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Janelas para a natureza

explorando o potencial educativo dos dioramas


Organizadores: Martha Marandino, Graziele Scalfi e Barbara Milan
“Janelas para a natureza”: explorando o potencial
educativo dos dioramas

Autores
Adriano Dias de Oliveira
Fausto de Oliveira Gomes
Felipe Dias
Jesús Piqueras
Juliana Bueno
Marianne Achiam
Martha Marandino
Vinicius dos Santos

Organizadores

Martha Marandino, Graziele Scalfi e Barbara Milan

Faculdade de Educação da USP


2020
Autores Organizadores
Adriano Dias de Oliveira Juliana Bueno Martha Marandino
Fausto de Oliveira Gomes Marianne Achiam Graziele Scalfi
Felipe Dias Martha Marandino Barbara Milan
Jesús Piqueras Vinicius dos Santos
Produção Universidade de São Paulo
GEENF – Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação Reitor: Prof. Dr. Marco Antonio Zago
Não Formal e Divulgação da Ciência Vice-Reitor: Prof. Dr. Vahan Agopyan
Faculdade de Educação da USP
Apoio Faculdade de Educação
Banco Santander Diretor: Prof. Dr. Marcos Garcia Neira
Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Vice-Diretor: Prof. Dr. Vinício de Ma-
Museu de Zoologia da USP pela cessão da imagem cedo Santos
do diorama da capa
Revisão de texto Direitos desta edição reser-
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Tradução do Capítulo 5 E-mail: spdfe@usp.br
Helena Nicotero http://www4.fe.usp.br/
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meio convencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte.
Catalogação na Publicação
Serviço de Biblioteca e Documentação
Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo

J33 “Janelas para a natureza”: explorando o potencial educativo dos dioramas. / Martha
Marandino, Graziele Scalfi e Barbara Milan (Organizadoras). São Paulo: FEUSP, 2020.
98 p.

ISBN: 978-65-87047-00-3 (E-book)


DOI: 10.11606/9786587047003

1. Ensino de ciências. 2. Educação em museus. 3. Diorama.


I. Marandino, Martha. II. Scalfi, Graziele. III. Milan, Barbara. III. Título.
CDD 22ª ed. 375.25

Ficha elaborada por: José Aguinaldo da Silva CRB8a: 7532


Sumário
Apresentação.........................................................................................................................7
Martha Marandino, Graziele Scalfi, Barbara Milan
Capítulo 1: Aspectos históricos, definições e limites dos dioramas..............................17
Adriano Dias de Oliveira
Capítulo 2: O papel educativo dos dioramas nos museus de ciências..........................27
Juliana Bueno
Capítulo 3: Dioramas em Museus Escolares.....................................................................39
Vinicius Rodrigues dos Santos
Capítulo 4: Pesquisas sobre dioramas no ensino
e divulgação de ciências da natureza.................................................................................51
Fausto de Oliveira Gomes
Capítulo 5: Falando sobre Evolução com dioramas de história natural........................63
Jesús Piqueras e Marianne Achiam
Capítulo 6: Relato de experiência: “Biomas do Mundo - Cenas da Vida Natural”,
a construção de dioramas com alunos do 7º ano
como estratégia para o ensino de ciências.......................................................................71
Fausto de Oliveira Gomes
Capítulo 7: Propostas de atividades
educativas com dioramas....................................................................................................83
Felipe Dias e Martha Marandino
Apresentação
Martha Marandino, Graziele Scalfi, Barbara Milan

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Você já ouviu falar de dioramas? Em difícil não se sentir deslumbrado e, ao
uma busca rápida em imagens na rede mesmo tempo, tentar criar sua própria
internacional de computadores, apa- história sobre o sentido que uma dada
recem modelos, maquetes, miniaturas, cena pode revelar.
brinquedos; ou seja, uma série de obje- A palavra diorama significa, literal-
tos que remetem a cenários representa- mente, “ver através” (em grego “dia”
tivos de ambientes, situações, indivíduos significa “através” e “horama” significa
ou elementos, buscando caracterizá-los “vista”). De forma simplificada, pode-
de uma forma real. No contexto dos mu- mos dizer que dioramas são cenários
seus, os dioramas possuem uma traje- existentes em museus, especialmente
tória longa e rica, além de um relevante de história natural, onde é retratado um
papel educativo, o qual esse livro busca ambiente, os seres que ali vivem, como
explorar e valorizar. se comportam e se relacionam. Presen-
“Janelas para natureza”1 é o título de tes desde pelo menos o século XIX, a
um importante livro sobre os dioramas história e o papel dos dioramas são al-
e uma expressão com grande potencial vos de investigação e registro, revelando
para definir o significado desses objetos. a enorme relevância desses objetos na
A ideia de “ver” por meio de um conjunto constituição dos museus. Em sua grande
de objetos, de contemplar e imaginar o parte, os dioramas foram criados antes
que está ocorrendo, é fundamental para da existência da televisão, da internet e
compreender o que são os dioramas. da realidade virtual, promovendo a pos-
Ao se deixar levar por sua beleza e ser sibilidade de o público conhecer lugares
capturado pela possibilidade de conhe- e organismos que hoje nem existem mais
cer as informações sobre o contexto e os (Quinn, 2006). Sua capacidade de “con-
elementos existentes nesses cenários, é gelar”, no tempo e no espaço, os fenô-
menos e os acontecimentos e de levar a
1 QUINN, S. C. Windows on Nature: The Great “ver”, bem de perto, detalhes sobre o am-
Habitat Dioramas of the American Museum of biente e os elementos que o compõem,
Natural History. Harry N. Abrams; 1. ed., 2006,
180p. tornaram esses objetos populares nos
museus no início do século XX.

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Nos primeiros contatos que tivemos O depoimento revela os impactos cog-
com os dioramas, nós, membros do Gru- nitivo e afetivo que esses objetos podem
po de Estudo e Pesquisa em Educação proporcionar. Assim, a partir dos estu-
Não Formal e Divulgação da Ciência/ dos desenvolvidos, das leituras e pesqui-
GEENF, ficamos encantados com a bele- sas por nós realizadas, os dioramas pas-
za, a capacidade de capturar a atenção saram de objeto de apreciação e deleite,
e a possibilidade de divulgar informa- para um tema de investigação e, por que
ções científicas que essas montagens não dizer, uma grande paixão.
apresentam. Um participante de uma de Ao reconhecer a função que os diora-
nossas pesquisas2 sobre a percepção de mas tiveram na ampliação do processo
biodiversidade em dioramas, nos conta de educação e comunicação dos museus
sobre a riqueza de dados, sobre as im- com seus públicos, vislumbramos o po-
pressões e sensações e sobre as indaga- tencial de estudá-los na perspectiva da
ções que esses objetos podem despertar educação em museus. Ao longo de mais
em quem se dispõe a olhar: de dez anos, temos nos dedicado a enten-
der não somente sua relevância históri-
Bom, é ecossistema... paz, ah... ali- ca, mas o processo de elaboração desses
mentação... mata fechada, diver- objetos. Em nossas pesquisas, feitas em
sidade na fauna e na flora, hum... museus nacionais e internacionais, bus-
árvores de tronco grande... uma
camos caracterizar as intenções que es-
floresta equatorial... interação do
meio, os animais estão interagin- tão na sua produção, entender como os
do, menos a onça, a onça parece conhecimentos científicos são selecio-
que tá brava com alguém que está nados e mobilizados nos processos de
chegando, será que são os huma- cenarização, quais conhecimentos efeti-
nos?... vamente são divulgados por meio desses
objetos, o que o público compreende e
2 MARANDINO, M. LAURINI, C. A Compreensão da como é sua interação ao observar esses
biodiversidade por meio de dioramas de museus
de zoologia: um estudo com público adulto no cenários.
Brasil e na Dinamarca Ens. Pesqui. Educ. Ciênc.
(Belo Horizonte), v. 20, 2018.

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No início de nossas investigações so- levam a afirmar que os dioramas vêm
bre os dioramas, a bibliografia sobre alcançando certo destaque na pesquisa
o tema era escassa. Na medida em que na área de museologia e educação em
desenvolvemos pesquisas e atividades museus. Contudo, a produção brasileira
educativas com este foco, tivemos con- sobre este tema ainda é bastante tímida.
tato com uma entusiasmada comunida- Além dos estudos, o aprofundamento
de de educadores e pesquisadores, com sobre os dioramas nos levou a desen-
destaque aos europeus, que comparti- volver várias ações educativas em torno
lham interesses semelhantes aos nossos deste tema. Uma iniciativa importante
em relação a esses objetos e seu poten- foi a produção de um modelo de diorama
cial educativo. Assim, aos poucos, fomos sob o título “O Curioso Caso do Sapo da
conhecendo uma série de trabalhos que Caatinga”4, utilizado em várias ativida-
analisam e discutem o papel educativo des de educação e divulgação científica.
dos dioramas, revelando seu potencial Este diorama retrata a história de uma
e os limites que esses objetos possuem espécie de sapo que vive na Caatinga.
para promover processos de ensino e Como desdobramento, desenvolvemos
aprendizagem. Além das pesquisas por um livreto, com o mesmo título, contan-
nós desenvolvidas, no Brasil, foram pu- do a história desse curioso sapo. Esse
blicados, mais recentemente e em âm- material foi publicado no livro “Educa-
bito internacional, dois livros3 reunindo ção em museus e Materiais Educativos”,
textos que abordam aspectos históricos, produzido pelo GEENF e que está dispo-
socioculturais e educativos dos diora- nível para ser baixado em nosso site5.
mas – dos quais tivemos o enorme pra- Outra ação por nós desenvolvida cor-
zer de participar. Esses exemplos nos responde a um conjunto de oficinas e

3 São eles: (1)TUNNICLIFFE, S. D.; SCHEERSOI, A. 4 Este modelo de diorama foi produzido com
(Eds). Natural History Dioramas, Springer, 2015, financiamento do Instituto Nacional de Ciência e
289p. (2) SCHEERSOI, A. TUNNICLIFFE, S. D. Natural Tecnologia em Toxinas (INCT/CNPq/FAPESP).
History Dioramas: traditional exhibits for current
5 Disponível em: <http://www.geenf.fe.usp.br/
educational themes. Springer, 2019, 215p.
v2/?p=2248>

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cursos de produção de modelos diora- das cenas que contextualizam esses
mas como recurso didático, utilizando objetos. Além disso, a ampliação dos
materiais de baixo custo. Estas ativida- temas tratados nos dioramas, histori-
des, criadas, planejadas e aplicadas pelo camente apoiados na perspectiva natu-
GEENF, estão ganhando o mundo: além ralística, traz aspectos da relação entre
do Brasil, até o momento, já foram rea- ciência, tecnologia, sociedade e am-
lizadas na Dinamarca, na Colômbia e no biente/CTSA. Temos desenvolvido algu-
Canadá, com professores, alunos, grupos mas iniciativas neste sentido, que estão
familiares e visitantes de museus. Uma no último bloco deste livro, revelando
versão da primeira oficina desenvolvida o potencial educativo desses objetos,
foi publicada em 2010, em um dos livros contribuindo, dessa forma, no processo
da coleção do GEENF: “Olhares sobre os de alfabetização científica do público en-
diferentes contextos da biodiversidade: volvido.
pesquisa, divulgação e educação”6. De lá Estamos cientes de que os dioramas
para cá, aprimoramos e ampliamos as não são objetos consensuais dentro dos
atividades realizadas a partir dos diora- museus. Há quem os considere obsole-
mas, o que nos motivou a realizar essa tos, ainda mais com o atual e generali-
nova publicação totalmente voltada ao zado uso das novas tecnologias nesses
tema. espaços, em contraponto à pouca intera-
O trabalho com dioramas pode pro- tividade física que esses objetos, em ge-
mover, além da aprendizagem de con- ral, promovem. Também existem críticas
ceitos científicos, o conhecimento sobre sobre as concepções de ciência que eles
aspectos da natureza da ciência a partir retratam.
da história dos museus e da produção Emblemática, neste sentido, é a histó-
ria da construção do diorama do gorila
6 MARANDINO, M.; MONACO, L. M.; OLIVEIRA,
A. D. Olhares sobre os diferentes contextos da
da montanha, feito por um dos mais im-
biodiversidade: pesquisa, divulgação e educação. portantes produtores de dioramas de to-
1. ed. São Paulo: Faculdade de Educação da USP, dos os tempos, Carl Akeley, no início do
2010. 94p. Disponível em: <http://www.geenf.
fe.usp.br/v2/?p=556> século XX. Para tal, Akeley fez o que era

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comum naquela época: foi à África e ma- outra mídia é capaz: uma ilusão convin-
tou um gorila para colocá-lo no diorama cente de um lugar na natureza em escala
do American Museum of Natural History real de tempo e de espaço (Quinn, 2006).
(Quinn, 2006). Existem, contudo, docu- Existem, assim, argumentos que apon-
mentos que referem uma certa crise de tam para a importância histórica desses
consciência de Akeley sobre esse episó- objetos e, ao mesmo tempo, experiên-
dio. Atualmente, os animais taxidermi- cias que revelam que estes objetos não
zados que compõem os dioramas geral- ficaram parados no tempo: em muitos
mente são oriundos de doação ou morte museus, os dioramas estão associados
espontânea em ambientes naturais e zo- a aparatos eletrônicos, tornando-os in-
ológico. terativos. Além disso, as exposições de
Esses aspectos nos fazem refletir so- imersão, que oferecem a possibilida-
bre como os dioramas foram sendo de de uma experiência multissensorial
constituídos e até que ponto os visitan- dos visitantes, podem ser consideradas
tes têm acesso a essas informações e, como uma “nova geração” de dioramas
ainda, como se posicionam ao obser- (Marandino, Achiam, Oliveira, 2015),
varem os dioramas nos museus. Assim, onde os elementos interativos, senso-
para alguns pesquisadores, os museus riais, afetivos e estéticos foram adotados
vivem hoje uma grande dúvida sobre a em articulação com as representações
manutenção ou não desses objetos em naturalísticas clássicas que marcam a
suas exposições. Tais contradições fo- história desses objetos.
ram também abordadas em alguns dos Para construção deste livro, reunimos
capítulos deste livro. uma equipe de especialistas do GEENF,
Por outro lado, há notícias de que está que há alguns anos têm se dedicado a es-
ocorrendo, hoje, um movimento de re- tudar e a desenvolver atividades relacio-
torno dos dioramas, provocado pela per- nadas aos dioramas.
cepção dos elaboradores de exposições Assim, o capítulo 1 foi escrito por
do poder desses objetos na promoção Adriano Dias Oliveira, buscando oferecer
de uma experiência única que nenhuma elementos históricos e conceituais sobre

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esses objetos. No capítulo 2, Juliana Bue- Às organizadoras do livro – Martha
no destaca a relevância desses objetos Marandino, Graziele Scalfi e Barbara Mi-
para a educação nos museus. Para apro- lan – couberam a revisão dos capítulos e
fundar ainda mais a ideia dos dioramas a articulação entre eles.
como objetos educativos, no capítulo 3, O livro “Janela para a natureza”: ex-
o texto de Vinicius dos Santos apresenta plorando o potencial educativo dos dio-
os dioramas em museus escolares e dis- ramas é resultado da vontade de contri-
cute seu potencial no processo de ensino buir para que esses objetos se tornem
e aprendizagem de conceitos biológicos. cada vez mais populares dentro das
No capítulo 4, Fausto de Oliveira Gomes ações e das pesquisas na área de edu-
compartilha alguns resultados de pes- cação em museus e ensino de ciências
quisas sobre o papel educativo dos dio- em nosso país. Acreditamos que quanto
ramas, a partir de uma breve revisão de mais os dioramas forem explorados na
literatura sobre o tema. No capítulo 5, perspectiva educativa, seja nos museus,
apresenta-se o texto de dois importan- por meio das visitas ou de atividades
tes autores da área – Jesús Piqueras, da com o público, seja por meio de produ-
Universidade de Estocolmo, e Marianne ção de modelos educativos em contextos
Achiam, da Universidade de Copenha- formais de educação, será possível reco-
gen – os quais realizaram uma análise nhecer seu potencial e suas limitações.
crítica da concepção de conhecimento e Consideramos que esta publicação é
dos valores divulgados pelos dioramas, a um verdadeiro convite ao deleite e à ob-
partir de uma pesquisa junto ao público. servação dos dioramas, quando é pos-
No capítulo 6, Fausto de Oliveira Gomes sível passear pelas cenas, imaginando e
relata uma experiência de montagem de contando histórias sobre os elementos
modelos de dioramas junto aos seus alu- que os compõem. É também um convite
nos do 7º. ano. Por fim, no capítulo 7, ao leitor para percorrer a trajetória dos
Felipe Barbosa Dias e Martha Marandino museus e, em especial, para perceber a
apresentam algumas propostas pedagó- ampliação e a força que a educação foi
gicas para explorar o tema dos dioramas. ganhando nesses espaços – sendo os

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dioramas um dos elementos-chave nes-
se caminho. É um convite para produzir
atividades educativas com base nesses
objetos e para tecer novas e profícuas re-
lações entre museus e escolas. É, por fim,
um convite para se emocionar e para
cultivar a mesma paixão que nós temos
pelos dioramas.

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Capítulo 1: Aspectos históricos, definições e limites
dos dioramas
Adriano Dias de Oliveira

17
Construir um diorama é uma tarefa multidisciplinar
Rainer Hutterer1

A1consolidação dos dioramas nos mu- 1851) e Charles-Marie Bouton (1781-


seus de ciência, sobretudo, nos museus 1853) desenvolveram um complexo sis-
de história natural, não se deu de forma tema de iluminação e pintura capaz de
descontextualizada do tempo e do espa- proporcionar um ilusionismo óptico de
ço no qual essas instituições estavam in- três dimensões em um ambiente fecha-
seridas. Ao abordarmos os dioramas por do similar ao teatro. O público, sentado
uma perspectiva histórica, é fundamen- em cadeiras fixas, ficava diante de uma
tal entender o que possibilitou a introdu- plataforma que girava em um eixo em
ção desses aparatos expositivos nos mu- 360 graus, combinada a um jogo de lu-
seus, uma vez que o conceito “diorama” zes, que proporcionava efeitos de som-
se originou em outros espaços culturais, bra e diferentes tonalidades de cores. Te-
porém sob uma condição similar à qual las translúcidas expunham locais famo-
os museus estavam também submetidos sos da Europa, tanto de cidades, como
– o avanço da ciência e da tecnologia na catedrais e regiões portuárias, como de
sociedade moderna. regiões bucólicas do interior (Almeida,
A origem dos dioramas remete à pri- 2012; Wood, 1993, 1997).
meira metade do século XIX, mais pre- O que Daguerre e Bouton estabelece-
cisamente, em 1822, em Paris, quando ram ao criarem esse ilusionismo foi a
Louis Jacques Mande Daguerre2 (1789- ideia de “ver através” – do grego “dia”
que significa “através” e “horama” que
1 Tradução nossa, p.23. Cf. HUTTERER, R. Habitat
dioramas as historical documents: a case of study. significa “para ver”. Embora o trabalho
In: TUNNICLIFFE, S. D; SCHEERSOI, A. Natural desses dois profissionais tivesse obtido
History Dioramas: history, construction and
educational role, Springer, 2015, p. 23-30. significativo sucesso, tendo telas desen-
2 Daguerre ficou muito conhecido pelos seus volvidas por eles instaladas em outros
trabalhos de pintura e produção de cenários
teatrais. Mas sua principal invenção, que o tornou equipamento conhecido como precursor da
famoso mundialmente, foi o daguerreótipo, câmera fotográfica.

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países, esse conceito de diorama per- Embora de custo elevado, esse empre-
durou até 1839, quando um incêndio endimento obteve muito sucesso entre o
destruiu o prédio destinado a esse tipo final do século XVIII e o início do sécu-
de exibição (Almeida, 2012; Kamcke, lo XIX, estando presente nas principais
Hutterer, 2015). Contudo, é importante cidades europeias da época. O sucesso
ressaltar que o referido declínio não se se deu pela capacidade do panorama
restringe à destruição física do diorama de proporcionar ao público uma experi-
de Daguerre e Bouton, mas pelo (re)sur- ência pessoal, sobretudo, naqueles que
gimento de outros aparatos que naque- possuíam movimento, onde os especta-
la época foram cruciais para originar os dores ficavam em barcos ou carruagens
dioramas que conhecemos atualmente. com baixa iluminação e ao redor deles
Em 1787, o pintor Robert Barker várias telas eram movimentadas vaga-
(1739-1806), buscando uma manei- rosamente. Assim, a sensação não se
ra de inserir toda grandeza e beleza de restringia à contemplação de uma pai-
um ambiente, por exemplo, um vale ou sagem, mas também de vivenciar uma
montanhas, em uma única tela, criou na experiência sobre locais desconheci-
Inglaterra um aparato que ficou conhe- dos, mas de uma forma agradável, sem
cido como “panorama”. Palavra também os contratempos que uma longa viagem
derivada do grego, que pode ser tradu- exigiria. Dessa forma, os panoramas pro-
zida como “tudo ver”, os panoramas re- moviam a “substituição” da realidade
tratavam cenas ou objetos de grandes (Kosminsky, 2008).
proporções em um espaço compacto uti- O sucesso dos panoramas foi tamanho
lizando diferentes planos de fundo, que na época que, em pouco tempo, deriva-
poderiam ser inclinados ou não, pinta- ções desses atrativos foram desenvol-
dos em diferentes escalas com o intuito vidas por outros profissionais, sempre
de proporcionar uma falsa perspectiva buscando ampliar a compreensão física,
do ambiente real que era representado geográfica e histórica do que estava sen-
(Kamcke, Hutterer, 2015). do representado (Kosminsky, 2008).

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Podemos citar, como exemplo, o “ne- promover uma percepção visual, os dio-
orama” – pintura circular no interior de ramas exploravam mais o jogo de ilumi-
um prédio; “georama” – globo gigante nação, juntamente com o movimento de
oco, com desenhos dos continentes, oce- telas para criar ilusão de óptica. O curio-
anos, rios e montanhas no seu interior; so é que, no fim do século XIX, o público
“pleorama” – um tipo de panorama em nos panoramas aumentou significativa-
um barco flutuante em uma enorme mente no mundo, muito provavelmen-
piscina (Kamcke, Hutterer, 2015); “ci- te por ter alcançado outros territórios,
clorama” – prédios cilíndricos com ba- como os EUA e até o Brasil. O fato é que
talhas famosas desenhadas nas paredes esses tipos de representações estavam
(Milwaukee Public Museum Education condenados em função do surgimento
Department, 2004); “mareorama” – am- das revistas, dos grandes espetáculos
bientes circulares com uma plataforma teatrais e, sobretudo, do cinema (Kos-
similar a um deque de um transatlântico, minsky, 2008).
com telas que simulavam o movimento Mas, e nos museus de história natural,
desse tipo de navio (Kosminsky, 2008). o que estava acontecendo durante esse
No início da primeira metade do sé- período? Rogers et al. (2019) destacam
culo XIX, os panoramas, e suas deriva- que, antes de haver montagens como os
ções, encontraram nos dioramas um dioramas nos museus, a taxidermia3 já
forte concorrente de atração pública. Os era uma prática recorrente nessas insti-
registros destacam que nesse período tuições para expor os animais. De acor-
houve uma queda nos números de visi- do com eles, a partir de meados do sé-
tação nos panoramas. É difícil afirmar culo XVIII e ao longo do século XIX, essa
que tal situação decorreu do surgimento técnica foi sendo aprimorada de tal for-
dos dioramas de Daguerre e Bouton. O ma que, no decorrer do tempo, as repre-
que podemos dizer é que de fato havia sentações dos animais nas exposições
uma distinção de finalidade entre esses
dois espaços de entretenimento. Se os 3 De acordo com Rogers et al. (2019), a taxidermia
é uma arte que possibilita que espécimes de
panoramas estavam mais voltados para vertebrados fiquem preservados por um longo
tempo.

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foram ficando cada vez mais sofisticadas fundo. Por fim, temos os “grupos bioló-
– e certamente esse foi um dos fatores gicos”, que são montagens muito simi-
que favoreceu a introdução dos diora- lares aos dioramas de habitat, porém
mas nas exposições. sem uma parede com fundo curvo, tipo
No entanto, levou-se certo tempo para domo, contendo pinturas e um vidro de
que os dioramas ou “dioramas de habi- proteção.
tat” – expressão usada por muitos auto- O que se deve destacar em relação a
res para diferenciar dos dioramas tea- essas montagens, é que nelas já se bus-
trais4 – fossem concebidos nos museus cava representar mais aspectos biológi-
de história natural. Kamcke e Hutterer cos e ecológicos do que apenas a criati-
(2015) determinaram algumas etapas vidade do taxidermista. De acordo com
que nos ajudam a entender a evolução Anderson (2000), o primeiro dioramas
dessas montagens. A primeira delas tem de habitat, ou apenas diorama, foi cons-
origem nos gabinetes de curiosidades truído em 1890, por Carl Akeley (1864-
e são conhecidas como “grupos artifi- 1926), no Milwakee Public Museum. A
ciais”, em que diversos organismos eram partir de então, diversos museus de his-
arranjados em um cenário sem um con- tória natural passaram a investir nessas
texto biológico. Outro tipo de montagem montagens.
são os “grupos geográficos”, em que ani- Entretanto, o que de fato vem a ser um
mais e plantas eram organizados com diorama e porque foram tão utilizados
intuito de representar um bioma. Como nos museus?
a finalidade principal era mais educati- Segundo Van Praët (1989), dois fato-
va do que de ilusão, esses cenários po- res foram preponderantes para a imple-
deriam ter ou não uma ambientação de mentação dos dioramas nos museus. O
primeiro é que, no início do século XX,
4 As duas nomenclaturas são usadas e não há
uma distinção da mais correta. No entanto, alguns
os museus de história natural passa-
autores têm preferência por dioramas de habitat ram por um processo de ruptura entre
por entenderem que o uso do termo singular,
diorama, seja inconsistente por remeter aqueles
relacionados ao teatro.

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um diorama de habitat, que, segundo Ka-
mcke e Hutterer (2015), seria um domo
ao fundo com pinturas naturalísticas e
iluminação com efeitos em perfeita har-
monia com o primeiro plano, contendo
componentes naturais, como animais,
plantas, rocha, água e etc. A ideia de “ver
através” aqui ganha uma forma especí-
Figura 1 - Primeiro diorama de museu de história natural, fica de observação, que, de acordo com
construído por Carl Akeley, intitulado “Muskrat group
Fonte: Site do Milwaukee Public Museum6 Almeida (2012), se dá pela presença do
vidro, pois ele promove a interface entre
exposição e coleção5. O segundo fator o observador e o que está organizado na
foi a consolidação da ecologia enquanto parte interna do diorama.6
campo científico. Nesse contexto, o dio- A definição apresentada acima con-
rama surge como um eficiente recurso tém diversos elementos das represen-
que se alinha às duas condições viven- tações que precederam os dioramas de
ciadas nessas instituições, pois são capa- museus. O iluminismo óptico provocado
zes de combinar estética com a precisão pela relação do domo ao fundo com as
científica. pinturas, juntamente com a iluminação,
O diorama de Carl Akeley (Figura 1) já decorre das três dimensões dos diora-
trazia alguns dos requisitos básicos de mas de Daguerre e Bouton. Já a experi-
ência pessoal em conhecer locais desco-
5 Inicialmente, os museus não destinavam um nhecidos é um vestígio dos panoramas e
espaço para suas coleções; assim, todos os
objetos coletados eram mantidos na exposição. suas derivações presentes nos dioramas.
No entanto, no final do século XIX, começa a Todos esses elementos se fundiram com
haver uma preocupação nas equipes dos museus,
decorrente de teorias da museologia, em aprimorar
as técnicas já conhecidas de taxidermia
a comunicação com o público, o que leva a uma naquele momento. E isso só foi possível
distinção entre o que deveria ser exposto e o que
deveria estar acondicionado em uma reserva para
pesquisa. 6 Disponível em: <http://www.mpm.edu>

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porque os museus de história natural No entanto, como qualquer aparato
estiveram diante de um desafio: a neces- expositivo científico, os dioramas tam-
sidade de transmitir um novo conceito bém estão sujeitos a críticas.
científico a partir de uma nova forma de Segundo Van Praët (1989), pelo fato
se fazer exposições. de serem desenvolvidos exclusivamente
Mais do que representar ambientes para a exposição, a informação contida
naturais, os dioramas se tornaram sím- nos dioramas pode estar mais próxima
bolos dos museus de história natural, de quem os elaborou do que a informa-
como, por exemplo, o “Caça aos bisões ção científica pretendida. Além disso, o
pelos índios Corvos”, no Milwakee Public autor ainda destaca que fenômenos im-
Museum (Asensio, Pol, 1996), e o “Go- portantes da biologia, como especiação
rilas”, no American Natural History Mu- e adaptação, não são contemplados nes-
seum (Almeida, 2012). Não foi por acaso sas montagens.
que, ao longo do tempo, essas instala- Em um trabalho do Milwaukee Public
ções se tornaram também referências Museum Education Department (2004),
no campo da educação em museus, mais foi abordado o quanto os fatores estéti-
precisamente em temas relacionados à cos podem ofuscar os conteúdos científi-
ecologia, à conservação da natureza e à cos e que, por conta disso, alguns museus
biodiversidade. As justificativas para o estariam optando por outras formas
potencial educativo desses dioramas são de representar os ambientes naturais.
das mais diversas, desde estimular ques- Há trabalhos, como de Almeida (2012),
tionamentos sobre a natureza por meio que tecem críticas mais relacionadas
de observações (Ash, 2004) – sendo que ao quanto os dioramas de fato retratam
Asensio e Pol (1996) consideram essa uma realidade no tempo e no espaço de
característica como sendo um processo um ambiente natural, uma vez que utili-
de interatividade intelectual –, até em fa- zam diversos recursos tridimensionais e
tores como a possibilidade de conectar ópticos (outras pesquisas e análises so-
as pessoas com ambientes reais e muitas bre o tema serão apresentadas nos capí-
vezes impossíveis de serem acessados tulos deste livro).
(Breslof, 2005).

24
Para além de todas as questões que porados nos aparatos culturais da época,
envolvem o papel dos dioramas nos mu- tanto para proporcionar mais formas de
seus de ciência, devemos sempre lem- entreter o público quanto para também
brar que a origem deles não foi um fato afirmar o desenvolvimento científico.
isolado. A sucessão de formas de repre- Os dioramas dos museus de história
sentações dos ambientes que resulta- natural são frutos desse processo que se
ram nos dioramas é fruto dos avanços deu por meio da fusão do uso de tecnolo-
científico-tecnológicos do período mo- gias advindas dos dioramas teatrais, dos
derno no qual eles surgiram. Na segun- panoramas e da taxidermia, assim como
da metade do século XIX e na primeira das recentes descobertas científicas do
metade do século XX, várias instituições campo da ecologia. Além disso, os diora-
buscavam se alinhar ao pensamento mo- mas expressaram um momento impor-
dernista e, nos museus, isso era mais tante quando os museus de história na-
forte ainda, uma vez que são instituições tural assumiram de forma mais intensa o
conhecidas como guardiãs da ciência. É papel educativo das exposições.
notório como tais avanços foram incor-

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26
Capítulo 2: O papel educativo dos dioramas nos
museus de ciências
Juliana Bueno

27
DIORAMAS COMO OBJETOS DIDÁTICOS
Os dioramas são objetos didáticos
potencialmente poderosos para a edu-
cação científica nos museus de ciências.
Desde sua criação, eles foram produzi-
dos com intenção de divulgar e ensinar
(Van Praët, 1989) e, assim, se tornaram
instrumentos valiosos para aprendiza-
gem, promovendo a compreensão dos
diferentes habitats e das interações en-
tre os organismos. Particularmente, os
dioramas de museus de história natural
podem representar diferentes aspectos Figura 1. – Visão frontal do diorama «Floresta Amazônica»
do MZUSP, em que a letra “A” indica o diorama, a letra “B” a
de um conhecimento biológico, como vitrina e a letra “C” o painel.
Fonte: Juliana Bueno
a biodiversidade de um determinado
ecossistema, os conceitos de ecologia,
entre outros. tas, animais ou fungos; com a identifica-
Os dioramas ilustram, com fidelidade, ção de fenômenos físicos e geológicos,
uma cena real ou fictícia, os elementos tais como formações rochosas, tipos de
da flora e da fauna de diferentes biomas solo, tipos de bioma, entre outros.
e as diferentes adaptações dos vegetais Um exemplo rico que revela como um
e dos animais que vivem nesses ambien- diorama apresenta vários conceitos e
tes. São especialmente produzidos para ideias científicas pode ser dado ao ob-
dar a ilusão de realismo. No caso das ci- servar e descrever os elementos que o
ências naturais, a sensação de realidade compõe. Para isso, tomamos por base o
se consegue, geralmente, com a observa- diorama «Floresta Amazônica» (Figu-
ção de organismos nos ambientes e suas ra 1A), existente no Museu de Zoologia
relações/interações; com a identificação da USP e estudado por nós (Cf: Bueno,
e o reconhecimento de espécies de plan- 2015).

29
Neste diorama, encontramos um con- direita de quem olha de frente para
junto de conceitos que, apresentados na o diorama) e de cima para baixo
forma de objetos, como animais taxider- (caso dois objetos estejam alinha-
mizados e modelos, revelam o potencial dos verticalmente, iremos des-
crever inicialmente o que estiver
de ensino que esses objetos possuem.
posicionado mais ao alto), sempre
Além do diorama, estamos considerando iniciando do plano posterior (pin-
o seu conjunto expositivo: a vitrina com tura ao fundo e/ou ao lado) para
a legenda localizada abaixo ao diorama, o anterior (...). Os dioramas serão
em um suporte de madeira (Figura 1B), fragmentados em partes menores
e o painel com texto, mapa, esquema e chamadas de quadrantes, onde
foto (Figura 1C), fixados na parede, ao faremos pequenas leituras sem-
lado direito do diorama. pre iniciando no sentido do plano
posterior com a pintura para o an-
Para a identificação do potencial edu-
terior nos objetos. A área de cada
cativo do diorama da Floresta Amazôni- quadrante estará sujeita à disposi-
ca, optou-se por uma técnica de leitura ção dos objetos presentes na mon-
em quadrantes desse objeto, desenvol- tagem (Oliveira, 2010, p. 56).
vida por Oliveira (2010), que consta da
elaboração de um roteiro de descrição O resultado pretendido é que o visitan-
que possibilita extrair os elementos de te da exposição perceba vários aspectos
biodiversidade contidos no objeto expo- da biologia, da ecologia e da biogeogra-
sitivo, neste caso, o diorama. O roteiro é fia da Floresta Amazônica. No Quadro 1,
precedido pelo registro de em fotografia a seguir, apontamos alguns dos concei-
e/ou vídeo do objeto a ser observado, tos presentes no diorama e seu conjunto
cuja descrição deve: expositivo (painel e vitrina).

ser realizada da direita para a es-


querda (caso haja dois objetos ali-
nhados paralelamente, iremos des-
crever inicialmente o que estiver à

30
Quadro 1 - Potencial de ensino do diorama “Floresta Amazônica”, com os conceitos presentes no diorama
“Floresta Amazônica”, e dos suportes que o acompanham: texto de apoio, painéis e etiquetas.
Suportes Conceito identifi- Tarefas que se espera que o Como o visitante pode
cado visitante realize realizar a tarefa
Painel A distribuição geo- - Visualizar a região geográ- - Observar, no mapa da
(texto e mapa) gráfica da Floresta fica onde está distribuída a América do Sul, a distribui-
Amazônica Floresta Amazônica na região ção geográfica da Floresta
Neotropical. Amazônica.
- Visualizar e identificar que - Ler o texto informativo.
a maior parte da Floresta
Amazônica encontra-se em
território brasileiro.
Painel Os diferentes ti- - Identificar os diferentes - Ler o texto; observar o
(texto, foto e pos de ambientes extratos de vegetação da Flo- diorama.
esquema) e suas principais resta Amazônica. - Localizar e diferenciar,
Diorama características - Identificar os tipos de flores- no esquema e na foto, os
tas que compõem a Floresta tipos de ambientes e mo-
Amazônica. delos de vegetação.
- Identificar as diferenças
básicas dos dois principais
tipos de paisagens ou siste-
mas ecológicos da Floresta
Amazônica.
Painel As ameaças ex- - Inferir que os principais de- - Ler o texto e constatar
(texto) ternas à Floresta safios à Floresta Amazônica que o corte de árvores
Amazônica dizem respeito à sua conser- para diversos fins é a
vação/preservação. maior ameaça da Floresta
Amazônica.
Painel (texto); A riqueza de plan- - Constatar a riqueza de ani- - Ler o texto informativo
Vitrina (legen- tas e animais dessa mais e plantas da Floresta no painel.
da); floresta Amazônica. - Identificar organismos
Diorama - Constatar o alto endemismo na legenda; observar,
de plantas e animais da Flo- interpretar e constatar
resta Amazônica. aspectos observáveis no
diorama, generalizando
conceitos.

31
Suportes Conceito identifi- Tarefas que se espera que o Como o visitante pode
cado visitante realize realizar a tarefa
Vitrina (legen- As relações ecoló- - Reconhecer a Predação. - Identificar os organismos
da); gicas da Floresta - Reconhecer o Herbivorismo. no desenho da legenda,
Diorama Amazônica - Reconhecer o comporta- comparar com os organis-
mento dos animais da Flores- mos que estão expostos no
ta Amazônica. diorama e levantar suposi-
- Reconhecer o Epifitismo. ção sobre causas e efeitos.
Vitrina (legen- A diversidade de - Discriminar a diversidade - Ler a legenda; identifi-
da), Diorama animais na Flores- inter-específica em sauims car, na legenda, os nomes
ta Amazônica (Família Cebidae). popular e científico dos
- Discriminar a diversidade organismos.
intra-específica em esquilos. - Observar, reconhecer,
- Discriminar uma iguana. diferenciar e classificar
- Discriminar uma onça. os organismos que estão
- Discriminar a diversidade taxidermizados e expostos
taxonômica de insetos. no diorama e na vitrina.
- Discriminar a diversidade
taxonômica de aracnídeos.
- Discriminar a diversidade
taxonômica de crustáceos.
Fonte: Juliana Bueno

Dessa forma, por exemplo, uma das ro de espécies de animais e de vegetais,


tarefas, que se espera que o visitante identificar organismos na legenda; ob-
realize, diz respeito ao painel com texto servar, interpretar e constatar aspectos
existente na exposição. Espera-se que o observáveis no diorama, generalizando
visitante, ao ler as informações, constate conceitos. Da mesma forma, espera-se
a riqueza de animais e plantas da Flores- que o visitante reconheça diversas rela-
ta Amazônica. O modo como o visitante ções ecológicas da Floresta Amazônica,
pode realizar essa tarefa/ação é ler, no como, por exemplo, a predação, o herbi-
painel, o texto informando que a Flores- vorismo e o epifitismo, após a observa-
ta Amazônica é um bioma rico em núme- ção detalhada dos organismos presentes
no diorama e na legenda.

32
Quando observamos o cenário e o entre os organismos. Por meio dos dio-
comparamos com o que está descrito na ramas, os visitantes são expostos a no-
legenda, verificamos que nele são apre- vas experiências de aprendizagem, tais
sentados dois espécimes diferentes de como as descritas por Hooper-Greenhill
sauim de gêneros diferentes. Neste caso, (1994), em seu texto “O Museu e seus
podemos inferir que a ação que envolve visitantes”. Nesse texto, a autora sugere
o visitante é discriminar a diversida- que o modo como a aprendizagem ocor-
de interespecífica em sauim (Callithrix re quando mediada por imagens, tais
Chrysoleuca e Sauinus Fuscicollis. Famí- como as que um diorama propicia ao vi-
lia: Cebidae). Para isso, o visitante deve: sitante, é considerado a “maneira mais
ler a legenda; identificar, na legenda, os concreta de aprendizagem” (Hooper-
nomes popular e científico dos organis- -Greenhill, 1994, p. 21).
mos; observar, reconhecer, diferenciar e Paddon (2009) acrescenta que esses
classificar os organismos que estão taxi- objetos podem fornecer oportunidades
dermizados e expostos no diorama e na valiosas para a educação em museus,
vitrina. pois, além de suas qualidades visuais e
Como parte do conjunto expositivo, da aprendizagem, os dioramas também
temos ainda os organismos conserva- podem oferecer oportunidades para co-
dos que estão apresentados no diorama. nhecer os aspectos históricos dos mu-
Para esses, a tarefa requer, do visitante, seus e de suas coleções e a própria his-
identificar diferentes tipos de ambientes tória da taxidermia. Por exemplo, ao se
e suas principais características. Para re- analisar a exposição de um determinado
alizar essa tarefa, o visitante deve: ler o museu, por meio de documentos e entre-
texto; observar o diorama; localizar e di- vistas, é possível saber o período em que
ferenciar, no esquema e na foto, os tipos os dioramas foram construídos, a origem
de ambientes e modelos de vegetação. dos organismos que neles existem, suas
Os dioramas são, portanto, particu- finalidades e objetivos, revelando assim
larmente valiosos para a compreensão os aspectos históricos e a forma com que
dos diferentes habitats e das interações a museografia foi sendo constituída ao
longo dos anos (Oliveira, 2010).

33
DIORAMAS E PÚBLICO sição didática ou museográfica (Bueno,
Como vimos, os dioramas possuem 2015; Oliveira 2010), ou seja, resultam
papel poderoso em auxiliar os visitantes de processos de simplificação e adap-
de museus a compreender os conceitos tação do conhecimento acadêmico, com
expressos neles por meio dos objetos. finalidade de torná-lo acessível aos dife-
Em função de suas características – de rentes públicos, promovendo o ensino e
um objeto capaz de “congelar” uma dada a aprendizagem.
cena no tempo e no espaço –, os diora- No processo de transposição didática
mas proporcionam, aos visitantes, a não há, contudo, apenas simplificações
oportunidade de parar e olhar, observar, e reduções. Agranionih (2001) apon-
identificar, constatar, discriminar, levan- ta que, neste caso, existe também uma
tar suposições e procurar respostas. A complexificação devido às criações que
intenção de educar por meio do diorama são realizadas para tornar o conheci-
é, portanto, perceptível, pois vemos que, mento acessível. Sem isso, nas palavras
embora, à primeira vista, possa ser pare- de Chevallard (1991), estaríamos, en-
cido com objetos totalmente estáticos, o quanto didatas (e educadores de forma
diorama encarna uma qualidade intera- mais ampla), negando o acesso à infor-
tiva, reforçando ainda mais o seu papel mação e deixando de exercer uma ativi-
educativo. Esta característica reside no dade fundamental para a manutenção
potencial de o diorama “levar” o visitan- das sociedades. Assim, na produção de
te ao ambiente natural ao qual ele repre- um objeto didático – como são os diora-
senta, revelando os comportamentos, mas – há seleções e simplificações, mas
as dinâmicas e as relações que ocorrem também novas formas de organização
nesses espaços. do conhecimento.
Os aspectos mencionados levam a
DESAFIOS DOS DIORAMAS COMO algumas implicações importantes. Do
OBJETO DIDÁTICO ponto de vista de conteúdo conceitu-
Os dioramas, enquanto objetos didáti- al, percebemos algumas limitações nos
cos, são frutos de processos de transpo- dioramas, tanto no que se refere à não

34
explicitação mais clara de alguns concei- por exemplo, por que algumas relações
tos, quanto às ausências de outros que ecológicas e/ou alguns organismos fo-
poderiam estar presentes. Essas limita- ram representados e não outros. Tais
ções estão relacionadas, na verdade, a questionamentos, e a discussão de suas
qualquer objeto e situação de ensino e, razões com educadores e com a equipe
para enfrentar este desafio, Chevallard do museu, podem ajudar a compreen-
(1991) propõe exercer a chamada “vigi- der as limitações das representações e,
lância epistemológica” ou “vigilância di- assim, conhecer melhor os processos
dática”. A literatura referente ao conceito didáticos e museográficos que ocorrem
de vigilância epistemológica tem indica- na produção das exposições dos museus
do que, se por um lado, o conhecimento (Marandino, Achiam, Oliveira, 2015).
ensinado ou divulgado se mantém na re- Outra limitação a considerar, sob o
lação de distância e aproximação com o ponto de vista da ação museográfica, é o
saber de referência, por outro lado, ele que Insley (2008) aponta em seus estu-
também deve se adequar a uma dada dos sobre exposições de longa duração.
realidade e contexto e a diversas práti- Segundo a pesquisadora, os dioramas
cas sociais (como, por exemplo, elaborar que permanecem no local por um longo
exposições de museus). Assim, exercer a tempo podem sofrer uma desatualiza-
vigilância epistemológica significa dis- ção dos conteúdos conceituais que estão
tanciar-se do objeto de ensino e interro- representando, já que foram concebi-
gar-se constantemente sobre o que está dos em um determinado período. Logo,
sendo ensinado, suas potencialidades e a mensagem se torna datada, sendo útil
limitações, contribuindo para que nada substituir os objetos por outros mais
seja deturpado, mas sim transformado e contemporâneos. Esse fato acaba, por-
tornado passível de compreensão (Sou- tanto, sendo um problema para o museu,
za et al., 2012, p.5). pois gera despesa com a remoção ou a
Assim, ao visitar e observar um diora- reformulação de tais paisagens – gran-
ma, seja sozinho, com familiares ou num des e frágeis.
grupo escolar, é relevante se perguntar,

35
Segundo Tunnicliffe (2015), os diora- expostos, e com as impressões estéticas
mas de exposições de longa duração fo- e afetivas do ambiente retratado (Cam-
ram desmanchados, e até mesmo demo- pos, 2013; Piqueras et al., 2008; Tunni-
lidos, na segunda metade do século XX. cliffe, 2009;). Os resultados das pesqui-
Entretanto, a pesquisadora afirma que sas desses autores são consistentes com
estamos vivendo o renascimento desses a ideia construtivista de que as pessoas,
objetos e que novos dioramas também ao explorar objetos e conceitos em es-
estão sendo construídos com técnicas colas ou em museus, estão envolvidas
para valorizar a característica de reali- em um processo de aprendizagem que
dade – típica desses objetos expositivos. corresponde às suas experiências e co-
Nesse sentido, em nossa pesquisa nhecimentos prévios (Marandino et al.,
(Bueno, 2015), revela-se que uma das 2012).
maneiras de se potencializar o papel Assim, para fins educacionais, os dio-
educativo dos dioramas é o de identifi- ramas se configuram como objetos de
car as tarefas e ações que o objeto e/ou o aprendizagem únicos e essenciais para
conjunto expositivo possibilita, de forma a educação biológica, pois conseguem
a favorecer a representação de aspectos atingir uma grande audiência e ampliar
que, em alguns momentos, extrapolam o o acesso ao conhecimento biológico.
campo restrito dos conceitos biológicos
e revelam conteúdos conceituais de ou-
tras áreas de conhecimento.
Quando um visitante de museu ob-
serva um diorama que apresenta um
ecossistema, ele constrói uma narrativa
particular que relaciona o elemento que
está observando com seu conhecimento
prévio do ambiente, dos organismos, das
memórias ou das experiências, direta ou
indiretamente relacionadas aos objetos

36
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38
Capítulo 3: Dioramas em Museus Escolares
Vinicius Rodrigues dos Santos

39
DIORAMAS, MUSEUS E ESCOLAS de de representar a visão ecocêntrica;
Como vimos, os dioramas surgem na ou seja, destacando as interações entre
primeira metade do século XIX como plantas, animais e clima de um determi-
uma forma de inserir uma perspecti- nado ambiente (Fortin-Debart, 2003).
va realística às representações visuais Não encontramos dioramas somente
existentes na época. Esse procedimento em museus. Nas escolas, esses objetos
era feito por meio de técnicas aplicadas podem ser localizados em espaços co-
sobre imagens opacas e translúcidas em nhecidos como museus escolares, repre-
telas transparentes e em conjunto com sentando cenários de ambientes natu-
a utilização de jogos de luzes (Kamcke, rais desenvolvidos com a finalidade de
Hutterer, 2015). Nos museus de história expor e ensinar conceitos científicos. Em
natural, ao longo dos séculos XIX e XX, geral, os museus escolares abrigam cole-
a presença dos dioramas está relacio- ções de objetos que guardam a memória
nada à relevante mudança de perspecti- da escola e também objetos que estão
va em relação aos estudos das espécies diretamente relacionados às atividades
nas Ciências Naturais, que deixaram de educativas.
enfatizar o organismo em si e isolado e Diante da diversidade de denomina-
passaram a olhar para sua relação com o ções e definições de museus de educa-
ambiente, prática que veio consolidar o ção, diversidade essa que está sujeita
campo de investigação da ecologia como aos lugares e contextos nos quais esses
uma área científica (Van Praët, 1989). espaços estão inseridos, o termo “museu
Essa mudança de perspectiva acabou in- escolar” utilizado neste capítulo refere-
fluenciando a forma como as exposições -se aos espaços musealizados ou os mu-
eram organizadas, pois, ao invés de se seus constituídos com acervo próprio,
priorizar o organismo em si, buscam-se presentes em uma determinada escola
novas formas de expor, com foco agora ou instituição de ensino, que tenham
no ambiente natural e nas relações en- como finalidade o uso didático (Alves,
tre os organismos. Dessa forma, os dio- Reis, 2012).
ramas aparecem como uma possibilida-

41
A escolha de uma perspectiva para o sem à disposição dos professores e aces-
termo “museu escolar” tem como objeti- síveis aos alunos. Compostas por objetos
vo delimitar o ambiente no qual os dio- e painéis, essas coleções eram utilizadas
ramas irão aparecer, ou seja, dentro das como recursos didáticos pelos professo-
instituições escolares. Historicamente, res no ensino de ciências naturais (Vidal,
os museus escolares começaram a cons- 2017).
truir acervos de objetos para serem uti- No Brasil, os museus escolares surgi-
lizados como base de um “novo” método ram no final do século XIX, voltados para
de ensino, que privilegiava a experiência o ensino intuitivo, e reuniam objetos
através dos sentidos, e isso criou uma com a função de auxiliar o professor no
demanda por espaços para abrigar ob- processo de ensino das diferentes dis-
jetos expositivos – dentre os quais os ciplinas escolares. Os objetos estavam
dioramas. Esse método ficou conhecido presentes em coleções mineralógicas,
como “lição das coisas” ou “método in- zoológicas e botânicas, coleções de ins-
tuitivo”. Difundido entre o final do sé- trumentos ou objetos fabricados, dese-
culo XIX e início do XX, tem como base nhos e modelos para o ensino concreto
do conhecimento o raciocínio por meio (Vidal, 1999). O papel dos objetos neste
dos sentidos, contrapondo-se à prática contexto estava marcado pelos debates
de ensino utilizada até então, que valo- sobre a educação e a renovação pedagó-
rizava a memorização e não estimulava gica como meio de romper com as prá-
o educando a entrar em contato com o ticas educacionais realizadas até então
objeto de conhecimento a ser ensinado (Bocchi, 2013). Diante desse cenário, o
(Margotto,1999). método de ensino intuitivo surge como
A difusão do método intuitivo pelo uma possibilidade de renovação.
mundo teve influência das exposições Valdemarin e Pinto (2010) descrevem
universais, as quais também promove- como esse método foi sintetizado e pas-
ram a disseminação dos museus escola- sou a ter uma sintonia com as ambições
res. A concepção desses espaços era vital da sociedade à época:
para que as coleções dos objetos estives-

42
A matriz empírica, fundamento uso dos sentidos no ensino intuitivo era
epistemológico subjacente ao mé- visto como um fator imprescindível para
todo de ensino intuitivo, foi, poste- o raciocínio e o desenvolvimento inte-
riormente, sintetizada e simplifi- lectual (Margotto, 1999). Desse modo,
cada num conjunto de regras que
os museus escolares tiveram o papel de
apresenta uma concepção do pro-
cesso de aprendizagem baseado agregar um conjunto de objetos que ser-
nas percepções dos sentidos que, viriam a professores e alunos como meio
exercitadas e dirigidas pelas ativi- de promover a aprendizagem intuitiva
dades escolares, produziriam no- (Silva, 2015). Para Bocchi (2013), o mu-
vas formas de atuação e compre- seu escolar seria o local onde os objetos
ensão. Além disso, essa matriz foi eram guardados, consultados, observa-
utilizada também para vincular o dos e comparados. Essa pesquisadora,
método de ensino à modernização,
que estudou as transformações ocorri-
estabelecendo identificação entre
os objetivos educacionais, cientí- das no Colégio Marista Arquidiocesano
ficos e sociais (Valdemarin, Pinto, de São Paulo, ressalta como a aquisição
2010, p.166). dos objetos e a configuração dos espaços
escolares foram caracterizando o museu
O método intuitivo pretendia substi- escolar como espaço de ensino e apren-
tuir o caráter abstrato e pouco utilitá- dizagem.
rio da instrução. Tinha como alguns de Nesse cenário, os dioramas também
seus pressupostos a ideia de que o “ato passam a fazer parte dos acervos esco-
de conhecer se inicia nas operações dos lares, como podemos constatar no caso
sentidos sobre o mundo exterior, a par- de uma instituição de ensino jesuíta – o
tir das quais são produzidas sensações Colégio São Luís. Este colégio foi funda-
e percepções sobre fatos e objetos que do em 1867, na cidade de Itu, e mudou
constituem a matéria-prima das ideias” sua sede para a cidade de São Paulo em
(Valdemarin, 2000, p.76). 1917. Nele, encontra-se o Museu de His-
Nesse contexto, os objetos ganharam tória Natural Fernão Cardim do Colégio
espaços nas escolas, na medida que o São Luís (MHNFC - CS) com um diorama

43
objetos estavam presentes no colégio já
nas últimas décadas do século XIX (Gou-
lart, 2016).
No livro “Experimentar para apren-
der – Ciências no Colégio São Luís:
1867-2016”, obra que reúne a história
de estudo de ciências no Colégio São
Figura 1 - Diorama do Museu de História Natural Fernão Luís, Goulart (2016) nos mostra como
Cardim do Colégio São Luís.
Fonte: Site do Museu Fernão Cardim1 a instituição foi modernizando sua prá-
tica educacional, ao adotar o método de
educação através dos sentidos ou “lição
que reúne 95 animais taxidermizados de das coisas”. A adoção desse método de
diversas1espécies. Esses animais estão ensino era acompanhada da aquisição
distribuídos em representações de seu de objetos que passam a fazer parte da
ambiente natural. O espaço também con- nova rotina de alunos e professores, o
ta com reprodução do som dos animais que criou uma demanda por espaços
e iluminação produzida para evidenciar adequados para abrigar esses materiais
cada espécie (Colégio São Luís, 2019). A e deixá-los disponíveis para uso em au-
concepção do MHNFC/CS, assim como o las e atividades práticas.
diorama apresentado na Figura 1, teve O exemplo apresentado do diorama
como propósito abrigar a coleção de do Colégio São Luiz revela algumas das
animais taxidermizados que, durante o razões para que esses objetos viessem
século XX, ocupou diferentes espaços do a compor os museus escolares. Outras
colégio, ficando expostos para eventuais escolas também possuem museus com
visitas de alunos e professores. Contudo, dioramas.
a aquisição desses animais taxidermiza- A seguir, apresentaremos parte de um
dos antecede este período, sendo que os estudo feito em um dos dioramas do Co-
légio Dante Alighieri, em São Paulo.
1 Disponível em: < http://www.saoluis.org/
museufernaocardim/>

44
ANALISANDO DIORAMAS ESCOLARES: tural. Para que o local se concretizasse
O CASO DO MUSEU DE HISTÓRIA como uma instituição museológica, fo-
NATURAL DO COLÉGIO DANTE ram estabelecidos parâmetros que aten-
ALIGHIERI (MHN - CDA) dessem ao Estatuto dos Museus, confor-
Inaugurado em 1911, o Colégio Dante me Lei n° 11.904, de janeiro de 2009.
Alighieri nasceu da necessidade de pre- Os dioramas do Colégio Dante Alighie-
servar as raízes e a cultura da colônia ri estão inseridos na exposição “Biomas
italiana estabelecida em São Paulo, com do Brasil”, composta por três dioramas,
o ideal de unir as duas culturas – a ita- um painel com textos e imagens e um te-
liana e a brasileira. O MHN/CDA possui levisor que projeta imagens sob deman-
mais de 1.000 peças em exposição e no da do uso educacional do museu. A expo-
acervo, composto por animais taxider- sição está disposta em uma sala onde os
mizados, fósseis, réplicas de crânios de dioramas foram montados lado a lado e,
primatas, dioramas, entre outros objetos ao se entrar na sala, é possível observar
(Colégio Dante Alighieri, 2018). os dioramas do Cerrado, da Amazônia e
Ao longo de sua existência, o colégio da Mata Atlântica (Figura 2).
adquiriu, por meio de doações, exempla-
res de fósseis, esqueletos, animais taxi-
dermizados e material biológico conser- Figura 2 - Imagens dos dioramas do bioma Cerrado,
Amazônia e Mata Atlântica.(Fonte: Próprio autor/MHN -
vado. Segundo informações que constam CDA)
Fonte: Vinicius Rodrigues dos Santos
no site da instituição, os professores de
ciências e biologia utilizavam esses ob-
jetos durante as aulas como ferramenta
complementar no processo de ensino e
aprendizagem. Em 2011, foi providen-
ciado um local para armazenar esses
objetos, devido à grande quantidade de
doações recebidas ao longo do tempo,
nascendo assim o Museu de História Na-

45
No âmbito da pesquisa realizada por
Santos (2018) e Santos e Marandino
(2019), que tinha como objetivo identifi-
car o potencial educativo do diorama do
Cerrado (Figura 3) e levantar aspectos
sobre a origem dos dioramas do MHA/
CDA, foi realizada uma entrevista com a
supervisora do MHA/CDA.
Segundo a supervisora do MHA/CDA,
parte do acervo que hoje compõe o mu- Figura 3 - Diorama do Cerrado do MHN - CDA (Fonte:
seu era armazenada em laboratórios Próprio autor/MHN - CDA)
Fonte: Vinicius Rodrigues dos Santos
para uso dos professores. Em suas pala-
vras: “a coleção, antes ficava nos labora-
tórios, principalmente nos de biologia. Em nossa pesquisa, foi possível cons-
Era uma coleção que não era exposta; tatar que este diorama tem um enorme
era uma coleção que era utilizada para potencial para o ensino de conceitos
as aulas de biologia...”. científicos. Sob a perspectiva da Teoria
Nesse contexto, foi providenciado um Antropológica do Didático proposta por
espaço para abrigar e expor o acervo. Os Yves Chevallard e utilizando a praxeolo-
primeiros dioramas do museu, os dos gia como unidade de análise, investiga-
biomas do Cerrado e da Mata Atlântica, mos o potencial educativo do diorama
foram feitos por Emerson Boaventura, do Cerrado do MHN/CDA. Na análise em
que possuía formação em biologia e tra- questão, identificamos um conjunto de
balhou muitos anos em zoológicos e no ideias e conceitos que potencialmente
Museu de Zoologia da Universidade de podem ser trabalhados por meio do ce-
São Paulo (MZUSP). Junto com outros nário (incluindo objetos e textos), tais
profissionais, foram montadas algumas como: identificar e classificar espécies
salas de exposição, incluindo os diora- de animais do Cerrado; observar ves-
mas. tígios da presença de animais no am-

46
biente; identificar as características da versas áreas de conhecimento, os mu-
vegetação e sua fitofisionomia; reconhe- seus escolares acumulam objetos com a
cer características abióticas do Cerrado; finalidade explícita de ensino e aprendi-
identificar o comportamento dos ani- zagem. Como vimos, no caso dos museus
mais; identificar vestígios de ação antró- escolares, parte dos objetos que vieram
pica e de relações ecológicas, entre ou- a compor os dioramas era utilizada pela
tros (Santos, 2018; Santos, Marandino, comunidade escolar durante atividades
2019). Dessa forma, revela-se o poten- educativas.
cial que esse diorama possui para o ensi- O diorama do Museu de História Na-
no em áreas como a biologia, a geografia tural Fernão Cardim do Colégio São Luís
e a conservação, podendo se constituir é um exemplo de como o acervo de ob-
em grande aliado dos professores para jetos utilizados para o ensino através do
promoção da aprendizagem dos alunos método intuitivo compôs, ao longo do
de forma contextualizada, estimulante e tempo, o acervo do museu escolar dessa
lúdica. instituição e o próprio diorama existen-
te nele; assim como o diorama do Museu
CONSIDERAÇÕES FINAIS de História Natural do Colégio Dante Ali-
Ao encontramos dioramas dentro do ghieri também foi sendo composto pelos
ambiente escolar, precisamos refletir objetos que eram utilizados pelos pro-
como esse ambiente, diferentemente de fessores e alunos durante suas aulas.
uma instituição museológica, influencia Os resultados de nossas pesquisas
a concepção e a utilização dos dioramas (Santos, 2018; Santos, Marandino, 2019)
em processos de ensino. A origem dos apontam que os dioramas presentes em
museus escolares de fato é distinta da museus escolares possuem potenciais de
dos museus de história natural. Enquan- ensino e aprendizagem sobre as ciências
to os museus de história natural surgi- naturais semelhantes àqueles existentes
ram de ambientes focados na formação em museus de história natural.
de coleções que, posteriormente, foram Vale, contudo, problematizar se as for-
a base para a pesquisa científica em di- mas de ensino e aprendizagem que ocor-

47
rem no espaço específico de um museu levante ampliar as investigações sobre
escolar são as mesmas se comparadas as relações dos dioramas presentes em
com aquelas que ocorrem nos museus de museus escolares e sobre os objetos uti-
história natural. Seria relevante, assim, o lizados nas escolas no âmbito do método
desenvolvimento de estudos sobre o uso intuitivo, principalmente no que se refe-
desses dioramas pelos alunos dos colé- re à utilização desses objetos na cons-
gios, analisando as aproximações e as tituição do acervo desses museus e na
distâncias dessas práticas nas escolas e concepção dos dioramas.
nos museus. Por fim, consideramos re-

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50
Capítulo 4: Pesquisas sobre dioramas no ensino e
divulgação de ciências da natureza
Fausto de Oliveira Gomes

51
Os dioramas, como objetos didáticos, por instituições (ou por mediadores vin-
são temas de pesquisas e de investiga- culados a essas instituições) ou os usos
ções na área de educação, em geral, e de previstos durante o seu planejamento e
ensino e divulgação de ciências há algum confecção também foram considerados
tempo. Como vimos em outros capítulos nesse levantamento. As interações que
deste livro, o destaque relativo à utiliza- o público estabelece durante a visita a
ção dos dioramas como parte de estra- um diorama, seus diálogos, indicações,
tégias de ensino se dá por diversos mo- comportamentos, considerações e os
tivos que estão, geralmente, vinculados aspectos desse objeto que lhes chamam
a características próprias dos dioramas: atenção fazem parte também do rol de
as interações ecológicas que acontecem temas pesquisados e fizeram parte deste
em dado ambiente e que se destacam estudo. A finalidade deste levantamento
nessa forma de exposição (Fortin-De- é não somente ilustrar a rica e contínua
bart, 2003) ou a forte analogia com o produção sobre o tema, mas também
ambiente real (Montpetit, 1996) ou, ain- estimular que essas referências sejam
da, o apelo conservacionista que pode consultadas pelos interessados e, em
apresentar-se em sua elaboração, exi- especial, favorecer que novas pesquisas
bindo ambientes que muitas das pessoas sejam feitas sobre esse objeto tão fasci-
provavelmente não teriam acesso a não nante.
ser via a contemplação desses objetos Este levantamento não é exaustivo.
(Ash, 2004; Breslof, 2005; Quinn, 2008), Dada a grande quantidade de trabalhos
entre outras, são exemplos dessas carac- sobre dioramas e educação encontrados,
terísticas. restringimos a nossa análise àqueles re-
Neste capítulo, realizamos levanta- alizados nas últimas décadas e conside-
mento bibliográfico de trabalhos de pes- rados relevantes para esta publicação.
quisa em ensino de ciências e biologia Devido à expressiva presença de traba-
que buscaram investigar as potencialida- lhos, tanto dentro quanto fora do Brasil,
des dos dioramas no ensino em ambien- julgamos importante acrescentar essa
tes não formais de educação. Seus usos característica no quadro como forma de

53
valorizar essas publicações, a fim de compará-las, bem como situar períodos histó-
ricos diferentes.
Tabela 1: Informações dos trabalhos mais relevantes encontrados neste levantamento

TÍTULO TIPO DE PU- AUTORES ANO LOCAL DE PUBLICAÇÃO


BLICAÇÃO
Analysis of a Natural Artigo Bob Peart; 1988 The International Journal of
History Exhibit: Richard Kool Museum Management and
Are Dioramas the Curatorship
Answer?
Family Behavior and Artigo Lynn Dierking; 1994 Science Education
Learning in Informal John Falk
Science Settings: A
Review of the Rese-
arch
How Families Use Artigo Doris Ash 2004 Curator: The Museum Journal
Questions at Diora-
mas:
Ideas for Exhibit De-
sign
An Examination of Artigo James Kisiel 2006 Wiley Periodicals, Inc. Publi-
Fieldtrip Strategies cado online em 2006
and Their Implemen-
tation within a Natu-
ral History Museum
Discussing Biodiver- Artigo Martha Maran- 2009 Natural History Museum
sity In Dioramas: A dino; Newsletter. International
Powerful Tool To Mu- Marianne Mor- Council of Museums/ICOM
seum Education tensen;
Adriano Dias Oli-
veira

54
TÍTULO TIPO DE PU- AUTORES ANO LOCAL DE PUBLICAÇÃO
BLICAÇÃO
Biodiversidade e mu- Dissertação Adriano Dias Oli- 2010 Dissertação. Interunidades
seus de ciências: um de Mestrado veira Ensino de Ciências - USP
estudo sobre trans-
posição museográfica
nos diorama
Museographic trans- Trabalho de Martha Maran- 2010 III Congreso Internacional
position: Discussing congresso dino; sobre la TAD. Bellaterra: Bar-
scholarly knowledge Adriano Dias Oli- celona
of biodiversity in the veira
organisation of mu-
seum exhibitions
Dioramas as Depic- Artigo Michael J. Reiss; 2011 Curator: The Museum Journal
tions of Reality and Sue D. Tunnicliffe
Opportunities for
Learning in Biology
Dinosaurs And Diora- Livro Sarah J. Chicone; 2014 Editora Routledge
mas Creating Natural Richard A. Kissel
History Exhibitions
Natural History Dio- Livro Sue D. Tunnicliffe; 2015 Editora Springer
ramas: History, Cons- Annette Scheersoi
truction and Educa- (Eds.)
tional Role
Objetos que ensinam Dissertação Juliana Bueno 2015 Dissertação. Interunidades
em museus: de Mestrado Ensino de Ciências - USP
Análise do diorama
do Museu de Zoologia
da USP na perspectiva
da Praxeologia
The Diorama as a Me- Capítulo de Martha Maran- 2015 In: Tunnicliffe, S. D.; Scheer-
ans for Biodiversity livro dino; soi, A. (org.). Natural history
Education Marianne dioramas - History, construc-
Achiam; tion and educational role
Adriano Dias Oli-
veira

55
TÍTULO TIPO DE PU- AUTORES ANO LOCAL DE PUBLICAÇÃO
BLICAÇÃO
Family Learning in Artigo Kaleen Tison 2015 Visitor Studies
Object-Based Museu- Povis;
ms: The Role of Joint Kevin Crowley
Attention
Flexible Interventions Artigo Karen Knutson; 2016 Curator: The Museum Journal
to Increase Family Mandela Lyon;
Engagement at Natu- Kevin Crowley;
ral History Museum Lauren Giarratani
Dioramas
The role of the ima- Artigo Marianne Achiam 2016 Nordisk Museologi
gination in museum
visits
Dioramas as a Win- Livro Susan Spero; 2017 Sci & Educ
dow for Teaching and Lisa Hubbell
Learning in Natural
History Museums
The effects of using Artigo Hülya Aslan Efe 2017 Asia-Pacific Forum on Science
diorama on 7th grade Learning and Teaching
students’ academic
achievement and
science learning skills
The Notion of Pra- Capítulo de Juliana Bueno; 2017 In K. Hahl, K. Juuti, J. Lam-
xeology as a Tool to livro Martha Maran- piselkä, A. Uitto,; J. Lavonen
Analyze Educational dino (Orgs.), Cognitive and affecti-
Process in Science ve aspects in science educa-
Museums tion research, Contributions
from science education rese-
arch. Springer: International
Publishing.

56
TÍTULO TIPO DE PU- AUTORES ANO LOCAL DE PUBLICAÇÃO
BLICAÇÃO
A Compreensão da Artigo Martha Maran- 2018 Pesquisa em Educação e Ci-
Biodiversidade por dino; ência Revista Ensaio
Meio de Dioramas de Caroline Laurini
Museus de Zoologia:
Um Estudo com pú-
blico adulto no Brasil
e na Dinamarca
Teaching and Lear- Capítulo de Martha Maran- 2018 In: Scheersoi A., Tunnicliffe S.
ning Biodiversity with livro dino; (eds) Natural History Diora-
Dioramas Marianne mas – Traditional Exhibits for
Achiam; Current Educational Themes.
Juliana Bueno; Springer International Pu-
Caroline Laurini blishing
Dioramas de História Artigo (oriun- Vinicius Santos 2018 Museologia & Interdisciplina-
Natural em Museus do de Inicia- e Martha Maran- ridade
Escolares ção Científi- dino
ca)
Educational Mecha- Capítulo de Michael May; 2019 In: A. Scheersoi, S. D. Tunni-
nism of Dioramas livro Marianne Achiam cliffe (eds.), Natural History
Dioramas – Traditional Exhi-
bits for Current Educational
Theme. Springer: Nature
Switzerland

Fonte: Fausto de Oliveira Gomes

ASPECTOS GERAIS SOBRE AS olham para os dioramas e os descrevem


PUBLICAÇÕES DESTACADAS e analisam do ponto de vista da pesquisa
Como ponto de partida, podemos per- em educação em ciências (Reiss; Tunni-
ceber que há dois grandes campos de cliffe, 2011) e há aqueles que também
pesquisa que se debruçam sobre o tema vão se interessar sobre os dioramas, mas
“dioramas”: há aqueles autores que do ponto de vista da museologia (Ash,

57
2004; Povis, Crowley, 2015). Esses dois PIBID/CNPq (Programa Institucional de
pontos de vista, apesar de partirem de Bolsas de Iniciação à Docência) que ana-
campos teóricos diferentes, não são ex- lisam potenciais educativos dos diora-
cludentes. mas (Ghilardi-Lopes, 2012), assim como
Nas análises que exploram os poten- no PIBIC/CNPq (Programa Institucional
ciais educativos (Marandino, Achiam, de Bolsas de Iniciação Científica) que
Laurini, 2018; May, Achiam, 2019) ou analisam as interações do público diante
que refletem sobre estratégias de cons- de um diorama (Santos, 2018). Há ainda
trução ou atualização dos dioramas grande número de artigos, dissertações
(Chicone, Kissel, 2014), as pesquisas de mestrado e teses de doutorado que
utilizam referenciais e instrumentos de abordam desde a potencialidade edu-
análise pertencentes a ambos os campos cativa dos dioramas (Bueno, 2015; Oli-
de pesquisa. Além disso, ao comparar veira, 2010) até as interações do públi-
as revistas nos quais os artigos citados co com esses espaços expositivos (May,
foram publicados, percebe-se que tanto Achiam, 2019).
aquelas do campo museológico, como a Se, por um lado, os dioramas possuem
Curator: the Museum Journal ou a Natu- um potencial educativo considerável,
ral History Museum Newsletter, quanto por outro, há quem esteja explorando a
as de linha editorial mais voltada para produção de dioramas como estratégia
o ensino de ciências, como a Science de ensino de ciências em sala de aula
Education, a Springer International Pu- (Efe, 2017). Nessa estratégia, o aluno é
blishing ou a Pesquisa em Educação e Ci- estimulado a assumir o papel do pes-
ência, recebem e publicam artigos com a quisador/educador que deve planejar e
temática “dioramas”. construir um diorama, tendo que tomar
É relevante também a presença de decisões quanto aos materiais que uti-
pesquisas sobre a função educativa dos lizará, o cenário que construirá, a cena
dioramas em diferentes níveis acadêmi- que representará, entre outras. Essa
cos. Em nível de graduação, no Brasil, estratégia vem sendo utilizada em ati-
encontramos trabalhos vinculados ao vidades propostas no Brasil desde pelo

58
menos 2010 (Marandino et al., 2010) e, avançar na discussão acerca dos pro-
neste livro, sugerimos novas atividades cessos educativos que ocorrem nos mu-
que podem ser realizadas tomando-se seus. Nas palavras de Marandino (2005,
por base esse objeto. p.178): “é imprescindível que educa-
dores de museus investiguem cada vez
CONSIDERAÇÕES FINAIS mais os elementos que compõem essa
Como pode ser visto, entender os dio- cultura, de modo a esclarecer os aspec-
ramas como objetos que têm potencial tos a serem considerados no estudo da
de ensino e divulgação para diferentes produção de saberes nesses espaços”.
públicos é um processo que tem mobi- Assim, será possível compreender o pro-
lizado uma série de pesquisadores de cesso de educação nos espaços museais
diferentes áreas de conhecimento, que que utilizam dioramas.
buscam enriquecer a compreensão e

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62
Capítulo 5: Falando sobre Evolução com dioramas de
história natural1
Jesús Piqueras e Marianne Achiam

1 Este texto, de autoria de Jesús Piqueras e Mariane Achiam, foi apresentado na 13ª Conference of the
European Science Education Research Association (ESERA), em 2019, tendo sido gentilmente cedido pelos
autores para tradução e divulgação neste livro. Realizamos ajustes com relação a estrutura de itens do
texto para se adequar a esta publicação, sem contudo ter alterado seu conteúdo.

63
Em muitos museus, os dioramas (re- descobriu que os povos indígenas nos
presentações tridimensionais de cená- dioramas são frequentemente retrata-
rios de paisagens de animais) são com- dos pelo ponto de vista colonialista. Co-
ponentes essenciais das exposições e letivamente, esta pesquisa aponta como,
recentemente receberam maior atenção nas imagens antropológicas, o homem
como recursos para o ensino de ciências branco euro-americano adulto está fre-
(Reiss, 2019). No entanto, um crescente quentemente associado ao progresso e
corpo de pesquisa indica que represen- à superioridade evolucionários (Wiber,
tações visuais, como dioramas, refletem 1997).
metáforas e discursos específicos de No presente estudo, examinamos as
seus criadores e não podem simples- mensagens sobre evolução humana
mente ser entendidas como ‘cópias em transmitidas por uma exposição sobre
carbono’ da natureza (Shteir, Lightman, evolução humana em uma atividade de
2006). Em particular, as representações ensino no Museu Sueco de História Na-
visuais dos primeiros hominídeos refle- tural. Focamos especificamente as in-
tem noções dominantes sobre o estilo terpretações dos visitantes dos museus
de vida e os padrões de gênero dos se- das cenas exibidas nos dioramas e dis-
res humanos, em vez de fatos empíricos. cutimos suas implicações para a disse-
Por exemplo, Gifford-Gonzalez (1993) minação da evolução humana nos mu-
constatou que as imagens femininas nas seus. Discutimos, em particular, como os
ilustrações da evolução humana quase dioramas hominídeos podem ser usados
sempre são acompanhadas por colegas para discutir e promover uma compre-
masculinos, embora o contrário não seja ensão mais equitativa da evolução hu-
verdadeiro. mana.
Lutz e Collins (1993) descobriram A exposição “A Jornada Humana no
diferenças sistemáticas no tipo de tra- Museu Sueco de História Natural” segue
balho em que os hominídeos eram retra- os principais passos da evolução huma-
tados e na cor de sua pele. Finalmente, na, representados por modelos natura-
em um estudo mais recente, Ash (2019) listas dos primeiros ancestrais humanos.

65
Os modelos são colocados em dioramas A VIDA SOCIAL DE NOSSOS
de vidro, em uma linha do tempo, e po- ANCESTRAIS
dem ser observados de todos os lados. Um tema recorrente nas discussões
Para análise, escolhemos três diora- desencadeadas pelos dioramas sobre
mas: 1) uma reconstrução de uma fêmea hominídeos foi o do dimorfismo sexu-
e um macho da espécie Australopithecus al. Frequentemente, este dimorfismo
afarensis; 2) a espécie Homo ergaster, foi simplesmente observado, como no
mostrando um indivíduo do sexo mascu- exemplo “Tem uma grande diferença en-
lino e um esqueleto; e 3) três indivíduos tre os sexos” (Filip, diante do diorama A.
da espécie Homo neanderthalensis. Os afarensis), ou conforme ilustrado na dis-
dados do estudo vêm de uma atividade cussão a seguir diante do diorama do H.
em que as turmas escolares exploram os neanderthalensis:
dioramas em grupos. Durante a ativida- Eva: Esse cara tem uma barba.
de, os textos explicativos dos dioramas Liv: Ela não tem nem a metade de
ficam ocultos. As conversas de 15 grupos pelos no corpo que ele tem.
de 2 a 4 alunos (15 a 18 anos) foram gra-
vadas em áudio e vídeo. As transcrições Em algumas pesquisas paleoantropo-
das conversas foram analisadas por meio lógicas, o dimorfismo sexual no tamanho
da análise denominada epistemologia da do corpo entre os hominídeos tem sido
prática (Wickman, 2004) e, posterior- interpretado como uma consequência
mente, segmentadas em temas discursi- do modelo Homem-Caçador (Man-the-
vos (Piqueras, Wickman, Hamza, 2012). -Hunter), no qual os machos se torna-
Fornecemos aqui uma breve seleção de ram maiores para caçar com sucesso,
exemplos de três temas discursivos que, enquanto as fêmeas se tornaram menos
de várias maneiras, refletem ideias so- capazes de se defender (Washburn, De-
bre a evolução dos seres humanos. Vore 1961). Certamente, a noção de Ho-
mem-Caçador está presente nas discus-
sões dos alunos, conforme demonstrado

66
a seguir, na qual dois estudantes estão COR DA PELE E A PROGRESSÃO
comparando os dioramas de H. ergaster EVOLUTIVA
masculino com o de A. afarensis: Outro tema recorrente na discussão
Max: Mas acho que nós [H. ergas- dos alunos foi a cor da pele. Os hominí-
ter] ficamos mais ágeis ago- deos reconstruídos na exposição têm a
ra. pele gradualmente mais clara, à medida
Filip: É. que se segue a linha do tempo. Durante
Max: Este é um caçador, por assim o estudo dos dioramas, dois estudantes
dizer, aquele estilo que corre notaram essa mudança gradual de cor.
atrás de um animal. Aque- No primeiro diorama do A. afarensis,
la coisa [A. afarensis] fica eles observam:
de pé rapidamente... como Eva: Eles são negros, basicamen-
quer que seja chamado... eles te, a pele deles é negra.
eram mais passivos. Liv: Sim.
Eva: Eles estão na África, eles ain-
Melanie Wiber (1997), pesquisadora e da estão na África porque an-
antropóloga, faz uma crítica ao modelo dam nus, basicamente.
Homem-Caçador e sua falta de atribui-
ção de papel para a metade feminina Mais tarde, diante do diorama do H.
da espécie (Wiber, 1997). Essa crítica neanderthalensis, eles voltam a questão:
também é observada no discurso de um Eva: Ok, agora estamos no expo-
aluno diante do diorama H. ergaster, que sitor número três, com dois
apresentava apenas o macho da espécie: adultos e uma criança, e eles
‘Eu gostaria que tivéssemos uma mulher se tornaram brancos.
que também tivesse sido reconstruída’ Liv: Isso me impressionou ime-
(Eva). diatamente.

67
Eva: […] O que eu me pergunto perguntaram em voz alta sobre o equilí-
é: quando eles se tornaram brio entre o fato empírico e as intenções
brancos? Acho isso interes- dos designers por trás da exposição.
sante. Eva: O cabelo comprido das mu-
lheres... pode ser algo que
Na ilustração paleoantropológica, não o designer faz para esclare-
é incomum que a cor da pele signifique cer para nós que essa é uma
progresso: “a cor da pele mais escura é garota e esse é um cara? Ou
frequentemente usada de forma inter- pode ter sido assim desde o
cambiável com a pele com maior presen- começo?
ça de pelos para sugerir primitividade”
(Wiber, 1997, p.113). Esta convenção Embora os alunos não questionem
coloca os africanos na base da escala profundamente as intenções do desig-
humana e os europeus no topo (Lutz, ner, eles mostram que estão cientes de
Collins, 1993). Embora os estudantes que estão olhando para uma reconstru-
observados aqui não interpretem expli- ção resultante em parte das intenções
citamente os hominídeos nesse sentido, pedagógicas do designer. As reconstru-
pesquisas mostram que os estudantes ções naturalistas dos hominídeos na
expostos a imagens que utilizam desses exposição do Museu Sueco de História
estereótipos culturais e raciais absor- Natural podem ser reconhecidas como o
vem suas implicações (Wiber, 1997). que Gifford-Gonzalez (1993, p. 28) cha-
ma de “impulso à credibilidade através
A INTENÇÃO DOS DESIGNERS do realismo visual”. Com essa estratégia,
Finalmente, observamos várias ins- os designers contribuem efetivamente
tâncias em que os alunos adotaram uma para definir o conhecimento científico
postura mais crítica. Por exemplo, os alu- sobre hominídeos e evolução humana.
nos nem sempre consideram as imagens Isso levanta várias questões: “Quais são
apresentadas verdadeiras só pelo que as intenções dos designers e do Museu
parecem ser. Em alguns casos, eles se Sueco de História Natural?”, “Como as

68
reconstruções são interpretadas pelo es- No entanto, em nosso estudo, alguns
pectador?” e “Como essa interpretação alunos se distanciaram criticamente do
influencia o espectador?” (Wiber, 1997). que puderam observar nos dioramas,
Aqui, podemos apenas afirmar que questionando a motivação dos desig-
respondemos parcialmente à segunda ners. Isso indica que, em vez de usar os
pergunta. Nossos resultados mostram dioramas, aceitando a cena como verda-
que as interpretações dos alunos sobre deira somente pelo que ela mostra, pro-
os dioramas seguem um padrão con- movendo involuntariamente o discurso
sistente com o discurso do Homem-Ca- dominante, os educadores de museus
çador e envolvem estereótipos raciais podem muito bem usar os dioramas
e culturais. Esse discurso é largamente como recursos para ajudar os alunos a
difundido em estudos e imagens paleo- questionarem os discursos dominantes
arqueológicas e parece ter evoluído em na ciência e discutir o que constituiria
torno de interesses predeterminados, interpretações mais equitativas dos fa-
com base em suposições profundamen- tos empíricos.
te arraigadas sobre o que é ser humano
(Wiber, 1997).

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70
Capítulo 6: Relato de experiência:
“Biomas do Mundo - Cenas da Vida Natural”,
a construção de dioramas com alunos do 7º ano
como estratégia para o ensino de ciências.
Fausto de Oliveira Gomes

71
O ensino de ciências, sob a perspectiva ências, o projeto “Biomas do mundo: ce-
da alfabetização científica, tem como ob- nas da vida natural”, realizado em 2017,
jetivo maior a formação de sujeitos crí- em um colégio particular da cidade de
ticos capazes de compreender o mundo São Paulo, propunha aos alunos a cons-
em que vivem em sua dimensão científi- trução de dioramas de ambientes natu-
co-tecnológica, entender os significados rais, acompanhada de uma narrativa que
e as relações que existem entre ciência, justificasse a cena construída dentro do
tecnologia, sociedade e ambiente (Sas- contexto ambiental escolhido. Conteú-
seron e Carvalho, 2011). Essa perspecti- dos relacionados às características da fi-
va inclui também conseguir imaginar e tofisionomia vegetal, do clima da região,
propor, inclusive em termos científicos, do relevo e dos hábitos de vida dos ani-
soluções para os problemas que a socie- mais nativos deveriam ser levados em
dade enfrenta, colaborando assim para o consideração e explorados pelos alunos
incremento e a transformação na quali- durante a elaboração dos dioramas. Esse
dade de vida de todos os cidadãos (Chas- projeto se desenvolveu em quatro eta-
sot, 2001). pas: (1) Caracterização; (2) Construção;
A partir dessa visão de ensino de ci- (3) Apresentação; e (4) Avaliação.

Etapa 1 – Caracterização
A primeira etapa foi realizada indivi- em duplas ou trios, escolhidos por afi-
dualmente pelos alunos, os quais ela- nidade, com pouca ou nenhuma interfe-
boraram uma síntese das pesquisas rência do professor. Ao longo das produ-
estudadas e realizaram uma discussão ções, foram feitos registros com fotos e
coletiva com o restante da turma, acom- vídeos a fim de possibilitar a divulgação
panhada da mediação do professor, a fim do projeto para a comunidade escolar e
de favorecer a explicitação e a articula- para posterior análise do professor em
ção de conhecimentos necessários para relação ao desenvolvimento do projeto,
o desenvolvimento das demais etapas com o objetivo de aprimorá-lo para o
do projeto. A partir deste momento, o ano seguinte.
trabalho realizado pelos alunos foi feito

73
Etapa 2 - Construção
As etapas de construção do diorama tas de ecossistemas presentes em outros
foram realizadas na escola, de forma a países, ou não sugeridos pelo professor,
possibilitar ao professor acompanhar o foram aceitas desde que justificadas.
desenvolvimento do projeto e o proces- Dentre as possibilidades de biomas
so de diálogo, argumentação e decisão sugeridas, nem todas foram contempla-
dos alunos. Nesse processo, o professor das pelas escolhas dos grupos. A seguir,
pôde inferir sobre o nível de conheci- apresentaremos algumas produções dos
mento que os alunos possuem sobre os alunos, bem como suas narrativas e re-
conceitos relacionados aos ecossistemas flexões. A atividade durou cinco encon-
que estavam sendo representados, so- tros e foi o suficiente para trabalhar as
bre as relações ecológicas presentes no características de diferentes ambientes
diorama finalizado e, também, sobre os com ou sem a interferência humana.
conceitos relacionados à construção de
um diorama, suas características e sua AS NARRATIVAS ESCOLHIDAS E AS
função expositiva. REFLEXÕES EXPLICITADAS PELOS
Foram sugeridas, aos alunos, diversas ALUNOS
opções de biomas, incluindo subáreas, Os exemplos apresentados aqui são de
para que, em grupos, pudessem escolher grupos que escolheram um cenário ne-
aquele que seria o referencial de conteú- vado de floresta temperada, ilustrando
dos para seu diorama. a competição entre ursos e lobos, repre-
Foram eles: Pampas gaúchos, Flores- sentado, no diorama 1 (D1); uma caver-
ta de araucárias, Mata Atlântica (Mata na servindo de abrigo para um casal de
Atlântica costeira, Mata Atlântica de en- antílopes que apresenta marcas de um
costa e Mares de Morros), Cerrado (cer- encontro com algum predador, no diora-
radão, cerrado típico e vereda), Caatinga ma 2 (D2); e um barco de pesca em alto-
(raso da Catarina, lençóis maranhenses e -mar com uma rede que capturou, por
sul do Piauí – Canudos), Floresta Amazô- engano, um golfinho, no diorama 3 (D3).
nica (floresta densa e igarapé). Propos-

74
Em D1, um urso se aproxima de uma
caverna onde está uma família de lobos.
Papel e pedra foram escolhidos para re-
presentar o ambiente montanhoso com
pouca ou nenhuma cobertura vegetal;
argila para a construção de uma gruta
que serve de abrigo para os lobos; e al-
godão salpicado de poliestireno expan-
dido e fragmentos de folhas secas para
representar a cobertura do solo. Aqui,
pode-se perceber a intenção dos estu- Figura 2: Produção do diorama (D1), as escolhas feitas
dantes em criar uma tensão entre o urso pelos alunos pode servir para inferir o nível de apropriação
dos conteúdos relacionados à produção do diorama.
que está rodeando a toca dos lobos, em Fonte: Fausto de Oliveira Gomes
um cenário nevado com vegetação seca
espalhada pelo solo.
Durante a produção do diorama D1, por os elementos do diorama no espaço
os alunos precisaram decidir como dis- e sobre colocar ou não elementos que
representassem árvores ou moitas (Fi-
gura 2). Para auxiliá-los nessa decisão,
Figura 1 - Diorama (D1) produzido por alunos do 7º. ano -
São Paulo – SP, em 2017 foi recomendado aos alunos que pesqui-
Fonte: Fausto de Oliveira Gomes sassem sobre hábitos de vida dos lobos
de regiões temperadas e, como conse-
quência dessa pesquisa, eles resolveram
construir uma toca de argila. O D1 criado
pelos estudantes atendeu às suas expec-
tativas. Os estudantes avaliaram que o
peso do modelo dificultou o seu trans-
porte e que talvez pudesse ser constru-
ído com materiais mais leves. Sugestões

75
da caverna há um predador à espreita.
Neste diorama, houve a preocupação
com a apresentação do contexto am-
biental em que a cena se passava. Neve
foi adicionada sobre o teto da caverna
para criar esse contexto.
Para a elaboração do D2, a dificuldade
maior estava relacionada à expressão de
medo que os antílopes deveriam ter. Esse
Figura 3: Foto do diorama D2 mostrando os cudos bem problema foi solucionado colocando-se
próximos um do outro e com ferimentos.
Fonte: Fausto de Oliveira Gomes os dois bem próximos um do outro, com
os ferimentos à mostra, se afastando de
de outros materiais, como utilizar o pró- seu predador (Figura 3).
prio papel pedra, para construção da
gruta, foram apontadas pelos alunos. Figura 4 - Foto da produção do diorama D2 mostrando
Para decidir sobre a vegetação que re- parte do exterior da caverna indicando que estaria inserido
dentro de uma montanha nevada
presentariam, o professor indicou que Fonte: Fausto de Oliveira Gomes
buscassem fotos da paisagem dessas
regiões e escolhessem aquela que mais
se parecia com o que eles haviam imagi-
nado e que, também, estivesse de acordo
com o que eles leram sobre os lobos e os
ursos. O diorama construído ilustra a es-
colha por não representar nenhum tipo
de vegetação, a não ser resquícios de ve-
getação seca espalhada sobre a neve.
No D2, vemos dois antílopes (Cudos,
Tragelaphus strepsiceros) sobre o chão
nevado na saída de uma caverna. Dentro

76
Para representar o exterior do diora-
ma, houve a intenção de dar a impressão
de que a cena se passa dentro de uma
montanha ou em um terreno conside-
ravelmente acidentado – como seria em
uma serra. Podemos notar, na figura 4,
que durante a elaboração houve a pre-
ocupação de decorar o exterior do mo-
delo com algodão para representar a
neve e criar ângulos agudos no papelão
para representar o terreno acidentado.
Na justificativa dada pelos alunos, essa
decoração tinha o objetivo de “mostrar
também o que acontecia fora e, princi-
palmente, por cima da caverna onde os
antílopes estão”, reforçando as escolhas
da dupla e explicitando a utilização de Figura 5 - Foto do diorama D3 mostrando um barco de
pesca que possui um golfinho preso em sua rede. Em
conhecimentos acerca do ambiente que destaque (setas azuis) orifícios foram adicionados às
estava sendo representado no D2. laterais do diorama para possibilitar ângulos alternativos de
observação.
Na Figura 5, o D3 apresenta um barco Fonte: Fausto de Oliveira Gomes
de pesca, sendo que, na parte superior
do diorama, existe um golfinho captura- de proporcionar ângulos alternativos de
do na rede de pesca. Já, na parte inferior, observação.
um polvo parece observar tudo à distân- Durante a construção do D3, uma dis-
cia. Esse diorama apresenta uma inova- cussão chamou a atenção do professor,
ção em relação aos demais. Os alunos porque explicitou as reflexões dos alu-
responsáveis pela sua confecção abri- nos sobre a forma de construí-lo, já que
ram orifícios nas laterais, com o objetivo foi possível perceber uma boa apropria-

77
ção dos alunos a respeito dos elementos
e da dinâmica de exposição – que são
característicos dos dioramas. Na Figu-
ra 6, é possível perceber que uma aluna
sustenta outro golfinho, não presente no
diorama final, a meia altura, mas fora da
rede.
Nos registros das conversas, é possível
perceber a intenção de mostrar que um
outro golfinho, um parceiro talvez, fica-
ria sozinho graças à captura não inten-
cional do golfinho que estava preso na
rede. A dificuldade de manter o golfinho
suspenso para dar a impressão de que
estava nadando acabou levando o trio a
escolher não incluí-lo na apresentação
final do diorama. Figura 6 - Foto do processo de produção do diorama D3
Fonte: Fausto de Oliveira Gomes

Etapa 3 – Apresentação
Verificou-se, na apresentação oral grande preocupação e envolvimento na
dos dioramas e no registro escrito que criação de uma narrativa que fosse inte-
foi entregue com as justificativas e as ressante. Podemos apontar a tensão en-
explicações das cenas, a apropriação tre os ursos e os lobos, em D1, o medo
dos conteúdos pelos alunos. Durante as dos cudos, em D2, e a ação humana so-
apresentações, ficou evidente a preocu- bre a fauna marinha, em D3.
pação deles em elaborar uma narrativa Na apresentação, os alunos também
que contemplasse os conteúdos relacio- explicitaram as estratégias utilizadas
nados à atividade, mas também notou-se para a construção do diorama e a preo-

78
cupação com o observador do diorama. co. Em D2, há a preocupação com a de-
Em D1, vemos que as laterais do diora- coração do exterior da caverna e, em D3,
ma formam ângulos abertos em relação os alunos abriram buracos para que as
ao fundo – isso foi pensado para favore- pessoas pudessem observar o diorama
cer a observação do diorama pelo públi- por ângulos alternativos.

Etapa 4 – Avaliação
A partir dos objetivos didáticos tra- apresentações orais e na análise dos tex-
çados no planejamento da atividade tos produzidos pelos grupos. Os resulta-
(aquisição de conteúdos relacionados dos dessa avaliação também foram co-
aos diversos ecossistemas e biomas da municados aos alunos nessa devolutiva.
Terra, conhecer as características de um Ao final do processo, pode-se verificar
diorama e construir, em duplas ou trios, que os objetivos foram alcançados e que
dioramas que representassem ambien- o engajamento dos alunos na produção e
tes naturais), percebeu-se que, durante na apresentação dos dioramas garantiu
todo o percurso de pesquisa, síntese e a qualidade de todo o processo. Ainda
construção dos dioramas, os alunos in- houve uma revelação, que não havia sido
corporaram conceitos da ecologia e da planejada como um dos objetivos da ati-
construção de dioramas para uma expo- vidade, pois muitos alunos verbalizaram
sição. Também foi tocante o engajamen- a vontade de ir ao museu para conhecer
to dos grupos na construção da narrativa um diorama “de verdade”.
que deveria estar presente no diorama.
Todos esses elementos foram regis- CONSIDERAÇÕES FINAIS
trados pelo professor e uma devolutiva Tanto em D1 (Figuras 1 e 2) como em
foi preparada para os alunos. A avalia- D2 (Figuras 3 e 4) relações ecológicas de
ção mais criteriosa sobre a presença dos ambientes naturais estão explicitadas
conceitos de ecologia e dos elementos pela presença de modelos animais que
de um diorama foi realizada durante as permitem ao observador inferir o que

79
está acontecendo. Outros grupos, aqui Mesmo atingindo a maioria dos obje-
representados por D3 (Figura 5), opta- tivos de aprendizagem planejados pelo
ram por incluir em seu diorama o que professor, é possível pensar em formas
foi chamado, pelo professor, durante a alternativas de elaboração dessa ativida-
aplicação do projeto na escola, de “fator de. Talvez seja mais prudente restringir
humano”. A escolha por incluir o fator as escolhas dos ambientes para que haja
humano no diorama implicava em consi- mais diálogo entre os grupos ou, se for
derar na narrativa relações conflituosas, optado pela escolha livre dos ambientes
ou não, dos comportamentos humanos representados, que uma das restrições
no ambiente natural. da atividade seja elaborar essa aproxi-
Aqueles que optaram por representar mação entre os grupos, facilitando ou
ecossistemas costeiros se preocuparam promovendo as trocas entre grupos e
em apresentar questões ambientais re- não somente dentro do seu próprio gru-
lacionadas à pesca. As escolhas foram po de trabalho.
motivadas pela relação afetiva dos alu- A partir do que foi analisado, é possí-
nos com os ambientes sugeridos e pelo vel que variações dessa atividade sejam
tipo de materiais disponibilizados – em utilizadas para explorar ecossistemas
especial a oferta de miniaturas de ani- brasileiros ou impactos ambientais em
mais em plástico. diferentes ambientes ou contextos so-
A presença das ações humanas nesses cioeconômicos. Com materiais de baixo
dioramas estava sempre relacionada às custo e, na maioria das vezes, reutilizá-
ações negativas de desmatamento, caça veis, essa atividade se torna uma opção
predatória e pesca ilegal. Quando esse bastante interessante para ser aplica-
fator foi discutido com a sala, ficou ex- da em diversos contextos, independen-
plícito na fala de alguns alunos que essa temente dos recursos da escola ou dos
ideia apareceu rapidamente, porque eles alunos.
ouvem mais falar das relações prejudi-
ciais ao ambiente do que de ações huma-
nas mais conservacionistas.

80
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81
Capítulo 7: Propostas de atividades
educativas com dioramas
Felipe Dias e Martha Marandino

83
Os dioramas são objetos que podem conceitos científicos possíveis de serem
ser explorados de diversas formas a representados por meio desses objetos.
partir de diferentes perspectivas pe- Assim, neste capítulo, apresentamos três
dagógicas. Propostas de construção de possibilidades de explorar os dioramas
modelos de dioramas vêm sendo usadas nos espaços expositivos ou por meio de
como estratégia didática para o ensino e modelos em atividade educativas, a par-
a divulgação de conceitos em ambientes tir de diferentes enfoques pedagógicos e
formais e não formais de educação (Ma- temáticos. A intenção é que essas experi-
randino, Oliveira, Monaco, 2010; Scarpa, ências possam inspirar novas propostas
Silva, 2013), com a finalidade de disse- educativas com foco nos dioramas.
minar sua história e trabalhar com os

Diorama e educação em museus


DESENVOLVIMENTO DA OFICINA Para o desenvolvimento desta ativida-
Aspectos relacionados à história e à de, é aconselhável dispor de três encon-
educação em museus têm grande po- tros consecutivos, podendo ser dividi-
tencial de serem explorados, tanto por dos em dias ou turnos (Figura 1). O ideal
meio de visitas às exposições que pos- é que cada encontro tenha duração mí-
suem esses objetos, quanto pela cons- nima de 3 horas, com os seguintes mo-
trução de modelos de dioramas. Tendo mentos: 1) identificação das concepções
por público-alvo educadores de museus dos participantes sobre a educação em
e professores em formação, esta oficina museus (por exemplo: solicitar a produ-
busca introduzir conteúdos sobre a cria- ção individual de um desenho represen-
ção dos museus e suas mudanças atra- tando o papel educativo dos museus) e
vés dos séculos e, em especial, destacar a apresentação de um breve histórico dos
relevância do surgimento dos dioramas, museus; 2) apresentação de conceito e
ao longo do século XIX, como um obje- história dos dioramas, destacando sua
to com finalidade de promover ensino e função educativa nos museus; 3) divisão
aprendizagem.

85
dos participantes em grupos, para esco- fósseis e artefatos) e de textos de apoio,
lha do tema a ser trabalhado na produ- planejar e montar os modelos de diora-
ção dos modelos de dioramas a partir da mas, conforme os materiais indicados ao
seguinte pergunta: “Como divulgar ou final deste capítulo (Figura 4); e 4) apre-
ensinar uma ideia ou conceito no museu sentação dos produtos finais, bem como
por meio de um diorama?”. Aqui o gru- discussão e reflexão sobre o potencial
po deverá escolher um conteúdo a ser da oficina para o processo de ensino e
apresentado e, com apoio de modelos de aprendizagem voltado aos aspectos re-
objetos (como animais, plantas, rochas, lacionados à educação em museus.
Figura 1 – Cronograma da oficina

Fonte: Felipe Dias e Martha Marandino

86
ASPECTOS A SEREM DESTACADOS científico do seu contexto temporal e,
O contexto sociocultural influencia por isso, espera-se que as tradições cien-
diretamente a interpretação e o en- tíficas de sua época sejam transferidas às
tendimento dos dioramas (Tunnicliffe, montagens. Criar um diorama, indepen-
Scheersoi, 2015). As experiências e os dentemente do contexto ou da intenção
conhecimentos prévios do público são expositiva, deve suscitar preocupações
indissociáveis à leitura desses aparatos de âmbitos científicos e educativos, re-
expositivos, proporcionando uma vivên- forçando a existência de um processo de
cia única para cada indivíduo. Seguindo transformação do conhecimento em sua
esse raciocínio, também é relevante con- produção (Oliveira, 2010).
siderar que o contexto sociocultural dos Ao produzir um modelo de diorama,
produtores de dioramas seja incluído os participantes deverão responder a
nessas montagens. Tais associações nos uma série de questionamentos ineren-
fazem pensar que as escolhas envolvidas tes ao processo de educação e divulga-
na montagem das exposições são fruto ção: “O que comunicar?”, “Para quem co-
do paradigma científico de uma deter- municar?”, “Como comunicar?” e “Quais
minada época, influenciando na apren- objetos e recursos utilizar?”. São ques-
dizagem de conteúdos pelos visitantes tionamentos importantes que devem ser
durante a visitação. feitos e rememorados quando pensamos
No caso das oficinas de produção de no potencial comunicativo que estes ob-
modelos de dioramas, os participantes jetos de exposição carregam consigo.
também estão sujeitos ao paradigma

Diorama e biodiversidade
DESENVOLVIMENTO DA OFICINA ser humano surge em algum momento
Qual a primeira coisa que nos vem à quando pensamos sobre esse conceito?
mente quando pensamos em “biodiver- Quais são os desafios e as potencialida-
sidade”? A relação da natureza com o des em transpor as abordagens desta

87
temática para um aparato expositivo, identificação das concepções dos parti-
como os dioramas, num contexto forma- cipantes sobre o tema biodiversidade e
tivo? É a partir desses questionamentos breve introdução sobre a importância
que propomos, neste item, apresentar e dos museus no estudo e na conservação
discutir alguns aspectos importantes re- da biodiversidade; 2) apresentação dos
ferentes ao desenvolvimento de oficinas dioramas como objetos expositivos, sua
de produção de dioramas sobre biodi- história e características; 3) divisão dos
versidade. participantes em grupos para produção
Esta atividade já foi realizada em vá- dos modelos de dioramas, a partir dos
rios formatos diferentes e recentemente materiais disponibilizados e com base
foi sistematizada por Stock (2019) em nas seguintes perguntas: “Como a bio-
sua iniciação científica. Voltada para di- diversidade pode ser representada por
ferentes tipos de público, de variadas meio de um diorama?” e “Quais aspectos
faixas etárias, seu objetivo é trabalhar, sobre a biodiversidade podem ser retra-
por meio do diorama, as ideias em torno tados neste cenário?”. A partir dos ele-
do conceito de biodiversidade, seja na mentos fornecidos para a montagem do
sua dimensão relacionada aos níveis ge- modelo do diorama e da discussão sobre
nético, de espécie e de ecossistema, seja as concepções do tema, os participantes
nos aspectos evolutivos, biogeográficos, poderão definir quais enfoques sobre a
de conservação e de relação com ser hu- biodiversidade serão explorados; e 4)
mano. apresentações dos produtos finais, bem
Organizada preferencialmente em como discussão e reflexão sobre o po-
quatro encontros com 3 horas de du- tencial da oficina para o processo de en-
ração cada (Figura 2), a oficina pode sino e aprendizagem da biodiversidade.
ser desenvolvida da seguinte forma: 1)

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Figura 2 – Cronograma da oficina

Fonte: Felipe Dias e Martha Marandino

ASPECTOS A SEREM DESTACADOS tes níveis de variação genética, além de


A definição clássica do termo biodi- associá-lo às questões de conservação e
versidade compreende a variedade de sustentabilidade. Dada a sua complexi-
organismos aos níveis de espécie, gêne- dade conceitual, a definição atual de bio-
ro, família e táxons superiores; além da diversidade é bastante discutida entre
variedade de ecossistemas, consideran- os pesquisadores e de difícil consenso
do os fatores bióticos e abióticos que os (Motokane, 2005).
caracterizam. Com o passar dos anos, o A partir de diferentes estudos e com
conceito de biodiversidade ganhou no- o intuito de melhor definir os âmbitos
vas dimensões, abrangendo os diferen- compreendidos pelo conceito, Marandi-

89
no et al. (2011) propõem sete categorias (MCTI, 2015). Os meios de comunicação
de abordagens de biodiversidade, sendo também vêm abordando tais temáticas,
três delas destinadas aos níveis de orga- dando visibilidade e proporcionando
nização 1) de espécie, 2) genética e 3) uma aproximação dessas questões com
ecossistêmica e, as demais, 4) biogeo- a sociedade. Dado esse contexto, os mu-
gráfica, 5) evolutiva, 6) conservacionista seus funcionam como um importante
e 7) humana, remetendo às variações de espaço para pesquisa, conservação e di-
organismos e ambientes na dimensão vulgação da biodiversidade, anteceden-
temporal, perda e/ou manutenção da do inclusive a própria criação do termo
biodiversidade, bem como a presença do (Oliveira, 2010). Assim, o potencial didá-
ser humano como parte da biodiversida- tico dos dioramas faz-se relevante para
de, considerando os aspectos sociais e que diferentes tipos de público compre-
culturais. endam conceitos científicos relaciona-
Uma pesquisa brasileira1 de percep- dos à biodiversidade e à ecologia, além
ção pública da Ciência, realizada em de aspectos sobre o papel dos museus
2015 pelo MCTI, aponta que boa parte na conservação da biodiversidade. Pos-
dos brasileiros demonstra certo interes- to isso, é pertinente pensar a relevância
se pelo tema meio ambiente, declarando de explorar tais aparatos expositivos na
grande preocupação com os assuntos formação de professores e de outros pú-
de conservação, como o desmatamen- blicos.
to da Amazônia e o aquecimento global

Diorama e contação de histórias


DESENVOLVIMENTO DA OFICINA ma de sua cabeça tem um macaco-prego
Já imaginou observar1uma onça-pin- pendurado numa árvore, será que ela vai
tada forrageando num ambiente de Mata comê-lo? E que tal pensar nas possíveis
Atlântica? O que ela estaria fazendo? Aci- relações entre diferentes espécies de
peixes amazônicos no ambiente aquáti-
1 Disponível em: <https://www.cgee.org.br/
documents/10182/734063/percepcao_web.pdf> co? Mas, afinal, o que essas observações

90
têm a ver com contação de histórias e lhar o potencial comunicativo e educa-
dioramas? tivo dos dioramas em museus, por meio
O ato de “contar histórias” sempre da contação de histórias e dos registros
esteve presente na humanidade, sendo na forma de desenhos sobre os cenários
inclusive uma importante ferramenta na representados.
comunicação entre os indivíduos, utili- A oficina “Contando histórias através
zada para transmissão de sabedoria, co- dos dioramas” (Figura 3) busca explo-
nhecimento e aspectos culturais de um rar a riqueza dos dioramas a partir da
respectivo grupo social (Joubert et al., produção de histórias sobre os elemen-
2019). No âmbito das ciências, a comu- tos presentes no cenário, indo além das
nicação científica tem como um dos seus simples conversas do público em frente
objetivos aproximar as pessoas das rela- aos dioramas. É intenção desta ativida-
ções entre ciência, tecnologia, sociedade de acessar o potencial narrativo desses
e meio ambiente (CTSA), capacitando- aparatos expositivos e promover um am-
-as a tomarem decisões sobre questões biente lúdico de ensino e aprendizagem
sociotécnicas enraizadas em suas vidas, a partir da construção de narrativas.
mesmo que indiretamente. Esta oficina deverá ser realizada no
No contexto dos dioramas em museus, espaço museal, com a presença de um
é inegável afirmar que esses objetos ex- mediador e se dará da seguinte forma:
positivos despertam relações estético- 1) observação dos dioramas nos mu-
-afetivas nos visitantes, provendo um seus, individualmente, identificando
ambiente propício para criação de nar- os objetos/as cenas neles presentes; 2)
rativas próprias através dos objetos dis- discussão entre os participantes sobre o
postos em cena (Tunnicliffe, Scheersoi, que eles observaram, quais foram as ex-
2015; Campos, 2013). Quais impressões periências contemplativas de cada um;
e sensações que os dioramas podem sus- 3) construção de narrativas através da
citar a quem os observa? Com a finalida- contação de histórias oralizadas ou por
de de explorar esses aspectos, propomos meio da elaboração de desenhos; por
um novo modelo de oficina para traba- fim, 4) socialização das narrativas, volta-

91
Figura 3 - Oficina “Contando histórias através dos dioramas”

*podem ser elaborados desenhos ou narrativas oralizadas.


Fonte: Felipe Dias e Martha Marandino

da ao compartilhamento dos arcos nar- narrativa levam o público à tensão, pren-


rativos presentes nas histórias. dendo sua atenção às possíveis revira-
voltas que o roteiro da história pode so-
ASPECTOS A SEREM DESTACADOS frer (Joubert et al., 2019). Essa mudança
Geralmente, as histórias possuem co- da narrativa, segundo Storr (2019, apud
meço, meio e fim – estrutura comumen- Joubert et al., 2019), confere significados
te conhecida como “arco narrativo”. As ao público e pode mudar a forma como
diversas idas e vindas durante uma boa as pessoas veem o mundo ao seu redor.

92
Em outras palavras, tais (re)construções museu”, “isso é mais do que ficar na fren-
de signos despertam o interesse das pes- te de um diorama falando sobre o obje-
soas em querer conhecer sobre um tema to”, complementa.
específico, além de ajudá-las a tomar de- Posto isso, a oficina “Contando histó-
cisões em suas próprias vidas. rias através dos dioramas” busca apro-
A pesquisa de Joubert et al. (2019) in- ximar o público à uma nova forma de
dica que contar histórias pode ser uma interação com os objetos expostos nos
ferramenta importante para envolver dioramas, promovendo um espaço para
aspectos relacionados à ciência (Dahls- as pessoas criarem conexões entre a ci-
trom, 2014), bem como ajudar os cida- ência e a sociedade, bem como para po-
dãos a entender, processar e recuperar tencializar a criatividade e estimular o
informações científicas (Elshafie, 2018). interesse científico em cada um dos par-
Olson (2009, apud Joubert et al., 2019) ticipantes.
aponta que pensar nas histórias como
mecanismos emotivos pode ser um ca- MATERIAIS PARA MONTAGEM DE
minho interessante para criar conexões MODELOS DE DIORAMAS
emocionais entre a ciência e os diferen- Para montagem de modelos de dio-
tes tipos de público – inclusive os que vi- ramas, devem ser usados materiais de
sitam os museus. papelaria em geral, modelos de animais,
Segundo Dunmal (2015), a interlocu- plantas e quaisquer outros organismos
ção entre o expositor, o público e os dio- em plástico, massa de modelar ou outro
ramas, com os seus objetos e cenários, material, além de adereços que possam
propicia a criação de um novo espaço auxiliar na caracterização do ambiente
interpretativo e de compreensão. O mes- ou na situação que se quer representar.
mo autor diz que “as narrativas dentro Listamos aqui alguns desses materiais
do diorama, juntamente com as narrati- para exemplificar, mas sugerimos usar a
vas trazidas pelo público e por qualquer criatividade e experimentar novos ma-
estrutura fornecida pelos expositores, teriais para tornar as montagens ricas
criam um novo tipo de experiência no e realísticas. Uma estratégia importante

93
que tem sido adotada por nós para mon- altura, largura e profundidade adequa-
tar modelos de diorama é a utilização de das para o cenário, além de possibilitar a
uma caixa de papelão, preferencialmen- perspectiva dos materiais expostos.
te de tamanho médio, por ela garantir

Figura 4 – Sugestão de materiais para montagem de modelos de dioramas

Fonte: Felipe Dias e Martha Marandino

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