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No campo liberal é possível identificar

quatro correntes distintas: os liberais


tradicionais, os libertários, os liberais clássicos e
os anarcocapitalistas.
Os liberais tradicionais ainda são a
maioria. Trata-se daqueles que querem o estado
cuidando de educação, saúde, segurança, justiça,
forças armadas e alguma infraestrutura.
Defendem também o monopólio da moeda pelo
banco central. A discussão dentro desse grupo se
limita a qual educação o estado deve bancar: se
apenas o ensino fundamental, se o ensino
fundamental e médio, se apenas o ensino
superior, ou se todos estes. Saúde, segurança e
infraestrutura são pontos pacíficos. Consideram
a democracia o melhor sistema de governo que
existe. Roberto Campos foi seu maior expoente
aqui no Brasil.
Os libertários admitem o monopólio do
estado na segurança, nas forças armadas e na
justiça. Na saúde, costumam defender o sistema
de vouchers, o que significa que o estado apenas
dá o dinheiro, mas não gerencia os hospitais e
postos de saúde. Não são contra um livre
mercado de moedas, mas também não defendem
com vigor essa ideia. Na segurança e na justiça,
defendem o monopólio absoluto do estado.
Embora sejam a favor da democracia, defendem
um amplo federalismo.
Os liberais clássicos (liberal clássico é
sinônimo de laissez-faire) admitem o monopólio
do estado apenas na segurança, na justiça e nas
forças armadas. Saúde é um serviço como
qualquer outro, e é mais bem provido por um
livre mercado. São contra o banco central e seu
monopólio sobre a moeda. O melhor argumento
que eu já vi a favor do monopólio da provisão de
segurança, justiça e forças armadas pelo governo
é o seguinte:
Como esses serviços são, segundo eles,
“inerentemente governamentais”, a compra e
venda de tais serviços no livre mercado acaba na
verdade gerando algo que realmente deve ser
combatido: uma livre concorrência entre
governos. Segundo eles, quando se advoga que
tais serviços sejam ofertados pelo livre mercado,
está-se na verdade fazendo uma defesa
(implícita) de uma ação desregulamentada e
descontrolada da força física. Ou seja, está-se
dando a agentes privados a licença de agir como
se fossem governos, só que com um agravante:
agir desta forma de maneira desregulamentada e
descontrolada — ou seja, fazendo uso livre da
força física. Segundo eles, essa é a consequência
lógica de se tratar atividades inerentemente
governamentais como se fossem atividades de
livre mercado.
Consequentemente, concluem eles, um
monopólio legal do uso da força — desde que
fortemente regulado e estritamente controlado —
é necessário para permitir que os mercados
privados de todos os bens e serviços (inclusive
saúde, educação e infraestrutura) funcionem
totalmente livres de qualquer ameaça de força
física. Ou seja: um monopólio fortemente
regulado da força é necessário para gerar as
fundações básicas que irão permitir o
funcionamento desregulamentado e desimpedido
dos mercados privados.
Não defendem a democracia como
conhecemos hoje. Defendem uma república
constitucionalista — um federalismo pleno, no
qual o governo federal é reduzido apenas a
funções decorativas —, exatamente nos moldes
daquela criada pelos pais fundadores dos EUA
(George Washington, John Adams, Thomas
Jefferson, James Madison, Alexander Hamilton,
Benjamin Franklin e John Jay) e que hoje
encontra-se totalmente deturpada.
Já os anarcocapitalistas (ou “livre-
mercadistas puros”, para aqueles que não gostam
desse epíteto) defendem a completa ausência do
estado de tudo. Os mais moderados dizem
apenas não querer que o estado tenha
monopólios, principalmente da segurança e da
justiça, o que exige por conseguinte a tributação
de pessoas que não querem usar tais serviços —
algo não só imoral, como também escravagista.
Já os mais diretos dizem que o estado é um mal a
ser extirpado de qualquer maneira, pois só assim
haverá liberdade e moralidade plenas; só assim
haverá de fato o “ganharás o pão com o suor do
teu rosto”.
Para um livre-mercadista, o estado nada
mais do que um ente parasitário, cujos membros
vivem à custa daqueles que trabalham. Em suma,
o estado é o assaltante que toma de quem produz
para dar àqueles que parasitam. A verdadeira
luta de classes se dá entre aqueles que estão fora
do estado — logo, que o sustentam — e aqueles
que ou estão dentro do estado ou possuem fortes
conexões com este (pense naquelas grandes
empresas que ganham rios de dinheiro em
decorrência de contratos e ligações com o
governo. Empreiteiras e bancos são os principais
exemplos).
Deixando os detalhes de lado, é inegável
que essa definição seja, per se, indiscutivelmente
correta. Agora, se ela é boa ou não, se é justa ou
não, se é moralmente aceitável ou não, aí já é
outra discussão.
Os anarcocapitalistas desprezam a
democracia, a qual consideram ser um exemplo
irrefutável de tirania da maioria. Caso tivessem
obrigatoriamente de escolher uma forma de
governo, muitos prefeririam uma monarquia, na
qual o rei teria todos os incentivos para tratar seu
território como uma propriedade privada a ser
repassada a seus herdeiros, o que faria com que
ele tivesse uma visão voltada para o longo prazo,
tendo todo o interesse em manter o valor capital
de sua propriedade — o contrário do que ocorre
numa democracia, em que os políticos, por
estarem preocupados com o curto prazo,
possuem todo o incentivo para dilapidar ao
máximo as riquezas concentradas em suas mãos.
Desses quatro, os mais próximos entre si
são os libertários e os liberais clássicos. Os
liberais tradicionais são apenas aliados pontuais
— como, por exemplo, para combater social-
democratas —, mas não são frequentemente
chamados para um cafezinho. Já os
anarcocapitalistas costumam se dar bem com os
liberais clássicos, relativamente bem com os
libertários e absolutamente nada bem com os
liberais tradicionais. Estes, por sua vez,
desprezam os anarcocapitalistas.
Libertários em sua maioria e liberais
clássicos em sua totalidade são defensores do
estado mínimo, ao passo que os
anarcocapitalistas defendem o estado nulo. É
óbvio que cada um deles possui a melhor das
intenções naquilo que defendem, e não serei eu
quem irá fazer qualquer juízo de valor nesse
artigo.
Gostaria, isso sim, de abordar um detalhe já
amplamente discutido nesse site: a
impossibilidade de um estado mínimo —
argumento esse utilizado amplamente pelos
anarcocapitalistas.
O argumento principal já foi exposto e
debatido nesse artigo:
Quanto menor é o estado, quanto mais você
o restringe, mais produtivo torna-se o mercado.
Quanto mais produtivo é o mercado, mais rápido
a economia cresce e mais riqueza ela gera. E o
livre mercado é tão produtivo que ele é capaz de
aguentar por muito tempo um enorme
crescimento da tributação e um grande
agigantamento do poder estatal — até chegar a
um ponto em que ele inevitavelmente irá ceder.
Portanto, o que acontece é que, quando
você minimiza o governo, paradoxalmente você
faz com que a lucratividade de se aumentar
posteriormente o tamanho do governo seja muito
maior, pois haverá muito mais riqueza para
tributar e mais recursos para se controlar —
ambas as coisas que mais seduzem qualquer
governo.
E como o governo adquire muito mais
dinheiro e poder quando ele tributa uma
economia que se desenvolveu e enriqueceu com
um livre mercado, ele ganha a capacidade de
fazer coisas terríveis, como desenvolver armas de
destruição em massa, manter um incomparável
estado belicista e assistencialista e comprar
grandes seções da população, tornando-as
permanentemente dependentes do estado.
O exemplo americano dessa impossibilidade
é o mais flagrante.
Entretanto, para o bem da contra-
argumentação, gostaria de dar três exemplos de
governos que vêm se mantendo relativamente
enxutos ao longo do tempo, e em seguida ver se
eles refutam a tese acima: Hong Kong,
Liechtenstein e Suíça.
Hong Kong é uma cidade-estado que não
possui eleições para o executivo. O chefe do
executivo é eleito por um comitê de apenas 800
pessoas. Isso já torna o modelo impensável para
os liberais tradicionais e para os libertários. Os
liberais clássicos e os anarcocapitalistas não são
afetados.
Liechtenstein é uma democracia
parlamentarista que funciona sob uma
monarquia constitucional. Embora haja um
parlamento eleito pelo povo, os principais
poderes ainda são exercidos diretamente pelo
príncipe. Isso também torna o modelo
impensável para os liberais tradicionais e para os
libertários. Os liberais clássicos são favorecidos e
os anarcocapitalistas pró-monarquia também.
Entretanto, ambos esses “países” são
localidades minúsculas em relação aos outros
países do mundo, o que torna qualquer
comparação um tanto quanto infrutífera.
Passemos então à Suíça, um país “genuíno”.
Responda sem recorrer ao Google: qual o
sistema de governo da Suíça? O país tem
presidente ou primeiro-ministro? Qual o seu
chefe de estado? Qual o seu chefe de governo?
Fale o nome de pelo menos um político suíço?
Curiosamente você sabe o nome do
presidente da França, da chanceler da Alemanha,
do primeiro-ministro e do rei da Espanha, do
primeiro-ministro e da rainha do Reino Unido e
do primeiro-ministro da Itália. Se for bem
informado saberá o nome do presidente e do
primeiro-ministro de Portugal, e dos presidentes
da Itália e da Alemanha. Mas,
surpreendentemente, não saberá nada sobre a
política da Suíça, um dos mais importantes e
mais ricos países da Europa. Por quê?
Porque se trata de um sistema altamente
descentralizado. Não existe um presidente e nem
um primeiro-ministro. O poder é exercido por
um comitê formado por sete políticos de partidos
distintos. O poder não está concentrado em uma
só pessoa. Ademais, há um federalismo quase
pleno — só não é pleno porque ainda existe um
governo federal.
Isso torna o modelo impensável para os
liberais tradicionais. Os libertários saem-se bem,
assim como os liberais clássicos. Já os
anarcocapitalistas ficam em situação mais difícil.
Entretanto vale lembrar que, embora ainda
enxuto quando comparado aos seus vizinhos
europeus, o governo suíço é o mais inchado
desses três exemplos citados quando analisado
em termos fiscais: gastos do governo e carga
tributária em porcentagem do PIB.
Mais ainda: quando nos concentramos
nessas duas variáveis, percebemos que todos os
países do mundo apresentaram aumentos ao
longo dos últimos anos, o que de certa forma dá
respaldo ao argumento anarcocapitalista sobre a
impossibilidade do estado mínimo. (Se há algum
país que vem reduzindo ano após ano seus gastos
e tributos em porcentagem do PIB eu realmente
desconheço).
E é exatamente nesse ponto que os
libertários e os liberais clássicos ainda ficam a
dever uma teoria ou mesmo um exemplo prático
que demonstre que aquilo que defendem é
exequível. Sem qualquer juízo de valor, não é
nada desarrazoado dizer que suas teorias na
prática revelaram-se insustentáveis.
Isso deixa o caminho livre para os
anarcocapitalistas? De modo algum. Entretanto,
estes ainda possuem a teoria ao seu lado —
embora ainda careçam de uma chance para
colocá-la em prática. Já os libertários e os liberais
clássicos possuem tanto a teoria quanto a
prática contra eles.
Como bem resumiu Hans-Hermann Hoppe:
O objetivo de se ter um governo “limitado”
ou “constitucional” é um objetivo impossível,
tanto quanto é impossível tentar fazer um círculo
quadrado. Você não pode estabelecer um
monopólio territorial da lei e da ordem e, em
seguida, achar que esse monopolista não fará uso
desse fabuloso privilégio de legislar em causa
própria. Da mesma forma, você não pode
estabelecer um monopólio territorial da
produção de dinheiro e achar que o monopolista
não irá utilizar seu poder de imprimir cada vez
mais dinheiro.
Limitar o poder do estado — uma vez que já
lhe foi dado o monopólio territorial da legislação
— é impossível; é um objetivo intrinsecamente
contraditório. Acreditar que é possível limitar o
poder do governo — a não ser submetendo-o à
concorrência, isto é, não permitindo que
privilégios monopolísticos sejam estabelecidos
em primeiro lugar — é supor que a natureza
humana se altera em decorrência da criação de
um governo (algo bastante parecido com a
miraculosa transformação do homem que os
socialistas acreditam que irá acontecer tão logo o
socialismo pleno seja implementado).
Um governo limitado é um objetivo
ilusório. Acreditar que isso é possível é o mesmo
que acreditar em milagres.
Agora compare essa argumentação à
argumentação dada pelos liberais clássicos em
prol de um monopólio governamental nas áreas
de segurança, justiça e forças armadas (a
desestatização da moeda é, felizmente, um ponto
pacífico que a atual crise econômica vem
ilustrando perfeitamente), e procure definir qual
das duas faz mais sentido.
Em minha opinião, esse é o real debate
pendente.