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O Desenvolvimento Histórico Regulamentação Relativa Ao Segredo Profissional Até

Ao Actual Estatuto Da Ordem Dos Advogados

Em Portugal, já a Reforma Judiciária de 1837 consagrava legalmente o respeito


pelo segredo profissional, estabelecendo no respectivo artigo n.º 114º que “os
advogados, confessores e médicos, depondo, não podem ser obrigados a revelar
segredos, em razão das suas profissões” 1 .

Na “Novíssima Reforma Judiciária”, aprovada por Decreto de 21 de Maio de


1841, consignou-se um princípio similar:

“Artigo 966º: Os advogados, confessores, medicos, cirurgiões, e


parteiras não são obrigados, depondo, a revelar os segredos, que
houverem obtido em razão da sua profissão.”

Posteriormente, o Código Penal de 1852 incriminou a revelação do segredo


profissional dos advogados nos seguintes termos:

“Artigo 289º: Será punido com suspensão temporária e multa


correspondente de três meses até dois anos:
1.º- O advogado ou procurador judicial que descobrir os segredos
do seu cliente, tendo tido deles conhecimento no exercício do seu
ministério;
2.º- O que, tendo recebido de alguma das partes dinheiro ou
outra qualquer coisa, por advogar ou procurar seu feito e
demanda, ou tendo aceitado a procuração e sabido os segredos
da causa, advogar, procurar ou aconselhar, em público ou
secreto, pela outra parte, na mesma causa;
...”

“Artigo 290º: Será condenado a prisão até seis meses e multa


correspondente o funcionário:
1.º- Que revelar segredo de que só tiver conhecimento ou for
depositário, em razão do exercício do seu emprego;
2.º- Que indevidamente entregar papel ou cópia de papel, que
não devia ter publicidade e lhe esteja confiado ou exista na
1
Ver Leonor Valente Monteiro, O Segredo Profissional na Luta contra a Criminalidade, Prémio Dr.
João Lopes Cardoso, Conselho Distrital do Porto da Ordem dos Advogados, pág. 259. As
Ordenações Filipinas continham “uma disposição respeitante a advogados e procuradores judiciais,
no seu Livro I, Título XLVIII, δ 13, segundo o qual eram punidos, com a deportação para o Brasil ou
com proibição definitiva do ‘ofício´, aqueles que depois de terem conhecimento dos segredos da
causa, advogassem ou procurassem pela parte contrária, ou aconselhassem público o secreto.” Id.
respectiva repartição, ou dele der conhecimento sem a devida
autorização.
δ 1.º- Esta disposição é aplicável a todos aqueles que, exercendo
qualquer profissão, que requeira título, e sendo em razão dela
depositários de segredos que lhes confiarem, revelarem os que
ao seu conhecimento vierem no exercício do seu ministério.
δ 2.º- As disposições precedentes entendem-se sem prejuízo da
pena de injúria ou difamação, se houver lugar.” 2

Também o Código Civil de Seabra, aprovado por Carta de Lei de 1 de Julho de


1867, continha disposições relativas à proibição de procurar ou advogar em juízo
pela parte contrária ao cliente do advogado e de revelar à parte contrária os
segredos do seu constituinte. Assinalava, igualmente, que não eram hábeis para
serem testemunhas os que, por sua profissão, são obrigados a segredo:

“Artigo 1.360º: O procurador ou o advogado, que houver


acceitado o mandato de uma das partes, não pode procurar ou
advogar pela outra na mesma causa, ainda que deixe a anterior
procuração.
δ unico: O procurador ou advogado, que assim o não cumprir,
será suspenso de procurar ou de advogar por espaço de um
ano”.

“Artigo 1.361º: O procurador ou o advogado, que revelar à parte


contraria os segredos do seu constituinte, ou lhe subministrar
documentos, ou quaesquer esclarecimentos, será inhibido para
sempre de procurar ou de advogar em juizo”.

“Artigo 2.509º: Podem ser testemunhas todas as pessoas de um


ou outro sexo, que não forem inhabeis por incapacidade natural
ou por disposição da lei”.

“Artigo 2.511º: São inhabeis, por disposição da lei, para serem


testemunhas:
....
5.º Os que, por seu estado ou profissão, são obrigados a segredo
nos negocios relativos ao mesmo estado ou profissão;
...” 3 .

2
Texto segundo o Código Penal Português, actualizado segundo a Reforma de 1954 (Decreto Lei
n.º 39.688, de 5 de Junho de 1954). Eduardo Henriques da Silva Correia e António Furtado dos
Santos.
3
Texto segundo a Sétima Edição Oficial, 1907.

2
Em concordância com o Código de Seabra, o Código de Processo Civil de 1876,
aprovado por Carta de Lei de 8 de Novembro de 1876, dispunha que o juiz não
devia admitir a depor como testemunhas às pessoas que fossem inábeis de acordo
da lei civil 4 .

O Código de Processo Penal de 1929, aprovado por Decreto nº 16.489, de 15 de


Fevereiro de 1929, também continha uma disposição segundo a qual os
advogados não eram obrigados a depor nem a prestar declarações sobre factos de
que tivessem tido conhecimento em função da sua profissão:

“Artigo 217º: Não são obrigados a depor nem a prestar


declarações:
1.º Os ministros de qualquer culto, legalmente permitido, os
advogados, procuradores, notários, médicos ou parteiras
sôbre os factos que lhe tenham sido confiados ou de que
tenham conhecimento, no exercício das suas funções ou
profissão;
......” 5

Na sequência da criação da Ordem dos Advogados 6 foi publicado o seu


Regulamento, aprovado por Decreto nº 12.334 7 . No seu artigo 50.º, n-º1
estabelecia-se que os advogados “deviam guardar o mais absoluto segredo, não
lhes sendo permitido testemunhar contra aquele que lhe confiou a defesa da
liberdade, honra e fazenda” 8 .

Dois anos depois foi publicado o Decreto-Lei nº 15.344, de 12 de Abril de 1928


(Estatuto Judiciário), a que foi anexado um novo Regulamento da Ordem dos
Advogados 9 . O artigo n.º 754º do Estatuto Judiciário de 1928 fazia menção
expressa aos factos que estavam sujeitos ao segredo profissional, a saber:
“- O que, por virtude da profissão, tenham sido revelados pelo representado ou por
sua ordem ou comissão, ou conhecidos no exercício do seu ministério;

4
Artigo 271 do Código de Processo Civil de 1876. Edição Oficial, 1877.
5
Segundo o texto de José Osório e Fernando de Miranda (1946).
6
Criada pelo Decreto nº 11.715 ,de 12 de Junho de 1926.
7
Publicado em 18 de Setembro de 1926.
8
Leonor Valente Monteiro supra n.º 1, pág. 262.
9
Id.

3
- O que, por virtude de cargo desempenhado na Ordem, qualquer colega,
obrigado, quanto aos mesmos factos, ao segredo profissional, lhe tenha
comunicado;
- O comunicado sob reserva, por co-autor, co-réu ou co-interessado do cliente, ou
pelo respectivo advogado ou procurador;
- O que os adversários do cliente ou respectivos representantes lhe tenham dado
conhecimento durante negociações para acordo amigável e que sejam relativos
aos assuntos da dúvida ou pendência” 10 .

O artigo n.º 754º igualmente preceituava duas excepções à inviolabilidade do


segredo, com conteúdo similar às estabelecidas no Estatuto da Ordem dos
Advogados aprovado por Decreto n.º 84/84, de 16 de Março, a que se fará
referência mais adiante, e o artigo 755º, n.º 4 do Estatuto Judiciário de 1928
consignava também que no caso do advogado violar o segredo profissional em
juízo, as suas declarações não podiam fazer prova 11 .

Posteriormente o Código de Processo Civil de 1939, aprovado por Decreto Lei nº


29.637, de 28 de Maio de 1939, no seu artigo n.º 524º, preceituava que constituía
legítima recusa ao cumprimento do dever de prestar cooperação para a descoberta
da verdade e a boa administração de justiça se a sua obediência importasse
violação do segredo profissional. Além disso, o Código de Processo Civil de 1939
acolheu idêntica posição que o Código de Processo Civil de 1876 no referente a
que não podiam depor como testemunhas as pessoas que, por sua profissão,
estavam obrigadas ao sigilo profissional.

“Artigo 524º: Todas as pessoas, sejam ou não partes na


causa, têm o dever de prestar a sua cooperação para a
descoberta da verdade e a boa administração da justiça,
respondendo ao que lhes for perguntado, submetendo-se às
inspecções que forem julgadas necessárias, facultando o que
for requisitado e praticando os actos que forem determinados.
Se se recusarem, serão condenadas em multa, sendo
terceiros, sem prejuízo do emprego dos meios coercitivos que

10
Id.
11
Id.

4
forem possíveis; se o recusante for parte, considerar-se-ão
provados os factos que se pretendiam averiguar.
Mas a recusa será legítima se a obediência importar violação
do sigilo profissional, ou causar grave dano à honra e
consideração da própria pessoa, de um ascendente,
descendente, irmão ou cônjuge, ou grave prejuízo de
natureza patrimonial a qualquer das referidas pessoas.
δ único. Fica salvo o disposto quanto à exibição judicial, por
inteiro, dos livros de escrituração comercial e dos documentos
a ela relativos.” (sublinhado nosso)

“Artigo 622º: Podem depor como testemunhas todas as


pessoas de um ou outro sexo que não forem inábeis por
incapacidade natural ou por disposição da lei.”.

“Artigo 624º: São inábeis por disposição da lei:


...
5.º Os que, por seu estado ou profissão, são obrigados ao
sigilo profissional.” 12

O Estatuto Judiciário de 1962, aprovado por Decreto-Lei nº 44278, de 14 de Abril


de 1962 e as suas modificações posteriores, formulou, em termos bastante
similares aos do Estatuto Judiciário de 1928, a matéria relativa ao segredo
profissional do advogado e consignou nos seus artigos n.ºs 582 e 583 disposições
relativas a apreensões proibidas, imposição de selos, arrolamento e buscas em
escritórios de advogados.

“Artigo 580º: (Deveres para com os constituintes ou consulentes)


Nas relações com o constituinte ou consulente é dever do advogado:
.....
e) Não testemunhar contra quem lhe tenha confiado a defesa da
liberdade, honra ou fazenda.
.....
g) Guardar segredo profissional.”

“Artigo 581º: (Segredo profissional: âmbito, limites e violação)


1. O segredo profissional do advogado respeita:
a) A factos referentes a assuntos de que, por virtude da
profissão, se ocupe e que tenham sido revelados pelo
representado ou por sua ordem ou comissão, ou conhecido no
exercício ou por ocasião do exercício do seu ministério;

12
Texto segundo Alberto dos Reis, Código de Processo Civil, Anotado (1981).

5
b) A factos que, por virtude de cargo desempenhado na
Ordem, qualquer colega, obrigado, quanto aos mesmos
factos, ao segredo profissional, lhe tenha comunicado;
c) A factos comunicados, sob reserva, por co-autor, co-réu ou
co-interessado do cliente ou pelo respectivo advogado ou
procurador;
d) A factos de que os adversários do cliente ou respectivos
representantes lhe tenham dado conhecimento durante
negociações para acordo amigável e que sejam relativos à
pendência.

2.A obrigação do segredo profissional dá-se, nos termos deste


artigo, com respeito aos factos nele compreendidos, quer o
serviço solicitado ou cometido ao advogado envolva ou não
representação judicial ou extrajudicial, quer deva ou não ser
remunerado, quer o advogado haja ou não chegado a aceitar
e a desempenhar a representação ou serviço.

3. Cessa a obrigação do segredo profissional em tudo quanto


seja absolutamente necessário para defesa da dignidade,
direitos e interesses legítimos do próprio advogado ou do
cliente ou seus representantes. Nem mesmo neste caso pode,
porém, o advogado revelar o que seja objecto de segredo
profissional sem prévia consulta ao presidente do conselho
distrital respectivo; da decisão deste pode o advogado
recorrer para o presidente da Ordem.

4. Não podem fazer prova em juízo as declarações feitas pelo


advogado com violação do segredo profissional.

5. Não deve o advogado, contra o interesse e vontade do seu


representado ou de sucessores dos seus direitos, fazer
entregar à justiça ou a quaisquer autoridades públicas papéis
ou outras coisas cujo recebimento ou detenção constitua, por
si ou quanto às respectivas circunstâncias e fins, objecto do
segredo profissional.”

“Artigo 582º: (Apreensões proibidas nos escritórios de advogados)


1. Não pode ser apreendida no escritório ou outro arquivo do
advogado a correspondência que respeita ao exercício da usa
profissão e tenha sido trocada entre ele, ou alguém por ordem
dele, e o cliente ou alguém que, por qualquer motivo, o
substitua. Exceptua-se o caso de respeitar a correspondência
a facto criminoso, no qual se presuma haver responsabilidade
do advogado.

6
2. A proibição estende-se à correspondência entre o
advogado e aquele que lhe tenha cometido ou querido
cometer mandato ou que lhe haja solicitado parecer, embora
ainda não dado ou já recusado.
Compreendem-se na correspondência as instruções e
informações escritas sobre o assunto da nomeação ou
mandato, aceite ou não, ou do parecer pedido.”

“Artigo 583º: (Imposição de selos, arrolamento e buscas em


escritórios de advogados)
1. A imposição de selos, arrolamento, busca e diligências
similares no escritório ou outro arquivo do advogado devem
ser presididos pelo juiz ou outra autoridade que os tenha
ordenado ou por quem imediatamente os substitua.

2. A entidade que ordenar a diligência convidará o presidente


do conselho distrital, nas comarcas que sejam sede de distrito
forense, e o presidente ou representante da delegação, nas
outras, para ela assistir ou designar advogado que o
represente. Em casos extremamente urgentes o convite será
feito a qualquer advogado que possa comparecer
imediatamente e de preferência a um que faça parte dos
corpos dirigentes da Ordem ou seja indicado pelo dono do
escritório ou arquivo.

3. Até ao momento indicado para a comparência do advogado


convidado nos termos do número antecedente podem ser
tomadas as providências indispensáveis para se não
inutilizarem ou descaminharem papéis ou outros objectos.

4. Invocada pelo advogado a protecção do segredo


profissional para certos papéis ou objectos do seu arquivo, a
autoridade que preside à diligência, ainda que não aceite a
providencia da invocação, deve sobrestar na apreensão,
desde que o interessado declare que pretende reclamar da
diligencia. A reclamação será dirigida dentro de dois dias ao
presidente da respectiva Relação, podendo a autoridade
reclamada responder nos dois dias subsequentes.
No caso de reclamação, a autoridade que presidir à diligência
procederá, sem os ler nem examinar, ao acondicionamento
dos papéis ou objectos, que imediatamente fechará, selará e
enviará com a reclamação à presidência da Relação.

5. Do auto da diligência constarão a comparência do


advogado a que se refere o n.º. 3 e as reclamações
apresentadas por ele, pelo interessado ou procurador e do
representante da Ordem, nos termos da primeira parte do n.º .

7
Podem ser admitidas a fazer reclamações as pessoas de
família do dono do escritório ou arquivo ou os seus
empregados.” 13

O Código de Processo Civil de 1961, aprovado pelo Decreto-Lei 44.129 de 28 de


Dezembro de 1961 (e as suas modificações posteriores), seguiu a linha do Código
de Processo Civil de 1939 mas incorporou disposições relativas à verificação da
legitimidade da escusa e da dispensa do dever de sigilo invocado:

“Artigo 519º: (Dever de cooperação e descoberta da


verdade)
1. Todas as pessoas, sejam ou não partes na causa, têm o
dever de prestar a sua colaboração para a descoberta da
verdade, respondendo ao que lhes for perguntado,
submetendo-se às inspecções necessárias, facultando o que
for requisitado e praticando os actos que forem determinados.

2. Aqueles que se recusem a colaboração devida, serão


condenados em multa, sem prejuízo dos meios coercitivos
que forem possíveis; se o recusante for parte, o tribunal
apreciará livremente o valor da recusa para efeitos
probatórios, sem prejuízo da inversão do ónus da prova
decorrente do preceituado no nº 2 do artigo 344ª do Código
Civil.

3. A recusa é, porém legítima se a obediência importar:


...
c) Violação do sigilo profissional ou de funcionários públicos,
ou do segredo de Estado, sem prejuízo do disposto no n.º4
(sublinhado nosso)

4. Deduzida escusa com fundamento na alínea c) do número


anterior, é aplicável, com as adaptações impostas pela
natureza dos interesses em causa, o disposto no processo
penal acerca da verificação da legitimidade da escusa e da
dispensa do dever de sigilo invocado.” (sublinhado nosso).

“Artigo 618º: (Recusa legítima a depor)


....
3. Devem escusar-se a depor os que estejam adscritos ao
segredo profissional, ao segredo de funcionários públicos e ao
segredo de Estado, relativamente aos factos abrangidos pelo

13
Texto segundo António Ferreira Pedrosa e António Rodrigues Lufinha (1967).

8
sigilo, aplicando-se neste caso o disposto no nº 4 do artigo
519º.” 14

O Código Penal de 1982, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 400/82, de 29 de


Setembro, também incriminou a violação do segredo profissional, nos seguintes
termos:

“Artigo 184º :Quem, sem justa causa e sem o consentimento


de quem de direito, revelar ou se aproveitar de um segredo de
que tenha tomado conhecimento em razão do seu estado,
ofício, emprego, profissão ou arte, se essa revelação ou
aproveitamento puder causar prejuízo ao Estado ou a
terceiros, será punido com pena de prisão até 1 ano e multa
até 120 dias.”

“Artigo 185º: O facto previsto no artigo anterior não será


punível se for revelado no cumprimento de um dever
sensivelmente superior ou visar um interesse público ou
privado legítimo, quando considerados os interesses em
conflito e os deveres de informação que, segundo as
circunstâncias, se impõem ao agente, se puder considerar
meio adequado para alcançar aquele fim.”

Mas a revisão ao Código Penal operada pelo Decreto-Lei nº 48/95, de 15 de


Março, veio introduzir alterações em matéria de segredo profissional em geral.

Em relação ao tipo incriminador, o antigo artigo 184º foi desdobrado em dois novos
artigos: os actuais artigos n.º 195º (que incrima a violação do segredo) e n.º 196º
(que incrimina o aproveitamento indevido do segredo).

“Artigo 195º:Quem, sem consentimento, revelar segredo


alheio de que tenha tomado conhecimento em razão do seu
estado, ofício, emprego, profissão ou arte é punido com pena
de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 240 dias”

“Artigo 196º: Quem, sem consentimento, se aproveitar de


segredo relativo à actividade comercial, industrial, profissional
ou artística alheia, de que tenha tomado conhecimento em
razão do seu estado, ofício, emprego, profissão ou arte, e
provocar deste modo prejuízo a outra pessoa ou ao Estado, é

14
Texto segundo Fernando Luso Soares e outros, 16ª Edição (2004).

9
punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa
até 240 dias”.

Além disso, esta revisão do Código Penal eliminou o antigo artigo n.º 185º. Deixou
de existir, na nova versão do Código, a cláusula especial de exclusão da ilicitude
relativa ao segredo profissional.

O Código de Processo Penal de 1987, aprovado pelo Decreto Lei n.º 78/87, de
17 de Fevereiro, e as suas modificações posteriores, consignou, diferentemente do
Código de Processo Penal de 1929, disposições relativas aos passos a seguir
quando há duvidas respeito à legitimidade da escusa para depor.

“Artigo 135º: Segredo Profissional


1- O ministros de religião ou confissão religiosa, os
advogados, os médicos, os jornalistas, os membros de
instituições de crédito e as demais pessoas a quem a lei
permitir ou impuser que guardem segredo profissional podem
escusar-se a depor sobres os factos abrangidos por aquele
segredo.
2- Havendo dúvidas fundadas sobre a legitimidade da escusa,
a autoridade judiciária perante a qual o incidente se tiver
suscitado procede às averiguações necessárias. Se, após
estas, concluir pela ilegitimidade da escusa, ordena, ou requer
ao tribunal que ordene, a prestação do depoimento.
3- O tribunal superior àquele onde o incidente se tiver
suscitado ou, no caso de o incidente se ter suscitado perante
o Supremo Tribunal de Justiça, o plenário das secções
criminais, pode decidir da prestação de testemunho com
quebra do segredo profissional sempre que esta se mostre
justificada face às normas e princípios aplicáveis da lei penal,
nomeadamente face ao princípio da prevalência do interesse
preponderante. A intervenção é suscitada pelo juiz,
oficiosamente ou a requerimento.
4- O disposto no número anterior não se aplica ao segredo
religioso.
5- Nos casos previstos nos n.ºs 2 e 3, a decisão da autoridade
judiciária ou do tribunal é tomada ouvido o organismo
representativo da profissão relacionada com o segredo
profissional em causa, nos termos e com os efeitos previstos
na legislação que a esse organismo seja aplicável.”

10
Finalmente, mediante o Decreto Lei n.º 84/84, de 16 de Março aprovou-se outro
Estatuto da Ordem dos Advogados, o qual, desde Janeiro de 2005, foi substituído
pelo actual Estatuto aprovado por Lei n.º 15/2005, de 26 de Janeiro.

O Estatuto da Ordem de 1984 (e as suas modificações posteriores) estabelecia o


seguinte em relação ao segredo profissional dos advogados:

“Artigo 81º: (Do segredo profissional)


1- O advogado é obrigado a segredo profissional no que respeita:
a) A factos referentes a assuntos profissionais que lhe tenham
sido revelados pelo cliente ou por sua ordem, ou conhecidos
no exercício da profissão;
b) A factos que, por virtude de cargo desempenhado na
Ordem dos Advogados, qualquer colega, obrigado, quanto
aos mesmos factos, ao segredo profissional, lhe tenha
comunicado;
c) A factos comunicados por co-autor, co-réu ou co-
interessado do cliente ou pelo respectivo representante;
d) A factos de que a parte contrária do cliente ou respectivos
representantes lhe tenham dado conhecimento durante
negociações para acordo amigável e que sejam relativos à
pendência.

2- A obrigação do segredo profissional existe quer o serviço


solicitado ou cometido ao advogado envolva ou não
representação judicial ou extrajudicial, quer deva ou não ser
remunerado, quer o advogado haja ou não chegado a aceitar
e a desempenhar a representação ou serviço, o mesmo
acontecendo para todos os advogados que, directa o
indirectamente, tenham qualquer intervenção no serviço.

3- O segredo profissional abrange ainda documentos ou


outras coisas que se relacionem, directa ou indirectamente,
com os factos sujeitos a sigilo.

4- Cessa a obrigação de segredo profissional em tudo quanto


seja absolutamente necessário para a defesa da dignidade,
direitos e interesses legítimos do próprio advogado ou do
cliente ou seus representantes, mediante prévia autorização
do presidente do conselho distrital respectivo, com recurso
para o presidente da Ordem dos Advogados.

5- Não podem fazer prova em juízo as declarações feitas pelo


advogado com violação do segredo profissional.

11
6- Sem prejuízo do disposto no nº 4, o advogado pode manter
o segredo profissional.”

“Artigo 83º: (Deveres do advogado para com o cliente)


1- Nas relações com o cliente constituem deveres do advogado:
....
e) Guardar o segredo profissional”.

“Artigo 86: (Dos deveres recíprocos dos advogados)


1- Constituem deveres dos advogados nas suas relações recíprocas:
...
e) Não invocar publicamente, em especial perante tribunais,
quaisquer negociações transaccionais malogradas, quer verbais, quer
escritas, em que tenha intervindo o advogado”.

Adicionalmente às normas antes mencionadas, refira-se a Lei nº 11/2004, de 27 de


Março (rectificada mediante Declaração n.º 45/2004) que transpõe a Directiva n.º
2001/97/CE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 4 de Dezembro, que altera
a Directiva n.º 91/308/CEE, do Conselho, de 10 de Junho, relativa à prevenção da
utilização do sistema financeiro para efeitos de branqueamento de capitais. A dita
lei estabelece a obrigação de identificação de clientes, conservação de registos e
notificação de transacções suspeitas a uma série de actividades e profissões, entre
elas, advogados e solicitadores, em determinadas circunstâncias 15 .

Lisboa, 14 de Novembro de 2005

María Antonieta Gálvez Krüger

15
Ver artigos n.º 2 e 20(f) da Lei n.º 11/2004. Segundo o artigo 30(2) da Lei, no casos dos
advogados, a comunicação de operações suspeitas deve ser feita ao Bastonário da Ordem dos
Advogados.

12