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Breve história do ensino superior brasileiro e da

formação de professores para a escola secundáriaI

Núria Hanglei CaceteII

Resumo

O artigo trata da evolução do ensino superior brasileiro e sua


relação com os modelos de formação de professores para a escola
secundária, ou seja, as séries finais do ensino fundamental e ensino
médio. As análises concentram-se nos textos e documentos que
abordam a genealogia da regulamentação do ensino superior, e, de
modo particular, os cursos de formação de professores, tomando
como base territorial de análise o estado de São Paulo. Na medida
em que se considera a educação como um fenômeno histórico,
destacou-se o contexto político econômico a contar de 1930,
quando a formação de professores foi elevada a nível superior e o
ensino expandiu-se fortemente em função do aumento sensível da
demanda social por educação. A Faculdade de Filosofia, inspirada
na investigação científica e, inicialmente concebida como núcleo
integrador da nascente universidade, transmutou-se, constituindo-
-se em primeiro lócus institucional de ensino superior responsável
pela formação de professores. Demonstraram-se a desarticulação
da faculdade de filosofia no âmbito da universidade, que foi sendo
substituída por outras formas de organização, e sua expansão como
instituições isoladas de caráter privado, aqui denominada de novas
faculdades de filosofia. Com o advento das licenciaturas curtas,
essas instituições apresentaram um crescimento significativo,
contribuindo com o processo de evolução do ensino superior para a
consecução do binômio expansão/privatização.

Palavras-chave

Ensino superior — Faculdade de filosofia — Formação de professores.

I- Trabalho apresentado em forma de


comunicação no VIII Congresso Luso-Brasileiro
de História da Educação, São Luís/MA, Brasil,
realizado de 22 a 25 de agosto de 2010.
II- Universidade de São Paulo, São Paulo, SP,
Brasil. Contato: nuriah@usp.br

Educ. Pesqui., São Paulo, v. 40, n. 4, p. 1061-1076, out./dez. 2014. http://dx.doi.org/10.1590/s1517-97022014005000011 1061
A brief history of Brazilian higher education and teacher
education for secondary schoolI

Núria Hanglei CaceteII

Abstract

This article deals with the evolution of the Brazilian higher


education and its relation to the models of teacher education for
secondary school, i.e., the upper grades of primary and secondary
education. The analyses focus on the texts and documents which
address the genealogy of the regulation of higher education and
in particular teacher education courses, taking the state of São
Paulo as the territorial basis of analysis. Since this study considers
education as a historical phenomenon, it focuses on the political
and economic context after 1930, when teacher education was
raised to higher education and when education grew strongly due
to the marked increase in the demand for it. Inspired by scientific
research and initially conceived as an integrating core of the nascent
university, the Faculty of Philosophy transmuted itself and became
the first institutional locus of higher education responsible for
teacher education. The analysis demonstrated the disarticulation
of the faculty of philosophy within the university. Other forms of
organization gradually replaced the faculty. It also demonstrated
the expansion of higher education as isolated private institutions,
here called new faculties of philosophy. With the advent of short
degrees, these institutions grew significantly, contributing to the
process of evolution of higher education towards the achievement of
the binomial expansion / privatization.

Keywords

Higher education — Faculty of philosophy — Teacher education.


I- Paper presented as an oral communication
at VIII Congresso Luso-Brasileiro de História
da Educação (VIII Luso-Brazilian Congress of
History of Education), São Luis / MA, Brazil,
held from 22 to 25 August 2010.
II- Universidade de São Paulo, São Paulo,
SP, Brazil. Contact: nuriah@usp.br

1062 http://dx.doi.org/10.1590/s1517-97022014005000011 Educ. Pesqui., São Paulo, v. 40, n. 4, p. 1061-1076, out./dez. 2014.
A Faculdade de Filosofia, Ciências de humanidades e ciências teria de ser
e Letras inevitavelmente precário e deficiente, como
sempre foi durante essa longa experiência de
Do ponto de vista político, o período ausência da universidade ou das respectivas
que se estende de 1930 aos anos de 1970 foi escolas superiores para licenciar os docentes.
marcado pelo rompimento com a velha ordem
oligárquica brasileira e pelo aparecimento, Essa situação começou a mudar. O
evolução e destruição do populismo. No governo provisório de Getúlio Vargas criou,
confronto das forças que desejavam a entre outros, o Ministério da Educação e Saúde
internacionalização da economia e as que Pública, cujo primeiro ministro, Francisco
defendiam um desenvolvimento independente, Campos, por meio de uma série de decretos,
teremos a vitória da primeira no âmbito da instituiu a chamada Reforma Francisco
ruptura que se estabelece nos anos de 1960. Campos, fruto da Revolução de 1930 e de um
A partir de 1930, temos uma sociedade que conjunto de interesses que assumiram o poder
lenta, mas progressivamente, industrializava-se naquele momento. Entre esses decretos, esteve
com uma concentração cada vez mais ampla da o de número 19.851, de 11 de abril de 1931 –
população nos centros urbanos, o que contribuiu Estatutos das universidades brasileiras – que, ao
para a promoção de exigências cada vez maiores dispor sobre a organização do ensino superior
em relação à educação. Foi particularmente instituindo o regime universitário, elevava para
na região sudeste, sobretudo em São Paulo e o nível superior a formação de professores
Rio de Janeiro, onde a demanda por ensino, e secundários. Por esse decreto o ensino superior
particularmente ensino superior, foi mais sentida. deveria ser ministrado na universidade a partir
O surgimento do ensino superior no país da criação de uma Faculdade de Educação
deu-se inicialmente sob a forma de cadeiras Ciências e Letras, onde deveriam ser formados
que foram sucedidas por cursos, posteriormente os professores secundários. Do ponto de vista da
por escolas e por faculdades de medicina, organização do sistema, a reforma previa duas
direito, engenharia, agronomia etc., todas situações: o sistema universitário oficial, mantido
eminentemente profissionais. Não existiam pelo governo federal ou estadual, ou livre,
estudos superiores de humanidades, ciências ou mantido por particulares, e o instituto isolado.
letras. Segundo Anísio Teixeira (1989, p. 73-74), Para Francisco Campos, “O ensino no
Brasil é um ensino sem professores, isto é, em que
[...] a falta de estudo superior de tipo os professores criam a si mesmos, e toda a nossa
acadêmico havia de tornar extremamente cultura é puramente autodidata” (Exposição de
precária a formação dos professores para os motivos do ministro Francisco Campos sobre a
colégios secundários [...]. Sabemos que todo reforma do ensino superior, Diário Oficial, de 15
sistema de educação, em seus diferentes níveis de abril de 1932, apud FÁVERO, 2000). Assim, a
de estudos e em seus diferentes currículos e Faculdade de Educação Ciências e Letras deveria
programas, só pode ensinar a cultura que na ter um caráter especial e misto e ser, antes de
universidade ou nas escolas superiores do tudo e eminentemente, um Instituto de Educação.
país se produzir. Não seria possível um curso A Faculdade de Educação Ciências e
secundário humanístico ou científico sem Letras assim concebida tinha como principal
que a universidade ou as escolas superiores função a formação de professores para a escola
tivessem estudos humanísticos ou científicos secundária, sendo compatível com a produção
avançados. Como só teve o Brasil, no nível do conhecimento e a prática da pesquisa. Essa
superior, escolas profissionais de saber dupla função, segundo Newton Sucupira (1969,
aplicado, o seu ensino secundário acadêmico p. 261), se justificava:

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[...] em face de uma tradição de ensino supe- Esta formação, por sua vez, era funda-
rior profissional onde prevalecia a ideia de mentalmente humanista no sentido das
que a toda escola superior profissional de- humanidades clássicas, remontando ao
veria corresponder sempre uma especialida- ideal helênico da Paideia. Daí a impor-
de técnica objetivável em termos de profis- tância que assumem os estudos clássi-
são liberal, seria prematura a criação de uma cos na Faculdade de Filosofia [...]. Esta,
faculdade unicamente destinada à pesquisa como tal se fechava ao mundo das pro-
científica pura. fissões técnicas e oferecia tão somente a
preparação científica para as profissões
A Faculdade de Educação Ciências e liberais. (SUCUPIRA, 1969, p. 265)
Letras idealizada por Francisco Campos não
chegou a ser instalada. O nome adotado para Inicialmente, duas seriam as principais
as novas instituições, que, entre outras, teria a funções dessa faculdade: a formação geral, que
função de preparar professores para o ensino deveria ser ampla e aprofundada, e a formação
secundário, seria o de faculdades de filosofia ou para a pesquisa científica. Uma terceira função
faculdades de filosofia ciências e letras. lhe foi atribuída posteriormente: a formação
Essas faculdades, que historicamente científica do professor da escola secundária.
se constituíram como lócus de formação dos Na verdade, pouco ficou da ideia original
professores secundários no Brasil, têm suas que determinou a criação das faculdades de
origens, segundo Sucupira (1969, p. 265), na filosofia na Europa e que serviu de referência
Faculdade de Artes da Universidade Medieval: na organização do sistema universitário em
outros países, inclusive no Brasil:
Concebida como instituto universitário
que engloba o conjunto das ciências e as A própria filosofia considerada como
humanidades, centro da pesquisa científica princípio da integração do saber universal
pura e dos altos estudos, surge com a acabará sendo, também, uma especialização.
Universidade de Berlim criada em 1810, Subsistirá da idéia humboldtiana da Faculdade
sob a inspiração de Wilhelm von Humboldt. de Filosofia a unidade do ensino e da pesquisa
apanágio da universidade alemã, tornada o
A faculdade de filosofia seria então uma grande centro criador da ciência do século
espécie de escola preparatória para as faculdades passado. (SUCUPIRA, 1969, p. 267-268).
de teologia, direito e medicina, fundamentada na
concepção do saber do idealismo pós-kantiano A Reforma Francisco Campos para o
e no neo-humanismo alemão, que idealizava a ensino superior se aproximava desse modelo
formação humanista. Assim, concebia-se que: alemão de universidade e significou, para a
época, uma tentativa de dar organicidade e
[...] a mais alta e autêntica forma da ci- um caráter de universalidade ao incipiente
ência é a filosofia [...]. A filosofia idea- ensino superior brasileiro. O ideal da pesquisa
lista da formação implica a unidade da científica pura em um sistema tradicionalmente
filosofia e da ciência [...]. A imagem ide- profissionalizante e a introdução dos estudos
al do acadêmico é o homem total har- pedagógicos como condição para a formação de
moniosamente formado. A preparação professores para a escola secundária em nível
acadêmica profissional significa menos superior configuravam o ineditismo da reforma,
a aquisição de conhecimentos especia- que, entretanto, não se concretizou. Assim, a
lizados do que a capacitação para a ta- ideia de uma unidade universitária especialmente
refa de liderança cultural e espiritual. voltada à formação pedagógica não se efetivou.

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As condições necessárias para que se até 1930, marginalizada, em função das
realizassem, ainda que de forma aproximada, os características da então escola secundária
ideais da Reforma Francisco Campos vão ocorrer em número bastante restrito, em sua maioria
em São Paulo com a criação da Universidade de privada e de caráter propedêutico:
São Paulo, em 1934.
Em 25 de janeiro de 1934, o Decreto A escola secundária está longe de ser, na
6.284 instituiu a Universidade de São Paulo, época, considerada como formativa [...]
cuja história de criação envolve negociações surge, historicamente, como um desdobra-
e conflitos relacionados à resistência da mento da escola superior – instância pro-
elite paulista ao governo central no Rio pedêutica em que se transformam as artes
de Janeiro. Segundo Cardoso (1982), a liberais quando se estruturam nas univer-
criação da Universidade de São Paulo não sidades medievais, os três primeiros cursos
se configura propriamente como resultado profissionais, considerados propriamente
de iniciativas educacionais renovadoras, “superiores” e “especializados”: Direito,
mas como produto de um projeto político e Medicina e Teologia. Assim, a escola média
ideológico. A universidade se implanta com vem atavicamente, voltada para o ensino
uma clara missão: formar as elites intelectuais superior como sua instância preparatória,
e dirigentes do país. condição que, no caso brasileiro, explica,
Apenas três seções foram previstas na parcialmente, sua tardia organização no
Faculdade de Filosofia (e não de Educação) sistema público. (FÉTIZON, 1984, p. 141)
Ciências e Letras: Filosofia, Ciências e Letras.
Os estudos de educação, ou uma Seção de As faculdades de filosofia ciência e
Educação, não foram contemplados. Interessada letras foram criadas no Brasil sem referências,
na integração das escolas e no cultivo de estudos pois faltaram modelos para esse tipo de
não profissionais, a Faculdade de Filosofia ensino, em função da tradição no país de
Ciências e Letras, assim concebida de princípio, escolas profissionais isoladas. Fundada como
negou a formação de professores no seu quadro. centro de alto saber, a nova instituição surgiu
Entretanto, por razões de força puramente marcada pela missão estrangeira de professores
conjunturais, o curso de formação de professores responsáveis pela docência e pesquisa. Nesse
secundários do Instituto de Educação de São sentido, as faculdades de filosofia acabaram
Paulo foi incorporado à universidade: por desempenhar papel importante no ensino
superior brasileiro. Entretanto, para Teixeira
[...] em 1931, o Estatuto das Universidades (1969), essa experiência se frustrou, salvo o
Brasileiras elevara a nível superior a caso das duas maiores, a do Rio e a de São
formação do professor secundário e meses Paulo, as quais se multiplicaram muito mais:
antes da publicação do decreto de fundação
da Universidade de São Paulo, criara-se, [...] como escolas normais de professor
no Instituto de Educação de São Paulo, um secundário do que como Faculdades de
curso para a formação de tal professor – Filosofia, Ciências e Letras [...]. Depois
o que o colocou, como de ensino superior dessas duas tentativas de implantação
(e só a ele no Instituto), no âmbito da da universidade moderna, entre nós,
Universidade quando, em 1934, ela mesma voltamos à linha de menor resistência
é fundada. (FÉTIZON, 1984, p. 130) da simples criação de novas escolas,
guardando o molde antigo de isolamento,
A formação de professores para autossuficiência e independência de cada
o magistério secundário encontrava-se, escola. (TEIXEIRA, 1969, p. 46)

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A transmutação da faculdade de filosofia país (40) e o número de alunos (10.816) só era
de centro de altos estudos de caráter universal suplantado pelo dos cursos de direito (17.854)
para escolas profissionais especializadas, no (ALMEIDA JÚNIOR, 1956).
caso, na formação de profissionais para o É nessa época que se consolida o ensino
magistério secundário, é resultado, segundo superior privado no país, sendo que as instituições
Fernandes (1962), de uma tradição cultural e isoladas privadas mais antigas do período 1945-
de uma mentalidade acadêmica que impediu 1961 datam de 1951 (SAMPAIO, 2000). Entre 1955
que as faculdades de filosofia operassem como a 1960, os cursos fundantes dessas instituições
centro básico de ensino universitário comum. são basicamente voltados para a formação de
Tais escolas foram sendo assimiladas pelo professores secundários por meio da criação de
padrão brasileiro de escola superior isolada e faculdades de filosofia, ciências e letras:
especializada, cuja redefinição serviu de base
para a sua degradação progressiva. Entendidas A decisão de expandir-se mediante a
como meros equivalentes das demais escolas criação de cursos voltados para a formação
superiores, a criação das faculdades de filosofia de professores não é aleatória e responde
“deixou de ser um empreendimento complexo, à confluência de três fatores. Primeiro,
arriscado e difícil” (FERNANDES, 1962, p. a vigência de uma legislação, a de 1931,
230). Concorreram para esse “processo de cuja concepção de universidade se baseava
empobrecimento funcional” outras influências na existência de um núcleo de Filosofia,
como a falta de professores qualificados, a Ciências e Letras em torno do qual seriam
má utilização de recursos financeiros e os organizadas as demais escolas de formação
“interesses extrapedagógicos na expansão para profissões liberais. Segundo, a
da rede de faculdades de filosofia privadas” existência de clientela motivada pelas
(FERNANDES, 1962, p. 230). novas oportunidades de acesso ao ensino
A expansão do ensino superior brasileiro superior e de carreira no magistério; ou
deu-se muito mais pela multiplicação de escolas seja, a relativa ampliação da rede de ensino
que pela ampliação das já existentes. As faculdades público médio, nos anos 50, funcionou
de filosofia, embora previstas originalmente como nas duas pontas do sistema: de um lado,
núcleo central da universidade, acabaram por se aumentou a demanda por ensino superior
multiplicar, isoladamente, acompanhando a tradição e, de outro, alimentou o próprio mercado
do ensino superior brasileiro de escolas profissionais ocupacional para os egressos dos cursos
isoladas, respondendo à pressão por ensino superior de Filosofia, Ciências e Letras. Por fim, a
de uma sociedade em processo de mudança, com estratégia das próprias instituições para se
crescente aspiração a esse nível de ensino. expandirem sem dispor de muitos recursos
Essa demanda foi altamente explorada financeiros; esses cursos, em geral, tendem,
pela nova classe média urbana em formação. até hoje, a funcionar baseados em recursos
Inicialmente, foi uma demanda pela ampliação humanos. (SAMPAIO, 2000, p. 51-52)
do ensino público secundário, criando,
consequentemente, condições para pressão no O que queremos ressaltar é que a
nível subsequente, ou seja, o superior. Essa estratégia das instituições privadas de se
pressão traduzia-se pela procura de novos expandirem pela via das faculdades de filosofia
cursos, particularmente os das faculdades de só foi possível frente às condições que já vinham
filosofia. Em 1954, a Campanha Nacional de se estabelecendo no processo de expansão do
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior ensino superior, caracterizado pela multiplicação
apontava que essas instituições contavam de escolas. Esse processo, entretanto, não se deu
com o maior número de estabelecimentos no em todas as áreas ou cursos dada a resistência

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de certas corporações profissionais à ampliação na aliança entre o empresariado, os tecnocratas e
de matrículas e escolas (como, por exemplo, os militares, na gestão de um modelo econômico
em medicina). A ampliação ocorreu em áreas concentrador de renda e progressivamente
de menor resistência e seguindo a lógica de internacionalizado.
implantação de cursos a custos baixos. Por essa A educação, nos marcos do regime
razão, as faculdades de filosofia apresentavam- autoritário, tinha papel estratégico no processo de
-se como alternativa à expansão. reorientação da política e da economia brasileira.
Em 1957, dos 28 cursos de formação de O governo militar promoveu uma ampla reforma
professores secundários no país, ministrados educacional, atingindo os diferentes níveis do
em faculdades de filosofia ciências e letras, 21 sistema com o objetivo de adequar a educação
eram em instituições particulares. Dos 1.991 às necessidades do desenvolvimento.
alunos matriculados nesses cursos, 1.401 estu- No início dos anos 1960, já se
davam em instituições particulares. A maioria prenunciavam as mudanças significativas que
dessas instituições era, até aquele momento, iriam ocorrer no âmbito do ensino superior e,
fundamentalmente católica (IBGE, 1957). particularmente, no que diz respeito ao rumo
No período analisado, os cursos de que tomariam as faculdades de filosofia.
formação de professores em faculdades de Com a aprovação da Lei de Diretrizes e
filosofia realizavam-se, predominantemente, Bases da Educação Nacional (LDB) nº 4.024,
em universidades. Em 1957, dos 28 cursos promulgada em 20 de dezembro de 1961,
existentes, 15 eram em universidades e 13 em após um longo período de debates nos órgãos
instituições isoladas. Essa situação mudou no legislativos, não mais se exigia a presença
início de 1960, com a expansão das faculdades obrigatória de uma faculdade de filosofia para
de filosofia sob a forma de estabelecimentos a constituição de universidades.
isolados privados não confessionais. O desprestígio das faculdades de filosofia
As faculdades de filosofia não consegui- se acentuava e eram muitas as críticas que diziam
ram cumprir adequadamente seus objetivos ini- respeito, entre outras, à sua função integradora.
ciais fundadores e tampouco se constituir como Nesse sentido, a exigência que constava do
escolas de formação consistente de professores. projeto da LDB, aprovada em dezembro de 1961,
A existência das faculdades de filosofia, como de que, no conjunto universitário, houvesse
instituições voltadas à formação do professor obrigatoriamente uma faculdade de filosofia,
para a escola secundária, instituindo um mo- ciências e letras foi vetada e assim justificada:
delo de referência para essa formação está, a
nosso ver, intimamente relacionada às caracte- A rede nacional de ensino superior conta
rísticas assumidas pelo crescimento do sistema já com mais de 70 faculdades de filosofia,
de ensino superior no Brasil. que vêm exercendo, salvo raras exceções,
exclusivamente a função de formar profes-
Das originais faculdades de sores de grau médio. Nessas circunstâncias,
filosofia, ciências e letras à a exigência de que toda universidade man-
faculdade de educação tenha uma dessas faculdades torna-se des-
necessária. Acresce que as funções de ór-
A partir dos anos de 1960, houve a ruptura gão integrador que se deseja atribuir a tais
do pacto populista que se constituía dentro de faculdades também podem ser exercidas
uma ordem de interesses diferenciados, como por outros órgãos, tais como os institutos
forma de representação dos setores populares. centrais que já vêm sendo estruturados em
O regime estabelecido pós 1964 consolidou a algumas universidades federais. (BRASIL,
hegemonia do grande capital, consubstanciada 1961 apud CARNEIRO, 1968, p. 331-332)

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A formação de professores para a escola ultrapassados. Além disso, a extrema
secundária, entretanto, continuaria a ser realizada especialização que define o saber científico
nas faculdades de filosofia, ciências e letras, moderno torna praticamente impossível
conforme o Artigo 59, dessa mesma Lei, o que reunir numa mesma unidade disciplinas tão
justifica a sua contínua expansão nesse período. diversas, sem acarretar sérios inconvenientes,
Contudo, no âmbito das universidades, as tanto de ordem administrativa como
faculdades de filosofia foram progressivamente funcional. (SUCUPIRA, 1969, p. 271)
substituídas por outras formas de organização.
No início dos anos 60, a Universidade de Em 1962, a Seção de Pedagogia da
Brasília substituiu a faculdade de filosofia pelos Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da
institutos centrais de ensino básico, criando a Universidade de São Paulo foi transformada
Faculdade de Educação, que passou a assumir em Departamento de Educação e, a partir
a formação pedagógica dos professores. As de 1969, com a reforma da Universidade,
universidades federais foram posteriormente extinguiu-se e desmembrou-se a Faculdade de
adotando essa solução em sua reestruturação, por Filosofia, Ciências e Letras, criando-se, a partir
meio dos Decretos-leis nº 53/66 e 252/67, que, do Departamento de Educação, a Faculdade de
posteriormente, também foi incorporada pela Lei Educação da Universidade de São Paulo.
da Reforma Universitária 5.540/68. O que se preconizava com a adoção
Assim, os princípios que nortearam o do modelo das faculdades de educação era
estabelecimento das faculdades de filosofia que a formação do profissional de educação
foram sendo revistos, promovendo uma assumisse um caráter científico e acadêmico,
mudança no caráter dessas instituições: além da necessidade de preparação de quadros
especializados em administração, planejamento
Não cremos que nesta altura da evolução e professores para a escola secundária,
de nosso sistema universitário pudéssemos, que apresentava um processo crescente de
ainda, recuperar o papel de integração que ampliação. Teixeira (1969) deixava (muito)
estaria reservado à faculdade de filosofia, claro quais eram, naquele momento, a escala
mesmo que retirássemos de seu âmbito o e a urgência do problema da formação do
setor pedagógico, conservando-lhe apenas as magistério e o papel das faculdades (ou escolas)
duas funções de realizar a pesquisa e formar de educação.
“trabalhadores intelectuais especializados” e
dotando-a de uma organização mais plástica [...] cumpre-nos reconhecer que a necessidade
e funcional. Assim pensaram os idealizadores nacional de preparo do magistério é de grande
da Universidade de Brasília ao substituir escala e de imensa urgência, ante o crescimento
a faculdade de filosofia pelo conjunto de vertiginoso e avassalante do sistema escolar
institutos centrais. [...] O projeto de reforma em todos os seus níveis. Essa conjuntura, que é
da Universidade de São Paulo, onde a a de fazer o difícil e fazê-lo em grande escala e
Faculdade de Filosofia foi uma experiência depressa, obriga-nos a planejar a formação do
bem sucedida do ponto de vista da pesquisa, magistério no Brasil em termos equivalentes
propõe também sua transformação numa aos de uma campanha para a formação de
série de institutos correspondentes às suas um exército destinado a uma guerra já em
áreas de conhecimento. [...] A ideia da curso. Isso deve forçar-nos à mobilização
Faculdade de Filosofia, como instituição de todo o sistema escolar para o ataque ao
englobante [...] repousa numa concepção problema da formação de um magistério
da unidade do saber cujos fundamentos em ação. Associando seu treinamento à
metafísicos e epistemológicos já se encontram prática mesma do ensino. Será, para manter

1068 Núria Hanglei CACETE. Breve história do ensino superior brasileiro e da formação de professores para a escola...
a comparação com a necessidade bélica, um etc. após três (às vezes quatro) anos de es-
treinamento em serviço, um treinamento em tudos, recebem certificado ou diploma de
batalha. Ora, a primeira necessidade da guerra Bacharel. Só então passam a freqüentar
é a de um estado-maior com a capacidade de a Faculdade de Educação, preparando-se
estudo e decisão acertada. [...] Estas [Escolas para a carreira escolhida [...]. Tal sistema
de Educação] seriam os estados-maiores oferece a vantagem de simplificar a admi-
centrais, com a responsabilidade de formular nistração e a planificação dos estudos, vis-
o pensamento condutor de todo o esforço, to que uma única autoridade (a Faculdade
elaborar as técnicas e programas de ação, de Educação) é responsável pela direção.
levantar e caracterizar a situação educacional Além disso, permite aos estudantes con-
existente e formar e treinar o corpo de mestres centrar efetivamente seu interesse sobre
e especialistas destinado a conduzir a prática uma coisa de cada vez. E tem a vantagem
educativa. (TEIXEIRA, 1969, p. 240-241) de não sobrecarregar os alunos durante o
terceiro ou quarto ano de estudos. Se for
A desarticulação das faculdades de exigido dos futuros professores, e só de-
filosofia, cingida em diferentes institutos les, acrescentar aos estudos científicos, já
com a consequente criação das faculdades de tão difíceis, um pesado fardo pedagógico,
educação, não era, entretanto, uma solução como é possível esperar que eles obtenham
consensual e causava preocupações. Temia- resultados correspondentes aos dos colegas
-se que a falta de integração entre a formação que se destinam unicamente à pesquisa
pedagógica e a formação específica, além do científica? (LAUWERYS, 1969, p. 313-314,
caráter excessivamente teórico dos cursos, grifo nosso).
agravasse-se com a separação e a distância
física entre as diferentes unidades. Entretanto, Esse modelo, que de certa forma já vinha
essa distância era o corolário de uma prática sendo praticado, consolidava o bacharelado
que havia imposto, desde a criação dos como via ou como requisito para a formação
primeiros cursos de formação de professores nas de professores para a escola secundária,
faculdades de filosofia, uma incompatibilidade estabelecendo uma hierarquização dos estudos
de objetivos dentro do mesmo curso e uma em que a formação pedagógica tinha um caráter
oposição entre as disciplinas científicas e as complementar e fundamentalmente prático.
disciplinas didático-pedagógicas.
O relatório da missão da UNESCO, Não se trata de compreender simplesmente
encarregada de orientar a implantação das a teoria, mas de levá-la à prática. A
faculdades de educação, a convite do governo experiência tem demonstrado que o sistema
brasileiro, deixava clara a preferência por uma de cursos não constitui método idealmente
concepção de curso de formação de professores eficiente de preparar os futuros professores
que reforçava essa prática e que consistia em: para a carreira; urge reduzir a proporção
de tempo atribuído aos cursos teóricos,
[...] separar completamente o trabalho pro- didáticos, de História da Educação, etc.
priamente científico do trabalho profissio- (LAUWERYS, 1969, p. 314).
nal. Neste sistema, os futuros professores
freqüentam nos institutos ou departamen- Os problemas existentes nos cursos
tos exatamente os mesmos cursos que de formação de professores secundários nas
seus colegas pretendentes a outras carrei- faculdades de filosofia não foram sanados com
ras que não o magistério. Estudam física, a criação das faculdades de educação. Pelo
Matemática, História, Línguas estrangeiras contrário, a mesma precariedade e desprestígio

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que marcaram as seções de pedagogia e de As novas faculdades de filosofia
didática nas faculdades de filosofia persistiram
e até se agravaram com a criação das novas As críticas à preparação do professor
faculdades de educação e com a desarticulação secundário nas faculdades de filosofia em meados
das faculdades de filosofia. da década de 1960 se acentuavam. As falhas
Entretanto, esse processo de desarticulação, apontadas eram, em linhas gerais, as seguintes:
principalmente no âmbito das universidades, não
se justificava apenas em função dos problemas a) Coincidência de objetivos múltiplos,
presentes em sua estrutura funcional. É no contexto cuja conciliação não vem sendo alcançada
político daquele momento que vamos encontrar (formação simultânea do professor e do
as razões que, somadas a essas, conduziram a esse pesquisador etc.);
processo. A faculdade de filosofia, em meados da b) Inadequação da preparação do profes-
década de 60, principalmente após o golpe militar sorado que vai funcionar no primeiro ciclo
de 1964, era lugar privilegiado de discussão e da escola secundária, dominada por um
reflexão acerca da realidade brasileira, assumindo sentido de “especialismo” não harmonizá-
papel de liderança no movimento estudantil. O vel com o que deve ser a docência nessa
caso da Universidade de São Paulo é revelador: fase discente;
c) Deficiências na prática docente;
[...] a solução de desmembramento por d) Precariedade na obtenção de maior
Institutos e Faculdades significou, não só fixação profissional à docência;
a liquidação da Faculdade de Filosofia, e) Alienação em relação a estudos concretos,
Ciências e Letras, como, por via de concernentes ao campo específico ao qual
conseqüência, o aniquilamento da idéia se aplicará a docência: escola secundária
que presidia à fundação da Universidade brasileira. (ABREU, 1966, p. 99-100)
de São Paulo. Uma radicalização política a
partir do receio da subversão levara, pois, à As faculdades de filosofia vinham,
extinção daquela Faculdade: desmembrado nesse período, apresentando um crescimento
em diversas unidades isoladas, umas das significativo, sobretudo como iniciativa do
outras, o núcleo de contestação perdia setor privado do ensino superior. Entretanto,
sua coesão, sendo mais fácil mantê-lo sob faltavam professores licenciados frente ao
controle. (FÉTIZON, 1984, p. 154-155) aumento das matrículas no ensino médio.
Já naquele momento, existia um claro
Estava em curso, naquele momento, desvio dos licenciados para outras funções
uma mudança radical nos rumos que deveriam que não o magistério. Até 1960, eram 41.033
tomar as faculdades de filosofia. diplomados por faculdades de filosofia contra
um registro de apenas 5.395 para o exercício da
A atual reestruturação da universidade docência na escola secundária (ABREU, 1966).
brasileira ao determinar o desdobramento Essa desproporção entre os formados pelas
da faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, faculdades de filosofia e o exercício da docência
extinguiu, portanto, uma instituição já ul- era compensada por dois mecanismos: pela
trapassada pelo estado presente das ciên- adaptação dos diplomas em cursos superiores
cias e pelos princípios da moderna organi- profissionais (como engenharia e advocacia)
zação universitária. A instituição, contudo, mediante complementação pedagógica e pelos
poderá subsistir, entre nós, à maneira dos exames de suficiência.
Colleges norte-americanos independentes Os exames de suficiência asseguravam,
de universidade. (SUCUPIRA, 1969, p. 272) aos profissionais graduados em escolas

1070 Núria Hanglei CACETE. Breve história do ensino superior brasileiro e da formação de professores para a escola...
superiores, diferentemente da faculdade de claro que não era mais possível o esquema de
filosofia, o indispensável registro para lecionar três anos de bacharelado mais um de didática:
onde houvesse a falta de diplomados por essas
faculdades, instituindo um regime permanente [...] não há que se inferir que todo o ensino
de emergência, e podemos dizer de improvisação, profissional deva ser feito concomitantemente,
para assegurar a quantidade de professores como num ciclo à parte e sem qualquer ligação
exigida pela escola secundária. com as matérias de conteúdo [...]. Ademais, é
Essa situação justificava a necessidade por todos os títulos desaconselhável separar
de mudanças que deveriam ser operadas na o “como ensinar” do “que ensinar” [...]. A
estrutura funcional da faculdade de filosofia. licenciatura é um grau apenas equivalente ao
Nas universidades, a faculdade de filosofia bacharelado e não igual a este mais Didática
já vinha sendo substituída por institutos como acontece no conhecido esquema 3 + 1.
e faculdades, que assumiam a formação (BRASIL, Parecer CFE 292/62)
profissional e acadêmica dedicada à pesquisa nas
diferentes áreas do conhecimento. À faculdade A licenciatura e o bacharelado seriam então
de educação caberia a formação pedagógica graus distintos, que poderiam ser obtidos através
dos professores, consagrando-se assim o de disciplinas comuns. Dois conjuntos de estudos
bacharelado como passagem obrigatória para comporiam a licenciatura: o primeiro reunindo as
a obtenção da licenciatura. Restavam ainda as matérias de conteúdo, que variavam conforme o
instituições isoladas ou não universitárias, que endereço profissional do estudante; e o segundo
deveriam também ser reformuladas. composto pelas matérias pedagógicas comuns
a todos. Seriam elas: psicologia da educação,
A situação está a exigir profunda compreendendo adolescência e aprendizagem;
transformação dos cursos das faculdades didática; elementos de administração escolar
de filosofia, pela adoção de currículos (substituída posteriormente por estrutura e
especiais, para a preparação da grande funcionamento de ensino de 2º grau) e prática
variedade de professores secundários de 1º de ensino, sob a forma de estágio supervisionado,
e 2º ciclos. (TEIXEIRA, 1969, p. 286). cujas horas de atividades foram distribuídas ao
longo de cinco semestres e não mais concentradas
Essas transformações iriam se realizar, em um ano. A duração da formação pedagógica
sendo o Conselho Federal de Educação (CFE) a foi reduzida de um quarto (no esquema 3 + 1)
instância definidora desse processo. Ao Conselho para um oitavo do período total de duração
Federal de Educação, criado pela LDB 4.024/61, do curso, mantido em quatro anos. O Parecer
caberia uma série de atribuições que lhe confe- destacava a necessidade de articulação entre esses
riam substancial soma de poder, como a de esta- dois conjuntos de estudos, embora os tratasse de
belecer o currículo mínimo e a duração dos cursos forma separada.
superiores, além do controle sobre o funciona- Segundo Castro (1974, p. 639), o texto
mento dos estabelecimentos isolados federais e do Parecer 292/62 “consagra o uso do termo
particulares. Cabia, portanto, ao CFE um papel ‘licenciatura’ para a totalidade do curso que
importante no processo de reestruturação das fa- prepara o professorado”. O Parecer assinala:
culdades de filosofia, assim como na ordenação
da expansão do ensino superior no país. Os currículos mínimos dos cursos de
No início dos anos 1960, o CFE licenciatura compreendem as matérias fixadas
estabeleceu, através do Parecer 292/62, as para o bacharelado, convenientemente
matérias pedagógicas para a licenciatura. O seu ajustadas em sua amplitude, e os estudos
relator, o Conselheiro Valnir Chagas, deixava profissionais que habilitem ao exercício do

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magistério nos estabelecimentos de ensino expansão [...]. O desafio que enfrentamos é,
médio. (CASTRO, 1974, p. 639) justamente, o de treinar o maior número de
professores com o mínimo de habilitação
Consolidava-se, assim, uma tendência necessária no menor tempo possível.
de separação da licenciatura do bacharelado, (BRASIL, Indicação s/nº CFE 9/10/1964)
buscando promover as mudanças exigidas em
função das críticas formuladas. Adotou-se então um tipo de licenciatura
O conceito de licenciatura, distinto do com três anos de duração, ao invés de quatro
bacharelado, estabelece uma fase marcada pela nas áreas de Letras (Português e uma língua
convivência de dois modelos básicos de formação: viva), de estudos sociais (história, geografia,
o primeiro estabelecido no final dos anos 1930, em organização social e política do brasil) e
que o bacharelado se apresentava como requisito ciências (ciências físicas e biológicas, iniciação
para a obtenção do diploma de licenciatura; e às ciências e matemática). Ainda segundo a
o segundo, que, de certa forma, já vinha sendo indicação, a ideia era formar um professor
praticado, estabelecido em meados da década de polivalente para o ciclo ginasial:
1960, quando a licenciatura se configurava como
um modelo individualizado, distinto, portanto, do Essa figura do professor polivalente se
bacharelado, embora mantendo correlações. justificaria sob vários aspectos: em primeiro
A ideia presente no conceito de lugar o professor ginasial não há de ser
licenciatura distinto do bacharelado era a de um especialista puro; em segundo lugar,
que, para obter os dois diplomas, o aluno deveria do ponto de vista pedagógico formativo o
prolongar os estudos: se fosse inicialmente ideal seria que, no primeiro ciclo, o mesmo
bacharel, a extensão se faria no âmbito das mestre se ocupasse de várias matérias;
disciplinas pedagógicas; caso fosse licenciado, finalmente porque contribuiria para
no aprofundamento das disciplinas científicas. resolver o problema da falta de professores.
Ambos os cursos tinham duração mínima de (BRASIL, Indicação s/nº CFE 9/10/1964)
quatro anos letivos.
Entretanto, no decorrer dos anos 1960 e Os licenciados nesse 1º ciclo (ou
início dos anos 1970, começou a se delinear outra ginásio) poderiam lecionar no 2º ciclo (ou
tendência: a de estabelecer uma ruptura, no âmbito colégio) enquanto não houvesse professores
das licenciaturas, separando em cursos distintos a suficientes formados em quatro anos. Segundo
formação de professores para o ginásio (1º ciclo) o conselheiro Newton Sucupira, relator da
e para o colégio (2º ciclo), inaugurando uma nova indicação, essa seria uma medida de emergência
fase no processo de formação de professores. para acelerar a expansão da escola secundária,
Assim é que a Indicação s/nº do CFE medida essa que, segundo o Parecer, havia sido
de 9/10/1964, baseada na falta de professores implementada na Inglaterra no pós-guerra
para a escola secundária e na precariedade que através dos Emergency Training Colleges.
representavam os exames de suficiência, instituiu Em 1965, o CFE, através dos Pareceres
para as faculdades de filosofia um conjunto de 236/65 e 81/65, instituíram as normas para os
três licenciaturas individualizadas, que deveriam cursos de licenciatura polivalente para o ginásio (1º
formar o professor para o ensino no 1º ciclo ou ciclo) nas áreas de letras e ciências, respectivamente.
ginásio. A justificativa era a seguinte: Em 1966, o conselheiro Newton Sucupira,
através do Parecer CFE 106 (portaria MEC 117/66),
As faculdades de filosofia não se encontram estabeleceu o currículo para o funcionamento da
em condições de fazer face à carência de licenciatura em estudos sociais, composto por:
professores, não obstante sua extraordinária história, geografia, fundamentos de ciências

1072 Núria Hanglei CACETE. Breve história do ensino superior brasileiro e da formação de professores para a escola...
sociais e as matérias pedagógicas, conforme o O estabelecimento de um novo currículo
Parecer 292/62, num tempo útil de 2025 horas para a escola de 1º e 2º graus determinou uma
aula, em cerca de três anos. mudança nos modelos existentes para a formação
Segundo o Parecer CFE 106/66, as de professores, dando força à ideia de polivalência.
licenciaturas polivalentes em letras, ciências e Nos anos 1960 e início dos anos 1970,
estudos sociais: uma parcela das faculdades de filosofia já havia
abdicado da formação do bacharel e da condição
[...] Sendo de mais modestas exigências, [...] de instituição dedicada à pesquisa científica,
se tornam mais acessíveis às Faculdades do assumindo exclusivamente a formação do
interior que embora continuem a ostentar licenciado. Com o advento das licenciaturas
o nome de Faculdade de Filosofia, Ciências polivalentes e das licenciaturas curtas, muitas
e Letras, são na realidade algo como os faculdades de filosofia assumiram esses cursos.
Teachers Colleges americanos. Missão, aliás, Esse período foi marcado pela grande
importantíssima na atual fase de expansão expansão do setor privado a partir da criação
da escola média e de que se deveria dar conta de inúmeras faculdades de filosofia, ciências
a grande maioria de nossas Faculdades de e letras, criadas, em sua grande maioria, nos
Filosofia, renunciando à pretensão de formar anos de 1960 e 1970, tendo as licenciaturas
também pesquisadores. É desejável mesmo polivalentes e as licenciaturas curtas como
que as novas Faculdades a se instalarem no cursos inaugurais. São essas que estamos
interior, comecem com as licenciaturas de 1º denominando de novas faculdades de filosofia,
ciclo, podendo, posteriormente, evoluir para ciências e letras, que surgiram então com sua
Faculdades de Filosofia com as licenciaturas denominação apresentando esses três títulos
tradicionais, assim como nos Estados Unidos, isolados ou combinados dois a dois. Encerrou-
os Teachers Colleges igualando-se aos Liberal -se assim o ciclo das faculdades de filosofia
Arts Colleges, terminando alguns por se concebidas como modelo integrador/articulador
transformarem em universidades. (BRASIL, das universidades. Abriu-se, entretanto, uma
Parecer CFE 106/66) nova fase na qual as novas faculdades de
filosofia se expandiram e se multiplicaram
Com a Lei de Diretrizes e Bases do Ensino como escolas isoladas, constituindo-se em
de 1º e 2º graus, a LDB 5.692, de 25 de agosto agências de formação compulsória (e reduzida)
de 1971, instituem-se as licenciaturas curtas, do professor da escola secundária.
estabelecendo-se uma integração geral do sistema Um fator que contribuiu para a criação
educacional, desde o 1º grau até o nível superior. dessas instituições isoladas, que exigiam
Pela nova LDB, o ensino primário e o 1º ciclo do pequenos investimentos, foi o processo de
ensino médio (ginásio) foram transformados em interiorização. Reforçado pelo conceito de
um único ciclo de 1º grau, com oito séries. O 2º que a educação levava ao desenvolvimento
ciclo de ensino médio (colégio) foi transformado econômico, o provincialismo das cidades do
em 2º grau (três ou quatro anos) universal e interior encontrava na criação de uma escola
compulsoriamente profissional. superior a oportunidade de a cidade adquirir
A formação de professores, para essa o prestígio perdido pelo desenvolvimento das
nova estrutura do ensino, seria feita da seguinte áreas metropolitanas. (FONSECA, 1992).
forma: para o ensino nas quatro primeiras séries Foi no sudeste e particularmente em São
do 1º grau , em escola de 2º grau; para o ensino Paulo que esses cursos proliferaram. O estado de
nas quatro últimas séries do 1º grau, em curso São Paulo é o exemplo mais completo do processo
superior de curta duração; e para o ensino no 2º de interiorização por meio das faculdades de
grau, em curso superior de longa duração. filosofia. Esse processo iniciou-se nos anos de

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1960 e prosseguiu durante todo o período de preferencialmente oferecido por universidade.
expansão do sistema nos anos de 1970. Esse padrão acabou por revelar-se tão inviável
como inadequado. A expansão do ensino superior
Esse ramo [...] genericamente designado por não atendeu às exigências homogeneizadoras da
“filosofias” congregava o maior contingente lei, sendo que os estabelecimentos isolados, que
de estudantes e apresentou o crescimento eram admitidos apenas como exceção àquele
mais acelerado e desordenado de toda a rede padrão, apresentaram o maior crescimento.
de estabelecimentos de ensino superior [...] O Conselho Federal de Educação adotou
A grande expansão de matrículas no ramo medidas que possibilitavam a ampliação do
das faculdades de filosofia se deu nos cursos ensino privado por meio de estabelecimentos
chamados livrescos e coincidem com a isolados. Entre 1968 e 1972, foram encaminhados
instalação de novas faculdades especialmente ao CFE 938 pedidos de novos cursos, sendo
particulares no interior do Estado. [...] que 759 desses foram aprovados (MARTINS,
cerca de 56% das faculdades de filosofia 1988). O que ocorreu foi que o setor público,
iniciaram suas atividades depois de 1961 e, em especial, ficou impedido de estabelecer um
com frequência, nas áreas que implicam em processo de ampliação e diversificação de suas
menor investimento. (PASTORE, 1972, p. 99). instituições, prevalecendo a universidade como
modelo único. A indissociabilidade ensino/
No estado de São Paulo, em 1971, o ramo pesquisa exigia uma universidade de elite na
de ensino superior que apresentava o maior medida da impossibilidade de se conciliar ensino
número de matrículas inicial era o da filosofia, de massa com o desenvolvimento da pesquisa
ciências e letras com 80.225 e o segundo ramo científica. Como a Reforma Universitária
era o das engenharias com 35.919. Em relação à incidiu especialmente sobre as universidades,
entidade mantenedora, as instituições privadas atingiu basicamente o setor público e poucas
apresentavam 147.820 matrículas iniciais e as universidades privadas confessionais. O setor
instituições públicas estaduais 38.040. (SÃO privado de ensino, que era formado em sua
PAULO, 1971). maioria por instituições não universitárias, foi
muito menos atingido pela reforma.
Para finalizar No período de 1960-1972, o crescimento
das matrículas nos estabelecimentos isolados
A expansão do ensino superior no foi de 983%, enquanto o da universidade
país é resultado de uma combinação de muitos não superou os 40% (FUNDAÇÃO GETÚLIO
fatores, entre os quais podemos destacar o papel VARGAS, 1976, p.10). A maioria dos
desempenhado pelas faculdades de filosofia na estabelecimentos isolados era nesse período (e
consecução do binômio expansão/privatização. até hoje) composta por instituições privadas.
O estado de São Paulo é exemplo revelador Assim, constata-se que o setor privado foi o
desse processo. Por outro lado, a criação das responsável pelo substancial aumento de oferta
licenciaturas curtas polivalentes deu novo de ensino superior no período em questão.
fôlego ao projeto expansionista do setor privado No processo de expansão do ensino su-
de ensino superior não confessional, sendo que perior, não se estabeleceu apenas uma dualidade
o setor público, salvo algumas exceções, resistiu expressa por um setor público e um setor privado.
à implantação desse modelo de licenciatura. Ocorreu, além disso, uma diferenciação entre as
Outro fator a ser destacado diz respeito ao instituições relacionada à qualidade acadêmica e
padrão de ensino superior estabelecido pela Lei da ao público a quem essas instituições dirigem seus
Reforma Universitária 5.540/68, que deveria ser produtos. O ensino superior privado, surgido a
público, gratuito, associar ensino e pesquisa, sendo partir da década de 1960, retirou o monopólio dos

1074 Núria Hanglei CACETE. Breve história do ensino superior brasileiro e da formação de professores para a escola...
grupos confessionais e caracterizava-se pela mera Foram esses mesmos cursos que
transmissão de conhecimentos e pela questionável permitiram a acumulação necessária para que
qualidade. Considerado um setor de menor pres- essas instituições, em um segundo momento,
tígio, estava dirigido às camadas sociais médias já com capital suficiente, abandonassem os
urbanas mais desprovidas de capital econômico e cursos de licenciatura e oferecessem novos
consideradas com menor vocação acadêmica. cursos, que exigiam investimentos mais
As novas faculdades de filosofia cumpriram significativos, porém com maiores garantias
um papel importante na ampliação do setor de rentabilidade.
privado de ensino superior. Foi a partir delas que Nesse contexto, muitas instituições
se fundaram muitas das primeiras instituições evoluíram para a condição de grandes em-
privadas, inicialmente como um pequeno negócio presas, algumas delas ascendendo ao status
funcionando como uma espécie de acumulação de universidade, passando, nos anos de 1980
primitiva. Os cursos de licenciatura nos anos de e 1990, a constituírem-se, verdadeiramen-
1960 e 1970 se constituíram como estratégicos para te, como um poderoso empreendimento ca-
um empreendimento que exigia pequeno capital pitalista. (SAMPAIO, 2000; MARTINS, 1988;
inicial e que iria operar a um custo reduzido. CALDERÓN, 2000).

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Recebido em: 12.09.2012

Aprovado em: 14.08.2013

Núria Hanglei Cacete é professora do Departamento de Metodologia do Ensino e Educação Comparada e do Programa de
Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.

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