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O oculto
(Das Verborgene)

Uma enigmática preocupação de Heidegger numa


correspondência de 1945.1

Ernildo Stein (PUCRS)

O que acontecia com Heidegger, nos dias em que sua pátria e sua gente
eram esmagados, em 1945, com tropas e bombardeios dos aliados?
Pela idade o Reich o poupara de ser incorporado e ele continuava seu
trabalho na universidade e na pesquisa – escritura dos textos novos e revisão
dos manuscritos – em Messkirch ou Todtnauberg. São do começo dos anos 40
as duas obras mais notáveis da época: Parmênides e Heráclito. Eram o fim da
grande filosofia de Heidegger, no fim da sua atividade acadêmica e no fim da
pátria que desencadeara a hecatombe com a destruição, o desespero humano e
a morte. Temos, nas cartas notáveis de Heidegger para Elfride, editadas pela
neta Gertrud Heidegger, o documento mais impressionante das suas

1
“Mein liebes Seelchen”, Briefe Martin Heideggers an seine Frau Elfride, 1915-1970, editado e comentado
por Gertrud Heidegger, Editora DVA, Munique, 2005.
2

confidências sobre sua atividade filosófica. No volume também estão as cartas


da correspondência durante a guerra. Apesar de mudar o tom e a extensão das
cartas, nelas o tema central sempre é o esforço de continuar pensando, o
recolhimento para escrever, nos mais diversos lugares e circunstâncias, o
destino de sua obra e o modo de salvar os manuscritos, até conseguir escondê-
los em dois baús de ferro, por incrível coincidência, junto com os manuscritos
de Hoerlderlin, numa gruta nas gargantas do alto Danúbio, com senhas para
alguns íntimos para serem localizados após a guerra.
É claro que nas cartas da guerra para sua mulher, estão as preocupações
com ela, sua saúde, seus filhos na frente russa e breves observações sobre a
guerra, mais como fenômeno humano, sinal do destino dos povos e suas
consequências, do que sobre a sua terrível materialidade. Mas, por que as
cartas, se o filósofo não viajava para outras universidades e as circunstâncias
recomendavam antes o refúgio na sua casa, junto da família em Freiburg? A
casa estava cheia de refugiados.
Os manuscritos estavam em Messkirch por várias razões. Seu irmão
datilografava as milhares de páginas manuscritas e era com ele que fazia as
revisões para uma incerta edição. No pequeno povoado, havia menos risco de
bombardeios. Mas, sobretudo, porque ali era possível esconder o material
escrito, de modo mais fácil.
Se havia estas razões, o filósofo não se afastava dos manuscritos para
escrever novos, para comparar, revisar e repensar o que produzira na década
de 20 e 30. 2

2
“Dia e noite estou junto com meus manscritos, isto é, ocupado em salvar o todo num estado mais ou menos
com sentido. Caso contrário não consigo mais “trabalhar”. Mas o caminho e os trabalhos que dele fazem parte
desde “Ser e tempo” até 1932 consegui agora apresentar e apontei as orientações e contextos. Agora vem
ainda o tempo de 1934 até hoje. Mais difíceis, mais amplos e contudo na essência mais claros e mais simples.
Às vezes desespero de conseguir fazer tudo, porque é necessária a revisão de muita coisa. Os colegas da
universidade não tem nada disto para deixar, e, por isso, podem ter outras preocupações e pensam que hoje
ainda se pode salvar a “universidade” depois que já há muito se fracassou.” (Carta de 8 de janeiro de 1945).
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Ao ler as cartas, tem-se a impressão de que a Floresta Negra e seus


arredores tinha se tornado o campo de batalha do filósofo. Aí se deslocava de
um lugar para outro, no início da guerra, para se recolher, logo a seguir, para
fugir dos acontecimentos, mais tarde, para estar onde havia menor risco de
bombardeios, e por fim para se unir ao destino dos seus manuscritos e cuidar
deles para o futuro e protegê-los da destruição que poderia eliminar um
caminho do pensamento capaz de trazer o novo.
Mas se as condições e circunstâncias levavam o filósofo a este périplo
constante, num espaço relativamente pequeno, era também a inquietude física
diante da guerra e do destino do Ocidente e uma inquietude interior que o
levaria, em fevereiro de 1946, ao esgotamento total e à internação no sanatório
de Badenweiler, após a audiência da desnazificação e conclusão de que era
apenas alguém que deixara as coisas andar, depois dos breves meses de
reitorado, dedicando-se ao trabalho intelectual3. Afora esse episódio, o
filósofo fora efetivamente convocado, como temia, no dia 23 de novembro de
1944, para as escavações de trincheiras nas margens do Reno, após ser
incluído pelas autoridades no grupo dos homens totalmente dispensáveis para
as atividades intelectuais4.
Liberado desse serviço de guerra, em fins de dezembro, ele se desloca
de bicicleta para Messkirch, de onde escreve para Elfride no dia 30 de
dezembro de 1944:

3
“Não queria até agora escrever-te sobre isso, porque pensava que era apenas um esgotamento passageiro.
Mas a falta de sono continua, bem como leves desmaios e dores de cabeça e depressões. (Carta de 2 de
fevereiro de 1945).
4
“No último ano de guerra foram liberados 500 dos mais importantes cientistas e artistas, de qualquer tipo de
serviço de guerra. Eu não fazia parte dos liberados, ao contrário, fui mandado, no verão de 1944, para os
trabalhos de trincheira, lá no Reno, no Kaiserstuhl.”(Heidegger, 1966, em entrevista à revista Spiegel).
4

Nos últimos dias procurei novamente continuar a


elaboração da preleção; mas ainda não ando bem; nem o
sono presta grande coisa. Não é de admirar. Com a
distribuição dos manuscritos – aqueles ainda não transcritos
– ainda não cheguei a um plano definido. Fritz mesmo,
agora se convenceu de que não dá para deixar os
manuscritos principais juntos num único lugar em
Messkirch (Cartas, 2005, p. 225)5.

II

Com o desembarque dos aliados na Normandia e o avanço das tropas,


Heidegger tem grande preocupação com seus manuscritos, o fechamento da
universidade e a ameaça de sua convocação para a tropa que aconteceria em
dezembro de 1944 e seria, como vimos, breve.
Por que essa constante ansiedade em salvar os manuscritos e em
continuar escrevendo, nas condições mais estranhas? Já a carta para Elfride de
5 de dezembro de 1943, o filósofo nos dá um sinal.

Num tempo em que tudo está disposto para a


utilidade, o sucesso, o poder e os negócios, nós devemos
pensar, todas as horas, que a “vida” se plenifica com mais
5
Em 1965, o autor pôde consultar alguns manuscritos dos baús, guardados no sotão da casa do irmão Fritz
Heidegger em Messkirch.
5

presteza e pureza, se damos nossa atenção à essência


(Wesen) própria das coisas. Este proteger invisível do
essencial (Wesenhafte), na memória silenciosa, no
acompanhamento dos que nos foram confiados, é o eco da
origem (Ursprung) à qual tudo regressa. A ausência de
vontade que por tudo ronda, é apenas a contrapartida para a
dominação da vontade, de cuja compulsão nunca virá uma
benção.
Nós que ainda sabemos do essencial (Wesenhafte),
não podemos apenas simplesmente levar a vida, pois,
assim, esquecemos o mais importante (Wesentlichste), isto
é, que o supremo e o mais belo que acontece para o
homem, não possui sua verdade em seus efeitos, mas
unicamente no fato de que é, e assim corresponde ao que
não passa (Unvergängliche) (Cartas 2005, p. 221).

Da casa da princesa Margot von Sachsen-Meiningen, sua amante, o


filósofo escreve para sua mulher, numa carta de 14 de agosto de1944:

Mas não posso existir sem o pensar e gostaria


de me preparar assim também para outras situações para
que eu não seja privado inteiramente do pensamento. (...)
Retornarei a partir de uma clara meditação (Besinnung) e
concentração no que se dá como o simples (Einfache)
(Cartas 2005, p. 223).6

6
“Kant, com 56 anos, em condições mais tranqüilas para ele, escreveu a Crítica da Razão Pura.Tenho a clara
certeza que eu estou justamente no limiar para o dizer mais vívido e simples. O “depois da guerra” não
6

Temos, então, um filósofo que não simplesmente cuida de sua obra. Ele
quer preservá-la para as novas gerações. O filósofo tem uma tarefa, uma
espécie de missão, que o impele a salvar o que está escrito e a pensar e
escrever para que o novo apareça, num tempo que levou a Europa, o Ocidente
à destruição pelo destino da técnica e pela vontade de dominação. É como se
tudo tivesse acontecido porque não se pensou o que não passa, o essencial, o
simples.
Da guerra pouco fala o filósofo e como se arriscaria a fazê-lo por
escrito, diretamente. É espantosa a contenção das palavras, de um lado, como
descobrimos, de outro lado, até a desmedida, a pretensão do pensador que se
consome, numa agitação sobrehumana, por algo que persegue como tarefa,
destino e missão.
Uma estranha manifestação é a transformação do filósofo, que queria
refazer o pensamento ocidental e que agora vê, na sua obra, algo enigmático e
real que está oculto, mas terá que aparecer para que a humanidade se salve,
no fim da guerra. Talvez tudo isso se expresse, na carta de 15 de março de
1946, a Elfride, escrita em Badenweiler, no sanatório onde se recupera do
absoluto esgotamento, ao qual o levou o que vimos até aqui. Não ouçamos o
que segue, primeiro como patológico, por mais que possa levar a pensarmos
em delírio ou paranóia.

Praticamente, devo talvez seguir o caminho


solitariamente, sem transformar a solidão, em algo

existirá na forma de agora. Caso ainda reste um espaço para o pensar. Que achas, será que a aflição mais
íntima da História e do Ocidente consome e perturba de modo bem diverso a gente que as indigências sociais
e o sofrimento humano que, de modo algum, desconsidero em sua importância?” (Carta de 8 de janeiro de
1945).
7

particular e especial. O trabalho, assim tenho o claro


pressentimento, se tornaria em Messkirch, algo “natural” e
a obra iria pertencer ao crescimento da terra natal. Isto “o
Oriente” poderia assumir criativamente, em sua essência
enigmática, além dos superficiais embates “políticos”.
Penso, muitas vezes, que não pode ser acaso que Jörg e
Hermann (seus filhos, E.S.) estejam na Rússia. Nisso se
esconde uma misteriosa admoestação, um sofrimento que
conduz para um âmbito livre e faz a ambos participar
daquilo que me foi imposto como tarefa – sem levar em
consideração o que irá ou não irá acontecer, no próximo
futuro. (Cartas, 2005, p. 245)7

Mais adiante, o filósofo fala do contato que o casal Szilasi retomou


(Prof. Wilhelm Szilasi, que irá substituir Heidegger na cátedra), e comenta:

Szilasi é emocionante em seu cuidado e


dedicação. A carta de Lili vem de um “mundo” que ficou
parado (Suiça), que nem mais “é”. Enquanto ali tagarelam
as máquinas de escrever, aqui titubeia a mão com a pena,
de tanta escuridão e dor e abismo, e contudo, ao mesmo
tempo, grande e enigmático – e mal e mal o pensamento
arrisca assumir a forma da palavra. Há muito, nós não mais
existimos para fazermos “Filosofia” e “Cultura” – mas para
encontrar o lugar no qual o homem habite, atingido

7
Essa passagem revela aspectos que certamente não se esgotam no contexto das intenções de nosso trabalho.
A junção de outros eventos, por mais dolorosos que sejam, com uma obra que se pensa ter que realizar, que se
presume com destino, revela uma lógica do delírio da paranóia.
8

novamente pelo seer (Seyn) como o que traz salvação e


onde a desgraça não decaia reduzida a simples absurdo
(Sinnlosigkeit) que a gente deixa para trás, “quando a
guerra passou” (Cartas 2005, p. 246)8.

Causa espanto ouvir de um filósofo, o estranho destas duas passagens,


em seu pensamento e seus enunciados, pretendendo mostrar a realidade.
Mas talvez elas sejam a moldura adequada para ouvirmos o que
aparece, em suas cartas, como o enigma do oculto (das Verborgene), no final
de 1945. 9

III

Na carta de 17 de fevereiro de 1945, Heidegger escreve para Elfride:

Talvez também agora, ainda haja pouca dor no


mundo, apesar da indizível miséria, porque foi emudecida
pela vontade. O que agora acontece no todo do Planeta, é
de um tipo que nele se deve ocultar (grifo meu, E. S.) um
acontecimento (Ereignis) essencial, mesmo que nós ainda

8
Também esta passagem da carta liga, sem vínculo lógico algum, a condição futura da humanidade com um
modo do pensar que o filósofo resume na nova grafia da palavra Sein substituída por Seyn.
9
“Em toda a escuridão e confusão do caminho, se oculta um desígno. O destino da pátria, indevassável para
o pensamento e seu futuro que ainda o espera é aquilo para que estamos preparados na silenciosa oficina,
estimulados renovadamente por um crescente saber” (Carta de 8 de abril de 1946, em Cartas 2005 p. 248).
9

não o vejamos e não o possamos dizer. Por isso, entretanto,


temos que permanecer com insistência, pelo pensar,
próximo do oculto (grifo meu, E.S.) (dem Verborgenem),
sem querer forçar algo. Mas, até agora esta insistência-
resistência ultrapassa a capacidade de um ser humano.10

E, falando das ruínas de Freiburg, o filósofo continua:

Por cima de tudo jaz agora um entulho do


desmesurado e sinistro, que ainda mais ameaça, porque foi
derramado pelo próprio povo sobre o oculto (grifo meu,
E.S.) (Verborgene) tatear de sua própria essência em
direção à sua verdade (Carta 2005, p.233).

Longe estamos dos usos que Heidegger fazia das derivações de


verbergen – velar, ocultar, encobrir, Verborgenheit, Unverborgenheit,
velamento, desvelamento, dos tempos da analítica existencial. Agora o oculto
(o velado) é o que está por vir, que nos promete algo do qual devemos esperar
o que salva, não apenas do horror da guerra, mas da condição que nos leva a
qualquer guerra. E Heidegger fala desse oculto, sabe que nos espreita, que ele
virá. Mas, como diz, eu só, como filósofo, não tenho a capacidade de insistir-
resistir até ou para que venha. Como uma filosofia pode levar o filósofo a essa
hybris : Heidegger só diante da humanidade e com uma salvação possível que,
entretanto, não verá, enquanto a obra não for concluída.

10
Ao leitor atento da obra de Heidegger, não passa desapercebido o deslocamento das análises formais de
caráter epistêmico para realidades concretas, sugeridas muitas vezes como sendo enigmáticas exigindo, por
isso, condições particulares não universalizáveis para qualquer um.
10

Talvez agora entendamos porque os manuscritos tinham que ser salvos,


porque o filósofo se destruiu até o delírio para salvar a obra e perecer
pensando11.

E para concluir, uma última citação da carta de 2 de fevereiro de 1945:

Mas, se medito sobre o longo caminho, assusto-me,


por vezes, e não me admiro mais sobre os efeitos atuais de
muitos esforços e muitas reflexões.
De repente, então, tudo isso é coberto pelas sombras,
quando penso no destino de nossa jovem geração, se ainda
é permitido falar de uma tal geração. Comparações
históricas são sempre enganosas. Mas, mesmo que não nos
possamos comparar com a Grécia e também não com o
helenismo em declínio dos tempos de Platão, creio,
contudo, que ficarão caminhos desconhecidos da tradição e
do novo despertar. Creio sobretudo, que a linguagem irá
despertar como a morada para um novo habitar.

11
Para conmpreender melhor esta atitude, ver o livro de Matussek, P. – Analytische Psychosentherapie, vol.2,
Berlin, Springer-Velag.