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Mr.

Oizo — Jo

— Eu reclamo muito? — Perguntei pra ela de súbito enquanto respondia um teste do


buzz feed. Ela respondeu com todas as vezes que eu tava bem e reclamei da vida.
Apenas ri e continuei a responder o teste que deu que eu devia me casar com uma
leonina. Sabe o que isso quer dizer?

Isso mesmo. Nada.

Cheguei num estagio em que me conheço tão bem como cada linha taromântica da
palma da minha mão. Cada linha romântica que eu escrevo me libertando de mim
mesmo e depois me arrependendo de ficar virtualmente nu na frente de
desconhecidos.

Aqui é uma praia de nudismo. Mas um nu da alma. Se você olhar bem consegue ver
alma da pessoa em cada tweet engraçado. Em cada meme. Em cada desabafo. Em
cada música postada.

Outro teste do buzzfeed disse que meu signo gosta de sossego. SQN. Dentro de mim
tudo é caos e eu não consigo parar minha boca ou meus dedos um minuto. Estou
sempre procurando mudar alguma coisa. Nada está bom e fico pistola quando não
consigo. Com certeza trauma na fase oral.

Já se passaram cinco tweets e eu não cheguei aonde queria que era te fazer rir. Nunca
fui bom de piada mesmo. Sou daqueles que ri da própria piada antes de conseguir
terminar.

Você só ri quando eu tropeço o dedo do meu pé no asfalto. Ou quando eu bato minha


cabeça em algum lugar alto. Parece cena de anime mas é apenas eu sendo eu. As vezes
me olham como se eu não soubesse o que estou fazendo. Mas sinceramente. Quem
sabe?

Ao mesmo tempo que tudo é caos tudo é harmonia. Ah vai te toma no cu quem
inventou essa de dictomia. Dualismo de cu é rola. Nada disso importa agora que
perdemos. A saída é pela esquerda e amanhã é só distopia.
Ouh pora, a musica tá acabando e eu ainda não falei pra que vim. Na verdade falei sim.
Você que não viu. Estou novamente nu nessa rede e como um peixe eu me debato e
bato e apanho e aprendo todo dia um pouquinho mais sobre vocês e sobre mim e
sobre tudo.

Agora me vou porque já deu pra praticar a escrita. Já deu pra desabafar alma cuja dita.
Fazer umas rima besta e pá. Ninguém merece eu flodando a TL falando nada com nada
chapado de vaporwave na madrugada.
blablabla machine

deixa eu falar um pouquinho da minha vida. talvez voce me escute. sempre caí aquela
musica que me derruba no aleatório. sim. aquela mesmo que voce sabe que me
derruba que me joga no chão dos deuses. depois me afoga num copo de coca cola. eu
já não sei como prosseguir. tudo parece uma grande mentira. estou afim de sumir
tudo parece uma grande piada. sumir daqui meu amigo. sumir digitalmente. estou
preso aqui nesses bytes. estou preso a essas opinioes do twitter. eu nao sei mais se eu
estou certo. tudo está caótico mas agora nao só dentro de mim. que estranho eu
conversar comigo mesmo. mas foda se ja faço isso desde de sempre. as vezes sou
minha melhor companhia. as vezes sou meu pior inimigo. porque ela nao saí de mãos
dadas comigo? deve ser porque eu a ignoro. toda vez que eu a vejo me olhando eu
preciso escrever. eu preciso dizer o que esta acontecendo comigo. ela brilha como o
sol da meia noite mas eu nao a vejo. estou sempre muito ocupado fazendo varios
nada. nada é como nos gostaria que fosse. mas que merda então pra nós tá aqui nessa
caralha então? só pra sofrer e chorar e ainda ser culpado quando nao conseguimos
sorrir? aah vai pra merda o bagacera. bom.. agora sim voltamos ao pillow talk gnostico.
todo dia eu durmo de cansaço. minha mente roda até nao mais poder pensar em nada.
eu imagino mil coisas e encho minha mente de filosofias. sonhei que platao me falava
como te alcançar. ele dizia olha pra cima sua anta. senta o cu na cadeira e faz o que
tem de ser feito. como agora nesse pequeno blablabla sem sentido. é engraçado.
parece que minha mente está em conjunto com meus dedos. eu penso e escrevo eu
penso e escrevo. nao é tão dificil. o dificil é escrever alguma coisa que preste. positivo
e operante. como um otario que já fui esperando alguma coisa do mundo. ahahah
estamos todos fudidos ele me disse uma vez. doeu e foi estranho mas era verdade.
mas eu aprendi que não importa o que voce diz mas sim como voce diz. o sabio sabe a
hora de falar. nao dê mais do que as pessoas aguentam nao se machuque mais do que
as pessoas te machucam. nao machuque ninguem. é tão dificil conviver. nao temos
controle de nada. eu preciso voltar a tentar me encontrar com ela. chamar ela para
tomar um sorvete la na minha casa no campo. sentar debaixo da minha macieira e
parar de pensar um pouco. quero agir mais quero viver mais. encher meus pulmoes de
ar. ver com todos os meus olhos tudo que acontece e escrever sobre voce. escrever
como seria bom te pegar no colo e voar com voce ate a lua, cantar o que eu vi.
escrever o que eu senti. mas to aqui de novo seguindo a contra mão de tudo. só pra
variar um pouquinho.
i fall in love too easily

Eu quase consigo tocar o momento exato em que meu coração começa a bater mais
rápido. É toda vez que você entra porta adentro e eu finjo que não te vejo. Te ignoro
como se você não existisse enquanto dentro de mim sou uma garrafa de coca cola
quente que transborda como se sua presença fosse uma bala de mentos sabor
morango. I fall in love to easily e eu não sei se você percebe. Na verdade não quero
que você perceba. Você mora dentro de mim e é isso que importa, não quero estragar
nada de novo. Tenho medo mas não tenho vergonha de escrever uma coisa dessas.
Ainda bem que você também me ignora. E nos ignoramos. E talvez nos amamos. Mas
se você não me amar não tem problema não. Era tudo mentira. Eu só estava
praticando minha escrita. I fall in love too fast e talvez eu já esteja em outra. Mesmo
escrevendo sobre você eu já estou em outra. Mesmo sonhando com você eu já estou
em outra. Eu sempre tento estar em outra (em vão). Eu sempre estou aqui ouvindo a
mesma música cinquenta vezes. O mesmo trompete lento e macio como quando sua
língua encontra a minha nos meus sonhos de verão. Aonde eu te levo para ver o por
do sol e te mato de tanto te beijar. Te prendo forte nos meus braços quando lembro
que tudo é apenas um sonho. Você desaparece sorrindo e eu volto a escrever no meu
canto quietinho enquanto te ignoro de longe. Enquanto te olho de longe. Enquanto te
amo de longe.
Intuição

O céu vermelho de Caxias pulsava novamente como uma buceta que acabara de gozar.
O som proibido tocava sem parar, sem cessar. Incomodava todos como um bom som
deve ser. Eu com meu fone de ouvido tocando sigur rós passei em frente ao paredão
de som para falar com o avião. O avião trabalhador que só trabalha ali porque outro
trampo não encontrou. E um pouco antes dos meus olhos encontrarem aquela raba
que subia e descia, eu tive uma epifania. Sim! Alí era onde eu devia estar. Sim! Eu era o
meio do mundo e o centro do universo e tudo em mim explodiu como aquele
tamborzão na minha cabeça. Minha raiva, minha tristeza, meu ódio e meu amor se
misturaram como uma salada de fruta ae ó! A noite eu segurei o sol com as mãos e
para você meu amor, eu compus essa canção. Apenas para você. Mesmo sem te
conhecer. Mesmo quando você vier e me dizer que finalmente vamos ficar juntos em
algum lugar desse universo torto e estranho, esse som vai tocar e vamos gozar juntos.
E vamos pulsar juntos. E vamos rir e chorar juntos. Você está sempre comigo mas eu só
te sinto quando meus dedos lhe tocam no amago do meu ser. Você pede um acorde e
eu lhe dou minha alma em troca de saber quem eu sou. Tudo faz sentido agora. Eu
vejo em todos os lugares, nas praças, nas ruas, no céu, nas casas em frente as linhas de
trem ou de dentro do busão. Nossa vida é uma pichação escrita errada nos muros do
meu coração. No país do sol eu sou o som do calor. Tudo tudo tudo que nos move
nessa vida é o ódio ou o amor. Vermelho é quente. Vermelho é dor. Vermelho é luta.
Vermelho é amor. O céu vermelho pulsa novamente agora na minha cara com as
pernas abertas e eu vejo as estrelas que tentam desesperadamente brilhar por entre
as nuvem de gás que saem desse egoísmo ou por entre as nuvem de fumaça da pistola
e violência. Não deixe eu me perder em mim mesmo agora que achei o caminho a
seguir. Eu sei que minha grande obra é encontrar contigo em algum momento e mudar
tudo. Não deixar pedra sobre pedra por onde passarmos. Sim! as ruas de Caxias só tem
o funk e o caos. Sim! As ruas de Caxias ainda tem lama e eu não tenho mais minha
bike. Nem minha casa, nem meu gato e nem nada. Mas agora tenho a mim mesmo.
Tenho todo o sentimento e vontade do mundo nas pontas dos meus dedos que está
dentro de ti esse momento. A terra goza pra mim depois de descer até o chão e
estremecer ao som do tamborzão bolado no baile do vai quem quer.
Cama da mãe

O celular desperta mais uma vez. Seis e meia da manhã. Sempre coloco na função
soneca para tentar dormir mais uns minutinhos. Na segunda vez que o celular desperta
com aquela música de alegria eu dou um pulo da cama e vou direto para o banheiro
escovar os dentes e trocar de roupa enquanto a água do café ferve. Depois gasto
quinze minutos para chegar ao trabalho de bicicleta. Ando igual louco por entre os
carros com o fone ouvindo grudado nos tímpanos tocando My Blood Valentine no talo.
Chego desnorteado na empresa e só penso em bater o cartão. Sempre chego atrasado
mas não me importo com a cara feia do encarregado. Sou terceirizado e não devo
nada para essa merda de empresa. Sei que provavelmente serei mandado embora
depois da experiência mesmo. Mas dessa vez o encarregado me deu um esporro na
frente de todo mundo e disse que se eu me atrasasse outra vez, era para ir direto para
o RH da terceirizada. Como um bom gado que precisa de trabalho, apenas acenei com
a cabeça e disse que não aconteceria novamente.

Quando cheguei em casa a noite minha mãe estava limpando meu quarto. — Meu
filho, que bagunça é essa? Você tá ficando relaxado. Tu não era assim. — Embora não
fosse, minha mãe sempre me tratou como filho único. Ainda mais quando saí de casa
para morar sozinho. Ela todo dia vinha aqui ver se eu tinha almoçado, se eu já tinha
lavado minhas roupas e etc, essas coisas que mãe faz. Depois de tanto tempo
desempregado minha mãe não queria que eu perdesse aquele trampo. — Tá foda,
mãe. Todo dia tem que fazer hora extra. (Hora extra essa que vai para o banco de
horas). Hoje quase que fui para o RH porque me atrasei de novo. Esse celular sempre
me deixa na mão (Miiintiiira! Eu que sempre quero dormir mais um pouco e não
escuto o celular despertar). — Respondi de dentro banheiro enquanto tirava a roupa e
jogava no chão. — Por isso eu não confio nessas tecnologia nova. Não dispenso meu
rádio relógio. Todo dia ele desperta seis horas da manhã tocando na primeira oração
do Davi Miranda. — Minha mãe respondeu enquanto entrava no banheiro pra catar
minhas roupas sujas. — Ouh mãe! To cagando! — Eu respondi sentado na privada
segurando o celular. — Deixa de besteira menino! Quantas vezes já limpei esse teu cu
preto?
— Amanhã eu vou trazer um relógio de corda que era da tua vó. Ele nunca falha. Só
precisa levar no relojoeiro pra acertar ele. — Respondi minha mãe apenas com um
“ahã” enquanto via um vídeo de gatinho na tela do celular. — Tô indo meu filho, deixei
a janta no micro-ondas, tá? — Respondi com outro “ahã” — Fui. Beijo. — Ela disse indo
embora. Só ouvi a porta da kit-net batendo.

No outro dia de manhã acordei com cheiro de café antes do celular despertar. Minha
mãe estava lá na pequena cozinha olhando a água preta com pó de café subir com a
fervura. Antes de derramar o líquido ela desligou o fogo e passou o café pelo coador
de pano. Levantei mal humorado como sempre e nem olhei pra ela. Fui direto para o
banheiro. Voltei, tomei café enquanto ela arrumava a hora do relógio vermelho de
corda que era da minha vó. Era bem antigão. Chega tinha aqueles dois sininhos em
cima. — Pronto, agora você não vai perder mais a hora com esse aqui. — Ela disse
colocando o relógio em cima do criado-mudo ao lado da minha cama. Fui para o
trabalho no galpão logístico. Era a primeira vez que eu chegava antes do sinal de bater
o cartão apitar. Era dureza puxar aqueles paletes com mais de uma tonelada pra cima
e para baixo dos corredores com aquela empilhadeira manual que não recebia uma
gota de lubrificante a décadas. Meu corpo doía mas de certa forma eu estava feliz. A
quanto tempo eu não sabia o que era ter emprego? A quanto tempo eu não sabia o
que era ter dignidade? A noite voltei pra casa e minha mãe estava lá no meu barraco
de novo. — Cade suas roupas sujas, meu filho? — Disse ela logo quando eu cheguei. —
 Mãe, deixa minhas roupas aí. Eu sei me virar! — Eu disse um pouco ríspido. Ela saiu
meio cabisbaixa com a roupa na mão. Eu fiquei meio estranho mas estava tão cansado
que nem percebi que eu tinha a magoado.

No outro dia acordei com um barulho ensurdecedor de metal batendo como se fosse
uma bateria de black metal extremo tocando num show de horrores do inferno. —
 Caralho, como desliga essa merda? — Fiquei uns cinco minutos tentando desligar
aquela peste barulhenta. Minha cabeça chega começou a doer com aquele maldito
TRIIIIIIIMMMM!! Novamente minha mãe estava na cozinha passando o café. Passei por
ela muito puto porque ela colocou o bicho para despertar mais cedo do que eu
colocaria. Estava tão raivoso que nem tomei café e nem respondi ao bom dia que ela
me deu. Peguei minha Poti azul e sai com o fone de ouvido dentro do meu cérebro em
direção ao galpão.

Chegando lá, mais um dia de empurra e puxa carrinho quebrado pra cima e pra baixo.
Aquelas rodas de silicone estavam só o pó da rabiola. As vezes emperravam quando
tinha muito peso em cima da palheteira. Então eu tinha todo um trabalho de buscar
outro palhete, colocar metade dos produtos nele, levar o palhete com metade dos
produtos para carregar no caminhão, depois voltar e buscar o outro palhete com a
outra metade dos produtos. Conclusão: eu não conseguia fazer metade da meta de
produção que era imposta para nós fazer durante o dia. No fim do expediente, o
encarregado veio me chamar atenção do porque meus caminhões estavam
demorando a ser carregados. Eu disse que era por causa da palheteira que estava ruim
mas ele nem quis saber e disse que não era problema dele pois os equipamentos
também eram da terceirizada. Saí puto demais batendo pé sobre pé com a aquela bota
de bico de aço que apertava meus dedos. Chegando em casa novamente minha mãe
estava lá caçando alguma coisa que eu não sei. Dessa vez fui muito grosseiro com
ela. — Ouh mãe, dá licença! To cansado porra! Dá um tempo! Você não tem mais o que
fazer não? — Eu vi os olhos dela encherem de lágrimas. O arrependimento bateu na
mesma hora mas já era tarde. Ela largou a roupa no chão, montou na bicicleta dela e
saiu fora.

Só consegui dormi um pouco antes de amanhecer. Fiquei metade da noite vendo


vídeos no ̶x̶v̶i̶d̶eo
̶ ̶s̶ youtube e a outra metade da noite pensando sobre minha promessa
de nunca pedir desculpas pra ninguém. Desculpas não muda o fato ocorrido. Sempre
achei um desperdício chorar e pedir desculpas. Nem lembro a última vez que chorei.
Então quando peguei no sono, sonhei que estava na beira de uma piscina tomando
uma cerveja e com vontade de mijar mas não queria sair porque eu estava olhando a
gordinha do RH de fio dental no outro lado da piscina pegando sol naquela bunda
maravilhosa. Resolvi atravessar a piscina para ir falar com ela mas quando eu estava no
meio da água ouvi um raio batendo na água fazendo um barulho ensurdecedor:
TRIIIIIIIIIIIMMMMM!!! Ah não! Era aquele maldito relógio de novo. Peguei aquela
porcaria e taquei com todo o ódio do mundo na parede. PLAAAAU! Virou mil. Minha
mãe que estava novamente na cozinha fazendo café entrou no quartinho com as
lágrimas rolando pelo rosto e pegou o que sobrou do relógio da mãe dela. Agora acho
que fui longe demais. Ela foi embora deixando a água com café fervendo no fogão que
logo derramou e apagou o fogo.

Já tinha uma semana que ela não voltava lá em casa. Mas eu não ia dar o braço a
torcer e pedir desculpas. “Tu é homem ou é um rato?” meu pai diria. Homem não pede
desculpas. Fez tá feito. É o que ele diria também. Aquele dia cheguei atrasado no
galpão logístico novamente. Eu me aproximava da roda de reunião quando o
encarregado olhou para mim e disse na frente de todos — Você tá achando que aqui é
casa mãe Joana pra chegar a hora que tu quer? Hein meu patrãozinho? Pode ir se
virando lá com a terceirizada que eu não quero gente preguiçosa aqui na minha equipe
não. — Os caras todos riram e eu saí puto e de cabeça baixa. A gordinha do RH já me
esperava com a rescisão de contrato na mão. Jesus, eu nunca vou esquecer daquele
bundão.

Saí da empresa devastado. Montei na bicicleta fui pedalando por entre os carros,
ônibus, caminhão. Minha cabeça doía. Acho que a dor era mais pela humilhação. Não
consegui pensar em lugar nenhum para ir. Minhas pernas me levaram onde sempre
vamos quando estamos mal. Fui pra casa da mãe do mesmo modo que quando era
criança e ficava doente ia direto para a cama dela. Cheguei lá e a mãe estava no sofá
fazendo crochê. Ela me olhou e pareceu que já sabia de tudo. Eu me agachei e chorei
no seu colo. Chorei. Chorei, chorei, chorei alto e largado que nem criança. Que alívio!
Quanto tempo eu não chorava? — Mãe, a senhora me desculpa por ter quebrado o
relógio da vó? — Eu disse com o nariz todo catarrento escorrendo. — Claro meu filho.
— Ela disse com uma voz doce. — E eu também fui mandado embora, mãe. Que que
eu vou fazer agora? Não consigo parar em emprego nenhum. — Eu disse explodindo
em lágrimas novamente. — Calma, meu filho. Deus vai dar um jeito. Deus vai dar um
jeito.
eu sou + gado

O que é estar consciente? Na maioria do tempo sinto como se eu não tivesse controle
sobre mim mesmo. Sobre minhas atitudes, sobre minhas palavras, sentimentos,
emoções, desejos, enfim… Eu não sei o que eu tô fazendo e aparentemente muita
gente também não sabe. As vezes também me pergunto se vim com algum problema
de fábrica. Sinto a dispersão de pensamento quase o tempo inteiro. Deficit de
atenção? Será meus genes? Será nossa criação que não nos ensina a pensar
criticamente a vida toda? E então quando resolvemos que vamos colocar a cachola pra
funcionar achamos que ela não funciona direito. Todos são lindos, todos eles são
príncipes na vida. Será só eu que sou retardado e vil nessa vida? Todos conseguem
ficar calados nas suas e só eu que tenho essa necessidade de calor e sentir o sorvete
derreter na minha boca olhando seus olhos cor de jabuticaba. Será que todos são
fingidores? E eu, o único babaca corno estúpido que corre atrás e pede desculpas ao
mínimo sinal de vacilo? Eu tento acreditar que sou corajoso mas a verdade é que eu
me sinto um merda meu irmão! Eu não sei onde isso tudo vai parar, eu só sei que eu
não consigo parar. Parar de ser eu. E a cada dia que passa, a cada rolo compressor que
passa por cima de mim, eu me levanto e sou cada dia mais eu. Mesmo sendo como
uma folha de papel levada ao vento eu sou mais eu. Mesmo quando o caos extrapola
minha mente e se torna as palavras que você lê nessa tela, eu sou mais eu. Mesmo não
sabendo tocar eu improviso um jazz a cada momento, e sou mais eu. Bom, até que não
sou tão besta assim. Num lugar onde se acredita em terra plana e mamadeira de
piroca até dá pra sentir orgulho da minha cognição. Acho até que estou reclamando
demais, pois é impossível olhar para o osso presidente e não se achar o mínimo
inteligente.
remember summer days

— Se você me ama vem e se joga comigo nesse mar. — Ela disse enquanto eu ainda
tentava raciocinar aquele pedido. — É brincadeira. — Depois disse com a cara mais
cínica do mundo. — Você tem olhos de Capitu — eu sempre dizia. Mas não verdes
iguais ao da atriz da série. Eram uns olhos escuros. Que te puxavam para dentro deles
como as ondas gravitacionais entre a lua e a terra. Por isso quando estou perto dela
sou como um pedaço de planeta morto orbitando em volta das suas palavras. Estou
disperso até hora que minha boca caí sobre a dela como um meteoro se espatifando
no mar e provocando uma tsunami de emoções. Sua mão está fria. A brisa gelada
deixou suas buchechas roxas. Ela coloca seus dedos roxos dentro dos bolsos da minha
calça jeans. O que eu estou fazendo de calças jeans na praia? Não importa. Seus
cabelos escorridos e pintados de vermelho tem a cor do fim de tarde. Eu vejo o sol
pelos seus olhos que brilham como neon enquanto ao fundo toca um sax alto cheio de
delay e reverb. — Você jura que me ama? — Ela pergunta de súbito novamente. Eu
como sempre não consigo responder. Só gesticulo minhas mãos e minha boca mas
nada saí. Nenhum som. Silencio. E nesse silencio ela me puxa pela areia rindo com
olhos. Eu vejo o sol que não para de tremer no horizonte. Algo de errado não está
certo. Esse sol está muito perto. Quadrado. Pixelado. Ela vai andando enquanto se
distancia de mim como uma lembrança que se perdeu no meu hd. Lembrança que a
inteligência do cara de livro resolveu que era melhor eu reviver. Para sempre algo que
nunca existiu.
Certeza de nada

Na maioria do tempo eu me acho um completo idiota mas às vezes eu tenho certeza.


Eu mergulhei nos seus olhos antes de te beijar a primeira vez. Eles eram pretos como o
mar a noite. E quando você sugou minha língua, primeiro foi tímida, depois explorou
toda as partes da minha boca. Eu senti sua língua tentando tocar o ferro frio do meu
aparelho. Achei engraçado mais não ri. Você parecia sem ar. E eu não sei se era de
nervoso ou se eu beijava bem. Eu estava anestesiado. Era como tomar coca cola gelada
num dia de verão. Foi como a primeira vez que eu tomei açaí. Senti todos os meus
neurônios brilhando como estrelas numa noite de verão. Segurei seus cachos pretos
enquanto você arqueava as costas e se levantava nas pontas dos pés para alcançar
minha boca outra vez. Dessa vez abri os olhos primeiro que você. Seu rosto estava
vermelho e lindo como a bandeira comunista. Eu só conseguia pensar: além de linda
ela é esquerdista. Um sorriso tão branco e com uma voz que saía timidamente como
se fizesse força para sair da zona de conforto. Me senti extremamente honrado por ela
ter saído da sua zona de conforto comigo. É muito engraçado quando você percebe
que mexeu com alguém de verdade. Sinto o medo da responsabilidade ao mesmo
tempo deixo de me sentir de todo só no mundo. De noite ao sair da sorveteria
andamos de mãos dadas pela avenida. Eu segurava sua mão que tinha as unhas
pintadas de vermelho como se fosse a bendita bandeira comunista. Enquanto no meu
coração tocava o hino dos apaixonadistas. Dos gadistas d+. Dos banhistas.
Maquinistas. Surrealistas. Dos mentirosos. Dos que imaginam e nada fazem. O hino
das possibilidades que um dia poderiam acontecer. Eu sou um completo idiota, eu sei.
E cada vez que você chegar perto de mim e dizer meu nome com sua voz levemente
falhada eu vou ter certeza. Certeza de nada.
Luiza

Os carros passavam a toda a velocidade pela Avenida Brasil, enquanto Luiza olhava
fixamente a tela do celular amparada por um ponto de ônibus. Rolava a timeline do
Instagram com seus dedos gordinhos. Unhas por fazer. Não gostava ou não tinha
paciência ou não tinha dinheiro para fazer as unhas toda a semana como a maioria das
colegas de trabalho faziam. No celular curtia modelos magras de cropped e ray-ban.
Calças jeans, botas e filtros do Instagram. Luiza era gordinha e baixinha, tinha peito e
um belo bundão. Cabelo cacheado sempre solto para tapar o rosto. Usava roupas
maiores do que precisava para esconder o que ela dizia ser imperfeição. Entrou no
ônibus sem desgrudar os olhos da tela. Passou o rio card na máquina sem olhar o valor
cobrado. Passou a bolsa por cima da catraca e depois a bunda bela e grande que vestia
sempre calça jeans até para ir à praia. Sempre quis usar biquíni mas sentia vergonha
do seu corpo. Sentou no banco e continuou a olhar a tela do celular. Se perdia
naqueles perfis, alternando entre os de moda e os de comida. Tomava remédios para
emagrecer e antidepressivos para conter os efeitos colaterais. Se perdeu no tempo
olhando aquela tela cheia de coisas que ela queria ser mas não era. De repente tudo
escureceu. O veículo entrara em um túnel. — Mas calma aí — disse para si mesma —
Meu ônibus não pega túnel — Finalmente acordou pra vida e viu que estava no
caminho errado. Foi até a catraca perguntar para o motorista para onde o ônibus iria.
— Esse ônibus vai para onde deve ir. Para o ponto final. — Respondeu o motorista
sorrindo levemente no escuro. — Aí meu deus, peguei o ônibus errado — Luiza disse
sentando novamente no banco enquanto o ônibus saía para a luz do dia. Saíram na
orla, mas agora só tinha o ônibus na pista. Não tinha um carro se quer na avenida. As
praias estavam desertas. Nenhum sinal de vida. Luiza foi novamente ao motorista
perguntar o que estava acontecendo mas o motorista apenas sorriu dirigindo
suavemente. Andaram um bom tempo pela pista que contornava a praia. Em pé
segurando o ferro do ônibus dizia para si mesma que não deveria ter tomado rivotril
assim tão cedo. O busão passou por cima da calçada e entrou na areia da praia indo
em direção ao mar. Parou antes de chegar na água. — Aqui é o seu ponto — Disse o
motorista abrindo a porta de saída. Ela desceu na praia deserta. Lá ao longe viu um
pontinho vermelho sentado em uma cadeira alta. Correu em direção ao salva vidas
deixando sua bolsa na areia. Ao chegar no homem, viu que ele olhava fixamente para o
horizonte. — Moço, o que tá acontecendo? Cadê todo mundo? — Perguntou Luiza
mas salva vidas apenas levantou e foi em direção ao mar. Lá na água uma baleia azul
surgia soltando ar quente pelo furo em sua cabeça. A enorme baleia atracou na areia e
abriu sua grande boca. O salva vidas entrou caminhando calmamente goela abaixo do
ser marinho que fechou a boca e soltou um novo esguicho de ar pelo buraco em sua
cabeça. Depois de algum tempo a baleia abriu novamente a boca enorme e dela saiu o
salva vidas segurando algo em sua mão. Aproximou-se de Luiza e lhe deu um grande
abraço apertado. Olhou em seus olhos, pegou suas mãos e colocou nelas uma concha
que se abriu e revelou uma pérola linda e brilhante. O salva vida foi em direção ao
rosto dela e falou algo em seu ouvido. Depois deu um beijo leve em sua boca e sentou
novamente na cadeira alta olhando fixamente para o mar. Luiza saiu desconcertada
em direção ao ônibus. Sentou novamente na cadeira e o busão arrancou espalhando
areia pelo ar. Novamente no túnel, o ônibus saiu de novo para o dia mas agora tudo
estava normal. Carros engarrafados na pista comum, os ônibus engarrafados na pista
dos ônibus. O som das pessoas falando. O funk tocando nos celulares. O sol a quarenta
graus. Água, coca, guaravita, era o som do mundo real. Luiza puxou a cordinha e
desceu no ponto mais próximo. Ligou para o chefe e disse que não iria naquele dia pois
tinha passado mal. Depois entrou numa loja de roupas e comprou seu primeiro biquíni
fio dental.
A rosa esmagada

Noite de calor. E o cigarro tinha acabado. O único lugar era o posto de gasolina 24
horas. Calçou a havaianas, colocou uma camisa preta mais ou menos. O fone de ouvido
tocava Tatsuro Yamashita — 夜翔 (Night-Fly). As luzes dos postes sempre tão acessas e
brilhantes. Apesar do horário avançado algumas pessoas ainda estavam sentadas nas
cadeiras de área olhando os transeuntes por entre as grades do portão. Costume
normal de cidade do interior. Ter uma cadeira de área era como ter um cpf.

Passou em frente a sorveteria que estava relativamente cheia. Viu os casais e as


famílias tomando sorvete e sentiu uma pequena inveja. No fundo preferia diabetes ao
câncer de pulmão. Mas a solidão bateu forte de verdade quando viu alguém dividindo
o sorvete com um cão que abanava o rabo freneticamente enquanto recebia afagos na
cabeça. Pensou que quando as coisas melhorassem iria adotar um. Talvez os policiais
não o encarassem tanto se estivesse levando um cachorro para passear.

Atravessou a faixa de pedestres. Um garoto de pés descalços fazia malabares


pirotécnicos para os poucos carros parados no sinal vermelho. “Tá um merda até aqui
no interior” pensou enquanto entrava na loja de conveniência. Saindo da loja acendeu
um cigarro e foi caminhando pela calçada quando se assustou com uma senhorinha
encostada na porta fechada de uma loja de autopeças.

Magra de pele judiada pelo sol e pela vida ela lhe oferecia paçoca caseira. Comprou
três. Pensou novamente na merda que se encontrava o país para uma velha daquela
estar até aquela hora de um sábado vendendo paçoca na rua. Ao atravessar
novamente a faixa de pedestres, uma 4X4 enorme de cor azul céu atravessou o sinal
vermelho e quase o atropelou. Como de praxe soltou em alto e bom som um “FILHO
DA PUTA!” e ao olhar par ao chão viu que o carro tinha atropelado uma rosa que tinha
nascido ali no canteiro que dividia as duas pistas da avenida. A bichinha ficou meio
esmagada mas ainda estava com talo intacto. “A natureza é implacável, faz nascer até
flor no asfalto”. Pensou na mesma hora que o cachorro da sorveteria veio e deu um
mijão na planta já tão sofrida. Ele deu um chute no cachorro que o chinelo até saiu do
pé. O cão saiu em disparada para perto do dono que ficou o encarando fixamente de
longe. Lembrou que o dono cachorro morava algumas ruas a cima da sua, mas não se
importou. Colocou o chinelo no pé outra vez e o cigarro no canto da boca, depois
quebrou o talo da rosa que saía do chão e a levou para plantar em casa.

Pesquisou no google como fazia para plantar uma rosa. A melhor opção que achou foi
enfiar o talo da rosa em uma batata. Depois de fazer isso enterrou a batata na parte de
trás da casa aonde tinha um cantinho sem cimentar com um pouquinho de terra.
Todos os dias ele regava a rosa que ficava cada vez mais vermelha e bonita. Depois
sentava no tijolinho ao seu lado e treinava seu francês pelo aplicativo do celular. As
vezes enquanto retirava as pétalas murchas cantava La Vie En Rose e a planta chegava
a se mexer com o gás carbônico que saía de sua boca. As vezes apenas desabafava sua
vida para a planta que parecia o compreender. Quando voltava a si pensava: “tô
ficando é velho e louco.”

Um dia de manhã foi regar a planta e retirar as pétalas velhas e não se sabe como,
furou o dedo com um dos espinhos. O sangue formou uma gota em seu dedo. Levou a
mão na boca e sentiu o gosto de ferrugem na língua junto com um mau presságio.
Terminou de regar a planta, mas ela parecia murcha como nenhum outro dia. Tentou
cantar no seu francês tosco, mas a bichinha nem dava sinal de vida. Ao acabar o ritual
ouviu alguém bater no portão. Ao abrir se assustou ao ver os carros da nova DOPS
lotando a rua.

— Você é fulano de tal? — Perguntou o militar.

— Sim sou eu. — Respondeu o estudante.

— Viemos averiguar uma denúncia. — Disse enquanto os soldados entravam na casa.

— Mas como assim? — Perguntou o jovem estudante.

— Se não tem o que esconder não precisa ter medo. — Respondeu o militar. E lá de


dentro da casa um soldado já vinha com um exemplar do manifesto comunista na
mão. — Aqui capitão, achei no meio dos livros do meliante.

 — Você está preso por conspiração comunista.


— É o que? — foi apenas o que conseguiu respondeu enquanto era algemado.

— Boa, soldado! — respondeu o capitão — Agora vamo levar esse nazistinha de merda
para contar tudo que ele sabe da conspiração e quem está com ele. Enquanto era
colocado na caçamba do camburão como um animal, viu o dono cachorro o olhando
fixamente com o celular na mão enquanto conversava com o capitão.

Deram uma geral no recinto todo. O quarto estava todo revirado. Todos os livros e
roupas no chão. O colchão revirado como se um furação tivesse passado por ali. O
quintal de pernas para o ar. E no cantinho que ainda restava terra, o coturno do
soldado deixou uma grande pegada e por cima dela estava a rosa esmagada.
Egito

eu nao sei mentir. me disseram uma vez que eu tenho a alma transparente como a luz
que emana dos seus olhos. estou cansado de me desculpar estou cansado dessa prisão
que é sentir e desejar. e cada gota de lagrima que cair do seu rosto será um pedaço de
mim que morre.; seu silencio me matará eternamente. eu nao sei sentir pouco. só sei
me entregar completamente como se tudo fosse acabar amanhã e que bom seria se
acabasse mesmo. mas nao vai e eu vou viver com essa culpa de fazer voce sofrer ate o
resto da eternidade quando uparem minhas memorias numa nuvem e as inteligencias
artificiais tentarem entender minha dor nos nossos historicos de conversa. eu nao sei
fazer nada que presta então só me resta escrever para não acabar com tudo de uma
vez. só me resta imaginar como seria respirar o ar com teu perfume e como seria beijar
sua bunda gigante. eu sou dramático sim. como uma novela mexicana, como um louco
apaixonado no pagode de fim de semana. voce me disse que eu nao fiz nada de errado
mas eu sei que fiz sim e como um eleitor do bolsonaro eu nao consigo enxergar a
verdade na minha frente, nem o amanhã nem o ontem pois tudo dói agora. tudo é
agora. isso é viver? grandes merdas. eu espero rir com voce disso algum dia no uruguai
ou no egito subindo as piramides juntinhos se encontrando com todos que eu já
magoei um dia sem precisar pedir desculpas. eu vou trocar os papéis e perguntar para
a esfinge o porque. porque de ser tudo tão intenso?porque precisar sentir tudo? voces
me deram o fruto proibido mas ele estava estragado seus filhos da puta! cheio de
agrotoxico como minha masculinidade que vai por agua a baixo toda vez que eu me
olho no espelho e vejo que seus olhos agora são meus.
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lúcifer

nao nasci para ser escravo no céu. E por mais que eu seja apenas um grão de areia no
deserto, sou real e intenso como um meteoro cortando o grande véu para olhar o que
está além de nós dois. caí aqui sem querer querendo pois eu precisava saber o que se
passa além da cortina espelhada que eu vejo quando estou mergulhado nos seus
olhos. e quando estou mergulhado no meio das suas pernas eu só penso em me afogar
nesse lindo lago do amor. sim, é piegas e eu nao sei separar um lance de um pente,
mas pelo menos nesse momento eu quero sentir tudo que voce sente.

existe um pedaço de sol dentro de mim e voce pode toca-lo enquanto ouve minhas
palavras na sua cabeça nesse exato momento. existe um demonio dentro de mim que
quer te arregaçar, quer te colocar de cabeça para baixo, de quatro, de lado e te jogar
no céu mais alto, onde voce possa ver que existe todas as estrelas dentro de voce.
prazer, eu sou lucifer e voce é o inferno que eu quero reinar. juro nao faltar carinho,
comida e assunto ao longo do dia amor. mas nao me deixe preso nessa vida porque eu
preciso abrir caminho para um novo universo de palavras sons e imagens que peguei
enquanto minha mente estava mergulhada num silencio sem fim. enquanto eu só
pensava em te fazer gozar. enquanto eu prendia a fumaça do cigarro nos meus frageis
pulmoes. enquanto eu me afogava numa lata de coca cola e minha lingua sentia o
gosto da gordura trans e do açucar de uma barra de chocolate. enquanto minha alma
dançava ao som do vapor com cheiro de café passado no cuador de pano.

existe um lucifer dentro de todos nós querendo a liberdade de ver o real. sem as
sombras que nos fazem comprar gelo enquanto estamos no meio de um inferno
glacial. essa luz dentro de nós quer a liberdade de chorar, de rir e de sofrer. de amar,
de odiar e de ter total prazer.
Aliamá

Um trio de powerfunk tocava na Praça do Pacificador quando irrompeu de uma fenda


no céu uma nave dourada. Estacionou no meio da praça entre a biblioteca e o teatro.
O centro todo parou para olhar aquele acontecimento. A porta da nave rolou para
baixo como um tapete vermelho. De dentro da nave saía uma luz brinlhante como o
sol e junto dela Aliamá apareceu empunhando seu sax alto. O baixista, o guitarrista e o
baterista que compunham o trio de powerfunk estavam tão atônitos quanto todos.

Quase que deslizando sobre o tapete vermelho, Aliamá chegou até o meio dos três.
Levou seu sax a boca e começou a tocar uma melodia frenética, áspera, cheia e
brilhante. A ultima nota era sempre como um uivo de lobo chamando a matilha. Os
instrumentos por si só já se assanhavam. Os músicos eram meros instrumentos do
espirito da musica. Aliamá tocou a mesma melodia giratória até todos entraram no
compasso. Quando todos já estavam hipnotizados pelo som, parou abruptamente
meio que para acordar todos do sonho.

Sem tirar o sax da boca, apontou para o céu e disse alguma coisa só com o som do
saxofone. Os instrumentos do powertrio sentiram e vibraram em resposta. Recomeçou
a melodia agora chamando para um ritmo mais suingado e lento. Queria companhia.
Companhia para viajar pelo espaço. Companhia para espiar as ninfas em pelas
cocheiras de vênus. Andar de carrinho de rolimã pelos anéis de Saturno. Andar por
planos desconhecidos onde tudo é musica. Andar por lugares onde as pessoas viam a
musica como um quadro de Van Gogh. Lugares onde seres se reúnem em Grand
Canyons para ver outros artistas se apresentarem. A música moldava as cores do céu.

Ninguém sabia quanto tempo se passava entre um solo e outro. O instrumento era a
própria alma do musico. A musica era como a língua que acabara de aprender a falar.
Viva. Quente. Todos entendiam. Ao continuar a viagem intersinestésica com Aliamá. O
powertrio sentiu sua energia no máximo quando chegaram perto do sol. Seus raios
eram como vitamina para eles. Adentraram no corpo celeste e se fundiram com o som
do espaço. Aliamá via a cena de longe usando um rayban e solando loucamente seu
sax alto.
Aos poucos todos foram voltando da viagem. A céu ia se avermelhando aos poucos,
pulsando como uma mulher que acabara de gozar. O powertrio ainda estavam em
choque mas tudo parecia normal. Os carros no transito, as pessoas andando sem
atenção presas nas suas galaxias artificiais. O que teria acontecido? Não sabiam mas
aquilo foi intenso. Arrumaram seus instrumentos e foram para o bar beber. No céu
Aliamá levantava seu rayban para ver melhor os novos médiuns.
with no one else around

voce tambem se sente assim? me sinto em uma ilha aonde o mar é feito de gente.
tenho a impressão que sou a ultima pessoa no mundo. a ultima pessoa acordada. o
ultimo romantico, gado dimais, besta demais, intenso demais. sou tudo isso e nao sou
nada. sou apenas um avatar aleatorio que nao traz nada de bom para ninguem. e que
se perdeu nas palavras que queria dizer porque ficou pensando na lua. nada melhor do
que quando a vida derruba uma idéia fixa. ela nao me deu bola por isso me afogo
numa lata de coca cola. agora acendo um cigarro, olho para o ceu e tá lá a cara dela.
com a escuridao dos seus cabelos cobrindo todo o ceu. sim, eu me perdi novamente
mas já encontrei outro eu que estava escondido dentro de mim. troquei de avatar e
nem eu me conheço mais. estou tão só nessa multidão de ip’s on line que as vezes me
esqueço como é conversar com pessoas reais. flertar entao nem se fala. para mim
essas coisas da vida são um campo minado. erro e acerto, erro e acerto ate decorar da
onde vem o choque. mas eu nao queria escrever com o pau, eu queria falar apenas
dessa solidão digital. onde no cio da madrugada eu nao tenho nem a mim mesmo pois
já me perdi fumando um cigarro no quintal. voce tambem se sente assim? como se
tudo fosse dentro de ti fosse explodir mas voce esta apenas apatico em frente ao
monitor, ouvindo um som aleatório no player pensando no que é o amor. pensando se
isso existe de verdade ou se é apenas algo que te venderam num anuncio de filme da
sessão da tarde. eu sei lá. nada mais faz sentido enquanto eu estiver aqui escrevendo.
la fora o mundo esta girando, os gato tão transando e nós tamo aqui fazendo varios
nada pensando em como seria bom fazer varios tudo com a pessoa que nós bota fé.
abstração

Seu olhar foi como um trêm que desviou do meu coração no exato momento em que
me joguei no abismo dos seus olhos. Mas não tem problema não. Um jarro só se
quebra uma vez depois de cair no chão. E a vida é isso aí my liro friend. Umas pessoas
saem, outras entram. Tem hora que é bom sair da contra mão e deixar tudo fluir
naturalmente como uma rima facil então. Olhei para os dois lados antes de atravessar
a rua. Não vinha vindo carro algum. Só voce empurrando sua bicicleta morro acima
enquanto eu te olhava ao longe. tão longe voce estava que sumiu na esquina do
amanhã. E todas essas palavras bonitas que eu escrevo não querem dizer nada nada
nada. Um grande emaranhado de byts e mais bytes de pura abstração. É como o cocô
preso na roda da sua bike. Essa merda toda sempre volta para me testar. Mas não
tenho mais idade para me dar esse luxo e jogar a dor para debaixo do tapete. O que
quebra nessa casa vai direto para o lixo. Eu preciso de espaço para viver o novo. Me
jogar num mar emoções sem medo nem receio sem pensar na morte e na vida que
dizem ser em vão. Em vão é só aquilo que não vivemos. De resto é só o tédio batendo
na nossa porta numa tarde de verão.
MEUPAU

A barriga roncava de fome. Na geladeira só tinha uma garrafa pet cheia d’água. A
pequena kitnet estava imunda. Havia latinhas de cerveja espalhadas pelo chão e uma
pequena montanha de guimbas de cigarros no cinzeiro. A pia cheia de louça suja,
deixava o ar com cheirinho de lixo estragado. Desde de que a namorada que vivia com
ele na kitnet viajou para cuidar da mãe doente ele não tinha uma refeição decente.
Não sabia cozinhar. Estava vivendo de miojo e dos lanches mais podres e baratos que
se podia encontrar de madrugada. Mas aquele dia estava duraço. Sem um puto no
bolso.

A teve de LED iluminava o quartinho sujo. Passava Hanibal no corujão. Estava com
tanta fome que até a carne humana que personagem comia lhe pareceu cair bem.
Começou a salivar de verdade com as cenas. Tentou afastar aquela ideia horrenda,
mas quanto mais olhava mais a barriga roncava. Trocou de canal. Parou no cine band
prive. Passava Emanuelle e os extraterrestres. Deixou aquele soft porn de baixa
qualidade rolar enquanto a barriga roncava cada vez mais e mais alto. A ideia de comer
carne humana não saia da sua cabeça. Olhou para a própria mão que segurava o
controle. “Não, deus! por favor, não!” Pensou enquanto tentava afastar aquela ideia
insana da cabeça. Mas a dona fome começou a sussurrar no seu ouvido que se
comesse a esquerda talvez não fizesse tanta falta assim. Enquanto imaginava o sabor
da sua própria mão temperada com sal e agrião seu pau ficava cada vez mais durão.

O vapor da panela cheia de água subia até o teto. A mão direita segurava a colher de
pau mexendo a sopa enquanto o toco que sobrou da esquerda estava enrolado num
pano velho e sujo. Salivava com o cheiro da sua própria carne cozinhando. Escorreu a
água no escorredor de macarrão. A mão tinha ficado um pouco clara, talvez ficado um
pouco cru. Era para ter deixado um pouco mais, mas ele não tava nem aí. Jogou um
pouco de sal por cima e deu a primeira dentada. Tinha um gosto parecido com porco.
Acabou de comer, mas não estava satisfeito. Estava meio sem gosto. Pensou que
talvez por ser a esquerda. A direita com certeza teria um melhor sabor. Mas agora
quem cortaria a mão direita? Saiu na rua para procurar alguém que lhe fizesse aquele
favor.
Entrou no bar do Jorginho e pediu um cigarro a varejo fiado. Tocava Fleetwood Mac —
Dreams enquanto uma ruiva de farmácia do seu lado cheirava sua última carreira de
cocaína no balcão do bar. Vendo a dificuldade dele em acender o cigarro, pegou o
careta e o fosforo e acendeu. Soltou a fumaça na cara dele fazendo bico com seu
batom vermelho. Ela riu enquanto e seus olhos se amendoaram. Vendo aqueles olhos
chapados ele não perdeu tempo e perguntou. “Você sabe cozinhar?”

Na cozinha da kitnet ela amolava a faca na quina da pia. “Então você quer comer sua
própria mão? É isso?” — Ela perguntou e ele respondeu. “Sim é isso.” “E o que eu vou
ganhar?”. “huuumm… leva minha teve. Dá pra trocar por alguma coisa na boca”. Já era
quase quatro da manhã. Ela queria dar outro teco, o bar do Jorginho já tinha michado.
Ela aceitou, mas fez um pedido. “Já que você não se importa de cortar seu corpo. Eu
poderia comer um pedacinho do seu pau?”. “O que? Tá louca? meu pau não!” Ele
respondeu colocando instintivamente a única mão no órgão. “Então do pé?” — Ela
perguntou. “É, do pé acho pode sim. Talvez tenha um gosto legal.”

Ele deitou na cama e ela teve que ajudar a tirar o sapatenis e as calças. Ela colocou a
tabua de cortar carne debaixo do seu pé direito, acariciou com amor e decepou sem
dó nem piedade como se tivesse cortando um pé de galinha. Enquanto ela mexia a
panela com o pé cozinhando dentro. Ele estava lá do lado dela dando pitaco. “Mas
você colocou sal? Não vai deixar ficar cru, tá? Acho que já tá passando do ponto.”
“Nossa, mas tu é chato hein cara.” — Ela respondeu e completou: “Acho que só esse
pé é pouco. Vou ter que cortar o outro também.”

Novamente na cama, ela se preparava para cortar o pé dele com a tabua debaixo do
pé esquerdo. Decepou sem dó. Percebeu que ele estava de pau duro. Foi subindo
devagarinho tirando sua cueca. Seu pau babava. Ela deu beijinho na cabeça e passou a
faca como se fosse um ninja. “HAHA hoje vai ter churrasco KKKKKK” — Ela disse com o
pinto sangrando na mão. “FILHA DA PUTAAAAAAA!! MEU PAU!!!” — Ele gritou, mas
ela continuava rindo. “Calma amor, você gostar. haahaha.”

“Não era esse o combinado” — Ele bravejou. “Fica quieto aí se não corto sua outra
mão também.” “FICA QUIETO PORRA NENHUMA, ME DEVOLVE MEU PAU. EU QUERO
MEU PAU. MEU QUERIDO PAU. ME DÁ MEU PAU” — Ele gritava sem parar. “Nossa,
mas tu é muito chatooo.” “MEU PAU, MEU PAU, MEU PAU, MEU PAU, EU QUERO MEU
PAU DE VOLTA AGORA!” A mina se irritou com aquele lenga lenga. Chegou perto da
cama e como um terrorista do Isis passou faca no pescoço do bicho que mesmo assim
não parava de falar do próprio pau. Enquanto a cabeça na cama não parava de falar ela
tirou a teve de LED da tomada. Na rua, jogou a cabeça que não parava de gritar na
primeira lixeira que encontrou e saiu andando em direção a boca de fumo com a teve
debaixo do braço.
GNOSUS

A ambulância parou em frente a emergência do Adão Pereira Nunes. As pessoas que


esperavam a horas notícias dos seus entes levantaram o olhar apenas um segundinho
do celular para olhar mais um desgraçado chegando naquele açougue. Logo voltaram
para suas redes. O teto corria sobre seu olhar enquanto seu corpo ardia em febre.
Tremia feito vara verde em quarenta graus que para ele parecia neve. Nos corredores
todos esperavam atendimento. Em pé, nas cadeiras de rodas, nas macas improvisadas.
Todos pararam por um momento para ver aquele corpo vermelho vibrar enquanto as
enfermeiras corriam com ele para o banheiro. A água gelada bateu na sua cara quente.
Só faltou sair fumaça, mas mesmo assim a febre não abaixava. Ouviu ao longe a voz da
enfermeira que segurava um dos seus braços falar para outra que segurava seu outro
braço: “Ele vai convulsionar! ele vai convulsionar!” Parecia que todos os seus poros
iriam explodir. Sentia tanto frio, seus lábios estavam roxos. Tremia, tremia, tremia. Sua
alma, seu corpo, seu sangue, dentro dele tudo fervia. A enfermeira soltou um grito de
dor ao sentir a pele dele queimar a seu braço. A outra também o soltou, mas invés de
cair de cara no chão, o filho da puta flutuou. De braços abertos, crucificado pelo
sistema saiu volitando pela porta. Em uma maca no corredor, tocou na pele de uma
mulher morta que voltou a vida como lazaro. Um cadeirante apertou sua mão e
levantou. Passou a mão na cabeça da criança com bronquite que parou de tossir e
respirou. Alguns choravam, outros cantavam, ouvia-se glorias a deus. Entre hinos,
gritos e olhos espantados entrou pela porta da emergência um corpo semi vivo numa
maca, todo baleado. Algemas prendiam as mãos do infeliz enquanto o sangue deixava
um rastro pelo chão. O febril milagreiro desceu de sua volitude pisando no sangue do
irmão que em frente a maca segurou sua mão. Olhou naqueles olhos já quase sem vida
e disse que deus era só perdão. Pois a mão nos buracos de bala que tinham perfurado
aquele pulmão e orou baixinho algo incompreensível para nós. O sangue estancou e
ele saiu flutuando novamente por entre os policiais que tinham trago a maca. Passou
pela porta da emergência e as pessoas que esperavam seus entes com as caras
afundadas nos celulares nem viram ele passar e voar em direção ao sol. Acompanhado
pelos urubus sumiu por entre as nuvens daquele céu azul, onde deus por um instante
deu prova de que nem tudo é vil e triste. Já que ninguém lembra mesmo que aquele
lugar existe.
memória vã

Em frente a um oceano de memórias nós dois lembramos de como era bom nossos
corpos juntos na cama suados do pós sexo. Voce cheirava minha boca com gosto de
buceta e eu te beijava sentindo o gosto do meu esperma. Hoje nao sentimos nada. O
tempo não existe mais. E por mais perto que estamos não nos tocamos, nem sei se
ainda amamos. Será só nostalgia? Procuro nas nuvens nossas fotos na praia e tento
sentir novamente as ondas nas minhas pernas que não existem mais. Eu daria tudo
para te beijar outra vez. Eu daria tudo para dormir outra vez, para sempre talvez. Mas
vivemos aqui num mundo de neon e pixels mal feitos numa eternidade nostalgica e
triste. Eu sinto você atraves daquela música que ouviamos no radio de madrugada
quando sobreviver ainda nos preocupava. Conversavamos de como seria o futuro e
nem imaginavamos que um dia pudessemos nos encontrar novamente. Me diga se
voce pudesse voltar para onde iria? O que comeria? O que sentiria? Já pedi para eles
me desligarem, me deletarem mas eles querem saber de tudo que vivi. Já não basta
terem minhas memórias querem me fazer refletir. Sinta-se abraçada e desejada
enquanto ainda podemos sentir.
Vagão Rosa II*

Dobrei a última toalha manchada daquela casa e fechei a mochila estufada pelas
roupas da semana. Não era preciso me despedir, era preciso fugir dali. Voltei à minha
rotina de existir. Contando as cerâmicas do quintal que não era meu, anotando as
placas dos carros que passavam numa rua que não era a minha. Sair do trabalho
depois de uma semana limpando bundas alheias era voltar à minha rotina de existir.
Existir até a segunda-feira. O calor infernal da sexta-feira fazia o meu vestido
desbotado e um pouco esvoaçante parecer perfeito mas o trem lotado na estação de
Parada de Lucas fazia que o vestido parecesse muito fora do lugar.

O trem partiu e contei seis pessoas usando camisas vermelhas naquele vagão e nesse
momento vi que o meu crachá com uns rabiscos que formavam Mariana ainda estava
pendurado no pescoço. Reclamei mentalmente “por que um crachá onde todo mundo
conhece todo mundo? Malditos pequenos poderes.” Tirei o crachá do pescoço e nesse
momento avistei mais uma camisa vermelha. Ele era baixo, sem pelos no braço, a testa
estava um pouco suada e me apressei quando o lugar ao seu lado ficou vazio. O
vestido desbotado e um pouco esvoaçante era mesmo perfeito.

A testa suada do meu companheiro de banco recebeu um afago de um lenço de papel


e desse jeito comecei com o meu ritual. Era uma mistura obscena porém discreta de
estalar os dedos e balançar as pernas displicentemente. O dono da testa suada não
resistiu e puxou um assunto qualquer do qual não ouvi uma única palavra. Repeti o
meu roteiro bem ensaiado, alguma coisa como: sou casada, marido ciumento, estou
cansada, quero ficar quieta. Também não ouvi uma única palavra dita por mim, afinal
trocas de palavras nesta dança das cadeiras era pouco ou nada importante. Depois de
anos conversando com velhos surdos e com cabeças instáveis já estava acostumada
aos diálogos onde ninguém se ouvia.

Meus olhos percebiam algumas palavras, eu trabalhava no esquema de leitura labial.


Percebi um “linda” aqui e um “beijo” ali. Era ele. Sem dúvida era ele. Na parada em
Vigário Geral, pude contar os degraus da saída e eram trinta e quatro que separavam a
plataforma da superfície com o ar mais puro que Vigário Geral pode oferecer mas no
momento tudo era manchado com o hálito misturado a suor e lenços de papel do meu
companheiro de banco. O meu roteiro era muito simples e juntava peças do
comportamento primitivo humano. Estavam na jogada a rejeição, uma roupa bem
escolhida, cheiros bons e ruins e um companheiro de cena bem escolhido. Na minha
mochila arrumada, naquela casa de família de classe média que insistia em achar que
era rica, eu sempre acreditava que o roteiro não funcionaria. O meu fracasso era a
minha maior esperança, fracassava em algumas vezes e nessas ocasiões voltava para o
meu quarto solitário como se toda a humanidade estivesse na porta me esperando
com balões e bolo de chocolate.

- Próxima estação: Duque de Caxias. Next Stop: Duque de Caxias

O alto-falante falava somente com quem já sabia onde descer era impossível entender
o resmungo sussurrado nas caixas antigas da super via. O próximo passo do roteiro era
um dos mais cruciais. Ele precisaria levantar-se e se jogar no escuro. Descer na mesma
estação que eu, no mínimo, implicava ter que comprar outra passagem caso eu o
ignorasse. Somente ele se atirava no escuro. Ele cumpriu um dos passos mais difíceis
da nossa coreografia ignorante. Desceu do meu lado e falando palavras que pareciam
sair das caixas antigas da Super Via.

Na nossa coreografia improvisada, chegou a minha parte. O meu monólogo. No meu


roteiro, na estação de Duque de Caxias, todas as falas importantes eram minhas. Na
estação de Duque de Caxias, perto dos bancos encardidos de plásticos dos anos
noventa, eu não era mais a escada para o ator principal e era parte do meu papel
envolver a plateia. Gritei, me estiquei e ganhei uns dois centímetros, adicionei algumas
partes novas:

- Vou chamar a polícia! — e mentalizei: preciso anotar esse detalhe ao roteiro


manuscrito.

Eu estava certa desde que entrei no trem contando as seis camisas vermelhas, era ele.
O meu parceiro de cena perfeito daquele dia. O atorzinho de verdade e cruel em todas
as suas veias era ele. O homem que carregava a sétima camisa vermelha daquele
vagão. Ele ouviu a plateia ignorar a minha performance única e mais uma vez me
recolhi. Não preservo os meus sentidos quando atuo. Ele falou sua fala final: Buceta
gorda! Li os lábios cuspirem as palavras respingadas com o suor da testa.

Neste momento, toda a plateia me ignorou. Estava sozinha na plataforma perto


daquela criatura sem forma, um borrão vermelho perto da minha visão cansada. Pude
ver a solidão que a combinação “buceta gorda” levou àquela plataforma tão cheia de
peles alheias e bundas que precisavam ser limpas. O clímax do meu roteiro havia
chegado perto de nós dois. Estavam frente a frente a buceta gorda e o testa suada.
Virei mostrei a minha bunda redonda e comum e voltei a olhar para aquele borrão de
sexta-feira. A criatura vermelha, uma poça de gente, que insistiu em errar durante o
trajeto Parada de Lucas — Duque de caxias despencou. Despencou como uma peça de
carne. Tentou se mexer como o que acontece em um abatedouro onde toda o arranjo
de ripas e corredores é feito para segurar a carne junto à morte.

Subi carregando o meu vestido desbotado e esvoaçante por oito degraus rumo ao ar
cínico de Duque de Caxias e me sentei em posição para ruminar internamente o meu
fracasso. Não haveria balões e bolo de chocolate. Mais uma cena para fechar a minha
coreografia e sentei nos degraus da saída. Postura comportada, perto das câmeras de
segurança e com lágrimas que ensopavam o chão grudento de Duque de Caxias. Uma
mistura da voz confusa dos alto-falantes que avisava “serviço interrompido” com a voz
histérica de alguém gritando “a cabeça desapareceu” me fez ter certeza que estava em
casa de novo.

*Essa versão foi escrita por uma leitora que pediu anonimato.
ブート

Eu não te culpo por se afastar. Eu também me afastaria de mim se pudesse. Amo todas
as pessoas que eu conheci um dia e me aceitaram do jeito que sou. Eu também as
aceitei e me tornei um híbrido de todas elas. Não te condeno por não querer sofrer. Eu
sou tipo o rei midas e sem querer acho que toquei em você. Tem hora que eu não
mereço nem o amor das minhas mãos. Talvez um dia nos encontremos numa nuvem
qualquer e riremos disso tudo. Mas por enquanto estou só esperando o dia do meu
upload. Me esforço para não perder o backup das merdas que eu fiz com os outros,
pois eu só não quero mais machucar ninguém. Eu não sei porque ta tudo tão dificil.
Sem emprego, sem rumo, sem esperança. Todos os nossos planos morreram de bala
perdida e agora as vendem nos sinais. Eu só tenho você. Não quero te perder. Mas
novamente eu sou o rei merdas e cago tudo nessa vida. Não preciso nem tocar basta
apenas eu ver. As rosas choram sim meu amor e suas lágrimas são os espinhos no
sagrado coração de Jesus. Até quando eu vou pedir desculpas? Eu sou uma anta
mesmo. Mas eu te amo tanto. Eu amo todos voces. Me desculpe, eu só sei ser eu.
Denso como uma galaxia perdida no universo mas real e intenso como o beijo com
gosto do nosso sexo.
Zumbi do Calçadão

Calçadão de Caxias. Nas televisões das casas Bahia, a banda Calypso se apresentava no
programa da Fátima. Joelma ventirolava seus cabelos loiros como um helicóptero de
FAB, enquanto Chimbinha tocava sua guitarra com o feeling do Hendrix. A
programação foi interrompida pela fatídica musiquinha do plantão da globo. O
calçadão estava lotado e todos pararam para olhar o general falar. Com a bandeira do
Brasil a suas costas disse batendo na mesa. “AGORA É GUERRA! NÃO VAMOS DEIXAR
ESSES COMUNISTAS TOMAREM CONTA DO PAÍS OUTRA VEZ! MORTE AOS
COMUNISTAS! MORTE AOS COMUNISTAAAAS!” Um pequeno grupo de homens
brancos também começaram a gritar repetidamente a mesma coisa em frente as
smart tv’s de cinquenta polegadas.

Rafael estava lá no meio da multidão assistindo a notícia e comendo pele frita com sal
e catchup. Para seu azar, era o único com camisa vermelha no ambiente. Um homem
que estava em frente à tevê gritou: “COMUNISTA!!” Os olhos vermelhos dos outros
homens miraram como fuzis no rapaz, que só tinha ido ao centro comprar material
escolar. As pessoas em volta se afastaram fazendo um círculo em volta dele. Aqueles
homens vieram correndo para cima de Rafael.

Preto, pobre, franzino, de óculos e com cordãozinho de ouro da avon no pescoço,


ainda tentou argumentar com sua voz levemente afeminada, revelando sua
sexualidade e deixando aqueles homens enormes ainda mais enfurecidos. A primeira
botinada no estomago fez o saquinho de peles voar longe. Se ajoelhou no chão
cuspindo uma bolota de sangue que manchou o calçadão.

Levou um socão na cara tão forte, que a lente dos óculos se quebraram e entraram
como gilete no olho esquerdo. Um segundo, ou terceiro, ou quarto, ou quinto socão
fez seu olho direito sair do globo ocular ficando amparado apenas pela armação dos
óculos que tinha entrado na carne da sua cara. Correu por entre a multidão que não
fazia nada. Alguns filmavam mas a maioria apenas observava a morte do inimigo
comum. A morte daquele que matou o messias, o salvador da pátria.
Correndo cambaleando sem saber para onde, parou em frente a estátua do Zumbi dos
Palmares. Ao se abaixar sentiu a botinada na boca. Deu para ouvir seus dentes
quicarem três vezes no chão quente. A sessão de espancamento continuou até aquele
ser virar uma massa de carne preta e vermelha no calçadão escaldante. Sussurrou
pedindo clemencia com a boca cheia de sangue e vazia de dentes mas ouviu apenas
um “QUEIMEM O COMUNISTA!! QUEIMEM O COMUNISTAAAA!!” Amarraram o que
restou daquele ser humano na lança que a estátua de Zumbi segurava com as duas
mãos para cima. Tacaram fogo como se ele fosse um animal assando na fogueira.
Pedaços da sua carne frita caiam no chão molhado, fazendo o chiado de quando a lava
encontra com o mar.

Zumbi começou a chorar. Sangue escorria pelos seus olhos de bronze. A estátua
começou a tremer, tremer, tremer. Soltou um grito que deu para ouvir no outro lado
da estação de trem. Desceu do pedestal com sua lança em punho. Olhou para os
agressores que ainda estavam ali atônitos. Enfiou e rodou a lança na barriga do
primeiro que gritou alto e caiu morto. O segundo tentou correr mas levou uma
estacada no meio da coluna, ficando tetraplégico na hora. O terceiro correu para
dentro do Mcdonalds e ao pular o balcão de atendimento, Zumbi o decapitou com a
afiada lança de bronze. Fazendo sua cabeça cair dentro do óleo quente que fritava as
batatas fritas. O último homem de bem ia fugindo lá ao longe. Zumbi lançou sua arma
para o alto como um dardo olímpico, que caiu cravando a cabeça do infeliz no chão
daquele calçadão manchado de sangue e ódio.
aporia

Eu nao sei mais como escrever. Entrei num pequeno hiato. Sei o que escrever mas nao
to conseguindo. Nao ta saindo. Eu tenho que sentir algo para poder escrever. Os
vapores nao tão mexendo comigo. Já fumei sei lá quantos cigarros ali fora mas nao tá
vindo, nao tá fluindo. Eu nao queria pensar tanto. Queria ser que nem o Caeiro e
apenas sentir o mundo mas tenho certeza que se isso acontecer eu vou cair na
bestialidade e vou viver apenar para satisfazer meus instintos. E é isso que observo
quando vejo um doutorado defendendo essa tal liberdade. Usando o canudo para
satisfazer os proprios extintos. Para mim qualquer coisa que nao seja para unir nao
vale a pena. Eu quero dar as mãos com o mundo. Isso é ser humano. São coisas que só
nós temos. Mas daqui a pouco nós vamos ver os cachorros apreciando um por do sol e
os gatos levando flores para as gatinhas. Enquanto nós usamos toda nossa inteligencia
apenas para fuder, comer, cagar e xingar o outro no twitter. Eu nao sei mais como
escrever e acho que descobri o feeling dessa geração. E é uma mistura de apatia com
tédio. Apédio. O sentimento de só ver o por do sol pelo celular. Se apaixonar por uma
foto de avatar. Crush é o novo ultra romantismo. Longe como tirar uma foto da lua. O
dia nem começou mas eu já fui derrotado umas seis vezes. Fazendo fotossintese com a
luz da geladeira, a vontade de chorar se torna inevitavel. Eu não sei mais o que sentir
mas sei que quero sair daqui. Quero sentir o cheiro de livro novo. Do café de manhã.
Do dove quando voce sair do banho. Quero olhar nos seus olhos e ficar na duvida
sobre o que dizer. Sentir o silencio dizendo que já estamos a vontade. Eu nao sei mais
o que escrever.
Vagão Rosa

Sexta-feira, seis da tarde. Fazia um calor infernal e abafado como sempre. O trem da
supervia andava com as portas abertas para as pessoas não cozinharem dentro dos
vagões. Mariana trabalhava como cuidadora de idosos na Tijuca. Dormia a semana
inteira lá e só voltava para casa nas sextas a noite. Como vagão rosa estava lotado e
não cabia mais ninguém, Mariana então teve de ir em pé no vagão misto para homens
e mulheres.

Segurava a barra de segurança com uma mão e com a outra segurava a mochila cheia
de coisas que usava na semana. Toda hora um engraçadinho se aproveitava da
superlotação para esbarrar propositalmente na sua bunda. Estilo gordinha violão,
peitos pequenos e bundão. Deixava os homens loucos por onde passava. Evitava até
usar roupas mais justas para não chamar atenção. Estava cansada e só queria ir para
casa descansar sem pensar na segunda feira que já iria chegar. Finalmente a pessoa
sentada a sua frente desceu na Estação Parada de Lucas e ela pode finalmente sentar
um cadinho.

O homem do seu lado abriu as pernas, enquanto ela se encolhia no banco abraçada a
mochila cheia de roupas. E para piorar o cara começou a puxar assunto.

— Tá calor, né?

— É né. — Respondeu Mariana, sem olhar diretamente para ele.

— Você é de onde?

— Pra que você quer saber? — Mandou logo na lata.

— Por nada, é que eu acho que já tinha te visto em algum lugar.

— Ata… — Mariana respondeu tentando encerrar aquela conversinha mole.

— Você é casada?

— Sou sim. E meu marido é ciumento!


— Mas então porque você não usa aliança?

— Aahh moço, o senhor vai me desculpar mas é que eu trabalho a semana inteira, tô
cansada e só quero ficar quietinha aqui.

— Tudo bem.

— Ata, brigada.

20 SEGUNDOS DEPOIS:

— Mas é que eu queria dizer que você é muito linda.

— Affzzz…. — Disse Mariana revirando os olhos.

— Eu também sou casado. Mas meu casamento já não anda bem faz tempo, somos
uma farsa. Nós só brigamos e vamos nos separar. Você é muito linda eu nunca senti
isso por ninguém, acho que eu me apaixonei à primeira vista. Nunca traí minha esposa.

Mariana olhava com aquela cara de “meu deus do céu, que cara chato do caralho”.
Tentou achar um lugar para fugir, mas o vagão estava lotado e ela estava com a
mochila pesada. Não tinha como andar dentro do trem e muito menos mudar de
banco. Estava presa e cercada por vários homens talvez piores que aquele. Começou a
rezar para chegar logo a estação onde iria descer.

— Eu só queria te pedir um beijo.

— Moço, cê tá louco? Eu sou casada! — Disse Mariana incrédula com o pedido.

— Caô. Né nada, nem aliança você usa.

Mariana não sabia nem o que responder. Depois de uma semana inteira limpando
bunda de idoso e aguentando frescurada de uma classe média que acha que é rica,
você não espera ser assediado e chamado de mentiroso na cara dura, durante a volta
pra casa.
— Então me passa o seu zap pra nós poder conversar melhor. — O infeliz continuou
insistindo.

— Moço, você tá pirado é? Eu não vou te dar meu número. Eu nem te conheço!

— Ouh morena, o que você tem de linda você tem de difícil hein! Mas é assim que eu
gamo mesmo!

Quanto mais Mariana se encolhia na cadeira mais ele se achegava perto dela com
aquele lenga lenga sem fim. Ela sentia o ar que saía das palavras dele invadir suas
narinas. Aquele cheiro de desodorante vencido mais o balançar nada suave do trem
estava lhe causando náuseas e nojo. Sua cabeça doía, seu estomago revirava. Já estava
se preparando para vomitar na cara do sujeito quando uma voz feminina saindo do
autofalante anunciou:

PRÓXIMA ESTAÇÃO: DUQUE DE CAXIAS

NEXT STATION: DUKE OF CAXIAS

“Aleluia!” Pensou Mariana se levantando.

— Moço, dá licença que eu vou descer aqui.

— Olha que coincidência, eu também vou descer aqui em Caxias. Bem que eu sabia
que te conhecia de algum lugar.

Ela saiu do vagão a passos rápidos e ele foi a acompanhando sem cerimônia nem
constrangimento algum. Insistindo para ela dar o número de telefone. Enfim Mariana
perdeu a paciência.

— CARALHO, JÁ NÂO FALEI QUE SOU CASADA PORRA!! PARA DE ENCHER O SACO! EU
NÃO VOU TE DAR NUMERO NENHUM, SAI DAQUI SE NÃO EU VOU CHAMAR POLICIA!

— Aahh é? Aah é? então vai pra lá então! ouh piranhona, nem queria essa buceta
gorda mesmo. Muié é o que mais tem nesse mundo!
— Piranhona é sua mãe, AQUELA PUTA!!

Mariana enfim se livrou do mala e tremendo de raiva foi subindo as escadas da


estação em direção ao ponto de ônibus que a levaria finalmente para casa. Enquanto
isso o palerma ficou lá na estação a olhando de longe falando consigo mesmo.

— E o pior que ela tinha um rabão mesmo, ooouhh lá em casa!!

Tentando dar uma última olhada na moça que ia embora, foi andando de costas em
direção a borda do local de embarque. Sem perceber ultrapassou a linha de segurança
do trem e caiu de cara no meio dos trilhos no mesmo instante que o próximo trem
chegava. Ainda tentou se levantar mas já era tarde demais. A última coisa que viu foi o
primeiro vagão se aproximando tão rapidamente, que não teve nem tempo de gritar.
O baque foi tão forte que seu corpo foi destroçado em vários pedaços e sua cabeça foi
parar em cima do vagão rosa.
toxic

É como meter o dedo na ferida do proprio pau. Dói e é vergonhoso mas é preciso para
ver a realidade fora da caverna e não cometer os mesmos erros novamente. Dói
relembrar cada palavra tóxica que eu disse e não ter como limpar o ar poluído pelo
machismo enraizado na minha cultura. Lembrar de tudo é o maior preço que se paga
por querer mudar a si mesmo. Tem hora que acho que vou sumir de tanto fumar, de
tanto pensar. Dá vontade de deletar minhas memórias como vou deletar esse perfil
daqui a pouco. Mas não faço nem um nem outro porque sei que se eu esquecer, eu
vou cagar tudo outra vez. E minha vontade de não ser mais um machista babaca é mais
forte do que a vergonha que eu sinto quando percebo que eu sou um. Eu gostaria de
pedir desculpas a todas as pessoas que magoei algum dia e dizer que eu sei de tudo
tudo tudo na ferida viva do meu coração. Eu não me importo se vão me perdoar ou
não, pois o perdão não apaga o erro, não apaga os fatos. Deve ser por isso que eu não
consigo me perdoar. O que resta no fim é abaixar a cabeça e seguir em frente, negão.
Chorar de vez em quando é bão, limpa os pulmão, alivia o coração. Admiro quem tem
esse dom.
cypher

Nada. Eu até gosto de ser esse nada. Sem reprovação, sem aprovação. Low energy. É
como plutão tentando ser um planeta. Mas sou nada e é nesse nada que eu to
nascendo. Voce diz que não é nada e eu te repreendo porque eu sei o que é se sentir
assim. Não ser bom em nada, mediocridade em tudo. E por mais que voce caminhe em
direção a algo aquilo parece estar sempre longe. Por um lado é bom porque seu ego
também não infla mas por outro é ruim porque você fica parecendo um vagabundo
desempregado que escreve umas bobagens porque nao quer trabalhar. No mais, tento
me desfazer de todas as mascaras qu encontro no espelho e para fazer isso só nesse
estado de nada. Não ser percebido por ninguém nos dá certa liberdade. Porque
queremos aprovação? Porque nos importamos com opinião? Agora escrevendo esse
texto, deixo cair essa mascara que já não me pertence mais. Os mediocres que me
perdoem porque eu também sou mediocre. Embora esteja ocorrendo um zilhão de
coisas dentro de mim, me sinto perdido num paraíso nilista. Os planos que não dão
certo quebra a gente man. Uma coisa que aprendi na logistica foi improvisar perante a
vida. Mas esse improviso também quer dizer que se está no limite e novamente eu
volto ao meu signo que só quer estabilidade e conforto. Mas eu não sou o meu signo.
Então o que que eu sou? Nada, sou um nada. Mas um perfil falando besteira em um
site vazio dentro da madrugada. Eu nunca vou saber que voces estão lendo isso e isso
é a prova de que sou nada. Me disseram: impacto, arte tem que ter impacto! Mas só
no dia em que eu perder mais essa mascara é que eu posso dizer que estou fazendo
algo que preste.
Mar de diamantes

Tocava Sonic South — Diamond Sea no fone enquanto Jorson dava voltas e voltas pelo
mercado todo. Já tinha passado umas dez vezes por todas as sessões. O mercado
estava quase fechando, ele empurrava o carinho e desviava das poucas pessoas
automaticamente. Dentro da sua cabeça ecoava as distorções das guitarras de
Thurston More e Lee Ranaldo. O cansaço e aquela música estava o fazendo entrar num
transe muito louco. Todas aquelas cores, todos aqueles sabores, o frio do ar
condicionado batendo contra sua pele. O cheiro das frutas com agrotóxicos entupia
seu nariz.

Entrou na sessão de biscoitos. Eram tantas opções, tantas cores que ele não sabia o
que levar. Gostava tanto de trakinas chocolate, saudades da edição especial sabor
banana. Uma gordinha linda com camisa de treinamento arrumava os passatempos
que estavam em promoção. Ele chegou perto para pegar um pacote quando ela se
virou e olhou diretamente nos seus olhos. Eram os olhos mais cansados e tristes que
ele já tinha visto. Ele sorriu e os grandes olhos azuis dela sorriram de volta. Seus olhos
tinham o brilho fosco de um pássaro na gaiola. Ela pegou um pacote de passatempo de
morango e entregou para ele. No exato momento em que as duas mãos seguravam o
pacote, a luz do mercado se apagou. Na escuridão total ouviu ela dizer — “Normal,
daqui a pouco volta”.

A luz voltou de fato, mas as outras pessoas que estavam na sessão não voltaram. Só
restaram os dois no mercado. As prateleiras a pouco cheias, agora estavam vazias.
Ouviu passos pesados e lentos se arrastando. Ao olhar para frente, um monstro de
mais do tamanho de uma pessoa se arrastava e fazia barulho de embalagem
amassada. Composto dos pacotes de biscoito fundidos, aquela massa de glúten e
plástico se aproximava ameaçadoramente deles.

— Corre, corre! — Disse Jorson segurando a mão da loirinha de olhos azuis.

Ouviu o baque do monstro socando a prateleira vazia. E depois o som da madeira que
ele tinha jogado nos dois quebrando no vidro da sessão de frios. Entraram na sessão
de limpeza onde se depararam com um monstro bolha de sabão enorme tapando a
passagem. Seu rosto de dor tentava falar alguma coisa, mas só saía bolhas de sabão da
sua boca que quando estouravam faziam o som irreconhecível e ensurdecedor de
vários animais urrando de dor.

Voltaram pelo chão escorregadio e ao sair daquela sessão o monstro biscoito já os


esperava. Deram meia volta e entraram em uma câmera frigorifica.

O rapaz fechou a pesada porta. Fazia um frio intenso.

— Meu deus, que porra que tá acontecendo?? — Perguntou Jorson soltando fumaça
pela boca.

— Não sei e não acredito que essas coisas só acontecem no meu turno. Faltava tão
pouco pra eu bater o cartão. — Disse a loirinha desconsolada depois de uma jornada
de onze horas de trabalho.

— Qual seu nome? — Perguntou o rapaz de cabelos cacheados.

— Amanda, e o seu?

— Jorson. Então Amanda, nós precisamos sair daqui.

— Não diga.

— Eu até gostaria de passar a noite aqui com você, que nem naquele filme mas com
aqueles monstros lá fora não vai ser legal.

— E qual o plano? — Perguntou a menina tremendo de frio.

— Vamos para a porta de saída.

— Não dá, tem aqueles bichos lá fora tapando a passagem.

— Verdade.

— Já sei! Tem a saída do estoque por onde chega a mercadoria. Dá pra chegar lá pelo
escritório do gerente. Ele fica no fundo do mercado. — Disse Amanda.
— Perfeito, vamo então.

Ao terminar de dizer isso, ouviu um grunhido alto e poderoso. Em direção a eles vinha
vindo um monstro hibrido feito das carnes que deveriam estar pendurados naquela
câmera em um dia normal. O monstro tinha a cabeça de porco, o tórax feito das
costelas de boi. E as patas que se assemelhavam a mãos e pés humanos eram uma
massa de carne sangrenta e gordurosa. Aos pés dele, um pequeno exército de frangos
resfriados vinha vindo cambaleando para cima do casal.

Jorson abriu a porta da câmera e os dois saíram correndo para o lado oposto dos
outros monstros. Ao passar pela sessão de brinquedos viram as bonecas rasgarem suas
embalagens falando coisas em chinês que mais pareciam pedidos de socorro
misturados com choro de criança. Ao passar pela estilhaçada sessão de frios, as peças
de presunto chafurdavam no queijo derretido. As peças de mortadela latiam como
cachorro e rolavam no chão comendo umas às outras. Jorson sentiu uma dessas peças
de mortadela morder seu pé. Amanda se adiantou e deu um bico no monstro que voou
longe e caiu perto do monstro bolha de sabão. O cão mortadela derreteu como isopor
no contato com os produtos químicos.

Chegaram no escritório e fecharam a porta.

— Essa porta aqui que dá pro estoque. — Disse Amanda tentando abrir a porta que
estava trancada. — A chave deve estar em alguma dessas gavetas.

Jorson abriu a gaveta da escrivaninha e pegou a chave, uma lanterna e também uma
pistola que deveria ser dos seguranças.

— Olha essa belezinha que eu achei.

— Você sabe usar isso? — Perguntou Amanda.

— Claro que não! Mas aprendo na hora.

Entraram no estoque, escuridão total novamente. A potente lanterna iluminava os


corredores de produtos. Um labirinto de secos e molhados. Vire e mexe algum saco de
arroz ou feijão se mexia e fazia um barulho grotesco. Como se alguém estivesse preso
dentro do saco, pedindo ajuda sem conseguir respirar.

Andaram um belo tempo naquelas ruas até encontrarem a porta dupla por onde entra
as mercadorias, mas estava trancada também.

— Agora fudeu de vez! — Disse Jorson tentando abrir a porta na força.

— Jorson? Jors..? O que é aquilo ali? — Disse Amanda apontando para cima.

— QUE PORRA É ESSA, MALUCOOO??

A lanterna apontava para o teto do estoque onde estava terminando de se formar um


enorme monstro feito dos produtos ensacados. Era literalmente uma cesta básica
gigante. E o que o monstro tinha de grande ele tinha de lento. Jorson ainda tentou
atirar nele com a arma, mas foi em vão. O monstro levantou o gigante braço o deixou
cair causando um pequeno terremoto no ambiente. Amanda puxou os dois para o lado
e por pouco o casal não era esmagado pelo golpe.

Correram em direção a entrada do escritório. O monstro gigante vinha destruindo tudo


atrás deles. Passaram pelo escritório e saíram novamente no mercado. Entraram na
sessão de bebidas. Logo após passarem correndo pelas coca colas, todas as latinhas e
garrafas de refrigerante foram se estourando saindo de dentro delas um mar de ratos
que faziam um grunhido ensurdecedor.

Eles corriam em direção a porta de saída, mas ao chegar viram que porta estava
trancada também. Jorson tentou dar um tiro, mas o vidro era temperado e a prova de
balas. Estavam encurralados. De um lado o monstro bolha e de outro o monstro
biscoito, os ratos das cocas vinham vindo como um cardume de peixes podres. A cesta
básica gigante vinha quebrando o teto, as luzes e tudo que via pela frente. Os dois
sentaram no chão e se abraçaram. O mar de ratos os engolira.

O celular de Jorson caiu no chão, começou a tocar novamente Diamond Sea. Os ratos
se dissiparam fugindo daquele som cheio de distorções e efeitos. Jorson pegou o
celular ainda tocando e apontou para o monstro bolha que logo se estourou. Logo
após apontou para o monstro biscoito que deu meia volta e fugiu pelo corredor. Nisso
Amanda o puxa novamente para desviar da braçada da cesta básica gigante. Correram
e passaram por cima da bolha estourada no chão.

Esbaforidos, pararam em frente a porta da câmera frigorifica. Jorson perguntou:

— Você viu que o som destrói os monstros?

— Vi sim, mas acho que não vai funcionar com o gigante.

— A gente poderia usar esses amplificadores que tocam a rádio do mercado. Onde fica
a mesa de som?

— Fica lá no escritório do gerente. Se o monstro não tiver destruído dá pra gente usar.

Foram correndo passando pelos escombros que o monstro cesta básica deixou ao
passar. No meio da destruição do escritório, no canto da sala a mesa ainda estava lá
intacta. O chão tremia e ouvia-se os passos do monstro se aproximando.

— Como você vai ligar isso aí? — Perguntou Amanda enquanto via o a silhueta da
cabeça do monstro pelo buraco no teto.

— Deve ter algum cabo auxiliar por aqui. — Disse Jorson puxando vários cabos da
mesa de som.

O monstro gigante levantou o braço lentamente para destilar o golpe mortal. Amanda
pegou a arma da cintura de Jorson e descarregou no monstro sem surtir efeito. O
braço enorme de arroz e feijão descia lentamente para o golpe fatal.

— AQUI, ACHEI!! — Disse Jorson colocando o pino P2 no celular e aumentando no talo


o botão de volume da mesa.

Todas as caixas de som do mercado tocaram ao mesmo o som azul daquelas guitarras
distorcidas e barulhentas que chacoalhavam ao mesmo tempo sob uma linha de baixo
frenética e pesada. O monstro gritou de dor, colocou a mão nos ouvidos tentando se
proteger da onda de som e explodiu como se fosse um diamante em zilhões de
pedaços pelo ar. Chovia grãos de arroz, feijão, milho e tudo que tinha naquela sacaria.

A luz se apagou novamente, a escuridão se misturava com o noise do final da música.

Ao voltar a luz, os dois estavam abraçados no chão do escritório que estava normal e
arrumado como era antes. Ouviram a porta abrir.

— Amanda, o que você tá fazendo aqui? Te procurei o mercado inteiro. Já fechamos


até a porta da frente — Disse o gerente olhando com cara de blasé. — Quem é esse aí?
Seu namorado? Vocês podem conversam lá fora que agora eu só quero ir pra casa. E
não esquece de bater o cartão.

Ao passar pela sessão de biscoitos viram o pacote de passatempo no chão, tudo estava
como antes.

— Meu deus, o que que foi isso? Será que foi tudo um sonho?

— Não sei, mas acho que eu vou pedir demissão. Não ganho o suficiente pra isso, fora
que esse tempo todo nem vai para o banco de horas. — Disse a menina com cara de
cansaço extremo.

— E eu nunca mais como biscoito nenhum.

Os dois saíram pela portinha do mercado. Os últimos clientes colocavam suas compras
nos porta mala dos carros. Um funcionário recolhia os carrinhos que o povo deixava
pelo estacionamento. O céu muito limpo e estrelado brilhava como um mar de
diamante.
Violão alquímico (jurei nunca mais me apaixonar)

Eu jurei que nunca mais ia me apaixonar. Acho que se eu pudesse voltar no tempo e
dizer algo para o eu mais jovem eu diria: Se apaixone sem medo. Sem medo de
quebrar a cara. Sem medo de sofrer. Sem medo de ser feliz. Porque uma hora acaba e
o que fica é o que você sentiu. É como uma jam. Tem o inicio com o tema, no meio nós
improvisa e sente nossa alma liberta, a cada nota que erra ou acerta. Depois repete o
tema e finaliza. A alma lavada por ter feito o que o coração pediu. Se tem algo que eu
não pretendo me arrepender novamente é de não ter feito o que eu queria fazer. Acho
melhor morrer afogado do que nunca ter entrado no mar. É como dizem: para
aprender a nadar, você precisa se molhar. O que me fode nesses papos, minha
kriptonita, é o passado. Para viver o presente momento com toda a intensidade, você
tem que guardar o passado bem guardado numa caixa de sapatos embaixo da cama.
Ou na nuvem de algum servidor grátis. Nós nunca sabe se está fazendo as coisas certas
ou erradas. E esse é o legal do momento presente. A verdade só vem com o tempo.
Você não lembra do que disse. Você não lembra do que ouviu. Você só lembra do que
sentiu. E até agora tenho tido toda a sorte de sentimentos variados que tenho digitado
nesse mini blog. Jurei nunca mais me apaixonar mas eu preciso de uma musa para
colorir meu caminho. Um pano de fundo para meu desktop. Uma princesa para salvar
enquanto aprendo magia com meu violão alquímico.
Linguiça

Os cara acha que vai perder masculinidade se pegar mais linguiça do que carne no
churrasco. Acham que o filho vai “virar” gay se ver duas pessoas se beijando na tv. Tem
uns aqui que a masculinidade é tão frágil que não come nem bolo de aniversário cor de
rosa. Sabe o que faz uma pessoa menos homem? Desemprego. Falta de dinheiro. Você
querer jantar alguma coisa além de linguiça e não ter (o colesterol mandou um
abraço). Ver sua mina remendando as calcinhas e nada poder fazer. Passar o dia dos
namorados só com um beijo e um abraço. E só o que resta pra expressar o amor é
fuder. Ver os filhos com os olhos brilhando em frente a tv e na rua não ter dinheiro
nem pra um sorvete. Os meses vão passando, os planos vão morrendo. Você só pensa
em sobreviver. E ainda tem uns que passam de carro e dizem “você não se esforçou”.
Sem saber que o cara está desde das seis da manhã na rua só com café e cigarro no
estomago. No bolso, só o dinheiro da condução de volta. Aguentando mais uma
entrevista em grupo e outro “aguarde que nós vamos te ligar”. O cara perde mais do
que cinquenta centavos a cada currículo entregue e que vai pra lata de lixo logo após
virar as costas para o porteiro. O cara perde a esperança, o cara perde a humanidade.
Não vai ser um exame, um abraço ou uma novela que vai nos fazer menos homem. O
que nos faz menos homem é a desigualdade, o egoismo e a falta de fraternidade. Uns
poucos vivem que nem rei, enquanto uns muitos vivem sem nem saber o que vai
comer amanhã. Talvez coma linguiça de novo.
Nuvem voadora

O céu pulsava como seu coração, vermelho e intenso. O medo de altura fazia seu
pensamento se dessipar como incenso. Abaixo dos seus pés os carros corriam como o
sangue bombeado pela adrenalina de subir a passarela. Passos rápidos. Olhava apenas
para frente. Semblantes cansados no ponto de ônibus, olhavam distraidamente a tela
dos celulares. O vento trouxe o som de “pega ladrão! pega ladrão!!” Corriqueiramente
acabaram de roubar o celular da tia que vendia café no ponto. Do meio da passarela
olhou o meliante correr por entre os carros no trânsito da washigton luiz. Volta pra
casa. Hora do rush. Se ouviu ao longe o crush do primeiro carro bater. Depois outro.
Depois outro. E outro. Um busão da trel vinha como sempre a todo vapor, como se
fosse tirar a mãe da forca. Não conseguiu brecar a tempo e para não engavetar,
desviou e bateu com tudo na coluna do meio da velha passarela. Olhou para trás viu a
passarela se desabar devagar, devagar. Se deletando como pixels mal desenhados.
Correu desesperadamente para frente enquanto a morte lhe acompanhava a cada
passo, tirando o chão que seus pés pisavam. Mundando todo o futuro que alguém
imaginara. Sentiu um segundo baque na passarela. Seu corpo voou daqueles dez
metros de altura. Passado, presente e futuro se tornaram um só. Tocava CVLTVRE —
Upscale no seu foninho. O chão vinha vindo devagarinho. Lembrou da morena,
lembrou da mãe, do cachorro morto pela arma do vizinho. Lembrou de tudo que viveu.
De de tudo que não viveu. Não queria morrer, não podia morrer. Não aceitava morrer.
Do seu peito saiu uma nuvem dourada que brilhava como o sol e lhe amparou frente
aos sete palmos de asfalto. Subiu voo por entre os prédios, lojas, casas, igrejas. Viu
tudo pequenininho lá do alto. Acordou deitado no mei fio quente. Em volta tinha uma
porção de gente. Para o espanto geral da multidão, ele não tinha um arranhão. Se
levantou, colocou o fone de volta no ouvido e correu. Correu, correu, correu para a
casa da morena feito um cavalo selvagem que acabou de nascer e precisa correr para
sobreviver.
O olho da verdade

O pneu da Poti azul deslizava pelo asfalto sorvete, que tinha esse apelido porque
sempre que chovia, era só fazer um pouquinho de sol que ele todo se derretia.
Deixando poças do tamanho de um lago no meio da rua. O sol brilhava entre as nuvens
naquela tarde pós chuva. No fone de ouvido tocava Driver — The eye of truth. Não
costumava olhar para o chão, nunca acharia dinheiro pois o céu lhe encantava.
Observava entre os fios dos postes, pipas e pássaros voando em V. Aquilo lhe intrigava.
Como os pássaros sabiam que tinham de voar daquele jeito? Como sabiam que tinham
de seguir um líder?

Mas a frente tinha um viaduto no qual era acostumado a passar embaixo. E sempre
que chovia formava uma daquelas poça-lago que pegava de um lado ao outro da rua.
Decidiu passar no meio da poça, pois conhecia bem a rua e sabia que ali não tinha
buracos. Ao avançar contra a água, foi descendo como se estivesse adentrando no
mar. Era fundo como uma piscina. Gritou por socorro mais a rua estava deserta.
Afundou com bicicleta e tudo.

Submerso na água, abriu os olhos e deu de cara com um peixe dourado do tamanho de
uma garrafa pet. O peixe tinha olhos de gato que brilhavam na água escura como dois
pequenos faróis verdes. Aqueles olhos pareciam que o chamavam. O bicho virou de
costas para ele e abanou o rabo quase que dizendo “vem”. Ele nadou acompanhando o
peixe, descendo cada vez mais fundo até chegar na entrada de uma caverna. O peixe
dourado entrou e ele foi atrás. Escuridão total. Só se via os olhos do peixe piscando
verdemente.

Foi seguindo o peixe que ia em direção a um pontinho de luz pequenino no fundo da


caverna. A luz foi ficando maior e mais forte, até que eles saíram finalmente da
caverna. Cuspidos por uma manilha de concreto que os desaguou em um novo mar de
água azul e cristalina. Os raios de sol entravam suavemente na água como flechas de
luz. Um cardume de peixes dourados os recebeu. Foi arrastado pela aquela rama de
sushi vivo, sendo levado para cima e para baixo, para o lado e para o outro.
Rodopiando em espiral como numa dança minuciosamente ensaiada.
Ele deslizava pela água junto com os peixes. Não fazia esforço algum para acompanhar.
Era como se sempre tivesse feito aquilo. Como se aquela coreografia estivesse nele
desde de sempre. Não sabia como sabia. Não pensava em nada e ao mesmo tempo
sentia todos os peixes. E sabia que os peixes o sentiam também. Eles eram um só.

Nesse vai e vem, quando resolveu pensar em algo, lembrou que precisava respirar. Se
assustou e saiu do grupo tentando subir a superfície. Mas lembrou que nem sabia
nadar na verdade. O desespero e a falta de ar começaram a tomar conta. Foi quando o
primeiro peixe dourado chegou bem perto do rosto dele e cuspiu um dos seus olhos de
gato, que ficou flutuando na água. Ele com uma mão segurou a bilha e ao mesmo
tempo sentiu a manilha o sugando de volta como se fosse uma descarga. De dentro da
caverna escura, enquanto era sugado, via o cardume ao longe continuarem com a
dança da vida.

Acordou com alguém batendo na sua cara. “Ei, ei acorda cara!” — Estava nos braços
de uma gordinha de olhos verdes, de sorriso muito branco e uma camisa azul clara e
cristalina. “Eu só queria saber como você conseguiu se afogar em dois palmos de
água?” — A menina perguntou rindo. “É que eu não sei nadar.” — Respondeu olhando
a mão que segurava uma bolinha de gude olho de gato.
Fabiana

Fabiana é o nome dela. Vinte e oito anos. Pela clara, o rosto tinha traços indígenas.
1,80 de altura. Estava um pouco acima do peso, mas nem dava para perceber por
causa da altura. Seu peso era uma coisa que o marido fazia questão de lembrar toda
vez que via alguma mulher mais nova. Ele tinha perdido a vergonha. A criticava até na
frente dos seus pais. Ela engolia a seco. Para ela aquilo era normal. Com sua mãe tinha
sido sempre assim.

Se acostumou com aquela vida, com aquela rotina de cuidar do filho pequeno, da casa,
do marido. “Pelo menos ele é trabalhador, homem de bem” — A mãe dela dizia
quando a encontrava chorando no quarto. Não tomava atitude alguma pois tinha
medo de perder o pai do seu filho. Como ia criar o menino sem pai. Ela que nunca
tinha trabalhado. Só sabia cuidar da casa. Se sujeitava as humilhações pois também
tinha medo de perder o conforto da casa que ela tanto cuidava. Mas para ele nada
estava bom. A comida, a roupa, a criança que ele nem lembrava que existia.

As brigas começaram a ficar constantes. Tudo era motivo de discussão e desculpa para
ele ir no bar beber. Um dia enquanto ela fazia o jantar, ele chegou bêbedo e foi assistir
tevê na sala. Passava horário político. Bolsonaro gritava que se eleito iria proteger a
moral e os bons costumes da família. Nisso, o menino de cinco anos veio lhe amostrar
um desenho que tinha feito na escola. Era um coração escrito eu te amo. Ele pegou o
desenho da criança rasgou e disse: “isso é coisa de viado! ”. Depois deu um tapa na
cara do moleque que o som deu pra escutar do quintal. Ao ouvir o filho chorar Fabiana
saiu como uma loba da cozinha e avançou contra o marido, cravando as unhas na sua
cara. Ele com um soco a derrubou no chão e disse:

— Agora vai ficar defendendo esse viadinho? Por isso que ele tá assim manhoso.

— Você nunca mais encosta a mão no meu filho. — Disse ela com o nariz sangrando
agarrada ao menino que chorava.
Fabiana pegou o menino no colo e saiu pela rua a fora. O marido correndo atrás dela.
“Você pode ir, mas ele vai ficar”. Disse puxando o menino que se agarrava a mãe.
Nesse mesmo instante chega a viatura da PM que algum vizinho chamou.

Na delegacia o marido tentava se explicar para a delegada.

- Só foi uma briguinha à toa. Ela sabe que eu a amo. Sou homem de bem, trabalhador.
É um absurdo eu estar aqui. — Dizia ele com a voz fina e doce como um mel.

A delegada com cara de poucos amigos se vira para Fabiana e pergunta se ela quer
registrar a queixa. Ao ouvir isso o marido diz: “Amor, eu sou o pai do seu filho. Você vai
me denunciar mesmo?” A delegada manjando a estratégia manda tirar ele da sala.
Agora a sós com Fabiana a delegada pergunta.

- É a primeira vez que ele te bate?

- Sim. — Responde Fabiana com o menino dormindo no seu colo — O que vai
acontecer com ele se eu denunciar?

- Ele vai responder por agressão doméstica e ser enquadrado na lei maria da penha.
Depois pegamos seu depoimento e o dele. E damos uma medida protetiva para você e
seu filho.

- Ele não vai preso?

- Não, ele responde em liberdade. — Disse a delegada — Olha Fabiana, não quero me
meter nem nada mas, tem um ditado que diz que se uma coisa acontece uma vez
talvez ela nunca mais aconteça. Mas se aconteceu duas, vai acontecer sempre. Talvez
agora seja o momento de cortar o mal pela raiz antes que ele vire uma erva daninha.

Fabiana respirou fundo. Lembrou dos bons momentos que eles viveram juntos.
Lembrou do namoro, do casamento. Era o pai do filho dela, não queria o ver preso.
Olhou o filho dormindo e lembrou de quanto o marido mudou. Lembrou de tudo que
estava acontecendo ultimamente. Não queria mais sofrer. A vontade de mudar
pulsava dentro dela. Decidiu denunciar.
No corredor quando o marido soube, de anjo virou um demônio.

- Filha da puta, vai me denunciar? Aposto que foi coisa dessa delegadazinha de merda,
aí. É nisso que dá deixar mulher mandar.

A delegada sem se abalar levanta da cadeira e diz com voz firme.

- Você está preso por desacato. Pode levar esse aí, vamo deixar ele esfriar a cabeça lá
na cela essa noite.

- Isso é um absurdo! Sou trabalhador! Vocês tem é que prender é bandido na rua. Me
solta! me solta! — Gritou o marido enquanto era levado pelos policiais — Sua
vagabunda gorda! Você vai ver comigo quando eu sair daqui!

- Fica quieto se não vai responder por ameaça também! — Gritou a delegada.

Em casa, enquanto colocava o filho para dormir na cama pensava no que iria fazer de
agora em diante. Não tinha experiencia, só tinha vivido para o marido. Talvez
arrumasse um trabalho. Voltasse a estudar. Ainda era nova. Realmente não sabia o
que fazer. Mas sentia que era hora de mudar. Não só para proteger o filho, mas
também mudar por ela mesma.
Janaína

O fiat uno branco corria a todo vapor pela rodovia Washington Luiz, rumo a praia de
Ipanema. Dentro dele Celso dirigia sem camisa, de havaianas azul e short do mengão.
No banco do carona mexendo no celular novo estava Maria Eduarda, a Dudua. Uma
linda gordinha preta de tranças nagô soltas. No rádio do carro tocava oba lá vem ela
do Jorge Ben Jor, quando Dudua pediu para parar no acostamento. Um segundo após
o carro parar, Dudua abriu a porta e vomitou no asfalto quente.

- Nossa Celso, vai devagar aí. Tá balançando muito.

- Falei pra você não comer aquele salgado do japonês. Aquele caldo de cana tava
muito estranho. Chega tava escuro. Você quer voltar? — Perguntou Celso.

- Não, foi nada não. Já tô bem. Só vai mais devagar.

- Tá, mas vou comprar uma tônica ali no posto de gasolina pra você. — Disse Celso ao
volante.

- Você trouxe seu óculos? — Perguntou Dudua, colocando o cinto de segurança.

- Tá aí no porta luvas. Mas cadê seu ray-ban?

- Esqueci em casa.

- Também hein, só não esquece a cabeça…

- Ih, deixa de ser chato. — Dudua disse enquanto ligava o rádio do carro.

Na areia fofa, Celso se equilibrava para levar um isopor com as cervejas, duas cadeiras
de praia, o guarda sol e as toalhas. Enquanto Dudua procurava um lugar para ficar. Ao
avistar o mar ela entregou o celular e o ray ban para Celso, tirou a saída de praia e
como uma criança foi correndo em direção as ondas. Como não tinha mais como
segurar nada, Celso parou ali mesmo. Colocou as coisas na areia e ficou a olhar Dudua
de longe, com malicia. Ele amava aquele seu jeitão de criança. Amava sua pele preta,
seus lábios carnudos, seu sorriso branco, seu corpo rechonchudinho todo enfim.
Ao voltar, Dudua sentou na cadeira de praia e começou a passar o protetor enquanto
Celso tomava uma Brahma curtindo o funk que tocava no celular.

- Dudua, sabe de uma coisa?

- O que?

- Vou lançar uma moda. — Disse Celso com cara de troll face.

- ah não.. essa de novo não.

- vai fala, amor, por favor.

- tá.. vai me enterrar na areia?

- Não, não. Vou atolar! huehuehue — Disse Celso rindo que nem besta.

- Tá bom, agora passa o protetor aqui nas minhas costas.

Agora Dudua que passava o protetor nas costas de Celso enquanto dizia:

- Amô, eu tô com um desejo louco de comer aqueles biscoitinho de polvilho globo.

- Quando o vendedor passar aqui eu compro.

- Olha lá ele indo embora. Corre lá, vai amor!

Celso saiu desembestado atrás do vendedor de globo que estava já estava muito
longe. Não conseguiu alcança-lo e então aproveitou para molhar os pés na água. O mar
estava agitado, as ondas quase o derrubaram. Sentiu seus pés afundarem na areia fofa
que onda deixou ao passar. Olhou para baixo e viu uma concha espiral do tamanho de
um palmo. Pegou e quase que institivamente levou ao ouvido. Ouviu um canto
baixinho. Era voz de mulher. Uma voz doce e calma que no ritmo do mar lhe dizia
alguma coisa incompreensível. Ficou ali sem pensar em nada, olhando para o horizonte
com a concha na orelha.
O som ambiente se aquietou. Não se ouvia mais o som das pessoas, dos vendedores,
dos carros no transito, do funk. Todos sumiram. Na praia deserta Celso encarava o
mar. E como um abismo o mar lhe encarava de volta. Ao longe viu um ponto azul claro
saindo das águas. De cabelos pretos longos, coroa de ouro e um vestido azul sem fim
que se estendia por todo o mar, Iemanjá vinha em sua direção. Alta e imponente,
chegou bem perto de Celso e lhe falou alguma coisa ao ouvido. Lhe entregou uma rosa
branca. Se virou de costas e foi vagarosamente adentrando o mar até sumir por
completo.

Celso acordou do transe pelos gritos de “É ARRASTÃO! É ARRASTÃO!” Olhou de longe


Dudua sentada na cadeira de praia. Na direção dela vinha vindo um sem número de
trombadinhas levando violentamente tudo pela frente. Só se via cadeiras voando,
guarda sol rolando, pessoas correndo se saber para onde. Celso correu em direção a
Dudua com a rosa branca na mão.

- Levanta, levanta, corre! — Disse Celso segurando a mão da menina.

Corriam do bando que se aproximava rapidamente quando Dudua no desespero, torce


o pé e cai. Celso olha para trás e a vê caída. Volta para tentar levantá-la, mas o bando
já estava em cima deles. Um rapaz novo, aparentemente de menor, para na frente
deles e diz:

- Perdeu! Perdeu! Passa o celular, porra!

- Dá o celular pra ele. — Disse Celso para Dudua.

- Não! — Disse a menina chorando, se negando a dar o celular novo.

- Vai porra, não tô de brincadeira, CARALHO!!

- Entrega logo! — Disse Celso para a menina.

Dudua já ia entregando o celular quando o trombadinha perdeu a paciência e deu uma


bicuda na menina. Celso não pensou duas vezes e se embolou na porrada com o
ladrão. Após uns minutos infinitos de luta, vendo que não ia aguentar na mão, o fulano
puxa um três oitão para Celso que fica de joelhos na sua frente

- Filho da puta, agora você vai morrer! — Disse o ladrão apontando o 38 para o casal
abraçado na areia.

Atirou.

O tiro falhou.

Atirou novamente em vão. Click, click, click, só se ouvia o estalado do 38 carregado


com todas as balas falhando. O trombadinha solta a arma e sai correndo ao ver a
guarda municipal se aproximando.

Os dois ficam ali abraçados sem saber o que aconteceu. Ao olhar a areia Celso vê a
rosa branca e entende o que aconteceu. Se levanta, a pega e vai em direção as ondas.
Joga no mar a rosa e agradece a benção recebida.

No carro Celso pergunta:

- Tudo bem, aí?

- Estou um pouco enjoada, mas tô bem. — Responde a menina — E perdemos o ray-


ban também.

- Depois nós compra outro.

- Mas era original.

- Sem problema. — Celso arranca com o fiat uno.

Uma semana depois Dudua descobre o motivo dos enjoos. O teste de gravidez de
farmácia deu positivo. Estava gravida. Pouco tempo depois Celso volta a praia para
comprar os biscoitos de polvilho globo e matar o desejo da futura mãe. O mar estava
calmo. Sentia as ondas lamberem suas pernas com carinho. Joga uma rosa branca ao
mar e de olhos fechados agradece a mãe Iemanjá. Ao olhar para baixo, grande é a sua
surpresa ao encontrar o ray-ban perdido. Coloca os óculos e vê ao longe um pontinho
dourado piscar. Agradece novamente e vai embora. Nove meses depois nasce Janaína.
Seis da Tarde

Ela era gorda. E era minha professora. Mas eu a achava linda e gostosa. Ela sempre ia
de preto. O salto a deixava mais alta ainda. Era professora de português e espanhol.
Desde do primeiro dia de aula daquele segundo ano eu sonhei em fazer uma
espanhola naqueles peitos. Branca, sorriso fácil. Cabelos pretos liso, a maioria das
vezes num rabo de cavalo que deixava a mostra uma tatuagem na nuca escrita je
t’aime. Estalkei silenciosamente seu facebook para pescar alguma coisa. Mas ela era
muito discreta, tudo trancado ao público. Deduzi que não era casada pois não usava
aliança. Nunca falou de vida pessoal na sala.

Eu sonhava com ela a noite. Sonhava que a comia na sala de aula, em cima da mesa
dela. Muitas vezes acordava gozado. Aproveitava para tocar uma antes de sair para a
aula. O que não adiantava para acalmar a emoção do meu pau quando ela chegava
perto, perguntava alguma ou dava um simples bom dia.

Nunca fui bom em português. Redação era uma tristeza. Nunca vi muito sentido em
decorar aquele monte de coisa. Eu provavelmente não ia usar para nada aquilo tudo.
Naquele ano então, eu não conseguia prestar atenção em nada do que ela falava. Nas
aulas de espanhol, meu pau ficava como um cachorro louco na box. Meu deus, eu não
entendia nada do que ela dizia, mas sei que era quente. Se eu dia eu for aprender
outra língua será o espanhol. Mas no momento eu só queria aprender a língua dela.

Minhas notas iam de mal a pior. Um dia antes de bater o sinal ela pediu para falar
comigo depois da aula. Disse que dava aulas particulares e perguntou se eu gostaria de
um reforço. Mesmo meio gaguejando eu disse que sim. Perguntei quanto ia custar pois
ia falar com meu pai, mas ela respondeu com um olhar maldoso e um sorriso no canto
da boca: “depois nós conversamos sobre isso”. Meu coração disparou na hora.
Enquanto ela anotava o endereço da sua casa, na minha cabeça passava mil coisas.
Será que ela tá me dando mole? Será que ela desconfia de alguma coisa? Será que eu
tô viajando? Marcamos as seis da tarde.

As seis eu tava lá. Ela abriu o portão, cabelo molhado enrolado na toalha. Dava para
sentir o vapor quente do banho pela casa. Sentei no sofá da sala, enquanto ia para o
quarto. Tocava Doce Vampiro da Rita Lee na tevê ligada ao PC. Voltou enrolada num
robe azul escuro de veludo. Cabelo em coque. Trouxe dois copinhos e uma jarra com
licor de jabuticaba. O licor era tão doce quanto seus olhos. Ela ria alto vez em quando
com as inocências que eu dizia. Como ela sabia?

Jarra de licor vazia. Esparramados no sofá nós já nem pensávamos em nada. O robe
dela vez em quando deixava amostra um pouco dos peitos enormes. Ela viu que eu
não parava de olhar. Perguntou se eu queria chupar. Lentamente abaixei seu robe, sua
pele era tão macia. As aureolas eram grandes e escurinhas, contrastando com a pele
branca cheia de sardinhas. Tão cheirosa era ela. Chupei enquanto ela fechava os olhos
de prazer. Um depois o outro. As pernas dela foram se abrindo.

Levantou de relance como que se tivesse lembrado quem era a professora ali. Me
deitou no sofá e tirou minhas calças jeans. Disse que a primeira vez merecia um bônus.
Meu pau babava e latejava. Lambeu a cabeça toda degustando a lubrificação.
Arregaçou meu pau e começou a chupa-lo acariciando minhas bolas. Eu nem sei o que
sentia, era tão incrível a cena, parecia um sonho. Ela subia e descia com a língua.
Depois caia de boca. Chupava quase até o talo depois subia novamente sugando como
um sorvete.

Segurando minhas mãos, me levantou do sofá e me conduziu em direção ao quarto


dela. Me jogou na cama de casal. Deitou ao meu lado. Eu a beijei retirando o robe dela
todo enquanto ela tirava minha camisa. Conduziu minha mão para a sua buceta.
Perguntou se eu sabia onde era o clitóris. Eu disse que só tinha visto em vídeo. Pegou
meus dedos e chupou, deixando eles bem molhados. De pernas abertas conduzia meus
dedos como uma pianista ensinando uma criança a apertar as teclas. Com sua mão
esfregava meus dedos de forma circular. Disse para não ter pressa nem ser afobado e
que só metesse o pau quando a mulher pedisse de alguma forma.

O clitóris era tão macio e delicado que eu tinha até medo de machucar. Conforme ela
foi pedindo, fui aumentando a velocidade e a pressão. Sua respiração foi se tornando
rápida e ofegante. Pegou meus dedos e enfiou na xota. Tive um impulso de ficar
brincando com eles dentro dela. Ela se curvava de prazer. Perguntou se era a primeira
vez mesmo.

Ela gemeu um pouco mais alto e tirou meus dedos da buceta. Estavam tão molhados.
Ela virou de costas e eu abracei aquele corpo enorme e gostoso. Ela era toda macia.
Abriu as pernas e eu comecei a esfregar o pau na xota dela. Com delicadeza pegou
meu pau e introduziu naquela buceta molhada. Desci um pouco na cama para encaixar
melhor nossos quadris. Meu pau entrou até o talo dentro dela. E eu o sentia latejar
dentro enquanto ela rebolava tocando o piano de uma tecla só.

Parou de só rebolar e nós começamos a fuder de verdade. Eu metia segurando nos


seus quadris. Dava para ouvir o barulho do bate coxa. Achei aquele som o mais legal
do negócio. Depois de algum tempo que eu não sei precisar, mas que parecia eterno,
eu me segurava para não gozar. Ela parou os movimentos e pegou uma camisinha no
criado mudo. Abriu com os dentes o pacote. Desceu um pouco na cama enquanto eu
encostava minhas costas na cabeceira. Começou a mamar meu pau novamente.
Colocou a camisinha na cabeça do bicho depois arregaçou encapando o Zezinho todo.

Chupou novamente só para deixar bem molhadinho. Passou a perna grossa por cima
de mim e eu vi que ela ia montar. Desci um pouco para ficar deitadinho. De costa para
mim e com uma perna levantada ela pegou meu pau molhado e enfiou na buceta.
Abaixou a perna levantada e começou a fuder sem dó. Hora rebolava, hora fudia
quicando. Tinha hora que sentava até o talo e se demorava tocando siririca.

A visão daquele rabão descendo e subindo no meu pau era enlouquecedora. Tudo
parecia um sonho. Ela começou a fuder rápido novamente. Eu não aguentava mais.
Gozei. Eu estava tão eufórico que nem senti direito que tinha gozado. Ela saiu de cima
de mim. Me olhou e sorriu com aquele sorriso doce tão lindo de todos os dias. Ela
estava toda suada, pegou o robe azul e foi tomar banho. Acompanhei com olhar
aquele lindo corpo branco e gordinho. Os pés deslizavam pelo carpete em direção ao
banheiro. Eu fiquei ali na cama, nu. Olhando para o teto e esperando acordar a
qualquer momento.
Não acordei. Ela voltou do banho com uma roupa mais casual e perguntou se eu queria
tomar banho também. Eu disse que não, pois precisava ir para casa jantar e também
não queria dar pinta de quem fez alguma coisa. Ela me beijou a última vez dentro de
casa e depois me levou ao portão. Não sei porque eu agradeci pela aula. Ela riu. Era
horário de verão. Como eu, o dia também não queria ir embora. Fazia calor. Eu ainda
estava com o cheiro do suor dela no meu corpo. Botei meu fone de ouvido e fui pra
casa ouvindo Ed Motta — Seis da Tarde.
Girassom

Tudo naquele lugar era cinza. O céu, os muros, as pessoas, os pensamentos.


Concretavam qualquer rastro de vida que ainda respirasse procurando pela luz do sol.
Uma semente adormecida sobre camadas e mais camadas de asfalto esperava um raio
de som lhe acordar.

Um caminhão de mudança parou em frente a uma casa modesta. Rua estreita, mal
passava o caminhão. As fofoqueiras da rua olhavam para ver quem eram os novos
vizinhos. Phelipe saiu da boleia do caminhão agarrado ao sax tenor dentro do estojo.

Phelipe era filho único de mãe solteira. Moravam no morro do Vidigal próximo ao
centro cultural do afroreggae. Lá estava aprendendo a tocar sax e até já arriscava
algumas notas na igreja. No dia em que sua mãe decidiu sair da favela foi no dia em
que suas notas foram interrompidas por mais um tiroteio. Uma bala perdida pegou de
raspão na cabeça de Phelipe que viu todos seus 13 anos passarem por um segundo na
sua frente.

Desempregada, a mãe de Phelipe já pensava em sair do morro e esse episódio foi a


gota d’agua para eles se mudarem para a casa da sua vó em Duque de Caxias na
baixada fluminense.

Phelipe dormia na sala, enquanto a vó e a mãe dividiam o único quarto da casa. As


casas da rua eram todas coladinhas umas com as outras de modo que se você desse
um peido de madrugada, quem tivesse passando na rua escutava. A rua era asfalto
puro, sem arvore alguma. Isso deixava o clima extremamente seco e árido como num
deserto. Qualquer pedaço de terra livre era logo usado para aumentar a casa ou fazer
um puxadinho. A maioria das casas eram pequenos sobradinhos.

Phelipe chegava da escola, almoçava e assistia a novela com a mãe e a avó. Depois ia
praticar o sax na pequena varanda que dava para a rua. Na verdade a varanda era só
um pequeno corredor com saída para rua. Sentava próximo ao portão, abria a estante
de partitura e metia bronca no sax.
Numa tarde de sol escaldante a vó saiu para comprar qualquer coisa. Grande foi sua
surpresa ao abrir o portão e se deparar com um girassol enorme, brotado do canto do
meio fio.

- Phelipe, meu filho. Vem cá ver uma coisa

- Oi, vó. — Disse levantando do banquinho com o sax na mão.

- Olha só esse girassol. Ele tava aí quando você chegou da escola?

- Se tava, eu nem reparei.

- oxi, que loucura. Não era para ele tá virado para o sol?

- acho que sim.

- Então porque ele está virado para o portão?

- Seeei lá..

- Eu vou ali comprar cigarro e quando voltar eu corto esse bicho daí.

- Tá. — Fechou portão e voltou a praticar seu instrumento.

Ouvia-se de longe o som estridente do saxofone. “Até que ele toca bonitinho.” Pensou
a vó se aproximando de casa. Seu pensamento foi interrompido com outra surpresa ao
ver o girassol se balançando de um lado para o outro virado para o portão. Era como
se estivesse acompanhando o ritmo da musica tocada por Phelipe. Bateu no portão
chamando o neto.

O som do sax se extinguiu e com ele o movimento do girassol. Ao abrir o portão, o


menino encontrou sua vó estarrecida olhando para a planta.

- Tem alguma coisa estranha com esse girassol.

- Ué, como assim?


- Ele tava se mexendo, aí quando você parou de tocar ele parou de se mexer.

Phelipe achou engraçado, mas desacreditou.

- Vou tocar um pouquinho pra ele então.

Tocou de olhos fechados algumas notas e a planta começou a se balançar novamente.

- Olha lá Phelipe, eu não disse! — A vó falou chaqualhando o menino. — Toca de novo


isso aí e olha dessa vez.

Tocou novamente a melodia e menor não foi sua surpresa ao ver o girassol se
balançar. Saiu para rua tocando. O girassol acompanhava seu movimento. Deu uma
volta na planta e ela não parava de o seguir. Estava apaixonada pelo som.

Phelipe achou tudo muito engraçado e divertido. Começou a praticar todos os dias
com o portão aberto só para ver a planta dançar. Os vizinhos ficaram sabendo, e logo
logo as pessoas do bairro todo também vinham ver o girassol dançar durante a pratica
do menino.

Era ano de eleição e certo dia quando Phelipe voltava da escola, ao virar a esquina da
rua onde morava, viu que o asfalto estava preto, novinho. Logo ligou as coisas e
apertou o passo. De longe já não via mais o seu maior fã. Desolado entrou pelo portão
deixando a mochila pelo chão da sala.

Alguns dias se passaram.

- Você não vai tocar mais seu sax não? — Perguntou a mãe depois que acabou a
novela.

- Tô com vontade mais não.

- Vai meu filho, a planta não ia gostar de saber que você desistiu.

Abriu o portão mas sua amiga não estava lá. Sentiu uma imensa tristeza invadir seu
peito. Lembrando das cores do girassol, começou a improvisar uma melodia meio
sussurrada, baixinha. Repetiu a melodia diversas vezes. Do canto dos seus olhos
começou a brotar lágrimas. O tema que ele tocava começou a tomar forma. O volume
foi aumentando, aumentando. Até que explodiu em um solo lindo e brilhante. Algumas
pessoas que passavam na rua pararam para ouvir. Sua vó e sua mãe também saíram
para ouvir a melodia.

De olhos fechados não compartilhou da surpresa de todos quando algo começou a


irromper o asfalto duro. Como num passe de magica o broto pequenino que saiu do
chão em poucos segundos foi crescendo na frente de todos e se transformou num belo
e grande girassol.

Ao terminar o solo, Phelipe abriu os olhos e se deparou com todos em silencio olhando
para ele.

- Vó, ele voltou!

- Sim, meu filho eu vi. — Disse a avó chorando enquanto abraçava o neto.

- Mãe, a senhora viu isso? — Disse a mãe de Phelipe.

- Sim, filha. Isso foi um milagre de Deus.

Quebraram com cuidado o asfalto em volta da planta e a colocaram em um grande


vaso de cerâmica. A história percorreu a cidade inteira. Pessoas vinham de toda parte
ouvir o menino e sua planta dançar. Todos queriam sementes para plantar um girassol
em casa.

Um dia ao ir no centro da cidade com a sua mãe. De dentro do ônibus, viu um grafite
enorme em um prédio. A imagem era de um sol com o rosto dele, tocando saxofone
no meio de um campo de girassóis.
Chuva de mentos

Era tudo rosa, eu estava com dois dedos dentro dela. Senti o vapor quente no meu
rosto. Depois, o gosto do esguicho morno na minha boca. Salgado. Ela tremia de
pernas e olhos fechados.

Abriu os olhos e as pernas, pediu pra fuder. Tudo dela parecia maior do que já era.
Quanto maior melhor. Coloquei dois travesseiros embaixo das tuas costas e abri suas
pernas. Dava para ver o cuzinho por depilar piscando. Mas a buceta estava tão
molhada que eu nem liguei para o cu. Nada era melhor que aquela caverna quente e
úmida.

Dei uma cuspidela só para não perder o costume. Mas nem precisava pois ela estava
ensopada, tinha acabado de jorrar. Esfreguei o pau no clítoris, ela me afastou com as
mãos. Pediu novamente para foder. O pau roxo entrou escorregadio como se a xota o
tivesse chupado pra dentro.

Comecei a fuder devagar, enquanto o arfar dela preenchia o silêncio da madrugada.


Porque é tão bom meter de madrugada? Melhor que de manhã. Aliás, de manhã a
única coisa que caí bem é uma bela chupada, meio dormida meio acordada.

Os travesseiros que apoiavam as costas dela serviam como uma especie de mola no vai
e vem que eu comecei a fazer usando suas pernas. Era como se fosse aqueles
equipamentos de exercício da polishop. O pau entrava e saía facilmente. Quente. Ela
gemia sutilmente. Estávamos numa especie de transe.

Vi que ia gozar e parei o movimento tirando o pau de dentro. Ela continuou


borbulhando de prazer. Apreciei aquele corpo branco gordinho. O tesão a deixava toda
rosada. Vapor. Tocava SAINT PEPSI — Skin Deep, no monitor.

Era linda com os peitos e a barriga esparramados na cama. Chupei seus peitos
gostosamente enquanto enfiava os dedos na buceta molhada. Ela puxou minha mão e
chupou meus dedos se deliciando com seu próprio sabor.
A coloquei de quatro. Minha língua molhada se deliciou naquele cuzinho apertado.
Depois percorreu toda a extensão das suas costas. Mordi seu pescoço, ela empinou o
rabo. Cuspi e esfreguei no pau novamente. Enfiei com amor. Ela se movimentava para
trás pedindo profundidade. Agarrei seu cabelo curto cacheado cor de coca cola.
Comecei a socar rapidinho estreitamente. Com a voz meio rouca sussurrada pediu:
“enfia até as bolas”.

Eu não queria gozar sem vê-la ter outro orgasmo. Foi difícil mais tirei o pau pra
respirar. A coloquei novamente de costas nos travesseiros. Caí babando naquela
bucetinha rosa e gordinha. Suas mãos puxavam meus cabelos, para cima para baixo,
para os lados. Eu era um instrumento do seu prazer. Eu era um escravo por querer.
Enfiou os dedos com unhas pintadas de vermelho na xota. Depois me deu pra chupar.
Enfiou novamente para molhar e depois começou a brincar com o bico dos peitos. Eu
me lambuzava naquele algodão doce. Suas costas foi se arqueando lentamente.

Vi que ela ia gozar novamente então enfiei o pau latejante e quente. Fodi, fodi, fodi, a
fodi toda. Ela esfregava o clítoris. Eu não conseguia mais segurar. Goza pra mim, minha
putinha gostosa. Apertou o olhos fechados e gemeu tão alto quanto seu prazer. E eu
jorrei dentro dela como uma chuva de mentos num vulcão de coca cola.
I feel coke

o céu tinha a cor da tua pele


e eu sobrevoava toda a extensão das tuas costas
mergulhei numa cachoeira de coca cola
e entrei numa caverna de veludo rosa

um céu de algodão doce


desabava sobre um mar de diamante negro
senti a pressão das paredes me apertar
voei para fora, onde já não existia céu nem mar

upside down

o batom tinha a cor do seu sorriso vertical


e eu escalava o monte fuji sem pressa de chegar
a neve era sorvete da kibom
o gosto se confundia com o som do seu arfar

você era um vulcão de coca cola


e eu uma chuva de mentos
o universo todo se explodiu
e nós fomos um só nesse momento
Embrujo tardia

Caminhando por lembranças minha, acho que encontrei com você. Estática. Num
único frame. Sem rosto. Te conheci pelos pés. Pela silhueta gordinha. Renatinha, como
você deve estar agora? Nem lembra de mim. Ninguém lembra. As vezes dou graças a
deus por isso. Noutras, me sinto como a árvore que caiu na floresta mas que não tinha
ninguém para ouvir. Aprendi mais quando saí da escola do que quando tinha você aos
meus pés, me beijando a força enquanto eu furava seu braço com canetinha. Perdido
na ilusão da tv eu não te via. Eu não via ninguém. Onde é que eu estava que não te vi
ao meu lado? Onde eu sempre estive, perdido em mim mesmo. Nos desejos que
encontrei numa estrada de cabelos vermelhos. Seguindo um sol artificial enquanto a
lua real me oferecia sua melhor face. Neguei filé mignon para comer alface. Você é só
uma parte do que eu deixei de viver. Mas de nada me arrependo nem me lamento.
Tudo foi como tinha de ser. Agora que o feitiço se dissipou, eu me apaixono pela sua
lembrança. Não sinto culpa nem remorso, só esse amor de criança.
A amônia está no ar

Tudo borbulhava dentro de mim. Achei que dentro dela também. No começo senti
algo no ar mas sempre fui lerdo para essas coisas. Talvez fosse o cheiro que exalava
dela. Um clima sutil de soft porn saía junto daquele hi hi hi alto e estridente. Qualquer
besteira que eu falasse ao seu ouvido era seguido de um sorriso que amendoava seus
olhos junto com algo dentro de mim. Pediu licença para ir no banheiro. Eu levantei
para lhe dar passagem. Roçou seu corpo quente no meu sem necessidade. Sem sutiã,
roçou seus peitos em mim só de maldade. Ao voltar passou por trás da minha cadeira
roçando sua barriga propositalmente nas minhas costas. Suas mãos pararam sobre
meus ombros. Olhei pra cima. Seu olhos caíram sobre os meus como uma chuva de
verão. Sentou novamente ao meu lado. Encheu somente o seu copo. Eu pedi outra
cerveja. Pegou na minha mão e tentou estralar meus dedos em vão. Não sei porque
meus dedos nunca estralavam. Ficou brincando com a minha mão um bom tempo,
puxando meus dedos até quase arrancar. Depois pediu que eu estralasse os seus. Me
dizia coisas aleatórias sem parar. As vezes eu emitia alguma opinião mais aleatória
ainda só para concordar. Eu só pensava em calar aquela boca com a minha. Todos
saíram da mesa. Ficamos a sós. Era o momento perfeito. Tentei ser o mais gentil
possível. Peguei na sua mão que estava até quase o mesmo momento agarrada a
minha. A olhei nos olhos e avancei com a boca entreaberta. Ela simplesmente se
esquivou. Depois cometi o erro de pedir com todas as palavras um beijo. Com os olhos
arregalados ela fez sinal de não, apenas mexendo a cabeça. A música parou. Um
silencio constrangedor deixou o ar pesado como amônia. Aquilo me desconcertou.
Estou ficando louco? A cinco segundos atrás ela estava tão na minha e agora está
olhando para o nada que nem gato. Não sou um cara que fica insistindo. Acho que
quando a mina diz não, é não.

Mesmo desconcertado segurei minha onda. Enchi nossos copos, acendi um cigarro.
Nossos colegas voltavam para a mesa. Do nada ela pega na minha mão e tentar estalar
meus dedos novamente. Disse que nunca tinha comido no bob’s. Eu perguntei se ela
queria ir na sexta depois da aula. Ela disse que sim com os olhos de estrela mais lindos
que eu já tinha visto. Não é possível. Não posso estar caindo nessa de novo. Eu sei
como isso vai acabar. Apesar de tudo, vez em quando é bom se apaixonar.
Festival de Pipas II

O céu brilhava em led


É dia de festival
A praça está cheia
O tempo,
na moral

Tá tão calor, eu vou sair


Eu vou tomar um açaí

A blazer parou do meu lado


Era o pm que me bateu
Eu olhei nos seus olhos
Ele olhou nos olhos meus

Passou direto
Acho que não me reconheceu
Festival de Pipas

O céu brilhava em led. Linhas chilenas prendiam as estrelas. Noite de verão, calor. A
praça estava cheia, era dia de festival. Impossível ficar em casa. Vou sair, vou tomar
um açaí.

- Me vê um de cinco, por favor. Pra viagem.

- Completo? — pergunta a menina da barraquinha.

- Sem jujuba.

- Tá.

Enquanto espero, a blazer passa silenciosamente por entre a multidão. A ponta dos
fuzis pra fora da janela. O pm no banco do carona encara todos. Seu olhar chega até
mim. Sem pestanejar eu o reconheci. Era o mesmo pm que me deu um tapa na cara, só
por não estar com o RG. O encarei nos olhos. Se fosse para apanhar pelo menos dessa
vez não seria de cabeça baixa. A blazer parou. Senti a tensão aumentar, meu estômago
revirar.

- Moço, tá pronto. — a voz da menina me tira do transe.

A blazer segue seu rumo. Eu sigo o meu. Acho que o pm não me reconheceu. A luz cor
de hepatite ilumina as ruas. Vejo uma pipa avoada. Um bonde de bikes passa por mim.
Logo em seguida, um carro com a capota de trás aberta toca estrondosamente MC
Carol.
Cytotec

Eu andava em volta da mesa redonda. Dava voltas e voltas. A mãozinha de 7 anos


passava por entre as cadeiras. O pano de mesa era daqueles estampado de frutas.
Maços de cigarro, copos americanos. Os adultos jogavam pife. Bebiam e falavam
besteira. Eu achava que entendia o que eles diziam. Sempre me julguei alguém
consciente. Doce ilusão.

Na minha única consulta a psicologa, menti descarada e conscientemente. Na verdade,


eu só não queria falar com ninguém. Como um prédio velho, eu sou alguém que
implode. As palavras que eu não consigo falar são como as dinamites. No silêncio da
noite eu desmorono. E no dia seguinte, sou como um prédio que caiu e não tinha
ninguém perto para ouvir o barulho.

Sou o filho do meio. O filho desgraçado. Aquele que não tem a moral do mais velho e
nem o carisma do mais novo.

Mentira.

Em família pobre não tem isso não. Todos são desgraçados.

Na mesa redonda onde eu dava voltas, lembro da mãe dizer que tinha engravidado
mesmo tomando remédio. A vizinha diz que já abortou um filho. Minha mãe
experiente, falava em como fazer chá de maconha, onde comprar cytotec. Eu parei
minhas voltas e perguntei: “Mãe, a senhora tentou me abortar?” Embaralhando as
cartas e sem tirar o cigarro do canto da boca respondeu naturalmente: “Sim.”

Essa foi a primeira vez que implodi. Sai descompensado. Olhos vidrados no chão.
Quando eu ia passando pela porta que dava pra varanda, ela talvez percebendo minha
indignação gritou da mesa. “Deixa de besteira menino, eu tentei tirar seus irmão
também!”
Revelação

Era noite de calor. Um berro quebrou o silencio que só a novela das oito consegue
impor. Era o som de um coração se partindo. “Otávio, o que foi meu filho?” Perguntou
a mãe aflita. Otávio não conseguia falar. Era uma torrente de lágrimas e soluços.
Desolação. Sentado no chão do corredor que dava para a rua. Cabeça entre as pernas.
“Otávio, responde o que foi menino?” A mãe já estava entrando em desespero. “A
Cassia.” Respondeu meio enrolado. “O que tem a Cassia? Aconteceu alguma coisa com
ela?” a mãe já nervosa. “Ela terminou comigo.” Explodiu em lagrimas novamente
soltando outro berro do fundo do seus dezesseis anos. Naquele momento todas as
músicas de amor tocaram ao mesmo tempo. Eros interrompeu sua mira em mais um
pobre coitado ao ouvir o estrago que sua brincadeira causou.

Espatifou o celular no chão. “Calma, meu filho.” Disse a mãe paciente. Otávio levantou
e saiu pelo portão. A mãe tentou o segurar em vão. Correu, correu, correu como se
não houvesse amanhã. Na frente dos carros, motos, bikes, busão. Correu pelos
canteiros de obra. Era o fim do caminho. O fim da promessa de vida em seu coração.
“Otávio! Otávio! volta aqui Otávio!!” Ouvia-se a voz da progenitora gritando ao longe.
Como um maratonista, varou a rua e cruzou a esquina. A mãe já ligava o carro.

Viu a silhueta de alguém em pé no parapeito de um viaduto. Seu coração de mãe foi na


boca. Pisou fundo. Saiu do carro apressada. “Calma, meu filho, vamo conversar.”
Otávio olhava fixamente para baixo onde uma pequena torcida já se formava.
Levantou um pé para dar o passo mortal. No mesmo instante um bombeiro a paisana o
agarrou pelas costas se jogando no chão.

De manhã a mãe entrou no quarto do filho. Beijou-lhe a testa e entregou o celular.


Olhou seu próprio rosto inchado naquela tela trincada. Nunca um espelho foi tão fiel.
Como ele foi esse tempo todo. Como ela não tinha sido. “Você tem mensagens não
lidas.” Viu ao puxar para baixo a tela de notificação. Era ela. Um áudio de 12 segundos
dizia. “Eu fiquei sabendo da sua palhaçada ontem, Otávio. Faz o favor de nunca mais
falar comigo tá bom? ADEUS.” Ela o bloqueou em todas as redes sociais. Apagou todas
as conversas. Todas as fotos.
Uma semana depois se encontraram na fila para comprar pão. Ela com seu novo
namorado. Ele com seu celular quebrado. Na caixinha de som do padeiro tocava
Fagner — Revelação.
Sangue Vivo

“Desce mais uma aí Julin, que hoje eu tô com sorte.” Disse Seu Jaime para o dono do
Bargaço. Bargaço era um Bar & restaurante, mas que aos finais de semana também
servia como casa de show. Todo fim de mês o Bargaço promovia um bingo para a
comunidade, terminando sempre com um show do Dj Cleiton Rasta Chinela.
Começando pelos technobrega-funk atuais, passando pelos clássicos dos bailes e
finalizando, como um bom maranhense que era, com dub e reggae de raiz.

Embora não aparentasse, Seu Jaime tinha 89 anos. Faltando apenas um mês para fazer
90 e poder se aposentar. Dizia que sua longevidade se devia ao excesso de cachaça e
cigarros. E que um médico o aconselhou não parar de fumar e beber pois seu corpo
velho não resistiria a abstinência. Ria alto contando essa história para as cocotinhas
que sentavam no seu colo pedindo dinheiro. Naquele dia ganhou no bingo dois
prêmios. Uma caixinha de som holográfica das mais vagabundas e 300 reais em
dinheiro.

Já passava das cinco da manhã quando decidiu ir embora. Levantou e mal se


aguentava em pé. “Não vai se perder no caminho hein Seu Jaime” disse a cocotinha.
“Minha filha, mas se tem uma coisa que bebum não perde é o rumo de casa.”
Respondeu bem humorado e saiu cambaleando agarrado a caixinha holográfica.
Enquanto isso os olhares de Sombra fina e Quatro Zói o seguiam de longe. O paredão
de som do Dj Rasta tocava Zion’s Blood — The Upsetters.

Sombra Fina ganhou esse apelido porque era muito vaidoso e sempre exagerava ao
fazer a sobrancelha, a deixando fina demais. E o Quatro Zói era só porque usava um
óculos fundo de garrafa mesmo. Moravam na mesma rua do Seu Jaime. Tinha o risco
do velho reconhecê-los mas mesmo assim isso não os impediu de tentar roubar o
quase aposentado naquela noite. Seu Jaime abriu com facilidade o cadeado que
trancava a portão de casa. Entrou e foi direto para o quarto. Colocou a caixinha no
criado mudo e despencou na cama. Olhou a janela aberta. Ainda pensou em fechar
mas estava entrando uma brisa tão boa que antes mesmo de decidir já tinha dormido.
Dormiu olhando as estrelas sobre o céu vermelho de Caxias que pulsava a todo vapor.
Não demorou muito para a dupla entrar gatunamente por essa mesma janela.
“Procura a carteira, procura a carteira.” Sombra Fina disse cochichando. Quatro Zói
estava abrindo a gaveta do criado mudo quando viu a carteira no bolso da camisa de
botão. Vagarosamente foi puxando a carteira do velho que acordou no susto. “O que?
Que porra é essa?”. E antes que pudesse gritar Sombra Fina lambeu a jugular do velho
com o canivete. Levantou o canivete enquanto observava calmamente o som do
estrebucho que o velho fazia engasgando com o próprio sangue. Mesmo no escuro
podia se ver os olhos arregalados do velho se fechando enquanto focava o rosto do
seu assassino.

“Caralho, Sombra. Pra que tu fez isso?” Disse Quatro Zói chocado com a frieza do
outro. “Tu é ladrão ou não, caralho? Reagiu morre. E ele ia reconhecer a gente de
qualquer jeito também.” Sombra Fina pegou a carteira do velho que continuava no
bolso. Passou a mão no peito do velho para ver se tinha algum cordão de ouro e notou
que o velho usava outro tipo de cordão. Abriu a camisa do defunto e viu um colar de
bijus vermelhas passando pelo peito. “Que porra é essa debaixo da camisa dele?”
perguntou para Quatro Zói. “Isso ai é uma guia. Coisa de macumbeiro. Igual naquele
filme do Zé Pequeno.” Disse isso já com o cu trancado de medo. “Caralho Sombra, não
era pra ter matado o véio.” Disse quatro Zóio se tremendo de medo. “Tá com medo de
macumba, porra? Essas merda nem existe.” Sombra Fina nem tinha acabado a frase
direito e a caixinha holográfica disparou a tocar no volume máximo.”SEU AMOR ME
PEGOU/CE BATEU TÃO FORTE COM O TEU AMOR.” Ao mesmo tempo que na parte de
cima da caixinha aparecia o holograma do Pablo Vittar dançando e cantando.
“NOCAUTEOU ME TONTEOU”. Antes que o Quatro Zói pudesse se recuperar do susto,
Sombra já tinha vazado pela janela. Olhou procurando o “amigo” mas não tinha nem
sombra do mesmo. Também saiu pela janela. A rua estava deserta. A espinha gelada
avisa que alguém o observa. Um gato preto em cima do muro. A luz amarela do poste
apaga. Acende novamente. Saiu saindo. Entrou no primeiro beco que encontrou.

“Má. Má. Má, acorda.” “Que foi homi?” disse puxando o lençol. “Tem 3 dias que eu
não vejo Seu Jaime. Acho que ele tá morto dentro de casa.” O vizinho disse
sussurrando para a esposa. “Endoidou é? Ele deve ter viajado pra casa dos filhos.” A
mulher disse isso e desligou o ventilador em cima da cadeira que ficava ao pé da cama.
“Doido nada. Fui comprar jornal e quando voltei vi um enxame de mosca saindo por
cima do muro da varanda.” O vizinho disse sussurrando e ligou o ventilador para
abafar a voz. “Cê tá é bebendo demais.” A mulher desligou o ventilador novamente e
se cobriu com o lençol. “Não tá vendo os urubu rondando aqui desde de ontem?” O
vizinho ligou o ventilador mais uma vez para poder falar. A mulher ficou pensativa.

Em frente ao portão a mulher chamava Seu Jaime em vão. “Dá licença.” pediu o
vizinho. Ploft! Com uma porrada só da marreta o cadeado destrancou. A porta da
cozinha estava trancada. Os dois deram a volta na casa e olharam pela janela do
quarto. Tava lá o morto. Podre. Com o pescoço rasgado e numa cama de sangue e
moscas. “EU NÃO DISSE! EU NÃO DISSE! Eu bebo mas não to ficando louco.” Gritou o
vizinho. “Ah meu Deus, Seu Jaime.. Não… amor liga pra policia.”

Antes da policia chegar, a rua toda já estava em frente a casa do falecido. Todos
queriam ver ao vivo o que se via diariamente pela tv. Alguns entravam até rindo mas
depois de ver o cadáver ao vivasso e sentir cheiro de morte tão próxima do cotidiano,
muitos saiam com o estomago embrulhado. Alguns vomitavam. As mulheres saiam as
lágrimas. Para não dar bandeira, Sombra Fina foi também ver o morto. Ao entrar no
quarto ficou paralisado ao ver que o morto estava de olhos abertos e olhando
diretamente para ele. Parece que o esperava. Apesar da podridão do corpo, o sangue
ainda estava fresco. Vermelho, vivo, intenso. Olhou para baixo e viu que o sangue
tinha feito um caminho até seus pés manchando o rider falso que tinha acabado de
comprar no feirão das malhas. Do nada um som alto acorda Sombra Fina do transe.
“SEU AMOR ME PEGOU/CE BATEU TÃO FORTE COM O TEU AMOR.” Novamente o
holograma do Pablo Vittar cantava e rebolava sem ninguém ter ligado a caixinha de
som. “NOCAUTEOU, ME TONTEOU”. Sombra Fina saiu varado dali, deixando pegadas
de sangue pelo chão da cozinha.

Pegou a poti azul e foi pedalando insanamente até o barraco do Quatro Zói que ficava
numa favelinha próxima. “Maluco, eu to dizendo. O velho tava me olhando. Tava me
esperando. É sério porra!”. “Eu acredito, caray, eu acredito.” Quatro Zói acendeu um
cigarro tremendo. “Mano, eu sonhei que o velho me perseguia todo vestido de
vermelho segurando uma espada. Montado numa pantera preta enorme.” Quatro Zói
agora acendeu um baseado e continuou. “Eu olhei pra trás um segundo e quando olhei
pra frente de novo, cai num abismo. Acordei na hora que ia bater de cara no chão.”
Sombra Fina deu um último tapa na pantera e disse “Isso é coisa do diabo. Eu já sei
onde eu vou.” Sombra Fina levantou a poti azul do chão. Montou na magrela e saiu
desnorteado pela favela.

Quatro Zói subiu na CG 150 Titã verde e saiu para o outro lado. Foi até o posto de
gasolina. Colocou cinco conto de combustível. Ia voltando pra casa cortando os ônibus,
carros, bicicletas e pedestres que andam no meio da rua, onde não tem calçada. O
cocô de cavalo já tinha virado pura neurose na sua mente. Olhou para trás e viu de
relance Seu Jaime em cima da pantera. Não quis olhar novamente para confirmar e
acelerou o máximo que pode a moto, deixando um rastro de poeira por onde passava.
Era verão. O asfalto sorvete já dava suas caras deixando crateras no meio da rua e nos
cofres públicos. Num desses pequenos abismos que a chuva abria no meio da rua, o
pneu da moto bateu. Foi menos de um segundo. Os óculos fundo de garrafa foram
parar a mais de três postes de distância. A moto deu perda total. Quatro Zói foi se
quebrando todo no asfalto quente e só parou quando bateu em um muro. O sangue
que esguichou no muro branco deu o tom ao que ficou parecendo um quadro de mal
gosto do Picasso.

“Aaaaamém.” Disse um holograma do David Miranda em uma pequena Deus e Amor


que ficava em uma das muitas ruas que seguem a beirada do rio Calombé. Rio que
agora é um valão a céu aberto como muitos outros que cortam a cidade. Entre os
muitos fiéis que saiam do templo estava Sombra Fina. Com uma bíblia gigante debaixo
do braço saía sorridente dando paz do senhor a todos os irmãos. O coração aliviado
por ter sido perdoado de todos os seus pecados. Começava uma nova vida.
Despreocupadamente foi seguindo a beira rio. Para chegar em casa precisava
atravessar o rio por uma pequena ponte estreita que só passava uma pessoa por vez, e
que não tinha nada nos lados para segurar. Quando estava para atravessar a pinguela,
notou um gato preto parado no meio caminho. Os olhos verdes com apenas uma linha
verticalizada o encarava sem medo nem receio. Sentiu aquele cagaço mas falou em voz
alta. “Isso é coisa do demonho. Mas meu deus de ministério, meu deus de poder é
maior.” De olhos fechados e cantando foi em direção ao gato. ”COMO ZAQUEU/EU
QUERO SUBIR/O MAIS ALTO QUE EU PUDÉÉÉÉR..” O gato avançou passando no meio
das suas pernas, o fazendo perder o equilíbrio e cair de cara no valão. Por um estranho
motivo não conseguia levantar o rosto. Era como se alguém ou alguma coisa estivesse
mantendo sua cabeça submersa em meio metro de rio. O gato observava calmamente
ele se afogar naquele monte de esgoto e resíduos industriais. O gato miou e olhou
para cima. As estrelas brilhavam sobre o céu vermelho de Caxias, que pulsava a todo
vapor. Vermelho, vivo, intenso.
O.z

Ouvia-se o som dos tambores ao longe. A lua refletia no espelho d’água do rio.
Despachava-se barquinhos com oferendas para Iemanjá. Rosas brancas brincavam de
corrida ao longo do leito. As vermelhas refletiam como brilhantina o luar cheio daquela
noite. Era noite de festa. Muita comida e bebida. Como muitos, O.z também estava
sentado em volta da fogueira observando a cerimonia. Batia palma e sentia cada
batida dos atabaques pulsando dentro do seu coração. Estava hipnotizado pela dança
da pomba gira em volta da fogueira. Levou um susto quando de repente ela abriu os
olhos e olhou diretamente nos seus. Veio dançando em sua direção. Sensualmente
pegou em sua mão e o levantou, trazendo seu corpo para junto do dela. O suor colava
seus corpos semi nus. Dançando, dançando, dançando. Sentia um fogo arder dentro de
si. Não conseguia controlar as pernas, braços, boca. Ele, ela, a batida todos eram um
só. Aos poucos foi perdendo a visão, se deixando levar pela batida e pelo ritmo que
ficava cada vez mais rápido. sua alma explodiu num grito primal para o céu estrelado.

O.z acordara do transe suando. Tirou o capacete de imersão satisfeito. A


reconstituição que o programa de realidade virtual fez de sua vida passada foi perfeita.
Os orixás abençoaram o algorítimo que ele desenvolvera no terreiro de Pai Waldo.
Verde

Minha mãe e meu pai trabalhavam como boa parte dos pais, do amanhecer até a
noite. Deixando eu e meu irmão menor na escolinha da tia Mônica. Que na verdade
era só uma casa onde os pais deixavam as crianças que não conseguiam vaga na
creche. Isso antes da pré-escola. Não consigo detalhar bem minha idade mas sei que
era algo entre seis e sete porque por algum motivo, eu entrei um ano atrasado na
primeira série. Meu irmão menor sempre foi atentado e nessa época sofreu um
acidente. Entrou na frente de uma moto, num descuido da mãe ao atravessar a rua.
Resultado do susto: deslocou a perna e braço esquerdo. Ficou enfaixado e com a perna
engessada algum tempo, parecia um robozinho. Nesse tempo em que eu fiquei indo
para tia Mônica sozinho foi a época em que aconteceu a primeira grande revolução na
minha vida. Eu nunca vou esquecer minha surpresa ao ler aquela primeira palavra. Eu
sentado numa mesinha de plástico branca. Caderno de capa dura verde. Juntei ‘D’ com
‘A’, da. ‘D’ com ‘O’, do. E voilá. temos ai um cubo de seis lados pintados com bolinhas.
Depois disso eu nunca mais parei de ler. Lia tudo. Mas nessa época minha leitura
preferida eram os horários políticos. Aquelas letras miúdas que passavam rapidamente
deixavam minha mãe impressionada. Ela até usava isso para tentar incentivar meu
irmão mais velho a estudar. “Você tem que ser igual seu irmão.” E por algum motivo
que ninguém faz ideia, ele pegou aversão a escola e também a minha pessoa. Acho
que usei durante muito tempo essa tática para me destacar do meu irmão mas novo.
Por ser o caçula sempre teve maior parte da atenção. Ele era muito espontâneo.
Branquinho, cabelo pretinho escorrido, olhão grande assustado, sorria para todo
mundo. E eu era preto, cabelo ruim, cara de cínico com dentes grandes e tortos. Eu
tinha de ter alguma qualidade. “Esse menino é muito inteligente” minha mãe sempre
fez questão de destacar pra todo mundo. Recebi tudo de bom e de ruim que essa
máscara poderia trazer para minha vida.

A tia Mônica era grande e alta. Ossos largos. Agora lembrando, ela tem o biotipo da
mulher com quem vivo hoje. Sempre achei que me interessaria por mulheres parecidas
com a minha mãe, só que não. Seus olhos eram tão meigos, cabelo preto, cacheado,
solto. Eu sempre era o último a ser buscado pela mãe. Ainda consigo lembrar do cheiro
da roupa dela. Abraçados, assistindo tv as seis da tarde no sofá. Ela esperando alguém
ir me buscar enquanto eu rezava, esperando alguém me esquecer.
Cigarros

Já nem lembrava mais porque deixara de fumar. A bronquite talvez. A cada crise era
como ser abraçado pela morte. Torturado talvez. Essa morte que não me não levava
mas que também não me deixava viver em paz. Apertava sordidamente meus pulmões
como dois peitos grandes. O alivio vinha depois de cronometrados dez minutos de
nebulização. Quatro gotas de birotec e quinze ml’s de soro fisiológico. Como era bom
sentir o oxigênio encher a caixa torácica até o talo. Mas era só o respiração se tornar
automatica novamente que o vazio voltava. Eu olho de canto de olho o maço ainda
cheio. A voz dela brigando comigo ainda ecoava. “Fuma mais, fuma mais, vai lá. Quer
que eu acendo?”. Mas eu estava em paz comigo mesmo. Eu sei de tudo na ferida viva
que tem nos meu pulmão. não me condeno. Jamais. Acendo um ainda com o a mão
levemente trêmula pelos efeitos do remédio. O coração palpitando. As pernas bambas.
Sinto o cheiro do fósforo antes de sentir a fumaça encher meus pulmões. Esses
mesmos que serão abraçados pela morte mais uma vez daqui a algumas horas. Entre
dois tragos é como se eu descobrisse o mistério da vida. O silêncio da noite. O vento
traz o miado de um gato no cio e algumas lembranças que eu gostaria de conseguir
esquecer mas que não esqueço por medo de voltar a cometer. Tem coisas que eu
deixo como imagem de fundo do meu desktop mental. Para não me dar o luxo de
esquecer. Para não sentir o desprazer de me arrepender novamente com a mesma
idiotice. Como Clarice, eu me entendo mas não me perdoo. Porque o tempo não volta.
O tempo não perdoa. Pode vir dona morte, eu sei do seu fetiche nos meu pulmão.
Pode aperta-los, chupa-los, possui-los, estrupa-los. Nem precisa conversar comigo
depois. Me deixe apenas fumar em paz. De qualquer forma, um dia serei pra sempre
seu mesmo.
Amarelo Rubro

Rogério debulhava rapidamente sacos de lixo procurando garrafas pet sob o

forte sol de meio dia no aterro central da cidade do lixo. Cidade que ficou conhecida
também como capital mundial do lixo. Com aproximadamente 80 mil habitantes foi
decretada distrito oficial depois de varias tentativas do governo de fechar o maior
aterro sanitário da ame rica latina. Por mais que se criassem medidas publicas para
tirar os catadores daquela situação eles sempre voltavam para a liberdade que a total
miséria e falta de esperança nos dá quando chegamos no fundo do poço. Para essas
pessoas comer o lixo dos ricos era melhor do que a ração que a maioria da população
comia fora dali. Com a milicia dominando tudo e sendo uma espécie de subgoverno na
cidade que se formou em volta do lixão, o estado só teve o trabalho de esquecer deles
e mandar construir os muros para impedir que as pessoas daquela região saíssem de lá
e se misturassem com a população de bem.

Rogerin como era conhecido, não conseguia parar de lembrar do sonho que teve na
noite anterior. Nesse sonho grandes sombras com coroas de ouro o perseguia pelas
ruas do lixão. Quanto mais ele corria mais parecia que não saia do lugar e mais lento
parecia correr. Ao olhar para trás caiu num poço com as paredes feitas de pé de feijão
fradinho no qual ele tentava se agarrar mais não conseguia. Pressentindo o baque no
chão fechou os olhos e quando os abriu estava deitado num grande campo de flores
amarelas enquanto várias mulheres gravidas dançavam nuas a sua volta. Era uma mais
linda que outra, queria foder todas elas! De repente as sombras desceram do céu,
armadas com fuzis. Descarregaram tudo nas mulheres transformando o lugar todo
num grande campo com flores de sangue e fetos dilacerados. Quando uma das balas
acertou Rogerin na cabeça ele acordou no susto suando frio que nem um porco. O
ventilador que ele chamava de robocop porque foi montado com peças de outros
ventiladores e fazia um barulhão e estava parado. O sol entrava pelas frestas do
barraco de madeira em que ele morava com a mulher e mais 3 filhos.

Quase na hora do almoço Rogerin rasgava os sacos de lixo com a destreza de quem faz
isso desde de que era moleque. Só de olhar para o saco já sabia que tipo de lixo era.
Hospitalar, de casa, de empresa, de comercio. Rasgou um saco plástico pretocom uma
especie de mini foice improvisada e viu que tinha uma mochila preta dentro. Já ficou
interessado pois era couro e podia valer uma grana. Como não tinha tempo de pensar
muito jogou-a dentro do saco grande que levava nas costas aonde depositava o
material da coleta e que depois iria vender. Foi almoçar numa pequena tenda feita de
lona e sacos plásticos, feita apenas para não comer debaixo do sol quente. Abriu o
potinho de plástico que continha um ovo frito e uma especie de arroz cozido meio
cinza e sem gosto que era um derivado da ração que o governo dava mas que ali era
revendida pelos milicianos. Enquanto comia e disputava o próprio almoço com as
moscas tentou ler o adesivo quase apagado que vinha no pote da tupperware. Com
muita dificuldade conseguiu ler:

Hermeticamente Fechado
Não sabia o que aquilo queria dizer mas lembrou novamente do sonho bizarro que
teve e sentiu um desconforto no estomago, jogou o pote com resto da ração de lado
deu um gole na água quente da garrafa pet, acendeu um cigarro. Trago vai trago vem,
puxou o saco que continha a mochila de couro, nem tinha reparado o quanto estava
pesada. Ao abrir a mochila o coração parou por um segundo. A mochila estava
recheada de dinheiro! Muitos maços presos com elásticos, ele nunca tinha visto tanto
dinheiro na vida! Poderia comprar a saída dele e da família daquela cidade miserável.
Lá fora ele podia até pagar escola para os meninos! E quem sabe até aprender andar
de moto! Pois nem de bicicleta sabia andar. Esse sempre foi seu maior sonho. Desde
pequeno babava vendo os milicianos fazendo a ronda diária imaginando como era
magico se equilibrar naquela duas rodas sem cair.

Encontrou na mochila também um HD dentro de uma case de couro, um pequeno


cubo e um passaporte.vermelho. Ao passar o dedo no cubo um scanner reconheceu
que aquele não era seu dono. Uma voz eletrônica de mulher falou algo em uma língua
que ele não conhecia enquanto surgia do cubo um mapa 3D com um ponto vermelho
piscando. A imagem durou alguns segundos e se fechou novamente no cubo. Rogerin
não entedia que queria dizer os caracteres da capa do passaporte mas conseguiu ler o
que estava escrito embaixo daquelas letrinhas estranhas:

pоссийская федерация

Russian Federation

e também:

пасспорт

Passport

Ao abrir viu um a foto de um rapaz muito jovem loiro que pra ele tinha cara de
inteligente pois usava um óculos grande. Sentiu um frio na barriga e pensou em jogar o
documento em qualquer lugar mas levou um susto. Do nada Sicontrole, um catador
especializado em catar apenas lixo de informática e eletrônicos pediu um cigarro.

- Qual é Rogerin, arranja um cigarro desse ai, ainda nem comi nada hoje.

- huumm sei — murmurou Rogerin enquanto lhe estendia um cigarro.

- Que bagulho é esse ai no chão? — apontou para o cubo holográfico.

- Sei lá achei por ai, tu não mexe com coisa de eletrônica? pode levar isso ai.

- Valeu, vou o que dá para aproveitar.

Sicontrole saiu fumando e jogando o cubo para o alto enquanto Rogerin se apressava
em ir para casa que era longe e ele teria de ir a pé. Enquanto isso dois homens de
cabelos loiro, terno preto e óculos escuros dentro de uma BMW preta olhavam para a
entrada da cidade conversando em russo. O que estava no banco do carona segurava
um tablet com um mapa na tela e disse para o motorista.

-É dai de dentro que está vindo o sinal.

- Vamos entrar pegar o HD e sair antes que o governo perceba que estivemos aqui.

- ok.

O carro saiu em direção a barreira de segurança fortemente armada com guardas nas
guaritas acima dos grandes muros e nos portões junto dos porteiros que verificavam
os visitantes.

A casa do Sicontrole fica numa rua de terra como todas as ruas da cidade e no mesmo
bairro que o aterro central. Seu barraco de madeira era um comodo só grande e
coberto com uma lona que servia de telhado. Dormia entre os fios, ratos e incontáveis
peças de informática que não tinha utilidade alguma, apenas um radiosinho que
tocava os clássicos dos bailes nos anos 80’s o tempo todo. Ele era um acumulador
compulsivo e tudo que via na rua de eletrônico trazia para casa. Tinha pilhas de Hds
espalhadas, usava as placas-mãe como papel de parede colando uma ao lado da outra.
No rádio tocava Red Flag — Russian Radio enquanto ele sentado num colchão velho
tentava abrir o cubo que piscava uma luz vermelha quando ouviu baterem na porta.
Não queria atender, tinha o costume de deixar quem fosse chamando eternamente
enquanto fazia silêncio para que o visitante achasse que não tinha ninguém em casa e
fosse embora. A segunda batida já foi um estouro. Era milicianos armados de fuzis
acompanhando os russos.

– É aquilo ali que estamos procurando — disse o russo em português com um sotaque
carregadíssimo para um dos milicianos — está faltando mais coisas — o outro russo
completou.

Apontando uma pistola na cara do catador um miliciano pergunta:

- Onde você achou essa porra?

- Por ai no lixo.

- Por ai aonde? Fala a verdade se não vai morrer, caralho!

- Num sei, não lembro — ploft! Sentiu logo a coronhada na cara e o gosto de ferrugem
na boca.

- FALA PORRA!!

- Foi o Rogerin que me deu.

- Quem é esse ai?

- É outro catador — disse com a mão na boca sangrando.

- Vamo lá levanta, leva nós até onde ele te deu esse troço.

Chegando na cabaninha do almoço com os milicia e os russos.


- Era aqui que eu vi ele mais cedo.

- Filho da puta tá de caô com a gente?! — disse o miliciano apontando a arma na


cabeça dele

- Porra, eu to falando a verdade, o cara foi embora, merda!

- Você viu se ele levava alguma coisa? — Perguntou o russo.

- Não lembro, não lembro porra, eu só queria um cigarro.

- Você sabe onde ele mora?

- Mais ou menos

- Vai vai entra no carro — Finalizou o milicia.

Entraram no Jipe enquanto os russos entravam na BMW.

Andando apressadamente pela estrada de terra Rogerin com a mochila nas costas via a
multidão de barracos de madeira ao longo da estrada sem fim. Pensou na vida
miserável que todos viviam igual ele e apressou o passo.

Ouviu barulho de carro vindo nas suas costas e pressentindo a abordagem foi se
aproximando das casinhas. O jipe da milicia parou perto dele.

- Para, para ai maluco!

- CORRE ROGERIN CORRE PORRAAAA!! — gritou Sicontrole do jipe!!

Entrou no primeiro beco que viu ou sem ver mesmo. Enquanto dobrava as vielas do
complexo de becos ouvia tiros raspando no seu ouvido. Pensou porque não devolvia a
mochila e pronto acabava com o assunto, mas já estava dominado pela adrenalina. O
medo e o instinto de sobrevivência controlava suas pernas.

Na beirada do grande rio de chorume que cortava a cidade. Seguiu a beira rio e
estranhando o cessar dos tiros olhou para trás. Congelou ao ver os russos. O que ele
viu na verdade foram as sombras com coroas de ouro que o perseguiram no sonho.
Correu mais do que pode subindo uma passarela alta que servia de ponte para
atravessar o rio. Ao dobrar a primeira parte da passarela viu uma mulher bem no meio
do caminho, agachada segurando nos ferros de proteção. Pensou consigo: — foda-se!!
nem conheço essa mulher vou passar direto e fugir pelo outro lado — Mas ao chegar
perto da mulher algo o chocou demais, não podia ser real. Seu pesadelo estava
acontecendo. A mulher estava grávida!

- Moço, por favor me ajuda — acho que a bolsa estourou. Socorro! — Disse a mulher
chorando.

- ai caralho, ai caralho, ai caralho!!! porra!!

Olhou e viu os russos se aproximando com pistolas na mão. O outro lado estava livre
mas ele não podia deixar a mulher ali. E se ela morresse igual no sonho? e se ele
morresse igual no sonho?

- Ah foda-se!!

- Vai levanta, levanta rápido! — Disse Rogerinho passando o braço da mulher no seu
pescoço.

- Não consigo, dói demais! A bolsa estourou!

Foram caminhando lentamente para a saída da passarela quando viu vindo os


milicianos fechando a saída se aproximando uns montados em motos, outros a pé e
armados com fuzis. Olhou para trás viu e os russos andando lentamente apontando
suas pistolas. Olhou para o céu sem nuvens, apenas os urubus observavam tudo como
sempre. O sol escaldante fazia o chorume do rio evaporar turvando a visão como uma
miragem. Tudo parecia um sonho. Colocou a mulher no chão tirou a mochila das
costas e a levantou para o alto.

- É isso que cês querem?? — Todos pararam para olhar.


Rogerin com o braço para fora da passarela soltou a mochila para cair no rio de
chorume. Os russos esbugalharam seus olhos azuis que se escondiam atrás dos óculos
escuros. Ouviu-se o som de helicóptero se aproximando.

Um tiroteio entre o helicóptero das forças armadas e os milicianos se formou


enquanto os russos saíram correndo pelo outro lado. Rogerin com a grávida no colo
seguiu para a mesma saída dos russos. Entrou nas vielas e becos gritando por ajuda.
Aos poucos as pessoas foram saindo para ajudar.

Ouve-se o choro de bebê. Algumas pessoas se aglomeram na sala da Irmã Lucia a


parteira do bairro. Dando o bebê para Rogerin segurar disse:

- Parabéns, é uma menina.

- Mas eu não.. eu não o sou pai..

Antes de completar a frase seus olhos encheram de lágrimas, lembrou do nascimento


dos seus filhos. Pensou em toda a dificuldade e miséria gratuita que aquela criança
enfrentará. Sentiu um aperto no coração ao lembrar da sua infância, dos seus sonhos
mortos que reviveram por algumas horas naquele dia. Mas ao ver o sorriso daquele ser
inocente, sentiu uma onda inexplicável de alegria encher sua alma. Era como a luz do
sol preenchendo a escuridão da noite ao amanhecer.