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50 Anos De Profissão:
Responsabilidade Social Ou
Projeto Ético-Político?
50 Years Of Profession: Social Responsibility
Or Ethical-Political Project?

50 Años De Profesión: ¿
Responsabilidad Social O Proyecto Ético-Político?

Oswaldo H.
Yamamoto

Universidade
Federal do Rio
Grande do Norte
Artigo

PSICOLOGIA: CIÊNCIA E PROFISSÃO, 2012, 32 (num. esp.), 6-17


7
PSICOLOGIA:
CIÊNCIA E PROFISSÃO,
2012, 32 (num. esp.), 6-17
Oswaldo H. Yamamoto

Resumo: O presente texto aborda uma das questões mais polêmicas que acompanham estes primeiros 50
anos de profissão regulamentada: o alcance social da profissão de psicólogo e sua possibilidade de contribuir
para o processo de mudança social. A partir de dados sobre a evolução da profissão no Brasil, discutimos
a questão confrontando as teses do alcance social, da responsabilidade social e do compromisso social,
concluindo por indagar sobre a viabilidade da proposição de um projeto ético-político para a Psicologia.
Palavras-chave: Responsabilidade social. Ética. Política de saúde. Psicologia (Brasil).

Abstract: This paper focuses one of the most controversial issues that accompany these first 50 years of


legally regulated profession: the social impact of the profession of psychologist and its possibility to con-
tribute to the process of social change. From data on the evolution of the profession in Brazil, we discuss
the issue comparing the thesis of  social impact, social responsibility  and social commitment, concluding 
by  questioning  the viability of the proposition of an  ethical-political project for Psychology.
Keywords: Social responsibility. Ethics. Health care policy. Psychology (Brazil).

Resumen: El presente texto aborda una de las cuestiones más polémicas que acompañan estos primeros
50 años de profesión reglamentada: el alcance social de la profesión de psicólogo y su posibilidad de
contribuir para el proceso de mudanza social. A partir de datos sobre la evolución de la profesión en el
Brasil, discutimos la cuestión confrontando las tesis del alcance social, de la responsabilidad social y del
compromiso social, concluyendo por indagar sobre la viabilidad de la proposición de un proyecto ético-
político para la Psicología.
Palabras clave: Responsabilidad social. Ética. Política de salud. Psicología (Brasil).

No capítulo intitulado Uma Defesa da O ponto de partida que adotamos para


Psicologia, com o qual concluía o seu estudo construir uma resposta à questão sobre o
sobre a incipiente profissão de psicólogo na que se passou com a Psicologia nesses 50
passagem da década de 60, Mello afirmava: anos é retomar a literatura. E, embora ela
seja farta, iremos nos concentrar em dois
A Psicologia é uma autêntica ciência – estudos, pelo fato de apenas esses serem
e não uma técnica para solucionar os
resultantes de projetos abrangentes sobre a
problemas íntimos dos privilegiados – e o
Psicologia em âmbito nacional. O primeiro
benefício das soluções que ela propõe, e
das técnicas que criou, deve ser estendido deles é um programa proposto e organizado
ao maior número de pessoas. Reservá- pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP)
las para poucos, como tem sido feito, é na segunda metade dos anos 80, que
desvirtuar seu valor como um instrumento redundou na publicação do livro Quem É o
de modificação social.
(...) Renovar a prática da Psicologia, a Psicólogo Brasileiro (CFP, 1988), que reunia
1 O programa começar pela formação que os profissionais informações e análises acerca da profissão
do CFP teve
recebem, não é uma tarefa simples, mas nos seus primeiros 25 anos1, e o segundo,
prosseguimento
é, sem dúvida, uma tarefa urgente (1975,
com dois outros um projeto conduzido em meados da
livros, Conselho p. 113)
Federal de década de 2000 por um grupo de trabalho
Psicologia (1992). da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-
Psicólogo Brasileiro: No momento em que comemoramos o marco
Construção de Graduação em Psicologia (ANPEPP), com o
dos 50 anos de profissão regulamentada, é
Novo Espaço. apoio do Conselho Federal de Psicologia e
Campinas, SP: oportuno nos debruçarmos sobre o que
Átomo e Conselho do Conselho Nacional de Desenvolvimento
ocorreu desde o momento em que Mello,
Federal de Científico e Tecnológico (CNPq), resultou no
Psicologia (1994). ao mesmo tempo em que fazia uma severa livro O Trabalho do Psicólogo no Brasil (Bastos
Psicólogo Brasileiro:
Práticas Emergentes avaliação da Psicologia, aduzia que a & Gondim, 2010).
e Desafios para Psicologia poderia e deveria ser mais do que
a Formação São
Paulo: Casa do uma “atividade de luxo”, sendo uma injustiça A comparação dos resultados desses
Psicólogo, além de reduzi-la às tendências presentes até então
outras pesquisas
dois estudos evidencia um crescimento
pontuais. no seu desenvolvimento. extraordinário da profissão. Dos 15 psicólogos

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registrados no MEC em 1962, passamos para Passemos, agora, a examinar as mudanças


aproximadamente 54 mil, no estudo de verificadas na prática efetiva do psicólogo. Os
2 Sem desconhecer as 1988, e para 236 mil em 2010. O número dados da pesquisa de 2010 são elucidativos,
polêmicas envolvidas de agências formadoras também cresceu de em diversos aspectos. Em primeiro lugar,
com a definição
da área de atuação forma espetacular: no período compreendido a informação de que 67% dos psicólogos
(e.g., Botomé, 1988; pelos dois estudos nacionais, o sistema se vincula a apenas uma área de atuação2.
Gondim, Bastos, &
Peixoto, 2010), o cresceu 300%, assim como o processo de E qual a área predominante? Clínica, com
conceito se presta privatização, que passa de aproximadamente 53% dos respondentes (de forma exclusiva
para a análise que
empreendemos. 70% em 1988 para 90% em 2010. Esse ou combinando áreas)... A saúde absorve
imenso processo de crescimento tem, ao 27,9% dos psicólogos, seguida da área do
3 É importante
observar que pode menos, duas consequências: o hiato entre trabalho e das organizações, com 25,1%3,
ter havido vieses na o número de egressos para o de inscritos e da educacional, com 9,8%. Em segundo
coleta, conduzida
por um grupo de
no Sistema Conselhos (cerca de 65% dos lugar, tomando as modalidades de inserção
trabalho da área da formandos adquirem condições legais para o profissional dos psicólogos, o setor público é
Psicologia do trabalho
exercício da profissão) e a desqualificação da o que apresenta a maior concentração, com
e das organizações,
decorrente de uma formação (Abbad & Mourão, 2010; Bastos, 40% da amostra. Seguem-se 35% no setor
divulgação diferencial Gondim, Souza, & Souza, 2011; Souza, privado e surpreendentes 25% no terceiro
e, eventualmente, do
envolvimento com a Bastos, & Barbosa, 2011; Yamamoto, Souza, setor 4. A combinação de duas ou mais
pesquisa. Silva, & Zanelli, 2010). inserções, no entanto, é a marca da profissão,
4 Terceiro setor e abrange 65% dos psicólogos.
aparecerá destacado Crescimento, no entanto, não é sempre
no presente
texto em virtude sinônimo de desenvolvimento. Para além da E o que os psicólogos estão fazendo nesses
da discordância expansão, o que os números revelam sobre espaços de inserção profissional? No setor
conceitual com
relação à sua as mudanças na profissão? O percentual público, a principal atividade é... aplicação
existência como um de psicólogos que se dedica ao exercício de testes psicológicos (32,9%), seguida de
setor da economia.
Para uma discussão da profissão cresce de aproximadamente psicodiagnóstico, com 29,6%. E no terceiro
sobre esse tema, ver, 70% para 84% dos inscritos, o que pode ser setor? Psicodiagnóstico, com 27,6%, e
entre outros, Montaño
lido como o indicador de uma tendência aplicação de testes psicológicos, com 23,5%.
(2002).
à consolidação da profissão. Se a profissão Sem invocar qualquer teoria da conspiração
5 Trata-se de referência e ciente do risco de simplificar a questão,
à obra Il Gattopardo, se estruturou à luz do modelo médico/
de Giuseppe de profissional liberal, ou seja, trabalhador é inescapável a lembrança da tese do
Lampedusa. Ao gatopardismo, de Giuseppe de Lampedusa5...
analisar a decadência autônomo, os dados de 2010 mostram
da aristocracia e que passa a haver um equilíbrio entre as
a emergência da Psicologia: elitismo e mudança social
burguesia no processo modalidades de inserção: 52% assalariados
da unificação italiana, e 48% autônomos. Contudo, a tendência à
a tese política do O quadro que delineamos a partir dos
príncipe Don Fabrizio institucionalização/assalariamento de que
da Sicília é que algo
resultados das pesquisas não teve por objetivo
falavam Mello (1975) e Campos (1983) é
deve mudar, se não se traçar um perfil acurado da profissão, tarefa,
quer mudar nada. Esse visível: apenas 1/5 dos profissionais que se
neologismo, comum
ademais, já realizada pelos estudos aos quais
declaram autônomos afirmam que atuam
a diversos autores nas fizemos referência. O que intentamos foi, a
ciências humanas, exclusivamente nessa condição. Quanto às partir dos estudos, construir uma base para
foi empregado em
condições de trabalho tanto dos assalariados discutir as questões postas por Mello (1975)
um texto anterior
para expressar a tese quanto dos autônomos, a precarização e no estudo pioneiro da década de 60.
de que a Psicologia
a deterioração da remuneração adjetivam
muda em aspectos
secundários para o que se disse anteriormente acerca da Além das indiscutíveis indicações para
manter intacto o
consolidação da profissão (Bastos & Gondim, a revisão da prática e da urgência em
que é essencial
(Yamamoto, 2000). 2010). modificarmos os rumos da formação – meta

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que ainda estamos longe de atingir –, há longo destes anos parecem indicar fortemente
dois aspectos na avaliação de Mello que a primeira das alternativas: a profissão tem se
gostaríamos de retomar: (a) a extensão das orientado muito mais pela oferta de serviços
técnicas que a Psicologia criou para parcelas do que pela construção de respostas a partir
mais amplas da população e (b) a sua das demandas da população atendida.
capacidade de ser um agente de mudança
social. São dois aspectos que, conforme É interessante observar que estamos tratando
veremos, imbricam, embora sejam, no limite, das orientações gerais da profissão, e não da
questões de natureza diversa. escolha pura e simples de uma das alternativas
em detrimento da outra. Não é possível
O debate acerca do elitismo da profissão conceber um atendimento das demandas
era um lugar comum. Depois da avaliação da população sem a oferta de serviços para
inicial de Mello (1975), Botomé (1979) os quais o psicólogo tenha competência
e Campos (1983), apenas para citar dois técnica. Além disso, a questão do alcance
pesquisadores, constatavam o problema social pode não se resumir ao atendimento
do baixo alcance da profissão que, pela (qualificado) das demandas da população.
natureza da inserção profissional e pelas A questão não é trivial, pois pode haver,
atividades propostas (psicoterapia realizada em algumas circunstâncias, coincidências
em consultório privado), deixava desassistidas entre as duas alternativas, e, ainda assim,
parcelas amplas da população. Esses autores, a análise mostrar que o alcance social é
embora com perspectivas analíticas diversas, problemático. Considerar as demandas da
deixavam no ar uma confiança na capacidade população é sinônimo de dar respostas para
de a profissão alterar os seus rumos na as suas necessidades? Exemplifiquemos:
direção de maior alcance social. Campos se, hipoteticamente, a demanda expressa
apontava, ainda, a insuficiência dos recursos pelos usuários dos serviços públicos de
teóricos e técnicos produzidos até então pela saúde for o atendimento psicoterápico
Psicologia no Brasil para tal empreendimento, individual nos moldes da atividade clínica
ou seja, fazer frente a uma clientela com tradicionalmente exercida em consultórios
características diferentes das que a profissão privados (que, eventualmente, corresponde
(elitizada) então atendia, ou seja, as classes à imagem pública da profissão), responder a
subalternas. essa expectativa com pessoas pertencentes
às classes subalternas significa aumentar o
Os resultados dos estudos acima aludidos alcance social da profissão?
mostram que a profissão passa a atingir, de
fato, parcelas mais amplas da população ao Do elitismo ao alcance social
longo de sua curta história. No entanto, a
ampliação do leque populacional atingido Retomemos o tema da qualidade da atuação
ou a focalização nos segmentos de menor e da competência técnica. Afirmamos (e
renda representa, por si só, uma ampliação reafirmamos aqui) que não é possível qualquer
do alcance social da profissão? Uma primeira ação profissional que não seja qualificada
questão que está subjacente se aproxima da tecnicamente. Contudo, nem a competência
análise que Botomé (1988) faz, inspirado nas técnica em si é uma condição suficiente, nem
teses do cientista argentino Oscar Varsavsky: tampouco qualquer competência técnica é
a distinção entre uma profissão que se define adequada, ou seja, voltando aos termos da
pelo que sabe fazer de outra que se orienta discussão de Botomé (1988): é indispensável
pelas demandas sociais. Os estudos sobre as considerar a adequação, para o segmento
atividades desenvolvidas pelos psicólogos ao da população atendida, das competências

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técnicas que a Psicologia desenvolveu ao a discussão do alcance social. Atentando


longo de sua história. Se considerarmos o especificamente para os profissionais que
que previa Campos, os dados das pesquisas trabalham nas políticas sociais, as respostas
mais recentes nos permitem indagar sobre a dos psicólogos no estudo de 2010 replicam,
adequação de se utilizar (por mais competente em linhas gerais, os resultados da amostra
tecnicamente que seja) os recursos que a maior: o psicodiagnóstico é a atividade
Psicologia tradicionalmente desenvolveu para mais frequente, seguido de aplicação de
o contexto da clínica privada. testes psicológicos e de atendimento a
crianças com distúrbios de aprendizagem.
Para discutir a adequação, ou não, do que Assistência psicológica a pacientes clínicos e
Campos (1983), denominou de “arsenal cirúrgicos e psicoterapia individual (adulto,
teórico-técnico” desenvolvido historicamente criança e adolescente) estão, igualmente,
pela Psicologia para uma atuação que tem por entre as atividades mais citadas. Por outro
foco as classes subalternas, é preciso colocar lado, dentre as atividades mais frequentes,
em pauta a natureza dessa intervenção. É embora menos citadas, figuram algumas
necessário considerar os dados desagregados que podem ser associadas ao trabalho no
dos estudos recentes para analisar onde setor do bem-estar, embora muito pouco
e em que trabalham os psicólogos que elucidativas pela sua formulação por demais
não atuam de forma autônoma – em tese, vaga: participação em equipes técnicas e
lócus privilegiado da prática tradicional dos planejamento e execução de projetos. As
psicólogos no Brasil. A resposta para essa respostas à questão das abordagens teórico-
questão é clara: o setor do bem-estar social, metodológicas que informam a prática
o chamado campo das políticas sociais. também são esclarecedoras: psicanálise em
primeiro lugar, cognitivo-comportamental e
Os resultados da pesquisa nacional de 20106 humanista-existencial.
nos permitem deduzir que aproximadamente
40% dos psicólogos que participaram do Essas poucas indicações vão ao encontro de
estudo trabalham no campo das políticas algumas das nossas observações anteriores.
sociais. Os setores nos quais os psicólogos Não há (exceto, eventualmente, de forma
têm presença significativa são os da saúde pontual), rigorosamente, novidades na prática
pública e os da assistência social. Estamos efetiva do psicólogo ao mudar o seu foco
falando, aqui, de dois segmentos que têm de atenção para as chamadas parcelas mais
um significado diverso no que diz respeito amplas da população. Duas interpretações são
à discussão de alcance social. As políticas admissíveis: ou o psicólogo está reiterando
voltadas para o campo da saúde são (ou práticas conhecidas seja porque ele
pretendem ser) universalistas, ao passo desconheça outras, seja porque não estamos
que aquelas referentes à assistência são produzindo novas e, eventualmente, mais
focalizadas e compensatórias. Embora, na adequadas alternativas, ou o psicólogo está
6 Passaremos a prática, os segmentos populacionais atingidos atendendo adequadamente à expectativa do
trabalhar com
alguns dados do possam ser coincidentes, a distinção é serviço, enfim, às demandas a ele dirigidas.
banco de dados importante para uma análise da extensão dos
do estudo já
referido do GT serviços psicológicos, pois o significado da As questões acima pedem desdobramentos
da ANPEPP, que ação profissional passa a obedecer a lógicas analíticos que escapam à possibilidade
resultou no livro de
Bastos , Gondim
distintas. de abordagem mais detida neste espaço.
e Peixoto (2010), Entretanto, deixamos algumas indicações.
mas que não estão
Um detalhamento da ação concreta do As ações requeridas (e aí, entenda-se
contemplados na
obra. psicólogo nesses serviços nos permite qualificar tanto as demandas advindas do serviço

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– Estado e gestores como as do público Essa constatação, se tem procedência,


atendido) necessitam ser analisadas mais remete-nos à necessidade, de um lado, de
detalhadamente nas diversas inserções o psicólogo compreender de maneira mais
profissionais no campo das políticas sociais. profunda do que o que ocorre usualmente
Apenas para exemplificar, no mesmo as determinações macroestruturais de sua
campo da assistência social sob a égide inserção profissional no setor do bem-estar
do SUAS, as demandas nos Centros de social público; de outro, de buscar alargar
Referências de Assistência Social (CRAS) e o campo de ação para além dos limites de
nos Centros de Referência Especializados executor terminal da política, intervindo na
de Assistência Social (CREAS) são bastante gestão e, principalmente, na sua formulação.
7 Abordamos esse tema
em uma discussão diferenciadas, e requerem, eventualmente,
sobre o compromisso práticas diversas dos profissionais. No Alcance social e compromisso
social do psicólogo
(Yamamoto, 2007). segundo caso, em uma situação de crise político
Há, no campo instalada, uma intervenção emergencial nos
da educação, um
moldes da prática clínica tradicional poderia,
interessante debate Temos situado as questões que estamos
sobre os limites da eventualmente, ser justificada, ou seja, talvez
competência técnica e tratando como pertencentes ao âmbito do
as duas alternativas aludidas anteriormente
política (Mello, 1982; alcance social da profissão, em virtude do
Nosella, 1983). não sejam excludentes.
ponto de partida da nossa análise. Mas a
8 O estudo de Coimbra última asserção nos conduz à necessidade
(1995) sobre a relação Essas observações nos permitem recolocar a
da Psicologia com o
de qualificar melhor a inserção social do
questão do alcance social. Pensando neste
regime autocrático- psicólogo.
burguês de 1964-1985, como a extensão (qualificada) dos serviços da
para citar um exemplo, Psicologia – e essa era a demanda presente
não deixa espaço para Para isso, é necessário recuperar um antigo
qualquer ingenuidade tanto no argumento de Mello (1975) quanto
– embora sempre atual – debate sobre a
relativa à questão. no de Botomé (1979), ao avaliar que apenas
Apenas para situar a diferença entre ação política em sentido estrito
questão e prosseguir 15% da população tinha acesso ao serviço
e a dimensão política da ação profissional7.
no tratamento do do psicólogo e indagando se os restantes
tema, essa questão, Mencionamos a dimensão técnica, que
salvo engano, está
85% não necessitariam deles –, a profissão
inquestionavelmente ampliou a cobertura afirmamos ser indispensável para uma
conectada à discussão
da responsabilidade
de sua ação, utilizando, ou não, os recursos prática socialmente significativa, e uma outra
social da ciência, tema
clássicos da Psicologia. dimensão a ser considerada é a política. Toda
que ganhou relevo
com a participação de ação profissional, esteja o psicólogo ciente ou
cientistas no desfecho
O alcance social, todavia, necessita ser não, comporta uma dimensão política, pelo
da Segunda Guerra
Mundial. Em suma, compreendido dentro de um contexto fato de o profissional estar envolvido, como
a imensa polêmica lembra Iamamoto (1998), com as relações de
instalada nos segundo mais amplo. Afirmamos alhures que política
pós-guerra dizia social nos marcos do modo de produção poder da sociedade. Ignorar essa dimensão
respeito à questão representa assumir as já superadas teses sobre
de quando cessa a capitalista remete à chamada questão
responsabilidade do social, cujas refrações somente podem a neutralidade da técnica8.
cientista, ou, dito de
outra forma, se ele é
ser tratadas de forma setorial e parcial, na
corresponsável pelos forma de políticas sociais específicas (e.g., Transpondo essa discussão para a atividade
desdobramentos profissional, o ponto que estamos debatendo
Yamamoto & Oliveira, 2010). O psicólogo,
de suas descobertas
científicas. Há uma como profissional do setor do bem-estar, trata da responsabilidade política do psicólogo
infinidade de textos ou seja, do campo que historicamente tem (e não do cidadão) no desenvolvimento de
que tratam dessa
questão, como, por propiciado o alargamento do alcance social sua atividade profissional, ou seja, estamos
exemplo, o livro do da profissão, trabalha exatamente nessas no controvertido terreno do compromisso
filósofo da ciência
Jacob Bronowski refrações como um executor terminal das político do psicólogo.
(1979). políticas segmentadas.

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Situemos a questão. Inicialmente, é profissional. E é desta última que estamos


necessário ter em mente que a Psicologia, tratando neste ponto. A terceira observação
como qualquer outra profissão situada é que, reconhecendo a dimensão política
dentro dos marcos de uma formação da ação profissional e distinguindo-a da
social capitalista, subordina-se, em última militância, reiteramos uma tese que, embora
instância, às determinações do modo de antiga, deve ser relembrada: a de que,
produção dominante. Em outras palavras, historicamente, não cabe ao psicólogo ou a
inscreve-se dentro da divisão social do qualquer outra categoria profissional como
trabalho, cumprindo o seu papel, dentro tal, um papel decisivo em processo algum
de sua especificidade, na reprodução das de transformação estrutural da sociedade.
relações sociais capitalistas. Esse é um Novamente, duas ressalvas: isso não significa,
limite da ação profissional que necessita por um lado, que tais ações em uma direção
ser levado em consideração. A condição progressista, pela falta de um termo melhor,
de trabalhador assalariado compreende sejam inúteis ou desnecessárias9; por outro,
parâmetros institucionais e trabalhistas que que a ação profissional, por não ser neutra,
regulam as relações de trabalho (Iamamoto, não possa se articular e contribuir com as
1998), além de um conjunto de prescrições lutas populares e os projetos societários
que são próprias de sua inserção profissional. alternativos.

É indispensável, aqui, fazer três observações. Essas três observações estabelecem contornos
Em primeiro lugar, não estamos em para a discussão da polêmica tese do
absoluto, afirmando que o psicólogo deva compromisso social do psicólogo.
obedecer acriticamente às imposições
do seu empregador, em que nível for (ou Compromisso social ou
seja, combatendo a famigerada tese da responsabilidade social?
obediência devida), mas que é impossível
ignorar as determinações postas pela As considerações anteriores, sobre a
sua inserção profissional no quadro da margem de ação política do psicólogo,
9 Situam-se aí, organização social e técnica do trabalho. tendem a recolocar a questão para o âmbito
por exemplo, as
definições acerca A segunda observação é que não estamos, individual. Falamos das determinações
da melhoria das igualmente, admitindo que os limites acima estruturais mais gerais, dos requerimentos
condições de vida
da população,
aludidos da ação profissional postos pela de ordem institucional e trabalhista, e, como
saúde (seja sua localização na divisão capitalista de aludimos anteriormente, das necessidades
terapêutica,
trabalho sejam imutáveis, mas que o alcance ou demandas sociais, configurando um
seja prevenção,
seja promoção), de ações profissionais individuais para campo de tensões no qual se situa a ação
habitação, alterá-los é restrito ou quase inexistente. É
saneamento, do psicólogo.
enfim, os alvos importante ressaltar que essa consideração
das chamadas não cancela a diferença acima mencionada
políticas sociais
É nesse terreno de contradições que se situa
(fragmentadas), entre a ação política propriamente dita e a questão do, utilizando uma expressão
indiscutivelmente a dimensão política da ação profissional. corrente e controvertida, compromisso social
necessárias, mas
que, em si, não Há um limite (eventualmente tênue) entre do psicólogo. Mas, se já concluímos que
comportam a a ação propriamente política – sindical, o alcance social da profissão se alargou ao
qualificação de
ações relativas
partidária ou nos movimentos sociais, enfim, longo destes 50 anos após a regulamentação,
à transformação a militância política – e aquela dimensão o que dizer do compromisso social? Vamos
estrutural da
sociedade
política que envolve a consideração das nos deter um pouco nos sentidos assumidos
capitalista. consequências sociais da sua atividade pela expressão.

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Bastos (2009) faz um levantamento das Há, aqui, duas questões a considerar. A
acepções de compromisso social do primeira diz respeito à leitura que faz Bastos
psicólogo, identifica quatro dimensões nos da literatura sobre o compromisso social. É
textos que analisa e propõe uma quinta. São importante dizer, não se trata de um campo
elas expansão, renovação, direção política, de estudos; antes, são escritos relativamente
orientação teórica e competência técnica. esparsos, artigos que analisam a prática
Não é nossa intenção discutir a análise das e discutem o compromisso do psicólogo
dimensões do autor, porque as questões envolvido nesse contexto, textos de combate,
que nos tocam mais de perto já foram e outros documentos10; portanto, embora
objeto de atenção, mas discutir a forma os leitores possam identificar posições mais
pela qual ele define duas delas e pensar nos consolidadas, é difícil afirmar que estas
seus desdobramentos: a direção política e a sejam hegemônicas. A crítica de Bastos
orientação teórica. De acordo com Bastos reside, como vimos, na desqualificação
(2009), o âmbito direção política é definido de práticas profissionais que não estejam
pela orientação para a transformação alinhadas a determinada abordagem teórico-
social e a supressão das desigualdades, metodológica e voltadas para a transformação
que se associaria à orientação teórica que, social.
na análise do compromisso social, estaria
identificada com a abordagem sociohistórica. Façamos um exercício. E se substituirmos
O autor faz a crítica a tal compreensão compromisso social por responsabilidade
do compromisso social por entender que social? Seguramente, seria difícil sustentar
comporta o risco de esvaziar a identidade aquelas definições das dimensões direção
profissional do psicólogo e de construir política e orientação teórica, ou seja,
uma psicologia classista, pela concepção seria impensável afirmar que somente
voluntarista subjacente e pela pressuposição ações profissionais que se articulam com
da supremacia de um determinado referencial a transformação social a partir de uma
teórico-metodológico em detrimento das determinada impostação teórica sejam
demais (e da pluralidade do conhecimento socialmente responsáveis. Talvez resida aí
psicológico). o cerne do embate de Bastos (2009). O
reconhecimento de que há uma pluralidade
A questão contida nessa crítica, do nosso teórico-metodológica e de posturas políticas
ponto de vista, reside na disputa em torno na ação profissional do psicólogo a informar
da definição do que seja compromisso social práticas socialmente responsáveis não seria a
e, por conseguinte, do enquadramento reivindicação do autor?
das diversas ações do psicólogo como
socialmente comprometidas ou não. A linha Mas é forçoso reconhecer que há uma distinção
de argumentação que Bastos busca construir entre responsabilidade e compromisso social,
– e é importante que seja mencionado, a julgar pelos escritos analisados por Bastos.
sobre o compromisso social do psicólogo do E essa distinção nos remete à questão da
trabalho e das organizações – diz respeito transformação social. Reafirmando o que foi
a uma eventual avaliação maniqueísta que dito anteriormente sobre o eventual papel de
10 Para uma análise coloca, de um lado, determinadas formas de qualquer categoria profissional no processo
compreensiva de inserção profissional como comprometidas de transformação estrutural da sociedade
como a literatu-
ra tem tratado socialmente, e, de outro, aquelas não (capitalista), não seria o caso de se pensar
a questão do comprometidas socialmente. em duas modalidades de compromisso social,
compromisso social
do psicólogo, ver
uma, na ordem do individual (o que remete
Amorim (2010). a questão para decisões ao campo da ética)

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e, eventualmente, na ordem do coletivo? Em têm origens, situações, posições e expectativas


Conforme
lembra Netto, outras palavras, indagar sobre a possibilidade sociais diversas, condições intelectuais
“os membros do de pensarmos em compromisso social distintas, comportamentos e preferências
corpo (categoria) com a definição acima para uma inteira e teóricas, ideológicas e políticas variadas
profissional são
necessariamente heterogênea categoria profissional. etc” (2009, p. 145). E, mais importante,
indivíduos que o “corpo profissional é uma unidade
diferentes –
têm origens,
É possível pensar em um não-homogênea, uma unidade de diversos;
nele estão presentes projetos individuais e
situações, projeto ético-político para a
posições e societários diversos e, portanto, configura um
expectativas
Psicologia? espaço plural do qual podem surgir projetos
sociais diversas,
condições
profissionais diferentes” (2009, p. 145).
Um tópico para iniciar a discussão: a defesa
intelectuais
distintas,
da pluralidade e do reconhecimento da
Um projeto ético-político para a profissão
comportamentos diferença supõe, necessariamente, abrir mão
e preferências
não suprime, portanto, as divergências,
da tentativa de ações coletivas? E em que
teóricas, mas deve ser construído, se possível, apesar
ideológicas e
nível de organização é possível pensar em
da existência dessas diferenças e das suas
políticas variadas ações coletivas?
etc” (2009, p.
contradições internas. Como se trata de uma
145). proposta coletiva, construída por um sujeito
Visando a superar o nível da ação profissional
coletivo (com a heterogeneidade que lhe é
individual, gostaríamos de propor a discussão
própria, como afirmamos acima), o projeto
sobre a viabilidade da construção de um
ético-político visa a atingir toda a categoria
projeto coletivo, na forma de um projeto
profissional. E, sendo construído por uma
ético-político para a profissão.
unidade de diversos, o projeto é, igualmente,
não uma unicidade, mas uma unidade
Projetos profissionais, de acordo com Netto,
(possível).
apresentam a auto-imagem de uma
profissão, elegem os valores que a legitimam Pensando dessa forma, é possível conceber
socialmente, delimitam e priorizam seus diferentes projetos ético-políticos
objetivos e funções, formulam os requisitos
simultaneamente propostos que disputam
(teóricos, práticos, institucionais) para o
seu exercício, prescrevem normas para a hegemonia da profissão. Se entendermos
o comportamento dos profissionais e as definições criticadas por Bastos (2009)
estabelecem as bases das suas relações como esboços de projetos ético-políticos e
com os usuários de seus serviços, com as
não como uma avaliação (maniqueísta) de
outras profissões e com as organizações e
instituições sociais privadas e públicas (...) compromisso social, as características das
(2009, p. 144) definições – direção política e orientação
teórica – são perfeitamente justificáveis.
A questão, para a Psicologia, área de Seria não um julgamento do que é aceitável,
estudo e de atividade profissional que ou não, na prática profissional do psicólogo,
aceita a definição da fragmentação como mas o alinhamento com propostas coletivas
um traço imanente, não é trivial. Para alternativas. Dito de outra forma, em
além da dispersão teórico-metodológica, vez de qualificar as ações profissionais
dificuldades adicionais se relacionam ao fato como socialmente comprometidas ou não,
de a Psicologia, como, de resto, qualquer poderíamos pensar nelas vinculadas ou
categoria profissional, ser fundamentalmente articuladas a um ou a outro projeto ético-
heterogênea. Conforme lembra Netto, “os político profissional.
membros do corpo (categoria) profissional
são necessariamente indivíduos diferentes –

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Oswaldo H. Yamamoto

De fato, é difícil imaginar que as categorias supõe articular uma dupla dimensão: de
profissionais com a complexidade que um lado, as condições macrossocietárias,
que estabelecem o terreno sócio-histórico
comportam hoje possam convergir para em que se exerce a profissão, seus limites
um único projeto profissional. Portanto, e possibilidades, e, de outro, as respostas
é perfeitamente lícito e plausível esperar sócio-históricas, ético-políticas e técnicas de
que projetos alternativos concorram pela agentes profissionais a esse contexto, as quais
traduzem como esses limites e possibilidades
hegemonia na categoria profissional. Essa são analisados, apropriados e projetados
diversidade de proposições em busca (pelos profissionais) (2007, p. 222)
de hegemonia pode, inclusive, ensejar a
disputa de projetos que se situem dentro Conquanto estejamos partindo da viabilidade
de um mesmo espaço do ponto de vista da construção de projetos profissionais com
das perspectivas ideopolíticas e dos projetos diferentes fidelidades ideopolíticas, o que
societários aos quais, eventualmente, se estamos defendendo aqui – e o que motivou
perfilhem. estas considerações – é a possibilidade (ou não)
de proposição de um projeto ético-político
É desnecessário aduzir que hegemonias para a Psicologia, crítico e progressista, que
são construídas e conquistadas, e não possa, de uma parte, dar suporte às decisões
impostas; trata-se, portanto, de projetos que ético-profissionais de ordem individual do
se qualifiquem como tal, que consigam fazer psicólogo, considerados os marcos já aludidos,
frente à diversidade da profissão e da categoria, e, para além da sua (indispensável) ação
demonstrar sua eficácia na articulação dos política como cidadão, ser coparticipante
profissionais e sua vinculação efetiva com os de um projeto ético-político que se articule
projetos societários abrangentes. com projetos societários mais amplos. E,
nesse caso, evidentemente, estamos nos
Deve-se lembrar, neste ponto, que a
referindo a projetos societários que apontem
possibilidade da proposição de projetos ético-
a transformação estrutural da sociedade
políticos da profissão não elide os limites da
capitalista – e não a sua manutenção.
ação política e profissional antes discutidos.
Em síntese, um projeto ético-político, como
bem define Iamamoto,

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Oswaldo H. Yamamoto

Oswaldo H. Yamamoto
Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo. Professor Titular do Departamento de Psicologia da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Rio Grande do Norte – RN – Brasil.
E-mail: oswaldo.yamamoto@gmail.com

Endereço para envio de correspondência:


Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Departamento de Psicologia, Caixa Postal 1622, Rio Grande do
Norte, RN – Brasil. CEP 59078-970.

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