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ALFREDO BOSI

(Da Universidade de S. Paulo)

HISTÖRIA CONCISA
DA
LITERATURA BRASILEIRA

EDITORA CULTRIX
sAO PAULO
3." edi<,:3o,12.° tiragem

1NDICE

!. A CONDI<;:AO COLONIAL
Literatura e situacäo, 13. Textos de infarmacäo, 15. A cana
de Caminha, 16. Gandavo, 18. 0 "Tratado" de Gabriel Soares,
20. A informa~iia das jesultas, 21. Anchieta, 22. Os "Dialoges
das Grandezas da Brasil", 27. Da crOnica a hist6ria: Frei Vicente,
Antonil, 28.
II. ECOS DO BARROCO
0 Barroca: espfrito e estilo, 33. 0 Barroco no Brasil, 39. A
"Prosapopeia" de Bento Teixeira, 41. Greg6rio de Matos, 42.
Botelho de Oliveira, 45. Menores, 48. A prasa. Vieira, 48. Prosa
<i!.:g6rica, 52. As Academias, 53.
III. ARCADIA E ILUSTRA<;:AO
Dois momentos: a poCtico e o ideol6gico, 61. Cliiudio Manuel
da Costa, 68. Basflio da Gama, 72. Santa Rita Duriio, 75. Arca-
des ilustradas: Gonzaga, Alvarenga Peixoto, Silva Alvarenga, 78.
Da Ilustraciio ao Pre-ramantismo, 89. Os generos pU.blicos, 92.
IV. 0 ROMANTISMO
.Caracteres gerais, 99. A situacao <los varios romantismos, 99.
Temas, 101. 0 nivel estCtico, 104. 0 Romantismo oficial no
Brasil. Goncalves de Magalhäes, 106. Porto..Alegre, 109. A histo..
riagrafia, 109. Teixeira e Sausa, 111. A poesia. Gon~ves Dias,
114. 0 romantismo eg6tica: a 2.• geracäo, 120. Alvares de Azevedo,
121. Junqueira Freire, 124. Laurindo Rabelo, 125. Casimiro de
Abreu, 127. Epl'.gonos, 128. Varela, 129. Castro Alves, 132. Con-
dores, 137. Sausiindrade, 137. A ficcio, 139. Macedo, 143. Ma-
nuel Antönia de Almeida, 145. Alencar, 148. Sertanistas: Bemardo
Guimaräes, Taunay, Tavora, 155. 0 teatro, 163. Martins Pena,
163. Goni;:alves Dias, 167. Alencar, 168. Agrario de Meneses.
Paula Eir6, 169. A cansciencia hist6rica e cdtica, 171. Tradiciona·
lismo, 172. Radicalismo, 174. Permanencia da Ilustrac&o. J. Fran-
cisco Lisboa, 175.
V. 0 REALISMO
MCMLXXXVIII Um nava ideario, 181. A ficcao, 188. Machado de Assis. 193.
Raul Pompeia, 203. Aluisio Azevedo e os principais naruralistas,
209. lngl@s de Sousa, 214. Adolfa Caminha, 216. 0 Naruralismo
Direitos rescrvados. e a inspirai;:iiö regional, 217. Manuel de Oliveira Paiva, 218. Na-
EDITORA CULTRIX LTDA. turalismo estilizada: "art nouveau", 219. Caelho Neto, 222. Afr3.-
nia Peixoto, 230. Xavier Marques, 231. 0 regionali~ma como
Rua Dr. M<irio Vicente. 374, 04270 Sio Paulo, SP-fone 63-3141. pragrama, 232. Afanso Arinas, 234. Valdomiro Silveira1 236.
Simöes Lopes Neta, 238. Alcides Maia, 240. Hugo de Carvalho
Ramos, 241. Manteira Labato, 241 A Poesia, 244. 0 Parna-
lmpresso MS oficüu:zs grdficas daEditoraPensamento.
sianismo, 246. Albeno de Oliveira, 247. Raimundo Correia, 250
r
1
Olavo Bilac, 254. Outros parnasianos, 257. Francisca JUlia, 257.
Anur Azevedo, 258. Vicente de Carvalho, 260. Neoparnasianos.
262. Raul de Leoni, 264. Teatro, 268. Artur Azevedo, 268. Ma- 1
chado de Assis, 271. Qorpo-Santo, Um corpo estranho, 273. A
consciencia hist6rica e critica, 275. Capistrano de Abreu, 276. Silvio
Romero, 278. Araripe Jr., 282. JosC Vedssimo, 283. As letras como
instrumento de a~äo, 286. Rui Barbosa .. 287.
VI. 0 SJMBOLISMO
Caracteres gerais, 295. 0 Simbolismo no Brasil, 300. Poesia.
Antes das "BroquCis'', 303. Cruz e Sousa, 304. Alphonsus de
Guimaräes, 312. A difusäo do Simbolismo, 316. Augusto das
Anjos, 323. A prosa de ficr;äo, 329. 0 pensamento critico, 332.
0 Simbolismo e o "renouveau catholique", 334. Farias Brito, 335.
VII. PRE-MODERNISMO E MODERNISMO
Pressupostos hist6ricos, 341. PrC-modernismo, 345. Euclides
da Cunha, 346. 0 pensl."!mento social, 352. Um crftico indepen-
dente: Joäo Ribeiro, 355. 0 romance social: Lima Barreto, 357.
Um espirito aberto: Grar;a Aranha, 367. 0 Modernismo: um clima
estCtico e psicol6gico, 375. 0 Modernismo: a "Semana", 381. Des
dobramentos: da Semana ao Modernismo, 385. Grupos modernis·
tas nos Estados, 389. Os Autores e as Obras, 391. Maria de An-
drade, 392. Osw.ald de Andrade, 402. Manuel Bandeira, 408.
Cassiano Ricardo, 413. Menotti del Picchia, 415. Raul Bopp, 417.
Plfnio Salgado, 419. Guilherme de Almeida, 420. 0 prosador do
Modernismo paulista: Alcantara Machado, 422 Dois ensalstas:
Sergio Milliet e Paula Prado, 424.
VIII_ TENDENCIAS CONTEMPORANEAS
0 Modernismo e o Brasil depois de 30; 431. DependCncia e
supera~äo, 433. Dois momentos, 434. A fio;äo, 438. As trilhas
do romance: uma hip6tese de trabalho, 440. Jose Americo de
Almeida, 445. Raquel de Queiroz, 446. Jose Lins do Rego, 448.
Graciliano Ramos, 452. Jorge Amado, 457. Erico Verl'.ssimo, 459.
Marques Rebele, 462. Jose Geraldo Vieira, 464. LUcio Cardoso,
466. CorntElio Pena, 469. Outros narradores intimistas, 472. Da Para
fic~ao "eg6tica" a fic~äo suprapessoal. Expet:i€ncias. Clarice Lis-
pector, 476. PermanCncia e transforma~äo do regionalismo, 481.
Otto Maria Carpeaux,
Joäo Guimaräes Rosa, 484. A poesia, 491. Carlos Drummond de mestre de cultura
Andrade, 493. Murilo Mendes, 500. Jorge de Lima, 505. Auguste e de vida
Frederico Schmidt, 511. Vinlcius de Moraes, 513. Cecflia Meireles,
515. Outros poetas, 518. Poesia e programa: a "gera~o de 45",
519. Poesia, hoje, 523. Joäo Cabral de Melo Neto, 524. Ferreira
Gullar. A poesia participante, 528. Miirio Faustino, 530. A poesia
cono-eta, 531. Desdobramento da vanguarda concretista, 539. Poe-
sia ainda, 541. Tradu~s de poesia, 543. A crltica, 545.
Para
BJBLIOGRAFIA, 554.
EcMa,
1NDICE DE NoMES, 564. dimidium animae meae.
1

A CONWCAO COLONIAL


T
r

Llleratura e altu~äo

0 problema das origens da nossa litcratura näo pode formu-


lar-se er.a termos de Europa, onde foi a matura~ao das grandcs
na~öes modernas quc condidonou toda a hist6ria cultural, mas
nos mesmos termos das outras literaturas americanas, isto e, a
partir da afirma~io de um complexo colonial de vida e de pcn·
samento.
A colonia e, de inkio, o objeto de uma cultura, o "outro"
em rela~iio a metr6pole: em nosso caso, foi a terra a ser ocupa-
da, o pau-brasil a scr explorado, a cana-de- a~car a scr culti-
vada, o ouro a ser extraido; numa palavra, a materia-prima a
ser carreada para o mercado externo ( 1 ) • A colönia s6 deua de
o ser quando passa a sujeito da sua hist6ria. Mas essa passa-
gem fez-se no Brasil por um lento processo de acultura~iio do
portugues e do negro a terra e as ra~as nativas; e fez-se com na-
turais crises e descquilibrios. Acompanhar este processo na es-
fera de nossa consciencia hist6rica e pontilhar o direito e o avesso
do fenömeno nativista, complemento necessario de todo comple-
xo colonial ( 2 ) •
Importa conhecer alguns dados desse complexo, pois foram
ricos de conseqüend as econömicas e culturais que transcenderam
os limites cronol6gicos da fase colonial.
Nos primeiros seculos, OS ciclos de ocupa,ao e de explora-
r;äo formaram ilhas sociais ( Bahia, Pernambuco, Minas, Rio de
( 1} Para a analise em profundidade do fenömeno colonial, reco-
mendo a leitura <los ensaios de J.-P. Sartre ( "Le colonialisme est un sys-
teme", in Les Temps Modemes, n. 123 ) e de Georges Balandier ("Socio-
0

logie de la dependance", in Cahiers l nternationaux de Sociologie, vol. XII,


1952). V. a Bibliografia fi nal deste volume onde sao arrolados alguns
estudos brasileiros ja "classicos", merecendo dcstaque os de Caio Prado
J r., Fernando Novais e Jacob Garender.
( 2) V. Afranio Coutinho, A Tradir;iio Afortunada, Jose Olympio
Ed., 1968, onde o critico estuda o fator "nacionalidade" em varios momen·
tos da critica brasileira .

13
Janeiro, Säo Paulo), que deram a Colöni~ a fisionomia de um visor de aguas entre um gong6ri~o portugu~s e 0 baiano Bote-
arquipelago cultural. E nilo s6 no facies geografico: as ilhas de- lho de Oliveira, ou entre um cirCade coim.bräo e um lirico mi-
vem ser vistas tambem na dimensäo temporal, momentos suces- neiro. E e sempre necesscirio distinguir um nativismo estatico,
sivos que foram do nosso passado desde o serulo XVI ate a In- que se exaure na menc;ä:o da paisagem, de um nativismo dinä-
dependencia. mico, que integra o ambiente e o homem na fantasia poetica (Ba-
Assim, de um lado houve a dispersäo do pals em subsiste- silio da Gama, Silva .A!varenga, Sousa Caldas}.
mas regionais, ate hoje relevantes para a hist6ria liter:iria ( ~}; 0 limite da consciencia nativista e a ideologia dos inconfi-
de outro, a seqüencia de influxos da Europa, respons:ivel pelo dentes de Minas, do Rio de Janeiro, da Bahia e do Recifc. Mas,
paralelo que se estabeleceu entre os momentos de alem-Atliintico ainda nessas pontas-de-lan~a da dialetica entre Metr6pole e Co-
e as esparsas manifesta~oes liter:irias e artfsticas do Brasil-Colö- lonia, a ultima pediu de emprestimo a Fran~a as formas de pen·
nia: Barroco, ArcB.dia, Ilustrat;äo, Pre-Romantismo ... sar burguesas e liberais para interpretar a sua pr6pria realidade.
Acresce que ci paralelismo näo podia ser rigoroso pela 6bvia De qualquer modo, a busca de fontes ideol6gicas näo-portugue-
razäo de estarem fora os centros primeiros de irradia~äo men- sas ou näo-ibericas, em geral, ja era uma ruptura consciente com
tal. De onde, certos descompassos que causariam especie a um o passado e um caminho para modos de assim~o mais dinii-
estudioso habituado as constela~oes da cultura europeia: coexis- micos, e propriamente brasileiros, da cultura europtia, como se
tem, por exemplo, com o barroco do ouro das igrejas mineiras deu no per1odo romiintico.
e baianas a poesia arddica e a ideologia dos ilustrados que da Resta, porem, o \lado preliminar de um processo colonial,
cor doutrinaria as revoltas nativistas do seculo XVIII. C6di- que se desenvolveu nos trCs primeiros seculos da vida brasilei-
gos literB.rios europeus mais mensagens ou conteUdos ja colo-- ra e condicionou, como nenhum outro,, a totalidade de· nossas
niais conferem aos tres primeiros seculos de nossa vida espiritual rea,5es de ordern intelectual: e se se prescindir da sua analisc,
um carater hfurido, de tal sorte que parece uma solu~ilo aceita- creio que näo poder3 ser compreendido na sua inteira dinami~a
vel de compromisso cham:i-lo luso-brasileiro, como o fez Antö- ~em 0 pr6prio fenömeno da mestic;agem, ntlcleo do nosso mru.s
nio Soares Amora na Hist6ria da Literatura Brasileira ( ** l- fecundo ensafsmo social de Sflvio Romero a Euclides, de Olivei-
Convem lembrar, por outro lado, que P"ortugal, perdendo a ra Viana a Gilberto Freyre.
autonomia politica entre 1580 e· 1640, e decaindo verticalmen-
te nos seculos XVII e XVIII, tambem passou para a categoria
de nac;äo periferica no contexto europeu; e a sua literatura, de- Textos de lnforma<;ao
pois do climax da epica quinhentista, entrou a girar em torno
de outras culturas: a Espanha do Barroco, a Italia da Arcadia,
a Fram;a do Iluminismo. A situa,äo afetou em cheio as inci- Os primeiros escritos da nossa vida documentam precisa-
pientes letras coloniais que, ja no limiar do seculo XVII, refle- mente a instaurat;äo do processo: säo informtlföes que viajantes
tiriam correntes de gosto recebid11$ "de segunda mäo". 0 Bra- e mission3rios europeus colheram sobre a natureza ~ o homem
sil reduzia-se ii condi~äo de subcolönia ... brasileiro. Enquanto informa~äo, nilo pertencem il. categoria do
literario, mas a pura crönica hist6rica e, por isso, ha quem as
A rigor, s6 laivos de nativismo, pitoresco no seculo XVII c
omita por escn\pulo estetico (Jose Ver!ssimo, por exemplo, na
ja reivindicat6rio no seculo segnintc, podem considerar-se o di-
sua Hist6ria da Literatura Brasileira}. No entanto, a pre-hist6-
ria das nossas letras interessa como reflexo da visä:o do mundo
( *) No ensaio Uma Interpreta,äo da Literatura Brasileira, Viana e da linguagem que nos legaram os primeiros observadores do
Moog da enfase ao ilhamento cultural das v:irias regiöes brasileiras; des-
contados certoS exageros, a tese e plenamente sustent8.vel (V. o cstudo,
pafs. E gra,as a essas tomadas diretas da paisagem, do fndio c
datado de 1942, agora incluido em Temas Brasileiros de diverses autorcs, dos grupos sociais nascentes, que ca~tamos as condit;Oes primi-
Rio, Casa do Estudante do Brasil, 1968). tivas de uma cultura que s6 mais tarde poderia contar com o fe-
(**) S. Paulo, Ed. Saraiva, 1955. nömeno da palavra·arte.

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1'
1..
E nilo e s6 como testetnunhos do tempo quc valem tais noticia da terra achada, insere-se em um genero copiosamente
documentos: tambem como sugestöes tematicas e formais. Ern representado durante o seculo XV em Portugal e Espanha: a
mais de um momento a inteligCncia brasileira, reagindo contra literatura de viagens ('). Espirito observador, ingenuidade ( no
certos processos agudos de europeiza\äo, procurou nas rafzes da sentido de um realismo sem pregas) e uma transparente ideolo-
terra e do nativo imagens para se afirmar em face do estrangei· gia mercantilista batizada pelo zelo mission.irio de uma cristan-
ro: entäo, os cronistas voltara,m a seP. lidos, e atC glosados, tan- dade ainda medieval: eis os caracteres que saltam a primeira lei-
to por um Alencar romäntico e saudosista como por um Maria tura da Carta e diio sua medida como documenta hist6rico. Des-
ou um Oswald de Andrade modernistas. Dal o interesse obli· crevendo os indios:
quamente estc!itico da "literatura 11 de informa\äo. A feir;äo deles e serem pardos maneiras d'avermelhados de bons
Dos textos de origem portuguesa merecem destaque: rostros e bons narizes bem feitos. Andam nus sem nenhuma co-
bertura, nem estimam nenhuma cousa cobrir nem mostrar suas ver-
a) a Carta de Pero Vaz de Caminha a el-rei D. Manuel, gonhas e estä:o acerca disso com tanta inocencia como tem de mos-
referindo o descobrimento de uma nova terra e as primeiras im- tra o rosto.
pressöes da natureza e do aborigine;
h) o Ditirio de Navega(iio de Pero Lopes e Sousa, escri- Ern relevo, a postura solene de Cabral:
viio do primeiro grupo colonizador, o de Martim Afonso de
0 capitäo quando eles vieram estava assentado em uma cadei-
Sousa (1530); ra e uma alcatifa aos pC:s por estrado e bem vestido com um colar
c) o Tratado da Terra do Brasile a Hist6ria da Prov!n- d'ouro mui grande ao pesc~o.
cia de Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos Brasil de Pero
Magalhiies Giindavo (1576); Atenuando a impressiio de selvageria que certas descri,öes po-
d) a Narrativa Epistolare os Tratados da Terra e da Gen- deriam dar:
ie do Brasil do jesuita Ferniio Carclim ( a primeira certamente
de 1583 ); Eles porem contudo andam muito bem curados e muito limpos
e naquilo me parece ainda mais que s!io como aves ou alimirias
e) o T ratado Descritivo do Brasil ~ Gabriel Soares de monteses que lhes faz o ar melhor pena e melhor cabelo que as
Sousa ( 1587); mansas, porque os corpos seus sä:o täo limpos e täo gordos e tio
f) os Ditilogos das Grandezas do Brasil- de Ambr6sio Fer- fremosos que näo pode mais ser.
nandes Brandiio ( 1618).
g) as Cartas dos missionarios jesuftas escritas nos dois pri- A conclusiio e eclificante:
meiros seculos de catequese ( 8 ) ;
h) o Ditilogo sobre a Conversiio dos Gentios do Pe. Ma- De ponta a ponta ~ toda praia. . . muito chi e muito frcmosa.
( ... ) Nela ate agora näo pudemos saber que haja Ouro nem pra-
nuel da N6brega; ta ... por6n a terra em si e de muito bons ares assim frios e tem.-
i) a Hist6ria do Brasil de Fr. Vicente do Salvador (1627). perados como os de Entre-Doiro-e-Minho. .Aguas säo muitas e in-
findas. E em tai maneira e graciosa que querendo-a aproveitar,
dar-se-9 nela tudo por bem das 8guas que tem., pottm o melhor fruto
que nela se pode fazer me parece que serif. salvar esta gentc c csta
A carta de Camlnha deve ser a principal semente quC vossa alteza em ela devc ~.
0 que para a nossa hist6ria significou uma aut~ntica cer-
tidiio de nascimento, a Carta de Carninha a D. Manuel, dando

( 4) Duas boas edit;öes do documento säo: A Carta de P. V. de Ca-


(8) Ha volumes antol6gicos preparados pelo Pe. Serafim Leite S. J.:
minba, com um estudo de Jayme Cortesä:o, Rio, Livros de Portugal, 1943,
Cartas Jesuiticas, 3 vols„ Rio, 1933; Novas Cartas ]esuiticas, S. Paula, C. e A Carta, estudo crl'.tico de J. F. de Almeida Prado; texto e glossirio de
Ed. Nacional, 1940. V. tambem: N6brega - Cartas do Brasil e Mair Es- Maria Beatriz Nizza da Silva, Rio, Agit, 1965
critos, ed. org. por Serafim Leite, Coimbra, 1953.

16 17
Gcmdavo lsto posto, pode-se entrever certo ot1m1smo ( que em via-
jantes näo portugueses chega a ser visionario) quanto ils poten·
Quanto a Pero de Magalhäes G!J.ndavo, portugues, de ori- cialidades da coJonia: e quem respingou OS ]ouvores desses cro-
gem flamenga ( o nome deriva de Gand), professor de Huma- nistas, ainda imersos em uma credulidade pre-renascentista, pöde
nidades e amigo de Camöes, devem-se-lhe os primeiros infor- falar sem rebuc;os em "visä:o do parafso„ como leitmotiv das des-
mes sistematicos sobre o Brasil. A sua estada aqui parece ter cri,öes: Eldorado, Eden recuperado, fonte da eterna juventude,
coinciclido com o governo de Mem deSa. 0 Tratado foi recligi- mundo sem mal, volta a Idade de Ouro ( • J.
do por volta de 1570, mas näo se publicou em vida do autor, Mas o tarn predominante e s6brio e a sua simpleza vem de
vindo il luz s6 em 1826, por obra da Aeademia Real das Cien- um esplrito franco e atento ao que se lhe depara, sem apelo fa-
cias de Hist6ria de Portugal; quanto a Hist6ria, saiu em Lisboa, cil a construc;öes imagin3.rias.
em 1576, com o titulo completo de Hist6ria da Provincia de Gändavo da noticia geografica da terra em geral e das capi-
Santa Cruz a ·'que V ulgarmente Chamamos Brasil. Ambos os tanias em particular. Lendo-o aprende-se, por exemplo, que a
textos säo, no dizer de Capistrano de Abreu, "uma propaganda escravidäo come,ou cedo a suportar o önus da vida colonial:
da imigra~äo", pois cifram-se em arrolar os bens e o clima da
colönia, encarecendo a possibilidade de os rein6is ( "especialmen- E a primeira cousa que [ os moradores] pretendem adquirir
te aqueles que vivem em pobreza") virem a desfruta-la. säo escravos para lhes fazerem suas fazendas, e se uma pessoa che-
ga na terra a alcanc;ar dous pares, ou meia dUzia deles ( ainda que
G!J.ndavo estava ciente de seu papel de pioneiro outra cousa näo tenha de seu), logo tem remedio para poder hon-
radamente sustentar sua familia: porque um lhe pesca e outro lhe
A causa principal que rne obrigou a lan~r mäo da presente ca~a, os outros lhe cultivam e grangeiam suas r~s e desta manei-
hist6ria, e sair com ela a
luz, foi por näo haver ategora pessoa ra näo fazem os homens despesa em mantimentos com seus escra-
que a empreendesse, havendo ja setenta e tantos anos que esta Pro- vos nem com suas pessoas ( cap. IV).
vfncia e descoberta ( Pr6logo)
Ha na obra descri.Oes brevcs mas vivas de costumes indl-
e procurou cumpri-lo com cliligencia, o que lhe valeu os enc6- genas: a poligamia, a "couvade", as guerras e os ritos de vingan-
mios de Camöes nos Tercetos com que o- poeta apresenta a ~a, a antropofagia. Nem faltam passagens pinturescas; no ca-
Hist6ria: . pitulo "Das plantas, mantimentos e fruitos que ha nesta Provfn..
Tem claro estilo, engenho curioso. cia", fazem-nos sorrir certos sfmiles do cronista maravilhado com
a flora tropical:
Trata-se naturalmente de uma objetividade relativa ao uni- Uma planta se da tambCm nesta Provincia, que foi da ilha de
verso do autor: humanista, cat6lico, interessado no proveito do Säo TomC, com a fruita da qual se ajudam muitas pessoas a sus-
Reino. Assim, lamenta que ao nome de Santa Cruz tenha o tentar na terra. Esta planta e mui tenra e näo muito alta, näo
"vulgo mal considerado" preferido o de Brasil, "depois que o tem ramos senäo umas folhas que seräo seis ou sete palmos de
pau da tinta come~ou de vir a estes Reinos ao qua! chamaram comprido. A fruita dela se chama banana. Parecem-se na fei~o
com pepinos e criam-se em cachos. ( ... ) Esta fruita e mui sabrosa,
brasil por ser vermelho, e ter seinelhan,a de brasa". Quem e das boas, que hii na terra: tem uma pele como de figo ( ainda que
fala e o letrado medieval portugues. A sua atitude Intima na mais dura) a qual lhe lan~am fora qdo. a querem 001.ner: mas faz
esteira de Camöes, e que se rastreara ate OS epicos mineiros, dano 8. sa6de e causa fevre a quem se desmanda nela ( c. V).
consiste em louvar a terra enquanto ocasiäo de gl6ria para a
metr6pole. Por isso, näo devemos enxergar nos seus gabos ao {6) Cf. Sergio Buarque de Holanda - Visäo do Paraiso. Os Motivos
clima e ao solo nada alem de uma curiosidade solerte a servi,o Ed2nicos no Descobrimento e Colonizafäo do Brasil, Rio, Jose Olympia,
do bem portuguf:s. 0 nativismo, aqui como em outros cronis- 1959. Uma excelente revisäo do mito do bom selvagem e de suas fontes
tas, si tua-se no nfvel descritivo e näo tem qualquer conotac;äo quinhentistas encontra-se no ensaio de Giuliano Gliozzi, "II mito del buon
subjetiva ou polemica. selvaggio", nella storiografia tra Ottocento e Novecento'', in Rivista di
Filoso/ia, Turim, set. 1967, pp. 288-335.
18
19
Dos ananases diz que "nascem como alcachofres" e do caju
Notlcias de Varnhagen sobre o autor däo-no como portu-
que ·ue de fei\30 de peros repinaldos e muito amarelo".
gues, miliar de engenho e vereador na Cämara da l!ahia, onde
Sua atitude em face do Indio prende-se aos.comuns padröes registrou suas observa\Öes durante os dezessete anos em que Ia
culturais de portugues e cat6lico-medieval; e vai da observac;äo morou ( 1567-1584 ). Tendo herdado do irmäo um roteiro de
curiosa ao juizo moral negativo, como se ve neste comentfilio minas de prata que se encontrariam junta As vertentes do Rio
entre serio e jocoso sobre a lingua tupj: Säo Francisco, foi a Espanha pedir uma carta-regia que lhe con-
Esta e mui branda, e a qualquer nac;äo facil de tomar. Alguns cedesse o direito de capitanear uma entrada pelos sertöes minei-
voc.fbulos h:l nela de que näo usam senäo as femeas, e outros que ros; obteve-a, mas a expedi\'.äo malogrou vindo ele a perecer
näo servem senäo para os machos: carece de tres letras, convCm em 1591.
a saber, näo se acha nela F, nem L, nem R, cousa digna de espanto
porque assim näo tCm Fe, nem Lei, nem Rei, e desta maneira vi- 0 Tratado consta de duas partes: "Roteiro Gera) com Lar-
vem desordenadamente sem terem alem disso conta, nem peso, nem gas Informa<;öes de Toda a Costa do Brasil", de car:lter geo-his-
medido (Cap. X). t6rica e bastante minuciaso; e o "Memorial e Declarac;äo das
Grandezas da Bahia de Todos os Santos, de sua Fertilidadc e
A Hist6ria termina com uma das ton1cas da literatura in- das Outras Partes que Tem".
formativa: a preocupa\äo com o ouro e as pedras preciosas que Partilha com Gandavo o objetivo de informar os poderes
se esperava existissem em grande quantidade nas terras do Bra- da Metr6pole sobre as perspectivas que a calönia oferecia, ace-
sil, a semelhan\:a das peruanas e mexicanas. E, espelho de toda nando igualmente, ao cabo do livra, com as minas de oura, pra-
a mentalidade colonizadora da epoca, afirma ter sido, sem dU- ta e esmeralda, por certo aquela mitica Vupahu"1 ( "alagoa gran-
vida, a Providencia a atrair os hamens cam a tenta<;äo das rique- de"} em cuja procura acharia a morte. Mas e muita mais varia
zas, desde o ämbar do mar ate as pedrarias da sertäa, e sugestivo que o autor da Hist6ria da Provincia de Santa Cruz;
como o interesse seja o que mais leva os homens trils si que com um zelo de naturalista que espantaria um antrop6logo mo-
outra nenhuma cousa que haja na vida, parece manifesto querer derno da altura de Alfred Metraux ( 7 ), Gabriel Soares de Sou-
entrete-Ios na terra com esta riqueza do mar, atC chegarem a des-
cobrir aquelas grandes minas que a mesma terra promete, pera que
sa percorre toda a fauna e a flora da Bahia fazendo um invenul·
assi desta maneira tragam ainda toda aquela cega e bUrbara gente rio de quem ve tudo entre atento e encantado. Os capltulos so-
que habita nestas partes, ao lume e conhecimento da nossa Santa , bre o gentia acercam-se do relat6rio etnagr0.fica, pois näo s6 eo..
FC Cat61ica, que ser3 descobrir-lhe outras maiores no ceu, o qual ' brern a informa<;äo b0.sica, da cultura material a religiosa, coma
nosso Senhor permite que assim seja pera gl6ria sua e salva~äo de sublinham tra<;os peculiares: säo de ler as d_escri\:Öes vivas da
tantas almas ( cap. VIII).
"couvade" das suicidas camedores de terra, das exibicionistas
e dos feiti~eiros chamadares da morte.
No mesmo paragrafo, e em tranqüilo convlvio, o m6vel eco-
nömico e a cfuldida justifica~o ideol6gica.
•. A lnformai;äo dos lesuitas
0 "Tratado" de Gabriel Sciarea
Paralelamente 1t cr6nica leiga, aparece a dos jesult11s, täo
Quanto a Gabriel Soares de Sousa ( 1540?-1591), a crltica rica de informa\:Öes e com um "plus" de inten<;äo pedag6gica e
hist6rica tem apontado o seu Tratado Descritivo do Brasil em moral. Os nomes mais significativos do seculo XVI säo os de
1587 ( 6 ) como a fonte mais rica de informa\:iles sobre a colönia Manuel da N6brega e Fernäo Cardim, merecendo um lugar 1t
no sOOtlo xv1; parte, pela relevancia literaria, o de Jose de Anchieta.
( 8) Edi~o aconselhif.vcl, a inclufda na C.ol. Brasiliana, vol. 117, Cia.
Ed. Nacional, 1938. (7) "Soares de Sousa a un esprit scientifique etonnant pour son
epoque", em La Civilisation materielle des tribus tupi-guarani, Paris,' 1928.
20
21

_L
De N6brega, alem do epistohlrio, cujo valor hist6rico näo acharemos exemplos daquele veio mistico que toda obra religio-
se faz mister encarecer, temos o Didlogo sobre a Conversäo do sa, em Ultima an<ilise, deve pressupor.
Gentio ( 1558? ), d<>cumento notavel pelo equilibrio com quc Ha um Anchieta diligente anotador dos sucessc:is de uma
o sensato jesufta apresentava os aspectos "negativos" e "positi- vida acidentada de ap6stolo e mestre; para conhec€:-lo precisa-
vos„ do lndio, do ponto de vista da sua abertura ~ conversäo. mos ler as Cartas, Informa(öes, Fragmentos Hist6ricos e Ser-
E va1e a pena citar um trecho em qu~ com agudeza rare para o möes que a Academia Brasileira de Letras publicou em 1933.
tempo, mostra desprezar argumentos de ordern racial: ~1as e o Anchieta poeta e dramaturgo que interessa ao estudio-
so da incipiente literatura colonial. E se os seus autos sä:o de-
Tcrem os romanos e outros mais gentios mais pollcia [ = ci-
vilizac;iio, urbanidade] que estes näo lhes veio de terem natural-
finitivamente pastorais ( no sentido eclesial da palavra ), destina-
mente melhor entendimento, mas de terem melhor criac;äo e cria dos a edifica\'ä:O do lndio e do branco em certas cerim6nias li-
rern-se mais poBticamente ( Ditilogo, 93 ). turgicas (Auto Representado na Festa de S. Lourem;o, Na Vila
de Vit6ria e Na Visitarao de Sta. Isabel), o mesmo nao ocorre
lgual realismo, mas menor perspic3cia, encontra-sc nas rela- con1 os seus poemas que valem em si mesmos como estruturas
~öes que o Pe. Fernao Cardim, na qualidade de Provincial, en- li ter<irias.
viava a seus superiores europeus; rela~öes que circulam enfeixa- A linguagem de uA Santa In€:s", "Do Santlssimo Sacra-
das sob o titulo de Tratado da Terra e da Genie do Brasil ( 8 ). mento" e "Ern Deus, meu Criador" molda-se na tradic;ä:o medie-
val espanhola e portuguesa; em metros breves, da "medida ve-
Anchieta. Assim como os cronista• se debru~aram sobrc lha", Anchieta traduz a sua visäo do mundo ainda alheia ao Re-
a terra e o nativo com um espirito ao mesmo tempo ingenuo e nascimento e, portanto, arredia em relac;ä:o aos bens terrenos:
pratico, os missionarios da Companhia de Jesus, aqui chegados Näo h:i cousa segura.
nem bem criada a ordern, uniram a sua fe ( neles ainda de todo Tudo quanto se ve
iberica e medieval) um zelo constante pela conversao do gentio, se vai passando.
de ,que os escritos catequeticos sao cabal documenta. E, se um A vida näo tem dura.
0 bem se vai gastancto.
N6brega exprime em cartas incisivas e no Dialogo o tra~o prag- T oda criatura
matico do administrador; ou, se um Fernäo Carclim lembra Gan- passa voando.
davo e Gabriel Soares pela c6pia de informes que sabe recolher
nas capitanias que percorre, s6 em Jose de Anchieta ( • l e que Contente assim, minh'alma,
do doce amor de Deus
toda ferida,
(8) Edic;äo aconselh<ivel, a da Brasiliana (Cia. Ed. Nacional, 1939), o mundo deixa em calma,
com introduc;äo de Rodolfo Garcia e notas de Capistrano de Abreu e buscando a outra vida,
Batista Caetano. na qual deseja ser
(9) JosE DE ANCHIETA. Nasceu na ilha de Tenerife, uma das Cana- absorvida.
rias, em 1534 e faleceu em Reritiba (Espirito Santo) em 1597. Veio para ( Em Deus, meu Criador)
o Brasil ainda novic;o em 1553; logo fez sentir sua a~o apost6lica fundan-
do com N6brega um colegio em Piratininga, ntlcleo da cidade de S. Paula.
Pelo zelo religioso e pela sensibilidade humana, Anchieta ficou na hist6ria Os fragmentos que nos chegaram transpöem o t6pico do
da colönia como exemplo de vida espiritual particularmente her6ica nas "desengaiio" do mundo, constante do Cancioneiro Geral de Gar-
condic;öes adversas em que se exerceu. Suas Poesias em portugues, caste- cia de Resende e em Gil Vicente. Mas em Anchieta o tra~o as-
lhano, tupi e latim foram transcritas e traduzidas por M. de Lourdes de cetico, dominante nos Exerclcios Espirituais do seu mestre In8-
Paul:i Martins, S. Paula, Comissäo do IV Centenario, 1954. 0 De Beata cio de Loyola, nä:o ocupa toda a <irea de seu pensamento; ao
Virgine foi traduzido pelo Pe. Armando Cardoso S. J. (Rio, Arquivo Na-
cional, 1940). Cf. Domingos Carvalho da Silva, "As origens da poesia'', in contr<irio, est.i subordinado a valores positivos de esperanc;a e
A Lit. no Brasil, vol. 1, t. 1, Rio, 1956; LeodegS.rio de Azevedo Filho, alegria. Pode-se dizer mesmo que o vetor afetivo de Anchieta
Anchieta, a Idade Media e o Barroco, Rio, Gernasa, 1966. f: a consolac;ä:o pelo amor divino. Assim, no poema citado acima:

22 23
Do p~ do secro mont" Santa podelrinha,
meus olhos levantando morta com cutelo
ao a1 to cume, sem nenhum farelo
vi estar aberta a fonte ~ vossa farinha.
do verdadeiro lume, Ela e mezinha
que as trevas do meu peito com que sara o povo, ·
todas consume. que com vossa vinda
Correm doces licores tera trigo novo.
das grandcs aberruras 0 piio que amassastes
do penedo. dentro em vosso peito
Levantam-se os errores, e0 amor perfeito
levanta-se o degredo com que a Deus amastes.
e tira-se a amargura
do fruto azedo.
E, ao lado desse veio, outro, igualmente religioso. mas ti-
Uma analise mais detida das imagens que se reiteram nos rante a um cömico simples, quase simpl6rio no trato das com-
melhores poemas, "Do Santfssimo Sacramento" e u A Santa Ines" parat;öes, como e o caso da glosa "O Pelote Domingueiro" que
mostra que aqueles tra~os de mortifica~äo ( exasperados mais Anchieta compös para o mote: "Ja furtaram ao moleiro / o pe-
tarde pelo jesuitismo barroco) neles servem de contraponto ao lote domingueiro'', onde o moleiro e figura de Adäo a quem as
motivo mais abrangente do alimento sagrado, sfmbolo da uniäo manbas de Satanas surripiaram a gra\a divina ( o pelote domin-
com Deus: gueiro), deserdando assim toda a sua gera\äo:
Ö que piio, 6 que comida,
6 que divino manjar Os pobretes cachopinhos
se nos da no santo altar ficaram mortos de frio,
cada dia! quando o pai, com desvario,
deu na lama de focinhos.
Cercou todos os caminhos
Este da vida imortal, o ladriio, com seu bicheiro,
este mata toda fome, e rapou-lhe o domingueiro.
porque nele Deus e homem
se contem. Na segunda parte passa o mote para "J<:i tomaram ao mo·
leiro / o pelote domingueiro", glosado como a reden<;äo que
qu'este manjar tudo gaste, Jesus, "neto do moleiro", trouxe ao homem:
porque e fogo gastador
que com seu divino amor Trinta e tres anos andou,
tudo abrasa. sem temer nenhum perigo,
moendo-se como trigo,
( Oo Santissimo Sacramento) ate que o desempenhou.
Com o seu sangue resgatou
para o pobre do moleiro
Corno ocorre na melhor tradi~iio popular anterior a Renas- o pelOte domingueiro.
cent;a, säo os slmiles mais· correntes, tomados ~s necessidades
materiais, como a nutrit;äo, o calor e o medicamento, que o poe- Quanta aos autos atribuidos a Anchieta ( 10 ), deve-se insistir
ta prefere para concretizar a emo~äo religiosa: na sua menor autonomia estetica: säo obra pedag6gica, que chega
a empregar ora o portugues, ora o tupi, conforme o interesse ou
Cordeirinha linda,
como folga o povo o grau de compreensä:o do pUblico a doutrinar. Formalmente,
porque vossa vinda 0 teatro jesultico, nessa fase mission<:iria inicial, esta preso a
lhe da lume novo!
. ......................... .
~
(10) Ver Teatro de Anchieta, S. Paula, Ed. Loyola, 1977 .

24 25
r
!

tradic;äo ibCrica dos vilancicos, que se cantavam por ocas1ao das Mas Anchieta, homem culto, educado em colegios da Com-
festas religiosas mais importantes. A documenta~ao do teatro panhia na Coimbra humanlstica dos meados do seculo XVI, e
rnedieval portugues e, como se sabe, escassissima; Leite de Vas- tambem destro versejador latino no poema De Beata Virgine Dei
concelos refere-se a uns "arrernedilhos" do perfodo trovadoresco Matre Maria, composto em 1563, na praia de lperoig, onde se
e a uma farsa incluida no Cancioneiro Geral ( *). Assim, e na encontrava como refem dos Tamoios.
tradic;äo oral que mergulha rafzes o teatro de Gil Vicente, cujo A obra, que narra a vida e as gl6rias de Nossa Senhora,
Mon6logo da Vaqueiro e
o primeiro documenta, sem dllvida apesar de vazada em corretos disticos ovidianos, est<i impregna·
tardio, do teatro portugues ( 11 ). da da linguagem bfblica e liturgica, e de glosas de Santo Arnbr6-
Os autos de Anchieta, como os rnist§rios e as moralidades sio e Säo Bernardo. Trata-se de um livro de devoc;äo marial a
da Idade Media, que estendiam ate o adro da igreja o rito litur- que o versa latino deu apenas uma p<itina renascentista. Ern
gico, materializam nas figuras fixas dos anjos e das demönios Anchieta, esse enxerto clcissico numa subst3ncia ingenuamente
os p6los do Bern e do Mal, da Virtude e do Vlcio, entre os quais medieval niio produz nenhum conflito, dado o carater ainda epi-
oscilaria 0 cristäo; daf, 0 seu realismo, que a primeira vista pa- dt!rmico do contato entre ambas as culturas. S6 no seculo
rece direto e 6bvio, ser, no fundo, alegoria. Dos oito autos que XVII, quando a Contra-Reforma ja tiver formado mais de uma
se costuma atribuir a Anchieta o mais importante e
o intitula- gera~äo em luta com a Renascen<;a e a Re"forma, e que nascerß
do Na Festa de Sao Lourenr;o, representado pela primeira vez um estilo feito de contradic;öes entre a mente feudal ( que sobre-
em Niter6i, em 1583. Consta de quatro atos e uma danc;a can- vive em nivel polemico) e as formas do "Cinque.::ento", que
tada em procissäo final. A maior parte <los versos est<i redigida vicejam e se multiplicam por sua pr6pria forc;a: esse estilo sera
em tupi, e o restante em espanhol e portugues. 0
Teatro de re- a ret6rica do barroco jesultico. Mas para o ap6stolo dos tupis,
vista indigena", chamou-lhe um leitor moderno, näo oferece, de o umaneirismo" ainda näo ultrapassou o plano escolar e o seu
fato, unidade de a<;äo ou de tempo: cenas nativas, luta contra verso e apenas o de um zeloso leitor de Virgllio e de Ovldio.( *)
os franceses, corridas, escorribandas diab6licas e fragmentos de
predica mistica superpöem-se nessa raps6dia e visam a converter Os "Dialogos das Grandezas do Brasil"
recreando ( 12 ). Os versos em portugues, em nUmero de qua-
renta, trazem a fala do Anja que apresenta as figuras simb61i- Nos primeiros decenios <lo seculo XVII, com a decadencia
cas do Amor e Temor, fogos, segundo ele, que o Senhor manda da extra<;äo de pau·brasil e o malogro das "entradas", firmou-se
para abrasar as almas, como o fogo material abrasara a de Säo a economia do ac;Ucar como a base material da Colönia ( 13 ): era,
Lourenc;o: portanto, de esperar que insistissem nessa tönica os escritos de
Deixai-vos dele queimar informac;äo e de louvor.
como o ma:rtir Säo Lourent;o
e sereis um vivo incenso, 0 documenta mais representativo, no caso, säo os Difllogos
que sempre haveis de cheirar das Grandezas do Brasil, datados de 1618 e atribuidos ao cris-
na corte de D~us imenso. täo-novo portugues Ambrosia Fernandes Brandiio ( 14 ) _ A obra
compöe-se de seis di<ilogos entre BrandOnio, que faz as vezes do
(*) Textos Arraicos, 4." ed., Lishoa, Livraria Cl<issica, Ed., 1959, colonizador bem informado, e Alviano, recem-vindo da Metr6pole
p. 212.
( 11) 0 Mon6logo ( 1502) foi escrito em espanhol, com notas ct:ni· ( ,, l A Anchieta atribui-se tambem a composir;äo do poema epico De
0
cas cm portugut:s. Scgundo palavras do pr6prio G. Vicente ( "e por ser Gestis .1.\fendi de Saa, em que se narram as lutas do 3. Governador-Geral
cousa nova cm Portugal ... "), infere-se que o A. foi o primeiro a lcvar contra os franceses. Edir;äo recomend<ivel, a cuidada pelo Pe. Armando Car-
para fora do espm;o religioso uma declama<;äo teatral (Ob. Compl., Lisboa, doso S. J ., que ta1nbem traduziu e comentou o texto ( S. Paulo, S. e., 1970).
Sa da Costa, 1959, vol. !, p. 7). (13) Cf. Von Lippmann, Hist6ria do Ap/car, 2 vols., 1941-42; Celso
Furtado, Hist6ria Econ6mica do Brasil, Rio, 1954.
(12). Cf. Claude-Henri Freches, "Le theUtre du P. Anchieta; con-
( 14) Ver DiJ/ogos das Grandezas do Brasil, S. Paula, Ed. Melhora-
tenu et structure'', in Annali, Institute Orientale, N<ipoles, 1961, vol
III. n.• 1 mentos, 1977.

26 27
e sequioso de notfcias sobre as riquezas da terra. E o quadro A atitude atravessarci, de resto, todo o perfodo- colonial, que trans-
destRs ja vem na abertura do livro: correu sob o signo da politica mercantilista do Antigo Regime:
bom exemplo dela seria, no princfpio do seculo XVIII a obra
BrandOnio - ( ... ) Pelo que, come~ando, digo que as rique- do jesulta italiano Antonil ( pseudönimo de Joao Antonio An-
zas do Brasil consistem em seis coisas, com as quais s·eus povoado-
res se fazem ricos, que sao estas: a primeira a lavoura do a0lcar a dreoni, 1650-1716?), Cultura e Opulencia do Brasil, quase toda
segunda a mercantia, a terceira o pau a que chamam da Brasil,' a centrada na economia e na politica a~ucareira ( j:i entäo em cri-
quarta es algodöes e madeiias, a quinta a lavoura de mantimentos se), motivo, ao que parece, da sua apreensäo e destrui~äo pelo
·a. sexta e Ultima a cria~ao de gados. De todas estas coisas o prin~ governo luso. E prova que, na condi~äo colonial, a informa-
c1pal nervo e subst3.ncia da riqueza da terra e a lavoura dos \äo e Util ate certo ponto ... ( 16 )
a~cares.
Um balan~o da prosa do primeiro seculo e meio da vida
Os Dialogos continuam nesse diapasao justapondo mil e um colonial da-nos elementos para dizer que 0 puro carater infor-
informes Uteis para o futuro povoador da terra. mativo e referencial predomina e pouco se altera ate o advento
Seria, talvez, precoce, nesta altura, tomar os elogios do do estilo barroco. E s6 com a presen~a deste na cultura euro-
reinol cU.pido por fatores nativistas em nossa literatura. Mas a peia, e sobretudo iberica, que surgid entre n6s uma organiza-
insistencia em descrever a natureza, arrolar os seus bens e his- ~äo estCtica da prosa: os sermöes de Vieira, a historiografia gon-
toriar a vida ainda breve da Colonia indica um primeiro passo g6rica de Rocha Pita e mesmo a alegoria moral de Nuno Mar-
da consciencia do colono, enquanto homem que ;a näo vive na ques Pereira ( apesar do didatismo que a marca) ja serao exem-
Metropole e, por isso, deve enfrentar coordenadas naturais dife- plos de textos literarios, isto e, de mensagens que näo se esgo-
rentes, que o obrigam a aceitar e, nos casos melhores, a repen- tam no mero registro de conteUdos objetivos, o que lhes acresce
sar diferentes estilos de vida. igualmente o peso ideol6gico.
E a medida que o mero conhecimento geogdfico vai sendo
dominado, abre-se caminho para sentir o tempo que correu, con-
di~ao primeira de toda historiografia.

Da cronica a historia: Frei Vicente, Antonil

Nero sempre e facil distinguir a cronica da hist6ria quando


se lida com textos coloniais. Entretanto, se e um fato que as
paginas de Gändavo e de Gabriel Soares de Sousa sabem antes
a relat6rio que a reflexäo sobre acontecimentos, joi na Hist6ria
do Brasil de Frei Vicente do Salvador ( 15 ) reponta o cuidado
de inserir a experiencia do colono em um projeto hist6rico Iu-
so-brasileiro. 0 que explica as crl'ticas de Fr. Vicente a relutfui-
cia do portugues em deixar o litoral seguro ( onde vive "como
caranguejo") e o conseqüente desleixo em face da riqueza po-
tencial da terra.
Pela vincula~ao constante que o historiador estabdece en-
tre informa>iio e poder, lembra de perto o autor dos Diillogos.
( 16) Do texto de Antonil h<i uma ecli~äo prefaciada por Afonso de
(15) FREI VICENTE DO SALVADOR (no seculo, Vicente Rodrigues Pa· Taunay (S. Paulo, Ed. Melhoramentos, 1923) c outra pela Profa. Alice
lha). Nasceu em Matoim, Bahia, em 1564 e morreu na mesma capitania Canabrava, Cia. Ed. Nacional, 1967. Cf. Jose Paulo Paes, "A A1ma do
entre 1636 e 1639. A Hist6ria do Brasil foi concluida em 1627, mas s6 Neg6cio", in Mistbio em Casa, S. Paulo, Comissäo de Literatura, 1961.
veio a ser publicada em 1889 por obra de Capistrano de Abreu.

28 29
,-
1

ECOS 00 BARROCO

L_
0 Barroco: espirlto e estilo

Seja qua! for a interpretac;äo que se de ao Barroco ( 17 ), e


sempre util ref!etir sobre a sua situac;äo de estilo p6s-renascen-
tista e, nos paises germänicos, p6s-reformista. ·
A Renascenc;a, fruto maduro da cultura urbana em alguns
centros italianos desde o prindpio da seculo XV, foi assumindo
configurac;öes especiais a medida que penetrava em nac;öes ainda
marcadas por uma poderosa presenc;a do esplrito medieval. No
caso portugues e espanhol, os descobrimentos marftimos leva-
tam ao apice uma concepc;äo triunfalista e messiiinica da Coroa
e da nobreza (rural e mercantil), concepc;äo mais pr6xima de
certos ideais cesaro-papistas da alta Idade Media que da dou-
trina do prlncipe burgues de Maquiavel. E durante todo o
secu!o XVI vincaram a cultura iberica fortes trac;os arcaizantes,
que a Contra-Reforma, a Companhia de Jesus e o malogro de
Alcacer-Quibir viriam carregar ainda mais ( 18 ).
Ora, o estilo barroco se enraizou com mais vigor e resistiu
mais tempo nas esferas da Europa neolatina que sofreram o
impacto vitorioso dos novos estados mercantis. E na estufa
da nobreza e do clero espanhol, portugues e romano que se
incuba a maneira barroco-jesultica: trata-se de um mundo ja em
defensiva, organicamente preso a Contra-Reforma e ao Imperio
filipino, e em luta com as areas liberais do Protestantismo e do
racionalismo crescente na Inglaterra, na Holanda e na Franc;a.
E instrutivo observar que o barroco-jesuitico näo tem nlti-
das fronteiras espaciais, ma• ideol6gicas. Floresce tanto na Aus-
tria como na Espanha, no Brasil como no Mexico, mas ja näo
se reconhece nas s6brias estruturas da arte coetiinea da Suecia e

( 17) V. Bibliografia, in fine.


( 1s) 0 seculo XVI foi o periodo aureo da Escolastica em Coimbra
e em Salamanca. Na literatura, a "medida velha", o teatro vicentino com
sua descendencia espanhola, a novela de cavalaria, a crönica de viagens e a
prosa ascetica e devota ilustram. a permanCncia das formas medievais.

jJ
da Alemanha, cujo "barroco" luterano ( que enforma a musica tante e vigiar-se para que 0 dogmatismo de uma op,ao näo nos
de Bach) e infenso a cxtremos gong6ricos da imagem e do som. Ea,a mergulhar na ininteligencia de uma das poucas atividades
Ha, portanto, um nexo entre o barroco hispin.ico-romano e to- que resgatam a estupidez humana: a arte.
da uma realidade social e cultural que se inflecte sobre si mes·
ma ante a agressiio da modernidade burguesa, cientifica e leiga. Suposto no artista harroco um distanciamento da praxis
( e do saber positivo ), entende-se que a natureza e o homem se
Tal inflexäo nio poderia ser, e a.äo foi, um mero retorno constelassem na sua fantasia como quadros fenomCnicos instS-
ao medieval, ao g6tico, a menie feudal da Europa pre-humanis- veis. lmagens e sons se mutuavam de v3rio modo sem que pu-
tica. A atmosfera do Barroco esta saturada pela experiencia do desse determinar com rigor o peso do identico, do ipse idem.
Renascimento e herda as suas formas de elocu>iio maduras e
crepusculares: o classicismo e o maneirismo. No entanto, a vi· A paisagem e os objetos afetam-no pela multiplicidade dos
seus aspectos mais aparentes, logo cambiantes, com os quais a
da social e outra; ourra a ret6rica em que se rraduzem as rela-
imagina,iio estetica vai compondo a obra em fun~iio de analo-
>öes quotidianas. Decalda a virtu renascimental em discrici6n
gias sensoriais. 0 orvalho e a pele clara podem valer pelo cris-
astuta quando niio hip6crita, mortificados os anseios humanisti- tal; 0 sangue peJo cravo Oll peJo rubi; 0 espeJho pela agua pura
cos, de que eram alto e belo exemplo a filosofia de _Pico della e pelo meta! polido. No mundo dos afetos, a "semelhan>•" en-
Mirandola, a pintura de Leonardo, o riso sem pregas de Ariosto volve os contrastes, de modo a camuflar toda perceP>iio nltida
e Rabelais, ensombra-se de melancolia o contato entre o artis· das diferen>as objetivas:
ta e o mundo: Tasso e Camöes, Cervantes e o Ultimo Shakespea-
re ja siio mestres de desengaiio. Incc!ndio em mares d'ligua disfar~do,
Rio de neve cm fogo convertido
Mas o esfriamento da antiga euforia niio destr6i os andai-
mes de uma linguagem construlda desde Giotto e Petrarca; ao ( Greg6rio de Matos)
contr:irio, säo os puros esquemas que restam e sustentam, nio
raro solitariamente, a vontade-de-estilo dos artistas. 0 c6digo lgual processo de identific3'1io ( ilus6ria, sensorial-näo ra-
sobreleva a mensagem: triunfa o maneirism~. cional) opera nos jogos de palavras, nos rrocadilhos e nos enig-
mas, fundados na similitude da imagem sonora de termos seman-
A aprecia,iio do Barroco tem oscilado entre a seca recusa, ticamente dispares:
comum aos cr!ticos da mensagem (De Sanctis, Taine, Croce) e
a quente apologia, peculiar aos anatomistas do estilo ( Woelfflin, Jaz a ilha chamada Itaparica
Balet, Spitzer, Damaso Alonso). As lacunas de ambas as pers- A qual no nome tem tambem ser rica.
pectivas niio siio diflceis de apontar: a nega>iio da arte barroca (Fr. Manuel Itaparica)
pela sua "carencia de conteUdo" e cega, pois e claro que o alhea·
mento da realidade, a fuga ao senso comum, enfim o descom· 0 labirinto dos significantes remete quase sempre a con-
promisso hist6rico e tambem conteudo. Quanta a atitude for- ceitos comuns que interessam ao poeta näo pelo seu peso con-
malista, resume-se em atribuir a priori um valor ao que se to- teud!stico, mas pelo fato de estarem ocultos. E o princlpio mes-
mara por objeto preferencial, OS esquemas, herdados peJa tradi- mo do conceptismo usar "de palavra peregrina que velozmente
>iiO classica e apenas rransfigurados ·por for,a de um complexo indique um objeto por meio de outro" ( Gracian, Arte de Inge-
ideol6gico. Ern suma, desvalorizar um poema barroco porque nio). 0 que importa, pois, e niio nomear plebeiarnente 0 obje-
"vazio" ou mitiza-lo porque rebuscadamente estilizado e, ainda to, mas envolve-lo em agudezas e tomeios de engenho, criterios
e sempre, cometer o pecado de isolar espfrito e forma, e nä.o basicos de valor na arte seiscentista. Os te6ricos da epoca siio,
atingir o plano da sintese estetica que deve nortear, em ultima nesse ponto, concordes:
instancia, o julgamento de uma obra. A tenta'8o, de resto, pa-
rece fatal, e näo sei de homem culto, por equilibrado que se Esta C a ArgUcia, grande mäe de todo conceito engenhoso, cla-
r:fssimo lumc da Orat6ria e P~tica Elocu-;äo, csplrito vital das
professe, que näo tenha alguma vez caido nela; mas o impor· mortas pSginas; prazeroslssimo condimento da Civil Conversa~o;

34 JJ
-~-. ·-==-------------------.--------------------------------
Ultimo esfor~o do lntelecto, vestigio da Divindadc na Alma Humana. so de uma sociedade que ja se liberou do absolutismo por direito
O falar dos Hamens Engenhosos tanto sc diferencia dos Plebeus,
quanto o falar das Anjas do das Hamens ( Emmanuclc Te- divino e come~a a praticar um misto de Ilustra~ä:o e gßlante li-
sauro) ( 19). bertinagem.
E na ace~ä:o estrita de "ret6rica pela ret6rica" Benedetto
Baltasar Graci:ln define a agudeza como "esplendida con- Croce esconjurou o Barroco definindo-o "forma pratica e näo es-
cordincia, correla~ä:o harmoniosa entri dois ou tr!s extremes ex- tetica do espfrito" (isto e, da VOfltade e näo da intuii;tio) e CO·
presses em um Unico ato de entendimento"( 20). mo tal, "varietä. del brutto"( 23 ).
A obsessiio do novo a qualquer pre~o e contraponto de uma Seja como for, a rejei~iio de uma certa poetica do Barroco
ret6rica ja repetida a saciedade. Valoriza-se naturalmente o que niio dispensa o crltico de esmiu~ar os tra~os de estilo das poe-
näo se tem: e mister "procurar coisas novas para que 0 mundo mas da epoca nem de sondar-lhes a genese cultural e afetiva.
resulte mais rico e n6s mais glorioses", diz o maior estilista bar·
roco italiano, Daniele Bartoli ( 21). 0 primeiro passo para o deslinde da morfologia barroca loi
A poetica da novidade tanto no plano das ideias ( conceptis· dado pelo historiador de arte Heinrich Woelfflin, cujo texto
mo) como no das palavras ( cultismo) desagua no efeito ret6ri- Renaissance und Barock ( 1888) abriu uma nova problematica
co-psicol6gico e na explora~iio do bizarro: que ainda hoje preocupa os estudiosos da forma. Mas s6 nos
Conceitos Fundamentais de Hist6ria da Arie ( Kunstgeschichtli-
E del poeta il fin la maraviglia, che Gründbegriffe), definiria a passagem ideal do c/Jssico ao
chi non sa far stupir vada alla striglia ba"oco em termos de uma passagem
( Giambattista Marino)
do linear ao pict6rico,
0 limite inferior dessa arte e o cerebrino. Corno diz Octa· da visäo de superficie a visiio de profundidade,
via Paz: "G6ngora niio e obscuro: e complicado" ( 22 ). E foi da forma fechada a forma aberta,
esse o limite das imitadores de G6ngora e de Marino, como um da multiplicidade a unidade,
certo Claudio Achillini que, apostrofando o 1ogo no trabalho da da clareza absoluta das objetos a clareza relativa.
forja, clamava:
Sudate o fochi a preparar metalli. Pict6rico inclui "pitoresco" e ucolorido"; projundo impli-
ca desdobramento de planes e de massas; aberto denota pers-
0 rebuscamento em abstrato e sem duvida 0 lado esteril do pectivas mU.ltiplas do observador; uno subordina, por sua vez, os
Barroco e o seu estiolar-se em barroquismo. Contra essa dete- vSrios aspectos a um sentido; clarez.a relativa sugere a possibili-
riora~iio do espfrito criador iriam reagir em Portugal e Espanha, dade de formas de expressiio esfumadas, ambiguas, näo-finitas.
nos meados do seculo XVIII ( e meio seculo antes, na ltalia) OS Na mesma esteira de analise interna, e contrapondo Classi·
poetas arcades, . ja imbuidos de ·neoquinhentismo e do "bom cismo e Barroco, de forma supratemporal, como duas categorias
gosto" frances. E o Rococ6 do seculo XVIII pode-se explicar eternas da arte, Eugcnio D'Ors (Du Baroque, 1913) inclui na
como um Barroco menor, mais adelga~ado e polido pelo consen- primeira "as formas que pesam" e na segunda uas formas que
voam".
(19) Apud Anceschi, Del Barocco e altre prove, Florenc;a, Vallecchi, Todos esses caracteres quadram bem a um estilo voltado
1953, p. 10. - H para a alusao ( e niio para a c6pia) e para a ilusii.o enquonto fuga
( 20) Apud R. Wellek, Hist6ria da Critica Moderna, Sao Paula, er- da realidade convencional.
der, vol. 1, p. 3.
(21) Apud Anceschi, op. cit., p. 15.
(22) Ern Corriente Alterna, Mt!xico, Siglo XXI, 1965, p. 6. (23) Ern Storia de!i'etll barocca in ltalia, Bari, Laterza, 1929.

36 J7
Pela riqucza de pormenoreS que encerra, transcrevo ahaixo XVIII pareceram de desvairado mau gosto, como ja pareciam
uma descric;äo da arquitetura barroca feita pelo crltico de arte perversöes do Classicismo a um Galileo, Ultima voz da imeli-
Leo Balet, que acentua a vo!Upia do movimento: gencia florentina, e aos cartesianos da corte de Luis XVI ( 25 ).
Na arquitctura o movimcnto ja aparcce nas plantas baixas quc
E entenderemos tambem a imagem barroca da vida como um so-
cm plena expansio rompem com as formas gcomCtricas fundamcn- nho (La vida es sueiio, de Calder6n), como uma comedia (EI
tais e por mcio de curvas c dobras~ caprichosas, saliCncias c recn· gran teatro del mundo). como um labirinto, um jogo de espe-
träncias abrandam toda a rigidez. As fachadas de igrcjas, dividi- lhos, uma festa, na llrica de G6ngora, de Marino, de Lope. Ern
das muitas vczcs cm cinco partes, os muros que se torcem como suma, entenderemos o triunfo da ilusäo que um desenganado mo-
serpentcs, os tetos que se arqueiam e as torrcs que se alargam c se
afina.m, saltam c se precipitam para cima sempre com novos arre- ralista napolitano, Torquato Accetto, Jouvou sob o nome de udis-
messos e, quando pcnsamos que a sua indocilidade vai finalmente simulazione onesta" e o seu contemporineo Graci:in estimava
acalmar-se, atiram ainda, atrevidamente, por cima das massas arqui· como o "dom de parecer".
tetdnicas algumas pontas semelhantes a foguetes cm ~o a imen-
sidade do cCu. Nas igrejas c castclos, onde cstcs eram de certo mo-
do acessiveis, antepunha-se um sistema de escadarias que, como cas-
catas de pedra, pareciam irrompcr do intcrior e larga e pesadamen- 0 Barroco no Brasil
tc;. prccipitar-se sobre o terreno. AtC mesmo a coluna de suporte, o
mais estatico dos elementos construtivos, foi animada. Torciam-se No Brasil houve ecos do Barroco europeu durante os seculos
cm espirais pelos altarcs acima. Tudo o que cra iispero se abran-
dava. Frisas bojudas saiam das superficies planas, encurvavam.-sc XVII e XVIII: Greg6rio de Matos, Botelho de Oliveira, Frei
os ingulos, as volutas volteavam-se sobre si mcsmas e rolavam como Itaparica e as .primeiras academias repetiram motivos e formas
vagas. 0 interior dos edificios era atapetado de ornamentos em do barroquismo iberico e italiano.
forma de folhas e ramos c, depois, de rocalhas, quc sc csgueiravam
pclas molduras. Nenhum m6vel permanccia, afinal, cstavel. Tudo
Na segunda metade do seculo XVIII, porem, o ciclo do
oscilava e dant;ava sobre pernas recurvadas, atravO das salas que ouro ja daria um substrato material a arquitetura, a escultura e
palpitavam de uma vida misteriosa, e que, com as paredcs de espe- a vida musical, de sorte que parece llcito falar de um "Barroco
lhos, eram inatingfveis, ilimitadas e infinitas. Tudo era construido brasileiro" e, ate mesmo, "mineiro", cujos exemplos mais signifi-
sobrc luz e sombras para assim completar a 1Iusäo dos ediffcios quc cativos foram alguns trabalhos do Aleijadinho, de Manuel da
se moviam e respiravam em todas as suas pa.rtes ( 24).
Costa Ataide e composic;öes sacras de Lobo de Mesquita, Marcos
Coelho e outros ainda mal identificados ( 26 ). Sem entrar no me-
E de esperar que os recursos dessa visäo do mundo· sejam, rito destas obras, pois s6 a analise interna poderia informar sobre
na poesia, as figuras: sonoras (alitera~io, assonincia, eco, ono- o seu grau de originalidade, importa lembrar que a poesia coeta-
matopeia ... ), sintaticas ( elipse, inversäo, anacoluto, silepse ... ) nea delas ja näo e, senäo residualmente, barroca, mas rococ6, ar-
e sobretudo semänticas (metafora, metonlmia, sinedoque, anti·
c::idica e neocl3ssica, havendo portanto uma discronia entre as
tese, cHtnax ... ), enfim todos os processos que reorganizam a
formas expressivas, fenömeno que pode ser variamente expli-
linguagem comum em fun~äo de uma nova realidade: a obra, o
cado. Acho razoavel a hip6tese de que o nivel de consciencia
texte, a composi~o. ·
Se partirmos da cxegese do estilo barroco em termos de cri·
se defensiva da Europa pre-industrial, aristocratica e jesuitica, ( 25) Galileo rejeita o cultismo e declara preferir a clareza de Ariosto
perante o avan~o do racionalismo burguSs, entio entenderemos ä.s sombras de um T asso prC-barroco ( Considerazioni intorno alla Geru-
o quanto de angilstia, de _desejo de fuga e de ilimitado subjetivis- salemme Liberata). Na F.rant;a cai logo em ridiculo a "prCciosit6" c, no
mo havia nessas lormas. Aos esplritos racionalistas do seculo plano Ctico, um Pascal janscnista satiriza o laxismo dos jesuftas tiio grato
a nobreza (Les Provinciales; d. a bela analise de L. Goldmann, Le Dieu
cacbe, Gallimard, 1956).
(24) Apud Hannah Levy, A Prop6rito de Trer Teoriar robre o Bar- ( 26) Cf. Fernando Correia Dias, "Para uma sociologia do Barroco
roco, Pub!. do GrCmio da Faculdade de Arquitctura e Urbanismo da Univ. mine:iro", in Barroco, Revista de Ensaio c Pcsquisa. ano 1, n.• 1, 1969,
de S. Paulo, 19'5, p. 18. pp. 63-74.

JB J9
dos produtores da literatura arddica se achava muito mais pr6-
1
1

ximo da Ilustrac;äo burguesa europeia do que o dos mestres-de-


-obra e compositores religiosos de Minas e Bahia ( cujos modelos
remontam ao Barroco seis-setecentista). Assim, o Aleijadinho;
gue esculpe e constr6i nos !ins do seculo XVIII, ignora o Neo-
classicismo; e a musica de Lobo de Mesquita e de Marcos Coe-
lho Neto lembra Vivaldi e Pergolese e quando nos sugere ca-
dencias de Haydn, trata-se antes do Haydn sacro, mel6dico e
italianizante (logo, ainda barroco) do que do mestre da sinfo- AUTORES E OBRAS
nia clBssica ( 27 ).
De qualquer modo, e possivel distinguir: a) ecos da poe- l
sia barroca na vida colonial ( Greg6rio, Botelho, as academias) A "Prosopopeia" de Bento Teixeira
e b) um esrilo colonial-barroco nas artes plBsticas e na mUsica,
que s6 se tornou uma realidade cultural quando a explorac;äo
1
Na esteira do Camöes c!pico e das epopCias menores das
das minas permitiu o florescimento de nucleos como Vila Rica, fins do seculo XVI, o poemeto em oitavas her6icas A Prosopo-
Sahara, Mariana, Sao Joäo d'El Rei, Diamantina, ou deu vida no- peia, de Bento Teixeira ( 28 ), publicado em 1601, pode ser con-
va a velhas cidades quinhentistas como Salvador, Recife, Olinda siderado um primeiro e canhestro exemplo de maneirismo nas
e Rio de Janeiro. letras da colönia ( 29 ) •
A intens:äo e encomiastica e o objeto do louvor Jorge de
Albuquerque Coelho, donatario da capitania de Pernambuco, que
encetava a sua carreira de prosperidade gras:as a cana-de-a<;Ucar.
A imitac;iio de Os Lusiadas e assfdua, desde • estrutura ate 0 USO
dos chavöes da mitologia e dos torneios sintaticos. 0 que ha de
näo-portugues ( mas näo diria: de brasileiro) no poemeto, como
a "Descris:äo do Recife de Pernambuco", "Olinda Celebrada" e
o canto dos feitos de Albuquerque Coelho, entra a tftulo de lou-
vat;äo da terra enquanto colönia, parecendo precoce a atribuic;äo
de um sentimento nativista a qualquer dos passos citados.
( 28) BENTO TEIXEIRA ( 1561, Porto - 1600, Lisboa). Cristäo-novo,
priroeiro caso de intelectual leigo na hist6ria do Brasil: formou-se no Cole.
gio da Bahia onde ensinou atf fugir para Pemambuco, af se homiziando
por ter assassinado a esposa. A redac;äo da Prosopo:peia data desse perfodo
e tera sido ditada pela urg~ncia de assegurar o benepltlcito <los poderosos.
Processado e preso pela lnquisic;äo, que o acusa de pr8ticas judaizantes,
confessa e abjura pouco antes de morrer. Ver Galante de Sousa, Em torno
do poeta Bento Teixeira. S. Paula, Instituto de Estudos Brasileiros, Univ.
de S. Paula, 1973.
( 29) 0 termo entende-se aqui: a) na sua ace~o mais pobre de
estilo (J maneira de um autor jS: consagrado, no caso, a maneira de Ca-
( 27) Cf. Curt Lange, "La mUsica en Minas Gerais durante el siglo
XVIII", in Revista S.O.D.R.E., Montevideu, 1957. Idem - "A Or-
ganiza\iio musical durante o periodo colonial brasileiro", nas Actas do V
l möes; b) na ace~ao de prb-barroco, s6 enquanto ilustra a tendbtcia lite-
rS:ria, pr6pria dos fins do seculo XVI, de retomar como valores em si
modos de expressao do Renascimento tardio (Cf. Fidelino de Figueiredo,
Col6quio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, Universidade de Coim- A Epica Portuguesa no Seculo XVI, S. Paulo, Faculdade de Filosofia,
bra, 1966, vol. IV. \ Ciencias e Letras da Universidade de Sao Paula, 1938),

40 1 41
1

1
j
1

Greqorio de MatOt1 Muitos mulatos desavergonhados,


1
Trazidos sob os pCs de homens nobrcs,
Pocsia muito mais rica, a do baiano Greg6rio de Matos Guer- Postaa nas palmas toda a picardia,
ra ( 162.3-1696), que interessa näo s6 como documcnto da vida 1 Estupendas usuras nos mcrcados,
Todos os que näo furwn muito pobres:
~
social dos Seiscentos, mas tambem pelo nfvel artfstico quc E eis aqui a cidadc da Bahia.
atingiu (so ).
("Descrwe o que era natJuele Jempo a cidade da Bahia")
Greg6rio de Matos cra homem de boa forma~io bumanfs-
tica, doutor in utroque ;ure pela Universidade de Coimbra: ma· ~ As suas farpas dirigiam-se de preferencia contra os fidalgos
zclas e azarcs tangeram-no de Lisboa para a Bahia quando ja se "caramurus" em que ja acusa a presen~a de sangue indio:
abeirava dos cinqüent'anos; mas entre n6s nao perdcu, antes cs- Quc c fidalgo nos ossos cremos n6s,
pica~ou o vezo de satirizar os desafetos pessoais c politicos, mo- Pois nisso consistia o mor brasäo
Daqueles que comiam seus avcSs.
tivo de sua deporta~io para Angola de onde voltou, um ano an-
tes de morrer, indo parar em Recife que foi a sua Ultima morada. E como isto lhc vcm por gerar;äo,
Lhe ficou por costwne cm seus teir6s
Tcm-se acentuado os contrastes da produ~äo literliria de Gre- Mordcr os que prov~ de outra na~ .
g6rio de Matos: a satira mais irreverente altema com a contri· ("A certo fidolgo caramuru")
~äo do poeta devoto; a obscenidade do "capad6cio" (Jose Verls·
simo) mal se casa com a pose idealista de alguns sonctos petrar- Greg6rio moteja aqueles senhores de engenho que, ja me.s-
quizantes. Mas cssas contrad~öes nao devem intrigar quC'm co- ti~ados de portugues e tupi, presumiam igualar-se em prosap1a
nhece a ambigüidade da vida moral que servia de fundo a edu- com a velha nobreza branca que formaria o "antigo estado" da
ca~ao iberico-jesuftica. 0 desejo de gozo e de riqueza säo mas- Bahia. E e com olhos de saudade e culpa que o poeta ve o novo
carados formalmente por uma ret6rica nobre e moralizante, m~s mercador lusitano e OS associados deste na Colönia avidos de
afloram com toda brutalidade nas rela~öes com as classes servts lucro e interessados em trocar por ninharias o ouro doce das
que delas saem mais aviltadas .. D~i.' o "populi~mo" chu~o .que moendas. No forte e bem travado soneto "Triste Bahia", Gre-
irrompe as . vezes e, longe de s1gruf1car uma autude antiaris:o- g6rio se identifica com a sua terra espoliada pelo negociante de
e
cratica, nada mais que valvula de esca~e p~~-a i.relhas obsessoes fora, o " sagaz Brichote", e impreca a Deus que fa~a tomar o
sexuais ou arma para ferir os poderosos mveia~os . Conhece,?l:se velho tempo da austeridade e da contensäo:
as diatribes de Greg6rio contra algumas autortdadcs da c5>lorua, Triste Bahia! 0 quio dessemelhante
mas tambem palavras de desprezo pelos mesti~os e de cobi~a pefas Estlis e estou do nos5o antigo esta.do!
Pobre te vejo a ti, tu a mi cmpcnhado,
mulatas. A situa~äo de "intelectual" branco näo bastante pres- Rica te vi eu jli, ni a mi abundante.
tigiado pelos maiores da terra ainda mais lhe pungia o amor-pro-
A ti trocou-te a m'quina mercante,
prio e o levava a estiletar as cegas todas as classes da nova so- Que em tua Jarga barra tem entrado,
ciedade: A mim foi-me trocando, e tem trocado,
A cada canto um grande ·-conselheiro. Tanto neg6cio e tanto negociante.
Quc nos quer governar caba~a e vinha; Dcste em dar tanto a~car excclcntc
Näo sabcm governar sua cozinha, Pelas drogas imltcis, que a~clhuda
E podem governar o mundo inteiro. Simples aceitas do sagaz Brichote.
Ern cada porta um bem freqücnte olheiro,
Que a vida do vizinho c da vizinha Oh se quisera Deus que de repente
Pesquisa, cscuta, cspreita c esq.uadrinha,
Um clia amanhcceras tio sisuda
Que fora de algodio o teu capote!
Para o levar ii prar;a c ao terre1ro.
Araripe JUnior, n~ 7studo que. dedico~ .a Gr~g6rio, deixou
( 30) Cf. a edir;äo mais completa de suas poesias, cm 7 vols., pela Edi- claro que 0 tipo de com1Cldade peculiar ao satlro baiano e 0 opos-
tora Janaina, Bahia, 1968. Sobre o poeta: S. Spina, Greg6rio de Matos, cm to da "alegria gaulesa" de Rabelais, tolerante no ~u descansado
A Literatura no Brasil (dir. de Afranio Coutinho), Rio, Ed. Sul-America-
na, 1955, vol. 1, t. 1, pp. 363,376; Jose Miguel Wisnik, Greg6rio de Matos epicurismo. "Nada disso se encontra em Greg6rio de Matos.
- Poemas Escolhidos, S. Paulo, Cultrix, 1977.
42 I· 4)
\.
1
Ü efeito para OS leitores de hoje e COffilcO e talvez mais ludico
Pessimismo objetivo, alnia maligna, carater rancoroso, relaxado
por temperamento e costumes, o poeta do "Marinicolas" verte do que satirico; mas no contexto da cultura do tempo decerto
fel em todas as suas satiras; e, apesar de produto imediato do soava forte a nota mordaz, ja que o alvo de Greg6rio era pör
meio em que viveu, desconhece a sua cumplicidade, pensa rea- em ridkulo os fumos das "principais da Bahia", "cujo torpe
gir quando apenas o traduz, cuida moralizar quando apenas se idioma e Cobepa" :
enlameia" ( si). • Ha coisa como ver wn Paiaia
A truculencia do juiz e a outra face do trovador obsceno: Mui prezado de ser Caramuru,
contraste primario que, dada a mediania humana e ardstica de Descendente do sangue de tatu,
Greg6rio, näo desagua no eros religioso atingido pela alta poesia .1 e
Cujo torpe idioma Cobepa?
i) A linha feminine e Carima,
barroca de Tasso e Donne, Silesius e Sor Juana Ines de la Cruz. Muqueca, pititinga, caruru,
Resta ver a for<;a artesanal, que e patente em um verseja- Mingau de puba, vinho de caju
dor habil como Greg6rio. Alguns de seus sonetos sacros e amo- Pisado nwn piliio de Piraja.
rosos transpöem com brilho esquemas de G6ngora e de Queve- A masculina e um Arioobe,
do e valem como exemplos do gosto seiscentista de compor s1- Cuja filha Cobe, c'um branco Pai
miles e contrastes para enfunar imagens e destrin<;ar conceitos. Dormiu no promont6rio de Passe.
Concretizando, por exemplo, a intui<;ao do tempo fugaz, 0 branco e um Marau que veio aqui:
assim fecha um soneto quase-plagio de G6ngora: Ela e uma fndia de Mare;
Copeba, Aricobe, Cobe, PaL
0 niio aguardes, que a madura idade
Te converta essa flor, essa bele2a, Ern toda a sua poesia o achincalhe e a demincia encorpam-
Em tetra, em cinza, em p6, em sombra, em nada. -se e movem-se a for~a de jogos sonores, de rimas burlescas, de
Ou, moralizando sobre a vaidade da vida terrena, motivo uma sintaxe apertada e ardida, de um l6xi.co incisivo, quando
barroco por excelencia, distribui sabiamente as imagens da rosa, näo retalhante; tudo o que da ao estilo de Greg6rio de Matos
da planta e da nau para reuni-las enfim no Ultimo terceto: uma verve näo igualada em toda a hist6ria da satira brasileira
E a vaidade, Fabio, nesta vida,
Rosa, que da manhii lisonjeada,
- posterior.
PUrpuras mil, com ambicao dourada, Botelho de Olivei:ra
Airosa rompe, arrasta presumida.
:B plante, que de abril favorecida Mas nada ilustra tao cabalmente a presen~a do gongorismo
Por mares de soberba desatada, entre q6s do que a obra de Manuel Botelho de Oliveira ( 1636-
Florida galeota cmpavesada, -1711 ) , tambem baiano e bacharel em Direito pela Universida-
Sulca ufana, navega destemida. de de Coimbra. Deu a publico em 1705 a col~o das seus poe-
E nau enfim, que em. breve ligeireza. mas sob o tftulo de Musica do Parnaso - dividida em quatro co-
Com a presuncao de Fen~ generosa,
Galhardias apresta, alentos preza: ros de rimas portuguesas, castelhanas, italianas e latinas, com seu
descante comico reduzido em duas comedias ["Hay amigo para
Mas ser planta, ser rosa, nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa amigos" e " Amor, Engafios y Celos"] ( 82 ).
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa? Estamos diante de um poeta-literato stricto sensu, capaz de
( Desenganos da vida humana metaforicamente) escrever com igual perkia em quatro idiomas e nas varias for-
Um veio novo, aberto pelo poeta nesses anos de triunfo do mas fixas herdadas aos trovadores e aos renascentistas: sonetos,
cultismo iberico, foi o recurso a vozes da Hngua tupi (e, mais ( s2) Ed. recomendavel e a 3.•, prefaciada e organizada por Antenor
raramente, africana), fiando-as no tecido da sua dic~äo barroca. Nascentes (Rio, Institute Nacional do Livre, 1953 ). De edi~äo recente
e a Lyra Sacra (S. Paula, Comissao Estadual de Literatura, 1971), cujo
(31) Em Greg6rio .de Matos, Rio, 1849; citado da Obra Critica, Rio, pr6logo vem datado de 1703.
MEC, 1960, vol. II, p. 389.

44 45

l
)
madrigais, redondilhas, romaro:es, epigramas, oitavas, dCcimas ...
O virtuosismo em Botelho de Oliveira apela abertamente para
OS modeios da epoca, que eie cita llO pro!ogo chamando-Jhes 0
l Cito ao acaso dos Coros de rimas portuguesas, lembrando
que naturalmente s6 os contextos esclar!'cem os slmiles ocultos ...
Os jogos anal6gicos remetem a uma perspectiva inst8vel e ex-cen·
delicioso Marino, o culto G6ngora, o vastlssimo Lope. E a lei- trica do homem no mundo. Tudo se parece, e os extremos que
tura da Musica da Parnaso da um mostruano completo das fi- se tocam podem fundir-se por obra da metamorfose, outro prin-
guras repisadas pelos barroquistas, cuia anBlise ja foi feita pa- dpio iluminador dos processos barrocos.
cientemente por Eugemo Gomes no ensaio "0 Mito do Ufanis- Outra constante da linguagem marinista e o acentuar dos
mo"( 33 ) para o qua! remeto o leitor interessado. contrastes, reduzindo-os ao paradoxo, isto e, a violenta jun~äo
Parece-me, porem, util insistir em duas matrizes que subja- dos opostos. Estilo do "eterno retorno", precisa do diferente,
zem aos diversos processos estilisticos de Botelho, pois valem do outro, mas s6 para explorar o amalgama dos contrarios. Que
para o gongorismo em geral. a fusäo se opere apenas no plano sonoro ou imagis tico e näo no
A primeira reside no principio da analogia desfrutado em plano l6gico-semiintico, e prova do carater arbitrario, ludico, da
todas as suas possibilidades; gra~as a ele, qualquer aspecto da visäo barroca da existf:ncia. As combina~öes engenhosas säo uma
realidade sera refrangido em imagens tomadas • contextos se- casca pintada da ordern vislvel a ocultar o acaso, a desordem
manticos diversos. Se, por exemplo, o poeta quer fa!ar da for- real e o alheamento do artista em relac;äo a uma natureza racio-
mosura da amada, a analogia-chave com o so! abre-se em leque: nal. E no fundo, a ideologia do barroco iberico e a negai;äo da-
e o sol voltar:i como esfera, luz, chama, raio e sombra ("Sol e quele real, c6smico e humano, cognosdvel, que fora o objeto
Anarda"). Chora a bela Anarda? Aljöfar, fio, chuva, cristais e do pensamento renascentista e que a filosofia de Descartes, de
prata serao seu pranto ( Ponderafiio das lagrimas de Anarda). Bacon e de Locke estavam procurando abra~ar.
Ou e o porte de mulher inacess!vel que encanta o poeta? Entao
a indiferen~a sera vento, seta de prata, nuvem denegrida, golpe, Essa ideologia faz do poema o ponto de encontro das trans-
tormento e tempestade ( Rigores de Anarda por ocasiiio de um forma~öes imposslveis:
temporal). E vao por ai as metaforas e os slmbolos, mais co- Ardem chamas n'tigua, e como
piosos na llrica barroca do que em qualquer oiltro estilo hist6rico. vivem das chamas, que apura,
A analogia, aproximando palavras em f~ao de suas cama- säo ditosas Salamandras
as que säo nadantes turbas.
das senslveis ou l6gicas, tambem conduz a colagens bizarras de
substantivos e adjetivos cujo efeito e 0 puro ins6lito: Meu peito tamb6D, que chora
de Anarda ausencias perjuras,
lagrimoso alento, o pranto em rio transforma,
nOcar lastimoso, o suspiro em vento muda.
resplandor queixoso,
propinas forfosas, ( Anarda passando o T eio em uma barca)
ingrato sol,
males desvefiuJos, E bem. que desate Anarda
piedosas grandezas, de tanto sangue os embargos,
belas suieiföes, sendo o sangue rio alegre,
tempestades lagrimosas, sendo Anarda abril galhardo.
pasmos lindos,
azeviche tibio,
brigas fermosas. Se bem num e noutro efeito,
laz Amor milagre rare;
(SS) Em A Literatura no Brasil, vol. I, t. 1, cap. 12 (V. Bibliografia, pois a neves "Une rosas,
in fine). 0 leitor tambem encontrarii. uma boa caracterizat;äo formal de Bo-
pois dezembros une a maios.
telho e de toda a poesia gong6rica brasileira em P&icles EugCnio da Sil-
va Ramos, Poesia Barroca, Antologia, Ed. Melhoramentos, 1967, pp. 9-26. ( Anarda sangrada)

46 41
Contra amorosas venturas
E de Medusa teu !osto, t~nio Vieira ( Llsboa, 1608 - Bahia, 1697 ). Figuras secunda-
E nos castigos do gosto tlas, ~as de modo algum medlocres, Q Padre Eusebio de Matos
Sao cobras as iras duras; (Babia, 1629-92), irmäo do poeta Greg6rio eo Padre Antönio
As transformai;öes seguras de Sa (Rio, 1620-78). '
Achariis em meus amores;
Pois ficando nos ardores Existe um Vieira brasileiro, um Vieira portugues e um Viei-
Todo mudado em finez.as, ra ~uropeu, e es.sa riqueza de ~öes deve-se näo apenas ao
Sou firme pedra as tristezas, carater supranaoonal da Companhla de Jesus que ele täo bem
Sou dura pedra aos rigores.
( Compara,äo do rosto de Medusa com o de Anarda) encarnou, como 8. sua estatura humana em que näo me parece
exagero recoohecer tra~s de genio.
Costuma-se lembrar de Botelho de Oliveira o poemeto A
Ilha da Mar~ - Tenno desta Cidade da Bahia, em tudo gong6- No fulcro da personalidade do Padre Vieira estava o dese-
rico, e que tem sido destacado da Musica do Parnaso por mera jo da a>äo. A religiosidade, a s6lida cultura humanfstica e a pe-
razäo de assunto: descreve um recanto da paisagem baiana e alon- ri.cia verbal serviani, nes~c m~tante incanstivel, a projetos gran-
ga-se na exalta~äo do clima, dos animais, das frutas. 0 criterio diosos, quase. sempre qwmet1':°s, mas todos nascidos da utopia
nativista privilegiou esses versos ( que näo raro afloram o ri- contra-reform1sta de uma lgreia Triunfante na Terra sonho me-
diculo) vendo nos encömios aos melöes e as pitombas um tra- clieval que um Imperio portugues e missionario to;naria afinal
realidade.
~o para afirmar o progresso da nossa consciencia liter3ria em
detrimento da Metropole. Mas um criterio formal rigoroso niio Antönio Vieira nasceu em Lisboa mas ainda menino veio
chegaria por certo 3.s mesmas conclusöes com os pais para a Bahla. Af estudou' no Colegio dos jesultas.
0 seu brilho de precoce orador e latinista despertou a aten~iio
Menores dos superiores que o incumbiram de ensinar Ret6rica aos novi-
0 mesmo se da com a Descrifäo da Cidade da Ilha de Ita- >Os de Olinda. Ordenado em 1634, encetou a carreira de pre-
parica, poema de Frei Manuel de Santa Maria ltaparica ( Bahla, gador que logo cooheceu o exitQ do Sermäo pelo bom sucesso das
1704 -? ) , autor tambem de uma epopeia sacra, Eustaquidos armas de Portugal contra as de Holanda, celebre pela "ap6stro-
( 1769). Ern ltaparica, menos do que uma"voz do puro culris- fe atrevida" a Deus para que sustasse a vit6ria dos hereges fu-
mo e mais acertado ver um fraqulssimo imitador de Camöes e . turos destruidores das imagens sagradas: Exsurge, quare obdor-
dos epicos menores do seculo XVII. Outro camoniano, Diogo mi.<, Domine? As guerras· do seculo entre as potencias mercan-
Grasson Tinoco, provavelmente paulista, autor de um poema tis pelo monop6lio do a.Ucar afiguravam-se ao jovem levita for-
sobre 0 descobrimento das "esmeraldas"' s6 e conhecido em vir- midandos embates teol6gicos e ele faz seus os anatemas do ca-
tude da men~äo que lhe faz Clauclio Manuel da Costa no poema tolicismo espaohol contra os calvinistas.
"Vila Rica", transcrevendo-lhe quatro estincias, as Unicas que Mal chega il Bahla a notlcia da restaura~o, Vieira parte pa-
chegaram ate n6s. Pelo fragmento depreende-se que a obra de ra Lisboa. Com~va o compromisso com a tenta>äo jesuftica
Grasson Tinoco seria um documet;tto estim3vel das bandeiras nos de dar cobertura ideol6gica aos projetos do poder, como faria,
fins dos Seiscentos. com mais Cxito, o seu contempor3neo Bossuet no T raite de Po-
Pernambuco, invadido pelos holandeses, conheceu tambem litique tiree de l'fi.criture Sainte. Mas o.Portugal de D. Joäo IV,
o seu epico, Frei Manuel Calado, autor de V aloroso Lucideno e egresso de sessenta anos de dominio espanbol, atado pela Inqui-
Templo da Liberdade ( 1648), em louvor de Joiio Fernandes Viei- si~äo e pela ruinosa politica de preda>iio colonial, näo era a
ra, o her6i portugues da resistencia. A maneira e toda camoniana- Fran>a ascendente de Luls XIV. E os sonhos de Vieira, mais
A prosa. Vieira. ousados que os tacteios da Casa de Bragan,a, passaram a cho-
ca~-se com toda sorte de resistencias.
A prosa barroca esta representada em primeiro plano pela
orat6ria sagrada dos jesultas. 0 nome central e o do Padre An- No seu esplrito verdadeiramente barroco fermentavam as
ilusöes do estabelecimento de um Imperio luso e cat6lico, respei-
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tado por todo o mundo e .servido·pelo zelo do rei, da nobreza, nos ha de fazer duas covas de mandioca? Häo de ir nossas mu-
do clero. A realidade era bem outra; e do descompasso entre lheres? Häo de ir nossos filhos?"), responde virilmente: "Quan-
ela e os planos do jesulta lhe adveio mais de um reves. Corno do a necessidade e a consdenda obrigam a tanto, digo que sim,
interprete fantasioso dos textos biblicos em fun>äo do sebastia· e torno a dizer que sim; que v6s, vossas mulheres, que vossos
nismo popular ( 34). ve frustradas as suas profecias alem de atrair filhos, e que todos n6s nos sustentissemos dos nossos bra9Js;
suspeitas para as suas obras "heretica§" Quinta Imperia, Hist6· porque melhor e sustentar-se do suor pr6prio, que da sangue
ria da Futura e Clavis Praphetarum. alheio. Ah! fazendas do Maranhäo, que se esses mantos e essas
Advogado dos cristäos-novos (judeus conversos por medo capas se torceram, haviam de lan~ar sangue!"
ils persegui~öes), suscita o 6dio da lnquisi,äo que o mantera a . Nem se diga que Vieira foi insensivel ao escravo negro pre-
ferros por dois anos e lhe cassara o uso da palavra em todo Por- terindo-o no ardor da defesa ao indigena. No Sermäa XIV da Ra-
tugal. Enfim, batido na Europa, conhece no Maranhäo as iras sario, pregado em 1633 a Irmandade dos Pretos de um engenho
dos colonos que näo lhe perdoam a inoportuna defesa do nativo. baiano, ele equipara os sofrimentos de Cristo aos dos escravos,
0 saldo de suas lutas foi portanto um grande malogro. E ideia tanto mais forte quando se lembra que os ouvintes eram os
a Portugal näo restava senäo palmilhar o caminho da decadencia pr6prios negros:
resumido no desfrute cego das riquezas coloniais, entäo o a.Ucar, "Ern um engenho sois imitadores de Cristo Crucificado: por-
logo depois o ouro, que iria dar seiva ao capitalismo ingles em que padeceis em um modo muito semelhante o que o mesmo
gesta~äo. Senhor padeceu na sua cruz, e em toda sua paixäo. A sua cruz
De Vieira ficou o testemunho de um arquiteto incansavel de foi composta de dois madeiros, e a vossa em um engenho e de
sonhos e de um orador complexo e sutil, mais conceptista do que tres. ( ... ) Cristo despido, e v6s despidos; Cristo sem comer,
cultista amante de provar ate o sofisma, eloqüente ate a ret6- e v6s famintos; Cristo em rudo maltratado, e v6s maltratados
rica, m~s assim mesmo, ou por isso mesmo, estupendo artista da em tudo." Ao engenho de at;Ucar chama udoce inferno" pin-
tando-o com todas as cores que a sua imagina~äo medieval e ina-
palavra.
ciana Ihe sugeria. No entanto, esse poder de fantasia näo ene-
E de leitura obrigat6ria o Sermäa da Sexagesima, proferido voava na consdenda do homem o fato bruto da explora~ao do
na Capela Real de Lisboa, em 1655, e no qua! o orador expöe servo pelo senhor: "Eies mandam, e v6s servis; eles dormem, e
a sua arte de pregar. v6s velais; eles descansam, e v6s trabalhais; eles gozam o fruto
Ao leitor brasileiro interessam particularmente: de vossos trabalhos, e 0 que v6s colheis deles e um trabalho so-
- o Sermäa da Primeira Daminga da Quaresma, pregado bre outro. Näo ha trabalhos mais doces que os das vossas ofid·
no Maranhäo, em 1653. Nele o orador tenta persuadir os colo- nas; mas toda essa do~ra para quem e? Sois como as abelhas,
nos a libertarem os indigenas que lhe fazem evocar os hebreus de quem disse o poeta: "Sie vos non vobis mellificatis apes"( 35 ).
cativos do Fara6. Prevenindo as obie>öes dos senhores ( "Quem Vieira mostrou-se superior ao meio em que o destino o co-
nos ha de ir buscar um pote dagua, ou um feixe de lenha? Quem locara, e onde fatalmente deveria malograr aquele arquiteto de
sonhos.
( 34) CL J, LU.cio de Azevedo, A Evolufäo do Sebastianismo, Lisboa; 0 nome do Padre Antönio Vieira esta hoje incorporado a
Livraria Cl:issica Ed., 1947. Os textos de base para entender os anelos
messi8.nicos do tempo säo as Trovas de Goni;alo Anes, sapateiro de al- lenda e soa na palavra do poeta:
cunha o Bandarra; escritas por volta de 1540 e sujeitas logo a processos
da Santo Oficio, foram adaptadas, primeiro a figura de D. Sebastiäo 0 cfu estrela o azul e tem grandeza.
(t 1578) e, mais tarde, por Vieira, sucessivamente a D. Joäo IV, Afonso Este, que teve a fama e a gl6ria tem,
VI e D. Pedro. Bandarra falava apenas no Encoberto que viria estabele· Imperador da lingua portuguesa,
cer para sempre o reino da Justic;a. Foi·nos um ceu tambem.
Para os textos de Vieira recomenda-se a edic;äo das Obras Escolhidas,
em 12 vols., aos cuidados de Ant6nio Sergio e Hern3ni Cidade ( Lisboa, (35) Verso atribufdo a Virgilio: "Assim v6s, mas näo para v6s, fa-
Livr. Sa da Costa Editora). bricais o mel, abelhas".

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No imcn~o. espa~o seu de meditar,
Constelado de forma e de visio, da "precursora do romance brasileiro" ( 36 ). Escrevendo j::i em
Surge, prenUncio claro de luar, meados do seculo XVIII, Teresa Margarida ultrapassa os Jimi.
El-Rei Dom Sehastiio. tes do Barroco niio s6 hist6rica mas ideo!Ogicamente: o conteil-
do das suas alegorias tem ja um sabor iluminista · e atras de
Mas nä:o, niio C luar: C luz do ctCreo.
uma prosa ainda afetada de cultismos entrev~-se o ~or il ordern,
i;: um dia; e, no cCu amplo_ de dcsejo,
A Madrugada irreal do• Quinto Imp&io
ii simplicidade e As virtudes racionais que a ciwcia e a nova pe-
Doira as margens do Tejo. dagogia afrancesada vinham pregando. Alias, o seu pr6prio men-
tor literario, Fenelon, ja estava mais pr6ximo daclareza carte-
( Fer114ndo Ptssoa, Mcnsagem)
siana e da piedade iluminada dos jansenistas que da mente bar-
toco-jesultica. E säo igualmente tr~ jansenistas, Jaicizados
pelo clima ilustrado, que predominam nas paginas do "classico
Prosa aleq6rlca. esquecido" Matias Aires (1705-1763): as Reflexöes söbre a Vai·
dade dos Hamens traem uma visäo desenganada da natureza hu·
mana, tal como a legaram alguns pensadores franceses do seculo
Curioso exemplo de prosa narrativa barroca deparamos no classico, Pascal, La Rochefoucauld e Vauvenargues, para os quais
Compendio Narrativo do Peregrino da America, de Nuno Mar- o amor pr6prio e o m6vel Unico e Ultimo de tödas as a~öes.
ques Pereira (Bahia, 1652-Lisboa, 1728). Trata-se de uma lon- Mas tambem essa obra, escrita por um paulista, foi pensada e
ga alegoria dialogada, muito pr6xima do estilo dos moralhtas es- composta na Europa, dela niio se podendo dizer que guarde qual-
panh6is e portugueses que trocaram em miudos os principios as- quer vincula~äo com a vida da colönia.
ceticos da Contra-Reforma. 0 objetivo do Compendio, editado
em 1718, e apontar as mazelas da vida colonial e ''contar o co-
mo esta introduzida esta quase geral rulna de feiti~aria e calun-
dus nos escravos e gente vagabunda neste Estado do Brasil; alem As Academias.
de outros muitos e grandes pecados e super~ti~s de abusos täo
dissimulados dos que t~m obriga~iio de castigar" (Pr6logo). A Ate os prindpios do seculo XVIII, as manifesta~öes cultu-
esse ponto de vista säo reduzidos os casos da.terra, narrados pe- rais da Colünia näo apresentavam qualquer nexo entre si, pois
las ·duas Unicas "personagens" do livro: o Peregrino e o Anciäo. a vida das poucos centros urbanos ainda näo propiciara condi-
A paisagem que serve de fundo aos dialogos e um misto de rea- ~öes para socializar o fenOm.eno liter::irio. Foi necess::irio esperar
lismo e alegoria: ao lado de indica~öes topograficas muito pre- pela cristaliza~iio de algumas comunidades ( a Bahia, o Rio de
cisas estende-se o "territ6rio dos deleites", alteia-se o "pal<icio Janeiro, algumas cidades de Minas) que a economia do ouro
da satide" e a "torre intelectual", servindo de sa{da a "porta do reanimara, para ver religiosos, militares, desembargadores, altos
desengano". Corno nas paginas do Padre Manuel Bernardes, em- fllncion::irios, reunidos em gremios eruditos e liter:irios a exem-
bora com menos gra~a e fluidez,. ressurge inteira a simbologia plo dos que entiio proliferavam em Portugal e em toda a Euro-
medieval de que o barroco iberico parece As vezes mera con-
( 36) Trisüio de Ataide, em 0 Romance Brasileiro, volume coorde-
trafa~o. nado por Aurelio Buarque de Holanda, Ed. 0 Cruzeiro, Rio, 1952, p. 13.
0 romance didatico foi tambem cultivado por Teresa Mar· A primeira edi.;äo do livro ( Lisboa, 1752) trazia o titulo Mtlximas de V ir-
garida da Silva e Orta cujas Aventuras de Di6fanes se calcaram tude e Formosura, com que Di6fanes, Climineia e Hemirena, Principes de
sobre o modelo das Aventuras de T elemaco de Fenelon. N asci- Tebas, venceram os mais apertados lances da desgr(Jfa, Oferecidas a Prin-
cesa Nossa Senhora, a Senhora D. Maria Francisco Isabel Josefa AntOnia
da em Säo Paulo, em 1712, foi muito pequena ainda para Por- Gertrudes Rita ]oana, por D. Doroteia EngrOssia Tavareda Dalmira. 0
tugal ( como seu irmiio, o moralista Matias Aires), onde recebeu pseudönimo final e anagrama perfeito de Teresa Margarida da Silva e Orta.
esmerada educa~o classica e de onde niio mais regressou. A ri- Na 2.• ed., conservou-se o pseudönimo, o que levou alguns eruditos a dis-
gor, nao pertenceria il nossa literatura apesar de ter sido chtma- cuurem sobre a autoria do Iivro, mas alterou-se o tftulo para Aventuras de
Di6fanes Imitando o Sapientissimo Fenelon na sua Viagem de Telemaco.
pa ( 37 ) , Das Academias brasileiras pode-se dizer que foram: m~a que, mctendo na boca wnas perolas, e revolvendo-as, que-
a) o Ultimo centro irradiador do barroco liter:irio; b) o primei- brou alguns dentes", ou ainda uA.mor com Amor se paga e Amor
ro sinal de uma cultura humanfstica viva, extraconventual, em com Amor sc apaga"; e do que resultou e diflcil d izcr se mais
nossa sociedade. Par isso, talvez tenham sido mais relevantes as espanta a frivolidade dos assuntos ou o virtuosismo da elocu~äo.
suas contribui.;öes para a Hist6ria e a erucli~äo em geral que o Eis o soneto de Rocha Pita para o Ultimo tema:
pesado rimario gongorico compilado por seus versejadores ( •),
Deste Apotema vigilante, c ccgo
Foram baianas as academias mais fecundas, a Brasilica dos Uma partc confirmo, outra rcprovo,
Esquecidos ( 1724-25) e a Brasilica dos Renascidos ( 1759), Te- Quc o Amor com Amor sc paga provo,
ve tamhem alguma relev0.ncia como fenömeno de agremia~äo Quc o Amor com Amor se apaga nego.
cultural no Rio de Janeiro, entre 1736 e 17 40, a Academia dos Tendo os Amorcs um iguaJ sossego,
Felizes. Se cstio pagando a f~ sempre de novo,
Ao lado dessas institui~öes, podem-se citar os atos acade- Mas a crcr quc se apagam mc nio movo,
Sende fogo, e mat6ia Amor, e emprcgo.
micos, sessöes liter:irias que duravam algumas horas e tinham por Se de incE:ndios costuma Amor nutrir-se,
firn celebrar datas religiosas ou engrandecer os feitos de autori- Uma chama com outra ha de aumentar-se,
dades coloniais: neste caso figura a chamada Academia dos Se- Que em si mcsmas niio devcm consumir-se.
letos do Rio de Janeiro ( 1752), que se resumiu numa serie de Com razäo devc logo duvidar-se
Quando um Amor com outro sabe unir-sc,
panegfricos rimados em louvor do general Gomes Freire de An- Corno um fogo com outro ha de apagar-se?
drada, impressos mais tarde em Lisboa sob o titulo de Jtibilos
da America. Os Esquecidos foram cerebrinos fazedores de acr6sticos e
A Academia Brasilica dos Esquecidos, fundada pelo vice-rei, mes6sticos, sonetos joco-serios e plurilingües, centöe> bestial6gi-
Vasco Fernandes Cesar de Meneses, por ordern de D. Joäo V, cos c ate engenhos prC-concretos como este Labirinto Ctibico de
escolheu para leva a expressäo "Sol oriens in occiduo" e os seus Anastacio Ayres de Pcnhafiel, que dispös de v:irio modo a fra.
membros se apelidaram, a maneira dos confrades portugueses, Nu- se latina in utroque Cesar ('"):
biloso, Infeliz, Obsequioso, Inflamado, Ocupado, Menos Ocupa- INUTROQUECESAR
do, etc. Eram seus planos estudar a hist6ria natural, militar, NI NUTROQUE·CESA
eclesi!Jstica e politica do Brasil e discutir nas' sessöes os versos UNI NUTROQUECES
compostos pelos academicos. 0 nome do Academico Vago, Co- TUN I NUTROQ'UECE
ronel Sebastiäo da Rocha Pita ( 1660-1738) e o mais lembrado RTUN I NUTROQUEC
do grupo: autor da ampulosa Hist6ria da America Portuguesa ORTUNINUTROQUE
participou intensamente na vida da Academia em cujas sessöes QORTUNINUTROQU
glosou temas ~omo estes: "Uma dama que sendo formosa näo UQORTUN I NUTROQ
falava por näo mostrar a falta que tinha nos dentes" ou "Uma EUQORTUNINUTRO
CEUQORTUN I NUTR
( 37) As Academias portuguesas remontam ao sCculo XVII. Fideli-
no de Figueiredo cita, entre outras, a Academia dos Singulares, a dos Ge- ECEUQORTUN I NUT
nerosos, a dos Solitlirios, a dos Ünicos, a Instantänea e a dos llustrados SECEUQORTUN I NU
(V. Hist6ria da Lit. ClOssica, 2.• Cpoca, Lisboa, 1922). ASECEUQORTUN IN
( *) EstS publicando-se a sCrie completa dos textos academicos sob RASECEUQORTUN I
o titulo geral de 0 Movimento Academicista no Brasil, 1641 - 1820/22
(dir. de Jose Aderaldo Castello), S. Paula, Cons. Estadual de Cultura, Da Academi4 Br11Sllica tlos Ren11Scitlos, cujo simbolo era a
1969 .. '
Para os textos e a anSlise do Barroco literS:rio mineiro säo de consulta
Fenix entre chamas c a divisa "multiplicabo dies'', sabe-se que
indispensavel as obras de Affonso Avila: Residuos Seiscentistas em Minas, ( 38) Apud Pericles Eugenio da Silva Ramos, Poesia Barroca, cit.,
Belo Horizonte, Centro de Estudos Mineiros da Universidade, 1967; e p. 161.
0 LUdico e as Proje~8es do Munda Barroco, S. Paula, Perspectiva, 1971.

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precisou dissolver-se por teJ: caldo em desgra~a o fundador, Jose Divinissimo Sacramento da Igreja da Senhora do Rosfzrio para
Mascarenhas. Nos seus c6dices encontram-se os mesmos exemplos um Novo Templo da Senhora do Pilar em Vila Rica ... aos 24
de cultismo da Academia dos Esquecidos que ela se propunha re- de maio de 1734. Nesta, como em outras manifesta,öes publi·
viver. Salvaram-se da produ~äo ligada ao gremio obras em prosa cas, dava-se um misto de espet3culo devoto e inten~äo encomi3s-
de valor documenta!: o Orbe Serfzfico Novo Brasilico ( 1761) de tica. Assim, o pequeno burgo de Säo Paulo conheceu clias inten·
Fr. Antönio de Santa Maria Jaboatäo, cronista dos franciscanos sos de exihi>iio de carros aleg6rkos, 6pera mitol6gica, fogos de
na Colönia; a Hist6ria Militar 'do Brasil de Jose Mirales; a No- artiffcios e "folias" de pretos pelas ruas representadas pelos se-
biliarquia Pernambucana de Antonio Jose Vitorino Borges da minaristas, nos meados de agosto de 1770, por ocasiäo da vinda
Fonseca e Desagravos do Brasil e Gl6rias de Pernambuco do da imagem de Sant'Ana. Os sermöes, o texto da 6pera e os poe-
beneditino Domingos de Loreto Couto, muito apreciado por Ca- mas entäo escritos foram compilados sob o titulo de Academia
pistrano de Abreu pela simpatia com que viu o nosso in- das Felizes a exemplo do grupo fluminense ( •0 ).
digena ( 39 ) . As academias e os atos academicos significam que a Colo-
Da Academia dos Felizes, reunida entre 1736 e 17 40 no Rio nia ja dispunha, na primeira metade do seculo XVIII, de razoa-
de Janeiro, pouco se sabe: a origem palaciana do fundador, ? vel consistencia grupal. E embora se tenham restringido a imi-
Brigadeiro Jose da Silva Pais que entiio substitula Gomes Fre1- tar os sestros da Europa barroca, ja puderam nutrir-se da hist6-
re de Andrada; o lema "Ignavia fuganda et fugienda" e, romo ria local, debru~ando-se sobre os embates com os holandeses no
slmbolo, um Hercules amea~ando o 6cio com a clava. Näo se Nordeste ou sobre as bandeiras e o ciclo mineiro no Centro-SuL
conhece o seu esp6lio literario. Quanto as nobiliarquias, pernambucana e paulista, eram sin-
Alem das institui~öes, houve os atos academicos sessöes tomas do orgulho de famllias que ja contavam com um passado
que duravam horas e tinham por firn comemorar datas religio- propriamente brasileiro; e a prosapia do patriciado colonial viria
sas ou engrandecer homens de pro! no regime colonial. Este a ser um dos m6veis da Independencia tal como se efetuou no
ultimo eo caso da chamada Academia dos Seletos (Rio, 1752), come>o do seculo XIX: movimento de cima para bai:xo, de pro·
paneg!rico em prosa e verso oferecido a Gomes Freire de Andr~­ prietarios desgostosos com as medidas recolonizadoras da Corte.
da e publicado sob o t!tulo de ]ubilos da America. Festa reh- Hoje, a historiografia mais avisada ja e capaz de pör a nu
giosa, mas tansbem lndice da nova sociabilidad!' que as min~s en- as relat;öes concretas que existiam entre os interesses e modos de
sejavam foi o Triunfo Eucarlstico . .. na Solene Translada~ao do pensar da classe dominante na Colönia e o fenömeno "cm pro-
gresso" do nativismo. Ora, foi o facies da tradi~iio, vis(vel nas
academias e no zelo geneal6gico dos linhagistas, que acabou pre-
( S9) Paralela a historiografia acadf:mica do Nordeste e a obra <los valecendo no processo da Independencia, relegando a um inco·
eruditos e linhagistas de Säo Paulo, onde ji se firmava, nos meados do modo segundo plano as correntes ilustradas, sobretudo as racli-
sCculo XVIII a pros~pia das famflias bandcirantes. Pedro Taques de Al·
meida Pais ~me (17J4?-1777) deixou uma vasta rela~äo de biografias dos cais, que permearam as "inconfidencias" ( 41 ), todas malogradas,
paulistas aqui radicados desde a chegad, de Martim Afonso em 1532 ( N°: precisamente por terem deixado alheias ou receosas as camadas
biliar4uia Paulistana); escrevcu .tamb6n a Hist6ria da Capit.ania .de~· Vt·
cente, a InformtZfäO sobre as Mtnas de Säo Paulo e a Notlc:a H1st6r1ca da
Expulsäo dos Jesultas de Säo Paulo em 1640. Outro erud1to, Fr. Gaspar ( 40) Encontra-se uma longa relai;äo dos atos acadf:~icos e ~as _fun·
da Madre de Deus ( 1715-1800), supranumer.!rio da Academia dos Renas·
c;öes religiosas que deixaram algum trac;o documental, dueto ou 1nd1reto,
cidos, redigiu as Mem6rias para a Hi.rt6ria da Capitanüz de Säo Vicente,
em Manifesta(Öes Literarias da Era Colonial de Jose Aderaldo Casteilo
boie cbamada de S. Paulo, fonte preciosa de infonpa~ de que se tCm
valide todos os pesquisadores do pedodo bandeirante. (S. Paulo, Cultrix, 1962, pp. 90-93).
( 41) Assim foram chamadas, a imitai;io da lnconfidCncia Mineira,
Para o conhecimento destes e de outros cronistas menores do sCculo as sedi<;öes do Rio de Janeiro (1794), da Bahia (1798) e _de Perna?lbu·
XVIII ler-se-4 com proveito o meticuloso ensaio de PCricles da Silva Pi· l-O { 1801). Para uma interpretai;äo ampla das fatores s6:io-culturats da
nheiro, Manifesttl{öes Liter4rias em Säo Paulo "" Spoca ColonUd, S. Paulo, Colönia, v. Caio Prado Jr„ Forma(äO Do Bras.il Conte'!'??'a~eo, S. Paulo,
Conselho Estadual de Cu!tura, 1961. Brasiliense, 4.1 ed., 1953; Jose Hon6tio Rodrigues, C1vilt%tl,ao e Reforma

56 57
T
1
1

que podiam promover, de fato, a eri:lancipa~äo politica: os senh<>-


res de terras e a alta burocracia. Sobrevindo o momento opor-
tuno, foram estes os grupos que cerraram fileiras em torno do
herdeiro portugues, dando o passo que Ihes convinha.
Quanto OS ideoJogias inovadoras, Oll eJegeriam a franca OpO-
si~aO (de que säo exemplo as revoltas -sob Pedro I e na fase re-
gencial), au tentariam compor-se, onde e quando possfvel, com
um sistema assentado no latifU.ndio e no brac;o escravo ('as mar-
chas e contramarchas liberais durante o Segundo Reinado).
Nas esferas etica e cultural esta ainda por fazer-se o inven-
tario da heran~a colonial-barroca em toda a AmCrica Latina ( 42 ).
Entre os caracteres mais ostensivos lembrem-se: o meufanismo
verbal, com toda a seqüela de discursos familiares e academicos;
a anarquia individualista, que acaba convivendo muito bem com 111
o mais cego despotismo; a religiosidade dos dias de festa; a dis-
plicencia em materia de moral; o vlcio do geneal6gico e do heral-
dico nos conservadores; o culto da aparencia e do medalhäo; o ARCADIA E ILUSTRA«;XO
vezo dos tltulos; a educac;äo bacharelesca das elites; os surtos
de antiquarismo a que näo escapam nem mesmo alguns esplri-
tos superiores.
Esses tra>os näo se transmitem pela ra>a nem se herdam
no sangue: na verdade, eles se desenvolveram com as estruturas
sociais que presidiram a forma~äo de nossas _elites e tem reapa-
recido sempre que o processo de modernizac;äo se interrompe ou
cede a for,a da inercia.

no Brasil, Rio, Civ. Brasileira, 1965; .Carlos Guilherme Mota, ldJia de


Revoluflzo no Brasil no Final da Sec. XVIII, S. Paulo, ed. Universittiria,
1967; Fernando Novais, "O Brasil nos Quadros do Antigo Sistema Colo-
nial'', em Brasil em Perspectiva, S. Paula, Difusäo Europeia do Livro,
1968; Fernando Novais, "Considera~öes sobre o Sentido da Coloniza~äo",
separata da Revista da Institute de Estudos Brasileiros, n. 0 6, Universida-
de de Säo Paulo, 1969; A Estrutura e a Dinßmica da Antigo Sirtema
Colonial, S. Paula, Brasiliense, 1974.
{ 42) Inventtirio que, no caso bq1.sileiro, näo dispensara a plataforma
de alguns ensaios segmentarc;s ja cltissicos, como a Evolu~äo do Povo Bra-
sileiro {1924) de Oliveira Viana, Casa Grande e Senzala { 1933) e Inter-
pretaflzo do Brasil ( 1947) de Gilberto Freyre, e Raizes da Brasil ( 1935)
de Sergio Buarque de Hollanda.

58
T

Dois momentos: o poetico e o ideolOgico.

A passagem do Barroco ao "barocchetto" e ao rococ6 foi


um processo estilistico interno na hist6ria da arte do seculo
1 XVIII e consistiu em uma atenua~o das aspectos pesados e ma-
cic;os das Seiscentos. Nessa viragem prefiguram-se as tenden-
cias estfticas do Arcadismo como a busca do natural e do sim-
ples e a adoc;lio de esquemas rftmicos mais graciosos, entenden-
do-se por grafa uma forma especifica e menor de beleza.
A Arcadia enquanto estilo melifluo, musicalmente facil e
1 ajustado a temas buc6licos, näo foi criac;äo da seculo de Metas-
tasio: retomou o exemplo quatrocentista de Sanazzaro, a lira
t pastoril de Guarini (II Pastor Fido) e, menos remotamente, a
tradic;äo anticultista da Italia que se opös a poetica de Marino
e as vozes que na Espanha se haviam levantado contra a idola-
tria de G6ngora ( 43 ). Mas o que ja se postulava no per!odo iiu-
reo do Barroco em nome do equilibrio e do bom gosto entra, no
seculo XVIII, a integrar todo um estilo de pensamento voltado
para o racional, o claro, o regular, o verossimil; e o que antes
fora modo privado de sentir assume foros de teoria poftica, e a
Arcadia se arrogarii o direito de ser, ela tambem, "philosophi-
que" e digna versäo liter3ria do Iluminismo vitorioso.
Importa, porem, distinguir dois momentos ideais na literatu-
ra dos Setecentos para näo se incorrer no equlvoco de apontar
contrastes onde houve apenas justaposic;äo: a) o momento poetico
que nasce de um encontro, embora ainda amaneirado, com a na-
tureza e os afetos comuns do homem, refletidos atraves da tradi-
c;äo classica e de formas bem definidas, julgadas dignas de imita-
c;äo ( Arcadia); b) o momento ideol6gico, que se impoe no meio
( 43) A primeira Arciidia foi fundada em Roma, em 1690, por al-
guns poetas e crfticos antimarinistas que j3. antes costumavam reunir-se
nos salöes da ex-rainha Cristina da SuCcia. 0 programa comum era "ex-
terminar o mau gosto onde quer que se aninhasse"; o emblema, a flauta
de Pa coroada de louros e de pinheiros. Os s6cios tomavam I!Omes de
pastores gregos ou romanos.

61
)
do seculo, e traduz a critica da burguesia culta aos abusos da 1 rompido: o mau gosto e a deprava~äo se juntam como a cara e a
1
nobreza e do clero ( Ilustra~äo). A rnedida que se prossegue no coroa da rnoeda. Muratori concilia o hedonisrno literario do ar-
tempo, vai-se passando de um Arcadismo tout court ( os sonetos 1 cade com a pr6pria rlgida etica de rneios e fins. E näo foi por
de CLiudio Manuel da Costa, por exemplo) ao engajamento pom- acaso que Pietro Metastasio, arcade por excelencia e disdpulo
balino da epica de Basilio da Garna, para chegarrnos enfim a amado de Gravina, buscou harmonizar nas suas arias o cantabile
satira politica, velada no Gonzaga das .Cartas Chilenas, mas aber- facil do rnelodrarna e a rnoral her6ica da tragedia classica.
ta no Desertor de Silva Alvarenga. E a literatura do seculo XIX Insisto nas fontes italianas da Arcadia, porque säo elas que
anterior ao Rornantisrno ainda juntara residuos arddicos e filo- ressalvarn o papel da fantasia e do prazer no tecido da obra poe-
sofernas tornados a Voltaire e a Rousseau: fale por todos o ver- tica. A outra exigbicia, a da raziio, vincula-se ao enciclopedismo
so prosaico de Jose Bonifacio de Andrada c Silva. frances e impöe-se a rnedida que a Ilustra~äo exerce o seu ma-
Denorninador cornum das tendbicias arcadicas e a procura 1 gisterio sobre a cultura luso-brasileira.
do verossimil. 0 conceito, herdado da poetica renascentista, tern I' 0 pioneiro no esfo~o de reforrnar a mente barroco-jesuiti-
11
por fundarnentos a n~iio de arte corno c6pia da natureza e a ca em Portugal foi Luis Antonio Verney, cujo Verdad<'iro Me-
ideia de que tal rnirnese se pode fazer por graus: de onde, o todo de Estudar expunha todo um sisterna pedag6gico construi-
rnatiz idealizante que esbate qualquer pretensäo de um realisrno l do sobre modelos racionalistas franceses e escudado na pr3tica
absoluto. Ja os prirneiros te6ricos da Arcadia propunham rne- escolar dos Padres Oratorianos, de tend&lcia cartesiana e jan·
dia~öes entre o natural e o ideal nas suas f6rrnulas aureas de senista. Sob o patrodnio do Marques de Pornbal opera-se, em
bom gosto. Para Gian Vincenzo Gravina, cujo tratado Della parte, a reforma do ensino que teve por mentor o ilustrado An·
Ragion Poetica data de 1708, a fantasia deve joeirar os dados da tönio Nunes Ribeiro Sanches, redator das Cartas sobre a Educa-
experibicia a firn de apreender a natureza Ultima das coisas ( a (ÖO da Mocidade (1760),
Ideia platönica), que coincidira corn a sua beleza. Segundo essa No campo das poeticas, o rnodelo da nova corrente nao po-
Jinha de pensarnento, OS mitos gregos, que OS arcades cultivariio deria deixar de ser a Art Poetique de Boileau, aceita por Voltai·
il saciedade, valern corno belas aparencias do real, do mesrno real re como a exposi\80 mais razo3:vel das normas classicas. Tradu·
que a filosofia cartesiana atinge corn os seus conceitos: "A fa- zida ja em 1697 pelo quarto Conde de Ericeira, influiu direta-
bula e 0 ser das coisas transforrnado ern genios humanos, e e a mente nos dois te6ricos ibericos da Arcadia, o espanhol Ignacio
verdade transvestida ern aparbicia popular: o poeta da corpo aos de Luzan e o portugues Francisco Jose Freire ( Cindido Lusita·
conceitos, e por animar o insensato e envolver de corpo o espi· no) cuja Arte Poetica ( 1748) valeu corno texto de base para
rito, converte em imagens visiveis as contempla~öes suscitadas os nossos poetas neocl3ssicos.
pela fantasia: ele e transforrnador e produtor" ( Livro I ) . Por Para Verney, "um conceito que näo e justo, nem fundado
isso as imagens, os sons, enfim a materia significante do poema sobre a natureza das coisas, näo pode ser belo, porque o funda-
näo vale por si pr6pria como na arte barroca, em que o arbitrio mento de todo conceito engenhoso e a verdade" ( 44 ).
do criador ignorava os limites da natureza e podia comprazer-se
ad libitum no jogo dos signos, - aproximando-se ( como diria E para Candida Lusitano, rnais pr6ximo das fontes italia-
Nietzsche)· rnuito rnais da musica do que de qualquer outra for- nas: "Para chegarmos, pois, com a matC.ria a causar maravilha
ma expressiva. e deleite, e preciso representar os objetos dos trCs mundos, n8o
Ern Ludovico Antonio Muratori (Delta Perfetta Poesia Ita- como eles ordinariamente sao, mas como veros._similmente po·
liana, 1706), faz-se nitida a servidiio da poesia aos valores con- dem, ou deveriam ser na sua completa forma" (Arte Poet., 1, 66).
ceptuais e eticos. A arte deve exercer um papel pedag6gico e, Se Gravina e Muratori e Metastasio deram a Gndido Lu-
corno no conselho de Horacio, unir o util ao agradavel. Quan- sitano exemplos de poesia em ato e de uma reflexäo idealista
ta ao born gosto, sera o deleite que se prova ao perceber a gra- em torno da arte, Boileau e Voltaire contribulram para fixar ca.
~ que acompanha toda justa mirnese do Bern e do Verdadeiro.
Quern se agrada de falsos ouropeis ja esta ontologicamente cor- (44) Verd. Met. de Estudar, Lisboa, sa da Costa, V. II, p. 209.

62 63
.,.
'

nones que precisaram. as distin~öcs dos g!neros classicos e as dici, vibrante de imagens primaveris e tingido de realismo po-
nonnas tradicionais de linguagem e de metrica. E OS arcades ze- pular, ainda possivel na Floren>• quatrocentista; a pastoral prC-
laram pelo ajustamento da sua poesia ilqueles cinones, tanto que -barroca de Guarini, que mal dissimula a licen>a da corte renas-
materiä freqüente das sessöes da Arcadia Lusitana ( 1756-1774) centista em decllnio e ja macerada pela censura da Contra-Refor·
e dos encontros entre os liricos mineiros era a leitura e a critica ma; e enfim a lira do nosso Gonzaga, rococ6 pelo jogo das ima-
mUtua a que submetiam os seus versqs. gens galantes, alheias a qualquer toque de anglistia e bem pr6-
Se verossimilhan>a e simplicidade foram as notas formais prias do magistrado de extra>iio burguesa em tempos de mode-
ra~äo e antibarroco.
especialmente prezadas pelos arcades, que mensagens veiculou
de preferencia a nova poetica? E sabido que ambientes e figu- E ha um ponto nodal para compreender o artificio da vida
ras buc6licas povoaram os versos das autores setecentistas. A rustica na poesia arddica: 0 mito do homem natural cuja for-
genese burguesa dessa tem3tica, ao menos como ela se apresen- ma extrema e a figura do bom selvagem. A luta do burgues
tou na Arddia, parece hoje a hip6tese sociol6gica mais justa. culto contra a aristocracia do sangue fez-se em termos de Ra·
Nas palavras de um crltico penetrante, Antonio Cindido, ela e zäo e de Natureza. 0 Iluminismo que enformou essa luta exibe
assim formulada: duas faces: ora. a secura geomc!trica de Voltaire, vitoriosa nos
salöes libertinos, ora a afetividade pre-romfultica de Rousseau,
"A poesia pastoral, como tema, talvez esteja vinculada ao porta-voz de tendencias passionais, mais populares. Voltaire e
desenvolvimento da cultura urbana, que, opondo as linhas arti- ponta-de-lan~a dos meios urbanes contra os preconceitos da no-
ficiais da cidade il paisagem natural, transforma o campo num breza e do clero; mas e Rousseau quem abre as estradas largas
bem perdido, que encarna facilmente os sentimentos de frustra- do pensamento democratico, da pedagogia intuitiva, da religio-
>1io. Os desajustamentos da convivencia social se explicam pela sidade natural. De qualquer modo, ambos renegam o universo
perda da vida anterior, e o campe surge como cen3rio de uma hierarquico do absolutismo instaurado pela nobreza e pelo alto
perdida euforia. A sua evoca,äo equilibra idealmente a angtis- clero desde OS fins do seculo XVI; e fazem-no recorrendo il li-
tia de viver, associada a vida presente, dando acesso aos mitos berdade que a naturexa e a razäo teriam dado ao homem. A
retrospectivos da idade de ouro. Em pleno prestlgio da existen- volta a natureza, fonte de todo bem, e o lema do Emile de Rous-
cia citadina os homens sonham com ele ii maneira de uma felici- seau; e nessa atitude reconhecemos a paixäo do escritor que nä:o
dade passada, forjando a conven,iio da naturalidade como forma · encontrou na antiga sociedade aristocr:itica um modo de reali-
ideal de rela,iio humana" ( •s ) . · zar-se como homem livre e sensivel. A partir do seculo XVIII,
E de fato, se dermos uma vista d'olhos na hist6ria da poe- o binömio campo-cidade carrega-se de conota>öes ideol6gicas e
sia buc6lica, verificamos que ela tem vingado sempre em am- afetivas que se viio constelando em torno das posi\öes de varios
bientes de requintada cultura urbana, desde Te6crito em Siracusa grupos sociais. Antes da Revolu\äo Industrial e da Revolu\iio
e Virgilio na Roma de Augusto, Poliziano na Floren,a mediceia Francesa, o burgues, ainda sah a tutela da nobreza, via o campo
e Sanazzaro na corte napolitana de Alfonso Aragones, atc Gua- com olhos de quem cobi,a o Parafso proibido idealizando-o como
rini. e Tasso na Ferrara do Ultimo Renascimento. 0 bucolismo reino da espontaneidade: e a substiincia do idilio e da ecloga ar-
foi para todos o ameno artiflcio que permitiu ao poeta fechado ddica. Com o triunfo de ambas as revolu,öes, a burguesia mais
na corte abrir janelas para um cenario idilico onde pudesse can· pr6spera tomara de vez 0 poder citadino, e sera a vez do no-
tar, liberto das constriccöes da etiqueta, os seus sentimentos de bre ressentido cantar a paz do mundo niio maculado pela indus·
amor e de abandono ao fluxo da existencia. Mas näo se pode tria e pela vulgaridade do comercio: 0 saudosismo de Chateau-
esquecer que a evasiio se faz dentro de um determinado sistema briand, de Scott e do nosso Alencar traduz bem a nostalgia ro-
cultural, em que e muito reduzida a margem de espontaneidade: m3.ntica da natureza que os novos tempos ignoram com insolbi-
o que explica as diferen\as entre o idilio de um Lorenzo de' Me- cia ( 46 ). Mas tanto no contexto arcade-ilustrado como no ro-
( 45) Forma~äo da Literatura Brasileira, S, Paulo, Martins, 1959, ( 46) :E a tese de Karl Mannheim segundo a qual o Romantismo de
vol. !, p. 54. tipo medieviSta, sentimental e voltado para uma natureza de reiügio, rea-

64 65
mantico-nostalgico ha um 4pelo a -natureza como valor supremo o gosto da clareza e da simplicidade gra~s ao qua! puderam su-
em ultima instancia defesa do homem infeliz. As diferem;as re- perar a pesada maquinaria cultista; os mitos do homem natural,
sidem no grau de intensidade com que o eu do homem moderno do bom selvagem, do her6i paclfico; enfim, certo mordente sa-
procura afirmar-se; e nesse sentid_o o poeta romRntico, mais iso- tirico em rela,äo aos abusos dos tiranetes, dos julzes venais, do
lado e impotente em face do mundo que o cerca do que o poeta clero faniitico, mordente a que se limitou, de resto, a consci!n-
arcade, ira muito mais longe na exa~a,äo dos valores que atri- cia libertaria dos intelecruais da Conjura~iio Mineira.
bui a natureza: a emotividade que 0 pressiona e projetada na A anilise a que a historiografia mais recentc tem submeti-
paisagem que se torna, segundo a palavra intimista de Amiel, um do o conteudo ideol6gico da Inconfidetlcia e, nesse ponto, ine-
verdadeiro "ftat d'3me„. qu!voca: zelosos de manter o fundamento jurldico da proprie-
Creio que o aprofundamento deste ultimo ponto levara a dade ( que a Revolu,iio Francesa, na sua linha central, iria rati-
reconhecer no chamado pre-romantismo nao tanto um estilo au- ficar), os dissidentes de Vila Rica apenas se propunham evitar
tönomo quanto uma corrente de sensibilidade que afeta todo o a sangria que nas Hnan,as mineiras, ja em crise, operaria a eo·
seculo XVIII e responde as inquietudes de grupos e pessoas do bran,a de impostos sobre o ouro ( a derrama). Na medida em
Ancien Regime corroldas por um agudo mal-estar em rela,äo a que impedir a execu~äo desta imporrava em alterar o estaruto
certos padröes morais e esteticos dominantes. E na obra de al- polftico, os Inconfidentes eram "revoluciorulrios", ou, do ponto
guns poetas fortemente passionais do firn do sCculo, como Fos- de vista colonial, "sediciosos". Claudio Manuel da Costa, por
colo, Chatterton e Blake, que vai aflorando aquele humor me- exemplo, falava em "interesses da Capitania", lesados pela admi-
lanc6lico, prenuncio do mal do seculo e do spieen romanticos e nistra,iio lusa; para Alvarenga Peixoto, senhor de lavras no sul
claro signo do homem refratario a engrenagem da vida social; de Minas, os europeus estavam "chupando toda a subst&ncia da
e e nesses poetas que a natureza se turva e passa da buc6lica fofr Colönia"; as "pessoas grandes" ou "alentadas" viam com apreen 4

te 5erena a mar revoltoso e cfu ensombrado. Renasce o gosto siio a derrama, sentindo-se como o Coronel Jose Ayres, "pode-
da poesia de Dante profeta, do Shakespeare selvagem, do bru· roso com o senhorio que tem e.m. mais de quarenta e tantas ses-
moso celta Ossian, fingido pelo pre-romantico Macpherson; e marias, .. _ acerrimo inimigo dos filhos de Portugal". Ern To·
pretere-se com impaciE:ncia tudo o que, poc excessivamentc re- mas Antonio Gonzaga, colhe-se boa messe de profissöes de fe
gular, parece o contrario do "genio„, como a lirica de Petrarca proprietista, como 0 famoso ue bom ser dono" da Lira 1 . - . J

e a tragedia de Racine ( 47 ). do pr6prio Tiradentes sabe-se que niio pretendia abolir a escra-
No Arcadismo brasileiro, os tra,os pre-romanticos säo pou· vatura caso vingasse o levante, opiniäo, partilhada pelos outros
cos, espa~ados, embora as vezes expressives, como ern uma ou inconfidentes, salvo o mais radical dentre todos, o Padre Carlos
outra lira de Gonzaga, em um ou outro rond6 de Silva Alvaren- Correia de Toledo e Melo ( 49 ).
ga. Ern nenhum caso, porem, rompem o quadro geral de uni Vinham, pois, repercutir no contexto colonial as vozes da
Neoclassicismo mitigado, onde prevalecem temas 3rcades e ca- inteligencia francesa do sCculo, que na sua blblia, a Encyclopedie,
dencias rococ6s. E sem dUvida foram as teses ilustradas, que ainda se aferrava aos princfpios de "classe" e "pr~priedade",
clandestinamente entraram a formar a bagagem ideol6gica dos mais resistentes, pelo que se constatou depois, do que a bandei·
nossos 3rcades ( 48 ) e lhes deram mais de um tra~o constante: ra Liberte-Egalite-Fraternite.
ge contra os esquemas culturais da burguesia ascendente (cf. Essays on
Sociology and Social Psychology, Londres, Routledge-Kegan, 2." ed., 1959
(47) V. o ensaio analftico de Van Tieghem, Le preromantisme, Pa- ( 49} Para um contato direto com a ideologia <los Inconfidentes,
ris, 1948. säo fontes obrigat6rias os Autos de Devassa da Inconfid§ncia Mineira, Bi-
(48) V. o curioso livro de Eduardo Frieiro, 0 Diabo na Livraria blioteca Nacional, Rio, 1936-1938. Para o conhecimento preciso da sirua-
do COnego (Belo Horizonte, Itatiaia, 1957), ende estä:o elencados os li· ~ao na Bahia, o melhor testemunho vem de um "colono ilustrado", Luis
vros de estofo iluminista que se encontraram na biblioteca da Padre Lu1s dos Santos Vilhena, que deixou uma RecopiLzfäo de Noticias Sotero-
Vieira da Silva, inconfidente mineiro. politanas e Brasilicas (ano de 1802), Salvador, 1921.

66 67
. . . mas temendo ( ... ) que me condenes o muito uso das me-
tS:foras, bastarli, para te satisfazer, o Iembrar-te que a maior parce
destas Obras foram. compostas ou em Coimbra ou pouco depois,
nds meus primeiros anos; tempo em que Portugal apenas princi-
piava a melhorar de gosto nas belas letras. n infeliddade que haja
de confessar que vejo e aprovo o melhor, mas sigo o contrlirio na
execu~.

0 gosto melhor tem por vigas o motivo buc6lico e as ca-


OS AUTORES E AS OBRAS dbicias da soneto camoniano. Os cem sonetos de Claudia ( dos
quais catorze em razoavel italiano de calque metastasiano) com-
J:>Öem um cancioneiro ondc näo uma s6 figura feminina, mas ya·
Claudio Manuel da Costa rias pastoras, em geral inacesslveis, constelam uma tenue bio-
grafia sentimental:
Mais de um fatar cancarreu para que Claudia Manuel Pouco importa, formosa Daliana,
da Cas ta ( 50 ) fasse a nassa primeira e mais acabado poeta neo- Que fugindo de ouvir-me, o fuso tomcs,
classico: a sobriedade do carater, • s6lida cultura humanlstica, • Se quanto mais me affiges, e consomes,
Tante te adoro mais, hela s.!tl'an&-
forma~äo literaria partuguesa e italiana e o talento de versejar
compuseram em Glauceste Sarurnia o perfil do arcade par ex· Nisa? Nisa? onde estM? Aonde espera
celencia. E assim j<i o viam os seus contemporineos que, como Achar-te uma alma, que por ti suspira;
Se quanto a vista se dilata, e gira,
Tomcis Antönio Gonzaga, o tiveram sempre por mentor na arte Tanto mais de encontrar-te desespera.
de escrever.
Formosa e manso gado, que pascendo
Claudia estreou como cultista e, sem duvida, ecos do Barro- A relva andais por entre o verde prado,
co eram os versas que se produziam na Coimbra que ele conhe- Venturoso rebanho, feliz gado,
ceu adolescente, e da qua! partiria para Minas, em 1753, antes Que a bela Antandra estas obed=do.
portanto da funda~äo da Arcadia Lusitana. Datam desse perio-
do coimbräo o Mum!sculo Metrico, ramance her6ico, o Epict!dio Os prados e os rios, os mantes e os vales servem näo s6
em Mem6ria de Frei Gaspar da Encarna(äO, o Labirinto de de pano de fundo ~s inquiet»öes amorosas de Glauceste como
Amor, o Culto Metrico e os Nt!meros Harm6nicos, todos escri- tambem de seus confidentes:
tos entre 1751 e 1753. De todos esses apusculos o poeta es- Sim., que para lisonja do cuidado
cusou-se no pr6logo das Obras (1768): Testemunhas seriio de meu gemido
Este monte, este vale, aquele prado.

(50) CLAun10 MANUEL DA CosTA "(Vargem de ltacolomi, Minas Ge-


0 processo remonta a Pettarca, quc soube inventar uma
rais, 1729-0uro Preto, 1789). Filho do portugueses ligedos a minerac;äo.
Estudou com os jesuitas do Rio de Janeiro e cursou Direito em Coimbra. rede de torneios frasicos e rltmicos, assumidos depois como ver-
Voltando para Vila Rica, ai exerceu a advocacia e geriu os bens fundili.- dadeiras f6rmulas por quase todos os llricos europeus ate o adven-
rios que herdou. Era ardente pombalino e certamente foi lateral o scu to do Romantismo. Chamar a natureza para assistente e conso-
papel na lnconfidencia; preso e interrogado uma s6 vez, foi encontrado lo dos pr6prios males, au dar-lhe a fun~iio de ponto referencial
morto no .carcere, o que se atribui a suicidio. Das Obras Polticas, d. a para evocar as venturas passadas niio C ainda, necessariamente,
eclii;äo de Joäo Ribeiro (Garnier, 1903) e das outras poesias o que foi
recolhido em 0 Incon/idente Cliludio Manuel da Costa de Caio de Melo sinal de pre-romantismo. Nem mesmo o uso reiterado de certos
Franco (Rio, 1931). V. A. Soares Amora; "lntrodui;äo" 9.s Obras, Lisboa, ep!tetos melanc6licos ou negativos (tristes lembran~as, triste al!-
Bertrand, s. d. vio, somhra escura, sombra ft!nebre, ft!nebre arvoredo, sorte du-
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69
0

ra, pelago infeliz, alamo sdmbrio, h6rrida figura ... ) pode ale- ! Por outro lado, o mancirismo dos contrastcs
gar-sc como premoni~io de cad&lcias rominticas. 0 Jeitor do
Canzoniere a Laura, do Camöcs, e sobrctudo do Tasso llrico re- ( quanto a vista se dilata e gira
conhecc de pronto ncssa c6pia de adjetlvos elegfacos uma cons- tanto mais de encontrar-te descspera!)
tante da poesia amorosa dcsde o dolce stil nuovo a~ os ultimos
maneiristas da Renascen~. Mas, cmbora reduzida a tema de transpöe para o reino do litcrario aquela fratura ernotiva.
exerckio pelos poetas menores, essa constantc näo cra um sim- Claudio tentou, com menor exito, a pocsia narrative e com·
ples t6pico pois resultava de uma situa~io cxistencial complexa: pos a Fizbula do Ribeiräo do Carmo eo poemcto epico Vita Rica.
a vida amorosa, desnudada pcla poesia er6tica antiga, se retraiu na Ambos säo curiosos documentos da oscila~o que sofria o escri-
procura de formas de distanciamcnto, cxigidas pela etica medie- tor entre o prestfgio da Arcadia e as suas montanhas minei-
val e contra-reformista da sublima~äo. Com o surto da vida ras ( 52 ). Contraste que divide a inteligencia de toda colönia: a
urbana a partir do s&ulo XIII cLi-sc uma nova Cnfasc aos m6- materia " bruta" que a paisagem oferecc aos sentidos do poeta s6
veis terrenos, centrados no desejo de afirma~äo pcssoal, que crcs- e aceita quando vazada nas formas da metr6pole. 0 nosso Clau-
ceria sem cessar na ldade Modema. Pctrarca, amantc de Laura, dio da testemunho ainda ingenuo dessa dupla valencia; caberia
mas ao mesmo tempo reu confesso de mundanidade ( 51 ) ja e, aos romanticos reduzi-la a padröes un{vocos, que se chamaram
porem, uma consciencia infeliz dessa ~tura que nio pode con· "nacionalismo" e "indianismo''.
ciliar O inquieto dcsejo do homem citadino C QS ideais asceticos
da moral rcligiosa. Com ele, e depois dele, a lfrica amorosa ~ 1 No arcade admirador de Pombal o colooialismo e patente:
frera no pr6prio cerne cssa contradi~o: e uma forma de. resol-
ve-la e dar por ideal distante ou perdido 0 objeto dos c-u1dados
de amor. Toda uma vertente platonizante sulca a poesia ·
cJ.assiC1l.
l Correi de leite e mel, 6 Patrios rios,
E abri dos seios o metal guardado;
Os borbotöes de prata, e de oiro os fios
Saiam de Luso a enriquecer o estado

Mas o que e radical cm Camöcs ou em Tasso aparecc cm ( Ca~to Her6ico)


Claudia Manuel da Costa como fcnomeno capilar: Ou
Faz a imag.in~äo de um bcm amado Competir näo pretendo
Que ncle sc transforme o pcito amante; Contigo, 6 cristalino
Daqui vem, que a minha ahna delirante Tejo, que mansamente vais correndo:
Se näo distingue ja do meu cuidado. Meu ingrato destino
Me nega a prateada majestade,
Nesta doce loucura arrebatado Que os muros banha da maior cidadc
Anarda cuido ver, bem que distante.
Mas ao passo que a busco, neste instante ( Fabula do Ribeiräo do Carmo)
Me vejo no mcu mal dei;cnganado.
Pois se Anarda em mim vive, c eu nela vivo, No entanto, ja observou Antonio Cindido, "de todos os
E por for~ da iMia me converto poetas mineiros talvez seja c;le 0 mais profundamente preso as
Na bela causa de meu fogo ativo; emoc;öes e valores da terra" ( 53 ). E o critico o prova real~ando
Corno nas tristes Iagrimas, que vcrto,
Ao qucrcr contrastar seu gcnio esquivo,
Tao longe dela estou, e estou täo pcrto! ( 52 ) "Niio säo estas as venturosas praias da Amidia, oodc o som
das aguas inspirava a harmonia dos versos. Turva e feia a corrente destes
ribeiros primeiro que arrebatc as ideias de um Poeta, deixa ponderar a
ambiciosa fadiga de minerar a tcrra que lhes tcm pervertido as cores"
( 51) Ao Cancioneiro Petrarca antepös uma severa autocritica, peni-
(Do Pr6logo As Obras).
tenciando-se do amor a Laura como "prima giovenile errore".
( 53 l Ern Formarao da Lit. Bras. , cit., pag. 80 e segs.

70
71
o retörno da imagem da pedra em ti>da a lirica de Claudio, resis- Basflio da Gama, sustentando abertamente o Marques con-
tente nisso as sugestöes emolientes do puro bucolismo. tra os religiosos, cai, em mais de um passo, no laudat6rio e no
caricato, tributos da poesia ao parti-pris. Exemplo disso e o
epis6dio em que a india Lind6ia, sabendo morto o amado, Ca-
Basilio da Gama cambo, "aborrecida de viver, procura todos os meios de encon-
trar a morte". Mas a feiticeira Tanajura conduz a jovem a uma
A mesma ambivalencia e o mesmo esfl'ir1;0 para resolv~la gruta e por artes magicas a desvia do triste intentc suscitando
no trato com a palavra encontra-se em Jose Basilie da Gama( 54 ). em seu espirito a visäo . . . de Lisboa reconstrufda pelo Marques
0 seu Uraguai ( 1769), poemeto epico, tenta conciliar a louva- de Pombal. E para completar täo edificante sonho, mostra-lhe
'äo de Pombal e o heroismo do indigena; e o jeito foi fazer re- a expulsäo dos jesuitas e o firn ingl6rio das missöes do Sul:
cair söhre o jesufta a pecha de viläo, inimigo de um, enganador
. . . ve destrulda
do outro. a repU.blica infame e bem vingada
0 Uraguai l~se ainda hoje com agrado, pois Bas!lio era a morte de Cacambo.
poeta de veia facil que aprendeu na Arcadia menos o artiflcio
dos temas que o desempeno da linguagem e do metro. 0 ver- No entanto, o que escapa ao programa do ex-inaciano ocupa-
so branco e o balan,o entre os decassilabos her6icos e saficos do em näo deixar rastro, constitui poesia de boa qualidade, agil
aligeiram a estrutura do poema que melhor se diria lirico-narra- e expressiva, e, no conjunto, a melhor que se fez na epoca en-
tivo do que epico. tre n6s.
Nada ha no Uraguai que lembre as rigidas divisöes do poe- As cesuras do verso e os enjambements säo varios e vivos:
ma her6ico. 0 principio, ex-abrupte, traz ao leitor a materia
mesma do canto: Dura inda nos valcs
o rouco som da irada artilharia.
Fumam ainda nas desertas praias
Lagos de sangue, tepidos e imputos, Tcce o emaranhadissimo arvoredo
Ern que ondeiam cadaveres despi<i&os, Verdes, irregulares e torcidas
Pasto de corvos. Ruas e pra~. de uma e de outra banda,
E o aqui-e-agora que urge sobre a sensiöilidade de Basilio. cruza.das de canoas.
0 que ainda se sente e se sabe, a luta que mal terminara entre
os lusos-castelhanos e os mission3rios das Sete Povos. A quase- A na tureza e colhida por imagens densas e rapidas; näo
-contemporaneidade dos sucessos cantados retira ao poema a au- säo ja mero arcadismo, mas caminho para o paisagismo romän-
ra de mito que cerca a epopeia tradicional, mas da-lhe a garra tico, rela~äo mais direta dos sentidos com o mundo.
do moderno, imergindo o leitor do tempo nos motivos mais can- Medrosa deixa o ninho a vez primeira
dentes: o jesuitismo, a a~io de Pombal, os litigios de fronteiras, Aguia, que depois foge a humilde terra,
a altivez guerreira do Indio ... E vai ver mais de perto, no ar vazio,
0 espa~ azul, onde näo chega o raio.
( 54) JosE BASiLIO DA GAMA (Arraial de S. Jose do Rio das Mor-
tes, hoje Tiradentes, Minas Gerais, 1741 - Llsboa, 1795). Era estudante Enfim, junto a um ribeiro, que atravessa,
jesu.ita quando o decreto da expulsäo das padres o atingiu; viaja entäo para Sereno e manso, um curvo e fresco vale,
a Italia e Portugal onde logra obter a prot~äo do Marques de Pombal Acharam, os que o campo descobriram,
escrevendo um epitalämio para as nUpcias de sua filha. A reda~äo do U ra- Um cavalo anelante e o peito e as ancas
guai confirma a sua subserviCncia ao "despota ilusttado". Deixou tambem Cobertos de suor e branca espuma.
o poemeto QuitUbia (Lisboa, 1791). V. Jose Verissimo, "Pref3cio" 3.s
Obras Potticas de Basilio da Gama, Rio, 1902. Para o contexto de Ura-
guai, leia-se A RepUblica "Comunista" Cristä dos Guaranis, de C. Lugon, E estes versos ricos de efeitos sonoros produzidos pela sa·
2.• ed., Rio, Paz e Terra, 1976. bia distribui~ao das vogais:

72 73
A tarda e fria n6voa, cscura e densa (CEP:ß) . . . todos sabem
................................ Que cstas terras, que pisas, o du llvrcs
0 ceu cinzento de ondeadas nuvens Deu aos nossos Av6s; n6s tamb6n livrcs
································ As rccebemos dos Antepassados:
Livrcs häo de as herdar os nossos filhos.
Ou das consoantes:
Nesse passo, como no da morte de Lind6ia, os valores ca-
As leves asas o lascivo vento
pazes de inspirar poesia säo encarnados pelos natives. E em-
..... ····················· .... bora eles se acabem curvando aos pes da Coroa lusa, perrnane-
Tinha a face na mäo e a mäo no tronco
De um fUnebre cipreste, que espalhava cem como as Unicas criaturas dignas de falar em Natureza e em
Melanc6lica sombra. Libcrdade.
Esse rn6vel pano de fundo, que as vezes vale por si prö-
prio deslocando-se para o prirneiro plano da tessitura narrativa,
Santa Rita Duräo.
e a novidade de Basllio no trato da epopeia. Infelizmente, o
canto modulado de uma "fabula americana", entoada ä manei·
ra idllica de Tasso e de Metastasio, näo pöde produzir-se. Foi Tarnbern no Caramuru de Fr. Jose de Santa Rita Duräo ( 55 )
sufocada pelo desfgnio polltico. o Indio e materia-prima para exernplificar certos paclröes ideol6gi-
cos. Mas scra uma cortente oposta ii. de Basilio, voltada para o
Cai a infrene Repllblica por terra. passado jesultico e colonial, e ern aberta polernica com o seculo
Aos pes do general as toscas armas
Ja tem deposto 0 rude Americano, das luzes:
Que reconhece as ordens e se humilha Poema ordenado a pör diente dos olhos aos Libertinos o que
E a imagem do seu rei prostrado adora ! a natureza inspirou a homens, que \.iviam täo remotos das que eles
chamam "preocu~ de cspfritos d&cis.
0 ilustrado reponta, no entanto, na crltica a cegueira da (Rcflaöes Prmas c Argumcnto).
guerra:
Vinha logo de guardas rodeado, Se, pela c6pia de alusöes ii. flora brasllica e aos costurnes in-
Fante de crimes, militar tesouro,
Por quem deixa no rego o curvo arado dlgcnas, o Caramuru parece dotado de Indole mais nativista do
0 lavrador, que näo conhece a gl6ria; que o Uraguai, no cerne das inten~Oes e na estrutura, a epopeia
E vendendo a vil pre~o o sangue e a vida, de Duräo esd muito mais distante do homem americano do que
Move e nem sabe por que move a guerra. o poerneto de Basllio. 0 frade agostinho via os Tupinambas sub
specie Theologiae, como almas capazes de ilustrar para os liberti·
Rejeitando o belicisrno facil corn que os nobres se serviam nos europeus a verdade dos dogrnas cat6licos.
dos carnponeses, Basilio e hornern do firn do seculo XVIII, cujos
valores pre-liberais prenunciam a R-evolu~äo e se rnanteriarn com
o idealisrno rorniintico. Cantam no mesrno tom o her6i paclfico, (55) FREI JosE DE SANTA RtTA Dutlo (Cata Preta, Minas Gerais,

Tornas Antönio Gonzaga, Silva Alvarenga e Santa Rita Duräo. 1722 - Lisboa, 1784 ). Estudou com os jesuftas no Rio de Janeiro e
doutorou-se em Filosofia e Teologia em Coimbra. Passou-se para a Or-
E quanto niio diz ao her6i oficial do poema, a fala dos ver- dem de Sto. Agostinho, mas desaveni;as no meio eclesiistico fizeram-no
dadeiros her6is Cacambo e Cepe, como apologia da vida natural, fugir para a 1taJ.ia, onde levou durante mais de vinte anos uma vida de
avessa as hierarquias da milfcia, da corte. e da cllria? cstudos. Voltando com a "viradeira" ( queda de Pombal e restaurac:;äo da
cultura passadista), ocupa uma c8tedra de Teologia, mas sua principal
(CACAMBO) Gentes da Europa: ntinca vos trouxera atividade C a redai;äo do Caramuru que ta ao fanitico purista e pi..;.ritano
0 mar e o vento a n6s. Ah! näo debalde JosC Agostinho de Macedo para assegurar-se de que näo incorreri nos
Estendeu entre n6s a natureza lapsos cam.onianos ... Cf. Artur Viegas, 0 Poeta Santa Rita Duräo, Bru·
Todo esse plano espac;o imenso de ltguas. xelas-Paris. 1914.

74 l:J
0 !ndio como o outro;· objetci de coloniza~o e catequese, p~a mais insensato do que cmprcgar um poeta batizado os
perde no Caramuru toda autenticidade etnka e regride ao marco dtsfarces do panteäo helenico. E o mesmo argumento, na ver-
zero de espanto ( quando antrop6fago), ou a exemplo de edifica- dade extra..,stetlco, ~erviria aos romilnticos de estirpe medievis-
,äo ( quando religioso). t•: com? Cha!eaubrtand> e Scott, para repudiar todo recurso il
1D1to~og1a paga e empreender a constru~o da epopeia bfblico-
No primeiro caso esta o trecho narrativo:
·?>edieval. Nesse ponto, Durio antecipa certas atitudes romiln-
Correm depois de vC-10 ao pasto horrendo, ucas voltadas contra a impiedade dos ilustrados mais radicais.
E retalhando o corpo em mil pe~. Outro problerna a considerar e a fortuna crftica do Caramu-
Vai cada um famClico trazendo,
Qual um pe, qual a mäo, <i.uaI outro os bra~os: ru que, pouco es~ad? na epoca de sua publi~o. foi erigido
Outro na crua carne iam comendo; em ancestral do Indianismo pelos nossos romilnticos por motivos
Tanto na infame gula eram. devassos. estreitamente nacionalistas ( ••).
Tais ha, que as assam nos ardentes fossos,
Alguns torrando estäo na chama os ossoS. No conjunto, porem, a sua extreme fidelidade aos m6dulos
Que horror da Humanidade! ver tragad8______...-- classicos e as hierarquias mentais da Contra-Reforma inserem-no
Da pr6pria espCcie a carne ja corrupta! de pleno direito na linhagem conservadora que cm Portugal re-
sistiu • mare iluminista.
(Canto I, estrofes 17-18).
0 her6i do poema e Diogo Alvares akunhado o Caramuru
:e verdade que a polemica antilibertina urgia mais no espl- pelos Tupinambas ( Duräo traduz o term~ por "filho do troväo")
rito do poeta que o horror 8s praticas nativas, pois, tendo clama· e responsavel pela primeira 8'äo colonizadora na Bahia. Menos
do .contra estas, da um passo atras e considera nos maus fil6sofos her6i de luta do que her6i culrural ele e 0 fundador 0 homem
efeitos piores que os da antropofagia: providencial que ensinou ao barbar~ as virrudes e as l~is do alto.
Como no Eneias virgiliano e no Godofredo rassesco, a sua gran-
Feras! mas feras näo; que mais monstruosos )
deza reside na vida reta e na constancia de inimo:
S-ao da nossa aima os birbaros efeitos;
E em. corrupta razäo mais furor cabe_
Que tanto um bruto imaginar näo sabe
1 De um variio em mil casos agitado
Que as praias discorrendo do Ocidente,
(C /, 25). l Descobriu o RecOncavo afamado
Da Capital brasilica potente:
Do Filho do Troväo denominado,
E, no outro extremo, as palavras do selvagem que diz ao ~ 0 peito domar soube a fera gente;
missioniirio ja ter recebido em sonho, "como em s.ombra mal 0 valor cantarei na adversa sorte,
Pois s6 conh$ Her6i quem nela C fortc
formada", a essencia da doutrina crisrä (1, 45-59).
A poetica que presidiu a feitura do poema era hfhrida. De (Canto I, 1)
um lado, esquemas camonianos, '~corrigidos" pela preseni;a ex-
clusiva do maravilhoso cristäo. De. outro, a tradi~o colonial-bar- Domando a "fera gente" e as pr6prias paixöes, Diogo c mis-
roca que se reflete no gosto das enumeras:öes profusas da flora to de Colono portuguCs e mission3rio jesufta, sfntese que näo con-
tropical hauridas no ultragong6rico Rocha Pita. 0 uso do mara- vence os conhecedores da hist6ria, mas quc da a medida jusra
vilhoso cristäo e o desejo de superar em coerencia 0 s Lusiadas dos valores de Frei Jose de Santa Rita Duräo. Na medida em
explicam-se nesse passadista renitente por uma tendCncia nova que o her6i encarna, alias ossifica tais valores, ele se enrijece e
na cultura do seculo XVIII: a crltica aos hibridismos da Renas- acaba perdendo toda capacidade de ativar a trama epica. Salvo
cens:a em materia de mitologia. Durao esteve atento aos conse- 0 epis6dio transmitido pela lenda, em que 0 naufrago passa •
lhos de Jose Agostinho de Macedo, polemista vitrioloso que en-
dossou todas as teses retr6gradas da "viradeira", mas que con- (56) Cf. AntOnio Cändido, "Estrutura literSria e funi;äo hist6rica" em
Literatura e Sociedade, S. Paula, Cia. Ed. Nacional, 1965. '
servou do Iluminismo o dlnone d• vcrossimilhan'°. Nada lhe

76 77
senhor dos Indios fazendo fogo con'I o seu fuzil ( 11,44), proeza Ha em Tomas Antonio Gonzaga ( 57) um homem de letras
repetida na luta contra J araraca ( IV, 66), a •l'äO e antes sofrida jurldicas e de alta burocracia que escreveu ainda jovem um cau-
do que empuxada por Diogo-Caramuru. De resto essa paralisia teloso Tratado de Direito Natural com o intuito de galgar um
e sempre razäo do louvor setecentista ao her6i civil e padfico, pösto na Universidade de Coimbra, e viven a vida toda metido
tanto mais que este ja alcan\'OU, mediante expedientes magicos em oflcios e pareceres. Sua perfcia lhe valeu posi,öes de presti-
(e aqui se regride ao barroco), formas .duradouras de domina,äo: gio mesmo quando exilado em MQl'ambique. Mas houve, den-
tro do quarentäo s6lido, pratico e prudente, um lirico que a in-
Quanto merece mais, que em douta Lira
Se cante por Her6i 1 quem pio e justo, c!ina,äo por Marllia fez despertar, e um satirico a quem picaram
os desmandos de um tiranete.

,•
Onde a cega Nacäo tanto delira,
Reduz a humanidade um Povo injusto? 0 ponto de media,äo entre o desembargador e o poeta acha-
Se por her6i no mundo s6 se admira 1
-se no tipo de personalidade que se poderia definir, negativa-
Quem tirano ganhava um nome augusto,
Quanta 0 sera maior que 0 vil tirano mente, como näo-romiintica. Desfeitas as lendas do enamorado
Quem nas feras infunde um peito humane? perpetuo, do rebelde amigo de Tiradentes, do homem que ensan·

l1
1
(C. II, 19)
deceu no degredo, ficou livre o caminho para a compreensäo do
/iterato que em tudo revelaria equilfbrio entre os sentidos e a
A. partir do Canto VI, tudo e descritivo. Durio cede il razio.
tend~ncia retrospectiva da epopeia classica espraiando-se na crö- Gonzaga e conaturalmente arcade e nada fica • clever aos
nica do descobrimento e das riquezas coloniais, näo esquecidas confrades de escola na Italia e em Portugal. As /iras säo exem·

l
as gl6rias do apostolado jesultico. plo do ideal de aurea mediocritas que apara as demasias da na-
tureza e do sentimento. A "paisagem", que nasceu para arte
como evasäo das cortes borrocas, recorta-se para o neoclassico
Arcades ilustrados: nas dimensöes menores da cenografia idflica. Esta prefere ao
mar e a selva o regato, o bosque, o horto e o jardim. A natu-
Gonzaga, Sllva Alvarenqa. Alvarenqg Pelxolo reza vira refUgio ( /ocus amoenus) para o homem do burgo opri-
. tnido por distinl'Öes e hierarquias. Todas as culturas urbanas do
Entre Basllio e Santa Rita Duräo as aproxima,öes säo for- Ocidente, nos estagios mais avan,ados de moderniza,äo, acabam
tuitas. Seria talvez mais correto pör o Caramuru entre par~te­
ses e lembrar os tra\'OS mais modernos e llricos do Uraguai para
(57) ToMAs ANTÖNIO GoNZAGA (Porto, 1744 -
retomar 0 fio da poesia arcadica. Que leva a leitura de Gonzaga, Mo;ambique,
1810?). Filho de um magistrado brasileiro, passou a inf:lncia na Bahia
de Alvarenga Peixoto e de Silva Alvarenga. Ha um ar de fa- onde estudou com os jesuftas. Formou-se em Canones em Coimbra para
mllia que nos faz reconhecer em Basllio e nesses poetas a mes- cuja Faculdade preparou a tese sobre Direito Natural. Exerceu a magis·
ma disposi,äo constante para atenuar em idllio tudo 0 que .e tratura em Beja durante alguns anos. Em 1792 chega a Vila Rica para
tenso, conflitante; o sentimento, ·mediado pela maneira buc6li- exercer a ouvidoria e a procuradoria. Cedo comeca.m as suas desaven~as
com as autoridades locais (motivo das Cartas Cbilenas que correram anö-
ca e rococ6, e comum a todos; como a todos e comum o convf- nimas). mas tambem o seu idflio com a adolescente Maria Joaquina Doro-
vio COffi 0 Iluminismo que Jevou OS Ultimos a participa\'ftO em t€ia de Seixas, a Marflia das Liras. Nomeado desembargador da Rela~äo
grupos hostis ao regime. Gonzaga e Alvarenga Peixoto, nascidos da Bahia, esperava casar para partir, quando e delatado e preso como con·
ambos em 1744, estiveram envolvidos na Inconfid~cia e sofre- jurado e conduzido a Ilha das Cobra:s. Julgado depois de tr€:s anos, de·
gredam-no para M~ambique. A1 obtem uma alta posi~äo administrativa
ram a mesma pena de degredo .Para a Africa. Silva Alvarenga, e se casa com Dona Juliana Mascarenhas, filha de um riqulssimo merca-
pouco mais jovem, foi mentor de reuniöes liberais no Rio de dor de escravos.
Janeiro e satirizou as leis retr6gradas da Corte, vindo a conhe- Edi~äo recomend3.vel: Obras Completas, aos cuidados de Rodrigues
cer tr~s anos de duro carcere. E justo aproxima-los como os me- Lapa (Rio,_ 2 vols., 1957). Sobre Gonzaga: Rodrigues Lapa, Introdu~äo
lhores exemplos da vertente arcade-ilustrada. 4s Obras, cit.; Eduardo Frieiro, Como era Gon:{aga?, Be1o Horizonte. 1950

78 79
reinventando o natural e fingindo 11a arte a grac;a espontinea do
tc cobrc as faces, que s!o cor da neve.
Eden que os cuidados infinito• da cidade fizeram perder. Para Os teus cabelos säo uns fios d'ouro·
os romänticos, que levariam o processo ao limite, a natureza era teu lindo corpo balsamos vapora. '
o lugar sagrado da paixao, o cenario divino dos seus pr6prios· so-
nhos de liberdade e de gl6ria. Mas para o arcade ela ainda c! A oscila~ao entende-se como comprornisso arcade entre o
pano de fundo, quadro onde se fazia. posslvel expressar as in- real <; os pa~öes de beleza do lirismo petrarquista. A dubieda-
clinac;öes sensuais ou nostalgicäs que o decoro das func;öes civis de ~11.'.'ge, alia~, outras areas: Dirceu ora e pastor, quando o pede
relegava a esfera da vida intima. • fic<;ao buc6lica, ora e juiz, quando isso lhe da argumento para
0 processo de alargamento, ate coincidirem sujeito e natu- mover a admirai;äo de Marllia:
reza, comec;a no seculo XVIII com Rousseau e os pre-rornßnticos
Eu, Marllia, näo fui nenhum vaqueiro
ingleses. Mas s6 em pleno Romantismo tomaräo o mesrno cris- fui honrado pastor da tua aldeia. . . '
ma homem e paisagem. A linha arcadica parece timida e modes-
ta em comparac;äo com o "primitivo", o "batbaro", o "telllrico" Verlis em cima da esp~osa mesa
dos romi\nticos. E nao s6 nos temas. As liras, os rond6s e os altos volumes de enredados feitos·
madrigais ordenavam melodicamente um universo reduzido de ver-me-2s folhear os grandes livro;
e decidir os pleitos. •
emoc;öes; e o pequeno nUmero e o rigor metrico dessas formas
ja significavam o limite a que se impunham os poetas, para quem
a arte sabia ainda a exercicio de linguagem. Um leitor romänti- Mas, pastor ou juiz, Dirceu insiste em frisar o seu status
superior ( ").
co de Gonzaga por certo se decepcionara com a monotonia dos
temas e com algo que parece indiferen~a de quem niio se empe- ~an_ibem a paisagem e ora nativa, com minucias de cor Jo-
nha muito na materia do seu canto. Mas seria uma leitura ana- ca! mmeira, ora lugar ameno de virgiliana mem6ria:
crönica: ao arcade basta para cumprir sua missao li terilria a fa-
tura de um quadro onde as linhas da narureza ora contrastem Tu näo verifs, Marllia, cem cativos
tirarem o cascalho e a rica terra,
ora emoldurem uma tenue hist6ria sentimestal. ou dos cercos dos rios caudalosos,
Assim, a figura de Marilia, os amores aüida näo realizados ou da minada serra.
e a m<igoa da -separac;äo entram apenas como "ocasiöes" no can- Näo veras separar ao habil negro
cioneiro de Dirceu. Näo se ordenam em um crescendo emotivo. do pesado esmeril a grossa areia,
Dispersam-se em liras galantes em que sobreleva o mito grego, e ji brilharem os granctes de oiro
a paisagem buc6lica, o vezo do epigrama. Ja foi notado, com no fundo da bateia.
ingenuo escandalo, que os cabelos de Marilia mudam de uma li-
ra para outra e aparecem ora negros, ora dourados: (
58
) As suas palavras de desprezo a Tiradentes escritas na prisä:o
Os scus compridos cabel~. com o intuito de defesa, ferem a tecla da "infcrioridade;, social do Alfercs:
que sobre as costas ondeiam,
säo que os de Apolo mais belos, Ama a gente assisada
mas de loura cor näo säo. a honra, a vida, o cabedal, täo pouco,
Tbn a cor da negra noitc; que ponha uma ai;äo destas
e com o branco do rosto nas mäos dum pobre, sem respeito e louco?
fazem, Marllia, um composto
da mais formosa uniäo.
························· ·········
A prudencia e trati-lo por demente;
Os teus olhos espelham luz divina, ou prend!-Io, ou entregi-lo,
a quem a luz do sol cm väo se atreve; pua delc zombar a m~ gcntc.
papoila ou rosa delicada e fina (Lir• 64)

80
Bl
Niio ver8s derrubal: os virgens matos Contemporineas da 1 Parte das Liras säo as Cartas Chilenas
queimar as capoeiras inda novas,
servir de adubo a. terra a fertil cinza,
que suscitaram dU.vidas de autoria durante mais de um s&ulo ( 59 )
lan~ os gräos nas covas. Gonzaga as escreveu no intuito de saririzar seu desaleto politico,
o. Governador Luls da Cunha Meneses, que nelas aparece sob o
Näo veris enrolar negros pacotcs disfarce de Fanfarräo Minesio.
das secas folhas do cheiroso f;µmo;
nem espremer entre as dentad'as rodas Säo doze cartas assinadas por Critilo e dirigidas a um ami-
da docc cana o su.m.o. go, Doroteu. A s8tira e o processo constante, mas o tom, desde
OS VetSOS de abertura, e mais jocoso do que azedo:

Num. sftio ameno, Amigo Doroteu, prezado amigo


cheio de rosas, abre os olhos, boceja, estende ;,, bra~
de brancos lirios, e lim~ das pestanas carregadas
murtas vi~sas, o pega1oso hum.or, que o sono ajunta.
dos seus am.ores e
Critilo, o tcu Critilo, quem te chama;
na companhia, ergue a ca~ da engomada fronha
Dirceu passava acorda, se ouvir queres cousas r~.
alegre o dia.
As "cousas raras" däo pretexto para descrever o mundo as
Enquanto pasta alegre o manso gado, avessas, o Chile ( isto e, Minas) i1 merce de Fanfarräo Minesio:
minha bela Marilia, nos sentemos
a sombra deste cedro levantado. entao veriis leöes com ~ de pato,
Um pouco meditemos veriis voarem tigres e camelos,
na regular beleza, veras parirem homens, e nadarem
que em tudo quanto vive nos descobre 08 roll~ penedos sobre as ondas.
a sS:bia natureza.
Tudo sabe a divertimento literario nas cartas do Ouvidor
Mas tudo säo contrastes aparentes, focos de aten~o cliversos de Vila Rica. Fanfarräo lhe evoca ora Sancho escanchado no
do mesmo olhar e do mesmo espfrito cujo lema e sempre o otium Rocinante a dar senten~as, ora Nero, primeiro piedoso, depois
cum dignitate do magistrado a quem a fortuna deu talento para enraivecido, no trato dos sU.ditos. E reaparece em cores caricatas
fazer versos. Mesmo nas liras compostas no cSrcere, o desejo o realismo da vida domestica esquecido pela tradi~o lirica mais
de temperar as pr6prias dares com novas galanterias e torneias "nobre". Na Carta Terceira, 18-se uma descri~äo da vida pachor·
mi tol6gicos e prova de um carater incapaz de extremos. Ainda renta dos 3rcades, vindo a tona 0 "velho Alcimodonte" entre
nesses momentos fala o homem preocupado s6 em achar a ver- os seus alfarrabios ( Claudio Manuel da Costa) e o "terno Flori-
säo literaria mais justa das seus cuidados: doro" ( Alvarenga Peixoto) fruindo das lazeres da vida familiar.
Nessa obra de circunstancia agrada sempre a fluencia da
Nesta cruel masmorra tenebrosa decassilabo solto que vai marcando com brio os abusos do mau
ainda vendo estou teus olhos belos,
a testa formosa,
politico, sem deixar em branco as suas maneiras de "caduco
os dentes nevados, Adonis" exibidas por ocasiäo dos esponsais de· D. Joiia e Dona
os negros cabelos. Carlota J oaquina.
Vejo, Marllia, sim; e vejo ainda ( 59 ) Ern favor de Cl&udio, cf. Caio de Melo Franco, 0 Inconfidente
a chusma dos Cupidos, que pendentes ClOudio Manuel da Costa, Rio, Schmidt, 1931. Provando definitivamente
dessa boca linda, a autoria de Gonzaga, v. Manuel Bandeira, "A Autoria das Cartas Chile-
nos ares espalham nas'.' (in R~sta ~o Brasil, .abril de 1940) e Rodrigues Lapa, As Cartas
suspiros ardentes. Chilenas, Rio, Insntuto Nacronal do Livro, 1958.

82 BJ
.E escusado dizer que .a denqncia de Critilo näo vai alem Ern geral, A. Pcixoto combina a loa do progressismo com a
das pessoas e, se deixa passar algum versa de piedade pelos aceita~äodo governo forte: e 0 despota ilustrado 0 seu ideal, ti-
negros, rano a quem se rende a Colönia na pessoa do nativo. Nas oita-
que näo tCm mais delitos que fugirem vas do "Canto Genetlfaco", escritas em 1782, por ocasiäo do
as fomes e aos castigos, que padecem
no poder de senhores desumanos, nascimento do filho do Governador das Minas ja o nativismo
sentimental se funde no poder Juso:
näo toca em ponto algum do-regime·nein incrimina "as santas Biirbaros filhos destas breohas duras,
leis da Reino". E a certa altura reconhece como legais as sevl- nunca mais recordeis os males vossos;
cias feitas pelos donos das escravos: revolvam-se no horror das sepulturas
dos primeiros av6s os frios ossos:
Tu tamb6n näo ignoras que os a9)utes que os her6is das mais altas cataduras
sci se däo, por desprezo, nas esp3:duas, principiam a ser patdcios nossos;
que ai;outar, Doroteu, em outra parte e o vosso sangue, que esta terra ensopa,
s6 pertence aos senhores, quando punem ja produz frutos do melhor da Europa.
os caseiros delitos das escravos.

Bastariam esses passos ( colhidos de um poema em que pre- Quando preso na Ilha das Cobras, a sua nega,äo sistemati·
valece a intenc;ä:o critica!) para situar a ideologia de Gonzaga: ca de ter participado no movimento levou-o ao paroxismo da sub-
despotismo esclarecido e mentalidade colonial. serviencia com D. Maria I, pondo na boca do Piio de A,ucar, mu·
Trac;os esparsos, mas fortes, de nativismo acham-se na obra dado em Indio, estes versos categ6ricos:
exigua de Alvarenga Peixoto ( 60 ). Come\'.OU a escrever corno Sou vassalo, sou leal;
neocla'.ssico, pagando depois tributo a lira laudat6ria: ~om sincero como tal,
entusiasmo ao cantar Pombal, mas por urgCncia do 1ndulto, no fiel, -constante,
sirvo a gl6ria da imperante,
ca so de D. Maria I. sirvo a grandeza real.
Ao Marques dedicou uma trabalhada Ode em que o tema do Aos EHsios descerei,
her6i pacffico atinge a sua mais clara expre.osäo. Ao quadro d~ fiel sempre a Portugal,
guerra ( "o horror, o estrago, o susto") o poeta contrapöe. o un1- ao famoso vice-rei,
verso do labor e da ordern, cujo pano de fundo traz a prusagem ao ilustre general,
as bandeiras que jurei.
mitica da Arddia:
Grande Marques, os Siitiros saltando 0 mesmo espfrito, modulado em versos menos infelizes, re-
por entre verdes parras, conhece·se na Ode a D. Maria, "Invisfveis vapores", em que
defendidas por ti de estranhas garras; o Indio manobra as suas palavras no sentido de dar a Inconfi·
os trigos ondeando
nas fecundas searas; dencia uma dimensiio luso-brasileira.
os incensos fumando sobre as aras, Quanto ao juizo estetico sobre a lfrica de Alvarenga Peixo-
9. nascente cidade to, esta pendente de poucas composi~öes, sendo algumas de au·
mostram a verdadeira heroicidade.
toria discutfvel. Dos sonetos descobertos entre os manuscritos
(tiO) lNAcro JosE DE ALVARENGA PEIXOTO (Rio, 1744; Ambaca, An- da Biblioteca Nacional de Lisboa por M. Rodrigues Lapa ( 1959),
gola, 1792). Doutorou-se cm Leis pela Universidade de Coimbra em 1767. pode-se dizer que apresentam tra~os pre-romanticos temperados
No Brasil exerceu a funi;S:o de ouvidor no Rio das Mortes onde conheceu pela inten~äo geral, neoclassica:
Barbara Heliodora, com quem se casou. Comprou lavras no sul de Minas
e C sem dUvida como propriet:lrio descontente com a "derrama" que tc- Ao mundo esconde o Sol seus resplandores,
ria participado na InconfidWcia: foi preso e desterrado, vindo a morrer e a miio da Noite embrulha os horizontes;
no presfctio africano. a. Vida e Obra de Alvarenga Peixoto, por Rodri- näo cantam aves, näo murmuram fontes,
gues Lapa, Rio, l.N.L., 1%0. nao fala Pi na boca dos pastores.

84 85
Atam as Ninfas, cm lugar. de flores, 0 verso e o redondilho maior acentuado sempre na 3."
mortais dpre&tes Sobre as tristes frontes; sllaba.
erram. chorando nos desertos montes,
sem arcos, sem aljavas, os Amores. Mais livres, os madrig~is de Glaura articulam-se em estrofcs
variamente rimadas, que väo de 8 a 11 versos. Corno na tradi-
V!n.us, Palas e as filhas da Mem6ria,
deixando os grandes templos esquecidos, ~äo italiana dessa forma, aos decassllabos misturam-se hcxas-
näo se lembram de altares nqn de gl6ria. sllabos:
Andam os elementos confundidos: Nesre aspcro rochedo,
ah, Jönia, Jönia, dia de vit6ria A quem imitas, Glaura sempre dura.
sempre o mais triste foi para os vencidos ! Gravo o triste scgredo
Dum amor estremoso e sem ventura.
Silva Alvarenqa d:l-nos a imagem cabal do militante ilus- Os Faunes da espessura
Com sentimento agreste
trado( 61 ). Aqui mcu nome cubram de cipreste,
Mas a aten~o do leitor amante de poesia logo se voltaril Ouvem o teu as ninfas amorosas
para a coerencia formal da sua. obra, Glaura, composta de ron- De goivos, de jasmins, lirios e rosas
d6s e madrigais. 0 rond6, de origem francesa, foi convertido (Madrigal VI).
por Silva Alvarenga em um conjunto de quadras com um estri-
bilho que abre e fecha a composi~o, alem de se intercalar en- Os t6picos de Alcindo formam o exempl:irio do Rococ6:
tre series de duas estrofes. Assim, em um rond6 de treze qua- locus amoenus, carpe diem, otium cum dignitate. E sempre a
dras, o estribilho aparece cinco vezes, o que da um alto indice de figura de Glaura como esquiva pastora envolta em um halo de
redundilncia e favorece a mem6ria musical do poema. Na mes- galante sensualidade.
ma esteira de repeti~äo, os estribilhos se dispöem sempre com Ultimo dos neocl:issicos de relevo, autor de uma Epistola
rimas internas: a Basilio da Gama forrada de preceitos horacianos, Silva Alva-
Cajueiro desi;ra~ado ( a ) , renga ja foi considerado, no entanto, "o elo que prende os arca-
A que Fado (a) te entregaste (b), - des e os romftnticos" (Ronald de Carvalho). A expressäo trai
Pois brotaste ( b} em terra dura ( c)
Sem cultura ( c) e sem senhor uma crftica externa, se näo superficial: o fato de se inclufrem
nos rond6s nomes de Srvores brasileiras, o cajueiro e a manguei-
(Rond6 III)
ra a cuja sombra repousa Glaura, alem de näo ser tra~o exclusi-
Conscrvai, musgosas pcnhas (a), vo do poeta, pode explicar-se como simples nativismo de paisa-
Nestas brenhas (a) minha gl6ria (b); gem, comum a barrocos e Srcades. E o ameninamento das comw
E a mem.6ria (b), que inda existe (c), para~öes ( com pombos e beija-flores) e dos adjetivos ( ternos
Torne um triste (c) a consolar
Amores, tenra flor, purpura mimosa, mimosa Glaura) tem um
(Rond6 Vill).
que de Metastasio dengoso e acariocado que se entende a mara-
(61) MANUEL INAc10 DA SILVA AivARENGA (Vila Rica 1749 - Rio vilha quando se evoca o tipo do mesti~o culto nos tempos colo-
de Janeiro, 1814 ). Fez liumanidades no Rio e Cinones em Coimbra entre niais, näo se fazendo mister a etiqueta uromintico„ para
1_773 e 1776, perfodo em. que defendeu com ardor a nova polftica educa- defini-lo( 62 ).
ctonal do Marqu!s, como testemunha 0 seu poemeto her6i-c0mico 0 v~
sertor, 5'tira da ran~ pedagogia coimbrä. Voltando para o Brasil, adve> cindo Palmireno), coligidas por Joaquim Norberto em 2 vols., Rio, 1864;
gou em Rio das Mortes, fixando-se depois no Rio como professor de Re-
t6rica e PoCtica. Membra ativo da Sociedade LiterO.ria dcsde 1786, fez-se Glaura, com pref3cio de Afonso Arinos, Rio, l.N.L., 1944.
{ 62) Tra~os que se percebem ainda mais nitidamente nos versos de
conhecer pelas id6as "afrancesadas", o que lhe custou trCs anos de prisäo
( 179497). Liberado, continuou a ensinar e chegou a ser um dos DOSS06 DOMINGOS CALDAS ßARBOSA (Rio, 1738 - Lisboa, 1800), filho de portu-
primeiros /ornalistas com a fun~ dO Patriota, Glaura publicou-se em gues e angolesa. Na. colet&nea de seus poemas, Viola de Lereno (Lishoa,
1799. &li~: Obras Poeticas de Manuel Inacio da Silva Alvarenga (Al- 1798), reconhece-se a gra~ f3cil e sensual dos lunduns e das modinhas

86 87
E verdade tambem qµe jogar com as linhas e as cores da Da llustra~ao ao Pre-romanUsmo
paisagem para exprimir os pr6prios afetos ~ ser pre-rom8:ntico
em sentido lato. A analise näo deve, porem, borrar os planos de Nos primeiros decenios da seculo XIX as f6rmulas ard·
enfoque. No nlvel mais generico, a Ilustra~o, de matiz sensis- dicas servem de meio, cada vez menos adequado, para transmi-
ta ou rousseauniana, desagua no egotismo, a grande linha de for. tir os desejos de autonomia que a inteligencia brasileira ja ma·
\a do Romantismo. Ambos siio etapis de um processo de afir· nifestava em diverses pontos da Colönia.
ma\iio da sensibilidade, que acabara incorporando a Natureza e Seria curiaso investigar o porque de tanta ma poesia du·
a Hist6ria; ambos integram o curso do individualismo que, näo rante esse perfodo rico de mudanc;as econömicas e polfticas na
cessando de crescer desde a Renascen\a, tem lastreado a ideolo- sociedade brasileira. A rigor, entre a Glaura de Silva Alvaren-
gia corrente da civiliza\iio ocidental. ga e OS Primeiros Cantos ( 1846) de Gon,alves Dias niio veio a
Mas, no interior desse longo processo, acham-se em tensäo luz nenhuma obra que merecesse plenamente o t!tulo de poetica.
dialetica diversas configura\öes de estilo, diferentes graus de E mesmo que a data final fosse recuada para 1836, ano da pu-
liberdade. A efusäo romantica, centrada no emissor da mensa- blica\iio das Suspiros Poeticos e Saudades de Gon,alves de Ma-
gem, rejeita o velho c6digo da mitologia grega e das formas fi- galbiies, marco da literatura romäntica, ainda assim terlamos tres
xas, que os arcades ainda sentiam como veiculo adequado de co- decadas e meia e certamente duas gera\öes de curtissimo fölego
municai;ä.o. Nesse ponto, a ruptura romfuttica sera um fato es- lirico.
retico muito bem marcado que näo convem esfumar pela insis- Uma hip6tese para explicar o fenömeno e ver no hibridis-
tCncia no relevo de trai;os premonit6rios. mo cultural e ideol6gico desse perlodo a carencia de mordente
0 mesmo cuidado vale para o reconhecimento da ideolo- capaz de organizar um estilo forte e duradouro. Todo o pro-
gia liberal ja difusa entre os seculos XVIII e XIX. 0 espirito cesso da Independfu>cia (de 1808 a 1831) fez-se gra,as a inter-
de distin\lio deve ficar alerta para näo confundir homens de todo ven\iiO das classes dominantes do pals, que herdaram da vida
passadistas, como Santa Rita Duräo, e os ilustrados, alguns bem colonial mais recente uma serie de ambigüidades: Ilustra•iio-rea·
cautos e prontos a voltar atrcls nas ocasiöes penosas, como Gon- \ao; pombalismo-jesuitismo; delsmo-beatice; pensamento-ret6ri-
zaga e Alvarenga Peixoto, mas outros coereJ).tes no seu percurso ca . . . As elites brasileiras, ainda forradas da linguagem coim-
do pombalismo ( como libera\iio e näo refor\o da tirania ) para brä, tomavam ciencia das novidades europeias, que eram nada
a critica do sistema colonial. E esse o caso de Silva Alvarenga menos do que os frutos da Revolu>iio Industrial e da Revolu~o
que vimos cantar na juventude a reforma da Universidade e en- Francesa; mas nä:o se sentiam ·maduras para recusar os mitos au-
contramos, consumada a "viradeira", entre os animadores da torit:lrios que a Santa Alian\a fizera circular pela Europa do Con-
Sociedade Literaria, agindo de modo a despertar as suspeitas da gresso de Viena ( a Austria, a Russia, Espanha e Porrugal e a
Conde de Resende que o mantem por tres anos no c3rcere; e que, pr6pria Fran\a restaurada de Lu!s XVIII e Carlos X). A divi-
cnfim, temos entre os redatores dO Patriota, a primeira revista säo de aguas entre liberais e conservadores, que marcou o ho-
de cultura impressa depais da vinda de D. Joäo. E e tambem mem europeu na primeira metade do seculo, esbateu-se entre ~6s
o caso do medico mineiro Francisco de Melo Franco ( 1757-1823); pelo fato de ter vindo de cima a consecu>~o, ~· Indepen~enCia:
presa pela Inquisi\iio em Portugal como livre-pensador, persis- De Cayru, valido de Joäo VI, a Jose Bo111faC10, conselhetro de
tiu na crftica mordaz ao reacionarismo coimbräo, desmascaran- Pedro I temos uma inteligencia que repete, em um vasro pa!s
do-o no Reino da Estupidez, poemeto her6i-cömico qüe s6 logrou recem-egresso do sistema colonial, a experiencia dos intelcctuais
ver impresso em Paris, em 1818. europeus junto aos despotas mais ou menos esclarecidas(").
afro-brasileiras que ele transp& para esquemas arciidicos, durante o seu
( 63) Alguns historiadores tbn acentuado o car3ter de compromisso
longo convfvio com os poetas da corte de D. Maria 1. t um caso dpico
de contaminatio da tradi~äo oral, falada e cantada, com a linguagem eru- t;n!f
de que se revestiu a Independencia: 11 AtC As v~peras; · ., e aqucles
mesmos que seriam seus principais fautores, nada ~avta que m. I~ um
dita (V. a lntrodu~äo de Francisco de Assis Barbosa a Viola de Lereno,
Rio, l.N.L., 1944). pensam.cnto separatista daro e definido. 0 pr6pno J~ Bonifiicio, que

89
88

I
Näo e de admirar qul' atitudes ideol6gicas a rigor lncom- facio de Andrada e Silva ( 64 ), cujo relevo de estadista tem dei-
patlveis viessem tecer uma s6 rede mental: padrcs cram ma~ns, xado em segundo plano ( e näo sem justi~a ... ) as veleidades do
os religiosos professavam-se liberais e ate um tradutor dos Sal- poeta.
mos se fez interprete da teoria do bom selvagem. A nossa vida
espiritual näo sentiu os cboques violentos que abalavam a Eu- Faltas de estro, a "Ode aos Baianos" e a "Ode aos Gregos",
ropa, pois näo tinham amadurecido aqui os grupos de pressiio que arrastado e ret6rico o "Poeta Desterrado", lCem-se hoje apenas
lutavam arduamente no Velho Munda desde as primeiras crises pelo que ilustram a biografia de um homem de inteligbicia ro-
do feudalismo. As opiniaes radicalmente opostas de um Voltai- buste e voltada para o mundo. No Patriarca, as leituras dos r0-
re e de um Rousseau, ou de um Byron e de um Chateaubriand, manticos ingleses, que ele cita com louvor, ficaram no plano de
calam na rarefeita elite brasileira como p"'as de um mosaico ideal vagas sugestöes sem que o arcade pudesse, sexagenario, absorver
que um pouco de habilidade verbal poderia compor. o esplrito realmente novo que soprava da Europa. ~ no plano
dos detalhes formais despregados do todo que ele recebeu a li-
0 ecletismo teve nos generos publicos e na poesia rct6rica \äo romilntica:
a sua melhor expressäo.
Pot poesia ret6rica entende-se aqui o verso que se propöe . .. e quanto a monotönica regularidade das estäncias, que se-
guem a risca franceses e italianos, dela S.s vezes me apartei de pro-
abertamente ensinar, persuadir, moralizar; em suma, incutir um p6sito, usando da mesma soltura e liberdade, que vai novamente
complexo de ideias e sentimentos. 0 Iluminismo favorecia o praticadas por um Scott e um Byron, cisnes da lnglaterra (Dedi-
gosto pedag6gico, ministrando o Uti!, enquanto cabia ao idllio cat6ria).
arcade providenciar o agradavel. Com o nosso hibridismo ilus-
trad0-religioso do com°'o do secu!o XIX, e o poema sacro, mo- Alem da "soltura" das estäncias e do verso branco ( que
ralizante ou patri6tico que vai substituir as tiradas em pro! das nele antes acentua o prosaico do que a liberdade poetica), Jose
luzes do seculo anterior. Leg!veis, nesse esp!rito, siio as tradu- Bonifacio tomou aos pre-romilnticos imagens merenc6rias de ci-
\aes dos Salmos e as Poesias Sacras e Profanas do Padre Sousa prestes e !Umulos com que ensombra os seus quadros buc6licos:
Caldas (Rio, 1762-1814), autor de uma significativa "Ode ao
E inda haver:i mortal desassisado,
Homem Selvagem"; e as parafrases dos Proverbios e do Livro de Que sem temor os olhos seus demore
]6 de El6i Ottoni (1764-1851). Sousa Caldas, sem duvida su- Sobrc o palido tUmulo sagrado,
perior a Ottoni, pela f!uencia e cotre\iio da lihguagem, molda os Que Ia reluz ao longe!
verslculos em estrofes neoc!assicas dando a medida do sincretis- A vista dele, doce vate, morre
mo literario da epoca. Ileglvel, o poema sacro A Assun~äo, de Toda a alegria minha,
Morre o prazer da eterna primavera.
Fr.. Francisco de S. Carlos, "uma das mais insulsas e aborridas
produ\Qes da nossa poesia", no dizer severo de Jose Verlssimo. (Ode, imitada do ingles, a morte de
um poeta buc61ico}
0 patri6tico e moralizante aparecem copiosos nas Poesias
Avulsas de Americo Ellsio (182?), pseudönimo de Jose Boni-
( 64) JosE BoNIFAc10 DE ANDRADA E S1LVA {San tos, 1763 - Rio, 1838).
seria o Patriarca da Independ~ncia, o foi apesar dele mesmo, pois sua Estudou em Coimbra formando-se em Direito Civil e em Filosofia Natu-
ideia sempre fora unicamente a de uma monarquia dual, uma esp6cie de ral ( CiCncias}. Mente enciclopedica, foi mineralogista de renome na Eu-
feder~Bo luso-brasileira" (Caio Prado Jr., Formafäo do BrdSil Contem- ropa e homem de s6lida cultura econOmica, al6n de grande estadista. Vol-
pordneo, 7.• ed., S. Paulo, Brasiliense, 1963, p5g. 364 ). Dos politicos mais tando para o Brasil em 1819, influiu vigorosamente junto ao Principe D.
ligados a D. Pedro no perfodo cr(tico da ruptura com Portugal sabe-se Pedro no periodo da Independencia. Exilado entre 1823 e 1829, viveu
que neutralizaram a influencia dos liberais mais progressistas, como Gon- na Frani;a ( Bordfus) onde pöe termo a redai;äo das Poesias Avulsas de
~ves Ledo, Janufil-io da Cunha Barbosa e Alves Btanco; e que, para m~ Americo Elisio li editadas, em 1825. ' Regressando, recebe do lmperador
lhor governar, cindiram a Ma~naria, que a todos coligava, cerrando as renunciante o encargo de tutelar o futuro Pedro II, entäo menor. A
portas do Grande Oriente e fundando o Apostolado, definido por um au- sua ai;äo polftica no periodo regencial e tida como saudosista. V. SCrgio
tCntico rebelde, Frei Caneca, como um "clube de aristocratas servis". Buarque de Holanda, Prefiicio as Poesias, J.N.L.. 1946.

90 91
A luz da passagem de ,.eonven('ßo paisagfstica para o pitores- nessa atividade, a rigor extraliteriiria, mas rica de contatos com
co entendem-se as palavras finais de Americo Ellslo na Dedica- a cultura europeia do tempo, que se articularam as nossas letras
t6ria: ante-romänticas e se definiram as linhss ideol6gicas mestras do
Quem folgar de Marinismos c Gongorismos, ou de PedrinbtJJ Primeiro Imperio e da Regencia.
no fundo do ribeiro, dos versistas nacionais de freiras c casquilhos,
fuja desta minguada raps6dia, como de febre amarela. Para quem se entranha na hist6ria brasileira da primeira
metade do seculo, assumem uma clara funl'iiO simb6lica os no-
Poetas de escasso valor foram tambem Francisco Vilela Bar- mes de Cayru, Monte Alverne, Frei Caneca, Hip6lito da Costa,
bosa (Rio, 1769-1846 ), arcade retardatario que compös em Por- Evaristo da Veiga. 0 denominador comum e o novo mito que
tugal os Poemas e uma cantata uA Primavera"; e Jose de Nati- dos iluministas aos homens de 89 passara a ideia-for~ da bur-
vidade Saldanha ( 1795-1830), menos lembrado como idilico na- guesia ocidental: a liberdade.
tivista do que por ter participado na Confedera,äo do Equador As nal'öes devem ser livres. l! a razäo que o ensina, e Deus
( 1824) e vindo a morrer tragicamente na Colömbia, onde se li- que o quer. Variam as tönicas no panfleto ou no sermäo con-
gara aos liberais radicais. forme as ralzes leigas ou religiosas do autor. Nas Cartas de Sou-
0 unico nome que, ao lado de Sousa Caldas e Jose Bonifa- sa Caldas e nas ap6strofes de Frei Caneca, a fonte dos valores e
cio, pode aspirar ao titulo de representativo, e o de Domingos naturalmente a divindade; nos ensaios de Hip6lito da Costa, re-
Borges de Barras ( 1779-1855), aristocrata baiano e doutor em dator ilnico do Correio Brasiliense, e nos artigos de Evaristo da
Coimbra que, depois de ter viajado pela Europa e conhecido Veiga, alma da Aurora Fluminense, säo as IU2es da razäo que
na Frani;a os Ultimos 3rcades, Delille e Legouve, voltou ao Bra- exigem um clima de liberdade e toleräncia. "V6s amais a liber-
sil onde serviu a politica de Pedro I, que o fez Visconde da Pe- dade, eu adoro-a", dizia aos mineiros D. Pedro, e era um sinal
dra Branca. Publicou em Paris as Poesias Oferecidas i!s Senho- dos tempos na boca de um principe portugues de fndole auto-
ras Brasileiras por um Baiano (1825) e, muito mais tarde, a ele- ritaria.
gia Os Tumulos pranteando a morte de um seu filho ainda me- Variavam tambem os objetos a que se aplicava a ideia.
nino. Segundo a fina analise de Antonio Candida ( 65 ), ha nos Para o Visconde de Cayru (Jose da Silva Lisboa, 17'6-
melhores poemas de Borges de Barros aqu<!las cadencias de di- -1835), ela significava o fim dos entraves coloniais ao livre eo-
fusa sentimentalidade que se afastam da Arddia galante para . mercio: o que resultou na franquia dos portos, em 1808, e na
tocar motivos prf-romanticos: o "vago d'alma", a melancolia, a progressiva ocupa,äo pela Inglaterra de um novo e respeitavel
saudade, a m3goa, a solidiio. Sendo, porem, um poeta irregular, mercado.
de faceis descaidas para o banal e o mediocre, näo foi capa2( de Para o bispo e ma,omD. Jose Joaquim da Cunha Azeredo
passar de uma ou outra intui<;äo para o amadurecimento de Coutinho ( 6 6 ), alem das reformas econömicas, era a nova peda-
um estilo que teria feito dele, pelo menos, o que foi Gon,alves gogia do Emilia, voltada para a natureza e para a forms,äo do
de Magalhäes dez anos mais tarde: o introdutor do Romantismo citoyen, que arrancaria o brasileiro do 6cio e da treva colonial.
em nossa 1i tera tura.
A insistf:ncia nas reformas educacionais acha-se tambfm nas
Cartas do Padre Sousa Caldas escritas, segundo Verlssimo, a imi-
Os qeneros pUbllcos tal'iio das Lettres Persannes. Infelizmente s6 nos restam duas,
mas que deixam entrever a largueza desse esp!rito liberal capaz
de fundir o amor ao progresso e a cren,a religiosa.
Ao lado dessa poesia, oscilante entre velhos e novos pa-
dröes, florescem os generos nascidos da aberta inser<;äo na vida ( 66) De AzEREDO CouTINHO, v. Obras EconOmicas, apresentai;iio
pUblica: o sermäo, o artigo, o discurso, o ensaio de jornal. Foi de sergio Buarque de Holanda, S. Paulo, C. E. Nacional, 1966. Sobre o
seu pensamento, v. Nelson Werneck Sodr6, "Azeredo Coutinho, um eco-
(65) Op. cit., vol. !, pp. 284-291. nomista colonial", em A Ideologia do ColonialJsmo, 2.• ed., Rio, Civ. Bra-
silelra, 1965, pp. 19-37.

92 9J
A mesma sintese crismoU-se de ardor revolucioruirio na pes· Os publicistas deixaram um legado de brasilidade a primei-
soa de Frei J oaquim do Amor Divino Caneca ( 1779-1825). Sua ra gera~äo romantica. Mas, pela pr6pria natureza dos seus es-
repulsa as fei~öes desp6ticas do Primeiro Reinado exprimiu-se critos, colados 8 prax.is, näo chegaram a influir na consciCncia li-
1
primeiro nos panfletos cheios de sarcasmo do Tifis Pernambu- ter:iria que estava por nascer.
cano e nas Cartas de Pitia a Damäo, e depois pela adesäo a Re-
pilblica do Equador (1824) , que lbe ,yaleu a pena de morte. l InfluCncia e, mais que influCncia, fascinio, exerceu a pala-
vra de um orador sagrado, Frei Francisco de Monte Alverne ( 69 ),
Mas Frei Caneca e caso extremo no periodo. Sera neces- (1 que carreou para o limiar do Romantismo uma nova sensibilida-
slirio esperar pelos grandes levantes populares da Regencia e do de pela qua! se fundiam ao calor da cren~a as "harmonias da
Segundo Imperio, a Balaiada, a Cabanada, a Sabinada, os Fa"a- 1
natureza" e as "gl6rias da Patria".
pos e a Praieira, para entender essas crises do equilförio econö-
1

Tiveram-no por mestre e oraculo OS romanticos passadis-


mico e politico que o poder central iria superar apoiando-se nos tas: de Magalhiies a Porto Alegre, de ~alves Dias a Alen·
1
oligarcas provincianos e na perpetua~o do escravismo. car. E niio por acaso. Foi ele quem primeiro sentiu a inflexäo
Representam o liberalismo de centro dois admiraveis publi- espiritualista da Eusopa romantica; e quem DOS trouxe OS pri-
cistas da epoca, Hip6lito da Costa Pereira ( 67 ) e Evaristo da meiros ecos do Genio do Cristianismo e da filosofia ecletica de
Veiga (68 ) • Cada um a sua maneira criou o molde brasileiro Cousin. Tra~avam-se entiio os contornos da resistencia religiosa
da prosa jornalistica de ideias, näo superado dusante 0 seculo ao ceticismo busgu~s: e a linha de compromisso seguida por qua-
XIX. Para ambos, a liberdade e, acima de tudo, possibilidade se todos os cat6licos franceses era a de um cauto e piedoso libe-
de expressäo, de informa~io, de crftica. Sio os cl:issicos do res· ralismo. Niio foi outra a op~iio do nosso franciscano.
peito aos direitos civis, a Constitui~iio. Diferem em grau. Hip6- Siio caracteres constantes nas homilias de Monte Alverne:
lito da Costa era dotado de um talento mais viril que Evaristo;
a inten~iio apologetica, um vago e ret6rico amor da patria e, e.m-
tendo passado boa parte da vida na Inglaterra, pöde absorver
bora soe estranho na boca de um frade, um exagerado concelto
uma cultusa politica muito mais complexa que a do redator apres-
de si - narcisismo que bem assenta a esse avatar dos roman-
sedo da Aurora Fluminense. Diferem tambem pelas pr6prias
circunstancias de tempo em que atuaram. :fljp6lito foi o analis- ticos.
ta lucido que viu do alto do seu observat6rio londsino o Brasil Da sua presen~a diz, sem muita simpatia, Jose Verissimo:
de D. Joiio VI; feita a lndependencia, calou-se o Correio Brasi- No Rio de Janeiro, o principal centro de cultura. e de vi~a .li·
liense dando por Cl)mprida a sua missiio. Ao jornalista da Au· teriria do pais, Fr. Francisco de Monte. Aiver:ie faz1a do pulptto
rora coube o registro miudo dos Ultimos anos do Primeiro lm- ou da c2tedra estrado de tribuno polittco, misturando constante--
perio, dos dias agitados da Abdica~iio ( que ele ajudou a consu- mente, com eloqüencia retumbante havida entäo por sublime, a re-
mar-se) e de parte do intermezw regencial. A prosa de Hip6li- ligiäo e a p3tria (70).
to e a do ensa!smo ilustrado. A de Evaristo cinge-se a crönica ( 69) FREI FRANCISCO DE MoNTE ALVERNE, no sCculo Francisco de
politica que temp6ra como pode as rea~öes ao imprevisto. Mas Corvalho (Rio de Janeiro, 1784 - Niter6i, 1858). Ordena~do-se Irade
uma e outra foram indispensaveis .t forma~iio de um publico le- menor ensinou Filosofia no Semin3rio de Säo Paulo e, depots de 1817,
dor em um pa!s que mal nascera para a vida polftica; uma e ou- foi no~do Pregador da Capela Real, fun~o que exerceu brilhantem.en·
te durante o Primeiro Reinado. Tendo cegado em 1836, afastou.se do
tra· repisaram temas liberais de que tanto careciam as elites re- pU.lpito at~ 1854, quando Pedro II. ? .c~?11· ocasiio cm .que prof~
cem-sa!das do arb!trio colonial. um sermäo, cBebre pelas palavras truaais: ~ tarde, ~ mu1to tarde . ..
Manteve correspondencia ass{dua com os primeiros rominticos, Gon~vcs
(67) H1P6LITO Jos:E. DA CosTA PEREIRA FURTADO DE MENDONt;A (Co- de Magalhlies e Porro Alegre. Ha uma edi'1o razoivel de suas ObrtU
Iönia do Sacramento, 1774 - Londres, 1823). V. Carlos Rizzini, Hip6li- Orot6rittS, em 2 vols., pela Garnier (s. d.). Cf. Roberto Lopes, Monte
to da Costa e o Correio Brasiliense, S. Paulo, C. E. Nacional, 1958. AJverne, Pregador Imperial, Petr6polls, Vozes, 1958; Cortos • Monte AJ-
(68) EvARISTO FERREIRA DA VEIGA (Rio de Janeiro, 1799-1837). V. verne, S. Paula, C.Onselho Estadual de Cultura, 1964.
Octilvio Tarquinio de Sousa, Evaristo da Veiga, S. Paula, C. E Nacional, (70) Jose Vedssimo, Hist6ria da Literatura Brasileira, 3.• ed., Rio,
1938. Jose Olympio, p. 166.

94
N9. verdade, os sermöes· de !vjonte Alverne, que deixaram
fama de exito invulgar, nao iesistem ä. leitura. Sua ret6rica e das
que pedem a voz e o gesto para disfarc;ar a mesmice dos concei-
tos por trcis de uma empostac;äo persuasiva. Quanto ao contell-
do ideol6gico, servem de exemplo estas palavras, proferidas pou-
co antes da Abdica~iio; o orador exalta a liberdade constitucio-
nal sem poupar louvores a grandeza de' Pedro I:
Näo, o Brasil nä:o queria, o Brasil näo quererii mais um dtspo.
ta: o reinado da escravidä:o passou para näo voltar mais: a arbitra- J
riedade näo vingara na terra sagrada, que seus destinos impelem
aos mais serios melhoramentos. Importava pouco ao Brasil ge-
mer no senhorio da metr6pole au suportar grilhöes nacianais: mas
era da maior transcendencia para o Brasil estabelecer a sua exis- 1
tencia sabre alicerces indestrutiveis; espancar a tirania debaixo de
qualquer forma, cam que pudesse mostrar-se; e combinar com a se-
veridade da lei a dignidade da homem. IV
Foi sem dUvida um das mais soberbos triunfos da filosafia a
aquisi~äo dum principe que, recebendo o cetro e a coroa das mäos
dum povo, que ele mesmo libertara, proclamau a soberania popu-
lar, resolveu a teoria da legitimidade e completou o grande ato da 0 ROMANTISMO
independencia do Brasil, oferecendo-lhe uma constituir;äo, na qua]
se reUnem as inspirac;Oes mais sublimes, os votos de _todos -os ho-
mens generosos, e todos os penhores do engrandecimento nacional.
(Ern Ar;äo de Grar;as no aniversiirio do juramento da Constituic;äo,
aos 25 de marr;o de 1831).

A guisa de balan~o. Dos Ultimos arcades ate a introdu~äo


do Romantismo como programa, por volta de 1835 / 40, as le-
tras brasileiras näo se adensaram em torno de -autCnticos poetas
que a marcassem com o selo de uma arte madura. Repetiu-se
ate o esvaziamento a t6pica do seculo anterior, somando-se um
ou outro dado nativista e religioso, sem que a tensiio classico/ro-
miintico, fortissima na Europa, achasse aqui base hist6rica para
crescer.
Ern contrapartida, a passageqi do sistema colonial, fecha-
do e monopolista, para a integra~äo, no mercado franco e na cul-
tura do Ocidente, deu condi~es para a emergfocia de teses libe-
rais que, no pUlpito ou no jornal, dominaram a nossa primeira
prosa de ideias.
Caberia as gera~öes jovens do Segundo Imperio consolidar
a ideologia do patriotismo liberal. E o fizeram, afetando-a dos
supremos valores romlinticos, o indiv!duo e a tradi,äo.

96
J

Caracterea qerals

Segundo Paul Valery, seria necessa1io ter perdido todo es-


pfrito de rigor para querer definit o Romantismo.
E, a falta de uma definitio que abrace, no contorno de
uma frase, a riqueza de motivos e de temas do movimento, e CO·
mum recorrer ao simples elenco destes, ocultando no mosaico
da analise a impotencia da slntese.
Mas aqui, como nos outros ciclos culturais, o todo C algo
mais que a soma das partes: e genese e explica.;äo. 0 amor e a
patria, a natureza e a religiäo, o povo e o passado, que afloram
tantas vezes na poesia romS.ntica, säo conteUdos brutos, espalha-
dos por toda a hist6ria das literaturas, e pouco ensinam ao in.
tCrprete do texto,. a näo ser quando pastos em situafilo, te1nati·
zados e lidos como estruturas esteticas.
Ora, e a compreensiio global do complexo romäntico que
alcan,a entender esses varios nfveis de abordagem que a analise
horizontal dos "assuntos" aterra no mesmo plano.

A altuac;ao doa vlirioa romantlsmoa

0 primeiro e maior circulo contoma a civiliza,äo no Oci·


dente que vive as contradi>öes pr6prias da Revolu,iio Industrial
e da burguesia ascendente. Definem-se as classes: a nobreza, ha
pouco apeada do poder; a grande e a pequena burguesia, o ve·
Ibo campesinato, o operariado crescente. Precisam-se as visöes
da existencia: nostalgica, nos decaldos do Ancien Regime; pri-
meiro euf6rica, depois prudente nos novos proprietarios; jB in-
1

quieta e logo libertaria nos que veem bloqueada a pr6pria ascen-


siio dentro dos novos quadros; ·imersa ainda na mudez da incons·
ciencia, naqueles para os quais niio soara em 89 a hora da Liher-
dade-lgualdade-Fraternidade.

99
Segundo a interpreta\äO. de Karl Mannheim, o Romantismo Assim, apesar das diferenc;as de situac;0.o material, pode-se
expressa os sentimentos dos descontentes com as novas estrutu- dizer que se formaram em nossos homens de letras configura·
ras: a nobreza, que j3 caiu, e a pequena burguesia que ainda näo ~öes mentais paralelas as respostas que a inteligencia europeia
subiu: de onde, as atitudes saudosistas ou reivindicat6rias que dava a seus conflitos ideol6gicos.
pontuam todo o movimento ( 71 ). Os exemplos mais persuasives vCm das melhores escritores.
0 quadro, vivo e pleno de co9seqüf:ncias espirituais na 0 romance colonial de Alencar e a poesia indianista de Gon~al­
Inglaterra e na Frani;a, entäo 'limites do sistema, exibe defasa- ves Dias nascem da aspira~ä:o de fundar em um passado mf tico a
gens maiores Oll menores a medida que se passa da centro 8 nobreza recente do pafs, assim como - mutatis mutandis - as
periferia. As nai;öes eslavas e balcänicas, a A;ustria, a ltilia cen- fic\Öes de W. Scott e de Chateaubriand rastreavam na Idade
tral e meridional, a Espanha, Portugal e, com mais evidt!ncia, as Media feudal e cavaleiresca os brasöes contrastados por uma bur-
co/onias, ainda vivem em um regime dominado pela nobreza fun- guesia em ascensäo. De resto, Alencar, ainda fazendo "roman-
diaria e pelo alto clero, näo obstante os golpes cada vez mais vio- ce urbano", contrapunha a moral do homem antigo a grosseria
lentos da burguesia ilustrada. dos novos-ricos; e fazendo romance regionalista, a coragem do
0 Brasil, egresso do puro colonialismo, mantem as colunas sertanejo as vilezas do citadino.
do poder agr3rio: o latifUndio, o escravismo, a economia de ex- A correspondencia faz-se Intima na poesia dos estudantes
porta\'äO. E segue a rota da monarquia conservadora ap6s um boemios, que se entregam ao spieen de Byron e ao mal du siecle
breve surto de erup\öes republicanas, amiudadas durante a Re- de Musset, vivendo na provfncia uma existencia doentia e artifi-
gencia ( 72 ) • cial, desgarrada de qualquer projeto hist6rico e perdida no pr6prio
Carente do binömio urbano industria-operario durante qua- narcisismo: Alvares de A:z.evedo, Junqueira Freire, Fagundes Va-
se todo o seculo XIX, a sociedade brasileira contou, para a for- rela. . . Corno os seus fdolos europeus, os nossos romänticos
ma,äo da sua inteligencia, com os filhos de familias abastadas do exibem fundos trai;os de defesa e evasäo, que os leva a posi~öes
campo, que iam receber instruc;äo jurfdica ( raramente, mCdica) regressivas: no plano da rela,äo com o mundo ( retorno a mäe-
em Säo Paulo, Recife e Rio ( Macedo, Alencar, Alvares de A:z.e- -natureza, refUgio no passado, reinven~äo do bom selvagem, exo-
vedo, Fagundes Varela, Bernardo de GuimaPiies, Franklin Tavo- tismo) e no das rela\Öes com 0 pr6prio eu ( abandono a solidäo,
ra, Pedro Luis), ou com filhos de comerciantes luso-brasileiros e ao sonho, ao devaneio, as demasias da imagina~äo e dos senti-
de profissionais liberais, que definiam, grosso ·modo, a alta clas- dos). Para eles caberia a palavra do Goethe classico e iluminis-
se media do pais ( Pereira da Silva, Gon~alves Dias, Joaquim ta que charnava a esse Romantismo "poesia de hospital".
Norberto, Casemiro de Abreu, Castro Alves, Silvio- Romero ). Ra-
Enfim, o paralelo akan\'a a ultima fase do movimento, ja
ros os casos de extrac;äo humilde na fase romantica, como Tei-
na segunda metade do seculo, quando väo cessando as nostal-
xeira e Sousa e Manuel Antönio de Almeida, o primeiro narra-
gias aristocr3ticas, j3 sem fun~o na din:tmica social, e se aden-
dor de folhetim, o segundo, picaresco; ou do trovador semipo-
sam em torno do mito do ptogresso OS ideais das classes medias
pular Laurindo Rabelo.
avan,adas. Sera o Romantismo publico e orat6rio de Hugo, de
Nesse esquema, do qua! afasto qualquer tra~o de determi-
Carducci, de Michelet, e do nosso Antonio Castro Alves.
nismo cego, ressalte-se o carSter seletivo da educac;äo no Brasil-
-Imperio e, o que mais importa, a absor,äo pelos melhores ta-
lentos de padröes culturais europeus refletidos na Corte e nas 1
capit~is provinciaaas.
l Temas

Do circulo maior, s6cio-hist6rico, podemos passar ao da te-


karl Mannheim, Essays, cit.
( 11)
1 matiza\äO das atitudes vividas pelos escritores romiinticos. As
(72) V. Jose Ribeiro Jr., "O Brasil Monarquico em face das RepU-
blicas Americanas", em Brasil em Perspectiva, cit., pp. 167-221.

100
l coordenadas do contexto fazem-se tra\'OS mentais e afetivos.

101
O fulcro da visäo romintlca do mundo e o sujcito. Dirla- Po!lida cstrelal o caoto do crepUsculo
mos hoje, em termos de infOrma~ä:o, que e o emissor da men- Acorda-tc no c6J:
Ergue-.te nua na floresta morta
sagem. No teu doirado vCu!
0 eu romiintico, objctivamentc incapaz de resolver os con· Ergue-.te! eu vim por ti c pela tarde
Hitos com a sociedade, lan.,i-se 11 evasäo. No tempo, recriando Pelos cam.pos errar,
uma Idade Media g6tica e embruxada .• No espa_.,, fugindo para Sentir o vento, respirando a vida,
E livrc suspirar.
ermas paragens ou para o Oriente ex6tico.
A natureza romäntica e expressiva. Ao contrario da natu· Oh! quando o pobre sonhador medita
reza arcade, decorativa. Ela significa e revela. Prefere-se a noi· Do vale fresco no orvalhado leite,
te ao dia, pois a luz crua do so! o real impöe-se ao indiv!duo, Inveja as &guas o perdido vöo
mas e na treva que latejam as fo~as inconscientes da alma: 0 Para banhar-se no perfume etCreo,
E nessa argCntea luz, no mar de amores
sonho, a imagina~äo. Onde entre sonhos e luar divino
A mäo eterna vos lanr;ou no espa9),
Quem provou da onda cristalina, que, iläo tocada pe1os ~­ Respirar e viver!
tidos comuns, jorra do seio escuro da noite; quem ficou nos a-
mos, DOS extremos confins da Vida, e deitou OS olhos a Terra Pro- (Ä.I.VARES DE AzEVEDO, Lira dos Vinte Anos)
mctida e ls moradas da Noite, jli nio regressarS: ao mundo da an-
gllstia, As terras onde habita a Luz, perene inquieta\;iiO ( NovALIS
Hinos a Noite, IV). Säo palavras do Werther goethiano:
Pensei que o Amor vivesse a luz quentc do Sol Amigo, quando me vejo inundar de luz, quando o mundo e o
Eie vive ao luar. cCu v~m habitar dentro de mim, como a imagem da mulher ama-
Eu pensei encontcl-lo no calor do Dia. da, entäo digo a mim mesmo: "Se pudesses exprimir o que scntes!
Consolador da Noite C o doce Amor. Se pudesses exalar e fixar sobre o papel o que vive em ti com. tan-
Na escuridäo da noite to calor e plenitude que essa obra se transformasse em. espelho da
e na neve do invemo, tua alma, como a tua alma e espellio de Deus Infinito!"
entre os nus e os rCprobos,
e que 0 deves buscar Enfim, com a mUsica, a mais livre das artes, espcravam os
(BLAKE, "William Bond") romänticos entregar-se ao fluxo infinito do Cosmos:
A mU.sica de Beethoven - dizia ·Hoffmann - pöe em movi-
0 mundo natural encarna as pressöes anlmicas. E na poc- mento. a alavanca do medo, do terror, do arrepio, do sofrimento, c
sia ecoam o tumulto do mar e a placidez do lago, o fragor da tem- desperta precisamente esse infinito ando que e a essc!ncia do Ro-
pestade e o sil&icio do ocaso, o lmpeto do vento e a fixidez do mantismo.
ceu, 0 terror do abismo e a serenidade do monte.
Infinita anelo. Nostalgia do que se er~ para sempre per-
Abri as frescas rosas:· .
fazei brilhar os cravos dido. Desejo do que se sabe irrealizavel: a liberdade absoluta
do seu jardim, 6 arvore, vesti-vos na sociedade advinda com a Revolu>äo de 89.
de lindas folhas verdes; Na ansia de reconquistar "as mortas esta~öes" e de reger
videira que nos destes sombra outrora, os tempos futuros, o Romantismo dinamizou grandes mitos: a
a cobrir-vos de p8.mpanos voltai.
Natureza formosa,
na,äo e o her6i.
eternam.ente a mesma, A na>äo afigura-se ao patriota do sOculo XIX como uma
dizei aos loucos, aos mortais dizei ideia-for>a que tudo vivifka. Floresce a Hist6ria, ressurrei>iio
quc des näo pereceräo.
do passado e retorno as origens ( Micbelet, Gioberti). Acen-
( RosALfA DE CAsTR.o, Folhas Nooas) dra-se o culto il llngua nativa e ao folclore (Schlegel, Garrett,
102
103
Manzoni). novas bandeiras para Os' povos que aspiram a autooo- matico) e de microunidades, as formas fixas ( epopeia, ode, so-
mia, como a Grecia, a Itilia, a Belgica, a Polönia, a Hungria, a neto, rond6, tragedia, comedia ... ) No interior desses esque-
Irlanda. Para algumas na~öes o6rdicas e eslavas e, naturalmeo- mas, que formalizavam categorias psicol6gicas, atuava uma rede
te, para todas as na~öes da America, que ignoraram o Renasci- de subc6digos tradicionais: topos, mitemas, slmbolos; que, por
mento, sera este o momento da grande afirma~äo cultural. Maz- sua vez, se traduziam, no nfvel da elocu~äo, pelas figuras de es-
zini, ap6stolo da unidade italiana, viu ~m o pr6prio seculo: "ho- tilo, de sintaxe e de pros6dia, responsaveis pelo tecido concreto
ra do adveoto das oa~öes". · do texto literario.
Entretanto, o nexo entre o eu c a Hist6ria, mantido no pen- Esses conjuntos formais serviram quanto puderam ate os Ul-
samento abstrato de um Fichte, logo se desata oa praxis de uma timos arcades brasileiros que decifravam as mensagens pre-romiio-
sociedade descontlnua ·por excel&icia. 0 homem romiintico rein- ticas da Europa em termos da sua pr6pria e retardada forma~äo
venta o her6i, que assume dimensöes titiinicas ( Shelley, Wagner) literaria: Sousa Caldas misturava acordes blblicos e ritmos neo-
sendo afinal reduzido a cantor da pr6pria solidäo ( F6scolo, cl3ssicos; Jose Bonif3cio traduzia em odes o seu patriotismo de
Vigny). exilado; o Visconde da Pedra Branca confundia o novo senti·
Mas, como her6i, e o poeta-vate, o genio portador de ver- mentalismo com o cantabile de Metastasio ...
dades, cumpridor de missöes: A uma certa altura, mudado o p6lo da nossa inteligencia
A n6s pertence de Coimbra para Paris ou Londres, näo era mais poss1 vel pensar
Ficar de pe, cabe~a erguida, 6 poetas, e escrever dentro do universo estanque de uma linguagem ainda
Sob as tempestades de Deus tomar com as mäos
0 raio do Pai e o relimpago, setecentista, ainda colonial.
e estender aos homens, Na Fran~a. a partir de 1820 e na Alemanha e na lnglaterra,
sob o vCu do canto, desde os fins do secu!o XVIII, uma nova escritura substitulra os
o dom do cfu.
c6digos classicos em nome da liberdade criadora do sujeito. As
(HOELDEltLIN) libera,öes fizeram-se em varias frentes. Caiu primeiro a mito-
logia grega ( velha arm~dura mal remo~ada no tempo de Napo-
A voz de Deus me chamou: "Levanta-Ü:, profeta, ve, ouve, e leao), e caiu aos golpes do medievismo cat6lico de Chateau-
percorrendo mares c terras, qu~ima com a PaJavra os corar;öes do~
bomc:ns" (PUCHKIN).
briand et alii. Com as fic~öes classicas foi-se tambem o paisagis-
mo arcade que cedeu lugar ao pitoresco e a cor local. A mesma
Eu sinto cm mim o borbulhar do gCnio (CASTRO ALVES) liberdade desterra formas llricas ossificadas e faz reoascer a ba-
lada e a can~äo, em detrimento do soneto e da ode; ou, abolin-
do qualquer constrangimento, escolhe o poema sem cortes fixos,
0 nivel estetlco que termina onde cessa a inspira~ao ( Byron, Lamartine, Vig-
ny ... ) . A epopeia, expressao her6ica ja em crise no secu!o
Mas näo tocamos o imago da arte romintica enquanto näo XVIII, e substitu1da pelo poema polltico e pelo romance hist6-
entendemos os c6digos que cifram ·as novas meosagens. E o Ul- rico, livrc das peias de organizac;äo interna que marcavam a nar-
timo cfrculo, o estftico. A poesia, o romance e o teatro passam rativa cm verso. No teatro, espelho fiel dos abalos ideol6gi·
a existir no momento em que as idfias e os sentimentos de um cos as mudanc;as näo seriam menos radicais: afrouxada a distin-
grupo tomam a forma de composic;öes, arranjos intencionais de c;äo1 de tragfdia e comfdia, cria-se o drama, fusäo de sublime e
1 signos, estruturas ou ainda, para usar do velho termo rico de grotesco, que aspira a reproduzir o encontro das paixöes indivi-
significados humanos, no momento em que os assuntos viram duais contido pelas bienseances classicas. 0 martelo, augurado
obras. por Victor Hugo no pref:icio do Cromwe/I, pöe abaixo todas as
II Os c6digos classicos, vigentes desde a Reoascen~a. dispu- conven,öes, come,ando pela vetusta lei das tres unidades que os
nham de macrounidades, OS generos poeticos ( epico, Hrico, du- tragicos da Renascen,a haviam tomado a Arist6teles.

104 105
A renova~o nas camadas sonoras atingiu o ccrne do verso, Saudades (18J6), livro e data quc a hist6ria fixou para a inuo-
0 ritmo, distendendo-o em funsiio da melodia que, vcfculo mais
dusiio do movimento entre n6s.
adequado as efusöes do sentimento, contou com a prcf~ "Romanrico arrependido" chamou-o com ironia Alcantara
dos poetas e, naturalmente, dos compositorcs: Chopin, Liszt, Machado, e a expressäo e valida, .näo s6 por ter Magalhäes na
Berlioz, Schubert, Schumann, mestres de uma nova e difusa scn- velhice mudado o estilo juvenil, mas, intrinsecamente, pela ns-
sihilidade musical. Renascem, por outro .Iado, formas medicvais 1
tureza de sua obra que de romantico tem apenas alguns temas,
de estrofa,äo e da-se o maximo relevo• aos metros brevcs, de ca- mas näo • liberdade expressiva, que e 0 toque da nova cultura.
dencia popular, os redondilhos maiores e menores, que passam 1 A relevancia hist6rica reside no fato de Magalhäes näo ter
a competir com o nobre decassllabo. operado sozinho como imitador de !'.-amartine e Manzoni, mas. de
Genero entre todos contemplado foi o romance, ua revolu- 1 ter produzido junto a um grupo, v1~ando ~ uma reforma da. ~te­
'äo literaria do Terceiro Estado" (Debenedetti). Os ingleses, ratura brasileira. Fundando em Pans a Nzter6z, revzsta bras1l1en-
que se anteciparam ao resto da Europa na marcha da Revolusiio 1 se ( 1836) com seus amigos Porto Alegre, Sales Torres Homctn e
Industrial, ja dispunham, no seculo XVIII, de narradores de costu- Pereira da Silva o autor dos Suspiros Poeticos promoveu de
mes burgueses ( Fielding, Richardson); os romanticos acrcsceram-
-lhes a fic,äo hist6rica ( Scott, Manzoni, Dumas, Hugo, Hercula-
~ modo sistem8ti~ os seus ideais rom3.nticos ( nacionalismo mais
religiosidade) e o repudio aos padröes classicos externos, no ca-
no) e o romance eg6tico-passional ( Stendhal, Lamartine, Geor-
ge Sand, Garrett, Camilo), formas acessfveis ao novo publico
leitor composto principalmente de jovens e de mulheres, e ansio-
so de encontrar na literatura a projer;äo dos pr6prios conflitos
emocionais. 0 romance foi, a partir do Romantismo, um ex·
celente fndice dos interesses da sociedade culta e semiculta do
'
1
so, ao emprego da mitologia pagä.
V alido como documento do grau de consciencia crftica do
grupo e o Ensaio de Magalhäes "Sobre a Hist6ria ~a ~i.teratura
do Brasil", que retoma e alarga slnteses de nossa h1sto~1a cul tu-
ral realizadas por estudiosos estrangeiros: Ferdmand Derus e Gar-
rett na esteira de Mme. de Stael (De l'Allemagne, 1813), que
Ocidente. A sua relevancia no seculo XIX se compararia, hoje, 1 fiz~a correr pelo primeiro Romantismo o binömio poesia·
ii do cinema e da televisäo.
-patria ( 74 ).

0 Ro.mantismo olicial no Brasil Gon~alves de Maqalhäea


j Ascende rapidamente a postos-chave da nossa cultura: m_embr? do lnsti·
tuto Hist6rico e Geografico, recem-criado, Professor de ~t~osofia no. Cole-
gio Pedro II; e da poHtica, onde foi conservador: secretano de Cax1as ~o
Maranhäo ap6s a repressäo da Balaiada; governa~or. e deputado do Rio
Coube a alguns escritores de segunda plana a introdusiio do 1 Grande do Sul depois dos Farrapos. Cada vez ma1s hgado a D .. Pedro II,.
e este quem lhe edita o poema epico A C~nfede~aräo das Tamoios ( 1857)
·~
Romantismo como programa literario no Brasil.
e quem sai a c;;ampo para defendC-Io da.s 1nve.c~vas de Alencar. 0 lm~e­
0 nome de Gon,alves de Magalhäes ( 73 ) e tradicionalmen. rador fe.1 0 Baräo e Visconde de Aragua1a. Edu;ao: Obras Completas, R10,
te lembrado pela baliza da publica,äo dos Suspiros Pohicos e MEC, 1939, ed. anotada por Sousa da Silveira e prefaciada por Sergi?
1 Buarque de Holanda. Sobre Magalhäes: Jose Aderaldo Castelo, A !'ole-
mica sobre "A Confederaräo das Tamoios", S. Paula, Faculdade de F1loso-
( 73) DoMINGOS JosE GoNc;:ALVEs DE MAGALHÄES (Rio, 1811 - Ro. fia, Ciencias e Letras da Univ. de S. Paula, 195~.,. . . .,
rna, 1882). Com~u um curso de Belas-Artes na Academia do Rio, entäo ( 74) FERDINAND DENIS, autor de boa cultura tbenca, e br~s1~err~, Ja .so?
sob influCncia de Debret, pintor de costumes brasileiros; mas pretenu a influencia do historicismo romäntico. Deixou um Rtsume de l htsto~re lit~e·
carreira mOOica, diplomando-se em 1832, ano de suas Poesias, ainda arcli- raire du Portugal suivi du resume de l'histoire litttraire du Brestl, Parts,
dicas. Viajando para a Europa, conhece a lt.llia, a Sui~a e a Fran~ e assi- 1826· de ALMEI~A GARRETT, o "Bosquejo da Hist6ria da Poesia e Lfngua
mi!a tra~os do Romantismo patri6tico e medievista de Chateaubriand, La. Port~guesa" precede ao Parnaso Lusitano, Paris, Aill~u~, 1826-27,_ 5,..vo~s., e
martine e Manzoni. Publica em Paris os Suspiros Poeticos e Saudades em inclui sobre nossos arcades algumas p3:ginas onde ~e 1~~1ste na ex1stenc1a de
1836 e, no mesmo ano, lan~ com Porto Alegre, Torres Homem e Perei- uma poesia genuinamente americana. Para a contnbut~ao de ambos. 8 con~·
ra da Si1va a revista Niter6i, onde teoriza sobre uma reforma nacionalista ciCncia romäntica nacional, v. AntOnio Soares Amora, 0 Roma_nttsmo, ~·
e espiritualista da Iiteratura brasileira. Volta em 1837 ao Brasil, dedica·se Paulo, Cultrix, 1967, cap. III. Ver tä~bCm a :xc~lente antc;>log1a de Gut·
ao teatro (AntOnio Jose, Olgiato) com as mesmas inten«>es reformistas. Ihermino Cesar, Historiadores e Criticos Romantzcos, 1, Rio, LTC, 1978.

106 107
Do mesmo esfor~ de programar as nossas lecras e fruto
o ceacro de Magalhäes, que Veio coincidir com a criar;äo do pri-
l
(
Porto-Alegre
meiro grupo dram<itico realmente brasileiro, a Companhia Dra- 0 principal companheiro de Magalhaes no grupo da Niter6i
matica Nacional, organizada em 1833 pelo ator Joäo Caetano. em nada o ultrapassou: Manuel de Araujo Porto Alegre ( 1806-
A este coube levar 3 cena a tragc!dia AntOnio Jose ou 0 Poeta ·1879), pintor de forma,äo academica recebida da mestre De-
da lnquisi,äo que era, segundo Maga1'>.äes, "a primeira tragc!dia bret, reuniu seus poemas nas Brasilianas ( 1863), escritas com o
escrita por um brasileiro e UniCa de assunto nacional". intuito confesso de "acompanhar o sr. Magalhäes na reforma da
Mais uma vez, o papel de Magalhäes se ateria a prioridade: arte feita por ele em 1836". Corno lirico e ainda inferior ao mo-
AntOnio Jose, apesar das veleidades renovadoras, peca pelo con- delo; mas a sua veia descritiva, que resvalava da pitoresco para
servantismo no gfnero ( ainda tragedia, em vez de drama) e na o prosaico, encontrou modos varios de transbordar na quilom6-
pr6pria forma ( o versa cl<issico em vez da prosa moderna ) . trica epopeia Colombo em nada menos de quarenta cantos, que
Para o seu tempo, porc!m, e para o Imperador, que desde chegou, bem anacrönica, em 1866, a revelar a marginalidade
os primeiros anos da reinado, o agraciou e o fez instrumento de desse "pr6cer do Romantismo".
sua politica cultural, Magalh.äes foi sempre tido como o mestre
da nova poesia. E ele mesmo sentia-se no clever de ministrar
todos os gfneros e assuntos de que a nova literatura carecia para A historiografia
adquirir foros de nacional e romäntica. Tendo-nos dado o lirico
e o dram3.tico, faltava-lhe o c!pico; ff:-lo retomando Duräo e Ba- O grupo afirmou-se gra,as ao interesse de Pedro II de con-
silie, lidos sob um ängulo enfaticamente nativista, e compös a solidar a cultura nacional de que ele se desejava o mecenas. Dan·
Confedera(äo dos Tamoios quando Gan,alves Dias ja fizera pu- do todo o apoio ao lnstituto Hist6rico e Geografico Bras~eiro,
blicos os seus cantos indianistas e Alencar redigia a epopCia em criado nos fins da Regencia ( 1838 ), o jovem monarca aiudou
prosa que e 0 Guarani. Foi-lhe fatal o atraso, que o privou des· quanto pöde as pesquisas sobre o nosso passado, que se colori-
ta vez da "mCrito cronol6gico" que vinha marcando a sua pre- ram de um nacionalismo orat6rio, näo sem ran~os conservado-
senr;a no Romantismo brasileiro. A essa altüra, o indianismo j3 res como era de esperar de um gremio nascido sob tal patrona·
caminhara alem das intuir;öes das 3.rcades e pt;:C-rom3nticos e se to. '. Pertenceram-lhe alguns esrudiosos razoaveis: Pereira da Sil-
estruturava como uma para-ideologia dentro do nacionalismo. E va ( 1817-98) compilou o Parnaso Brasileiro ( 1842) e foi cro-
a linguagem atingira em Gonr;alves Dias um nivel estCtico que nista encomiastico no Plutarco Brasileiro ( 1847), obras que con-
um leitor sensivel como Alencar j<i podia exigir de um poema tribulram para balizar o meufanismo romäntico. Francisco Adol-
que se dava por modelo da Cpica nacional. Assim, tanto a men- fo de Varnhagen (Sorocaba, S. P., 1816 - Viena, 1878), eru·
sagem como o c6digo de A Confedera(äo pareciam ·( e eram) in- dito de estofo germänico e educa\:iio portuguesa, deu o mais ca-
suficientes aos olhos dos pr6prios romänticos. E, apesar das de- bal exemplo de quanto era passive! fundir um pensamento. re-
fesas equilibradas com que acudiram Porto Alegre, Monte Alver- tr6grado com o indianismo sentimental. Por um lado, a histo-
ne e Pedro II, as palavras duras de Jose de Alencar selaram o riografia de Varnhagen, alias pioneira pela riqueza de documen-
firn da primazia literaria de Magalhäes: tos, estava marcada pelos valores da passadismo; nada lhe era
mais antipatico da que o levante popular au intclecrual "fron-
Se eu fasse uma dessas autoridades reconhecidas pelo consen- deur": leia-se a prop6sito o que escreveu, na Hist6ria Gera! tlo
so geral, em vez de argumentar e discutir, como fiz nas cartas que
lhe mandei, Iimitar-me-ia a escrever no livro da ConfederafQo dos
Brasil, sobre a revolu>äo pernambucana de 1817; por outro la-
Tamoios alguma sentenr;a magistral, como por exempio aquele dito do, foi dos primeiros a engrossar a corrente dos desfrutadores
de Horlicio - Musa Pedestris (6." Carta)(75). das lendas indfgenas, no Sume, poema "mito-rcligioso-america-
no" e no Caramuru, romance hist6rico em versos, que revivem,
( 75) V. J. A. Castelo, A Po/emica, cit.
a custa dos habitos nativos, as inten~öes apologeticas de Santa
Rita Duräo.
108
109
Embora, a rigor, caia Varrihagen fora da literatura, creio que De qualquer forma, o cuidado da pesquisa e da documenta-
se deva insistir no exame do, seu complexo ideol6gico, pois tam- >äo e saldo positivo nesse perlodo que nos deu, alem da obra de
bem se reconhecera em autores da melhor ilgua como Go~­ Varnhagen, as monografias de Joaquim Norberto de Sousa Sil-
ves Dias e Alencar. 0 Indio, fonte da nobreza nacional, seria, va (Rio, 1820-1891 ), dentre as quais sio de leirura tltil ainda
em princlpio, o arullogo do "barbaro", que se impusera no Me- hoje a Historia da Con;urtZfäo Mineira ( 1873 ), norteada pclo
dievo e construlra o mundo feudal: eil a ,tese que vincula o pas- mesmo_ esplrito nacionalista dos sequazes de Magalhiies, e as in-
sadista da America ao da Eurbpa. 0 Romantismo refez a sua trodu,oes aos principais poetas da pleiade mineira, que ele recdi-
semelhan,a a imagem da Idade Media, conferindo-lhe caracteres tou e anotou profusamente. Foi Norberto um dos pilares em que
'romanescos" de que se nutriu largamente a fantasia de poe~as,
1 se assentou a nossa historiografia li teraria ate a publica.ao das
narradores e eruditos durante quase meio seculo. Havia um subs- obra~ maduras de Silvio Romero e Jose Verlssimo.
trato polemico na mitiza'"o do Universo cavaleiresco: era a rea-
>iio de nobres como Chateaubriand e Scon aos plutocratas e ao
triunfo dos liberais que desdenhavam as velhas hierarquias. Esse Telxeira e So\18a
complexo ideo-afetivo niio abarca todo o Romantismo, mas uma
area bem determinada como classe e como tendencia intdectual. . J:!m primo pobre do grupo fluminense e a tocante figura de
Homens fervorosamente liberais coino Herculano, De Sanctis, Te1xe1ra e Sousa ( 76 ), mestii;o de origem humHima a quem se
Michelet e Victor Hugo buscariam na Idade Media outros valo· deve. a autoria do primeiro romance romßntico brasileiro ( 11),
res: a for,a do povo contra os tiranos, a constincia da fe pessoal 0 Ftlho do Pescador (1843). Tarnbern escreveu um infeliz poe-
perante o fanatismo, ou ainda o vigor da arte anönima que cons- meto epico, A Independencia do Brasil, e versos indianistas, mas
truiu as catedrais g6ticas. Esse 11 medievismo" niio se perde cm e como narrador folhetinesco que nos interessa. Poderia ser men-
fumos heraldicos e canta naruralrnente o progresso, lato sensu, cionado no capfrulo da fic,äo, junto a Macedo, Alencar, Manuel
burgues, na acep,äo sociol6gica do tern'to. Antönio de Almeida, Bernardo de Guimariies e Taunay. Mas
prefiro nao vO. lo ao lado destes por duas razöes: uma e a inega-
0 nosso indianismo, de Varnhagen a Alencar, pendcu para
o extremo conservador, como todo o conte:ilo social e politico ( 76) ANTÖNI-0 GoN«i;ALVES TEIXEIRA E SousA (Cabo Frio, 1812 -
do Brasil dos fins da Regencia a decada de 60, A primeira mc- Rio, 1861)._ Filho de um vendeiro portugu& e de uma mesti\8, exerceu
tade do reinado de Pedro II representou a estabilidade do go- sempre ofiaos modestos, com~ando como carpinteiro, e chegando a duras
pcnas a mestrc-escola e a escrivio. Deixou: 0 Filho Jo Pescador, Roman-
verno central, escorado pelo regime agr3rio-escravista e capaz de ~e Original Brasileiro (1843), Tardes de um Pintor ou As intrigas de um
subjugar OS Jevantes de grupos Jocais a margem do sistema: OS f<Sulta {1844), GonZJJga ou A Con;urQfäo de Tiradentes (1848-51) A 1

farrapos no Sul, os liberais em S. Paulo e Minas, os balaios no Providlncia (1854), As Fatalidades de Dous Joven1. Record(Jföes dos
Maranhäo, os praieiros em Pernambuco. Ora, foi esse o perlodo Tempos Coloniais (1856), Maria ou A Menina Roubada (1859); na poe-
s1a, Cdnticos Lirzcos (1841-42). V. AurClio Buarque de Holanda "O Fi-
de introdu,äo oficial do Romantismo na culrura brasileira. E o llio do Pescador e As Fatalidades de Dous Jovens", em 0 Romdnce Bra-
que poderia ter sido um alargamc;nto da orat6ria nativista dos sileiro, Rio, 0 Cruzeiro, 1952, pp. 2J.36.
anos da Independencia (Fr. Caneca, Natividade Saldanha, Eva- • { 7.7) ~endo a questäo das prioridades um dos pratos diletos da crö-
risto) compös-se com tra>0s passadistas a ponto de o nosso pri- wca literira, convCm esclarecer em que sentido ela se atribui aqui ao
romance de estreia de Teixeira e Sousa. Antes da publicai;iio deste, safram
meiro historiador de vulto exaltar ao mesmo tempo o Indio e o 8 luz, em 1839, ~ novelas hist6ricas: Jer6nimo Corte Real, cr6nica do
luso, de o nosso primeiro grande poeta cantar a beleza do nati- seculo XVI, 0 AniversOrio de Dom Miguel em 1825 e Religiäo, Amor e
vo no mais castii;o vern3'culo; enfim, de o nosso primeiro ro- P4tria; e, em 1841, uma novela sentimental de Joaquim Norberto As
mancista de pulso - que tinha fama de antiporrugues - incli- Duas Örfäs. Ha, portanto, uma diferen\;3 de gCnero ... e de f61e~: as
nov~ hist6ricas ou melodram8ticas eram, via de regra, adaptai;äo de fo-
nar-se reverente a sobranceria do colonizador. A America jil li- lhetlilS franceses traduzidos entäo copiosamente. S6 Teixeira c Sousa com-
vre, e repisando o tema da liberdade, continuava a pensar como p& um romance, cmbora, no fundo, adotasse os expedientes daqueles
uma inveni;äo da Europa. folbetins.

110 111
vel distincia, em termos de _va.Ior, ..que os separa de todos ( Tei- lhöes, chancelados por habeis manejadores da pena como Euge·
xeira e muito inferior ao pr6prio Macedo); a outra diz respeito ne Sue, Scribe, Feval e Dumas pai, foram as leituras obrigat6-
a situa~äo do romance na face inicial da cultura romäntica. Pa- rias desse novo publico e os modelos - diretos ou näo - de
ra a poesia, genero nobre, foram grandes modelos franceses e Teixeira e Sousa, como o seriam de Macedo. Ja um Alencar, em-
portugueses ( Lamartine, Hugo, Herculano, Garrett) que ins- bora os conhecesse, teve todas as cond.ii;öes cul turais para entron·
11
piraram um Magalhä:es e um Porto Alegre, näo vindo ao caso, car-se na linhagem alta" de Scott e de Chateaubriand e, mes-
a esta a!tura, o porte dos imitadores. 'Mas para o romance, nem mo, para ir alem destas influencias nos seus melhores momentos
Stendhal nem Balzac, nem Stael nem Manzoni, nem mesmo os de romancista urbano.
lidfssimos Scott e Chateaubriand, lograram imprimir, nesse pri- Marca a fic,äo subliteraria de Teixeira e Sousa o aspccto
meiro tempo, o molde ficcional a ser reproduzido. E a subliter~· mecänico que nela assume a intriga. Esta e a essen~i~ do fo.
tura francesa que, no original ou em m3.s tradui;öes, vai suger1r lhetim como, em outro nlvel, o sera do romance polic1al e da
a um homem semiculto, como Teixeira e Sousa, os recursos para "scien~e-fiction" quando niio tocados pelo genio poetico de um
montar as suas seqüencias de aventuras e desencontros. Par que? Poe ou de um Dino Buzzati. 0 processo reinstaura, no J;>lano
0 romance romilntico dirige-se a um pllblico mais vasto, que da comunica,äo escrita, o esquema estlmulo-rea{äo a que alguns
abrange os jovens, as mulheres e muitos semiletrados; essa a~­ psic6logos reduzem a vida sensorial. 0 prazer que vem da res-
plia,äo na faixa dos leitores näo poderia condizer com uma !in· posta e protelado e, ao mesmo tempo, artificialmente excitado
guagem finamente elaborada nem com veleidades de pensamen· por um acfunulo de incidentes, cujo Uni~o firn e despertar 8
to crltico: ha o fatal "nivelamento por baixo" que sela toda sub- curiosidade misturada com um vage receio de um desenlancc
cultura nas epocas em que o sistema social divide a priori os ho- tnigico. Nesse arranjo simplista, o. sujeito. - ~ria .um "beha·
mens entre os que podem e os que nä:o podem receber instru- viorista" - se parece com uma caixa vazta: nao set o que h8
\'.äo academica. 0 fato e que o novo publico menos favorecido dentro dele, mas o que me interessa e a seqüencia de fatos ( o_s
busca algum tipo de entretenimento sendo o folhetim o que me- epis6dios) e as suas pressöes söhre o comportamento, quer di·
lhor responde a demanda e melhor se estrutura no seu nivel. zer, os mesmos epis6dios vistos como aventuras ~ p~rsonagens.
Hoje fazem-se acurados estudos sobre a cult!tra de massa mani- O otlto da peripecia em todos os romances de T etxe1ra ~ Sousa,
pulada pela industria: a hist6ria em quadrinhos, a novela de ni· produz sempre a justaposi,äo, Unico modo de levar adiante o
dio, o show de televisäo e a mUsica de consumo tem analistas que romance: acidentes reconhecimentos, avani;os e retomos, atC
väo da psican3.lise a sociologia e se encontram na encruzilhada que o processo satdre o autor e o leitor ( "principio da sacieda·
da teoria das comunica~öes. Nos meados do seculo passado vi- de") e de por findo o passatempo. E snpCrfluo acrescentar que
gorava o prejufzo aristocr3tico pe1o qual as produi;öes feitas para acompanha 0 processo uma tipifica~äo vi~lenta d~s seres hum~­
o gosto tnenos letrado cafam fora da cultura, e, como tal, näo nos, divididos a priori em anjos e demömos, mocmhos e bandi-
deveriam ser objeto de estudo e interpreta\'.äo. Näo se impuse- dos necessarios estes para a gl6ria daqueles e aqueles para 0 fim
ra ainda a noi;äo de "massa". a nä:o ser em sentido depreciativo, exe:nplar destes. Pela identifica~äo do autor-leitor com os pri·
embora ja se incorporasse nos discursos liberais o concei to de: meiros afirma-se a personalidade do her6i-vltima, que atravessa
"povo": täo generico, que, a falta de uma analise diferencial de a subli~eratura do Romantismo, e e claro sintoma de uma situa·
classes e grupos, resvalava para a pura ret6rica. \'.äO social e psicol6gica. E quadram muito bem as fe!\'.iies semi-
A analise dos fatores que compöem o romance-folhetim vid populares desse primo pobre da gera~äo de Magalhaes aqueles
esclarecer as motiva~öes e os valores daquela media e pequena estere6ripos e um difuso providencialismo ( "junto aos meus CS·
burguesia que, ainda a margem do "Enrichissez-vous" ( moto das critos o quanto posso de moral, para que sejam Uteis").
faixas ascendentes por volta de 1830), näo podia evadir·se no
estilo da nobreza dos Novalis e dos Chateaubriands, e recorria Seja como for, foi com ~Je que o Romantisffi;o caminhou
aos expedieqtes menos caros do romanesco e do piegas. 0 ro- para a narra,äo, instrumento ideal para explorar a v1da e o pen·
mance de capa-e-espada, as novelas ultra-rom3nticas e os drama- samento da nascente sociedade brasileira.
"''
112
poeta, e, de fato, exlguo no conjunto da obra gon,alvina quc
vive dos grandes temas romanticos do amor, da natureza, de
Deus. Mas e preciso ver na for,a de Gon,alves Dias indianista
o ponto ·exato em que o mito do bom sdvagem, constante desde
OS Orcadcs, acahou por fazer-se verdade artlstica. Ü que Sera
• moda mais tarde, e nde materia de poesia .
A POESIA A ideia da hondade natural dos primitivos, es~ada por
Montaigne nos Essais ( I, XXXI, "Des Cannibales"), ii vista dos
testemunhos que os viajantcs traziam da America, vinculou-se no
Renascimento ao mito da idade de ouro. E, emhora os textos de
Gon~alvea Dias nao poucos desses viajorcs e dos missionarios fossem contradi-
t6rios frisando ora a selvageria, ora a docilidade dos nativos,
Gon~alves Dias ( 78 ) foi o primeiro poeta autentico a emer- confo;me o momento e o contexto, firmou-se uma leitura inten-
gir em nosso Romantismo. Se manteve com a literatura do gru- cional dos documentos, que contrapunha a mallcia e a hipocri·
po de Magalhaes mais de um contato ( passadismo, pendor filo- sia do europeu a simplicidade do Indio. E claro que a antino-
sofante), a sua personalidade de artista soube transformar os te- mia natural/ decadente desempenhava uma fun,äo polemica nos
mas comuns em obras poeticas duradouras que o situam muito ataques que o "Ancien R~gime" sofria por parte do pensamento
acima dos predecessores. E repito a observa~ao feita em outro crltico dos ilustrados: essa oposi~äo ia ahrindo hrechas em uma
capltulo: de Glaura de Silva Alvarenga aos Primeiros Cantos näo sociedade de todo "artificial" e hierarquizada. Assim se explica
se escreveu no Brasil nada digno · do nome de poesia. a retomada do mito do hom selvagem por um homem de extra-
Poucos anos depois da estreia de Gon~alves Dias, Alexan- 'äo popular, ressentido com o sistema, Jean-Jacques Rousseau.
dre Herculano saudava-o, lamentando embora que os motivos Mas aqui a anilise do contexto e a regra de ouro: no pregador
indianistas nao ocupassem nos cantos maior espa~. A reserva do Emile a inocCncia do primitivo serve para contrastar com
do solitario de Val-de-Lobos e significativar o poeta maranhen- 8 tirania ~ a deprava~ao dos nobres no tempo de Luis X.V; mas,
se tem muito de portugues no trato da lingµa e nas cadencias vitoriosas as ideias Jiberais de 89, o mesmo retorno a natureza
garrettianas do lirismo, ao contrano dos seus contemporaneos, e a paixäo das origens daria ao Viscondc Rene de Chateaubriand
sobre OS quais pesava 8 influencia francesa. Ü nucleo "amen' argumentos passadistas contra a grosseria dos burgueses pouco
cano", que pda intensidade expressiva, se prendeu ao nome do senslveis a nobreza do primitivo e ao fascinio da vida natural.

( 78) ANTÖNIO GON{:ALVES DIAS ( Caxias, Maranhäo, 1823 - Costas ( 1848) e pelos Ultimos Cantos ( 51 ). Nessas obras junta-se aos grandC:S
do Maranhäo, no navio "Ville de Boulogne", 1864). Ftlho de um ~ temas romS.nticos (Natureza-PBtria-Religiäo) o do amor imposs{vel, de rau:
merciante portugu& e de uma mesti.;a, talvez cafusa, pois o poeta sc dizia autobiografica: o poeta viu recusado um pedido seu de casamento; ao quc
descendente das tr& ra~s que formaram a etnia brasileira. Estudou Leis se sabe, näo a jovem Ana AmClia, mas a sua famllia op8s-se por. pr~n·
cm CoimbN, conhecendo, por volta de' 1840, a poesia rominticcrnaciona- ceito de cor. G. Dias esteve na AmazOnia, onde estudou etnograf1a e hn-
lista de Garrett e Herculano que vincaria para sempre a sua linguagem. gütstica e escreveu Brasil e OceOnia ( 1852) e um Diciontirio da Llngua
Säo frutos do contato com o clima saudosista portugues os dramas hist6- Tupi (i858). Deixou ainda um poema ~pico, _Os Timbiras, inao:bado.
ricos Patkull, Beatriz Cenci, Leonor de Mendonfa. Mas, jS: ncssa fase, Ja muito doente, foi pela Ultima vez a Europa, vmdo a morrer na viagem
amadurecia o poeta voltado para a pBtria e para o fndio, de que foi o de regresso no navio "Ville de Boulogne" que naufrago_u nas co.stas do
nosso grande idealizador. Retornando ao Brasil, em 1845, aproximou-se Maranhäo. Melhor. ed.: PoesUzs Completas e Prosa Escolhtda, com 1ntrodu·
do grupo de Magalhäes e obteve a prot~äo imperial que näo mais lhe c;io de Manuel Bandeira e texto de Antönio llouaiss, Rio, Aguilar, 1959. V.
faltaria. Foi nomeado Professor de Latim e Hist6ria do Brasil no CoIC. Fritz Ackermann A Obra Po~tica de Gonfalves Dias, Säo Paulo, Depto.
gio Pedro II e recebeu, mais tarde, virias comissöes para viagens e cstu- de Cultura, 1940; Cassiano Ricardo, "Gonc;alves Dias c o Indianismo", em
dos. Publicando os Primeiros Cantos ( 1846), firma renome de grande A Literatura no Brasil (dir. de Afrinio C.Outinho ), Rio, Ed. Sul-America-
poeta, logo ratificado pelos Segundos Cantos e Se"tilhas de Frei Antäo na, 1955, vol. I, t. 2, pp. 659-736.

114 115
Os mitos assumem um ·.sentid'o quando postos na constela- Valente n1t guerra
Quem ha, como eu sou?
>äo cultural e ideol6gica a que servem. Quem. vibra o tacape
Atente-se pata o uso que do bom selvagem llietam dois Com mais valentia?
poetas nossos pouco distantes no tempo: Santa Rita Dutäo e Quem golpes daria
Sousa Caldas. 0 primeiro exalta a religiosidade inata do Indio Fatais como eu dou?
- Guerreiros, ouvi-me,
para melbor contestar, do ponto de illsta da catequese, os libe- - Quem ha como eu sou?
rais afrancesados. Mas ao poeta da "Ode ao Homem Selvagem"
Quem guia nos ares
e precisamente 0 ideario iluminista que lbe da meios de glorifi- A frccha emprumada,
car o "primitivo estado": Ferindo uma presa,
Com tanta certeza
De tresdobrado bronze tinha o peito Na altura arrojada
Aqude impio tirano, Onde eu a mandar?
Que primeiro, enrugando o torvo aspeito, - Guerreiros, ouvi-me,
do meu e teu o grito desumano - Ouvi meu cantar
Fez soar em seu dano: ( 0 Canto do Guerreiro)
Tremeu a sossegada Natureza
Ao ver deste mortal a louca em.presa.
Um dos caracteres das poesias americanas de Gon,alves
Dias, e que as distancia da frouxidao das experifficias anterio-
Para a primeira gera~io romäntica, porCm, presa a esque- res, e a entrada sllbita in medias res, que chama o leitor sem
mas conservadores, a imagem do indio casava-se sem traumas tardan,a ao clima de vigor selvagem desejado:
com a gl6ria do colono que se fizera brasileiro, senbor cristäo de
suas tetras e desejoso de antigos brasöes. E a perspectiva de Aqui na floresta
Dos ventos batida
Gon,alves Dias ate a sua Ultima produ,äo indianista, Os Timbi-
ras, "poema americano dedicado a Majestade do Muito Alto e ( 0 Canto do Guerreiro)
Muito Poderoso Principe e Senbor D. Pedro II, lmperador Cons-
titucional e Defensor Perpetuo do Brasil": Ö Guerreiros da Taba sagrada,
Ö Guerreiros da Tribo Tupi,
Os ritos semibatbaros dos Piagas, Fala.m Deuses nos cantos do Piaga,
Cultores de Tupä e a tcrra virgem ö Guerreiros, meus cantos ouvi.
Donde como dum trono enfim se abriram ( 0 Canto do Piaga)
Da Cruz de Cristo os piedosos brac;os;
As festas, e batalhas mal sangradas Tupä:, 6 Deus grande! cobriste o teu rosto
Do povo Am.ericano, agora extinto, Com denso velamen de penas gentis;
Hei de cantar na lira. E jazem teus filhos clamando vingan~
Dos bens que Ihes deste da perda infeliz.
( Depreca~äo).
Mas e apenas 0 matiz conformista que pode aproximar OS
versus do maranbense aos de Magalbäes, Porto Alegre e Var- No exemplo seguinte, a tecruca de apresentar o objeto do
nhagen. 0 que nestes era prosaico e flacido aparece, na arte de poema, pondo-o logo a frente do leitor, e responsavel pela brön-
G. Dias, transposto em ritmos ageis e vazado numa linguagem zea solenidade da abertura:
precisa em que logo se conbece o selo de um esplrito superior.
Gigante orgulhoso, de fero semblante,
Desde as "Poesias Americanas", expressäo dos valores belicos Nurn leito de pedra lii: jaz a dormir!
( fulcro do indianismo epico)' 0 artista entra no tom justo dos Ern duro granito repousa o gigante,
vetsos breves, fortemente cadenciados e sabiamentc construfdos Oue os raios somente puderam fundir.
-na sua alternäncia de sons duros e vibrantes: ( 0 Glgante de Pe<ln)

116 117
No poemeto "1-Juca PirS.m.a" . . a crftica, un8.nime, tem admi· Nos Ultimos cim.os dos montes erguidol
rado a ductilidade dos ritmos que väo recortando os varios mo- 1' silva, j' ruge do vento o pegao.
mentos da narra\äo. Amplo e distendido nos cen0:rios: Estorccm-se os leques dos vcrdes palmares,
Volteiam, rebramam, doudejam nos ares,
No meio das tabas de amenos verdores, At~ quc lascados baqueiam no chäo.

.
Ccrcado de troncos - cobertos de flores,
Alteiam-sc os tetos d'altiva nati,o..
0 exemplo de Gon,alves Dias artlfice do verso sobrcvive
aos romllnticos e toca os parnasianos. Tiveram-no por mestre
Ondeante nos epis6dios em _que se movem grupos humanos:
Bilac e Alberto de Oliveira, quando o paisagismo e o canto do
Ern fundos vasos de alvacenta argila
Ferve o cauim; Indio ja se haviam mudado em franja e ornamento da cultura
Enchem-se as copas, o prazer com~. escolar.
Reina o festim. Na obra lfrica de Gon,alves Dias säo os modelos portu-
Martelado nas tiradas de coragem, ate o emprego do anapesto gueses que atuam mais diretamente: o Garrett sentimental, nas
nas ap6strofes celebres da maldi,äo: poesias de amor e saudade ("Olhos Verdes", "Menina e M°'3",
"Ainda uma vez - Adeus!") e o Herculano g6tico do& hinos li
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte; Natureza, li Morte e dos poemas religioso1 ("Dies lrae", "0
Meu canto de morte, Meu Sepulcro", "Visöes").
Guerreiros, ouvi. Nem sempre o contato do poeta com as letras lusas se fez
em seu proveito. As vezes, ao s6brio cantor da natureza e ao
Sempre o cfu, como um teto incendido vigoroso indianista justapoe-se um poeta menor, que navegou
Creste e punja teus membros maldito.'I
E o oceano de p6 denegrido nas aguas rasas do grupo ultra-romantico do Trovador, entregue
Seja a terra ao ignavo tupi! a um medievismo requentado pelos chavoes de uma ret6rica pie-
Miseravel, faminto, sedento, gas ( "0 Assassino", "Suspiros", "Delirio", "0 Trovador"). Sio,
Manit6s lhe nao falem nos sonhos, porem. raros esses momentos e, no caso das medievismos, por
E do horror os espectros medonhos „
Traga sempre o cobarde ap6s si. certo os redimem as Sextilhas de Frei Antilo, em llngua e estilo
arcaico, exato contraponto dos poemas do bom selvagem na sua
Do virtuosismo rf tmico de Gon,alves Dias e ainda prova ~nsia romllntica de voltar as perdidas origens:
a composi\ä:o de "A Tempestade", onde se alinham todos os me-
Bom tempo foi o d'outrora
tros portugueses usados are o Romantismo: desde o bissllabo, Quando o reino era cristäo,
cuja lepidez abre fulmineamente o poema Quando nas guerras de mouros
(Um raio Era o rei nosso pendao,
Fulgura Quando as donas consumiam.
No espa~o SeuS teres em deva~.
Esparso,
De luz·
E trCm~lo A llrica de Gon,alves Dias singulariza-se no conjunto da
E puro poesia romllntica brasileira como a mais literaria, isto c, a que
Sc aviva, meJhor exprimiu 0 carater mediador entre OS p6Jos da expressäo
S'esquiva,
Rutila,
e da constru,äo. 0 poeta de "l-Juca Pirama" e o classico do
Scduz.) nosso Romantismo: enquanto fonte de temas e formas da se-
gunda e ierceira gera\ä:o; e enquanto "poets' poet0 , alvo das
ate a sinfonia dos endecassllabos que orquestram o elfmax da preferencias criticas de poetas täo dlspares entre si como Bilac,
procela afraves de um riqulssimo jogo de timbres: Machado de Assis e Manuel Bandeira.
ll8 119
0 IOIDanllamo eq61tco1 a .2.0 9.a9(io
'1\ em um estilo novo, que se manteve por quase trinta anos na
esfera da hist6ria literaria e sabreviveu, esgar,ada e anemica, ate
'
Se na decada de 40 amadureccu a tradi'1io litcr8ria nacio- haje, na mundo da subcultura e das Jetras provincianas.
nalisra, nos anos quc sc lhc scguiram, ditos da "scgunda gera-
'1io romllntica", a poesia brasilcira pcrcorrcra os mcandros do Alvares de Azevedo
extrcmo subjetivismo, a Byron e a Mussct. Alguns poeras ado-
lcscentcs, mortos antes de tocarem a plbia juventude, daräo exem- Para ranto a leitura de Alvares de Azeveda ( ••) merece
plo de toda uma tematica emotiva de amor e morte, duvida c priaridade, pois' foi a escritar mais bem dotado de su~ gera,äa.
ironia, entusiasmo e tCdio. Em v3rias nlveis se apreendem as suas tendencras para a
Se romantismo quer dizer, antes de mais nada, um progres- evasäa e para a sanba. A camada das sanbas compöe ritmas frou-
sivo dissolver-se de hierarquias ( Patria, Igreja, Tradi>äa) em es- xos, cientemente frouxos ( "Frouxo o versa talvez, palida a ri-
tadas de alma individuais, entäa Alvares de Azeveda, Junqueira ma / Par estes meus delirias cambeteia, / Parem adeia a p6 que
Freire c Fagundes Varela seräa mais romänticos da que Maga- deixa a lima / E a tediasa emendar que gela a veia" - diz na
lhäes e da que o pr6pria Gon,.Ives Dias; estes ainda postula- "Paema da Frade"), meladias Hinguidas e faceis que se prestam
vam, fora de si, uma natureza e um passado para compor seus antes a sugestäa de atmasferas que aa recarte nltida de am-
mitas poeticos; aqueles caberia fechar as Ultimas janelas a tuda bientes:
o que näo se perdesse no Narciso sagrado do pr6prio eu, a que A praia e täo longa! e a onda bravia
As roupas de gaza te molha de escuma;
conferiam a dam da etema ubiqüidade. De noite - aos serenos - a areia e täo fria,
Dizia Obermann na Senancour: "Eu sinta: eis a Unica pa- Täo Umido o vento que os ares perfuma! ( Sonhando).
lavra da hamem que exige verdades. Eu sinta, eu exista para E estas cadencias lamartineanas:
mc consumir cm descjas indamaveis, para me embeber na sedu-
Al6n serpeia o dorso pardacento
'1ia de um munda fant&stica, para viver aterrada com a seu vo- Da longa serrania,
luptuasa engana." Ora, a oclusäa da sujeita em si pr6pria e Rubro flameia o vCu sanguinolento
detectavel por uma fenamenalogia bem caqj,ecida: a devaneia da tarde na agonia.
o eroti~mo difuso ou obsessivo, a mdancolia, o tedio, o namo~ ( CrepUsculo nas montanhas J
com. a 1magem da mortc, a depressäo, a autcHronia mazoquista: (SO) MANUEL ANTÖNIO ALVARES DE AzEVEDO (Säo Paula, 1831·
desf1gu.r~>öes todas de ';'1ll deseja de viver que näa lagrau sair -Rio, 1852). De familia paulista, fez humanidades no Colegio Pedro II, e
da labmnta ande sc aliena a javem crescida em um meia ro- cursou Direito em sua tetra natal. Revelou talento precoce e grande ca·
mllntico-burgues em fase de estagna>äa. pacidade de estudo, näo obstante as tenta~es de byro~smo e de satanis-
A !"'Csia de Alvarcs de Azeveda e a de Junqueira Freire afc- mo a que teria cedido integrando-se nos grupos boemios do tempo, ou
tomando parte nos desmandos da Sociedade Epicureia. Morreu tuberculo-
rcccm r1ca ~ocu~enta>äa para a psicanalise; e e nessa perspecti- so aos vinte anos de idade, näo vendo reunida em livro a sua obra que
va que a .te~ hda alguns crlticas modernas, ocupadas em dar consta de um nllcleo basico, Lira dos Vinte Anos, mais alguns paemetos
ccrta coerenc1a aa vasta anedatario biogr:lfico que cm geral em- (0 Conde Lopo, Poema do Frade, Pedro lvo), da p~s~ narratlva de A
pana, cm vez de esclarecer a nossa visäo dos romänticos Noite na Taverna e diarlstica do Livro de Fra Gondicarzo, alem de uma
composir;äo livre meio dialogo, meio narrar;äo, Mactirio. Boa edir;äo, a
tipicas ( ") . das Obras ComJ,letas, preparada por Ho~ero Pires, em 2 .volum.es ( S.
Mas, para um enfoque artlstico, importa mostrar coma to- Paula, C. E. Nacional, 1944 ). Para a vtda, consulte-se Veiga Miranda,
da um camplexa psical6gica se articulau cm uma linguagcm e Alvares de Azevedo, S. Paula, Revista dos Tribunais, 1931; Edgar Cava-
lheiro Alvares de Azevedo, S. Paula, Ed. Melhoramentos, s. d. Para a
( 79) Penso nos ensaios penetrantes de M:irio de Andrade, "O Alei- interPretac;äo v. os estudos citados na nota anterior e Antönio C9.ndido,
iddinho e Älv•m de Azevedo" ("Amor e M&lo", pp. 67-134); de Jamil "AA, ou .ru'.iel e Caliban", em Forma{äo da Literatura Brasileira, eil„
Almansur Haddad, Alvares de Azevedo, a M(lfonari4 e a Dan,a (C. E. de vol. II pp. 178-193. Tive ocasiäo de voltar a obra de Alvares de Azevedo
no ens;uo "Imagens do Romantismo no Brasil" ( em 0 Romantismo, org.
Cultura, S. Paulo, 1960); e de Dante Moreira Leite, 0 Amor Romdntico
de J. Ginsburg, S. Paulo, Perspectiva, 1978).
e Outros Temas (C. E. de Cultura, S. Paulo, 1964).
121
120
0 inventßria da !6<ico·. nas ila ums s~ie de grupos nami-
'f Na segunda partc da Lira a fuga tem por names dispersiio,
nais pr6prias da situa~iia adalcscente que, fuginda A rotina, aca- auto-ironia, confidencia: uma especie de cultivado spieen que
ba se envisganda nas aspectas m6rbidas e depressivos da cxis- lembra 0 ultimo Mussct 80 dirigir 0 seu sarcasmo contra OS ul-
tencia: "p<i.lpebra demente", "materia impura", "noite lutulen- tra-rominticos. Ern versos soltas, pr6ximas do livre andamen-
ta", "longo pesadelo", "palidas cren~as", "dcsespcro pilido", ro da prosa, Alvares de Azevedo define essa nova inflexiia do seu
"enganosas melcxlias", "fllnepre clnio'', "t@nebras impuras", egotismo:
"astro nublado", ":i.gua impura", "boca maldita", "negros deva-
neios", "deserto Iodac;al", "tremedal sem fundo", "tiibuas imun- Vou ficando blase, passeio os dias
pelo mcu corredor, sem companheiro,
das", "leito pavoroso", "face macilenta", "anjo macilento", e nu- Sem lcr nem poetar. Vivo fumando.
merosas vCzes os epftetos "macilento", "palido", "dcsbotado",
repisanda a intui~iia de precoce decadencia e martc, que a epf-
grafe de Bocage anuncia: Ali na alcova
Em Sguas negras se levanta a ilha
Cantando a vida como o cisne a morte. Romintica, sombria 8 flor das ondas
De um rio que se pcrdc na floresta . ..
Um sonho de mancebo e de poeta,
Linguagem que, acrescida de termas cientfficas, valtaria em EI-Dorado de amor que a mente aia
autro paeta Jileto dos adolescentes, Augusto dos Anjas. Corno um !den de noites deleitosas ...
As compara~öes e as metaforas traduzem no concreto das Era ali que eu podia no silfficio
imagens naturais os mesmos sentimentos basicos: a flor desfo· Junto de um anjo. . . AICm o romantismol
lhada lembra a juventude sem vi~o; o sussUrto da brisa semelha ( ldeias Intimas)
o suspiro do amante; e "as ondas säo anjos que dormem no mar".
A evasäo segue, nesse jovem hipersensfvel, a rota de Eros, A boemia espiritual respondem certas fuma~ liberais e
mas o horizonte Ultimo e sempre a morte, o "~ väo lutar - dei- anarc6ides, provi\velmente de fundo ma~an, de um. ma~n i;_-0~an·
xa-me perecer jovem" de Byron, o cupio äissolvi como forma tizado, que e • c6r politica de Alvares e dos me1os academ1cos
Ultima de resolver as tensöes exasperadas. E alguns dos mais que praticava.
belos versos do poeta siio versos para a morte: Confrontadas, porem, com a idealogia bolorenta do grupo
Qu'esperancas, meu Deus! E o mundo agora
de Magalhäes, essas veleidades de radicalismo do jovem Manuel
Se inunda em tanto sol no cfu da tarde! Antönio significam um passo avante na forma~äo de uma cor-
Acorda, cora~o!... Mas no meu peito rente democratica que, no Ambito das Academias de Direito e
Ubio de morte murmurou - l! tardc! das sociedades secretas, fazia opasi~iio ( ainda que s6 ret6rica)
( Virgcm Morta) aa imobilismo monarquica e aos abusos do clero. Testemunho
de revolta juvenil e o poemeto her6ico declicado a Pedro 1va,
As torrentes da morte vem sombrias rebelde praieiro:
( Ugrimas de Sangue)
Alma cheia de fogo e mocidade
Quando cm meu peito rebentar-se a fibra Que ante a fUria das reis näo se acobarda,
Que 0 cspfrito enla91 a dor vivente Sonhava nesta gera~ao bastarda
Gl6rias e liberdade.
Eu deixo a vida como dcixa o t6iio
Do deserto o poento caminheiro Das imagens satinicas que povoavam a fantasia da adoles-
- C.Omo as horas de um longo pcsaddo
Que se desfaz ao dobre de um sinciro. cente diio exemplo os contas macabros de A Noite na Taverna,
( Lembranca de morrer) simbolista avant la lettre, e alguns versos febris de 0 Conde Lo-

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123
1

L
po e do Poema do Frade. J'amblm nessa litcratura quc hcrdou viril que nada deve aos classicos em vigor e precisiio: essa cra a
de Blake e de Byron a fusiio de libido e instinto de morte, Alva· "art romantique", rica de sons e de imagens, de movimcnto e
res de Azevedo caminbava na esteira de um Romantismo em de tensiio, que o pai da poesia p6s-romantica, Charles Baudelai-
progresso enquanto trazia a Juz da contempJa~iio poetiea OS do- re, cultuava como fonte do seu pr6prio estilo. Dela existia algo
mfnios obscuros do inconsciente. em Alvares de Azevedo e talvez muito em Gon~alves Dias; nada
' ou quase nada em Junqueira Freire, cujas Inspir(lföes do Claus-
tro podemos !er como um documento pungente de um m~o en-
Junquelra Frelre fermi~o dividido entre a sensualidade, os tcrrores da culpa e os
ideais religiosos, mas niio como uma obra de poesia.
Ern Junqueira Freire ( • 1 ) e precisamente esse convivio ten- Uma prova, entre outras, da sua dificuldade de ajustar in-
so entre eros e thanatos que sela a personalidade do religioso e ten~s e forma e o prosaico e duro "A. Profissäo de Frei Joiio
do artista malogrado. das Merc~s Ramos", em que expöe o malogro da sua voca~o:
"Contrano a si mesmo, cantando por inspira~öes opostas,
aparece-nos o homem atraves do poeta", dele disse Machado de Eu tamb6n me prostrei ao pC das aras
Assis; e nessas palavras ia um elogio, mas tambfm uma restri· Com jubilo indizlvel:
~äo. Louvor a sinceridade com que se projetou no verso o dra- Eu tambem declarei com forte accnto
ma do individuo atado a uma falsa voca~iio; crltica ao modo de 0 juramento horrlvel.
ser dessa poesia, que, toda centrada no eu do emissor, näo en·
concrou o correlato da inven~äo formal, e caiu no genf:rico, no Tive mais tarde a reai;äo rebelde
prosaico e no cerebrino, ficando aquem da sintese conteudo- Do sentimento interno.
-forma. Tive o tormento dos cruCis remorsos,
E verdade que o descompasso esul i\ espreita de todo poeta Que me parece eterno.
romäntico; mas e tambem verdade que este se afirma romo ar-
tista na medida em que logra vencer, pela palavra, as tentai;öes Para näo sermos injustos com o poeta baiano, devemos re-
de um confidencialismo frouxo. E quando o faz, como um Hoel- conhecer, com Jose Verlssimo, alguns momentos felizes em que
derlin e um Leopardi, um Heine e um Vigny, cria um estilo lhe foi benefica a aproxima~iio com fontes populares, e com An-
tonio candido, outros em que • sua con~o anacrönica do
(81) Luis JosJ\ }UNQUEIRA FREIRE (Bahia, 1832-1855). Faz huma-
verso se ajustou a uma poesia antes de pensamento que de sen-
nidades no Llceu Provincial de Salvador e aos dezenove anos entra como sibilidade ("A Morte").
novieo na Ordem Beneditina. Professa aos vinte, ao quc parece sem ne-
nhuma voca~äo segura e talvez empurrado pelo desejo de fugir 8 vida fa-
miliar extremamente infeliz. Depois Cl.e um ano de sacerd6cio, pediu se-
cularizai;iio, voltando para casa ( 1854 ). Falece de molCstia carcilaca no Laurlndo Rabelo
ano seguinte. Nessa vida brevfssima os acontecimentos siio todos interio-
res: o desgosto na casa patema, as ilusöes sobre a vocai;äo monS:stica, as
dU.vidas e deSesperos nos dois anos em que permaneceu na Ordern. Daf o As fontes populares estavam presentes no boemio e repen-
valor de testemunho que assume a sua Unica obra de poesia, as Inspira- tista Laurindo Rabelo ( s2 ), o "poeta lagartixa" e poeta de sa-
,oes do Claustro ( 1855). Acrescidas de alguns in~ditos, foram publicadas
sob o tftulo de Poesias Completas, em 2 volumes, pela Ed.itora zeJ.io Val-
vcrde (Rio, 1944 ), recomendando-se a boa introdui;iio de Roberto Alvim (82) LAURINDO Jos:E DA S1LVA RABELO (Rio, 1826-1864). Mestir;o,
Correa, que prcparou a edii;äo. Sobre Junqueira Freire, o melhor estudo de origem modesta, com~u a cursar a Escol~ Militar, mas deddiu-se par
(biogclfico) 6 Junqueira Freire Sua Vida, Sua Epoca, Sua Obra, de Ho- Medicina formando-se pela Faculdade da Bahia. F1111oso como repenosla
mero Pires (Rio, A Ordem, 1929). e solado; de violiio, comp8s oo perfodo bo&nio de sua vida, um grande

124 125
1ä.o, mas por isso mesmo representativo do gosto .romintiCo me- Caslmiro de Abreu
dio do Brasil Imperio.
A trova, os redondilhos, as rimas emparelhadas säo os seus Ainda na linha de compreensäo do publico mc!dio e que se
meios de expressäo congeniais, e, na mesma linha de simplicida- deve apreciar a popularidade de Casimiro de Abreu ( 83), que
de, säo as flores que lhe oferecem material copioso para enume- operou uma descida de tom em rela,äo a poesia de Gon,alves
ra~s e metaforas. Algum~ de sues quadras parecem provir Dias, Alvares de Azevedo e Junqueira Freire. Na verdade pou-
da cultura semipopular portuguesa e brasileira: co diferiria destes se o criterio de compara,äo se esgotassc na
escolha dos temas, valorizados em si mesmos: a saudade da in·
"Minh'alma 6 toda saudades, fWicia, o amor a natureza, os fogachos de adolescente, a religiiio
De saudades morrcrei", sentimental, o patriotismo difuso. Mas o que singulariza o poe-
Disse-me, quando, minh'alma ta e o modo de compor, que remonta, em Ultima analise, ao seu
Em saudades lhc deixei. modo de conhecer a realidade na linguagem e pela linguagem.
Parece que a natureza Casimiro reduzia a natureza e o pr6ximo a um angulo vi-
Quis provar esta verdade, sual menor: o do seu temperamento sensual e menineiro que o
Quando diversa da roxa aproxima bastante das literatos fluminenses coevos, do tipo de
Te criou, branca saudade. Laurindo Rabelo e Joaquim Manuel de Macedo. Eie adelga'8
a expressiio dos afetos, täo ardentes em Gon,alves Dias, täo apai·
Mas, vivendo tambem em um meio de extra~o burguesa, xonados em Alvares de Azevedo.
Laurindo, como o faria mais tarde Catulo da Paixäo Cearense, Compare-se a "Can,äo do Exilio" que abre as Primaveras
contorce aqui e Ja a dic,äo, a procura de uma gra,. decorativa com a pe,a homönima dos Primeiros Cantos de Gon,alves Dias:
que possa produzir efeito entre os seus ouvintes cultos ou pseu- nesta 0 tom e s6brio ate a ausencia absoluta de adjetivos; na-
do cultos. Näo ultrapassa, nesse caso, a esfera do 16cico romm· quela, apesar da imita,äo dos dados naturais ( palmeiras, sabia,
tico em voga: "exangue", "sublime", "vestais"... Creio que CCU ••• ), 0 tom e !mguido e OS motiVOS da patria distante Se di-
sua obra pode ser uma das balizas para uni estudo que a nossa !uem ao embalo das rimas seguidas e dos pleonasmos:
cultura redama: o das rela,öes entre a linguagem do povo, da
dasse media e dos grupos de prestfgio nos meios urbanos. Tal-
vez nos surpreendam as 3guas que se mistUfam quando espera- (83) CASI~URO JosE MARQUES DE ABREU (Barra de Säo Joäo, Pro-

rfamos ver rfgidas barreiras. Assim, h3 sempre um amaneira- vincia do Rio de Janeiro, 1839-1860). Filho de um rico fazendeir_o e ne-
gociante portugues, transcorreu a infäncia no campo, de onde sau.~ para
mento nas quadrinhas que da ora para o sentimental, ora para o estudar hwnanidades cm Nova Fribwgo. Antes de completd.-las, fo1 para
conceituoso, o que de certo modo altera a espontaneidade. Mas o Rio de Janeiro, a mandado do pai, pr~ticar comCrcio, . o quc, n~o sendo
esse ja e um problema que deve ser resolvido na area da "lltera- natural.mente a sua vocar;äo, nele produztu certo ressentun~to, ~1sfvcl ~
tura oral" e que foge, portanto, a_ nossa finalidade. alguns poemas, e talvez demasiadamentc explorado pela b1ograf1a roman-
tica. Vai depois para Lisboa onde se inicia como poeta e dramaturgo,
( logrando ver representada a sua p~ Camöes e o ]au em 1856, no Teatro
D. Fernando). Voltando ao Rio, j8 traz os manuscritos das 0 Can!;Öes do
Exllio" que somadas as outras composii;öes aqui escritas, formam o seu
Unico livro de poemas Primaveras (1859). publicado com os recursos pa-
ternos. Faleceu de ~berculose no ano seguinte. V. Ob ras de Cas!miro
de Abreu, organizadas por Sousa da Silv~ira, S. Paula, Cia. Ed. ~ac1?nal,
nllmero de quadras, que publicou sob o tftulo de Trovas (Bahia, 18'.5"3 ). 1940. Para o estudo do poeta, alCm da tntrodu~äo de Sousa da Silve1ra. ä
Serviu alguns anos no Exercito na qualidade de oficial-mCdico e, pouco ed. citada, ver JosC Verissimo, "Casimiro de Abreu", cm Estudos „de Lite-
antes de morrer, como professor adido A Escola Militar. Para o texto, ratura Brasileira, II, pp. 47-59, e Carlos Drummond de Andradc, No Jar-
biografia e notas crfticas, veja-se a edii;äo das Ohras Completas, S. Paula, dim Pllblico de Casimiro de Abreu'', em Confi.ssöes de Minas, Rio, Ame-
Cia. F.d. Nacional, 1946. · ric-editora, 1945, pp. 37-25.

126 127
Debalde eu .olho e ...procuro.
no ( 86 ), Jose Bonif3cio, o M~o ( 87 ) e, ao menos como poeta,
Tudo escuro
S6 vejo em roda de mim!
Bernardo Guimaraes ( 88 ) .
Falta a luz do lar paterno
Doce e terno,
Doce e terno para mim. Varela

E os versos popularfssimOs de "Meus Oito Anos" jii esta- Mas o epfgono por excelencia, o maior dentre os menores
vam na "Cantiga do Sertanejo" de Alvares de Azevedo; mas ha poetas saldos das Arcadas paulistas, foi, sem duvida, Fagundcs
uma diferen~a de contexto que tudo altera: Casimiro ignora as Varela ( •• ). o unieo nome de relevo na poesia da decada de 60.
pregas da afetividade do poeta paulista. Corno este, tem. seu
Livro Negro onde canta a tristeza da inocfocia perdida; mas e
palida, sem garras e exdamativa a sua lira de sombras, faltan· (86) FRANCISCO ÜTAVIANO DE ALMEIDA RosA (Rio, 1825-1889).
do-lhe o sarcasmo, a auto-ironia sem trCguas, que levava Alvares Politico de certo prestigio no Segundo Reinado: chegou a senador e ascen·
deu na carreira diplomiltica. Publicou pouco: versöes de Ossian com o
de Azevedo a tocar, pela exaspera~ao, os limites do pr6prio ego- nome de Cantos de Selma (1872) e Traduföes e Poesias (1881). Muito
tismo. populares os seus versos intitulados "llusöes da Vida":
Ern tudo Casimiro e menor. E sendo-o coerentemente, os Quem passou pela vida ern branca nuvem
seus versos agradaram, e creio que ainda possani agradar aos que e em pl3.cido repouso adormeceu,
pedem pouco a literatura: um ritmo cantante, uma expressäo quem nao sentiu o frio da d~.
fad!, uma palavra brejeira. quem passou pela vida c niio sofreu,
foi espectro de homem, nio foi homem,
s6 passou pela vida, nio viveu.
V. Xavier Pinheiro, Francisco Otaviano, escorfo biogrd/ico e sele(äo, Rio,
Epiqonos 1925.
(87) Jost BoNIFACIO, 0 M"'° (Bordeus, 1827 - S. Paulo, 1886).
Filho de Martim Francisco de Andrada e Silva, sobrinho do Patriarca.
Entre a gera~äo que apareceu nos anos de Cinqüenta e um Corno professor de Direito e polfrico, influiu na Ultima gera~o liberal do
grupo realmente novo pelo esplrito e pela forma (Castro Alves, ImpCrio: foram discipulos seus Castro Alves e Rui Barbosa. Com~
Pedro Luis, Sousiindrade), encontram-se eplgonos, que retomam ultra-romantico com Rosas e Goivos (1848), mas com o tcmpo prcferiu a
o americanismo de Gon~alves Dias ou. as efusoes sentimentais de musa dvica, prenunciando a orat6ria dos Condoreiros ( "Prometeu", "Ll-
berdade", "A Garibaldi"). Ed. completa de seus poemas: ]ose Bonifticio,
Alvares de Azevedo e Casimiro de Abreu. o Mofa - Poesias, S. Paula, Comissiio Estadual de Cultura, 1962.
Alguns deles perderam de todo o contato com o publico: (88) BERNARDO JoAQUIM DA S1LVA Gu1MARÄES (Ouro Preto, 182'·
Aureliano Lessa ( 84 ), Teixeira d<; Melo ( 85 ), Francisco Otavia· -1884 ). Fez humanidades na cidadc natal e Direito em Säo Paulo, oode
'!ie uniu por runizade a Alvares de Azevedo e Aureliano Lessa, deixando
fama de boemio e satirico. Exerceu as fun\:ÖCS de juiz cm Cataläo e de
(84)· JosE AuRELIANO LESSA (Diamantina, 1828 - Conceit;äo do professor secundario cm Ouro Preto e Queluz. Dos temas rominti'?'
Serro, 1861 ). Companheiro de Alvares de Azevedo nos anos academicos preferiu o da natureza e o da patria, mas singularizou·sc como hu.morts-
de Sao Paulo. Sua obra foi coligida pelo irmiio, Francisco Jose Pedro ta, nota que trouxe do satanismo juvenil da fase bo&nia ( •• A Or~1a dos
Lessa, nas Poesias P6stumas ( 1873), com pref1icio de Bernardo Guimariies. Duendes", "O Elixir do Paje"), Obra poc!tica: Cantos da Solidilo ( 1852).
Poerias (1865), Novar Poeriar (1876), Folhar de Outono (1883). Ver
(85) TEIXEIRA DE MELo (Campos, RJ, 1833 - Rio, 1868). Dei- Basilio de Magalhäes, Bernardo de Guimaries, Rio, 1926. PaNI o roman-
xou: Sombras e Sonhos (1858). P6stumo, Mios6tis (18n). As Poesias, cista, v. adiante o t6pico ficfäo.
reunindo os precedentes, vieram a luz em 1914, com pref3.cio de Silvio (89) Lufs N1coLAU FAGUNDES VARELA (Rio Claro, RJ, 1841 -
Romero. Ver PCricles Eugenio da Silva Ramos, 0 Verso RomJntico, S. Niter6i, 1875). Filho de fazendeiros, passou a infincia junto l natureza
Paulo, Comissäo Estadual de Cultw:a, 1959. ou em viagens, acompanhando os pais, o que tal~ lhe a:pliqu(' o modo

128 ,29
"Lido ap6s aqueles prn;tas" --- cliz severamente Jose Veris- mento precoce do tema do negro ("Mauro, o Escravo", 1864)
simo - deixa-nos a impressifo do ja lido ( •0 ). E näo clizia no- em relar;äo a literatura abolicionista dos decenios seguintes ( 93).
vidade, pois Silvio Romero, que fora mais indulgente com Va- 0 poemeto exalta a figura do negro her6i que vinga a dc-
rela, afirmara: "A obra do poeta ... aparentemente pessoal, e sonra da irmä. Mistura de "maldito" byroniano c de Bug-Jar-
uma das mais impessoais da nossa literatura"( 91 ). gal, o Mauro de Varela tem poucas raizes brasileiras; e como foi
Seria facil rastrear em sua prod"'äo descurada e prolixa su· tra>ado a golpes de melodrama, acabou dizendo mais da visäo
gestöes e mesmo decalques de Gon,alves Dias, Alvares de Aze- romäntica do her6i rebelde que das angUstias do negro nas con-
vedo e Casimiro de Abreu. Explorou todos os temas romän· di~öes concretas em que este penava.
ticos, näo excetuado o do Indio que, na altura do Evangelho nas De qualquer modo, o relevo dos primeiros livros de Varela
Selvas, redigido entre 1870 e 1875, ja näo figurava como fonte e antes documenta! que artlstico. 0 melhor do poeta fluminen-
de inspira~io em nossas letras. se näo se encontra ai, mas em alguns momentos de lirismo buc6-
lico que transpöem para o '~portugues brasileiro", lingua da nos-
Por outro lado, Varela foi, mais que os seus modelos, sen-
so Romantismo, os costumes e os modismos da r~a que ele tanto
sivel ii lira patri6tica de fi!ia,äo liberal: indice de uma tenden-
amou: ''Antonico e Cor3'', ''Mimosa'', ''A Flor de Maracujä''.
cia que inverteu, a partir de 60, aquele signo aulico manifesto
no "coro dos contentes", como chamaria Sousändrade as vozes A atra>äo pelo campo, alternada com a mais desbragada
conformistas de Magalhäes e Porto Alegre ( 92 ). boemia, significa no poeta dos Cantos do Ermo e da Cidade a
aversäo radical a integrar-se no ritmo da vida em sociedade. A
0 poeta do Estandarte Auriverde acompanha nesse ponto a psicologia da fuga levou 0 eterno adolescente ii bebida e a exis-
viragem na vida politica do II Imperio, quando entrava a fir- rencia errante, o que espelhava a sua incapacidade romäntico-de-
mar-se uma oposi~äo mais conseqüente, de que seriam mentores cadente de aceitar e, naturalmente, de transformar as pressöes do
Jose Bonifacio, o m0>0, Luls Gama, Tobias Barreto e maior meio.
poeta Castro Alves. Varela prenuncia os condoreiros pelo ardor Um lugar a parte na sua produ>äo, pela constllncia do fole-
nacionalista ( 0 Estandarte e de 63)' pelo mito da America-pa- go, ocupa o "Cäntico do Calvcirio", escrito em mem6ria do filho.
ralso-da-liberdade (Vozes da America, de 64), enfim, no trata- Nessa bela elegia em versos brancos Varela redime-se da sensa-
ftäo de ;a lido com que o marcara a secura da critico. 0 mes-
mo näo acontece com o seu Ultimo e mais ambicioso trabalho,
de ser dispersivo e volU.vel. Matriculou-se em Direito, en1 S. Paulo ( 1862) Anchieta ou 0 Evangelho nas Selvas,- narra,äo, tambem em ver-
depois de trCs anos de boemia. Ainda estudante, casa-se com uma artis-
ta Qe circa, Ritinha Sorocabana, que lhe deu um filho, Emiliano, e cuja
sos brancos, da vida de Cristo, que o poeta pöe na boca do je-
morte, aos tres meses de idade, lhe inspira o "Ciintico do Calv3rio". Em suita em missäo de catequese. Embora näo seja dificil colher
S. Paulo publica Vozes da America e Cantos e Fantasias, partindo em. 65 exemplos felizes de nota>äo do mundo agreste, o tom edificante
para Recife a firn de prosseguir os estudos. Logo regressa ao saber da do conjunto acaba toldando a solene pureza da mensagem evan-
morte da esposa. Abandonando de vez o curso, entrega-se a uma vida
errante pelas fazendas fluminenses, q~ nem o segundo casamento logra
deter. Morreu em Niter6i, vitima de ·um insulto cerebral, aos trinta e { 93) Antes da campanha, s6 havia alusöes esparsas ao escravo na
tres anos de idade. Obras: as citadas, mais Noturnas 0 Estandarte Auri- poesia romäntica. Quem precedeu imediatamente Varela e Castro Alves
verde (63), Cantos Meridionais (69), Cantos do Ermo e da Cidade (69), foi Luis GAMA (Bahia, 1830 - S. Paulo, 1882), mulato, filho de uma
Cantos Religiosos (78), DiOrio de Lizaro (80). Consultar: Edgar Cava- africana livre e de um senhor branco, que o vendeu como escravo aos dez
lheiro, Fagundes Varela, 3.• ed., S. Paula, 1956. anos de idade. 0 que näo impediu que Luis Gama chegasse pelo pr6-
( 90)Ern Hist. da Lit. Bras . , j_, ed„ Rio, ]. Olympio, 1954, p. 280. prio esfor~o a grande orador liberWio. Deixou os versos satiricos das
Primeiras Trovas Burlescas ( 1859) e das Novas Trovas Burlescas ( 1861).
(91) Ern Rist. da Lit. Bras., Rio, J. Olympio, vol. IV. Sobre a evolu~o do tema do escravo, o leitor consultar8 com proveito
( 92) No poema 0 Guesa, canto X, estrofe 61. Sobre Sousändrade, o ensaio de Raymond S. Sayers, 0 Negro na Literatura Brasileira, trad.
v. mais adiante, p3g. 137. e notas de Antönio Houaiss, Rio, Ed. 0 Cruzeiro, 1958.

130 131
gelica, quc se desfigura quando rocada pela retorica. Mesmo labirinta de culpas sem rem1ssao. A palavra da poeta baiano
que esta venha de uma alma emotivamente religiosa como a de seria, no contexto em que se inseriu, uma palavra aberta. Aber·
Fagundes Varela. ta a reaiidade maci~a de uma na~äo que sobrevive a custa de san·
Quando o poeta fluminense ja publicara seu melhor livro, gue escravizado: e o sentido Ultimo do "Navio Negreiro":
Cantos e Fantasias, em 1865, come~a a fazer-se conhecido o Ul- Existe um povo que ~ bandeira empresta
timo adolescente - e por certo o m~or. deles - do nosso Ro- Pra cobrir tanta infamia e cobardia! ...
mantismo, Antonio de Castro Alves (94 ).
A sua estreia coincide com o amadurecer de uma situa~äo Auriverde pendäo de minha terra,
nova: a crise do Brasil puramente rural; o lento mas firme cres- Que a brisa do Brasil beija e balano:;a,
Estandarte que a luz do sol encerra
cimento da cultura urbana, dos ideais democr3ticos e, porcanto, E as promessas divinas da esperant;a ...
o despontar de uma repulsa pela moral do senhor-e-servo, que Tu que, da liberdade ap6s a guerra,
poluia as fontes da vida familiar e social no Brasil-lmperio. Foste hasteado das her6is na lano:;a,
Antes te houvessem roto na batalha,
Outros säo agora os modelos poeticos. E, näo obstante con- Que servires a um povo de mo1talha!
tinuem insepar3veis do intimismo romäntico as cadencias de La·
martine e de Musset, e a voz de Victor Hugo, satirizador <le ti- A indigna,äa, m6vel profundo de toda arte revolucionaria,
ranos e profeta de um mundo novo, que se faz ouvir com fasci- tende, na poesia de Castro Alves, a concretar-se em imagens gran-
nio crescente. diosas que tomam a natureza, a divindade, a hist6ria persanali·
Castro Alves sera n6vo pelo epos libertario e, apesar das zada a material para metaforas e compara,öes:
influencias confessadas de Varela e Gon~alves Dias, sera navo
tambem nos versos de substäncia amorosa pela franqueza no ex- Deus! 6 Deus! onde est:is que näo respondes?
primir seus desejos e os encantos da mulher amada. Ern que mundo, em que estrela tu te escondes
Embuo:;ado nos cCus?
Com ele fluem sem meandros as correntes de uma renovada Ha dois mil anos te mandei meu grito,
lirica erOtica, tanto mais forte e limpa quan!o menos reclusa no Que embalde, desde entäo, corre o infinite.
Onde estas, Senhor meu Deus? ..
( 94) ANTÖNIO fREDERICO DE CASTRO ALVEs ( Curralinho, hoje Cas- (Vozes d'Africa)
tro Alves, Bahia, 1847 - Salvador, 1871 }. Filho de um mt!dico. Ft:z
os estudos secund.irios no Gin3.sio Baiano, dirigido por Abflio CCsar Bor-
ges. Entrou no Curso de Direito em Rccife, on<le ja comeo:;ava a campa-
E nenhum mita mais elaqüente para a expressäo da her6i
nha liberal-abolicionista, de que seria um das primeiros !fderes, junto a romäntico, agora potenciado em um povo-simbolo, do que o mi-
Tobias Barreto. Apaixona-se pda atriz Eugenia Cän1ara para quem escre· to de Titä por excelencia:
ve o drama Gonzaga ou a Revolu~iio de Minas, levado a cena em Salva·
dor, quando j3. o poeta se encaminhava para S. Paulo a fi1n <le continuar Qual Prometeu, tu me amarraste um diii
os estudos. Chegando em 1868, une-se ao melhor da juventude academi- Do deserto na rubra pencdia,
ca nessa fase de ruptura com os aspectos mais ran~oso~ da polf tica impe- Infinita galC.
rial. Säo colegas seus Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e Salvador de Men- Par abutre - me deste o so! ardente!
don~a. Pouco ficou em S. Paula: um acidente de ca~a, ferindo-lhe o pC, E a terra de Suez foi a corrente
obriga-o a voltar a Bahia, onde e operado. Mas o organi~1no, abalado pela Que me amarraste ao pC.
tfsica, näo t~m condi~öes para rcsistir. Morre cm 1871, aos vinte e qua- (Vozes d'Africa)
tro anos de 1dade. As Espumas Flutuantes foram publicadas em 1870, cm
Salvador. P6stumos, safram: A Cachoeira de Paula Afonso (1876), Os
Escravos ( 1883) e Hinos do Equador, ja na edio:;äo das Obras Completas Aberta ao progresso e a tecnica que ensaiava _OS primeiros
( 1921) aos cuidados de Afr<1nio Peixoto. Consultar: Pedro Calmon, A passas, a palavra de Castro Alves e, tambem sah esse ängulo,
Vida de Castro Alv~s, 2.• ed., Rio, 1956; Jamil Almansur Haddad, Re- original, se comparada com a constante da fuga para o campo eo~
visäo de CA,•3 vols., S. Paula, 1953; Maria de Andrade, Aspectos da Li-
teratura Brasileira, S. Paula, Martins, s. d. mo antidoto dos males urbanos, que j:i vimos ser a marca de

132 133
Varela e Bernardo Guimaräes. C~stro Alves, ao contr4rio mos- trutura; näo atingindo esse limiar de organiza~äo, ainda näo cxis-
tra-se entusiasmado ao ver·. a penetra~äo da mclquina no meio
1
te como poema e pode ser julgado, no plano estCtico, uma obra
agreste; e nisso e um autentico filho da burguesia liberal em fa- frustrada, malgrado as inten~öes da emissor. E no convivio da
se de expansäo, logo freada e reduzida ao sistema agrario. Jun- mensagem com os v3rios c6digos possfveis ( prosaico, orat6rio,
ta ao livro, lirico ... ) que se modela o texto literario e se concretizam es-
teticarnente os valores em cujo mundo estiio imersos poeta e
Oh! Bend.ito o que ~ leitores.
Livros, livros •8 mäo cheia ...
E manda o povo pensar! Se nos ativermos com firmeza a esse critCrio lato, vendo na
0 livro caindo nalma adequaroo dos meios a mensagem ( e näo nos meios em si, ou
:S. germe - que faz a palma, nas mensagens em si) o modo de distinguir o poeta superior
~ chuva - que faz o mar, da medfocre, näo incorreremos no erro hist6rico de Silvio Ro-
mero, que antepös a arte de Castro Alves a versalbada de To-
vem a locomotiva: bias Barreto, a quem niio se podem negar conviet;öes liberais
Agora que o trem de ferro
mais bem fundadas que as da poeta baiano, mas que näo soube
Acorda o tigre no cerro transpö-las para uma linguagem forte e justa.
E espanta os caboclos nus, Compare-se a "Ode a Dois de Julbo" de Castro Alves ao
Fazei desse rei dos ventos "Dois de Julbo" de Tobias. 0 mesmo intuito glorificador re-
Ginete dos pensamentos,
Arauto da grande luzt ... solve-se, no primeiro, em metaforas e antlteses grandiosas: säo
( 0 Livro e a Amenca)
arcanjos e aguias que lutam em espa~s desmedidos:
0 anjo da morte palido cosia
A mensagem orat6ria tem por objeto constitutivo a persua- Uma vasta mortalha em Piraji
säo. Quer mover os afetos para tocar um determinado alvo. . ........ ·-·· ······· ....... .
Dirige-se para. . . No esquema de Roman Jakobson, centra-se Dcbnu;ados do cfu. . . a noite e os astros
na 2.a pessoa, no destinatiirio do processa. comunicativo ( 95 ). Seguiam da peleja o incerto fado.
Mas, se o poeta se exaurisse nessa opera~äo, acabaria fazendo As bandeiras - como S.guias eri~das
Se abismavam com as asas desdobradas
propaganda, ficando fora do foco da poesia. No entanto, e arris- Na selva escura da fuma~ atroz ...
cado negar, por atra bilis ou turra pol~mica, valor a poesia de Tonto de espanto, cego de metralha
intuitos sociais e pollticos, tacbando-a azedarnente de "demag6- 0 arcanjo do triunfo vacilava.
gica.", semp.re que nä'o responder a certos m6dulos com que se Eras tu - liberdade peregrina!
que1ra med1r, de uma vez por todas, a expressäo liter3ria. 0 Esposa do porvir - irmii do sol !
problema do juizo fica mal formulado quando se concentra no Um pedaco de gl:ldio - no infinito ...
criterio. alias vago, da "utilidade necess:iria" ou do "necess3- Um trapo de bandeira - na amplidäo!
rio desinteresse" da arte. 0 poema e obra bumana: enquanto
h.umano, esta sempre em fun~äo dial6gica, vem de um ser em No fragmento de Dias e Noites da poeta sergipano, niio ha
sttua~äo que fala a outros seres em situa~äo, isto C, comunica-se evoca~äo nem tratamento epico da epis6dio, mas uma pffia e
com e empenha-se em uni mundo intersubjetivo pelo menos dual rala lembran~a da sucesso:
( autor-leitor); enquanto obra, e objeto, produto de uma inven- Neste dia, sempre novo,
~äo, arranjo de signos intencionais que se constelam em uma es- Entre os aplausos do mar,
Entre os ruldos do povo,
Vai a cidade falar ...
( 95) R. Jakobson, Lingüistica e Comunica,ao, trad. de lzidoro Atriz majcstosa e bela,
Blikstein e JosC PauJo Paes, S. Paulo, Cultrix, 1969, pp. 122-129. Falando s6 e s6 ela

134
Diante _de dµas na~. Somente por vezes, dos jungles das bordas
Representa um alto feito Dos golfos enormes daquela paragem,
Que arranca bravos do peito Erguia a cabei;a surpreso, inquieto,
De emudecidos canhöes. Coberto de limos - um touro selvagcm.

E verdade, Tobias escreveu coisas menos ruins, mas o que ( 0 Crepusculo, Sertanejo)
interessa aqui e reiterar a no\äo de vm' limiar estc!tico, abaixo
do qua! s6 restam veleidades 'de fazer poesia, e acima do qua! Versos que nenhum dos parnasianos por certo iria superar
se percebe uma coerf:ncia na organiza\äo semäntica, que resiste na capta\äo plastico-musical do ambiente.
as mudan\as de gosto e de mentalidade. Muito do que nos dei-
xou Castro Alves esta aquc!m das exigencias p6s-romänticas, em
geral hostis ao fluxo orat6rio, apesar de este persistir em mais ucondores"
de um poeta respeitavel: D' Annunzio, Oaudel, Whitman, St.-
·John Perse e, entre n6s, por exemplo, Augusto Frederico Coetiineos de Castro Alves, ou vindos pouco depois, os poe-
Schmidt. A rigor, todos exorbitaram da medida a que se im- tas que fecham o nosso Romantismo näo resgataram com a for-
punham os gostos exigentes das seus contemporäneos, mas a ne- \a de uma personalidade artlstica original o vezo da pura ret6-
nhum deles seria licito negar o dom da palavra poetica.
Os similes de Castro Alves säo quase sempre tomados ·aos
aspectos da natureza que sugerem a impressäo de imensidade, de
infinitude: os espa\os, os astros, o oceano, o "vasto sertäo", o
1 rica. Pedro Luis ( 1839-1884 ), conhecido pelos altissonantes
"Terribilis Dea", sobre a guerra do Paraguai, e "Os Volunt3-
rios da Morte", sobre a PolOnia, e ainda o nome de condoreiro
tipico que se pode alinhar junto ao de Castro Alves. Pedro Ca-
"vasto universo", os tuföes, as procelas, os alcantis, os Andes, lasäs (1837-1874), Narcisa Am:ilia (1852-1924), Franklin D6-
o Himalaia, a 3guia, o condor. . . Transposto em prosa, o mes- ria, Matias de Carvalho e outros, menores e minimos, automati-
mo estilo ser:i a ret6rica formidanda de um seu colega de ban- zaram certos processos de efeito como a antftese, a 'ap6strofe e a
cos academicos, Rui Barbosa, que lhe faria, dez anos ap6s a sua hiperbole, e abusaram do alexandrino franc~s que a leitura de
morte, um elogio sem reservas. Hoje haveria. restri\öes, mas co- Hugo pusera em moda. No conjunto, servem de documento
mo a de Gide falando de Hugo: "Victor Hugo est le plus grand para a hist6ria dos sentimentos liberais e abolicionistas que, a
poete fran\ais, helas! ... " - ·~
t partir de 70, dominariam a nossa vida publica.
Nem tudo e hiperb6lico em Castro Alves. Os sentidos,
bem abertos a paisagem, souberam escolher imagens e compor i
os ritrnos justos para um das mais belos poemas descritivos de Sousandrade
nossa lingua: Mas a critica de vanguarda rcpos ultimamente em circula-
A tarde morria! Jl-Jas .3guas barrentas ~äo um poeta desse periodo que a hist6ria liter:iria tinha relega·
As sombras das margens .dei tavam-se longas; do entre os nomes secundarios, a reboque dos condoreiros: Joa-
Na esguia atalaia d?-s iirvOres secas quim de Sousa Andrade, ou, como ele mesmo preferia chamar-
Ouvia-se um triste chorar de arapongas.
-se, Sousändrade ( 96 ).
A tarde mori;iat Das ramos, das lascas,
Das pedras, do Hquen, das ervas, dos cardos,
As trevas rasteiras com o ventre por terra ( 96) JOAQUIM DE SousA ANDRADE ( Guimaräes, MA, 1833 - Siio
Safam, quais negros, cruCis leopardos. Luis, 1902). Formou-se em Lctras pela Sorbonne; em Paris estudou tam-
bem engenharia de minas. Viajou muito pela Europa e pelas repUblicas
A tarde morria ! Mais funda nas iguas latino-americanas; fixando-se nos Estados Unidos af fez editar as Obras
Lavava-se a gralha do escuro ingazeiro, Potticas e alguns cantos do Guesa E"ante. De volta a S. Luis, viveu
Ao fresco arrepio das ventos cortantes pobremente como professor de grego, o que nio o impediu de tomar par-
Ern mtlsico estalo rangia o coqueiro. te na politica da Reptlblica recCm-proclamada. Morreu na penllria e qua·

136 JJ7
Trata-se de um espfrito originallssimo para seu tempo: ten- 0 Guesa retoma uma lenda qulchua que narra o sacrificio
do estreado como romilntico da segunda ger~äo ( Harpas Sel- de um adolescente: depois de !ongas peregrina~öes na rota do
vagens, 1858), ja se notava em seus versos juvenis um maior deus Sol, o jovem acaba imolado as mäos dos sacerdotes que lhe
cuidado na escolha do lexico e no meneio sintatico, que trala o extraem o cora~äo e recolhem o sangue nos vasos sagrados. 0
maranhense culto e enfronhado nas letras gregas e latinas, como poeta, com assombrosa intui~äo dos tempos modernos, imagina
os conterraneos Odorico Mendes ( 97 ~ e .Sotero dos Reis. o Guesa escapo aos xeques ( sacerdotes) e refugiado em Wall
Mas o pedantismo ainda acerbo das Harpas näo significava, Street, onde os reencontra sah o disfarce de empres3.rios e es-
nesse talento din3mico, apenas um resquicio purista: era prenlln- peculadores. Simbolo do selvagem que o branco mutilou, o can-
cio do escritor atento as tecrucas da dic,äo, e que seria capaz de to do novo her6i inverte o signo do indianismo conciliante de
manejar com a mesma ductibilidade as fontes classicas e os com- Magalhäes e Gon~alves Dias, cantores, ao mesmo tempo, do na-
postos do jargäo yankee. As viagens pela Eusopa e a longa tivo e do colonizador europeu.
perman~ncia nos Estados Unidos abriram a Sousilndrade o hori- Outra novidade de Sousandrade em rela,äo a toda a poesia
zonte do mundo capitalista em plena ascensäo industrial; mundo brasileira do seculo XIX reside nos processos de composi,äo:
que os nossos romilnticos mal divisavam, fechados que estavam de ins6litos arranjos sonoros ao plurilingüismo; dos mais ousa~
num contexto provinciano ou semi-afrancesado. 0 maranhense dos conjuntos verbais a montagem sint3tica.
conheceu de perto o fenömeno das concentra~s urbanas como 0 poeta näo podia ser assimilado no seu tempo e, de fato,
Nova lorquc, com os seus escilndalos financeiros e politicos que näo o foi, tendo-se provado otimista a previsäo de cinqüenta
fermcntavam entre os bancos de Wall Street ( o "Inferno" do anos em compasso de espera que lhe fizeram na epoca da reda-
Guesa) e as reda,öes dos jornais montados para as novas mas- ~äo do Guesa. Os poetas pOs-romänticos apararam as demasias
sas. Sentiu os varios aspectos cie uma democracia fundada no sentimentais dos epigonos e baixaram o tom da lira ret6rica dos
dinheiro e na competi,äo feroz, e pöd- compara-la com o nosso condores; mas näo seguiram o caminho singular de Sousändra-
lmperio fixista. Do confronto veio-lhe il mente a utopia de uma de: contentaram-se em fazer entrar no molde academico muitos
republica livre e comunitaria que conservasse a inoc~cia do dos motivos que a tradi,äo romilntica legara. Foram parnasianos.
nativo latino-americano, curioso mito polltico e substilncia do
Guesa, poema narrativo composto ao longo de dez anos, c pelo
qua! seu autor bem mereceu o tltulo de "Joäo Batista da poesia A Fic<;:AO
moderna" que lhe daria Humberto de Campos.
f. ~ facil cair na tenta,äo de gizar um esquema evolucionista
se dcsconhecido dos litcratos do tempo. E reccntc a sua descoberta. l)a..
para a hist6ria do nosso romance romilntico: do Macedo cario·
ta de 1970 a pub~ dos Inlditos, aos cuidados de Frederick G. ca as paginas regionais de Taunay e de .Tavora, passando pela
Willams e Jomas Moraes, S. Luls, Depro, de Cultura do Estado. V. gama de experiencias ficcionais de Bernardo, Manuel Antönio e
Fausto Cunha, "Sousindrade", cm A Literatura no Brasil, cit., vol. l, t. Alencar. A ideia de um conhecimento progressivo do Brasil
2; Augusto e Haroldo de Campos, Re~vtsäo de Sousdndrade, textos crfti-
cos e antologia, em colabora~o com Luls Costa Lima e Erthos de Sousa,
que, partindo da corte, alcan,a a provlncia e o sertäo bruto, po-
S. Paulo, 1964; Augusto e Haroldo de Campos, Sousflndrade. Rio. Agir, de levar o historiador ingenuo a escolher para criterio tipol6gi-
1966. co os ambientes apanhados na fic,äo: romance urbano/romance
( 9 7) MANUEL ÜDORICO MENDEs·(S. Luis, 1799 - Londres, 1864). campesino; romance do norte/romance do sul; mftodo que, n_o
Jomalista e politico liberal, destacou-se desde o Primeiro Reinado pela seu estreito sincronismo, näo se da conta das tempos culturats
sua mcnte aberta c ilustrada. Humanista, dedicou-se a tradu~o das dlspares que viviam cidade e campo, corte e provlncia.
gr~des epopCias cl&ssicas (A Eneida, 1854; Iliada, 1874). Suas vcrsöes,
~~t~ente literais, foram julgadas indigcstas quando näo ilegfveis; opi- Mas a verdade e que näo se registrou nenhuma evolu~äo
rua? discutfvel na medida em que o literalismo pode concorrer para a no fato de Alcncar ter escrito primeiro Luclola e depois 0 Gau-
for)a . de um 16cico nßvo e colar-se ao espfrito do original. V. Antönio
Hennques Lcal, Pantheon Maranbense. Lisboa, 1873, vol. I. cho, nem ocorreu qualquer ·progresso, em termos de apreensäo

138 139
do real, entre a fatura das Mem6riirr de um Sargento de Milicias,
'
1

cionais e a ideologia, näo ocupa todo o campo. do /enömeno cria-


em 1854, de Manuel Antonio de Almeida, e a das novelas ser- 1
dor, sendo responsavel antes pela genese da obra que por todos
tanejas de Bernardo Guimaräes publicadas nos anos de 70. 0 os aspectos da sua estrutura ( 98). Esta conserva um mi'.nimo de
deslocar-se do eixo geografico näo obedeceu a nenhwn acordo autonomia, que C a margem de liberdade do espirito na sua con-
tcicito entre os romancistas .. ; nem resultou em aprimoramen- tinua tensäo com os sistemas subjacentes. Sem a possibilidade
'" da tecnica ficcional: deu-se pela N_opria dispersäo, no temp0> dessa tensäo ( ou da negac;ilo, como diria Hegel), näo ha sequer
e no espar;o, ~m que viviam rlossos escritores. sombra de movimento, nem dialetica na cultura. A ac;äo do fazer,
As tentac;öes de ordenar os romances a partir de dados ex· o inventar, o poien da arte, que transforma a empiria em figu-
ternos expliEam-se pela natureza do genero, voltado como nc- rai;äo poetica, e responsavel por outra faixa da obra, ja näo pu-
nhum outro para as realidades empfricas da paisagem e do con· ramente projetiva, näo mais colada apenas aos motivos do emis·
texto familiar e social de onde o romancista extrai näo imagens sor, rflas dirigida para os niveis formalizantes da mensagem: a
isoladas, como faz o poeta, mas ambientai;öes, personagens, en- materia sonora, o ritmo, as imagens, a articulac;äo interna do pe-
redos. A situ(Jfäo de fato de que nasce o romance repro- riodo, o trabalho estilfstico das descric;öes, a tecnica do di3logo,
pöe sempre ao critico o tema dos liames entre a vida e a os planes narratives; em suma, a composil;äo do objeto ficcional.

r
ficc;äo, gerando problemas wmo • vero„imilhanc;a das hist6rias, A sociologia da invenc;äo estCtica deve ser mais cauta do
a coerencia moral das personagens, • fidelidade das reconstru· que a dos grupos consumidores ( inclusive os criticos). E näo
i;öes ambientais. E os n6s apertam-se Cllu afr0uxam-se segundo esquecer que a obra, quando descodificada pelos leitores menos
a concepr;äo de arte que se eleja. Par isso, todo criterio abstra- cultos ou pelo interprete tendencioso, sofre grave entropia de in·
to de progresso pode ser fatal ao julgamento de um romancis· formac;äo estetica.
ta: o que so valoriza o quantum de realidade (qua! realidade?) Isso näo quer dizer que se possa ou se deva subtrair a pes-
contido na obra; e o que s6 da prec;o aos resultados de pura inven- quisa social e psicol6gica o mundo das formas. Trata-se de
c;äo. Ser narrador ou fantasista depende de fatores multiplos, psi- apanhar, em sie por dentro, aqueles fenömenos que säo o obje-
col6gicos e sociais, o que torna igualmente dificil tentar uma so- to preferencial do trabalho artistico, e que nos induzem a juizos
ciologia do romance de car3ter positivista, ap menos no que se do tipo: 'ieis um beJo poema", OU 11 0 ro1nance Xe amorfo", OU
refere ao autor. Ja para o estudo do publico parece indispensa- "o dramaturgo Y tem um estilo denso". Que, em etapas se-
vel comec;ar por uma an3lise de classes e grupos. guintes, se procure a homologia entre as notas estilisticas e a vi-
Pode parecer estranho, se näo perigoso residuo idealista, säo do mundo de uma classe ou de um periodo, como o propöe o
separar os metodos que abordam os conswnidores da obra dos estruturalismo genetico de Luden Goldmann ( 99 ), e um tento
que visam a entender os seus produtores. No entanto, os fenö- final e o mais dificultoso de rodos; e que, por isso mesmo, näo
menos situam-se quase sempre em tempos di.:uersos, e a inteligCn- se deve arriscar, pela pressa de concluir, a um precoce e injusto
cia deve respeitar a diversidade: os leitores da mensagem ficcio- malogro.
nal seguem as grandes linhas-de-forc;a das motivac;öes que plas- O romance romäntico brasileiro dirigia-se a um pU.blico mais
mam o seu cotidiano. Assim, a ·-sede de reconhecer a pr6pria rest!ito do que o atual: eram mo\OS e moc;as provindos das clas-
vida sob o prestlgio da letra de forma estimula um publico que
näo sera ( ao mesmo tempo) o que busca no livro cenas e her6is
longinquos e sobre-humanos para alimento de evasäo. E possl· ( 98) Na expressäo feliz de Pierre Francastel, "os tempos da gl:nese
veJ marcar OS ideais e as frustrac;öes das varias classes de Jeito- e da estrutura säo diferentes".
res conforme os nfveis de aspirac;äo das grupos a que pertencem: ( 99) V. Le Diiu cache, Paris, Gallimard, 1956; Rechercbes dialecti·
a passividade do consumidor e bom guia para descobrir as razöes ques, Gallimard, 1958; Pour une Sociologie du Roman, Gallimard, 1964.
de sua preferCncia por este ou aquele romancista. Este Ultimo foi traduzido para ponugues (Sociologia do Rof!Zance, Paz e
Terra, 1968). De Goldmann, v. tambem, Ciencias I-lumanas e Filosofia,
No caso do escritor, porem, e especialmente do grande es- trad. de Lupe Cotrim Garaude e J. Arthur Giannotti, S. Paulo, DIF.
critor. a faixa projetiva, onde caem pesadamente os fatores emo- E. L., 1967.

140 141
ses altas, e, excepcionalmente, medias; eram os profissionais li- Tavora e alencariana menor (A Viuvinha, Diva, A Pata da Ga-
berais da corte ou dispersoS pelas provincias: era, enfim, um zela, Encarnafiio). Ja Inocencia de Taunay e alguns romances
tij:>o de leitor a procura de entretenimento, que näo percebia de segunda plana de Alencar ( 0 Sertane;o, 0 Gaucho, 0 Gua-
muito bem a diferen\a de grau entre um Macedo e um Alencar rani) redimem-se das concessöes a peripCcia e ao inverossimil
urbano. Para esses devoradores de folhetins franceses, divulga- pelo fölego descritivo e pelo aito na constru~ao de personagens-
dos em massa a partir de 1830/40, ~a Jrama rica de acidentes -sfmbolo: lnocencia, Arnaldo, Canho, Peri fazem aflorar arquC-
bastava como pedra de toque tlo bom romance. A medida que 1
tipos de pureza e de coragem que justificam a sua resistencia ils
os nossos narradores iam aclimando a paisagem e ao meio na· 1
mudan\as de gosto literario. Enfim, o nlvel das inten\(ies bem
cional os esquemas de surpresa e de firn feliz dos modelos eu- logradas cabe, como e de esperar, aos happy few: as Mem6rias
1
ropeus, o mesmo pU.blico acrescia ao prazer da urdidura o do de um Sargento de Milicias, prodlgio de humor pkaro em meio a
1
reconhecimento ou da auto-idealizai;äo. tanto disfarce banal, e as duas obras-primas de Alencar, Iracema
Vistas sob esse angulo, säo exemplares os romances de Ma- e Senhora, täo diversas entre si da ponto de vista ambiental, mas
1
cedo e de Alencar, que respondem, cada um a seu modo, 3.s exi- pr6ximas pela consecu\äo da tarn justo e pela economia de meios
gfncias mais fortes de tais leitores: reencontrar a pr6pria e con· de que se valeu o romancista.
1
vencional realidade e projetar·se como her6i ou heroina em pe- A escala de valores ja ficou sugerida atr&s: a obra sera tan·
ripecias com quc näo Se depara a media dos mortais. A fusäo 1
to mais valida, esteticamente, quanto melhor sauber o autor
de um pedestre e miudo cotidiano ( cimentado pela filosofia do usar a margem de liberdade que lhe permitirem as pressöes psi-
bom sense) com o ex6tico, o misterioso, o her6ico, define bem 1
col6gicas e sociais. Estas, lange de se esvafrem na "poesia pu-
o arco das tensöes de uma sociedade estavel, cujo ritmo vege· ra" da obra perfeita, potenciam-se e deixam transparecer a es-
tativo näo lhe consentia projeto hist6rico ou modos de fuga sfncia da matc!ria que o artista constrangeu a tomar forma.
a
alem do ofertado por alguns tipos de fic\aO: passadista e coJo-
1

niaJ ( 0 Guarani, As Minas de Prata, de Alencar; As Mulheres


de Mantilha, 0 Rio do Quarto, de Macedo; Maurlcio, 0 Bandi- Macedo
do do Rio das Mortes, de Bernardo Guimaraes ... ) ; a indianis- 11
ta ( Iracema, Ubira;ara, de Alencar; 0 lndio-Afonso, de Bernar- A cronologia manda come\ar pelo romance de Joaquim Ma-
do); a sertaneja ( 0 Sertane;o, 0 Gaucho, de Alencar; 0 Grz-
rimpeiro, de Bernardo; Inocencia, de Taunay; 0 Cabeleira, 0
il nuel de Macedo ( 100 ) •

Matuto, de Fränklin Tavora ... ) . Ou, trazendo, o leitor de vol- f!OO) JoAQUIM MANUEL DE MACEDO (ltaboral, RJ, 1820 - Rio,
ta para o dia-a·dia das conveni;öes, como em Iargos trechos de 'I 1882). Formou-se em Medicina pela Faculdade do Rio de Janeiro. A
Macedo e do Alencar fluminenses, centrados nos costumes da .,
;_i sua tese de doutoramento ja dizia muito de suas ·preocupac;öes de nove-
lista sentimental: Considera~öes sobre a Nostalgia, publicada em 1844. No
burguesia, e no saboroso documenta do Rio joanino que sä:o as 1
mesmo ano estreou com A Moreninha que obteve btito consider3.vel, tal
Mem6rias de um Sargento de Milicias, de Manuel Antonio. que .o animou a escrever mais dezesscte romances entre melodramSticos,
cömicos e hist6ricos. Näo se dedicou a medicina, mas ao magistCrio ( le-
1
Ate aqui aludiu-se a correspandfncia entre as expectativas
cionando Hist6ria do Brasil no ColCgio Pedro II e como preceptor dos
dos leitores e as respostas que lhes deram os ficcionistas: fato netos do Imperador) e a polftica, elegcndo-se v3.rias vezes deputado pelo
que explica quase sempre a polaridade realismo-idealismo que Partido Liberal ( ala conscrvadora). ' Consta que sofreu de uma doen~a
acompanha o romance da epoca. Mas, se reordenarmos em linha mental nos Ultimos anos de vida. Romances: 0 Mo~o Loiro, 1845; Os
vertical o mesmo conjunto, veremos que näo e tanto a distribuic;äo Dois Am6res, 1848; Rosa, 1849; Vicentina, 1853; A Carteira do Meu Tio,
de temas quanto o nerve do seu tratamento literario que deve ofe- 1855; 0 Forasteiro, 1855; 0 Culto do Dever, 1865; Mem6rias do Sobri·
nho do Meu Tio, 1868; 0 Rio do Quarto, 1869; A Luneta M&gica, 1869;
recer o criterio preferencial para ajuizar das obras enquanto obras. As Vitimas Algozes, 1869; Nina, 1869; A Namoradeira, 1870; Mulheres
Teremos, no plano mais baixo, os romances que nada acrescen- de Mantilha, 1871; Um Noivo e Duas Noivas, 1871; Os Quatro_ Pontos
,1 Cai-deais, 1872; A Baronesa do Amor, 1876. Consultar: Heron de Alen·
tam aos desejos do Ieitor medio, antes, ex:citam-nos para que se
reiterem ad infinitum: e a produ\ao de Macedo, de Bernardo, car, "Joaquim Manuel de Macedo", em A Literatura no Brasil (dir. de

142 143
Tendo atravessado todo- o Romantismo, pois escrevcu desde pessoas, enquanto projei;öes de conflitos dos pr6prios autores:
os anos de 40 aos de 70, nem por isso nota-se-Ihe progresso na as criaturas de Stendhal, Manzoni e Balzac foram aut&!ticos he-
te<:nica literS.ria ou na compreensäo do que deveria ser um ro-
mance. Macedo descobriu logo alguns esquemas de efeito no-
i r6is que nutriram a fantasia do leitor oitocentista. 0 defeito
estava em Macedo, sub-romancista pela pobreza da fantasia, sub-
1
velesco, sentimental ou cOmico, e aplicou-os assiduamente atC as
suas Ultimas produi;öes no genero. ,
,i -rommtico pela mlngua de sentimento. A sua adesäo a um tipo
d~ veross!mil imediato, peculiar a cronica e 8s mem6rills, preju-
Compöem o quadro desses expedientes: o namoro dificil ou
imposs!vel, o misterio sobre a identidade de uma figura impor-
·~ dica-o sempre que o enredo, saltando para o romancc de perso-
nagem, niio se esgota na misrura desses dois g&ieros.
tante na intriga, o reconhecimento final, o conflito entre o cle- Por outro lado, faltava a Macedo para ser um memorialista
ver e a paixäo ( molas romanescas e sentimentais); os cacoetes de valor o que sobejava a Manuel Antönio de Almeida - o
de uma personagem secundaria, as galbofas de estudantes va- senso vivo do ridlculo cm que as conveni;öes enredam o homcm
dios, as situai;öes bufas (molas de comicidade ). Tudo isso va- 1 comum. Macedo respirava essas conveni;öes. A falta de dis-
zado numa linguagem que esta a meio caminho do coloquial, i tanciam.ento enCl:lrtava-lbe as perspectivas e o conduzia a aceitar
nos dialogos, e de um literario correto de professor de portu- 1 por molas e fins das suas hist6rias os preconceitos vigentes cm
gues e homem do Pai;o, nas narrai;öes e digressöes. ·\ torno do casamento, do dinheiro, da vida politica. Certa moral
Niio admira que, achadas com facilidade as receitas Ja em passadista empresta um tom domestico as considera\(ics com que
A Moreninha, o escritor tenha sido tentado a dilul-las em mais entremeia seus romances hist6ricos. Valbam como cxemplo estcs
dezessete romances. dois passos rranscritos das Mulheres de Mantilha:
Ern todos eles o gosto do puro romanesco e importado Em todos esses rostumes estampava-se o atraso e • rudeza da
( Scott, Dumas, Sue ... ) , mas säo nossos os ambientes, as ce- sociedade colonial do Rio de Janeiro; mas indisputilvclmentc, se a
nas, os costumes, os tipos, em suma, o documenta. 0 que näo civiliza9io tivesse poupado a1guns deles ( ... ), o pow pobrc pelo
quer dizer: realismo. menos tcria mais facilidades na vida (Cap. IV).
Naqudes tempos havia um ditado que dcfmia certos homcns;
Resenhando um dos romances de Macedo maduro, 0 Culto o ditado rode, como rude era o povo, era cstc: "~ de boi portu-
do Dever, de 1865, Machado de Assis, que" ainda niio estreara guCs velho" e em Jerönimo e Ant6nio se encootravam dois pCs de
na fici;iio, ja Ihe apontava uma carencia de realidade moral näo bois portugueses velhos que fariam o que diziam, dois homens de
compensada pela c6pia de trai;os pitorescos e pelas digressöes bem as direitas, mas teimosos, cmperrados, indom4veis, que tioham
sentimentais. A notai;äo precisa de Macedo näo e realismo, mas no cumprimento da palavra o fanatismo da religiäo.
minU.cia de crönica; embora insistente, näo chega a moldar uma Os Ultimos representantes dessa gera9io de her6is de firmc:za
obstinada, aotiteses da egoista ioconst.äncia e ioteresseiro aviltamen-
personagem que nos conveni;a. Säo palavras de Machado: to de ootabilidades passivas, foram aqueles paulistas que tomavam
por divisa vaidosa, ao menos porCm oäo suspeita de iodignidadc, o
Se a missäo do romancista fosse copiar os fatos, tais quais eles famose principio: "antes quebrar, que torcer" (Cap. XIV).
se däo na vida, a arte era uma coisa inUtil; a mem6ria substituiria
a imaginar;ä:o; o Culto do Dever 'i:leitava abaixo Carina, Adolfo, Ma-
non Lescaut ( 101 ).
Mannet Antonio de Almeida
0 defeito niio era, portanto, do Romantismo, de onde pro-
vinham as obras citadas por exemplares na crltica de Machado;
pelo contririo, e com os rominticos que come~am a fixar-se No outro p6lo, as Mem6rias de um Sargento de Milicias,
de Manuel Antönio de Almeida ( 102 ) estiio isentas de qualquer
Afränio Coutinho}, cit., vol. II, pp. 856-862; Antönio Soares Amora, 0 (102) MANUEL ANTÖNIO DE ALMEIDA (Rio, 1831 - Vapor "Her·
Romantismo, S. Paula, Cultrix, 1967; Antönio Cindido, Formafäo da Li- mes", nas Costas da Provfncia do Rio de Janeiro, 1861). De origem po-
teratura Brasileira1 cit., vol. II, pp. 137-145. bre, 6rfäo Ge pai aos dez anos de idade, conheceu de perto a vida da pe-
1
( 101) Machado de Assis, Critica LiterJria, Rio, Jackson, 1955, p. 70. quena classe mt!dia Carioca. Freqüentou aulas de desenho na Academia de

144 t
1
145
tra<;o idealizante e procuram _despr;Ggar-se da materia romancea- As aventuras de Guzman na Espanha barrota näo se repeurao
da gra<;as ao metodo objetivo de composi<;äo, pr6ximo do que no Diabo Coxo e no Gil Blas do saboroso Lesage que, apesar
seria uma crönica hist6rica cujo autor se divertisse em resenhar das fontes castelhanas, e bem frances e leitor de La Bruyere pelo
as andanc;as e os pecadilhos do uomo qualunque. cuidado com que pinta o retrato moral dos figurantes. Figuran-
Ern Macedo a veracidade dos costumes fluminenses aparece tes e näo personagens movem-se no romance picaresco da nosso
distorcida pela cumplicidade tacita com a leitora que quer ora Manuel Antönio que, ao descartar-se dos sestros da psicologia
rir, ora chorar, de onde resulta'llm reahsmo de segunda mäo, näo romilntica (em 1853, aos vinte e um anos de idade! ), enverc-
raro rasteiro e lamuriento. Ern Manuel Antönio, o compromisso dou pela crönica de costumes onde näo ha lugar para a modela-
e mais alto e legftimo, porque se faz entre o relato de um mo- gem sentimental ou her6ica ( 0 homem era romäntico, como
11

mento hist6rico ( o Rio sob D. Joäo VI) e uma visäo desenga-


9
se diz hoje, e babäo, como se dizia naquele tempo"), nem para
nada da exist&icia, fonte da humor difuso no seu Unico romance. o abuso da peripecia inverosslmil.
Dizia um velho professor de literatura espanhola: "EI pro- Desde a primeira linha, o leitor sente o interesse em tudo
blema del picaro es un problema de hambre". E o romance datar e localizar com precisäo:
picaresco, de origem espanhola, desde o Lazarillo de T ormes Era no tempo do rei.
( 1554) a Vida de Guzmfm de Alfarache de Mateo Alemän Uma das quatro esquinas que formam as Ruas do Ouvidor e
( 1604) e ao Busc6n de Quevedo ( 1626 ), assentava-se inteira- da Quitanda, cortando-se mutuamente, chamava-se naquele tempo
mente nas aventuras de um pobre que via com desencanto e mali- ··o canto das meirinhos".
cia, isto e, de baixo, as mazelas de uma sociedade em decadencia. Que diferen>a do vezo de Macedo, tomado aos folhetins de
Mundo em que a brutalidade e a astucia traziam as mascaras da Paris, de deixar em suspenSo as coordenadas da a~äo, valendo-se
coragem e da honra. 0. pobre, no seu afä de sobreviver, trans- de misteriosos asteriscos au de reticencias: Na cidade de***,
11

formava-se em plcaro, servindo ora a um ora a outro senhor e ou "Nos idos de abril de 18 .. , ".
provando com o sal da necessidade a comida do poderoso. Ao A mesma aten>äo e dada aos homens e mulheres que väo
plcaro e dado espiar 0 avesso das institui~öes e dos homens: 0 e vem pelos becos do velho Rio, e dos quais o observador nota
seu aparente cinismo näo e mais que defesa entre vilöes encasa- ora o offcio ("Fora Leonardo algibebe em Lisboa, sua patria"),
cados. Mas cada contexto tera seu modo de äpresentar o plcaro. 11
ora os caracteres ffsicos: Maria da Hortali<;a, quitandeira das
prar;as de Lisboa, saloia rechonchuda e bonitona ... "; "um co-
Belas Artes e, a espac;os, o curso de Medkina. Para· sobreviver trabalhou
assiduamente no jornalismo como revisor e redator do Correio Mercantil lega de Leonardo, miudinho, pequenino, e com fuma~as de gaia-
para o qual escrevia um suplemento mundano e literS:rio, "A Pacotilha", e to e 0 sacristäo da se, sujeito alto, magro e com pretensöes de
onde safram, em folhetins, as suas Mem6rias de um Sargento de Milicias, elegante" ...
sob o pseudönimo de "um brasileiro"; o romancista ainda näo completara Mas o realismo de Manuel Antonio de Almeida näo se es-
entäo vinte e dois anos ( 1853). Mais tarde, nomeado administrador da
Tipografia Nacional, conheceu o ainda aprendiz de tip6grafo Machado de gota nas Iinhas meio caricaturais com que define uma vari~da
Assis ( que retomaria a linha de ficc;äo realista ambientada no Rio). Quan· galeria de tipos populares. 0 seu valor reside principalmente
do exercia o cargo de oficial de secretaria do MinistC:rio da Fazenda, foi em ter captado, pelo fluxo narrativo, uma das marcas da vida
tentado a ingressar na politica, candidatando-se a deputado provincial. Mas, na pobreza, que e a perpetua sujei~äo a necessidade, sentida de
ao dirigir-se a Campos em viagem eleitoral, veio a falecer no naufr:igio do modo fatalista como o destino de cada um. Esse contlnuo es-
vapor "Hermes'', junto a Ilha de Santana. As Mem6rias de um Sargento
de Milicias foram publicadas nos folhetins citados e, depois, em dois vo- for>o de driblar o acaso das condi>öes adversas e a avidez de go-
lumes (Rio, 1854-55). Consultar: JosC Verfssimo, "Um velho romance zar os intervalos de boa sorte impelem os figurantes das Me-
brasileiro'', em Estudos Brasileiros, 2.• sCrie, Rio, Laemmert, 1894; M:irio m6rias, e, em primeiro lugar, o anti-her6i Leonardo, "filho de
de Andrade, Introduc;äo a 10.a edic;äo das Me'm6rias, S. Paula, Martins, uma pisadela e de um beliscäo" para a roda viva de pequenos
1941; Marques Rebelo, Vida e Obra de Manuel AntOnio de Almeida, Rio,
Ministerio de Educac;äo e SaU.de, 1943. Edic;äo critica exemplar: MAA, engodos e demandas de emprego, entremeadas com ciganagens e
Mem6rias de um Sargento de Milfcias, aos cuidados de Cecilia de Lara, patuscadas que däo motivo ao romancista para fazer entrar em
Rio, LTC, 1978. cena tipos e costumes do velho Rio.

146 147
E superfluo encarecer o valor documenta! da obra. A cri· Apresentando um dos seus Ultimos trabalhos, Sanhas d'Ou·
tica sociol6gica jci o fez com ·a devida minllcia ( 108 ). As Mem6- ro, e j3 em polemica com mercadores da pena portugueses, uabe-
rias nos däo, na verdade, um corte sincrönico da vida familiar göes do bezerro de ouro", que o tachavam de pouco vern&culo,
brasileira nos meios urbanos em uma fase em que ja se es~va Alencar tra\ou um quadro retrospectivo da sua fic\äo, onde se
uma estrutura näo mais puramente colonial, mas ainda longe do
quadro industrial-burgues. E, como,o 0utor conviveu de fato de um Anjo e Mäe, todas representadas no Teatro Ginäsio Dram3tico do
com 0 povo, 0 espelhamento foi distorcido apenas pelo angulo Rio de Janeiro.
da comicidade. Que e, de longa data, o vies pelo qua! o artista Morto o pai, em 1860, Alencar entrou para a vida politica elegen-
do-se seguidamente deputado provincial pelo Cearä e galgando a pasta da
ve 0 tipico, e sobretudo 0 dpico popular. Justic;a no ministCrio conservador de 1868-70. Mas ao contririo da pai,
que sempre se batera por teses liberais, o romancista assumiu posir;öes re-
tr6gradas (patentes em face do problema escravista) e foi, no fundo, antes
Alencar. um individualista que um homem voltado para a coisa pUblica: sabe·se
que o motivo de seu afastamento da politica, quando entrava na casa das
Com a sua franca aderencia il realidade media, Manuel An· quarenta anos, foi o ressentimento de ver-se preterido por Pedro 11 na
indica.;äo para o Senado.
tönio de Almeida permaneceu um nome ate certo ponto lateral No decenio de 60 escreveu: As Minas de Prata ( 62-66), Luciola. Per-
na hist6ria do nosso Romantismo. 0 lugar de centro, pela na- fil de Mulher (62), Diva. Perfil de Mulher (64). Iracema. Lenda do Ceara
tureza e extensäo da obra que produziu, viria a caber com toda (65), alem de opllsculos de natureza politica (Ao Imperador - Cartas
justka a Jose de Alencar ( 104 ). Politicas de Erasmo, Ao Imperador - Novas Cartas Politicas de Erasmo,
1865; Ao Povo - Cartas Politicas de Erasmo, 1866; 0 ]uiz.o de Deus.
( 103) Astrojildo Pereira, "Romancista da Cidade: Macedo, Manu:l
Visäo de ]6, 1867; 0 Sistema Representativo, 1868.
Antönio e Lima Barreto", em 0 RoMANCE BRASILEIRO (coord. de Aur~o Retoma em 70 a fie<;äo: 0 Gaucho (70), A Pata da Gazela (70), So·
Buarque de Holanda, Rio, Ed. ~ Cruzeiro, 1952, P?· 37-53). ~~ra a vu~­A
nhos d'Ouro (72), Til (72), Alfarrtlbios ("0 Ermitäo da GlOria" .e "O
cula<;io das fatores externes e tnternos das Mem6rtas, v. Antonio Cand1- Garatuja") (73); A Guerra dos Mascates (73), Ubiraiara (74), Senhora
do "Manuel Antönio de Almeida: o romance em moto continuo", em (75), 0 Sertaneio (75). De permeio, um drama, 0 Jesuita, em 75. Car-
Fdrmafäo, cit., vol. II, pp. 215-219. Reestudand~ .a o_!'ra ~. J?-Ordent~ reira liter9.ria pontuada de polbnicas de certo ingratas a extrema suscepti·
analise estrutural, A. Cindido faz reservas ~ qul\lif1ca~o de p1caresca bilidade do romancista: com os defensores de Magalhäes; com a censura,
que lhe tem sido dada na esteira de M. de Andrade (cf. "DialCtica da que suspendeu a representac;äo de As Asas de um Anio; coro o Conse-
Malandragem", in Revista do Instituto de Estudps Brasileiros, n." 8, lheiro Lafayette que chamou a heroina de Luciola "mostrengo rooral" ... ;
pp. 67·89, S. Paulo, 1970). com Pinheiro Chagas, Antönio Henriques Leal e Antönio Feliciano de Cas-
( 104) JosE MARTINIANO DE ALENCAR {Mecejana, Ceara, 1829 - tilho, zoilos portugueses que em tempos diverses o argüiram de incorreto,
Rio de Janeiro, 1877). Seu pai, o senador JosC Martiniano de Alencar, ao que o nosso autor respondeu elaborando uma teoria da "lingua brasi-
ex-padre e vulto de projer;äo na politica liberal, foi um des anima?ores do leira". Sem falar nas impertinencias de Fränklin T:ivora que nas Cartas t1
Clube da Maioridade, que levou D. Pedro ao trono em 1840. A1nda me- Cincinato ( 1871) depreciou o modo pelo qual Alencar concebeu seus r~
nino, JA. mudou-se com a famflia para a Corte onde recebeu educar;äo mances regionais.
prim.iria e secundSria. Em Säo Paulo e, cm parte, em Olinda, cursou Ern 1877, o escritor fez uma viagem a Europa para tratar·se da tu-
Direito (1845-50). Sabe-se que neste per.iodo compös uma novela hist6- berculose, doenr;a que j3 o acometera na juventude. Mas em väo; regres-
rica, Os Contrabandistas, queimada J>Qr uma brincadeira de um compa- sando, vem a falecer no mesmo ano no Rio de Janeiro. Postumamente,
nheiro de quarto. . . Fermado, oomer;ou a advogar no Rio, mas a litera- e de relevo literSrio, safram o romance Encarnafäo ( 1877) e a autobiogra·
tura logo o absorveu: primeiro como cronista do Correio Mercantil ("Ao fia Como e por que sou romancista ( 1893 ). Al6n das v3rias edic;öes par-
Correr da Pena", 1854), depois como redator do Di9.rio do Rio de Janei- celadas ou completas de suas obras pela Garnier e pela Ed. Melhoramen·
ro para o qual escreve, sob o pseudönimo de lg. uma sCrie de artiges crf- tos, ha a alencariana da JosC Olympio que engloba toda a fi~äo em 16
ticos sobre o poema A Confederafäo dos T amoios de Gon~alves de Ma- volumes ( 1951) precedidos de ensaios, alguns valiosos, e, mais recente-
galhäes (1856), suscititndo a polemica ja referida a piig. 108. No mesmo mente, a Obra Completa, em 4 volumes, da Editora Aguilar (1959), com
jornal saem em folhetim seus dois primeiros "romancetes" de ambientar;äo uma introduc;äo excelente de Cavalainti Proenc;a, "JosC de Alencar na Ll-
carioca, Cinco Minutos, em 1856, e A Viuvinha, em 1857, e o romance his- teratura Brasileira".
t6rico que o faria reichre, 0 Guarani ( 1857). De 57 a 60 dedica-se ao Consultar: Araripe Jr„ ]ose de Aiencar, Rio, 1882 (em Obra Critica,
teatro escrevcndo o libreto da 6pera bufa A NOite de Säo Joäo, as com~ vol. I, Rio, Casa de Rui Barbosa, 1958); Artur Mota, ]ose de Aiencar,
dias 0 Cr!dito, Dem6nio Familiar, Verso e R.everso, e os dramas As Aras Rio, Briguiet, 1921; Marie de Alencar, Jose de Aiencar, S. Paula, Monteiro

148 149
mostrava consciente de ter abra\:ado todas as grandes etapas da Onde niio se propaga com rapidez a luz da civiliza~o, que de
vida brasileira. Embora longo, vale a pena transcreve-lo, nos repente cambia a cor local, encontra-se ainda em sua pureza ori-
ginal, sem mescla, esse viver singela. de nossos pais, tradi~öes, cos-
trechos mais assertivos: tumes e linguagem, com um sainete todo brasileiro. Ha niio so-
mente no pafs, como nas grandes cidades, atC mesmo na corte,
0 perlodo org8.nico desta literatura conta j<i trt!s fases. desses recantos, que guardam intacto, ou quase, o passado.
A primitiva, que se pode chamar aborigine, säo as lendas e
mitos da terra selvagem e conquista4a; säo as tradir;öes que emba- 0 Tronco do Ipe, o Til e 0 GaUcho vieram dali, embora, no
laram a inf8.ncia do povo, <;! ele escutava como o filho a quem a primeiro· sobretudo, se note jii, devido a proximidade da corte e a
mäe acalenta no berr;o com as canr;öes da patria, que abandonou. data mais recente, a influencia da nova cidade, que de dia em dia
Iracema pertence a essa literatura primitiva, cheia de santidade se modifica e se repassa do espfrito forasteiro.
e enlevo, para aqueles que venceram na terra da p3:tria a mäe fe- Nos grandes focos, especialmente na Corte, a sociedade tem
cunda - alma mater, e näo enxergam nela apenas o chäo onde pisam. a fisionomia indecisa, vaga e mU.ltipla, tiio natural a idade da ado-
0 segundo periodo e hist6rico: representa o cons6rcio do povo lesc&lcia. E o efeito da transic;äo que se opera, e tambCm do amiil-
invasor com a terra americana, que dele recebia a cultura, e lhe gama de elementos diversos.
retribufa nos eflllvios de sua natureza virgem e nas reverbera~es
de um solo espl&ldido.
Dessa luta entre o espfrito conterräneo e a invasäo estrangei-
ra, säo reflexos Luciola, Diva, A Pata da Gazela, e tu, livrinho, que
E a gestar;iio lenta do povo americano, que devia sair da estir· ai vais correr mundo com o r6tulo de Sonhos d'Ouro (Benc;äo
pe lusa, para continuar no novo mundo as gloriosas tradic;öes de seu Paterna).
progenitor. Esse periodo colonial terminou com a lndependl:ncia.
A ele pertencem 0 Guarani e As Minas de Prata. Ha ai mui-
ta e boa messe a colher para o nosso romance hist6rico; mas niio Embora as linhas acima tivessem o objetivo basico de jus-
ex6tico e raquitico como se propös a ensinS.-lo, a n6s be6cios, um tificar os brasileirismos de alguns romances e os estrangeiris-
escritor portugues. ·
A terceira fase, a inf8.ncia de nossa literatura, com~da com
mos de outros, elas indicam o quanto importava a Alencar eo·
a independl:ncia politica, ainda niio terminou; espera escritores que brir com a sua obra narrativa passado e presente, cidade e cam-
lhe dt!em os Ultimos trac;os e formem o verdadeiro gosto nacional, po, litoral e sertäo, e compor uma espfcie de suma romanesca
fazendo calar as pretensöes, hoje täo acesas, de nos recolonizarem do Brasil ( 105 ).
pela alma e pelo corac;iio, ja que näo o podem pelo brac;o.
Neste pedodo, a poesia brasileira, embora balbuciante ainda, res- Entretanto, mais do que repetir a parti~iio por assuntos dos
soa niio ja somente nos rumores da brisa e nos ~cos da floresta, seniio seus vinte e um romances em indianistas, hist6ricos, regionais
tambem nas simples cantigas da povo e nos intimos seröes da famllia. e citadinos, conviria buscar o motivo unit0.rio que rege a sua
estrutura, e que, talvez, se possa enunciar cOmo um anseio pro-
Lobato, 1922; Gladstone Chaves de Melo, "Alencar e a Lingua Brasileira",
introd. ao vol. X, pp. 11-88, da edic;ao Jose Olympia, Rio, 1951; "Obser- fundo de evasäo no tempo e no espa~o animado por um egotis·
vac;öes sobre o Romance de Jose de Alencar'', de Pedro Dantas, em 0 Ro- mo radical. Tra,os ambos visceralmente romanticos.
mance Brasileiro ( coord. por Aurelio Buarque de Holanda), Rio, Ed. 0 Alencar, cioso da pr6pria liberdade, navega feliz nas aguas
Cruzeiro, 1952, pp. 75-83; Auguste Meyer, "De um leitor de romances'',
ib., pp. 85-90; Jose Aderaldo Castelo, A Polemica sobre "A Confedera~ao do remoto e do longinquo. E sempre com menoscabo ou surda
das Tamoios", S. Paula, Fac. de Filosofia da Univ. de S. Paulo, 1953; Gil- irritac;äo que olha o presente o progresso, a "vida em socieda-
1

berto Freyre, Reinterpretafäo de Jose de Alencar, Rio de Janeiro, MEC, de"; e quando se detem no juizo da civiliza~äo, e para deplorar
1955; Heron de Alencar, "Jose de Alencar e a Ficc;iio Romantica'', em A a pouquidade das rela,öes cortesäs, sujeitas ao Moloc do dinhei-
Literatura no Brasil (dir. de Afranio Coutinho), cit., vol. I, t. 2, pp. 837-
-948; AntOnio C8.ndido, "Os Tres Exemplares", em Formafao da Litera- ro. Dai o mordente das suas melhores paginas dedicadas aos
tura Brasileira, cit., pp. 218-232; AntOnio Soares Amara, "Alencar'', em 0 costumes burgueses em Senhora e Luciola.
Romantismo, S. Paulo, Cultrix, 1967, pp. 241-282. Ver tambCm os estudos
e as notas que acompanham a edic;iio do centen3:rio de Iracema (Rio, Jose ( 105) 0 cdtico OHvio Montenegro fez restric;öes a idCia de um es-
Olympio, 1965); e R. de Menezes, J. de A., literato e polltico, S. Paula, quema a priori que teria guiado Alencar na construr;iio de sua obra narra-
Martins, 1965; A. Bosi, "Imagens do Romantismo no Brasil", em 0 Ro- tiva (0 Romance Brasileiro, Jose Olympia, 1938, p. 41). Acho o pro-
mantismo, S. Paula, Perspectiva, cit.; R. Schwarz, Ao vencedor as batatas, blema irrelevante: previo ou näo, o plano vale sempre como documenta
S. Paulo, Dua~ Cidades, 1977. da conscit!ncia hist6rica de Alencar em face da sua obra.

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Na verdade, era uma critica cmocional que s6 oferecia uma e
0 tropismo para a vi-da natural a outra face d a aversao
alternativa: o retorno ao indio, ao bandcirante, e a fuga p ara as que o romancista votava ao progresso. Cantando o pampa, näo
soliJöcs da floresta c do pampa. 0 romantismo d e Alencar e, deixa de lamentar que "a civiliza~äo ja babujou a v irgindade
no f undo, ressentido e regrcssivo como o de seu s amados e imi- primitiva dessas regiöes" . 0 mesmo se da no Tronco do Ipe,
tados a\·atares, o V isconde F ran"ois-Rene de Chat eaubriand e que Jecorrc junto a mata fluminense : "Assomava ao longe, emer-
Sir Walter Scot t. 0 que lhe da um s~ntido na h ist6 ria da nossa gindo do azul do ceu
o dorso alcantilado d a Serra d o i\Iar, que
cultur:i c ajuda a explicar mui tas d as suas opi;öes esteticas. ainda o cavalo a vapor nao escarvara com a ferrea u ngula." Quem
A ido latria do dinheiro, que av iltaria a n ova suciedade du niio ~e lcmbra da p intura ovidiana da aetas aurea? E no Serta·
Scgundo Imperio , u C onsclheiro Jo sc M artiniano d e Alencar nejo: "De dia em d ia, aq uelas remotas regiöcs väo perde ndo a
opusera o se u Jesprt~zo impoten te ( V . o P rcfacio ao Gaucho) . primitiva rudeza, que t amanho encanto lhes infundia."
Mas o ro mancista dispu nha do refu gio de ou tros mundos onde Tra ta-se de algo mais que uma simples reminiscencia do
a imagina')iio n ao sofria limi tes e onde se liber ava ao talhar her6is t6pico du pa rafso perdido . 0 Brasil ideal de Alcncar ser ia urna
soberbos e infa nt is que cm rcfrangido espelho tao bem o pro- especic de cenario selvagem onde, expu lsos os pon uguese'S, rci-
jetava m. na riam capitiies alt ivo s, senh ores d a b ara<;o e cutelo rodeados
0 espelho era a visäo simbülica das for')as n aturais. 0 vir;o de sertan ejos e peöes, l ivres sim , mas fieis atc a mortc. Algu-
da arvore, 0 faro do hicho, 0 ardor do sangue e do instinto : eis ma coisa assim como a E uropa pre-industrial , m as r egenerada
OS mitos primord iais que vaJeri\o , 110 codigo J e J\ !encar, pureza, pela sciva da na tureza americana. Ou tra vez, C ha tea ub riand.
lealdade, coragcm.
Esses t ra~os ideologicos, insisten tes nos paineis coloniais e
T anto nos roma nces nativist as ( 0 Guarani, Iracema, Ubira·
n at ivos, como As Minas de Prata, 0 Guarani c Ubiraiara, afi-
iara) como naqueles em que o bom sclvagcm se desdobra em
nam-se na prosa lirica de I racema, obra-prima onde se decan tam
herois regionais ( 0 Ga1icho, 0 Sertanr:jo ), o sclo d a nob reza e
os dons de um Alencar paisagista e pintor de "pcrfis de mulher"
dado pelas för~as do sangue que o autor reconhece e respcit a
firmes c claros na sua admiravel delicadeza.
igualment e n a estirpe <los colonizadores brancos. Ao herofsmo
de Peri näo d eixa de apor a sobranceria de Dom An tonio de O escritor que idealizara her6is miticos no cora~ao da flo-
Ma riz e sua esposa, os castelöes impavidos Je 0 Guarani. resta e o mesmo que sabe recortar as figu ras gentis de donzelas
Para da r fo rm a ao heroi, Alenca r näo via meio mais eficaz e mancebos nos salöes da Cor te e nos passeios d a Tijuca. A di-
d o q uc amalga ma-lo a vida d a n atureza. E a conatu ralidade guc feren<;a residc no grau de complexidade p sicol6gica e m que o pe·
o e ncanta: desde as linhas do p crfil ate os gestos q uc d efinem ram as tendcncias para a fuga e o narcisismo. A vai dad c fer ida
u m carater , tudo emerge d o mesmo f undo incönscio e sei va gem, qne marcou as at itu des de Alencar nas rodas pol it~cas. e lited~
que e a pr 6pria matriz dos valorcs romän ticos: rias do Scgun do I mperio transpöe-se n os rom an ces c1tadmos ( Di-
va, A Pata da Gazela, Senho ra, Sonhos d'Ouro ) nas formas de
. . . os olhos davam il fis ionomi a a cxpressäo b ru sca <' alerra das um ingrato relacionamen to homem / mulher , centrad o e m orgu-
aves de altanaria . .. o arro jo e n vclocida<lc do vöo do ga vi äo ( 0
Gaucho). lhos, divisocs do cu , susceptib ilidades, ciumes: toda uma feno-
Manuel considcrnva-sc venladeiro irmiio d o hru to f!Cnero sn . bra- menologia do intimismo a dois avaliado por um p adrao aristo-
ve, chcio de h rio e abncga\iio que lhe dedicava sua exi stcnc ia e crarico de j ufzo mora l ( 10 7 ) .
partilhava com cle t raba lh o~ c perigos ( ib. ).
0 mesmo intimismo , d issecado e desmistifkado nas suas
Ccnsurado pelo possfvel ridiculo da cena do potrinho . cu jo ra izes como vontade-de-poder e de prazer , comporia um quadro
relincho ele interpretara como "Mamiie !" , Alencar reb atc lem-
h rando um passo do Genie du Christianisme em que Chateau·
( 107 ) 0 leitor cncontrara uma fina analise das rcla~öes interpessoais
briand dcscrcvia em cons su tis a ma te rnidade de um jacare ( wr. i.
em Alencar no ensaio de Dante Moreira Leite, "Lueiola - teoria roman-
1 i rw i ! lpud Eugenio Gomes . .4.ipectos do Romance Brasril·iro. ßahia . tica clo amor", em O Amor Romantico e Outros T emas, S. Paulo, Ccmse-
Pn>µresso. 1958. pag. 27. lho E stadual d e Cultura , 1964 , pp. 55-60.

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bem diverso nos romances madur6s de Machado de Assis. Mas Jahouve quem observou o infantilismo das constru~öes
Alencar crC nas "razöes do cOra~äo" e, se as sombras da seu mo- alencarianas. Valor e o que aparece como valor. Na floresta, a
ralismo romäntico se alongam sobre as mazelas de um mundo for~a do bom selvagem; na cidade o brilho do gentleman. Se-
antinatural ( o casamento por dinheiro, em Senhora; a sina da nhora junta como pode a pureza do amor romäntico e as cinti-
prostitui~äo, em Luclola), sempre se salva, no foro lntimo, a la,öes do luxo burgues. Quando Aurelia se decide ao passo ca-
dignidade Ultima dos protagonistas, ' se redimem as transa~s pital de sua vida e pretende comunicar ao tutor o desejo de
vis repondo de pc! her6i e hetolna. Dal os enredos valerem co- comprar um marido, dirige-se a uma escrivaninha, mas a leitora
mo documento apenas indireto de um estado de coisas, no caso, Alencar näo esconde que se trata de uma escrivaninha de araritO
o tomar corpo de u.m.a C:tica burguesa e "realista" das convenif:n· guarnecida de bronze dourado, e que o cofre por ela aberto era
cias durante o Segundo Reinado. Ha sempre a considerar a dis-
to~äo idealizante que, ressalvadas as propor~öes, afetara tam-
bem o ciclo parisiense de Balzac, um dos modelos do Alencar
urbano.
i de sandalo embutido em marfim. Descrevendo o jovem Seixas
näo lhe poupa sequer o pe, que tem a pa/ma estreita e o firme
arqueado da forma aristocratica, o qua! pe cal,am mimosas chi-
nelas de chama/ote bordada a matiz.
1

Tome-se o exemplo de Senhora, sua ultima obra de valor. De que "realismo" se trata aqui? E melhor falar no gosto
Qual a mola do enredo? Se admitimos que e o fato de o jovem 1
do pitoresco ou na i::uriosidade do pormenor brilhante, destina-
Seixas casar-se pelo dote, em virtude da educacäo que recebe- dos romanticamente a criar um halo de "diferen~a" em torno
ra ( 10•), damos a Alencar o credito de narrador realista, capaz dos protagonistas. Mas, descontada a inten~äo, Alencar, ao des-
de por no centro do romance niio mais os her6is Peri e Ubiraja- crever a natureza e os ambientes internes, e täo preciso como
ra, Amaldo e Canho, mas um ser venal, inferior. 0 que seria qualquer prosador do firn do seculo. E claro, ha mais participa·
falso, pois o fato näo passava de um recurso: o equilibrio, per- ~äo emotiva no ato de descrever no romäntico que no naturalis-
dido em termos de visiio romäntica do mundo, vai-se restabele- ta~ este näo raro se compraz no puro inventario: o que näo deve
cer porque Alencar arranjara uma solene reden~äo fazendo Sei- dar margem a jufzos estereotipados como "E~a descreve melhor
xas resgatar-se na segunda parte da hist6ria. 0 passo dado em do que Camilo", ou "Alulsio melhor que Alencar" ...
dire~äo ao romance de analise social fora uma concessäo - lo-
go mudada em crltica - il mentalidade mercantil que reponta-
va no firn do Imperio. Mentalidade que o escritor rejeita quan- Sertanislas. Bemardo Guimaräes, Taunay, Tavora.
do vem a tona a vileza crua do interesse, mas näo quando ene-
voada pelos fumos de requinte aristocratico: a gl6ria dos salöes, Um dos filöes de Alencar, o regionalismo, foi explorado
o luxo das alcovas, a pompa dos vestuarios. E o que explica a por outros romancistas que, embora inferiores ao cearense em
velada adesäo ao modo de pensar do seu amblguo her6i: termos de arte literaria, detam, em conjunto, a medida do que
foi o genero entre n6s: Bernardo Guimaräes, Alfredo d'Escrag-
Seixas era uma natureza aristocriitica, embora acerca da polf. nolle Taunay e Fränklin Tavora.
tica tivesse a balda de alardear Ons ouropCis de libera.lismo. Admi- As variaS formas de sertanismo ( romantico, naturalista, aca-
tia a beleza nistica e plebCia, coino uma conveni;äo ardstica, mas a df:mico e, ate, modernista) que tf:m sulcado as nossas letras des-
verdadeira formosura, a suprema gra91 feminina, a humana~äo do de os meados do seculo passado, nas'ceram do contato de uma
amor, cssa, ele s6 a compreendia na mulher a quem cingia a au-
rOOla da elegincia. cultura citadina e letrada com a materia bruta do Brasil rural,
provinciano e arcaico. Corno o escritor näo pode fazer folclore
puro, limita-se a projetar os pr6prios interesses ou frustra~öes
(tos) "A sociedade, no meio da qual me eduquei, fez de mim um na sua viagem literc.lria 3 roda do campo. Do enxerto resulta
homem 9. sua feicäo. Habituei-me a considerar a riqueza como a primeira quase sempre uma prosa hibrida onde niio akam;am o pont? de
f6rca viva da existCncia e os excmplos ensinavam-me que o casamento era fusäo artistico o espelhamento da vida agreste e os modelos 1deo-
meio täo legftimo de adquiri-la, como a heranca e qualquer honesta es-
pecu]a~." l6gicos e esteticos do prosador.

154 155
A armadilha, que espeta alik todo pr1m1t1v1smo em arte, nos. Existem, nos iniciadores da fici;äo romintica, sinais evidentes
poderia ser desfeita por alternativas extremas: o puro registro desse esf~. Verificaram logo que o 1ndio näo tem tödas as cre-
denciais necessarias a expressäo do que e nacional. Transferem ao
da fala regional ( neofolclore), ou a pesquisa dos princfpios for- sertanejo1 ao homem do interior, &quele que ~rabalha na. terra, o
mais que regem a expressäo da vida rU.stica, para com eles ela· dom de exprimir o Brasil. Submetem·se ao 1ugo da pa!Sagem, e
borar c6digos novos de comunica,äo com o leitor culto. Do pri- pretendem diferenciar o ambiente pclo que existe de ex6tico no
meiro caso h3 exemplos, mas näo. s1item3ticos, em trechos de quadro fisico - pela exuber3ncia da natureza, pelo grandioso dos
lnocencia de Taunay e nos contos de alguns p6s-romanticos des- cen8rios, pela pompa dos quadros rurais. Isto e o Brasil, preten-
dem dizer. E näo aquilo que se passa no ambiente urbano, que
te secu!o, Valdomiro Silveira e Simöes Lopes Neto. Do segun- copia o exemplo exterior, que se submete as influCncias distantes.
do da conta a invenr;äo revolucion3ria de Guimaräes Rosa, que E levam täo lange essa afirmai;äo de brasilidade que säo tentados a
conseguiu universalizar mensagens e formas de pensar do serta· reconstruir o quadro dos costumes. Caem naquela vulgaridade dos
nejo atraves de uma sondagem no amago dos significantes. Ao detalhes, naquele pequeno realismo da minUcia, naquela reconsti-
tuii;äo secund8ria em ruja fidelidade colocam um esfori;o cindido
primeiro corresponde uma concep\äo ingenua de realismo, mas e inlltil. Näo säo menos rom3nticos, cvidentemente, quando assim
v3lida como uma das safdas possfveis para a visäo mimetica da proceclem. E näo tCm melhores condi~öes do que os indianistas
arte; ao segundo, uma rigorosa poetica da forma, que exige do para definir o que existe de nacional na literatura. Seria ingrato,
receptor um alto nfvel de abstrai;äo e coincide com certas ten· entretanto, desconhecer o sentido ingenuo desse novo aspecto de
um esfo~o que näo poderia encontrar 0 exito porque 0 exito näo
dencias experimentalistas da arte moderna. Entre os extremos, dependia apenas dele ( 109),
o regionalismo esta fadado a ser literatura de segunda plana que
se louva por tradi\äo escolar ou, nos casos melhores, por amor O regionalismo de Bemardo Guimaräes ( 110 ) mistura ele-
ao documenta bruto que transmite.
mentos tomados 3. narrativa oral, OS "causos" e as 0 est6rias" de
E era amor ao documenta que estaVa presente nas inten· Minas e Goias com uma boa dose de idealiza~äo. Esta, embo-
~öes dos sertanistas romänticos: o primeiro romance de Bemar- ra nä:o täo ma~ic;a como em Alencar, e respons3vel por uma lin·
do Guimaräes, 0 Ermitäo de Muquem, trazia no subtitulo "His- guagem adjetivosa e convencional na maioria dos quadros
t6ria da funda,äo da romaria de Muquem na Provlncia de Goias" agrestes.
e, no pr6logo, se diz, em 1858, "romance realista e de costumes". Monteiro Lobato alias näo isento de outras convenc;öes na
1
Situando e analisando toda essa corrente romanesca, diz sua prosa regionalista, fez severa crftica aos cliches paisagfsticos
Nelson Werneck Sodre: de Bernardo, que nem a intimidade do grande viajante com a
Existe a preocupa~o fundamental do sertanismo, que vem,
natureza logrou evitar. ''Le.Io e ir para o mato, para a roc;a, mas
assim, substituir o indianismo, como aspecto formal c· insistente na uma ro,a adjetivada por menina do Siäo, onde os prados säo
inten-;äo de transfundir um sentido nacional a fi~äo ron13ntica. Tal amenos, os vergeis floridos, os rios caudalosos, as matas viride~·
preocupa~o importa em condenar o quadro litor3nco c urbano co- tes, os pfncaros altissimos, os sabi3s sonorosos, as rolinhas "!et·
mo aquele em que a influCncia extema transparcce, como um fal- gas. Bernardo descreve a natureza como um cego que ouvtsse
so Brasil. Brasil·verdadeiro, Brasil Otiginal, Brasil puro seria o do
interior, o do sertäo, imune 3s iefluencias externas, conservando em cantar e reproduzisse as paisagens com os qualificativos surra-
estado natural os trai;os nacionais: Nesse esfor~. o sertanismo, sur- dos do mau contador. Näo existe nele o vinco energico da im-
gindo quando o indianismo est8 ainda em desenvolvimento, e sub- pressäo pessoal. Vinte vergeis que descreva säo vinte perfeitas
sistindo ao seu declfnio, recebe ainda os efeitos deste. Näo e senäo
por isso que os romancistas que se seguem a Alencar, ou que tra-
balham. ao mesmo tempo que ele, obedccem 3s influencias do mo- ( 109) Em Hist6ria da Literatura Brasileira, 5 .... ed., Rio, Civ. Brasi-
mento, e tnizem o Cndio para as piginas dos seus romances. Mas leir>, 1969, pp. 323-324. .
seräo, principalmcnte, sertanistas e tentaräo afirmar, atravCs da apre- (110) Ver nota 86. F1cr;Ao: 0 Ermittio de Muquem, 1864 (escnto em
sen~o dos cen1'rios e das pcrsonagens do interior, o sentido na- 58); Lendas e Romances, 71; 0 Garimpeiro, 72; 0 Seminari~ta, 72; 0
cional de seus trapalhos. Indio Afonso, 73; A Escrava Isaura, 75; Mauricio ou Os Paultslas em S.
No sertanismo verifica-se o formidavd esfo~ da litcri:tura Joäo d'El Rei, 77; A Ilha Maldita. 0 Päo de Ouro, 79; Rosaura, a En-
para superar as condii;öes que a subordinavam aos modelos exter· ;eitada, 83; 0 Bandido do Rio das Mortes, 1905.

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e invari3veis amenidades. 1'-,lossas ,....desajeitadlssimas caipiras sio A Escrava Isaura ja foi chamado A Cabana do Pai Tomas
sempre lindas morenas cor de jambo. Bernardo falsifica o nosso nacional ( 111 ). Ha evidente exagero na asse~äo. O nosso ro-
mato." mancista estava mais ocupado em contar as perseguic;öes que a
cohi,a de um senhor viliio movia a bela Isaura que em recons-
Descontando o azedume do crltico, em polemica com o ser- truir as miserias do regime servil. E, apesar de algumas pala-
tanismo roi:n~ntico, e indo ao cerne do problema estetico, resta vras sinceras contra as distin~öes de cor ( cap. XV), toda a be-
s~mpre a d1f1culdade de Bernardo, e il'a maior parte dos regiona- leza da escrava C posta no seu näo parecer negra, mas nlvea don-
hstas, de superar em termos artfsticos o impasse criado pelo zela, como vem descrita desde o primeiro capltulo:
encontro do homem culto, portador de padröes psfquicos e res- A tcz e como o marfim do teclado, alva que näo deslumbra,
postas verbais peculiares a seu meio, com uma comunidade rU.s- embar;ada por uma nuanr;a delicada, que näo sabereis dizer se C leve
tica, onde e infinitamente menor a distäncia entre 0 natural e 0 palidez ou cor-de-rosa desmaiada. ( ... ) Na fronte calma e lisa co-
culrural. mo m:irmore polido, a luz do ocaso esbatia um r6seo e suave re-
flexo; di-la-{eis misteriosa iimpada de alabastro guardando no seio
0 escritor romäntico acreditava estar resolvendo a questio dilifano o fogo celeste da inspirac;äo.
por_ meio de uma linguagem "ingenua", "espontänea", na verda-
de 1gual as conven,öes do citadino em rela,iio ao campo. Os lu- Seria nCscio falar em "preconceito" como atitude etnica-
g~res-comun: aparecem nos v3.rios fatores de composic;äo. J9. se mente respons9.vel. Pelo contr9.rio, em Rosaura, a Enjeitada,
vi_u. o que d1sse Lobato sobre o modo de Bernardo pintar os cc- obra da maturidade, Bernardo chegou a dizer: "Em nossa terra
nar10s. 0 mesmo se observa quando se pöe a falar das esculru- e uma sandice querer a gente gloriar-se de ser descendente de
ras do Aleijadinho em Congonhas (0 Seminarista, cap. IV). ilustres av6s; e como dizia um velho tio meu: no Brasil ninguem
Nem muito diversa e a caracterizac;äo das sertanejos que oscilam pode gabar-se de que entre seus av6s niio haja quem niio tenha
entre a bondade natural ( prolongamento do bom selvagem) e a puxado flecha ou tocado marimba." 0 que explica a beleza
natural ma !ndole (o !ndio Afonso, Japira), fazendo valer ou
näo as pressöes do meio de acordo com as conveniencias: Rosau-
ra e lsaura atravessaräo intactas os ambienJ;es mais abjetos ... ( 111) 0 romance de Harriet Beecher Stowe, publicado nos Estados
Quanta a intriga, e 0 costumeiro novelo de peripecias que da- Unidos em 1851, foi vertido para o portugues por Francisco Ladislau de
Andrada, em uma edic;äo de Paris. A segunda edi~o, datada de Lisboa,
riam hoje boas hist6rias em quadrinhos ( 0 Ermitäo de Muquem, 1856, teve per tradutor A. Urbane Pereira de Castro, e logo se conheceu
0 Garimpeiro). no Brasil. A prop6sito, diz Raymond S. Sayers: "Jose Francisco Llsboa,
As obras mais lidas de Bernardo Guimariies, 0. Seminarista o mais famoso jornalista da provincia do Maranhao, preparou o esboc;o
de um romance antiescravista, depois de haver passado algum tempo a
e A Escrava Isaura, devem a sua popularidade menos a um pro- estudar as leis sobre a escravidäo, mas confessa näo o haver terminado
gresso na fabula,iio ou no tra,ado das personagens do que il gar- depois que leu o livro de Mrs. Stowe, porque nele encontrou muitas de
ra dos problemas explkitos: o celibato clerical no primeiro a suas idCias e porque alcanc;ara a finalidade qne tinha cm mente para o
escravidäo no segundo. ' seu pr6prio livro. A importäncia capital de Uncle Tom's Cabin foi pro-
vavelmente a de que encorajou os romancistas antiescravistas a lutar di-
Protesto contra o cerceament6 do instinto pelo voto preco- retamente contra a escravidäo. Muitas das situai;öes e <los caracteres des-
ce de castidade, 0 Seminarista esta na linha do romance passio- critos por Mrs. Stowe eram sufidentemente familiares a cena brasileira,
e, jli que tais situac;öes e caracteres comec;avam a penetrar a literatura bra-
nal e retoma, com menos poesia, o esquema final de Herculano sileira, era inevit:ivel que, mais cedo ou mais tarde, assumissem a impor-
no Eurico: a loucura do Padre Eugenio ap6s a violac;3o de sua~ tincia que assumiram, embora nunca tivesse aparecido nenhum carliter co-
promessas religiosas lembra a morte do Presbftero e a demencia mo o do Pai Tomlis ou de Simon Legree. t fato, entretanto, que s6 dc-
de Hermengarda que fecha o romance portugues. Bernardo acen- pois do lanc;amento de Uncle Tom's Cabin C que a literatura brasileira co-
mec;ou a ser povoada de feitores cruCis e de cscravos virLuosos. _A famo.
tua os tra,os da sensibilidade tolhida, que o idealista Herculano sa fuga de Isaura, de Bernardo Guimaräes, de Minas para o Recife, foi
sublimara, e antecipa o romance de tese de Ingles de Sousa 0 talvez sugerida pela fuga de Elisa atravCs das gelos flutuantes de Ohio
Mission!zrio. ' para a liberdade no Norte e por fim no Canada" (op. cit., pp. 316-317).

158 159
"branca" de Isaura e a perµianetu;ia de padröes esteticos euro- trear as falas do geralista Pereira, pai de Inocencia, para pcrcc-
peus. E mais uma raziio para marcar o carater hlbrido dessa no- 1 ber 0 quanto de espontineo elas comunicam a dinimica do livro.
vellstica sertaneja e semipopular de que Bernardo foi o primeiro l Taunay sabia explorar na medida justa o comico dos tipos
representante de merito. como o naturalista alemäo il cata de borboletas, o grotesco som·
brio do aniio Tico, a quem cabe apressar o desenlace, au o pate·
Por temperamento e cultura, o Visconde de Taunay (11') tico de algumas cenas perfeitas como a fuga do leproso para a
tinba condi~öes para dar ao regionalismo romäntico a sua ver- mata e a morte solitaria de Cirino.
sä:o mais s6bria. Homem de pouca fantasia, muito senso de
observa~iio, formado no habito de pesar com a inteligencia as
No imbito de nosso regionalismo, romintico ou realista,
suas rela~öes com a paisagem e o meio ( era engenheiro militar nada ha que supere Inocencia em simplicidade e bom gosto, mc!-
e pintor), Taunay foi capaz de enquadrar a hist6ria de' Inocen- ritos que o publico logo Ihe reconheceu, esgotando sucessiva-
cia ( 1872) em um cenario e em um conjunto de costumes ser- mente mais de trinta edii;öes sem falar nas que, ja no seculo pas-
tanejos onde tudo e verossimil. Sem que o cuidado de o ser rur- sado, se fizeram em quase todas as linguas cultas. ' ' \ T

) ~ ~'
ve a atmosfera agreste e idllica que ate hoje da um renovado en- A genese do exito estara talvez na f6rmula de arte cara ao
canto a leitura da obra. romancista: o "realismo mitigado". Ha algo de diplomatico, de
mediador, na sua atitude em relai;iio a materia da pr6pria obra.
Salvo a abertura, onde o "descritor" resvala amiude para Taunay idealiza, mas parcialmente, porque o seu interesse real e
o convencional ou para a aridez clidatica, o romance flui em clia- de ordern pict6rica: a cor da paisagem, os costumes, os modis·
logos naturalissimos pelo tom e pelo vocabulario, cimentados por mos, que ele observa e frui como tipico. Viajante mais sensual
faixas de prosa narrativa admiravelmente funcionais. :e
s6 ras- do que apaixonado, incapaz do empenho emotivo de um Alen-
car, a sua realidade e por isso mesmo mais tang! vel e mediana.
(112) ALFREDO D'EscRAGNOLLE TAUNAY (Rio, 1843-1899). Neto
Ha quem veja nele um escritor de transii;iio para o realismo.
do pintor N. Antoine Taunay, que chegou ao Rio com a Missäo Francesa e
Näo bem assim. Quando maduro, criticou o naturalismo. E
durante o governo de D. Joäo VI, e filho do Baräo FClix Emflio Taunay, a postura fundamentalmente eg6tica, reflexa nos romances mun-
tambCm pintor, recebeu instru~äo artfstica de bom nfvel academico. Cur- danos que se seguiram a I nocencia, nos diz que se algo mudou
sou ~iCncias Fisicas e Matematicas na Escola MiÜtar e seguiu como en- foi a sociedade, niio o estofo individualista da escritor.
genheiro para o Mato Grosso no com~ da Guetta do Paraguai, o que
lhe deu ocasiäo para testemunhar - e depois narrai - o epis6dio da re- Mas nada mais fez que se comparasse sequer il realizai;iio
tirada de Laguna (La Ret,atte de Laguna, 1871, trad. em 1874 por Sal- de Inocencia. Voltando-se para o romance de ambiente urbane
vador de. Mendon~a). Durante o conflito redigiu um Dülrio do Exh'cito, e grä-fino, decaiu ao nlvel da subliteratura francesa da epoca ( 0
que pubhcou em 1870. Voltando, exerceu a fun~o de professor na Es- Encilhamento, No Declinio), sem que as qualidades de observa-
cola Militar. A partir de 1872 militou no Partido Conservador, elegen- dor Ihe compensassem a perda do folego.
d.o-~e deputado ': senador por Santa Catarina, prov[ncia que tambem pre-
s1d1u. Seus P~}etos denotam vistas largas, como o que dispunha sobre 0 regionalismo toma, enfim, ares de manifesto, programa e
o casamento ctvil c o que advogava uma sä politica imigrat6ria. Afas- cispera reivindica~äo na pena do cearense Fr3nklin TSvora (113).
tou-se da politica quando proclamada -a RepU.blica. Deixou obra viria e
ir~e~Iar: Cenas de _Viagem, 1868; A Mocidade de Tra;ano, romance, 1872;
Llgrtmas do Corafao,_ rom., 1873; Hist6rias Brasileiras narrativas 1874· ( 113) JoAo FRANKLIN DA SILVEIRA TAvoRA {Baturite. Ceara, 1842
Da Mäo a Boca se Perde a Sopa, com&lia, 1874; Ouro' sobre Azui rom: - Rio, 1888). Saiu ainda crian~a de sua terra natal para Pernambuco.
1878; Narrativas Militares. Cenas e Tipos, 1878; Estudos Criticos: 1881: Estudou Direito em Recife, formando-se em 1863. Advogou por algum
-18~3; Ceus e Te"as do Brasil. Cenas e Tipos; Quadros da Natureza,- Fan- tempo atC ingressar na polftica. Foi deputado provincial e ocupou altoc;
tasias, 1882; Amelia Smitb. Drama, 1886; 0 Encilhamento. Cenas Con- postos na administra~o pernambucana. Ainda estudante escrevcu os con·
temporäneas da Balsa em 1890, 1891 e 1892, rom., 1894; No Declinio. tos de A Trindade Maldita ( 1861) e o romance Os lndios do ]aguaribe
Romance Contemporäneo, 1889; Reminiscencias, 1907; Mem6rias, 1948. ( 1862). Ainda no decCnio de 60 desenvolveu uma novelistica de cunho
sertanejo: o romance A Casa de Palha C de 66; a novela Um Casamento
<;:onsulta:: Alcides Bezerra, 0 Visconde de Taunay. Vida e Obra, Rio,
"!1qu,1,vo Nactonal, 1937; LUcia Miguel-Percira, "TrCs Romances Regiona- no Arrabalde, de 69. A partir de 1870, enceta uma campanha sistemi-
listas , em Prosa d• Ficfiio (1870-1920), Rio, Jos~ Olympio, 1950, pp. 27-39.
tica em prol do regionalismo, por ele identificado com a "litcratura do

160
Polemizando com o conterr~neo Alencar, cm qucm. deplorava. mir-se de modo meis convincente nessas p&gfuas coloniais do que
ap6s a leitura do GaUcho, a·· carc!ncia de contato direto com as na fatura do Cabeleira.
regiöes descritas, Tavora quis introduzir, ja no apagar das luzes Uma leitora severa, LU.cia Miguel-Pereira, viu, porem, nu-
da fic~iio romfilitica, um critfrio mais rigoroso de verossimilhan~. ma das primeiras produ~s de Tavora, a novela Um Casamento
Mas o escritor estava animado por certo ressentimento de no Arrabalde, alias subestimada pelo escritor, o seu ensaio mais
nordestino em face da Corte e, por exte'!"iio, do progresso suli- feliz de fixa~äo dos costumes campesinos, ainda sem sombra de
no que, com a ascensäo do cafe·, mar}inalizava as ~e~ais areas inten~öes polemicas.
do pais. Dai o tom de polemica e a sua frontal opos1~0 de uma Os manifestos e os pr6logos de Tavora podem scr lidos co-
"literatt:ra do Norte" a do resto do Brasil: mo sinal avan,ado dos riscos que o provincianismo traz para a
As letras tem, como a politica, um certo carater geognifico; literatura; ou, num plano hist6rico, como sintoma dos fundos
mais no Norte, porem, do que no Sul, abundam os elementos para desequilibrios que ja no s&ulo XIX sofria o Brasil como na~äo
a forma\äO de 1Jma Iiteratura brasileira, filha da terra, desintegrada, incapaz de resoJver OS contrastes regionais e a de-
A razäo e Obvia: o Norte ainda näo foi invadido como cst' scn- riva de uma politica de preferencias econömicas fatalmente in-
do o Sul de dia em dia pelo estrangeiro (0 Cabeleira, Prcf8cio). justa. 0 regionalismo entiio servia, como tem servido, de do-
1 cumento e protesto.
T avora näo cumpriu, com o seu modesto Cabeleira, as pro-
messas de uma literatura nordestina que precisou esperar o ta·
lento de um Oliveira Paiva e, ja neste s&ulo, de um Jose Lins 0 TEATRO
do Rego e de um Graciliano Ramos, para firmar-sc como admi- Ern termos de valor, deve-se distinguir um teatro romänti-
rav~l realidade. · co menor, que se exauriu no programa de nacionalizar a nova li-
Visto de um fuigulo puramente extemo ( a fonte do tema), teratura, de um teatro que se escorou em tex:tos realmente no-
0 livro e baliza de uma serie de romances voltados para 0 bandi- vos e capazes de enfrentar a cena.
tismo como efeito da miseria, do latifUndio, das secas, das mi- Coube a Gon,alves de Magalhäes o primeiro tento ( a sua
gra~öes: A Fome e Os Brilhantes, de Rodolfo Te6filo, Os Can- gl6ria haveria de ser sempre cronol6gica ) com a tragedia Ant&-
gaceiros, de Carlos D. Fernandes, 0 Rei das Jagun>os, de Ma- nio ]ose ou 0 Poeta e a Inquisifiio entregue em 1837 ao ator
nuel Benicio, Seara Vermelha, de Jorge Amad6, Os Cangaceiros, Joäo Caetano, que se esfor~ava para criar no Rio de Janeiro um
de Jose Lins do Rego. . . Literariamente, e uma sofrlvel mistu- bom ambiente teatral ( 114 ).
ra de crönica do canga~o e expedientes melodramaticos.
Nos romances seguintes, 0 Matuto e Louren>o, Frllnklin
T avora sobrepös ao regionalismo o cuidado da reconstru~äo miu- Martina Pena
da da vida recifense durante a Guerra dos Mascates. E como a Mas os primeiros textos validos foram assinados por um
sua voca~äo real fosse antes a his~6ria que a arte, soube expri~ dramaturgo popular nato, Luls Carlos Martins Pena ( 115 ) que,
desde a adolescencia, compunha divertidas comedias de costu-
Norte". Sob o pseudönimo de Semprönio, critica J ose de Alencar, nas Car-
tas a Cincinato ( 1870). Passando a morar no Rio, ocupa-se intensamente mes (• primeira reda~äo do Juiz de Paz da Ro,a e de 1833) DU·
de questöes hist6ricas e liter3rias, funda a Revista Brasileira e escreve seus
principais romances regionais e coloniais: 0 Cabeleira ( 1876 ), 0 Matuto ( 114) Sobre Magalhäes, v. pp. 111-113. Sobre o ator, ver o en-
( 1878) e Lourenfo ( 1881). Consultar: Jose Vedssimo, "Franklin T:ivora saio exemplar de Decio de Almeida Prado, ]oäo Caetano, tese, Univ. de
e a Literatura do Norte", em Estudos de Literatura Brasileira, V. pp. 129- S. Paula, 1971.
-140; LUcia Miguel-Pereira, "Tr~s Romancistas Regionalistas",. em 0 Ro- (115) Luis CARLOS MARTINS i'ENA (Rio, 1815 - Lisboa, 1848).
mance Brasileiro (coord. por Aurelio Buarque de Holanda), czt., pp. 103 De origcm humilde, frcqüentou _aulas de ComCrcio e chegou por esfo~
-107; Antönio Dimas, "Uma proposta de leitura para 0 Cabeleira", in pr6prio a dominar o franci!s e 0 italiano. P&-se muito ccdo a cscrcvcr
Lingua e Literatura, n. 3, Univ. de S. Paulo, 1974.
0
comCdias, no que foi cstimulado pelo hito pronto e pelo apoio de Joäo

162 163
ma linguagem coloquial_ quei. no gC,nero, näo foi superada por ne- minense, e o nosso autor näo perde vaza para explorar-lhes a lin-
nhum comedi6grafo do seculo passado. guagem, as vestes, as abusöes.
Tambem Martins Pena beneficiou-se da •l'äo renovadora de Depois de ter escri to tres comedias baseadas nesse esque-
Joäo Caetano: este encenou 0 ]ui7 de Paz apresentand"." a um ma voltado para o ridlculo ( 0 Juiz de Paz da Rofa, Um Serta-
pllblico que näo cessaria de aplaud1r suas novas e sucess1vas pro- neio na Corte e A Familia e a Festa na Rofa), Pena tentou o
du,öes: dezessete comedias em dois anos, de. 1844 •. 1~4~. ·: 0 teatro hist6rico, genero nobre no Romantismo europeu. Mas
intuito basico de Martins Pesa era hizer m pela ms1stenc1a na sem exito: p<l'as como D. Joäo Lira ou 0 Repto e D. Leonor
marca'räo de tipos roceiros e provincianos em contato_ com a Teles nem sequer foram representadas, e a sua leitura, hoje, in-
Corte. O tom passa do cömico ao bufo, e a repre~enta,ao pode dica que na verdade näo o mereciam. 0 fato e que em 1844, o
virar farsa a qualquer momento: o labrego de Minas ou o fa- dramaturgo volta aos assuntos e ao tom das primeiras comedias,
zendeiräo paulista seriam fonte de riso facil para o publico flu- preferindo ao mundo da ro,a os costumes cariocas do tempo,
dos quais nos da um quadro mais vivo e corrente do que todos
Caetano. Redigiu tambem folhetins sobre espetaculos de. teatro .e ~e 6pe-
ra para o Jornal do ComCrcio { 1846-47) e. um~ novel~, a1nda hoJe 1nCd1ta, os romances de Macedo. 0 convfvio direto com o publico e a
O Rei do Amazonas. Subiu na burocracia d1plomauca de amanuense da urgencia de divertir impediram que Martins Pena idealizasse sem
Mesa do Consulado a Adido da nossa Legar;äo em Londres para onde criterio como o fazia o autor. de A Moreninha nos seus quadros
viajou em 1847. Mas, j:i atacado de tu?erculose precisou ~egressar; em fluminenses. 0 nosso comedi6grafo pode distorcer pelo vezo de
1
tränsito por Lisboa, veio a falecer, aos tnnta e tre~ anos de 1dade. Algu: tipificar, mas nunca pela romantiza,äo, de onde a maior dose de
mas de suas per;as niio foram editadas se;iäo depo1s de sua morte. ~ Aqw
vai 0 seu elenco, apondo-se, quando poss1vel, a data da representar;ao e. a realismo, convencional embora, do seu teatro, se comparado 8.que-
da edir;äo, para o que me valho das informar;öes cons.tantes das Comed1as la fic,äo.
de Martins Pena ed. critica por Darcy Damasceno, Rio, l.N.L., 1956: 0 Ern Martins Pena, o modo de sentir o social ja era bem
Juiz de Paz da R.or;a, 1838 (ed., 1842); Um. Sertanejo na Corte (ina~ba­
da, näo representada e s6 impressa na ed. c1tad~); Fernand~ .ou 0 Ctnto menos conservador que o <lo primeiro grupo romantico no qua!
Acusador (id.); D. ]oäo de Lira ou 0 Repto (1d.); A Famtlta e A Festa costuma ser integrado por motivos contingentes. Assim, o ujuiz
da Ror;a, 1840 (ed. 1842); D. Leonor Teles (~äo represe~ta~a ncm .~­ de paz" e composto com uma face venal e arbitr3ria, nä.o obstan-
pressa ate a ed. citada); ltaminda ou 0 Guerretro de Tupa (1d.); Vttt~ te as veleidades de rigor que o cargo lhe faculta. Com a mäo
ou O Nero de Esponho, 1841 (n!o publ.); Os D/fus ou 0 IngUs Maqut-
nislo, 1845 ( ed. 1871 ); 0 Judas em Sabado de Aleluia, 1844 ( ed. 1846);
direita recruta pobres-diabos para irem lutar contra os farrapos
Os Irmäos das Almas, 1844 (ed. 1846); 0 Diletaßte, 1845 (ed. 1846); ou perseguir os quilombos; com a esquerda, recebe leitöes, ces-
Os Tres hfedicos, 1845 (näo publ.); 0 Namorador ou ~ Noite de S~o tos de laranjas e cuias de ovos dos querelantes. . . E verdade
]oäo, 1845 (näo publ.); 0 Novi>o, 1845 (ed. 1853); 0 Ctgano, 1845 <.nao que o tom de comedia ameniza a crltica e a dilui no faceto: os si-
pubL); O Caixeiro da T averna, 1845 ( ed. 1847); As Casadas Soltetras, tiantes näo aparecem como vftimas, sä:o simpl6rios at~ burles-
1845 (näo publ. em livro ate a ed. citada); Os Meirinhos, 1846 (näo publ.);
Quem Casa, Quer Casa, 1845 (ed. 1847); Os CiUmes de um Pedestre ou cos nas suas brigas com os vizinhos. E, no final, todos se con-
O Terrivel Capitäo do Afato, 1846 (näo publ.); As Desgrar;as de uma fraternizam ao som de um fado "bem rasgadinho, bem choradi-
Crianr;a, 1846 (näo publ.); 0 Usurtirio, (näo repr. nem publ.); Um Se- nho", que o pr6prio juiz arma na sala de despachos:
gredo de Estado, 1846 (näo publ.); Q Joga de Prendas (näo repr. ncm Ju1z Assim meu povo! Esquenta, esquenta!
publ.); A Barriga de Meu Tio, 1846 (näo publ.). 0 editor Darcy Da- MANUEL JoAo - Aferventa! ...
masceno ainda arrola uma comedia e um drama sem tintlo cujos manus-
critos se acham na Biblioteca Nacional. Sobre Martins Pena: Melo Mo- TocADOR Ern cima daquele morro
rais Filho e Sflvio Romero, lntrodur;äo a ed. das Comedias, Rio, Garnier, Ha um pC de anan3s;
1898; Sflvio Romero, Vida e Obra de Martins Pena, Porto, Lello, 1901; Nao h<l homem neste mundo
DCcio de Almeida Prado, "Martins Pena", no ensaio "A Evolui;äo da Li- Corno o nosso juiz de paz.
teratura Dram<ltica", em A Lit. no Braszl, cit., vol. II, pp. 252-255; Sabato Tonos Se me das que come,
Magaldi, "Criar;äo da Comedia Brasileira", em Panorama do Teatro Bra- Se me das que bebe,
sileiro, S. Paulo, D. E. L„ 1962, pp. 40·58; ]. Galante de Sousa, 0 Tea· Se me pagas as casas,
lro no Brasil, 2.' ed. Rio, Edi,öes de Ouro, 1968, pp. 196-205; Ant8nio Vou mor:i com voce.
Soares Amora, "Martins Pena", em 0 Romantismo, cit., pp. 309-330. Jurz Aferventa, aferventa! ...

164 165
Um es~o de siitirtt D)ais aJ;<lida se tr~a na comedia Os 0 retrato do intelectual sufocado em empregos vis e a anti·
Dois ou 0 I ngUs Maquinista, em que os vilöes siio o traficante patia votada ao negopsta e aos altos burocratas conotam rea,öes
negreiro e o especulador ingles; e em 0 Novi(o, onde, pela boca tlpicas de classe media instavel. Ideologia que aborrece igual·
do protagonista, Martins Pena faz um libelo contra o regime do mente os carolas, ·as beatas, os exploradores da boa fC dos po-
''patronato„: bres, mas ve com simpatia os ma>ons na medida em que repre-
Cut.os - 0 tempo acostumar! ~ ai por quc vemos entre n6s sentam o avesso daqueles ( 0 I rmiio das Almas). Em uma anii·
tantos absurdes e disparates.+ Este tem jcito para sapateiro: pois v8 lise percuciente, Paula Beiguelman ve como eixo da comedia de
cstudar medicina... Excclente m6::1ico! Aqucle tem inclin~o pa- Martins Pena o crescendo da urbaniza>iio, que desintegra o ve-
ra c6mico: pois näo senhor, sera poUtico... Ora, ainda isso vi. Iho artesanato da Corte e, com ele, o decoro de um estilo sim-
Estoutro s6 tem. jcito para caiador ou borrador: nada, e oHcio que ples e desambicioso de viver ( 116 ). Dai, o afii de especular de
näo presta... Seja diplomata, que borra· tudo quanto faz. Aquelou-
tro chama-lhe toda a propensäo para a ladroeira; manda o bom sen- boa parte da popula>iio e os valores novos de luxo e esnobisDlo
so que se oorrija o sujeitinho, mas isso näo se faz: seja tesoureiro ( 0 Diletante), em contraste com a singeleza da vida roceira, no
de reparti~o fiscal, c Ia Se väo OS cofres da 08\'.äO a garra .•• fundo ainda considerada mais sadia pelo bom senso convencional
Essoutro tem uma. grande carga de pregui~ e indoICncia e s6 ser- do autor.
viria para leigo de convento, no entanto vemos o bom do man-
driio empregado p6blico, comendo com as mäos encruzadas sobrc a Essas constantes transparecem nos dhilogos de cuja arte P"e-
pan91 o pingue ordenado da na~o. na era senbor absoluto. Dhilogos que valem como excelente tes-
EMfLIA - Tens muita razäo: assim C. temunbo da lingua coloquial brasileira tal como se apresentava
·CARLOS - Este nasceu para poeta ou escritor com uma lma- nos meados do seculo XIX.
gioa~o fogosa e indepcndente, capaz de grandes ~ousas mas nao
pode seguir a sua inclina~äo, porque poetas e escritores ~orrem de
misCria, no Brasil. . . E assim o obriga a necessidade a ser o mais
somenos amanuense em uma reparti~ao pllblica c a copiar horas por Gon~alves Dias
dia os mais sonfferos papCis. 0 que acontece? Ern breve ma-
tam-lhe a intelig~ncia e fazem do homem pensante mliquina estU- Ja Gon,alves Dias ( 117 ), na sua melhor obra teatral, Leo·
pida, C assim SC gasta uma vida! J! precito, e ji tempo que al- nor de Mendonra, escrita em plena juventude, preferiu entron·
gufui olhe para isso, c algu6n que possa.
car-se na linha europeia do drama bist6rico. Documentando-se
EMfLIA - Quem pode nem sempre sabc o que sc passa en- com escr6pulo sobre o periodo de D. Joiio III em Portugal, pro-
tre n6s, para poder remediar; e preciso falar.
curou dar il. palavra de suas criaturas " tom nobre e a compos-
CA.aws - o_respeito e a modCstia prendem muitas llnguas, tura grave que um assunto nobre e grave requeria. Tratava-se de
mas 18 vcm um d1a que a voz da razäo se faz ouvir -c tanto mais levar il cena a tragedia conjugal dos Duques de Bragan,a, Jaime
fortc quanto mais comprimida. '
e Leonor, a inclina,ao desta por um jovem da Corte, Akoforado;
EMfLIA - Mas Carlos, hoje te estou desconhccendo ... afeto que, embora nlio adulterino, suscitou o ciume do Duque
C.Uws - A contradi~äo em que vivo tcm-me exasperado! E resultando no assasslnio dos supostos amantes.
C?mo _51ucres tu qu~ eu näo fal.e quando vcjo, aqui, um pCssimo
arurgtao ~uc poderza ser bom alveitar; all, um ignorante gcneral Gon,alves Dias compös o drama com os olbos postos na
que ~~ ser ~~ente enfermeiro; acola, um period.iqueiro que restaura,iio do teatro portugues empreendida por seu mestre
s6 servir1a para arnetto, täo desbocado e insolente e, etc., etc. Tudo Garrett desde 1838 com Um Auto de Gi/ Vicente ate a publica-
csta fora de seus eixos ... >iio da obra-prima Frei Luls de Sousa em 1843. E o drama e
EMfLIA - Mas que queres tu que sc fa~? garrettiano ·nao s6 pela elegfuicia da prosa levemente guindada
C.Uws - Quc näo :SC constranja ninguCm, quc sc cstudem os
_homcns c quc haja uma bcm entendida c esclarccida protctäo, e ( 118) P. Beiguelman, "Analise literliria e investigar.;;3.o sociol6gica",
quc, sohretudo, sc desprcze o patronato, quc asscnta o jumento nas em Viagem Sentimental a "Dona Guidinha do Po~o", S. Paulo, Ed. Cen-
bancas das acadcmias c amarra 0 homem de talento a mangcdoura. tro Universitlirio, 1966, PP 67-77.
(Ato I, Cena VII). (117) V. Nota 78.

166
167
como pelo uso livre dos sucessos, t!rdidos cm fun~äo de constan· comp6s Verso e Reverso, pec;a ligeira de ambientac;äo carioca, e
tes rom:inticas: o amor fatal, o pese dos preconceitos, a fo~ 0 Dem6nio Familiar, comedia em que OS vaivfns da intriga säo
resolutiva das grandes paixöes. obra de um escravo, moleque enredador e ambicioso.
E cabe lembrar a viva consciencia que tinha o jovcm dra- Embora o mau carater de Pedro, o "dem6nio familiar", seja
maturgo do sentido moderne que deveria conotar a presen~a do o pivö dos embara~os de uma famllia "de bem", näo se pode, na
destino na estrutura do teatro romäi\lico. Diz ele, no pr6logo, analise desta comedia, forc;ar a nota da preconceito, ao menos
explicando a fatalidade em Lebnor de Mendonfa: enquanto consciente. No Ultimo ato, o moleque e alforriado pa·
ra que, fora da irresponsabilidade em que vivera como escravo,
Näo aquela fatalidade implac~vel que perseguiu a famllia dos possa escolher honradamente o seu caminho. Diz-lhe o senhor:
Atridas, nem aquela outra cega e tcrrfvel que Werner descreve no
seu drama 24 de Fevereiro. n a fatalidade cl da tcrra a quc eu Toma: e a tua carta de liberdade, ela sera a tua puni~äo de
quis descrever, aquela fatalidade que nada tem de Deus e tudo dos hoje em diante, porque as tuas faltas recairäo unicamente sobre_ ti;
homens, que i filha das circunstOncias e que dimana toda dos nos- porque a moral e a lei te pediräo uma conta severa de tuas ai;oes.
sos htlbitos de civilizafäo; aquela fatalidade, enfim, que faz com Livre, sentirRs a necessidade da trabalho honesto e apreciarils os
que um homem pratique tal crime porque vive em tal tempo, nes- nobres sentimentos que hoje niio compreendes.
tas ou naquelas circunstäncias (grifos meus).
Essa naturalmente, a intenc;äo etica de Alencar ao redigir a
A consciencia do novo, do näo mais classico, tambem se re- comedia. 0 que ficou, porem, foi a figura do moleque irrecupe-
vela pela justifica~äo da prosa em lugar do versa e, mais, pela r:lvel: Pedro apenas mudara de senhor, realizando seu sonho dou·
apologia de um modele shakespeariano de tragedia ondc prosa e rado - ser cocheiro de um rico major, fun~iio que lhe permitira
verso se revezariam segundo o tom e o ritmo das afetos que mo- motejar com desprezo os cocheiros de aluguel. Ficou o estere6-
vem as personagens. Experiencia que Gon~alves Dias näo rea- tipo, vivo na cultura escravocrata brasileira, do negrinho maro-
lizou, mas que esta plenamente no ambito do ideal romilntico to, astuto, no fundo cfnico por incapacidade de coerfncia mo·
de criar Um genero Superior a tragedia e a comedia tradicionaJ, ral: imagem que deixa entrever um preconceito mais tenaz, por-
e que a ambos abrace: o drama. E por certo e de uma leirura que latente ( 119 ). . •
romantica de Shakespeare que derivam a atmosfera turva de pres- Ern Mäe, Alencar entromza no centro do drama a hgura
s3gios, iminente sobre os protagonistas, e ä extrema crueza do de uma escrava, Joana, que se imola ate a morte para o hem-
desenlace em que o pr6prio Duque, novo Otelo enfurecido, se -estar e a felicidade conjugal do seu senhor; este, ignorando ser
dispöe a executar sua vinganc;a. seu fi!ho, chega ao ponto de vende-la para resgatar as dlvidas do
0 gosto do publico näo pendeu, entretanto, para esse tea- futuro sogro. Mas o altruismo de Joana e manifestamente herols-
tro hist6rico, sentido provavelmente como "pesado" e mon6to- • mo de mäe antes que nobreza de negra escrava: "se ha diaman·
no. As rep,resenta\'Öes de pe\'aS de costumes burgueses traduzi- te inalteravel - diz Alencar na dedicat6ria do drama - e o co-
das da frances foram acostumando os espectadores aos "dramas rac;äo materno, que mais brilha quanto mais espessa e a treva;

l
de casaca", e ser3 esse o gCnero preferido a partir de 1860, ao sentes que rainha ou escrava, a mäe e sempre mäe."
lado da 6pera italiana entäo no apogeu. Sintoma das novas pre-
dile>6es e a sofrlvel pe,a, "6pera em·dois atos" de Macedo, 0 Agrario de Meneses. Paulo Eir6.
Prima da Ca/i/6rnia, levada a cena com grande exito.
Mas houve dois jovens dramarurgos, meio esquecidos pela
crftica moderna, que trabalharam o tema da escravidäo de mo·
Alencar 1 do mais direto e cortante que Alencar: o baiano Agrario de Me-
Caberia a Jose de Alencar ( 118 ) insistir na dose de "brasi-
:j neses (1843-63) eo paulista Paula Eir6 (1836·71)._
lidade" que esse drama de costumes deveria conter. Para tanto,

168
(118) V. nota 104.
'
·I
~
·1

1
( 119) Para uma nova 1nterpreta~äo dessa comed1a, ler Det10 de Al·
me1da Prado, "Os demönios familiares de Alencar'', in Revista da Insti·
tuto de Estudos Brasileiros, n" 15, Universidade de S Paula, 1974.

169
0 Calabar de Agrario de Meeeses e um drama cm vcrso es· bandeiras, vaga de mata em. mata; o pardo a quem apenas se rc-
crito em 1858 em plena fldra,äo do segundo grupo romintico: conhecc o direito de viver esquecido; o branco, enfim, o branco
{
nele, • figura do traidor e byronianamente identificada com • do ' orgulhoso, que sofre de ma cara a insolCncia das Cortes e o desdCm
d05: europeus. Oh! quando cafrem todas essas cadeias, quando esses
rebelde que, por ser mesti,o, vinga no seu ato as humilha>öes cauvos todos se resgatarem, ha de ser um belo e glorioso dia!
sofridas: (Ato II, c:eoa 12).
Homcns que me enxotastcs atrevidos
Da lauta mesa, cm gue vOs '\ssentl.veis,
Mulheres que zombastes do mulato, A CONSCttNCIA HIST6BICA E CRttlCA
Porque ousou mostrar-vos sua a1ma
Em htases de amor: sede malditos. As atirudes ideol6gicas e crfticas que se rastreiam durante
as quatro decadas do Romantismo tem como fator comum a en„
_Segundo. Raxmond Sayers, "a p~ no seu conjunto parece fase dada a autonomia do pafs. Ha em todo o perfodo um na·
~er s~d~ o pr1metto estudo feito no Brasil sobre o complexo de cionalismo cronico e as vezes agudo, que ao observador menos
mfer1or1dade do mulato, e a extrcma sensibilidade dos mcmbros avisado pode parecer tra,o bastante para unificar e definir a
desse grupo miscigenado, por sua diflcil posi,äo na sociedade" cultura romiintica. De Magalhäes e Varnhagen a Castro Alves e
( op. cit., p. 266). Sousilndrade, dos indianistas e sertanistas aos condoreiros trans-
Pouco posterior e. Sangue Umpo ( 1861), de Paulo mite·se o mito da terra·miie, orgulhosa do passado e dos' filhos,
Eir6 ( 120 ), figura rica e estranha de poeta romiintico cujos ulti·
. 1

esperan\osa do futuro.
m?s an~s foram ensombrados pela dem&icia, mas que, no meio· •
'
1
No entanto, para evitar que vejamos o Romantismo com
-<lia da 1uvenrude, revelou perfeita lucidez como escritor e com· olhos romiinticos e que a hist6ria vire tautologia, convem tentar
preensäo aguda do problcma racial .. Sangue Umpo e um drama uma aruilise diferencial do fenömeno. Por tras da fachada uni-
tra,ado com firmeza. Tem por cenario Säo Paulo nos dias da l. forme de amor II patria, houve expressöes diversas de grupos di·
Independencia e situa, na atmosfera de expectativa que prece- versos que, pela estrurura "em arquipelago" do pafs, apareccm
deu ~ vinda de D. Pedro, um c.aso de amor entre um fidalgo e As vezes em tempos dispares näo sendo possfvel construir para
uma JOVCrn parda. Ü preconcettO e venciclsi peJo rapaz que SC todas uma linha simples de evolu\äo.
rebela contra o pai, ao mesmo tempo que este e assassinado por Deve-se distinguir, pelo menos: a) o grupo fluminense, en·
um negro que jurara nunca mais "ajoelhar·se· aos pes de um se- tre passadista e ecletico, que instalou oficialmente, nos fins da
nhor". Ao som festivo do brado do lpiranga, "lndependencia decada de 30, o Romantismo na poesia, no teatro e na historio·
ou Morte", abra,am·se brancos e mulatos num lmpeto de frater· grafia ( Magalhäes, Porto Alegre, Varnhagen e o "padroeiro" de
nidade. A p°'a, reproduzindo o ambiente severo do antigo bur- todos, Monte Alverne); b) o grupo paulista, formado por a}„
go .e dando a cada pe~son.agem uma expressäo justa e llmpida, guns mestres e estudantes de Direito que fundaram em 1833 uma
res1ste galhardamente a letrura moderna e, creio, tambem a re- Sociedade Filomatica em cuja Revista se defendem as teses ame--
!'.resenta,äo. Esta,. a fala em que Rafael, o irmäo da jovem mes- ricanistas de Denis e Garrett (Justiniano Jose da Rocha, Salo-
twa, responde ao. ftdalgo que lhe ·perguntara se corria sangue es- me Queiroga, Antönio Augusto Queiroga, Francisco Bemardino
cravo em suas vetas: Ribeiro ... ) ( 121 ); c) o grupo maranhense, paralelo aos ante·
riores, mas liberal no espfrito, ilustrado na cultura e ainda das·
- ~u filho de um escravo, c que tem isso? Onde csta a
mancha tndelevcl?. . . 0 Brasil e uma terra de cativeiro. Sim J
todos .aqui säo escrav~. 0 negro quc trabalha scm.inu, cantand~ ( 121) Consultar: Jose Aderaldo Castelo, T extos que Interessam a
aos ratos _do sol; o !ndio que per um miseravel salirio C emprcga- Hist6ritz do Romantismo, 3 vols., S. Paulo, Comissao Estadual de Cultura,
doJ11J fc1tunt de estradas e capelas; o sclvagcm, que, fugindo as 1960-1%,. Em Säo Paulo, tambem em torno da Academia de Direito,
.,.,
'
constituiu-se cm 1859 outro grupo, o do Ensaio Filos6/ico Paulistano, que
rctomou, na pena pouco original de Antönio Joaquim Macedo Soares, as
. (
120
) Ver a 2.a edi~äo de Sangue Limpo (S. Paulo, 1949), prefa- teses da Sociedade Filo.Utica sobrc a necessidade de abrasileirar as nos-
c1ada por Jamil Almansur Haddad. sas letras (v. Afrinio Coutinho, A Tradifiio Afortunada, cit., pp. 82„91 ).

170 171

l
sico na linguagem ( Jo~o ·FrJnciSCQ-Lisboa, Sotero dos Reis, Odo- os indios, os nossos costumes. Enquanto pretendc firmar uma
rico Mendes); d) o grupo· pernambucano, empenhado antes na nova pottica, essa critica subordina os temas natives aos scnti-
luta ideol6gica que na critica literaria, e que representa a ponta mentos e a religiao tradicional, refugit.ndo o racionalismo e as
de lanc;a do progressismo liberal romantico ( Abreu e Lima, Pe- "fic~öes classicas". Ecos de Madame de Stael, Chateaubriand,
dro Figueiredo). Garrett e Denis, os escritos dos galo-fluminenses, como os cha-
mava Romero, näo conseguiram dinamizar uma verdadeira critl-
ca liter3ria. Diluiam na :lgua morna do conservantismo o vinho
Tradicionalismo
' forte que as ideias realmente novas de Naräo e de Povo signifi-
caram para a Europa p6s-napoleönica. De resto a frase 11 a litc-
A Cnfase dada aos conteUdos rorn3ntico-nacionais cabe a ratura e expressäo da sociedade" e de si vaga e depende do con-
gerac;äo de Magalhäes e a seus continuadores da Minerva Bra- ceito que se tenha de sociedade; foi proferida tambem pelo ultra-
siliense ( 1843) e do Instituto Hist6rico: Joaquim Norberto, Pe- ·reacionario Visconde de Bonald em nome das tradi~es que te-
reira da Silva, Santiago Nunes Ribeiro. Indianismo e passadis- riam sido conculcadas pelo racionalismo da Revoluc;äo Francesa.
mo misturam-se nessa perspectiva, perdendo o primeiro em con- Dos continuadores de Magalhäes, o 6nico a pensar com al-
tato com o segundo, as garras antilusas e democr3ticas que ain- guma forc;a o problema da relac;äo entre nacionalidade e litera-
da apresentava na epoca da lndependencia ( 122 ). Ja a litera- ) 1
tura foi Santiago Nunes Ribeiro ( 123 ). Respondendo, na Miner·
tura dos maranhenses ( e penso nas belas paginas do Jornal de va Brasiliense, a um articuli.sta luso que negara a existencia de
Timon, desse cläss.ico do jornalismo satirico que foi Joäo Fran- uma literatura brasileira ( por näo existir aqui uma lingua diver·
cisco Lisboa) conserva näo poucos trac;os do que foi a luta anti- sa do Portugues), Santiago Nunes da enfase ao nexo entre as lo-
colonial na provlncia: luta que perdurou nas revoltas do perlo- tras e os contextos hist6rico-geogr:!ficos. Nessa ordern de pen-
do regencial e no comec;o do Segundo Imperio, na medida em samento alcanp um nlvel te6rico mais alto que o dos contem-
que este retomava a diretriz centralizadora da ultima Regencia.
As antinomias que marcaram o seculo XIX brasileiro fo-
ram varias: corte/provlncia; poder central/poder local; cam-
,, poräneos:
Näo C principio incontestßvel que a divisäo das literaturas deva
ser feite invariavelmente segundo as linguas, em que se acham con-
po/cidade; senhor rural/classe media urbana; trabalho escra- signadas. Outra divisäo mais filos6fica seria a que atendesse ao
vo/trabalho livre. A "conciliac;äo" ideol6gica fez-se atraves da espfrito, que anima, 3 ideia que preside aos trabalhos intelectuais
primeira gerac;äo romantica, bafejada, como se sabe, por D. Pe- de um povo, isto C, de um sistema, de um centro, de um foco de
vida social. Este prindpio litertirio e artfstico e o resultado das
dro II. Ja as formas de pensamento que exprimem conflito con- influCncias, do sentimento, das crern;as, dos costumes e habitos pe-
figuraram-se em primeiro lugar no Nordeste, onde .precocemen- culiares a um certo nUmero de homens, que estäo em determinadas
te surgem correntes abolicionistas e republicanas. rela.~6es e que podem ser muito diferentes entre alguns povos, em-
A vertente oficial deve-se um merit6rio labor erudito e o bora falem a mesma Hngua. ( ... ) A literatura e a expressäo da
primeiro levantamento de textos poeticos da Col6nia. Foram fndole, do caräter, da inteligCncia social de um povo ou de uma
epoca. ( ... ) Ora OS brasileiros tCm seu carater nacional, tamb6n
proflcuos editores, antologistas e bi6grafos Joaquim Norberto devem possuir uma literatura ptitria ("Da Nacionalidade da Lite-
( v.), Pereira da Silva, com o seil' Parnaso Brasileiro (1843-48 ), ratura Brasileira", in Minerva Brasiliense, 1-11-1843, I, 1 ).
seguido do Plutarco Brasileiro ( 1847) e Varnhagen com o Flo-
legio da Poesia Brasileira ( 1853 ). As ideias que os norteavam
a
eram poucas, pobres e repetidas saciedade: o Brasil tem uma ( 123) SANTIAGO NuNES RIBEIRO (Chile, ? - Rio Preto, Minas,
1847). De sua biografia pouco se sabe. Teria vindo ainda pequeno do
literarura original a partir da Independencia e/ou h:!, desde os
tempos coloniais, motivos brasilicos de inspira~äo: a natureza, Chile, trazido por um tio padre, exilado politico. Trabalhou no com&-
cio em Parafba do Sul. No Rio lecionou em escolas particulares e, de-
pois, no ColCgio Pedro II, onde ocupou a cadeira de Ret6rica e PoCtica.
( 122) Sobre as tendencias ecleticas que prevaleceram durante toda Colaborou na Minerva Brasiliense, de 1843 a 1845, e pertenceu ao Insti-
essa fase, ver o denso estudo de Paulo Mercadante, A Conscilncia Con· tute Hist6rico e Geogr.tfico. Consultar Afränio Coutinho, op. cit., pp. 2445.
servadora no Brasil, Rio, Ed. Saga, 1965.

172
173
T
1
A lucidez de Santiago ·Nunes''estrema-o do meio fluminen- uma Na~äo" c desce a crlticas estruturais do sistema, deixando
se entregue a erudi~ao e incapaz de rever os lugares comuns de assim de lado os chavöes in6cuos em que se cifrava o naciona·
que a~usa: "nacionalismo", "americanismo", "indianismo", etc. 1 lismo dos primeiros rominticos. Um historiador recente, Va-
Mas a morte prematura impediu-o de desenvolver um tipo de mireh Chacon, na esteira de_ Gilberto Freyre e Amaro Quin·
crltica globalizante para o qua! fora dotado. tas ( 125 ), chama a aten~äo para alguns textos do Bosquejo, pre-
„ . 1
nhes de antecipa~s sociol6gicas:
1
Que somos todos inimigos, e rivais uns dos outros na propor-
Radicalismo. ~o das nossas respectivas classes, oäo ncccssitamos de argumcntos
1 para prov8-lo, basta s6 que cada um dos que lcrem estc papcl, seja
Das provfncias do Nordeste, onde a crise a_.,careira produ- qual for a sua condi~Q. meta a mäo na sua consciCncia e consulte
os sentimentos do scu pr6prio cora~äo. ( ... ) Que näo bavendo
zia constante inquieta~iio, vieram formas de pensar mais crfticas, afinidade entre os interesses individuais, täo pouco pode haver in-
sendo arbitrario separar nelas o interesse hist6rico e literario do tcressc geral, fundado na participa~äo de todos na pUblica adminis-
sal ideol6gico. tra~o, porque cada classe ou familia querer8. a primazia( 126).

Assim, no ano de 1835, enquanto Magalhäes e Porto Ale-


gre, em contato com a cultura francesa, introduziam uma for· Em outros passos ataca o bacharelismo, produtor de
ma passadista ou ecletica de Romantismo, aparecia a obra de um semidoutos, "o maior a_.,ute que nos poderia caber de-
pernambucano em quem ja fermentavam ideias democraticas c pois de 300 anos de escravidäo". No Complndio de His-
socializantes: o Bosquejo Hist6rico, Politico e LiterOrio do Bra- t6ria do Brasil presta a sua homenagem as insurrei~öes per·
sil, de Abreu e Lima ( 124 ). Nele o libertario, filho do Padre nambucanas, de 1817 e de 1824, na primeira das quais vira fu.
Roma, companheiro de Bolfvar, e homem que daria seu apoio a zilado o pai e fora preso ele pr6prio. Sabe-se que Varnhagen,
Revolu~äo Praieira, faz um libelo contra o estado de ignorincia de certo chocado com o "iivro, que lhe sabia a jacobinismo, in-
reinante por seculos em Portugal: situa~äo que a Colönia herda- quinou-o de plagio . . . Mas Abreu e Lima prosseguiu na sua
ra e que cabia aos brasileiros corrigir. Mas näo fica al o seu carreira doutrinaria, de que säo marcos a Sinopse e 0 Socialis-
"jacobinismo" que iria mais tarde irritar fJ' Visconde de Porto mo, este Ultimo uma sfntese fogosa il Lanunenais de progressis-
Seguro: Abreu e Lima ve na literatura "o corpo de doutrinas de mo e esplrito religioso.

(124) JosE lNAc10 DE ABREU E LIMA (Recife, 1794-1869). Filho de


um sacerdote "dCfroquC" que morreu fuzilado pelo governo portuguCs por Pennanincia da llustra~äo. J. Francisco Lisboa
ter participado na Insurrei~io Pernambucana de 1817, seguiu as pegadas do
pai: capitäo de artilharia j8 nesse ano, foge para os Estados Unidos e da1
para a Venezuela onde desempenha perigosas missöes junto a Bolivar, as- No Maranhäo ( 127 ) a satira aos costumes pollticos, aliada
cendendo cm poucos anos ao generalato. Depois de viver longamente na ao amor da frase precisa e vern3.cula, corre sob a pena de Joio
Co!6mbia, volta para o Brasil ( 1832) onde se engaja em Juras pollticas
que, nio obstante as contradi9)es a~tes, sempre se situaram numa ( 125) Gilberto Freyre alude a gera~äo "quarante-huitarde" de Per-
liriha nitidamente liberal. AICm do Bosquejo citado, escreveu: Comp~n­ nambuco em varios passos da sua obra. Ver, por exemplo, Sobrados e
dio da Hist6ria do Brasil, 1843; Sinopse ou Dedu~äo Cronol6gica dos Fa- Mucambos, cap. 1, o belo estudo s6cio-hist6rico Um Engenbeiro Frances
tos Mais Nottiveis da Hist6ria do Brasil, 1845; Cartilha do Povo (sob o no Brasil, Rio, Jose Olympio, 1960, e ainda 0 Velho Felix e suas "Me-
pseud. de "Franklin"), 1849; Hist6ria Universal, 1847· 0 Socialismo 1855· m6rias de um Cavalcanti, Rio, Jose Olympio, 1959. De Amaro Quinras,
As Biblias Falsi/icadas ou Duas Respostas ao Sr. C6nego ]oaqui,,; Pint~ 0 Sentido Social da Revolufäo Praieira, Recife, lmprensa Universitaria,
de Campos, 1867; Resumen Hist6rico de la Ultima Dictadura del Liberta- 1961.
dor Sim6n Bolivar Comprobada con Documentas, publicado pelo Embai-
( 126) Apud Chacon, op_ cit., p. 156 e segs.
xador da Venezuela no Brasil, Diego CarboneJI, em 1932. Sobre Abreu e
Lima, consultar Vamireh Chacon, "0 Romintico de 1848: Abreu c Lima" ( 127) Louvando em bloco o grupo maranhense ( Odorico Mendes,
na sua Hist6ria das Ideias Socialistas no Brasil, Rio, Civilizac;äo Brasileira: Sotero dos Reis, Joäo Francisco Lisboa, AntOnio Henriques Leal e men~
1965, pp. 145-187. res), afirmou Jos6 Verfssimo: "Este grupo 6 contemporineo da prim.cira

174 175
·1
i
.II..
Fr.~ncisco Lisboa ( 128 ), per_~odista ,!Xemplar que deixou, alem de säo conhecidos pela sua longa e inabal<ivel fidelidade aos principios
arugos esparsos pela imprensa de Säo Luis, 0 Jornal de Timon e de ordern e monarquia; o Brasil näo pode medrar senäo A sombra
uma Vida do Padre Vieira. 0 alvo do primeiro e a corrup,äo protetora do Trono. V&n os Bacurdus por derradeiro e dizem: N6s
do sistema eleitoral, manejado pelos senhores de terras e por professamos em teoria os principios populares; mas somos assaz
ilustrados para conhecermos que o cstado do Brasil näo comparta
bachareis ignorantes e madra,os. :E o intelectual de c!asse media ainda o ensaio de certas institui~öes. Aceitamos pois sem. escn1pu-
que lamenta o desconcerto da vida politica e advoga as grandes los a atual ordern de cousas, como fato consumado, uma vez que 0
virtudes publicas: civismo, re,speito llo pr6ximo, tolerancia. Pa- poder nos garanta o gozo de todas as regalias dos cidadäos. Esta-
ra melhor sombrear o quadro, Lisboa demora-se na pintura das mos ate dispostos a prestar-lhe a mais franca e leal cooperai;äo (Par-
refregas partidarias de Esparta, Atenas e Roma, e näo chega ao tidos e Elei~öes no Maranhäo").
Maranhäo sem antes ter atravessado a lnglaterra e os Estados Plus ~a change . ..
Unidos, a Fran,a e a Turquia.
Moralista desenganado, ele se inclina em tudo a ver o triin- E säo muitos os passo.s em que se patenteia a sua 13.rgueza
sito Heil da liberdade ao arbltrio e ao dolo. Mas lidas com aten- de vistas. Defende a anistia e nega a existencia de crimcs poli.
\ä:o, essas p3.ginas a um tempo s6brias e amargas confirmam ticos, com que as faa;öes vencedoras marcam o adversano para
a op,äo iluminista e liberal do politico que a mesquinhez da pro- melhor sacrifica-lo em nome de uma arbitraria e mutavd jus-
vfncia abafou, impedindo que chegasse a melhores frutos. Ao ti,a. Admite serem inevitaveis as mudan,as e o diz em termos
historiar a evolu,äo jurldica de Roma, e para as leis democrati- repassados de sabedoria hist6rica: "Negar a revolu~o e ncgar
zantes dos Gracos que vo!ta a .sua simpatia, e säo palavras de a um tempo a razäo c a hist6ria, isto e, o direito consagrado pe-
escarmento as que usa para narrar a chacina daqueles varöes sem la sucessäo dos tempos e dos fatos, pela for\a e natureza das
macula. Dos partidos maranhenses, em tempos de concilia~o cousas, e pela marcha irresistivel dos interesses, que afinal triun-
a qualquer pre,o, diverte-se a dizer com malicia que fam dessa imobilidade a que täo loucamente aspiram todos os
"em geral. .. tc!m sido favoriiveis ao governo central, e s6 lhe partidos de passe do poder; desse poder conquistado sem duvi-
declaram guerra, quando de todo perdem a esperan~a de obter o da em eras mais remotas pelos mesmos meios que debaldc sc
seu apoio, contra os partidos adversos que mais hiibeis ou mais condenam quando chega a ocasiäo de perd8-lo." 0 mesmo rca-
felizes souberam acarea:.lo para si. ( ... ) Quando o Exmo. Sr. Ber-
nardo Bonifiicio, importunado das recfprocas recrimina~es e das in- lismo leva-o il prega~o da tolerancia: e o faz com os olhos pastos
defectiveis protestos de adesäo e apoio destes. ilustres chefes, os in· na Praieira e nas atrocidades quese cometeram em 1824 e 1831
terrogava ou sondava apenas, respondiam eles, cada um por seu {Lisboa näo partilharia da imagem do brasileiro como "homem
turno: - A divisa dos CangambJs e Imperador, Constitui~äo e cordial" l-
Ordem. Os Morossocas s6 querem a Constitui~äo com o lmpera-
dor, Unicas garantias que temos de paz e estabilidade. Os Jaburus Por outro lado, esse acerrimo inimigo da escravidäo nio
se compraz na ret6rica do indianismo, täo cara aos fluminenses
e mesmo a seu comprovinciano Gon~ves Dias, a quem louva
gerai;:äo romilntica toda ela de nasciinento ou residCncia fluminense. 0 calorosamente como poeta, mas critica por ter dado ao Indio a
que o situa e distingue na nossa literatura e o sobreleva a essa mesma primazia na forma\iio da nossa etnia. Verbera a iniqüidade com
gerai;:äo, e a sua mais clara inteligCnc~ liter<iria, a sua maior largueza in·
telectual. Os maranhenses näo tCm os blocos devotos, a ostentai;äo pa- que os porrugueses sujeitaram os nativos, entrando nessa alrura
tri6tica, a afetai;:äo moralizante da grupo fluminense, e geralmente escre- em polemica com Varnhagen que, na Hist6ria Gera/ do Brasil,
vem melhor que estes" (Hist6ria da Literatura Brasileira, cit., p<ig. 222). defendera a escraviza\äo pela for\a com argumentos do mais des-
(128) JoA.o FRANCISCO LISBOA (ltapicuru-Mirim, 1812 - Lisboa, carado racismo colonialista {"A Escravidäo e Varnhagen"). As
1863). Seu Jornal de Timon saiu em fasdculos, de 1852 a 1854, em Säo
Lufs. As Obfas Completas, em Säo Luis, de 1864 a 1865 ( 4 vols. ). So- paginas que se seguem il confuta\äo do alfarrabista rudesco-soro-
bre J. F. Lisboa: Antünio Henriques Leal, Panteon Maranhense, Vol. IV, cabano säo por certo as mais ardentes e profundas que o Ilumi-
L~sboa, 1875. V. Joiio Alexandre Barbosa, "Estudo Critico", aposto a J. F. nismo inspirou a qualquer escritor em !fngua portuguesa.
L1sboa, .Trechos Escolhidos, Rio, Agir, 1967; Maria de Lourdes Janotti,
J. F. Ltsboa, ]ornalista e Historiador, S. Paula, Atica, 1977. Passando da hist6ria coletiva a pessoal, escreveu sobre Odo-
rico Mendes, o humanista seu conterriineo, de quem encarece o
176
177
saber da lingua, e a Vid11 do·.PadrerAntonio Vieira. Esta, apesar ·
de inacabada, e exemplo de ensaio moderno, pois o bi6grafo,
divergindo embora da mente barroca do biografado, sabe reco-
!.'~,'
nhecer-lhe a invulgar estatura. Num ambiente de crltica ret6-
rica, a que Odorico e Sotero davam o tom, esse estudo de um
grande classico sobreosai como inv~iga,iio hist6rica ampla e
isenta de prejulzos. •
Vista em conjunto, a obra de Joiio Fraricisco Lisboa cobre, ~
ja na decada de 50, urna faixa da nossa realidade que seria en- '.
frentada pela Ultima gera,iio romantica em termos de programa 1
liberal e abolicionista.

0 REALISMO

178
' Um novo ideclr!o
1
'1 A poesia social de Castro Alves e de Sousindradc, o ro-
1 mance nordestino de Franklin Tavora, a Ultima fit>äo citadina
de Alencar ja diziam muito, embora em termos rominticos, de
-~i um Brasil em crise. De fato, a partir da extin~o do trafico, em
1850, acelerara-se a decadencia da economia a"1careira; o deslo-

l
car-se do eixo de prestlgio para o Sul e os anseios das classes
meclias urbanas compunham um quadro novo para a na~o, pro-
plcio ao fermento de ideias liberais, abolicionistas e republica-
nas. De 1870 a 1890 seräo essas as teses esposadas pela inteli-
'~ 1 gencia nacional, cada vez mais permeavel ao pensamento euro-
''
~
peu que na epoca se constelava em torno da filosofia positiva c
li
f do evolucionismo. Comte, Taine, Spen=, Darwin e Haeckel
foram os mestres de Tobias Barreto, Silvio Romero e Capistra-
no de Abreu e o seriam, ainda nos fins do seculo, de Euclides da
\1 Cunha, Cl6vis Bevilacqua, Gra~a Aranha e Medeiros de Albu-
il querque, enfim, dos homens que viveram a luta contra as tracli-
\Öes e o espfrito da monarquia ( 129).
11 Os anos de 60 tinham sido fecundos como prepa~o de
uma ruptura mental com o regime escravocrata e as institui~s
li
i'
pollticas que o sustentavam. E o sumo dessas crfticas ja se en-
contra nas paginas de um espirito realista e democratico, Tava-
1' res Bastes (1839-75), que advogava o trabalho livrc nas suas
admiraveis Cartas do Solitario ( 1862) e uma politica abcrta de
imigra~o na Mem6ria Sobre Imigra~äo, de 1867.
A forma~äo de um partido liberal raclical, em 1868, foi
prececlida de declara~öes de princfpios abolicionistas e prC-rcpu-

( 129) Os reflexos do Positivismo no Brasil e suas vincula.;öes com


a primeira Republica foram bcm estudados por J. eru. C.0.ta (Ponorama
da Hist6ria da ,Filosofia no Brasil, S, Paulo, Cultrix, 1960); Ivan Lins
(Hist6ria do Positivismo no Brasil, S. Paulo, Cia. Editors Nacional, 1964)
e Joio Camilo de Oliveira Torrcs (0 Positivismo no Brasil, 2.• ed., Pc-
tr6polis, Vozes, 1957 ).

181
blicanos ( 130); e, de fato, j;i em 1-870, uma ala dos progressis- a norma foi a expansäo de uma ideologia que tomava aos evolu-
tas fundava o Partido Republicano, que operaria a fusiio tatica cionistas as id~ias gerais para demolir a tradi>iio escolastica e o
da inteligencia nova com o arrojo de alguns pollticos de Sao ecletismo de fundo romlntico ainda vigente, e pedia a Fran>•
Paulo, interessados na substitui~äo do escravo pelo trabalho li- ou aos Estados Unidos modelos de um regime democratico.
vre. As ideias respondiam os fatos: no decenio de 70, entram E a "Escola do Recife", isto e, a Tobias Barreto( 182 ) e a seu
no pals quase duzentos mil imigrantes; no de 80, quase meio discfpulo fiel, Silvio Romero, que se deve a primeira transposi-
milhäo. " '
0 tema da Aboli<;äo e, em segundo tempo, o da Republica, cm Minha Form(lfäo) c, sobretudo, a imagem do pai, cuja vida recompOs
seräo o fulcro das op~öes ideol6gicas da homem culto brasileiro nos volumes de Um Estadista do Imp!rio (1899), demonstra o pulso do
a partir de 1870. Raras vezes essas lutas estiveram dissociadas: a
memorialista capaz de dar Hist6ria a altura de "ressurreic;ao do passado"
que lhe preconizava Mic~elet. A proclama~o_da R~pU.bli~a nä:o o ~emo­
a posi~äo abolicionista, mas fiel aos moldes ingleses da monar- veu dos ideais monarqutstas, mas tambCm nao o 1mped~u de serv1r ao
quia constitucional, encontrou um seguidor no Ultimo grande ro- pais, na qualidade de embaixador em Londres.e em ~ash1n~tc:in, onde fa-
mäntico liberal do seculo XIX: Joaquim Nahuco ( 131 ). Mas leceu em 1910. Nos Ultjmos anos, uma profunda cnse r.ehg1osa levou~

l
de volta ao catolicismo tradicional de que se afastara na JUventude. Ha
edi~o da sua obra cornpleta pela Editora Ipe (Sä:o Paulo, 1947-49, 14
( 130) A Opiniäo Liberal, jornal fundado por Limpo de Abreu e Ran- volumes). Sobre Nabuco: Carolina Nabuco, A Vida de ]oaquim Nabuco,
gel Pestana dava a pU.blico, em 1868, o programa seguinte: "descentrali- Säo Paulo, 1928; Gra~a Aranha, Mac~ado de Assis e. ]oaqu_im ~fbu~o,
zac;iio; ensino livrc; polfcia eletiva; abolic;iio da Guarda Nacional; Senado "Coment9.rios e notas a Correspondenc1a entre esses do1s escntores , Rio,
tempor<irio e eletivo; extinc;äo do Poder Moderador; substituic;iio do tra- Briguiet, 2.' ed„ 1942.
balho escravo pelo trabalho Iivre; separac;äo da judicatura da policia; su· ;. (132) TOBIAS BARRETO DE MENESES (Campos, Provincia de Sergipe,
fr<igio direto e genera1izado; presidentes de provfncia eleitos pela mesma; 1837 - Rec:ife, 1889). Mestii;o, de modesta origem, fez estudos secun-
suspensiio e responsabilidade <los magistrados pelos tribunais superiores e d<irios com mestres particulares na sua provfnda atC obter, aos 15 anos,
poder legislativo; magistratura independente, incompatfvel, e escolha de o posto de professor de Latim em Lagarto. Säo desse tempo e de um
seus membros fora da ac;iio do governo; proibic;iio dos representantes da breve perfodo que passa no Semin2rio da Bahia, i:nuitas compo~i)öes .poC-
na~äo de aceitarem nomeac;iio para empregos pt'iblic:os e igualmente dtulos ticas onde se acha um pouc:o de tudo: desde mod1nhas atC eleg1as launas.
e condecora~öes; opc;ä:o das funcion:lrios pUblicos, uma vez eleitos, pdo Fez Direito em Recife ( 1864-69 ), onde amadurecem as con~tante.s de .sua
emprego ou cargo de representac;iio nacional" (aputJ. Caio Prado Jr., Evo- obra· aversäo ao tradicionalismo filos6fico c, no terreno hterano, afina-
lufäo Politica do Brasil e Outros Estudos, 5.• ed., Säo Paulo, Brasiliense, inento com o hugoanismo, entendido como poesia de ~ese, liris?Io pUblico
1966, pag. 86). a
que se avizinha Cpica. Muitos de seus poemas (Dras e Nottes) foram
( 131) ]oAQUIM AuRELIO BARRETO NABuco DE ARAÖJO ( Recife, 1849 compostos na fase ac:ademica, marcada pelas ~ole~ica~ qu; travou com
- Washington, 1910). Descendente de uma famflia pernambucana de Castro Alves~ rivalidades de cstudantes sem ma1or s1gn1fica)ao. Formado,
senhores de engenho, Joaquim Nabuco seguiu na politica os ideais do pai, casa-se c parte para Escada onde advoga e faz jornalismo ( 1871-81 ), cs-
o senador Nabuco de AraU.jo, vulto de relevo do Partido Liberal nos mea- crevendo para efemeros peri6dicos liberais vibrantes de idCias hauridas nos
dos do sCculo. Formou-se em Direito ( Sä:o Paulo e Recife) e, depois de positivistas franceses e, especialmente, nos monistas alemäe.s.. Data desse.s
uma viagem a Europa e aos Estados Unidos, elegeu-se deputado, desta- anos o seu germanismo täo exclusivista que o leva a red1g1r alguns artl·
cando-se no decenio de 80 como grande tribuno abolicionista ( 0 Aboli- gos em a1emäo... Ern 1882, vence concurso para lente da Fa~l~ade de
cionismo, 1883 ). A ac;iio de Nabuco fundava-se menos na rotina partid3- Direito do Recife: epis6dio central de uma luta entre o escolasuc1smo de
ria que na paixäo intelectual e etica das reformas: da{ a emergencia da uma praxis jurfdica irn6vel e as correntes laicizantes que Tobias sc pro-
sua figura humana, urna das mais belas d0 Segundo Reinado pelo desapego punha encarnar. Foi o grande animador intelectual da Cpoca, mestre da
que manteve ate o firn da vida pt'iblica. Corno escritor, C daro e vivo, chamada "Escola do Recife", segundo seus discfpulos Srlvio Romero, Gra-
Iembrando de perto as fontes francesas que bebeu na mocidade (Renan, c;a Aranha e Artur Orlando. Deixou: Estudos de Filosofia e Critica, 1875;
Taine); escreveu nessa Hngua um livro de versos, Amour et Dteu e as Estuflos Alemäes, 1881; Questöes Vigentes de Filosofia. e Direito, .1888i
reflexöes de Pensees D!tachles et Souvenirs (Pensamentos Saltos, na tra- VJrios Escritos, 1900. As Obras Completas foram pubhcadas no Rio, em
du~iio de sua filha, Carolina Nabuco). Nä:o foi espfrito original: ha, cm 1926. Consultar: Gra~a Aranha, 0 Meu Pr6prio Romance, S. Paulo, 1931;
Minha Forma,äo ( 1898) nao poucos lugares comuns de cosmopolita e di- SHvio Romero, Hist6ria da Literatura Brasileira, 3.• ed., Rio, 1943, vol.
letante, ainda preso a tipologias feitas como "o espfrito ingle:s", "a alma IV; Hermes Lima, Tobias Barreto, Säo Paula, Cia. Ed. Nacional, 1943;
francesa", "a democracia americana" etc. Mas, sempre que volta 8 me- Nelson Werneck SodrC, HistOria da Literatura Brasileira, cit., "A rea)äo
m6ria da infäncia, aos primeiros contatos com o negro ("Massangana" antiromAntica: a crftica", pp. 358-380.

182 183
i;:äo dessa realidade em tetmos Oe consc1encia cultural. Silvio
Romero, falando dos anos d3 uviragem", viu com clareza o es-
sencial da nova forma mentis:
Descontada a ~fase de Sllvio, explictlvel nas mem6rias de
um lutador que se cre injusti,ado, 0 texto adere bem
~s do tempo. Apenas deveriamos acrescer que "o movimento

mudan-

subterraneo que vinha de longe" se originava nas contradi~


0 dcdnio quc vai de 1868 a 1878 ~ o mais notavel de quan- da sociedade brasileira do II Imperio, que os compromissos do
tos no s&ulo XIX constitufram_ a nossa vida espiritual. Qucm
näo viveu ncsse tempo näo CQnh~ por näo ter seotido direta- perlodo romantico ja näo bastavam para atenuar. Peies meados
mente em si as mais funda:s' com~öes da alma nadonal. AtC 1868 do secu!o, desapareceram em todo o Ocidente os suportes do ro-
o catolicismo rcioante näo tioha sofrido nestas plagas o mais leve mantismo passadista: näo tinham mais fun,äo social a velha no-
abalo; a filosofia espiritualista, cat61ica c eclCtica, a mais insignifi- breza e a camada do clero resistente a nacionaliza,äo e ao laicis-
cante oposi~o; a autoridade das instituit;öes monirquicas o me- mo que a Revolu>äo Francesa fizera triunfar na sua primeira fa-
nor ataque s&io por qualquer classe do povo; a institui~o servil
e os direitos tradicionais do feudalismo pr8tico dos grandes pro- se. Por outro lado, a agressividade romfintico-liberal das classes
prietSrios a mais indireta opugna')äoj o romantismo, com seus do- medias contra o mundo dos altos neg6cios se canalizou para o
ccs, cnganosos c cncantadorcs cismares, a mais apagada desaven~ socialismo. Assim, dos anos de 60 em diante, so havera duas
reatora. Tudo tinha adormecido i\ sombra do manto do prfncipe vertentes ideol6gicas relevantes na Europa culta: o pensamento
fdiz que havia acabado com o caudilhismo nas proviocias da AmC- burgues, conservador ( outrora, radical, em face da tradi,äo aris-
rica do Sul e preparado a cngrenagem da p~a politica de centrali- tocriitica), e o pensamento das classes mfdias ( ou, em raros
za~äo mais coesa que jS uma vez houvc na hist6ria de um grande
pafs. De repente, por um movimento subterräneo que vinha de casos de consciencia de classe, dos proletfilios), que assume os
longe, a instabilidade de todas as coisas se mostrou c o sofisma do varios matizes de liberalismo republicano e de socialismo. Mas
i.mpCrio apareceu em toda a sua nudez. A guerra do Paraguai es- a defasagem em que viviam certas :ireas de extra~äo colonial, co-
tava ainda a mostrar a todas as vistas os imensos defeitos de nossa mo o Brasil e toda a America Latina, carentes de industria e de
organiza~äo militar e o acanhado de nossos progressos sociais, des-
grandes concentra~öes urbanas, move as magras classes mfdias
vendando repugnantcm.cnte a chaga da escravidäo; c entäo a ques-
täo dos cativos SC agita C logo ap6s C scguida a questäo religiosa; locais a reivindicai;:öes jii triunfantes e assentes na Europa e nos
tudo se pöe cm discussäo: o aparelho soffstico das elei~, o sis- Estados Unidos; leva, em ultima aruilise, a luta democratica.
tcma de arrocho das instituiQ)es policiais e da magistratura e inU- Esse e o sentido da mare politica a que alude Silvio Romero;
meros problemas econömicos: o partido libCral, expelido grosseira- esse, o espirito das campanhas abolicionista e republicana que
mente do poder, comove-se desusadamcnte e Ianca aos quatro ven- tomam corpo a partir de 1870.
tos um program.a de cxtrcma democracia, quäsc um verdadeiro so-
cialismo; o partido republicano sc organiza e inicia uma propagan- A ponte literaria entre o ultimo Romantismo (ja em Castro
da tenaz que nada faria parar. Na politica C um mundo inteiro Alves e em Sousandrade marcadamente aberto para o progresso
que vacila. Nas regiöes do pensamento te6rico, o ttavamento da e a liberdade) e a cosmovisäo realista sera lan:;ada, como a seu
peleja foi ainda mais formidavd, porque o atraso era horroroso. tempo se vera, pela "poesia cientifica" e libertiiria de Sllvio Ro-
Um bando de idCias novas esvoa~ sobre n6s de todos os pontos
do horizonte. Hoje, depois de mais de trinta anos; hoje que säo mero, Carvalho Jr., Fontoura Xavier, Valentim Magalhiies e me-
elas correntes e anclam por todas as ca~s. niio tem mais o sabot nores. De qualquer forma, s6 o estudo atento dos processos so-
de novidade, nem lembram mais as feridas que, para as espalhar, ciais desencadeados nesse perfodo far3 ver as rafzes nacionais da
sofremos os combatentes do graride decCnio: Positivismo, evolucio- nova literatura, rafzes que nem sempre se identificam com a mas-
nismo, darwinismo, cr{tica religiosa, naturalismo, cientificismo na sa de influencias europeias entäo sofridas ( '").
poesia e no romance, folclore, novos processos de crltica e de hist6-
ria literiria, transforma~o da intui~äo do Direito e da po- No plano da inven,ao ficcional e poetica, o primeiro refle-
litica, tudo entio sc agitou c o brado de alarma partiu da Escola xo sensivel e a descida de tom no modo de o escritor relacio-
de Redfe ( 133).
( 134) Da vasta bibliografia a respeito, destaquem-se: Gilberto Frey-
re Sobrados e Mucambos. -Decadlncia do Patriarcado Rural e Desenvol-
( 133) Silvio Romero, "Explicar;öes Indispens:iveis", pref:icio aos V a~
vbnento do Urbann, 2.• ed., 3 vols., Rio, Jose Olympio, 1951; Caio Prado
rios Escritos, de Tobias Barreto, Ed. do Estado de Sergipe, 1926, pp.
XXIII-XXIV. Jr., Evoluräo PolitictJ do Brasil, cit., "0 ImpCrio", pp. 77-87, c o substan-

184 185
nar-se com a matCria de, sua ..obra. ,....Q liame que se estabelecia ao escrit?r a religiao da forma, a arte pela arte, que daria afinal
entre o autor romintico e 0 mundo estava afetado de uma se. um senttdo e um valor 8 sua existencia cerceada por todos os
rie de mitos idealizantes: a natureza-mäe, a natureza-refUgio, o lados. 0 supremo cuidado estilistico, a vontade de criar um
amor-fatalidade, a mulher-cliva, o her6i-prometeu, sem falar na objeto novo, imperecfvel, imune Ss pressöes e aos atritos que
aura que cingia alguns !dolos como a "Na~äo", a "Patria", a desfazem o tecido da hist6ria humana, originam-se e nutrem-se
' Tradi~äo" etc. 0 rom8ntico näo teme as demasias do senti-
1
do mesmo fundo radicahnente pessimista que subjaz a ideologia
n;ento ne~ os riscos da ~nfase patri6t~a; "nem falseia de prop6- do determinismo. E o que ja fora verdade para os altissimos
s1to a reahdade, como anacronicamente se poderia hoje inferir: prosadores Schopenbauer e Leopardi, näo o sera menos para os
e a sua forma mental que esta saturada de proje,öes e idenrifica- estilistas consumados da segunda metade do seculo XIX, Flau·
'öes violentas, resultando-lhe natural a mitiza'ao dos temas que bert e Maupassant, Leconte de L'Isle e Machado de Assis.
escolhe. Ora, e esse complexo ideo-afetivo que vai cedendo a 0 Realismo se tingira de naturalismo, no romance e no con-
um processo de critica na literatura dita "realista". Ha um es- to, sempre que fizer personagens e enredos submeterem-se ao
for.;o, por parte do escritor anti-romäntico de acercar-se impes- destino cego das "leis naturais" que a ciencia da Cpoca julgava
soalmente dos objetos, das pessoas. E uma sede de objetividade ter codificado; ou se dira parnasiano, na poesia, a medida que se
que responde aos metodos cientificos cada vez mais exatos nas esgotar no lavor do verso tecnicamente perfeito.
U!timas decadas do seculo. Tentando abra'ar de um s6 golpe a literatura realista-naru-
Os mestres dessa objetividade seriam, ainda uma vez, os ralista-parnasiana, e uma grande mancha pardacenta que se alon-
franceses: Flaubert, Maupassant, Zola e Anatole, na fic~o; os ga aos nossos olhos: cinza como o cotidiano do homem burguCs,
parnasianos, na poesia; Comte, Taine e Renan, no pensamento cinza como a eterna repetir;äo das mecanismos de seu comporta·
e na Hist6ria. Ern segunda plana, os porrugueses, ~a de Quei- mento; cinza como a vida das cidades que ja entao se unificava
roz, Ramalho Ortigao e Antero de Quental, que travavam em em todo o Ocidente. E e a moral cinzenta do fatalismo que se
Coimbra uma luta paralela no sentido de abalar velhas estruru- destila na prosa de Aluisio Azevedo, de Rau! Pompeia, de Adol-
ras mentais. No caso excepcional de Machado de Assis, foi a fo Caminha, ou na poesia de Raimundo Correia. E, apesar das
busca de um veio humorlstico que pesou sobre a sua elei,aa de meias-tintas com que a soube temperar o g€nio de Machado, ela
leituras inglesas. - n,äo sera nos seus romances maduros menos opressora e
0 distanciamento do fukro subjetivo ( que ja se afirmava inapelavel.
na frase de Theophile Gautier: "sou um homem para quem o A coexistencia de um clima de ideias liberais e uma
mundo exterior existe") e a norma proposta ao escritor realis- arte existencialmente negativa pode parecer um paradoxo, ou, o
ta. A atitude de aceitafäo da existencia tat qual ela se da aos que seria mortificante, um erro de enfoque do historiador. Mas
sentidos desdobra-se, na cultura da epoca, em planos diversos o contraste estä apenas na superffcie das palavras: a raiz comum
mas complementares: <lessas direr;öes e a posi~äo incömoda do intelectual em face da
a) - no nlvel ideol6gico, isto e, na esfera de explica9io do
sociedade tal como esta se veio configurando a partir da Rev<>-
real, a certeza subjacente de um Fado irreverslvel cristaliza-se no Iu,äo Industrial. Agredindo na vida publica o status quo, ele e
determinismo (da ra,a, do meio, do temperamento ..• ); ainda um rebelde e um protestatd:rio, como o foram, entre n6s,
Rau! Pompeia, Aluisio Azevedo, Adolfo Caminha e o Machado
b) - no nlvel estetico, em que o pr6prio ato de escr~ver jovem; mas, introjetando-o nos meandros de sua consciCncia, rei-
e o reconhecimento impllcito de uma faixa de liberdade, resta ficando-o como lei natural e como sele,aa dos mais fortes, ele
acaba depositärio de desencantos e, o mais das vezes, conformis·
cioso uRoteiro para a historiografia do Segundo Reinado", pp. 185-193. ta. 0 apelo ao destino, recorrente em grandes naturalistas eu-
Para o aprofund.amento do problema s6cio-polftico, d. Oliveira Viana, 0 ropeus como Giovanni Verga e Thomas Hardy, deve ser visto
Octl!.o do !~ptrio, S. Paulo, Melhoramentos, 1925; Paula Beiguelman, For-- il luz dessa dialetica de revolta e impot€ncia a que tantas vezes
mtZfao Poltttca do Brasil: I. Teoria e A"än no Pensamento Abolicionista
S, Paulo, Pioneira, 1967. ' se tem reduzido a condi,äo do escritor no mundo contemporiineo.

186 187
A f!C<;~O uma natureza nervosa. ( •.. ) Fiz simplesmentc em dois corpos
O Realismo ficcional aprofunda a narra(äa de castumes can- vivos o trabalho analltico que os cirurgi5es fazem em cadavcrea"
tem pardneas da primeira metade do sfotlo XIX ( Stendhal, Bal- 'Prefacio a 2.• ed. de Therese Raquin, 1868).
zac, Dickens, Hugo) e de todo o st!culo XVIII ( Lesage, Dide- Enfim, Guy de Maupassant: " . • . se o romancista de on-
rot, Defoe, Fielding, Jane Austen ... ). Nas obras desses gran- tem escolhia e narrava as crises da vida, os estados agudos da
des criadores do romance moderno ja se exibiam poderosos dons alma e do cora'2o, o romancista de hoje escreve a hist6ria do
de observa,ao e de anilise, razao. pela qi'M niio se deve cavar um cora,ao, da alma e da inteligencia no estado normal. Para pro-
fosso entre elas e as de Flaubert, Maupassant, Verga, Thackeray duzir o efeito que ele persegue, isto e, a em°'"o da simples rea-
e Machado. Entsetanto, e sempre vilido dizer que as vicissitu- lidade, c para extsair o ensinamento artlstico que dela deseja ti-
des que pontuaram a ascensiio da burguesia durante o st!culo XIX rar' isto e, a revela,ao do que e verdadeiramcnte 0 bomem con-
foram rasgando os veus idealizantes que ainda envolviam a fic,iio tempodneo diante de seus olhos, ele devera empregar somcnte
rom~ntica. Desnudam-se as mazelas da vida publica e os contras- fatos de uma verdade irrecusavel e constante" ( Prefacio de Pier-
tes da vida Intima; e buscam-se para ambas causas naturais ( ra- re et Jean, 1887).
ra, clima, temperamenta) ou culturais ( meia, educaräo) que lhes Estseitado o horizonte das personagens e da sua inte~
reduzem de muito a area de liberdade. 0 escritor realista tomara nos limites de uma factualidade que a ciencia reduz as suas cate-
a serio as suas personagens e se sentira no clever de descobrir- gorias, o romancista acaba recorrendo com alta freqüencia
-lhes a verdade, no sentido positivista de dissecar os m6veis do aQ tipa e a situaräo tlpica: ambos, cnquanto slnteses do
seu comportamento. normal e do intelig!vel, prestam-se docilmente a compor
As afirma,oes dos realistas franceses, a prop6sito, sio o romance que se deseja imune a tenta~s da fantasia. .E
exemplares. de fato a configura,ao do tlpico foi uma conquista do Rcalis-
Flaubert: "Esfor,o-me por entrar no espartilho e seguir uma mo, u~ progresso da consciencia estetica em face do arbltsi? a
linha reta geometrica: nenhum lirismo, nada de reflex5es, au- que 0 subjetivismo levava 0 escritor romantico a quem nada llll·
sente a personalidade do autor" (Ca"espandencia, 1-2-1852). pedia de engendrar criaturas ex6ticas e enredos ioverossfmeis.
Jules e Edmond de Goncourt: "Hoje, quando o Romance Um dos crlticos mais sagazes do st!culo XIX, Francesco De
cresce e se amplia, quando ele come,a a ser a grande forma seria, Sanctis em fase madura de teoriza•iio literaria, ja pr6ximo do
apaixonada, viva, do estudo literario e da pesquisa social, quan- Realis~o concedeu a tipicidade um lugar de honra no sistema
do ele se torna, pela analise e pela sondagem psicol6gica, a His- das artes'. Nas suas li,oes sobre Dante, proferidas em Zuri~ue
t6ria moral contempodnea; hoje, quando o romance impös a si em 1858, De Sanctis insistia no grau estetico mais alto que o u.P?
mesmo os estudos e os cleveres da ciencia, ele pode reivindi- assume se comparado com a velha alegoria ou com a personif1-
car-lhes as Iiberdades e a franqueza" ( Prefacio a Germinie La- ca,ao, processos em que a figura do homem sumia por tras da
certeux, 1864). generalidade. E frisava:
Emile Zola: "Ern Therese Raquin, eu quis estudar tempe- O g&iero näo deve cncerrar-se majestosam.ente e~ si mesmo,
ramentos e niio caracteres. Ai esta o livro todo. Escolhi perso- Como um deus ocioso; deve transformar-se, tornar-sc ttpo. No g~
nagens soberanamente dominadas pelos nervos e pelo sangue, · nero demora a condi~o da poesia, no tipo esta o seu ~' o pn-
meiro surto da vida. Forma dpica C, por cxemplo, o Tasso de
desprovidas de livre-arb!trio, arrastadas a cada ato de sua vida Goethe e a Lia e a Raqucl de Dante. Raquel, que se assenta o dia
pelas fatalidades da pr6pria carne. ( ... ) . Com~a-se a com- inteiro C näo desvia jamais OS olhos de Deus, C mais do QUC uID
preender ( espero-o) que o meu objetivo foi acima de tudo um
objetivo cientlfico. Criadas minhas duas personagens, Therese e
l g!nero, menos que um individuo, e um tipo ( •.. ). Quando 0
pocta chega ao tipo, ja ultrapassou a forma didadca, a al~ •. a
personifica(äo, achando-se i' no mundo visfvel, condi~ pnm.cua
Laurent, dei-me com prazer a formular e a resolver certos pro- da poesia ( 135).
1.
blemas; assim, tentei explicar a estranha uniiio que se pode pro- ----Francesco De Sanctis, Le:äoni e Saggi su Dante, Torino, Einau-
,~
duzir entre dois temperamentos diferentes e mostrei as pertur- ( 135)
ba,5es profundas de uma natureza sangüfnea em contaro com di, 1955, pp. 588~89.

188 189

jl
Mas a argUcia do pensador italirno vai mais lange; porque A procura do tfpico leva, Ss vezes, o romancista ao caso e,
afirma a fun~äo mediadora do ·tipo, näo o d:i como etapa final, dal, ao patol6gico. Haved um reslduo romantico nesse vezo de
que e a pintura do individuo concreto: näo mais o "monstro", perscrutar 0 excepcional, 0 feio, 0 grotesco, e e mesmo lugar-co-
parto do caos, mas o cartiter pessoal ( int~liglvel enq.uanto tipo, mum apontar o romantismo latente em Zola, que sobreviveria
mas intuido esteticamente como homem smgular, frwdor da sua nas cruezas intencionais do Surrealismo e do Expressionismo. Na
pr6pria existencia). Pois, "na pessoa.., tfpica ainda domina a verdade, esse comprazim.ento em descrever situa~es h3bitos e
ideia sob a aparencia de individtlo". seres anömalos tem um lastto na cultura ocidental q~e ttanscen-
De Sanctis aportara ao Realismo depois de ter incorporado de as divisöes da hist6ria literaria. Trata-se de um fenömeno
a dialetica hegeliana de abstrato/concreto, universal/singular; e que s6 se compreende a luz de tensöes mais gerais entre 0 in-
gra~as a esse pensamento, que nunca supera sem conservar, pöd.e consciente e o consciente no quadro da nossa civiliz~o desde
entender o papel e os limites do tipo e ·da situa\iio tlpica sem a ruptura que a Idade Moderna operou com modos de pensar
enrijece-Ios no quadro da ciencia positivista. 0 niesmo ocorre, magicos ou sacros do Medievo europeu. Seja como for, a repul-
em nosso tempo, com a estetica realista de Georg Lukacs, q?e sa rnisturada de fasclnio que as culturas do Ocidente, a partir
entende o tipico na sua rela(äo entre a totalidade em que se m- da Renascenca, t~m experimentado pelo anömalo näo produziu
sere o escritor e as figuras singulares que inventa e artlcula na sempre os mesmos frutos. 0 escritor romantico eleva a fealda-
elabora\äo da obra ficcional ( 186 ). de a altura da beleza excepcional (Victor Hugo); o naturalista
julga "interessante" o patol6gico, porque prova a dependencia
( 136) Georg Luk9.cs, lntrodu~llo a uma Estetica Marxista. Sobre
do homem em relacäo a fatalidade das leis naturais. Mais uma
a Categoria da Particularid~d~, trad. de Carl?s Nelson 11 Couti~o e Lean- vez, a regra de ouro e a atencäo ao contexto, que impcde aqui
dro Konder Rio, Civ. Brasiletra, 1968; espeoalmente, 0 Tip1co: proble- de nos perdermos na seducäo anti-hist6rica dos arquetipos.
mas do con'teU.do", pp. 260-271, e "O Tipico: problemas da forma", pp. A mente cientificista tambem e responsavel pelo esvaziar-se
271-282. Lukiics define o dpico "encarnai;ä:o concretamente ardstica da
particularidade" (p. 261), e o distingue do 0 m~dio" em termos de ten· do Sxtase que a paisagem suscitava nos escritores romanticos. 0
säo: 0 Apresenta-se aqui a escolha: o modelo para a caracterizai;ilo artlstica que se entende pela preferencia dada agora aos ambientes urba-
deve ser a estrutura normal do tipico ou a do mldio? 0 princ1pio desta nos e, em nlvel mais profundo, pela nlio-identifica\lio do escritor
escolha implica, em resumo, no seguinte: se a forma da caracteriza~o par- realista com aquela vida e aquela natureza ttansformadas pelo
te da explicai;iio ao mhimo grau das determina~öes contradit6rias ( como
no dpico). ou se estas contradii;öes se debilitam entre Si, neutralizando-se Positivismo em complexos de normas e fatos lndiferentes a alma
reciprocamente (como no mCdio). Aqui nao mais se trata de saber sim· humana. Quem näo lembrara a atirude lirnite de Machado de
plesmente se uma dada figura C mCdia ou dpica, no que diz respeito ao Assis, dando a natureza um rosto de esflnge a perseguir o pobre
conteUdo de seu cara:ter, mas trata·se, ao contrS:rio, do mCtodo artistico Bras Cubas no seu delirio?
( acima indicado) da caracteriza~äo; ele possibilita - isto ocorre freqüen·
temente - que artistas de valor elevem um homem mCdio i. altura do Ern termos de constru\äo, houve descarnamento do proces-
dpico, colocanda.o em situar;Oes nas quais a contraditoriedade das suas de.- so expressivo, cortando-se as demasias romanescas de um Dickens
terminai;öes se manüesta näo como "equilfbrio" m~dio, mas como luta ~OS e de um Balzac e considerando-se ponto de honra näo lntervit
contratios, e apenas a vacuidade desta luta, a queda no torpor, caracterlZB
definitivamente a figura como figura mCdia.· 2 igualmente posslvel - isto
ocorre tambCm muito freqüentemente, sobretudo na arte mais recente - As distin~öes acima abrem caminho para a inteligCnda do valor, hu-
que a representai;ao do que C em si dpico seja rebaixada ao nlvel estru- mano e est~tico, que se pode atribuir i.s criacöes do romance, em. parti·
tural do que e mCdio, o que acontece quando a contraditoriedade das de- cu1ar do romance realista. Assim, certas personagens centrais da obra
terminai;öes nä:o C abandonada ao seu livre curso e os resultados sio i' machadiana, como Rubiäo e Capitu, embora possam, grosso modo, captar·sC
aprioristicamente estabe1ecidos. No primeiro 'Ca.SO, vcmos como a verda- nas redes gerais dos "tipos" ( o provinciano desfrut&vel e impression,vel;
de da forma, que desenvolve o seu contelldo medio de acordo com as a mocinha pobre e ambiciosa), nao poderiam jama!s apoucar-se ou enri-
proporr;öes da vida real, engendra movimento e vitalidade no que C em jecer-se como figuras 0 medias". montadas sob esquemas a priori; o que se
si r{gido; no segundo caso, vcmos que o modo da realizai;io formal na di, no entanto, com tantas "personagens" da fi~o naturalista: os prota-
representac;äo e muito mais pobre do que a realidade empfrica imedi.ata" gonistas de A Carne, de JUlio Ribeiro; de 0 Mission4rio, de Ing!&. de
(pp. 273-74). Sousa; de 0 Homem e 0 Coruia, de Alulsio Auvedo ..•

190 191
com a folVI dos pr6prios afctos na' mimese do real ( a poetica ma, depurada e s6bria, do precSrio em qne se resume toda a exis~
da impessoalidade). Isso niio' significa que o autor se ausentas.. tencia se espelharia no romance e no conto de Machado de Assis.
se, como queria polemicamente Flaubert, ou que de algum modo Assim, do Romantisma aa Realismo, hauve uma passagem
deixasse de projetar-se na elabora~iio da obra. 0 modo de for- do vago ao tfpico, da idealizante ao factual. Quanto a campo-
mar, diz Umberto Eco, revela o grau de empenho do. artista si~o, os narradares realistas brasileiros tambem pracuraram al-
em face da realidade {137 ): a estrutu111wiio "impessoal" ~o ro-
mance mostra, como j3 vimos,- ös sentimentos amargos e, via de
• can~ar maior coerCncia no esquema das epis6dios, que passaram
a s_er regidas niia mais par aquela sarabanda de caprichas que
regra, certo fatalismo, que pesavam sobre o esplrito de um Mau- •
1
faz1am das obras de um Maceda verdadeiras caixas de surpresa,
passant ou de nosso Machado. A tendencia de tudo centrar na mas por necessidades objetivas do ambiente (cf. 0 Missionario)
~
fatura indicava o retrair-se da concep~iio de realismo il esfera da au da estrutura moral das personagens {cf. Dom Casmurro ).
formatividade mimetica: o que era outra forma de dizer a impo-
tencia a que estavam relegados como homens diante do todo so-
~ Nem sempre, parem, a abediencia aos prindpios da escala impe-
diu desvias melodramaticos au distor~öes psical6gicas grosseiras
cial. E nada melhor para explicar ou justificar essa impotencia {0 Homem, 0 Livro de uma Sogra, de Aluisio; A Carne, de
do que o ferreo determinismo, filosofia ·oficial desses anos em JU!io Ribeiro). De um mado geral, contudo, a prosa de fic\iia
todo o Ocidente. ganhou em sabriedade e em rigor analltico com o adventa da
nova ,disciplina.
0 determinismo reflete-se na perspectiva em que se movem
os narradores ao uabalhar as suas personagens. A pretensa neu- Nos fins do seculo XIX e nas primeiras decadas da nasso,
ualidade niio chega ao ponto de ocultar <! fato de que o autor came~a a hipertrofiar-se a gösto de descrever por descrever, em
carrega sempre de tons sombrios o destino das suas criaturas. prejufza da seriedade que norteara o primeiro tempo do Realis-
Atente-se, nos romances desse periodo, para a galeria de seres mo. Ornamental em Coelha Neto, banalizado em Afrania Pei-
distorcidos ou acachapados pelo Fatum: o mulato Raimundo, a xoto, esse estilo epigOnico ir:i corresponder ao maneirismo ultra-
negra Bertoleza, Pombinha, o "Coruja", de Aluisio A2evedo; Lu- parnasiano da linguagem belle epoque, para a qua! concorreria
zia-Homem, de Domingos Ollmpio; Sergio, de Rau! Pompeia; os niio pouco a aficializa~iio das letras operada pelo esplrito que pre-
protagonistas de A Normalista e de 0 Bom Crioulo, de AdoHo sidiu a funda~äo da Academia em 1897. E contra essa rotina
Caminha; Padre Antonio, de Ingles de Sousa .. _ que reagiriio Lima Barreto, o ultimo das realistas do perfodo, e,
Neles espia-se o avesso da tela romantica: Macedo e Alen- naturalmente, os modernos de 1922.
car faziam passear as suas donzelas nas matas da Tijuca ou nos
bailes da Corte; Alufsio niio sai das casas de pensiio e dos cor-- Machado de A1181s
ti~s. 0 sertanejo altivo de Alencar niio sofria das miserias que
nos descrevem A Fome, de Rodolfo Te6filo, e Luzia-Homem, 0 ponto mais alto e mais equilibrada da prosa realista bra-
de Domingos Ollmpio. Os costumes regionais, tiio castos em sileira acha-se na fic~iio de Machado de Assis {138).
Taunay e em T3vora, tornar-se-äo 1icenciosos na selva amazO..
nica, a ponto de transviar o missiarnfrio de Ingles de Sousa. A (13&)_ JoAQUIM MARIA MACHADO DE Ass1s (Rio, 1839-1908). Nas-
adolescencia, fagueira e pura na pena de Macedo, conheced a ceu no Morro do Livramento, filho de um pintor mulato e de uma lava-
tristeza do vfcio precoce no Bom Crioulo, de Caminha, e na deira ai;oriana. örfäo de ambos muito cedo, foi aiado pela madrasta, Ma-
ria Ines. Ja na inf.lncia apareceram sintomas de sna fr&gil compleii;üo ner-
Carne, de JU!io Ribeiro, sem contar as angüstias sexuais da pu- vosa, a epilepsia e a gaguez, que o acometeriam a espai;os durante tada
berdade que latejam no Ateneu, de Rau! Pompeia. Mas a su- a vida e lhe deram um feitio de ser reservado e tCmido. Aprcndidas av
primeiras letras numa escola pllblica, recebeu aulas de francCs e de latin„
de um padre amigo, Silveira Sarmento; mas foi como autodidata quc cons-
( 137) Cf. na edic;äo brasileira de Obra Aberta, S. Paulo, Ed. Pers· truiu sua vasta cultura liter&ria que inclufa autores menos lidos no tem-
pectlva, 1968~ o ensaio "Do modo de formar como cugajamento para com po como Swift, Sterne e Leopardi. Aos dezesseis anos, entrou na Im-
prensa Nacional como tif>Ografo aprendiz; aos dezoito, na editara de Pau-
1

a rcalidade", pp. 2Zl.:n7.

192 ! 19)
Ia Brito para cuja revistinha, A !Jarmota compös seus primeiros versos.
Pouco depois. e admitido. a redac;~o~ d? Correio.·~ercantil. Trava con1;te-
cimento com alguns escntores romanticos: Castmtro de Abreu, Joaqutm
Manuel de Macedo, Manuel Antönio de Almeida, Pedro Luis e Quintino
BocaiUva. Este o introduz, cm 60, no DiOrio do Rio de Janeiro para o
qual resenhar.3. os debates do Senado usando de linguagem sarcastica em
fun\:äo de um ardente liberalismo. Na dCcada de 60 escreve quase todas
as suas comCdias (v. t6pico TEATRO) e os--.versos ainda rominticos das
'
1

1
em 1898), 3.• ed., Rio, Jo~ Olympio, 1940; Jose Verlssimo, Estudos de
Uteratura Brasileira. 6.• sCrie, Rio, Gamier, 1907; Oliveira Lima, "Macha-
do de Assis et son ocuvre littCraire", no volume do mesmo nome, com
prcf&cio de Anatole France e um estudo de Victor Orban, sa1do em Pa-
ris, pela Ed. Louis Michaud, em 1909; Mirio de Alencas, AJgunr Escri-
tos, Rio, Garnier, 1910; Alcides Miia, Machado de Assis. Algumas Notas
sobre o Humor, Rio, Jacinto Silva, 1912; 2.• ed., pela Academia Brasilei·
ra de Letras, 1942; JosC Verissimo, "Machado de Assis", na Hist6ria da
CrirOlidas (64). Aos trinta· anoS dt! idade casa-se com uma senhora por- 1 Literatura Brasileira, Rio, Francisco Alves, 1916; AHredo Pujol, Macbado
tuguesa de boa cultura, Carolina Xavier de Novais, sua companheira afe- de Assis, S. Paulo, Tipogr. Brasil, 1917; Gra~ Aranha, MachaJo de Assis
tuosa ate a morte e que lhe iria inspirar a bela figura de Dona Carmo do e ]oaquim Nabuco. Comenttirios e Notas a Co"espondencia entre Estes
Memorial de Aires. Ja amparado por uma carreira burocr3tica, primeiro
no Di<irio Oficial ( 1867-73) e, a partir de 74, na Secretaria da Agricultu-
ra, o escritor pöde entregar-se livremente a sua voca~o de ficcionista. De
j Dois Escritores, S. Paulo, Monteiro Lobato, 1923; Agripino Gricco, Evo-
lu,äo da Prosa Brasileira, Rio, Ariel, 1933; M.3.rio Casassanta, Machado
de Assis e o Tedio a Controversia, Belo Horizonte, Os Amigos do Livro,
70 a 80, aparecem Contos Fluminenses (70), Ressurrei,äo (?2). H!st6rias 1934; Viana Moog, Her6is da Decadencia, Rio, Guanabara, 1934 (2.• ed.,
da Meia-Noite (73). A Mäo e a Luva (74), Helena (76), Iaza Garcuz, con- Porto Alegre, Globo, 1939); Augusto Meyer, Machado de Asrir, Porto
tos e romances inexatamente chamados da "fase romS.ntica", quando melhor Alegre, Globo, 1935 (2.• ed., Rio, Simöes, 1956); Lucia Miguel-Pereira,
se diriam "de compromisso" ou "convencionais". ~m alguns poemas que Machado de Assis. Est11do Crltico e BiogrQfico, S. Paulo, Cia. Ed. Nacio-
enfeixaria nas Ocidentais e sobretudo a partir das Mem6rias P6stumas de nal. 1936; 5.• ed., Rio, Jose Olympio, 1955; Peregrino Jr., Doenfa e
BrOs Cubas ( 1881), o escritor atinge a plena maturidade do seu r~alismo Constituifäo de Machado de Asrir, Rio, Jose Olympio, 1938; Olivio Mon-
de sondagem moral que as obras seguintes iriam confirmar: Hist6riqs sem tenegro, 0 Romance Brasileiro, Rio, J. Olympio, 1938; Revista do Bra-
Data (84), Quincas Borba (92), VOrias Hist6rias ( 96), POginas Recolhi- sil, NUmero dedicaJo a Machado de Assis, junho de 1939; Astrogildo Pe-
dar ( 99), Dom Casmurro (1900), Esau e Jac6 ( 1904), Reliquiar da Cara rcira, Interpre/Qföes, Rio, Casa do Estudante do Brasil, 1944; Aftinio
Velha (1906). Considerado nos fins do sf!culo o maior romancista bra- Coutinho, A Filosofia de Machado de Assis, Rio, Vecchi, 1940; Mario de An-
sileiro, foi um dos fundadores e primeiro presidente da Academia Brasi- drade, Aspectos da Literatura Brasileira, Rio, Americ-Ed.it. s. d.; Sf!rgio Buar-
leira de Letras, animou a excelente Revista Brasileira, promoveu os poetas que de Holanda, Cobra de Vidro, S. Paula, Martins, 1944; Augusto Meyer,
parnasianos e estreitou relai;öes com os melhores intelectuais do tempo, de A Sombra da Estante, Rio, Jose Olympia, 1947; Barreto Filho, Introdu-
Verissimo a Nabuco, de Taunay a Graca Aranha. Näo obstante essa fäo a Machado de Arsis, Rio, Agir, 1947; Bezerra de Freitas, Form• e
ativa sociabilidade no mundo literario, ficaram proverbiais a fria compos- Expressäo no Romance Brasileiro, Rio, F°ongetti, 1947; EugCnio Gomes,
tura pessoal e o absentelsmo politico que manteve oos anos derradeiros: Espelbo contra Espelho, S. Paulo, Ipe, 1949; LUcia Miguel-Pereira, Pro-
atitude paralela a anatise corrosiva a que vinha submetendo o homcm em '° de Ficfiio, de 1870 a 1920, Rio, Jose Olympio, 1950; Eugenio Gomes,
sociedade desde as Mem6rias P6stumas. 0 Ultimo romance, mais "diplo- .Prata de Casa, Rio, A Noite. 1953; Raimundo Magalhiies Jr., Machado
m<itico", Memorial de Aires (1908), foi escrito ap6s a morte de Carolina, de Arsis Desconhecido, Rio, Qviliza~o Brasileira, 1955; Brito Btoca, Ma·
a quem pÜuco sobreviveu. Machado de Assis morreu vitimado por uma
Ulcera cancerosa, aos sessenta e nove anos de idade. Na Academia coube .,1 chado de Assis e" PolltictJ e Outros Estudos, Rio, Simöes, 1957; Auguste
Meyer, Machado de Assis, 1935-1958, Rio, Livraria Sao Jose, 1958; Wil-
ten Cardoso, Tempo e Mem6ria em Machado de Arsis, Belo Horizonte,
a Rui Barbosa fazer-Ihe o elogio fllnebre. Outras obras: Falenas (1870),
Americanas (1875}, Poesias Completas (1900). P6stumas: Outras Reli- Estab. Graf. Sta. Maria, 1958; Eugenio Gomes, Machado de Asrir, Rio,
quiar (1910), Critica (1910), Novas Reliquiar (1922), Correspondencia '1 Llvr. S. Jose, 1958; Revista do Livro, Numero dedicado a Machado de
de M. de A. com Joaquim Nabuco (1923), A Semana (1914), Cr/inicas Asrir, Rio, sctembro de 1958; R. Magalhäes Jr., Ao Redor de Machado
(1936), Critica Teatral (1936), Critica Literaria (1936). A partir de 1956 de Asris. Rio, Civ. Bras., 1958; Dircc Cortes Riedel, 0 Tempo no Roman-
o historiador Raimundo Magalhäes Jr. vCrn publicando pela Ed. Civiliz.a- 1 ce Machadiano, Rio, Livr. S. Jose, 1959, Agripino Grieco, Machado de
~äo Brasileira contos e crönicas de Mach3do que andavam esparsos em Assir, Rio, Jo~ Olympio, 1959; Astrojildo Peseira, Machado de Asris,
jornais e revistas: Cantos Recolhidos, Cantos Esparsos, Contos sem Data, 1 Rio, Llvraria S. Jose. 1959; Miecio Tati, 0 Mundo de Machado de Asris,
Cantos Avulsos, Cantos Esquecidos, Cantos e CrOnicas, Crdnicas de Ulio. Rio, secretaria de Educa~o e Cultura, 1961; AntOnio C4ndido, Varios
V. tambem., Poesia e Prosa, aos cuidados de J. Galante Sousa, Rio, Civ. 1
Escritos, S. Paulo, Duas Cidades, 1970; Jean-Michel Massa, A Juventude
Bras., 1957. A Ultima edi~ao de Obras Completas e a da Ed. Aguilar, de M. de Assis, Rio, Civ. Brasileira, 1971; Raimundo Faoro, M. A., a pirli.-
em 3 volumes (Rio, 1959). mide e o trapezio, S. Paula, C. E. Nacional, 1974; Roberta Schwarz, Ao
Sobre Machado de Assis: Jose Vedssimo, Estudos Brasileiros, II, Rio, vencedor as batatas, S. Paula, Duas Cidades, 1977.
Laemmert, 1894; Silvio Romero, Machado de Assis. Estudo Comparati- . Bibl~ografia~: Jose ~te de Souza, Bibliografia de Machado de
vo de Literatura Brasileira, Rio, Laemmert, 1897; Labieno (Lafayette Ro- Asszs, Rto, Instttuto Nac1ona1 do Livro, 1955; Fontes para o Estudo de
drigues Pereira). Vindiciae. 0 Sr. Silvio Romero, Critico e Fü6sofo (escr. Machado de Assir, Rio, I.N.L., 1958; Jean-Michel Massa, Bibliographie
descriptive, analytique et critique de Machado de Assis, 1957-58, Rio, Li-
194
19J
vraria Säo Jose 1965. Este UltiAJ.O tra~ho e o IV de uma serie que original da existencia operada pelo homem que, sc havia muito
J.-M. Massa pre~ende publicar abrangendo toda a bibliografia machadiana. perdera as ilusiies, ainda näo encontrara a forma ficcional de des-
nudar as pr6prias criaturas, isto e, ainda näo aprendera o manejo
O seu equilibrio näo era o goerheano - dos fortes e dos fe- do distanciamento. Quando o romancista assumiu, naquele li-
lizes, destinados a compor hinos de gl6ria a natureza e ao tempo; vro capital, o foco narrativo, na verdade passou ao defunto au-
mas 0 dos homens que, sensiveis a mesquinhez humana e a sorte tor Machado-Bras Cubas delega,äo para exibir, com o despejo
precaria do individuo, aceitam ppr firn ~a e outra como heran'a dos que ja nada mais temem, as pe>as de cinismo e indiferen>•
inalienavel, e fazem delas alimento de sua reflexäo cotidiana. com que via montada a hist6ria dos homens. A revolu,iio des-
O Machado que se indignara, quando jovem cronista libe- sa obra, que parece cavar um fosso entre dois mundos, foi um.a
ral, ante os males de uma politica obsoleta ( 139 ), foi mudando revolu,äo ideol6gica e formal: aprofundando 0 desprezo as idea-
nos anos de maturidade o sentido do combate, e acabou abra- liza,öes 'romanticas e ferindo no cerne o mito do narrador onis-
-;ando como fado eterno dos seres o convivio entre egoismos, ate ciente, que tudo ve e tudo julga, deixou emergir a consciencia
assumir ares de sabio est6ico na pele do Conselheiro Aires. nua do indivlduo, fraco e incoerente. 0 que restou foram as
Quer dizer: veio-lhe sempre do espirito atilado um näo ao mem6rias de um homem igual a tantos outros, o cauto e desfru-
convencional, um näo que o tempo foi sombreando de reservas, tador Bds Cubas.
·de mas, de talvez, embora permanecesse ate o firn como espinha Depois das felizes observa,öes de Lucia Miguel~Pereira ( 140 ),
dorsal de sua rela~o com a existencia. A genese dessa posi>äo ja nao se pode ignorar o vinco "machadiano" das obras ditas ro..
que vela as nega,öes radicais com a linguagem da ambigüidade, mänticas au da primeira fase: em oposi~äo aos ficcionistas que
interessa tanto ao soci6logo ao pesquisar os problemas de classe faziam a apologia da paixäo amorosa como unico m6vel de con-
do mulato pobre que venceu a duras penas, como ao psic6logo duta, o autor de A Mäo e a Luva e de Iaia Garcia, transvestindo o
para quem a gaguez, a ~pilepsia e a conseqüente timidez do es- problema pessool em personagens femininas, defende a ambi>äo
critor säo fatores que marcaram primeiro o rebelde, depois o de mudar de classe e a procura de um novo status, mesmo a
funcion<irio e o academico de not6ria compostura. Creio que custa de sacrificios no plano afetivo. A etica ainda idealista que
nada se ganha omitindo, por e?'cesso de purismo estftico, . as preside a esses enredos nao esbate, porfm, a enfase posta em si-
for,as objetivas que compuseram a situaräo de Machado de Assis: ~ua\öes onde logra exito 0 c3lculo, "a fria elei~ao da espfrito",
elas valem como o pressuposto de toda analise que se venha a como diz Guiomar em A Mäo e a Luva.
realizar do tecido de sua obra. Mas, em ultima instäncia, foi a E tambem verdade que os romances iniciais nos parecem
maneira pessoal de Machado-artista responder a essa situa,äo de fracos mesmo para o nivel de consciencia critica do autor na
base, dada, que explica muito do que ja se disse a respeito do epoca de redigi-los. E de 1878 a cerrada resenha do Prima Ba-
humor, do micro-realismo, das ambivalencias, da oculta sensua- silio de E,a, que nos da um Machado senhor de criterios segu-
lidade, das reitera~es, do ressaibo vernaculizante, da fatura bi- ros para a aprecia,äo da coerencia moral de personagens que
zarra de alguns trechos seus e, atf mesmo, daqueles "sestros pue- 11
ele ainda näo soubera plasmar. Mas livros como A Mäo e a Lu-
ris" que Ihe descobrira, irritado, Lima Barreto ao negar que o
tivera jamais por mestre de ironia .... , j va e I aitl Garcia tiveram um significado preciso na hist6ria do
romance brasileiro: alargaram a perspectiva do melhor Alencar
E tambem a visiio da obra machadiana em dois momentos, urbano no sentido de encarecer o relevo do papel social na for-
cujo divisor de <iguas seriam as Mem6rias P6stumas de BrOs 1

ma~äo da "eu„, papel que vem a ser aquela segunda natureza,


Cubas, compreende-se melho~ se atribuida a uma reestrutura~ao considerada em Iaia Garcia "täo legltima e imperiosa como a
( 189) "De um ato do nosso Governo s6 a China podera tirar Iic;ä:o. outra".
Nao e desprezo pelo que e nosso, nä:o e desdem pelo meu pafs. 0 pafs 0 roteiro de Machado ap6s a experiencia dos romances ju-
real, esse e bom, revela os melhores instintos; mas o pais oficial, esse e venis desenvolveu essa linha de analise das mascaras que 0 ho-
caricato e burlesco. A satira de Swift nas suas engenhosas viagen.s ca-
be•nos perfeitamente. No que respeita a politica nada temos a invejar
ao reino de Lilipute" (Ditlrio do Rio de Janeiro, 29-12-1861). ( 140) Ern Machado de Assis, cit„ cap. XI.

196 197
mem afivela a consciencia tä0Jirme111ente quc acaba por idcnti- Uma lnvisfvcl milo as cadeias dilui;
ficar-se com elas. Frio, inerte, ao abismo um corpo morto rui:
Acabara o sacriffcio e acabara o homem.
O salto qualitativo das Mem6rias P6stumas foi lastreado por
alguns textos escritos entre 1878 e 1880, verdadeiro intr6ito a
Enfim, a desforra do homem contra a Natureza e o gosto
prosa desmistificante do defunto-autor: o anticonto "Um cao de de destruir que sela o inferno da condi~äo humana säo os moti-
lata ao rabo", par6dia e liqüida~äo dos ~digos "asmaticos e anti- vos dos melhores poemas das Ocidentais, "Suavi mari magno„
teticos" que se perpetuavam com os Ultimos condores.; o dialogo
e "A mosca azul"; e jS que foi preciso citar versos pouco felizes,
"Filosofia de um par de botas", em que as classes e os ambien· leiam-se agora estes, merecidamente antol6gicos:
tes do Rio imperial estäo vistos por baixo e em tom de galhofa,
pois säo velhas botas lan~adas a praia que contam as andan~as Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,
dos antigos donos ate serem recolhidas por um mendigo; o "Elo- Filha da China ou do lndustäo,
gio da Vaidade", feito por ela mesma, embriiio da psicologia ex- Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada,
plorada nas Mem6rias, alem de conjunto de finos retratos mo- Em certa noite de veräo.
rais a La Bruyere. Enfim, a passagem de uma fase a outra en- E zumbia e voava, e voava, e zumbia,
tende-se ainda melhor quando lidos alguns poemas das Ociden- Refulgindo ao claräo do sol
tais, ja parnasianos pelo s6brio do tom e pela preferencia dada E da lua - melhor do que refuigiria
as formas fixas: em "Uma Criatura", em "Munda lnterior" e Um brilhante do Grio-Mogol.
no celebre "Cfrculo Vicioso", uma linguagem composta e fatiga-
da serve il expressäo de um pessimismo c6smico que toca Scho- Um polei que a viu, espantado e tristonho,
penhauer e Leopardi pelo retorno ao mito da Natureza madras- Um polea lhe perguntou:
ta ( imagem central no "Deürio" de Bras Cubas): "Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,
Dize, quem foi que to ensinou?"
Sei de uma criatura antiga e formidavel,
Que a si mesma devora os membros c as entranhas
Com a sofreguidäo da fomc insaci3vel. „
i Entäo ela, voando e revoando, disse:
- "Eu sou a vida, eu sou a flor

Na irvore que rebcnta o seu primeiro gomo


l Das grat'15, o padrio da eterna meninice,
E mais a gl6ria, e mais o amor."
..........................................
Vcm a folha, que lcnto e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo Entäo ele, estendendo a mäo calosa e tosca,
Afeita s6 a carpintejar,
Pois essa criatura csta em toda a obra: <:om um gesto pegou na fulgurante mosca,
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto; Curioso de a cxaminar.
E C desse destruir que as suas for~as dobra.
Quis ve-Ia, quis saber a causa do misterio.
Ama de igual amor o poJuto c o impoluto; E fechando-a na mio, sorriu
L.om~ c recom~ uma perpCtua hda,
De contente, ao pensar que all tinha um impttio•
.h sornndo obedece ao divmo· estatuto. E para Cll$8 se partiu.
l'u dulis que e a Morte: eu duCI quc e a vida ( Uma Criatura).
Alvo~o chega, cxamina, e parece
Nos sonecos de "O Desfecho", a desesperan"' vira um pro- Que se houve nessa ocup~o
meteismo as avessas: Miudamente, como um homem que quisessc
Dissecar a sua ilusäo .
.Prometeu sacudiu os bra~s manietados
E sUplice ped.iu a eterna compaixäo, Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Ao ver o desfilar dos skulos que väo Rota, ba~. nojenta, vil,
Pa.usadamente, como um dobre de finados. Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela
VISio fantistica c suti.l.

198 199
Hojc, quando elc al vai, <)$, 8loc c cardamomo ceira, observar com aten,äo o amor-pr6prio dos homens e o ar-
Na cab~. coni" ar tafftl,
Dizem que cnsandeceu, c quc nä:o sabe como bltrio da fortuna para reconstruir na fic,äo os labirintos da rea-
Perdeu a sua mosca azul. lidade. Pois, se a reflexiio se extraviasse pelas veredas da cien-
cia pedante do tempo, adeus aquele humor de Macbado que jo-
Foi esse o esplrito com que Machado se acercou da matC- ga apenas com os signos do cotidiano ...
ria que iria plasm:ar nos romances e contos da maturidade: um
permanente alerta para que nad~ de piel;as nada de enfatico nada Sem especular sobre o passive! alcance metafisico do bumor
de idealizante se pusesse entre o criador e' as criaturas. O mane- e aceitando, para hip6tese de trabalho, a defini,äo que lhe deu
j? do distan:ia~ento abr~-se nas Mem6rias P6stumas que, pela Pirandello, de "sentimento dos contrastes" ( enquanto o cömico
r1qu:~a. de tecn1ca~ ~~per1mentadas, ficou sendo uma espffie de
viria da simples percep,äo destes)' e passive! rastrear, a partir
breviar10 das poss1b1hdades narrativas do seu novo modo de co- das Mem6rzas P6stumas um processo de inversäo parodfstica
1

nhecer o mundo. Foi nesse livro surpreendente que Machado dos c6digos tradicionais que o Romantismo fizera circular duran-
descobriu, antes de Pirandello e de Proust, que o estatuto da te quase um seculo. Quem diz de uma paixiio de adolescente
personagem na fic,äo näo depende, para sustentar-se da sua fi- que "durou 15 meses e 11 contos de reis"; ou do espanto de
xidez psico16gic,:i, nem da sua conversiio em tipo; e ~ue o regis- um injusti\ado que "caiu das nuvens", convindo em que e sem-
pre _melhor cair delas que de um terceiro andar; ou ainda, da
tr~ das sensa,oes e dos estados de consciencia mais dlspares
fatutdade que "e a transpira~äo luminosa do merito", esta na
ve1cula de mo~o exemplar algo que esta aquem da persona: o
verdade operando, no cora,äo de uma linguagem feita de luga-
contlnuo da ps1que humana. Dai, a estrutura informal e aberta
res-comuns, uma ruptura extremamente fecunda, pois, rofda a
de.ssa .nova experiCn~ia na;rativa, tecido de lemhran~as casuais,
casca dos habitos expressivos, o que sobrevem e uma nova for-
fazt dzvers e cort~ digress1vos entre banais e dnicos da persona-
gem-autor, que nao transcende nunca a "filosofia" do bom sen-
ma de dizer a rela,äo do homem com o outro e consigo mesmo.
E, de fato, da pesquisa bem lograda das Mem6rias salram duas
so burgues congelada pela condi,äo irreversivel de defunto. Uma
cons7qüencia notavel para o miolo ideol6gico do romance e que obras-primas que deram a Machado de Assis um relevo na his-
t6ria do romance a altura de seus mestres europeus, Quincas
a urudade, 1'.'as~arada pe!a dispersäo dos atos e das palavras, ul-
trapassa os md1vfduos e acaba fixando-se em "nfveis impessoais: Borba e Dom Casmurro.
a socze~ade e as forr;as do inconsciente. Deslocapo, assim, o pon- · Ern Quincas Borba recupera-se a narra,äo em terceira pessoa
to de v1sta, um velho tema como o triangulo amoroso ja näo se para melhor objetivar o nascimento, a paixäo e a morte de um
carregara do pathos rom~ntico que envolvia her6i-heroina-o ou- provinciano ingenuo. Rubiäo, herdeiro improvisado de uma
tro, i;i~s dei~ara. vir 3. tona OS mil e um interesses de posii;äo, grande fortuna, cai nos la\'OS de um casal ambicioso; a mulher,
prestig10 e dmhe1ro, dando a batuta a libido e a vontade de po- a ambigua Sofia, vendo-o rico e desfrutavel, da-lhe esperan,as,
der gue mais profundamente regem os passos do homem em so- mas se abstem cautelosamente de realiza-las ao perceber no apai-
ciedade. Da hist6ria vulgar de adulterio de Bras Cubas-Virgf- xonado tra,os de crescente loucura. Ern longos ziguezagues se
ma-Lobo Neves a triste comedia de equivocos de Rubiäo-Sofia- väo delineando o destino do pobre Rubiäo e a vileza bem com-
-Palha ( Quincas Borba), e desta a trage.dia perfeita de Bentinho- posta do mundo onde triunfam Sofia e o marido; e nao sei de
-Capau-Escobar ( D. Casmurro) s6 aparecem variantes de uma quadro mais fino da sociedade burguesa do Segundo Reinado do
s6 e mesma lei: näo ha mais her6is a cumprir missöes ou a afir- que este, composto a modo de um mosaico de atitudes e frases
mar a pr6pria vontade; ha aponas destinos, destinos sem grandeza. do dia-a-dia. Desse mundo e expulso com met6dica dureza o
louco, o pobre, o diferente. As ultimas paginas do romance, con-
Machado teve mäo de artista bastante leve para näo se per-
tando o firn do nosso anti-her6i nas ladeiras de Barbacena, tra-
der nos determinismos de ra,a ou de sangue que presidiriam
zem na sua simplicidade patetica o selo do genio.
aos enredos e estofariam as digressöes dos naturalistas de estrei-
ta observancia. Bastava ao criador de Dom Casmurro como aos Dom Casmurro faz voltar o estilo das mem6rias, quase p6s-
moralistas franceses e ingleses que elegeu como leiW:a de cabe- tumas: "O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida e

200 201
restaurar na velhice a adolescCncia ...... Pois, senhor, näo consegui Nem 6dio ncm amor. U-sc, em Esati e Jac6, uma confis-
recompor o que foi nem o que fui .. Eu rudo, se o rosto e igual, säo de fatalismo que explica a indifcren~ professada nas frascs
a fisionomia e diferente. Se s6 me faltassem OS outros, va; um acima: "Näo se luta contra o destino: o melhor e deixar que nos
homem consola-se mais ou menos das pessoas que perdc; mas pegue pelos cabelos e nos arraste ate onde queira al~ar-nos ou
falto eu mesmo, e esta lacuna e rudo" ( Cap. II). Falta o ado- dcspenhar-nos_"
lescente Bentinho que, traido pela mulher amada e pelo melhor Menos do que "pessimismo" sistemS:tico, melhor seria ver
amigo, virou Dom Casmurro. Na verdade, um romance de Ma- como suma da filosofia machadiana um sentido agudo do rela-
• chado näo se deve resumir: e ~omo faze-lo se o que neles im- tivo: nada valendo como ahsoluto, nada merece o empenho do
porta näo e 0 fato cm si, mas a constela~äo de inten~ c de res- 6dio ou do amor. Para a antimetaflsica do ceticismo, a moral
sonancias quc o envolve? Ainda que Capiru näo houvcsse co- da indiferen~.
metido o adulterio ( e o romance näo da nenhuma prova deci- 0 itinerario das duvidas em Machado de Assis esta marca-
siva), rudo ncla cra a possihilidade do engano, desde os olhos do por alguns contos admiraveis, todos escritos depois das Me-
de ressaca ohl!quos e dissimulados, que se deixavam estar nos m6rias: "O Alienista", quase novela pela sua longa seqüencia
momentos de raiva "com as pupilas vagas e surdas", ate 8s mes- de sucessos, e um ponto de interroga~äo acerca das fronteiras en-
mas ideias que ja em menina se faziam "habeis, sinuosas, sur- tre a normalidade e a Ioucura e resulta em crltica intema ao cien-
das, e alcan~avam o firn proposto, näo de salto, mas aos salti- tismo do seculo; "0 Espelho" leva a corrosäo da suspeita ao
nhos". 0 romance näo padece do ritmo arrastado que em Quin- ämago da pessoa, mostrando exemplarmente como o papel so-
cas Borba täo bem se apegava ils idas e vindas de Rubiäo na sua cial e os seus slmbolos materiais ( uma farda de Alferes, por
lenta trajet6ria para a loucura e o abandono. A hist6ria de Ben- exemplo) valem tanto para o eu quanto a classica teoria da uni-
tinho e Capiru dispöe de narra~o mais encorpada; e o gosto de dade da alma; "A Serenlssima Republica", alegoria pol!tica em
marcar as personagens secundarias, como o tipo superlativo do torno dos modos de resolver ou de näo resolver o problema da
agregado Jose Dias, da-lhe um ar de romance de cosrumes que distancia entre o Poder e o Povo; "0 Segredo do Bonzo", apo-
nio destoa das referencias precisas que nele se fazem a atmos- logia da ilusäo como ilnico bem a que aspiram as gentes. E
fera e aos padröes familiares do Rio nos meados do seculo. haveria outros contos a citar, ohras-primas de desenho psicol6-
A atmosfera e os padröes continuaräo presentes nos Ultimos gico ("Dona Benedita", "A Causa Secreta", "Trio em La Me-
romances, Esau e ]ac6 e Memorial de Aires, em que ja se con- nor") e de sugestäo de atmosferas ("Missa do Galo", "Entre
sumou o maneirismo de um Machado clissico, _igual a si mesmo, Santos").
cada vez mais propenso a dissolvcr em meias-tintas e ironias pai- A fic>äo machadiana consurut, pelo equillbrio formal que
xäo e enrusiasmo: a figura absolutamente machadiana do Con- atingiu, um dos caminhos permanentes da prosa brasileira na
selheiro Aires, que une os dois romances, remata em postura es-- dire,äo da profundidade e da universalidade. Mas näo deve ser
t6ica a serie dos desenganados aberta por Bras Cubas: transformada em ldolo; isso näo conviria a um autor que fez da
literarura uma recusa ass!dua de todos os mitos.
Eu, sc fosse capaz de 6clio -- diz o Consdheiro - era assim
que odiava; mas cu nio odeio nada nem ningu6n, - perdono 11
tutti, como na 6pera.
Raul Pompeia
E falando de uma mulher capaz de inspirar amor: "Nio Rau! Pompeia ( 141 ) partilhava com Machado o dom do me-
pensei logo em prosa, mas em versa, e um versa justamente de morialista e a finura da observa>äo moral, mas no uso desses do-
Shelley, que relera dias antes, em casa, tirado de uma das suas
estancias de 1821: ( t4t) RAuL D'AVILA PoMPEIA (Angra d~s. Reis, Prov. do Rio de
Janeiro, 1863 - Rio, 189?): Estudou _no ~I:gio Ped!° II e bachare-
1 can give not what men call love. lou-se pela Faculdade de Dire1to de Rec1fe; 1n1c1ara, porem, seu curso em

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tes deixava atuar uma tal carga d~ passionalidade que o estilo limiar da literatura de confidencia e evasäo que marcou quase
de seu unico romance realizaao, 0 Ateneu, mal se pode definir, toda a prosa romantica. Mas ela vai alem da praj°'äo: temati-
em sentido estrito, realista; e se j3 houve quem o clissesse im- za os escuros desväos da mem.6ria em torno de ambientes, cenas,
pressionista, afetado pela plasticidade nervosa de alguns retratos personagens, e molda as estruturas obtidas no nivel da palavra
e ambienta~öes, por outras razöes se poderiam nele ver tra~os descritiva, narrativa, dialogada. A distancia que vai da vida a
expressionistas, como o gosto do m6rbido e do grotesto com que atte e palmilhada pelo estilista que formou seus ideais artlsticos
deforma sem piedade o mundo, do adltlescente. a sambra de Flaubert, dos Goncaurt e dos parnasianos. E vem
Que o Iivro guarde estreitas rela,öes com o passado do au- aa caso lembrar que Pompeia, habil desenhista, foi tambem au-
tor, parece hoje verdade assente; 11 0 romancista se vinga" - e tor das Canföes sem Metro, ensaio estetizante de prosa poCtica,
a tese de Mario de Andrade; e a sondagem psicanalitica näo he- que resultou menos rica do que a linguagem do Ateneu, mas vale
sita em detectar 0 complexo edipiano no afeto do menino ser- como prova de um extremo cuidada no tra,o das formas.
gio pela mulher de Aristarco, o diretor do "Ateneu", execrado
como o pai tirano; nem, por outro Iado, Pompeia ocultou o jo- 0 limite dessa aten,äo II frase pela frase e da esfera micro-
go masculino-feminino das rela,öes entre os alunos em plena cri- estillstica e certo intumescimento das metaforas e das slmiles, 0
se da puberdade. Mas as contribui,öes de conteudo que a psi- domlnio do "coma", no dizer de Maria de Andrade. Colocan-
canatise faz a leitura da ramance näo devem induzir a tenta,äo da-se na perspectiva dessa paetica, Rau! Pampeia julgava Ma-
de transforma-la em mero exemplario de recalques e neuroses. chado um "escritor corretQ e diminuido". . . No Ateneu„ a capta-
Rau! Pompeia era artista, e artista conscio da seu oficia de ,äo dos ambientes e das pessaas näa dispensa o expressionismo
plasmador de signos. Ficasse a sua obra no plano projetivo das da imagem:
angllstias e no seu desafogo, por certo näo teria ultrapassado o As mangueiras, como interminiiveis serpentes, insinuavam-sc
pelo chäo.
S. Paulo, onde militou nos movimentos abolicionista e republicano. Ocupou As crian)as { ... ) , seguindo Cm grupos atropelados, como car-
viirios cargos pliblicos: diretor do Ditirio Oficial, professor de Mitologia da ndros para a matan<;a.
Escola Nacional de Belas~Artes, diretor da Biblioteca Nacional, posto de
que foi exonerado por Prudente de Morais devido a ora<;äo fU:nebre qu~ Permitia, quando muito, que R6mulo a seguisse cabisbaixo c
pronunciou junto ao tlimulo de Floriano Peixoto, exit1tando este em detr1- mudo, como um hipop6tamo domesticado.
mento daquele ( 1895). Iniciou-se nas letras muito cedo, com Uma Trage- Eie gozava como um cartaz que experimentasse o cntusiasm.O
dia no Amazonas ( 1880), novela. que, apesar de imarura, jS. refletia um de ser vermelho ( 142) .
temperamento angustiado em busca de uma tradui;iio estilistica impressio-
nista. Essa mesma inquietude, trai;o fundamental da sua constituii;äo, levou-o As aproximac;öes säo, em geral, violentas e, no caso das pcs-
a continuas polemicas, ao duelo com Bilac e, finalmente, ao suicfdio, aos
trinta e dois anos de idade, na noite de Natal de 1895. Obras: Can~öes sem soas, depressivas. A norma e o caricato, revelando o quanto de
Metro, 1881; 0 Ateneu, 1888. Ainda näo se editaram em livro: Microsc6- traum.itico deve ter marcado as experifncias que lhes ficavam
picos, contos publicados na Comedia, de S. Paula; Agonia, romance (_ms.); subjacentes.
Alma Morta, meditai;öes, publ. na Gazeta da Tarde, em 1888; As J6zas da
Coroa, novela saida na Gazeta de Noticiqs. Consultar·. Araripe Jr., "Raul "Vais encontrar o mundo", disse-me meu pai a porta do
Pompeia e o Romahce Psicol6gico", ensaio escrito em 1888-89, agora em Ateneu. "Coragem para a luta." E tudo a que segue sublinha
Obra Critica, Rio, Casa de R. Barbosa, 1960, vol. II; El6i Pontes, A Vida a ruptura com a vida familiar, definida camo "conchego placen-
Inquieta de R. Pompeia, Rio, J. Olympia, 1935; M.lrio de Andrade, As-
pectos da Literatura Brasileira, Rio, Americ-Edit., 1943; J. Lins do Rego, tario" e "estufa de carinho". 0 dada original da ruptura foi
Confer!?ncias no Prata, Rio, CEB, 1946; LUcia Miguel-Pereira, Prosa de matriz de infelicidade para o adulto. Rau! Pampeia-Sergia näo
Ficr;äo, cit.; Temfstocles Linhares, Apresenta~äo a Raut Pompeia, Trechos perdoou a vida o ser lan,ada II indiferen,a cruel da escala, e a
Escolhidos, Rio, Agir, 1958; Maria Luisa Ramos, Psicologia e Estetica de sociedade com os mais fortes. 0 seu unico momento de aban-
R. PompCia, B. Horizonte, tese, 1958; Eugenio Gomes, Visöes e Revisöes,
Rio, INL, 1958; Ledo Ivo, 0 Universo PoCtico de R. Pompeta, Rio, Livr.
S. Jose, 1963; Flävio Loureiro Chaves, 0 Brinquedo Absurdo, S. Paula,
Polis, 1978. ( 1-12) Cf. 0 ensaio de Artur de Alme,ida Torres, Rau/ Pomptia (es-
tudo psico-estilistico), Niter6i, 1968.
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dono vira tarde, quando Ema 0 ae?ftrioha J convalescente J isto
quando 0 sacriflcio da vida social, compc;ti~iva e ma,. e' pos.to de
!ado para näo mais voltar. A cura de Serg10 se s~!l!'lra o mc~~­
dio da escola, fecho do romance. Tambem o swcrda Pompc!ia
näo aceitou o fardo excessivo que lbe impunham as palavras do
pai - "Coragem para a luta". 0 •IQ de incendiar o colegio e
e J
1 teza, de fraude. Acumulavam-sc valores, circulavam, frutificavam.;
conspiravam os sindicatos, arfava o fluxo, o refluxo das altas e das
deprecia<;öes; os inexpertos arruinavam-se, e havia banqueiros atila-
dos, espapando banhas de prosperidade.

Se, na teia da socialidade, tudo se prende ao prestigio da


' riqueza, que de fora vem precisar os contornos das diferen~as in-
hom6logo ao suiddio: um e obtro significam uma recusa selva- 1 dividuais, na da vida afetiva, as matrizes dos gestos e das pala-
gem daquela vida adulta que come~a no internato. vras säo a agressividade e a libido. E !er a descri~äo da fauna
A descri~äo da experifficia colegial e feita em termos de
requisit6rio: a crian~a que subsiste no ~ome~ ~ o. promoto~ e, ~ que rodeia Sergio: destrulda a fachada que a cerimi)nia inicial
levantara, o menino percebe espantado uma divisäo entre fortes
vantagem do romancista, pode ser tambem o JWZ final, mampu- e fracos, que a crise pubertaria vai colorir de matizes sexuais.
lador do apocalipse. No primeiro plano de ataque, a fachada As lideran~as, ja coadas pelo poder da riqueza, se faräo por cri-
composta e brilbante do processo educativo, on?e se pode ver terios musculares ou et3rios: os mais rijos, os mais velhos e ca-
em miniatura o decoro das institui~öes do Imper10 que. o arden- lejados t'em condi>öes de dominar os novatos. "Tudo conspira
te republicano Raul Pompeia entäo combatia:
Afamado por um sistema de D.utrida reclame, man~do por ~
diretor que de tempos em tempos reformava o esta!'dCCllD.ento,. P~­
• contra o indefeso".
Mas o tragico e que a escola, como a sociedade, na sua di-
tando-o jeitosamente de novidade, como os negocm.ntes que liqw- nämica de aparencias, finge ignorar a iniqüidade sobre que se
:r dam para recom~ com artigos da Ultima remessa . .. funda. Tomando hipocritamente o dever-ser como a moeda cor-
rente e o que e como exc~äo a ser punida, a praxe pedag6gica
E sempre o vulto de Aristarco, medalbäo con•umado da arte
näo baixa o tom virtuoso que se ouve nos discursos de Aristarco
'1 ,, da pose: e se perpetua nas maximas gravadas nos ladrilbos do colegio.
contempllivamos ( eu com aterrado espanto}, distendido cm gran-
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deza epica 0 homem-sanduiche da educacäo nacional, lard~do en- Säo a eterna "boa consciblcia" e pairam acima da fealdade dos
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tre dois monstruosos cartazes. As costas, o seu passado tncalcula- ge~tos violentos ou chulos que formam a rotina do meio adoles-
j vd de trabalhos; sobre o ventre, para a frenie, o seu futuro: a re- c~nte. · Mas, como todo sistema sempre ii beira do desequillbrio,
clame das imortais projetos. a escola tera suas valvulas de escape. A figura agoniada de Fran-
Mas a substancia o absolu da vida burguesa, de que fala co, o rebelde castigado e reincidente, e um exemplo de bode cx-
Balzac, e 0 dinheiro. Säo cömicos OS momentos em que Aristar- piat6rio, no qua! todos exorcizam a ma conscietlcia que os r6i
co gradua os olliares, os sorrisos, as predil~öes no si.st~a de em meio a tantas contradi~öes. . . Corno os criminosos e as
chefia, e ate mesmo a escolba do futuro genro, pelos cntenos de meretrizes, que e preciso apontar a repulsa geral, para de algum
guarda-livros como a pontualidade nos pagamentos: modo esconjurar as tenta~öes de 6dio e de perversäo que asse-
diam a alma do homem comum, Franco deve ser escarmentado
As vezes uma crian~ sentia a alfinetada no jcito da mäo a
beijar. Safa in<lagando consigo o'·motivo daquilo, que näo achava
pelo colegio em peso:
em suas contas escolares. . . 0 pai estava dois ttimestres atrasado.
Num suplfcio de pequeninas humilha~ cru€ts, agachado, aba-
tido sob o peso das virtudes alheias mais do que das pr6prias .culpas,
A escola e microcosmo em varios nlveis. No da dir~o, exemJ?lar perfeito de deprava~o oferccido ao horror santo dos
onde a mola do divino Aristarco e o dinheiro; mas tamhem en- puros •..
tre os alunos cujas atividades tecem uma rede de interesses eco- - Nenhum de n6s e como ele" - 6 o alfvio dos alunos reuni-
nömicos: dos a. hora cm que se Ieem. os boletins de notas.
As especula~es moviam-se como o bem. conhecido offcio das
corretagens. Havia capitalistas e usur3rio~, fin6rios e papalvos.- ..
A principal moeda era o selo. No comCroo do selo C que fetVIa a E, pormenor sintomatico, e com Franco que Sergio se iden-
agita~äo de emp6rio, contratos de cobi~, de agiotagem, de cspc:r- tifica em uma noite de pesadelos. E e sob os len~6is do reprobo
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morto quc se achara a irnagcn1 de Santa Rosalia, ja descafda na Aluisio Azevedo e os principais naturalistas
devoc,.-äo de SCrgio.
'l'anto o csqucma ron1anesco, funclado na mem6ria <los epi· Ern Aluisio Azevedo ( 143 ) a influencia de Zola e de ~a e
~Odios mJis crutis da vida colcgial, como os tons sornbrios que palp<ivel; e, quando näo se sente, e mau sinal: o romancista vi-
cobrem os perfis adolescentes, configuram o munde de ressen· rou produtor de folhetins. Alias, trata-se de um caso raro e pre-
tiniento en1 que estava mergulhada a ~ersonalidade de Pompeia; ( 143) ALuis10 TANCREOO GoNc;ALVES DE AzEvEDO (S. Luis do Ma-
ao contr<irio Jos livros de l\laC:hado que, no esgan;ado da linha ranhäo, 1857 - Buenos Aires, 1913). Filho do vice-cünsul ponugui:s em
Sao Luis, ai fez os estudos secundirios. Cham.ade pelo irmäo, o come-
narrativa e no l.inzenro da linguagem, traem um esfori;o vigilan· diOgrafo Artur Azevedo, foi para o Rio de Janeiro onde trabalhou como
te Je distB.ncia e rneJiai;Jo. caricaturista nas redao;öes de jornais politicos e humorfsticos, 0 Meque·
trefe, Figaro, Zig-Zag. Com a morte do pai voltou a S. Luis. Escreve para
Raul l_)omptia ni.io deixou ao arbitrio dos futuros interpre· a imprensa da oposio;äo crönica.s de s<itira ao conservantismo do meio ma-
tes o trabalho de decifrar o sistema de idtias que se poderia de· ranhense. Depo1s de uma tentativa fruste de romance sentimental (Uma
preender do Ateneu. Eie mesmo o expöe pela boca do Dr. Clau- Llgrima de Afulher, 1880), publica sua primeira obra de relevo, 0 Mulato
dia, a 4uem faz profcrir naJa menos que rres conferencias: a ( 1881), em que agride o preconceito racial, corrente nas familias ricas da
provincia. O livro, bem recebido na Corte como exemplo de Naruralismo,
primeira sobre cultura brasileira, em que o republicano näo per· irrirou os comprovincianos a ponto de o escritor resolver mudar-se para o
de o ensejo de fustigar o "pdntano das almas" da vida nacional, Rio. De 1882 a 1895 vive exclusivamente da pena. Escreve sem inter-
sob a "tirania male de um tirano de sebo"; a segunda sobre a rup~äo romances, contos, operetas, revisras teatrais, alternando p:iginas de
arte, entendida prt-freudianamente como ''educai;äo do instinto intenso e s6brio realismo (Casa de Pensizo, 1884; 0 Cortifo, 1890) com
sexual" e nietzscheanamente como "expressäo dionisfaca": folhetins romä.nticos ( Mistirios da Tiiuca, chamado em 2.~ ed., Girändola
de Amores, 1882; A Mortalha de Alzira, 1894). \ 1 encendo, em 1895, con-
"Cruel, obscena, egofsta, imoral, indümita, eternamente selva- curso para c6nsu1, percorreu a carreira diplom<itica servindo em Vigo, N:lpo-
gem, a arte e a superioridade humana - acima das preceitos que ies, Tüquio e Buenos Aires, onde morreu, aos cinqüenta e cinoo anos de
se combatem, acima Jas religiües que passam, acima da ciencia idade. Durante esse periodo final näo se dedicou a literatura. Outras
quese corrige; embriaguez como a orgia e como o extase." En- obras: Mem6rias de um Condenado, 1882 (reed.: A Condessa Vesper),
Filomena Borges, 1884; 0 Homem, 1887; 0 Coru;a, 1890; 0 Esqueleto
fim, a terceira, que mais de perto afeta o nU.cleo ideol6gico do (em colaborao;.äo com Bilac), 1890; 0 Livro de uma Sogra, 1895; Dem6-
romance, aponta os vi'.nculos que prendem a l~scola a sociedade, nios (contos), 1893; 0 Touro Negro (crönica), 1938. Para o teatto com-
fazendo refluir desta para aquela a lei da selva, a sele,ao dos mais pös. em colabora~äo com Artur Azevedo: Os Doidos ( oomedia), 1879;
fortes: "Näo e o internato que faz a sociedade, o internato a Flor de Lis (opereta), 1882; Casa de Orates (comedia). 1882; Frivnark
reflete. A corrup<;ao que ali viceja vai de fora." E esta pe<;a (revisra), 1888; A RepUblica (revista), 1890; Um Caso de Adultirio (co-
media), 1891; Em Flagrante (comedia), 1891; e, em colabora~o com
de darwinismo pedag6gico: Emilia Rouede. Venenos que Curam (comedia), 1886; 0 Caboclo (dra-
ma ), 1886. Consultar: Araripe Jr.: "O Mulato", em Obra Critica, Rio,
A educa~äo näo faz as almas: exercita-as. E o exercfcio moral Casa de Rui Barbosa, vol. I, pp. 117-122; A Te"a de Zola, e 0 Ho-
näo vem das belas palavras de virtude, mas do atrito com as cir- mem, de Aluisio Azevedo, em Obra Critica, cit„ II, pp. 25-90; Valentim
cunstäncias. A energia para afronta-Jas e a heran~a de sangue das Magalhä:es, Escritores e Escritos, Rio, Domingos de Magalhäes, 2.~ ed.,
capazes de moralidade, felizes na loteria do destino. Os deserda- 1894; Jose Verissimo, Estudos BrasiJeiros, Rio, Laemmert, 1894, vol. II,
dos abatem-se. pp. 2-41; Alcides Maya, Romantismo e Naturalismo atraves da Obra de
Aluisio Azevedo, Porto Alegre, Globo, 1926; Olivio Montenegro, 0 Ro-
mance Brasileiro. Rio, Jose Olympia, 1938; Alvaro Uns, Jornal de Criti-
Näo fora o seu talento excepcional de artista, Raul Pom- ca, 2.· serie. Rio, Jose Olympio, 1943, pp. 138-152; Josue Montello. His-
peia teria naufragado no puro romance de tese. Aas naturalis- t6rias da Vida Litertiria, Rio, Nosso Livro, 1944; LUcia Migud-Pereira,
tas tipicos, que lhe eram inferiores como estilistas, näo foi pou- Prosa de Fic(bo, cit., pp. 138-155; Raimundo de Menezes, Aluisio Azeve-
pada a armadilha: a obra de Aluisio ( com exce,äo do Cortü;o), do_ Uma Vida de Romance, S. Paula, Martins, 1958; Eugenio Games, As-
pectos do Romance Brasileiro, Bahia, Progresse, 1958; Josue Montello,
a de Ingles de Sousa, a de Adolfo Caminha e a de JUiia Ribeiro Aluisio Azevedo - Trechos Escolhidos, Rio, Agir, 1963; Affonso Romano
cairam sob o peso de esquemas preconcebidos, pouco vindo a de Sant'Anna, /uuilise Estrutural de Romances Brasi/eiros, Ed. Vozes, 1973;
salvar-se do ponto de vista ficcional. Antönio C.ändido, "A passagem da dois ao tres", in Revista de Hist6ria,
USP, 1974, n.' 100.
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coce de profissionaliza~äo- Iiterari~~ • '' Alufsio Azevedo - disse minucias descritivas näo da para pör de pe uma personagem ou
Valentim Magalhäes - e no Brasil talvez o ünico escritor que uma situa,äo ( 145 ) e o malogro estetico de boa parte do roman-
ganha o päo exclusivamente a custa da sua pena, mas note-se que ce naturalista deve-se predsamente a falta daquela coerencia ais-
apenas ganha o päo: as letras no Brasil ainda näo däo para a tencial mlnima que ja Machado de Assis redamava de ~ cm
manteiga" ( 144). Essa luta com a pena pelo päo certamente expli- crltica ao Primo Basilio e que Zola augurara ao atribuir ao ro-
ca o desn1vel entre seus roman,ces .seril!s tO Mulato, Casa de Pen- mancista o papel de "mostrar pela experiencia como se compor-
sao, 0 Cortü;o) e OS pastelöes melodramaticos de "pura inspira- ta uma paixä.o em um meio social" ( 146).
,.0 industrial", no dizer de Jose Ver!ssimo ( Condessa Vesper, Gi-
randola de Amores, a Mortalha de Alzira . .. ) . E talvez ii mesma
A leitura de 0 Mu/ato, que passa pelo primeiro romancc na-
turalista brasileiro, da uma boa visäo do meio maranhensc do
causa se possa atribuir o estranho abandono das letras que se lhe tempo, mas näo cumpre a outra exigencia de Zola, a de pintar
nota a partir dos quarenta anos, quando entra para a carreira como se comporta uma paixäo. 0 protagonista, o mulato Rai-
diplomatica e se elege membro da Academia recem-fundada. mundo, ignora a pr6pria cor e a condi~äo de filho de escrava:
Seja como for, nos seus altos e baixos, Alufsio foi expoente näo consegue entender as reservas que lhe faz a alta sociedade
de nossa fic,äo urbana nos moldes do tempo. 0 habil traceja- de Säo Luls, a ele que voltara doutor da Europa. Alulsio cumu-
dor de caricaturas nas falhas politicas do Rio precedeu o autor la-0 de encantos e de poder sedutor junto as mulheres e o faz
do Mulato e ensinou-lhe a arte da linha grossa que defarma o amado e amante da prima, Ana Rosa, cuja famllia da exemplo
corpo e o gesto e perfaz a tfcnica do tipo, inerente a concep~äo do mais virulente preconceito. A intriga, romli.ntica pelo tema
naturalista da personagem. Hoje e facil torcer o nariz ii estreite- do amor que as tradi~es impedem de se realizar, admite um
za latente nessa forma de retratar os homens: saciaram ad nau- corte mais ousado no trato das rela~öes entre Raimundo e Ana
seam as galerias de fantoches que os maus disdpulos de E,a lan- Rosa. 0 final de 6pera, com a fuga dos amantes malograda pe-
c;aram 3.s mancheias em romances e novelas sem conta, näo raro lo assassfnio do mulato, volta a colorir a hist6ria de um roman-
combinando com provinciano requinte os tipos "mfdios" e a des- tismo gritante que Aluisio quis in. extremis sufocar, mudando a
cric;äo de ambientes "dpicos". Mas o abuso näo invalida o uso: ardente herolna em pacata mulher de um tipo imposto pela fa-
em face de certa vaguidade romli.ntica no tfato das personagens, milia e que sempre lhe parecera o mais s6rdido dos homens. 0
fai salutar o deslocamento do eixo para o ho!llem comum, desfi- autor, desejando provar de mais ( no caso o preconceito vivo nas
gurado mais do que se acreditava, pelos revezes da heranl'a bio- famllias brancas e a oscila~äo psicol6gica da mulher), desfigura
l6gica, da vida familiar, da profissäo. Se a 6tica naturalista capta o par amoroso, emboneca o protagonista e deixa o leitor no es-
curo quanto a marca~äo de um possfvel "caso de temperamento"
de preferencia a mediocridade da rotina, os sestros e mesmo as
que nas mäos de um Zola poderia render a figura de Ana Rosa.
taras do indivfduo, ela näo sera por isso menos verossfmil que a Näo falha, porem, na satira dos tipos da capital maranhense: o
op~äo contr3.ria. das romänticos; e, 0 que mais importa, e täo
comerciante rico e grosseiro, a velha beata e raivosa, o cöncgo
significativa quanto ela, pois uma e outra säo sintomas dos im- relaxado e conivente. Por outro lade, embora se possa entrever
passes criados no esplrito do ficcionista quando se abeira da con- a sombra de E,a no meneio da frase descritiva que resvala qua-
dis:äo humana enleada na vida sacial. Os momentos de maior se sempre para o grotesco, resta o mordente pessoal de A!ufsio,
fermentac;äo desta nos meios citadinos foram pontuados por uma entä:o em luta aberta contra o conservantismo e as manhas cleri-
vigorosa narrativa realista de tintas satfricas: o Satyricon de Pe- cais que entorpeciam a sua provincia.
trönio, o Decameron de Boccaccio, as hist6rias de Diderot, os ro~ 0 merito do narrador que saiu de 0 Mu/ato estaria em sa-
mances de Thackeray e Balzac, os contos de Maupassant e de ber aplicar a outros ambientes o dom de observa~äo de que fize-
Tchekov ... E ja se viu que ha tipos e tipos: a mera soma de
(145) V. Nota (136). Do mesmo Luklics, o ensaio "Narrar ou Des-
crever'', em Ensaios sobre Literatura, Rio, Civilizar;äo Brasileira, 1965.
( 144) Valentim Magalhäes escrevia de Lisboa, onde editou o opUs- (146) Ern Le roman expbimental, 4e. Cd„ Paris, Charpentier, 1880,
culo A Literatura Brasileira, 1870-1895, a que pertence o passe citado. p. 24.

210 211
ra prova. Ai estäo o valor e·-o limife de Aluisio: o poder de fi- E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidadc quen-
te e lodosa, com~ a minhocar a fervilhar a crescer um mundo
xar conjuntos humanos como a casa de pensäo e o cortii;o dos uma coisa viva, uma gera~o, que p~recia 'brotar espontänea all
romances homönimos constitui o seu legado para a fi~äo brasi- mesmo, daquele lameiro e multiplicar-se como Iarvas no esierco
leira de costumes; e pena que 0 peso das· teorias darwinistas 0 (cap. 1). ·
tenha impedido de manejar com a mesma destreza personagens e ~ corridas atC a venda reproduziam-se, transformando-se num
enredos, deixando uns e outros na_ dependencia de esquemas ca- venrunar constante de form:igueiro assanhado ( Cap. III).
nhestros. •
Nas alusöes a fatos e a tipos isolados, o processo reaparece:
Ern Casa de Pensäo, a vida airada do estudante que vern do
· . . depois de correr meia Iegua, puxando uma carga superior
Norte para o Rio, o arnbiente pegajoso da pensäozinha onde se As suas forcas, caiu morto na rua, ao lado da carroc;a, estrompado
instala, enfim o rumor das jornais e da boemia em volta da caso como uma besta (Cap. 1).
escandaloso em que se envolve, formam o coro, estruturalmente Dai a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente·
superior ao desenho, fl3.cido, da protagonista, cujas fraquezas sio uma aglomerac;äo tumultuosa de machos e femeas. '
A primeira que se pös a lavar foi a Leandra por alcw:iha a
atribuidas desde as prirneiras paginas a heran•• do sangue. "Machona", portuguesa feroz, berradora, pulsos ca'betudos e gros-
S6 ern 0 Corti(o, Aluisio atinou de fato corn a f6rrnula que sos, anca de animal do campo ( Cap. III).
se ajustava ao seu talento: desistindo de montar um enredo em
funr;äo de pessoas} ateve-se a seqüWcia de descrii;öes muito pre- A franzina Nenen escapa "como enguia" dos rapazes· Pau-
cisas onde cenas coletivas e tipos psicologicamente prim3.rios fa- la, a cabocla mandingueira, tem "dentes de cäo"· a mul~tinha
zem, no conjunto, da cortif;o a personagem mais convincente do Florinda, "olhos luxuriosos de macaca"; e no cav~queiro portu-
nosso romance naturalista. Existe o quadro: dele derivarn as gues, 0 peSC°'O 0 de !OurO e OS oJhos humi!des "corno OS de um
figuras. boi de carga". '
Ja houve quem louvasse Alufsio como um dos raros roman- A redu,äo das criaruras ao nfvel animal cai dentro dos c6-
cistas de massas da literatura brasileira ( 147 ). Cabe perguntar ~igos anti-rornonticos de despersonaliza,äo; rnas 0 que uma ana-
de que forma a consciencia do escritor percehia os grupos huma- lise rnais percuciente atribuiria ao sisterna desumano de traba-
nos. Assumindo uma perspectiva do alto, de narrador oniscien- lho, c:i:ie _deforrna OS 9ue vendern e Ulcera OS que COrnprarn, a
te, ele fazia distini;äo entre a vida dos que j<i venceram, como c?ns;1~nc1a do nati:ralista, aparece corno um fado de origem fi-
Joäo Romäo, o senhor da pedreira e do corti,o, e a labuta dos ~10!0~1ca, po~t'.'11.~? tnapela".el. Corno da carater absoluto ao que.
humildes que se exaurern na faina da pr6pria sobrevivencia. Pa· e efe110 da 1mqu1da<je social, o naturalista acaba fatalmente es-
ra OS primeiros, 0 trabalho e
uma pena sem remissäo, pois a a
tendendo a amargura da sua reflexäo pr6pria fonte de todas as
fome de ganho näo se sacia e o frenesi da lucro - "uma moles- suas leis: a natureza hurnana afigura-se-lhe urna selva selvaggia
tia nervosa, uma loucura", como a que empolga Romäo - arras- onde os fortes cornern os fracos. Essa, a rnola do Corti(o. Essa
ta 3.s mais s6rdidas privai;öes, a uma especie de ascese ä.s avessas, a explica~äo das vilanias e torpezas que "naturalmente" deve~
sem que um limite "natural" e "humano" venha dar ao cabo a povoar a existencia da gente pobre. E essa tambem a causa do
desejada paz. J3. nos pobres, na "gentalha''; como os chama, o desfecho, que se quer tragico, rnas e apenas teatral.
trabalho e o exercfcio de uma atividade cega, instintiva, näo sen- Descendo a casos fisiol6gicos em 0 Livro de uma Sogra,
do raras as comparai;öes com vermes ou com insetos, sempre que ou perdendo-se ern simplisrnos de caracteriza,äo. moral, em 0
importa fixar o vaivem dos oper<irios na pedreira ou das mulhe- Coruja, o rornancista näo soube levar a efeito um vasto plano
res no cortii;o. Os textos abaixo ilustram a obsessäo do germi- narrative que viria a constituir-se na comedia hum.ana do Se.
nal, herdada do rnestre frances: gundo Reinado, sob o tirulo geral de Brasileiros Antigos e Mo-
dernos. A serie ficou no primeiro volurne, justamente 0 CortifO.
0 primeiro romance, 0 Cortif(), faz-nos ver um colono anal-
( 147) LU.da Miguel-Pereira, op. cit., p:ig. 157. fabeto, que de Portugal vem com a mUlher trabalhar no Brasil, tra-

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zendo consigo uma_ filh~hA de d<J'i's anos. Essa criam;a vem a ser fazem-no contempodneo dos regionalistas, Taunay e Friinklin Ta-
a menina do cortifo, um · dos tipos mais accntuados da obra, o vora, mas Inglf:s de Sousa j<i mostrara nessas p<iginas de juven-
qual sera ligado imediatamente a um tipo novo, o tipo do vendeiro tude um temperamento frio, inclinado ao exame dos "fatos" co-
amancebado com a preta. 0 colono deixa a mulher por uma mula-
tinha, e deste novo enlace surgem 0 Feliiardo e A Loureira: par- mo convinha ao futuro positivista, sern qualquer centelh; de
ticipa destc grupo o tipo do capad6cio, o pai-avß do capoeira que paixäo rom3.ntica pela materia da sua arte: exatamente o oposto
mais tarde ~ chefc de malta e foJVI: ativa nas elei~. Ligade a do autor do Cabeleira.
este chcfe de malta estii um, .tipo <lu~coiitrasta com de: ~ o antigo
Conselheiro de Estado formado durante a ·minoridade do sr. D. Tudo fazia dele o compositor ideal de um caudaloso roman-
Pedro II e graduado rielos seus servii;os l causa da rcvolucä:o mi- ce de tese, como 0 Missiontirio, em que se expöem os minimos
neira. Do Conselheiro nasce A Famllia Brasileira, composta de qua- aspectos da "evolu~äo moral" do sacerdote e näo se poupa ao
tro figuras, a saber: o chcfe1 Conselheiro, de cinqücnta e tantos anos, leitor nenhum detalhe da sua ascensao e queda na selva ama-
conservador e Urico; a esposa deste, senhora de 40, muito apaixo- zönica.
nada pela Hist6ria dos Girondinos de Lamartine, sonhando reformas
e lamentando niio ser homcm para desenvolver o quc ela julga S6brio e meticuloso em excesso, näo logra, por isso mesmo,
possuir de ambiciio polftica no seu espfrito; a filha, moea de vintc transmitir o sentimento de conjunto da paisagem tropical. ~ no·
anos, priitica e interesseira, vendo sempre as coisas pelo prisma das ta1=iio feliz de Sergio Buarque de Holanda que Ingles de Sousa
comodidades e das conveniCncias sociais; c o filho, rapaz de 16 nunca foi espontaneamente um paisagista: "E sensivel seu des·
anos, presumido, fil6sofo e muito convencido de que esti senhor
de toda a ciCncia de Auguste Comte. concerto todas as vezes em que se trata de descrever esse mun-
de cheio de misterios e ende a vida civil parece mero acidente. „
~ sobre esta familia que tCm de agir o Felizardo e a Loureira,
~ nesta famHia que a Loureira vai buscar o amante, o fil6sofo de 0 fundo vinco urbane que marcava o positivismo de In-
16 anos, a quem nä:o valera toda a teoria cientffica de Comte e gles de Sousa niio conseguia, de fato, abrir-se a cor e ao perfu-
Spencer, e que dar{ um dos bilontras da Bola Preta; enquanto que me da vida selvagem, cor e perfume que Alencar, com todas as
o Felizardo, conseguindo casar com a filha do Conselhe~o, e con- suas distot\'.Öes, captara tantas e tantas vezes. J:l a mornidä:o do
seguindo, uma vez rico, fazer carrCira politica, vai influenciar nos
dcstinos do Brasil e comprometer a situacäo do monarca, como sc vilarejo de Silves e a variedade das suas figuras provincianas en-
verii no Ultimo livro ( 148), contraram a versä:o justa na prosa lenta e unida do escritor pa.
raense. Nessa miUda reprodu~äo das costumes amazonenses, en·
0 plano ficou no papel. Mas, de qualquer forma, O Cor- ·cetada nos romances juvenis e presente ate os Ultimos Cantos
tifo foi um passo adiante na hist6ria da nossa · prosa. 0 lexico e
concreto, o corte do perlodo e da frase sempre n!tido, e a sin-
taxe, correta, tem ressaibos lusitanizantes que, embora se possam que testemunhavam seus pendores para o regionalismo. 0 mesmo se dcu
explicar pela origem luso-maranhense de Alulsio, quadram bem com 0 Coronel Sangrado que, escrito em 77, precede de quatro anos l
ao clima de purismo que marcaria a Hngua culta brasileira ate o publicacäo de 0 Mulato, de Alufsio, enquanto romance naturalista de COS·
tumes. Combinando inspiracäo regional e processos tomados a Zo1a, com-
advento dos modernistas. pös o romance 0 Missiontirio (1888) e os Cantos AmazOnicos (93), suas
Causldico respeitavel e perito em letras de dmbio, lngles obras mais conhecidas. Positivista e liberal, fez politica durante o lmp6-
de Sousa ( 149 ) niio foi menos "t:scrupuloso como narrador de rio, alcan91ndo a presidencia de Sergipe e do Espfrito Santo. Especialista
casos amazönicos com que antecip~u o pr6prio Aluisio no mane- em Direito Comercial, ensinou essa disciplina na Faculdade de Direito do
Rio de Janeiro. Foi membro fundador da Academia Brasileira de Lctras.
jo da prosa analitica. As datas de publica~iio dos seus primeiros Consultar: Araripe Jr., pr6logo da 2.• ed. de 0 Missiontlrio, Rio, Laemmert,
romances, 1876 ( 0 Cacaulista) e 1877 ( 0 Coronel Sangrado) 1899 ( transcrito na Obra Crftica, Rio, Casa de Rui Barbosa, vol. II, pp,
365-382; JosC Verfssimo, Estudos de Literatura Brasileira, 3.• sCrie, Rio,
(148) In A Semana, ano I, n. 44, Rio, 1885 (apud L. Miguel-Perei-
0
Garnier, 1903; Olfvio Montenegro, 0 Romance Brasileiro, Rio, JosC Olym-
ra, op. cit., p8gs. 157-58. pia, 1938; Aurelio Buarque de Holanda, Prefiicio da 3,• ed. de 0 Missio-
( 149) HERCULANO MARCOS lNGL:ES DE SousA ( öbidos, Para, 1853 ntlrio, Rio, JosC Olympia, 1946; LUcia Miguel-Pereira, Prosa de Ficfäo, cit.,
- Rio, 1918). Fez os estudos secund.irios no Maranhäo e Direito em pp. 1.55-164; SCrgio Buarque de Holanda, Ingl§s de Sousa - "0 Missio-
Recife e S. Pauio. Ainda cstudante, publicou, sob o pseudOnimo de Lufs ntlrio", em 0 Romance Brasileiro ( coord. de AurClio B. de Holanda),
Dolzani, 0 Cacaulista e Hist6rias de um Pescador ( 1876-77), dorumentos eil., pp. 167-174.

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1
„ 1
Amaz6nicos, aprecia-se a_ parte viva,.da obra de Ingles de Sousa, Mas a crltica, de fundo emotivo, niio tinha condi~s para
pouco ou nada valendo o rettato espirirual do missionario, cuja sair do ambito provinciano: a ultima parte da hist6ria, passada
conduta ja estava prefigurada na "irresolu~iio e fraqueza que a no campo onde Maria, a normalista, fora morar por ordern do
mäe lhe transmitira no sangue" ... sedutor, canta alencarianamente os efhivios balsimicos da naru-
Nesse romance, o Naturalismo, repu:xado ate o limite, faz reza, aos quais se vem misturar os näo menos balsimicos anUn·
0 processo a Narureza, 0 que nos da CQDta da car~ncia de frescor cios da proclama~äo da Republica, uns e outros bastantes para
nas descri~s alem da queda fatal dos homens, duplamente su- fazer da protagonista, ha pouco abismada na desonra e no luto
jeitos a lei do sangue e as pressöes do ambiente. pelo filho natimorto, a Iepida noiva de um alferes que surge ino-
pinado para bem acabar a hist6ria.
Do Naturalismo tomou AdoHo Caminha ( 150 ) a cren~a na
fatalidade do meio e o gosto dos temas escabrosos. A Normalis- 0 Bom Crioulo näo padece de tais inverossimilhan~as. Mais
ta e 0 Bom Crioulo centram-se em casos de corru~iio que a denso e enxuto que o romance anterior, resiste ainda hoje a uma
marcha da narrativa mostra como inevitavel. leitura crltica que descarte os vezos da escola e saiba apreciar
Niio se deve, porem, reduzir o escritor cearense ao tributo a construr;äo de um tipo, o mulato Amara, coerente na sua pas-
sionalidade que o move, pelos meandros do sadomasoquismo, a
que manifestamente pagou a leitura de ~a e Alu!sio, seus mo-
perversäo e ao crime ( 1s1 ).
delos mais pr6ximos. Ha notas pessoais validas em ambos os
romances. Ern A Normalista, o ressentimento do autor, apou-
cado pela vida de amanuense no meio hostil de Fortaleza, Ieva-0
a nivelar todas as personagens no sentido das pequenas vilezas O Naturallsmo e a insplra~ao regional
que a hipocrisia do meio se esfor~a em viio por encobrir. 0 ni-
velamento, borrando os limites das figuras humanas, acaba com- Do Ceara, terra de Adolfo Caminha, tambem provieram ou·
pondo o quadro naruralista e pessimista da vida citadina, "esse tros naruralistas que dariam a regiiio da seca e do canga~o uma
acervo de mentiras galantes e torpezas dissimuladas, esse corti~o fisionomia literaria bem marcada e capaz de prolongamentos te-
de vespas que se denomina - sociedade." E o andamento mo- nazes ate o romance moderno. Manuel de Oliveira Paiva, Do-
rose da narrar;äo, os interiores mornos e a hma temperatura mo- mingos Ollmpio, Rodolfo Te6filo e, pouco depois, Antönio Sa-
ral das criaruras traduzem bem a inrui~iio geral do romancista. les, abeiraram-se do interior cearense num perlodo em que ru-
do concorria para acelerar o decl!nio do Nordeste, desde as re-
petidas secas ( a de 77, por exemplo, passou a leitmotiv da poe-
( 1so) AooLFO FERREIRA CAMINHA ( Aracati, Ceara, 1867) - Rio, sia oral), ate a conjuntura econömica, que atrala para novos
1897 ). Passou a infincia na provincia natal, atribulado pela orf8ndade, !mäs de riqueza, como o cafe em Siio Paulo e a borracha na Ams-
por doen~as e peJa seca de 77. Muda-se para o Rio onde, sob a tutela de
um parente, cursa a Escola Naval. Corno guarda-marinha, conhece em zonia, boa parte da popula~iio rural.
1886 os Estados Unidos, viagem que lhe ·deu matCria para um livro de Fortaleza conheceu, nos primeiros anos do Realismo, ums
crönicas, No Pais dos Ianques ( 1894 ). Voltando ao Cearii, envolve-se vida literaria ativa fermentada por ideais abolicionistas e repu-
num caso passional ( rapto da esposa di: um alfercs com a qual passa a
viver e que lhc da duas filhas). Obrigado a dar baixa na Marinha, parte blicanos: e sabido que o Ceara foi a primeira prov!ncia brasileira
para a Capital, ondc trabalha como funcionlirio. Em Fortaleza, foi um a libertar os escravos, em 1884. Data de 1872 a funda~o de
dos mentores da Padaria Espiritual, grbnio quc promoveu, de 92 a 98, os uma Academia Francesa e entre esta e o grupo militante da Pa-
naturalistas da provfncia. Morreu tuberculoso aos 29 anos de idade. Dei- daria Erpiritual, reunido em 1892, formaram-se varios gr~os
xou publicados: Juditb e Ugrimt1s de um Crente, contos, 93; A Norma-
lista, 93; 0 Bom Crioulo, 95; T enta{do, 96, romances; Ct1rtas Literhias
( 9.5), crftica de fundo taineano, mas aberta ao simbolismo de Cruz e Sou-
sa. lnCditos: Angela, 0 Emigrado, romances; versos e contos. Consul· ( 151) Meros apc!ndices do Naturalismo devem considerar-se a obra
tar: Valdemar Cavalcanti, "O Enjeitado A. C.", cm 0 Romance Brasileiro, mais conhecida de JUlio Ribeiro, A Carne ( 1888) e o m.initratado d~ fi.
cit„ pp. 179-90; LUcia Miguel-Pereira, Prosa de Fic,äo, cit., pp. 164-72; siologia romanccada, 0 Cromo, de Horacio Carvalho, onde sc explicam
Sab6ia Ribeiro, Roteiro de Adolfo Caminha, Rio, Livr. S. Josc, 1957. ao pC da p8gina, cm termos biol6gicos, as rea„öes das personagens.

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onde se colava a moda natucalista ifs lutas ideol6gicas do tempo 0 pobrc cmigrava com as avcs, quc vivem· ambos do suor do die.
Politicos e literarios ( 152 ) , que
· d eram a b r1go
· a contos e ensa1os.
· ' Era~ pelas cstr~das e pe~os ranchos aquelas romarias, cargas de
mcntnos, um pa1 com o filho As costas, mäes com os pcqucnos a
A vivacidade desse contexto cultural permitiu virem i\ luz ganircm no bico das peitos chuchados - tudo p6, tudo boca su-
alguns. romances regionai;: Luzia-Homem ( 1903), de Domingos mida e alhos grclados, fala tCnue, e de vez em quando a cabra a
Ol1mp10 Br.aga Cavalcantl (1850-1906), ingenua e bela hist6ria derradeira cabec;a da rebanho, puxada pela corda, a berrar peios
de uma retirante de 77, cujos modo.,.masculos ocultavam senti- cabritos (cap. 1).
mentos bem femininos; A Fome (1890), Os Brilhantes (1895)
e 0 Paroara (1899), de Rodolfo Te6filo livros atulhados do Excelente no trac;ar a figura central, Guiclinha, inteiri~ na
i~rgiio cientlfico do tempo, mas que valem' como retorno !ited- virtude e no pecado ( 154 ), o autor näo foi menos feliz no dese-
rio ao pesadelo da seca e da imigra~iio. Este ultimo fenomeno nho das tipos secundarios que comp6em essa agua-forte do lati-
recebe tratamc;_n~o mais feli~ em Aves_de Arriba(äo (1913 ), ro- ftlndio nordestino, com seu ritmo vegetativo, seus agregados e
manc~ de Antonio Sales, ep1gono provmciano, mas que se Je aln- retirantes, enfim, seu pequeno mas concentrado mundo de inte-
da ho1e com agrado. rai;öes morais.
Niio alcancou a mesma fortuna de publicaciio imediata o Passada a tempestade modernista, retomariam o mesmo veio,
melhor escritor do grupo, Manuel de Oliveira Paiva ( 153). o ja agora sem os sestros do Naturalismo, Jose Americo de Almei-
da, com A Bagaceira ( 1928) e Raquel de Queir6s, com 0 Quin-
seu r~mance. Dona Guidinha do Po(o, escrito por volta de 1891,
s6 ve10 a ser editado em 1951, gra~as ao empenho de Lucia Mi· ze ( 1930), romances que abrem o longo e aforrunado roteiro da
ficc;iio regionalista moderna.
guel-Pereira que o apresentou com um prefacio elogioso. E me-
recido. Oliveira Paiva era prosador terso, que sabia descrever e
narrar com mäo certeira e intervir no momento azado com ta-
lhos irßnicos de inteligencia fina e crftica. Naturalismo estilizado: "art nouveau"
Para sentir as relac;öes concretas entre o meio e o homem
sera preciso esperar pela linguagem incisiva de Graciliano Ramo~ Na decada de 80 afirmara-se o Naturalismo entre n6s: ca-
para se ter algo que supere as densas nota~iies de Dona Guidinha: nhestro ainda nos primeiros romances de Alufsio, acertou o pas-
so com 0 Cortifo, 0 Missionario e 0 Bom Crioulo, mas nesses
Entrou man;o, novenas de Säo Jose. frutos da o melhor de si, involuindo em seguida no mesmo ritmo
0 calor subira despropositadamente. A roupa vinha da lava-
deira grudada de sabäo. A gente bebia iigua de todas as cores· era da cultura brasileira da I Republica.
antes uma mistura de näo sei que sais ou näo sei de qu&_ O ~ento Alcan,adas as metas politicas da Abolic;iio e do novo regi-
era quente como a rocha nua dos serrotes. A paisagem tinha um me, a maioria dos intelectuais cedo perdeu a garra crftica de um
aspecto de pelo de. leäo, no confuso da galharia despida e empoei-
rada, a perder de vtsta sobre as ondu1a.;öes iisperas de um chäo ne-
passado recente e imergiu na 3gua morna de um estilo ornamen-
gro de detritos vegetais tostados pela morte e pelo ardor da atmos- tal,- arremedo da belle epoque europeia e claro signo de uma de-
fera. cadencia que se ignora.
. . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . .
vai para o interiar do Ceara, onde escreve seus dais romances, Dona Gui-
dinha do Po,o e A Afilbada, publicados pastumamente, o primeiro em
( 15 2 )
Entre outros, a Sociedade Libertadora Cearense editora de edi~äo Saraiva (S. Paula, 1952), o segundo pela Ed. Anhambi (S. Paula,
"O Libertador" ( 1883) e o Clube Literirio cujo 6rgäo era' "A Quinze- 1961 ). Cf. LUcia Miguel-Pereira, Prosa de Fic~äo, cit.; Joäo Pacheco, 0
na" (1888).
Realismo, S. Paula, Cultrix, 1964; Rolando More! Pinte, Experiencia e
(153) MANDEL DE ÜLIVEIRA PAIVA (Fortaleza, 1861 - Sertäo do
Ficfäo de Oliveira Paiva, Instituto de Estudas Brasileiras da Univ. de S.
Cear&, 1~92). Fez o curso ginasial no Seminärio do Crato. Mudando-se
pa:a O Rto. comecou a freqüentar a Escola Militar. ma'> näo 110de prosse- Paula, 1967; Paula Beiguelman, Viagem Sentimental a Dona Guidinha
gu1r por causa da sua complei.;äo enfermica. Tubercu1oso, volta a Forta- do Pofo, S. Paula, Ed. Centro Universitirio, 1966.
leza, onde se empenha na Iuta abolicionista e faz jornalismo liter3.rio. Ern ( 15.t) Leia-se a acurada reconstruc;äo psical6gica de Dona Guidinha
1888 funda o Clube Litera'rio. Par volta de 90, piorando das pulmöcs, feita por Beiguelman, op. cit., pp. 7-65.

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. . Estetis~o, evasionismo, "pUICZa" verbal precariamente de- ria do perlodo "intervalar" e melancolicamente marcacla por au-
fm:da, sertams~o de fachada, lugares-comuns herdados il divul-
tores epigOnicos, e, como a seu tempo se vera, näo seriam os nos-
gac;ao de Darwm e ~e .Spencer, reslduos da dicc;äo naturalista de sos simbolistas capazes de mover as ciguas estagnadas de uma
ca~bulhada com chches do romance psicol6gico a Bourget car- cultura a reboque, estando eles pr6prios imersos no clima do De-
retam para a prosa de um Coelho Neto e de um Afränio Peixoto
cadentismo europeu. Para transfigurar e converter o Naturalis-
os v!ctos d~ J?ecadentismo de que -i!a .Europa davam exemplo mo ( 158 ) em Supra-realismo, Expressionismo e Futurismo, isto
os, livros . ctntilantes mas O<os de Oscar Wilde e Gabriele
DAnnunz10. e, para operar a revolur;äo que operariam um Picasso, um Stra·
vinsky, um Pirandello, um Proust ou um Maiak6vski, far-se-ia
Desenvolve-se um estilo mundano meio jornallstico mei mister viver a angUstia que oprimiu o artista europeu quando o
sofisticado, aquele usorriso da sociedad~" como entendia ' 8 lit~ fantasma da crise mundial rondou a paz enganosa da belle epoque.
ratura Af~anio Peixoto em um trecho do Panorama da Literatu- E revelou afinal sua face sangrenta no conflito dos imperialismos
ra Br:zst!ezra que vale a pena transcrever como fndice da forma que foi a Guerra de 14. E seria necess:irio ter vivido com a
mentts da epoca: mesma profundidade a dialetica burgues/ antiburgues que se ex-
. A lit~ratura e como o sorriso da sociedade. Quando ela e primiu o Simbolismo de Rimbaud e de Mailarme, no romance
f~iz, ~ socteda?e!.. o espfrito sc lhe compraz nas artes c, na arte religioso de Dostoievski, no teatro de Ibsen e de Strindberg, na
~ter~r1a, _com fi~ao e com poesias, as mais graciosas expressöes da
unaginai;ao. Se ha aprccnsio ou sofrimento, o esp!rito se conccn-
l pintura de Van Gogh, no pensamento agonlstico de Nietzsche.
Nas letras brasileiras o complexo espiritual que condicio-
~' grave! prc:ocupado, e entio, hist6rias, ensaios morais e cientf-
fu:o.s, soc1~l6g1cos e poHticos, säo-lhe a preferCncia imposta pela nou a existencia desses superadores de genlo. . . simplesmente
util1dade 1mediata ( 155). näo existiu, ou antes, apareceu pelas vias transversas' da pose ir·
racionalista, a mesma que ainda afetaria alguns fautores da Se-
Dos ~ins do secu!o il ~erra de 1914-18, a corrente mestra mana de 22. Näo havia no Brasil do comec;o do seculo aquela es-
de. nossa ltt~ra~ura, ~ que v1via em torno da Academia, dos jor- pessura cultural que faz do fenömeno artlstico um encontro per-
nats, da boem1a car1oca e da burocracia, admirou supremamen- manente de significados sociais, existenciais e propriamente es·
te ~sse estilo flo~eal, replica nas letras do "art nouveau" arquite- teticos. Tomavam-se de emprestimo atitudes, formas de pensa-
tön1~ e decorat1vo que entäo exprimia as resist~ncias do artesa- mento e de estilo, na fa!ta de uma percepc;äo radicalmente nova
nato a segunda revoluc;äo industrial ( 156), · do real. E verdade que as mesmas falhas ja se reconheciam nos
~edefinindo .um termo bivalente, pre-modernismo, diria que naturalistas de 80 como Alulsio e Adolfo Caminha; mas o fato
e efettva e orgamcamente pre-modernista tudo 0 que rompe de de eles se oporem a visäo rom3ntico-idealista e 4 estrutura es-
algum m?do, com essa cultura oficial, alienada e verhallst~ e cravocrata lhes conferia uma consistencia liter3ria e ideol6gica,
a~re cammho para sondagens sociais e esteticas retomadas a par- que acabou resu!tando numa fisionomia cultural inequlvoca. Tal
ttr d~ ~2.: em plan? de destaque, a incursäo de Euclides da Cunha fisionomia falta ao fecundo Coelho Neto e ao raso Afriinio Pei-
na m1ser1a sertane1a, o romance crltico de Lima Barreto, a fic~äo xoto, para citar apenas os nomes entäo mais relevantes. Dessa
e as teses de Grac;a Aranha, as phquisas de Oliveira Viana, as indefinic;äo adveio uma prosa ficcional comp6sita, misto de do-
campanhas nac1onats de Monteiro Lobato ( m). Com excec;äo cumenta e ornamento, aquem do Naturalismo na medida em que
desses poucos homens, !Ucidos apesar das seus limites, a hist6- se perdia em veleidades fantasistas, mas igualmente incapaz de
se fixar no Simbolismo pela carencia de uma imaginac;äo real-
mente criadora.
p<ig. <;.55 ) Ern Panorama de Lit. Brasileira, S. Paulo, Cia. Ed. Nacional,
Le'
(156) '
A Vt'd L't ; t~-se oBv1v~ quadro que da desse perfodo Brito Broca em ( 158) V. o capitulo "A Conversäo do Naturalismo" em Otto Maria
a r erarza no rastl - 1900.
( 157) V. adiante o capltulo Pre-Modernismo e Modernismo. Carpeaux, Hist6ria da Literatura Ocidental, Rio, Ed. 0 Cruzeiro, 1963,
vol. V, cap. III.

220
221
Coelho Neto ( 159 ) sentido? Se em nome de uma determinada doutrina cstftica,
entä:o urge primeiro demonstrar a sua validade para ontem e pa·
A fortuna crmca de Coelho Neto ( 160 ) conheceu os extre- ra hoje; mas, se em nome de um pensamento causalista ( Coelho
mos do desprezo e da louva~ä:o, desde "o sujeito mais nefasto Neto teria escrito como o exigia seu tempo), j3 näo seria o caso
que tem aparecido no nosso meio intelectual", de Lima Barre- de revaloriza-lo, seniio apenas de situa-lo e compreende-lo. Ve-
to ( 161 ) a "o maior roma.Q.cista ~a~ileiro", de Ot<ivio de ja-se, pois, como e tarefa critica delicada - bem pouco amiga de
Paria ( 162 ). improvisa~öes culturais e sentimentais - reivindicar gl6rias que
E verdade que, depois das ataques modernistas, se tomou o tempo foi contrastando ou esquecendo.
sensivel certo desejo de pondera~iio, de meio-termo, so se falar Contemplado sub specie historiae, Coelho Neto sobrc:ssai co-
nos malsinados medalhöes do Pre-Modernismo. Muito louvavel, mo a grande presen~a litedria entre o crepusculo do Naturalis-
porque justo, o cuidado de niio se repetirem pregui~sam.~te mo e a Semana de 22. S6 Rui Barbosa, na orat6ria polltica, e
anatemas implacaveis. Mas, quando se usa a palavra "reabilita- Euclides, no chamado il consciencia da terra e do homem, ocupa-
~iio", carregando-lhe o acento valorativo, tambem se faz mister ram lugar tiio revelante na cultura pre-modernista. 0 prosador
outro tanto de pondera~ao e meio-termo. Reabilitar, em que maranhense parecia talhado a prop6sito para polarizar as caracte-
risticas de gosto que se soem atribuir ao leitor culto medio da
( 159) Transcrevo, com poucos retoques formais, o texto que dedi-
Primeira Republica. Um leitor que julga amar a realidade, quan-
quei a Coelho Neto, Afr:lnio Peixoto e Xavier Marques em 0 Pre-Moder- do em verdade näo procura senä:o as suas apar@ncias menos tri-
nismo S. Paula, Cultrix, 1966, pp. 75-88. viais ou menos trivialmente apresentadas; um leitor que se com·
( '1ao) HENRIQUE MAXIMINIANO CoELHO NETO ( Caxias, Maranhäo, praz na superficie e no virtuosismo: um leitor, em suma, funda.
1864 - Rio, 1934 ), Romances: A Capital Federal, 1893; Miragem, 1895; mentalmente hedonista. As qualidades mestras de Coelho Neto
0 Rei Fantasma, 1895; Inverno em Flor, 1897; 0 Morto, 1898; 0 Paral-
ro, 1898; 0 Ra;J de Pendiab, 1898; A Conquista, 1899; Tormenla, 1901; ajustavam-se-lhe como a mäo e a luva: curiosidade, mem6ria e
0 Arara, 1905; Turbilhäo, 1906; Es/inge, 1906; Rei Negro, 1914; 0 Mis- sensualidade verbal, que o escritor confundia com imagintlfäo:
tbio ( em colabora~ä:o com Afrfutio Peixoto, Medeiros e Albuquerque e
Viriato Correia), 1920; 0 Polvo, 1924; Fogo-Fawo, 1929; Lendas: Slll- A minha faculdade essencial e a imagina~o. Vivo a sonhar, es
dunes, 1900; lmortalidade, 1926. Contos: Raps6dias, 1891; Praga, 1~94; idCias pululam. no meu cCrebro e sinto que sä:o as sementes antigas
Baladilhas, 1894; Fruto Proibido, 1895; Sertäo, 189.6; Album de Coltban, que se fazem floresta. Comecei a estudar em livros orientais.
1897· Romanceiro, 1898; Seara de Rute, 1898; Ap6logos, 1904; A Bico Foram As Mil e Uma Noites a obra que mais funda impressäo dei-
de Pena, 1904; Ägua de Juventa, 1905; Treva, 1906; FabulOrio, 1907; xou em meu espfrito quando se ia formando, depois as hist6rias
Jardim das Oliveiras, 1908; Vida Mundana, 1909; Cenas e Per/is, 1910; que me contavam nos seröes tranqüilos, e, finalmente, as leituras.
Banzo 1913· Melusina, 1913; Contos Escolhidos, 1914; Conversas, 1922; Eu procurava, de preferE:ncia nos poetas, es descrir;öes da vida le-
Vesp/ral, 1922; Amor, 1924; 0 Sapato de Natal, 1927; Contos da Vida e vantina - em Byron o D. Joäo, A Noiva de Ahidos, o Giaour,·
da Morte, 1927; Velhos e Novos, 1928; A Cidade Maravilhosa, 1928; Ven- em Gautier o seu grande munde fantastico; em Flaubert Salam.mb8,
cidos 1928· A Arvore da Vida, 1929. Nä:o se citam aqui es obras de e assim sucessivamente (A Conquista, Porto, Chardron, 1928, Plig.
crOni~s. de' mem6rias, de teatro e as conferE:ncias cfvicas e didliticas. Re- 396).
ferCndas completas em Paula Coelho -·Neto, Bibliografia de Coelho Neto,
Rio, Barsoi, 1956. Consultar: JosC Vetfssimo, Estudos de Literatura Bra- A confissiio revela antes o espirito voraz que sabera reter e
sileira, 4.• sCrie, 2.• ed., Rio, Gamier, 1910; PCricles de Morais, Coelho
Neto e Sua Obra, Porto, Lello, 1926; Paula Coelho Neto, Coelho Neto, gozar o mundo das sensa~öes do que a mente intuitiva, criadora
Rio, ZClio Valverde, 1942; Brito Broca, "Coelho Neto, romancista", em de novas e fortes imagens.
0 Romance Brasileiro (coord. de AureJ.io Buarque de Holanda), cit.; Od- A inquieta curiosidade, apoiada em ums mem6ria invulgar,
vio de Paria, "Apresenta~ä:o" a Coelho Neto - Romance, Rio, Agir, 1958;
Herman Lima, "Coelho Neto: As Duas Faces do Espelho", Introdu~ a foi o pressuposto psicol6gico do "realismo" exaustivo do prosa-
Coelho Neto, Obra Seleta, .Rio, Aguilar, 1958. dor; ja ao seu evidente pamasianismo serviu o gosto sensual da
( 161) "Histriä:o ou Literato?'', in Rev. Contemporlinea, 15-2-1918. palavra. Documenta e ornamento levados 1ts Ultimas conseqüeti-
(162) "Coelho Neto", in Jornal de Letras, ano I, n. 0 3, Rio, set. cias. Per~eguir o roteiro narrativo de Coelho Neto e ilustrar essas
de 1949. afirma~öes.

222 223
Em 1893, saiu seu ptimeiro"romance: A Capita/ Federal. Depois de Miragem, o escritor lan~ou-se a uma cria>iio ficcio-
A simples conferencia das datas afasta a hip6tese de tomar como nal febril, datando de 1895 seu primeiro romance-lenda ( 0 Rei
fontes A Cidade e as Se"as ou A Capital de E91 de Queir6s. Fantasma), experiencia que se mostrou fecunda ao longo de sua
Coelho Neto tinha o que dizer de seu naquele romance juvenil. carreira liter:iria e que se mesclaria a vagas tendencias para o
Brito Broca, no excelente ensaio que escreveu sobre o romancis- espiritismo, desde 0 Raia de Pendjab ( 1898) ate Imortalidade
ta, chama-lhe "crönica romanceada'~. ~ estrutura e, de fato, mis- ( 1923), passando por Esfinge ( 1908), alem de v:irias cole~öes
te: em torno das surpresas e decep~öes do jovem Anselmo, vin- de novelas e de contos que näo cabe aqui analisar.
do da provfncia para o Rio de Janeiro, o autor alinhavou os seus De releväncia, e seguindo sempre a cronologia, aparece, em
capltulos, cuja insistCncia nos elementos descritivos e pitorescos
1897, Inverno em Flor. Os tons romanticos, que, guisa de a
ornamento, sombreavam a tes_situra de Miragem, cedem aqui lu·
lhes trai a natureza de verdadeiras crönicas, ornados documen- gar a uma viva colora,äo naturalista. Reponta a curiosidade pe-
tos da vida carioca onde näo säo pessoas que se movem, mas ti-
los aspectos m6rbidos da psique, julgados por Aluisio, Caminha
pos, e onde os ambientes crescem do escritor para o leitor, a for- e Julia Ribeiro como inerentes ao romance experimental a Zola.
~a de mimkias acumuladas. A hereditariedade doentia gera a loucura e um amor incestuo-
A primeira experiencia seguiu-se um romance ate certo pon- so: eis a tese documentada e dramatizada neste Inverno em Flor.
to feliz, pela relativa sobriedade dos meios utilizados: Miragem Nao deixa de ser instrutivo o confronto com os naturalistas pre-
( 1895). A hist6ria de uma famflia atribulada pela morte do cedentes: explorando materia que lhe parecia menos fantasiosa,
chefe e conduzida atraves de narra~öes convincentes da vida do- Coelho Neto buscou no romance certo grau de concisäo, saindo-
mestica, embora o fato crucial da morte do pai tenha dado a -lhe ils vezes uma prosa realmente enxuta. 0 metodo natura-
Coelho Neto a oportunidade para um desafogo verbal excessivo. lista fe-lo trabalhar a biografia da personagem central, Jorge Soa-
A !er com aten~ao, descobre-se que o velho estilo de Jose de res, com os cuidados de um elaborador de [ichas clinicas: nasci-
Alencar, escorado no adjetivo ( 163 ) e no adverbio de modo, con- mento, infii.ncia, primeiros- brinquedos e estudos, insistindo na
tinuou a proper f6rmulas descritivas e narrativas ate o ad.vento aparente normalidade da vida de um filius tamiliae, que, no en-
da revolu~ao modernista. 0 que Coelho Neto acrescenta a lin- tanto ( e ai entra o determinismo biol6gico), trazia em si os ger-
guagem romantica e a novidade das imagen; veiculadas pelo seu mes do desequilibrio herdados da mae, cuja insanidade s6 se ma-
realismo burguf:s, sem dU.vida diverse em extensäo, se näo em nifesta quando Jorge chega a juventude. Para o prosador ma-
profundidade, do "realismo" alencariano. No fundo, ha um no- ranhense, o essencial, porem, era a possibilidade de descrever e
t:ivel alargamento tem:itico ( e, portanto, lexico), sem, porem, amplificar os v:irios aspectos da degenera~ao er6tica e da loucura.
qualquer transforma~ao ideol6gica radical. Ern Miragem, o in- E, ao fixar o gesto, a aparfuicia reveladora, em sua mjp6cia ex-
teresse pelo documento concentra-se na reprodu~ao de uma cena pressiva, supera, de fato, aqueleS naturalistas em cuja esteira se
a que o narrador de fato presenciou: a proclama~ao da Republi- pusera. Mas no conjunto, e sobretudo na determina,ao dµeali·
ca, vista pelos olhos do soldado Tadeu. E o momento mais equi- dade social e de seus reflexos morais, nao atinge a for>a m:iscula
librado do livro; seguem-no a dßen~a e o firn de Tadeu, cuja do Aluisio de 0 Corti~o.
narra~äo se insere no plano da eiplora~ao sentimental, em ter· 0 horizonte, liter:irio stricto sensu, de Coelho Neto, obstruia-
mos prolixos, de uma vida infeliz. 0 que em certa medida, ca- -lhe outras perspectivas que nao fossem a da expressividade frag-
racteriza o romance e o extrema dos demais. conferindo-lhe uma mentada, pr6pria da mente parnasiana. Por outro lado, a sen-
cor romantica acentuada, que s6 reaparecer:i; em nlvel alias supe- sualidade difusa na psicologia do escritor e respons:ivel por ui:n
rior, em T urbilhäo. deter-se entre folhetinesco e mundano no universo dos objetos:
vestes, m6veis, alfaias e ninharias de alcova onde se respira um
pesado odor de belle epoque e onde se pöem entre parenteses,
( 163) Em entrevista concedida a Joä:o do Rio, Coelho Neto decla- com muita freqüencia, o desenrolar dos fatos e a vida interior das
rou: "A palavra escrita vive do adjetivo, que ~ a sua infl.exäo" ( 0 Momm- personagens.
to LiterOrio, Rio, Garnier, s. d., p8g. 54).

224 225
O Morto ( 1898) e um romaace todo documenta!, embora ignorada, como tenho constantc:mente testeffiunhado, que niio a le·
sem as intent;öes naturalistaS de Inverno em Flor. Narrando a vem em conta os que pretendem negar por completo a produ~äo
do escritor, nem citada em primeiro lugar pelos que lhe procuram
revolta da Armada, Coelho Neto reconstituiu as hesita~s e as fazer algumas _concessöes, e coisa que, fraocamente, niio compreen-
fraquezas de um perfodo ainda infantil da vida republicana. E do. S6 esse hvro, parece-me, bastaria para dar a Coelho Neto um
fe-lo com fluencia. 0 epis6dio sentimental do protagonista que, lugar de dc:staque no ficcionismo brasileiro ( 164).
refugiado em Minas, af encontra um\. ad.olescente enfermi~a que
por ele se apaixona, parece alltes apendice buc61ico do que cer- 0 escritor, procurando recusar-se 3 prolixidade conatural a
ne dessa autf:ntica crönica hist6rica. seu temperamento, pöde ser fiel a frase com que acompanhou o
Ern 1899, Coelho Neto escreve mais um romance-documen- titulo da obra: "Simples como a verdade". O entrecho e uno:
to, desta vez fortemente autobiografico: A Conquista. A mem6- um lar pobre, composto de viuva, filha e filho; o rapaz Iabuta na
ria da sua juventude boemia, que coincidiu com as lutas finais da revisäo de um jornal para sustentar-se e aos seus, mas o medo a
Aboli~äo e da Republica, acha-se presente em muitfssimo pas- misfria e o chamado da carne ( difuso, como vimos, em toda a
sos da sua obra, mas domina soberana dois de seus romances: obra de Coelho Neto) corroem a modestia digna da famllia. A
A Conquista e Fogo-Fdtuo. Avultam as figuras de Patrodnio, mor;a foge com um sedutor rico, e o irmäo, acabrunhado de ver-
g~nha, reti~a-se do trabalho e comer;a a involuir para uma vida
Paula Ney ( Neiva), Pardal Mallet ( Pardal), Guimaräes Passos
vil, que a f1gura oleosa e TU.brica da mulata Ritinha encarna com
( Forrunio), Aluisio Azevedo ( Ruy V az), Olavo Bilac ( Otavio
perfeir;äo. 0 enredo propiciava encontros fatais: o irmäo pobre
Bivar), Muniz Barreto ( Montezuma), alem do pr6prio autor (An-
em busca do ouro da irmä rica; a filha prostituida diante da mäe
selmo), envoltos em uma aura de panache que, no entanto, nä:o humilhada. Mas o romancista soube contornar os efeitos melo-
chega a ofuscar o verossfmil da reminiscf:ncia. Toda a esc~la de dram3ticos, fixando töda a sua aten\'.äO na verossimilhanr;a das
valores do jovem Coelho Neto, as idiossincrasias do literato fin situa<;öes e dos gestos, no constrangimento agudo das frases di-
de siede, as mazelas de uma boemia de jornal e cafe, que vive ~as 8. pr:ss~ ou com ~fetada desenvoltura. Embora reaparer;am,
entre veleidades polfticas e liter3rias: eis o cen3.rio e a substB.n- mdefect1ve1s, os enca1xes ornamentais na evocar;äo assidua dos
cia de A Conquista, que iräo avivar-se ainda mais em Fogo-Ftltuo, ambientes, o fenömeno näo chega a comprometer o nivel do ro-
com aqueias mesmas figuras centrais. Para e historiador de nos- mance que emerge das rela~öes s6cio-morais projetadas em for-
sa vida liter3ria valeräo sempre esses dois testemunhos na me- ma de imagens, cenas e di3logos, no comportamento das perso--
dida em que entremostram as implica,öes sociais e psicol6gicas nagens. Alem disso, boa parte das descri~öes obedece aquela
de um estilo de vida onde aflora, pontilhadamente, o hibridismo concep,ao mais despojada que presidiu a todo o romance: leiam-
de medfocre realidade e evasäo verbal. -se, por _exemplo, as. que reproduzem uma sessäo espirita ( cap.
Do documento de uma gera,äo passou de növo ao caso psi- X) e o iogo no cassmo ( cap. XIII), ambas excelentes pela sin-
col6gico, a patologia da vida domestica, que havia tentado em geleza e pertinfocia dos dialogos.
lnverno em Flor. Trata-se de Tormenta ( 1901 ). A "anomalia"
explorada agora e a mem6ria constante da esposa morta que nlio Depois de T urbilhiio, Coelho Neto demorou quase dez anos
consente ao protagonista a plena frui~äo de suas segundas nupcias. para escrever outro romance de fölego: Rei Negro ( 1914): an-
dan~as politicas, conferencias e o ensino de Literatura no Col6-
"Anoma1ia" complementar: os ciU.mes. Mas o realismo descri-
tivo que circunda o enredo e se arrisca a abafa-Io lembra um ~ gio Pedro II haviam-Ihe tomado o tempo e as aten,öes. Mas
decadente, infenso a vigorosas sinteses expressivas e perclido em. nesse novo trabalho, a que chamou "romance b3rbaro" e sens{~
um mar de solicita,öes igualmente sedutoras que näo tem for~ vel 0 desejo de construir uma obra epica, pelas dim:nsöes do
para reduzir e escolher. Apesar disso, e um livro rico de certei- her6i: o negro Macambira, de nobre estirpe, isolado e grande
ras observa<;öes morais, que preludiam os bons momentos nar- na "senzala, infinitamente superior a abj~äo e a luxi\ria sem freios
ratives de T urbilhiio.
0 Turbilhäo, publicado em 1906, assinala o ponto culminan· ( 164) Brito Broca, "Coelho Neto, romancista'', cit.
tc dessa carreira täo cheia de altos e 'ba.i.xos.
Que tel obra seja

226 227
dos outros cativos e, por fim, v{tinrtt e vingador da desonra con- Uma tarde de calor:
jugal que o sinhozinho branco lhe infligira.
0 morma,o era sufocante. O ar, parado e denso, abafava co-
Coelho Neto carregou como nunca as tintas, näo apenas na mo as fumaradas de agosto. Quando o sol aparecia, amarelo e fus-
mimese dos ambientes da fazenda, especialmente os mais s6rdi- co, acendia-se um calor de febre ( Cap. VI).
dos, como na exalta~äo moral do protagonista. E um romance
que, a for~a de querer-se obietivo, ttlli demasias e ingenuidades Uma tempestade:
romanticas: Serve, por outro lado, de paradigma daquele estilo
coelhonetano, que pareceu a posteridade a Unica heran~ expres- Longinquos, com reboante fragor, tronavam· trovöes soturnos.
( ... ) Cresceu a aflic.;äo das iirvores: os bambuais vergavam·se em
siva do prosador: linguagem virruosistica e acumulativa por cx- mesuras e o estrondo ribombava 8. fulgurac.;äo sulfUrea dos reläm-
celencia ( 165 ), voltada para o efeito plcistico e ~onoro. pagos. Mas um estampido seco estalou rispido, violenta rajada arre-
piou a paisagem e a chuva iispera, grossa, chegou estrepitosa, tä.o
Alguns exemplos, come~ando por uma dan~a dos negros: densa que fechou a vista a tudo, como um muro de a\o. Acre e
morno subiu da terra um bafio de barro virgem ( Cap. VIII).
Um som rascante, estralejado, vinha crescendo estrldulo como
um rolar de pedrou~os, vozes confusas, guais em coro, trons de
tambores, rechuchado de chocalhos, soidos dspidos e, sobretudo, As nuvens da tarde:
perene, um rouco e lUgubre grugulho.
No ar cenileo da tarde, sob o vöo ernitico dos morcegos, aqui,
E ribombaram. tambores, o som arranhado do gaza, ringiu, cas-- ali, esgart;:ando-se das moutas, fluiam fumos d.i:ifanos fundindo-se
cavelaram trCpidos chocalhos e, entre archotes de palma, a farin· no espa~o nevoado (Cap. X).
dula surgiu em zanguizarra - negros e negras aos pulos, rebolea-
dos, uns com plumas i cabet;:a, colares de cocos, manilhas e pulsei·
ras de penas, esgrimindo paus i maneira de zargunchos, atirando, Sao trechos que bastam para delimitar o estilo tfpico de
aparando golpes em duelos; outros corcoveando aos arremessos fe- Coelho Neto: evidentemente sincretico, na medida em que ten-
linos, rugindo roucos; velhos, em passos arrastados, altivos, com de a amalgamar a intern;äo documenta! com o brilho da palavra
entono senhoril de chefes; mulheres bracejando aos guinchos e. re- p!astica e sonora. Näo se deve reduzir toda a prosa de Coelho
troando, pufras, marimbas, urucungos e as vozes estrugindo em bur-
burinho horrfssono que, por vezes, descafam. em dolCncia ftinebre Neto a esse m6dulo, se bem que mais vistoso e freqüente, tal a
como um can~o de morte (Cap. IV). variedade de aspectos de sua obra. Tambem näo parece licito
negar-lhe o dom de um genuino talento expressivo, condi~äo pri·
Reproduzindo os ruidos da noite: meira de todo artista. Coelho Neto niio era um escritor arbitra-
rio e falho enquanto homem que usava da palavra como instru-
A noite enchia-se de vozes estranhas, os sapos coaxavam, gar. mentO semäntico; sua linguagem e correta e precisa ate ao pe-
garejavam, malhavam; eram trissos, zizios sutis, estrilos, pios cre- dantismo, ä. obscuridade, ao preciosismo. 0 que validamente se
bros e, de quando em quando, numa lufada mais forte, o farfalho lhe contesta e aquela qualidade rara de atingir sem esc6rias um
das ramas escachoava como num rebojo d9guas (Cap. V).
nivel de profundidade. Sem essa virtude, forma superior da con-
cisäo, näo se chega a resistir ao tempo, isto e, a consciencia dos
As sombras: valores, cujos caminhos levam cada vez mais para a concentra·
~äo no essencial.
As sombras animavam-se despegando-se das paredes como pa-
pel solto, subindo do soalho em fumaradas, afetando formas bi- Reabilita-lo incondidonalmente iem, por tudo isso, ares de
zarras, esguias, aladas, pairando, rastejando, esvoa\ando (Cap. VI). quixotismo digno de melhor causa; mas compreende-lo em sua
situa~äo hist6rica e tarefa que 0 critico de hoje pode e deve
tentar.
( 165) Cf. o estudo de Fausto Cunha, "Recursos Acumulativos em
C. Neto", in Folha da Manhä, S. Paula, 25-8-1957 e 8·9-1957.

228 229
Atranto Peixoto da vida em sociedade ou coment3rios acacianos que se preten-
dem finos e argutos.
Partilhando com Coelho Neto os caractercs mais notiiveis . Nos romances de ambienta,äo baiana e sertaneja (Maria Bo-
do realismo epigönico, Afränio Peixoto ( 166 ) näo deixou, porem, ntta, Fruta do Mato e Bug;~nha), essa facilidade agrada, pois tem
uma obra de fic,äo täo volumosa, dadas as suas mUltiplas curio- algo de naturalmente bucolico, causando efeito inverse ao do re-
sidades. de divulgador e erudito.
... - gionalismo prolixo e arrebicado que tanto se deplora nos con-
tos de Coelho Neto e Alcides Maia. Seja como for, Afraruo Pei-
Escreveu romances de cosiumes rurais, continuando uma tra-
di,äo que vinha de Alencar e Taunay. Seu realismo sertanejo xoto guardava distäncias psicol6gicas e estilisticas dos ambientes
e, portanto, de extrat;äo romäntica; de um romantismo, enten- evocados: sabia deter-se no meio do caminho entre o preciosis-
da-se, temperado, nascido de uma personalidade alheia a violen- mo e a transcrü;äo folcl6rica, entre o ornamento e o documenta.
cias, observadora, maliciosa mas sem fel, no fundo tolerante c Da! a elegäncia simples e corrente dos seus melhores romances:
epicurista: em suma, belle epoque. Maria Bonita e Fruta do Mato.
Quanta as suas tentativas insistentes e insinuantes de fazer Ern Sinhazinha, seu Ultimo romance, Afraruo Peixoto, se-
"psicologia ferninina" ( 167 ), a verdade e que nunca ultrapassa- guindo ainda o rico veio de Alencar, deu um exemplo de recons-
ram os lugares-comuns do provincianismo cultural de festejado titui,äo hist6rica, narrando as lutas sangrentas entre duas faml-
academico. Entretanto, mais direto e mais diplom3.tico no uso lias tradicionais do alto Säo Francisco; mas aquele mesmo mun-
da linguagem que Coelho Neto, distante dos extremos e propen- danismo diplomatico que lhe desvirilizara os primeiros roman-
so a ironia, o autor de Maria Bonita pöde estabelecer, com ai- ces o impe~':1 aqui de ascender a epicidade bronca que o argu-
to nipido, contato com um publico despretensioso, o que deve rnento prop1ciava.
ser dito em seu favor, pois respirou na juventude uma atmosfera
de requinte parnasiano-decadente, como atesta seu primeiro e
Unico livro de versos, Rosa Mistica, editado em cinco cores por Xavler Marques
uma tipografia de Leipzig ...
Largos trechos de suas hist6rias citaclin"as (A Esfinge, Uma A Bahia sertaneja de Afränio Peixoto näo e a de Xavier
Mulher como as Outras, As Razoes do Corafiio) semelham crö- Marques( 168 ). Este, id1lico marinista, povoou sua novela Jana
nicas mundanas, tal a fluencia jornalistica e um pouco facil de- e Joel com os genios e as sereias da llha de Itaparica.
mais das epis6dios. Os contrastes entre as personagens e, em Tarnbern o regionalismo de Xavier Marques esta permeado
particular, entre estas e as circunstäncias, näo se interiorizam, de tons rorniinticos, tanto que os amadores de fontes literarias
isto e, näo se transformam em conflitos, diluindo-se entre flashes ja lhe apontararn influencias de Bernardin de Saint-Pierre e de
Chateaubriand, a que se deve acrescentar o grande filtro lingiüs-
tico que foi Jose de Alencar.
(166) Juuo AFRi.N10 PEIXOTO (Len,6is, Bahi.a, 1876 - Rio, 1947).
FiC(:äo: A Esfinge, 1908; Maria Bonita:.1914; Fruta do Mato, 1920; Bu- Ha, porern, uma nota original na prosa do novelista baiano:
grinhtJ, 1922; As Razöes do Corafäo, 1925; Uma Mulher como as Outras, a estiliza,äo do folclore praieiro. As lendas da sereia e do boto
1928; Sinha:änha, 1929. Consultar: Tristäo de Ataide, Primeiros Estudos, ( no conto "A Noiva da Golfinho"), com seus componentes er6-
2.• ed., Rio, Agir, 1948; Leonfdio Ribeiro, Afrdnio Peixoto, Rio, E. Con-
ticos e fant<isticos, emprestam um car3ter insolitamente mltico
de, 1950; LU.da Miguel-Pereira, Prosa de Fic,äo, cit.; Afränio Coutinho,
"lntrodu1;äo Geral", aos Romances Completos, "Rio, Aguilar, 1962; Lufs
Viana Filho, "Apresenta~äo" a A/rdnio Peixoto - Romance, Rio, Agir,
1963. (168) FRANCISCO XAVIER FERREIRA MARQUES (Itaparica, Bahia, 1861
- Salvador, 1942). Uma Familia Baiana, 1888; Boto & Cia., 1897 (reed.
(167) Ern quase todas as suas obras: LU.da (Esfinge), Olimpia e
coIQ.o 0 Feiticeiro, 1922}; Praieiros - Jana e Joel, 1889; Pindorama, 1900;
Helena (Uma Mulher como as Outras}, Maria (Maria Bonita), Joaninha
Holocausto, 1900; 0 Sargento Pedro, 1902; A Boa Madrasta, 1919; As
( Fruta do Mato), Bugrinha e Sinhazinha, nos romances homönimos.
Voltas da Estrada, 1930. Consultar: David Salles, 0 Ficcionista Xavier
Marques, Rio, Civ. Bras., 1977.
230
231
a prosa documenta! e parn;.1.siana.-Oo autor, tambem respondvel etiqueta, mas sempre e tempo de desfazer equivocos. E o mc-
por uma academica Arte de Escrever e por dois romances hist6- lhor modo de desfaze-los neste caso e situar 0 problema a luz
ricos, alcncarianos no es pfrito, mas estritamente casti\os na lin- das componentes dinamicas do Modernisrno.
guagem : Pindorama e 0 Sargento Pedro. ( 0 Modernisrno, tomado na acepc;äo estrita do ruovimento
nascido em torno da Semana de 22, significou, em um primeiro
tempo, a ruptura com a rotina academica no pensamento e na
0 regionalismo como proc;irama linguagem, rotina que isolara as nossas letras das grandes ten-
s6es culturais do Ocidente desde OS fins do seculo. Conhecen-
Apcsar do prestfgio academico de Coelho Neto e de Afrä- do e respirando a linguagem de Nietzsche, de Freud, de Bergson,
nio P eixo to, ncm toda literatura regionalista perdeu-se nos ex- de Rimbaud, de Marinetti, de G ide e de Proust , os jovens mais
tremes do precioso ou do banal. Ern alguns contistas cuja pro· lucidos de 22 fizeram a nossa vida mental dar o salto qualitativo
d u\aO aparcce no come\O do seculo, a materia rural e tomada a que as novas estruturas sociais ja estavam a exigir. Nesse abrir-
sf:rio, isto e, assum ida nos seus precisos contornos Hsicos e so- ·se ao mundo contemporaneo, o Brasil reiterava a condic;a<J de
cia!s dentro de uma concepc;äo mimetica de prosa. E o caso do pafs periferico , semicolonial, buscando normalmente na Europa,
regionalismo de Valdomiro Silvei ra, de Sim6es Lopes Neto, de como o fizera em 1830 com o Roman tismo ou em 1880 com o
Hugo de Carvalho Ramos, que resultou de um aproveitamento Realismo, as chaves de interpretac;ao de sua pr6pria realidade.
literario das matrizes regionais. a
Entretanto, a mesma Corrente que fora aprender junto arte oci-
Na medida em que esse trabalho foi consciente acrescentou dental modos novos de expressao refluiu para um conhecimen-
algo a praxis literaria herdada ao Na turalismo. Este algo pode to mais livre e direto do Brasil: o nacionalismo seria o outro la-
interpretar-se como o lado brasileiro da oscilac;äo pendular na- do da praxis modernista.
cional-cosmopolita, que marca as culturas de extrac;äo colonial. Pode-se hoje insistir numa ciu noutra opc;äo, e contestar
Na mare parnasiano-decadente do firn do seculo, a configura\äO nos homens de 22 certo exotismo estetico, ou, na linha oposta,
polemica e ate certo ponto neo-romäntica da vida rustica prece- o seu amor as solm;öes folcl6 ricas, neo-indianistas, neo-romänti-
de o nacionalismo exaltado das modernistas. E se um Valdomi- cas. . . Mas o que näo parece muito inteligente e condenar com
ro e um Simöes Lopes näo puderam faze-la·· por meio de uma re-
arbftrio a-hist6rico 0 carater duplice que deveria fatalmente as-
volu~äo formal em virtude da sua pr6pria hist6ria intelectual,
sumir a cultura entre provinciana e sofisticada dos anos de 20
toda seculo XIX , o fato de terem pensado a terra e o homem
em Sao P aul o. Na sua vontade de acertar o passo com a Euro-
do interior ja era um sintoma de que nem tudo tinha virado helle
pa, sem deixar de ser brasilei ro, o intelectual modernista criou
epoque no Brasil de 1900. 0 projeto explicito dos regionalistas como p6de uma nova poesia, um novo romance, uma nova arte
era a f idelidade ao meio a descrever : no que aprofundavam a li-
plastica, uma nova musica, uma nova critica; e a seu tempo se
nha realista estendendo-a para a compreensäo de ambientes ru·
vera 0 quanto ainda lhe devemos.)
rais ainda virgens para a nossa fici;äo.
Voltando as costas para as modas que as elites urbanas im- A digressäo acima tem um sentido : mostrar em que alguns
portavam, tantas vezes por mero esnobismo, puseram-se a pes- dos nossos regionalistas precederam , em contexto diferente, o vi-
quisar o folclore e a linguagem do interior, alcan~ando em al- ve inter esse dos modernos pela realidade brasileira total, näo
guns momentos, efeitos esteticos notaveis, que a cultura mais apenas urbana. Hoje, quando ja se incorporaram a nossa cons-
moderna e consciente de um Mari a de Andrade e de um Gui· cicncia literaria o alto regionalismo critico de Graciliano Ramos
maraes Rosa niio desdenharia. Chama-los de "pre-modernistas" e a experiencia estetica universal d o regionalista Guimar äes Ro-
c, no entanto, arriscar-se a qüiproqu6s. 0 autor destas linhas sa, e mais facil reconhecer o trabalho paciente e amoroso de um
näo p6de, a certa al rura ( 169 ) , evi tar os escolhos da ambigua Valdomiro e de um Simoes Lopes, voltados para a verdadc hu-
mana da provfncia; e tanto mais convence esse esforc;o quando
( 169 J Ern 0 Pre-Modernismo, cit „ cap. III. ncle entrevemos, para alem da frui\äo do pitoresco, a pesquisa

232 233
de uma possfvel poetica da.. oralfoladc. Nem seria razoavel pe- Aflora nesses trechos a patina culta, a forma mentis parna-
dir-lhes mais, que todos foram prosadores crescidos na tradi~o siana do seu regionalismo. Näo raro, CQ!ocando entre parenteses
do conto oitocentista. a inten~äo sertanista que da tltulo ao livrö, o prosador abanda-
na-se a pr6pria tendencia de erudito brilhante, compondo recons-
titui,öes hist6ricas que tem a sua elegäncia. E o caso de "A Ca-
Afonso Arinos (1'•) ... - deirinha", crönica de um virtuose em torno de um objeto rococ6
dos tempos coloniais, esquecido no fundo de uma sacristia de
Afonso Arinos ( 171 ) e o primeiro escritor regionalista de Ouro Preto. 0 mesmo senso de observa,äo hist6rica faz de 0
real importäncia a considerar nesse perlodo. Hist6rias e quadros Contratador de Diamantes ( "epis6dio do seculo XVIII - frag-
sertanejos constituem o grosso de seu livro Pelo Sertäo. Näo se mento") um esboc;o de romance hist6rico a Alencar, genero para
lhe pode negar hrilho descritivo, näo obstante a minudencia pe- o qual Arinos demonstrou vocac;äo, como o atesta sua cr6nica
dante e näo rare preciosa da linguagem. No afä de caracterizar Os Jagum;os.
paisagens e ambientes, chega a clistrair a aten,äo do leitor, per- De resto, era consciente no escritor certo saudosismo que
dendo em for,a OS efeitos pateticos dos finais. Nele, e evidente oscilava entre o erudito e o sentimental:
um compromisso entre os processos descritivos do Realismo e o
sal vernaculizante dos parnasianos. Sirva de exemplo estc Nesta nossa terra, onde as tradi~s täo depressa se apagam,
tä:o cedo se esquecem as velhas usan~as, - o encontro muito raro
perlodo: de algum objeto antigo tem sempre para mim cousa de delicado
Um, de passagem, ati~ava o fogo, outro carregava o ancorote e comovente. M6veis ou telas, papeis ou vestuiirios - na sua fi.
sionomia esmaecida, no seu todo de d6 - eles me falam no senti-
cheio d:lgua fresca; qual corria a lavar os pratos de estanho, qual
do como uma mUsica Ionginqua e maviosa, onde se contam Iongas
indagava pressuroso se era preciso mais lenha. hist6rias de amor, ou se referem dramas pungentes de nä:o sabidas
lutas e mis&ias (Pelo. Sertäo - "A Velhinha").
As vezes, predomina o homem cu!to, de clic,äo "nobre".
Cantando a gl6ria do buriti, em hino escolarmente antol6gico a No entanto, a face propriamente regionalista e respeitavel
arvore solitciria, vem-lhe a mente aproxinia~öes ret6ricas com 0 em Pelo Sertäo. Ern alguns "causos" do sertäo mineiro, Arinos
mundo grego: ·soube comunicar com exatidäo e contido sentimento a vida agres-
te dos tropeiros, campeiros e capatazes, pintando-lhes os habitos,
Nem rapsodistas antigos, nem a lenda cheia de poesia do can- as abusöes, o fundo moral a um tempo ingenuo e violento. Sou-
tor cego da Iliada, comovem mais do que tu, vegetal anciäo, can-
tor mudo da vida primitiva das sertöes. be, alfm disso, visualizar como poucos a paisagem mineira, de
sorte que, abstraindo um ou outro rebuscamento de linguagem,
E, alguns perlodos adiante, acrescenta um grito baquico As explicavel pela cultura em que se formara, Afonso Arinos ainda
suas exclama~öes: pode ser considerado um das bons "descritores" do conto bra-
sileiro.
Poeta das desertos, cantor~.mudo da natureza, virgem das set·
töes, evoe. Quanto 8. narrai;äo, os seus momentos altos säo, natural-
mente, aqueles em que predomina a simplicidade, colhendo o au-
tor a vida ambiente a superffcie dos fatos ( "Assombramento" -
( 170) Transcrevo com retoques as pagmas dedicadas a Afonso Ari- Parte III, "Joaquim Mironga" e "Pedro Barqueiro") e assumin-
nos e aos outros regionalistas em 0 Pre-Modernismo, cit. do-a em um nfvel estilfstico mfdio, acima da mera transcric;äo
( 171) AFONSO ARINOS DE MELO FRANCO (Paracatu, Minas, 1868 -
folcl6rica, mas abaixo de uma intui,äo profunda da condi,äo hu-
Barcelona, 1916). Pelo Sertäo, 1898; Os ]agun,os, 1898; Lendas e Tradi-
,oes Brasileiras, 1917; 0 Mestre de Campo, 1918; Hist6rias e Paisagens, mana subjacente ao "tipo regional". Säo momentos de equili-
1921. Cf. Tristä:o de Ataide, Afonso Arinos, Rio, Leite Ribeiro &:: Mau- brio literario, que confirmam a reputa,äo de bom escritor que
rilio, 1922; Eduardo Frieiro, Letras Mineiras, Os Amigos. do Livro, 19.37. os pr6prios modernistas näo negaram ao prosador de Pelo Sertäo.
234 2)5
A critica, a comec;ar It~lo livi;p classico de Tristäo de Ataide, De velha cepa paulista, ca1p1ra de cora~o e cultura, este
foi, em geral, laudativa, ·mas apresenta uma voz discordante: o juiz e homem publico sem macula consagrou o melhor de seu ta-
inteligente e irreverente Eduardo Frieiro, cujo ceticismo e fran- lento na expressäo do meio caboclo, logrando alcan,ar efeitos de
camente hostil a personalidade do escritor, preferindo recortar aderencia ii vida e ao falar sertanejo em verdade admiraveis.
os periodos artificiais, friamente parnasianos, que pontilham os Arinos temperava a transcrii;äo da linguagem mineira com
contos de Pelo Sertlio. Sera o caso .Qe dizer: e verdade, ma non um sensivel comprazimento de prosa classica; ja em Valdomiro
troppo. A presern;a de uma 'afs dictandi hoje antiquada, na fa- Silveira predomina o gosto da fala regional em si mesma: sinta-
tura lingüistica do livro, näo invalida o acerto descritivo nem a xe, modismos, lexico, fonetica, quase tudo acha-se colado 8 vi-
fluencia narrativa daqueles momentos pelos quais Afonso Ari- vencia "das homens e das coisas do interior.
nos tem permanecido na hist6ria da prosa brasileira. Por outro Devem-se distinguir, para melhor apreciar criticamente a sua
lado, se o compararmos a outros sedizentes regionalistas no ro- obra, os contos em que o amor as vozes semidialetais supera de
mance e no conto de seu tempo, näo nos sera licito subestimar muito a trama romanesca (ex.: "O Truco", em Lereias) e aque-
o equilibrio que o "patriarca" mineiro soube manter entre os les cuja camada verbal serve de instrumento ductil e eficaz il
dois polos da sua forma~äo literaria. representa,äo dos dramas caboclos.
Exemplo magnifico deste segundo tipo e o conto "Camu-
nhengue", inserto em Os Caboclos, hist6ria de um sitiante que,
V aldomiro Silveira contraindo lepra, deve abandonar a propria famflia afundando-se
no mato como um reprobo. Ambiente, pathos e palavra fundem-
-se nos diferentes momentos da hist6ria, desde a consulta na ta-
Valdomiro Silveira ( 172) compartilha com Afonso Arinos o
pera do curandeiro, ao cair da noite ( trecho exemplar de fixa-
merito de ter iniciado em nossas. letras uma prosa regional ao 'äo de uma atmosfera), ate o episodio final, no meio da tem-
mesmo tempo patetica e veraz ( 173 .) pestade:
S:i Janu3ria chamava-o, chorando desesperada. E ele pergun-
( 172) VALDOMIRO S1LVEIRA ( Cachoeira Pa~lista, 1873 - Santos, tou-llie de repente:
1941) Os Caboclos, 1920; Nas Serras e nas Furnas_l931; Mixuango, 1937; - Eu volto, sim, eu volto: voce quer que eu deite oa sua
Lertias. Hist6rias Contadas por Eies Mesmos, 1945. Cf. 0 Mundo Ca- cama? Ah? näo quer, pois antäo? 0 mundo e mesmo assim!
boclo de Valdomiro Silveira, Rio, Jose Olympio, 1977. Recomer;ara a chover miudameri.te, o sol passava frouxo e sem
( 173) Agenor Silveira reivindica para Valdomiro Silveira a priori- quentura pelas cordinhas d'3gua, quando o Zeca Estevo bateu o
dade na composi~äo de contos regionalistas. Reproduzo, a titulo de do- taläo nas ancas da mula e disse com voz em que havia uma tristeza
cumenta~äo, palavras suas endere~adas a Monteiro Lobato, o primeiro edi- infinita e um desespero inenarrivd:
tor de Os Caboclos: - Adeus, antäo, meu povo dalgum tempo!
"Antes de tudo, e bom ir-te dizendo que Valdomiro foi o criador da Voltou a ventania, primeiro quase mansa, depois furiosa e
literatura regionalista no Brasil. Qu~ro fazer-lhe justi~a, que outros de- uivante. E enquanto ele se sumia na reviravolta do caminho, a
moram tanto em praticar, correndo-lhes, mais que a mim mesmo, o de- chuva engrossava, pouco a pouco, ate se fazer outra vez um poder
sempenho de täo leve obriga~äo. De fato, ate 1891, data em que aparece de tempestade:
no DiJrio Popular de Säo Paula, o seu primeiro conto intitulado "Rabi~ - ... Ai meu Säo Born Jesus do Pirapora!
cho", näo me consta que nenhum escritor brasileiro manifestasse qua_l-
quer pendor para o regionalismo que desde entäo se tornou a nota ma1s Dentro dessa linha de inten~ao e de realiza,äo, sitna-se qua-
viva das suas produ~öes, estampadas no Dii1rio da T arde, no Pais, na Ga- se toda a prosa de Valdomiro Silveira: quadros de paixöes de-
zeta de Notkias, na Bruxa e na Revista Azul. ( ... ) A escola por ele fun-
dada, prestigiou·a desde logo a pena ilustre de Afonso Arinos, honrou-a mentares ("Desespero de Amor"; "Velha Dor"), tende:ncia pa~
com seus trabalhos o imortal patrkio Coelho Neto, e nela se inscreveram ra_ o patetico ( "Esperando") e para o tr<lgico ( "Curiangos", uma
muitos e muitos outros nomes, inclusive o do fulgurante autor das Urupes" Obra-prima) e, onipresente, a preocupa\äo com o registo exato
f"Pref<lcio" a l.• ed. de Os Caboclos). dos costnmes interioranos.
236 237
Simöes Lopes Neto pantano, perseguida pelo sedutor e acompanhada -da rosa verme-
lha a boiar sobre o lodo ("No Manantial"); o fim sangrento do
Joäo Simöes Lopes Neto ( 174 ) e o patriarca das letras boi velho, pagina doida e feroz, hoje pagina obrigat6ria de an-
gauchas. tologia ( "0 Boi Velho"); ou a do contrabandista que fora bus-
Dentro do quadro global do regionalismo antemodernista car o vestido de noiva para a filha a qua! recebe o pai morto e o
e nele que se reconhece imediatame~e ;un valor que ttanscende ttajo nupcial empapado de sangue ( "O Contrabandista" ).
a categoria em que a hist6ria füeraria s6i fixa-lo. E o artista en- Näo se infira, parem, que os contos do prosador gallcho se
<.JUanto homem que tem algo de si a transmitir, ainda quando construam apenas em fun~ä:o desses efeitos impressionantes: eles
pare,a fazer apenas documentario de uma dada situa,äo cultural. crescem. harmonicamente, integrando a paisagem e os caracteres
Seus contos fluem num ritmo täo espontäneo, que o car3ter ·se- no entrecho. Essa arte, que faz de cada inflexäo de estilo um
midialetal da l1ngua passa a segundo plano, impondo-se a verda- modo necessario de exprimir o homem e as coisas, e uma arte
de social e psicol6gica dos entrechos e das personagens. viril alheia as tendencias da prosa ornamental de seu tempo.
0 caso do tropeiro que perdeu numa barranca as trezentas Das lendas do folclore gaucho que Simöes Lopes Neto fi.
om;as de ouro do paträo e narrado com a singeleza de um conto xou, respeitoso da oralidade poetica que as anima, lembremos
ao pe do fogo, mas as imagens e met3foras que nele cam.peiam em primeiro lugar a de A M'Boitata ( a cobra de logo), cujo be·
atestam a fon;a pessoal de um estilo que domina a pr6pria ma- llssimo prindpio pede transcri,äo:
teria: Ao dar pela perda, diz o gaucho:
Foi assim: num tempo muito antigo, muito, houve uma noite
E logo passou-me pelos olhos um claräo de cegar, depois uns tä:o comprida que pareceu que nunca mais haveria luz do dia.
coriscos, tirante a roxo. . . depois tudo me ficou cinzento, para
escuro ... Noite escura como breu, sem lume no cCu, sem vento, sem sc--
renada e sem rumores, sem cheiro dos pastos maduros nem das fl<>
res da mataria.
N as descri\Öes o colorido sai sempre natural, nunca empa&-
Os homens viveram abichornados na tristeza dura; e porq,ue
tado pelo amor do pinturesco a todo custo: churrasco näo havia, nä:o mais sopravam labaredas nos fogöes e pas-
savam comendo canjica insossa, os borralhos estavam se apagando
A estrada estendia-se deserta; a esquerda, os campos desdo- e era preciso poupar os ti(:öes ...
bravam-se a perder de vista, serenos, verdes, clareados pela luz ma-
cia do sol morrente, machucados de pontas de gado que iam-se arro- Os olhos andavam tiio enfarados da noite, que ficavam para-
lhando nos paradouros da noite; 9 direita, o sol, muito baixo, ver- dos, horas e horas, olhando, sem ver as brasas vermelhas do nhandu-
melho, dourado, entrando em massa de nuvens de beiradas lumi- vai. . . as brasas somente, porque as falscas, que alegram, näo sal-
nosas. tavam, por falta do söpro forte das bocas contentes.

E ha narra,öes de desfechos tragicos, cujas imagens perma- E a lenda gaucha por excelencia, "O Negrinho do Pasto-
neceräo na hist6ria de nossa prosa de arte: a morte da jovem no reio", em que o grande escritor soube infundir andamento de
( 174) JoAo SJMÖES LoPES NETO "(.Pelotas, Rio Grande do Sul, 1865-
bfblica solenidade_:
-1916 ). Cancioneiro Guasca, 1910; Lendas do Sul, 1913; Contos Gauches-
cos, 1926; Casos do Romualdo, 1952. Consultar: Manoelito de Ornelas, Caiu a serenada silenciosa e molhou os pastos, as asas doS pis-
Simbolos Bflrbaros, Porto Alegre, Globo, 1943; Augusto Meyer, "PrefS:- saros e a casca das frutas. Passou a noite de Deus e veio a manhä
cio" a ed. critica de Contos Gauchescos e Lendas do Sul, P. Alegre, Glo- e o sol encoberto. E trCs dias houve cerrai;ä:o forte, e ttCs noites o
bo, 1950; Aurelio Buarque de Holanda, "Linguagem e Estilo de S. L. N.", estancieiro teve o mesmo sonho.
Introdu~ä:o a ed. cit.; Carlos Reverbel, "J. Simöes Lopes Neto, Es~o
Biogr3fico", Posf3cio a ed. cit.; Llicia Miguel-Pereira, Prosa de Ficfäo, cit.; Sirnöes Lopes e o caso limite de uma ttadi,äo ou cultura que
Moises Velinho, "Apresentm;ä:o" a Contos e Lendas de S. L. N., Rio, Agir,
1957, Ligia Chiappini Leite de Moraes, Regionalismo e Modernismo, S. se encarna em uma sensibilidade riqufssirna sem perder nem des-
Paulo, Atica, 1978. figurar ( ao contrario, sublinhando) seus tra~os espedficos. E o
238
239
exemplo mais feliz de prosa_regioi;ialista no Brasil antes do Mo- Hugo de Carvalho Ramos
dernismO.
A vida dos tropeiros goianos encontrou seu narrador no
malogrado Hugo de Carvalho Ramos ( 176 ), jovem hiper-senslvel
que morreu suicida aos vinte e seis anos. Seus contos, reunidos
Alcides Maia em T ropas e Boiadas, revelam plena aderencis aos mais varia-
... - dos aspectos da natureza e da vida social goiana que reponta vi-
Numa dire,äo aparentern~nte igual a de Simöes Lopes, mas gorosa em toda parte, nlio obstante certa estiliza,äo preciosa a
em substäncia diversa, o gaucho Alcides Maia ( 175 ) representa que, alias, dificilmente poderia subtrair-se o adolescente insegu-
o regionalismo artificioso dentro de um estilo entre pamasiano e ro recem-vindo da provincia para a Capital.
decadente. Näo se deve explicar o preciosismo a Coelho Neto De seu e de bom, Hugo de Carvalho Ramos trouxe o fres-
de Alcides Maia por uma situa,äo cultural provinciana. Eie era cor da mem6ria e um andamento sem pressa, que da tempo ao
intelectual de razoavel espfrito crftico, como provam suas pagi- leitor para ver tambem ele uns campos verdes e ondulados bri-
nas sobre o humor machadiano. 0 seu provincianismo derivava lhando ao so!, e ouvir uns silencios de mata cinzenta e enluara-
da pr6pria tradi,ao parnasiana ainda em vigor e representada com da que nao se esquecem.
exito nacional por aquele mesmo Coelho Neto, que, alias, pre-
faciou Tapera. Inteligencia menos inventiva que assimiladora, E a presen,a e a inteligencia do folclore em seus melhores
Alcides Maia serviu-se da materia regional para projetar uma contos ("Magoa de Vaqueiro" e "Gente da Gleba") tera sido
preocupa,ao de estilo "elegante" e frondoso, caro a literarura provavelmente a razao pela qua! Mario de Andrade, em confe-
da epoca. rencia celebre sobre o Modernismo, apontou a leitura de Tropas
e Boiadas como exigencia cultural das novas gera,öes, interessa-
Diz Moises Velinho: das em conhecer de perto a realtdade brasileira.
... ele recorre a palavras como "deslumbroso" por deslum-
brante, "cabeladura'' por cabeleira, ''resplendorar" por resplandecer,
"fUlvido" por fulvo, "colorizar" por colorir, "aligar-se" por ligar-se,
"revolutos" por revoltos, "espavorecidos" pt'lr espavoridos. "remor-
daz" por mordaz, e assim por diante, atC o infinite (Letras da 1
Monleiro Lobato
Provfncia, eil., p. 19).
Deixamos de prop6sito em ultimo lugar, nesta resenha de
Esse mesmo car3.ter assimilador, que desfigurava em vez
de orientar a imagina~äo do contista, levava-o a "analisar" as
II escritores de inten~es regionalistas, o nome de Monteiro Lo-
bato ( 177 ).
suas personagens, insistindo em motiva~öes pato16gicas. de cunho 1

naturalista retardado, mas que continuavam como ingrediente


constante na fic~ä:o anterior a Primeira Guerra. 1

(176) HuGO DE CARVALHO RAMos (Goias, Est. de Goias, 1895 -


Trata-se, em suma, de um caso extreme de mistura parna- Rio, 1921). Tropas e Boiadas, 1917; Obras Completas, 1950. Consul·
siano-regionalista, incapaz de abrir ·caminhos, ao contr3.rio de Si- 1 tar: Afonso FClix de Sousa, "Apresenta~ä:o" aos Textos Escolhidos, Rio,
Agir, 1959.
möes Lopes Neto, cuja fo"a artfstica näo cessou ate hoje de (177) Jos:E BENTO MoNTEIRO LoBATO (Taubate, S. Paulo, 1882 -
obter reconhecimento. 1
S. Paulo, 1948). Obras de fia;äo: Uruph, 1918; Cidades Mortas, 1919;
Negrinha, 1920; 0 Macaco que se Fez Homem, 1923; 0 Presidente Negro
(175) ALCIDES CASTILHO MAIA (Säo Gabriel, Rio Grande do Sul, 1 ou 0 Choque das Ra~as, 1926. Consultar: Tristä:o de Atafde, Primeiros
1878 - Rio, 1944). Ruinas Vivas, 1910; Tapera, 1911; Alma Barbara, Estudos, Rio, Agir, 1948 (o estudo e de 1919); Jose Maria Belo, A Mar
1922. Cf. Augusto Meyer, Prosa dos Pagos, Säe Paula, Martins, 1?43; gem dos Livros, Rio, Anuario do Brasil, 1923; Sud Menucci, Rodapes, S.
MoisCs Velinho Letras da Provincia, P. Alegre, Globo, 1944; Flortano Paulo, Piratininga, 1934; Agripino Grieco, Genie Nova no Brasil, Rio,
Maia D'Avila, 6 Meio Ambiente na Obra de Alcides Maitl, Rio, Instituto Jose Olympia, 1935; Edgard Cavalheiro, Monteiro Lobato, Vida e Obra
Brasileiro de Educar;äo, CiCncia e Cultura, 1958. S. Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1955, 2 vols.

240 241
0 papel que Lobato !Oxerce11- na cultura nacional transcen- di>iio moderno-antimoderno que dividiu o pensamento e a arre
de de muito a sua incfusäo entre os contistas regionalistas. Ele de Lobato.
foi, antes de tudo, um intelectual participante que empunhou a Permanece, contudo, o ficcionista de Urup§s, Cidades Mor-
bandeioo do progresso social e mental de nossa gente. E esse tas e Negrinha, embora näo na integra, em virtude daqueles pen-
pendor para a militäncia foi-se acentuando no decorrer da sua dores doutrin3rios que, nos Ultimos volumes, .introduzem no cor-
produ>iio literaria, de tal sorte que as primeiras obras narrativas po dos enredos mais de uma digressäo explicativa ou po!emica.
( Urupes, Cidades Mortas, Ne.grinba1"Jogo se seguiram livros de Mas näo se deve proCurar, mesmo nos momentos mais feli-
fic,iio cientlfica a Orwell e a Huxley, de polemica econömica e zes do contista, a categoria da profundidade, enquanto proj~o
social, que desembocariam, por firn, na originalissima fusiio de de dramas morais que revelem um destino ou configurem uma
fantasia e pedagogia que representa a sua literatura juvenil. existencia. Lobato era escritor de outro estofo: sabia narrar
Moralista e doutrinador aguerrido, de acenruadas tend~­ com brilho um caso, uma anedota e sobretudo um desfecho de
cias para uma concer>iio racionalista e pragmatica do homem, acaso ou violCncia. Daf decorrem seus riscos mais comuns: o
Lobato assumiu posi,iio ambivalente dentro do Pre-Modernis- ridfculo arquitetado dos contrastes e o paroxismo patetico niio
mo. Na medida em que a cultura do imediato p6s-guerra refle- menos arquitetado dos finais imprevistos e sinistros. De resto,
tia o aprofundamento de um filiio nacionalista, o criador do Jeca o ridiculo e o patc!tico, e as vezes o ridfculo patetico, säo quase
mantinha bravamente a vanguarda; com efeito, depois de Eucli- os unicos efeitos em fun,äo dos quais se articulam suas hist6rias.
des e de Lima Barreto, ninguem melhor do que ele soube apon- Ern Urupes, predomina a preocupa>äo de desenlaces depri-
tar as mazelas fisicas, sociais e mentais do Brasil oligarquico e mentes e chocantes: Lobato quis mesmo intitula-lo Dez Hist6-
da I Republica, que se arrastava por tras de uma fachada acade- rias Tragicas. Ja em Cidades Mortas.,. o desejo de reproduzir ce-
mica e parnasiana. Nessa perspectiva, Lobato encamou o divul- nas e tipos vistos nos vilarejos decadentes do Vale do Paraiba
gador agressivo da Ciencia, do progressismo, do "mundo moder- for,a a nota da satira local, emergindo caricaturas que tem Ja a
no", tendo sido um demolidor de tabus, a maneira dos socialis- sua comicidade. Por firn, Negrinha, que toma o tltulo do conto
tas fabianos, com um superavit de verve e de sarcasmo. inicial, e um livro heterog&ieo onde reponta com maior insistCn-
Entretanto .. _ essa mesma nota moralista e didatica afas- cia o documenta social acompanhado do costumeiro sentimento
tava-o do Modernismo de 22, ou ao menos das correntes irracio- polemico e da vontade de doutrinar e reformar.
nalistas que lhe permeavam a estetica. Lobato sentiria a vida No que tange a composi>äo, querendo imitar a objetividade {
toda, em nome do bom senso e da raziio ( como se fora um ve- de Maupassant, sem o genio do mestre, Lobato concentrava-se no
lho academico), total repulsa pelos "ismos" que definiram as retrato Hsico, na busca dos ddeitos do corpo ou dos aspectos
grandes aventuaras e as grandes conquistas da arte nove. risfveis do temperamento ou do cai::iter. Um anti-romantismo
centista: futurismo, rubismo, expressionismo, surrealismo, abstra~ algo pragm3tico, que o desviava continuamente da interioridade,
cionismo ... fazia-o descansar na superffcie dos seres e dos fatos cuja seqüCn-
A sua obra de narrador entronca-se na tradi,äo p6s-romiln- cia se revela por isso desumanamente funcional, no sentido da-
tica: retalhos de costumes interiÖranos, muita inten~ßo satfrica, queles mesmos efeitos de cömico e patetico que o autor queria
alguma piedade e efeitos variamente sentimentais ou pateticos. produzir.
Apesar de pontilhada de raro em raro por certas ousadias im- A indicai;äo dos limites da arte lobatiana parece colidir com
pressionistas, e uma prosa que näo rompe, no fundo, nenhum. a relevancia da figura humana que vive na hist6ria brasileira onde
molde convencional. 0 modelo näo atingido e E,a de Queir6s, ja assumiu um papel simb6lico. A verdade, porem, e que os li-
pela carga irönica e o gosto da palavra pitoresca. Um resto de mites esteticos derivam de um tipo de personalidade cuja dire-
purismo ( que ele täo bem satirizou em "O Colocador de Prono- c;äo bäsica näo era a estetica. Compreende..la em sua natureza
mes") levava~o a catar em Camilo vozes e torneios casti~amente espedfica, sem confundir os planos, e sempre a mais honesta das
lusos. S6 esse fato estilistico ja bastaria para denunciar a contra- · formas de lembra-la.

242 243
A POI;.SIA Vcndo atris Simon, Burdin, Turgot
E Kant c Condorcet e Leibniz - voou
Eie pra cumeada elCtrica da Gl6ria,
No decenio de 70 espraia-se com n1enos arte e mais gosto de Ap6s ter arrancado ao pClago da Hist6ria
abstrac;öes a corrente social hugoana que atingira seu ponto alto A vasta concha azul da Ciencia Sociall
na poesia de Castro Alves. Os promotores da Escola de Recife,
Tobias Barreto e Silvio Romero, e aliluns poetas forrados de in- "Cumeada eletrica da Gl6ria". . . "concha azu1 da Ciencia
genuo materialismo e fortes OOnvicc;öes antimon3rquicas, preten- Social" ... nunca os velhos rominticos desceriam tanto. Mas o
diam demolir, il for\a de versos libertarios, os pilares do conser- ato de negar e, como se sabe, fecundo. Reagindo ao que havia
vantismo romfilltico que se ajustara täo bem ao sistema de va- de caduco na pieguice dos ultimos intimistas, nao se caia fatal-
lores do Segundo lmperio. mente na ret6rica infeliz das versos citadas; abria-se tambCm
Ha boa messe da nova poesia parricipante nos Cantos do carninho para a exerclcio de uma outra linguagem, mais aderen-
Fim do Seculo (1878 ), de Sllvio Romero, nos Cantos Tropicais te aos sentidas, ao corpo, aos objetos que nos cercam.
( 1878 ), de Te6filo Dias, nos Cantos e Lutas de Valentim Ma- Par outro lado, mesmo no contexto da poesia romintica,
galbaes ( 1879), em Parisina, de Carvalbo Jr„ nas Telos Sonan- as imagens de Victor Hugo jci eram mais fortes e vivas que as
tes ( 1879), de Afonso Celso, nas Visöes de Hoje, de Martins de Lamartine; e foi a arte visual cintilante dos Chdtiments que
Jr. (1881), nas Opalas, de Fontoura Xavier (1884). Presente seduziu Theophile Gautier e Baudelaire e os ensinou a superar
em todos, alem dos ritmos hugoanos, o ideario do grupo de os chavöes do Ultra-romantismo. Lembrem-se estas palavras do
Coimbra cuja versäo poetica encontravam na Visäo dos Tempos, Ultimo, em honra da poesia hugoana:
de Te6filo Braga ( 1864) e nas Odes Modernas, de Antero de
Quental ( 1865). A mU.sica dos versos de Victor Hugo adapta-se as profundas
harmonias da natureza: escultor, ele recorta nas suas estrofes a for-
0 Diario do Rio de Janeiro registra nas suas colunas lite- ma inesquecivel das coisas; pintor, ilumina-as com a sua cor justa.
drias o momento agudo da febre: e a "Batalba do Parnaso" ( que E, como se viessem diretamente da natureza, as trCs impressöes pe--
nada tem a ver com parnasianismo), na qual se protestam os netram simultaneamente no cerebro do leitor. Dessa triplice im-
pressäo resulta a moral das coisas. Nenhum outro artista C mais
direitos da Ideia Nova, expressao igual a realismo, a democra- universal, mais capaz de se pör em contato com as for~as da vida
cia, a liberdade. Dos versos grandiloquos entao compostos nada universal, mais disposto a tomar um banho de natureza. Eie näo
restou, a näo ser um ou outro exemplo anto16gico de mau gosto, s6 exprime nitidamente, traduz literalmente a letra nitida e clara;
citado para escarmento da poesia de programa: mas exprime com a obscurid3de indispensavel o que C obscuro e
confusamente revelado ( 179).
A poesia de ontem de Abreus e de Varelas,
Coberta com 0 veu do triste idealismo,
S6 fazem-nos {sie) do amor as m6rbidas querelas De Baudelaire assimilam os nossos poetas realistas, Carva-
Sem olhar que a na~äo caminha pr'um abismo, lho Jr. e Te6filo Dias, precisamente os trac;os mais sensuais, des-
figurando-os por uma leitura positivista que näo responde ao
0 moderno ideal por sol- tem as dendas universo estetico e religioso das Flores do Mal. 0 eros baude-
Que as sendas lh'iluminatn; lairiano, macerado pelo remorso e pela sombra do pecado, esta
0 velho s6 tem flor, extratos e essencias, lange destas expansöes carnais, quando näo carnfvoras, de Car-
Passarinhos que trinam ... {178) 'I
'1 valbo Jr.:
1,,I Corno um bando voraz de IU.bricas jumentas,
Ou, de Martins Jr„ este hino a Augusto Comte: lnstintos canibais refervem-me no peito
("Antropofagia),
!:
Versos de Arnaldo Colombo, publicados na "Batalha do Par-
( 178) ( 179) Das Reflexions sur mes contemporains, ensaio que saiu na
naso" do Dillrio do Rio de Janeiro, 16-5-1878 (Apud Manuel Bandeira, Revue Fantaisiste de 15 de junho de 1861 e integrou mais tarde L'art ro-
Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana, PrefS.cio). mantique.

244 245
ou de Te6filo Dias, -. nos a que se costuma dar o nome de neoparnasianos, nascidos
todos, il exce~äo do ultimo, depois de 1880: Jose Albano, Gou·
. . . da presa, cnfim, nos mUsculos cansados
cravam. com avidez os dentes afiados lart de Andrade, Martins Fontes, Hermes Fontes, Moacir de Al-
("A Matilha"). meida, Amadeu Amara! ...

Assim, e de um Baudclaire tr~ltdo' que decorre o primeiro


veio realista-parnasiano entre n6s; dele e da poesia ainda romin· Alberto de Oliveira
tica, mas contida e correta, de Luis Delfino e de Guimaräes Jr., Alberto de Oliveira ( 181 ) encetou o seu longo roteiro poe·
poeta dos Corimbos ( 1869) e dos Sonetos e Rimas ( 1880) e,
tico parecendo um romäntico retardat:irio. E embora, a partir do
.enfim, de Machado de Assis, que abrigou a nova ge~o nas segundo livro, Meridionais ( 1884), ja se afirmasse o "culto da
suas crönicas literarias e deu exemplo de um estilo s6brio e
forma" com que ele pr6prio definiria a natureza do Parnaso, a
reflexivo em alguns poemas escritos a roda de 1880, enfeixados,
nota intimista da estreia repontaria esparsamente ate os Ultimos
mais tarde nas Ocidentais.
poemas, provando que näo fora posslvel, nem ao primeiro dos
Quanto ao nexo literatura-sociedade: atuando-se entre 1880
mestres parnasianos, a impassibilidade qul!" a escola preconizava.
e 90 os prindpios liberais e republicanos e fixando-se como for·
ma de vida do escritor a dlade burocracia-boemia, vai perdendo Na verdade, a teoria do "poeta impassivel" era uma cho-
terreno a poesia de combate e triunfando a escola oficial do ver· chice que s6 a mediocridade da reflexäo estetica de todo esse pe-
so parnasiano. rlodo seria capaz de engendrar. Na origem, a poesia que se se·
guiu a dos romänticos tendeu a diferenciar o momento emotivo
pelo registro mais atento das sensai;öes e das impressöes, deslo-
0 Parnasicmismo
cando assim a tOnica das sentimentos vagos para a visäo do real.
Baudelaire fa1ava em "moral das coisas", o que nä:o significava
impassibilidade, mas objetividade. Desta ultima, mal entendida,
E na convergencia de ideais anti-romilpticos, como a obje- passOU·Se em pouco tempo ao fetichismo do ob;eto, a reifica(äO,
tividade no trato dos temas e o culto da forma, que se situa a
poetica do Parnasianismo.
( 181) ANTÖNIO MARIANO ALBERTO DE ÜLIVEIRA ( Palmital de Sa-
0 nome da escola vioha de Paris e remontava a antologias quarema, Provincia do Rio de Janeiro, 1859 - Niter6i, 1937). Comec;ou
publicadas a partir de 1866, sob o tltulo de Parnasse Contempo- o curso de Medicina, mas interrompeu-o, passando para o de Farm3:cia em
rain, que inclulam poemas de Gautier, Banville e Lecomte de que se diplomou. Exerceu cargos pUblicos ligados ao ensino: Diretor Ge-
Lisle. Seus tra~os de relevo: o gosto da descri~äo nitida ( a mi- ra} da lnstruc;iio, Professor de PortuguCs e de Literatura Brasileira. De
mese pela mimese), concep~öes tradicionalistas sobre metro, ritmo s6lido presdgio nos meios literarios, membro fundador da Academia Bra·
sileira de Letras ( 1897L foi, em 1924, eleito prfncipe dos poetas brasi-
e rima e, no fundo, o ideal de hnpessoalidade que partilhavam leiros. Morreu octogen3:rio sobrevivendo ao Parnasianismo e a pr6pria glO-
com os realistas do tempo. ria. Obras: Can~öes Romänticas, 1878; Meridionais, 1884; Sonetos e Poe·
Depois de Te6filo Dias ( 180 ); cujas Fanfarras, de 1882, po· mas, 1885; Versos e Rimas, 1895; Poesias, 1900; Poesias, 2.• sCrie, 1905;
dem chamar-se, de direito, o nosso primeiro livro parnasiano, a ti
Poesias, 3.• sCrie, 1913; 4.• sirie, 1927; Poesias Escolhidas, 1933; P6slu-
t ma, 1944. Consultar: JosC Verfssimo, Estudos de Literatura Brasileira, 2_•
corrente tera mestres seguros em Alberto de Oliveira, Raimundo serie, Rio, Garnier, 1901; 6.• serie, 107; MUrio de Andrade, "Mestres do
Correia, Olavo Bilac, Francisca JUiia. Renovada pelo forte Ji. Passada - IV - Alberto de Oliveira" (escr. em 1921), reprod. em M:l-
rismo de Vicente de Carvalho, ela perduraria tenazmente ate o rio da Silva Brito, Hist6ria do Modernismo Brasileiro. I - Antecedentes
segundo decenio do sCculo XX, merce de uma gera~äo de eplgo- da Semana de Arte Moderna, S. Paulo, Saraiva, 1958, pp. 241-250; PCri-
cles Eugenio da Silva Ramos, "A Renova~äo Parnasiana na Poesia", em
A Lit. do Brasil (dir. de Afr3.nio Coutinho) e cit.; Phocion Serpa, Alberto
( tso) V. Antönio Cändido, Introdu~äo ils Poesias Esco/hidas de de Oliveira, Rio, Livr. S. Jose, 1957; Joäo Pacheco, 0 Realismo, S. Pau-
Te6filo Dias, S. Paula, Comissäo Estadual de Cultura, 1960. lo, Cu!trix, 1964.

246
247
de que fala a er! tica dialetic'!.- ao analisar o esp!rito da sociedade ß um vclho parcdäo, todo gretado,
burguesa nos seus aspectos autofruidores. Roto e negro, a que o tempo uma oferenda
Deixou num cacto cm flor ensangüentado
0 parnasiano tipico acabara deleitando-se na nomea~o de E num pouco de musgo cm cada fcnda.
alfaias, vasos e leques chineses, flautas gregas, ta,as de coral, ("0 Muro")
!dolos de gesso em rumulos de marmore. . . e exaurindo-se na
sensai;äo de um detalhe au na mem4l"ia ~de um fragmento nar- Quando voltado para a natureza, Alberto de Oliveira e, em
rative. • geral, mais vibrante. Falando da palmeira livre na montanha,
Entre a sua atitude estetica e a de um pintor impressionis- um dos seus t6picos, au da fonte na mata, o pamasiano näo
ta ha uma diferen,a de peso: a miio deste e mais leve e pura, se subtrafa ao fascfnio da tradi<;äo romäntica que, sem dllvida,
menos carregada de inten<;öes; mas subsiste em ambos como fun- fora a grande redescobridora do mundo selvagem e da possibili-
do comum a ambi,iio de fixar meridianamente o jogo das impres- dade de os homens nele se evadirem guiados pela poesia.
söes visuais.
0 ato de objetivar-se retoma a senda da identifica'8o ani-
De tal poetica nasce a composi,äo do quadro, da cena, do mista:
retrato:
Estranho mimo aquele vaso! Vi-o, Ser palm.eira! existir num pincaro azulado,
Casualmente, uma vez, de um perfumado Vendo as nuvens mais perto c as estrelas em bandoj
Contador sobre o mfil"mor luzidio, Dar ao sopro do mar o scio perfumado,
Entre um leque e o com~o de um bordado. Ora os leques abrindo, ora os lcques fcchando;
Fino artista chinCs, enamorado,
Nele pusera o corac;äo doentio E isto que aqui näo digo entäo dizer: - quc tc amo,
Em rubras flores de um sutil lavrado, Mäe naturcza! mas de modo tal quc o cntendas,
Na tinta ardente de um calor sombrio. Corno enteOdes a voz do piissaro no ramo
Mas, talvez por contraste a desventura, E o cco que tCm no oceano as borrascas tremendas.
Quem o sabe? . . . de um velho mandarim E pedir quc, ou no sol, a cuja luz referves,
Tamb6n Ja estava a singular figura; „
Ou no verme do chäo ou na flor que sorri,
Que arte em pinta-Ia! a gente acaso vendo-a Mais tarde, em qualquer tempo, a minh'alma conscrvcs,
Sentia um näo sei quC com aquele chiin Para que eternamentc cu me lembre de ti !
De olhos cortados 9. feic;äo de amCndoa ( "Aspirac;äo")
( "Vaso Chin~s)

A arte pela arte, aspirando a desfazer-se de qualquer com- Texto quase todo fraco, mas significativo como tema. A
promisso com os niveis da existencia que niio os do puro fazer regressäo romäntica ainda mais se acentua quando se casam o
mimetico, na sua concep~äo parnasiana acaba especializando-se hino 8. natureza e os sons das mem6rias juvenis, nos cantos de
em uma arte sobre a arte que s~ concentra na reprodu,iio de "Altna em Flor".
objetos decorativos: Ja o vaso chines, aqui a copa e a esratua 0 que, entretanto, sela a const3.ncia da parnasiano em AJ.
grega: berto de Oliveira e a fidelidade a certas leis metricas que a leitu-
Esta de iiureos relevos, trabalhada ra de Castilho ( Tratado de Versifica,äo) e dos franceses mais
De divas mäos, brilhante copa, um dia,
Ja de aos deuses servir como cansada, rlgidos como Banville e Heredia pusera em voga e os conselhos
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia. academicos de Machado de Assis tinham vivamente estimulado.
("Vaso Grego„) Forrados de tais princlpios, os nossos parnasianos entraram a de-
plorar, com ralo senso hist6rico, a "frouxidäo" e a ccincorr~äo"
Mas, quando consegue livrar-se do bizantinismo desses mo- dos romanticos, sem perceberem que estes tinham no ouvido ou-
tivos, o poeta produz versos expressives, belamente s6brios: tros ritmos, mais pr6ximos dos modelos medievais e populares,

248 249
e estavam mais inctinados a<> fluiclo e sugestivo da melodia que de uma poesia de sombras e luares quc inflectia am.illde cm me-
a mecänica do metro ( l82 ) • ' dita>öes desenganadas.
No c6digo novo condena-se o biato, responsavel pelo afrou- Estreou com uma cole~iio de versos em que Machado de
xamento dos elos entre as palavras; em conseqü&icia, rejeita-se Assis sentiu "o cheiro romintico da decadencia", os Primeiros
a dierese, que dilui a pronuncia dos ditongos. Acatando essas Sonhos, versos de adolescente que o autor näo incluiria na edi-
proibi,öes, Alberto de Oliveira cai "ll<!l>eiotremo oposto, a contra- i;äo definitiva das Poesias. Mas note-se que em meio a cadCn-
>iio sistematica das vogais que resulta no versa duro e martelado. cias casimirianas, ha um soneto a Ideia Nova, que jci entäo anwi-
Releia-se este verso de "Aspira~äo": ciava o republicano e o progres&ista.
Com Sinfonias ja temos o sonetista admiravel de "As Pom-
E o eco que tCm no oceano as borrascas tremendas.
bas'', "Mal Secreto", "Anoitecer", "A Cavalgada", "Vinho de
A contagem parnasiana do alexandrino une com violencia as Hebe", "Americana". Falando do sortilegio verbal do poeta,
trCs primeiras vogais (eo§) e elimina o hiato de ''oceano", es- Manuel Bandeira ( 185 ) nos ensinou a ver nele o autor de "al-
candindo o-cea-no. guns dos versos mais misteriosamente belos cTa nossa li'.ngua„,
A rigidez no nivel pros6dico ajustava-se aquelas pretensöes versos que, repetidos em tantas antologias escolares, nem por isso
de impassibilidade de Alberto de Oliveira que, como homem, foi perderiam o encanto de suas combina~Oes semanticas e musicais:
saudosista e sempre se alheou dos problemas nacionais, chegan- Raia sangüfnea e fresca a madrugada (As Pombas)
do mesmo a decktrar em um dos seus ultimos livros: "Eu hoje
dou a tudo de ombros, pouco me importam paz ou guerra e näo ( Bandeira comenta: "Quem niio ve nesse decassilabo todas
leio jornais" ( 188 ). as celagens e orvalhos da aurora?" )
Alias, niio s6 na mCtrica procurou ser duro o mestre flu- Neste, sublinha o efeito do hiato:
minense; tambCm a sua sintaxe mais de uma vez se contrai em A toalha frifssima dos lagos ( "Aria Noturna" ).
inversöes neoclassicas quando niio em verdadeiras slnquises har-
rocas, como se ve atentando para a primeir,!l quadra de "Vaso Aqui, a repeti>iio do dactilo:
Grego" acima transcrita. ~ a lua
Surge trCmula, trCmula ... Anoitece ("Cavalgada")
Com todos os seus limites, porem, Alberto de Oliveira re- 1

presentava algo que ia alem dos modismos do Parnaso: aquela em S. Paula. No periodo acadCmico foi ardente liberal e adcnirador de
mudan,a de eixo que se operou na poesia ocidental a partir de 1 Antero socialista. Formado, ingressou na magistratura. Durante algum
Gautier e de Baudelaire - da expressiio romantica do ego para tempo secretariou a legac;iio brasileira em Lisboa. Embora reconhecido
a inven,iio formalizante do objeto poetico. li pelos coetäneos como um dos melhores poetas do firn do skulo, pouco
participou da vida liter<iria escudando a pr6pria timidez com a reserva que

Raimundo Correia
II,. Ihe facultavam as func;öes de juiz. Morreu em Paris para onde fora em
tratamento. Obras: Primeiros Sonhos, 1879; Sinfonias, 1883; Versos e
VersOes, 1887; Aleluias, -1891; Poesias, 1898. Consultar: Alberte de Oli-
vcira, "O Culto da Forma na Poesia Brasileira", in Anais da Biblioteca
Menos fecundo e mais sensfvel, Raimundo Correia ( 1s4 ) es- 1

Nacional, vel. XXXV, Rio, 1913; Marie de Andrade, "Raimundo Correia"


bateu os tons demasiado claros do Parnasianismo e deu exemplo (escr. em 1921), reproduzido em M3.rio da Silva Brito, Hist6ria do Mo-
1 dernismo Brasileiro, I, Cit. pp. 234-241; Pc!rides Eugenio da Silva Ramos,
"A Renovac;äo Parnasiana na Poesia", em A Lit. no Brasil (dir. de Afränie
(182) V. os meticulosos estudos de Pericles Eugenio da Silva Ra-
Coutinho). cit., vol. II; Waldir Ribeiro do Val, Vida e Obra de Raimun-
mos em 0 Verso Romtlntico, Säo Paula, Conselho Estadual de Cultura,
1959, e em Do Barroco ao Modernismo, Säo Paula, C. E. S., 1967. do Correia, Rio, Instituto Nadonal do Livro, 1960; Joäo Pacheco, 0 Rea-
lismo, cit.
(183) Apud Geir Campos, Alberto de Oliveira - Poesia, Rio, Agir,
1959, p. 11. 0 texto encontra-se nas Poesias, 4.• serie ("Cheiro de Flor"). ( 185) M. Bandeira, "Raimundo Correia e o Seu Sortilc!gio Verbal",
( 184) RAIMUNDO DA MorA AZEVEDO CoRREIA ( Costas da Maranhäo Introduc;äo a Raimundo Correia - Poesia Completa e Prosa, Rio, Aguilar,
1859 - Paris, 1911). Fez humanidades no Colegio Pedro II e Direit~ 1961, pp. 12-32.

250 251
Outros exemplos de magia pla!ltica e sonora podem-se acrcs- Nos galhos da cheirosa laranjeira;
centar aos citados pelo cr!tic:O-poeta: E, ao silCncio e ao torpor cedendo, c@rra
0 dia os olhos no Ocidente absortos;
As cabcleiras llqüidas ondulam ("Missa Universal"), E fuma um negro incenso,
Que envolve toda a terra
Por ttus de ouro e de pllrpura raiados ( "Anoitecer"), - Sepultura comum, tllmulo imenso,
Dos vivos e dos mortos ...
0 sangrento perfil tra93 por trlt;o t"Luz e Treva"), E Eu do trono das nevoas, do cimerio
llha isolada como um dorso de baleia ( "A Ilha e o Mar"), S6lio de ebano, aos pes do qual, na altura,
Toda essa poesia c6smica fulgura,
De um sanguinoso abutre a rubra garra viva Vou jii descendo; e, aos poucos, lentamente,
("0 Povo"). Arrasto, desdobrada
Sobre este amplo hemisferio,
Dos cabelos a surda catadupa A minha solta cl:lmide tamanha,
("Americana"), Negra como remorso, e a que, someate,
Da lua crescentigera e chanfrada
A pomba da volUpia, a treva densa A ponta da unha luminosa arranha.
( uNa Penumbra"),
Na extrema raia do horizonte infindo Por outro lado, cadencias pre-simbolistas aparecem inequi-
( "Despedida"). vocas em "Banzo", soneto que M3.rio de Andrade admirava sem
reservas, e num dos Ultimos poemas que escreveu, "Plenilllnio",
Mesmo fora de contexto, esses versos resistem por seu ~ onde os claröes do astro se manifestam em sugestöes reiteradas,
der de transmitir sensar;öes raras, complexas, Os vezes agrupadas obsedantes, ate alcan,arem um clima de delirio:
em sinestesias. AICm nos ares, tremulante,
Era constante em Raimundo a capacidade de assimilar esti- Que visäo branca das nuvens sai!
Luz entre as fran~s. fria e silente;
los alheios, dom que lhe custou por vezes a p_;cha injusta de pla- Assim nos ares, tremulamente,
giario. Fino tradutor, fez seguir as Sinfonias, OS burilados Ver- Baläo aceso subindo vai ...
sos e Versöes em que da forma vernacula a poomas de Lope, By-
ron, Heine, Gautier, Hugo, Lecomte de Lisle, Catulle Mendes, Lunirias flores, ao feral lume,
Heredia e Rollinat. - Ca\:oilas de 6pio, de embriaguez -
Com o tempo, a poesia de Raimundo foi acentuando rra- Evaporavam letal perfume ...
E os len\:Üis d'iigua, do fetal lume
i;os que a estremam do espfrito parnasiano tal como se aclimou Se amortalhavam na lividez ...
entre n6s e a aproximam de Lecomte de Lisle pela filosofia amar-
FUlgida nevoa vem-me ofuscante
ga que revelam. Dessa percep1=äo negativa do mundo, chamado De um pesadelo de luz encher,
"agra regiäo da dor", ha exemplos-·v<irios nas Aleluias que, ape- E a tudo em roda, desde esse instante,
sar do tftulo, säo um brevi<irio de desengano: "Homem, embora Da cor da lua comC9) a ver.
exasperado brades'', ''Nirvana'', ''lmagem da dar'', "Desiludido'', E erguem por vias enluaradas
"Vana", o schopenhaueriano "Amor Criador" e estes versos das Minhas sandilias chispas a flux .. .
"Harmonias de uma noite de veräo", onde sopra um pessimismo Ha p6 de estrelas pelas estradas .. .
E por estradas enluaradas
c6smico: Eu sigo As tontas, cego de luz ...
Esta, de fel mesclada e de d~ra,
Melancolia augusta e vespertina, Um luar amplo me inunda, e eu ando
Que, com a sombra, avulta, cresce, invade Ern visioniiria luz a nadar,
E enche de luto a natureza inteira ... Per toda a parte, louco e.rrastsndo
Esse outro bardo, o sabia, näo tri.l)a 0 largo manto do meu luar •..

252 253
1
·.'
Olavo Bilac ·- Torce, aprimora, alteia, lima
A frase, e enfim,
No versa de ouro engasta a rima.
Fechando a triade e herdando o coro dos louvores academi- Corno um rubim.
cos, veio Olavo Bilac ( 186), o mais antol6gico dos nossos poetas. Quero que a estrofe cristalina,
Dobrada ao jeito
Neste literato de veia facil potencia-se a tendencia parna- Do ourives, saia da oficina
siana de cifrar no brilho da fr~se. isolJtla 'e na chave de ouro de Sem um defeito.
um soneto a mensagem toda da poesia.
Assim procedo. Minha pena
Hoje parece consenso da melhor crftica reconhecer em Bilac Segue esta norma,
näo um grande poeta, mas um poeta eloqüente, capaz de dizer Por te servir, Deusa serena,
com fluencia as coisas mais dispares, que o tocam de leve, mas o Serena forma.
bastante para se fazerem, em suas mäos, literatura.
Tal indiferen>a toma viavel o trato de motivos diversos co-
No portal das Poesias, a "Profissao de Fe", juramento apoe- mo puro exercfcio literario: o indio, de que Bilac e cantor tardio
tico de que o autor morrera "em prol do Estilo", define a pala- na esteira de Gon,alves Dias ( "A Morte de Tapir"), \ gue"a,
vra como algo que näo se identifica com a subst3ncia das coisas, paixä:o curiosa nesse refinado home.m de letras ( "Guerreira") e
mas "veste-an magnificamente: · enfim, copiosa tematica greco-romana, haurida nos parnasianos
franceses: "A Sesta de Nero", "0 Inc@:nd.io de Roma", "O So-
(186) ÜLAVO BRAs MARTINS nos Gu1MARÄES BILAC (Rio, 1865-
nho de Marco Antönio", "Lendo a Ilfada", "Messalina", "De-
-1918). Comei;ou Medicina no Rio de Janeiro e Direito em Säo Paula, mas lenda Cartago" ...
näo terminou nenhum curso. Cedo atrairam-no o jornalismo e a bo~mia, Nos tririta e cinco sonetos de Via Lfictea, o poeta encontra
brilhando em ambos pelo engenho verbal de que era dotado. Par ocasiäo
da Revolta da Armada, em 1893, Bilac, antiflorianista, refugiou-se em Mi- o seu motivo mais caro, o amor sensual, vivido numa fugaz exal-
nas, ai escrevendo CrOnicas e Novelas. Mais tarde, tido nos meios oficiais tac;ä:o. V aza-o em ritmos neocl3ssicos, pr6ximos de Bocage e,
como o nosso maior poeta vivo, foi honrado com vS:rias missöes pUblicas: mais raramente, de Camöes. Figuram na cole,äo algumas de.
jornalista acreditado junto a Campos Sales, na Viageffi a Argentina em 1902; suas p~as mais felizes: "Corno a floresta secular sombria", "Em.
secretiirio da ConferCncia Pan-americana do Rio, em 1.906, delegado a mes- mim tambem, que descuidado vistes", "Ora ( direis) ouvir es-
ma Conf. em Buenos Aires, em 1910; secretiirio do Prefeito do Distrito trelas! ", "Viver näo pude sem que o fel provasse", "La fora a
Federal, em 1907. Nos Ultimos anos assumiu conscientemente o papel de
poeta clvico entregando-sc todo a uma ~ampanha em prol do servi<;o mi- voz do vento ulule, rouca!", "Olha-me! 0 teu olhar sereno e
litar obrigat6rio. Foi eleito o primeiro "prfncipe dos poetaS brasileiros". brando" e "Tu, que no pego impuro das orgias".
Obras: Poesias, 1888; Poesias Infantis, 1904; Critica e Fantasia, 1-006; Con-
ferencias Literarias, 1906; Ironia e Piedade, 1916; ~ Defesa Nacional,
Näo e diflcil apontar nesses e noutros sonetos uma estru-
1917; Tarde, 1919. Em colaborai;äo com Guir:naräes- Passos: Pimentöes, tura intencional, toda voltada para a chave de ouro, que deve
1897; Tratado de Versificafäo, 1910; DicionOriO de Rimas, 1913. Ern co- sustentar a impressäo do firn como acorde de grande efeito:
laborai;äo com Manuel Bonfim e Coelho Neto, Atraves do Brasil ( livro
didiitico), 1913. Consultar: JosC Verisslmo, Estudos de Literatura Brasi- Na maior alegria andar chorando ( son. VI),
leira, 2.• ed., Rio, Garnier, 1910; Tristäo de Ataide, Primeiros Estudos Capaz de ouvir e de entender estrelas (XIII),
( o estudo sobre Bilac e de 1919), Rio, Agir, 1948; Amadeu Amara!, Dis-
cursos Acad§micos, IV, Rio, 1936 (o "Elogio deo Bilac" e de 1919); Maria Sat"ba, chorando, traduzir no versa (XXV),
de Andrade, "Mestres do Passado - V - Olavo Bilac" (escr. em 1921),
reproduzido em Miirio da Silva Brito, Hist6ria do Modernismo Brasileiro, Cmno um jorro de liigrimas ardentes (XXIX).
cit., pp. 251-261; Afonso de Carvalho, Poetica de Olavo Bilac, Rio, Civ.
Brasileira, 1934; 2.• ed., aumentada, JosC Olympia, 1945; El6i Pontes, A Alias, a obsessäo do efeito (sempre relativo ao sistema de
Vida Exuberante de Olavo Bilac, Rio, Jose Olympio, 1944; Alceu de A.mo-
roso Lima, "Apresentar;äo" a Olavo Bilac - Poesia, Rio, Agir, 1957; Fer- valores esteticos do tempo) leva o poeta pela mäo atraves de
nando Jorge, Vida e Poesia de Olavo Bilac, S. Paulo, Exp. do Livro, 1963. toda a obra posterior e vai marcar os seus pontos altos mas tarn-

254 255
bCm os seus limites. Bilac·.supre '11 careticia de uma real fanta- E, het6ico, estalari num. final, nos c1amora
sia artistica e de um sentimento fundo da condi,iio bumana com Dos arcos, dos metais, das cordas, dos tamborcs
o intenso brilbo descritivo, que conserva gra,as a um jogo habil Para glorificar tudo que amou na tcrra!
de sensac;öes e impressöes. A sua melodia, embora linear, näo
cbega a cair na banalidade, seu risco permanente. Niio escapa,
entretanto, a sorte de toda poesia ""ademica: e iterativa, am- Outros parnasianos
plificadora. •
Os temas que versou com mais assiduidade, como a beleza Alem da trfade, o Parnaso contou com um nUmero consi·
ffsica da mulhet, OS amplos cen3.tios, OS momentOS epicos da his- der&vel de poetas, que apesar de "menores", merecem lcitura,
t6ria nacional, ajustavam-se bem a esse trac;o exterio~ e ret6rico pois nem sempre se limitaram a repetir os modelos consagrados.
do seu modo de ser artistico; e deram-Ihe leitores fieis que re- Assim, ha muito de pessoal nos Cromos ( 1881), de B. Lopes
presentavam o gosto das gerac;öes resistentes ao impacto mo- que, antes de se perder no estetismo esnobe dos Brasöes_ e de
dernista. Val de Lirios, desenvolveu uma linha rara entre n6s: a poesia das
De ponto de vista ideol6gico, foi o poeta que melbor expri- coisas domesticas, os ritmos do cotidiano. '
miu as tendencias conservadoras vigentes depois do interregno
Merece igualmente aten,äo Augusto de Lima ( 1859-1934)
florianista. A politica renovadora que animara alguns fautores
da Republica seguiu-se um meufanismo est3tico e vazio, aman- que percorreu as varias etapas da poesia p6s-romantica, _d~sde ex-
periencias juvenis de literarura social ate a verrente relig1osa dos
te da tradi~ao pela tradi~ao considerada em si mesma como be-
leza. Bilac, poeta dos nautas portugueses em Sagres e dos ban- simbolistas mas deixou o melhor de si nas Contempordneas
deirantes no "Ca,ador de Esmeraldas", sera tambem o cantor ( Hi87), q~e partilbam com os poemas de Raimundo _Correia o
civico da bandeira, das armas nacionais e o didata hosanante das matiz filosofante, menos comum entre os nossos pamasianos. Da
Poesias Infantis. mesma gera~äo que o mineiro Augusto de Lima, os gauchos Fon-
toura Xavier ( 1856-1922) e Mucio Teixeira (1857-1928) con-
Quanta il sua poesia lirica, tambem sofre uma inf!exäo, niio tribu!ram com suas parafrases de Baudelaire para encorpar o vcio
direi intimista, que a rigor nunca o foi, mas~crepuscular, nos so- realista e er6tico do Pamasianismo.
netos de Tarde, no qua! o exaltado nacionalismo ( "Patria, late-
jo em ti") sobreleva os ardores sensuais em declinio ("Sou co-
mo um vale, numa tarde fria") e avultam as sombras do outo-
Francisca JUiia
no. Digam-no os titulos de alguns sonetos: "Sonata ao CrepUs-
culo", "O CrepU.sculo da Beleza", "O CrepUsculo dos Deuses",
"A um triste", "Respostas na sombra", "Milton cego", "Miguel- Vinda ap6s a consa_gra,äo dos mestres, Francisca JUiia ( 188 )
-Angelo Velho", "A Velhice de Aspasia", "Marcha Filnebre" ..• estreou com um livro, Marmores, que logo a al~ou ao nlve~ da-
Falando desse crepusculo bilaqueano, observou Manuel Bandei- queles, tal a fidelidade, e mesmo a rigidez, com que p~at1cava
ra com o sal da ironia: "Desejarfamos menos clangor de mctais os prindpios da escola. No entender do seu melhor cnuco ~o­
nessa grave sinfonia da tarde" ( 187 ). Aludia, de certo, ao fecho derno, Pericles Eugenio da Silva Ramos, talvez s6 ela tenha atm-
de "Sinfonia", o ultimo soneto do livro: 11 gido sistematicamente as condi,öes de impassibilldadc que o Par-
nasianismo, em tese, reclamava:
Hoje, meu cora~o, num scherzo de Ansias, arde
Em flautas e oboCs, na inquieta~o da tarde,
( ( 188) FRANCISCA JULIA DA S1LVA MUNSTER ( Xiririca, atual Eldora-
E entre csperan~s fege c entre saudades erra ... ' do Paulista, S. Paulo, 1874 - S. Paulo. 1920). Marmores, 1895; Es/in
ges, 1903. Edi~äo completa: Poesias, Conselho Estadual de Cultura, S.
1 Paulo 1961. Consultar: Mario de Andrade, "Mestres do Passado - 1 -
Ern Apresenta{izo da Poesia Brasileira, Rio, Casa do Estudan-
( 187) Francisca Jlllia" ( escr. em 1921 ), reprod. em M<irio da. Silva Brito, !fis!6ria
te do Brasil, 1946, p. 113. do Modernismo Brasileiro, cit.; PCricles Eugenio da S1lva Introdufao a ed.
citada de 1%1.
256
257
Musa! um gesto soquer de dar au de sincero
Luto jamais te afeie o cändido scmblante! Folga o intrigante. . . PorCm surgc um mano,
Diante de J6, conserva o mesmo orgulho; e diante E, vcndo morto o irmäo, perde a cabei;a:
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero. Crava um punhal no peito do tirano!

Em teus olhos näo quero a 12grima; näo quero S. preso o mano, mata·se a condessa,
Em. tua boca o suave e idflico descante. Endoidece o marido. . . e cai o pano
Celebra ora um fantasma aitgiliforme de Dante, Antes que outra cat&strofc acontei;a.
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero. ("lmpressöes de Teatro")
DS.-me o hemistfquio d'ouro, a imagem attativa;
A rima, cujo som, de uma harmonia crebra, Faz uso da pr6pria verve trocadilhesca para denunciar as pe-
Cante aos ouvidos d'alma; a estrofe limpa c viva; quenas e grandes mazelas do pals. Pequenas, como os buracos
da rua onde morava:
Versos que lembrem, com seus b.irbaros ruidos,
Ora o &spero rumor de um calhau que se quebra, Ö tu
Ora o surdo rumor de ma'.nnores partidos. Que es presidente
("Musa lmpassfvel") Do Conselho ~Iu.
Nicipal,
Corno alguns das ne6fitos de segunda hora, porem, a poeti· Se e que tens mu.
Lher e filhos,
sa atravessou a fronteira que a separava do Simbolismo, cujo
Manda tapar os bu-
ide3rio se afinava com as inquietai;öes religiosas da sua maturi- Racos da rua dos Junquilhos ( 189)
dade: em Esfinges, ja aparecem exemplos nitidos dessa nova pos-
tura espiritual e artfstica. Ou grandes, como os golpes de fon;a com que se pretendiam
resoiver os problemas da na\äo:
Artur Azevedo Desde 15 de novembro
Estamos na ditadura ...
Um nome a parte, pelo tom humoristico que soube dar a H:i muito tempo
Que a dita dura,
sua magra mas viva produi;äo poCtica, e o de Artur Azevedo, Näo h<l?
irmäo de Alufsio, e mais conhecido como jornalista e comedi6-
grafo. E diz agora um boato
Que s6 no seculo vinte
Parodiando com verve os resquicios ultra-rom3.nticos espa- Chamada a pastos
lhados na poesia e no teatro do tempo, Artur Azevedo nos mos· A Constituinte
tra um retrato fiel da sociedade carioca dos Ultimos vinte anos Sera ...
do sCculo, precisamente a face boeniia, o avesso daquela gravi- Ditadura!. Ha muita gente
dade burocr3tica com que posavaffi 03 medalhöes parnasianos. Que a considera ventura!
Seus versos de circunstäncia satirizam a cena melodram3tica: Concorde: e dita,
Mas dita dura
Que dramalhäo! Um intrigante ousado, De roer ... (190)
Vendo chegar da Palestina o conde,
Diz.Ihe que a pobre da condessa esconde
No seio o fruto de um amor culpado.
Naturalmente o conde fica irado:
- 0 pai quem e? pergunta. - Eu! lhe responde ( 189) Apud Raimundo de Magalhäes Jr., Artur Azevedo e Sua Epo.
Um pajem que entra. - Um duelo! - Sim! Quando? Onde? ca, ctt., p. 25.
No encontro morre o amante desgrai;ado. ( 190) Apud Raimundo de Magalhäes Jr., op. cit

258
versas, mas que ilustram bem a enfase dada aos estlmulos ex-
Vlcenle de Carvalho teriores:
Ao pör-do-Sol, pela tristeza
Renovando com brio a poetica realista a cavaleiro do novo Da meia-luz crepuscular.
serulo, Vicente de Carvalbo ( 1• 1 ) partilhou com Bilac um vasto Tem a toada de uma reza
drculo de entusiastas, sendo ate hoie,ulll dos poucos poetas an- A voz do mar.
teriores ao Modernismo que sobrevivem no gosto do leitor mt!- Aumenta, alastra e descc pclas
dio. 0 seu pensamento e a sua praxe estetica näo eram origi- Rampas <los morros, pouco a pouco,
nais; apesar das reiteradas profissöes de fe primitivista, como a 0 ermo de sombra, vago e oco,
"Carta a V. S.", onde canta a regressiio a vida do bugre pesca- Do ceu sem sol e sem estrelas.
dor, e dos acentos garrettianos de sua melhor lirica ("Rosa, ro- Tudo amortcce; a tudo invade
sa de amor"), foi parnasiano convicto e homem de sua gerat;äo, Uma fadiga, um desconforto ...
admirador de Comte e de Spencer. Como a infeliz serenidade
Do embaciado olhar de um morto.
Euclides da Cunha, prefaciando os Poemas e· Can,öes, viu
com clareza o tra~o definidor de Vicente: poeta naturalista; no
( "Sugest6es do CrepUsculo")
caso, o adjetivo significa naturista. A visäo do oceano, da mata e
da montanha e o encanto pela beleza da mulher sao tra~os co-
muns do romantico e do parnasiano. Vicente, enquanto fiel a Mar. belo mar selvagem
Das nossas praias solitirias! Tigre
Ultima pot!tica, pretende ser mais objetivo, mas nem sempre lo- A que as brisas da terra o sono embalam,
gra, no ato de compor, separar as puras sensat;öes do fascinio A que o vento do largo erri~ o pClo!
propriamente espiritual que lhe inspira a aparencia do mundo. Junto da espuma com que as praias bordas,
Da fusäo do sensorial e do einotivo nasce uma linguagem nova, Pclo marulho acalentada, a sombra
Das palmeiras que arfando se debru~am
rica em imagens da natureza e em resson3ncias psicol6gicas. 0 Na bcirada das ondas - a minha alma
naturismo de Vicente est9. em por em relev,P as primeiras, con- Abriu-sc para a vida como sc abre
trariamente ao que fariam u1tra-rom3.nticos e simbolistas. Trans- A flor da murta para o sol do estio.
crevo dois exemplos de situaf0es objetivas e- reafOes tonais di-
Quando eu nasci, raiava
0 daro mCs das gar~as forasteiras:
(191) V1CENTE AUGUSTO DE CARVALHO (Santos, 1866 - S. Paulo, Abril, sorrindo em flor pelos outeiros,
1924). Cursou Direito em Säo Paulo. Ainda estudante, publicou Arden- Nadando em luz na oscilai;äo das ondas,
tias ( 1885). De 1888 e Relic&rio. Militou na campanha republicana, fa- Desenrolava a primavera de ouro:
se em que abrar;ou o Positivismo. Mudado o regime, elegeu-se deputado E as Ieves gar~s, como folhas soltas
da primeira Constituinte· Paulista e exerceu por um ano a Secretaria do Num leve sopro de aura dispersadas,
Interior do Estado. Opondo-se ao golpe de Deodoro, afasta-sc da vida Vinha.m do azul do cCu turbilhonando
pllblica, em 1892. Vive ef!täo cinco anos como fazendeiro de cafC na ci- Pousar o vöo a tona das espumas ...
dade paulista de Franca s6" regressando a Santos quando o atinge uma
crise financeira. Na sua terra, 3 frente de uma numeroslssima famflia, l! o tempo em quc adormeces
exercera o cargo de Juiz de Direito. Conheceu Cxito liter3.rio a partir de Ao sol que ab rasa: a c6lera espumante,
Rosa, Rosa de Amor ( 1902), confirmado pela acolhida que receberam os Que estoura e brame sacudindo os ares,
Poemas e Can,öes, em 1908. Pertenceu Ss Academias Brasileira e Paulis- Näo os sacode mais, nem brame e estoura;
ta de Letras. Consultar: M3.rio de Andrade, "Mestres do Passado - VI Apenas se ouve, dmido e plangente,
- Vicente de Carvalho", em Mlirio da Silva Brito, Hist6ria do Moderni.s- 0 teu murmU.rio; e pelo alvor das praias,
mo Brasileiro, cit., pp. 262-270; Maria Conceic;äo e Arnaldo Vicente de Langue, numa carfcia de amoroso,
Carvalho, Vicente de Carvalho, Rio, Academia Brasileira de Letras, 1943; As largas ondas marulhando estendcs ...
Hermes Vieira, Vicente de Carvalho, o S:ibifl do Ilha do Sol, 2.• ed., Säo
Paula, Revista dos Tribunais, 1943.

260 261
Condenado c _insubmi.JSO Disse com acerto Otto Maria Carpeaux: "O Neoparnasia-
Como tu mesmo, eU sou Como tu mesmo nismo e fenömeno particular da literatura brasileira. Aqui e s6
l
Uma alma sobre a qual o cfu resplende ±;
- Longinquo ceu - de um esplendor distante. aqui fracassou o Simbolismo; e por iSso, o movimento poetico
Debalde, 6 mar que em ondas te arrepelas, precedente sobreviveu, quando j<i estava extinto em toda parte
Meu tumultuoso cora~äo revolto do mundo" ( 192 ).
Levanta para o cfu, como borrifos, Por que se teria prolongado em nossa poesia a linguagem
Toda a poeira de ow;,o dos· o'itus ~sonhos. parnasiana durante o primeiro vintenio do seculo XX, quando
("Palavras ao Mar")

Ern movimento paralelo ao predomlnio dos sentidos, o poe-.


ta de "Velho Tema" sobrepös ao seu intenso desejo de evasäo
' fora do Brasil o movimento simbolista de todo a superara? A
resposta dever3 procurar-se na sociologia da literatura.
Quem escrevia e para quem se escreviam poemas no perlo-
do antemodernista? 0 Parnasianismo e o estilo das camadas
dirigentes, da burocracia culta e semiculta, das profissöes libe-
pelo agitado mar sem praias do Universo, rais habituadas a conceber a poesia como "linguage~ ornada",
segundo padröes ja consagrados que garantam o bom !!"Sto da
imita<;äo. H3 um academismo Intima veiculado a atitude espiri-
uma poetica de rigor formal, ciosa de efeitos esteticos e espelho tual do poeta parnasiano; atitude que tende a enrijecer-se nos
de uma consciencia liter<iria quc se vigia e cre no valor da arte
epigonos, embora se dilua nas vozes mais originais. Os mesmos
enquanto arte. Rejeitando, na maturidade, o estilo frouxo e eiva-
temas, as mesmas palavras, os mesmos ritmos confluem para criar
do de cliches de seu livro de estreia, Ardentias, Vicente de Car- uma tradic;äo !iteraria que age a priori ante a sensibilidade artls-
valho dava enfase ao apuro verbal: tica, limitando-lhe ou mesmo abolindo-lhe a originalidade: bas-
Nio creio que haja poetas da forma c poetas de outra esp&:ie. ta considerar, nessa epoca <iurea da Academia Brasileira de Le-
Näo sei de poeta digno desse titulo que valha por obra em estilo tras, a voga imensa do soneto descritivo, ou descritivo-narrativo,
atamancado. ou did<itico-aleg6rico, fenömeno a que um modernista daria o
nome de "sonetococcus brasiliensis". . . Essa maneira revelava
E em outro passo da introdu\äo aos Versos da Mocidade: uma cultura provinciana e infecunda, e foi contra ela que o Mo-
" . . . a perfei\äo da forma e uma necessidade e a ambic;äo de a dernismo se rebelou com maior virulencia: o pr6prio M<irio de
realizar uma condi\äo da capacidade criadora." Andrade, cuja intui<;äo e sense etico da critica o impediam de
Palavras que indicam a perpetua<;äo de uma atitude anti· cometer injusti<;as, compös, em uma serie de artiges bem pensa-
-romäntica em um escritor que se julgava uespontäneo" e "pri- dos, o elogio fllnebre dos "mestres do passado", como chamava
mitivo". Escritas em 1908, tem um significado hist6rico, por- os maiores parnasianos ( I93).
que vem provar que, apesar do interludio simbolista dos fins do Para os menores, a piedade näo pareceu ·aos modernistas täo
seculo, OS c3.nones do Parnaso tinham vingado firmemente entre justificada. Vivendo em um munde cada vez mais aberto a in-
n6s. quieta\:Öes de toda ordern, contemporäneos de homens agönicos
e lucidos como Euclides da Cunha, Lima Barreto e Parias Brito,
representava, sem dUvida, indicio de pobreza cultural e de insen-
Neopamasianos
( 192) Otto Maria Carpeaux, Pequena Bibliografia Crftica da Litera-
11. gerac;äo de poetas que estreara entre 1880 e 1890 (Al- tura Brasileira, 3.• ed., Rio, Letras e Artes, 1964, p. 247.
berto de Oliveira, Raimundo Correia, Olavo Bilac) iria suce- (193) Maria de Andrade, "Mestres do Passada", in Jornal do Co-
der-se outra que se tem batizado como neoparnasiana, mas que, mercio, ed. Paulista, agosto, 1921, apud Mario da Silva Brito, Hist6ria do
Modernismo Brasileiro. Antecedentes da Semana de Arte Moderna, S.
no fundo, e ainda parnasiana, epigönica. Paula, Saraiva, 1958.

262
263
1
sibilidadc ils angustias do pr4prio t,empo aquelc fcchar-sc na galo- um mundo luminoso, apreendido por uma sensibilidade plastica,
la dourada dos catorze versos e cultivar um descritivismo re- amante da forma e da cor: na lisa superfkie, os aspectos solares
quintado ou um lirismo de curto fölego. da arte helfoica e do Renascimento italiano; no fundo, um idesl
Vista em conjunto, a poesia neoparnasiana traduz, cm su- de sereno hedonismo, inspirado em Renan e em Anatole France.
ma, a persist~ncia de uma conce~äo estetica obsoleta, que o Shn- Sem duvida, a "Ode a Bilac" e os poemas que abrem Luz
bolismo curopeu ja ultrapassara, abrindo caminho para as gran- Medite"anea induzem a essa interpretac;äo: o "P6rtico" e os ver-
des correntes poeticas do novo secü'lb: . futurismo, surrealismo,
expressionismo. . . Mas o estudo isolado dos melhores poetas de
sos a Floren~a säo ambos varia~s do mesmo tema da gr•••
pagä, da atica clareza, da elegincia florentina.
certo arredondara as arestas dessa aprecia~äo geral oegativa, apon-
Cidade de Ironia e da Beleza,
tanto aqui e ali momentos de feliz expressäo artistica ( 194 ).
Fica na dobra aaul de um golfo pensativo,
Entre cintas de praias aistalinas,
Rasgando iluminuras de colinas,
Raul de Leoni Cmn a gf89l ornamental de um aomo vivo.
(uP6rtico")
Da poesia de Rau! de Leoni ( ,„) ficou a imagem que su- Trago-tc a minba gratidäo latina
gere o nome de seu unico livro: Luz Mediterränea. Imagem de Porque foi no teu seio quc se fez
Toda a ressurreil;io da Vida luminosa:
0 Floreni;a! 0 Floreni;a!
( 194) Niio cabe neste roteiro deter-me nos incontiiveis epigonos do A mais humana das cidades vivas!
Parnasianismo brasilciro. Remcto ao cstudo, j8 citado, 0 Pre.Modernismo A msis divina das cidades mortas!
( pp. 21 ·33) onde se consideram algumas figuras significativas: o purista
("Flo~")
Jose Albano (1882-1923), o grave e sentencioso Amadeu Amara! (1875-
-1929), o virtuose Goulart de Andsade (1881-1936), o sonoro Martins
Fontes (1884-1917), o ret6rico Moacir de Almeida (1902-1925), o filo- Mas näo se explicaria a estima que a Rau! de Leoni dedi-
sofante Hermes Fontes (1888-1930). A historiografia literiria mais mi- caram crlticos modernistas e p6s-modernistas, se a sua arte se es--
nudente poderia lembrar outros nomes de poetas que prod.uziram. dcsdc gotasse no estetismo, fosse este embora de gosto mais apurado
os fins do sCculo passado e resistiram, em geral,„ ao im.pacto do Modcr- que o dos demais helenizantes da epoca. Ha em Luz Mediter-
nismo: Alberto Ramos ( 1871-1941). precursor do verso livre entre n6s;
Bastos Tigre ( 1882-1957 ), Batists Cepelos ( 1872-1915), que se rcalizou
ränea a mäo do artista capaz de versos soberbos de visualiza~äo
tamhCm como simbolista; Belmiro Brap ( 1872·1937). bom compositor e de ritmo: o dom da expressäo n!tida, da palavra ductil, da hna-
de trovas; Ciro Costa (1879-1937); Gilka Machado (1893); Gustavo Tei- gem plasmada sem rugas nem manchas assistia no jovem poeta.
xeira (1881-1937); Heitor Lima (1887-1945), Jose Oiticica ( 1882-1957); Por isso, seus versos resistem em meio a ge_ral caducidade da
Luls Carlos ( 1880-1932); Paulo Gon1;alves ( 1887-1927); Ricardo Gon- poesia neoparnasiana:
i;alves (1883-1916); Rosalina Coelho Lisboa (1889 - )„.; enfim, o mais
independente de todos, Oleg3rio Mariano ( 1889·1958), que, pcrpctuando Eu era uma a1ma f8cil e mac:ia,
o verso tradicional atC a morte, deu exemplo de um lirismo aberto e sim. Claro e sereno espelho matinal
ples (Toda Uma Vida de Poesia - 1911-1955, Rio, Jose Olympio, 1957). Que a paisagem das c:ousas refletia,
Sobre os neoparnasianos näo ha Urp estudo sistemitico, mas podem-se Com a luc:idez cantante do c:ristal.
ler com proveito as nota~öes de Agripino Grieco, na Evolu,äo da Poesifl ( "AdolescCnc:ia" )
Brasileira (Rio, Ariel, 1932). A melhor antologia e a de Fernando Goes
Panorama da Poesia Brasileira, vol. V, 0 Pre-Modernismo Rio Ed. Civi~ po. Eleito deputado estadual (RJ), oäo pOde prosseguir na c:arreira poli-
liz.a~äo Brasileira, 1960. '
tica por motivo de doeni;a. Sabendo-se tfsic:o, ret.irou·se para I taipava, no
(190) _RAuL DE LEONI RAMos (Petr6polis, 1895 - ltaipava, RJ, interior do seu estado, a( falecendo aos trinta e um anos de idade. Obra:
192~). Fe1tos os estudos secundirios, viajou para a Europa (trazendo vi- Luz. Mediterränea, 1922. Cf. Agripino Grieco, Vivos e Mortos, Rio, Ariel,
vas 1mpressöes da arte clissica e renascentista. Cursou Direito no Rio de Ja- Nestor Vitor, Os de Hoje, S. Pau]o, Cultura Modema, 1938; Carlos Dan-
neiro, distinguindo-se pela finura de espirito e, caso raro no tempo, pelo i te de Morais, Realidade e Fic~äo, Rio, MinistC1io de Educ:a~äo c Salide,
ai_nor aos esportcs. Apadrinhado por Nilo P~anha, teve ac:esso f8cil a 1952; Germano de Novais, Raul de Leoni, Porto Alegre, tese universi-
d1plomac:ia, servindo em Montevidfu e no Vaticano, mas por pouco tem- tiria, 1956.

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1
1
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~
,,
!

Espfrito flexfvd e degante,


1
Viste que a Vida ~ uma apar~ncia_ vaga
Agil, Iascivor pIJistico, diffiso, E todo o imenso sonho que seme1as,
Entre as cousas -humanas me conduzo Uma legenda de ouro, disttaf4a,
Como um destro ginasta diletante. Quc a ironia das 8.guas Ie e apaga,
Comigo mesmo, Unico e confuso, Na mcm6ria volllvel das areias! ...
Minha vida e um sofisma espiralante; ("Et omnia vanitas")
T~o 16gicas trc!fegas c abuso Falando da Verdade:
do Equilibrio na Thfvida ··fI~al'lte. Foi a sombra de um v6o refletida
Bailarino dos cfrculos viciosos, No cspelho da 8.gua ttemula de um rio ...
Fai;o jogos sutis de idc!ias no ar Sombra de um vöo na 8.gua trCmula: Verdade!
Entre saltos brilhantes e mortais. ( "Ao mcnos uma vcz em toda a vida")
Ou das ideias:
Com a mesma petuläncia singular
Sao as sombras das cousas flutuando
Dos grandes acrobatas audaciosos
E das malabaristas de punhais . No espclho m6vcl do teu ·pensam.ento!
( "Do Meu Evangelho")
( "Mefisto")
A luz mediterrilnea de Rau! de Leoni recortara coll't' nitidez
0 mundo das formas em Raul de Leoni nao se arma, po- OS contornos da paisagem, mas seu crepUsculo abria caminho as
rem, sobre o puro vazio do estctismo: anima-o uma contida vi- sombras da intimidade.
brac;äo ( que mais sobressai em um temperamento näo-romanti- Nos fragmentos em prosa que deixou esse leitor assfduo
co) diante da vida que passa, ilus6ria e fugaz, como sombra de de Valery, e possivel rastrear uma atitude cetica ante o fluxo
desengano a seguir necessariarnente a fruir;äo da beleza terrena. do pensamento e do ser:
Convem insistir nesse outro Raul de Leoni, "secreto", que Afinal, tudo o que se disser sobre as coisas pode ser ver?ade.
sabe modular em cadencias penumbristas o conceito de pensa- Preferimos sempre a filosofia do nosso tempera!Ilento. _ As hlos?"
mento como quintessencia da vida: fias säo os diferentes climas do espirito. A Iron1a, se nao C a ma1s
razo8.vel de todas as filosofias, C pelo menos a mais cOmoda, a mais
Os sentidos se esfumam, a alma e essencia elegante e a menos ridlcula.
E entre fugas de sombras transcendentes,
0 Pensamento se volatiza. Näo e de estranhar que no seu relativismo haja entendido
("A Hora Cinzenta"} com invulgar lucidez o movimento modernista, articulando-o com
Sou mais leve do que a euforia de um anjo o espfrito dos novos tempos. Vale a pena reproduzir estas linhas
Mais leve do que a sombra de uma sombra ' de um artigo seu, a prop6sito das correntes estCticas revolucio-
Refletida no espelho da Ilusäo.
n3rias:
Ai:n·a·,. ~. ~~t~d~· di~i·~~ "d~ ·~~~~r·i~ ~ .. A ciCncia moderna, provocando uma espantosa acderai;iio de
todos os ritmos da vida exterior, criou, logicamente, para o homem
("De um Fantasma") uma necessidade de sintese extrema de todos os movimentos e ope-
rar;öes do seu mundo pslquico. Obrigado a viver mais deprcssa,
Foi essa inflexäo simbolista cfue, avizinhando animus e ani- ele teve de sentir, de pensar e de agir mais depressa, e, em conse-
n1a, luz e sombra, propiciou o aparecimento de seus versos re- qüencia, de dar uma expressäo mais r<lpida ao que sente,. ao 9uc
flexivos, embora nunca a?stratos nem did3ticos, tal era no poeta pensa, ao que faz, ao que vive. Sua .art; •. par~ ser uma. c~1s~ viv~,
a fon;a de ver e de conf1gurar as sensac;6es mais diversas. Näo deveril portanto ser extremamente stntettca, tnlensa, dinamica, lt·
vre consistiltdo quase, em pura sugestllo, em que sc condense, no
sendo um poeta sentimental, nem por isso se transformou em um rec~rte de uma imagem, rodo um munde de ideias associadas. Eco-
1

"~oeta de. ideias", pois levava em si o artista que funde o con- nomia de formas; Arte de um homem que näo pode perder tem·
ceao na imagem e o pensamento na palavra ern que todo se po interior ...
compraz.
Raul de Leoni, poeta de formas antigas, era inteligencia
Eis como "define" a Vida: ousadarnente rnodema.
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1
1
..,.
" {
T.t:ATJIO 11'
suas e alheias de 1873 ate as vesperas de sua mortc, ocorrida
A comedia de costumes que desde Martins Pena e Macedo em 1908.
1
vinha espelhando alguns estratos da sociedade brasileira, especi- Quando o escritor maranhense encetou a sua carreira, o
almente os que convergiam para a Corte, continua, durante o teatro p6s-romintico exibia os dramas de casaca, assim chamados
1
Realismo, a atrair o interesse da pi)blico, apesar da concorr&lcia por IDOStrarem no palco a vida burguesa da epoca C näo mais OS
do vaudeville parisiense e da epcra ii'aliana, .ambos em plena vo- quadros hist6ricos que a tradi,äo classica e, depois, romintica,
tinha privilegiado. Mas, gra~as a a,äo do novo Ginasio Dra-
1

ga na segunda metade da sCculo.


0 nome de Artur Azevedo ( ,„)
impöe-se entäo como o do 1
matico, fundado em 1855, a esses dramas vieram acrescentar·se
continuador ideal de Martins Pena. Ja o vimos saboroso poeta pe~as, ja romantico-realistas, vindas de Paris e assinadas por Du·
humorfstico, mas ele mesmo declarava que os melhores versos mas Filho, Scribe, Augier, Sardou: assim, A Dama das Camelias,
que escrevera estavam espalhados em suas quase duzentas revis· que tanto exito alcan~ara, estreia no Rio aos 7 de fevereiro de
tas. Metido na vida teatral desde a adolescencia, Artur Azevedo 1856, apenas quatro anos depois da sua apresenta~o em Paris.
conseguiu que fossem levadas a cena suas primeiras comedias Artur Azevedo tentou inserir-se nessa corrente chamatica
como Amor por Anexins e Horas de Humor. 0 exito facil des- escrevendo "teatro sCrio", algumas p~as em verso que, segun-
tas contribuiu para marcar os limites da sua cria~äo, nivelan- do o seu pr6prio testemunho, näo resistiram ao teste da reprea
do-a com 0 gosto do publico medio; em contrapartida, desenvol- sentac;äo. Ao contrario, enveredando pelos gc!neros "ligeiros"
veu-lhe OS dotes de comunicabi!idade, 0 que e quase tudo para da revista politica e da bambochata, e parodiando dramas fran-
um comedi6grafo. ceses em voga, atingiu o supremo alvo, o aplauso do publico,
Para a hist6ria do nosso teatro, näo s6 como texto, mas que niio mais lhe foi regateado. Assim, quando um jomalista
principalmente como uma estrutura complexa que abrange fato- ranzinza o acusou de acelerar a "decadc!ncia" do teatro brasileia
res varios, desde o substrato material da empresa ate problemas ro com as suas revistas e par6dias, defendeu-se em termos que
de encena~äo e de interpreta~iio, o papel de Artur Azevedo foi valem como um atestado da intera~iio autor-sociedade na hist6-
relevante: basta dizer que escreveu e fez tepresentar comedias ria da cena brasileira:
Quando aqui cheguei do Maranhäo, em 1873, aos 18 anos de
idade, ja tinha sido representada ccntenas de vczes no Teatro S.
( 196) ARTUR NABANTINO GoNt;ALVES DE AzEVEDO ( Säo Luis do Ma- Luls, A Baronesa de Cai4p6s, par6dia d'A Grii-D•quesa de Gerols·
ranhio, 1855 - Rio de Janeiro, 1908). Irmio de Alufsio Azevedo, pre- tein. Todo o Rio de Janeiro foi ver a ~. inclusive o imperador,
cedeu este na transferCncia para a Corte, onde sc dedicou . ao jornalismo que assistiu, dizem, a umas vinte rcpresentai;öes consecutivas ...
c sobrctudo ao teatto, de que foi o maior animador em sua Cpoca. Pouco Quando aqui cheguei, j3 tinham sido reprcsentadas com. gran-
antes de falecer foi nomeado diretor do Teatro da Exposi~o Nacional de exito duas par6dias do Barbe-Bleu, uma, o Barba de Mübo, assi-
cargo de quc sc valeu para divulgar comedi6grafos brasileiros do Roman~ nada ~r AuguSto de Castro, comedi6grafo considerado, c outra, o
tismo. AlCm. de ~. escreveu crOnicas e contos humodsticos. Obra Traga-Mofas, por Joaquim Serra, um dos mestres do nosso jorna-
teatral: Amor por Anexins, s. d. ( 1872?), Horas de Humor 1876· A Pele lismo.
do Lobo, 1877; A ]6ia, s. d.; A Princesa dos Caiueiros, 1s8o; O 'uberato,
1881; ~ Mascote na Rofa, 1882; A Almaniarra, 1888; 0 Tribo/e, 1892; Quando aqui cheguei, jß o Vasques tinha feito reprcsentar, na
Fenix, o Or/eu na Ro,a, que era a par6dia do Orpbee aux Enfers,
Revelllfao de Um Segredo, 1895; 0 Maior, 1895; A Fantasi4, 1896; A Ca-
p1tal Federal, 1897; Confid~ncuzs, 1898; 0 Jagunro, 1898; O !Jadeio, s. d.; exibida mais de cem vezes na Rua da Ajuda.
Gavroche, 1899; A ViUva Clark, 1900; Comeu.', 1902; A Fante CastJ.lia, Quando aqui cheguei, j8 o mestre que mais prcm entre os lia
1904; 0 Dote, 1907; 0 Oraculo, 1907. Obs.: A partir de 1955 vem sen· teratos brasileiros, passados e presentes, havia colaborado, cmbora
do publicadas ~ inCcli~s .de Artur ·Azevedo pelos Cadernos da Revista anonimamente, nas Cenas da Vida do Rio de Janeiro, espirituosa
da SBAT (Sociedade Brasile1ra de Amigos do Teatro). Contos: Contos par6dia d'A Dama das Camelias.
Fora da Moda, 1894; Cantos Efemeros, 1897; Cantos Posslveis, 1908. Con- Antes da Filha de Maria Angu apareceram. nos nossos palros
sultar: R. Magalhäes Jr„ Artur Azevedo e Sua Epoca, Rio, 1953; Josu6 aquelas e outras par6dias, como fossem Faustino, Fausto ]Unior,
Montello,,Artur Azevedo e a Arie do Conlo, Rio, Livr. S. Jood, 19'6. Geralda Geraldina e outras, muitas outras, cujos tftulos näo mc
ocorrem.
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269
-,.. /""
Ja vC o Sr. Cardoso '1a Meta quc näo fui o primciro.
Escrcvi A Filba de Maria Angu, por desfastio, scm. inte~o
de exibi-la cm nenhum teatro. Depois de pronta mostrci-a a Viscon-
ti Coaracy, c este pediu-me que lha confiasse, c por sua alta recrea-
r;1io leu-a a dois emprcsiirios, que dispuwam ambos o manuscrito.
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As cenas das suas comedias exploram patuscament
d o Brast·1 I mper1a
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· 1: o fazendeiro paulista
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come vartos
erc1ante
por ugues, o po ttlco oquaz e matreiro, o imigrante espertalhäo.
Em As Doutoras, aborda o tema do feminismo mas n-30 f
Venceu Jacinto Heller, quc a pös cm cena. 0 ptiblico näo foi da · 1 ;. . • oge ao
tarn convenc1ona que a mater1a 1nspirava äs rodas conservadoras.
opiniäo do Sr. Cardoso da, .Mota, 3to i!:, näo a achou desgraciosa;
aplaudiu-a cem vezes seguidas, c eu, quc näo tinba ncnhuma ve- , "~ran!a Jr., tt;r3 deixado o melhor de si näo ao teatro, mas
leidade de autor dramS.tico, cmbolsei alguns contos de rCis quc ne- a cro?tca 1ornahst1ca dos Folhetins que evocam o Rio dos meados
nhum mal fizeram nem a mim nem l Arte. do seculo.
Pobre, paupc!rrimo, c com cncargos de fam!lia, tinha o meu
destino naturalmente tracado pelo bito da ~; eotretanto, pro-
curci fugir-lhe. Escrevi uma comCdia literiria, A Almania"a, cm Machado de Assis ( "")
quc näo havia mon6logos nem apartes, e essa comedia esperou ca-
torze anos para ser representada; escrcvi uma com~dia cm 3 at?S,
em verso, A ]6ia, e, para que tivesse as honras da representacao, Das primeiras comedias de Machado disse Quintino Bo"'
fui coagido a desistir <los meus direitos de autor; mais tarde escre· caiUva ao pr6prio autor que lhe pedira um parecer franco: "säo
vi um drama com Urbano Duarte, e esse drama foi proibido pel~
Conservat6rio· tentei introduzir Moliere no nosso teatro: traslade1 para serem lidas e nä:o representadas" ( 199). Era opiniäo sen-
A Escola dos' Maridos em redondilha portuguesa, e a peca foi re- sata que o tempo confirmou, pois, fora das salöes onde estrea-
presentada apenas onze vezes. Ultimamente a empresa do Rccrcio, ram, as pec;as do nosso maior romancista quase näo voltariam
quando, obedecendo a um singular capricho, desejava ver o teatro a recitar-se.
vazio, anunciava uma representac;äo da minha comedia em verso, 0
Badejo. 0 meu Ultimo trabalho, 0 Retrato a öleo, foi represen- No entanto, Machado sempre amou o teatro, foi censor e
tado meia dtizia de vezes. Alguns cdticos trataram-me como se eu critico inteligente durante longos anos e deu a cena suas primei-
houvesse cometido um crime; um deles afirmou que e11 insultara
ras produ\öes empenhadas: a comedia Roje Avental, Amanhä
a famllia brasileira!
Luva e a "fantasia dram3tica" Desencantos, escritas quando ele
Ern resumo: todas as vezes que tentai fazer teatro sCrio, em
paga s6 recebi censuras, apodos, injusti~as e tudo isto a seco; ao mal contava vinte e um anos de idade.
passo que, enveredado pela bambochata, näo me . faltaram ~u.nca A precocidade da experiCncia, se deu ao futuro narrador um
elogios, festas, aplausos, proventos. Relevem-me c1tar. esta Ultima bom manejo do dialogo, foi nociva ao dramaturgo que cedo se
f6rmcla de gl6ria, mas - que diabo! - ela C essenc1al para um
pai de familia que vive da sua pena.
viu preso a esquemas de convenc;äo mundana e semi-romintica,
s6 de raro em raro superados nas melhores comfdias, Quase Mi-
Näo meu caro Sr. Cardoso da Mota, näo fui eu o causador da
debacle: 'n1io fiz mais do que plantar e colher os Unicos frutos de
que era susceptivel o terreno que encontrei preparado ( 197).
{ 198) Cronologia do teatro n1achadiano: 1860 - Hoje Avental, Ama-
nhä Luva, "comedia imitada do frances"; 1861 - Desencantos· 1863 -
Pouco antes de Artur Azevedo, escreveu Franc;a Jllnior 0 Caminho da Porta; 1863 - 0 Protocolo, 1864 - Quase Minfstro; 1866
( 1839-1890) algumas comedias cheias de verve, mas presas a - Os Deuses de Casaca; 1870 - Uma Ode de Anacreonte ( versos inclu{-
mentalidade saudosista do flurninense que nä:o ve com bons olhos dos nas Falenas); 187_8 - 0 Bote de Rape (incl. em Contos Sem Data);
1~7~ - Antes da Missa, conversa de duas damas, em um ato (incl. cm
o progresso dos costurnes burgueses na Corte e procura em tu- Pagtnas Recolhidas); 1880 - Tu, S6 Tu, Puro Amor· 1896 - Näo Con-
do o lado ridiculo para chamar junto a si o bom senso da s~ltes Medico; 1906 - Li(i'io de Bot&nica; 1865? -'As Forcas Caudinas
publico. (incl. nos Contos sem Data). Consultar: DC:cio de Almeida Prado 1 "A
Evolur;ao da Literatura Dram<itica", em A Literatura no Brasil, cit„ vol.
II; Joel Pontes, Machado de Assis e 0 T eatro, Rio, Servi~o Nacional do
{ 197) Apud J. Galante de Sousa, 0 Teatro nu Brasil, 2." eJ., Rio, Teatro, 1960; Sabato Magaldi, Panorama do Tealro Brasileiro S. Paulo
Ed. de Ouro, 1968, pp. 276-278. 0 artiga foi publicado em 0 Pais, Rio, Difusäo EuropCia do Livro, 1962. ' '
16 de setembra de 1904, sob o titula de ''Ern Defesa". l 199 J Ern ''Cana aa Autor", preposta a ed. de Teatro ( 0 Curninho
du Porta e 0 Protocolo), Rio, Tipagrafia da Di.iria da R. de Janeiro, 1863
270
211
Mas a obra vale por algo mais. E uma espec1e de par6dia das
nistro e Os Deuses de CasaCa. 0 clesvencilhamento que se opera 6picos "concilios dos deuses", agora for\'.ados a descer do Olim-
nessas obras deve-se, porem, antes a finura do observador dos po onde vegetam esquecidos e a vestir a casaca burguesa em ple-
costumes pollticos que a uma poss!vel evolu\;äO formal do escritor na corte do Rio de Janeiro. Apolo, näo querendo sujeitar-se ao
dram:ltico. gosto vil do pU.blico, ser:i crftico literario; Marte, decafdo her6i
0 Machado das primeiras comedias, Desencantos e 0 Ca- de guerra, ve no triunfo do papel um signo das novos tempos
minho da Porta, "modeladas ~o g6sil! dbs proverhios franceses" e res?lve fundar um jornal polftico, tendo Merctirio, correio
(Q. Bocaiuva), traz de original para a epoca (estamos ainda olimp1co, como o homem "da intriga e da recado"; ao ralento
em 1860! ), o gosto de opor, nos episodios amorosos, o dlculo multiforme de Proteu näo resta senäo ser deputado ( "Vermelho
feminino ao sentimento. 0 processo, como jci vimos, iria mar- de manhä, sau de tarde amarelo. / Se convier, sau bigorna, e se
car os seus primeiros romances e guarda sempre valor de fndice näo, sau martelo"); enfim, a JUpiter cabera, como de direito, o
psicol6gico para a biografia espiritual de um homem em busca melhor quinhäo: ser:I banqueiro.
de uma etica que fosse capaz de justifid-lo do afastamento das
Pretexto tambem liter:irio e Tu 56 Tu, Puro Amor, epis6~
suas origens. Ern ambas as pe~as vence ainda certo moralismo
dio da vida de Camöes, composto por ocasiäo das festas organi-
romäntico e pune-se a mulher "realista" para gl6ria das persona-
zadas no Rio no tricentenario da morte do poeta ( 1880).
gens apaixonadas e sonhadoras. Tarnbern a amea\;a de um adul-
terio, tema caro aos "dramas de casaca", e conjurada a tempo As ultimas comedias, Niio Consultes Medico e Liriio de Bo-
em 0 Protocolo, e tudo se resolve em tiradas sentenciosas, mas tdnica, voltam ao clima sentimental das primeiras, embora lhes
que, no conjunto, revelam o observador atento da famflia bur- sejam superiores pela maior correnteza dos dialogos e no corte
guesa do II Imperio ja em fase de plena e bem composta socia- das cenas. Confrontadas, porem, com os romances e os contos
bilidade. E e instrutivo observar em todas essas comedias alu- que Machado ja escrevera a esta altura, s6 se entendem corno
söes ir6nicas ao novo ·estilo econ6mico do regime: fala-se em divertissements.
agiotas para contrap6-los aos romünticos, e em politicos para
contrap6-los aos homens de corat;äo puro, exatamente como o
fazia Jose de Alencar nos romances urbanos do mesmo per!odo. QORPO-SANTO, UM CORPO ESTRANHO (*)
Os bastidores da vida pol!tica säo o obie.to da comedia Qua-
se Minisiro, elenco divertido de tipos parasit:irios que se apres- A nossa hist6ria liter3ria comove-se de quando em quando
sam a cumprimentar o futuro ministro, propondo-lhe planos, in- com uma boa surpresa. Depois de cem anos de esquecimento
ventos e poemas, e com a mesma presteza viram-lhe as costas ao descobriu-se o originalfssimo dramaturgo gaUcho Jose Joaquim
sabe-lo fora do cargo. Parece-me esta a mais leg!vel e, talvez, de Campos Leäo, gue a si mesmo se alcunhava Qorpo-Santo.
a Unica representcivel dentre as pet;as mencionadas.
A comedia Os Deuses de Casaca e prova cabal do car:lter padente e luzida1ncnte tcm naturalizado o verso alexandrino na llngua
de Garrctt e de Gonzaga. 0 autor teve a fortuna de ver os seus "Versos
liter:lrio de Machado dramaturgQ. Foi escrita em alexandrinos a Corina", escritos naqucla forma, ben1 recebidos pelos entendedores.
rimados e, pelo prefacio, datado· de 1866, depreende-se que o Se ys nlexandrinos dcsta co1nedia tiverem igual fortuna, sera essa a
autor dava um pese especial a essa experiencia metrica, incluin- verdade1ra recompensa para quem procura empregar nos seus trabalhos a
do-se entre os seus pioneiros na hist6ria da nossa poesia ( 200 ). consciencia e a medita<;äo" (Tcatro, Rio, Jackson Ed., 1955, p. 187).
( *) QORPO-SANTO, pseudönin10 de JosE )OAQUIM DE CAMPos
LFÄO ( Vila do Triunfo. entilo Provincia de Säo Pedro 1829 - Porto
( 200) 0 autor fez falar os seus deuses em versos alexandrinos: era AlegrC', 1883 ). ()rföo de pai aos onze anos, foi estudar e~ P. Alegre. Exer-
o mais pr6prio. C~"ll n cargo de prnfcssor pritn<irio em escolas pUblicas fixando-se, por Ul-
Tem este verso alexandrino seus advers<lrios, l'nesmo entre os homens t1rno, n;l l.lpital da pro\'fncia. A partir de 1862 as autoridades escolares
de gosto, mas C de crer que venha a ser finalmente estimado e cultivado )'a ...... aram <l s11 ... pdtar da sua sanidade mental submetendo-o a mais de uma
por todas as musas brasileiras e portuguesas. Sera essa a vit6ria dos es- i11tvrn<1(;iu. ,11,: quc l'l11 18(,S foi julgado inapto näo s6 para lecinnar co1no
for~os empregados pelo ilustre autor das "Epfstolas A lmperatriz", que täo

27J
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Suas comedias, lidas t~to te~po depois de escritas, bene- em Qorpo-Santo, a serie veloz das falas e o · truncado das cenas
ficiaram-se de uma perSpeci:Iva moderna: o olho crftico, ja trei- deixam conviver mais intensamente os opostos do Id e da cen·
nado em Pirandello, em Jarry, em Ionesco, ve nonsense e absur- sura; misturam-se o cömico e a sublimacäo ret6rica num anda-
de como fenömenos ideol6gicos e estc!ticos v:ilidos em si, alem mento estranho que beira a vertigem e o caos ( **). E essa näo
de testemunhos de resistf:ncia a l6gica da domina~äo burguesa. e a menor das razöes por que estamos hoje mais abertos a voz
E o aspecto descosido daquelas comedias, o efeito de delirio que de Qorpo-Santo do que os seus contemporäneos.
as vezes produzem, a for~a do instin'b que nelas urge, enfim o
desmantelo do quadro familiar decoroso do Segundo Imperio
que nelas se ve, tudo se presta a uma leitura radical no sentido A CONSCltNCIA HISTORICA E CRITICA
de atribuir a Qorpo-Santo uma ideologia, ou melhor, uma con-
tra·-ideologia, corrosiva, se näo subversiva dos valores correntes Os anos de 70 trouxeram a viragem anti-rom3ntica que se
no teatro brasileiro do tempo. 0 dado biografico tem tambem definiu em todos os niveis. Cbamou-se realista e depois narura-
seu poder de ressonancia: a marginaliza~iio do homem inter- lista na fici;äo, parnasiana na poesia, positiva e materialista e~
dito na provinciana Porto Alegre do firn do seculo XIX empres- filosofia. Com Tobias Barreto e a Escola de Recife (v.), toma
ta-lhe uma aura extremamente simp3.tica em tempos de contra- forma Uffi ideario que sobreviveria ate OS principios do secuJo
cultura. XX. E toda uma gera~iio que come~a a escrever por volta de
Ao lado dessa interpreta~ao, que acentua o significado de 1875-80 e a afirmar 0 novo espirito critico, aplicando-o as va-
ruptuta COffi OS padrÖes da epoca, OS melhotes Ctfticos de QotpO- rias faces da nossa realidade: Capistrano de Abreu no trato da
-SantO lembram as potencialidades da forma-comedia e especial- Hist6ria; Silvio Romero, cobrindo com sua fortissima paixäo in-
mente da farsa e da pantomima que sempre se aliaram a s3.tira telectual a teoria da cultura, as letras, a etnografia e o folclore;
dos costumes e a par6dia dos estilos. No autor da Ensiqlopedia Araripe Jr. e Jose Verissimo, voltados de modo intensivo para
s3.tira e par6dia concorrem para produzir um efeito ambfguo, na a critica; Cl6vis Bevilacqua, Lafayette Rodrigues Pereira e Pedro
medida em que a agressiio da palavra ou do gesto nao se separa Lessa, juristas de s6lida doutrina e gosto pelo fenömeno litera-
de uma pungente obsessäo moralista cujo centro e 0 instinto ao rio; Miguel Lemos e Teixeira Freitas, ap6stolos do Positivismo
mesmo tempo sancionado e regrado pela institui~äo do matri- sentido como "religiiio da Humanidade"; enfim, Joaquim Nabu-
mönio. A "loucura" e o nonsense de Qorpo:Santo devem, pois,
co ( v.) e Rui Barbosa, que exprimiram superiormente a vida so-
ser historicizados a luz do contexto famili~r do seculo XIX e,
mais largamente, a luz dos conflitos entre 0 capricho individual cial brasileira dos fins do seculo passado e dela participaram nao
e a conduta instituida; conflito de que a farsa e expressiio e s6 como escritores, mas tambem como grandes homens pUblicos
valvula de escape. de estirpe liberal.
Corno na comedia antiga, a linguagem ca e Ja desabusada
faz contraponto necessario com as nota~öes tradicionalistas. Mas assovio, Lanterna de fogo, Um parto, 0 h6spede atrevido ou o brilhante
escondido, A impossibilidade da santifictlfiO ou a santifica~äo transforma-
da, 0 Marinheiro escritor, Duas p/Jginas em branco, Dous irmiios. Consul-
para gerir familia e bens. Näo se conformando com o interdito, protestou tar: Anfual Darnasceno Ferreira, "Qorpo-Santo e a singularidade'', in Cor-
com veeml!ncia no jornal que ele mesmo fundara, A Justifa. Ja'. entäo re- reio do Povo, de P. Alegre, 21-2-68. (A este estudioso cabe a prioridade
digia a sua comp6sita e desnorteante Ensiqlo,pedia ou Seis Meses de uma na serie dos descobridores de Qorpo-Santo); Yan Michalski, "O sensacio-
Enfermidade em nove tomos dos quais se conhecem, atC o prese?te, o I, nal Qorpo-Santo", in Jornal do Brasil, 8-2-68; Lufs Carlos Maciel, "O
o II, o IV,'o VII, o VIII e o IX. Editou-a em 1877 em tipografia pr6- 'Caso' Qorpo-Santo", in Correio da Manhä, 26-5-68; Guilhermino Cesar,
pria. 0 IV volume contCm as suas comedias, todas brevfssimas, e com- Introducäo a As Rel{lföes Naturais e Outras Comedias, P. Alegre, Univer-
postas em 1866: Mateus e Mateusa, As Rela~öes Naturais, Hoje sou um; sidade Federal do R. G. do Sul, 1969; Fl8vio Aguiar, Os Hamens Pre-
e aman-hä outro, Eu sou vida: eu niio sou morte, A separafiio de dois cJrios, P. Alegre, A Na;äo, 1975.
esposos 0 marido extremoso ou o pai cuidadoso, Um credor da Fazenda ( **) Leia-se a brilhante aruilise das comedias de Qorpo-Santo em
Nacion;l, Certa entidade em busca de outra, Uma pitada de rape, Um Os Hamens Prectlrios, de Fl8vio Aguiar, cit.

274 275
Crescidos tambem nessa culti.Ka, Joäo Ribeiro, Euclides da dos trop1cos que o colonialismo europeu disSeminara na cultura
Cunha, Alberto Torres, Oliveira Viana e Manuel Bonfim, sou- ocidental, invertendo o mito do bom selvagem, outrora caro e
beram porem, transcende-Ia em certos aspectos, motivo por que Util aos pre-romänticos na luta contra as hierarquias do ancien
e preferivel estud3-los imediatamente antes dos modernistas. regime. Essa visäo negativa do homem tropical e especialmente
Nenhum deles foi alheio a literatura no sentido amplo do do mesti\o passava entäo por cientifica e realista e permaneceu
termo. Todos contribufram para fi~ uma prosa mais direta, na abordagem do car3:ter brasileiro ate o quartel de entrada do
menos pesada e enf3tica do qlle a que se depara nos eruditos ro- seculo XX, transmitindo-se quase inc6lume nas obras de Silvio
mänticos como Varnhagen, Pereira da Silva ou Melo de Morais Romero, JosC Verissimo, Nina Rodrigues, Euclides da Cunha,
Filho. Par outro lado, aprofundam o esfor<;o desses, depuran-
Oliveira Viana e Paulo Prado. 56 o esfor\o critico da Antropo-
do-lhes OS resultados gta<;as a apJica<;ao de metodos mais preci-
logia e da Sociologia das anos de 1930, com Artur Ramos, Ro-
SOS e fazendo ceder os mitos indianistas e patrioteiros a golpes
do "espfrito positivo". quette Pinte, Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Holanda, pa-
ra citar apenas os mais relevantes, faria uma revisäo desses pres-
supostos ( 202 ). ~
Capistrano de Abreu Revelando numa carta a Verfssimo um momento capital pa-
ra o desencadear-se de sua voca\äo, escreveu Capistrano: "Pen-
Ainda muito jovem, Capistrano de Abreu ( 201 ) esboi;ou sei em consagrar-me a Hist6ria do Brasil, resultado de uma lei-
uma teoria da Iiteratura nacional em termos puramente tainea- tura febricitante de Taine e Buckle e da viagem de Agassiz feita
nos: da clima, do solo e da nzestiragem adviriam os tra\os nega- ainda no Ceara ... " E manteve·se fiel aos crirerios historiogrci-
tivos do homem brasileiro, a inc.lolencia, a labilidade nervosa, a ficos que o inspiraram nos estudos de estreia: foi exato atC os
exalta\äo sllbita mas efemera, presentes, segundo ele, nos v0.rios
Ultimos escrllpulos na pesquisa e data\äo das fontes, positivista
momentos da nossa poesia.
na concep<;äo do fato hist6rico e determinista na explica<;äo deste
Lende avidamente Buckle e Taine, os mais influentes his- como produto de fatores trans individuais: ambiente e heran\a
toriadores da epoca, o nosso erudito cearense introjetava, sem o racial.
perceber, uma serie de cliches pessimistas em rela~äo ao homem
Do ponto de vista ideol6gico procurou ser neutro, como
(201) ]üÄO CAPISTRANO DE ABREU (Maranguape, Ceara, 1853 - Rio, convinha ao ideal do cientista puro do tempo; mas sende isso
1927). Terminados os estudos secundiirios em Fortaleza, Capistrano par-
tiu para o Recife para fazer os preparat6rios ao curso de Oireito. Aluno gua dos Caxinaußs, 1914. Publicados depois de sua morte: Caminhos An-
irregular e leitor de matCrias extracurriculares, nilo obteve exito nos exa- tigos e Povoamento do Brasil, 1930; Ensaios e Estudos ( Critica e Hist6·
mes e voltou para a sua provincia. Ai se dedica a critica liter8:ria ~ funda
ria) 1.a serie, 1931; 2: sCrie, 1932; 3.a sCrie, 1938. Correspondbtcia (org.
com Rocha Li1na, Araripe Jr. e outros jovens precoces a Academta Fran-
cesa, 6rgäo de cultura e· debates, progressista e antiderical, que durou de e pref;lcio de Jose Hon6rio Rodrigues), 1.0 vol., 1954; 2. 0 voL, 1954;
1872 a 1875 e que, ressalvadas as propon;öes, exerceu no Ceara uma fun- 3. vol., 1956. Consultar: Pinto do Carmo, Bibliografia de Capistrano de
0

<;äo paraleia a da "Escola do Recife" tle Tobias, Silvio e Bevilac~u~.. Jii Abreu, Rio, I. N. L„ 1942; JosC Pedro Gomes de Matos, Capistrano de
senhor de uma s6lida cultura humanistica, em grande parte autod1dattca, Abreu. Vida e Obra do Grande Historiador, Fortaleza, A. Batista Fon-
orienta-a para o determinismo, postura que conservaria atC a morte. E'.m tenelle, 1953; HClio Viana, Ciipistrano de Abreu. Ensaio Bi?bibliogr~fico,
1875 vai para o Rio, onde ocupara o cargo de oficial da Biblioteca Nac10- Rio, Ministerio da Educai;äo, 1955; Afränio C?17tinho, ~uclzdes, Captst~a­
nal e, por concurso, a cadeira de Hist6ria do Brasil no ColCgio Pe~ro II, no e Araripe, Rio, M. E. C., 1959; Jose Honorto Rodrtgues, A Pesqutsa
con1 uma rese, depois cl:issica, sobre a näo-casualidade do descof;>nmento Hist6rica no Brasil, Rio, Depto. de Imprensa Nacional, 1952.
do Bra<;i! pclos portugueses. Dedica-se absorventement~ a pesqu1sa ~ ~stu­ ( 202) Ver Dante· Moreira Leite, 0 Cardter Nacional Brasileiro, His-
dando anos a fio a nossa hist6ria colonial. Ficou matCna de anedotano a t6ria de Uma Ideologia, 2.a ed„ S. Paulo, Pioneira, 1969. Trata-se de uma
negligCncia e distra<;ilo com que se portava na vida pratica. Obra: 0 Des- critica sistemlitica e IUcida as varias tentativas de interpretar o nosso povo
cobrimento do Brasile Seu Desenvolvimento no Siculo XVI (1883); Fr. a luz de categorias psicol6gicas. Para o t6pico em questilo, cf. o capftulo
Viccntc do Salvador, 1887; Capitulos de Hist6ria Colonial, 1907; A Lin- XX, "Realismo e Pessimismo".

276 277
possivel apenas em teori:a, ca~u-lhe Por vezes a mascara da abstra- tico sergipano amava apaixonadamente as ideias gerais e näo fa-
ta isen\äo entrevendo-se nesse pacato materialista e ateu simpa- zia hist6ria do documento isolado senäo para ilustrar as grandes
tias pelo centro conservador. Leia-se, por exemplo, o que disse leis etnicas e sociais que aprendera junto a seus mestres deter-
a prop6sito do Duque de Caxias atacado pelos liberais na crise ministas.
de 1868, ou o passo em que narra as manobras da ala radical Silvio Romero e a consc1encia ativa e vigilante da Escola
em face de Luis XVI ( ambos ,OS esc1'tos acham-se em Ensaios e do Recife que ele näo cessaria de sustentar em um sem-nllmero
Estudos, 2.a serie), ou, enfim, recorde-se a sua famosa ojeriza de artigos e polemicas, como um ponto de honra pessoal ...
por Tiradentes e pelos membros jacobinos da Revolu~ao Per- Na Hist6ria da Literatura Brasileira, as generalidades, quando
nambucana de 1817. muito brilhantes, de Tobias Barreto fazem-se temas fecundos de
Mas, sendo antes um homem curioso do Brasil colonial que exegese e criterios de aprecia\äo literaria. Roje podem-se de-
espirito amante de abstra~öes, Capistrano pouco se perde como plorar os limites esteticos a que o conduziram esses caminhos: 4

te6rico. Säo palavras suas: "No Brasil näo precisamos de His- quem nao viu a superioridade de Castro Alves sobre Tobias, ou
t6ria, precisamos de documentos." De onde, a utilidade funcio-
nal das suas monografias nas quais, alCm da paciente reconstru- maior renovador do pensamento brasileiro. Os Cantos do Fim do Seculo,
.;äo do passado, se. Iouva o mCrito de uma prosa limpa e serena. de 1878, "poesia cientffica'', traduzem em versos infelizes os entusiasmos
do ne6fito em face das Ultimas doutrinas. Fixando-se no Rio, dedicou-se
Entre os frutos da sua operosidade contam-se algumas ex- ao magistCrio, lecionando Filosofia no ColCgio Pedro II e na Faculdade
celentes ed.il;öes de textos coloniais que incorporou de vez as le- de Direito. Proclamada a Repllblica, ingressou na politica elegendo-se de-
tras hist6ricas: a obra magistral de Fr. Vicente do Salvador, putado por Sergipe. Deu ao prelo ininterruptamente, de 1878 a 1914,
mais de meia centena de escritos, entre livros, opllsculos e preflicios, fru-
Hist6ria do Brasil, que anotou profusamente; os tratados de Fer- to de suas pesquisas e das pol~micas a que seu temperamento fogoso amiU-
nao Cardim e Magalhaes Gandavo e OS Documentas Relativos a de o impelia. Tiveram-no por desabrido opositor TeOfilo Braga, JosC Ve-
Visitar;iio do Santo Oficio a Bahia e a Pernambuco. Alem disso, rfssimo, Lafayette Pereira Rodrigues e Laudelino Freire. Obras principais:
A Filosofia no Brasil, 1878; A Literatura Brasileira e a Critica Moderna,
desvendou, com a ajuda de Rodolfo Garcia,_a autoria dos Dialo- 1880; 0 Naturalismo na Literatura, 1882; Cantos Populares do Brasil, 1883;
gos das Grandezas do Brasil, de Ambr6sio Fernandes Brandao, Estudos sobre a Poesia Popular no Brasil, 1888; Hist6ria da Literatur~
que se atribuia a Bento Teixeira, o poeta da Prosopopeia; e com Brasileira, 1888 ( 3." ed., 5 volumes, organizada por Nelson Romero, Rio,
Jose Olympia, 1943); Doutrina Contra Doutrina. 0 Evolucionismo e o
igual arglicia se houve em rela~ao ao saboroso Cultura e Opul~n­ Positivismo na RepUblica do Brasil, 1.• sCrie, 1894; Machado de Assis,
cia do Brasil, cujo autor, o jesuita Joäo Antönio Andreoni, se 1897; Ensaios de Sociologia e Literatura, 1901; Martins Pena, 1901; Com-
ocultara sob os pseudönimos de Antonil e Anönimo Toscano. pendio de Hist6ria da Literatura Brasileira (em colab. com Joäo Ribeiro),
1906; A America Latina, 1906; 0 Brasil Social, 1907; Zeverissima~öes
Ineptas da Critica, 1909; "Da Critica e Sua Exata Defini~äo", in Revista
Americana, Ano I, n. 0 2, nov. de 1909; Provoca~Oes e Debates, 1910; Mi-
Silvio Romero nhas Contradi(Öes, 1914. Consulta.r: Araripe Jr., "Silvio Romero polemista",
in Revista Brasileira, 1898-99, trahscrito em Araripe Jr., Teoria, Critica e
Hist6ria Litertiria, Rio, LTC, 1978; Labieno (Lafayete Rodrigues Perei-
0 gosto da pesquisa e da mais variada leitura tambem o ra), Vindiciae, Rio, Livr. Cruz Coutinho, 1899 (3.a ed., Jost! Olympia,
tinha Silvio Romero ( 203 ); mas, ao contr3rio do cearense, o cri- 1940); ClcSvis Bevilacqua, Silvio Romero, Lisboa, A Editora, 1905; JosC Ve-
rissimo, Estudos de Literatura Brasileira, 6.a sCrie, Rio, 1907; Carlos Süsse-
kind de Mendonr;a, Silvio Romero. Sua Formt1fäo Intelectual ( 1851-1880),
( 203) SiLv10 VAscONCELOS DA SILVEIRA RAMOS RoMERO ( Lagarto, S. Paulo, Cia. Ed. Nac„ 1938; Silvio Rabelo, ItinerOrio de Silvio Romero,
Sergipe, 1851 - Rio, 1914). Passou a inf8.ncia na provincia natal, fez os Rio, Jose Olympio, 1944; Ant6nio Cändido, 0 Metodo Critico de Sf.lvio
estudos secundarios no Rio e Direito em Recife ( 1868-1873 ). No periodo Romero, Fac. de Filosofia, Ciencias e Letras da Universidade de S. Paulo,
academico, sensivel a viragem da Cpoca, combateu os resqufcios do Ro. Boletim n. 0 266, 1963; Lufs Washington Vita, Triptico de Ideias, S. Paulo,
mantismo sentimental, fez-se evolucionista e, em politica, ardente liberal. Grijalbo, 1967; S. ROmero, Teoria, Critica e Hist6ria Literflria, selC\So e
Data dessa fase o conhecimento de Tobias Barreto em quem viu sempre o apresenta~ao de Ant6nio CS.ndido, Rio, LTC, 1978.

278 279
niio percebeu tuda a fon;a C,_ritica ,de Machado de Assis por cer- divfduo como nU.cleo indispens3vel da crtai;ao, pouco se valeu
to havia de estar obnubilado por apriorismos letais. Mas t! for- dessa possibilidade de matizar as relai;6es entre os fatores exter-
t;oso reconhecer a outra face da moeda, isto e. o apaixonado la- nos e os internos do processo artfstico.
bor hist6rico e critico de Sflvio que, durante mais de quarenta Nas suas paginas sobre folclore ( 204 ) säo as racas e a mes-
anos de publica\Öes, vincou fundamente a cultura realista e nos tii;agem que determinam em Ultima inst3.ncia a natureza das gf:-
deu bases s6lidas para construir uma hist6ria Iiter3ria entendida neros e o conteUdo das exemplos colhidos. E se na obra capi-
como expressäo das ra(as, das. clasSe'?"e äas vicissitudes do povo tal, a Hist6ria da Literatura Brasileira, arnplia a faixa das com-
brasileiro. ponentes geneticos da literatura, somando aos heredit<irios os
As linhas de fort;a do pensamento romeriano no que toca mesol6gicos e propriamcnte cuiturais (Livre I), pouco avan~a
as letras brasileiras podem resumir-se nas seguintes premissas: no sentido de ver por dentro a tem3tica au a linguagem das obras
a) a literatura - como as demais artes e o folclore - tomadas em si mesmas.
exprime diretamente fatores naturais e sociais: o clima, o solo, Dentro das seus limites, porem, a Hist6ria permanece a
as rat;ss e seu processo de mestit;agem ( determinismo bio-sociol6- primeira visäo organica das nossas letras. Sllvio procedeu a um
gico); levantamento exaustivo de tudo o que se escrevera ate entäo no
Brasil, incluindo materias afastadissimas do que o consenso ge-
b) a seqüencia dos fatos na Hist6ria ilustra a intera~äo ral entende por arte literaria: livros de Geologia, de Bot9.nica,
das fatores mencionados; mas ela näo e cega, tem um sentido: de Medicina, de Direito. . . 0 seu conceito elcistico de arte como
o progresso da Humanidade ( evolucionismo); expressäo indiscriminada das energias mentais de um povo näo
c) a melhor critica liter3.ria sera, portanto, gent!tica e näo lhe permitia grandes escrUpulos de ordern estt!tica; o que, afinal,
formalista. Os criterios de ju(zo daräo valor ao poder, que a redundou em bem para a formac;äo da consciencia do nosso pas-
obra deve possuir, de espelhar o meio, e näo a seus caracteres de sado espiritual visto como um todo fortemente preso 3.s estrutu-
estilo ( critica externa vs. critica ret6rica). ras materiais.
0 enfoque de Romero foi, assim, o primeiro passo decisivo Hoje os cänones evolucionistas ja estäo em crise ou, pelo
para urna crftica sociol6gica de estreita obse,rväncia. Rejeitando menos, relativizados; as reservas para-racistas que Silvio tinha
as teses romänticas e indianistas por subjetivas ( Magalhäes, em comum com os antrop6logos do tempo ja näo nos fazem mal;
Alencar) e os resfduos de uma leitura academica ( Sotero dos enfim, näo cessarn de refinar-se os metodos de anilise da obra
Reis), Sflvio propös vigorosamente uma abordagem da obra em literiria: temos, portanto, armas para reler criticamente os escri-
funi;äo das realidades antropol6gicas e sociais, vistas como fatos tos do mestre sergipano e deles extrair o muito que ainda po-
primeiros e inarreda'.veis. dem oferecer em documentac;äo e, o que mais importa, em in-
teresse constante por todas as faces de nossa realidade. E a par-
Por outro lado, ignorando Hegel, Engels e Marx (alias su· tir de SHvio que se deve datar a paixäo inteligente pelo homem
bestimados pela filosofia francesa e, mesmo, alemä dos meados brasileiro, pedra de toque de uma linhagem de pesquisadores e
do sCculo), StJvio estava jungido a uma visäo analftica e parce- crlticos que se estenderia att! os nossos dias contando, entre ou-
larizadora dos fen6menos espirituiiis: fa1tava-lhe urna concepi;äo tros, com os nomes de Euclides da Cunha, Joäo Ribeiro, Nina
totalizante e dialetica da cultura que lhe teria permitido lan~ar Rodrigues, Oliveira Viana e, a partir do Modernismo, Mario de
as necess<irias pontes entre aqueles "fatqs" brutos da cif:ncia e Andrade, Roquette Pinte, Gilberto Freyre, Artur Ramos, Josue
a estrutura complexa, altamente diferenciada, da obra literaria. de Castro, Camara Cascudo, Caio Prado Jr., Nelson Werneck
0 que o determinismo de Taine oferecia como forma de Sodre, Cavalcanti Proen,a, Cruz Costa, Sergio Buarque de Ho-
mediai;äo entre aqueles "fatos" e a obra era uma psicologia das landa, Florestan Fernandes e Antonio Gndido.
autores, bastante gent!rica alias, e reduzida a_ analise dos tempe-
ramentos e ii sondagem da facu/dade dominante: imagina~äo,
sensibilidade, inteligf:ncia. Mas Romero, embora falasse do in- ( 204) Estudos sobre a Poesia Popular no Brasil, Rio, Laemmert, 1888.

280 281
Araripe Jr. muito familiarizado com a estetica de Taine. Lessing, pelo menos,
~onvenceu-me de que os principios da arte, os elementos simples,
1a eram conhecidos da antiguidade grega, e que a critica moderna
Apesar de ter recebido a mesma forma~äo te6rica de S!lvio a.penas desenrolou, equilibrando-os, e agora trata de adaptci-los a
Romero, Araripe Jr. ( 265 ) revelou-se desde os seus primeiros v1da complexa do espirito secular.
ensaios um leitor mais senslvel aos aspectos propriamente artls-
1 ticos da literatura. ... - 0 ecletismo de Araripe, feliz enquanto lhe estendia o cam-
po das leituras e das experiencias estCticas, deixou-o, porCm, os-
I' Devemos-lhe boas mon6grafias sobre Alencar, Rau! Pom-
i peia, Greg6rio de Matos e uma longa serie de resenhas e artigos,
cilante nos julgamentos entre critCrios dispares: o nacionalista,
que trouxera da juventude, de fundo romintico, conforme o qual
compilados postumamente, em que acompanhou de perto as es- a obra vale pelo seu quantum de brasilidade; e o psicoestetico,
l. treias dos romancistas do firn do seculo e dos poetas simbolistas.
' permeado de analises taineanas e propenso a valorizar as quali-
Crltico militante, Araripe mostra-se bem informado a res- dades sensoriais e pl3sticas do texte. Pelo primeiro critCrio apre-
peito das novidades europeias, buscando sempre entender o al- ciou Greg6rio de Matos e Alencar; pelo segundo, compreendeu
cance das teorias e polemicas que se entrecruzavam no seu tempo. a arte nervosa de Raul Pc;impCia e, apesar das reservas, a poesia
Por temperamento e ofkio, esse leitor foi-se deixando pe- dos primeiros simbolistas.
netrar por um largo ecletismo, como ele mesmo confessa no pre-
facio ao Greg6rio de Matos, escrito em 1894:
.Jose V erissimo
0 mCtodo que adotei, na prepara~ deste ensaio, C o mesmo Com Jose Verlssimo ( 266 ) a, fofase nos fatores externos
que tenho seguido desde 1878. Orientado no cvolucionismo spcn-
ceriano e adestrado nas aplica~öes de Taine, procurei depois for-
a
cede a um tipo de aprecia~ao ecletica que, falta de melhor ter-
talecer-me no estudo comparado dos criticos vigentes. Todos os mo, poderia ser definida humanistica.
pontos de vista da exegese moderna tem sido objeto de minhas
preocupa-;öes. Toda idCia, boa ou mß, aprovcitBvel ou inexcqüfvel, ( 206) Jos:E VERiss1Mo D1As DE MATos ( öbidos, Para, 1857 - Rio,
C sempre hurnana. Assim, pois, acostumei-me a nada desprezar. 0 1916). Passou a infäncia na provincia natal, dela saindo para o Rio de
pr6prio pessimismo, c os seus variadfssimos '"dialetos litcriirios, ocul- Janeiro onde fez preparat6rios no Colegio Pedro II e freqüentou por al-
tismo, decadismo, pre-rafaelismo, wagnerismo, tem-me ensinado a gum tempo a Escola Central, hoje Polit&nica. Adoecendo, deixa os estu-
discernir melhor as coisas hum.anas e a dirigif o espfrito pondo de dos e retorna, em 1876, ao Para. Säo operosos os seus anos de juven-
Jado o que C fortuito. Devo declarar tambCm que muito continuo tude: funda a Gazeta do Norte e a Revista Amaz6nica, 6rgäos progressis-
a aprender relendo Arist6teles, Longino, Horacio e principalmente tas; ocupa a Diretoria da Instru~äo do Para e pesquisa seriamente a his-
o bo!ß Quintiliano. 0 Laocoonte de Lessing fez Cpoca na minha t6ria e os costumes dos fndios e mesti\QS da regiao: os Quadros Paraenses
carre1ra de crftico, apesar de have-Io conhecido quando jii estava (1878), as Cenas da Vida Amaz6nica (1886) e a !.• sCrie dos Estudos
Brasileiros ( 1889) däo cabal testemunho da aten~äo que votava ao homem
da sua tetra. De grande interesse para a hist6ria da nossa cultura e o seu
. ( 205) TRJSTÄo DE ALENCAR ARARIPE J R. ( Fortaleza, Ceara, 1848 - ensaio Educa~äo Nacional, publicado em BelCm, em 1890. Mudando-se
Rio, 1911). Descendente de abastada ~mflia cearense foi 0 menino ainda para o Rio no ano seguinte, aproxima-se dos melhores escritores da Cpo-
para o Recife onde fez humanidades e Direito, formando--se em 1869. Exer~ ca, Machado, Nabuco e os parnasianos, renova a Revista Brasileira ( 3.•
~el! a magistratura em Santa Catarina, no Cearii e no Rio, ocupando nos
fase) e passa a viver definitivamente do magistCrio, lecionando Portugu~s
ulumos anos o cargo de Consulter Geral da RepUblica. Obras principais: e Hist6ria, no ColCgio Pedro II. Säo desse periodo os livros de crfrica
fase de Alencar, Perfil Litertirio, 1882; Greg6rio de Matos 1894· Litera- e hist6ria literiiria. Outras obras: Emilia Littre, 1882; A Amaz6nia. As-
tura Br?sileira. Movimento de 1893, 1896; lbsen, 1911; os ~nsaios' anterio- pectos Econ6micos, 1892; "A lnstru~äo PUblica e a lmprensa" in Livro
res, ~ ~a1s a c~letänea dos arti~os dispersos, estäo em Obra Critica, org. por do Cententirio, 1900; Estudos de Literatura Brasileira, 6 sCries, 1901-1907;
Afranto Cout1nho, 4 vols., Rto, Casa de Rui Barbosa, 1958, 60, 63 e 66. Hamens e Cousas Estrangeiras, 1902; Estudos Brasileiros, 2.• sCrie, 1904;
Consultar: Martin Garda Merou, El Brasil Intelectual Buenos Aires Felix Q'!e e.Literatura? e Outros Escritos, 1907; Interesses da Amaz6nia, 1915;
Lajouane, 1900; Jose Verissimo, Estudos de Literatur~ Brasileira 1.: sCrie Hzst6rta da Literatura Brasileira, 1916 (ed. p6st.); Letras e Literatos, 1936
Rio, Garnier, 1901; Afränio Coutinho, Euclides, Capistrano e Ar~ripe, Rio: (ed. p6st.). Consultar: Francisco Prisco, Jose Verissimo. Sua vida e Sua
MEC, 1959; Araripe Jr., Teoria, Critica e Hist6ria Litertiria sel~o e Obra, Rio, Bedeschi, 1936; Autores e Livros, Suplemento Literario de A
apresentat;äo de A. Bosi, Rio, LTC, 1978. ' Manhä, 31-5-1942; Alvaro Lins, Jornal de Critica, 3.• sCrie, Rio, JosC Olym-

282 283

l
A arte e signo das_ etem,as ell)O~öes do Homem. Expressiio reto, por excesso de enfase; o teatro de Alencar pelo abuso do
articulada, visa a provocar· o prazer do Belo. "Literatura e arte tom moralizante; o romance de JU.lio Ribeiro como naturalismo
literaria. Somente o escrito com o prop6sito ou a intui~äo des- mal avisado e "parto monstruoso de um cerebro artlsticamente
sa arte, isto e, com os artificios de inveni;äo e de composi<;äo enfermo".
que h constituem, e, a meu ver, literatura'' ( 207 ). Mas nem sempre andou bem com a rigidez desse criterio.
Reintegrando a literatura na es~a ~das belas-artes, Verissi- Avesso por temperamento e cultura a experiencia religiosa e,
mo opera nos Estudos e na Hlsi6ria Ja Literatura Brasileira uma igualmente, as novidades esteticas radicais, näo soube apreciar
sele~äo de autores bem mais rigorosa que a de Silvio Romero. no momento devido a renova.;ao simbolista: o seu primeiro im-
Ao critico paraense interessavam, de um lado o lavor da forma, pulso ao !er Cruz e Sousa foi tacha-lo de decadente, for,ando a
de outro a projec;äo de constantes psicol6gicas como a i.magina- nota pejorativa do termo. 0 mesmo se deu com o versa livre
~äo, a sensibilidade e a fantasia. "Ora, a literatura para que va- do qua] afirmou que jamais vingaria em lingua portuguesa. Ve-
lha alguma coisa, h/J de ser o resultado emocional da experien- rissimo assinaria com gosto estas palavras de Anatole France:
cia humana" ( 208). "Näo acredito no exito de uma escola literaria que exprima
pensamentos diffceis numa linguagem obscura."
Mas, näo dispondo de modulos novos de julgamento, con-
Na Hist6ria da Literatura Brasileira, foge da adesao a qual-
tenta-se com as qualidades propostas pela ret6rica tradicional:
quer movimento ou grupo ideol6gico. Assim, embora veja na
o estilo deve ser elegante, os enredos bem construfdos, os dra-
1 , esteira dos rom3.nticos o sentimento de nacionalidade como tra-
mas verossimeis, etc. Do criterio de beleza diz que "po-
~o que distingue as letras brasileiras das portuguesas, deplora os
dendo sofrer variac;öes infinitas, se conserva no fundo sempre o
excessos do indianismo; e, se encarece a a.;äo do uespfrito mo-
mesmo" ( 209 ).
derne" ( isto e, da cultura realista) como salutar reai;äo as inge-
Verfssirno lembra em mais de um ponto os seus me!;tres nuidades rom3.nticas, nem por isso deixa de externar o receio
franceses, Lanson e Brunetiere, que se seguiram a primeira ge- que lhe inspira a voga do cientismo.
ra.;ä:o positivista. E um erudito consciencioso cujo gosto pessoal Atuava na mente de Verfssimo uma perene desconfian.;a,
ficou preso aos momentos aureos do Classicismo e as vertentes talvez de origem academica, das op\Öes filos6ficas mais definidas
mais s6brias do Romantismo. Prova-o a süa simpatia pelos es- Oll cortantes. A doutrina seca das te6ricos do Positivismo pre-
critores estilisticamente maduros como Gonzaga, Gon.;alves Dias feria as suas encarna.;öes liter3rias, Renan e Anatole, os "ceticos
e Machado de Assis, de quem foi admirador sem reservas; pro- am3veis" que tanto seduziram as elites latino-americanas das
va-o o torneio cl<issico da sua sintaxe e, com menos acerto, o fins do seculo. Daf, o seu escorar-se em criterios fugidios, difl-
uso de alguns termos arcaizantes: "convinhavel", "caro3vel", ceis de determinar, bom gosto, senso comum, prazer intelectual,
"quejandos" ... aos quais, entretanto, se atinha com proverbial intoler3.ncia. 0
Seguindo o lema academico do in· medio virtus, aborrecia to- resultado foi uma crftica que se situava a meio caminho entre o
do e qualquer desequilibrio: a poesia condoreira de Tobias Bar- reconhecimento dos dados psic:o-sociais ( 210 ) e a leitura vaga-
'• mente estetica de algumas obras.
pio, 1944; Wilson Martins, A Critica Litertiria no Brasil, S. Paulo, Depto.
de Cultura, 1952; Olivio Montenegr6, ]ose Verissimo - Critica, Rio, Agir,
1958; Joäo Pacheco, 0 Realismo, cit.; InJcio Jose Verissimo, ]. V. visto (210) Na compreensäo da nossa realidade global, Verissimo e me-
por dentro, Manaus, Ed. do Governo do Amazonas, 1966; Joäo Alexandre nos atilado que Silvio Romero. Assim, nega de maneira categOrica a in-
Barbosa, A Tradi~äo do Impasse, S. Paulo, Atica, 1974; J. Verissimo, fluCncia espiritual e emotiva do negro e do Indio, rai;as que, como Silvio
Teoria, Critica e Hist6ria LiterOria, selei;äo e apresentai;äo de Joäo Ale- e os evolucionistas do tempo, julgava "inferiores": "Absolutamente se
xandre Barbosa, Rio, LTC, 1978. näo descobriu ate hoje, mau grade as asseverai;5es fantasistas e gratuitas
( 207) Hist6ria da Literatura Brasileira, Introdui;äo. em contr3rio nä:o diremos um testemunho, mas uma simples presunr;äo
( 208) Id., pag. 308. que Qutorize 'a contar quer o Indio quer o negro como fatores da nossa
( 209) Estudos de Literatura Brasileira, 6.a serie, p<lg. 216. literatura. Apenas o teriao1 sido mui indiretamente como fatores da va-

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Na verdade, escondia-se por tr3s desse ecletismo humanfsti· como Nabuco, Jose do Patrodnio e Andre Rebou~as. Vmculan-
eo o problema nodal da crifica litharia, e o mais espinhoso de do-a ao progresso e ao ensino leigo, tiveram-na por bandeira os
todos: relacionat COID exito OS p6}os genetico e estrutural do ide6logos republicanos de estofo positivista, Alberto Sales, Me-
processo artistico. Näo seria Jose Verfssimo o homem capaz de deiros e Albuquerque, Pereira Barreto. Ate mesmo um monar-
resolvC-Io, nem tinha sequer as condi~öes culturais necess3rias quista e cat6lico tradicional, Eduardo Prado, reclamou-a para
para o formular. Seja como for, evitando o puro sociologismo seu credo ao desafiar o militarismo de Deodoro nos Fastos da
de Sllvio Romero, mostrou-se ~enslve1' acj\Jele quid peculiar a li- Ditadura Militar no Brasil ( 211 ). Eram homens que provinham
teratura, merito que ainda hoje lhe creditamos. de classes e grupos diversos e que professavam ideologias opos-
tas: Patrocinio, descendente de cativos; Eduardo Prado, filho de
senhores de escravos; Medeiros, rebento da burguesia. No CD·
AS LETRAS COMO INSTRUMENTO DE A<;:AO tanto, no seculo do liberalismo, prolongado ate o fim da I Guer-
ra, ope;öes contrastantes valiam-se de ret6ricas afins: impunha-se
lniciado ao tempo das campanhas pela Aboli~äo ( v. Joa- a todas as faixas o princlpio de respeito ao indivlduo, de tal sor-
quim Nabuco) e pela Republica, e coincidindo com a mudan~a te que se pode afirmar que 0 culto a democracia jurldica teve
do regime e as agita\öes das seus prirneiros anos, o periodo rea- nesses anos o seu momento 3.ureo.
lista conheceu amplamente o uso da palavra como forma de a\äo Esbatiam-se, por outro lado, as cores do Positivismo dogma-
politica. 0 que, em alguns casos, interessa a hist6ria liter3ria, tico: este, desertado por "hereticos", deixava de ser um corpo
conforme a maneira pela qual se comunicam e se configuram os rlgido de princlpios filos6ficos para diluir-se em algo mais ge-
materiais ideol6gicos. nerico, a mentalidade liberal, agn6stica, "centrista", da 1.• Re-.
A linha mestra de toda essa fase foi a luta pela liberdade. pllblica. Diluindo-se, näo morria: assegurava _a sua sobrevivCn-
Ern nome dela discutiram e escreveram Hderes antiescravocratas cia como um dos componentes. Algumas vozes isoladas e fervi-
das opuseram-se a mare de indiferentismo religioso que, vinda
de longe, parecia subir a seu ponto m:lximo sob o regime repu-
riedade etnica que e o brasileiro. ( ... ) Ern todo caso, as duas rac;as blicano: o Pe. JU!io Maria, Jackson de Figueiredo e outros me-
inferiores apenas influiram pela via indireta da westic;agem e näo com nores. Mas a prega~äo desse renouveau catholique ecoava uma
quaisquer manifestac;öes claras de ordern emotiva ( sit!), como sem ne- lgreja ainda passadista e autoritaria ( 212 ) e näo logrou entrar em
nhum fundamento se lhes atribuiu" (Cap. l, "A primitiva sociedade colo-
nial"). Navegando tambCm nas aguas da cic!ncia europCia, pessimista em dialogo vivo com a cultura leiga do pals; o que s6 ocorreria de-
relac;äo ao homem das tr6picos, Verfssimo arrola entre as constantes do pois de 1930 ou mais recentemente.
brasileiro trac;os psico!Ogicos negatives contra os quais nada puderam fa;rer Nesse contexto h3 um nome que testemunhou quase mitica-
o "espfrito cientffico" e o "pensamento moderne": a sensibilidade /Qcil,
a carencia, näo obstante o seu ar de melancolia, de profundeza e serieda- mente o modo de pensar das elites brasileiras que construfram a
de, a sensualidade levada alt a lascivia, o goslo da ret6rica e do reluzente. Republica: o de Roi Barbosa (21•).
A_cr~scentem-se como caracleristicos mentais a petuläncia intelectual subs- Rui e todo seculo XIX, mas tambem o Brasil continuou a
/t~utndo o estud? e a meditaräo pela improvisaräo e invencionice, a /e.
vzandade em acettar inspiraröes desenc6"ntradas e a facilidade de entusias-
sC-lo, em substäncia, ate as vesperas de sua morte, quando OS
mos irre/letidos por novidades esteticas, · /ilos6/icas ou literflrias. A Jalta
de outras qualidades, estas emprestam ao nosso pensamento e a sua ex-
pressäo literQria, a forma de que, por mlngua de melhores virtudes, se ( 211) A primeira edi~o, de 1890, foi confiscada pelo governo
reveste. Aquelas revelam mais sentimentalismo que racioclnio, mais im- federal.
pulsos emotivos que consciencia esclarecida ou alumiado entendimento (212) Ver, no capitulo Simbolismo, o t6pico respectivo.
revendo tambem as de/icifncias d"a nossa cultura. Mas por ora, e a des~ (213) Ru1 CAETANo BARBOSA DE ÜLIVEIRA (Salvador, 1849 - Pe-
peito da mencionada rea(äo do espirito cienti/ico e do pensamenlo mo- tr6polis, 1923 ). Filho de um medico baiano de minguadas posscs. Fez
derno dele inspirado, somos assim, e a nossa literatura, que e a melhor os estudos ßCCUndarios no Ginasio Baiano, de Abflio CCsar Borges, reve-
expressäo de n6s mesmos, claramente mostra que somos assim" (H. L. B. lando desde cedo invulgar mem6ria e talento verbal. Cursou Direito cm
introdu~äo ). Recife (1866-68) e, depois, em Säo Paulo (68-70), onde foi colega de

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modernistas encetaram uma luta contra o estilo que ele soube en- e:"pressäo, e no direito de propriedade; ftica tradicionalista lai-
• -„ """
carnar superrormente. c:iza?~ em contato com o Positivismo, mas respeitosa das' ins-
0 seu ideario aparece hoje esquematico: a democracia ju- u~u1~oes e da ordern, gta\as a adm1raräo que sempre
D t R '" votou ao
rfdica, formalizada nos princfpios de liberdade de pensamento e ltel 0 . o_:nano e a politica inglesa, OS dois arquftipos supremos
de sua v1sao da sociedade.
Castro Alves e de Joaquim Nabuco .. A.dv~u 'POt algum tempo na Bahia
No caso particular do grande baiano, tais ideias apesar de
e encetou a sua carreira poHtica eni 1877, como deputado provindal. Em P?ucas e de escassa originalidade, reboaram formid3v~lmente em
1878, ja deputado a Assembleia Geral, muda-se para o Rio. ! dessa epo- v1rtude do talento verbal que as defendia.
ca a traduc;:äo prefaciada que faz de 0 Papa e o Concilio, de Dollinger, . 0 .comb~te no F6rum, nas cämaras, nos congressos intercon-
obra hostil ao dogma da infalibilidade papal. Rui professa nesses anos tmenta1s, na 1mprensa e na prai;a publica for 1·ou 0 estil d R ·
uma religiosidade deista, bem distante da ortodoxia cat6lica da qual se dando Jh 1 f ·- . . ' o e UI,
aproximar:i mais tarde. Na decada de 1880, impöe-se como orador abo- - e aque a e~~ao n1m1amente orat6ria e solene, pressupos-
licionista e liberal. Estuda, adcmais, reformas de ensino, elaborando um to ~e todas as anahses de linguagem que se venham a fazer de
plano para o ensino medio e superior, em 1882, e para o prim<irio, em e~c~1tos seus. 0 a?~og~do e o polftico absorveram 0 artista, di-
1883. Proclamada a Repllblica, assume o Ministerio da Fazenda. Seu pla- r~gmda:Ihe a memoria mvulgar e suhordinando a si a inteligen-
no financeiro teve efeitos gerais negativos: infla<;:äo excessiva, especula- c1~ critt~a e o ent~s1asmo de compor um texto liter:irio. Q prc)..
c;:öes, conhecidas com o nome de "Endlhamento"; mas significava um es-
forc;:o de impulsionar o processo de industrializac;:äo nacional. Opondo-se pr1f R~1. reconhec1a a prevalencia das instäncias jurfdicas sobre
ao governo forte de Floriano Peixoto, exi1a-se em Londres de onde man· a~ 1terar1as e1? sua obra, como deixou claro em palavras rofe-
da, para o Jornal do ComCrcio, as Cartas de lnglaterra das quais consta r1das por ocasliio de seu jubileu na vida publica: p
um h'.icido parecer söhre o affaire Dreyfus. Voltando em 1895, dedica-se
a imprensa e 3.s Ietras ju