bando uns contra os outros.
E estão dançando, o soalho de tábuas estrondeando sob as botas de m ontaria e os sorrisos hediondos dos
violinistas pousados em seus instrum entos enviesados. Acim a de todos assom a o j uiz e ele está nu e dançando,
seus pequenos pés anim ados e rápidos e agora aceleram o passo e ele faz m esuras para as dam as, im enso e pálido
e sem pelos com o um enorm e bebê. Ele nunca dorm e, diz. Ele diz que nunca vai m orrer. Ele faz m esuras para os
violinistas e recua na contradança e atira a cabeça para trás e ri guturalm ente e é um grande favorito, o j uiz.
Meneia o chapéu e o dom o lunar de seu crânio passeia pálido sob as lam parinas e ele baila pelo salão e se apossa
de um dos violinos e dá piruetas e executa um passo, dois passos, dançando e tocando ao m esm o tem po. Seus
pés são leves e ágeis. Ele nunca dorm e. Ele diz que nunca vai m orrer. Ele dança sob a luz e sob a som bra e é um
grande favorito. Ele nunca dorm e, o j uiz. Ele está dançando, dançando. Ele diz que nunca vai m orrer.

FIM
Epílogo

Ao alvorecer há um homem que avança através da planície com os buracos que vai abrindo no chão. Ele usa uma
ferramenta de dois cabos e crava a ferramenta dentro do buraco e inflama a pedra no buraco com seu aço buraco
após buraco ferindo na rocha o fogo que Deus pôs ali dentro. Na planície a suas costas estão os andarilhos à
procura de ossos e também os que não procuram e eles se deslocam sincopadamente sob a luz como mecanismos
cujos movimentos são monitorados por escapo e âncora de modo que parecem restringidos por um caráter prudente
ou meditativo sem realidade interior e cruzam em seu progresso um a um a trilha de buracos que avança rumo ao
extremo do terreno visível e que parece menos a busca de alguma continuidade do que a verificação de um
princípio, uma validação de sequência e causalidade como se cada buraco redondo e perfeito devesse sua
existência ao que o precede ali naquela pradaria sobre a qual estão os ossos e os apanhadores de ossos e os que
nada apanham. Ele fere o fogo no buraco e retira seu aço. Então todos se movem novamente.
CORMAC MCCARTHY nasceu em Rhode Island, nos Estados Unidos, em j ulho de 1933. Estudou na
Universidade de Tennessee, em Knoxville, e serviu na Força Aérea entre 1933 e 1956. Seu prim eiro rom ance,
The Orchard Keeper, é de 1965. Desde então publicou m ais nove rom ances, com os quais ganhou
popularidade e im portantes prêm ios literários, com o o National Book Award e o National Book Critics Circle
Award.
Dele, a Alfaguara publicou Onde os velhos não têm vez, cuj a adaptação para o cinem a recebeu o Oscar
de Melhor Film e em 2008, e A estrada, sucesso de público e de crítica nos Estados Unidos, vencedor do
Prêm io Pulitzer de ficção em 2007.