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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES


DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM HISTÓRIA DAS
REVOLUÇÕES E MOVIMENTOS SOCIAIS

DANIEL BONIN BARRETO

O GOLPE CIVIL-MILITAR EM ITARARÉ-SP E A REPRESSÃO


POLÍTICA ATRAVÉS DO INQUÉRITO POLICIAL Nº 36/1964

MARINGÁ - PARANÁ
2017
1

DANIEL BONIN BARRETO

O GOLPE CIVIL-MILITAR EM ITARARÉ-SP E A REPRESSÃO


POLÍTICA ATRAVÉS DO INQUÉRITO POLICIAL Nº 36/1964

Trabalho de conclusão do Curso de


Especialização em História das
Revoluções e dos Movimentos Sociais –
EAD, apresentado a Universidade
Estadual de Maringá, como requisito
para a obtenção do título de
ESPECIALISTA EM HISTÓRIA DAS
REVOLUÇÕES E DOS
MOVIMENTOS SOCIAIS.

Orientador: Prof. Dr. Ângelo Priori

MARINGÁ - PARANÁ
2017
2

DANIEL BONIN BARRETO

O GOLPE CIVIL-MILITAR EM ITARARÉ-SP E A REPRESSÃO


POLÍTICA ATRAVÉS DO INQUÉRITO POLICIAL Nº 36/1964

Trabalho de conclusão do Curso de


Especialização em História das
Revoluções e dos Movimentos Sociais –
EAD, apresentado a Universidade
Estadual de Maringá, como requisito.
para a obtenção do título de
ESPECIALISTA EM HISTÓRIA DAS
REVOLUÇÕES E DOS
MOVIMENTOS SOCIAIS.

Orientador: Prof. Dr. Ângelo Priori

COMISSÃO EXAMINADORA

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______________________________

Maringá/PR, ____ de ________2017.


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O golpe civil-militar em Itararé-SP e a repressão política através do inquérito policial nº


36/1964

Daniel Bonin Barreto

“Não há ninguém na Terra que consiga descrever a dor de quem viu


um ente querido desaparecer atrás das grades da cadeia, sem mesmo
poder adivinhar o que lhe aconteceu. O “desaparecido” transforma-se
numa sombra que ao escurecer-se vai encobrindo a última
luminosidade da existência humana.” (D. Paulo Evaristo Arns).

Introdução

Este artigo tem por objetivo analisar o inquérito policial nº36/1964, referente às
investigações policiais na cidade de Itararé, localizada no sudoeste do estado de São Paulo,
iniciadas logo após o golpe civil-militar de 1º de abril de 1964, visando identificar munícipes
considerados suspeitos de apoiar o comunismo.
A cidade de Itararé conta, de acordo com o último censo populacional, de 2010, com
47934 habitantes.1 Emancipada em 28 de agosto de 1893, o significado do nome da cidade em
tupi-guarani é “pedra que o rio cavou”. Apesar de ser conhecida como terra da passagem dos
tropeiros ou ter sido marcada na história do Brasil como palco da famosa “batalha que não
houve”, em 1930, Itararé tem em sua história outros acontecimentos relevantes e muitas vezes
pouco explorados nas produções historiográficas, como é o caso da repressão política a partir
do golpe civil-militar.
Desde o início da ditadura, através das Comissões Gerais de Investigação (CGI),
foram abertos inquéritos policiais-militares “para apurar os “atos de subversão” que teriam
sido praticados por alguns milhares de cidadãos em todo o país” (ARNS, 1985, p. 169). É
importante destacar que em 1964, ano a que pertencem a principal fonte de análise desta
pesquisa, havia a possibilidade de que os acusados recorressem à Justiça Comum. Este viés,
como observa Arns, seria alterado com a instauração do AI-2 em outubro de 1965:

De abril de 1964 a outubro de 1965, os atingidos pela atividade repressiva ainda


tinham possibilidade de recorrer à Justiça Comum – em geral, diretamente ao
Supremo Tribunal Federal (STF) – para fazer valer os seus direitos. [...] Com isso,
centenas de IPMs foram interrompidos por decisão dessa Corte antes de alcançarem
a etapa judicial, ou travados em fases posteriores, sem atingir a hora do julgamento.

1
Segundo os dados do censo do IBGE de 2010 a população do município é de 47934 habitantes. Acessado em:
https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sp/itarare/panorama
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[...] Em 27 de outubro de 1965, com a edição do Ato Institucional nº 2, a Justiça


Militar passou a monopolizar a competência para processar e julgar todos os crimes
contra a Segurança Nacional, o que equivaleu a ampliar enormemente seu alcance
sobre atividades de civis (ARNS, 1985, p.169-170).

O inquérito policial nº 36/1964 está armazenado nos arquivos da delegacia de polícia


de Itararé. Seu acesso ocorreu mediante autorização do delegado para seu manuseio. Além do
inquérito policial, constituem fontes de pesquisas deste trabalho o jornal Terra Livre, em
edição de novembro de 1961, e o jornal local Tribuna de Itararé em edições de abril de 1964.
Com relação aos periódicos, enquanto o acesso ao jornal Terra Livre se deu por meios
digitais, as edições da Tribuna de Itararé foram consultadas na biblioteca municipal de Itararé,
Dr. Armando de Salles Oliveira.
Neste texto vamos utilizar o conceito de golpe civil-militar por entendermos que a
queda de João Goulart aconteceu a partir de intervenção armada de setores militares apoiados
pela sociedade civil, como os meios de comunicação, empresários e a igreja. Dessa maneira,
a atividade investigativa e repressiva dos órgãos de controle se espalhava por diversas regiões
do país, chegando a municípios afastados dos grandes centros, como era o caso de Itararé em
1964.
O recorte temporal das fontes analisadas vai de abril a maio de 1964, período de
realização do inquérito pelo delegado Artur Cunha Filho. O trabalho se divide em duas partes:
a primeira delas traça um panorama sobre o golpe civil-militar e os fatos que antecederam a
ele, seus protagonistas, as primeiras decisões do novo governo e o contexto nacional e local
da ruptura com a democracia. Aqui também daremos atenção à forma com que a imprensa da
cidade noticiou a tomada do poder.
Em continuidade, na segunda parte do texto, analisaremos o modo como a repressão
agiu na cidade de Itararé no primeiro mês do golpe, em busca de “subversivos”, no meio rural
e urbano, realizando buscas, ouvindo testemunhas e investigados e apreendendo material tido
como suspeito, informações presentes na análise do inquérito nº 36/1964.
Pretendemos, com esta pesquisa, investigar um capítulo da história recente de nosso
país, que permanece oculto em arquivos, como tantos outros casos espalhados pelo Brasil. A
todos aqueles que bradam por “militarização” ou “retorno da ditadura”, este texto traz
algumas pistas do que é conviver com a perseguição, alegações inconclusivas, falta de
liberdade e preconceito social de uma ditadura. Às vítimas e familiares que sofreram as
penúrias do golpe civil-militar, o texto é uma resposta, uma pequena pesquisa com o intuito
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de evidenciar que as arbitrariedades cometidas entre 1964-1985 foram extensas e atingiram


milhares de indivíduos.

A crise da democracia e o golpe civil-militar de 1964

A história do Brasil republicano parece desconexa, ainda que tenhamos avançado com
a redemocratização e a Constituição de 1988, com o exercício pleno da cidadania e da
democracia. Desde 1889, não foram poucas as ocasiões em que grupos armados interviram na
disputa pelo poder. A própria derrubada de Pedro II em 15 de novembro, edificada pela então
história oficial como “proclamação da República”, foi um golpe militar, assistido de forma
bestializada pela população fluminense, como apontou o historiador José Murilo de Carvalho
na obra “Os bestializados” (1987).
Além da substituição da monarquia pela República, em 1889, o país foi palco de
outros contextos de ruptura da ordem estabelecida, por mais seletiva e maquiada que tenha
sido a participação popular nesses eventos políticos. O ano de 1930 é emblemático nesta
discussão, se notabilizando pelas eleições presidenciais de 1º de março, vencidas pelo
candidato da situação, o paulista Júlio Prestes, pertencente ao PRP (Partido Republicano
Paulista), ao derrotar o candidato oposicionista, Getúlio Vargas, lançado pela Aliança Liberal.
O jogo político de então era marcado pela disseminação da fraude eleitoral, influência
dos coronéis e de seus “currais eleitorais” pelos dois lados. Em tempos em que o voto não era
secreto, muito menos existia uma Justiça Eleitoral, “as máquinas eleitorais produziam votos
em todos os estados, inclusive no Rio Grande do Sul, onde Getúlio teria vencido por 298627
votos contra 982” (FAUSTO, 2014, p. 179). Não obstante, a insatisfação com a derrota pela
oposição foi alimentada com o assassinato do vice-candidato, João Pessoa. Reunindo
motivações públicas e privadas, sua morte foi explorada por Vargas e seus correligionários no
início da insurreição armada.
Os revolucionários marcharam ao Rio de Janeiro, então capital federal, com o objetivo
de tomar o poder e impedir a posse de Júlio Prestes. Com deposição do presidente da
república, Washington Luís, protagonizada pela alta cúpula militar, em 24 de outubro, os
setores oposicionistas não precisaram promover o derramamento de sangue que se anunciava
na cidade de Itararé-SP, diante das forças legalistas. Enquanto Getúlio Vargas era empossado
presidente da República em 3 de novembro de 1930, Itararé passava a ser conhecida
nacionalmente, como “cidade da batalha que não houve”.
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Dentro do período em que Getúlio Vargas foi presidente, várias insurreições


ocorreram. A guerra civil dos paulistas em 1932, também chamada de revolução
constitucionalista, a Intentona Comunista comandada por Luís Carlos Prestes em 1935 e a
tentativa integralista de derrubar o governo em 1938 são alguns exemplos. A instabilidade
política, social e econômica acompanha a história do Brasil República. Junto da instabilidade,
vai sendo gerada no país uma lógica institucional autoritária, como aponta Carla Reis Longhi
(2009). Esta culminaria com o aperfeiçoamento de aparatos repressivos. Neste caso, como é o
intuito da investigação deste artigo, o aprimoramento das ações do DOPS (Delegacia de
Ordem Político Social).
A DOPS foi criada ainda na primeira República, no ano de 1924. Ao longo de nossa
história recebeu diferentes nomenclaturas, todas se tratando do mesmo órgão policial. No
estado de São Paulo, em 1975, passou a ser chamado de DEOPS (Departamento Estadual de
Ordem Política e Social), nome que permaneceu até sua extinção em 1984. 2 Como aparelho
de ações da polícia política, a DOPS era um órgão presente na grande maioria dos estados
brasileiros. Foi frequente a comunicação da DOPS com delegacias do interior através do
envio de relatórios, boletins informativos e radiotelegramas. No estado de São Paulo, por
exemplo, produziram-se dossiês específicos relativos às cidades do interior, material que
serviu de pontapé inicial para a predileção desta pesquisa.
A lógica institucional autoritária brasileira também é refletida por Maria Aparecida de
Aquino. O autoritarismo acompanhou a história de nosso país durante o século XX, tendo
como protagonistas os militares e suas tentativas de tomar o poder:

Os militares brasileiros são golpistas de “primeira hora”, desde o início da República


– ela mesma, um golpe de Estado. Mais tarde, pactuaram com inúmeras tentativas de
tomar o poder ou de desestabiliza-lo: a derrubada de Getúlio Vargas, em outubro de
1945; o processo que levou ao seu suicídio, em 1954; o interregno conturbado do
suicídio à posse de Juscelino Kubitschek, que precisou ser garantida à força, em
meio a tentativas golpistas, em 1955; a articulação para impedir a posse de João
Goulart, após a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, frustrada pela “cadeia da
legalidade” organizada por Leonel Brizola. Porém esses “golpistas” somente
vivenciariam sua longa experiência de exercício do poder político entre 1964 e 1985
(AQUINO, 2004, p. 90).

O golpe civil-militar começou a ser tramado antes de 1964. Para entendermos sua
gênese, além da noção do instinto repressor das instituições brasileiras, é necessário voltarmos
para a renúncia de Jânio Quadros, ocorrida em 25 de agosto de 1961. O presidente que havia

2
Informações sobre os nomes que o DOPS recebeu em sua trajetória podem ser consultadas no trabalho de
Dissertação de Mestrado de Felipe de Faria Quadrado, A vigilância sem farda: a espionagem interna na ditadura
civil militar através do DEOPS.
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vencido as eleições e tomado posse no dia 31 de janeiro, alegou como motivação para tal ato
“forças terríveis”. Segundo uma versão da historiografia, Jânio esperava obter com a renúncia
“[...] maior soma de poderes para governar, livrando-se ate certo ponto do Congresso e dos
partidos. [...] Acaso os conservadores e militares iriam querer entregar o país a João Goulart?”
(FAUSTO, 2009, p. 442).
A comoção esperada por Jânio não aconteceu, o Congresso tomou conhecimento da
decisão e aí começou um novo dilema: a sucessão presidencial. Como a Constituição previa,
era o vice-presidente, João Goulart (Jango), quem deveria assumir. No entanto, sua figura
provocava resistência em grupos militares, que enxergavam Goulart como um líder
sindicalista.
A crise sucessória por muito pouco não se transformou em um confronto armado. Ao
contrário do veto que os ministros militares determinavam para a posse de Jango, que se
encontrava em viagem na China, no Rio Grande do Sul foi empreendida a resistência a tal
determinação, chamada de “campanha da legalidade”, liderada pelo cunhado de Jango, Leonel
Brizola, governador do Rio Grande do Sul.
Em meio à tensão, a solução encontrada pelo Congresso foi a troca da forma de
governo de presidencialista para parlamentarista. Assim, a 7 de setembro de 1961, a
instabilidade dava trégua e um sistema político mais flexível tinha início.
A experiência parlamentarista no país durou apenas até janeiro de 1963, quando, por
meio de plebiscito, a população decidiu pelo retorno ao presidencialismo. Como aponta Boris
Fausto, foi após esses anos de conturbação acerca da forma de governo para o país, que o
golpe civil-militar passava a ser “gestado”. Um aspecto que nutria os opositores de Jango no
sentido de uma intervenção armada era a questão fundiária no país. Enquanto a esquerda “[...]
queixava-se das vacilações de Jango na área das reformas sociais e das relações com o
imperialismo” (FAUSTO, 2009, p. 457), a direita tratava de relacionar as reformas
pretendidas por Jango com a radicalização das Ligas Camponesas e o comunismo.
A conspiração nos meios militares passa a tomar forma a partir da segunda metade de
1963. Em setembro de 1963 a Marinha e a Aeronáutica realizaram uma revolta de sargentos e
cabos na capital federal. Em outubro, Jango decretava estado de sítio por trinta dias. O
agravamento estava cada vez mais evidente. Junto da direita comandada pelos partidários da
UDN, somavam-se as forças armadas e setores civis e religiosos da classe média brasileira.
Os ingredientes para a intervenção golpista estavam postos na mesa. Restava – como
se fosse necessário para os ímpetos dos participes da ditadura – a resposta nas ruas. E ela não
tardou a vir. Um grande exemplo das manifestações da sociedade civil foi o movimento
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denominado “Marcha da família com Deus pela liberdade”, que, em 19 de março de 1964,
colocou cerca de 500 mil pessoas nas ruas de São Paulo. Esse movimento carregava consigo o
discurso anticomunista que se ampliou nos anos da ditadura.
Para Marcos Napolitano, três foram os núcleos de apoio que levaram ao sucesso do
golpe civil-militar de 1º de abril:
a) Conspiradores ligados à UDN e demais setores civis antivarguistas: este núcleo
tinha a frente líderes civis como Carlos Lacerda [...] Compartilha a oposição aos
herdeiros políticos do varguismo, sobretudo Leonel Brizola e João Goulart, e era a
favor do afastamento do nacionalismo que caracterizava o PTB;
b) Oposição militar: [...] representados pelos Estados Unidos da América, esse setor
militar conspirativo se fortaleceu sobretudo quando a hierarquia e os interesses das
Forças Armadas se viram ameaçadas pela política populista; c) O núcleo ligado ao
Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES): foi criado em 1962 pelo general da
reserva Golbery do Couto e Silva. Além de articular a conspiração dos setores
militares – ligados à Escola Superior de Guerra (ESG) – e empresariais – oriundos
principalmente das empresas multinacionais instaladas no Brasil, que se viram
ameaçadas pela política nacionalista -, o IPES foi o responsável pela elaboração de
um projeto político alternativo à democracia populista, baseado nos princípios da
Doutrina de Segurança Nacional (1998, p. 9).

Como visto, o golpe não se sucedeu pela unificação de um único setor do país, mas foi
uma conjuração de grupos interessados na queda do governo Goulart, a partir da liderança das
Forças Armadas. Uma das primeiras medidas da ditadura que se iniciou em 1º de abril de
1964 foi governar através de decretos, chamados de Atos Institucionais. Eles eram “decretos
jurídicos de caráter centralizador e autoritário que se sobrepunham à Constituição Federal”
(NAPOLITANO, 1998, p. 15).
No recorte temporal desta pesquisa vamos nos atentar especificamente ao AI-1 (Ato
Institucional nº 1), de 9 de abril de 1964, haja vista que os documentos do inquérito policial
aqui analisado correspondem ao ano de 1964.
O AI-1 foi a primeira grande atitude do governo militar no sentido de reprimir os
opositores. Entre suas medidas se destacam a cassação dos mandatos legislativos, suspensão
dos direitos políticos dos atingidos por 10 anos e a decretação de estados de sítio. Eram
medidas de controle do poder público por meio do executivo. O AI-1 atingiu diversos
brasileiros e provocou o abalo na consciência daqueles que ainda acreditavam tratar-se de um
governo “salvacionista” ou de transição:

Quando se encerrou, a 11 de junho de 1964, o prazo que o primeiro Ato havia


estabelecido para as cassações, o balanço inicial foi de 378 atingidos: três ex-
presidentes da República (Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart); seis
governadores de Estado, dois senadores, 63 deputados federais e mais de três
centenas de deputados estaduais e vereadores. Foram reformados compulsoriamente
77 oficiais do Exército, 14 da Marinha e 31 da Aeronáutica. Aproximadamente dez
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mil funcionários púbicos foram demitidos e abriram-se cinco mil investigações


atingindo mais de 40 mil pessoas (ARNS, 1985, p. 61).

As consequências do golpe se abateram por todo o país. Como se objetiva este artigo,
vejamos como o município de Itararé assistiu ao golpe. Para tanto devemos retornar para o dia
1º de janeiro de 1964, quando tomaram posse o prefeito Verginio Holtz e o vice-prefeito
Walter Coquemala, ambos eleitos pela coligação PSP – PR – PSD. Ainda neste dia, em
tempos de uma nebulosa desconfiança dos rumos que a democracia no Brasil iria tomar, sob o
governo de Joao Goulart, os treze vereadores eleitos para o quatriênio de 1964 – 1967
assumiam seus cargos.
Já sabido o resultado do pleito para o executivo municipal, vejamos como foram
distribuídos os votos nas eleições para vereador realizadas em 6 de outubro de 1963:

Foram os seguintes os vereadores eleitos pelas diversas legendas: Legenda PSP –


PR – PSD: Osvaldo Silva (296 votos); João Capilé (250 votos); Nagib Abrão (224
votos); Dr. Rubens Lobo Ribeiro (175 votos); Benedito Nehyr Carneiro (174 votos);
Adalberto Tavares dos Santos Lima (132 votos). Legenda: Partido Rural
Trabalhista: Mário de Almeida Portela (472 votos); José Carlos Magno Neto (229
votos); Manoel Hidalgo (213 votos); Salvador Rufino de Oliveira Neto (191 votos);
Nager Gusmão (148 votos) e Pedro Ribeiro Pinto (126 votos). Legenda da UDN: Dª
Eunice Brito Tatit (170 votos) (PIMENTEL, 1982, p. 148).

Itararé, que emergia em 1964, não era uma cidade com presença política udenista
significativa dentro da vereança e da prefeitura. Como citado por Adriano Queiróz Pimentel, a
atuação deste partido girava em torno de apenas uma vereadora eleita. Isto não significa que
ideias reacionárias escapassem da conjuntura política da cidade. Para além de um partido
político especificamente, ser conservador em tempos de Guerra Fria, do sintomático temor da
“ameaça vermelha” e de notícias de movimentos de cunho socialista em vários países, era
uma atitude um tanto quanto natural às cidades pequenas e às suas elites dirigentes.
Com relação à forma como a imprensa do município noticiou o golpe, cabe citar o
jornal Tribuna de Itararé, principal órgão impresso da cidade em 1964. Da mesma maneira
como a maioria dos jornais brasileiros, o 1º de abril foi saudado como “revolução” pelo
semanário. Na edição de 5 de abril de 1964 a primeira página do jornal tinha a expressiva
manchete “Vitória das forças democráticas”. No texto, assinado pelo diretor João Contieri, há
a ideia de que João Goulart conspirava contra o país:

Entendemos que o ex-presidente da República, João Goulart, conspirava contra a


Constituição, vários Governadores de Estado e grande parte das Forças Armadas e
Parlamentares, se propuseram a defender o regime democrático. Com a atitude
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assumida pelas forças democráticas, bruscamente Goulart deixou o poder, tomando


destino ainda ignorado (TRIBUNA DE ITARARÉ, 5 abr. 1964).

Texto ainda mais efusivo em dar apoio ao golpe esteve presente na edição do dia 12 de
abril do jornal, em que seis vereadores assinaram uma publicação que sugeria moção de
aplauso e solidariedade ao Governador do estado, Adhemar de Barros, por sua “atitude em
favor da democracia”. Na mesma edição, a vereadora udenista Dª Eunice Brito Tatit, escreveu
o texto “Revolução sem sangue”, no qual evidenciou a posição do legislativo municipal frente
aos acontecimentos:

Nenhuma outra nação deu mais soberba prova de maturidade política e de


conhecimento de sua grande responsabilidade em face à pressão de hordas
comunizantes e sobretudo de um governo transfeito em <inocente útil> a serviço
inconsciente ou consciente mesmo da ralé vermelha que procura se infiltrar no
mundo livre. Para escraviza-lo, para oprimi-lo, para tornar o homem um autômato,
um fantoche, uma pária no concerto da Humanidade! O Brasil vem de apresentar aos
povos da América a pujança de sua convicção religiosa, de sua fé cristã e às demais
nações do mundo, o repúdio à filosofia marxista, ao comunismo! (TRIBUNA DE
ITARARÉ, 12 abr. 1964).

O recorte selecionado permite notar os valores presentes no discurso da vereadora, que


considerava o governo anterior, de João Goulart, como comunista e, portanto, contrário ao
cristianismo. Este trecho também é esclarecedor em nos mostrar até que ponto a intolerância
dos grupos que apoiaram o golpe chegou.
Além disso, expõe a participação da imprensa com seus argumentos que
“justificavam” a intervenção golpista. Como sinaliza a historiadora Tania Regina de Luca, os
jornais não se produzem de forma solitária, mas, “[...] reúnem um conjunto de indivíduos, o
que os torna projetos coletivos, por agregarem pessoas em torno de ideias, crenças e valores
que se pretende difundir a partir da palavra escrita” (DE LUCA, 2005, p. 140).
Portanto, os valores veiculados nas publicações da Tribuna de Itararé, escritos por um
coletivo de cidadãos eleitos vereadores e atrelados ao programa do jornal, serviam como mais
um espaço de justificativa do projeto autoritário de poder. Esses trechos também nos
apresentam o envolvimento de setores da sociedade civil com o golpe, tendo em vista que os
textos foram escritos por cidadãos sem vínculo profissional com as Forças Armadas.
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Inquérito Policial nº 36/1964

Figura 1: Trecho do Relatório com os nomes dos indiciados enviado pela Delegacia de Polícia de Itararé.

O dia 10 de abril de 1964 foi intenso para as investigações comandadas por Artur
Cunha Filho, delegado da cidade de Itararé. Nesse dia, além de instaurar o inquérito policial
contra os cinco suspeitos de crime contra a segurança nacional, o delegado comandou autos
de busca e apreensão na casa destes e ouviu a declaração de um morador da zona rural.
Artur Cunha Filho determinou a instauração de inquérito policial contra Sylvio
Machado, Jorge Mellinger, José Mellinger Junior, Antonio Bittencourt e João Favier. As
motivações eram assim explicadas pelo delegado: “sendo do conhecimento desta Delegacia
que são partidários do Comunismo, ideologia que atenta contra a Segurança Nacional,
determino que seja instaurado competente inquérito policial” (INQUÉRITO POLICIAL Nº
36, p. 1). No mesmo documento o delegado pedia que fossem tomadas as declarações do
lavrador Álvaro do Espírito Santo.
O perfil dos indiciados era variado, mas prevalecia-se um padrão quanto à idade,
próxima aos cinquenta anos, com exceção de João Favier que tinha trinta anos. As profissões
dos suspeitos também variavam. João Favier e Antonio Bittencourt eram ferroviários, Jorge
Mellinger comerciante, José Mellinger Junior agricultor e Sylvio Machado tinha um escritório
de corretagem de seguros. Apenas este último era nascido em Itararé. Antonio Bittencourt
havia nascido em Castro, João Favier em Tatuí e os irmãos Mellinger, imigraram de
Nitchidorf, na Romênia.
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Segundo constam os autos do inquérito, às 9h da manhã, foi feita uma diligência até o
bairro da zona rural, chamado Barrinha, com o intuito de localizar o comerciante José
Mellinger Junior. Ali se encontrando, José não demonstrou resistência e aceitou que fossem
feitas buscas em sua casa. Ao contrário do que imaginava o delegado, não se localizou
nenhum jornal ou revista que simpatizasse com o comunismo.
Às 13h, acompanhados das testemunhas Mario Rodrigues de Camargo e Oracy Pontes,
o delegado e o escrivão, Eurico Fontes, foram até o escritório e também residência do corretor
de seguros, Sylvio Machado. O delegado foi recebido pela esposa de Sylvio, Josefina Mazalai
Machado, que informou que o marido estava desaparecido, não tendo noção de onde ele se
encontrava. Após busca de material comunista, assim como o que ocorreu na propriedade de
José Mellinger Junior, nada foi encontrado.
Depois das buscas a dois investigados, Artur Cunha Filho ouviu as declarações de
Alvaro do Espírito Santo Furquim. Morador do Bairro do Quadro, na zona rural de Itararé,
Alvaro era a ponte que o delegado buscava para dar prosseguimento às investigações com
relação às atividades suspeitas ocorridas na zona rural de Itararé. Ao inquirir Alvaro, algumas
informações úteis aos desígnios da arbitrariedade do delegado foram atingidas. O agricultor
admitia “[...] que embora seja assinante do jornal “Terra Livre”, há mais de um ano, não o fez
por que tenha tendências ideologicamente comunistas” (INQUÉRITO POLICIAL Nº36, p. 6).
Outra informação útil aos investigadores era a de que Sylvio Machado quem
procurava não somente Alvaro, mas também outros lavradores na busca por assinantes de
jornais e semanários. Nas declarações do lavador, era Jorge Mellinger o encarregado da
entrega direta do jornal aos moradores das localidades próximas: “[...] passou a receber esse
jornal, que lhe era enviado sob o cuidado de Sylvio Machado e distribuído na venda do bairro
onde mora por Jorge Mellinger” (INQUÉRITO POLICIAL Nº 36, p. 7).
Antes que o dia tivesse fim, Artur Cunha Filho teve tempo de realizar o terceiro auto
de busca e apreensão, agora na casa do ferroviário Antonio Bittencourt, às 18h, conforme
consta o inquérito. Novamente acompanhado das testemunhas Mario Rodrigues de Camargo e
Oracy Pontes, dessa vez a busca obteve resultados satisfatórios para os objetivos da
investigação. Foram encontrados “[...] em um dos cômodos sete exemplares do jornal O
Semanário, um exemplar do jornal Novos Rumos e um exemplar do Jornal da Manhã”
(INQUÉRITO POLICIAL Nº36, p. 5).
No dia 13 de abril, Artur Cunha Filho solicitou a prisão de Sylvio Machado, que se
encontrava desaparecido. O motivo alegado era o de crime contra a segurança nacional,
baseado na lei nº 1802 de 5 de janeiro de 1953. Enquanto isso, diligências feitas até as
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residências de João Favier e Jorge Mellinger não obtiveram resultado. Segundo as apurações,
enquanto o primeiro estava viajando de férias, o segundo não morava mais em Itararé,
residindo em Curitiba.
Outra determinação do delegado no dia 13 de abril e que, por conseguinte, traria novos
rumos às investigações foi o pedido de declarações dos lavradores Angelo Augusto Ghizzi,
Mauricio Veiga e Ataide de Furquim Lopes, bem como o depoimento das testemunhas
Ludovico Gleczvik, Sebastião Ferreira Marciano e Raul Moreira Cortes.
Os depoimentos dos lavradores se relacionam com a intenção do delegado em obter
provas de que, de fato, era feito o trabalho de proselitismo político comunista junto aos
residentes nas áreas rurais da cidade. A prova categórica para incriminar, fundamentalmente
Sylvio Machado, girava em torno dos jornais, instrumentos de propaganda “subversiva”. A
memória das ações das Ligas Camponesas estava viva no ideário repressor dos órgãos de
polícia, e tão logo o golpe foi posto em prática, as áreas rurais dos municípios brasileiros eram
tidas como vulneráveis.
Angelo Augusto Ghizzi, residente na fazenda denominada “Barreiro”, foi o primeiro
dos três lavradores a fazer sua declaração, no dia 14 de abril. Segundo o que o inquérito
informa, Angelo, no dia 5 de abril, recebeu a inesperada visita, na fazenda em que trabalhava,
de Sylvio Machado, carregando uma grande mala nas costas. Angelo arrendava as terras do
deputado Walter Menk. Por conta disso temia sofrer represálias e comprometer seu nome ou
da fazenda. Conforme a declaração do lavrador:

[...] temendo ser preso em consequência da revolta anti-comunista, visto professar


tal ideologia; que sabendo que Sylvio Machado, apesar de tendência comunista, é
bom chefe de família, trabalhador, honesto e até religioso, pois foi nomeado festeiro
para a festa de Nossa Senhora da Conceição, padroeira local. [...] o declarante
compadeceu-se da situação dele e por isso lhe deu pouso e comida, sendo certo que
não consentiu que ele lá ficasse, pois, não sendo o declarante comunista, não queria
complicações nem comprometer o seu nome e o conceito da fazenda, que aliás,
pertence ao deputado Walter Menk, que tal como o declarante, é acérrimo adversário
do comunismo (INQUÉRITO POLICIAL Nº36, p. 11).

Logo após a curta estadia dada, no dia seguinte, Angelo levou Sylvio de camionete até
a estrada que liga Itararé à cidade vizinha de Itaberá, e não teve mais notícias dele. Em suas
últimas declarações, Angelo reiterava não compactuar com o comunismo: “[...] o comunismo
é temido e combatido por todas as pessoas que moram na fazenda do deputado Walter Menk,
não tendo lá feito qualquer prosélito” (INQUÉRITO POLICIAL Nº36, p. 12).
No dia 18 de abril, os lavradores Mauricio Veiga e Ataíde Furquim Lopes deram as
suas declarações. Residentes no Bairro do Quadro se diziam analfabetos, sabendo assinar
14

apenas o nome. Mauricio Veiga afirmou não fazer parte do comunismo, tampouco saber o
que ele significa, “[...] cujos princípios desconhece, sabendo entretanto, que são contrários ao
regime democrático” (INQUÉRITO POLICIAL Nº36, p. 13). Quanto a ter recebido jornais, o
agricultor se remete, em sua declaração, ao ano de 1963, anterior ao golpe civil-militar,
quando se tornou assinante do jornal “Terra Livre”:

Há oito ou nove meses atrás, tornou-se assinante do jornal “Terra Livre”, porém
ludibriado em sua boa fé, acreditando que se tratava de um órgão de imprensa sadio
que tinha por objetivo prestar auxílio aos lavradores, pois assim dizia um estranho
que andou por seu bairro, angariando assinaturas ao preço de 200,00, sendo certo
que os seus assuntos, além de serem variados, cogitava de reforma agrária, criação
de sindicatos e outros benefícios a favor dos lavradores; que os exemplares deste
jornal, vinham de São Paulo aos cuidados de Sylvio Machado, pessoa esta que os
encaminhava para os assinantes respectivos [...] (INQUÉRITO POLICIAL Nº36, p.
13).
O agricultor Ataíde Furquim Lopes teve declaração parecida com a de Mauricio.
Também desconhecia ao certo o que era o comunismo, haja vista ser analfabeto, sem nenhum
estudo. Sua principal fonte de informação vinha do que escutava o padre falar na igreja e no
rádio. Todavia, assim como Mauricio, admitiu assinar o jornal “Terra Livre”:

[...] não sabe, ao certo, o que venha a ser o comunismo, acreditando, porém, que é o
mesmo anti-democrático e religioso, porquanto por muitas vezes teve oportunidade
de assistir os padres combatendo essa ideologia, não só na igreja desta cidade como
também pelo rádio [...]. [...] pelo fim do ano passado andou um moço estranho pelo
bairro, angariando assinantes para o jornal intitulado “Terra Livre”, tendo o
declarante tomado uma assinatura por duzentos cruzeiros, passando daí por diante, a
receber mensalmente esse órgão de imprensa; que o estranho incumbido de colocar a
circulação no bairro o jornal aludido disse ao declarante que era enviado de
SYLVIO MACHADO, e que os exemplares respectivos vinham ao cuidado dele,
conforme, efetivamente, se deu; que, entretanto, o declarante nunca procurou Sylvio
Machado para receber o jornal, pois este lhe é entregue numa venda do bairro de sua
residência, venda essa que pertencia antes a Jorge Mellinger (INQUÉRITO
POLICIAL Nº36, p. 14).

O jornal “Terra Livre”, citado ter sido recebido nos depoimentos de três dos quatro
moradores das áreas rurais ouvidos pelo delegado, foi um órgão de imprensa alternativa no
Brasil entre as décadas de 1950 e a 1960. Organizado pelo PCB, tinha por função atender a
população da área rural:

O “Terra Livre” seria o principal instrumento de propaganda do PCB no campo.


Dirigido a um público esmagadoramente analfabeto, estimulava os alfabetizados a
lerem-no em voz alta, em grupos. A proposta era informar os camponeses sobre seus
direitos.
Sua seção mais popular talvez tenha sido justamente a “Conheça seus direitos”,
publicada regularmente no jornal a partir de 1956. Nela se procurava denunciar, com
base na legislação existente, os direitos dos trabalhadores rurais que, embora
existissem no papel, eram transgredidos na prática. Citando decretos, artigos e
15

portarias, os textos indicavam brechas legais que poderiam servir de base para
reivindicações, como férias, salário mínimo, descanso remunerado e direito de
organização, entre outros.
(Disponível em: http://memorialdademocracia.com.br/card/a-agitacao-e-
propaganda-do-pcb. Acessado em: 13 jul. 2017).

Para Rafael Sandrin da Cruz, a repressão no estado de São Paulo combateu jornais
como o Terra Livre, pois este tipo de publicação apoiava movimentos do campo e sindicatos,
um dos principais focos de investigação da polícia política que entendia circular dentro desses
jornais elementos comunistas:

O jornal Terra Livre durante o período de sua existência, ou seja, entre os anos de
1949 e 1964, foi alvo da repressão da “Polícia Política Paulista”, reconhecida como
DEOPS/SP. As ações investigativas deste órgão não foram direcionadas apenas
contra este jornal. Inclusive foram desenvolvidas em torno de meios de
comunicação de orientação comunista, que incentivaram os trabalhadores a
reivindicarem seus direitos, como o Jornal Hoje e a Voz Operária.
O Terra Livre apoiou a formação de movimentos sociais agrários no país, tais como
sindicatos de trabalhadores rurais, associações de lavradores e comissões em
fazendas, portanto, se tornou alvo de investigações policiais e da repressão. O
DEOPS/SP impediu que o jornal circulasse, pois os investigadores entendiam que a
repressão coibiria a formação de entidades sindicais (CRUZ, 2013, p. 30).

Figura 1: Primeira página do jornal Terra Livre. Edição de novembro de 1961.


16

O ambiente em Itararé era de tensão. Jorge Mellinger e Sylvio Machado não haviam
sido identificados, estando desaparecidos. O chefe da delegacia havia apreendido jornais
dedicados a debater a questão agrária. Ao que se apresentava, os dois desaparecidos eram os
responsáveis pela distribuição dos jornais. Chama a atenção a velocidade com que Artur
Cunha Filho prosseguiu com as investigações. Afinal, um jornal entregue a pessoas simples,
analfabetas, seria capaz de contribuir para uma insurreição ou ameaçar a estabilidade de uma
cidade? Para a mentalidade do delegado e do DOPS da capital, a resposta era afirmativa.
Desejoso de finalizar o inquérito o mais rápido, no dia 24 de abril o delegado ouviu
três testemunhas, conhecidos moradores na cidade, que repudiavam qualquer menção ao
comunismo. Os argumentos recebidos representavam uma das últimas coletas de informações
de Artur Cunha Filho até finalizar o inquérito e remete-lo a São Paulo. O primeiro a falar foi o
relojoeiro Ludovico Geckzvik, que foi taxativo ao denunciar os suspeitos:

Em conversa veio a saber que Sylvio Machado é o chefe do Partido Comunista nesta
cidade. Sabe, também por notícias que se propagam na cidade, que entre os
comunistas figuram também os ferroviários da estrada de ferro sorocabana Antônio
Bittencourt e o agricultor José Mellinger Junior. [...] em conversa com o sargento de
exército instrutor de Tiro de Guerra local, contou este ao depoente que Antônio
Bittencourt, nessa época afirmava entusiasticamente, que era adepto do comunismo,
tendo em certa ocasião, proferido a seguinte frase “sou vermelho e o papai aqui
ninguém prende”. Não sabe se as últimas greves da Sorocabana de que participaram
os ferroviários desta cidade, obedeceram ou não plano subversivo, sabendo, porém,
segundo comentários, que os cabeças das mesmas, nesta cidade, eram os ferroviários
Favier e um tal Amendoim” (INQUÉRITO POLICIAL Nº36, p. 17).

Sebastião Ferreira Marciano, fazendeiro que residia no Bairro do Quadro, corroborou


com os argumentos de que na localidade eram realizadas reuniões e distribuídos exemplares
do jornal “Terra Livre”:

Que havia naquele bairro uma venda de propriedade de Jorge Mellinger, que era
onde reuniam-se os simpatizantes do partido comunista, isto é, Jorge, Sylvio
Machado, e sua pessoa que vinha de Sorocaba para tal fim; que se utilizam de uma
pessoa qualquer para avisar os lavradores que havia reunião. [...] José Mellinger
Junior, quando estrava embriagado, se dizia comunista. Que é do conhecimento do
depoente que Jorge Mellinger há uns cinco meses vendeu sua venda tendo ido
residir em Curitiba. Sabe que alguns lavradores assinaram o jornal “Terra Livre”,
mas isso por imposição de Jorge. [...] já ouvi falar que Antônio Bittencourt é
comunista e andava dizendo bobagens por aí (INQUÉRITO POLICIAL Nº36, p.
18).

Percebe-se nas declarações das testemunhas de acusação a utilização de falas que iam
ao sentido de “ouvir dizer”, “segundo comentários”, de modo que não afirmam em suas
declarações ter conhecimento dos fatos, isto é, tê-los realmente presenciado.
17

O testemunho mais impactante e aguardado, todavia, veio de Raul Moreira Cortes.


Funcionário público e de família influente na cidade – seu irmão e filho foram prefeitos de
Itararé – Raul se declarava um “ex-comunista”, por ter em sua juventude compactuado com a
ideologia. Sua declaração era imbuída de um discurso de perseguição, não inocentando
nenhum dos investigados:

Tem conhecimento de que Sylvio Machado sempre foi chefe da organização


comunista de Itararé, que Antônio Bittencourt, que conhece há vinte anos, é
pregador desta ideologia; que José Mellinger e seu irmão Jorge Mellinger, este
atualmente residindo em Curitiba, foram os organizadores do movimento comunista
rural deste município, considera os mesmos elementos perigosos; que João Favier,
comunista com origem na cidade de Tatuí, na última greve da Est. F. Sorocabana,
teve participação de chefe na sua organização; afirma ainda que o sr. Ângelo
Augusto Ghizzi, é comunista entre os adeptos esquerdistas e mesmo quando
candidato a prefeitura na penúltima eleição municipal, quando atacado pelo
depoente em praça pública, acusando-o de comunista, não defendeu-se de tal
acusação confirmando aí sua ideologia; que todos esses elementos são perigosos;
que são pregadores e organizadores de milícias (INQUÉRITO POLICIAL Nº36, p.
19).

Raul Moreira Cortes não se contentou em atacar os investigados na cidade. Em sua


opinião, o julgamento dos acusados não poderia prosseguir em Itararé, visto sua desconfiança
quanto à seriedade da justiça do município. Quais seriam os objetivos de Raul ao sugerir que
fosse o DOPS de São Paulo o responsável pelo prosseguimento do caso? Sem dúvida, sua
sugestão nada convidativa para um investigado, não se preocupava com um julgamento
imparcial:

Disse que conhece pessoas que podem depor no presente inquérito, mas que não
encontram coragem suficiente e necessária; que na opinião do depoente, os acusados
só poderão ser julgados pelo Comando Militar, ou DOPS de S. Paulo, e este por
considerar suspeito no caso o Juízo e a Promotoria da Comarca de Itararé
(INQUÉRITO POLICIAL Nº36, p. 19).

O que se seguiu ao dia 24 de abril foi uma sequência de arbitrariedades comandadas


pelo delegado. A pequena cidade do interior paulista, com não mais do que trinta mil
habitantes, enfrentava o que o delegado considerava “problemas da ideologia vermelha”.
Conforme o inquérito, no dia 25 de abril foram requeridos para se apresentar a delegacia de
polícia de Itararé, de onde não sairiam mais naquele dia, Antônio Bittencourt e José Mellinger
Junior. Logo depois de suas declarações, foram presos. Na ficha dos indiciados, o inquérito
aponta que como arma utilizada estava a “propaganda comunista”. A data do “delito” é
também sugestiva, 31 de março de 1964.
18

O fenômeno do anticomunismo foi a principal justificativa para a instauração do


inquérito policial nº36/1964. Conforme aponta Angélica Alvares Ramos, ao estudar os
discursos contrários ao comunismo no século passado, nota-se que:

Ao longo do século XX o anticomunismo se compôs como um aparelho político


indispensável no mundo ocidental, configurando-se como um elemento essencial na
esfera nacional. A potencial ameaça proveniente de Moscou despertou receios e
temores de que seu ideário se espalhasse pelo mundo. Acreditava-se na implantação
do “terror comunista”. A existência de um grande “perigo vermelho” a rondar o
universo era uma concepção nutrida por vários indivíduos (ALVARES, 2017, p. 73).

O temor do ideário comunista é identificado nas declarações das testemunhas e dos


investigados. Em nenhuma declaração se identificou a confissão de filiação ou flerte com a
ideologia. A negação ao comunismo reflete, em primeiro lugar, o nível de paranoia e aversão
a este sistema de ideias, presente junto aos realizadores do golpe civil-militar. Em segundo
plano, vê-se que os investigados prontamente negaram qualquer relação com um sistema
político que lhes era passado como “terror comunista”.
Desrespeitar os direitos do cidadão com prisões sem provas conclusivas e incutir o
medo eram elementos fundamentais para as intenções da repressão em 1964:

O labirinto do sistema repressivo montado pelo Regime Militar brasileiro tinha


como ponta do novelo de lã o medo pelo qual eram presos os suspeitos de atividades
políticas contrárias ao governo. Num completo desrespeito a todas as garantias
individuais dos cidadãos previstas na Constituição que os generais alegavam
respeitar, ocorreu uma prática sistemática de detenções na forma de sequestro, sem
qualquer mandado judicial nem observância de qualquer lei (ARNS, 1985, p. 77).

Entendemos que o delegado precisava dar uma resposta à opinião publica,


principalmente aos setores conservadores da cidade. Criado pelos agentes promovedores do
golpe, a sensação do risco de uma insurreição comunista era tão grande, que a suposta
assinatura e a distribuição de um jornal de esquerda significaram a prisão de dois
trabalhadores da cidade. No primeiro mês do golpe civil-militar, os idealizadores se
organizaram visando impedir que qualquer área rural ou cidade afastada dos grandes centos
pudesse representar um suposto “foco de resistência”.
A prisão não afetava apenas a moral dos indiciados, mas também a de seus familiares,
expostos aos comentários indesejados, à fofoca e ao medo de uma nova prisão:

A suspeita de subversão estendia-se a familiares e amigos das pessoas procuradas


pelas forças policias militares. À luz da ideologia da Segurança Nacional, o inimigo
não era apenas uma pessoa física, era um eixo de relações visto potencialmente
19

como núcleo de uma organização ou partido revolucionário. Assim, os que se


encontrassem ao lado da pessoa visada, ainda que por vinculações profissionais,
afetivas ou consanguíneas, eram indistintamente atingidos pela ação implacável dos
agentes que encarnavam o poder do Estado (ARNS, 1985, p. 78).

O interrogatório de Antônio Bittencourt e José Mellinger Junior foi pouco oportuno


em permitir uma defesa contundente. Na tentativa de provar a inocência e lutar pela liberdade,
buscava-se argumentar. Antônio Bittencourt aludiu à religião para se defender das denúncias,
se dizendo “religioso, espírita convicto”, enquanto José Mellinger, afirmou que assinava o
jornal “Terra Livre” por ele tratar sobre “plantas e criações”.
A defesa dificilmente surtia os efeitos desejados. Aí percebemos como a truculência
da ditadura se fez presente desde o dia 1º de abril. Neste caso estudado, em menos de um mês
do golpe, dois cidadãos foram presos sobre denúncia de crime contra a segurança nacional.
Nenhuma arma ou material explosivo apreendido inclusive, nenhum dos dois possuía filiação
partidária. As “milícias” que Raul Moreira Cortes dizia existir em Itararé eram mais a junção
do ódio e desconfiança contra aqueles que pensavam diferente da posição política
predominante na cidade, vide os casos de Ângelo Ghizzi, candidato rival em uma eleição ou
Sylvio Machado, homem culto e popular.
Da mesma forma, que impõe o medo, a repressão deseja silenciar os que rodeiam o
alvo imediato de sua ação. Reprimir, neste caso, ia além do inquérito:

Na verdade, a repressão não se realiza plenamente na sua forma de ser, isto é, a


partir de seus fundamentos jurídicos Há em toda repressão uma estratégia de ação,
uma outra ordem de força, uma outra verdade. Em outros termos, há um projeto
político de terror e de construção do medo que objetiva atingir, em primeiro plano,
as suas vítimas imediatas e, em segundo, toda a sociedade (ALVES, 1997, p.7-8
apud PRIORI, 2012, p. 787).

Neste momento das investigações, Artur Cunha Filho tinha dois dos cinco suspeitos já
identificados e presos na delegacia sobre o argumento de crime contra a segurança nacional.
O terceiro deles não demorou muito, na verdade, um dia após Antônio Bittencourt e José
Mellinger Junior. Em 26 de abril João Favier foi preso.
O golpe, desde seu início, desrespeitou garantias individuais previstas na Constituição.
A forma como os moradores de Itararé foram abordados e presos se insere na ótica analisada
por D. Paulo Evaristo Arns, a respeito das arbitrariedades cometidas contra aqueles que se
apresentavam espontaneamente à Justiça. Esses casos, “[...] demonstram que, nem assim, o
sistema repressivo agiu dentro do respeito aos direitos fundamentais da pessoa” (ARNS,
1985, p. 80).
20

Os dias passavam num ritmo acelerado e o primeiro mês do golpe ia chegando ao fim.
Em 30 de abril uma solicitação do juiz Benedicto Dólival dava a tônica da logística das
informações repassadas a DOPS de São Paulo: “solicito que seja este Juízo informado sobre
as datas das prisões, andamentos dos inquéritos e as solturas já efetuadas, bem como se houve
remessa de presos a D.O.P.S em S. Paulo” (INQUÉRITO POLICIAL Nº36, p.31).
No dia 4 de maio, o delegado Artur Cunha Filho enviou a São Paulo um comunicado
que constava uma observação importante, a parte da qualificação, interrogatório e
identificação dos três primeiros suspeitos. Alertava acerca da impossibilidade de localizar os
“ferrenhos comunistas”, como o inquérito aponta, Sylvio Machado e Jorge Mellinger, “[...] o
primeiro está em lugar incerto e não sabido e o segundo por estar residindo na cidade de
Curitiba, cujo endereço não foi possível conseguir” (INQUÉRITO POLICIAL Nº36, p. 10).
Ainda no dia 4, foi a vez do último dos investigados dar seu depoimento, até que o
delegado encerrasse o caso e o enviasse como inquérito para São Paulo. O ferroviário João
Favier negou, da mesma maneira que seus colegas, ser comunista, recorrendo à sua vida
religiosa para combater as acusações:

[...] que quanto a ser comunista, informa que é católico praticante, e todos os
membros de sua família são católicos, aonde tem um filho que é coroinha e se fosse
comunista, não seria católico e nem permitira que seu filho fosse coroinha; [...] e
nunca ouviu falar que Sylvio Machado é comunista, que seu colega de serviço, de
nome Antonio Bittencourt, acusado, nunca soube que o mesmo fosse comunista
(INQUÉRITO POLICIAL Nº36, p. 32).

Um dia depois, Artur Cunha Filho fez sua última incursão na casa de suspeitos até o
encerramento do inquérito. Os escolhidos foram os agricultores Alvaro do Espírito Santo,
Ataíde de Furquim Lopes e Mauricio Veiga. Nessas incursões foram apreendidos dezoito
exemplares do jornal Terra Livre, dois exemplares do jornal Novos Rumos e um exemplar do
jornal O Semanário. Novamente, nenhuma arma de fogo, anotações de objetivos do grupo,
livros de autores comunistas, em suma, a repressão reduzia propaganda ideológica e material
subversivo a alguns exemplares de jornais comprados por agricultores com pouca instrução.
Entre os dias 5 e 15 de maio não constam nenhuma publicação no documento
analisado. Há, pois, um hiato neste período de dez dias, o que pode sugerir que realmente não
houve nenhuma atividade de importância neste momento relacionada à investigação; ou
também que o organismo do golpe não reconheceu como válida de ser inserida no inquérito
nenhuma informação – nestes termos, a partir da exclusão de notícias que fossem contrárias
ao projeto de poder e repressão instalada.
21

Entre uma Câmara Municipal que dava legitimidade ao governo golpista de Castelo
Branco, eleito indiretamente em 9 de abril por um Congresso já expurgado de inimigos do
novo projeto de poder, uma imprensa que nutria dentro de suas gráficas o ideário
intervencionista e uma forte repressão a comando do delegado Artur Cunha Filho, o
encerramento do inquérito estava próximo. No dia 16 de maio a documentação foi enviada ao
Tribunal de Segurança Nacional. A interpretação de seu conteúdo é uma pista do desfecho
que o cerco contra os investigados tomou.
As motivações do indiciamento e os nomes dos indiciados são expostos logo no início
do relatório pelo delegado:

Esta Autoridade relatora, sempre alerta aos reclames da Pátria, fiéis aos mais nobres
e sagrados princípios democráticos e Cristãos, em cumprimento de seu múnus
público e de seu dever de brasileiro, em permanente vigilância e combate à nefasta
ideologia extremista, em face da última intentona, felizmente sufocada sem
derramamento de sangue, não poupou esforços nem sacrifícios para descobrir,
prender e responsabilizar criminalmente, em conformidade com a Lei de Segurança
Nacional nº 1802, todos aqueles que neste município vieram de ser apontados como
suspeitos, adeptos ou meros simpatizantes do comunismo, daí a instauração do
presente inquérito policial, em 10 de abril de 1964, em que figuram como indiciados
Sylvio Machado, Jorge Mellinger, José Mellinger, Antonio Bittencourt e João Favier
(INQUÉRITO POLICIAL Nº36, p. 36).

A análise do fragmento do discurso do delegado corrobora para compreendermos os


argumentos em voga no período posterior ao golpe junto às delegacias de polícia. Mais do que
“múnus público”, a denúncia dos subversivos ia ao encontro do que se compreendia como
“dever de brasileiro”. Sob este prima, reprender o que ia contra “os princípios democráticos e
cristãos” se confundia com a repressão embasada na Lei de Segurança Nacional. Aqui, o
público e o privado se entrelaçam, à medida que, no discurso de Artur Cunha Filho, sua
função profissional é estendida e tratada como complementar às suas escolhas pessoais.
A intrincada relação entre Doutrina de Segurança Nacional, DOPS, delegacias do
interior e moradores foi peça facilitadora das constantes denúncias e da velocidade para
apurá-las. As testemunhas de acusação tinham função estratégica para o desenvolvimento das
investigações, geralmente fazendo parte do cotidiano do denunciado e servindo de testemunha
durante o processo. No relatório final, a certeza das declarações dessas testemunhas foi outro
elemento apresentado:

Não obstante, as testemunhas inquiridas, Ludovico Gleczvik, Sebastião Ferreira


Marciano, Raul Moreira Cortes, asseveram que os cinco ditos indiciados neste
inquérito exerciam, efetivamente, atividades comunistas, bem como costumavam se
22

reunir na casa de campo, neste município, de Jorge Mellinger. Como este último se
acha morando em Curitiba, conforme informações obtidas, solicitou-se à Polícia
daquele Estado, que fosse ele identificado, qualificado e interrogado sobre a
acusação que lhe pesa (INQUÉRITO POLICIAL Nº36, p. 37).

Como lembra Maria Luiza Tucci Carneiro, os órgãos de repressão estavam espalhados
com informantes em todo o país:

Órgãos de repressão subordinados ao staff do regime foram instalados por todo o


país sob a coordenação de um militar assessorado por uma elite de informantes.
Agentes invisíveis emergiram de todos os poros da sociedade que passou a viver em
constante estado de alerta. Associações identificadas com as ideologias
conservadoras – como a Tradição, Família e Propriedade (TFP), o Comando Geral
Democrático e o Comando de Caça aos Comunistas – começaram a cooperar com o
regime na luta contra o inimigo-maior: os comunistas (CARNEIRO, 2014, p. 24).

Quanto aos agricultores assinantes dos jornais em áreas rurais de Itararé, o delegado
considerou-os inocentes, não tendo feito parte de nenhum “plano comunista”:

Os agricultores Alvaro do Espírito Santo Furquim, Angelo Augusto Ghizzi,


Mauricio Veiga e Ataide de Furquim Lopes, que foram submetidos às investigações
policiais, três dos quais porque, inadvertidamente, assinaram os jornais que recebam
por intermédio de Sylvio Machado, não sendo nenhum deles indiciado dada
evidência que não fizeram parte de nenhum plano comunista, não havendo, por
outro lado, acusação alguma contra eles (INQUÉRITO POLICIAL Nº36, p. 37).

Apesar de cinco nomes indiciados, a ditadura, por meio do inquérito policial nº 36,
tratava Sylvio Machado como o chefe do grupo comunista de Itararé. Seu nome é o primeiro
da lista e a seu respeito figuram as principais informações do relatório. Para a lógica
autoritária de Artur Cunha Filho, qualquer movimento de formação política na cidade ou
resistência passaria por Sylvio Machado, que até então era considerado foragido pela polícia:

Das buscas de início efetuadas em escritório e residências dos mesmos, resultaram


apreensão de vários exemplares de jornais comunistas, que acompanham e instruem
este inquérito e que estão relacionados nos respectivos autos, [...] órgãos de
imprensa esses denominados “Terra Livre” e “Semanário”, endereçados a seus
assinantes sob o cuidado de Sylvio Machado, circunstância, aliás, que solicita a sua
maior responsabilidade, não só por se tratar de pessoa de relativa cultura e de fácil
contato com a população, dado possuir um escritório de corretagem em seguros,
como principalmente, porque, através dele, os mentores da ideologia comunista
inoculavam em incautos e ignorantes lavradores, o germe nocivo de suas pretensões
subversivas.
Não bastasse esse procedimento de Sylvio Machado, para revelar a sua autêntica
atividade anti-democrática e não teria ele, abandonado seus próprios interesses e a
própria família, fugindo desta cidade, até agora para lugar incerto e não sabido, cuja
prisão foi solicitada pelos radiotelegramas (INQUÉRITO POLICIAL Nº36, p. 37).
23

O inquérito se encerra com algumas lacunas, entre elas a incapacidade de se localizar


Jorge Mellinger e Sylvio Machado. No entanto, embora o órgão repressivo não tenha
encontrado esses moradores da cidade, o estrago para suas trajetórias já estava consumado.
Seus familiares – principalmente os de Sylvio Machado, morador conhecido e bem quisto
pela população da cidade – sentiam-se inseguros, envergonhados e incapazes frente às
arbitrariedades e mentiras propagadas no município.
Sabe-se, entretanto, que Sylvio Machado, retornou a Itararé em junho do mesmo ano,
após a “poeira baixar”, tendo sido interrogado e liberado, motivo que fez o inquérito ser alvo
de questionamentos, dado que o delegado precisou retomá-lo. Quanto a Jorge Mellinger, não
foi possível encontrar nenhuma informação a respeito de seu interrogatório ou localização na
cidade de Curitiba, de onde se informava no inquérito ele estar escondido.
Infelizmente o Fórum Municipal de Itararé não dispõe em seus arquivos nenhuma
informação referente ao prosseguimento do Inquérito nº 36/1964 e sua possível transformação
em Processo. O que foi possível de se apurar é que nenhum dos cinco indiciados foi preso ou
retornou à prisão em virtude de crimes contra a Segurança Nacional, conforme pesquisado
nos arquivos da Delegacia da cidade de Itararé nos anos seguintes. Neste sentido, esta
pesquisa não tem por objetivo ter aqui seu ponto final, já que alguns advogados consultados e
conhecidos dos indiciados comentaram que estes casos se transformaram realmente em um
Processo, sendo levado a julgamento, sem que, contudo, nenhum envolvido fosse condenado.
A localização e análise do Processo podem auxiliar na resposta destes questionamentos.

Figura 3: Identificação de Sylvio Machado na Delegacia de Polícia de Itararé.


24

Figura 4: Impressões digitais de Sylvio Machado.

Conclusão

A Lei de Segurança Nacional, citada inúmeras vezes nos autos do inquérito da


delegacia de Itararé, como referência fundamental para o indiciamento dos suspeitos, tem em
sua trajetória de elaboração fatores de influência anteriores à conjuntura do golpe de 1964, a
começar que a legislação para crimes políticos, a lei 1802, foi definida em janeiro de 1953, no
período democrático do segundo governo – eleito - de Getúlio Vargas.
Até a constituição da lei, o Brasil passou por um processo político autoritário, mesmo
em tempos de aparente estabilidade democrática, arquitetado com a função de incriminar
todos os grupos que por uma razão ou outra se opusessem a nova ordem no país. No contexto
da guerra fria e do posicionamento brasileiro frente à bipolarização do mundo, a expansão do
intervencionismo estadunidense não pode ser relegada a segundo plano.
Para delimitarmos os efeitos da extensão desta política estadunidense, basta a
lembrança da chamada Ideologia de Segurança Nacional, difundida internamente e depois
exportada para várias nações da América Latina, cuja influência dos Estados Unidos foi
marcante após a Segunda Guerra Mundial. Sob impulso do discurso do então presidente,
Harry S. Truman, em 1947, e das intensas perseguições contra os “agentes infiltrados”, pelo
senador Joseph McCarthy, pretendia-se obter a “segurança contra um inimigo virtualmente
poderoso e sem face, o “messianismo universal da doutrina marxista”” (FERNANDES, 2009,
p. 1).
Destarte, a Lei de Segurança Nacional no Brasil deixaria de vigorar somente em 1967,
“através do Decreto-Lei nº 314 de 13 de março de 1967, que finalmente revogava a Lei n°
25

1802/53, introduzindo formalmente a Doutrina de Segurança Nacional postulada pela Escola


Superior de Guerra (ESG)” (FERNANDES, 2009, p. 4). Com esta medida, eis que a Doutrina
de Segurança Nacional passa a ser o respaldo legal para as ações autoritárias da ditadura, uma
rede de informações que englobou outros aparelhos, e que atuou em sincronia com o Serviço
Nacional de Informações (SNI).
Estruturados os organismos de repressão, a ditadura, já em seus primeiros anos via-se
preparada para combater o inimigo, e de forma um tanto quanto paranoica, relacionar sua
existência às pretensões da União Soviética em espalhar o comunismo. Paranoica porque todo
indivíduo ou grupo organizado, como os universitários, sindicatos e movimentos sociais, que
se negassem a reconhecer o governo ilegítimo, apontando criticas a sua continuidade, eram
taxados, denunciados e combatidos por suas aspirações, prontamente vistas como comunistas.
Se nos Estados Unidos, a denúncia aos “subversivos” foi essencial para os desígnios
do macartismo, no Brasil pós-golpe não seria de outra forma. E Itararé, como qualquer
pequeno município naquela conjuntura, não teve predileção diferente. As denúncias,
investigações, diligências às casas dos envolvidos e abertura de inquérito pelo delegado
daquela época, Arthur Cunha Filho, não ocorreram sem a contribuição de denunciantes
moradores da cidade e sem o respaldo da imprensa, o que permitiu a articulação entre setores
militares e civis de Itararé em 1964.
No que concerne à repressão na cidade em 1964, pode-se concluir que ela se
estruturou em torno de quatro eixos centrais: o delegado de polícia, Artur Cunha Filho, a
imprensa, por meio do jornal Tribuna de Itararé, os vereadores representados pela udenista
Eunice Tatit e as testemunhas, membros de famílias tradicionais e envolvidas na política,
encabeçados por Raul Moreira Cortes. Dessa forma, se verifica como a investigação foi ágil
em identificar os nomes suspeitos, já que seu suporte repressivo estava bem alicerçado.
A memória acerca deste episódio não está enterrada em Itararé, como é comum em
muitas cidades que sofreram com o crivo da ditadura entre 1964 e 1985. Nos anos 1990 o
Teatro Municipal, construído em uma localização central da cidade, recebeu o nome de Sylvio
Machado. Talvez muitos dos habitantes da cidade não conheçam sua história, mas o fato de
Sylvio Machado ser escolhido para dar nome a um espaço de arte e de memória – e não um
colaborador da ditadura civil-militar – nos mostra que apesar de todos os esforços contrários
para superar este período obscuro, avançamos. Mas este não pode ser o fim. Há ainda muitos
arquivos empoeirados para se esmiuçar e reescrever a história recente do Brasil.
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FONTES

DELEGACIA DE POLÍCIA DE ITARARÉ. Inquérito Policial nº 36/1964.

JORNAL Terra Livre, São Paulo, n. 105, nov. 1961.

JORNAL Tribuna de Itararé, Itararé, n. 727, 5 abr. 1964.

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