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MEC – SETEC – IF Sul-Rio-Grandense

Campus Charqueadas

Disciplina de Eletrônica I
Prof. Jônatas Roschild

Notas de aula: Teoria dos Diodos

Objetivos do estudo:

 Desenhar o símbolo de um diodo e nomear seus terminais


 Desenhar a curva característica de um diodo e nomear todos os seus pontos ou áreas
significativas
 Descrever o diodo ideal
 Descrever os modelos de aproximação do diodo
 Analisar circuitos com diodos em CC e CA
 Desenhar e interpretar a reta de carga e o ponto de operação
 Listar e interpretar as principais características de uma folha de dados de diodo

O diodo – dispositivo semicondutor


1. INTRODUÇÃO

Em nosso curso de eletrônica estudamos ‘análise de circuitos’ e utilizamos o resistor como o


principal elemento ou dispositivo de circuito. Vimos que a partir do aumento da tensão aplicada a um
resistor a corrente aumenta proporcionalmente a uma razão igual ao valor da resistência do resistor.
Esse é comportamento da Lei de Ohm. Em outras palavras a tensão e corrente variavam no circuito
resistivo linearmente.

Veremos, agora, que o diodo é um dispositivo semicondutor, portanto possui características


diferentes do resistor. Uma característica fundamental do diodo e distinta ao resistor é sua não
linearidade com relação à tensão e corrente, ou seja, não obedece a Lei de Ohm. Em outras palavras
num circuito a diodo a corrente e tensão no diodo não variam de forma proporcional – o diodo é
não linear.

A razão deste comportamento, desconhecido até então em nosso curso, está na junção PN ou
mais especificadamente na barreira de potencial. Qualquer quantidade de energia (tensão) aplicada
ao diodo menor que a barreira de potencial não produz corrente direta, porém quando aplicado
quantidade energia suficiente para vencer a barreira de potencial (tensão positiva maior de 0,7 V) o
efeito é uma corrente direta que cresce rapidamente.

2. SIMBOLOGIA

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O diodo é um dispositivo de dois terminais (‘di’ – duplo e ‘odo’ – eletrodo) um chamado
anodo e o outro catodo. Por essa razão seu símbolo é formado por uma seta com uma barra na ponta,
sendo que a seta indica o sentido em que a corrente direta flui (do terminal anodo para o catodo) ao
passo que a barra indica o impedimento da passagem da corrente. O símbolo do diodo pode ser
observado na Figura 1.

Figura 1. Simbologia do diodo com identificação de terminais.

3. FUNCIONAMENTO

Já conhecemos a simbologia do diodo. Agora precisamos conhecer seu funcionamento para


então poder aplicá-lo em circuitos de corrente contínua ou alternada. Vimos na ‘teoria do
semicondutor’ que uma junção PN tem um comportamento em que ora pode conduzir ora pode
bloquear corrente elétrica. Então, definindo que uma junção PN é um diodo teremos que as
características de funcionamento do diodo são as mesmas da junção PN.

3.1. POLARIZAÇÃO do diodo

Existem duas formas de o diodo operar, ou seja, o diodo pode funcionar quando está
polarizado reversamente ou quando está polarizado diretamente. Quando ele não está polarizado
significa que está desligado ou danificado.

3.1.1. DIODO NÃO POLARIZADO

O diodo não polarizado é aquele que está desligado do circuito, ou seja, o diodo ou não
fecha um caminho no circuito (quando danificado ou fora de malha fechada) ou não há fonte
de energia aplicada aos seus terminais.

3.1.2. DIODO POLARIZADO REVERSAMENTE

O diodo polarizado reversamente é aquele cujo potencial positivo de uma fonte de


energia foi aplicado ao terminal catodo (material do tipo N), enquanto o potencial negativo
foi aplicado ao anodo (material do tipo P). Observe na Figura 2 a relação do diodo com a
junção PN quando é polarizado de forma reversa. Neste caso, sempre haverá uma pequena
corrente reversa (IS na ordem de µA) desconsiderada na maioria dos casos práticos. Então,
para fins práticos, o diodo se comporta como uma chave aberta.

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Figura 2. Diodo polarizado reversamente.

Quando isto acontece (diodo polarizado reversamente) não há circulação de corrente


direta na malha em que o diodo está contido, pois o diodo está operando como chave aberta.
Logo, nenhuma queda de tensão resistiva existe nesta malha. Assim, pela LKT sabemos que
todo potencial aplicado pela fonte de energia está sobre o diodo, observe o circuito que é
apresentado na Figura 3.

Figura 3. Circuito com diodo polarizado reversamente.

Podemos analisar a tensão reversa também olhando para a região de depleção.


Sabemos que a região de depleção cresce quando é aplicada uma energia que polariza a
junção PN de forma reversa. Esse crescimento da região é proporcional à tensão aplicada nos
terminais do diodo. Assim a tensão reversa no diodo é igual a tensão da fonte.

3.1.3. DIODO POLARIZADO DIRETAMENTE

O diodo polarizado diretamente é aquele cujo potencial positivo de uma fonte de


energia foi aplicado ao terminal anodo (material do tipo P), enquanto o potencial negativo foi
aplicado ao catodo (material do tipo N). Observe a Figura 4 onde está relacionado o diodo
com a junção PN quando é polarizado de forma direta.

Figura 4. Diodo polarizado diretamente

Quando o diodo é polarizado diretamente com uma energia maior que sua barreira de
potencial (normalmente 0,7 V) a corrente direta (ID) cresce rapidamente. Esse efeito de

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crescimento rápido da corrente é representado por uma curva exponencial, como pode ser
observado na Figura 5. Podemos generalizar, que para fins práticos, que o diodo se comporta
como uma chave fechada.

Figura 5. Circuito com o diodo polarizado diretamente e efeito da corrente direta.

3.2. CURVA CARACTERÍSTICA

Vimos as possíveis formas de o diodo operar, ou seja, ou ele está desligado ou está ligado.
Quando está ligado a uma fonte de energia existem duas possibilidades de condução da corrente.
Já sabemos que polarizado reversamente existe no diodo uma pequena corrente reversa, que
normalmente é desconsiderada, mas ela existe! Também sabemos que polarizado diretamente o
diodo conduz uma corrente direta que cresce rapidamente através de uma curva exponencial.

Desta forma, é possível com base nestas informações montar um gráfico que relacione a
corrente e tensão no diodo. Quando a tensão VD é positiva acontece polarização direta o que
significa que a corrente ID cresce exponencialmente como na Figura 5. E quando a tensão VD é
negativa acontece polarização reversa e a corrente é chamada de reversa (IS), pois está fluindo em
sentido contrário como na Figura 2. Assim o gráfico com estas características fica como na
Figura 6.

Figura 6. Curva característica simplificada do diodo.

Porém, a energia aplicada e o próprio diodo são finitos. Em outras palavras a potência que
o diodo é capaz de dissipar tem um valor máximo, bem como a fonte de energia tem também um

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valor máximo de potência a ser aplicado no diodo. Por essa razão, o gráfico da Figura 6 é uma
representação simplificada, pois não aparece nenhuma informação quanto aos limites de VD e ID.
Além disso, a dissipação de potência está relacionada com a temperatura. Sabemos que a
temperatura influi no comportamento da junção PN (trabalho sobre teoria dos semicondutores).
Assim um gráfico mais adequado para representar estas informações pode ser observado na
Figura 7.

Figura 7. Curva característica do diodo.

Nesta curva característica fica evidente que o diodo tem limitações e é influenciado pela
temperatura. Em relação a temperatura quanto mais altas maiores são as correntes reversas e
mais rapidamente a corrente direta cresce. Isto pode significar um problema em alguns projetos,
mas em nosso curso o diodo raramente irá operar em altas temperaturas. O caso mais frequente
de elevação de temperatura é quando o diodo entra em curto-circuito com a fonte de alimentação
(quando não há resistor limitador de corrente). Neste caso, a queima do componente é certa!

Agora, em relação às máximas tensões e corrente no diodo se faz necessário observar


duas zonas importantes. Uma zona é a de ruptura e se localiza no terceiro quadrante, ou seja,
quando polarizado reversamente é a máxima tensão que pode ser aplicada no diodo sem que ele
conduza uma corrente maior do que a corrente reversa. Na Figura 7 esta zona em 25 ºC está
localizada nos 40 V. Após este valor o diodo irá conduzir corrente como se fosse um curto-
circuito. Outra zona importante é a localizada na parte superior do primeiro quadrante, ou seja,
quando polarizado diretamente existe um valor máximo de corrente direta e de tensão direta que
o diodo suporta, ou melhor, dentro destes limites o diodo consegue dissipar potência. Acima
destes valores ele será danificado. Essa informação normalmente é encontrada em folha de
dados (datasheets) fornecidos pelos fabricantes. Quanto mais elevada é a temperatura menor a
tensão suportada pelo diodo para que não seja danificado, observe a Figura 7.

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3.3. MODELOS DE APROXIMAÇÃO

Como podemos perceber a curva característica do diodo não é linear, nem tampouco é de
fácil interpretação. Por esta razão, em muitos casos práticos e em vários tipos de circuitos não é
necessário utilizar a curva característica de um diodo real tal como aparece na Figura 7, portanto
podemos fazer aproximações sem resultar em grandes erros de cálculo e de comportamento dos
circuitos em questão. Utilizar um modelo real é uma tarefa complexa que na maioria dos casos o
esforço não compensa em virtude dos resultados esperados.

3.3.1. A PRIMEIRA APROXIMAÇÃO – O MODELO IDEAL (DIODO IDEAL)

Um modelo ideal representa a essência ou a ideia de um determinado dispositivo, ou


seja, traz consigo as principais informações de como aquele dispositivo funciona, mas
suprimindo alguns detalhes. As características são descritas de modo simplificado, retirando
as não perfeições do dispositivo.

Antes de apresentar a curva característica de um diodo ideal devemos escolher quais


informações serão suprimidas, revelando quais características devem aparecer de modo ideal
ou perfeito. Também devemos buscar características que se assemelham ao máximo com uma
reta. Então, o diodo ideal deve ora conduzir (polarizado diretamente) ora bloquear
(polarizado reversamente). Isto é um comportamento de chave. Um diodo ideal, ou seja,
aquele diodo com características perfeitas é aquele que se comporta identicamente a uma
chave. Assim, quando polarizado diretamente não deve haver barreira de potencial, ou seja,
ele deve conduzir imediatamente a partir da aplicação de uma tensão maior ou igual a zero
(VD ≥ 0V). Por outro lado, quando polarizado reversamente não deve haver nenhuma corrente
circulando entre seus terminais para qualquer tensão negativa aplicada.

Figura 8. Comportamento do diodo como uma chave.

Como percebemos na Figura 8 um modelo ideal de diodo deve ser de uma chave
aberta para o caso da polarização reversa e de uma chave fechada para o caso de uma
polarização direta. Isto significa que a curva característica será formada por uma reta sobre
cada eixo do plano. Em outras palavras, quando em condução o diodo conduz qualquer valor
de corrente sem nenhuma barreira de potencial, pois a tensão sobre o diodo é nula. Mas
quando ele deve bloquear, qualquer tensão reversa é possível sem que ele rompa tal como na
Figura 9.

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Figura 9. Curva característica do diodo ideal.

Este modelo é útil quando desejamos fazer uma análise rápida no circuito (análise por
inspeção) sem saber com exatidão os valores envolvidos no circuito.

3.3.2. A SEGUNDA APROXIMAÇÃO – O MODELO COM TENSÃO 0,7 V

Em outros casos é importante ter uma noção maior dos valores de tensão e correntes
envolvidas em um circuito. Nestes casos é preciso incluir a barreira de potencial de 0,7 V ao
modelo. É incluída somente a barreira de potencial porque quando polarizado reversamente
ele bloqueia toda a corrente, e estamos desconsiderando a corrente reversa que é muito
pequena por natureza. Mas quando polarizado diretamente uma diferença de 0,7 V é bastante
significativa em alguns casos, por exemplo, quando a fonte tem 5V existe um erro de 14%
comparado com o diodo ideal no circuito da Figura 5. Neste novo modelo existe uma
aproximação maior com o modelo real do diodo.

Figura 10. Curva característica do diodo no modelo com queda de tensão de 0,7 V.

Neste modelo só existe condução de corrente quando a tensão aplicada aos terminais
do diodo for 0,7V, antes disso ele está bloqueando a corrente. Então, sempre que o diodo
estiver polarizado diretamente e conduzindo sua tensão ficará fixa em 0,7V (VD = 0,7V).
Podemos ver na Figura 10 que este modelo é formado pelo modelo ideal, tal como uma
chave, acrescida de uma queda de tensão de 0,7V, simbolizada pela fonte VT.

3.3.3. A TERCEIRA APROXIMAÇÃO – O MODELO COM RESISTÊNCIA DE CORPO

Este modelo é o mais completo dos apresentados até o momento, porém é o mais
complexo de ser utilizado. De modo geral, este modelo tem aplicabilidade na engenharia, e
em nosso curso não vamos utilizá-lo. Mas é importante saber que existe. Neste modelo é
incluída uma resistência de corpo que equivale ao período em que a corrente ainda está

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crescendo após o início da condução, ou seja, enquanto a corrente cresce a tensão sobre o
resistor cresce proporcionalmente de modo que a tensão sobre o diodo se modifica.

Figura 11. Modelo com resistor de corpo.

4. ANÁLISE DE CIRCUITOS A DIODO

Em nosso curso estudamos análise de circuitos voltada a circuitos resistivos em corrente


continua. Agora precisamos incluir o diodo em nossa análise. Além disso, é necessário ampliar
nossa análise para circuitos de corrente alternada, pois algumas das aplicações de diodo em nosso
curso são para circuitos cuja tensão está na forma alternada.

4.1. ANÁLISE DE CIRCUITOS DE CORRENTE CONTÍNUA

Já sabemos analisar circuitos de corrente contínua apenas com resistores. Aplicando as


Leis de Kirchhoff e a Lei de Ohm nós podemos descobrir qualquer valor de corrente ou tensão.
Não podemos perder de vista que o resistor é um elemento linear, e podemos aplicar essas Leis
em qualquer situação, mas uma chave de duas posições (aberta e fechada) é não linear. Assim,
primeiro analisamos para o caso em que está fechada (curto-circuito) e depois para o caso em
que está aberta (circuito-aberto). Assim, retiramos a não linearidade da chave e podemos ter a
noção de como se comporta o circuito como um todo.

Os circuitos com diodo são circuitos não lineares, logo não podemos aplicar as Leis de
circuito diretamente. É necessário adequar o circuito com diodo a situação em que se possam
aplicar as Leis de circuito. Assim, um primeiro passo é escolher o modelo de diodo que vai ser
utilizado para análise, para que sejam convertidos todos os diodos do circuito pelos modelos
escolhidos. Agora nosso circuito não possui mais diodos, mas contêm chaves ou chaves e quedas
de tensão de 0,7V. Agora podemos resolver aplicando para as diferentes condições do circuito
quando as chaves estão abertas e quando estão fechadas como descrevemos anteriormente.

Exemplo:

Figura 12. Circuito a diodo em CC.

Para o circuito da Figura 12 determinar a corrente total do circuito.

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Solução:

A. Modelo de Diodo Ideal:

No modelo de diodo ideal é possível trocar o símbolo do diodo por uma chave de
duas posições (aberta e fechada) e resolver o circuito para as situações. Com base nestas
análises temos noção de como o circuito funciona.

Entretanto, no circuito original da Figura 12 o diodo está polarizado diretamente


(observe que a tensão positiva está conectada ao anodo), por isso não há necessidade de
analisar quando o diodo não está polarizado reversamente, pois isto nunca irá acontecer
neste circuito. Assim o modelo do diodo ideal é uma chave fechada e seu circuito
equivalente está na Figura 13.

A análise deste circuito é simples, pois se trata de um circuito série com resistores
em paralelo. Deste modo o resistor equivalente é:

E a corrente total é:

Figura 13. Circuito equivalente do diodo ideal quando pol. diretamente.

B. Modelo de Diodo com queda de 0,7V:

No modelo de diodo com queda de tensão é possível trocar o símbolo do diodo


por uma chave de duas posições (aberta e fechada) em série a uma fonte de tensão de
0,7V e, então, resolver o circuito para as situações. Com base nestas análises temos
noção de como o circuito funciona.

Novamente, tal como na solução do modelo de diodo ideal o circuito original da


Figura 12 tem o diodo polarizado diretamente, assim o modelo do diodo com queda de
tensão é uma chave fechada em série com uma fonte de 0,7 V e seu circuito equivalente
está na Figura 14.

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A análise deste circuito exige um passo a mais antes de aplicar as técnicas de
análise já estudadas para o circuito série com resistores em paralelo. Observe que a fonte
de 0,7 V é mais uma tensão na malha, e pela LKT sabemos que:

Rearranjando os termos temos:

Em outras palavras, a tensão da fonte está sendo subtraída pela queda de tensão
do diodo, o que equivale dizer que a tensão sobre o circuito resistivo quando existe um
diodo em série é 0,7V menor (observe a Figura 15) . Uma vez chegado nesta conclusão
inicia-se a análise que já conhecemos.
Deste modo o resistor equivalente é:

E a corrente total é:

Figura 14. Circuito equivalente do diodo pelo modelo com queda de 0,7 V quando pol. diretamente.

Figura 15. Circuito equivalente com a subtração da queda de tensão na tensão da fonte.

4.2. ANÁLISE DE CIRCUITOS DE CORRENTE ALTERNADA

Antes de analisar qualquer circuito em corrente alternada é necessário especificar


algumas características deste tipo de corrente. Sabemos que a corrente é um efeito de uma tensão
aplicada entre dois terminais de um resistor, por exemplo. Assim, se a corrente se comporta
alternando seu sentido de circulação no resistor significa também que a tensão está mudando a

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polaridade nos terminais do resistor, de modo que a tensão e corrente estão alternando na mesma
frequência. A Figura 16 tem um exemplo de tensão alternada.
Vf

10

-10

0.005 0.01 0.015 0.02 0.025


Time (s)

Figura 16. Exemplo de uma tensão alternada do tipo senoidal com frequência de 60 Hz.

A principal aplicação, que estudaremos em nosso curso, do diodo em corrente alternada é


quando funciona como retificador. Neste tipo de circuito o diodo irá retificar a tensão, ou seja,
tornar a tensão na forma contínua, sem mudança de polaridade, fazendo a corrente circular
sempre no mesmo sentido. Um exemplo de circuito retificar está na Figura 17.

Figura 17. Circuito retificador de meia onda.

Neste tipo de circuito precisamos verificar como funciona o diodo para ambas as
polarizações, pois a tensão aplicada a seus terminais está variando a uma frequência de 60 Hz,
tal como a tensão da Figura 16. Como o diodo retificador está ora polarizado diretamente ora
polarizado reversamente podemos dizer que ora funciona como chave fechada (curto circuito)
ora como chave aberta (circuito aberto). Então, podemos analisar o circuito para estas duas
situações como se fossem circuitos distintos, conhecendo seu comportamento completo a partir
do comportamento de cada uma das situações.

Assim, podemos considerar o circuito de corrente alternada como formado de dois


circuitos de corrente continua cujos valores de tensão variam entre um mínimo e um máximo.
Um circuito é para quando a tensão é positiva e polariza o diodo diretamente e o outro circuito é
quando a tensão é negativa e polariza o diodo reversamente. Agora já sabemos analisar!
Escolhemos o modelo de diodo e partimos para os passos já comentados na seção precedente.

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Porém, é necessário ter em vista que a tensão contínua destes circuitos equivalentes é pulsante,
ou seja, tem sempre a mesma polaridade, mas seu valor varia igual à tensão alternada original.

Assim, a tensão retificada no resistor, que neste circuito é a carga, é uma tensão pulsante,
tal como a imagem superior da Figura 18, considerando o diodo ideal. Pela LKT sabemos que a
soma da tensão no diodo e na carga deve ser igual a tensão da fonte. Logo, a tensão no diodo é
tal como na imagem inferior da Figura 18.
Vcarga

12

10

-2

VD

-2

-4

-6

-8

-10

-12

0 0.01 0.02 0.03 0.04 0.05 0.06


Time (s)

Figura 18. A forma de onda na imagem superior é a tensão sobre a carga, enquanto a inferior é a tensão
sobre o diodo.

4.3. ANÁLISE DE CIRCUITOS ATRAVÉS DE SIMULAÇÃO E ANÁLISE VARIACIONAL

Todo circuito eletrônico implementado fisicamente (“montado na prática”) pode ser


simulado através de ferramentas computacionais. Esse tipo de simulação é importante porque
mais rapidamente podemos ter a noção de como funciona ou se comporta um determinado
circuito. Assim, a simulação passa a ser um requisito para a implementação física, pois é mais
rápido fazer correções e aproximações em um software do que através da troca de componentes
em um circuito implementado fisicamente.

A simulação de circuitos envolvendo diodos e retificadores é muito interessante no


software PSim, devido o tipo de resposta que o software disponibiliza. Quando falo em resposta
quero dizer que toda simulação resulta em um gráfico da grandeza medida em relação ao tempo,
ou seja, podemos através do simulador ter acesso às formas de onda tal como na Figura 16 e
Figura 18. Neste sentido, a resposta do PSim se assemelha a um osciloscópio (grandeza no
tempo), diferentemente do multímetro que apresenta um valor instantâneo.

Além disso, na simulação podemos testar vários valores de tensão de fonte, modelos de
diodo e tipos de cargas de forma rápida, obtendo um gráfico de resposta para cada teste, ou seja,
obtemos uma análise através da variação de vários fatores. Chamamos isto de análise
variacional, e este tipo de análise também pode ser realizado com circuitos físicos, mas devemos
considerar as limitações da realidade. Então, fazer a análise variacional com circuitos
implementados fisicamente (na prática) é normalmente mais difícil do que na simulação,
justamente pelas limitações físicas ou da realidade, pois observem que um diodo ideal não existe

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fisicamente, mas somente existe enquanto modelo matemático. Logo, em um software podemos
implementar um diodo ideal, mas na prática não. Essa é uma vantagem muito interessante da
simulação em relação a implementação física.

5. RETA DE CARGA E PONTO DE OPERAÇÃO

Agora que já conhecemos diferentes modelos para o diodo e sabemos analisar circuitos,
podemos estudar um método que garanta a escolha de um diodo que possa operar normalmente em
certas condições de corrente e tensão. Em outras palavras desejo encontrar um método que ajude a
escolher dentre os diodos fabricados a melhor opção para um determinado circuito, para que o diodo
ou circuito não seja danificado. Neste sentido é preciso fazer a definição de reta de carga e ponto de
operação.

5.1. RETA DE CARGA

A reta de carga nos dá informações importantes a respeito do comportamento do circuito,


mais especificamente quanto a carga deste circuito. Assim, fica claro, que a reta de carga é um
método que se aplica a qualquer circuito, mesmo que não tenha diodo, pois a informação tem origem
no tipo de circuito que se está verificando.

Em geral para definir uma reta são necessários dois pontos. Além disso, uma reta pode ser
representada pela equação linear:

Esta equação terá um gráfico no plano cartesiano tal como na Figura 19, onde cada ponto na
reta é definido para . Agora, vamos definir dois pontos distintos para a equação linear
apresentada para o caso . Um ponto é definido como e o outro como . Portanto,
teremos de obter o valor de para o caso , bem como o valor de para o caso de .

Figura 19. Gráfico de uma equação linear no plano cartesiano.

Assim, teremos como resultado um valor para quando . E teremos como


resultado quando Agora, teremos um ponto que cruza o eixo e um ponto
que cruza o eixo . Podemos montar agora um gráfico de uma reta através destes dois pontos
tal como na Figura 19. Mas qual a relação desta reta linear com a reta de carga?

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Vejamos o seguinte circuito:

Figura 20. Circuito de configuração série com diodo.

A malha está fechada e podemos aplicar a LKT, e teremos:

Rearranjando os termos e substituindo teremos:

Utilizando como variável dependente e variável independente , teremos:

Agora podemos fazer uma analogia com e teremos a equivalência entre a


equação linear e a equação do circuito série com o diodo. Assim,

, , e

Neste caso os pontos definidos anteriormente são definidos como e . E teremos


um significado importante para cada um destes pontos. O ponto em que significa que não há
circulação de corrente, ou seja, é o ponto de mínima condução e teremos o diodo como um circuito
aberto, logo . Já para o ponto em que teremos o diodo como um curto-circuito, logo
esse é o ponto de máxima condução, cujo limite desta corrente é . Desta forma a nova reta
formada pelos pontos de máxima (diodo em curto) e mínima (diodo aberto) condução estabelece a
reta para a carga que é o resistor tal como está na Figura 21.

Figura 21. Reta de carga para o circuito série com diodo.

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5.2. PONTO DE OPERAÇÃO

O ponto de operação é importante para definir em qual corrente e tensão direta o diodo vai
operar. Cada tipo de diodo em sua fabricação tem uma curva característica e cada circuito tem
sua própria reta de carga. Logo a intersecção da curva característica com a reta de carga nos dá a
informação de corrente e tensão que o diodo vai operar. Assim, para obter o ponto de operação
do diodo no circuito da Figura 20 é preciso acrescentar uma curva característica a reta de carga
da Figura 21.

Figura 22. A reta de carga e o ponto de operação (ponto Q).

A projeção deste ponto nos eixos da corrente e da tensão são os valores em que o diodo
irá operar em corrente e tensão. Chamamos de ponto Q o ponto de operação. Observem que este
ponto Q deve estar nem tão perto do joelho da curva (onde a barreira de potencial não foi
totalmente vencida) e nem tão perto do topo onde existe a limitação de potência dissipada. Em
ambos os casos seu funcionamento estará prejudicado devido a possibilidade de o diodo queimar
ou devido a possibilidade de ele bloquear corrente. Por isso é tão importante o ponto Q, pois nos
dá as informações necessárias para o bom funcionamento.

6. ESPECIFICAÇÕES E INTERPRETAÇÃO DE FOLHA DE DADOS

Uma folha de dados (datasheet) é um documento disponibilizado pelo fabricante do


dispositivo ou componente e contêm os parâmetros mais importantes e as características de
funcionamento deste dispositivo ou componente. Outras informações também estão nas folhas de
dados tais como pinagem, encapsulamento, aplicações típicas entre outros. Uma grande dificuldade
de trabalhar com folha de dados é sua falta de clareza, por isso em nosso curso utilizaremos
datasheets somente para alguns casos, e interpretaremos somente algumas informações mais
importantes.

Para os diodos as informações mais importantes são aquelas que estão na curva característica.
Assim vamos olhar e interpretar o datasheet somente para aquelas grandezas. Então, vamos observar
a potência máxima de dissipação, a tensão de ruptura reversa, a tensão direta máxima e a corrente
direta máxima. Os símbolos ou nomenclaturas, suas posições nas folhas de dados variam conforme o
fabricante, por isso não há uma regra geral ou uma fórmula de interpretação. Além disso, as folhas
de dados são documentos em inglês, sendo que não existe em português porque não existe fabricante
de semicondutores no Brasil.

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A internet é o melhor meio de encontrar um datasheet. Vejamos, por exemplo, para o caso do
diodo retificador (diodo comum) 1N4001 temos os seguintes dados conforme Tabela 1.

Tabela 1. Parâmetros importantes do diodo comum 1N4001 e seus valores.

Parâmetro Datasheet Símbolo Valor


Tensão de Pico Reverso Peak Repetitive Reverse
VRPM 50 V
Repetitivo Voltage
Corrente Direta retificada Average Rectified Forward
IF(AV) 1A
Média para 75ºC Current
Potência Dissipada Power Dissipation PD 3W
Tensão direta Foward Voltage para 1 A VF 1,1 V

Figura 23. Exemplo de datasheet: Farchild 1N4001.

7. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Essas notas de aula foram baseadas, principalmente, no livro: Eletrônica do Malvino. Mas a
maior parte das figuras está no livro: Dispositivos Eletrônicos e teoria de circuitos do Boylestad.
Ambos os livros tem exemplares na biblioteca. Além disso, qualquer livro de eletrônica trata destes
assuntos.

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