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TEOLOGIA DO ANTIGO TESTAMENTO

Os dez métodos de Hasel, junto com representantes de cada um são:

( 1) O Método Dogmático -Didático é o método tradicional de organizar a teologia do Antigo


Testamento com categorias sistemáticas: teologia, antropologia e soteriologia. Old Testament
Theology de Ludwig Köhler é um bom exemplo do uso desse método.

( 2) O Método Genético- Progressivo apresenta o desenrolar da revelação de Deus conforme


a Bíblia o apresenta. As obras de Geerhardus Vos’ e Chester K. Lehman empregam esse método.

( 3) O Método Transversal é uma tentativa de combinar as abordagens temática e diacrônica.


Walther Eichrodt foi o principal exemplo dessa abordagem. Ele tomou a ideia da aliança e
tratou suas ocorrências em todo o Antigo Testamento enquanto falava acerca do Deus da
aliança, do povo da aliança e das instituições da aliança.

( 4) O Método Tópico emprega tópicos extraídos apenas do Antigo Testamento para organizar
uma discussão de sua teologia. Old Testament Theology de John McKenzie é o melhor exemplo
desse método.

( 5) O Método Diacrônico depende do método histórico-tradicionais de interpretação


desenvolvido na década de 1930 por Von Rad e seus companheiros. Trata-se de uma narração
do querigma, "os atos salvíficos de Deus", conforme dispostos nas confissões de Israel. Ele
penetra nas sucessivas camadas de tradições recitadas e reconstitui o crescimento da fé israelita
de período em período. Von Rad foi o único autor de uma teologia diacrônica do Antigo
Testamento totalmente desenvolvida.

( 6) O Método da Formação da Tradição é representado na obra de Hartmut Gese. Este insistia


que só há uma teologia bíblica realizada por meio da formação da tradição do Antigo
Testamento, a qual se encerra no Novo Testamento.

( 7) O Método Temático-Dialético é representado por três proeminentes estudiosos do Antigo


Testamento: Samuel Terrien, Claus Westermann e Paul Hanson. Esses três estudiosos têm
apresentado uma dialética predominante da "ética/estética” (Terrien), “livramento/bênção"
(Westermann) e "teleológica/cósmica" (Hanson). Esse método tem sido útil ao permitir que o
leitor veja como ênfases opostas podem relacionar-se para expandir o entendimento de um
problema maior.

( 8) Métodos "Críticos" Recentes de Teologia do Antigo Testamento. Essa é a mais nova categoria
de Hasel. Esse método é o de estudiosos como James Barr e John J. Collins, que não escreveram
uma teologia do Antigo Testamento e têm sérias dúvidas quanto ao futuro da disciplina.

( 9) O Método da Nova Teologia Bíblica. Esse método lida com o problema da relação entre o
Antigo e o Novo Testamento. Brevard Childs crê que é possível fazer uma teologia do Antigo
Testamento e uma teologia do Novo Testamento separadamente, juntando-as depois. Ele fez
uma teologia do Antigo Testamento e uma teologia bíblica separada. Childs insiste que só a
forma final do texto bíblico no cânon que temos agora é Escritura e autorizada.

( 10) Teologia Canônica Múltipla do Antigo Testamento é um resumo da concepção de teologia


do Antigo Testamento adotada por Hasel. Primeiro, ele entende que a teologia do Antigo
Testamento deve estar ligada à forma canônica final do Antigo Testamento. Isso exclui as
abordagens da história da religião e da história das tradições. Segundo, uma teologia do Antigo
Testamento deve ser temática, em vez de lidar com um conceito central ou chave. Terceiro, a
estrutura deve ser múltipla, o que evita as armadilhas dos métodos transversal, genético e
tópico. Quarto, o objetivo final de uma teologia do Antigo Testamento é penetrar nas várias
teologias de cada livro e grupos de escritos chegando à unidade dinâmica que liga todas as
teologias e temas. Por fim, de acordo com Hasel, a teologia cristã entende que a teologia do
Antigo Testamento faz parte de um todo maior. A teologia do Antigo Testamento não é igual à
teologia do Israel antigo e implica o todo maior da Bíblia inteira, formada pelos dois
Testamentos.

Essas propostas de uma teologia canônica do Antigo Testamento procuram considerar com
seriedade a rica variedade teológica dos textos do Antigo Testamento em sua forma final, sem
forçar os testemunhos multiformes numa única estrutura, um ponto de vista não linear ou
mesmo uma abordagem composta de natureza limitada. Ela permite plena sensibilidade tanto
para as semelhanças como para as mudanças, bem como para o antigo e o novo, sem a mínima
distorção dos textos.

Por que tantos teólogos do Antigo Testamento usaram tal variedade de métodos para
apresentar a teologia do Antigo Testamento? Porque no próprio Antigo Testamento não se
insinua nenhum método inerente ou "natural " e porque cada teólogo do Antigo Testamento
aborda a tarefa de uma perspectiva diferente, além de poder ter alvos distintos.

SMITH. RALPHL Teologia do Antigo Testamento: história, método e mensagem. Pág. 72,73

A Identificação de Um Centro Teológico Canônico

O argumento do autor (Kaiser) é a favor da existência de um plano divino unificador, onde Deus
governa a história. A estimativa dos autores bíblicos quanto ao significado destas coisas, foi onde
se revelou o plano de Deus. Um plano não somente para a história, mas também para toda a
teologia bíblica. (p. 34)

O caminho tem de ser um tema indutivamente derivado, uma chave ou padrão de organização
que os sucessivos escritores do AT abertamente reconheceram. Se, conforme o argumento,
existe, no meio de toda a variedade e multiplicidade do texto, um centro para esta tempestade
de atividade, deve ser textualmente demonstrado que este é o “ponto de partida” do cânon e
textualmente confirmado no testemunho unido do cânon. (p. 35) -Gn.12.1-3; Ex 33.12-14; Sl
33.8-11;Is 14.24-27; Is 46.8-11; Mq 4.11,12

A fórmula da promessa em três partes

Esta fórmula tornou-se a marca autenticadora de toda a teologia bíblica em ambos os


testamentos. A primeira parte da fórmula foi dada em Gn 17.7-8 e 28.21, a saber “Serei o teu
Deus, e o da tua descendência”.

Quando Israel estava no ponto de ser uma nação, mais uma vez Deus repetiu essa promessa e
acrescentou uma segunda parte “Tomar-vos-ei por meu povo” (Êx 6.7). Assim, Israel ficou sendo
“filho” de Deus, seu primogênito (Êx 4.22), uma “propriedade peculiar” (Êx 19.5-6)

Finalmente, a terceira parte foi acrescentada em Êx 29.45-46 em conexão com a construção do


tabernáculo “e habitarei no meio de vós”. Ali estava “Eu serei vosso Deus; vós sereis meu povo
e eu habitarei no meio de vós”. (II Co 6.16; Ap 21.3)

Outra fórmula achada em Gn 15.7 “Eu sou o Senhor que te tirei de Ur dos Caldeus”, foi expandida
para abranger uma obra de redenção ainda maior: “Eu sou o Senhor vosso Deus que vos trouxe
da terra do Egito” (achada 125 vezes no AT).
Ainda outra fórmula de Deus se anunciar era: “Eu sou o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó”.
Todas as fórmulas deste tipo ressaltam uma continuidade entre o passado, o presente e o
futuro. São partes do único plano de Deus que avança e se desabrocha. (p. 36)

O Plano da Promessa de Deus nos dois testamentos

Diversidade ou Unidade?

A ênfase na diversidade dentro da Escritura é de tal modo generalizada hoje em dia que, para a
maior parte dos estudiosos da Bíblia, qualquer outra perspectiva não condiz com o estado atual
de desenvolvimento dessa disciplina.

“É difícil falar de um “centro” da Escritura nos dias de hoje, porque a rubrica “centro da Escritura”
vem quase sempre separada da expressão “unidade da Escritura”. Embora ambas estivessem
intimamente associadas na época da Reforma, o Iluminismo as separou. Na verdade, o “centro
da Escritura” praticamente substituiu a outrora perdida “unidade da Escritura”. (Gerhard
Maier)

Desse modo, na tentativa de voltar àqueles tempos pré-críticos (antes da ascensão do método
histórico-crítico de interpretação bíblica), sobretudo ao ambiente que vigorava na Reforma, o
autor defende um “centro” derivado do texto que estabelece, ao mesmo tempo, um paralelo
com a tese da “unidade da Bíblia”.

Os autores do Novo Testamento ensinaram que a doutrina do Messias, o Ungido de Deus, fora
preservada como testemunho da “promessa” feita por Deus. Contudo, ela surge primeiramente
em todas as partes do AT, embora sua presença ali se dê sob os mais diferentes nomes, ainda
que através de sinônimos (benção, descanso, semente, etc). (p. 13)

Definição do Plano da Promessa de Deus

A teologia bíblica sempre se caracterizou por um tom fortemente diacrônico que insiste em
rastrear o desenvolvimento histórico da doutrina conforme ela se apresenta cronologicamente
na história de Israel e da Igreja. Portanto, embora tivesse de ser fiel às Escrituras na forma e no
método, bem como na substância, tinha de apresentar-se na ordem na qual Deus manifestou
sua revelação ao longo dos séculos ou décadas.

A melhor proposta para uma unidade encontra-se exatamente onde as Escrituras indicaram por
meio de reiteradas referências. O autor aponta que o candidato mais adequado à unidade ou
ao centro da manifestação de Deus é o “plano da promessa” de Deus conforme revelado nas
reiteradas referências encontradas em toda a Bíblia. O plano da promessa da teologia bíblica se
preocupa com uma palavra divina de promessa de alcance amplo. (p. 14)

Portanto, o plano da promessa não se resumiu apenas a uma palavra preditiva que ficou inerte
e em forma de palavra até ser finalmente cumprida em seu ponto final. Tratava-se, isto sim, de
uma palavra mantida ao longo dos séculos em uma série contínua de cumprimentos históricos
que serviram de sinal ou de adiantamento dado por uma palavra que ainda apontava para seu
cumprimento último ou final. Gn 3.15

A promessa divina feita aos patriarcas, Abraão, Isaque e Jacó, em Gênesis. Ela prosseguiu e foi
renovada na narrativa do Êxodo, enfatizando que a nova nação de Israel era filha de Javé e povo
seu, e que ela se tornaria um reino de sacerdotes e nação santa em benefício de toda a
humanidade. Dessa “semente” sairia o Messias de Deus para o mundo todo.
A mesma promessa é reafirmada e renovada com Davi ao ser-lhe dito que a ele e à sua
“semente” seriam dados um “trono”, uma “dinastia” e um “reino” (2Sm 7.16) que serviriam de
“lei/contrato para toda a humanidade” (2Sm 7.19).

Dos tempos de Davi em diante, uma corrente de profetas-escritores compôs os Salmos e os


chamados livros históricos. Eles também insistiram em recorrer ao plano da promessa que Deus
dera aos patriarcas e a Davi e fizeram dele igualmente coração e alma da mensagem que
deixaram para os seus dias e também para os nossos.

Não é de espantar, portanto, que os autores do NT tenham entendido que o tema da promessa
não só fosse o centro unificador que lhes permitia compreender o AT, mas também o meio
através do qual era possível acompanhar o avanço e o desenvolvimento contínuos da meta-
narrativa da obra futura de Deus. (p. 15)

Definição:
O plano da promessa é a palavra declarada por Deus, primeiramente a Eva e depois ao
longo de toda a história, principalmente aos patriarcas e à linhagem de Davi, de que
Deus estaria continuamente, por meio de sua pessoa e em seus feitos e obras (em Israel e
através de Israel e, mais tarde, na igreja), realizando seu plano redentor como meio de
manter aquela palavra prometida viva para Israel e, dessa forma, para todos os que
viessem a crer subsequentemente. Todos os que pertenciam àquela semente da promessa
foram chamados a ser luz de todas as nações, para que todas as famílias da terra chegassem à
fé e à nova vida pelo Messias. (p. 16)

Dez Características do Plano da Promessa de Deus

1) A doutrina do Messias Prometido aparece por toda a Bíblia e não apenas em algumas poucas
passagens isoladas.

2) O ensino Messiânico do AT era considerado o desenvolvimento de uma única promessa


(grego epangelia), repetida e desvendada ao longo dos séculos por meio de numerosas
especificações e em múltiplas formas, mas sempre fiel ao mesmo núcleo essencial.

ATENÇÃO: Realizar leitura complementar à respeito das 10 características do plano da promessa


de Deus nas páginas 16 a 22

Uma Proposta “epangélica” de Teologia Bíblica

Tradicionalmente, o movimento evangélico apresenta duas propostas principais de “unidade de


perspectiva” entre os dois testamentos: a aliancista e a dispensacionalista.

A ideia básica do conceito de aliança é de que havia no paraíso uma “aliança de obras”, em que
a salvação era ganha sob a condição de obediência perfeita. Quando Adão e Eva pecaram, essa
oferta foi rescindida e em seu lugar foi oferecida uma “aliança de graça/redenção” como dom
gratuito de Deus.

De acordo com esse ponto de vista, a nação de Israel, por causa da desobediência e de sua
incapacidade de manter (o que se supõe que seja) a aliança condicional que Deus havia
celebrado com ela, perdeu a parte que lhe cabia na aliança e foi alijada dela, sobretudo como
nação, exceto pelos judeus que creem e foram então enxertados na igreja. (p. 23)
De acordo com esta maneira de interpretar o texto, Israel não cumpriu sua parte no que se
acreditava ser uma aliança bilateral, portanto, as bênçãos originalmente oferecidas aos israelitas
foram transferidas e concedidas à igreja, que crê.

A teologia dispensacionalista crê que havia dois povos distintos na Bíblia (Israel e a igreja), com
duas identidades, destinos e programas (um programa terreno e outro celestial). Aqui a
promessa (epangelia) feita a Israel é unilateral e incondicional com base na graça de Deus e não
na obediência da nação.

A palavra “epangélico” deriva de epangelia, palavra grega para “promessa”.

Essa perspectiva sustenta que há apenas um “povo de Deus” (ainda que esse grupo único possa
apresentar numerosos aspectos) e um “programa de Deus” (também com numerosos aspectos,
todos eles sob o mesmo termo abrangente).

Cinco maneiras diferentes de relacionar Israel e a igreja

A Aliança da Substituição. Um contrato condicional ou bilateral que pode ser anulado. Israel não
cumpriu sua parte nos termos da aliança e foi substituído pelo corpo de crentes, que hoje é a
igreja.

A Supra-aliança. É a base para a teologia aliancista. Vê Israel e a igreja como um mesmo e único
dado na história da raça humana.

A Dupla Aliança. O povo judeu não precisava do evangelho salvífico de Jesus Cristo, porque tinha
uma aliança exclusiva com Abraão.

A Aliança Separada. Base do dispensacionalismo tradicional. Israel e a igreja tinham identidades,


promessas, programas e destinos separados. Faz distinção entre os dois povos de Deus (Israel e
a igreja) e os dois programas de Deus (o reino de Deus e o reino do céu).

A Aliança Renovada. Concorda com a posição aliancista, segundo a qual o plano de salvação na
Escritura é único e há um único “povo de Deus”. Contudo, nesse programa único e povo único,
há distinções ou aspectos diversos que podem ser estudados sem que seja necessário separá-
los.

O plano da promessa de Deus, além disso, debruça-se sobre os conteúdos das alianças
veterotestamentárias, em vez de se deter na configuração e na forma da aliança, tampouco se
preocupa com nomenclaturas. De acordo com essa perspectiva, o conteúdo de cada uma das
alianças e promessas das Escrituras foi preservado e paulatinamente enriquecido, ampliado e
agregado a um corpo de verdades fundacionais que se encarregam do ônus principal da
mensagem e do plano de Deus.

Ela fez tudo isso sem abrir mão das promessas de Deus à nação antiga de Israel e sem fechar a
porta aos gentios no momento mesmo em que enxertava todos os crentes, judeus e gentios, na
mesma oliveira.

Sob esse aspecto, a nova aliança (Jeremias 31.31-34) é tida como uma “aliança renovada”. Esse
plano de Deus iniciado em Gênesis 3.15 com a promessa de um herdeiro, a “semente”,
prosseguiria até incluir a herança de uma “terra” e o legado do evangelho, no qual todas as
nações seriam abençoadas. Esse plano e unidade são descritos em sua grande metanarrativa
abrangente que perpassa toda a Bíblia. (p. 29)

Prolegômenos à promessa: A era pré-patriarcal (Gn 1-11)


A teologia de todo o livro de Gênesis encontra-se na bondade de Deus ao estender suas
“bênçãos” do plano da promessa de maneira muito generosa, a partir da criação até a escolha
da linhagem de Abraão como meio pelo qual Deus abençoaria as nações do mundo com sua
dádiva das boas novas. A palavra dominante para o plano da promessa de Deus na teologia de
Gênesis é benção, que aparece 88 vezes neste livro.

Gênesis 1-11 fornece o contexto mais amplo, universal e cósmico para o plano da promessa de
Deus em sua totalidade. O escopo desses capítulos iniciais da Bíblia dão fortes indicações de que
a atenção de Deus se volta para o mundo inteiro, mesmo antes de anunciar o papel que os
patriarcas e sua descendência desempenhariam ao levar adiante a missão para “todas as
famílias da terra”.

A marca distintiva de Gn 1-11 acha-se na “benção” de Deus expressa nas alianças com Adão,
Noé e Abraão. Foi ele quem prometera “abençoar” todos os seres criados, no princípio da
narrativa pré-patriarcal (1.22,28), posteriormente em diversos pontos estratégicos no
desenrolar da narrativa (5.2; 9.1), e na conclusão a essa primeira sessão da Bíblia (12.1-3).

Assim, o plano da promessa de Deus começou com o uso do tema de bênção ou “abençoar”
como um dos termos que assinalavam a introdução do plano da promessa de Deus. Isso assegura
a unidade, parâmetros e centro da teologia de Gênesis 1-11, mesmo não usando o termo
“promessa”, que se tornaria a designação predileta nos tempos neotestamentário.

O padrão dos eventos nos onze capítulos está tão estreitamente entrelaçado que não pode ser
deixado de lado pelo exegeta ou teólogo. Quanto à estrutura, exibem a justaposição da dádiva
divina da benção com a revolta do homem. A palavra divina de bênção é o ponto inicial de todo
o tipo de aumento e de domínio legítimo; segue após a tragédia central da seção – o dilúvio – e
termina na seção transicional de Gn 12.1-3, coma bênção do próprio evangelho (Gl 3.18).

A Palavra de criação

Assim como o mundo, a teologia desta seção começa pela palavra de um Deus pessoal que se
comunica. Por dez vezes, o texto reitera esta declaração introdutória: “E disse Deus”. A criação,
portanto, é descrita como o resultado da palavra dinâmica de Deus (Salmo 33.6, 9). Deus iniciou
o processo da criação a partir do nada mais do que sua própria palavra.

Homem e mulher compartilhavam da dádiva mais sublime já dada a qualquer das ordens da
criação: a imagem de Deus. É somente no NT que o conteúdo desta imagem ficará mais clara (Cl
3.10, Ef 4.24) – Conhecimento, justiça e santidade. No conteúdo de Gênesis, o conteúdo exato
desta imagem é menos específico.

Esta imagem é expressa em Gênesis em conceitos como a possibilidade de comunhão e


comunicação com Deus, o exercício de domínio e liderança responsáveis sobre a criação que
pertence a Deus, e o fato de que, de algum modo que ainda não foi especificado, o homem e a
mulher são meras cópias/réplicas similares a Deus. (p. 39)

A primeira palavra de promessa: a semente

Para testar a obediência do homem e a sua livre decisão de seguir seu Criador, Deus colocou a
árvore do conhecimento do bem e do mal no jardim do Éden, proibindo Adão e Eva de comer
do seu fruto. A árvore representava a possibilidade de o homem rebelar-se contra a palavra de
Deus.
É necessário acrescentar outro fator antes que se possa entender a teologia da queda. A
serpente, aquela criatura que era “o mais astuto de todos os animais do campo” (Gn 3.11),
também estava presente no jardim. O NT identifica essa serpente com Satanás (Rm 16.20, 2Co
11.3, 14; Ap 12,9; 20.2).

O enganador conseguiu, porém, impor o seu logro, e a mulher sucumbiu à forte pressão e
argumentação astuta do próprio tentador. A primeira tragédia do fracasso de três
personalidades selecionadas pelo autor para reflexão teológica montou o cenário para uma
nova palavra de bênção divina. Se haveria de vir alguma bênção de algum lugar, seria da parte
de Deus.

Foi uma palavra profética de juízo e de libertação, dirigida à serpente (3.14,15), à mulher (v. 16)
e ao homem (v. 17-19). Em cada caso, foi declarada a razão da maldição: Satanás ludibriou a
mulher, a mulher escutou a serpente, e o homem escutou a mulher – Ninguém escutou a Deus!
(p. 41)

Em meio ao canto fúnebre de pesar e repreensão, no entanto, surgiu a palavra surpreendente


de esperança profética da parte de Deus (Gn 3.15). Uma hostilidade divinamente instigada
“porei inimizade entre ti [serpente] e a mulher, ente a tua descendência e o descendente
[semente] dela”.

O sentimento da presença de Deus era tão íntimo que, quando se traziam as ofertas ao Senhor,
era o próprio Senhor que inspecionava o homem. (4.4-6) e depois a oferta. Deus atribuía mais
valor à condição do coração do ofertante do que à oferta que este trazia.

A bênção do plano da promessa de Deus para a humanidade continuou de fato. Uma evidência
daquela bênção se vê na genealogia dos dez homens mais significativos do período
antediluviano registrados em Gn5. Eram frutíferos e se multiplicavam.

A segunda palavra de promessa: o Deus que habita nas tendas de Sem

A segunda crise do mundo veio com a subversão, levando um populacho desregrado a praticar
a iniquidade. Em meio à benção divina “quando os homens começaram a multiplicar-se na terra”
(6.1), surgiu o acúmulo da maldade “O Senhor viu que a perversidade do homem tinha
aumentado na terra e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre e
somente para o mal”(6.5). Mais uma vez há de surgir o tema da expulsão, mas de maneira muito
mais trágica e definitiva (6.7).

“Noé, porém, encontrou graça aos olhos do Senhor” (6.8), porque era “homem justo e íntegro
em sua geração” (v. 9). Assim, o segundo maior tempo de necessidade da terra, haveria de
receber o alívio, tal como em Gn 3.15, com a operação da salvação da parte de Deus. Havia um
remanescente justo.

A iniquidade forçando a intervenção divina não era uma sorte inevitável alocada a todos os
homens agora que a queda era fato consumado. Existiram homens justos. Considere Enoque.
Ele andou com Deus por 300 anos (5.22). Deus ficou tão satisfeito com a vida de obediência e fé
que ele “não foi mais visto” na terra, “Deus o havia tomado” (v. 24). A revelação daquele fato
sempre ficaria disponível se os homens quisessem meditar sobre as suas implicações.

Noé era daquela estirpe, a bênção divina “frutificai, multiplicai-vos e enchei a terra” foi repetida
novamente, dessa vez dirigida a Noé, à sua esposa, aos seus filhos, às suas esposas e a toda a
criatura vivente (8.17; 9.1,7). Neste ponto, Deus acrescentou a sua aliança especial com a
natureza. Ele manteria “plantio e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite” sem
interrupção, enquanto durasse a terra (8.22)

O conteúdo dessas promessas formava uma “aliança eterna entre Deus e todos os seres viventes
de toda carne que há sobre a terra” (9.8,11,16) simbolizada pelo arco no céu. Junto a essa nota
da bênção da parte de Deus havia a sua promessa “Não tornarei a amaldiçoar a terra por causa
do homem” (8.21), lembrança de uma maldição semelhante pronunciada contra a terra em Gn
3.17. (p. 44)

A palavra de julgamento e de salvação atingiu seu ponto mais alto em acontecimento que se
seguiu à segunda crise da terra. Veio através de Noé, depois de ficar sabendo o que seu filho
Cam lhe fizera enquanto estava dormindo, pesadamente sob o efeito do vinho (Gn 9.25-27).
Deus prometeu a Sem uma bênção especial. Ele mesmo habitaria entre os povos semíticos.
Assim, Sem seria aquele através de quem a “semente” prometida anteriormente haveria de vir.

A terceira palavra de promessa: uma bênção para todas as nações

A terceira e última crise que atingiu a terra durante esse período da mistura de bênção e
maldição foi o esforço conjunto feito pela raça humana para organizar e conservar a sua unidade
em redor de algum símbolo arquitetônico. “Vamos construir uma cidade, com uma torre que
alcance os céus. Assim nosso nome será famoso e não seremos espalhados pela face da terra”
(11.4).

Embora a bênção divina continuasse a se concretizar na multiplicação das pessoas, os


pensamentos dos corações humanos mais uma vez se desviaram para longe da glória de Deus e
de sua providência. O julgamento divino contra os homens veio na forma dupla da confusão a
linguagem deles e na dispersão dos povos por toda a face da terra. Mais uma vez, porém, o tema
de pecado-maldição foi compensado pelo tema graça-bênção.

Deus mais uma vez interveio com uma palavra de bênção. Essa palavra foi o clímax de todas as
outras bênçãos pronunciadas durante a narrativa pré-patriarcal. Cinco vezes seguidas, Gênesis
12.1-3 repetiu a palavra “bênção”. Abraão (descendente de Sem) seria abençoado e por meio
desta bênção, ele haveria de ser uma bênção para todas as nações da terra.

A promessa portanto era universal e a participação nela seria apenas limitada à resposta da fé,
assim como foi condicionada pela fé de Abraão. Dessa forma, a terceira crise da terra foi mais
uma vez resolvida pela palavra de graça do mesmo Deus que tratou do pecado de modo justo.

Concluímos que a teologia desta seção é um desenvolvimento unificado, envolvido e levado


adiante pela livre e graciosa palavra de Deus. Tudo começa com uma palavra de poder criador e
termina com uma palavra de promessa.

Os fatores teológicos achados em cada crise que perpetuaram o juízo divino foram os
pensamentos, imaginações e planos de um coração maligno (3.5,6; 6.5; 8.21; 9.22; 11.4). A
palavra salvadora de Deus, no entanto, era suficiente para cobrir toda falha dos mortais. Junto
aos temas de pecado-julgamento veio uma palavra nova, com respeito a uma “semente”, uma
raça entre a qual Deus habitaria, e a bênção daquilo que futuramente Paulo chamaria de “boas
novas” do evangelho oferecidas a cada nação sobre a face da terra (Gl 3.6-9).