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RELAÇÃO DE CAUSALIDADE OU NEXO

CAUSAL
DOUTRINA: CLEBER MASSON

1. CONCEITO
- Relação de causalidade (nexo causal): é o vínculo formado
entre a conduta praticada por seu autor e o resultado por ele
produzido.
É por meio dela que se conclui se o resultado foi ou não provocado
pela conduta.
Previsto no art. 13 do CP.

2. ÂMBITO DE APLICAÇÃO
- Prevalece na doutrina brasileira o entendimento de que a
expressão “o resultado”, constante no início do art. 13, caput, do
Código Penal, alcança somente o resultado naturalístico.
Destarte, o estudo da relação de causalidade tem pertinência apenas
aos crimes materiais.

3. TEORIAS
3.1. TEORIA DA EQUIVALÊNCIA DOS ANTECEDENTES
- Também chamada de:
 Teoria da equivalência das condições;
 Teoria da condição simples;
 Teoria da condição generalizadora;
 Teoria da conditio sine qua non.
- Causa: é todo fato humano sem o qual o resultado não teria
ocorrido, quando ocorreu e como ocorreu.
3.2. TEORIA DA CAUSALIDADE ADEQUADA
- Também chamada de:
 Teoria da condição qualificada;
 Teoria individualizadora.
- Causa: é o antecedente, não só necessário, mas adequado à
produção do resultado. Para que se possa atribuir um resultado à
determinada pessoa, é necessário que ela, além de praticar um
antecedente indispensável, realize uma atividade adequada à sua
concretização.
- A conduta adequada (humana e concreta) funda-se no id quod
plerumque accidit, excluindo os acontecimentos extraordinários,
fortuitos, excepcionais e anormais.
Não são levadas em conta todas as circunstâncias necessárias, mas
somente aquelas que, além de indispensáveis, sejam idôneas à
produção do resultado.
A causa adequada é aferida de acordo com o juízo do homem médio
e com a experiência comum. Não basta contribuir de qualquer
modo para o resultado: a contribuição deve ser eficaz.

3.3. TEORIA DA IMPUTAÇÃO OBJETIVA


Será estudada em tópico separado.

3.6. TEORIAS ADOTADAS PELO CÓDIGO PENAL


- O CP acolheu, como regra, a teoria da equivalência dos
antecedentes. É o que se extrai do art. 13, caput.
Causa: é todo o comportamento humano, comissivo ou omissivo,
que de qualquer modo concorreu para a produção do resultado
naturalístico. Pouco importa o grau de contribuição. Basta que
tenha contribuído para o resultado material, na forma e quando
ocorreu.
- Não há diferença entre causa, condição (fator que autoriza à
causa a produção de seu efeito) ou ocasião (circunstância acidental
que estimula favoravelmente a produção da causa).
- Processo hipotético de eliminação: serve para constatar se
algum acontecimento se insere ou não no conceito de causa.
Suprime-se mentalmente determinado fato que compõe o histórico
do crime:
 Se desaparecer o resultado naturalístico: é porque era
também sua causa;
 Se permanecer íntegro o resultado material: o
acontecimento não atuou como sua causa.
- A principal crítica contra essa teoria consistiria na circunstância
de ser uma teoria cega, porque possibilitaria a regressão ao infinito
(regressus ad infinitum). Como causa é todo acontecimento que de
qualquer modo contribui para o resultado, poderia operar-se o
retorno ao início dos tempos.
Essa crítica, contudo, é despropositada. Para que um acontecimento
ingresse na relação de causalidade é exigido:
 dependência física;
 causalidade psíquica (imputatio delicti): que é a presença
do dolo ou da culpa por parte do agente em relação ao
resultado.
De fato, a falta do dolo ou da culpa afasta a conduta, a qual, por seu
turno, obsta a configuração do nexo causal
- Excepcionalmente, o Código Penal adota, no § 1.º do art. 13,
a teoria da causalidade adequada.

4. CONCAUSAS
- Concausas: é a concorrência de causas, ou seja, há mais de uma
causa contribuindo para o resultado final.
Em outras palavras, é a convergência de uma causa externa à
vontade do autor da conduta e que influi na produção do resultado
naturalístico por ele desejado.
4.1. ESPÉCIES
4.1.1. CAUSA DEPENDENTE
- Causa dependente: é a que precisa da conduta do agente para
provocar o resultado, ou seja, não é capaz de produzi-lo por si
própria, razão pela qual não exclui a relação de causalidade;

4.1.2. CAUSA INDEPENDENTE


- Causa independente: é aquela capaz de produzir por si só o
resultado.
Se subdivide em:
a) Causa absolutamente independente: São aquelas que não se
originam da conduta do agente, isto é, são absolutamente
desvinculadas da sua ação ou omissão ilícita. E, por serem
independentes, produzem por si sós o resultado naturalístico.
Constituem a chamada “causalidade antecipadora”, pois
rompem o nexo causal.
 Preexistentes: é aquela que existe anteriormente à prática da
conduta. O resultado naturalístico teria ocorrido da mesma
forma, mesmo sem o comportamento ilícito do agente;
 Concomitante: é a que incide simultaneamente à prática da
conduta. Surge no mesmo instante em que o agente realiza
seu comportamento criminoso;
 Superveniente: é a que se concretiza posteriormente à
conduta praticada pelo agente.
- Os efeitos jurídicos das causas absolutamente independentes são:
Em todas as modalidades (preexistentes, concomitantes e
supervenientes), o resultado naturalístico ocorre
independentemente da conduta do agente.
Devem ser imputados ao agente somente os atos praticados, e
não o resultado naturalístico, em face da quebra da relação de
causalidade. Respeita-se a teoria da equivalência dos
antecedentes ou conditio sine qua non, adotada pelo art. 13, caput,
in fine, do Código Penal.

b) Causa relativamente independente: Originam-se da própria


conduta efetuada pelo agente. Daí serem relativas, pois não
existiriam sem a atuação criminosa. Como, entretanto, tais causas
são independentes, têm idoneidade para produzir, por si sós, o
resultado, já que não se situam no normal trâmite do
desenvolvimento causal.
 Preexistente: existe previamente à prática da conduta do
agente;
 Concomitante: é a que ocorre simultaneamente à prática da
conduta.
- Os efeitos jurídicos da preexistente e concomitante nas causas
relativamente independentes são:
Em obediência à teoria da equivalência dos antecedentes ou
conditio sine qua non, adotada pelo art. 13, caput, in fine, do
Código Penal, nas duas hipóteses o agente responde pelo
resultado naturalístico.
 Supervenientes: se subdividem em dois grupos:
I- As que produzem por si sós o resultado: incide a teoria
da equivalência dos antecedentes ou da conditio sine
qua non.
O agente responde pelo resultado naturalístico, pois,
suprimindo-se mentalmente a sua conduta, o resultado
não teria ocorrido como e quando ocorreu.
II- As que não produzem por si sós o resultado: é a
situação tratada pelo § 1.º do art. 13 do Código Penal, nesse
dispositivo foi adotado a teoria da causalidade adequada.
Passa a ser causa apenas a conduta idônea (com base em um
juízo estatístico e nas regras de experiência, id quod
plerumque accidit), a provocar a produção do resultado
naturalístico. Não basta qualquer contribuição. Exige-se uma
contribuição adequada.
Neste caso, devem ser imputados ao agente somente os
fatos anteriores e não o resultado naturalístico.

- Paulo José da Costa Júnior defende a utilização, por analogia


bonam partem, a teoria da causalidade adequada, presente no
§1º do art. 13, nas duas espécies de superveniente, assim como
na preexistente e concomitante de causa relativamente
independente.
5. RELEVÂNCIA DA OMISSÃO
- A omissão penalmente relevante encontra-se disciplinada pelo
art. 13, § 2.º, do Código Penal.
O dispositivo é aplicável somente aos crimes omissivos
impróprios.
- “Penalmente relevante”: é a omissão que não é típica, por não
estar descrita pelo tipo penal, somente se torna penalmente
relevante quando presente o dever de agir.
- Nos crimes omissivos impróprios, a omissão pode, com o dever
de agir, ser penalmente relevante. Por outro lado, nos crimes
omissivos próprios, a omissão sempre é penalmente relevante, pois
se encontra descrita pelo tipo penal.

5.1. TEORIA ADOTADA


- O art. 13, § 2.º, do Código Penal, no tocante à natureza jurídica
da omissão, acolheu a teoria normativa. Não se pune alguém pelo
simples fato de ter se omitido. A omissão somente interessa ao
Direito Penal quando, diante da inércia do agente, o ordenamento
jurídico lhe impunha uma ação, um dever de agir.
5.2. CRITÉRIOS PARA A DEFINIÇÃO DO DEVER DE
AGIR
- Há dois critérios acerca da fixação do dever de agir:
 Critério legal: é a lei que deve arrolar, taxativamente, as
hipóteses do dever de agir. O CP e o STJ adotam esse
critério.
 Critério judicial: permite ao magistrado, no caso concreto,
decidir pela presença ou não do dever de agir.
5.3. PODER DE AGIR
- O art. 13, § 2.º, do CP é cristalino: não é suficiente o dever de
agir, é necessário também o poder de agir.
- Poder de agir: é a possibilidade real e efetiva de alguém, na
situação concreta e em conformidade com o padrão do homem
médio, evitar o resultado penalmente relevante.
5.4. HIPÓTESES DE DEVER DE AGIR
- Disciplinadas nas alíneas do §2º do art. 13 do CP.
a) Tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância:
Trata-se do dever legal, relativo às pessoas que, por lei, têm a
obrigação de impedir o resultado. O CP utilizou a palavra “lei” em
sentido amplo.
b) De outra forma, assumiu a responsabilidade de impedir o
resultado:
- A expressão “de outra forma” significa qualquer obrigação de
impedir o resultado que não seja decorrente da lei.
É o que se convencionou chamar de “garante” ou “dever de
garantidor da não produção do resultado naturalístico”.
“Garantidor”: todo aquele que, por ato voluntário, promessas,
veiculação publicitária ou mesmo contratualmente, capta a
confiança dos possíveis afetados por resultados perigosos,
assumindo, com estes, a título oneroso ou não, a responsabilidade
de intervir, quando necessário, para impedir o resultado lesivo.
O conceito abrange, além dos negócios jurídicos em geral, as
relações advindas da vida cotidiana, independentemente de
vinculação jurídica entre os envolvidos.
A responsabilidade do garantidor subsiste enquanto ele estiver no
local em que tem a obrigação de impedir o resultado.
- Para o STJ, no campo processual, é preciso destacar que a
omissão penalmente relevante precisa ser expressamente
descrita na inicial acusatória, sob pena de inépcia da denúncia
ou da queixa-crime.

c) Com seu comportamento anterior, criou o risco da


ocorrência do resultado:
Cuida-se da ingerência ou situação precedente. Em suma, aquele
que, com o seu comportamento anterior, criou uma situação de
perigo, tem o dever de agir para impedir o resultado lesivo ao bem
jurídico.

6. A QUESTÃO DA DUPLA CAUSALIDADE


- A dupla causalidade é de difícil ocorrência prática, o que não
impede a sua formulação no plano teórico.
- Cuida-se da situação em que duas ou mais condutas,
independentes entre si e praticadas por pessoas diversas, que não
se encontram subjetivamente ligadas, produzem simultaneamente
o resultado naturalístico por elas desejado.
Inclina-se a doutrina pela punição de ambos os autores pelo crime
consumado.