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Ouça os Ancestrais: Sabedoria da Ebomi Dona Cici

Por Nancy de Souza


Transcrição e Edição por Camellia D. Lee
1

© Nancy de Souza e Camellia Dao-Ling McDermott Lee 2020


Todos os direitos reservados.

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2

Para os ancestrais, que voltam em nossos filhos

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3

Gratidão

Esse livro existe por causa do amor e esforço de


muitas pessoas, principalmente Linda Yudin e Luiz Badaró.
A organização que eles fundaram, Viver Brasil, trouxe a
Dona Cici para os Estados Unidos e fez possível eu conhecer
ela. Sobre Viver Brasil, Dona Cici tem isso para dizer:

Viver Brasil

Quando vejo a minha cultura, prefiro que seja bem


recebida e bem divulgada. Quando eu passo, eu só passo
para as pessoas que me procuram aquilo que é possível
passar. E assim mesmo, só quando eu vejo que a pessoa, ou
seja o pesquisador, está interessado em realmente conhecer
um pouco desta cultura.
Uma das minhas surpresas foi quando um certo dia
veio um grupo de norte americanos aqui na Fundação
Pierre Verger. Tinha criado o Espaço Cultural num terreno
onde muitas pessoas fugiram da perseguição política. Entre
os grupos que vieram, tinham um muito interessante onde
tinha uma senhora que era iyalorixá, ou seja, que cultuava
Orixás. Esta senhora era uma pessoa de Iansã, e ela tinha
uma casa do Candomblé no alto da Santa Cruz. O nome dela
era Mãe Alicia e ela era oriunda do Recôncavo,
provavelmente da Cachoeira. Com ela veio uma filha de
santo dela, de Oxum, de uma localidade que se chama
Saubara, que também fica no Recôncavo. Tinha também
Rosangela Silvestre, que é uma bailarina conhecida e mestra
em dança. Trouxe um grupo de mais ou menos quatro

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brasileiros e uns dez norte americanos, e entre eles tinha


uma coreógrafa chamada Linda Yudin.
Nesse dia, fizemos a palestra, introduzimos à
Fundação e falamos sobre Orixás. Eu tive a oportunidade
ser convidada, através daquele encontro e do que se
comentou na época, por Linda Yudin para fazer uma viagem
até os Estados Unidos. Aí fica Viver Brasil, que é uma
companhia de dança onde a cultura brasileira é tão bem
representada, de uma forma que eu não tinha visto antes. O
samba de roda deles é perfeito. Eles compartilham a cultura
afro-brasileira nas escolas públicas com alto respeito. Neste
grupo cultural, eu conheci pessoas super, super, super
comprometidas com a dança popular e afro-brasileira.
Depois da minha viagem aos Estados Unidos com
Viver Brasil, houve um aumento das viagens que fiz para
fora do meu país. Foi exatamente como Ifá disse quando
meu pai de santo, Babalorixá Obaràyí, fez o jogo de iaô no
ano 1971. Ele disse que minha vida começaria de verdade
quando os meus cabelos ficaram brancos. Eu só tinha 33
anos. Porém aconteceu exatamente como ele previu.

Agradeço também Roberto Merces, Iya Bezita de


Oxum, Naiara Silva e a mãe dela pela ajuda em Salvador.
A talentosa fotógrafa Gia Trovela1 deu permissão
generosa para eu usar as fotos que ela tirou da Ebomi Cici
sem eu pagar, porque ela ama a grande sábia.
William Tsung-Liang Lee e Nancie McDermott
deram a maioria do apoio financeiro que fez esse projeto
uma realidade. O Departamento de Estudos Portugueses e
Brasileiros da Universidade Brown ambos contribuiu em

1
www.giatrovela.com
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5

dinheiro - do Fundo de John e Clarice Scarritt - e também


com a preparação cultural e linguística para minha primeira
viagem para o Brasil. O programa de Brown-no-Brasil, sob a
liderança de Karl-Erik Schollhammer e Luiz Valente, me deu
uma experiência bonita no Rio. A senhora Orlande de Jesus
Dias me hospedou com muito carinho na cidade
maravilhosa.
Professores Keisha-Khan Y. Perry e Anani
Dzidzienyo, obrigadíssima pelo exemplo de integridade,
coragem e esforço na tentativa de trabalhar em solidariedade
com o povo afro-brasileiro. Obrigada também pelos livros
que os senhores sugeriram sobre raça e gênero no Brasil.
Camila Christian Quintana Leão, Professora Laureen
Adams e Linda Yudin leram os rascunhos desse livro, apesar
delas serem ocupadas com outros compromissos. Ailton
Pinheiro ajuda a Ebomi Cici quase diariamente com as coisas
que são difíceis para uma mulher velha.
Muitas pessoas doaram para publicar esse livro,
como: Alejandra Martinez, Alice Bessonnet, Alisa Orduna,
Amanda Ugorji, Anaisa Quintanilla-Arteaga, Angela Jordan,
Awo Fanira Ogunleke Awoyade, Baba Falokun Fasegun,
Bahareh Shayegan, Barbara Capozzi, Brenda Zhang, Carina
Goldfarb, Daina Swagerty, Dana Maman, Diana Sherwood,
Dr. Anna Beatrice Scott, Ellen Barros, Gia Trovela,
Giavanni Washington, Hector Herrera, Heyward Bracey,
Indira Leneman, Iya Fayomi Osundoyin Egbeyemi, Jannet
Galdamez, Jasmin Jones, Jordan Mena, Julie Janney, Julia
Rose McDermott Polk, Kaley Isabella Scofield, Katherine
Sherman, Katie Jackson, Kendra Adler, Kingsley Irons,
Laura Morgan, Linda McDermott, Linda Yudin, Lisa Marie,
Lucina Lopez, Margot S-E, Marina Magalhães, Necee

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6

Hankins, Nicole Actaron-Toro, Ralph Brown, Jr., Rebecca


Renard, Robyn Nisbet, Sallie Harrison, Sandra Ornellas,
Sonia Lopez, Sue Nelson, Sunhay You, Teresa Marie
Sanchez, Tiffany Caldas, Todd Gambling, Troy Thomas,
Vernice Hankins, e Zeal Harris. Rachel Hernandez e Kahlil
Cummings organizaram um evento de arrecadação de fundos
para esse livro com o apoio generoso da Iya Fayomi.
Agradeço também o Brasil Brasil Cultural Center por ceder o
espaço para o evento.
Agradeço também às minhas comunidades que me
apoiaram tanto: Ile Orunmila Afedefeyo, Africana Studies at
Brown, Thien Hau Temple, Brasil Brasil Cultural Center.
Agradeço meus pais e todos os meus ancestrais por ter me
dado a vida. Muito amor para minha irmã Isabelle, minha
amada Tia Linda, meus queridos primos Sam, Kir, Ben,
Annie, Julie, e Daniel.
Meu caminho foi abençoado pelos velhos sábios da
minha casa de Ifá: Alto Sacerdote Adesanya Eniolorunda
Awoyade, Oba Adebolu Fatunmise, Príncipe Doutor Falolu
Awoyade, Baba Falokun Fasegun e Iyanifa Fayomi
Osundoyin Egbeyemi. Aboru aboye e modupe.
Eu reverencio os ancestrais Tupi-Guaraní*,
Guaraní-Kaiowá, Paraguaçu, e todos os outros povos
indígenas da terra que hoje é chamada Brasil, como: Aconã,
Aikanã, Akuntsu, Aikewara Suruí, Amanayé, Amondawa,
Anacé, Anambé, Aparai, Apiaká, Apinajé, Apolina-Arara,
Apurinã, Aranã, Arapaso, Arapiun, Arara, Arara da Volta
Grande do Xingu, Arara do Rio Amônia, Arara do Rio
Branco, Arara Karo, Arara Shawãdawa, Arara Vermelha,
Araweté, Arikapu, Aruá, Aruan, Ashaninka, Assurini,
Asurini do Tocantins, Asurini do Xingu, Atikum,

6
7

Avá-Canoeiro, Aweti, Bakairi, Banawá, Baniwa, Bará,


Barasana, Baré*, Boé Bororo, Borari, Canela Apanyekrá,
Canela Ramkokamekrá, Chamacoco, Cara Preta, Carapanã,
Catú-awá-arachás, Charrua, Chiquitano, Cinta Larga,
Coripaco, Cumaruara, Deni, Desana*, Diahoyt,
Djeoromitxí*, Dow, Enawenê-nawê, Fulni-ô, Galibi do
Oiapoque, Galibi Kalina, Galibi-Marworno, Gavião de
Rondônia, Gavião do Ceará, Gavião Kyikatêjê, Gavião
Parkatêjê, Gavião Pykopcatejê, Guajajara, Guarani Kaiowá,
Guarani Mbya* , Guarani Nhandeva, Guató, Hexkaryana*,
Hupda, Ikpeng, Ingarikó, Irantxe, Jamamadi,
Jaminawa-Arara, Japurá-Uaupés, Jaraki, Jaramu, Jarawara,
Javaé, Jenipapo Kanindé, Jeripankó, Jiahui, Juma, Juruna,
Juruti, Ka’apor, Kadiwéu, Kaiabi, Kaimbé*, Kaingang,
Kaixana, Kalabaça, Kalankó, Kalapalo, Kamadeni,
Kamaiurá*, Kamba, Kambeba, Kambiwá, Kampé*,
Kanamary, Kanindé*, Kanoê*, Kantaruré*, Kapinawá,
Karajá*, Karajá do Norte, Karapanã, Karapayana, Karapotó,
Karipuna de Rondônia, Karipuna do Amapá, Kariri*,
Kariri-Xocó*, Karitiana*, Karo, Karuazú, Kassupá,
Katuenayana, Katukina*, Kaxara, Kaxarari, Kaxinawá*,
Kaxixó, Kaxuyana, Kayabi, Kayapó, Kinikinaw, Kiriri*,
Kiriri Cantagalo*, Kisedjê, Kocama, Koiupanká,
Kontanawa, Korubo, Krahô, Krahô Kanela, Krenak*,
Krikati, Kubeo, Kuikuro, Kujubim, Kulina, Kuripako,
Kuruaia, Lawana, Macuxi*, Makuna, Mahinako, Maku,
Makuna, Makurap*, Manchineri*, Manôki, Marubo, Matipu,
Matis, Mawayana, Maxakali*, Mayoruna, Maytapú,
Mehinako, Menki, Migueleno, Miranha, Miriti-Tapuya,
Munduruku, Mura, Nadob, Nafukuá, Nambikwara, Nawa,
Nukini, Ofayé, Paiter, Palikur, Panará, Pankará, Pankarara*,

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8

Pankararé*, Pankararu*, Pankaru*, Parakanã, Paresi,


Parintintin, Pataxó*, Pataxó Hã hã hãe*, Paumari, Payayá*,
Pipipã, Piratapuya, Pitaguary, Potiguara, Povo Indígena de
Piripiri, Poyanawa, Puri, Puroborá, Rikbatsa, Sabanê,
Sakurabiat, Salamãi, Sapará, Sateré-Mawé, Shanenawa,
Siriano, Tabajara, Tapajó, Tapeba, Tapirapé*, Tapuya,
Tariana, Tatuyo, Taurepang, Tembé, Terena, Ticuna,
Tikiyana, Timbira Krepuntaje, Tingui Botó*, Tiriyó,
Tituyana, Torá, Tremembé, Truká*, Trumai, Tubiba Tapuia,
Tukano, Tumbalalá*, Tunayana, Tupã, Tupaiu, Tupari*,
Tupi Guarani, Tupinambá*, Tupinamba de Olivença*,
Tupinambá do Pará, Tupinikim, Tuxá*, Tuxá de Rodelas*,
Tuyuka, Txikuyana, Umutina, Uru eu wau wau,
Urubu-Tapuia, Wai Wai*, Waiãpi, Waimiri Atroari,
Wanano, Wapichana,* Wassu, Wassu Cocal, Waurá,
Wayana,* Werekena, Witoto, Xakriabá, Xavante, Xerente,
Xereu, Xerewyana, Xéta, Xipaya, Xokleng, Xokó,* Xukuru,
Xukuru do Ororubá, Xukuru Kariri,* Yanomami*,
Yarumare, Yawalapiti, Yawanawa, Yekuana*, Yuhupde,
Zoró, Zo’é, Zuruahã e possivelmente outras das quais a
história não relata.2
Eu ofereço esse livro para esses povos originais e
para os ancestrais africanos e afro-brasileiros roubados das
suas terras.
Augusto Ícaro Farias da Cunha, meu amor, obrigada
por tudo. Obrigada por ter convertido os arquivos de áudio,
por ter me ajudado com as palavras portuguesas que eu não

2
Essa lista foi feita por estudioso indígena Jairã da Silva, membro
do povo Tingui Botó. ​https://jairantinguiboto.wordpress.com/
* Ricardo Paufilio, amigo querido da Ebomi Cici, trabalhou com
estas tribos.
8
9

entendi, e por ter me apoiado toda dia com abraços, beijos e


sorrisos.

9
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Um Aviso da Transcritora

Dona Nancy “Cici” de Souza e Silva é fisicamente


pequena, porém espiritualmente ela tem uma influência
enorme. Se você fizer a peregrinação para a Fundação Pierre
Verger na ladeira da Vila América, você pode achar ela
trabalhando com pesquisadores do mundo inteiro que vêm de
longe para conhecer ela. Esta mulher dedicou décadas da
vida dela aos estudos da cultura afrobrasileira dos ancestrais
dela, e tem conhecimento que acadêmicos nunca achariam
nas bibliotecas. Por quase todo canto da cidade de Salvador
da Bahia, ela tem uma história, começando com o povo
original da terra, os Paraguaçu, que chamam a área de
Kirimurê. Ela diz que é “uma terra de povo indígena e
libertos.”
A modéstia dela é enorme, então é possível
subestimar a profundidade da sabedoria e informação que ela
possui. Porém não tem como contar os livros, dissertações e
teses que incluíam informação dela. A diretora da Fundação,
Angela Lühning, deu crédito à Dona Cici na tese dela,
“Etnomusicologia no Brasil.” Dona Cici também fala com
carinho sobre o trabalho que ela fez com Iuri Ricardo Passos
de Barros nos estudos das músicas do Candomblé. Além
disso, Caroline Cunha colocou uma imagem da velha
contadora de histórias no livro ​Eleguá.
Apesar de ter contribuído tanto à literatura e
pesquisa, a Dona Cici tecnicamente só é autora de uma obra
escrita, um livro de receitas que se chama ​Cozinhando

10
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História.3 A Dona Cici é completamente devota aos


princípios dela, então ela não anseia fama e riqueza. Em vez
de buscar reconhecimento e títulos acadêmicos, ela transmite
o grande conhecimento para crianças marginalizadas. Apesar
de nunca ter dado a luz a um filho no sentido biológico, ela é
vovó e mãe para uma multidão de crianças de famílias
pobres. Na tradição oral dos ancestrais africanos dela, a
Dona Cici é uma griot, uma contadora de histórias que
preserva a memória coletiva.
Os olhos dela brilham por trás dos óculos quando ela
conta lendas dos Orixás, e as mãos dançam com expressão.
O riso dela é delicado e o sorriso dela é contagiante. Ela
costuma usar roupa simples, branca ou clara, e come comida
leve. Ela é gentil, respeitosa, e tem alta dignidade. Por causa
da perseguição da ditadura militar, ela não acabou a
graduação, mas a inteligência dela é incrível. A grande sábia
anda lentamente com bengala e traz uma calma com ela.
Quando você vé-la, ela parece o Orixá dela, Oxalufã,
andando com opaxorô. Andar ao lado da velha contadora de
histórias é uma experiência que ensina paciência. Como o
pai espiritual dela, Oxalufã, Dona Cici ensina a gente a
cultivar humildade e caráter.
Tentei assumir a responsabilidade pela dinâmica de
poder inerentemente desigual que existe entre uma
pesquisadora norte-americana e uma mulher afro-brasileira.
Minha posição como cidadão americano estudando numa
faculdade fez possível minha viagem para a América do Sul
e garantir financiamento para este projeto. Além disso,

3
Para comprar este livro, é só visitar a Fundação Pierre Verger na
Vila América, no Pelourinho, ou no seu site online:
https://www.lojapierreverger.org.br/livrocozinhandohistoria
11
12

minha ascendência européia e do leste asiático me impede de


experimentar o racismo anti-negro que Dona Cici enfrentou
por toda a vida. Para tentar fazer reparações, estudei o livro
Muddying the Waters: Coautor de feminismos através da
bolsa de estudos e ativismo, ​por Richa Nagar. Uma outra
grande influência é minha orientadora de graduação
Keisha-Khan Y. Perry, PhD, que deu a aula “Ativismo
acadêmico: pesquisa e escrita para justiça social.” Na prática,
solidariedade significava que eu pagava a Dona Cici toda vez
que gravei entrevistas com ela, eu pagava a conta de táxis e
refeições e ela lia e aprovava o texto antes da publicação. O
nome dela estará na Biblioteca Nacional do Brasil e na
Biblioteca do Congresso dos EUA. Ela receberá todos os
royalties deste livro.
Eu gravei minhas conversas com Dona Cici com meu
celular quando ela me deu permissão para tal. A dona das
ideias nessas páginas é Senhora de Souza. Tentei não colocar
minhas opiniões na transcrição dos áudios, mas para melhor
embasar você, o leitor, adicionei uma cronologia da história
brasileira no início do livro e uma lista de sites, artigos,
filmes e livros. Dona Cici é a autora, e eu sou só a escriba.
Sra. de Souza fala cantando, com ritmo e música ancestral
em cada palavra. Eu tentei guardar essa qualidade mágica,
porém a palavra escrita tem limites.
A tradição da qual Sra. de Souza é guardiã é oral, e é
uma experiência sagrada sentar ao pé de uma velha sábia
com orelhas abertas para aprender. Porém a colonização e
escravidão quebraram os elos da cadeia entre gerações. Para
consertar um desses elos, esse livro tenta fazer o trabalho do
Baba Exú, o mensageiro do divino, e Orunmila, o profeta
que preserva a palavra de Deus.

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13

Fatores que influenciaram meu entendimento das


ideias da Dona Cici incluíam meu nível de facilidade com a
língua portuguesa e a qualidade de tecnologia de gravação. É
bem possível que eu tenha errado porque aprendi português
nos últimos quatro anos, e também porque não usei o melhor
equipamento de gravação. Eu nasci num continente diferente
quarenta anos depois da Dona Cici, então eu podia ter
perdido alusões por causa das diferenças de cultura e
geração.
Organizei as histórias e informação no jeito que fez
sentido para mim, com a permissão e bênção da Dona Cici.
Procurava ativamente supervisão porque levo essa
responsabilidade a sério, mas meus próprios preconceitos
podiam ter influenciado esse livro. Trabalhei três anos na
transcrição e tradução desse livro com Dona Cici e pessoas
que falam português melhor do que eu, nas quais a Dona
Cici confia. Porém, nós que trabalhamos nesse projeto somos
seres humanos que erram de vez em quando.
A transformação da fala para a escrita não é neutra, e
houve uma perda inevitável da riqueza da sabedoria dela no
processo. Porém tenho certeza que o coração da mensagem
da Dona Cici seja indestrutível e incorruptível. Estou
convencida que ela merece ambos lucros e o reconhecimento
pelo grande conhecimento que ela conseguiu através do
muito sacrifício. A sabedoria dela tem que viver depois que
ela volta ao plano ancestral para gerações que vêm.
Este texto é uma biografia de um ser humano
extraordinário, que dedicou a vida dela para os Orixás.
Começamos com a história do Brasil contada por Ebomi,
depois segue a história da vida da Ebomi Cici, e os capítulos
seguintes explicam as perspectives dela sobre vários assuntos

13
14

sociais e espirituais. No fim do livro, o leitor vai achar as


letras de cantigas e lendas do Candomblé.
Eu tentei fazer o melhor trabalho possível, e espero
que você, o leitor, receba a sabedoria da Dona Cici, os
ancestrais dela e as divindades. Axé.

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Uma Cronologia do Brasil no Contexto Global

~2,000,000 A.C.: Ancestrais do seres humanos sairam


da África4

~13,000 A.C.: Seres humanos chegaram à América


do Sul5

Geógrafos sugerem que na Amazônia


existiam a presença de civilizações
complexas6

~100 D.C.: Reino de Axum subiu na Ethiopia e


Eritrea7

105 D.C.: Os chineses inventaram o papel

300 D.C.: Império de Tiwanaku nos Andes8

426 D.C.: K'inich Yax K'uk' Mo' fundou a


dinastia Maya na cidade Copán

4
http://humanorigins.si.edu/evidence/human-family-tree
5
http://www.buffalo.edu/news/releases/2017/02/032.html
6
Pärssinen, M., Schaan, D., & Ranzi, A. (2009). Pre-Columbian
geometric earthworks in the upper Purús: A complex society in
western Amazonia. Antiquity, 83(322), 1084-1095.
doi:10.1017/S0003598X00099373
7
Butzer, K. W. (1981). ​Rise and Fall of Axum, Ethiopia: A
Geo-Archaeological Interpretation.​ Cambridge University Press.
8
Stanish, C. (2003). ​Ancient Titicaca: The evolution of complex
society in Southern Peru and Northern Bolivia.​ Los Angeles:
University of California Press.
15
16

600 D.C.: Império Huari no Peru

380 D.C.: Cristianismo foi decreto a religião


oficial do império Romano

711 D.C.: Império Umayyad começou a


controlar a Península Ibérica

859 D.C.: Fatima al-Firhi fundou a primeira


universidade

869 D.C.: Escravos Bantu se revoltaram contra


escravidão árabe9

1000 D.C.: Os chineses inventaram pólvora

Império Mali na região do rio


Níger

1210 D.C.: Império Mongol derrotou a


dinastia de Xia Ocidental

1340 D.C.: Peste bubônica

1400 D.C.: Império Songhai tomou o


território do império Mali

1427 D.C.: Aliança entre três cidades-estados

9
Rodriguez, J. P. (2007). Zanj Slave Revolts. In ​Encyclopedia of
Slave Resistance and Rebellion, Volume 2​ (p. 585). Greenwood
Publishing Group.
16
17

criou dominância azteca na


Mesoamérica

1452 D.C.: Bula papal ​Dum Diversas​ deu


autorização completa para diminuir
toda pessoa não-cristã “em perpétua
escravidão”10

1455 D.C.: Bula papal ​Romanus Pontifex


prometeu “favores e graças especiais”
para governantes católicos que
“vencem” nações não-cristãs para
eterna subserviência11

1492 D.C.: Dinastia Nasrida perdeu o controle da


Península Ibérica

Europeus reivindicaram terras


soberanas do povo Taíno

1494 D.C.: O Tratado de Tordesilhas dividiu entre


Espanha e Portugal as terras
recentemente “descobertas” fora da
Europa

1498 D.C.: San, Khoisan, Bantu e povo

10
Curran, C. E. (2003). ​Change in Official Catholic Moral
Teaching​. New York: Paulist Press.
11
Frichner, T. G. (n.d.). ​Preliminary study of the impact on
indigenous peoples of the international legal construct known as
the Doctrine of Discovery​ (Issue brief). Permanent Forum on
Indigenous Issues, Ninth session
17
18

muçulmano árabe do sudeste África


encontrou marinheiros portugueses

1500 D.C.: Portugal violou a soberania do Pataxó

1509 D.C.: Afonso I Mvemba a Nzinga se tornou


manikongo, rei do império Kongo, e
negociou relações internacionais com
Portugal

1513 D.C.: Coroa espanhola decretou “El


Requerimiento” que mandou todo
povo não-cristão a se render aos
espanhóis ou ficar escravizados12

1529 D.C.: Guerra Inca de Sucessão entre


irmãos Atahualpa and Huáscar

1605 D.C.: Fundação do Quilombo dos Palmares

1620 D.C.: Os holandeses saiam da Baía para


Pernambuco

1622 D.C.: Rainha Nzinga de Angola conquistou


um acordo justo com os portugueses13

12
El Requierimento: Spain demands subservience - Timeline -
Native Voices. (n.d.). Retrieved from
https://www.nlm.nih.gov/nativevoices/timeline/178.html
13
Miller, J. (1975). Nzinga of Matamba in a New Perspective. ​The
Journal of African History​, 16(2), 201-216. Retrieved from
http://www.jstor.org/stable/180812
18
19

1690 D.C.: Para obter ouro, o Portugal começou a


importar mais africanos para o Brasil14
40% dos africanos que atravessaram o
Mar Atlântico foi para o Brasil15

1808 D.C.: Coroa portuguesa mudou para o


Brasil, uma mudança que aumentou o
tráfico de escravos para a região

1822 D.C.: Princesa Leopoldina assinou o decreto


separando o império brasileiro do
Portugal no edifício que hoje é o
Muséu Nacional. Mais tarde Dom
Pedro faz “o grito de Ipiranga”

1831 D.C.: O Brasil se tornou o último país a


proibir o comércio de escravos,
porém o tráfico continuou por décadas

1832 D.C.: Libertos fundaram a Sociedade


Protetora dos Desvalidos para comprar
alforria e treinar negros para carreiras

1835 D.C.: Rebelião dos Malês em Salvador

1871 D.C.: Lei de Ventre Livre teoricamente deu

14
Higgins, K. J. (1999). ​Licentious Liberty in a Brazilian
Gold-Mining Region: Slavery, Gender & Social Control in
Eighteenth-Century Sabara, Minas Gerais.
15
Bergad, L. W. (2013). ​The Comparative Histories of Slavery in
Brazil, Cuba, and the United States​. Vancouver: Access and
Diversity, Crane Library, University of British Columbia.
19
20

liberdade às crianças de escravas no


Brasil; mães escravizadas começaram
a botar tecido nos pés de bebês porque
só libertos podiam usar sapatos

1888 D.C.: Brasil se tornou o último país nas


Américas a proibir escravidão

1889 D.C.: A primeira república brasileira, tendo


feito quase nada para integrar libertos
na sociedade, pagou europeus para
imigrar ao Brasil16 com a intenção
explícita de “branquear” a nação17

1930 D.C.: Depois de uma revolta, Getúlio


Vargas
ficou líder do governo provisional

1937 D.C.: Golpe por Getúlio Vargas começou a


primeira ditadura brasileiro do século
vinte

1945 D.C.: Golpe acabou a ditadura Vargas

1961 D.C.: Angola, Cabo Verde, Guiné


Equatorial, Moçambique e São Tomé
e
Príncipe começaram as Guerras de

16
Andrews, G. R. (1991). B​ lacks and Whites in São Paulo, Brazil,
1888-1988.​ Madison: University of Wisconsin Press.
17
Skidmore, T. E. (2005). ​Black Into White: Race and Nationality
in Brazilian Thought.​ Durham, NC: Duke Univ. Press.
20
21

Independência contra o Portugal

1964 D.C.: Início da ditadura militar

1974 D.C.: Fim da ditadura português;


independência da África Lusófona

1975 D.C.: Operação Condor, junta


político-militar entre ditaduras no
Cone Sul, foi implementada com o
apoio dos EUA

1985 D.C.: Fim da ditadura militar no Brasil

1988 D.C.: Constituição da República Federativa


do Brasil aprovada pela Assembleia
Nacional Constituinte

2018 D.C.: No dia 2 de setembro, um fogo no


Museu Nacional do Rio de Janeiro
destruiu a sala onde a independência
do Brasil foi colocado em papel18

18
Neste dia, Cici chorou como nunca porque o Museu foi uma
grande parte dos primeiros conhecimentos da cultura dela. É triste
que a gente perde a história se não for digitá-la.
21
22

História do Brasil

Raízes Africanas

Primeiro, a gente muitas vezes tem que saber como o


negro chega no Brasil. Então, eu vou começar a África.
Repare bem. Eu vou falar da África Oeste um instantinho só.

A Nigéria tem uma fronteira com Benin. Gana e


Togo são pertos. Nessa região vai nascer um povo muito
poderoso e muito importante: o povo Iorubá. A cidade
principal da cultura Iorubá chama-se Ilê-Ifé. Aqui vão ter
muitas plantações. Por quê a cultura Iorubá é uma das mais
importantes? Eles começam a trabalhar com metais. Eles têm
uma história. Miticamente, eu sei dizer que o fundador da
cultura Iorubá é o guerreiro Oduduwa, filho do Orun, que
cria o mundo.
Também na Nigéria, tem um lugar que vive o povo
Igbo. São mais águas. O povo Igbo é um povo das lacustre.
O povo Igbo não cultua Orixás; o povo Igbo é cristão.
No Benin vai ser outra cultura, os que estão
chamados Fon, com outra língua. O grande Vodun de

22
23

fundamento do povo Fon é Danbala Wedo, a cobra sagrada.


Ora cobra, ora um príncipe, ora o arco-íris. Muito lindo,
muito guerreiro. Pelo tamanho do país, a quantidade de reis é
muito grande. Não vou te dizer que seja maior do que o país
Iorubá, que as terras são maiores. Mas isso torna o povo do
Benin, o povo Fon, muito belicoso, muito guerreiro.
Mas o povo dessa parte da cidade Benin, eles
cultuam as ancestrais. Você já viu aquelas figuras que tem o
rosto marcado aqui? Aqueles colares cheio de coral? Alto? É
o povo do Benin. Usa roupa branca. Cultua o ancestral e têm
muito marfim. As jóias deles estão todas no museu de
Londres. Os Iorubás já são um pouco diferente. Os ingleses
chegam em 1830 e tomam muito território.
Passando para o Togo, você vai encontrar o povo
Ewe. E o povo de Gana também, Ewe. Porém, são povos
com características, fenótipos e línguas diferentes. Gana tem
muito ouro. Chamava-se antigamente ¨Costa de Ouro.¨ E
aqui então é dividido por grupos poderosíssimos, que o
primeiro é os Ashantis. Têm outros grupos menores. Os reis
de Gana tinham o direito de vender escravos, e muitos deles
chegaram até o Brasil. Pequenos grupos que ficaram ao norte
de Accra também chegaram. Esse povo oriundo de Gana nos
deixou a tradição das joias de crioula, que são exatamente as
cópias das jóias reais de Gana. Pode-se ver no Museu Carlos
Costa Pinto vários exemplares com as explicações de cada
peça. E é desta terra que vem a fundadora do terreiro
chamado Ilê Axé Opô Afonjá.
África começa a ser estudada e dividida por povos
europeus diferentes. Começam a sair os portugueses,
esgotam suas colônias de Moçambique e Angola, então vão
para Portugal. Aí começam a sair os navios negreiros da Baía

23
24

e do Rio de Janeiro em busca da Costa dos Escravos, no


Golfo do Benin. Aí começam fazer uma proposta. “Se vocês
tiveram escravos, nós compramos.” É uma frase
provavelmente dita pelo maior traficante de toda história
deste vil comércio, Francisco Felix de Sousa.
Aí começam a trazer seres humanos da Costa dos
Escravos e começam a fazer o tráfico. Dão tanto dinheiro
que daqui eles vão até o Caribe e qualquer lugar que
quisessem comprar negros.
Mas o negro dos Estados Unidos é outra história.
A família real do Brasil e os portugueses fogem das
guerras na Europa no final de 1700 e no início de 1800. Aí
eles precisam de muitos escravos para servir na corte. Vêm
muitos, muitos, muitos.
Então, sai 1810 o maior traficante da história:
Francisco Felix de Sousa. Aborda no Benin, chega e vai falar
diretamente com o rei.
Imagina, você lembra os Iorubás vêm daqui perto do
Benin. Ele diz, “Você se lembra quando os Iorubás
invadiram a sua fronteira? Então, venha. Você se lembra da
luta? Pois então, você vá lá e invada o país dele. Todos que
você trouxer como escravo, eu vou comprar.”
E assim eles fizeram. E sabe que foi que esse povo
fez do Benin? Pegou a fronteira e entrou a Nigéria dentro.
Então eles pegaram toda a área de uma cidade chamada
Ketu. Eles trouxeram todo mundo como escravo. A cidade
desarmou. Tantos foram capturados das cidades que estavam
perto do povo Iorubá. Então vieram aquele monte de
escravos Iorubás da qual o povo da Baía fala cantando.
Porque vieram tantos que você não tem como contar.

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Da África para a Bahia, vieram 70% de origem


Iorubá, 20% de origem Fon, e 10% de origem Ewe de Gana
e Togo. E claro, no meio vieram os muçulmanos e escravos
Jejé. Por quê vieram no meio do desses aqui, grupos assim?
Por questões políticas e sociais.
Eles eram colocados em “armazéns” para antes de ser
transportados para os navios negreiros. Então daqui eles vêm
para ser vendidos como encomenda. Antes de sair de lá, ele é
levado até uma árvore chamada “árvore do esquecimento.”
Pierre Verger fotografou.
A árvore do esquecimento era um dendê enorme, os
dendês que tinham perto da praia. Então o homem negro
tinha que dar sete voltas. Um, dois, três, quatro, cinco, seis,
sete - navio negreiro. As mulheres davam um, dois, três,
quatro, cinco - navio negreiro. Depois que entravam não
podiam nem lembrar das suas línguas. Por isso, os negreiros
botavam grupos que não falavam a mesma língua. Cê tá
compreendendo? Para que não tivessem ideias de fazerem
revoltas.
O plano dos negreiros foi para as pessoas
escravizadas perderam toda identidade a partir daquele
momento que saíram da África e passaram naquela árvore.
Que não foi verdade porque estamos aqui com aquela
história. Quando chegavam aqui no Brasil, eles não podiam
manter seus nomes. E era lei. Lhes eram impostos os nomes
do colonizador. Porque o negro, se ele não se batizasse, ele
andava de três correntes com uma gargantilha assim. O
artista Jean-Baptiste Debret documentou este período nas
pinturas dele.

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26

Jacques Etienne Arago - Castigo de Escravos, 1839.jpg [Domínio público], via


Wikimedia Commons.

Escravidão

O africano veio sem querer, forçado a sair da sua


terra para vir para o Brasil. Aqui, os escravos são
controlados pelas igrejas e pela sociedade. Os padres dizem,
“Vamos batizar os negros para tirar o diabo deles.”
O primeiro encontro do negro com a igreja acontece
quando ele tem que levar o senhor, a sinhá, e os fidalgos na
cadeirinha.
Os brancos não iam andando. Ou ia na carruagem, e
era negro às vezes que mandavam os cavalos, ou nas
cadeirinhas de arruar. Carregando a cadeirinha eram dois
negros, ou quatro se ele era um homem rico. Se o senhor
tinha quatro escravos, cada um segurava de um lado da

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cadeirinha para mostrar poder. Como se fosse hoje, este


homem teriam Rolls Royce. Haviam crianças brancas que
tinha uma escrava bonita para cuidar das todas as suas
necessidades. Eram muitos escravos na cidade porque os
brancos que tinham posses mostraram status pelo número de
negros escravizados.
Então o que acontece? Os negros iam para a igreja de
negros, e os que não podiam á igreja do negro ficavam em pé
na porta da igreja branca, olhando lá dentro. Acompanhavam
o senhor na cadeirinha aqueles que já tinham sido batizados.
Ele tinha que escolher às vezes o “nome da igreja,”
nomes do santo, ou nome do senhor. Por exemplo, o
sacerdote dizia, “Você vai ser batizado com o nome do João.
João de que?” Ele é escravo de De Sousa.
“João de Souza.”
E tinha um que dizia diferente quando o padre
perguntou, “Você vai ser batizado com nome de?”
“João.”
“De que?”
“Eu quero ‘Do Amor Divino.’” O negro não queria
aceitar o nome do branco, pois aceitava o da igreja.
Aí o senhor olhava com suspeita para ele, mas não
podia dizer nada. Porque a pessoa escravizada escolheu o
nome da igreja. O negro escolher o nome da igreja é um ato
de rebeldia, mas o senhor de engenho tinha que aceitar
calado.
Aqui no Brasil, você identifica linhagem direta do
escravo nos nomes como “Do Bomfim,” “Amor Divino,”
“Sacramento,” “Dos Santos,” “Da Conceição” - meu Deus,
como tem “Da Conceição” aqui! Quando uma pessoa não
negra tem esse nome, as pessoas ficam assim olhando para

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ele, perguntam, “De onde vem seu nome?” Isso é coisa de


negro.
“Das Virgens.” Meu Deus do céu! Se você entra no
convento de Joana Angélica onde foi massacrada várias
freiras durante dois de julho, vai encontrar vinte sobrenomes
“Das Virgens” porque eram muito usados esses nomes.
Então você vê: é imposto a religião católica. Os
negros são obrigados a se batizar e são obrigados a adotar os
santos dos brancos. Muito sabiamente, eles aceitam fazer o
sincretismo. Por isso se diz “Santería” em Cuba, porque vem
de santos.
Então os negros colocam o santo da igreja, fazem
uma mesa, botam uma toalha linda, e bota flores bonitas. Aí
quando o senhor está na casa grande, fazendo festa do Santo
Antônio, ele na senzala não, ele está fazendo festa para
Ogum. Aí o que que ele faz? Ele vai botar o assentamento de
Ogum e dá qualquer coisa que ele pode de baixo do pano.
Os brancos perguntam, “O que que tá fazendo ali?”
“A gente não sabe falar Português, está cantando para
ele na nossa língua.”
O branco: “Ah, tá bem, tá bem.”
Os Orixás eram os donos verdadeiros da casa, com
seus assentimentos “em baixo do pano.”
Então, esse sincretismo cresce. Por isso a gente tem
que dizer, “Por debaixo do pano, quem está ali é outra
coisa.”
Na Bahia começam os adeptos de Candomblé em
1830. Antes de 1830 já haviam várias casas de Candomblé,
porém essas casas de Candomblé não tinham documentação
porque só a partir de 1830 que o negro o negro podia ter
documento. Em 1832 o terreiro de Bogum já tinha

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documentação porque o cofre para a alforria dos escravos era


guardado na Associação Protetora dos Desvalidos.
O cofre era guardado pelos muçulmanos (Malês),
pelos cristãos católicos, e pelo povo do Bogum que era
Candomblé Jejé. Alforria era carta da qual o negro comprava
para se libertar, que era difícil porque às vezes a mão do
senhor ficava dura.
A carta mais fácil de você comprar alforria era dos
negros que eram muçulmanos. Esse sim, você conseguia a se
alforriar. O próprio negro muçulmano comprava escravo e
colocava ele para trabalhar para si próprio. A pessoa
escravizada aprendia logo uma profissão, que era de fazer
sapatos, e naquela profissão, ele tinha uma outra coisa. Tinha
seu dinheiro depositado numa caixa que hoje está na
Associação Protetora dos Desvalidos.
A caixa tem três chaves. Uma chave ficava no
Candomblé do Bogum, de negros. A segunda chave ficava
na igreja católica. A terceira chave ficava com o governador.
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Então, no dia certo que já tinha importância, o cofre


era trazido publicamente, e essas três autoridades vinham
com a chave, e alí então abriam e tiravam o dinheiro que
aquele rapaz tinha sido libertado e carta de alforria tinha
assinatura de dos três: o Candomblé, da igreja, e de uma
autoridade.

19
Nota da tradutora: depois de Dona Cici contar isso, houve o
som de três fogos.
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Dona Cici com o cofre de alforria localizado na Associação Protetora dos


Desvalidos. Camellia Lee 2017.

A presença muçulmana no Brasil

Tinham escravos católicos, sim, porém também


tinham escravos de origem muçulmana. Estes africanos
foram escravizados pelos ingleses que moravam na Cidade
Alta do Campo Grande à Barra, lá em baixo no Farol. Os
ingleses exportavam mercadoria para fora. No século
dezenove, os ingleses levaram cativos da África que
trabalhavam entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa com
material para a exportação.
A quantidade de negros muçulmanos que tinha aqui,
você não tem ideia. Você sabia que a Igreja da Lapinha era
uma mesquita? Eles expulsaram os muçulmanos em 1832, e
no lugar da mesquita ele bota imagem.
Estes negros sabiam ler e escrever muitas línguas e
tinham o conhecimento do trabalho de couro. Eles vieram os
primeiros libertos.
Você veja bem. A Associação Protetora dos
Desvalidos foi fundada em 1832. A revolução Male
aconteceu em 1835.

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A Casa de Angola na Ladeira da Praça foi onde


surgiu a revolução Malês em 1835.20 Os negros muçulmanos
ficavam de um lado e as mulheres muçulmanas ficavam de
um outro. E uma mulher escutou o que os homens estava
dizendo: o momento do iniciação da revolução.
Aí em silêncio, ela desceu. Quando acabou a reunião,
ela subiu a Ladeira da Palma e sai na Mouraria, o nome que
vem de “Mouros” e significava que era o lugar dos
muçulmanos. Ela chegou no quartel da Mouraria e avisou ao
corregedor que ia ter uma revolução de muçulmanos, para
eles se preparam.
Foi assim que as autoridades conseguiram conter,
depois de um conflito que foi muito sangrenta.
Os muçulmanos da revolução Malê que não foram
deportados ficaram camuflados. Então eles mantinham a
Sociedade Protetora dos Desvalidos, que é o primeiro
pecúlio das Américas.

Luiza Mahin e Luís Gama

Luís Gama era filho da Luiza Mahin, que era


muçulmana de origem da cidade de Mari no Dahomé (que
hoje se chama Benin). Luiza era escrava, mas era rica. Ela
morava na rua, mais ou menos, Ladeira da Praça em
Salvador. Ela morava próxima ao local onde os muçulmanos
fizeram o levante para liberdade de escravidão. Então, ela
tinha dinheiro e tinha muitos escravos. Os escravos pegavam

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Nota da tradutora: para aprender mais sobre isso, sugiro o livro
Rebelião Escrava no Brasil: a História do Levante dos Malês
(1835) ​escrito por João José Reis.
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ela, botavam na cadeira de arruar, e levavam ela para a Igreja


da Barroquinha. Ela chegava muito bonita e muito rica.
Teve filho com fidalgo português, sobrenome Gama.
E ela deu para o filho o nome de Luís Gonzaga Pinto da
Gama. Este menino era criado com o pai. O filho dela tinha
escravo para ensinar a ler e escrever.
Porém o pai era um jogador pobre que perdeu toda a
fortuna no jogo. A última coisa que ele jogou foi Luís Gama,
o próprio filho. Pegou o filho, e foi ver o preço de um
escravo como o filho dele. Era muito dinheiro para um
menino filho de um fidalgo, menino mulato que sabia ler e
escrever. O senhor que tivesse esse escravo teria muito
cacife. O pai foi jogar o filho, perdeu, aí teve que entregar o
menino para o senhor.
Assim que a mulher soube, ela foi lá, levou dinheiro
e comprou o filho de volta.
Ele estudou em Portugal, estudou no Rio de Janeiro,
na corte. Grande poeta, Luís Gama. Ele fala exatamente do
como o negro vivia.

Guerreiras afro-brasileiras

As mulheres da ilha têm seus primeiros nomes


citados na defesa da ilha da Itaparica em 1872. Havia um
forte - existe até hoje - que essas mulheres defenderam dos
portugueses.
Essas mulheres negras pegaram armas junto com os
homens e se esconderam. Os contadores da história dizem
que elas botaram os barcos embarcados e ficaram escondidas
na praia dentro do mesmos.

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As mulheres descendentes de escravos tiraram a


calda da arraia e seca. Tem um veneno tremendo. E quando
os portugueses entraram na praia elas atacaram com a calda
da arraia.
Você ouviu falar que Steve Irwin, um grande nadador
que tinha nos Estados Unidos que fez muito trabalho com
peixes, morreu com uma ferroada de arraia que foi fatal. No
tempo dos escravos, os negros sabiam que isso matava.
Estas mulheres não tinham facão; não tinham nada.
Os homens sim. Juntos atacaram os portugueses. Elas
defenderam a ilha de Itaparica junto com os negros que lá
viviam.

Capoeira

Quando eu tinha quatro anos, meu pai me levou para


uma roda de capoeira. Nunca joguei, mas eu estudei as
músicas de capoeira, porque têm muitos recados dentro das
músicas. Quando eu falo da capoeira nesse momento eu tô
falando da diáspora. Na capoeira, eles contam momentos da
cultura negra.
Muitos dos negros da capoeira eram negros
descendentes de escravos. Algum ou outro vai para
universidade. Mas a maioria não. E eles não são letrados;
eles são apenas muito inteligente, como Cici. Cici não é
letrada, mas ela acha inteligente. Porque eu gosto de
entender. Sou uma pessoa que tem um pouco da inteligência
e compreensão para com todas as pessoas. O ser humano tem
que ter inteligência para saber porque ele tem essas reações.
Há o bom e o mau em todo canto. É para nós escolher.

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Então, hoje você vê muito universitário na capoeira.


Muitos estrangeiros. Você pode acompanhar a educação
dominante. Mas na hora você vai ensinar a criança como era
que os seus ancestrais cantavam e jogavam.
Eu dou um exemplo. Eu vou cantar uma cantiga de
negro, eu digo, “É o que eu aprendi ou que vocês querem?”
Aí têm pessoas que dizem, “Não, Cici, como a
senhora aprendeu. Como a senhora me ensinou, como a
senhora me passou.”
Tem o Forte de Ajudá. Tinha tanto negro que os
navios negreiros já paravam ali e passaram a chamar o Golfo
do Benin, de Costa dos Escravos. Porque a quantidade de
navios que chegavam ali era imensa. Então, existe uma
cantiga de capoeira que fala sobre isso. Eles cantam,

Botaró quinhentos homem lá no Forte de Ajudá,


Dos quinhentos ficou um
Para história cantar,
Iê viva meu Deus -
Iê viva meu Deus camará

Ele está dizendo que o Forte tinha 500 escravos alí


dentro e todos vieram para cá. E só um que ficou para contar
a história.
Isso é uma das memórias da capoeira. E quando ele
diz, “Iê viva meu Deus - iê viva meu Deus camará,” ele diz,
“Meu Deus, tem a misericórdia de meus irmãos. Não deixa a
gente se acabar.”
Então, quando eu canto e quando eu falo, eu pretendo
manter a linguagem que foi cantada na capoeira.

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Na Capoeira Angola, é tradição jogar com tênis


porque negros escravizados não podiam colocar sapatos no
pé. Esta memória fez com que o uso de sapatos ainda tem
uma conotação de liberdade. Ao outro lado, a gente joga
Capoeira Regional descalça: e é quando nossos pés estão no
chão que nosso contato com os ancestrais é mais forte. É
sagrado conectar com a Terra.
Na minha vida, eu encontrei Mestres Caiçara,
Pastinha (quando ele já estava cego), Gato Preto, e Camafeu
de Oxóssi. Mestre Camafeu era ogã do terreiro Ilê Axé Opô
Afonjá. Ele tocava berimbau muito bem e os Candomblés
chamavam ele para tocar atabaque também. Ele sempre
andava de chapéu, terno, e conta de Oxóssi.
Mestre Bimba também era ogã, e ele nasceu no bairro
onde eu trabalho hoje em dia: Engenho Velho de Brotas em
Salvador da Baía. Ele tocava em muitos Candomblés e foi o
criador da Capoeira Regional.

Irmandades Negras

“Como é que a corte vai controlar esses negros?”


pensou o colonizador. Ele então criou as irmandades
religiosas. O colonizador botou dinheiro e criou uma
sociedade negra onde tem o chefe, onde têm os ministros,
onde têm as pessoas serviçais para que o negro tomasse
conta do outro negro e informasse quais eram as ideias do
negro. As irmandades são criadas na metade de 1700,
oficialmente com o decreto do rei.
Têm Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Você
vai ver Santa Ifigênia. Cê vai ver no Rio de Janeiro São
Balthazar. São Benedito é marroquino e vai ser cultuado

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como Omolú Ajagún. Santa Ifigênia é marroquina. E São


Balthazar é o rei negro que está no Presépio. Ele vai ser
cultuado como um Vodun chamado Zanadó. A festa de esse
Vodun é aqui no Candomblé Jejé na Federação chamado
Bogum no dia 6 de janeiro.
Temos a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, mas
aqui vai ter muitas outras porque a quantidade de negros é
muito grande em Salvador. Nossa Senhora do Rosário é Ifá.
Ela tem um grande rosário que os negros Iorubás viram e
ficaram todo arrepiado. Ela tem um grande rosário que a
gente vê como opelé. Nossa Senhora do Rosário pode ser
uma iyanifa. Por quê? Ela protege os negros em nome de Ifá.
Ifá tem duas formações de sincretismo no Brasil. Ifá
pode ser a Santíssima Trindade e o divino Espírito Santo
também.
A irmandade cresce ao pé de Ifá, ao pé de Nossa
Senhora do Rosário. Toda a Igreja do Rosário no Brasil,
onde tiver você sabe que só são negros. Então você vai
encontrar em Minas Gerais, Rio de Janeiro você vai ver, aqui
na Bahia, e Pernambuco. Pertencer à irmandade do Rosário
era status.
Cê tá vendo o que que cê veio descobrir? Na
diáspora, o que que a diáspora traz? Então, os negros viviam
ao pé dela e os colonizadores criaram essa devoção. Através
da irmandade do Rosário, o negro também se alforriava. Mas
ele se alforriava embaixo dos olhos do colonizador, apesar
de ter acontecido revoltas negras.

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Por artista desconhecido do século 16. (Kraków) [Domínio público], via Wikimedia
Commons

Opele Ifá. Camellia Lee 2017.

Os negros eram divididos por igrejas para poder ser


bem tomado conta as suas ideias. A Igreja de Nossa Senhora
do Rosário onde ficavam os negros Bantu Kongo. A Igreja
de Bom Jesus dos Humildes, onde ficavam os negros Jejé,
Fon. A Igreja de Nossa Senhora da Barroquinha, os Iorubás.
As irmandades eram divididas por essas igrejas. Essas
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igrejas, essas irmandades, elas negociavam com alguns


senhores.
Então, o que acontecia? Era mais fácil para você
saber o que eles estavam fazendo. Compreendeu? De
controlar ele através da religião da igreja. Os colonizadores
davam vantagens à esses negros que informavam. Tudo que
acontecia, eles falavam. Falava, alí! E tinha um que ficava
olhando e passava para os proprietários.
A igreja dos Iorubás, Nossa Senhora da Barroquinha,
botaram fogo duas vezes. E ninguém sabe quem incendiou, o
assassino quem fez. Na terceira vez incendiaram, ela virou
um lugar de cultura. A irmandade foi embora para
Cachoeira, e hoje as mulheres fazem parte da Irmandade de
Nossa Senhora da Boa Morte, que tem um segredo. A
irmandade equivalente masculina é Irmandade de Bom
Jesus. Vão para Cachoeira.

Irmandade da Boa Morte em Cachoeira, Bahia. Camellia Lee 2017.

O sul do Brasil

No Sul, são negros de origem do centro-africano e


antigas colônias, e parte do Sudão. Isso é Rio de Janeiro,

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Minas Gerais, e um pouco em São Paulo. Os negros de lá são


menos. Aí você vai entender, você ver em Minas a
população negra. E se soube em Minas Gerais são os Kongo.
São lugares que quando você vê uma mulata ou uma
negra gaúcha, cê diz, “Você é gaúcha?! Lá têm negros?!”
Todo de a surpresa. E logo que se pergunta é que o outro
negro pergunta também.
A comunidade negra no sul do Brasil é igual nas
outras partes de América do Sul, mora perto da praia. É
brincadeira. Aqui em Salvador quem mora perto da praia é
rico. Quem tem dinheiro pode, só quem tem uma situação
financeira que lhe permite morar perto do mar. Mas lá no Sul
não, é porque eles moram perto de onde chegavam: pelo
mar.
Cê vai entender o sotaque deles do sul a força da
língua alemã e italiana. São Paulo falam com sotaque
italiano. E de São Paulo para baixo, Rio Grande do Sul,
Santa Catarina, Paraná, sotaque alemão. Têm ruas que está
escrito o nome é “rua” em Português, “Straße” que é alemão.
Mas você vai ouvir falar alemão de um lado para o outro e
no meio da rua porque a influência é muito grande. Você vai
dizer, “São Brasis, não são Brasil.”
Aquilo que você vai encontrar no Sul - a relação
entre negros e brancos - é diferente da relação de negros e
brancos para o Nordeste.

Rio de Janeiro

Estamos em 1800 e tá fervendo a Bahia e a Europa.


Então finalmente, a família real chega em 1806 e fica sete
dias na Bahia. Mas não se adaptam. A Bahia já está cheia de

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negros; tem mais população negra do que branca. Eles ficam


sete dias e vão para o Rio de Janeiro.
Eles levam todos os seus artistas que vieram com a
família real. Por conta das famílias reais seram casadas com
príncipes e princesas de outras nacionalidades, nas suas
missões no seu cortejo tinham artistas franceses, alemães,
ingleses. Quando o artista chega no Rio, ele começa a
desenhar o cotidiano.
Então, eles começam a fazer comércios. Os brancos
começam a construir galpões e os negros carregavam as
coisas que vêm do interior, plantadas por outros negros:
como um pouco de verduras, café, e tabaco. Chegavam na
Pedro o Sal vêm os contingentes. Foi o primeiro reduto de
negros no Rio de Janeiro. E esse bairro é muito lindo, muito
bonito.
Vêm muitos escravos Iorubás para o Rio de Janeiro.
Mas os primeiros são os Fon de origem Jejé. Um dos
Candomblés mais antigos que se sabe no Rio de Janeiro
chama-se Kpodabá. A gente sabe que esse Candomblé
existia desde a metade do século dezenove porque têm
documentação e têm história oral. No final do século
dezenove, mais ou menos 1860, foi fundado por negros de
origem Jejé/Fon. O povo Fon cultuava os espíritos da família
real do antigo Dahomey; inclusive os símbolos dos reis.
Kpodabá é um culto ao Vodun do grande leopardo. “Kpo” -
a palavra quer dizer ¨leopardo.” E quando você diz,
“Kpodabá,” você quer dizer “o leopardo em estado adulto.”
Isso tem a ver com a família de Sogbo que, do lado
Iorubá, seria Xangô.
No Rio de Janeiro você vai também encontrar uma
grande comunidade de negros centro-africanos.

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Também têm muitos negros sudaneses, ao ponto de


se saber que em 1800 tinham muitas mesquitas no Rio de
Janeiro. E tinham adivinhos no Rio de Janeiro de origem
muçulmana, chamado “alufá.” Eles adivinhavam e botavam
consulta para brancos e negros abastados.

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Sobre Umbanda

Umbanda é uma mistura do espiritualismo dos


Estados Unidos com o do Brasil.
Botam uma blusa branca, uma saia branca, uma calça
comprido embaixo da saia, e começam a bater palmas. E têm
contas no pescoço como eu tenho, mas as cores são muitas
diferentes de nossas no Candomblé. Se acende o incenso e
começa a incensar o lugar. Eles cantam,

Como cheira Umbanda, cheirou


Umbanda, cheirou
Como cheira Umbanda, José Umbanda
Cheirou, como cheira Umbanda, cheirou
Maria, cheirou, como cheira Umbanda
Cheirou a Guiné, cheirou

Eles estão dizendo que todas as folhas que são


sagradas espantam a energia negativa. Eles vêm e começam
a passar as folhas nas pessoas. Aí eles cantam uma reza, uma
rogação para que os espíritos dos caboclos cheguem.
O protetor dos espíritos indígenas é diferente na
Umbanda do que no Candomblé. Para os Umbandistas, o
protetor dos índios do Brasil é São Sebastião, um santo que
era um guerreiro romano. Ele vem da vida e da morte porque
eles não conseguem matá-lo. Ele volta e vai enfrentar.
Entre os anos 1200 e 1300, na era romana, começam
a ter os primeiros cristãos da nossa era. Esse santo foi
sacrificado em uma floresta. Amarraram ele numa árvore e
atiraram muitas flechas nele, depois jogaram ele numa vala.
Ele agonizou vários dias, e uma mulher ouvindo gemido foi

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orar naquele lugar. Ela vê aquele homem que era Sebastiano,


o nome em Latim. Ela cura ele das feridas profundas e
manda ele embora. Ele diz que não; ele ia enfrentar o
imperador de novo. Aí ele vai enfrentar o imperador
novamente, e o mesmo manda tirar a cabeça dele e diz,
“Agora ele não vai voltar mais.”
Na Umbanda, São Sebastião é o rei das matas, o
protetor dos caboclos, sincretizado com Oxóssi. No
Candomblé, ele é sincretizado como Jagun, um Omolú.
Os Umbandistas cantam,

Oxóssi da mata virgem, ele ata, ta miro!


No tempo que trabalhava, ele ata, ta miro! (x2)
Pena Branca da mata virgem, ele ata, ta miro!
O tempo que trabalhava, ta, ta miro…

Eles começam a chamar os nomes dos índios, e estes


espíritos vêm fumar charuto. Eles também tomam cerveja,
vinho ou cachaça com mel dentro de uma cabaça. Porém,
também têm uns que não tomam naquela cabaça. O caboclo
bebe tudo, borrifa para dar bênçãos, e bota a garafa no chão.

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Sobre Espiritismo no Brasil

O Brasil tem vários tipos de espiritismo, como no


Oriente. É muito parecido. Esses já não dançam, esses já não
rodam. Com orações, com mantras, o espírito toma o corpo
do médio e faz as coisas. E quando solta, o médio expira
muito.
O centro espírita trabalha como nos Estados Unidos.
No centro espírita, as pessoas recebem espíritos de médicos e
professores que já desencarnaram há muito tempo.
A pessoa que consulta o espiritista se põe na frente
do médio quando está num estado normal como eu e você. O
médium recebe um lápis e um papel. Aí o cliente, que veio
ali em busca de ajuda porque não está bem, bota as duas
mãos nas costas do médium e diz tudo que está sentindo. De
repente, o médium começa a tremer, começa a escrever.
Escreve. Expira. Aí quando você for olhar o que ela
escreveu, ela passou uma receita que pode curar aquela
pessoa de alguma doença.
Esses centros tratam pessoas que aparentemente
ainda não estão no psicólogo, mas que também não estão em
nenhuma sessão espírita. Este tipo de espiritismo chama-se
“mesa branca.” São forças espirituais das quais eu já
participei.
A última vez que eu fiz uma mesa branca do
Espiritismo foi talvez 1972, 1973. Eu vinha na rua, aí deu
um vento daqueles no Rio de Janeiro, aí veio um pedaço da
revista e grudou na minha calça. Aí eu peguei o papel,
guardei na calça. Eu estava de veludo porque no Rio de
Janeiro é muito mais frio que aqui. Aí eu peguei, botei, e
deixei lá guardado.

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Aí no dia que eu fui lavar a calça que tinha na mão,


eu vi a revista. “O que é isso, um pedaço do jornal. Deixa eu
botar aqui.” Aí, fui lavar a calça, tô pra lá, para cá, de repente
eu resolvi, ¨O que papel é isso?¨ Quando abri, o papel estava
todo espanhol. Eu nunca esqueço. Alguma família espanhola
havia jogada alguma coisa fora da revista e voa na rua. A
revista até hoje chama-se ​Moda y Hogar. Quer dizer moda e
lar em espanhol.
Justamente a folha que prendeu na minha perna era
uma folha que Ifá colocou no meu caminho. Eu te digo, ele
já estava escrevendo na minha vida.
Era uma folha de papel pedindo correspondência, e
tinha uma menina que queria corresponder com pessoas
porque ela vivia dentro dum sanatório na Espanha em
Madrid. O sanatória chamava Valdelatas de Fuencarral. Foi
no mês de maio. “Vou escrever.” Oh, qual foi a minha
surpresa quando eu recebi a cartinha branca com a volta
vermelha e azul! A menina me respondeu.
Então nós tivemos correspondência do mês de maio
ao mês de setembro e parte de outobro. Cada carta levava
quinze dias para receber resposta. Eu mandava uma carta, e a
resposta vinha quinze dias depois. Eu perguntava a ela, por
quê todas as cartas ela mandava para mim, em cima da carta
tinha esse símbolo? Aí ela dizia porque eles eram católicos,
aí botavam uma cruz. Eu não sabia. Aí ela me explicou.
Aí eu fui falando coisas do Brasil, ela foi falando
coisas da Espanha. Mandou uma foto para mim, aí quando
eu via a foto eu escrevi dizendo, “Eu fiquei muito surpresa
com a sua foto porque para mim você tinha cabelo preto, os
olhos negros, e se pareciam uma árabe.” Aí ela me explicou

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que ela é da Espanha do norte, e ela era muita branca com


olhos azul.
Passaram uns tempos, eu escrevi para ela, não veio
resposta. Eu disse, “Por quê será? Que ela não tá me
escrevendo.” Aí mandei outra correspondência, aí veio a
resposta, ela estava muito doente.
Estava muito frio, já era quase o mês de novembro e
a Europa estava ficando muito fria. Aí uma bela noite, eu
sonhei com minha amiga. Eu faço aniversário dia 2 de
novembro. De 1 de novembro para 2 de novembro, eu tive o
seguinte sonho revelador. Eu estava deitada, e junta da
minha cama tinha um biombo. Aí eu vi ela chegar. Eu sabia
que era ela porque já tinha visto a foto. Eu disse assim, “Oh,
você veio me ver?”
Aí ela disse em perfeito português, “Sim, eu vim lhe
ver.”
Eu disse, “Você aprendeu a falar português tão
rápido?”
Ela respondeu, “Sim, e vim ver você. Eu posso falar a
língua que quiser. E vim ver você.¨ Aí ela me dava um
grande abraço.
Quando eu apertava assustada, eu acordei, abri os
olhos. Dias depois eu recebi um telegrama com a beira da
carta toda preta. Tarja preta. Não era aquela eu estava
habituada a receber de azul, vermelho e branca. Essa branca
e preto foi um convite para participar no funeral dela. Ela
tinha falecido. A família agradeceu todo carinho que eu tinha
tido com ela. Essa moça chamava-se Maruchi Jiménez.
Quando tempos depois eu fui para uma mesa de
pessoas que tinham morrido, o médium escreveu tudo em
espanhol. Isso eu vi.

46
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Mas quando os mortos vêm que fala, Cici não vai.


Cici fica muita deprimida, fico muito triste. Geralmente estes
espíritos pedem para as pessoas e fazer oferendas.
Como eu falei nela hoje, depois eu vou acender mais
tarde uma vela para o espírito dela. Maruchi Jiménez.
Faleceu no dia 2 de novembro, dia do meu aniversário, aos
28 anos.
Além desta experiência, já fiz uma cirurgia espiritual
impressionante. Eu, Nancy de Souza. Vou te dizer.
Eu já era feita de Orixá e tudo. Mas eu apareci com
problema na boca. Do lado de fora, eu tinha no queixo uma
bolinha vermelha do tamanho da minha unha. E aqui dentro
da boca era tudo roxo. Aquilo me dava uma sensação que
tinha fazer alguma coisa para parar de coçar e doer.
Eu fiquei logo com medo achando que fosse câncer
porque ele apareceu do lado de fora uma coisa que estava
aqui dentro da boca. Pela primeira vez na minha vida, eu
perguntei ao Orixá se era câncer ou outra doença ruim. Orixá
disse que não. Aquilo já me aliviou.
Eu fui procurar um médico, que disse que podia ser
decorrentes de uma cirurgia que eu tinha que fazer na boca.
Eu ainda tinha uma prótese e tinha dentes. Tive que tirar
todos os dentes que eu tinha, fazer uma cirurgia, e tomar um
monte de remédios. Porém aquilo continuava. Eu disse, “Eu
acho que eu tô com uma doença ruim.”
Fui descobrir que tinha médico de tecido mole. Aí
este médico passou remédio e disse assim, “Não fique
preocupada não, porque se precisar fazer cirurgia, o rosto se
compõem rapidamente.” Ele quis dizer que se fosse uma
doença perigosa, ele ia tirar toda a área afetada no meu rosto

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e ia fazer uma plástica. Eu já andava triste, já não queria


comer, aí tive a ideia de ir no hospital espírita.
Quando cheguei no hospital espírita que fazia
cirurgia espiritual, eu fiz uma consulta, paguei cinco reais e
fiz uma cartãozinho e eles me chamaram. Acredita:
mandaram eu tirar adereços e ficar descalço. Eu entrei e falei
o que era, o que eu tinha, mostrei, aí marcaram apenas dia
que eu tinha que voltar para fazer a cirurgia. Eles me
pedirem levar nesse dia um vidrinho de soro fisiológico e um
pacote de algodão.
Quando chegou no dia certo, eu fui para o centro
espírita toda vestida de branco com aquela marca vermelha
no rosto. Eles mandaram entrar todos os pacientes. Quando
entrei na sala, tinham umas seis mesas, tipo de cirurgia de
médica. Todas as pessoas eram vestidas todas de branco da
cabeça aos pés, tudo homens e mulheres. Não tinha muito
negro, não. Esse tipo de espiritismo é mais de gente branca.
Tinham muitas brancos que me ajudaram a deitar.
Aí eu mostrei o que era, e dei o soro e o algodão.
Então, depois que todo mundo estava à minha volta, aí vem o
chefe e diz assim, “Vamos fazer as nossas orações.” Para
cada pessoa, eles dão um nome de um médico que morreu,
dizendo, “É esse médico, o espírito do Doutor Fulano-de-tal,
que vai fazer sua cirurgia.” Às vezes são médicos que
morreram mais de 200 anos e voltam. Eles realmente
evocam médicos desde o antigo Egito até o dia de hoje.
Eu deitei naquela mesa, e eles mandaram todas as
pacientes rezaram em silêncio, e pedir pelas suas melhoras.
Ele diminui a luz da sala, e a sala fica toda azul. Aquela luz
azul que é bem fria. Também colocaram uma música bem
tranquila. Eu estou olhando. Aproximaram quatro pessoas à

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minha volta. Uma pessoa fez alguma coisa sobre minha


cabeça, outra fez alguma coisa sobre os meus pés, outra com
as mãos numa parte do meu corpo. Uma pessoa tinha na mão
a garrafinha de soro fisiológico e o algodão. Ele molhava o
soro e ia passando. E as pessoas com as mãos rezando,
rezando, rezando, rezando, rezando.
Quando acabaram de rezar, eu abri os olhos. Eu
estava leve, muito leve. Aí saí por outra porta. Quando saí na
outra porta da sala, eu passei por um corredor de pessoas aos
dois lados segurando um pano branco. Você passa no meio.
Eles com as mãos postas. Você sente aquela energia de mãos
toda no seu corpo.
Quando você sai daqui, eles te dão um papel que lhe
informe que você não pode comer uma série de coisas por
quinze dias. Também dizem as coisas que você poderá
comer. Eu fiz tudo que eles mandaram.
Você acredita que o caroço saiu da minha boca até o
dia de hoje? Estava preto, estava escuro meu rosto, inchado.
Tô aqui na sua frente. São forças espirituais.

49
50

Sobre Candomblé

Protegendo Tradição

O Candomblé começou muito antes do início do


século vinte. Os costumes da diáspora, dos negros que aqui
chegaram, são realmente guardados nos Candomblés.
A pessoa entra, mas vai ter que se adaptar aos
costumes da casa. Quando ela passa dentro da casa, que ela
muda de roupa, já é outra pessoa. Às vezes a gente diz que o
artista ou bailarino, quando está próximo de se apresentar,
tem que vestir as roupas do show que ele vai tomar a
personagem. Mas dentro dos costumes das casas de
Candomblé, a gente tem que acompanhar a tradição. ​Tem
que manter aquela tradição. Entendeu? Porque através
daquela tradição, você consegue manter alguns costumes
vivos. Dentro do Candomblé, você consegue guardar
algumas histórias de como você chegou aqui. Por quê
grande reverência?
Porque os negros chegaram nos tumbeiros. A palavra
“tumbeiro” não é Iorubá. É uma palavra negra, mas é uma
palavra de origem Kongo. Eles viriam como animais. Você
deve ter visto alguns desenhos. Aquilo foi muito comum no
Brasil porque o Brasil foi o lugar que mais trouxe negros da
terra africana. Cê não tem nem contar a quantidade.
Dentro do Candomblé, você vai encontrar uma
grande resistência, principalmente nas casas tradicionais.
Existem certas casas tradicionais que são realmente
fechadas. Existem muitas barreiras contra pessoas de fora,
principalmente as que querem matéria de estudo. Isso é
porque você sabe que os Candomblés vêm de uma situação

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muito triste, que é escravidão. A polícia prendia


instrumentos das pessoas de Candomblé.

Antigos terreiros de Salvador

Importantes são as grandes mães de santo. Os nomes


são chamados em todas nossas obrigações como nossos
ancestrais. Mãe Senhora, minha avó. Ela fez santo do meu
pai de santo. Tia Massí. Mãe Menininha, famosa e
eternamente querida de todos. Mãe Andresa do Vodun do
Maranhão. Ela fumava cachimbo igual ao povo Fon da
Dahomé.
Ilê Axé Iyá Nassô Oká, também conhecida como
“Casa Branca do Engenho Velho,” é a primeira casa de
Candomblé do Brasil, com documentação desde 1830. Você
só pode falar de uma casa tradicional se você tem um
registro, e o primeiro registro oficializado pela corte é a Casa
Branca. Eram perseguido, mesmo assim, eles foram muito
perseguidos.21
A segunda casa foi o “Gantois,” Ilê Axé Iyá Omin
Iyamassê, em 1835.
Ilê Axé Opô Afonjá é a terceira casa tradicional. Mãe
Aninha, fundadora de Ilê Axé Opô Afonjá, era de origem
Ewe, de Gana. O Opô Afonjá foi fundado em 1886 no Rio de

21
Esta perseguição continua até o dia de hoje.

“Integrantes De Terreiro Denuncia Incêndio Motivado Por


Intolerância Religiosa No Recôncavo Baiano.” G1, Globo, 16 Nov.
2019,
g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2019/11/16/integrantes-de-terreiro-
denuncia-incendio-motivado-por-intolerancia-religiosa-no-reconca
vo-baiano.ghtml.

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Janeiro, e 1910 aqui na Bahia. É um dos espaços maiores da


Bahia, um Candomblé onde morava 80 famílias dentro da
roça. Essa roça imita uma aldeia Iorubá.
Toda tradição Iorubá no Brasil saiu de cá, dessas
casas. Existem outras, mas sem esta história. Na Casa Branca
mesmo, o lugar onde você ver tocar, onde as pessoas
dançam, era um lugar de senzala. O senhor desse bairro onde
fica a Fundação Pierre Verger chamava-se Engenho Velho
de Brotas. E lá na Casa Branca é Engenho Velho da
Federação. Até ainda tem a casa do senhor dali, ficava onde
hoje é a Faculdade Católica na Federação. No que era a
senzala, se bate Candomblé.

Aprendendo no Candomblé

Esse saber que você tinha me perguntado, através da


forma com que você entra dentro de Candomblé: nem tudo
Candomblé se fala.
Têm muitas interpretações. Têm pessoas que não
merecem. Têm outras que não ensinam porque não sabem,
têm outras que ensinam errado, têm outras que não têm
aquela dedicação, e têm outras que são igual a Cici. Se você
tiver o interesse e se merece, Cici ensina. Se não, Cici não
ensina.
Mas também Cici não vai deixar você morrer
envenenado. Porque às vezes você tem na sua mão uma coisa
que você não deve estar com ela na sua mão, e você não sabe
porque as pessoas estão vendo e não te ajudam.
Uma pessoa de fora, ela é levada ao Candomblé por
dois motivos, eu acho. Tudo tem o seu tempo. Primeiro

52
53

motivo é espiritual. A espiritualidade tem o tempo dela


existir, de ela durar. Dela vir e dela voltar.
E tem também a parte social. O que é a parte social?
Às vezes a parte social é quando alguém diz assim, “Você já
viu um Candomblé?”
E você diz, “Não.”
“Ah, então você quer assistir um para você ver como
que são os rituais?”
Aí você diz, “Sim.” Socialmente, geralmente, você
vai convidada por alguém. Espiritualmente, às vezes tem
uma forma diferente de você chegar.
Então, é uma parte cultural daquela religiosidade.
Você vai assistir uma cerimônia que vai obedecer a um
ritual, mas você não conhece o ritual.
Se você não for convidada por uma pessoa, você vai
porque você viu um panfleto anunciando uma determinada
festa. O secretário do turismo tem algumas coisas que
descrevem os Candomblés, porque faz parte da cultura da
cidade de Salvador. Você conhecer os museus, conhecer as
igrejas, conhecer o Candomblé.
Então como você entraria num terreiro de
Candomblé? Na mesma forma você entra numa igreja o num
museu: com todo respeito.
Quando você chega no culto de Orixá, a gente faz
obrigações para apaziguar todo tipo de espírito. Agora,
quando chegar uma pessoa, ela toma um banho de folha,
toma um banho de erva muita bom e ela tá purificada. Mas
quando às vezes você vem da rua, o seu corpo pode trazer
uma energia diferente. Fazemos estas obrigações para que
você não entre em transe.

53
54

É de preferência você tem todo respeito. Agora, a


gente chama atenção para as roupas. De preferência uma
roupa clara, não nua com a barriga de fora, essas coisas
atraem negatividade.
Então são as coisas principais para que você conhecer
Candomblé. Primeiramente o respeito, e a forma com você tá
vestida. Por exemplo, têm casas tradicionais que você não
pode entrar com calça comprida. Elas vêm trazer uma saia
para você.
O Candomblé hoje em dia está cheio de doutores, que
muitos negros foram para a universidade; muitos negros
foram estudar. Então eles foram esquecendo e não foram
mais usado dentro dos Candomblés certas palavras.
Guarda-se muitas, entende? Guarda-se muitas.

Gerontocracia: a importância dos mais velhos

Os Iorubás preferem o silêncio. Não quer mais falar,


principalmente a partir do momento que ele começa a ser
corrigido pelos jovens. Aí ele se fecha.
A partir daí, dos jovens ir para a universidade, aí
passa a corrigir. Então a pessoa velha pensa, “É melhor eu
ficar em silêncio.” E aí ela vai esquecendo e não conta. Isso
a gente vai se esquecer, da minha geração para trás. E os da
geração atual, eles vão ter informações distorcidas. Se não
for pesquisar, não olhar para o passado, eles não vai ter as
histórias verdadeiras.
Cada vez tá mais diferente o Candomblé porque os
jovens não querem aprender como os que aprenderam da
minha idade para trás. Quer abrir, ​ba-ba-ba! Rápido.
Acabou. Não é assim que acontece. Não pode ser assim.

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Que que Cici fala aqui? Eu conta minha história para


crianças do jeito que eu escutei ou do jeito que vocês
querem?
Hoje aqui está cheio de pedagogos que me corrigem.
Também têm alguns ficam com vergonha de me corrigir.
Têm eles que não querem aprender. Isso faz parte da minha
história.
O velho resolveu-se ficar calado porque os mais
velhos começar a ser corrigidos pelos mais jovens. É um
fenômeno que pode encontrar em qualquer cultura hoje. É
muito incrível as coisas que acontecem.
O Candomblé é o único lugar no Brasil que você
ainda mantém a tradição do respeito ao mais velho. Alguns
jovens têm muito sensibilidade para a parte de Orixá, mas é
muito, você não imagina. Muito.

Hierarquia no Candomblé

Uma casa de Candomblé é bem estruturada com a


tradição, como a casa. Quando eu te falo sobre isso, eu só
refiro a três casas. Casa Branca, Gantois e Opô Afonjá. São
três casas muito bem organizadas. Todas as três são
matriarcais. Homem não senta nas cadeiras de Iyas, mas
existem os homens que fazem parte do Axé.
Tia Massí, Mãe Menininha, Vovó Senhora, Mãe
Aninha: as mulheres antigas do Candomblé tentavam
manter, aqui no Brasil, os mesmos títulos e os saberes que
existiam na África.

55
56

Mãe Menininha do Gantois (idade 8 anos) - Bahia - Ritual para Oxóssi. 1902.
Acervo do Gantois, in: Memórias da Bahia vol. 2, Empresa Baiana de Jornalismo
S.A., Salvador, nov. 2002.

Mãe Aninha - Eugênia Ana dos Santos (Salvador, 13 de julho de 1869 — 1938), foi
uma importante sacerdotisa do Candomblé. Iyálorixá do Ilê Axé Opó Afonjá - Bahia
- Brasil. https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Mae_Aninha.jpg

Vou te dar um exemplo de um título. Eu tenho um


título: Iya Ilefun. Iya Ilefun é a mulher que, quando se faz
iaô, faz uma porção de pintura branca. É só Iya Elefun que
faz.
“Iya” quer dizer mãe. “Ilê” significa casa. “Efun:”
branco, a pintura branca do iaô. A pessoa com este título tem
que ser de Oxalá, sempre será de Oxalá. Então você tem a
primeira Iya Ilefun. Você tem a segunda, Osí Iya Ilefun. E
56
57

tem a terceira, Otún Iya Ilefun. A casa tem que ter a principal
e mais duas auxiliares: Otún e Osí.
Que quer dizer ¨Otún¨ e ¨Osí?¨ Esquerda e direita.
Quando não tá uma, tá outra.

Toluaye [Domínio público], de Wikimedia Commons

Todos os títulos, tem que ter um primeiro, um


segundo, e um terceiro. Você observa que quando você for
fazendo as contas, você vai ver só em títulos quantas pessoas
têm. Porque se tiver dez títulos, você vai ter trinta pessoas.
Terá sempre o dono do título, a esquerda e a da direita.
Cada casa você vai ter família do santo. O que quer
dizer família de santo? Quando os negros chegam, eles são
separados. Mães, filhos, são cada um jogada para um lado.
Então eles criam uma nova família afetiva que é essa grande
família do Candomblé, que aceita todas as raças, todas as
cores.
Às vezes tem um pouco de resistência por causa do
sofrimento e da história. E depois acaba.
Cada Orixá tem uma casa. Dentro de uma roça de
Candomblé, cada casa de Orixá representa uma cidade de
origem africana daquele culto. Uma cidade assim é diferente
de aquela. Por isso que um tem assim, o outro tem assado.
Por isso que um você pode entrar assim, o outro não pode. E
você vai aprendendo. Já tem os títulos de dentro daquela

57
58

casa, do mais importante ao menos importante. Aí vai tendo


uma porção de raiz.
Vou te explicar. Suponhamos aqui é uma casa de
Candomblé. Tem a mãe de santo, e aqui vai ter a mãe
pequena da esquerda e da direita. Tem Iya kêkêrê, a mãe
pequena. Vai ter número um e número dois, três. É aquela
que é a principal e tem a esquerda e direita.
Suponhamos aqui, ela é de Oxalá. Pode ser de
qualquer santo, isso é suposição. Aqui é a casa de Oxalá, e a
casa de Oxalá vai ter não sei quantas pessoas e quantos
títulos.
Então tem que ter um elemaxó. Pode ser homem ou
pode ser mulher. Têm títulos que só podem ser mulher, têm
títulos que podem ser homem e mulher.
Um outro título, um título número dois pode ter mais
três, por exemplo Ogã ou Ekedi. E um título número três
pode ter mais três. Aí você vai somando uma casa.
Cada casa de Candomblé é uma sociedade. E tem um
mais importante. Tem aquele que faz coisas de palha, tem
um título. Essa pessoa cozinha, tem outro título. Outra
ajoelha na hora das rezas, tem outro título. Mas outro ensina
a dançar, tem outro título. É uma porção de títulos
hierárquicos e os que chamam “nobiliar.” Têm os mais
importantes e os outros que são só títulos honoríficos.
Por exemplo, um título nobiliárquico é Iyalorixá.
Depois da Iyalorixá ela tem um auxiliar que é Iya kêkêrê. O
Babalorixá é nobiliárquico, como rei.
E quando você vê, tem toda uma sociedade
estruturada. Cada posto, cada um daqueles títulos vai se
abrindo, se transformando em outros títulos.

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Os Orixás

Meu pai Fatumbi me explicou que os Orixás são


espíritos de reis de alguns grupos de cidades. Foram seres
humanos que viveram e que nasceram com alguns dons
dados por Deus. Ifá diz, antigamente, os Orixás eram
homens. Homens que nasceram como outro qualquer, mas
que vieram dotados de forças diferentes dados por Deus.
Aqueles que usaram a sua força para o bem da comunidade;
eles até hoje são cultuados. Porém aqueles que não usaram a
sua força para o bem da comunidade foram esquecidos
totalmente.
Alguns deles, quando Obatalá separa o espírito do
corpo, entraram para a natureza e se identificaram com as
forças naturais. A natureza é viva. As folhas têm muito axé,
muito poder. Orixá é a natureza.
E hoje, a gente confia neles, e cultuamos na nossa
memória para passar para as outras gerações. Entende?
Então, o culto Orixá é assim.
E em todas as religiões, você vai ver personagens
míticos, religiosos, sagrados, com o momento que andou
nesta Terra. Desde então, eles são os primeiros, que vêm em
gerações e tempos diferentes, mas trazendo as mesmas
identificações. Eles virão mais no futuro quando eu nem
estiver mais aqui, e muitos dos meus não estiverem. Mas
vocês ouvirão falar naquilo que estou dizendo agora que
você está gravando agora.
Existe um documentário na televisão onde eu conto
uma história ligada a Ossain. É filmado, se chama “Horta
Fatumbi.”22 Repare bem. Então eu começo a contar história,

22
​www.hortfatumbi.org
59
60

sentada naquele banco verde. Num determinado momento,


vem um grupo de folhas e que roda assim. Eu disse, “Olhe,
eu estou falando, é verdade.” Porque a história de Orixá é
para quem acredita.
A vida é quem creia, quem acredita no encantamento.
Porque ninguém vê Deus, mas acredita nele. Sente a sua
força e o seu encantamento dentro de tudo que acontece. Não
é?
Então, têm as respostas, são energias que estão perto
da gente.

Orixá Exú

O primeiro Exú que caia do céu na Terra chama-se


Exú Yangni. Ele tem a forma de uma laterita, de uma pedra
que vem do céu. Quando ela cai na Terra, ela transforma em
256 pedaços, como os caminhos de Ifá: os Odú. Cada um
tem uma coisa da qual ele é o dono.
Aí Yangi vem, se levanta, e começa a engolir os
pedacinhos de Exús. Então, a gente só cultua o que
conseguem fugir e se esconder no mato. Yangi não consegue
pegá-los porque eles estão escondidos.
O Exú do destino, o Exú que acompanha o Orixá da
cabeça da gente, aqui no Brasil, ele é cultuado como Exú
Bara ou Legba ou Elegbara ou Eleggua. É o mesmo.
Exú é o pai dos ebós. As oferendas que a gente
entrega, ele leva para os Orixás. Ele é o mensageiro, ou seja,
“ojise” em Iorubá.
A gente canta para o Exú que tem as boas coisas para
nos dar, que tem tudo que é bom, tudo que é importante na

60
61

nossa vida. Cultuamos ele para que aconteça com muita paz.
Ele chama Exú Odara, e ele traz coisas boas.
Nós conhecemos e cultuamos no Brasil Exú Akesã,
que é Exú dono dos mercados. Exú Akesã fica na porta de
todos os mercados, lojas e shoppings. Exú Akesã também
tem a ver com compras e com negociações porque ele é
falador. Oxum é a dona de todos os mercados a onde você
mexe com comércio, com dinheiro, com roupas, com as
compras do que o ser humano precisa. Tudo isso passa pelas
mãos de Exú Akesã e Oxum. Em seguida, vem um Vodun
que se chama Aizan que é responsável pela preparação das
comidas no shopping. Ele tem a ver com alimentação das
pessoas. Então, esse Vodun anda para lá e para cá
observando. Oxum é a dona de todo negócio. E Exú fica na
frente apaziguando.
Depois tem o Exú da dança. Chama-se Ijelu. Exú
Ijelu é o dono do tambor “ilú.” Tambor ilú é um tipo de
tambor pequeno que você toca dos dois lados na ijexá.
Bumbum pá. Bumbum pá. Exú Ijelu criou esse tambor para
ser tocado e para ele dançar. Ayangalú é o senhor dos
tambores, também ligado ao músico.
No Odú Ose Tura, Ifá conta a história de Exú no
colo, filho de Oxum.

Orixá Ogum

Ogum fala no Odú Ogunda Meji. Para mim, Ogum é


o Orixá de toda tecnologia que existiu, que existe, e que vai
existir. Ogum é o senhor do mundo. Tudo que você usou no
mundo, e precisou de um metal, aquilo já é de Ogum. Ogum

61
62

é uma energia tão forte, que só a gente falar o nome, a gente


já está trazendo uma grande força.

Ogum alákayé osín ímole

É um oriki que quer dizer, ¨Ogum é aquele que vem


na frente de todos os Orixás.¨ A gente também diz,

Ogum eketá Orixá, Oduduwa, Olodumare

Então, eu quero dizer, “Ogum eketá Orixá.” “Eketá”


é o número três. Ogum é o terceiro Orixá. Olodumare, o
destino. Oduduwa, criador do mundo. E Ogum, o dono do
mundo. É o terceiro, depois deles.
Protetor que trabalha com ferro. Quando as crianças
veem uma coisa, uma história na televisão, um filme como
Ironman, eu digo, “É Ogum.” Faço isso para as minhas
crianças poder ter uma ideia do Orixá.
Ele é muito forte. É impossível se descrever.

Orixá Oxum

Oxum, ela se transforma na poderosa das ajés. Você


sabe que são as ajés? Mulheres muito velhas, muito
poderosas, perigosas, misteriosas. Oxum se transforma em
pássaro porque os orixás são zoomorfos. Se transformam
também em animais. Em Osogbo, a aldeia sagrada de Oxum
na Nigéria, ela é também associada com peixes. A comida
afro-brasileira “abará” é para ela. Têm dezesseis caminhos
de Oxum.

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Orixá Oxalá

Oxalá é um nome que refere ao Obatalá, ou seja, “Rei


do pano branco” em Iorubá. Ele é uma energia muita velha e
sábia.
O opaxorô é um instrumento sagrado de Oxalá que
tem três níveis. Um, dois, três. Que que quer dizer o
primeiro? Aqueles que vão nascer. Segundo, os que estão no
mundo. E o terceiro, os que já morreram. Oxalá pode mudar
o dia da morte.
Os animais associados com Oxalá incluíam o
elefante, o camaleão, e o caracol.

Orixá Nanã

Nanã é uma avó velha e austera. Ela é rainha, a mãe


primordial. Ela caminha sempre. Ela é criada com o mundo,
por isso seus poderes.
Ela faz artesanato com barro, e assim que ela criou a
forma dos seres humanos. Oferendas para Nanã podem ser
dadas na lagoa. Tenho todo respeito para pessoas que fazem
iniciação para Nanã, são espíritos velhos não importa a idade
da pessoa iniciada.

Orixá Ewá

Ela é uma Orixá do rio. Actualmente, seu culto é


realizado com Iemanjá no templo da Abeokuta, Nigéria.
Suas cerimônias são feitas juntos com a Orixá protetora da
cidade, Iemanjá. No Brasil, ela é cultuada do lado Jejé/Nagô

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onde se acredita que ela pode se transformar em uma cobre


como Oxumaré e Danbala Wedo.

Orixá Oyá Iansã

Orixá que provoca as tempestades juntos com Xangô,


os raios e relâmpagos. Porem, nas situacoes de tempestades,
chama-se o seu nome e o tempo ameniza. Ela apazigua
também, ela calma. Ela tem esta duplicidade. Oyá diz que na
terra, ela desmancha a confusão e fofoquinha. Ela é muito
venerada de Egungun por ser o único Orixá que controla a
morte.

Candomblé Angola

Candomblé Angola é de Congo. Se usa um pano em


cima do ombro como nem a estátua da rainha africana
Nzingha em Angola.
Candomblé Angola não é Umbanda. É similar às
tradições de Palo Mayombe em Cuba. Santería, como
Candomblé, foca mais nos Orixás.
Na Angola, quando eles querem fazer a festa do
caboclo, já é diferente. Primeiro, eles vão cantar para Exú.
Mas aí já não é como a gente canta no Candomblé Ketu. Vão
usar um ritmo chamado “Congo Real.” Segue um exemplo:

É umavila mavile umavila ekô


É umavila mavila de se o bara bô
É umavila mavile umavila ekô
É umavila mavila de se o bara bô

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Recompenso e-e-a-a, recompenso êiê

Isso é Angola. É quando você canta antes de


começar. Enquanto eles cantam “Recompenso êiÊ,” eles
jogam um pouco de farofa amarela, um pouco de farofa
branca, e água na porta.
Depois que você canta para Exú, aí você pega efun.
Aí eles ralam o efun e botam numa cabaça. E vem uma
pessoa segurando aqui, e vem outra do lado. Quando eles
vão jogar o efun que eles chamam “pemba,” eles botam aqui
e cantam. Com essa mão você carrega a pemba, e a outra,
você põe na mão a quantidade. Aí você canta assim,

O ke pembe
O ke pembo isa ka sanjo isa da Angola
O ke pembe samba Angola
O ke pembe
O ke pembo isa ka sanjo isa da Angola
O ke pembe samba Angola

Aí na hora que você vai soprar, você canta,

O ke pembe, o ke pembe
Monasale ke pembe o ke pembe
Manasale ke pembe o ke pembe
Monasale ke pembe o ke pembe, monasale!

Aí depois que cê faz isso, é que você vai cantar para


os caboclos. Você pode sentar numa mesa ou no chão numa
esteira, com uma vela num prato acesa ou a conta que a
gente tira, a conta do nosso santo. Aí você canta,

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Abre-te campo formoso, abre-te campo formoso


Deixa os caboclo passar, o deixa os caboclo passar
Abre-te campo formoso, abre-te campo formoso
Deixa os caboclo passar, o deixa os caboclo passar

E quando você vai cantando, eles vão chegando. Aí o


primeiro que chega, ele tem que dizer quem é ele.
Então, o caboclo não tem a ver com feitura de Orixá.
Ele é livre. É um espírito que pega você se ele quiser.

Bandeira branca se trago um, pai forte


Trago no peito uma estrela brilhante
Oh Deus salve essa casa santa
E a sua lança de guerreiro

Então ele está saudando o espaço onde ele está, onde


ele chegou.

Sou eu, sou eu, não nego o meu natural


Eu me chamo Pena Branca, venho da aldeia real
Sou eu, sou eu, não nego o meu natural
Eu me chamo Pena Branca, moro numa aldeia
real

Ele diz, “Não nego o meu natural. Sou índio. Chamo


Pena Branca. Venho da aldeia real.” É a aldeia de Deus onde
vivem os espíritos dos indígenas. Esses espíritos até agora
então, que estou cantando para você, são índios que muitos
deles foram massacrados pelos portugueses.

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Agora, caboclo é outra coisa. Ele é mistura de negros


fugidos com indígenas. Vai criar um tipo físico diferente. Ele
vai ter características indígenas e negras. Muito desses
espíritos de caboclo são negros que perderam suas vidas no
garimpo procurando ouro e pedras preciosas, tipo índio.
Outros eram pessoas mestiças que morreram tomando conta
das boiadas. Perderam a vida levando animais de uma terra
para outra. Então são chamados caboclos. Eram negros com
mistura indígena que conheciam muito do mata, da selva.
Tem um muito famoso, um espírito que é boiadeiro.
Boiadeiros são espíritos já desencarnados a partir do início
do século vinte. 1910, 1920. Que é quando se existe os donos
das grandes fazendas de gado e da plantação de cana, de
fumo. Então os negros são obrigados, os caboclos, a
trabalhar alí como escravos pois perdem suas vidas alí.
Existe exemplo disso, um caboclo chamado Campineiro.
Campina é o lugar onde, nos Estados Unidos, onde
vivem um grupo que você conhecem como cimarrons. Eles
usam roupa de couro. Eles têm a pele toda tostada do sol, são
muito queimados. Você tem que olhar bem para o rosto dele
para saber-se que raça ele é. Isso é o caboclo aqui no Brasil.
Mas só que o trabalho dele é num lugar no campo, e tem
alguém que toma conta dele.
Ele tem que trabalhar, então, ele não usa roupa de
pena. Ele usa uma calça, ele usa um chapéu de couro, e às
vezes ele usa um pedaço de couro no corpo sendo para
proteger as costas do sol. E ele tem na mão uma pequena
faca para cortar capim, para cortar fumo, para cortar trigo,
para cortar espigas de milho. Ele trabalha nas roças na
campina, onde o sol bate demais. Então têm os personagens
que viveram aí nessa vida, que a gente canta,

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Corte capim aí, capineiro


Corte capim aí, capineiro
Só para quando eu mandar, capineiro
Só para quando eu mandar, capineiro

Assim, ele tem uma faca; ele tem que trabalhar o


tempo tudo. Ele só pode parar quando o feitor manda.
Quando você canta isso, é um ritmo similar ao barravento.
Aí ele canta a cantiga, dança, e ajoelha no chão enquanto
cantando e dançando. Aí ele levanta e começa sapatear com
raiva.
Tem outro que ele é empregado numa fazenda. E
então ele tá passando com o boi numa estrada na montanha.
Aí um boizinho cai. Então ele vai salvar o animal, mas morre
porque quando ele tira o boizinho, e bota o boi na estrada e o
corpo dele caiu no despenhadeiro e ele morre. Também ele
usa uma calça de couro, um lenço no pescoço, e um chapéu
de boiadeiro na cabeça. Esse é um cimarron mesmo. A gente
canta,

Seu boiadeiro, mas o que linda boiada


Seu boiadeiro, mas o que linda boiada
Ele é cavaleiro na jurema, é nosso camarada
Ele é cavaleiro na jurema, é nossa camarada

A jurema é uma parte da floresta sagrada onde o


espírito vive. E lá ele faz caridade para os que estão na Terra.
Ele é um cimarron, e quando ele chega, ele fica assim
olhando as moças. Aí ele canta para as moças, “Linda
menina, por quê me olhas se não me queres; por quê não me

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ignoras?” Ele é bonito; ele morre na flor da idade. Então,


quando ele vê uma menina que tem cabelo longo, ele pega o
seu cabelo e canta,

Na trança do seu cabelo, eu bebi água no gravatá


Na trança do seu cabelo, eu bebi água no gravatá
Eu bebi água no gravatá, o morena
Eu bebi água no gravatá, eu bebi água no gravatá
O morena, eu bebi água no gravatá

O gravatá é uma planta que fica cheia de água.23 Aí


ele molha o cabelo da menina, tira e bebe toda a água que
escorre do cabelo. Ele é romântico! São espíritos bonitos e
românticos. Ele canta coisas lindas.
Tem um que chama Tropeiro. Você sabe o que é?
Nos Estados Unidos, agora não existe mais. Mas no antigo
lugar, nas terras dos Estados Unidos, chegam os
desbravadores. Aí eles vêm com as famílias deles nas
carroças, trazendo tudo para começar fazer cidade.
Então, esse que chama Tropeiro, ele dirigia uma
carroça. A carroça cai e ele morre, pois o espírito dele vem
para cuidar das pessoas. Aí ele bota um chapéu bem grande
igual mesmo que você vê nos Estados Unidos, bota aquele
colete, só que é um espírito indígena. Aí ele vem.

Seu Tropeiro é!
Seu Tropeiro ah
Seu Tropeiro é!
Seu Tropeiro ah
Mmmm, aaaa, mmmm, bom Jesus de Maria!

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​Bromelia balansae.
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Nesta cantiga, é como se ele estivesse segurando a


rede do cavalo que tá na carroça. Ele está dizendo que ele
vem com Jesus e Maria acompanhando ele.
E aí são alguns exemplos dos espíritos das indígenas
que vêm nas sessões de caboclo e do Candomblé de Angola.
Estas casas os recebem com muito carinho, diferente de uma
pessoa das casas tradicionais Ketu. No Candomblé Ketu,
nunco isso vai acontecer. Nem no Opô Afonjá, nem no
Gantois e nem na Casa Branca. Porque são lugares que as
pessoas não cultuam índio. Só cultua Orixás.
Algumas casas têm medo, porque tem que saber
mexer com esses espíritos. Por quê têm medo? Porque
muitas vezes, esses espíritos estão sofridos, e eles querem se
manifestar. Ele quer um carinho de sua família. Às vezes ele
quer mandar uma mensagem. Porém, as pessoas têm medo
de entrar em contato.
Às vezes, o espírito tem uma grande necessidade de
mandar aquela recado. Aí a pessoa começa a sonhar. Você
passa, ele se manifesta, toma forma humana na sua frente. Aí
você se assusta, aí levam você para a psiquiatra. “Ela está
louca.” Começa a botar uma série de drogas na pessoa. Aí a
parte espiritual fica abalada por causa da força da droga
química que o homem prepara.

Egungun no Candomblé

Egungun é cultuado nos ilês próprios. É uma


sociedade masculina, a sociedade de Egungun. As mulheres
só participam até uma parte, mas têm muitas mulheres.
Muita gente que é de Candomblé, de Orixá, frequenta o

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71

Candomblé de Egungun. Muita gente que cultua Orixá cultua


Egungun.
Mas tem muita gente que cultua Orixá e não suporta
Candomblé de Egungun. Não, porque eles não se entendem,
não se dão bem. Isso é porque a sociedade é outra. Nas
sociedades que envolvem dinheiro, envolvem políticas. Nem
todas as casas andam paralelas ao culto de Egungun. O Opô
Afonjá, sim. Casa Branca tem algumas pessoas. O Gantois,
não.
Por exemplo, o lugar que você cultua seus ancestrais,
a gente chama de “igbó.” Opô Afonjá tem. Mas não sai
Egungun andando. Já no meu Candomblé, Ilê Axé Opô
Aganjú, sai Egun andando. No mês de janeiro, se você for na
minha roça do Candomblé, aí sim, você vai ver Baba Egun.
Só em janeiro. São três dias de festa: é um sábado, um
domingo e uma segunda.
O culto ancestral a gente faz de várias formas. Cici
faz - hoje nem tanto - mas Cici faz. Na minha roça de
Candomblé, durante esta festa, saiam muitos Eguns. Entre os
Eguns que eu faço é o espírito de Baba Fatumbi, Pierre
Verger. Ele sai muito bonito com os panos azul claro e
branco. Você tinha que ver como é.
Ele sai com as roupas, anda devagarzinho, como ele
andava na vida. Ele traz na mão uma espada, porque ele era
de Oxaguian, e um pilão. Você conhece a origem do Egun
por aquele que ele traz na mão.
A gente faz oferendas a esses Eguns de acaçá. Acaçá
é um bolo que a gente faz de milho branco, que vai no fogo.
Depois ele é bem cozido, no ponto que ele está duro, a gente
pega a folha da banana, assa de uma lado e do outro, bota os
bolos, e a gente deixa esfriar.

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A gente oferece acarajé também, com otí funfun. Otí


é uma palavra Iorubá que significa bebida forte, bebida que
contém álcool branco. Por quê o álcool? Para que acordem
os ancestrais. Pode ser run.
Esses oferendas são acompanhadas de vela. A gente
bota o acaçá numa vasilha branca grande, bota algum
dinheiro se pode, e pede tudo que a gente precisa. Dentro do
Candomblé é assim que você faz oferenda. Quando a gente
tem uma pessoa em nossa família que vai embora, a gente
também vai e fala, “Faz as coisas para aquele espírito.”
Quando você dá o acaçá, você levanta o prato sem
ninguém ouvir. Você pede tudo que você precisa no prato e
cobre a oferenda. Se fala assim, dentro da oferenda, “Blah,
blah, blah, blah,” e cobre. Bota a vela e dinheiro em cima.
Diz, “É para Egun Fulano-de-tal.” Quando chega de noite, o
Egun vem te dar resposta de que você quer saber na festa. Se
toca, e ele vem dançar.
É a mesma coisa que o Candomblé Orixá, a mulher
fica de um lado, homem de outro. E às vezes, o Egun chama
você para perto dele. Cê vai ficar uma distância, ele vai ter
um inxé. E o Egun vem, e fica muito feliz quando você dá
oferenda e tal, ele canta para o seu santo.
A pessoa vira na hora; o santo pega na hora. Quando
o santo pega, o Egungun entra para o quarto. E de lá, do
quarto, ele canta para que seu Orixá dança no barracão.
Egungun não mistura com santo porque Orixá é um espírito
vivo, e ele já morreu.

Caminhos no Candomblé

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Eu digo que eu não sei fundamento de Orixá porque


dentro do Candomblé eu não me dediquei. Eu não entro
dentro do fundamento. Meu caminho no Candomblé é outro.
Dentro do Candomblé, tem mil caminhos. Tem o caminho de
quem toca, tem o caminho de quem dança, tem o caminho de
quem cozinha, tem o caminho de quem bota búzios, tem o
caminho de quem faz Orixá, tem caminho que tem força para
fazer mal aos outros, tem caminho que tem mão para fazer o
bem aos outros, é um monte de caminhos!

Percussão no Candomblé

Todos os Orixás no Brasil têm um ritmo sagrado. Já


que muitos deles criaram seu próprio tambor e seus próprio
instrumentos.
O ritmo batá é o ritmo sagrado de Xangô. O protetor
das crianças. Existe um ritmo com o mesmo nome do tambor
onde dançam Egungun, Xangô e Oyá. É o que eles mais
gostam de dançar. Então quando Xangô dança, ele roda
assim e seus panos ficam todos girando, que é muito bonito.
Depois, temos do ritmo sagrado, ageré. É o ritmo dos
caçadores, o ritmo de Oxóssi. Ageré. Que quer dizer, “O
caçador que com seus pés faz barulho de mil caçadores.”
O que quer dizer isso? Antigamente, usavam
tambores na caça. O caçador sabia onde o animal dormia, e
colocou uma rede de cordas perto. Pois tocou tambores e
atordoou o animal, fazendo tanto barulho que fez o som de
mil caçadores. Depois de puxar a rede, ele devolveu à
floresta os animais jovens e as matrizes. Os animais adultos
eram levados para a comunidade.

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Tem que ter um bom tocador para poder ele mostrar


no couro, no tambor, o momento. Você tem que ter uma
pessoa que toca bem porque o som tem que mexer com
corpo.
O ritmo de Ogum chama-se “vace rápido.” Ogum
dança ijexá rápido. Agora, Omolú dança “vace lento,” a
mesma batida, mas só que ele é velho, ele dança mais lento.
Quando você canta ijexá para Obatalá, ele é um pouco lento.
Oxum já é mais rápido.

Dança no Candomblé

Tudo que você faz na coreografia conta história. Têm


diferentes coreografias que depende do que você tá falando.
Entendeu? Justamente a ligação entre palavras e o gestual, o
movimento.
Orixás reis da dança são Exú Ijelu, Xangô, Oxum,
Oxumaré. Exú Ijelu criou o tambor ilú. Xangô, o tambor
batá. Oxum, tambor ijexá. Oxumaré, o tambor sôl. Então,
esses são os que mais bailam, que mais dançam, que têm
mais coreografia. São esses os donos da dança.
Porém Oxum é rainha da dança, mas ela não tem uma
coreografia tão diversificada como Xangô, Oxumaré, e Exú.
As coisas dela são diferentes.
O toque de Oyá é mais rápido do que os toques para
Oxum e Oxalá porque você tá falando sobre uma pessoa
rápida. ​Dum, dum tá! Ela, quando dança, tá amolando uma
faca de um lado para o outro, no ritmo de ijexá. Tá na frente
do rei. E você canta, “Oloya, obexirê”- ¨ ela é dona da
rapidez e ela tem na mão uma faca que ela usa para desafiar
o rei e quem quiser lutar com ela. “Obé,” faca. “Xirê,”

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dançar. Ela está dançando e amolando uma faca ao mesmo


tempo, rapidamente.

Oferendas

Esse ano, Cici já fez o feijão de Ogum. Todo mundo


comeu. Eu boto no mato e acendo a vela para ele. Fiz de
Oxóssi. Botei no mato. Quando eu faço de Oxum, vou para
as águas. Quando eu faço de Iemanjá, vou para as águas.
Oyá Iansã aceita acarajé de oferenda. Faço para as pessoas, é
uma festa. É brinqueda, é doce, é bolo. Eu faço saquinho de
doces surpresa para as pessoas que comparecem. Aqui na
Fundação Pierre Verger, até os macaquinhos vêm.
No Brasil tudo quase para Orixá se usa cabaça. Por
exemplo, se usa para dar oferendas para Oxum. Mas só que
para Oxum é cortada ao comprido como um útero de uma
mulher E para os caboclos e outros Orixás, você corta em
cima.
O espírito vir até a comida em forma de um
mosquito, ou em forma de uma formiga. Por isso, o mosquito
na comida a gente não pode matar. Orixá pode ser um bicho
penudo, um gato. A forma que o Orixá quiser tomar, ele
toma. Ele vem e come aquela comida assim que se põe.
Além disso, o insecto pode ser o ancestral. E ele também
recebe pelo cheiro, o tempero da comida. Porque ele recebe
aquele energia. A ancestralidade é a mesma coisa. Só muda a
cultura, a língua. Entende?

Comidas do Candomblé

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Você sabe por religião tem muita coisa que eu não


posso comer. Como Ifá fala muitas coisas, é por isso que
muitas comidas fazem mal a gente. Está em Ifá. E uma das
coisas que eu não como é o seguinte. Olhe. O culto de
Obatalá, uma parte, tem origem muçulmana.24 Já que Ifá vem
do Egito, segundo os nossos mais velhos. E Ifá faz parte da
família de Obatalá. A mesquita já me convidou muitas vezes
para me ir lá, e eu vou. Eu tinha uma sura do Alcorão que foi
feita com meu nome e a data que eu nasci. Foi feito no Malê,
o homem quem fez nunca me viu. É muito interessante
porque ele disse que eu tinha que rezar para o povo de Deus
e que sou calma e tranquila. Estou sempre rezando por todos.
O meu nome está no livro de Deus, e o seu também.
Então, eu não posso comer carneiro. Muçulmanos
podem comer carneiro, mas o povo de Oxalá não pode por
causa de uma história muito antigo. Um dos príncipes da
família de Oxalá vem de Mecca e se faz uma obrigação em
Ile Ife, uma cidade fundada por Oduduwa que vem do Egito.
Então o carneiro é oferecido para que esse príncipe tenha um
sonho para ele libertar a cidade. O príncipe é africano e
muçulmano. Então, em respeito a esse trabalho a gente não
pode comer carneiro. Ninguém de Obatalá come carneiro
nem usa o pelo dele. Sapato que tem o couro do carneiro a
gente nem bota.
Já no Maracatu no Xangô, eles usam o carneiro.
Entende? No couro de carneiro para colocar nos alfaia,
tambores de origem árabe. Tudo isso Cici sabe. O alfaia de
Maracatu, quando toca o toque de baque virado, a pessoa que
têm Orixá entra em transe. Eu vi esse ano na estrela brilhante

24
Para mais informação sobre esta conexão, pode ler o Odú
Otura Meji.
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a força daqueles tambores. Porque são tambores que o


animal é oferecido ao Xangô. Dali, você vai encarar aquelas
alfaias porque Maracatu é Afro e esse couro é sagrado.
Entende as diferenças? E lá o culto é para Xangô.
Muita gente dedicada ao Xangô e Iemanjá, que também
come carneiro. Já no culto Iorubá daqui, a gente usa mais o
couro do cabrito e do bode.
Então voltando, no culto de Obatalá, não se come
carneiro. A pessoa que é iniciada para Oxalá, principalmente
Oxalufã, e toda aquela família, não bota carne do porco na
boca. Nem usa nenhum derivado. Cici não bota carne do
porco na boca! Não é para comer o carneiro. Porque não
ponho carne de porco na boca? Porque para os muçulmanos,
a carne é amaldiçoada.
Ifá diz, “Não deve botar bebida de álcool.
Muçulmano não deve beber álcool.” Mas Cici adora o
licorzinho no momento special. Primeira eu boto para Eleguá
e depois para todos os meus ancestrais.
O que é a bebida dentro da cultura? A bebida é para
acordar determinados espíritos que estão dormindo. Porém,
por causa de Oxalá, a pessoa não deve beber, principalmente
os filhos deste Orixá.

Maternidade

Quando o bebê está no útero da mãe, Oxum é


responsável. Porém, Iemanjá é o Orixá que propõe o líquido
que o bebê vai flutuar lá dentro. E Oxum é a dona do útero,
que é a casa que o bebezinho tá lá dentro. Elas trabalham de
comum acordo.

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Agora, Olodumare está no Orun, e aquele bebezinho


vai em espírito se apossar dele. Pode ser um espírito
ancestral. E esse espírito que vai se apossar do bebê,
normalmente ele vai ser igual a quase todos. Porque ninguém
é igual. Somos parecidos. Mas as nossas sensibilidades, um é
mais, outro é menos. Sensibilidades todos têm, o negócio é
trabalhar a sensibilidade.

O culto Gẹlẹdẹ

Quanto o culto Gẹlẹdẹ, sabe-se muito pouco. Que é


um feminino que tem a máscara, e um pano segurando a
máscara. É só feminino. Aquelas máscaras de madeira eram
para poder a mulher engravidar.
A máscara Gẹlẹdẹ não é a máscara que você prende
os panos. É uma barriga de uma mulher grávida. O que que
acontece com aquela barriga de uma mulher grávida?
Quando o espírito Gẹlẹdẹ bota aquela cabeça, aquela coroa
com aquele pano pendurado, se movimenta como uma
mulher passeando.
Mãe Menininha do Gantois, o que eu sei é que ela,
com idade de oito anos, ela foi levada a um salão para
assistir o Gẹlẹdẹ. Mãe Menininha cantava a cantiga que ela
escutou no culto Gẹlẹdẹ. Isso era no Cabula. Aquilo dali até
uns dez anos atrás, era mato, mato, mato, mato. Ninguém
construía nada alí. Tinham crianças que iam brincar, caçar,
mas ninguém construía. Aí vem uma empresa, compra
aquele terreno, e construiu aqueles prédios.
Dentro do Opô Afonjá, que era bem próximo do
Cabula da subida, acharam uma máscara Gẹlẹdẹ. Aí alguém
não sabia o que era. Quando acharam aquela máscara,

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tinham pintado alguma coisa e jogaram um monte de tinta.


Manchou aquela máscara toda. Mas alguém pegou assim,
“Não, esse negócio é das mulheres antigas. Não pode pegar
essas coisas não.” Depois fazendo a pesquisa, era o seguinte.
Essa máscara Gẹlẹdẹ têm no Opô Afonjá; eles recuperaram e
é a única que você conhece dentro do Candomblé. Só é essa.

Máscara Gẹlẹdẹ no Museu Cincinnati. Wikimedia Commons. [Domínio público],


2013.

Ruth Landes

O livro ​Cidade das Mulheres é importante que aí


você vai entender toda a relação que existe dentro de uma
casa de Candomblé com pessoas de dentro da casa e com
pessoas de fora da casa. Ela mostra, neste livro, a força do
matriarcado nas casas tradicionais de Candomblé. Isso
permanece até os dias de hoje, e assim continuará sendo.
Ela viveu no Opô Afonjá nos anos quarenta. Fez sua
tese e depois das suas pesquisas, ela retornou aos EUA. Ela
saiu uma certa noite diretamente para o aeroporto.

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Sobre Babalaô Fatumbi

É uma honra e orgulho dizer que eu trabalhei com


Pierre Verger, que a maioria das coisas da minha cultura eu
só aprendi com ele. Os outros aprendi com meu pai de santo,
Balbino Daniel de Paula conhecido como Obaràyí.
Você veja, meu pai Fatumbi era um homem que,
quando ele chegava, era um rei. Todo o mundo queria beijar
a mão do meu pai Fatumbi dentro das roças de Candomblé.
Era uma coisa fora do comum, esse homem. E na
universidade, quando ele dava aula como professor na
UFBA, ele era muitíssimo respeitado pelo seu saber e seu
conhecimento profundo da diáspora afro-brasileira.
A Fundação Pierre Verger foi criada em 1988 durante
as comemorações da Lei Áurea e os 100 anos de abolição da
escravatura. E também no ano seguinte foi uma grande
quantidade de brasileiros ligado ao culto de Orixá ao Benin.
E essa viagem sempre Pierre fazia, desde 1988.
“Cici, eu ainda vou te levar no Benin,” ele dizia.
Trinta anos depois, eu fui em 2018 e passei em algumas
cidades da qual meu Fatumbi é lembrado até hoje com
grandes honras.

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Sobre Ifá

Eu ainda tenho muita para aprender na vida, né? E é


só a Ifá que me dê essas oportunidades. Cada vez que eu saio
desse país, cada vez que eu vou para um lugar eu aprendo.
Não só nos outros países, não, meu próprio. E no meu
próprio, vejo como estamos tão distantes de certas
informações que meu pai Fatumbi me ensinou, mas que
ninguém vem me perguntar. Por isso que eu digo, ¨Eu falo
para quem quiser ouvir.”
Na minha vida, as pessoas que têm a ver com Ifá, ele
manda no caminho das pessoas as coisas certas. É só a
pessoa observar e ter sensibilidade. Porque às vezes o senhor
é regido por um relógio, por um computador, “Eu só posso
estar aqui até tal hora, eu posso estar alí, daqui a pouco tenho
que fazer aquilo,” então não entende muito bem as
mensagens que vêm do Orun, o céu. Na minha idade, Cici
tem 80 anos, quando eu tô falando às vezes com as pessoas,
aí caia uma fruta, dá uma chuva, vem um vento. Eu digo,
“Olhe, o Orixá não deixa eu mentir. Ele está confirmando o
que eu falo.”
Ifá diz, “Aquele que morre como sabe não é igual a
aquele que morre como não sabe.” Ou seja, a pessoa não vai
para o mesmo lugar. Ele quer dizer que se você sabe
determinada coisa, um dia a gente vai para o Orun. Mas a
gente sabe receber essa situação, nosso espírito, e a gente faz
muitas coisas boas para receber esse Orun em nosso espírito.
Aquele que não faz, que não sabe, com certeza vai sofrer
muito antes e vai padecer demais.
Além disso, Ifá diz, você pode não ter a oferenda que
aquela pessoa iniciada merece, mas você dá o que tem.

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Existem pessoas que vão ver um sacerdote de Ifá para


resolver a vida espiritual. Quando ele joga, Ifá diz, “Você
não pode receber um tostão de essa pessoa. Você tem que
dar a essa pessoa o que ela precisa, mas não pode cobrar
nada a ela.”
Quando Ifá diz, “Você não deve cobrar essa pessoa
nada,” significa porque “É comigo, a parte dela é comigo,” aí
você faz. Porque se por um acaso, você cobra aquela pessoa,
dá tudo errado para a pessoa e para você que cobrou. E Ifá
tem o seguinte: quando ele fala uma coisa de verdade, aquilo
vai acontecer de verdade. As coisas que Ifá disse para mim,
eles estão acontecendo. Não tenho riqueza, mas tenho ajuda
que Ifá, Ogum e meus Orixás Oxalá e Oxum botam no meu
caminho.
Verdadeiramente, no Brasil a gente diz que a pessoa
que é de Ifá não vai passar com fome. Tudo que Ifá manda
que vem na minha mão, eu digo “Axé” para quem me dê,
para todos vocês.

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Lendas do Griot25

A mídia mostra que você toca no botão, você vê um


número. Você fala de sons eletrônicos que são do
computador. Então Vovó conta história que o computador
não conta. Eu vou dar a história do encantamento que, se a
gente perder, a gente morre.

A criação do mundo

O saco da criação é criado por quem? Por


Olodumare, o destino, com a supervisão de Orunmila, o
adivinho. O destino cria aquele espaço, a cabaça. E o
adivinho Orunmila vai botando tudo que tem que ter dentro
daquele espaço tudo que precisa.
Quando aquele espaço está tomado, ele vai e fecha
como um saco. Ele pega aquele saco e chama Obatalá, o
mais velhinho de todos e diz, “Meu pai. O senhor vê
qualquer lugar do espaço que o senhor queira e abre este
saco.”
Então, Obatalá dorme no caminho. Exú que era uma
energia que existia, que que a energia faz? Ela passa e vê
Obatalá dormindo com o saco da criação. Mas ele não sabe
que é o saco de criação. Ele vê Obatalá dormindo, e ele vai lá
devagarinho e tira o saco. Obatalá continua dormindo.
Aí Exú pega o saco, procura Olodumare, o destino, e
diz, “Meu pai, o senhor entregou essa missão ao meu pai

25
Nota da transcritora: Os griots na África Oeste são uma casta
de contadores de histórias que memorizam lendas, cantigas e
linhagens das famílias para preservar a memória da comunidade.
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Oxalá, mas ele estava no meio do caminho do nada


dormindo.”
E Olodumare diz, “Me dê.”
Exú, contra a vontade, entrega o saco da criação.
Olodumare chama Oduduwa, um jovem guerreiro e entrega o
saco de criação. Diz, “Meu filho, você vá em qualquer lugar
do espaço e cria o mundo.” Oduduwa não perguntou nada, e
ele foi. Nada, ele achou que aquela parte da atmosfera seria
propício, aí ele abre o saco e joga tudo que tem. Aí ele vê
que aquilo cresce, cresce. Ele fica espantada. Ele não sabia
que dentro daquele pequeno saco tinha aquele mundo todo.
Ele vê o poder do senhor do céu.
Quando ele vê aquilo, ele leve sete dias para entender
tudo: as plantas, o rio, o mar, os animais, as frutas, a
natureza, as folhas, as flores, tudo, tudo, tudo! As
montanhas, os vales, tudo que ele vê ele leve sete dias para
conhecer. Quando ele volta, o pai dele tá dormindo no
mesmo lugar.
E quando ele passa pelo pai, o pai toma aquele
assusta e procura o saco da criação. O saco da criação não
estava ao seu lado. Aí ele fica tão triste, fica tão preocupado
aí Oduduwa diz, “Calma, meu pai. O mundo já está criado.
Vamos comigo.” Aí leva Oxalá muito envergonhado, muito
velhinho com a cabeça baixada.
E Obatalá chega perante o destino e perante o
adivinho e diz, “Vocês me caminharam para uma missão,
mas eu falhei. Eu estou imensamente envergonhado.”
Olodumare diz, “Meu pai, não se envergonha. O
mundo está criado. Então o senhor será encarregado de criar
o ser humano.”

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A criação dos seres humanos

Aí você diz, “Cici, me explique. O mundo é criado.


Depois que o mundo é criado, é criado o ser humano? Por
quê que cria o ser humano?” Para que ele saiba reverenciar
os espíritos de céu. Para que ele conheça que nada daquilo
que está alí, que ele vai encontrar, está alí por acaso.
As montanhas não estão alí por acaso. O mar, os
lagos, as plantas, nada está por acaso. Tudo foi criado por
Deus. Para que a gente reverenciasse e respeitasse e
procurasse que força sábia, que força importante foi essa que
teve o dom de criar tudo isso: a natureza. Então o homem
exalta a natureza. O homem aprende a exaltar natureza e por
conseguinte, os espíritos que ali vivem.
Quando Oxalá e Nanã criaram o ser humano, Oxalá
usou muitas coisas da natureza. Ele tentou fazer o ser
humano sozinho, mas ele só conseguiu fazer o ser humano
quando ele encontra Nanã no fundo das águas paradas.
Então, o que que acontece? Nanã é senhora da criação.
Juntos com a Nanã, Oxalá criou o ser humano. Oxalá criou o
espírito e Nanã fez o corpo com o barro dela. Nanã e Oxalá
são o primeiro casal do Candomblé.
Então vem Ifá Orunmila, Orixá de adivinhação, e
Olodumare. Olodumare bota na mão direito aquilo que ele
diz, “Aqui está o seu destino com coisas boas e ruins.” E
fecha a mão da criança.
Ele dá o dom. Então a gente sabe, se você faz uma
coisa certa, mas não do jeito que está certo, vai dar errado. É
assim que começa a cemente do bem e do mal dentro da
pessoa. Aí a pessoa vai desenvolver aquilo do qual ela tem

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tendência, que é o Odu. O Odu é um príncipe. Ele tem o


“sim” e o “não” dentro dele.

Oxalá, Nanã, e um mistério

Então, Oxalá e Nanã trabalharam juntos para criar o


ser humano. Depois da vida da pessoa, Oxalá receba o
espírito de volta. Porém ele não sabia o que que Nanã fazia
com o corpo. A esposa dele não diria para ele este segredo.
Para resolver o mistério, Oxalá se vestiu numa saia,
botou brincos, e disfarçou que ele era uma mulher. Assim ele
foi para a casa da Nanã e bateu na porta dela. Ele conversou
com a dona da casa com toda gentileza, mas finalmente ele
fez a pergunta que era o motivo da visita. “Depois que eu
retiro o que eu botei, com que fica o corpo?”
No momento que vai dizer, “Quando o espírito sai do
corpo, o corpo...” um vento chega e abre a filá. Ela
reconhece o rosto do marido, usando a voz de uma mulher.
Ele não resolveu o mistério.

O ser humano e o fogo

Qual é a primeira coisa que chama a atenção do


homem? O trovão, o fogo que vem do céu relâmpago. Ele
quer dominar. Quando ele pega o fogo, ele se queima. E toda
vez que ele ouve o trovão, que ele ouve o fogo cai na Terra,
ele reverencia o grande som que ele gosta de ouvir: “Bom!
Bom! Bom!”
Se ele não pode lutar contra, ele vai ser o amigo. “Eu
sei que se eu bota a mão nesse fogo, esse fogo me queima.
Mas eu sei que o ser humano foi criado para criar aquele

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fogo para ficar ali aceso.” O ser humano usou a capacidade


que Deus lhe deu. Ela começa a pegar sebo, misturar, pegar
gorduras, misturar com cera de abelha, bota um pedaço de
alguma coisa e começar a mexer com a madeira, uma na
outra até criar o fogo. Ele cria um fogo que ele pode dominar
até um certo ponto.
Então ele aprende, que se ele não dominar o fogo
com razão, com cuidado, ele pode fazer com que aquele fogo
destrua tudo. Com fogo, ele illumina. Com fogo, ele luta,
com fogo ele vence o inimigo. Todo que o fogo pode fazer.,
o homem aprende a dominar, e ele aprende o domínio de
todas as coisas. Ele começa a produzir que ele aprende com a
natureza.
A sensibilidade dentro desta pessoa faz com que ele
enfrente o fogo e domine o fogo. A sensibilidade dele insista
que “Você vai dominar o fogo.” O outro não. O outro se
queimou, largou e não quis mais saber. Aquele que insistiu
com o fogo e passou a juntar duas madeiras e fazer uma
pequena fogueira, ele é um médium. Ele tem sensibilidade.
O corpo dele, o jeito dele foi mais escolhido para dominar o
fogo.

Como os animais perderam a fala

Sempre a história de Vovó Cici começa no tempo que


os bichos falavam, porque Vovó Cici aprendeu assim.
Os animais perderam a sua forma de falar, mas o
entendimento continua.
“Por quê os animais deixaram de falar, hein, Vovó?
Hein? Hein? Hein? Por quê os animais deixaram de falar?”

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“Porque alguns entre um deles eram muito


orgulhosos, queriam ser melhor do que o outro, queriam ser
o dono da fala. Deles, um continua a falando que foi mais
humilde, quem é mesmo que imita a gente?”
“Ah, Vovó, papagayo.”
Eu disse, “Sim. E qual é ele que é bem parecido com a gente
mas que não fala? O macaco. Por quê será que ele perdeu a
fala, hein?”
“Ah, minha vovó, porque ele queria ser o rei do os
outros animais porque ele andava e imitava o homem, e
outros tinham que andar de quatro patos ou subindo às
árvores.”
Aí a criança vai entender que ela não é melhor de que
ninguém, ela é igual a todos.

Por quê Oxum é rainha da dança?

O rei chama as mulheres mais lindas do reino para


dançar para ele. E todas as mulheres mais lindas, se põem
com suas roupas mais bonitas para dançar para o rei.
Iansã tinha muito ciúmes de Oxum porque todos os
anos, o Orixá que dançava para o rei e ganhava coroa de
ouro era Oxum. Então, Iansã diz, “Esse ano, quem vai
ganhar sou eu.”
O rei diz, a dança vai ser nesse lugar aqui. Aí Iansã
vai sem ninguém ver ou saber. E no lugar que todas as
mulheres vão dançar, ela coloca muitas pedrinhas
pequenininhas e cobre com areia.
Todas dançam e não sentam o pé machucar. Quando
chega na hora de Oxum, Iansã já tinha dançada. Antes de
Oxum dançar, Iansã soprou abaixou no chão e soprou. As

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pedrinhas foram se transformadas em pedras de fogo.


Ficaram todas incandescentes.
Aí quando Oxum começou a dançar, o fogo começou
a consumir o pézinho dela. Mesmo assim, ela dançou para o
rei, mas ficou com as pés todo queimado. No fim, ela tornou
e recebeu a coroa de ouro.
Por isso os passos de Oxum são pequenos, porque os
pés dela são queimados. Porém a beleza está no gestual. Ela
desliza os pés. Tem um tambor ijexá que tem esse compasso.
Iansã fez para Oxum um encantamento justamente
para ela não ganhar. Entendeu? Por isso que Oxum se tornou
o Orixá da dança. Porque mesmo com os pés queimados, ela
não perdeu sua beleza, nem o encantamento dos seus gestos.

Como a sociedade Ogboni integrou mulheres

A sociedade Ogboni é uma organização


importantíssima na África Oeste. Era uma vez que essa
sociedade era exclusivamente masculina. A seguir é o porquê
a sociedade transformou para incluir e honrar mulheres.
Oxum era iyalode, a mulher mais bonita e importante
no reino. Na feira, ela era muita saudada porque ela
comprava mais ouro de que ninguém. Cê sabe que a feira é o
lugar onde membros de povos diferentes encontrar para
trocar de coisas. Então depois de comprar o ouro dela, Oxum
saiu da feira.
Quando ela aproximou o local das reuniões de
Ogboni, ela parou. No início, os membros pensavam que ela
era só uma sombra. Mas depois de notar a presença de uma
mulher, os membros olharam para o mais velho da
sociedade.

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O mais velho se levantou e disse, “Peço desculpas da


senhora, porém nossa sociedade é só para homens.”
Oxum não disse nada, e foi embora com toda sua
dignidade. Porém, o momento da saída dela marcou o início
de um período muito difícil para a sociedade. A partir
daquele momento que mandaram Oxum embora, os
membros não conseguiram se entender.
Foi um problema tão sério quanto o membro mais
velho foi para o babalaô mais respeitado do reino, o babalaô
que o rei costumava consultar. O mais velho perguntou para
Ifá, “Nossa sociedade não está funcionando. Somos falhando
perante os nossos ancestrais. Qual ebó temos que fazer?”
O babalaô disse, “Nenhum.” Ele jogou o opelé e
adivinhou que os membros da sociedade tinham que achar a
mulher que tinha aparecida no dia da feira. Ifá disse que os
membros só iam ter reconciliação no dia que esta mulher
fosse convidada para assistir uma reunião.
Os membros foram para a feira e perguntaram para
muitas pessoas, mas não acharam a mulher descrita por Ifá.
Finalmente, eles encontraram Exú Akesã. “Eu conheço a
mulher que os senhores estão tentando achar,” ele disse. “É a
mulher que compra mais ouro de que ninguém.”
O próximo dia da feira, os membros da sociedade
chegaram muito cedo e foram para o local dos vendedores de
ouro. Eles sentaram com toda humildade e esperaram a
chegada da bela mulher. Quando Oxum chegou, eles
prostraram nos pés dela e convidaram ela para a reunião da
sociedade Ogboni. Eles pediram para Oxum sentar na
cadeira principal da sociedade. Quando ela se sentou, os
membros voltaram a se entender.

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Até hoje, todo membro da sociedade Ogboni tem


uma jóia dourada em homenagem a Oxum e esta história que
eu lhe contei. A sociedade Ogboni também passou a usar um
implemento que simboliza esta balança entre masculinidade
e feminilidade: duas cabeças de ferro, uma masculina e a
outra feminina, conectadas com um corrente. Este
implemento chama-se “Edan.”
No Candomblé, a gente também honra a memória de
Oxum como a compradora de ouro quando a pessoa iniciada
à Oxum faz a obrigação de sete anos. Nesta cerimônia, a
pessoa usa muito ouro na cintura porque Yeye Oxum compra
mais ouro de que ninguém. Com a peça da qual faz parte os
implementos de Oxum, existe uma corrente dourada que
imita o Edan com várias ferramentas representando todos os
Orixás, frutas e utensílios.

O antigo Egun, Oxum e Ogum

Conta que Oxum Iyalé morava com Ogum Alágbedé.


Ogum batia na forga com martelo. ​Che-dan, che-dan! E
Oxum Iyalé tinha um fole, que ela fazia para o fogo não
acabar. E ela batia o pé e o fole fazia, ​Kutu, kutu! Eles
trabalhavam assim, Ogum e Oxum.
Um belo dia, chega um Egungun na cidade. Muito
antigo, tão antigo que ninguém lembrava dele. Ele chegou
todo feliz para ver se os descendentes iam saudar os seus
ancestrais. Aí o pessoal olhou, pois bateu a porta. Aí o outro
olhou - bateu a porta. O Egungun ficou triste. Aí quando ele
passou na porta de Ogum e Oxum, nem Ogum nem Oxum
não vê ele.

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Ogum continua, ​Che-dan, che-dan! E ela, ​Kutu, kutu!


Che-dan, che-dan! Ela, ​Kutu, kutu! ​Aí o Egun escutou e
começa a dançar com o som que saia deste trabalho dos dois
Orixás. ​Che-dan, che-dan! Kutu, kutu! Che-dan, che-dan!
Kutu, kutu! Che-dan, che-dan! Kutu, kutu!
Ele começa a dançar, rodar, e o pessoal abriu a porta
e viu aquele Egun lindo. Ele dançava e o pessoal começou a
jogar dinheiro, jogar dinheiro, e Oxum não tá vendo nem
Ogum, tão tocando, Egungun tá dançando. Os Orixás não
ouviam por causa do barulho. ​Che-dan, che-dan! Kutu, kutu!
O pessoal saudou Egun.
De repente Egun chegou bem na frente da porta e fez,
“Ooooh!” Aí, Oxum e Ogum pararam e ficaram assim
olhando, saudaram ele. Egun jogou um monte de dinheiro
para Ogum e Oxum. O Egun disse que eram muitos anos que
ele não ia naquela cidade e que aquelas pessoas só
recepcionaram ele quando escutaram Ogum batendo na forja
e Oxum tocando fole. E então ele ia dar de presente aquele
dinheiro.
O Egun meteu a mão de baixo da roupa e tirou um
xan. Um xan é aquela varinha que Baba Egun traz na mão.
Ele jogou na direção de Ogum e Ogum pegou. Egun disse,
“De hoje em diante, você terá o direito de abrir os caminhos
para mim passar. Então, você será o primeiro ojé.” Na
Fundação Pierre Verger tem uma foto de Egungun abaixado
com a varinha no chão ou ajoelhado com a vara.
Aí, em memória disso, a gente canta,

E mo chú agó aley, oluwaê


Ogum alá mo chú ago aley, oluwaê

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Que quer dizer, “Você será o primeiro a me trazer da minha


terra para esse presente.” Aí, quando você vai iniciar a
cerimônia de Egungun, você canta,

Onilé mo chu agó aley, oluwaê


Ogum alá mo chú ago aley, oluwaê, Onilé!

Se canta “Onilé!” porque Ogum é Orixá da terra e o


senhor do mundo. Que ele nos dê muito saúde. Que todos os
nossos ancestrais nos abençoem, nos libertem de todo mal, e
que Ogum continue abrindo nossos caminhos, como abriu
meu caminho quando eu fiz santo, que abriu meu caminho
para mim ser apetebi. Como Ogum abriu o caminho para
Babalawo Falokun Fasegun que enviou Camellia para fazer
este livro comigo, que Ogum abre o caminho de todos estes
que lerem estas histórias de Vovó Cici, Nancy de Souza. Axé
ooo!

O príncipe que lembrou do seu pai

Era uma vez que Oxalá convidou os dezesseis Odús


para uma festa. Os Odús eram príncipes muito importantes.
Todos os dezesseis foram para a casa de Oxalá e se sentaram
para esperar o dono da casa.
Agemú, o mensageiro de Oxalá, apareceu e disse,
“Infelizmente, meu pai Oxalá não pode comparecer. Porém a
festa vai começar.” Houveram bailarinas que dançaram
muito bem, música linda, comida deliciosa e presentes
especiais para todo o mundo.
Três dias depois, Oxalá chamou os dezesseis Odús
para uma reunião e lhes perguntou, “Como foi a festa?” Cada

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príncipe elogiou a dança, a música, a comida, e os presentes.


“Algúem pode provar se realmente esta festa foi tão boa e
tão bonita como estão dizendo?” Oxalá disse. Quinze
príncipes olharam um para o outro.
O Odú Oxê Meji levantou a mão. “Eu, meu pai.” Oxê
Meji abriu uma bolsinha e tirou peito de frango, asas e pés
que ele tinha secado e guardado para o pai. Quando
encontrasse, ele ia entregar.
Neste momento, Oxalá disse que Oxê Meji sempre
seria o mais rico dos príncipes. Quem lembra do seu pai
nunca vai passar fome.

O príncipe que tive gratidão

Um belo dia, os dezesseis príncipes Odús foram para


uma festa na casa de Oxalá. Depois de uma cerimônia boa
com muita comida e felicidade, Oxalá ofereceu uma abóbora
como presente para cada príncipe. Os Odús agradeceram e
Oxalá se despediu.
Quando os príncipes estavam só, quinze dos Odú
começaram a reclamar do anfitrião. “Que presente ruim! Não
vale nada,” eles disseram.
Só Obara Meji percebeu o valor nas abóboras. Esse
príncipe era o mais pobre de todos e tinha muitos filhos. Por
isso, ele guardou o presente de Oxalá. Os outros Odús
sentiram pena dele e deram as abóboras deles para Obara
Meji.
Obara Meji chegou em casa, chama os filhos e diz,
“Olhem as abóboras que eu ganhei. Temos comida para
muitos dias.” Então, Obara Meji disse para os filhos,
“Vamos pegar uma lenha para fazermos um fogo e botar

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uma grande panela para cozinhar. Colocamos algumas destas


abóboras.”
Obara Meji abriu uma abóbora para fazer um jantar
para os filhos dele. Que surpresa quando ele viu ouro dentro
da abóbora humilde! As cementes da abóbora se
transformaram em jóias. Cada abóbora que ele abriu revelou
ainda mais riqueza.
A próxima vez que os dezesseis Odú se encontraram,
os outros quinze ficaram espantados. Obara Meji estava todo
bem arrumado e rico! Ele foi recompensado pela gratidão e
humildade que ele teve de receber um presente simple, mas
que dentro de si guardava um grande tesouro.
Hoje em dia, o povo da Baía corta abóbora crua (de
preferência com seis ou doze gomos), mas não se fala o
nome desta fruta no Candomblé Nagô normal. Chama-se
“inhame vermelha.” A gente encha com doces e dinheiro em
homenagem à esta história.

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Rezas e Cantigas do Candomblé

Você começa com Ogum, você chama Oxum, você


chama Iemanjá, você chama Nanã, você chama Oxumaré,
você chama Obaluaiê, você chama Osain, você chama Iroko,
você chama Ewá, você chama Obá, você chama Dadá Jaká,
você chama Xangô, você chama Logum-Edé, você chama
Oxóssi, você chama Egbe Orun, Baba Egungun, e todos os
Orixás que você tiver conhecimento. Se reza com gratidão
por eles serem nossos pais e se pede a proteção deles.
Sempre a gente reza três vezes seguidas.
São rezas que durante a noite eu faço pelas pessoas,
para os Orixás, e é uma sintonia tão forte, minha com Orixá,
que às vezes eu escuto. Se eu dizer, “Oh, meus velhos, meus
espíritos de luz, eu preciso acordar a tal hora,” você pode
acreditar que eu vou dormir com sono bem tranquila. Porém
naquela hora certinho eu acordo tranquilamente.
Sinto bastante influência de Orixá.

Oração de abertura

Laroiê. Laroiê. Laroiê Exú agbo gbo. Mojuba.


Ago kokoró bixá, ago ago ago ago ago ago ago Ogum iê.
Ogum ê. Ogum iê. Enioalá chibé omí, Ogum ala korô
oniré. Mojuba Ogum, Ogum lá korô oniré.

Eu estou dizendo que Ogum vem da água e conquista


sua coroa, pois funda seu primeiro reinado na cidade de Iré.
É o primeiro reinado. Ele é um rei que ele não é coroado
como os outros. Ele luta, mata o rei, tira a coroa da cabeça

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do rei, e bota na cabeça dela. Ele mesmo diz, “Eu sou rei.
Tem alguém contrário?”
Todo o mundo, “Ogum iê.” Ninguém diz nada.

Exú

Então, do lado Fon, Jejé, a gente canta para o


primeiro Exú assim:

Elegbara Vodun asa kere kere

Depois a gente canta dizendo que Exú é o pai dos


ebós.

O ka o, kere
O ka o, kere
Odara o bara baba ebó
O ka o, kere odara
Odara babalona
O ka o kere bara
Odara Baba ebó
O ka o kere odara
Odara Babalona

Exú Odara é um Exú segredo.

Exú aju o mama ke o


Odara
Laroye Exú aju o mama ke o
Odara
Exú wa o

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Ogum

Ogun pá meje pá koro pá lojaré

Eu disse, “Ogum mata.” ​Ogun pá.


“Ogun pá, meje pá.” ​Ogum mata e corta o inimigo
em sete pedaços do tamanho igual.
Aí a gente diz, “O senhor tem razão porque fez isso.”
Lojaré.​ Isso quer dizer, “O senhor tem razão de que fez.”
O ritmo é rápido.

Oxum

Oro mi ma, oro mi mayo


Oro mi mayo iyabado yeye o

Yeye, o yeye xorodô (x2)


Olowa e ma, xorô ma fefe, xorodo (x2)

Você diz, “Aquela mulher que é mãe.” Uma energia


maternal como toda que é linda, com toda magia de uma
mãe.

Obatalá

Ala, alamixa lesuma oyo maimi orumale Baba


olode

Outra cantiga para Oxalá:

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Bàbà ni ko jadê
Ikú palàdá
Ikú palàdá
(Repetir a versa toda três vezes)

Essa é uma outra reza para Obatalá:

Baba epa o (x2)

Ikun wa: irere ô


Aray fa a jié epa o
Baba epa o
Ora egona xekwé
A xekwé kun Baba
É fun o
(Repetir esta versa toda três vezes)

Axé.

Iemanjá

O iya kêkêrê asaba inya lode


O iya kêkêrê

Aí é mãe das crianças. ​Lode quer dizer “mulher que


vem com toda elegância.” ​Kêkêrê​ são pequeninos.

Omolú

Agô lé ilé, agô loná kewá xá orô


Agô lé ilé, odagolona kewá xá orô

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“Ilé. Ilé. Ilé.” Porque toca lá.

Xangô

Ibí a dadá ewá jirê


Ibí a dadá ewá jirê
Ibí a dadá uwá
Ibí a dadá uwá

Xangô tem um caminho muçulmano.

Obá kawô, obá kawô i kabiesile


Obá komô koméxikolé
Obá kawô i kabiesile, ekum

Uma reza para Xangô. Eu digo, “Sua majestade o rei


Xangô. Seu reinado é tão extenso como o mar, e ele é tão
forte como um leopardo.”

Oxóssi

Le le kole, ode ka lele,


Ka lele, ka lele ode,
Ode si ode ka lele

Nessa reza de Oxóssi, eu estou dizendo que ele é um


grande caçador, e que ele sempre se preocupa com seus
filhos.

Eh ji dana dana ji ló san,

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Giri giri bodé odé mi o

Segue uma cantiga.

Àla, Àla, misalesun, Aô iô, mairni


Orun alé, Bàbà Olodê (x2)

Oyá Iansã

Oyá Iansã está dançando com uma faca perante o rei


nesta cantiga.

Oloya, obexirê obaxarê loja Oloya


Oloya, xarê loni obaoluaye a en jogu

Uma outra cantiga para Oyá Iansã:

Oyá danuwá jedé, jedé iní, aréré


Danuwá jedé logé li wá
Sá ri wá ka já.
Oyá o! Eppa rei Oyá Iansã

Aqui no Brasil, os Congos cantam,

Orixá do relâmpago é
Venha me valer no relâmpago a

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Oxum e Iemanjá

Essa é uma reza.

Iyá o mamá, ebó mi Oxum no bomi o


Iyá mi ke so, ke mamá so
Iya onjí Ogum iyabá omi o
Egbe dorí kodô, iyá o mamá
Oxum okipará danumbomi o
Iyá mi ke so, ke mamá so
Iyá onjí Ogum iyabá olomi o
Egbe dorí kodô, Oxum dé, majelé o
Iyá xemí loré, iyá mamá solé enjena
Iyá oyó iyá xemi loré, odo!
Iyá mamá solé enjena, iyá miré lé e xemí rolé
Iyá mamá solé enjena, iyá sabá iyá xemí rolé
Iyá mamá solé enjena
Odo (x3)
Eruyá (x3)
Iemanjá ataramagbá

Nanã, Omolú e Oxumaré

Oxumaré odé lé (x2)


Pará ke sodán,
Oxumaré odé lé,
Pará ke sodán,
Oxumaré odé lé,
Omolú sagá,
Oxumaré odé lé,
Nanã salubá,

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Oxumaré odé lé,


Pará ké sodán,
Oxumaré odé lé,
Pará karán kan,
Oxumaré odé lé,
Omolú sagá,
Oxumaré odé lé,
Nanã salubá, salubá, salubá!
Atotô, atotô, atotô!
Aô boboi! Aô boboi! Aô boboi!
Salubá!

As quedas da água são ligadas a Oxumaré. A gente


saúda Oxumaré dizendo, “Aô boboi!” Saudamos Omolú
assim: “Atotô!” E a saudação da mãe dos dois, Nanã, é
“Salubá!” O décimo quarto Odú, Ika Meji, fala de Nanã e
Omolú.

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Glosário26

Adupé “Obrigado/a, agradecemos” na língua Iorubá

Apetebi Uma pessoa que recebi “uma mão de


Orunmila” porém não é sacerdote de
Orunmila (que seria Babalaô ou Iyanifa).
Apetebi ajuda e serve Ifá e sacerdotes de Ifá

Araba Um título de alta honra na cultura Iorubá

Axé Palavra Iorubá com muito significado, uma


palavra quase mágica para afirmar a
manifestação das forças positivas que vêm do
Orun para Aye. A partir dos axés que vêm do
Orun, a Terra e abencoada. Em essência, é
energia vital e sagrada. Também funciona
como a palavra “Amém” nas culturas
Judaicas e Cristãs e “‫ ”​آﻣﯿﻦ‬na cultura
muçulmana, fechando uma oração ou uma
súplica

Babalorixá “Pai de Orixá,” aquele que faz o ser humano


para que ele receba Orixá; homem que fez
iniciação para um Orixá apesar de
Ifá/Orunmila; “pai de santo”

26
Nota da transcritora: As definições que seguem vêm dos meus
estudos com Babalawo Falokun Fasegun e Dona Cici, e por
conseguinte, refletem essas duas lineagens espícificas. Para
definir palavras de Ifá, usei o que aprendi do Baba Fasegun, e
para termos das religiões afro-brasileiras incluí o que Dona Cici
me ensinou. Todos os erros aqui são meus, não dos meus velhos.
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Babalaô “O pai que guarda o segredo” em Iorubá;


homem que fez iniciação para Ifá/Orunmila;
frequentemente se fala “Baba” em vez do
título completo

Barravento Palavra do Candomblé que descreve o


momento que antecede o transe de Orixá onde
os iniciados desequilibram, quase caiam, e
rodam muito até que o Orixá toma conta do
seu corpo

Caboclo A alma de uma pessoa morte que era


Afro-Indígena do Brasil na vida; cultuado na
Umbanda e no Candomblé Angola

Candomblé Religião de matriz africana que cultua Orixá.


Porém, a palavra Candomblé tem várias
interpretações. Há quem diz que ela vem da
palavra “Kàndomble” (provavelmente de
origem Congo) que denomina qualquer festa
da cultura Afro. Assim chamavam as pessoas
da época dos anos 1930 para referir a estas
manifestações

Ebó Oferenda que seres humanos fazem de coisas


materiais em troca para proteção e/ou benções
do plano espiritual. Os ebós são presentes de
troca para realizações positivas entre o céu e a
Terra

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Ebomi Título de honra no Candomblé dado a uma


pessoa iniciada, que serve para homens e
mulheres. Usa-se para as pessoas que têm sete
anos de santo

Efun Ingrediente nas rituais de religiões de matriz


africana; também conhecido como “cascarilla
Africana.” No Candomblé de Congo, eles
chamam de “pemba”

Egbe Orun A sociedade das crianças do céu da qual


Oxum é a dona

Egun Pessoas que já morreram. Geralmente


aparecem como visões, ora tranquila ou
assustadora

Egungun Entidades espirituais que se apresentam com


roupas e belos adereços remetendo ou
lembrando a história desta personagem
quando andava entre nós

Ekedi Um título feminino numa casa de Candomblé

Emí A parte espiritual da pessoa que Obatalá bota


dentro do corpo e retira quando necessário

Espiritismo Definida como “ciência, filosofia e religião”


pela Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas

Ewá Orixá do rio do mesmo nome que fica na

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Nigéria próxima à fronteira com Benin

Exú Orixá que é o mensageiro divino e o pai dos


Ebós. A energia divina mais similar ao ser
humano

Gẹlẹdẹ Máscara tradicional Iorubá honrando e


apaziguando as energias maternais e
Femininas. Representa as antigas ancestrais
que vêm para ver a família e dar bons
conselhos

Iansã/Iansan Orixá do vento; também conhecida como


Oyá

Iaô Pessoa iniciada para o culto de Orixás. A


palavra iaô significa “noiva” em Iorubá. Por
isso, na festa de iaô, no dia de nome, elas se
apresentam ricamente adornadas. Significa
que neste dia, elas casam com seus Orixás

Idé Pulseira consagrada para Orunmila, para


Oxum, Iemanjá e o próprio Oxalá, que usa
três unidades da cor de chumbo

Iemanjá Mãe das crianças, o Orixá que propõe o


líquido que o bebê vai flutuar dentro do útero

Ifá Definida como “A palavra de Deus” por


Babalaô Falokun Fasegun, expressada na
poesia sagrada dos 256 Odú

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Ijexá No Candomblé, é um tipo de ritmo tocado


durante cerimonias dos Orixás. Ritmo oriundo
da cidade de Ilesa, na Nigéria

Ikin Nozes de palma que são consagradas ao


Orunmila

Ilê “Casa” em Iorubá

Ileke Colar sagrado representando o Orixá do qual


a iaô foi feita; também chamado de “conta”
ou “gravata de Orixá;” é uma identificação

Iyalode Uma mulher muito importante e honrada na


terra Iorubá

Iyalorixá “Mãe de Orixá” que faz iniciação para ele que


receba Orixá; mulher que fez iniciação para
um Orixá apesar de Ifá/Orunmila; “mãe de
santo;” dona de um terreiro

Iyanifa Mulher que fez iniciação para Ifá/Orunmila

Mãe de santo Mulher iniciada ao Orixá que inicia outros


para Orixá; iyalorixá; dona de um terreiro

Modupé Muito obrigada

Nagô Se refere a origem Iorubá

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Nanã Velha Orixá feminina; criou seres humanos


com seu marido Orixá Oxalá; mãe dos Orixás
Oxumaré e Omolú
Obatalá Nome Iorubá para a divindade velhíssima que
é também conhecido como “Oxalá” no Brasil

Odú Um príncipe; uma das 256 padrões sagradas,


cada uma das quais corresponde a mais de mil
versículos de poesia santa; as palavras de
Deus dadas para humanidade por Orunmila, o
Orixá profeta de adivinhação; só pode ser
interpretado por pessoas iniciadas ao
Orunmila

Oduduwa Orixá fundador da cidade de Ile Ife. Teve oito


filhos e a cada um deles deu o nome de um
reino27

Ogã Um cargo masculino numa casa de


Candomblé

Ogum Orixá da guerra e de toda a tecnologia que já


existiu, que existe e que ainda vai existir.
Ogum é senhor deste mundo material onde
você pode criar e inventar

Olodumare Na tradição do Baba Fasegun, Olodumare é


Deus. Cada ser humano tem “Ori,” que é
extensão de Olodumare. O senhor do destino,

27
Pode se encontrar histórias sobre ele no livro ​Orixás​ de Pierre
Verger)
110
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que tem início mas jamais terá fim. Ele é


eterno como a espiritualidade. Ou seja, a vida
termina mas ele continua. Ele é infinito

Omolú Orixá também conhecido como Obaluaiê ou


Babalu-ayé; filho de Nanã e irmão de
Oxumaré; ligado à doença e cura. Obaluaiê
significa “O rei da Terra.” Quando ele nasce,
a doença toma conta do mundo

Ossain Orixá das folhas e da medicina das ervas

Ori “Cabeça” em Iorubá. Na linhagem de Baba


Fasegun, o Orixá mais alta. Diz no Odú Ifá
que nenhum Orixá pode abençoar uma pessoa
sem permissão do Ori da pessoa

Orixá Espíritos que eram seres humanos com dons e


usaram essas capacidades para ajudar a
comunidade. Depois da morte, entraram a
natureza e ficaram cultivados por seres
humanos. A palavra “Ori” significa “cabeça,”
“xa” significa “dono.” É conhecido também
por algumas pessoas como “irunmoles,”
espíritos da natureza

Orun O céu

Orunmila Orixá de adivinhação e todo conhecimento

Oxalá Orixá Obatalá, “O rei do pano branco;” um

111
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Orixá muito velho, particularmente quando


é chamado Oxalufã; porém tem Oxalá jovem
como Oxaguian. Eles fazem parte de uma
família de 152 Orixás “funfun” (“branco” em
Iorubá), que muitos dos seus nomes se
perderam no tempo

Oxóssi Orixá caçador que tem seu culto oriundo da


cidade de Ketu na Nigéria. Ele habita rios
profundos e a profundeza das florestas

Oxum Orixá da dança, das águas doces, dona das


sociedades de Egbe Orun. Iyalode e figura
importante no culto de Ifá, ligada ao Odú Oxê
Meji, a riqueza e a prosperidade

Oxumaré Orixá do arco-íris entre os Iorubás e Danbala


Wedo entre os Jejés do Brasil; a cobra
sagrada; a saudação dele é “Arroboboi!”

Oyá Orixá do vento, também conhecida como


Iansã/Iansan

Pai de santo Babalorixá; aquele que faz o ser humano para


que ele receba Orixá; homem que fez
iniciação para um Orixá apesar de
Ifá/Orunmila

Pretos velhos As almas de pessoas negras que viviam no


Brasil durante a época da escravidão. São
muito queridos na Umbanda, onde muitos

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pessoas entram em transe destes espíritos

Roça Uma roça de Candomblé têm bichos e plantas


para usar nas rituais; tem árvores sagradas

Terreiro Casa do culto de Orixá. Eram grandes e


escondidas no mato, dificil de achar por causa
da perseguicao

Umbanda Religião matriz africana mais comum no Rio


de Janeiro do que Salvador da Bahia; se
cultiva caboclos, pretos velhos, espíritos
infantis, e vários tipos de Orixás com posturas
diferentes das que se vê nos terreiros do culto
ao Orixá

Umbandista Pessoa que pratica Umbanda

Vodun Um espírito das tradições Fon e Ewe, povo de


Gana e Togo que os Iorubás chamam de
“Fula”

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Lista de Leitura Sugerida

A lista a seguir baseia-se fortemente no currículo dos


meus professores Keisha-Khan Y. Perry e Anani Dzidzienyo.
Incluí bons textos em inglês quando que não achei edições
em português.

Online:

www.afro-paradise.com Espaço virtual para ativismo para


justiça racial em Salvador da Bahia
(Inglês)

https://blackwomenofbrazil.co/ Feminismo afro-brasileiro (Inglês)

www.Gẹlẹdẹs.org Notícias e análise de uma


perspectiva negra e brasileira
(Português)

http://gresportela.com.br Samba que conta histórias da cultura


afrobrasileira (Português)

www.ifaforall.org Babalaô dos EUA que fez


Ebomi
Cici apetebi de Ifá (Inglês)

http://ipeafro.org.br Instituto pela estuda e


valorização do povo negro do Brasil
(Português)

www.mangueira.com.br Samba que conta histórias da cultura


afrobrasileira (Português)

www.mariellefranco.com.br Site de uma vereadora negra e


lésbica que trabalhou para justiça até
ser assassinada (Português)

114
115

medium.com/revistaokoto Artigos sobre racismo estrutural


brasileiro (Português)

www.pierreverger.org Fundação Pierre Verger (Português)

www.rioonwatch.org Relatos das favelas cariocas


(Português)

www.salgueiro.com.br Samba que conta histórias da cultura


afrobrasileira (Português)

www.viverbrasil.com Companhia da dança que promove


cultura afrobrasileira e documentou
muitas histórias da Ebomi Cici
(Inglês)

Artigos:

“"Acabe com esse santo, Pedrito vem aí..."-Mito e realidade da


perseguição policial ao candomblé baiano entre 1920 e 1942.” por
Angela Lühning

“A mulher negra no mercado do trabalho” por Maria Aparecida


Silva Bento

“Desigualdades raciais, Salvador e Região Metropolitana” por


Roberto Evangelista e Samuel Vida

“Gênero, Raça e Ascensão Social” por Sueli Carneiro

“Hyperconsciousness of Race and Its Negation: The Dialectic of


White Supremacy in Brazil” por João Vargas

115
116

“Models of Economic Development and Systems of Race


Relations: the Brazilian Development and the Afro-Brazilian
Condition” por Pierre-Michel Fontaine

“Música: Coração de Candomblé” por Angela Lühning

“Sobre a Invenção da Mulata” por Mariza Corrêa

“Who is Black in Brazil? A Timely or False Question in Brazilian


Race Relations in the Era of Affirmative Action?” por Sales
Augusto dos Santos e Obianuju C. Anya

Filmes:

“Barravento,” por Glauber Rocha

“Documentário Mulheres de Axé: Vozes Contra a Intolerância”


realizado por Coletivo de Entidades Negras (CEN), responsável
pela organização, e pelo Governo da Bahia

“Nosso Sagrado,” realizado por Quiprocó Filmes

“Pierre Fatumbi Verger: O Mensageiro Entre Dois Mundos,”


realizado por Latin American Video Archives

Livros:

1499: O Brasil Antes do Cabral​ para Reinaldo José Lopes

A Cidade das Mulheres​ para Ruth Landes

A History of Postcolonial Lusophone Africa​ para Patrick Chabal

116
117

A mente afro-brasileira : crítica literária e cultural afro-brasileira


contemporânea para Niyi Afolabi, Márcio Barbosa e Esmeralda
Ribeiro

A Refuge in Thunder: Candomblé and Alternative Spaces of


Blackness​ para Rachel Harding

African Roots, Brazilian Rites: Cultural and National Identity ​in


Brazil para Cheryl Sterling

African Workers and Colonial Racism para Jeanne Marie


Penvenne

Afro-Paradise: Blackness, Violence and Performance in Brazil


para Christen A. Smith

Angola sob o domínio português: o mito e realidade para Gerald


Bender

Black Brazil: Culture, Identity and Social Mobilization organizado


para Larry Crook e Randal Johnson

Black Women Against the Land Grab: The Fight for Racial Justice
in Brazil​ para Keisha-Khan Y. Perry

Blessed Anastácia: Women, Race, and Popular Christianity in


Brazil para John Burdick

Cozinhando História: receitas, histórias e mitos de pratos


afro-brasileiros para Josmara Fregonese (autora), Marlene Jesus da
Costa (autora) e Nancy de Souza (autora)

Da monarquia à república: momentos decisivos para Emília Viotta


da Costa

117
118

Desinteiro​ para Guellwaar Adún

Diploma da Brancura: Política Racial e Social no Brasil -


1917-1945​ para Jerry Dávila

Discriminação e Desigualdades Raciais no Brasil para Carlos


Hasenbalg

Enegrescência​ para Coletânea Poética

Freedoms Given, Freedoms Won: Afro-Brazilians in


Post-Abolition São Paulo and Salvador para Kim D. Butler

Guetos e Favelas: Localização dos Pobres nas Regiões


Metropolitanas do Rio de Janeiro e Nova York para Ney dos
Santos Oliveira

História Oral, Feminismo e Política​ para Daphne Patai

Hotel Trópico: o Brasil e o desafio da descolonização africana


(1950-1980)​ para Jerry Dávila

Mito E Espiritualidade: Mulheres Negras​ para Helena Theodoro

Negras in Brazil: Re-envisioning Black Women, Citizenship, and


the Politics of Identity​ para Kia Lilly Caldwell

Negras, Mulheres e Mães: Lembranças de Olga de Alaketu para


Teresinha Bernardo

Negros E Brancos Em Sao Paulo (1888-1988) para George Reid


Andrews

Neither Enemies nor Friends: Latinos, Blacks, Afro-Latinos para


Anani Dzidzienyo e Suzanne Oboler
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O genocídio do negro brasileiro : processo de um racismo


mascarado​ para Abdias do Nascimento

O quilombismo: documentos de uma militância pan-africanista


para Abdias do Nascimento

O sortilégio da cor: identidade, raça e gênero no Brasil para Elisa


Larkin Nascimento

Ogum’s Toques Negros​ para Coletânea Poética

Orfeu e o Poder: Movimento Negro no Rio e São Paulo para


Michael George Hanchard

Preto no Branco: Raça e Nacionalidade no Pensamento Brasileiro


(1870-1930)​ para Thomas Skidmore

Race in Contemporary Brazil: From Indifference to Equality para


Rebecca Reichmann

Racism in a Racial Democracy: The Maintenance of White


Supremacy in Brazil​ para France Winddance Twine

Rebelião Escrava no Brasil: A História do Levante dos Malês em


1835​ para João José Reis

Relações Raciais no Império Colonial Português, 1415-1825 para


Charles Boxer

Silenciando o passado: Poder e a produção da história para


Michel-Rolph Trouillot

Textos Políticos​ para Amílcar Cabral

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Traduzindo no Atlântico Negro: cartas naúticas afrodiaspóricas


para travessias literárias​ organizada para Denise Carrascosa

Um Mar da Cor da Terra: Raça, Cultura e Política da Identidade


para Miguel Vale de Almeida

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