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O RECRUTAMENTO E A FORMAÇÃO DE MAGISTRADOS:

Análise comparada de sistemas em países da União Europeia

Boaventura de Sousa Santos (coord.)


João Pedroso
Patrícia Branco

OBSERVATÓRIO PERMANENTE DA JUSTIÇA PORTUGUESA


CENTRO DE ESTUDOS SOCIAIS
F AC U L D AD E D E E C O N O M I A
UNIVERSIDADE DE COIMBRA

2006
ÍNDICE GERAL

Índice geral __________________________________________________________ I


Apresentação _______________________________________________________ XI

Capítulo I

A consolidação de um direito (internacional e constitucional) da


selecção e formação de magistrados: Contributo para a formulação
de princípios constitutivos do recrutamento e formação de
magistrados

Introdução ___________________________________________________________ 1
1. As organizações internacionais intergovernamentais e profissionais de
âmbito mundial: a consagração de princípios de direito internacional no
recrutamento e formação de magistrados ______________________________ 5
1.1. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) – DUDH –
e o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos (1966) ___ 5
2. Os princípios fundamentais das Nações Unidas relativos à independência
da Magistratura (1985) e as Linhas Orientadoras sobre a função do
Ministério Público (1990) ___________________________________________ 7
3. O Estatuto Universal dos Juízes, da União Internacional de Magistrados
(1999) _________________________________________________________ 9
4. Os Princípios de Conduta Judicial de Bangalore (2002) __________________ 10
5. As organizações internacionais e profissionais de âmbito europeu _________ 12
5.1. A Convenção Europeia para a Protecção dos Direitos do
Homem e das Liberdades Fundamentais (1950) – CEDH ________ 12
5.2. A recomendação (94) 12 do Comité de Ministros do Conselho
da Europa (C.E.) aos Estados-Membros sobre a independência,
a eficácia e o papel dos juízes _____________________________ 13
5.2.1. O recrutamento de magistrados ______________________ 13
5.2.2. A formação_______________________________________ 14
5.3. A Carta Europeia do Estatuto dos Juízes (1998) _______________ 15
II Índice Geral

5.4. A restante acção do Conselho da Europa: do Lisbon Network ao


Conselho Consultivo de Juízes Europeus (CCJE) _____________ 16
5.5. A acção da União Europeia (U.E.)__________________________ 19
5.5.1. A Rede Europeia para a Formação Judiciária (REFJ) _____ 19
5.5.2. Comunicação da U.E sobre Formação Judiciária na
União Europeia: a caminho de uma estratégia europeia
de formação judiciária ______________________________ 20
5.5.3. O Parlamento Europeu: a criação de um programa-
quadro __________________________________________ 22
5.5.4. A “Europeização” da Formação Jurídica e Judiciária ______ 22
6. O papel das Associações Internacionais de Magistrados no recrutamento e
formação de magistrados _________________________________________ 25
6.1. A União Internacional de Magistrados _______________________ 25
6.2. O MEDEL_____________________________________________ 27
7. Os princípios constitucionais e legais relativos ao recrutamento e formação
de magistrados em Portugal _______________________________________ 29
7.1. Os Tribunais na Constituição da República Portuguesa _________ 29
8. Os princípios constitutivos de recrutamento e formação de magistrados: o
direito internacional em aplicação___________________________________ 32

Capítulo II

O recrutamento de magistrados na União Europeia: a


predominância do modelo de concurso público

Introdução _________________________________________________________ 41
1. Os modelos de recrutamento de magistrados _________________________ 42
1.1. Os modelos empírico-primitivo, técnico-burocrático e
democrático-contemporâneo (Zaffaroni) _____________________ 42
1.2. Os quatro modelos de recrutamento de magistrados de Oberto___ 44
2. O recrutamento de magistrados na Europa: os sistemas de selecção pela
experiência profissional, nomeação após estágio profissional, formação
universitária seguida de estágio e exame de Estado, e concurso público
para formação inicial de magistrados ________________________________ 45
2.1. O modelo de recrutamento de magistrados através de
candidatos com experiência profissional anterior (Inglaterra e
País de Gales, Noruega e Finlândia)________________________ 45
2.1.1. Inglaterra e País de Gales___________________________ 45
2.1.2. Noruega ________________________________________ 47
2.1.3. Finlândia ________________________________________ 48
O Recrutamento e a Formação de Magistrados III

2.1.4. O modelo de recrutamento de magistrados através de


candidatos com experiência profissional anterior -
Quadro síntese ___________________________________ 49
2.2. O modelo de recrutamento de magistrados através de
candidatos que frequentam estágios profissionais______________ 49
2.2.1. Luxemburgo ______________________________________ 49
2.2.2. Dinamarca _______________________________________ 50
2.2.3. Suécia __________________________________________ 51
2.2.4. O modelo de recrutamento de magistrados através de
candidatos que frequentam estágios profissionais -
Quadro-síntese ___________________________________ 51
2.3. O modelo de recrutamento após formação universitária, seguida
de exames de Estado e estágio (Alemanha e Áustria) __________ 52
2.3.1. Alemanha________________________________________ 52
2.3.2. Áustria __________________________________________ 53
2.4. O modelo dominante de recrutamento de magistrados por
concurso público para formação inicial (França, Holanda,
Espanha, Portugal, Grécia, Itália e Bélgica)___________________ 54
2.4.1. França __________________________________________ 54
2.4.2. Holanda _________________________________________ 59
2.4.3. Espanha_________________________________________ 62
2.4.4. Portugal _________________________________________ 65
2.4.5. Grécia __________________________________________ 67
2.4.6. Itália ____________________________________________ 68
2.4.7. Bélgica __________________________________________ 71
2.5. O modelo de recrutamento de magistrados através de concurso
público para formação (França, Holanda, Bélgica, Espanha,
Portugal, Grécia e Itália) Quadro-síntese _____________________ 74
3. Conclusão – Análise comparativa dos quatro modelos vigentes de
recrutamento de magistrados na Europa _____________________________ 77
IV Índice Geral

Capítulo III

A formação inicial de magistrados: os três grandes sistemas


vigentes na experiência comparada europeia

- Os modelos de estágios profissionais, de formação inicial em


escola de magistratura e misto de formação com cursos teórico-
práticos e estágios

Introdução _________________________________________________________ 79
1. O modelo de formação inicial de magistrados através de estágios
profissionais: breve análise de cada país _____________________________ 81
1.1. O modelo de estágios dos países de língua alemã e inglesa _____ 81
1.1.1. Alemanha: universidade, estágios e período probatório ____ 81
1.1.2. Áustria: estágios e exame ___________________________ 82
1.1.3. Inglaterra e País de Gales: o domínio da experiência
como advogado___________________________________ 83
1.2. O modelo de estágios dos países escandinavos_______________ 84
1.2.1. Dinamarca: estágio personalizado e exame _____________ 84
1.2.2. Suécia: oito anos de experiência profissional ____________ 84
1.2.3. Finlândia: experiência em funções judiciais sem exame ___ 85
1.2.4. Noruega: também longa experiência profissional de
advogado _______________________________________ 85
1.3. O modelo dos estágios profissionais na formação inicial de
magistrados: Quadros-Síntese ____________________________ 86
2. O modelo de formação inicial teórico-prática em escola seguido de
estágios (ou modelo de origem francesa)_____________________________ 89
2.1. O modelo de formação inicial teórico-prática em escola comum
às duas magistraturas seguido de estágios: breve análise de
cada país _____________________________________________ 89
2.1.1. França: “o modelo inspirador” de 5 ciclos (estágio inicial,
formação teórico-prática em escola, estágio nos Tribunais
e em outros serviços de justiça, formação em escola e
estágio de pré-afectação) ___________________________ 89
2.1.2. Luxemburgo: estágio preparatório, formação inicial na
ENM e estágio nos Tribunais ________________________ 93
2.1.3. Portugal: três ciclos de formação teórico-prática (teórico-
prática em escola; estágio nos tribunais; formação
teórico-prática em escola) e estágio com assistência do
formador ________________________________________ 93
O Recrutamento e a Formação de Magistrados V

2.1.4. Grécia: dois ciclos de formação (em escola e estágio nos


tribunais) ________________________________________ 96
2.1.5. Itália: formação teórico-prática, estágio nos tribunais e
estágio de pré-afectação ____________________________ 97
2.2. O modelo de formação inicial em duas escolas de formação
(formação teórico-prática e estágios) separadas para juízes e
Ministério Público – O caso de Espanha _____________________ 98
2.3. O modelo de formação inicial teórico-prático em escola:
Quadros-síntese _______________________________________ 100
3. O modelo misto de cursos teórico-práticos e estágios profissionais ________ 105
3.1. Bélgica: o estágio curto e o estágio longo ___________________ 105
3.2. Holanda: um modelo de formação prolongada para magistrados
judiciais e do MP ______________________________________ 106
3.3. Modelo misto de cursos teórico-práticos e estratégias: Quadro-
síntese ______________________________________________ 109
4. Conclusão: uma síntese comparativa dos modelos de formação inicial de
Magistrados através de estágios profissionais, de formação inicial em
escola de magistratura e misto de formação com cursos teórico-práticos e
estágios ______________________________________________________ 111

Capítulo IV

A formação inicial em acção: análise comparativa dos planos de


actividades e dos currículos formativos dos cursos de formação
inicial em Portugal, França e Espanha

Introdução _________________________________________________________ 115


1. Os Princípios e objectivos da formação inicial de magistrados ____________ 116
2. A estrutura da formação inicial em Portugal, França e Espanha: análise
comparativa ___________________________________________________ 118
3. Os conteúdos dos programas de formação em França, Portugal e Espanha _ 120
3.1. França: privilégio à formação geral e aos estágios ____________ 120
3.2. A formação inicial em Portugal: os três ciclos de formação ______ 122
3.2.1. A formação inicial teórico-prática no CEJ – as
componentes “formativa”, “informativa e de
especialidade” e “profissional” _______________________ 122
3.2.2. O estágio nos Tribunais (o 2º ciclo de formação) ________ 125
3.2.3. De volta ao Limoeiro (CEJ) _________________________ 126
3.3. Espanha _____________________________________________ 128
VI Índice Geral

3.3.1. Escuela Judicial: a formação dos juízes _______________ 128


3.3.2. Centro de Estudios Jurídicos: a formação dos “fiscales” __ 131
4. Conclusões: Análise comparativa da estrutura e dos planos de curso da
formação inicial de magistrados em França, Portugal e Espanha _________ 133

Capítulo V

A formação complementar e a formação permanente ou contínua de


magistrados: ainda em busca do seu lugar

Introdução ________________________________________________________ 135


1. O modelo dos países em que já se prevê alguma formação complementar
ou permanente ou contínua de natureza obrigatória ___________________ 136
1.1. Análise comparativa: o modelo de formação com “alguma”
natureza obrigatória (França, Portugal, Inglaterra e País de
Gales, Finlândia, Holanda e Itália)_________________________ 136
1.2. O modelo de formação com “alguma” natureza obrigatória:
breve análise país a país ________________________________ 137
1.2.1. França: a obrigação para os jovens e um direito/dever ___ 137
1.2.2. Portugal: formação complementar obrigatória e
permanente ou contínua facultativa após terem sido
nomeados definitivamente _________________________ 138
1.2.3. Itália: formação complementar e contínua obrigatória para
valoração do mérito dos magistrados _________________ 138
1.2.4. Inglaterra e País de Gales: cursos regulares de
aperfeiçoamento _________________________________ 139
1.2.5. Finlândia: um “mix” de formação obrigatória e facultativa
organizada pelos tribunais _________________________ 140
1.2.6. A Holanda: a oferta anual da SSR ___________________ 140
2. O modelo de formação complementar e permanente de natureza
facultativa ____________________________________________________ 141
2.1. Análise comparativa do modo de formação da natureza
facultativa (Espanha, Noruega, Alemanha, Áustria, Luxemburgo
e Grécia) ____________________________________________ 141
2.2. O modelo de formação facultativa: Análise país a país_________ 141
2.2.1. Alemanha: um programa de oferta anual ______________ 141
2.2.2. Áustria: oferta fragmentada e direito a duas semanas ____ 142
2.2.3. Espanha: um plano de Estado (CGPJ) e a oferta plural
das comunidades ________________________________ 142
O Recrutamento e a Formação de Magistrados VII

2.2.4. A Bélgica: formação profissional, temática e


metodológica ____________________________________ 143
2.2.5. A Noruega: formação voluntária e licença
sabática de seis meses ____________________________ 143
2.2.6. Dinamarca: cursos de duas semanas___________ 143
3. Conclusão: a formação contínua de magistrados é um conceito ainda
emergente ____________________________________________________ 145

Capítulo VI

A análise comparada do recrutamento e formação de magistrados


na União Europeia: Conclusões

I – A consolidação de um direito (internacional e constitucional) e de sete


princípios constitutivos do recrutamento e formação de magistrados _______ 147
II – O recrutamento de magistrados: os modelos vigentes na União Europeia ____ 150
III – A formação inicial de magistrados: os modelos de estágios profissionais, de
formação inicial em escola de magistratura e misto de formação com
cursos teórico-práticos e estágios __________________________________ 167
IV – Formação inicial em acção: análise comparativa dos planos de actividade e
dos currículos formativos dos cursos de formação inicial em Portugal,
França e Espanha ______________________________________________ 176
V – A formação complementar e a formação permanente ou contínua de
magistrados: ainda, em busca do seu lugar __________________________ 179

Referências bibliográficas _____________________________________________ 185


VIII Índice Geral

ÍNDICE DOS ANEXOS

Anexo A – Programa de formação complementar e permanente da ENM


(França) _______________________________________________________ 1
Anexo B – Programa de formação complementar e permanente do CSM da Itália _ 15
Anexo C – Programa de formação complementar e permanente da Deutshe-
Richter Akademie (Alemanha) _____________________________________ 19
O Recrutamento e a Formação de Magistrados IX

ÍNDICE DE QUADROS

Capítulo II

O recrutamento de magistrados na União Europeia: a


predominância do modelo de concurso público

Quadro 1 O modelo de recrutamento de magistrados entre pessoas com


experiência profissional (Inglaterra e País de Gales, Noruega e Finlândia) ___ 49
Quadro 2 O modelo de recrutamento de magistrados após estágio profissional ____ 52
(Dinamarca, Suécia e Luxemburgo) ______________________________________ 52
Quadro 3 O modelo de recrutamento com base na formação universitária, exame
de Estado e estágio (Alemanha e Áustria) ____________________________ 54
Quadro 4 O modelo de recrutamento de magistrados através de concurso
público para formação (França, Holanda, Bélgica, Espanha, Portugal,
Grécia e Itália) __________________________________________________ 74

Capítulo III

A formação inicial de magistrados: os três grandes sistemas


vigentes na experiência comparada europeia

- Os modelos de estágios profissionais, de formação inicial em


escola de magistratura e misto de formação com cursos teórico-
práticos e estágios

Quadro 5 Análise comparada do sistema de formação de magistrados – Modelo


dos estágio profissionais (Alemanha, Áustria, Inglaterra e País de Gales) ____ 86
Quadro 6 Análise comparada do sistema de formação de magistrados – Modelo
dos estágio profissionai (países escandinavos: Suécia, Finlândia, Noruega
e Dinamarca) ___________________________________________________ 89
Quadro 7 O Modelo de formação inicial teórico-prática em escola seguido de
estágio - Quadro comparativo dos países que têm escola comum às duas
magistratura (França, Luxemburgo, Portugal, Grécia e Itália)_____________ 101
X Índice Geral

Quadro 8 O Modelo de formação inicial teórico-prática em escola seguido de


estágio - Quadro do país que tem uma escola para os juízes e outra para o
M.P. (Espanha) ________________________________________________ 104
Quadro 9 O modelo de formação de cursos teórico-práticos e estágio (Bélgica e
Holanda) _____________________________________________________ 109

Capítulo IV

A formação inicial em acção: análise comparativa dos planos de


actividades e dos currículos formativos dos cursos de formação
inicial em Portugal, França e Espanha

Quadro 10 Comparativo dos princípios e objectivos da formação inicial (Portugal,


França e Espanha) _____________________________________________ 117
Quadro 11 Comparativo dos ciclos de formação inicial (Portugal, França e
Espanha)_____________________________________________________ 118
Quadro 12 A descoberta das funções jurisdicionais (ENM)___________________ 120
Quadro 13 A aquisição de cultura ética, deontológica e profissional (ENM) ______ 121
Quadro 14 Formação inicial – Componente profissional (CEJ) ________________ 123
Quadro 15 Formação inicial – Componente formativa (CEJ)__________________ 124
Quadro 16 Formação inicial – Componente informativa e de especialidade (CEJ)_ 124
Quadro 17 O estágio da Magistratura Judicial (CEJ)________________________ 125
Quadro 18 O estágio do Ministério Público (CEJ) __________________________ 126
Quadro 19 Componente profissional do 3º ciclo (CEJ) ______________________ 127
Quadro 20 Componente formativa do 3º ciclo (CEJ) ________________________ 128
Quadro 21 Componente informativa e de especialidade do 3º ciclo (CEJ) _______ 128
Quadro 22 Direito constitucional e comunitário na Escuela Judicial ____________ 129
Quadro 23 Primeira Instância na Escuela Judicial__________________________ 130
Quadro 24 Instrução na Escuela Judicial_________________________________ 130
Quadro 25 Formação central do Fiscal __________________________________ 131
Quadro 26 Formação complementar do Fiscal ____________________________ 132
Apresentação

Neste início do século XXI, a questão do recrutamento e formação de


magistrados assumiu centralidade no debate sobre a independência, a
legitimidade, a eficácia e a responsabilidade dos Tribunais. Sucedem-se as
reformas, e as solicitações de reformas, do sistema de recrutamento e
formação de Magistrados. A título de exemplo, refiram-se as alterações
recentes em Portugal (DL n.º 11/2002, de 24 de Janeiro), em Inglaterra
(Constitutional Reform Act 2005), em Itália, como o Nuovo Ordinamento
Giudiziario (L. n.º 150, de 2005), ou em França, na sequência do caso
d’Outreau, com o Projecto de Lei Orgânica 3391, de Outubro de 2006.

Em Portugal, apesar da referida alteração legislativa, volta a estar na


agenda a questão da formação de magistrados. O Centro de Estudos Sociais,
no âmbito do Observatório Permanente da Justiça, procedeu, a solicitação de
Sua Excelência, o Senhor Ministro da Justiça, Dr. Alberto Costa, à elaboração
do presente estudo, centrado na análise comparada dos sistemas vigentes em
quinze países da União Europeia.

O presente relatório divide-se em seis capítulos. No primeiro capítulo,


procedemos à análise de convenções, de instrumentos e documentos
internacionais do que se pode, hoje, denominar direito internacional de
protecção da independência dos Tribunais e de recrutamento e formação de
magistrados. Após essa análise, percorremos a Constituição Portuguesa nesta
matéria, concluindo com a nossa proposta de princípios constitutivos do
recrutamento e formação de magistrados.

No segundo capítulo, analisámos os três modelos de recrutamento de


magistrados vigentes na União Europeia, através do estudo comparado da
legislação e da informação disponível de cada um desses países em
observação.

No terceiro capítulo, mapeámos as semelhanças e as diferenças entre


cada um dos regimes de formação inicial de magistrados, em vigor nesses
quinze países, concluindo que esses regimes poderiam, também, ser
categorizados em três sistemas de formação inicial: o modelo dos estágios
XII Apresentação

profissionais, o modelo da formação inicial teórico-prática em escola de


magistratura e misto, de formação com cursos teórico-práticos e estágios.

A seguir, procedemos à comparação mais detalhada da estrutura e do


plano de estudos da formação inicial em Portugal, França e Espanha. Dentro
de um discurso de formação comum e consensual, são visíveis diferenças
quanto aos conteúdos e práticas formativas.

No capítulo quinto, procedemos à análise comparada dos sistemas de


formação complementar e permanente ou contínua. Este tipo de formação
ainda não tem o seu estatuto claramente definido. Vislumbra-se, no entanto,
uma tendência para a sua obrigatoriedade em alguns países, com especial
relevo para a Itália.

Por último, concluímos o presente estudo com a formulação de setenta e


duas conclusões, que constituem um roteiro da investigação efectuada, e que
também podem ser lidas como uma síntese conclusiva ou um sumário
executivo do presente estudo.
Capítulo I

A consolidação de um direito (internacional e constitucional)


da selecção e formação de magistrados: Contributo para a
formulação de princípios constitutivos do recrutamento e
formação de magistrados

Introdução

Aos tribunais, neste início do século XXI, continuam a colocar-se três


questões essenciais: a questão da legitimidade, a questão da capacidade e a
questão da independência (Sousa Santos et al, 1996: 21). Ora, estas três
questões estão, necessariamente, interligadas entre si e, em consequência,
directamente conexionadas com os princípios que devem vigorar no
recrutamento e selecção, bem como na formação inicial e complementar ou
contínua, dos magistrados em geral e, em especial, dos juízes.

A afirmação e legitimação do princípio da independência do poder judicial,


a definição dos recursos a alocar aos tribunais judiciais e, consequentemente,
a sua capacidade e eficiência, tornam-se centrais no debate político mundial a
partir da segunda metade do século XX, o que necessariamente se veio a
reflectir na actividade normativa das organizações internacionais de âmbito
mundial ou regional, na defesa e promoção do poder judicial.

Surgem, assim, documentos fundamentais como a Declaração Universal


dos Direitos Humanos, adoptada pelas Nações Unidas em 1948 (sobretudo o
seu artigo 10º1, no qual se prevê o respeito pelos direitos dos arguidos, tendo
cada pessoa o direito a ser julgada por um Tribunal independente e imparcial)
ou a Convenção para a Protecção dos Direitos do Homem e das Liberdades

1
Artigo 10º: Toda a pessoa tem o direito, em plena igualdade, a que a sua causa seja
equitativa e publicamente julgada por um tribunal independente e imparcial, que decida dos
seus direitos e obrigações ou das razões de qualquer acusação em matéria penal que contra
ela seja deduzida. In http://www.amnistia-internacional.pt/sobre_ai/dudh/dudh1.php (Novembro
2006).
2 A consolidação de um direito da selecção e formação de magistrados

Fundamentais, de 1950 (em especial o artigo 6º2, que retoma o mesmo


princípio). Pode até falar-se, hoje, não só de um direito internacional de
protecção da independência judiciária, da selecção e formação de magistrados,
mas também de um direito transnacional, cujas directrizes visam a eliminação
de qualquer tipo de influência por parte do poder executivo na selecção e
nomeação dos juízes (Oberto, 2003:13). Assim, são de enorme importância os
seguintes documentos:

- Convenção para a Protecção dos Direitos do Homem e das


Liberdades Fundamentais, de 1950;
- Convenção internacional sobre os direitos civis e políticos de 1966;
- Princípios fundamentais sobre a independência da magistratura, de
1985, elaborados pela ONU e os procedimentos para a sua
efectivação, de 1989;
- Estatuto do Juiz Europeu de 1993, elaborado e aprovado pela
Associação Europeia de Magistrados – Grupo Regional da União
Internacional de Magistrados;
- Recomendação (94) 12 do Comité de Ministros do Conselho da
Europa sobre a independência, eficácia e papel dos juízes;

2
Artigo 6.º (Direito a um processo equitativo):
1. Qualquer pessoa tem direito a que a sua causa seja examinada, equitativa e
publicamente, num prazo razoável por um tribunal independente e imparcial, estabelecido pela
lei, o qual decidirá, quer sobre a determinação dos seus direitos e obrigações de carácter civil,
quer sobre o fundamento de qualquer acusação em matéria penal dirigida contra ela. O
julgamento deve ser público, mas o acesso à sala de audiências pode ser proibido à imprensa
ou ao público durante a totalidade ou parte do processo, quando a bem da moralidade, da
ordem pública ou da segurança nacional numa sociedade democrática, quando os interesses
de menores ou a protecção da vida privada das partes no processo o exigirem, ou, na medida
julgada estritamente necessária pelo tribunal, quando, em circunstâncias especiais, a
publicidade pudesse ser prejudicial para os interesses da justiça.
2. Qualquer pessoa acusada de uma infracção presume-se inocente enquanto a sua
culpabilidade não tiver sido legalmente provada.
3. O acusado tem, como mínimo, os seguintes direitos:
a) Ser informado no mais curto prazo, em língua que entenda e de forma
minuciosa, da natureza e da causa da acusação contra ele formulada;
b) Dispor do tempo e dos meios necessários para a preparação da sua defesa;
c) Defender-se a si próprio ou ter a assistência de um defensor da sua escolha
e, se não tiver meios para remunerar um defensor, poder ser assistido gratuitamente
por um defensor oficioso, quando os interesses da justiça o exigirem;
d) Interrogar ou fazer interrogar as testemunhas de acusação e obter a
convocação e o interrogatório das testemunhas de defesa nas mesmas condições que
as testemunhas de acusação;
e) Fazer-se assistir gratuitamente por intérprete, se não compreender ou não
falar a língua usada no processo. In http://www.gddc.pt/direitos-humanos/textos-
internacionais-dh/tidhregionais/conv-tratados-04-11-950-ets-5.html (Novembro 2006).
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 3

- Resolução relativa ao papel do poder judiciário num Estado de


Direito, de Abril de 1995, adoptada em Varsóvia pelos Ministros da
Justiça dos países da Europa central e de leste;
- Carta Europeia sobre o Estatuto dos Juízes, aprovada em 1998
pelo Conselho da Europa em Estrasburgo;
- Estatuto Universal do Juiz, aprovado em 1999 pelo Conselho
Central da União Internacional de Magistrados, em Taipé (Taiwan);
- Resolução C5-0265/1999, adoptada em 2000, pelo Parlamento
Europeu, sobre independência dos juízes e dos tribunais;
- Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, adoptada em
2000 em Nice.

Neste direito internacional de protecção da independência do Poder


Judicial, um dos factores-chave na construção e reforço de um poder judicial
independente, legitimado e com capacidade, é o recrutamento e a formação de
magistrados, que constitui o objecto do presente estudo.

Limitar-nos-emos, no entanto, neste relatório, ao estudo comparado da


legislação, dos sistemas e das experiências de recrutamento e formação de
magistrados para os Tribunais Judiciais, em diversos países da Europa,
deixando intencionalmente de fora o recrutamento e formação de juízes e
outros profissionais que trabalham em instituições não judiciais de resolução de
litígios (Julgados de Paz, Justicia de Paz, Giudice di Pace, Conséil de
Prud’hommes, Magistrates Courts, etc.).

Assim, ao longo deste capítulo analisaremos de que modo este debate


político e este direito internacional sobre a independência do poder judicial se
reflectiram na formulação de princípios constitutivos relativos ao recrutamento e
à formação de magistrados.

Em primeiro lugar, analisaremos os textos de hard law ou soft law


produzidos nesta matéria por organizações internacionais intergovernamentais
ou profissionais, de âmbito mundial. Em segundo lugar, faremos a mesma
análise para as organizações de âmbito regional, europeias. De seguida,
atentaremos nos princípios constitucionais e legais do recrutamento e formação
de magistrados em Portugal, desde a Constituição da República de 1976 até
4 A consolidação de um direito da selecção e formação de magistrados

aos nossos dias. Por último, à laia de conclusão, formularemos a nossa


proposta de princípios constitutivos do recrutamento e formação de
magistrados numa sociedade democrática.
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 5

1. As organizações internacionais intergovernamentais e profissionais


de âmbito mundial: a consagração de princípios de direito
internacional no recrutamento e formação de magistrados

1.1. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) – DUDH –


e o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos
(1966)3

A DUDH, de 1948, veio reconhecer e consagrar que a protecção dos


direitos humanos estará sempre dependente da garantia da independência dos
juízes, que deverão formar as suas decisões de forma imparcial, baseando-se
apenas nos factos e nas leis aplicáveis a cada caso concreto, exercendo as
suas funções enquanto guardiães da constituição, sem qualquer tipo de
pressão ou de interferência, sobretudo da parte do poder executivo.

Estabelece, assim, no seu artigo 10º, que “Toda a pessoa tem o direito,
em plena igualdade, a que a sua causa seja equitativa e publicamente julgada
por um tribunal independente e imparcial, que decida dos seus direitos e
obrigações ou das razões de qualquer acusação em matéria penal que contra
ela seja deduzida”. O artigo 11º estipula ainda que “Toda a pessoa acusada de
um acto delituoso presume-se inocente até que a sua culpabilidade fique
legalmente provada no decurso de um processo público, em que todas as
garantias necessárias para a sua defesa lhe sejam asseguradas” e que
“Ninguém será condenado por acções ou omissões que, no momento da sua
prática, não constituíam acto delituoso à face do direito interno ou
internacional.” Do mesmo modo, “não será infligida pena mais grave do que a
4.
que era aplicável no momento em que o acto foi cometido” A DUDH quando

3
Existem, ainda, outros instrumentos internacionais, como a Convenção contra a tortura e
outros tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes, de 1984, e a Convenção dos
Direitos das Crianças, de 1989 (no que respeita aos julgamentos envolvendo crianças).
Paralelamente, todas as convenções de índole regional sobre direitos humanos promovem e
expandem os princípios contidos na DUDH.
4
Para além destes dois artigos fundamentais, os artigos 6º a 8º proíbem a prisão, detenção ou
exílio arbitrários, bem como estabelece que todos são iguais perante a lei e perante a
protecção da lei. Assim:
Artigo 6: Todos os indivíduos têm direito ao reconhecimento em todos os lugares da sua
personalidade jurídica.
6 A consolidação de um direito da selecção e formação de magistrados

surgiu tinha apenas um carácter de declaração de princípios. Contudo, é agora


internacionalmente reconhecida e tornou-se, pelo menos, direito
consuetudinário internacional.

O Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos veio, em 1966,


não só estabelecer princípios semelhantes, como expandir o escopo dos
mesmos5. Todavia, estes preceitos apenas têm efeito impositivo relativamente
aos Estados signatários do Pacto, estando sujeitos às diferentes interpretações
e implementações que lhes foram dadas.

Artigo 7: Todos são iguais perante a lei, têm direito a igual protecção da lei. Todos têm direito
a protecção igual contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra
qualquer incitamento a tal discriminação.
Artigo 8: Toda a pessoa tem direito a recurso efectivo para as jurisdições nacionais
competentes contra os actos que violem os direitos fundamentais reconhecidos pela
Constituição ou pela lei.
5
Artigo 9º: Todo o indivíduo tem direito à liberdade e à segurança pessoais. Ninguém poderá
ser submetido a detenção ou prisão arbitrárias. Ninguém poderá ser privado da sua liberdade,
excepto pelos motivos fixados por lei e de acordo com os procedimentos nela estabelecidos.
Toda a pessoa detida será informada, no momento da sua detenção, das razões da mesma, e
notificada, no mais breve prazo, da acusação contra ela formulada.
Toda a pessoa detida ou presa devido a uma infracção penal será presente, no mais breve
prazo, a um juiz ou outro funcionário autorizado por lei para exercer funções judiciais, e terá
direito a ser julgada dentro de um prazo razoável ou a ser posta em liberdade. A prisão
preventiva não deve constituir regra geral, contudo, a liberdade deve estar condicionada por
garantias que assegurem a comparência do acusado no acto de juízo ou em qualquer outro
momento das diligências processuais, ou para a execução da sentença.
Toda a pessoa que seja privada de liberdade em virtude de detenção ou prisão tem direito a
recorrer a um tribunal, a fim de que este se pronuncie, com a brevidade possível, sobre a
legalidade da sua prisão e ordene a sua liberdade, se a prisão for ilegal.
Toda a pessoa que tenha sido detida ou presa ilegalmente tem o direito a obter uma
indemnização.
Artigo 10º: Toda a pessoa privada de liberdade será tratada humanamente e com o respeito
devido à dignidade inerente ao ser humano.
a) Os arguidos ficam separados dos condenados, salvo em circunstâncias excepcionais e
serão submetidos a um tratamento diferente, adequado à sua condição de pessoas não
condenadas;
b) Os arguidos menores ficam separados dos adultos e deverão ser levados a julgamento nos
tribunais de justiça com a maior brevidade possível.
O regime penitenciário terá como finalidade o melhoramento e a readaptação social dos
detidos. Os delinquentes menores estarão separados dos adultos e serão submetidos a um
tratamento adequado à sua idade e condição jurídica.
Artigo 11º: Ninguém será encarcerado pelo simples facto de não poder cumprir uma obrigação
contratual. In http://www.cidadevirtual.pt/cpr/asilo2/2pidcp.html#a6 (Novembro 2006).
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 7

2. Os princípios fundamentais das Nações Unidas relativos à


independência da Magistratura (1985) e as Linhas Orientadoras
sobre a função do Ministério Público (1990)

Em Novembro de 1985, a Assembleia-Geral das Nações Unidas aprovou


os princípios fundamentais relativos à independência da Magistratura. Esses
princípios desenvolvem e normativizam as garantias de independência da
magistratura, da liberdade de expressão e associação, condições de serviço e
duração do mandato, imunidade e segredo profissional, medidas disciplinares,
suspensão e destituição e, ainda, as qualificações necessárias para a selecção
e formação.

Assim, o artigo 10º dos referidos princípios prevê, na secção


Qualificações, selecção e formação, que “as pessoas seleccionadas para o
exercício das funções de magistrado devem ser íntegras e competentes,
devendo ter formação e qualificações jurídicas suficientes”. Ao mesmo tempo,
“os métodos de selecção dos magistrados devem prever garantias contra as
nomeações abusivas”, devendo a “selecção dos juízes ser feita sem distinção
de raça, de cor, de sexo, de religião, de opinião política ou outra, de origem
nacional ou social, de situação económica, de ascendência ou estatuto”, não se
considerando como “discriminatória a regra segundo a qual um candidato a
magistrado deve ter a nacionalidade do país considerado”.

Em 1990, a Assembleia-Geral adoptou também as Linhas Orientadoras


sobre a Função do Ministério Público6 (bem como os Princípios Básicos sobre
o Papel dos Advogados7), com o consequente reconhecimento de que o
sistema judiciário apenas poderá cumprir o seu papel de forma efectiva se o
Ministério Público for independente e justo. Deste modo, as linhas orientadoras

6
O documento em questão acentua, ainda, a necessidade de garantir que o processo de
obtenção de provas, por parte do Ministério Público, deva ser feito de forma legal, devendo ser
também apresentadas todas as provas favoráveis aos arguidos, de modo a que um juiz
imparcial possa decidir de forma justa, de acordo com a lei e com os factos em consideração.
7
Estes princípios impõem aos governos que garantam determinadas condições de
desempenho aos advogados, de modo a que estes possam proteger os direitos dos seus
clientes.
8 A consolidação de um direito da selecção e formação de magistrados

estatuem que, no que toca à secção de Qualificações, selecção e formação8:

“1. as pessoas seleccionadas deverão ser indivíduos íntegros e


capazes, com qualificações e formação adequadas.

2. os Estados devem assegurar que:

(a) os critérios de selecção contenham mecanismos de segurança


contra nomeações baseadas na parcialidade ou em preconceitos,
excluindo qualquer discriminação contra a pessoa com base em
raça, cor, sexo, linguagem, religião, opinião política ou outra, origem
nacional, social ou étnica, riqueza, nascimento, estatuto económico
ou outro, não sendo considerado como discriminação o requisito de
nacionalidade do país considerado;

(b) os magistrados do Ministério Público deverão ter uma educação


e formação apropriadas e devem saber quais os deveres e ideais
que se prendem com as suas funções, quais os direitos
constitucionais e legais dos arguidos e das vítimas e quais os
direitos humanos e liberdades fundamentais reconhecidos pelas
ordens jurídicas nacionais e internacionais” 9.

8
A tradução é dos autores do relatório. Cfr. http://www.ohchr.org/english/law/prosecutors.htm
(Novembro 2006).
9
Nos termos da secção relativa ao Estatuto e Condições de Serviço
“3. Os agentes do Ministério Público e agentes da administração da justiça devem, a todo o
tempo, manter a honra e a dignidade das suas profissões.
4. Os Estados deverão assegurar que os magistrados do Ministério Público são capazes de
executar as suas funções sem intimidações, coações, interferências ou exposições
injustificadas que incorram em responsabilidade civil e penal.
5. Os magistrados do Ministério Público e as suas famílias devem obter protecção das
autoridades quando a sua segurança pessoal for ameaçada por razões ligadas ao exercício
das suas funções.
6. As condições de serviço, remuneração adequada e, quando aplicável, a manutenção da
carreira, idade e pensão de reforma, deverão ter provisão legal.
7. A promoção dos magistrados, quando tal sistema vigorar, deve ser baseada em factores
objectivos, em particular nas qualificações profissionais, capacidade, integridade e experiência,
sendo decidida de acordo com um processo justo e imparcial”. A tradução é dos autores do
relatório. Cfr. http://www.ohchr.org/english/law/prosecutors.htm (Novembro 2006).
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 9

3. O Estatuto Universal dos Juízes10, da União Internacional de


Magistrados (1999)

Em 1999, o Conselho Central da União Internacional de Magistrados


aprovou o Estatuto Universal do Juiz, que no seu artigo 9º consagra: “O
ingresso na carreira e cada uma das nomeações do Juiz devem fazer-se
segundo critérios objectivos e transparentes fundados na sua capacidade
profissional. Quando tal não se encontra assegurado por outras vias, como
consequência de uma tradição estabelecida e provada, a nomeação deve ser
assegurada por um órgão independente que integre uma parte substancial e
representativa de Juízes”.

10
O Estatuto Universal do Juiz foi aprovado por unanimidade pelo Conselho Central da União
Internacional dos Magistrados, na sua reunião de 17 de Novembro de 1999, em Taipé
(Taiwan).
Cfr. In http://www.asjp.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=26&Itemid=45
(Outubro 2006).
10 A consolidação de um direito da selecção e formação de magistrados

4. Os Princípios de Conduta Judicial de Bangalore11 (2002)

Em Abril de 2000, em Viena, deu-se a primeira reunião do Judicial Group


on Strengthening Judicial Integrity12, onde se reconheceu a necessidade de
criar um código de conduta judicial. A preparação de um Projecto de Código foi
feita de acordo com princípios e directrizes já existentes noutros códigos e
instrumentos internacionais, entre eles: Código de Conduta Judicial adoptado
pela House of Delegates da American Bar Association, 1972; Código de
conduta dos Juízes do tribunal Supremo do Bangladesh, 2000; Princípios
éticos dos Juízes, Canadá, 1998; ou, ainda, os Princípios Fundamentais das
Nações Unidas relativos à Independência da Magistratura, de 1985. A segunda
reunião deu-se em Fevereiro de 2001, em Bangalore, onde o Projecto de
Código foi sujeito a avaliação, tendo sido identificados os valores fundamentais
e feita a formulação dos princípios relevantes. O Grupo reconheceu, todavia,
que, tendo o Projecto de Código sido desenvolvido por juízes provindos, na sua
maioria, de países de tradição jurídica da common law, seria necessário ser
escrutinado por juízes de outras tradições jurídicas, de forma a poder assumir
um estatuto realmente internacional.

Em Junho de 2002, após várias conferências e discussões, o Projecto de


Código foi revisto pela Comissão de Trabalho do Comité Consultivo dos Juízes
Europeus (CCJE). Foi, ainda, revisto à luz de vários instrumentos, tais como a
Opinião n.º 1 (2001) da CCJE, o Guia para a Conduta Judicial, publicado pelo
Council of Chief Justices da Austrália, de 2002, ou o Código de Conduta dos
Juízes dos Estados Bálticos.

Após todas estas revisões, foram aprovados oficialmente os Princípios de


Conduta Judicial de Bangalore, em Novembro de 2002, na Haia, Holanda.

Os princípios aprovados constituem directrizes que orientam a conduta


dos juízes, de forma a tornar o sistema judiciário mais independente e

11
Para mais informações, consultar http://www.ajs.org/ethics/pdfs/Bangalore_principles.pdf
(Outubro 2006).
12
Constituído por juízes do Bangladesh, Índia, Nepal, Nigéria, África do Sul, Tanzânia, Uganda
e Austrália.
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 11

assegurando que os juízes não só exercem os seus poderes de forma


imparcial, como também se conseguem manter acima dos seus interesses
pessoais ou de influências externas. São eles os seguintes13: independência,
imparcialidade, integridade, idoneidade, equidade e competência.

Os mecanismos para a efectiva implementação destes princípios devem


ser adoptados pelas ordens jurídicas nacionais14.

13
1. Independência: a independência do Judiciário é um pré-requisito de um Estado de Direito
e uma garantia fundamental para que haja um julgamento justo. O juiz deve, portanto, defender
a independência do Judiciário e dela ser um exemplo, tanto em termos individuais quanto
institucionais.
2. Imparcialidade: que se aplica não só à decisão formulada, como também ao processo
decisor em si mesmo.
3. Integridade: os juízes jamais terão o respeito e a confiança dos cidadãos se cederem à
corrupção, daí que a selecção de juízes e os princípios éticos que orientam sua conduta devem
ser administrados considerando antes de tudo essas preocupações.
4. Idoneidade: característica essencial ao bom exercício de funções.
5. Equidade: a independência do Judiciário deve dar aos cidadãos a convicção de que as leis
serão aplicadas com justiça e igualdade.
6. Competência e diligência: que constituem pré-requisitos de um exercício de funções efectivo.
A tradução é dos autores do relatório. Cfr., pois,
http://www.ajs.org/ethics/pdfs/Bangalore_principles.pdf (Outubro 2006).
14
Após a adopção dos princípios supra mencionados, houve a necessidade de criar
mecanismos para monitorizar a sua implementação. Assim, em 1994, foi nomeado o primeiro
Relator Especial sobre a Independência de Juízes e Advogados. O seu mandato inclui
investigação e aconselhamento, bem como actividades legislativas e promocionais. O Relator
recebe queixas de ataques/ofensas sofridas quer por juízes, quer por advogados, devendo
investigar tantos processos quanto possível, sendo alguns desses processos tratados via
correspondência, outros implicando deslocações ao lugar da ocorrência, obtendo, para tal, a
cooperação governamental do país considerado. Incumbe ao Relator aconselhar os vários
governos, sobretudo de países que estão em fase de transição democrática, como melhorar os
seus sistemas judiciais. Por outro lado, é necessário estar sempre a monitorizar os vários
sistemas judiciários, inclusive em países que, à partida, se julga que a independência judicial
estará assegurada (como são exemplos os EUA, o Reino Unido, a Austrália ou a Bélgica).
Assim, o Centro para a Independência dos Juízes e Advogados (CIJL) publica um relatório
anual, denominado Attacks on Justice.
12 A consolidação de um direito da selecção e formação de magistrados

5. As organizações internacionais e profissionais de âmbito europeu

Na sequência da aprovação dos referidos princípios fundamentais sobre a


independência da magistratura, elaborados em 1985 pela ONU e os
procedimentos para a sua efectivação (1989) desenvolveu-se, também, na
Europa, no âmbito de organizações profissionais de Magistrados, Conselho da
Europa e, mais recentemente, na União Europeia, o processo de
internacionalização e transnacionalização das normas sobre a independência
da magistratura e, consequentemente, sobre o recrutamento e formação de
magistrados.

5.1. A Convenção Europeia para a Protecção dos Direitos do


Homem e das Liberdades Fundamentais (1950) – CEDH

A CEDH, assinada em Roma em 1950, constitui um dos principais


instrumentos jurídicos que permitem assegurar o respeito pelos direitos
fundamentais no continente europeu. Consagrando um conjunto de direitos de
diversa natureza (civis, políticos, económicos e culturais), a Convenção instituiu
um mecanismo de garantia da aplicação dos mesmos através da criação de um
órgão internacional independente, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem,
que tem por missão apreciar as queixas relativas à violação, pelos Estados-
Membros, dos direitos previstos na Convenção.

O seu artigo 6º15, que trata do “Direito a um processo equitativo”,


consagra o direito de qualquer pessoa a um julgamento justo, público, num
prazo razoável, por Tribunal independente e imparcial, com garantias de
defesa, presunção de inocência, acesso a um defensor e a informação numa
língua que seja por si entendida16.

15
Cfr. http://www.echr.coe.int/NR/rdonlyres/7510566B-AE54-44B9-
A163912EF12B8BA4/0/PortuguesePortugais.pdf (Outubro 2006).
16
Artigo 6.º:
1. Qualquer pessoa tem direito a que a sua causa seja examinada, equitativa e publicamente,
num prazo razoável por um tribunal independente e imparcial, estabelecido pela lei, o qual
decidirá, quer sobre a determinação dos seus direitos e obrigações de carácter civil, quer sobre
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 13

5.2. A recomendação (94) 12 do Comité de Ministros do Conselho da


Europa (C.E.) aos Estados-Membros sobre a independência, a
eficácia e o papel dos juízes

5.2.1. O recrutamento de magistrados17

O Comité de Ministros do C.E. recomenda aos governos dos Estados-


Membros a adopção ou reforço das medidas necessárias à promoção do papel
dos juízes na protecção dos direitos do homem e liberdades fundamentais, de
forma a melhorar a sua independência. Deste modo, enquanto princípios gerais
relativos à independência dos juízes, recomenda, no que toca, em particular, à
selecção e recrutamento de novos juízes, que o processo de selecção se
baseie unicamente em critérios objectivos, isto é, no mérito do candidato, tendo
em conta as suas qualificações, a sua integridade, a sua competência e a sua
eficácia. Por outro lado, a entidade responsável pelo processo de recrutamento

o fundamento de qualquer acusação em matéria penal dirigida contra ela. O julgamento deve
ser público, mas o acesso à sala de audiências pode ser proibido à imprensa ou ao público
durante a totalidade ou parte do processo, quando a bem da moralidade, da ordem pública ou
da segurança nacional numa sociedade democrática, quando os interesses de menores ou a
protecção da vida privada das partes no processo o exigirem, ou, na medida julgada
estritamente necessária pelo tribunal, quando, em circunstâncias especiais, a publicidade
pudesse ser prejudicial para os interesses da justiça.
2. Qualquer pessoa acusada de uma infracção presume-se inocente enquanto a sua
culpabilidade não tiver sido legalmente provada.
3. O acusado tem, como mínimo, os seguintes direitos:
a) Ser informado no mais curto prazo, em língua que entenda e de forma minuciosa, da
natureza e da causa da acusação contra ele formulada;
b) Dispor do tempo e dos meios necessários para a preparação da sua defesa;
c) Defender-se a si próprio ou ter a assistência de um defensor da sua escolha e, se não tiver
meios para remunerar um defensor, poder ser assistido gratuitamente por um defensor
oficioso, quando os interesses da justiça o exigirem;
d) Interrogar ou fazer interrogar as testemunhas de acusação e obter a convocação e o
interrogatório das testemunhas de defesa nas mesmas condições que as testemunhas de
acusação;
e) Fazer-se assistir gratuitamente por intérprete, se não compreender ou não falar a língua
usada no processo.
17
Nos termos dos comentários aos princípios que estabelece, a Recomendação, no seu Ponto
16, diz o seguinte: Il est indispensable que l'indépendance des juges soit garantie lors de leur
sélection et au cours de toute leur carrière professionnelle (voir paragraphe c. de ce principe) et
qu'ils ne fassent l'objet d'aucune discrimination. Toute décision relative à la vie professionnelle
des juges doit reposer sur des critères objectifs. Bien que chaque Etat membre applique sa
propre méthode de recrutement, d'élection ou de nomination, la sélection des candidats à la
magistrature et la carrière des juges doivent se faire au mérite. En particulier, lorsque la
décision de nommer des juges est prise par des organes qui ne sont pas indépendants du
gouvernement ou de l'administration, ou lorsqu'elle est prise, par exemple, par le Parlement ou
le Président de l'Etat, il importe qu'elle soit uniquement fondée sur des critères objectifs.
14 A consolidação de um direito da selecção e formação de magistrados

e selecção deve ser independente do governo ou dos órgãos da administração,


devendo os seus membros serem designados pelo poder judicial, sendo a
própria entidade a decidir as suas próprias regras de procedimento. No caso de
o governo ter qualquer tipo de intervenção na nomeação dos juízes, será
necessário garantir que os processos de designação não são influenciados por
motivos não objectivos. Daí que seja desejável introduzir garantias ao nível da
competência e independência dos órgãos de nomeação, dos recursos das
decisões e de protecção contra influências abusivas18.

5.2.2. A formação19

No que concerne à formação, esta deve assegurar que os candidatos


mais aptos sejam nomeados, já que uma boa formação contribui para a
independência do poder judicial, pois os juízes que possuem bons
conhecimentos teórico-práticos e são competentes podem agir de forma mais
independente relativamente aos órgãos de administração. Requer-se, assim,

18
Princípio I.2.c. da referida recomendação: Toute décision concernant la carrière
professionnelle des juges devrait reposer sur des critères objectifs, et la sélection et la carrière
des juges devraient se fonder sur le mérite, eu égard à leurs qualifications, leur intégrité, leur
compétence et leur efficacité. L'autorité compétente en matière de sélection et de carrière des
juges devrait être indépendante du gouvernement et de l'administration. Pour garantir son
indépendance, des dispositions devraient être prévues pour veiller, par exemple, à ce que ses
membres soient désignés par le pouvoir judiciaire et que l'autorité décide elle-même de ses
propres règles de procédure. Toutefois, lorsque la Constitution, la législation ou les traditions
permettent au gouvernement d'intervenir dans la nomination des juges, il onvient de garantir
que les procédures de désignation des juges ne soient pas influencées par d'autres motifs que
ceux qui sont liés aux critères objectifs susmentionnés. A titre d'exemple, il pourrait s'agir d'une
ou plusieurs des garanties suivantes:
i. un organe spécial indépendant et compétent habilité à donner des conseils au gouvernement
qui sont suivis dans la pratique; ou
ii. le droit pour un individu d'introduire un recours contre une décision auprès d'une autorité
indépendante; ou
iii. l'autorité habilitée à prendre la décision établit des garde-fous contre toute influence indue
ou abusive.
In http://www.coe.int/t/f/affaires_juridiques/coopération_juridique/professionels_du_droit/Juges
(Setembro 2006).
19
O Ponto 16 dos comentários aos referidos princípios também fala da formação. Assim:
La formation des juristes est un aspect important afin d'assurer que les personnes les plus
aptes soient nommées juges. Les juges professionnels doivent justifier d'une formation juridique
appropriée. En outre, la formation contribue à l'indépendance du pouvoir judiciaire. En effet, si
les juges possèdent les connaissances théoriques et pratiques suffisantes ainsi que des
compétences, ils pourront agir de manière plus indépendante face à l'administration et, s'ils le
souhaitent, changer de profession sans nécessairement poursuivre leur carrière.
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 15

que a formação decorra nos tribunais e, se possível, junto de outras instâncias


e entidades, antes da nomeação e ao longo da carreira. Por outro lado, tal
formação deveria ser gratuita e focar-se na legislação recente e na
jurisprudência. Deveria, ainda, haver visitas de estudo junto de autoridades e
tribunais europeus e estrangeiros20.

5.3. A Carta Europeia do Estatuto dos Juízes (199821)22

No desenvolvimento da acção do C.E., com o apoio da Associação


Europeia de Magistrados (A.E.M) e dos Magistrados para a Democracia e
Liberdades (MEDEL), em Julho de 1998 foi aprovado, em reunião multilateral,
organizada pelo C.E., a Carta Europeia do Estatuto dos juízes. Esse
documento consagra que a escolha dos candidatos deve ser feita por uma
instância independente e deve basear-se em exigências de qualificações

20
A recomendação 94/12 do CE prevê no seu Princípio III.1.a.: Recruter suffisamment de
juges et leur permettre d'acquérir toute la formation nécessaire, par exemple une formation
pratique dans les tribunaux et, si possible, auprès d'autres autorités et instances, avant leur
nomination et au cours de leur carrière. Cette formation devrait être gratuite pour le juge et
porter, en particulier, sur la législation récente et la jurisprudence. Le cas échéant, cette
formation devrait inclure des visites d'études auprès des autorités et des tribunaux européens et
étrangères.
21
Aprovada pelo C.E. em Estrasburgo, em Julho de 1998.
22
Na exposição de motivos, a Carta Europeia explica e aprofunda um pouco mais os princípios
que estabelece. Assim, no seu Ponto 2:
Le choix effectué par l’instance de sélection doit reposer sur des critères en relation avec la
nature des fonctions qu’il s’agit d’exercer. Il s’agit d’abord d’évaluer la capacité des candidats à
apprécier librement les situationsqui sont soumises à un juge ou une juge, ce qui évoque la
liberté d’esprit. L'aptitude à faire preuve de l'impartialité indispensable à l'exercice des fonctions
judiciaires est aussi un élément essentiel. La capacité à faire application du droit renvoie à la
fois à la connaissance du droit et à l’aptitude à le mettre en pratique, ce qui n’est pas la même
chose. La sélection doit enfin s’assurer de la capacité des candidats à imprégner leur
comportement de juge du respect de la dignité des personnes, qui est essentiel dans une
relation de pouvoir et face à des individus qui se présentent devant la justice souvent en
situation de difficulté. Enfin, la sélection ne peut reposer sur des critères de discrimination
fondés sur le sexe, l’origine ethnique ou sociale, les opinions philosophiques et politiques, les
convictions religieuses.
Une préparation des candidats sélectionnés à l’exercice effectif des fonctions de juge au travers
de formations adéquates est nécessaire. Ces formations doivent être prises en charge par
l’Etat. La préparation, par ces formations, à rendre une justice indépendante et impartiale
renvoie à la nécessité de certaines précautions, afin que la compétence, l'impartialité et
l’indispensable ouverture se trouvent garanties tant dans le contenu des programmes de
formation que dans le fonctionnement des structures qui assurent la mise en oeuvre de ces
programmes.
16 A consolidação de um direito da selecção e formação de magistrados

académicas e profissionais e na aptidão para o exercício das funções, não


podendo haver discriminação em razão de sexo, origem étnica ou social ou
convicção política, filosófica ou religiosa.

Estipula, ainda, que compete ao Estado a responsabilidade da


preparação dos candidatos escolhidos, através de formação apropriada ao
exercício efectivo das suas funções, devendo haver uma instância,
independente dos poderes executivo e legislativo, que supervisiona a
adequação dos programas de formação e das estruturas que os asseguram,
sobretudo atendendo às exigências de competência e de imparcialidade
ligadas ao exercício das funções judiciárias23.

5.4. A restante acção do Conselho da Europa: do Lisbon Network ao


Conselho Consultivo de Juízes Europeus (CCJE)

O Conselho da Europa tem, ainda, promovido várias reuniões multilaterais


entre os responsáveis pela formação nos vários países-membros (bem como
nos países da Europa central e de leste), tendo o primeiro encontro tido lugar
em Lisboa, em 1995, no qual se reconheceu a necessidade de dar uma
particular importância à formação dos juízes e magistrados do Ministério
Público, melhorando e alargando as modalidades de tal formação, tendo em

23
A Carta Europeia dos Juízes consagra, ainda, no seu Ponto 2. Sélection, Recrutement,
Formation Initiale:
2.1. Les règles du statut relatives à la sélection et au recrutement des juges fondent le choix,
par une instance ou un jury indépendants, des candidats sur leur capacité à apprécier librement
et de façon impartiale les situations judiciaires qui leur seront soumises et à y faire application
du droit dans le respect de la dignité des personnes. Elles excluent qu'un candidat ou une
candidate puissent être écartés sur une considération déterminante tenant à leur sexe, à leur
origine ethnique ou sociale ainsi qu'à leurs opinions philosophiques et politiques et à leurs
convictions religieuses.
2.2. Le statut prévoit les conditions dans lesquelles est garantie, par des exigences liées aux
diplômes obtenus ou à une expérience antérieure, l'aptitude à l'exercice spécifique des
fonctions judiciaires.
2.3. Le statut assure au moyen de formations appropriées prises en charge par l'Etat la
préparation des candidats choisis à l'exercice effectif de ces fonctions. L'instance visée au point
1.3. veille à l'adéquation des programmes de formation et des structures qui les mettent en
oeuvre aux exigences d'ouverture, de compétence et d'impartialité liées à l'exercice des
fonctions judiciaires.
In http://www.coe.int/t/f/affaires_juridiques/coopération_juridique/professionels_du_droit/Juges
(Setembro 2006).
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 17

conta as tradições de cada sistema jurídico. Após essa reunião outras se


seguiram, sob a égide da ‘Lisbon Network’24, tendo a última tido lugar a 23-24
de Novembro de 2005, em Estrasburgo, sob o título “The quality of training of
Magistrates and common european strandards for judicial training”.

Nesta reunião, foi tratada a análise feita pela European Network for the
exchange of information between persons and entities responsible for the
training of judges and public prosecutors25a partir de três questionários sobre:
a) características estruturais e funcionais das instituições de formação, b) o
papel das instituições de formação na selecção e formação de juízes e
magistrados do Ministério Público e c) o papel das instituições de formação
relativamente aos estágios judiciais26.

Para além da análise dos questionários, os participantes consideraram


que se devem estabelecer critérios comuns de avaliação da qualidade da
formação de magistrados, de modo a poder ser feita uma harmonização dos
vários sistemas de formação.

Também em 22 de Novembro de 2005, em Estrasburgo, se deu o


primeiro encontro dos Directores das Escolas Europeias de Magistrados, sob o
título “The challenge for european schools of magistrates: establishment of
quality judicial training for quality justice”. Aí se defendeu que a formação de
magistrados deve ter um papel fundamental, assegurando que estes têm
qualificações adequadas e que são competentes, de modo a assegurar uma
justiça de qualidade. Sublinhando-se, ainda, que as actividades de formação
serão uma questão de interesse público, devendo a formação ser ministrada
por uma autoridade independente, com recursos adequados.
Consensualizaram, ainda, a necessidade de a formação, para além das

24
1996, Estrasburgo; 1997, Bordéus; 1998, Varsóvia; 1999, Budapeste; 2002, Vilnius; 2003,
Bucareste. Em termos de reuniões regionais, houve as seguintes: 2000, Ankara; 2001, Tirana.
Para mais informações, consultar: http://www.coe.int/T/E/Legal_Affairs/Legal_co-
operation/Legal_professionals/Judges/Lisbon_network (Setembro 2006).
25
Os questionários foram preparados após a reunião de Estrasburgo de 16-17 Dezembro de
2004.
26
Cuja análise, feita por Raffaele Sabato, juiz do Tribunal de Nápoles, Itália, foi apresentada
em Estrasburgo, em Agosto de 2005.
18 A consolidação de um direito da selecção e formação de magistrados

competências técnico-jurídicas, fornecer competências éticas e humanas, para


que a justiça se torne mais simples e acessível aos seus utentes (daí que os
magistrados devam receber formação a nível de métodos de gestão e técnicas
de informática). Assim, entendem que os juízes e magistrados do Ministério
Público devem ser formados no sentido de prestarem serviço à comunidade.27

Com o objectivo de promover o respeito mútuo e a articulação entre os


vários poderes (executivo, legislativo e judicial) e, por outro, o reforço da
confiança dos cidadãos europeus no sistema de justiça, foi criado, em 2000,
pelo Comité de Ministros do C.E., o Conselho Consultivo de Juízes Europeus
(CCJE). O CCJE tem por missão pronunciar-se sobre questões ligadas à
independência, imparcialidade e competência dos juízes. Nesse âmbito, emite
vários pareceres, recomendações e “opiniões”, uma delas a Opinião n.º 4
(2003) sobre a formação inicial e contínua de juízes, a nível nacional e
europeu.

Nos termos deste documento, o CCJE considera, por um lado, que uma
formação completa e diversificada é indispensável para que os juízes possam
exercer as suas funções de forma competente e imparcial, garantindo, assim, a
sua independência e profissionalismo, daí que a formação deva, para além das
competências técnicas, dotar os magistrados de sensibilidade social. E,
também, dotá-los da consciência de que são juízes europeus, pelo que o
estudo do direito europeu deve ser reforçado.

Por outro lado, e ainda que se verifique uma grande diversidade na


Europa no que tange aos sistemas de formação inicial de magistrados, é
necessário melhorar não só as suas competências, como também o próprio
funcionamento do serviço público de “Justiça”, pelo que se defende a
necessidade de que haja programas de formação inicial obrigatória. Ao mesmo
tempo, compete aos Estados assegurar, seja ao poder judiciário, seja a outro
órgão que esteja encarregado da organização e controlo da formação, todos os

27
Outra ideia a reter desta reunião prende-se com a necessidade de a formação contribuir
para a criação de um espaço judicial europeu, devendo as instituições de formação judiciária
trabalharem em conjunto.
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 19

meios e recursos necessários para esse fim. O CCJE recomenda, ainda, que o
órgão encarregue da formação seja diferente do órgão responsável pela
nomeação. Reconhece-se, ainda, a importância crescente da formação
contínua.

5.5. A acção da União Europeia (U.E.)

5.5.1. A Rede Europeia para a Formação Judiciária (REFJ)

A União Europeia, por sua vez, considera que o bom funcionamento de


uma ‘Europa Judiciária’ apenas poderá ter lugar se os juízes e procuradores
tiverem uma boa formação. Daí a criação da Rede Europeia para a Formação
Judiciária (REFJ), cujo objectivo é melhorar o conhecimento recíproco dos
sistemas judiciários dos Estados-Membros, de forma a melhorar a cooperação
judiciária no seio da União Europeia. Assim, os principais objectivos e
finalidades da REFJ28 são: promover um programa de formação para juízes e
magistrados do Ministério Público com uma dimensão genuinamente europeia;
disponibilizar a experiência e o know-how a instituições europeias, nacionais ou
internacionais, em todas as questões de cooperação judicial; facilitar a
participação nas actividades de formação nacional a juízes e magistrados do
Ministério Público de outros países; e a cooperação judicial entre os vários
Estados.

Pode concluir-se, pois, que segundo a REFJ, a formação de magistrados


é hoje vista na União Europeia como um direito face ao Estado, mas é,
também, um dever de cada magistrado, estando ligada de forma estreita à
independência do poder judiciário.

Os magistrados de cada país são, também, magistrados europeus, já que


as leis que devem aplicar têm uma origem europeia. Surge, assim, a ideia de
uma cultura judiciária comum, bem como de um modelo de justiça europeu e o
de um juiz europeu. Para tal, devem aprofundar-se os princípios comuns e, por

28
Para mais informação consultar http://www.ejtn.net/www/fr/html/index.htm (Outubro 2006).
20 A consolidação de um direito da selecção e formação de magistrados

esse meio, alcançar uma justiça que se baseia numa partilha de valores
comuns29 30.

5.5.2. Comunicação da U.E sobre Formação Judiciária na


União Europeia: a caminho de uma estratégia europeia de
formação judiciária

No dia 29 de Junho de 2006, sob incentivo do Vice-Presidente Frattini, a


Comissão das Comunidades Europeias emitiu uma Comunicação (COM (2006)
356) sobre a formação judiciária na União Europeia31 que, no entender do
Secretário-Geral da Rede Europeia de Formação Judiciária, Gilles
32
Charbonnier, surge como um “texto fundador” .

Na introdução da comunicação diz-se que a adopção do Tratado de


Amesterdão, que deu lugar à criação de um “espaço de liberdade, segurança e
justiça”, fez da formação judiciária uma nova aposta, já que esta é um
instrumento indispensável para a melhoria da cooperação judiciária. Por outro
lado, no seguimento do Programa de Haia (JO C 53, de 03/03/2005), adoptado
pelo Conselho Europeu em Novembro de 2004, insiste na ideia do
melhoramento da compreensão mútua entre as autoridades judiciárias e os
diferentes sistemas jurídicos e considera que a União se deve apoiar na Rede
Europeia de Formação Judiciária. Por sua vez, o princípio de mútuo

29
A criação, pelo Conselho da Europa, de uma Carta Europeia sobre o Estatuto dos Juízes
inscreve-se nesta linha de actuação. Pode-se falar de um juiz constitucional europeu, imbuído
em valores comuns explicitamente formulados na construção da Europa unida, para além de
uma mera união económica e monetária. Contudo, se se quer esta ideia de juiz constitucional
europeu, não se pode ficar apenas por uma declaração de intenções, é necessário que haja
uma ligação aos sistemas de formação dos juízes na Europa. Acresce que, quando se fala de
direito europeu, não se fala apenas de direito comunitário. Fala-se, sobretudo, daquilo que se
tornou o cerne da nossa constituição comum: a Convenção Europeia dos Direitos do Homem e
a doutrina proveniente das decisões do Tribunal em Estrasburgo.
30
O Tratado de Amesterdão prevê, ainda, uma certa “comunitarização” através de “acções-
em-comum” e, sobretudo, de acções-quadro e de decisões que alargarão a competência do
Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias em matéria de interpretação das convenções.
31
In http://eur-lex.europa.eu/LexUriServ/LexUriServ.do?uri=CELEX:52006DC0356:FR:NOT
(Setembro 2006).
32
Para mais informação, consultar o Editorial da “Lettre du REFJ” de Novembro de 2006, em
www.ejtn.eu.
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 21

reconhecimento, que obriga à aplicação célere, em cada Estado-Membro, das


decisões judiciais tomadas noutro Estado-Membro, exige o reforço do
sentimento de pertença a um espaço comum, ao desenvolvimento de uma
cultura judiciária europeia. Assim, esta comunicação analisa o funcionamento
da formação judiciária nos Estados-Membros e a forma como a União
Europeia, sobretudo através de programas de financiamento, contribuiu para o
desenvolvimento de uma estratégia europeia de formação judiciária.

A formação judiciária na União Europeia apresenta diversas formas,


consoante os Estados-Membros, sendo o elemento diferenciador o mecanismo
de recrutamento de juízes, procuradores e advogados. No que toca aos juízes,
a formação inicial é mais ou menos aprofundada, tendo em conta se os juízes
são recrutados logo após a universidade ou só após vários anos de experiência
profissional. A formação contínua, por sua vez, existe um pouco por todos os
Estados-Membros, de forma mais ou menos desenvolvida. As estruturas
nacionais de formação reflectem as diferenças entre os sistemas judiciários
nacionais pelo que, de acordo com o sistema em questão, existirá um “tronco
comum” para formação de juízes, procuradores e advogados, ou formações
distintas. A formação de juízes e procuradores depende, consoante os
Estados-Membros, dos ministérios da justiça, dos conselhos superiores da
magistratura ou da justiça ou dos serviços do procurador-geral do Estado, caso
exista uma separação entre o recrutamento e a formação juízes e
procuradores. Em vários Estados-Membros, há uma instituição única que é
competente para a formação de juízes e procuradores (como é o caso de
Portugal, bem como Alemanha, Áustria, Bélgica, França, Itália, Grécia,
Holanda, Polónia, República Checa, Eslováquia e Eslovénia).

A comunicação chama, ainda, a atenção para o facto de os juízes da


jurisdição administrativa deverem ser incluídos na reflexão europeia sobre a
formação, pois todos os juízes, de maneira geral, e todas as jurisdições com
competência especializada, estão abrangidos numa potencial aplicação do
22 A consolidação de um direito da selecção e formação de magistrados

direito europeu33.

5.5.3. O Parlamento Europeu: a criação de um programa-


quadro

O Parlamento Europeu, por sua vez, sublinhou a importância da formação


dos profissionais de justiça em direito comunitário e direito europeu.
Recentemente, através da adopção da recomendação P6 – TA (2005) 0030 JO
C 304 E, de 01 de Dezembro de 2005, sobre a qualidade da justiça penal e
harmonização da legislação penal, o Parlamento sublinhou o importante papel
da formação judiciária no desenvolvimento de uma cultura judiciária comum e
de uma cultura de direitos fundamentais. Para apoiar a formação, o Parlamento
criou, em 2006, um projecto-piloto visando o reforço de intercâmbios34 entre as
autoridades judiciárias, programa esse integrado no programa-quadro “Direitos
fundamentais e Justiça” (JO C 211, de 30 de Agosto de 2005), para o período
2007-2013, que, sob os títulos ‘justiça civil’ e ‘justiça penal’35, reforçará ainda
mais os meios consagrados à formação judiciária.

5.5.4. A “Europeização” da Formação Jurídica e Judiciária

Para a União Europeia, os juízes, os procuradores e os advogados devem


beneficiar de uma formação de nível e qualidade equivalentes. Para tal, tem
contribuído com uma série de programas gerais ou sectoriais, como os
programas STOP (1996), FALCONE (1998), AGIS (2002), ou “Hercule” (2004),

33
A REFJ constitui um precioso mecanismo para desenvolvimento da formação judiciária e
para coordenar a acção das diferentes estruturas nacionais.
Ao nível do Conselho de Ministros, após uma primeira discussão impulsionada pela Itália em
1991, a França depositou uma iniciativa legislativa em 2000, que, ainda que não tenha sido
adoptada, permitiu à Comissão fazer um balanço dos mecanismos possíveis para estruturar a
Rede Europeia de Formação Judiciária (REFJ). Assim, em 2003, o Conselho adoptou uma
série de conclusões sobre o carácter indispensável da formação.
34
Estes programas de intercâmbio devem ser complementados com formações de duração
adequada, tanto no Tribunal de justiça, quanto estágios no Eurojust.
35
Estes dois programas visam favorecer a cooperação judiciária e têm por objectivo encorajar
a similitude de legislações, bem como o reconhecimento mútuo de decisões, reforçar os
intercâmbios de informação e promover a formação das profissões judiciárias (cf.
http://www.sent.fr/ue/pac/E2875.html - Setembro 2006).
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 23

entre outros. Por outro lado, mecanismos como a Rede Judiciária Civil, a Rede
Judiciária Penal ou o Eurojust, deverão ter um papel importantíssimo em
matéria de formação, através da disseminação de informações sobre os
instrumentos jurídicos europeus ou da organização de actividades de formação
ao nível local. Assim, para a Comissão devem ser privilegiados três tipos de
acções: promoção do conhecimento dos instrumentos jurídicos adoptados pela
União e pela Comunidade, sobretudo em áreas em que os poderes específicos
são confiados aos juízes nacionais; promoção das competências linguísticas, a
fim de permitir às autoridades judiciárias uma comunicação directa entre si;
desenvolvimento do conhecimento dos sistemas jurídicos e judiciários dos
vários Estados-Membros, para permitir a cooperação judiciária.

Em termos de método, a formação deve insistir sobre os aspectos


práticos que permitam a correcta aplicação dos instrumentos adoptados. A par
de conferências e seminários, devem ser desenvolvidos métodos que permitam
uma maior disseminação dos resultados das formações (neste caso, deverá
ser privilegiada a formação de formadores). Deve ser fomentada a utilização de
recursos reutilizáveis e acessíveis, especialmente recursos on-line. Por outro
lado, será desejável uma estreita cooperação entre os diversos organismos
nacionais de formação, os organismos europeus, a REFJ, Eurojust e as redes
europeias judiciárias civil e penal. É, ainda, aconselhada uma formação de
carácter pluridisciplinar (respeitando, claro está, as tradições nacionais), que
deverá permitir uma confrontação de pontos de vista e de intercâmbio de
experiências.

Quanto à formação inicial, esta deve ser capaz de dar aos futuros
profissionais o sentimento de pertença a um mesmo espaço de direito e de
valores. A formação contínua deve permitir aos profissionais o aprofundamento
do conhecimento dos instrumentos jurídicos adoptados pela União Europeia36.
É manifestado, ainda, o desejo de que a formação judiciária deverá integrar-se

36
Dentro do programa-quadro mencionado para 2007-2013, a Comissão deseja subsidiar
financeiramente a formação dos profissionais judiciários em matéria de direito da União e
direito comunitário.
24 A consolidação de um direito da selecção e formação de magistrados

num quadro internacional alargado, permitindo a cooperação judiciária para lá


das fronteiras da União, reforçando o Estado de Direito no mundo.
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 25

6. O papel das Associações Internacionais de Magistrados no


recrutamento e formação de magistrados

6.1. A União Internacional de Magistrados

A União Internacional de Magistrados (UIM)37, fundada em 1953 na


Áustria, é uma organização profissional de Magistrados internacional, sem
carácter político, cujo objectivo principal é o de salvaguardar a independência
do poder judiciário, condição essencial ao bom funcionamento dos sistemas
jurisdicionais e garantia do respeito pelos direitos38.

A UIM é composta de quatro comissões de estudo, que se reúnem


anualmente, sendo a Primeira Comissão de Estudo sobre o Estatuto dos
Magistrados e Questões da Justiça. Assim, no âmbito desta primeira comissão
e relativamente às questões relacionadas com o recrutamento e formação de
magistrados, houve as seguintes reuniões, que influenciaram o debate ao nível
internacional, e das quais resultaram as respectivas conclusões:

a) 1982, Madeira, sobre “A formação contínua dos magistrados”: o


magistrado deve estar constantemente ao corrente da evolução das
instituições com repercussão no Direito. Esta informação pode ou deve
ser complementada através de colóquios, seminários, conferências, etc.,
organizados quer por organismos oficiais, quer por instituições de carácter
privado. É, ainda, desejável que magistrados de diferentes países
troquem informações, sobretudo quando venham de países que tenham
estruturas organizadas de formação de magistrados39.

b) 1988, Berlim, sobre “O recrutamento dos magistrados. A sua posição na


sociedade”: existem diversos modos de recrutamento dos magistrados,
sendo que uns se baseiam nos resultados obtidos através de concurso,
outros tomam em consideração a experiência profissional adquirida como
advogado, outros ainda instituíram uma escola especializada consagrada

37
Para mais informações consultar http://www.iaj-uim.org.
38
Dela fazem parte 69 associações.
39
A participação dos magistrados nas actividades desenvolvidas por via da formação contínua
não pode, de nenhuma forma, pôr em risco a sua independência.
26 A consolidação de um direito da selecção e formação de magistrados

à formação de magistrados. Em muitos casos, estes modos são usados


simultaneamente, isto é, os candidatos são submetidos a concurso, a
formação complementar numa escola e a estágios. É ainda possível o
recrutamento dito ‘lateral’, quando os candidatos não são recrutados nem
por concurso, nem por formação ou estágio. Na maior parte dos países
existe uma autoridade ou órgão com competência para nomeação de
magistrados, seja ele governamental, seja uma instituição dentro do
próprio poder judiciário. Em alguns países, os magistrados são eleitos
pelo parlamento ou pelo povo.

c) 1996, Amesterdão, sobre “O problema do recrutamento e da formação


dos juízes numa sociedade democrática moderna”: ao nível do
recrutamento, a maior parte dos países requer formação em direito ou,
pelo menos, formação universitária de base. Na maioria dos países, não
existe requisito legal de idade mínima para acesso à profissão, constata-
se que o acesso é, raramente, possível para pessoas com idade inferior a
30 anos (soma dos anos necessários à formação e de exigências ligadas
a experiência profissional ou formação específica). Nos países de sistema
anglo-saxónico o acesso à profissão faz-se numa idade ainda mais
avançada.

Uma experiência profissional prévia noutra profissão jurídica é uma das


condições exigidas, sobretudo nos países que não têm programa de formação
para os candidatos à função ou que, tendo-o, têm um programa pouco
elaborado. Os países que, por sua vez, têm um programa bem elaborado e
definido prevêem, nos seus programas, a existência de estágios junto de outras
profissões jurídicas, sobretudo na advocacia, como é o caso da École
Nationale de la Magistrature, em França. Alguns países organizaram um
sistema de estágio geral, aberto a jovens licenciados que queiram aceder a
uma profissão jurídica, o que lhes permite familiarizarem-se com as técnicas de
base de diversas profissões, tais como advogado, juiz, Ministério Público, etc.

Os critérios de recrutamento, para além dos critérios clássicos de


O Recrutamento e a Formação de Magistrados 27

competência e conhecimentos jurídicos, que são testados através de concurso


ou de exames de acesso, a tónica das conclusões da UIM é posta num
conjunto de critérios, um pouco mais difíceis de objectivar, mas que são,
todavia, essenciais para garantir que um bom técnico seja também um bom
juiz, inserido numa organização profissional a quem a sociedade exige cada
vez mais, tanto em termos de performance quanto de responsabilidade. Tais
critérios prendem-se com o perfil psicológico do candidato, as suas aptidões
comunicativas, a sua sociabilidade ou a sua capacidade de organização do
trabalho.

No que toca à formação, esta assume uma importância fundamental,


tendo em conta o facto de que o nível de profissionalismo exigido ao juiz é
cada vez mais complexo e não cessa de aumentar. Exigem-se do magistrado
conhecimentos e aptidões que não se adquirem na universidade, nem noutra
profissão. Daí que a formação insista sobre três aspectos fundamentais: o
conhecimento do direito e das técnicas específicas à função e ainda, a
necessária para a abertura de espírito e sensibilidade para a evolução da
sociedade. A importância da cooperação e intercâmbio internacional assume,
ainda, um papel muito importante.

Segundo a UIM, uma nomeação provisória, com competências restritas e


compreendendo, durante um período probatório, uma formação teórico-prática
seguida de nomeação definitiva parece ser a forma que mais garantias oferece
de formar um candidato a magistrado com qualidade40.

6.2. O MEDEL

O MEDEL41 – Mouvement des Magistrats Européens pour la Démocratie


et les Libertés, foi criado em Estrasburgo em 1985 e reúne 15 associações de
magistrados, provenientes de onze países. Os seus objectivos são, entre

40
Em Setembro de 2006, em Siofok, na Hungria, foi debatido o tema “De que forma a
nomeação e a avaliação (quantitativa e qualitativa) dos juízes está em concordância com os
princípios da independência judiciária?”.
41
Para mais informações consultar www.medelnet.org.
28 A consolidação de um direito da selecção e formação de magistrados

outros, a defesa da independência do poder judiciário, a democratização da


justiça e a promoção de uma cultura jurídica democrática europeia. Entre as
várias actividades promovidas destacam-se os colóquios que organiza, como o
colóquio de 1991, em Trieste, sob o título “La formation des magistrats en
Europe” e o colóquio de 2004 na Póvoa do Varzim, a propósito do tema “Quelle
formation pour les magistrats?”.

Na assembleia do MEDEL de 1999, em Lisboa, considerou-se que as


associações de magistrados deveriam ter um papel relevante no que concerne
à formação de magistrados, devendo, pois, participar, em termos institucionais,
na gestão dos programas de formação, assim como na própria administração
das escolas ou centros de formação. Os seus objectivos seriam, assim, os de
tornar a formação mais plural e voltada para o exterior e, ao mesmo tempo,
distanciá-la dos conteúdos académicos da formação universitária,
compreendendo estes, assim, uma vertente não-jurídica, capaz de fazer os
magistrados reflectir sobre as implicações e consequências meta-jurídicas das
suas decisões.
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 29

7. Os princípios constitucionais e legais relativos ao recrutamento e


formação de magistrados em Portugal

7.1. Os Tribunais na Constituição da República Portuguesa

A Constituição da República Portuguesa atribui à lei ordinária a


determinação dos requisitos e das regras de recrutamento dos juízes dos
tribunais judiciais de primeira instância (artigo 215º, n.º 2), sem impor,
explicitamente, qualquer norma nesta matéria. No entanto, indirectamente,
sempre deveremos retirar algumas orientações dos princípios fundamentais da
soberania e da cidadania, tais como os da dignidade da pessoa humana, da
construção de uma sociedade livre, justa e solidária (1º) e do Estado de direito
democrático, que postula, além do mais, a garantia de efectivação dos direitos
e liberdades fundamentais, bem como a separação e interdependência de
poderes (2º) (Aragão Seia, 2003).

Nos artigos 202º a 208º da CRP estão previstos os princípios gerais de


organização dos tribunais enquanto “órgãos de soberania para administrar
justiça em nome do povo”. A separação do poder judicial dos outros poderes
significa que “o órgão de soberania Tribunais desempenha duas funções: (1)
garantir a liberdade, pois não há liberdade quando existir a concentração ou
confusão entre quem faz as leis, quem as aplica e quem julga; (2) garantir a
independência da magistratura, pois só magistrados independentes podem
assegurar a justiça em liberdade” (Gomes Canotilho, 2005: 658). “Os Tribunais
são um complexo de órgãos de soberania” – os Tribunais na sua pluralidade –
(Ac. TC 81/86), pelo que, neste sentido, se fala no princípio da polaridade do
poder judicial (Gomes Canotilho, 2005), que se encontra estruturado
constitucionalmente nos seguintes princípios:

a) Independência (artigo 203º): que se divide em independência pessoal


(garantia da inamovibilidade e autonomia no exercício da jurisdição),
independência colectiva (vista a judicatura como uma ordem ou
corporação) e funcional (no exercício da sua função jurisdicional, o juiz
está apenas submetido às fontes de direito jurídico-constitucionalmente
reconhecidas);
30 A consolidação de um direito da selecção e formação de magistrados

b) Exclusividade da função de julgar: implica o reconhecimento de uma


reserva de jurisdição entendida como reserva de um conteúdo material
funcional típico da função jurisdicional, isto é, ao juiz em determinadas
matérias, cabe não apenas a última, mas também a primeira palavra (ex.
penas restritivas da liberdade e penas de natureza criminal);

c) Imparcialidade: justifica a obrigação de o juiz se considerar impedido no


caso de existir uma qualquer ligação a uma das partes litigantes;

d) Irresponsabilidade: “os juízes não podem ser responsabilizados pelas


suas decisões, salvo as excepções consignadas na lei” (artigo 216º, n.º
2). Exclui-se, assim, qualquer responsabilidade política e, em princípio,
qualquer responsabilidade civil dos magistrados pelos danos ocasionados
no exercício da função jurisdicional.

Os artigos 217º a 222º da CRP definem o estatuto dos Juízes e do


Ministério Público. No que se refere ao seu recrutamento, e formação dos
magistrados de primeira instância, as referidas normas constitucionais remetem
para a lei geral (artigo 217º, n.º 2), consagrando, no entanto, o princípio da
nomeação dos juízes pelo Conselho Superior da Magistratura, ou seja, por um
órgão autónomo do poder legislativo e executivo, que tem como função
essencial a gestão e disciplina da magistratura dos tribunais judiciais,
garantindo a autonomia e independência dos juízes e dando-lhes legitimidade
constitucional e democrática. Ainda com relevo para a matéria em análise, a
consagração, no artigo 218º, n.º 3 da CRP, do princípio da dedicação
exclusiva, com vista à valorização da função do juiz e de modo a evitar
“dependências” que coloquem em risco a sua independência.

A concluir este ponto, refira-se que, embora não seja um órgão de


soberania, o “Ministério Público é, nos termos constitucionais, um órgão do
poder judicial. Embora hierarquicamente subordinados, os agentes do
Ministério Público são magistrados com garantias de autonomia e
independência constitucionais (artigo 219º, nºs 2 e 3 da CRP) que os coloca
numa posição de ‘sujeição à lei’ tendencialmente equiparável às dos juízes
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 31

(artigo 203º da CRP)” (Gomes Canotilho, 2005).

Assim, a nosso ver, o recorte constitucional, em Portugal, dos


Magistrados Judiciais e do Ministério Público exige que eles sejam sujeitos a
um recrutamento e formação efectuados em obediência à mesma panóplia de
princípios constitutivos.
32 A consolidação de um direito da selecção e formação de magistrados

8. Os princípios constitutivos de recrutamento e formação de


magistrados: o direito internacional em aplicação

Ao reflectirmos e ao escrevermos este capítulo, percorremos o que se


pode chamar um direito internacional (e transnacional) de defesa e protecção
da independência do poder judicial e da selecção e formação de magistrados; a
acção normativa do Conselho da Europa, da União Europeia, das associações
de Magistrados; e, ainda, os princípios constitucionais do recrutamento e
formação de magistrados em Portugal.

Estamos, assim, em condições de elaborar, em obediência às referidas


normas e princípios de direito internacional e interno, uma proposta de
princípios constitutivos de recrutamento e formação de magistrados, que
desenvolverão, na sua denominação e no seu conteúdo, os nossos princípios
já anteriormente propostos no relatório do Observatório Permanente da Justiça
de 2001 “O recrutamento e a formação de magistrados: uma proposta de
renovação”.

Consequentemente, e em nossa opinião, decorre do direito internacional


e constitucional que o recrutamento e a formação de magistrados deve
obedecer aos seguintes princípios constitutivos:

1. Da legitimação constitucional, em função do princípio da


independência do poder judicial, do recrutamento e da formação
(ou o princípio de um júri plural de selecção);

2. Da garantia de um recrutamento plural para a formação e


diversificado nas experiências, competências e saberes dos
candidatos e sem qualquer discriminação negativa em função do
sexo, idade, opção política, religiosa, filosófica ou de orientação
sexual;

3. Da garantia de um recrutamento para formação por concurso


público, assente em critérios objectivos, adequado às qualificações
académicas, formação e experiência profissional dos candidatos;

4. Da formação, garantida pelo Estado, dever habilitar os magistrados


O Recrutamento e a Formação de Magistrados 33

com uma apurada formação técnica geral, uma elevada


sensibilidade social e uma formação especializada e adequada às
funções de juiz e de magistrado do M.P., bem como à jurisdição
onde vão trabalhar;

5. Dos conteúdos jurídicos e não jurídicos da formação deverem


privilegiar o desenvolvimento de uma cultura de respeito pelos
direitos humanos, constitucionais e de cidadania;

6. A nomeação dos magistrados por um órgão independente da


entidade que é responsável pela sua formação, bem como dos
poderes legislativo e executivo;

7. A continuidade e progressão das carreiras de magistrados devem


depender da frequência de formação contínua e da prestação de
provas em concurso público.

O princípio da legitimação constitucional, em função do princípio da


independência do poder judicial do recrutamento e da formação (ou de
um princípio de um júri plural de selecção)

O recrutamento deve ser da responsabilidade e assegurado por uma


“entidade” ou um júri, que reflicta a legitimidade constitucional do poder
judiciário. Assim, a sua composição deve incluir personalidades designadas
pelos Conselhos Superiores da Magistratura e do Ministério Público, pela
Assembleia da República e pelo Governo. Essa entidade ou esse júri deverá,
ainda, integrar, em obediência a um princípio de legitimidade alargada,
personalidades designadas pelas associações profissionais, pelo Centro de
Estudos Judiciários e pelas Universidades.42

A formação, em obediência ao mesmo princípio teria de ser dada por


Escolas das Magistraturas, como o Centro de Estudos Judiciários. A

42
No actual contexto português, o actual processo de recrutamento deveria ser organizado
tecnicamente pelo Centro de Estudos Judiciários sob a responsabilidade do referido júri com a
eventual colaboração das Universidades.
34 A consolidação de um direito da selecção e formação de magistrados

legitimação constitucional seria assegurada com a participação efectiva e


activa nos órgãos de gestão do Centro de Estudos Judiciários de
representantes dos órgãos de soberania e das Instituições já referidas
anteriormente a propósito do recrutamento.

Da garantia de um recrutamento plural para formação e diversificado


nas experiências, competências e saberes dos candidatos e sem qualquer
discriminação negativa em função do sexo, idade, opção política,
religiosa, filosófica ou de orientação sexual

Um recrutamento plural deve permitir, em simultâneo, a entrada na


magistratura (judicial e do MP) de jovens licenciados e de profissionais com
uma diversidade de saberes e experiências. Consequentemente não deve
haver bloqueios à entrada de jovens, como também não deve haver bloqueios
à entrada de profissionais com experiência.

Parece-nos ainda, à semelhança de outros modelos estrangeiros, que só


haveria vantagens na entrada para as magistraturas, ainda que a título
experimental, em especial para algumas jurisdições especializadas, de
licenciados ou profissionais de outros saberes, que não o direito, desde que
também adquiram formação jurídica na formação.

Assim, em função do que se pretendesse discriminar positivamente, o


sistema de recrutamento poderá, (ou não) sem prejuízo do concurso público,
permitir a entrada qualificada de jovens licenciados, profissionais do direito
(advogados, funcionários públicos, assessores, etc.), de outros saberes
(psicologia, economia, etc.) e mestres e doutores em direito43.

43
Este princípio, com a formulação que lhe demos, tem como consequência a rejeição, de
forma clara, que a entrada nas magistraturas se efectue por uma carreira vestibular obrigatória,
dado que, desse modo, não se conseguiria um recrutamento plural e diversificado nas idades,
nas experiências, nas formações académicas e profissionais. Ora, só essa pluralidade no
recrutamento permitirá a construção de uma Magistratura sensível às novas realidades deste
nosso tempo. Este princípio tem como consequência que toda a selecção deve ser efectuada
por concurso público e não deve haver qualquer discriminação negativa, designadamente em
função da idade ou do ano de conclusão da licenciatura, como acontece actualmente em
Portugal.
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 35

Da garantia de um recrutamento para formação por concurso


público, assente em critérios objectivos, adequado às qualificações
académicas, à formação e à experiência profissional dos candidatos

A selecção dos magistrados deve ser efectuada, nos termos


constitucionais, por concurso público. Este concurso deve assumir formas
diferenciadas integrando análise curricular, exames ou provas de selecção,
quer escritas quer orais, que permitam avaliar o nível dos conhecimentos que
os candidatos adquirem na Universidade e/ou no exercício de uma profissão, e
a sua adequação às funções de magistrado.

Os exames ou provas de selecção, quer escritas quer orais, devem incidir


sobre conhecimentos básicos de organização judiciária, direito constitucional,
direito civil, direito penal, direito do trabalho e sobre temas relacionados com as
funções de magistrado e a sua conexão com questões sociais e económicas.
Estas provas devem avaliar, não só o saber jurídico, como também a
sensibilidade do candidato às questões sociais e económicas, que
naturalmente constituem a estrutura dos litígios que chegam a Tribunal.

Os exames podem e devem ser diferenciados em função das habilitações


académicas (licenciaturas em direito ou em outras áreas científicas, mestrados,
doutoramentos) e experiência profissional ou, ainda, em função dos requisitos
de ingresso que sejam fixadas para jovens licenciados ou para o acesso de
candidatos com experiência profissional.

O concurso público pode incluir avaliação psicológica (com recurso a


diversas técnicas), que se destine, exclusivamente, a despistar situações de
inadaptação psicológica para a função de magistrado.

Numa sociedade complexa, como a actual, o recrutamento deve ser para


formação e não para ingresso directo na magistratura, de modo a que durante
o tempo de formação se possa avaliar se o candidato tem ou não condições
psicológicas, técnicas e culturais de vir a ser magistrado. A formação deve ser
assim, o caminho para que as “mulheres e os homens comuns”, com a devida
formação técnica e cultural, possam vir a ser nomeados pelos Conselhos que
“superintendem” as magistraturas para uma “profissão incomum”, que é a de
36 A consolidação de um direito da selecção e formação de magistrados

ser magistrado.

Este princípio garante, em simultâneo, quer a igualdade quer a


pluralidade e diversidade das candidaturas assim como das entradas na
magistratura, com a adaptação das provas de selecção por concurso público a
diversas categorias de candidatos, para a qual pode existir (ou não) requisitos
especiais de ingresso nas magistraturas.

Os critérios de avaliação e de correcção das provas de selecção devem


ser objectivos e tornados públicos de modo a garantir a transparência do
recrutamento e a equidade da selecção.

A formação deve ser garantida pelo Estado e deve habilitar os


magistrados com uma apurada formação técnica geral, uma elevada
sensibilidade social e uma formação especializada adequada às funções
de juiz e de magistrado do M.P., bem como à jurisdição onde vão
trabalhar

A linha orientadora da formação, nas suas várias modalidades, é a


criação de condições para que se formem magistrados dotados de um sólido
apetrechamento técnico-jurídico, aptos para o exercício das funções segundo
critérios éticos e deontológicos, de independência, de responsabilização,
imbuídos de um espírito de solidariedade para com cada cidadão e para com
as demais instituições.

A nossa sociedade tem como modelo constitucional a coesão social, o


que significa o respeito efectivo pelos direitos humanos. Mas é, ao mesmo
tempo, uma sociedade onde o aprofundamento da democracia, pela via da
garantia dos direitos e da transparência, tem que ter lugar.

A formação deve ensinar o saber jurídico, mas não esquecer que a


autonomia do direito não existe de um modo total e absoluto. O Direito é um
fenómeno social e político como outro qualquer. A autonomia realizou-se,
fundamentalmente, em relação ao direito civil e ao direito penal, os dois
grandes ramos do direito ensinados nas faculdades de direito. Daí o peso do
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 37

direito civil e do direito penal, porque são as formas de direito que garantem,
quase como num espelho, a imagem de autonomia do direito. Se formos para
outras áreas (direito da família, do trabalho, comunitário, etc.) não vemos essa
autonomia. A ideia de autonomia naturalmente que condiciona a visão que se
tem do direito que se administra. Ora, a formação não deve ser uma
manifestação desta cultura normativista técnico-burocrática, que é excelente a
interpretar o direito e péssima a interpretar a realidade. Assim, como interpreta
mal a realidade, o magistrado é presa fácil de ideias dominantes.

Em simultâneo com o saber técnico-jurídico, a formação deve privilegiar a


interpretação da realidade, ou seja dos factos, que serão sujeitos a decisão
judicial. Ora, a interpretação da realidade não deve estar só ao sabor do bom
senso, dado que hoje já existem ferramentas para a sua apreensão que nos
podem ser fornecidas pela sociologia, antropologia e psicologia.
Consequentemente, a formação jurídica dos magistrados deve ser efectuada
de modo a que possa ser impregnada pela leitura do social.

Este modo de conceber a formação terá como consequência uma nova


organização da formação em que os programas, de média ou longa duração,
terão de ser substituídos por módulos de formação mais curtos, em que a
mesma questão social, económica ou caso concreto, é analisada à luz dos
diferentes saberes44.

Sendo o direito um fenómeno social, é necessário conhecer a sociedade,


não como um apêndice, mas exactamente como constitutiva do direito. Não há
o direito e a sociedade, não está o direito aqui e a sociedade acolá, estão os
dois no mesmo lugar. Em consequência, os formadores não devem ser, em
mais de 50% magistrados; têm que ser pessoas com outras experiências
profissionais, com cursos ou não, com outros conhecimentos e todos eles têm

44
Na sociologia do direito temos um princípio, que resulta de análises, de muitos estudos, que
é o seguinte: à medida que se jurisdicionalizam as novas relações sociais, e elas têm-se vindo
a jurisdicionalizar cada vez mais, o verniz da capa jurídica dessas relações é cada vez mais
fino. E é, por isso, que aí também penetra muito pouco a dogmática jurídica, ou seja, quando
temos um caso nestas novas áreas, digamos que 20% é direito, 80% é o resto da realidade.
Portanto, é preciso aprender muitas outras áreas: técnicas contabilísticas, economia,
psicologia, antropologia, sociologia, para entender essa realidade.
38 A consolidação de um direito da selecção e formação de magistrados

que estar em pé de igualdade. O que significa que quem não está apto numa
área não jurídica, também não deve entrar na magistratura.

A formação não pode, assim, continuar a ter o mesmo perfil generalista


de antigamente, nem pode ser dirigida, de igual maneira, ao longo de todo o
período de formação às duas magistraturas. Ela deve ser diferenciada ou ter
momentos de diferenciação. Cada vez mais os tribunais com competência
especializada têm também que ter formas de formação específica, com
condições de acesso específicas e com exames específicos – é o caso dos
tribunais de família e menores, de trabalho, de instrução criminal, de execução
de penas, tribunais administrativos, tribunais marítimos, tribunais comerciais,
tribunais arbitrais ou tribunais fiscais.

Por outro lado, a visão dos estágios apenas em tribunais é extremamente


estreita. O país é muito mais amplo do que isso e os estágios não podem ser
feitos apenas em tribunais, devem ser feitos em muitas outras áreas: nas
esquadras de polícia, nos escritórios de advogados, nas prisões, na
administração pública, e até nas próprias empresas.

Finalmente, a formação não pode deixar de considerar que o papel vai


acabar, ou pelo menos diminuir, nos processos. É uma questão de décadas. É
preciso uma cultura informática de base neste momento, para que todos os
tribunais, polícias, prisões, escritórios de advogados e cidadãos estejam em
rede, para que cada profissional ou até cada cidadão possa, com password –
como já se está hoje a tentar – saber em cada momento em que estádio está o
seu processo45.

Os conteúdos jurídicos e não jurídicos da formação devem


privilegiar o desenvolvimento nos Magistrados de uma cultura de respeito
pelos direitos humanos, constitucionais e de cidadania

45
Em Outubro de 2006, o Senado da República Francesa analisou um relatório em que se
preconizava a formação dos juízes na área da gestão (“La justice, de la gestion au
management? Former les magistrats et les greffiers en chef”, Rapport d’information n.º 4, in
http://www.senat.fr/rap/r06-004/r06-0041.pdf).
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 39

O sistema judicial vai desempenhar nas próximas décadas novas e


complexas funções em novos contextos políticos, culturais e sociais. Assim, em
nosso entender, o novo perfil do magistrado deve ter as seguintes
características: em primeiro lugar, é fundamental que se substitua a cultura
normativista, técnico-burocrática por uma cultura judicial, política e
democrática. Uma cultura que tem a justiça como estratégia e que permite,
com base nisso, tratar os processos e a actividade judicial estrategicamente. E
a estratégia é que a justiça está ao serviço da coesão social e do
aprofundamento democrático. Deste modo, garantiremos, que não se reproduz
uma cultura, que sendo técnico-burocrática, não consegue ver os agentes do
poder em geral, como cidadãos com direitos e deveres. Para o cidadão, essa
cultura significa medo de tratar e de investigar os poderosos como cidadãos
comuns, e isso corresponde à tal hegemonia do direito civil e do direito penal
na formação dos magistrados, tudo o resto fica na sombra.

A formação deve ter uma visão estratégica dos processos. Os processos


não são autómatos, burocráticos, são pessoas, são aspirações, são desejos,
uns mais dignos do que outros, uns mais atendíveis do que outros, uns mais
manipuladores do que outros, são interesses diferentes com poderes diferentes
na sociedade. É preciso ter uma concepção do direito como fenómeno social,
para podermos ter uma visão estratégica dos processos.

Assim, não faz sentido tentar contrapor uma cultura geral a uma cultura
técnica. O importante é criar uma cultura judicial nova, política e democrática, e
não justapor a cultura geral a uma cultura técnico-burocrática.

A construção desta nova cultura de cidadania terá como consequência a


produção de alterações na organização e nos conteúdos de formação, sem as
quais continuaremos a fazer uma formação centrada nos processos e não nos
conflitos, que estão nesses processos.

Assim, os conteúdos da formação devem privilegiar a interpretação da lei


de acordo com a Constituição e com os direitos humanos.

A nomeação dos magistrados por um órgão independente da


40 A consolidação de um direito da selecção e formação de magistrados

entidade que é responsável pela sua formação, bem como dos poderes
legislativo e executivo

O corolário deste princípio, em Portugal, é, já no presente, o de que a


nomeação dos magistrados, nessa qualidade, compete aos Conselhos
Superiores da Magistratura e do Ministério Público, que são os órgãos de auto-
governo das magistraturas judiciais e do MP em Portugal.

A nomeação por um órgão independente dos poderes legislativo e


executivo é uma garantia de independência do poder judicial,

A continuidade e progressão das carreiras de magistrados devem


depender da frequência de formação contínua e da prestação de provas
em concurso público

As sociedades complexas da actualidade e a transformação acelerada,


também do direito têm como consequência necessária que os magistrados
tenham de frequentar cursos de actualização e especialização, e organizados,
designadamente, pelos Conselhos Superiores, pelo Centro de Estudos
Judiciários ou pelas Universidades.

O acesso a jurisdições especializadas, ou aos Tribunais da Relação ou do


Supremo, deverá ser condicionado à existência dessa formação contínua em
saberes jurídicos e não jurídicos e à prestação de provas públicas, com o
objectivo de promover a qualificação dos magistrados e da administração da
justiça em Portugal.
Capítulo II

O recrutamento de magistrados na União Europeia: a


predominância do modelo de concurso público

Introdução

Quando se debate a construção da democracia, a divisão de poderes e o


princípio da independência do poder judicial, logo se questiona, como referimos
no capítulo anterior, qual é a forma democrática de recrutar juízes, a fim de
legitimar a função jurisdicional.

Ao longo da história, a necessidade de legitimação do poder judicial e as


especificidades de cada região ou Estado no combate político entre o
executivo, o legislativo e o poder judicial, bem como a vontade de cada um
desses poderes querer reservar espaço de decisão no modo como são
recrutados os juízes, tem determinados modelos, mais ou menos democráticos,
de selecção e nomeação de magistrados.
42 O recrutamento de magistrados na União Europeia

1. Os modelos de recrutamento de magistrados

1.1. Os modelos empírico-primitivo, técnico-burocrático e


democrático-contemporâneo (Zaffaroni)

Zaffaroni (1995), magistrado, penalista e sociólogo do direito Argentino,


na sua análise, divide o recrutamento de magistrados em três modelos:
empírico-primitivo, técnico-burocrático e democrático contemporâneo46.

No primeiro, empírico-primitivo, em regra, o recrutamento dá-se por


nomeação política – selecção livre pelo Executivo ou pelo Legislativo, ou pela
concorrência de vontade desses dois poderes –, nomeação por cooptação – o
órgão judiciário de cúpula escolhe seus próprios juízes – e nomeação mista –
os juízes do Supremo Tribunal de Justiça são recrutados por nomeação
política, enquanto os demais magistrados judiciais são cooptados por esse
Tribunal, sendo que, em alguns casos, os tribunais inferiores é que fazem a
cooptação dos juízes de primeira instância47. Enquadram-se, ainda, nesse
modelo, os países que adoptam a eleição popular, como o que era defendido
na Revolução francesa48. Actualmente este modelo evoluiu para que os
magistrados antes de designados definitivamente sejam avaliados por uma
comissão de avaliação e nomeação.49

46
Também Walter Nunes da Silva Júnior: Modelo de Recrutamento de Juízes no Brasil, in
http://www.jfrn.gov.br/docs/doutrina114.doc (Outubro 2006).
47
Nos países da Common Law (Inglaterra, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e os Estados
Unidos da América, a nível federal) é o poder executivo/legislativo que nomeia ou recomenda a
nomeação dos juízes.
48
Montesquieu (1987: 167-168) escreveu no seu O Espírito das Leis que “o poder de julgar
deveria ser confiado a pessoas que fossem tiradas do seio do povo, em certas épocas do ano,
formando um Tribunal que não deveria ter duração maior que a necessária para o julgamento”.
49
Actualmente, as nomeações de juízes, a nível federal, nos EUA são feitas pelo Presidente,
sendo os candidatos avaliados por um comité da American Bar Association e os processos são
revistos por um comité judiciário do Senado, antes de o Senado votar; a nível estadual, existe o
‘Plano de Mérito’, tendo a American Judicature Society identificado alguns elementos básicos
deste plano, tais como: a comissão de nomeação é composta de membros juristas e não
juristas, que recrutam e avaliam os possíveis candidatos; há a recomendação de um número
limitado de candidatos, geralmente entre 2 e 5; compete ao Governador estadual (ou seja, ao
poder executivo) a nomeação do candidato. No Canadá, os candidatos devem submeter as
suas candidaturas ao Comissariado para os Assuntos Federais que avalia se o candidato
preenche ou não os requisitos técnicos antes de enviar o processo ao respectivo comité judicial
de nomeação, comité esse composto de membros provenientes da advocacia, da judicatura e
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 43

No sistema técnico-burocrático, o processo de recrutamento tem como


característica o estabelecimento de critérios objectivos, mediante a exigência
de submissão dos candidatos à magistratura a concurso público de provas. Na
maioria dos países, além do concurso público, impõe-se a formação em curso
ou estágio específico para a magistratura.

Em regra, este modelo, em alguns países evoluiu para o modelo


democrático contemporâneo, ou técnico-democrático, o recrutamento dos
magistrados é efectuado mediante a realização de concurso não só para a
primeira instância, mas também para as instâncias superiores, ressalvando,
apenas, os membros de tribunal constitucional, devendo integrar o júri, além de
juízes, professores universitários e advogados, a fim de obstar que se dê
prevalência aos conhecimentos funcionais em detrimento dos jurídicos.
Institucionalizaram-se, ainda, as escolas das magistraturas como complemento
da formação jurídica universitária, seja quanto ao fornecimento dos
conhecimentos práticos necessários para o exercício da função judicial, seja
em relação ao aprofundamento de conhecimentos jurídicos que não são
ensinados nas universidades50.

não juristas (que devem ser representativos da província em termos geográficos, de género, de
linguagem e culturais). Os comités judiciais de nomeação recomendam os candidatos com
base na sua excelência profissional, características pessoais e consciência social e
comunitária, sendo ainda verificada a sua idoneidade através de quatro pessoas apresentadas
pelo candidato. Os candidatos são, depois, entrevistados e é fornecida ao Procurador-geral
uma lista com dois nomes, cabendo, então, ao Procurador-geral a nomeação.
50
Este modelo, como se verá no capítulo seguinte, é o dominante nos países da Europa de
tradição jurídica românica. Nos países europeus de tradição civilista, dada a sua natureza
inquisitória, existe uma maior necessidade de juízes, do que nos países da Common law, daí
que o seu recrutamento seja feito logo após a licenciatura em direito, seguindo-se uma
formação numa escola judicial com duração de 1 a 2 anos, após a qual os juízes iniciam a sua
carreira. A promoção na carreira faz-se com base no mérito e na experiência. O concurso
público é assim, um expediente democrático porque, como a função exige conhecimentos
técnicos, ele possibilita, com utilização de critério objectivo quanto à escolha e subjectivo em
relação à avaliação, o recrutamento do candidato que demonstre possuir a melhor qualificação
para o exercício do cargo. Nesse passo, cabe perfeitamente a reflexão de Zaffaroni, ao dizer
que “Assim como a eleição popular é o único procedimento democrático para a selecção dos
deputados e do presidente, por exemplo, o concurso de título e provas é o equivalente
democrático para seleccionar os candidatos tecnicamente melhor qualificados para uma função
que requer ‘idoneidade’, consistente no elevado grau de profissionalismo, porque é o único que
corresponde a regras objectivas e que, portanto, garante o controle dos interessados e do
público”. Outrossim, é um sistema ao qual são lançadas críticas e que demonstra algumas
imperfeições. A maior censura que lhe é feita refere-se ao fato de o concurso ser idóneo para
44 O recrutamento de magistrados na União Europeia

1.2. Os quatro modelos de recrutamento de magistrados de Oberto

Por seu turno, o magistrado italiano Oberto (2003: 12) considera que
existem actualmente quatro métodos de selecção de novos magistrados.

O primeiro consiste na escolha dos juízes pelo poder executivo ou pelo


poder legislativo. Se, por um lado, a legitimidade do juiz sai reforçada, por outro
o poder judicial fica dependente dos outros poderes. O segundo método seria
através de eleição pelo povo. Se, por um lado, confere um maior grau de
legitimidade, por outro obriga o juiz a organizar campanha eleitoral e a obter a
ajuda económica de partidos políticos. Pode ainda reflectir-se nas suas
decisões, que poderão ser parciais mediante o seu eleitorado51. O terceiro
modelo assenta na cooptação pela magistratura, que oferece a vantagem de
poder escolher os juízes preparados tecnicamente, mas que tem o risco de
levar a conservadorismos ou a escolhas baseadas em critérios não objectivos
(como relações de amizade, etc.). Em quarto lugar, o concurso público com
base em critérios objectivos e procedimentos transparentes, que constituirá o
sistema mais capaz de assegurar um recrutamento de magistrados fundado
exclusivamente no mérito e nas competências profissionais dos novos
magistrados.

aferir a capacidade técnica do candidato, mas não fazer nenhuma incursão quanto às
capacidades pessoais e sociais e de idoneidade do candidato.
51
A eleição surgiu no século XIX nos EUA, em que o candidato podia ter ou não o suporte
partidário de determinado partido. A partir dos anos 40 do século XX tal método começou a ser
substituído por comissões judiciais de nomeação, ainda que alguns estados ainda requeiram
eleições regulares de confirmação após período experimental de exercício de funções.
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 45

2. O recrutamento de magistrados na Europa: os sistemas de selecção


pela experiência profissional, nomeação após estágio profissional,
formação universitária seguida de estágio e exame de Estado, e
concurso público para formação inicial de magistrados

Na primeira secção deste capítulo, reflectimos sobre os modelos de


recrutamento de magistrados numa perspectiva teórico-analítica, pelo que
passaremos, agora, a analisar, através do estudo comparado da legislação
vigente e das experiências de cada país, os sistemas de recrutamento em
quinze países da Europa, a saber: Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca,
Espanha, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Inglaterra e País de Gales, Itália,
Luxemburgo, Noruega, Portugal e Suécia. Os regimes vigentes nestes países
podem agrupar-se em quatro modelos: os sistemas de selecção pela
experiência profissional, nomeação após estágio profissional, formação
universitária seguida de estágio e exame de Estado, e concurso público para
formação inicial de magistrados.

2.1. O modelo de recrutamento de magistrados através de


candidatos com experiência profissional anterior (Inglaterra e
País de Gales, Noruega e Finlândia)

2.1.1. Inglaterra e País de Gales52

Em Inglaterra e País de Gales o acesso à magistratura não se dá por


meio de concurso, mas sim através de nomeação de juristas com experiência,
competindo à Judicial Appointments Commission (JAC) proceder às
nomeações. Até 2006 (antes da entrada em vigor do Constitutional Reform Act
2005) cabia ao Lord Chancellor fazer a sua escolha, após recomendação de
vários comités consultivos locais, tendo em conta a personalidade dos
candidatos e a necessidade de assegurar representatividade das diferentes
realidades locais e sociais. A partir do Constitutional Reform Act 2005, entrado

52
Vide www.dca.gov.uk/judges.appointments.htm ou www.judicialappointments.gov.uk
(Setembro/Outubro 2006).
46 O recrutamento de magistrados na União Europeia

em vigor em Abril de 2006, o processo de recrutamento e selecção de novos


juízes compete à JAC (composta de 15 Commissioners, provindos do sistema
judiciário, de profissões forenses, tribunais, juízos de paz e da sociedade civil),
se bem que o Lord Chancellor, até Outubro de 2006, continuou,
temporariamente, a ter essa tarefa.

As nomeações nos High Courts fazem-se através de convite, sendo um


dos requisitos a ter em conta que a pessoa em questão tenha 10 anos de
advocacia ou 2 anos enquanto juiz itinerante.

Os candidatos a nomear devem ser de nacionalidade inglesa, irlandesa


ou de um país da Commonwealth. O critério de selecção baseia-se na
integridade dos candidatos, nos seus conhecimentos jurídicos e nas suas
qualidades pessoais. A JAC selecciona os candidatos com base no seu mérito
e fazendo uso dos princípios de transparência e imparcialidade.

Num discurso de 20 de Setembro de 200653, a Baroness Prashar,


Commissioner da JAC, explica quais as diferenças em relação ao anterior
sistema e como se processa o actual modelo de recrutamento. Deste modo, as
responsabilidades da JAC são as de seleccionar os candidatos com base no
seu mérito e idoneidade de carácter, devendo encorajar uma magistratura mais
diversificada. Após a selecção, faz a recomendação ao Lord Chancellor, que
pode rejeitar, mas que deve fundamentar a sua decisão.

Actualmente, a JAC só intervém depois de os tribunais terem identificado


a necessidade de novos juízes, período após o qual lhe é requerido que inicie o
processo de selecção.

Este processo, implementado a partir de 31 de Outubro de 2006, é


baseado no mérito do candidato, tendo em consideração cinco qualidades
fundamentais, justificadas através de catorze indicadores de competência. As
qualidades consideradas são as seguintes: a) capacidade intelectual (aferida
através da experiência, capacidade de análise e de raciocínio, bons
conhecimentos jurídicos); b) capacidade pessoal (integridade e abertura de

53
www.judicialappointments.gov.uk/docs/JSBcontination200906.pdf (Outubro 2006).
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 47

espírito, boa capacidade de decisão, objectividade, capacidade de


aprendizagem e desenvolvimento profissional); c) sensibilidade e capacidade
de relacionamento; d) autoridade e competências comunicacionais; e)
eficiência (capacidade para trabalhar sobre pressão e organização do
trabalho).

Os candidatos terão de suportar o seu requerimento de candidatura


através de referees (entre 3 a 6), que terão de preencher um formulário,
disponível on-line. Os candidatos serão entrevistados ou terão de participar em
painéis de discussão, podendo, ainda, participar em simulações; terão, ainda,
de efectuar testes54. Em regra, os candidatos seleccionados são nomeados
juízes a tempo parcial, exercendo as suas funções por períodos de vinte
dias/ano, continuando, a par disso, a exercer a função de advogados. Após um
período de vários anos, são nomeados juízes a tempo inteiro.

Quanto aos magistrados do Ministério Público (Crown Prossecution


Service – CPS), o recrutamento faz-se a dois níveis: as pessoas com o título de
barrister ou de solicitor podem aceder directamente às funções, após
entrevista; as pessoas que ainda não tenham esse título são recrutadas
enquanto juristas estagiárias, após prova (caso prático) e entrevista. Os
requisitos considerados para selecção são os conhecimentos jurídicos e as
qualidades pessoais. Só os juristas estagiários devem seguir um estágio (de
um ano, se forem como aprendiz de barrister e de dois anos, caso seja para
solicitor), sendo a formação organizada pelo CPS.

2.1.2. Noruega

Na Noruega, o sistema de recrutamento de novos magistrados é feito


através de nomeação pelo Rei, ainda que seja competência do Ministério da
Justiça a avaliação do processo. Exige-se que os candidatos, sejam
licenciados em direito, tenham pelo menos experiência profissional de dez anos
(são, normalmente, advogados). Para além da experiência profissional

54
A JAC terá, antes do Natal, o programa para os District Judge.
48 O recrutamento de magistrados na União Europeia

qualificada, exige-se ainda que os candidatos saibam as duas línguas oficiais


da Noruega e que tenham o seu registo criminal sem qualquer condenação.

Apesar de não existirem testes de admissão, o Ministério da Justiça pode


sujeitar os candidatos a uma entrevista, de forma a avaliar as suas
competências.

2.1.3. Finlândia

Na Finlândia os candidatos devem ter, para além do requisito de


nacionalidade, licenciatura em direito e demonstrar ter capacidades
profissionais e pessoais para exercer a função, atestadas por experiência
profissional em Tribunal ou outra. Para entrar no Ministério Público, deve ainda
atestar experiência/familiaridade com o trabalho de procurador ou de juiz. Não
existindo exame formal de acesso, o candidato deve demonstrar o seu
interesse pela nomeação para uma das vagas publicadas em jornal oficial.

Não é requerida, assim, formação específica para a nomeação, pelo que


a forma corrente de aceder à função é através da experiência adquirida como
funcionário judicial, como referendário num tribunal de recurso ou pela
obtenção de nomeação provisória de juiz. Após a nomeação, o estagiário
efectua vários estágios, durante o período mínimo de um ano.

Compete à comissão de nomeações judiciárias (Tuomarinvalintalautakunta) a


avaliação dos candidatos, transmitindo o seu parecer ao governo, para que
este transmita a informação ao Presidente da República, que é quem nomeia
os magistrados vitaliciamente (ainda que a idade da reforma esteja fixada nos
67 anos). Esta comissão é constituída por um período de cinco anos e o seu
presidente é o membro designado pelo Tribunal Supremo de Justiça, enquanto
que o membro designado pelo Tribunal Supremo Administrativo é o vice-
presidente. É, ainda, composta pelos seguintes membros: um presidente de
tribunal de recurso, um juiz-principal de tribunal administrativo, um juiz-principal
de um tribunal de círculo, um juiz de tribunal de recurso, um juiz de um tribunal
de círculo, dois juízes de tribunal administrativo, um advogado, um procurador
e um docente universitário (todos os membros devem ter os seus próprios
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 49

substitutos).

2.1.4. O modelo de recrutamento de magistrados através de


candidatos com experiência profissional anterior - Quadro
síntese

A concluir a análise deste modelo, as suas características podem ser


sintetizadas do modo efectuado no quadro 1.

Quadro 1
O modelo de recrutamento de magistrados entre pessoas com experiência profissional
(Inglaterra e País de Gales, Noruega e Finlândia)
Variável
Requisitos Processo de selecção Observações
País
Compete à Judicial
Advogados com Appointments Commission
Constitutional Reform
experiência (10-15 anos); a selecção, baseada no
Inglaterra e Act 2005 veio alterar
nacionalidade inglesa, mérito, integridade,
País de Gales o processo de
irlandesa ou de um país conhecimentos jurídicos e
selecção
da Commonwealth qualidades pessoais; Lord
Chancellor nomeia
Licenciados em direito Ainda que não
com experiência existam testes de
Ministro da Justiça avalia o
Noruega profissional (10 anos); admissão, Ministro
processo e Rei nomeia
conhecimento das pode entrevistar
línguas oficiais candidatos
Licenciatura em direito; Candidato deve demonstrar
Experiência adquirida
Nacionalidade finlandesa; interesse pela nomeação
Finlândia como funcionário
capacidades pessoais e para a vaga; cabe ao
Recrutamento judicial, referendário
profissionais atestadas Presidente da República
comum para num tribunal de
por experiência proceder à nomeação após
Juiz e MP recurso ou nomeação
profissional em tribunal parecer da Comissão de
provisória de juiz
ou outra Nomeações Judiciárias
Fonte: OPJ

2.2. O modelo de recrutamento de magistrados através de


candidatos que frequentam estágios profissionais

2.2.1. Luxemburgo

Para obter uma nomeação como magistrado são necessários os


requisitos de nacionalidade luxemburguesa e do conhecimento das três línguas
administrativas do país, bem como a posse dos direitos civis e políticos. Para
50 O recrutamento de magistrados na União Europeia

além destes, é necessário ter licenciatura em direito (e cursos complementares


em direito luxemburguês), devendo o candidato possuir o diploma de exame de
fim de estágio judiciário (exame que tem lugar perante uma comissão
composta por magistrados e advogados), que tem a duração de dois anos e
que deve ser efectuado, obrigatoriamente, junto de um advogado.

A nomeação como magistrado-estagiário é feita através de decreto do


Grã-Duque, a título provisório e por um período probatório de um ano, após o
qual se dá a nomeação a título definitivo (em função, também, das vagas
existentes). As vagas para magistrados são comunicadas internamente, nos
tribunais e serviços do Ministério Público onde estão como estagiários, aí
podendo apresentar candidatura ao Procurador-Geral do Estado.

2.2.2. Dinamarca

Na Dinamarca é à Rainha que compete nomear os novos magistrados,


sob recomendação do Ministro da Justiça e do Conselho Judicial de
Nomeações. Este conselho, cujo mandato tem a duração de quatro anos, é
composto pelos seguintes membros: um juiz do Supremo Tribunal de Justiça,
um juiz de um tribunal superior, um juiz de um tribunal de círculo, um advogado
e dois membros designados pela sociedade civil.

Os candidatos devem ser licenciados em direito e ter a nacionalidade


dinamarquesa (devendo ter conhecimento das duas línguas oficiais da
Dinamarca). Para além da licenciatura, devem ter trabalhado durante um
período de nove meses num Tribunal Superior, não só para se familiarizarem
com a função, mas também com o comité de selecção.

Duas vezes por ano há a publicação, em jornal oficial, das vagas


existentes nos tribunais, dando origem a cerca de 150 candidaturas anuais.
Desses processos apenas 60 são seleccionados para entrevista. Cabe, então,
ao Conselho a avaliação dos candidatos, com base nessa entrevista, nos
diplomas universitários e em todas as informações e elementos relativos a
experiência profissional anterior (bem como referências apresentadas pelos
candidatos), já que não existe prova formal de acesso. Após a avaliação são
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 51

recrutados, anualmente, cerca de 30 candidatos.

Há, então, lugar a nomeação temporária como juiz-suplente durante um


período que varia entre 9 a 12 anos. Pode haver, depois, solicitação para
exercer a função de juiz-auxiliar e só depois de algum tempo nessa posição é
que pode haver solicitação para a nomeação a título definitivo.

2.2.3. Suécia

Na Suécia os juízes são nomeados pelo Governo. Os candidatos


necessitam ser licenciados em direito e, após a formação universitária, seguem
uma carreira profissional, começando a trabalhar como funcionário num tribunal
de comarca ou num tribunal administrativo de primeira instância, onde estão
durante dois anos. Depois deste período, trabalham como funcionários num
Tribunal de recurso ou num tribunal administrativo de recurso e, ao fim de um
ano, regressam ao tribunal de ingresso, para um período de mais dois anos,
mas já como magistrado-estagiário. Segue-se, depois, um ano de serviço num
Tribunal de recurso ou num tribunal administrativo de recurso, período durante
o qual deve optar pela magistratura judicial. Após este período probatório, é
nomeado juiz-adjunto, mas não juiz-efectivo, o que só acontece após um
período de oito anos.

2.2.4. O modelo de recrutamento de magistrados através de


candidatos que frequentam estágios profissionais -
Quadro-síntese

A terminar a análise deste sistema sintetizamos as suas características do


modo constante do quadro infra (quadro 2).
52 O recrutamento de magistrados na União Europeia

Quadro 2
O modelo de recrutamento de magistrados após estágio profissional
(Dinamarca, Suécia e Luxemburgo)
Variável
Requisitos Processo de selecção Observações
País
Avaliação dos candidatos com
Licenciatura em direito +
base em entrevista e diploma
estágio (9 meses) em Conselho avalia
universitário; Rainha nomeia
tribunal superior; com base em
Dinamarca novos magistrados, sob
nacionalidade dinamarquesa entrevista e
recomendação do Ministro da
e conhecimento de línguas diplomas
Justiça e do Conselho Judicial
oficiais
de Nomeações
Licenciatura em direito + Nomeação pelo Governo.
carreira profissional em A nomeação como juiz
Suécia
Tribunal; Nacionalidade efectivo só se dá após período
sueca probatório (8 anos)
Licenciatura em direito (e
cursos de direito
luxemburguês) + exame de Grã-Duque nomeia como Vagas
Luxemburgo fim de estágio de advocacia; magistrado-estagiário (período comunicadas
Nacionalidade; direitos civis probatório de 1 ano ) internamente
e políticos; conhecimento
das línguas oficiais
Fonte: OPJ

2.3. O modelo de recrutamento após formação universitária, seguida


de exames de Estado e estágio (Alemanha e Áustria)

2.3.1. Alemanha

Na Alemanha, o recrutamento de novos magistrados faz-se por meio de


nomeação e não existe concurso (aliás, o concurso é visto como
inconstitucional). Os requisitos exigidos são: nacionalidade alemã, ter
personalidade idónea e fiável e capacidade para exercer a função.

Os candidatos têm de completar a formação universitária em direito e


fazer o primeiro exame de Estado. Depois, devem efectuar formação
preparatória de dois anos, comum a todas as profissões jurídicas e que
compreende estágios em jurisdição civil e penal, no Ministério Público, junto de
autoridade administrativa e de advogado. No final, há lugar ao segundo exame
de Estado (que compreende provas escritas e orais e tem uma duração de
cerca de seis meses).

O recrutamento de magistrados é feito por cada um dos Länder, sendo a


O Recrutamento e a Formação de Magistrados 53

nomeação feita pelo comité de selecção do tribunal onde o magistrado vai


exercer funções (que é composto pelo ministro da justiça do respectivo Länd e
por membros da Câmara Federal ou que tenham sido eleitos pelo Parlamento
para o efeito), e que tem em conta, sobretudo, a nota do segundo exame de
Estado.

Após a nomeação, existe um período probatório, que pode variar entre os


três e os cinco anos, e, durante os dois primeiros anos, há uma avaliação de
seis em seis meses, cujo parecer, efectuado pelo presidente do Tribunal de
Recurso, pode resultar em dispensa que não precisa de ser justificada, sendo
que, a partir do terceiro ano, apenas pode haver dispensa por inaptidão.
Durante este período, o novo magistrado exerce quase todas as funções e tem
o mesmo tratamento de um magistrado nomeado definitivamente, mas ainda
não ocupa um posto definitivo numa jurisdição determinada. Após o período
probatório, a nomeação é definitiva e vitalícia.

2.3.2. Áustria

Para poder exercer a função de magistrado (bem como a de advogado ou


de notário) é necessário obter formação jurídica, formação essa que segue
uma vertente eminentemente prática e que é composta por dois ciclos, cada
um com o seu próprio diploma. Para além do mais, é necessário preencher os
requisitos formais, como nacionalidade, ser legalmente capaz e ter boas
qualidades pessoais, intelectuais e físicas (e ter bons conhecimentos de língua
alemã). Os candidatos devem, ainda, efectuar nove meses de estágio numa
jurisdição.

Os candidatos interessados devem prestar provas em direito civil e penal,


sendo ainda submetidos a testes de aptidão psicológica (para testar os traços
de personalidade, a capacidade decisória, as aptidões comunicacionais, entre
outras), perante uma comissão composta por cinco membros: presidente do
Tribunal de recurso, três juízes e um advogado. Cabe ao Ministro da Justiça
designar as pessoas seleccionadas, mediante proposição dos presidentes dos
tribunais regionais superiores, que serão integrados no serviço de preparação
54 O recrutamento de magistrados na União Europeia

judiciária (com duração de quatro anos). São admitidos, anualmente, cerca de


230 candidatos.

Após este período de preparação, e logo que haja o anúncio de vagas,


pode ser apresentada a candidatura às mesmas. Com base na apreciação da
candidatura apresentada, tendo sobretudo em conta o mérito, a qualidade e a
antiguidade dos candidatos, é o Ministro Federal da Justiça quem faz a
nomeação dos novos magistrados (por delegação do Presidente Federal).

Quadro 3
O modelo de recrutamento com base na formação universitária, exame de Estado e
estágio (Alemanha e Áustria)
Variável
Requisitos Processo de Selecção Observações
País
Exames de Estado organizados
Nacionalidade alemã, pelos Lander e os melhores
Alemanha Ciclo de formação
personalidade idónea e classificados nos exames são
comum para
capacidade para a nomeados pelo conselho de
Recrutamento todas a
função; formação teórica nomeação do tribunal onde o
comum para profissões
e prática, seguida dos candidato vai exercer funções.
Juiz e MP jurídicas
Exames de Estado Segue-se período probatório (3 a
5 anos) e nomeação definitiva
Licenciatura em direito +
Áustria estágio (9 meses);
Ministro da Justiça designa
nacionalidade; possuir
melhores candidatos, mediante
Recrutamento todas as capacidades;
proposição dos presidentes do
comum para boas qualidades
tribunal regional superior
Juiz e MP intelectuais, pessoais e
físicas
Fonte: OPJ

2.4. O modelo dominante de recrutamento de magistrados por


concurso público para formação inicial (França, Holanda,
Espanha, Portugal, Grécia, Itália e Bélgica)

2.4.1. França

Existem, em França, duas vias de acesso à magistratura, seja por


concurso, seja por acesso directo. Os concursos são organizados anualmente
e os candidatos devem possuir os requisitos formais necessários, como a
nacionalidade francesa, posse de todos os direitos cívicos, boa moral, posição
regular no que respeita ao serviço militar e boas condições de aptidão física. O
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 55

recrutamento é comum a ambas as magistraturas, fazendo-se a opção apenas


no final da primeira fase de formação inicial junto da École Nationale de la
Magistrature (ENM).

Todavia, em França, os candidatos não têm de possuir licenciatura em


direito, mas têm de ter diploma universitário (4 anos após obtenção do
baccalauréat) ou um diploma do Institut d’Études Politiques ou ter formação da
École Normale Supérieure. Devem, ainda, possuir bons conhecimentos
jurídicos, sobretudo em matéria civil, penal e de direito público.

A ENM organiza, anualmente, três concursos de recrutamento. O primeiro


concurso ou concurso externo, que continua a ser a principal via de acesso à
magistratura, destina-se aos titulares de um diploma, com idade até 27 anos,
cuja formação tenha sido de, pelo menos, quatro anos. O segundo concurso,
ou concurso interno, está reservado aos funcionários com pelo menos 4 anos
de serviço e com idade até 40 anos. O terceiro concurso (instituído pela Lei
Orgânica de 1992) está reservado aos candidatos com pelo menos 8 anos de
actividade profissional e com idade até 40 anos. As provas do primeiro e
segundo concursos são essencialmente teóricas, ao contrário das do terceiro
concurso.

Para além dos referidos concursos encontra-se prevista, ainda, a


selecção ‘sur titres’, na qual só podem ser seleccionados um número de
candidatos inferior ao limite de 20% do número de auditores de justiça
recrutados por concurso. Este tipo de selecção dirige-se a interessados com
mais de 27 anos e menos de 40 anos, titulares de licenciatura em direito e com
experiência profissional (nas áreas jurídica, económica ou social) com uma
duração mínima de 3 ou 4 anos, dependendo das funções exercidas. A
duração da sua formação é reduzida a 27 meses.

Existem em França cerca de 5500 magistrados judiciais, sendo que a


maior parte deles seguiu a formação da ENM, enquanto auditores de justiça,
tendo os restantes sido recrutados ‘sur titres’. Dos 335 novos magistrados
nomeados em 2005, 80% deles provinha do primeiro concurso e dos 289
auditores recrutados em 2006, 224 (ou seja, mais de ¾) foram admitidos,
56 O recrutamento de magistrados na União Europeia

também, através do primeiro concurso55.

A comissão de recrutamento

O recrutamento de magistrados em França é da responsabilidade de uma


comissão (a comissão de recrutamento) que é composta pelos seguintes
membros: presidente do Tribunal Supremo (que é o presidente da comissão),
Procurador-geral junto do Tribunal Supremo, o inspector-geral dos serviços
judiciários, dois magistrados do Tribunal Supremo, um magistrado judicial, um
magistrado do Ministério Público, dois presidentes e dois procuradores - gerais
junto do Tribunal de Recurso, que são eleitos pelos seus pares, e dez
magistrados do corpo judiciário eleitos pelo conjunto dos magistrados. O
mandato tem a duração de três anos.

As provas

Relativamente às provas dos três concursos, estas dividem-se em provas


escritas de admissibilidade e em provas orais de admissão. As provas de
admissibilidade são as seguintes: redacção de uma composição sobre tema
ligado a aspectos sociais, jurídicos, políticos e culturais da actualidade (5
horas); redacção de dissertação (5 horas) sobre um assunto de direito civil (ou,
no caso do terceiro concurso, uma série de perguntas de resposta curta sobre
direito civil); dissertação (5 horas) sobre assunto em direito penal ou em direito
público e europeu (consoante a escolha do candidato; no caso do terceiro
concurso, os candidatos terão de elaborar um estudo jurídico, a partir de
documentos jurídicos, sobre as matérias jurídicas referenciadas); elaboração
de nota de síntese a partir de documentos relacionados com questões jurídicas
(5 horas).

55
Claude Hanoteau, da ENM, tipifica o perfil do auditor de justiça como o de uma ‘jovem
auditora’, que é seleccionada através do primeiro concurso de acesso, após ter seguido uma
formação de preparação no Institut d’Études Judiciaires, tem um diploma de terceiro ciclo, é
originária da região parisiense e tem cerca de 23 anos. Para mais informações, consultar o
Rapport d’information nº. 345 de 2001/2002, por Christian Cointat, em
http://www.senat.fr/rap/r01-345.html.
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 57

Já as provas de admissão consistem em: discussão (30 minutos) com o


júri sobre tema ligado a aspectos sociais, jurídicos, políticos e culturais da
actualidade ou comentário de texto de carácter geral, à escolha do candidato,
que dispõe de uma hora para preparar a prova (relativamente ao terceiro
concurso, tratar-se-á de uma conversa com o júri para que este possa apreciar
a abertura de espírito do candidato, bem como a avaliação que este faz das
actividades exercidas anteriormente); questionário (15 minutos) sobre as
matérias que o candidato não tratou aquando da terceira prova escrita;
questionário (15 minutos) sobre direito comercial ou direito administrativo
(consoante a escolha do candidato); questionário (15 minutos) sobre
organização judiciária e a jurisdição administrativa, processo penal, processo
civil e processo administrativo; questionário (15 minutos) sobre direito social;
prova oral de língua estrangeira, consistindo na tradução de um texto e
conversação, com duração de 30 minutos; prova de exercício físico, cujas
modalidades são fixadas por portaria do ministério da justiça (serão
dispensados desta prova, pelo presidente do júri, os candidatos declarados
inaptos pela comissão médica, atribuindo-se-lhes uma nota igual à média do
conjunto de notas obtidas, após a aplicação dos coeficientes).

O recrutamento de candidatos com experiência

Apesar do recrutamento de pessoas com experiência poder ser feito


através de concurso ou “sur titres”, a Lei orgânica de 2001 criou o concurso
complementar destinado ao recrutamento de magistrados de primeiro e
segundo grau, isto é, que ocupam os postos de princípio de carreira ou os
postos mais elevados na hierarquia. O concurso para o segundo grau destina-
se a pessoas com, pelo menos, 35 anos e que justifiquem 10 anos de
actividade profissional nas áreas jurídica, administrativa, económica ou social.
Para o primeiro grau será necessário ter, pelo menos, 50 anos e justificar 15
anos de actividade profissional, nas áreas já mencionadas. O número de vagas
está limitado a 20% das nomeações referentes ao segundo grau e a 10% das
promoções relativas ao primeiro grau. Os candidatos admitidos seguem uma
58 O recrutamento de magistrados na União Europeia

formação de 1 mês na ENM antes de fazerem um estágio de 5 meses em


jurisdição.

A Lei orgânica de 1992 permitiu a integração directa, ao nível do segundo


e primeiro graus, de pessoas com pelo menos 35 anos, que reúnam as
condições exigidas para o primeiro concurso e justifiquem uma actividade
profissional que as habilite para o exercício das funções judiciárias, de 7 ou 17
anos, consoante o grau a que se candidatam. A aptidão dos interessados é
aferida por uma comissão composta por magistrados e presidida pelo
presidente do Cour de Cassation. Nos casos em que haja dúvidas, os
candidatos podem ser submetidos a um estágio de probatório de 6 meses.

A nomeação

A nomeação dos magistrados é feita pelo Presidente da República, com


base em parecer do Conselho Superior da Magistratura.

Em Outubro de 2006 foi apresentado um Projecto de Lei Orgânica relativo


à formação e responsabilidade dos magistrados56;57, surgido no seguimento do
Affaire d’Outreau. Assim, este projecto de lei vem criar uma formação
probatória para os principais modos de recrutamento por via paralela (concurso
complementar, integração directa e nomeação a título temporário), formação
essa que permita apreciar as qualidades do candidato, organizada pela ENM e
compreendendo um estágio em jurisdição antes de ser estatuído o
recrutamento.

56
Para mais informações, consultar http://www.assemblee-nationale.fr/projets/pl3391.asp
(Novembro 2006).
57
“Uma Justiça em “xeque”: Breve análise do ‘Affaire d’Outreau’”, in
http://cedes.iuperj.br/PDF/06julho/uma%20justica%20em%20cheque.pdf (Novembro 2006).
“Uma das críticas feitas sobre o Caso de Outreau é de que o Juiz que conduziu as
investigações era recém-saído da ENM e não tinha experiência para dirigir um caso criminal
tão sensível”.
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 59

2.4.2. Holanda

No sistema holandês existem duas vias de recrutamento: uma, através de


um sistema de formação dirigido a jovens licenciados e outra, através de um
recrutamento via concurso externo. O recrutamento e selecção de novos
magistrados estão a cargo do Conselho Judiciário holandês, sendo o
recrutamento comum para ambas as magistraturas (bem como a sua
formação). Actualmente, em razão da falta de candidatos, a maior parte dos
novos juízes é recrutada através da segunda via.

O recrutamento de jovens licenciados

No caso do recrutamento dirigido a jovens licenciados, os candidatos à


formação são recém licenciados por faculdades holandesas, constituindo
requisitos de acesso, para além da licenciatura em Direito, bom comportamento
social e a nacionalidade holandesa. Até 2000 havia requisito de idade (que
teria de ser, neste caso, inferior a 30 anos), mas este foi suprimido.

O Ministro da Justiça determina, anualmente, o número de vagas a


preencher. O período de selecção dura cerca de oito semanas, terminando três
meses antes do início do curso de formação inicial na Stichting Studiecentrum
Rechtspleging (SSR).

A pré-selecção destes candidatos inicia-se com uma carta de motivação


para o concurso e os candidatos seleccionados são submetidos a testes
psicológicos para avaliar a sua personalidade, carácter, aptidões analíticas e
intelectuais, a atitude face ao trabalho e ao stress. Estes testes são realizados
por uma equipa de consultores externos.

Depois da realização daqueles testes é que se inicia o processo de


selecção propriamente dito. Os cem melhores candidatos são submetidos a um
segundo teste psicológico mais específico (teste de personalidade) e realizam
uma entrevista perante uma comissão de selecção.
60 O recrutamento de magistrados na União Europeia

A comissão de selecção de jovens licenciados (Comissão RAIO)

Esta comissão (composta de vinte membros) é constituída por juízes,


procuradores, funcionários do Ministério da Justiça e representantes da
sociedade civil com larga experiência profissional58. A comissão confronta a
sua opinião acerca do candidato com o resultado do último teste psicológico,
que será apenas valorado caso a comissão tenha dúvidas acerca do candidato.

A avaliação

Os elementos a ter em conta na avaliação são os seguintes: motivação,


do candidato, capacidades jurídicas, consciência social, sentido de
solidariedade, atitude perante o trabalho, maturidade e equilíbrio pessoal. A
cada um destes elementos é atribuída uma pontuação.

Assim, o processo de selecção compreende 6 fases: a) avaliação das


exigências formais, como licenciatura em direito, “bem como ser o candidato
respeitador dos bons costumes”; b) teste analítico/cognitivo, realizado por uma
comissão de avaliação psicológica; c) entrevista pessoal com um membro da
comissão de selecção e um psicólogo, na qual são avaliadas as capacidades
de expressão oral, a prestação e o equilíbrio do candidato; d) avaliação, escrita
e oral, da personalidade; e) entrevista, em que são testados os conhecimentos
jurídicos, a motivação e o compromisso social; f) entrevista final, em que são
examinados a posição jurídica e o local de estabelecimento do candidato.

A nomeação e o período probatório

A comissão elege os melhores candidatos e recomenda-os ao Ministro da


Justiça, que os nomeia com o estatuto de assistentes judiciários (RAIO) em
formação para frequentar um programa de formação de seis anos de duração,
na SSR. No final desta formação, os auditores de justiça são nomeados
magistrados adjuntos ou substitutos do procurador, por um período de um ano,

58
Podem ser, por exemplo, jornalistas, advogados ou professores universitários.
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 61

durante o qual exercem funções sob controlo de um magistrado experiente.


Após este período probatório são avaliados e, em caso de avaliação positiva,
são nomeados vitaliciamente.

O concurso externo (candidatos com experiência)

Os requisitos para admissão ao concurso são os seguintes: ter


licenciatura em Direito; ter pelo menos seis anos de experiência profissional no
exercício de uma profissão jurídica, designadamente como advogado, jurista a
trabalhar no departamento jurídico de uma empresa ou como professor
universitário; nacionalidade holandesa; bom comportamento e menos de 50
anos de idade (mais de 30 anos, para a função de juiz ou mais de 35 anos,
para a função de conselheiro). O processo de candidatura, que tem carácter
espontâneo, deve ser composto de três cartas de recomendação.

Os candidatos com experiência recrutados por esta via, para além de


terem de demonstrar que têm uma vasta experiência social, boas capacidades
intelectuais e serem pessoas de trato fácil, sendo-lhes avaliados, mediante
uma série de entrevistas com a comissão de selecção, a capacidade de
decisão, o equilíbrio pessoal e a facilidade de trabalhar em equipa, deverão,
ainda, fazer exame em três de cinco áreas (direito e processo civil, direito e
processo penal, direito e processo administrativo, direito público e direito fiscal).

A comissão de avaliação de candidatos com experiência

Os candidatos com mais de 30 e menos de 50 anos já com experiência


profissional são avaliados por uma comissão constituída por juízes,
procuradores, representantes do Ministério da Justiça, um advogado de
prestígio e um professor de Direito, composta de sessenta membros que são
nomeados pelo Ministro da Justiça. Dado que se trata de candidatos com larga
experiência jurídica, a selecção concentra-se na avaliação das capacidades
para o exercício das funções de magistrado.
62 O recrutamento de magistrados na União Europeia

A nomeação e o período probatório

Os candidatos aprovados no concurso externo são, em regra, afectados


imediatamente à função. São nomeados juízes-adjuntos ou
procuradores-substitutos por um período de um ano, durante o qual exercem
funções sob supervisão de um magistrado experiente. Podem ainda, junto da
SSR, assistir a cursos periódicos. No final do período mencionado são
avaliados e, se a avaliação for positiva, o Tribunal comunicará ao Ministério da
Justiça a sua proposta de nomeação definitiva.

Recrutamento de funcionários judiciais

Há, ainda, uma terceira via de recrutamento, que se destina aos


funcionários do Ministério Público ou judiciais, colaboradores estratégicos ou
funcionários públicos de determinado índice salarial, com experiência
profissional de 4 anos e licenciatura em direito, podendo estes candidatar-se à
função nos tribunais de polícia. Para tal, é necessário obter parecer favorável
dos seus superiores e, havendo admissão, há lugar a três entrevistas (mas não
existe exame psicológico).

2.4.3. Espanha59

Em Espanha, para aceder à carreira judicial é indispensável ter aprovação


num concurso de acesso, para o qual é necessário reunir vários requisitos,
entre os quais o da nacionalidade espanhola, idade entre os 18 e os 70 anos,
posse das capacidades físicas necessárias ao bom exercício da função e
licenciatura em direito. Este concurso de acesso destina-se a candidatos com
ou sem experiência profissional, que deverão, assim, efectuar as mesmas
provas (nos termos da Lei Orgânica 19/2003).

O recrutamento de juízes e de procuradores era, até 2000, feito através

59
Para mais informações, vide www.poderjudicial.es e www.cej.justicia.es (Setembro/Outubro
2006).
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 63

de concursos distintos, pertencendo, também, a entidades diferentes: Consejo


General del Poder Judicial (CGPJ) e Ministério da Justiça, respectivamente. A
partir da Ley Orgânica 9/2000, a convocatória para o acesso à magistratura,
tanto judicial como do Ministério Público (Fiscal), é feita através de concurso
único e a opção por uma ou outra das magistraturas faz-se mediante o número
de pontos obtido.

A comissão de selecção

A comissão de selecção é constituída pelos seguintes membros, todos


eles designados por um período de quatro anos: um vogal do CGPJ e um
Fiscal de Sala, que presidem a comissão por períodos anuais alternados, um
Magistrado60, um procurador, o Director da Escuela Judicial, o Director do
Centro de Estudios Jurídicos de la Administración de la Justicia, e um membro
dos órgãos técnicos do CGPJ, bem como um funcionário do Ministério da
Justiça (com o nível mínimo de Sub-director), ambos licenciados em direito (e
que têm as funções de secretários da comissão).

As provas

O concurso compreende três provas, todas elas de carácter teórico e com


carácter eliminatório. São elas: exercício escrito de 100 perguntas sobre teoria
geral e direito constitucional, direito civil e direito penal; primeiro exercício oral,
que consiste numa exposição de 75 minutos sobre cinco temas nas mesmas
matérias que o exercício escrito; e o segundo exercício oral, que consiste numa
exposição de cinco assuntos jurídicos em 75 minutos, sobre processo civil,
processo penal, direito comercial e direito administrativo e do trabalho.

60
A função de Magistrado é diferente da função de Juez.
64 O recrutamento de magistrados na União Europeia

O recrutamento de candidatos com experiência

Existe, ainda, uma outra via de acesso, reservada aos juristas que
tenham, pelo menos, 6 anos de experiência profissional numa profissão
jurídica, que poderão ser admitidos à função de Magistrado (exerce funções
judiciais a um nível superior ao do Juez) com base no seu mérito ou após um
teste comparativo. Os juristas com mais de 10 anos de experiência profissional
podem aceder directamente, sem necessidade de formação.

A nomeação

A nomeação como magistrado judicial faz-se através de decreto do


CGPJ, enquanto que a nomeação dos magistrados do Ministério Público é feita
pelo Rei.
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 65

2.4.4. Portugal61

61
As associações sindicais de Juízes e de Magistrados do M.P., em Portugal, como resulta da
análise dos seus textos mais recentes, não se encontram em sintonia sobre os caminhos a
seguir no recrutamento e formação de magistrados.
O texto mais recente publicado no site da ASJP é o do seu vice-presidente, Azevedo Mendes,
na qual defende: a) Abandonar o período de espera de dois anos a partir da licenciatura; b) O
ingresso de profissionais do direito ou com outras qualificações, a optar-se por vias
diferenciadas de recrutamento, poderá ser estimulado por compensações várias, mas nunca
deverá dispensar os testes de aptidão ao CEJ, iguais para todos, nem a frequência de
formação igual para todos; c) Impor que a Lei do CEJ enquadre a formação dos juízes dos
TAF, uniformizando-se a formação, seja inicial, seja permanente, numa lógica de tronco
comum de onde sairão os juízes para as jurisdições especializadas; d) Evolução do modelo
para um sistema de formação autónomo para os juízes, com redução ao mínimo indispensável
da formação conjunta; e) A magistratura de opção deverá ser assumida antes do início da
formação; f) O objectivo da cultura judiciária comum, a juízes, procuradores e advogados, deve
ser apoiado pelo CEJ, mas não deve interferir obsessivamente com a organização curricular,
devendo ser mais protagonizado pelas Faculdades de Direito e pelos Conselhos Superiores; g)
Após o ingresso, deve seguir-se um período de formação inicial específica para cada
magistratura, numa primeira fase no CEJ e numa segunda fase nos Tribunais. A fase seguinte,
na qual os auditores são nomeados magistrados em estágio, deverá assumir feição de período
experimental, devendo ponderar-se o seu prolongamento para permitir avaliação segura sobre
a adequação à função; h) Na fase de estágio, os Conselhos deverão ter maior papel na
avaliação dos candidatos, e devem poder recusar a nomeação em caso de evidente inaptidão;
i) Deverá haver um quadro orgânico estimulador, responsabilizante e integrado para os juízes
formadores, assegurando-lhes formação, definição clara de objectivos, tempo para as
actividades na formação e comunicação facilitada com todo o sistema. j) Deverá introduzir-se
uma única fase de formação contínua, para actualização e especialização, coordenada com os
Conselhos. O Estatuto dos Magistrados Judiciais deverá integrá-la no acesso preferencial aos
tribunais especializados; l) Devem introduzir-se mecanismos para colmatar rupturas no
preenchimento de vagas em tribunais, permitindo-se a abertura de cursos especiais de
formação específica.
António Cluny, Presidente do SMMP, emitiu em Setembro de 2006 um comunicado
subordinado ao tema “Reforma da Formação de Magistrados e Advogados: sua importância na
reforma da organização judiciária e das carreiras forenses”, na qual propõe ideias e estratégias
base: a) Recriação de uma cultura judiciária comum, que passe pela frequência pelos
candidatos a profissionais do foro de uma fase inicial de aprendizagem conjunta, isto é, um
período de formação que permitisse, depois de um exame de Estado, o ingresso nos estágios
profissionais e um período de ensino e um atestado final, oficial, que servisse de base a uma
futura permeabilização de carreiras e assim ao reforço de uma cultura judiciária comum; b)
Criação de fases de estágio profissional inicial junto de diversos sectores de actividade
judiciária e não judiciária: os candidatos seriam seleccionados para o CEJ no seguimento do
concurso, imediatamente à finalização do curso universitário, mas deveriam frequentar, durante
dois anos, um estágio de advocacia e um estágio exterior à actividade forense. Assim se daria
um conteúdo útil àquela moratória de dois anos, pensada para permitir uma maior maturidade
aos futuros magistrados, mas que, na prática, apenas permitiu afastar os melhores candidatos,
entretanto colocados já no mercado de trabalho, em melhores condições remuneratórias do
que aquelas fornecidas pelo CEJ. c) Repensar a estrutura do curso ministrado no CEJ: que o
curso fosse pensado em módulos independentes, em que uns seriam comuns aos estágios das
duas magistraturas, sendo outros específicos de cada magistratura. Outros, ainda, poderiam
ser optativos. Este possível esquema organizativo possibilitaria, simultaneamente, uma
formação comum e uma formação específica dos candidatos às duas magistraturas. d)
Reestruturação curricular, com quatro vertentes distintas: maior contacto com a jurisprudência
constitucional nacional e estrangeira e bem assim com a jurisprudência dos tribunais
internacionais; conhecimento da jurisprudência comum dos outros países da UE com
66 O recrutamento de magistrados na União Europeia

O procedimento de recrutamento, em Portugal, consta da Secção I do


Capítulo II, do Título III da Lei 16/98, de 8 de Abril. A magistratura judicial e os
magistrados do Ministério Público são recrutados por concurso único (artigo
34º). Este concurso está aberto a cidadãos de nacionalidade portuguesa,
licenciados em direito (e que reúnam os demais requisitos de ingresso na
função pública), cuja obtenção da licenciatura tenha ocorrido, pelo menos, dois
anos antes da abertura do concurso (artigo 33º), e tem lugar uma vez por ano.

A comissão

O concurso decorre perante um júri composto por, pelo menos, 3


membros, dentre personalidades exteriores à estrutura judiciária, nomeados
pelo Ministro da Justiça, e magistrados designados pelos Conselhos
Superiores das magistraturas judicial e do Ministério Público (artigo 37º).

As provas

As provas de admissão (como consta do artigo 38º) fazem-se por meio de


teste de aptidão, que compreende três fases: provas escritas, provas orais e
entrevista. Nos termos do artigo 39º, estão isentos das fases escrita e oral os
doutores em direito, tendo, aliás, preferência sobre os restantes candidatos.

legislação civil, comercial, penal e administrativa semelhante à nossa, mas com modelos de
escrita e tramitação processual mais simplificados e menos burocráticos; leccionação de
matérias não necessariamente jurídicas, mas fundamentais ao desempenho actual dos
magistrados; introdução de matérias ligadas à capacidade e correcção da comunicação e
comportamento com os cidadãos, os outros profissionais do foro e os media; matérias como a
deontologia, como a retórica, as técnicas de simplificação e economia da escrita, a gestão
processual, a comunicação oral, a comunicação e relacionamento com os media, línguas
estrangeiras, etc; e) Reforma da fase de estágios nos Tribunais: deveria ser pensado o estágio
dos futuros magistrados junto de estâncias que, habitualmente, não são escolhidas para esta
fase. Referimo-nos, por exemplo, ao Tribunal Constitucional, ao STJ, ao STA, ao Tribunal de
Contas e à PGR (Conselho Consultivo). Estes períodos de estágio – em trabalho de assessoria
– permitiriam um contacto mais directo com a sua jurisprudência e com a forma de pensar e
decidir os problemas sub judice próprios desses tribunais e órgãos consultivos. f) Projectar a
formação permanente/contínua e especializada como instrumento indispensável de projecção
da carreira e de colocação em áreas de hierarquia e de jurisdições especializadas, no que diz
respeito aos magistrados ou de atestação de especialização na advocacia.
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 67

Por sua vez, os assessores estão isentos da fase escrita62.

A fase escrita (artigo 40º) compreende três provas, a saber: uma


dissertação de cultura geral; um caso prático de direito civil, de direito
comercial e de processo civil; e um caso prático de direito criminal e de direito
processual penal, tendo cada uma delas a duração de 3 horas. Os candidatos
que obtenham 10 valores em 20 a cada uma das provas escritas (de acordo
com o artigo 42º) passam às provas orais.

As provas orais, que são quatro, compreendem temas de: deontologia


profissional, metodologia e sociologia; direito civil e comercial e processual civil;
direito criminal e direito processual penal; direito constitucional, comunitário,
administrativo, direito do trabalho e direito da família e menores (artigo 41º).
Cada prova oral tema a duração máxima de 30 minutos. Para passar à
entrevista é necessário ter 10/20 valores em cada uma das orais. A entrevista
não tem avaliação, mas será eliminatória caso a apreciação não seja favorável.
Do júri da entrevista faz também parte um psicólogo63.

2.4.5. Grécia

Na Grécia, o recrutamento faz-se por meio de concurso, que tem lugar


todos os anos. Para participar é necessário (para além dos requisitos formais,
como a nacionalidade) ter licenciatura em direito e idade entre 27 e 40 anos.

A comissão

O júri do concurso é composto de cinco membros, entre magistrados e


professores universitários.

62
A figura dos assessores foi criada pela Lei n.º 2/98, de 08 de Janeiro. No entanto, esta Lei
não teve a devida implementação.
63
Nos termos do artigo 44º, a classificação final corresponde à média aritmética das
classificações obtidas nas provas da fase oral.
68 O recrutamento de magistrados na União Europeia

As provas

O concurso compõe-se de uma prova escrita de cultura geral, direito


constitucional e administrativo, direito civil e comercial, direito penal e, em
opção, direito comunitário, fiscal ou direito do trabalho; e de uma segunda
prova, também escrita, sobre um caso prático (nas matérias já referidas).
Segue-se, depois, uma prova oral de direito constitucional e de direito
administrativo, direito civil e comercial, direito penal e direitos processuais (civil,
penal, fiscal e administrativo) e uma exposição oral sobre um caso
determinado, cujo objectivo é o de examinar as capacidades de síntese e
análise. Há, ainda, a possibilidade de um exame de língua estrangeira, com
carácter voluntário.

A nomeação

Os candidatos com melhor classificação são admitidos na Escola


Nacional de Magistratura, onde seguirão uma formação inicial. Após a
formação são nomeados magistrados pelo Presidente, sendo a primeira
nomeação sempre ao nível da primeira instância.

O recrutamento de candidatos com experiência

Na Grécia não está previsto um sistema de recrutamento e nomeação de


candidatos com experiência.

2.4.6. Itália

Nos termos da Constituição da República Italiana, a selecção dos


candidatos faz-se por meio de concurso, comum à magistratura judicial e do
Ministério Público, que tem lugar uma vez por ano. Desde 2001 existe, ainda,
um segundo concurso que permite o acesso à magistratura de advogados com
experiência.

Em Julho de 2005, através da Lei n.º 150, foi instituído o Novo


O Recrutamento e a Formação de Magistrados 69

Ordenamento Judiciário, que alterou significativamente o regime relativo ao


acesso à magistratura, bem como a formação inicial e contínua, criando a
Scuola Superiore della Magistratura e indo, assim, ao encontro do modelo de
formação de origem francesa.

Para poder concorrer é necessário, para além dos requisitos de


nacionalidade italiana, pleno exercício dos direitos civis, conduta civil e moral
idónea, ter licenciatura em direito e, alternativamente: ou doutoramento em
direito; ou habilitação para o exercício da profissão forense; ou ter exercido
funções na administração pública, pelo menos durante 3 anos; ou ter exercido
as funções de magistrado honorário pelo menos durante 4 anos; ou ter o
diploma de especialização numa disciplina jurídica, após curso de
especialização de 2 anos em escola instituída nos termos do Decreto do
Presidente da República de 198264.

O processo de candidatura ao concurso é dirigido ao Consiglio Superiore


della Magistratura, sendo o respectivo ofício publicado na Gazzetta Ufficiale
através de Decreto do Ministério da Justiça, após deliberação do CSM para
determinação do número de vagas65. Na candidatura deve ser feita, sob pena
de inadmissibilidade da mesma, a indicação da opção quer pela magistratura
judicial, quer pela magistratura do Ministério Público (já que constitui título
preferencial para a escolha da sede da primeira destinação/afectação).

A comissão

A comissão de concurso é designada nos dez dias anteriores ao da


realização da prova escrita. Os seus membros são designados pelo Ministro da
Justiça, após deliberação do Conselho Superior da Magistratura e é composta
de magistrados e professores universitários. Os membros provenientes da

64
Cfr. NOJ, em particular o Decreto Legislativo recante modifica della disciplina per l’accesso
in magistratura, artigo 2º, n.º 2. In http://www.movimentoperlagiustizia.it/filedload/carriera.pdf
(Novembro 2006).
65
Cfr. Os artigos 3º e 4º. http://www.movimentoperlagiustizia.it/filedload/carriera.pdf (Novembro
2006).
70 O recrutamento de magistrados na União Europeia

magistratura são em número variável, entre os 12 e os 17, enquanto que os


professores universitários variam entre um mínimo de quatro e um máximo de
8. Estes números são determinados em função do número presumível de
candidatos ao concurso.

As provas66

O concurso para Uditore Giudiziario, que tem lugar em Roma, é composto


de uma parte escrita e de uma parte oral. As provas escritas compreendem três
exames, em que têm de dissertar sobre três temas nas matérias de direito civil,
direito penal e direito administrativo. O candidato só passa à prova oral se tiver
obtido um resultado de 12/20 valores em cada uma das provas escritas. As
provas orais compreendem matéria de direito civil e elementos fundamentais
de direito romano, processo civil, direito e processo penal, direito
administrativo, constitucional e tributário, direito comercial e industrial, direito do
trabalho e protecção social, direito comunitário, direito internacional e
elementos de informática jurídica. Há, ainda, um teste de língua estrangeira67.

O recrutamento de candidatos com experiência

Existem outras duas vias de acesso. Uma delas, prevista pela Lei de
2001, trata-se de um concurso simplificado reservado a advogados com idade
de, pelo menos, 45 anos e com uma experiência profissional efectiva de 5 anos
enquanto advogado ou juiz honorário – juiz dos tribunais não judiciais –

66
Até 2001, havia uma prova de pré-selecção de escolha múltipla, feita através de
computador, com a duração de 80 minutos, em que os candidatos tinham de responder a 60
questões relativas a direito civil, penal e administrativo. A correcção das provas era efectuada
no mesmo dia para todos os candidatos. Contudo, este sistema, revelou-se um fracasso total,
já que o número de candidatos que saía dessa pré-selecção era idêntico ao número de
candidatos admitido a concurso. Para além disso os critérios de correcção eram controversos,
com a sua frequente impugnação judicial, bem como limitados quanto aos seus temas, dado
que as provas relativas a direito penal e administrativo ainda não estavam concluídas e as de
direito civil apenas se relacionavam com questões ligadas ao notariado.
67
Cfr. NOJ, em particular o Decreto Legislativo recante modifica della disciplina per l’accesso
in magistratura, artigo 1º. In http://www.movimentoperlagiustizia.it/filedload/carriera.pdf
(Novembro 2006).
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 71

(apenas podem ser recrutados até 10% do número total de magistrados). O


exame para estes candidatos compreende três exames escritos (direito civil e
processual, direito penal e processual e direito administrativo), bem como um
exame oral (nas mesmas matérias jurídicas em que consiste o exame oral para
o concurso ordinário).

O segundo modo de recrutamento como magistrado, consiste na


nomeação directa, para o lugar de conselheiro no Tribunal Supremo
(Cassazione), seja de professores universitários, seja de advogados com
experiência profissional de 15 anos e inscritos na Ordem para litigar nas
jurisdições superiores (estas nomeações não podem exceder os 10% do
número total de conselheiros).

A nomeação e o período probatório

Os candidatos declarados idóneos são classificados segundo o número


total de pontos obtidos, sendo então nomeados auditores judiciários devendo
seguir formação inicial. Só 8 anos após a nomeação enquanto auditor judiciário
é que há lugar à nomeação efectiva como magistrado judicial ou do Ministério
Público. A progressão na função efectua-se através de concurso “per titolo” e
exame.

Quanto à passagem da função judicial para a de procurador e vice-versa,


pode ser feita três anos após o exercício da função, devendo os magistrados
apresentar candidatura para concurso “per titolo” ao CSM e frequentar um
curso de formação junto da Scuola della Magistratura.

2.4.7. Bélgica

Na Bélgica, para poder aceder à carreira de magistrado, o candidato deve


ter nacionalidade belga e ser licenciado em direito. Nos termos da Lei de 1998
(com as modificações introduzidas pelas Leis de Maio e Dezembro de 2003), o
recrutamento de magistrados faz-se por duas vias: a) concurso de admissão ao
estágio judiciário, para jovens licenciados e b) exame de aptidão profissional,
72 O recrutamento de magistrados na União Europeia

para candidatos com experiência. O recrutamento é comum para ambas as


magistraturas, fazendo-se a opção após o primeiro ano de formação.

A comissão

É ao Conséil Supérieure de Justice que compete a selecção dos


candidatos. O CSJ é um órgão constitucional com independência financeira e
estatutária. É composto de 44 membros, sendo metade deles magistrados
(repartidos pelos dois conselhos referentes a cada comunidade linguística),
cujo mandato tem a duração de 4 anos. Dentro do CSJ existe uma comissão
de nomeação composta de 28 membros.

O concurso

Para admissão ao estágio por concurso, para além da licenciatura em


direito, os candidatos devem provar ter experiência profissional, efectuada
durante os três anos anteriores à candidatura, de um ano68, pelo menos (seja
proveniente de estágio de advocacia, seja de outras funções jurídicas).

As provas

O concurso compreende duas provas escritas: (4 horas) redacção de


sumário de uma decisão judicial (em direito civil e judiciário; direito e processo
penal; ou direito social e judiciário, consoante a escolha do candidato),
seleccionando as palavras-chave e comentando a decisão. Caso obtenham
60% de pontos, serão admitidos à segunda prova. Nesta prova, que dura 4
horas, devem redigir uma dissertação (max. 4 páginas) sobre um assunto da
actualidade relacionado com o direito (em matéria social, económica, política
ou cultural). Segue-se, após as provas escritas, uma prova oral, à qual acedem

68
Em Fevereiro de 2006 o Conselho de Ministros aprovou um projecto de lei para modificação
das disposições relativas ao recrutamento de magistrados. Assim, pretende-se aumentar este
período de um ano, passando para dois anos.
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 73

os candidatos que obtenham, também, 60% de pontos na segunda prova


escrita. Esta prova consiste numa discussão sobre uma das três matérias de
direito referidas, tendo o candidato 60 minutos para se preparar.

A nomeação

Os candidatos que tenham obtido frequência positiva na formação inicial


(ver capítulo seguinte) podem candidatar-se a um dos postos vagos, após
publicação da lista de vagas no Moniteur Belge. A afectação ao posto depende
da classificação obtida na formação.

O exame de aptidão profissional (candidatos com experiência)

No que toca ao exame de aptidão profissional, este proporciona um


acesso directo à magistratura e está reservado a juristas com experiência (para
a magistratura judicial – 10 anos de advocacia ou 5 anos como conselheiro,
auditor, auditor-adjunto, etc; para a magistratura do Ministério Público – 9 anos
como advogado, notário, em funções académicas ou científicas ou 5 anos
como conselheiro, auditor, auditor-adjunto, etc).

O exame de aptidão profissional compreende, também, duas provas


escritas: a primeira dura 5 horas e nela os candidatos têm de redigir uma
decisão (direito civil, penal ou social), que deve obedecer aos requisitos de
forma e de substância, para a qual dispõem de um dossier completo com os
dados do processo. Obtendo 60% de pontos passam à segunda prova escrita,
na qual, em 4 horas, devem redigir uma dissertação (max. 4 páginas) sobre um
assunto da actualidade relacionado com o direito. Efectuam, depois, uma prova
oral, à qual acedem caso obtenham 60% de pontos na segunda prova. Esta
prova consiste numa discussão sobre uma das três matérias de direito
referidas, na forma de caso prático, tendo o candidato 60 minutos para se
preparar. O certificado obtido é válido por 7 anos, pelo que não é necessário
apresentar candidatura à função logo após a sua obtenção.

Em 2005 foi criado o exame oral de avaliação, regime que entrou em


74 O recrutamento de magistrados na União Europeia

vigor em Maio de 2006, para recrutamento de advogados que exerçam a sua


profissão há pelo menos 20 anos (ou 15 anos e mais 5 anos de outra função
jurídica), podendo aceder à magistratura através desse exame oral e sem
necessidade de efectuar a prova de aptidão profissional. Ainda não houve
recrutamento de magistrados a este título.

A nomeação

Os titulares do certificado de aptidão profissional podem apresentar


candidatura a uma vaga determinada. Uma vez nomeados, entram
imediatamente em funções, sem necessidade de ter qualquer tipo de formação.

2.5. O modelo de recrutamento de magistrados através de concurso


público para formação (França, Holanda, Bélgica, Espanha,
Portugal, Grécia e Itália) Quadro-síntese

Quadro 4
O modelo de recrutamento de magistrados através de concurso público para formação
(França, Holanda, Bélgica, Espanha, Portugal, Grécia e Itália)
Variável
Recrutamento Provas escritas Provas orais Outro tipo de
Requisitos Observações
por Concurso (admissibilidade) (admissão) selecção
País
a) até 27 anos;
b) até 40 anos; Discussão de
diploma que carácter geral;
comprove questionários de:
formação de, Composição sobre direito comercial ou
pelo menos, 4 tema geral; administrativo; Selecção sur
a) ordinários; anos após o dissertação sobre organização titres (lic. em
b) excepcionais bacharelato ou o tema de direito civil; judiciária e direito)
(experiência diploma de um em direito penal ou em jurisdição Integração
Concurso
França

profissional é instituto de direito público e administrativa, directa(lei


organizado
relevante) estudos europeu (consoante a processo penal, de1992)
pela ENM
Recrutamento políticos; escolha do candidato); processo civil e Complementar
comum para Nacionalidade nota de síntese a partir processo (10 anos de
juiz e MP francesa; posse de documentos administrativo; experiência -
dos direitos relacionados com direito social; prova lei de 2001)
cívicos; situação questões jurídicas oral de língua
regular de estrangeira (e
serviço militar; prova de exercício
boas condições físico)
de aptidão física
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 75

Variável
Recrutamento Provas escritas Provas orais Outro tipo de
Requisitos Observações
por Concurso (admissibilidade) (admissão) selecção
País
Testes psicológicos Pré-selecção,
a) jovens
de avaliação da começa por uma
licenciados
personalidade, das Entrevistas e carta de
b) candidatos Licenciatura em
qualidades de 3 exames motivação;
com direito;
Holanda

carácter, aptidões Entrevista com a (direito) para processo de


experiência Nacionalidade
analíticas e comissão de os candidatos selecção dura 7
profissional > a holandesa; bom
intelectuais, atitude selecção com meses
6 anos comportamento
face ao trabalho, experiência Concurso
Recrutamento social
reacção ao stress e profissional organizado por
comum para
competências Ministro da
juiz e MP
sociais Justiça
Concurso Licenciatura em Exame de
anual, direito; aptidão
organizado pelo Nacionalidade Discussão sobre profissional,
Bélgica

Sumário de decisão
CSJ belga; poder uma das (juristas com
e dissertação (direito
exercer funções matérias: civil, experiência);
civil, penal e social)
Recrutamento públicas; 1 ano penal ou social certificado é
comum para de exp. (nos 3 válido por 7
juiz e MP anos anteriores anos
Concurso
Duas provas
comum a
Licenciatura em orais, em que os
ambas as
direito; candidatos Selecção de
magistraturas, 100 Perguntas:
Espanha

Nacionalidade dispõem de 75 juristas com


organizado pelo teoria geral, direito
espanhola; minutos para experiência
CGPJ constitucional, civil e
possuir todas as responder a (acesso
penal
suas várias perguntas directo
Recrutamento
capacidades sobre matérias de
comum para
direito
juiz e MP
4 Provas orais:
temas de
deontologia,
metodologia e
Licenciatura em
sociologia; direito Doutores em
Concurso direito (há 2
e processo civil e direito são
organizado pelo anos); Três exercícios:
direito comercial; admitidos ao
Portugal

CEJ Nacionalidade; cultura geral e Assessores:


direito e processo CEJ sem
direitos civis e matérias de direito dispensados das
penal; direito necessidade
Recrutamento políticos; (civil, comercial, provas escritas
constitucional, de efectuar as
comum para condições penal
comunitário, provas de
juiz e MP exigidas para
administrativo, do admissão
função pública
trabalho e da
família e
menores; e
entrevista
Prova oral de:
Licenciatura em
Prova de: cultura direito
direito;
geral, direito constitucional e
Concurso anual Nacionalidade
constitucional e administrativo,
grega e idade Admissão na
Grécia

administrativo, civil e direito civil e


Recrutamento entre 27-40 anos; Escola Nacional
comercial, penal, comercial, direito
comum para direitos civis e de Magistratura
comunitário, fiscal, penal; exposição
juiz e MP políticos; serviço
trabalho; caso oral sobre caso
militar; registo
prático prático; exame de
criminal limpo
língua estrangeira
76 O recrutamento de magistrados na União Europeia

Variável
Recrutamento Provas escritas Provas orais Outro tipo de
Requisitos Observações
por Concurso (admissibilidade) (admissão) selecção
País
Temas de: direito
Licenciatura em
civil e elementos
direito,
fundamentais de
nacionalidade
direito romano,
italiana + posse
direito processual
a)Concurso de direitos
civil, direito e
comum a cívicos e Nomeação
processo penal,
ambas as políticos, aptidão directa para o
direito
magistraturas, física e psíquica Tribunal
administrativo, Opção da
organizado pelo para o exercício Três dissertações: Supremo
fiscal e magistratura no
CSM da função, bons direito civil, direito (Professor
Itália

constitucional, processo de
b) concurso costumes penal e direito universitário,
direito do trabalho candidatura sob
simplificado ( (ou alternativa, administrativo advogado
e social, direito pena de
mais de 45 doutor direito ou b) três exames com mais 15
comunitário, inadmissbilidade
anos e 5 anos habilitação prof. anos de
direito
de exp. Como forense ou 3 experiência
internacional; e
advogado ou anos adm.publica profissional)
prova de língua
juiz de paz ou 4 anos de juiz
estrangeira
de paz ou curso
b)provas orais
com 2 anos de
nas mesmas
especialização
matérias que para
jurídica)
a)
Fonte: OPJ
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 77

3. Conclusão – Análise comparativa dos quatro modelos vigentes de


recrutamento de magistrados na Europa

Os países estudados podem subdividir-se em quatro grupos. Em primeiro


lugar, aqueles que privilegiam o recrutamento com base na experiência
profissional anterior dos candidatos, como a Inglaterra e País de Gales e a
Noruega, que só recrutam, para juízes, advogados com mais de dez anos de
experiência profissional. Neste modelo insere-se, ainda, um país como a
Finlândia, em que o recrutamento de magistrados assenta em profissionais
com experiência no sistema judiciário, como funcionários de justiça,
referendários ou magistrados com nomeação provisória.

Em segundo lugar, destacamos o modelo de recrutamento de


magistrados após a frequência de estágio profissional, a que se acede sem
concurso público. Neste grupo de países encontramos o Luxemburgo, a
Dinamarca e a Suécia. Em qualquer dos casos, os licenciados em direito
candidatam-se a um estágio profissional a que se segue, no caso do
Luxemburgo, a frequência da École Nationale de la Magistrature, em França;
no caso da Dinamarca, um estágio personalizado adequado às necessidades
do candidato; e, no caso da Suécia, um estágio de dois anos, seguido de
nomeação provisória durante seis anos, pelo que, só ao fim de oito anos é que
o candidato é nomeado definitivamente magistrado.

Num outro grupo de países, como a Alemanha e a Áustria, predomina o


exame de Estado após acabar a licenciatura em direito, seguido de estágio
profissional de dois anos, na Alemanha, e de quatro anos, na Áustria, no qual
se incluem nove meses de estágio preparatório antes do primeiro exame em
direito civil e em direito penal.

Por último, o modelo actualmente dominante na Europa é o do concurso


público para formação inicial em Escola de Formação de Magistrados (França,
Holanda, Espanha, Portugal, Grécia e Itália) ou em cursos teórico-práticos e
estágios profissionais, como na Bélgica e na Holanda.

Este modelo, em regra, admite diversas formas de concurso público


diferenciado, conforme os candidatos tenham ou não experiência profissional
78 O recrutamento de magistrados na União Europeia

(como são os casos da França e da Holanda).

No entanto, em todos os países referidos neste modelo dominante, os


candidatos são admitidos para formação e só depois de avaliada a sua
performance (exames ou avaliação contínua durante a formação), é que os
candidatos vêm a ser nomeados magistrados através dos respectivos
Conselhos Superiores.
Capítulo III

A formação inicial de magistrados: os três grandes sistemas


vigentes na experiência comparada europeia
- Os modelos de estágios profissionais, de formação inicial em
escola de magistratura e misto de formação com cursos
teórico-práticos e estágios

Introdução

Após termos analisado, no capítulo anterior, os sistemas de recrutamento


de magistrados, vamos agora centrar-nos na análise dos sistemas de formação
inicial de magistrados em quinze países da União Europeia59, sobre os quais
existe informação disponível e suficiente para poder efectuar a comparação60.

O estudo comparado das legislações e experiências europeias vigentes


permite-nos caracterizar a formação inicial de magistrados, na Europa, em três
grandes modelos: o modelo de estágios profissionais; o modelo de formação
inicial teórico-prática em escola, seguido de estágios profissionais; e o modelo
misto teórico-prático com cursos teóricos e estágios.

Estes modelos de formação inicial de magistrados estão, naturalmente,


associados às culturas jurídicas e ao modo do ensino jurídico-universitário

59
A saber: Alemanha, Áustria, Inglaterra e País de Gales, Dinamarca, Suécia, Finlândia,
Noruega, França, Portugal, Grécia, Luxemburgo, Espanha, Itália, Bélgica e Holanda.
60
Para além de outras fontes citadas nos locais próprios, a informação sobre os referidos 15
países da União Europeia foi recolhida em: Le recrutement, la sélection, la formation initiale et
la carrière des magistrates en Belgique et dans plusieurs autres pays membres de l’Union
Européenne – le règne de la diversité, Le Conseil Supérieure de la Justice, 2005 Bélgica
(http://www.csj.be/doc/note-carmag.pdf); Recrutement et formation des magistrats en Europe
Étude comparative, Giacomo Oberto, 2003, Council of Europe Publishing; Le recrutement et la
formation initiale des magistrats du siege, Les documents de travail du sénat, 2006 França
(http://www.senat.fr/lc/lc164/lc164.html); La formation des juges et des magistrats du parquet en
Europe, Actes: réunion multilatérale, 1996 Conselho da Europa; Traité d’organisation Judiciaire
compare, Tome I, Union Internationale des Magistrats, 1999, Bruylant; The relationship
between judicial independence and judicial accountability, Seth Nthai, 2005 África do Sul
(http://www.idasa.org.za/gbOutputFiles.asp?WriteContent=Y&RID=1430); Appointing judges: a
judicial appointments commission for New Zealand?, Ministério da Justiça, 2004 Nova Zelândia
(http://www.justice.govt.nz).
80 A formação inicial de magistrados

predominante nessas sociedades. O modelo dos estágios profissionais impera


no centro-norte da Europa, ou seja, nos países de língua alemã (Alemanha e
Áustria), da Common Law (Inglaterra e País de Gales) e nos países
escandinavos (Dinamarca, Suécia, Noruega e Finlândia).

Por seu lado, o modelo de formação inicial teórico-prático em escola é


privilegiado nos países do sul da Europa (Portugal, Espanha, Grécia, tendo a
Itália também aderido a este sistema em 2005) e nos países do centro da
Europa de língua francesa (França e Luxemburgo)61. Este modelo pretende,
em simultâneo, responder às debilidades de formação jurídica nas
universidades e à incapacidade do seu suprimento só pelos estágios
profissionais de formação de magistrados.

Por último, o modelo, que denominámos misto de formação inicial com


cursos teórico-práticos e estágios profissionais, encontra-se em vigor na
Bélgica62 (cursos e estágios até 36 meses de formação) e na Holanda, em que
se opta, claramente, por uma formação prolongada (em regra, seis anos), em
que se sucedem cursos teóricos e estágios profissionais junto das mais
diversas entidades públicas e privadas. Este modelo, no caso holandês, é
tutelado e organizado pelo SSR (Dutch Training and Study Centre for the
Judiciary), que tem características de uma escola ou centro de formação de
magistrados, enquanto na Bélgica a formação encontra-se dependente do
Conséil Supérieur de la Justice e é organizado por um serviço do Ministério da
Justiça.

Dentro deste modelo, a Holanda opta, claramente, por ser o país da


Europa com uma formação de magistrados mais prolongada e mais variada,
devido à sua pluralidade de cursos e de estágios.

61
A difusão deste modelo assenta, também, no dinamismo da sua divulgação pela École
Nationale de la Magistrature que, através da acção do Conselho da Europa, está a ser
difundido para os países do centro-leste da União Europeia.
62
Oberto, 2003: pág. 93, informa-nos que na Bélgica existe um projecto de reforma que cria
duas escolas de magistratura (uma para a comunidade francófona e outra para a comunidade
flamenga).
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 81

1. O modelo de formação inicial de magistrados através de estágios


profissionais: breve análise de cada país63

1.1. O modelo de estágios dos países de língua alemã e inglesa

1.1.1. Alemanha: universidade, estágios e período probatório

Uma das características fundamentais do sistema alemão de formação


das profissões jurídicas é a de que não prevê formação inicial. Todos aqueles
que pretenderem exercer uma profissão jurídica (magistrado, advogado,
notário) devem seguir um ciclo de formação inicial comum, que se divide em
formação universitária, com duração de cerca de três anos e meio, e em
formação prática. Constituem objectivos da formação universitária, não só a
aprendizagem de conhecimentos jurídicos básicos, designadamente nas áreas
do direito civil, direito criminal, direito público e direito comunitário, mas também
a formação dos estudantes no sentido da correcta avaliação e análise dos
factos, da aplicação da lei e da procura da melhor solução para o caso
concreto.

Terminada a primeira fase, os alunos são submetidos a um primeiro


exame de Estado para avaliação dos seus conhecimentos teóricos em direito e
da sua capacidade de resolução de casos práticos.

Segue-se o segundo período de formação (período de referendariat, que


termina com o segundo exame de Estado que inclui provas escritas e orais e
que confere ao candidato a chamada “qualificação para a função judicial”, que
constitui pré-requisito para o acesso a outras profissões jurídicas), com
duração de 2 anos, que é remunerado e compreende vários estágios
obrigatórios (em geral, cinco), sendo os 4 primeiros em jurisdição civil, penal,
administrativa (já que a magistratura judicial, na Alemanha, também abrange a
justiça administrativa) e num gabinete de advogados (com duração de 9
meses).

63
Neste grupo incluem-se sete países, a saber: Alemanha, Áustria, Inglaterra e País de Gales,
Dinamarca, Suécia, Finlândia e Noruega.
82 A formação inicial de magistrados

Durante este período de “formação prática” os candidatos podem escolher


onde pretendem estagiar, durante um período de 6 meses, o que pode decorrer
junto de um Tribunal especializado, junto de gabinete de advogado ou notário,
junto de uma associação sindical ou, ainda, dos serviços jurídicos de uma
empresa64. Estão ainda previstos estágios junto de organismos internacionais,
bem como das embaixadas alemãs ou em jurisdições ou escolas estrangeiras.

No entanto, este sistema não descura, totalmente, a formação teórica,


pelo que muitos dos estágios são interpolados com cursos e seminários
leccionados em sala de aula.

Uma vez concluído o estágio, os candidatos são nomeados magistrados,


não tendo de frequentar nenhuma formação específica. Contudo, existe um
período probatório, com uma duração máxima de 5 anos (sendo, na maior
parte dos Länder, de 3 anos). Só ao fim deste período é que se verifica a
nomeação definitiva dos magistrados.

1.1.2. Áustria65: estágios e exame

Na Áustria, quem se quiser candidatar a qualquer profissão jurídica terá


de ter uma licenciatura em direito e fazer um estágio preparatório de 9 meses
junto de três tribunais diferentes, com a finalidade de se familiarizar com as
actividades judiciárias.

Após essa preparação, a admissão a estágio, com o objectivo de vir a ser


juiz, é feita através de decisão do presidente do Tribunal de Recurso, ficando
os estagiários na dependência do Estado Federal, sendo remunerados durante
o período da sua formação.

Após a nomeação como “juiz-candidato” (semelhante a auditor de justiça),


o licenciado em direito é admitido a um período de preparação, com duração

64
Deve acrescentar-se que as diversas durações dos diferentes estágios são determinadas
pelos vários Landër.
65
Para mais informações, consultar
http://www.justiz.gv.at/_cms_upload/_docs/broschuere_austrian_judicial_system.pdf (Novembro
2006).
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 83

de 4 anos, período no qual é considerado o estágio preparatório de 9 meses.

Durante este período de “formação em exercício”, o estágio dos


candidatos está dividido em quatro fases: junto de um tribunal de 1ª instância,
junto de um tribunal superior, junto de procurador do Ministério Público e junto
de um advogado ou de um notário.

No final da formação, os candidatos a juízes devem fazer um exame


público composto de parte escrita e de oral: a parte escrita compreende a
elaboração de uma decisão, em matéria civil ou penal e a parte oral
compreende uma avaliação em direito do trabalho, direito comercial, processo
civil, direito penal, organização judiciária, direito constitucional e administrativo.

Após estes 4 anos de prática judicial e de aprovação nos exames é que o


candidato poderá efectuar a candidatura a um lugar de juiz.

1.1.3. Inglaterra e País de Gales66: o domínio da experiência


como advogado

Uma vez que os juízes seleccionados têm todos 10 a 15 anos, pelo


menos, de experiência profissional (solicitors e barristers), a formação inicial
dura apenas alguns dias, sendo organizada pelo Judicial Studies Board. O JSB
tem como principais actividades a formação inicial e a formação contínua dos
juízes67. Para tal, procede à identificação das necessidades de formação, tendo
em consideração as alterações legislativas em curso e as necessidades de
modernização da administração da justiça.

A formação inicial, que ocorre após a sua nomeação como juízes, inclui
cursos de direito civil e de direito penal, bem como de aperfeiçoamento da
técnica jurídica. Os métodos utilizados são a observação directa e a discussão
de casos práticos, bem como a aprendizagem de métodos de gestão
processual. Há ainda uma componente de visitas a estabelecimentos

66
Para mais informações, consultar http://www.jsboard.co.uk.
67
A formação do M.P. é da responsabilidade do Crown Prosecution Service.
84 A formação inicial de magistrados

prisionais, centros de reeducação e encontros/seminários com técnicos de


reinserção social.

1.2. O modelo de estágios dos países escandinavos

1.2.1. Dinamarca: estágio personalizado e exame

Na Dinamarca, um candidato a juiz tem de frequentar um programa de 3


anos, elaborado de forma personalizada pelo tribunal onde é colocado, no qual
lhe são estipulados as tarefas e o tempo que o candidato deve trabalhar em
cada um dos domínios jurídicos.

Cada candidato é acompanhado de um juiz-formador, que o avalia


anualmente. Após a formação, o candidato deve efectuar um exame escrito
(elaborar uma decisão) e um exame oral, cuja passagem é necessária para a
nomeação como juiz.

1.2.2. Suécia: oito anos de experiência profissional

O candidato a juiz ou a procurador, na Suécia, é nomeado “aspirante”


durante 9 meses, período após o qual, se a sua prestação tiver sido positiva,
passa a juiz em formação. Durante este período segue uma formação intensiva
de um mês no Ministério da Justiça, após a qual entra ao serviço, por um ano,
numa jurisdição de competência genérica ou de competência administrativa, de
primeira instância.

Seis meses após a nomeação como juiz de competência genérica, deve


seguir outro período de formação prática centralizada de 3 a 6 meses, após a
qual é nomeado adjunto num tribunal, onde estará durante um período
experimental de 9 meses. Se tiver, nesse Tribunal, avaliação favorável, é
nomeado juiz-substituto ou assessor. Quando tiver uma experiência
profissional de 8 anos, pode ser nomeado juiz-efectivo, por uma comissão
independente da entidade formadora.

A formação é organizada pelo Domstolsverket (Conselho de


O Recrutamento e a Formação de Magistrados 85

Administração dos Tribunais) a nível nacional. A primeira fase de formação


dura 2 anos e é comum para ambas as magistraturas. Após esses dois anos, e
caso obtenha uma avaliação favorável, pode escolher entre magistratura
judicial ou do Ministério Público. Compreende formação teórica e prática.
Durante a parte teórica existem vários cursos, onde o candidato aprende a
redigir decisões e estuda a jurisprudência. A formação prática do candidato vai
variando ao longo das várias fases, evoluindo da mera assistência ao
juiz-formador até uma maior independência nas tarefas executadas (julgamento
de pequenos delitos penais).

1.2.3. Finlândia: experiência em funções judiciais sem exame

A forma corrente de aceder à função de juiz na Finlândia é através da


experiência adquirida como funcionário judicial, como referendário num tribunal
de recurso ou pela obtenção de nomeação provisória de juiz.

Após a nomeação, o estagiário efectua vários estágios, durante o período


mínimo de um ano, podendo proferir decisões após o quarto mês de estágio
em processos sumários de direito penal.

Os programas de formação estão a cargo do Presidente do Tribunal de


Recurso. Os candidatos são remunerados enquanto funcionários públicos.
Após o estágio de formação, são nomeados juízes sem necessidade de
efectuar qualquer exame.

1.2.4. Noruega: também longa experiência profissional de


advogado

Os novos magistrados na Noruega são recrutados dentre advogados com


larga experiência profissional (pelo menos, 10 anos de actividade profissional),
pelo que não são sentidas necessidades de formação básica.

A prática comum consiste em que os magistrados sigam uma formação


inicial em direito processual civil e penal, bem como formação sobre o modo
como elaborar e redigir decisões. Contudo, tais cursos de formação inicial não
86 A formação inicial de magistrados

são obrigatórios.

A formação está a cargo do Ministério da Justiça, que organiza os vários


cursos, que têm uma duração de apenas alguns dias e não incluem qualquer
tipo de exame ou avaliação de conhecimentos.

1.3. O modelo dos estágios profissionais na formação inicial de


magistrados: Quadros-Síntese

A análise dos sistemas de formação na Alemanha, na Áustria, na


Inglaterra e País de Gales, da Dinamarca, Suécia e Finlândia permite-nos
sintetizar as suas características principais nos quadros 5 e 6.

O quadro 5 permite-nos, assim, uma análise comparativa entre os


sistemas de língua inglesa e de língua alemã.

Quadro 5
Análise comparada do sistema de formação de magistrados – Modelo dos estágio
profissionais
(Alemanha, Áustria, Inglaterra e País de Gales)
Entidade
Variável
que
Formação
Duração Actividades desenvolvidas organiza Observações
inicial
a
País
formação
Após 1º exame de Estado, o
candidato adquire o estatuto
Não há
de referendar, sendo que
formação inicial
neste período de referendariat
propriamente
Alemanha

o candidato efectua vários A formação é


dita, porque a
estágios (obrigatórios e comum a todas
formação 2 anos Länder
facultativos), em jurisdição as profissões
universitária já
civil, jurisdição penal ou junto forenses
contém dois
do MP, na administração
tipos de
pública e junto de um
formação
gabinete de advogados; há,
ainda, lugar a cursos teóricos
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 87

Entidade
Variável
que
Formação
Duração Actividades desenvolvidas organiza Observações
inicial
a
País
formação
Após a nomeação como juiz-
candidato, deve seguir
período de “formação em
Estágio No período de
exercício” junto de vários
preparatório de 4 anos está
Áustria

tribunais, do MP, de um Tribunal


9 meses comum incluído o
4 anos gabinete de de
a todas as estágio
advogados/notário e de um Recurso
profissões obrigatório de
estabelecimento prisional; os
forenses 9 meses
estágios são organizados pelo
presidente do Tribunal de
Recurso
A formação inicial inclui
cursos de direito civil e de
Inglaterra e País de Gales

direito penal, bem como de


Não existe aperfeiçoamento da técnica
A
formação inicial, jurídica. Os métodos
formação
propriamente utilizados são a observação
dura Judicial
dita, já que directa e a discussão de
apenas Studies
todos os casos práticos, bem como de
alguns Board
seleccionados gestão processual. Há ainda
dias
têm experiência uma componente de visitas a
profissional estabelecimentos prisionais,
centros de reeducação e
encontros/seminários com
técnicos de reinserção social.
Fonte: OPJ

Por seu turno, no quadro 6, sintetiza-se e compara-se as características


dos sistemas vigentes nos países escandinavos.
88 A formação inicial de magistrados

Quadro 6
Análise comparada do sistema de formação de magistrados – Modelo dos estágio
profissionai
(países escandinavos: Suécia, Finlândia, Noruega e Dinamarca)
Variável Entidade que
Formação Actividades
Duração organiza a Observações
inicial desenvolvidas
País formação
Parte teórica, em
que o candidato
aprende a redigir
decisões e os
princípios éticos da
jurisprudência; a Domstolsverket
Estágio
Suécia

parte prática vai (Conselho de


2 anos
variando ao longo Administração
das várias fases, dos Tribunais)
evoluindo da mera
assistência até uma
maior independência
nas tarefas
executadas
O estagiário efectua
vários estágios,
decidindo já em
vários casos
simples; ao 4º mês
Finlândia

de estágio, pode Presidente do Não existem


Estágio

1 ano julgar em casos Tribunal de exames após a


simples de direito Recurso formação
penal (durante o
período de estágio,
fazem parte da
função pública e são
remunerados)
Não existe
formação inicial,
Treino básico em
pois os
direito processual
Noruega

magistrados
Alguns civil e penal, bem Ministério da Os cursos não
são pessoas
dias como formação Justiça são obrigatórios
com
sobre redacção de
experiência
decisões
profissional (+
10 anos)
Programa
personalizado,
Após a
Cada candidato organizado pelo
formação, o
é acompanhado tribunal onde é
Dinamarca

candidato deve
de um juiz- colocado o
efectuar um
formador, que 3 anos candidato, e estipula Tribunal
exame escrito
avalia o as tarefas e o tempo
(redigir uma
candidato que o candidato
decisão) e um
anualmente deve trabalhar em
exame oral
cada um dos
domínios jurídicos
Fonte: OPJ
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 89

2. O modelo de formação inicial teórico-prática em escola seguido de


estágios (ou modelo de origem francesa)

2.1. O modelo de formação inicial teórico-prática em escola comum


às duas magistraturas seguido de estágios: breve análise de
cada país

2.1.1. França: “o modelo inspirador” de 5 ciclos (estágio


inicial, formação teórico-prática em escola, estágio nos
Tribunais e em outros serviços de justiça, formação em
escola e estágio de pré-afectação)

Os candidatos admitidos para formação, quer por via de concurso geral,


quer através do recrutamento sur titres68, à excepção dos que foram recrutados
por integração directa na magistratura e por destacamento, são nomeados
auditores de justiça por despacho do Ministro da Justiça e iniciam o processo
de formação inicial.

A formação dos auditores é pluridisciplinar. Tem um carácter teórico e


prático, alternando períodos de formação mais teórica com períodos de
estágio, tendo estes como objectivo o conhecimento do funcionamento de uma
instituição ou o ambiente profissional, bem como a aprendizagem progressiva,
numa jurisdição, da prática de funções judiciárias. A formação é, assim,
constituída por períodos de escolaridade, comuns a todos os candidatos, cuja
duração total não pode ser inferior a nove meses, e estágios individuais nos
tribunais de primeira instância e superiores, junto de instituições judiciárias e da
administração, organismos públicos ou privados e internacionais. Antes de ser
nomeado para o exercício de funções de magistrado, o auditor efectua um
estágio de pré-afectação.

A formação inicial, que se prolonga por 31 meses, integra duas fases:


uma fase de formação geral e uma fase de estágio.

68
Este modo de recrutamento dirige-se a interessados com mais de 27 anos e menos de 40
anos, titulares de licenciatura em direito, com experiência profissional mínima de 3 anos, nas
áreas jurídica, económica ou social. Este modelo de recrutamento não pode ultrapassar 20 %
do total (ver capítulo II).
90 A formação inicial de magistrados

A fase geral tem a duração de 24 meses, com formação pluridisciplinar.


Começa por um estágio de 3 meses, no exterior da instituição judiciária (numa
empresa, administração, etc); segue-se um período de escolarização de 8
meses na ENM e termina por um estágio de 1369 meses em jurisdição. Neste
último período existem, ainda, estágios externos (num serviço de polícia, num
estabelecimento penitenciário, etc) e um estágio de 2 meses num gabinete de
advogados.

O primeiro período, com duração de 3 meses, consiste num estágio


realizado fora da instituição judiciária. Este estágio tem como objectivo dar a
conhecer ao auditor o funcionamento e problemas dos organismos públicos
(serviços da administração, câmaras, colectividades locais, associações),
empresas (privadas ou públicas) ou ainda organizações ligadas à comunidade
europeia (em Bruxelas, Estrasburgo e Luxemburgo) e à internacionalização do
direito (jurisdições e instituições judiciárias estrangeiras), ajudando-o a
conhecer melhor o contexto social em que se relaciona o sistema judicial.
Nestes estágios o auditor tem um papel activo, sendo-lhe atribuídas tarefas
específicas.

O segundo período, com duração de 8 meses, dá início a uma fase de


aprendizagem mais teórica na Escola da Magistratura e tem como objectivo
central o estudo das matérias e dos métodos de inter-relacionamento presentes
na actividade dos magistrados, a reflexão sobre as funções da magistratura e a
compreensão global das várias funções judiciárias (Ministério Público, primeira
instância, instrução, menores, aplicação das penas, etc.). Esta formação é
organizada pelas direcções de estudos da ENM. As sessões de trabalho, com
participação activa dos auditores (conferências ou grupos de trabalho) são
temáticas, dando-se relevância a uma formação interdisciplinar.

O terceiro período, com duração de 13 meses, é um período de formação


em jurisdição. É composto por estágios jurisdicionais e estágios

69
Este período divide-se da seguinte forma: 8 semanas no ministério público, 7 semanas num
tribunal ‘de grande instância’, 6 semanas num ‘tribunal de instância’, 4 semanas com um juiz de
aplicação de penas, 5 semanas com um juiz de menores, 6 semanas com um juiz de instrução.
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 91

complementares. Os primeiros realizam-se em todas as funções judiciais,


susceptíveis de serem escolhidas pelos auditores à saída da Escola. Os
segundos têm lugar em serviços exteriores, interrelacionados com o sistema
judicial, e em escritórios de advogados. A meio do estágio, os auditores
regressam, durante uma semana, à Escola de Formação para fazerem um
primeiro balanço da sua formação em jurisdição.

O principal objectivo daqueles estágios é a aquisição de experiência


prática. Pretende-se que o auditor alargue e concretize os conhecimentos
adquiridos no período de formação anterior e melhore a sua compreensão do
funcionamento e do lugar da instituição judiciária e da função do magistrado70.

Os estágios complementares têm como principal objectivo o


aprofundamento do conhecimento de outras instituições, especialmente ligadas
à actividade dos tribunais. Alguns daqueles estágios são organizados de forma
coordenada com os estágios jurisdicionais, como é o caso dos estágios nas
polícias, que é coordenado com o estágio no Ministério Público e nas funções
de juiz de instrução, e o estágio administração penitenciária em ligação com o
estágio no juiz de execução penas.

No final da fase de estágio71, os auditores de justiça são submetidos a


uma prova de classificação que consiste na resolução de um caso de direito
civil, numa prova oral de vinte minutos sobre uma questão penal e numa
entrevista de quinze minutos com os membros do júri. Nesta entrevista
pretende-se avaliar a perspectiva do auditor sobre o sistema judicial, em
especial sobre a função dos tribunais. Antes de realizarem esta prova, os
auditores de justiça assumem, por escrito, o compromisso de cumprir pelo
menos dez anos de funções na qualidade de magistrado. Depois desta prova o
júri procede à classificação dos auditores de justiça, já previamente
classificados pelo Director da Formação Inicial, cuja classificação o júri terá em

70
O auditor participa no conjunto das actividades dos magistrados orientadores do estágio,
designadamente redigindo decisões, conduzindo interrogatórios, dirigindo os debates na
audiência, dando instruções para a condução dos inquéritos pela polícia, etc.
71
No decurso da formação, os auditores são regularmente informados da avaliação sobre a
sua formação.
92 A formação inicial de magistrados

conta. O júri pode afastar um auditor ou impor-lhe a repetição de um ano de


estudos.

Após a publicação da lista de classificação dos auditores de justiça e da


lista das vagas existentes tem início a fase de estágio que visa,
exclusivamente, a preparação para a colocação em funções de juiz de primeira
instância, juiz de instrução, juiz do Tribunal de Menores, juiz de execução de
penas ou como delegado assistente do Ministério Público (funções de primeira
colocação). O estágio, com duração de 7 meses, divide-se, por sua vez, em
duas fases: um mês de formação teórica intensiva na função escolhida e seis
meses de estágio de pré-afectação, com o objectivo de aperfeiçoamento
funcional prático nas funções que vão exercer. O estágio inclui estágios
complementares especializados, consoante a área escolhida pelo auditor de
justiça, e em tribunais de recurso.

Finda esta fase, o auditor é nomeado magistrado, pelo Presidente da


República sob proposta do Conselho Superior da Magistratura, para o exercício
da função onde estagiou.

Relativamente aos auditores recrutados sur titres, iniciam a formação


inicial no segundo período, estando, assim, dispensados do primeiro estágio
fora do sistema judicial. A duração total da sua formação é ligeiramente menor
que a dos candidatos do concurso geral – 27 meses, assim distribuídos: oito
meses na Escola; doze meses de estágio jurisdicional; dois meses de estágio
num escritório de advogados e cinco meses de estágio de pré-afectação.

Para os candidatos provenientes do exame extraordinário72, a formação


tem apenas a duração de 6 meses, que compreende uma formação teórica de
um mês e 5 meses de estágio no local onde irá exercer a função. Depois da
sua nomeação no exercício de funções, os magistrados voltam à Escola para
um reagrupamento funcional, um ano depois.

72
Existem dois concursos extraordinários: um para funcionários com 4 anos de serviço e idade
até 40 anos; outro para candidatos com 8 anos, pelo menos, de serviço profissional e idade até
40 anos (ver capítulo II).
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 93

2.1.2. Luxemburgo73: estágio preparatório, formação inicial


na ENM e estágio nos Tribunais

No Luxemburgo, para que um candidato possa ser nomeado como juiz-


estagiário, é necessário ter seguido, após a formação universitária, um estágio
judiciário, que é organizado por uma comissão designada pelo Ministro da
Justiça. O estágio tem a duração de 2 anos, prevê uma remuneração mensal, e
deve ser feito, obrigatoriamente, junto de um advogado inscrito na Ordem dos
Advogados Luxemburguesa. No final há lugar a um exame.

A nomeação como juiz-estagiário, feita através de decreto emanado pelo


Grã-Duque, tem natureza provisória e duração de um ano, durante o qual os
estagiários seguem uma formação inicial, com componente teórica junto da
Ecole Nationale de la Magistrature, em Bordéus, França. Após a formação
teórica, há uma formação prática junto dos tribunais, do Ministério Público, dos
serviços de polícia e dos estabelecimentos prisionais, entre outros. Só no final
dessa formação é que há lugar a nomeação definitiva.

A formação inicial (bem como a formação contínua) incumbe ao Ministério


da Justiça.

2.1.3. Portugal: três ciclos de formação teórico-prática


(teórico-prática em escola; estágio nos tribunais; formação
teórico-prática em escola) e estágio com assistência do
formador

A formação inicial compreende uma fase téorica-prática e uma fase de


estágio (previstas na Subsecção II, do Capítulo II). A fase teórico-prática tem a
duração de 22 meses, iniciados no dia 15 de Setembro (subsequente à data de
abertura do concurso) e com termo a 15 de Julho (salvo se tiver sido definido
outro prazo, definido nos termos do artigo 59º, n.º 2). Aquela fase desenvolve-
se em três ciclos: o primeiro e o terceiro na sede do CEJ, num total de 10

73
Para mais informações, consultar http://www.mj.public.lu/professions/magistrat/index.html
(Outubro 2006).
94 A formação inicial de magistrados

meses, e o segundo, com a duração de 1 ano, nos tribunais. Assim, de 15 de


Setembro a 31 de Março a formação tem lugar na sede do CEJ; de 1 de Abril a
31 de Março nos tribunais, e o resto do tempo novamente no CEJ.

Um dos principais objectivos desta fase de formação, destacado pela lei,


é o de assegurar uma conscienciosa opção pela magistratura judicial ou do
Ministério Público (artigo 56º, nº. 2). Inclui, por isso, um tronco comum de
actividades teórico-práticas, incluindo estágios nos tribunais em ambas as
magistraturas e por iguais períodos de tempo.

No conteúdo desta fase incluem-se, como matérias obrigatórias,


disciplinas formativas, disciplinas profissionais e de aplicação e disciplinas
informativas e de especialidade (artigo 57º).

Quanto às matérias formativas, são as seguintes: deontologia;


metodologia jurídica; psicologia judiciária; sociologia judiciária; e idiomas. As
matérias profissionais e de aplicação, por sua vez, são: análise da doutrina e
da jurisprudência, designadamente nos domínios do direito civil, direito
comercial, direito criminal, direito processual civil e penal, direito do trabalho e
direito da família e menores; criminologia, criminalística e penologia; medicina
legal e psiquiatria forense; tecnologia judiciária; e organização e métodos de
gestão do processo. No que toca às matérias informativas e de especialidade:
sistemas de direito comparado; direito internacional; cooperação judiciária
internacional; direito comunitário; direito constitucional; direito administrativo;
direito económico; direito do ambiente e consumo; e organização judiciária.

Quanto à metodologia das actividades realizadas no CEJ, a lei prevê, nos


termos do artigo 60º, que possam consistir em grupos de trabalho, sessões
conjuntas, visitas de estudo, actividades de pesquisa e investigação,
seminários, conferências e colóquios, quer em áreas especializadas quer em
áreas não especializadas, com interesse para o exercício da função judiciária.

Como referimos, o segundo ciclo da formação inicial consiste em estágio


nos tribunais, dividido, por iguais períodos de tempo, entre estágios orientados
por magistrados judiciais e estágios orientados por magistrados do Ministério
Público (artigo 61º). A lista dos tribunais designados para colocação dos
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 95

auditores é aprovada pelo Conselho Superior da Magistratura e pela


Procuradoria-Geral da República (artigo 62º). Os auditores podem indicar, por
ordem decrescente de preferência, o tribunal onde pretendem ser colocados.
Como factores de ponderação para a colocação, contam a graduação obtida
nas provas de admissão e a situação pessoal e familiar dos auditores.

Nesta fase, os auditores assistem e colaboram em actos judiciais,


designadamente em actos de inquérito e de instrução criminal; em actos
preparatórios de processo, que não sejam exclusivos da função jurisdicional;
na preparação de projectos de peças processuais; nas diligências de prova; e
assistem às deliberações dos órgãos judiciais (artigo 61º, n.º 2).

No fim de cada ciclo de actividades, os docentes do CEJ e os directores


de delegações elaboram relatórios onde avaliam o aproveitamento e a aptidão
dos auditores para o exercício da função de magistrados, tendo em conta,
designadamente, a cultura jurídica, a capacidade de investigação, de
organização e de trabalho, a capacidade de ponderação e de decisão e a
relação humana (artigo 63º).

Terminada a fase das actividades teórico-práticas, os auditores são


graduados e classificados de acordo com uma escala valorimétrica de 0 a 20
(artigo 65º). Esta classificação tem por base a avaliação contínua do
aproveitamento dos candidatos. Os que forem classificados com menos de 10
valores são excluídos. Em caso de igualdade, recorre-se à graduação nas
provas de aptidão, à nota de licenciatura e à idade para o ‘desempate’.

A formalização da escolha por uma das magistraturas só é possível cinco


dias após a publicação dos resultados da classificação e graduação, isto é, no
final da fase teórico-prática – 22 meses após o início da formação no CEJ.

A formação inicial culmina com a fase de estágio – o estágio de pré-


afectação (Subsecção III). Os auditores de justiça, graduados de acordo com
os critérios acima referidos, são designados, por nomeação do Conselho
Superior da Magistratura ou do Conselho Superior do Ministério Público, juízes
de direito ou delegados do Procurador da República, em regime de estágio
(artigo 68º). De acordo com o previsto na lei, esta fase tem a duração de 10
96 A formação inicial de magistrados

meses.

Constituem objectivos desta fase de formação o aprofundamento dos


conhecimentos adquiridos na fase anterior; o adestramento dos magistrados na
prática judiciária, em razão da qualidade e da eficiência normalmente exigidas
para o exercício de funções em início de carreira; o apuramento do sentido de
responsabilidade e da capacidade de ponderação e de decisão dos
magistrados (artigo 71º). Nesta fase, os estagiários exercem, com a assistência
de formadores, mas sob responsabilidade própria, as funções inerentes à
respectiva magistratura, com os respectivos direitos, deveres e
incompatibilidades (artigo 70º, n.º 1).

A formação inicial termina com o fim do período de estágio. Os juízes de


direito e os delegados do Procurador da República, em estágio, são colocados
em regime de efectividade (artigo 72º).

2.1.4. Grécia74: dois ciclos de formação (em escola e estágio


nos tribunais)

Os candidatos admitidos devem seguir formação na Escola Nacional da


Magistratura (criada em 1995, em Tessalónica), que tem a duração de 16
meses, divididos em 2 estágios sucessivos de 12 e 4 meses. Durante os
primeiros 12 meses, da parte da manhã, devem assistir a cursos teóricos de 4
horas diárias, que consistem na aprendizagem dos seguintes temas:

a) principais funções dos magistrados e principais domínios da


actividade judiciária, como a Constituição, os direitos individuais, a
ordem jurídica europeia, a administração e gestão da justiça, as
relações e conflitos do direito civil, direito e processo penal;
b) cultura geral, problemas da sociedade contemporânea e
aperfeiçoamento em matérias não jurídicas, como pesquisa e
metodologia, sociologia, psicologia, psicologia forense, ciência
política, informática, etc;

74
Para mais informações, consultar http://www.esdi.gr/french.html.
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 97

c) participação em conferências, colóquios e outras actividades de


carácter pedagógico. Os formandos têm, ainda cursos de língua
estrangeira.
No final desta fase devem realizar exames escritos e orais e os
candidatos que os passarem são repartidos por grupos, de acordo com o seu
percurso pedagógico, os seus resultados e a sua escolha pela magistratura
judicial ou pela magistratura do M.P.. Segue-se, depois, a fase de estágio
prático com duração de 4 meses, em que os candidatos recebem uma
formação especializada que consiste no aprofundamento das matérias e
especialização no domínio jurídico que os futuros magistrados vão seguir após
a formação e na frequência do estágio jurisdicional, período durante o qual os
formandos assistem às audiências de julgamento, bem como redigem
decisões. Há, ainda, visitas a estabelecimentos prisionais e a serviços de
criminologia.

Após este período de estágio, os candidatos são nomeados magistrados


pelo “Conselho Judiciário Supremo”.

2.1.5. Itália: formação teórico-prática, estágio nos tribunais e


estágio de pré-afectação

Em Itália, após longos anos de selecção dos Magistrados por concurso


público, estágios junto dos Tribunais e um longo período de apresentação de
deveres propostos para a criação de uma Escola Nacional de Magistratura, foi
instituída, em 2005, a Scuola Superiore della Magistratura75, estrutura a quem
compete agora, de forma exclusiva, a formação inicial dos auditores de justiça,

75
Cujo regime foi instituído pelo NOJ, em particular pelo Decreto Legislativo recante istituzione
della scuola superiore della magistratura, nuove norme in tema di tirocínio e formazione degli
uditore giudiziari, in http://www.movimentoperlagiustizia.it/filedload/ddlscuola.pdf (Novembro
2006). Assim, a Escola é, nos termos do artigo 1º do referido decreto, uma estrutura didáctica
autónoma, com personalidade jurídica de direito público, com capacidade de direito privado e
autonomia organizativa, funcional e de gestão, negocial e contabilística. A Sezioni I do Capo I
trata do Estatuto e dos órgãos da Escola.
98 A formação inicial de magistrados

bem como os cursos de formação contínua e complementar de magistrados76.

A formação inicial77 é composta de parte teórico-prática, com duração de


6 meses junto da Escola, versando sobre temas de direito e processo civil,
direito e processo penal e direito administrativo, com eventual aprofundamento
das matérias tratadas em sede de prova oral78. Visa-se, ainda, aperfeiçoar a
capacidade técnica e deontológica dos auditores.

Após o período junto da escola existem os estágios de profissionalização,


com a duração de 18 meses, dividindo-se em três períodos: no primeiro, que
tem a duração de 7 meses, os candidatos participam na actividade jurisdicional
junto dos tribunais; no segundo período, de 3 meses, estão junto do Procurador
da república nos tribunais; e no terceiro período, que dura 8 meses, estarão já
a participar nas actividades jurisdicionais correspondentes às da primeira
afectação79.

No final do período de formação, que tem a duração total de 24 meses, há


lugar a avaliação da idoneidade para o exercício das funções, cuja deliberação
é feita pelo CSM. No caso de avaliação negativa, o auditor é admitido a um
novo período de formação, com sessão junto da Escola, pelo período de 2
meses, e junto dos tribunais, com duração de 10 meses (que também se divide
em três períodos).

2.2. O modelo de formação inicial em duas escolas de formação


(formação teórico-prática e estágios) separadas para juízes e
Ministério Público – O caso de Espanha

Os candidatos admitidos ingressam na Escuela Judicial (juízes) ou no

76
Cfr. Artigo 2º do citado decreto legislativo. In
http://www.movimentoperlagiustizia.it/filedload/ddlscuola.pdf (Novembro 2006).
77
De que tratam os Capo II a Capo IV do Titolo II. In
http://www.movimentoperlagiustizia.it/filedload/ddlscuola.pdf (Novembro 2006).
78
Cfr. Artigo 20º, http://www.movimentoperlagiustizia.it/filedload/ddlscuola.pdf (Novembro
2006).
79
Cfr. artigo 21º, n.º 1, http://www.movimentoperlagiustizia.it/filedload/ddlscuola.pdf (Novembro
2006).
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 99

Centro de Estudios Jurídicos (Ministério Público), para a formação inicial.

Na Escuela, em Barcelona, a formação tem a duração de 2 anos, em que


o primeiro ano é composto de cursos teóricos e de casos práticos, para
desenvolvimento da capacidade de análise. Os conteúdos estão divididos em
três grandes áreas: Direito constitucional e comunitário, Primeira instância e
Instrução. Desenvolve-se, ainda, a aprendizagem de idioma estrangeiro, bem
como o ensino das línguas oficiais e do direito próprio de cada Comunidade
Autónoma.

No segundo ano, em que os formandos efectuam estágios práticos nos


tribunais de Primeira Instância e Tribunais de Instrução, pretende-se que os
formandos conheçam melhor o direito substantivo, os princípios processuais
gerais, as regras de procedimento, a partir de uma perspectiva eminentemente
prática. Pretende-se, ainda, que adquiram as competências necessárias para a
produção de decisões orais e escritas e que desenvolvam a consciência de
eficácia e de responsabilidade do juiz, ao mesmo tempo que aprendem a
conhecer e a analisar a realidade social associada à actividade judiciária.

Com este pano de fundo, o desenvolvimento do programa de formação


tem em vista dois tipos de objectivos: objectivos jurídicos e objectivos de
carácter geral. Quanto aos primeiros, pretende-se reforçar os conhecimentos
sobre matérias jurídicas ou insuficientemente tratadas nas faculdades,
estimular a percepção e individualização dos problemas jurídicos
apresentados, potenciar a capacidade de decisão e fundamentar de forma
clara, com senso e compreensão, as resoluções judiciais. Tem ainda outros
objectivos, designadamente fomentar a sensibilidade face a determinados
conflitos (maus tratos, marginalização social, toxicodependência); as relações
do juiz com os seus colaboradores, interlocutores e cidadãos em geral; e
consciencializar os formandos da função judicial no espaço jurídico europeu.

No segundo ano, pretende-se que os formandos adquiram a prática


necessária para o exercício da função judicial através da realização de estágios
como juízes-adjuntos, em colaboração com o juiz titular. Pretende-se ainda que
os alunos adquiram os hábitos necessários de auto-exigência para uma
100 A formação inicial de magistrados

contínua e permanente formação.

A avaliação do aproveitamento dos alunos é feita de forma contínua,


atendendo aos parâmetros pré-definidos (participação nas aulas, trabalhos
realizados, atitude perante as matérias, etc.) e segundo um sistema de
créditos. No segundo ano da formação, a avaliação tem em conta as
informações remetidas pelo juiz orientador e integra a pontuação dos tribunais
de primeira instância e de instrução.

A formação inicial dos Fiscales80 (Ministério Público) tem a duração de 8


meses. Nos primeiros quatro meses, a formação centra-se na aprendizagem
dos critérios de interpretação seguidos pela Físcalia e jurisprudência actual,
bem como resolução de casos práticos análogos aos que encontrarão na sua
actividade, sendo a avaliação feita através de questionário tipo teste, com 50
perguntas relativas às diferentes matérias.

No segundo período de formação, de cariz prático, os formandos


integrarão a actividade quotidiana das Físcalias. Tem como objectivos
específicos a formação prática nas fases orais dos vários tipos processuais
penais: processo ordinário, processo abreviado, juicio rápido, procedimento de
júri, juicios de faltas e processo de menores; nas fases prévias: polícia,
instrução, qualificação; nas fases posteriores: execução e vigilância; formação
prática na ordem jurisdicional civil, sobretudo em matéria de família e
incapacidades; e o conhecimento das práticas forenses e organização da
Físcalia. A avaliação deste período de formação será feita através de relatórios
elaborados quer pelos formandos, quer pelos formadores. Por outro lado,
haverá avaliação da resolução de caso prático de direito e processo penal.

2.3. O modelo de formação inicial teórico-prático em escola:


Quadros-síntese

A França, Luxemburgo, Portugal, Grécia e Itália têm um sistema com

80
Para mais informação, consultar http://www.cej.justicia.es.
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 101

muitas similitudes que se pode comparar e sintetizar no Quadro 7.

Quadro 7
O Modelo de formação inicial teórico-prática em escola seguido de estágio
- Quadro comparativo dos países que têm escola comum às duas magistratura
(França, Luxemburgo, Portugal, Grécia e Itália)
Entidade
Variável
Formação Actividades que
Duração Observações
inicial desenvolvidas organiza a
País
formação
a) Formação geral:
divide-se em parte
teórica, em Bordéus,
e abarca as funções
jurisdicionais no seu
conjunto; métodos
utilizados são as
conferências,
trabalhos de grupo e
ateliers; e parte
prática, com estágios
em todas as funções
susceptíveis de
a) 31 Meses: 3m
serem exercidas
(estágio) + 8m
aquando a saída da No final há lugar
(ENM) + 13m
escola e nos a exame de
(estágio) + 1m
serviços externos classificação;
(ENM) + 6m
que, por razão da após 1 ano de
(Estágio de pré-
suas actividades, exercício de
a) Concurso afectação)
estejam ligados a funções, os
ordinário: (formação geral e
cada uma das jovens
duas fases – formação ENM (École
França

funções e junto de magistrados são


formação especializada, Nationale de
um gabinete de obrigados a uma
geral e respectivamente) Magistrature)
advogados (durante sessão de
formação b) Sur titres:
2 meses); b) formação com
especializada formação
formação duração de 2
reduzida a 27
especializada: semanas, para
meses
compreende uma aprofundar a
c) Concurso
fase funcional, sua prática
complementar:
centrada na profissional
formação de 6
preparação ao
meses
exercício do primeiro
posto e constituída
de direcção de
estudos, seminários
e conferências; uma
fase de estágios de
pré-afectação, em
tribunal, nas funções
a ocupar e nos
serviços
especializados
relacionados com
essas funções
102 A formação inicial de magistrados

Entidade
Variável
Formação Actividades que
Duração Observações
inicial desenvolvidas organiza a
País
formação
Formação junto da
ENM em França;
após a formação
teórica devem Antes da
Luxemburgo

percorrer diferentes Ministério da nomeação como


Formação serviços judiciários e Justiça (parte estagiário,
teórico- 12 meses policiais, fazendo, teórica na devem efectuar
prática ainda, um estágio de ENM, estágio de
curta duração junto França) advocacia de 2
da administração anos
dos
estabelecimentos
prisionais
Formação teórico-
prática: no CEJ;
junto dos tribunais; e
de novo no CEJ; no
A formação
Formação final desta fase, os
22 meses: 6,5 teórico-prática é
Portugal

teórico- candidatos são Centro de


meses + 12 comum aos
prática, classificados e Estudos
meses + 3,5 magistrados
seguida de fazem a sua escolha Judiciários
meses judiciais e do
estágio quanto a seguir a
MP
magistratura judicial
ou do MP e são
nomeados de acordo
com a sua escolha
Os formandos
devem assistir a
cursos teóricos,
onde se discute a
No final da
função de juiz,
formação, há
assuntos de carácter
lugar a
geral e problemas da Escola
Formação avaliação por
sociedade Nacional de
teórico- um conselho
Grécia

16 meses: 12 contemporânea; há, Magistratura


prática, judiciário e, em
meses + 4 meses ainda, cursos de (Εθνική
seguida de caso de
língua estrangeira; Σχολή
estágio avaliação
no final desta fase ∆ικαστών)
positiva, há
devem realizar
nomeação
exames escritos e
vitalícia
orais e os candidatos
admitidos seguem
fase de estágio
prático
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 103

Entidade
Variável
Formação Actividades que
Duração Observações
inicial desenvolvidas organiza a
País
formação
a) Parte teórico-
prática junto da
Escola, versando
temas de direito e
processo civil, direito
e processo penal e
No final do
direito administrativo,
período de
com eventual
formação há
aprofundamento das
lugar a
matérias tratadas em
avaliação da
sede de prova oral.
idoneidade para
Visa-se, ainda,
o exercício das
aperfeiçoar a
funções. No
capacidade técnica e
caso de
deontológica dos
avaliação
auditores; b)
24 meses: 6 negativa, o
Duas fases: estágios de Scuola
meses + 18 auditor é
Itália

teórica- profissionalização, Superiore


meses (7 meses admitido a um
prática e dividindo-se em três della
+ 3 meses + 8 novo período de
estágio períodos: no 1º os Magistratura
meses) formação, com
candidatos
sessão junto da
participam na
Escola, pelo
actividade
período de 2
jurisdicional junto
meses, e junto
dos tribunais; no 2º
dos tribunais,
período, estão junto
com duração de
do Procurador da
10 meses (que
república nos
também se
tribunais; e no 3º
divide em três
período estarão já a
períodos)
participar das
actividades
jurisdicionais
correspondentes às
da primeira
afectação
Fonte: OPJ

Dentro deste modelo, a Espanha tem uma variante exclusiva que consiste
em ter uma escola de formação inicial para Juízes e outra para M.P., cujas
características se sintetizam no Quadro 8.
104 A formação inicial de magistrados

Quadro 8
O Modelo de formação inicial teórico-prática em escola seguido de estágio
- Quadro do país que tem uma escola para os juízes e outra para o M.P.
(Espanha)
Entidade
Variável
Formação Actividades que
Duração Observações
inicial desenvolvidas organiza a
País
formação
Curso teórico, com
a) Juez: conferências e análise de
24 meses casos práticos; estágios, No final do
Escuela
(12 meses junto de diferentes período de
Duas fases: Judiciaria
+ 12 jurisdições (civil, penal, formação, os
Espanha

teórico- (CGPJ) e
meses) administrativa); está ainda candidatos
prática e Centro de
b) Fiscal: prevista a aprendizagem deverão efectuar
prática de Estudios
8 meses das línguas oficiais de cada exames, após os
estágios Jurídicos
(4 meses Comunidade Autónoma, quais são
(Fiscalia)
+4 bem como das normas classificados
meses) emanadas das suas
instâncias
Fonte: OPJ
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 105

3. O modelo misto de cursos teórico-práticos e estágios profissionais

Este modelo de formação inicial de magistrados pretende combinar e


alternar, sucessivamente, períodos de formação com cursos teórico-práticos,
com períodos de estágios de exercício profissional junto de diversos serviços
ou profissionais do sistema de justiça.

Este sistema de formação, em algumas das suas modalidades, opta


claramente por uma formação muito diversificada e de longa duração (até 36
meses, na Bélgica, e 72 meses – 6 anos – na Holanda).

3.1. Bélgica: o estágio curto e o estágio longo

Para os estagiários judiciais estão previstos dois estágios: o estágio curto,


que dura 18 meses e só dá acesso ao Ministério Público, e o estágio longo, de
36 meses, que dá acesso a ambas as magistraturas. Após 11 meses de
estágio, o estagiário deve informar o tutor da escolha pelo estágio curto ou
longo, compreendo ambos formação teórica e prática. A formação teórica
consiste num ciclo de cursos organizado pelo Serviço Público Federal de
Justiça81, enquanto que a formação prática tem várias fases.

No caso do estágio longo: 16 meses no Ministério Público, um dos quais


na secretaria, sendo que ao 6º mês o estagiário pode ser comissionado para
exercer, de forma total ou parcial, as funções do Ministério Público; 6 meses
em estabelecimento penitenciário, serviço de polícia, notário e solicitadoria de
execução ou no departamento jurídico de uma instituição pública económica ou
social; 14 meses num tribunal de primeira instância, tribunal de trabalho ou
tribunal de comércio, um dos meses na secretaria.

Quanto ao estágio curto: 12 meses no Ministério Público, um dos quais na


secretaria; 3 meses em estabelecimento penitenciário, serviço de polícia,

81
Esteve em discussão no Parlamento Belga, em Novembro de 2006, um projecto-Lei
governamental que visa criar um Instituto de Formação Judiciária (cfr. Sénat 3-1889, em
www.senate.be), instituto que será responsável pela formação dos magistrados (e de outras
categorias profissionais ligadas à instituição judiciária). Para mais informações consultar
www.csj.be ou www.ejtn.eu.
106 A formação inicial de magistrados

notário e solicitadoria de execução ou no departamento jurídico de uma


instituição pública económica ou social; 3 meses novamente no Ministério
Público82.

Para aqueles que obtém o certificado de aptidão profissional não está


previsto nenhum estágio, pelo que exercem directamente a função.

Como a Bélgica está dividida em duas comunidades linguísticas, existem


a Commission de Nomination et Désignation Francophone e a Commission de
Nomination et Désignation Néerlandophone, que procedem à necessária
nomeação dos magistrados.

3.2. Holanda: um modelo de formação prolongada para magistrados


judiciais e do MP

Na Holanda, a formação dos novos magistrados está a cargo da Stichting


Studiecentrum Rechtspleging83 (SSR), situada em Zutphen, instituição que
conta mais de quarenta anos de existência e a única que pode dar formação a
juízes e magistrados do Ministério Público. O Director do Centro é um membro
do judiciário nomeado por um período de cinco anos, coadjuvado por um
director de programas, magistrado do Ministério Público, nomeado por um
período de três anos, e por um funcionário, como director executivo.

Existem quatro departamentos (direito civil, direito criminal, direito


administrativo e assuntos gerais), que são dirigidos por magistrados
responsáveis pela definição dos conteúdos e programação dos diferentes
cursos para cada uma daquelas áreas. Existe, ainda, um departamento
internacional, responsável pelos cursos em direito internacional, direito
comunitário e pelas visitas de estudo internacionais.

A SSR combina o ensino de conhecimentos académicos, experiência

82
Em todos os casos o Ministro da Justiça pode terminar o estágio por inaptidão ou motivo
grave.
83
Para mais informação, consultar http://www.ssr.nl/aboutssr.php.
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 107

prática e experiência técnico-profissional84, incluindo no seu pessoal docente,


para tanto, professores universitários, juízes e procuradores.

A formação RAIO (comum a ambas as magistraturas) tem a duração de 6


anos, com cursos práticos intensivos, sendo que nos primeiros 4 anos o
candidato efectua estágios dentro da organização judiciária, seguindo um
programa-base junto de um tribunal de comarca ou do Ministério Público.

Nos três primeiros anos, a formação para jovens juristas admitidos como
candidatos internos é constituída por cursos teóricos no Centro de Formação e
estágios práticos num dos dezanove tribunais distritais. Durante os primeiros 6
meses, o formando ocupa um posto de funcionário na secretaria, seguindo-se
12 meses no Ministério Público, enquanto oficial substituto.

No início de cada uma dessas fases é obrigatória a realização de um


curso específico sobre o conteúdo e técnicas aplicáveis em cada um daqueles
serviços. É ainda de referir que o Centro organiza cursos teóricos de conteúdo
amplo, de frequência facultativa, compreendendo áreas como técnicas de
comunicação, perícias e exames, princípios de gestão, etc., assim como
matérias estritamente jurídicas.

Os estágios têm a supervisão de um juiz ou de um magistrado do


Ministério Público, consoante o auditor esteja a estagiar no Tribunal ou nos
serviços do Ministério Público. Durante este período, os candidatos participam
em todas as actividades do Tribunal que constituem as funções de juiz ou
procurador. No fim do terceiro ano de formação, os candidatos têm que optar
pela carreira de juiz ou de procurador. Consoante a sua opção, a formação no
quarto ano é diferenciada e tem lugar ou junto do Ministério Público ou junto da
magistratura judicial. Os candidatos são avaliados anualmente. A segunda
avaliação negativa implica a demissão do candidato.

Embora o auditor exerça funções de secretário, quer nos tribunais quer

84
Na Holanda existe, em cada Tribunal, um “Juiz de Imprensa” (‘press judge’), que tem a
tarefa de dar explicações aos meios de comunicação social, sempre que necessário. Para tal,
existem cursos especiais que incluem treino frente às câmaras (‘on-camera training’).
108 A formação inicial de magistrados

nos gabinetes do Ministério Público, o facto de assistir a todas as diligências e


de apoiar os respectivos magistrados vai permitir aumentar as
responsabilidades e as competências, bem como as tarefas executadas.

Nos últimos dois anos, a formação tem lugar fora do sistema judiciário,
em escritórios de advocacia, junto de forças policiais na Comissão Europeia
dos Direitos Humanos, em empresas privadas, etc.

O Director do Centro desempenha um papel muito importante na fase de


estágio visitando os tribunais e serviços do Ministério Público onde estagiam os
auditores e reúne com estes. Os orientadores de estágio reúnem-se no Centro
duas vezes por ano para avaliar e reflectir sobre a formação dos auditores. A
avaliação dos estagiários, embora decorra em distritos judiciais distintos,
procura utilizar critérios idênticos.

Ao fim dos seis anos, os auditores com aproveitamento no curso de


formação são nomeados juízes-adjuntos ou substitutos de Procurador. Depois
de um certo período de tempo, se o seu trabalho for avaliado positivamente, é
recomendada ao Ministro da Justiça a sua nomeação definitiva como juiz ou
Procurador. Apenas os juízes são nomeados definitivamente. Os procuradores,
com excepção do Procurador-Geral, são considerados funcionários públicos.

Caso os candidatos possuam alguma experiência profissional prévia, o


Director do Centro pode reduzir o período de formação nos últimos dois anos e,
em certos casos, o quarto ano da fase de estágio nos tribunais ou no gabinete
do Ministério Público. Apenas os três primeiros anos de formação não podem
ser alterados.

No caso de juristas com experiência, a formação é mais diversificada e


menos sistematizada que a anterior. Dado que a sua experiência pode ser
bastante diversificada, torna-se difícil a adopção de um sistema de formação
uniforme. Após a fase de selecção, estes candidatos são nomeados juízes-
adjuntos ou procuradores-adjuntos, sendo avaliados, nesta fase, pelo tribunal
ou pelo Procurador. Em função da sua experiência e capacidade de estudo,
aquela fase dura entre um a dois anos. Se a sua avaliação for positiva, o
Tribunal ou o Procurador recomendará, ao Ministro da Justiça, que o candidato
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 109

seja nomeado juiz ou Procurador, recomendação essa que é geralmente


seguida.

3.3. Modelo misto de cursos teórico-práticos e estratégias: Quadro-


síntese

A análise efectuada dos sistemas de formação inicial de magistrados da


Bélgica e da Holanda pode ser comparada e sintetizada como efectuamos infra
no Quadro 9.

Quadro 9
O modelo de formação de cursos teórico-práticos e estágio
(Bélgica e Holanda)
Variável Entidade que
Formação
Duração Actividades desenvolvidas organiza a
inicial
País formação
Ciclo de cursos;
a) Estágios no MP, incluindo na
secretaria do MP; estágios em
estabelecimento penitenciário,
a) Estágio serviço de polícia, notário e
Duas fases:
curto: 18 solicitadoria de execução ou no
teórico-prática
meses (12 departamento jurídico de uma
e estágios
meses + 3 instituição pública económica ou Conseil Supérieur
Não está
meses + 3 social; e novamente no MP; de la Justice
Bélgica

prevista
meses) b) Estágios no MP, incluindo na (Organização do
formação inicial
b) Estágio secretaria do MP; estágios em Serviço do
para os
longo: 36 estabelecimento penitenciário, Ministério da
recrutados por
meses (16 serviço de polícia, notário e Justiça)
exame de
meses + 6 solicitadoria de execução ou no
aptidão
meses + 14 departamento jurídico de uma
profissional
meses) instituição pública económica ou
social; estágio em tribunal de
primeira instância, tribunal de
trabalho ou tribunal de comércio,
incluindo na secretaria judicial
110 A formação inicial de magistrados

Variável Entidade que


Formação
Duração Actividades desenvolvidas organiza a
inicial
País formação
Na formação RAIO:
Primeiros 4 anos decorrem num
tribunal de distrito ou no gabinete do
MP, devendo o formando (RAIO)
efectuar todo o tipo de tarefas que
a) Formação efectuará quando for nomeado
Holanda

teórico-prática magistrado; segue, ainda, programa SSR (Stichting


a) 6 anos
(curso RAIO) de formação; no 3º ano deverá optar Studiecentrum
b) 2 anos
b) Candidatos pela carreira de juiz ou de Rechtspleging)
externos procurador, sendo que o quarto ano,
com base nessa decisão, decorrerá
ou no tribunal judicial ou no gabinete
do procurador; os 2 últimos anos
consistem em período de estágio
fora da instituição judiciária
Fonte: OPJ
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 111

4. Conclusão: uma síntese comparativa dos modelos de formação


inicial de Magistrados através de estágios profissionais, de formação
inicial em escola de magistratura e misto de formação com cursos
teórico-práticos e estágios

O estudo comparado, efectuado neste capítulo, das legislações e


experiências europeias vigentes permite-nos caracterizar a formação inicial de
magistrados, na Europa, em três grandes modelos: o modelo de estágios
profissionais; o modelo de formação inicial teórico-prática em escola, seguido
de estágios profissionais; e o modelo misto teórico-prático com cursos teóricos
e estágios.

O modelo de formação inicial de magistrados em que estes, após serem


recrutados entre licenciados em direito ou entre profissionais do direito,
frequentam estágios profissionais era, há pouco mais de trinta anos, o sistema
predominante na Europa. Actualmente, este modelo pode subdividir-se em três
subgrupos, ligados a três tradições, e culturas, jurídicas diferentes. O primeiro,
de origem continental de língua alemã (Alemanha e Áustria), o segundo,
oriundo do sistema da Common Law (Inglaterra e País de Gales) e o terceiro
do direito escandinavo (Dinamarca, Suécia, Noruega e Finlândia). Têm,
contudo, todos em comum o facto de o treino dos novos magistrados ser feito
nos Tribunais, complementado por formações específicas que variam conforme
os países.

No caso da Alemanha e da Áustria, os futuros magistrados devem seguir


uma formação prática inicial, com dois e quatro anos de duração,
respectivamente, que é, tendencialmente, comum a todas as profissões
forenses, no final da formação universitária. Na Alemanha o acesso definitivo à
magistratura está dependente de um período probatório de até 5 anos,
enquanto na Áustria o acesso é condicionado a aprovação em exames após os
4 anos de prática judicial.

Na Inglaterra e na Noruega, os juízes são recrutados entre advogados


com mais de 10 anos de experiência, pelo que, em Inglaterra o estágio dura só
alguns dias e na Noruega estão previstos cursos de formação inicial, mas que
112 A formação inicial de magistrados

não são obrigatórios.

Na Dinamarca, o candidato a juiz tem de cumprir um programa de


estágios, personalizado às suas necessidades, durante três anos, e obter
aprovação por exame após estágio. Por seu turno, na Suécia, os candidatos a
magistrados cumprem um estágio de dois anos, a partir do qual passam a
desempenhar funções de juiz ou de M.P., mas só após 8 anos de experiência
profissional bem sucedida é que são nomeados, definitivamente, magistrados.
Por fim, na Finlândia, o recrutamento é efectuado junto de quem já
desempenha funções no sistema judiciário (funcionário judicial, referendário,
nomeação provisória como juiz), frequenta um estágio de um ano, após o qual
são nomeados juízes, sem necessidade de exame.

No modelo de formação inicial em escola de magistratura, que inclui os


países que provêm da tradição jurídica civilista francesa e latina (França,
Luxemburgo, Portugal, Grécia, Espanha e Itália), verifica-se que a formação
teórica (compreendendo cursos que visam o aperfeiçoamento técnico dos
estagiários, focando áreas jurídicas e não jurídicas) é ministrada, na maior
parte dos países estudados, em escola de magistrados (como é o caso da
École Nationale de Magistrature, da Εθνική Σχολή ∆ικαστών, da Escuela
Judicial ou da Scuola Superiore della Magistratura), sendo completada por
estágios práticos em tribunal (ou noutras instituições, algumas até fora do
sistema judiciário), em que os estagiários candidatos a magistrados (juiz e
M.P.) se familiarizam com as várias funções a exercer.

Este sistema pode subdividir-se em países que têm uma escola comum, e
uma formação inicial comum, para a magistratura judicial e do M.P. (França,
Portugal, Grécia e Itália) e um país que tem duas escolas de formação inicial
de magistrados, uma para os juízes e outra para o Ministério Público
(Espanha).

A formação ministrada, ou supervisionada, por estas escolas de formação


é, em regra, dividida em três períodos de duração diferenciada, conforme os
diversos países. As durações das formações são variadas, indo dos 8 meses
(no caso dos Fiscales em Espanha), passando pelos 22 meses em Portugal,
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 113

até aos 31 meses (como acontece em França).

O primeiro período da formação inicial é, em regra, teórico-prático, de


formação intensiva em conteúdos legais, na própria escola de formação.
Segue-se um período de estágio inicial junto de diversos Tribunais (gabinetes
de juízes e de magistrados do M.P.). Em alguns dos países, segue-se um
período de estágio de pré-afectação junto de magistrados titulares, em que o
“formando” já efectua trabalho processual sob “tutela” do magistrado-formador.

À formação teórico-prática junto de escola e ao estágio segue-se a


avaliação, que pode consistir só na classificação do trabalho efectuado na
escola (Portugal) ou consistir, ainda, num exame constando de diversas provas
escritas e orais (França).

Por último, atentámos no modelo de formação inicial de magistrados que


pretende combinar e alternar, sucessivamente, períodos de formação com
cursos teórico-práticos, com períodos de estágios de exercício profissional
junto de diversos serviços ou profissionais do sistema de justiça, como é o caso
da Bélgica e da Holanda. Este sistema de formação, em algumas das suas
modalidades, opta claramente por uma formação muito diversificada e de longa
duração (até 36 meses, na Bélgica, e 72 meses – 6 anos – na Holanda).
114 A formação inicial de magistrados
Capítulo IV

A formação inicial em acção: análise comparativa dos planos


de actividades e dos currículos formativos dos cursos de
formação inicial em Portugal, França e Espanha

Introdução

Ao elaborarmos os capítulos anteriores, constatámos a importância do


modelo de formação inicial vigente em cada sociedade na formação dos seus
magistrados. No entanto, um estudo comparado, como aquele que estamos a
fazer, exige uma análise mais detalhada relativamente aos princípios e
objectivos da formação inicial, aos ciclos de formação e aos cursos, temas,
módulos e áreas temáticas dessa formação inicial.

Não tendo elementos disponíveis para mais países, decidimos fazer essa
comparação relativa à formação inicial em Portugal, França e Espanha. Assim,
o estudo comparativo efectuado neste capítulo assenta na análise do plano de
actividades 2006/07 do CEJ (Portugal), do Programme de Formation Initiale
2005 da ENM (França), no Plan docente de formación Inicial curso 2006/2008
da Escuela Judicial/CGPJ (Espanha) e Dossier Informativo do curso 2006/2007
de formação inicial dos Fiscales, do Centro de Estudios Jurídicos85 (Espanha).

85
Os referidos documentos encontram-se publicados em:
http://www.poderjudicial.es/eversuite/GetRecords?Template=cgpj/cgpj/principal.htm;
http://www.cej.justicia.es; http://www.enm.justice.fr/formation_initiale/index.htm; e
http://www.cej.pt/FICHEIROS_PDF/plactividades_06_07_a.pdf (Outubro/Novembro 2006).
116 A formação inicial em acção

1. Os Princípios e objectivos da formação inicial de magistrados

Da análise do Quadro 10 resulta que os princípios e objectivos que


norteiam a formação inicial nos três países em questão são, em tudo,
semelhantes, pretendendo-se, através da formação inicial, não só preparar os
futuros magistrados em termos técnico-jurídicos, como também sensibilizá-los,
através da ética e da deontologia, no sentido de se tornarem melhores
profissionais, de forma a prestar um melhor serviço aos cidadãos. Existe,
assim, um discurso quase consensual entre Escolas de Magistratura de
Portugal, França e Espanha relativamente aos princípios e objectivos da
Formação Inicial de Magistrados.

Em Portugal e Espanha, este discurso dos princípios e objectivos de


formação está centrado no desenvolvimento de capacidades pessoais do
candidato e na aquisição de conhecimentos. Assim, segundo o plano Espanhol
de formação de Juízes, “a formação inicial justifica-se pela necessidade de
preparar juízes com uma sólida formação jurídica e humanista”, passando os
planos Espanhóis e Português a descriminar as matérias, no âmbito do
desenvolvimento das capacidade e dos conhecimentos que os candidatos a
magistrados devem adquirir.

No entanto, ainda em Espanha, o Centro de Estudios Jurídicos, que é


responsável pela formação inicial dos magistrados do MP (Fiscal), define de
um modo muito específico os objectivos do seu curso de formação inicial,
designadamente, a aquisição de competências relativas ao papel de Fiscal; o
reforço dos conhecimentos teóricos adquiridos; a preparação prática para o
exercício das funções; e o completar a formação jurídica com conhecimentos
extra jurídicos relacionados directamente com a actividade.

Em contraponto, o programa da ENM salienta que a sua formação é de


índole generalista, na qual deve haver alternância entre estágios e cursos
teóricos e deve ser uma formação virada para o exterior.

Assim, dentro de um discurso consensual sobre os princípios e os


objectivos da formação inicial de magistrados, constata-se uma
preponderância, em Portugal e Espanha, no desenvolvimento de capacidades
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 117

pessoais e aquisição de conhecimentos (limitadas, ainda, à especificidade de


formação do MP em Espanha) e, em França, um acentuar de formação
generalista, na primeira fase, e alternância entre estágios e cursos teóricos e
uma formação virada para o exterior.

Há, pois, que analisar a duração, estrutura e organização da formação


inicial de magistrados, bem como dos seus conteúdos temáticos, para
podermos compreender, cabalmente, as proximidades, e as diferenças, entre
essa formação, nas referidas três escolas de magistratura.

Quadro 10
Comparativo dos princípios e objectivos da formação inicial
(Portugal, França e Espanha)
Portugal Espanha França
Desenvolvimento das qualidades pessoais: Princípios: A formação inicial justifica-se pela
- Compreensão ampla do sistema de justiça e sua - Formação necessidade de preparar os juízes
função; de índole com uma sólida formação jurídica e
- Aprofundamento dos Direitos Fundamentais; generalista; humanista. O plano docente pretende
- Compreensão da conflituosidade social; - Alternância efectivar um modelo constitucional de
- Reflexão sobre o papel do magistrado; entre estágios juiz que preste um serviço a todos os
- Apuramento do espírito crítico e fomentar o e cursos cidadãos.
sentido de partilha e de relativização do saber; teóricos; Objectivos:
- Conhecimentos dos princípios da ética da função - Formação a - Completar os conhecimentos
e da deontologia profissional; cargo de necessários para o exercício da
- Exercitação dos parâmetros éticos e práticos do profissionais; função judicial
agir judiciário; - Formação - Desenvolver a capacidade de
- Desenvolvimento da capacidade de virada para o análise da realidade, valoração de
autoformação; exterior provas e resolução
- Aquisição e desenvolvimento de competências Pretende-se assim, durante o primeiro
técnicas: Objectivos: ano de formação, completar os
- Consolidação e aprofundamento dos - Formar os conhecimentos adquiridos, através de
conhecimentos técnico-jurídicos; auditores de uma perspectiva prática; estimular a
- Domínio do método jurídico e judiciário; justiça nas percepção e individualização dos
- Aquisição de conhecimentos e técnicas de outras funções e problemas jurídicos apresentados;
áreas do saber; técnicas potenciar a capacidade de decisão
- Domínio da técnica de elaboração de peças e ligadas à prudencial; aprender a fundamentar
dos procedimentos processuais; profissão de as decisões com linguagem clara,
- Aquisição de destreza no processo de decisão, magistrado; simples e compreensível; tomar
apuramento da intuição prática e jurídica, - conhecimento das novas funções no
desenvolvimento da capacidade de análise e de Sensibilização espaço judicial europeu; aprofundar o
síntese, poder de argumentação, ponderação de para uma conhecimento da realidade social em
interesses e do efeito prático da decisão; cultura ética, que se produzem determinados
- Domínio das técnicas de comunicação; deontológica conflitos jurídicos; valorar as relações
- Desenvolvimento de competências de e profissional do juiz com todos os seus
organização e gestão de métodos de trabalho interlocutores
Fonte: OPJ

(com base em: Plano de Actividades 2006/2007, do CEJ; Programme de Formation Initiale 2005, da ENM;
Plan Docente de Formación Inicial Curso 2006/2008, da Escuela Judicial/CGPJ)
118 A formação inicial em acção

2. A estrutura da formação inicial em Portugal, França e Espanha:


análise comparativa

Verifica-se, da análise do Quadro 11, que as durações da formação inicial


em cada país são diferentes, como já se fez, aliás, referência aquando do
tratamento dessa questão, no capítulo III deste relatório.

Assim, em Portugal a formação inicial de magistrados tem a duração mais


curta, sendo de 22 meses; segue-se a formação inicial de juízes em Espanha,
com 24 meses e, com a maior duração, 31 meses, a formação inicial de
magistrados em França. No entanto, no que se refere à formação inicial de
Magistrados do M.P., em Espanha ela só tem a duração de oito meses.

A análise curricular salienta, por um lado, que a formação do M.P., em


Espanha, é limitada a matérias relacionadas com o seu desempenho
profissional imediato. Por outro lado, mostra-nos que o currículo de formação
inicial, em Portugal, é muito mais variado que em Espanha, dividindo-se numa
componente formativa, outra componente informativa e de especialidade e
outra profissional.

Por seu lado, a estrutura curricular da ENM francesa assenta num maior
período de duração de estágios: estágio inicial (para descobrir os Tribunais e
exterior, para descobrir outras entidades), o estágio em jurisdição e o estágio
de pré-afectação. A ENM, na sua formação teórico-prática, divide o seu tempo
formativo entre o módulo, a que denomina de “à descoberta das funções
jurisidicionais” (Quadro 12) e o módulo relativo à aquisição de cultura ética,
deontológica e profissional (Quadro 13).

Quadro 11
Comparativo dos ciclos de formação inicial
(Portugal, França e Espanha)
Portugal Espanha França
1º Ciclo (6,5 meses): 1º ano: o estudo das três a) Primeiro período:
a) Componente formativa: grandes áreas (na Escuela) formação de carácter
Ética e deontologia generalista (24 meses)
Expressão e voz a) Direito constitucional e
Língua estrangeira comunitário: 1) Etapas na ENM: (11
Língua estrangeira 1 – Apresentação geral. O meses)
Projecto papel do juiz como garante - Estágio ‘descoberta das
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 119

Portugal Espanha França


b) Componente informativa e de da supremacia da jurisdições’, de forma a
especialidade: Constituição. A questão da construir uma
Medicina legal inconstitucionalidade representação material da
Psicologia forense 2 – O juiz nacional como vida de uma jurisdição
Direito europeu e internacional juiz comunitário. A questão - Estágio exterior, com
Direitos fundamentais e direito constitucional prejudicial perante o vista à sensibilização para
Direito administrativo TEJCE. A protecção dos os diversos aspectos da
c) Componente profissional: direitos fundamentais no vida profissional,
Temas de direito civil e comercial e de âmbito comunitário económica e social, numa
processo civil 3 – Princípio da igualdade e perspectiva de
Temas de direito penal e processo penal não discriminação complementaridade (10
Temas de direito substantivo e processual da 4 – Liberdade ideológica e semanas)
família e das crianças religiosa - Formação em Bordéus,
Temas do direito do trabalho e da empresa e 5 – Direito à honra, com vista a descobrir as
do processo do trabalho intimidade pessoal e familiar funções e adquirir as
Organização, metodologia e discurso e direito à imagem técnicas fundamentais;
judiciários 6 – Direito à liberdade de aquisição de cultura ética,
expressão e informação deontológica e profissional;
2º Ciclo (12 meses): 7 – Liberdade de expressão ganhar competências em
a) Contacto as diversas fases da magistratura e informação no contexto do termos de língua
judicial: processo estrangeira e de noções de
Jurisdição cível 8 – Direito de associação informática
Jurisdição penal 9 – Direito a contrair
Jurisdição de família e menores matrimónio e mandato de 2) Estágios em jurisdição e
Jurisdição do trabalho protecção da família estágios complementares
Actividades complementares (Ciclos de debate (os auditores efectuam
e análise; visita a estabelecimento prisional, b) Primeira Instância: todos os actos
serviços do IRS, conservatórias do registo 1 – Família, arrendamento e profissionais dos
civil, comercial e predial e cartórios notariais) propriedade magistrados, sob
b) Contacto com as diversas fases da 2 – Direito de indemnização. responsabilidade do
Magistratura do M.P.: Procedimento magistrado-formador): (12
Jurisdição cível 3 – Contrato civil e meses)
Jurisdição penal comercial. Execução -MP: 8 semanas
Jurisdição do trabalho -Tribunal grande
Actividades complementares c) Instrução: instância: 7 semanas
1 – A fase de instrução. - Instância: 6 semanas
3º Ciclo (3,5 meses): Estrutura e objectivos gerais - Aplicação de penas: 4
a) Componente formativa: 2 – Meios de investigação e semanas
Expressão e voz medidas cautelares com - Menores: 5 semanas
Língua estrangeira ingerência em direitos da - Instrução: 6 semanas
b) Componente informativa e de pessoa
especialidade: 3 – O processo. Instrução 3) Estágio em gabinete de
Contabilidade e gestão de delitos em particular advogados (1 mês)
Direito europeu e internacional
Mediação d) Matérias b) Segundo período:
Sociologia judiciária complementares: formação especializada (7
c) Componente profissional: Contabilidade meses)
Temas de direito civil e comercial e de Medicina legal - Aperfeiçoamento
processo civil I e II Direito institucional funcional em Bordéus (1
Temas de direito penal e processo penal I e II mês)
Temas de direito substantivo e processual da 2º ano: estágios práticos - Estágio jurisdicional de
família e das crianças Tribunais de Primeira pré-afectação (5 meses):
Temas do direito do trabalho e da empresa e Instância e Tribunais de - Estágio complementar de
do processo do trabalho Instrução pré-afectação
Organização e gestão dos métodos de - Estágio ‘Tribunal de
trabalho apelação’
Investigação criminal e gestão do inquérito - Instalação
- Estágios práticos de
funções
Fonte:OPJ
120 A formação inicial em acção

3. Os conteúdos dos programas de formação em França, Portugal e


Espanha

3.1. França: privilégio à formação geral e aos estágios

Como já foi escrito anteriormente, em França os candidatos a magistrados


judiciais e do Ministério Público iniciam a sua formação inicial com um estágio
de 2 semanas, para descoberta das jurisdições, em que vão à descoberta das
funções dos Tribunais. Através desse estágio nos Tribunais, os formandos têm
a representação material da vida quotidiana de uma jurisdição.

Após este primeiro estágio, há lugar a um segundo estágio que decorre


fora da instituição judiciária e dentro de uma perspectiva de
complementaridade, com uma duração de dez semanas, em que os formandos
são sensibilizados para os diversos aspectos da vida profissional, económica e
social.

Terminado este período inicial de estágios, os formandos regressam a


Bordéus e têm uma formação, com carácter teórico, em duas grandes áreas: a
“descoberta das funções” e a “aquisição de cultura ética, deontológica e
profissional” (Quadros 12 e 14).

No módulo de formação “à descoberta das funções jurisdicionais”, o


formando tem contacto com os direitos substantivo e processual relativos à
aplicação da justiça em Tribunal de Grande Instância, Tribunal de Instância,
Juiz de Instrução, Juiz de aplicação de penas, Juiz de menores e Ministério
Público.

Quadro 12
A descoberta das funções jurisdicionais (ENM)
Variáveis
Métodos
Conteúdo Observações
pedagógicos
Módulos/Funções
Direcção de grupos de A formação generalista
Tribunal de Princípios do direito civil, metodologia do estudo; deve preparar os
grande Instância julgamento, análise de diversos contenciosos Conferências; auditores de justiça
Simulações; para as funções gerais
Competências, análise de litígios especiais, Exercícios escritos; da magistratura,
Tribunal de Sessões de judicial e do MP; as
protecção dos incapazes, relação com a justiça de
Instância actualização; diversas modalidades
proximidade
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 121

Variáveis
Métodos
Conteúdo Observações
pedagógicos
Módulos/Funções
permitem expor a
Princípios gerais, estatuto, competências, especificidade de cada
Juiz de Instrução
procedimentos vários função, bem como os
grandes princípios
processuais
Juiz de aplicação Competências, audiência, redacção de decisão,
de penas escolha da pena, relação com outros serviços

Estatuto e atribuições, articulação com outros


Juiz de menores
serviços, medidas educativas, julgamento

Estatuto e atribuições, regras processuais,


Ministério
execução de penas, menores
Público

Fonte: OPJ

Esta formação visa a aquisição de conhecimentos em matérias


relacionadas com o posterior exercício de funções, bem como a preparação em
termos éticos, deontológicos e profissionais.

Quadro 13
A aquisição de cultura ética, deontológica e profissional (ENM)
Variáveis
Conteúdo Métodos pedagógicos Observações
Módulos

Ética e Regras e valores referentes às condutas Conferências;


deontologia profissional e pessoal do magistrado Grupos de estudo e de investigação;

Conferências;
História da magistratura; cultura
Grupos de estudo;
A instituição institucional; cultura administrativa;
Ateliers;
parceiros da instituição
Exercícios de simulação
Conferências, ateliers; sessões de
Procedimento; prova; vítimas; sanção;
O processo de actualização; grupos de estudo; jornadas Conhecimentos
modos alternativos de resolução de litígios;
decisão temáticas; visitas a estabelecimentos relativos ao
Assises
prisionais; ambiente
Convenção europeia dos direitos do judiciário,
Conferências, casos práticos; trabalhos a
Nível europeu e homem; direito comunitário; cooperação reflexão sobre
partir dos casos práticos; acções de
internacional judiciária internacional; direito e processo o lugar da
formação
civil comparado justiça, sua
Economia, organização,
sociedade e Economia; social; família; culturas Conferências; grupos de estudo; papel e seus
família, acesso estrangeiras; acesso ao direito simulações; visitas a Maisons de Justice desafios
ao direito

Técnicas de comunicação em público;


A comunicação comunicação em situação profissional e Ateliers; grupos de trabalho
entrevista judiciária; justiça e media

Medicina,
Conferências; assistência de autópsias;
psiquiatria e Medicina legal; psiquiatria; desvios
exercícios de redacção; grupos de estudo
desvios

Fonte: OPJ
122 A formação inicial em acção

A este período de formação de largo espectro na ENM seguem-se os


estágios em jurisdição. A formação em matérias de aquisição de conhecimento
profissional é, assim, deixada, em França, para os estágios de jurisdição
complementar e de pré-afectação. Assim: no Ministério Público, 8 semanas; no
Tribunal de Grande Instância, 7 semanas; no Tribunal de Instância, 6 semanas;
no Tribunal de Aplicação de penas, 4 semanas; no Tribunal de Menores, 5
semanas; no Tribunal de Instrução, 6 semanas; e o estágio em gabinete de
advogados, 1 mês.

Por último, segue-se a formação especializada. Esta consiste num


período de um mês de aperfeiçoamento funcional em Bordéus, ao qual se
segue o estágio jurisdicional de pré-afectação, com duração de 5 meses e que
compreende um estágio complementar de pré-afectação; um estágio no
‘Tribunal de Recurso’; a instalação e estágios práticos de funções jurisdicionais
que os candidatos virão a desenvolver.

3.2. A formação inicial em Portugal: os três ciclos de formação

3.2.1. A formação inicial teórico-prática no CEJ – as


componentes “formativa”, “informativa e de especialidade”
e “profissional”

Nos Quadros 14, 15 e 16 analisam-se as componentes de formação


inicial ministrada no CEJ.

A formação de natureza profissional ocupa 333 horas, em termos de


abordagem dos temas de direito civil e comercial e de processo civil, de direito
penal e processo penal, de direito substantivo e processual da família e das
crianças, do direito do trabalho e da empresa e do processo do trabalho, de
organização, metodologia e discurso judiciários (Quadro 14).
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 123

Quadro 14
Formação inicial – Componente profissional (CEJ)
Variáveis
Conteúdo Duração Avaliação Observações
Módulos
Abordagem, de forma sequencial, Exige participação
dos temas de processo civil, progressiva oral dos
perspectiva da compreensão da auditores, com
natureza e meios de tutela cível, nas avaliação contínua e
Temas de Elaboração de peças
modalidades declarativa, executiva realização de trabalhos
direito civil e 117 escritas e discussão oral;
e cautelar; princípios estruturantes e escritos, de forma a
comercial e horas docentes da magistratura
sistemática do processo; desenvolver a
de processo judicial e da magistratura
competência e actuação dos argumentação e o
civil do MP
intervenientes processuais; sentido crítico, técnica
tramitação; processo executivo; judiciária e boa gestão
abordagem casuística; temas de do processo
direito comercial
Abordagem dos temas de processo
penal, de forma sequencial; boa Exige participação
compreensão dos fins, âmbito e progressiva oral dos
natureza da tutela penal; princípios auditores, com
Temas de estruturantes e sistemática do avaliação contínua e Elaboração de peças
direito penal processo; competência e actuação 117 realização de trabalhos escritas e discussão oral;
e processo dos intervenientes processuais; horas escritos, de forma a docentes da magistratura
penal meios de prova e procedimentos desenvolver a judicial e da magistratura
probatórios; processo decisório; argumentação e o do MP
tipos de crimes mais frequentes; sentido crítico, técnica
questões relacionadas com o direito judiciária e boa gestão
constitucional e direitos do processo
fundamentais; abordagem casuística
Temas em matéria de divórcio, Exige participação
regulação do poder paternal, progressiva oral dos
adopção, promoção de direitos e auditores, com
Temas de
protecção de crianças e jovens e avaliação contínua e
direito
intervenção tutelar educativa; realização de trabalhos Docentes da magistratura
substantivo
princípios estruturantes; questões 39 horas escritos, de forma a judicial e da magistratura
e processual
relacionadas com o direito desenvolver a do MP
da família e
constitucional e direitos argumentação e o
das crianças
fundamentais; abordagem sentido crítico, técnica
casuística; instrumentos jurídicos judiciária e boa gestão
supranacionais do processo
Exige participação
Natureza e meios de tutela cível,
progressiva oral dos
nas modalidades declarativa,
auditores, com
Temas do executiva e cautelar, contra-
avaliação contínua e
direito do ordenacional e criminal; princípios
realização de trabalhos Docentes da magistratura
trabalho e da estruturantes e sistemática; técnica 9 horas
escritos, de forma a judicial e da magistratura
empresa e de tratamento e selecção de factos;
desenvolver a do MP
do processo tramitação geral do processo
argumentação e o
do trabalho comum e especiais; direitos
sentido crítico, técnica
fundamentais dos trabalhadores;
judiciária e boa gestão
sociedades comerciais; insolvência
do processo
Compreensão da função social e
caracterização do sistema de
justiça, legitimidade democrática dos
Organização,
tribunais, natureza e atributos da
metodologia 21 horas Seminários/ateliers/debates
função jurisdicional; tópicos da Teste escrito
e discurso
linguagem jurídica e judiciária;
judiciários
discurso judiciário; narração dos
factos e fundamentação das
decisões
Fonte: OPJ

Por seu lado, a componente formativa em ética e deontologia, expressão


e voz, língua estrangeira e técnicas de informática ocupa 64,5 horas, para além
124 A formação inicial em acção

de um Projecto ao longo do ano (Quadro 15).

Quadro 15
Formação inicial – Componente formativa (CEJ)
Variáveis
Conteúdo Duração Avaliação Observações
Módulos
Exige participação progressiva
Noções fundamentais; oral dos auditores, com
Ética e reflexão e sensibilização para avaliação contínua e realização
15 horas
deontologia as exigências éticas da de trabalhos escritos, de forma a
função social de magistrado desenvolver a argumentação e o
sentido crítico
Dominar os aspectos da
Expressão e voz relação entre voz, corpo e 1,5 horas
comunicação
Desenvolver conhecimentos
Língua
de modo a saber utilizar o 37,5 horas
estrangeira
inglês com desenvoltura

Preparar para o domínio das


Facultativo,
Tecnologias de TIC numa perspectiva
mediante
informação e judiciária; adestramento do 10,5 horas
inscrição, fora do
comunicação uso das ferramentas
horário normal
informáticas como h@bilus,
SGI e custas
Ao longo de
Realização de projecto de todo o 1º ciclo,
Constituição de
Projecto estudo em que desenvolve sem carga
sub-grupos
temas de interesse para a horária
formação como magistrado prelectiva
Fonte: OPJ

Por último, a componente informativa e de especialidade ocupa 76,5


horas de formação inicial teórico-prática, na qual se adquirem conhecimentos
de medicina legal, psicologia forense, direito europeu e internacional, direitos
fundamentais, direito constitucional e direito administrativo (Quadro 16).

Quadro 16
Formação inicial – Componente informativa e de especialidade (CEJ)

Variáveis
Conteúdo Duração Avaliação Observações
Módulos

Aquisição de visão abrangente sobre a


orgânica e atribuições do INML;
Medicina legal 12 horas Teste escrito Seminários/ateliers
principais noções e conceitos operativos
médico-legais
Aspectos relevantes das perícias de
Psicologia personalidade, psicologia do 13,5
Teste escrito Seminários/ateliers
forense testemunho e técnicas de interrogatório; horas
trabalhar em articulação com os peritos
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 125

Variáveis
Conteúdo Duração Avaliação Observações
Módulos

Aprofundar conhecimentos nos


domínios das instituições e do direito;
Direito europeu e
preparação para utilização dos 30 horas Teste escrito
internacional
mecanismos de cooperação civil e
penal europeus e internacionais
Perspectiva internacional dos direitos
fundamentais, confronto de
Direitos
jurisprudência do TEDH; problemáticas Atribuição de
fundamentais e Seminários/ateliers/sessões
da fiscalização concreta da 15 horas créditos de
direito conjuntas de grupos
constitucionalidade e protecção frequência
constitucional
judiciária dos direitos fundamentais na
ordem jurídica interna
Abordagem dos princípios gerais e
Direito conhecimento dos meios de tutela,
6 horas Teste escrito Seminários/ateliers
administrativo linhas gerais do procedimento
administrativo e do quadro contencioso
Fonte: OPJ

Na formação inicial predomina, como não podem, talvez, deixar de ser, a


formação jurídica, na perspectiva de conhecimento da lei e dos seus
instrumentos processuais de aplicação. Recorre, também, à formação em
conhecimento geral e de alguma especialização sobre a justiça. Parece faltar,
no entanto, um estudo sistematizado que tenha como ponto de partida factos,
ou seja, a identificação, análise e estudo do modo como o Tribunal deve
interpretar os factos e como deve valorar as construções que sobre eles são
feitas com origem em processos psíquicos (ex: memória, percepções, desvios,
etc.) e sociais (mass media, culturas locais, etc.).

3.2.2. O estágio nos Tribunais (o 2º ciclo de formação)

Em Portugal, o estágio dura 12 meses, conforme os Quadros 17 e 18. Os


auditores devem durante este período acompanhar processos das diversas
jurisdições e participar na vida judiciária dos Tribunais.

Quadro 17
O estágio da Magistratura Judicial (CEJ)

Variáveis
Conteúdo Metodologia Orientações gerais
Áreas
fundamentais
Conduzir integralmente até ao final Tomar contacto com a O juiz-formador deve verificar
n.º razoável de processos secretaria e secções de o trabalho desenvolvido pelo
Jurisdição cível
declarativos, executivos, especiais e processos; tribunais de estagiário e sugerir as
procedimentos cautelares competência genérica e correcções necessárias; no
126 A formação inicial em acção

Variáveis
Conteúdo Metodologia Orientações gerais
Áreas
fundamentais
Conduzir até ao final n.º razoável de junto de juízes final, o director da delegação
processos penais dos diversos tipos, formadores, que elabora relatório sobre a
elaborando, designadamente, cúmulo seleccionarão e adequação e o
jurídico e liquidação da pena; no TIC distribuirão processos de aproveitamento de cada um
Jurisdição penal deverá proceder a interrogatório de natureza diversificada dos auditores;
arguido, proferir despacho sobre
medidas de coacção, debate
instrutório e despacho de
pronúncia/não-pronúncia
Acompanhar n.º razoável de
Jurisdição de
processos tutelares cíveis, de
família e
processos judiciais de promoção e
menores
protecção, tutelares educativos e
acções de divórcio
Tramitar e analisar acções
Jurisdição do
emergentes de contratos e acidentes
trabalho
de trabalho
Ciclos de debate e análise; visita a
estabelecimento prisional, serviços
Actividades
do IRS, conservatórias do registo
complementares
civil, comercial e predial e cartórios
notariais
Fonte: OPJ

O plano de estágio prevê, ainda, actividades complementares, como


visitas a estabelecimentos prisionais, serviços do IRS, conservatórias do
registo e cartórios notariais, cujo sucesso só poderá ser avaliado em concreto e
não pela análise dos planos de formação.

Quadro 18
O estágio do Ministério Público (CEJ)
Variáveis
Metodologia Orientações gerais
Áreas
fundamentais
Jurisdição cível Assistir a actos de inquérito e instrução criminal, actos
preparatórios do processo, projectos de peças processuais, O magistrado-formador deve
Jurisdição penal diligências probatórias, contactos com várias entidades que verificar o trabalho
colaboram com o tribunal; acompanhar o atendimento ao desenvolvido pelo estagiário e
Jurisdição de
público; visitas a instituições e serviços (IRS, estabelecimento sugerir as correcções
família e menores
prisional, conservatórias, serviços médico-legais, órgãos de necessárias, apoiando e
Jurisdição do
polícia criminal, IPSS, comissões para a dissuasão da incentivando na adopção das
trabalho
toxicodependência), seminários, colóquios, ciclos de debate, suas próprias posições
Actividades
trocas de experiência
complementares
Fonte: OPJ

3.2.3. De volta ao Limoeiro (CEJ)

Após a conclusão de um ano de estágio nos Tribunais, os auditores


O Recrutamento e a Formação de Magistrados 127

voltam ao CEJ para desenvolverem novas componentes formativas,


informativas e de especialidade e profissionais (Quadros 19, 20 e 21).

Também neste ciclo a componente de formação profissional é


preponderante, com 207 horas de formação distribuídas pelos temas de direito
civil e comercial e de processo civil I e II, direito civil e comercial e de processo
civil I e II, direito substantivo e processual da família e das crianças, direito do
trabalho e da empresa e do processo do trabalho, Organização e gestão dos
métodos de trabalho e Investigação criminal e gestão do inquérito (Quadro 19).

Quadro 19
Componente profissional do 3º ciclo (CEJ)
Variáveis
Conteúdo Duração Avaliação Observações
Módulos
Temas de direito civil e
comercial e de processo 42 horas
civil I e II

Temas de direito penal e Reflexão sobre questões que


42 horas
processo penal I e II tenham surgido da prática
judiciária no decurso do 2º
Temas de direito ciclo e domínios que não
substantivo e tenham sido abordados no 1º 42 horas
processual da família e ciclo
das crianças
Temas do direito do
trabalho e da empresa e 42 horas
do processo do trabalho
Aprendizagem de métodos e Parâmetros a definir
técnicas de gestão do tribunal oportunamente
e do processo, tendo em vista
Organização e gestão
a racionalização de tarefas e
dos métodos de
articulação entre os serviços; 18 horas
trabalho
métodos e técnicas de
organização da agenda e do
tempo
Dominar os conceitos de
direcção do inquérito e de
autonomia técnica e táctica
Investigação criminal e das polícias; noções de 21 horas
Seminários/ateliers
gestão do inquérito técnicas de investigação;
compreensão da lógica da
criminalidade organizada e
meios de resposta
Fonte: OPJ

Por sua vez, a componente formativa em expressão e voz e língua


estrangeira não ultrapassa as 22,5 horas de formação (Quadro 20), enquanto a
componente informativa e de especialidade ocupa 67 horas, repartidas por
contabilidade e gestão (21 horas), direito europeu e internacional (24 horas),
128 A formação inicial em acção

mediação e sociologia judiciária (12 horas) – Quadro 21.

Quadro 20
Componente formativa do 3º ciclo (CEJ)
Variáveis
Conteúdo Duração Avaliação Observações
Módulos
Só para os auditores que
Expressão e
não frequentaram no 1º
voz
ciclo
Desenvolver os conhecimentos de modo a saber
Língua
utilizar o inglês com desenvoltura, na perspectiva 21 horas
estrangeira
técnico-judiciária
Fonte: OPJ

Quadro 21
Componente informativa e de especialidade do 3º ciclo (CEJ)

Variáveis
Conteúdo Duração Avaliação Observações
Módulos
Noções fundamentais de
contabilidade e gestão financeira,
para compreender, designadamente,
Contabilidade aspectos da criminalidade
21 horas Seminários/ateliers
e gestão económica, fiscal e da segurança
social, bem como a estrutura
financeira e actividade económica da
empresa
Reflexão sobre questões que
Aprofundar conhecimentos nos
tenham surgido da prática
Direito domínios das instituições e do direito;
Parâmetros a judiciária no decurso do 2º
europeu e preparação para utilização dos 24 horas
definir ciclo e domínios que não
internacional mecanismos de cooperação civil e
oportunamente tenham sido abordados no 1º
penal europeus e internacionais
ciclo
Reflexão sobre a crescente
importância da mediação enquanto
Mediação técnica alternativa de resolução de Seminários/ateliers
conflitos; identificação dos aspectos
mais relevantes
Abordagem de fenómenos sociais na
Sociologia perspectiva do seu reflexo e impactos
12 horas Seminários/ateliers
judiciária na intervenção judiciária

Fonte: OPJ

3.3. Espanha

3.3.1. Escuela Judicial: a formação dos juízes

Na Escuela Judicial, em Espanha, a formação inicial divide-se em dois


períodos de 12 meses cada.

O primeiro, teórico-prático, com formação inicial nos módulos de direito


O Recrutamento e a Formação de Magistrados 129

constitucional e comunitário (20 sessões) – Quadro 22; nos módulos de


“Primeira Instância” (58 sessões), com formação em família, arrendamento e
propriedade; responsabilidade civil; contratos civis e comerciais; protecção dos
consumidores e execução – Quadro 23 – e, ainda, com o módulo de instrução
criminal (60 sessões), em que se estudam os meios de investigação, a fase de
instrução e o processo penal – Quadro 24.

Quadro 22
Direito constitucional e comunitário na Escuela Judicial

Módulos Duração Observações

1 – Apresentação geral. O papel do juiz como garante da


supremacia da Constituição. A questão da 2 sessões
inconstitucionalidade
2 – O juiz nacional como juiz comunitário. A questão
prejudicial perante o TEJCE. A protecção dos direitos 4 sessões
fundamentais no âmbito comunitário

3 – Princípio da igualdade e não discriminação 2 sessões

4 – Liberdade ideológica e religiosa 2 sessões


Em todas as sessões se trabalha com
materiais jurisprudenciais.
5 – Direito à honra, intimidade pessoal e familiar e direito à
imagem Actividade de área: sessão monográfica
5 sessões relativa à ‘Administração da Justiça e
estado Autonómico’.
6 – Direito à liberdade de expressão e informação

7 – Liberdade de expressão e informação no contexto do


2 sessões
processo

8 – Direito de associação 1 sessão

9 – Direito a contrair matrimónio e mandato de protecção da


2 sessões
família

Fonte: OPJ
130 A formação inicial em acção

Quadro 23
Primeira Instância na Escuela Judicial
Variáveis
Trimestr Cursos Actividades
Conteúdo Duração
e monográficos jurídicas
Módulos
Família 8 sessões 1º
1 – Família,
Arrendamento, tutela da posse e
arrendamento e 7 sessões 2º
propriedade horizontal Processos de Protecção do
propriedade
Direitos reais e sucessões 5 sessões 3º incapacitação e consumidor.
Responsabilidade civil e seguro família. Os poderes do
de veículos a motor. Estudo de Meios de prova em juiz em processo
8 sessões 1º
casos e elaboração de sentenças processo civil. civil.
2 – Direito de I Execução civil. Conferências
indemnização. Responsabilidade civil e seguro Registo civil. sobre
Procedimento de veículos a motor. Estudo de Cooperação responsabilidade
5 sessões 2º
casos e elaboração de sentenças internacional civil. civil.
II Mediação e Direcção de
O processo executivo 5 sessões 3º conciliação. actos orais.
3 – Contrato civil e Contrato civil e comercial 8 sessões 1º
comercial. Protecção dos consumidores 7 sessões 2º
Execução Execução 5 sessões 3º
Fonte: OPJ

Quadro 24
Instrução na Escuela Judicial
Variáveis Cursos Actividades
Conteúdo Duração Trimestre
Módulos monográficos jurídicas
O início da instrução e o
8 sessões 1º A instrução
procedimento. A acusação
A conclusão da instrução e penal perante
1 – A fase de instrução. situações de
a fase intermédia de 7 sessões 2º
Estrutura e objectivos catástrofe.
processo
gerais O juiz de
O procedimento de
urgência. Instrução perante 5 sessões 3º instrução
tribunal de júri. perante as
questões de
Questões gerais e meios de
Cooperação bioética.
investigação com ingerência 8 sessões 1º
jurídica Toxicodependên
em direitos fundamentais
internacional cia e
Medidas cautelares
2 – Meios de investigação em matéria toxicomanias.
pessoais e controlo da
e medidas cautelares com 7 sessões 2º penal. A autorização
legalidade das restrições à
ingerência em direitos da Violência judicial em
liberdade
pessoa doméstica e de matéria de
Restrições de direitos género. extracção de
fundamentais e medidas Criminologia. órgãos.
5 sessões 3º
cautelares em casos Protecção penal
especiais e em reais do meio-
Prova e sentença: ambiente e
qualificação jurídica dos 8 sessões 1º instrução do
factos processo.
3 – O processo. Instrução
Sentença: estrutura e Execução penal.
de delitos em particular 7 sessões 2º
fundamentação Direcção de
Instrução de delitos em actos orais
5 sessões 3º
particular
Fonte: OPJ

Segue-se o estágio nos Tribunais de Primeira Instância e Tribunais de


Instrução. Pretende-se, nesta fase de carácter prático, que os formandos
conheçam melhor o direito substantivo, os princípios processuais gerais, as
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 131

regras de procedimento, a partir de uma perspectiva eminentemente prática. E


que, para além disso, adquiram as competências necessárias para a produção
de decisões orais e escritas, desenvolvendo, ao mesmo tempo, a consciência
de eficácia e de responsabilidade do juiz, através do conhecimento e da análise
da realidade social associada à actividade do juiz.

3.3.2. Centro de Estudios Jurídicos: a formação dos


“fiscales”

A formação dos magistrados do M.P., como já se referiu, é composta de


um período de formação inicial de 8 meses, dividida em período de formação
teórico-prática de 4 meses e estágio, também de 4 meses.

O período de formação teórico-prática divide-se na actividade do Fiscal


nas ordens jurisdicionais de penal (110 horas), de civil (24 horas) e na
compreensão do seu estatuto orgânico (12 horas) – Quadro 25.

Quadro 25
Formação central do Fiscal
Variáveis
Conteúdo Duração Observações
Módulos
Matéria substantiva
1 – O Fiscal na ordem 110
Matéria processual As aulas apoiam-se no método de caso
jurisdicional penal horas
Matéria constitucional
Família
2 – O Fiscal na ordem Incapacidades Este módulo será completado com práticas
24 horas
jurisdicional civil de família e incapacidades
Matérias relacionadas com a
participação do MP
Carreira
3 – O estatuto orgânico do
Responsabilidades 12 horas Visita à Físcalia General del Estado
Ministério Fiscal
Deontologia

Fonte: OPJ

Para além deste núcleo duro de formação, os candidatos frequentam


ainda 36 horas de formação complementar em matérias de contencioso
administrativo, social e, ainda, em regime de responsabilidade penal do menor,
direito de estrangeiros, violência doméstica e noções de economia,
132 A formação inicial em acção

contabilidade e direito tributário, relacionados com criminalidade económica


(Quadro 26).

Quadro 26
Formação complementar do Fiscal
Módulos Duração Observações
O Fiscal na ordem jurisdicional contencioso-administrativa 4 horas
O Fiscal na ordem jurisdicional social 4 horas Dependentes da função a exercer
aquando da primeira colocação
Noções de economia, contabilidade e direito tributário, relacionadas
4 horas
com delitos económicos
Violência doméstica e de género 8 horas
Matérias que merecem ser
Estrangeiros 8 horas
estudadas de forma autónoma
Regime de responsabilidade penal do menor 8 horas

Fonte: OPJ

Depois da formação de índole teórica, segue-se um período de estágio


que, como se disse, tem a duração de 4 meses. Durante esse período, os
formandos integrarão a actividade quotidiana das Físcalias, tomando contacto
com as fases orais dos vários tipos processuais penais: processo ordinário,
processo abreviado, juicio rápido, procedimento de júri, juicios de faltas e
processo de menores; bem como com as fases prévias (polícia, instrução e
qualificação); fases posteriores (a execução e vigilância). Têm, ainda, formação
prática na ordem jurisdicional civil, sobretudo em matéria de família e
incapacidades e, ainda, conhecimento das práticas forenses e da organização
da Físcalia.
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 133

4. Conclusões: Análise comparativa da estrutura e dos planos de curso


da formação inicial de magistrados em França, Portugal e Espanha

O estudo comparativo efectuado neste capítulo permite-nos constatar um


discurso quase consensual entre Escolas de Magistratura de Portugal, França
e Espanha relativamente aos princípios e objectivos da Formação Inicial de
Magistrados. Dentro desse discurso consensual sobre os princípios e os
objectivos da formação inicial de magistrados, verifica-se uma preponderância,
em Portugal e Espanha, no desenvolvimento de capacidades pessoais e
aquisição de conhecimentos (limitadas, ainda, à especificidade de formação do
MP em Espanha) e, em França, um acentuar de formação generalista, na
primeira fase, e alternância entre estágios e cursos teóricos e uma formação
virada para o exterior. Em Portugal, a formação inicial de magistrados tem a
duração mais curta, sendo de 22 meses; segue-se a formação inicial de juízes
em Espanha, com 24 meses e, com a maior duração, 31 meses, a formação
inicial de magistrados em França. No entanto, no que se refere à formação
inicial de Magistrados do M.P., em Espanha ela só tem a duração de oito
meses. A análise curricular salienta, por um lado, que a formação do M.P., em
Espanha, é limitada a matérias relacionadas com o seu desempenho
profissional imediato.
134 A formação inicial em acção
Capítulo V

A formação complementar e a formação permanente ou


contínua de magistrados: ainda em busca do seu lugar

Introdução

Entre os quinze países da Europa em análise, encontrámos informação


que nos permite analisar comparativamente catorze países. Todos os países
se preocupam em oferecer aos magistrados a possibilidade de aperfeiçoarem e
actualizarem os seus conhecimentos ao longo da vida. Essa função é
desempenhada pelos Conselhos Superiores ou pelos próprios Tribunais
(Finlândia, Espanha, Itália e Bélgica) ou pelas escolas de formação de
Magistrados (França, Portugal, Holanda e Grécia) ou, ainda, pelos serviços do
Ministério da Justiça (Inglaterra e País de Gales, Alemanha – Federal e dos
Estados – Dinamarca e Luxemburgo) e, ainda, em países como a Áustria ou a
Noruega, em que essa função é desempenhada em simultâneo pelas
Associações de Magistrados, pelos Tribunais ou pelo Ministério da Justiça.

Da análise destes países resulta, claramente, que a formação


complementar e a permanente ou contínua ainda não têm um lugar bem
definido na vida profissional dos magistrados, nem na sua avaliação, nem na
sua progressão profissional.

O estudo efectuado permite-nos detectar dois modelos, ainda


embrionários de formação complementar e permanente ou contínua de
magistrados: o modelo em que já prevê alguma formação de frequência
obrigatória e o modelo em que toda a formação complementar ou permanente
de magistrados é uma opção voluntária de cada um deles.

A Itália é o país onde o conceito de formação complementar e


permanente ou contínua obrigatória se encontra mais desenvolvido. Assim,
este tipo de formação é avaliado e valorado na progressão da carreira dos
magistrados.
136 A formação complementar e a formação permanente ou contínua de magistrados

1. O modelo dos países em que já se prevê alguma formação


complementar ou permanente ou contínua de natureza obrigatória

1.1. Análise comparativa: o modelo de formação com “alguma”


natureza obrigatória (França, Portugal, Inglaterra e País de
Gales, Finlândia, Holanda e Itália)

Em França os magistrados, após um ano de exercício de funções, são


obrigados a uma sessão de formação com a duração de duas semanas para
avaliar e aprofundar a sua prática profissional. Por seu lado, em Portugal, os
jovens magistrados, após serem nomeados magistrados efectivos, seguem
uma formação complementar ao longo de dois anos, de carácter obrigatório,
com duração de dois dias para reflexão sobre o exercício de funções de
magistrado.

A Judicial Studies Board, em Inglaterra e País de Gales, providencia que


de três em três anos os juízes recebam cursos de formação contínua.

Na Finlândia, os Tribunais organizam anualmente o seu programa de


formação complementar e contínua, sendo que quando existam alterações
legislativas significativas esses cursos de formação são obrigatórios.

Na Holanda a SSR assegura a formação permanente para


aperfeiçoamento e actualização das competências profissionais, que tem em
conta a evolução social e o seu impacto na profissão, dando ênfase a
conteúdos práticos e à troca de experiências. Todos os juízes holandeses
devem, anualmente, participar num curso de formação de 30 horas. Para os
procuradores está ainda em fase de desenvolvimento um sistema semelhante.

Por último, em Itália, os magistrados são obrigados a participarem, pelo


menos de 5 em 5 anos, em cursos de actualização teórico-práticos, com
duração de duas semanas consecutivas, sujeitos a avaliação, cuja informação
passa a constar da ficha individual e pessoal de cada magistrado e vale como
elemento de avaliação e valoração para o Conselho Superior de Magistratura.

Em Itália existem, ainda, cursos de duas semanas para progressão na


carreira para acesso a funções de categoria superior. Por último, cada
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 137

magistrado que, ao cabo de 7 anos, não tenha efectuado mudança de funções


deve frequentar um curso de actualização relativo às funções que exerce.

1.2. O modelo de formação com “alguma” natureza obrigatória:


breve análise país a país

1.2.1. França: a obrigação para os jovens e um direito/dever

Após um ano de exercício de funções, os jovens magistrados são


obrigados a uma sessão de formação com duração de 2 semanas, para
aprofundar a sua prática profissional.

Relativamente à formação contínua, cada magistrado tem direito,


anualmente, a cinco dias de formação, que pode ser sob a forma de estágios
junto de diversos organismos ou através de sessões sobre temas jurídicos ou
de carácter geral. A formação contínua é, aliás, reconhecida como um
direito/dever que assiste aos magistrados. Ainda que seja facultativa, os
magistrados dispõem de 5 dias por ano para poderem assistir às várias
actividades que lhes são propostas, verificando-se, cada vez mais, um
aumento da participação por parte dos magistrados. Em 1990 foi criada a
formação contínua desconcentrada, organizada ao nível dos tribunais de apelo
e destinada a responder às necessidades ‘locais’ de formação.

Por outro lado, esta formação tem, cada vez mais, em conta as
dimensões europeia e internacional, sendo que a ENM potencia a descoberta
do funcionamento de sistemas judiciários estrangeiros através de conferências,
grupos de trabalho e estágios no estrangeiro.

A oferta de formação complementar e permanente da ENM é muito


variada e cobre desde temas mais reflexivos sobre a justiça, os seus
operadores e a satisfação das necessidades dos práticos do direito (cfr. Anexo
A).
138 A formação complementar e a formação permanente ou contínua de magistrados

1.2.2. Portugal: formação complementar obrigatória e


permanente ou contínua facultativa após terem sido
nomeados definitivamente

Os novos magistrados, após terem sido nomeados definitivamente,


seguem uma formação complementar de 2 anos, de carácter obrigatório, que
se desenvolve através de actividades de reflexão sobre os problemas jurídicos
e institucionais ligados ao exercício da função de magistrado, com sessões de
aprofundamento de matérias com duração de 2 dias.

Em termos de formação permanente, o CEJ organiza, anualmente,


programas de carácter interdisciplinar, de frequência facultativa, para debater
problemáticas ligadas à instituição judiciária. Esses programas têm conteúdos
diferenciados conforme se dirijam aos juízes ou aos magistrados do Ministério
Público.

Os programas destinados aos magistrados judiciais tratam de temas de


conteúdo eminentemente prático, preferencialmente da jurisdição civil e penal,
abordando realidades quotidianas da vida judiciária, de modo a possibilitar
respostas e soluções para as dificuldades e dúvidas sentidas pelos juízes.

No que se refere à Magistratura do Ministério Público, os programas de


formação tratam também de temas de conteúdo eminentemente prático,
abordando realidades quotidianas da vida judiciária, preferencialmente da
jurisdição penal e de família e menores.

Há, ainda, que referir que os magistrados, em Portugal, beneficiam do


mesmo direito dos funcionários de poderem pedir licenças sabáticas até três
anos para frequentar mestrados e doutoramentos e elaborar as respectivas
teses.

1.2.3. Itália: formação complementar e contínua obrigatória


para valoração do mérito dos magistrados

No tocante à formação complementar e contínua, está prevista a


obrigação para os magistrados de participarem, cada 5 anos, nos cursos de
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 139

actualização e aperfeiçoamento profissional, de conteúdo teórico-prático, com


duração de 2 semanas consecutivas e que terminam com uma avaliação,
inserida na ficha pessoal de cada magistrado e que serve de elemento
valorativo para o CSM.

Existem, também, cursos de formação para passagem a funções


superiores, junto da Escola, e que consistem em sessões de estudo com
professores universitários, magistrados com funções de segundo grau e
advogados do Estado (com 15 anos de serviço). Compreendem parte teórica e
parte prática (com discussão de casos jurídicos e redacção de procedimentos).
Os cursos têm a duração de 2 semanas consecutivas e cada magistrado tem
direito a participar dos mesmos. No termo do curso, cada docente emite
parecer sobre cada participante.

Por outro lado, cada magistrado que, ao cabo de 7 anos, não tenha
efectuado mudança de funções – da função judicial para a função de Ministério
Público – deve frequentar um curso de actualização e aperfeiçoamento
profissional relativo às funções que exerce.

Ao analisar o “prospecto cronológico” dos cursos de 2006 organizados


pelo CSM, em Itália, impressiona-nos a quantidade e diversidade, bem como
se verificar a oferta de cursos de formação complementar e permanente que
classificam como cursos de civil (C), penal (P) e interdisciplinar (I) – cfr. anexo
B.

1.2.4. Inglaterra e País de Gales: cursos regulares de


aperfeiçoamento

A Judicial Studies Board (JSB) providencia que, de três em três anos, os


juízes recebam cursos de formação contínua, sendo esta formação dada para
as jurisdições respectivas em que os magistrados exercem as suas funções,
tendo por objectivo a actualização de conhecimentos que tenham em conta as
evoluções sociais e jurídicas e o seu impacto na instituição judicial.

Estes cursos compreendem actualização legislativa, em termos de direito


140 A formação complementar e a formação permanente ou contínua de magistrados

substantivo e processual, feita através de seminários (sobre direito da família,


direito civil e penal, em jurisdição comum e especializada e direito europeu e
internacional), bem como através de encontros para troca de experiências
profissionais (onde se discutem os problemas vividos quotidianamente pela
profissão e se faz a permuta de práticas técnico-profissionais).

1.2.5. Finlândia: um “mix” de formação obrigatória e


facultativa organizada pelos tribunais

Na Finlândia a formação contínua pode assumir duas formas: formação


obrigatória e formação voluntária.

A formação obrigatória tem lugar sempre que se dão alterações


legislativas significativas, pelo que os tribunais preparam, anualmente, os seus
programas formativos. O Tribunal de Recurso também organiza, anualmente, o
seu programa. Esta formação tem a forma de seminários e de actividades
práticas, em horário laboral.

Por outro lado, a formação de cariz voluntário é da competência do


Ministério da Justiça e abrange várias áreas do direito. Há, também, cursos de
línguas estrangeiras.

1.2.6. A Holanda: a oferta anual da SSR

A SSR (Escola da Magistratura Holandesa) assegura anualmente, aos


juízes e magistrados do Ministério Público, formação permanente para
aperfeiçoamento e actualização das competências profissionais. Esta formação
tem em conta a evolução social e o seu impacto na profissão, dando ênfase a
conteúdos práticos e à troca de experiências.

Graças a uma decisão recente do Conselho da Magistratura e do Comité


Nacional do Ministério Público, a partir de um certo nível na carreira os
magistrados têm formação obrigatória. Deste modo, todos os juízes holandeses
devem, anualmente, participar num curso de formação de 30 horas. Para os
procuradores está ainda em fase de desenvolvimento um sistema semelhante.
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 141

2. O modelo de formação complementar e permanente de natureza


facultativa

2.1. Análise comparativa do modo de formação da natureza


facultativa (Espanha, Noruega, Alemanha, Áustria, Luxemburgo
e Grécia)

Entre os países (Espanha, Noruega, Alemanha, Áustria, Luxemburgo e


Grécia) que não têm formação complementar ou permanente obrigatória não é
possível detectar linhas comuns, caracterizando-se pela sua diferença e
fragmentariedade. Temos, assim, os planos anuais de formação complementar
ou permanente de Espanha e da Alemanha ou os cursos teórico-práticos
regulares da Holanda, Bélgica, Noruega e Dinamarca.

2.2. O modelo de formação facultativa: Análise país a país

2.2.1. Alemanha86: um programa de oferta anual

Na Alemanha é à Academia Alemã da Magistratura (Deutsche-Richter


Akademie) que incumbe a formação contínua de juízes e magistrados do
Ministério Público. O conteúdo desta formação compreende não só os
conhecimentos relativos às respectivas áreas funcionais, mas também a
transmissão de experiências associadas às evoluções políticas, sociais,
económicas e científicas.

O programa anual de formação é proposto por cada um dos Länder, bem


como pelas associações profissionais de magistrados, que são consultadas na
matéria. O conteúdo do programa consiste em seminários de especialização
jurídica, em direito civil, direito penal e jurisdições especializadas; seminários
pluridisciplinares; e seminários de transmissão de competências sociais
(comportamentais). No ano de 2006 o programa formativo incidiu em temas
que vão da independência da justiça à reacção ao extremismo político do

86
Para mais informações, consultar http://www.deutsche-richterakademie.com.
142 A formação complementar e a formação permanente ou contínua de magistrados

direito, passando pela violência na família, matérias penais, os direitos da


criança e a comunicação intercultural em audiência (cfr. anexo C).

2.2.2. Áustria: oferta fragmentada e direito a duas semanas

A formação contínua é organizada por diferentes instituições, como os


Tribunais de Recurso, o Ministério da Justiça e a Associação Austríaca de
Juízes. Consiste, fundamentalmente, em seminários e actividades práticas,
tendo os juízes direito a duas semanas por ano para frequentar a formação.

2.2.3. Espanha: um plano de Estado (CGPJ) e a oferta plural


das comunidades

Compete ao Consejo General del Poder Judicial a formação contínua dos


Magistrados Judiciais, que se orienta em torno do Plano Estatal de formação
contínua e da formação descentralizada. O CGPJ pretende, assim, garantir que
todos os Magistrados recebam formação especializada e de alta qualidade
durante toda a sua carreira profissional.

No que toca ao Plano Estatal, as actividades dirigem-se a todos os


membros da carreira judicial do país, enquanto que a formação descentralizada
é assegurada pelas Comunidades Autónomas, tendo por finalidade atender às
necessidades formativas e peculiaridades jurídicas e idiomáticas dos distintos
territórios. Há, ainda, os chamados Foros Específicos de formação, que
desenvolvem actividades dirigidas a Jueces de todo o país, tais como a
Escuela de Verano del Poder Judicial, com sede na Corunha; o Foro
permanente de estudios judiciales europeos, em Múrcia; o Foro de estudios
jurídico-económicos, em Valência; o Foro de estudios medioambientales, em
Sevilla; o Foro sobre siniestralidad laboral, nas Astúrias; e o Foro de estudios
sobre la inmigración nas Ilhas Canárias.
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 143

2.2.4. A Bélgica: formação profissional, temática e


metodológica

A formação permanente, da responsabilidade do Conselho Superior de


Justiça, compõe-se de formações ligadas à função, que se destinam aos
magistrados que ainda não assumiram funções ou que vão assumir uma nova
função e consistem numa troca de experiências profissionais; de formação
temática, que é uma formação especializada numa determinada área ou
matéria de direito; e de formação metodológica, que visa dotar os magistrados
de competências não jurídicas (como noções de informática, expressão escrita
e oral ou noções de gestão).

2.2.5. A Noruega: formação voluntária e licença sabática de


seis meses

Todos os anos existem conferências em que são abordados diversos


temas, tais como as funções administrativas dos magistrados, questões de
gestão e economia ou assuntos jurídicos relevantes. Os magistrados
participam voluntariamente em tais encontros.

Existem, também, cursos de curta duração, organizados pelas


associações de magistrados e pelo Ministério da Justiça, cuja participação é
limitada e em que apenas podem participar os magistrados cujos horários
assim o permitam.

Por outro lado, desde 1997, existe a possibilidade de os magistrados com


mais de dez anos de carreira requererem uma licença, com duração de seis
meses, para poderem investir nos seus estudos (licença essa sem perda de
salário e com direito a reembolso de despesas). Após avaliação das propostas
apresentadas, são concedidas dez licenças (com a respectiva ‘bolsa de
estudo’).

2.2.6. Dinamarca: cursos de duas semanas

Anualmente, o Ministério da Justiça, em cooperação com as associações


144 A formação complementar e a formação permanente ou contínua de magistrados

profissionais, organiza cursos e seminários, com duração de cerca de duas


semanas, para transmissão de actualizações legislativas. A frequência destes
cursos/seminários não tem carácter obrigatório87.

87
Para além dos países tratados no texto, ainda recolhemos informação da Grécia e do
Luxemburgo, que não foi tratada por ser insignificante. Na Grécia existe, na Escola Nacional da
Magistratura grega, um Departamento de Formação de Magistrados em funções, que foi criado
em Junho de 1998, com sede em Komotini. Por seu lado, no Luxemburgo, a formação contínua
de magistrados (assim como a formação inicial) está a cargo do Ministério da Justiça. Esta
formação é assegurada por uma comissão composta de magistrados e funcionários judiciais.
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 145

3. Conclusão: a formação contínua de magistrados é um conceito ainda


emergente

A análise efectuada neste capítulo permite-nos concluir que a formação


contínua ainda é um “parente pobre” da formação de magistrados.

O estudo efectuado permite-nos detectar dois modelos, ainda


embrionários de formação complementar e permanente ou contínua de
magistrados: o modelo em que já prevê alguma formação de frequência
obrigatória e o modelo em que toda a formação complementar ou permanente
de magistrados é uma opção voluntária de cada um deles.

A Itália é o país onde o conceito de formação complementar e


permanente ou contínua obrigatória se encontra mais desenvolvido. Assim,
este tipo de formação é avaliado e valorado na progressão da carreira dos
magistrados.
146 A formação complementar e a formação permanente ou contínua de magistrados
Capítulo VI

A análise comparada do recrutamento e formação de


magistrados na União Europeia:

Conclusões

O presente estudo tem, unicamente, como objecto a análise comparada


dos sistemas de recrutamento, formação inicial e formação complementar e/ou
permanente ou contínua de magistrados, a partir da União Europeia. Assim,
procedemos à análise dos princípios e normas do direito internacional de
protecção da independência do poder judicial e do recrutamento e formação de
magistrados, do direito constitucional vigente em Portugal e, ainda, à análise
comparada dos sistemas de recrutamento, formação inicial e formação
complementar, permanente ou contínua nos seguintes países: Alemanha,
Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Grécia, Holanda,
Inglaterra e País de Gales, Itália, Luxemburgo, Noruega, Portugal e Suécia.

Eis as principais conclusões:

I – A consolidação de um direito (internacional e constitucional) e de sete


princípios constitutivos do recrutamento e formação de magistrados

1. Ao longo da segunda metade do Séc. XX e início do Séc. XXI


consolidou-se um direito – internacional e constituicional – da protecção da
independência do judiciário e consequentemente do recrutamento e formação
de magistrados. Entre outros instrumentos jurídicos internacionais, esse direito
corporiza-se designadamente: na Declaração Universal dos Direitos Humanos
(1948) – DUDH – e no Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos
(1966); nos princípios fundamentais das Nações Unidas relativos à
independência da Magistratura (1985) e nas Linhas Orientadoras sobre a
função do Ministério Público (1990); no Estatuto Universal dos Juízes, da União
148 Conclusões

Internacional de Magistrados (1999); nos Princípios de Conduta Judicial de


Bangalore (2002); na Convenção Europeia para a Protecção dos Direitos do
Homem e das Liberdades Fundamentais (1950) – CEDH; na recomendação
(94) 12 do Comité de Ministros do Conselho da Europa (C.E.) aos Estados-
Membros sobre a independência, a eficácia e o papel dos juízes; na Carta
Europeia do Estatuto dos Juízes (1998); na Rede Europeia para a Formação
Judiciária (REFJ); na Comunicação da U.E sobre Formação Judiciária na União
Europeia: a formação como instrumento para a melhoria da cooperação
judiciária.

2. Este direito internacional consagra e defende a independência,


imparcialidade, idoneidade, equidade e competência do poder judicial. Por isso,
defende um recrutamento por concurso público dos magistrados, baseado em
critérios objectivos sem que seja permitida qualquer discriminação negativa.
Consagra, ainda, que a nomeação seja efectuada por um órgão independente
dos poderes legislativo e executivo e da entidade que faz o recrutamento e a
formação de magistrados. Pretende-se que qualquer pessoa tenha um
julgamento justo, público, num prazo razoável, por Tribunal independente e
imparcial, com garantias de defesa, presunção de inocência, acesso a um
defensor e a informação numa língua que seja por si entendida.

3. Na Constituição da República Portuguesa (CRP) os Tribunais “são um


complexo de órgãos de soberania”, ao qual é garantida a independência
(pessoal dos juízes e funcional), a reserva de jurisdição, a imparcialidade e a
irresponsabilidade. A CRP remete a regulamentação do recrutamento e
formação dos magistrados para a lei, mas consagra o princípio da nomeação
dos juízes pelo Conselho Superior da Magistratura, enquanto órgão autónomo
do poder legislativo.

4. O Ministério Público, embora não seja um órgão de soberania, é, nos


termos constitucionais, um órgão do poder judicial. Embora hierarquicamente
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 149

subordinados, os agentes do Ministério Público são magistrados com garantias


de autonomia e independência constitucionais que os coloca numa posição de
‘sujeição à lei’ tendencialmente equiparável às dos juízes. Assim, a nosso ver,
o recorte constitucional, em Portugal, dos Magistrados Judiciais e do Ministério
Público exige que eles sejam sujeitos a um recrutamento e formação
efectuados em obediência à mesma panóplia de princípios constitutivos.

5. Assim, a reflexão efectuada a partir do referido direito internacional de


protecção da independência do poder judicial e recrutamento e formação dos
magistrados e da lei constitucional leva-nos à formulação dos seguintes
princípios constitutivos de recrutamento e de formação de magistrados:

a) Da legitimação constitucional, em função do princípio da independência


do poder judicial, do recrutamento e da formação (ou o princípio de um
júri plural de selecção);

b) Da garantia de um recrutamento plural e diversificado nas competências e


saberes dos candidatos e sem qualquer discriminação negativa em
função do sexo, idade, opção política, religiosa, filosófica ou de orientação
sexual;

c) Da garantia de um recrutamento para formação por concurso público,


assente em critérios objectivos, adequado às qualificações académicas,
formação e experiência profissional dos candidatos;

d) Da formação, garantida pelo Estado, dever habilitar os magistrados com


uma apurada formação técnica geral, uma elevada sensibilidade social e
uma formação especializada e adequada às funções de juiz e de
magistrado do M.P., bem como à jurisdição onde vão trabalhar;

e) Dos conteúdos jurídicos e não jurídicos da formação deverem privilegiar o


desenvolvimento de uma cultura de respeito pelos direitos humanos,
constitucionais e de cidadania;
150 Conclusões

f) A nomeação dos magistrados por um órgão independente da entidade


que é responsável pela sua formação, bem como dos poderes legislativo
e executivo;

g) A continuidade e progressão das carreiras de magistrados devem


depender da frequência de formação contínua e da prestação de provas
em concurso público.

II – O recrutamento de magistrados: os modelos vigentes na União


Europeia

6. No modelo democrático contemporâneo, o recrutamento dos


magistrados é efectuado mediante a realização de concurso público não só
para a primeira instância, mas também, em alguns casos, para as instâncias
superiores. Dentro desse modelo, os países estudados da Europa podem
subdividir-se em quatro grupos. Em primeiro lugar, aqueles que privilegiam o
recrutamento com base na experiência profissional anterior dos candidatos,
como a Inglaterra e País de Gales e a Noruega, que só recrutam, para juízes,
advogados com mais de dez anos de experiência profissional. Neste modelo
insere-se, ainda, a Finlândia, em que o recrutamento de magistrados assenta
em profissionais com experiência no sistema judiciário, como funcionários de
justiça, referendários ou magistrados com nomeação provisória.

7. Em segundo lugar, destacamos o modelo de recrutamento de


magistrados após a frequência de estágio profissional, a que se acede sem
concurso público. Neste grupo de países encontramos o Luxemburgo, a
Dinamarca e a Suécia. Em qualquer dos casos, os licenciados em direito
candidatam-se a um estágio profissional a que se segue, no caso do
Luxemburgo, a frequência da École Nationale de la Magistrature, em França;
no caso da Dinamarca, um estágio personalizado adequado às necessidades
do candidato; e, no caso da Suécia, um estágio de dois anos, seguido de
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 151

nomeação provisória durante seis anos, pelo que, só ao fim de oito anos é que
o candidato é nomeado definitivamente magistrado.

8. Num outro grupo de países, como a Alemanha e a Áustria, predomina o


exame de Estado após acabar a licenciatura em direito, seguido de estágio
profissional de dois anos, na Alemanha, e de quatro anos, na Áustria, no qual
se incluem nove meses de estágio preparatório antes do primeiro exame em
direito civil e em direito penal.

9. No entanto, o modelo actualmente dominante na Europa é o do


concurso público para formação inicial em Escola de Formação de Magistrados
(França, Holanda, Espanha, Portugal, Grécia e Itália) ou em cursos teórico-
práticos e estágios profissionais, como na Bélgica e na Holanda. Este modelo
admite diversas formas de concurso público diferenciado, conforme os
candidatos tenham ou não experiência profissional (como são os casos da
França e da Holanda). Em todos os países referidos, os candidatos são
admitidos para formação e só depois de avaliada a sua performance (exames
ou avaliação contínua), é que os candidatos vêm a ser nomeados magistrados.

10. Em Inglaterra e Gales, a partir do Constitutional Reform Act 2005, o


recrutamento e selecção de novos juízes compete à Judicial Appointments
Commission (JAC) composta de 15 Commissioners, provindos do sistema
judiciário, de profissões forenses, tribunais, juízos de paz e da sociedade civil.
Os candidatos a nomear devem ser de nacionalidade inglesa ou de um país da
Commonwealth. O processo de selecção é baseado no mérito do candidato,
tendo em consideração “cinco qualidades fundamentais, justificadas através de
catorze competências”. Os candidatos terão de suportar a sua candidatura
através de referees, sendo depois entrevistados. Os candidatos seleccionados
são nomeados juízes a tempo parcial, exercendo as suas funções por períodos
de vinte dias/ano, continuando, a par disso, a exercer a função de advogados.
Após um período variável de vários anos, são nomeados juízes a tempo inteiro.
152 Conclusões

Os magistrados do Ministério Público (Crown Prossecution Service) são


recrutados de dois modos: as pessoas com o título de barrister ou de solicitor
podem aceder directamente às funções, após entrevista; as pessoas que ainda
não tenham esse título são recrutadas enquanto juristas estagiárias, após
prova (caso prático) e entrevista. Só os juristas estagiários tem de fazer um
estágio (de um ano, se forem como aprendiz de barrister e de dois anos, caso
seja para solicitor), sendo a formação organizada pelo CPS.

11. Na Noruega, o sistema de recrutamento de novos magistrados é feito


através de nomeação pelo Rei, ainda que seja da competência do Ministério da
Justiça fazer a avaliação das candidaturas. Exige-se que os candidatos,
licenciados em direito, tenham experiência profissional de dez anos, pelo
menos (normalmente, advogados). Exige-se, ainda, que os candidatos saibam
as duas línguas oficiais da Noruega e que tenham o seu registo criminal
“limpo”. Apesar de não existirem testes de admissão, o Ministério da Justiça
pode sujeitar os candidatos a uma entrevista, de forma a avaliar as suas
competências.

12. Na Finlândia, os candidatos devem ter, para além do requisito de


nacionalidade, licenciatura em direito. Acede-se à magistratura através da
experiência adquirida como funcionário judicial, como referendário num tribunal
de recurso ou pela obtenção de nomeação provisória de juiz. Após a
nomeação, o estagiário efectua vários estágios, durante o período mínimo de
um ano. É à comissão de nomeações judiciárias (Tuomarinvalintalautakunta)
que compete a avaliação dos candidatos, transmitindo o seu parecer ao
governo, para que este transmita a informação ao Presidente da República,
que é quem nomeia os magistrados vitaliciamente, sendo a comissão
constituída por cinco anos. O seu presidente é o membro designado pelo
Tribunal Supremo de Justiça e o vice-presidente é o membro designado pelo
Tribunal Supremo Administrativo. É, ainda, composta pelos seguintes
membros: um presidente de tribunal de recurso, um juiz-principal de tribunal
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 153

administrativo, um juiz-principal de um tribunal de círculo, um juiz de Tribunal


de Recurso, um juiz de um tribunal de cículo, dois juízes de tribunal
administrativo, um advogado, um procurador e um docente universitário (todos
os membros devem ter os seus próprios substitutos).

13. No Luxemburgo, para obter uma nomeação como magistrado é


necessário ter nacionalidade luxemburguesa, estar na posse dos direitos civis e
políticos e conhecer as três línguas do país. Para além destes requisitos, é
necessário ter licenciatura em direito (e cursos complementares em direito
luxemburguês) e que o candidato possua o diploma de exame de fim de
estágio judiciário. A nomeação como magistrado-estagiário é feita através de
decreto do Grã-Duque, a título provisório e por um período probatório de um
ano, após o qual se dá a nomeação a título definitivo, em função, também, das
vagas existentes, que são comunicadas internamente, nos tribunais e serviços
do Ministério Público onde estão como estagiários.

14. Na Dinamarca compete à Rainha nomear os novos magistrados, sob


recomendação do Ministro da Justiça e do Conselho Judicial de Nomeações,
cujo mandato tem a duração de quatro anos e que é composto por um juiz do
Supremo Tribunal de Justiça, um juiz de um tribunal superior, um juiz de um
tribunal de círculo, um advogado e dois membros designados pela sociedade
civil. Os candidatos devem ser licenciados em direito e ser de nacionalidade
dinamarquesa (devendo saber as duas línguas oficiais da Dinamarca). Para
além da licenciatura, devem ter trabalhado durante um período de nove meses
num Tribunal Superior. Cabe ao Conselho fazer a avaliação dos candidatos,
com base em entrevista, nos diplomas universitários e em todas as
informações e elementos relativos a experiência profissional anterior, já que
não existe prova formal de acesso. Segue-se uma nomeação temporária como
juiz-suplente durante um período que varia entre 9 e 12 anos. Pode haver,
depois, convite para exercer a função de juiz-auxiliar e só depois de algum
tempo nessa posição é que pode ter lugar a nomeação a título definitivo.
154 Conclusões

15. Na Suécia, os juízes são nomeados pelo Governo. Os candidatos são


licenciados em direito e, após a formação universitária, seguem uma carreira
profissional, começando a trabalhar como funcionários num tribunal de
comarca ou num tribunal administrativo de primeira instância, onde estão
durante 9 meses de estágio inicial a que se segue dois anos de formação
teórico-pratica e de estágio. Após este período o candiadto deve optar pela
magistratura judicial ou do MP, sendo nomeado juiz adjunto, mas ainda não juiz
a título definitivo e-efectivo, o que só acontecerá após um período probatório de
oito anos.

16. Na Alemanha, o recrutamento de novos magistrados faz-se por meio


de nomeação e não existe concurso. Os candidatos têm de ter nacionalidade
alemã, serem idóneos, terem capacidade para exercer a função e ter
completado a formação universitária em direito, bem como fazer o primeiro
exame de Estado. Depois, devem efectuar formação preparatória de dois anos,
comum a todas as profissões jurídicas. No final, há lugar ao segundo exame de
Estado, que compreendem provas escritas e orais e tem uma duração de cerca
de seis meses. O recrutamento de magistrados é feito por cada um dos Länder,
sendo a nomeação feita por comité de selecção do tribunal onde o magistrado
vai exercer funções (composto pelo ministro da justiça do respectivo Länd e por
membros da Câmara Federal ou eleitos pelo Parlamento para o efeito), que
tem em conta, sobretudo, a nota do segundo exame de Estado. Após a
nomeação, existe um período probatório, que pode variar entre os três e os
cinco anos e nos dois primeiros anos há avaliação de seis em seis meses, cujo
parecer, efectuado pelo presidente do Tribunal de Recurso, pode resultar em
dispensa que não precisa de ser justificada, sendo que, a partir do terceiro ano,
apenas pode haver dispensa por inaptidão. Após o período probatório, a
nomeação é definitiva e vitalícia.

17. Na Áustria, para se poder exercer a função de magistrado é


necessário obter formação jurídica, eminentemente prática e composta de dois
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 155

ciclos, cada um com o seu próprio diploma. Para além do mais, é necessário
preencher os requisitos formais, como nacionalidade e boas qualidades
pessoais, intelectuais e físicas. Os candidatos devem efectuar nove meses de
estágio inicial numa jurisdição.

Os candidatos interessados devem efectuar provas de direito civil e penal


e testes de aptidão psicológica perante uma comissão composta por cinco
membros: presidente do Tribunal de Recurso, três juízes e um advogado. Cabe
ao Ministro da Justiça designar as pessoas seleccionadas, mediante
proposição dos presidentes dos tribunais regionais superiores, que serão
integrados no serviço de preparação judiciária (com duração de quatro anos).
Após este período de preparação, e logo que haja o anúncio de vagas, pode
ser apresentada a candidatura às mesmas. É o Ministro Federal da Justiça
quem faz a nomeação dos novos magistrados (por delegação do Presidente
Federal).

18. Em França existem duas vias de acesso à magistratura: a de


concurso público (três concursos anuais, a selecção sur titres e concurso
complementar) e a de acesso directo. Os concursos são organizados
anualmente e os candidatos devem possuir os requisitos formais necessários,
como a nacionalidade francesa, posse de todos os direitos cívicos, boa moral,
serviço militar regularizado e boas condições de aptidão física. Todavia, os
candidatos não têm de possuir licenciatura em direito, mas têm de ter diploma
universitário ou um diploma do Institut d’Études Politiques ou ter formação da
École Normale Supérieure. Devem, ainda, possuir bons conhecimentos
jurídicos, sobretudo em matéria civil, penal e de direito público.

A ENM organiza, anualmente, três concursos de recrutamento. O primeiro


concurso, ou concurso externo, destina-se aos titulares de um diploma, com
idade até 27 anos. O segundo concurso, ou concurso interno, está reservado
aos funcionários com pelo menos 4 anos de serviço e com idade até 40 anos.
O terceiro concurso está reservado aos candidatos com pelo menos 8 anos de
actividade profissional e com idade até 40 anos.
156 Conclusões

Organiza, ainda, para além dos referidos concursos a selecção ‘sur titres’
(em que só podem ser seleccionados auditores de justiça até um limite de 20%
do número de auditores recrutados por concurso) dirige-se a interessados com
mais de 27 anos e menos de 40 anos, titulares de licenciatura em direito e com
experiência profissional (nas áreas jurídica, económica ou social) com uma
duração mínima de 3 ou 4 anos, dependendo das funções exercidas.

Em 2001 foi criado, também, o concurso complementar, destinado ao


recrutamento de magistrados de primeiro e segundo grau. O concurso para o
primeiro grau destina-se a pessoas com idade superior a 35 anos e com 10
anos de actividade profissional nas áreas jurídica, administrativa, económica ou
social. Para o segundo grau será necessário ter pelo menos 50 anos e justificar
15 anos de actividade profissional, nas áreas já mencionadas.

Há, ainda, a integração directa, ao nível do primeiro e segundo graus, de


pessoas com pelo menos 35 anos, que reúnam as condições exigidas para o
primeiro concurso e justifiquem uma actividade profissional que as habilite para
o exercício das funções judiciárias, de 7 ou 17 anos, consoante o grau a que se
candidatam.

A nomeação dos magistrados é feita pelo Presidente da República, com


fundamenro em parecer do Conselho Superior da Magistratura.

19. No sistema holandês existem duas vias de recrutamento: através de


uma dirigida a jovens licenciados e outra de recrutamento de candidatos com
experiência.

No caso do recrutamento de jovens licenciados, constituem requisitos de


acesso, para além da licenciatura em Direito, bom comportamento social e a
nacionalidade holandesa. É o Ministro da Justiça quem determina, anualmente,
o número de vagas a preencher e o período de selecção dura cerca de oito
semanas. A pré-selecção inicia-se através de carta de motivação e os
candidatos seleccionados são submetidos a testes psicológicos, realizados por
uma equipa de consultores externos. Depois da realização dos testes é que se
inicia o processo de selecção (que compreende seis fases), em que os cem
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 157

melhores candidatos são submetidos a um segundo teste psicológico mais


específico e realizam entrevista perante uma comissão de selecção. A
comissão elege os melhores candidatos e recomenda-os ao Ministro da
Justiça, que os nomeia com o estatuto de assistentes judiciários (RAIO) em
formação, na SSR.

No caso do concurso externo (candidatos com experiência), os requisitos


para admissão ao concurso são: licenciatura em Direito; seis anos de
experiência profissional no exercício de uma profissão jurídica; nacionalidade
holandesa; bom comportamento e menos de 50 anos de idade (mais de 30
anos, para a função de juiz ou mais de 35 anos, para a função de conselheiro).
O processo de candidatura, que tem carácter espontâneo, deve ser composto
de três cartas de recomendação. Os candidatos, para além de terem de
demonstrar uma vasta experiência social, boas capacidades intelectuais e
serem pessoas de trato fácil, são avaliados mediante entrevistas com a
comissão de selecção e através de exame em três de cinco áreas jurídicas. Os
candidatos aprovados são, em regra, afectados imediatamente à função.

Há, ainda, uma terceira via de recrutamento, que se destina aos


funcionários do Ministério Público ou judiciais, colaboradores ou funcionários
públicos de determinado índice salarial, com experiência profissional de 4 anos
e licenciatura em direito, podendo estes candidatar-se à função nos tribunais
de polícia.

20. Em Espanha é indispensável a aprovação num concurso de acesso,


para o qual é necessário reunir vários requisitos: nacionalidade espanhola,
idade entre os 18 e os 70 anos, posse das capacidades físicas necessárias ao
bom exercício da função e licenciatura em direito. Este concurso de acesso
destina-se a candidatos com ou sem experiência profissional, que deverão,
assim, efectuar todos as mesmas provas.

Existe uma outra via de acesso, reservada aos juristas que tenham, pelo
menos, 6 anos de experiência profissional numa profissão jurídica, que
poderão ser admitidos à função de Magistrado (exerce funções judiciais a um
158 Conclusões

nível superior ao do Juez) com base no seu mérito ou após a realização de um


teste. Os juristas com mais de 10 anos de experiência profissional podem
aceder directamente, sem necessidade de formação. A nomeação como
magistrado judicial faz-se através de decreto do CGPJ, enquanto que a
nomeação dos magistrados do Ministério Público é feita pelo Rei.

21. Em Portugal, o procedimento de recrutamento por concurso está


aberto a cidadãos de nacionalidade portuguesa, licenciados em direito (e que
reúnam os demais requisitos de ingresso na função pública), cuja obtenção da
licenciatura tenha ocorrido, pelo menos, dois anos antes da abertura do
concurso, que tem lugar uma vez por ano. Os doutores em direito estão isentos
das fases escrita e oral, tendo preferência sobre os restantes candidatos. Por
sua vez, os assessores estão isentos da fase escrita.

22. Na Grécia, o recrutamento faz-se por meio de concurso, para todos os


candidatos, que tem lugar todos os anos e para participar é necessário (para
além dos requisitos formais, como a nacionalidade) ter licenciatura em direito e
idade entre 27 e 40 anos. Os candidatos com melhor classificação são
admitidos na Escola Nacional de Magistratura, onde seguirão uma formação
inicial. Após a formação são nomeados magistrados ao nível da primeira
instância pelo Presidente.

23. Em Itália a selecção dos candidatos faz-se por meio de concurso e


desde 2001 existe um segundo concurso que permite o acesso à magistratura
de advogados com experiência. Para poder concorrer é necessário, para além
dos requisitos de nacionalidade italiana, pleno exercício dos direitos civis,
conduta civil e moral idónea e demais requisitos legais, ter licenciatura em
direito e, alternativamente: doutoramento em matéria de direito; habilitação
para o exercício da profissão forense; ter exercido funções na administração
pública, pelo menos durante 3 anos; ter exercido as funções de magistrado
honorário, pelo menos durante 4 anos; ou ter o diploma de especialização
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 159

numa área jurídica, após curso de especialização de 2 anos em escola


instituída nos termos do Decreto do Presidente da República de 1982. O
processo de candidatura ao concurso é dirigido ao Consiglio Superiore della
Magistratura. Os candidatos declarados idóneos são classificados segundo o
número total de pontos obtidos, sendo então nomeados auditores judiciários
devendo seguir formação inicial e só 8 anos após a nomeação enquanto
auditor judiciário é que há lugar à nomeação efectiva como magistrado judicial
ou do Ministério Público. A progressão na função efectua-se através de
concurso “per titolo” e exame.

Existem, ainda, duas outras vias de acesso. Uma delas trata-se de um


concurso simplificado reservado a advogados com idade superior a 45 anos e
experiência profissional efectiva de 5 anos enquanto advogado ou juiz
honorário – juiz dos tribunais não judiciais – (apenas podem ser recrutados até
10% do número total de magistrados). A segunda via trata-se de nomeação
directa, para o lugar de conselheiro no Tribunal Supremo (Cassazione), seja de
professores universitários, seja de advogados com experiência profissional de
15 anos e inscritos na Ordem para litigar nas jurisdições superiores.

24. Na Bélgica, para poder aceder à carreira de magistrado, o candidato


deve reunir determinados requisitos formais, como nacionalidade belga e
licenciatura em direito. O recrutamento faz-se por duas vias: concurso de
admissão ao estágio judiciário, para jovens licenciados e exame de aptidão
profissional, para candidatos com experiência.

Para admissão ao estágio por concurso, os candidatos devem provar ter


experiência profissional, efectuada durante os três anos anteriores à
candidatura, de um ano, pelo menos. Os candidatos que tenham obtido
frequência positiva na formação inicial podem candidatar-se a um dos postos
vagos, sendo que a afectação ao posto depende da classificação obtida na
formação. No que toca ao exame de aptidão profissional, este proporciona um
acesso directo à magistratura e está reservado a juristas com experiência (para
a magistratura judicial – 10 anos de advocacia ou 5 anos como conselheiro,
160 Conclusões

auditor, auditor-adjunto, etc; para a magistratura do Ministério Público – 9 anos


como advogado, notário, em funções académicas ou científicas ou 5 anos
como conselheiro, auditor, auditor-adjunto, etc). Os titulares do certificado de
aptidão profissional podem apresentar candidatura a uma vaga determinada e,
uma vez nomeados, entram imediatamente em funções, sem necessidade de
formação.

Em 2005 foi criado o exame oral de avaliação, para recrutamento de


advogados que exerçam a sua profissão há pelo menos 20 anos (ou 15 anos e
mais 5 anos de outra função jurídica), podendo aceder à magistratura através
desse exame e sem necessidade de efectuar a prova de aptidão profissional.

25. Na União Europeia, à excepção, por exemplo, da Inglaterra e País de


Gales, o modo de recrutamento predominante é, em cada país analisado,
comum a ambas as magistraturas. Assim acontece em França, fazendo-se a
opção apenas no final da primeira fase de formação inicial junto da École
Nationale de la Magistrature (ENM). Na Holanda o recrutamento também é
comum para ambas as magistraturas, bem como a formação inicial, pelo que a
opção pela magistratura judicial ou do Ministério Público só se faz ao terceiro
ano de formação, após vários estágios em jurisdição. Em Espanha o acesso à
magistratura, tanto judicial como do Ministério Público, é feito através de
concurso único e a opção por uma ou outra das magistraturas faz-se mediante
o número de pontos obtido na prova de concurso, dado que só os candidatos
melhor pontuados podem seguir a formação para juízes, enquanto que a
formação é diferenciada e está a cargo de escolas diferentes. Em Portugal
existe também recrutamento comum, pelo que a escolha por uma das
magistraturas só é possível no final da fase teórico-prática, ou seja, 22 meses
após o início da formação no CEJ. Em Itália o concurso é comum a ambas as
magistraturas. Logo na candidatura, o candidato, sob pena de inadmissibilidade
da mesma, efectua a sua opção por uma das magistraturas. Na Bélgica o
recrutamento também é comum para ambas as magistraturas, fazendo-se a
referida opção após o primeiro ano de formação (ou seja, optando-se pelo
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 161

estágio curto – só para procurador – ou pelo estágio longo – que dá acesso a


ambas as magistraturas). Também na Alemanha, na Áustria e na Finlândia o
modo de recrutamento de magistrados é comum à magistratura judicial e do
Ministério Público.

26. O tipo e a natureza da comissão de recrutamento e sua composição,


entre os países que recrutam para formação inicial em escola ou formação
inicial mista em estágios e cursos teórico-práticos, varia de país para país,
tendo em comum o princípio da independência face aos Poderes Legislativo e
Executivo. Em França a comissão é composta pelo presidente do Tribunal
Supremo (o presidente da comissão), o Procurador-Geral junto do Tribunal
Supremo, o inspector-geral dos serviços judiciários, dois magistrados do
Tribunal Supremo, um magistrado judicial, um magistrado do Ministério Público,
dois presidentes e dois procuradores-gerais junto do Tribunal de Recurso
eleitos pelos seus pares, e dez magistrados eleitos pelo conjunto dos
magistrados, tendo o seu mandato a duração de três anos.

Na Holanda a comissão de selecção de jovens licenciados, composta de


vinte membros, é constituída por juízes, procuradores, funcionários do
Ministério da Justiça e representantes da sociedade civil com larga experiência
profissional, enquanto que a comissão de avaliação de candidatos com
experiência é composta de sessenta membros que são nomeados pelo Ministro
da Justiça, constituída por juízes, procuradores, representantes do Ministério
da Justiça, um advogado de prestígio e um professor de Direito.

Em Espanha a comissão é designada por um período de quatro anos e


constituída pelos seguintes membros: um vogal do CGPJ e um Fiscal de Sala,
que presidem a comissão por períodos anuais alternados, um Magistrado, um
procurador, o Director da Escuela Judicial, o Director do Centro de Estudios
Jurídicos de la Administración de la Justicia, e um membro dos órgãos técnicos
do CGPJ, bem como um funcionário do Ministério da Justiça (com o nível
mínimo de Sub-director), ambos licenciados em direito (e que têm as funções
de secretários da comissão).
162 Conclusões

Em Portugal o júri é composto por, pelo menos, 3 membros, dentre


personalidades exteriores à estrutura judiciária, nomeados pelo Ministro da
Justiça, e magistrados designados pelos Conselhos Superiores das
magistraturas judicial e do Ministério Público. Na Grécia, o júri é composto de
cinco membros, entre magistrados e professores universitários.

Em Itália, a comissão de concurso é designada nos dez dias anteriores ao


da realização da prova escrita e os seus membros, magistrados (em número
variável, entre os 12 e os 17) e professores universitários (entre um mínimo de
quatro e um máximo de 8), são designados pelo Ministro da Justiça, após
deliberação com o Conselho Superior da Magistratura, em função do número
presumível de candidatos ao concurso.

Na Bélgica é ao Conséil Supérieure de Justice que compete a selecção


dos candidatos, sendo composto de 44 membros, metade deles magistrados
(repartidos pelos dois conselhos referentes a cada comunidade linguística),
cujo mandato tem a duração de 4 anos.

27. Nestes mesmos países, também em termos das provas a realizar


pelos candidatos a magistrados, existem várias realidades. Assim, em França
as provas dos três concursos dividem-se em provas escritas de admissibilidade
(pré-selecção) e em provas orais de admissão. As provas de admissibilidade
são constituídas por uma redacção de uma composição sobre tema ligado a
aspectos sociais, jurídicos, políticos e culturais da actualidade (5 horas); uma
redacção de dissertação (5 horas) sobre um assunto de direito civil (ou, no
caso do terceiro concurso, uma série de perguntas de resposta curta sobre
direito civil); e uma dissertação escrita (5 horas) sobre assunto em direito penal
ou em direito público e europeu (consoante a escolha do candidato; no caso do
terceiro concurso, já referido, os candidatos terão de elaborar um estudo
jurídico, a partir de documentos jurídicos, sobre as matérias jurídicas
referenciadas); elaboração de nota de síntese a partir de documentos
relacionados com questões jurídicas (5 horas). Já as provas de admissão
consistem em: discussão (30 minutos) com o júri sobre tema ligado a aspectos
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 163

sociais, jurídicos, políticos e culturais da actualidade ou comentário de texto de


carácter geral, à escolha do candidato, que dispõe de uma hora para preparar
a prova (relativamente ao terceiro concurso supra referido, tratar-se-á de uma
conversa com o júri para que este possa apreciar a abertura de espírito do
candidato, bem como a avaliação que este faz das actividades exercidas
anteriormente); questionário (15 minutos) sobre as matérias que o candidato
não tratou aquando da terceira prova escrita; questionário (15 minutos) sobre
direito comercial ou direito administrativo (consoante a escolha do candidato);
questionário (15 minutos) sobre organização judiciária e a jurisdição
administrativa, processo penal, processo civil e processo administrativo;
questionário (15 minutos) sobre direito social; prova oral de língua estrangeira,
consistindo na tradução de um texto e conversação, com duração de 30
minutos; prova de exercício físico, cujas modalidades são fixadas por portaria
do ministério da justiça (serão dispensados desta prova, pelo presidente do júri,
os candidatos declarados inaptos pela comissão médica, atribuindo-se-lhes
uma nota igual à média do conjunto de notas obtidas, após a aplicação dos
coeficientes).

28. Na Holanda, o processo de selecção dos jovens licenciados


compreende 6 fases: a) avaliação das exigências formais; b) teste
analítico/cognitivo, realizado por uma comissão de avaliação psicológica; c)
entrevista pessoal com um membro da comissão de selecção e um psicólogo,
na qual são avaliadas as capacidades de expressão oral, a prestação e o
equilíbrio do candidato; d) avaliação, escrita e oral, da personalidade; e)
entrevista, em que são testados os conhecimentos jurídicos, a motivação e o
compromisso social; e f) entrevista final, em que são examinados a posição
jurídica e o local de estabelecimento do candidato. Já a selecção de candidatos
com experiência faz-se mediante uma série de entrevistas com a comissão de
selecção e exame em três de cinco áreas (direito e processo civil, direito e
processo penal, direito e processo administrativo, direito público e direito fiscal).
Na terceira via de recrutamento há lugar a três entrevistas (mas não existe
exame psicológico).
164 Conclusões

29. Em Espanha o concurso compreende três provas, todas com carácter


teórico e eliminatório, e que são: exercício escrito de 100 perguntas sobre
teoria geral e direito constitucional, direito civil e direito penal; primeiro exercício
oral, que consiste numa exposição de 75 minutos sobre cinco temas nas
mesmas matérias que o exercício escrito; e o segundo exercício oral, que
consiste numa exposição de cinco assuntos jurídicos em 75 minutos, sobre
processo civil, processo penal, direito comercial e direito administrativo e do
trabalho.

30. Em Portugal as provas de admissão fazem-se por meio de teste de


aptidão, que compreende três fases: provas escritas, provas orais e entrevista.
A fase escrita compreende três provas: dissertação de cultura geral; caso
prático de direito civil, de direito comercial e de processo civil; e caso prático de
direito criminal e de direito processual penal, tendo cada uma delas a duração
de 3 horas. Os candidatos que obtenham 10 valores em 20 a cada uma das
provas escritas passam às provas orais, que são quatro, e compreendem
temas de deontologia profissional, metodologia e sociologia; direito civil e
comercial e processual civil; direito criminal e direito processual penal; direito
constitucional, comunitário, administrativo, direito do trabalho e direito da
família e menores. Cada prova oral tema a duração máxima de 30 minutos.
Para passar à entrevista é necessário ter 10/20 valores em cada uma das
orais. A entrevista não tem avaliação quantitativa, mas será eliminatória caso a
apreciação não seja favorável.

31. Na Grécia o concurso compõe-se de uma prova escrita de cultura


geral, direito constitucional e administrativo, direito civil e comercial, direito
penal e, em opção, direito comunitário, fiscal ou direito do trabalho; e de uma
segunda prova, também escrita, sobre um caso prático (nas matérias já
referidas). Segue-se, depois, uma prova oral de direito constitucional e de
direito administrativo, direito civil e comercial, direito penal e direitos
processuais (civil, penal, fiscal e administrativo) e uma exposição oral sobre um
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 165

determinado caso, cujo objectivo é o de examinar as capacidades de síntese e


análise. Há, ainda, a possibilidade de um exame de língua estrangeira, com
carácter voluntário.

32. Em Itália o concurso para Uditore Giudiziario é composto de uma


parte escrita e de uma parte oral. As provas escritas compreendem três
dissertações, em matéria de direito civil, direito penal e direito administrativo e
o candidato só passa à prova oral se tiver obtido um resultado de 12/20 valores
em cada uma das provas escritas. As provas orais compreendem matéria de
direito civil e elementos fundamentais de direito romano, processo civil, direito e
processo penal, direito administrativo, constitucional e tributário, direito
comercial e industrial, direito do trabalho e protecção social, direito comunitário,
direito internacional e elementos de informática jurídica. Há, ainda, um teste de
língua estrangeira. No concurso simplificado o exame compreende três
dissertações (direito civil e processual, direito penal e processual e direito
administrativo), bem como um exame oral (nas mesmas matérias jurídicas em
que consiste o exame oral para o concurso ordinário).

33. Quanto à Bélgica o concurso compreende duas provas escritas de 4


horas que consistem na redacção de sumário de uma decisão judicial (em
direito civil e judiciário; direito e processo penal; ou direito social e judiciário,
consoante a escolha do candidato), seleccionando as palavras-chave e
comentando a decisão. Caso obtenham 60% de pontuação, serão admitidos à
segunda prova. Nesta prova, que dura 4 horas, devem redigir uma dissertação
(max. 4 páginas) sobre um assunto da actualidade relacionado com o direito
(em matéria social, económica, política ou cultural). Segue-se, após as provas
escritas, uma prova oral, à qual acedem os candidatos que obtenham, também,
60% da pontuação na segunda prova escrita, que consiste numa discussão
sobre uma das três matérias de direito referidas, tendo o candidato 60 minutos
para se preparar. O exame de aptidão profissional compreende, também, duas
provas escritas: a primeira dura 5 horas e nela os candidatos têm de redigir
166 Conclusões

uma decisão (direito civil, penal ou social), que deve obedecer aos requisitos
de forma e de substância, para a qual dispõem de um dossier completo com os
dados do processo. Obtendo 60% de pontos passam à segunda prova escrita,
na qual, em 4 horas, devem redigir uma dissertação (max. 4 páginas) sobre um
assunto da actualidade relacionado com o direito. Efectuam, depois, uma prova
oral, à qual acedem caso obtenham 60% de pontos na segunda prova. Esta
prova consiste numa discussão sobre uma das três matérias de direito
referidas, na forma de caso prático, tendo o candidato 60 minutos para se
preparar.

34. Nos países em que a admissão é efectuada para formação inicial em


escola ou estágio e cursos teórico-práticos, em regra não tem período
probatório ou tem um período probatório curto, à excepção da Itália. Em
França, Espanha, Portugal e Grécia após a conclusão da formação inicial
(curso teórico-prático ou estágio) os candidatos são nomeados como
magistrados.

Na Bélgica, os candidatos que tenham obtido frequência positiva na


formação inicial podem candidatar-se a um dos postos vagos, após publicação
da lista de vagas no Moniteur Belge, sendo que a afectação ao posto depende
da classificação obtida na formação. Quanto aos titulares do certificado de
aptidão profissional, podem apresentar candidatura a uma vaga determinada e
uma vez nomeados entram imediatamente em funções, sem necessidade de
ter qualquer tipo de formação.

Na Holanda, os auditores de justiça, após formação na SSR, são


nomeados magistrados adjuntos ou substitutos do procurador, por um período
de um ano, durante o qual exercem funções sob controlo de um magistrado
experiente. Após este período probatório são avaliados e, em caso de
avaliação positiva, são nomeados vitaliciamente. Os candidatos aprovados no
concurso externo são, em regra, afectados imediatamente à função. São
nomeados juízes-adjuntos ou procuradores-substituos por um período de um
ano, durante o qual exercem funções sob supervisão de um magistrado
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 167

experiente. Podem ainda, junto da SSR, assistir a cursos periódicos. No final


do período mencionado são avaliados e, se a avaliação for positiva, o Tribunal
comunicará ao Ministério da Justiça a sua proposta de nomeação definitiva.

Em Itália só 8 anos após a nomeação enquanto auditor judiciário é que há


lugar à nomeação efectiva como magistrado judicial ou do Ministério Público, e
a progressão na função efectua-se através de concurso “per titolo” e exame.

III – A formação inicial de magistrados: os modelos de estágios


profissionais, de formação inicial em escola de magistratura e misto de
formação com cursos teórico-práticos e estágios

35. O estudo comparado das legislações e experiências europeias


vigentes permite-nos caracterizar a formação inicial de magistrados, na Europa,
em três grandes modelos: o modelo de estágios profissionais; o modelo de
formação inicial teórico-prática em escola, seguido de estágios profissionais; e
o modelo misto teórico-prático de formação com cursos teórico-práticos e
estágios profissionais.

36. O modelo dos estágios profissionais impera no centro-norte da Europa


e nos países escandinavos. Por seu lado, o modelo de formação inicial teórico-
prático em escola é privilegiado nos países do sul da Europa e nos países do
centro da Europa de língua francesa e pretende, em simultâneo, responder às
debilidades de formação jurídica nas universidades e à incapacidade do seu
suprimento só pelos estágios profissionais de formação de magistrados. Por
último, o modelo misto teórico-prático de formação com cursos teórico-práticos
e estágios profissionais é característico da Bélgica (cursos e estágios até 36
meses de formação) e da Holanda, em que se opta, claramente, por uma
formação prolongada (em regra, seis anos), em que se sucedem cursos
teóricos e estágios profissionais junto das mais diversas entidades públicas e
privadas.
168 Conclusões

37. O modelo de formação inicial de magistrados, em que estes, após


serem recrutados entre licenciados em direito ou entre profissionais do direito,
frequentam estágios profissionais, pode subdividir-se em três subgrupos: o
primeiro, de origem continental de língua alemã (Alemanha e Áustria), o
segundo, oriundo do sistema da Common Law (Inglaterra e País de Gales) e o
terceiro do direito escandinavo (Dinamarca, Suécia, Noruega e Finlândia).

38. No modelo de formação inicial em escola, que inclui os países que


provêm da tradição jurídica civilista francesa e latina, verifica-se que a
formação teórica é ministrada, na maior parte dos países estudados, em escola
de magistrados, sendo completada por estágios práticos em tribunal (ou
noutras instituições, algumas até fora do sistema judiciário), em que os
estagiários candidatos a magistrados (juiz e M.P.) tomam contacto com as
várias funções a exercer. Este sistema pode subdividir-se em países que têm
uma escola comum, e uma formação inicial comum, para a magistratura judicial
e do M.P. (França, Luxemburgo, Portugal, Grécia e Itália) e a Espanha, que
tem duas escolas de formação inicial de magistrados, uma para os juízes e
outra para o Ministério Público. A formação ministrada é, em regra, dividida em
três períodos de duração diferenciada, conforme os diversos países. O primeiro
período da formação inicial é, em regra, teórico-prático, de formação intensiva
em conteúdos legais, na própria escola de formação. Segue-se um período de
estágio inicial junto de diversos Tribunais e, em alguns dos países, segue-se
um período de estágio de pré-afectação junto de magistrados titulares, em que
o “formando” já efectua trabalho processual sob “tutela” do
magistrado-formador.

39. No caso da Alemanha após cumprido o ciclo de formação inicial


comum às profissões jurídicas, os candidatos são submetidos a um primeiro
exame de Estado para avaliação dos seus conhecimentos teóricos em direito e
da sua capacidade de resolução de casos práticos. Segue-se o período de
referendariat, com duração de 2 anos, remunerado e que compreende vários
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 169

estágios obrigatórios em jurisdição civil, penal, administrativa e num gabinete


de advogados, terminando com o segundo exame de Estado, que confere ao
candidato a “qualificação para a função judicial”. Concluído o estágio, os
candidatos são nomeados magistrados, ficando em período probatório, com
uma duração máxima de 5 anos.

40. Na Áustria, após a nomeação como “juiz-candidato”, o licenciado em


direito é admitido a um período de preparação, com duração de 4 anos,
período no qual é considerado o estágio preparatório de 9 meses. Após estes 4
anos de prática judicial e de aprovação nos exames de avaliação final (prova
escrita e oral) é que o candidato poderá efectuar a candidatura a um lugar de
juiz.

41. Em Inglaterra e no País de Gales, uma vez que os juízes


seleccionados têm todos, pelo menos, 10 a 15 anos de experiência profissional
(solicitors e barristers), a formação inicial dura apenas alguns dias, sendo
organizada pelo Judicial Studies Board. A formação inicial, que ocorre após a
sua nomeação como juízes, inclui cursos de direito civil e de direito penal, bem
como de aperfeiçoamento da técnica jurídica, sendo utilizados os métodos da
observação directa e da discussão de casos práticos. Há ainda uma
componente de visitas a estabelecimentos prisionais, centros de reeducação e
encontros/seminários com técnicos de reinserção social.

42. Na Dinamarca, um candidato a juiz tem de frequentar um programa de


3 anos, elaborado de forma personalizada pelo tribunal onde é colocado, no
qual lhe são estipulados as tarefas e o tempo que o candidato deve trabalhar
em cada um dos domínios jurídicos. Cada candidato é acompanhado de um
juiz-formador, que o avalia anualmente e, após a formação, para que haja a
nomeação como juiz, o candidato tem de efectuar exames.
170 Conclusões

43. Na Suécia, o candidato a juiz ou M.P. é nomeado “aspirante” durante


9 meses, período após o qual passa a juiz em formação. Durante este período,
segue formação intensiva de um mês no Ministério da Justiça, após a qual
entra ao serviço por um ano numa jurisdição de competência genérica ou de
competência administrativa, de primeira instância. Seis meses após a
nomeação como juiz de competência genérica, deve seguir outro período de
formação prática centralizada de 3 a 6 meses, após a qual é nomeado adjunto
num tribunal, onde estará durante um período experimental de 9 meses. Se
tiver, nesse Tribunal, avaliação favorável, é nomeado juiz-substituto ou
assessor. A primeira fase de formação dura 2 anos e é comum para ambas as
magistraturas e compreende formação teórica e prática. Após esses dois anos
pode escolher entre magistratura judicial ou do Ministério Público. Quando tiver
uma experiência profissional de 8 anos, pode ser nomeado juiz-efectivo, por
uma comissão independente da entidade formadora.

44. Na Finlândia, acede-se à função de juiz através da experiência


adquirida como funcionário judicial, como referendário num tribunal de recurso
ou pela obtenção de nomeação provisória de juiz. Após a nomeação, o
estagiário efectua vários estágios, durante o período mínimo de um ano. Os
programas de formação estão a cargo do Presidente do Tribunal de Recurso e
os candidatos são remunerados. Após o estágio de formação, são nomeados
juízes sem necessidade de efectuar qualquer exame.

45. Na Noruega, os novos magistrados são recrutados dentre advogados


com larga experiência profissional, pelo que não são sentidas necessidades de
formação básica e a prática comum consiste em que os magistrados sigam
uma formação inicial em direito processual civil e penal. Estes cursos de
formação inicial não são obrigatórios e não incluem qualquer tipo de exame ou
avaliação de conhecimentos.

46. Em França, a formação tem um carácter teórico e prático, alternando


O Recrutamento e a Formação de Magistrados 171

períodos de formação mais teórica com períodos de estágio, tendo estes como
objectivo o conhecimento do funcionamento de uma instituição ou um ambiente
profissional, bem como a aprendizagem, progressiva, numa jurisdição da
prática de funções judiciárias. A formação inicial, que se prolonga por 31
meses, integra duas fases: uma fase de formação geral e uma fase de estágio.
A fase geral tem a duração 24 meses e começa por um estágio de 3 meses, no
exterior da instituição judiciária; segue-se um período de escolarização de 8
meses na ENM e termina por um estágio de 13 meses em jurisdição. Existem,
ainda, estágios externos e um estágio de 2 meses num gabinete de
advogados. O principal objectivo daqueles estágios é a aquisição de
experiência prática. No final da fase de estágio, os auditores de justiça são
submetidos a uma prova de classificação. Depois desta prova o júri procede à
classificação dos auditores de justiça, e, após a publicação da lista de
classificação e da lista das vagas existentes, tem início a fase de estágio que
visa, exclusivamente, a preparação para a colocação em funções de juiz de
primeira instância, juiz de instrução, juiz do Tribunal de Menores, juiz de
execução de penas ou como delegado assistente do Ministério Público. O
estágio, com duração de 7 meses, divide-se, por sua vez, em duas fases: um
mês de formação teórica intensiva na função escolhida e cinco meses de
estágio de pré-afectação, com o objectivo de aperfeiçoamento funcional prático
nas funções que vão exercer. Finda esta fase, o auditor é nomeado
magistrado, pelo Presidente da República sob proposta do Conselho Superior
da Magistratura, para o exercício da função onde estagiou. Relativamente aos
auditores recrutados sur titres, iniciam a formação inicial no segundo período,
estando, assim, dispensados do primeiro estágio fora do sistema judicial, sendo
a duração total da sua formação de 27 meses: oito meses na Escola; doze
meses de estágio jurisdicional; dois meses de estágio num escritório de
advogados e cinco meses de estágio de pré-afectação. Para os candidatos
provenientes do exame extraordinário (profissionais com experiência), a
formação tem apenas a duração de 6 meses.

47. No Luxemburgo, para que um candidato possa ser nomeado como


172 Conclusões

juiz-estagiário, é necessário ter seguido, após a formação universitária, um


estágio judiciário, organizado por uma comissão designada pelo Ministro da
Justiça e que tem a duração de 2 anos, com remuneração mensal, devendo ser
feito junto de um advogado inscrito na Ordem dos Advogados Luxemburguesa.
No final há lugar a um exame. A nomeação como juiz-estagiário, feita através
de decreto grã ducal, tem natureza provisória e duração de um ano, durante o
qual os estagiários seguem uma formação inicial, com componente teórica
junto da Ecole Nationale de la Magistrature, em Bordéus, França. Após a
formação teórica, há uma formação prática junto dos tribunais, do Ministério
Público, dos serviços de polícia e dos estabelecimentos prisionais, entre outros.
Só no final dessa formação é que há lugar a nomeação definitiva.

48. A formação inicial em Portugal é teórico-prática, tendo a duração de


22 meses, é comum aos magistrados judiciais e do Ministério Público, estando
a cargo do Centro de Estudos Judiciários (CEJ) e decorrendo da seguinte
forma: 6 meses e meio no CEJ; 1 ano junto dos tribunais; 3 meses e meio de
novo no CEJ. No final desta fase, os candidatos são classificados e fazem a
sua escolha quanto a seguir a magistratura judicial ou do Ministério Público e
são nomeados de acordo com a sua escolha, devendo exercer as funções
correspondentes durante um ano em regime de estágio. No final desse período
torna-se titular e deve, durante 2 anos, seguir uma formação complementar, de
carácter obrigatório, onde deve seguir planos de formação elaborados pelos
conselhos superiores, em colaboração com o CEJ.

49. Na Grécia, os candidatos admitidos devem seguir formação na Escola


Nacional da Magistratura, que tem a duração de 16 meses, divididos em 2
estágios sucessivos de 12 e 4 meses. Durante os primeiros 12 meses devem
assistir a cursos teóricos, sobre as principais funções dos magistrados e
principais domínios da actividade judiciária; cultura geral, problemas da
sociedade contemporânea e aperfeiçoamento em matérias não jurídicas. Os
formandos têm, ainda cursos de língua estrangeira. No final desta fase devem
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 173

realizar exames escritos e orais e os candidatos que os passarem são


repartidos por grupos, de acordo com o seu percurso pedagógico, os seus
resultados e a sua escolha. Segue-se, depois, a fase de estágio prático com
duração de 4 meses, em que os candidatos recebem uma formação
especializada, com aprofundamento das matérias e especialização no domínio
jurídico que os futuros magistrados vão seguir após a formação e estágio
jurisdicional. Há, ainda, visitas a estabelecimentos prisionais e a serviços de
criminologia.

50. Em Itália, foi instituída em 2005 a Scuola Superiore della Magistratura,


estrutura a quem compete agora a formação inicial dos auditores de justiça que
no momento da candidatura, optam se pretendem vir a ser juízes ou
magistrados do MP. A formação inicial é composta de parte teórico-prática,
com duração de 6 meses junto da Escola, versando temas de direito e
processo civil, direito e processo penal e direito administrativo. Visa-se, ainda,
aperfeiçoar a capacidade técnica e deontológica dos auditores. Após o período
junto da escola existem os estágios de profissionalização, com a duração de 18
meses, dividindo-se em três períodos. No final do período de formação, que
tem a duração total de 24 meses, há lugar a avaliação da idoneidade para o
exercício das funções, cuja deliberação é feita pelo CSM. No caso de avaliação
negativa, o auditor é admitido a um novo período de formação, com sessão
junto da Escola, pelo período de 2 meses, e junto dos tribunais, com duração
de 10 meses.

51. Em Espanha, os candidatos admitidos ingressam na Escuela Judicial


(juízes) ou no Centro de Estudios Jurídicos (Ministério Público), para a
formação inicial. Na Escuela, a formação tem a duração de 2 anos, sendo o
primeiro ano composto de cursos teóricos e de casos práticos, para
desenvolvimento da capacidade de análise. Os conteúdos estão divididos em
três grandes áreas: Direito constitucional e comunitário; Primeira instância e
Instrução. Desenvolve-se, ainda, a aprendizagem de idioma estrangeiro, bem
174 Conclusões

como o ensino das línguas oficiais e direito próprio de cada Comunidade


Autónoma. No segundo ano, em que os formandos efectuam estágios práticos
nos tribunais de Primeira Instância e Tribunais de Instrução, pretende-se que
os formandos conheçam melhor o direito substantivo, os princípios processuais
gerais e as regras de procedimento. A avaliação do aproveitamento dos alunos
é feita de forma contínua e segundo um sistema de créditos. No segundo ano
da formação, a avaliação tem em conta as informações remetidas pelo juiz
orientador e integra a pontuação dos tribunais de primeira instância e de
instrução. A formação inicial dos Fiscales (Ministério Público) tem a duração de
8 meses. Nos primeiros quatro meses, a formação centra-se na aprendizagem
dos critérios de interpretação seguidos pela Físcalia e jurisprudência actual,
bem como resolução de casos práticos análogos aos que encontrarão na sua
actividade, sendo a avaliação feita através de questionário tipo teste. No
segundo período de formação, de cariz prático, os formandos integrarão a
actividade quotidiana das Físcalias. A avaliação deste período de formação
será feita através de relatórios elaborados quer pelos formandos, quer pelos
formadores e resolução de caso prático de direito e processo penal.

52. Na Bélgica, estão previstos dois estágios: o estágio curto, que dura 18
meses e só dá acesso ao Ministério Público e o estágio longo, de 36 meses,
que dá acesso a ambas as magistraturas. Após 11 meses de estágio, o
estagiário deve informar o tutor da escolha pelo estágio curto ou longo,
compreendo formação teórica e prática. A formação teórica consiste num ciclo
de cursos organizado pelo Serviço Público Federal de Justiça, enquanto que a
formação prática tem várias fases. No caso do estágio longo: 16 meses no
Ministério Público, um dos quais na secretaria, sendo que ao 6º mês o
estagiário pode ser nomeado para exercer, de forma total ou parcial, as
funções do Ministério Público; 6 meses em estabelecimento penitenciário,
serviço de polícia, notário e solicitadoria de execução ou no departamento
jurídico de uma instituição pública económica ou social; 14 meses num tribunal
de primeira instância, tribunal de trabalho ou tribunal de comércio, um dos
meses na secretaria. Quanto ao estágio curto: 12 meses no Ministério Público,
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 175

um dos quais na secretaria; 3 meses em estabelecimento penitenciário, serviço


de polícia, notário e solicitadoria de execução ou no departamento jurídico de
uma instituição pública económica ou social; 3 meses novamente no Ministério
Público. Para aqueles que obtêm o certificado de aptidão profissional por já
serem pessoas com experiência profissional não está previsto nenhum estágio,
pelo que exercem directamente a função.

53. Na Holanda, a formação dos novos magistrados está a cargo da


Stichting Studiecentrum Rechtspleging (SSR), a única instituição que pode dar
formação a juízes e magistrados do Ministério Público. A formação RAIO
(comum a ambas as magistraturas) tem a duração de 6 anos, com cursos
práticos intensivos, sendo que nos primeiros 4 anos o candidato efectua
estágios dentro da organização judiciária, seguindo um programa-base junto de
um tribunal de comarca ou do Ministério Público. Nos três primeiros anos, a
formação para jovens juristas admitidos como candidatos internos é constituída
por cursos teóricos no Centro de Formação e estágios práticos num dos
dezanove tribunais distritais. Durante os primeiros 6 meses, o formando ocupa
um posto de funcionário na secretaria, seguindo-se 12 meses no Ministério
Público, enquanto oficial substituto. No início de cada uma dessas fases é
obrigatória a realização de um curso específico sobre o conteúdo e técnicas
aplicáveis em cada um daqueles serviços. Os estágios têm a supervisão de um
juiz ou de um magistrado do Ministério Público, consoante o auditor esteja a
estagiar no Tribunal ou nos serviços do Ministério Público. Durante este
período, os candidatos participam em todas as actividades do Tribunal que
constituem as funções de juiz ou procurador. No fim do terceiro ano de
formação, os candidatos têm que optar pela carreira de juiz ou de procurador.
Consoante a sua opção, a formação no quarto ano é diferenciada e tem lugar
ou junto do Ministério Público ou junto da magistratura judicial. Os candidatos
são avaliados anualmente. Nos últimos dois anos, a formação tem lugar fora do
sistema judiciário (ex. escritórios de advocacia). Ao fim dos seis anos, os
auditores com aproveitamento no curso de formação são nomeados juízes-
adjuntos ou substitutos de Procurador. No caso de juristas com experiência, a
176 Conclusões

formação é mais complexa e menos sistematizada que a anterior e, após a


fase de selecção, estes candidatos são nomeados juízes-adjuntos ou
procuradores-adjuntos, sendo que, em função da sua experiência e capacidade
de estudo, a formação dura entre um a dois anos. Se a sua avaliação for
positiva, o Tribunal ou o Procurador recomendará, ao Ministro da Justiça, que o
candidato seja nomeado juiz ou Procurador.

IV – Formação inicial em acção: análise comparativa dos planos de


actividade e dos currículos formativos dos cursos de formação inicial em
Portugal, França e Espanha

54. O estudo comparativo do plano de actividades 2006/07 do CEJ


(Portugal), do Programme de Formation Initiale 2005 da ENM (França), no Plan
docente de formación Inicial curso 2006/2008 da Escuela Judicial/CGPJ
(Espanha) e Dossier Informativo do curso 2006/2007 de formação inicial dos
Fiscales, do Centro de Estudios Jurídicos (Espanha) permite-nos concluir que
existe um discurso quase consensual entre Escolas de Magistratura de
Portugal, França e Espanha relativamente aos princípios e objectivos da
Formação Inicial de Magistrados. Dentro desse discurso consensual sobre os
princípios e os objectivos da formação inicial de magistrados, constata-se uma
preponderância, em Portugal e Espanha, no desenvolvimento de capacidades
pessoais e aquisição de conhecimentos (limitadas, ainda, à especificidade de
formação do MP em Espanha) e, em França, um acentuar de formação
generalista, na primeira fase, e alternância entre estágios e cursos teóricos e
uma formação virada para o exterior.

55. Em Portugal, por um lado, a formação inicial de magistrados tem a


duração mais curta, sendo de 22 meses; segue-se a formação inicial de juízes
em Espanha, com 24 meses (e a de M.P. com 8 meses) e, com a maior
duração, 31 meses, a formação inicial de magistrados em França. Por outro
lado, o currículo de formação inicial, em Portugal, é muito mais variado que em
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 177

Espanha, dividindo-se numa componente formativa, outra componente


informativa e de especialidade e outra profissional. Por seu lado, a estrutura
curricular da ENM francesa assenta num maior período de duração de
estágios: estágio inicial (para descobrir os Tribunais e exterior, para descobrir
outras entidades), o estágio em jurisdição e o estágio de pré-afectação.

56. Em França, após o primeiro estágio inicial, há lugar a um segundo


estágio, que decorre fora da instituição judiciária e dentro de uma perspectiva
de complementaridade, com uma duração de dez semanas, em que os
formandos, são sensibilizados para os diversos aspectos da vida profissional,
económica e social. Terminado este período inicial de estágios, os formandos
regressam a Bordéus e têm uma formação com carácter teórico, em duas
grandes áreas: a “descoberta das funções” e a “aquisição de cultura ética,
deontológica e profissional”. No módulo de formação “à descoberta das
funções jurisdicionais”, o formando tem contacto e aprende o direito substantivo
e processual relativo à aplicação da justiça em Tribunal de Grande Instância,
Tribunal de Instância, Juiz de Instrução, Juiz de aplicação de penas, Juiz de
menores e Ministério Público. A este período de formação de largo espectro na
ENM, seguem-se os estágios em jurisdição. A formação em matérias de
aquisição de conhecimento profissional é, assim, deixada, em França, para os
estágios de jurisdição complementar e de pré-afectação.

57. Em Portugal, a formação de natureza profissional ocupa 333 horas,


em termos de abordagem dos temas de direito civil e comercial e de processo
civil, de direito penal e processo penal, de direito substantivo e processual da
família e das crianças, do direito do trabalho e da empresa e do processo do
trabalho, de organização, metodologia e discurso judiciários. Por seu lado, a
componente formativa em ética e deontologia, expressão e voz, língua
estrangeira e técnicas de informática ocupa 64,5 horas, para além de um
Projecto ao longo do ano. Por último, a componente informativa e de
especialidade ocupa 76,5 horas da formação inicial teórico-prática, na qual se
178 Conclusões

adquirem conhecimentos de medicina legal, psicologia forense, direito europeu


e internacional, direitos fundamentais, direito constitucional e direito
administrativo.

O plano de estágio que se segue prevê, ainda, para além do trabalho no


Tribunal, actividades complementares, como visitas a estabelecimentos
prisionais, serviços do IRS, conservatórias do registo e cartórios notariais, cujo
sucesso só poderá ser avaliado em concreto e não pela análise dos planos de
formação.

No terceiro ciclo de formação, em Portugal, os auditores voltam ao CEJ. A


componente de formação profissional continua a ser preponderante, com 207
horas de formação distribuídas pelos temas de direito civil e comercial e de
processo civil I e II, direito civil e comercial e de processo civil I e II, direito
substantivo e processual da família e das crianças, direito do trabalho e da
empresa e do processo do trabalho, Organização e gestão dos métodos de
trabalho e Investigação criminal e gestão do inquérito

58. Na Escuela Judicial, em Espanha, a formação inicial divide-se em dois


períodos de 12 meses cada. O primeiro, teórico-prático, com formação inicial
nos módulos de direito constitucional e comunitário (20 sessões); nos módulos
de “Primeira Instância” (58 sessões), com formação em família, arrendamento
e propriedade; responsabilidade civil; contratos civis e comerciais; protecção
dos consumidores e execução e, ainda, com o módulo de instrução criminal (60
sessões), em que estuda os meios de investigação, a fase de instrução e o
processo penal. É de realçar, em comparação com Portugal, a relevância que,
em Espanha, é dada ao direito constitucional.

Segue-se o estágio nos Tribunais de Primeira Instância e Tribunais de


Instrução. Pretende-se, nesta fase de carácter prático, que os formandos
conheçam melhor o direito substantivo, os princípios processuais gerais, as
regras de procedimento, a partir de uma perspectiva eminentemente prática. E
que, para além disso, adquiram as competências necessárias para a produção
de decisões orais e escritas, desenvolvendo, ao mesmo tempo, a consciência
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 179

de eficácia e de responsabilidade do juiz, através do conhecimento e da análise


da realidade social associada à actividade do juiz.

59. A formação dos magistrados do M.P., em Espanha, é composta de


um período de formação inicial de 8 meses, dividida em período de formação
teórico-prática de 4 meses e um estágio, também de 4 meses. O período de
formação teórico-prática divide-se na actividade do Fiscal nas ordens
jurisdicionais de penal (110 horas), de civil (24 horas) e na compreensão do
seu estatuto orgânico (12 horas). Para além deste núcleo duro de formação, os
candidatos frequentam ainda 36 horas de formação complementar em matérias
de contencioso administrativo, social e, ainda, em regime de responsabilidade
penal do menor, direito de estrangeiros, violência doméstica e noções de
economia, contabilidade e direito tributário, relacionados com criminalidade
económica. Depois da formação de índole teórica, segue-se um período de
estágio que, como se disse, tem a duração de 4 meses. Durante esse período,
os formandos integrarão a actividade quotidiana das Físcalias, tomando
contacto com as fases orais dos vários tipos processuais penais.

Aparentemente, a formação do M.P., em Espanha, é centrada nas suas


necessidades, mas é desvalorizada e desqualificada em função da que lhe é
fornecida em Portugal e França.

V – A formação complementar e a formação permanente ou contínua de


magistrados: ainda, em busca do seu lugar

60. Todos os países se preocupam em oferecer aos magistrados a


possibilidade de aperfeiçoarem e actualizarem os seus conhecimentos ao
longo da vida. Essa função é desempenhada pelos Conselhos Superiores ou
pelos próprios Tribunais (Finlândia, Espanha, Itália e Bélgica) ou pelas escolas
de formação de Magistrados (França, Portugal, Holanda e Grécia) ou, ainda,
pelos serviços do Ministério da Justiça (Inglaterra e País de Gales, Alemanha –
180 Conclusões

Federal e dos Estados – Dinamarca e Luxemburgo) e, ainda, em países como


a Áustria ou a Noruega que essa função é desempenhada em simultâneo pelas
Associações de Magistrados, pelos Tribunais ou pelo Ministério da Justiça.

61. Da análise dos sistemas vigentes nestes países, resulta claramente


que a formação complementar e a permanente ainda não têm um lugar bem
definido na vida profissional dos magistrados, nem na sua avaliação, nem na
sua progressão profissional. O estudo efectuado permite-nos detectar dois
modelos, ainda embrionários, de formação complementar e permanente ou
contínua de magistrados: o modelo em que já prevê alguma formação de
frequência obrigatória (França, Portugal, Itália, Inglaterra e Pais de Gales,
Holanda e Finlândia) e o modelo em que toda a formação complementar ou
permanente é uma opção voluntária de cada um dos magistrados (Alemanha,
Áustria, Espanha, Bélgica, Noruega e Dinamarca). No primeiro modelo, cabe à
Itália o papel de “leader”, dado que a formação permanente já é valorada na
apreciação do mérito dos magistrados.

62. Em França, após um ano de exercício de funções, os jovens


magistrados são obrigados a uma sessão de formação complementar com
duração de 2 semanas, para reflectir e aprofundar a sua prática profissional.

Relativamente à formação permanente ou contínua, cada magistrado tem


direito, anualmente, a cinco dias de formação, que pode ser sob a forma de
estágios junto de diversos organismos ou através de sessões sobre temas
jurídicos ou de carácter geral. A formação contínua é, aliás, reconhecida como
um direito/dever que assiste aos magistrados. Ainda que seja facultativa, os
magistrados dispõem de 5 dias por ano para poderem assistir às várias
actividades que lhes são propostas.

63. Os novos magistrados, em Portugal, após terem sido nomeados


definitivamente, seguem uma formação complementar de 2 anos, de carácter
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 181

obrigatório, que se desenvolve através de actividades de reflexão sobre os


problemas jurídicos e institucionais ligados ao exercício da função de
magistrado, com sessões de aprofundamento de matérias com duração de 2
dias.

Em termos de formação permanente, o CEJ organiza, ainda, anualmente,


programas de carácter interdisciplinar, de frequência facultativa, para debater
problemáticas ligadas à instituição judiciária. Esses programas têm, por
conteúdos diferenciados, conforme se dirijam aos juízes ou aos magistrados do
Ministério Público.

64. Em Itália, está prevista a obrigação para os magistrados de


participarem, cada 5 anos, nos cursos de actualização e aperfeiçoamento
profissional, de conteúdo teórico-prático, com duração de 2 semanas
consecutivas e que terminam com uma avaliação, a ser inserida na “ficha
pessoal” de cada magistrado e que serve de elemento de valoração para o
Conselho Superior da Magistratura Italiano.

Existem, também, cursos de formação para a passagem a funções de


nível superior, junto da Escola de Magistratura, e que consistem em sessões
de estudo com professores universitários, magistrados com funções de
segundo grau e advogados do Estado (com 15 anos de serviço).
Compreendem parte teórica e parte prática (com discussão de casos jurídicos
e redacção de procedimentos). Os cursos têm a duração de 2 semanas
consecutivas e cada magistrado têm direito a participar dos mesmos. Por outro
lado, cada magistrado que, ao cabo de 7 anos, não tenha efectuado mudança
de funções – da função judicial para a função de Ministério Público – deve
frequentar um curso de actualização e aperfeiçoamento profissional relativo às
funções que exerce.

65. A Escola da Magistratura Holandesa (SSR) assegura, anualmente,


aos juízes e magistrados do Ministério Público, formação permanente para
aperfeiçoamento e actualização das competências profissionais. Esta formação
182 Conclusões

tem em conta a evolução social e o seu impacto na profissão, dando ênfase a


conteúdos práticos e à troca de experiências.

Em obediência a uma decisão recente do Conselho da Magistratura e do


Comité Nacional do Ministério Público, a partir de um certo número de anos na
carreira os magistrados têm formação obrigatória. Deste modo, todos os juízes
holandeses devem, anualmente, participar num curso de formação de 30
horas. Para os procuradores está ainda em fase de desenvolvimento um
sistema semelhante.

66. A Judicial Studies Board (JSB) em Inglaterra e Gales, providencia


que, de três em três anos, os juízes recebam cursos de formação contínua,
sendo esta formação dada para as jurisdições respectivas em que os
magistrados exercem as suas funções, tendo por objectivo a actualização de
conhecimentos tendo em conta as evoluções sociais e jurídicas e o seu
impacto na instituição judicial.

67. Na Finlândia, a formação contínua pode assumir duas formas:


formação obrigatória e formação voluntária. A formação obrigatória tem lugar
sempre que se dão alterações legislativas significativas, pelo que os tribunais
preparam, anualmente, os seus programas formativos. O Tribunal de Recurso
também organiza, anualmente, o seu programa. Esta formação tem a forma de
seminários e de actividades práticas, em horário laboral. Por outro lado, a
formação de cariz voluntário é da competência do Ministério da Justiça e
abrange várias áreas do direito.

68. Na Alemanha, é à Academia Alemã da Magistratura (Deutsche-


Richter Akademie) que incumbe a formação contínua voluntária de juízes e
magistrados do Ministério Público. O conteúdo desta formação compreende
não só os conhecimentos relativos às respectivas áreas funcionais, mas
também a transmissão de experiências associadas às evoluções políticas,
O Recrutamento e a Formação de Magistrados 183

sociais, económicas e científicas.

69. Na Áustria, a formação contínua é organizada por diferentes


instituições, como os Tribunais de Recurso, o Ministério da Justiça e a
Associação Austríaca de Juízes. Consiste, fundamentalmente, em seminários e
actividades práticas, de frequência livre, tendo os juízes, direito a duas
semanas por ano para frequentar a formação.

70. Em Espanha, compete ao Consejo General del Poder Judicial a


formação contínua, de natureza voluntária, dos Magistrados Judiciais, que se
orienta em torno do Plano Estatal de formação contínua e da formação
descentralizada. O CGPJ pretende, assim, garantir que todos os Magistrados
recebam formação especializada e de alta qualidade durante toda a sua
carreira profissional. No que toca ao Plano Estatal, as actividades dirigem-se a
todos os membros da carreira judicial do país, enquanto que a formação
descentralizada é assegurada pelas Comunidades Autónomas, tendo por
finalidade atender às necessidades formativas e peculiaridades jurídicas e
idiomáticas dos distintos territórios.

71. Na Bélgica, a formação permanente é da responsabilidade do


Conselho Superior de Justiça, compõe-se de: formação ligada à função, que se
destinam aos magistrados que ainda não assumiram funções ou que vão
assumir uma nova função e consistem numa troca de experiências
profissionais; formação temática, que é uma formação especializada numa
determinada área ou matéria de direito; e formação metodológica, que visa
dotar os magistrados de competências não jurídicas (como noções de
informática, expressão escrita e oral ou noções de gestão). A frequência
também é voluntária.

72. Na Noruega, todos os anos existem conferências em que são


184 Conclusões

abordados diversos temas, tais como as funções administrativas dos


magistrados, questões de gestão e economia ou assuntos jurídicos relevantes.
Existem, também, cursos de curta duração, organizados pelas associações de
magistrados e pelo Ministério da Justiça, cuja participação é limitada e em que
apenas podem participar os magistrados cujos horários assim o permitam. Os
magistrados participam voluntariamente em tais encontros. Por outro lado,
desde 1997, existe a possibilidade de os magistrados com mais de dez anos de
carreira requererem uma licença, com duração de seis meses, para poderem
investir nos seus estudos (licença essa sem perda de salário e com direito a
reembolso de despesas).

Por último, anualmente, o Ministério da Justiça da Dinamarca, em


cooperação com as associações profissionais, organiza cursos e seminários,
com duração de cerca de duas semanas, para transmissão de actualizações
legislativas. A frequência destes cursos/seminários não tem carácter
obrigatório.

A concluir, é nossa convicção que o debate a que se procede,


actualmente, em Portugal, sobre a reforma do sistema de recrutamento e
formação de magistrados, após a leitura do presente estudo de análise
comparada dos sistemas de recrutamento, formação inicial e formação
complementar, permanente ou contínua centrado em quinze países da União
Europeia, passa a ter mais condições para se desenvolver num nível mais
profundo e assertivo, o que permitirá uma decisão política mais bem informada,
reflectida e fundamentada.
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192 Referências Bibliográficas
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Análise comparada de sistemas em países da União Europeia

ANEXOS

Índice

Anexo A – Programa de formação complementar e permanente da ENM


(França) _____________________________________________ 1
Anexo B – Programa de formação complementar e permanente do CSM
da Itália _____________________________________________ 15
Anexo C – Programa de formação complementar e permanente da
Deutshe-Richter Akademie (Alemanha) ____________________ 19
II Anexos
Anexo A 1

Anexo A

Programa de formação complementar e permanente da ENM


(França)
2 Anexo A
Anexo A 3

LISTE DES STAGES (2006/2007)

Administration et management: Le dialogue social

Immobilier judiciaire: construction et réhabilitation. Proposée par l'Ecole


nationale des greffes

La LOLF et la maîtrise des frais de justice

Le juge de proximité et la vie de la juridiction

Le projet de service. Proposée par l'Ecole nationale des greffes

Les frais de justice. Proposée par l'Ecole nationale des greffes

Manager la sécurité: rôle et mission de l'encadrement. Proposée par l'Ecole


nationale des greffes

Organiser et piloter un BOP. Proposée par l'Ecole nationale des greffes

Plan de formation des cadres de juridictions en partenariat avec l'Ecole


nationale des greffes

Quels outils pour la qualité de la justice? Co-organisée avec l' Ecole


nationale des greffes.

Statistiques: outil de gestion. Proposée par l'Ecole nationale des greffes

Conciliation au sein de la juridiction de proximité

Consommation, surendettement et rétablissement personnel

Devenir juge civiliste

Droit et contentieux de la contruction

L'expertise judiciaire au civil

La place du juge dans les relations contractuelles (formation nouvelle pour


l'année 2007)

La réparation du préjudice corporel

La tutelle des majeurs

La tutelle des mineurs


4 Anexo A

La vente d'immeubles

L'assurance

Le contentieux de l'exécution (formation nouvelle pour l'année 2007)

Le contentieux du logement (formation nouvelle pour l'année 2007)

Le droit des sûretés en partenariat avec les notaires (formation nouvelle pour
l'année 2007)

Les fonctions civiles du parquet

Les flux judiciaires civils, démarche et qualité. Proposée par l'Ecole nationale
des greffes (formation nouvelle pour l'année 2007)

Les référés en matière commerciale

Les successions

Méthodologie de l'arrêt

Méthodologie du jugement civil. Session destinée aux juges de proximité

Pratique et actualité de la procédure civile

Actualité des procédures collectives

Approche du droit pénal économique et financier (niveau I)

Chambre commerciale: Actualité Jurisprudentielle.

Droit national et communautaire de la concurrence pour les juridictions


spécialisées

Droit pénal économique et financier (niveau II)

La lecture des pièces comptables par le magistrat

Concurrence déloyale et parasitisme

Le droit des sociétés

Les pouvoirs d'un président de tribunal de commerce dans la prévention des


difficultés d'entreprise
Anexo A 5

Développement durable, quels impacts pour les juridictions? Proposée par


l'Ecole nationale des greffes

Justice, environnement, développement durable et risques industriels

Le nouveau droit du divorce et de la filiation

Les contours de l'autorité parentale

Chefs de cour: Elaborer et faire vivre une politique de cour

Conseillers à la protection de l'enfance

Etre magistrat outre-mer

Etre secrétaire général

Le changement de fonctions Instruction

Le juge directeur d'un Tribunal d’Instance

Nouveaux chefs de juridiction

Pratique des fonctions enfants

Pratique des fonctions de chef de juridictions

Pratique des fonctions juges de proximité

Pratique des fonctions juges des libertés et de la détention

Pratiques des fonctions au sein des juridictions interrégionales spécialisées


en matière de criminalité organisée

Présidence de cour d’assises: conduite des débats, animation du délibéré et


réflexions sur la prise des décisions

Présidents et conseillers de la chambre de l'instruction

Etre Président d'un tribunal de commerce

Pratique des fonctions parquet

Pratique des fonctions instruction

Pratique des fonctions instance

Pratique des fonctions siège TGI


6 Anexo A

Pratique des fonctions application des peines

Le changement de fonctions Application des peines

Le changement de fonctions Enfants

Le changement de fonctions Parquet

Le changement de fonctions Instance

Le changement de fonctions Siège T.G.I

Le changement de fonctions Parquet général

Le changement de fonctions Conseiller de Cour d'Appel

Le changement de fonctions JLD

L'assistance éducative en question

La délinquance des mineurs: les réponses judiciaires. Co-organisée avec le


Centre national de formation et d'études de la protection judiciaire de la
jeunesse

La délinquance juvénile. Co-organisée avec le Centre de recherches


sociologiques sur le droit et les institutions pénales

La parentalité à l'épreuve du placement. Proposée par le Centre national de


formation et d'études de la protection judiciaire de la jeunesse

Les jeunes en difficulté face aux nouvelles références religieuses. Proposée


par le Centre national de formation et d'études de la protection judiciaire de
la jeunesse

Les modalités de protection des jeunes majeurs. Co-organisée avec le


Centre national de formation et d'études de la protection judiciaire de la
jeunesse

Les unités médico-judiciaires: un outil au service des mineurs victimes

La procédure pénale applicable aux mineurs. Proposée par l'Ecole nationale


des greffes

Analyse de la décision judiciaire


Anexo A 7

Analyse de l'activité du Juge de l'application des peines. En partenariat avec


le Conservatoire national des arts et métiers de Paris

Argumenter, théorie et pratique du convaincre. Proposée par le Centre


national de formation et d'études de la protection judiciaire de la jeunesse

Contexte judiciaire et approche systémiques

Création d'un site Web justice. Proposée par l'Ecole nationale des greffes

Déontologie et responsabilité des magistrats

L'écrit judiciaire dans un monde d’oralité: stratégie et pratique

La crise en établissement pénitentiaire. Proposée par l'Ecole nationale de


l'administration pénitentiaire et co-organisée avec le Ministère de l'Intérieur

La visioconférence. Proposée par l'Ecole nationale des greffes

Le magistrat et la communication audiovisuelle

Le magistrat et les nouvelles technologies au quotidien

Le magistrat face aux situations de violence et de conflits

Le réquisitoire oral

Logiciels libres. Proposée par l'Ecole nationale des greffes

Maîtriser les outils de recherche juridique

Maîtriser les outils de recherche juridique (session réservée aux juges de


proximité)

Savoir communiquer avec la presse. Proposée par l'Ecole nationale de


l'administration pénitentiaire

Savoir parler

Secrets professionnels et transmission d’informations. Rencontre inter-


professionnelle de service publique (RISP)

Savoir parler PAS EN LIGNE cf MP18

Analyse et gestion des flux correctionnels. Proposée par l'Ecole nationale


des greffes
8 Anexo A

Crimes de sang, crimes de sexe

Le métier de procureur aujourd'hui

Exécution des peines. XVIIIe Congrès de l'Association française de droit


pénal

Immigration irrégulière et réponses pénales

Justice et police judiciaire. Co-organisée avec l'Ecole nationale supérieure de


la police

L’audition de l’auteur d'agressions et d’atteintes sexuelles envers les


mineurs. Proposée par le Centre national d'études et de formation de la
police nationale

La détention provisoire. 1

La lutte contre la criminalité organisée. Co-organisée avec l'Ecole nationale


supérieure de la police

La victime dans le procès pénal

L'assessorat correctionnel

L'audition de l'enfant victime: Aspects psychologiques et techniques


d'enquête. Proposée par le Centre national d'études et de formation de la
police nationale

Le fichier des délinquants sexuels

Le parquet et l'audience correctionnelle

Le parquet et l'exécution des peines

Le parquet et les assises

Le tribunal de police: contraventions de 4ème classe

Les soins pénalement ordonnés. Co-organisée avec l'Ecole nationale


d'administration pénitentiaire

Les violences urbaines. Proposée par l'Ecole nationale supérieure de police


Anexo A 9

L'expertise psychiatrique pénale. Conférence de consensus organisée par la


Fédération française de psychiatrie (FFP)

Présidence de chambre de l’instruction: Actualité jurisprudentielle

Présidence de cour d'assises: Actualité jurisprudentielle

Présidence des audiences correctionnelles

Preuve pénale et progrès scientifiques. Co-organisée avec l'Institut de


recherche criminelle de la gendarmerie nationale

Psychiatrie criminelle. Proposée par l'Ecole nationale de l'administration


pénitentiaire

Que sait-on de la récidive des infractions pénales?

Regards croisés sur la pratique du contradictoire durant l'instruction

Traitement judiciaire de la menace terroriste

Violences contemporaines et politiques pénales

Assemblée nationale

Autorité des marchés financiers

Casier judiciaire et fichier judiciaire national automatisé des auteurs


d'infractions sexuelles ou violentes

Conseil économique et social

Conseil d'Etat

Cour de Cassation

Cour de Cassation- Parquet général

Cour des comptes

Direction de l'administration pénitentiaire

Direction de la protection judiciaire de la jeunesse

Direction de la surveillance du territoire

Direction des affaires civiles et du sceau


10 Anexo A

Direction des affaires criminelles et des grâces

Direction des services judiciaires

Groupement des services d'intervention de la gendarmerie nationale

Marine nationale et action de l’Etat en mer

Mission interministérielle de la lutte contre la drogue et la toxicomanie

Office français de protection des réfugiés et apatrides: le demandeur d'asile,


statut de réfugié et le bénéfice de la protection subsidiaire

Service des affaires européennes et internationales

Sécurité routière

Sénat

Service central de prévention de la Corruption

Service central de l'information et de la communication du Ministère de la


justice

Sous-Direction des courses et jeux. Direction centrale des renseignements


généraux

Tribunal de Commerce de Paris

Aéronautique et aérospatiale

Assistance publique – Hôpitaux de Paris

Les Affaires maritimes

Temps forts dans l'entreprise. En collaboration avec l'Association «entreprise


et progrès»

Banque de France

BNP-PARIBAS

Le trafic des biens culturels

Commissaires-priseurs: Chambre parisienne

Commissariat à l'énergie atomique


Anexo A 11

Institut national de la consommation

Laboratoire central de la préfecture de police de Paris

Lutte contre le piratage audiovisuel. Fédération nationale des distributeurs de


films

Office national de la chasse

O.P.A.C.

Protection de l'environnement et économie locale

Publicité

R.A.T.P.

SACEM

S.N.C.F.: direction juridique

Groupe Total

Véolia environnement

Institut national de la consommation

Stages individuels sur initiative personnelle

Stages individuels sur contact du juge de proximité

Administration pénitentiaire

D.U. Enfants et adolescents difficiles Paris

Direction nationale du renseignement et des enquêtes douanières

Economie

Institut de formation au développement durable du ministère de l'écologie


(IFORE)

Conservatoire du Littoral Bretagne

Groupement de gendarmerie départementale

Groupement de gendarmerie des transports aériens Orly

Groupement de gendarmerie maritime Toulon


12 Anexo A

Commission nationale de l'informatique et des libertés

Défenseur des Enfants

Direction générale du Trésor et de la politique économique

Service national de douane judiciaire Vincennes

Médiateur de la République

Agence France Presse

Conseil supérieur de l'audiovisuel

Brigades de police Stupéfiants

Offices centraux – Traite des êtres humains

Police de l'air et des frontières

Association «Droit d’urgence»

Urgences médico-judiciaires

Service administratif régional

D.U. Enfants et adolescents difficiles Marseille

D.U. Enfants et adolescents difficiles Lille

D.U. Enfants et adolescents difficiles Toulouse

D.U. Enfants et adolescents difficiles Poitiers

D.U. Enfants et adolescents difficiles Limoges

Conservatoire du Littoral PACA

Conservatoire du Littoral Corse

Groupement de gendarmerie des transports aériens Roissy

Groupement de gendarmerie des transports aériens Strasbourg

Groupement de gendarmerie des transports aériens Toulouse

Groupement de gendarmerie des transports aériens Marseille

Groupement de gendarmerie des transports aériens Lyon


Anexo A 13

Groupement de gendarmerie maritime Brest

Groupement de gendarmerie maritime Cherbourg

Service national de douane judiciaire Bordeaux

Service national de douane judiciaire Lille

Service national de douane judiciaire Lyon

Service national de douane judiciaire Marseille

Service national de douane judiciaire Metz

Service national de douane judiciaire Nantes

Service national de douane judiciaire Toulouse

Service national de douane judiciaire Perpignan

Brigades de police Mineurs

Brigades de police Criminelle

Brigades de police Banditisme

Brigades de police Proxénétisme

Brigades de police Laboratoire de police technique et scientifique

Offices centraux - Fausse monnaie

Offices centraux - Trafic des stupéfiants

Offices centraux - Trafic d’armes traditionnelles, chimiques et nucléaires

Offices centraux - Grande délinquance financière

Offices centraux - Criminalité liée aux nouvelles technologies de


communication

Actualité jurisprudentielle du droit du travail

Actualité jurisprudentielle du droit de la sécurité sociale

Droit du travail avec l'Association française du droit du travail et l'Institut


national du travail, de l'emploi et de la formation professionnelle

Juge départiteur et actualité du droit du travail


14 Anexo A

Le tribunal des affaires de la sécurité sociale

Bioéthique et droit

Conseil Constitutionnel et protection des droits fondamentaux

Ethique de la relation judiciaire: l'humanité du juge. Co-organisée avec


l'Institut des hautes études sur la justice

Familles d'origines étrangères et pratiques judiciaires

Inceste et justice

Initiation à la philosophie politique. Co-organisée avec l'Institut des hautes


études sur la justice

Justice et médecine: un dialogue nécessaire

L'Islam en France

Le juge face aux enjeux de la bioéthique. Quelles frontières pour l'embryon


humain en Europe?

Le racisme et l'antisémitisme en France

L'Islam et le monde arabe contemporain. Co-organisée avec l'Institut du


monde arabe

La prévention des erreurs judiciaires

Psychiatrie et justice pénale

Séminaire de philosophie du droit: Justice et cosmopolitisme. Proposé par


l'Institut des Hautes Etudes sur la Justice
Anexo B 15

Anexo B

Programa de formação complementar e permanente do CSM da


Itália
16 Anexo B
Anexo B 17

PER I QUALI SARANO APPLICATE LE ORDINARIE


PROCEDURE INFORMATICHE DI AMMISSIONE
(Termine per la presentazione delle domande: 15 ottobre 2005)
18 Anexo B

Legenda dei codici per le aree tematiche:


C = CIVILE
P = PENALE
I = INTERDISCIPLINARE
Anexo C 19

Anexo C

Programa de formação complementar e permanente da


Deutshe-Richter Akademie (Alemanha)
20 Anexo C
Anexo C 21

Programa de formação complementar e permanente da


Deutshe-Richter Akademie (Alemanha)

date sujet
16.01.2006 -
Les réactions de la justice à l’extrémisme politique de droite
21.01.2006
29.01.2006 -
Les infractions économiques et financières
04.02.2006
29.01.2006 -
La communication interculturelle en audience
04.02.2006
Le traitement de victimes de violences sexuelles ou d’abus
19.02.2006 -
sexuels, notamment de mineurs, dans le cadre d’une
25.02.2006
procédure pénale
13.03.2006 - Questions choisies sur l’autorité parentale, le droit de garde
17.03.2006 et le droit de visite
20.03.2006 -
Les infractions contre l’environnement
25.03.2006
02.05.2006 -
Le droit international de l’enfant
06.05.2006
02.05.2006 -
L’européanisation du droit pénal
06.05.2006
28.05.2006 -
L’Europe et le droit civil
03.06.2006
19.06.2006 -
Les cours et tribunaux internationaux
24.06.2006
25.06.2006 - Le droit de la consommation, notamment son aspect de
01.07.2006 dédommagement du consommateur
16.08.2006 -
Le 20e siècle: les conceptions du monde et le droit
26.08.2006
10.07.2006 -
L’entraide judiciaire internationale en matière pénale
15.07.2006
23.08.2006 -
Droit, violence, agression
02.09.2006
24.09.2006 - Le droit européen dans la pratique des juridictions
30.09.2006 administratives
16.10.2006 -
Les procédures pénales en Europe
21.10.2006
22.10.2006 -
La criminalité organisée
28.10.2006
22 Anexo C

date sujet
22.10.2006 - La violence en famille: les aspects criminologiques, pénaux
28.10.2006 et intrafamiliaux d’un thème à plusieurs couches
19.11.2006 - De l’indépendance de la justice – une comparaison
25.11.2006 européenne
Le droit européen en tant que coordinateur en matière de
13.11.2006 -
sécurité sociale et sa transposition en droits internes des
18.11.2006
Etats-membres
20.11.2006 - La déontologie de la magistrature du siège – fondements,
24.11.2006 perspectives, comparaison européenne
04.12.2006 -
L’Internet et le droit pénal
09.12.2006
Fonte: Deutsche-Richter Akademie (2006)