Você está na página 1de 38

I

Sinto tanta vontade de morrer,


Tamanho é meu desejo de morte,
Que chega a ser poesia este tormento,
E essa ânsia de que se tudo acabe.

Se não morro, no entanto,


É por necessidade do verso,
Por causa do poema
Que precisa ser terminado.

Fica pois, decidido,


Que se se terminam os versos,
Acaba-se também a vida.

Morre o autor,
Morre o poema,
Descanso eu.

II

O farmacêutico é terapêutico
Meu coração é hermenêutico

III

Sob teu busto de gesso,


Anoiteço
No avesso de teu endereço.

Desculpe se não pereço


E nem enlouqueço
Tampouco pago o preço

Mas é que não me esqueço


De que num simples arremesso
Salvo qualquer tropeço
À vida me ofereço

E se me aborreço
E desapareço,
Não te preocupes,
Ainda assim e sempre te agradeço

IV

...porque a verdade é como musa:


chama-a, e ela virá.
Diz-me lá pois, Orfeu,
Que farás da tua lira?
V

Meias Verdades
Metades da laranja
Ilusões de pomar
Histórias de cozinheiras
Coisa de saci

Como pode-se aventar


Que uma fruta cortada ao meio
Laranja, jaca, jiló ou jenipapo
Volte a ser uma coisa só?

Se há metades de laranjas
Disso não passarão
Meias frutas, fruta e meia
Isso e só é o que elas são

Não digo que esta ou aquela


Não tenha decerto seu par
Pois se há meia laranja
Laranja e meia há de existir

Mas isto de se juntarem


Me parece ficção
Científica e metafísica
Coisa de televisão

É por isso que eu digo


E repito fazendo rimar
Que metades da laranja
São histórias de pomar

É hora da colheita
Eia chega o colhedor
Eu que nunca fui metade
Como faço com o amor?

Mais vale laranja inteira


Que metade descas(c)ada

Só no bolo de laranja
No refresco e na geleia
É que as duas metades se juntam

E daí? diz o limão


Se já foram espremidas...

Se eu fosse laranja-lima,
Tudo estava resolvido
Era só laranja inteira
Com a lima misturada.
VI

O que me incomoda na mariposa


É que ela é abusada
Entra sempre de intrometida
Sem sequer pedir licença

E vem ela com as suas asas


Pretas feias mui compridas
Batendo depressa e ansiosa
Ah! Doente expectativa!

Não sabe nunca o que quer


Nem se decide aonde vai
Voa sobre nossas cabeças
Só pra nos perturbar

E não larga da cortina


Não deixa a toalha de mesa
Nem com a janela aberta
A peste irritante se avia

Ficagarrada no portal
Não abandona a esquadria
Ignora a piaçava
Sonsa, lesa, debochada

Eu tenho medo de mariposas


E das borboletas maiores
Não sei explicar o motivo
Não ficamos no mesmo recinto

Pode ser que a sábia morte


Tenha escolhido pra mim
O manto d’uma mariposa
Como rosto por cima dos ossos

Nunca nenhum lepidóptero


Em mim se atrevera a pousar
Eles também já o sabem
Morro só de pensar

E a tua foice, tem forma de quê?

VII

Eu acredito no Criacionismo.
Deus fez o homem do barro,
Mas esqueceu de tirá-lo da lama.

VIII

O sono acaba
A vida insiste
E eu que preciso sonhar?
Escrita insone

VIIII

Penso que a literatura seja como um rio: ela nasce, corre por onde quer e por onde pode, eventualmente dá
de beber a quem deseje e deságua numa imensidão de sentidos. A teoria da literatura é a geografia, que dá
nome ao leito, à margem, chama de riacho, arroio, correnteza, corredeira; explica as cachoeiras e as
sinuosidades; é a biologia que estuda a vida que nela há, nas mais variadas formas, e procura entender
como essas vidas interagem. A teoria literária é a engenharia que elabora barragens, açudes; quer retê-la,
dominá-la, controlá-la, "melhorá-la"; é também a química, que quer limpá-la, tratá-la, meter-lhe cloro,
flúor, recriá-la e prepará-la para ser potável; é também a política e a economia, que quer dizer quem pode
bebê-la, onde e quando, a que preço, sob essas ou aquelas condições; a água não é mais de todos. E eu,
que só quero tomar banho de rio?

Hoje era preciso uma boa notícia, qualquer boa nova, algo que me fizesse acreditar que vale a pena
continuar. Era preciso uma surpresa, daquelas que experimentávamos quando crianças ao abrirmos os
presentes de Natal.
Hoje era preciso que o pardal não apenas pousasse na beirada da janela, mas que também me contasse
histórias de outras terras e de outros povos; era preciso que ele trouxesse com ele a rama de oliveira
roubada da pomba que se imortalizou no Ararat.
Hoje era preciso o milagre (ou o juízo final). Era preciso que uma metafísica qualquer fosse produzida
pelas engrenagens do universo e ecoasse dentro de mim provando que estou errado.
Hoje era preciso que uma das portas do corredor do manicômio se abrisse. Era preciso o sorriso da
enfermeira e a alta do médico.
Hoje era preciso afogar-me na chuva.
Hoje era preciso que o amanhã viesse mais cedo e me contasse algum segredo, porque todos os meus
hojes já se transformaram em ontem, quando também era preciso um hoje.
Hoje era preciso caminhar com a morte e ouvir o que ela tem a dizer sem nada dizermos.
Hoje era preciso que um anjo de um mausoléu qualquer me convidasse a entrar e perguntasse o que eu
quero.
Hoje é um daqueles dias em que só seu cachorro sabe o que fazer.
Mas eu não tenho um cachorro.

XI

Quando eu me for, quero que haja um mistério qualquer.


Quero que a névoa encubra meu velório
E que a chuva encharque meu cortejo.
Quero o som da água que corre
Molhando os silêncios
Afogando mágoas, afagando e certezas.
Não nessa ordem se melhor lhe convir.
Quero a luz dos relâmpagos iluminando meu rosto sombrio
E o rufar dos trovões ecoando impressões nos presentes.
Quero que pensem "será que está morto?"
Quero que digam "que enterro terrível”!
Em terras e trevas turvas
De torrentes
E retratos
E remorsos
E rostos
E restos
E Rastros
E Ratos
Rios de lama nas alamedas do cemitério.
Quero que o vento assobie
Presságios e apague as velas
E acenda os medos.
Quando eu me for, quero que a morte ela própria
De manto rasgado e foice em riste
— E aquele sorriso triste —
Entre e me abrace e me feche e me leve e me enterre e me chore e me vingue.
Que o trovão faça tremer os presentes jurando
"Você viu também? O defunto piscou!"
Quando eu me for quero a lua escondida
Não viu-me nascer, não me enterrará.
Quero um cão no velório que ninguém conheça
Sentado ao lado do esquife, de guarda,
E que me acompanhe até a sepultura,
Uivando ao som do cimento à tumba.
Quando eu me for há de ser memorável,
Há de ser incerto, que seja terrível!
Exijo meu mito! Faça-se a lenda!
Pois escritores não morrem
Mas vivem defuntos.

XII

Fina como um carpaccio


É a linha que separa
carpe diem de carpideiras
Carpo
Metacarpo
Policarpo
Toda Quaresma tem sua Páscoa
Diabetes Mellitus
Sociedade meio amarga

XIII

Lembro das cores, das vozes, dos sorrisos, dos doces, da correria.
Lembro dos brinquedos, das filas, das músicas.
Lembro de quando a alegria era possível
E a felicidade ainda não conhecia a filosofia.
E lembro do dia em que voltei sozinho do parque a casa:
Eu tinha crescido e deixei lá a criança
Que morrera entre algodões (-) doces
Sufocada de fantasia
Num mundo feliz.
O trem-fantasma é aqui fora.

XIIII
O vazio e a solidão são a estopa de que me encheu o tempo, como boneca de trapos costurada pela vida.
Agulha e linha.
Pontos sem nó.
Somos todos bonecos de trapo, feitos de retalhos e cheios de nada, com quem, mais cedo ou mais tarde,
ninguém mais brincará.
E seremos do tempo, do tempo de um presente infinito, de um
tempo que quanto mais passa, mais deixa tudo igual.
Sinto falta de tanta coisa que é como se estivesse completo de
tanto vazio.
Vejo lágrimas a abandonar-me no espelho... Com o tempo, mesmo elas, vão.
Já houve sorrisos, em outros tempos: amou-se a boneca de pano
que, agora, é trapo, é tempo, é tic, é tac...
Espelhos, janelas... A diferença está no “eu” que se vê em cada um deles.
No espelho, o tempo que foi, na janela, o que há de ser. Se houver.
Ismália através do espelho, o espelho do tempo que há de ser...
Um segundo já se passou...
Acabou!
Acabou?

XV

Porque o que me arremessa contra as paredes da sanidade


É a loucura dessa existência descabida
É o paradoxo do sofrimento pelo prazer
E do prazer sofrido que é insistir na vida
Esse dom amaldiçoado que nos tirou da lama da terra
Ou do fundo dos mares - que diferença faz?
Apenas para dotar-nos de inteligência e compreensão
Sobre nossa própria incapacidade de compreendermo-nos
A nós e a sós mesmos.

Porque a miséria de nossa existência é saber existirmos


E desgastarmos nossas almas em teologias vazias
Que suprem muito mal essa necessidade canibal
De darmos sentido ao paradoxo niilista que é
Nosso coração
Alquebrado.

Se escolho a loucura e a psicose dos labirintos utópicos


Onde minhas irrealidades tranquilizam o inferno da minha existência
Ridícula e sem propósito
É por que é na esquizofrenia das alteridades disso a que chamamos
Verdade
Encontro a paz de que falam os filósofos
E os malditos lunáticos que sorriem de sua própria demência.

O obscurantismo da realidade é essa matéria escura dos astrônomos


O universo é escuro como escura é a minha mente onde brilham
Uma e outra estrela, por puro deboche
Daquela outra apagada que me marcou o peito
No dia em que nasci para a morte.
A camisa de força não me impede de arrebentar meu crânio
Contra a parede da intolerância pétrea
Dos costumes e da pobreza
Do real.

Porque a morte que desejo é lançar-me ao espaço


E ser pulverizado por ele
Para nele integrar-me
E fazer parte, afinal, ao final, final
E completamente
Dessa improbabilidade que é a existência.

Por que arrancar meus olhos


Se na loucura violenta
Dos espasmos de insanidade
Posso volvê-los para dentro de mim mesmo e,
Lá,
Encontrar o nada de que sou feito, e só assim
Descansar meu espírito
No túmulo da minha inconsistência
No silêncio das minhas incertezas
No vazio da vida
No frio da solidão a que estamos condenados?

Como os planetas vagam pelo nada


Sigo eu na imensidão de meu inconsciente
Dissociado de tudo,
Vegetativo,
Sem uma lua sequer.

Planeta sem vida.

XVI

Do alto da colina, entre mim e a sombra de montanha que a noite recortava no horizonte,
Faiscavam as luzes das casinhas do pequeno vilarejo,
Talvez refletindo as estrelas do céu
(ou era o contrário?).
Veio um anjo noturno, desses que voam sozinhos
E tristes,
Como corujas a sussurrarem orações misteriosas e infernais,
E disse-me assim, olhando para a montanha:
O que te separa daquela montanha?
São as luzes dos homens ou as luzes do firmamento?
E eu, sem que tirasse os olhos da majestosa sombra adormecida,
Refleti sobre a perversa sugestão e respondi-lhe:
Não é o que me separa da montanha,
Mas o que separa a montanha de mim
Que agita o meu espírito.
E todos na vila apagaram as luzes;
E o sol apagou as estrelas;
E o dia matou a noite;
E o anjo tornou-se estátua;
E eu adormeci;
E apenas a montanha permaneceu imóvel
Para servir de paisagem
À lua.

XVII

Entre os teus olhos


E perceber-me vagando por entre túmulos
De nada me lembro.

XVIII

Diletante, você diz. Imprevisível, você julga. Dom Juan, você ironiza. Quando todos nós estivermos
mortos, e a civilização tiver esquecido da nossa ridícula existência, preferirei ter amado e desamado,
aprendido e esquecido, satisfeito minhas curiosidades e aprofundado meus estudos, ter visto um pouco de
tudo, provado um pouco de tudo, aqui e acolá, contigo ou com o mundo; preferirei ter digerido tudo
dentro do meu silêncio melancólico - porque só eu sei o significado que o mundo me oferece dada a sua
realidade - do que ter passado minha vida como um trem: numa única direção de, quando muito, dois
sentidos apenas.

Faço da minha
Maria Fumaça
Um maço
de linhas
Escritas
Em muitas trilhas
Por que se o trilho
Não é opção
Quem escolhe a junção
É o meu coração
Que bate
No compasso
Desse maço
De escritas
E de trilhas
Todas minhas
Ferrovias
Atrevidas

Não tenho estações


Nem paro em terminais
Passo por paisagens
As lágrimas os acenos e os sorrisos
Ficam todos no vagão-leito
Onde os sonhos são a lenha
Da caldeira
Que desdenha
Da maneira
Como quer o condutor
Chegar a seu destino:

O fim de todo o amor.


XVIIII

Trocaria a lua que carrego


Nesta noite à que me apego
Pelo rosto 'trás de onde
Quem amo e quero já se esconde

Trocaria de bom grado


A luz pálida de prata
Por um teu único afago
Sem o que sou vira-lata

Trocaria a hipocrisia
Dessa tal felicidade
Pela dura realidade
Dessa minha fantasia

Porque os sonhos que eu tinha


Que sonhei durante o dia
Mos roubaste à tardinha
E a noite ficou vazia

Trocaria essa poesia


Pela tua alegria

Mas sempre há entre nós


Esse verso que não rima.

XX

Ai que saudade boa, daquelas mineiras, de ficar pendurada na janela, vendo as modas, as fofocas, o sol
escorregar pela linha da montanha e as abelhas virem correndo por causa do cheirinho do bolo de milho e
do café forte da preta bá.
Ai, saudade boa, sem fim, dessas que quando morrem, viram poesia e, teimosas, não deixam o peito, só
por estética.
Eita, saudade danada! Fecha a janela, olha a mosquitada!
Saudade, já pra dentro, menina!
Vou não, quero ver a lua...
Ai, saudade sem fim, saudade danada, saudade teimosa.

XXI

(Suspiro)
Moço, duzentos gramas.
Pra viagens...

XXII

Sonetus Mellitus

Esta noite eu escreveria,


Como sói, uma poesia
Dessas de amor e lua cheia,
De mulheres, flores e sereias.

Mas havia uma torta no meio do caminho,


De chocolate tipo mousse, meio amargo,
Com castanha e chantilly, um doce comezinho.
Ah, pecado, me afoga neste doce desencargo!

E deitei-me à guloseima:
Fiz do verso o guardanapo
Do prazer que tanto teima!

E a rima, esquecida,
Mais que o bolo e o chantilly
Acabou, a pobrezinha, digerida.

Hoje não beijo a bailarina,


Contento-me com a insulina!

XXIII

Eu só queria ouvir a sua voz


E ter um pouco da sua atenção.
Não me incomoda não ter o seu amor,
Isso é para os poetas e os escritores.
A mim, bastava-me uma conversa,
Um diálogo ainda que de silêncios,
Saber, apenas, que você estava lá
Sabendo que eu estava aqui.
Às vezes só se quer a companhia,
Uma outra que não seja a da solidão.
Não, esquece, nem a sua voz é preciso,
Contento-me com uma linha, uma palavra,
Uma exclamação.
Reticências.
...
Preciso tanto dessa memória
De quando estava viva,
Seu fantasma é só uma lembrança
Do nome entalhado a frio
À fria pedra de mármore
Que hoje cobre seu cochilo.
Eu durmo sobre a terra
Que a esconde
E abraço o ar
De que são feitos os seus cabelos.
Beijo a fumaça
Em que dançam os seus lábios
Sigo a luz
Que seus olhos bruxuleiam
E me perco
Entre as paredes e os corredores
Desta casa, escura,
Que também é morta
Como a morte sua.

XXIIII

Ausento-me
E perco-me de vista
- desintegro-me –
Na cromática dos degradés
Do óleo sobre tela
- ou seria uma aquarela –
Que há no pôr e no nascer do sol
- tolice separar a noite do dia –
Tão iguais, tão iguais
Se a natureza
Pode dar-se ao desatino
De perder-se, ela também
Nessa loucura de misturas
Por que não posso eu
Esvanecer-me
Entre a sandice e a sanidade
Ton-sur-ton
Tão iguais, tão iguais
?

XXV

Por que vias e mares


Navegam amores e amares?
São tantos quantos os sonhares
Que se perdem pelos ares?

Navega-me
Ama-me
Sonha-me

Perco-te.

XXVI

Domingos frios e nublados,


Faço deles edredom
de sonhos bons
Porque minha alma
Também uiva como o vento
E chove de mansinho...

Deixo o dia ser a noite


Porque nunca cheguei
de qualquer modo
a acordar
desde que puseste
o teu sol
abaixo do meu horizonte.

XXVII

A ironia de morrer
Afogado de desejo
No deserto da solidão

Cáfila de corações
Em busca de um oásis
De translúcidas paixões

Amantes tuaregues
Caravana de infelizes
Amores-tempestades de areia

Meu coração são essas dunas


Irregulares que sufocam
Com o calor do dia

E congelam com o frio


Das nossas mil e uma noites

XXVIII

Eu queria um pedaço de sonho


Pra fazer uma manta
Que me protegesse
do frio da sua noite.

Queria as penas das asas de um anjo


No meu travesseiro
Pra suportar com leveza
O peso do meu desespero.

Da espuma do mar
Faria o colchão
À deriva no teu coração.

E da pesada âncora
Meu triste fim:
Submerso em teu oceano.

Minhas naus jamais dobrarão


O cabo desta paixão.

Minha esquadra – odiosa bonança –


Já adernou à esperança.

Rosa dos ventos


Rosados ventos

XXVIIII
Não é o sono da morte
Nem a apatia
Da agonia
E nem da desesperança
A letargia.

É a prece do sonho
De onde espero
Toda a alegria.

Não acorda!
Sou sonho

Não acorda...

XXX

A gente
Quanto é carente
Trinca os dentes
Abraça o travesseiro
Se afoga em aguaceiros
E no auge do desespero
Finge
(Que se é)
Feliz

XXXI

O ódio é o amor visto de contra a luz


Luz do dia, paixão
Luz da lua, solidão
De que lado da luzazul
Puseste o teu coração?

XXXII

Impossível é uma palavra que o dia de amanhã desconhece


Talvez por ser ele próprio
Impossível

XXXIII

E o que são os amantes,


Senão a expressão máxima da liberdade?

XXXIIII

Eu quero todos os dias assim,


Quero todo o frio pra mim,
Quero a ressaca avassaladora,
A neblina assustadora.
Quero que a chuva fina
E sem fim,
Me liberte da secura
Dessa arrastada sina
Que é a solidão
De te perseguir
No calor de tempestades
E rajadas de vento.
Quero o abaixo de zero,
Quero o açoite gelado do vento,
O chumbo do mar
Tão mais leve que o do ar.
Não quero enxergar palmo à frente
Chega de luz e dos dias quentes!

Se morro em vida,
Que o cinza seja
O meu esquife.

XXXV

Poesia de madrugada
Aparece como morcego
No meio da sala:

De repente, uma revoada,


Um pânico cego,
O pavor que não cala.

Poesia de madrugada
Acorda com sobressalto
Terrível desassossego
Querendo sair,
A desesperada,
Bate e rebate
Avoa e revoa
E causa aflição
E ansiedade
E inspira o medo
Que a gente tem
Das coisas com asas
Que então confinadas
Debatem-se e voam
Pra cima da gente

Porque a janela da rima está fechada.

XXXVI

Lepidopterophobia:
Medo de poesia
Ou seria
Do medo a poesia?
XXXVII

O desamor com que me tratas


É o longo e maior caminho
Em que te espera a solidão
Onde se chega sozinho
Ao que então,
Tu te matas.

Vais fazendo tuas vítimas


Antes, de ti, tão íntimas
Mas seu sossego e vingança
É que o fim dessa matança
É o inferno ao qual tu rumas
Por cavar tod'essas tumbas

Pode ser eu não veja


Tua dor e desespero
Mas acredita, é o que eu espero
Que tu agonizes no desterro
E num desesperado berro
Se apague tudo o que lampeja

Não é vingança nem castigo


É a paga inevitável
Do que fizeste comigo

A solidão é a amante do intratável.

XXXVIII

Sopra o vento
E eu me contento
Com o teu nome que ele parece sussurrar.

XXXVIIII

A lua nova tem de luz


O que tu tens de mim
Em teu coração cheio.
É minguante a esperança
De um nosso amor crescente?

Eclipse.

XXXX

Escrevo melhor à noite


Porque à penumbra
Já estou acostumado.

E nesse perpétuo escuro


Sinto falta das palavras
E da luz tua

Poesias jamais deveriam ser exumadas:


Enterram a todos com elas
No compasso da enxada
No riscar da pena à tinta
Que cava – e pinta
Sem cessar o nome dela.

XXXXI

Perguntam-me qual o papel


Da pontuação na poesia
Não sei nem o que faço de ti
Que dirá pontuar fantasias

XXXXII

Se nessa tua estrada escura


Onde teimas em ser feliz
Sobrevoarem teus calafrios
As criaturas da noite
Fazendo-te sentir a realidade
do medo
Sou eu escrevendo versos
Inspirado em ti
Das ruínas da podridão
A que me atiraste.

XXXXIII

Viver
Também é dar-se
O tempo
De observar
A cauda de um pavão.

XXXXIIII

uma vez
a cada mês
— mulher —
a lua
cheia
menstrua
— la mère —
e dá à luz

a nossa cruz

XXXXV
Escrevo meus versos
Entre corpos, ratos e restos
De flores e de histórias
Porque é morta a musa
E jaz reclusa
cadáver em minhas memórias

Mas há ironia
Nesta agonia
Porque a defunta alegria
Minha
Ainda que em pedaços
Sob meus passos
Mesmo podre e deformada
Inspira-me à poesia envenenada
De cadaverina

E se a vós isto é terrível


Agradecei
Pois vos poupei
Da descrição incrível
De meu corpo apodrecido
Pelo tempo enegrecido
A escrever com mão ossuda
E caveira sorridente
Entre gemidos dementes
Essa poesia aguda

Musa morta,
Poesia torta,
O que mais importa?

Nada mais conforta...

XXXXVI

O vento corta
A face morta
Que me observa
À porta

Terror noturno
De amores não vividos

XXXXVII

Alguns de nós escrevem pessoas, outros as sonham, mas, no final, não são a mesma coisa, sonhos e
livros?
Os sonhos nascem dos livros, que são possíveis apenas por causa dos sonhos. Nós somos o minotauro
desse labirinto.

XXXXVIII
Assim como o céu
à noite mente
com brilhos de estrelas
que não existem mais

Faz-me crer em paz


esta tua foto, ao vê-la,
que meu coração ainda te sente
presente
neste sepulcro.

XXXXVIIII

Os pesadelos de que sou feito


Não são piores
Que deles acordar insone
E lembrar-me
De que jazes bem ao lado
Sob a terra
Em que costumávamos nos amar

Só sobre ti
Velados por fria lápide
É que durmo
Sonos e sonhos bons

Os anjos de mármore
Hão de me proteger

Teu silêncio
[é]moldura
Para o som da chuva
Que chove cá
Dentro d'alma
E molha
Lá fora
Nosso jardim
De promessas
Secas
/////////////////

LI

Foi quando sentei-me à calçada


No frio meio-fio
Sozinho somente
Sob a luz azul da lua
Imerso no sereno frio
Cercado de nuvens e ratos e luzes
E cruzes
Que dei-me conta
De que Roma, Lisboa e Paris
Assíria e Babilônia
Tóquio, Toscana e Toronto
Rio, Sidney e Tuvalu
São apenas nomes
Diferentes
Para as mesmas coisas
E que todos nós
Somos deuses
Patéticos.

LII

Quando fechei-me à vida


Não esperava os olhares,
As curvas, os cabelos,
Os sonhos e desejos...

Mas se é para ires


Como sempre vais
A cada vez que me levanto
Deixa-me jazer
Na escuridão
Da solidão.

Brinca com meu coração


Mas não mate minha ilusão
E vai-te
Com teu sorriso
Pra nunca mais.

LIII

Camaleoa
Cama e leoa
Quantas cores e lençóis
Já tocaram nua a pele tua?

Disfarçada de ti mesma
Oculta nas sombras de cortinas
Escapas à realidade minha
Mentiras?

Camaleoas são predadoras


Que enganam os seus
Ou engano-me?

Camas e leoas
Carnes e travesseiros
Que luz te revelaria

Minha?
LIIII

A névoa que a noite traz


Encobre as luzes da cidade
Embriagada de sono e frio
Mas é ela a esperança minha
De que surjas por entre as brumas
E acabe com esse fog
Que mergulha meu coração
Em mistérios de Sherlock
E saudades de ti.

É de névoa que são feitos os sonhos.


Acorda-me somente ao chegar.

LV

A ovelha negra entre o alvo rebanho,


É como a letra impressa em branco sulfite:
Distingue.
Com o mesmo voraz apetite,
Aqueço-me com a negra lã que extingue
A dor e os ais do lanho
De tanta brancura
De capa dura.

LVI

Temo o céu azul e límpido


De azulejo cristalino
Mais que o chumbo
Das tempestades.

É que nos dias claros


As nuvens que não estão no céu
Estão nublando meu coração
E nos dias de chuva
Deixo-as passearem
Para que o peito respire
Ar puro.

LVII

Me ame amanhã
À mesa
À moda
Sem modos
Cem modos!

Manhã de mainha
Manhas de menina
Monte de Vênus
Movimentos marinhos
Marés
A molhar-nos

Mantras entre mantas


Músicas e mistérios
Me ame mulher
Malícia
Maleável malemolência

Meneios de menina-moça
Maçãs mortas
Mordidas em manicômios
Mente o mensageiro
Missivas mordazes
Moldas maldades
Mas ama-me
A mim
Muito
Minueto de mamilos
Marcas de mordidas
Melhor morrer
A não ser amado.

Mechas e cachos
Mexes – o facho –
E o tacho
Entalhos e atalhos
E o leite talhado
Tabuleiro dos prazeres.

LVIII

Choro mela ou choro molha?


Chorumela...

LVIIII

Por causa de tantas idas e vindas,


De tantos desamores
Dissabores e promessas fugazes
De tantos castelos de nuvens
Onde não quiseste morar
- embora endossaste o projeto –
É que sonho tanto assim,
E me recolho tanto assim,
E meu dormir é meu viver
Porque te realizo no impossível

Talvez
Em rostos desconhecidos
Em mechas de outras cores
E olhos de outras luzes
Que nossa frágil realidade
- a que abandonaste quando era só esperança –
Se torne, em sonhos de álcool e ópio,
A real fantasia de nós dois,
Ainda que nela tu vistas
Uma outra máscara qualquer.

LX

Se podes perdoar a lua quando ela é nova,


Perdoa-me a mim
Eu, cometa,
Em minha órbita periódica
Ao redor ti
[elípticos]

LXI

O pôr do sol
Por tão só
Fez-se tal como a alvorada
E assim são dois o mesmo sol
Esse sol que era tão só
Tão só num pôr de sol
Que nasce e morre
No mar de sal
E só

E querem que só a lua tenha poesia


E dizem que só, a lua tem a poesia
A lua tem é poesia

LXII

... e eu ali, olhando pela janela


imaginando como deve ser a morte
os carros passando,
o silêncio das árvores,
o zumbizar dos notívagos...
E tudo ali, na minha cabeça,
fazendo sentido,
se desapegando,
distanciando,
sobrevoando,
até que

LXIII

A água que vai ao chão


Com o tempo
Ev a p o r a - s e
[Por que não o leite derramado?]
Assim vão-se esvanecendo meus pensamentos
E meus sonhos
E a própria vida

Chove, choro
Charco cheio
— de chumbo —

Chilreio

LXIIII

Eu só não sei de muita coisa


Eu só imagino a moça

Eu só queria...
Eu só penso no dia...
Eu só não sei da alegria
Eu só não pontuo a poesia

A vírgula é para quem lê


Eu só escrevo.

LXV

Em tua mesa
F / a / t / i / a / d /o
Devora-me!

Se só assim estarei em ti...

LXVI

Meu amor é um filme mudo


É preciso, agora,
Escutar vozes
Para saber
Que rima fazer
Com minha demência
Tão linda
Em cetim.

LXVII

Certa vez sonhei


E soube
Naquele sonho
Que você jamais sairia de lá
E só ali existiria
[zzzzzzzzzzzzzzz]
Eu sou esse louco vagabundo
Que anda a falar sozinho pelas ruas
Sem que eles jamais saibam
Que eu falo
É com você.

LXVIII

Cansaço é quando a vida


Te derruba e te esmurra
E te pisa e te fere
E você ali, deitado
No próprio sangue
Só enxerga o brilho
De quem não te ama
Mas é, ainda assim,
Uma dor mais doce
Que a dor da vida.

LXVIIII

Eu só queria uma vitória


Que bem podia estar em seus olhos
Mas os louros...
Um empate! Ah, meu reino por um empate
Que bem podia ser contemplar o seu sorriso
De longe que fosse
De longe
Que eu possa ser merecedor, então,
De um intervalo
Que bem podia ter
O tempo de dizer seu nome
Até o final
E que fosse
O final.

LXX

A cela,
Os choques,
As pílulas e injeções.
Nem mesmo a camisa de força,
Me fazem esquecer de ti,
Deixar de te ver,
E de te querer.

LXXI

Mais quero teu vulto vivo


Na incerteza da penumbra
Noturna
Que a certeza morta
Da tua ausência
Na luz sombria
Diurna
LXXII

Insana idade
Imortal idade
Saudade,
Moça.

LXXIII

Relativ(a)idade

Não são os vinte e talvez mais anos


Que nos assustam e amedrontam
Os corações que de tempo nada sabem,
Mas a sombra que à luz da razão
Projeta-se sobre desejos nossos.

Separados por um abismo


Que se torna nada
Tamanha a esperança
Que dança
Voando em palavras hesitantes
Que trocamos.

[Sinais de fumaça]

E eu me pergunto, enquanto sonho-te mais velha


E desespero-me por mais novo:
O que terá acontecido
Com o "que seja eterno enquanto dure"?

Ficou nos versos,


Como nós,
Dueto sem rima,
Relógios desacertados.

E basta, sabemos,
Apenas querermos.
Mas, se sabemos que queremos,
Por que não somos
E nem estamos
No mesmo tempo
Na mesma batida
Do carrilhão?

O tempo é tão relativo


Quanto o medo
Que dele
Temos.

O relógio não sabe a diferença


Entre meio-dia
e meia-noite.
Aponta o mesmo doze para os dois.
Por que nós não podemos
Fazer o mesmo
E esquecermos
Do tempo
E sermos
Os dois
Um único
Ponteiro?

LXXIIII

... e (n)este verso solitário só eu sem(/n) ti...

LXXV

Verdades
Vaidades
Oh, desditosa rima

LXXVI

Se vieres
Uma vez mais
Abraçar-me em alta noite
Deixar teus beijos e sorrisos
E te meteres entre outras musas
— Posto que és ciumenta e me queres só a ti —
Rogo-te que recues; procura, tu, a lua
Ou as estrelas — devem dar por tua falta —
Assombra as escuras ruas
E seus pobres transeuntes
Que buscam morenas
E loiras de branco

Se quiseres contudo vir,


Se in felicitate me desejas tanto assim,
Vem, tu, à luz do dia,
Toca a campainha,
Bate à porta,
Ô de casa!

Entra, a alma é tua!


Pois também é preciso o corpo,
E também se deseja a carne,
Porque sonhos não matam a fome,
Deste arado sonhador.

LXXVII

Ver-te assim, tão purpurina


Arlequina improvisada
Só sorrisos, alegria
Mascarada e a alma escancarada
Noutros passos e compassos
Desfila a melancolia

Visto a minha fantasia


De retalhos de saudades
E vou chorando esta marchinha

Ah, neste meu bloco do eu sozinho


Sem confete ou serpentina
Só bate o bumbo lento do meu coração

No carro alegórico és de todos


Mas no meu porta-retratos
Serás sempre o meu destaque

LXXVIII

Mas não é o tempo que te falta,


Falta-te a falta que te fazem as pessoas,
Falta-te sentires falta.

Ou já é tempo de não fazer falta a ti?


Se pelo menos teu relógio
Se lembrasse de mim..

LXXVIIII

... e percebo que meu maior tormento


meu eterno sofrimento
não é ter um coração anoitecido
uma alma-lua-nova
ou ter nascido de estrela morta
é ter-me apaixonado
pelo teu sorriso-sol
teus cabelos-ventania
essa alma-alegria
esse corpo-via láctea
e saber, maldita astronomia,
que entre o sol e velha lua
só pode haver um breu-eclipse

Cercam-te as borboletas ao claro dia


Amedrontam-se as mariposas à horrível noite

Preferiria jamais tê-la


visto amanhecendo...

LXXX

Disseco-te e não me encontro em ti.


Duas mortes em vão.
LXXXI

... e, morto de desejo,


enterrar-me-ei no quintal da tua vida
e, se da terra úmida e de meu podre coração
puder renascer numa flor qualquer,
quem sabe não me venhas a colher?

LXXXII

Os versos e as rimas
Estavam todos lá
No teu sorriso alexandrino
Naquele olhar hai-kai
Nas curvas concretistas
Nesse amor surrealista
Nos seios de sonetos
No refrão dos teus quadris
Nas longas pernas parnasianas
Em teu coração barroco
Em nossas vidas de quadrinhas
Mas foi no dia em que te foste
Que tudo virou poesia

LXXXIII

Eis a cena
Ouço sinos
Percebo incensos
Em meu sono
Ai, a sina
Deste amor insano
Tormento intenso
Profundo, denso
Epifania imensa

Tão nonsense
Essa tua absence...

LXXXIIII

Fico imaginando como seria se tivesse sido, e se ainda poderá


[vir a ser.
Será que neste período sou a voz passiva? Devo ser a voz ativa?
Imperativo!
Não sei mais se sou o sujeito ou objeto direto indesejado
— objeto indireto desejado, corrige a professora, fetiche —
Talvez tudo não passe de orações sem sujeito
— preço de ser indeterminado —
Faltaram-nos os conectivos,
Ficamos assindéticos,
Orações absolutas e solitárias.
Tivemos o contexto
— que péssimos leitores fomos —
Bastava desdobrar a semântica.
Mas fomos gramáticos normativos
— reflexivos, construtivistas; falhamos —
E agora estamos assim,
Literatos sem ter o que dizer.

Vamos sair à noite?


Se ao menos tivéssemos tido a coragem
De inventar nossos próprios advérbios
De tempo, de lugar, de companhia
E de prazer...

LXXXV

É no brilho da luz do dia


Que se criam as longas sombras
E todas elas se levantam
Em horror cambaleante
Avançando sobre mim
A sussurrar teu nome
Não há canto nem recanto
Em que a penumbra não se prume
A buscar-me com volúpia
Como a ti eu procurava
Não tem fim o meu tormento
Amar-te é meu arrependimento
O sol se põe e vão-se as sombras
É quando mergulho aflito
Na mortal escuridão da noite
Se pelo menos a Lua, também ela,
Não criasse suas sombras...
Só posso amá-la Nova
Pois não é possível vê-la
Pois não é possível ver-te
A não ser
Em minha própria
E interna
Escuridão

LXXXVI

Não te importes
Com meu cadáver
A rodear-te
As mariposas
— e os mortos —
Procuram a luz.

LXXXVII

De todos,
Édipo foi o mais sensato.

LXXXVIII

Não me queres à tinta


Não me amas à pena
Ignora-me ao pergaminho

Pois meu papel


Agora será o céu
Sem borda, sem limite
— hipertexto azul anil —
A pena ligeira de ganso
Etérea, ao vento manso,
Um risco de nuvem-pluma
Porque são do ar as aves
As penas e as brumas
E os versos
E o teu avoado coração

A tinta que fiz correr,


E que jamais desejaste ler,
Sejam, pois, as gaivotas
Com suas asas em "M",
A redondilhar no alto
Os versos que te fiz
E que agora,
— virás a saber algum dia? —
Lerás com paixão tranquila.

Eu te quero tanto,
E te desejo tanto,
E te escrevo tanto,
E, entretanto...

LXXXVIIII

Assim te quero
Assim mesmo
Ah, sim!
É cisma
Desejo barato
Corriqueiro
Teimosia
Quero por que quero
Insistência
— bobagem a resistência —
Pode ser pela tua beleza
[que eu mesmo construí]
Pode ser pela tua inteligência
[te quero inteligente e pronto]
Pode ser por esse teu jeito
Que me faz rir e me deixa feliz
[Insana felicidade infeliz]
Pode ser por esse gosto de carne
Que temos inerente à espécie
E que quero provar
Carne crua, nua
Peça de açougue
[desejo estranho esse]
Quero porque decidi te querer
Não sei se te amo
Provavelmente, não
— O amor e ridículo —
Quero-te como quis a tantas
E hei de outras querer
Porque enjoa-se da mesma carne
Depois de tê-la à mesa demasiado
E à cama embriagado
Quero te porque escolhi te amar
E porque já não possuo
As chaves de tua cela.

XC

Soubessem meus olhos


E tudo o mais que destruíste
Que a brancura da tua pele
— como neve —
Soterrar-me-ia em desespero
— avalanche —
Faltando-me o ar e o amar
Tê-la-ia evitado, abreviado
Porque é fugaz tua presença
Duvidosa tua permanência
E certa a tua ausência

XCI

O coração repete que te amo


— verso sistólico / rima diastólica —
Meu corpo insiste que te quero
— Contrações / contrariedades involuntárias —
Mas é o verde dos teus olhos
— Imatura pintura profunda —
Que diz-me não estares
Ainda — e para quando?
Pronta para a colheita
Morro à míngua
— entressafra —

XCII

Salto dos seios


Semblante sáfico
Serena sede de suaves
[Sucos
Saliva, suspiros, sabores,
Sigo sinuosidades
Sorvendo sal e suores
Sudorese sensual
Sagrado sexo
Soterro
São seus sinais
Satisfeita
Sufocada
Soluços
Sentidos sinceros
Sangue sugado
Sanguessuga
Sou — sina
Esse saco de ossos
Sempre seu

Deite-se
De bruços
[Debruço-me
Deleite-se
No leito
De morte

XCIII

Amores, parques, abraços,


Carinhos, beijos, amassos,
Versos, poemas, poesia,
Livros, filmes, teatro, alegria
ser

[só]

seu,
Tantos amigos, programas,
Eu te amo, tu me amas,
Pôr do sol, lua cheia,
Café, almoço, jantar e ceia.

XCIIII

Fui amar-te e destarte


Encontrei-me em desalento
Tornei-me podre, amargurado
Definhei desfigurado
Sucumbi sem mais saúde
Me puseste em ataúde
De madeira podre pinho
Misturado ao escarninho
Do que fosse o teu carinho

Tanto foi que desejei


Tanto foi que me esforcei
Em talhar um sentimento
Em teu calcário coração
Em tua alma insensível
Mas era-me ser invisível
Conviva sem anfitrião
Faminto sem alimento

Morresse eu seria ainda


Melhor que o horrendo fado
De uma solidão advinda
De teu cruel enfado
Mas não está morto e enterrado
Quem vive só e isolado
De amores desenganado
De tudo desesperançado?

Ah, mas este amor com que te amava


Em tão profunda ira se tornara
Com tão infame rancor
E ódio intenso
Que do que te reservo em apenso
Quase me arrependo de dispor

Criaste um corpo inerte e corrompido


E atiraste-o já sem mais libido
Ao sabor dos elementos
A toda sorte de excrementos
E nessa mesma natureza
Que abdiquei de qualquer pureza
E trovejei ensandecido
Relampejei-me retorcido
E chovi o que restava
E de toda humanidade
Vi minha essência lavada
Tempestade, mãe de toda insanidade!

Agora que renasci só carne


Sem qualquer brilho no olhar
Animado por desejo de vingança
Repleto da mais cruenta fúria!
Sucumbirás à criatura
Que tu mesma fizeste-me ser

E agora hás de me amar


Cheia do mais profundo terror
Presa a terríveis grilhões e grades
E gritos e grutas, à grama, imunda cama,
Grunhindo, desgrenhada,
Gritando, pedindo e implorando
Assim como supliquei o teu amor
Que te deixe e te solte e te liberte
Não! Que a morte em mim desperte!

Estás agora refém


Do teu próprio
Frankenstein

XCV

Já não te quero mastigar


Enjoou-me o sabor de nada
Enojou-me o teu beijo insosso
Tua morna companhia
Teu sentimento ralo
Que seja ao menos
Doce a sobremesa

XCVI

Quão doce seria


Expirar à leve, fria
E noturna brisa
E elevar-me às estrelas
Tão mais leve que o ar
Refrescando-me ao roçar nas nuvens
Refletido à branca luz da lua

E do alto contemplar
O corpo empalidecido
Já sem vida, tão sem rima
Fim de todo sofrimento
— O sorriso do cadáver —

Ah! Que paz deverá ser


O noturno fenecer
Silencioso despedir-se
Sutil desprender-se

De ti.

XCVII

Eis que vens a mim em sonho


Sem ter sido convidada
Nem tão pouco apresentada
Total e perfeita estranha
Como há muito conhecida
Cumprimentou-me e parecia
Colocar o assunto em dia
Com sorrisos tagarelas
À vontade num singelo
Vestido de tom amarelo
Na manhã do mesmo dia
Não estivesse acostumado
A ser em sonhos visitado
Muito me espantaria
Vê-la verdadeiramente
Só faltou o amarelo
E a intimidade sorridente

Que existas cá e lá,


Que sei eu de existências?
Mas como pode lá um beijo
E cá tão grande indiferença?

É preciso abandonar
Toda a dura realidade?
Ou devo cá eu procurar
Por vestidos amarelos?

XCVIII

Ocorreu-me súbito um poema


Correu-me com a mesma presteza
Veio a musa beijou-me e foi-se
Vultos ligeiros da madrugada

Nunca mais lembrar-me-ei


Dos versos daquele beijo
Mas faço este, de implicância
Só de irônica vingança

Sei bem que o que queres


Não é querer-me como eu quero
O que queres é que eu queira
Que brinques com meus quereres

Do contrário,
Quede verso?

XCVIIII

Tinta vermelha à pena


Ou é jura de amor
Ou declaração de guerra
De qualquer forma: é Gehenna

CEM TIDOS

E foi assim que


Tendo a tudo dado as costas
E em tudo estamos ambos incluídos
Nunca mais um do outro
Ouvimos falar
Nem nunca mais um ao outro
Voltamos a ver
É preciso rimá-la com esquecer

FRAGMENTOS PÓSTUMOS

Ganhaste, vida
Fizeste por merecer
Usaste de todos os truques
Tiraste-me tudo
Pouco a pouco
Dilacerando
Desacelerando
Meu celerado
Coração

Aos poucos e sempre


Um talho, um corte
Um jorro de sangue
Tanto e tão cruento
Que do ódio e da revolta
A gerar no ventre a vingança
Conseguiste fazer-me triste
Atiraste-me à mais profunda
E escura melancolia

E a vibração que o furor e a raiva


Produziam em mim
De tanto apanhar, de tanto perder
Viraram dormência
Um formigamento
De quem já não sente as partes
Ainda que lá bem estejam
Suspensas, inertes,
Vãos adereços

Ganhaste, eu disse
Triunfaste, escrevi
Contudo, repenso
Neste meu vagar
Sem rumo nem prumo
Morto ainda vivo
Cadáver engendrado
No reino da vida
Isto posto, concluo
Que a bem da verdade
Triunfo maior tive eu sobre ti
Porque faço-me morto
Não sinto mais nada
Nem mesmo as dores
Em que ainda insistes
E por isso mesmo
Porque não me mataste
― ainda que um corpo ―
Sou em quem escarneço
Pois despedaçado
Tão amargurado
E mui torturado
Ainda vagueio imundo
Por esse teu mundo
De vida e frescor
Beleza e amor
Mas quem sabe consigo
Por culpa, ironia,
Da tua vil covardia
Enegrecer estas cores
Murchar todo o viço
De tudo o que é vivo
Com apenas um toque
De morte
Do morto
Que vivo, entretanto,
Sem que notasses
Resistiu às feridas
E agora as devolve
Não a ti, mãe perversa,
Mas a teus filhos e filhas
Que mortos, doentes,
Infelizes tal qual
Apedrejam e cortam
O teu coração
O seio da vida

Matasses a mim
E teria ganho a pendenga
Escolheste a tortura
Criaste teu próprio
Verdugo

Ah, vida,
Há coisas que à morte
Pertencem

Dá-me cá um abraço
Apodrece comigo
Quero mostrar-te
O fim que terá
Todo o vivo.

***
Na Antiguidade (nem é preciso ir tão longe...), quando uma civilização chegava ao fim, desestruturada,
corroída em todos os seus valores, destituída do que chamamos hoje tecido social, uma outra civilização
tomava o seu lugar, cultural e/ou territorialmente. O que diferencia a nossa contemporaneidade daquela
longínqua (?) Antiguidade, é que hoje nossa civilização é uma só, não há ninguém para nos substituir,
tomar as rédeas, reorganizar-nos sob novos protocolos ou instituições.
Nossa civilização ocidental (ainda há isso de ocidental e oriental?) está morta. Não há mais o que
corromper, não há mais valores éticos ou morais seguros, delimitadores, norteadores da mínima
convivência social. Somos um cadáver maquiado.
Nosso drama é não termos ninguém que venha nos velar nem fechar nosso caixão: somos um corpo
exposto ao tempo, empesteando tudo, maculando tudo até que não sobre mais nada de nossa podridão
sobre a Terra.

***

Meu reino por um revisor!


Isto de sangue pisado e repisado...
Mas quem haverá
De entender meu terror?
Quem haverá de saber
Reescrever tanta dor
E ainda fazê-la
Doer.

***

... restaria decerto a morte,


Que a todos a tempo reúne
Mas ― pura falta de sorte ―
Também a morte
Nos abandonara
Por puro ciúme

Inveja rara

***

E foi assim que


Tendo a tudo dado as costas
E em tudo estamos ambos incluídos
Nunca mais um do outro
Ouvimos falar
Nem nunca mais um ao outro
Voltamos a ver
É preciso rimá-la com esquecer