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ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO

AS ABORDAGENS CLÁSSICAS

A localização agrícola: o modelo de Von Thünen

Von Thünen concebeu um espaço-modelo, o Estado Isolado, cujas


características, baseadas em suposições irreais e bastante rígidas, eram as
seguintes:

• Uma superfície isolada, com absoluta uniformidade de condições


naturais e sócio-culturais da população, o que resulta na invariabilidade
dos custos de produção;
• A existência de uma cidade no centro do Estado, que funciona como
único mercado consumidor da produção agrícola e fornecedor de bens
aos agricultores;
• A existência de um só tipo de transporte da produção agrícola para o
mercado central e de um padrão uniforme de caminhos e estradas, pelo
que os custos de transporte são exactamente proporcionais à distância
percorrida;
• Os produtores procuram maximizar a renda com ajustamento automático
da produção às necessidades do mercado, de forma que este se encontre
em equilíbrio.

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No Estado Isolado, a renda da terra depende da localização da área de
produção em relação ao mercado de consumo e é dada pela equação
seguinte:

L = Pr( p − c ) − Pr. t. d
onde:
L - renda locativa por unidade de área
Pr - produtividade agrícola por unidade de área
p - preço de mercado por unidade de medida da produção
c - custo de produção de uma unidade de medida
t - preço do transporte por unidade de medida e por unidade de distância
d - distância a ser percorrida até ao mercado de consumo

Valores de p, c, t, Pr e d para os produtos A, B e C


Produtos p c t Pr d
($/ton) ($/ton) ($/ton.km) (ton/ha) (km)
A 50 25 0.83 6 30
B 110 50 1.00 2 60
C 32 20 0.12 5 100

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Rendas dos produtos A, B e C Padrões de uso do solo para os
produtos A, B e C
160

120 A
140

120

80 100

B 80

60

40

40
C
20

0
A1 A2 B1 B2 C1
A1 A2 B1 B2
10 30 50 70 90 100 80 60 40 20 A 20 40 60 80 100

• O produto A possibilita renda positiva para distâncias inferiores a 30 km


do mercado, embora seja superior à renda de B apenas até 10 km de
distância.
• Até à distância de 10 km do mercado, no ponto A1, as culturas A, B e C
oferecem rendas locativas positivas e o agricultor teria de decidir com qual
das três culturas deveria trabalhar a fim de maximizar a sua renda. É
imediato que para o agricultor bem informado, a escolha seria a cultura A.
• O mesmo raciocínio pode ser seguido na escolha das outras culturas. A
cultura B apresenta renda positiva até aos 60 km de distância do mercado,
embora apenas seja mais rentável que as culturas A e C para distâncias
entre os 10 e os 43 km, a partir da qual é preferível a cultura C.

Admitindo as características do Estado Isolado, nomeadamente a isotropia,


e o princípio de que o agricultor pretende maximizar a renda, as distâncias
10, 43 e 100 km, definem os raios de três círculos concêntricos e centrados
no mercado único de consumo.

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Von Thünen foi mais longe e sugeriu a utilização concreta que deveria
prevalecer em cada um dos anéis, distinguindo duas situações diversas: (i)
em condições de perfeita isotropia (o Estado Isolado ideal) e (ii) em
condições de alguma heterogeneidade devida ao abrandamento da rigidez
do modelo, designadamente através da introdução de um centro urbano
menor que o mercado central e de um rio navegável.

Pequena
cidade

6 5 4 32 1

1º anel - horticultura e criação de gado leiteiro;


2º anel - silvicultura, com produção de madeiras;
3º anel - rotação de culturas;
4º anel - rotação de culturas com pastagens e pousios curtos;
5º anel - sistema de afolhamento com pastagens e pousios dominantes;
6º anel - criação extensiva de gado, com outras produções para
auto-consumo.

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A localização industrial: o modelo de Weber

Alfred Weber (1909), no seu modelo de localização industrial, procurou


demonstrar que, supondo a existência de custos uniformes de produção
sobre um dado espaço, as indústrias teriam tendência a localizar-se no
ponto em que os custos totais de transporte seriam mínimos.

Os custos de transporte seriam uma função de dois factores: o peso dos


materiais de abastecimento e dos produtos finais e a distância a que todos
eles teriam de ser transportados, o que permite estabelecer um índice de
custo (t/km). O problema consiste então em encontrar o local onde o índice
t/km é mínimo.

Weber classificou os materiais em dois tipos:


- ubíquos ou não localizados que, por definição, se encontram em todo o
lado, e
- os localizados, que estão disponíveis em locais determinados.

Os primeiros não exercem qualquer força locativa, apenas reforçando a


atracção exercida pelos mercados de consumo; os últimos encerram em si
importantes forças locativas.

Para além desta classificação, Weber dividiu ainda os materiais em duas


classes, conforme a sua influência locativa:
- os materiais que entram com a totalidade do seu peso na constituição do
produto, e
- os que sofrem uma perda do peso original no processo industrial.

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A localização da produção industrial surge como uma função dos custos de
transporte relativos à deslocação de vários materiais localizados e dos
respectivos produtos finais, podendo ocorrer em três locais possíveis:
- junto aos recursos
- junto ao mercado consumidor
- ou em qualquer ponto intermédio.

Considerando o exemplo simples de uma indústria que utiliza apenas uma


matéria-prima e que vende o seu produto final num único mercado, pode
concluir-se de imediato que a melhor localização seria junto da fonte de
abastecimento no caso da matéria-prima não entrar com todo o seu peso no
produto e junto ao mercado no caso contrário.

O triângulo locativo de Weber


Z

M2

Y M1
X

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A localização dos serviços: o modelo de Christaller

Walter Christaller procurou na sua Teoria dos Lugares Centrais explicar a


localização dos serviços e instituições urbanas a partir do conceito de
centralização como princípio de ordem.

Lugar central é o centro urbano (uma cidade, por exemplo) de uma região,
à qual fornece bens e serviços centrais. Os lugares mais importantes, isto é,
de ordem mais elevada prestam mais e mais variados serviços que os
lugares de ordem inferior.
À área servida por um lugar central chama-se área complementar.
Estas áreas são tanto mais extensas quanto mais elevada for a ordem do
lugar central respectivo.

Para Christaller a centralidade de um lugar é dada pelo grau de satisfação


das necessidades dos residentes, ou, por outras palavras, pela razão entre os
serviços que o lugar presta e os serviços necessários aos residentes.

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O modelo assenta num certo número de pressupostos e hipóteses:

• A população distribui-se no espaço de forma homogénea, sendo esse


espaço isotrópico; em consequência, a ocupação humana processar-se-
ia segundo um padrão triangular equilátero que garante a existência de
distâncias iguais entre os compradores mais próximos;

• A oferta localiza-se espacialmente num sistema de pontos: os lugares


centrais;

• A procura dos bens e serviços nesses lugares é assegurada pela sua


própria população e pela da sua região complementar;

• Os bens e serviços são de ordens de importância variáveis, de acordo


com a frequência com que são necessários; em princípio, os mais
raramente procurados são os de ordem mais elevada;

• A ordem dos bens e serviços oferecidos num centro está associada à


própria ordem de importância (ou centralidade) do centro;

• Um centro desempenhando funções de ordem superior desempenha


também as de ordem inferior.

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A hierarquia urbana segundo Christaller

D
B C

OB = 4km - centro elementar

BC ≈ 7km
- centro de ordem
AD ≈ 12km imediatamente superior

Os lugares centrais e respectivas áreas de influência segundo


Christaller

Lugares centrais Limites das respectivas


áreas de influência
centro E

centro D

centro C

centro B
centro A

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Estruturas espaciais urbanas

Uma observação atenta das cidades revela a existência de áreas claramente


diferenciadas e repetições no seu arranjo geográfico, reflectindo
determinados factores como o valor do solo, a acessibilidade, as limitações
fisiográficas e a própria história do crescimento do aglomerado. Esta
realidade levou os estudiosos das cidades a estabelecer generalizações
sobre a disposição das diversas utilizações do solo.

Teoria das zonas concêntricas - Burguess (1925)

O desenvolvimento de uma cidade se processa a partir da sua área central


em direcção à periferia, segundo anéis concêntricos correspondentes a
diferentes formas de utilização do solo

Burguess apoiou-se nos trabalhos que realizou sobre Chicago para


estabelecer cinco zonas concêntricas:

I. A zona central onde se localizam os principais estabelecimentos


comerciais e de serviços, os quais necessitam de uma localização mais
central.
II. O anel seguinte é designado por zona de transição, onde as antigas
moradias foram convertidas em escritórios ou instalações industriais, ou
ainda em habitações pequenas, de baixa qualidade, ocupadas pelas
camadas mais desfavorecidas e pelos recém-chegados à cidade,
geralmente num contexto de sobreocupação; nalguns casos os edifícios
velhos são demolidos e dão origem a escritórios que prolongam a zona
I.

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III. Nesta zona habitam os trabalhadores, designadamente os operários,
embora pontualmente possam existir residências dos mais abastados.
IV. Zona residencial, ocupada essencialmente por moradias da classe média
e alta.
V. Zona de residência daqueles que realizam movimentos pendulares
diários para trabalhar no centro; por marginar já a zona rural, vai
absorvendo algumas aldeias, as quais por vezes se transformam
em dormitórios.
VI.
Teoria das zonas concêntricas

Zona
industrial
I
Centro

II
Zona de
transição
III
Zona de residência
dos operários

IV
Zona residencial

V
Zona das migrações
pendulares

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Teoria dos sectores - Hoyt (1939)

Estabelece que, após a diferenciação espacial dos diferentes usos no centro


da cidade, as distinções mantêm-se à medida que se dá a expansão da
cidade, formando-se assim sectores de ocupação bem definida estruturados
pelos principais eixos de transportes.

Teoria dos sectores

3
2
4
3
3 1
3 5
3
4
2
3

1 - Centro de negócios
2 - Grossistas e indústria ligeira
3 - Residência da classe inferior
4 - Residência da classe média
5 - Residência das classes superiores

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Modelo multi-nucleado - Mckenzie (1933); Harris e Ullman (1945)

Rompe com a simplicidade dos dois anteriores, que consideravam a


existência de um único centro, para passar a considerar vários núcleos em
torno dos quais se organizam os diferentes usos do solo.

De acordo com a dimensão da cidade, podem surgir núcleos mais ou menos


especializados, embora exista um deles, o CBD, que é manifestamente a
zona central de comércio; os restantes podem ser áreas industriais, de
serviços especiais, universitárias, de recreio, etc.

A estrutura celular que se obtém pela fixação de determinados usos em


torno de certos núcleos deve-se às seguintes razões:

• Certas actividades necessitam de condições específicas para se


instalarem e desenvolverem, como por exemplo indústrias pesadas.
• Certas actividades beneficiam do agrupamento, como por exemplo certos
estabelecimentos de comércio a retalho e de serviços.
• Certas actividades são incompatíveis entre si, induzindo dinâmicas de
afastamento, como por exemplo indústria pesada e residência de
qualidade.
• As razões anteriores, associadas à diferença nas possibilidades de
pagamento de rendas, determinam o agrupamento diferenciado de usos
dentro da cidade.

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Teoria dos centros múltiplos

1
2
3

4 5
3 7

8
9

1 - Centro de negócios
2 - Grossistas e indústria ligeira
3 - Residência da classe inferior
4 - Residência da classe média
5 - Residência das classes superiores
6 - Indústria pesada
7 - Centro secundário
8 - Subúrbios residenciais
9 - Subúrbios industriais

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UMA PERSPECTIVA NORMATIVA DO USO DO SOLO

O interesse público

Em planeamento territorial, os factores normalmente identificados com o


interesse público são:
• Saúde e segurança
• Conveniência
• Eficiência e conservação da energia
• Qualidade ambiental
• Equidade social e escolha social
• Amenidade

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A força e efeito combinados do mercado e dos processos políticos

Assumindo que a combinação de INTERESSES PÚBLICOS relevantes


para uma área particular pode ser definida e expressa numa declaração clara
e completa de metas e objectivos instrumentais no sentido de se atingir uma
forma e estruturas espaciais desejadas, podem conceber-se decisões sobre
INVESTIMENTOS PÚBLICOS, a respeito da localização de sistemas de
transportes e redes de infraestruturas, como meios de dirigir a alocação dos
usos do solo através dos mecanismos de mercado.

A forma como o MERCADO e o GOVERNO interactuam na mediação


do comportamento na localização é extremamente complexa. Uma das
maneiras de lidar com este processo é considerar a decisão como o ponto
crítico da sequência comportamental associada a um processo de
localização.

As decisões primárias são tomadas quer no sector público (por exemplo, o


traçado de uma autoestrada ou a localização de uma universidade) quer no
sector privado (por exemplo, a localização de uma grande indústria ou de
um grande centro comercial).

Preparam o terreno para as decisões secundárias, por exemplo a aquisição


de espaço para escolas ou parques (sector público) ou a aquisição de lotes e
a construção de moradias (sector privado).

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