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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA POLÍTICA CURSO DE GRADUAÇÃO EM GESTÃO PÚBLICA Avenida Presidente Antonio Carlos, 6627 - CEP: 31270-901 – Belo Horizonte - MG

DISCIPLINA:

PROFESSOR:

DCP082 - TOPICOS EM SOCIOLOGIA JUAREZ ROCHA GUIMARÃES

1º SEMESTRE DE 2014

Trabalho Final

ALUNOS: ARDUINO FRATEZZI, DIEGO AUGUSTO, PAULO SÉRGIO

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FICHAMENTO DO LIVRO:

INTRODUÇÃO AO BRASIL: UM BANQUETE BO TRÓPICO

DO LIVRO: INTRODUÇÃO AO BRASIL: UM BANQUETE BO TRÓPICO MOTA, Lourenço Dantas. Introdução ao Brasil: um

MOTA, Lourenço Dantas. Introdução ao Brasil: um banquete no trópico, Livro 2. São Paulo: SENAC, 2001

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SOBRE O AUTOR

Nasceu no interior de Minas Gerais, na cidade de Aiuruoca, a 27 de julho de 1944. Concluiu humanidades no

estado natal e o curso de mestrado em Ciências da Informação na Universidade Paris II. Radicou-se ainda

muito jovem em São Paulo, em 1965, aos 21 anos de idade, onde seguiu a carreira jornalística, integrando-se

desde então ao grupo do jornal O Estado de S. Paulo. Nos anos oitenta obteve e publicou conjunto de

depoimentos de personalidades da vida política e cultural brasileira, obra que se tornaria importante ponto

de referência. Fruto desse interesse pela história pátria é a bem sucedida coleção que organizou na Editora

SENAC, nos anos noventa, destinada a difundir interpretações do Brasil.

Disponívelem:<http://www.cdpb.org.br/dic_bio_bibliografico_motalourencodantas.html.>Acesso em: 14abr14

Bibliografia:

A história vivida ; entrevistas. São Paulo: O Estado de S. Paulo 1981. 3 v. (Documentos abertos).

André Malraux no caminho das tentações. São Paulo : Brasiliense, 1982.

Tristão de Athayde. São Paulo : Brasiliense, 1983. 90 p. (Coleção Diálogo).

A nova República ; o nome e a coisa. São Paulo : Brasiliense, 1985.

Introdução ao Brasil : um banquete no trópico. São Paulo : SENAC, 1999. 419 p. (Organizador)

Introdução ao Brasil : um banquete no trópico, 2. São Paulo : SENAC, 2001. 429 p. (Organizador).

Personae : grandes personagens da literatura brasileira. São Paulo : SENAC, 2001. 324 p. (Organizador em colaboração com Benjamin Abdala Júnior).

Estudos sobre o autor:

LOURENÇO Dantas Mota passa o Brasil em revista. Jornal da Tarde, São Paulo, 28 nov. 1999.

SALIBA, Elias Thomé. Uma memorável reelaboração da memória e da história do Brasil. Jornal da Tarde, São Paulo, 4 dez. 1999. Caderno de Sábado.

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INTRODUÇÃO A OBRA

Nesta segunda edição do “banquete”, o organizador Lourenço Dantas Mota, concatena dezessete resenhas

que guiam a trajetória do Brasil durante estes cinco Séculos com abordagem de temas indispensáveis a

compreensão da sociedade, da economia, das instituições políticas e da cultura brasileira, imerso na ação dos

europeus: portugueses e espanhóis, na busca do paraíso perdido nas novas terras da América até o balanço

da integração de negro e índios na sociedade já madura do século XX, como aponta Mota.

A saber, perfazem a obra estas dezessete resenhas:

1 - Visão do paraíso de Sergio Buarque de Holanda, resenha de Ronaldo Vainfas;

2 – História da Companhia de Jesus no Brasil de Serafim Leite, resenha de João Adolfo Hansen;

3 – História geral do Brasil de Francisco Adolfo de Varnhagen, resenha de Lúcia M.P. Guimarães;

4 – Historia geral das bandeiras paulistas de Afonso D’Escragnolle Taunay, resenha de Wilma P.Costa;

5 – Vida e morte do bandeirante de Alcântara Machado, resenha de Laura de Mello e Souza;

6 – D. João VI no Brasil de Oliveira Viana, resenha de Guilherme Pereira das Neves;

7 – O abolicionismo de Joaquim Nabuco, resenha de Marco Aurélio Nogueira;

8 – História de literatura brasileira de Sílvio Romero, resenha de Benjamin Abdala Junior;

9 – Minha formação de Joaquim Nabuco, resenha de Maria Alice Rezende de Carvalho;

10 – A América Latina: males de origem de Manuel Bonfim, resenha de Roberto Ventura;

11 – A organização nacional de Alberto Torres, resenha de Rolf Kuntz;

12 – História da literatura brasileira de José Veríssimo, resenha de João Alexandre Barbosa;

13 – Populações meridionais do Brasil de Oliveira Viana, resenha de Gildo Marçal Brandão;

14 – Sobrados e mucambos de Gilberto Freire, resenha de Brasilio Sallum Jr.;

15 – Ordem e progresso de Gilberto Freire, resenha de Elide Rugai Bastos;

16 – A integração do negro na sociedade de classes de Florestan Fernandes, resenha de Gabriel Cohn;

17 – Os índios e civilização de Darci Ribeiro, resenha de João Pacheco de Oliveira;

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Índice

FICHAMENTO DO LIVRO:

2

INTRODUÇÃO AO BRASIL: UM BANQUETE BO TRÓPICO

2

1 - VISÃO DO PARAÍSO

9

RESUMO: VISÃO DO PARAISO: BIOGRAFIA DE UMA IDEIA

9

PARAÍSO TERREAL VERSUS REALISMO PEDESTRE

9

MARAVILHAS DO NOVO MUNDO, LOCUS NO ÉDEN

10

SUMÉ: CONTRIBUIÇÃO LUSO-BRASILEIRA

10

SALVAÇÃO ESPIRITUAL E RIQUEZA MATERIAL

10

PARAÍSO AUSENTE

11

2 - HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS NO BRASIL

11

RESUMO: HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS NO BRASIL

12

I

12

II

12

III

13

IV

14

V

14

VI

14

VII

14

VIII

15

IX

15

X

16

XI

16

3 - HISTÓRIA GERAL DO BRASIL

17

RESUMO: HISTÓRIA GERAL DO BRASIL

17

TRAÇOS BIOGRÁFICOS

17

A

OBRA

18

CONSIDERAÇÕES FINAIS

19

5

5

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4 - HISTÓRIA GERAL DAS BANDEIRAS PAULISTAS

20

RESUMO: HISTÓRIA GERAL DAS BANDEIRAS PAULISTAS

21

UMA OBRA MONUMENTAL

21

UM INTELECTUAL E SUA EFÍGIE

21

CONTEÚDO E PRINCIPAIS TEMÁTICAS

22

5 - VIDA E MORTE DO BANDEIRANTE

25

RESUMO: VIDA E MORTE DO BANDEIRANTE

26

OS INVENTÁRIOS

26

A

VIDA MATERIAL

27

INSTITUIÇÕES E PRÁTICAS SOCIOECNÔMICAS

27

O

HOMEM E O MEIO

27

VIDA E MORTE DO BANDEIRANTE

28

6 - D. JOÃO VI NO BRASIL

29

RESUMO: D. JOÃO VI NO BRASIL

30

7 - O ABOLICIONISMO

32

RESUMO: O ABOLICIONISMO

33

8 - HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

35

RESUMO: HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

36

9 - MINHA FORMAÇÃO

38

RESUMO: MINHA FORMAÇÃO

38

10 - A AMÉRICA LATINA: MALES DE ORIGEM

40

RESUMO: A AMÉRICA LATINA: MALES DE ORIGEM

41

11 – A ORGANIZAÇÃO NACIONAL

42

RESUMO: A ORGANIZAÇÃO SOCIAL

43

12 – HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

45

RESUMO: HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

45

13 - POPULAÇÕES MERIDIONAIS DO BRASIL

47

RESUMO: POPULAÇÕES MERIDIONASI DO BRASIL

47

O

LIVRO, SEUS OBJETIVOS

48

DIFICULDADES DE LEITURA

49

6

6

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A

ORGANIZAÇÃO DOS DOIS VOLUMES E RELATIVAMENTES EQUIVALENTE:

49

O

OBJETO: POPULAÇÕES, NO PLURAL

50

A

"METODOLOGIA SOCIOLÓGICA"

51

A

RURALIZAÇÃO. A DERROTA DO URBANO

52

CLÃS RURAIS: A SOLIDARIEDADE POSSÍVEL

54

AS FUNÇÕES SOCIAIS DA ARISTOCRACIA RURAL

55

O

IMPÉRIO CONTRA O ESPÍRITO DE ALDEIA

56

AUTORIDADE E LIBERDADE. A CONSTRUÇÃO DA ORDEM

57

14 - SOBRADOS E MUCAMBOS

58

RESUMO: SOBRADOS E MUCAMBOS

58

FORMA E CONTEÚDOS DOPATRIARCALISMO BRASILEIRO

59

A

CIDADE CONTRA O ENGENHO. SOBRADO E MUCAMBO. O ESTADO CONTRA A FAMILIA

59

O

PAI EO FILHO. O HOMEM E A MULHR

60

ORIENTE E OCIDENTE. A MAQUINA E O ESCRAVO

60

A

ASCENÇÃO DO BACHAREL E DO MULATO

61

15 - ORDEM E PROGRESSO

62

RESUMO: ORDEM E PROGRESSO

62

REAÇÃO DO PASSADO AO DESAFIO DOPRESENTE

63

SOCIALIZAÇÃO PARA OS NOVOS TEMPOS

63

CONCILIAÇÃO DO PROGRESSO CULURAL E DA ORDEM SOCIAL

64

NOVA ORDEM ÉTNICA

64

ESTABILIDADE SOCIAL EM CRISE

64

DISSOLUÇÃO DO FUTURO EM PASSADO

65

TENATIVA DE SÍNTESE

65

16 - A INTEGRAÇÃO DO NEGRO NA SOCIEDADE DE CLASSES

66

RESUMO: A INTEGRAÇÃO DO NEGRO NA SOCIEDADE DE CLASSES

66

O

PROBLEMA

66

O

NEGRO E O POVO

67

A

ESTRUTURA DA OBRA

67

O

EXAME DO LEGADO

67

7

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NO LIMIAR DE UMA NOVA ERA?

68

CONCLUSÃO

68

17 - OS INDIOS E A CIVILIZAÇÃO

69

RESUMO: OS INDIOS E A CIVILIZAÇÃO

69

8

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1 - VISÃO DO PARAÍSO

31270-901 – Belo Horizonte - MG 1 - VISÃO DO PARAÍSO AUTOR: Ronaldo Vainfas Licenciado em

AUTOR: Ronaldo Vainfas Licenciado em História pela Universidade Federal Fluminense (1978), mestre pela mesma Universidade em História do Brasil (1983), Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (1988). Professor da UFF desde 1978, sendo, desde 1994, Professor Titular de História Moderna. Pesquisador do CNPq desde 1990, sendo atualmente I-A. Membro da Companhia das Índias - Núcleo de História Ibérica e Colonial na Época Moderna, com projetos aprovados no PRONEX (2003, 2006 e 2009). Cientista do Nosso Estado da FAPERJ em 2004, 2006 e 2009. Pesquisador de história ibero-americana e luso-brasileira entre os séculos XVI e XVIII, principalmente nos seguintes temas: inquisição, jesuítas, religiosidades, sexualidades, escravidão, colonização. (Texto informado pelo autor)

RESUMO: VISÃO DO PARAISO: BIOGRAFIA DE UMA IDEIA

PARAÍSO TERREAL VERSUS REALISMO PEDESTRE

O livro se estrutura, portanto, a partir de uma sistemática comparação entre as idéias e as imagens que portugueses e espanhóis construíram sobre os espaços americanos. E o problema central se explicita logo no primeiro capítulo “Experiência e Fantasia”, na qual Sérgio Buarque expõe o essencial do contraste: do lado espanhol, predomínio de visões edenizadoras, recuperação e recriação das imagens paradisíacas produzidas no Ocidente havia séculos; do lado português, predomínio de visões pragmáticas, poucas afetas ao ideário edenizador e, de resto, aos elementos maravilhosos que caracterizavam o imaginário ocidental na época das descobertas. È os portugueses que corresponde à experiência anunciada no título do capítulo, ao passo que a fantasia é sobretudo hispânica.

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MARAVILHAS DO NOVO MUNDO, LOCUS NO ÉDEN

A visão do paraíso prosperou de fato nas crônicas do descobrimento e conquistas castelhanas, a começar pelo genovês Cristóvão Colombo, descobridor da América em 1492. Mostra-nos Sérgio Buarque a verdadeira obsessão de Colombo com o que julgava ser a proximidade do paraíso terreal, escrevendo das Antilhas ao reis católicos, Fernando e Isabel. Numa dessas cartas, refere-se às terras descobertas como o “outro mundo” e como o “sítio abençoado de onde viveram nossos primeiros pais”.

A partir de Colombo, inúmeros cronistas espanhóis, laicos ou religiosos, se referiram à localização do

paraíso terreal na América e, Sérgio Buarque os examina um a um, cotejando narrativas, rastreando as matrizes de tal ou qual visão americana do Éden. Em vários capítulos do livro, a questão reaparece, narrada com máxima erudição, a exemplo dos capítulos “Terras incógnitas”, “Paraíso perdido” ou “ Visão do paraíso”, capítulo que dá título à obra.

Sérgio Buarque defende, com máximo brilho e erudição, que “a conversação literária dos mitos edênicos,

e também da geografia

fantástica de todas as épocas, veio a afetar decisivamente” as descrições coloniais do paraíso terrestre. Nisso reside o miolo do livro, tarefa verdadeiramente demiúrgica a que se propôs o maior historiador brasileiro: cotejar narrativas da Antiguidade Clássica, incluindo o lendário helenístico ou mesmo oriental

sobre o cosmos fantástico, com as interpretações da narrativa bíblica, sobretudo no tempo da escolástica (séculos XIII-XIV), e daí com as narrativas de aventureiros, conquistadores e missionários que aturaram no Novo Mundo. Homens que viram, aqui e ali, mulheres guerreiras, rotas do Eldorado, terras da imortalidade, seres monstruosos, humanos, animais ou híbridos.

onde a narrativa bíblica se deixara contaminar de reminiscências clássicas [

]

SUMÉ: CONTRIBUIÇÃO LUSO-BRASILEIRA

O mito mais genuinamente luso-brasileiro seria a famosa lenda de Sumé, ou seja, a crença de que a

América fora objeto do apostolado de Tomé nos primórdios do cristianismo. Lenda que, na verdade, mantém pouca relação com a idéia do paraíso terrestre, ou com os mitos que entorno dele gravitavam, exceto pelos ligames entre a ação desse apóstolo e a existência do lendário reino do Preste João, crença gestada na Baixa Idade Média. De todo modo, a “lenda de Sumé” integra o imaginário maravilhoso dos descobrimentos americanos e, segundo Sérgio Buarque, foi capaz de expandir-se, sob outras roupagens, pela vizinha América espanhola, notadamente no Paraguai, Peru e região Platina.

SALVAÇÃO ESPIRITUAL E RIQUEZA MATERIAL

Percorrendo mitos e lendas de diversas tradições culturais e variada procedência, Sérgio Buarque abre um amplo leque de possibilidades para se compreender a riqueza do imaginário presente nos descobrimentos e conquistas da América pelos ibéricos.

No “Prefácio à segunda edição” da obra, que só veio à público em 1969, Sérgio Buarque fez questão de advertir o leitor de que, embora não se tratasse de uma “historia total”, pois acentuava os mitos e ideias, Visão do paraíso não excluía considerações, ao menos implícitas, aos complementos ou suportes materiais daquilo que, “ em suma, na linguagem marxista, se poderia chamar de infra- estrutura”.

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Seja como for, Sérgio Buarque se mostra muito atento às possíveis conexões entre o tempo dos mitos e tempo da colonização, o ânimo das visões edênicas e as motivações concretas da expansão e da ação colonizadora dos povos ibéricos.

PARAÍSO AUSENTE

Assim seria, quando muito, o paraíso luso-brasileiro. Na verdade, Sérgio Buarque o considerou como ausente, tragado pelos interesses imediatos de uma colonização predatória e pouco ligada a motivações propriamente civilizacionais. E é por metáfora de uma colonização genuinamente predatória que o autor conclui o livro dizendo que , sim, “teremos nosso eldorados. Os das minas, certamente, mas ainda o do açúcar, o do tabaco, e de tantos outros gêneros agrícolas que se tiram da terra fértil, enquanto fértil, como o ouro se extrai, ate esgotar-se do cascalho, sem retribuição de benefícios”.

2 - HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS NO BRASIL

extrai, ate esgotar-se do cascalho, sem retribuição de benefícios”. 2 - HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS
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AUTOR: João Adolfo Hansen

João Adolfo Hansen concluiu o doutorado em literatura brasileira pela universidade de São Paulo em 1988. Atualmente e professor titular ms6 da universidade de são Paulo, membro da fundação de amparo a pesquisa do estado de são Paulo, membro do conselho nacional de desenvolvimento cientifico e tecnológico e membro da coordenação de aperfeiçoamento de pessoal de nível superior. Publicou 68 artigos em periódicos especializados e 3 trabalhos em anais de eventos. Possui 65 capítulos de livros e 9 livros publicados. Participou do desenvolvimento de 112 produtos tecnológicos. Participou de 44 eventos no exterior e 157 no brasil. orientou 24 dissertações de mestrado e co-orientou 1, orientou 15 teses de doutorado, alem de ter orientado 15 trabalhos de iniciação cientifica e 7 monografias de pós-graduação lato sensu nas áreas de letras, historia e arquitetura e urbanismo e ter supervisionado 9 pesquisas de pós-doutorado. Recebeu 1 premio (jabuti-1990-categoria ensaio). Atua na área de letras, com ênfase em estudos comparados de literaturas de língua portuguesa. Em suas atividades profissionais interagiu com 15 colaboradores em co-autorias de trabalhos científicos. (texto informado pelo autor)

RESUMO: HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS NO BRASIL

I

A

matéria principal da obra é atuação missionária, catequética e educacional, da Companhia de Jesus no

Estado do Brasil. A linha temporal de atuação missionária foi de 210 anos, o autor distribui a extensa e

variada matéria da obra, compondo quadros geográficos onde situa as práticas catequéticas e educativas da Companhia de Jesus, bem como tensões e conflitos que envolveram jesuítas, indígenas, colonos, a Coroa, padres seculares e membros de outras ordens religiosas, governadores-gerais e funcionários da administração portuguesa, nos séculos XVI, XVII e XVIII.

Serafim Leite dá conta do governo interno da Província do Brasil, fazendo um elenco de todos os provinciais, entre 1553 e 1579, além de acompanhar o desenvolvimento do ensino público do século XVI ate o XVIII.

II

O

autor sendo jesuíta teve livre acesso a manuscritos da Companhia de Jesus depositados em reservas de

arquivos de Portugal, Espanha, Itália, Franca, Bélgica e Holanda, além de instituições culturais do Brasil,

que refere minuciosamente no tomo X da obra.

A documentação da obra é fundamentalmente jesuítica, ou seja, documentação jesuítica de uma historia

jesuítica da Companhia, podendo-se supor, por isso, que os próprios documentos usados predeterminam

o crivo imperativo de Serafim Leite, pois ele os utiliza para dar a palavra a seus agentes dos séculos XVI,

XVII e XVIII.

O autor não expõe nem constitui suficientemente as razões ou interesse das partes inimigas dos jesuítas

defensores dos índios, de modo que o leitor corre o risco de generalizar como “verdadeira” a particularidade dos interesses da Companhia, entendendo as razões dos seus oponentes de maneira quase só moral, como se fossem indivíduos e grupos apenas interessados em matar e escravizar índios, expulsar padres e obter lucros a qualquer custo.

Sendo padre, Serafim Leite interpreta catolicamente as matérias selecionadas e organizadas segundo o esquema narrativo de uma crônica apologética da ação da Companhia de Jesus do Brasil. Principalmente

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porque a universalidade do Deus de Roma é posta por ele como evidência positiva da verdade absoluta que fundamente a ação missionária no passado reconstruído dos séculos XVI, XVII e XVIII. Quando escreve sobre as culturas indígenas e as africanas, sua conceituação da diferença cultural dos índios catequizados ou dos negros escravizados não é antropológica, mas religiosa. No caso da catequese dos grupos indígenas, a cultura dos grupos aldeados pelos jesuítas sempre é dada como evidentemente humana, em posição as teses colonialistas que muitas vezes afirmavam a animalidade dos índios como validação do seu extermínio ou escravidão, mas de uma humanidade caracterizada como semelhança negativa, distante e deformada da verdade cristã. Por ser inferior, dever ser convertida à civilização superior dos agentes portugueses.

Quando postula e defende a suposta brandura da colonização portuguesa, em geral, da missão jesuítica

genuíno espírito colonizador da Portugal, esclarecido, humano

e cristão”, Serafim Leite realça os feitos dos padres portugueses para retratar positivamente o caráter e a

ação de grandes vultos da Companhia e defendê-los. Pode-se dizer que a interpretação feita por Serafim Leite dos eventos que reconstitui tende alinhar-se objetivamente com setores conservadores, nacionalistas e colonialistas, de Portugal e do Brasil, nos anos de 1938-1950.

portuguesa, em particular, falando do “[

]

III

No século XVI, os assim chamados “anos heróicos” (1549-1570) correspondem à fase da instalação da missão litoral brasileiro e aos primeiros contatos com as populações indígenas das capitanias do Nordeste, como a Bahia e Pernambuco, e do Sudeste, como o Espírito Santo e São Vicente. Nesses anos, a figura fundamental para o projeto jesuítico do século XVI e dos seguintes é o padre Manuel da Nóbrega. Segundo Serafim Leite, Nóbrega manifesta um conceito básico de unidade na organização política da terra, pois lhe parece que todo Brasil deve estar sob a imediata jurisdição real.

As Constituições da Companhia de Jesus chegaram ao Brasil em 1556. Nesse mesmo ano, voltando à Bahia, Nóbrega começou a fundar aldeias no rio Vermelho e proibir a confissão dos colonos que viviam em concubinato público ou tinham escravos índicos comprados sem justiça. Visando a autonomia da Província do Brasil, Nóbrega delineou as bases econômicas para os colégios, determinando que os produtos da pecuária, além de uso da dotação régia fundada nos dízimos do gado, seriam o fundamento econômico da Companhia.

O colégio recém-estabelecido era destinado ao ensino das crianças índias, com fins apostólicos. A partir de 1551, o subsídio foi ampliado para os usos dos novos padres que iam chegando ao Brasil. Visando a manutenção dos alunos, criaram-se as confrarias do Menino Jesus, que sustentavam os órfãos vindos de Lisboa, alem de meninos do Brasil. No caso, a noção de ”colégio” não tem sentido apenas material, mas regional, referindo-se a região da sua instalação, às aldeias e às fazendas. Em 1600, os jesuítas no Brasil eram 172; em 1760, quando foram expulsos, 317.

Em março de 1565, Nóbrega participou da fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, tornando-se reitor do colégio dessa cidade em 1567. Nesse ano emitiu parecer, Caso de consciência de 1566-1567, sobre a escravidão dos índios que se vendiam a si mesmos e aos filhos durante peste e a fome de 1562-1563. Estabelecendo os “títulos justos” da escravidão, defendeu a liberdade dos índios aldeados.

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IV

Conforme o Regimento dado por D. João III a Tomé de Sousa, em 1548, a fórmula inicial de organização civil dos índios seriam os aldeamentos ou as chamadas aldeias de el-rei, distintas de outros agrupamentos de índios chamados de “administração particular”. As aldeias de el-rei dependiam diretamente dos governadores, que nomeavam para elas os institutos religiosos que tinham as missões como vocação.

V

No final do século XVI, a Província do Brasil estava plenamente organizada e já se expandia para os limites

do território, chegando, ao norte, ate a Amazônia e ao Amapá; ao sul, até a Colônia do Sacramento, no rio

da Prata; e a oeste, ate o rio Guaporé. Os primeiros jesuítas do século XVI chamaram de “sertão” a esses lugares desconhecidos e distantes do litoral, que ainda não tinham sido povoados por europeus.

O resultado prático das entradas dos jesuíticos do século XVI foi o descimento de índios que foram

catequizados e aldeados no litoral; já no século XVII, os padres começaram a fazer entradas não mais para descê-los, mas para cristianizá-los e apupá-los em missões no interior do território.

VI

Serafim Leite chama de “serviços públicos” os que foram prestados pela Companhia à cultura das letras, artes e ciências, como a constituição de bibliotecas nos vários colégios. O Missal, o Breviário e as Regras do Colégio de Coimbra, feitos pelo padre Simão Rodrigues, companheiro de Inácio de Loyola e de Francisco Xavier, alem dos Exercícios espirituais, de Loyola, do Manual de Aspicuelta Navarro, de alguns exemplar da Imitação de Cristo e métodos para alfabetizar meninos foram provavelmente os primeiros livro que os padres tiveram no Brasil.

Os fundamentos teológicos-políticos da catequese dos índios sistematizada por Nóbrega, no século XVI, foram retomados em todas as missões às varias conjunturas coloniais e algumas discordâncias internas, conforme Serafim Leite, no caso dos padres “estrangeiros”, como Andreoni e Rolland, no final do século XVII, favoráveis aos paulistas escravagistas. São fundamentos ortodoxos, que reafirmam os dogmas católicos estabelecidos em bulas papais e no Concílio de Trento.

Nóbrega e os jesuítas, em geral, afirmam que as leis positivas das sociedades indígenas são legais e que não se pode dizer que os índios são “escravos por natureza” por não terem leis cristãs ou não conhecerem a Revelação cristã. No entanto, como católicos, Nóbrega e os padres fazem valer o universalismo do Deus de Roma, porque entendem que as sociedades indígenas estão corrompidas por “abominações” que devem ser extirpadas para que o selvagem tenha sua alma salva.

VII

Segundo Serafim Leite, a conversão do gentio foi à intenção principal de D. João III quando enviou a Companhia de Jesus para o Brasil. Desde o inicio, dentro dela e em outros setores da Igreja, apareceram

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posições diferentes acerca da natureza da devoção dos índios. Segundo Nóbrega, é preciso criar duas condições que favoreçam a conversão: uma delas depende dos missionários, que devem dar exemplo de boas obras de uma vida virtuosa; a outra, os índios, dos quais se espera a disposição para uma sujeição moderada aos padres e para a aceitação a catequese, que levariam à exclusão dos maus hábitos dos adultos e à educação das crianças – processo que também concorrem os órfãos portugueses, no século XVI, e, ainda nesse século e nos dois seguintes, a cultura difundida nos seminários e colégios.

VIII

A administração dos índios do Maranhão e Grão-Pará pela Companhia de Jesus foi confirmada pelo alvará

25-7-1638. Desde o início a relação dos missionários com os colonos desse estado foi tensa e conflitava. Os jesuítas retomam a diretiva do século XVI de “pregar a toda criatura”, defendendo a liberdade dos

índios aldeados. Segundo o jesuíta, o principal motivo da presença da Companhia no Maranhão era converter e integrar os índios ao corpo místico do Império.

Os colonos ficaram inconformados; um motim contra os jesuítas (o de Garupa) foi reprimido com energia pelo governador André Vidal de Negreiros, amigo de Vieira; em 1661, eclodiram novos motins não controlados pelo governador, logo os padres foram expulsos pelos colonos.

IX

Os colégios brasileiros fundados a partir de 1549 realizavam a segunda parte do programa “catequese e escola”, proposto inicialmente por Nóbrega para o Colégio da Bahia. Neles, havia cursos de ler e escrever, ensinando-se latim. O estudo colegial dessa língua fazia parte da formação básica de qualquer letrado e habitava os alunos dos seminários a serem futuros padres.

O Real Colégio das Artes de Coimbra foi o padrão para as colônias de Portugal. Como escreve Serafim

Leite, o subsídio real dado aos mestres de Coimbra era a titulo de ensino; o subsidio dos mestres ultramarinos era a titulo de missões. Segundo o autor, o ensino era público, em ambos os casos.

Nos Colégios, alem de pública, a instrução era gratuita, diferentemente dos seminários, onde continuava

ser gratuita, mas eram particulares, destinados apenas aqueles que se dedicavam à carreira eclesiástica. Freqüentavam os colégios os filhos de funcionários da administração portuguesa, de senhores de engenho, de criadores de gado, de oficiais mecânicos e, no século XVIII, de mineiros. Conforme Serafim Leite, os três estados tradicionais do Antigo Regime na Europa – clero, nobreza e povo – sofreram no Brasil uma transformação em que eram representados apenas por um critério racial, brancos e filhos de brancos, que mantinham o predomínio da política e da cultura, ao passo que índios e negros, mesclando-

a

se

com os brancos, tinham a aspiração de ascender na hierarquia nos brancos com nomes de mamelucos

e

moços pardos. O autor acredita no que chama “tendência portuguesa e católica para a atenuação dos

preconceitos de raça”, por isso afirma que “conviviam lado a lado todos os homens livres, quer fossem brancos quer mestiços, e abaixo deles, os homens escravos”.

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X

Depois de 1559, todos os colégios brasileiros passaram a serem organizados pelo Ratio studiorum atque Institutio Societatis Jesu. O Ratio é um conjunto de normas que definem saberes a serem ensinados e conduta a serem inculcadas, e um conjunto de práticas, que permite a transmissão desses saberes e a incorporação de comportamentos, normas e práticas. A Companhia de Jesus é uma ordem eminentemente não contemplativa e o Ratio studiorium de 1559 orienta o ensino de letras, artes e teologia para o desenvolvimento das capacidades de assimilar, transferir e aplicar conhecimentos em questões imediatas do presente.

Todos os preceitos de ensino do Ratio studiorium subordinam-se à finalidade contra-reformista de combater as heresias e converter os gentios. Assim, as normas didáticas do ensino subordinavam-se às normas disciplinares, que pressupunham e implicava a virtude típica da Companhia de Jesus, a obediência irrestrita a autoridade, que havia sido redimensionada a partir do Concilio de Trento.

XI

Segundo Serafim Leite, as causas da expulsão da Companhia de Jesus dos domínios portugueses devem ser buscadas na Europa, fora do Brasil e de Portugal. Entre vários inimigos da ordem do século XVIII, propõe, os jansenistas foram os mais pertinazes, pois teriam conseguido instalar-se em Roma, obtendo o apoio de membros do alto clero, como o Cardeal Passionei. No momento da perseguição movida por Pombal contra a Companhia, triunfavam o regalismo e o cesaropapismo. Logo, segundo o autor, quando ocorreu a perseguição à Companhia, já se havia produzido na Europa a ruptura entre liberdade e autoridade: “Sucumbindo à liberdade, a autoridade régia chamava-se Absolutismo, que em breve chegou ao seu auge e foi o Despotismo”.

Outra razão seria a execução do Tratado de Limites de 1750 entre Portugal e Espanha. Com a troca da Colônia do Sacramento (Portugal) com sete povos das Missões (Espanha) foi imposta a transferência dos índios, que provocou o levantamento deles, atribuído à incitação dos jesuítas.

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3 - HISTÓRIA GERAL DO BRASIL

– Belo Horizonte - MG 3 - HISTÓRIA GERAL DO BRASIL AUTOR: Lucia Maria Paschoal Guimarães

AUTOR: Lucia Maria Paschoal Guimarães

Possui graduação em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1970), mestrado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1990), doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (1994). Realizou estágios de pós-douramento na Cátedra Jaime Cortesão da FFLCH/USP (2005-6) e de pesquisa sabática na Universidade Nova de Lisboa (2008-9). Professora Titular de Teoria da História e Historiografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, atua no curso de graduação e no Programa de Pós-Graduação de História Política. Coordena o Grupo de Pesquisa Idéias, cultura e política na formação da nacionalidade brasileira , bem como o Laboratório Redes de Poder e Relações Culturais, junto com a Dra. Lucia Maria Bastos Pereira das Neves. Participa como pesquisadora principal do Pronex/CNPq/Faperj "O Estado brasileiro no século XIX: interseções e margens dirigido por Lucia Maria Bastos Pereira das Neves. Publicou livros e trabalhos no Brasil e no exterior, decorrentes de pesquisas que contemplam, sobretudo, os temas: cultura histórica, historia e memória, cultura política, intelectuais e poder, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e relações culturais luso-brasileiras. (Texto informado pelo autor)

RESUMO: HISTÓRIA GERAL DO BRASIL

TRAÇOS BIOGRÁFICOS

Francisco Adolfo de Varnhagem nasceu em 17 de fevereiro de 1816, na cidade de Sorocaba, então província de São Paulo, filho do Coronel Luis Guilherme de Vanrhagem e de Dona Maria Flávia de Sá Magalhães. Deixou uma extensa e variada obra, composta por dezenas de títulos, entre livros, opúsculos,

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artigos e memórias. No campo dos estudos históricos, sua obra máxima foi a História geral do Brasil antes

de sua separação e independência de Portugal. Trata-se de uma contribuição rara, que contrastava com a

escassa historiografia nacional da época, período em que poucos autores conseguiam ultrapassar os limites da crônica.

A OBRA

O livro compõe de 54 seções ou capítulos, cujos conteúdos se sucedem de acordo com a ordem

cronológica dos acontecimentos. Do ponto de vista interpretativo, a História geral do Brasil apresenta-se

como uma continuação da história da metrópole.

A História geral do Brasil se inicia, pois, por uma breve explicação sobre as origens da denominação por

que ficou conhecida a América portuguesa, em decorrência do primeiro recurso natural aqui explorado –

o pau-brasil. Segue-se uma síntese das características do território, principais acidentes geográficos, zonas climáticas e paisagem natural, com ênfase especial na descrição da flora nativa, plena de espécies exóticas, matas virgens e florestas exuberantes, o que certamente teriam intimidado os colonizadores. Explorado o meio ambiente, o autor introduz os habitantes daquelas paragens. Apresenta um estudo aprofundado sobre as culturas indígenas que habitavam o litoral brasileiro à época da chegada dos portugueses. Em que pesem os julgamentos pouco lisonjeiros acerca do caráter, da religiosidade e do “estado de selvageria”, daquelas populações, a exposição circunstanciada sobre o grupo de língua tupi constitui um trabalho etnográfico cuidadoso risco de informações.

Varnhagem parte da premissa de que: “Os interesses do comércio, mais que a curiosidade natural do homem e que a sede das conquistas, tem sido em geral a causa da facilidade no trato e comunicação com os indivíduos”. Assim, identifica o comércio das especiarias do Oriente como o grande motor que impulsionou o movimento das navegações do início da era moderna e que culminou com o descobrimento do Novo Continente. Pesquisador minucioso, observa, no entanto, que a costa setentrional do continente americano já fora visitada por navegantes nórdicos, quatro séculos antes da viagem de Cristovão Colombo.

Do relato das primeiras expedições exploradoras, empreendimentos que são relacionados com as

infrutíferas tentativas de demarcação dos domínios de Portugal e Castela na América, depreende-se que o Brasil permaneceu num patamar secundário, no âmbito do projeto mercantil na dinastia de Avis. A

metrópole, na expressão de Varnhagem, “[

limitou-se a abandonar a mesma terra à mercê dos

especuladores particulares, os quais à porfia começaram a vir esses portos principalmente a buscar cargas

]

do

tal novo pau-brasil”.

O

foco se desloca dos fatos institucionais para o exame da vida cotidiana dos primeiros colonos, suas

relações com os indígenas, bem como os primeiros investimentos aqui realizados. Apesar de tendenciosa

e condescendente, a narrativa revela de que modo a cultura autóctone influenciou o cotidiano daqueles recém-chegados, tão desamparados que para sobreviver acabaram incorporando os costumes dos bárbaros gentios.

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Malgrado forte a influência da cultura indígena na rotina diária dos colonos, sobreviveram certos padrões de comportamento europeu. Varnhagem revela, com uma ponta de surpresa que as festas do calendário romano continuaram a serem celebradas, consoante as tradições do hemisfério Norte, apesar das diferenças climáticas.

O quadro dos primeiros tempos da sociedade colonial prossegue no capítulo XIV, com a entrada em cena

dos negros. O autor salienta que tráfico negreiro não se constitui numa novidade para os portugueses, que já se utilizavam desse bárbaro expediente de suprir a deficiência de braços nas colônias das ilha da

Madeira e dos Açores. O estudo sobre a formação da sociedade colonial tem um desfecho inesperado. Varnhagem abandona a sua proverbial condescendência com os brancos e carrega nas tintas, ao

comentar aspectos morais da vida os primeiros povoadores. À primeira vista, sugere que a Colônia se constituía no paraíso dos contrabandistas, degredados, viciados e criminosos. Nem mesmo os religiosos

escapam do dessa pecha, já que muitos “[

escâncaras, faltavam à sociedade vivendo escandalosamente em poligamia”.

deixavam de cumprir os preceitos da Igreja como às

]

O livro avança com o exame da administração colonial: a criação dos governos-gerais, as iniciativas em

prol da conquista do território e sua expansão para alem do limite de Tordesilhas. Outro ponto a destacar

é o cuidado e a minúcia com que são tratadas as investidas estrangeiras à Colônia. O autor chega mesmo

a afirmar que “[

sentimento público. Temiam-se franceses, temiam-se ingleses, temiam-se holandeses [ mouros e turcos”.

por todas as capitanias, os receios de alguma invasão estrangeira era como um

até mesmo

]

]

A História geral do Brasil perde fôlego quando aborda o período subseqüente à expulsão dos holandeses. Dessa parte em diante, o título e a periodização dos capítulos passam a se orientar pelos diversos

tratados celebrados pela metrópole, para dirimir questões relativas aos seus domínios no Novo Mundo.

O livro se encerra com a regência do príncipe D. João e a vinda da Corte portuguesa para o Brasil. A

narrativa segue os fatos institucionais, como já era de esperar. Porém, destaca dois personagens: o

bondoso caráter, pio, dotado de felicíssima memória,

e sem maiores ambições políticas”. E o ministro D. Rodrigo de Sousa Coutinho, apresentado como um

grande patriota, descendente de família brasileira pelo lado materno, que congregava ao seu redor um grupo de intelectuais brasileiros. Considera que ao longo da permanência da Corte portuguesa no Rio de Janeiro, organizara-se o sistema de administração de modo que Portugal e Brasil se tornassem dois Estados diversos, ainda que sujeitos ao mesmo rei.

príncipe do D. João, descrito como homem de “[

]

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A História geral do Brasil antes da sua separação e independência de Portugal, mais conhecida como

História geral do Brasil, foi dedicada a D. Pedro II. Como o seu próprio título indica, a contribuição

pretendia se constituir numa grande síntese do passado de “[

nações civilizadas, regido por uma das primeiras dinastias do nosso tempo”.

novo Império a figurar no Orbe entre as

]

Lançado em Madri, de dois volumes (1854-1857), o portentoso livro não foi bem recebido no Brasil, em que pesem os calorosos elogios que arrancou na Europa dos maiores brasilianistas da época, o naturalista

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alemão Martius e o bibliotecário Frances Ferdinand Denis. A obra suscitou intensos protestos no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, sobretudo por causa do tratamento dispensado aos indígenas.

A História geral do Brasil, com suas páginas cheias de referências luso-brasileiras, retrata também a atmosfera de uma época. Escrito na década de 1850, o livro reflete a problemática do processo de consolidação do Estado Nacional.

4 - HISTÓRIA GERAL DAS BANDEIRAS PAULISTAS

Estado Nacional. 4 - HISTÓRIA GERAL DAS BANDEIRAS PAULISTAS AUTOR: Wilma Peres Costa Historiadora, com Livre

AUTOR: Wilma Peres Costa

Historiadora, com Livre Docência na Área de História Econômica, onde também realizou o concurso de Titular (Universidade Estadual de Campinas). Realizou estudos pos graduados no University College London e na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS, Paris). Possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1973), mestrado em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (1976) e doutorado em Sociologia pela Universidade de São Paulo (1990). Atualmente, ensina e pesquisa na Universidade Federal de São Paulo, na área de Brasil Império. Áreas de experiência e interesse: fiscalidade, escravidão, construção e consolidação do Estado, forças armadas, guerras platinas,Guerra do Paraguai, literatura de viagens, narrativas de guerra, escrita da história e historiografia. (Texto informado pelo autor)

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RESUMO: HISTÓRIA GERAL DAS BANDEIRAS PAULISTAS

UMA OBRA MONUMENTAL

A História geral das bandeiras paulistas, de Afonso d’Escragnolle Taunay (1876-1958), foi, como o próprio

autor nos indica no seu subtítulo “escrita à vista de avultada documentação inédita dos arquivos brasileiros, português e espanhóis”. A obra é, sobre todos os aspectos, fruto de um trabalho monumental

e consolida, de forma não superada ate hoje, o estado dos conhecimentos factuais sobre o tema do

bandeirismo entre os séculos XVI e XVIII. Em seus onze extensos volumes, publicados ao longo de 27 anos (1924 a 1950), estão incorporadas as contribuições dos cronistas coloniais bem como dos estudiosos contemporâneos a Taunay – Alfredo Ellis Jr., Washington Luís, Capistrano de Abreu, Oliveira Viana, Orville Derby, Teodoro Sampaio. Além disso, Taunay sumariza na História geral seus próprios trabalhos anteriores sobre o assunto. O estudo fundamenta-se sobre uma impressionante quantidade de documentos: os arquivos relativos à vida da comunidade paulista durante o período colonial, a coleção de inventários e testamentos dos sertanistas, os testemunhos jesuíticos sobre o assédio dos paulistas as reduções. A esse acervo, que também tinha sido visitado pelos estudiosos que o precederam, Taunay acrescentou uma documentação nova e inexplorada até então: os arquivos ultramarinos, em particular espanhóis.

A história de São Paulo, capitania, província, estado, foi, entretanto, o tema mais persistente de Afonso

Taunay, tanto por relações familiares, como por ligações políticas profissionais, ele identificou-se com a trajetória de constituição e consolidação da hegemonia paulista no interior da federação republicana e fez

dela uma verdadeira causa para sua militância intelectual.

A temática das bandeiras foi abordada por Taunay sob múltiplos ângulos – biografia, cartografia e

publicação de documentos. Particularmente importante para o estudo da vida e das mentalidades da capitania de São Paulo, no período colonial, e para a histórias das bandeiras foram suas reedições comentadas dos velhos cronistas paulistas Pedro Tasques de Almeida Leme e frei Gaspar da Madre de Deus, matrizes da construção da figura e do mito do bandeirante em múltiplas dimensões, que seriam criticadas umas, incorporadas outras, na História geral das bandeiras.

UM INTELECTUAL E SUA EFÍGIE

Afonso d’Escragnolle Taunay nasceu em Santa Catarina em 1876, quando seu pai, o grande intelectual e

político do Império, Alfredo d’Escragnolle Taunay (o visconde de Taunay) presidia aquela província. Embora portador de um nome ilustre, oriundo de uma família que se notabilizara no serviço ao Império, Afonso Taunay não foi herdeiro de fortuna pessoal. Sua família assim como de Joaquim Nabuco, arruinou- se durante a crise financeira que atingiu tanto a Argentina (crise da Casa Bancária Baring Brothers) como

o Brasil (encilhamento), entre 1890-1891. A crise e o desastre financeiro serviram para aprofundar o ódio

à República e a lealdade monárquica tanto de Joaquim Nabuco como do visconde de Taunay, que escreveu sobre essa quadra em romance histórico entre o amargo e divertido, muito ao seu estilo (O encilhamento, 1894).

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Foi a partir da República, entretanto, e pelas mãos dos estudiosos que se reuniam no Instituto Histórico Geográfico de São Paulo, que a temática da conquista e ocupação do sertão sofreria uma viragem decisiva. Nesse, que foi o primeiro nicho institucional da História geral das bandeiras, iria se desenvolver uma historiografia de forte acento regional, envolvendo as elites intelectuais do Estado em um intenso movimento de busca de origens e construção de identidade.

O ano de 1911 pode ser considerado o da opção vocacional de Taunay pelos estudos históricos e assinala

sua entrada simultânea no Instituto Histórico Geográfico brasileiro e no Instituto Histórico Geográfico de

São Paulo. Entretanto, foi a partir de 1917, quando passou a dirigir o Museu Paulista, a convite do presidente do Estado, Altino Arantes, que Taunay tornou-se definitivamente historiador. Esse foi, por assim dizer, o segundo nicho institucional da História geral das bandeiras, onde o projeto atingiu sua plena maturidade.

CONTEÚDO E PRINCIPAIS TEMÁTICAS

A História geral das bandeiras expressa de forma contundente esses esforço de forjar uma identidade

capaz de operar em um universo de contrastes paradoxos. A tônica principal da obra é o papel primordial atribuído aos sertanistas da capitania de São Paulo, na incansável exploração que resultou na ampliação do território da América portuguesa para as dimensões continentais que foram legadas à nação

brasileira.

Assim, a ênfase que melhor caracteriza a contribuição de Afonso Taunay, entre os estudiosos do

bandeirismo, é a geopolítica – para o autor, as bandeiras foram importantes, sobretudo por ter expandido

o território da América portuguesa à custa do território pertencente à Espanha pelo Tratado de

Tordesilhas, dessa maneira legando à nação brasileira parcela significativa de sua dimensão continental.

Para Afonso Taunay, os fautores do território foram os colonos, isto é, os sertanistas paulistas e, muitas vezes, fizeram-no em franca desobediência aos ditames da metrópole. Segundo ele, o principal feito do bandeirismo para a formação territorial do Brasil foi que, embora não tenha tido um caráter povoador, ao enfrentar e destruir as reduções jesuíticas sob jurisdição espanhola, a saga bandeirante empurrou a fronteira política em busca de uma suposta “fronteira natural”. A valorização do papel de São Paulo na expansão territorial do Brasil vinculava-se também a uma questão contemporânea de Taunay e de seus companheiros na construção do “ciclo das bandeiras”.

Subordinada ao tema da expansão territorial e inseparável dela, como sua motivação principal, encontra-

se a caça ao elemento indígena e sua escravização. Assim, embora a expansão territorial seja, para

Taunay, a mais importante resultante da saga dos sertanistas vicentinos, em nenhum momento ele procura elidir o fato de que sua motivação principal foi à escravização do índio. Pode se dizer que os sete primeiros volumes da Historia Geral das bandeiras tratam principalmente do “ciclo da caça ao índio”, enquanto os quatro últimos tratam da busca do ouro e dos conflitos em torno da mineração.

A aguerrida população do planalto paulista engajava-se na sua incessante busca da mão-de-obra escrava

do índio, para uso em suas lavoura ou para comercialização naquelas regiões que não podiam dispor de

recursos para a mão-de-obra africana, muito mais cara.

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FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA POLÍTICA CURSO DE GRADUAÇÃO EM GESTÃO PÚBLICA

Avenida Presidente Antonio Carlos, 6627 - CEP: 31270-901 – Belo Horizonte - MG

A visão que o autor nos apresenta sobre o século XVII, fortemente inspirada em Capistrano de Abreu,

sublinha a pobreza e dificuldade da metrópole portuguesa, cujo império desmoronava. Aponta também

para os novos problemas trazidos para a Colônia pelo domínio Espanhol. A administração passava a estar

a cargo de um rei mais distante, ao mesmo tempo em que adquiria os inimigos da Espanha, sendo vitima

da invasão holandesa. Nesse panorama de dificuldade a saga bandeirante ganha o sentido de um “destino manifesto”. A dilatação além Tordesilhas do território da Colônia, o rechaço espanhol, a permanência da lealdade a Portugal durante o período hispânico, ganham, para Taunay, um significado transcendente: a origem de um sentido difuso de brasilidade, apesar da pobreza da capitania, ponto em que concorda com Alcântara Machado.

Ao longo de 27 anos de sua publicação, a História geral das bandeiras transitou entre os dois pólos e procurou uma forma de composição entre eles- a epopéia paulista não perde seu brilho por ter desenvolvido em um meio inóspito, pobre e austero. Antes, ganha significado ainda mais valioso.

Os três primeiros volumes, publicados na década de 1920, são os que mais fortemente impregnados da temática racial. Sua preocupação é a de encontrar a especificidade étnica da população paulista, tanto no que se refere ao tipo de reinóis que nela vieram habitar, como os grupos indígenas que, mesclados aos primeiros, propiciaram um caldeamento original. Esse caldeamento seria responsável pela virilidade, pelo caráter prolífico, pelo espírito de iniciativa e aventura dos habitantes do planalto.

Nos volumes publicados depois da década de 1930, a idéia da virtude da miscigenação ganha mais força.

O tipo paulista, segundo Taunay, é o mameluco, misto de branco e índio. Essa mescla nem sempre era

obtida pela violência. Usando fundamentalmente as fontes jesuíticas nesse particular, Taunay enfatiza o afogueamento erótico dos portugueses pelas índias, mas também franca correspondência destas, porque, diz ele, elas queriam ter filhos de “raça superior”.

A despeito das conotações racistas, vale notar que, ao colocar a escravidão no centro de sua analise,

Taunay teve o mérito de apontar a relação profunda entre colonização e trabalho compulsório, mostrando as várias formas de escravidão indígena na América espanhola e portuguesa, tem que vem sendo redescoberto pela historiografia brasileira.

Também é seu mérito estabelecer a relação entre escravidão e formação territorial, em dimensão ate então não tratada entre nós, mesmo quando afirma que a escravidão foi “o preço a pagar pelo Brasil”.

Embora a expansão territorial fosse, no entender de Taunay, a contribuição mais relevante feita pelos bandeirantes paulistas à nação brasileira, ele encontra os vicentinos em praticamente todos os momentos fundamentais da formação da nacionalidade: na expulsão dos franceses, no auxílio aos pernambucanos contra os holandeses, na derrota do Quilombo de Palmares, no aniquilamento das revoltas indígenas, da mesma maneira que sublinha o papel de São Paulo no processo de independência, nas guerras platinas e na Guerra do Paraguai.

Em suas variadas dimensões, a temática bandeirante adequava-se de maneira privilegiada à busca de forjar um “destino manifesto” para o estado de São Paulo que, com algumas mutações, ainda permanece vivo em nossos dias. O bandeirante, fruto da miscigenação entre o europeu e o ameríndio, produzia uma espécie de passado “eugênico”, que, interrompido pela afluência de sangue africano na segunda metade

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do século XIX, vinha agora recuperar a sua pureza pela progressiva arianização trazida pela imigração européia.

Hoje parece consensual na historiografia que, ocupadas primordialmente com a caça ao índio, as bandeiras não ocuparam, não povoaram e, sobretudo, não poderiam orientar-se pelo território de uma nação inexistente. É evidente, entretanto, que sua ação, sua presença, suas razões nas reduções jesuíticas sob a coroa espanhola foram fundamentais no jogo diplomático português quando em 1750 o Tratado de Madri negociava as fronteiras da América portuguesa utilizando pela primeira vez o recurso ao principio diplomático do uit possidetis.

Em Taunay, essas múltiplas dimensões estão superpostas a serviço de uma militância intelectual e política especifica: a busca de um destino manifesto para São Paulo. Olhada como testemunho de uma época, sua obra é a expresse desse processo de formação de uma identidade pela elite paulista, para com ela convencer o conjunto da nação.

A História geral das bandeiras é referência obrigatória para a pesquisa sobre a questão da escravidão indígena. Em busca exaustiva de documentação e em extensas transcrições a obra permite uma visão bastante acurada do processo de apresamento e trafico dos índios, das diferenças da legislação sobre a escravidão na América portuguesa e espanhola, nas nuances de posições entre as distintas ordens religiosas, na especificidade do “projeto” jesuíta de catequese. A obra é muito importante também para estudiosos das dimensões políticas no período colonial – relações Igreja/metrópole/colonização; relações centro administrativo/autonomia das câmaras municipais. Assim, sua contribuição mais relevante, embora isso signifique freqüentemente ler essa obra em sinal contrário, é a de estabelecer o nexo perverso entre colonização e escravidão e entre escravidão e construção do território em nossa história.

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5 - VIDA E MORTE DO BANDEIRANTE

– Belo Horizonte - MG 5 - VIDA E MORTE DO BANDEIRANTE AUTOR: Laura de Mello

AUTOR: Laura de Mello e Souza

Nasceu e estudou em São Paulo, onde é docente do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo desde 1983. Possui graduação em História pela Universidade de São Paulo (1975), mestrado em História Social pela Universidade de São Paulo (1980), doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (1986) e Livre-Docência em História Moderna pela Universidade de São Paulo (1993). É professora titular de História Moderna desde 1999. Foi Chefe do Departamento de História entre 1999 e 2001. Foi Vice-Coordenadora do Programa de História Social entre 2002 e 2004. Foi Tinker Visiting Professor na Universidade do Texas (Austin, 1998) e professora visitante por curtos períodos nas Universidades Nova de Lisboa, ICS/Universidade de Lisboa, Universidade de Minnesota, Universidade de Southampton, Universidade de Toronto, École des Hautes Études en Sciences Sociales, Universidade de Sevilha, Universidade Nacional do México. Foi membro do Comitê de Ciências Humanas da FAPESP (1994-2001); do Comitê de História da CAPES (1999-2001). É membro do Comitê de História do CNPq desde 2011. Foi bolsista da FAPESP. É Pesquisadora do CNPq desde 1991, atualmente 1A. É membro da Academia Brasileira de Ciências. Realizou pesquisas sobre a história de Minas Gerais no século XVIII; sobre cultura, sociedade e política no império português nos séculos XVI-XVIII; sobre as relações entre a Europa e o Novo Mundo nos séculos XVI-XIX; sobre a historiografia brasileira do século XX. Integrou e integra projetos coletivos de pesquisa sediados na UFF e coordenou o projeto temático "Dimensões do Império português - séculos XVI-XIX", sediado na Cátedra Jaime Cortesão - FFLCH - USP, financiado pela FAPESP (2005- 2010). Atualmente redige pesquisa sobre as migrações de três cortes européias durante o período de expansão napoleônica. Orienta trabalhos em nível de Mestrado e Doutorado junto ao Programa de História Social de seu Departamento, e tem supervisionado estágios de pós-doutorado. (Texto informado pelo autor)

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RESUMO: VIDA E MORTE DO BANDEIRANTE

José de Alcântara Machado e Oliveira nasceu em Piracicaba em 19 de outubro de 1875, pertencendo a uma família antiga, rica e muito intelectualizada da província de São Paulo – à elite, na plena acepção do termo.

Alcântara Machado, o historiador, era, de fato, jurista, advogado e político. Formou-se na escola do Largo de São Francisco, da qual foi professor e diretor; elegeu-se vereador, deputado estadual e por fim deputado federal. Escreveu muitos livros de direito, e era conhecido, em seu tempo, como homem público e profissional das leis.

OS INVENTÁRIOS

Vida e morte do bandeirante, não tratam das entradas paulistas e não tem o tom grandiloqüente de outros estudos voltados para a “epopéia bandeirante”. E, no entanto, o assunto é a São Paulo dos historiadores - Alfredo Ellis, Taunay, até Jaime Cortesão – e, antes deles, linhagistas – frei Gaspar da Madre de Deus, Pedro Taques, Manuel Eufrásio de Azevedo Marques – haviam qualificado de heróico.

A extraordinária aventura paulista está presente em Vida e morte do bandeirante. E se ainda não há no livro uma posição abertamente crítica ante ela, há flashes e pequenos episódios da vida quotidiana dos piratininganos que permitem apreender sua crueldade e sua tragédia. Sem atacar de frente a mitologia heróica do bandeirismo, Alcântara Machado nos fala de indivíduos talhados numa dimensão demasiadamente humana, capazes de mesquinharias, de fraquezas, de atitudes medíocres e triviais.

Já no título encontra-se expresso o intuito do historiador, a preocupação com os ritos que marcaram a existência humana. No primeiro capitulo a explicação acerca do principal tipo documental sobre o que repousa a obra: os inventários paulistas, cerca de quatrocentos, cobrindo um período que vai de 1578 a 1700, publicamos por iniciativa de Washington Luís quando governador da província, documentação que “encerra subsídios inestimáveis para a determinação da época, do roteiro e da composição de muitas” entradas”, “generoso manancial de notícias relativas à organização da família, vida íntima, economia e cultura dos povoadores e seus descendentes imediatos”.

O livro começa justamente pela discrição e valorização da fome – “laudas amarelecidas pelos anos e rendadas pelas traças”-, revelando que o historiador tinha consciência do quanto era pioneiro no seu uso. Depois os capítulos se sucedem numa ordem lógica, que parte dos aspectos mais propriamente econômicos e materiais – fortunas, hábitat, mobílias, baixelas, roupas – para atingir os costumes, as crenças e as instituições. O fecho é o antológico capítulo sobre “ O sertão”, tributário de Capistrano na obra já citada e antecipado do Sérgio Buarque de Holanda de Monções (1945) de Caminhos e fronteiras

(1957).

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A

VIDA MATERIAL

O

exame dos inventários revela que a vida dos paulistas foi, no inicio, marcada pela pobreza. Mesmo

quando as marcas de riqueza começaram a aparecer, já por volta do meado do século XVII, nada se encontra que justifique o exagero da linhagistas ou de autores como Oliveira Viana, que viram em São Paulo ambientes de luxo europeu.

Ao analisar as “parcelas que compõem o acervo” dos paulistas e a relação que guardam entre si”, o autor chega a dados surpreendentes, revelando fina sensibilidade histórica. As roupas valem mais que as casas de morada até 1650, quando os imóveis passam a representar “ a parcela mais alta da riqueza privada”.

Muitas jóias completam a indumentária das grandes ocasiões: para as mulheres, anéis, gargantilhas, cadeias, afogadores e rosários de ouro, de pedra, de esmalte; para os homens, fivelas de prata nos cintos e nos sapatos, botões nas vestias.

INSTITUIÇÕES E PRÁTICAS SOCIOECNÔMICAS

Numa sociedade de fronteira, onde tudo está por construir e onde a vida cotidiana é dura e incerta, as práticas do dia-a-dia deixam em segundo plano as instituições mais duradouras. Não escolas, não há mestres, não há médicos, escasseiam os magistrados. Uns poucos inventários acusam a presença minguada de um punhado de livros, revelando ainda que, se boa parte dos homens sabia ler, escrever e contar, a maioria das mulheres mal sabia escrever o nome.

À Justiça, o autor advogado e jurista se adianta e dedica um dos maiores capítulos do livro. Na falta

absoluta de magistrados, os leigos desempenham funções jurídicas e, por exemplo, fazem os inventários.

A máquina judiciária é morosa, as formulas são retorcidas, a prática jurídica é muito distinta da nossa e

ainda se reveste de simbologias, como o uso de ramos verdes nas transações de imóveis.

As custas processuais eram, então, menores, e os salários judiciais nem sempre se pagavam com moeda, valendo usar, nas transações, estanho velho, botas e chinelas novas, galinhas e frangões.

Em meio à ausência das instituições, a família surgia como o único elemento de coesão, assumindo os traços de uma organização defensiva. Alcântara Machado endossa, nesse tocante, as interpretações vigentes em seu tempo sobre o papel ordenador do pater familias: era ele quem regia o destino da prole, escolhendo-se os cônjuges e as ocupações, submetendo e enclausurando as consortes, zelando pela limpeza do sangue em sua descendência.

O HOMEM E O MEIO

Nas lonjuras da capitania de São Paulo, as leis que defendem os índios vão deixando de ter valor. Aproveitando de sua freqüente ambigüidade, os paulistas acabaram criando “Um Estado intermediário entre a liberdade e a escravidão, que tivesse desta a substância e daquela as aparências”. Assim, ao lado dos “negros gentios” da terra começaram pouco a pouco a aparecer os “serviços forros”, as diferenças

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ente um e outro se esgarçando ao longo do século XVII, e ambos acabando por ser escravizados, ao arrepio das determinações de El-rei. Trazido a força pelas expedições, muitos índios se amotinavam. Os mais robustos eram enviados como “negros de ganho” ao litoral, transportando cargas serra a cima. Os mais hábeis tornavam-se chapeleiros e artesãos. Pela sua capacidade incomparável de andar dentro do mato, havia os que iam buscar outros índios para os paulistas. E era para o mato que fugiam quando não mais toleram os maus-tratos. Muitos mais raros eram os escravos negros, chamados “negros de Guiné” para se distinguirem dos “da terra”, ou ainda, no vocábulo indígena, “tapanhunos”. A primeira menção a eles aparecem em 1607, e cem anos depois, segundo os inventários, não soma mais quem um cento. Apesar da escravização de africanos ser então legal, os negros contavam menos, portanto, do que os índios como escravos.

A morte estava sempre presente. Cada entrada para o sertão podia ser a derradeira, e no afã de pôr a

alma no caminho da salvação. Em casa ou no sertão, ao testarem os sertanistas regulavam as mínimas

coisas: onde deveriam ficar seus ossos, quais os santos intercessores, quais as pompas fúnebres.

Tudo, na vida paulista, convergia enfim o sertão, “estribilho obsidente” que “aparece e reaparece nos inventários”, “ a denunciar que para o sertão esta voltada constantemente a alma coletiva, como agulha imantada para o pólo magnético”. È com o sertão que o autor fecha Vida e morte do bandeirante.

O afã de enriquecimento rápido ajuda a entender o fascínio pelo sertão. Contentado-se com a robustez e

a audácia dos adventícios, e sem se importar com a sua origem social ou econômica, o sertão “acena-lhes com a miragem da riqueza fácil e imediata, ao alcance das mãos ávidas, nas florestas de índios predestinados ao cativeiro, nas minas resplandecentes de gemas e metais de prol, no viso luminoso das serranias que as fábulas sobre douram”.

O sertão é o espaço onde se exerce o espírito aventureiro e a imaginação; onde a força humana se põe à

prova para domar uma natureza desconhecida e misteriosa; onde os marinheiros da véspera voltam a

enfrentar situações de perigo e de imprevisto.

Finda a era heróica das grandes navegações, o colonizador português voltou-se para essa expansão interna que caracterizou a atividade dos homens de São Paulo por séculos, e que em tantos pontos se assemelhou à lide marítima.

Não há como fugir ao sertão, escola que “prepara os moços para o exercício das duas únicas profissões tentadoras que o meio comporta: o tráfico vermelho e a mineração. Uma entrada equivale a um diploma”. Na segunda metade do século XVII, não haverá em São Paulo mais do que dos moradores que não se entreguem ao tráfico de índios, que atrai até ordens religiosas, como a dos carmelitas. Muito menino saiu da infância já na lide sertaneja, acompanhando o pai ou algum parente, aprendendo roteiros que, anos mais tarde, voltaram a praticar.

VIDA E MORTE DO BANDEIRANTE

Para driblar o meio acanhado e periférico, os habitantes de são Paulo tiveram que talhar um destino específico, fazendo-o como homens comuns e não como “gigantes” ou “heróis”. Antes da voga da

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interdisciplinaridade, que em tantos pontos esfumaçou os limites entre a história e a antropologia, José de Alcântara Machado e Oliveira, rebento de velhos troncos paulistas, cioso dos seus quatrocentos anos de habitante do Planalto de Piratininga, soube, melhor do que ninguém no seu tempo, mostrar que a compreensão histórica repousa também nos atos do dia-a-dia, monótonos, repetitivos, banais e até mesmo mesquinhos. Sem julgar o passado – pois não compete ao historiador fazê-lo, alertou que a pobreza da capitania poderia se transformar em categoria explicativa da sua historia, e abriu caminho para os estudos dos mecanismos culturais e econômicos da expansão paulista.

A alardeada ausência de alternativas econômicas justificava, por um lado, o apresamento de índios; por outro, fundamentava o não-pagamento de impostos e de dívidas. Por fim, o significado que o historiador – no caso, Alcântara Machado – atribui à pobreza não é obrigatoriamente o mesmo atribuído pelos contemporâneos. O destes, aliás, pode ser mais de um, e talvez uma compreensão mais acurada da pobreza só possa surgir quando levar em conta sua provável polissemia – mascara sob a qual se ocultaram variadas visões historiográficas.

6 - D. JOÃO VI NO BRASIL

visões historiográficas. 6 - D. JOÃO VI NO BRASIL Autor: Guilherme Pereira das Neves Concluiu o

Autor: Guilherme Pereira das Neves

Concluiu o Doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo em 1994. Atualmente, é Professor Associado III da Universidade Federal Fluminense, para a qual ingressou em 1977. Publicou artigos em periódicos especializados, trabalhos em anais de eventos, capítulos de livros (muitos verbetes) e 5 livros (dois deles como co- organizador). Participou de eventos no Brasil e no exterior. Orientou e orienta dissertações de mestrado e teses de doutorado, como também trabalhos de iniciação científica e de conclusão de curso. Recebeu o 1º Prêmio de Monografias do Arquivo Nacional (RJ) em 1995 e integra o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) como sócio honorário. Atualmente, participa como pesquisador do projeto PRONEX / CNPq / FAPERJ intitulado (em sua atual renovação) Linguagens da Intolerância, desenvolvido no âmbito da Cia das Índias - Núcleo de História Ibérica e Colonial na Época Moderna. Trabalha sobretudo com o período de fins do século XVIII e inícios do XIX em sua dimensão política, o que significa pensar o lugar da religião, da cultura escrita e, cada vez mais, da história no

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mundo luso-brasileiro. Tem interesse igualmente em Teoria e Metodologia da História, assim como em História da Música. Em seu Currículo LATTES, palavras-chave freqüentes são: Antigo Regime, Ilustração / Luzes, Religiosidade / Religião / Igreja, Historiografia, Reformismo, Império luso-brasileiro, Instituições, Educação, Nação e Linguagens políticas. (Texto informado pelo autor)

RESUMO: D. JOÃO VI NO BRASIL

Ao abrir quase oitocentas páginas do Dom João VI no Brasil, de Oliveira Lima, em sua terceira edição de 1966, um distraído poderia supor que está diante de uma obra tradicional de história política e diplomática. Poderá ser levado a pensar que se trata de uma obra de época, característica do período em que foi escrita e da intenção que a moveu e acabar concluindo pela sua irrelevância para a realidade e os problemas do Brasil de hoje.

Não poderia cometer maior engano, Wilson Martins caracteriza Dom João VI como um clássico da historiografia brasileira entre outros autores e historiadores.

Manuel de Oliveira Lima nasceu no Recife, em dezembro de 1867. Seu pai era natural do Porto e a mãe, de Pernambuco, onde aquele se estabelecera primeiro como caixeiro e depois como patrão, com negócio de fazendas e consignação de açúcar. Com a prosperidade dos negócios, a família decidiu-se voltar para Lisboa. Educado no colégio dos Lazaristas e na Escola Acadêmica, manifestando-se muito cedo suas predileções literárias e históricas e sua “incompatibilidade congênita com a óptica”. Inscreveu-se na faculdade de Letras. Formou-se em 1888 e depois no serviço diplomático brasileiro, nomeado adido de primeira classe à legação de Lisboa pelo novo governo que derrubara a monarquia em 1889, faleceu em 1928 nos Estados Unidos, e foi enterrado com instrução de jamais ser removido.

Com suas opiniões francas, sua independência, suas invectivas contra os poderosos, e, sobretudo suas convicções monárquicas criaram-lhe mais embaraços do que vantagens em meio aos grupos de interesses que caracterizam o início do regime republicano, levando-o a considerar que ter caráter “é sempre um atraso na vida”.

Cosmopolita por formação e experiência, Oliveira Lima reputava “absurda e insuportável a fórmula inglesa – right or wrong my country, de um patriotismo estreito e inexorável”.

Oliveira Lima estruturou o livro Dom João VI no Brasil a partir de uma narrativa cronológica dos acontecimentos, ainda que maleável, desde a decisão de transferir a corte de Portugal para o Brasil, concretizada em 1808, até o seu regresso, em 1821.

Em Portugal, após a restauração de 1640, ocupou sempre um lugar marginal nesse intricado tabuleiro, mas se ouro do Brasil e as medidas violentas do marquês de Pombal, como ministro todo-poderoso de D. José I, deram-lhe um certo papel na Europa, tumultuado último quartel do século XVIII deixou-o numa posição delicada, segundo Oliveira Lima, o “imenso império colonial”, tão vasto quanto vulnerável, estava no mais completo desacordo com os meios de ação de que a metrópole dispunha para o defender e manter. Compreendem-se assim as hesitações e os impasses da diplomacia portuguesa, a partir de 1790,

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dividido o Reino entre o temor às novas idéias, de que a frança se tornava o principal foco, e a necessidade de utilizá-las, a fim de aprimorar o funcionamento do Império; entre o velho fantasma da anexação pela Espanha, movendo-se na órbita francesa, e o receio de que a fragilidade do ultramar atraísse a cobiça da Inglaterra, a despeito da longa aliança entre os dois países.

A decisão de partir para o Brasil revelou-se muito mais “como uma inteligente e feliz manobra política do

que como uma deserção covarde”.

Oliveira Lima, à percepção quanto a uma tradição estabelecida pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro de desprezar as tradições portuguesas, a fim de erigir uma tradição nacional, fundada na imagem do indígena e da natureza tropical idealizada, acrescenta uma outra; trata-se da idéia de que o estabelecimento da Corte na América traria condições para fundar um novo império, mas desenvolvido a partir da concepção de um império luso-brasileiro, como forma de manter a integridade do conjunto ameaçado. Essa intenção, reagindo com os acontecimentos na Europa, com as condições do Brasil e Portugal e com as limitações políticas e sociais das tradições luso-brasileiras, daria origem a uma série de antinomias, responsáveis pelo rompimento de 1822.

Estabelecida a corte no Rio de Janeiro e tomadas as providencias indispensáveis, a imposição dos tratados de 1810 (pela Inglaterra0 revelou a continuada e inevitável dependência em relação ao tradicional aliado; porém as “intrigas platinas” mostrariam o surgimento de interesses propriamente americanos, motivados pela antiga pretensão de estender as fronteiras do Brasil ao Prata, que renasciam em função da inquietação das populações do vice-reinado, diante da acefalia do Trono espanhol na Europa, e das atitudes de Carlota Joaquina, que se sentia “em si sobeja virilidade para ser ela o Rei”;

Semelhantes colocam-se em relação à Espanha, cujo rei legítimo renunciara por imposição de Bonaparte, sendo substituído no trono por um irmão do general, levando à formação da Junta de Cádiz. Apesar dos esforços de Pedro de Sousa e Holstein, futuro conde de Palmela, como representante português nessa última cidade, as tentativas de colocar D.Carlota como regente dos domínios de sua família acabaram igualmente bloqueadas pela Inglaterra, à qual não interessava a eventual união das duas monarquias ibéricas.

Ao ocupar Caiena (Guiana Francesa) ainda em 1808 o que a corte visava era ter o que restituir na paz geral que fatalmente devia rematar o período das guerras napoleônicas a fim de assegurar os tradicionais limites americanos setentrionais.

Oliveira Lima, analisa a posição da monarquia sediada no Rio de Janeiro em relação ao cenário internacional, após a paz na Europa e de verificar os interesses, que a transmigração de 1808 produziria interior do império luso-brasileiro.

A derrota de Napoleão colocara novamente em questão a natureza da estadia da Corte na América e o

projeto de um novo império a que ela dera origem. Nada mais impedia o regresso de D.João a Lisboa. Para o jogo político das potências reunidas no Congresso de Viena não se concebia que o Brasil assumisse

o papel que todos julgavam pertencer à Portugal; por outro lado as possibilidades oferecidas pela

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experiência direta do Novo Mundo tinham crescentemente interiorizado a metrópole dos trópicos, redespertando os sonhos expansionistas da corte.

Os representantes portugueses no congresso de Viena procuravam resolves três questões: 1- a devolução do território de Olivença, perdido para a Espanha na guerra de 1801; 2- a fixação da fronteira norte com a Guiana Francesa de acordo com o estabelecido em Utrecht, e 3- a defesa do tráfico de escravos. Misturavam-se interesses americanos e europeus. Embora elevado o Brasil a Reino Unido de Portugal e Algarves, a antiga metrópole permanecia aos olhos europeus um país insignificante. Diante dos meios fracassos observados quanto à solução das questões acima, à corte no Rio de Janeiro teve caminho livre para seus intuitos expansionistas. Portugal deixara de alcançar em Viena a justiça que lhe cabia.

Em 1820, Dom João VI continuava a dar todos os indícios de que permaneceria fiel ao sonho do novo império que viera buscar na América.

O desembarque da família real no Rio de Janeiro foi mais do que uma cerimônia oficial: foi uma festa popular. Os habitantes da capital brasileira corresponderam bizarramente às ordens do vice-rei conde dos Arcos e saudaram o príncipe regente, não simplesmente como o estipulavam os editais, respeitosa e carinhosamente, mas com a mais tocante efusão.

respeitosa e carinhosamente, mas com a mais tocante efusão. 7 - O ABOLICIONISMO Autor: Marco Aurélio

7 - O ABOLICIONISMO

Autor: Marco Aurélio Nogueira

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em Ciências Políticas e Sociais pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo (1972) e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (1983). Pós-doutorado na Universidade de Roma, Itália (1984-1985). Livre-docente e Professor Titular pela Universidade Estadual Paulista-UNESP. É professor colaborador do Programa de Pós- Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de São Carlos-Ufscar e colunista do jornal O Estado de S Paulo. Tem experiência na área de Ciência Política e de Gestão Pública, trabalhando principalmente com os temas:

teoria política, reforma do Estado, democracia, sociedade civil, globalização, modernidade e integração latino- americana.Atualmente é Professor Titular da Universidade Estadual Paulista-UNESP, professor do Programa de Pós- Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (Unesp Pucsp Unicamp) e Diretor do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais-IPPRI da UNESP. (Texto informado pelo autor)

RESUMO: O ABOLICIONISMO

Em meados de 1882, época em que Joaquim Nabuco começou a escrever “O Abolicionismo”, o movimento pelo fim da escravidão ainda estava em crise.

O liberalismo estava tímido e a sombra do conservadorismo não se dissipava, então, uma mudança radical

sempre era contida pelo jogo político prevalecente.

Todavia, a conjuntura internacional não favorecia o sistema escravocrata, vez que era um dos últimos países com esse regime de trabalho primitivo, retrógrado e desumano.

Então, em face do contraste gritante entre as castas privilegiadas e a miséria, ou se resolvia a questão do trabalho ou o progresso estaria comprometido.

Contudo, embora a questão fosse óbvia, o imperador dividia-se entre querer ser moderno e não perder o apoio dos escravocratas. Assim, como diz Nabuco no livro a abolição só conseguia se impor: “perante jurisdições virtuais, abstrações políticas, forças que ainda estão no seio do possível, simpatias generosas e impotentes, não perante o tribunal que pode executar a sentença da liberdade da raça negra”.

Nabuco perde a cadeira de deputado em 1881, o que provava as forças escravocratas e a irregularidade do movimento abolicionista. Assim, Nabuco foi para Londres escrever sobre um tratado da escravidão e das razões da abolição.

A obra: O abolicionismo é destinada a impulsionar um movimento que claudicava. Também deu ao movimento um maior embasamento teórico, fazendo uma defesa da emancipação criticando as

estruturas e instituições imperiais, propondo uma reforma social.

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O livro supramencionado dará a Nabuco um instrumento para voltar à vida política e uma teoria para

explicar o país, explorando ao máximo a tese de que a escravidão ocupava o centro do organismo social.

Logo, pensar a escravidão seria pensar o país como um todo.

Nabuco expõe não apenas que a escravidão é ilegítima e ilegal, mas as razões com que ela acabará com o progresso. O regime escravocrata acirrava os conflitos e impedia a convivência entre os brasileiros; esmagava os operários e embrutecia os escravos.

O regime escravo proibia qualquer avanço na democracia e cidadania, promovendo uma concentração no

poder estatal, fazendo crescer artificialmente a classe dos empregados públicos, que eram “servos da

gleba do governo”, fechando as portas da indústria, do comércio, das letras e da ciência.

Joaquim Nabuco insiste na tese de que não se poderia exigir protagonismo dos escravos, pois estes não teriam meios de reivindicar seus direitos, nem a consciência deles.

O governo imperial era incapaz de evitar o tema da abolição, mas não tinha bases firmes que o forçasse à ação. Então tinha um plano gradualista destinado a proteger a monarquia, postergando a abolição e desarticulando os abolicionistas. A título de exemplo, tem-se a Lei do Ventre Livre e a extinção do tráfico em 1850.

Entretanto, os filhos de escravos nascidos cresceriam nas senzalas, sendo patente de que deveria se reformar e alargar a lei. Essa lei, portanto, não passava de uma manobra a fim de desarticular os abolicionistas. Era preciso o sucesso da causa, e para isso, não se podia recusar a contribuição de nenhum partido.

Por essa razão, Nabuco, portanto, jamais deixou de ser realista e pragmático. Era uma luta de toda nação e se completaria ao longo do tempo. O abolicionismo não era somente libertar os escravos, mas apagar todos os efeitos de um regime que perdurou três séculos.

Então, seria imprescindível um programa feito a longo prazo, a fim de alterar estruturas das sociedades, instituições e valores. Todavia, o programa reformador de Nabuco não empolgará a Coroa nem sensibilizará as elites. Apenas em 1988, em decorrência da crise política e agitação popular a emancipação ganhou força, sendo, então abolida a escravidão.

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Contudo a abolição não evitará a República, o que faz Nabuco romper com a política e refugiar-se na vida privada. O apaixonado reformador cederá lugar a um monarquista ortodoxo, dedicado a embelezar passado. Porém, não deixou de ser pragmático e em 1899 aceita o encargo de defender o interesse brasileiro na Guiana Francesa. Mais tarde, em 1905 representa diplomaticamente o Brasil nos EUA. Morre em Washington, em 17 de janeiro de 1910.

8 - HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

de janeiro de 1910. 8 - HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA Autor: Benjamim Abdala Júnior É professor

Autor: Benjamim Abdala Júnior

É professor titular da FFLCH da Universidade de São Paulo. Pesquisador 1 A do CNPq, foi adjunto de representante e coordenador da área de Letras e Lingüística da CAPES; ex-representante das áreas de Humanas no Conselho Técnico-Científico dessa agência do MEC. Ex-presidente da Associação Brasileira de Literatura Comparada, foi por duas gestões representante dessa área do conhecimento no CNPq. Membro do Conselho Editorial de várias revistas científicas, foi diretor ou coordenador de séries ou coleções editoriais, entre elas, a Princípios e Fundamentos (Editora Ática), Literatura Comentada (Editora Abril), Ponto Futuro e Livre Pensar (Editora SENAC-SP). Suas pesquisas, desde o Mestrado, na Universidade de São Paulo, situam-se no campo da Literatura Comparada, atuando no âmbito das literaturas de língua portuguesa. Foi um dos introdutores dos estudos das Literaturas Africanas no país. Publicou cerca de quarenta títulos de livros (livros de autoria individual, organização de coletâneas críticas e antologias), entre eles A escrita neo-realista (1981); História social da literatura portuguesa (1984); Tempos da Literatura Brasileira (1985); Literatura, história e política (1989); Fronteiras múltiplas, identidades plurais: um ensaio sobre mestiçagem e hibridismo cultural (2002); De vôos e ilhas: literatura e comunitarismos (2003);

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Literaturas de língua portuguesa: marcos e marcas - Portugal (2007); Literatura comparada e relações comunitárias, hoje (2012). Entre as coletâneas que organizou ou co-organizou, podem ser mencionadas Ecos do Brasil: Eça de Queirós, leituras brasileiras e portuguesas (2000); Personae: grandes personagens da literatura brasileira (2001); Incertas relações: Brasil e Portugal no século XX (2003); Margens da cultura: mestiçagem, hibridismo & outras misturas (2004); Portos flutuantes: trânsitos ibero-afro-americanos (2004) e Moderno de nascença: figurações críticas do Brasil (2006). Estão no prelo os seguintes títulos: Literatura e memória política e Estudos Comparados - teoria, crítica e metodologia. (Texto informado pelo autor)

RESUMO: HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

A História da literatura brasileira deixa evidentes as contradições do pensamento crítico de seu autor, um intelectual que dá origem a reflexões que contribuirão de forma decisiva para a discussão da cultura brasileira em todas suas vertentes.

Era essa a maneira como se pensava cientificamente a literatura e a cultura, com esquemas importados da Europa. Além disso, deve ser destacado o fato de que a História de Sílvio Romero significou um avanço para o pensamento crítico, pela preocupação metodológica do autor, que veio a constituir um marco inicial, no Brasil, de toda uma linha de abordagem dos fatos literários e culturais.

Sílvio Romero tem em seu texto um sentimento de missão, de dever. Segundo ele, a abolição veio da pressão do conjunto, que já ia libertando os escravos nas fazendas e nos Estados, e se os políticos não o fizessem logo, não encontrariam mais a quem libertar. Ele considerava-se um naturalista idealista, procurando afastar-se da visão dicotômica do materialismo e do espiritualismo.

O primeiro período da “História da literatura Brasileira” foi designado pelo autor como primeira época ou

período de formação (1500-1750). Nesse período já aparece um exemplo de parcialidade e crítica de seu autor. Sílvio Romero dedica apenas um parágrafo de sua obra a Antônio Vieira, homem representativo do

período.

O autor continua seu discurso histórico na segunda época ou período de desenvolvimento autonômico

(1750-1830). Para ele, destacam-se nessa época os poetas da Escola Mineira.

As produções da terceira época oi período de transformação romântica – poesia (1830-1870) já se desenvolveram em um período mais acelerado, exigindo-se uma divisão em fases, com escritores representativos.

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Sílvio Romero tem na mestiçagem o ideal da identidade nacional brasileira. Procurava aliar determinantes raciais com de outras esferas, e vê no modelo antropológico a razão para a defesa do unitarismo do país. Todavia, indica que com a extinção do tráfico e o gradual desaparecimento dos índios, poder-se-ia no futuro predominar a feição branca.

O autor fica contraditório na questão da mestiçagem e aceita a idéia de superioridade racial sem verificar

sua pertinência. Quando discorre sobre mestiçagem, tem concepções racistas que falam de uma raça

branca superior, embora diga que o mestiço tem muita importância em aspectos culturais.

Sílvio Romero pesquisou a cultura popular brasileira. Ele repete que o Brasil não é o Rio de Janeiro e aponta a diversidade existente no Brasil, procurando destacar as produções culturais nordestinas.

A obra do autor vale como síntese da literatura e da cultura do país, publicada no inicio da República Era um momento de sonhos libertários e de defesa de uma metodologia cientifica para as ciências humanas.

Além disso, o texto permite uma profunda discussão da cultura brasileira, que são questões, inclusive, matéria de discussões contemporâneas. Sílvio destacou as potencialidades das formas literárias produzidas no país.

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9 - MINHA FORMAÇÃO

CEP: 31270-901 – Belo Horizonte - MG 9 - MINHA FORMAÇÃO Autora: Maria Alice Rezende de

Autora: Maria Alice Rezende de Carvalho

Licenciada em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1975), Mestre pela Universidade Estadual de Campinas (1983) e Doutora em Sociologia pelo IUPERJ - Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (1997), onde trabalhou entre os anos de 1987 e 2007, tornando-se Professora Titular (Sociologia), em 1993. Participou do colegiado de diretores do IUPERJ por três vezes e presidiu a ANPOCS - Associação Nacional de Pós- Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, principal associação científica da área, no biênio 2009-2010. Atualmente é Professora Associada II do Departamento de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e Pesquisadora do CNPq (desde 2005). Coordenou o Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC-Rio nos anos de 2011 e 2012 e coordena o CENTRAL - Núcleo de Estudos e Projetos da Cidade, do Centro de Ciências Sociais daquela universidade. Suas linhas de pesquisa são, principalmente, história e sociologia da cultura e dos intelectuais, sociologia da cidade e sociologia política. É autora (ou co-autora) de nove livros, dois deles premiados, além de integrar cerca de trinta coletâneas de nacionais e internacionais. Orientou mais de vinte teses de doutorado, seis delas premiadas por diferentes instituições, no Brasil e Uruguai, e 25 dissertações de mestrado. Participa do Conselho de Editores Científicos da Revista Ciência Hoje e integra, desde 2009, o Conselho de Informações Estratégicas do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos - IPP. (Texto informado pelo autor)

RESUMO: MINHA FORMAÇÃO

No final do século XIX, o Brasil era uma república com extrema instabilidade política decorrente da ruptura do antigo regime. O livro de Nabuco: Minha Formação é resultado da avaliação do Autor de sua trajetória associada ao Segundo Reinado.

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O autor estava bastante apreensivo com a radicalização política que assolava o país e estava

voluntariamente afastado da política por não acreditar uma liderança capaz de reconciliar a nação com

seu passado.

O livro supracitado tem o relato do sentimento de crise que acometeu as elites imperiais no contexto da

República e a defesa de um futuro pautado pela tradição brasileira. Nele, o autor defende suas convicções

monárquicas mais explicitamente nos dois primeiros capítulos.

Nabuco dedica parte do livro para falar sobre os efeitos do legado civilizacional do Ocidente, destacando

as personalidades com quem travou contato na Europa.

Para ele, o traço do brasileiro culto é a dualidade, pela incapacidade de satisfazer somente com a Europa

ou o Brasil. Isso porque o Velho Mundo, em oposição ao Novo Mundo, tinha reminiscências da trajetória humana.

Nabuco afirma que seus anos de formação literária foram também de formação política, então, em cada cidade que visitou, além de um julgamento estético, há um teor político. Em sua vivência em Paris, Londres e Nova York que o autor teria consolidado sua opção pela monarquia.

O autor faz uma clara comparação entre Paris e Londres, vendo em Paris a magnitude da natureza

humana e em Londres a naturalidade dos fatos. Para ele, nessas cidades, há dois padrões estéticos distintos, e por isso, critérios distintos de validação de sistemas políticos. Nabuco não esconde sua paixão por Londres, em que enxerga a honra a altivez moral e a individualidade.

Lado outro, o autor não vê em Paris um espírito de liberdade arraigado. Para ele, Na França havia uma predisposição igualitária, o que levava à demagogia.

Em “Minha formação”, Nabuco justifica os motivos que o levaram a viajar ao norte do continente americano. Ele pretendia combater o republicanismo, e, para isso, precisaria compreender sentir o aspecto político de Nova Iorque.

Ele constata que na América há um excesso de finalidade material e ausência de um ideal. Nabuco enxergava um predomínio da igualdade em relação à liberdade, assemelhando-se à república preconizada pelos jacobinos, em que se tinha abertura para a demagogia. O autor retorna para o Brasil convencido de que apenas a Inglaterra é um país livre.

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Na última parte do livro, Nabuco dedica-se a apresentar sua formação humana, levando em conta os critérios que se referem ao abolicionismo e às reminiscências de sua infância.

O autor mostra repúdio às instituições escravistas, que chama de “indigna marca nacional do Brasil”. No livro, o abolicionismo não aparece como uma questão social ou nacional, mas como uma dívida moral, com caráter humanitário.

Para Nabuco, a monarquia estabelecia as hierarquias sociais, em que a honra é um atributo do lugar que se pertence, o que confere dignidade a cada cidadão. Então, quando caiu a monarquia, caiu o edifício hierárquico.

10 - A AMÉRICA LATINA: MALES DE ORIGEM

hierárquico. 10 - A AMÉRICA LATINA: MALES DE ORIGEM Autor: Roberto Ventura Possui graduação em Geologia

Autor: Roberto Ventura

Possui graduação em Geologia pela Universidade de Brasília (1984), mestrado em Geologia Econômica e Prospecção Mineral pela Universidade de Brasília (1988) e doutorado em Geophysical Sciences pela University of Chicago (1993). Atualmente é professor adjunto iv da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de Geociências, com ênfase em estratigrafia isotópica e estudos ambientais, atuando principalmente nos seguintes temas: isótopos de oxigênio e carbono, estratigrafia química e isotópica e geologia ambiental. (Texto informado pelo autor)

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RESUMO: A AMÉRICA LATINA: MALES DE ORIGEM

A América Latina: Males de origem, de Manuel Bonfim, reflete sobre os males de origem dos países do continente. Bonfim, ao revés dos intelectuais da época, não culpava as populações mestiças e o clima tropical pelo atraso dos países, mas a exploração das colônias e dos escravos e trabalhadores. Acreditava que com a difusão do ensino primário se resolveria o problema da democracia no Brasil, já que na Primeira República se excluía o voto dos analfabetos.

O livro revela a consciência continental do autor, que não fala apenas como brasileiro, mas como latino

americano, ao tentar exprimir a posição de uma região atrasada. A América Latina: Males de origem

critica a república, que afastou seus ideais ao manter as instituições presentes na monarquia.

Bonfim escreveu A América Latina: Males de origem em 1903, em Paris, reagindo à negativa visão que os europeus tinham da América do Sul, tida como atrasada por ter raças “inferiores” ou “misturadas”. Ele atribui os males dos países aos colonizadores, que eram verdadeiros parasitas, na medida em que exploravam o trabalho escravo.

A partir dessa noção de parasitismo, o autor criou uma teoria biológica da mais-valia, nas quais as elites

locais seriam parasitas das classes trabalhadoras, tomando a riqueza que estas produzem. Isso resultaria em uma exploração predatória e o gosto pela vida sedentária, que levaria ao esgotamento de recursos e à decadência da sociedade. A luta entre os parasitas e os parasitados, então, que levaria às transformações históricas.

Para Bonfim, após a proclamação do regime republicano, o Estado permaneceu como era, continuando sua atuação como parasita, com gastos excessivos de órgãos estatais e forças armadas. Então, para ele, a solução seria uma reeducação política, em que o estado deveria proteger os indivíduos contra a miséria, ignorância e preconceito ao invés de ter uma função “guerreiro- policial”.

A República, proclamada em 1889, não fora capaz de implementar uma democracia política, na medida

em que transformou o sufrágio universal em uma mentira e representou o interesse de uma minoria

insignificante.

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Na parte final de A América Latina: Males de origem, Bonfim critica o racismo o evolucionismo e o positivismo, como modelos que justificam o domínio dos fracos pelos fortes. Ataca, assim, a crença na superioridade de raças “puras”. Resume, assim, a relação entre essas teorias e os interesses imperialistas.

Bonfim afirma que o parasitismo na história da América Latina, ao contrário do biológico, não era irreversível e poderia ser extirpado por meio da educação popular e da rebelião contra as diversas formas existentes de espoliação. O autor rompeu com o pessimismo e determinismo das teorias do meio, da raça e do caráter nacional. Concebidos como imutáveis.

Todavia, o autor não se livrou completamente da idéia de transmissão hereditária de traços psicológicos, que entrava em contradição com a idéia de que poder-se ia modificar o “caráter” do povo brasileiro.

11 – A ORGANIZAÇÃO NACIONAL

do povo brasileiro. 11 – A ORGANIZAÇÃO NACIONAL Autor: ROLF NELSON KUNTZ Possui graduação em Filosofia

Autor: ROLF NELSON KUNTZ

Possui graduação em Filosofia pela Universidade de São Paulo (1966), mestrado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (1970) e doutorado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (1982). Atualmente é porfessor doutor da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em Teoria das Ciências Humanas e

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Ética e Filosofia Política, atuando principalmente nos seguintes temas: política, economia, David Hume, democracia, Jean-Jacques Rousseau, John Locke e Adm Smith. (Texto informado pelo autor)

RESUMO: A ORGANIZAÇÃO SOCIAL

No livro: A organização nacional, de Alberto Torres, defende-se a ideia de que soluções políticas só podem ser produzidas observando-se a terra e a gente, para identificar os interesses gerais e permanentes do país; soluções copiadas são fadadas ao fracasso.

Alberto Torres tem em sua obra algumas características pessoais, como, o antirracismo, mas também reflete nela idéias de escritores e políticos de seu tempo: soluções brasileiras para problemas brasileiros foi um mantra de sua geração.

A obra: A organização nacional, de Alberto Torres, enfatiza na soberania da união e critica o federalismo

adotado no Brasil. Reforça também a ideia da liberdade individual.

Para o autor o fracasso nas duas primeiras décadas da república são fruto do desencontro do homem com

a natureza e a desorganização, que vai além das noções de administração, incluindo-se uma concepção política, uma definição de interesse nacional e conformação de um povo.

A reforma

constitucional envolve a definição de um interesse nacional e um projeto para o Brasil. A decepção do autor com a constituição surgiu quando ele era presidente do estado do Rio de Janeiro, e se completou

quando foi ministro do STF.

A constituição de 1981, para Alberto Torres, é parte dessa desorganização denunciada

A organização nacional apresenta em seu prefácio algumas noções centrais, como a de que a Constituição

de 1891 é uma cópia. A primeira seção do livro: “A terra e a gente do Brasil” reflete sobre o desajuste histórico brasileiro: o homem não se amoldou à terra e a política não fora capaz de estabelecer padrões

de solidariedade suficiente para formar uma nação.

A política não é apenas emanação de uma base social e econômica. Há uma função criadora da política,

que é tema da segunda seção do livro A organização nacional, de Alberto Torres. É necessário renunciar às noções abstratas de formas de governo. Para Torres, há de se ter um novo estilo de ocupação territorial, que seja menos destruidor.

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Alberto Torres descreve que o governo deveria das menor ênfase ao comércio e às estradas de ferro, que

segundo ele são:

“como causas de ruina, facilitando o êxodo das populações para os grandes centros, o esgoto da terra, o consumo de produtos voluptuários e frívolos, a criação de hábitos, costumes, ambições e estímulos, contrários á estabilidade, ao trabalho, á vida serena e sóbria no pequeno torrão cultivado.“ (A organização nacional, Alberto Torres, pág.

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Para Alberto Torres, o comércio internacional está dominado pelos interesses das grandes potências. O

Brasil deveria abandonar o consumo imitativo e tornar-se, assim, menos dependente da informação. O

pais, “fraquíssimo pela singularidade de sua natureza”, só poderia resistir aà dominação por obstáculos

políticos e legislativos.

A terceira seção do livro: ”Da revisão Constitucional” expõe as bases políticas e legais da organização. O

autor trata dos poderes e responsabilidades da União e das províncias. Estas últimas terão poderes

meramente residuais

Alberto Torres dedica o capítulo segundo para falar dos órgãos da soberania nacional, os poderes

Legislativo, Executivo, Judiciário e Coordenador. Esse último seria o centro organizador, concatenando os

aparelhos do sistema político.

Alberto Torres, no livro, tem a preocupação com praticas democráticas, com liberdades individuais e com

sua prática jurídica. Valoriza também os direitos de segunda geração e preocupa-se também com o meio

ambiente. Esses valores, para o autor, só seriam possíveis com a atuação de um governo muito forte,

capaz de intervir em todas as questões de interesse público.

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12 – HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

Horizonte - MG 12 – HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA Autor: JOÃO ALEXANDRE BARBOSA RESUMO: HISTÓRIA DA

Autor: JOÃO ALEXANDRE BARBOSA

RESUMO: HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

A História da Literatura Brasileira, de José Veríssimo, é uma síntese bem-sucedida da história da literatura brasileira em nossa historiografia literária. A forte herança romântica, a crise dos positivismos e

evolucionismos e as novas tendências impressionistas da crítica eram elementos fundamentais do novo paradigma crítico que se anunciava no contexto mais amplo da elaboração da História.

A obra é de extrema importância para o estudo da historiografia literária, percebendo, por exemplo,

como a influência contumaz do determinismo de Taine é abrandada pela leitura de Gustavo Lenson ou

mesmo pela lembrança de Sainte Beuve.

A “introdução” revê pressupostos fundamentais da historiografia literária brasileira, defendidos pelos

precursores românticos ou por Sílvio Romero. Já no primeiro parágrafo, José Veríssimo retoma o tema da

tensão entre dependência e autonomia da literatura brasileira em relação à portuguesa, afirmando, assim, a relação entre desenvolvimento literário e político.

José Veríssimo, ao mesmo tempo em que buscava se adequar aos novos paradigmas críticos e historiográficos, num esforço de superação das amassas representadas pela sua formação modernista,

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terminava por ser um homem de sua geração ao estabelecer bases de uma evolução literária cuja destinação e plenitude se daria com a obra de Machado de Assis,

Ao dedicar o último capítulo do livro a Machado de Assis, deixa claro o sentido axiológico que movia a composição da obra – a obra machadiana era singular pelos princípios de nacionalização da literatura que ele fixara a partir do romantismo e, por outra parte, ratificava o esquema evolucionista que dominava sua formação de crítico.

Lendo-se A História da Literatura Brasileira, de José Veríssimo, depois de ter lido o seu último capítulo é possível compreender a leitura apequenada e moralista que faz de Gregório de Matos e da ausência de poetas simbolistas.

Em História da Literatura Brasileira, José Veríssimo, faz prevalecer os valores de representação sobre os de construção, colocando a inteligibilidade como sinônimo de clareza, assumindo posições conservadoras e reacionárias.

No livro, o autor por um lado encerrava toda aquela seqüência de esforços oitocentistas em pró de uma história literária brasileira , dos românticos até Sílvio Romero, e, de outro lado, iniciava a abertura de uma nova historiografia , que somente quase meio século depois encontraria continuidade.

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13 - POPULAÇÕES MERIDIONAIS DO BRASIL

Belo Horizonte - MG 13 - POPULAÇÕES MERIDIONAIS DO BRASIL Autor: Gildo Marçal Brandão Nascido em

Autor: Gildo Marçal Brandão

Nascido em Alagoas, formou-se em Filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco e, depois de mudar-se para São Paulo, concluiu seu doutorado em Ciência Política na Universidade de São Paulo. Sua tese foi publicada pela Editora Hucitec em 1997 sob o título A Esquerda Positiva: As Duas Almas do Partido Comunista, 1920-1964.

Também publicou os livros Caio Prado Júnior e a Nacionalização do Marxismo no Brasil (Editora 34, 2000)

e Linhagens do Pensamento Político Brasileiro (Oscite, 2007), importantes contribuições para Ciências Sociais brasileiras. Foi Professor do Departamento de Ciência Política e coordenador científico do NAPDD - Núcleo de Apoio à Pesquisa sobre Democratização e Desenvolvimento Político da Universidade de São Paulo.

RESUMO: POPULAÇÕES MERIDIONASI DO BRASIL

Os liberais brasileiros, diz Oliveira Vianna em Populações Meridionais do Brasil, jamais entenderam que é impossível e contraproducente reproduzir aqui o parlamentarismo inglês, o liberalismo democrático à francesa, ou o federalismo e a descentralização republicana ao estilo americano. Jamais perceberam que

as instituições políticas engendradas por essa história de quatro séculos nos fazem distintos dos europeus

e anglo-saxãos. E que, por mais bem intencionadas e idealistas que sejam todas as tentativas de transplantar aquelas instituições para um meio que lhes é decididamente hostil, apenas reforçaram nossas características mais negativas - a anarquia branca, o predomínio das oligarquias, o risco da fragmentação do país. Se quisermos construir uma nação soberana, capaz de preservar sua identidade em confronto com os povos práticos e objetivos que estão se assenhoreando do globo, é preciso mudar radicalmente de métodos. É preciso começar conhecendo-nos a nós mesmos, o povo como realmente é -

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sua formação histórica e social, suas instituições políticas, sua atitude perante o Estado. É preciso lutar para dar consistência, unidade e uma consciência comum a esta vasta massa social informe e ganglionar que ele é hoje. E é preciso fazê-lo da única maneira possível nas condições brasileiras: tendo a "coragem infinita" de "contravir ostensivamente às idéias de liberdade" e de construir um poderoso Estado centralizado, "capaz de impor-se a todo o país pelo prestígio fascinante de uma grande missão nacional".

É para fundamentar este projeto político que Oliveira Vianna se lança a um vasto programa de pesquisa cujo primeiro fruto foi justamente Populações Meridionais do Brasil. Escrito entre 1916 e 1918 e publicado em 1920.

O seu pé-de-chumbo seria, como se sabe, o extenso uso que fazia de teorias e argumentos racistas para

avaliar o papel da mestiçagem e explicar a desigualdade social e política brasileira. Aspecto que lhe atraiu

a artilharia de Sérgio Buarque de Holanda, Nelson Werneck Sodré, Dante Moreira Leite, José Honório

Rodrigues, Vanilda Paiva e muitos outros. Autores estes que debatiam sobre a cultura brasileira esposada pelo autor, desqualificando os conhecimentos geográficos e historiográficos sobre os quais se assentava seu edifício teórico, horrorizando-se com sua "apologia" do que então se chamava de "latifúndio feudal" e protestando contra a crítica da democracia política que precedia sua defesa de um estado forte e autoritário.

O LIVRO, SEUS OBJETIVOS

Populações Meridionais do Brasil é um livro composto por dois volumes, um dedicado às "populações rurais do centro-sul (paulistas - fluminenses - mineiros)" e outro ao "campeador riograndense". O primeiro é seguramente o texto mais conhecido de Oliveira Vianna, mais até do que o tardio e mais bem realizado Instituições Políticas Brasileiras (1949), que hoje deve ser mais lido nos meios acadêmicos. Publicado originariamente por Monteiro Lobato, com quem havia colaborado na Revista do Brasil e que ficara impressionado com a audácia e o vigor do ensaio, e reeditado em 1922, 1933, 1938, 1952, 1987 e 2000, era parte de um estudo maior e inacabado, voltado para elucidar as instituições e a psicologia política das populações rurais do norte, do centro-sul e do extremo-sul do país.

O segundo volume só veio à luz em 1952, depois da morte do autor (1951) e num contexto ideológico e

cultural bastante distinto. Enquanto aquele foi escrito numa época em que as ciências sociais brasileiras engatinhavam e a crítica política renovadora executava, pela direita e pela esquerda, um balanço implacável das instituições liberais da República Velha, o ensaio dedicado aos gaúchos apareceu num momento em que o comprometimento das teorias racistas com as experiências nazistas, a decadência e queda do Estado Novo, a naturalização do modernismo e a existência de construções teóricas historiograficamente mais sólidas, como as de Caio Prado Júnior e Gilberto Freyre, lançavam sombra sobre o conjunto do pensamento de Oliveira Vianna.

Trata-se, como se vê, de um projeto ambicioso, esse de estudar "essas obscuras gentes do nosso interior", que teriam feito o Brasil e sido, não obstante, desprezadas pelo que chamava de "daltonismo" dos intelectuais, políticos e jornalistas, cuja "fascinação magnética" pelo artificialismo da vida urbana e pelos modelos políticos estrangeiros levara-os a dar as costas para o país real. Ao contrário disso, Oliveira Vianna assumia como principal objetivo deslindar nossa singularidade, isto é, estabelecer a caracterização social do nosso povo, tão aproximada da realidade quanto possível, de modo a ressaltar quanto somos

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distintos dos outros povos, principalmente dos grandes povos europeus, pela história, pela estrutura, pela formação particular e original.

Oliveira Vianna cedo percebeu que nada disso poderia ser realizado sem que jogasse fora o método com

o qual as instituições políticas eram habitualmente tratadas em seu tempo - aquele que chamou mais

tarde de "clássico" ou "dialético", praticado pelos intelectuais juridicistas, especialmente pelo maior deles, Rui Barbosa. E sem que inventasse um novo, pelo qual os problemas do Estado fossem tratados e resolvidos levando em conta as condições culturais do povo, especialmente a experiência pouco agregadora vivida nessa história de quatro séculos. O resultado perseguido por essa ciência social não é a formulação de uma nova teoria do Estado, nem mesmo de um novo conceito de Estado - que a rigor não

existem na obra de Oliveira Vianna -, mas uma particular "concepção do Estado brasileiro, enquadrado dentro do Brasil”.

DIFICULDADES DE LEITURA

A complicação cresce quando se toma os dois volumes conjuntamente, tanto porque são desiguais os

graus de acabamento formal e expositivo de cada um, como também porque algumas das suas avaliações históricas sobre os efeitos políticos da psicologia dos gaúchos e dos matutos não são muito compatíveis entre si.

A própria construção de Populações Meridionais, mais histórica e menos sistemática do que, por

exemplo, Instituições Políticas Brasileiras, dificulta a síntese e obriga o leitor a acompanhar parte por parte, capítulo por capítulo, para poder apanhar as suas teses e as passagens principais entre elas, nem sempre bem amarradas. Sua concepção da história, além disso, supõe grandes continuidades e grande estabilidade nos tipos sociais nascidos da interação com o mundo rural, autorizando-lhe, aparentemente, anacronismos. Talvez por isso mesmo seu estilo de argumentação seja reiterativo, seus temas por vezes

se atropelam e a articulação interna do texto admite altos e baixos, idas e vindas que uma arquitetura mais rigorosa recusaria.

Apesar disso, ele é literariamente muito superior à escrita pré-modernista e conserva intacto, o frescor da juventude. Sua beleza, a "novidade" da "metodologia sociológica" que apresenta e a clareza com que defende suas teses seguram a exposição e asseguraram o êxito do livro.

A ORGANIZAÇÃO DOS DOIS VOLUMES E RELATIVAMENTES EQUIVALENTE:

O primeiro contém um prefácio onde Oliveira Vianna faz uma declaração metodológica da qual jamais se

afastará. E uma introdução, que retraça a gênese, a preponderância e o significado do grupo social que considerava o principal sujeito dessa história anti-urbana de quatro séculos - a aristocracia rural. Ao fazê-

lo, enuncia as principais teses que serão desenvolvidas nas quatro partes (e dezenove capítulos) dedicadas sucessivamente à "Formação Histórica", à "Formação Social", e à "Formação Política" da nobreza territorial (e da plebe rural), culminando com o estudo da "culturologia" ou da "Psicologia Política" - da gênese da idéia de Estado e do sentimento de autoridade e liberdades públicas nas populações rurais brasileiras - que essa experiência gerou.

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O segundo volume, por sua vez, contém uma "Advertência" sobre o caráter inacabado do ensaio e se

divide em dezoito capítulos mal organizados em quatro partes intituladas "Proto-história Riograndense",

"Formação da Sociedade Gaúcha", "História Militar do Rio Grande" e "Culturologia Política da População Rio-Grandense".

O OBJETO: POPULAÇÕES, NO PLURAL

Levando em conta tais condicionantes, talvez a maneira mais simples de abordar Populações Meridionais seja começando pelo título. Por que "populações" e não simplesmente "população"? Por que "rurais" e não "urbanas"? Por que "populações" e não apenas "elites", dado que segundo Oliveira Vianna o verdadeiro sujeito de nossa história, até o momento que ele a estuda, foi a nobreza territorial? O mero enunciar dessas diferenças delimita o objeto, indica o modo pelo qual ele vai ser estudado e sugere as principais hipóteses a serem investigadas.

É que para Oliveira Vianna, situado numa longa linhagem que vem desde Montesquieu, o espaço

geográfico é uma dimensão essencial da forma pela qual as sociedades se organizam. No caso dele, há mesmo uma determinação recíproca entre o meio ambiente, o substrato étnico e a psicologia moral e política que daí resulta. A conseqüência é que, de qualquer lado que se olhe, não passa de ficção a idéia da substancial unidade do povo brasileiro - e essa precariedade material e subjetiva, essa artificialidade do sentimento da nacionalidade comum, terão duradouros efeitos políticos

Ora, isto é um redondíssimo erro (

unidade constituída - e, sim, uma unidade a constituir-se. Esta unidade é um ideal - um alvo para onde estamos caminhando. É um objetivo a atingir - e não um fato, um dado da nossa realidade.

Culturologicamente considerado, o Brasil não me parece ainda uma

).

O povo não só não é uma "massa homogênea", como sua propalada "unidade da raça, da civilização e da

língua, e não sei o que mais", é superficial e insuficiente para explicá-lo e ao país.

Ao contrário disso, será necessário levar em conta "a diversidade dos habitats e sua ação durante três ou quatro séculos, as variações regionais no caldeamento dos elementos étnicos e, principalmente, a inegável diferença das pressões históricas e sociais sobre a massa nacional, quando exercidas ao norte, ao centro e ao sul". Atentando, sobretudo para fatores geográficos, históricos e sociais, será possível perceber que a sociedade brasileira é, na verdade, uma estrutura descontínua e ganglionar, um quebra- cabeças incompleto, com partes contrastantes e desconexas entre si. Na verdade, em vez de um país, estamos diante de três regiões (a do norte, a do centro-sul e a do extremo-sul) cuja colonização gerou três sociedades (a dos sertões, a das matas e a dos pampas) e três tipos sociais distintos (o sertanejo, o matuto e o gaúcho). Todos esses tipos são rurais, porquanto os urbanos não passam segundo Vianna, de "reflexos ou variantes do meio rural a que pertencem". Não se trata, portanto, de estudar o homem brasileiro em geral, mas este ou aquele grupo regional.

Oliveira Vianna tem o cuidado de sugerir que ao decompor seu objeto e especializar a sua análise não está convertendo a geografia numa rua de mão única. Há, diz ele, ambientes sociais fixos, mas não tipos sociais fixos.

Dos três grupos sociais básicos que compõem a sociedade brasileira, o matuto é, sob vários aspectos, o principal. Primeiro, porque a ocupação do território e a formação das populações foram, em grande

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parte, produtos da dispersão do mais dinâmico dos seus subgrupos, os paulistas. Segundo, porque ele é o mais numeroso. Terceiro, porque foi em sua área geográfica que, desde a Independência, o centro da

política nacional se instaurou. Quarto, porque essa "contigüidade geográfica do principal habitat agrícola com o centro do governo nacional" fez do matuto o fornecedor do principal contingente da elite dirigente

e deu a ele "incontestável preponderância" sobre os outros dois tipos. E quinto, porque estes, sempre

foram excessivamente regionais: originários de sociedades de tipo pastoril, ficaram adstritos a zonas de ação limitadas.

De qualquer maneira, geografia, demografia, economia, política e psicologia se interpenetram para fazer das populações meridionais do centro-sul e da elite política que delas se sobressaiu o pólo construtor do Estado nacional.

A "METODOLOGIA SOCIOLÓGICA"

Delimitado o objeto, o Método, o modo pelo qual o cientista social se posiciona diante da realidade. Método é também a maneira de usar o conhecimento adquirido para mudar essa realidade, a brasileira.

Oliveira Vianna pretende distinguir-se nitidamente daquele juridicista ou "dialético", que parte das normas abstratas para a realidade da vida social, toma as leis escritas como se fossem a realidade ou considera que a boa lei produz, por si só, a boa sociedade - modo de pensar e de fazer política que ele identifica nos liberais do Império e da República. "Uma cousa, diz ele, é estudar as instituições políticas como elas existem na sociedade, no viver prático e habitual dos homens. Outra cousa é estudar as instituições políticas como elas aparecem abstratamente nos sistemas das leis e das Constituições”.

Vianna propõe um giro de 180 graus. Diz ele, em vez de estudar leis e Constituições, fomos diretamente às matrizes da nossa própria formação social e histórica, às fontes primárias, aos olhos d'água, aos mananciais da serra. Fizemos um estudo concreto, objetivo, realístico - direi melhor, naturalístico - das instituições políticas, isto é, consideramos estas instituições ao vivo, tais como o povo as praticava realmente em sua vida quotidiana, tais como elas surgiram ou brotaram do seio da sociedade matuta - de dentro do povo, - como de dentro de uma árvore, da intimidade do seu seio, surge, pela transfiguração de sua seiva, a inflorescência colorida, que a recobre. Trata-se, portanto, de contrapor sistematicamente o país real ao país legal, privilegiar a constituição real e não a escrita, medir o direito tal como elaborado pelas elites cultas preocupadas com a coerência dos modelos pelo direito usualmente praticado e deformado pelo povo. Essa "metodologia sociológica", como mais tarde irá designá-la, busca detectar as grandes linhas evolutivas do povo brasileiro.

A rigor, a trajetória iniciada no século 16 (no I século, na linguagem um tanto pomposa do autor) com a

ruralização (internalização) da requintada nobreza urbana de origem peninsular conheceu apenas duas rupturas. Uma a da Independência, quando uma elite idealista e inevitavelmente polarizada pelos exemplos europeu e norte-americano, nega a experiência histórica acumulada e adere ou opta certeiramente pela criação de um Estado com estrutura política centralizada, cujos precedentes podem ser rastreados tão-somente até o período das reformas pombalinas. Essa ruptura, no entanto, é bastante minimizada pelos elogios à sabedoria do estadista colonial, que soube transigir com os poderes dos potentados locais e se adaptar à dispersão dos núcleos coloniais como forma de manter o controle territorial. E guarda muitos elementos de continuidade com esse passado, não só porque seu substrato social permanecerá o mesmo, como também porque se fortalecerá com o acabamento do processo de

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ruralização - este, no IV século, produziu uma classe dirigente e não apenas dominante de extração, temperamento, mentalidade e vocação eminentemente rurais.

A segunda ruptura - cujos efeitos perversos são apenas referidos no primeiro volume e um pouco mais

explícitos no segundo, mas que de fato fornece o eixo político da investigação de Populações Meridionais,

o fim do trabalho servil, que Oliveira Vianna considera fruto da alienação das elites "marginalistas", abala as fundações sobre as quais se ergue a sociedade que aqui se firmou. Ele desarticula a única elite dirigente que nossa sociedade produziu e leva de roldão tudo que de melhor a experiência dos quatro séculos filtrou: uma base produtiva, o Estado unitário e, sobretudo, os mecanismos de seleção do que em Instituições Políticas Brasileiras ele chamará de os "homens de 1.000". A República, sugere Oliveira

Vianna, embaralha todas as linhas, permite a ascensão de indivíduos e agrupamentos políticos destituídos de espírito público e amantes de "generalidades sonoras", abrindo uma nova e perigosa etapa na vida brasileira - é contra ela, seus métodos e seus ideólogos, que o livro foi escrito.

Populações Meridionais concentra-se, pois, na "evolução e estrutura das instituições políticas do grupo centro-meridional e, por extensão (dado o papel histórico desse grupo), do povo brasileiro em geral"; e pretende deixar de fora tudo o que, a juízo do autor, não tenha contribuído para a formação dessa mentalidade política.

É importante notar que a preocupação de Oliveira Vianna não é fazer um "estudo integral da sociedade

do centro-sul, no plano do tempo e no plano do espaço". Nem sequer uma reconstituição histórica strictu sensu da trajetória daquelas populações. Numa palavra, o que interessa é a sociologia política, é a teoria do Brasil que daí emerge.

Outra dimensão de sua "metodologia sociológica" é que ela não pode deixar de ser comparativa. Na introdução do livro e nas duas primeiras partes, a trajetória da aristocracia rural brasileira - o seu movimento de ocupação e expansão do território, a montagem de uma economia latifundiária e escravocrata disseminada como um arquipélago sobre o imenso vazio territorial, a consolidação dos clãs feudais como a única forma de solidariedade social possível nessas condições, os papéis desempenhados pelos preconceitos raciais, pela guerra e pela grande propriedade na formação da plebe e na seleção da elite, os mecanismos pelos quais esta teria preservado sua pureza étnica, as atitudes adotadas perante o Estado, etc. - é confrontada principalmente com as suas origens e instituições peninsulares. Oliveira Vianna trata de estabelecer as principais características da ruralização, isto é, do processo de internalização, adaptação, seleção e criação de novos comportamentos, hábitos e normas a que a conquista do trópico a obrigou.

À medida que o texto vai chegando às características culturais especificamente políticas, a análise tende a

ser mais explicitamente comparativa com a experiência histórica dos outros povos europeus, especialmente os anglo-saxãos. Esse enquadramento é um tanto esmaecido no segundo volume, em que se tematiza um grupo basicamente regional, a gente da fronteira, para a qual a guerra e a disciplina militar foram decisivas.

A RURALIZAÇÃO. A DERROTA DO URBANO

Trata-se então de saber como o passado pesa, o modo pelo qual cada um dos fatores geográficos, raciais

e políticos atuou na formação, expansão e sedentarização dessas populações, na cristalização de sua

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peculiar psicologia política. Sua lógica investigativa considera que as instituições trazidas pelos portugueses, tão logo entraram em contato com o novo mundo, sofreram uma alteração de conteúdo, assumindo novas funções e sendo transformadas em novas instituições, desta vez autóctones, próprias do novo meio, que tomarão o seu lugar.

Uma das passagens mais criticadas de Oliveira Vianna é o modo como ele descreve a nobreza territorial nos primórdios da colonização. Oliveira Vianna considera que as gentes que aqui aportaram nos primeiros séculos eram constituídas não de criminosos e degradados, mas pelo que havia de melhor na nobreza lusitana. Daí esse conflito interessantíssimo, que assistimos, durante todo o período colonial, entre o espírito peninsular e o novo meio, isto é, entre a velha tendência européia, de caráter visivelmente centrípeto, e a nova tendência americana, de caráter visivelmente centrífugo: a primeira, atraindo as classes superiores da colônia para as cidades e os seus encantos; a segunda, impelindo essas mesmas classes para o campo e o seu rude isolamento.

A incompatibilidade entre o europeu e o americano, entre o urbano e o rural, é também, um conflito

entre duas classes, ou melhor, entre dois setores de uma mesma classe. É que a nobreza territorial da época se compõe de uma camada de latifundiários de origem fidalga e outra de origem plebéia, esta formada por rudes e probos camponeses portugueses que se vão estabelecendo e enriquecendo. Ao longo dos três séculos ocorre um "rápido e vigoroso processo de seleção exercido num sentido democrático". Os núcleos fidalgos vão desaparecendo, as "grandes casas paulistas vão perdendo progressivamente seus altivos costados aristocráticos" e "figuras mais ou menos obscuras, sem nobreza

de sangue, sem tradição aristocrática, às vezes, sem mesmo o cursus honorum das magistraturas locais”, vão se impondo e criando uma nova nobreza, que absorve o que resta da primeira e é inteiramente rural.

O processo de ruralização resulta, assim, do cruzamento desses dois movimentos.

A tendência é tão inelutável que os próprios núcleos urbanos criados atabalhoadamente pela mineração

são transitórios e fugazes. Aos poucos, a vida rural vai deixando de ser "uma sorte de provação da classe

alta" e passa a ser um sinal de distinção. A diferença principal, não obstante, é que o nosso é um ruralismo de grande propriedade enquanto o deles é de pequenos proprietários.

Outra das teses mais controvertidas do intelectual fluminense é aquela segundo a qual a aristocracia rural

é "o centro de polarização dos elementos arianos da nacionalidade”. Ao tempo em que se modifica sob

influência do meio, a aristocracia que aqui se estabelece daria continuidade a algumas das melhores qualidades da velha nobreza lusitana. O mesmo não ocorreria com as camadas plebéias, nas quais "a profusa mistura de sangue bárbaro" e a miscigenação facilitada pelo viver em latifúndios operaria uma "desorganização sensível na moralidade de seus componentes". Nesse sentido, o determinismo geográfico age de maneira sensivelmente diferente, sobre determinada, por assim dizer, pelo caldeamento étnico e pelo regime de propriedade. O meio rural, diz Oliveira Vianna, é um "admirável conformador de almas".

Em alguns de seus textos posteriores, Oliveira Vianna iria atenuar, sem nunca eliminar, o peso desses argumentos raciais na explicação da sociedade e da política brasileira. Em Populações Meridionais, entretanto, é preciso excessiva boa vontade para separar o suposto joio do suposto trigo. Isso porque aqui a questão racial não é apenas um condicionante antropológico, mas uma determinação essencial ao argumento, afetando todos os aspectos da estrutura social e da cultura política: raça e classe, eugenia e propriedade são faces da mesma moeda. Mas o argumento de Oliveira Vianna não é puramente empírico

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nem apenas valorativo, é conceitual: classe e raça designam praticamente o mesmo fenômeno social. Além disso, pode-se dizer que os "salutares preconceitos" de sangue agem como verdadeiras instituições, cumprindo, na Colônia, papel análogo ao desempenhado pelo sistema político do Império: são filtros, mecanismos de seleção da elite dirigente. Como diz Oliveira Vianna,

Os preconceitos de cor e sangue, que reinam tão soberanamente na sociedade do I, II e III séculos, têm, destarte, uma função verdadeiramente providencial. São admiráveis aparelhos seletivos, que impedem a ascensão até as classes dirigentes desses mestiços inferiores, que formigam nas subcamadas da população dos latifúndios e formam a base numérica das bandeiras colonizadoras. À ação negativa da miscigenação, Populações Meridionais soma o papel da grande propriedade no fortalecimento do núcleo familiar fazendeiro e o da pequena propriedade na dissolução do plebeu. De tal maneira que a descrição da "função simplificadora do grande domínio rural" é, na verdade, a descrição da derrota da pequena propriedade e das tendências urbanas na sociedade brasileira.

Em qualquer das três regiões, o tipo de produção - a cultura da cana de açúcar, o pastoreio, a cultura do café - torna imperativa a grande propriedade e faz com que o homem livre não proprietário ou decaia socialmente ou se torne, ele próprio, grande proprietário. Pois o problema não é apenas obter grandes extensões de terra, é sobretudo ter à disposição muitos braços, circunstância que impõe o recurso à escravidão e condena os brancos pobres ao caldeirão da mestiçagem.

A tendência do grande domínio à autarquia e o raquitismo dos núcleos urbanos são outras características

que decorrem da ocupação do território, da dispersão da população e do regime de propriedade pastoril

ou agrícola. É nesse ponto, aliás, que depois de páginas e páginas de elogio à nobreza territorial aparece uma generalização que é a primeira observação crítica de nossa formação social em Populações

Meridionais:

A diferença é nítida em relação ao latifúndio europeu. Neste, a combinação entre pouca terra agriculturável disponível, excesso de população e escassez de recursos, teria levado à solidariedade, à formação de classes politicamente organizadas e ao conflito entre elas. Entre nós, ao contrário, o excesso de terras a serem apropriadas facilitou a dispersão, a exuberância do clima criou condições de sobrevivência da plebe rural fora dos domínios, a escravidão e a independência do latifúndio em relação ao seu entorno tornaram desnecessários os liames entre os poucos trabalhadores livres e os proprietários, a precária divisão social do trabalho liquidou a possibilidade de desenvolvimento de centros urbanos, as exigências das culturas extensivas sufocaram irremediavelmente a pequena propriedade.

CLÃS RURAIS: A SOLIDARIEDADE POSSÍVEL

Na segunda parte de Populações Meridionais, numa análise admirável, mas que descamba irremediavelmente para a apologética, Oliveira Vianna mostra como foram escassas as pressões que poderiam levar as populações a se auto-organizarem, como o tipo de luta de classes que o Brasil

conheceu - segundo ele, efêmero, limitado e circunstancial - foi insuficiente para vertebrar politicamente

o país.

A colônia teria evoluído sem ser assolada seriamente por inimigos externos e internos. Apenas no litoral o perigo permanente tornou imperativa a colaboração entre os potentados rurais e o poder público e é essa necessidade que estaria na origem da consciência política dos gaúchos. No plano interno, os índios, por

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mais terríveis que fossem, e os quilombolas, jamais ofereceram desafios notáveis, pelo menos nada que o grande domínio não pudesse, sozinho, resolver. E se não enfrentou nenhuma ameaça das classes subalternas, a nobreza territorial também não foi constrangida a lidar com a "pressão tirânica" da Coroa ou de alguma dinastia poderosa.

Exaltada por Oliveira Vianna em outras partes do texto, essa história "pacífica e benigna" é aqui mostrada pelo seu lado negativo. Nessas condições, o clã rural brasileiro - patriarcal e não guerreiro, organização defensiva e não ofensiva, bem menos estruturado do que o seu congênere europeu - acabou sendo a única forma de organização da população rural brasileira nos três séculos de colonização.

Mas o que teria levado a plebe a aceitar esse tipo de associação que consagra a sua subordinação? A

resposta de Oliveira Vianna é: a questão da ausência dos direitos civis da população pobre rural. É a falta de justiça, a arbitrariedade dos magistrados e a impunidade dos poderosos que impelem a plebe rural a

se colocar sob o domínio do senhor. Não havia, assegura Oliveira Vianna, outra alternativa para o homem simples.

Todos esses riscos aumentam com o estado de anarquia e turbulência em que a colônia mergulhou entre

o fim do ciclo das bandeiras e a sedentarização a que o esgotamento do ouro a obrigou.

AS FUNÇÕES SOCIAIS DA ARISTOCRACIA RURAL

Se nas primeiras e segundas partes dos dois livros, Oliveira Vianna constrói o argumento da gestação de uma sociedade e de uma classe dominante eminentemente rurais, as terceiras e quartas partes vão ser dedicadas ao momento em que essa classe impõe sua hegemonia não apenas social como política sobre o país. Não o faz, entretanto, sozinha, isoladamente. Quando começa o século XIX, a aristocracia rural tornou-se sedentária, está pacificada e domina o poder local, mas está praticamente excluída das

instituições que administram a colônia, cujos postos são reservados pela Coroa aos portugueses do reino.

A vinda da família real é o inusitado. É ela que tira os fazendeiros de suas "solidões rurais", atraindo-os para a Corte, onde defrontam duas classes adversárias: uma burguesia comercial que teria nascido da

Abertura dos Portos e a chusma de fidalgos e burocratas lusitanos que desembarcaram com a família real.

De acordo com Oliveira Vianna, por volta de 1818 a nobreza territorial já conseguiu subtrair privilégios dos lusos emigrados e controla boa parte das prebendas e favores distribuídos pelo Rei. No momento da Independência, ela domina e os fidalgos portugueses escasseiam. Os que restam, asfixiados pelo clima nacionalista que toma conta da Corte, voltam para Portugal acompanhando D. João VI. Daí por diante, a luta será entre a nobreza da terra e a burguesia comercial.

Para Populações Meridionais, o grande acontecimento do IV século é essa vinda da nobreza territorial para a cidade e a sua vitória sobre aqueles adversários. Impor o seu domínio e construir politicamente a

nação teria sido a última função social desempenhada pela aristocracia rural. Dela, de acordo com o autor, teria partido o movimento pastoril e agrícola do século XVI, o movimento sertanista do século XVII,

o movimento minerador do século XVIII e, agora, no XIX, a organização política da nação. Destruído seu domínio pela Abolição, ficava em aberto a questão de sua sucessão.

O argumento escapa à tautologia - venceu porque tinha que vencer - por um recurso teórico e político

estratégico que, num certo sentido, inverte o argumento até aqui desenvolvido em Populações

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Meridionais. Não é a aristocracia que se torna, por suas próprias forças, uma classe politicamente articulada, isto é, capaz de construir um Estado e unificar uma nação. É a Coroa, são as instituições imperiais que filtram os melhores elementos dessa classe e os tornam agentes da unificação nacional. Como ele diz em Instituições Políticas Brasileiras, a estrutura política e administrativa do Império exigia três tipos de elite: a municipal, a provincial e a nacional. No momento de sua fundação, os homens da

elite política do Brasil ainda não existiam como "classe constituída". Homens públicos e partidos políticos traziam todo uma mentalidade localista ou provincialista. Os "'homens de 1.000' só surgiram depois - com

a ação centrípeta do poder real. Eram eles que possuíam, durante o Império, o 'espírito nacional' e se comportavam, na vida pública, como cidadãos do Brasil". Essa seleção, cabe lembrar, não se deu na República, na qual a democracia, que tudo ganhara e tudo comprometera, bloqueava a possibilidade de construir uma autoridade acima dos clãs e das parcialidades de aldeia.

O IMPÉRIO CONTRA O ESPÍRITO DE ALDEIA

O "acidente da presença da família real" muda, pois, inteiramente o jogo. O Rei não é apenas a instituição

política que evita o desmembramento do país à época da ruptura com a Metrópole, é também aquele que viabiliza a hegemonia do Rio de Janeiro sobre os poderes locais e regionais. Além de ser o árbitro do

sistema partidário e garantir a alternância de poder entre os caudilhos liberais e os caudilhos conservadores, o Imperador é o grande "repressor da caudilhagem nacional", consolidando a reação contra os clãs rurais que a Coroa portuguesa havia começado apenas no III século da colonização.

Na evolução dos poderes públicos entre nós, a função desse personagem (o Rei) é colossalíssima. Ele é, no IV século, o agente mais prestigioso, mais enérgico, mais eficaz do sincretismo nacional. O poder central deve a ele, com a sua unidade e a sua ascendência, a sua consolidação e estabilidade.

Do ponto de vista da economia interna do texto, um dos acertos mais significativos de Populações Meridionais é o fato de analisar as instituições municipais depois de discutir o papel do Império na consolidação do Estado, com o que toda a construção teórica voltada para justificar a necessidade da centralização retorna ao ponto de partida e o eleva a um novo patamar. O movimento formal é também de conteúdo, pois ao descrever a debilidade do sentimento de liberdades públicas e o artificialismo da idéia de Estado na mentalidade da população, sugere que a destruição do Império eliminou o único agente que poderia enraizá-los.

No plano municipal, o característico é a ausência das instituições que, em outros países, produziram democracia: a solidariedade comunal, a autonomia local, o senso de independência e a capacidade de associação das populações urbanas, a organicidade das cidades. Baseando-se em vários autores franceses menores, Oliveira Vianna mostra que para existir entre nós poder local democrático seria preciso haver, como nos Estados Unidos, pequena propriedade e pequenos proprietários autônomos. A marca da nossa realidade é, ao contrário, a ausência da township. Em vez de ser a manifestação da população auto- organizada, o poder local é efetivo apenas enquanto expressão do domínio fazendeiro. A única região onde o sentimento de Estado teria de fato nascido é o Rio Grande do Sul, onde a necessidade de autodefesa contra o inimigo externo permitiu transformar a capacidade de organização militar em capacidade de organização política.

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AUTORIDADE E LIBERDADE. A CONSTRUÇÃO DA ORDEM

A imagem do Brasil que emerge de Populações Meridionais é, assim, a de um país fragmentado, atomizado, amorfo e inorgânico, uma sociedade desprovida de laços de solidariedade internos e que dependia umbilicalmente do Estado para manter-se unida. Nessa terra de barões onde manda quem pode e obedece quem tem juízo, o homem comum só costumava encontrar alguma garantia de vida, liberdade e relativa dignidade se estivesse a serviço de algum senhor.

Criticando os liberais por sua cegueira diante da realidade e pela tentação de transplantar as instituições de outros países, Oliveira Vianna sugere que nessa sociedade de oligarquias "broncas" - um termo que só usaria mais tarde - a democracia política constituía a grande ilusão.

Seria necessário, portanto, retomar a obra centralizadora do Império. Tratava-se de dar prioridade à construção da ordem sobre a liberdade, dar autonomia à Justiça, organizar o povo e educá-lo, construir uma sociedade civil (civilizada) por meio da ação racional de um novo Estado centralizado. Paradoxalmente, valia aqui, contra os liberais e contra a liberdade política, a boa ordem européia: só depois de conquistada a liberdade civil é que deveríamos nos lançar à construção da política. Nos seus próprios termos:

Segundo Vianna, a predominância da autoridade sobre a liberdade resultava, portanto, da inorganicidade da sociedade civil. Nação e liberdade não sobreviveriam sem um Estado forte, qualificado, imune aos particularismos, capaz de subordinar o interesse privado ao social e controlar os efeitos destrutivos desencadeados com a Abolição.

Segundo Vianna “será preciso esperar os anos 1930 para que ela se converta em políticas, em instrumentos estatais de intervenção social.”

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14 - SOBRADOS E MUCAMBOS

31270-901 – Belo Horizonte - MG 14 - SOBRADOS E MUCAMBOS Autor: Brasílio Sallum Jr. Professor

Autor: Brasílio Sallum Jr.

Professor Titular de Sociologia da Universidade de São Paulo e Pesquisador I-A do CNPq

Sociais (1970) , doutor em Sociologia (1979) e Livre-Docente (1995) pela Universidade de São Paulo. Representa os professores titulares junto à Congregação da FFLCH; Ocupou vários cargos de direção e assessoria na Universidade de São Paulo. Participa dos conselhos editoriais de Lua Nova - Revista de Cultura e Política, Tempo Social - Revista de Sociologia da USP, Sociologia & Política e Sociologia & Antropologia. É assessor do CNPq, da CAPES e da FAPESP. Coordena o Consórcio de Informações Sociais (CIS), projeto da USP/Anpocs, e desenvolve a pesquisa "Crise Política

Graduado em Ciências

e Impeachment". Seus trabalhos se concentram nas áreas de Teoria Sociológica, Estratificação Social e Sociologia Política.

RESUMO: SOBRADOS E MUCAMBOS

Sobrados e mucambos veio a público em 1936. Trata-se do segundo livro da série "Introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil", iniciada em 1933 com a publicação de Casa-grande & senzala.

O Grande sucesso de Casa-grande & senzala se deu, segundo o autor, a questão dos andaimes para a construção do estudo “os argumentos sistematicamente lá desenvolvidos contra as crenças – derivadas do universo intelectual europeu e predominantes na sociedade brasileira de então – que atribuíram as “deficiências” do país ás suas características de clima (tropical e não temperado), de raça (mestiça e não pura e branca) ou à incivilidade dos europeus que nos colonizaram (portugueses poucos progressistas e não ingleses).

Freyre analisa a ambigüidade cultural brasileira a partir do embate entre a tradição patriarcal, fundada na pesquisa científica, na tarefa de destruir naquelas crenças e de substituí-las por uma nova concepção de

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Brasil. Nessa nova concepção, o elemento central é a visão positiva, ao invés de envergonhada, da miscigenação.

Em Casa-grande ele mostra que o colonizador português – ele próprio fruto de hibridação racial e cultural – fundem-se, por meio de processos de miscigenação racial e de assimilação cultural, com índios arrancados à vida tribal e negros vindos da África, convertendo-se aos poucos numa população mestiça portadora de uma cultura ainda mais plástica que a trazida da Europa. Na visão de Freire, foi essa mestiçagem, a cultural e racial que deu aos colonizadores melhor condição de adaptar-se ao trópico, permitindo-lhes produzir uma civilização original. A brasileira.

Em Sobrados e mucambos o foco passa a ser a própria organização patriarcal da sociedade, o livro trata da “decadência do patriarcado rural e do desenvolvimento urbano”. Nos doze capítulos de Sobrados e mucambos Freire reconstrói esse processo de transformação do patriarcalismo com uma minúcia, ancorado sempre em enorme riqueza de documentos.

FORMA E CONTEÚDOS DOPATRIARCALISMO BRASILEIRO

Patriarcalismo para Gilberto Freire não era apenas uma família - constituída de um patriarca, pela mulher, pelos filhos, pelos descendentes, pelos parentes pobres, pelos agregados e escravos, especialmente os da casa – mas também um complexo de elementos econômicos, sociais e políticos em que ressalta, mais que todos, o escravismo.

Para Freire, por quatro séculos a sociedade manteve sua forma patriarcal familiar, na economia e na cultura, com classes dominadoras – os senhores – de um lado e classes dominadas – os escravos – de outro. Embora tenha se mantido relativamente fixa a forma inerente ao patriarcalismo, flutuaram os seus conteúdos econômicos e geográficos, raciais e culturais. A questão do processo de escravidão, conversão de africanos e nativos em escravos, juntamente com a polarização entre classes (Senhores e escravos) e o intenso processo de amalgamento de raças e culturas – a miscigenação, foram características centrais da formação patriarcal brasileira.

Segundo Freire, a interpenetração entre forma e conteúdos, regra em nossa sociedade patriarcal, produziu, ao longo dos seus primeiros três séculos de existência, valores, hábitos e estilos de vida propriamente brasileiros.

Ao longo do século XIX, a sociedade patriarcal formada e amadurecida no seu epicentro rural sofre profundas transformações, impulsionadas pela urbanização e pela europeização.

A CIDADE CONTRA O ENGENHO. SOBRADO E MUCAMBO. O ESTADO CONTRA A FAMILIA

Gilberto Freyre afirma que foi a partir da chegada de D. João VI ao Rio de Janeiro, o patriarcado rural começou a perder a majestade dos tempos coloniais.

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A estrutura da colônia, homogênea em diversos sentidos começava a se transformar. A vida urbana

começa a transformar as formas sociais, formas sociais “totalmente distintas das patriarcais- negros e

mulatos livres – os mucambos.

Segundo Freire as polarizações sociais se acentuam, criando zonas de exclusão fruto de uma estratificação social, zonas estas só minimizadas com o processo de urbanização, urbanização esta que produziu a inversão do domínio econômico ao longo do século XIX.

Sublinhe-se que, em Sobrados e mucambo, esse processo de redução do poder particular do patriarca rural e também do senhor do sobrado urbano não resulta de processo harmonioso de diferenciação social e institucional. Aqueles processos sociais e as instituições que deles resultaram restringiram por dentro o absolutismo do poder patriarcal. Os patriarcas deixaram de ser os donos quase absolutos da sociedade brasileira. Esta nova fase reflete um governo mais forte, uma Justiça mais livre de indivíduos poderosos e de uma Igreja mais independente das oligarquias regionais.

O PAI EO FILHO. O HOMEM E A MULHR

A decadência do patriarcalismo não ocorre somente no plano global, ocorre também dentro da família

patriarcal. A estrutura de perpetuação do sistema entra em cheque. Ocorre um período de transição onde

as novas gerações não mais buscam a similaridade com a anterior. À medida que avançam o século XIX aumentam as divergências tanto no âmbito doméstico como extra-doméstico.

Já no tocante a relação Homem x Mulher, Freire sumariza, “a extrema diferenciação do sexo feminino em

“belo sexo” e “sexo frágil” fez da mulher do engenho e da fazenda e mesmo da Iaiá de sobrado, no Brasil, um ser artificial, mórbido. Uma doente, deformada no corpo para ser a serva do homem e a boneca de carne do marido”. O patriarcalismo produziu uma extrema diferenciação e subordinação entre homens e mulheres.

Este padrão de subordinação se alterou muito com o desenvolvimento das cidades, apesar de, para a maioria, ainda serem insignificantes as oportunidades de interferência nas atividades extra domesticas.

O autor ressalta que apesar de Freire não faça menção a superioridade do homem sobre a mulher ele

afirma que foi muito mais uma dominação psíquica e uma configuração sociológica que uma superioridade natural e biológica.

ORIENTE E OCIDENTE. A MAQUINA E O ESCRAVO

Uma tese principal de Freire é que a urbanização do século XIX, a vinda da família real, a abertura dos portos às nações amigas foi muito mais que a própria urbanização foi uma europeização da sociedade brasileira, a transformação de uma sociedade patriarcal rural.

Freire destaca que três séculos de colonização produziram não uma sociedade ao moldes da européia, mas sim uma sociedade com características próprias, a brasileira. Apesar da orientação colonizadora, esta

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orientalização não transforma o Brasil em Oriente como Portugal, o Brasil colônia foi uma sociedade de transição entre o Oriente o Ocidente.

As condições da colônia eram tão exóticas do ponto de vista da civilização européia no século XIX, que com a vinda da família real, as transformações tiveram mais um caráter de reeuropeização, de reconquista para o Ocidente de reestruturação, de aburguesamento e industrialização. Um processo de ocidentalização da sociedade patriarcal.

Esta mudanças, no princípio mais “equilibradas”, conciliando arcaísmos e modernidade, exotismos ocidentais e valores da terra encerraram-se pela pressão britânica com o fim do tráfico negreiro. Fator este que afetava não só o sistema patriarcal vigente mas também as próprias relações de produção e transporte, o sistema econômico e social. O capital disponível se volta para investimentos em industrialização e a inclusão do trabalhador livre e assalariado acarretando assim uma despercionalização das relações dos senhores com os escravos, quebrando o “equilíbrio dos contrários”, abrindo a possibilidade para o inconformismo do escravo.

A ASCENÇÃO DO BACHAREL E DO MULATO

Gilberto Freire retoma no final do livro o tema do desenvolvimento e constituição da nova aristocracia, urbana, de sobrado. Composta também de senhores de escravos só que mais diversificada, sem a rigidez da aristocracia rural das casas-grandes. Esta nova aristocracia ainda não era composta pelos novos segmentos econômicos, negociantes ou industriais, a aristocracia urbana era mais fruto de uma assimilação das mudanças ocorridas.

A nova classe em ascensão, os burgueses representado pelos bacharéis, filhos legítimos ou ilegítimos, filhos da burguesia e de “mascates” vem acumulando prestigio principalmente após o Império. A ascensão dos bacharéis principalmente os “brancos se fez notar na segunda metade do século XIX.

No reinado de D.Pedro II a mística do “capitão-mor” rui frente ao “bacharel moço”. A influência dos ideais franceses e a ascensão política do bacharelismo se vinculava aos laços com a família patriarcal, os casamentos e relações com famílias senhoriais também eram formas de ascensão tanto social quanto política.

Sobrado e mucambos não conclui. Encerra-se com o capitulo em que o autor discute o caráter e a dinâmica da miscigenação da cultura e da sociedade brasileiras e sua vinculação com as raças formadoras. O capitulo discorre sobre a dinâmica dos conteúdos que conduzem á acomodação entre os contrários sobre a miscigenação e sobre a mobilidade social. Um exemplo é a influência e a importância da cultura trazida pelos negros da África para a formação da cultura brasileira. O autor ressalta a característica brasileira de mobilidade social tanto vertical quanto horizontal. Segundo Freire a disparidade entre subgrupos, numa sociedade como a brasileira, decorre muito mais do distanciamento entre as classes promovido pelo desenvolvimento industrial, onde minorias são beneficiadas pelo poder econômico que a determinação biológica, para Freire esta predispõe mas não determina.

Esta característica da sociedade brasileira de mestiçagem contribui para a intercomunicação entre extremos, possibilitando assim uma melhor comunicação no plano social e cultural, tornando possível

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uma diversificação étnica e cultural aliada ao mesmo tempo a uma predominância individualista na organização familiar.

15 - ORDEM E PROGRESSO

na organização familiar. 15 - ORDEM E PROGRESSO AUTORA: ELIDE RUGAI BASTOS Possui graduação em Filosofia

AUTORA: ELIDE RUGAI BASTOS

Possui graduação em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1960), mestrado em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (1980) e doutorado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1985). Livre-docente em Pensamento Social pela Unicamp. Atualmente é professor titular da Universidade Estadual de Campinas. Foi editora da Revista Brasileira de Ciências Sociais (ANPOCS) de 2001 a 2005, é atualmente editora da revista Lua Nova (CEDEC). Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Pensamento Social no Brasil, atuando principalmente nos seguintes temas: pensamento social brasileiro, sociologia brasileira, Gilberto Freyre, história das idéias e intelectuais.

RESUMO: ORDEM E PROGRESSO

Segundo o autor Ordem e Progresso “ enfoca a ultima década do século XIX e as três primeiras do século XX, analisando a desintegração da sociedade patriarcal no quadro da transição do trabalho escravo para o trabalho livre”.

A motivação principal do trabalho encontra-se na resposta à pergunta como na mudança de regime se mantém a organicidade da sociedade e a unidade nacional?

No trabalho, Gilberto procura dar conta das alterações que ocorrem desde o final do reinado de Dom Pedro II até as primeiras décadas da República, considerando nessa definição o fato de as diferentes regiões do país conhecerem formas diversas de acomodação aos tempos políticos.

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Nesse sentido o que se propõe é estudar não as transformações das instituições políticas focadas cronologicamente mas o processo de mudança.levando em conta a simbiose dos elementos culturais, sociais, econômicos e políticos.

REAÇÃO DO PASSADO AO DESAFIO DOPRESENTE

Gilberto organiza o livro não em capítulos, mas em ensaios a partir de temas, temas como o da transição e das mudanças resultantes da alteração do regime monárquico para o republicano.

Através da narrativa de um “certo inglês chamado Knight” o autor apresenta varias interpretações sobre

as transformações operadas na sociedade brasileira.

Gilberto Freire traça os contornos gerais da sociedade da época que assinala como fundamental o da conciliação de interesses, procedimentos acionado pelo apego à ordem criada no Império e aspirada como objetivo na republica. Assim povo e governo acordavam na permanência de um “autoritarismo protetor”, já exercido por D. Pedro II que era “liberal” mais para efeito externo que interno, no qual protegia os costumes e as tradições luso-católicas da maioria da população. Segundo o autor “O repentino triunfo republicano pôs alguns Brasileiros em face do problema do seu futuro nacional, ao mesmo tempo em que os obrigou a considerar no seu passado, singularidades que vinham sendo mal estudadas”, a revalorização do passado monárquico e do passado colonial ocorre no contraponto ao novo. A tradição Lusa volta a ordem do dia, assim a Republica de 1989 passa a se constituir uma continuação sociológica do império. Busca-se com a “volta” o apoio da população e dos “antigos patriarcas” que se sentiram traídos pela abolição. É assim que reatam-se as “tradições de ordem e unidade nacional vindas do império” conjugadas com os anseios, “os arrojos da Republica no sentido de progresso material”.

SOCIALIZAÇÃO PARA OS NOVOS TEMPOS

Através da narrativa o autor enfoca o traço fundamental da origem da formação nacional: o amalgama das culturas africanas e portuguesas, operadas no período pré-colonial e colonial sob a ação do patriarcado. Este processo de assimilação social confere singularidade a nossa formação social.

Nesse aspecto desenvolve-se um dos temas centrais do livro: a acomodação política característica do processo brasileiro, a articulação entre o velho-novo, o tradicional-moderno, o urbano-rural, característica fundamental nos momentos de transição para a manutenção da ordem.

O autor através dos relatos constrói um percepção das relações e dos papeis sociais numa época de

transição e modernização.

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Avenida Presidente Antonio Carlos, 6627 - CEP: 31270-901 – Belo Horizonte - MG

Embora ocorram alterações profundas no seio da sociedade e das próprias estruturas da sociedade a assimilação e a manutenção da “ordem social” são marcas e até certo ponto fruto de sua própria constituição.

A modernização, a urbanização foi assimilada de forma a erradicar “um arcadismo vergonhoso” um passado negro a ser superado e ao mesmo tempo com um modelo Europeu a ser seguido.

A europeização dos costumes, a preocupação do a “educação informal ”voltada para os moldes do ”urbanismo moderno” se opõem á ordem social agrária.

Gilberto Freire assinala no últimos ano do Império e no primeiros da Republica a “convivência”, a combinação de formas sociais novas e velhas, arcaicas e modernas, “o velho e o novo convivendo”.

CONCILIAÇÃO DO PROGRESSO CULURAL E DA ORDEM SOCIAL

Marca do encontro dos antagonismos em equilíbrio, o autor propõe que o mesmo que acontece no campo cultural e político, ocorre no espaço econômico, onde se articulam, combinam e coexistem tradições agrárias e as industriais.

Gilberto Freire utiliza o conceito sociológico para discorrer sobre o comportamento da população brasileira frente às transformações e ao desenvolvimento industrial presente nos primórdios da republica.

O autor ressalta que o “progresso cultural” ocorre sem que este desenvolvimento afetasse profundamente a ordem social, esta se adapta, se molda, convive.

Até a mudança de modelo, do europeu para o Americano aconteceu de forma “discreta”, a evolução cultural ocorrida apesar de atingir prioritariamente as elites e alguns centros regionais eram indicativos de mudanças culturais em curso no pais, mais uma vez graduais.

NOVA ORDEM ÉTNICA

Para o autor a Republica não foi mais que um mero marionete no “processo” de mudanças que ocorre no final do século XIX e inicio do XX no Brasil. O processo de mudanças e evoluções não sofreu traumas ou rupturas e foi muito mais uma “evolução” que uma ruptura pela proclamação da Republica. O autor destaca a tradição sociológica brasileira e a formação da identidade da etnia brasileira fruto do amalgama que compõem a sociedade brasileira.

ESTABILIDADE SOCIAL EM CRISE

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Gilberto Freire reflete sobre a questão do progresso ”talvez contraditório” pelo ângulo que tanto o império como a republica pecaram em tentar transplantar modelos para o Brasil não adaptados ao nosso “tropicalismo”. O progresso industrial, a modernização foi mais uma “ficção” que realidade tendo em vista a conjuntura do Brasil. Este desenvolvimento “desordenado” em conjunto com as ”mudanças” teológicas advindas da evolução cientifica, segundos Freire, minaram até o sempre sólido alicerce da sociedade - a Religião. Esta própria religião auxilia, ao se adaptar aos novos tempos, a entender a crise de estabilidade da sociedade brasileira na terceira década do século XX.

DISSOLUÇÃO DO FUTURO EM PASSADO

Nos idos de 1920, o quadro de crise coloca em xeque a Republica, conservadores e republicanos expressam seus pontos de vista antagônicos mas conciliatórios no ponto de visita de um Brasil unido. A valorização das coisas brasileiras e a nova etnia advinda das imigrações expressa uma nova democracia étnica.

A crise da Republica segundo o autor pode ser explicada pela não adaptação do governo à sociedade, pela forma artificial através da qual se processou a modernização. Realizou-se uma modernização de cima pra baixo que não levou em consideração as diferenças dos tempos sociais as divergências regionais e o conjunto de interesses que preside a nação.

TENATIVA DE SÍNTESE

O livro trata de uma análise sociológica assentada na idéia de que as mudanças ocorreram ao longo de

um fluxo de tempo levando em consideração as diferenças regionais espaciais que moldam a sociedade.

O autor busca forjar o conceito de “processo social” para analisar o processo, não por datas, mas por

fluxos, onde assimilação, acomodação, adaptação e socialização são os instrumentos que explicam as modificações que ocorreram na sociedade brasileira no período estudado. O autor sugere que a crise foi fruto mais de uma crise de articulação do que uma crise de regime, uma crise entre a modernização, interesses nacionais, os interesses regionais e a sociedade.

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16 - A INTEGRAÇÃO DO NEGRO NA SOCIEDADE DE CLASSES

- MG 16 - A INTEGRAÇÃO DO NEGRO NA SOCIEDADE DE CLASSES AUTOR: GABRIEL COHN Graduado

AUTOR: GABRIEL COHN

Graduado em Ciências Sociais pela FFLCH/Universidade de São Paulo (1964), Mestre em Ciências Sociais (Sociologia), FFLCH/USP (1967) e doutor em Sociologia, FFLCH/USP (1971); LIvre-docente em Sociologia FFLCH/USP (1977); Professor Adjunto pela FFLCH/USP (1982); Professor Titular FFLCH/USP (1985). Professor emérito FFLCH/USP (2011). Foi presidente da Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo (1983-85); presidente da Sociedade Brasileira de Sociologia (1985-87), e presidente da ANPOCS (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (2005-2006). Foi diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras/USP (2006-2008). Foi editor da revista Lua Nova do CEDEC (1991-2003). Aposentou-se em 2008. É atualmente Professor Visitante na UNIFESP - Universidade Federal de São Paulo, na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Campus de Guarulhos, pelo Programa Professor Visitante Nacional Sênior da CAPES. Trajetória intelectual: sociologia do desenvolvimento; sociologia da comunicação e cultura; teoria social com ênfase em teoria da ação (Max Weber) e em Teoria Crítica da Sociedade (em especial Adorno).

RESUMO: A INTEGRAÇÃO DO NEGRO NA SOCIEDADE DE CLASSES

O PROBLEMA

Problemática é integração do negro; problemático é o legado que se examina que não é o do negro. Mas da “raça branca”; problemática é a constituição da sociedade de classes.

O livro trata mais dos anseios do que de sua realização, mais de promessas do que seu cumprimento, mais de obstáculos do que de trajetos bem sucedidos.

Mostra o caminho e a sugestão para a integração do negro que é enquanto classe social, e sua capacidade de se afirmar como raça, no sentido de identidade social.

Durante a obra se exibe as dimensões ao longo de como se desenha na história da sociedade brasileira este dilema, que perturba o presente e compromete o futuro.

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A questão é: dadas as condições históricas de desenvolvimento da sociedade brasileira a partir da

abolição da escravatura e da instauração da republica, como pode a população negra tornar-se membro

ativo de uma classe.

O NEGRO E O POVO

Num sentido muito forte do termo o negro é a expressão típica de uma parcela fundamental da sociedade brasileira no período estudado. Em suma, o negro apresenta-se como a expressão mais extrema e por isso mesmo nítida do personagem histórico do qual se fala explicitamente, mas atravessa a analise de ponta a ponta: o povo, na sua forma especifica da sociedade brasileira.

“Em sentido literal a analise desenvolvida é um estudo de como o Povo emerge na historia’. O objeto real do estudo é a complexa e tensa dinâmica em que se entrelaçam o presente, o legado do passado e as possibilidades futuras na sociedade brasileira.

A

ESTRUTURA DA OBRA

O

avanço atribuído a Florestan e que ele extrapola a questão racial e formula uma analise mais ampla, a

figura histórica do povo. Nesta questão a idéia de democracia racial é exposta em suas dinâmicas e seus obstáculos estruturais com relação a autocracia política e ao autoritarismo social. O livro é composto em dois volumes, sendo que o segundo basicamente esboça a pesquisa que corrobora a obra.

O

EXAME DO LEGADO

O

Texto tem inicio com o exame das condições em que a população negra, após uma abolição pela qual

senhores viram-se livres dos seus escravos mais do que estes ganharam a liberdade, busca novas condições de sobrevivência numa sociedade de classes em formação. O foco e modelo da análise é São

Paulo, como centro urbano sobre a perspectiva do negro.

A análise mostra que a desvantagem da população negra diante dos contingentes europeus advinha mais do modo como seus membros eram levados a reagir às exigências do novo ambiente do que da apatia, á fuga ou a simples incapacidade.

Durante toda a obra o autor aborda a questão do domínio das “técnicas sociais e culturais do ambiente” como entrave à verdadeira integração do negro à nossa estrutura social.

A mescla de análise sociológica e demográfica do autor tenta demonstrar a circunstancias de que “os

negros e mulatos faziam parte dos grupos populacionais mais desprotegidos e menos aptos em face dos

riscos e das exigências da expansão urbana.”

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“o modo pelo qual o “meio negro” se incluía na ordem social estabelecida impedia a livre manifestação, o desenvolvimento normal e a satisfação construtiva de tais impulsões psicossociais que orientavam o comportamento, dando lugar a decepções e frustrações incontroláveis.”

Nessas condições o negro “se viu impotente diante de formas sociais que não sabia reconhecer, explicar e submeter a algum tipo de controle social”, no meio de uma dicotomia entre aprender a agir como branco e aprender que não é branco.

O autor declara que a vida urbana, o sistema de compensações individuais e coletivas, não propicio alterações substanciais para o negro frente ao sistema de relações econômicas e sociais

NO LIMIAR DE UMA NOVA ERA?

Na segunda parte o livro autor levanta as condições para a construção de uma “perspectiva social do homem negro” que lhe dava condições para perceber o seu modo na sociedade. Um construção intelectual que propiciou a promoção de idéias como “discriminação” e “preconceito” que evoluíram para “desigualdade racial”, “preconceito de cor”, o “dilema do negro” e o ”dilema da democracia no Brasil” com relação a estas idéias

FLorestam afirma que a hegemonia branca não chegou a ser ameaçada com o surgimento dessas idéias e nem com avanço do capitalismo industrial, mas salienta “as novas perspectivas” abertas.

CONCLUSÃO

As conseqüências desse estado de coisas são muito profundas. Na consciência social do “branco” o “preconceito de cor” aparece “como se constituísse uma necessidade maldita”. E, na mais pungente frase do livro; “O negro prolonga, assim, o destino do escravo”.

Seres humanos pela metade. Necessidade maldita. prolongamento do destino do escravo.

Conclusão: é tempo de se promover a Segunda Abolição.

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17 - OS INDIOS E A CIVILIZAÇÃO

– Belo Horizonte - MG 17 - OS INDIOS E A CIVILIZAÇÃO AUTOR: JOÃO PACHECO DE

AUTOR: JOÃO PACHECO DE OLIVEIRA

É antropólogo e Professor Titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ. Fez pesquisa de campo prolongada com os índios Tikuna, do Alto Solimões (Amazônia), da qual resultou sua dissertação de mestrado (UNB, 1977) e sua tese de doutoramento (PPGAS, 1986), publicada em 1988. Realizou também pesquisas sobre políticas públicas, coordenando um amplo projeto de monitoramento das terras indígenas no Brasil (1986-1994), com apoio da Fundação Ford, projeto que resultou em muitos trabalhos analíticos, coletâneas e atlas. Orientou mais de 60 teses e dissertações no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS), voltadas sobretudo para povos indígenas da Amazônia e do Nordeste, em programa comparativo de pesquisas em etnicidade e território apoiado pelo CNPq e FINEP. Atuou como professor-visitante em alguns centros de pós-graduação e pesquisa no Brasil (UNICAMP, UFPE, UFBA e Fundação Joaquim Nabuco e UFAM) e no exterior (Universidad Nacional de La Plata/Argentina, Università di Roma La Sapienza , École des Hautes Études en Sciences Sociales/Paris, Universidad Nacional de San Martin/UNSAM/Buenos Aires e Institute des Hautes Études de l`Amérique Latine/;IHEAL/Sorbonne Nouvelle/Paris 3). É pesquisador 1A do Conselho Nacional de Pesquisas/CNPq e bolsista FAPERJ do Programa Cientista do Nosso Estado. Foi presidente da Associação Brasileira de Antropologia/ABA (1994/1996) e por diversas vezes coordenador da Comissão de Assuntos Indígenas.

RESUMO: OS INDIOS E A CIVILIZAÇÃO

Darci Ribeiro tem no centro de suas preocupações o dialogo e a critica das representações sobre as protocelulas da formação de nossa nacionalidade, em que o índio – tal como o negro e o imigrante – possui papel decisivo.

Escrito em linguagem simples e direta, despreocupado em exibir tecnicalidades ou uma erudição sufocante, tornando explicito o comprometimento com as populações que estuda. Os Índios e a civilização constitui uma leitura útil e fascinante mesmo leitor comum.

O autor critica a idéia subjacente de um ciclo evolutivo em que os índios, primeiro moradores das Américas, seriam absorvidos pela expansão da etnia nacional, associadas aos contingentes negros

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escravizados e imigrantes e tenderiam a desaparecer dentro da população crescentemente homogeneizada da nova nação.

Segundo o autor, o “núcleo tribal” de etnias indígenas estaria fadado a duas alternativas, a extinção ou a adaptação. E que mesmo neste processo “adaptativo eles continuam “indígenas”, ou seja, um povo distinto da sociedade brasileira pela qual abdicaram de usos e costumes para se “integrar”.

O objetivo geral do livro é definido pelo autor como “alcançar uma compreensão acurada das situações

de interação ente índios e frentes de expansão, a fim de chegar a generalizações significativas sobre o

processo de mudança cultural”.

A obra é divida em três partes, na primeira o autor forma uma visão do contato entre s sociedade

indígenas e os segmentos da sociedade, na segunda trata da interação entre brancos e índios promovidas por organizações governamentais e religiosos. A terceira é dedica às analises do autor sobre o caso da transfiguração étnica, da assimilação, da acomodação, dos graus de integração, dos tipos de fronteiras,

dos níveis de integração dentre outros aspectos.

O livro analisa a "integração das populações indígenas no Brasil moderno" desde os finais do século XIX

aos anos 60 deste século. Valendo-se do conceito de transfiguração étnica, Darcy recusa as explicações correntes baseadas nas noções de assimilação ou aculturação. Verifica, historicamente, os vários estágios da passagem do índio tribal ao índio genérico, este marginal nas fronteiras de expansão extrativista, pastoril ou agrícola, a um só tempo discriminado e auto-identificado com seu passado étnico, incorporado

como força de trabalho despossuída e rejeitado simplesmente por "ser índio".

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