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TRATADO
TEOLÓGICO-POLÍTICO
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Tradução, introdução e notas de Diogo PiresAurélio

3.ª edição, integralmente revista

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Título: Tratado Teológico-Político
3.' edição
Autor: Baruch de Espinosa
Edição:Imprensa Nacional-Casa da Moeda
Concepçãográfica: Departamento Editorial da INCM
Revisão do texto: Levi Condinho
Tiragem: 950 exemplares
Data de impressão:Outubro de 2004
ISBN: 972-27-1336-1
Depósito legal: 215 831/04
IMPRENSA NACIONAL-CASA DA MOEDA
LISBOA
2004
!
NOTA À PRESENTE EDIÇÃO
r,
1

A presente versão da tradução portuguesa do TratadoTeoló-


gico-Político altera profundamente a anterior, editada pela Im-
prensa Nacional-Casa da Moeda, em 1988, e pela Martins Fon-
tes, no Brasil, em 2003. Semelhante alteração poderá surpreender
numa tradução que, ao tempo em que surgiu pela primeira vez,
já se propunha, tal como vem explicitamente afirmado na intro-
dução, apresentar-se o mais fiel possível ao texto espinosano.
Esse propósito mantém-se, todavia , inalterável. Foi, de resto,
graças a ele que se tomou necessário, quinze anos depois, rever
· da primeira à última linha as várias centenas de páginas do Tra-
tado. O que Walter Benjamin afirma , no conhecido ensaio sobre
r!
«A tarefa do tradutor », poderá, de algum modo, explicar este
aparente paradoxo: «ao contrário da palavra do escritor, que
sobrevive na sua própria língua, a melhor das traduções tem
por destino integrar-se no desenvolvimento da sua e perecer
quando ela se renovar » 1. As alterações agora introduzidas cons-
tituem, pois, uma nova tentativa de ir ao encontro do mesmo
texto, um texto que, por continuar vivo, ainda que numa língua
morta, condena as suas versões em outras línguas, ainda que
vivas, a um perecimento a prazo mais ou menos curto.
Que o texto continua vivo, ninguém, decerto, o negará, pe-
rante o lastro de «teológico-político » que de novo assoma à su-
perfície da modernidade, tão enfaticamente inaugurada, no que
à política diz respeito, por Espinosa, lastro esse que, no seu
recorrente emergir, a confronta com o seu próprio negativo e
exibe à transparência a imbricação de poder e sagrado sobre

1 «La tâche du traducteur », trad . in CEuures, 1, Paris , Gallimard , Folio, 2000,

p . 250.

l 7
cuja denúncia e recalcamento ela se construiu e mantém . Imagi- cativa do trabalho agora realizado destina-se, por isso, ora a
nar o Tratado Teológico-Políticoconfinado à circunstância específica corrigir algum erro entretanto detectado ou assinalado por lei-
e, em muitos aspectos, absolutamente ímpar da Holanda do sé- tor amigo, ora a tentar uma aproximação ainda ma ior ao texto
culo xvn, sem olhar ao que nessa obra se nos impõe como ele- de Espinosa . Se tivesse de apontar, resumidamente, a diferença
mento matricial da política quando pensada à luz da liberdade entre a presente edição do Tratado Teológico-Político e as que a
individual, é passar simultaneamente ao lado do texto de Espi- precederam, diria que ela reside no compromisso, agora incom-
nosa e do que realmente constitui a modernidade em polític_a. paravelmente mais decidido, com a literalidade, ou melhor, na
Se, de facto, pelo menos nó Ocidente e desdé ·há dois século~, certeza de que traduzir não se resume em dar a compreender,
recusamos esse cruzamento do poder e d~ religião que transfi- muito menos em interpretar e isolar o sentido, corno se este
gura a lei em mandamento e o discurso político em teologia/ é_· · alguma vez se desse isolado, mas sim em «dizer quase a mesma
principalmente porque Espinosa, como já alguém disse, ·sé nos coisa», como quer Umberto Eco 3, refazer na língua do tradutor
antecipou a ir espreitar por detrás do espelho, a indagar natu- a o continuum discursivo que faz do texto original um corpo vivo
reza da imagem que qualquer sociedade tem de si própria e da a respirar por sob a letra morta. «Traduzir é encenar», diz Henri
sua lei ou ordem interna, concluindo que ela não é senão isso Meschonnic 4 . A tradução do ITP, para justificar cabalmente esse
mesmo, ou seja, uma simples imagem que a perspectiva irreme- nome, deveria ser a representação em língua portuguesa do dis-
diavelmente particular de cada um e de cada povo tende a repre- curso espinosano, que o mesmo é dizer, de tudo quanto no ori-
sentar como espaço onde a transcendência irrompe soberana, ginal latino se repercute corno ideia ou afecto, ritmo ou respira-
de modo a que a potência do legislador se cubra de legitimi- ção, mente ou corpo.
dade inquestionável. Semelhante desígnio de literalidade esteve na origem e é a
Perante um texto assim, o tradutor é corno que impelido a razão principal da revisão, bastante profunda, que aqui tem lu-
recuperar a vitalidade que a cada momento emana das suas gar. O leitor mais familiarizado com a obra de Espinosa conhe-
palavras. Vitalidade do sentido, certamente, mas vitalidade, so- ce, decerto, a diversidade de opções com que se debatem os
bretudo, do que nele é recomeço, eco latente do começo. Louis tradutores. Abandonado, há já algum tempo, o modelo de tra-
Althusser explicita, a propósito desse outro alicerce da moder- dução como simples via de acesso ao sentido, o corpo a corpo
nidade que é Maquiavel, a diferença que há entre o verdadeiro com o original impõe-se como método obrigatório, mas levanta,
começo e uma simples novidade: «A novidade pode não residir aqui e ali, algumas questões de difícil solução. O vocabulário
senão à superfície das coisas e não afectar senão um aspecto jurídico-político é uma delas, entre outras razões pela dificulda-
das coisas, passando com o momento que a produziu. O come- de que há de encontrar para os termos usados por Espinosa,
ço, pelo contrário, está, se assim podemos falar, enraizado na comuns no seu tempo, uma equivalência satisfatória na rede de
essência de uma coisa, visto ser o começo dessa coisa: ele afecta conceitos e nomes de que se faz o pensamento e a prática polí-
todas as suas determinações e não passa com o instante, dura tica de hoje em dia, pelo menos no mundo ocidental, rede essa
com a própria coisa.» 2 É por isso que a tradução é sempre um que apenas há pouco mais de dois séculos começou a implantar-
regresso à nascente, ao original que a cada nova leitura se reve- -se. A dificuldade não é de mera transposição terminológica de
la mais actual e, por isso mesmo, já distante da tradução em uma língua para outra: é, sobretudo, de transposição do uni-
que, tempos atrás, o julgávamos ter aprisionado. verso político de Seiscentos para aquele em que se situa a reali-
No essencial, a tradução que proponho nesta nova edição dade que nos é dado viver. O que ocorreu, de facto, na sequência
segue os critérios já adaptados na primeira. Uma parte signifi-

3 Dire Q11asiLa Stessa Cosa, Esperienze di traduzione, Milano, Bompiani,


2
Écrits Philosophiqueset Politiques,tome 11, Paris, Éditions Stock/IMEC, 1997, 2003.
p. 46. 4 Poétiq11edu traduire, Paris, Éditions Verdier, 1999, p. 394.

8 9
da Revolução Francesa foi a definição de um novo jogo de con- veiculem um significado diferente do que possuem no texto ori-
ceitos e a fixação, sob o ponto de vista semântico, de uma série ginal? Ou como reconstituir a constelação de vocábulos por que
de termos, alguns deles já utilizados antes, mas que passam então estava disperso um significado que nas línguas de hoje se aloja
a apresentar, nas diversas línguas, uma significação por vezes em uma única palavra, clara e precisa? Será lícito traduzir impe-
bem diferente da que tinham no universo monolinguístico da rium por Estado, conforme vêm fazendo as traduções mais re-
cultura seiscentista 5. Quando falamos de república, não pensa- centes, e não usar Estado para traduzir a respublicaou a societas
mos o mesmo que Espinosa quand? fala de respublica;a socie- civilis? É certo que há boas razões para semelhante opção e é,
dade civil, depois de Hegel, é uma coisa · diferente da societas de resto, a que adoptamos aqui a maioria das vezes. Mas há
civilis dos juristas de dois séculos antes; : o ·Estado não çorres- trechos em que imperium aparece claramente, à semelhança do
ponde exactamente, nem à cives, nem à réspublica;o povo não :~ . . que ainda hoje acontece, a significar o mando ou o domínio
o mesmo que a multitudo, a plebs ou o vulgus; a cidad_e nãç, _é a sobre algo, como, por exemplo, as paixões. Pode, neste caso, o
cives nem a urbs; etc., etc. O problema ·reside, pois,· em fazer as tradutor levar a coerência a um ponto tal que caísse na infideli-
línguas actuais dizerem uma realidade «que lá não mora», como dade ao autor? Penso que seria incompreensível um tão extre-
diria Vitorino Nemésio. mado excesso de zelo. Não conheço, aliás, nenhum exemplo em
Ao longo dos séculos, a solução adoptada pela maioria dos que se tenha levado o afã de uniformizar as correspondências
tradutores foi a de transpor para o tempo e a língua em que vocabulares tão longe que, uma vez por outra, não se recue
traduziam o sentido que lhes pareceu estar por detrás da formu- perante a evidência de que é impossível, sem violentar o texto,
lação original. Uma tal solução, na tentativa de tornar o autor fazer o significado que hoje em dia possui determinado con-
legível aqui e agora, arrisca-se, porém, a perdê-lo totalmente de junto de vocábulos retroagir sobre um passado onde cada um ·
vista, porquanto leva a rasurar tudo quanto se imagina ser ana- deles se integrava, do ponto de vista semântico, em conjuntos
cronismo, ambiguidade, imprecisão, experimentação de concei- diferentes. Traduzir, em casos assim, é também não abolir hesi-
tos e flutuação terminológica, em resumo, tudo quanto é real- tações e flutuações conceptuais ou vocabulares, nem impor ao
H!['.-' mente escrita em acto. Num texto como o TratadoTeológico-Político, discurso de ontem uma ordem que só conhecemos hoje e que,
escrito numa altura em que os alicerces da conceptualização nessa medida, não deve tomar-se por universal.
moderna do político estão ainda por consolidar, semelhante risco Boa parte deste elenco de problemas sobre tradução é hoje
não é de somenos. tema de pesquisa e debates no seio da comunidade científica, a
As traduções mais recentes ensaiam, por tudo isto, uma isto acrescendo, no que a Espinosa diz respeito, a profunda re-
aproximação o mais estreita possível ao texto, nele descobrindo, visão, ainda não terminada e muito menos pacificada, que tem
não raro, inflexões e tonalidades de que as anteriores, preo- vindo a processar-se, ao longo das últimas duas décadas, nos
cupadas sobretudo com a recuperação do sentido, dificilmente estudos sobre a sua filosofia --política. Ao carácter irremediavel-
poderiam suspeitar. Aquilo que tentei fazer nesta nova versão mente precário de toda a tradução, vem, por isso, no caso pre-
vai nesse sentido e depara-se, por conseguinte, com as dificul- sente, aliar-se a necessidade de adoptar, algumas vezes, solu-
dades inerentes. Como dizer, por exemplo, algo que se confi- ções insuficientemente abonadas, ou mesmo sem abonação. Não
gura como problema na língua de partida numa língua onde vejo, todavia, outro modo de ultrapassar anteriores soluções,
esse problema já não existe? Como evitar que as palavras não 1: porventura abonadas, mas que me parecem insatisfatórias no
> estado actual da investigação sobre esta matéria.
1
1
Mantém-se, entretanto, na íntegra, com uma ou outra cor-
recção de pormenor, o texto introdutório que já acompanhava a
5
Veja-se, a este propósito, o que diz Paolo Cristofolini, «Le parole-chiave
primeira edição. Acredito que, no essencial, a sua actualidade
dei Trattato Político e !e traduzioni modeme », in Pina Totaro (a cura di), Spino- permanece, pese embora a mencionada revisão por que passam
ziana, Ricerce di terminologia filosofica e critica testuale, Firenze, Leo S. Olschki os estudos espinosistas em geral e a filosofia política de Espi -
Editores, 1997, pp . 22-38. nosa em particular. Não faria, por isso, grande sentido refazê-

10 11
-lo, tanto mais que uma boa parte dos temas que aí abordo
foram por mim retomados em publicações ulteriores 6, para as
quais remeto o leitor eventualmente intere ssado.

Lisboa, 7 de Outubro de 2003

NOTA A EDIÇÃO BRASILEIRA

(,
..
~
O Tratado Telógico-Políticoé a principal das obras que Espi-
nosa publicou em vida. O seu intento, expressamente afirmado
no subtítulo, é demonstrar que a liberdade de pensamento cons-
titui um dispositivo essencial para a manutenção da paz no inte-
rior dos Estados. Longe, porém, de limitar esse intento a um
simples enunciado estratégico, estabelecendo empiricamente, atra-
vés de factos históricos ou do seu tempo, uma relação de causa-
-efeito entre liberdade e paz, Espinosa elabora aquela que é a
primeira e, porventura, a mais profunda reflexão alguma vez
r~..
publicada sobre a democracia, regime que designa como o «mais
natural e o que mais se aproxima da liberdade que a natureza
concede a cada um».
Durante séculos, o escândalo que semelhante proclamação
representou aos olhos de todas as ortodoxias foi enorme. Mes-
K mo em nossos dias, se a encararmos em toda a sua dimensão,
f' não é ainda absolutamente seguro que já o tenha deixado de
ser. E por uma simples razão: Espinosa inscreve a liberdade no
.
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âmago da natureza humana, para demonstrar que só a partir
dela é possível pensar e executar uma política para os homens
;•
'· tal como eles são realmente, invertendo assim a convicção se-
cular e comummente arreigada segundo a qual a política se ali-
cerça numa verdade que teria de se impor aos homens e que
determinaria o limite até onde eles podem ser livres. Ao arre-
1
1 pio do contratualismo, que encara toda a política como uma forma
de reprimir o «estado de natureza » e vê no Estado uma garan-
tia do não-retomo deste, Espinosa apresenta a democracia como
uma forma de realização da própria natureza humana, porquan-
to as instituições políticas aí aparecem como realização objectiva
6
Ver, especialmente, Imaginação e Poder, Lisboa, Edições Colibri, 2000; da liberdade que está inscrita na essência de cada indivíduo :
A Vontade de Sistema, Lisboa, Edições Cosmo s, 1998. «o fim do Estado é, realmente, a liberdade ».

i 12 13
Como se tal não bastasse, como se a tese qu e acabamos de rigid o por Marilen a de Souza Ch aui, na Un iversidade de São
resumir não fosse já suficientemente deva stadora para os co- Paulo , onde veio a surgir a iniciativa de propor à Editora Mar -
nhecidos estereótipos do «bom governo » e do «bom príncipe », tins Fonte s a sua reimpressão, inclu sive porqu e a obra se encon-
a linguagem utilizada neste livro é de um desassombro raro na trava já esgotada no mercado. No momento da sua publicação
história da filosofia, ao ponto de fazer, por vezes, lembrar as no Brasil, é-me grato recordar quão estimulante foi essa expe-
invectivas de um Nietzsche que estivesse a braços com outro riência de leccionar para estudiosos de Espinosa em quem a li-
tipo de dogmas . Já houve quem lhe chamasse um manifesto . berdade de pensar e a naturalidade da crítica se sentiam, espi-
E o é, sem dúvida. Um manifesto á favor · da ·democracia; um nosanamente, como «ideia » do grupo . Devo, porém, uma palavra
manifesto contra a tirania, a super:stição : ~ todas . é\S.outras for- especial de agradecimento a Homero Santiago, que colocou todo
mas de escravizar os indivíduos, . ou seja·, de os fazer alienar, o seu interesse e saber r:testa reimpressão da tradução portu -
sujeitando-os pelo medo de castigos, nesta ou na oU:tra vida, a· guesa do Tratado Teológico-Político . Quanto às insuficiências que
leis que violentam a sua verdadeira natureza e, nessa · rttedida, o leitor, com certeza, aqui vai encontrar, essas, são todas da
lhes vedam o caminho para a felicidade e a plena realização de minha responsabilidade.
si mesmos. O Tratado Teológico-Político,porém, não se esgota
nesse manifesto erguido contra o império da tristeza, do res- Lisboa, 31 de Agosto de 2002
sentimento e do ódio. Ele é também, na designação com que se
lhe referem alguns contemporâneos de Espinosa, um «Tratado
das Escrituras», um livro em que a Bíblia é apresentada como
reflexo da imaginação dos Hebreus e em que a formação das

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instituições sócio-políticas do «povo eleito» se revela como um
processo histórico transfigurado em obra de um Deus soberano
e zeloso do seu império e dos seus súbditos.
A maioria dos intérpretes desta obra tem sublinhado, a meu
ver excessivamente, a enorme distância que vai do alegado es-
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.?
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boço que ela apresentaria do pensamento político do autor à
formulação clara e definitiva com que este aparece, depois, no
Tratado Político. Semelhante leitura tem, decerto, alguma base de
sustentação. Mas é, no mínimo, redutora e ignora por completo
a originalidade com que no Teológico-Políticose recorre ao texto
bíblico a título de paradigma de todo o fenómeno político, des-
vendando a paradoxal dimensão dos seus fundamentos, desig-
nadamente na versão democrática, onde a obediência só faz sen- /
tido se for destinada a produzir a liberdade. Talvez em mais
nenhuma obra, com excepção dessa outra fulguração do génio
que é O Príncipe, de Maquiavel, se ilumine com tanta lucidez a
essência do político.
A tradução agora apresentada foi feita e teve a sua pri-
meira edição há mais de uma década (Lisboa, INCM, 1988), numa
altura, portanto, em que os estudos sobre o pensamento político
de Espinosa eram bem mais raros do que são hoje. Anos depois,
tive o privilégio de colaborar com o Grupo de Estudos Espino-
sanos, da Associação de Estudos Filosóficos do Século XVII, di -

14 15

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ABREVIATURAS
UTILIZADAS NA INTRODUÇÃO E NAS NOTAS

l:'1 TRE - Tratadoda Reformado Entendimento, Opera, vol. n


~j PM - PensamentosMetafísicas

(~ E-
TTP -
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Ética,Opera,vol. 11
TratadoTeológico-Político,
Opera,vol. m
TratadoPolítico,Opera, vol. Ili
CG - Compêndiode Gramáticada Língua Hebraica,Opera,vol. r
'
A tradução dos trechos de qualquer destas obras, bem como a da Cor-
respondência(Opera,vol. rv), a seguir citados, são da nossa responsabilidade.
A edição utilizada foi a das Opera,lm Auftrag der HeidelbergAkademieder
Wissenschaften, herausgegeben von Carl Gebhardt, Carl Winters Universitaets-
buchhandlung, Heidelberg , 1925, 4 vols .
As obras de Descartes, também referidas com frequência, são citadas a
partir da edição de Charles Adam e Paul Tannery, Paris, 1897-1909, 12 vols.
(abreviatura AT).

!
-
ABERTURA

' E DEUS ESTAVA NO MUNDO

1
Recapitulação da Ética

Este livro trata de religião e política, conforme sugere o


título, o índice das matérias e a interminável contestação de· que
foi alvo durante séculos. Uma tal evidência não _esgota, porém,
. ~;
~
o seu conteúdo, nem esclarece grandemente o alcance dos seus
enunciados. Pelo contrário, talvez não andemos longe da verda-
i:: de se a considerarmos responsável por toda uma longa cadeia
~ Yt de interpretações do espinosismo 1 que tomam o Tratado Teoló-
gico-Políticocomo uma espécie de parêntesis, um sobressalto mo-
mentâneo que teria levado o filósofo a descer da mansarda onde
há anos elabora, na frieza intemporal do «more geometrico», o
seu sistema metafísico, à realidade conflitual das seitas religio-
sas e políticas que se degladiam no tempo. Como adiante vere-
mos, e como tem sido abundantemente sublinhado no último
meio século, a imagem não poderia ser mais equívoca e redu-
tora . Ninguém, a bem dizer, já hoje contesta que a religião e a

1 Utilizamos aqui a grafia Espinosae, por conseguinte, espinosanoe espino-

sismo. Há, de facto, algumas razões a favor da versão Spinoza, a começar pela
maneira como o autor assinou por diversas vezes, mas a origem castelhana
do apelido, realçada por filólogos como Leite de Vasconcelos e C. Michaelis de
Vasconcelos, aconselha a que se prefira a transcrição com s e com E inicial
(cf. Carvalho, 1930, ed. 1978, pp. 367-368). Quanto ao nome Baruch, que na
J versão latina aparece como Benedictus, julgamos ser de manter a versão he-
braica, tal como faz, no artigo citado, o mesmo Joaquim de Carvalho, muito
embora , anos mais tarde, na sua tradução da I parte da Ética, tenha cedido à
f tentação de o aportuguesar, escrevendo Bento de Espinosa .

21
política de que se fala aqui estão intimam ente conectada s com a sobr e a etern a impo ssibilid ade d e pensar a assimetria entr e a
filo sofia demon strada na Ética. E, no entanto, dizer isto ainda lei dos deuses e a lei dos hom ens, na medida em que isso equi -
não é tudo. Porque o Tratado Teológico-Políticonão é apenas uma J valeria à aniquilação da própr ia lei como ord em absoluta ; ma s
obra que tenha subjacente a concepção da realidade reivindica- trágico ainda porque nele se protagoniza o paradoxo da opinião
da pelo autor ou que para ela remeta, como teria irremediavel - que se ignora como tal, tornando assim inexorável a guerra pela
mente de acontecer: é, sim, a primeira e, em muitos aspectos, verdade, que o mesmo é dizer, as cruzadas pela fé.
definitiva explanação do sistema espinosano, a tentativa progra-
mada de recuperar o que a racionalidade em moldes «georrtétri- ·
1 Espinosa retoma este paradoxo em toda a amplitude das
suas consequências teóricas e práticas. A tese fundamental é a
cos » insinuava como desordem _ou seryidão a.Iesgatar pela li- de que filosofia e religião devem estar separadas, e nisto parece
berdade intelectual, sem suspeitar .que ..é precisamente aí que se- ' repetir o gesto de tantos dos seus contemporâneos, como Gali-
decide toda a gama de possibilidades de interacção dessa~ par- leu ou Descartes, que pagam a liberdade de especulação teórica
tículas do todo que são os homens. · ao preço de deixar intacta a ordem prática e jurar a inocência
Como se justifica que um livro assim tenha estado tanto tem- das suas descobertas face à Bíblia e a tudo o que sob os auspí -
po condenado ao estatuto de simples manifesto, erudito embo- cios desta se de termina socialmente . Mas a separação que o Tra-
ra e de efeitos reconhecidamente demolidores, mas de qualquer tado defende não é de natureza estratégica, é de natureza polí-
modo fora da problemática filosófica? A explicação só pode ser tica. Como tal, a análise de Espinosa não pode passar à margem
uma: é que o Tratadocomete a ousadia inédita de chamar a si o do Livro em que se fundamentam as leis. Pelo contrário, se a
privilégio de julgar na sua globalidade o mundo constituído e o Bíblia é a principal fonte de legitimação do poder, e se o poder
mundo a constituir, sem se deter face à região habitualmente se destina a garantir a segurança e a paz entre os indivíduos, ·
considerada inacessível e que ele detecta como o fulcro em tomo há que explicar por que razão estes se combatem em nome da
do qual gira toda a questão da ordem prática, a região do sa- mesma Bíblia, tornando assi_m ineficaz a suposta legitimação . Só
grado. Projecto de uma filosofia sem resíduos, este livro teria depois disto é que se podem sugerir outros fundamentos do
.. também de ser um livro sobre o Livro, um «tratado sobre a poder, os quais implicam, já o veremos, a separação dos domí-
Escritura», como lhe chamam os contemporâneos, uma escalpeli- nios do saber e da fé como condição para a paz e a unidade
zação literal daquilo que todos consideram o Verbo feito carne . dos Estados. ·
Carne dilacerada, acrescente-se, pela infinda guerra que se trava Mas vejamos, antes de mais, as primeiras notícias que nos
entre os seus intérpretes. E acaso poderia ser de outro modo? falam desta obra. Nos princípios do Verão de 1665, Espinosa
Encarnar é sair da intemporalidade em que se pressupõe o Verbo tem praticamente pronta a m parte da Ética. Acaba de se curar
divino e manifestar-se no plano da extensão, das partes extra par- de mais um ataque de hemoptise crónica, o livro vai adiantado,
tes. Dizer o Verbo feito carne é dizer o verbo divino, o corpo mas revela-se mais difícil do que o autor contava. É por esta
múltiplo da palavra transfigurado em corpos de leis que por altura que as cartas amiúde trocadas com os amigos indiciam
natureza se ajustam às circunstâncias de espaço e tempo sem uma inflexão no seu trabalho. De Londres, H . Oldenburg e
deixar cada um deles de reivindicar o estatuto de universali- R. Boyle dão-lhe conta da perseverança com que os membros
dade e intemporalidade que assiste apenas ao Verbo primitivo. da Royal Society, de que o primeiro é secretário, prosseguem a
Esse o equívoco das interpretações, dos comentários pretensa- título individual experiências científicas - «uns sobre a mecânica,
mente destinados a reconstituir a verdade de uma palavra au- a hidrostática, outros sobre a anatomia, a mecânica ou outras
sente e condenados, de facto, a reparti-la em vez de repeti-la, a matérias» -, apesar de a situação política impedir que mante-
representá -la sempre em corpos diferentes . É trágico o destino nham reuniões públicas. Depois de anunciar para muito breve o
deste texto que as religiões - o judaísmo, o cristianismo, o isla- pequeno tratado que Boyle compôs para criticar «a origem das
mismo - invocam a título de fundamento da lei e que na reali- formas e das qualidades, tal como ela é apresentada pela Escola
dade se constitui com essa mesma lei e por isso se esgota em e seus professores », Oldenburg lança, ainda na mesma carta,
cada uma dessas invocações! Trágico porque se desenha por esta invectiva a Espinosa : «Quanto a vós, vejo que filosofais

22 23
r menos do que teologizais (se assim me posso exprimir), visto tado: «l. º - os preconceitos dos teólogos; sei, com efeito, que
que ocupais os vossos pensamentos com os anjos, a profecia e são sobretudo eles que impedem os homens de se consagrarem
os milagres; mas com certeza que o fazeis filosoficamente e, seja com todo o ânimo à filosofia e esforço-me, portanto, por de-
j" como for, estou seguro de que a obra será digna de vós e dese- nunciar esses preconceitos e desembaraçar deles os espíritos mais
1
jo vivamente conhecê-la.» Segue-se um parágrafo com algumas esclarecidos; 2.0 - a opinião que tem de mim o vulgo, que não
reflexões a propósito da guerra entre a Inglaterra e a Holanda pára de me acusar de ateísmo, colocando-me na obrigação de
(«mas porquê a gente queixar-se? Enquanto houver homens _ha- combater o mais possível essa opinião; 3.0 - a liberdade de fi-
verá vícios; todavia, o rnál não é eterno ·e ôs ·melhores podem losofar e de dizer o que sentimos , que eu quero defender por
combatê-lo») e Oldenburg toma: às -novíq.ades científicas que dia ti
.todos os meios, pois ela é suprimida pela excessiva autoridade
a dia ocorrem no seu meio (Corrrspondêncía,carta XXIX). e petulância dos demagogos» (idem, ibidem).
A esta carta Espinosa responde ·num estado de · espírjtà . que . A conexão entre as duas partes deste texto escapará em de-
manifestamente não sintoniza com o do seu · interlocutor, pois o - finitivo a Oldenburg, corno, até há muito pouco tempo, à gene-
que neste é preocupação transitória representa para aquele exac- ralidade dos leitores do TTP. Por isso, na carta seguinte, o seu
tamente o núcleo da sua reflexão . É o célebre texto em que o interesse vai direito ao problema da conformidade das partes
autor refere as razões que o levaram a compor um «tratado com o todo a que Espinosa aludira, pedindo-lhe instantemente
sobre a Escritura». De tão minuciosamente explicitadas, essas que lhe transmita a sua ideia sobre o assun to. Quanto a um
razões ofuscaram boa parte dos intérpretes, que não só as des- «Tratado de Escritura», o sábio inglês confessa, muito cortes-
ligam do contexto em que vêm como, inclusivamente, as tomam mente, compreender as razões que levam o seu correspondente
por um enunciado das demonstrações a fazer no livro, quando, a ter de se explicar sobre tal assunto, mas não lhe atribui grande .
afinal, elas referem apenas o seu pretexto e os objectivos pre- importância e muito menos suspeita que ele venha a ser o lugar
\t ,,t
tendidos. Convirá, por isso, que nos detenhamos, ainda uma privilegiado de explicitação e solução original do problema do
1-,u-
, vez, sobre a carta na sua globalidade. A forma como começa é, acordo entre as partes e o todo. O que, de resto, se compreen-
desde logo, um desvio algo forçado no diálogo com Oldenburg: de. Em boa verdade, o tema explicitamente anunciado por Espi-
«fico feliz por saber que, na vossa Sociedade, os filósofos se nosa deveria constituir, já em 1665, aos olhos do mundo culto
preocupam, não só com eles próprios, mas também com o seu um problema ultrapassado. Sem querer antecipar o que sobre o
país. Vou esperar, para conhecer os seus trabalhos mais recen- assunto se dirá mais adiante, lembrarei apenas que a doutrina
tes, que os beligerantes fiquem saciados de sangue e façam uma da reivindicação do poder temporal face ao Papado, desenvol-
trégua para recobrar forças» (idem, carta xxx). Aparentemente, a vida a partir dos inícios do século XIV, tinha minado os alicerces
frase confirmaria a observação algo irónica de Oldenburg a pro- da representação medieval do «império» cristão, abrindo, sob a
pósito do alegado «desvio teológico» de Espinosa. O que se passa inspiração do averroísmo, o caminho à autonomia do político,
é, na realidade, o contrário. Se os seus correspondentes se como se pode ver pelas obras de Marsílio de Pádua e Guilher-
alheiam da guerra para filosofar, Espinosa não se alheia da filo- me Occam. Mais tarde, na própria Inglaterra de onde Olden-
sofia para «teologizar» nem para pensar a guerra: «Estas per- burg escreve, Giordano Bruno publicara, em 1584, esse diálogo
turbações não me provocam o riso, nem tão-pouco as lágrimas; . demolidor contra os aristotélicos de Oxford que tem por título
levam-me é a filosofar e a conhecer melhor a natureza humana. La cena de le ceneri e Ónde-se pode ler: «se os deuses se tivessem
Porque eu julgo não ter o direito de me divertir à custa da dignado ensinar-nos a teoria das coisas da natureza corno nos
natureza, e muito menos de me queixar, quando penso que os ensinaram a prática das coisas morais, vergar-me-ia antes de
homens, como os outros seres, não são senão uma parte da mais perante a fé nas suas revelações, em vez de me guiar pela
natureza e eu ignoro como cada uma destas partes convém com certeza das minhas próprias razões e sentimentos. Porém, como
o todo e lhe está conforme, e como, por outro lado, cada parte qualquer um podé ver com toda a clareza, nos livros divinos
se liga com as outras.» Só depois disto e na sua sequência di- postos ao serviço do nosso intelecto não são tratadas demons-
recta é que surgem os motivos que justificam a feitura do Tra- trações e especulações relacionadas com as coisas naturais, como

l
24
i 25
11 1985, pp. 23-31). «Esforçou-se mais do que seria necessário para
i\1 se fossem livros de filosofia; o que aí se ordena, através de leis
e para ajudar o nosso entendimento e os nossos sentimentos, é se libertar de toda a superstição - comenta, por sua vez, Lam-
a prática das acções morais» (Bruno, ed. 1984, p. 103). Galileu, bert van Velthuisen -; querendo prevenir-se contra ela, precipi-
1: por seu turno, não diz outra coisa : «Se em todos os casos em tou-se no pólo oposto; querendo evitar o pecado da superstição,
acabou por rejeitar toda a religião » (carta incluída na Correspon-
ll que as obras não concordam com o verbo considerarmos a Sa-
dência de B. Espinosa , com o n. 0 XLII). E, em 1674, na livre e
grada Escritura como secundária, isto em nada a prejudicará,
IJ florescente república por mais de uma vez invocada no livro,
pois ela está muitas vezes adaptada à opinião do vulgo e atri-
r- bui frequentemente a Deus qualidades que são de todo em todo . um decreto promulgado pelas Cortes da Holanda proibia a cir-
i!
,J erróneas» (cit. irt Préposiét, 1967, p.157f E ·güem poderia então culação do ITP, juntamente com outras obras , entre elas as duas
ignorar o Leviathan, que fora publicado ~m 1650.-e ·que dedicava traduções, em holandês e em latim, do Leviathan.
:1i metade das suas páginas, mais precisamente, as terceira e qqá!'{a · Tal proibição não impedirá que algumas edições continuem
l,1
,1.
partes, à discussão do tema bíblico ri.a perspectiva de _urhá _r_econ-_ a surgir, sob os títulos mais diversos. Chegar á, no entanto, para
tl sideração do poder em termos adequados ao avanço .das ciên- ir rarefazendo o contacto, quer com esta, quer com as restantes
'I' cias? A curiosidade que a obra anunciada por Espinosa pudesse, obras do autor, que vão sair a público logo após a sua morte.
lil ainda assim, despertar, não vinha, por conseguinte, da matéria, Boa parte do que a seguir se foi dizendo e, durante séculos,
'I
l'I' mas quando muito do tratamento que o autor lhe iria imprimir. julgando sobre ele tem como fonte quase exclusiva o Diction-
li Quanto à compreensão que Oldenburg manifestava pelo projecto, naire historiquee critique de Pierre Bayle, publicado em 1696, que
IJI essa partia da convicção igualmente fundada de que, se em ter- lhe dedica um longo artigo e o classifica com uma fórmula que
1 mos teóricos o problema parecia solucionado, em termos prá- fará fortuna: «ele foi um ateu de sistema» (Bayle, ed. 1983, p. 21)..
ticos a realidade era bem diferente e legitimava, a título de de- A própria Enciclopédie,no texto dedicado a Espinosa, limitar-se-á
fesa circunstancial, qualquer escrito a reivindicar o separar de a transcrever o início do artigo de Bayle e a remeter para a pa-
águas entre teologia e ciência, já enunciado mas evidentemente lavra «ateísmo» (cf. Préposiet, pp. 128-129, nota). E quando não
longe de ser aceite. Aquilo que Oldenburg fica a aguardar é, é o ateu que se reverbera, surge em seu lugar uma persona-
pois, um texto de natureza táctica, original embora, um texto a gem ainda mais distante, admirada embora, qual seja o Espi-
remeter para os domínios da retórica e nunca para os da heu- nosa invocado na Alemanha por Jacobi e outros «filósofos da
rística. É aqui que surge o primeiro equívoco, aquele que ditará religião» que procuram no autor da Ética «novos meios para
lf: - t-
os destinos da interpretação. O livro vem a público em 1670, conciliar a discursividade da linguagem com o conhecimento
com as precauções que as circunstâncias exigiam, isto é, anóni- intuitivo do ser, a liberdade do indivíduo com a totalidade do
mo e com falsas indicações sobre o impressor e a respectiva absoluto» (Zac, 1980, p . 239). É o mito do orientalismo de Espi-
cidade. É um cuidado inútil, como o próprio Espinosa rapida- nosa, de que o próprio Hegel se faz eco (ed. 1954, pp. 254, 276
mente terá percebido, uma vez que, em Novembro do ano se- e 293) e que transparece na expressão entusiástica com que Scho-
guinte, já revela a Leibniz a intenção de lhe enviar um exemplar penhauer se refere a ele e a Giordano Bruno: «para génios deste
no caso de ainda o não conhecer (carta XLVI).Tinham, entretan- tipo, a verdadeira pátria eram as margens do Ganges!» (cit. in
to, começado a surgir as primeiras críticas, vindas algumas de Hulin, p. 139).
sectores os mais liberais que nem por isso poupavam o autor. Tudo isto, por ass im dizer, já pertence hoje à pré-história
1 «Não me lembro de alguma vez ter lido um livro mais pestilen- do espinosismo, se por espinosismo entendermos o movimento
cial» (cit. in Moreau, 1982, p. 9), comenta Philip van Limborch, de reposição do sentido dos textos em parâmetros aceitáveis à
o pastor que, não obstante a severidade aqui demonstrada, ·virá luz, quer da sua leitura e do respectivo confronto, quer do con-
a divulgar, em 1687, o ExemplarVitae Humanae,de Uriel da Costa, texto intelectual em que eles circularam ainda em vida do autor
r
r,, e se indignara, já em 1662, pelo excessivo poder de que gozam e que permite determinar, com relativa certeza , o significado
na Holanda as sinagogas sobre os seus fiéis, acusando-as de dos conceitos a que recorrem. Se compulsarmos a imensa biblio-
Vi·
1., constituírem verdadeiros Estados dentro do Estado (v. Aurélio, grafia sobre o assunto, veremos que ela esteve, as mais das

26 27

l
1
:iI 1 vezes, prejudicada pela opção que julgou ter de fazer entre o blicar - o que não chegar á a fazer pelas circunstância s adv ersas
l 1i
autor da Ética e o autor dos tratados que versam sobre matéria
política . Só muito recentemente, no prosseguimento aliás de al-
qu e lh e surgiram . Tudo quanto lhe acrescentou entretanto, se
virmos bem, não é muito do ponto de vista inicialmente reivin -
i guns estudos pioneiros como os de Gioele Solari (1927, ed . 1974, dicad o pelo autor, nem sequer respeita já esse mesmo ponto de
pp. 195-294) e os de Leo Strauss (1930, ed. 1965), se removeram vista, posto que nas duas últimas partes se trata da servidão e
;il
" os preconceitos antimetafísica na interpretação da doutrina polí- da liberdade humanas, ou seja, se consideram as afecções ou
tica e a investigação inflectiu num sentido em que já não é pos- _ paixões passivas e activas, não como linhas e superfícies, à se-
sível continuar a· ver ·em Espinosa apenas · o anti-hobbesiano pre - melhança do que acontecera na rn parte , mas como coisas boas
cursor dos Estados democráticos. A _pouco .é pouco, foi-se ou más, que salvam ou deitam a perder os homens, que se to-
tornando evidente a estreita inter .dependência entre os vá:r_ios. ' mam, em suma, no plano da exfstência quando antes tinham
livros e tanto o Tratado Teológico-Políticocomo o Tratado_Polftlco _ sido tomadas como puras essências . Isto mesmo ressalta Vítor
assumiram o verdadeiro papel de elementos irripreséindívels no - Goldschmidt, para daí retirar a conclusão de que, a partir do
sistema. Todavia, se esta mudança revolucionou, de facto, o en- meio da Ética, se dá uma ruptura que é caracterizada pela emer-
tendimento do espinosismo, já o mesmo se não poderá dizer, gência do «eu empírico » e que se bifurca em dois sentidos : o da
pelo menos com a mesma certeza e alcance, em relação à leitura ' moral , desenvolvido nas duas últimas partes do livro, e o da
propriamente dita dos tratados políticos, em particular do TTP. política, que surgirá só depois no Tratado Político (Goldschmidt,
Repen sou-se, é verdade, a doutrina nele compendiada. Mas foi 1978, pp. 105-122).
um pouco como se, em reconhecimento dá coerência do autor, Esta hipótese contém um elemento importante para aquilo
se presumisse que os seus conceitos filosóficos já então elabora- que estamos a dizer, qual seja o de que, na altura de passar à'
dos constituíam necessariamente a retaguarda e preenchiam as moralidade e à política, Espinosa muda de «ponto de vista »,
entrelinhas dos estudos sobre a Bíblia e a política. Ora, o que substituindo a dedução sub specie aeternitatis pela historicidade
se aqui pretende, ainda que inscrito na mesma perspectiva, é do eu empírico. Porém , a complementaridade que ela parece
um pouco diferente. Resumindo em duas palavras, o que se pro- sugerir entre os dois grandes blocos da obra assim delineados
cura evidenciar é que o TTP não é um anexo, coerente embora, levar -nos-ia a paradoxos insolúveis. Na verdade, ao presumirem -
mas sim uma formulação do sistema, formulação esta onde os -se, e com razão, as três primeiras partes da Ética como um
conceitos vão subsumir, em simultâneo, a realidade e as suas todo, somos obrigados a assumi-las como uma ontologia sem
versões anteriores, o mundo e a Escritura, os seres e os sabe- resíduos problemáticos, o que significa que a substância, os atri -
res, refundindo-os numa totalidade que não aparece em mais butos e os modos aí se conjugam teoricamente, esgotando todo
nenhuma das obras de Espinosa. o discurso filosófico sobre o ser e os seres . Nem outra coisa se
Posta a questão nestes termos, poderia pensar-se que estamos poderia, aliás, deduzir do necessitarismo aí consignado, que de-
a sugerir uma reavaliação de toda a obra de Espinosa . O que fine a substância como produção (actuosa),mas inscreve a genea-
de facto se passa é bastante mais simples e vem , aliás, ao en- logia das suas produções (os modos) na moldura de uma razão
contro de alguns problemas decisivos que se levantam face à que no limite ignora o acidente. Como teorizar, então, no inte-
mencionada interrupção na feitura da Ética. Se não, vejamos. rior desse quadro, a existência concreta dos modos finitos, que
Em 1665, na carta já citada, o filósofo dá praticamente por ter- por essência estão também in fieri mas não podem conhecer a
minada a m parte da obra. No essencial, poderíamos dizer que globalidade das suas conexões com o todo, que o mesmo é di-
estava concluída a ontologia espinosana. Deus ou a natureza, a zer, a globalidade de sentido da sua acção? Eis o que nos leva
alma ou a ideia do corpo, as afecções ou as relações de mera a duv idar da referida complementaridade, por muito que o pró-
concomitância entre o pensamento e a extensão tinham sido de - prio autor a pudesse presumir no momento em que tenta publi -
duzidas e concatenadas segundo o método dos geómetras, num car os cinco livros da Ética.
conjunto a que, aparentemente, nada mais havia a acrescentar. Há, com certeza , uma ruptura e não apenas uma interrup -
No entanto, só dez anos depois Espinosa faz menção de a pu- ção nesse momento da obra . Mas é uma r uptura cujo alcance se

28 29
!
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11
1 '1
' 1
tem de considerar como reinvestindo a metafísica de Espinosa
de uma nova problemática e, só nessa medida, de um novo
«ponto de vista». É precisamente esta a operação que tem lugar
suspensão, pela qual se pode definir a política, emerge como
algo de incompaginável na produção genético-dedutiva dos se-
res, tal como ela ficara assente desde as primeiras páginas da
1,,
no Tratado Teológico-Político,obra que está omissa na hipótese Ética, obrigando a um recomeço. Hobbes apercebera-se deste
1,", mesmo problema e concluíra pela impossibilidade de um dis-
li 1 aventada por Goldschmidt e que, a ser tida em conta, a poderia
1·11 aprofundar e responder até a algumas interrogações por ela dei- curso exacto e fundado sobre a natureza, isto é, de uma ciência
1
física, contrariamente à política, que por originar-se em princí-
l',i xadas. Talvez só Antonio Negri (1982, pp. 155-185), e com pressu-
postos diferent!;!s, tenha, até hoje, sublinhado a verdadeira di-· pios determinados pelo homem - as leis resultantes do con-
1, mensão metafísica de uma ol?ra que, não _obstaI}t~, quase toda a trato - se poderia deduzir racionalmente 2 . Mas a Espinosa uma
gente reconhece como ocasião ~e viragem no espinosismo. A seµ. '- tal compartimentação pareceria sempre suspeita ou insuficiente,
i,. tempo se discutirá esta questão. Para -já, e· ainda a propós~to · do na medida em que implicava abdicar do postulado da raciona-
11·
' 1
verdadeiro lugar do Tratado Teológico 7Políticono conjunto- do sis~ lidade do real. Daí que, ao passar à abordagem do político,
tema, mencionarei apenas uma divergência: Negri, com efeito, tenha de repensar a metafísica e a física de modo a que elas
li'
!11
toma este livro como um local de passagem, um salto obriga- abarquem o ser na sua plenitude e os seres na plenitude das
'i
tório em direcção ao que chama «segunda fundação» da filoso- suas inter-relações . Para tanto, é necessário confrontar-se com a
~ fia de Espinosa, onde a política se tomaria «a alma da metafí- matriz para a qual remete toda a política, se mais não for a
~ ,sica» e a imaginação conquistaria um estatuto ontológico através título de exemplaridade, confrontar-se, em suma, com o discurso
~ ··.da «constituição do real pelo homem»; aqui, pelo contrário, dá- por excelência que é o discurso da lei: a Sagrada Escritura. Será

~
-se por adquirido que a substituição de alguns conceitos verifi- este o objecto explícito do ITP.
~~
cada em obras subsequentes e contemporânea, aliás, das anota- A partir daqui, o binómio servidão-liberdade tomar-se-á o
ções acrescentadas pelo autor ao Tratado Teológico-Políticonão problema de Espinosa: servidão encarada como impotência face
invalida o que já estava dito nem o altera no fundamental. à natureza e face aos outros para reger a própria vida, como se
pode ver pela singular coincidência entre as primeiras linhas dos
prefácios do Tratado Teológico-Políticoe da IV parte da Ética; li-
2 berdade que é autonomia, independência perante a fortuna, e
que se aponta como ideal ditado pela razão. O ideal, repare-se,
A estrutura do TrP
não é aqui uma ideia de que se possa fazer decorrer a realida-
de política. Se assim fosse, esta deveria surgir na continuação
Resumindo, os dados são estes: no momento em que a filo- directa das primeiras partes da Ética e apareceria apenas como
sofia de Espinosa passa da metafísica e da física para o que hoje um hobbismo metafísicamente legitimado. Em vez disso, o que
designaríamos por antropologia, o sistema oscila nos seus fun- há de mais original no projecto espinosano é precisamente o
damentos, confrontado que fica com a questão, por ele próprio considerar a política como uma instância que pode garantir as
equacionada na carta a Oldenburg, de saber como as partes se condições para o homem se libertar, para a razão se exprimir, e
conjugam (conveniant) entre si e com o todo. Da necessidade não como uma instância produtora da liberdade e tradutora da
com que o todo (a substância) actua e se autoproduz à contin- razão. Vê-lo-emos mais adiante. Por ora, interessa apenas pôr
gência com que as suas manifestações modais, os diversos se-
em evidência o programa que, mais do que estar subjacente, é
..
I'.'
res, se fazem ou desfazem no jogo que opõe as diferentes capa-
cidades de preservação (conatus), o mundo não se esgota, pois
há ainda a realidade dos homens, os quais, sem deixarem de
ser igualmente modos finitos, se autopropõem no entanto fins, 2 Em boa verdade, e se bem que esta conclusão prevaleça, a natureza e a

isto é, têm a possibilidade de suspender, ainda que precaria- classificação das ciências será objecto de oscilações de obra para obra, ao longo
de quase toda a vida do autor do Leviathan (cf. Aurélio, 1985, b, pp . 481-482).
mente, o que a lei de constituição dos modos lhes dita. Esta

31
30

!
'O,'.

de senvolvido de uma forma explícita ao longo do TratadoTeoló- precur sor da mod erna exege se bíblica, tal como esta viria, doi s
gico-Político. séculos mai s tarde, a ser feita, inclusivamente por ortodoxia s
À primeira vista, nada disto transparece na obra . Percor - religiosas das mais intransigentes . Mas o que está em causa no
rendo as suas páginas segundo a leitura tradicional, deparamos Tratado não é propriamente a verdade ou falsidade deste ou
unicamente com treze capítulos sobre problemas teológicos e es- daquele aspecto da Escritura. Isso fora a discussão em que se
criturais, dois a reivindicar a separação entre a fé e a razão e enredara o Renascimento e que Galileu repetirá tragicamente.
cinco, finalmente, sobre política, onde se faz ~. 9-efesa da liber- Se Espinosa convoca a Bíblia, não é tanto a título de saber como
dade de pensamento e de expressão e se assegura que ela em a título de poder, não é como tutela da ciência mas sim como
nada prejudica o Estado. É necessário,. pç,rtànto, · procurar uma tutela da obediência. Porque se o objectivo é situar a realidade
nova distribuição dos temas que vá -~lém do. _seu enunciado no _· dos homens no âmbito da realidade total, há que remover os
índice e contemple o verdadeiro conteúdo dqs célpítulos." . _ ~ alicerces em que está fundada a lei, integrar as narrativas bíbli-
Assim, nos três primeiros, poderemos ler, através da análi- cas no quadro mais amplo do discurso pelo qual se constituem
se do conceito de profecia e da função profética, uma reformu- as sociedades e ver até que ponto essas narrativas são intrinse-
lação do problema do conhecimento. Nos três seguintes, em que camente extraordinárias, na medida em que, para instaurar a
se fala da lei divina, das cerimónias e dos milagres, é toda a ordem moral e a ordem civil, têm de corrigir a ordem natural
ontologia espinosana que apjirece refeita, mediante o reconheci- dos humanos que é o conflito. Passar ao lado desta questão é
mento de uma fractura irremediável entre o natural e o artifi- limitar-se a questionar a autenticidade deste ou daquele legisla-
cial e a tentativa de os conjugar no sistema. Entra-se então na dor, exercício que é comum a todos quantos tentam apenas res-
questão da Bíblia: primeiro, o método de interpretação (cap. vu); guardar a possibilidade da livre investigação científica, como
em seguida, a análise do Antigo (caps. vm-x) e do Novo Tes- Galileu, ou reservar para o Príncipe o que a tradição confere ao
tamento (cap. x1); depois, o conteúdo global de todo o Livro Papa, como Thomas Hobbes . O problema de Espinosa não é
i.
(caps. XII-XIII); e, finalmente, os limites do saber aí apurado e a saber quem tem o direito de legislar, é saber o que é o direito
necessidade de o não tomar por filosofia (caps. XIV-XV). A termi- e o que é a lei. E a lei é palavra, como a língua hebraica deixa
nar, vêm os capítulos expressamente dedicados à política . Esque- transparecer ao tomá-las por sinónimos. A Bíblia, palavra de
matizando, a distribuição seria a seguinte: Deus, é Deus feito lei. A questão, portanto, é compreender como
o Deus sive natura, este Deus que é a natureza exprimindo-se na
Caps. 1-m: o conhecimento. infinidade dos seus atributos e modos, se desdobra em palavra-
Caps. IV-vi:o ser e os seres. -lei humana.
Caps. vu-xv: o saber,ou o Livro. Na Ética, consumando-se embora a recusa da transcendên-
Caps. xv1-xx: o poder. cia através da afirmação da unicidade da substância absoluta-
mente infinita e da constituição dos modos como expressões da
É esta a leitura que a seguir se propõe. Estranhar-se-á, tal- infinidade dos seus atributos, o sistema compreendia a reali-
vez, que o Livro ocupe, ainda assim, boa parte da obra . Assim dade dos seres e do pensamento mas deixava por determinar a
acontece, de facto . E porquê? Urna explicação fácil, tentadora constituição específica dos agrupamentos humanos . Mesmo as
mesmo, consistiria em ver aí o tributo pago por Espinosa às duas partes que o autor lhe acrescentará, muito depois, contem-
suas origens judaicas, de sangue e formação, uma espécie de plam apenas a possibilidade de libertação individual pela razão,
tardio ajuste de contas com a Sinagoga ou, o que seria mais ou seja, pelo conhecimento do verdadeiro lugar de cada um no
exacto, uma irrupção torrencial do saber bíblico durante anos concerto da totalidade. A política era apenas indirectamente aflo-
recalcado sob o jogo dos axiomas e deduções. Não falta quem rada, parecendo não se atribuir qualquer estatuto especial à rea-
leve a interpretação por esse caminho . De uma forma ou de lidade constituída mediante a imaginação humana ou remeten-
outra, é mesmo essa a imagem consagrada do Tratado Teológico- do -a para a lei da formação de todos os outros modos. Ora, a
-Político,ainda quando ele é tomado, e justificadamente, como o política, sem ser propriamente uma ruptura na ordem da totali-

32 33
dade, pelo menos como a entende Espinosa, que nesse aspecto
reivindica absoluta divergência com Hobbes, define-se no en-
tanto como tentativa de limitar e orientar a produção e consti-
tuição da natureza, afirmando-se como uma modalidade dife-
rente na ordem dos seres. Não basta, por isso, uma simples
delimitação dos campos, uma partilha da autoridade entre fé e
razão, teologia e política, consubstanciada no pacto de não-
..;,•
-agressão até aí reiv-indicado pelo-saber e pelo -poder face à igrejà.
É preciso rever a autoridade, . reler a :Bíblia, reins.crevê-la no cir- I.
·e
cuito de produção da substânçi"a e dos modos rescrever :assim ·,
A VERDADE E AS OPINIÕES
a ontologia de maneira a entender como : ~<convêmentre _si~> - es-
sas partes do todo que são os homens. É esse o projecto do
Tratado Teológico-Político.
1
Conhecer

,.1
... Ler a Bíblia significa, antes de mais, identificar os conheci-
mentos que aí se nos oferecem. Trata-se de profecias ou revela-
ções, como diz a tradição e Espinosa não vai contra. O proble- ·
ma está em saber o que é a profecia e se a sua definição legitima
i:r.r:
·. o posicionamento que habitualmente se lhe atribui na esfera dos
saberes. É daqui que parte o Tratado Teológico-Político.
Este começo, repare-se, não difere grandemente daquele que
tantas vezes os comentadores sublinharam na Ética,e só na apa-
rência ele remete para o cogito cartesiano. No princípio, o que
há, uma vez mais, não é o cogito, é Deus: «Profecia ou Revela-
ção é o conhecimento certo de alguma coisa revelada por Deus
aos homens» (infra, p. 133). A divergência com Descartes a tal
respeito é uma constante de toda a obra de Espinosa. E por
razões que M. Guéroult (1968, p. 34) enuncia assim: «o cogito
não pode ser o ponto de partida da ciência. Longe de pôr termo
à dúvida, ele torna-a inelutável. Separando Deus e o nosso enten-
dimento, torna as nossas ideias inadequadas, sendo a própria
ideia de um tal entendimento separado inadequada e ligada a
todos os fantasmas da imaginação: criação, livre arbítrio divino
e humano, etc. O processo da sua instituição, identificando o eu
sou com a inteligência que se descobre como essência do eu,
liga de facto o ser pensante à forma do pensar, o que equivale,
quer se queira quer não, a constituir a coisa pela reflexão sobre
a coisa, quando, na realidade, é a coisa, o eu sou, que, pelo seu
ser determinado, envolve e toma possível o conhecimento refle-
xivo do que ela é, quer dizer, do eu sou pensante».Espinosa parte

34 35
i
de Deu s. Mas este partir e este Deus não têm nada de uma A ser as sim, todavia, corno garantir a verda de de defini-
autobiografia que passasse a escrito e à teoria o abandono da ções que contemplam coisas existentes fora do entendimento,
Sinagoga pelo judeu excomungado . Deus é a substância única e cuja verdade não se esgota, por conseguinte, no princípio da
absolutamente infinita, o horizonte de ser onde os seres estão sua possibilidade? O processo, segundo Espinosa, é ainda e sem-
irremediavelmente instalados e de onde se não sai por qualquer pre o mesmo que se verifica nas matemáticas e em particular na
via, criacionista ou emanatista . Por isso, o cogito, concebido na Geometria . Há, com efeito, certas noções (notiones communes),
sua solidão supostamente . fundadora da ciência, jamais poderá como a de causa e efeito, que se dão no entendimento da mes-
ser urna ideia clara e distinta . Recortá-,lo na · p·aisagem substan- ma forma que as ideias matemáticas. Urna delas, a substância,
cial através de urna distinção tllllÍlériça ·~làtivarnente aos outros definindo-se como causa de si, não pode ser pensada senão corno
seres é ainda trabalhar com noções · gerais, fruto da irnaginaçã _o.: existente e como absolutamente infinita, pelo que tanto a exten-
Uma ideia verdadeira deverá ser, não apena~ a:designação ·_e~acta são corno o pensamento têm nela o seu princípio e a sua razão
de urna coisa, a sua definição nominal, ainda que esta seja im- de ser (cf. infra, pp. 56-61). Melhor dizendo, são seus atributos .
portante para não nos perdermos no labirinto das palavras, mas Em consequência, as ideias que se deduzem adequadamente a
também a tradução da sua essência, ou seja, a sua definição real. partir da noção de substância, quer se refiram à ordem das es-
Definir urna coisa é indicar a sua possibilidade intrínseca, a es- sências quer à ordem dos existentes, reproduzem objectivarnen-
trutura essencial que permite pensá-la corno verdadeira. «Para te o seu referente, ou seja, são verdadeiros . E porque a infini-
que urna definição se possa considerar corno perfeita deverá ex- dade da substância exige que a concebamos como única, a
plicar a essência íntima da coisa» (TRE, § 95). O entendimento racionalidade do universo exprimir-se-á tanto através das es-
não é, de resto, outra coisa senão esta potência do verdadeiro sências objectivas, as ideias adequadas, corno através das essên-
que produz essências objectivas segundo leis que regulam a sua cias formais, as coisas, ambas se correspondendo na medida em
{/ i;7
1-
actividade espontânea . Nisto reside a sua diferença relativamente que correspondem ambas ao processo expressivo da substância
à imaginação, que é associação passiva e fortuita de percepções, na diversidade dos seus atributos. As ideias adequadas estão,
reflexo do encontro casual dos corpos. Se urna ideia contém, pois, ligadas entre si pelas mesmas conexões necessárias que li-
portanto, uma essência objectiva, isto é, se não envolve contra- gam as coisas. É por essa razão que o entendimento «envolve a
dição, se ela é pensável, então ela é um produto do entendi- certeza, quer dizer, sabe que as coisas são formalmente corno
mento e, nessa medida, é intrinsecamente verdadeira. E não há nele estão contidas objectivamente» (TRE, § 108). A verdade é
necessidade de se tentar depois urna sua validação extrínseca, já critério de si mesma, repete Espinosa várias vezes.
que, «se a verdade não requer nenhum sinal, bas tando possuir Para o que vimos dizendo, é de somenos importância a enu-
as essências objectivas das coisas ou, se se prefere, as ideias, meração dos graus de conhecimento que Espinosa enuncia de
para suprimir toda a dúvida, segue-se que o método que pretende forma diferente de livro para livro (três no Curto Tratado:opi-
que se procure o sinal da verdade posteriormente à aquisição nião, crença verdadeira, conhecimento claro; quatro no Tratado
das ideias não é o verdadeiro» (TRE, § 36). Duvidar das ma- da Reformado Entendimento: por ouvir dizer, por experiência vaga,
temáticas, corno faz Descartes, até se demonstrar a veracidade por raciocínio e por intuição; novamente três na Ética:imagina-
de Deus, será, portanto, um absurdo, visto que toda a reali- ção, razão e saber intuitivo). Com mais ou menos variações, a
dade dos seres matemáticos se esgota na sua possibilidade intrín- classificação é clássica e tradicionaimente oscilante entre a for-
seca concebida segW1do o entendimento, que o mesmo é dizer, mulação platónica do livro VI da República (eikasia,pistis, dianoia e
na sua verdade. Da mesma forma, procurar a validação de urna noesis) e a aristotélica do De Anima (aistesis,doxa, epistemee naus).
ideia pela experiência também não faz sentido : «a forma do Qualquer destes esquemas, ainda que pressuponha sempre urna
pensamento verdadeiro deve residir nesse mesmo pensamento, ascensão progressiva, desde a simples suposição até à intuição
sem fazer apelo a outros. E não reconhece um objecto exterior exacta, é todavia atravessado por um corte que instaura a sepa-
ao pensamento corno causa; deve, sim, depender da potência e ração mais ou menos rígida entre, por um lado, conhecimento
da própria natureza do entendimento» (TRE, § 71). claro e, por outro, conhecimento confuso. O que é importante

j 36 37
notar, no que a Espinosa se refere, é que esses dois tipos de nosa limitar a certeza nas profecias, tanto da parte dos crentes
conhecimento não se distinguem entre si apenas pelo diferente como da parte dos próprios profetas, a uma simples «certeza
grau de verdade e de certeza subjectiva que os acompanha. Tudo •: moral», quer dizer, a uma certeza que, em última instância, não
isso são meras consequências daquilo que verdadeiramente os ,, está racionalmente fundada? Não serão os profetas homens que
separa e que é a sua diferente origem, o seu diferente modo de se caracterizam pela vivacidade de imaginação, e não precisará
produção, já que «as ideias claras e distintas que nós formamos o seu testemunho de um sinal para que neles acreditem? A solu-
parecem derivar unicamente da necessidade da nossa natureza ção desta passagem é decisiva para a compreensão de todo o
e <?-ependem apenas . e em absolut~ da nossa potência, enq{ianto . Tratado e não admira que a ela se tenham votado inúmeros co-

r,..
as ideias confusas se formam · muitas :':lezes independentemente 1,·.
.. mentários. Tentemos, resumidamente, ver os tipos de explica-
de nós» (TRE, § 108). Ou seja; aquelas formam-se pelà activi- ção que têm sido apresentados.
dade do entendimento, que por definição .se processa _segundo
um encadeado lógico e, por isso, elas são verdadeiras; · estas·; , a) Uma primeira explicação consiste em assinalar uma total
pelo contrário, resultam da passividade do entendimento, da ._,,ioontradição entre a Ética e o Tratado Teológico-Político,entre o
associação fortuita de percepções. O próprio entendimento, Deus sive natura e este Deus personalizado que deteria a ciência
repare-se, não é mais do que esta actividade que se manifesta e a comunicava fragmentariamente aos homens. Ter-se-ia, afinal,
f~t~ num encadeado de ideias verdadeiras, pelo que não há sequer Espinosa reconciliado com a tradição judaico-cristã, heterodoxa-
nele lugar para o erro. Fora dessa actividade, desse conatus, não ff·:mente embora? Impossível, já que toda a correspondência da
há nada que se possa identificar com uma faculdade à maneira i altura e mesmo posterior no-lo apresentam fiel à doutrina da
escolástica ou de Descartes. A alma humana é simplesmente um ;i,Ética. É isto que condena ao fracasso a tentativa feita por V. Bro-
complexo de ideias que correspondem às modificações do modo . chard (1926, pp. 332-370, cit. in Préposiet, 1967, p. 57) no sen-
finito que é o corpo de um homem, melhor dizendo, toda a :, tido de encontrar a hipotética síntese que traduziria o Deus espe-
alma é a ideia de um corpo. O Tratado Teológico-Político é, a este ,,l cffico de Espinosa: um «Jeová melhorado» que estaria presente
propósito, de uma coerência que escapou a alguns tradutores e nas duas principais obras do autor. Bem vistas as coisas, não só
intérpretes: jamais, ao longo das suas páginas, encontramos o não houve conversão, como inclusivamente os termos que aqui
termo anima, e mesmo spiritus, quando aparece, ·é em citação. nos aparecem a definir a profecia são o menos espinosanos e o
O que vemos é o termo mens, que tem na sua raiz indo-europeia mais ortodoxos possível.
o verbo men (pensar) e por isso traduz melhor, enquanto for-
ma verbal, a actividade do entendimento, ou então o termo b) Explicação bem mais subtil e fecunda é a que dá Leo
animus, quando se trata de referir a acção e a força da vontade. Strauss (1952, pp. 142-201). O autor de Perseguiçãoe Arte de Escre-
Mas eis que abrimos de novo o livro no seu início e a con- ver, detectando embora a contradição, fá-la depender de um
tradição, agora que esboçámos em linhas gerais a gnosiologia propósito deliberado de Espinosa que remeteria o Tratado Teoló-
de Espinosa, aparece ainda mais flagrante. Para quem estava à gico-Políticopara um género literário totalmente estranho ao que
espera de um manifesto avassalador da Bíblia e da religião, como encontramos na produção científica e filosófica moderna. Esta-
pretenderia qualquer libertino da época, para quem, além disso, mos, em resumo, na opinião de Strauss, perante um texto esoté-
tivesse visto no prefácio a crença em coisas extraordinárias ser rico onde as contradições constituem um elemento estratégico
liminarmente explicada pelo medo, nada mais decepcionante do com dois objectivos: dissimular aos olhos do não iniciado a rup-
que este enunciado inteiramente fiel à mais estrita ortodoxia: tura implícita com o sistema de crenças dominante; evidenciar,
«profecia ou revelação é o conhecimento certo de alguma coisa para aquele cuja condição de iniciado não pode deixar de notar
revelado por Deus aos homens». Não é só a emergência de um essas contradições, a ausência de verdade em que se estrutura
Deus estranho ao Deus sive natura o que nos espanta: é sobre- o dito sistema. Como se justifica uma tal estratégia?
tudo a classificação de «certo» que se atribui ao conhecimento Em primeiro lugar, por razões de circunstância, tendo em
por ele comunicado . Certo, a que título? Não virá depois Espi- conta o ambiente de suspeição que subsiste, mesmo na libérri-

38 39
il'Il ma Holanda a que se acolhem os perseguidos pelas várias orto- que intui a superioridade da vida segundo a razão e a sua incom-
doxias encostadas ao poder temporal, e bem assim as limitações patibilidade com uma revelação insuficiente e contraditória, colo-
em matéria de interpretação da Bíblia, que inibem até os cír- cando assim aqueles que a perfilham numa perigosa posição de
culos de cristãos reformadores, presumíveis destinatários da exterioridade em relação à ordem política. Neste caso, para esca-
obra, entre os quais talvez houvesse dúvidas quanto a preten- par à perseguição,o filósofo inventa uma nova arte de escrever,um
sas interpretações infalíveis mas não uma receptividade espon- sistema de simulações e dissimulações destinado a acobertar a
tânea para mensagem tão radical corno aquela que o Tratado verdade nas dobras da opinião. Arte de prudência, pois, que
veiculava. · · · · · recupera o modelo platónico do diálogo - a forma mais fre-
Em segundo lugar, por.que a forl!lação do jovem Baruch se quente do texto esotérico - para comunicar uma verdade outra
tinha processado no interior -da : comunidade judaica de -Ames- que não a que as opiniões expressas reivindicam. Mas arte tam-
terdão, tanto a nível familiar coino a nível de · escolé,i;Orà, no bém de lidar com -as antinomias, arte que tem no seu cerne a
pensamento judaico, corno no pensamento islâmico, a- rilosofia tensão entre a filosofia e a religião ou a política e que, por não
quer-se inextricavelmente ligada à lei e assume-se como comen- poder anular essa tensão, reproduz os discursos triviais sobre o
tário no interior de uma ordem que regula tanto os comporta- mundo e a cidade ao mesmo tempo que, subterraneamente, insi-
mentos, morais e sociais, como os pensamentos. A teocracia nua a sua desordem, a sua ausência de logos. Ler um texto eso-
molda o judaísmo e subsiste, muito para lá da destruição do térico traduz-se, pois, em identificar as contradições que o po-
Estado hebreu, entre as comunidades que se organizam na diás- voam como sinais a indicar sempre um outro sentido 4 •
pora, à semelhança do que acontece com os Estados islâmicos Contudo, a explicação de Strauss não se fica por razões de
1
'1
referidos no TTP como paradigma do autoritarismo 3 • Em tais ordem estratégica. Para ele, o esoterismo, mais do que estrata- ·
condições, todo o filósofo que se quer fiel é também um teó- gema, é consequência necessária da situação da verdade face à
·1
n;i_vf logo que tem por ofício tornar racionalmente pensável o dis- opinião. Vivendo na cidade, e quer se pretenda ou não legisla-
.
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curso da lei. Porém, o discurso da lei resiste, por definição, a
qualquer racionalidade. Se a lei se justificasse pela razão, tornar-se-
dor, o filósofo está sujeito à lei e esta apresenta-se-lhe como
algo inabarcável pela razão, pois o que a constitui como lei é
-ia transparente e, como tal, dispensável. A lei regula o mundo precisamente a violência, o corte que instaura, enquanto impe-
!1 das opiniões e a opinião, como diz Strauss, «é o elemento da rativo, na racionalidade do real. O lugar da filosofia encontra-
1
sociedade». Consequentemente, o filósofo sente-se dividido entre -se, então, deslocado do mundo das ideias para o mundo das
um projecto de vida segundo a lei e um projecto de vida se- opiniões; o diálogo impõe-se como ponto de encontro entre a
gundo a razão. Em última instância o dilema é insuperável, mas razão e o que lhe escapa, entre a verdade e as doxas, entre o
na prática suscitará dois tipos de solução: um, que leva o filó- filósofo e o seu público; a arte de escrever, mesmo quando não
sofo a «sair da caverna» e a voltar à cidade, projectando-se no se exprime formalmente no género dialógico, é sempre opera-
legislador por excelência - Moisés ou Maomé - e projectando
neste a actividade filosófica que o tenta, como se pode ver pela
imagem que Maimónides apresenta do fundador do Estado he-
4 Anteriormente a Strauss, já outros autores se tinham debruçado sobre
breu, em tudo decalcada do «rei-filósofo» da República; outro,
este processo da emergência das heterodoxias. Abraham Geiger, por exem-
plo, interpreta o Mngen We Tsinah, do célebre rabino Leão de Módena, como
uma tentativa de fazer passar uma opinião herética juntando-lhe a sua refuta-
3
Os problemas levantados por esta situação das comunidades judaicas ção em termos ortodoxos. No entanto, Carl Gebbart, editor de Espinosa e de
na Holanda, que chegam a lamentar o não existir inquisiçãoem matériade fé e Uriel da Costa, vê simplesmente aí um testemunho da situação existencial dos
se tornam, por isso, suspeitas de querer 11s11rpar jurisdição,como escreve Lim- marranos, em cuja «consciência o catolicismo e o judaísmo não estavam uni-
borch em 1662, foram a tal ponto sentidos pela municipalidade de Amester- dos mas manifestavam-se como susceptíveis de se unirem: neste combate in-
dão que esta se vê obrigada a encomendar a Hugo Grotius um projecto de terior, a consciência do marrano ficava dividida» (Introdução a Die Schriften
revisão do direito de asilo (cf. Aurélio, 1985, p. 31). Todo o processo de Uriel des Urielda Costa, 1922, pp. XIX-XXVI, parcialmente traduzida e reproduzida em
da Costa é sintomático a este respeito. Osier, 1980, pp. 135-141).

40 41
!
I;
1
ção de despistagem de uns e orientação de outros, mediante a atravessar o terreno que outros filósofos deixavam ao adversá-
calculada disposição do argumento e das personagens ou das rio, ao passo que na Ética poderia simular que lhe passava ao
simples opiniões contraditórias . lado, minando-lhe os fundamentos sem sequer o mencionar. Com
Estamos, portanto, em face de uma autêntica teoria do texto efeito, pelo menos até final da mencionada m parte, o sujeito da
filosófico, que o autor aplica, tanto na ·leitura de Espinosa como enunciação é na Ética um sujeito universal, ou seja, é o entendi-
na de Maquiavel (cf. Strauss, 1958), e que tem a virtude de evi- mento puro que se constitui reconstituindo a história da eterni-
denciar a estreita cumplicidade entre filosofia e política. Atra- dade da substância de que é atributo. Como produção do enten-
vés desta via otiginal, Leo Strauss é levado; ·no ensaio Hów to· dimento, o seu conteúdo é totalmente racional e verdadeiro e
. Treali_se.(1948(: .reproduzido in
Study Spinoza's Theologico-Poli.tical nela se revela o sentido de tudo . No entanto, dizer o sentido
Strauss, 1952, pp. 142-201), a sublinhar a necessidade de ler · O · de tudo é dizer também a insensatez das opiniões e estas, para-
Tratado à luz da metafísica espinosãna, nãó obstante ela -e~tai aí doxalmente, revelam-se com uma certa capacidade de determi-
velada e ter, portanto, de se submeter o texto ao ·mesino ·critério · nar o real no mundo da política. Porque há qualquer coisa de
de interpretação a que ele próprio submete a Escritura, ou seja, positivo na imaginação, como Espinosa repete constantemente 5,
tomá-lo como um texto veiculador de várias mensagens, adap- em particular nesta passagem que é da maior importância para
tado a vários públicos e susceptível de vários níveis de leitura. o que tentamos mostrar: «nada do que uma ideia falsa tem de
Basicamente, poderíamos identificar três: um, que corresponde positivo é suprimido pela presença do verdadeiro enquanto ver-
à ortodoxia, reproduz a opinião dominante sobre as Escrituras; dadeiro» (E, IV, prop. l, dem. e esc.). É necessário, pois, para
outro, que corresponderia à opinião dos círculos dissidentes, os levar a ontologia até às suas últimas consequências, explicitar
cristãos reformadores ou evangélicos, vê na Bíblia unicamente a esta positividade que é a potência criadora da imaginação. O que
..
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doutrina da caridade e da justiça; um terceiro, enfim, que cor-
responderia à verdadeira convicção de Espinosa, reduz a mensa-
acarreta, como é óbvio, consequências políticas, mas não aque-
las - convirá frisá-lo desde já - que habitualmente se lhe atri-
h gem bíblica a um produto da imaginação e à apresentação de buem. Referir a potência da imaginação não equivale a negá-la
u• um projecto que alguns comentadores, na esteira de Strauss, ou subsumi-la em racionalidade. Muito pelo contrário, e dado
pretendem que seria revolucionário e destinado a mobilizar esses que aquilo que a imaginação tem de positivo não é suprimido
cristãos que recusam submeter-se ao poder eclesiástico em ma- pela presença do verdadeiro, o projecto político de Espinosa está
téria religiosa mas que cingem a ética a uma exigência indivi- longe de se poder aproximar do ideal do filósofo-rei ou sequer
dual sem horizontes políticos (Negri, 1982, p. 194; Tosel, 1984, do ideal do povo-filósofo-rei como o reivindicará Rousseau; é,
pp. 94-99). Não sendo aqui o lugar para uma análise da arte de sim, e tão-só, a tentativa de garantir que essa potência da ima-
escreverassim delineada, limitar-nos-emos a expor algumas ques- ginação não esmague ou impeça a potência da razão de se ma-
tões que a sua aplicação ao TTP suscita. nifestar. E este objectivo, porque se destina à República e não a
Antes de mais, é de perguntar se este livro é realmente um
exemplo de esoterismo. Se Espinosa assim o quis, o seu intuito,
à primeira vista, foi completamente gorado, já que o livro pro-
5 Veja-se, por exemplo, o escólio da prop . 35 da Ética,u: «quando olhamos
vocou logo o maior escândalo e veio, como dissemos, a ser proi-
bido pouco depois. Além disso, e por muita inovação que o o Sol, imaginamos que ele está afastado de nós aproximadamente 200 pés;
este erro não consiste, aliás, no facto de, ao imaginarmos assim o Sol, ignorar-
Tratado contenha, o mais radical das suas formulações - recusa mos a sua verdadeira distância e a causa dessa imaginação. Porque, mais tarde,
da transcendência, do finalismo e da moralidade entendida como ainda que saibamos que o Sol está afastado de nós mais de seiscentas vezes o
obediência - estava já nas três primeiras partes da Ética, as quais diâmetro da Terra, não deixaremos de imaginar que ele está perto de nós .
circulavam, claramente expostas «à maneira dos geómetras», por Não imaginamos, com efeito, o Sol assim tão próximo por ignorarmos a sua
vários círculos da inteligência europeia muito antes de o TTP verdadeira distância, mas porque a afecção do nosso corpo envolve a essência
do Sol na medida apenas em que por ela é afectado .» Quer dizer, a imagina-
ser publicado. Dir-se-á, e com razão, que o problema, aqui, era ção não explica, mas envolve, à sua maneira, a essência do imaginado (cf. De-
mais melindroso, porquanto o autor tinha obrigatoriamente de leuze, 1968, p. 135).

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42 43
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iniciados, é claro e preciso, apresenta-se sem subterfúgios e com teólogo s, quer eles recorram à razão ou a condenem . Mas, de
conhecimento dos riscos que implica, tenha ou não sido apadri - um ponto de vista filosófico, perguntar-se -á sempre onde está o
nhado por Jean de Witt, como alguns historiadores pretendem. conhecimento verdadeiro. E, de facto, Espinosa, se por um lado
Supor outros níveis de leitura no Tratado, outras mensagens que condena aqueles para quem a sabedoria está na lei, isto é, na
estariam latentes, é levar a interpretação da filosofia política de vontade absoluta e incompreensível de Deus, conforme sugere
Espinosa para margens que parecem, pelo menos, pouco segu- Calvino, não condena menos, por outro lado, aqueles que ten-
ras, como a seu tempo tentarei mostrar. tam abrir espaço para a razão, como o já citado Maimónides ou
São Tomás de Aquino, subordinando a vontade de Deus à sua
c) Há, no entanto, uma outra expli_ca5ão p~ra incoerências inteligência e legitimando assim a compossibilidade e a concor-
como as que se detectam entre .algumas passagens .do Tratado.e . dância da filosofia e da teologia. É, de resto, para estes que a
a doutrina da Ética (cf. Zac, 1965, ·p. 27, Deleuze~ 1%8, p. ·47, sua crítica se mostra, paradoxalmente, mais implacável. E há
Corsi, 1978, p. 65). Basta que, em vez de se tornar o texto 1:omo- razões para isso, como passaremos a ver.
um entrelaçamento de mensagens cifradas, o consideremos apenas A doutrina expressa por Maimónides no Guia dos Perplexos
como conjunto de enunciados que remetem horizontalmente uns guia daqueles que hesitam entre uma e outra verdade, é prati-
para os outros e dessa interpenetração recolhem todo o sentido camente copiada da filosofia árabe, em particular da de A ver-
possível. Vejamos, a esta luz, a questão de onde partíramos. róis, que lhe dedicara já uma obra com o título sintomático de
Tínhamos dito que aquilo que constituía problema era a certeza Acordo da Religiãoe da Filosofia,Exame Críticoe Solução.Nesse livro,
imputada por Espinosa ao conhecimento profético. Ora, se repa- cuja edição se fazia acompanhar de um outro em que se deter-
rarmos no cap. vrr, onde se enuncia o método de interpretação minava «o método de ensinar os dogmas da religião à generali-
da Bíblia, concluiremos que o autor, ao definir assim a profecia, dade dos homens de maneira a fazer desaparecer as seitas e
está a reproduzir o sentido do texto bíblico e não a analisar o evitar conflitos entre razão e fé», A verróis enuncia assim, logo
seu conteúdo ou a sua verdade. A regra básica daquele método a princípio, o seu intuito: «examinar, do ponto de vista da especula-
consiste em não aceitar como ensinamento da Escritura nada ção religiosa,se o estudo da filosofia e das ciências lógicas é per-
que não possa extrair-se com total certeza da mesma Escritura. mi tido ou proibido pela lei religiosa ou se é por ela determi-
Trata-se, pois, de um trabalho unicamente de exegeta, que se nado, quer a título meritório, quer a título obrigatório» (cit. in
socorre dos instrumentos disponíveis - o conhecimento da língua Gauthier, 1909, p. 46, subi . nosso). O pano de fundo é, por-
e da história - com o objectivo de evidenciar o carácter não tanto, ainda a mesma concepção teocrática, segundo a qual Deus
filosófico do texto analisado. Conforme ele próprio sintetiza, dá ordens e as ordens exprimem-se por palavras, pelo que os
«mostrámos que a Escritura não ensina questões filosóficas, mas homens só o podem conhecer ouvindo os seus porta-vozes- os
apenas a piedade, e que tudo quanto ela contém está adaptado profetas - ou o seu eco explicitado na tradição. São as ordens
à compreensão e às opiniões preconcebidas do vulgo. Quem, de Deus que ins tauram a existência do bem e do mal, os quais
por conseguinte, a quiser adaptar à filosofia tem de atribuir fal- equivalem, por conseguinte, a acções permitidas ou proibidas e
samente aos profetas muitas coisas que eles nem por sonhos não a entidades ontológicas, a ideais que a razão pudesse de-
pensaram e de interpretar mal o seu pensamento. Quem, pelo duzir. Porque esta, se foi dada ao homem, é simplesmente para
contrário, faz da razão e da filosofia a serva da teologia tem de ele descortinar o que lhe é útil ou prejudicial, o que lhe traz
admitir como coisas divinas preconceitos do vulgo de tempos prazer ou desprazer no plano da existência material.
antigos, deixando que estes o ceguem e lhe inundem a mente. Acontece que a revelação cessou com Maomé e está limi-
Assim, um com a razão, o outro sem ela, hão-de ensandecer os tada ao Alcorão, ao passo que as acções humanas possíveis são
dois.» (Infra, p. 315.) ilimitadas. É precisamente nessa assimetria entre o código e os
Extremados, porém, que estão os campos, o problema sub- actos a julgar que reside todo o campo de actuação do filósofo-
siste. De um ponto de vista político, não é, evidentemente, des- -legislador: deduzir, por .um raciocínio analógico, cuja premissa
"" maior será uma ordem expressa no Alcorão, a qualidade moral
tituído de importância sublinhar o infundado das pretensões dos •.-..

44 45
de actos que não vêm ali mencionados . Por isso é que o trat ado zão, sabe que é lou cu ra tenta r expor a lei ao comum do s ho-
de Averróis se apresenta com o objectivo de demonstrar que a mens com outro s argumento s que não sejam os oratórios ou
actividade especulativa deriva de uma ordem, está na lei e, uma retóricos . Em conclus ão, para garantir a paz no Estado, há que
vez que a lei é verdadeira, quem filosofar pelo caminho correc- actuar em duas frentes : primeiro, conceder a liberdade de pen -
to não pode chegar a conclusões que contradigam a religião. samento só aos filósofos, visto não haver per igo de eles chega -
Dir-se-á que a lei, a uma primeira leitura, se apresenta frequen- rem a conclusões contrárias à lei quando utilizam, de facto, ver-
temente desajustada à razão. Conflito aparente, responde Aver- dadeiras demonstrações; segundo, proibir que se use a filosofia
róis. Sempre que ele surge, impõe-se o trabalho da interpretà- na catequização, uma vez que é esse o processo que vulgar-
ção, que não é mais do que .a procura da unidade da ideia por mente usam os teólogos para, voluntária ou involuntariamente,
sob a diversidade dos símhQÍo·s, É que o Verbo de Deus não ' amotinarem as massas .
disse as coisas tal como elas são', -além do mais porque -~ maio- Toda esta problemática coincide, no essencial, com a do Tra-
!J.
1
ria dos homens seria incapaz de entender o seu verdadeiro sen- tado Teológico-Político. A situação política na Holanda do tempo
tido, que só é dado aos «homens de demonstração ». Aos ou- de Espinosa não é, como se sabe, a teocracia, mas tão-pouco o
tros, Deus fez o favor de lhes dar figuras e símbolos. era, curiosamente, aquela em que Averróis escreve o seu livro .
Subjacente a esta original teoria do acordo entre teologia e Ambos se confessam, aliás, gratos para com os poderes razoá-
filosofia está ainda uma classificação dos argumentos que re- veis a que estão sujeitos, mas ambos revelam ter .consciência do
l:
l'I monta ao Organon aristotélico e que recebe o principal impulso carácter excepcional e precário de uma tal situação . De quálquer
da estrita ligação, visível em quase todo o pensamento árabe, modo, é importante ter em conta que a proximidade entre os
111
entre a filosofia e a jurisprudência. Em primeiro lugar, há os dois autores não vai muito além. Pode mesmo dizer-se que a ·
i) argumentos demonstrativos, que partem dos primeiros princí- solução achada por Averróis vai ser o primeiro alvo no livro de
~j pios da razão para chegar a uma conclusão que participe da Espinosa, ainda que por interposta pessoa. E essa pessoa, como
1 certeza das premissas de onde foi extraída : são o instrumento já vimos, é Maimónides, que assenta toda a sua doutrina da
·:f li1
da filosofia e da ciência. Há, depois, os argumentos dialécticos, profecia e da interpretação da Bíblia sobre a concepção aver-
que partem de premissas aceites por todos ou pela maior parte roísta . É que esta doutrina, para legitimar a dedução por via
T• 1
e que produzem uma demonstração aproximada, destinando-se, racional da correcta interpretação dos textos da Bíblia ou do
pelo probabilismo dos seus princípios, unicamente à discussão e Corão, tinha implicitamente de promover o profeta a um esta-
à procura da certeza. Há, finalmente, os argumentos oratórios, tuto, sublimado embora, de filósofo, identificação que Espinosa
que partem de premissas adaptadas à compreensão, às paixões rejeita por completo e considera mesmo a principal raiz de to-
e, em suma, às circunstâncias do auditório. Os espíritos filosófi- dos os males que aquela se destinava a resolver. Trata-se, não
cos ou científicos só se deixam convencer por argumentos de- apenas de uma oposição no domínio dos projectos políticos,
monstrativos; o vulgo, por seu turno, só se convence por argu- como, sobretudo, de uma oposição no domínio da teoria do
mentos oratórios. Mas tanto uns como outros, comenta A verróis, conhecimento . Maimónides, com efeito, assume integralmente a
são espíritos saudáveis e compatíveis numa sociedade bem geri- tese averroísta da passividade do entendimento humano, por
da . Só os teólogos, que pretendem alimentar conflitos e sedi- ele rotulado de pura receptividade individualizada sob a acção
ções através de argumentos dialécticos, é que são espíritos doen- do intelecto agente, único, universal e separado, à semelhança do
tios . O seu mal consiste em expor como se fossem ambíguas que acontece com o aparecimento dos corpos por efeito da luz
certas passagens da lei que para o vulgo são absolutamente cla- do sol. De acordo com a mesma tese, o comum dos homens
ras, impondo-lhe como versão fidedigna interpretações que, na interpreta a profecia como tradução do espírito divino, o qual
melhor das hipóteses, são meramente prováveis. Por um lado, sopra onde quer, como diz o Evangelho, indiferente às caracte -
eles não possuem a capacidade de demonstrar ; por outro, não rísticas de origem dos mensageiros escolhidos . Maimónides,
deixam os argumentos oratórios produzir o seu efeito persua- porém, na sequência da tradição árabe, extrai daí uma conclusão
sivo junto do público . Quem, pelo contrário, está dentro da ra- exactamente oposta: porque tal como a luz ilumina os corpos

46 47
], mas não altera a natureza destes, assim o intelecto agente produz de conflitos ao pretender chamar a si a última palavra sobre
todas as questões. Porém, a perspectiva gnos iológica e ontoló -
I' conhecimentos que estão na proporção das qualidades naturais
dos intelectos humanos: «se esta emanação do intelecto (agente) se
projecta apenas na faculdade racional [... ], temos a classe dos sá-
gica em que Espinosa se coloca ditará dive rgências sem conta
relativamente a Maimónides. Desde logo, porque nada há de
bios, que se dedicam à especulação. Mas se tal emanação se .pi:o- mais estranho à sua concepção do que a ideia de um intelecto
1, passivo. Depois, e na sequência disto, porque a profecia não é
jecta ao mesmo tempo nas duas faculdades, ou seja, na racional e
na imaginativa [ ... ], e se a imaginativa foi originariamente criada um conhecimento adequado, porquanto a verdade é critério de
em toda a sua per-feição, temos a classe dos ·profetas. Se, enfim; a si mesma, e os profetas, como a Bíblia refere frequentemente,
emanação se projecta soment~ na faculdade imaginativa e a fa- precisavam de um sinal para se certificarem da revelação . Em
!(I culdade racional está em de~vantagém, seja pela sua constitui- ' último lugar, porque as próprias Escrituras dizem que os profe-
ção originária, seja pela posterior falta d_e· exercício, temos . a êlasse tas não eram filósofos nem possuíam um conhecimento exacto
dos homens de Estado, dos que fazem as leis, dos àdivinhos, de Deus, já que lhe atribuíam, inclusivamente Moisés, qualida-
dos áugures e daqueles que têm sonhos verdadeiros» (Maimó- des humanas e até divergentes de situação para situação. Con-
111
nides, Guide des Égarés, trad. de Munk, Paris, 1856-1866, 3 vols., cluindo, «a profecia nunca fez os profetas mais sábios, antes os
111 deixou com as suas opiniões preconcebidas, razão pela qual não
cit. in Gauthier, 1909, p. 135).
1:.:i
Sobre este fundo predominantemente árabe, Maimónides somos obrigados a dar-lhes crédito em matérias puramen te es-
limitar-se-á a frisar, por um lado, que a profecia é sempre um peculativas» (infra, p. 155).
dom de Deus, pelo que as qualidades naturais e o seu exercício
'I' não bastam para haver profeta; por outro lado, que a profecia é
sempre repetição, glosa da lei que jamais inova no essencial. 2
Quanto ao resto, manterá o papel decisivo da imaginação no Imaginar
1
l profeta, juntando-lhe no entanto a necessidade de uma razão
J t
disciplinada. Isto porque a revelação, tal como o sonho, se dá À primeira vista, dir-se-ia que esta crítica de Espinosa a Mai-
'.:·ri de preferência durante o sono, quando os sentidos estão em mónides vinha destinada apenas a repor o texto bíblico nos
repouso; ora, como a experiência mostra, são as preocupações devidos limites. Os seus efeitos, porém, sobrepõem-se a toda e
da vigília o que se repercute no sonho; se a revelação versa qualquer vontade de moderação que eventualmente se de tectas-
sobre a verdade, a essência de Deus e das coisas, é natural que se no livro. Na verdade, retirar ao profeta o carácter de deten-
ela só se possa dar em quem ande preocupado em disciplinar a tor de uma certeza inamovível e reduzi-lo a simples homem de
mente nessas matérias e seja dotado de efectiva capacidade de imaginação e muita virtude acarreta consequências: primeiro,
demonstração. Quando assim acontece, então a imaginação pode insere o discurso profético na categoria dos discursos que Mai-
chegar a representar as verdades como se elas lhe adviessem mónides considera feitos de argumentos oratórios ou poéticos,
pelos sentidos, identificando-se assim o intelecto passivo e indi- quer dizer, toma-o como fruto das circuns tâncias; segundo, obri-
vidual com o intelecto agente universal: é a ciência intuitiva, a ga a reelaborar a teoria da revelação à luz da teoria das ideias
ciência que define a profecia e eleva o profeta à categoria de inadequadas do primeiro género de conhecimento, o qual só
filósofo acabado, como aconteceu com Moisés, que protagoniza nos dá das coisas o seu efeito sobre o nosso próprio corpo;
em plenitude, segundo Maimónides, este modelo, porquanto foi terceiro, reabre criticamente a história de Israel - e é esse o
o único que «viu» as essências directamente, sem alegorias e tema do cap. m do ITP -, já porque lhe retira a exclusividade
durante a vigília. do dom profético, já porque reduz a sua vocação de povo eleito
Uma parte não descurável desta caracterização, como se pode a um dado momento histórico em que as circunstâncias mate-
ver, é recuperada por Espinosa, que possui o Guia entre os li- riais propiciaram a fundação e a prosperidade do Estado. Elei-
vros da sua biblioteca particular. Também para ele, a política tos, de facto, são todos os povos a quem e enquanto acontecem
decorre num plano diferente do da filosofia e a teologia é fonte tais benesses.
3

48 49
11•1

ir
!1
A inserção de tais conclusões neste preciso local do Tratado
não é de somenos importância. A nosso ver, ela é fundamental,
não apresenta Deus como cau sa de si próp rio nem capta ne-
nhum dos seus atributos essenciais: é apenas um registo de im-
l't podendo mesmo estranhar-se que alguns comentadores não ve- pressões, índice de contactos dos homens com os seus iguais e
jam neste cap. rn senão uma hipotética repetição, quiçá enxerta- com as circunstâncias de lugar e tempo . Pior ainda, porque a
da a despropósito, do texto redigido pelo autor em sua própria imagináção ignora sempre a sua verdadeira causa, a Bíblia
defesa no momento em que é expulso da comunidade judaica, a apresenta-se corno teoria da natureza e verdadeira ciência. Esta
27 de Julho de 1656 6 • Com efeito, se virmos, como habitual- «ciência» da Bíblia, porém, na medida em que toma os efeitos
mente se .faz, nos seis primeiros capítulos-· do Tratado apenas a
,por causas, confunde o seu objecto com um sujeito autónomo,
redefinição de conceitos I?,eCE:?Ssária:
para a -~álise da Escritura 'julga que fala de Deus e fala tão-só dos homens, projecta, en-
que a seguir se iniciará, naçla é mais estranho .do que .esta sú-
fim, numa ordem transcendente aquilo que é apenas sintoma da
bita e extemporânea irrupção da polítita. a propósito çla nação
hebraica. Se, pelo contrário, atentarmos na íntima relàção que
;sua própria situação real. Todas as controvérs ias que se geram
;,, ~u respeito não passam de uma consequência necessária de
1111
1
existe, como temos vindo a frisar, entre os vários graus de co-
nhecimento e as disciplinas que são abordadas no TTP - filo-
> entender por linguagem de ciência o que nela são apenas
'l~eróglifos», sinais intrinsecamente equívocos que se desdobram
•·1 sofia, teologia e política-, o referido capítulo aparecer-nos-á
1
1.1. ~re o ser e o não-ser e nunca exprimem a unicidade àa subs-
1
como conclusão necessária dos dois anteriores. O profeta, sus-
t í 1jlJ,; tenta Espinosa, não é um homem de demonstração, é um ho- ~cia nem o saber sem sujeito da totalidade. Daí o assimila-
'I mem de imaginação. Ora, a imaginação é o domínio da simples ~- .--seos sinais em que se consolida a imaginação ao discurso
1h lei; daí também a pressuposição de um fundo misterioso que
11 afecção, das paixões, dos efeitos ocasionais, que não envolvem
1
o conhecimento exacto da sua causa e, por isso, são alvo de estaria sempre subjacente, visto ser impossível fixar o seu
11
1,
urna fé, não de uma certeza racional. A inflexão que Espinosa ti.do por natureza flutuante; daí, em suma, o mecanismo ine-
,,{t...
S:
1Jtente às controvérsias teológicas entre as diversas seitas, todas
~ic: '11 suscita na teoria formulada por A verróis e Maimónides reside,
''. ,: 1
em última instância, em deslocar a cumplicidade que aqueles ,iJ:làs reclamando o exclusivo da verdade e apodando as outras
'vi, d fdesuperstição, sem se darem conta de que é exactamente essa
/.!,·. pretendiam haver entre teologia e razão para uma cumplicidade
1 entre teologia e política. E não se trata apenas de urna cumplici- ;~ação de um sentido único no interior da equivocidade que
r
1
dade empírica e historicamente detectável; trata-se, sobretudo, jfls torna a todas equivalentes e as remete para o mesmo espaço
de urna cumplicidade de natureza, já que ambas são forjadas a ~ superstição.
partir de ideias inadequadas, o que torna ainda mais difícil o Ú• Espinosa pretende identificar este espaço através da identifi-
estabelecimento de um programa político que determine a sua tJ~ação do texto aonde todas as seitas vão beber. Identificando-o,
separação e coloque o poder num ponto geometricamente equi- caracteriza-o como fruto das circunstâncias, vestígio da interac-
distante de todos os saberes, adequados ou inadequados. ção dos homens entre si e com o meio. Para qualquer livre-
Mas o cap. III do Tratado, além da conclusão da sua parte fpensador ou libertino erudito, a única conclusão a extrair daqui
gnosiológica, é também a passagem para a revisão da metafísica seria rotular os profetas e os teólogos de impostores apostados
que se inaugura no cap. rv. Está assente que a imaginação, co- . . em enganar as massas. Foi assim que muitos interpretaram Espi-
nhecimento inadequado, não é ignorância absoluta nem corres- :,; ·nosa, sobretudo quando o pretenderam combater, amalgamando-
ponde a um puro nada: é simplesmente urna ideia que não pode '"° nessa vaga, mais social que filosófica, que se reflecte na litera-
exprimir adequadamente a sua causa e ignora essa mesma insu- tura sobre os «três impostores» (cf. Aurélio, 1985, pp. 29-30).
ficiência. A Bíblia, por exemplo, que é discurso da imaginação, Mas Espinosa não cai numa denúncia pura e simples dos produ-
tos da imaginação. O problema é, de facto, um pouco mais com-
plexo do que o julgará o iluminismo e seus avatares. Uma vez
6
Sobre os termos desta expulsão, vide Méchoulan, 1980, pp . 127-134, e mais, se atendermos à teoria do conhecimento do primeiro gé-
bem assim o já clássico mas controverso livro de Revah (1959). nero, veremos que a imaginação envolve sempre a causa dos

50 -· 51
li\,111 efeitos que se dá em representação, ainda que seja inadequada- ções que se produzem no atributo pensamento ; por seu turno, o
mente, ou seja, sem perceber a necessidade do nexo causal; além , ·entendimento de cada indivíduo é um elemento constitutivo
1.
disso , o acaso em que decorre o jogo de influências entre os desse modo que é o entendimento infinito e que não significa
f!
1
corpos origina, por vezes, o encontro entre dois ou mais que
convêm entre si, dando lugar na imaginação à representação
outra coisa senão a totalidade das mentes finitas, ou melhor, a
totalidade das ideias adequadas. Assim sendo, não existe ne-
:11 dessa conveniência. Por último, quando na imaginação se repre- nhum projecto de constituição da natureza ou de Deus, por-
1.,
'r. I' senta o efeito de um corpo sobre . outro e há uma relação .de quanto o próprio lugar onde vulgarmente se supõe um tal pro-
1i: conveniência ·entre eles os dois·, a represehtação, ainda que não , jecto está, ele mesmo, em constituição, é uma consequência da
L:[1
seja uma ideia adequada porque não_traduz . à natureza intrínse- i' pura actividade da substância e não um atributo pelo qual esta
11
ca e necessária dessa relação, propicia, no entanto, a fot:maç·ão se possa definir. Deus não é inteligência ou vontade a decidir
1\
I
l'I da respectiva noçãocomum, isto e, torna : po~sível a passag~m _ao ;segundo um plano que seria acessível ao homem por qualquer
'11' segundo género de conhecimento: · · · · · -- - j género de conhecimento. Ao recusar a transcendência de um
11· '

'1p.1'1 De acordo com a gnosiologia aqui implicada, poderíamos ;princípio das coisas, seja qual for a versão em que este se apre-
1 '
dizer que a profecia está para a filosofia como a ideia do vulgo {sente, Espinosa está a recusar também todo e qualquer finalismo
,il'~ sobre a distância a que se encontra o Sol está para a astrono- , em função do qual a natureza se modifique e organize.
111
mia. E sendo falso que o Sol esteja a 200 pés, é, todavia, verda- Nesta perspectiva, a certeza que vimos atribuída ao conhe-
deiro que nós o vemos a essa distância. Toda a vida prática, cimento profético no início do ITP é susceptível de uma inter-
!!1:
afinal, está comandada por este segundo tipo de verdades. Será, pretação que talvez a ponha a salvo de alegadas contradições.
i,11 portanto, um erro supor que ela decorre em função de uma 'Evidentemente, Espinosa quer, antes de tudo, caracterizar a re-
i1l1 racionalidade que reproduziria o entendimento divino ou de uma •;~elação segundo os próprios termos da Escritura, para os quais
ordem de valores abstractos. Querendo libertar da contingência 'busca o sentido sem curar da sua verdade. Mas isto não oferece
,~
,,11
;1 a política, insuflando-lhe um plano racional, uma tal operação uma explicação cabal, visto que, no mesmo capítulo, poucos pará -
'I
cai precisamente naquilo em que reside a insuficiência da imagi- . grafos adiante, o autor limita a certeza do conhecimento profético
nação, ou seja, nos vícios do finalismo. O homem pode, é certo, a uma «certeza moral ». Contradição entre o primeiro enunciado
Ili chegar ainda a atingir um conhecimento de outro género, onde {e os seguintes? Julgamos não ter de se ir tão longe. O que a
a relação entre a essência do todo e as essências singulares se ' este propósito vem na Bíblia é que nem os profetas nem o povo
lhe oferece, já não através de noçõescomuns, como aquelas com •if_ possuíam uma certeza intelectual da profecia, visto exigirem si-
que opera o raciocínio científico, que são sempre mais ou menos 1 nais para poderem acreditar numa mensagem que não se lhes
gerais visto traduzirem aquilo em que dois ou mais corpos con- t· apresentava como evidente por si mesma . Contudo, da parte
vêm, mas através de uma intuição em que se capta a própria 1ido autor da revelação, esta é obviamente um conhecimento certo,
essência desta relação de conveniência como se de uma coisa , · uma vez que, se à ordem das coisas corresponde a ordem das
singular se tratasse. Porém, este grau de conhecimento repre- ideias, terá de existir uma ideia adequada das matérias que cons-
senta unicamente um acréscimo de compreensão mediante o qual ,tam da profecia, ideia que, por definição, integra o entendimento
o homem se torna «livre», isto é, se conhece a si próprio en- :infinito. O que acontece é que os chamados intérpretes e men-
quanto modo da natureza divina, não se tratando, portanto, de sageiros da palavra de Deus a não reproduzem adequadamente
urna qualquer passagem a um plano da realidade em que os e, por conseguinte, ela não se faz acompanhar aí de uma verda-
anteriores fossem negados. Com efeito, sejam do segundo ou deira certeza. Captando a totalidade no plano passional, no plano
do terceiro género, as ideias adequadas revelam Deus como das situações fortuitas, os profetas projectam a potência da natu-
substância infinita que infinitamente se constitui, ou seja, se reza para fora de si mesma e tomam-na por uma vontade abso-
modifica segundo a infinidade dos seus atributos. O próprio luta e um entendimento infinito, o mesmo é dizer como um
entendimento divino não é mais do que urna dessas modifica- legislador omnisciente que, se quiser, é capaz de obstar à possi-

52 53
bilid ade de acasos ruino sos. Discurso equi vocado , a palav r a do
prof eta não re vela Deus, revela -se ante s a si mesma como atr a-
vessada pelo medo : a Bíblia é o registo deste trabalho da ima -
ginação a braços com a contrariedade , da virtude, como diria
Maquiavel, às voltas com a fortuna .

II
O MUNDO COMO NATUREZA E INSTITUIÇÃO

1
O ser e os seres

Contrariamente ao que supõem o povo e os profetas, Deus


·~ não dá ordens, Deus é a ordem, o ser necessário da totalidade
!j , constituída por uma infinidade de atributos de que o homem só
i' pode conhecer aqueles que nele próprio se exprimem: o pensa -
mer:i.toe a extensão. Já vimos como esta ordem se hipostasia em
•i lei no discurso da imaginação . Trata-se agora de a reconduzir à
\i sua verdade ontológica, reescrevendo assim no plano da razão
o que a profecia apresenta no plano da opinião . É este o objec-
i; tivo dos caps. IV, v e VI do Tratado Teológico-Político.Poderá, tal-
1
: :vez, observar-se que não existe qualquer ruptura no texto, cuja
continuidade é garantida pelo respeito do princípio da interpre-
i. lação da Escritura pela Escritura, muito embora no último des-
;;'jtes capítulos o próprio autor confesse que considera preferível
,,. recorrer a argumentos baseados na «luz natural», visto o pro-
blema da natureza e da pretensa violação das suas leis pelo
milagre ser puramente filosófico . É, no entanto , evidente que o
· que passou a estar aqui em causa, continuando em parte a ser
ainda o significado do texto bíblico, é também já a busca de um
1 enquadramento em que se lhe garanta um mínimo de coerência,
por forma a que os vários enunciados se não anulem entre si.
Por isso mesmo, e sem que o Tratado passe bruscamente a expor
segundo a ordem da razão, esta vê-se obrigatoriamente impli-
cada. O que nem sequer repugna à teoria do conhecimento atrás
aludida, já que, como vimos, há situações em que a imaginação
torna possível a formação de «noções comuns » e a passagem ao
conhecimento do segundo género .

.,
54 55
J!1'1 A questão, a partir daqui, é saber o que há de verdade por suas eventuais propriedades a esta se substituam (TRE, § 95).
detrás desta palavra repleta de ambiguidades que é a lei, se Não se deve, por exemplo, definir o círculo como uma figura
rijli:: queremos compreender o significado que ela assume em cada em que todas as rectas tiradas do centro para a circunferência
w1,
1
um dos enunciados onde surge, explícita ou implicitamente, nas são iguais, mas sim como «a figura que descreve uma linha com
.,,1
;!1
Escrituras . E a primeira ambiguidade da lei reside na sua apli- uma extremidade fixa e a outra móvel, definição que compreen -
:1
q· cação por analogia às coisas naturais. Porque, em termos jurídi- de claramente a causa próxima» (TRE, § 96). Dito de outro modo,
!\: cos, uma lei restringe por definição o campo de actuação da- toda a definição deverá evidenciar a génese do definido, expli-
1
queles a quem abrange e que, nessa medida, têm a possibilid?de citando assim o seu processo de constituição, a sua essência, e
ili de actuar fora do campo assim delimitado; pelo contrário, aqui- não apenas os seus aspectos superficiais. Simples questão de mé-
pi:; lo a que chamamos leis da .naturê'.?a esgota todo o campo de todo, dir-se-á. De maneira alguma. Se partimos do princípio de
que tudo é inteligível, então a ordem do ser e a ordem do
'lii ·possíveis ocorrências, apresentand6-se como uma necéssidade
conhecer correspondem-se em absoluto e uma coisa não é mais
irrevogável. Numa filosofia que postule a transcend.ênêia . de
\Í,1, Deus, a analogia será relativa, porquanto a ·criação se àpresênta do que a tradução ontológica da sua definição. No caso do cír-
1
sempre como um acto de vontade do criador, ou seja, como um culo, isto implica que o tenhamos de entender sob dois aspectos
1t,1
i
de entre a infinidade de mundos possíveis à luz da sua inteli- ' complementares: o movimento da linha e a figura que daí re-
ili1,
gência e da sua omnipotência. Numa tal concepção, a natureza sulta. Abstractamente, nós poderíamos distinguir uma e outra
i!ll coisa, mas na realidade elas são ambas o mesmo, visto a figura
:11,,
1 procede e é assim porque Deus quer, e a possibilidade do mila-
1!11'1 gre está, desde sempre, em aberto; pela mesma razão, os funda- não ser mais do que a descrição do movimento nem poder con-
Ji ~I
1 mentos da ciência física repousam tanto na inteligência divina, ceber-se sem ele. Universalizando o exemp lo, uma coisa é si 7
'.ll,,1 que torna impossível a produção do contraditório, como na divi- multaneamente a sua produção e a estrutura que esta assume.
•• Toda a natureza tem de considerar-se em simultâneo como in
1111 ~ na perfeição, que nos impede de julgar que o criador nos engane
quando conhecemos clara e distintamente a sua obra. É este, fieri e como factum, estruturação e estrutura, naturante e natu-
11:1 como se sabe, o raciocínio de Descartes nas Meditações. Para Es- rada, para falar como Espinosa. Porque, tal como o círculo, a
·111 ~ pinosa, porém, definir Deus pela sua perfeição, ou pela sua in- linha é também a figura assumida pelo movimento de um ponto
tt. ,11~ e, se passarmos às três dimensões, a esfera é a figura do movi-
·,1 teligência e vontade, é não dizer nada, porque é ficar-se pela
~ teologia e a teologia está sempre atravessada pela imaginação, mento de rotação de um semicírculo em torno do seu eixo.
1

~ pois se limita a atribuir em grau eminente ao criador tudo quanto Movimento e repouso constituem assim os dois modos imedia-
de positivo julga haver nas criaturas, ou a poupá-lo a tudo o tos da extensão. Mas como definir a própria extensão? Aqui,
que de negativo nestas observa. Quer pela via da teologia posi- passamos a um outro nível, porquanto a noção de extensão se
tiva, quer pela via da teologia negativa, não saímos de um pro- compreende por si mesma e o seu conceito exclui uma causali-
cedimento analógico, em definitivo escorado no antropomorfismo. dade exterior, ou melhor, ela é, enquanto atributo de Deus, causa
Voltemos, pois, um pouco atrás. Para definir uma coisa 7, há de si mesma: «uma vez dada a sua definição, não há mais lugar
que explicitar a sua essência íntima, evitando que algumas das para perguntarmos se ela existe» (TRE, § 97). Na medida em
que é causa de si, a extensão consiste apenas nesta actividade

7
Neste parágrafo e nos seguintes, onde se trata de apresentar um esbo-
ço da metafísica de Espinosa, seguimos de perto a ordem de exposição adop-
tada no primeiro capítulo da obra de Matheron (1969, pp. 9-24}, muito em- e mais concretamente sobre a sua modulação no interior da língua hebraica, o
bora não nos pareça adequada a versão que o autor apresenta da actividade ensaio de Marilena de Sousa Chaui (1983, pp . 10-98) traz algumas sugestões
da substância e dos modos, em particular a assimilação que faz do conatus a inovadoras. Por ser incomportável neste texto, não referimos aqui as dificul-
uma espécie de projecto orientador dessa actividade . Uma análise mais desen- dades inerentes ao sistema metafísico de Espinosa, a que aludimos noutro local
volvida do assunto poderá encontrar-se em Guéroult (1 e 11).Sobre as possí- (Aurélio, 1983) e que o mais recente livro de Alquié (1981) explora exaustiva e
veis raízes judaicas da concepção espinosista da substância (Deus sive natura), criticamente .

56 57

!
·.r que se produz ao produzir as figuras que assume e não em
qualquer receptáculo espacial aonde se alojassem os corpos . Por
que se modifica o atributo pensamento correspondem essências
objectivas em todos os outros atributos. Se é sempre a mesma
isso mesmo, entre a extensão e os seus modos, os corpos parti - substância a actuar de uma infinidade de maneiras, então o que
culares, não há qualquer desnível: o efeito não emana da causa, se passa num atributo passa-se em qualquer dos outros. De resto,
pois a causa é imanente aos efeitos que produz . aquilo que constitui cada atributo não é mais do que essa mes-
A natureza, porém, não se esgota na extensão, como quer o ma infinidade de essências que ele envolve, necessária e eterna-
1 j'.
materialismo. A natureza é pura actividade a desenrolar-se se- mente, enquanto atributo da substância infinita. Dir-se-á que as
gundo uma ·infinidade de processos e a ·sua ·essência residé pre..: envolve indistintamente, o que é verdade embora só até certo
cisamente nestes processos s~gun_do os _quais e.l~ se estrutura ou ponto. Porque se na realidade elas não existem separadas umas
se determina. Aquilo a que Espinosa · chama «natureza naturant-e» das outras, o fasto é que tem de haver entre elas uma distin-
não é mais do que essa actividade, ou s·ubstantia actuosq, :êuja ção, sob pena de não poderem ser individualmente pensadas,
definição encerra unicamente a infinita série ·dos séus registos coisa que, como já vimos, e por definição, não acontece . Ora, a
ou atributos. Por sua vez, as estruturas que tal actividade assu- única maneira de distinguir as essências é do ponto de vista
me em cada um dos atributos são a mesma natureza enquanto formal, não do ponto de vista numérico. Quer dizer, as essên-
«natureza naturada», ou seja, os modos. Ora, se a substância é cias de modo constituem os atributos enquanto graus da potên-
eterna e infinita, se não podemos pensar que a actividade cesse cia da substância que em todos eles se exprime e definem-se,
ou se autolimite, então as suas modificações são também eter- por isso, como partes intensivas e não como partes extensivas.
l
nas e infinitas, visto que na sua definição entra a causa que lhes A interpretação de Deleuze é, sob este aspecto, clara e coerente :
., é imanente, a qual, como dissemos, só pode pensar-se como eter-
na e infinita. E é assim, tanto para o entendimento divino ou
«cada qualidade substancial (atributo) tem uma quantidade
modal-intensiva, em si mesma infinita, que se divide actualmente
ideia de Deus, modificação imediata da substância sob o atribu- numa infinidade de modos intrínsecos» (Deleuze, 1968, p. 81).
to pensamento, como para o movimento e repouso, em que se Só assim se podem pensar as essências de modo como realmen-
estrutura imediatamente a actividade sob o atributo extensão, te distintas, ainda que não actualmente separadas, e só assim
como, além disso, para a Jacies totius universi, o sistema de leis elas possuem uma realidade que não é meramente lógica, um
que regulam a estruturação mediata dos modos no atributo ex- estatuto que não é o de simples possíveis com tendência para a
tensão e certamente também no atributo pensamento, embora existência . O «mundo dos possíveis», se é que ainda o podere-
Espinosa não lhe faça alusão expressa. mos designar assim em Espinosa, é um mundo actual e essen-
Todavia, se a actividade substancial é sempre concebida na cialmente necessário.
eternidade e na infinitude, como pensar a diversidade dos se- Bem diferente do estatuto das essências de modo é o dos
res, dos indivíduos cuja existência é afectada pela duração? Como modos que lhes correspondem. Entre um e outro não há, repare-
representar, enfim, a particularidade no seio da totalidade? Por -se, qualquer continuidade, pois a essência nunca é razão ou
um lado, a existência em si mesma, enquanto pura actividade, causa da existência. A causa de um modo é sempre outro modo
não conhece limites; por outro lado, as essências singulares, na já dado no mesmo atributo. Não é o possível que se realiza,
medida em que são inteligíveis, são intrinsecamente possíveis, por força de um qualquer direito ou exigência intrínseca, quan-
mas podem não ter correspondência em qualquer coisa actual- do encontra uma oportunidade ou um contexto propício; são as
mente existente. Como compreender então os modos finitos? An- coisas que, ao conjugarem-se numa entidade de que passam a
tes de mais, convirá notar a distinção que Espinosa faz entre constituir as partes, protagonizam como extensivo um grau de
modo e essência de modo. Com efeito, dizer que uma coisa é potência, uma essência que lhes é e continuará exterior . A es-
pensável equivale a dizer que existe uma ideia no entendimento sência de modo, enquanto pura intensidade, está eternamente
infinito e que existe objectivamente a essência correspondente a contida no atributo, indiferente à existência ou não do modo
essa ideia, uma vez que seria absurdo uma ideia de nada. Expli- que lhe corresponde. Este, na medida em que é formado por
citando melhor, e em termos espinosanos, a todas as ideias em partes extra partes, existe apenas quando um outro ou outros o

58 59
1..1'1~;
.!/[.l.' da óptica , enqu anto Espinosa o pensa no contexto de uma antro-
provocam e ocasionam como agregado de coisas que convêm
llII'
1 entre si e cuja relação corresponde a uma essência, da mesma pologia, corno se poderá verificar até pelo facto de ele só apa-
h,l!f
1111·1
forma que deixará de existir quando esse conjunto se desagre- recer na Ili parte da Ética, não obstante ser postulado como prin -
gar e as suas partes entrarem em composições diferentes. E isto cípio universal. Na sua formulação cartesiana, o conatus aparec ia

ti
1111
1
·r!Ii'
i dá-se em todos os atributos, pois a existência a título de partes
extra partes não é exclusiva da extensão: tal como um conjunto
assimilado a uma propriedade de partículas «absolutamente du-
ras» e realmente distintas umas das outras para poderem ser
de partes de matéria, ao protagonizarem uma dada proporção pensadas corno elementos constitutivos da luz: «quando eu digo
1l1·1 de movimento e repouso, isto é; ao protagonizarem uma essên- que estas bolinhas (as partículas luminosas) fazem um esforço
•;!.
,1,1.: cia, constituem um corpo çompostó, _assim _t~mbém no pensa- (conatus), ou que têm tendência para se afastarem dos centros
~'i
\i)!
mento uma essência é protagonizada ·por um conjunto da· ideias
que correspondem a um conjunto · de corpos. E o' mesmo .se -pas-
em torno dos quais elas giram, não quero dizer que se lhes
deva atribuir qualquer pensamento de onde proceda essa inclina-
!1,·.l:!1 sa nos restantes atributos. -·
l :~li
ção, mas simplesmente que elas estão de tal maneira situadas e
O que define os modos é, por conseguinte, a entificação de dispostas a moverem-se que se afastariam de facto se não fos-
111 \:r uma proporção, de uma essência que, em si mesma, é uma dada ' sem retidas por uma qualquer outra causa» (Princípios, art. 56).
\ 11t
relação entre partes. Os seres individuais afirmam-se afirmando É, portanto, a necessidade de pensar o absolutamente simples
l' 1'!
essa proporção, isto é, evitando até onde puderem a desagre- corno partícula realmente distinta e «absolutamente dura», abrin-
1 gação das suas partes: «cada coisa esforça-se, tanto quanto de- do assim urna brecha no princípio da infinita divisibilidade da
1111
pende de si, por perseverar no seu ser» (E, rn, prop. 6). Para se matéria, que modela esta formulação do conatus. Mas em Espi-
1[1!1 entender este «esforço» (conatus), deve, antes de mais, recordar-se nosa, se há, de facto, referência a corporasimplicíssima, estes só
i!~lt
a proposição que vem na Ética imediatamente a seguir: «o es- abstractamente, e não substancialmente, se distinguem uns dos
forço pelo qual cada coisa procura perseverar no seu ser não é ·outros (E, 1, 15, esc.). Um corpo, repetimos, é por essência urna
senão a essência actual dessa mesma coisa». Note-se que não há equação de movimen to e repouso que se dá num agrupamento
aqui qualquer vestígio de uma potência de tipo aristotélico, pois de partes. Impossível, portanto, pensar-se, nesta perspectiva, uma
o conatus não se situa no limiar de uma coisa para outra coisa, partícula realmente existindo sem ser, ipso facto, ·um ser plural.
:ti nem é a passagem de um terminus a quo para um terminus ad Impossível em suma, pensar o conatus num corpus simplicissimus,
1 quem. Mais uma vez, o que está aqui implicado é a teoria espi- t que para Espinosa é pura abstracção, simples instrumento de
l·\, nosana da definição, a qual, como dissemos, equivale a uma teoria análise para a ciência dos corpos reais.
II da produção do definido. Uma coisa é sempre um sistema de Chegados aqui, o problema adquire urna outra amplitude e,

li partes que traduz extensivamente uma certa equação de repouso


e movimento. Por essência, ela é esta mesma equação. Dizer
, digamos mesmo, uma outra pertinência em relaçãq ao Tratado
Teológico-Político,permitindo-nos surpreender em à.cto a recapi-

1
I"
que as partes se conjugam no corpo, ou seja, que convêm entre
si, é o mesmo que dizer que elas compõem um determinado
grau de intensidade da substância. Nessa medida, existir não
tulação da Ética a que aludimos a princípio. E não é só porque
a teoria do conatus surge apenas na III parte da Ética, quer dizer,
num momento coincidente com aquele em que a epistolografia
significa senão esforçar-se por perseverar na existência, tal corno nos permite situar o início da preparação do Tratado. É, sobre-
Ir
a esfera não é mais do que a rotação do semicírculo em torno tudo, pela origem que somos obrigados a atribuir-lhe e pelas
y, do eixo. Um corpo é tão-só a versão ontológica de urna defini- consequências que assume no sistema. Na verdade, sendo im-
1,
ção. More geometrico,como devem ser todas as definições. pensável na solidão de um corpúsculo, o conatus, pelo qual em
1~1 Mas o conatus, tal corno Espinosa o concebe, além de não se última instância se definem todas as coisas, faz com que o esta-
confundir com a potência aristotélica, também se não confunde tuto de um corpo se tome impensável fora do contexto em que
com a versão mecanicista que dele apresenta Descartes, toda ela está inserido. O seu modelo de actuação não deve, portanto,
decalcada no princípio da inércia. Muito resumidamente, a dife- procurar-se no princípio da inércia, que só faz sentido no domí-
rença está em que Descartes pensa o conatus sob o paradigma nio dos corpos tornados em abstracto e é, por isso mesmo, ape-

60 61

!
J'l,t:;!.
lij.'I nas um caso particular do conatus. Aí, o contacto entre corpos nado a evitar a guerra, ou seja, a limitar e orientar o incre-
I!,
1.llii
1 ou entre partículas é sempre assimilado a um choque cujo efeito mento dos impulsos: é por dedução a partir dela que se chega
' f1.~ I
.J/
..
1 ,1
.'.,·. se traduzirá por uma alteração de rota, tal como o teoriza Des- ao contrato. A oposição, portanto, antes de ser protagonizada
,1l;1, por soberano e súbditos, é-o no interior de cada indivíduo pelas
1 ,,.1 : cartes e como ele aparece ainda na 11 parte da Ética. Pelo contrá-
:i.. •. ,J.
/1, .1
• ' fi.Jlj
'.1 rio, quando se passa à análise das paixões, o contacto é pen- pulsões contrárias do direito e da lei, do instinto e da razão .
.. ' ' 1111 sado diferentemente, obrigando a uma reformulação de toda a Hobbes, no entanto, faz todo este percurso mediante a ca-
1<•, 1,~i
1 teoria dos corpos que virá relegar a que fora explanada anterior- tegoria de movimento e deixa o conatus como exclusivo dos seres
~ ; dotados de sensação. Através da distinção entre movimentos vi-
1

lJj~I mente para o. domínio · das grandezas ·geométricas, ou seja, dàs

,,. \~:~; corpos considerados em abstracto. Nessa altura, porém, já só a


designação de conatus coinci.4~ c.om á que utilizaboa parte -dos -.
tais, como a circulação do sangue, e movimentosvoluntários,como
o andar, a natureza fica ainda dividida e o conatuscontinua uma

~ Ilfi pensadores da época. A tomada em consideração do espec1fica- das várias espécies de movimento, se bem que já não o dos
mente humano fez alterar os alicerces de · toda a metaffsfca espi- t corpos absolutamente simples de Descartes . Espinosa, por seu
I J'.'

i~,
tr nosana pela incorporação de um modelo de conatus que se tra-
duz como reacção das partes internas de um corpo a uma pressão
; turno, irá incorporar o modelo hobbesiano mas fazendo-o dar
um novo passo, isto é, tomando o conatus elemento universal e,
(:: ~:~f, exercida em sentido contrário na superfície do mesmo corpo. : em última instância, constitutivo de toda a realidade. Mais adian-
i . te veremos as consequências deste salto no que diz respeito à

l
Manifestamente, a concepção hobbesiana começava a influenciar
1 1 Espinosa. Como se poderá ler logo no cap. 1 do Leviathan, «causa .teoria do contrato. Por ora, importará apenas frisar que o «es-
1 1~ da sensação é o corpo exterior, ou o objecto que pressiona o ~rçar-se quanto de si dependa por perseverar no ser» é a lei de
1 :f órgão próprio de cada sensação [ ... ]. Esta pressão, propagada todos os seres, uma vez que todos eles são, por essência, um
para o interior, por intermédio dos nervos assim como de ou- equilíbrio, uma equação que traduz um grau de potência. Ser
1
tras fibras ou membranas, até ao cérebro e ao coração, provoca :,uma coisa é fazer tudo o que está em poder dessa mesma coisa,
aí uma resistência, uma contrapressão, um esforço (conatus) do l que o mesmo é dizer, tudo o que decorre necessariamente da
coração para se livrar dela». . ~~a definição. Ser substância, causa de si, é ser potência abso-
Hobbes, que se quer o Galileu da política, universaliza as · luta, actividade pura: o poder de Deus, ou seja, da natureza, é
categorias da mecânica, alarga o seu campo de aplicação, até aí ~-~m limites. O ser dos modos, porém, só faz sentido na confli-
restrito à extensão, e transpõe as fronteiras entre espírito e corpo t' tualidade, porquanto a sua afirmação equivale à afirmação do
que a Descartes apareciam ainda como invioláveis. O seu intuito ' equilíbrio que cada um deles actualiza e a negar tudo o que o

~li é apresentar o mecanismo do contrato como um obstáculo, uma


pressão exercida sobre a potência destruidora das paixões huma-
~;perturba ou tenta suprimir: a pacificação dos seres seria a sua
aniquilação na paisagem indistinta e indeterminada de uma acti-
~ vidade pura que não se configurasse em modificações, paisa-

1
nas. Para tanto, e para que esta pressão não surja como oriunda
da vontade arbitrária do soberano, solução incompatível com . gem, de resto, impensável na medida em que o pensamento se
,1 uma teoria que postula a igualdade original de todos os mem- , ,;.nos oferece sob a forma de ideias determinadas que convêm ou
bros do corpo político, tem de pressupor uma oposição entre não entre si, que formam ou não sistemas coerentes e a que
~1 direito natural - liberdade de fazer ou deixar de fazer uma -corresponde forçosamente alguma coisa, porque o nada não se

~-~1 coisa - e lei natural - que determina aquilo que se deve fazer
(Leviathan,cap. XIV, pp. 116-117). Pelo primeiro, o homem é livre
deixa pensar.

de fazer tudo quanto lhe dita a sua natureza, colocando a socie-


dade em risco de se reduzir a um caos, na medida em que, 2
contrariamente ao que sucede com os outros agregados animais, As leis da natureza e as leis humanas
os desejos do homem crescem na proporção da sua satisfação,
tornando assim a luta de conatus individuais uma luta de morte. Uma tal concepção, inspirada embora na análise do compor-
Mas pela lei da natureza, o homem está racionalmente determi- tamento passional, coloca alguns problemas quando se trata de

62 63
compreender depois as relações entre os homen s. Espinosa re- Podemos então passar a uma outra definição da lei, sem
fere-os logo no início do cap. 1v, onde se fala especificamente renunciar à coerência do sistema, e tomá-la agora como «uma
da lei. Com efeito, tomada em sentido absoluto, lei é só «aquela regra de vida que o homem prescreve a si mesmo ou aos ou-
que deriva necessariamente da própria natureza, ou da definição tros em função de algum fim» (infra, p. 180). A ordem da possi-
da coisa » (infra, p. 179). Porquê distinguir então as leis da natu- bilidade, se bem que só faça sentido como representação de-
reza das leis dos homens, se também estes «estão determinados rivada da definição do entendimento finito, sobrepõe-se, desta
por leis universais da natureza a existir e a agir de uma certa ·inova perspectiva, à ordem necessária afirmada ontologicamen-
maneira » (idem,.ibidem)?Por três razões, diz o autor. . te, de tal modo que podemos, ao invés do que antes se fez,
,.passar a considerar que só por analogia a lei se aplica às coisas
Primeiro, se o homem :é parte d_a natureza · é parte da po- ... , naturais. Contudo, ainda aqui, a análise se bifurca. Porque se a
tência desta, pelo que as leis_que derivam da necessidàd _é :da
natureza humana podem considerar-se como ·depen~e _ndo cJa
Jeié sempre promulgada em função de uma finalidade, haverá
'.íantasespécies de leis quantos os objectivos para que a vida
potência da mente humana; segundo, porque · nós devemos defi-
,, nir e explicar as coisas pelas suas causas próximas, não servindo
:~uinana possa apontar. Do ponto de vista da razão, a finalida-
só poderá ser uma, o verdadeiro conhecimento de si mesmo
de nada tecer considerações gerais sobre o encadeamento das
,quanto modo de ser da substância absolutamente infinita, ou
causas para formarmos e ordenarmos o nosso pensamento so- ":a,aquilo que Espinosa chama, na Ética, o amor intelectualisDei
bre coisas particulares; terceiro, porque nós ignoramos esse ..que, como se dirá no Tratado, aumenta na proporção dos nos-
mesmo encadeamento geral das coisas, sendo preferível e até conhecimentos sobre a natureza. Quão longe está, no entan-
necessárioconsiderá-las, na prática (ad usum vitae), como possí- >J a maioria dos homens de conhecer e buscar uma tal finali-
veis. Trata-se, como se poderá verificar, de razões de ordem e, e quão longe eles estão, por conseguinte, de conhecer o
diferente. A primeira é metafísica e pretende mostrar que não dadeiro sentido das leis! Onde a sua vida decorre é no plano
há solução de continuidade entre as leis naturais e as leis huma- paixões e interesses, e a única forma de os fazer obedecer é
nas; a segunda é de ordem epistemológica e visa justificar o ·estir as leis de uma outra finalidade, prometendo a quem as
porem-se entre parêntesis as considerações metafísicas na aná- rvar aquilo que ele mais deseja e a quem lhes desobedecer
lise efectiva e particularizada das relações entre os homens; a ilo que ele mais teme. Desejos, temores: é este o binómio
terceira, finalmente, é mista e surge como que a resumir as duas e se acoberta por detrás das leis humanas e é por ele que
anteriores . É que, se o entendimento humano não domina a 'éntramos no domínio da política. Quanto à lei que visa o «co-
complexidade total das conexões entre as coisas, a qual só se dá .ecimento e amor de Deus», Espinosa chama-lhe divina mas
na complexidade do entendimento infinito, então a suposição :-, 1beque só raros se regem por ela e reconhecem tal finalidade.
da possibilidade não é apenas uma simples questão metodoló- 1~· Entre esta lei divina e a lei humana, a diferença é abissal,
gica, é também uma necessidade em se tratando de analisar o centrariamente ao que se poderia inferir de algumas interpreta-
comportamento dos homens, dado que o existir e o agir destes ;. 'ções do espinosismo. A lei divina é universal e tanto se refere
1· se processa todo ele na ausência de um domínio total das situa- ,. ao homem isolado como aos homens em sociedade; dispensa a
ções. Daí a exigência, reiterada ao longo do Tratado, de se enca- ), fé nas narrativas históricas, porque se alimenta de noções co-
,:1
rar a história, a política, a religião, o humano, em suma, não de ;l ·muns, certas e conhecidas por si mesmo, as únicas com que se
·1· alcança a verdade de Deus e das cois,as; não obriga a cerimó-
um ponto de vista negativo, ou seja, como insuficiência quando
!.1 comparado com uma actuação que se processasse mediante um . nias ou a quaisquer ritos instituídos, pálidas imagens do bem
entendimento infinito (negatividade que levaria sempre, de uma que em si mesmas nada significam .r;i.empodem aumentar a perfei-
l forma ou de outra, a considerá-lo como produto de uma falta ção do entendimento; visa, enfim, o sumo bem (summum bonum)
original), mas sim como positividade em consonância com a e não os simples bens. Pelo contrário, a lei humana é sempre
essência dos homens e com o seu sempre relativo domínio das particular, «regional», referindo-se a um grupo de homens num
possíveis conexões entre as coisas. determinado tempo e situação, e nunca à humanidade ou a um

64 65

!
r, indivíduo isolado; vive da fé e da imaginação, pois desconhece pois, sujeitos às paixões e ao que as circunst âncias lhes ditam.
a verdadeira finalidade da vida; implica cerimónias e rituais, Paraos ensinar, só por meio de parábolas e por recurso à imagi-
para suprir a falta de um conhecimento intelectual das coisas; tl ' nação, caminhos que podem levar à observância de uma regra de
visa os bens, ou seja, e em termos políticos, «a segurança do indi- vida, mas não ao conhecimento da verdadeira razão dessa regra .
víduo e da colectividade» (infra, p. 181) e não o bem supremo. O saber que vem na Bíblia fica, assim, arredado do conheci-
Todo o desfasamento entre o saber da Bíblia e o verda- ; menta por ideias adequadas. Uma leitura de Espinosa com pres-
deiro conhecimento provém desta confusão sistemáticé). enti;e a .supostos iluministas concluiria daqui a necessidade de corrigir o
lei divina e · a · lei humana e evidencia-se · lõgo na primeira narra- vulgo, propagar conhecimentos e levar as instituições a traduzir
tiva do Génesis. Deus rev:ela ao prii;neiro homem as consequên- ?a verdade da natureza, ou seja, a adequar-se à verdadeira fina-
cias que sofrerá se comer o fruto i>roibido, mas não lhe revela lidade da vida humana. A análise do Tratado,porém, inibe uma
que tais consequências se seguirão neçéssariamente; .ou . seja, que
tal interpretação. Não é por acaso que, no cap. v, destinado a
é a própria natureza da acção que as iinplica:. É, pois, -por defi-
emonstrar o «equívoco» das cerimónias, se nos depara um pri-
ciência de conhecimento que o primeiro homem imagina tratar-
. .eiro esboço da teoria política . Nem por acaso nem por mera
-se de urna lei à maneira humana, que não envolve qualquer
'mtecipação na ordem argumentativa. É que todo o imaginário
necessidade intrínseca. A partir daí, o campo está aberto à ima-
·.u~ aí se manifesta, toda a simbologia que nas cerimónias se
ginação, e a imaginação vai alastrar por toda «a lei e os profe-
· \ilterializa, constitui o principal cimento das instituições, a tra-
tas», confundindo Deus com um rei, a necessidade com a possi-
bilidade, a ciência com a obediência, a busca do bem supremo .ução do elo invisível que consolida a unidade e a dinâmica do
através do entendimento com a busca de simples bens através ado. Se os homens pudessem viver apenas segundo os dita-
de rituais e cerimónias. Ao imaginar-se Deus como um rei, pres- .es da razão, nem as leis nem as cerimónias seriam necessárias,
supõe-se de imediato o entendimento infinito como algo dife- ,que todos veriam imediatamente as vantagens que traz a so-
rente da infinita vontade e emerge como lógica a possibilidade ~dade, quer no plano da segurança contra os inimigos, quer
dos milagres, de acontecimentos extraordinários que se julga de- '- plano interno da entreajuda. Mas, como a experiência mostra
monstrarem a verdadeira potência de Deus, ignorando-se que .contrário, são precisas leis e um poder coercivo que os conte-
essa potência se exprime na ordem da natureza e que a suspen- 'i_liaadentro de urna certa norma. Contê-los apenas pelo medo
são ou interrupção desta seria, pelo contrário, prova de falta de '·perigoso, visto que gera a insubmissão. Por isso é que Moisés
poder. Confundindo, enfim, o bem supremo com os simples bens, ,tegrou a religião no Estado, estendeu a lei a todas as acções
tomam-se as leis destinadas a garantir a estabilidade do Estado Hebreus e transformou a vida da comunidade num perpé-
e as comodidades dos cidadãos (leis políticas) por leis destina- . p ciclo de rituais que mantinham o povo em constante situa-
das à salvação individual. o de obediência. Não por temor, mas na expectativa de maio -
Dir-se-á que isto não se passa senão no Antigo Testamento. bens. E se, mesmo depois do fim do Estado, os Hebreus
E, até certo ponto, é verdade. Cristo prega uma lei universal, ~ntinuararn a observar esses ritos, não foi porque estes tives-
dá a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, pro- semum carácter divino ou necessário: foi simplesmente por cons-
mete recompensas só de natureza espiritual e, se acaso institui "lfituírem um factor de coesão ou, como Espinosa diz, uma marca
cerimónias, é apenas a título de sinais exteriores da Igreja Uni- a hostilidade dos fariseus contra os cristãos. O Estado pereceu
versal que não têm valor moral intrínseco nem são obrigatórios mas a nação hebraica perdura. Os rituais e símbolos deixaram
para um homem que viva isolado ou num Estado aonde a reli- de produzir o seu efeito primitivo, a realidade oscilou por de-
gião cristã seja proibida. Simplesmente, essa lei universal e não l' baixo da imaginação, mas nem por isso esta perdeu a sua efec-
política apresenta-se ainda sob o modelo da relação senhor _-súb- i! tividade. Pelo contrário, ela ecoa ainda na memória e o seu eco
dito. Nem de outra forma poderia ser, porquanto ela se desti- basta para reproduzir a esperança e transformar aos olhos dos
nava a ser pregada a todos os homens e estes, na sua maioria, fiéis a realidade presente num simples contratempo, numa er-
carecem do conhecimento do verdadeiro fim da vida, estando, rância com destino: a reconstituição do Estado.

66 67

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! '!l AS ENCARNAÇÕES DO VERBO
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,. I' . passagem do indicativo ao imperativo
·Í·,~
1
,11.~ onhecimento profético e realidade social são como que um
1 ,.
t''~ co que tem por eixo o que há de positivo na imaginação.
·ele se fecha a primeira parte do Tratado. A desordem apa-
!'úl . das paixões descobre-se ordenada para fins específicos, a
''j ocidade dos símbolos e rituais emerge como constitutiva
114
a outra região ontológica. Nem tudo, porém, ficou expli-
t1 ·•No plano da totalidade, sabemos que a ordem e conexão
i~~~ ·~oisas é a mesma que a ordem e conexão das ideias, já que
ias são expressão da actividade da mesma substância sob

!,~ ,utos diferen tes. É o plano da «lei divina», o qual não dita
. mem outra coisa que não seja afirmar-se em liberdade atra-

~t
~\i
•Jdo conhecimento de Deus, isto é, do conhecimento de si
rio enquanto grau da potência infinita. No entanto, esta lei,
. virtude da sua universalidade, apresenta-se como ideal a
lizar por cada indivíduo e não contempla a formação con-

H
r,1
a dos grupos humanos, a qual é sempre determinada pela
,,cura de bens contingentes e deriva da incapacidade experi -
tada pela maioria em conhecer os verdadeiros fins, que é
r,!, ' 1mo quem diz, a sua verdadeira razão de ser. A contingência,
'' s, define-se exactamente por esta deficiência de conhecimento.
11 medida em que ignora a razão e a necessidade das coisas, o
l·l1 1ómem sente-se ameaçado pelo imprevisível. Porque a imagina -
.\ !ã.oassinala apenas a situação presente do corpo e as afecções
_ue ele recebe do exterior. Mas não indica a sua causa nem a
.relação necessária entre esta e os efeitos, não percebe a natu-

69
~. reza íntima das coisas independentemente do sujeito e é, por Na verdade, identificar a origem das leis e do conhecimen-
"f to profético como actividade da imaginação é insuficiente para
,., isso mesmo, conhecimento inadequado. Indica é o lugar do in-
divíduo no jogo de encontros fortuitos em que decorre a sua caracterizar os modos específicos em que se exterioriza essa ima-
existência, sendo, portanto, intrinsecamente instável. ginação ou as estruturas que se produzem pela sua actividade.
Urna tal precariedade constitui uma ameaça. De facto, se há Em termos alheios a Espinosa, diríamos que se assinalou apenas
corpos que «convêm» com o meu, há outros que lhe são adver- a génese da história. Mas este gesto é ambíguo, porquanto assi-
sos e contrariam a sua sobrevivência. Ora, se o indivíduo se nalar a génese da história pressupõe a saída da história e a
afirma precisamente p"elo perseverarein 5UO esse, é lógico que· o passagem à teoria. Como abarcar pela teoria o que se constitui
~

homem fará tudo quanto esteja erri _.si -par<\. esconjurar o medo pela sua mesma ausência? As respostas à pergunta são conheci-
que a instabilidade lhe provoca. ·Essa a razão por que,: Dª :au- das, tanto nó que respeita à Bíblia como no que respeita à socie-

.. sência de um domínio da totalidade das correlações possíveis


no universo, da totalidade até das relações entre as pàrtes -do
dade. No caso da Bíblia, as interpretações oscilam todas entre
fazê-la coincidir com a razão ou tomá-la como alheia, por ina-
\ seu próprio . corpo, ele forja um sistema de causas e relações . cessível, à mesma razão. No caso da sociedade, o que se passa
llj:j imaginárias. Mas como poderá a imaginação, por natureza con-
tingente, neutralizar o medo? Só imaginando as suas ficções como
' não é muito diferente: ora se pressupõe a lei fundada em ver-
dade e necessidade - jus a justo - ora se considera que ela
;:;,
necessárias, representando como estáveis os produtos da sua ins- deriva de uma vontade que se julga coincidente ou se faz coin-
tabilidade congénita. A imaginação é o mundo dos signos, e . cidir com a vontade divina - jus a jusso. De uma ou de outra
11,1 . forma, não saímos da questão: qual o papel do entendimento
1. estes, se à luz do entendimento se revelam como pura equivoci-
dade aberta ao jogo e à guerra das interpretações, ao nível do ;. face a urna realidade que não reproduz a dedução geométrica
primeiro grau de conhecimento assumem a unívocidade das leis. '.das essências e que se instaura a partir de um conhecimento
Recalcando o seu carácter de meros indicativos de uma situa- inadequado? É este o problema que fará o objecto da segunda
ção, tomam-se imperativos como condição necessária para exer- ~;:metade do Tratado Teológico-Político.
cerem uma função estabilizadora. Toda a Escritura se poderia 'r1 Numa primeira parte (caps. vn-xv), Espinosa estuda a Escri-
resumir nesse trabalho de aprisionamento dos signos através da t tura, averiguando o seu verdadeiro conteúdo à luz do pressu-
sua inscrição em «tábuas de pedra» onde a letra suspende a ':posto já demonstrado de que se trata de conhecimento do pri-
inconstância do imaginário, onde a palavra encarna em lei e se ír.ineiro género e deduzindo a impossibilidade de nela se
separa daqueles que a pronunciaram e aos quais passa a dominar. Jundarnentarqualquer autoridade em matéria especulativa; numa
Discurso sem nenhum sujeito assinalável, palavra impossível ~gunda e última parte, estuda a política, evidenciando os me-
de atribuir aos lábios de alguém, sob pena de a relativizar, f..anismos possíveis de estruturação da sociedade, isto é, os mo-
\
Verbo de Deus, em suma, o registo comum à Bíblia e à lei é um 1jdos como se pode operar a metamorfose da lei impessoal na lei
registo contraditório, pois escapa em última instância a toda e ;do soberano ou vice-versa. Mas tal como para os seis primeiros
•!
qualquer racionalidade, mas nem por isso menos eficiente. Efi- ! capítulos vimos que havia um eixo, constituído pela imaginação,

·iii ciente porque, como vimos, é nele que se funda a constituição · em torno do qual girava o tratamento da revelação e da reali-
dos agregados humanos enquanto processo de reduzir a adver- .idade social, também aqui a Escritura e a política propriamente
1
sidade e exponenciar a aquisição de bens; eficiente ainda por- ; · dita se deixam atravessar por um eixo comum que é a obediên-
que a própria contradição sobre a qual assenta vai modular os j: eia. A Bíblia é a revelação passada à letra; a política é a inseri-
conflitos no seio desses agregados, centrando-os na questão da ' ,;ão dos agregados sociais sob o signo da lei; a obediência é a
legitimidade do poder, ou seja, da coincidência entre a palavra ··,Imaginação estruturada na lei e nos profetas, ou seja, na política
1
do legislador-intérprete e a Palavra que antecede todas as in- e. no Livro Sagrado. Veremos mais em pormenor este novo díp-
terpretações e de onde procedem todas as leis. É aqui que o .}ico em que o problema se desdobra, começando, ainda neste
problema se transfigura no horizonte do Tratado. j. capítulo, pela Escritura e deixando a política para o seguinte.

70 71

i
l :·1•;
11 Jerónimo : «cada frase, sílaba, acento ou ponto nas divinas Escri-
ií:1'k 2
J ;11 f turas está cheio de sentido» 8 •
Lilq
i1,, A letra e o espírito Uma tal necessidade poderá pensar -se em relação à letra, a
llt:1:
qual é possível fixar e em certa medida poupar à contingência.
;' ' Façamos, desde logo, a pergunta: o que é a Escritura? Toda Mas . .. e o espírito do texto? Quanto a este, se o imaginássemos
»11:
a gente diz que é a palavra de Deus, conforme nota Espinosa.
l;t!il Porém, a palavra de Deus, longe de vir estancar as nascentes
acorrentado, corria o risco de se perder com o tempo. Daí o
1) i papel e o peso da tradição. A tradição é precisamente essa ca-
da dúvida, abre-se ela própri? em problemas de toda a espécie . deia que em cada elo refaz o sentido originário. «A cada nova
1.11 Enunciemos alguns. . . . ..
opinião ditada pelas circunstâncias, o sentido do versículo reco-
li,1l r; a) Em que consiste esta p_alavra? Como concebei o. ·v~rbo
meça , e a tradição, longe de impor uma opinião, obriga a
l11'1i•
ri de Deus, que é por definição verdade eterna, çonjugadõ em qual-
reconhecer e a ter em conta a sucessão dos tempos, a diversi-
dade dos lugares, na elaboração do sentido simples» (Osier, 1983,
lf, quer tempo? Que sons ou que figuras poderão traduzir o Infi- p. 49). Não é por acaso que a cultura judaica atribui tanta im-
1 ~·
ir:'' nito? É um milagre, dizem as religiões. Mas o milagre, além de ·, portância à «lei de boca », mais até, segundo alguns autores, do
lij.~ pressupor, na concepção espinosana, que Deus teria de corrigir ; que propriamente à lei escrita. A esta, efectivamente, qualquer
;I~: aquilo que ele próprio criou e suspender as leis necessárias da
natureza, o que demonstraria a impotência e não a potência di-
estrangeiro poderá ter acesso, pelo menos se aprender a língua;
aquela, porém, é vista como o mais autêntico dom de Deus ao
~i vina, deixa o caminho aberto à vã tentativa de encontrar uma • povo eleito, porquanto nela reside a expressão da própria nacio-
1,. explicação racional sempre mais adequada. A revelação de Deus
aos homens constitui, por isso, o princípio e ao mesmo tempo o
. nalidade, essa história viva que a cada instante reactualiza o ·
' significado dos signos escriturísticos, sem deixar alguma vez de
,'OC limite de toda a especulação. A Bíblia é, por assim dizer, a ; se pensar sob o signo da eternidade.
' ..., 11:1
: : '1...
'
\t~"I 1,;,
-~
verdadeira face do «absoluto literário », escrita de urna vez por
todas e, no entanto, a precisar em cada momento de ser re-es-
.,
b) Admitamos então a face temporal da Bíblia, através da

,:l
d crita. Perante o seu texto, só duas atitudes parecem possíveis: a
dos cabalistas e a dos intérpretes. Ou se tem em conta a ver-
dade e a necessidade que o autor da revelação imprime à men-
sagem, ou se considera a contingência dos seus destinatários.
,· qual, desdobrado o texto em corpo e espírito, letra e sentido,
se vai inscrever, sobre a distância infinita que separa os signos
do seu referente inomeável, o ilimitado processo das interpreta-
ções. Cada época pressentirá fatalmente esta distância de ma-
;1:i:
!li Para o cabalista, a mensagem está, no conteúdo e na forma, neira diferente e ver-se-á tentada a ultrapassá-la, removendo o
'~ saturada de verdade, pelo que não há espaço para a contin- sentido dos signos. Não é só a história que dinamiza este pro-
}I! cesso. Conforme diz Peirce, «o significado de uma representa-
gência . Conforme diz Jorge Luís Borges (1955, p. 242), num pa-
11
rágrafo que está longe de ser simples ficção, «os cabalistas ju- ção só pode ser uma outra representação . Na realidade, é ape-
ri
i nas a mesma representação despojada do seu revestimento não
deus pensaram que, na composição do texto absoluto, o valor
"
do acaso podia ser estimado em zero. Partindo dessa ideia pertinente. Mas este revestimento não pode jamais ser totalmente
prodigiosa de um livro impenetrável à contingência, um livro abandonado, pode é ser substituído por um outro mais transpa-
que é engrenagem de desígnios infinitos, foram levados a ope- , ·~ente . Deste modo se produz uma regressão infinita. O inter-
f:i rar na Escritura permutas de palavras, a somar o valor numé- pretante 9 não é, em suma, senão uma outra representação a
rico das letras, a levar em conta a sua forma, a observar as
minúsculas e as maiúsculas, a procurar acrósticos e anagramas,
e a outras subtilezas de que é fácil a gente rir-se . A sua justifi- 8 Sing11lisermones, syllabae, apices, puncta in divinis Scripturis plena sunt
cação, porém, é que nada pode ser contingente na obra de uma sensibus (Comm. in Eph., 3, 6, cit. in Hopfl, vol. 1, p. 66).
inteligência infinita .» A Igreja Católica não pensa, de resto, de 9 Apesar de não pôr em causa a simples aproximação que aqui se pre -
i: outra forma. Veja-se, por exemplo, o que a tal respeito diz São tende fazer, convirá reparar na distinção entre intérprete e interpretantena teo-

73
72
que se entrega o testemunho da verdade e, como representação, de ser decifrado no plano da alegoria: a partir do momento em
tem por seu turno o seu próprio interpretante. Surge, assim, que o judaísmo e o cristianismo, como depois o islamismo, pre -
ouh·a série infinita» (CollectedPapers,1939, cit. in Eco, 1976, p. 58). tendem apresentar a sua doutrina em linguagem filosófica, tudo
O problema maior em relação à Escritura não provém, no quanto a Escritura diz de Deus será lido segundo o método
entanto, desta verdade eternamente diferida que os signos com- alegórico através do qual os Gregos liam os seus poetas. Xenó-
portam e transportam. O desejo do sentido último, projectado, fanes («os Etíopes dizem que os seus deuses são negros e têm o
aliás, especularmente como sentido originário, é de facto o mo- nariz achatado, os Trácios dizem que os seus têm os olhos azuis
tor imóvel das interpretações·, mas isto ,não impede que càda e o cabelo ruivo», DK, 171) e Platão («o ciúme está banido do
uma delas se represente como defu:ritivo a_crisolamento do sen- ; coração dos deuses», Fedro,247, a), entre muitos, já tinham des-
tido. O que acontece é que essa mobilidade no tempo sé ·faz . cortinado um outro sentido por detrás dos mitos, mas é sobre-
acompanhar de equivalen te irradiação ·no espaço, m_ultiplicando ,J.,tudo com o estoicismo e a sua ideia de que o Logos divino é
., as interpretações em cada época ·disponívéis: No ·plàno dia-cró- '·sem paixão (apatheia) que a alegoria se toma um método coe-
'1 nico, o sentido é sempre outro mas refaz sempre o mesmo. rente. Fílon de Alexandria, entre os judeus, e Orígenes, entre
Porém, o mesmo não pode ser pensado a refazer-se ao mesmo ps.cristãos, são alguns dos pensadores que se encarregam de o
tempo de diversas maneiras. Cada seita pretende esgotar a ver- ,corporar no seio das respectivas Igrejas.
dade do texto, afirmando, consequentemente, a impertinência 1 A alegoria surge, antes de mais, corno um recurso defensi-
das que se lhe opõem e negando a sua própria distância em :l~ usado pela razão para se assegurar de que a verdade se não
relação à verdade. É a própria natureza do signo que condena, ,eslocou para o terreno do mito. Mediante este recurso, o texto
afinal, o problema a só ter solução por recurso a um elemento ,lico é supos to ter dois destinatários: aqueles que são capazes ·
exterior à doutrina, ou seja, recorrendo ao poder. A função dos ,e ver para além do sentido imediato a mensagem teorética
Concílios, judeus ou cristãos, como Espinosa sugere, é preci- .e ele esconde e aqueles que se ficam pela superfície . Ao povo,
samente escrever sub specie aeternitatis a temporalidade e con- teria dito como que urna mentira pedagógica, apresentando-
tingência do sentido, imprimir a necessidade da lei à arbitra- ora como colérico ora como bondoso, para o conver ter atra-
riedade congénita dos signos, traduzir, enfim, a verdade em ~ do medo e da esperança (cf. Schwager, 1985, pp. 60-65); os
normatividade. ios, porém, descobrem nesta mentira o intuito que a justifica.
A tarefa não é fácil. Por muitas razões, mas sobretudo por- im sendo, a alegoria estabelece de imediato urna hierarqui-
que a sobreposição de leituras da palavra revelada tem subja- ão pelo saber, a qual tenderá sempre a fazer-se acompanhar
cente a contradição fundamental de um Deus que, uma vez pos- ,,'e uma hierarquização pelo poder. «Ao produzir um sistema de
to a falar, se expõe de imediato ao prolongamento da analogia '· resentações que simultaneamente traduz e legitima a sua or-
que irá atribuir-lhe virtudes e paixões humanas. Falar é sempre í~em, qualquer sociedade instala também 'guardiães' do sistema
pôr algo em comum, e entre o infinito e o finito não há, por ,:'.que dispõem de uma certa técnica de manipulação das repre-
princípio, nada em comum. Por isso, o texto bíblico terá sempre f sentações e símbolos» (Baczko, 1985, p. 299). Já vimos como isto
/i! foi expressamente teorizado por Averróis e é sabido corno, ao
Ili r'longo de toda a Idade Média cristã, a interpretação oficial da
'11 ria de Peirce, que Umberto Eco explicita da seguinte forma: «o interpretante é · Igreja se vê secundada pelo braço secular, rasurando a ferro e
aquilo que assegura a validade do signo mesmo na ausência do intérprete [.. .] .: fogo, que o mesmo é dizer em cruzadas e inquisições, as inter-
A hipótese filológica mais fértil parece ser a que trata o interpretante como . pretações paralelas. Porque a alegoria isentou Deus da cólera,
l' uma outra representaçãoreferidaao mesmo objecto.Por outras palavras, para esta- mas não impede (pelo contrário, até impõe) que a justiça divina
belecer o significado de um significante por meio de outro significante (Peirce
fala, não obstante, em 'signo') é necessário nomear o primeiro significante por
,, passe a fazer-se indirectamente pelas mãos dos homens. O pro-
meio de um outro significante, o qual, por sua vez, conta com outro signifi- . blema, no entanto, permanece : quem detém a legitimidade para
cante que pode ser interpretado por outro significante e assim sucessivamente. executar essa justiça e afirmar a coincidência do sentido que atri-
Temos, assim, um processo de semiose ilimitada»(Eco, 1976, p . 58). bui à revelação com a verdade divina?

74 75
e) É da s guerras em prol do sentido que surge o retorno à ria de São Tomás, que tem em conta os vários níveis de leitura
letra , lugar utópico de paz. O que se dá na Renascença é como l e abre assim a possibilidade de uma reconciliação a prazo entre
que uma generalizada suspeita de que a cadeia de interpreta- · a ciência e a teologia 10• No pólo oposto, formar-se-á a ortodo-
ções vai viciada e é necessário recomeçar do princípio. Erasmo 'Xiade Calvino, para quem «a justiça de Deus é demasiado ele-
proclama: «antigamente, a fé consistia mais em viver do que em vada para poder reduzir-se à natureza humana ou ser compreen-
professar dogmas; entretanto, os dogmas aumentaram e a cari- ,.i-~'. dida pela pequenez do entendimento dos homens» (Calvin, ed.
dade diminuiu, as discussões aqueceram e a caridade esfriou · ·f· 1961, p. 85). Entre uma e outra, entre a confiança na razão e a
(Carta-Prefádo · à -edição das Obras de ·Santo Hilário, cit. in Lecler, ,,:; 'i;ua recusa, entre o dogmatismo e o cepticismo, as possibilida-
.,,.·~ . des de formulação doutrinária esgotam-se, pelo menos no inte-
1955, vol. 1, p. 145). O apelo _é fundamentalmente de natureza
ética, mas traz também UII1 progréima de natureza intelec;tual -~'ti()r do saber bíblico. As tentativas de escap ar a esse círculo e
J,
que se traduz na tentativa de surpreender a verdade ~esse ins- •·p.romover uma «segunda reforma» ficar-se-ão pelo subjectivis-
,1 tante mítico de antes de todas as tradições. ·Em 1527; ele sür- im.o sem consequências dos «cristãos sem Igreja», os quais, como
girá concretizado na obra do dominicano Xantes Pagnini, que fere Kolakowski no exaustivo estudo que lhes dedica, «são
publica então a Veteris et Novi Testamenti Nova Translatio, tradu- exemplo deste desejo de autenticidade que só pode realizar-
' ção da Bíblia do hebraico para latim onde a paixão do literatis- :e num movimento de fuga para fora do mundo . A incon-
mo atinge escrúpulos que tornam por vezes o texto ininteligí- uência da Reforma 'clássica' implantou-a no mundo e permi-
vel. O êxito do empreendimento é, todavia, enorme (cf. Bataillon, -lhe constituir o seu próprio mundo: mas o espírito de
1978, pp. 22-43) e a rudeza do latim que resulta dessa transpo- .tinuação dos anticonfessionalistas era um movimento no va-
sição palavra por palavra, na irrealizável pretensão de neutrali- .o. Afastado efectivamente de toda e qualquer ligação com as ·
zar os sentidos que perverteram a mensagem revelada, em vez 'dades temporais, o contacto da alma ind ividual com o ab-
de prejudicar a edição, promove-a às dimensões de exemplari- uto possibilitava-lhe a 'autenticidade' mas só a preço de uma
dade que os tempos reclamam. ,titude de eremita vivendo em plena cidade . 'A autenticidade
Um século depois, vê-la-ernos na biblioteca de Espinosa. Já o fuga': é esta a fórmula mais geral para resumir esse estilo
antes, Uriel da Costa se socorrera dela para procurar o verda- ológico» (Kolakowski, 1969, p. 66).
deiro sentido da lei na língua original, que não dominava, ao À semelhança da atitude dos cristãos evangélicos, a interpre-
contrário de Espinosa. O catolicismo, por sua vez, reage, in- '.ção da Bíblia intentada por Espinosa constitui um ataque às
cluindo em sucessivos índices, designadamente na Península Ibé- s versões em que se apresenta a relação entre filosofia e fé.
rica (cf. Bataillon, idem, ibidem), essa e outras iniciativas simila- mesmo quem aponte os «cristãos sem igreja» como os inter-
res que lhe parecem (e com que razão!) eivadas de judaísmo, utores a quem o Tratadoia dirigido (Negri, Tosel). O que os
mas também não resistirá à vaga de erudição bíblica. Já antes, ara de Espinosa, porém, é talvez mais do que aquilo que os
em 1517, fora publicada a Poliglotade Alcalá, que trazia justapos- .e. A atitude crítica em relação a todas as formas organizadas
tas versões em hebraico, grego e latim. E em 1572, sucede-lhe a i ~ fé que pretendem submeter os homens, seja invocando a ra-
Poliglotade Anvers, publicada por acção de Arias Montano e sob •; ~o, seja apelando directamente à obediência cega, é, de facto,
os auspícios de Felipe II (só assim se explica o ter vencido as .a· mesma, permitindo o estabelecimento de uma plataforma de
múltiplas resistências), onde se retoma a de Alcalá mas com a ..~ogo. Mas enquanto estes cristãos desvinculados de compro-
particularidade de se lhe acrescentar, à tradução latina que já
trazia - a Vulgata, considerada por sucessivos Concílios como
a única versão inspirada - a tradução de Xantes Pagnini.
10 O método é sempre o da alegoria: «Moyses rudi populo loquebatur,quo-
Todos estes recursos a partir de então disponíveis não alte- T!'m imbecillitatico11descens ilia solum eis proposuit, quae ma11ifeste
sensui appare11t
»
ram, todavia, o tradicional fundo da questão que a Espinosa se (S. Th., 1, q. 68 a. 3). Ou ainda mais claramente : «constat tamenin Scriptura Sacra
·1
depara. Refazem apenas o teatro em que se trava a luta das multa metaplioric e tractata, quae sec1111d11m
planu,n supersticiem litteraeintelligi non
interpretações. A ortodoxia romana reconstituir-se-á sobre a teo- valeant» (Sent., 11, dist . 14 q. 1 a. 1).

'l
L 76 77
missos institucionais concluem pela necessidade de uma interio- los atrás citados e neutralizar assim a poss ibilidade de com -
rização mais ou menos mística e ascética, com reflexos apenas ireensão de uma qualquer terceira via.
no plano da eticidade, Espinosa pretenderá erguer sobre essa i;_· Serrarius, por sua vez, pugna também pela tolerância, dá -se
mesma base um plano de organização política que ponha a salvo '-,m intelectuais de todos os quadrantes judeus e cristãos, e é
as convicções individuais, furtando -as à alçada do poder civil frequência que o vemos servir de mensageiro entre Espi-
ou eclesiástico. ·.osae Oldenburg . Do ponto de vista doutrinal, é um místico
' Os adversários mencionados no ITP são Maimónides e Al- ostado na conversão dos judeus, que vê na obra de Meyer
phakar, dois comentadores judeus que sustentam, o primeiro, a sinal de que a história entrou na sua última fase (cf. Wall,
racionalidade subjacente ,ao .t~xto b_íblico, c9mo já tínhamos re- ,f.199): a filosofia. introduz-se qual prostituta no templo, instala-
ferido, e o segundo, a sua .total ·inscrição nos domínios- de :llm.a e faz-se adorar como o bezerro de oiro. O que Serrarius
fé inacessível ao conhecimento · filosófico. Mais do -que de duas ·L,ve contra o livro de Meyer não é uma simples refutação, é
leituras historicamente verificadas, trata-se âqui de elitas atitu- verdadeira cruzada, indo ao ponto de solicitar aos amigos
des exemplares em cujo âmbito não é difícil enquadrar, por um se lhe juntem. E, de facto, em 1667, quando publica a sua
lado, a tradição católica representada por Santo Agostinho e São ,onsio ad exercitationem paradoxam anonymi cuiusdam, já lhe
Tomás, por outro, a tradição reformista representada por Cal- enta um texto de Comenius, que classifica como «presente
vino. São, de facto, estas as duas grandes linhas de interpreta- te» embora sem lhe mencionar o autor. No conjunto, o vo-
ção em confronto e é perante elas, conforme referem vários é um libelo acusatório todo ele baseado na distinção entre
autores (Strauss, Tosel), que Espinosa vai definir o seu próprio ão humana, comum a todos os homens, mas falível como
método. O que não tem sido notado é que essas linhas de in- tidos, e a luz sobrenatural ou inspiração do Espírito Santo,
terpretação, mais do que uma vaga referência cultural e histó- da apenas aos fiéis e que é fonte de verdade infalível. O prin-
rica, constituem algo de muito próximo do autor, visto serem o fo hermenêutico da Escritura deverá ser, segundo Serrarius,
tema da polémica travada entre dois homens seus conhecidos e ,9 a luz natural, mas o Espírito. Ora, o espírito «sopra onde
que com ele se relacionam, precisamente nos anos em que es- :r», fala de muitas maneiras, as palavras reveladas são uma
creve o Tratado: Louis Meyer e Pierre Serrurier, de seu nome . Portanto, a Escritura deve interpretar-se por si mesma e
latino Petrus Serrarius. .o pela razão. Se há controvérsias a tal respeito, elas provêm
Meyer é um destes «cristãos sem igreja» que professam a damente desta pretensão da filosofia com que Louis Meyer
tolerância religiosa e rejeitam a autoridade em matéria de fé. . quer sanar: só a fé do homem renascido (renatus), e não as
Amigo de Espinosa, virá mais tarde, em 1663, a encarregar-se eculações do homem condenado (damnatus), por muito que
da publicação do seu primeiro livro impresso, os Princípios da se considere o verdadeiro Renatus (Descartes), poderá res-
Filosofiade Descartes,escrito, aliás, a seu pedido, e voltará, em 1belecer a piedade e a paz da cristandade, objectivo a que in-
1670, a encarregar-se da publicação das Opera Postuma, com pre- . amente se devotam o barroquismo dos argumentos e a fé
fácio de Jarig Jelles que Meyer traduz para latim . Em termos
filosóficos, o seu cartesianismo é levado a extremos que ultra-
passam os do próprio autor do Discurso do Método, na medida
ljj em que pretende que a Escritura é perfeitamente inteligível no 3
(:'' quadro da razão natural. É mesmo essa a tese principal do seu Scientia propter potentiam
fül livro PhilosophiaSacraeScripturaeInterpres, editado anonimamente
em 1666 e explicitamente criticado no ITP (cf. infra, anotações , Enquanto isto, Espinosa escreve, desde 1665, o Tratado Teo-
~I ao cap. xv, pp. 316, 319 e 323). Sete anos mais tarde, a obra ,ilógico-Político,conforme se vê pela carta já referida, uma das que
111!! aparecerá apensa a uma edição do Tratado como sendo igual- &rrarius levou a Oldenburg . A polémica, evidentemente, rodeia-
Jv/ mente de Espinosa, o que demonstra, quer as ambiguidades que -o de muito perto, mas ele distancia-se. Qualquer das soluções
rodeiam esta discussão, quer a tendência para a reduzir aos dois em confronto é, afinal, já antiga e circulou por todas as religiões

l
:f.11

1:I
1/ 78 79
•recem misturadas . De qualquer modo, o que interessará aqui
Ui·li
1 '
que se reivindicam do texto bíblico, havendo, por conseguinte,
que a isentar de circunstancionalismos. É esse o motivo que leva ar é que ambas projectam na hermenêutica seiscentista vários
1 .,,. i· seus tópicos mais marcantes . Vejamos alguns.
Espinosa a recuar no tempo e a situar a controvérsia em parâ-
metros de intemporalidade, mediante a invocação de dois no-
11!,.,;.J mes que, sendo embora de figuras históricas, funcionam como a) Valorizaçãoda eloquência.É o traço mais característico do

•:11!
, 'I se fossem de personagens paradigmáticas: Maimónides e Alpha-
kar. Do seu «diálogo» concluir-se-á que o problema não tem
anismo renascentista e podemos encará-lo sob duas pers-
tivas: o estudo das lípguas clássicas, sem o qual se considera
!l; solução de um ponto · de vista · religioso; uma vez que todas · as .til a discussão dos termos filosóficos, e o estudo da retórica
f,'l' religiões e seitas vão for~osamente, _ pela s~a .lógica intrínseca, a jurisprudência de inspiração ciceroniana. Em Zabarella, como
11:, maioria dos mestres paduanos, estes elementos serão tidos
reconstruir o mecanismo de .exclusãô que torna a guerra · irreme-
.,,1
1!1:
·
n,,,,.j
li. diável. Só na exterioridade dessê espaço · polémico em que· todas conta, ainda que destinados apenas a um melhor conheci-
11."
.1 elas convergem é que se pode encontrar uma saída. - o proble- nto da linguagem aristotélica, por forma a expurgá-la do bar-
1 it ma, portanto, não é a reconciliação no interior desta ou daquela mo das traduções existentes. Mas noutros, como em J. Luis
f~,, Igreja, recorrendo a este ou àquele método, à razão ou à fé, ·es,eles redundarão numa recusa do estudo abstracto e uni-
r't11' mas sim a paz civil que garanta a livre expressão de todas as 1 da palavra, ao qual é contraposta a convicção de que cada
,.11
..
l' opiniões, verdadeiras ou falsas. a tem o seu génio próprio e de que, por conseguinte, são
,~·:·
•I
11 ·.. Uma via 'aparentemente plausível para tal programa político regras lógicas que derivam de hábitos linguísticos e não o
1! "í
era a que se poderia deduzir do humanismo renascentista, na ..;rso (cf. Coxito, 1983, p. 69). Contra a tradição veiculada pelas
sua vertente probabilista e mais ou menos céptica . Há, com ,las, onde o modelo de demonstração é procurado nos Ana-
efeito, nesse humanismo que vem de Petrarca e do seu distancia- ,9 de Aristóteles, os humanistas vão impor a ideia de que a

mento face à sofisticada lógica dos escolásticos de Paris e de ca se tem de aplicar a questões práticas e de interesse pú-
Oxford, «os bárbaros britânicos», mais do que um elemento a o, devendo, por isso, revestir-se de adornos retóricos para
repercutir-se neste problema. Resumindo a controvérsia às suas lhor ensinar, persuadir e impressionar agradavelmente os
posições extremas - já que não podemos ver em pormenor toda · tes ou leitores . É o que proclama abertamente, entre ou-
a rede complicada em que se embaraça a gnosiologia renascen- ,s,Lorenzo Valla (cf . Vasoli, pp. 412-434), que subordina a
tista (cf. Gilbert, 1963, Vasoli, 1968, Coxito, 1980 e 1983) na sua à retórica, os Analíticos aos Tópicos e à oratória de Cícero
tentativa de encontrar uma teoria do método que seja em si- tiliano.
multâneo coerente e fecunda, uma ars demonstrandi que se des-
dobre em verdadeira ars inveniendi- diríamos que estão em jogo b) Tentativa de unificaçãodo método. Também aqui as diver-
duas atitudes que são outras tantas tentativas para superar os das são inúmeras, quer no que respeita ao conceito de ciên-
impasses da Escolástica: uma, de natureza pragmática, que tende , quer às vias para a sua formulação, mas o facto é que tanto
a diluir a filosofia numa arte de expor e argumentar; outra, de pstotélicos como humanistas procuram, a partir de postulados
natureza mais teórica, que pretende reactivar o aristotelismo, ~erentes, encontrar uma coerência na exposição dos saberes,
1
acentuando o carácter «instrumental» da lógica, mas ressalvan- '1t.indaquando esta se constrói sobre o critério da utilidade, o
do sempre a diferença entre a linguagem universal da ciência, ,gual se arrisca ao probabilismo e ao cepticismo. Se é verdade
independente da forma e do idioma em que se exprime, e a ) que a metodologia renascentista, na sua vertente mais huma-
linguagem «civil», que é limitada aos problemas éticos e políti- ·rusta, centra preferencialmente a atenção na p rocura de argu-
cos e que recorre à dialéctica e à retórica como seus processos '!_mentos, à qual reduz a inventio, não é menos verdade que a
naturais de expressão. Evidentemente, e muito embora se en- outra face da dialéctica, isto é, a ordenação dos argumentos (judi-
contrem casos em que uma e outra destas atitudes se desenham cium) também lhe não é estranha, como se poderá verificar, por
111 com nitidez - por exemplo, Mario Nizolio para a primeira, Ja- . ~xemplo, em Rodolfo Agrícola . Em última análise, «qualquer tipo
copo Zabarella para a segunda -, a maior parte das vezes elas ' de doutrina ou de ciência tem sempre de se expressar em pala-
4
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111

1ll 80 81
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vras mediante orationes, as quais, diver gindo embora no s seus J11.a5,isto é, em função d a arte de constr uir; toda a especulação,
objectivos, se destinam sempre a tornar convincente a própria ·· $um.a, foi criada com vista a urna qualquer acção ou traba -
verdade. Todavia, esta 'disposição ' do discurso depende, natu- .Q» (De corpore, r, r, 1, 6, in Op. Log., ed. Frankfurt, vol. r, p. 6,
ralmente, da arte retórica, tal como a inventio depende da habi- .,.,t. in Gargani, p . 40). Esta dimensão instrumentalista não im-
lidade do dialéctico . Por conseguinte, as duas artes devem coope- "'.01,no entanto, concessões à contingência, já que todo o saber
rar, em todas as ocasiões, para a perfeita elaboração do discurso r? no plano da necessidade. Simplesmente , uma tal necessi-
filosófico ou científico » (cf. Vasoli, p. 160). ,e não é ontológica mas tão -só formal. A ciência é o domí-
Escusado será dizer que o modelo de ciência aq~ pre~ente ., ~ apreensão da experiência que se nos oferece sensorial -
é o modelo platónico, visíve1 também em Aristóteles, de urna '·· .te através do seu registo e modulação em conceitos, os quais
ciência já feita para a q~l é neces~ário procurar os argumentos :rrreproduzem a essência dos seres, como na lógica aristoté-
demonstrativos. Mesmo num _PierrÉ:!de la Ramée, que àtribtli ao ~ .ou ainda nos tratados alquimistas : são apenas termos
estagirita a origem da separaçã"o entre .uma lógica d_o saber çien- -~encionais que se conectam em estruturas lógico-linguísticas
tífico e outra do discurso vulgar e das matérias em ·que se -pro- ( Gargani, pp. 38-51 e 88-93).
cura apenas a persuasão, contrapondo-lhe que se podem conhe- ·;·A ciência faz-se, pois, em dois tempos, no entender de Za-
cer todas as coisas, necessárias e contingentes , pela mesma lógica, Ua: o da resolutio, em que se procede a uma análise dos
a pesquisa ou inventio é apenas um recurso prévio à ciência pro- ,()s da experiência imediata «com o objectivo de seleccionar
priamente dita. Ciência, para ele, é a exposição, a doutrina, o les aspectos dos fenómenos empíricos que possam ligar-se
ensinamento. Longe de conceber qualquer diversidade de mé- .do nexos necessários dentro dos esquemas e construções
todos, o que Ramée tenta é organizar as noções no seio das -·cas próprias do aparato formal da metodologia científica »
várias disciplinas sob a mesma aurea catena,quer se trate da retó- :gani,p. 42); e a compositio,pela qual se produz a demons-
rica de Cícero, da história natural de Plínio, ou da história hu - lp da neces sidade do nexo entre os fenómenos. É neste se-
mana, a qual sujeita ao mesmo método quando escreve o Liber '.do tempo que surge a ciência propriamente dita, pese em-
de moribus veterum Gallorum ou o Liber de Caesarismilitia. A tese â a importância do primeiro que lhe é, de alguma forma,
fundamental é a de que todas as artes foram inventadas antes ,idiário. Em conformidade, o método aparece explicitamente
do silogismo e que este serve apenas para as ensinar . O ensino, dado ao silogismo 11. Por outro lado, e não obstante a rei-
porém, deve seguir sempre idêntica via: tal como a mesma vista picada distinção entre «método » e «ordem », a invenção que
vê o mutável e o imutável, assim a mesma lógica pode conhecer •;rirneiro supõe ficará adstrita à descoberta e modulação das
11dades formais e dos argumentos, distante, por conseguinte,
todas as coisas, sejam elas necessárias ou contingentes.
Diferente desta é a perspectiva dos paduanos, em particular natureza, a qual se oferece confusamente ao conhecimento e
a de Zabarella, que gozará de enorme prestígio na Holanda dos '· cisa de ser transposta para o plano artefactual em que de-
princípios do século xvu. Diferente em dois sentidos: em pri- a ciência . Diferente da doutrina de Vala ou de Agrícola, a
meiro lugar, porque o seu conceito de ciência permanece, no . 1ncepção de Zabarella a este respeito não será menos diferente
essencial, aristotélico, reivindicando como seu objecto exclusivo .~a que propõe Francis Bacon, aos olhos de quem «a invenção
o universal e necessário; em segundo lugar, porque a sua ver - Jo discurso e dos argumentos não é propriamente urna inven-
/1
1, são do método se aparta da simples ardo, com a qual habitual- ~o: porque inventar é descobrir aquilo que não sabemos e não
li; mente se confundia, para se afirmar como um processo autóno- ~ftetomar ou recolher aquilo que já conhecemos; e o uso desta
mo de pesquisa que conduz do conhecido ao desconhecido. Uma . invenção não con siste senão em extrair do conhecimento aquilo
e outra destas diferenças conjugar-se-ão num corpo de doutrina
que, insistindo embora na tendência humanista para perspectivar
d o saber em função do homem, o desvincula, todavia, da simples 11 «Nihil aliud videtur esse metllod11s quem syllogismus, et deftnitio methodi a
'I arte retórica . Na verdade, também para Zabarella, «a ciência iltftnitione syllogismi non differt» (Zabarella, De Methodis, UI, 3, Op. Log., ed . Frank-
1
1
existe em função da potência, o teorema em função dos proble- furt, p. 226).
1

1
82 83
1

1
os textos sagrados 12 . Nizolio, por seu turn o, irá ainda
que pode servir para a finalidade que tomamos em considera- longe, ao estabelecer a teologia como única ciência com
ção » (The Advancement of Learning, ed. de 1905, p. 115, cit . in '6nalidade exclusivamente teor ética, que se deve apartar das
Gil, p. 432). Se Bacon desconhece a importância da formulação ~ metafísicas, a seu ver sempre supérfluas, à semelhan-
das estratégias cognitivas, da criação e combinação de mecanis- que fazem todas as outras ciências, a começar pela mate-
mos formais produtores de ciência, Zabarella, por seu turno, e a física, que são ciências não só teoréticas mas também
não chega a estabelecer uma articulação entre a necessidade do :as e cuja função se não esgota no conhecimento, e a aca-
registo artificial da ciência e a contingência dos objectos. sensorial- ética, a política e a «economia », que são práticas mas
mente dados. As oscilações ·em que s·e· enreda Hobbes, na en- ' quanto ciências, são também contemplativas e teoréticas
cruzilhada destas duas tendências: ao -classificar os diversos sabe- ·a~li, pp. 623-624).
res (reduzindo, no limite , o carripo: do cognoscível ao arl~faétual,
mormente a geometria e a política, e · remetendo . as ·_o_utras _ciên-. ,
cias para o estatuto de prováveis), testemunha exemplarmente
as insuficiências das várias metodologias em confronto.
método em Espinosa
c) Delimitação dos campos disciplinares. Trata-se de um ideal problema das metodologias renascentistas é, obviamente,
que é, no fundo, aristotélico, mas que na Renascença aparecerá mais vasto, mas julgamos que o que ficou dito é suficien-
em ruptura com o aristotelismo. Tanto na Metafísica (A, 9, 992b, evidenciar os principais veios de uma tradição que de-
18-33), como nos Segundos Analíticos (I, 2, 165b, 1-2), Aristóteles na Ética e no Tratado Teológico-Político,onde vai ser alvo
insurge-se, efectivamente, contra os «pitagóricos», que identifi- . a reformulação enquadrada já em novos pressupostos.
cam a filosofia com as ciências matemáticas, «embora declarem t.-se, em resumo, de eximir a análise escriturística de Espi-
que tais ciências devem ser estudadas com vista a finalidades }ao quadro restrito da discussão, teológica por um lado,
bem diversas». Para o estagirita, cada disciplina tem os seus .ta por outro, a que habitualmente andou associada.
princípios (archai), a partir dos quais se operam as demonstra- ~tes de mais, aquela tradição permite-nos compreender o
ções (cf. Gil, pp . 389-437). O humanismo de Quinhentos reagirá \ 1 amento do problema do literalismo. Com efeito, o intuito

contra a amálgama disciplinar provocada pela disseminação de :,travessa a interpretação bíblica no Tratadonão é já a sim-
questionários aristotélicos e platónicos por todos os domínios recuperação de um texto na sua versão original, como acon-
do saber, mas o que genericamente lhe contrapõe é uma divisão na erudição da Reforma cristã ou na oposição à tradição
das disciplinas em função das respectivas finalidades. O que de ica por parte de alguns judeus: é, sim, a historicização desse
Aristóteles prevalece é, ainda e sempre, a associação da ciência .o texto, quer dizer, o seu enquadramento num sistema de
ao ensino e não será para admirar que uma das mais coerentes ÜS convencionais historicamente produzidos, no seio do qual
e polémicas defesas desta separação dos diversos ramos do sa- e se torna significativo. Situar o ITP na dependência directa
ber apareça no Proemium reformandaeParisiensis Academiae, diri- quilo a que Bataillon chamou o «biblismo» renascentista seria
li, gido, em 1562, por Pierre de la Ramée a Carlos IX. A reforma {_equívoco, pois enquanto este vê no texto uma instância fun-
da universidade que aí se reclama vai toda ela impregnada de dara, Espinosa equaciona dialecticamente a questão, partindo
um saber voltado para a prática, tal como o defendem humanis- exterioridade do texto - a língua em que ele está escrito e a
tas como Vives ou Nizolio, e assimila, em relação à teologia, as iedade que o produziu e sob ele se moldou - para passar

l:
·1!
teses de reformadores como Erasmo, para quem a religião se
devia apartar das especulações filosóficas dos Gregos. É um pro-
k,... jecto destinado a formar juristas que não conheçam apenas o
12 «In christianaetheologiaescholis paganasaepius quam christianaphilosophia
''I direito canónico, médicos que não se fiquem pela discussão de
,.,, , ,mditur» - queixa-se Ramée (cit. in Vasoli, p. 510).
Galeno, teólogos que deixem as sofisticações filosóficas pela lei-
..
85
84
depois à investigação dos objectivos nele inscritos e da sua in- Tratado toda e qualquer transcendência. Para se compreender o
terferência na história . Assim se explica a importância que o autor seu sentido, é necessário saber se os livros de que dispomos
do Tratadoatribui à elaboração de uma Gramática do Hebraico, são originais ou cópias; no caso de serem cópias, se trazem ou
projecto que deixará incompleto mas que em seu entender se não erros de transcrição e se estes foram deliberados ou invo-
justifica por serem «numerosos os .que escreveram a Gramática luntários; é necessário, além disso, apurar quando e por quem
da Escritura, mas nenhum ter escrito a Gramática da língua he - foram escritos, determinar a sua proveniência ou inspiração, etc.,
braica» (CG, cap. vn). etc. É a chamada crítica externa dos documentos. Mas esta, só
Filologia · e -história surgem, portanto, como eleméntos · im- por si, não basta. Por muito longe que possa ir, há-de sempre
prescindíveis para a comprt:ensão ,do .texto .l:>íblico.Parte-se, por confrontar-se, não apenas com a escassez dos materiais necessá-
um lado, do pressuposto j~ aludid"o de que se deve ll_l.tei:ptetar rios, como também com a própria natureza dos textos que ve-
a Escritura pela Escritura e, · por outro . lado, da . evi9-ência de ' nham a apurar-se. É aqui que Espinosa introduz uma inovação,
que não estamos perante um livro ·como, por ·exemplo, ó de ao afirmar que «o método de interpretar a Escritura não difere
Euclides, onde o sentido é transparente e imediatamente apreen- do método de interpretar a natureza [ ... ] Na realidade, assim
sível, não carecendo, portanto, de interpretação. Porém, a opa- ·como o método para interpretar a natureza consiste essencial-
cidade da Escritura não deriva dos ensinamentos religiosos que : JJ1ente em descrever a história da mesma natureza e concluir
ela propicia, o que implicava ser a religião só para os sábios, Jiaí,como dados certos, as definições das coisas naturais, tam-
nem das ideias filosóficas sobre Deus e o homem que suposta- :'bémpara interpretar a Escritura é necessário elaborar a sua his-
mente contém, visto não se tratar de uma súmula de metafísica ,ria autêntica e, depois, concluir daí, como se fossem dados e
e visto as próprias revelações serem interpretadas pelos profe- · dpios certos, o pensamento dos seus autores como legítima
tas para o povo. Donde virá, então, a dificuldade em estabele- equência.» (infra, p. 222).
cer o autêntico sentido da Escritura? Espinosa sustenta que ela Por história entende-se aqui a recolha de factos prévia à
reside unicamente na língua em que está escrito o Antigo Testa- pectiva articulação numa teoria. Já Aristóteles recomendava
mento e que era falada pelos autores do Novo, os quais, por .e se começasse por aquilo que é mais conhecido por natureza
isso mesmo, ao escrever, «hebraízam». E são várias as razões :Física,1, 1, 184a, 16-18). Mas «o mais conhecido para nós», nesta
que apresenta: primeiro, a restante literatura hebraica perdeu-se pção que é a de Espinosa como era já a de Zabarella ou de
com o tempo, enclausurando assim a leitura da Bíblia no seu .obbes, significa apenas o objecto indiferenciado que se nos
próprio universo; segundo, a linguagem oral dos Judeus trans- ' ª resenta pela sensação. A história do texto não é, por isso, a
formou-se em contacto com outras culturas, sobretudo a partir ve da sua leitura, é apenas a base para encontrar os princí-
da diáspora, tornando quase impossível restabelecer a norma ·-- a partir dos quais se deve deduzir ·o pensamento dos auto-
vigente ao tempo da redacção dos Testamentos; terceiro, os acon- )'es. Como se encontram esses princípios? «Da mesma forma que,
tecimentos ali mencionados foram, a maior parte das vezes, · estudar as coisas naturais procuramos, primeiro que tudo,
descritos muito depois de se terem verificado, o que lhes per- . '.aquelas que são absolutamente universais e comuns a toda a
mite aparecer com uma aura mítica quando transpostos para um 'natureza, tais como o movimento, o repouso e as respectivas
horizonte cultural diferente e onde se perde o sentido que pos- Jeise regras, que a mesma natureza observa sempre e segundo
suíam para quem os presenciou; quarto, o corpus escriturístico 88 quais age continuamente, passando-se depois gradualmente a
hoje em dia disponível é o resultado de uma selecção feita pe- outras coisas menos universais, também na história da Escritura
los rabinos com intuitos bem definidos. 'é preciso, antes de tudo, procurar aquilo que é mais universal e
A tarefa da interpretação destina-se, pois, a tentar refazer a . 'constitui a base e o fundamento de toda ela, aquilo, enfim, que
história do texto através da história da língua hebraica e da · todos os profetas recomendam como doutrina eterna e da maior
história dos que o escreveram, dos que o seleccionaram e da- utilidade para qualquer mortal» (infra, p . 226).
queles a quem foi primeiramente dirigido. Tal como acontece a A exigência de um primeiro princípio a partir do qual se
Deus na filosofia da Ética, também à sua Palavra se recusa no ' ·deduzam outros menos universais coloca-nos, de imediato, face

86 87

r
ao problema do mos geometricus e da sua aplicação generalizada indício claro da sua diferença em relação a Descartes. Este, com
a todos os domínios do saber . Diga-se de passagem, uma tal efeito, acedendo embora a reescrever, segundo o método da
exigência lança adicionalmente uma suspeita sobre a interpre- síntese, as Meditações, que na primeira versão constituíam um
tação frequentemente apresentada dos seis primeiros capítulos ~ exemplo do método analítico, mantém até ao fim que o verda-
do Tratado. De facto, como é que se pode ler aí uma definição . deiro processo de investigação é, na metafísica, a análise, dada
dos conceitos a utilizar depois na exegese bíblica - profecia, lei, a dificuldade de conceber as suas primeiras noções, as quais,
milagre, etc. - se o método explicitamente apontado a essa exe- .«se bem que não sejam por natureza menos claras que aquelas
gese refere como ponto de partida aquilo que «todo~ os profe- ,que se têm em consideração na geometria [... ], só são perfeita-
tas recomendam como q.ou_trina et~ma»? A única coisa que pode ~ente compreendidas por aqueles que estiverem extremamente
extrair-se desses capítulo~ é .uma ...inversão da tese dg :que · ·tudo atentos e procurarem afastar o espírito, tanto quanto possível,
se contém no saber bíblico, · substituindo-a pela tese de que a .do comércio com os sentidos» (AT, VII, p. 157). É de notar que
Bíblia se contém no saber da totalidade. Contudo, se- a natureza análise cartesiana se supõe a si mesma como uma ruptura com
1silogismo aristotélico, apresentando-se como um modelo ex-
não pode ser interpretada à luz dos enunciados da Escritura,
tão-pouco esta o pode ser à luz dos princípios com que inter- ;iessamente inspirado nas matemáticas. Além disso, trata-se de
pretamos a natureza no seu todo - metafísica - ou a natureza modelo que pretende afastar a própria geometria de Eucli-
em qualquer dos seus atributos - física e gnosiologia. Há que !ês, em seu entender estática e não genética, substituindo-a pela
encontrar, a partir daquilo que vem explícito na Bíblia, os prin- .etria analítica, a qual considera as figuras, no plano ou no
cípios adequados à sua interpretação, procedendo de acordo com aço, pela sua génese a partir do ponto. Como sugere Descar-
o método de investigar a verdade, este, sim, universal. ., ainda no mesmo texto, em resposta aos que lhe solicitam ·
Sobre o método, convirá ainda frisar que não se trata aqui exposição «sintética» das Meditações,sé os antigos usaram a
de simples ordem expositiva. Julgar o mos geometricus como um .tese, não foi por desconhecerem a análise, mas «porque a
tributo pago por Espinosa a uma espécie de moda do seu tem- em tão alta consideração que a reservavam só para si
po (Negri, p. 276) ou assimilá-lo às analogias entre matemática o um segredo importante» (AT, vn, pp. 156-157). O método
e filosofia tão vulgares no platonismo e no panteísmo renascentis- .dequado será, portanto, para Descartes como para Malebran-
tas, seria fechar os olhos por sobre páginas e páginas em que o ' ou Louis Meyer, aquele que procede de intuição em intui-
autor da Ética o reivindica a título de verdadeira ars inveniendi , produzindo pela adição sucessiva de intuições particulares
e instrumento de progresso filosófico e científico. É claro que a Intuição do todo.
polémica a este propósito, travada ao longo do século XVII, está A atitude cartesiana face ao método implica duas teses fun-
cheia de equívocos e muitas vezes não passa de mera disputa .entais na ordem metafísica: primeiro, a distinção entre ma-
verbal, tão ambíguas são as noções de análise e síntese no pen- 'a e espírito, de modo a assegurar a possibilidade do enca-
samento da época . A «contaminação» entre os dois procedimen- .ento das intuições independentemente dos dados sensoriais
tos metodológicos é, efectivamente, a prática usual. Basta dizer, da dúvida que estes geram; segundo, que entre a ideia e o
por exemplo, que Descartes atribui à síntese exactamente as feeu correlato ontológico haja uma relação de causalidade, a fim
mesmas características anteriormente compreendidas na análise, . , que à realidade objectiva que há na ideia corresponda uma
assumindo mesmo a reformulação destas categorias (Regras, rv, realidade formal no ideatum que é sua causa. Entre as ideias, tal
í como entre as coisas e as ideias, pressupõe-se assim um nexo
AT, x, p. 375; Discurso do Método, cap. II, AT, v1, p. 17), enquanto
a Lógicade Port-Royal imputa à análise as funções vulgarmente causal que estava de todo em todo ausente na escolástica tradi-
distribuídas pela análise e a síntese (cf. Angelis, p. 406). Mas donal, pesem embora alguns afloramentos da questão em Sua-
isto não invalida que Espinosa, ao mencionar tão enfaticamente rez (cf. Angelis, pp. 414-427). É mesmo esta a principal objecção
no título da Ética o método que vai utilizar, não esteja a frisar ·.queàs Meditaçõeslevanta Caterus. Com efeito, diz este, «a reali-
uma demarcação que está longe de ser de pormenor, pois faz dade objectiva é uma pura denominação; actualmente, ela não é
nada. Ora, a influência que uma causa produz é real e actual; o
11l 1
parte integrante do sistema metafísico e é, simultaneamente, um
,111·1

' 1 89
88
.\l1i1
que actualmente não é nada não a pode receber e, portanto, Lat., 1v, cf. Guéroult, idem, p. 482), como verdadeiro processo
não pode depender nem proceder de nenhuma verdadeira causa de aquisição de ideias adequadas. A geome tria analítica, fosse
[... ]. Há, por conseguinte, ideias, mas não há causas das ideias» qual fosse o grau de compreensão que Espinosa dela tinha, se-
(Primeiras Objecções,AT, vu, pp. 92-93). Ao que Descartes res- ria sempre recusada por suspeita de trabalhar sobre a ilusão do
ponde, retomando a argumentação já aduzida na m meditação, discreto, isto é, dos números, que são produ tos da imaginação,
que as ideias, primeiro, não são um puro nada e têm, portanto,
de possuir um qualquer tipo de realidade; segundo, esta r~ali-
'º passo que a geometria euclidiana, a partir da compreensão
' ~a propriedade fundamental comum a todos os corpos, conhece
dade tem de ter uma ·causa; e i:etceiro, podendo embora as ideias intuitivamente todas as formas possíveis que o movimento en-
ser causa de outras ideias, .este p'r_ocesso não poderá ir até ao ;,ridra a priori e apresenta os seus objectos como estruturação e
infinito, devendo chegar-se a wna primeira ideia cuja cài;i.sa: con- · :omo estruturas desse movimento.
" tenha formalmente toda a realidade cjú.e se encontra obJect_iva- De uma maneira geral, os intérpretes do Teológico-Político
mente e por representação nas ideias. "Só àssirri se garante -que o se demoram nesta questão, limitando-se a repetir o que
uma ideia seja ideia disto e não daquilo . Mas, para tanto, é ,inosa diz no cap . vn, aparentemente sem repararem no pro-
necessário estender a causalidade eficiente, já admitida no do- a que se levanta. Efectivamente, como conceber que o mé-
mínio da extensão, ao donúnio do pensamento e ao domínio da o apresentado como produtor da verdade se aplique a um
relação entre a ideia e o ideatum. .to que, nos capítulos anteriores, fora exilado para os domí-
Em Espinosa, este último aspecto é liminarmente recusado. da imaginação? O mos geometricus é reivindicado na Ética
A ideia e o seu correlato têm a mesma dimensão ontológica, rquea ordem das ideias é a mesma que a ordem das coisas.
não porque este seja causa daquela, mas porque ambos são ex- ém, as ideias da Bíblia, a doutrina dos profetas, são ideias
pressão da mesma substância modificada em atributos distintos. s, fruto da passividade em que o homem está face a um
Além disso, o processo de causalidade que Descartes admitia do de coisas de que o entendimento não descortina os ver-
entre as ideias mas de forma ainda limitada, uma vez que teria eiros nexos causais . Como poderá, então, falar-se ainda de
sempre de se deter num limiar de passagem ao nível ontológico ordem geométrica das ficções?
(de outra forma, como se poderia demonstrar a existência de A solução deste problema passa pela já atrás referida positi-
Deus?), surge-nos em Espinosa levado às suas últimas conse- - .ade da imaginação e constitui um ponto decisivo para a com-
quências: a estrutura causal verificada no atributo extensão nsão do pensamento de Espinosa. Uma ideia da imagina-
verifica-se também e identicamente no atributo pensamento. '~p, recorde-se, é inadequada na medida em que resulta da
Assim sendo, o método não poderá partir da intuição de uma 'vidade do sujeito face a outro ou outros seres que o afec-
primeira natureza singular para uma outra e assim sucessiva- . Enquanto tal, ela traduz apenas o estado de um corpo afec-
mente, num prolongamento linear e pontual, analítico, portanto, do por outro ou outros, mas não exprime a essência deste ou
mas sim da intuição prévia da totalidade, que toma possível a tes. Por conseguinte, a sua função não é o conhecimento, a
das partes no todo e a do todo nas partes (cf. Guéroult, 1968, ordem não é a do verdadeiro ou falso e só quando a corn-
'I

.~
vol. 11, p . 485). Ou seja, é a imanência da causa ao efeito que ,aramos com esta é que a poderemos entender como privação.
assegura a realidade deste e, por isso mesmo, o método terá de si mesma, ela insere-se no domínio do ser: «as imaginações
ser genético para traduzir a realidade das ideias e das coisas r,da.mente, consideradas em si mesmas, não contêm nada de er -
enquanto modificações da substância única. ' JÓneo; melhor dizendo, a mente não está em erro porque ima-
1 Mais do que genético, ou sintético, dever-se-ia chamar-lhe ·pa, mas unicamente enquanto a consideramos como privada
~1 1 euclidiano. Porque é, de facto, este método onde as definições
exibem a produção dos seus objectos, método que fora refor-
;~ ideia que exclui a existência das coisas que ela imagina pre-
:sentes» (E, rr, prop. xvn, esc.).
mulado pelos matemáticos de Oxford, em particular por Henry · Porém, a positividade da imaginação pode encarar-se de
:ri Savile, que aparece a Espinosa, na sequência directa de Hobbes " outros ângulos. Primeiro, as ideias adequadas não erradicam as
e da sua Examinatio et ernendatiomathematicaehodiernae(1660, Op. ,. ideias confusas que imaginamos: o saber de astronomia não faz

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com que o Sol deixe de aparec er a uma distância e de uma fuétodoque se segue na ciência, pro longando assim a ciência do
dimensão que não correspondem à realidade . Segundo, embora -~ puma espécie de ciência da ficção (cf. Galichet, p. 10).
o sujeito se comporte passivamente no processo imaginativo, se i. Esta última «ciên cia», que tem por objecto a imaginação, não
os corpos que agem sobre o seu se «compuserem» com ele, isto -~: esgota na sua identificação como algo distinto do conheci-
é, se não contribuírem para a sua decomposição, o contacto au- -\nto adequado das coisas, nem anula a emergência de ideias
menta a sua potencialidade e é por isso que Espinosa fala de ~dequadas. Conhecer o homem é reconhecer a sua essencial
paixõesalegres,nas quais, por oposição às paixões tristes, _se experi- ·.tude, o que, na metafísica espinosana, equivalerá a reconhecê-
menta um sentimento de acréscimo das · potencialidades próprias. como um certo grau de potência do entendimento infinito
Terceiro, porque quanto :m~i9r é a_compl~~dade de um corpo, também e simultaneamente como um certo grau de impo-
ou seja, a sua capacidade de entrai em contacto com ou:tros·cor- .cia.O modo finito, ao contrário da essência de modo, que se
pos, mais habilitada estará à. tnente : para cheg _ar . a .atingir as ~a directamente por Deus e só formalmente se distingue no
noções das propriedades comuns a esses corpos e passar âssim ·or do atributo como um grau de intensidade, é sempre
ao segundo género de conhecimento. Em resumo, a imaginação ·.cado por causas exteriores e realiza-se pela afirmação de
é parte integrante do homem, elemento constitutivo da sua es- agregado de partes interactuantes entre si e com outras en-
sência enquanto modo finito. Porque se o homem possuísse uni- tdes que exogenamente a influenciam. Enquanto parte do en-
camente ideias adequadas, o seu entendimento coincidiria com . · -ento infinito, o entendimento humano é pura actividade.
o entendimento infinito, o seu ser diluir-se-ia na totalidade: afir- , se o homem se definisse apenas por ele, não possuiria
mar-se como indivíduo é precisamente demarcar-se, já da totali- .o ideias adequadas e, em última instância, identificar-se-ia _
dade, já da infinidade dos outros seres. Enquanto parte do en- Deus, já que, se uma ideia adequada se explica por outra
tendimento infinito, o entendimento humano é actividade pura ia adequada, e assim sucessivamente, possuir o conhecimento
cujo horizonte seria a coincidência com o todo de que faz parte. dadeiro de uma coisa equivaleria a ser entendimento infi-
Atingir, porém, este horizonte era negar-se como individuali- ). Por isso, o conhecer-se adequadamente como indivíduo iro-
dade. A sua essência, por conseguinte, reside tanto na presença .ta reconhecer-se como um conjunto de ideias adequadas a
como na ausência de ideias adequadas. de um conjunto de ideias inadequadas. Por muito que o
A ser assim, no entanto, como explicar que Espinosa intente, .em possa progredir no conhecimento de si e das coisas, a
quer na Ética, quer sobretudo no Tratado Teológico-Político,supri- condição impor-lhe-á sempre, não apenas a ausência de inú-
mir a ilusão teológica? Por uma razão muito simples. Como se as ideias verdadeiras, mas também a presença de inúmeras
diz no apêndice à I parte da Ética, texto a vários títulos notável ·fas confusas em que se exprime o maior ou menor grau de
sobre a génese das ilusões, estas derivam, não só do facto de ividade da sua mente.
«todos os homens nasce(re)m sem nenhum conhecimento das , Este aspecto do espinosismo ajuda a compreender algumas
causas das coisas», mas também de eles «ag(ir)em sempre em es decisivas, e muitas vezes elididas, do ITP . Antes de mais,
vista de um fim». Por isso, e ainda que as ideias da imaginação ;ele transpõe os dogmas universais que, no cap. XIV, Espinosa
nunca derivem da actividade do entendimento, dado resulta- eduz do ensinamento dos profetas para um estatuto que de
rem dos encontros acidentais entre os corpos, há um certo tipo ,rma alguma se pode assimilar ao de uma moral provisória ou
de imaginação através do qual o homem tenta organizar essa ,,:-'e mensagem contemporizadora com as limitações dos cristãos
contingência em função do que lhe é útil. No fundo, é sempre o reformadores. Com efeito, denunciar a ilusão teológica não sig-
lí .1 ,nifica abolir a ilusão, o que seria um projecto absurdo num ser
l·'i temor ou a esperança, quer dizer, a situação real do ser huma-
i) no perante os outros seres, que se traduz na imaginação. Toda- ·'finito, já pela constituição ontológica deste, já pela natureza ir-
1i, remediável da sua actuação, que se processa na ignorância das
via, porque é destinada à preservação do ser, essa tradução pode
t:!1•'i~ revestir a forma de um projecto e modular-se num sistema de causas e sempre em vista de um fim, em vista de algo que ele
representações coerentes, exactamente como acontece ao enten- rotula como útil à preservação de si mesmo. Recusando a ilusão
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'1 de um Deus soberano e juiz, ilusão que inverte a natureza das
dimento. Daí o ser possível aplicar à ilusão teológica o mesmo
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coisas ao pôr como causa aquilo que é mero efeito da condição se dil uir na indi stinção do todo. Supom os não andar muito longe
humana, o indivíduo nem por isso deixa d e actuar segundo da verdade se dissermo s que é este o pecado capital de inter -
determinados «valores », tais como a justiça , que lhe são racio- pretações , como a de Negri, tendentes a ver em Espinosa o filó-
nalmente ditados pela procura do útil próprio. Só assim se ex- sofo da revoluç ão radical e da libertação do homem de toda e
plica esta irredutível duplicidade que atravessa todo o Tratado e qualquer dependência. Tudo quanto lemos no Tratado vai num
se desdobra em denúncia da imaginação presente na Bíblia e outro sentido . Ele aponta , sim, para uma denúncia da ilusão
em dedução de uma outra orc!em imaginativa: «cada um e&tá teológica, porque sabe que esta «inverte a natureza » em função
obrigado a adaptar estes dogmas da fé ·a sua capacidade de do interesse de alguns. Mas exorcizar uma tal ilusão, apontando
compreensão e interpretá-los como Ul,eparecer ·que é mais fácil o homem em vez de Deus como sujeito do seu discurso e desalo-
aceitá-los sem reticências e de ânimo plellamente convict(J)>. (t'nfra, jando -a da ordem da verdade para a ordem da obediência - o
p. 313). . . . . . . _ .: _ que implica a separação entre teologia e filosofia - , não leva à
É paradoxal esta convicção, que obriga o homem a aceitar supressão da passividade nem da obediência : leva é à sua dedu-
sem reticências dogmas que ele sabe adaptados à sua mentali- ção com base em outras premissas. A partir de agora, o homem
dade! Será necessário levar aqui Espinosa à letra ou, como al- sabe que é o autor desses dogmas, que reduziu, portanto, o seu
guns intérpretes fazem, limitarmo -nos a assinalar a contradição, grau de impotência e passividade, mas não alterou o seu campo
seja para criticar a insuficiência do sistema, seja para lhe em- de actuação nem a sua condição finita. Ele sabe que «as ideias
prestar intuitos estratégicos sub-reptícios? Em nosso entender, inadequadas e confusas derivam umas das outras com a mesma
mais do que necessário , é ser imprescindível aceitar as formula - necessidade que as ideias adequadas » (E, n, prop. 36), razão
ções do Tratado tal como elas se apresentam, sob pena de se pela qual a teologia se organiza num sistema coerente e sobre ~
ignorar o seu projecto de uma metafísica do ser humano na sua posto à filosofia, e tem, por isso mesmo, de organizar diferen-
essencial finitude. Dissemos a princípio que não bastava ler o temente a actividade da imaginação, de forma a deduzir a obe-
TTP à luz da Ética. É necessário agora, com François Galichet diência da noção de justiça em vez de a deduzir de qualquer
(1972, p. 18), dizer algo mais: «a Ética reenvia para o Tratado ordem transcendente . É esse o trabalho da política .
como para a sua verdade (no sentido hegeliano) ». Sem esta du-
plicidade de razão e fé, ideias adequadas e ideias inadequadas,
conhecimento das causas necessárias e actuação em busca do útil,
a qual obriga a uma organização da contingência que o entendi-
mento sabe paralela ao discurso da verdade, o ser humano fi-
cará incompreensível.
Mas porquê, então, a denúncia da ilusão teológica, porquê
escrever o Tratado Teológico-Político?
Não estará aí a negação do
conhecimento do terceiro género, da libertação do homem com
,;li a qual termina a Ética? De forma alguma. É mesmo necessário
não ler o TTP como um momento de passagem em direcção a
essa finalidade redentora em que o homem seria pura activi-
dade liberta da dominação, já das diversas potestades, já do
temor das circunstâncias. Conhecer adequadamente o homem é
ter a noção do que nele é passividade e fonte de conhecimento
~,if.• confuso, sendo que interpretar de outra forma o conhecimento
1
1·_.1
do terceiro género suporia que o indivíduo negasse a condição
que lhe é essencial e não apenas acidental, que o mesmo é di-
·11 zer, que o indivíduo negasse a sua própria individualidade para

l
J 94 95
IV
AS TÁBUAS DA LEI
..

1
A ficção do contrato

De alguma forma, o Tratado Teológico-Políticoé também o


que se poderia chamar um «tratado da reforma da imaginação».
O seu intuito em relação à Escritura é arredá-la do domúúo da
· ciência para a situar no domúúo da efabulação, género literário
· que é universal na medida em que é comum a todos os povos
, (as outras nações também tiveram profetas, refere Espinosa,
; citando a Bíblia), mas que, em vez de explicar a natureza pela
universalidade de um saber sem sujeito, traz, pelo contrário, as
' µiarcas das diversas situações particulares aonde emerge. A Es-
. tritura é imaginação, conhecimento que indica a multiplicidade
causal em que o indivíduo está inserido, mas que não exprime
o seu exacto lugar na série de modificações em que se estrutura
,:r a actividade substancial.
Vimos como esta confusão que caracteriza o conhecimento
do primeiro género se desenvolve depois discursivamente se-
gundo uma ordem semelhante à do conhecimento verdadeiro,
não obstante as suas premissas e, por conseguinte, as várias ideias
daí deduzidas serem inadequadas. E vimos como Espinosa, pa-
!, radoxalmente, ensaia nos últimos dois capítulos dedicados ao
exame da Escritura uma espécie de ficção alternativa, deduzindo
da ideia de um Deus, que tem tanto de semelhante ao Deus
bíblico quanto de diferente do Deus sive natura da Ética, dogmas
:1( de fé em que se possa basear todo e qualquer posicionamento
l''I religioso possível. Ou seja, a Bíblia revela-se ainda susceptível
'/, de uma certa universalidade transversal à particularidade que

'iil 97
os seus enunciados denunciam . Não, obviamente, a universali- A primeira consequência do exercício deste direito natural é
dade da ciência, já que o seu conteúdo, além de inadequado, é o conflito, uma vez que o esforço para perseverar no próprio
incoerente nas diversas formulações teóricas e práticas que assu- ser só conhece os limites do próprio poder, ou seja, não cede
me. Trata-se tão-só de uma universalidade expressa pelo objec- senão perante um poder maior. O direito natural apresenta-se
tivo único de todas essas formulações - a obediência - e por assim como uma instância de luta em que o acréscimo da potên-
isso é que os referidos dogmas são ajustáveis à mentalidade de cia de um indivíduo se faz sempre à custa da redução da po-
cada um, permanecendo dogmas de fé enquanto deles se ~on- tência ou da destruição de outro . Para a natureza na sua totali-
cluir a prática da justiça e da caridade, · ou seja, a sujeição a dade, isto é irrelevante e corresponde até à «ordem normal das
Deus. A separação entre · filosofia : e teologia, -entre razão e fé, coisas», ao processo de actualização da potência infinita na di-
não pode, pois, entender-se cpmo ·uma qualquer reivindic:iéfÇão versidade conflitual dos conatus individuais. O problema é de
de carácter estratégico no fundo, ela é a tradução . da duplici- «cada um » e, de resto, coloca-se apenas aos seres humanos, visto
dade radical do indivíduo, que por essêncfa e t.irn:modo dâ in- só eles compreenderem o paradoxo implícito neste direito à vida
finita actividade da substância mas por condição está sujeito à ' que é, simultaneamente, risco de vida.
acção da infinidade de modos que com ele interferem. Impossi- Ainda aqui, deve, porém, notar-se que não saímos da or-
bilitado de se afirmar como actividade pura, sob pena de se dem natural, regida sempre pelo mesmo princípio. Se os ho-
negar como indivíduo realmente existente, o homem vê-se im- mens constituem excepção a tal respeito é unicamente por se-
pregnado por uma multidão de ideias que são outros fantos rem, por natureza, um misto de razão e paixões, ou melhor,
registos da sua passividade perante o meio. Pode, é certo, corrigi- porque são natural~ente dominados pelas pa ixões mas podem
-las pela actividade do entendimento, mas só até certo ponto. . atingir o nível da racionalidade. Regra geral, atingem-no tarde,
Mesmo os que atingem o terceiro grau de conhecimento, a li- i ..se é que chegam a atingi-lo. De nascença, e durante largo tem-
_.[
bertação de que trata a v parte da Ética e que reduz a sujeição ,po, estão todos dominados exclusivamente pelas paixões: «Nem
passional, jamais ultrapassam um certo limiar. O que os distin- t odos, com efeito, estão naturalmente determinados a agir se-
gue é o reconhecimento desta dúplice condição do indivíduo, : gundo as regras e as leis da razão; pelo contrário, todos nas-
porquanto a identificação da paixão e da imaginação é já afir- i cem a ignorar tudo e, antes que possam conhecer a verdadeira
mação da actividade do entendimento e, nessa medida, liberta- regra de vida e adquirir o hábito da virtude, vai-se a maior
ção. Porém, a mesma actividade que os liberta identifica-os como ~ parte da vida, ainda quando tenham sido bem educados. E, toda-
condicionados e sujeitos aos «afectos». A verdadeira ciência é a . via, eles têm entretanto de viver e conservar-se, tanto quanto
que sabe dos próprios limites que tenta ultrapassar. , depende de si, isto é, pelo impulso apenas do apetite, já que a
A filosofia política de Espinosa assenta nesta mesma dupli- , natureza não lhes deu mais nada e lhes negou a potência actual
cidade. O seu ponto de · partida é, com efeito, o direito natural de viver segundo a recta razão; nessa medida, são tanto obri-
interpretado nos termos da metafísica, onde o indivíduo apare- gados a viver de acordo com as leis da mente sã como um gato
ce como um grau de realização da potência da natureza . A natu - é obrigado a viver segundo as leis da natureza do leão» (infra,
reza exprime-se em todos os seres, mas cada ser exprime-a de p. 326). Como organizar então urna sociedade que não seja um
seu modo e nisto consiste a sua individuação. Ora, se a actua- conjunto utópico de sábios? Como preservar a condição huma-
ção da natureza, na medida em que é substância única, não co- na, se esta é dominada por paixões que, no limite, a podem
nhece limites e tem, por conseguinte, direito a tudo, cada um , destruir, e se a razão, podendo sugerir o que é necessário para
dos modos terá, por sua vez, direito a tudo quanto se estende garantir a vida, não possui sobre os homens influência bastante?
a sua potência. Nem outra coisa é o ser dos modos senão esta Esta é a questão política.
afirmação de uma parte do poder da natureza, afirmação que Aparentemente, não haveria qualquer saída. Desvinculado o
ti implica fazer tudo pela autopreservação: é a «lei da vida». Ho- direito natural de uma instância racional, fosse ela a inteligência
mens ou peixes, todos estão, deste ponto de vista, nas mesmas ou a vontade divinas, ou ainda urna lei universal abstracta como
condições, pois todos participam do mesmo poder da natureza. aquela que funda o cosmopolitismo dos estóicos, dir-se-ia que o

l
i 98 99
estado de natureza se tornava insuperável. E, de facto , assim rem ete p ara disp ositivos exógeno s; pelo contrár io, e porque a
acontece, como sublinha Espinosa ao esclarecer a sua diferença ficção do contrato organiza as paixões em função da conserva -
face a Hobbes . Há, portanto, que analisar a uma outra luz o ção da vida mas não as suprime, o Estado enquanto garante da
contratualismo que surge no ITP e que, coerentemente, desapa- segurança é, por essência, a superfície de refracção dos conatus
recerá no TratadoPolítico. Por outras palavras, é preciso situar a individuais. A energia que o anima é ainda a da natureza, quer
política de Espinosa no campo estrito das paixões, que são, como dizer, o esforço para perseverar na existência e, por isso, ele é
vimos, o denominador comum da natureza humana. Até po!que intrinsecamente violento : qualquer que seja a sua génese ou dis-
«uma paixão não pode ser cóntrariàda · bü suprimida a não ser curso legitimador, o Estado forja-se sempre no domínio da imagi-
por uma paixão contrária e mais forte -que a paixão a contrariar » nação, projectando-se como potência extrínsecamente exercida
(E, rv, prop. 7). · sobre o agregado e, nessa medida, neutralizando os efeitos des-
Posto que a sociedade existe, os seus mecanismos .consti_tuti- truidores contidos nas potências individuais obrigadas a coexis-
vos devem procurar-se na natureza . Porque ·esta, · se· não obriga tirem. Tal como o Deus soberano da Bíblia, o Estado é um efeito
a viver segundo a razão, obriga, no entanto, a viver. Ora, é que se representa como causa autonomizada e geradora do
precisamente este desejo de vida que leva a procurar a seguran- medo para corrigir o desequilíbrio produzido pelo exercício do
ça. Longe de ser o resultado de um cálculo dedutivo, como em ! direito natural na comunidade. E tal como acontece com a reli-
Hobbes, o contrato é apenas o recurso naturalmente encontrado gião - que o entendimento descobre ser fruto de uma ilusão
para a preservação do ser humano. Como, de resto, poderia ser mas que não pode suprimir de todo sem suprimir a sujeição a
de outra forma, se «é uma lei universal da natureza humana Deus, isto é, a prática da justiça, sendo assim instado apenas a
que ninguém despreze o que julga ser bom, a não ser na es- ajustar os dogmas da fé de modo a reduzir até onde for possível
perança de um bem maior ou por receio de um maior dano » . o grau de passividade que implicam - também perante o Estado
(infra, p . 328)? Se os homens cedem, pois, uma parte ou a tota- · a razão permanece impotente, limitando-se a identificar o seu
lidade do seu direito natural, é porque, ainda aí, estão a afir- estatuto como imaginação e a reconhecer nas diferentes formas
mar a vontade de existir e a rejeitar um bem por amor de outro, que ele assume diferentes graus de submissão dos indivíduos .
sempre movidos pela paixão do medo ou da esperança. Porque a razão, já se disse, aponta para o verdadeiro fim
O problema, todavia, permanece. Uma sociedade só faz sen- do homem - o conhecimento da sua condição como modo fi-
tido no pressuposto de uma certa constância e as paixões são, nito da substância infinita - conhecimento este que nem todos
por definição, inconstantes. Um Estado legitima-se na base de procuram, ao passo que todos buscam a preservação de si mes-
um sistema universal de enunciados e a imaginação é sempre mos. Claro que o verdadeiro fim não é incompatível com a au-
particularizada. É, aliás, esse o motivo que leva Hobbes a fun- topreservação. Se todos conhecessem o verdadeiro fim da vida
damentar o Leviatã como instância racional destinada a subor- humana , conheceriam também as vantagens da entreajuda e o
dinar e a corrigir os efeitos nefastos das paixões. Para Espinosa, acréscimo de potência que advém ao agregado se actuar de for-
porém, o contrato, sendo igualmente um artifício, uma institui- ma organizada. Não é por acaso que Espinosa diz que o sábio é
ção humana, não deixa de ser mero registo da situação real do o melhor dos cidadãos : se ele conhece as vantagens do viver
homem, fruto das paixões do medo e da esperança. Dito de em sociedade, não actua por medo ou interesse imediato mas
outro modo, o contrato não resulta de uma ideia adequada dos persegue ainda a mesma finalidade, regido embora por outros
verdadeiros fins do homem, tal como os enuncia a razão, mas motivos. O problema é que, antes de mais, esse cidadão ideal
sim de uma ideia inadequada que se organiza à semelhança das não passa disso mesmo, isto é, de um ideal de cidadão, visto a
ideias verdadeiras . A prova está em que a cedência do direito componente afectiva dos indivíduos jamais se anular. E depois,
natural não teria , em qualquer caso, consequências se não fosse se todos actuassem em função do verdadeiro fim, o Estado se-
seguida de uma actuação política secundada por recursos per - ria desnecessário, dado que a colaboração mútua e a prática da
suasivos . Tanto na sua génese como na sua actualização perma- justiça decorreriam como um corolário do amor intellectualis Dei.
. nente, o equilíbrio passional que uma sociedade representa nunca Mas são as paixões , não a razão , que dominam os homens, as

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·,i,i .,,:. ideias da imaginação impregnam -lhe a mente e é no campo da movimento ilusório um equilíbrio que a razão ratifica como van-
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imaginação que vão emergir os mecanismos de «emenda » das tajoso. Pensar de outra forma a política espinosana, associando -
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•~, paixões . -a a um contratualismo estereotipado, é negar-lhe os seus mais
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!'11 Na verdade, em que consiste esta componente passiva ou importantes esteios metafísicas .
passional do ser humano senão em «sermos uma parte da natu- É este um dos pontos decisivos na interpretação do Tratado
\ 11·1!1 reza que não pode conceber-se por si mesma e sem as outras » Teológico -Políticoe convirá analisar um pouco mais em pormenor
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(E, 1v, prop . 2)? Mais do que utópica, a construção do Estado o seu alcance. Na verdade a abordagem do tema feita pelo au -
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assente na ideia , de uma autonomia ·radical do indivíduo resul- tor, a partir do cap . XVI, utiliza os conceitos jurídicos já traba-
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r,H taria ontologicamente impos~ível, ~a vez _que, conforme a Ética lhados, quer por Grotius, quer por Hobbes, conforme sublinha
'I diz na proposição seguinte, . «é .impôssível que o homem não ·seja Matheron (1984), mas arrasta-os para um campo de significação
l uma parte da natureza e evité receber · outras .modifica_ções além que extravasa os limites que possuíam em qualquer daqueles
daquelas que podem compreender-se unicamente p·elã sua -pró- autores e se ajusta no interior do sistema de Espinosa. Muito
pria natureza e de que ele é causa adequada». Uma tal interde- ·' sucintamente, Grotius distingue, a par da categoria geral do
pendência, porém, se na totalidade se apresenta como lei neces- direito como qualidade daquilo que se pode fazer sem injustiça,
sária de realização da potência infinita, ao nível dos indivíduos um direito subjectivo, traduzido em faculdades individuais, e
traduz-se numa ameaça à sua subsistência . Mas nem sempre. Os um direito objectivo, que se identifica com a lei. O direito sub-
efeitos de um corpo em outro corpo, representando-se embora jectivo apresenta-se, ora como propriedade (o direito à própria
em ideias que são confusas na medida em que indicam apenas o pessoa, por exemplo), ora como poder (o direito a decidir as
estado em que fica o primeiro corpo, tanto podem revelar-se próprias acções), ora, finalmente, e em síntese das duas alíneas
positivas, fazendo-se acompanhar de sentimentos de alegria, , anteriores, como simples direito que cada um tem a exigir o
como negativas, fazendo-se então acompanhar de tristeza. Tudo ' que lhe é devido. Por sua vez, a lei ou direito objectivo expri-
depende de haver ou não «conveniência» entre os corpos em me-se tanto no instinto de conservação como naquilo a que Gro-
contacto: se houver, o seu grau de potência sente-se reforçado; tius chama o instinto (appetitus)de sociedade, que virá a tomar-
se não houver, o contacto torna-se obstáculo ao conatus e reduz -se a pedra angular de todo o articulado jurídico do De Jure
o ser do corpo mais fraco . Já referimos como o acaso destes . • Belli ac Pacis. G. Gurvich caracteriza-o assim: «segundo Grotius,
contactos, proporcionando, entre outras, relações de «conve- o indivíduo, mesmo no estado de natureza, está sempre ligado
niência», se tornava também a condição necessária para que a a um todo social. A sua posição é decididamente a de um anti-
razão chegasse à formulação das noções comuns. Mas antes, e à -individualista. O seu ponto de partida não são os elementos
margem deste conhecimento do segundo género, é o próprio componentes mas o todo, não são os indivíduos mas o cosmos
desejo de sobrevivência, a lei da natureza, portanto, que dita a social, a natura societatis [... ]. Com Aristóteles, afirma que o ho-
procura de encontros «convenientes» e o seu prolongamento, ao mem é por essência animal político e que a sua qualidade pre-
mesmo tempo que sugere a fuga de contactos de onde saia re- dominante é o appetitus societatis, sendo impossível imaginar o
duzida a própria potência . Obedecer, sendo iniludivelmente indivíduo fora dos liames que o ligam ao todo» (Gurvich, 1932,
manifestação de passividade e dos limites da potência indivi - pp. 176-177) . É claro que o instinto individual de conservação
dual, sendo, em suma, paixão, pode, nesta perspectiva , não ser dita a sua lei, mas esta é apenas uma lei moral, sem significado
forçosamente uma paixão triste. E a razão, que identifica esse propriamente jurídico, que Grotius interpreta, à maneira dos
estado como resultante de um conhecimento confuso, não pode estóicos, como uma espécie de racionalidade subjacente ao uni-
deixar de reconhecer que através dele se cumprem fins necessá- verso e a cada ser, e que «teria sempre cabimento, mesmo que
ij, rios . É por isso que a obediência poderá estar de acordo com a concordássemos que Deus não existia ou que os assuntos huma-
recta razão, e é mesmo nestes termos que Espinosa caracteriza nos não eram objecto dos seus cuidados» (De Jure Belli ac Pacis,
o contrato. Não porque os homens sejam racionalmente levados Prol., § 11). O mesmo se passa, em certos casos, no plano das
a efectivá-lo, mas porque as paixões desencadearam no seu relações entre vários indivíduos, onde o instinto de sociedade

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1
também implica algumas leis sem transposição jurídica, como, em plenitude e reconhecendo a cada um o direito a tudo ex-
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ri ,; 1
por exemplo, o reconhecimento a manifestar por um benfeitor . cepto a não sobreviv er, contém em gérmen a mútua destruição
il Mas o direito objectivo propriamente dito só começa quando através do conflito, torna-se um preceito da razão os homens
estamos perante obrigações que correspondem ao direito sub- esforçarem-se pela paz. Hobbes acrescenta: «desta lei fundamental
jectivo de outrem: o respeito pela propriedade alheia, a fideli- da natureza [... ] deriva uma segunda, a saber , que o homem se
'L
,-! dade às promessas e a reparação dos danos causados. disponha, quando outros estiverem igualmente dispostos, a re-
'i A lei natural é, portanto ! no entender de Grotius, _um _siste- nunciar ao seu direito a qualquer coisa, em benefício da paz e
" l
ma de intérlimitações dos direitos subjéétivos dos vários indiví- da sua própria defesa». Há, pois, obrigação de respeitar os con-
~i!J 1
duos, racionalizando assim .a acti~~da-de dáconjunto. Qual a ori- tratos, porque eles estão racionalmente justificados, ainda que
gem desses direitos subjectivos oü «faculdades»? Para Grótius, esta racionalidade tome como premissa o instinto de conserva-
só pode ser Deus, que criou à natureza human<1.;dot~do~a de . : ção. Quem transfere um direito deixa, logicamente, de o pos-
corpo e alma, corpo de que cada um fiéa ·proprietário e -alma suir. A não ser - e aqui, Hobbes coloca novamente reservas a
que é livre, isto é, que tem o poder de orientar como quiser as ~Grotius - que o contrato ponha a minha vida em perigo, coisa
respectivas acções. A propriedade do corpo é inalienável; a de } que ninguém pode realmente querer, ou que haja a suspeita de
orientar as acções, pelo contrário, é alienável, tal como a pro- ,; que o segundo contratante não tem a intenção de cumprir, como
priedade dos bens materiais, que Deus terá doado à humani- acontece com a maioria dos contratos no estado de natureza, os
dade e esta repartiu depois entre os seus primitivos elementos, :.quais são nulos por não haver qualquer motivo para acreditar
ficando em herança aos sucessores . É neste espaço de direitos !que alguém, sem um poder que obrigue, irá respeitar o prome- .
alienáveis que se abre a possibilidade de estabelecer contratos, tido. Mas, ainda aí, se houver autêntica reciprocidade, eles são,
aos quais o direito objectivo oferece um quadro adequado onde JÍ,araHobbes, absolutamente válidos: se alguém, para se livrar
a razão vai buscar as bases do direito positivo que regulamenta de um ladrão que o ameaça de morte, lhe prometer qualquer
o instinto de sociedade. coisa, fica obrigado a honrar o compromisso, mesmo quando já
Sobre esta matriz de jusnaturalismo clássico, Hobbes vai esteja em condições de segurança que lhe permitiriam não cum-
operar a mais significativa ruptura ao reduzir todas as inclina- prir (cf., sobre toda esta questão, Leviathan, cap. xrv, p. 126).
ções ao instinto de conservação, fundamentando neste, quer os :- O contratualismo de Espinosa, desenvolvido no cap . XVI do
direitos subjectivos, quer o direito objectivo. A alienação da li- \T'fP,parte do mesmo pressuposto de Grotius de que o direito
berdade ou de qualquer bem passa então a ter como único móbil ~patural objectivo são as leis segundo as quais os indivíduos exis-
a preservação do próprio ser; consequentemente, ninguém está tem e agem; reduz depois, com Hobbes, todas as inclinações ao
i
1 1, por natureza obrigado a respeitar os direitos alheios, uma vez instinto de conservação; e faz, finalmente, contra Hobbes, coin-
que se recusa a existência de qualquer instinto de sociedade. Se . cidir o direito e a lei natural. Vejamos como se processa esta
\ limitações há para o instinto de conservação, elas só podem de-
rivar dele mesmo, na medida em que recusa ao indivíduo, por
reviravolta e as consequências que acarreta . Concordando com
Grotius, Espinosa aceita que há leis inscritas na natureza dos
~ definição, o direito de não fazer tudo para continuar na exis- homens. Tais leis, porém, não as considera como leis morais,
1 tência. Daí o artificialismo dos contratos, sempre baseados num mas sim como leis físicas, a que se subordina a actuação de
1i cálculo de benefícios e numa transacção ou «transferência mú- todos os indivíduos. Depois, uma vez mais secundando Gro-
!"
tua » de direitos subjectivos. Na verdade, como Hobbes refere , tius, Espinosa aceita que a fonte dos direitos subjectivos é Deus.
1 /; ao longo do cap. XIV do Leviathan, há uma distinção a fazer entre No entanto, recusa que tenha sido por uma qualquer dádiva
1 l•'J
o direito natural, «liberdade que cada um tem de usar o seu divina que esses direitos passaram a assistir aos homens, como
poder, como quiser, para preservar a sua própria natureza», e a pensa Grotius: são direitos de cada um, é verdade, mas porque
1f;
,,
lei natural, que é «um preceito ou regra encontrada pela razão
que proíbe ao homem fazer aquilo que for destrutivo para a
cada um é uma modificação do Deus sive natura, não sendo os
direitos subjectivos de Deus mais do que a soma dos direitos
11
sua vida ». Ora, como o simples direito natural, agora assumido subjectivos de todos os indivíduos . Por outras palavras, não

.,1
·~ 104 105
houve transferência, há imanência e, por isso mesmo, esses direi - pelo meno s nes te particular, irrelevante. Que significado pode ,
tos são de natureza física e não moral, já que não derivam de na realidade, ter uma transferência de direitos concebida como
Deus mas são de Deus. Só assim se explica que Espinosa consi - uma transferênc ia de poder? Não ficará cada indivíduo idêntico
dere que os homens são, a este respeito, não só iguais entre si, a si mesmo após o contrato? Não será este apenas uma manifes-
mas também iguais a qualquer outro ser. O direito de cada um tação da sua vontade em ordem a um benefício considerado
equivale à sua potência, o que implica, de acordo agora com útil? Não terá esta vontade a cada instante de ser reactivada,
Hobbes, que a natureza não prescreve o respeito pelos . direitos seja pela permanência da esperança de uma vantagem, seja pelo
:I! alheios. Porém, se a lei da natureza · é que cada um faça tudo .medo de um prejuízo? Se assim é, a irreversibilidade do con-
ri'
quanto estiver ao seu alcance para. se manter, então cada um trato não passa de pura ficção, cedência imaginária de poderes
faz sempre tudo quanto pode e·I? orderp. a essa finalidade _deêor- cujos efeitos são reais mas cessam assim que deixamos de acre-
rente da definição do seu próprio ser. A _hipótese .-~~ alg1::1érn ditar na sua causa. O soberano possui, de facto, o direito de
não querer fazer urna coisa que tem o direito de fazer está, determinar as acções dos súbditos, só porque e enquanto tem
pois, liminarmente afastada: se não quer é porque realmente não poder sobre as suas vontades, poder este que não lhe adveio
pode, visto não existir na natureza meio-termo entre o necessá- de um imaginário contrato social, mas de um consentimento que
rio e o impossível (cf. Matheron, 1984, pp. 77-78). '~le terá a cada instante de «renegociar», isto é, de reactivar
As implicações destas premissas sobre o contratualisrno são pela esperança e o medo que consiga incutir . Tanto faz serem
flagrantes. Espinosa explicita-as de uma forma que diríamos quase ·c0'ntratos no plano interno como no plano externo, a sua essên-
intempestiva: «um pacto não pode ter qualquer força a não ser _da é sempre a de um ritual em que se esconde uma correlação .
em função da sua utilidade [... ] desaparecida esta, no mesmo iéie interesses e uma correlação de força s . Soberano e súbditos,
instante o pacto é abolido e fica sem eficácia. É por isso uma ·\dizendo actuar em conformidade com o contrato, actuam de
insensatez uma pessoa pedir a outra que jure para todo o sem- !facto em conformidade com a respectiva potência. Assim que a
pre, sem, ao mesmo tempo, tentar fazer com que a ruptura desse Ptorrelação mudar de sinal, ou que as paixões mudarem de rumo,
pacto traga ao que o romper mais desvantagens que vantagens, :desaparecendo, por exemplo, o medo ao soberano, cada um sen-
o que deve certamente ter lugar, sobretudo, quando se institui tir-se-á juridicamente independente e apto a celebrar novos
uma república.» (lnfra, p. 329.) E Espinosa pega no exemplo do · contratos em que se exprima a nova situação. E nem sequer se
ladrão, em nítida réplica ao Leviathan,para lhe atribuir uma con- p,;i.ssaaqui para o plano de uma qualquer racionalidade que
clusão exactamente oposta à de Hobbes: ninguém está obrigado ·Jienuncie o carácter destas correlações, sempre «violentas» por-
a respeitar compromissos que deixaram de ser necessários; não , que sempre passionais e fundadas numa tensão entre duas ou
há, em suma, lei natural para além do direito natural. Mais ainda, tttais forças. No domínio estritamente político, as formas de
1 ninguém efectivamente cumpre um contrato se dele não conti- ' ,poder mantêm-se ou sucedem-se em função apenas da sua capa-
1
'l: nuar a esperar qualquer benefício, ainda que seja outro que não
1. ' tjdade de dominação, que o mesmo é dizer, da sua capacidade
o contratado, nem tiver medo de represálias pela negligência. para arrancar, a bem ou a mal, aos subordinados a reiteração
Com efeito, e dado que o direito natural coincide com a potên- de um contrato imaginário que os confirma como subordinados.
cia, se um contrato é transferência mútua de direitos, é também La Boétie viu correctamente que esta situação era insuportável
transferência de potência ou poder; a partir do momento em e incompreensível numa perspec tiva racional: o que parece não
que alguém tem o poder de fazer algo que o contrato lhe proíbe ter visto é que ela decorre integralmente num outro campo, que
é porque tem também novamente o direito de o fazer. ela indica uma situação de que não exprime a verdadeira causa,
Posta nestes termos, a questão altera-se radicalmente e, a
que ela é, em suma, pura imaginação a trabalhar e a moldar a
~
l
bem dizer, já nem sequer se deveria falar de contrato. Espinosa
1 realidade, gerando correlações de força que podem mudar por-
assume essa consequência no Tratado Político, razão por que al-
i' que têm origem passional, mas que nem por isso são menos
guns intérpretes vêem no TTP vestígios de um pensamento po-
mobilizadoras e eficazes.
lítico ainda em maturação. Se repararmos, porém, a alteração é,

107
b 106

i
2 libertos da ilu são e da super stição, capazes, portanto, de equa -
O Estado ideal cionar racionalmente e pôr em prática um plano de convivência .
O pressuposto desta interpretação é, evidentemente, a dialéctica
Atente-se, por um instante ainda, nesta rasura produzida que se estabelece entre a razão e as paixões, associando-se estas
sobre o significado do contrato, que depois de o ligar à natu- ao estado de natureza e aquela à progressiva correcção dos afec-
reza, o faz coincidir integralmente com ela, esvaziando-o do seu tos. No entanto, isto não explica, ou explica com dificuldade, a
conteúdo tradicional e deixando-o a pairar como um signifiqmte . já aludida distinção reivindicada por Espinosa relativamente a
sem lastro ·de que Se pode prescindir' rn.al acabe o confronto ; Hobbes, segundo a qual o estado civil não seria mais do que a
com as teses de Grotius t;?· Hobbes.' Çom tqda -a nitidez, espelha- ; continuação do estado de natureza por outros meios 13. Dir-se-á,
-se aqui a concepção política de ·Má.quiavel, a quem Esp~osa vê ' talvez, que a conclusão a extrair é que o Estado verdadeira-
como autor accutissimus. No Tratado Pólitico, onde · se prÕcec:l.ea mente livre será sempre impossível, o que até certo ponto é
um análise das várias formas de · governo ou · regimes, -acentuar- :verdade, mas nesse caso recairá sobre muitas passagens a sus-
-se-á ainda mais este carácter realista que leva o autor a insur- 1ita de serem também de um filósofo que «diz bem da natu-
gir-se contra os filósofos que passam o tempo a dizer bem da ·eza que não existe e mal da que existe». Sem contar com a
«natureza humana que não existe e mal daquela que existe» (TP, .evidência de que falar de um Estado livre no sentido de um
cap. 1). Mas no Teológico-Políticoa questão já é clara: em política, ;~tado de cidadãos que eliminaram a superstição e a imagina-
trata-se da «comum natureza humana», ou do «vulgo», sempre '~ão é falar de uma coisa que, além de desnecessária, seria con-
dominado por paixões. No estado de natureza, esta situação ~aditória com a natureza humana tal como Espinosa a define.
apresenta-se como um desequilíbrio. Porém, a sua correcção em 'J'or muita especulação que se possa tecer em torno do que seria
sociedade não significa uma qualquer recusa do passional: o · democracia que ficou por descrever no Tratado Político, não
contrato é ainda, e unicamente, afirmação da vontade de sobre- arece que a possamos imaginar como uma negação de tudo
vivência e segurança, desviada embora do rumo cego que a con- -quanto aí se diz sobre os dois outros tipos de regime - a mo -
duziria à própria negação. Por isso, os mecanismos políticos, na . rquia e a aristocracia - e sobre a política em geral.
medida em que visam a segurança que a «comum natureza hu- Voltemos, então, ao ponto de partida. O problema que re-
mana» deseja, estão intrinsecamente limitados aos recursos dessa i,{erimos era o da constituição de um Estado que, além da segu-
natureza: a correcção da força ou potência dos indivíduos, tànça, garantisse também a diversidade, correspondendo assim
maioritariamente dominados por paixões, só pode fazer-se pela verdadeira natureza dos indivíduos, os quais, se têm todos
força. O medo da morte resultante das forças em desordem ;emcomum o serem modos da substância infinita e afirmarem-
neutraliza-se pelo medo de uma força organizada . t~se como potência que tende a perseverar, têm também algo de
Através deste mecanismo, o Estado estabelece artificialmente específico que diferencia cada um de todos os outros. Essa dife-
um equilíbrio e garante a coexistência, cumprindo assim o seu ..rença baseia-se, como sabemos, no grau de potência, ou melhor,
objectivo essencial que é a segurança e a sobrevivência que por · na proporção de potência e impotência, de actividade e passivi-
natureza todos desejam. Um tal objectivo é, por assim dizer, dade, que cada um actualiza. Nos seres humanos, isto significa,
um objectivo mínimo. Repõe a igualdade ontológica dos indiví- :' a par das desiguais capacidades do corpo, um nível desigual de
duos enquanto parte da mesma natureza, mas não atende à sua
individualidade, isto é, à sua diferença. Está, portanto, longe
de corresponder ao ideal do «Estado mais conforme à natu-
reza». Para que este se realize, é necessário que à 9arantia de 13 «Quantum ad Politicam specta t, discrimen inter me et hobbesium, de

segurança se acrescente a garantia da diversidade. E disso que quo interrogas, in hoc consistit, quod ego naturale jus semper sartum tectum
conservo, quodque Supremo Magistratui in qualibet Urbe non plus in subdi-
:.1 tratam os últimos capítulos do TTP. tus iuris, quam iuxta mensuram potes tatis, qua subditum superat, competere
!j, Com extrema frequência, o Estado livre ou democrático re- statuo, quod in statu Naturali semper locum habet » (Correspondência, ed. Geb .,
ferido por Espinosa foi entendido como um Estado de homens vol. IV, pp. 238-239).

1
108 109
.1
!
sujeição às paixões e de libertação racional. É da natureza dos .,,. Só nessa medida ele é conforme à natur eza, garantindo a segu -
homens estarem sempre sujeitos a um certo grau de ilusão e ,~: 'rança e ao mesmo tempo a diversidade.
conhecimentos confusos, mas é também da sua natureza a pos- ,,,.. Poderá pensar-se, ainda aqui, que essa é tarefa da razão,
sibilidade de conhecimentos adequados em que se traduz a -~{_:.parquanto a verdadeira identificação do ser humano como modo
maior ou menor actividade do entendimento. A discussão em })~ ilinito leva a reconhecer o inelutável quociente de paixões que o
torno do Estado reside em saber se ele radica nesta actividade ··i.. '41travessam e aconselha uma atitude de tolerância . De que meios,
racional que chegaria . a deduzir as re_gré!S_de coexistência e con- .porém, se serviria a razão para tutelar a diversidade? O sábio,
tenção das paixões. Para Espinosa, :essa dedução é possível mas evidentemente, conhece em si mesmo as vantagens do viver em
inacessível à maioria e, por · conseguinte, sem pertinência polí- :sociedade, onde é tanto maior a possibilidade de se aperfeiçoar
tica. A única coisa que é comum a todos é a componente passio- · cionalmente quanto menor a adversidade das coisas . O pro-
nal e a busca de segurança, e é aí que tem de .·esboçar-se a ·,)ema é que, para o sábio actuar politicamente, ou espera que
ordenação da polis, ordenação exclusivamente virada para de- outros atinjam idêntico domínio sobre as paixões ou renega
terminados bens e comodidades e não para o verdadeiro bem , ràzão e assume-se como violência. A história ilustra abundan-
1
que a razão aponta. Não se trata de dois objectivos contrários, _ente este dilema.
já que o verdadeiro bem inclui os outros bens necessários e, E, entretanto, os regimes não se equivalem, o que significa
por isso, o sábio se comporta como o melhor dos cidadãos, mas eles são sempre passíveis de aperfeiçoamento. Ao nível de
trata-se de dois objectivos que apelam para diferentes recursos. indivíduo, ou seja, no plano particular, o aperfeiçoamento
Vimos como o mecanismo que garante a segurança se cons- por um progressivo acréscimo de conhecimentos adequa-
trói numa base de força ou de paixões contrapostas. Aparente- ·;,reduzindo, portanto, a percentagem de passividade e co-
mente, tudo indicaria que o mecanismo capaz de garantir a di- . entos confusos na sua mente. Ao nível do Estado, cujo
versidade teria de se construir com base na anulação da força, so decorre integralmente na ausência de um conhecirnen-
de modo a que a razão se pudesse livremente exercitar. O Esta- do verdadeiro bem, o aperfeiçoamento só pode dar-se me-
do, porém, é sempre força e violência, sob pena de não garantir .te alterações no mecanismo passional. Já a própria consti -
o seu primeiro objectivo que é a segurança. A única variação • ião do Estado, a política num grau elementar, é conquista da
possível a este respeito só é pensável em termos de maior ou iência através do medo: é o medo da morte que transfor-
menor mediação da força. No limite, poderemos supor um Es- a vontade de viver em vontade de obedecer, é o medo de
tado em que todos sejam legisladores e intérpretes da lei, que o potência superior que reactualiza permanentemente os efei-
mesmo é dizer, cúmplices na definição dos actos sobre os quais .s do contrato, essa alienação de direitos que mais não é do
poderá recair a violência estatal. O que não podemos é supor ,e a transposição imaginária de uma tensão real entre sobera-
um Estado constituído apenas por cidadãos com um domínio iO e súbditos. Nem sempre, porém, é necessário que os cida-
das paixões suficiente para se guiarem pela razão. Porque o . os obedeçam por medo: podem também fazê-lo na esperança
objectivo do Estado não é tornar os homens mais racionais, mas ·.ie um maior bem. Dito de outro modo, e seguindo a análise de
unicamente fazer com que a mente e o corpo possam exercitar ,Corsi (pp. 33-59), a correcção dos afectos é susceptível de um
as suas funções em segurança. Entre a ordem da verdade e a ' alonamento em que, sem se passar o limiar que separa as
ordem prática, vai um abismo cuja pretensa transposição é pura aixões e a razão, se pode, no entanto, ir reduzindo o nível de
e desnecessária violência. E tanto se poderá transpô-lo através ,.,.coacção e incrementando, em contrapartida, uma maior adesão.
da repressão das opiniões, modulando a polis segundo o registo :Uma coisa é obedecer para não ser punido, outra é obedecer
da unívocidade, como, em sentido oposto, através da abolição -tcom o intuito de alcançar algum benefício . O que se substitui é
do Estado e da alegada conversão da ordem prática e passional apenas a paixão do medo pela paixão da esperança, mas é inegável
em transcendência sem mediação. O objectivo do Estado é, pois, 0
que um Estado fundado nesta última garante uma participação
a liberdade (cf. infra, p. 385), mas uma liberdade entendida como ··dos cidadãos que é, não só mais elevada, como também qualita-
salvaguarda do sábio e do ignorante, da razão e das paixões. . tivamente superior. A superioridade da democracia assenta, pois,

110 111
quer nos fins que realiza e que traduzem a diver sidade natural
dos indivíduos, quer nos recursos passionais que utili za.
Em certo sentido, a redução da coacção chegaria, no limite,
a anular a própria obediência , atingindo-se então a democracia
plena, regime em que cada um não obedeceria senão a si mes-
mo. Espinosa apresenta, inclusivamente, no cap. xvll do TTP,
um exemplo histórico desta democracia ideal, que é significa-
tivo a vários · títulos : Trata-sé da narrativa bíblica onde se ·des-
creve a fundação do primeiro Est~do heb,reu: saídos do Egipto,
V
desvinculados de qualquer. júrisdição, os Judeus decidem :trans- ' O TEXTO E A TRADUÇÃO
ferir todo o seu direito, não para qualquer mortal; mas unica-
mente para Deus. A interpretação espinosanà remete-nos, óbvia-
mente, já para o facto de não haver intermediários neste sistema,
já para a natureza deste Deus com quem se contrata: se todos O Tratado Teológico-Políticoestá longe de poder considerar-
são partes de Deus, transferir para Deus o seu direito equivale e,literariamente exemplar, mesmo se reduzirmos o universo
a não o alienar. Mas o que é significativo é que, por um lado, a ~mparação ao que é normal no latim da Escolástica. A sua
ocorrência é vivida pelos Hebreus como se fosse um verdadeiro e, a maioria das vezes, é estereotipada; o vocabulário é
contrato, o que significa que o Estado é, ainda aí, fundado ima- ,ido e frequentemente contaminado por neologismos trazi-
ginariamente, sem que os seus membros vejam na autonomia .das línguas modernas ou do hebraico; as copulativas e ad-
assim esboçada senão a ausência de mediadores entre eles e .tivas surgem como recurso extremo e repetitivo a ordenar
Deus; por outro lado, se repararmos no desfecho da mesma ~-" transposição da doutrina para um idioma de que o au-
narrativa, verificaremos que os seus intervenientes se revelam ~qio domina a imensa gama de virtualidades. O rigor dedu- .
incapazes dessa autonomia : assim que ouvem directamente de ,; porém, não conhece brechas e, como se isso não bastasse,
Deus a lei, ficam aterrados e confiam-se à protecção de Moisés, runda o impressionante lastro experiencial que se lhe acres-
o qual passou de imediato a mediador entre Deus e os Hebreus, , e que denota uma observação atenta da realidade política
isto é, a «intérprete» das leis. A natureza dos homens, ou, pelo ia, designadamente a holandesa, caldeada em madura re-
menos, a natureza comum dos homens, capaz embora de ante- _ão sobre o destino do povo hebreu. Só assim se explica a
ver a libertação total, fica, todavia, tolhida pela paixão do medo . .eza das metáforas e aproximações surpreendentes e a vee-
e muda o curso do seu instinto de sobrevivência, entregando as .cia de alguns adjectivos ditados pelo contexto histórico, onde
tábuas da lei nas mãos do líder (cf. infra, p. 345). .revela um Espinosa completamente diferente daquele a que
Por impossibilidade absoluta da democracia? Nem tanto. · habituara a sobriedade do mos geometricuse que, fora deste
Apenas por impossibilidade desta democracia absoluta que as- , não encontraremos senão em alguns dos escólios da Ética.
soma como ideal e se projecta para lá da própria polí tica na Quer o ambiente que o rodeia, quer a atitude do autor,
medida em que pressupõe cidadãos com um domínio extremo ,,o ditar a história do TTP. Dele ficaram, além da editio prin-
das paixões, o que está longe de se verificar na realidade co- ' mais quatro edições antigas . Aquela apareceu anónima em
mum. O Estado ideal que Espinosa reivindica é outro e conhece . esterdão, no ano de 1670, escondendo inclusivamente o ver-
os limites que se põem à acção política. Assim como não pode deiro nome do editor e o lugar da edição. Até finais da dé -
fazer dos homens sábios, também não pode impedir que cada . a, viria a conhecer mais três edições em quarto e uma en1
um deles se aperfeiçoe na sabedoria. É por isso que a sua cons- ··avo. Esta última traz, além do livro de Espinosa, o já men-
tituição ressalva a diversidade, acautelando a livre expressão de õnado de L. Meyer sobre o mesmo assunto, e sai em 1674.
doutos e ignorantes. Mais do que isto, a razão não lhe pode exi- .. ibre ela se abaterá, no mesmo ano, uma proibição das Cortes
gir, até porque seria inútil. a Holanda, que abrangia também o Leviathan, traduzido para

112 113
,1
~ ;.;'.;
,' 1'1·~ o holandês em 1667 e para latim em 1668. A sua difusão far-se-á, Tirando aspectos destes, recusámo -nos sempre a desfigurar
entretanto, em sucessivas edições com os mais diversos títulos e o original, poupando-o à desnecessária intromissão de interpre-
nomes de autor (cf. Boscherini, 1984, pp. xxrv-xxxv). A versão tações que, mesmo quando ajustadas, pudessem ser remetidas
que aparece nas várias edições das «obras completas» publica- para as notas que vêm no fim. Estamos mesmo convictos de
das no século xrx, desde a de H. E. G. Paulus (lena, 1802-1803) que, sempre que tal foi tentado (exemplo flagrante: traduzir o
até à de Van Vloten e Land (Haia, 1882), estão baseadas numa título da obra por Tratado das Autoridades Teológicae Política), se
ou noutra destas _edições. Só a .de Gel:?hardt (4 vols., Heidelberg, restringiu sem vantagens o campo de significação de enuncia-
1924) se baseará na edição princeps, dos que, traduzidos à letra, não só continuam a entender-se
Dado as características .que refetimos, ô texto colOCé\algwis claramente, corno além disso evitam as malhas sempre duvido-
,. problemas ao estabelecerem-sé . critérios para a st1a tradução.
A demonstrá-lo, aí estão as experiências · realizadas · em outras
sas da univocidade.
Outra dificuldade com que deparámos reside na tradução
das inúmeras citações bíblicas que povoam o TTP. Recorrer às
línguas. Submetermo-nos a um literalismo abstinente em maté-
versões da Escritura disponíveis em língua portuguesa era im-
ria de interpretação seria condenar a reconhecida pobreza do
possível: primeiro, porque em mais do que uma das passagens
latim do Tratado a sobreviver pobremente, ainda por cima num
citadas a referência não é exacta, seja por erro na transcrição
contexto cultural diferente daquele a que foi destinado e que o
tipográfica, seja por culpa do autor; segundo, porque a fonte de
entendia como código de fácil e relativamente comum decifra- Espinosa é, para o Antigo Testamento, o texto em hebraico san-
ção. Entregarmo-nos, pelo contrário, à tentação de evidenciar cionado pela tradição rabínica, como se vê até pela diferente de-
um pensamento que manifestamente extravasa da magreza de signação de alguns livros, e, para o Novo Testamento, urna outra
recursos literários era me ter por caminhos escorregadios onde versão que não a Vulgata, provavelmente a de Xantes Pagnini;
alguns soçobraram. em terceiro lugar, porque mesmo face à Vulgata as traduções
A solução aqui adaptada, nesta primeira versão da obra em correntes, talvez no intuito de tornar a Bíblia acessível ou de a
português, teve por intuito reconstituir tanto o pensar como o ajustar à interpretação oficial desta ou daquela Igreja, estão por
sentir do autor, na medida e nos limites em que tal desígnio vezes longe de corresponder ao texto de São Jerónimo. Decidi-
fosse realizável no interior de uma outra língua e de uma outra mos, por isso, traduzir, pura e simplesmente, as citações tal como
época. Para tanto, foi necessário, antes de mais, partir do prin- Espinosa as apresenta em latim, respeitando as referências e as
cípio de que as fugas ao texto através de circunlóquios, frequen- abreviaturas de cada um dos livros, salvo em casos de mani-
tes em algumas traduções anteriores, derivam de uma interpreta- festo lapso já anteriormente detectado por outros tradutores ou
ção que se quer sobrepor ao original ou, na melhor das hipóteses, por nós agora apurado, sem a pretensão de ir mais além numa
de limitações intrínsecas ao idioma em que foram feitas. A pro- tarefa que estaria fora do nosso alcance e do nosso propósito
ximidade do latim a que está o português facilita essa tarefa, esgotar. Não cremos, aliás, que algo de muito importante para
sobretudo num momento em que a revitalização dos estudos a compreensão do TTP passasse por aí.
r· espinosistas começa a permitir a descoberta de Espinosa por Vão no mesmo sentido as notas alusivas a cada capítulo que
1' debaixo das sucessivas camadas ideológicas que, de algum inserimos no final deste volume. Rejeitando o desafio de uma
I· modo, o haviam desfigurado. A fidelidade ao texto constituiu, erudição que, por infindável, se converteria em vertigem, tentá-
pois, a nossa primeira preocupação, sem desistir, no entanto, de mos sobretudo que elas fossem um complemento daquilo que
o dar a ler, aqui e agora. Não fomos, por exemplo, ao extremo nesta introdução ficou dito. Mais do que a localização exacta de
de respeitar a pontuação, ou melhor, a sua escassez. Se não se todos os exemplos bíblicos e a reconstrução de quantas contro-
trata de obra com propósitos literários, para quê manter a apre- vérsias historicamente verificadas se reflectem no Tratado, inte-
sentação que ela tem no latim, onde os parágrafos se prolon- ressou-nos situar a posição de Espinosa no contexto filosófico e
gam por dezenas de páginas porque destinados a um tipo de cultural que é o seu, não ignorando, todavia, as profundas im-
leitura que, manifestamente, já não é o de hoje? plicações teológicas aí em jogo. Se o desejar, o leitor encontrar:S

114 115
na já citada versão italiana, da autoria de António Droetto e
Emília Boscherini, um manancial de informações até hoje in-
superado.
Resta acrescentar que a tradução foi feita a partir da edição
crítica de Gebhardt (Spinoza, Opera, m, pp. 3-267), cuja pagina-
ção é aqui reproduzida nas margens, entre parênteses rectos.
As 39 anotações atribuídas ao autor, que vêm no final daquela
edição (pp. 251-267), aparecem · aqui em rodapé, com a numera- BIBLIOGRAFIA
ção de Gebhardt mas nas páginas a _que diz.em. respeito, ficando
a par das notas que já constavam da edição princeps. Estas -últi-
mas vão assinaladas por um p-onto a ·negro •, enquaptà para
aquelas utilizamos o asterisco*. Além das obras referenciadas, tanto na introdução como nas notas ao
Refira-se ainda que tais anotações resultam de uma recolha texto de Espinosa, incluímos aqui algumas outras às quais o presente trabalho
se fica também a dever. Para uma consideração mais exaustiva dos estudos
feita por Gebhardt a partir de várias proveniências: o manuscrito
sobre o autor, vide Jean Préposiet, BibliographieSpinoziste,Paris, 1973, ou ainda
autógrafo de Espinosa, com apenas 5 anotações apostas pelo autor o livro de H. G. Hubbeling, a seguir citado, que inclui abundantes dados bi-
nas margens do texto; a cópia de Marchand, com 36 anotações;
bliográficos (pp. 122-150).
a ·de Von Murr, de que só se conhece a edição feita posterior-
mente, em 1802, e que tem 33 anotações; as cópias da tradução F., Le rationalismede Spinoza,Paris, PUF, 1981.
ALQUJli,
holandesa, uma anónima e duas de Monikhoff, com 34 anota- ANGEUS,E. de, «li metodo geometrico da Cartesio a Spinosa», Giornaledella
ções, a que se acrescenta a biografia de Espinosa da autoria de Filosofia,n.0 18, pp. 393-427.
AsKÉNAZI,
J., e AsKtiNAZJ-GERSON, Abrégéde Gram-
J., Introdução e notas a SPINOZA,
J. Colerus 14; e a tradução francesa de Saint-Glain, publicada em
maire Hébraíque,Paris, Vrin, 1968.
Leiden, logo em 1678, com 31 anotações e com o título La clef du AuRliLIO,D. P., «O Deus dos Atributos», Análise, vol. 1,
0
n. l, Lisboa, 1984,
sanctuaire. A autenticidade destas anotações é diversa e, em al-
pp. 49-70. 0
guns casos, problemática, se não duvidosa. Traduzimo-las tal --, «Uriel da Costa: o discurso da vítima», Análise, vol. 11,n. 1, Lisboa, 1985,
como se apresentam na edição de Gebhardt, embora sem repro- pp. 5-53. 0

duzir as frases em hebraico e em siríaco, que estão, aliás, nor- --, «O mos geometricusde Thomas Hobbes», Cultura, História,Filosofia,n. 5,
malmente seguidas de tradução latina, procedimento este que Lisboa, 1985 (b), pp. 465-486.
adaptámos também em relação ao resto da obra. A tradução AUVRAY, P., RichardSimon, Paris, PUF, 1974.
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dos acrescentos em francês ou em holandês que aparecem nas Nacional-Casa da Moeda, 1985, vol. 5, pp. 296-332.
,1
anotações vai entre parênteses rectos. BATAILLON, M., Érasme et /'Espagne, 1937, trad . ut. Erasmo y Espafta, Madrid,
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--, «Sul concetto spinoziano di mens», in E. G. Boscherini e A. Crapulli,
1
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1
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Per hoc cognoscimusquod in Deo


manemus,et Deus manet in nobis,quod
de Spiritu suo dedit nobis.
joão, Epístola I, cap . IV, 13.

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PREFÁCIO 1 [51

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Se os hom~essem, em todas as circunstâncias,decidir pelo
,·, ~o, ou se a~e lhes mostrassesemprefaoorázzel,jamais seriam
vítimas de alguma s"persticãq, Mas, como se encontramfrequentemente
perante tais dificuldades que não sabem que decisão hão-de tomar, e
como os incertosbenefíciosdafortuna que desenfreadamentecobiçamos
fazem oscilar,a maioria das vezes, entre a esperançae o medo, estão
sempre prontos a acreditarseja no que for: se têm dúvidas, deixam-se
.' levar com a maior das facilidades para aqui ou para ali; se hesitam,
sobressaltadospela esperançae pelo medo em simultâneo,ainda é pior;
porém, se estão confiantes,ficam inchadosde orgulho e presunção.Jul-
go que toda a gente sabeque é assim, não obstanteeu estar convictode
que a maioriados homens se ignoram a si próprios.Não há, com efeito,
ninguém que tenha vivido entre os homens que não se tenha dadoconta
de que a maior parte deles,se estão em maré de prosperidade,por mais
ignorantes que sejam, ostentam uma tal sabedoriaque até se sentem
ofendidosse alguém lhes quiser dar um conselho.Todavia,se estão na
adversidade,já não sabem para onde se virar, suplicam o conselhode
' quem quer que seja e não há nada que se lhes diga, por mais frívolo,
· absurdoou vazio, que elesnão sigam. Depois,semprepor motivosinsig-
··, nificantes,voltam de novo a esperarmelhoresdias ou a temer desgraças
ainda piores.Se vêem acontecer,quando estãocom medo, qualquercoisa
que lhesJaz lembrar um bem ou um mal por que já passaram,julgam
que é o prenúnciode uma saídafeliz ou infeliz e chamam-lhe,por isso,
um presságiofavorável ou funesto, apesarde já se terem enganadocen-
tenas de vezes. Se vêem, pasmados,algo de insólito, crêem que se trata
de um prodígioque indica a cólerados deuses ou do Númen supremo,
pelo que não a aplacarcom sacrifíciose promessasconstitui um crime
aos olhos desteshomens submergidosna superstiçãoe adversáriosda re-
ligião, que inventam mil e uma coisa e interpretama natureza da ma-
neira mais extravagante,como se toda ela ensandecessecom eles. Tanto

125
lt:
assim é que a quem nós vemos ser escravos de toda a espéciede supers- · .~ó e na mesma superstição.É precisamente porque o vulgo permane~e
_
tições são sobretudoos que desejam sem moderaçãoos bens incertos. i::.·,st'!!:Elf
na mesma misé~iaq~!:.3le nunca est~ ~uito tempo t,:~nquil(!
·~;e só lhe agr.aqao C/J:! _e e novidadee O_lJ.liLJilllda.JJJlQ_.Q..engru:wu, wco.11.s-
Todos eles, designadamentequando correm perigo e não conseguempor
si própriossalvar-se,imploram o auxílio divino com promessase lágri- r f;,ídaesta que tem sido a causa de inumeráveis tumultos e guerras
mas de mulher, chamamcega à razão (porque não pode indicar-lhesum l tt,irozes. Na verdade(como se prova pelo que já dissemose como Cúrcio
caminho certo para as coisas vãs que eles desejam) e vã à sabedoria ~bem observou, no liv. 1v, cap. x), não há nada mais eficaz ~:,,
humana; em contrapartida,os delírios da imaginação,os sonhos. e as J~e a superstição para governar a multidão. Por isso é que esta e ~~ '
extravagânciasinfantis, parecem~lhes respostasdivinas. Até julgam que ~e: ilmente levada,a pretexto da religião,ora a adoraros reis como se ~s,.i-,
Deus sente aversãopelossá~ios_e_que às_seus decretosnão estão inscritos
na mente, mas sim nas entranhas dos ãnimais, ou que são os-·l~uéos;os
insensatos,as aves, quem por instínto ou sopro divino os revela. A que
ra todo o género humano. &:
semdeuses,ora a execrá-lose a detestá-loscomose fossem uma peste·,..,#"
vé:'
.,, Para evitar este mal houve sempre o c dadode rodeara religiãode
ponto o~ ensandeceos homens! · · -- - · to e aparato,fosse ela verdadeiraou fasa 3, de modo a que se reves- (71
(61
2
O 'rJ!!!!!!}J
é, pois, a causa que origina, conserva e alimenta a su- da maiorgravidadee fosse sempre escrupulosamenteobservadapor
perstição.Se, além do que já dissemos, alguém ainda quiser exemplos os. Entre os Turcos, isto foi tão bem sucedido que até o simples
concretos,veja-seAlexandre, que só começoua convocar,supersticiosa- tir eles consideramcrime, ocupandoo juízo de cada um com tan-
mente, os adivinhosquando,às portas de Susa, temeu pela primeira vez preconceitosque não deixam mais lugar na mente para a recta ra-
a sorte (vide Q. Cúrcio,liv. v, § 7); assim que venceu Dario, desistiu ., nem sequerpara duvidar.
logo de consultar os adivinhos e arúspices, até ao momento em que, 1,r Se, efectivamente,o grande segr_edo do regime\monár'4yico l e aqui-
uma vez mais aterradopela adversidade,abandonadopelos Bactrianos, .que acima de tudo lhe interessa é manter os homens enganadose
atacadopelos Citas e imobilizadodevido a uma ferida, recaiu (comodiz çar, sob o especiosonome de religião,o medo em que devem ser
o mesmo Q. Cúrcio, liv. VII, § 7) na superstição, esse logro das , tidos, paraque combatampela servidãocomosefosse ela salvaçãoe
mentes humanas, e mandou Aristandro, a quem confiara a sua '.itemque não é vergon a, mas a maior das honras,dar o sangue e
credulidade, explorar por meio de sacrifícios a evolução dos ma,1'elavaidadede um só homem, em contrapartida,numa lfu?úbll-
acontecimentos. Poderíamosacrescentar muitos outros exemplos que . seria impossível conceberou tentar algo de mais infeliz, uma
provam com toda a clarezao mesmo: os homens só se deixam dominar que repugnaem absolutoà liberdadecomum sufocarcom preconcei-
pela superstiçãoenquanto têm medo; tÕdasessas coisas que alguma vez ,. ou coarctarde algum modo o livre discernimentode cadaum. E, no
foram inutilmente objectode culto religiosonão são mais do quefantas- · diz respeitoaos conflitos desencadeadosa pretexto da religião,eles
mas e delíriosde um llnimo triste e amedrontado;finalmente, era quan- _:rgemunicamenteporque se estabeec m lei o t r' s es eculat'-
do o Estado se encontrava em maiores dificuldades que os adivinhos - e porque as opiniõessão consideradascrime e, como tal, condenadas.
detinham o maior poder sobre a plebe e eram mais temidos pelos seus ~ seus defensorese prosélitossão, por isso, imolados,não ao bem pú-
reis. Mas como tudo isto, ao que presumo, é suficientemente conhecido ico, mas apenas ao ódio e à crueldadedos adversários.Se, à luz do
de todos, não insistirei mais no assunto. ireito estatal, os factos fossem incrimináveis mas as palavrasfossem
Se esta é a causa da superstição, há que concluir, primeiro, que :punes, tais sediçõesnão poderiamatribuir-se qualquerespéciede di-
todos os homens lhe estão naturalmente sujeitos (digam o que disserem 'to, nem as controvérsiasse converteriamem sedições5• E já que nos
os que julgam que ela deriva do facto de os mortais terem todos uma :oube em sorte esta rara felicidade de viver numa república onde se
qualquer ideia, mais ou menos confusa, da divindade);em segundo lu- cede a cada um inteira liberdadede julgar e de prestar culto a Deus
gar, que ela deve ser extremamente variável e inconstante, como todas sua maneira, e onde não há nada que se consideremais caro e mais
as ilusões da mente e os acessosde furor; e, por último, que só a espe- lloceque a liberdade,pareceu-meque não seria tarefaingrata ou inútil
rança, o ódio, a cólerae a fraude podem fazer com que subsista, pois ostrar que esta liberdadenão só pode conceder-sesem prejuízopara a
não provém da razão, mas unicamente da paixão, e da paixão mais piedade e a paz da república,como, inclusivamente, ela não pode ser
~t eficiente.Daí que seja tãofácil os homens acabaremvítimas de supersti- ..abolida sem se abolir,ao mesmo tempo, a paz da repúblicae a piedade.

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çõesde toda a espéciequanto é difícil conseguir que eles persistam numa r Foi sobretudoisto o que decididemonstrarneste tratado. Para tanto,foi

126 127
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necessário,antes de mais, apontar os principais preconceitosacercada
religião,isto é, os vestígiosda antiga servidão,bem comoaquelesque se
natureza, são esses, supre111a iniquidade,que passampor possuir a luz
divina. Certamenteque, se eles tivessem uma centelhaque fosse da luz
referemao direito do soberano,visto haver muitos que se esforçam,com divina, não tolejariam com tanta soberba,aprenderiama honrar a Deus
1
111;
descaradoatrevimento, por lho usurpar em grande parte e por, a pre- e distinguir-se-iam dos outros pelo amor, da mesmaforma que agorase
texto da religião,pôr contraele o ânimo das multidões, submetidoainda , ~ distinguem pelo ódio. Nem perseguiriamcom tanta animosidadeos que
:ri:1
1
à superstiçãodos gentios,para que tudo caia de novo na servidão.Direi, [ 71ãopartilham das suas opiniões; pelo contrário,sentiriam piedadedeles
lf \
a seguir, em breves palavras, qual a ordem por que são apres_entad9s ,.\.I(se é, de facto, a salvaçãoalheiae não a própriafortuna que os preo-
·!:/
1 estes assuntos;· aiites, porém, vou ·expor ris razões que me levaram a Í:'. cupa). Além disso, se realmentetivessemalguma luz divina, ela ver-sé-
11)1 escrever. . ·, -ia pela sua doutrina. Confesso,porém, que embora possam ter uma
111
[8) Inúmeras vezesfiquei espantadopor ver homensque se orgullu!rtide . insuperáveladmiraçãopelosprofundíssimosmistériosda Escritura,_nunca
iJ1
·,
professara religiãocristã, ou seja, o amor, a alegria,a paz, a continên- ·,os vejo ensinar senãoas especulaçõesdos aristotélicosou dos platónicos.
cia e a lealdade para com todos, combaterem-secom tal ferÕcidadêe ·ãque adaptaramaquela6, ainda assim não parecessemadeptosdos pa-
manifestaremquotidianamenteuns para com os outros um ódio tão exa- ;gãos.!jão lhes bastavajá ensandeceremcom os Gregos,quiseram tam-
cerbadoque é maisfácil reconhecera sua fé por estes do que por aqueles m que os profetas delirassemcom eles. o que mostra claramentel/.!:!e
sentimentos. De facto, há muito já que as coisaschegarama um ponto m por sonhos7 eles..vêe.n:La..divindade da Escriturae que quanto mais
tal que é quase impossívelsaber se alguém é cristão, turco, judeu ou !' losamente admiramos se ts mistérios ma· onstram que o que sen- ~
pagão,a não ser pelo aspectoexterior do corpoe pelo vestuário,ou por ifjmi por ela não é tanto é o · - . Isto, aliás, resulta claro& /
frequentar esta ou aquela igreja, ou, finalmente, porque é adepto desta •
4
facto e a maior parte eles supor comofundamento (paracompreen-t;>'o
ou daquelaopiniãoe costumajurar pelaspalavrasdeste ou daquelemes- e encontraro verdadeirosentidoda Escritura)que ela é sempreverda-
tre. Quanto ao resto, todos levam a mesma vida. Assim, procurandoa ·ra e divina. Aquilo que só se deveriaestabelecera partir da sua com- . r! õJ-
causadeste mal, concluíque ele se deve, sem sombrade dúvida, aofacto 'eensãoe exame rigorosoe que atmvés dela mesma.sem necessidade%~~~
de a religião consistir para o vulgo em consideraros ministérios da lquer artifício humano, aprenderíamosmuito melhpr. é o que eles ~IV'
Igreja como dignidades,os seus ofícios como benefícios,e em cumular m liminarmente como regrada sua interpretação.
de honras os pastores. Com efeito, assim que começouna Igreja este Reflectindo sobre tudo isto - a saber,que a luz natural é, não só
abuso, imediatamentese apoderoudos piores homens um enorme desejo ' prezada, mas até condenadapor muitos comofonte de impiedade;que
de exerceremos sagradosofícios, o amor de propagara divina religião invenções humanas passampor documentosdivinos e a crendicepor
transformou-seem sórdidaavareza e ambição,e o própriotemplo dege- .; que as controvérsiasdosfilósofossão discutidasna Igreja e no Sena-
nerouem teatro ondejá não se veneravamdoutoresda Igrejamas orado- com as maioresexaltações,originandoos ódiose discórdiasmais vio-
res, os quais, em vez de querereminstruir o povo, queriamera arrebatar . tos, quefacilmentearrastamos homensparasublevaçõese tantosoutros
a sua admiraçãoe censurarpublicamenteos dissidentes,não ensinando · les que seria longo descreveraqui - decidi seriamenteempreender
senãocoisasnovas e insólitaspara deixaremo vulgo maravilhado.Daí o mnovo e inteiramentelivre exame da Escritura,não afirmandonem
terem surgido grandes contendas, invejas e ódio que nem o correr do ' ·mitindo como sua doutrina nada que dela não ressalte com toda a
tempofoi capaz de acalmar. !Jlreza . Com esta precaução,elaboreiu~ara interpretaros Li-
1 Não admira, pois, que da antiga religiãonãoficasse nada a não ser 'S Sagradose, uma vez na possedele,comeceipor perguntar,antes de
.! Q, ulto externo (com que o vulgo mais pareceadular a Deus que adorá- is, o que é a profecia,como se revelou Deus aos profetas,por que
1•.• ~.,,.r-o-~) e a fé esteja reduzida a crendicee preconceitos.E que preconceitos ,ramestes escolhidos por ele, isto é, sefoi por terem pensamentossubli-
', ~ ,x estes, que de racionais§nsforma"'ii')oshomens em bestas,que impedem ,ntesacercada naturezae de Deus ou em virtude a enas da sua piedade.
IJ por completoque cada um ;ulgue livremente e distinga o verdadeirodo c.t>--olvidas estas questões,facilmentepude concluirque a autori a e os ~ ~
[f falso, parecendoexpressamenteinventados para apagarem definitivo a •. '~feta~só.tem algum peso no QUediz resp:itoà vida práticae à .v~rda- ~
il luz do entendimento!A piedade,ó Deus imortal, e a religiãoconsistem ;~ra virtude. Quanto ao resto, pouco nos interessamas suas opiniões.
em mistérios absurdos,e são os que desprezamem absolutoa razão, os - Conhecidoisto, indagueidepoispor que motivo se chamouaos He-
que têm aversão e rejeitamo entendimento como coisacorrompidapor !breusos eleitos de Deus. E comovisse quefoi apenasporqueDeus esco-

128 129
lheu para eles uma certa região do mundo onde pudessem viver em Como,além disso, a maneirade ser dos homens é bastante diversificada,
1101segurançae comodidade,concluí que as leis reveladaspor Deus a Moi- e como uns preferemesta, outros aquela opinião,inspirandoa uns sen-
sés não eram senão o direito do singular Estado hebraicoe, por conse- timentos religiososo que a outros só provocariso, concluoser necessário
guinte, ninguém a não ser os Hebreus lhe estavasujeito. Mesmo eles, só deixar a cada um a liberdade de julgar e o poder de interpretaros fun -
enquantodurasse o referidoEstado. Depois, para saber se se podia con- damentos dafé de ncordocom a sua maneirade ser, e n~o. s~ ajU!EI,.!_ da
cluir da Escritura que o entendimento humano está por natureza cor- jt.d-e _ninf51:'éf!l
~-n_ão ser pela5-suas ~fões, conformeforem piedosasou
rompido,fui investigar se a religião católica8, ou seja, a lei divi_na ímpias, pois assim todos poderão obedecer a Deus de livre e inteira von-
reveladaa todo o género·humano pelos profefas·e pelos apóstolos,seria tade e dar valor apenas à justiça e à caridade.
diferentedaquelaque a luz natural tamb~m-ensina;e, em seguida, se os Após evidenciara liberdadeque a lei divina reveladaconcedea cada
milagresacontecemao arrepioda ordem natural e provam a exist~nciàe um, passo a um outro aspecto da questão, a saber, que essa mesma
a providênciade Deus de maneira ·mais certa e mais.cltmi_qo que_.as liberdadepode e além disso deve ser concedida,sem lesar a paz da repú-
' •
coisasque entendemosclarae distintamente pelassuas causasprimeiras. blica e o direito das autoridadessoberanas,e que, pelo contrário,não
Mas, como não encontrasse,naquilo que a Escritura expressamenteen- '?. pode ser suprimida sem graves riscos para a paz e em detrimento de
sina, nada que não estivessede acordocom o entendimento ou que lhe toda a república.Para demonstrareste ponto, começo,porém, pelo direi-
repugnasse,e como, por outro lado, visse que os profetas só ensinaram to natural do indivíduo, que vai até onde for o seu desejo e a sua
coisasextremamentesimplesque qualquerum poderiaperceber,além de potência, sem que alguém esteja, com base em tal direito, obrigadoa
as ornamentaremcom o estilo e confirmaremcom argumentos que me- viver de acordocom a maneirade ser de outrem e sendo, pelo contrário,
lhor pudessem incitar o ânimo da multidão à devoçãopara com Deus, 'cadaum o responsávelpela sua própria liberdade.A seguir, mostro que,
fiquei completamentepersuadidode que a Escritura deixa a razão em em realidade,ninguém renuncia a esse direito, a não ser que transfira
absolutaliberdadee não tem nada em comum com a filosofia, assentan- para outrem o poder de se defender,e que, necessariamente,aquelepara
do, pelo contrário, cada uma delas nas suas próprias bases. E para o ·. quem cada um transferiu o direito de viver de acordo com a sua ma-
demonstrar apodicticamentee resolver a questão por completo, mostro ,;; neira de ser, junto com o poder de se defender,possui este direitonatu-
qual o método a seguir na interpretaçãoda Escritura e bem assim que f ral de modo absoluto.A partir daqui, mostro que os que detêm o poder
todo o conhecimento,sobre esta ou sobre as coisas espirituais, se deve ,; soberanotêm direito a tudo o que estiver em seu poder e são os únicos
extrair dela mesma e não daquilo que conhecemospela luz natural. ,,:'garantesdo direito e da liberdade,ao passo que os outros devemJazer
Passo em seguidaa analisaros preconceitosque surgem pelofacto tudo de acordoapenas com o que eles determinam.Todavia,como nin-
de o vulgo (sujeito à superstiçãoe preterindoas relíquiasdo passadoà ( guémpode privar-se a um ponto tal do seu poder de se defenderque
própriaeternidade)adoraros livros da Escrituraem vez do próprio ver- .~.deixe de ser homem, concluo daí que ninguém pode ser absolutamente
bo de Deus. Depois, mostro que o verbo de Deus reveladonão consiste ':-.'privadodo seu direito natural e que os súbditos mantêm, comoque por
em determinadonúmero de livros, mas num conceitosimples da mente ; um direito da natureza, certas coisas que não lhes podem ser retiradas
divina reveladaaos profetas:obedecera Deus de plena vontade, prati- ,' semgrave perigopara o Estadoe que lhes são tacitamenteconcedidasou
cando a justiça e a caridade.E provo que esta doutrina é ensinada na · por eles expressamenteestipuladascom aquelesque detêm a soberania.
Escrituraconsoantea capacidadede compreensãoe as opiniõesdaqueles Posto isto, passo à repúblicados Hebreus,que descrevoem porme-
i
a quem os profetase os apóstoloscostumavampregareste verbo de Deus, nor, para mostrarpor que razãoe por ordemde quem a religiãocomeçou
1 de modo a que os homens o pudessem aceitar de plena vontade e sem a terforça de lei, bem como outras coisasque, de caminho,me pareciam
qualquerrepugnância. dignas de registo. Em seguida,mostro que os que detêm o podersobera-
Uma vez apresentadosos fundamentos da fé, concluo,finalmente, no são os garantes e os intérpretes, não só do direito civil, mas também
1:
que o conhecimentoreveladonão tem outra finalidade senão a obediên- do direito sagrado,e que só eles possuem o direito de discerniro que é
t cia e que, tanto pelafinalidade como pelosfundamentos e pelo método, justo e o que é injusto, o que é piedoso e o que é ímpio, concluindo,
ele é completamentediferentedo conhecimentonatural, não tendo nada enfim, que a melhor maneirade poderemmanter essedireito e conservar 1121
em comum com este, pois cada um deles ocupa o seu reino sem que isso o Estado em segurançaé consentirem que cada um pense aquilo que

i:
I•
1111repugneao outro e sem que algum tenha de se considerarsubordinado9• quiser e diga aquilo que pensa.

11
130 131
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"
o\_p_.~P~')..,:.s
É isto, leitor filósofo,que deixo aqui à tua apreciação,na esperança
de não ser mal acolhido,tendo em conta a importânciae utilidade do
tema, quer da totalidadeda obra, quer de cada um dos capítulos. Tinha
ainda mais coisasa acrescentar,mas não queroque este prefáciose trans-
forme num volume, sobretudo porque julgo que o essencial é sobeja-
mente conhecido dos filósofos. Quanto aos outros, não tento sequer
recomendar-lhese?te tratado, pois nada me _le!Jaa esperar que ele,.por
qualquerrazão, lhes possa agradar. Sei, efectivamente,quão arreigados CAPITULOI
(15]
estão na mente os preconceitosque o íinimo abraçoucomo se de piedade
se tratasse;sei, além disso, quê é -impossível libertaro vulgo ita.supers- DA PROFECIA
tição como do medo; e sei, finalmente, que a. constância_do vulgo é _
obstinaçãoe que não é a razão que o rege, mas a tendênciapara louvar
ou vituperar que o arrebata.Não convido, portanto, o vulgo, nem aque-
les que se debatemcom os mesmos afectos,a leremeste livro. Prefiroque
o desprezem a que me molestem interpretando-operversamente, como , •,Profecia ou Revelação é o conhecimento certo de alguma
costumamJazer sempre, não aproveitandoeles nem deixando que apro- revelada por Deus aos homens. O profeta, por conseguin-
veitem os que poderiamfilosofar mais livremente se a tanto os não im- "é o que interpreta as coisas que Deus revela para aqueles
pedisse o julgarem que a razão deve ser serva da teologia:porque, a delas não podem ter um conhecimento certo e que, por
estes, estou confianteque a obra será de extrema utilidade10. só pela fé as podem abraçar. Em hebraico, efectivamente,
E, posto que a muitos talvez falte o vagar ou o ânimo para ler _éta diz-se nabi *, quer dizer, orador e intérprete, mas na
tudo, vejo-me obrigadoa prevenir, aqui como no fim deste tratado, que titura é sempre tomado por intérprete de Deus, como se in-
não escrevi nada que de bom grado não submeta ao exame e apreciação ,. (do cap. vn, 1, do P.xodo,onde Deus diz a Moisés: eis que te
das autoridadessoberanasda minha pátria: se elas acharemque algo do ftituo Deus do Faraó,e Aarão,teu irmão,seráo teu profeta.É como
que eu digo vai contra as leis da pátria ou é prejudicial ao interesse ·lissesse: já que Aarão, ao interpretar para o Faraó as palavras
comum, retiro o que disse. Sei que sou homem e podereiter errado;mas tu pronuncias, faz de profeta, então tu serás como que o
pus todo o empenhopara não errar e, sobretudo,para não escrevernada do Faraó, ou seja, aquele que faz as vezes de Deus .
que não estejaem conformidadeabsolutacom as leis da pátria, a piedade ..Sobre os profetas, trataremos no capítulo seguinte. Aqui,
e os bons costumes. ,~-se-á da profecia, sendo que, pela definição apresentada,
fode chamar profecia ao conhecimento natural, pois o que

" AnotaçãoI. Quando a terceira letra do radical das palavras pertence ao


o das que chamamos quiescentes é habitualmente suprimida e, em seu
r, dobra-se a segunda. Assim, de Killah, suprimida a quiescente he, obtém-
. K.olelle Kol; de nibba obtém-se nobeb, donde niv sepataim,palavra ou discur-
,; de baza vem bazaz ou buz (shagag, shug, mishgeh vêm de shagah;hamam de
· ·h; belial, bala/, de balah). R. Salomon Jarchi interpretou, portanto, muito
a palavra 11abi,não tendo razão Ibn Ezra, que sem possuir um conheci-
.to tão exacto da língua hebraica o critica. Deve, além disso, notar-se que
vra nebuah, profecia, é um termo geral e aplica-se a todos os modos de
:etizar, ao passo que as outras palavras têm um sentido mais específico e
rpµcam -sesó a este ou àquele género de profecia, como creio ser do conheci-
.. to dos eruditos .

132 133
nós conhecemos pela luz natural depende exclusivamente do afirmar que a natureza da mente, concebida assim, é a primeira
conhecimento de Deus e dos seus eternos decretos. Na verda- causa da revelação divina. Porque tudo o que conhecemos clara
de, como este conhecimento natural é comum a todos os ho- e distintamente é a ideia de Deus (conforme indicámos) e a
mens, visto depender de fundamentos comuns a todos, não é natureza quem no-lo dita, decerto não por palavras , mas de uma
tido em grande conta pelo vulgo, o qual está sempre ansioso forma ainda mais excelente e adequada à natureza da mente,
por cois_as raras e alheias à sua natureza, ao mesmo tempo que como, sem dúvida, experimentou por si mesmo todo aquele que
despreza os dons naturais e, por isso, quando fala de _co~eci- provou da certeza do entendimento. Mas, como o meu intuito
mento profético, pretende qué esteja· excluído o natural. Contu- , principal é falar apenas daquilo que diz respeito só à Escritura,
do, o conhecimento natur~ tem tant9 direito como qualquer outro : o pouco que disse sobre a luz natural é suficiente. Passo, por-
a chamar-se divino, porquanto _.nos é como que ditado pela natu- tanto, às outras causas e meios pelos quais Deus revela aos ho-
reza divina, na medida em que nós participamos dela .1, pelos e f mens o 3-ue ultrapassa os l~mites d~ conhecimento natural ~ até
decretos de Deus, não diferindo do conhecimento à que tôdos ·· o que nao o ultrapassa (p01s nada rmpede que Deus comuruque
chamam divino senão porque este se estende para lá dos limites de modo diferente aos homens aquilo mesmo que conhecemos
daquele e porque as leis da natureza, consideradas em si mes- _pela luz natural). Disto, trat~rei mais em pormenor.
mas, não podem ser a sua causa. Mas no que toca à certeza que •t No entanto, tudo quanto pode dizer-se a tal respeito deve
(16J o conhecimento natural envolve e à fonte de que deriva (a saber, -sertirado exclusivamente das Escrituras. Que podemos nós, com
Deus), em nada fica atrás do conhecimento profético 2. A menos ·,feito, dizer de coisas que excedem os limites do nosso enten-
que alguém pretenda pensar, ou antes, sonhar que os profetas imento, a não ser aquilo que os próprios profetas, oralmente
tiveram, de facto, um corpo humano mas não uma mente 3 u por escrito, nos transmitiram? E, como hoje em dia não te-
humana e que, nesse caso, as suas sensações e a sua consciência .os, que eu saiba, nenhum profeta 4, só nos resta abrir os sa-
eram de uma natureza completamente diferente das nossas. . :àdos volumes que eles nos deixaram. Mas com a precaução
No entanto, muito embora seja divina a ciência natural, os e não afirmar sobre tais assuntos, nem atribuir aos profetas,
seus divulgadores não podem ser considerados profetas*. Com da que eles não tenham claramente ditado. E, aqui, deve so-
efeito, aquilo que eles ensinam pode ser percebido e abraçado l,.; '
,retudo notar-se que os Judeus nunca mencionam nem procuram
pelos restantes homens com a mesma certeza e ao mesmo nível !a.scausas intermédias ou particulares, remetendo sempre para
que eles, e sem ser apenas pela fé. . us, seja por religião, por piedade ou, como costuma dizer o
Visto, pois, que a nossa mente, só pelo facto de conter em {Ulgo, por devoção. Se, por exemplo, ganharam dinheiro num (171
si objectivamente a natureza de Deus e dela participar, tem a .egócio, dizem que lhe foi oferecido por Deus; se desejam que
potência de formar certas noções que explicam a natureza das _ .guma coisa aconteça, dizem que foi Deus que lhes predispôs o
·1~ coisas e nos ensinam a conduzir na vida, podemos com razão
r1: ,.ooração; e se pensam qualquer coisa, dizem que foi Deus que
l1
11 )Jtadisse. Por conseguinte, nem tudo o que a Escritura diz que
Deus disse a alguém deve ser tido por profecia e conhecimento
-.:1·_.··.

n * Anotação II. Quer dizer, intérpretes de Deus. O intérprete de Dêus é, com spbrenatural, mas só o que a Escritura diz expressamente, ou
11''
~ efeito, aquele que interpreta os decretos divinos que lhe foram revelados para ,_'J_ue se deduz das circunstâncias da narrativa, ter sido profecia
outros a quem o não foram e que, para os aceitarem, têm de se apoiar exclu- ou revelação.
:r..
'·.·1 sivamente na autoridade do profeta. Porque se os homens que escutam os , Se folhearmos os sagrados volumes, verificaremos que tudo
1~ profetas se tornassem profetas, como se tornam filósofos os que ouvem os
o que Deus revelou aos profetas foi revelado, ou por palavras,
li
iih! filósofos, então o profeta não seria um intérprete dos decretos divinos, pois
quem o ouvia não se apoiava no seu testemunho e autoridade, mas sin1 na ou por figuras, ou de ambos os modos, quer dizer, por pala-

,
íl
1•
revelação divina e no testemunho interior. Acontece exactamente o mesmo
com os soberanos, os quais são os intérpretes do direito do seu Estado por-
que as leis por eles promulgadas dependem exclusivamente da sua autoridade
e baseiam-se apenas no seu testemunho.
l·vras e figuras. As palavras, tal como as figuras, ou foram ver-
' dadeiras e exteriores à imaginação do profeta que as ouvia ou
via, ou foram imaginárias, porque a imaginação do profeta,

r 1
135
134
li
me smo quando acordado, estava predi spo sta de modo a que Escritura (Deut., cap. v, 4) diz expressamente: Deus falou con-
lhe parecesse ouvir palavras ou ver alguma coisa com toda a vosco face a face, isto é, tal como dois homen s, habitualmente,
clareza 5 . trocam ideia s entre si através dos respectivos corpos. Parece,
Deus revelou a Moisés com uma voz verdadeira as leis que , pois, ser mais conforme com a Escritura dizer-se que Deus criou
queria prescrever aos Hebreus, tal corno consta do fxodo, cap. xxv, •fuma voz por meio da qual ele próprio revelou o Decálogo.
22, onde diz: e aí te esperarei,e falarei contigo daquelaparte do propi- i Quanto ao motivo por que as palavras e os argumentos diferem
ciatório6 que está entre dois qw;rubins. O que mostra que Deus se de um livro para o outro, veja-se o cap . VIII.
serviu de t.irria verdadeira voz, já . que Moisés, sempre que que- ,,. Mas nem mesmo assim se elimina por completo a dificulda-
ria, encontrava ali Deus ·pronto p~ra lhe -falar. E só esta voz, de, posto que não parece lá muito razoável admitir que uma
pela qual foi anunciada a lei, :foi uma . verdadeira voz, ·cqriforme 'coisa criada, que depende de Deus como qualquer outra, pu-
mostrarei adiante. · .desse, por si mesma, exprimir ou explicar a essência ou a exis-
. -
Poder-se-ia supor que fosse verdadeira a voz com que Deus ..tência de Deus, fosse real ou verbalmente, e declarar na pri-
chamou Samuel, pois em Samuel, ,, cap. m, último versículo 7, eira pessoa: eu sou Jeová teu Deus, etc. É certo que , quando
afirma-se: e Deus apareceude novo a Samuel em Silo, porque em Silo 'lguém diz com a boca eu entendi, ninguém vai julgar que foi a
Deus se manifestou a Samuel pela sua palavra. É corno se dissesse ·-ca que entendeu mas sim a mente do homem que o afirma.
que a aparição de Deus a Samuel consistiu apenas em que Deus :orno, porém, a boca pertence à sua natureza, e como aquele a
se lhe manifestou pela palavra, ou, dito de outro modo, não foi em isso é dito já conhecia a natureza do entendimento, facil-
senão o facto de Samuel ouvir Deus a falar. No entanto, porque ente este compreende, por analogia consigo, a ideia do ho-
somos obrigados a distinguir a profecia de Moisés da dos res- .em que fala. Mas aqueles que anteriormente não conheciam
tantes profetas, é necessário dizer que essa voz ouvida por Sa- e Deus senão o nome e que desejavam falar-lhe para se certi-
muel era imaginária. O que pode também concluir-se do facto ,;·:arem da sua existência, não vejo como pôde este seu desejo
de ser parecida com a voz de Heli, que Samuel costumava ou- satisfeito por meio de urna criatura (que não tem com Deus
vir frequentemente e podia, portanto, imaginar com facilidade. ais relação do que as outras coisas criadas, nem pertence à
De facto, três vezes Deus o chamou e três vezes ele julgou que .tureza divina) que dissesse eu sou Deus. Eu pergunto: se Deus
[181 era Heli quem o chamava. ·- ·cesse os lábios de Moisés (mas porquê de Moisés? até de um
A voz que Abimelec escutou foi imaginária. Com efeito, diz- tU'.alqueranimal) para pronunciarem aquelas palavras e a dize-
-se no Génesis, cap. xx, 6: e Deus disse-lhe em sonhos, etc. Não foi, eu sou Deus, compreenderiam eles assim a existência de Deus? [191
portanto, quando estava acordado, mas só em sonhos (ou seja, Por outro lado, a Escritura parece indicar peremp toriamen-
na altura em que a imaginação está naturalmente mais apta a que o próprio Deus falou (descendo, para tanto, do céu ao
imaginar coisas que não existem) que pôde imaginar a vontade .onte Sinai) e que, não só os Judeus o ouviram falar, como até
de Deus. magnatas o viram (fxodo, cap . xx1v). E a lei revelada a Moi-
As palavras do Decálogo, na opinião de alguns judeus, não ·:éés, à qual não era lícito acrescentar ou suprimir fosse o que
foram proferidas por Deus . Segundo eles, os Israelitas ouviram ·~osse e que constituía o direito da pátria, jamais ordena que
só um estrépito, sem que nenhuma palavra tivesse sido proferi- , creditemos que Deus é incorpóreo ou que não tem qualquer
t"'' da, e entretanto apreenderam, mentalmente apenas, as leis do magem ou figura: o que diz é que Deus existe, que se deve
JI'
JÍ Decálogo. Eu próprio assim acreditei durante algum tempo, por ácreditar nele e só a ele adorar, proibindo, para que eles não se
1·~ ver que as palavras do Decálogo são diferentes no fxodo e no /desviassem do seu culto, que lhe atribuíssem ou que dele fizes-
:a Deuteronómio,donde parece resultar (já que Deus só falou uma ·,em qualquer imagem. Na verdade, como eles não tinham visto
'ti vez) que o Decálogo não pretende ensinar as próprias palavras ia imagem de Deus, não podiam fazer nenhuma que o represen-
t~ de Deus, mas apenas o seu significado. Todavia, se não quiser- ·.tasse, pois todas quantas fizessem representariam necessaria-
Ir, mos forçar a Escritura, é absolutamente necessário admitir-se tnente uma outra coisa criada que já tivessem visto. Assim, quan-
que os Israelitas ouviram uma verdadeira voz. Na verdade, a do adorassem a Deus por meio dessa imagem, pensariam, não

1 I
,, 136 137
em Deus, mas naquilo que ela de facto representava, prestando- zer, não por autênticas palavras nem verdadeira voz). No en-
-lhe o culto e as honras que só a Deus são devidas. Além disso, tanto, a Moisés não (me revelo) assim: a ele falo bocaa bocae numa
a Escritura indica claramente que Deus tem uma figura e que visiío, mas não por enigmas, e ele o'lhapara a imagem de Deus 8, isto
:.• Moisés a observava quando ouvia Deus a falar embora não che - é olha para mim e fala comigo como se fosse com um amigo e
gasse a ver Deus senão de costas. Não tenho, por conseguinte, l' ;ão cheio de medo, conforme vem no P.xodo,cap. XXXIII, 11. É,
/·j . dúvida que se esconde aqui algum mistério, do qual a seguir portanto, evidente, que os outros profetas não ouviram uma voz
falaremos mais longamente . Agora, passarei a apresentar as pas- autêntica, o que é também confirmado no Deuteronómio,cap. XXXIV,
sagens da Escritura que indicam os meios pelos quais Deus re- 10, onde se diz: e não houve (literalmente, não se levantou) em
velou aos homens os seus decreteis_. ..Israel nenhum profeta como Moisés, que conheceu Deus face a face;
Que houve revelação só por imagens, está claro pelo Jiv. 1 conheceu, entenda-se, só pela voz, dado que nem o próprio
dos Paralipómenos, cap. xx1, ortde Deus mostra a · David a sua -,Moisés tinha visto alguma vez a face de Deus (P.xodo,cap. xxxm).
cólera por meio de um anjo que empunha . uma . espaâà. o mes- Tirando estes, não encontro na Sagrada Escritura quaisquer
mo acontece com Balaão. E, embora Maimónides e alguns ou- .tros meios pelos quais Deus se tenha comunicado aos homens
tros pretendam que esta história e todas as que contam a apari- , por conseguinte, como atrás demonstrámos, mais nenhum é
ção de um anjo (por exemplo, a de Manué, a de Abraão quando .e admitir ou supor. E embora se compreenda que Deus pode,
tencionava imolar o filho, etc.) aconteceram em sonhos, pois nin- dúvida, comunicar-se aos homens imediatamente, pois co-
ijff,,' guém poderia, de olhos abertos, ver um anjo, estão, com certe- l'1JUCaa sua essência à nossa mente sem precisar de qualquer
~~ d za, a falar de cor. A única coisa que eles procuraram foi extor- ia corporal, todavia, para que um homem percebesse só pela
quir à Escritura as frivolidades aristotélicas e as suas próprias te certas coisas que não estão contidas nos primeiros princí- i211
invenções, o que a mim me parece a coisa mais ridícula. Em ·os do nosso conhecimento, nem deles se podem deduzir, a
contrapartida, foi por imagens não reais e dependentes apenas a mente teria de ser necessariamente superior e, de longe,
da imaginação do profeta que Deus revelou a José o seu futuro · perfeita que a mente humana . Por isso, não creio que al-
poder. .ém tenha atingido tanta perfeição, a não ser Cristo 9, a quem
r201 Por imagens e ao mesmo tempo por palavras revelou Deus ,, preceitos divinos que conduzem os homens à salvação foram
a Josué que havia de combater pelos Hebreus, mostrando-lhe ·elados imediatamente, sem palavras nem visões. Deus ma-
por um anjo com uma espada, qual chefe militar, o que também '"estou-se, portanto, aos apóstolos através da mente de Cristo,
lhe tinha revelado por palavras e que ele tinha ouvido do anjo. imo outrora a Moisés por meio de uma voz que vinha do ar.
Também a Isaías (conforme se narra no cap. VI) foi anunciado .,,assim, à voz de Cristo, tal como àquela que Moisés ouvia,
por figuras que a providência de Deus abandonava o povo, pois ,ode chamar-se a voz de Deus. Neste sentido, podemos tam-
imaginou o Deus três vezes santo num trono altíssimo e os Is- ém dizer que a sabedoria divina, isto é, a sabedoria que é
raelitas manchados pela imundície dos pecados, como que meti- perior à do homem, assumiu em Cristo a natureza humana e
dos em esterco, muito longe, por conseguinte, de Deus. Com- 'Cristo foi o caminho da salvação.
preendeu assim o miserável que era o estado presente do povo, Devo, no entanto, advertir aqui que me abstenho de falar
ao passo que as suas calamidades futuras lhe foram reveladas do que certas Igrejas afirmam sobre Cristo - e nem sequer para
por palavras como que pronunciadas por Deus. Poderia acres- 'o negar-, po is confesso com toda a franqueza que não com-
centar, a exemplo deste, muitos outros casos tirados da Sagrada . preendo. Tudo o que até agora afirmei são conjecturas a partir
Escritura, mas julgo que isto é suficientemente conhecido. · da própria Escritura. E em parte alguma eu li que Deus apare-
Tudo isto, aliás, vem ainda mais claramente confirmado num ceu a Cristo, ou que lhe falou, mas sim que Deus foi revelado
texto dos Números (cap. XII, 6 e 7) que reza assim: se alguém de por Cristo aos apóstolos, que Cristo é o caminho da salvação e,
entre vós for profeta de Deus, revelar-me-ei a ele numa visão (isto é, · finalmente, que a lei antiga foi transmitida por um anjo e não
por figuras e hieróglifos, enquanto da profecia de Moisés diz directamente por Deus, etc. Por conseguinte, enquanto Moisés
que é uma visão sem hieróglifos); falar-lhe-ei em sonhos (quer <li- · falava com Deus face a face, tal como um homem fala habitual-

138 139
mente com um companheiro (isto é, por meio dos seus dois consome. Além disso, na medida em que a palavra ruagh signi -
corpos) Cristo comunicou com Deus de mente para mente. fica ânimo, serve para exprimir todas as paixões e até os dotes
Está, portanto, assente que ninguém, além de Cristo, rece- anímicos, como espírito elevado para significar soberba, espírito
beu qualquer revelação de Deus sem o recurso à imaginação, submisso para significar humildade, espírito mau, para significar
quer dizer, a palavras ou imagens, e que, para profetizar, não é ódio e melancolia, espíritobom, para benignidade, espíritode ciúme,
necessário ser dotado de uma mente mais perfeita, mas sim de espírito (ou apetite) de fornicação,espírito de sabedoria,de prudência,
uma imaginação mais viva, conforme mostrarei com mais clé;1re- de coragem,isto é (porque em hebraico se usam mais frequente-
za no capítulo seguinte. É preciso, agora; averiguar o que nas ' mente os substantivos que os adjectivos), um ânimo sábio, pru-
Sagradas Escrituras se entende por _espírito : de Deus infundido dente, forte, ou virtude da sabedoria, da prudência, da cora-
nos profetas, ou seja, o que . q1.,1etdizer os profetas falarem pe lo gem, espírito de benevolência,etc.
espírito de Deus. Para investigar isto, é necessário, antes d~ m.ais, 6 - A própria mente, ou a alma, como no Eclesiastes,cap. III, [231
perguntar o que significa a palavta hebraica ruagh, vuigarmên te 19: o espírito (ou a alma) é o mesmo em todos, e o espíritovolta-se
traduzida por espírito. para Deus.
Ruagh, em sentido próprio, significa, como se sabe, vento, 7 - Finalmente, significa as partes do mundo (em virtude
mas emprega-se muitas vezes para significar várias outras coisas, · dos ventos 10 que delas sopram) e ainda os lados de qualquer
as quais, todavia, derivam daquela. É, com efeito, tomada por: ,coisa correspondentes a essas partes. Ver Ezequiel, caps. xxxvn,
1 - Hálito, como no salmo cxxxv, 17: e tão-poucoexiste espí- -9; XLII, 16, 17, 18, 19, etc. 11 .
-'.
rito na súa boca. É de notar, por outro lado, que uma coisa é referida a Deus
2 - Ânimo ou respiração, como em Samuel, 1, cap. xxx, 12: e ·e se chama coisa de Deus:
[221 voltou-lhe o espírito, isto é, respirou. 1- Porque pertence à sua natureza e é corno que parte dele,
3 - Coragem, força, como em Josué, cap. II , 11: e não se en- .tal como quando dizemos a potência de Deus ou os olhosde Deus.
controu depois espíritoem nenhum homem; idem em Ezequiel, cap. II, 2 - Porque está em poder de Deus e age segundo a sua
2: e veio a mim o espírito(ou força) que me fez levantar sobre os meus _vontade: assim, a Escritura chama aos céus céus de Deus, por
própriospés. serem o seu carro e o seu domicílio, à Assíria flagelo de Deus,
4 - Virtude, aptidão, como em Job, cap. XXXII, 8: certamente, :a Nabucodonosor servo de Deus, etc.
o próprioespíritoestá no homem,ou seja, a ciência não deve procurar- 3 - Porque lhe é dedicada, corno o templo de Deus, o naza-
-se unicamente nos velhos, já que eu verifico que ela depende reno de Deus, o pão de Deus, etc.
da virtude e da capacidade singular do homem; idem nos Núme- ~ 4 - Porque é transmitida pelos profetas mas não revelada
• ros, cap. XXVII, 18: o homem, em quem está o Espírito. ~-pela luz natural, como é o caso da lei de Moisés, que é designa-
f: 5 - Intenção, como nos Números, cap. XIV, 24: porquefoi outro da por lei de Deus.
1
il o seu espírito, quer dizer, uma outra intenção, uma outra ideia; 5 - Para exprimir uma coisa no grau superlativo, tal como
idem nos Provérbios,cap. 1, 23: eu vos direi o meu espírito (isto é, a montes de Deus, ou seja, montes altíssimos, um sono de Deus, isto
minha ideia). Neste mesmo sentido, emprega-se para significar é, profundíssimo. É neste sentido que se deve explicar Amós,
a vontade, a decisão, o apetite e a impetuosidade, como em ·. cap. 1v, 11, onde o próprio Deus fala do seguinte modo: Eu
Ezequiel,cap. 1, 12: iam para onde tinham o espírito (ou vontade) de destruí-vos como a destruiçãode Deus (destruiu) Sodomae Gomorra,
ir; idem em Isaías, cap . XXX, 1: e parafundir a fusão e não do meu quer dizer, à semelhança dessa memorável destruição; não pode,
espírito;e no cap. XXJX, 10: porque Deus derramousobreeles o espírito efectivamente, explicar-se de outro modo, urna vez que é o pró-
(isto é, os apetites) de dormir;e no livro dos Juízes, cap. vm, 3: mi- prio Deus quem fala. Da mesma forma, a ciência natural de Sa-
l tigou-seentão o seu espírito,ou ímpeto; idem nos Provérbios,cap. XVI, lomão é designada por ciência de Deus, ou seja, divina, fora do
1. 32: quem domina o seu espírito (ou apetite) mais do que quem toma comum. Nos Salmos, fala-se também de cedros de Deus para ex-
uma cidade;e no cap. xxv, 28: o homem que não domina o seu espí- .J primir a sua insólita grandeza. E em Samuel, liv. 1, cap. x,, 7,
rito; idem em Isaías,cap. XXXIII, 11: o vosso espírito é um fogo que vos para significar um medo particularmente grande, diz-se um medo

140 141
de Deus abateu-se sobre o povo. Neste sentido, tudo o que ia além do comum, tal como no Êxodo, cap. XXXI, 3: e enchê-lo-ei(a Betsa-
da capacidade de compreensão dos Jud eus e tudo aquilo de que, bel) do espírito de Deus, ou seja (como explica a própria Escritu-
na altura, ignoravam as causas naturais era habitualmente atri - ra), de engenho e arte acima do que cabe em sorte ao comum
buído a Deus. Assim, à tempestade chamavam repreensãode Deus, dos homens. E em Isaías, cap. x1, 2: repousarásobreele o espíritode
e aos trovões e relâmpagos flechas de Deus, porque julgavam que Deus, quer dizer, conforme o próprio profeta explica, e à seme-
Deus tinha os ventos encarcerados em cavernas a que chama- lhança do que acontece frequentemente nos textos sagrados, a
vam as forjas de Deus, não d~vergindo dos pagãos sob . este .as- vjrtude da sabedoria, da prudência, da fortaleza, etc. Igualmen-
pecto, a não ser por julgarem que era Deus e não Eolo o admi- te, à melancolia de Saul chama-se um espírito maligno de Deus,
nistrador dos ventos. Pela mesma .-razão .ainda, aos milagres isto é, uma melancolia profundíssima: foram, de facto, os cria- 12s1
chamam obras de Deus, quer dizer, obras estupendas, un:ia : vez dos de Saul que o convenceram a chamar para junto de si wn
[241 que todas as coisas naturais , são obras de Deus e só .p~la po_tên- músico que o divertisse tocando cítara, o que mostra que, não
cia divina existem e agem. E, portanto, neste sentido que o sal- obstante chamarem à melancolia de Saul melancolia de Deus, a
mista chama potências de Deus aos milagres do Egipto, porque tinham por melancolia natural .
abriram aos Hebreus, numa situação de extremo perigo em que ~: O espírito de Deus significa, ainda, a própria mente do ho-
estes já não esperavam nada de parecido, uma via de salvação, mem, como em Job, cap. xxvn, 3: e o espíritode Deus no meu nariz,
deixando-os extremamente maravilhados. -por alusão à passagem do Génesis em que Deus insufla a alma
Dado, pois, que às obras insólitas da natureza se chama obras da vida no nariz do homem. Assim, Ezequiel, profetizando aos
de Deus e às árvores de altura descomunal árvores de Deus, ~ortos, diz (cap. XXXVIl, 14): dar-vos-eio meu espíritoe vivereis,ou
não nos devemos admirar que no Génesis se chame filhos de ~ja, restituir-vos-ei a vida. No mesmo sentido, afirma-se em
Deus aos homens de estatura elevada e com muita força, ainda fob, cap. XXXIV, 14: se ele (Deus) quiser, recolheráo seu espírito(isto
que sejam ímpios, ladrões e devassos. Porque os antigos, não só · · a mente que nos deu) e a sua alma. É deste modo que se deve
os judeus mas também os gentios, costumavam referir a Deus .bém entender o Génesis, cap. VI, 3: nunca mais o meu espírito
tudo aquilo em que alguém excedia os demais. Quando o Faraó iocinará (ou discernirá) no homem, porque ele é carne;ou seja, a
ouviu a interpretação do sonho, disse que a mente dos deuses artir de agora, o homem agirá segundo as decisões da carne e
estava em José, do mesmo modo que Nabucodonosor disse a ;nãoda mente que eu lhe dei para que discernisse o bem. Do mes-
Daniel que este possuía a mente dos deuses santos. E, até entre mo modo, no salmo u, 12, 13: cria em mim, ó Deus, um coração
os latinos, não há nada mais frequente, uma vez que de uma ''·ro e renova em mim um espírito (um apetite) decente(moderado),
coisa feita com arte eles dizem que foi fabricada por mão divina, 'o me afastes do teu olhar nem tires de mim a ideia da tua santidade.
o que, se quiséssemos traduzir para hebraico, deveria dizer-se, :como acreditavam que a única fonte dos pecados era a carne,
como muito bem sabem os hebraizantes, fabricadapela mão de Deus. quanto a mente só aconselhava o bem, o salmista invoca o
Com estes elementos, podem facilmente entender-se e expli- auxílio de Deus contra o apetite carnal, ao passo que para a
car-se as passagens da Escritura em que se menciona o espírito : mente, que Deus santo lhe deu, só pede que lha conserve . Ora,
de Deus. De facto, o espírito de Deus, o espírito de Jeová,em algu- assim como a Escritura costuma pintar Deus à semelhança do
mas dessas passagens, não significa outra coisa que um vento homem e, dada a ignorância do vulgo, atribuir-lhe mente, âni -
fortíssimo, extremamente seco e funesto, como em Isaías, cap. XL, .,-mo, afectos, até mesmo um corpo e um hálito, assim também
7: o vento de Jeovásoprousobre ele, isto é, vento extremamente seco ;-utiliza muitas vezes espírito de Deus por mente, quer dizer, por
e funesto. E no Génesis, cap. 1, 2: e o vento de Deus (ou vento ânimo, afecto, força e hálito da boca de Deus . Assim, Isaías, no
fortíssimo) movia-se sobre a água. A mesma expressão significa .cap. XL, 13, diz : quem dispôs o espírito de Deus (ou a mente)? Quer
ainda grande ânimo. Assim, o ânimo de Gedeão e o de Sansão dizer, quem, a não ser o próprio Deus, determinou que a mente
designam-se, nos textos sagrados, espírito de Deus, isto é, ânimo , divina quisesse algo? E no cap. LXIII, 10: e encheramde amargurae
cheio de audácia e pronto para tudo. Da mesma maneira, chama- , de tristeza o espírito da sua santidade. É por isso que espírito de
-se espírito ou virtude de Deus a toda a virtude ou força acima Deus se costuma traduzir por lei de Moisés, dado que, de al-

142 143
1 1
,1
,1'1 l26J gum modo , esta exprime a mente de Deus, conforme diz o pró- (desde a primeira vez que vim junto de vós para pregar a cólera
,;J prio Isaías, no mesmo capítulo, vers. 11: onde está (o) que pôs no de Deus e a sentença por ele proferida contra vós) jamaisfalei às
1 ,:,

:· meio deles o espírito da sua santidade (?), isto é, a lei de Moisés, escondidas,desde que ela foi (proferida) eu compareci(como confir-
lr
1
i,1j; como resulta de todo o contexto da frase. E em Nehemias,cap. IX, mou no cap. vn), mas agora sou um mensageiro da alegria envia-
20: deste-lheso espírito, a tua mente boa, para os tornares inteligentes. do pela misericórdia de Deus para cantar a vossa restauração.
f ~'i Fala, com efeito, do tempo da lei, a que também alude aquela Pode, também, como eu disse, entender-se por mente de Deus
passagem do Deut., cap. IV, 6, ~mde Moisés diz: porqut:ela (a lei) revelada na lei, quer dizer, que ele agora os vem avisar tam-
é a vossa ciência é a vossa prudência, etc.· O mesmo se passa no bém por determinação da lei (Levítico, cap . XIX, 17). Por isso ele
salmo CXLm, 10: a tua mente boa cond~tzir-me~á -pela pla.nície, isto é, os adverte nas mesmas condições e do mesmo modo que Moisés
a tua mente, que nos foi revelada, conduzir-me-á peló _reêto costumava fazer. E termina predizendo-lhes a restauração, como
caminho. · também fez Moisés. Contudo, a primeira explicação parece-me
l;i Mas espírito de Deus, como dissemos, significa também háiito mais ajustada.
de Deus, que a Escritura, à semelhança do que faz com a mente, Dito isto, para voltar, finalmente, ao que nos interessa, fi-
o ânimo e o corpo, impropriamente atribui a Deus, como acon- cam claras estas frases da Escritura: o profeta teve o espírito de
tece no salmo xxxm, 6; significa ainda a potência, a força ou Deus, Deus infunde o seu espíritonos homens, os homensestãorepletos
virtude de Deus, como em Job, cap. xxx111, 4: o espírito de Deus do espírito de Deus e do espírito santo, etc. Na verdade, elas signi-
fez-me, quer dizer, a sua virtude, a sua potência ou, se quiser- ficam apenas que os profetas eram dotados .. de uma virtude
mos, o seu decreto. E o salmista, falando poeticamente, diz ainda singular e acima do comum e cultivavam a piedade com exímia
que por ordem de Deus foram feitos os céus e pelo espírito ou perseverança. Depois, percebiam a mente e a intenção de Deus.
sopro da sua boca (isto é, pelo seu decreto, pronunciado como Demonstrámos, com efeito, que espírito em hebraico tanto pode
que só por um sopro) se criou todo o seu exército. O mesmo significar a mente como a intenção e que, por tal motivo, a pró-
acontece no salmo cxxx1x,7: aonde irei (que esteja) fora do teu pria lei, na medida em que exprimia a mente de Deus, era de-
espírito, ou para onde fugirei (que fique) fora do teu alcance, quer signada por mente ou espírito de Deus. Por idêntico motivo, a
dizer, como é evidente pelas passagens em que o próprio sal- imaginação dos profetas podia designar-se por mente de Deus,
mista desenvolve depois esta ideia, aonde posso eu ir que es- uma vez que por ela eram revelados os decretos divinos, e po-
cape à tua potência e à tua presença? dia dizer-se que os profetas tinham a mente de Deus. E embora
Finalmente, espírito de Deus emprega-se nas Escrituras para a mente de Deus e os seus eternos juízos estejam igualmente
exprimir os afectos do ânimo divino, a sua bondade e misericór- inscritos na nossa mente e, por conseguinte, também nós com-
dia, como em Miqueias, cap. II, 7: acasodiminuiu o espírito de Deus preendamos (para falar como a Escritura) a mente de Deus, no
(quer dizer, a sua misericórdia)? São estas (desventuras) as suas entanto, como o conhecimento natural é comum a todos, já não
obras? Igualmente em Zacarias,cap. IV, 6: não por meio de um exér- possui, conforme dissemos, o mesmo valor aos olhos dos ho-
cito, nem pela força, mas apenas pelo meu espírito, ou seja, apenas
pela minha misericórdia. É neste sentido que penso dever enten-
der-se também o vers . 12 do cap. v11do mesmo profeta: e endu-
• Anotação Ili. Embora alguns homens possuam certos dons que a natu -
receramo seu coraçãocomo um rochedo,para não obedeceremà lei e aos reza recusa aos outros, não se diz, contudo, que eles excedem a natureza hu-
mandamentosque Deus, através dos primeirosprofetas,lhes enviou do mana, a menos que esses dons sejam tais que não possam compreender -se a
,r. seu espírito (isto é, da sua misericórdia). Diz, no mesmo sentido, partir da definição da mesma natureza. Por exemplo, uma altura de gigante é
Ageu, cap. u, 5: o meu espírito (ou a minha graça) permaneceentre rara, mas, apesar disso, é humana. Pouquíssimos são os que conseguem im-
(271 vós, não tenhais medo. Quanto ao que diz Isaías- e agora me en-
provisar poemas e, no entanto, isso é humano [há até quem o faça com a
maior das facilidades]. Ou imaginar certas coisas de olhos abertos com tanta
viou o Senhor Deus e o seu espírito (cap. XLVIll, 16) - tanto pode 1
vivacidade como se elas estivessem mesmo na frente . Porém, se existisse al-
entender-se por ânimo e misericórdia de Deus como ainda pela guém que tivesse um outro meio de compreend er e outros fundamentos para
sua mente revelada na lei. Com efeito, ele diz: desde o princípio o conhecimento, esse sim, ultrapassaria os limites da natureza humana.

144 145
mens, em particular do s Hebreus, que se gabavam de serem Ou de Miqueias ver Deu s sentado, enquanto Daniel o vê como
superiores a todos e costumavam ter desprezo por todos e, con- um ancião vestido de bran co e Ezequiel como uma chama; de
sequentemente, pela ciência que a todos é comum . Por último, os discípulos de Cristo terem visto o espírito santo como uma
dizia-se que os profetas tinham o espírito de Deus porque os pomba que des cia e os apóstolos o verem como línguas de fogo;
homens ignoravam as causas do conhecimento profético e, por ou, finalmente, de Paulo, antes da conversão, ter visto uma gran- (291
isso, admiravam-no e atribuíam-no a Deus, como faziam com de luz. Tudo isso está, com efeito, plenamente de acordo com
12s1 qualquer outro prodígio, charp.ando-lhe conhecimento de Deus. as imaginações vulgares sobre Deus e os espíritos.
Pode -se, pofa, afirmar agora sem quaisquer reticências que Por último, e porque a imaginação é vaga e inconstante, a
os profetas não perceberath a revelação divina senão através da profecia não parava muito tempo nos profetas, além de não ser
imaginação, isto é, mediante palavras .ou imagens, as qu~üs ·ora frequente mas extremamente rara, isto é, só se dava em pou-
eram verdadeiras, ora imaginárias. Com efeito, se µªo en~on - quíssimos homens e, mesmo nestes, só muito raramente. Assim
j
tramos na Escritura outros meios além destes, também não nos sendo, temos de ver agora onde é que pôde originar-se a cer-
1
11•;',
"!Jll é lícito, como já mostrámos, estar a inventá-los. No que toca, teza dos profetas a respeito de coisas que percebiam apenas pela
porém, às leis da natureza segundo as quais tal aconteceu, con- . imaginação e não pelos princípios certos da mente . Porém, tudo
fesso que as ignoro. Poderia, evidentemente, dizer, como ou- i: quanto acerca disso se pode dizer tem de ser extraído da Escri-
tros, que aconteceu pela potência de Deus, mas isso teria ar de ; tura, visto não possuirmos , como já disse, uma verdadeira ciên-
conversa fiada. Seria o mesmo que querer explicar a forma de 1:eia de tais assuntos, isto é, não os podermos explicar pelas suas
qualquer coisa singular por um termo transcendental 12 . De fac- • causas primeiras . Mostrarei no próximo capítulo o que a Escri- .
to, tudo é feito pela potência de Deus e, além disso, como a · tura ensina sobre a certeza dos profetas, uma vez que é deles
potência da natureza ·não é senão a própria potência de Deus, tratar.
nós não compreenderemos esta enquanto ignorarmos as causas
naturais. É, portanto, insensato recorrer a ela quando ignora-
mos a causa natural de qualquer coisa, que o mesmo é dizer, a
própria potência de Deus. Verdadeiramente, nem sequer é pre-
ciso saber agora qual a causa do conhecimento profético, uma
vez que tentamos aqui analisar, como já observei, apenas os
ensinamentos das Escrituras, para deles extrairmos, como se se
tratasse de dados naturais, as nossas conclusões. Quanto às cau-
sas de tais ensinamentos, essas não nos interessam 13•
Tendo, portanto, os profetas percebido por meio da imagi-
nação o que Deus lhes revelou, não restam dúvidas de que eles
poderiam ter percebido muitas coisas que excedem os limites
do entendimento, pois com palavras e imagens se podem com-
por muitas mais ideias do que só com os princípios e as noções
em que se baseia todo o nosso conhecimento natural 14 .
É, além disso, evidente a razão por que os profetas percebe-
ram e ensinaram quase tudo por parábolas e enigmas e exprimi-
ram sob forma corpórea tudo o que é espiritual : é que, assim,
as coisas adequam-se melhor à natureza da imaginação. E já não
é para admirar o facto de as Escrituras ou os profetas falarem
tão imprópria e obscuramente do espírito ou da mente de Deus,
como nos Números, cap. XI, 17, nos Reis, liv . I, cap. xxu, 2, etc.

146 147
CAPITULO II [29]

DOS PROFETAS

Do capítulo anterior, como já referimos, resulta que os pro-


fetas não foram dotados de uma mente mais perfeita mas sim
de uma potência de imaginar mais viva, conforme as narrativas
da Escritura abundantemente ensinam. Consta, com efeito, que
Salomão era superior aos outros pela sabedoria e não por um
dom profético. Da mesma forma, homens de grande prudência, ·
como Heman, Darda, Kalchol, não foram profetas, e homens
rústicos e alheios a qualquer ciência, ou até mulherzinhas corno
Agar, serva de Abraão, receberam, pelo contrário, o dom pro-
fético. O que está, aliás, de acordo com a experiência e a razão:
os que sobressaem pela imaginação são menos aptos para com-
preender as coisas de maneira puramente intelectual; em con-
trapartida, os que sobressaem mais pelo intelecto e o cultivam
superiormente possuem uma potência de imaginar mais tempe-
rada, mais regrada e como que a refreiam; ainda assim não se
misture com o intelecto. Estão, ·portanto, no caminho errado
aqueles que procuram a sabedoria e o conhecimento, quer das
coisas naturais, quer das espirituais, nos livros dos profetas. E é
isso que eu me proponho demonstrar aqui desenvolvidamente,
já que tanto a época, como a filosofia e o próprio argumento do
livro o exigem, pouco me importando que a superstição desate
aos gritos, ela que odeia acima de tudo os que cultivam a ver- [301
<ladeira ciência e a verdadeira vida. Porque as coisas, infeliz-
mente, chegaram a um ponto que homens que confessam aber-
tamente não ter a mínima ideia de Deus nem o conhecer senão
pelas coisas criadas (das quais ignoram as causas) não se enver-
gonham de acusar de ateísmo os filósofos.
Indo por partes, mostrarei que as profecias variam em fun-
ção, quer da imaginação e do temperamento de cada profeta,

149
1/
quer das opiniões de que eles estavam imbuídos; mostrarei, além um profeta (isto é, um falso profeta) for induzido em erro e pronun-
disso, que a profecia nunca tornou os profetas mais sábios, con- ciar uma palavra,fui eu, vosso Deus, que enganei esse profeta. E Mi-
forme a seguir explicarei desenvolvidamente. Antes, porém, te- queias (veja-se Reis, liv. 1, cap. xx11,23) exprime a mesma opinião
nho de tratar aqui da certeza dos profetas, já porque ela tem a sobre os profetas de Acab.
ver com o terna deste capítulo, já porque é de alguma utilidade Embora isto pareça mostrar que a profecia e a revelação
para o que pretendemos demonstrar.
eram coisas bastante duvidosas, havia nelas, contudo, e corno
Urna vez que a simples i~aginação não envolve por natu- dissemos, muito de certeza. Deus, efectivamente, nunca engana
reza, como acontece com toda a ideia· dará e distinta, uma cer- os piedosos e os eleitos; pelo contrário, como reza o ditado an-
teza, sendo necessário, para estarmó~ certos -das coisas que ima- tigo (ver Samuel, liv. 1, cap. XXIV, 14), e como se vê pela história
ginamos, acrescentar-lhe algo maís, a saber, o raciocínio; resulta de Abigael e pe la sua oração, Deus serve-se dos piedosos corno
que a profecia não implica em si mesma urna c~rtezél_,.:pois .de- instrumentos da sua piedade e dos ímpios como executores e
pende, como já mostrámos, apenas da imaginação. Daí que os
intermediários da sua cólera. No já citado caso de Miqueias,
profetas não tivessem a cer teza da revelação de Deus através
verifica-se isto mesmo com toda a clareza: apesar de Deus ter
da própria revelação, mas sim através de um qualquer sinal 1,
decidido enganar Acab por meio dos profetas, serviu-se unica-
como aconteceu com Abraão (ver Génesis, cap. xv, 8), que, de-
mente de falsos profetas, revelando a verdade das coisas a um
pois de ouvir a promessa de Deus, rogou um sinal. Decerto ele
que era piedoso, sem o proibir de a predizer. No entanto, tal
acreditava em Deus e não foi, portanto, para ter fé que pediu o
sinal, mas para ter a certeza de que era Deus quem lhe fazia tal corno eu disse, a certeza do profeta era apenas moral, pois nin-
promessa. O mesmo acontece, mais claramente ainda, com Ge- guém pode justificar-se perante Deus nem orgulhar-se de ser o
deão, que se dirige a Deus nestes termos: faz-me um sinal (para instrumento da divina piedade, corno ensina a Escritura e corno
que eu saiba) que és tu que falas comigo Uuízes, cap. v1, 17). Tam- resulta da própria natureza das coisas. Até David, cuja piedade
bém a Moisés Deus diz: que isto (seja) para ti um sinal de que eu te é abundantemen te confirmada na Escritura, é seduzido pela có-
enviei. Ezequias, que desde há muito sabia que Isaías era profe- lera de Deus pa ra fazer o recenseamento do povo 3.
ta, pediu-lhe um sinal da profecia em que este anunciava que Toda a certeza dos profetas se fundamentava, por conse-
ele se havia de curar. Isto mostra que os profetas tinham sem- guinte, nestes três elementos: 1.0 no imaginarem as coisas revela-
pre um qualquer sinal através do qual se certificavam das coisas das de forma extremamente viva, da mesma forma que nós cos-
que profeticarnente imaginavam. Moisés, inclusivamente, adver- tumamos ser afectados pelos objectos durante a vigília; 2.0 no
te-os (Deuteronómio,cap. xvm, último versículo) para que exijam sinal; 3.0 por último, e acima de tudo, no terem o ânimo voltado
do profeta um sinal, isto é, o prenúncio de um acontecimento unicamente para a justiça e o bem. Apesar de a Escritura nem
·11 futuro. Deste ponto de vista, a profecia é, portanto, inferior ao sempre mencionar o sinal, é de crer que os profetas o tiveram
1. conhecimento natural, que não precisa de nenhum sinal urna vez sempre, pois ela não costuma (como já foi observado por mui-
que, pela sua própria natureza, já implica uma certeza. Com efei- tos) descrever todas as condições e circunstâncias, pressupondo,
to, esta certeza profética não era, evidentemente, urna certeza pelo contrário, certas coisas como já conhecidas. Podemos até (321
matemática, mas apenas mora l, conforme consta também da pró- admitir que os profetas que não profetizassem nada de novo,
l3IJ pria Escritura. Moisés (Deut., cap. XIII) avisa que, se algum pro- mas apenas o que estava já contido na Lei de Moisés, não precisa-
feta quiser ensinar novos deuses, deve ser condenado à morte, vam de sinal, uma vez que eram confirmados pela Lei. Por exem-
mesmo que confirme a sua doutrina por meio de sinais e mila- plo: a profecia de Jeremias sobre a devastação de Jerusalém era
gres, pois, corno acrescenta ainda Moisés, Deus também faz sinais confirmada pelas profecias de outros profetas e pelas ameaças
e milagres para tentar o povo 2 . E Cristo fez a mesma advertên- da Lei, não precisando, portanto, de um sinal; mas Ananias,
cia aos discípulos, como se pode ver em Mateus, cap. XXJV, 24. que profetizava, ao contrário de todos os profetas, a restaura-
Também Ezequiel (cap. XVJ, 9) ensina claramente que Deus engana ção da cidade para daí a pouco, tinha necessidade de um sinal,
por vezes os homens com falsas revelações, pois diz: e quando pois, de outra forma, seria obrigado a duvidar da sua profecia

150 1 r;1
até que a ocorrência das coisas por ele preditas a confirmasse mento musical e não conseguiu perceber a mente de Deus en-
(ver Jeremias,cap. xxvm, 9). quanto não se deleitou com a música desse instrumento: só en-
Visto, pois, que a certeza que os profetas obtinham pelos tão predisse a Jeroboão e aos seus companheiros boas notícias,
sinais não era matemática (ou seja, resultante da necessidade da coisa que antes não podia acontecer porque estava irado contra
percepção da coisa percebida ou vista), mas apenas moral, e como o rei. Quem está irado contra alguém é capaz de imaginar ma-
os sinais não se destinavam senão a persuadir o profeta, resulta les a seu respeito, não coisas boas. Mas os que pretendem que
que eles eram dados conforme . as opiniões e a capacidade ele Deus não se revela aos irados e aos tristes estão, de facto, a
cada um, de "ta} maneira que o sinal .que "tornava um profeta sonhar, porque Deus revelou a Moisés, que estava irado contra
certo da sua profecia podia não co1,wencer . minimamente um o Faraó, a terrível matança dos primogénitos (f.xodo,cap. rr, 8), e
outro que estivesse imbuído de .opiniões _diferentes. Por fssp,· os isto sem a ajuda de nenhum instrumento musical. Da mesma for-
sinais variavam consoante o profeta. A própria revelaç_ã~, como ma, Deus revelou-se a Caim quando este estava furioso. A Eze-
~
já dissemos, variava de profeta para profeta; ein função do seu quiel, impaciente de ira, foi revelada a desgraça e a obstinação
temperamento, da sua imaginação e das opiniões que anterior- dos Judeus (Ezequiel,cap. III, 14); Jeremias, acabrunhado e inva-
mente perfilhava. Em função do temperamento, ela variava as- dido por um enorme tédio pela vida, profetizou as calamidades
sim: se o profeta era alegre, revelavam-se-lhe as vitórias, a paz dos Judeus, de tal maneira que Josias não o quis consultar, pre-
e tudo o que é motivo de alegria para os homens, visto as pes- ferindo uma mulher contemporânea dele, que estava, pelo seu
soas com esse temperamento costumarem imaginar com frequên- engenho feminino, mais apta a revelar-lhe a misericórdia de Deus
cia semelhantes coisas; se, pelo contrário, ele era tristonho, re- (Paralipómenos, liv. u, cap. xxxrv). Miqueias, por seu turno, ja-
velavam-se-lhe as guerras, os suplícios e todos os males; em mais profetizou algo de bom para Acab, embora outros, verda-
suma, conforme ele fosse bondoso, afável, irascível, severo, etc., deiros profetas, o tenham feito (como consta do liv. 1 dos Reis,
assim estaria mais apto para estas que para aquelas revelações. cap. xx), e durante toda a sua vida só lhe anunciou males (Reis,
Em função da imaginação também se verificavam diferenças, tais liv. r, cap. XXII, 8, e, de maneira ainda mais clara, Paralipómenos,
como: se o profeta era requintado, requintado era também o liv. rr, cap. XVII, 7). Conforme o seu temperamento, assim os pro-
estilo em que apreendia a mente de Deus; se, pelo contrário, fetas estavam, portanto, mais aptos para estas ou para aquelas
era confuso, apreendia-a confusamente. Outro tanto acontece com revelações.
as revelações por imagens: se o profeta era um rústico, apare- Depois, o estilo da profecia variava segundo a eloquência
ciam-lhe bois e vacas; se era soldado, apareciam-lhe chefes e exér- de cada profeta. As profecias de Ezequiel e de Amós não são
citos; se era, enfim, um homem da corte, o que lhe aparecia era elegantes como as de Isaías e de Naum, e estão escritas num
o trono real e coisas semelhantes. Por último, a profecia variava estilo mais rude. Se alguém que domine a língua hebraica o
conforme a diversidade de opiniões dos profetas: aos Magos quiser verificar com mais atenção, compare os capítulos de vários
(ver Mateus, cap. n), que acreditavam nas frivolidades da astro- profetas que versam o mesmo tema e· notará uma grande discre-
logia, o nascimento de Cristo foi anunciado pela aparição de ' pância no estilo. Compare, por exemplo, o cap. 1 do homem da
1331uma estrela surgida no Oriente; aos áugures de Nabucodonosor corte que é Isaías (do vers. 11 até ao 20) com o cap. v do cam- 1341
i
(ver Ezequiel,cap. XXI, 26) a destruição de Jerusalém foi revelada ponês Amós (do vers. 21 até ao 24). Compare depois a ordem e
! nas vísceras dos animais, revelação que o rei tivera também pelos os argumentos da profecia que Jeremias escreveu (cap. xux) con-
oráculos e pela direcção das setas disparadas para o ar. E aos tra Edom com a ordem e os argumentos de Abdias. Compare
profetas que acreditavam que os homens agem por livre escolha ainda os caps. XL, 19-20, e XLIV, a partir do vers. 8 de Isaías com
e pela própria potência, Deus revelava-se como indiferente e os caps. vrn, 6, e XIII, 2, de Oseias. E assim por diante. Correcta-
desconhecedor das futuras acções humanas. Mas já demonstrare- mente analisados, todos estes exemplos mostram que Deus não
mos tudo isto, ponto por ponto e com base na Escritura. possui nenhum estilo peculiar de falar e que, conforme a erudi-
O primeiro ponto está patente no caso de Eliseu (Reis, liv. n, ção e a capacidade do profeta, assim ele é elegante, lacónico,
cap. m, 15), o qual, para profetizar a Jeroboão, pediu um instru- severo, rude, prolixo e obscuro.

152 153
As representações prof éticas e os sinais hieroglíficos, embo - lugar ond e ainda o pod eriam encontr ar, o que mostra que não
ra significa ssem o mesmo, eram, contudo, diferentes: a glória tinh am entendido correct amente a revelação de Deus .
de Deus abandonando o templo não se apresenta a Isaías da Não é necessário mo strar mai s profusamente esta matéria,
mesma forma que a Ezequiel. Os rabinos, é verdade, preten - pois não há nada que a Escritura explicite com mais clareza qu e
dem que uma e outra representação foram absolutamente idên- o facto de Deus ter concedido a um profeta o dom de profeti-
ticas, não obstante Ezequiel, como rústico que era, ter ficado zar em grau muito mais elevado que a outro . Mostrarei, toda -
extremamente admirado e faze~, por isso, a sua descrição co.rn via, com mais atenção e pormenor, que as profecias ou repre -
todos os pormenores. Mas isto é pura inv·enção , a menos que sentações variavam segundo as opiniões perfilhadas pelos profetas
eles tenham tido uma tradição segu~& sobre .o· assunto, o que eu e que estes tiveram opiniões diferentes, até mesmo opostas, além
,_não acredito. Porque Isaías vê s~rafins _de seis asas e Eze_guíel de preconceitos diversos (falo de coisas meramente especulati-
vê animais de quatro . Isaías vê Deus vestido e senf_a~o n~ vas, pois quanto à probidade e aos bons costumes há que pen-
trono real, Ezequiel vê-o corno uma chama. Ambos o viram, sem sar doutra maneira). De facto, julgo ser esta a questão mais
importante, já que é a partir daí que vou concluir que a profecia
dúvida, mas conforme cada um costumava imaginá-lo.
As representações variavam, além disso, não só pelo modo, nunca fez os profetas mais sáb ios, antes os deixou com as suas
mas também pela nitidez: as de Zacarias, como ele próprio narra, opiniões preconcebidas, razão pela qual não somos obrigados a
eram obscuras de mais para que as pudesse compreender sem dar -lhes crédito em matérias puramente especu lativas.
explicação; porém, as de Daniel, nem mesmo explicadas pude- É, de facto, surpreendente a facilidade com que toda a gente
ram ser entendidas pelo próprio profeta. Não pela dificuldade se persuadiu de que os profetas sabiam tudo quanto o entendi-
do assunto revelado (tratava-se apenas de coisas humanas, não mento humano pode atingir, e como se julga preferível, apesar ·
excedendo, portanto, os limites da humana capacidade a não de certas passagens da Escritura dizerem claramente que eles
ignoravam algumas coisas, confessar que não se entende a Es-
ser por pertencerem ao futuro), mas unicamente porque a ima-
critura nessas passagens a admitir que os profetas ignoraram
ginação de Daniel não tinha a mesma capacidade de profetizar
algo. Ou então, as pessoas esforçam-se por torturar as palavras
quando ele estava acordado e quando sonhava, como se vê pelo
da Escritura a ver se as obrigam a dizer o que, manifestamente,
facto de ter ficado, mal começou a revelação, tão aterrado que
elas não querem dizer. É claro que, se fosse lícito qualquer des-
quase desesperou das suas forças. Foi, portanto, pela debilida-
tes dois processos, ficaria em causa toda a Escritura; debalde
de da sua imaginação e das suas forças que as coisas se lhe
tentaríamos, com efeito, mostrar alguma coisa a partir dela, se
representaram tão obscuras e não as pôde compreender mesmo
fosse lícito colocar passagens que são meridianamente claras entre
depois de explicadas . Convém aqui notar-se que as palavras as obscuras e impenetráveis ou interpretá-las arbitrariamente.
ouvidas por Daniel (mostrámo-lo mais acima) foram só imagi- Por exemplo, não há coisa mais óbvia na Escritura que o facto
nárias ; não admira, pois, estando ele perturbado nesse rnomen- de Josué, e porventura também o autor que escreveu a sua his-
(351 to, que tenha imaginado tão confusa e obscuramente todas aque-
tória, julgarem que o Sol se movia em torno da Terra, que esta,
las palavras que não conseguiu depois entender nada do que por seu turno, estava parada e que o Sol permaneceu imóvel (361
imaginara. Quanto àqueles que dizem que Deus não quis fazer por um instante . Há, todavia, muitos que, por não quererem
l
1
uma revelação clara a Daniel, parece que não leram as palavras admitir que se possa dar qualquer mudança nos céus, explicam
1
do anjo , o qual disse expressamente (cap . x, 14) que vinha para esta passagem de tal maneira que ela não parece dizer nada de
'l fazer compreender a Daniel o que aconteceriaao seu povo nos dias futu -
1 semelhante; outros, que aprenderam a filosofar de forma mais
• ros. As coisas ficaram, portanto, obscuras porque na altura não correcta e sabem que a Terra se move ao passo que o Sol está
havia ninguém com suficientes dotes de imaginação para que parado, ou melhor, não se move à volta da Terra, tentam com
elas lhe pudessem ser reveladas de modo mais claro. Finalmente, todas as suas forças extorquir isto da Escritura, por mais que
os profetas a quem foi revelado que Deus iria arrebatar Elias ela diga abertamente o contrário 4. Realmente, admiro-os. Acaso,
queriam convencer Eliseu de que ele fora levado para um outro pergunto eu, seremos obrigados a acreditar que um soldado

154 155
como Josué dominava a astronomia? E que não pôde ter-lhe do que é humano se lhes deve considerar estranho. Também a
sido revelado um milagre? Ou que a luz do Sol não pôde ter Noé foi revelado, de acordo com a sua compreensão, que Deus
estado mais tempo que de costume no horizonte, sem que Josué destruiria o género humano, pois ele julgava que o mundo não
soubesse a razão disso? Qualquer destas interpretações me pa- era habitado para além da Palestina. Coisas deste género e até
rece, evidentemente, ridícula. Prefiro, portanto, dizer aberta- outras de maior importância podem ter sido, e foram mesmo,
mente que Josué ignorou a verdadeira razão por que se demo- ignoradas pelos profetas sem prejuízo da sua piedade. Efectiva-
rou mais a luz do _dia e que ele. e toda a _m_ultidão que estava.à mente, eles não ensinaram nada de original a respeito dos atri-
sua volta julgavam que o Sol dava _diariamente uma volta em butos· divinos; pelo contrário, sustentaram opiniões sobre Deus
torno da Terra e tinha parado, naquele · dia, por uns instantes, absolutamente vulgares, às quais adaptaram as respectivas reve-
acreditando ser esta a razãó d~ ser daquele q_ia mais :longo, lações, corno mostrarei através de muitos exemplos da Escri-
sem reparar que a excessiva quantidade de gelo qúe, naqu~e tura, a fim de que o leitor veja facilmente que não é tanto pela
momento, havia na atmosfera (ver Josué, cap. x, 11), podia ter excelência e superioridade do engenho que os profetas são lou-
originado uma refracção maior do que era habitual, ou qual- vados e recordados, mas sim pela piedade e constância de ânimo.
quer outro fenómeno semelhante que não investigaremos agora. Adão, o primeiro a quem Deus foi revelado, ignorou que
De igual modo, o sinal de retrogradação da sombra foi re- Deus está em toda a parte e é omnisciente, pois escondeu-se e
velado a Isaías de maneira adequada à sua compreensão, ou tentou desculpar-se do seu pecado perante Deus como se fosse
seja, pela retrogradação do Sol, pois também ele julgava que o perante outro homem. Porque também a ele Deus foi revelado
Sol se move e que a Terra está parada. E nem por sonhos lhe de acordo com a sua compreensão, quer dizer, como alguém
passaram alguma vez pela cabeça os parélios 5• Mas nós pode- que não está em toda a parte e que desconhece, tanto o pecado
mos afirmá-lo sem qualquer escrúpulo, porque o sinal podia efec- de Adão, como o lugar onde este se esconde. De facto, ouviu,
tivamente verificar-se e ser anunciado por Isaías ao Rei, se bem ou pareceu-lhe ouvir, Deus andar pelo jardim a chamá-lo, a per-
que o profeta ignorasse a sua verdadeira causa. O mesmo se guntar-lhe onde estava e, depois, ao vê-lo envergonhado, a que-
pode dizer da obra de Salomão, se, de facto, ela foi revelada rer saber se tinha · comido o fruto da árvore proibida. Adão,
por Deus, isto é, que todas as suas medidas lhe foram revela- por conseguinte, não conhecia nenhum outro atributo de Deus
das de maneira adequada à sua compreensão e às suas opiniões. senão o ter sido ele o autor de todas as coisas.
Com efeito, não sendo nós obrigados a acreditar que Salomão Também a Caim Deus foi revelado de maneira adequada à
li
fi era matemático, é lícito afirmar que ele ignorava a proporção sua compreensão, a saber, como ignorante das coisas humanas;
entre o perímetro e o diâmetro de um círculo, julgando, como nem, de resto, era necessário, para se arrepender do seu peca-
qualquer dos operários, que era de 3 para 1. Porque, se é lícito do, ter um conhecimento mais elevado de Deus. A Labão Deus
dizer que nós não compreendemos aquele texto do liv. I dos revelou-se como o Deus de Abraão, porque ele acreditava que
Reis, cap. VII, 23, muito francamente, não sei o que podemos com- cada nação possuía o seu deus particular (Génesis,cap. XXXI, 29).
preender da Escritura, já que nessa passagem apenas se descreve E mesmo Abraão ignorou que Deus está em toda a parte e co-
a construção numa perspectiva estritamente histórica. E se fosse nhece antecipadamente todas as coisas: com efeito, ao ouvir a
lícito fingir que a Escritura era de outra opinião mas que, por sentença contra os habitantes de Sodoma, pediu a Deus que não [381
(371 qualquer motivo desconhecido, quis descrevê-la assim, isso não a executasse antes de saber se todos seriam merecedores da-
seria senão uma completa inversão de toda a Escritura: quem quele suplício. Talvez- diz ele (Génesis, cap . XVIII, 24) - se encon-
quer que fosse poderia, com igual direito, dizer outro tanto de trem nessa cidade cinquenta justos. Deus, aliás, não lhe foi reve-
todas as passagens e tudo o que de absurdo e mau a malícia lado de outro modo, já que fala assim na imaginação de Abraão:
humana pode escogitar seria licitamente defensável e perpetrá- descereiagora,para ver se actuaramconformea gravidadeda queixa que
vel a coberto da autoridade da Escritura . Pelo contrário, no que me chegou ou, se assim não for, que (o) saiba. Inclusivamente, o
nós defendemos não há nada de ímpio, pois Salomão, Isaías, testemunho divino sobre Abraão (Génesis, cap. xvm, 19) refere
Josué, etc., apesar de profetas, foram contudo homens e nada apenas a sua obediência e os conselhos que dava aos criados

156 157
para que fossem justos e bons, mas não que ele tivesse pensa- 2) e introdu ziu -lhe os gérmene s 6 da naturez a, possuindo, por
mentos sublimes acerca de Deus . isso, o supremo direito e a suprema potência sobre todas as coi-
Tão-pouco Moisés percebeu bem que Deus é omnisciente e sas, e que (ver Deut., cap. x, 14-15) por este seu direito e po-
que todas as acções humanas são dirigidas unicamente pelo seu tência escolheu só para si a nação hebraica e uma determinada
decreto, pois apesar de Deus lhe ter dito (lxodo, cap. m, 18) que região do mundo (Deut., cap. 1v, 19, a cap. xxxu, 8-9), abando-
os Israelitas lhe haviam de obedecer, põe isso em dúvida e re- nando as outras nações e regiões ao cuidado dos outros deuses
plica (txodo, cap. rv, 1): e se eles não acreditam em mim e rJãom_e seus substitutos. Daí a razão por que se lhe chamava Deus de
obedecem?Deus, pot conseguinte, ·também a· ele foi revelado como Israel e Deus de Jerusalém (ver Parai., liv. II, cap. XXXII, 19), en-
indiferente e desconhecedor das fuhitas · acções -humanas. Com quanto aos outros se chamava deuses das restantes nações.
efeito, deu-lhe dois sinais e disse .-(lxodo, cap. 1v, 8): se; po~ µcaso, Era igualmente por este motivo que os Judeus acreditavam
não acreditarem no primeiro sinal, acreditarãoao menos no.último; que aquela região que Deus tinha escolhido para si requeria um
mas se nem sequer neste acreditarem,foma (então) úm póucõ de ágüa culto especial e completamente diferente do culto das outras
do rio, etc. regiões, não podendo sequer ser ali tolerado qualquer culto a
Sem dúvida que, se alguém quiser analisar sem preconceitos outros deuses e próprio de outras regiões. Na verdade, acredi-
as declarações de Moisés, verá claramente que a opinião que ele tavam que aquelas gentes conduzidas pelo rei da Assíria para as
fazia de Deus era que se tratava de um ser que sempre existiu, terras dos Hebreus haviam sido devoradas pelos leões por igno-
existe e existirá. Essa a razão por que o designa pelo nome de rarem o culto dos deuses desta terra (ver Reis, liv . n, cap. xvu,
Jeová,que em hebraico exprime estes três tempos do verbo exis- 25-26, etc.). Por isso, Jacob, na opinião de lbn Ezra 7, quando
tir. Mas, quanto à sua natureza, não ensinou nada a não ser que quis tomar à pátria, disse aos filhos para se prepararem para
ele é misericordioso, benevolente, etc., e, acima de tudo, ciu- um novo culto e abandonarem os deuses estrangeiros, isto é, o
mento, como consta de várias passagens do Pentateuco. Acredi- culto dos deuses daquela terra 8 onde estavam na altura (Géne-
tou e ensinou, além disso, que este ser é de tal modo diferente sis, cap. XXXV, 2-3). De igual modo David, para dizer a Saul que
de todos os outros que seria impossível exprimi-lo pela imagem tinha sido obrigado, em virtude da perseguição dele, a viver
de qualquer coisa visível e que nem sequer pode ser visto, não longe da pátria, diz que o excluíram da herança de Deus e o obri-
tanto porque isso fosse contraditório como por incapacidade garam a prestar culto a outros deuses (Samuel, liv. I, cap . XXVI,
humana. Acreditou que Deus, no que respeita à potência, é sin- 19). Moisés, enfim, acreditou que este ser, ou seja, Deus tinha o
gular e único, concedendo embora que existam seres que (certa- seu domicílio nos céus (Deut., cap. XXXIII, 27), opinião muito fre-
mente por ordem e mandato divino) fazem as vezes dele, isto quente entre os gentios.
é, seres a quem Deus concedeu autoridade, direito e potência Se repararmos agora nas revelações a Moisés, verificamos
para dirigir nações, providenciar e cuidar delas. Ensinou, contu- que elas estavam ajustadas a estas suas opiniões. Na verdade, [40J
[391 do, que este ser a quem eram obrigados a prestar culto era o como ele acreditava que a natureza de Deus estava sujeita aos
Deus soberano e supremo, ou (para usar a expressão dos He- condicionalismos que referimos, a saber, a 'misericórdia, a bene-
breus) o Deus dos deuses. Daí o dizer no cântico do f.xodo volência, etc., Deus revelou-se-lhe de acordo com tal opinião e
(cap. xv, 11): qual de entre os deuses é semelhantea ti, Jeová?E Jetro sob estes atributos (ver txodo, cap. xx1v, 6-7, onde se descreve
(cap. xvm, 11): agora reconheçoque Jeováé maior que todos os deuses, de que modo Deus apareceu a Moisés; e Decálogo,4 e 5). Segui-
ou seja, sou obrigado a concordar com Moisés que Jeová é maior damente, no cap. xxxm, 18, conta ·-se que Moisés pediu a Deus
que todos os deuses e que a sua potência é singular. É, no en- que o deixasse vê-lo; mas como Moisés, como já foi dito, não
tanto, duvidoso que Moisés acreditasse realmente que estes en- tinha qualquer imagem de Deus formada no cérebro, e dado
tes que faziam as vezes de Deus tinham sido por ele criados, que Deus, consoante já mostrei, só se revela aos profetas de
uma vez que, tanto quanto sei, não diz nada sobre a sua criação acordo com a disposição da imaginação deles, não lhe apareceu
e o seu princípio. Além disso, ensinou que este ser fez com que sob nenhuma imagem. E isto aconteceu, note-se, porque repug-
este mundo visível passasse do caos à ordem (ver Génesis,cap. I, nava à imaginação de Moisés, já que outros profetas garantem

158 159
que viram Deus, tais como Isaías, Ezequiel, Daniel, etc. Este o seus preceitos e prom eteu-lhes largos benefícios se acaso os ob-
motivo por que Deus responde a Moisés: não poderás ver a minha servassem. Ensinou-os, portanto, como os pai s costumam ensi-
face. Mas como Moisés acreditava que Deus era visível, isto é, nar os meninos ainda privados do uso da razão. Donde, é certo
que da parte da natureza divina isso não implicaria qualquer que eles ignoravam a excelência da virtude e a verdadeira feli-
contradição (de contrário, não pediria semelhante coisa), Deus cidade. Jonas julgou que fugia do olhar de Deus, o que parece
acrescentou: porque ninguém que me veja viverá. Dá, portanto, uma mostrar que também ele acreditava que Deus confiara o cuidado
razão consentânea com a opinião . de Mqisés . .Não diz que . isso . das terras além da fudeia a outras potências que o substituíam.
implicaria uma contradição na natureza divina, como, na reali- No Antigo Testamento, não há ninguém que tenha falado
dade, implica, mas apenas que hão pode ·acontecer em virtude de Deus de uma maneira mais racional que Salomão, que foi,
da fraqueza humana. De igual inod.o, para revelar a Moisés qúe · pela luz natural, superior a todos os seus contemporâneos. Por
os Israelitas, ao adorarem um bezerr<;>,se tinha.m. to.rnàdó .~eme: isso ele se julgou acima da Lei (visto que esta foi dada apenas
lhantes às outras nações, Deus afirma (cap. xxxm, 2-3) que vai aos que carecem da razão e dos ensinamentos do entendimento
enviar um anjo, isto é, um ser que cuidasse dos Israelitas em natural) e não ligou aos preceitos que diziam respeito ao Rei, os
substituição do ser supremo, pois não quer ·continuar no meio quais eram principalmente três (ver Deut., cap. xvn, 16, 17); pior
deles. Assim, já nada restava a Moisés para se convencer de do que isso, violou-os por completo (embora, aqui, tenha feito
que os Israelitas eram mais amados por Deus que as restantes mal e actuado de forma indigna de um filósofo, pois se entregou
nações, as quais Deus também tinha entregue aos cuidados de à sensualidade) e ensinou que todos os bens da fortuna são coi-
outros entes, ou seja, de anjos 9 , conforme consta do vers. 16 sas vãs para os mortais (ver Eclesiastes),que os homens não pos-
do mesmo capítulo. Finalmente, porque se cria que Deus mo- suem nada de mais valor que o intelecto e que o maior suplício
rava nos céus, Deus era revelado como que a descer do céu com que podem ser punidos é a loucura (Provérbios,cap. XVI, 22).
sobre a montanha, e Moisés, para lhe falar, também subia à mon- Mas voltemos aos profetas, cujas divergências de opinião
tanha, coisa que seria desnecessária se ele pudesse imaginar com nos tínhamos também proposto assinalar. Os rabinos que nos
igual facilidade que Deus está em toda a parte. legaram os livros dos profetas (os que ainda subsistem) acha-
Os Israelitas não conheceram quase nada acerca de Deus, ram as afirmações de Ezequiel tão contraditórias com as de
i embora ele se lhes tenha revelado, como abundantemente de- Moisés (como consta do Tratado do Sabat, cap. 1, fl. 13, p. 2) que
li monstraram, poucos dias depois, ao prestarem as honras e o estiveram quase a decidir não aceitar o livro dele entre os ca-
il
1~ culto que lhe era devido a um bezerro e ao acreditarem serem nónicos. E tê-lo-iam mesmo excluído se um certo Ananias não
deuses como este que os tinham tirado do Egipto. Nem é de se encarregasse de o explicar, coisa que, segundo se diz, conse-
[4IJ crer que homens habituados às superstições dos Egípcios, rudes guiu com enorme esforço e dificuldade (conforme ali se conta).
e alquebrados pela mais miserável escravidão, tenham pensado Como é que o fez? Não se sabe bem. Teria escrito um comentá- [421
algo de são acerca de Deus, ou que Moisés lhes tenha ensinado rio que se perdeu, talvez, ou mudou as palavras e as frases de
mais do que uma norma de vida, não certamente na qualidade Ezequiel (tal foi a audácia!) e rescreveu-as à sua maneira? Fosse
de filósofo, de maneira a que fossem coagidos pela liberdade como fosse, o cap. xvrn, pelo menos, não parece estar de acordo
de ânimo a viver bem, mas na qualidade de legislador, de ma- com o vers. 7 do cap. xxxrv do f.xodo, nem com o vers . 18 do
neira a que o fizessem pelo império da Lei. Por isso, a razão do cap. XXXII de Jeremias,etc.
viver bem 10, isto é, a verdadeira vida, o culto e o amor de Samuel acreditava que Deus, quando tinha decretado algu-
1 Deus, foi para eles mais uma escravidão que uma verdadeira ma coisa, não mais voltava atrás (Samuel, liv. 1, cap. xv, 29),
liberdade, uma graça ou um dom de Deus. De facto, Moisés porquanto diz a Saul, arrependido do seu pecado e querendo
mandou-os amar a Deus e observar a sua Lei de forma a mos- adorar a Deus e pedir-lhe perdão, que Deus não alteraria a sen-
trarem-se reconhecidos pelos benefícios que ele lhes tinha feito tença pronunciada contra ele. A Jeremias, pelo contrário, foi
1
1
(tais como, a libertação do cativeiro do Egipto, etc.); além disso,
aterrorizou-os com ameaças para o caso de transgredirem os
revelado (vide cap . XVII, 8-10) que Deus, apesar de já ter decre-
tado algo de mau ou algo de bom para uma nação, arrepende-

160 161
-se do seu decreto caso os homens, depois de pronunciada tal pormenores da mesma revelação, é totalmente irrelevante para
sentença, mudem para melhor ou para pior . Joel, por seu turno, nós. Sobre isso, acredite, pois, cada um no que lhe parecer mais
ensinou que Deus não se arrepende senão do mal (vide cap. ll, consentâneo com a sua razão.
13, do seu livro). Finalmente, no Génesis, cap. N, 7, consta com Quanto aos argumentos com que Deus demonstra a Job a
toda a clareza que o homem pode vencer as tentações do peca- sua omnipotência, se é rea lmente verdade que eles foram reve-
do e agir bem, pois é o que é dito a Caim, o qual, todavia, lados a Job e que o autor tenta narrar uma história e não (como
conforme consta da própria Escritura e de Josefo, nunca as ven- alguns crêem) ilustrar os seus próprios conceitos, outro tanto se
ceu. O mesmo se pode · concluir · com a· maior evidência d·o capí- deve dizer, ou seja, que eles foram aduzidos de maneira acessí-
tulo de Jeremiasatrás citado, que diz _que Deus se arrepende da vel a Job e para o convencerem apenas a ele, não se tratando,
sentença proferida contra ou a favor dos homens na medida · em portanto, de argumentos universais, aptos a convencer toda a
que estes desejem mudar os se~s costumes e a sua -maneira de gente. Outra coisa não se deve também julgar dos argumentos
viver. Em contrapartida, não há nada que Paüló mais - aberfa- com que Cristo convence os fariseus de contumácia e ignorância
4 ' ' Fii
... ~,i mente ensine que a ideia de que os homens não possuem ne- e exorta os discípulos à verdadeira vida, visto que ele os adap-

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nhum domínio sobre as tentações da carne a não ser por uma
especial vocação e graça de Deus. Veja-se a Epístolaaos Romanos,
cap. IX, a partir do vers. 10, etc., e a maneira como, no cap. m, 5,
e cap. VI, 19, onde atribui a justiça a Deus, ele se corrige dizendo
tou às opiniões e aos princípios de cada um. Quando, por exem-
plo, ele disse aos fariseus (Mateus, cap . xn, 26): e, se Satanás
lançafora Satanás, está dividido contra si mesmo;de que modo subsis-
tiria, então, o seu reino? quis apenas convencer os fariseus com
1 que fala à maneira dos homens e devido à fraqueza da carne. base nos princípios deles, e não ensinar que há demónios ou
1ti um qualquer reino dos demónios. Igualmente, quando diz aos
':i
., Pelo que expusemos, está mais que evidente aquilo que nos
discípulos (Mateus, XVIII, 10): cuidado, não desprezeisuma só destas
tínhamos proposto mostrar, a saber, que Deus adaptou as reve-
t~ crianças, pois eu vos digo que os seus anjos nos céus, etc., quer so-
lações à compreensão e às opiniões dos profetas, que estes po-
diam ignorar, e ignoraram realmente, as coisas que respeitam mente ensinar que não sejam soberbos e não desprezem nin-
só à especulação e não à caridade ou à vida prática e tiveram guém, e não as outras coisas que estão contidas nos seus argu-
opiniões divergentes. É, pois, escusado esperar deles um conhe- ' mentos mas que ele invoca apenas para melhor persuadir os
cimento das coisas naturais e espirituais. Em conclusão, apenas discípulos. O mesmo, enfim, há que dizer absolutamente dos
somos obrigados a acreditar nos profetas quando se trata da- argumentos e dos sinais dos apóstolos. Não é necessário, de
quilo que é a finalidade e a substância da revelação; quanto ao resto, alongar-me aqui sobre esse assunto, porque se fosse a
resto, cada um é livre de acreditar conforme lhe aprouver. PQl' enumerar todas as passagens da Escritura que foram escritas
exemplo: a revelação a Caim ensina-nos apenas que Deus o e~or- unicamente a pensar numa pessoa ou adaptadas à compreensão
(43] tou à verdadeira vida. É aí somente que reside o objectivo e a de alguém, e que são defendidas, não sem graves prejuízos para (441

substância da revelação, e não em ensinar a liberdade da vonta- a filosofia, como se fossem ensinamentos divinos, afastar-me-ia
de ou coisas filosóficas. Por isso, embora a liberdade da vonta- muito da concisão a que me proponho. Aquelas, poucas e de
de esteja nitidamente contida nos termos e nas razões daquela interesse geral, que referi são o bastante . O leitor, se tiver curio-
admoestação, é, todavia, lícito admitirmos o contrário, visto es- sidade, que examine por si as restantes. Na verdade, muito
ses termos e essas razões estarem adaptadas exclusivamente à embora só o que vimos sobre os profetas e a profecia esteja
compreensão de Caim. Do mesmo modo, a revelação de Mi- directamente relacionado com o meu objectivo - separar a filo-
queias pretende apenas ensinar que Deus lhe revelou o verda- sofia da teologia -, contudo, uma vez que abordei esta questão
deiro resultado do combate de Acab contra Aram, pelo que não em termos gerais, será conveniente averiguar ainda se porven-
somos obrigados a acreditar mais do que isso; tudo quanto vem, tura o dom da profecia foi reservado apenas aos Hebreus ou se
para além disso, nesta revelação, ou seja, o que aí é dito sobre ele foi comum a todas as nações, e bem assim o que deve pen-
o verdadeiro e o falso espírito de Deus, sobre o exército celeste sar-se da vocação dos Hebreus. É o que vamos ver no capítulo
que está à direita e à esquerda de Deus, e bem assim os outros seguinte.

162 163
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11
CAPITULO III [441
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DA VOCAÇÃO DOS HEBREUS
' .,. ;:1 E SE O DOM DA PROFECIA TERÁ SIDO
UM PRIVILÉGIO EXCLUSIVAMENTE SEU
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A verdadeira felicidade e beatitude de cada um consiste


unicamente na fruição do bem e não na glória de ser o único a
fruir, enquanto os outros são excluídos; quem, na verdade, se
' ':julga mais feliz porque as coisas lhe correm bem só a si, e não
;r- àos outros, ou porque é mais feliz e mais afortunado que os
'#'"'·' li · outros , ignora a verdadeira felicidade e beatitude 1 . Porque a
l~=i , alegria que assim experimenta, se não é infantil, não resulta de
outra coisa que não seja a inveja e a má vontade. Exemplifican-
:·do: a verdadeira felicidade e beatitude de um homem consiste
: apenas na sabedoria e no conhecimento da verdade e não em
ser mais sábio do que os outros ou no facto de eles não possuí-
rem o verdadeiro conhecimento, pois isto não acrescenta abso-
' lutamente nada à sua sabedoria, que o mesmo é dizer, à sua
verdadeira felicidade. Quem, por conseguinte, se regozija por
· tal facto, regozija-se com o mal dos outros, é invejoso e mau e
,não conhece nem a verdadeira sabedoria nem a tranquilidade
.,1da verdadeira vida. Assim sendo, quando a Escritura, para exor-
. tar os Hebreus a obedecerem à lei, diz que Deus os escolheu de
entre as outras nações (Deut., cap. x, 15), que está perto deles e
não dos outros (Deut., 1v, 4-7), que só a eles ditou leis justas
·· (ibid., 8), que, em suma, só a eles se deu a conhecer, desprezan-
do os outros (ibid., 32), etc., está apenas a falar à compreensão
dos Hebreus, os quais, como vimos no capítulo anterior e como
também testemunha Moisés (Deut., 1x, 6, 7), não conheciam a [451
verdadeira beatitude. Com efeito, eles não teriam sido menos
felizes se Deus tivesse chamado todos igualmente à salvação;
nem Deus lhes teria sido menos propício se tivesse estado tam-

165
lil
11
; iJ1
bém perto dos outro s; n em as leis seriam menos justas, ou eles
seriam menos sábio s, se elas fosse m pr escritas a todo s; n em os
mesmo que di zer que tu do é ordenad o por d ecreto e pelo go-
vern o d e Deus 3 . Segu idamente, visto qu e a potência de toda s
milagre s ev idenciariam menos a potência de Deu s se tive ssem as coisas naturai s não é outr a coisa sen ão a própri a potência de
,,,
,1, sido feitos em atenção tamb ém às outras nações; nem, finalmen- Deu s, pela qu al tudo é produzido e determinado , segue-se que
,,1 te, os Hebreus seriam menos obrigados a prestar culto a Deus todos os bens que o homem - ele próprio parte da natureza -
;jl se ele tivesse prodigalizado todos esses dons a todos por igual. adquire e que lhe são úteis para a conservação do seu ser, as-
Quanto ao que Deus diz a Salo!llão (Reis, liv. r, cap. Ili, 12), que sim como tudo o que a natureza lhe oferece sem ele fazer nada,
,, ninguém no futuro seria tão sábio comºo ·ele, parece tratar-se é-lhe, de facto , oferecido unicamente pela potência divina, quer
' apenas de um modo de falar -para ~aduzir a exímia sabedoria; ela actue por meio da natureza humana, quer por meio de coi-
,1 seja como for, não se pode ·çle· maneira alguma acreditai; que sas exteriores a esta. Assim sendo, podemos chamar auxílio in-
Deus tenha prometido a Salomão, para o fazer mais _f~liz, que terno de Deus a tudo quanto a natureza humana, apenas com a
não concederia a ninguém, depois dele, uma tão grande sabe- . 1 sua própria potência, pode fazer para conservar o seu ser, e
li! doria, uma vez que isso não acrescentaria nada à inteligência de auxílio externo a tudo aquilo que resulta em seu benefício a
''.
1
Salomão, nem o prudente Rei agradeceria menos a Deus um tão partir da potência de causas exteriores. Donde se segue tam-
grande benefício se acaso Deus lhe tivesse dito que daria a to- bém facilmente o que deve entender-se por eleição divina . Como,
dos igual sabedoria. efectivamente, ninguém faz nada que não esteja de acordo com
Quando dizemos que Moisés, nas passagens do Pentateuco a ordem predeterminada da natureza, quer dizer, com o gover-
ffi1'
:1 atrás citadas, falou de modo a ser entendido pelos Hebreus, no e o eterno decreto de Deus, resulta que ninguém escolhe
não queremos negar que Deus só a eles prescreveu essas leis do , para si determinada regra de vida, nem faz seja o que for, a
Pentateuco, ou que só a eles tenha falado, ou, enfim, que os não ser por especial vocação de Deus 4, que escolhe este e não
Hebreus não tenham visto coisas tão admiráveis como a nenhu- outros para determinada obra ou para determinada regra de
ma outra nação foi dado ver; o que pretendemos dizer é ape- vida. Finalmente, por fortuna entendo apenas o governo de Deus
nas que Moisés quis, desse modo e, sobretudo, com esses argu- na medida em que dirige as coisas humanas por causas exterio-
mentos, admoestar os Hebreus, adaptando-se à sua mentalidade res e inopinadas.
infantil para melhor os vincular ao culto de Deus. Quisemos, Feitos estes esclarecimentos, voltemos ao nosso tema e veja-
além disso, mostrar que os Hebreus não foram superiores às :mos por que motivo se disse da nação hebraica que ela tinha
outras nações, nem pela sua ciência nem pela sua piedade, mas ; ·sido eleita por Deus de entre as outras nações . Para o mostrar,
por uma outra razão. Quer dizer, os Hebreus (para falar, como procedo corno se segue.
a Escritura, em termos que eles percebam), apesar de terem sido Tudo o que honestamente desejamos tem sobretudo a ver
muitas vezes admoestados, não foram preferidos por Deus aos : com três objectivos : conhecer as coisas pelas suas causas primei-
!'-1
demais para a verdadeira vida nem para altas especulações: foi ; ras; dominar as paixões, ou seja, adquirir o hábito da virtude;
para uma coisa completamente diferente, a qual vou agora expor. enfim, viver em segurança e de boa saúde . Os meios que ser-
Antes de começar, quero ainda explicar em poucas pa lavras ,., vem directamente para se alcançar o primeiro e o segundo des-
o que entendo aqui por governo 2 de Deus, por auxílio ext erno tes objectivos, e que podem considerar-se como causas próxi-
ou interno de Deus, por escolha divina e, finalmente, por fortuna. mas e eficientes, estão contidos na própria natureza humana, de
Por governo de Deus, entendo a ordem fixa e imutável da na- maneira que a sua aquisição depende apenas da nossa potência,
tureza, ou seja, o encadeamento das coisas naturais. Já atrás • ' ou seja, das leis da natureza humana . Por esta razão, é obri -
[461 dissemos, e demonstrámos algures, que as leis universais da gatório reconhecer que tais dons não são específicos de nenhu- [471
natureza, segundo as quais todas as coisas são feitas e determina- ma nação, pois foram sempre comuns a todo o género humano .
das, não são outra coisa senão os eternos decretos de Deus, os A menos que se queira imaginar que a natureza procriou ou -
quais implicam sempre eterna verdade e nec essidade . Dizer, trora diversos géneros de homens! Porém, os meios que servem
portanto, que tudo acontece segundo as leis da natureza é o para viver em segurança e para a conservação do corpo resi -

166 167
~íl!
J,i
J.11 dem sobretudo nas coisas exteriores a nós e, por isso, chamam- foram preferidos aos outros . Tão -pouco o foram no que res-
~·I -se dons da fortuna, porquanto dependem em boa parte do peita à virtude ou à verdadeira vida , pois também nesta maté-

~t
governo das causas exteriores, o qual nós ignoramos. Sob este ria foram iguais às outras gentes e muito poucos foram eleitos .
aspecto, poder-se-á dizer que o insensato é quase tão feliz ou A sua vocação e eleição consiste, pois, só na prosperidade tem-

~~
infeliz como o que é prudente. No entanto, para viver em segu- poral do seu Estado e dos seus haveres. Nem vemos que Deus
,,!.
rança e evitar os ataques de outros homens, ou até das feras, o tenha prometido mais alguma coisa aos Patriarcas* e aos seus
11 governo e a vigilância por parte do homem podem ajudar m_ui- sucessores; pelo contrário, nada na Lei se promete aos Hebreus
i. to. Ora, tanto a razão · como a ·experiência · ensinam que não há em troca da obediência senão a contínua prosperidade do Esta-
) processo mais seguro para ·atingir t~is ·fins do que fundar uma do e os outros bens desta vida, da mesma forma que, pela de-

~~!
sociedade com leis fixas, ocupai' uma determinada regi~o ºdo sobediência e pela ruptura do pacto, se ameaça com a ruína do
~ ,. mundo e congregar as forças de todos para for_IlJ.âr _c~mo gue Estado e com as piores adversidades. O que não admira, pois o
um só corpo, o corpo da sociedade 5• Acontece que, para cons- fim de qualquer sociedade ou Estado (como resulta de tudo
• t,
tituir e manter uma sociedade, se requer um talento e uma vigi- quanto dissemos e como vamos seguidamente mostrar mais em
lância fora do comum. Por isso, a sociedade é tanto mais segura, pormenor) é viver em segurança e em comodidade. Um Estado,
mais estável e menos sujeita aos azares da fortuna 6 quanto mais porém, não pode subsistir sem leis a que todos estejam sujeitos;
sensato e vigilante for quem a funda e quem a governa; pelo porque se todos os membros de uma sociedade quiserem pres-
contrário, quanto mais ela é formada por homens rudes, mais ' cindir das leis, acto contínuo dissolvem a sociedade e destroem
ela está à mercê da fortuna e menos ela é estável. Se, mesmo o Estado. À sociedade dos Hebreus, por conseguinte, não po-
assim, subsistir por muito tempo, será devido, não ao seu pró- dia ter sido prometida outra coisa pela constante observância
prio governo, mas a um governo alheio. E se superar grandes das leis senão a segurança e as comodidades da vida **; em con-
perigos e as coisas lhe correrem de feição, não pode senão trapartida, pela desobediência, nenhum castigo lhe podia ser
maravilhar-se com o governo de Deus e adorá-lo (isto é, adorar anunciado com maior certeza do que a ruína do Estado e os
a Deus na medida em que ele age mediante causas exteriores males que em regra daí advêm, bem como os outros que a ruína
desconhecidas e não pela natureza e a mente do homem), visto específica do seu Estado implicaria. Mas quanto a estes não é
que só lhe acontecem coisas absolutamente inesperadas e im- necessário, por agora, alongar-me mais. Acrescentarei apenas isto:
pensáveis, que podem, realmente, ser tidas por milagre. as leis do Antigo Testamento não foram reveladas e prescritas
As nações, por conseguinte, só se distinguem urnas das ou- ' senão aos Judeus. Com efeito, uma vez que Deus os escolheu só

í tras pela organização social e pelas leis sob as quais vivem e


pelas quais são governadas; assim, a nação hebraica foi escolhi-
da por Deus, não pela sua inteligência ou serenidade, mas sim
pela organização social e pela fortuna que lhe propiciou um Es-
a eles para constituir uma sociedade singular e um Estado, for-
çosamente eles tinham também de possuir leis singulares.
Quanto às outras nações, não é seguro se Deus também lhes
prescreveu leis peculiares e se revelou por profecias aos seus
tado e lho conservou por tantos anos. Isto consta com toda a legisladores, isto é, sob aqueles atributos com que os profetas o
clareza da própria Escritura: se a folhearmos, mesmo ao de leve, costumavam imaginar. Mas, pelo menos, consta da própria Es-
ver-se-á claramente que os Hebreus só são superiores às outras critura que houve outras nações que, seguindo o governo exter-
nações pela f?~ma feliz corno geriram os seus assunt~s _no _res- no de Deus, tiveram também um Estado e leis peculiares. Para
peitan!~ ~ s~g~_ra.~~ __de vid~!....~uperando assim enorlll~~_peri-
gos, tudo graças unicamente ao auxílio externo de Deus; mas
l48J ·quanto ao -resto~ fÕrãm -iguais aos outros e Deus foi igualmente • Anotação IV. Conta-se, no cap . xv do Génesis, que Deus disse a Abraão
propício a todos. Com efeito, no que toca à inteligência, é óbvio que seria o seu defensor e lhe daria uma ampla remuneração; ao que Abraão
(corno mostrámos no capítulo anterior) que as ideias que eles respondeu que já nada de importante esperava para si, porquanto não tinha
filhos e estava já em idade avançada.
tinham sobre Deus e sobre a natureza eram absolutamente vul- •• Anotação V. Que para a vida eterna não basta observar os mandamen-
gares. Não foi, portanto, no que respeita à inteligência que eles tos do Antigo Testamento, é evidente pelo que lemos em Marcos, cap. x, 21.

168 169
o demonstrar, citarei só duas passagens : no Génesis, cap. xrv, 18, virtude, isto é, à felicidade, como já dissemos e mostrámos pela
19, 20, conta-se que Melquisedeque foi rei de Jerusalém e pontí- própria razão, Deus é de igual modo propício a todos, como
(491 fice do Deus altíssimo, que abençoou Abraão como competia ao também está bastante explícito na Escritura. Diz, efectivamente,
pontífice e, por último, que Abraão, o dilecto de Deus, lhe deu o salmista (salmo CXLV, 18): Deus está próximo de todos aquelesque
a décima parte de todos os seus bens. Tudo isto demonstra que o chamam, de todos os que verdadeiramenteo chamam.E, ainda no
Deus, ainda antes de fundar a nação israelita, já havia estabele- mesmo salmo, no vers. 9: Deus é benigno para todos e a sua mi-
cido reis e pontífices, em Jerusalém, e lhes prescrevera . rituais e sericórdia (é) sobre todas as coisas que ele fez. No salmo XXXIII, 15,
leis. Se o fez atr-avés-de profécias, quanto a isso, não há, como diz-se claramente que Deus deu a todos a mesma inteligência,
já disse, dados suficientes. ,Mas est01:1persuadido de que Abraão, nos seguintes termos: aquele que forma do mesmo modo o coração
pelo menos enquanto aí viveu, · viveu religiosamente .segundo deles. O coração era, de facto, tido pelos Hebreus como a sede
essas leis, pois Deus não lhe recomendou qualquer r-ito especial da alma e da inteligência, conforme julgo ser do conhecimento
e, todavia, diz-se no Génesis, cap. XXV[, s,·que .ele õoservõu o de todos 8• Consta, além disso, do cap. xxvm, 28, de Job, que
culto, os preceitos, as instituições e as leis de Deus, pelo que é Deus prescreveu a todo o género humano 9 esta lei que manda
forçoso admitirmos que esse culto, preceitos, instituições e leis adorá-lo e abster-se de más acções, isto é, fazer o bem, e é por
eram os do rei Melquisedeque. Malaquias (cap. 1, 10, 11) faz, isso que Job, sendo embora um gentio, foi de todos o mais
por seu turno, a seguinte interpelação aos Judeus: quem de entre aceite por Deus, pois a todos excedeu em piedade e religio-
vós fechará as portas (do templo) para que não seja em vão que se sidade. Por último, no cap . w, 2, de Jonas, vê-se claramente que
acende o Jogo no meu altar? A minha felicidadenão está em vós, etc., · não é só para com os Judeus, é para com todos que Deus é
porque desde o nascer até ao pôr-do-sol,o meu nome é grande entre as propício, misericordioso, magnânimo, cheio de benevolência e
Ílli,:
JI, naçõese em toda a parte me oferecemperfume e ablaçõespuras; pois o pesaroso do mal. Diz, efectivamente, Jonas: já tinha decididofugir
meu nome é grande entre as nações,diz o deus dos exércitos.Ora, uma . de Tarso, pois sabia (pelas palavras de Moisés, lxodo, cap. XXXN, 6)
vez que tais palavras não podem interpretar-se, a não ser força- que tu és um Deus propício,misericordioso,etc., e por isso perdoa-
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damente, noutro tempo que não seja o presente, está mais que
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,ria aos Ninivitas, que eram pagãos.
provado que os Judeus, àquela altura, não eram preferidos por
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Deus às outras nações; que, inclusivamente, Deus se dava a co-
i Conclui-se, pois (urna vez que Deus é igualmente propício
para todos e que os Hebreus não foram escolhidos por Deus
1, , ·
nhecer com mais milagres a estas do que aos Judeus, os quais, .senão no que diz respeito à sociedade e ao Estado), que um
sem milagres, tinham então reconquistado em parte o seu Estado; ;judeu, considerado isoladamente e à margem da sociedade e do
'111! e, finalmente, que as nações tinham ritos e cerimónias que as ~ Estado, não possui qualquer dom divino a mais do que os ou-
.li tomavam aceites por Deus. r.tros, nem existe qualquer diferença entre ele e um pagão. Donde,
1
Deixo, porém, esta questão, visto que para o meu propósito · se é verdade que Deus a todos é igualmente propício, benigno,
fiil era suficiente mostrar que a eleição dos Judeus não tinha a ver etc., e que a função dos profetas não foi tanto ensinar as leis
senão com a liberdade e a felicidade temporal, quer dizer, com específicas da pátria corno ensinar a verdadeira virtude e ins-
'1·
ílr o Estado, com o modo e os meios através dos quais eles o con- truir nela os homens, é evidente que todas as nações tiveram
seguiram, e bem assim com as leis, na medida em que eram profetas e que o dom da profecia não foi privilégio exclusivo
1'
necessárias para a estabilidade desse Estado particular, e com a dos Judeus. É o que diz também a história, tanto a profana,
i
; maneira, enfim, como estas foram reveladas. Quanto às outras como a sagrada. Naturalmente, as narrativas sagradas do Anti-
1, coisas, aquelas em que consiste a verdadeira felicidade do ho- go Testamento não referem que outras nações tivessem tantos [511
mem, eles foram iguais aos outros. Assim, quando se diz na ,profetas como os Hebreus, ou até que algum profeta gentio te-
[50J Escritura (Deut., cap. N, 7) que nenhuma nação tem deuses tão , nha sido expressamente enviado por Deus às nações, mas isso
perto de si como Deus está dos Judeus, há que entender que ·, 'não tem qualquer importância, visto que os Hebreus procura-
isto se refere apenas ao Estado 7 e àquele tempo em que lhes vam narrar unicamente a sua própria história e não a das outras
aconteceram tantos milagres, etc. No que toca à inteligência e à nações. Basta o facto de encontrarmos no Antigo Testamento

170 171
homens pagãos e não circuncidados, tais como Noé, Henoc, olhos abertos.Finalmente, depois de ter por ordem de Deus aben-
Abimeleque, Balaão, etc., que profetizaram, e de os profetas çoado os Hebreus, como costumava, começou a profetizar para
hebreus terem sido enviados a muitas outras nações que não os outros povos e a predizer o seu futuro . Tudo isto mostra
apenas a sua. Ezequiel profetizou a todas as nações conhecidas que ele sempre foi profeta ou, pelo menos, que profetizou mui-
do seu tempo; Obadias não foi adivinho senão para os Idumeus, tas vezes e que (note-se ainda) possuía aquilo que, acima de
e Jonas sobretudo para os Ninivitas. Isaías não anuncia e chora tudo, dava aos profetas a certeza da verdade da profecia: um
as desgraças nem canta a restauração só dos Judeus, mas tam- ânimo voltado exclusivamente para a justiça e para o bem. Com
bém de outros povos. Diz, eféctivamente,- no cap. xv1, 9: por· isso efeito, ele não abençoava ou amaldiçoava quem queria, como
chorareisobreJazer;e, no cap_.XJX, pr:ofetiza _primeiro as desgraças julgava Balac, mas só aqueles a quem Deus queria abençoar ou
do Egipto e depois a sua i;estauração (vide, no mesmo.- capítulo, amaldiçoar. Por isso responde a Balac: ainda que Balac me desse
vers. 19, 20, 21, 25), ou seja, que Deus · lhes enviará um sâlvador tanto ouro e prata que chegassepara encher a sua casa, não poderia
que os libertará, que Deus se lhes dará a conheéer e,· finalm~nte, · l transgredir o veredicto de Deus para fazer o bem ou o mal à minha
que os Egípcios prestarão culto a Deus com sacrifícios e oferen- vontade; o que Deus disser, eu o direi. Quanto ao facto de Deus se
das, razão por que chama a esta nação o povo egípcio abençoado ter irado contra ele durante a viagem, isso aconteceu também a
por Deus, tudo coisas que são, realmente, dignas de nota. Jere- Moisés, quando ia, mandado por Deus, ao Egipto (fxodo, cap. rv,
mias, enfim, é considerado profeta, não apenas do povo hebreu, 24); quanto a receber dinheiro por profetizar, Samuel fazia o
mas de todos os povos (ver Jeremias,cap. 1, 5), pois chora tam- lmesmo (ver Samuel, liv. 1, cap. IX, 7, 8); e se pecou em alguma
bém quando anuncia as desgraças das nações e prediz a sua coisa (sobre isto, ver Pedro, Epístola II, cap. 11, 15, 16, e Judas,
restauração. Diz, efectivamente (cap. XLVIII, 31), o profeta, refe- ), ninguém é tão justo que aja semprebem e nunca peque(ver Ecles.,
rindo-se aos Moabitas: por isso lamentarei por Moab, gritarei por :ap. v11, 20). E, com certeza, as suas orações devem ter sido
toda a Moab, etc.; e no vers. 36, por isso o meu coraçãorufará como mpre de alto valor aos olhos de Deus e o seu poder de amaldi-
tamborespor causade Moab; por fim, anuncia a sua restauração, tal r enorme, já que tantas vezes na Escritura, para testemunhar
como a dos Egípcios, a dos Amonitas e a dos Elamitas. É, por- ;' grande misericórdia de Deus para com os Israelitas, sé observa
tanto, evidente que os outros povos tiveram também, como os ue Deus não quis atender a Balaão e converteu em bênção a
Judeus, os seus profetas e que estes profetizaram, tanto para ldição (Deut., XXIII, 6; Josué, xx1v, 10; Nehem.ias, xm, 2). Tinha,
eles como para os próprios Judeus. r conseguinte, grande aceitação junto de Deus, pois as ora-
Embora a Escritura mencione apenas Balaão, a quem foi re- -s dos ímpios, tal como as suas maldições, em nada afectam (531
velado o futuro dos Judeus e das outras nações, não é de crer, 1 us. E, se este homem, sendo um verdadeiro profeta, é, toda-
contudo, que Balaão tenha profetizado só nessa ocasião; de resto, ' designado por Josué como adivinho ou áugure (cap. xm, 22),
essa mesma narrativa refere que ele se distinguira, desde há claro que este nome era também utilizado no bom sentido e
muito, pela profecia e por outros dons divinos. Na realidade, e aqueles a quem os gentios costumavam chamar áugures e
quando o manda vir junto de si, Balac afirma (Números, cap. xxrr, ,divinhos eram verdadeiros profetas, ao passo que aqueles a
1521 6): porque eu sei que aquele a quem abençoaresserá bendito e aquele a uem a Escritura muitas vezes acusa e condena eram falsos adi-
quem amaldiçoaresserá maldito. Ele possuía, portanto, aquela mes- os que enganavam os pagãos como os falsos profetas enga-
ma virtude que Deus concedeu (Génesis, cap. xn, 3) a Abraão. .vam os Judeus, conforme também consta de outras passagens
Além disso, Balaão, como alguém habituado às profecias, res- Escritura. A conclusão, portanto, é que o dom da profecia
ponde aos que lhe foram enviados que terão de esperar até que o foi exclusivo dos Hebreus, mas comum a todas as nações.
a vontade de Deus se lhe revele. E quando profetizava, isto é, ' ,;'' Porém, os fariseus sustentam acerrimamente o contrário, a
quando interpretava o verdadeiro pensamento de Deus, costu- r, que este dom divino foi exclusivo da sua nação, ao passo
mava dizer a respeito de si o seguinte: palavradaqueleque ouve as ,e as outras adivinhariam os acontecimentos futuros por não sei
palavrasde Deus e conhecea ciência (ou a mente e a presciência) do .evirtude diabólica (as coisas que inventa a superstição!). A prin-
Altíssimo, que vê a visão do Omnipotente, que cai por terra mas de pal citação que eles vão buscar ao Antigo Testamento para
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t j, 172 173
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confirmar, pela autoridad e deste, a sua opin ião é aquel a pÍssa - J
nos caps. m, 9, e 1v, 15, diz que tod os, ou seja, Jude\fs gen tios,
gem do P.xodo, xxxur, 16, ond e Moisés diz a Deu s: de que modo se est ão igua lment e sujeitos ao peca do , mas qu e não hf p ecado
reconhecerá que eu e o teu povo achámos graça diante dos teus olhos? sem m an damento e sem lei. Por aqui se vê , com toda · a evidên -
Certamente quandofores connosco e eu e o teu povoformos separados de cia, qu e a lei foi rev elad a a todo s sem di stinção (cortforme já
todos os povos que existem à superfí.cie da terra. Como dis se, é daqui tính amos mostrado pelo cap . xxvu1, 28, de Job) e que t~dos viv e-
que eles pretendem inferir que Moisés pediu a Deus que pre s- ram sob o seu domínio , ou seja, sob o domínio da lei que con-
tasse assistência aos Judeus, que se lhes revelasse prof _etica~en- cerne unicamente a verdadeira virtude e n ão daquela que é es-
te e que não concedesse esta graça a nenhuma outra nação. Mas tabelecida em função da constituição de cada Estado particular
é claro que seria ridículo . Moisés · i,nvejar a_.assistência de Deus e se adapta à índole de apenas uma nação . Paulo conclui, por
aos gentios ou atrever-se . a .pedfr a Deus semelharHe ·coisa . fim, qu e, sendo Deu s o Deus de todas as nações, quer dizer,
O que acontece é que Moisés , ·conhecendo o carácter e Õ ârúmo _ igualm ente propício a toda s elas, e uma vez que toda s estavam
insubmisso da sua nação, vê com toda a clareza qüe só ·com , de igual modo submetidas à lei e ao pecado, a todas Deus en-
grandes milagres e com o especial auxílio externo de Deus é viou o seu Cristo para que as libertasse da servidão d a lei e
que eles poderiam levar a bom termo a obra iniciada . Sem este para que não mais fizessem o bem por imperativo da lei mas
auxílio, pereceriam irremediavelmente. E assim, para que ficasse por inquebrantável decreto da vontade. Paulo ensina, pois, exac-
claro que Deus queria defendê -los, Moisés pediu a Deus esse tamente aquilo que nós pretendemos. Daí que, quando ele diz
auxílio externo singular . Diz, com efeito, no cap . XXXN, 9: se achei que só aos Judeus foram confiadasas palavrasde Deus, seja necessá -
graça a teus olhos, Senhor, rogo-te que o Senhor caminhe no meio de rio entender que só a eles foram confiadas as leis por escrito,
nós, pois este povo é insubmisso, etc. A razão por que pede a Deus enquanto às outras nações o foram por revelação interior; ou
um auxílio externo especial é, pois, porque o povo é insubmis- . então dizer (já que ele tenta rejeitar uma objecção que só os
so. E o que mostra ainda com mais clareza que Moisés não pe- Judeus podiam lançar) que Paulo responde de acordo com a
diu outra · coisa senão esse mesmo auxílio é a própria resposta capacidade de compreensão e as opiniões então aceites pelos
de Deus: eis que estabeleçouma aliança- diz, efectivamente, logo •Judeus. Recorde-se que, para en sinar aquilo que em parte vira e
a seguir, vers. 10 do mesmo capítulo - e farei perante todo o teu em par te ouvira, ele se fazia grego entre os Gregos e judeu entre
l54J povo prodígioscomo nunca foram feitos em toda a terra ou em qualquer .os Judeus.
nação, etc. Donde, Moisés está a tratar aqui unicamente da elei- Falta só responder aos argumentos daqueles que querem
ção dos Hebreus, como eu ,a expliquei, e não pede qualquer ,persuadir-se de que a eleição dos Hebreus não foi transitória e (551
outra coisa a Deus. m função unicamente do Estado, mas sim eterna . Dizem eles
Mas há na Epístola de Paulo aos Romanos um outro texto que Jque os Judeus, após a destruição do Estado, sobreviveram to-
me impressiona ainda mais, e que vem no cap. III, 1, 2, onde ··pos estes anos, como estamos vendo, espalhados por toda a
Paulo parece ensinar algo diferente daquilo que nós estamos a Jparte e separados de todas as nações, coisa que não aconteceu
dizer : qual é, pois - diz ele-, a superioridadedo Judeu? Ou qual é lcom nenhuma outra nação. Dizem ainda que a Sagrada Escritu -
a utilidade da circuncisão? É enorme, seja de que ponto de vista for, e : ra parece ensinar, em muitas passagens, que Deus fez dos Ju-
antes de mais, porque lhe foram confiadas as palavras de Deus. No :;deus os seus eleitos para todo o sempre e, deste modo, tendo
entanto, se repararmos na doutrina que Paulo quer acima de 'embora perdido o Estado, continuam a ser os eleitos de Deus.
tudo ensinar, não encontramos nada que repugne ao que nós \:As passagens que do seu ponto de vista demonstrariam com
,1
diz emos ; pelo contrário, ele ensina o mesmo que nós aqui ensi- toda a clareza esta eleição para toda a eternidade são principal-
li: 10
namos . Na verdade , ele diz no vers . 29 do mesmo capítulo _mente as seguintes:
,i que Deus é Deus dos Judeu s e dos gentios e no cap . n, 25, 26, 1 - Jeremias,cap . XXXI, 36, onde o profeta garante que a se-
1.
acrescenta: se o circuncidado se afasta da lei, a circuncisãoreduzir-se- mente de Israel continuará a ser para todo o sempre o povo de
-á a simples prepúcio; se, pelo contrário, o não circuncidadoobservao ·Deus, comparando os Judeus com a ordem fixa dos céus e da
que a lei manda, o seu prepúcio será tido como circuncisão.Depois, natureza.

174 175
2 - Ezequiel, cap . .xx, 32, etc., onde, ao que parece, se pre- universal 11, como consta igualmente de Sofonias,cap. m, 10, 11,
tende que mesmo que os Judeus queiram deliberadamente aban- não sendo de admitir a este respeito qualquer diferença entre
donar o culto de Deus este os recolherá de todas as regiões por Judeus e gentios, nem havendo, portanto, qualquer outra elei-
onde se dispersaram e os conduzirá ao deserto dos povos, tal ção peculiar a não ser aquela de que já falámos. E se os profe-
como conduziu os seus pais aos desertos do Egipto, e daí, final- tas, a propósito desta eleição que concerne só a verdadeira vir-
mente, depois de os ter apartado dos rebeldes e insubmissos, tude, falaram de muitas coisas, tais como sacrifícios e outras
vai conduzi-los à montanha da sua santidade, onde toda a fa- cerimónias, da reedificação do Templo e da Cidade, etc., foi
mília de Israel "lhe prestará culto. . porque quiseram, de acordo com o que era costume e com a
Há ainda outras passagens, alé~ destas, ,:que costumam ser natureza da profecia, explicar por meio dessas imagens coisas
citadas, especialmente pelos .fariseus, mas penso que responde- espirituais, de modo a indicarem simultaneamente aos Judeus,
rei de forma satisfatória a todas ·elas se ·responder a ~tas âuas, de quem eram profetas, que deviam esperar, no tempo de Ciro,
coisa que farei sem grande dificuldade depois de ter demons- 1a restauração do Estado e do Templo.
trado, com base na própria Escritura, que Deus não elegeu os Hoje em dia, portanto, os Judeus não possuem absoluta-
Hebreus para sempre, mas unicamente nas mesmas condições mente nenhuma razão para se considerarem acima das outras
em que antes elegera os Cananeus, os quais também tiveram, · nações. O facto de terem subsistido, durante tantos anos, dis-
como já explicámos, pontífices que prestavam culto religioso a persos e sem um Estado, não é para admirar, visto que se apar-
Deus e, não obstante, Deus rejeitou-os em virtude da sua luxú- taram de tal modo de todas as nações que atraíram sobre si o
ria, indolência e falso culto. De facto, Moisés (Levítico, cap. XVIII, , ódio de todas elas, não apenas pelos ritos exteriores, que são
27, 28) avisa os Israelitas para que não se conspurquem com diferentes dos das outras nações, mas também pelo sinal da cir-
incestos, como os Cananeus, para que a terra os não vomite ~cisão, que conservam religiosamente 12. A experiência, deres-
como vomitou os povos que habitavam naquela região. E no to, tem ensinado que o ódio das nações contribui imenso para a
Deuteronómio,VIII, 19, 20, ameaça-os mesmo, em palavras absolu- ·coesão dos Judeus. Quando outrora o rei de Espanha os obri-
tamente explícitas, com a ruma total. Diz assim: hoje vos garanto gou a abraçar a religião do reino ou exilarem-se, a maior parte
que haveis de perecerabsolutamente;tal como os povos que Deus faz deles adaptou a religião dos papas . E como foram concedidos
perecerna vossa presença,assim perecereisvós. -~os que se converteram todos os privilégios dos naturais de
Como estas, encontram-se várias outras passagens na Lei Espanha e os consideraram dignos de todas as honras, imediata-
que indicam expressamente que Deus não tinha escolhido a na- ··mente se integraram, de tal maneira que, pouco tempo depois,
ção hebraica incondicionalmente e para todo o sempre. Assim, não restava deles o mínimo vestígio ou recordação. Porém,
se os profetas lhes anunciaram uma nova e eterna aliança de .àqueles a quem o rei de Portugal obrigou a aceitarem a religião
conhecimento, amor e graça de Deus, não é difícil compreender do seu país aconteceu exactamente o contrário: apesar de conver-
(561 que ela foi prometida só aos piedosos. Com efeito, no mesmo 'tidos, continuaram a viver separados dos outros, uma vez que
capítulo de Ezequiel que há pouco citámos, diz-se expressamente lhes tinham sido vetados todos os cargos honoríficos 13• (571

que Deus apartará do meio deles os rebeldes e os insubmissos Quanto ao sinal da circuncisão, considero-o também tão
'!' e, em Sofonias, cap. Ili, 12, 13, que Deus destruirá os soberbos e importante a este respeito que estou persuadido de que, só por
deixará incólumes os pobres. Dado, pois, que esta eleição diz si, ele chegaria para manter para sempre unida esta nação. In-
respeito à verdadeira virtude, não é de supor que ela tenha clusive, se os fundamentos da sua religião lhes não enfraqueces-
,1
1
sido prometida apenas aos homens piedosos de entre os Judeus . sem o ânimo, estaria absolutamente convencido de que, um dia,
,;
e excluísse todos os outros; o que temos é de aceitar plenamen- chegada a ocasião - de tal maneira são instáveis as coisas hu-
te que os verdadeiros profetas pagãos - que todas as nações ,••i ,manas - eles hão-de reconstituir de novo o seu Estado e Deus
tiveram, conforme mostrámos - prometeram também a mesma de novo os há-de eleger . Temos um notável exemplo disto mes-
aliança aos fiéis das suas nações e com ela os consolaram. Don- mo nos Chineses, os quais usam religiosamente na cabeça aque-
de, esta eterna aliança de conhecimento e de amor de Deus é la espécie de rabicho com que se distinguem de todos os outros

176 177
e, deste modo, sobreviveram tantos milénios que superam de
longe em antiguidade todas as demais nações. É verdade que
nem sempre mantiveram o Estado, mas acabaram sempre por
recuperá-lo e vão, sem dúvida, recuperá-lo de novo, assim que
o ânimo dos Tártaros começar a enfraquecer por força da indo-
lência e da vida luxuosa.
Em suma, se alguém insiste que os Judeus, por este 04 aqu~le
motivo, serão os ·eleitos de Deus para sempre, não serei eu a
CAPITIJLO IV [57]
opor-me, desde que fique bem claro _que esta · eleição, transitória
ou eterna, se não refere, n~quilp que tem de peculiar, sénão ·ao DA LEI DIVINA
Estado e aos bens materiais (pois só por isto se pode ·distinguir
uma nação da outra); no que toca, porém, à inteligêncfa.-e à ver-
dadeira virtude, nenhuma nação se distingue de outra nem Deus
escolhe esta de preferência àquela em função de · tais critérios. A palavra «lei», tomada em sentido absoluto, significa aquilo
em conformidade com o qual cada indivíduo, ou todos, ou al-
guns de uma mesma espécie, agem de uma certa e determinada
maneira. A lei depende, ou da necessidade da natureza, ou da
decisão do homem. A lei que depende da necessidade da natu-
íjteza é aq~e_la_que de~iva necessariamente da própri_a_natureza
· bu da defiruçao da cmsa; a que depende de uma decISao huma-
na, e à qual se chamaria com mais propriedade direito, é aquela
..,ue os homens, para viver mais segura e comodamente, ou por
outro motivo qualquer, prescrevem a si mesmos e aos outros .
.Que, por exemplo, todos os corpos, quando encontram outros
mais pequenos, percam tanto movimento quanto o que lhes
·transmitem, é uma lei universal dos corpos que decorre da ne- 1ss1
.cessidade da natureza. De igual modo, que um homem, quando
se lembra de uma coisa, imediatamente se lembre de outra que
lhe é parecida ou de que se tinha apercebido em simultâneo
com a primeira, é ainda uma lei que decorre necessariamente
. da natureza humana . Porém, que os homens cedam ou sejam
obrigados a ceder uma parte do direito que têm por natureza e
se limitem a viver segundo uma certa regra, isso depende da
·.decisão humana. E embora eu sustente sem qualquer reserva
que todas as coisas são determinadas por leis universais da na-
tureza a existir e a agir de uma certa e determinada maneira,
ainda assim, afirmo que estas leis dependem de decisão dos
homens:
1 - Porque o homem, na medida em que é parte da natu-
• reza, constitui uma parte da potência desta; assim, tudo aquilo
que procede da necessidade da natureza humana, isto é, da pró-
pria natureza enquanto a concebemos como determinada pela

178 179
natureza humana, deriva, necessariamente embora , da humana devido porque teme o patíbulo age por imposição alheia e coa-
potência . Daí o poder perfeitamente dizer-se que a fixação des- . gido pelo mal, não podendo dizer-se que seja justo; mas aquele
tas leis depende da decisão do homem, visto ela depender prin- que dá a cada um o que lhe é devido por conhecer a verda-
cipalmente da potência da mente humana, mas de tal modo que '.'deira razão das leis e a sua necessidade age de ânimo constante,
esta, na medida em que percebe as coisas sob o prisma do ver- ~por sua próp r ia decisão e não por decisão de outrem, mere-
dadeiro e do falso, pode conceber-se com toda a clareza sem cendo por isso que lhe chamem justo 2 • Foi o que Paulo, segundo
tais leis, ainda que não o possa sem uma lei necessária, no ~en- creio, quis também ensinar quando disse que os que viviam sub-
tido em que há pouco a definimos. ·ugados pela lei não podiam ser justificados pela lei: a justiça,
2 - Em segundo lugar; eu disse . qt1e estas -leis dependem da com efeito, tal como é vulgarmente definida, é a constante e
decisão do homem porque devemos definir e explicar às coisas perpétua vontade de dar a cada um o que lhe é devido. Igual-
pelas suas causas próximas,e também porque urna . consideração _ - ente Salomão diz nos Provérbios, cap. XXI, 15, que o justo se
universal sobre o destino e o encadeamentó das càusàs não -ser- legra quando chega a hora do julgamento, mas os injustos
ve de nada quando se trata de formar e de ordenar os nossos emem.
pensamentos acerca de coisas particulares. A isto acresce o facto Não sendo, portanto, a lei outra coisa que uma regra de
de ignorarmos completamente a própria coordenação e concate- ida que os homens ·prescrevem a si mesmos ou a outros com
nação das coisas, isto é, de que modo elas estão realmente or- .eterminada finalidade, parece que a devemos distinguir em
denadas e concatenadas, tornando-se, por isso mesmo, preferí- ~umana e divina. Por lei humana, entendo uma regra de vida
vel e até necessário, na prática, considerá-las como possíveis. e serve unicamente para manter a segurança do indivíduo e
Isto, quanto à lei em sentido absoluto. colectividade; por lei divina, entendo uma regra que diz res-
No entanto, corno a palavra «lei» parece aplicar-se rnetafori- ito apenas ao soberano bem, isto é, ao verdadeiro conheci-
carnente às coisas naturais, e visto que, de costume, só se en- _ento e amor de Deus 3 . A razão por que chamo divina uma
tende por lei uma ordem que os homens tanto podem executar lei tem a ver com a natureza do sumo bem, que vou expor
como desrespeitar, até porque ela coarcta a potência humana poucas palavras e tão claramente quanto puder.
dentro de certos limites para lá dos quais esta ainda se estende Dado que o entendimento é a melhor parte do nosso ser,
e, por outro lado, não impõe nada que exceda as suas forças, ma-se evidente que, se queremos realmente procurar o que
convirá defini-la mais especificamente, a saber, corno urna regra 1 .os é útil, devemos acima de tudo esforçar-nos por aperfeiçoar
de vida que o homem prescreve a si mesmo ou aos outros em to quanto possível o entendimento, já que é na sua perfeição
função de algum fim. Dado, porém, que a verdadeira finalidade .. e deve consis _tir o nosso bem supremo. Além disso, como todo
[59J das leis não costuma ser clara senão para um pequeno número, nosso conhecimento, e bem assim a certeza que afasta efecti-
ao passo que a maioria dos homens é praticamente incapaz de a amente todà a dúvida, dependem apenas do conhecimento de
perceber e rege a sua vida por tudo menos pela razão, os legis- us, já porque sem Deus nada pode ser nem ser concebido, já
ladores, para que todos estivessem igualmente coarctados, esta- porque podemos duvidar de tudo enquanto não tivermos de [601
beleceram sabiamente uma outra finalidade bem distinta daque- Deus uma ideia clara e distinta, segue-se que o nosso supremo
la que deriva necessariamente da natureza das leis, prometendo bem e a nossa perfeição dependem exclusivamente do conheci-
l aos que respeitam as leis aquilo de que o vulgo mais gosta e
ameaçando, pelo contrário, os que as violam com aquilo que ele
..Qtento de Deus, etc. Depois, como sem Deus nada pode existir
·Jnem ser concebido, é evidente que tudo o que existe na natu-
mais teme 1. Procuraram assim conter o vulgo, tanto quanto pos- .reza implica e exprime a ideia de Deus na proporção da sua
sível, como um cavalo pelo freio . Por isso é que se considera a essência e da sua perfeição. Por conseguinte, quanto mais co-
lei, antes de mais, uma maneira de viver imposta a alguns ho- ' nhecemos as coisas naturais maior e mais perfeito conhecimento
..
1
mens pelo poder de outros e, consequentemente, diz-se daque- : adquirimos de Deus; ou seja Uá que conhecer o efeito pela causa
les que observam as leis que eles vivem sob a lei e parecem não é outra coisa que conhecer alguma propriedade da causa),
seus escravos. É certo que quem dá a cada um o que lhe é · quanto mais conhecemos as coisas naturais, mais perfeitamente

180 181
conhecemos a essência de Deus (que é causa de todas as coi - nada de mais importante que o entendimento e a mente sã to-
sas). Sendo assim, todo o nosso conhecimento, isto é, o nosso rnarão isto, com certeza, por uma verdade inabalável. Ficou,
bem supremo, não só está dependente do conhecimento de Deus, portanto, explicado em que consiste essencialmente a lei divina,
i corno até consiste absolutamente nele. É o que se pode também bem corno o que são as leis humanas, a saber, todas aquelas
deduzir do facto de a perfeição do homem aumentar ou dimi- que visam um outro fim, excepto se tiverem sido sancionadas
nuir em função da natureza e da perfeição da coisa que ele mais por revelação, uma vez que, a partir deste ponto de vista, as
ama: assim, o mais perfeito e o que mais participa da suprema coisas atribuem-se também, corno já demonstrámos, a Deus: é
felicidade · é, necessatiâmente, áquele que ama acima de tudo o nesse sentido que a lei de Moisés, embora não seja universal e
conhecimento intelectual d~ Deus, ól! seja, qQser absolutamente esteja sobretudo adaptada à maneira de ser e à conservação de
perfeito, e que nele se deleita, mais que em qualquer outra coisa. um determinado povo, pode designar-se por lei de Deus ou lei
O nosso supremo bem e a nossa felicidade resumern'-$e; pois, divina, porquanto acreditamos que ela foi sancionada pela luz
no conhecimento e amor de Deus. Os meios que requer e-ssa profética.
finalidade de todas as acções humanas, isto é, o próprio Deus Se atentarmos agora na natureza da lei divina natural, tal
na medida em que a ideia dele está em nós, podem designar-se corno a explicámos, veremos o seguinte: primeiro, que ela é
por ordens de Deus, urna vez que nos são de alguma forma universal, isto é, comum a todos os homens, uma vez que a
prescritos por ele enquanto existente na nossa mente. Por isso, deduzimos da natureza humana universal; segundo, que não
a regra de vida que concerne essa finalidade chama-se, e muito n:,xige que acreditemos em relatos históricos, quaisquer que eles
bem, lei divina. Quais são, porém, esses meios, qual a regra de i sejam, visto que, se esta lei divina natural se conhece tendo em
vida que essa finalidade impõe? E como deduzir dela os funda- consideração apenas a natureza humana, é evidente que a pode-
mentos da melhor república e as regras de convivência entre os i ~emos conceber tanto em Adão como em qua lquer outro ho-
homens? Tais questões pertencem à ética universal. Aqui, conti- mem, tanto num homem que vive entre os outros homens corno
nuarei a tratar apenas da lei divina em geral 4 • hum homem que leva uma vida solitária. A fé nos relatos histó-
Sendo o amor de Deus a suprema felicidade, a beatitude, o . ricos, por maior que seja o seu grau de certeza, não nos pode
fim último e o objectivo de todas as acções do homem, só se- dar o conhecimento nem, consequentemente, o amor de Deus.
gue a lei divina quem procura amar a Deus, não por temer o .Porque o amor de Deus nasce do seu conhecimento e o conhe-
castigo nem por amor de qualquer outra coisa, sejam prazeres, cimento de Deus deve extrair-se de noções comuns, certas e
fama, etc., mas apenas porque conhece a Deus, ou seja, porque ,nhecidas por si mesmas, estando, portanto, a fé nos relatos
sabe que o conhecimento e o amor de Deus são o bem supre- históricos muito longe de constituir um requisito necessário para
[61J mo. Toda a lei divina se resume, portanto, neste preceito: amar podermos ~lcançar o nosso bem supremo. Contudo, e se bem
a Deus como supremo bem, isto é, e como já dissemos, sem ser que a fé nos relatos históricos não possa proporcionar-nos o
por receio de algum suplício ou castigo, nem por amor de qual- conhecimento e o amor de Deus, não negamos que a sua leitura
quer outra coisa de que desejaríamos gozar. O que a ideia de 1;~ bastante útil em função da vida em sociedade. De facto, quanto [621
Deus prescreve é que Deus é o nosso bem supremo ou, por ' ·mais observarmos e conhecermos as condições e os costumes
outras palavras, que o conhecimento e o amor de Deus são o dos homens (e a melhor forma de os conhecer é através das
11 fim último para o qual devem estar orientadas todas as nossas ~suas acções), mais cautelosamente viveremos entre eles e me-
1
'k acções. O homem carnal, todavia, não pode compreender estas : lhor saberemos adaptar as nossas acções e a nossa vida à sua
1 coisas, que lhe parecem vãs porque tem de Deus um conheci- ''maneira de ser, pelo menos até onde isso for razoável. Em ter-
mento por demais insuficiente e porque não encontra nesse su- ' ' ceiro lugar, vemos que esta lei divina natural não exige cerimó -
t: premo bem nada em que possa tocar, comer ou, enfim, que te-
nha relação com a carne, sua principal fonte de prazer, dado
. nias, isto é, acções que em si mesmas são indiferentes e só por
éonvenção se consideram boas, ou que simbolizam um bem ne-
11
que um tal bem é de natureza meramente especulativa 5 e inte- . cessário à salvação, ou ainda, se se preferir, acções cuja razão
lectual. Mas aqueles que reconhecerem que não possuem em si de ser ultrapassa a capacidade de compreensão humana. A luz

182 183
natural , com efeito, não exig e nada que essa mesma luz não lo que antes chamámos entendim ento de Deus. Deste modo,
atinja, mas apenas aquilo que ela nos pode com toda a clareza dizer a respeito de Deus que ele quis e deciçliu, desde toda a
indicar como um bem, ou seja, como um meio de chegar à nos- eternidade, que os três ângulos de um triângulo fossem iguais a
sa beatitude. Ora, as coisas que são boas só por mandamento e dois rectos, ou dizer que ele entende esta mesma verdade, equi-
convenção, ou porque simbolizam algum bem, não podem con- vale a dizer a mesma coisa 6. Donde se segue que as afirmações
tribuir para a perfeição do nosso entendimento e não passam e as negações formuladas por Deus envolvem sempre uma ne-
de meras sombras, não se podendo contar entre as acções que cessidade, ou seja, uma verdade eterna.
são como que a prole · ou os frutos do entendimento e de uma , Se, por exemplo, Deus disse a Adão que não queria que ele
mente sã. Não é necessário, .aqui, :a_presen!é!-r .isto mais desen- comesse do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, seria
volvidamente. Em quarto e último lugar, vemos que a mais alta contraditório e, por conseguinte, impossível que Adão comesse,
recompensa pela lei divina consíste nela mesma, isto -é, ein co- üma vez que o decreto divino deveria envolver eterna necessi-
nhecer a Deus e amá-lo como seres verdadeiramente ' livres, -·de i dade e verdade. Como, porém , a Escritura narra que Deus proi-
ânimo íntegro e perseverante; o castigo, pelo contrário, consiste .biu Adão e que, mesmo assim, ele comeu, temos forçosamente
na privação destes bens e na servidão da carne, isto é, na in- de admitir que Deus só revelou a Adão o mal que necessaria-
constância e na instabilidade de ânimo. mente lhe aconteceria se ele comesse e não a necessidade com
Posto isto, convirá agora investigarmos o seguinte: primeiro, 1 1
que esse mal viria a seguir. Por isso é que Adão entendeu essa
se pela luz natural podemos conceber Deus como um legislador ' ·.revelação, não como uma verdade eterna e necessária, mas como
ou como um príncipe que prescreve leis aos homens; segundo, a lei, isto é, como algo instituído a que se seguiria um pré-
t
o que é que a Sagrada Escritura ensina a respeito dessa luz e :mio ou um castigo, não pela necessidade e pela natureza da
dessa lei natural; terceiro, com que finalidade foram outrora acção perpetrada, mas unicamente pelo capricho e pela autori-
instituídas as cerimónias religiosas; quarto, para que serve, en- fdade absoluta de um príncipe . Assim, só na perspectiva de Adão
fim, conhecer a história sagrada e acreditar nela. Os dois pri- ,e
j -
em virtude da sua falta de conhecimento é que essa revelação
meiros pontos serão tratados neste capítulo; os dois últimos fi- :foi uma lei e Deus surgiu como legislador ou príncipe. Por esta
carão para o seguinte. .mesma razão, isto é, por falta de conhecimento, o Decálogo foi
A resposta à primeira destas questões deduz-se facilmente ·jumà lei só na perspectiva dos Hebreus, já que, não conhecendo
da natureza da vontade de Deus, a qual não se distingue do eles a existência de Deus como uma verdade eterna, tinham de
entendimento divino a não ser na perspectiva da nossa razão. tomar por uma lei aquilo que lhes foi revelado no Decálogo, a
Quer dizer, a vontade de Deus e o seu entendimento são, na
realidade, uma só e a mesma coisa, distinguindo-se apenas do
. ,saber, que Deus existe e só a ele se deve adorar. Porque se
'
.
!Deus lhes tivesse falado directamente, sem recorrer a meios
ponto de vista das ideias que nós fazemos a respeito do enten- !corporais de espécie nenhuma, não o teriam entendido como
dimento divino. Assim, por exemplo, quando atendemos só a .:urna lei, mas sim como uma verdade eterna.
que a natureza do triângulo está contida desde toda a eternida- . O que dizemos de Adão e dos Israelitas deve igualmente
de na natureza de Deus como uma verdade eterna, dizemos j;dizer-se de todos os profetas que escreveram leis em nome de [641
que Deus tem a ideia do triângulo, ou seja, que entende a natu- · Deus, pois também eles não perceberam os decretos divinos de
[631 reza do triângulo. Mas se atendermos depois a que a natureza maneira adequada, quer dizer, como verdades eternas. Do pró-
do triângulo está contida na natureza divina, por necessidade prio Moisés, por exemplo, deve dizer-se que ele percebeu por
apenas dessa natureza e não da essência e da natureza do triân- revelação, ou concluiu dos princípios que lhe foram revelados, a
gulo, e inclusivamente, que a necessidade da essência e das pro- forma como o povo de Israel melhor se poderia agregar numa
priedades do triângulo, enquanto concebidas também como ver- determinada região do mundo e formar totalmente uma socie-
dades eternas, dependem exclusivamente da necessidade da dade ou constituir um Estado, e bem assim a melhor maneira
natureza e do entendimento divino, não da natureza do triân- de compelir aquele povo à obediência. Mas ele não percebeu,
gulo, nessa altura, chamamos vontade ou decreto de Deus àqui- nem lhe tinha sido revelado, que essa maneira era a melhor e

184 185
que da obediência comum do povo naquela região seguir-se-ia Mas àqueles a quem era dado conhecer os mistérios do s céus, é
necessariamente o objectivo que perseguiam. Não percebeu, em claro que ensinou essas mesmas coisas como verdades eternas e
suma, qualquer destas coisas como verdade eterna, mas sim como não as prescreveu corno leis, e por isso os libertou da servidão
um preceito e como algo de instituído, prescrevendo-as como da lei ao mesmo tempo que a confirmava, estabelecia e inscre-
leis de Deus . Daí que os Hebreus imaginassem Deus como um via no mais fundo dos seus corações. É isto que Pau lo parece
chefe, um legislador, um rei, misericordioso, justo, etc., quando, indicar em algumas passagens, como seja na Epístolaaos Roma-
afinal, tudo isso são atributos que pertencem apenas à nature~a nos, caps. vu, 6, e III, 28. Todavia, nem mesmo ele quer falar
humana e devem s·er inteiramente dissociados da natureza divina. abertamente; pelo contrário, e conforme diz nos caps. m, 5, e VI,
Isto aplica-se, repito, unicamente il,OS profetas, que em nome 19, da mesma Epístola, fala à maneira humana, e reconhece-o
de Deus escreveram leis, não ~ Cristo. Porque embora : Cristo expressamente, quando chama a Deus justo, sendo com certeza
pareça também ter prescrito leis · em nome de Deus, _deve -afir- também por causa da fraqueza da carne que lhe atribui a mise-
mar-se que ele teve uma percepção verdadeira: e adequàda das ., ricórdia, a graça, a cólera, etc., e que adapta as suas palavras à
coisas: Cristo, com efeito, não foi tanto um profeta como a boca maneira de ser da plebe, isto é, conforme ele próprio diz na
de Deus 7 . Através da mente de Cristo (conforme demonstrá- Epístolaaos Coríntíos,1, cap. rn, 1, 2, dos homens carnais . A prova
mos no cap. 1) Deus revelou, tal como já anteriormente o tinha está em que, no cap. IX, 18, da Epístola aos Romanos, ele ensina
feito através dos anjos, isto é, de urna voz criada, de visões, sem margem para dúvidas, primeiro, que a cólera de Deus e a
etc., certas coisas ao género humano. Seria, por isso, tão contrá- ,, sua misericórdia não dependem das obras dos homens mas ape-
rio à razão admitir que Deus adaptou as suas revelações às opi- , nas do chamamento de Deus, isto é, da sua vontade; segundo,
niões de Cristo quanto supor que antes ele as tinha adaptado às que ninguém se toma justo pelas obras da lei mas apenas pela
opiniões dos anjos, isto é, de uma voz criada e de visões, para fé (ver Epístola aos Romanos, cap. m, 28), não entendendo por
comunicar aos profetas as coisas que tinha a revelar. Maior ab- ,· esta, com certeza, senão o pleno assentimento da vontade; por
surdo que este seria impensável, tanto mais que Cristo foi en- ·.último, que ninguém será feliz se não tiver em si a mente de
viado para ensinar, não só aos Judeus, mas a todo o género '. Cristo (ver Epístolaaos Romanos, cap. vm, 9), através da qual per-
humano, pelo que não bastaria que ele tivesse a mente adapta- . 1cebe efectivamente as leis de Deus corno verdades eternas . Con-
da apenas às opiniões dos Judeus, era preciso que a adaptasse Lcluírnos, portanto, que Deus só é descrito corno legislador ou
também às opiniões e aos princípios universalmente reconheci- 1:. corno príncipe e apelidado de justo, misericordioso, etc., em vir-
dos por todo o género humano, ou seja, às noções comuns e . tude da maneira de entender do vulgo e pela sua falta de co-
verdadeiras. Por conseguinte, se Deus se revelou a Cristo ou à nhecimentos. Na realidade, Deus age e dirige todas as coisas
sua mente, de maneira imediata e não por palavras e imagens unicamente pela necessidade da sua natureza e perfeição; os seus
corno se tinha revelado aos profetas, a única coisa que podemos decretos, enfim, e as suas volições são verdades eternas e irn-
concluir daí é que Cristo percebeu ou entendeu verdadeiramente :' plicam sempre uma necessidade. Era isto o que eu pretendia
as coisas reveladas. Com efeito, diz-se que entendemos uma coisa explicar e demonstrar em primeiro lugar.
JII
quando a percebemos pela mente, sem imagens nem palavras. Passemos agora ao segundo ponto, percorramos as páginas
!651 Sendo assim, Cristo percebeu verdadeira e adequadamente as sagradas e vejamos o que elas ensinam a respeito da luz natural (661

t coisas reveladas e, portanto, se alguma vez as prescreveu como


leis, foi por causa da ignorância e da obstinação do povo. Fez,
~, e dessa lei divina. O primeiro texto que aí encontramos é preci-
1: sarnente a história do primeiro homem, onde se conta que Deus
r
1•·
neste particular, as vezes de Deus, adaptando-se à maneira de
ser do povo e, por isso mesmo, se bem que falasse um pouco
ordenou a Adão que não comesse do fruto da árvore da ciência
do bem e do mal, o que parece significar que Deus ordenou a
1 mais claramente do que os outros profetas, ensinou as coisas Adão que fizesse e procurasse o bem pelo bem e não por ser
reveladas de forma obscura e muitas vezes por parábolas, espe- contrário ao mal, isto é, que procurasse o bem por amor do
cialmente quando se dirigia àqueles a quem ainda não era dado bem e não por receio do mal. Quem, com efeito, faz o bem,
entender o reino dos céus (veja-se Mateus, cap. xrn, 10, etc .). corno já mostrámos, porque o conhece e ama, age livremente e

186 187
de ânimo perseverante ; quem, todavia, o faz por recear o mal, a seguir, nos vers. 16 e 17) é porque o entendimento dá dírecta-
age servilmente e coagido pelo mal, vivendo, portanto, às or- mente a duraçãodos dias • e indirectamenteriquezas e honra: os seus
dens de oµtrem. Só este preceito dado por Deus a Adão já con- caminhos (os que a ciência indica) sãoamenos e todasas suas veredas
tém em si, por conseguinte, toda a lei divina natural e concorda são pacíficas.Só os sábios, portanto, segundo Salomão, vivem de
inteiramente com o que manda a luz natural. Nem seria difícil, ânimo pacífico e perseverante, não corno os ímpios, cujo ânimo
de resto, explicar com base em tal fundamento toda esta histó- flutua entre paixões contrárias e que, por conseguinte, corno diz
ria ou parábola .dq primeiro homem. Não quero, porém, fazê- Isaías, cap. LVU, 20, não têm paz nem sossego. Finalmente, nestes
-lo, já porque não estou absolutamente êérto de que a minh ·a Provérbios de Salomão, deve sobretudo notar-se o que vem no
explicação estaria de acordei ·com a intenção do autor, já porque cap. rr e que confirma com meridiana clareza a nossa tese. Come-
a maioria não concorda que ·esta ·histór~a seja uma pará'l:lolà ·e ça assim o vers. 3 desse capítulo: porque se invocaresa prudência e
admite que se trata de uma narração pura · e simples. · te fizeres arauto da inteligência,etc., então conheceráso temor de Deus
ll1 1
Será, então, preferível citar outras passagens da Escritura, e encontrarás a sua ciência (ou antes, o amor, já que o termo Jadah
principalmente as que foram ditadas por aquele que falava ba- significa tanto uma coisa como outra). Porque (N. B.) Deus dá a
seado na luz natural, em que superou todos os sábios do seu sabedoria, da sua boca (emana) a ciência e a prudência. Por estas
'I
tempo, e cujas palavras o povo acolheu com tanto respeito como palavras, ele indica com toda a clareza, primeiro, que só a sabe-
as dos profetas: estou a pensar em Salomão, de quem os Livros doria, isto é, o entendimento, nos ensina a temer a Deus com
1 Sagrados exaltam menos a profecia e a piedade que a prudência sabedoria, que o mesmo é dizer, a cultivar a verdadeira reli-
11 e a sabedoria. Salomão, nos seus Provérbios, chama ao entendi- gião; segundo, que a sabedoria e a ciência brotam da boca de
mento humano a fonte da verdade ira vida e faz consistir o in- Deus e que é Deus quem as concede, como também já mostrá-
fortúnio exclusivamente na insensatez. Diz ele (cap. xvr, 22): 1 mos, ou seja, que o nosso entendimento e ciência dependem
o entendimento(é) parao seu dono • uma fonte de vida e o suplício dos exclusivamente da ideia ou conhecimento de Deus, ideia onde
insensatos é a sua insensatez8 . Note-se que por vida, em sentido têm a sua origem e na qual atingem a sua perfeição. A seguir,
absoluto, entende-se em hebraico a verdadeira vida, como se no vers. 9, Salomão ensina explicitamente que esta ciência con-
vê no Deuteronómio,cap. xxx, 19. Por conseguinte, o fruto do en- tém, e por isso dela se deduzem, a verdadeira ética e a verda-
tendimento consiste unicamente na verdadeira vida e o suplício deira política: então compreenderása justiça e o juízo, os caminhos
consiste em ser privado dele, o que está perfeitamente de acordo certos (e) toda a boa vereda. Não contente com isto, diz ainda:
com o que dissemos em quarto lugar a respeito da lei divina quando a ciênciaentrar no teu coraçãoe a sabedoriate for suave, então !681
natural. Mas o mesmo sábio ensina também explicitamente que a tua providência• • há-de vigiar-tee a prudência guardar-te-á.Tudo
i
só essa fonte da vida, isto é, só o entendimento, como já disse- isto concorda inteiramente com a ciência natural, que ensina a
!'' mos, prescreve leis aos sábios, uma vez que afirma no cap. XIII, ética e a verdadeira virtude depois de adquirirmos o conheci-
., (671 14: a lei do prudente (é) fonte da vida, ou seja, como se pode ver
mento das coisas e saborearmos a superioridade da ciência. Por
no texto acima citado, é o entendimento. Além disso, no cap. III,
isso, a felicidade e a tranquilidade de quem cultiva o entendi-
13, ensina por palavras bem explícitas que o entendimento dá
mento natural, de acordo ainda com Salomão, não dependem
ao homem a beatitude e a felicidade e bem assim a verdadeira
do império da fortuna (isto é, do auxílio externo de Deus), mas
tranquilidade de ânimo: feliz o homem que encontrou a ciência e o
sim e principalmente da sua própria virtude interior (isto é, do
[ filho do homem que descobriuo entendimento. E a razão (como se vê
auxílio interno de Deus), pois é através da vigilância, da activi-
1 dade e dos bons conselhos, que melhor se conservam.

• Hebraísmo. Quem possui uma coisa ou a contém na sua natureza diz-


-se dono dessa coisa; assim, o pássaro diz-se em hebraico o dono das asas
porque tem asas; por sua vez, o dono do entendimento d iz-se intel igente • Hebraísmo, que não significa senão a vida.
1 porque tem entendimento . • • «Mezina » significa exactamente pensamento, deliberação e vigilância.

188 189
~ Finalmente, não se deve esquecer aquela passagem de Paulo
• que se encontra no cap. r da Epístolaaos Romanose que diz assim
(de acordo com a tradução de Tremellius 9 do texto siríaco): as
coisas de Deus escondidasdesde a fundação do mundo são descobertas
pelo entendimentonas suas criaturas,bem como a sua virtude e a sua
i
divindade,que é eterna,de modo que não têm desculpa.Tais palavras
mostram claramente que cada u!ll pode compreender a v_irtud~
de Deus e a súa ·eterna divindade pela luz· natural, luz esta com
que pode igualmente saber : e deduzt~ as coisas· que deve pro- CAPlnn.o V (69]

curar e aquelas que deve evit_ar; Paulo conclui, -pois, q~ nin-


·1•DA RAZÃO PELA QUAL FORAM INSTITUÍDAS AS CERIMÓNIAS
guém tem desculpa e que nem a· ignorância pode _f?e.ràlegàda,
.~; E DA FÉ NAS NARRATIVAS HISTÓRICAS, OU SEJA,
ao contrário do que aconteceria se estivesse a 'falar dá. luz sobre- POR QUE MOTIVO E A QUEM É QUE ELA É NECESSÁRIA
natural, ou da paixão que Cristo padeceu na carne, ou da res-
surreição, etc. E acrescenta, um pouco mais adiante, no vers. 24:
~~: por esta razão, Deus entregou-osàs imundas concupiscênciasdos seus
corações,etc., descrevendo, até ao fim do capítulo, os vícios da No capítulo anterior, mostrámos como a lei divina, que toma
iiJ;.[i ignorância, os quais apresenta como castigos da mesma igno- 1ós homens verdadeiramente felizes e ensina a verdadeira vida,
rância, em inteira conformidade com o já citado provérbio de :! universal; além disso, deduzimo-la da natureza humana, de .
Salomão (cap. XVI, 22): e o suplício dos insensatosé a sua insensatez. aneira que ela deve considerar-se inata 1 e como que inscrita
Não é de estranhar, pois, que Paulo diga que os que fazem o mente do homem. As cerimónias, porém, pelo menos aque-
mal não têm desculpa. Cada um colhe conforme o que semeou: s que se encontram no Antigo Testamento, foram instituídas
do mal, outros males virão necessariamente 10, se não for corri- •xclusivamente para os Hebreus e adaptadas de tal modo ao
gido com sabedoria; o bem, pelo contrário, atrai o bem, quando Estado que a maior parte delas só podia ser celebrada pela
acompanhado de perseverança. Em conclusão, a Escritura elogia iedade em conjunto e não por um indivíduo isoladamente.
sem quaisquer reticências a luz natural e a lei divina natural. ,, portanto, evidente que elas não pertencem à lei divina nem
Dou assim por encerradas as questões que me tinha proposto o-pouco adiantam seja o que for para a beatitude ou para a
abordar neste capítulo. de, dizendo unicamente respeito à eleição dos Hebreus, isto
fé (por aquilo que mostrámos no cap. III), à contingente 2 felici-
,_ade do corpo e do Estado, pelo que não podiam ter qualquer
·~plicação a não ser enquanto durasse o Estado. Se, por conse-
iil' 'gttinte, essas cerimónias estavam no Antigo Testamento ligadas
.. à lei de Deus, era unicamente por terem sido instituídas por
11
~revelação ou com base em princípios revelados. Contudo, uma
'vez que a razão, por mais sólida que seja, pouco valor tem para
11
-~o comum dos teólogos, convirá aqui confirmar também pela
·'1 ·' autoridade da Escritura o que acabámos de dizer, para mostrar
• depois, de maneira ainda mais nítida, porquê e como serviam
..as cerimónias para a manutenção e a defesa do Estado dos
Judeus .
L De tudo quanto Isaías ensina, a coisa mais clara é que a lei
} de Deus, em sentido absoluto, significa aquela lei universal que
consiste na verdadeira regra de vida e não em quaisquer ceri-

190 191
mornas. De facto, no cap. 1, 10, o profeta apela ao seu povo ~ respeito apenas ao interesse da república e do Estado; por -
para que oiça da sua boca a lei divina, da qual exclui toda a ~~ !quese ela significasse um ensinamento moral que contemplasse,
espécie de sacrifício e festas e só então é que ensina a própria i:..iíão só o interesse da república, mas também a tranquilidade e
lei (ver vers . 16 e 17), que resume, aliás, a muito poucos precei- ~!~~ verdadeira beatitude de cada um, Moisés não teria conde-
tos: a purificação da vontade, a prática, ou seja, o hábito das " --do só a acção exterior, mas até o próprio assentimento de
virtudes, que o mesmo é dizer 9-as boas acções e, finalmente, _a ~lllrimo, como fez Cristo, o qual deixou apenas ensinamentos uni-
ajuda prestada ào ·pobre. Não menos li..trrünoso é o testemunho - ,rsais (ver Mat., cap . v, 28) e, por isso mesmo, a recompensa
que se encontra no salmo :XL,- 7, 9, :c;,nde o ..salmista se dirige e promete é espiritual e não corporal como a de Moisés.
[70J assim a Deus: não quiseste sacrifício · nem oferenda,perfuraste-71'!-e
:ós Cristo, como já disse, foi enviado, não para manter um Es-
ouvidos·, não pediste holocaustonem· ablaçãopelo pecado;_quis seguir_a do e instituir leis, mas apenas para ensinar a lei universal. 1111
tua vontade, ó meu Deus, porque a tua lei está nás ·minhas entranhâs. inde, facilmente se compreende, Cristo não revogou de for-
i Chama, portanto, lei de Deus só àquela que está inscrita nas alguma a lei de Moisés, porquanto não pretendeu introduzir
entranhas ou na mente e exclui dela as cerimónias; estas, com república quaisquer leis novas, nem procurou senão dar ensi-
Jr: efeito, são boas só por convenção e não por natureza, pelo que entos morais e separá-los das leis da república . E isto, so-
não estão inscritas nas mentes. Há ainda outras passagens na tudo por causa da ignorância dos fariseus, que pensavam que
Escritura que confirmam o mesmo, porém as duas que citei são ·er em beatitude significava defender o direito da república,
suficientes. . seja, a lei de Moisés, quando esta, conforme dissemos, só
') Quanto ao facto de as cerimónias em nada contribuírem para _. tia em função da república e servia não tanto para ensinar
a beatitude e, pelo contrário, dizerem apenas respeito ao con- ' o para coagir os Hebreus.
tingente interesse do Estado, ele consta igualmente da Escri- Mas voltemos ao assunto que nos ocupa e citemos outras
tura, a qual não promete senão comodidades e prazeres corpo- agens da Escritura que pelas cerimónias não prometem nada
rais pela observância das cerimónias, e só pela observância da o ser vantagens materiais e que só pela lei divina universal
lei divina universal promete a beatitude . Na verdade, nos cinco etem a beatitude. De entre todos os profetas, nenhum en-
livros que vulgarmente se atribuem a Moisés, não se promete, u isto com mais clareza que Isaías, o qual, no capítulo LVIll,
como já dissemos, outra coisa para além dessa felicidade transi- ter condenado a hipocrisia, recomenda a liberdade e a ca-
tória, quer dizer, honras ou fama, vitórias, riquezas, prazeres e -ade para consigo mesmo e para com o próximo, prometendo
saúde. E muito embora esses cinco livros contenham, além das compensação o seguinte : então a tua luz há-de romper corno
cerimónias, muitos preceitos morais, todavia, estes não vêm in- aurora, a tua saúdefloresceráimediatamente,a tua justiça irá na
cluídos a título de ensinamentos morais universais para todos frente e a glória de Deus agregar-se-á a ti •. A seguir, recomen-
os homens, mas como ordens adequadas à compreensão e à . também o sábado, prometendo aos que o observarem: deleitar-
maneira de ser exclusivamente da nação hebraica, visando ape- e-ás então com Deus • • e far-te-ei cavalgar sobre os píncaros da
nas, por isto mesmo, a prosperidade do seu Estado 3 • Moisés, rra • • •, dar-te-ei a comer a herançade Jacob,teu pai, como disse a
por exemplo, não ensina os Judeus, como um doutor ou como 'a de Jeová. Vemos, portanto, que o profeta promete, a troco
um profeta, a não matar e a não roubar: ordena-lhes como um ia liberdade e da caridade, mente sã ein corpo são, além da
legislador e como um príncipe. Nem prova pela razão aquilo .ória de Deus depois da morte; porém, a troco das cerimónias,
que ensina; pelo contrário, quando dá ordens anuncia também
1 as sanções e estas, como a experiência abundantemente demons-
1
'i tra, podem e devem variar conforme a índole própria de cada
nação. Da mesma forma, a ordem para não cometer adultério • Hebraísmo que significa a hora da morte; ser agregadoao seu povo signi-
1/
morrer (ver Gen., cap. XLIX, 29, 33).
• • Quer dizer , deleitar-se honestamente, como também se diz em fla-
engo, «met Godt/en met eere».
• Express ão que significa a percepç ão. • • • Significa domínio, como quando se seg ura um cavalo pelo freio.

o n?
mais não promete que a segurança e a prosperidade do Estado µs não ficaram mais sujeitos à lei de Moisés do que estavam
e o bem-estar do corpo. Nos salmos xv e xxrv, não se faz qual- .tesde ser fundada a sua sociedade e a sua república. Ora,
quer menção das cerimónias, mas só dos ensinamentos morais, guanto eles viveram no meio de outras gentes, antes da saída
sem dúvida porque aí se trata unicamente da beatitude e por ~ Egipto, não tiveram quaisquer leis particulares, estando su-
ser esta a única coisa que aí se tem em vista, ainda que seja em .tosapenas ao direito natural e, claro, ao direito da república
termos de parábola. Com efeito, por monte de Deus, por ten- que viviam, na medida em que este não ia contra a lei divi-
das divinas e _por oc~pação destas é eyi~ente que se entende ;natural. Dir-se-á que os patriarcas ofereciam sacrifícios a Deus,
aqui a beatitude ·e a tranquilidade _de ânimo, e não o monte de julgo que o faziam só para melhor incutir a devoção no seu
(72]
Jerusalém ou o tabernáculo de Mo"isés: Porque estes lo~ais ..z:ião o, assim habituado desde a infância. É que todos os ho-
eram habitados por ninguém e-· só os d~ tribo de Levi õs ..àdmi- ., desde os tempos de Enós, estavam habituados a oferecer [73]
nistravam. Além disso, todas as sentenças ele Salomão ~que citei - - ·ucios para melhor se sentirem inclinados à devoção. Os pa-
no capítulo anterior só prometem a verdadeira beatitude em ·cas, por conseguinte, ofereceram sacrifícios a Deus, não por
recompensa pelo entendimento e a sabedoria, porquanto só atra- ºência a qualquer direito divino ou por conhecerem os fun-
f vés desta se compreende o temor de Deus e se alcança a ciência
de Deus.
_entos universais da lei divina, mas simplesmente porque era
me naquele tempo. E se acaso o fizeram por ordem de
o Em relação ao facto de os Hebreus, uma vez destruído o .ém, essa ordem não traduzia senão o direito da república
t
seu Estado, não serem mais obrigados a observar as cerimó- .e viviam e ao qual também estavam sujeitos, como já aqui e
nias, isso está claro em Jeremias, o qual, quando vê e prediz ém no cap. m, ao falar de Melquisedeque , tínhamos visto.
que a cidade será em breve devastada, diz o seguinte: Deus só . Penso ter assim confirmado pela autoridade da Escritura a
ama aquelesque sabem e compreendemque ele exerce no mundo a mi- opinião. Resta agora mostrar como e em que medida as
sericórdia,o julgamento e a justiça;por isso, no futuro, só os que conhe- .ónias serviam para manter e consolidar o Estado dos He-
ceram isto é que serão julgados dignos de louvor (ver cap. rx, 23). s. Mostrá-lo-ei o mais sucintamente possível e com base em
É quase como se dissesse que, depois da destruição da cidade, dpios universais.
Deus já não exige dos Judeus nada de especial e pede-lhes sim- A sociedade é uma coisa extremamente útil e até absoluta-
plesmente que observem a lei natural, a que estão sujeitos to- te necessária, não só porque nos protege dos inimigos, mas
dos os mortais. No Novo Testamento, isto vem também plena- bém porque nos poupa a muitos esforços; de facto, se os
mente confirmado, visto que, como dissemos, não se encontram ens não quisessem entreajudar-se, faltar-lhes-ia tempo e arte
aí senão ensinamentos morais, por cujo cumprimento se prome- ·a, na medida do possível, se sustentarem e conservarem. Nem
te o reino dos céus; as cerimónias, pelo contrário, foram aban- os são igualmente aptos para tudo e ninguém seria capaz de
donadas pelos apóstolos a partir do momento em que o Evan- ,rrer a tudo aquilo de que um homem só necessita imprescin-
gelho começou a ser pregado também a outras gentes, sujeitas Nelrnente. Por outras palavras, ninguém teria as forças e o
às leis de uma outra república. E se os fariseus, depois de per- po necessário se fosse obrigado a lavrar, semear, ceifar, co-
1 dido o Estado 4, conservaram pelo menos a maior parte delas, ir, tecer, costurar e fazer sozinho tudo o mais que é preciso
foi mais por animosidade contra os cristãos do que para agra- a o sustento, não falando já nas artes e ciências, que são
l'j' J dar a Deus. De facto, após a primeira destruição da cidade, · bém sumamente necessárias à perfeição da natureza humana
quando foram levados cativos para Babilónia, como na altura à sua beatitude 5 . Veja-se como aqueles que vivem na barbárie
·!: j não estavam, que eu saiba, divididos em seitas, negligenciaram
logo as cerimónias, abandonaram por completo a própria lei de
sem organização política levam uma vida miserável, quase de
·mais, e mesmo esse pouco que têm, por miserável e rude
"l Moisés, esqueceram o direito da sua pátria como algo de intei- .e seja, só o conseguem através da cooperação mútua, seja ela
ramente supérfluo e começaram a misturar-se com as outras llal for.
nações, conforme consta sobejamente em Esdras e Neemias. ~ Se os homens fossem por natureza constituídos de modo a
É, portanto, evidente que, após a dissolução do Estado, os Ju- )que não desejassem senão o que a recta razão indica, com certe-
1
!
194 195
za que a sociedade não necessitaria de quaisquer leis, bastando .bmissão à au toridade de outrem, mas ao seu próprio consenso.
apenas fornecer aos homens os verdadeiros ensinamentos morais . quando é só um a deter o poder absoluto, acontece o con-
para que, espontaneamente e de inteira e livre vontade, fizessem :ário; aí, todos executam as ordens do poder submetendo-se à
aquilo que é verdadeiramente útil. Quão diferente, porém, é a .toridade de um só e, por isso, se não tiverem · sido, desde o
constituição da natureza humana! Todos procuram o que lhes é incípio, educados de maneira a estarem sempre dependentes
útil, mas não pelo ditame da recta razão, antes arrastados pela ' palavra daquele que manda, será muito difícil a este, em
concupiscência e as paixões (sem terem em conta o futuro QU qu~- o de necess idade, instituir leis novas e tirar ao povo a liber-
quer outra coisa) · julgam úteis · as coisas · qüe desejam. Dé\í que e depois de lha ter concedido urna vez 8.
[74J nenhuma sociedade possa subsistir sem o poder e a _ força, nem, l Feitas estas considerações de ordem geral, passemos agor a
por conseguinte, sem leis que moderem e coíbam a concüpiscêh- ·epública dos Hebreus. Quando estes saíram do Egipto, deixa-
cia e os desenfreados impulsos dos homens 6 • A nat~eza huma- '. de estar sujeitos ao direito de uma outra nação, pelo que
. .
na, p(?rérn, não tolera ser totalmente coagida ·e,· corno diz -· "
- - Séneca, era lícito promulgar novas leis a seu bel-prazer, isto é, cons- [751
;11

il o Trágico, os poderes violentos ninguém os aguenta por muito ir um novo ordenamento jurídico, estabelecer um ·Estado no
'Iil tempo, os moderados, pelo contrário, perduram. Na verdade, al onde quisessém e ocupar as terras que lhes apetecesse .
,J,' quando os homens agem apenas por medo, fazem o que detes- tudo, não havia nada para que estiy:essem roenos aptas que
l,11
!111
tam e não se importam com a utilidade nem com a necessidade ta determinar ~s regras do ' direito· e _manter colegialmente ~
daquilo que devem fazer, procurando unicamente não pôr a ca- aer. Eram quase todos de natureza rude e estavam alquebra-
beça em risco ou expor-se ao suplício. Por outro lado, é impos- .Ja penosa escravidª9,..Par iss~ . o poder teve d€ ficar nas
sível que não se alegrem com o mal e os danos daquele que os de um só, que mandasse nos outros e os coagisse pela
1, ~j
tem o poder, ainda que isto signifique também o seu próprio :ça e que, finalmente, lhes prescrevesse leis e, de futuro, as
mal, e que não lhe desejem e causem todos os danos que pude- ·rpretasse. Mas Moisés conseguiu facilmente manter este poder,
rem. Porque §lguilo que os homen~ !ll-~nQs.fillP-~ _ é estar su!>- s ,era superior aos outros por uma virtude 9 divina e persua-
metidos aos seus semelhantes e ser dirigidos por eles. E não há o povo de que a ossuía, a resentando-lhe numerosos tes-
nada, enfim, mais difícil que tirar-lhes a liberdade depois de os ver xodo, cap. xrv, último versículo, e cap. xrx,
t,.:.--- -:-'
lha ter concedido. te modo, através desta virtude que o distinguia, ele instituiu
~ OSegue-se daqui, em primeiro lugar, que o poder, ou está ireito divino e prescreveu-o ao povo, tendo, no entanto, o
colegialmente nas mãos de toda a sociedade, se isto for possí- ·or cuidado a fim de que este cumprisse a sua obrigação, não
vel, de modo a que cada um obedeça a si mesmo e ninguém ao to por medo, mas de livre vontade. Foram sobretudo duas
seu semelhante; ou então, se estiver nas mãos de uns tantos ou razões que o obrigaram a agir assim: o carácter insubmisso
até de um só, este terá de possuir algo de superior ao que é ' povo (que não suporta ser obrigado unicamente pela força)
comum na natureza humana ou ao menos tentar com todas as 1jl ameaça de guerra, onde, para se ter êxito, é mais necessário
suas forças persuadir disso o vulgo 7• Em segundo lugar, as leis, Ortar os soldados que aterrorizá-los com castigos e ameaças,
qualquer que seja o Estado, devem ser inst ituídas de forma a ·· ,is assim cada um deles procurará antes brilhar pela virtude e
que os homens se sintam constrangidos, não tanto pelo medo , grandeza de ânimo que evitar simplesmente o suplício.
como pela esperança de algum bem que desejem acima de tudo. Foi por esta razão que Moisés, por virtude e mandato divi-
Só assim é que cada um cumprirá de boa vontade a sua obriga- , introduziu a religião na república, a fim de que o povo cum-
ção . Por último, visto que a obediência consiste em executar isse o seu dever, não tanto por medo, corno por devoção.
,, ordens devido apenas à autoridade de quem manda, segue-se i , ém disso, aliciou-os com benefícios, prometeu-lhes, em nome
11 que ela não tem qualquer lugar numa sociedade em que o poder .e Deus, inúmeras coisas para o futuro e não promulgou leis
t
está nas mãos de todos e onde as leis estão sancionadas pelo ., cessivamente severas, corno concordará qualquer pessoa que
consentimento comum: aí, quer aumente, quer diminua o número estude, sobretudo se reparar nas circunstâncias que eram re-
das leis, o povo continua igualmente livre, pois não actua por ueridas para condenar qualquer réu. Por último, para que o

196 197
povo, incapaz de ser juridicamente autónomo, estives se depen-
dente da palavra daquele que detinha o poder, não permitiu
'

ij·:
..io
,
, ',·também dos princípios do Novo Testamento, e talvez até mostrá-
com mais testemunhos evidentes, prefiro, no entanto, deixar
que estes homens, acostumados à escravidão, fizessem fosse o l,',ssa questão porque estou com ~ressa de abordar outras. Passo,
que fosse a seu bel-prazer. De facto, o povo não podia fazer }l,ois, ao que decidi tratar em segundo lugar neste capítulo: a
nada sem que, ao mesmo tempo, não fosse obrigado a lembrar- " uem e por que razão é necessária a fé nas narrativas históricas
-se da lei e a executar ordens que dependiam apenas do arbí- intidas nos Livros Sagrados . Para in~estigar este assunto atra-
i. ·és da luz natural, parece ter de se proceder como se segue.
trio do que mandava. Não podia lavrar, semear ou ceifar à von-
tade, mas só ·de · acordo com ·um certo · é · determinado preceito Se alguém quer persuadir ou dissuadir os homens de algu-
coisa que não é conhecida por si mesma, deverá, para eles a
da lei; nem sequer podia ,comer alguma coisa, · vestir-se, cortar o
itarem, deduzi-la a partir daquilo que eles já admitem e con-
cabelo ou a barba, divertir-se .oú fazer fosse o que fosse . a: não
( e
ser de acordo com as ordens indicações prescritas rias_l~is. E_não
t~cê-los pela experiência ou pela 'razão, isto é, com base em
'".tos cuja ocorrência natural é experimentada pelos sentidos,
era só isto. Até por cima das portas, nas mãos e entre os olhos
com base em axiomas do entendimento conhecidos por si.
'"''
ff r
fu ~, eram obrigados a ter certos sinais que continuamente os cha -
,rém, se a experiência não for de modo a compreender-se ela-
.
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Ji
[76] massem à obediência. O objectivo das cerimónias foi, portanto,
fazer com que os homens não fizessem nada por sua própria
e distintamente, ainda que convença alguém, não conseguirá (77]
,;.:
gir-lhe o entendimento nem dissipar-lhe as dúvidas da mes-
deliberação, mas tudo a mando de outrem, e reconhecessem, maneira que se as coisas que se querem ensinar são deduzi-
por contínuas acções e meditações, que não eram donos de si apenas de axiomas intelectuais, isto é, da virtude apenas do
mesmos e estavam, pelo contrário, inteiramente submetidos ao lecto e da ordem das percepções, sobretudo quando se trata
direito de outrem. : uma coisa espiritual e que de modo nenhum é abrangida
De tudo quanto dissemos, resulta com meridiana clareza que i os sentidos. A verdade é que, para deduzir algo a partir
os rituais nada adiantam para a beatitude e que os do Antigo ·.camente de noções intelectuais, se requer muitas vezes um
Testamento, até mesmo toda a lei de Moisés, têm unicamente .go encadeamento de percepções, além de uma extrema pru-
em vista o Estado dos Hebreus e, por conseguinte, os bens da, perspicácia e a maior contenção, tudo coisas que é raro
materiais. Quanto às cerimónias dos cristãos, tais como, o bap- rvar-se nos homens, razão pela qual eles preferem ser ensi-
tismo, a ceia dominical, as festas, as orações públicas e outras os pela experiência a ter de deduzir todas as suas percep-
semelhantes, que são e sempre foram comuns a todo o cristia- s de um pequeno número de axiomas e encadeá-las umas
nismo, se de facto elas foram alguma vez instituídas por Cristo ' ~ outras. Assim, se alguém quiser ensinar uma doutrina a toda
ou pelos apóstolos (o que, para mim, não está ainda bem escla- a nação, para não dizer a todo o género humano, e quiser
recido), foram-no apenas a título de sinais exteriores da Igreja ir entendido por todos e em todos os pormenores, terá de a
universal e não como coisas que contribuam para a beatitude ou Anonstrar unicamente pela experiência e adaptar os seus argu-
que tenham em si mesmas algo de santificante. Por isso, muito .entos e as definições das coisas a ensinar à compreensão da
embora estas cerimónias não tenham sido instituídas em função tebe, que constitui a maior parte do género humano, em vez
de um Estado, foram-no contudo em função de toda a socie- ·os encadear e de apresentar as definições que melhor servi-
dade; consequentemente, quem viva isolado não está de forma para esse efeito . Caso contrário, escreverá unicamente para
alguma obrigado a elas. Além disso, quem viver num Estado , sábios, quer dizer, não poderá ser entendido senão por um
onde a religião cristã é interdita está obrigado a abster-se dessas º.
ero de homens proporcionalmente muito reduzido 1 Ora,
cerimónias e, no entanto, pode ainda assim viver em beatitude. , mo toda ·a Escritura foi revelada, primeiro, para uso de toda
Temos um exemplo disto no reino do Japão, onde a religião a nação e, depois, para todo o género humano, o seu con-
cristã é interdita e os Holandeses que aí vivem são obrigados, iído deve estar, necessariamente, adaptado à compreensão da
por determinação da Companhia das Índias Orientais, a absterem- .ebe e comprovar-se apenas pela experiência.
-se de todo o culto externo. Não tenciono recorrer a outra auto- Vejamos melhor esta questão. O que a Escritura quer en- ·
ridade para o confirmar. E embora não fosse difícil deduzi-lo i8inar de natureza apenas especulativa é, essencialmente, o se-

198 199
:,Ili'
li''
j:
1
1 guinte: existe um Deus, ou seja, um ser que fez, dirige e susten- tâncias e parte s da doutrina quantas as que deveriam extrair-se
.,;J
ta todas as coisas com suma sabedoria, que cuida dos homens, de tantas e tão diversas histórias? Eu, pelo menos, não consigo
ou melhor, daqueles que vivem piedosa e honestamente, já que , convencer-me de que os homens que nos deixaram a Escritura,
aos outros ele os castiga com numerosos suplícios e os aparta r tal como nós a temos, fossem assim tão dotados que pudessem
dos bons. Tudo isto a Escritura comprova apenas pela experiên- seguir uma tal demonstração, e muito menos de que a doutrina
cia, quer dizer, pelas histórias que narra, sem apresentar qual- da Escritura só possa compreender-se depois de ouvir contar as
quer definiçã _o d~stas .coisas e -adaptando .todas as palavras - e altercações de Isaac, os conselhos de Aquitofel a Absalão, a
todos os argumentos à compreensão do vulgo. E embora a ex- guerra civil dos Judeus e dos Israelitas, e coisas parecidas que
periência não possa fornec~r de tais éoisas nehhurn conh~cirµ_en- .. vêm nas crónicas. Quando não, para os primeiros J~deus, os
to claro, nem ensinar o que é. Deus e de -que forma ~le conserva .· que viveram no tempo de Moisés, a doutrina não seria tão fácil
e dirige todas as coisas e cuida dos homens, ela ·pode contudo ~ de demonstrar através de histórias como para aqueles que vive- (791
instruir e esclarecer os homens o suficiente para lhes imprimir :,tam no tempo de Esdras. Mas, sobre isto, já falaremos mais em
(7BJ no ânimo a obediência e a devoção. Assim sendo, creio que pormenor.
resulta claro a quem e por que razão é necessária a fé nas histó- O vulgo, por conseguinte, só tem de conhecer as histórias
rias que vêm nos Livros Sagrados. É, com efeito, evidente, pelo 1;que melhor possam incutir-lhe no ânimo a obediência e apieda-
que acabei de mostrar, que o conhecimento e a fé nessas histó- ll de. Mas, o vulgo não é suficientemente apto para julgar sobre
rias são extremamente necessários ao vulgo, cuja compleição é estas matérias, pois gosta mais das narrativas e do lado insólito
incapaz de perceber as coisas clara e distintamente 11. Por outro · e inesperado das coisas do que propriamente da doutrina das
lado, quem não acredita nessas histórias porque não crê que ,_histórias. Daí que, além da leitura destas, precise ainda de pas-
Deus exista e providencie pelas coisas e pelos homens é um ímpio. iftores
,. ou ministros da Igreja que o ensinem de maneira adequa-
Porém, aquele que as ignora e todavia conhece pela luz natural :da à sua débil compleição.
que Deus existe e tudo o mais que já dissemos, e que possui, Não nos afastemos, porém, do nosso intento e concluamos
além disso, a verdadeira regra de vida, esse é inteiramente feliz, aquilo que pretendíamos, antes de mais, demonstrar, a saber,
muito mais até do que o vulgo, pois além de opiniões verdadei- . que a fé nas histórias, quaisquer que elas sejam, não tem a ver
ras tem, acima de tudo, um conceito claro e distinto. É, por com a lei divina, não conduz, só por si, os homens à beatitude,
último, evidente que todo aquele que ignora estas histórias da ) nem possui qualquer utilidade a não ser em função da doutrina,
Escritura e não conhece nada pela luz natural, se não é ímpio :única razão por que certas histórias podem ser consideradas mais
ou insubmisso, é, com certeza, desumano, quase um animal, e :'importantes que outras . As narrativas que vêm no Antigo e no
não possui nenhum dom de Deus. ri' Novo Testamento são, por conseguinte, mais importantes que as
Note-se que, ao dizermos aqui ser extremamente necessário narrativas profanas, e são entre elas mais importantes umas que
o vulgo conhecer as histórias da Escritura, não nos referimos ao as outras, conforme as opiniões mais ou menos salutares que
conhecimento de absolutamente todas as histórias que vêm na delas se extraírem. Porque se alguém ler as histórias da Escri-
Sagrada Escritura, mas apenas das principais, daquelas que, só tura Sagrada e tiver fé em todas elas, sem contudo atender à dou-
por si, mostram com a maior evidência a doutrina que referi- trina que a mesma Escritura tenta por esse meio ensinar, nem
mos atrás e são as que melhor podem mover os ânimos dos corrigir a sua vida, é a mesma coisa que ler o Alcorão, poemas
homens. Se todas as histórias da Escritura fossem necessárias dramáticos ou mesmo crónicas triviais com aquela atenção com
para provar a sua doutrina, e se não se pudesse chegar a uma que o vulgo costuma lê-las. Pelo contrário, e corno já dissemos,
conclusão sem primeiro as tornar a todas em consideração, nesse aquele que ignora totalmente essas narrativas mas tem opiniões
caso, a demonstração e a conclusão dessa doutrina estariam aci- salutares e uma verdadeira regra de vida, esse possui em abso-
ma da compreensão e das forças, não só do vulgo, mas de todo luto a beatitude e tem em si, realmente, o espírito de Cristo.
o homem. Quem, efectivamente, poderia atender ao mesmo Os Judeus, todavia, julgam precisamente o oposto. Para eles,
tempo a um tão grande número de narrativas, a tantas circuns- as opiniões verdadeiras e uma verdadeira regra de vida em nada

200 ?n1
adiantarão para a beatitude enquanto os homens as abraçarem
só pela luz natural e não como ensinamentos revelados profeti-
camente a Moisés. Maimónides ousa afirmá-lo abertamente, por
estas palavras (Reis, cap. vm, lei 11): todo aqueleque recebeuos sete
[80J preceitos·, e os cumpriu diligentemente,esse é um dos homens piedosos
das nações e herdeiro do mundo de amanhã, na condição,porém de os
ter aceite e cumprido porque Deus os prescreveuna lei e nos revelou
através de Moisés que eles·tinham siâo anteriormentedadosaosfilhos de
CAPÍTIJLO VI [81)
Noé; porque, se os tiver cumprido_~evado~penaspela.razão, não se in-
clui entre os piedososnem entre as sábiosdas nações.A estas palavras DOS MILAGRES
de Maimónides, R. Joseph 12, filho de Sh_em Tob, acrescentà, no
seu livro Kebod Elohim, ou seja, Glória de Deus, quê ainda que
Aristóteles (que ele j~lga ter escrito o supra-sumo da ética e
considera superior a todos) não tivesse omitido nada daquilo
Da mesma forma que chamam divina à ciência que ultrapas-
que respeita à verdadeira ética e que também defende na sua
Etica, mesmo tendo cumprido zelosamente tudo isso, de nada sa a capacidade de compreensão humana, assim também a uma
lhe adiantou para a salvação, pois não assumiu os princípios que . obra cuja causa o vulgo desconhece os homens costumam cha-
ensina como verdades divinas profeticamente reveladas, mas t, mar divina ou de Deus. O vulgo, com efeito, pensa que a provi-
apenas como imperativo da razão. Mas tudo isto é ficção sem ,; dência e o poder de Deus nunca se manifestam tão claramente
qualquer fundamento, nem na razão, nem na autoridade da Es- e.como quando vê acontecer algo de insólito e contrário à opi-
critura, como creio ser evidente para quem quer que o tenha nião que habitualmente faz da natureza, em especial se resultar
lido atentamente. Para refutar coisas destas, basta mencioná-las. em seu proveito ou vantagem. Além disso, julga que não existe
1
Tão-pouco está no meu propósito refutar aqui a opinião dos . prova mais clara da existência de Deus que o facto de a nature-
1
que pretendem que a luz natural não pode ensinar nada de útil za, ao que ele supõe, não manter a sua própria ordem, razão
no que respeita à verdadeira salvação. Quem a si mesmo não pela qual crê que todos aqueles que explicam ou tentam com-
reconhece uma réstia de razão nada pode provar pela razão. preender as coisas e os milagres por causas naturais negam Deus
E se eles se vangloriam de possuir algo de superior à razão, ou, pelo menos, a sua providência. Por outras palavras, pensa
isso não passa de pura ficção, de longe inferior à razão, como já que Deus está inactivo quando a natureza age de acordo com a
foi suficientemente evidenciado pelo seu modo habitual de vi- · prdem normal e que, por seu turno, a potência da natureza e as
verem. Mas sobre isto não é preciso falar mais abertamente . causas naturais ficam inactivas quando Deus age. Imagina, as-
Acrescentarei apenas que não se pode conhecer ninguém a sim, duas potências numericamente distintas uma da outra: a
r. não ser pelas suas obras. Por isso, quem produzir em abundân- potência de Deus e a potência das coisas naturais, se bem que
cia frutos como a caridade, a alegria, a paz, a paciência, a bene- esta última seja de certo modo determinada por Deus ou por
volência, a bondade, a fé, a afabilidade e a temperança, aos · , ~le criada, como pensa hoje em dia a maior parte das pessoas.
quais, como diz Paulo, na Epístola aos Gálatas, cap. v, 22, a lei Se lhe perguntarem o que entende por essas potências, ou o
não se opõe, esse, quer seja instruído só pela razão ou só pela
que entende por Deus e por natureza, decerto nada sabe; quan-
Escritura, é realmente instruído por Deus e absolutamente feliz.
do muito, imagina a potência de Deus como o poder de uma
E é tudo quanto tinha decidido tratar a respeito da lei divina .
majestade régia e a da natureza como uma força e um impulso 1.
O vulgo chama, portanto, milagres ou obras de Deus aos
factos insólitos da natureza e, em parte por devoção, em parte
• Os Judeus pensam que Deus deu sete mandamentos a Noé, os únicos
a que estariam sujeitas todas as nações, mas que teria dado muitos mais ao
pelo desejo de contrariar os que cultivam as ciências da natu-
povo hebreu, a fim de o tomar superior aos outros em beatitude . reza, prefere ignorar as causas naturais das coisas e anseia por

202 203
w;1·
i} ouvir falar só do que mais ignora e que, por isso mesmo, m , que tudo aquilo que Deus quer ou determina envolve ne-
:1•.
i1!:
.1
·11• admira. Isto, porque a única maneira de ele adorar a Deus sidade e verdade eternas. Mostrámos, com efeito, que, uma
,1, que o entendimento divino se não distingue da sua von-
J,J atribuir tudo ao seu poder e à sua vontade é elidindo as causas ·
naturais e imaginando coisas estranhas ao curso da natureza: e, é igual dizer que Deus quer uma coisa ou que ele a en-
J, Nunca ele admira tanto a potência divina como quando imagina ·.de.Sendo assim, com a mesma necessidade com que da na-
1J, a potência da natureza como que subjugada por Deus. A ori~ eza e perfeição de Deus resulta que ele entende uma coisa
gem disto parece remontar aos antigos Judeus, os quais, para ~como ela é, resulta também que ele a quer como ela é. Dado,
li.iiJ convencer os gentios ·de então, que adoravam deuses visíveis:.s, itém, que não há nada que seja necessariamente verdadeiro a
1:/' tais como, o Sol, a Lua, a T~na, a: Água, o Ar, etc., e mostrar,,: .o ser por decreto divino, segue-se claramente que as leis uni-
[82] -lhes que esses deuses eram _fra.cos i inconstantes OU· mutáveis 1· :rsais da natureza são meros decretos de Deus que resultam [831
submetidos à autoridade do Deus invisível,
. narravam . os·seu '1,necessidade e da perfeição da natureza divina. Se, por con-
i~ milagres, tentando assim demonstrar também- que . toda a natu~ . te, acontecesse na natureza algo que repugnasse às suas
reza era dirigida em seu benefício exclusivo pelo poder do Deu, ! ' universais, repugnaria, necessária e igualmente, ao decreto,
11:
i.·
-~
.
1!,, que adoravam. E, de facto, isto agradou de tal maneira ads , entendimento e à natureza de Deus; ou, se alguém susten-
"I
homens que, até hoje, ainda não pararam de inventar milagre e que Deus faz alguma coisa contrária às leis da natureza,
para fazer crer que Deus os ama a eles mais do que a tudo e. ·a também obrigado a sustentar que Deus age contra a sua
'li resto e que são a causa final por que Deus criou e rege conti.!,.
nuamente todas as coisas. Do que não se arroga a insensatez dp
1 pria natureza, e não há nada mais absurdo. Poderíamos ainda
onstrá-lo facilmente pelo facto de a potência da natureza
1 vulgo, que não tem de Deus nem da natureza um só conceitq .~ a própria potência e virtude de Deus e de a potência divina
correcto, que confunde as resoluções de Deus com as dos ho- , 'ir, por sua vez, exactamente o mesmo que a essência de Deus,
mens e que imagina, enfim, a natureza de tal modo limitada · . s prefiro, por enquanto, omitir este aspecto 2 .
que acredita ser o homem a sua parte principal! .· ; Na natureza ·, portanto, não acontece nada que seja contrá-
Já descrevi com bastante pormenor as opiniões e preconcei- l às suas leis universais, ou até que não esteja de acordo ou
tos do vulgo sobre a natureza e os milagres, mas, para apresen- ' .e não seja uma consequência delas. Com efeito, tudo o que é
tar metodicamente o assunto, mostrarei a seguir: 1. que nad~ ~
0

ito é feito pela vontade e o eterno decreto de Deus, que o


;I'
1' acontece que seja contrário à natureza e que esta mantém uma :
ordem eterna, fixa e imutável, e bem assim o que deve enten"'.,;
der-se por milagre; 2.0 que não se pode conhecer pelos milagres
esmo é dizer, conforme já mostrámos, tudo o que é feito é
'ito segundo leis e regras que implicam eterna verdade e ne-
1 '
;essidade. A natureza observa sempre leis e regras que impli-
nem a essência, nem a existência, nem, por conseguinte, a pro- i
etema verdade e necessidade, se bem que não as conheça-
vidência de Deus, ao passo que pela ordem fixa e imutável da
' natureza podemos conhecer tudo isso muito melhor; 3.0 mostra- ',.
rei ainda, através de alguns exemplos tirados da Escritura, que 1 1
os a todas e, por conseguinte, observa também uma ordem
f'"'-a e imutável. Nem há qualquer razão válida que nos leve a
esta não entende pelos decretos e ordens de Deus e, conse- ·p.tribuir à natureza uma potência e uma virtude limitadas e a
quentemente, pela sua providência outra coisa senão a própria concluir que as suas leis se aplicam unicamente a certas coisas e
ordem da natureza, que deriva necessariamente das suas leis i,não a todas. Porque se a virtude e a potência da natureza são
eternas; 4. 0 por último, tratarei do modo como interpretar os ,-as próprias virtude e potência divinas, se as leis e regras da
milagres da Escritura e daquilo a que na sua descrição se deverá ·· natureza são os próprios decretos de Deus, então temos absolu-
prestar especial atenção. São estes os pontos principais relativa- tamente de admitir que a potência da natureza é infinita e que
mente ao tema do presente capítulo e que julgo serem da maior
importância para os objectivos de toda esta obra.
No que toca ao primeiro ponto, mostra-se facilmente a par· • Por natureza , não entendo aqui só a matéria e as suas afecções, mas
tir do que demonstrámos no cap . IV acerca da lei divina, a sa- toda uma infinidade de outras coisas.

204 205

!
"' ti

,.1
!~ as suas leis são tão amplas que se estendem a tudo o que é Visto que a existência de Deus não é conhecida por si mes-
!~ r concebido pelo próprio entendimento divino. De outro modo
teríamos de admitir que Deus criou uma natureza de tal manei-
ma*, ela deve necessar iamente deduzir-se de noções cuja ver-
. dade seja tão firme e inabalável que não possa haver nem con-
ra impotente e que as suas leis e regras são tão ineficazes que ,. ceber-se uma potência capaz de as alterar. Pelo menos a partir
11,i1,:·1:1,1
'
ele se vê frequentemente obrigado a vir de novo em seu auxílio do momento em que delas concluímos a existência de Deus, es-
se quer que ela se conserve e que as coisas se passem conforme ,sas noções devem aparecer-nos como tal, se queremos que a
•I deseja, o que presumo . ser completamente contrário à razão. . conclusão esteja a salvo de qualquer risco de dúvida. Porque se
1'
A partir, .pois~ do facto de nada . acontecer na natureza que ,as pudéssemos conceber como alteráveis por alguma potência,
não dependa das suas leis,: de estas ·se estenderem a tudo o que 'qualquer que ela fosse, então duvidaríamos da sua verdade e,
o entendimento divino concebe 'e de, .finalmente, a n~tureza consequentemente, também da nossa conclusão, isto é, da exis-
manter uma ordem fixa e imutável, restµfa .cl~i:o. qt.Íe·.a: palavra . tência de Deus, e jamais poderíamos estar certos de alguma coisa.
«milagre» só pode ser entendida relativamente às opiniões hu- Por outro lado, só sabemos se uma coisa está de acordo ou
(84] manas e não significa senão um facto cuja causa natural não po- 'l contradiz a natureza se demonstrarmos que ela está de acordo
demos explicar (ou, pelo menos quem escreve ou narra o mila- QU contradiz estes princípios. Assim, se fosse concebível que al-
gre não pode explicar) por analogia com outra coisa que ocorre Jguma potência (qualquer que ela fosse) fizesse na natureza algo 1ss1
:1
'.í
habitualmente. Poderia certamente dizer que um milagre é algo )que à natureza repugnasse, isso repugnaria a essas noções pri-
de que não podemos explicar a causa pelos princípios das coisas meiras e teríamos, portanto, de o rejeitar como absurdo ou du-
naturais conhecidos pela luz natural. Mas visto que os milagres vidar das noções primeiras (como acabámos de mostrar) e, con-
foram feitos de acordo com a compreensão do vulgo, o qual :,sequentemente, de Deus e de tudo quanto percebemos, seja de
ignorava totalmente os princípios das coisas naturais, não há !que modo for. Longe, pois, de demonstrarem a existência de
dúvida de que aquilo que os antigos consideravam milagre era Deus, os milagres, se por isto entendermos um facto que repug-
o que não podiam explicar da maneira como o vulgo habitual- a à ordem natural, fariam com que dela duvidássemos; pelo
mente explica as coisas naturais, isto é, recorrendo à memória contrário, sem eles, podemos estar absolutamente certos dela,
para se recordar de uma coisa semelhante que ele costuma ima- porquanto sabemos que tudo segue a ordem certa e imutável
ginar sem se admirar. Na verdade, o vulgo julga que et\tende da natureza. ·
Suponhamos, porém, que o milagre é aquilo que não pode
bem uma coisa quando não fica admirado com ela. qs antigos,
ser explicado por causas naturais, definição que pode entender-
e. quase todos os homens até aos nossos dias, avaliaram os mi-
-se de duas maneiras, seja que tem causas naturais mas elas es-
lagres unicamente por este critério, e não há dúvida de que nas
Sagradas Escrituras se descrevem como milíigres muitos factos
cujas causas podem facilmente explicar-se pelos princípios que
se conhecem das coisas naturais, conforme já indicámos mais , * Anotação VI. Duvidamos da existência de Deus e, consequentemente, du-
vidamos de tudo, enquanto dele tivermos, não uma ideia clara e distinta, mas
acima, no capítulo n, quando falámos da paragem do Sol que se apenas uma ideia confusa . Porque assim como aquele que não conhece cor-
verificou no tempo · de Josué e do seu retrocesso no tempo de rectamente a natureza do triângulo ignora que os seus três ângulos são iguais
Acaz. Trataremos, daqui a pouco, mais em pormenor deste as- a dois rectos, também o que concebe a natureza divina confusamente não vê
pecto, ou seja, da interpretação dos milagres, de que prometi que nela está incluída a existência. Ora, para que a natureza de Deus possa ser
por nós concebida clara e distintamente, é necessário ter em conta certas no-
falar no presente capítulo . Por agora, é tempo de passar ao se- ções muito simples a que chamamos comuns e encadear nelas aquilo que
gundo ponto e mostrar que não se pode entender, através dos pertence à natureza divina. Só então se nos tomará claro, primeiro, que Deus
milagres, nem a essência, nem a existência, nem a providência existe necessariamente e está em toda a parte; segundo, e em simultâneo, que
de Deus, e que tudo isso pode compreender-se muito melhor tudo o que nós concebemos envolve em si a natureza de Deus e é concebido
pela ordem fixa e imutável da natureza. Para o demonstrar, por ela; por último, que é verdadeiro tudo o que nós concebemos adequada-
mente. Mas, sobre isto, veja-se o prólogo do livro intitulado Princípios de Filo-
procedo como se segue. sofia Demonstrados segundo o Método Geométrico.

206 207
!
capam ao entendimento humano, seja que não admite outra causa todas essas causas juntas, mas superior em muito à de cada uma
senão Deus, isto é, a vontade divina. Dado que tudo o que é em particular. Visto, porém, que as leis da natureza (como já
produzido por causas naturais é produzido também graças ape- mostrámos) se estendem ao infinito e são concebidas por nós
nas à potência e à vontade de Deus, chega-se necessariamente à sob uma certa espécie de eternidade, e visto que a natureza
conclusão de que um milagre, quer tenha ou não causas natu- ,, procede de acordo com elas numa ordem certa e imutável, tais
rais, é um facto que não pode explicar-se pela causa, isto é, que leis indicam-nos, de algum modo, a infinidade, a eternidade e a
ultrapassa a compreensão humana. Todavia, a partir de um fa~to '..'imutabilidade de Deus. Concluímos, pois, que pelos milagres não
ou de qualquer coisa que ultra.passa a nossa compreensão, nada t podemos conhecer Deus, nem a sua existência e a sua providên-

podemos conhecer. Com efeito, tud9 o que __conhecemos clara e ·;eia, ao passo que da ordem fixa e imutável da natureza as po-
distintamente deve ser conhec _ido, ou por si, ou por qu·alquer ( demos deduzir muito melhor.
outra coisa que se conhece por ·si mesma clara e distintamente. Quando falo, nesta conclusão, de milagre, não entendo por
,1n, Donde, pelo milagre, isto é, por um facto qüé ultràpàssa a nos- 'il5to senão um facto que ultrapassa ou é suposto ultrapassar a
'I
sa compreensão, não podemos entender nem a essência, nem a 'compreensão humana, pois, se supuséssemos que ele destrói ou
l!1i n existência, nem seja o que for de Deus e da natureza. Pelo con- '.interrompe a ordem da natureza, ou repugna às suas leis, não
1

,1 trário, uma vez que todas as coisas estão, como sabemos, deter- ·sónão poderia, como já dissemos, fornecer qualquer conheci-
',li., minadas e prescritas por D~us, que as operações da natureza 1mento de Deus, como até suprimiria o que dele temos natural-
são consequências da essência de Deus e que as leis da natureza mente, fazendo-nos duvidar de Deus e de tudo o mais. Nem
:11,1 correspondem a eternos decretos e vontades de Deus, temos tão-pouco estabeleço aqui qualquer distinção entre um facto an-
i'
absolutamente de concluir que se conhece tanto melhor Deus e ~atural e um facto sobrenatural 4, isto é, um facto que, como
a sua vontade quanto melhor conhecemos as coisas naturais 3 e f~lguns dizem, apesar de não contrariar a natureza, não pode,
mais claramente entendemos de que modo elas dependem da p.oentanto, ser produzido ou efectuado por ela. Na verdade,
sua causa primeira e operam segundo as eternas leis da natu- ~orno o milagre não se efectua fora da natureza mas sim na
reza . Daí que, em relação ao nosso entendimento, há muito mais :própria natureza, ainda que o tenhamos por sobrenatural, é ne-
razão para chamar obras de Deus e atribuir à sua vontade aqui- ·cessário que ele interrompa a ordem da natureza, a qual, por
lo que entendemos clara e distintamente do que aquilo que de hutro lado, nós concebemos como fixa e imutável em virtude
todo em todo ignoramos, muito embora preencha a imaginação .dos decretos de Deus. Portanto, qualquer coisa que se produ-
dos homens e os arrebate de admiração. Na verdade, só as obras zisse na natureza e que não fosse consequência das suas leis
[861 da natureza que entendemos clara e distintamente oferecem de /tepugnaria necessariamente à ordem que Deus estabeleceu para
Deus o conhecimento mais sublime e indicam sem sombra de ,,toda a eternidade mediante as leis universais da natureza e, (87]
dúvida a sua vontade e os seus decretos. Estão, portanto, a 'portanto, seria contrário à natureza e às suas leis. Consequente-
brincar os que invocam a vontade de Deus sempre que não sa- inente, acreditar nisso far-nos-ia duvidar de tudo e conduziria
bem explicar uma coisa. Que maneira mais ridícula de confessar ao ateísmo 5. Julgo ter assim demonstrado o que havia proposto
a ignorância! i;no segundo ponto, e com argumentos bastante sólidos, de onde
Além disso, ainda que pudéssemos tirar alguma conclusão ,;;podemos uma vez mais concluir que o milagre, contra a natureza
dos milagres, nem assim se poderia de forma alguma concluir a ou acima da natureza, é simplesmente um absurdo. Por essa
existência de Deus. De facto, sendo o milagre uma obra limita- , razão, nos Livros Sagrados, não pode entender-se por milagre
da e que nunca exprime senão uma certa e limitada potência, .é . senão um facto natural que ultrapassa ou é suposto ultrapassar
li evidente que de um tal efeito não podemos concluir a existência
de uma causa cuja potência seja infinita; no máximo, de uma
1
a compreensão humana .
Antes de passar ao terceiro ponto, convém primeiro confir-
lj causa cuja potência seja maior. E digo «no máximo», porque do mar pela autoridade da Escritura a nossa afirmação de que não
concurso de muitas causas em simultâneo . pode obter-se tam- podemos conhecer Deus pelos milagres. Embora a Escritura em
:1 bém um efeito cuja força e potência seja inferior à potência de , parte alguma o ensine abertamente, é, contudo, fácil deduzi-lo,
8

208 209
antes de mais, do facto de Moisés (Deut., cap . xrn) prescrever aos Israelitas sinais de si para que soubessem que ele era Deus,
que condenem à morte o profeta sedutor, ainda que ele faça não se conclui daí que os milagres ensinem realmente isso, mas
milagres. Diz Moisés: e (mesmo que) apareçao sinal e o prodígio apenas que os Judeus possuíam opiniões tais que podiam facil-
que ele te anunciou, etc., não queiras (ainda assim) acreditarnas pa- mente deixar-se convencer por aqueles milagres . Já atrás, no
lavras desse profeta, etc., porque o Senhor vosso Deus vos tenta, etc. capítulo 11, tínhamos com efeito deixado claro que os argumen-
Que esse profeta seja (portanto) condenadoà morte, etc . Donde se ' tos proféticos, isto é, os argumentos com base na revelação, não
segue, com toda a clareza, que os milagres podem ser feitos ; se obtêm a partir de noções universais e comuns, mas sim a
por falsos profetas e que os homens, se não estiverem munidos
do verdadeiro conhecimento . e amor de D.~us, tão facilmente
· partir dos preconceitos, mesmo que sejam absurdos, e das opi-
'biões daqueles a quem é feita a revelação ou a quem o Espírito
podem, pelos milagres, acreditar nos falsos deuses cOino :no Santo quer convencer, conforme explicámos por variadíssimos
verdadeiro. Moisés, com efeito, àcrescerita: pois que·Jeov.á,vosso ~emplos e, inclusive, pelo testemunho de Paulo, que era grego
Deus, vos tenta, para saber se porventura o amais com todá o vosso · tre os Gregos e judeu entre os Judeus 7 . Porque, embora tais
coração e todo o vosso ânimo. Por outro lado, os Israelitas, com · •
1
agres pudessem convencer os Egípcios e os Judeus com base
tantos milagres, nunca conseguiram formar uma ideia correcta
.os seus preconceitos, não lhes podiam fornecer uma ideia e
de Deus, como atesta a própria experiência. De facto, quando
conhecimento verdadeiro de Deus; podiam apenas fazer com
se persuadiram de que Moisés os abandonara, pediram a Arão
.ue admitissem existir uma divindade mais potente que tudo
divindades visíveis, e foi um vitelo, que vergonha!, a ideia que
.9.uilo que eles conheciam e que zelava pe los Hebreus, a quem
ao cabo de tantos milagres eles formaram de Deus. Asaf, apesar
iessa altura as coisas corriam pelo melhor e acima até do que
de ter ouvido contar tantos milagres, duvidou da providência
~<leriam esperar, mais do que por quaisquer outros, mas não
de Deus e ter-se-ia afastado do verdadeiro caminho se não
tivesse, enfim, compreendido a verdadeira beatitude (ver sal- · e Deus cuida igualmente de todos, pois isto só a Filosofia o
mo Lxxm). Até Salomão, no tempo do qual os Judeus estavam . e ensinar. Daí que os Judeus e todos aqueles que conhece-
no auge da prosperidade, suspeita que tudo aconteceu por acaso 'ap:i.a providência divina apenas pela desigualdade de condi-
(ver Eclesiastes,caps. III, 19, 20, 21, e IX, 2, 3, etc.). Enfim, para ;ões e pela desigual fortuna dos homens se tenham persuadido
[881 quase todos os profetas foi urna questão extremamente obscura
que os Judeus eram mais amados por Deus do que os ou-
saber como a ordem da natureza e os acontecimentos humanos s, muito embora não fossem superiores a eles na verdadeira
poderiam conciliar-se com a ideia que faziam da providência de ·rfeição humana, como já mostrámos no capítulo m.
Deus, enquanto para os filósofos, que tentam compreender as Passo, pois, í:1ºterceiro ponto, para demonstréµ" pela Escri- [891

coisas, não por milagres, mas por conceitos claros, foi sempre a que os decretos e mandamentos de Deus e, por conseguinte,
bastante evidente, em particular para os que baseiam a verda- .sua providência, não são senão a ordem da natureza. Ou seja,
deira felicidade apenas na virtude e na tranquilidade de ânimo, ~ando a Escritura diz que isto ou aquilo foi feito por Deus ou
que não pretendem que a natureza lhes obedeça e procuram, 'pela sua vontade deve-se entender simplesmente que foi feito
em vez disso, obedecer-lhe, que sabem que Deus dirige a natu- segundo as leis e a ordem da natureza, e não, como crê o vul-
reza conforme exigem as suas leis universais e não as leis parti- go, que a natureza deixou por um momento de agir ou que a
culares dá natureza humana e que, por isso mesmo, zela não só !Ua ordem foi por algum témpo interrompida 8 • A Escritura,
pelo género humano mas por toda a natureza. Portanto, consta porém, não ensina directamente o que não concerne à sua dou-
também da própria Escritura que os milagres não fornecem o i trina, pois o seu intuito não é Qá o mostrámos a propósito da
verdadeiro conhecimento de Deus nem ensinam claramente a · lei divina) ensinar as coisas pelas causas naturais, nem ensinar
sua providência 6 . coisas meramente especulativas. Por esta razão, o que pretende-
Quanto ao facto de a Escritura repetir frequentemente que mos aqui provar deverá extrair-se como uma consequência de
Deus fez prodígios para se dar a conhecer aos homens, como certas histórias da Escritura que, por acaso, vêm narradas com
no P.xodo,cap . x, 2, onde se diz que iludiu os Egípcios e deu mais pormenores e circunstâncias. Apresentarei algumas delas .

210 211
Em Samuel, liv. r, cap . IX, 15, 16, conta-se que Deus revelou rem causas naturais. Por exemplo, para que os Egípcios fossem
a Samuel que lhe enviaria Saul. Contudo, Deus não enviou Saul infestados pela lepra, foi necessário que Moisés espalhasse cinza
a Samuel como os homens costumam enviar alguém a outra pes- , pelo ar (f.xodo, cap. IX, 10). De igual modo os gafanhotos, foi
soa, pois este envio por parte de Deus não foi senão a própria graças a uma ordem natural de Deus, ou seja, graças ao vento
ordem da natureza. Saul procurava (como se conta no capítulo · de Leste que soprou durante todo um dia e uma noite, que
citado) as jumentas gue tinha perdido e, quando já estava deci- ;. )· invadiram a terra dos Egípcios, tal como depois a deixaram gra-
dido a voltar a casa sem elas, foi ter, a conselho do seu _criado, ll ças a um vento fortíssimo que soprou de Oeste (f.xodo, cap. x,
com o profetã Samuel ·para quê este lhe dissesse onde as pode- ~1 14, 19). E foi ainda por uma ordem semelhante de Deus que o
ria encontrar. Não consta; ·em . parfí:- alguma · da narração, que mar abriu caminho aos Judeus (P.xodo,cap. XIV, 21), isto é, devi-
Saul tenha recebido outra ordem ·de Deus, além desta da: natu- t do ao Euro, que soprou fortemente durante toda uma noite.
reza, para ir ter com Samuel. Nó salmo · cv, 24, diz_-se:·que ·De_us _ Eliseu, para reanimar aquele menino que julgavam já morto, teve
alterou o ânimo dos Egípcios para que odi·assem os ·Israelifas. :;de se deitar algumas vezes sobre ele, até que, primeiro, reaque-
Ora, uma tal alteração foi também inteiramente natural, como ceu e, depois, abriu finalmente os olhos (Reis, liv. II, cap. N, 34,
se pode ver no cap. r do f.xodo, onde se refere a razão, e não \35). Da mesma forma, no Evangelho de João, cap. rx, contam-se
li'· era assim tão pouca, que levou os Egípcios a reduzir os Israeli- algumas circunstâncias de que Cristo se serviu para curar o cego.
i[r tas à escravidão. No Génesis, cap. IX, 13, Deus diz a Noé que B, como estas, há muitas mais passagens na Escritura que mos-
11

fará aparecer o arco-íris nas nuvens. Mas esta acção divina tam- Mamtodas que os milagres requerem algo mais do que aquilo a
bém não é mais do que a refracção e reflexão que sofrem os · e chamam uma ordem absoluta de Deus. É necessário, por-
raios solares nas gotas de água. No salmo CXLVII, 18, chama-se o .to, aceitar que, embora as suas circunstâncias e causas natu-
verbo de Deus à acção natural do vento e do calor que liquefaz is nem sempre e nem todas estejam descritas, sem elas os mi-
a geada e a neve, e no vers . 15 chama-se sentença e verbo de gres não acontecem . E isto vê-se também pelo f.xodo, cap. XIV,
Deus ao vento e ao frio; o vento e o fogo são ainda, no salmo crv, ', onde apenas se relata que, a um simples gesto de Moisés, o
•· • 4, designados por enviados e ministros de Deus. E para além ar se encapelou de novo, sem se fazer qualquer alusão ao
destas, há muitas outras passagens do mesmo género na Escri- .to. Todavia, no Cântico, cap. xv, 10, diz-se que tal aconteceu
tura que indicam com toda a clareza que decreto, mandamento, • ;rque Deus soprou com o seu vento (isto é, com um vento
sentença e palavra de Deus não são outra coisa além da acção e 1
rtíssimo): é que, omitindo-se na história esta circunstância, o
[90J a ordem da natureza. É, portanto, inegável que todos os factos , "agre parece ainda maior 9 . (91]
narrados na Escritura aconteceram naturalmente; e se ela os atri- · Haverá talvez, quem insista que há muitos milagres na Es-
bui a Deus é porque o intuito da Escritura, como já vimos, não ' itura que não parecem de forma alguma poder explicar-se por
é ensinar as coisas pelas causas naturais, mas unicamente narrar 'ausas naturais, como, por exemplo, que os pecados dos ho-
aquelas que são pasto abundante para a imaginação, e isto se- .ens e as suas orações podem acarretar o mau tempo ou a fer-
gundo o método e o estilo mais adequados para despertar a idade da terra, ou que a fé pode curar os cegos e outros
admiração por tais coisas e, consequentemente, incutir a piedade ,' ftctos do mesmo tipo narrados na Bíblia. Julgo, porém, que já
I: no ânimo do vulgo . , 1pondi a isto. Efectivamente, mostrei que a Escritura não en-
:I
· O encontrarem-se nos Livros Sagrados algumas coisas de as coisas pelas suas causas próximas; conta-as pela ordem e
i que desconhecemos as causas e que parecem ocorrer fora, senão :óm aquelas frases que mais incentivam os homens, e principal-
d mesmo contra a ordem da natureza não deve constituir qual- ente a plebe, à devoção. Por este motivo, ela fala com bastan-
quer obstáculo a que acreditemos que tudo o que na realidade 1 impropriedade de Deus e das coisas, uma vez que não pre-
.1
p acontece acontece naturalmente . Isto confirma-se também pelo
facto de se observarem nos milagres várias circunstâncias que, .
de convencer a razão mas impressionar e ocupar a fantasia e
,imagínação dos homens. Se a Escritura narrasse a devastação
apesar de nem sempre virem narradas, sobretudo quando são · um Estado como fazem habitualmente os historiadores polí-
descritas em estilo poético, mostram claramente que eles reque- ·cos 10, a plebe não ficaria nada comovida; pelo contrário, des-

212 213
• li
1.1
~il
\

:{1,1 crevendo tudo poeticament e e atribuindo tudo a Deus, como sofos qu e escreveram sobre a história da natureza 11, se não
1,,i
1
:\ 11
costuma fazer, ela comove-se imenso. Assim, quando a Escri- considerasse que era supérfluo. Citarei apena s um, tirado da
·r tura diz que a terra é estéril devido aos pecados dos hom ens, Sagrada Escritura, e o leitor que ajuíze dos outros .
1:,
: ou que os cegos são curados pela fé, não devemos ficar mais No tempo de Josué, conforme já dissemos, os Hebreus acre-

il
ij:1
impressionados do que quando ela afirma que Deus, por causa
dos pecados dos homens, se irrita, fica triste, arrepende-se do
bem prometido ou que já fez, .oµ até . q~e . Deus se recorda, ao
ver um sinal, daquilo que prometeu, e tantas outras coisas que
ditavam, como o vulgo, que o Sol se movia segundo o chamado
,movimento diurno, ao passo que a Terra estava em repouso,
-adaptando a esta opinião preconcebida o milagre que lhes acon-
teceu durante o combate contra aqueles cinco reis. Não se limi-
estão ditas de forma poétita ou s_ão -relatadas em conformidade taram, pois, a contar que esse dia tinha sido mais longo que o
com as opiniões e preconceitos do escritor. Concluímos, pór isso, abitual: acrescentaram que o Sol e a Lua tinham parado, ou
que tudo o que na Escritura se diz ter de facto acontecido acon- ''"eja, que tinham interrompido o seu movimento, coisa que nessa
teceu necessariamente, como tudo acontece, segundo as leis da ltura lhes podia ser de grande utilidade para convencer os
natureza; e se lá se encontrar alguma coisa da qual se possa ~ntios, que adoravam o Sol, e para lhes provar pela própria
apodicticamente provar que repugna às leis da natureza , ou que xperiência que o Sol estava sob o poder de uma outra divin-
não pode ser consequência delas, nesse caso, devemos ter por ade, a um gesto da qual ele era obrigado a alterar a sua ar-
absolutamente certo que foi um acrescento feito aos Livros Sagra- .em natural. Assim, em parte por religião, em parte por opi-
dos por homens sacrílegos. Tudo o que é contrário à natureza é 'ão preconcebida, pensaram e contaram uma coisa totalmente
contrário à razão; e o que é contrário à razão é absurdo e deve, 'erente daquilo que podia realmente ter acontecido.
por conseguinte, ser rejeitado. Para interpretar os milagres da Escritura e perceber pela
Resta ainda fazer algumas breves observações sobre a inter- úa narração o modo como as coisas se passaram de facto, é
pretação dos milagres, ou melhor, recapitular, uma vez que o .ecessário conhecer as opiniões daqueles que em primeira mão
essencial já foi dito, e ilustrar com um ou outro exemplo, con- s narraram 12 e no-los deixaram por escrito, distinguindo-as
forme prometi fazer neste quarto ponto. E quero fazê-lo, ainda ·-aquilo que se lhes representou nos sentidos; doutra forma,
assim, não vá alguém, interpretando mal um milagre, suspeitar onfundimos as suas opiniões e juízos com o próprio milagre,
que encontrou na Escritura alguma coisa que repugne à luz 'Orno realmente aconteceu. E não é só por isso que importa co-
natural. íhecer essas opiniões; é também para não se confundir as coisas
1
É muito raro os homens contarem simplesmente uma coisa L .ue de facto se verificaram com coisas imaginárias que não fo-
t
r
tal como ela aconteceu, sem acrescentarem nada de sua opinião. senão representações profé ticas. Na Escritura, efectivamen-
[92J Por outro lado, sempre que eles vêem ou ouvem algo de novo, . , narram-se muitas coisas como reais, e acreditava-se que o [931
I;
se não tiverem o maior cuidado com os seus preconceitos, ficam _fossem, muito embora não passassem de visões e coisas imagi-
de tal maneira preocupados que percebem uma coisa completa- bárias. Diz-se que Deus (o Ser supremo) desceu do céu (fxodo,
1 mente diferente daquilo que vêem ou ouvem acontecer, em es- €ap. XIX, 18, e Deut ., cap . v, 19) e que o monte Sinai fumegava
! pecial quando é algo que ultrapassa a compreensão do narrador
ou daquele que o escuta, e mais ainda se têm interesse em que
jporque Deus tinha descido sobre ele circundado de fogo, ou
.~ue Elias subiu ao céu num carro de fogo puxado por cavalos
1 essa coisa aconteça de determinada maneira. Este o motivo por •igualmente de fogo, tudo coisas que seguramente não foram
que, nas suas crónicas e histórias, os homens contam mais as senão representações adaptadas às opiniões daqueles que no-las
suas opiniões que os próprios factos, e um só e mesmo caso é transmitiram tal como elas se lhes representaram, isto é, como
descrito por dois homens com opiniões diversas de forma tão , realidades. Quem quer que saiba alguma coisa mais do que o
diferente que parecem estar a falar de casos distintos . Muitas . · VUigo sabe que Deus não tem direita nem esquerda, que não se
vezes, até nem é muito difícil investigar , só pelas histórias, as 'move nem permanece imóvel, que não está num determinado
'' opiniões do cronista ou do historiador. Poderia citar aqui, em lugar mas que é absolutamente infinito e contém em si todas as
abono disto, muitos exemplos, tanto de cronistas como de filó- 1 perfeições . Isto, repito, sabem-no os que julgam as coisas por
1

1 214 215
percepções do puro entendimento e não conforme a imaginação dos de dizer dos Judeus e que é escusado referir aqui uma por
é afectada pelos sentidos externos, como costuma fazer o vulgo, µma . Quero apenas fazer notar, genericamente , que os Hebreus
o qual imagina, por isso mesmo, um Deus com corpo e com não usavam tais expressões só como ornamentos literários, ma s
poder régio, cujo trono estaria assente na abóbada celeste, por também e sobretudo para falarem com devoção. Por isso é que
cima das estrelas, que julga estarem a uma pequena distância da se encontra nos Livros Sagrados bendizer a Deus por maldizer(Reis,
Terra. É a estas opiniões e a outras semelhantes que está adap- liv. 1, cap. XXI, 10, e Job, cap. u, 9), e por isso também eles atri-
tado, como dissemos, um gran~e número de casos da fa;critura, : buíam tudo a Deus, de tal modo que a Escritura não parece
que não devém, por conseguinte, ser "tidos· como reais pelos fi- '. narrar senão milagres, mesmo quando fala das coisas mais natu-
lósofos 13• : _ : rais, conforme alguns exemplos que já apresentámos. Há, por-
Importa, finalmente, para entender os milagres tal com~ ·.eles . tanto, que admitir que a Escritura, quando diz que Deus endu-
aconteceram, conhecer as expressões . e as figura~ · d~ ~rétórj .ca _ " receu o coração do Faraó, quer significar apenas que o Faraó se
1
utilizadas pelos Hebreus. Quem não tiver isto em devida conta obstinou; quando diz que Deus abriu as janelas do céu, quer di-
acrescentará à Escritura muitos milagres que os seus autores y:er que a chuva caiu em abundância; e assim por diante. Se ti-
nunca pensaram narrar e, deste modo, ignorará totalmente, não ·vermos isto em conta, e bem assim o facto de muitas coisas
só as coisas e os milagres tal como ocorreram de facto, mas rradas de forma excessivamente breve, sem quaisquer porme-
também o pensamento dos autores dos sagrados códices. Por :nores e como que truncadas, não encontraremos na Escritura
exemplo, Zacarias, falando de uma guerra futura, diz no cap. xrv, ,isa alguma que possa demonstrar-se que repugna à luz natu-
7: e será um dia único, um dia que só Deus conhece(pois não será) ··al. Pelo contrário, muita coisa que é tida por extremamente
nem dia nem noite, mas à tarde surgirá a luz. Com estas palavras, ·,bscura poderá, com um mínimo de reflexão, compreender-se e
parece que está a predizer um grande milagre e, no entanto, ele .- .terpretar-se facilmente. E, com isto, julgo ter mostrado com
quer dizer apenas que o combate estará indeciso durante todo "ciente clareza aquilo que tinha prometido.
o dia, que só Deus sabe o seu desfecho e que à tarde alcançam a Mas antes de dar por terminado este capítulo, há ainda uma
vitória. Era com frases destas, efectivamente, que os profetas cos- dvertência que quero fazer: segui aqui, no que se refere aos
tumavam predizer e escrever as vitórias e as derrotas das nações. µagres, um método inteiramente diferente do que tinha usado
Do mesmo modo, vemos Isaías descrever assim, no cap. xm, a tratar da profecia. Sobre esta, com efeito, não afirmei senão [951
[941 destruição de Babilónia: porque as estrelas e os astros do céu não · _uilo que pude concluir de fundamentos revelados nos Livros
mais iluminarãocom a sua luz, o Sol escurecer-se-á ao nascer e a Lua 1 gradas, ao passo que neste capítulo o principal foi extraído
não propagaráo esplendorda sua claridade.Presumo que ninguém, enas de princípios conhecidos pela luz natural. E fi-lo propo-
com certeza, acredita que isto tenha acontecido aquando da 'tadamente. Porque da profecia, na medida em que ela ultra-
devastação daquele império, tal como ninguém acredita no que sa a compreensão humana e é uma questão meramente teo-
11 o profeta acrescenta logo a seguir: por isso farei tremer os céus, e a -gica, nada poderia afirmar e nem sequer poderia saber em
\I'
Terraafastar-se-ádo seu lugar. O mesmo Isaías (cap. xLvm, penúlti- 9ue é que ela consiste essencialmente a não ser a partir de prin-
mo versículo), para dizer aos Judeus que voltariam sãos e sal- ~pios revelados. Fui, por isso, obrigado a fazer a história da
vos da Babilónia para Jerusalém e que não passariam sede du- · •rofecia e a extrair dela alguns dogmas que me dessem a co-
rante o caminho, diz: e não sofreramsede, ele conduziu-osatravés dos 1 .. ecer, na medida do possível, a sua natureza e as suas proprie-
desertose para elesfez brotar a água do rochedo,partiu o rochedoe as dades. A respeito dos milagres, porém, uma vez que o objecto
águas jorraram. Com estas palavras, note-se, quer simplesmente da nossa investigação (saber se se pode aceitar que algo aconte-
dizer que os Judeus encontrariam no deserto, corno aconteceu, na natureza que repugne às suas leis ou que delas não possa
fontes em que saciariam a sede . Não consta, efectivamente, que • ~erivar) é inteiramente filosófico, não se requeria nada de se-
lhes tenham acontecido milagres semelhantes quando foram elhante; achei até preferível resolver esta questão com base
autorizados por Ciro a partir para Jerusalém. E como estas há · Jmprincípios conhecidos pela luz natural, porquanto são os que
nos Livros Sagrados inúmeras expressões, que são simples mo- :tnelhor conhecemos . E digo que achei preferível, porque tam-

216 217
j
bém podia resolvê-lo facilmente por meio de dogm.as e princí- que seja a título de ensinamentos necessários para a salvação.
pios extraídos unicamente da Escritura, conforme vou aqui mos- Julgo, pelo contrário, que os profetas partilhavam desta nossa
trar em poucas palavras, a fim de que fique claro para todos. opinião sobre os milagres, acerca dos quais, por conseguinte,
Sobre a natureza em geral, a Escritura afirma em algumas cada um é livre de julgar como sentir que é melhor para abra-
passagens que ela mantém uma ordem fixa e imutável, como çar sem reservas a religião e o culto prestado a Deus. É, de
no salmo CXLVIII, 6, e em Jeremias, cap . xxxr, 35, 36. O Filósofo, resto, o que pensa Josefa, quando escreve na conclusão do liv. u
além disso, no seu Eclesiastes,cap . 1, 10, ensina clarame _nte que das Antiguidades: Que ninguém fique incréduloperantea palavrami-
nada de novo · acontece na nátureza · e,· n:os vers. 11 e 12, ao lagre, se para os homens antigos e isentos de qualquermalícia uma via
explicar esta afirmação, diz · que, erilpOFa algumas vezes aconte- de salvaçãose abriu através do mar,fosse por vontadede Deus ou fosse
ça algo que parece novo, na r~alidade não é, pois acontec~i.r já espontaneamente,já que tambémpara aquelesque outroraestiveramcom
em séculos passados e dos quais não resta qualquer memória. Alexandre, rei da Macedónia,o mar de Panft1iase abriu e, não havendo
Como ele próprio diz, das coisas antigas não subsiste boje qüal- outro caminho,deu-lhes passagem, pois Deus queriadestruir, por inter-
quer recordação, da mesma forma que a posteridade não guar- médio deles, o impériodos Persas.É isto o que confessamtodos os que
dará nenhuma das coisas do nosso tempo. Mais à frente, no 'relataramosfeitos de Alexandre,de modo que, sobreo assunto, cadaum
cap. m, 11, diz que Deus ordenou tudo da melhor maneira e a pense como quiser. São estas as palavras de Josefa e o juízo que
seu tempo e, no vers. 14, diz saber que tudo o que Deus faz \faz acerca da fé nos milagres .
permanecerá para a eternidade, sem que se lhe possa tirar ou
,.I;
, acrescentar seja o que for. Tudo isto ensina claramente que a
natureza observa uma ordem fixa e imutável, que Deus foi sem-
li:
r, pre o mesmo em todos os séculos por nós conhecidos ou desco-
nhecidos, que as leis da natureza são tão perfeitas e fecundas
~,.s;1,u.1n1i'' que nada se lhes pode acrescentar ou subtrair e que, finalmente,
~t:ís:,tY-~111
1j! os milagres só por ignorância dos homens surgem como algo
de novo . É isto o que a Escritura expressamente ensina. Em
,!11
parte alguma, pelo contrário, ela ensina que algo aconteça na
11 [961 natureza que repugne às suas leis ou que não possa derivar delas,

pelo que também não devem atribuir-se-lhe tais ficções. A isto
acresce que os milagres requerem (como já mostrámos) causas e
circunstâncias e não são consequência de um não sei que poder

,,
1:
real ficticiamente atribuído a Deus pelo vulgo, mas sim do po-
der e do decreto divinos, isto é (como também mostrámos pela
própria Escritura), das leis da natureza e da sua ordem, e que,
ft,
finalmente, os milagres podem ser feitos também por imposto-
fJ res, conforme se tem de admitir pelo cap. XIII do Deuteronómioe
pelo cap. XXIV, 24, de Mateus.
1ti Daqui se conclui que os milagres foram, obviamente, fenó-
.1
li menos naturais e devem, por conseguinte, ser explicados de for-
1 ma a não parecerem algo de novo (para usar o termo de Salo-
" mão) ou contra a natureza, mas sim, o mais aproximado possível
Ili
das coisas naturais. Foi para que todos o pudessem fazer com
facilidade que apresentei algumas regras extraídas unicamente
da Escritura. Mas embora afirme que esta os ensina, não penso

218 219

!
CAPITULO VII (97]

DA INTERPRETAÇÃO DA ESCRITURA

'· ,.
Toda a gente diz que a Sagrada Escritura é a palavra de
us que ensina aos homens a verdadeira beatitude ou o cami-
}j1 ; • .o da salvação: na prática , porém, o que se verifica é comple··
1' ente diferente. Não há, com efeito, nada com que o vulgo
1'
ueça estar menos preocupado do que em viver segundo os
l. . sinamentos da Sagrada Escritura . É ver como andam quase
·~os a fazer passar por palavra de Deus as suas próprias in-
enções e não procuram outra coisa que não seja, a pretexto da
,l!ligião, coagir os outros para que pensem como eles. Boa parte,
· usive, dos teólogos estão preocupados é em saber como ex-
,rquir dos Livros Sagrados as suas próprias fantasias e capri-
l _ios, corroborando-as com a autoridade divina. Nem há mes-
!·· 10 nada que eles façam com menos escrúpulos e com maior

1
eridade que a interpretação da Escritura, ou seja, da mente
.o Espírito Santo; e se alguma coisa os aflige, não é o receio de
' .tribuir ao Espírito Santo algum erro e afastarem-se do cami-
1
,, o da salvação, mas sim poderem ser apanhados em erro pe -
tJQS outros e, deste modo, verem a sua própria autoridade cal-
1
!âda aos pés dos adversários e serem alvo de escárnio. Porque
os homens fossem sinceros quando falam da Escritura, te-
uma regra de vida completamente diferente: as suas men-
tes não andariam agitadas com tanta discórdia, não se comba-
·teriam uns aos outros com tanto ódio, nem manifestariam um
tão cego e temerário desejo de interpretar a Escritura e de in-
'Ventar na religião coisas novas . Pelo contrário, não ousariam
abraçar como doutrina da Escritura senão o que ela ensina com
1a maior clareza e, finalmente, esses sacrílegos que não hesita-
; ram em adulterar a Escritura em inúmeras passagens guardar -

221
j
-se-iam de cometer tamanho crime e afastar iam dela as sacrí- 1, · cutir com tant a segurança as coisas que ultrap assam a nossa com-
legas mãos 1 . preensãocomo aquelas que conhecemos pela luz natural.
Porém, a ambição e o crime adquiriram tal poder que fa- ·· No entanto, e para que fique claro que esta via é, não só a
zem a religião consistir menos em obedecer aos ensinamentos _ correcta, mas também a única, além de estar em conformidade
do Espírito Santo que em defender humanas fantasias e, pior ~ ,com o método de interpretação da natureza, é preciso notar
ainda, em vez de se traduzir pela propagação da caridade, se Jque a Escritura trata frequentemente de coisas que não podem
traduza pela disseminação das _discórdias e do ódio mais encar- 'xle<iuzir-se dos princípios conhecidos pela luz natural. Com efeito,
niçado entre Ós homens, disfarçado de zeío divino e fervor ar- 'eta compõe-se em boa parte de histórias e revelações; ora, as
dente. E a estes males acresce ainda :a superstição, que os e~sina ÍJ;ústórias contêm principalmente milagres, isto é (como mostrá- (991

a desprezar a natureza e a razãÓ e a a_qmirar e veneraf :apenas .os no capítulo anterior) descrições de factos insólitos da natu-
(98] O que as contradiz a ambas, pelo que não ~ de espantar se eles - ·êzaadaptados às opiniões e à mentalidade dos historiadores
se empenham assim tanto, para admirarem e venerarem ainda as escreveram; as revelações, por seu turno, estão também
mais a Escritura, em explicá-la de modo que pareça contradizer daptadas às opiniões dos profetas, como mostrámos no capítu-
por completo a natureza e a razão. É por isso que eles sonham - n, e ultrapassam realmente a compreensão humana. Qaí que o
que nos Livros Sagrados se escondem mistérios profundíssimos, inhecimento de todas estas coisas, ou seja, de quase tudo o
e nisto, quer dizer, na investigação destes absurdos, se afadi- .e vem na Escritura, deva extrair-se unicamente da própria
gam, desprezando 0utras coisas úteis. E tudo quanto inventam ' ·tura, do mesmo modo que o conhecimento da natureza se
neste seu delírio atribuem ao Espírito Santo e tentam defender e extrair da própria natureza.
com toda a veemência e paixão . Os homens, de facto, são as- No que respeita aos ensinamentos morais que também vêm
sim: aquilo que concebem pelo puro entendimento defendem-no -, Bíblia, embora eles possam demonstrar-se com base em no-
só pelo entendimento e a razão; pelo contrário, aquilo que opi- comuns, não se pode, todavia, a partir destas noções, de-
.onstrar que ela os ensina, pois tal só poderá afirmar -se com
nam por força dos afectos é com estes que o defendem. Ora,
se na Escritura. Além disso, se queremos, sem preconceitos,
para sair de tais confusões, libertarmos a mente dos preconcei-
.edarar a divindade da Escritura, terá de, com base exclusiva-
tos dos teólogos e não abraçarmos temerariamente invenções
te nela, ser-nos evidente que ela ensina verdadeiros ensina-
humanas como se fossem ensinamentos divinos, temos de abor-
ntos morais. Só assim poderá demonstrar-se a sua divinda-
dar e discutir o verdadeiro método para interpretar a Escritu-
.e,porquanto, já o explicámos, a certeza dos profetas se baseava
ra 2 • Enquanto o ignorarmos, nada poderemos saber ao certo 1rincipalmente no facto de eles terem o ânimo predisposto para
sobre o que a Escritura, ou seja, o Espírito Santo, quer ensinar.
justiça e a bondade. Nessa medida, para que possamos acre-
Muito resumidamente, o método de interpretar a Escritura
'tar neles é preciso que isto seja evidente também para nós.
não difere do método de interpretar a natureza; concorda até ; os milagres, contudo, não se pode deduzir a divindade de
inteiramente com ele 3. Na realidade, assim como o método para ' ·Deus, como já demonstrámos, e nem vale a pena acrescentar
interpretar a natureza consiste essencialmente em descrever a que eles podiam também ser feitos por um falso profeta . Por
história da mesma natureza e concluir daí, como dados certos, conseguinte, a divindade da Escritura deve concluir-se unica-
as definições das coisas naturais, também para interpretar a Es- 1 / mente do facto de ela ensinar a verdadeira virtude. Mas isto só
critura é necessário elaborar a sua história autêntica e, depois, ' da Escritura se pode concluir . E se acaso o não pudesse, então,
concluir daí, como se fossem dados e princípios certos, o pensa- , só por enorme preconceito se aceitaria a Escritura e se afirmaria
mento dos seus autores como legítima consequência. Deste a sua divindade. Todo o conhecimento sobre a Escritura deve,
modo, quer dizer, se na interpretação da Escritura e na discus- portanto, extrair-se unicamente dela mesma .
são do seu conteúdo não se admitirem outros princípios nem Por último, a Escritura não dá definições das coisas de que
outros dados além dos que se podem extrair dela mesma e da ' fala, da mesma forma que a natureza também as não dá. Por
sua história, proceder -se-á sem perigo de errar e poder-se-á dis- isso, tal como temos de concluir as definições das coisas natu-

222 223
rais a partir das diversas acções da natureza, assim também é pios e os fundamentos tirados da história da Escritura. Se, pelo
necessário extraí-las das diversas narrações que a Escritura apre- _}contrário, víssemos que essas frases, interpretadas literalmente,
senta de cada facto. Donde, a regra universal a seguir na sua r;repugnavam aos princípios tirados da Escritura, ainda que elas
interpretação é a de não lhe atribuir outros ensinamentos para
além daqueles que tenhamos claramente reconhecido pela sua ~··
r· concordassem totalmente com a razão, teríamos de admitir uma
º1i 0 utra interpretação (isto é, uma interpretação metafórica). Por-
fanto, para saber se Moisés acreditou ou não que Deus era fogo,
história. Mas vejamos agora como deve ser essa história e o
que ela deve acima de tudo n~rrar. Assim: i de modo algum se pode deduzi-lo do facto de essa opinião con-
1 - Ela deve incluir a natureza e as propriedades da língua "-yir ou repugnar à razão, mas unicamente a partir de outras afir- [1011
em que foram escritos os lívros da ·Escritura :-e· em que os seus mações de Moisés . Ora, uma vez que ele ensina com toda a
[1001 autores falavam habitualmente. -Só assiqi se poderá, corri :efeito, . clareza, em numerosas passagens, que Deus não tem qualquer
examinar todos os. sentidos que cada frase .pode _ter -çl~ acor_do !parecença com as coisas visíveis que existem nos céus, na terra
com o uso corrente da língua. E uma vez que todos os autores, u na água, tem de se concluir que, ou esta, ou então todas
tanto os do Antigo como os do Novo Testamento, foram He- jquelas, devem ser entendidas em sentido metafórico. Todavia,
breus, é evidente que a história da língua hebraica é necessária . mo é necessário afastarmo-nos o menos possível do sentido
para se compreenderem, não só os livros do primeiro, que fo- ·teral, temos primeiro de saber se esta afirmação «Deus é fogo»
ram escritos nessa língua, mas também os do segundo, os quais, :dmite um outro sentido que não o literal, isto é, se a palavra
embora tenham sido divulgados noutros idiomas, no entanto, fogo» significa outra coisa além de fogo natural. Porque se não
hebraízam. · verificasse, a partir da língua usual, que ela ·tinha outro sig-
2 - Deve coligir as afirmações contidas em cada livro e 'ficado, não poderíamos também interpretar a frase de outra ·
reduzi-las aos pontos principais, por forma a encontrarem-se fa- ,nna, muito embora esta repugne à razão. Pelo contrário, to-
cilmente todas as que se referem ao mesmo assunto. Em segui- ;ttasas outras, ainda quando consentâneas com a razão, teriam
da, deve registar todas as que são ambíguas ou obscuras ou r;l.ese lhe adaptar. E se nem isto a língua usual permitisse, en-
_
que parecem contradizer-se entre si. Considero, para este efeito, ão essas frases seriam incompatíveis e, por conseguinte, have-
que uma afirmação é clara ou obscura conforme a facilidade ou .iia que suspender qualquer juízo sobre elas. No entanto, como
dificuldade com que se tira o seu sentido pelo contexto e não '.palavra «fogo» se usa também para significar cólera e ciúme
conforme a facilidade ou dificuldade com que se apreende a ~-verJob, cap. XXXI, 12), é fácil conciliar as afirmações de Moisés
sua verdade pela razão. Trata-se apenas do sentido e não da concluir que estas duas expressões «Deus é fogo» e «Deus é
verdade das frases. Assim, quando estamos a investigar o sen- dumento», são uma só e a mesma afirmação. Além disso, e urna
tido da Escritura, há que evitar a todo o custo deixarrno-nos !Vez que Moisés ensina claramente que Deus é ciumento e em
influenciar pelo nosso raciocínio (para já não falar dos nossos ,parte nenhuma ensina que ele está imune de paixões ou afec-
preconceitos), porquanto ele assenta nos princípios do conheci- ções de ânimo, temos forçosamente de concluir que Moisés acre-
mento natural. Para não se confundir o verdadeiro sentido com .ditava nisto ou que, pelo menos, quis ensiná-lo, por muito que
a verdade das coisas, devemos investigá-lo com base unicamente .repugne à nossa razão 4 • De facto, não é lícito, corno já mostrá-
na língua usual ou num raciocínio que não admita outro funda- mos, forçar o sentido da Escritura para o ajustar aos impera-
mento senão a Escritura. Darei um exemplo para que tudo isto i ti vos da nossa razão e às nossas opiniões preconcebidas: o co-
se perceba melhor. As afirmações de Moisés segundo as quais . nhecimento dos livros da Bíblia tem de extrair-se todo ele
«Deus é fogo», ou «Deus é ciumento», resultam claríssimas quan- ,, unicamente dos livros da Bíblia.
do atendemos apenas ao significado das palavras, e por isso eu 3 - Por último, a história da Escritura deve descrever as
as coloco entre os enunciados claros, muito embora elas sejam circunstâncias de todos os livros dos profetas de quem chegou
do mais obscuro no que toca à verdade e à razão. Mesmo quan- notícia até nós, ou seja, a vida, os costumes e as intenções do
do o seu sentido literal repugna à luz natural, devemos mantê- , autor de cada livro, quem era ele, em que ocasião, em que época,
-lo, a não ser que esteja em flagrante contradição com os princí- , para quem e, finalmente, em que língua escreveu . Depois, a sorte

224 225
I
que cada livro conheceu: como foi originalmente acolhido, a que deve ser adorado , que ele olha por todos e ama sobretudo aque -
mãos foi parar, quantas versõe s diferentes teve, a conselho de les que o adoram e amam o próxi