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Sobre Comportamento

e Cogniçào
Q(/es//onancJo e ampí/ancJo a /eor/a e as /n/eroenções
cl/n/cas e em oa/ros con/ex/os

()ry c in iz a c /o p o r ^ e y i n a (J A r/s /r/ia Td)/elcnsÁa

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Regina Lignelli Otero

Sobre

e
Volume 6
Q uestionando c am pliando d teoria e as intervenções
clínicas e em outros contextos

Ortfiini/ddo por Rcfiiini Christina Wiclcnskd

ESETec
Santo André, 2001
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KSKTw KdJtorox Avvodadov Santo Andrc, 200 1.
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WIELENSKA, Regina Chrlstlna, et al.

K47c Sobre Comportamento e Cogniçâo: Psicologia Comportamental e Cognitiva: Questionando e


ampliando a teoria e as Intervenções clinicas e em outros contextos. - Org. Regina Chrlstlna
Wielenska. 1* ed. Santo Andró, SP: ESETec Editores Assciados, 2001. v. 6

290p 24cm

1. Psicologia do Comportamento e Cogniçâo


2. Behaviorismo
.V Psicologia Individual

CDD 155.2 ISBN 85-88303-08-6


CDU 159.9.019.4

Sohrc C om p orta m en to c Cogniçâo

Editom: Tcresu Cristina Cume (irassULeonardi


Revisão de texto: F.rika llorigoshi e lolanda Maria do Nascimento

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Capítulo 8

Análise funcional da preguiça


e procrastinação
Rache!RodriguesKerbauy'
i/nivenididc dc Stlo l\iulo

Fazer nada. Descansar no 7Üdia. Sábia recomendação do Criador. O descanso,


considerado como obrigação, é controlado por práticas religiosas e culturais e não impede
que outra pessoa faça sua tarefa por você. Pode mesmo ser insinuada a necessidade de
fazê-la e para um bom entendedor...
Com as condições atuais de vida, não é mais necessário evitar o trabalho, ou ser
desobrigado de fazê-lo. Aqueles que são chamados de preguiçosos ou procrastinadores
dependem de como a comunidade verbal mantém a correspondência entre o comporta­
mento verbal e o ambiente. As pessoas são denominadas preguiçosas porque as conse­
qüências de não fazer diferem daquelas de trabalhar.
Tateamos algumas propriedades do comportamento de pessoas conhecidas e cha­
mamos de preguiçoso ou ativo dependendo de quem vê e o quê? Essas afirmações variam
de um falante para outro em função das propriedades tateadas e das variáveis que atuam
no falante. Se, ao escrever um artigo solicitado, este não é entregue no prazo, baseado no
quê posso afirmar estar diante de um procrastinador ou preguiçoso?
O tato depende da flexibilidade das comunidades verbais. Há precisão se as propri­
edades do estimulo são definidas claramente e as conseqüências são consistentes. Quando
a precisão é necessária, tendemos a ser mais consistentes, por exemplo descrevendo
procedimentos em relato de estudos.
Skinner, ao falar sobre lazer no Notebook, organizado por Epstein em 1980, anali­
sa o sabath como prática cultural dizendo: "uma pessoa que trabalha bastante dará as
’ Bolsista CNPq

62 R achel Rodrijjuc* K e rb a u y
boas vindas ao tabu contra trabalhar todos os dias. Qualquer razão religiosa será pronta­
mente aceita. (Os acontecimentos do Gênesis precedem a prática do sabath ou foi o dia
do Senhor moldado depois do homem?). No entanto, é necessária a coação pontual.
Deus diz: Taça absolutamente nada!”. Afetado pela escravatura, o grupo pode sofrer para
manter essa prática, e os membros podem ser especialmente agradecidos àqueles que
sofrem por eles e podem acreditar na validade do tabu e observá-lo mais rigorosamente
para mantê-lo contra as transgressões. Você não pode pedir que eu trabalhe por você, nós
nunca trabalhamos nem mesmo para nós". Skinner continua a analisar:
"Tão logo outros dias de lazer apareceram entre os ricos ou a semana de cinco dias para
fodos, o sabafh perde sua força Um tabu nâo ó mafs necessário para evitar ser forçado a
trabalhar. No entanto, ficar a toa nâo é mais fortemente reforçado Há algo para fazer por divertimento
e os dias livres ensinam o que fazer. Com o colapso do sabath lucrou-se com viagens, fogos,
assistir esportes, e intercâmbios proveitosos'', (p. 107.)

Portanto, o lazer, hoje um hábito arraigado em todas as classes sociais, decorreu


de uma evolução. Sair do trabalho escravo mudou as contingências e os reforços por
trabalhar e, em certo sentido, "autorizou" o divertimento, o fazer por prazer.
O componente cultural existente na preguiça, e sua distinção do lazer, conduziu a
análise de três personagens que chamarei de brasileiros. Seus autores procuraram des­
crever o contexto que favorece ou não o comportamento de não fazer nada. Selecionei o
Jeca Tatu, Macunaíma e Pedro Preguiça.
Jeca Tatu, descalço, como pessoas de vários países do mundo. Desconhecia a
relação entre usar sapatos e saúde. Além de cortes, infecções e verminoses que são
prováveis, mas não certeza, poderia não contrair doenças por andar descalço.
O importante, para nosso assunto, não é analisar a propaganda do Biotônico Fontoura
que resolveu a “preguiça" com algumas colheradas ou as propriedades curativas da erva-
de-santa-maria. Mas sim verificar que o nosso Jeca Tatu resolveu a preguiça com o
restabelecimento da fisiologia normal e também estabeleceu a relação “sapatos -> saúde"
por impedir a entrada de vermes no organismo. No caso do Jeca Tatu, a “preguiça ->
distúrbio orgânico" foi corrigida e possibilitou executar o que sabia e desenvolver novos
repertórios. O Jeca Tatu fraco e chamado de “grandíssimo preguiçoso", que não cultivava
a terra e trazia pouca lenha "porque não paga a pena" e que bebia para esquecer "as
desgraças da vida", era chamado de preguiçoso e bêbado.
Aderiu ao tratamento: tomar óleo de rícino, chá de erva-de-santa-maria e comprar e
usar par de botinas. "Três meses depois ninguém conhecia o Jeca. Sarou completamen­
te. Ficou bonito, corado, forte como um touro. A preguiça desapareceu. Quando ele agar­
rava o machado, as árvores tremiam de pavor” diz Monteiro Lobato. Os passantes, ao vê-
lo na labuta, diziam: “Descanse um pouco, homem" e ele respondia: "Quero ganhar o
tempo perdido”. Ficou muito rico, como era natural, mas não parou por ai. Resolveu ensinar
o caminho da saúde e da riqueza aos caipiras das redondezas, que viviam, ainda, num
miserável estado de doença e penúria. Andou de casa em casa pregando as virtudes da
erva-de-santa-maria e dos sapatos. Portanto, no caso do Jeca, é clara a relação entre
distúrbio orgânico e preguiça. Curou o distúrbio, terminou a preguiça. A denominação do
problema estava errada. O Jeca Tatu tinha repertório de trabalhar, de como fazê-lo. Estava
doente, não era preguiçoso. A comunidade verbal assim o descrevia.

Sobre C o m p o rliim c n lo c C oflniçAo 63


O Pedro Preguiça é personagem do livro do professor Keller. Em Pedro Preguiça
vai a escola, (1987), Keller utilizou, com seu humor, a família do bicho preguiça, existen­
te no Brasil. Pedro estava assustado por ter que se encontrar com outros alunos. Estivera
com sarampo, nas duas primeiras semanas de aula, e tinha medo de que a professora
ficasse brava, por começar a freqüentar as aulas com atrasos. Seus olhos estavam cheios
de lágrimas. No entanto, seus colegas o tranqüilizaram, pois a professora não ficava brava
por atraso ou falta. “Ela vai sorrir e apertar a sua pata".
Pedro Preguiça descobriu que estava em uma escola de ensino individualizado.
Cada aluno estava em unidades diferentes e o importante não era aprender depressa ou
devagar, mas aprender bem cada unidade.
Nessa escola, Pedro estava "feliz da vida", usando visualizador, "e tinha errado uma
vez só!!". O refeitório era um lugar barulhento, onde todos falavam ao mesmo tempo, havia
muitas risadas e aguardavam os eventos. Com sol e dia quentes iam brincar lá fora. Pedro
concluiu que a escola era o melhor lugar do mundo. Portanto, Pedro Preguiça, da família
do bicho preguiça, ao encontrar um ambiente favorável desenvolveu-se, divertiu-se ao aprender
e não houve preguiça. Aprendeu e gostou de ir á escola. Esta era um ambiente reforçador,
propiciava condições de aprendizagem.
Macunaína, de Mário de Andrade, além de personagem que "cai no vestibular" ó
considerado o “herói da nossa gente". Passou seis anos não falando e se o incitavam a
falar, dizia: "Ai! Que preguiça!” e não dizia mais nada. "Ficava no canto espiando o trabalho
dos outros. Ficava deitado, mas se punha os olhos em dinheiro, Macunaína "dandava pra
ganhar vintém".
Aprendia a se curar das surras, a sair carregado por alguém, caçar, virar príncipe...
apaixonar-se. Portanto, tinha malícia, observava e executava, quando o reforçador era
escolhido, segundo seus critérios.
Nos trés casos, nos três personagens nacionais que escolhi, encontramos a preguiça
resolvida. Existia diligência quando a recompensa valia a pena, era realmente reforçadora
e o ambiente propício para emissão de comportamentos e excluídas as variáveis
fisiopatológicas.
Tanto Jeca Tatu, como Macunaíma, observavam, tinham o repertório aprendido com
modelos ou modelado pelo contexto, mas não executavam os comportamentos. O ambiente
ensinara a eles a ficar parado, ou comportar-se o mínimo necessário e, nem sempre, na
direção reforçada pela cultura. Tinham o repertório. Resolvido o problema fisiológico, Jeca
Tatu compete consigo e com o italiano seu vizinho, torna-se homem de sucesso e ainda
preocupado em ensinar a comunidade. Afinal, é livro de Monteiro Lobato! Macunaíma
sabia proteger-se, selecionar seus reforçadores, driblar seus adversários e sobrevivia usando
de malícia em um meio muitas vezes hostil. É brasileiro!!
Onde está a preguiça? O que é ser preguiçoso?
A literatura, especialmente de psicologia social (Argyle, 1994), explora bastante o
lazer, mas esquece a preguiça. O lazer seria o que a pessoa faz em períodos fora do
trabalho. Alguns psicólogos fazem diferença entre: trabalho, atividade para atingir uma
meta e lazer para próprio prazer, ou atividades realizadas por serem reforçadoras, porque
as pessoas gostam de fazer, para divertir-se e por sua própria escolha. Os estudos exami­

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naram a satisfação por fazer com medidas como: escalas, o tempo gasto e o tipo de
atividade.
O lazer é considerado não separado do trabalho em sociedades primitivas, e visto
também como uma reação ao trabalho e, mais definido após a revolução industrial, quan­
do pessoas trabalhavam em fábricas e em condições desagradáveis. Há também pessoas
que podem ter atividades de lazer semelhantes a seu trabalho, como: professores, pes­
quisadores, escritores, artistas e que levam seu trabalho para casa e divertem-se em...
Congressos, onde há liberdade de escolha de atividades, encontram-se amigos, discu­
tem-se idéias e procedimentos experimentais.
Caldas Aulete (1958) explica preguiça como “propensão para não trabalhar, demora
ou lentidão em praticar qualquer cousa, gosto de estar na cama, de levantar tarde." (p.
405.)
A preguiça tem um caráter de julgamento moral, deixar de fazer uma atividade
necessária. Talvez por isso a literatura seja mais rica na análise do lazer e o próprio
Skinner refere-se a ele, mas não à preguiça, no Notebook.
No entanto, continuamos com o problema: a preguiça o que é, existe? Como fazer
uma análise funcional da preguiça e procrastinação?
Embora na prática possamos conceituar a preguiça como inversão proporcional ao
custo de resposta e valor do reforçador, colocaria o problema de forma incompleta, a meu
ver. As práticas culturais sobrevivem quando auxiliam a sobrevivência do grupo. No caso
da preguiça, podemos dizer que aumenta os benefícios e diminui os custos para os indi­
víduos. No entanto, são contingências simples, se analisarmos somente o produzir mais
reforçadores e menos conseqüências aversivas para os praticantes da preguiça. Mas
será? Precisamos, para uma análise behaviorista radical, considerar o comportamento
governado por regras e sua relação com conseqüências atrasadas, as contingências en­
volvidas e a importância de conhecer as contingências.
Quais são as contingências que envolvem os reforçadores naturais de não fazer,
não trabalhar, levantar tarde e quais são as penalidades naturais por fazê-lo? A cultura é
consistente, propicia atrasos para reforços ou pune esse comportar-se? Provavelmente, o
atraso pode ser de minutos ou meses e, neste caso, será eficaz?
Eu proponho que a preguiça, além dos reforçadores ou punidores, seja analisada
como governada por um conjunto de regras, ou seja, discriminação verbal de uma contin­
gência comportamental. A mãe diz: "nesta casa ninguém dorme até tarde porque os
quartos (com o barulho do aspirador) serão limpos logo cedo". Se a pessoa não levantar,
a mãe chama a cada cinco minutos até o filho levantar. Outra alternativa é para uma
audiência receptiva, será contado como piada, provocando risos, o levantar tarde e o
perder a hora. Nenhuma ajuda será prestada para compensar o atraso, e as conseqüências
poderão advir em diversos locais. Outra alternativa bem-humorada é cantar chamando o
filho: "Acorda Maria que é dia, são 8 horas, o sol já raiou" ou outra canção moderna. As
contingências estão presentes e... ensinando e as regras sendo ensinadas. Repetindo,
Michael (1984) diria que, nos últimos dez anos, torna-se cada vez mais claro que muito do
comportamento humano é governado por regras, em vez de modelado por contingências
(p. 118). Afirma também que, se as conseqüências são atrasadas por segundos, após o
comportamento, é provável que nossa habilidade seja afetada.

Sobro C o m p ortam ento c C o gn iv A o 65


Mallott (1988) auxilia a salientar as regras no controle de comportamentos. No
entanto, esclarece que, embora muitos suponham que, para seguir as regras e estas
atuarem, é necessário que descrevam as contingências e que a pessoa as conheça, ele
não concorda. Mallott diz que ó necessário, também, um repertório de pré-requisitos e um
conjunto de valores difíceis de estabelecer.
Os pré-requisitos e valores incluem: controle efetivo por regras familiares afirmadas
por outros; controle por regras novas afirmadas por outros, alta probabilidade de que o
desempenho da pessoa evocará uma auto-avaliação pronta e precisa; uma alta probabili­
dade de que a auto-avaliação evocará reforçamento ou punição automáticos ou auto-libe-
rados e a pronta auto-afirmação de regras adequadas.
Portanto, no caso da preguiça, se há grande intervalo de tempo entre o fazer e as
conseqüências, estas não atuam. Para existir uma condição aversiva condicionada, há
necessidade de estimulação aversiva pareada com a preguiça. Será que não há redução
da estimulação aversiva contingente à preguiça? Levantar tarde, ou não fazer, tem conse­
qüência imediata? Será que nào há reforçamento automático, pela redução da estimulação
aversiva, que a regras produziriam? "Não fiz, pronto! Faço o que gosto”. "Não entrego o
artigo porque não me cobraram e eu estou sobrecarregada no momento"... “Só trabalho
sob pressão..." Será que naquele intervalo de tempo as contingências atrasadas estavam
bem claras? (o livro publicado sem o seu artigo...)
Provavelmente na preguiça, às vezes, a pessoa identifica vagamente as conseqüên­
cias, mas opta por "não fazer nada", ou explica seu comportamento de uma forma congruente
com seus valores do momento e suas auto-regras. O que parece diferenciar a preguiça da
procrastinação é que o deixar de fazer, não fazer o que deveria, é... tranqüilo!!! É um
padrão estabelecido e sustentado por um conjunto pessoal de regras aceitas e insensibi­
lidade ás contingências e, muitas vezes, esquiva de controles, ou contracontrole como a
lentidão, o fazer cera ou mesmo não fazer. No caso do Jeca Tatu, não vale plantar porque
as formigas comem, "não paga a pena”.
Procrastinação, para Caldas Aulete (1958), é adiar, demorar, prostrair, delongar,
espaçar (procrastinare). Procrastinador é moroso, preguiçoso (p. 4086).
Como diz o poeta Fernando Pessoa, em seu poema Adiamento: "Depois de ama­
nhã sim, só depois de amanhã".
As concepções falsas que fundamentam a procrastinação são descritas por Ferrari,
Johnson e Mccowin (1995), de acordo com sua experiência clinica, em cinco disfunções
cognitivas. Acrescento exemplos dos autores e de minha própria experiência profissional:
1) Superestimar o tempo para desempenhar a tarefa: "vou precisar de seis horas para
fazer... não vai dar";
2) Subestimar o tempo necessário para completar a tarefa: "em uma hora termino, faço
depressa";
3) Superestimar o futuro estado motivacional. Isto é exemplificado por afirmações tais
como: "Eu estarei mais descansada e capaz fazendo isto depois";
4) Ênfase na necessidade de conseqüência emocional para fazer a tarefa com sucesso.
A afirmação típica pode ser "As pessoas deveriam só estudar quando se sentirem
dispostas a isto", "Não estou inspirada para levar a carta ao correio";

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5) A crença de que "trabalhar quando não está a fim ó improdutivo". Essa crença é ex­
pressa em frases como: "Não faz bem trabalhar quando você está desmotivado. Não
rende". Os autores acreditam que mesmo estudantes com bom desempenho podem
ter concepções falsas sobre a necessidade de estudar.
Aislie (1984) estabeleceu uma razão para mudar os parâmetros da procrastinação
acadêmica: aumento no valor da recompensa (percebida) da atividade a longo prazo (pas­
sar no exame) ou decréscimo no atraso. Para aumentar o valor reforçador de passar no
exame, pode se estabelecer o objetivo de estudar para o exame e até fazer um contrato
com alguém para manter esse estudar. O atraso do exame dependerá de mudanças no
ambiente acadêmico, como diminuir os intervalos entre exames e, nesse caso, é função
da instituição, ou depende de encontrar-se maneiras de obter essa mudança.
Ao observarmos o adiar das tarefas, podemos achar que a pessoa não se comporta
ou não tem conseqüências aversivas. Uma análise detalhada mostra que, geralmente, a
pessoa faz outras atividades, mesmo podendo gostar daquela a ser feita, tendo satisfação
em fazê-la após começar e ter o repertório: sabe fazer bem. O problema, inúmeras vezes,
é que o tempo utilizado na tarefa é pouco em relação ao que precisa ser feito. O resultado
é pequeno e só tem significado quando acumulado. Dizer uma regra sobre "vou trabalhar
um pouco agora, para finalizar dias após", não é suficiente e, provavelmente, não especi­
fica claramente a condição aversiva e nem mesmo a reduz. Mesmo fazendo parte do
trabalho adiado, não reduz a ansiedade ou o medo, pois estes não são suficientes, são
uma condição aversiva média, e seu término não reforça a fuga e a resposta necessária:
começar a escrever, colocar ordem na casa, arrumar o armário.
De fato, dados de pesquisa de Kerbauy et al. (1993), Kerbauy (1997) e Kerbauy e
Enumo (1994) mostram que as pessoas podem não sentir nada no momento de adiar a
tarefa mas, posteriormente, sentem-se angustiadas, mesmo sem relacionar diretamente
com o adiamento da tarefa; há acúmulo de tarefas e falta de tempo para completar a tarefa
adiada e as novas que surgem. O interessante em nossos dados é que a sensação de
alívio é acompanhada do desconforto pela qualidade de trabalho, que nem sempre é me­
lhor, quando completado.
Um outro fato que facilita a procrasti nação é a baixa probabilidade dos resultados.
É o caso do uso do cinto de segurança ou de parar de fumar. Embora sanções legais
possam existir, há probabilidade de falhar como estímulo aversivo por ser muito pequeno
ou pelo atraso.
Novamente, na procrastinação, estamos diante de um caso no qual não há prazo
final definido e os resultados são incertos.
Segundo Mallott, Whaley e Malott (1997), há regras fáceis de serem seguidas por­
que descrevem os resultados que têm magnitude considerável, são prováveis e seu atraso
é crucial. As regras difíceis de seguir descrevem resultados que são muito pequenos,
embora tenham importância quando acumulados, ou então são improváveis, e o atraso
não é crucial. Nesse sentido, essas explicações sobre regras procuram demonstrar que
nem sempre há liberação de condição reforçadora ou aversiva para controle de comporta­
mento. Se a contingência natural não prevê liberação, precisamos de regras pessoais ou
sociais que propiciem uma operação de motivação que estabelece uma condição aversiva.
Seu término reforça obedecer ou punir a não-obediência à regra.

Sobre C o m p ortam e nto e C o gn iç à o 67


Concluindo, para estabelecer se estamos adiante de preguiça ou procrastinação, é
imprescindível analisarmos o padrào de comportamento, as situações em que aconte­
cem, as regras que atuam direta ou indiretamente e a sobreposição emocional. Um “pre­
guiçoso", embora saiba emitir o comportamento, não o faz. Um "procrastinador" pode
fazer com menor ou maior qualidade, após um período de tempo, mas discrimina sutilezas
das emoções existentes.
Na situação clínica, com cliente em terapia, observa-se a procrastinação e rara­
mente a preguiça, como definida neste trabalho. As condições de vida do final do século
são propícias á execução de atividades de lazer e dificilmente apresentam conseqüências
aversivas para o não fazer nada. Observa-se, no entanto, que a denominação preguiça é a
utilizada pelo cliente que se denomina preguiçoso por ver televisão, tocar ou escutar mú­
sica, andar e fazer exercícios em detrimento de atividades como estudar e trabalhar para
manter-se. As condições existentes podem ser: a família sustenta economicamente, e,
embora cobre verbalmente o trabalho ou o estudar, não libera conseqüências eficazmente
e até reforça os comportamentos executados. Parece que existem regras ou sonhos que
afastam do trabalho e uma mentalidade malsã de que trabalhar não é digno e que todos
teriam "o direito" de viver de rendas e do ócio, de pensar ou escolher atividades agradáveis,
delegando aos outros a obrigação de trabalhar ou cuidar dele e um hábito de culpar os
outros ou o sistema.
É importante diferenciar procrastinação e preguiça de transtornos como depressão
ou eventos traumáticos recentes, como doenças graves, ou mesmo depressões ligeiras
relacionadas aos episódios da vida. Fernando Pessoa quando descreve “Tenho vontade de
chorar, muito de repente, de dentro...” parece estar descrevendo um sintoma de depres­
são, como também em outras frases do poema. Nesses casos, o não fazer ou a dificulda­
de em fazer existe para muitas atividades cotidianas.
Falamos em procrastinação quando há um padrão de comportamento que prejudica
o desempenho, pois as atividades são iniciadas e não terminadas, ou iniciadas com atra­
so. Também, outras atividades são exercidas, irrelevantes para a tarefa necessária, e a
pessoa observa-se como não realizando um objetivo definido e se culpa.
O terapeuta, em situação clínica, através da análise funcional, é que faz a distin­
ção, com o cliente, entre preguiça e procrastinação, fornecendo pistas sobre seu repertó­
rio e treinando, ou auxiliando a criar, situações de discriminação das contingências e
emissão de novos comportamentos e, especialmente, de construção de repertório verbal
sobre a responsabilidade por si próprio, por suprir as próprias necessidades e a descoberta
da atratividade ou necessidade das tarefas.

B ibliografia
Aislie (1982) Psychology of learning. Washington: APA, 99-121.
Argyle, M. (1994) Psychology o f happiness. London: Routledge.
Caldas, A. (1958) Dicionário contemporâneo da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Delta S.A.
Enumo, S. R. F. & Kerbauy, R. R. (1995) Procrastinação: um estudo com amostras da popula­
ção de Vitória - ES. Resumos da SBPC e Resumos do II Congresso Interno do IPUSP.

Ôtí Rachel R od rigu es K e rb a u y


Kerbauy, R. R. (1994) Procrastinação: adiar tarefas. Conferência proferida na SBPC em Vitória.
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Sobre Com p o rtam e nto e C o fln ttfo 69