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Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais, desafios comuns

Contribuições para afirmação dos direitos dos estudantes


indígenas na educação superior: uma experiência de extensão e
pesquisa
1
Rosa Maria Castilhos Fernandes
2
Aline Domingos
3
Rafael Filter Santos da Silva
4
Rejane Nunes de Carvalho

Resumo: ​Este trabalho socializa os resultados de uma pesquisa documental


qualitativa que teve como objetivo analisar o significado atribuído pelos
estudantes e servidores de uma Universidade Pública, durante uma ação de
extensão, sobre o que é ser índio, na intenção de contribuir com a defesa dos
direitos indigenistas e sua afirmação no território acadêmico. Os resultados
demonstram que os modos de ser, viver e conhecer desses coletivos estão
relacionados: à natureza; à sua vinculação aos chamados povos originários; ao
pertencimento às culturas indígenas, neste caso Kaingang; às suas resistências
e lutas cotidianas; à discriminação e ao sofrimento vivido; e ao reconhecimento
ou não como sendo sujeitos de direitos. A pesquisa aponta as contradições
construídas social e historicamente com relação a esses povos, que vão desde o
preconceito ao reconhecimento, do estranhamento à naturalização, entre outros
aspectos que emergiram das reflexões desta experiência.

Palavras-chave: ​Indígena; Significados; Afirmação; Educação Superior.

Introdução
Partimos do entendimento que as ações afirmativas são iniciativas
estatais que, mesmo se caracterizando como medidas temporárias e especiais
podem promover a equidade de acesso aos direitos e ao exercício da cidadania,
no que diz respeito à emancipação política. Trazer nesta reflexão, o sistema de
cotas (Lei Federal nº 12.711/2012) como uma política de ações afirmativas
significa colocar luz neste debate uma vez que para além do acesso dos cotistas
nas universidades, temos que pensar na construção de estratégias para a
permanência desses estudantes e incidir nas agendas programáticas destas
instituições. Ou seja, as universidades possuem modelos de gestão mais ou

1
.​Professora e Pesquisadora do Departamento de Serviço Social e PPG Política Social e Serviço Social da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul-UFRGS.
2
. ​Estudante Indígena Graduanda do Curso de ​Serviço Social da UFRGS;
3
. Mestre em História/UFRGS e Graduando do Curso de Psicologia da UFRGS;
4
. ​Estudante Indígena Graduanda do ​Curso de Psicologia da UFRGS.

Anais do 3​o​ Congresso Internacional Povos da América Latina (CIPIAL)


ISBN 978-65-5080-015-4

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menos democráticos, estão abertos ou não à construção de instrumentos


pedagógicos que viabilizem as aprendizagens diante da diversidade dos perfis
estudantis que adentram estes espaços, promovem discussões abertas para
construção de estratégias em defesa dos direitos a educação ou reproduzem a
lógica excludente e discriminatória que caracteriza a sociedade capitalista, entre
outros aspectos. Por isso, em tempos de resistência e de defesa dos direitos
sociais já conquistados, é fundamental deflagrar espaços de discussão coletiva
sobre a situação dos cotistas nas universidades, o que, aliás, têm sido objeto de
estudo de diferentes pesquisas reveladas em produções de conhecimentos em
especial das ciências sociais e humanas.
Mészáros (2008) que situa a educação no reino do capital, como sendo
uma mercadoria, refere que é fundamental questionarmos permanentemente: o
que aprendemos de uma forma ou de outra? Para que serve este conhecimento:
para perpetuação da lógica individualista e alienante (consciente ou não) ou para
autorrealização dos sujeitos socialmente e humanamente ricos, em busca de
uma sociedade emancipatória? Sem dúvida, essas são reflexões profundas, mas
que também contribuíram para as análises dos resultados de uma pesquisa
realizada por estudantes indígenas e não-indígenas, e que nos remetem a
pensar e a reinventar práticas de ensino que estejam alinhadas com o que eles
ou elas vêm buscar neste processo de profissionalização, enquanto sujeitos de
direitos.
A questão da diversidade cultural, o estranhamento da comunidade
acadêmica com relação aos modos de ser e viver dos estudantes indígenas,
assim como, de suas formas de conhecer e interagir no ambiente acadêmico é
de fato algo que exige um repensar coletivo para que se possa desvendar o que
está por trás dos limites da permanência desses estudantes na educação
superior. Para tanto, a intenção aqui é socializar os resultados de uma pesquisa
documental de natureza qualitativa e que teve como objetivo analisar o
significado atribuído pelos estudantes e servidores da UFRGS durante uma ação
de extensão, sobre o que é ser índio, para contribuir com a defesa dos direitos

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indigenistas e sua afirmação no território acadêmico. O principal documento de


análise foi o Relatório da atividade de extensão (iniciada em março de 2016 e
finalizada em maio de 2017) sistematizado no documento da ação denominada:
“Diálogos: o que é ser índio?”.
Entre as informações analisadas destacamos os registros realizados
pelos 272 participantes dos seminários “o que é ser índio?” desenvolvidos como
atividade de extensão protagonizada pelos/as estudantes indígenas. A
pergunta-título era o gatilho para o início do diálogo entre estudantes indígenas,
servidores da universidade e estudantes ​fógs (“não-indígenas” na língua
kaingang) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sabíamos do uso
problemático do termo “índio” para denominar a ação, mas fora uma escolha dos
próprios estudantes indígenas, como recurso léxico disparador dos seminários,
tendo em vista o uso corriqueiro desse vocábulo entre a população brasileira.
Também consideramos importante salientar que os participantes dos
Seminários se organizavam sempre em círculos o que contribuía com o diálogo
entre os presentes e em muitos encontros houve a participação de lideranças
indígenas, o que tem sido uma presença marcante nas atividades promovidas
pelos/as estudantes indígenas no território acadêmico. Os registros sobre a
pergunta realizada no início da conversa durante os seminários (O que é ser
índio?) eram feitos em papeizinhos que os estudantes indígenas distribuíam
entre os participantes. Os conteúdos foram transcritos e organizados por data,
tipo de Curso e ou local de realização dos seminários. Assim, essa trajetória
percorrida de extensão e pesquisa foi possível graças a uma ação coletiva. O
coletivo a que nos referimos tratam-se dos/as estudantes indígenas e suas
respectivas monitorias/es que durante um período vivenciaram a experiência
extensionista e que nos instigou para realização de uma pesquisa documental
que em parte socializamos neste artigo.
Além disto, é preciso dizer que o tempo aqui percorrido, respeitou o tempo
das estudantes indígenas que participaram deste processo e que foi sendo
conduzido para que não perdêssemos a riqueza que é – e foi – o processo de

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análise a partir da percepção das próprias estudantes indígenas pesquisadoras,


assim como, de um estudante monitor de uma estudante do Curso de
Psicologia.
As categorias que emergiram do processo de análise dos conteúdos foram
dando significado à compreensão sobre os modos de ser, de viver e conhecer
dos/as indígenas, sobre os diretos indigenistas e, também, sobre as estratégias
e/ou potencialidades que vêm contribuindo com a afirmação dos/as estudantes
indígenas no território acadêmico. Entre as categorias estão: ​natureza, povos
originários, resistência, pertencimento cultural, discriminação/sofrimento e
sujeitos de direitos.
É então que organizamos este artigo, para além dessas reflexões
introdutórias, em duas partes: na primeira trazemos os aspectos referentes à
natureza, aos povos originários e à questão cultural e a interlocução dessas
reflexões; na segunda parte as reflexões sobre os direitos e as resistências
afirmam a necessária luta histórica dos povos indígenas, que se expressam
como legitimas manifestação da questão social brasileira, e por fim nossas
reflexões finais.

Natureza, Povos Originários e Pertencimento Cultural


​Ser índio é… resistência, é ter amor à sua cultura a
continuar repassando ela para as suas crianças (futuro). Ser índio é ter
vários conceitos e modos de vida diferentes do “homem branco”. Ser
índio é luta por tantos direitos que lhe foram tirados, explorados,
roubados, destruídos. Ser índio é ter sabedoria ao nos mostrar que
sem a Mãe Natureza não somos nada. Temos muito que aprender
sobre “o que é ser índio”.

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A palavra “​natureza ” é significativamente tratada pelos participantes dos
Seminários, pois os indígenas são reconhecidos como parte da natureza; o que
nos faz refletir sobre o contraponto não indígena como não parte da natureza.
Esse reconhecimento aparece de diferentes maneiras seja pelo contato direto
dos indígenas com a terra, pelo respeito a ela, pela harmonia que estabelece

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Todas as narrativas e/ou registros extraídos do relatório, documento de análise da pesquisa,
serão citadas em itálico.

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com a natureza, por ser o verdadeiro conhecedor e “​pesquisador da terra”​ ,


conforme os registros realizados: “​Ser índio é estar em contato com a natureza;
Acredito que ser indígena é ter um maior contato com a natureza, e de maneira
mais simples e sincera nessa relação. Sinto serenidade; Ser índio é ter respeito
à natureza​.”
É possível observar nos registros o reconhecimento dos modos de ser e
conviver dos indígenas como “​Ser humano consciente do outro e do mundo,
mais ligado à natureza e a todos os seres vivos, honrando a mãe terra”.​ Durante
o processo de análise realizado pelas estudantes indígenas Kaingangs e
pesquisadoras, as mesmas realizaram uma importante reflexão, pois a natureza
como sendo algo vivo, portanto possuí um espírito: o espírito da natureza
chamado pelos Kaingangs como ​Nánga​. Também a associação dos indígenas
ao natural está em sua própria origem, entretanto para as estudantes indígenas
pesquisadoras, esse natural pode estar sendo trazido pelos não indígenas como
aquilo que foi encontrado no momento inicial do processo de colonização do
Brasil.
Entretanto, as mudanças pressupõem abandonar o natural, logo, indígena
não pode aderir a novas tecnologias e comportamentos. Deixa de ser índio ao
deixar de ser natural. Para as estudantes indígenas estar na Universidade é
visto por muitos como algo não natural, ainda mais se usarem batom, terem
celular e acesso as novas tecnologias.
Além disto, no processo de análise e até mesmo nos debates durante os
seminários de extensão, as estudantes indígenas referem que os “​velhos
ensinam os mais novos a respeitarem a natureza: pedir licença a natureza para
poder usufruir dela”. Esta convivência coletiva dos povos indígenas, na e com a
natureza aparece como sendo parte de uma cultura e, portanto, em alguns
registros foi possível observar que para alguns participantes dos seminários, foi
difícil expressar o que é ser índio, conforme o exemplo: “​É difícil descrever em
uma frase ou palavra, porque envolve complexidade na resposta. Diferentes
culturas que tem como base a relação coma terra e a natureza”.

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Esta associação à natureza esta relacionada com o reconhecimento dos


indígenas como sendo os povos originários. Determinadas respostas que
encaixamos na categoria “Povos originários” mostram uma projeção etnocêntrica
de conceitos. “Índio” confunde-se com a ideia de “​verdadeiros colonos do Brasil”,
“verdadeiros donos dessas terras​” e “​primeiros habitantes do Bra​sil”, ou seja,
representam-se os indígenas a partir de significados e significantes não
indígenas de maneira acrítica.
A ideia de “​donos dessas terras​” carrega uma noção capitalista de posse,
na qual a terra pertence ao indígena como propriedade privada. A privatização
da terra como meio de produção exclusivo de seu dono consolidou-se no Brasil
posteriormente à colonização, não sendo cabível pensar o indígena como
proprietário original da terra segundo esse modelo econômico. A relação com a
terra não se dá através da posse individual, mas do usufruto comunitário entre
os indígenas, segundo os relatos dos alunos indígenas. As políticas de
demarcação de terra são reivindicações indígenas, mas surgiram devido à
invasão de suas terras e ao desrespeito de seus modos de vida, sendo,
portanto, necessário que eles lutassem para se demarcar uma faixa territorial na
qual pudessem vivenciar suas culturas sem serem atacados. A ideia de posse
da terra não é uma ideia indígena.
Além disso, não se podem colocar os indígenas como “​primeiros
habitantes do Brasil”​, pois o Brasil passou a existir após o processo de
colonização português, sendo que o Estado-Nação se consolidou entre os
séculos XIX e o XX. As etnias indígenas são consideradas sociedades
originárias pela Organização dos Estados Americanos, da qual o Brasil faz parte,
possuindo direito originário e imprescritível às suas terras por ocupá-las desde
antes da colonização europeia, porém, se interpretarmos “casa” como o
Estado-nação existente, ela foi construída após a independência do país,
através de atos e ideias violentas contra as populações não brancas que
ocupam o território. Desse modo, eles comporiam os primeiros brasileiros,

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contudo não seriam os únicos. Brancos e negros também era parte da


população que fundou o Estado.
Algumas respostas falam sobre o indígena ser aquele que herdou
costumes e culturas de ancestrais pertencentes a povos os quais povoaram o
território do atual Brasil antes da chegada dos europeus, ou seja os ​povos
tradicionais​. Ser índio, por conseguinte, está associado a uma ideia de origem
populacional e cultural, assim como a uma ideia de propriedade privada do
território muito próxima de uma noção capitalista e nacionalista (indígena como
raiz nacional) de posse da terra. Por vezes, por mais que as respostas
parecessem querer escapar de preconceitos, acabavam caindo em
etnocentrismos.
Outra categoria que emergiu deste processo refere-se ao Pertencimento
​ ois ser índio é pertencer a um grupo, ou etnia, com uma cultura
cultural, p
diferente da sociedade envolvente brasileira, pois consiste em fazer parte de um
grupo, cujos modos, saberes e fazeres se distinguem dos existentes entre os
não-indígenas. Envolve não apenas pertencer a uma aldeia, mas sentir-se
pertencente àquela, valorizando uma cultura herdada de povos pré-colombianos,
a qual é sistematicamente desrespeitada, apesar de considerada rica por alguns.
Desse modo, ser índio abarca conviver com a condição contemporânea da
sociedade envolvente “​sem deixar de viver sua cultura, preservando seus
valores naturais”​ .
As respostas trazem um conteúdo relacionado ao pertencimento à
determinada cultura, o que se relaciona com o pertencimento a certa etnia, a um
grupo que compartilha uma rede de signos e significados. Pertencer,
consequentemente, indica uma diferença em relação a quem não está dentro do
círculo identitário. As respostas indicam que o indígena depara-se diariamente
com a diferença da sociedade envolvente, chamada de ​“cultura urbana”​ por um
dos participantes.
Colocar a cultura indígena como algo externo ao meio urbano, ou como
algo natural, ou como algo enraizado, possibilita interpretar determinadas

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respostas como formas de estigmatizarão das culturas indígenas: cultura


indígena distante da cultura urbana civilizada, pois aquela é uma cultura natural
e fincada em raízes imóveis, já essa última teria adquirido artificialidade ao
transformar-se. Respostas assim trazem o estigma de que o indígena
permanece fechado ao contato intercultural, portanto, às trocas simbólicas por
via das relações sociais estabelecidas com não indígenas. Pertencer a uma
etnia indígena abrange preservar uma memória, uma identidade, uma origem,
porém isso não consiste em fechar-se ao outro. As estudantes indígenas utilizam
suas próprias experiências como universitárias para sustentar a defesa da
construção de diálogos interculturais em prol do bem-viver. Contudo, a
existência de uma variedade de comunidades e culturas indígenas acabam por
​ ” em uma única resposta.
apontar, que não se pode definir “​o que é se índio?
Diante da variedade cultural, a acepção torna-se múltipla para um mesmo termo
utilizado.

Sujeitos de Direitos e Resistência


Ser indígena é fazer parte de um povo que tem uma cultura rica, com
suas tradições, línguas próprias, ritos e crenças, e que luta pra manter
viva essa cultura dentro de uma realidade social que exclui, segrega e
estigmatiza as minorias... É resistir.

A relação dos modos de ser indígena com uma história de luta e


resistência, é outro aspecto relevante trazido nas percepções narradas pelos
sujeitos que participaram deste processo, pois há um reconhecimento da
existência dos direitos indígenas e da necessidade da luta cotidiana para
defendê-los. “​Ser índio é… resistência, é ter amor à sua cultura a continuar
repassando ela para as suas crianças (futuro). Ser índio é ter vários conceitos e
modos de vida diferentes do ‘homem branco’. Ser índio é luta por tantos direitos
que lhe foram tirados, explorados, roubados, destruídos. Ser índio é ter
sabedoria ao nos mostrar que sem a Mãe Natureza não somos nada. Temos
muito que aprender sobre “o que é ser índio”.

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A palavra ​luta aparece associada à ​resistência,​ entretanto a palavra


resistência aparece sozinha em muitos registros realizados, simplesmente:
resistência. Ou ainda “​Ser índio é sinônimo de luta e reconhecimento; Ser índio é
lutar e resistir. Luta”. Entretanto a luta diz respeito ao cotidiano sócio-histórico
dos povos indígenas​. “Lutar por demarcação, lutar por manutenção da
ancestralidade. Querer o reconhecimento da linguagem, cultura e crenças.
Vislumbrar um mundo amplo fora das agressões violentas do Estado.
Possibilidade de direitos, como educação indígena nas universidades públicas.
Logo, uma constante luta por respeito e liberdade”; “É ser retirado da sua terra e
ter que lutar para se manter vivo. Resistência”.​
Como o lócus desta pesquisa e a atividade de extensão ocorreram no
espaço acadêmico, foi destacada a importância desta resistência no próprio
ambiente acadêmico: “​É ter suas terras, culturas roubadas por outros, é resistir
dentro de uma universidade elitista como a UFRGS”; tal enunciado remete a
discussão sobre o sistema de cotas e dos desafios que é ingressar numa
Universidade Pública, que durante muitos anos o acesso aos negros/as e /ou
indígenas ou ainda aos estudantes de baixa renda era algo raro, diante do
caráter meritocrático e excludente dos processos de ingresso deflagrados na
educação superior pública no Brasil. Neste mesmo entendimento o registro: “​E
também é resistir nos mais variados espaços, para manter essa cultura sempre
viva”​ (...). Aqui reconhecemos a resistência como “ato ou efeito de resistir, como
força que se opõe ao movimento, oposição, reação” ​(FERREIRA, 1975), e,
portanto, é preciso apreendê-la como processo social e histórico, que emerge
como estratégia de sujeitos coletivos que defendem uma causa, uma pauta
ameaçada por forças políticas engendradas nessa sociedade capitalista
(MACHADO; FERNANDES, 2018).
Outro aspecto refere-se ao processo de pintura corporal, o que pode ser
interpretado como uma forma de resistência de acordo com as estudantes
indígenas pesquisadoras. Como exemplo, podemos citar as marcas Kaingang
que são símbolos culturais de uma identidade construída historicamente, cujo

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uso demonstra uma resistência aos processos colonizadores da cultura. A marca


Kamé carrega o significado da bravura guerreira, enquanto a marca ​Kairú traz
consigo a carga espiritual da mata, cujos saberes colaboram com a oralidade
necessária à história e ao debate. Os/as estudantes indígenas ostentam as
marcas de suas culturas mesmo quando não estão pintadas em seus rostos,
pois seus significados estão presentes na luta cotidiana pela permanência na
universidade.
. ​Relacionado à questão da resistência estão os direitos indigenistas, pois
como “sujeitos de direitos” identificamos escritos reconhecendo esses coletivos
como tendo “​o direito de ser protagonista da própria história de vida”​ , ou ainda,
“​é ser como qualquer pessoa, possuidora de direitos, de uma cultura linda e que
luta por seu espaço a cada dia.”​ Em tempos de ditadura militar no Brasil em uma
versão do Estatuto do índio (1973) a tutela indígena referia que tratavam-se de
povos incapazes para os atos civis da vida até que pudessem ser integrados à
sociedade reconhecida como “​envolvente”​ conforme a compreensão das
estudantes indígenas pesquisadoras. O processo de redemocratização no país
que culminou na Constituição de 1988 e o movimento indígena por meio de suas
lideranças, contribuiu com a defesa das necessidades e interesses dos coletivos
movimento este que desde a colonização é uma realidade brasileira pois a
retomada de territórios tradicional é sem dúvida uma luta que perdura até os dias
de hoje.(DOMINGOS, 2016).
Embora a inclusão dos indígenas na Universidade, ou seja, o acesso ao
direito à educação superior, por exemplo, por meio das ações afirmativas, ao
mesmo tempo em que se tornou uma realidade é também ameaçado
permanentemente, tanto no que diz respeito as dificuldades de permanência nos
Cursos, a saudade de casa, dos familiares, assim como pela conjuntura política,
econômica e social no Brasil que vem destituindo os direitos da população. Nos
chama a atenção uma afirmação trazida por um(a) participante dos Seminários;
“Se sentir apoiado pela universidade e pelos alunos estando longe de casa. Se
sentir i​ nserido ​= ‘em casa’ dentro da UFRGS”. F
​ oi possível observar registros

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que “​indígenas como humanos”... “É ter toda uma bagagem histórica e cultural e
lutar por ela nos dias atuais, lutar pelos direitos”. Índios acima de ser índios são
humanos. Desde então o índio quer voltar a ser considerado um humano como
outro qualquer, no espaço que lhe foi tomado e o tempo todo”; “Ser ‘indígena’ na
universidade, longe dos costumes tradicionais da aldeia deve ser muito difícil”.
Vejo isso como uma oportunidade a universidade repassar os próprios saberes
que são reproduzidos aqui - científico, europeu, branco, etc.”
Não encontramos nos escritos os termos ​direitos indigenistas, mas
reconhecemos várias dimensões que caracterizam esse tipo de direitos. Os
direitos são compreendidos por gerações (COUTO, 2006), por períodos
sócio-históricos, sendo caracterizados como: os de primeira geração são
considerados direitos civis e políticos que são exercidos pelos homens
individualmente, busca opor-se a presença do Estado, pois o homem dotado de
liberdade que deve ser o titular dos direitos civis; Já os de segunda geração são
os direitos sociais onde o homem os detém através da intervenção do Estado,
sendo o estado garantidor desses direitos. Esses direitos vêm se constituindo
desde o século XIX, mas ganharam força no século XX. Busca a igualdade a fim
de enfrentar as desigualdades sociais; e os direitos de terceira geração que vêm
ganhando força desde o século XX, pois visam o direito ao desenvolvimento, ao
meio ambiente e a autodeterminação dos povos. São estabelecidos na ideia de
solidariedade, onde nesta há o coletivo, pois não é apenas o indivíduo que o
assume, mas as famílias, povos, grupos, nações que o querem. Estes são
entendidos como resposta as opressões políticas e econômicas, os quais suas
consequências fazem com que os movimentos assumam de forma coletiva para
enfrentamento da realidade. É realizado por pactos entre os povos e organismos
internacionais, como por exemplo, a Organização das Nações Unidas. (ONU). É
nesta última geração é que se encontram os direitos indígenas, o que podemos
observar como uma conquista a ser alcançada, e que ainda continua em
pressões e lutas para sua efetivação. Somam-se a isso outras lutas de

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movimentos como os quilombolas, movimento de mulheres, movimento LGBTE,


entre outros. (DOMINGOS, 2016).

Considerações Finais
Como reflexões finais desta caminhada coletiva de extensão e
investigação, envolvendo estudantes indígenas e não-indígenas, temos a
convicção que deflagramos um processo crítico e reflexivo no âmbito acadêmico,
mas que requer continuidade. A dimensão ética e política desse trabalho, está
na compreensão e no compromisso com a vida cotidiana desses coletivos na
universidade e com a socialização do estudo, para que outros sujeitos possam
refletir acerca dos resultados que aqui emergiram e que expressam os
significados atribuídos aos estudantes indígenas que fazem parte deste território
acadêmico: UFRGS. Importante, também reconhecer, as iniciativas
protagonizadas por diferentes sujeitos que defendem os direitos e a afirmação
indígena na educação superior.
Entretanto muito temos que avançar, pois a pesquisa aponta as
contradições construídas social e historicamente com relação a esses povos,
que vão desde o preconceito ao reconhecimento, do estranhamento à
naturalização, entre outros aspectos analisados. Assim, afirmamos que o lugar
dos/as estudantes indígenas é onde eles quiserem e, portanto, pesquisar é
também um querer, pois são saberes que produzem conhecimentos, são
condizentes com a pluralidade étnica e permitem a disseminação da
interculturalidade e que, fundamentalmente, estão a serviço da construção de
uma sociedade que possibilite a emancipação humana, tão necessária diante
dos ataques que vem demarcando a liberdade dos povos.

Referências bibliográficas
COUTO, Berenice Rojas. Direitos sociais: sua construção na sociedade
contemporânea. In: ​O direito social e a assistência social na sociedade
brasileira:​ uma equação possível? 2 ed. São Paulo: Cortez, 2006. p. 33-73.

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DOMINGOS, Angélica. (​Ninhpryg)​ . ​O BEM VIVER ​KAINGANG​: perspectivas


de um modo de vida para construção de politicas públicas aos coletivos
indígenas​. Trabalho de Conclusão de Curso do Serviço Social. UFRGS, Porto
Alegre, 2016.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. ​Novo dicionário da língua portuguesa.


Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 1975.

FERNANDES, Rosa Maria Castilhos; AMES, Valesca; DOMINGOS, Angélica.


Revista O Social em Questão ​- Ano XX - nº 37- Jan a Abr/2017. P.71-90.

FERNANDES, Rosa Maria Castilhos. ​Relatório de Atividade de Extensão:


diálogos Integradores: o que é ser índio? Departamento de Serviço Social. Porto
Alegre: PROEXT. UFRGS, 2017.

MACHADO, Loiva Mara de Oliveira; FERNANDES, Rosa Maria Castilhos.


Cultura política e participação popular no SUAS: ​nenhum direito a menos!
Revista Praia Vermelha​, UFRJ: Rio de Janeiro, 2018.

MÉSZÁROS, Istvan. ​A Educação Para Além do Capital​. São Paulo: Boitempo,


2008.

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