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TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO


COMARCA DE SÃO PAULO
FORO CENTRAL CÍVEL
36ª VARA CÍVEL
PRAÇA JOÃO MENDES S/Nº, São Paulo - SP - CEP 01501-900
Horário de Atendimento ao Público: das 12h30min às19h00min

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1032606-94.2019.8.26.0100 e código 832BA5E.
SENTENÇA

Processo Digital nº: 1032606-94.2019.8.26.0100


Classe - Assunto Procedimento Comum Cível - Liminar
Requerente: ITAU UNIBANCO S.A.
Requerido: Mercado Bitcoin Serviços Digitais Ltda.

Justiça Gratuita

Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SWARAI CERVONE DE OLIVEIRA, liberado nos autos em 21/11/2019 às 16:51 .
Juiz de Direito: Dr. Swarai Cervone de Oliveira

Vistos.

Trata-se de ação ajuizada por ITAÚ UNIBANCO S/A em face de


MERCADO BITCOIN S DIG LTDA.

O autor, inicialmente, requereu o bloqueio cautelar da quantia de R$


198.000,00. Alegou que um fraudador, fazendo-se passar por seu cliente, fez a transferência desse
valor a favor da ré.

Decisão deferindo a tutela de urgência e determinando o bloqueio do valor


(fls. 40).

Sobreveio contestação (fls. 74/85), alegando-se, em síntese, a


responsabilidade objetiva exclusiva do autor, diante da fraude, e a ausência dos requisitos para a
manutenção da tutela cautelar.

Foi concedido efeito suspensivo ao agravo de instrumento interposto pela


ré, determinando-se a liberação dos valores constritos (fls. 131/132)

Veio o aditamento da inicial (fls. 133/153), aduzindo-se, em síntese, a sub-


rogação nos direitos do correntista lesado, a inaplicabilidade da súmula nº 479/STJ e a
responsabilidade da ré pela fraude. O autor pediu a condenação da ré ao ressarcimento do valores,
ou, subsidiariamente, ressarcimento ao menos de metade do valor, em face da responsabilidade
solidária.

1032606-94.2019.8.26.0100 - lauda 1
fls. 1080

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO


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Nova contestação da ré (fls. 851/874), alegando, preliminarmente, carência
de ação. No mérito, afirma a inexistência da alegada sub-rogação e da responsabilidade civil.

Sobrevieram réplica do autor e requerimento de produção de provas


documentais pela ré (fls. 983/988).

Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SWARAI CERVONE DE OLIVEIRA, liberado nos autos em 21/11/2019 às 16:51 .
Petição da ré, requerendo o julgamento antecipado da lide (fls. 992/996)

Decisão determinando a juntada de documentos de registro e cadastro


mantidos pela ré (fls. 997), reiterada (fls. 1045).

Petição da ré, alegando não ser instituição financeira obrigada a manter tais
registros, razão pela qual não os possui (fls. 1048).

É o breve relato.

Fundamento e Decido.

O pedido é improcedente.

O autor demonstrou ter havido transação na conta bancária de seu cliente,


Sr. José Porfírio Irmão, no dia 22/03/19, no valor de R$ 198.000,00 (fls. 33).

Alega que tal operação foi originada de fraude, realizada por terceiro
desconhecido, diretamente em uma de suas agências, fazendo-se passar pelo Sr. José, como
demonstra em imagem fotográfica obtida em uma de suas agências (fls. 3).

Ato contínuo, ressarciu seu cliente, sob a condição de assinatura de


"Instrumento Particular de Transação com sub-rogação de direitos" (fls. 36/37), que instrui a
presente ação, com o objetivo de obter ressarcimento da ré.

A ré, por sua vez, relata haver em seu banco de dados uma conta virtual em

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nome do Sr. José Porfírio Irmão, que recebeu a transferência narrada.

Após a entrada do dinheiro, parte foi transferida a outra conta bancária, em


instituição financeira diversa, enquanto outra parte foi sacada em espécie, não restando mais
qualquer valor na conta em questão.

Alega não ter sido responsável pela fraude, e foi informada tardiamente

Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SWARAI CERVONE DE OLIVEIRA, liberado nos autos em 21/11/2019 às 16:51 .
sobre ela, não tendo podido efetuar os bloqueios dos valores a tempo.

A decisão de fl. 40 não está absolutamente correta, de fato. Embora a ré


tenha sido a beneficiária formal da transferência, ela logrou, em contraditório, explicar a forma
como atua. Após realizar o cadastro na plataforma virtual da ré, o cliente passa a ser titular de uma
conta virtual, por meio da qual pode operar as criptomoedas. Mas necessita de crédito nessa conta
virtual, sem o que não poderá adquirir as criptomoedas. É por isso que deve realizar a
transferência de valores monetários para uma das contas bancárias da ré.

Em termos simples: a ré recebe transferência monetária em uma de suas


contas bancárias, existentes em qualquer instituição financeira, e, por conta dessa transferência,
credita na conta virtual do cliente as criptomoedas, que ele, cliente, poderá operar.

Portanto, não é exatamente verdade que a ré foi a beneficiária da


transferência. Ela o foi, mas somente formalmente, porque esse era o modo de o cliente adquirir as
criptomoedas. Logo, o verdadeiro beneficiário, de fato, foi esse cliente, cujos dados, aliás, foram
fornecidos para o autor.

O autor, por sua vez, foi quem se obrigou pela guarda e manutenção do
dinheiro de seu cliente. Havendo a fraude, exsurge a responsabilidade objetiva inerente à sua
atividade, nos termos da Súmula nº 479/STJ. A responsabilidade advém da relação de consumo
estabelecida pelo art. 14, caput, do Código de Defesa do Consumidor.

Logo, ao ressarcir o cliente, o autor não se subrogou em direito algum. Ele


simplesmente respondeu civilmente por uma falha na prestação de seus serviços.

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A mencionada "sub-rogação", exposta pelo réu, não encontra amparo em
nenhuma das hipóteses dos artigos 346 ou 347, CC.

Não houve pagamento, mas sim ressarcimento de um consumidor, diante


da responsabilidade objetiva. E o autor não é terceiro, mas sim responsável diretamente pela falha
que gerou a fraude.

Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SWARAI CERVONE DE OLIVEIRA, liberado nos autos em 21/11/2019 às 16:51 .
Não há, portanto, substrato para a condenação da ré ao ressarcimento do
autor nem mesmo na forma do pedido subsidiário.

Ante o exposto, JULGO IMPROCEDENTES os pedidos, observando que


a tutela antecipada já foi revogada e liberando, nesse momento, a fiança apresentada. Sucumbente,
arcará o autor com o pagamento das custas e dos honorários advocatícios, que fixo em 10% do
valor de causa, nos termos do art. 85, §2º do Código de Processo Civil.

P.I.C.

São Paulo, 18 de novembro de 2019.

DOCUMENTO ASSINADO DIGITALMENTE NOS TERMOS DA LEI 11.419/2006,


CONFORME IMPRESSÃO À MARGEM DIREITA

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