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organizadores

Brasil
Eddy Stols
Luciana Pelaes Mascaro
Clodoaldo Bueno

e Bélgica
Cinco Séculos de Conexões e Interações
Brasil
organizadores
Eddy Stols
Luciana Pelaes Mascaro
Clodoaldo Bueno

e Bélgica
Cinco Séculos de
Conexões e Interações
B r a si l e B é l g ic a
Cinco Séculos de Conexões e Interações
brasil e bélgica: cinco séculos de conexões e interação

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brasil e bélgica: cinco séculos de conexões e interação

Brasil e Bélgica
Cinco Séculos de Conexões e Interações

organizadores
Eddy Stols
Luciana Pelaes Mascaro
Clodoaldo Bueno

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brasil e bélgica: cinco séculos de conexões e interação

edi çã o
Roney Cytrynowicz

p rodu ção edi tor i al


Monica Musatti Cytrynowicz

desi gn e edi tor aç ão e le tr ôni c a


Ricardo Assis
Tainá Nunes Costa
Negrito Produção Editorial
www.negritodesign.com.br

tradu ção
Eddy Stols
Luciana Pelaes Mascaro
Susana Rossberg

p repa ra ção de te xto e r e vi s ão


Mariangela Paganini

revi sã o de te xto e r e vi s ão das tr aduç õe s


Clodoaldo Bueno c i p - b r a si l . c a ta l o g a ç ã o n a p u b l i ca çã o
Eddy Stols s i n d i c a t o n a c i o n a l d o s e d i t o r e s d e l iv ro s , rj
Luciana Pelaes Mascaro B83
  Brasil e Bélgica: cinco séculos de conexões e interações / organização Eddy
Stols, Luciana Pelaes Mascaro, Clodoaldo Bueno. – 1. ed. – São Paulo: Narra-
tiva Um, 2014.
  376 p.: il.; 29 cm.

  ISBN 978-85-88065-34-5

  1. Brasileiros – Bélgica – História.  2. Problemas sociais.  3. Política interna-


cional.  I. Stols, Eddy.  II. Mascaro, Luciana Pelaes.  III. Bueno, Clodoaldo.
Editora Narrativa Um – Projetos e Pesquisas de História
www.narrativaum.com.br 14-13963 CDD: 305.86980493
CDU: 316.77
editora@narrativaum.com.br

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Os laços entre Brasil e Bélgica

Manoel Arlindo Zaroni Torres


Presidente da Tractebel Energia

S eparados por um oceano e milhares de quilômetros, Brasil e


Bélgica são mais próximos do que se poderia imaginar. Trazer
à tona esse vínculo é a principal missão desta obra, que nos ofe-
Além das influências culturais, o livro revela impressionantes
alinhamentos religiosos, ideológicos e científicos entre as duas na-
ções. Ao final de cada texto, constatamos a solidez dessa relação e,
rece um registro histórico e cultural importante da relação entre em especial, o legado deixado por um país no outro. Fundamental
os dois países. A tarefa de desbravar o tema, transformando uma à construção desse legado, a atuação de empresas belgas, como a
série de informações dispersas em um livro pujante como este, foi Tractebel Energia, no Brasil, bem como de companhias brasilei-
brilhantemente desempenhada pelos autores e organizadores, os ras na Bélgica, contribuíram de forma decisiva não apenas para
quais conhecem o assunto em profundidade. o desenvolvimento econômico dos dois países, mas também para
Ao longo dos capítulos, o leitor descobrirá que os laços entre intensificar o intercâmbio cultural.
os dois países começaram a ser construídos ainda no Brasil Colô- Colaborar para que toda essa trajetória conjunta fosse regis-
nia, há mais de cinco séculos, e foram se estreitando a partir do trada e se tornasse pública foi o que motivou a Tractebel Energia
intercâmbio cultural e econômico que se seguiu. O relato deixa a apoiar a realização desta obra. Estamos certos de que, a partir
claro que muitas pessoas e instituições colaboraram para conso- dela, Brasil e Bélgica passam a ter uma referência bibliográfica
lidar marcas do Brasil na Bélgica e da Bélgica no Brasil. A elas tão relevante quanto inspiradora, capaz de demonstrar todos os
cabe nosso agradecimento, pois a proximidade resultou em trocas benefícios da relação respeitosa, harmoniosa e cooperativa entre
importantes nas mais diversas áreas, do cinema à gastronomia, duas nações.
passando pelas artes cênicas e plásticas, literatura, música, espor-
tes e arquitetura.

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brasil e bélgica: cinco séculos de conexões e interação

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Apresentação

Incentive Projetos e Eventos


Florianópolis (SC)

A presentar um livro cuja missão é tão importante não é tarefa


fácil. Uma obra que promete discorrer sobre o belo cordão
que existe entre o Brasil e a Bélgica. Essa relação, tão cordial e só-
Enxergamos neste livro, também, uma forma não só de res-
gatar o passado das duas nações e suas relações, mas também de
desenhar novos cenários para o futuro: promovendo conhecimen-
lida, já vem de tempos: são cinco séculos de interação. Um pouco to sobre a atual realidade entre os dois países e assim oportunizar
esquecida entre as tão comentadas relações brasileiras com outros novas formas de negociações. Assim, esperamos que este livro seja
países europeus, como a Itália, Alemanha e Portugal, o relaciona- apenas o primeiro entre muitos outros que contarão mais sobre a
mento Brasil-Bélgica é importante de ser aprofundado, exposto e trajetória do Brasil e Bélgica unidos em torno da valorizarão da
disseminado. Tornar esse livro acessível a todos aqueles que dese- cultura destes dois países.
jam ter mais conhecimento sobre o estreitamento entre esses dois Agradecemos imensamente a todos os profissionais envolvidos
países é o nosso maior objetivo. Como intuito principal, nosso neste trabalho, entre eles, especialmente aos pesquisadores Eddy
desejo é que existam cada vez mais intercâmbios socioculturais Stols, Luciana Mascaro e Clodoaldo Bueno; Roney Cytrynowicz
entre as duas nações e, acreditamos, sem sombra de dúvidas, que e Monica Musatti Cytrynowicz, diretores da editora Narrativa Um;
este livro propiciará isso. a Embaixada da Bélgica no Brasil, na pessoa do Sr. Jozef Smet;
Sabedores de que esta obra tem na sua tônica o resgate, a ao Consulado Geral da Bélgica, representado pelo Cônsul Didier
preservação e a promoção da presença do Brasil na Bélgica e da Vanderhasselt; ao Consulado Honorário da Bélgica em Santa Ca-
Bélgica no Brasil, temos a certeza de que os dois países se comple- tarina, Sr. Manoel Arlindo Zaroni Torres. Sem o envolvimento
mentam e se ajudam mutuamente a evoluir e a crescer, trazendo destes profissionais não seria possível que tal estudo acontecesse.
intrínsecos benefícios um ao outro. Somos gratos pelo profissionalismo, comprometimento e esmero
A partir do convite do professor Eddy Stols, precursor do pro- que todos dedicaram a este projeto cultural.
jeto, pode-se entender que este foi delineado para apresentar as Nosso agradecimento especial também ao Ministério da
relações que se formaram entre essas duas importantes nações no ­Cultura, por ter proporcionado a execução deste projeto, e a em-
decorrer dos últimos séculos, que vão desde a gastronomia até o presa Patrocinadora Tractebel Energia, representada pelo Sr. Jan
esporte. Passou-se pelas influências ideológicas e religiosas que Flachet, Sr. Luciano Andriani e Sra. Luciane Pinheiro Pedro, que
cada país revelou um ao outro. Vislumbrou-se a arte como verda- cumpriram papel essencial para a realização desta obra.
deira ferramenta de diplomacia e assim descobrimos dois países O livro Brasil e Bélgica: Cinco Séculos de Conexões e Intera-
repletos de trocas entre as áreas de cinema, teatro, dança, música ções está pronto para ser apreciado pelos seus leitores. A Incentive
popular e clássica, artes plásticas, arquitetura e literatura. Projetos e Eventos espera que a obra literária aqui presente seja
Com este desafio proposto, acreditamos que podíamos alcan- de grande contribuição para a valorização das heranças culturais
çar os objetivos desenhados para este estudo e, certamente, nossa geradas pela relação entre os dois países e que traga incontáveis
alegria é imensa por desempenharmos e mediarmos as relações ganhos para aqueles que tiverem acesso a ela. Convidamos a to-
entre os profissionais, que para nós, mostraram-se verdadeiros in- dos, portanto, a entrarem neste mundo ainda pouco conhecido da
vestigadores da história brasileira e belga. Poder proporcionar uma relação belgo-brasileira e a se deliciarem com o incrível conteúdo
fonte de conhecimento sobre essa relação tão importante nos en- que está agora disponível.
che de entusiasmo. Ficamos motivados, cada vez mais, por saber-
mos que estamos no caminho certo: levar ao outro a possibilidade
de descobertas e de crescimento através do aprendizado.

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brasil e bélgica: cinco séculos de conexões e interação

Eddy Stols nasceu em 1938 em Roeselare, Bélgica. Concluiu seu Doutorado em História pela Universidade Católica de Lovaina em
1965. Foi professor na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília (atual Unesp) de 1963 a 1968; professor na Universidade
Católica de Lovaina de 1971 até se tornar Professor Emérito em 2004; professor extraordinário na Universidade de Leiden, Holanda
(1987-1991); professor visitante em várias universidades brasileiras (USP, UFMG, UFSC e UNESP - Campus Assis) e na École des
Hautes Études en Sciences Sociales, Paris. Entre suas publicações: Brazilië, Een geschiedenis in dribbelpas (Brasil, uma história em
passo drible), 1996, 2002 e terceira edição ampliada em 2011; coeditor de La Belgique et l’étranger aux XIXe et XXe siècles (1987); de
Flandres e Portugal, Na confluência de duas culturas (1991); Flandre et Amérique latine, Cinq siècles de confrontations et de métissages
(1993); Brasil, Cultures et économies de quatre continents (2001); O diplomata e desenhista Benjamin Mary e as relações da Bélgica com
o Império do Brasil (2006); Un mundo sobre papel (2009); Terra Brasilis (2011), com curadoria da exposição na Europalia.Brasil. Publi-
cou mais de cem artigos em revistas ou capítulos de livros, dos quais uma dezena sobre alimentação, açúcar e chocolate.

Luciana Pelaes Mascaro nasceu em 1970 em Dourado, São Paulo. Graduada em Arquitetura e Urbanismo pelo Instituto de Ar-
quitetura e Urbanismo (IAU-USP) São Carlos em 1997 e Doutora pela mesma escola na área de Teoria e História da Arquitetura e
do Urbanismo em 2008. Realizou estágio de doutorado na Universidade do Minho, Portugal, e atuou como pesquisador estrangeiro
na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa. Trabalhou como Diretor do Departamento de Patrimônio Histórico da cidade de Jaú
(SP) em 2003. Participou da organização de workshops e seminários sobre Arquitetura e Patrimônio Arquitetônico e colaborou com o
CIVA (Centre International pour la Ville, l’Architecture et le Paysage), em Bruxelles, Bélgica, durante o ano de 2010. É professora do
Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Mato Grosso – campus de Cuiabá, e atua como pesquisadora
em temas como arquitetura do final do século XIX e início do XX, patrimônio arquitetônico e industrial.

Clodoaldo Bueno nasceu em 1943 em Presidente Prudente, Estado de São Paulo. É Mestre e Doutor em História Econômica pela
Universidade de São Paulo (USP), Livre-Docente e Professor Titular da Unesp, aposentado. Docente permanente do curso do Progra-
ma de Pós-Graduação em Relações Internacionais “San Tiago Dantas” da Unesp/Unicamp/PUC-SP, sediado em São Paulo. Foi pro-
fessor visitante na Universidade de Brasília (1994-95) e no Instituto de Estudos Avançados da USP (1197-99). Com auxílio da Fapesp,
desenvolveu em 1997 programa de aperfeiçoamento científico na Universidade de Lovaina, Bélgica. Membro do Grupo de Análise de
Conjuntura Internacional da USP; membro da CHIR (Comission of History of International Relations), sediada em Paris-Milão e vice-
coordenador acadêmico do Instituto de Estudos Econômicos Internacionais da Unesp/SP. Entre suas publicações, destacam-se os livros
A República e sua política exterior (1889 a 1902) (Editora da Unesp / Funag, 1995); Política externa da Primeira República – Os anos
de apogeu – de 1902-1918) (Paz e Terra, 2003); História da política exterior do Brasil (Ed.UnB, 4ª ed. 2011), este em co-autoria com
Amado Luiz Cervo. Publicou textos em revistas e livros editados em Londres, Tóquio, Paris, Buenos Aires, Milão, Quito e Assunção.

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Introdução

Eddy Stols • Luciana Pelaes Mascaro • Clodoaldo Bueno


Organizadores

E ntre o Brasil e a Bélgica (a Flandres do século XVI) o primeiro


atrativo foi a procura de açúcar de cana em quantidade sufi-
ciente para sustentar uma requintada produção doceira e confei-
nos anos de 1850 a de Nicolau Vergueiro em Limeira, ou oficiais,
como por volta de 1890 a de Porto Feliz, dirigida pelo padre Va-
nesse. Havia também trabalhadores à procura de salário melhor.
teira, bem como para adocicar, com o mascavado mais barato, a Em menor número, partiram comerciantes para vender armas,
dieta popular. Para produzi-lo, um grande mercador de Antuérpia, vidraria, casimiras, espelhos, lampadários, estruturas metálicas, co-
Erasmo Schetz, lançou já na década de 1540 um dos primeiros mo fizeram no Rio de Janeiro a Casa Laporte e os irmãos Pecher.
investimentos capitalistas no Brasil com o Engenho dos Erasmos O cônsul Edouard Pecher fundou no Rio de Janeiro em 1852
em São Vicente, no litoral do atual Estado de São Paulo. a Société Belge de Bienfaisance – ainda existente –, que organiza-
Pouco depois, em Antuérpia, um primeiro papagaio verde va banquetes anuais para angariar fundos para dar assistência aos
brasileiro apareceu à venda em uma feira, segundo um quadro compatriotas necessitados ou doentes, embora não possuísse hos-
de Joachim Beuckelaer de 1566. Importaram-se logo em seguida pital próprio. Vieram, ainda, artesões como o litográfo Jean-Bap-
mais papagaios, além de araras, tucanos, saguis e tatus brasileiros, tiste Lombaerts que montou em 1848 na Rua do Ouvidor uma
que serviam para dar prestígio à corte de Bruxelas e enriquecer as conceituada livraria, continuada pelo seu filho Henri e frequen-
coleções dos primeiros naturalistas. Tais animais exóticos, vendi- tada por Machado de Assis. Os tecelões d’Olne de Verviers cria-
dos no mercado, eram destinados também à intimidade dos lares ram no final do século XIX em Niterói a fábrica Tecidos Aurora.
burgueses e chegaram a merecer um lugarzinho nos quadros de Nessa corrente imigratória nem mesmo faltou um ou outro
Jan Breughel o Velho, no início do século XVII. nobre ou gente abastada: Léon Mosselman du Chenoy, longíquo
Mas foi somente a partir do início do século XIX que se in- parente da Rainha Paola da Bélgica, que se distinguiu na Bahia
tensificaram e se diversificaram as conexões entre os dois países. por volta de 1900 pelas suas empresas de mineração e, até, de
A partir de 1807, o porto de Antuérpia abriu-se à importação de piscicultura, embora nunca bem sucedidas; a família de Vicq de
produtos brasileiros, como café, couros e madeira. O Brasil reco- Cumpich no Rio de Janeiro; Henri Oedenkoven, filho de um rico
nheceu a independência da Bélgica e com ela firmou, já em 1834, industrial de Antuérpia, que, desiludido da famosa colônia de na-
um tratado de comércio. turismo Monte Veritá em Ascano na Suiça, tentou em 1925 orga-
Doravante, ambos os países manteriam relações diplomáticas nizar uma similar em escala menor em Catalão, Estado de Goiás.
exemplares, reforçadas pela arbitragem do Rei Leopoldo I em fa- Vale assinalar a presença de mulheres atuantes como Marie
vor do Brasil na questão Christie com a Inglaterra em 1863, quan- van Langendonck, que publicou em 1862 o relato de sua vida
do, por seu lado, o Brasil contribuiu para resgatar os direitos de pe- numa colônia do Rio Grande do Sul ou Georgina Mongruel,
agem, cobrados pela Holanda sobre a navegação do Rio Escalda. musa dos simbolistas e poetisa em Curitiba por volta de 1900. O
Nesses anos ainda, o príncipe herdeiro Leopoldo II estimulou, sem talento artístico motivou frequentes travessias e migrações como
êxito, o irmão Felipe a pedir no Rio de Janeiro a mão de uma das a de Maurice Nadeau, que desde os anos de 1950 encenou peças
princesas imperiais. Logo depois, o Imperador Pedro II visitou a no Teatro Brasileiro de Comédia e dirigiu inclusive novelas. Nos
Bélgica por quatro vezes em 1871-1872, 1876 e 1888. Com a que- anos de 1950 e 1960 o violonista Jan Douliez fundou em Goiânia
da do Império, Leopoldo II, exitoso na sua conquista do Congo, o Conservatório de Música, mas, incomodado pelo regime militar,
cobiçou uma parte do território da recém implantada república voltou em 1965 para a Bélgica.
brasileira: em 1891 fez a proposta ao Brasil e à França de cessão O Brasil recebeu também fugitivos belgas. O primeiro foi Pier-
do território contestado do Oiapoque; por volta de 1900 estava re Mabilde, que, revoltado contra o novo Rei Leopoldo I, chegou
de olho no Acre e tinha em mira grandes concessões de terras no em 1832 ao Rio Grande do Sul, onde, dirigindo a abertura de es-
Mato Grosso e no Araguaia. tradas, ficou cativo dos índios Coroados, que lhe inspiraram seu
Entrementes embarcaram entre 1840 e 1914 quase seis mil livro Apontamentos. Nos anos de 1840, um conspirador contra o
emigrantes belgas para o Brasil, principalmente agricultores can- mesmo rei, o Conde Auguste van der Meeren, teve sua pena de
didatos a um pedaço de terra numa das colônias privadas, como morte comutada em banimento e se estabeleceu na Bahia. Com

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brasil e bélgica: cinco séculos de conexões e interação

os distúrbios sociais do final de século, socialistas como Augusto dados em casas de família. Paralelamente, cresceu o número de
Lootens e Alphonse Solheid e anarquistas como Jules Moineau expats belgas no Brasil, sendo cada vez maior o número dos que
se asilaram no Brasil. se registram em seus consulados no país.
Fugindo dos horrores da Primeira Guerra Mundial, um grupo Assim não é de se estranhar o fato de a Bélgica ter se tornado
de 30 belgas fundou sua comunidade libertária na fazenda Ta- referência frequente no vocabulário e ideário brasileiros. Em razão
bantinguera perto de Cananéia; mesmo malograda, esta aventura das dimensões do seu território e padrão de vida de sua popula-
brasileira inspirou um dos participantes, Géo Libbrecht, em sua ção passou a fazer parte da métrica brasileira e adquiriu status de
futura obra poética. No início da Segunda Guerra Mundial, cerca modelo de bem-estar social refletido no termo ‘Belíndia’, forjado
de trinta judeus, com passaportes belgas, obtiveram do embaixador em 1974 por Edmar Bacha para definir a sociedade brasileira,
brasileiro na França, Souza Dantas, visto para refugiarem-se no que justapõe o bem-estar desfrutado por 10% de seus nacionais
Brasil. Uma vez terminado o conflito, para lá escaparam, por sua nas condições da Bélgica aos 90% daqueles que vivem problemas
vez, vários colaboracionistas belgas da ocupação nazista. similares aos da Índia.
Outros ainda chegaram ao Brasil para prestar serviço a com- Esta primeira exploração poderia prolongar-se, enveredando-a
panhias belgas, como fez o engenheiro Gustave Vauthier, no final na vida científica, educacional e religiosa, mas esta pequena mis-
do século XIX, nas ferrovias do Paraná e Rio Grande do Sul. Em celânea de dados é suficiente para evidenciar um surpreendente
1886 a compra da companhia inglesa Gaz do Rio por capitalistas fluxo quase contínuo e muito diversificado de conexões entre am-
belgas inaugurou um período de investimentos em ferrovias, mi- bos os países, o que justifica um estudo mais aprofundado destas
neração, indústria têxtil, agropecuária e exploração da borracha, relações multifacetadas e sobretudo recíprocas, relações que nun-
totalizando por volta de 1910 mais de 100 milhões de francos em ca suscitaram uma obra de síntese como as que existem para as
quase quarenta empresas. Algumas destas tiveram vida curta, co- relações do Brasil com outros países europeus. Diferenciando-se
mo a Companhia Força e Luz, no Rio de Janeiro, que em 1887, destas obras, preferiu-se aqui uma abordagem bifocal, exploran-
embora por pouco tempo, teve parte do centro iluminado com ba- do estas conexões dos dois lados e dando ênfase tanto à presença
terias do belga Edmond Julien. Esta prefigurou de certa maneira brasileira na Bélgica quanto à belga no Brasil.
o empenho belga no fornecimento de energia elétrica no Brasil. Em nosso projeto editorial, ambicionamos, inicialmente, apre-
Outras empresas foram compradas pelo americano Farquhar co- sentar um repertório sucinto, mas tão completo quanto possível,
mo as ferrovias do sul brasileiro pouco antes da Primeira Guerra destas conexões em todos os setores, tanto no passado quanto no
Mundial; outras ainda mantiveram-se por quase um século, como presente, alternando verbetes de estudiosos com depoimentos pes-
o Banco Ítalo-Belga, fundado em 1911 em São Paulo. soais. Entretanto, logo vimo-nos subjugados e algo desnorteados
Uma incipiente segunda onda de investimentos belgas no Bra- pela abundância de temas, não suspeitada inicialmente.
sil ocorreu no final dos anos de 1930, mas interrompida pela guer- Além disso, tivemos a grata surpresa de constatar que muitos
ra. A nova dinâmia de investimentos que se verifica atualmente assuntos já foram investigados recentemente por acadêmicos bel-
somente se intensificou a partir do final do século XX, mas supe- gas e, sobretudo, por brasileiros. O crescente interesse existente
ra agora as fases anteriores. Desta vez veio acompanhada de mo- no Brasil pelos recantos de sua história reflete-se na excelente
vimento de capitais em sentido inverso, pois várias companhias qualidade da pesquisa nas suas universidades e na conservação
brasileiras instalaram-se na Bélgica. do patrimônio material.
Se as empresas belgas levaram seu pessoal para o Brasil, nume- Em vista do limite de páginas, do tempo e do orçamento
rosa colônia brasileira surgiu espontaneamente na Bélgica, com disponíveis impôs-se a necessidade de selecionar temas. Assim,
presença mais visível em Bruxelas, dos anos 1990 até hoje, cons- deixamos de lado as figuras e os episódios mencionados acima.
tituída de emigrantes à procura de trabalho. Desde a década an- Procuramos equilibrar os mais conhecidos e proeminentes com
terior, futebolistas brasileiros profissionais foram contratados por outros desconhecidos e quase marginais. Mesmo assim, conexões
equipes belgas, a exemplo do maranhense Luís Oliveira, que se importantes como na psicologia e psicanálise ou na literatura fi-
tornou entre 1988-1992 estrela do F.C. Anderlecht e da equipe caram de fora. Pedimos desculpas às pessoas para as quais não pu-
nacional dos Rode duivels. demos dar a devida atenção, mas esperamos que futuramente em
Bem antes disso, isto é, desde meados do século XIX, foi ex- outro livro consigamos nos redimir desta falha. Para adequarmos
pressivo o número de estudantes brasileiros nas universidades a obra ao espaço disponível reduzimos as referências bibliográfi-
belgas. Merecem ainda destaque os cerca de quarenta exilados cas ao mínimo indispensável. Ressaltamos ainda que cada autor
brasileiros no Chile que, depois do golpe contra o presidente é pessoalmente responsável pelas opiniões emitidas.
Allende, encontraram no final de 1973 refúgio na Bélgica. Dois
de seus líderes, Vladimir Palmeira e José Ibrahim, participaram ***
de maneira ativa da redemocratização do País. Cabe mencionar,
também, o programa de intercâmbio American Field Service, que Este projeto foi viabilizado graças ao patrocínio da Tractebel
desde 1985 facilita para algumas centenas de jovens brasileiros Energia dentro das normas da Lei Rouanet. A boa acolhida da-
e belgas passar um ano escolar na Bélgica ou no Brasil, hospe- da pelo seu diretor Jan Flachet e seus colaboradores foi determi-

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introdução

nante, como também em Bruxelas o apoio de Dirk Beeuwsaert, pour l’exploration et la conservation de la nature, de Luc Vints do
diretor da Electrabel e administrador da GDF-Suez. Grande é KADOC (Centro de documentação católica da Universidade de
nossa dívida para com a Incentive Cultural de Raphael Ribeiro, Lovaina), do Institut Royal du Patrimoine Artistique (KIK-IRPA)
que conseguiu a aplicação da referida lei a este livro. Entre os em Bruxelas, de Monica Muggler, Patrick Segers, do Serviço de
diplomatas belgas, Peter Claes, cônsul-geral da Bélgica em São Turismo do município de Dendermonde, do Museu Real de Arte
Paulo, foi, em 2011, o primeiro a apoiar o projeto, além de for- e História (KMKG-MRAH), em Bruxelas, do Ecomusée du Bois-
necer valiosas informações juntamente com seus colaboradores du-Luc, em La Louvière, Bélgica, de Verônica Tamaoki do Cen-
Dulce Vivas e Bart Struyf. Em seguida, também o embaixador tro de Memória do Circo em São Paulo, do Instituto do Patrimô-
belga em Brasília, Claude Misson, ofereceu sua colaboração. Os nio Histórico e Artístico Nacional – Iphan, do Acervo do Museu
atuais embaixador Jozef Smets e cônsul-geral Didier Vanderhas- Mineiro-Superintendência de Museus e Artes Visuais, do Museu
selt apoiaram a conclusão do projeto. O embaixador brasileiro Paulista da Universidade de São Paulo, da Pinacoteca do Estado
na Bélgica, André Mattoso Maia Amado, manifestou, também, de São Paulo, do Museu da Cidade de São Paulo-Casa da Imagem
especial interesse. Somos particularmente gratos à embaixadora da Prefeitura de São Paulo, do Museu do Trem do Rio de Janeiro,
Katia Godinho Gilaberte, no consulado-geral do Brasil em Bruxe- do Arquivo Público do Distrito Federal, da Christie’s Images, do
las, pelo seu apoio, e ao seu assistente Brunno Hoffmann Velloso Irmão João Baptista do Mosteiro de São Bento de São Paulo, do
da Silva, pelas valiosas informações prestadas. Núcleo de Documentação do Instituto Butantan, da Biblioteca
Agradecemos de modo especial a todos os autores por terem da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”-Esalq, da
aceitado colaborar, sem receber honorários, e particularmente a Biblioteca da Faculdade de Economia, Administração e Contabi-
Els Lagrou, Susana Rossberg, Cristina Dias, Roland Renson por lidade-FEA-USP, da Europalia em Bruxelas, do arquivo pessoal de
terem coordenado capítulos. Boa parte das ilustrações foi propor- Allen Morrison, do conde Frédéric de Limburg Stirum, de Paul
cionada pelos próprios autores. Várias fotografias são de autoria de Wittamer, do fotógrafo Ricardo de Vicq de Cumptich, e das fo-
Luciana Mascaro. Outras recebemos de Ivana Vervloet, Regina tógrafas Vivian Oswald e Sofie Deblieck, que cederam suas obras
Lootens Machado, do Museu Histórico de Belo Horizonte, de sem ônus. Devemos, finalmente, registrar que recebemos informa-
Silvio Cordeiro, Luc Van Coolput, Bruno De Corte, do Arquivo ções preciosas de Regina Barbosa, Daniela Rocha, Dominique Van
Municipal de Antuérpia, de Bruno Gosse, do Fonds Léopold III Pée, dos padres Johan Konings e Thierry Linard de Guertechin.

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brasil e bélgica: cinco séculos de conexões e interação

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Sumário

Parte 1 – Travessias e Migrações A inserção dos trabalhadores brasileiros migrantes no


mercado de trabalho belga. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49
P res en ças B elg as n o B ra sil Martin Rosenfeld e Beatriz Camargo

Os ‘flamengos’ do Brasil colonial. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21 A Associação Arte N’Ativa: um pouco da nossa história.... . . . . 51


Eddy Stols Isabel de Lannoy

Sainte-Cathérine du Brésil ou os belgas em Santa Catarina. . . 22


Parte 2 – Relações Oficiais e Diplomáticas
Eddy Stols

Jules Luis Parigot . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26 A diplomacia brasileira perante o potencial e as pretensões


Ana Maria Rufino Gillies e Eddy Stols belgas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57
Paulo Roberto de Almeida
Jeanne Louise Milde, escultora e educadora. . . . . . . . . . . . . . . 28
René Lommez Gomes e Verona Campos Segantini Dois diplomatas belgas no Brasil imperial: Edouard de
Jaegher (1839-1843) e Gabriel Auguste Van der Straten
Marcel Roos: viajante, escritor e cineasta . . . . . . . . . . . . . . . . . 33
Ponthoz (1845-1849) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61
Chris Delarivière
Milton Carlos Costa
A colônia belga de Botucatu. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34
Oliveira Lima: um homem certo no lugar certo. . . . . . . . . . . . 63
Luciana Pelaes Mascaro e Eddy Stols
Clodoaldo Bueno
Uma italo-belga no Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
Os belgas em Descalvados e na fronteira Oeste do Brasil
Florence Carboni
(1895-1912). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65
A casa é sua. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37 Domingos Savio da Cunha Garcia
Annelies Beck
O Rei Alberto I e a música brasileira. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 68
Daniel Achedjian
Pr e s en ças B ras i lei ras na B é lgica
De rebelde a escritor laureado: Conrad Detrez no Brasil. . . . . 69
Os primeiros brasileiros em Flandres. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
Peter Daerden
Eddy Stols
Brasil-Europa, via Bruxelas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 71
Passantes e residentes brasileiros na Bélgica dos séculos
Antônio Carlos Lessa
XIX e XX. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
Eddy Stols
Parte 3 – Relações Econômicas: Comércio e Empresas
Flores brasileiras no Instituto das Ursulinas em Onze-Lieve-
Vrouw-Waver . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43 O C o mé r cio
Mario Baeck
O Engenho dos Erasmos ou dos Esquetes em São Vicente . . . 75
Os estudantes brasileiros na Universidade de Liège Eddy Stols e Silvio Cordeiro
(1870-1914). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44
A companhia de Ostende e os portos brasileiros. . . . . . . . . . . . 77
Christine Fellin
Eddy Stols
Como fui parar na Bélgica e me tornei cineasta. . . . . . . . . . . . 46
Antuérpia e os diamantes do Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 80
Susana Rossberg
Tijl Vanneste
Algumas figuras brasileiras em Lovaina durante os anos 70 . . . 47
Paul Dulieu

13
brasil e bélgica: cinco séculos de conexões e interação

A toda vela para o Brasil, impressões do passado marítimo Algumas contribuições belgas à bovinotecnia brasileira . . . . . 114
oitocentista. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81 Regis De Bel
Jan Possemiers
Dom Amaro Van Emelen e a apicultura no Brasil . . . . . . . . . 116
Um traficante de escravos na Bahia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 84 Regis De Bel
Chris Delarivière
Alphonse Richard Hoge: o especialista em serpentes . . . . . . . 118
Chris Delariviere
E m presas belg as n o B ras il
Biotecnologia Vegetal no Brasil: sucesso na cooperação. . . . . 118
A Urucum dos belgas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 90
Dulce Eleonora de Oliveira
Fabio Guimarães Rolim
A Cooperação ente a KULeuven e as universidades
A Companhia de Estradas de Ferro Noroeste do Brasil e suas
brasileiras . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 121
conexões belgas (1904-1918) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 91
Beatriz Monge Bonini e Rogelio Lopes Brandão
Paulo Roberto Cimó Queiroz

Um lugar belga em Pernambuco: a cidade industrial da Me d icina


Société Cotonnière Belge-Brésilienne S.A.. . . . . . . . . . . . . . . . 93
Marie Rennotte: medicina e emancipação da mulher . . . . . . 123
Jean Suettinni
Eddy Stols
A Solvay chega ao Brasil e abre as portas para a América
Lucien Lison e André Jacquemin na Faculdade de
do Sul. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 96
Medicina de Ribeirão Preto. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 124
Tractebel Energia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 99 Luciana Pelaes Mascaro

Deme: uma empresa de engenharia marinha com 150 O diretor brasileiro de um dos mais ativos laboratórios de
anos de experiência mundial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101 pesquisa em diabetes na Bélgica. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 124
Decio L. Eizirik
Grupo Jan de Nul. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101
Katoen Natie: mais de 15 anos de prestação de serviços Antr o po lo gia
logísticos no Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 102
A melancolia dos belgas: devir antropológico no Brasil. . . . . . 126
Els Lagrou
E m presas bras i lei ras na B élgica
Quando a selva chama. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 138
A Compagnie Brésilienne des Tramways. . . . . . . . . . . . . . . . . 104
Daniel De Vos
Eddy Stols
As pesquisas sobre o patrimônio linguístico africano. . . . . . . . 140
O Panorama da baía e cidade do Rio de Janeiro. . . . . . . . . . . 104
Jacky Maniacky e Jean-Pierre Angenot
Eddy Stols

Citrosuco: presente na Bélgica desde 1980. . . . . . . . . . . . . . . 106 Ensino e Pe sq u isa


Os belgas nas origens da Escola Superior de Agricultura
Parte 4 – Colaboração Científica
“Luiz de Queiroz” . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 141
Luciana Pelaes Mascaro
A s tron om i a e Geo lo g i a
A cooperação entre o Institut International de Bibliographie
Louis Cruls e o Observatório Astronômico do Rio
e a Biblioteca Nacional. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 144
de Janeiro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 109
Jacques Gillen
Christina Helena Barboza
O Instituto Real do Patrimônio Artístico de Bruxelas e o
Um belga à procura do petróleo no Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . 111
Barroco Mineiro. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 145
Patrick Collon
Erika Benati Rabelo e Myriam Serck-Delwaide

B o tân i ca e Z o o lo g i a A cooperação acadêmica, científica e técnica entre


Bélgica e Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 149
O botânico Céléstin Alfred Cogniaux e sua relação com
Claude Misson
o Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113
Magali Romero Sá e Alda Heizer

14
sumário

Parte 5 – Influências Religiosas e Ideológicas Parte 6 – O Brasil Entra em Cena

Jesuítas belgas no Brasil colonial. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 153 O Br a sil e ntr a e m cena


Eddy Stols O Brasil entra em cena. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 195
As missões flamengas no Congo e a cultura afro-brasileira. . . 155 Eddy Stols
Jeroen Dewulf Brasileiros barrocos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 196
Dom Gerardo van Caloen e sua reconquista do Brasil Johan Verberckmoes
beneditino. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 157
Eddy Stols Te atr o, Da nça , C ir c o

Os cônegos brancos e outras ordens belgas. . . . . . . . . . . . . . . 164 A dança na Bélgica a partir do Século XX. . . . . . . . . . . . . . . . 199
Eddy Stols Textos organizados por Cristina Dias

O excêntrico padre Júlio Maria de Lombaerde. . . . . . . . . . . . 168 Depoimento de Rachel da Costa Cunha. . . . . . . . . . . . . . . 199
Eddy Stols A Escola Mudra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200
O sonho monástico de José Moreau em Tabatinguera Cristina Dias
(Cananéia) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 169 Depoimento de Claudio Bernardo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200
Eddy Stols
A evolução da dança contemporânea na Bélgica. . . . . . . . . . 201
A Trapa Maristela (1904-1931). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 170 Textos organizados por Cristina Dias
José Eduardo M. Manfredini Júnior
Depoimento de Milton Paulo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 202
Orval, uma grande abadia belga, com substrato brasileiro . . . 171
Peter Heyrman
PARTS. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 202
Cristian Duarte
Os colégios das freiras belgas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 173
Eddy Stols
Depoimento de Maria Clara Villa Lobos. . . . . . . . . . . . . . 203

As Damas da Instrução Cristã em Pernambuco. . . . . . . . . . . . 174 O papel dos produtores, os intercâmbios de companhias
Marcelo Lins
de dança e os festivais. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 204
Textos organizados por Cristina Dias
Presenças belgas no catolicismo do Brasil contemporâneo
(1945-2010). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 176 Espetáculos brasileiros na Bélgica. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 204
Rodrigo Albea
Eddy Stols

Joseph Comblin (1923-2011). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 178 Danças populares brasileiras. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 205


Cristina Dias
Carl Laga

A contribuição dos jocistas belgas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 182 Grupos e companhias de espetáculos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 206


Arlene Rocha
Myriam Vanden Nest

A Uniapac e o Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 184 Depoimento de Mano Amaro. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 207


Peter Heyrman O homem do carnaval do Rio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 208
Régis Lemaire
Os vínculos entre os mundos maçônicos e laicos da Bélgica
e do Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 185 Depoimento de Cristina Dias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 209
Nicoletta Casano
A amizade entre o Brasil e a Bélgica no circo . . . . . . . . . . . . . 210
As igrejas brasileiras de Bruxelas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 186 Verônica Tamaoki
Anne Morelli
Circo social belgo-brasileiro. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 212
Grupos espíritas criados por brasileiros na Bélgica e o Anne Loeckx
movimento espírita belga. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 188
Fabio Mendes Furtado Parte 7 – Música
Deuses em exílio: notas biográficas de um candomblé Mú sica C lá ssica
na Bélgica. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 189
Arnaud Halloy Músicos belgas no Brasil e brasileiros na Bélgica . . . . . . . . . . 217
Anna Maria Kieffer

15
brasil e bélgica: cinco séculos de conexões e interação

Álvaro Guimarães (1956-2009). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 222 Baiano, Brasileiro e Bruxellois. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 249


Katrijn Friant Diego Santana Claudino

Biografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 224 Documentário e mal-entendido: Retorno sobre uma


Eliane Rodrigues primeira filmagem no Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 250
Jeremy Hammers
M ú s i ca Popu lar B ras i lei r a
“Primeira vez que eu ouvi Bluesette, tinha eu dezessete, ah
MPB . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 225 foi bom, meu coração ficou feliz...”. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 253
Daniel Achedjian Reynald Halloy

A descoberta da Bossa Nova na Bélgica. . . . . . . . . . . . . . . . . . 227 O Brasil, terra de energia e de cinema. . . . . . . . . . . . . . . . . . . 254
Bart P. Vanspauwen Thierry Michel

A descoberta do Mangue Beat na Bélgica. . . . . . . . . . . . . . . . 229 Mover-se com a câmera, mudar o ponto de vista. . . . . . . . . . . 257
Bart P. Vanspauwen Heron Ferreira

A música brasileira nos festivais. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 231 Filmando nas aldeias Kayapó. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 259
Bart P. Vanspauwen Gustaaf Verswijver

Os músicos brasileiros residentes na Bélgica. . . . . . . . . . . . . . 232 O fascínio pelo Nordeste . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 260


Bart P. Vanspauwen Nicolas Hallet

Parte 8 – Cinema e Televisão Te le v isão


A difícil e prazerosa tarefa de traduzir o Brasil para
C i n em a Atual
os belgas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 263
Pequeno panorama atual do cinema sobre o Brasil Daniela Rocha
na Bélgica. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 235
Susana Rossberg Parte 9 – Artes Plásticas
Capoeira, Bel Horizon . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 236
Pintu r a e Escu ltu ra
Basile Salustio
Rastros flamengos no Barroco mineiro. . . . . . . . . . . . . . . . . . . 269
O meu Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 237
Alex Fernandes Bohrer
Roger Beeckmans
Pedro Américo de Figueiredo e Mello: Conexão Ciência &
As questões indígena e ambiental. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 238
Brasil & Bélgica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 271
Babi Avelino
Madalena Zaccara
A mensagem poética de Oscar Niemeyer . . . . . . . . . . . . . . . . 240
Benjamin Mary (1792-1846) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 272
Marc-Henri Wajnberg
Valéria Piccoli
Sobre as “pessoas sem voz” no Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 241
Henri Langerock (1830-1915) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 274
Lazhari Abdeddaïm
Valéria Piccoli
Paixão pelo Nordeste . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 242
Adrien Henri Vital Van Emelen (1868-1943). . . . . . . . . . . . . 276
John Erbuer
Valéria Piccoli
Em busca de uma arte global. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 243
Georges Wambach e o Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 278
Icaro Alba
Aldrin Moura de Figueiredo
Sem-Terra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 245
Um olhar para o meu passado brasileiro . . . . . . . . . . . . . . . . . 280
Jean Timmerman
Jef Van Grieken
Descobertas do Brasil entre o som e a antropologia . . . . . . . . 247
Inscrever os direitos do homem entre o Brasil e a Bélgica. . . . 281
Nicodème de Renesse
Françoise Schein
Lampião, sonhos de bandido. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 248
A visibilidade da arte contemporânea brasileira na
Damien Chemin
Bélgica: uma história recente. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 284
Olívia Ardui

16
sumário

Fonte de inspiração e temas de Luiz Figueiredo. . . . . . . . . . . 291 Os pavilhões brasileiros nas exposições internacionais
Frederik De Preester e Piet Slijkerman da Bélgica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 338
Luciana Pelaes Mascaro
A trajetória da Galeria Cravo e Canela . . . . . . . . . . . . . . . . . . 293
Jacques Ardies Sérgio Bernardes e o pavilhão do Brasil na Exposição
Mundial de 1958 em Bruxelas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 342
Arte Popular Brasileira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 296
Emiel De Kooning
Daniel Achedjian
Frédéric de Limburg Stirum e Paraty. . . . . . . . . . . . . . . . . . . 345
Europalia.Brasil 2011-2012 ou como quase um milhão de
Dominique Vanpée
visitantes descobrem ou redescobrem a cultura brasileira. . . . 298
Kristine De Mulder Paraty. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 346
Cassio Ramiro Mohallem Cotrim
Hi s tóri as em Quad ri n h o s
Paraty e o plano de Limburg-Stirum . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 349
O cartunista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 302 Fabio Guimarães Rolim
Ronaldo Cunha Dias
B-architecten. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 351
Caatinga. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 303 Dirk Engelen
Hermann Huppen
O Projeto Bamboostic. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 351
Sven Mouton
Foto g rafi a
A oficina litográfica de Leon De Rennes. . . . . . . . . . . . . . . . . 305 Parte 11 – Esportes
Jamil Abib
Gaston Roelants ganha quatro vezes a Corrida Internacional
Um patrimônio de fontes em comum com o Brasil: a coleção
de São Silvestre. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 355
de fotografias dos Premonstratenses da Abadia do Parque
Roland Renson
(Parkabdij) de Lovaina. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 307
Luc Vints A primeira competição de atletas brasileiros nos Jogos
Olímpicos de 1920 em Antuérpia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 356
Um botânico, um jardim e uma expedição: Jean Massart
Roland Renson
e a “Mission Biologique Belge Au Brésil (1922-23)”. . . . . . . . . 314
Alda Heizer A capoeira na Bélgica. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 359
Jan Tolleneer
O Rei Leopoldo III e a floresta amazônica brasileira. . . . . . . . 317
Gustaaf Verswijver Nelson e Rodrigo Pessoa: uma família brasileira dedicada
ao hipismo mundial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 360
Frechal, pioneiro da luta quilombola no Brasil. . . . . . . . . . . . 319
Katia Rubio
Christine Leidgens

A obra de Ricardo de Vicq Cumpitch. . . . . . . . . . . . . . . . . . . 321 Parte 12 – Gastronomia

Parte 10 – Arquitetura Produtos brasileiros na gastronomia belga. . . . . . . . . . . . . . . . 365


Eddy Stols
Ramos de Azevedo: um arquiteto brasileiro formado
Interlocuções etílicas entre o Brasil e a Bélgica. . . . . . . . . . . . 368
na Bélgica. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 325
Daisy De Camargo
Maria Angela P. C. S. Bortolucci
Como um chef mergulhou nos sabores dos ingredientes
Arquitetura industrial belga no Brasil no século XIX. . . . . . . . 327
nacionais valorizando os produtos e a gastronomia brasileira . . 371
Bernard Pirson
Quentin Geenen de Saint Maur
Os empreendimentos belgas e a moradia operária . . . . . . . . . 333
Mille merci monsieur Quentin . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 373
Telma de Barros Correia
Alex Atala
A vila belga de Santa Maria. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 335
Ensaio do fotógrafo Ricardo de Vicq Cumptich sobre
Anna Eliza Finger
gastronomia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 373
Nota sobre Arsène Puttemans. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 337
Luciana Pelaes Mascaro Créditos de Imagem. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 374

17
brasil e bélgica: cinco séculos de conexões e interação

18
presenças belgas no brasil

parte 1

Travessias e Migrações

19
parte 1 – travessias e migrações

20
presenças belgas no brasil

Os ‘flamengos’ do Brasil colonial


Eddy Stols

N ão falta no Brasil quem se orgulhe de sua origem flamen-


ga, seja pelo nome, seja pela aparência, de cabelos loiros e
olhos azuis. Quem eram estes pretensos antepassados flamengos?
compartilharam com Portugal e o Brasil, de 1580 a 1640, os mes-
mos soberanos Felipe II, Felipe III e Felipe IV.
Entretanto, no Brasil esta distinção entre obedientes e rebel-
Tratava-se mesmo de flamengos de Flandres ou de holandeses? des custou a validar-se. Os holandeses, que começaram nos anos
A confusão entre os dois é frequente e banal no Brasil, mas não de 1590 a piratear os navios de açúcar brasileiro, conquistaram
agrada aos atuais belgas e holandeses. Merece ser esclarecida por brevemente a Bahia em 1624 e dominaram Pernambuco de 1630
um curto histórico das presenças flamengas no Brasil colonial e a 1654, ainda eram chamados de flamengos. Na boca do poeta
das linhas de ascendência. Gregório de Matos foram até vituperados como ‘o belga ... ímpio
Flamengo tinha, no Brasil colonial como em Portugal, um signi- tirano’. Ainda hoje a ocupação holandesa de Pernambuco é come-
ficado de nacionalidade diferente e bem mais amplo do que aquele morada, numa veneração bastante ambígua, como o ‘Tempo dos
vigente para os nativos da região de Flandres, no atual Estado federal flamengos’ no famoso livro de José Antônio Gonçalves de Mello.
da Bélgica. Como flamengos designavam-se não somente os súditos Na realidade, a maioria dos invasores era mesmo de holandeses,
do condado de Flandres como também todas as pessoas vindas dos se bem que ao seu lado lutaram alguns flamengos emigrados ou
diferentes condados e ducados dos Países Baixos, reunidos pelos trânsfugas das províncias meridionais e muitos mercenários ale-
duques de Borgonha e herdados por seus sucessores habsburgos. mães. Uns e outros tiveram filhos nos poucos casamentos com
Em Lisboa, a privilegiada e prestigiosa nação flamenga tinha portuguesas e sobretudo nas furtivas relações com índias e negras,
sua capela – Santo André dos Flamengos – fundada em 1414 por podendo, assim, figurar como antepassados flamengos de muitos
mercadores de Bruges, naquela época a maior praça comercial nordestinos.
do Norte da Europa. Mais tarde, no século XVI, a nação veio a Oposta a esta amálgama com os belicosos holandeses existe,
admitir também holandeses e outros mercadores ou artesãos das entretanto, uma outra linha de ascendência flamenga que remonta
regiões setentrionais. ao próprio condado de Flandres, através de seus mercadores esta-
Esta ‘Flandres’ lato sensu dos portugueses coincidia com a ‘Bél- belecidos em Lisboa. Estes conseguiram, desde meados do século
gica’ constituída por 17 províncias e representada pelos cartógrafos XV e no contexto dos laços dinásticos entre os duques de Borgo-
como um poderoso ‘Leo Belgicus’. Seus habitantes ‘belgas’, um nha e a Casa de Aviz, uma participação generosa nas empresas
termo apenas corrente entre os letrados latinistas, falavam idiomas portuguesas no ultramar, primeiro no povoamento da Madeira e
diferentes: o flamengo, o holandês, uma variante do baixo-alemão dos Açores com gente vinda de Bruges e vizinhança. Destas ilhas
e o francês. Flamengos podiam ser francófonos, já que este idioma seus descendentes seguiram mais tarde para o Brasil, já no século
predominava em boa parte do condado de Flandres, em cidades XVI, ou com os colonos açorianos do século XVIII. Naquela época
como Lille e Douai, e circulava também na metrópole poliglota os Açores figuravam ainda em alguns mapas como ‘Ilhas flamen-
de Antuérpia. gas’. Estes flamengos de segunda ou terceira gerações integraram-se
A união das 17 províncias desintegrou-se a partir de 1566 com sem maiores problemas na boa sociedade colonial como os Leme
a rebeldia contra seu soberano Felipe II e a reconquista contrar- (Lam), Taques (Tacx), Dutra (de Hurtere), da Silveira (van der Hae-
reformadora, que acabaram criando dois Estados separados: no ghen), Bulcão (Bulskamp)..., nomes hoje presentes no País inteiro.
Norte, as Províncias Unidas, com principalmente a Holanda e a Uma via flamenga mais direta para o Brasil preexistia desde os
Zelândia, protestantes e em guerras quase contínuas, e, no Sul, anos de 1540, quando os mercadores de Antuérpia, interessados
os Países Baixos meridionais, incluindo o condado de Flandres, no comércio do açúcar brasileiro e na exploração de engenhos,
católicos e leais dentro da órbita espanhola. Aliás, estes últimos aproveitaram esta primeira mundialização portuguesa e enviaram

21
parte 1 – travessias e migrações

agentes ou filhos para São Vicente, Bahia e Pernambuco. Assim, Desde a abertura dos portos em 1808, os registros brasileiros de
constituiu-se lá até o final do século XVI um pequeno núcleo estrangeiros mencionaram esporadicamente a entrada de belgas
de flamengos de primeira geração, que tiveram também alguma como ‘franceses’ ou ‘holandeses’, em função do passaporte que
descendência brasileira, como os Campos. Entretanto, sua tran- traziam. É que os Países Baixos meridionais foram anexados pe-
quilidade foi logo afetada pelos ataques ingleses e holandeses e la República francesa em 1795 e passaram, depois da derrota de
ficaram suspeitos de agir como uma quinta coluna. Alguns, acu- Napoleão, em 1814, a fazer parte, junto com a Holanda, de um
sados de heresias protestantes, foram deportados pelo visitador da Reino Unido dos Países Baixos, que teve pouca duração. Somen-
Inquisição em 1594. te depois da Revolução de 1830 e da Independência da Bélgica
Além disso, em represália às novas investidas holandesas, de- é que a nacionalidade belga definiu-se como tal nos documentos
cretou-se em 1608 a expulsão desses flamengos do Brasil, mas vá- de identidade.
rios puderam voltar durante a trégua de 1609-1621. Confrontados Porém, o equívoco subsistia no Brasil e belgas passavam fre-
outra vez em 1624 e 1630 com as invasões holandesas, tiveram quentemente por franceses, porque falavam francês ou porque ti-
que escolher um ou outro partido. Quem, como Gaspar de Mere, nham residido por um tempo na França. Quanto aos flamengos,
ficou com os portugueses, teve seu engenho confiscado. Depois estes, já ausentes dos registros oficiais, incorporavam-se doravante
da vitória portuguesa sobre os holandeses em 1654, manteve-se no imaginário histórico dos brasileiros.
em Lisboa e no Porto uma pequena comunidade flamenga, que
intermediava o comércio com o Brasil e que enviava, ocasional- Referências
mente, um ou outro agente ao Brasil, sem, entretanto, reconstituir STOLS, Eddy. “Convivências e conivências luso-flamengas na rota do açúcar brasileiro”.
um novo núcleo flamengo. In Ler História, Lisboa, 1997, 32, p. 119-147.

Sainte-Cathérine du Brésil ou os belgas em Santa Catarina


Eddy Stols

A Bélgica viu-se durante o segundo decênio de sua indepen-


dência confrontada com uma dramática crise econômica. A
tecelagem e os outros artesanatos domésticos da zona rural foram
elites belgas e vários naturalistas, como Louis van Houtte, Auguste
Ghiesbrecht e Jean Linden, que partiram à busca de novas plantas.
Além disso, os diplomatas brasileiros na Bélgica mostravam-se
substituídos pela produção fabril nas cidades, ao passo que estas atentos à questão da emigração. Se o governo do Brasil incentiva-
novas indústrias perderam seu acesso aos mercados nas colônias va a implantação de colonos europeus, procurava diversificá-los
holandesas. O êxodo rural e o desemprego urbano provocaram além dos suíços e alemães. Dos belgas, reputados por seus tecidos
um pauperismo, mais marcado nas duas províncias de Flandres de linho, esperavam a introdução da cultura e de fábricas que uti-
oriental e ocidental, que, a partir de 1844, tornou-se catastrófico lizassem essa planta.
com a fome e a alta mortalidade subsequentes aos malogros das Com este propósito, o presidente da província do Rio de Janei-
safras de batata e às epidemias de tifo e cólera. ro, Honório Hermeto Carneiro Leão, assinou, em 20 de outubro
Para evitar uma explosão social, os dirigentes políticos, e parti- de 1842, um contrato com Ludgero Joseph Nélis, empresário do
cularmente o Rei Leopoldo I, buscaram o remédio na emigração linho de Zele em Flandres oriental, para trazer 20 agricultores
para colônias de povoamento belga no ultramar, que deveriam criar e implantar esta cultura numa concessão na Pedra Lisa, perto
novos mercados para produtos belgas. A primeira colônia foi lan- de Campos.
çada em 1841 em Santo Tomás, na Guatemala, onde seu governo Pouco depois, em 10 de maio de 1843, o contrato foi amplia-
aceitou ceder um território a uma companhia de colonização bel- do para 125 colonos com meia légua de terra e um empréstimo
ga. Esta focalizou durante um decênio as melhores atenções das para suas passagens e primeiras despesas, a serem reembolsadas
autoridades belgas ao mesmo tempo em que suas atribulações com- em dois anos. O cônsul-geral brasileiro na Bélgica, José Augusto
prometiam as outras tentativas coloniais nos quatro continentes. Rademaker, vistoriou pessoalmente em Zele os candidatos: eram
Neste contexto, não podia faltar um projeto colonizador no bons agricultores e suas mulheres, especialistas no trabalho com
Brasil, país que se firmava naqueles anos no horizonte dos belgas. linho e manteiga.
No porto de Antuérpia cresceu o número de partidas de navios Dos 106 colonos embarcados no porto francês vizinho de Dun-
para o Brasil. Comerciantes belgas, como os Laporte, Saportas e querque, no navio francês Curieux, chegaram ao Rio em 28 de
Hanquet, investiram na praça do Rio de Janeiro para a venda de dezembro de 1843 somente 99, sendo que seis e um recém-nas-
armas e tecidos. A compra de café brasileiro começou a substituir cido morreram durante a travessia de 56 dias. Entre eles estavam
o café holandês de Java. A riqueza botânica do Brasil fascinava as 56 solteiros, 9 casais, 6 moças e 16 crianças. Transportados para

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presenças belgas no brasil

Campos por uma escuna de guerra, seguiram em barcas até Pe- a vinda de no mínimo cem colonos por ano. O governo imperial
dra Lisa em 14 de fevereiro de 1844, onde deviam receber casas pagaria trinta mil réis por colono maior de 14 anos e dez mil por
provisórias e alimentos até as primeiras colheitas. aqueles com idade entre três e 14 anos. Daria isenções de taxas
Desenganados e descontentes com o despreparo, em abril qua- sobre a importação de móveis, víveres, sementes, equipamentos
se todos tinham desaparecido. Novas providências para comprar agrícolas, material de construção, livros e armas. Permitiria a ex-
gado a fim de reter os poucos restantes não adiantaram. O único ploração de minérios, salvo diamantes e carvão, que exigiriam um
a ficar, Nélis tirou todo o proveito possível das matas, para escân- contrato particular. Os colonos seriam submissos às leis do Impé-
dalo dos vizinhos, que queriam repartir as terras entre os pobres. rio, mas gozariam de liberdade religiosa e seus filhos nasceriam
Alguns fugitivos se colocaram em outras colônias, mas boa parte brasileiros. Não poderiam empregar escravos.
voltou à Bélgica e relatou na imprensa seus dissabores. De regresso à Bélgica, Van Lede sintetizou suas informações
O governo nada recuperou de seus gastos e o próprio Nélis vol- gerais sobre o Brasil e Santa Catarina num livro substancial de 435
tou para Zele onde, em 1847, figurou como morador e fabricante páginas, De la colonisation au Brésil, Bruxelas, 1843. Mandatado
de velas. Neste contexto de Pedra Lisa situou-se a vinda a Campos pela Société de Commerce de Bruges, organizou uma sociedade
do casal Charles Muylaert, originário de Aalst, cidade próxima a anônima de 6 milhões de francos em 6.000 ações. Esperava atrair
Zele, que deixou numerosa descendência no Brasil, ativa na mú- capital e colonos com a distribuição de seu livro e de folhetos não
sica e nas artes. Perto de São Fidelis (RJ), a colônia de Valão dos somente na Bélgica como também na vizinha Renânia alemã.
Veados, montada pelo proprietário Eugênio Aprígio da Veiga em Rivalizando com a colonização já mais adiantada em Santo
1847, contou com 13 belgas. Tomás de Guatemala, seu projeto ambicioso pretendia envolver as
Outra atividade econômica belga que suscitava particular inte- mais altas instâncias do país. Entretanto, o principal banco belga,
resse brasileiro era sua já bem avançada exploração das minas de o Société Générale, recusou-se a promover a subscrição de ações,
carvão. Para examinar o potencial carbonífero brasileiro e trans- alegando que não podia depender de um governo estrangeiro.
ferir a tecnologia belga, o governo imperial contratou, em 1839, O próprio governo belga, alertado por seu encarregado de ne-
o cientista Jules Parigot. Mal sucedido, este acabaria, mais tarde, gócios no Rio de Janeiro, Edouard De Jaegher, sobre a instabili-
nos anos de 1860, como diretor de colônias no Paraná. Um outro dade política no Brasil, os riscos financeiros e os problemas em
belga, Charles Van Lede, travou um nexo mais direto entre explo- casos de heranças, negou a proteção oficial e concedeu somente
ração geológica e colonização. o patrocínio do rei e passaportes gratuitos aos colonos. Não cons-
Charles Van Lede (1801-1875), nascido em Bruges de uma ta que a hierarquia católica deu seu apoio como o fazia para a
família de comerciantes e proprietários de terras, conhecia a Amé- colônia na Guatemala. Mesmo assim, negociantes de Antuérpia,
rica Latina por seu trabalho como engenheiro militar no México como Théodore de Cock e Melchior Kramp, participaram e fa-
e no Uruguai nos anos de 1826 a 1828. No Chile teria sido di- cilitaram a ratificação da nova Companhia em 19 de janeiro de
retor das obras hidráulicas. Seu irmão, Louis Auguste Van Lede, 1844. A imprensa advertiu os eventuais acionistas que ainda fal-
vice-cônsul do Brasil em Bruges e sócio da Société de Commerce tava a aprovação da Câmara brasileira e que as terras eram mais
de Bruges, fazia comércio com o Brasil. Em abril de 1837 tinha baratas nos Estados Unidos. Também na Renânia publicou-se um
despachado um navio para o Rio de Janeiro com farinhas, tecidos exame crítico do projeto: Die Belgischen Colonien in Guatemala
e armas. Em dezembro de 1841, Charles partiu para prospectar und Brasilien, Colônia, 1844.
no Brasil, com um capital de 50.000 francos e recomendado pe- De seu lado, o cônsul-geral brasileiro, José Augusto Rade-
lo encarregado de negócios brasileiro em Bruxelas, Visconde de maker, que no início era favorável ao projeto, se distanciou. A
Santo Amaro. Este apreciava os belgas como “bons trabalhadores ausência de brasileiros no conselho de administração, as críticas
e católicos”, mas pretendia eliminar “a escória da sociedade”. ventiladas por De Jaegher, as passagens sobre as dívidas do Brasil
Charles Van Lede levou consigo Joseph Philippe Fontaine, no livro de Van Lede e a pouca consideração deste último cho-
como delegado da Société de Commerce de Bruges e seu futuro caram sua autoestima de brasileiro, ainda mais quando os jornais
substituto, e mais um sobrinho, Jules de Laveleye, mais tarde vice- escreveram que Van Lede tinha conquistado para a Bélgica ‘un
-cônsul do Brasil em Gand. Percorreu boa parte de Santa Cata- petit royaume de 400 lieues carrées’ – um pequeno reino de 400
rina, de São José a Lages, remontou o Rio Itajaí, examinou o po- léguas quadradas. Rademaker ressentia a resistência dos belgas em
tencial de mineração de carvão como em Tubarão, levantou um ceder ao Império a soberania sobre seus súbditos e sua preferência
mapa e redigiu a nota Geologia de Santa Catarina. Esta foi tradu- pela colônia mais dependente de Santo Tomás de Guatemala, pa-
zida na Revista do Instituto Histórico, 1845, t. 7, do qual se tornou ra onde embarcavam nesta época mais de 500 belgas.
correspondente estrangeiro. Seu trabalho alimentou boatos de que Algo recalcitrante, Van Lede não desistiu e partiu novamente
queria explorar carvão e minérios com mão de obra flamenga. em junho de 1844 para efetuar a demarcação de sua concessão.
No Rio de Janeiro conseguiu do Império, em 10 de agosto de No Brasil lhe esperava a decepção da nova lei, que interditou a
1842, uma concessão de terras devolutas de 20 léguas quadradas doação de terras públicas. Como os primeiros colonos já estavam
que sua nova Companhia belgo-brasileira de colonização devia va- embarcando, Van Lede comprou por conta própria, de Henrique
lorizar com capital suficiente para obras e construções e promover Flores, uma légua quadrada de terras na margem do Rio Itajaí, a

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parte 1 – travessias e migrações

futura Ilhota. No final de agosto, saiu de Ostende o barco Jan Van Paralelamente, esta colonização belga em Santa Catarina se
Eyck, do capitão Minne, com a primeira leva de 114 emigrantes, conectou com o desenvolvimento da horticultura tropical na Bél-
principalmente da região de Wingene, na província de Flandres gica e particularmente na cidade de Gand. Um de seus principais
ocidental, em maioria agricultores, jovens de 20 a 30 anos, alguns horticultores, Verschaffelt, enviou um empregado, François De
casados e com filhos. Mas vinha também gente de classe média Vos, para coletar orquídeas em Santa Catarina e recebeu deste a
urbana, como o já citado Joseph Philippe Fontaine, Gustave Le- Cattleya Leopoldi e a Cattleya elegans, cuja comercialização exi-
bon, o agrimensor Henri Devreker, Hypolite Vanderheyden de tosa rendeu bons lucros.
Ostende e Pieter-Jan Plettinck. Este último, que foi médico e far- Rijcke foi outro colono belga que também se dedicou à caça
macêutico em Bruges antes de dedicar-se à agricultura e à destila- de plantas, talvez a serviço de outro horticultor gandense, Louis
ria em Jabbeke, escrevia suas cartas num bom francês (Boutens). van Houtte. Graças às suas cartas, conservadas pela família, co-
A viagem levou 12 semanas, com paradas de oito dias em San- nhece-se um pouco melhor a trajetória catarinense do naturalista
ta Cruz de Tenerife e no Rio. Nem todos os imigrantes seguiram Lambert Picard (1827-1891). Jovem, órfão de um metalurgista
diretamente para a colônia no Itajaí. Plettinck, diante de notícias luxemburguês, partiu em 1846, depois de um curto estágio com
confusas sobre as terras, ficou no Desterro, pensando em exercer um horticultor em Bruxelas, para fazer dinheiro como ‘caçador
a medicina por lá. Outros 22 imigrantes se retiraram logo no pri- de plantas’ no Brasil.
meiro ano e um deles, De Gand, ganhou até o processo movido Antes de coletar pelo interior, Picard passou várias semanas
por Van Lede. O grupo de Vanderheyden, com cerca de 14 pesso- nas terras de Telghuys e Vanderheyden e conheceu depois outras
as, julgou as terras de Van Lede de má qualidade e alugou outras. colônias. Logo na sua primeira volta à Bélgica, em 1850, publi-
Na própria Ilhota, cada colono recebeu um lote individual de 50 cou, no Boletim da Academia belga, uma memória crítica sobre
braças (110 metros) de largura, no qual devia uma renda em na- colônias. Entusiasmado pelas riquezas da província e bom obser-
tura e mais um dia por semana de trabalho gratuito para o diretor vador, analisava as falhas de Van Lede e insistia que futuros colo-
da colônia. Pagaria a compra em quatro ou oito anos. nos deveriam receber lotes já demarcados e casas preparadas para
Surpreendentemente, em fevereiro de 1845 Van Lede já havia não perder tempo nem ânimo diante da selva impenetrável. Acon-
deixado a direção da colônia a Fontaine, seu homem de confian- selhava a adoção das tradicionais culturas locais, como de cana,
ça. Era uma fuga de suas responsabilidades ou um sinal de que mandioca, feijão e milho. A exemplo dos agricultores brasileiros
julgava sua tarefa terminada? Pelo menos Fontaine informou, em já experimentados, não devia proceder-se a um desmatamento
carta de 07 de abril de 1845, publicada no diário oficial belga Le tão minucioso e custoso como na Europa. Na mesma linha, Pi-
Moniteur, que os colonos estavam com boa saúde, já livres dos card julgava indispensável empregar, como os brasileiros, mão de
borrachudos e da sarna, contentes e trabalhando duro. Já havia obra escrava, até que uma lei geral abolisse o tráfico. Regressando
16 casas com um caminho traçado ao longo do rio e até uma área a Santa Catarina em 1855, voltou a expedir plantas tropicais e
para um jogo de bochas e 25 hectares desmatados, que renderam peles de jaguatiricas à Bélgica mas, em 1862, passou a exercer a
a primeira safra. Plantaram feijão preto, batatas e, nas linhas divi- medicina natural em Alegrete, no Rio Grande do Sul. Após juntar
sórias, cafeeiros e laranjeiras, e tinham planos para cana, tabaco, dinheiro suficiente, foi estudar medicina em Heidelberg, onde se
linho, índigo, nopal para a cochinilha e até alpiste, e mais estra- formou em 1872. Homologou seu diploma na Bahia, mas prefe-
das para novos colonos. Também o cônsul belga em Desterro, riu praticar no Uruguai, primeiro em Montevideu e, finalmente,
Charles Sheridan, nomeado em maio de 1844 por causa de sua em Nueva Palmira.
longa experiência marítima, confirmou que a colonização estava Referente à Ilhota, a colônia já estava desde o final de 1845
bem encaminhada e oferecia perspectivas para mais emigrantes. vivendo seus primeiros dramas com inundações, safras destruídas
O próprio Sheridan, associado com o armador Telghuys, de e mortes. Fontaine pagava caboclos para o trabalho mais duro e
Antuérpia, desviou emigrantes para suas próprias terras compradas provocava a ira dos belgas, que se recusavam a prestar doravante
em Tijucas Grandes. Foi provavelmente ele quem incitou Pierre seu dia obrigatório de trabalho gratuito. As brigas levaram Fon-
Van Loo, filho de um respeitado negociante de Gandt, a investir taine a fazer queixa às autoridades brasileiras, que condenaram
sua herança de 10.000 francos num projeto com 16 colonos. Con- três belgas, Krabeels e os dois irmãos Maes, a dois anos de prisão.
tratados em cartório, eram em maioria agricultores da região de Em Desterro, suas mulheres com dez crianças vagavam pelas ru-
Wingene, mas também alguns valões, dois operários, um ferreiro as, pés descalços e pedindo esmolas. O consulado ajudou no seu
e um aluno de farmácia. sustento e colocou as crianças na escola pública. Os presos protes-
O médico Plettinck, em carta de março de 1845, também pro- tavam e teimavam em ser julgados pelas leis belgas. A reputação
pôs a seus conhecidos de Jabbeke a formação de uma companhia briguenta dos belgas piorou com um incidente em maio de 1846,
de 20.000 francos e a compra de terras para 12 colonos. Cada um quando Jan Van Eyck trouxe ao porto de Desterro mais colonos
entraria com pelo menos mil francos e deveria trazer utensílios e mercadorias.
agrícolas, tecidos baratos de algodão, sementes de centeio, armas Por andar tarde da noite pelas ruas, o capitão Minne e seus
e pólvora para caçar porcos e animais selvagens. Como Plettinck marinheiros foram interpelados por guardas da polícia e chega-
não deu mais sinal de vida, seu projeto provavelmente não vingou. ram às vias de fato. No dia seguinte o subdelegado de polícia e o

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presenças belgas no brasil

juiz de direito foram a bordo intimar os belgas a explicar-se e toda ostentar e prestigiar a bandeira belga na costa da América do Sul,
a tripulação acabou presa. O cônsul Sheridan não ousou intervir fosse fazer escala em Desterro.
no meio de um populacho que gritava “matão já esta cambada Sheridan liquidou seus negócios, abandonou sua pequena co-
d’estrangeiros, enforcão já todos elles, arrancão a bandeira”. Iden- lônia e voltou a Gand. Em 08 de julho de 1846, seu cunhado,
tificado como belga, Jean Eilgner foi insultado na rua e a esposa Paul Dierxsens, secretário da Câmara de Comércio de Antuérpia,
teve a roupa rasgada. Outro belga foi expulso. interveio em sua defesa, acusando van der Straten e seu cônsul
O clima xenófobo piorou com a chegada, em agosto de 1846, Saportas de ineptos. Suas queixas fizeram o ministro belga das
do Adèle com Pierre Van Loo e seus colonos. Estes sofreram maus Relações Exteriores lembrar, em 29 de janeiro de 1847, ao encar-
tratos já na alfândega, que exigiu direitos excessivos sobre objetos regado no Rio seu dever de proteger os nacionais, sem que desse
de uso pessoal, como instrumentos agrícolas, quadros de família por isso qualquer apoio oficial a esta colonização.
ou uma caixa para preservar plantas do agente do horticultor Van Essas desavenças naturalmente repercutiram na imprensa e no
Houtte, de Gand. Até a casa do cônsul Sheridan foi vasculhada à parlamento belgas em discussões sobre os rumos da emigração de-
procura de contrabando. Para maior confusão, Fontaine abando- pois dos malogros em Santa Catarina e na Guatemala. O próprio
nou a colônia, vendendo o sino da igreja e a casa como material Van Lede, eleito conselheiro provincial de Flandres ocidental,
de construção, e deixou Lebon como substituto. Ao menos regis- polemizou no final de julho de 1850 em Le Moniteur com o seu
trou, em 17 de julho de 1847, numa planta conservada no Museu antagonista no Rio, De Jaegher, nomeado governador de Flan-
de Tervuren, os nomes dos cinco colonos ainda presentes com 19 dres oriental. Boatos de que venderia sua concessão deixaram os
dependentes, mulheres e filhos, de outros três ausentes e ainda de diplomatas brasileiros em Bruxelas de sobreaviso, ainda mais por-
mais três moradores sem lote. Os outros se dispersaram por outras que, por várias vezes, foi solicitada sua benevolência para deixar
colônias ou voltaram para a Bélgica deportar ao Brasil presos dos asilos de mendicidade e que novos
Sheridan informou o novo encarregado belga, Auguste van candidatos à emigração pediam subsídios brasileiros.
der Straten Ponthoz, e atribuiu estas hostilidades a um partido Em Ilhota, porém, onde por meados de 1847 restavam somen-
liderado pelo presidente da província e juiz de direito. Segundo te 63 pessoas, a colônia se estabilizou e voltou a crescer.
ele, estas elites nacionais estavam acostumadas a obter concessões O novo cônsul belga, o suíço Schuttel, nomeado em 1850,
de terras, que rentabilizavam pelo trabalho de colonos alemães autor dos Relatórios do Império de 1854 e 1859, o viajante alemão
ou que, eventualmente, lhes vendiam. Achavam-se agora preju- Avé-Lallemant em 1858 e o capitão Petit e seu adjunto Émile
dicadas pelas empresas belgas de colonização, que não permitiam Sinkel, do Duc de Brabant, que em meados de 1855 acabou en-
semelhante exploração de seus imigrantes. Alguns, contrários ao trando em Desterro, citaram números variando de 89 a 200 indi-
desmatamento por mão de obra livre, preferiam a escravidão. Nu- víduos e atestaram seu bem-estar e boa natalidade. Na margem
ma interpretação similar, Van Loo considerou os incidentes com alta do rio, em pequenas casas cinzentas, mas limpas, viviam bem
Jan van Eyck como vingança, mas não deixou intimidar-se, ainda nutridos e contentes e casavam-se entre si. Tinham muitos filhos,
mais porque a revolução no Rio Grande do Sul dava sinais de “de- que Avé-Lallemant viu “chafurdando alegres na lama entre bana-
sintegração deste imenso Império”. Em sua opinião – significativa neiras e canas de açúcar”. Locatários ou proprietários, plantavam
do incipiente estado de espírito colonialista entre alguns colonos milho, feijão, batatas, algodão e café, tinham gado, engenhos de
–, os belgas, orientados por “chefes inteligentes” e “tão numerosos cana e mandioca ou trabalhavam como profissionais. Econômicos,
e com um núcleo de gente capaz, poderiam adquirir influência po- alguns já dispunham de dinheiro para emprestar a outros ou para
lítica e dirigir o movimento para o proveito da Bélgica”. Se não, voltar à Bélgica. Na falta de estradas até a costa, faziam comércio
Santa Catarina cairia nas mãos dos ingleses, como também temia com uma escuna de Lebon pelo Rio Itajaí até a foz.
o cônsul francês. Ao contrário, bem mais crítico se mostrou o diplomata belga
O cônsul Sheridan, consciente de sua pouca influência e ain- Charles d’Ursel durante sua visita em dezembro de 1873. Chegan-
da sem exaquatur (permissão para exercer seu cargo no País), es- do pelo rio, se deparou com a pobre venda de J. Maes e convocou
perava que van der Straten fosse intervir junto ao governo central. todos. Das 22 famílias reunidas, a maior parte encontrava-se em
Este diplomata profissional adotou uma atitude ambígua, mas de situação de quase miséria. Continuavam casando em endogamia
acordo com a reserva do governo belga diante da experiência em e falando ainda o flamengo, mesmo na segunda geração. Sem
Santa Catarina. Criticou Sheridan por não ter intermediado en- contratos ou papéis, viviam inseguros e incomodados pelo cônsul
tre Fontaine e os colonos e o demitiu por sua condenação por Schuttel, que pretendia cobrar dívidas de Van Lede. Quando este
contrabando. Ao mesmo tempo, deixou claro que não interviria faleceu em 1889, seu legatário, o Sint-Jans Hospitaal de Bruges,
para proteger os belgas, afirmando que estes deveriam aprender a procurou recuperar as terras e enviou um agrimensor, mas os co-
conformar-se com as leis de seu novo país e que seus problemas lonos belgas resistiram e conservaram as terras.
eram decorrentes dos contratos. Tendo em vista a suscetibilidade Nas gerações seguintes quase todos abandonaram a agricul-
da opinião pública, o melhor era esquecer o episódio com Jan Van tura para profissões nas cidades. Hoje encontram-se os numero-
Eyck. Assim, o encarregado achou pouco oportuno que o navio sos descendentes, Castellain, Coninck, Gevaerd, Hostin, Maes...
de guerra da marinha belga Duc de Brabant, que devia, em 1847, espalhados por toda Santa Catarina e até nos Estados vizinhos.

25
parte 1 – travessias e migrações

Ilhota tornou-se município em 1958 e, confrontado com a forte MAROY, Charles. ‘Sainte-Cathérine du Brésil’. Bulletin d’Etudes et d’Informations de
afirmação cultural e folclórica das outras comunidades étnicas na l’école supérieure St. Ignace, 1932, 9, p. 333-361.
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região, seguiu esta onda e começou ultimamente a comemorar Sud’. Bulletin Académie Royale des Sciences, des Lettres et des Beaux-Arts de Belgi-
suas raízes belgas. Organizou-se em 2010 uma festa Belga-Expo e que, 1850, 17, p. 168-185.
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nau, 1972. VAN LEDE, Charles. De la colonisation au Brésil. Rapprt aux membres de la Compagnie
Journal de Bruges, 1842-1844. brésilienne de colonisation sur les difficultés qui ont été élevées à la mise en possession
MAES, Paulo Rogério. Colonização flamenga em Santa Catarina: Ilhota. Itajaí, 2005. de sa concession. Bruxelas, 1846.

Jules Louis Parigot


Ana Maria Rufino Gillies e Eddy Stols

A surpreendente trajetória do belga Jules Louis Parigot, diretor


de colônias no Brasil imperial, redundando entre dois con-
tinentes e três ciências, tão característica do século XIX, merece
de contratar Parigot para pesquisas mineralógicas e a exploração
do carvão de pedra no Brasil (AHI). O interesse do governo brasi-
leiro pelo carvão de pedra se devia naquele momento menos aos
mais que este esboço biográfico ainda fragmentário. De origem primeiros projetos ferroviários, mas antes à navegação a vapor,
francesa, nascido em Paris em 1806, formou-se em medicina e que tinha boas perspectivas na costa marítima e nos rios do País.
foi nomeado em novembro de 1835 professor de mineralogia e Parigot recebeu este encargo e com instruções do Ministro
geologia na Université libre de Bruxelles, recém-fundada em 1834 do Império de 21 de novembro de 1839 foi primeiro a Alagoas
dentro do espírito do livre pensamento. e logo à Bahia. Lá, desde janeiro de 1840, fez sondagens na Ilha
No ano seguinte participou da comissão que devia redigir um de Itaparica, mas em Ilhéus foi perturbado pelas chuvas. Pelo re-
projeto para organizar a nova Académie Royale de Médecine. Fez-se gistro de estrangeiros, em 5 de julho de 1840 embarcou do Rio
também membro da Société de Médecine de Gand e da Société des de Janeiro para o Sul. Publicou seus primeiros resultados no Rio
Sciences Naturelles et Médicales de Bruxelles. Ao mesmo tempo, de Janeiro em Memória sobre o carvão de pedra no Brasil (1841),
redigiu uma Carte du bassin houiller de la Belgique et du nord de Minas de carvão de pedra de Santa Catarina (1841) e Memória
la France (Mapa da Jazida Carbonífera da Bélgica e do Norte da terceira sobre as minas de carvão de pedra de Santa Catarina (1842)
França), Bruxelas, 1838. Seu livro Histoire des tribus indiennes de (Anderson Heleodoro).
l’Amérique septentrionale, Bruxelas, 1837, demonstrou seu inte- No final destas viagens Parigot pode ter cruzado com o com-
resse pelo novo mundo, que se concretizou na ideia de fazer uma patriota Charles Van Lede. Este liderou sua própria exploração
viagem ao Brasil, como fizeram outros belgas na época. em Santa Catarina no início de 1842, com atenção particular pa-
Apresentando-se como naturalista em carta de 28 de março de ra o carvão, e obteve, em 10 de agosto de 1842, uma concessão
1839 ao Ministro de Relações Exteriores belga, pediu subvenção imperial para trazer imigrantes belgas através de sua companhia
de um ano de salário para uma viagem científica ao Brasil e paí- belgo-brasileira de colonização.
ses vizinhos, onde coletaria dados estatísticos, estudaria a econo- Ao mesmo tempo, o governo imperial encarregou Parigot de
mia rural e doméstica, examinaria o mercado para as exportações iniciar a exploração do carvão e de buscar capitais, mineiros belgas
belgas e ofereceria seus serviços para fazer o mapa geológico do e instrumentos de mineração na Inglaterra e na França. Segundo
Império (Amaeb, 2015). Recebeu apenas uma carta de recomen- o Jornal do Comércio de 10 de setembro de 1842, ele estava de
dação e a promessa de indenização no regresso. Mais receptivi- partida no Rio de Janeiro. Poucos dias depois, o encarregado de
dade encontrou no ministro brasileiro dos Negócios Estrangeiros, negócios belga, De Jaegher, em aviso ao seu ministro sobre esta
Caetano Maria Lopes Gama, que informou o Ministro dos Ne- missão, exprimiu sua pouca confiança em Parigot e o aconselhou
gócios do Império, Manuel Antônio Galvão, sobre a possibilidade lhe conceder somente ajuda, depois de ter ouvido Van Lede.

26
presenças belgas no brasil

Em janeiro de 1843, na Bélgica, Parigot tentou convencer a ido a Nova York para dirigir um asilo. Entrementes, nos anos de
Société Belge de Colonisation a associar-se, com o devido respei- 1850 a 1880, seu pensamento e suas propostas apareciam com
to aos interesses brasileiros, à Compagnie Impériale des Mines de destaque na corte imperial brasileira nos debates e discursos mé-
Sainte Catherine (Companhia Imperial de Minas de Santa Ca- dicos sobre neuroses e loucura (Gonçalves).
tarina) e a todas as indústrias conexas, um projeto em discussão Não se sabe se Parigot voltou ao Brasil por algum convite,
no Parlamento brasileiro. Se o diretor da sociedade belga mani- por iniciativa própria ou por um casamento. No final da década
festou um interesse polido, deu prioridade ao projeto de coloni- de 1860 já estava neste país e publicou O futuro dos hospícios de
zação na Guatemala. alienados do Brasil: memória offerecida a imperial Academia de
Ao mesmo tempo, Van Lede estava buscando acionistas pa- Medecina do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, 1870, 12 p.). Para
ra sua companhia e gozava então da maior simpatia do cônsul- este espírito polivalente e algo volátil a problemática das colônias
-geral, José Rademaker, da legação do Brasil na Bélgica. Rade- de alienados se aproximava daquela das colônias de imigrantes no
maker tinha recebido ordens para auxiliar Parigot e pagar-lhe a Brasil. Estas se encontravam, na época, em plena efervescência e
pensão. Como Parigot preferiu comprar na Bélgica – em vez de as desavenças dos colonos encontravam acirrada repercussão na
na França ou na Inglaterra – máquinas de mineração do duque Europa. Entrando nas discussões sobre as alternativas, Parigot pro-
d’Arenberg pelo preço de 3.500 francos, Rademaker ficou descon- nunciou um discurso, lançado em folheto, Convirá ao Brasil a im-
fiado e levou o engenheiro Tarte para examiná-las. Este as julgou portação de colonos chins?, em 16 de agosto de 1870, na Sociedade
ultrapassadas, mas Parigot acusou Rademaker de cumplicidade Auxiliadora da Indústria Nacional, da qual se tornou membro.
com Van Lede. No Rio de Janeiro também circulavam críticas Figurava pelo menos desde 15 de fevereiro de 1868 como di-
e boatos contrários. Assim, no final de 1843, Parigot foi exonera- retor na colônia do Assunguy, composta por brasileiros, alemães,
do e os pagamentos, suspensos. Pelo menos algum material foi ingleses, franceses, suíços e outras nacionalidades, servindo tam-
enviado, já que em carta ao Presidente da Província da Bahia bém como médico e ocasionalmente como intérprete em quatro
Parigot solicitou a liberação de materiais destinados à mineração línguas. Teria aceito a função, segundo seu próprio comentário
de Santa Catarina, procedentes da Europa, porém levados à al- ouvido por um colono, principalmente para poder escrever sosse-
fândega da Bahia em 1844. gadamente uma obra sobre loucos (Lamb e Garcia). Se queixas
De volta à Bélgica, Parigot dedicou-se mais à medicina e par- dos imigrantes, inclusive contra os diretores, eram frequentes, na-
ticularmente ao tratamento dos doentes mentais no Hospice de da consta nas fontes disponíveis contra Parigot.
Bruxelas. Em 1849 foi nomeado inspetor-médico da colônia de Segundo o diplomata belga Edouard Anspach, era bem consi-
alienados de Geel, uma pequena cidade na província de Antuér- derado (Recueil consulaire, 16, 1870, p. 24-28). Mostrava-se muito
pia, onde desde a Idade Média se acolhia loucos nas casas de comprometido a atender às necessidades dos colonos e ver cum-
família com bons resultados. Entretanto, esta tradição salutar se pridas as promessas feitas pelo governo. Reclamava da falta de
deteriorou sob o mando tirânico de diretores eclesiásticos. Assim, verbas para receber os colonos em casas prontas na sua chegada e
o governo belga resolveu intervir e reorganizar a colônia com um prover-lhes ferramentas, panelas e alimentos, para preparar o ca-
serviço de quatro médicos e um inspetor. minho que conduzia às melhores terras, para contratar trabalha-
Neste cargo, Parigot restabeleceu e reformou os métodos tra- dores. Defendia a ideia de que, com as famílias pobres dez dias de
dicionais. Os alienados tinham seu próprio quarto, bem melhor sustento – conforme ditava o regulamento – não eram suficientes e
que a cela dos asilos, não eram acorrentados, mas saiam quan- que o provimento deveria estender-se por seis meses. Desaprovava
do queriam e até trabalhavam no campo. Faziam música, com a remessa de imigrantes solteiros por observar que estes não conse-
direito a uma “cervejinha”. Recebiam-se mesmo estrangeiros e guiam viver sozinhos no mato. Além disso, denunciava as mazelas
muitos se curavam ou, pelo menos, não pioravam. de diretorias anteriores e o não cumprimento das obrigações por
Desta experiência resultaram várias publicações como Théra- outros elementos que faziam parte do pessoal da colônia. Assim,
peutique naturelle de la folie: l’air libre et la vie de famille dans la mandou demitir o engenheiro da colônia, Chalreo Jr, o que pro-
commune de Gheel (Terapêutica natural da loucura: o ar livre e a vocou longas discussões e argumentações entre ele, o engenheiro
vida em família na cidade de Geel), Bruxelas, 1852, De l’hygiène e as autoridades provinciais.
des sentiments (Da higiene dos sentimentos), 1856, e De la réfor- Tantas críticas e sugestões podem ter causado sua transferência
me des asiles d’aliénés (Da reforma dos asilos de alienados), 1860. para a colônia de Cananeia, por portaria de 6 de abril de 1869.
A visita do jornalista francês Jules Duval em 1856, um entu- Sobre sua atuação em Cananeia há poucos dados. O relatório da
siasta e praticante das ideias fourieristas num tipo de falanstério Agricultura de 1870 citou um plano seu para abrir um tram-road do
na Algéria, resultou num livro badalado, Gheel ou une colonie porto até Castro, atravessando a Serra Negra e a colônia de Assun-
d’aliénés vivant en famille et en liberté (Geel ou uma colônia de guy. Pouco depois, em 31 de março de 1871, suplicou ao Impera-
alienados vivendo em família e em liberdade), Paris, 1860. Já dor para ajuizar sua proposta de ‘ir à Europa despertar a emigração
em 1856 Parigot se deixou voluntariamente substituir em Geel, espontânea de pequenos proprietários’ (AN, M160D7403). Faria
talvez porque a boa repercussão internacional de seus métodos conferências em vários países, mediante pagamento da passagem
lhe abriu novos horizontes. Por volta de 1861-1864 parece ter de ida e volta e de adiantamento de seis meses de seu ordenado.

27
parte 1 – travessias e migrações

Na mesma carta pediu sua exoneração do cargo de diretor. Não Bibliografia sobre Parigot
se sabe se foi realmente à Europa, mas pelo menos retornou à Co- Arquivo Ministério das Relações Exteriores (Amaeb), Bruxelas, 2015 e 2028, I; Cor. Pol.
lônia de Assunguy, onde, em 1875, segundo o relatório sanitário, Brésil, II, De Jaegher, 16.09; 1842.
AHI 300 04 01 – Parte I – Avisos (minutas) expedidos pelo Ministério dos Negócios Estran-
atuava como médico da colônia. Pouco depois pediu ao presidente geiros ao Ministério dos Negócios do Império – S. Seç. Engenharia e Mineralogia.
da província licença de 2 meses, com vencimentos, para tratar da Arquivo Nacional, Rio de Janeiro (AN), Documentação Histórica, Cod. 807, livro 5, p.
saúde em Curitiba. Lá estava sua família, que ele só havia visto 155-159, e livro 6, p. 57-61; M160 D 7403.
GILLIES, Ana Maria Rufino. ‘Os ingleses do Assunguy (1859-1882) sob a perspectiva do
uma vez desde que assumira o posto na colônia. Além disso, ele processo civilizador: um estudo comparativo com outra comunidade britânica do sé-
referiu-se a conflitos com o então diretor da colônia, Pedro de Al- culo XIX’. X Simpósio Internacional Processo Civilizador. Campinas, SP, 1-4 abr. 2007.
cântara Buarque, em assuntos de natureza médica. GARCIA, Edrielton dos Santos. Colonização em Assunguy: A experiência do colono nacio-
nal entre 1860 e 1870. Monografia apresentada à disciplina de Estágio Supervisionado
Faleceu em 1877 ou 1878 na colônia Brusque ou Itajaí (Oswal- em Pesquisa Histórica. Curitiba: UFPR, 2010.
do Cabral, História de Santa Catarina, Rio de Janeiro, 1970, p. GONÇALVES, Monique de Siqueira. Mente sã, corpo são: disputas, debates e discursos
médicos na busca pela cura das “nevroses” e da loucura na corte imperial (1850-1880).
243). Vários de seus descendentes desempenharam importantes Tese de Doutorado. Curso de História das Ciências e da Saúde. Rio de Janeiro: Casa
funções no Estado do Paraná. A partir deles se poderia talvez pre- de Oswaldo Cruz-Fiocruz, 2011.
encher as lacunas de sua biografia. HEIDEMANN, Eugenia Exterkoetter. O Carvão em Santa Catarina, 1918-1954. Dis-
sertação de Mestrado. Curso de Pós-Graduação em História (Econômica) do Brasil.
Curitiba: UFPR, 1981.
Ana Maria Rufino Gillies é doutora em História pela Universidade LAMB, Roberto Edgar. Imigrantes britânicos em terras do império brasileiro: mobilidade,
Federal do Paraná (UFPR) e Professora Adjunta do Departamento de vivência e identidades em colônias agrícolas (1860-1890). Tese de Doutorado. São
Paulo: PUC, 2003.
História da Universidade Estadual do Centro-Oeste, Campus de Irati. MASOIN, E. ‘Julien Parigot’. Biographie nationale, 16, col. 635-637.

Alguns socialistas e anarquistas belgas Casa que pertenceu a Jean-


buscaram refúgio no Brasil, entre eles Joseph Vervloet, que imigrou em
Augusto Lootens, que partiu para a 1858 para a colônia de Santa
Argentina em 1889 e se estabeleceu Leopoldina, no Espírito Santo, em
pouco depois no Rio de Janeiro com um projeto oficial de colonização.
uma lavanderia.

Jeanne Louise Milde, escultora e educadora


R e n é L o m m e z G o m e s e Ve r o n a C a m p o s S e g a n t i n i

Uma modernidade claudicante 25 de abril de 1930. No Brasil, o jornal Estado de Minas no-
ticiou a participação da artista na VII Exposição-Geral de Belas

“E sculturas, retratos, composições, estudos diversos, Mlle. Mil-


de não cai nos erros de certas esculturas, ditas modernistas,
que não oferecem mais que desbastes, rascunhos, [...] e acreditam
Artes de Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais: “Em
sua escultura há serenidade e arrojo, [...] dando à sua obra essa alta
expressão emotiva que não está disciplinada ao canon clássico e que
descobrir a arte na expressão informe.” não tomba na vertigem do modernismo chocante”.
27 de novembro de 1928. Com essas palavras, um crítico de 17 de abril de 1960. Entrevistada por Lúcia Veado, do mesmo
arte do jornal Les Nouvelles, de La Louvière, saudava a produ- jornal, Milde diria: “Fui da escola impressionista e conservo até ho-
ção de um promissor talento da nova geração de artistas belgas: je alguns exemplares. Considero-a ainda a escola básica dos meus
Jeanne Louise Milde, que apresentava algumas de suas obras em conhecimentos de arte, porém, apreciando muito a arte moderna na
uma exposição. sua concepção sólida, sem fantasia e sem exageros”.

28
presenças belgas no brasil

Reflexo de suas escolhas, as palavras e a obra de Milde a si-


tuam em um “entrelugar”. Havendo abandonado uma carreira
promissora na Bélgica, em 1929, a artista mudou-se para Belo
Horizonte, como professora contratada para atuar na reforma do
ensino público. Fixando-se na cidade, desenvolveu importante
carreira de educadora e artista, que lhe rendeu a fama de pioneira
do modernismo. Sua obra, contudo, oscilou sempre em torno de
um ponto médio entre a renovação radical e o cultivo da tradição,
fazendo de sua trajetória um eloquente símbolo do tardio e claudi-
cante processo de modernização da cidade em que escolheu viver.
Fundada em 1897, Belo Horizonte foi criada para ser a capital
republicana de Minas Gerais, em substituição a Ouro Preto, que
representava o passado colonial da região. Concebida sob a égide
do progresso e da racionalização, a nova capital nasceu de um
profundo desejo de modernidade, ali expresso na efemeridade de
suas criações e rápida obsolescência do novo. Jeanne Louise Milde em seu ateliê em Belo Horizonte, cidade para a qual
Tão cedo quanto na década de 1930, a cidade já pensava os a artista plástica se transferiu em 1929.
caminhos de sua renovação. Na arquitetura local conviviam dife-
rentes atitudes frente ao cânone clássico, indo da opção pela ma- de cabeça e torso antigos”, “Modelagem de figura antiga” e “Com-
nutenção do estilo eclético ao surgimento de duas alternativas de posição em art déco”. Era uma formação artística tradicional que
renovação – uma radical, a outra não. Eram o decorativismo mo- se iniciava com o desenho, passava pelo estudo de modelos antigos
derno dos edifícios déco e os primeiros exemplares do modernismo e finalizava com o exercício da composição. Quanto à estética, no
de vanguarda, que negava a linguagem clássica e a ornamentação. século XIX, a Academia de Bruxelas preconizou o neoclassicismo.
Tratava-se da emergência de uma modernidade em duplo signo: Com o tempo, adotou várias linguagens, indo do romantismo ao
um processo ambíguo, de alternativas múltiplas e interpenetran- naturalismo e ao impressionismo. Quando Milde a frequentou,
tes, que contrariava a perspectiva de que o moderno só se constrói a escola assumia ares modernos, incorporando o estilo art déco.
no embate radical e excludente entre o novo e o antigo. A renovação da escola incluiu a abertura de um curso de Artes
Simbolizando o modelo de modernização assumido por Be- Decorativas. O intuito era incentivar a indústria, permitindo que
lo Horizonte, a vida da artista construiu-se em uma série de atos artesãos e operários desenvolvessem habilidades e conhecimentos
marcados simultaneamente pelo cultivo da tradição – pilar de artísticos. Milde não frequentou esse curso. Mas, o reconhecimen-
sua formação – e a negação dessa mesma tradição, como fonte to de novas perspectivas para a arte produziu impactos no trabalho
de normatividade. que viria a desenvolver no Brasil.
Enquanto estudante, Milde respondia com a qualidade dos
Uma mulher na Academia Real de Belas Artes trabalhos a quem questionava sua vocação. No boletim das disci-
plinas cursadas, ficaram registrados seus êxitos. Durante sua for-
15 de julho de 1900. Jeanne Louise Milde nasceu em Bru- mação, Milde recebeu 15 prêmios, seis deles com distinção. Em
xelas, filha do professor Josse Milde e de Mathilde Cammaerts seu último ano de estudos, 1925, foi agraciada com o 1º lugar no
Milde. Aos dezoito anos, foi aceita como estudante na Academia Grande Concurso de Escultura.
Real de Belas Artes. Esse teria sido seu primeiro ato de ruptura. A artista começava a despontar. Em 1923, foi reconhecida
Para frequentar o curso, a jovem enfrentou a oposição dos pais e pelas obras que apresentou numa mostra coletiva na importante
as críticas de professores e colegas, que acreditavam ser o exercí- Galeria Giroux, de Bruxelas. Em 1927, figurou nos jornais por
cio da arte, em especial da escultura, inadequado para mulheres. criar uma placa de bronze com a estampa de Charles Lindbergh,
Inicialmente, ainda que várias tivessem se destacado como ar- primeiro aviador a voar de Nova York a Paris sem escalas. Entre
tista, às mulheres era vedado o acesso à Academia belga. Só lhes 1926 e 1929, Milde integrou as mostras da seção belga da Société
era permitido seguir os cursos complementares, oferecidos nos Française des Beaux-Arts, sendo destacada pela crítica.
ateliês dos professores da instituição. Controversa, a abertura do Os críticos não escondiam o assombro ao verem esculturas fei-
curso a mulheres, em 1892, comportou restrições. Para alguns, a tas por uma mulher. Por vezes, buscavam nelas ternura, delicade-
presença feminina era admissível apenas na formação em Artes za e outros traços de feminilidade. Por outras, se espantavam com
Industriais, e não em Artes Maiores, estudando desenho aplicado, o domínio da artista, supostamente frágil, sobre a matéria. Em
bordado e tapeçaria. Quando muito, era considerada uma vocação 1928, o jornal Vooruit avaliou as obras expostas na Galeria Phe-
especial para o colorismo. nix, em Ghent: “Sra. Milde tem uma inclinação para agradáveis
Dedicando-se à escultura, uma Arte Maior, Milde cursou dis- realizações, cujo personagem principal denuncia a feminilidade da
ciplinas que revelavam a verve do ensino na Academia: “Desenho escultora”. Já o Les Nouvelles afirmou sobre o VIII Salão L’Essaim:

29
parte 1 – travessias e migrações

“Apesar da insuficiência de sua altura, se revela dotada de uma com a observação e o desenho, para só depois introduzir a escrita.
grandeza de expressão e força artística pouco comuns”. Os trabalhos manuais assumiam, assim, grande protagonismo na
A consagração de Milde chegou em 1928, quando ganhou o Escola Ativa, associando-se à expressão e tornando frequente o uso
Grande Prêmio de Roma. O prêmio objetivava o aprimoramen- de técnicas como a modelagem. Em Minas Gerais, o método foi
to dos artistas, concedendo uma viagem à Itália para o estudo da instituído em alguns grupos escolares, sendo criadas duas ‘classes
tradição clássica. Mas os impasses políticos surgidos ao fim da Decroly’, em Belo Horizonte.
Primeira Guerra Mundial impediram a ida de Milde para Roma. Com a reforma do ensino, em 1929, foi instalada a Escola de
Sua opção foi por uma estadia na França. Aperfeiçoamento em Belo Horizonte. A instituição, que oferecia
A escultora já hesitava entre a tradição e a modernidade. No um curso de especialização para professores primários, destinava-
mesmo ano de 1928, participou do II Salão da Federação Nacional -se a preparar, do ponto de vista técnico e científico, os candidatos
de Pintores e Escultores da Bélgica, à qual se associara. A imprensa ao Magistério Normal, à assistência técnica do ensino e às direto-
atacou a Federação, por ser contra a pintura moderna e o Estado rias dos grupos escolares do Estado. O curso tinha duração de dois
belga, que favorecia a avant-garde. Em meio ao que caracterizaram anos, divididos em dois períodos, que incluíam disciplinas como
como a medíocre e conservadora produção da mostra, os jornais Pedagogia, Metodologia, Desenho e Modelagem, Educação Fí-
destacaram Milde como uma exceção digna de nota. sica e Psicologia Experimental.
Naquele tempo, além de participar de exposições e concur- O corpo docente da Escola de Aperfeiçoamento foi composto
sos, Milde desenhava joias e modelava manequins para uma fá- por professoras que haviam sido enviadas, pelo governo, para o
brica. No atelier que mantinha na Academia, recebia a visita Teacher’s College, da Universidade de Colúmbia (EUA). Além de-
constante de admiradores e compradores, que se avolumaram las, atuaram estrangeiros que compuseram a chamada “Comissão
após a aquisição da peça ‘Danse Folle’ pelo Museu Real de Belas Pedagógica Europeia”. Da Universidade de Paris veio Theodore
Artes, em Bruxelas. Foi ali que recebeu a visita do Dr. Alberto Simon. Do Instituto Jean Jacques Rousseau (Suíça) vieram Leon
Álvares, enviado do governador de Minas Gerais, Antônio Car- Walter, Helena Antipoff, Edouard Claparède e Louise Artus-Per-
los Ribeiro de Andrade. A missão de Álvares era localizar profis- relet. Na Bélgica foram contratados Jeanne Milde e o engenheiro
sionais belgas aptos a auxiliar na reforma do ensino em Minas. Omer Buyse.
Milde foi-lhe indicada pelo secretário-diretor da Academia, que Diretor do Ensino Técnico da Bélgica, Buyse foi criador e
elogiara a ousadia e a qualidade da artista, fazendo-o crer que o reitor da Universidade do Trabalho de Charleroi. À convite de
convite não seria recusado. Washington Pires, Ministro da Educação e Saúde Pública do Bra-
Fevereiro de 1929. A bordo do vapor Alcântara, Jeanne Milde sil, veio para o País com a missão de criar três Universidades do
partiu para o Brasil. Trabalho, em Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife. O projeto
logo encontrou a oposição de Gustavo Capanema, sucessor de
Os belgas e a reforma do ensino em Minas Gerais Washington Pires no Ministério. Capanema considerava prioritá-
ria a fundação de escolas profissionalizantes especializadas para
Quando Milde chegou ao Brasil, vários Estados implantavam atender às necessidades da industrialização nas diversas regiões do
políticas de reforma do ensino, investindo na formação de profes- País. Quando muito, cogitaria ter uma Universidade do Trabalho
sores primários, na criação de escolas e no combate ao analfabe- no Rio de Janeiro, onde as indústrias já exigiam um operariado
tismo. Em Minas Gerais, a reforma foi coordenada por Francisco numeroso, variado e competente.
Campos, Secretário dos Negócios do Interior no governo de An- Jeanne Milde, por sua vez, assumiu as disciplinas de Desenho
tônio Carlos Ribeiro de Andrade. Sua Reforma do Ensino Primá- e Modelagem na Escola de Aperfeiçoamento Pedagógico da capi-
rio e Normal inspirou-se na reestruturação da instrução pública tal mineira. Relatos de suas ex-alunas revelam como ela conjugava
ocorrida em países estrangeiros, como a Bélgica, e incorporava a formação estética com a pedagógica. Suas disciplinas incluíam
preceitos do movimento ‘Escola Nova’ ou ‘Escola Ativa’. desenho, modelagem e aquarela, além de marcenaria, tecelagem,
À época, uma das principais correntes pedagógicas em voga cartonagem e a fabricação de objetos utilitários e mobiliário. O
no Brasil era o método desenvolvido pelo médico belga Ovide processo de ensino elaborado pela artista guardava semelhanças
Decroly. Baseado em estudos sobre o desenvolvimento biológico com a formação que recebeu em Bruxelas. Segundo a ex-aluna
e psicológico das crianças, o método enfatizava suas aptidões para Maris’Stella Tristão, nas aulas, o mais importante eram os de-
a observação, a associação de ideias e a expressão. Para o ensino senhos, que obrigatoriamente precediam os trabalhos artesanais.
primário, propunha o emprego dos ‘centros de interesse’, que as- Anualmente, Milde organizava exposições com o material produ-
sociavam os conhecimentos ministrados a uma ideia central, tor- zido por suas alunas. Nelas, eram apresentadas modelagens em
nando o ensino “ordenado e lógico”. gesso, cimento, terracota, bronze e matérias-primas regionais que
Em Bruxelas, Decroly atuava na École de l’Ermitage, que fun- poderiam ser encontradas em qualquer escola primária do Estado.
dara em 1907. A escola foi um fértil laboratório de experimenta- Com o fim da Escola de Aperfeiçoamento, na década de 1940,
ção, tornando-se centro de referência para o ensino. Praticado em Milde passou a lecionar no curso de Administração Escolar do Ins-
outras escolas da cidade, o ensino no método Decroly se iniciava tituto de Educação, instituição em que se aposentaria em 1955.

30
presenças belgas no brasil

Nos anos de 1940, a artista também ministrou aulas de desenho e Em Belo Horizonte, dizia-se que a arte era desamparada pelo
modelagem na Escola da Polícia Rafael Magalhães e integrou um Estado. Por isso, o poeta modernista Carlos Drummond de An-
projeto de Helena Antipoff para a formação e o aperfeiçoamento drade, entre outros, reconhecia o empenho heroico de Matos para
de professores primários rurais.   desenvolver o meio artístico local. Ainda assim, a cada edição das
Exposições-Gerais, acumulavam-se as críticas ao evento e a seu
Um ambiente propício à expansão da arte organizador. Alguns recriminavam o amadorismo e mau gosto
das obras apresentadas. Outros apontavam o convencionalismo da
Quando Milde chegou a Belo Horizonte, a capital não passa- produção local, relacionando a estagnação da arte à hegemonia
va de uma jovem cidade. Aos olhos da escultora, tudo estava por dos valores acadêmicos.
fazer: não havia escolas de arte, as exposições eram escassas e os A posição de Matos, no entanto, era ambígua. Ele defendia o
artistas locais não formavam uma comunidade unida e ativa. academismo e rejeitava com veemência as vanguardas, os “futu-
Ao invés de desanimá-la, esse cenário mostrou-se fértil para rismos” e “cubismos”, como se dizia à época. Mas, acolhia artistas
sua produção. Em 1929, a crise econômica desencadeada pelo que optavam por um modernismo moderado. Para a VIII Exposi-
fim da Primeira Guerra Mundial chegava ao ápice. Na Bélgica, ção-Geral de Belas Artes (1931), convidou vários acadêmicos de
apesar do sucesso de suas exposições, a falta de oportunidades le- verve neoclássica ou impressionista. E chamou ainda Milde, o
vou a artista a pensar em se mudar para Antuérpia, onde atuaria desenhista Monsã e o arquiteto Luiz Signorelli que, clássicos de
como professora de arte da Academia local. Talvez o tivesse feito, formação, apostavam na estética art déco.
não fosse a proposta de trabalhar no Brasil. Signorelli, por exemplo, iniciou-se na arquitetura projetando
Recém-chegada a Minas Gerais, a escultora não dispunha de edifícios ecléticos e art nouveau. Na década de 1930, adotou o es-
um local de produção. Percebendo a situação, Arcângelo Malet- tilo déco e criou o segundo arranha-céu de Belo Horizonte: a Fei-
ta, proprietário do Grande Hotel, onde Milde vivia, ofereceu-lhe ra Permanente de Amostra, edifício símbolo da modernização da
uma sala nos fundos do estabelecimento. Ali foi instalada a oficina cidade. No mesmo ano, 1935, ganhou o concurso de projetos para
em que a escultora recebia quem vinha ver a “loirinha belga” tra- a construção de uma nova sede para a Prefeitura da capital. Esse
balhando. Como não dominava o idioma, pedia aos amigos para projeto expressou a atitude preponderante no período, fundindo
falarem sobre as obras. “No decorrer do parecer de cada um, surgia elementos e preocupações modernos com uma lógica compositiva
uma ou outra palavra que tinha uma sonoridade que me agradava, tradicional. Junto com Matos e outros professores, em 1930 Signo-
aí então o nome da peça estava escolhido”, lembrou a artista em relli fundou a Escola de Arquitetura de Minas Gerais. Ali, por um
entrevista a Iolanda Pignataro, em 1980. bom tempo, o arquiteto sustentou um sintomático conflito com
Nessa sala, Milde concebeu suas primeiras obras brasileiras. os estudantes de arquitetura que se inclinavam para a vanguarda.
Em 1929, moldou o busto do Embaixador da Bélgica em Washing­ Em entrevista concedida ao Projeto Memória da Arquitetura e da
ton e a efígie de várias personalidades de Belo Horizonte. Sob en-
comenda do Estado de Minas Gerais, criou dois baixos-relevos em
cobre para decorar o saguão da Escola Normal Modelo da Capital,
inaugurada em 1930. As peças art déco simbolizavam os valores “As Adolescentes”,
da Escola, intitulando-se Alegoria às Ciências e Alegoria às Artes. moldagem em gesso de
Jeanne Louise Milde, Belo
Em 1930, Milde enviou várias peças para o Salão de Belas
Horizonte, 1937.
Artes do Rio de Janeiro, obtendo a medalha de ouro. Em Be-
lo Horizonte, participou da VII Exposição-Geral de Belas Artes.
Organizadas por Aníbal Matos, eminente artista que fundara a
Sociedade Mineira de Belas Artes (1918), as Exposições-Gerais
constituíam o único evento do gênero a ocorrer com regularidade
na capital. Reunindo artistas de inclinações semelhantes à de seu
promotor, as exposições viraram o reduto da tradição acadêmica.
Naquela edição, a mostra reuniu 192 trabalhos de 26 artistas. Mil-
de se destacou por trazer algo novo: uma obra que não se atinha
à tradição clássica, mas nem por isso se rendia aos extremos da
vanguarda modernista.
Aníbal Matos foi um dos responsáveis pela inserção de Milde
no ambiente artístico de Belo Horizonte. Os dois eram colegas
de docência no Instituto de Educação, atuando na formação de
professores. Com frequência, Matos convidava a colega para par-
ticipar dos eventos e das exposições que organizava. Convidava-a,
inclusive, para integrar o júri do carnaval.

31
parte 1 – travessias e migrações

Construção Civil em Belo Horizonte (1980), recordou: “Confesso cara mortuária do governador Olegário Maciel (1932); a Alegoria
com sinceridade a reserva com que a princípio recebi os primeiros à Indústria, alto-relevo criado para a Siderúrgica Belgo-Mineira
rebates da nova arquitetura, para com um tempo relativamente cur- (1933); e a escultura As Adolescentes (1937). Em 1940, o Museu
to aceitá-la sem restrições. Diante de tão palpitante assunto devo Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, adquiriu sua obra
dizer que manterei sempre como ponto de vista aplicar no moderno Água, sua alegria e sua embriaguez.
a proporção clássica [...]”. Em 1945, Milde realizou uma exposição individual no Salão
As mudanças na estética de Milde parecem responder a preo- de Festas do Grande Hotel. Entre os trabalhos expostos, estavam
cupações semelhantes às de Signorelli. “Moderna, mas com uma bustos e cabeças das personalidades com quem convivia na cidade,
base clássica” é como ela se classificaria ao fim da vida. Em algu- como o maestro belga Arthur Bosmans. Essa teria sido a primei-
ma extensão, a adoção desse modelo de modernização, ambíguo ra exposição individual da artista, que até então só participara de
e relutante, elucida o livre trânsito entre acadêmicos e modernos mostras coletivas. A arte tumulária surgiria como uma vertente de
que a escultora sempre manteve. sua produção, nascida do hábito de representar seus convivas. Im-
Em 1936, Belo Horizonte presenciaria seu maior embate en- portante exemplo é o relevo criado para o túmulo do desenhista
tre modernos e acadêmicos. Sob a organização do artista Delpino Monsã, falecido em 1940.
Júnior, caricaturistas, pintores, escultores e arquitetos, modernos Apesar de não ceder às vanguardas, Milde assumiu temáticas
em sua maioria, se reuniram numa exposição organizada no bar caras ao modernismo brasileiro, criando figuras populares, traba-
do Cine Brasil. Tornando-se conhecido como Salão Bar Brasil, o lhadores, indígenas, negros e mulatos. Uma série de esculturas
evento expressava o descontentamento do grupo com a ambiência com motivos brasileiros fizeram sucesso na última exposição da
artística e social da capital, que então celebrava a realização do 2º artista em sua terra – uma mostra coletiva na galeria Toison d’Or,
Congresso Eucarístico Nacional e a inauguração da nova edição em Bruxelas (1948). O evento foi divulgado pelos jornais, que
da Exposição-Geral de Belas Artes, montada por Matos no foyer brindaram a qualidade das obras, embora frisassem seu exotismo.
do Teatro Municipal. Na ocasião, o Ministério da Instrução Pública da Bélgica adquiriu
Acompanhada pela imprensa, a polêmica criada no Salão Bar a escultura Ma maman.
Brasil tinha dois alvos: contestar a hegemonia de Matos e reivindi- Milde obteve grande reconhecimento por sua atuação como
car o apoio do Município, com a criação de uma Escola de Belas artista e educadora. Em várias ocasiões foi homenageada por suas
Artes, a organização de exposições periódicas e a instituição de prê- alunas e pelos governos belga e brasileiro. Em 1930, o Rei Alber-
mios de incentivo. Por sua ascendência sobre o meio artístico local, to da Bélgica nomeou a “artista estatuária” Jeanne Milde como
Delpino convidou Milde a integrar a mostra. Aceitando, a artista cavaleira da Ordem de Leopoldo II, uma distinção de alto grau,
apresentou 22 obras e compôs o júri, ao lado de Luiz Signorelli. conferida aos civis que prestaram serviços inestimáveis à Bélgica.
Ao visitar o Salão Bar Brasil, o prefeito Otacílio Negrão de Já em 1950, um ano antes de se naturalizar brasileira, ela recebeu
Lima sancionou uma resolução determinando que o Município do Príncipe-Regente Baudouin a comenda de Cavaleiro da Or-
realizasse exposições de arte anuais. Assim, em 1937, Matos foi dem da Coroa por seu trabalho como “professora de desenho e artes
convidado para coordenar o 1º Salão de Belas Artes da Prefeitura aplicadas no Instituto de Educação de Belo Horizonte”.
de Belo Horizonte. Ele, por sua vez, convidou Milde para a comis- No ano de 1955, Milde se aposentou do magistério no Insti-
são encarregada de assessorá-lo. A escultora serviu, então, como tuto de Educação. Afastada do ensino, ela foi gradualmente se
um elo entre acadêmicos e modernos, apaziguando os confrontos ausentando do cenário artístico mineiro, que desenvolveu uma
entre os grupos. preferência pelas vanguardas. A importância de Milde foi resga-
O 1º Salão de Belas Artes, por fim, reuniu tanto artistas liga- tada 30 anos depois, quando ela recebeu uma série de homena-
dos a Matos quanto ao grupo de Delpino. Refletindo a diversidade gens. Em 1982, recebeu a Comenda da Ordem dos Pioneiros de
do panorama artístico da capital, os Salões de Arte da Prefeitura Belo Horizonte, em reconhecimento a seu pioneirismo na arte e
consolidaram-se, nos anos 1930, como um espaço de tendências na educação. Também foi lembrada no XIV Salão Nacional de
contraditórias, que reunia modernos, acadêmicos, autodidatas e Arte (Museu da Pampulha) e em uma exposição no Palácio das
artistas de formação. Artes. Em 1984, o governador de Minas Gerais, Tancredo Neves,
No 2º Salão de Belas Artes (1938), Milde participou como condecorou-a com a mais alta comenda do Estado: a Medalha
jurada. Nesse momento, fez valer seu papel aglutinador, reunin- da Inconfidência. No mesmo ano, o sucessor de Tancredo, Hélio
do 14 artistas de uma e outra vertente em um encontro na Fa- Garcia, agraciou-a com a Medalha de Mérito Educacional. Ce-
zenda Petrópolis, propriedade que mantinha próximo à capital. lebrada por seu impacto na formação cultural da cidade, Milde
Embora o acontecimento não tenha produzido desdobramentos, faleceu em 1997.
o sentimento era que nascia um “movimento que congraçará os Outubro de 1988. Em Belo Horizonte, a exposição “Escultu-
artistas de Belo Horizonte”, como testemunhou um cronista da ra Contemporânea em Minas”, organizada no Palácio das Artes,
Folha de Minas. consagrou Jeanne Milde como propulsora da renovação das artes
Os anos de 1930 e 40 foram férteis para Milde. Muitas de suas plásticas em Minas, identificando-a como uma pioneira do mo-
obras mais relevantes foram criadas nesses tempos, como a más- dernismo na cidade.

32
presenças belgas no brasil

René Lommez Gomes é doutor em História pela Universidade Fede- (UFMG). Coordena o núcleo de expografia do Espaço TIM UFMG
ral de Minas Gerais. Atuou em diversas instituições nacionais e estran- do Conhecimento.
geiras, entre as quais a Unesco e o Museum Plantin-Moretus (BE).
Trabalha com temas como Arte Colonial; História da Arte Flamenga Bibliografia sobre Jeanne Milde
e Holandesa (séc. XVII); História da Arte Brasileira (sécs. XIX-XX); Grande parte das matérias jornalísticas utilizadas neste verbete foi localizada na coleção
Mestiçagens e Trânsito de Culturas entre Europa, África e América documentos de Jeanne Louise Milde, doada pela escultora para o Museu Mineiro, Belo
no período moderno. Horizonte.
L. B. Castriota (org.). Arquitetura da Modernidade. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.
Rita Lages Rodrigues. Entre Bruxelas e Belo Horizonte: itinerários da escultura. Belo
Verona Campos Segantini é doutoranda em Educação pela Uni- Horizonte: C/Arte, 2003.
versidade Federal de Minas Gerais (2010). É professora assistente S. Schwartzman, H. B. Bomeny e V. R. Costa. Tempos Capanema. São Paulo: Paz e
Terra, 2000.
da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais e Rodrigo Vivas. Por uma história da arte em Belo Horizonte. Artistas, exposições e salões
subcoordenadora da Rede de Museus e Espaços de Ciência e Cultura de arte. Belo Horizonte: C/Arte, 2012.

Marcel Roos: viajante, escritor e cineasta


Chris Delarivière

H et Geheim van Mato Grosso (O segredo do Mato Grosso),


Bloedige Diamanten (Diamantes sangrentos), De Sluipende
Dood (A morte furtiva) são alguns dos títulos imaginativos dos li-
através do cônsul belga entra em contato com Alphonse Hoge,
um herpetólogo belgo-brasileiro ligado ao Instituto Butantã. Hoge
é originário de Gand, onde concluiu sua formação universitária
vros de viagens e documentários cinematográficos com os quais o e recebe seu concidadão de braços abertos. Mais ainda, convida
viajante, cineasta e escritor belga Marcel Roos (1919-1996) fazia Marcel a participar como fotógrafo-cineasta de uma expedição.
furor nos anos de 1950 e 1960. Seus contagiantes relatos cheios de Para Roos é uma oportunidade única. O destino da expedição é o
aventuras e juvenil entusiasmo caíram depois no esquecimento, Mato Grosso, mais precisamente a Serra do Roncador. Numa área,
mas não deixam de ser uma ilustração marcante do poder atrativo ainda em sua maior parte desconhecida, entre o Rio das Mortes e
que o Brasil exercia sobre os europeus aventureiros. o Rio Kuluene, o doutor Hoge pretende descobrir répteis vivendo
A história de Marcel Roos começa em Gand, pouco depois nessa região transitória entre a floresta tropical e o cerrado do Bra-
da Segunda Guerra Mundial. A Europa ocidental estava ainda se sil central. As serpentes, os escorpiões e as aranhas colhidos pela
recuperando desta calamidade e já se anunciava a Guerra Fria. O expedição serão estudados no Instituto Butantã e utilizados para
futuro parecia pouco promissor e, antes de chegar novos tempos preparar o soro antivenenoso.
penosos, Roos decidiu procurar outros horizontes. Vendeu seu Tudo isso parece muito aventureiro para Marcel e seu cora-
negócio de atacado em perfumes e de cabelereiros, comprou um ção bate ainda mais forte quando fica sabendo que a jornada pas-
montão de material cinematográfico e fotográfico e embarcou sará por terras de índios. Expedições anteriores malograram pela
num vapor com destino à América do Sul. Ele pensava explorar atitude hostil dos índios xavantes, que não gostavam de intrusos.
terras na Argentina e procurar uma moradia adequada para em Circulavam os boatos mais diversos sobre a região para onde se
seguida trazer sua mulher e filhos. Ao menos essa era sua intenção. dirige essa ‘expedição suicida’. Fundados, entre outros, sobre o
Os caprichos do destino intervieram e fizeram finalmente Marcel desaparecimento do viajante britânico coronel P. H. Fawcett, que
Roos parar no Brasil. em sua busca do mítico El Dorado em 1925, junto com seu filho
A bordo do vapor Roos encontra-se com outro passageiro, Pier- e o amigo deste, não deixaram rastro algum. O coronel Fawcett
re Doriaan, que lhe conta histórias alvissareiras sobre o Brasil. Do- foi um dos últimos lendários exploradores da época vitoriana e seu
riaan é de Antuérpia e fez seu nome como cantor no circuito dos sumiço misterioso durante a procura de uma civilização misteriosa
cafés chantants de Paris. Durante a guerra se comprometeu pelo continua a desafiar a imaginação. O mistério Fawcett não deixa de
seu bom relacionamento com os ocupantes alemães. Uma razão comover também Marcel Roos.
suficiente para abandonar a Europa por algum tempo. Assim, par- Finalmente, a primeira expedição de Roos na região amazô-
te para o Brasil, acompanhado pela mulher e seu amigo mais fiel: nica revela-se um acerto em cheio. Não somente encontra uma
um automóvel ano de 1930. Chegados ao Rio de Janeiro, Doriaan oportunidade para conhecer como testemunha privilegiada o fa-
leva Marcel Roos a passear neste carro antigo, um Minerva, pelo roeste brasileiro com sua mentalidade de fronteira nos confins
centro da cidade até as praias de Copacabana e Ipanema. “A vida da civilização, mas encontra também os xavantes, que, atraídos
pode ser boa”, deve ter pensado Marcel. pelos presentes, procuram contato com a expedição. De toda
Roos deixa-se fascinar pelo Brasil e parte para São Paulo. Lá, evidência, Roos agrada aos índios e sobretudo sua cabeleira loira

33
parte 1 – travessias e migrações

suscita muita admiração. Marcel Roos filma e fotografa à vontade Volta várias vezes ao Brasil, onde roda diversos documentá-
e fará êxito com suas imagens nas salas paroquiais de Flandres. rios, como O parque nacional do Iguaçu (1953) e A morte insi-
Uma vez de volta ao mundo habitado, Marcel Roos se põe a diosa (1957), sobre uma ilha das serpentes ou Ilha da Queimada
escrever, mas desiste de seu sonho de iniciar uma vida nova na Grande, na costa de São Paulo (Cinematek, Arquivo Real do Fil-
América do Sul. Demasiados problemas práticos na sua opinião. me, Bruxelas). Nos anos de 1970 organiza viagens e expedições
Volta à Bélgica, onde publica em 1953 O segredo do Mato Gros- para jovens cientistas. Seu amor pelo Brasil é uma constante.
so. O mistério Fawcett desvendado é o subtítulo e, se não coincide Numa entrevista ao jornal Het Belang van Limburg, em 27 de
completamente com o conteúdo, o livro encontra muitos leitores. julho de 1991, ele declarou ter passado no total 12 anos no Bra-
Em 1965 segue ainda um Avonturen Omnibus, uma coletâ- sil. Marcel Roos faleceu em 1996 em Hasselt, mas foi sepultado
nea de relatos de viagens sobre o Brasil, Paraguai e Bolívia, escri- em Gand, sua cidade natal, no cemitério do Campo Santo em
tos em colaboração com sua mulher Jeannine Roos. Nesse meio Sint-Amandsberg.
tempo, Roos vai morar em Hasselt, onde trabalha no serviço de
publicidade da empresa química Bayer. Com intervalos, Roos Chris Delarivière é jornalista independente em Gand, autor de re-
continua viajando. Financia suas ‘expedições’ pela América do portagens sobre cultura e música popular brasileira; traduziu para o
Sul com os rendimentos de suas conferências, sessões cinemato- flamengo História da Província de Santa Cruz, de Pêro de Magalhães
gráficas e reportagens escritas para os jornais e revistas flamengos. Gandavo, descendente de um flamengo de Gand.

A colônia belga de Botucatu


Luciana Pelaes Mascaro e Eddy Stols

Q uando em 30 de junho de 1960 o Congo Belga se tornou


independente com o nome de República Democrática do
Quando os belgas chegaram em 1961, a cidade de Botucatu
se engalanou para recebê-los com festa popular, mas rapidamente
Congo, surgiram graves desordens, que precipitaram o êxodo da surgiram problemas. Muitos belgas, ainda imbuídos de sua menta-
maior parte dos belgas. Diante do afluxo dos retornados, o governo lidade colonialista, não se davam conta de que a economia, a socie-
belga acreditou poder prevenir tensões sociais com alternativas de dade e a população de Botucatu eram diferentes do Congo belga.
colonização no ultramar. Como a Austrália foi logo descartada por Criaram conflitos, sobretudo no trato com os empregados. Se entre
suas rígidas normas para imigração, o governo belga optou pelo os cooperados haviam agricultores, grande parte não era ligada à
Brasil, aureolado pela recente inauguração de Brasília e mais aco- agricultura e não sabia trabalhar a terra. Além disso, descobriram
lhedor à colonização do seu interior. que as safras não correspondiam às expectativas e circularam boa-
A princípio, as autoridades belgas apoiaram-se na experiência tos que foram logrados pelos holandeses no preço e na qualidade
da Holanda, que já mantinha uma colônia agrícola em Jaguaríuna das terras. Os novos colonos já tinham gastado boa parte de seu
(SP) – Holambra I. Seu presidente, Charles Hoogenboom, ficou dinheiro com a construção de 45 casas confortáveis, mas deviam
encarregado de ajudar na localização de uma área agrícola para também arcar com os custosos estudos de seus filhos em escolas
a instalação de uma cooperativa para os belgas que vinham do particulares. Prevaleceu entre eles um forte individualismo, em
Congo. As terras escolhidas foram as da Fazenda Monte Alegre, contraste com a exemplar disciplina entre os colonos de Holambra.
antiga produtora de café localizada no município de Botucatu Com o crescente descontentamento e sua repercussão na
(SP). Seus 4.010 alqueires custaram, na época, o equivalente a Bélgica, seu governo, na tentativa de salvar a experiência, provi-
650 mil dólares. denciou ajuda dentro de seu programa de cooperação ao desen-
Em 22 de setembro de 1961 foi oficialmente fundada a Socie- volvimento. Enviou supervisores e assistentes técnicos e colocou
dade Cooperativa Agropecuária Belgo-Brasileira – SCABB. Entre 4 milhões de dólares à disposição da SCABB e dos cooperados,
1963 e 64 aí se estabeleceram 102 belgas cooperados e seus fami- respectivamente 44.652.456 e 111.938.985 francos belgas. Assim,
liares. No seu auge, em 1971, ascenderam pelos casamentos – dos equipou-se a colônia com um poço artesiano, uma caixa d´água,
quais, dez com brasileiros – e nascimentos a umas quatrocentas transformadores de eletricidade, silos e uma beneficiadora de ar-
pessoas. A cada cooperado coube no início 50 hectares de terra roz. Para promover um melhor espírito comunitário, construíram
e, após a redistribuição ocorrida em 1963 com o retorno de par- uma escola, uma creche e uma igreja, para a qual chegou um pa-
te dos pioneiros à Europa, uma gleba maior, até o limite de 150 dre belga para oferecer assistência espiritual.
hectares. Além dos belgas, trabalhavam para a SCABB e para os Após a redistribuição das glebas e diante dos poucos resultados
próprios cooperados vários antigos colonos brasileiros da Fazenda com a agricultura, a SCABB optou finalmente pela pecuária e pe-
e, na hora das safras, contratavam-se ainda boias-frias em Pratânia. la produção de derivados de leite. Com novas instalações e uma

34
presenças belgas no brasil

máquina importada da França o Laticínio Belco foi o primeiro no Como estas atividades não conseguiram consolidar a colônia, a
Brasil a vender leite embalado em saco plástico. Também o quei- antiga SCABB foi desfeita em 1987, quando quase todos os belgas
jo e a manteiga da mesma marca alcançaram renome no Estado. e seus descendentes já tinham abandonado a colônia. Voltaram
O laticínio acabou absorvido pelo Leite Paulista. No início dos para a Bélgica ou se integraram de outra maneira ao Brasil.
anos de 1980, foi ainda criada na colônia a Cervejaria Belco. Sua
marca desfrutou de prestígio na região por sua qualidade, mas foi Referências
adquirida mais tarde pela Destilaria Schincariol e sua fábrica des- Delmanto, Armando Moraes. Memórias de Botucatu, Botucatu: Ed. Vanguarda, 1990;
locada para São Manoel. ­Peabiru Revista Botucatuense de Cultura, nº 02, Ano I, março-abril, 1997.

Uma ítalo-belga no Brasil


Florence Carboni

D esde a primeira série, eu era uma das poucas alunas a fre-


quentar a aula de Religião. Por um lado, isso me fazia me
sentir privilegiada. Quem nos ensinava essa matéria, duas vezes
Essas cartas, que terminavam sempre com as mesmas fórmulas,
como ladainhas, minha mãe as lia em voz alta. E ela as respondia
com uma religiosa seriedade.
por semana, não era a nossa professora: ela se ocupava das minhas Havia também as orações da noite, que eu e meus irmãos reci-
colegas que assistiam a disciplina de Moral. Era uma jovem se- távamos em francês e minha mãe em italiano, à exceção de uma
nhora, muito simpática, irmã (assim diziam) do nosso pároco, que prece, toda em italiano, uma espécie de conversa com Deus na
dava a máxima atenção às suas três ou quatro alunas. Por outro qual se faziam vários pedidos: proteção para os diferentes parentes
lado, incomodava-me um pouco o fato de não fazer parte do gru- e ajuda para que, também naquele verão, se pudesse ir à Itália e
po majoritário, formado sobretudo por meninas belgas, enquanto rever a todos. Na época, nunca mencionava estas coisas com mi-
minhas duas ou três colegas na Religião eram italianas, como eu. nhas colegas de aula ou com as outras crianças do bairro – já eram
Aquela aula de Moral, eu a engrandecia. Parecia-me mais sé- tantas as coisas que diferenciavam minha família das delas! Tor-
ria. Eu ficava sentida por deixar às minhas colegas, que considera- naram-me consciente da dualidade de minha existência também
va menos capazes do que eu, o privilégio de ter a nossa professora as constantes lamentações de meu pai porque seus filhos se recu-
apenas para elas. Tentava imaginar as coisas interessantes que elas savam a falar com ele na língua dele. E havia ainda o fato de que,
estariam aprendendo enquanto eu desenhava cestas atravessando no bairro, minha mãe fosse conhecida como Maria l’Italienne. 
o Nilo, com bebês chamados Moisés dentro, ou o menino Jesus Vivíamos numa fração de um pequeno município, na provín-
carregado por uma mula, guiada por um cara que era marido de cia de Hainaut, no Pays Noir, a região escurecida pelo carvão das
sua mãe sem ser seu pai. Isso me fazia sentir inferior aos meus minas e pela fumaça dos hauts fourneaux (altos-fornos) da metalur-
próprios olhos. Mas assim tinha que ser porque minha mãe assim gia. Meu pai trabalhava numa fábrica, onde era considerado um
queria. E, deduzia eu, ela assim queria porque era italiana. Dois bom operário. No nosso bairro, ele também tinha certo prestígio:
anos mais tarde, na terceira série, a primeira aula de História foi entendido de mecânica, era muito procurado para consertar car-
dedicada aos “nossos” antepassados, os Gauleses, que tinham tão ros. E, de vez em quando, tocava violino nas festas da paróquia,
bravamente combatido os invasores romanos... Romanos? Como apesar de seu anticlericalismo declarado.
assim? Então os malvados eram italianos? Como eu! No nosso bairro, no qual viviam quase exclusivamente operá-
Esses dois fatos, a aula de Religião e os romanos invasores rios e mineiros belgas e onde, por muito tempo, fomos uma das
da Bélgica, me fizeram tomar consciência de que não era total- poucas famílias italianas, minha mãe também se destacava. Era
mente igual às minhas colegas. Depois disso, tudo passou a ter uma das poucas mulheres a não trabalhar na grande fábrica de
um sentido particular: o nosso modo de viver, alguns gostos dos confecção masculina situada em uma cidade vizinha. Ela costura-
meus pais, nossa casa, o modo como minha mãe se vestia e me va em casa. Tinha aprendido com dez anos, quando fora enviada
vestia, a ópera – italiana, é claro! – que escutávamos todos os do- como aprendiz à loja de um alfaiate em La Spezia, na Itália. Ela
mingos de manhã quando meu pai estava em casa. A nossa co- vestia todos nós, inclusive meu pai. Mas costurava sobretudo para
mida também, tão diferente da que faziam as mães das minhas fora. Não havia noiva dos arredores que não entrasse na igreja com
amigas, que eu invejava porque comiam linguiça com batata um vestido feito por ela. Ocupava-se também de uma horta, que
fervida. Tinha também as cartas da Itália, dos avós, dos tios, das nos alimentava boa parte do ano, assim como de um lindo jardim
tias, e de amigos italianos como nós, que haviam voltado para a na frente da casa, o mais lindo da rua. Eu tinha muito orgulho
Itália depois da terrível catástrofe ocorrida numa mina de carvão dele, apesar da vergonha que me causava o estado de decadência
da região, onde muitos dos nossos compatriotas tinham morrido. de nossa velha casa.

35
parte 1 – travessias e migrações

A única coisa que minha mãe não amava eram os trabalhos ma cinzento, chuvoso e frio, assim como da paisagem plana e
domésticos. Nossa casa era uma das menos bem cuidadas do bair- monótona tão bem cantada por Jacques Brel. Mesmo assim, na
ro, onde a arrumação parecia ser uma verdadeira fixação. Segui- convivência familiar, havia assimilado outras práticas, outros va-
damente, eu, minha irmã e meu irmão tínhamos que arrumá-la lores e traços culturais.
e limpá-la porque minha mãe estava terminando um vestido ou Por isso, uma vez, no Brasil, senti também falta da Itália e mais
trabalhando na horta. especificamente da Ligúria, onde passara cada verão de minha in-
Naquela pequena casa, que meu pai em seguida aumentou, fância e juventude. Era ali que se encontravam todas as minhas re-
com a ajuda de todos nós – como era comum fazer na época, ferências familiares – naquela altura até meus pais haviam voltado
naquela classe social e em bairros como o nosso, semiurbano e para a Itália, após 34 anos na Bélgica. Tinha saudade das paisagens
semirrural –, vivíamos em cinco pessoas: eu, meus pais, minha do interior daquela região da Itália, mas também do seu litoral ro-
irmã e meu irmão, nascidos na Itália. No ano em que completei choso, das tortas de verdura, do cheiro de manjericão e alecrim,
oito anos de idade e estava entrando na terceira série, minha irmã dos vilarejos medievais agarrados ao topo dos morros suaves.
iniciava o primeiro ano de faculdade e meu irmão começava a Ao chegar ao Brasil, em finais de 1977, senti falta da seguran-
trabalhar na fábrica com meu pai. Contradições de uma socieda- ça que me dava a possibilidade de participar de um movimento
de em transformação! Dez anos mais tarde, eu também entrei na social, político e cultural em efervescência, naqueles anos 70, na
universidade, sem muita convicção e sem muito rumo. Formei- Itália sobretudo. Ainda mais porque o Brasil daquela época ainda
me mais seriamente muitos anos mais tarde, já casada e mãe, em era governado pelos militares. Uma vez no Brasil, o conhecimen-
outra universidade e em outro curso, também na Bélgica, onde to, puramente teórico e potencial, que eu tinha de um Estado di-
também me doutorei. tatorial e da difícil situação política na América Latina daqueles
Enquanto isso eu havia me apaixonado por um brasileiro, re- anos converteu-se em experiência concreta, imediata, cotidiana:
fugiado político em Bruxelas, onde conheci também chilenos e pelos inúmeros obstáculos encontrados por meu companheiro em
chilenas, exilados após o golpe de Pinochet. Logo, com ele e nosso sua penosa busca por inserção profissional e por uma reinserção
bebê, tomei o caminho da emigração, um pouco como meus pais social, com todas as dificuldades econômicas que isto nos causou
fizeram logo após a Segunda Guerra Mundial. Não pelas mesmas e ao nosso filho. Também pelos repetidos indeferimentos, por se-
razões, nem com os mesmos objetivos. Muito provavelmente, não te anos, aos meus pedidos de visto de permanência, ao qual tinha
com as mesmas dificuldades. direito por ser mãe de uma criança constitucionalmente conside-
Tratou-se, no entanto, de emigração, com seu séquito de des- rada brasileira por ter chegado ao País antes dos três meses de vida.
cobertas, enriquecimentos, encantos, mas também de empobre- Esta recusa que, como ficou demonstrado mais tarde, devia-se
cimentos, rupturas, afastamentos e perdas irremediáveis – perda ao fato de ser companheira de um opositor do regime ditatorial,
de referências culturais, de cheiros, de gostos, de afetos. Tudo is- prejudicou irremediavelmente minha vida profissional, já que,
so deu-se talvez de maneira menos nítida em relação àquilo que além de não me permitir trabalhar de outro modo que informal-
meus pais viveram do final dos anos 40 aos anos 80 na Bélgica. Isso mente, me impediu até mesmo de inscrever-me numa universida-
porque, para mim, não estava muito claro a qual cultura pertencia. de para terminar os estudos de psicologia iniciados em Bruxelas.
Sentia falta da Bélgica, é claro, que considerava o meu país, ape- Os longos sete anos sob a ditadura militar – durante três, ia de
sar de nunca ter tido a nacionalidade belga: lá onde eu nascera e Porto Alegre e vinha de Montevidéu em ônibus precários, com
vivera os primeiros 23 anos de minha vida. meu filho pequeno no colo, para manter o visto de turista; durante
Meu conhecimento racional do mundo se dera sobretudo quatro, vivi como semiclandestina, após receber ordem de expul-
através da língua francesa, que, mesmo não sendo a língua de são – tornaram também mais difícil uma inserção social serena.
minha mãe nem, talvez, a primeira que falara, passou a ser a Sobretudo, eles prejudicaram a possibilidade de que eu amasse o
dominante no meu repertório linguístico. Da Bélgica, conhecia Brasil incondicionalmente e o considerasse o meu país, o mesmo
quase tudo: interpretava perfeitamente os códigos sociais e sabia título que atribuo à Bélgica e à Itália, onde me sentia e sinto cida-
como me comportar conforme quisesse passar por estrangeira ou dã, apesar de minha condição de filha de trabalhadores, imigrados
por autóctone; conseguia comunicar-me com os velhos operários em um e emigrados do outro.
e camponeses até mesmo quando me falavam em puro wallon;
amava a comida; conhecia e apreciava enormemente a cerveja, Florence Carboni, italiana, é professora do Curso de Letras da Uni-
com destaque para a trappiste etc. Gostava até mesmo do cli- versidade Federal do Rio Grande do Sul.

36
presenças belgas no brasil

A casa é sua
Annelies Beck

É uma turma alegre que posa caótica para a foto da classe de


segundo grau de 1991-1992. Cinquenta rapazes e moças num
emaranhado de braços e pernas, todos com um largo sorriso, sal-
Minha família hospedeira me recebeu de braços abertos. Mi-
nha mãe é psicóloga. Ela combinava seu consultório pessoal com
aulas. Meu pai trabalhava num restaurante de empresa. Meu ir-
vo o beicinho de uma que se imagina uma modelo. Uma moça mão estudava arquitetura e aprendia alemão num curso noturno.
tem o cabelo curto. Outra, chama a atenção no meio de todas as Minha irmã era bastante esportiva e estava na escola secundária.
outras com seu cabelo até a cintura. Esta de cabelo curto, sou A família com quem estava tinha raízes no Líbano, na Itália e, de
eu, a gringa, a belga – na época sou ainda uma novata estudante algum antepassado, sangue africano. Cada membro da família ti-
de intercâmbio, mas na minha opinião já totalmente integrada. nha uma coloração diferente. Todos os dias chegava a empregada,
O carnaval, o futebol e as novelas Sinha Moça e Escrava Isau- que arrumava o apartamento e cozinhava o almoço, mas não havia
ra, que a televisão pública passava então no fim da tarde, eram luxo. Trabalhavam duro para poder ter o possível.
as primeiras coisas que as pessoas evocavam quando lhes contava Como estudante de intercâmbio, no começo anda-se às cegas.
que passaria um ano no Brasil como estudante de intercâmbio. Compromissos fixos tornam-se amparos. No café da manhã havia
Em segundo lugar também: muita pobreza, a selva amazônica e variedade de frios e queijos, com uma faca em cada qual, e não,
os teólogos da libertação. E mais nada. como de praxe na Bélgica, uma faca ao lado do prato de cada co-
O e-mail e a internet ainda não eram muito divulgados. De Fa- mensal. O mesmo se repetia no almoço, com toda a família. Eu
cebook ou Twitter não se falava ainda. Tinha eu 18 anos, não falava estranhava os combinados pouco comuns para mim: carne, legu-
português e iria morar um ano num país onde nunca tinha estado. mes e arroz com feijão sempre estavam na mesa; além disso, ain-
Devia ser o Brasil por causa do idioma bonito, de situar-se bem lon- da um prato com mandioca, batata doce ou massa. Muitas vezes
ge e de ser uma terra totalmente desconhecida para mim: outra cul- me felicitavam por eu não ser “doceira” e recusava facilmente o
tura e outra sociedade, com uma extensa gama de cores e de gente brigadeiro e outras bombas calóricas. Por outro lado, infelizmen-
do mundo inteiro que, aparentemente, conviviam sem problemas. te, eu resistia bem menos aos salgadinhos vendidos em bares por
1991. Fui parar numa família de classe média em Juiz de Fo- toda a cidade e até na escola.
ra, Minas Gerais. No ônibus do Rio de Janeiro para Juiz de Fora Se eu tinha Durex comigo? A pergunta veio na segunda ou
arregalei os olhos. Balbuciava as palavras estranhas dos painéis terceira semana desde que frequentava a escola. Fiquei um mo-
publicitários, ensaiando os sons certos. Pneu parecia pronunciar- mento sem fala. A menina que parecia a mais inocente da classe
-se como pieneeuw. Tudo era diferente. Ia-se à escola de seis e me perguntou se eu tinha camisinha. Meu português estava ainda
meia da manhã até o meio dia e não das nove às cinco. Havia, no em desenvolvimento, mas eu estava certa de que a tinha compre-
centro urbano efervescente, mais prédios altos do que estávamos endido bem, ainda mais quando repetiu a pergunta. Na escola,
acostumados nas cidades europeias. Por toda parte sempre me gravidez na adolescência não era incomum e muitas meninas da
deparava com mendigos ou camelôs. Fernando Collor de Mello minha classe – tinham geralmente quinze ou dezesseis anos, um
era presidente e Lula da Silva ainda líder sindical em São Paulo. a dois anos mais novas do que eu – falavam o tempo todo de pa-
A palavra presidente pronuncia-se em português como fosse ‘pre- querar e namorar, sobre qual rapaz era atraente e de quem estava
sidentje’ (um diminutivo em flamengo), o que então, em plena com quem. Mas quase nunca se falava diretamente de sexo. Eu
aprendizagem do idioma, me soava engraçado. Este tipo de coisa balbuciava qualquer coisa. Minha colega de série me fitou com
me impressionava no começo. olhos interrogativos e apontou para o rolinho de fita adesiva no
O afamado choque cultural não está no multicolorido, nem meu estojo. “Durex?” Este era o momento em que a classe e a
mesmo na pobreza, tão visível. O choque está nas pequenas coi- gringa se abraçavam. A confusão prolongou-se por meses e provo-
sas. A cena de rua, que fica incompleta, até quando se realiza que, cava cada vez mais risadas.
durante meses, não se via nem um carrinho de bebê ou buggy. Fora a comida, também a novela das nove era ponto fixo do
Bebês sempre se carregam. Assim um vazio pega mais cor. A per- meu dia. A pretexto de que me ensinavam português, gostava de
gunta, sempre repetida, aberta e direta, na presença de qualquer ver Vamp e Perigosas Peruas. Narrativas fantasiosas e relações amo-
um: “Você tem um namorado?” A reação incompreensiva quando rosas, atuadas em diálogos singelos. O perfeito trampolim para a
eu não queria responder fazia mistério, ao passo que eu me assus- conquista do português em todas suas nuances. Mas, e as novelas
tava como quanto as pessoas faziam pouco caso, como achavam como espelho da evolução da sociedade, como os sociólogos às
natural, penetrar desse jeito na privacidade de alguém. Como fi- vezes as apresentam? Dois verões antes especulava-se nos jornais
xavam meus cabelos curtos – Sinéad O’Connor, Jeanne Moreau, durante semanas se duas personagens homossexuais se beijariam
Annie Lennox!, por quem mais me tomavam? Quem sabe se eu ou não. Com ou sem beijo, a franqueza com que se escrevia sobre
era talvez doente? o amor ainda não era, infelizmente, corrente na vida cotidiana.

37
parte 1 – travessias e migrações

“Não é sempre tão simples. Às vezes fico apreensiva” me confiava Collor, sob a pressão dos “caras pintadas”, desenrola-se um novo
minha mãe. Ainda em 2012 não é simples ser GLS no Brasil, ape- processo, que pode seguir-se nos mínimos pormenores na mídia:
sar da garantia legal, do alegre travesti durante o carnaval, das fla- corrupção no coração do PT, o caso do mensalão. O Brasil rein-
mejantes subculturas e da ocasional Gay Pride Parade nas cidades. venta continuamente o seu porvir.
Assim, há outras coisas que pedem uma segunda, terceira e 2013. Minha família hospedeira vai bem – ainda mantemos
quarta leituras. O que à primeira vista é reconhecível, ou com- contato. Meus pais construíram sua própria casa. Minha mãe ain-
preensível, parece, numa inspeção aproximada, se situar um grau da trabalha. Meu pai está agora aposentado. Meu irmão e minha
fora do fio de prumo, pelo menos em comparação com o quadro irmã puderam estudar e ambos trabalham. Minha irmã é fisiote-
de referências que se traz de fora. A procura de pontos comuns, rapeuta em Juiz de Fora e decidiu fazer Direito, “para poder fazer
em algum lugar nas dobras entre familiaridade e alienação, é o alguma coisa pela gente”. Meu irmão projeta cenários para nove-
que torna a conexão com o Brasil tão fascinante. las e vê de seu apartamento como o Rio se embeleza para os Jogos
Em 2013, de volta a Juiz de Fora, fiquei impressionada: foram Olímpicos. A dinâmica dentro da cidade se transforma: as favelas
construídos um hospital e um shopping ainda maior; por toda par- empetecadas entraram na mira dos promotores da construção e
te erguem-se altos prédios de apartamentos e na colina mais longe das imobiliárias. Cá e lá oferece-se um bom dinheiro aos morado-
vêem-se alinhadas as casas sociais da “Minha casa, minha vida”. res de áreas que eram taxadas de favelas. Mas como a empregada
O Brasil vai de vento em popa. Não se deve mais passar horas na do meu irmão me contou: “Para onde temos que ir, então? Para
fila para trocar dinheiro: pode-se em qualquer parte sacar dinheiro mais longe, onde é mais barato? Como então podemos chegar em
do caixa eletrônico. tempo razoável no serviço?”
Vinte anos atrás, no Jornal Nacional, a cada dia William Bon- Quando agora olho a foto da minha turma daquela época, vejo
ner dava o câmbio oficial do dólar e, em seguida, o paralelo no que sempre fui a gringa, mesmo que minhas colegas me dessem
câmbio negro. Naquela época, minha família hospedeira com- o sentimento de ser uma delas e mesmo que eu passasse frequen-
prava os dólares que eu, cuidadosamente, economizava e guarda- temente por uma catarinense ou uma gaúcha, por causa de meu
va num nicho secreto perto da cama. Não era recomendável ter cabelo loiro e meus olhos azuis. Como estudante de intercâmbio,
dólares em casa, mas deixar o dinheiro no banco tampouco era a desligada de quem eu era, salvo por uma frágil linha de envelopes
solução por causa da inflação galopante. Ainda guardo um arco-í- do correio aéreo, eu fui muito longe para conquistar, no estrangei-
ris de passagens de ônibus: a cada mês subia o preço e, portanto, ro, aquele sentimento seguro e familiar de casa.
mudava também a cor do bilhete. Como jornalista, 20 anos mais tarde, levo vantagem com es-
Anos mais tarde, a economia melhorou bastante pela gestão te olhar duplo: a familiaridade transparece nos gostos, cheiros e
liberal do presidente Fernando Henrique Cardoso, mas naquela olhares, numa maneira de falar, em sensibilidades para tabus ver-
altura meus pais brasileiros já tinham visto boa parte de suas eco- sus franqueza e, também, nas minhas mãos que se metem a dan-
nomias virar fumaça. Mais tarde o horroroso cenário para os brasi- çar quando falo português. Ao mesmo tempo, este país poderoso
leiros ricaços tornou-se realidade: o torneiro mecânico de outrora, apresenta-se cada vez numa outra faceta, tanta coisa muda, tão
o barulhento sindicalista Lula da Silva tornou-se presidente. Mas, rapidamente, cada vez surgem novas questões e percepções. É
ao contrário do que alguns temiam (caos! revolução!), ele fez um como em toda boa relação: nunca se acaba.
governo moderado. Continuou o que seus predecessores tinham
começado a construir e o Brasil se deu bem com isso. Hoje, Dilma Annelies Beck é jornalista na VRT, a televisão pública flamenga.
Rousseff é a primeira mulher presidente do Brasil, uma ex-gueri- Há 20 anos se dedica ao Brasil, onde fez numerosas reportagens.
lheira – quem teria imaginado isso? Residiu neste país entre 1991 e 1992 como estudante de intercâm-
O Brasil é um caso interessante não só economicamente. Po- bio e obteve, mais tarde, um MA em Brazilian Studies na Univer-
líticamente, 20 anos depois da renúncia do presidente Fernando sity of London.

38
presenças brasileiras na bélgica

Os primeiros brasileiros em Flandres


Eddy Stols

P or algum ufanismo a historiografia brasileira relutou muito


tempo a pensar o Brasil como um país de emigração. Os úni-
cos casos conhecidos eram os deportados da Inconfidência minei-
como gente simples e ignorante, que nunca estiveram em outro
lugar senão no Brasil e no mar. Tudo indica que eram mestiços,
mamelucos ou mesmo índios, marinheiros de um navio português
ra, a família imperial e os monarquistas em 1889, os baderneiros procedente do Brasil. Uma tripulação semelhante talvez já tives-
anarquistas principalmente italianos expulsos por volta de 1900, os se sido encontrada em viagens anteriores de navios portugueses
exilados da Revolução de 1930 e do Estado Novo e os refugiados a Flandres.
e deportados da ditadura militar de 1964 a 1978. Um pouco brasileiros podiam ser neste final do século XVI os
Como um fato novo e quantitativamente inédito surgiu a partir cristãos-novos portugueses, que, após longa estada em Pernambu-
da crise econômica dos anos de 1980 a saída do País de milhares co ou na Bahia ou já nascidos por lá, vieram residir em Antuérpia
de brasileiros modestos por necessidade econômica. A formação para tratar de seus negócios de açúcar e pau-brasil e eventualmen-
de uma grande diáspora brasileira nos Estados Unidos, no Japão te à procura de maior liberdade religiosa.
e na Europa abriu os olhos dos historiadores para os precedentes, Algumas famílias desta rede comercial transatlântica se fize-
como os ‘brasileiros de torna-viagem’ no Norte de Portugal ou no ram católicas como os Ximenes ou os Rodrigues d’Evora. Outras
Sul da Itália, ou os escravos alforriados que voltaram para a cos- seguiram mais tarde, nos anos de 1640, para Amsterdam, onde
ta ocidental da África. Dentro deste variegado Brasil extramuros, podiam professar abertamente seu judaismo, se bem que como
cabe situar a presença brasileira na Bélgica. cidadãos de segunda categoria e com censuras internas na sua
Logo depois da chegada dos portugueses e franceses ao Brasil, comunidade. Um ou outro cristão-novo voltou inclusive para os
alguns índios fizeram a viagem em sentido inverso para Lisboa ou Países Baixos meridionais, que adotaram progressivamente maior
para a Normandia. A sua vinda para Flandres pode ter demorado tolerância com os judeus.
até que em 1584 uma primeira notícia assinalou a prisão em An- Em Zandvliet, um povoado perto de Antuérpia, uma Brazilia-
tuérpia de quatro Brasiliaenen, ou brasileiros, Melchior Albares, nenstraat se refere à gente de pele escura que vivia lá em choças
Anthonio Ghercy, Pedro Borges e Juan Aldres (Bulletin des Archi- como meio selvagens ao deus-dará. Na voz popular atribuía-se
ves d’Anvers, 5, 264). sua origem a soldados vindos com o exército espanhol no século
Chegando à cidade tarde da noite, encontraram as portas já XVI. Como mais plausível, tratar-se-ia de emigrantes belgas, que
fechadas pelo horário de recolher, mas entraram pulando pelos retornaram miseráveis do Brasil no século XIX e se reinstalaram
muros. Foram liberados mediante o pagamento de multa de 100 em terras abandonadas (com meus agradecimentos a M. Bollen
florins pelos cônsules da nação portuguesa. Estes os desculparam e J. Possemiers).

Passantes e residentes brasileiros na Bélgica dos séculos XIX e XX


Eddy Stols

U ma vez independente, a Bélgica atraiu um número considerá-


vel de passantes e residentes brasileiros, sem que se constitu-
ísse uma colônia bem visível como a de Paris. Tratava-se de diplo-
matas, comerciantes, artistas e principalmente de estudantes. Em

39
parte 1 – travessias e migrações

Ilustração de Uma vez reconhecido seu talento, seguiu primeiro para a Es-
Henrique Alvim
cola Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro e depois, em 1903,
Corrêa para o livro La
guerre des mondes, com bolsa do governo paranaense, foi aperfeiçoar-se na Académie
de H. G. Wells. Royale des Beaux-Arts de Bruxelas. Gheur e outro belga interes-
sado, Alphonse Solheid ou talvez o próprio Itiberê podem ter fa-
cilitado o contato. Em Bruxelas, Zaco trabalhou com o escultor
expoente do art nouveau, Charles Van der Stappen. Recebeu em
1905 em sua casa o conterrâneo João Turin (1878-1949), filho de
imigrante italiano, aprendiz de ferreiro, escultor e também auxi-
liado com bolsa de governo. Turin exprimiu o seu sofrimento pelo
clima belga na escultura Exílio.
Com certeza, conheceram Constantin Meunier, cujo Semea-
dor (1896) inspirou semelhante estátua de Zaco Paraná. Ambos fo-
ram diplomados e premiados em 1909, recebendo um ateliê para
trabalhar, carvão para aquecimento e direito a modelo vivo. Com
a morte de Van der Stappen, voltaram ao Brasil em 1910, mas logo
regressaram à Europa e viveram um longo período em Paris em
contato com os artistas modernos. Após seu regresso definitivo em
1922 ao Brasil, encontraram mais reconhecimento e encomendas.
Ainda em Bruxelas, seus caminhos se cruzaram com um ou-
Bruxelas, o Brasil mantinha desde 1834, e quase continuamente, tro artista brasileiro. Henrique Alvim Corrêa (1876-1910) foi le-
um encarregado de negócios, um ou mais adidos e um cônsul-ge- vado com 16 anos pelo padrasto a Paris, onde aprendeu a gravu-
ral, alguns com extensas famílias, como testemunham no cemité- ra e se especializou em pintura militar com Edouard Detaille.
rio de Laken os jazigos das famílias Souto Maior, Ipanema de Bar- Contrariado pela família em seu romance com Blanche Barbant,
ros e Moreira Barros. Possivelmente recebiam viajantes brasileiros fugiu em 1898 para Bruxelas, onde montou um ateliê no subúr-
como o pintor Manuel de Araújo Porto-Alegre e o poeta Domingos bio de Watermael-Boisfort. Mas o pintor não conseguia vender
Gonçalves Magalhães, que excursionaram pela Bélgica por volta seus quadros de temas militares e se sustentou com decoração
de 1837. Este último concluiu lá seu drama Antonio José ou o Poeta mural e ilustrações eróticas no estilo de Félicien Rops. Somen-
e a Inquisição e uma belga lhe inspirou talvez um suspiro poético. te em 1905 conseguiu realizar na galeria Boute de Bruxelas sua
A belga era Céline, amante do outro grande poeta romântico, An- primeira exposição individual. Numa abundância de pinturas,
tônio Gonçalves Dias, que passou por cirurgia na Bélgica em 1863, desenhos e esboços, um crítico (La Chronique, 12 e 15.03.1905)
pouco antes de seu naufrágio na costa do Maranhão. descobriu um artista solitário e original, sem filiação com algu-
Um salão literário concorrido manteve em Bruxelas no final ma escola e desenraizado.
do Império o plenipotenciário conde de Villeneuve e sua esposa, Suas obras revelavam ‘uma mistura singular de fantasia e serie-
assistido por Brasílio Itiberê da Cunha, o compositor da Sertaneja. dade, de sonhos bizarros, caprichosos e de impressionismo natural,
Este trouxe em 1880 para estudar no colégio jesuíta Saint-Michel de simbolismo e realidade’. Tudo lhe inspirava, desde figuras do
um jovem irmão, João, que se formou depois em Ciências Políticas cotidiano, recantos e paisagens de Boisfort até cenas da atualida-
na Universidade de Bruxelas e se relacionou com figuras de La Jeu- de internacional, como a guerra russo-japonesa de 1904, que ele
ne Belgique, como Iwan Gilkin (Andrade Muricy). Nesta linha pu- dramatizava ou parodiava. Sua imaginação fantástica excedeu em
blicou em 1890 sob o nome de Jean Itiberê e com o mesmo editor cerca de 50 desenhos de monstruosos e terríveis extraterrestres
de Maurice Maeterlinck, Lacomblez, um volume de poemas em para ilustrar a obra de grande êxito The War of the Worlds (1898)
francês, Préludes. Voltando em 1892 para a terra natal paranaense de H. G. Wells. O próprio autor, solicitado por Alvim Corrêa em
com postura de dândi no estilo fin-de-siècle, continuou a publicar viagens a Londres, os aprovou para uma edição belga, La guerre
poemas em francês nas revistas Cenáculo e Almanaque Paranaense des mondes, Bruxelas, L. Vandamme, 1906, com 500 exemplares
e divulgou nos meios literários de Curitiba o simbolismo belga. (reeditado no Rio de Janeiro, 1981).
O prestígio deste pode ter influenciado na ida a Bruxelas, pou- Doente dos pulmões, Alvim Corrêa foi tratar-se num sanató-
co depois, de dois jovens escultores paranaenses, filhos de imigran- rio suíço, mas acabou morrendo de tuberculose em Bruxelas em
tes. Na oficina do polonês Miguel Zak, os trabalhos de madeira do 1910. Seu necrológio (La Chronique, 15.06.1910) o reconheceu
filho João Zaco Paraná (1884-1961) despertaram o interesse de um como um modernizador de Breughel e Bosch. Também devia-
freguês, o técnico ferroviário belga François Gheur. Este levou o -se relacioná-lo com o contemporâneo belga James Ensor. Seu
menino para sua casa em Curitiba para lhe proporcionar ensino ateliê foi destruido na invasão alemã em 1914 e as matrizes de
com auxílio do governo e de protetores no seminário menor e na suas gravuras desapareceram no torpedeamento de um navio em
Escola de Belas Artes e Indústria. 1942, mas seus dois filhos, Eduardo e Roberto, salvaram o que

40
presenças brasileiras na bélgica

puderam. Sua obra foi finalmente redescoberta por José Roberto festa acabou com a invasão das tropas alemãs em agosto de 1914,
Teixeira Leite, que lhe consagrou a primeira exposição em 1973, quando os diplomatas redigiram listas com os nomes de uns 400
parcialmente reapresentada por Pietro Maria Bardi em Bruxelas brasileiros que deviam deixar a Bélgica.
na galeria Studio 44 no mesmo ano da Brasil-Export. Boa parte destes eram estudantes e seus familiares. Já por me-
Nestes anos de 1910 a presença brasileira atingiu maior vi- ados do século XIX se encontravam em Bruxelas em instituições
sibilidade pelas iniciativas do embaixador Oliveira Lima. Junto de educação como do Senhor Lavallée jovens brasileiros, ao lado
com a participação do Brasil na Exposição de Bruxelas, organizou de russos ou de uma Charlotte Brontë (Stols, 1974). Mais tarde,
um concerto de música brasileira no Théâtre de la Monnaie. Os secundaristas frequentaram colégios como o Saint-Michel dos je-
comissários do Estado de São Paulo editaram em Bruxelas várias suítas em Bruxelas ou pensionatos, como das Ursulinas em On-
publicações de propaganda como um álbum de 102 fotografias ze-Lieve-Vrouw-Waver.
de Guilherme Gaensly, Vues de São Paulo. Um exemplar – ho- Bem mais numerosos foram os universitários. Vários motivos
je conservado na Biblioteca Municipal da cidade – foi oferecido levaram os pais brasileiros a preferir a Bélgica: um país monár-
ao poeta Vicente de Carvalho, residente em Bruxelas em 1912. quico, mas constitucionalista e liberal, de idioma francês, mais
Vários jovens talentos literários brasileiros, adeptos do simbo- seguro e também mais barato do que a França. Desde Bruxelas,
lismo, vieram peregrinar na terra de Émile Verhaeren, Georges em carta de 7 de julho de 1863, Antônio Prado recomendou ao
Rodenbach e Maurice Maeterlinck, ainda mais que lá havia edito- irmão Caio estudos na Bélgica por não ter costumes tão diversos
res bons e baratos e onde Victor Orban compôs uma das primeiras como a Alemanha nem tão perigos como Paris (Darrell, p. 147).
antologias de literatura brasileira em francês (Quataert). A visita Entre 1835 e 1914 matricularam-se cerca de 700 brasileiros,
aos canais de Bruges em 1913 de Rodrigo Otávio Filho, junto com dos quais 237 na Universidade Livre de Bruxelas, 217 na Universi-
Ronald de Carvalho, Filipe d’Oliveira e Álvaro Moreyra, rendeu dade de Gand, 100 na Universidade de Liège, 68 na Universidade
seu Alma de Rodenbach, 1921. de Lovaina, 37 na Faculdade de Agronomia de Gembloux, 5 na
Foi nesta época que Manuel Bandeira veio da Suíça conhecer Université Nouvelle de Bruxelles – uma dissidência temporária da
‘a Bélgica perseverante dos velhos paços municipais e beguines’, Universidade Bruxelas –, e 2 no Instituto Superior de Comércio
evocados mais tarde em O Ritmo Dissoluto (1924). Ao contrário, de Antuérpia.
lá também, na casa de um patrício, o poeta mineiro Belmiro Braga Se os primeiros apareceram em 1835, somente a partir de 1857
saboreou sua comida da terra. Um editor de Bruxelas lançou os contava-se mais de dez, alcançando 41 em 1871 com um pico
primeiros estudos de Alberto Lamego, historiador da Terra Goy- de 72 em 1882, baixando depois para 12 em 1912 e subindo no-
tacá. Brasileiros vinham até veranear, como os Almeida Prado vamente até 48 em 1913. O mais surpreendente – e contrário à
em La Panne. Num restaurante de Ostende, Gilberto Amado se reputação de bacharelismo dos brasileiros –, é o alto número de
surpreendeu em 1912 com uma dezena de seringueiros da Ama- inscritos e diplomados em engenharia (318), medicina (236) e
zônia, vestidos de branco, festejando com bonitas mulheres nos agronomia (45).
joelhos (Amado). No mesmo balneário o casal Asseloos anuncia- Notável também é a diversidade de origem dos estudantes bra-
va o ensino da ‘maxixe brésilienne’ (Le Carillon, 28.02.1914). A sileiros, a maior parte vinda das províncias do Rio de Janeiro (231)
e de São Paulo (149), seguidas por Minas Gerais (41), Pará (31),
Rio Grande do Sul (29), Maranhão (28), Bahia (27) e Pernambu-
Ilustração de
Henrique Alvim co (24). Em algumas famílias brasileiras, como os Ottoni, Teixeira
Corrêa para o Leite, Roque de Pinho, Toledo Piza, Villares, Viana e Chermont,
livro La guerre os estudos na Bélgica se tornaram quase uma tradição.
des mondes, de H. No início viviam bastante isolados. A. S. de Abreu se queixou
G. Wells.
num folheto, Souvenir de la province de Minas Gerais au Brésil,
Bruxelas, 1845, como em três anos fez poucos amigos. Defendia
frente aos abolicionistas a reputação de sua pátria, argumentando
que o escravo trabalhava somente oito horas e não se despedia na
rua, faminto, como se fazia com o operário belga.
Nos anos de 1860 e 1870 alguns frequentavam salões e ade-
riam ao positivismo como Luiz Pereira Barreto ou Joaquim Alberto
Ribeiro de Mendonça. Um deles, Francisco Antônio Brandão Jú-
nior, publicou em Bruxelas um dos primeiros livros abolicionistas,
A Escravatura no Brasil, 1865. Participavam das associações estu-
dantis, envolvendo-se às vezes nas disputas entre liberais e católi-
cos. Em Gand houve até um clube brasileiro entre 1875 e 1880.
Alguns se radicaram na Bélgica como Ladislau Furquim de
Almeida, que publicou sobre o café e a borracha e deixou descen-

41
parte 1 – travessias e migrações

No pós-guerra a presença brasileira se reativou primeiro na


área cultural, promovida por uma Union Brasilo-Belge, fundada
em 1950. Nesse ano estreou o maestro Eleazar de Carvalho no
Palais des Beaux-Arts de Bruxelas. Magda Tagliaferro fez em 1952
uma turnê belga e participou do júri do Concours Reine Elisabeth.
A construção da nova capital em Brasília colocava o País no diapa-
são da modernidade, que precisamente a Exposição Mundial de
Bruxelas em 1958 pretendia celebrar. Esta coincidência suscitou
mais intercâmbios.
Assim Heitor Villa-Lobos dirigiu em 1958 a orquestra belga
na inauguração do Pavilhão do Brasil. Se a Expo 58 fez descobrir
Cândido Portinari e Cícero Dias, o Palais des Beaux-Arts mostrou
em 1957 Burle Marx e em 1960 Lasar Segall, em parte como res-
postas às participações belgas na Bienal de São Paulo. Este maior
apreço cultural mútuo levou em 1960 à assinatura de um acordo
cultural. Ao mesmo tempo os belgas descobriram o futebol bra-
sileiro nos encontros do Botafogo e do Santos com o Anderlecht
e o Beerschot.
A partir dos anos 1960 o número de estudantes cresceu bas-
tante à procura de formações inexistentes ou pouco desenvolvidas
no Brasil, como engenheiro de cervejaria, psicólogo, psicanalista,
demógrafo, ou de especializações e de doutorados. Vários tipos
de bolsas, do supracitado acordo cultural, do Ministério Belga da
Cooperação, ou das próprias universidades facilitaram sua vinda.
Paralelamente, escolas de artes plásticas, cinema ou dança e
conservatórios de música atraíram mais jovens de vocação artís-
tica. Clubes de futebol belgas começaram a contratar jogadores
brasileiros, ao passo que mestres capoeiristas faziam facilmente
adeptos na juventude belga. Esta apreciou cada vez mais as ban-
das de música brasileira ativas no país.
Empresas brasileiras se instalaram na Bélgica ou enviaram es-
tagiários, enquanto a representação diplomática se expandiu na
União Europeia e na Otan. Os casamentos mistos trouxeram mais
João Turin esculpindo “Exílio”.
brasileiras à Bélgica, inclusive princesas da família imperial. Com
a crise econômica milhares de brasileiros buscaram trabalho na
dência. Outros levaram na volta ao Brasil uma esposa belga. Uma Bélgica. Muitos não conseguiram carteira de trabalho, arriscan-
destas relatou, em carta aos parentes belgas, a vida na fazenda em do-se como clandestinos à deportação. Para assisti-los, surgiu em
Minas Gerais com os escravos reunidos à noite para a reza e benção. 2006 a associação Abraço.
Depois da Primeira Guerra Mundial estudantes brasileiros ins- Assim, formou-se uma verdadeira colônia brasileira com pon-
creveram-se de novo nas universidades belgas, se bem que o Brasil tos de encontro, bares e restaurantes, associações culturais, gale-
criava entrementes suas próprias instituições. A Bélgica voltou a rias de arte, exposições, publicações, igrejas, carnaval e festas ju-
fazer parte da rota de literatos, artistas, diplomatas e empresários ninas, mais concentrada em Bruxelas, mas também presente em
brasileiros no seu périplo europeu. Em viagem de 1922 junto com Antuérpia, Liège, Gand e Lovaina. Estimativas calcularam o total
Vicente do Rêgo Monteiro, Gilberto Freyre conheceu uma belga de brasileiros na Bélgica em torno de 40.000 por volta de 2010,
‘a mais lírica das namoradas... demônio de morena de olhos verdes um número bastante alto em comparação com a emigração brasi-
tão criança e ao mesmo tempo já tão mulher’, que lhe escrevia car- leira nos outros países europeus. O tema merece certamente uma
tas com um pouco de seu cabelo (Tempo morto e outros tempos). pesquisa mais ampla e sistemática. Em 2011 surgiu o projeto Me
Outros vieram para visitar as exposições de Antuérpia em 1930 Brasil dentro da Oca, sob o impulso de Regina Barbosa, para re-
e de Bruxelas em 1935, como o pintor Décio Villares, do qual o gistrar esta presença brasileira em interação com belgas ou outros
Museu de Belas Artes de Antuérpia conserva uma tela. Foi no lusófonos. Não falta matéria interessante como Pixote em Bruges, a
ateliê do escultor Oscar Jespers que Maria Martins aprendeu, por revista Para ti Para todos em Antuérpia desde 1995, a galeria Zacco
volta de 1938, a trabalhar em bronze. A segunda invasão alemã em Canchi em Aalst, La Maison du Brésil em Bruxelas, Alegria em Lo-
maio de 1940 provocou um novo êxodo dos brasileiros. vaina ou os numerosos grupos de capoeira, como o Porto de Minas.

42
presenças brasileiras na bélgica

Flores brasileiras no Instituto das Ursulinas


em Onze-Lieve-Vrouw-Waver
Mario Baeck

F undado em 1841, o Instituto das Ursulinas em Onze-Lieve-


-Vrouw-Waver se impôs em poucos decênios como uma ins-
tituição de fama internacional (Baeck, 2011). No final do século
construção metálica. É uma realização artística única de prestígio
mundial, ainda mais como uma rara e grandiosa construção art
nouveau em zona rural e num contexto católico (Baeck, 1993).
XIX oferecia fácil acesso pelo porto de Antuérpia e pela estrada de Pela cúpula de vidro entram raios dourados que criam uma atmos-
ferro até a cidade vizinha de Malines. fera primaveril mesmo em dias escuros. O vitral multicolorido da
Suas belas construções em diversos estilos históricos forma- cúpula desenha a Manhã, o Dia e a Noite. A flora se faz também
vam um amálgama esplêndido bem ao gosto da alta burguesia. proeminente na decoração. Além disso, a natureza ao vivo tam-
Prestavam muita importância à higiene e às técnicas modernas bém está presente no jardim de inverno com palmeiras exóticas,
como calefação central, água corrente e iluminação elétrica. A samambaias, plantas e flores. Nisto as irmãs aderiram a um tipo de
propriedade rural de dez hectares dispunha de um parque de natureza civilizada e estilizada, cultivada pelo homem, inerente
passeio de estilo inglês, de um bosque com vistosas estruturas de aos seus conceitos pedagógicos.
cimento rústico, entre as quais uma sala de piquenique e uma O caráter único do complexo se encontra ainda nos interiores
gruta de Lourdes, e vastos campos lavrados a partir de sua pró- primorosamente ecléticos e bem conservados. A sua decoração
pria granja modelo. carrega um significado fortemente simbólico como também serve
A sua maior atração consistia na sua oferta de um ensino de às finalidades estéticas e sempre didáticas. Assim, o conjunto dos
qualidade e progressista, não somente nas matérias de humanida-
des e nas formações de professoras, como também de economia
doméstica e de ensino agrícola e hortícola. Graças às suas múlti-
plas inovações pedagógicas, inspiradas num feminismo moderado,
tinha o instituto excelente reputação junto à burguesia afortuna-
da e de cunho cosmopolita, bem além das fronteiras da Bélgica.
Por volta de 1900 quase uma quarta parte das alunas vinha do
exterior. As irmãs recrutavam não somente nos países vizinhos,
como também na Rússia, Áustria-Hungria, Itália, Espanha e até
na África, Austrália, nos Estados Unidos e na América Latina, com
numerosas moças do Panamá e da Colômbia e ainda da Nicará-
gua, Argentina e do Brasil.
Por causa de diversas circunstâncias, como as destruições du-
rante a Primeira Guerra Mundial, as listas das matrículas conserva-
das são fragmentárias. Nos palmarés (listas) dos anos de 1920-1930
figuram como alunas brasileiras Flora e Gina d’Oliveira Castro,
Juliette e Lucy Braz Pereira Gomes e Jandyra Gomes de Men-
donça, todas de Brazópolis, cidade do Estado de Minas Gerais.
Foi provavelmente este o pensionato belga onde o jornalista José
Eduardo de Macedo Soares, exilado na França por volta de 1923,
colocou suas duas filhas. Uma delas, Maria Carlota [ou Lota] de
Macedo Soares parece ter inventado uma marchinha de samba
quando, numa festa, todas as moças deviam cantar o hino nacio-
nal (Oliveira). Ela se tornou mais tarde, no começo dos anos de
1960, a paisagista executiva do parque no Aterro do Flamengo.
Sua sensibilidade particular aos encantos da natureza talvez tenha
se despertado e crescido no ambiente floral do pensionato.
Para oferecer às centenas de internas estrangeiras e a seus pa-
rentes de visita uma condigna sala de recepção e de encontro, as
Ursulinas enriqueceram o pensionato em 1900 com um magní-
fico jardim de inverno de estilo art nouveau, com vitrais numa Vista do interior da estufa art nouveau do Instituto das Ursulinas.

43
parte 1 – travessias e migrações

Instituto das Religiosas Ursulinas em Wavre Notre-Dame, fundado em 1841.

edifícios vale sem dúvida como um dos exemplos mais marcantes Mario Baeck é licenciado em Filologia Germânica pela Universidade
do pensionato belga do período 1840-1960 e pode ter inspirado de Gand, prepara um doutorado em História da Arte, publicou sobre
nesta procura de classe os seus congêneres estabelecidos por con- literatura flamenga e neerlandesa, história da arte, conservação do
gregações belgas no Brasil, como o Des Oiseaux em São Paulo ou patrimônio e particularmente sobre o Jardim de Inverno do Instituto
as Damas em Recife. das Ursulinas, do qual é secretário.

Os estudantes brasileiros na Universidade de Liège (1870-1914)


C h r i s t i n e Fe l l i n

A chegada de estudantes brasileiros na Universidade de Liège


ocorreu mais tarde do que nas outras universidades belgas
com os primeiros quatro inscritos em 1863-1864 (Fellin; Stols,
dificuldades políticas do fim do Império e dos primeiros passos
da República, mas também com a crise do café e a situação fi-
nanceira instável do País.
1875). Esse número estagnou neste patamar por muito tempo. Quando a situação interna do Brasil melhorou e a industriali-
Aliás, ao passo que os estudantes dos outros países da América zação do País deslanchou de verdade nos anos de 1900, o número
Latina se tornaram cada vez mais numerosos, se produziu des- de estudantes brasileiros aumentou novamente. Neste momento
de 1887 em todas as universidades belgas uma diminuição ní- a tendência se inverteu: não eram mais a Universidade Livre de
tida das inscrições brasileiras. Em comparação com os 15 anos Bruxelas e a Universidade de Gand as mais procuradas, mas a
anteriores, esta forte queda se relacionava não somente com as Universidade de Liège, e principalmente seu Instituto Montefiore.

44
presenças brasileiras na bélgica

Alunos trabalhando no Instituto Montefiore. O Instituto Montefiore da Universidade de Liège.

Este predomínio de Liège durou até a Primeira Guerra Mun- O que entretanto diferenciou a Universidade de Liège das
dial e pelo menos 132 brasileiros frequentaram os bancos da Uni- outras instituições do país foi seu ‘Institut Montefiore’ (Legros e
versidade de Liège, ou seja três vezes mais do que o segundo país Pirotte; Tomsin). Fundado em outubro de 1883 por Montefio-
latino-americano, a Argentina, com 39 inscritos entre 1870 e 1914. re-Levi, senador de Liège, foi a primeira escola eletrotécnica de
Entre estes 132 estudantes brasileiros, originários essencialmen- nível universitário no mundo a coordenar todas as aplicações da
te das províncias do Rio de Janeiro e de São Paulo, 109 optaram eletricidade num único programa e a formar engenheiros eletricis-
por estudos técnicos, 66 pelas Escolas especiais ou, em seguida, tas numa sequência de estudos teóricos e práticos. Por situar-se na
a Faculdade Técnica em 1893, e 43 para o Instituto Montefiore, ponta do desenvolvimento da eletrotécnica, o Instituto Montefiore
sete pelos estudos de Medicina, quatro pelas Ciências Políticas ganhou rapidamente reputação nos quatro cantos do mundo e os
e Administrativas, dois pela Licenciatura Comercial, dois pelas estudantes estrangeiros se apresentaram cada ano mais numerosos.
­Ciências Notariais, um por Química e um por Direito. Somente Assim, apenas dois anos depois de sua abertura, um estudan-
24 obtiveram diploma. te brasileiro, Colin Freitas Broad, se inscreveu e mais 42 outros
Como explicar o interesse marcante dos brasileiros para os es- brasileiros o seguiram até a Primeira Guerra Mundial. Entre estes
tudos universitários em Liège? Já antes a cidade gozava no Brasil alunos brasileiros da Universidade de Liège, e particularmente
de boa reputação por causa de sua metalurgia e particularmente do Instituto Montefiore, alguns fizeram uma bela carreira. Foi o
de suas armas. Comissões militares brasileiras vinham visitar os caso de Edgard de Souza (nascido em 12.3.1876, Campinas), en-
ateliês e faziam boas encomendas. Em agosto de 1871 o próprio viado com 16 anos à Bélgica para seguir uma formação técnica,
Imperador Pedro II visitou Seraing com o industrial Georges Mon- diplomado como engenheiro de Minas com distinção em 1898
tefiore-Levi, almoçou na casa do sucessor de Cockerill, Sadoine, e como engenheiro Eletricista com satisfação no ano seguinte.
e recebeu revólveres de presente (Condessa do Barral, 736-379). De volta ao Brasil, tornou-se engenheiro Eletricista-chefe e de-
Mais interessado nos métodos de ensino, se informou sobre a Uni- pois, a partir de 1914, vice-presidente da The São Paulo Tramway,
versidade de Liège e entrou em contato com os professores Eu- Light and Power, e ainda diretor da Companhia Telefônica do
gène Catalan e Edouard Van Beneden, respectivamente titulares Estado de São Paulo. Mas, Edgard de Souza é sobretudo conhe-
de Matemáticas e de Biologia e Zoologia. cido como o fundador e primeiro professor da seção de Eletro-
No ano seguinte Van Beneden liderou uma expedição cientí- técnica na Escola Politécnica de São Paulo. Seu irmão, Durval
fica ao Rio de Janeiro, onde descobriu um tipo de boto, e visitou de Souza, também estudou Engenharia em Liège, mas levou
Pedro II. Numa outra passagem por Liège, em 1876 ou 1877, o Im- quase dez anos para obter, em 1902, seu diploma de engenheiro
perador se reencontrou com o zoólogo. Foi por sua apresentação Eletricista pelo Instituto Montefiore e exerceu sua profissão na
que o Imperador se tornou em 22 de dezembro de 1885 membro cidade de São Paulo.
correspondente da Société des Sciences de Liège. Vale seguir outras carreiras: Herculano de Almeida Correa,

45
parte 1 – travessias e migrações

formado engenheiro de Artes e Manufaturas em 1897 e engenhei- na São Paulo Railway Company e diretor da Companhia Telefô-
ro Eletricista em 1899, diretor da Companhia Melhoramentos de nica, da Companhia Melhoramentos e da Empresa Luz e Força
São Paulo; Colin Freitas Broad, engenheiro Eletricista em 1890, de Jundiahy. Alguns estudantes do Instituto Montefiore receberam
atuou na Compagnie Internationale d’Electricité em Liège (1891), bolsas da Marinha brasileira, sem dúvida com relação à sua com-
em Santos (1892-1893), na Companhia Mogyana de Estradas de pra de navios de guerra mais modernos.
Ferro (1894-1895), na Comissão de Estudos da Estrada de Ferro Foi portanto nas companhias de estradas de ferro e de eletrici-
Catalão-Cuiabá (1896-1900), em São Paulo (1901-1902) e, por dade, no serviço público e no ensino superior que quase todos se
fim, no London and Brazilian Bank no Rio de Janeiro (1905- beneficiaram com a formação recebida no Instituto Montefiore.
1908); Carlos de Figueiredo, engenheiro Eletricista em 1900, foi Este contribuiu de maneira modesta, mas evidente, ao desenvol-
professor no Rio de Janeiro; J. N. de Lemos Basto, engenheiro vimento e à modernização do Brasil.
Eletricista em 1890, atuou como diretor dos Correios e Telégrafos
do Brasil no Rio de Janeiro; Edouardo de Aguiar d’Andrade, enge- Christine Fellin obteve a licenciatura em História na Universidade
nheiro Eletricista em 1894, serviu, depois de três anos na General de Liège com uma monografia sobre “Os estudantes latinoamerica-
Electric Company em Nova York (1895-1898), como engenheiro nos na Universidade de Liège antes da Primeira Guerra Mundial”.

Como fui parar na Bélgica e me tornei cineasta


Susana Rossberg

E m 1964, quando ocorreu no Brasil um golpe de Estado e o


estabelecimento da ditadura militar que duraria 21 anos, eu
estava nos Estados Unidos, pois tinha me tornado órfã aos 15 anos
rio, belga, diplomado em uma boa escola de teatro em Bruxelas,
o Insas (Institut National Supérieur des Arts du Spectacle). Foi
assim que resolvemos ir para Bruxelas. Chegamos na véspera do
e fora enviada para viver com minha tia americana. Mas não gos- vestibular e, não sei por que milagre, fomos ambos aceitos. O nosso
tava dos Estados Unidos e, em 1965, antes de completar 20 anos, francês, sobretudo o meu, não era extraordinário.
voltei para o Brasil. Comecei a cursar Psicologia na Universidade Após um ano no Insas, Luis Otavio, hoje falecido, voltou
de São Paulo (USP) e iniciei estudos de Crítica Teatral na Escola para Belém do Pará, de onde era oriundo, e onde se tornou um
de Arte Dramática (EAD), precursora da Escola de Comunicações profissional de teatro conhecido. Eu, tendo descoberto a edição de
e Artes (ECA) da USP. Passei a viver com um colega da Escola de cinema, pedi transferência para a seção de continuidade e edição
Arte Dramática. Um dia, em 1967, participamos de uma passeata de filmes do Insas.
contra a ditadura, e a nossa foto, na primeira fila da passeata, foi Naquela época, o Consulado do Brasil ficava em Antuérpia. Eu
publicada no jornal O Estado de S. Paulo. viajava para lá unicamente para renovar o passaporte e não coloca-
Sabíamos que as fotos feitas durante passeatas eram utilizadas va jamais os pés na embaixada. Os dois funcionários na Antuérpia,
pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops) para iden- um deles Silvio Moreira, que continua na embaixada, eram sim-
tificar as pessoas que se opunham à ditadura. Compreendemos, páticos, mas, como todos os brasileiros na Bélgica, eu morria de
assim, que deveríamos sair do País. medo de aparecer por lá. Aliás, conhecia pouquíssimos brasileiros
Meu companheiro, Luis Otavio Barata, então cenógrafo de aqui. Era muito paranoica, morria de medo dos delatores da dita-
teatro, havia encontrado, na Bienal de São Paulo, um cenógrafo dura. Por isso, não voltei ao Brasil até o fim da ditadura e a Anistia.
tcheco famoso, Josef Svoboda, e lhe propusera aperfeiçoar seus Bruxelas mudou muito desde 1967. Na época, parecia um vila-
estudos com ele. Svoboda respondeu: ‘Venha’, de maneira que rejo de província. A mentalidade era bastante racista. Até eu apren-
o lugar lógico para irmos, quando saíssemos do Brasil, era a en- der o francês corretamente, era um pouco maltratada ou ignorada
tão Tchecoslováquia. Esperávamos sermos acolhidos de braços nas lojas. Tínhamos problemas para alugar um apartamento – em
abertos. No entanto, quando chegamos, nos sinalizaram que de- todo lugar estava anotado ‘étrangers s’abstenir’, isto é, ‘estrangeiros,
veríamos aprender o tcheco durante dois anos e que as escolas de abstenham-se’. O fato de Bruxelas tornar-se a capital da Europa,
tcheco estavam lotadas, devido ao esforço de guerra, para ajudar assim como a chegada de milhares de estrangeiros, modificou a
o Vietnã do Norte. As escolas estavam cheias de vietnamitas e nos mentalidade e aumentou a diversidade cultural da cidade.
aconselharam a fazer o pedido de admissão em março do ano se- Tive muita sorte na vida profissional. Minha mãe me falava
guinte, isto é, 1968. sempre da importância de um trabalho bem feito. Dediquei-me
Nos lembramos, então, de uma conferência que Heleny Gua- ao trabalho o quanto pude, chegando a negligenciar um pouco
riba tinha dado na EAD. Ela tinha falado de seu estágio com o a minha vida privada. Graças ao conhecimento da língua alemã
diretor francês de teatro Roger Planchon e de um outro estagiá- (meus pais tinham emigrado da Alemanha para o Brasil), aprendi

46
presenças brasileiras na bélgica

o flamengo com certa facilidade. Atuei, em francês e flamengo, (não Dama) da Ordem de Leopoldo II, por minha contribuição
como continuista, editora, assistente de direção e diretora de fil- ao cinema belga. No entanto, o trabalho pelo qual me sinto mais
mes. Pude trabalhar com diretores belgas conhecidos, tais como realizada, que me toca mais profundamente, é o meu documen-
Benoit Lamy, Harry Kümel, Marion Hänsel, Stijn Coninx, Jaco tário Brasileiros como eu.
Van Dormael, Hugo Claus. Pratiquei meu ofício também em
outros países europeus e fui responsável pela continuidade de Susana Rossberg foi, igualmente, professora em duas escolas de cine-
dois filmes nos Estados Unidos. ma belgas, tendo, assim, a oportunidade e o prazer de contribuir ao
Tive a honra de receber a distinção honorífica de Cavalheiro desenvolvimento de novas gerações de cineastas.

Algumas figuras brasileiras em Lovaina durante os anos 70


Pa u l D u l i e u

“Il belge”, dizia Miranda quando o céu se mostrava chuvoso Os jovens que haviam deixado o Brasil dos generais temiam
ser perseguidos. Eram muito desconfiados, a tal ponto que alguns

N os anos 70, na Universidade de Lovaina, aconteceu-me en-


contrar inúmeros brasileiros. Era o tempo da ditadura mi-
litar, dissidentes de várias correntes chegavam à Bélgica. Em
os julgavam paranoicos. Um tipo bigodudo poderia ser um espião,
e postiço seu bigode! Às vezes o rumor se espalhava. Pois não se
falava em sequestrar Fleury, um policial torturador, que diziam
Bruxelas, Yolanda Bettencourt, que trabalhava na Entraide et ir à França para colher informações? Mas esses receios e projetos
Fraternité, era a mãe universal dos exilados. O brasileiro que fantasiosos logo se dissipavam ao ritmo do carnaval no Stuc, Van
desembarcava, se nada conhecia do país, tinha pelo menos no Evenstraat; os passos endiabrados do samba espalhavam no inver-
fundo do bolso uma papeleta com o endereço de Yolanda, e no flamengo o calor vibrante dos Trópicos. Mas, deve-se confessar,
procurava, no emaranhado urbano de Anderlecht, a Rua Doc- experimentava-se às vezes um fundo de amargura, uma espécie
teur Huet. Bate à porta. Longas explicações são desnecessárias. de alegria melancólica. Seria o que nossos amigos do Brasil cha-
Providencia-se um pouso e alguns expedientes para sobreviver. mam de saudade?
Dom Hélder Câmara que declarava: ‘Quando dou pão a um po- Os estudantes que não seguiam o rastro de Marx deixavam-se
bre, dizem que sou um santo. Quando pergunto por que ele é apanhar por Freud, ou por Marcuse ou Lacan. Os brasileiros de-
pobre, dizem que sou comunista’, hospedou-se mais de uma vez gustavam as teorias psicanalíticas. Walter Evangelista, estudante
em sua casa. O marido de Yolanda, Luc Thomé, pito no canto de Filosofia, alardeava o evangelho segundo Sigmund; o tipo que
da boca à moda de Jacques Prévert, mostrava boa acolhida – às não se deitava no divã era lastimável; recusava a aventura interior;
vezes resmungando um pouco – a todos os que, como se diz no tinha medo de embarcar no conhecimento do seu Eu profundo.
Brasil, ‘não tinham onde cair morto’. Antonio Marques (chamavam-no Antonio das Mortes por cau-
Em Lovaina, havia um cabaret de estudantes com a placa sa do filme de Glauber Rocha sobre os cangaceiros) ficou dez anos
l’Œil Nu (Olho nu). À noite, ouvia-se música brasileira. O guitar- na Bélgica; durante essa longa permanência – e era preciso driblar
rista Marcelo de Mello, que fundou o Quinteto Violado, tocava incríveis dificuldades – apaixonou-se por antiguidades e obras de
ali música erudita e popular. Revejo Geraldo Vandré arranhando arte. Depois de escrever uma tese sobre a literatura de cordel, tor-
sua guitarra. Cantava “somos todos iguais braços dados ou não”, nou-se no Brasil especialista reconhecido em cultura popular e
uma canção que não havia tido a sorte de agradar aos generais, hoje possui em seu Solar das Artes, em Natal, vasta coleção de te-
e o pobre trovador, devido a certas estrofes impertinentes, vira-se las, esculturas, marionetes, comprovando a brilhante imaginação
forçado a exilar-se num país chuvoso. dos artistas brasileiros.
A época era efervescente. O grande caldeirão da universidade Alto, magro, óculos de intelectual, sorriso irônico no canto da
fumegava ainda do fogo de 68. Contra o ministro Vrancks, que boca. Osmar Ramos Filho era inigualável na interpretação dos
queria, por meio de medidas julgadas iníquas, limitar o acesso de sonhos da noite. Parecia ter a chave de todos os enigmas. Atraído
estrangeiros à universidade, os estudantes fizeram greve de fome pelo esoterismo, tornou-se, por paixão, um conhecedor único da
em dezembro de 1971. No Œil Nu, um ateliê de serigrafia im- obra de Balzac. No Brasil, pretendeu ter descoberto um romance
primia cartazes onde se lia: Non au décret; Les frontières on s’en psicografado: Waldo Vieira, escritor brasileiro, teria sido tomado
fout; Nous sommes tous des étrangers. Tais cartazes eram um ape- pelo espírito do grande romancista francês para escrever sob seu
lo à manifestação. Havia uma fraternidade na recusa à injustiça ditado Cristo espera por ti. A fim de provar esse fenômeno espírita,
internacional, e era preciso lutar contra a palmatória dos regimes Osmar conduziu com persistência infatigável pesquisas de estilísti-
militares em que se apoiava o capitalismo. ca e de lexicografia comparando o romance de Waldo Vieira com

47
parte 1 – travessias e migrações

Ilustração de Géraldine Servais denominada “Aparecida Ventre Livre”.

Mas esse velho enclave português acabava de ser recuperado pe-


la Índia. Aceitar um passaporte que Portugal lhe propunha? Seria
correr o risco de se ver envolvido na guerra colonial de Moçam-
bique. Apegado à sua língua, José Miranda escolheu partir para
ensinar no Brasil. Foi, pois, passando pela universidade de Lovai-
na que um goense encontrou brasileiros que o determinaram a
Cartaz de 1971 conclamando a uma manifestação em Lovaina com os dizeres atravessar o Atlântico.
“Nós somos todos estrangeiros”.
Esses exemplos que pinço na paisagem movimentada dos anos
70 falam do papel prioritário que a Bélgica desempenhou no des-
os escritos de Balzac. Consequentemente a esse trabalho minucio- tino de certos jovens em relação ao Brasil. A partir de 1984 os
so, Osmar redigiu uma obra notável que tem por título O avesso intelectuais e os artistas exilados retornaram ao seu país e hoje
de um Balzac contemporâneo. são substituídos por emigrados sem formação particular, vindos
Vindo de Ferreiras, uma cidadezinha que por gracejo ele cha- principalmente de Goiás, e que esperam melhorar sua situação
ma de centro do mundo, José Maria Tavares de Andrade reunia econômica instalando-se em Bruxelas.
uma quantidade de dados sobre a religiosidade popular do Nor-
deste e sobre a farmacopeia tradicional. Após completar sua for- Segurando a mão de Aparecida
mação de sociólogo junto com Bastide e Edgar Morin em Paris,
tornou-se um brilhante especialista do fenômeno religioso e do Depois de ter-me casado com uma carioca, mergulhei na
que chama de ‘etnomedicina’. história desse país gigantesco, tão diferente da pequena Bélgi-
Rachel da Costa Cunha permaneceu na Bélgica após ter re- ca pelo tamanho e pelo céu. Devo minha primeira leitura em
cebido sua licenciatura em Filosofia. Participara, antes de seus língua portuguesa à minha sogra, que ofereceu-me o livro fun-
estudos, do Rio Ballet Guanabara e apresentou-se no Tea­tro Mu- dador da identidade brasileira, Casa Grande e Senzala, de Gil-
nicipal do Rio. Após seus estudos fundou, em Wavre, o Centro berto Freyre.
de Balé Mimésis, que acolheu por mais de 30 anos centenas de Em 1999, a Comunidade francesa da Bélgica propunha para
alunos. seu concurso anual de novelas o tema do nascimento. Voltou-me
José Miranda falava português, mas não vinha nem do Brasil à memória que o Brasil procedeu por etapas para chegar à abo-
nem de Portugal. Era originário de Goa. Em Lovaina, estudava lição total da escravidão em 1888. Uma dessas etapas foi a Lei
Sociologia. Que faria no final de seus estudos? Retornar a Goa? do Ventre Livre. Lembrei-me da imagem de uma jovem mulher

48
presenças brasileiras na bélgica

negra. Chama-se Aparecida. Fiz dela a heroína de uma história deçà. Resulta um livro que tem por título Carta de Copacabana
que se passa em um engenho. Aparecida é uma escrava, mas pela a Christophe que ficou em Courtelande; Courtelande sendo, na
Lei de 1871 o filho que espera já é livre. Jamais conhecerá, como ocorrência, meu país de origem, a Bélgica. Essa carta sublinha
seus pais, o trabalho servil. No tenso contexto social e político da muitas vezes de modo um tanto irônico o que nos une e nos se-
época, Aparecida Ventre Livre ilustra o nascimento em um plano para, em toda fraternidade.
duplo: nascimento de um filho chamado Solto, mas esse Solto re- Quando o céu se mostra baixo e qu’il belge, como dizia Mi-
presenta, sobretudo, um nascimento para a liberdade. Aparecida randa, lembro-me de Aparecida, pego a mão dessa mãe-coragem
Ventre Livre recebeu o primeiro prêmio da novela e foi publicado que soube, em meio ao pior dos abandonos, dar vida à Liberdade.
em La Libre Belgique antes de ser traduzido para o português em (Tradução Virginia Gomes Ribeiro)
um jornal de Curitiba.
Para um belga que atravessa seu país de ponta a ponta em al- Paul G. Dulieu é diplomado em Sociologia e Linguística, trabalhou
gumas horas, é presunçoso falar do imenso Brasil. Colocando-me para a Universidade Católica de Lovaina, para o Instituto de Artes
a pergunta: ‘Como se pode ser brasileiro?’, tentei respondê-la por de Difusão e para o Fundo das Nações Unidas para a População an-
meio de um subterfúgio narrativo. Fico em Copacabana e faço tes de exercer atividade de jornalista. Tem sólidos laços com o Brasil
uma espécie de caderno de rascunhos. Em meu carnê de notas, e escreveu canções, peças de teatro e novelas, estas últimas editadas
anoto as coisas vistas, evocações históricas, faço comparações en- por revistas belgas e brasileiras. Sua novela Aparecida Ventre Livre
tre essa terra nova e o que Jean de Léry chamava les pays d’en recebeu o Grand Prix de la Libre Belgique em 1999.

A inserção dos trabalhadores brasileiros


migrantes no mercado de trabalho belga
Martin Rosenfeld e Beatriz Camargo

O Brasil, tradicionalmente um país de emigração, combina


atualmente essa tendência migratória com uma imigração
significativa, formando fluxos migratórios complexos (Padilla &
Padilla (2007) aponta que a chegada do século XXI trouxe uma
massificação e uma ‘proletarização’ das migrações brasileiras ru-
mo à Europa. Isto é, essa terceira vaga migratória é caracterizada
Póvoa Neto, 2012). Este artigo descreve e discute as características por pessoas pertencentes à classe média baixa, cuja inserção no
do último momento migratório brasileiro. Está organizado para mercado de trabalho se dá principalmente em setores menos qua-
enfocar as migrações brasileiras e as oportunidades no mercado lificados e, consequentemente, menos valorizados. Os principais
de trabalho na Bélgica. países receptores dessa migração são Estados Unidos e Inglaterra.
De fato, o Brasil foi uma terra de destino para os europeus até Os atentados de 11 de Setembro nos Estados Unidos e ao metrô de
o início da ditadura civil-militar, nos anos 1960. Todavia, a partir Londres, e a consequente restrição do controle migratório, como
de 1964, intelectuais e sindicalistas expulsos pelo regime ditato- revelam Padilla e Peixoto (2007), contribuíram para o desvio dessas
rial foram em grande parte à Europa. Eram, em geral, pessoas migrações principalmente para países como a Bélgica.
altamente qualificadas, que se inseriram facilmente no mercado
de trabalho europeu (Padilla et Peixoto, 2007). Uma parte dessa Migrações brasileiras e oportunidades de trabalho
leva migrante retornou ao Brasil com a Lei de Anistia em 1979,
trazendo consigo uma imagem positiva dos países de acolhimento, O fluxo expressivo de migrantes de classe média baixa é favo-
inclusive da Bélgica, como nações receptivas e com um mercado recido na Europa por uma estrutura de oportunidade específica:
de trabalho atrativo. a possibilidade de entrar no espaço Schengen como turista, sem
No final dos anos 1970, teve início uma imigração econô- necessidade de pedido de visto de entrada no país. O Acordo de
mica de profissionais altamente qualificados. Esse movimento Schengen é uma convenção entre países europeus (União Eu-
cresceu no início dos anos 1980 com a crise brasileira motivada, ropeia exceto Irlanda e Reino Unido, mais Islândia, Noruega e
principalmente, pela dívida externa e a estagnação do projeto de Suíça) sobre a circulação de pessoas entre os países signatários e
desenvolvimento industrial, que havia sido, desde os anos 1930, uma fronteira comum. Brasileiros entram sem visto, mas devem
a base do crescimento econômico brasileiro (Pochmann, 2009). responder a uma série de condições, como provar a estadia e re-
A balança migratória se invertia, progressivamente, e o Brasil se cursos suficientes para o período da viagem.
tornava, nessa segunda vaga migratória, um país de imigração A autorização funciona como porta de entrada, mas não dá
(Assis, 1999). acesso ao mercado de trabalho. Há, no entanto, uma relevante

49
parte 1 – travessias e migrações

demanda por mão de obra de baixo custo para os chamados 3-D ou legal. Esse setor pouco regulado da economia nacional atrai,
jobs (Dirty, Demanding and Dangerous) (Castles, 2002). Assim, assim, principalmente trabalhadores migrantes, como brasileiros
as oportunidades de trabalho no mercado informal, ou ‘negro’, que entraram como turistas e se encontram em situação irregular
são muitas, sobretudo em setores pouco regulados pelo controle de estadia, sem acesso legal ao mercado de trabalho. Eles entram
governamental: agricultura, restauração, construção e limpeza. no setor da construção – com ou sem experiência – e principal-
Nessa direção, Rosenfeld et al. (2009) salientam que a migra- mente no subsetor das finalizações: pintura, forro e, sobretudo,
ção brasileira tem uma dimensão transnacional por sua mobili- como colocadores de placas de gesso (gyproc) para o forro. A es-
dade entre países europeus e, muitas vezes, também entre Brasil pecialização no subsetor de forro com placas de gyproc apresenta
e Europa. Para esses pesquisadores, essa mobilidade geográfica duas vantagens. Em primeiro lugar, é uma tarefa bem definida,
está a serviço de um projeto migratório que, na maioria dos casos, que pode facilmente ser terceirizada pela empresa responsável
é de uma curta estadia na Europa, o suficiente para economizar pela obra. Em segundo lugar, é uma atividade indoor, isto é, rea-
dinheiro e retornar ao Brasil. O percurso migratório na Europa lizada no interior da obra e por isso menos visível – mais segura
se revela, assim, um jogo estratégico entre oportunidades econô- –, ideal para um trabalhador em situação irregular.
micas e migratórias. No setor de construção, há uma complexa rede de relações
Num continuum migratório, de um lado extremo está o Reino que se estabelece entre grandes empresas e pequenas ou micro
Unido, cuja diferença salarial com o Brasil é das mais relevantes, empresas terceirizadas. Com frequência, há um mestre de obras
mas cujas leis migratórias são extremamente severas. No outro português, um ‘patrão’ brasileiro, que não é senão o encarregado
extremo desse continuum está Portugal, que oferece uma série de pela obtenção e controle da mão de obra e, enfim, o trabalha-
vantagens em termos migratórios, principalmente a facilidade da dor brasileiro. Nessas articulações, não é raro que o intermediário
língua e da organização de frequentes campanhas de regulariza- guarde a metade do salário, e o trabalhador que o realizou recebe,
ção, mas com um mercado de trabalho em crise. Entre os extre- apenas, entre dez a cinco euros a hora trabalhada, dependendo se
mos, a Bélgica parece ocupar uma posição intermediária, por sua o trabalho é especializado ou não.
proximidade de Paris – porta de entrada privilegiada dos turistas
brasileiros – e a relativa facilidade de integração no mercado de O setor do care : limpeza e cuidado
trabalho informal local.
O chamado global care chain, ou redes globais de cuidado
Nichos étnicos e mercado de trabalho belga (Hochschild, 2000), contribuem para o aumento da demanda por
serviços no setor do care (cuidado). Na Bélgica, a demanda se
A repartição de trabalhadores brasileiros entre setores pouco traduz em oportunidades de trabalho na limpeza e no cuidado
regulados da economia belga é marcada: 72% dos homens estão de crianças e de pessoas idosas em domicílio. É comum que as
empregados no setor da construção, enquanto 68% das mulheres trabalhadoras brasileiras se insiram nesse setor, começando por
trabalham no setor da limpeza (OIM, 2009). A grande concen- um trabalho de serviço doméstico que exige que a trabalhadora
tração de brasileiros nesses dois setores revela a existência de ni- durma no emprego, o que lhes permite economizar uma parte do
chos étnicos (Waldinger, 1994) que estruturam esses empregos. salário, acelerar o aprendizado da língua e minimizar os riscos de
Embora somente 15% dos brasileiros trabalhassem nesses setores fiscalização nas idas e vindas de/para o trabalho. No entanto, a si-
antes de sair do Brasil, a diferença salarial é um importante ponto tuação exige forte implicação emocional, pela proximidade com
de decisão. Isto é, apesar do desnível entre a profissão exercida no o empregador, o isolamento e a falta de controle sobre o tempo
Brasil e a atividade profissional na Europa, metade dos brasileiros trabalhado, uma vez que a linha entre o trabalho e o repouso é
empregados nesses setores na Bélgica ganhavam menos de 300 por vezes mal definida.
euros por mês no Brasil (OIM, 2009). Embora essa modalidade de trabalho seja preferida por algu-
A Bélgica oferece, assim, numa lógica de divisão de gênero mas brasileiras recém-chegadas, a maioria procura uma posição
do mercado de trabalho, um nicho de emprego para as mulheres como trabalhadora doméstica em uma família sem exigência de
brasileiras, no setor da limpeza, e, para os homens brasileiros, na dormir no emprego, ou como faxineira, em que trabalham por
construção. É importante ressaltar que, antes de sua integração na hora. Essa modalidade de trabalhar por hora oferece mais ma-
União Europeia, trabalhadores portugueses, e em seguida polone- leabilidade na gestão dos horários, necessária quando crianças
ses, ocuparam, por sua vez, esses mesmos setores, movimentando acompanham o projeto migratório, mas implica, também, uma
o que Waldinger (1994) denomina ‘o jogo étnico da dança das ca- constante busca de um número suficiente de empregadores para
deiras’ entre as nacionalidades (game of the ethnic musical chairs). completar a grade horária semanal, o que pode ser um motivo
de estresse.
Os homens brasileiros na construção Além da limpeza em domicílio, outras oportunidades de tra-
balho para os brasileiros com ou sem estadia regular são ofereci-
O mercado belga da construção depende, de maneira estru- das por empresas de limpeza profissional. O setor é, todavia, bem
tural, de uma mão de obra barata, flexível e sem proteção social distinto do mencionado acima, sendo fisicamente mais pesado e

50
presenças brasileiras na bélgica

mais sujeito à fiscalização do trabalho. Essas características, soma- lhadores e trabalhadoras sejam semelhantes. Consequentemente,
das a horários de trabalho nem sempre fáceis (jornadas noturnas o projeto migratório inicial, de poupar dinheiro a curto prazo, é
e frequentemente irregulares), fazem com que ele seja ocupado, raramente concretizado no tempo previsto.
em sua maioria, por homens. Em 2010, dois terços das infrações À medida que o retorno ao Brasil é adiado, a integração à
constatadas pela fiscalização do trabalho na Bélgica nesse setor Bélgica se acentua. As vantagens sociais, em termos de acesso à
envolviam brasileiros, com 575 casos (SIRS, 2011). educação e à saúde, mesmo para migrantes em situação irregular
de estadia, contribuem para a evolução do projeto migratório no
Conclusão sentido da perenização, sobretudo se há crianças. As possibilida-
des de regularização da estadia e de inserção legal no mercado
O século XXI trouxe ao Brasil um desenvolvimento econômi- de trabalho, todavia, continuam raras, e a situação de irregulari-
co significativo que, como aponta Pochmann (2009), favoreceu dade pode gerar relevantes tensões no seio da comunidade bra-
simultaneamente as classes socioeconômicas mais pobres e mais sileira na Bélgica.
ricas da sociedade, e na qual a classe média foi a menos beneficia-
da com a mobilidade social. O foco deste texto foi, especialmente, Beatriz Camargo é doutoranda em Sociologia na Universidade
a classe média inferior, que representa a maior parte do fluxo de Livre de Bruxelas (ULB) e pesquisadora no GERME (Group of Re-
trabalhadores brasileiros vivendo hoje na Bélgica. Para essa popu- search on Ethnical Relations, Migration and Equality). Faz parte
lação, a migração para o exterior é uma forma de desbloquear a da Associação de Migrantes Brasileiros Abraço (www.abraco-asbl.
mobilidade social que eles não conseguem no Brasil, principal- be) e trabalha com temas de pesquisa sobre migração, trabalho e
mente por falta de especialização profissional. gênero; sua tese de doutorado investiga a formalização do trabalho
Na Bélgica, a migração é, com frequência, familiar e parece doméstico em Bruxelas.
se organizar de maneira complementar em cada casal, em nichos
étnicos específicos e marcados pelo gênero. Assim, as mulheres en- Martin Rosenfeld é doutor em Antropologia pela Universidade Livre
contram principalmente trabalhos regulares e seguros, que permi- de Bruxelas (ULB) e pela École des Hautes Études en Sciences Socia-
tem uma renda estável. Os homens, por sua vez, costumam traba- les-EHESS (França). Atualmente é pesquisador no GERME. Seus
lhar em setores mais expostos, mas cuja remuneração é mais alta. trabalhos estão apoiados na antropologia econômica e na sociologia
A falta de regulação do mercado de trabalho, que atinge os dois urbana e se concentram, principalmente, no fenômeno dos movimen-
setores, entretanto, faz com que as dificuldades vividas pelos traba- tos migratórios transnacionais.

A Associação Arte N’Ativa: um pouco da nossa história...


Isabel De Lannoy

P odemos dizer que a Associação Arte N’Ativa, bastante dinâmica


atualmente na promoção da arte e da cultura popular brasilei-
ras em Bruxelas, “brotou” das sementes nativas da flora brasileira
trazidas para a Bélgica por meio das bio-bijoux produzidas pelas
artesãs Flávia e Patrícia Duarte, ambas irmãs de Isabel Duarte De
Lannoy, coordenadora e presidente da Associação.
Com um histórico de militância e envolvimento com temas
sociais, ambientais e migratórios, Isabel criou em 2007 o Atelier
Arte Nativa Brasil com o objetivo de difundir na Europa o uso das
bio-bijoux fabricadas com materiais naturais, como sementes, ma-
deira, coco, conchas etc., muito populares no Brasil.
A iniciativa foi, em princípio, uma tímida ação de fomento à
prática de consumo sustentável e promoção da economia popular
praticada majoritariamente por mulheres à margem do mercado
formal de trabalho: esta era a realidade das irmãs Duarte (Flávia
e Patrícia) entre outras artesãs do Estado da Paraíba, que foram
as primeiras protagonistas envolvidas no projeto que se pretendia
solidário e transformador. Evento promovido pela associação Art N’Ativa.

51
parte 1 – travessias e migrações

Curso promovido pela associação Arte N’Ativa.

Com o passar do tempo, outras pessoas, sonhos e ideias se to, festa popular), no Club Brasil, trouxe à equipe Arte N’Ativa a
juntaram à iniciativa. Nesse período, Isabel encontra Alessandra, maturidade para se estabelecer como uma importante associação
jovem empreendedora e com aguerrida motivação artística, ingre- sem fins lucrativos (asbl) de promoção cultural na comunidade.
dientes fundamentais para o avanço das ações. As duas buscaram
conhecer melhor o mundo associativo belga e se lançaram no de- A partir disso...
safio de criar algo mais amplo e mobilizador. Com a oficialização
da associação em 2011, juntaram-se a elas outros membros que Após o sucesso da Europalia, conquistamos outro espaço lo-
trouxeram boa dose de dinamismo à equipe, como Myriam Mar- calizado no coração de Bruxelas, o Micro Marché, onde foi pos-
ques, animadora cultural, e Cleverson de Oliveira, artista plástico. sível manter o projeto de difusão da arte e da cultura brasileiras,
Nesse mesmo ano a associação foi selecionada para participar com a realização de concertos, mostras, saraus poéticos, vernis-
do festival Europalia – tradicional bienal de artes, que acontece sages, exposições, workshops, ateliers de reciclagem etc.
há 30 anos em Bruxelas e outros países da Europa, cuja edição Além dos eventos, a equipe investiu ainda no capital social,
2011-12 teve o Brasil como tema. Coube à Associação a respon- realizando o primeiro encontro informativo com ênfase na ade-
sabilidade de propor, organizar e gerir os eventos culturais do são de novos membros a fim de fortalecer o trabalho associativo
Club Brasil, café musical e ponto de encontro do evento. e a inclusão de novas ideias e projetos. A iniciativa foi de grande
A realização de cerca de 50 manifestações artísticas com ar- sucesso e resultou na adesão de vários atores sociais munidos de
tistas brasileiros residentes na Europa (música, dança, artesana- bons projetos e interesse na participação ativa, como, por exemplo,

52
presenças brasileiras na bélgica

Camélia Prado, educadora da área de Saúde Pública, Thierry Van projetos concretos como a Ciranda de Palavras, Rede Eco-Mix e
Schuylenbergh, terapeuta bioenergético, Philippe Quevauviller, “Pérolas do Mundo”, que têm como objetivo comum fortalecer o
professor/músico, Grazielle Furtado e Ricardo Ambrósio, bailari- senso de solidariedade e cooperação da comunidade, que expressa
nos contemporâneos, Paola Depienne, educadora/coaching, José seus valores e saberes, mantendo viva a identidade e diversidade
Álvaro e Matheus Groove, músicos, Dudu e Christiane, voluntá- cultural brasileiras.
rios, entre vários outros. Concluindo, a Associação Arte N’Ativa está envolvida na luta
Atualmente, a organização conta com mais de 20 associados pela construção de uma cidadania criativa e planetária, tendo a
e continua na promoção da arte e da cultura popular brasileiras, arte como instrumento de integração e transformação social.
realizando projetos como “Samba dos Amigos”, Via MPB, I Roda
de Choro de Bruxelas, Forrobodó, além da promoção de artistas Construção de redes e parcerias
brasileiros que estão ou que estiveram apenas de passagem pela
Europa, como a cantora/compositora Déa Trancoso, o maestro É importante dizer que a Fundação Roi Baudouin (FRB) foi
percussionista Caíto Marcondes e o músico pesquisador Alfredo uma parceira fundamental em nossa trajetória associativa, pois ti-
Belo DJ Tudo. vemos dois projetos aprovados pelo Edital da fundação “Migran-
Assim, há mais de três anos atuando de forma ativa e gregária, tes: atores da solidariedade”. Outros parceiros são o IC Brussel
a Associação Arte N’Ativa – cuja “semente nativa” traz em seu (Comitê Internacional de Bruxelas); Wervel (Grupo de Trabalho
cerne os ideais de inclusão e participação – vem crescendo e se por uma agricultura justa e sustentável); o Citizens Vorming Plus
desenvolvendo a cada dia, e funcionando como uma incubadora (ONG que trabalha com fomação para uma cidadania intercul-
de sonhos, que identifica e valoriza o potencial criativo da comu- tural em Bruxelas); o centro cultural Piano Fabriek; a associação
nidade através de seus membros, que são profissionais de diversas Terra Brasil, e a Associação Abraço.
áreas e cujos sonhos, ideias e projetos são acolhidos, compartilha-
dos e realizados. Isabel Duarte De Lannoy é formada em Comunicação Social pela
A Associação aglutina experiências possibilitando aos artistas, Universidade Federal da Paraíba – UFPB e possui pós-graduação em
trabalhadores sociais e profissionais liberais novas oportunidades Cooperação ao Desenvolvimento pela Universidade Livre de Bruxe-
de ações inter e multiculturais. A título de ilustração temos alguns las – ULB; é fundadora e atual presidente da ASBL Arte N’Ativa.

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53
parte 1 – travessias e migrações

54
parte 2 – relações oficiais e diplomáticas

parte 2

Relações Oficiais
e Diplomáticas

55
parte 2 – relações oficiais e diplomáticas

56
A diplomacia brasileira perante o potencial e as pretensões belgas
Pa u l o R o b e r t o d e A l m e i d a

Preliminares de Antuérpia (Onody, 1973, p. 281). Os contatos devem ter conti-


nuado, e se ampliado, durante a ocupação holandesa do Nordeste

O Reino da Bélgica ocupa, na história econômica do Brasil,


uma importância especial, provavelmente similar àquela
ocupada por Portugal na história mundial das navegações e dos
brasileiro, com as interrupções e rupturas que se seguiram às guer-
ras prolongadas e à reconquista final do território pelas forças da
metrópole portuguesa e dos residentes locais. A presença, nos dois
descobrimentos: dois pequenos países, de dimensões geografica- lados, de famílias judias e cristãs-novas dedicadas ao comércio e
mente reduzidas e dispondo de recursos econômicos e humanos às finanças deve ter assegurado a manutenção de vários tipos de
bastante limitados, mas que, no entanto, desempenharam, em vínculos entre a economia exportadora do Brasil e os grandes nú-
suas esferas respectivas, papéis significativos na abertura de no- cleos de comércio controlados pelas companhias dos Países Baixos
vos horizontes econômicos e na exploração de novas atividades na Europa setentrional: os portos sob sua “jurisdição” comercial
humanas. sempre foram grandes distribuidores do açúcar brasileiro e de ou-
Portugal, um reino periférico, com uma sociedade ainda bas- tros produtos exportados pela colônia. A ascensão subsequente dos
tante atrasada, mas dotado de um Estado relativamente “moder- interesses comerciais ingleses, no seguimento da derrota e da as-
no” para os padrões da baixa Idade Média, avançou decisivamente, sociação dos grandes comerciantes holandeses àqueles depois das
desde o início do século 15, na conquista de novos territórios, a guerras mercantilistas travadas entre as duas maiores potências co-
partir de seu posicionamento geográfico ímpar e apoiado numa merciais da Europa do norte, podem ter consolidado alguns desses
aliança entre seus mercadores e líderes políticos dotados de grande laços, a despeito da política exclusivista da metrópole portuguesa,
élan empreendedor, embora também animados pela fé missioná- mesmo a partir dos crescentes vínculos de dependência lusitana
ria típica do espírito das cruzadas. em relação à Inglaterra depois da Restauração (1640).
A Bélgica, constituída como Estado independente vários sé-
culos depois de Portugal, e oito anos depois do Império do Brasil, As relações Brasil-Bélgica no século 19
desempenhou, no entanto, mesmo antes de sua autonomia políti-
ca, mas sobretudo depois, um papel de destaque na primeira revo- As relações oficiais, de governo a governo, começam logo
lução industrial (a do carvão e do aço) e avançou, já no contexto após o rápido reconhecimento pelo Brasil do novo Estado euro-
da segunda revolução industrial (a da química e da eletricidade), peu, o que se deve tanto ao alinhamento do primeiro reinado à
para posições relevantes na industrialização e modernização da política inglesa para o continente europeu quanto o desejo de
infraestrutura do Brasil. De forma não surpreendente, portanto, ampliar o reconhecimento diplomático do novo Império sul-ame-
os vínculos diplomáticos entre os dois países se contam entre os ricano no contexto europeu (Stols, 1999, p. 210). O Brasil man-
mais duradouros, estáveis e promissores nas suas histórias diplo- teve, quase sempre, diplomatas profissionais à frente da legação
máticas respectivas e nas suas relações bilaterais, de todos os tipos. em Bruxelas, sendo que já mantinha um cônsul de carreira desde
antes da independência belga. O reino também despachou repre-
O quadro histórico sentante ao Brasil assim que foi possível fazê-lo (1834), logran-
do-se, logo em seguida, a assinatura de um tratado de comércio
São antigas as relações, geralmente comerciais, entre o terri- (Stols, 1999, p. 209-210).
tório da Flândria e a maior colônia do Império português. Um Comércio à parte, muitos jovens brasileiros fizeram estudos
historiador informa que, já no século 16, o engenho de açúcar de universitários em diversas instituições belgas, geralmente em me-
Erasmo, em Santos, tinha relações financeiras com a casa Schetz, dicina ou nas escolas politécnicas das universidades de Bruxelas e

57
parte 2 – relações oficiais e diplomáticas

a ­Grã-Bretanha, no seguimento da chamada Questão Christie


(Stols, 1973, p. 259), o que certamente agregou ao capital de sim-
patia de que dispunha o pequeno reino entre os brasileiros em
geral, e entre os diplomatas em particular. Pedro II visitou várias
vezes a Bélgica, no curso de suas diversas viagens internacionais.
A partir de então, iniciativas belgas para efetuar negócios e em-
preender investimentos diretos no Brasil sempre foram acolhidas
com boa vontade, a exemplo de projetos em estradas de ferro, da
navegação do Paraguai e da exploração e transformação de recur-
sos naturais no Mato Grosso (Garcia, 2009; Stols, 1987).
Menor sucesso, porém, tiveram as investidas e os projetos
colonialistas de Leopoldo II em direção do Brasil (Stols, 1987;
1999, p. 231), inclusive porque o Brasil não podia ser equipara-
do às terras incógnitas da Ásia ou da África, como os diplomatas
brasileiros não deixavam de recordar. Os empreendimentos clara-
mente capitalistas crescem então em importância: um primeiro
investimento direto, na Société Anonyme du Gaz de Rio de Janei-
ro, é feito desde 1886 (Onody, 1973, p. 300), seguido de diversos
outros, sobretudo no setor ferroviário. Ocorre então uma vaga
Carro Imperial construído em 1886 na Bélgica para servir ao Imperador Pedro II. de investimentos belgas no Brasil no final do século 19 e início
do 20, paralelamente a outros investimentos belgas efetuados na
Gand (Stols, 1999, p. 211). O Brasil, obviamente, vendia sobretu- Rússia, no Congo, no Egito, entre outros países: Stols identifica
do café – não apenas para a Bélgica, mas a partir da Bélgica para pelo menos 57 companhias belgas autorizadas a operar no Brasil
diversos outros clientes na Europa do norte – e adquiria do país entre 1876 e 1920, disseminadas por quase todo o território bra-
materiais diversos, entre eles equipamentos militares, como armas sileiro (1973, p. 262-265).
de guerra, especialidade das fábricas de Liège.
O primeiro estudo sério das contas públicas brasileiras foi efe- Os investimentos belgas no Brasil no início do
tuado no início do segundo império pelo ministro belga no Rio século 20
de Janeiro, o Conde Auguste Van der Straten Ponthoz, em três
grossos volumes: Le Budget du Brésil (1847). Pelo exame da distri- Os investimentos se diversificam no início do século 20, mas
buição de recursos entre as legações e os consulados do Brasil no o destaque cabe, sem qualquer hesitação, ao setor mineral e me-
exterior se podia constatar a hierarquia diplomática estabelecida talúrgico, ramo no qual a companhia Belgo-Mineira pode ser
pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros: as despesas alocadas, considerada como a pioneira efetiva do início dessa indústria no
conjuntamente com as representações na Bélgica e na Holanda Brasil (Stols, 2013). A indústria leve de transformação – têxtil,
ascendiam a 5,3 contos de réis, em paridade com os recursos atri- vidro, confecções, marcenaria, papelaria e impressão – e os servi-
buídos à representação em Montevidéu e pouco abaixo de As- ços comerciais e financeiros também concentram a atenção dos
sunção, mas bem abaixo (num distante 15º lugar) dos montantes investidores belgas, que chegam a representar parte substancial
alocados à primeira legação em importância, Londres, que rece- dos investimentos diretos estrangeiros no Brasil nesse período
bia 16,4 contos no orçamento de 1846-47 (Ponthoz, 1847: 169). (embora com presença mais modesta na vertente dos emprésti-
À margem das observações críticas que o ministro belga fazia mos puramente financeiros, a despeito mesmo da participação
sobre o orçamento brasileiro, o interesse maior – dos dois países, de bancos belgas em algumas operações de valorização do café,
aliás – estava concentrado no comércio e, do lado brasileiro, na conduzidas nessa época).
imigração belga para o Brasil, embora a permanência do tráfico, Deve-se considerar, também, que muitos interesses belgas es-
primeiro, e da escravidão, durante quase todo o século 19, tenha tavam representados por, ou associados a, capitais e companhias
limitado bastante as possibilidades de cooperação nesse particular. inglesas, francesas ou holandesas, e que boa parte dos aportes dire-
Mas a Bélgica podia servir de centro de recrutamento para agri- tos foram feitos em capital humano, embutido nos trabalhadores
cultores da Alemanha e de outras regiões da Europa, da mesma e técnicos especializados que emigraram ao Brasil, cuja dimensão
forma como os portos da Bélgica e da Holanda eram receptores econômica é de difícil avaliação (Stols, 1973, 1999).
e distribuidores dos principais produtos brasileiros de exportação Essa presença dispunha da simpatia manifesta da diplomacia
nas mesmas regiões (Almeida, 2005). brasileira, que sempre manteve em Bruxelas diplomatas experien-
Há também o registro positivo da arbitragem efetuada em 1863 tes. A reciprocidade nessa área se deu sobretudo pela participação
pelo rei da Bélgica, Leopoldo I, em favor do Brasil, no caso do brasileira em exposições universais e outras mostras internacionais
conflito político e do rompimento de relações diplomáticas com que eram realizadas na Bélgica, na época áurea do exibicionismo

58
parte 2 – relações oficiais e diplomáticas

Carro utilizado pelo Rei Alberto I, da Bélgica, em sua visita ao Brasil em 1920. Construído nas oficinas do Engenho de Dentro, Rio de Janeiro. O autor do projeto art
nouveau do carro não foi identificado.

burguês (Pesavento, 1997). O engajamento do Brasil nesse tipo O desenvolvimento das relações nos últimos
de empreendimento se deveu em grande medida a diplomatas cem anos
brasileiros, a exemplo de Brazílio Itiberê da Cunha, ministro em
Bruxelas e grande entusiasta dos congressos de “expansão econô- No curso do século 20, o Brasil continuou a marcar sua presen-
mica”, tal como ele havia visto e participado em Gand, no início ça político-diplomática na Bélgica, pela participação, por exem-
do século (Cunha, 1907). plo, em feiras e exposições universais organizadas no reino, bem
O auge do bom relacionamento diplomático ficou claramen- como no terreno econômico, pela organização de mostras espe-
te evidenciado pela visita de alto nível, inédita, de um soberano ciais de seu esforço de expansão comercial – como a “Brasil Ex-
europeu, feita ao Brasil em 1920 pelo Rei Alberto I, cuja comitiva port”, de 1973, perturbada pelas manifestações contra a ditadura
deslocou-se inclusive ao Estado do Presidente Artur Bernardes, militar – e pela instalação de companhias brasileiras em sua ca-
Minas Gerais, visita da qual resultou justamente a criação da pital, entre elas a grande exportadora de minério de ferro, Vale
Companhia Belgo-Mineira (aliás, belgo-luxemburguesa) no ano do Rio Doce. A Companhia Belgo-Mineira, por sua vez, sempre
seguinte (Stols, 2013). O convite formal para a visita de Estado representou bem mais do que uma simples siderúrgica – setor no
tinha sido formulado pelo delegado do Brasil na conferência de qual, aliás, ela colocou o Brasil à frente de todos os outros países
Versalhes, Epitácio Pessoa, no contexto da enorme popularida- latino-americanos – e soube se integrar perfeitamente à paisagem
de do “rei-soldado” que tinha despertado a admiração de todos mineira e à economia brasileira em seu esforço de industrializa-
os brasileiros por sua corajosa participação na resistência militar ção, sem descuidar das atividades culturais e esportivas.
do exército belga contra a ofensiva alemã na Primeira Guerra Trata-se de uma das mais longas relações diplomáticas manti-
Mundial (Baptista, 2008). das bilateralmente pelo Brasil de forma ininterrupta desde a cria-

59
parte 2 – relações oficiais e diplomáticas

ção do reino – à exceção de pequeno período de ausência física BAPTISTA, Paulo Francisco Donadio. “Tem Rei no Mar”, Revista de História da Biblio-
durante a Segunda Guerra Mundial, sem que isso, porém, signifi- teca Nacional, n. 34, julho 2008. Disponível em: <http://www.revistadehistoria.com.
br/secao/artigos/tem-rei-no-mar>.
casse rompimento diplomático –, numa interação que alimentou, CUNHA, Brazílio Itiberê da. Expansão Econômica Mundial. Rio de Janeiro: Imprensa
igualmente, um dos mais profícuos exemplos de cooperação cul- Nacional, 1907.
tural e educacional em benefício do Brasil: milhares de estudantes GARCIA, Domingos Sávio da Cunha. Território e negócios na “Era dos Impérios”: os belgas
na fronteira Oeste do Brasil. Brasília: Funag, 2009.
brasileiros, em todas as épocas, formaram-se no terceiro ciclo e/ou ONODY, Oliver, “Quelques Aspects Historiques des Capitaux Étrangers au Brésil”. In:
aperfeiçoaram-se cientificamente nas mais diversas instituições su- Colloques Internationaux du Centre National de la Recherche Scientifique, n. 543,
periores da Bélgica, o que também confirma o argumento que ini- L’Histoire Quantitative du Brésil de 1800 a 1930. Paris: Éditions du Centre National
de la Recherche Scientifique, 1973, p. 269-314.
ciou este pequeno ensaio: a despeito de ser um país relativamente PESAVENTO, Sandra Jatahy. Exposições Universais: espetáculos da modernidade do século
pequeno, a Bélgica ocupa um peso e uma importância despropor- XIX. São Paulo: Hucitec, 1997.
cionais no processo de modernização econômica brasileira e na PONTHOZ, Comte Auguste Van der Straten. Le Budget du Brésil ou recherches sur les
ressources de cet Empire dans leurs rapports avec les intérêts européens du commerce
sua presença político-diplomática, educacional e cultural mundial. et de l’émigration. Bruxelles: Librairie Muquardt, 1854, 3 vols.; 1. ed.: 1847 (cópia
digital disponível na Bayerische StaatsBibliothek. Disponível em: <http://reader.di-
Paulo Roberto de Almeida é Doutor em Ciências Sociais pela Uni- gitale-sammlungen.de/resolve/display/bsb10310302.html>. STOLS, Eddy, “Présen-
ce et activités diplomatiques de l’Empire du Brésil dans le Royaume de Belgique
versidade Livre de Bruxelas (1984); Mestre em Planejamento Econô- (1830-1889)”. In: MATTOSO, Katia de Queirós; DOS SANTOS, Idelette Muzart-
mico pelo Colégio dos Países em Desenvolvimento da Universidade Fonseca; ROLLAND, Denis (orgs.). Le Brésil, l’Europe et les équilibres internatio-
do Estado de Antuérpia (1977); Bacharel em Ciências Sociais pela naux XVIe-XXe siècles. Paris: Presses Universitaires de France, Centre d’Études sur
le Brésil, 1999, p. 209-245.
Universidade Livre de Bruxelas (1975); diplomata de carreira desde STOLS, Eddy. “Les Belges au Mato Grosso et en Amazonie, ou la récidive de l’aventure
1977; professor nos programas de Mestrado e Doutorado em Direito congolaise”. In: DUMOULIN, Michel; STOLS, Eddy (orgs.). La Belgique et l’étran-
do Centro Universitário de Brasília (Uniceub); autor de diversas obras ger au XIXe et XXe siècles. Louvain-La-Neuve:Collège Érasme; Éditions Nauwelaerts,
1987, p. 77-112.
de Relações Internacionais, especialmente na vertente econômica, so- STOLS, Eddy. “Les Investissements Belges au Brésil (1830-1914)”. In: Colloques Interna-
bre a integração regional e de história diplomática brasileira; página tionaux du Centre National de la Recherche Scientifique, n. 543, L’Histoire Quanti-
pessoal: www.pralmeida.org. tative du Brésil de 1800 a 1930. Paris: Éditions du Centre National de la Recherche
Scientifique, 1973, p. 259-267.
STOLS, Eddy. “Présences belges et luxemburgeoises dans la modernisation et l’industria-
Referências lisation du Brésil”. In DE PRINS, Bart; STOLS, Eddy; VERBERCKMOES, Johan
(orgs.). Brasil, Cultures et Economies de Quatre Continents. Lovaina, Acco, 2001,
ALMEIDA, Paulo Roberto de. Formação da Diplomacia Econômica no Brasil: as relações p. 121-164.
econômicas internacionais no Império. 2. ed.; São Paulo/Brasília: Senac-SP/Funag,
2005.

60
parte 2 – relações oficiais e diplomáticas

Dois diplomatas belgas no Brasil imperial: Edouard de Jaegher


(1839-1843) e Gabriel Auguste Van der Straten Ponthoz (1845-1849)
M i lt o n C a r l o s C o s ta

Introdução Jaegher deteve-se na análise das relações entre o Brasil e a In-


glaterra. “Há uma potência da qual o dedo está gravado sobre os

A reconstituição e análise da visão do Império brasileiro pelos


diplomatas belgas acreditados no País permite apreciar a his-
tória brasileira e platina da época – um período particularmente
principais acontecimentos do Brasil: a Inglaterra”, afirmou Jaegher
em 1º de agosto de 1840. Na mesma carta, o diplomata afirma que
a Inglaterra impediu a recolonização do Brasil e conseguiu uma
complexo e desafiante – a partir de um ângulo diferente: de uma sólida posição no país com os tratados de 1810 e 1826, que lhe
perspectiva europeia. deram favores excepcionais, garantindo seus interesses de potência
Neste artigo apresentamos uma síntese interpretativa da cor- comercial, industrial e colonial.
respondência política enviada para o governo belga sobre o Brasil Para Jaegher, a posição privilegiada da Inglaterra sofreu uma
imperial por dois diplomatas dos mais interessantes que estiveram degradação com o tempo: de um lado, devido ao desenvolvimento
no Brasil: Edouard de Jaegher e Van der Straten Ponthoz. do país (produção agrícola etc.), de outro, com a concorrência, a
partir de 1836, de países como Portugal, França, Estados Unidos.
Edouard de Jaegher (27/07/1806 – 06/03/1883) Ademais, o Brasil deixara claro seu desejo de não renovar os tra-
tados existentes.
Edouard de Jaegher substituiu Benjamin Mary como encarre- Jaegher tratou em sua correspondência, largamente, dos con-
gado de negócios da Bélgica no Brasil. Nasceu em Bruges. Entrou flitos platinos, detendo-se muitas vezes na análise de Rosas e de sua
muito cedo na administração do Brabante Meridional. Por Arrêté política. O diplomata faz dele uma caracterização completa, um
Royal do Rei Guilherme I, de 20 de agosto de 1825, juntou-se à retrato brilhante, não isento de fascínio pelo retratado, em cartas
missão do Visconde L. P. J. Dubus de Ghisignies, governador do de 16 e 24 de setembro de 1840:
Brabante Meridional, o qual acabava de ser nomeado Comissário- “Rosas, de seu lado, escuta o ministro da Inglaterra, mas só
Geral para as Índias Orientais Holandesas. segue suas opiniões na medida em que elas correspondem a suas
Jaegher fazia parte do grupo de cinco funcionários que as- ideias pessoais. Impassível no meio dos perigos que o ameaçam,
sessoravam aquela autoridade colonial. Permaneceu no posto do ele parece não preocupar-se com sua grandeza; indiferente a tu-
começo de 1826, quando chegou às Índias Orientais, a junho de do o que atrás dele cairia com ela, ele retomaria, meio selvagem
1830, data de seu retorno à Bélgica. ainda como ele as deixou, suas emboscadas, suas armas de caça;
Após a Revolução da Independência belga, Jaegher entrou na intrépido cavaleiro, combatente astuto, ele não teme seu homem
administração do país tornando-se comissário distrital em Oude- quem quer que ele seja; ele sempre será o chefe dos caçadores do
narde, função na qual permaneceu até 1839. Em 9 de junho de touro selvagem, se ele não é mais o chefe de sua República. Com
1835 foi eleito deputado por sua comuna e esteve na Câmara de homens como esses, que não recuam diante de nada, que sabem
Deputados até 11 de junho de 1839. espalhar, sucessivamente e segundo as fraquezas, o ouro e o terror,
O novo diplomata chegou ao Rio de Janeiro em 2 de outubro não há nunca nada de positivo antes de ocorrer. Dez dias de demo-
de 1839, permanecendo no Brasil até novembro de 1843. ra, num golpe repentino como o de Lavalle, diante de um homem
Nomeado encarregado de negócios junto às cortes da Suécia oportunista como Rosas, é excessivo.”
e da Noruega, estabeleceu-se em Estocolmo e aí ficou até o fim Quanto ao Império brasileiro, Jaegher insistiu muito na neces-
de 1847. Sua nomeação como ministro residente junto à corte de sidade de reformas institucionais, o que parecia estar ligado à sua
Madri foi feita em 12 de novembro de 1847. Permaneceu pouco concepção de um equilíbrio constitucional necessário ao funcio-
tempo na Espanha sendo chamado à Bélgica para ocupar um alto namento harmônico das instituições brasileiras.
posto administrativo. O diplomata parecia inclinar-se por uma monarquia forte, ati-
Nomeado governador da Flandres Oriental em 1º de setem- va, ilustrada e popular. Era obcecado pela manutenção da monar-
bro de 1848, passou a exercer a função no dia 6 do mesmo mês quia brasileira e pelo fantasma do republicanismo. A análise que
e permaneceu no cargo por 23 anos, até agosto de 1831, quando fez da guerra em geral e das rebeliões brasileiras – e também dos
sua demissão honrosa por motivo de idade foi aceita. conflitos platinos – mostra como ele esteve atento à sua conside-
Uma nota de 1878 mostrava-o vivendo em Bruxelas como apo- ração como fenômeno global, tratando tanto da crônica militar
sentado do Estado belga. Sua morte ocorreu em Uccle, a 6 de quanto da influência dos fatores políticos, das finanças, do con-
março de 1883, segundo informação de seu irmão. trabando e do comércio.

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parte 2 – relações oficiais e diplomáticas

Gabriel Auguste Van der Straten Ponthoz Ele via com muita clareza o fenômeno do expansionismo
(14/09/1812 – 23/02/1900) americano e foi crítico em relação a certos aspectos da realidade
norte-americana. Tais posições são devidas, provavelmente, à sua
O conde Ponthoz foi o sucessor de Jaegher como representan- permanência durante certo tempo nos Estados Unidos. Foi o úni-
te diplomático belga no Brasil. Entrou na diplomacia em 1838, co dos representantes belgas no Brasil que atribuiu a uma causa
inicialmente junto à legação belga em Estocolmo, da qual se tor- econômica as rebeliões que sacudiram o País entre 1831 e 1849.
nou Segundo Secretário em 1839. Em 1840 foi transferido para Afirma ele em carta de 26/2/1849 que “[...] a população das
Washington, sendo promovido a Primeiro Secretário. províncias não cessa de girar num círculo de desordens que são pro-
Representou a Bélgica no Brasil entre outubro de 1845 – sua duzidas pela falta de atividades econômicas das quais essas desor-
primeira carta do Rio é de 22/10/1845 – e 1849 – sua última carta dens impedem todo impulso”. Ponthoz esteve longe da obsessão de
foi escrita em 14/04/1849. Jaegher em relação à permanência e consolidação da monarquia
Ponthoz esperou a chegada de seu substituto, J. Lannoy, antes brasileira. Assim, ele viu de maneira realista um possível desmem-
de regressar a seu país, apresentando-o ao corpo diplomático e às bramento do Sudoeste brasileiro do resto do País, contando com
mais influentes personalidades do País. Lannoy afirmou que seu a emigração europeia para apoiar os interesses da Europa no caso
antecessor havia estabelecido excelentes relações, sendo tido em da concretização da hipótese.
alta consideração no Rio de Janeiro. Interessante é sua ideia de que os fatores pessoais dominavam
Ponthoz foi nomeado em seguida para Lisboa (1848), como no Brasil os negócios do Estado, chamando a atenção para um
encarregado de negócios. Em 1853 foi designado para ocupar fenômeno realmente importante da história brasileira.
as mesmas funções em Madri, sendo elevado em 1850 à catego- O diplomata deixou uma análise bastante clara dos partidos
ria de enviado extraordinário e ministro plenipotenciário. Nessa políticos do Império. Em carta de 7/10/1848, ele traçou a origem
última qualidade esteve sucessivamente em Munique (1867) e dos dois partidos do Brasil monárquico:
Haia (1881). “A influência que trouxe a independência do Império em 1822
Durante sua permanência em Haia, participou como ple- e a abdicação de D. Pedro I em 1831 exagerando suas doutrinas,
nipotenciário belga da Conferência Africana (15/11/1884 a deveria chegar por novas agitações a uma organização republicana.
26/02/1885). Então se organiza um partido conservador que empreendeu salvar a
Teve participação ativa: “Oficialmente ou nos bastidores, nossos ordem e as instituições, enquanto que um outro partido saía da revo-
delegados desenvolveram neste momento uma incessante atividade lução e da democracia para se reunir à monarquia ao mesmo tem-
para obter o reconhecimento por todos do novo Estado Independen- po em que prosseguia o desenvolvimento das instituições liberais.”
te do Congo. Eles foram vitoriosos”. É o que afirma a Biographie Ponthoz mostrou em 27/9/1847 quais eram esses partidos e
Coloniale Belge, t. V, col. 779. suas características:
Ponthoz foi colocado em disponibilidade a seu pedido e apo- “[...] dois partidos principais dividem o Brasil. Eles se chamam
sentado em 1888, retirando-se ao castelo de Ponthoz onde dedicou Saquarema e Santa Luzia nomes de localidades assinaladas por
seu tempo livre à redação de suas memórias. Anteriormente, em perturbações políticas do Império; nós os conservaremos para preve-
plena atividade profissional, escrevera dois livros: Pesquisas sobre nir assimilações inexatas. Os Saquarema invocam o princípio mo-
a situação dos emigrantes nos Estados Unidos (Bruxelas, 1846) nárquico como base de toda organização política. Os Santa Luzia
e O orçamento do Brasil (3 vols., Bruxelas, 1845). O título com- invocam o princípio das instituições liberais regularizadas e desen-
pleto da obra é: Le budget du Brésil, ou recherches sur les ressour- volvidas sob os auspícios da monarquia. Esses dois partidos se acu-
ces de cetempire dans leurs rapports avec les intérêts du européens sam mutuamente de tendências despóticas pelo exagero das medi-
du commerce et de l’émigration. Como é demonstrado pelo título das de ordem e anárquicas pelo exagero das medidas de progresso.”
mesmo de suas obras, Ponthoz dedicou atenção especial ao te-
ma da emigração, esboçando, numa de suas cartas ao ministro Mílton Carlos Costa é graduado em História pela Universidade
de Relações Exteriores da Bélgica (2/12/1845), uma “teoria” da Católica de Lovaina, Doutor em História Social pela Universidade
emigração europeia para a América do Sul. Ele atribui a ela uma de São Paulo, Livre-Docente em Introdução aos Estudos Históricos
função estratégica na defesa dos interesses econômicos e políticos pela Universidade do Estado de São Paulo (Unesp)- campus de As-
da Europa industrializada. sis, professor e pesquisador de História do Brasil e Historiografia na
Ponthoz combinava seu realismo com um certo visionarismo, Unesp-Assis.
presente nas perspectivas otimistas que visualizava para a emi-
gração europeia em direção aos países sul-americanos e em seu Referência
plano de libertação do Brasil de sua dependência financeira em COSTA, Milton Carlos. Visões políticas do Império. Diplomatas belgas no Brasil (1834-
relação à Inglaterra. 1864). São Paulo: Annablume, 2011.

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parte 2 – relações oficiais e diplomáticas

Oliveira Lima: um homem certo no lugar certo


Clodoaldo Bueno

M anoel de Oliveira Lima nasceu na cidade de Recife no Natal


de 1867. Seu pai, comerciante português lá estabelecido,
retornou velho para sua terra natal após formar bom patrimônio.
que culminariam no Tratado de Petrópolis (1903), que pôs fim à
difícil questão do Acre.
Removido para Caracas, assumiu a legação em 12 de março
Manoel foi praticamente criado em Lisboa, aonde chegou com de 1905 após resistências afinal vencidas por Rio Branco que lhe
seis anos de idade. Teve vida confortável e pôde desfrutar de bom concedeu vantagens funcionais e prometeu-lhe um posto na Eu-
ambiente cultural. Cursou a Faculdade de Letras, e teve oportu- ropa. Pouco tempo ficou na Venezuela; só o suficiente para assi-
nidade de conhecer Teófilo Braga, de quem foi discípulo. nar o protocolo do tratado de delimitação de fronteiras entre os
Durante seus estudos em Lisboa dedicou-se às então chama- dois países, em 9 de dezembro de 1905. Governava a Venezuela
das “ciências auxiliares” da história, o que lhe desenvolveu o gos- o caudilho Cipriano Castro, a quem chegou a admirar, conforme
to pelo trato das fontes documentais. Em julho de 1883 escreveu exprimiu-se em carta a Nabuco, “pela sua energia e desassom-
uma série de artigos para o Comércio de Lisboa e em agosto de bro”, qualificando-o como “um lutador nato”. Caracas foi para o
1885 iniciou sua colaboração para o Jornal do Recife. Crítico feri- diplomata pernambucano um ponto de observação privilegiado
no, escreveu sobre história, literatura, artes plásticas, arquitetura e para conhecer a prática do monroísmo de Theodore Roosevelt,
teatro. Apesar de prevenções antibritânicas, admirava a Inglaterra consubstanciado no big stick, levando-o a formular reservas ao
(Gouvêa, 1976, p. 86-87, 94-5, 97-8). pan-americanismo dos Estados Unidos tal como concebido pelo
Após a conclusão de seus estudos (1888), buscou um cargo seu presidente em 1906.
na carreira diplomática, o que conseguiu logo depois (1890), ain- Depois de recusar a legação brasileira na Cidade do México,
da jovem, sendo nomeado 2º Secretário da legação do Brasil em Lima foi nomeado para chefiar a de Bruxelas, alcançando, final-
Lisboa por Quintino Bocaiúva, primeiro Ministro das Relações mente, o ambicionado posto na Europa. A cidade casava bem com
Exteriores da recém-implantada República no Brasil. Em maio seu perfil de historiador e homem de letras (em 1897, com apenas
de 1892 foi removido para Berlim, e lá permaneceu por três anos. 29 anos de idade, Oliveira Lima tornou-se membro da Academia
Em maio de 1896 assumiu o cargo de 1º Secretário da legação Brasileira de Letras), pois, além de culta e agradável, permitia-lhe
brasileira em Washington, onde foi subordinado e admirador de visitar outros grandes centros europeus para coletar material para
Salvador de Mendonça. Em razão de desavenças pessoais com J. suas pesquisas históricas. A função na Bélgica foi exercida cumu-
F. de Assis Brasil, sucessor daquele na chefia da legação, Oliveira lativamente com a legação do Brasil em Estocolmo.
Lima pediu e obteve remoção para Londres, para aonde partiu de Lima assumiu a legação em Bruxelas em 2 de março de 1908
Nova York em janeiro de 1900. Pouco ficou nesse cargo, pois foi e em 7 de abril entregou sua credencial ao Rei Leopoldo II (1835-
nomeado Encarregado de Negócios no Japão, cuja legação assu- 1909). Apenas decorridos 15 dias de sua chegada, Lima enviou a
miu em junho do ano seguinte (Gouvêa, p. 359-394, 285, 319). Rio Branco relatório sobre questões políticas e perspectivas econô-
Em novembro de 1902 foi promovido a Enviado Extraordinário e micas da Bélgica e da colônia do Congo. Referiu-se ainda a uma
Ministro Plenipotenciário no Peru, mas permaneceu no Japão até 7 possível imigração belga para o Brasil.
de março do ano seguinte, quando embarcou em direção ao Brasil. O rei dos belgas estava atento às possibilidades de investimen-
O novo Ministro das Relações Exteriores, Barão do Rio Bran- tos e incremento do intercâmbio comercial com o Brasil, coin-
co, confirmou sua nomeação para o Peru, mas pediu-lhe a presen- cidindo com as concepções do diplomata. Causa surpresa ao ob-
ça imediata no Rio a fim de passar-lhe instruções antes de seguir servador de hoje o fato de Lima, crítico da política imperialista
para Lima, pois contava com seus conhecimentos para acompa- norte-americana, ter formado opinião positiva sobre Leopoldo II,
nhar os problemas de fronteira entre Peru e Bolívia que interessa- bem como de sua política imperialista no Congo. Para Gouvêa, a
vam ao Brasil, então às voltas com a questão do Acre (Gouvêa, p. identificação de Oliveira Lima com o imperialismo belga foi um
443-5; Almeida, p. 252). erro de previsão histórica.
Lima, todavia, em correspondência oficial e particular nada Além dos assuntos próprios da política externa, Lima enviava
mencionou a esse respeito, além de ter significado seu desagrado relatórios, ofícios e publicações de interesse prático para o Brasil,
com a nomeação para o Peru e reiterado suas solicitações referen- como o artigo sobre o aproveitamento do solo em face do indus-
tes a vencimentos e licença. Afora isso, Lima retardou sua chegada trialismo exagerado em voga na Europa. Prefaciou o livro (1910)
ao Rio de Janeiro, o que Rio Branco interpretou como recusa ou sobre o ensino profissional e agrícola do engenheiro belga Armand
desinteresse em participar das negociações para as quais estava Ledent, ligado, inclusive, ao projeto da Escola Agrícola de Piraci-
preparado. Mesmo nomeado, Lima não chegou a ir para a capi- caba (SP) e ao ensino agrícola profissional em Araras. Da mesma
tal do Peru, pois o Chanceler reteve-o no Rio de Janeiro, a título forma levava ao conhecimento da chancelaria tudo o que interes-
de aguardo de instruções, mas deixando-o alheio às conversações sava à indústria açucareira do Brasil. Na mesma linha, inspirou

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parte 2 – relações oficiais e diplomáticas

a publicação de artigos sobre o Brasil na imprensa belga, como o na Sorbonne, Lima deu início, em 15 de março de 1911, a um
do Etoile Belge (25/1/1909) sobre o Estado de Pernambuco e sua curso sobre Formation historique de la nacionalité brésilienne no
indústria açucareira (cf. Gouvêa, 1976, pp. 669-814). anfiteatro Turgot da Faculdade de Letras.
Lima foi adepto da diplomacia econômica, à época também De outubro a dezembro de 1909 Lima esteve em Estocolmo,
designada por diplomacia moderna, no entendimento de que o na qualidade de ministro, para restabelecer a representação diplo-
alargamento das relações mercantis solucionaria os problemas mática brasileira junto ao governo da Suécia, com o qual negociou
econômicos nacionais. A diplomacia do século XX, dizia, seria um convênio de arbitramento. De volta a Bruxelas, em março de
“muito mais comercial do que política”. Ao pedir a “republicani- 1910, tomou parte na inauguração do Pavilhão Brasileiro na ex-
zação” da diplomacia do Brasil, opinou que sua “tarefa capital, posição mundial. Na oportunidade, Lima promoveu concerto de
além da promoção da inteligência política” seria promover a ex- gala, com execução de trechos de composições de maestros brasi-
pansão econômica. Lima reiteraria, em 1927, que “os interesses do leiros, como Carlos Gomes, Manoel Joaquim de Macedo, Alberto
Brasil, uma vez descrito e fechado o círculo das nossas fronteiras, Nepomuceno e o violinista Francisco Chiaffitelli.
são sobretudo econômicos” (Apud Gouvêa, p. 569, 797, 806, 1635; O momento mais destacado da diplomacia cultural de Oli-
Almeida, p. 258-60). veira Lima foi a soirée de 4 de abril de 1910, promovida pela So-
A concepção de diplomacia econômica completava-se em Oli- cieté Royale Belge de Geographie, no Théâtre de la Monnaie, em
veira Lima com o exercício de bem sucedida diplomacia cultural Bruxelas, quando palestrou, na presença do novo rei, Alberto I
na Bélgica, país que ocupava posição privilegiada na Europa co- (1875-1934), sobre La conquête du Brésil. No decorrer da expo-
mo centro econômico e intelectual, o que lhe permitia divulgar os sição foram insertos trechos musicais de autores brasileiros e, ao
valores culturais e as possibilidades do Brasil por meio de artigos final, executaram-se uma suíte de Alberto Nepomuceno, a com-
em jornais, revistas e conferências. Começou pela Universidade posição do Padre José Maurício (Est incarnatus est), e Tiradentes,
de Lovaina, onde pronunciou palestras sobre La langue portu- de Manoel Joaquim de Macedo. A festa foi encerrada com a exe-
gaise e La littérature brésilienne em 15 e 18 de janeiro de 1909. cução dos hinos nacionais brasileiro e belga (La Brabançonne).
Teve êxito, também, ao criar, às suas expensas, um curso gratuito O Etoile Belge noticiou o evento (Fleiuss: 1937, p. 276; Gouvêa,
de português. Embora não tenha resultado de ação direta da le- pp. 815-941).
gação, Lima inaugurou a Câmara de Comércio Belgo-Brasileira, Lima, aborrecido com o rumo que tomava sua carreira, pediu
a primeira desta natureza criada pelo Brasil na Europa, associan- aposentadoria. O sucessor imediato de Rio Branco no Ministério
do-se ao empreendimento de Afonso Toledo Bandeira de Melo e das Relações Exteriores, Lauro Müller, para mantê-lo no quadro,
do Comissariado de São Paulo na Exposição Universal (Gouvêa, não deu andamento a seu pedido e para que refletisse antes de
p. 814-5, 906-7, 951-3). consumar uma decisão definitiva sugeriu-lhe uma licença, por ele
Bruxelas facilitava-lhe estabelecer contatos com universida- aproveitada para ministrar conferências a partir de 1o de outubro
des e participar de reuniões científicas realizadas na Europa na de 1912 na Califórnia (EUA).
qualidade de representante do Brasil. Assim, compareceu ao 16º Rio Branco, provavelmente por respeitar os talentosos, foi pa-
Congresso Internacional de Americanistas em Viena (9 a 14 set. ciente e tolerante com as insolências de Oliveira Lima, cujas po-
1908), ao 9º Congresso Geográfico em Genebra (27 jul. a 6 ago. sições chegaram a repercutir no legislativo federal, o que levou
1908), para o qual preparou a tese Le Brésil, sés limites, sés voies de o deputado Dunshee de Abranches a fazer a defesa do ministro
pénétration. As sessões de geografia econômica foram presididas das Relações Exteriores na Câmara (Abranches, v. 2, p. 137-202).
pelo grande Vidal de La Blache. No congresso de americanistas, Falecido Rio Branco (fevereiro de 1912), a situação funcional de
Lima apresentou moção, aprovada por unanimidade, propondo seu crítico só piorou. Müller não teve autonomia e força suficien-
que nos futuros congressos o português fosse incluído entre as tes para barrar injunções políticas sobre o Ministério e, assim, o
línguas admitidas, como já o eram o francês, o inglês, o alemão, jornalista-diplomata, em razão de seu destempero verbal e de sua
o espanhol e o italiano. pena afiada, não teve a nomeação para a legação de Londres, sua
Em março de 1909 Rio Branco consultou Lima, estimando antiga aspiração, referendada pelo Senado (Gouvêa, p. 949-50).
uma resposta positiva, sobre o interesse em representar o Brasil no Aborrecido, reiterou seu pedido de aposentadoria, ocorrida em
Congresso Internacional de História Musical a reunir-se em Viena 27 de agosto de 1913. Em 8 de março de 1914 embarcou em Re-
nas festas do centenário de Haydn, e redigir “breve mas substan- cife com direção a Londres, cidade em que iria estabelecer nova
cial notícia histórica [da] música no Brasil”. Rio Branco sugeriu o residência. Passou antes por Bruxelas, onde foi homenageado, de
material a ser usado, remetendo-o juntamente com outros textos surpresa, pelos amigos belgas e brasileiros com uma soirée em 22
pedidos por Lima, com os quais preparou sua participação e fez de abril (Gouvêa, p. 1.181). Em Londres, durante a guerra foi
executar trechos de compositores brasileiros, como o clássico José acusado de ter simpatias pela Alemanha.
Maurício. Fez, também, alusão às modinhas e lundus. Antes de ir Apesar dos riscos de uma travessia marítima no Atlântico nor-
para Viena, Lima foi a Paris para a festa franco-brasileira, promo- te em razão do conflito mundial, viajou para os Estados Unidos
vida pela União Latina na Sorbonne, onde fez conferência, em em outubro de 1915 a fim de proferir uma série de palestras so-
francês impecável, sobre Machado de Assis et son oeuvre. Ainda bre história e economia da América Latina na Universidade de

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parte 2 – relações oficiais e diplomáticas

Harvard, a convite intermediado pelo Embaixador norte-ameri- Nadou contra a corrente, também, ao posicionar-se contraria-
cano no Rio de Janeiro, Edwin Morgan. Depois de um semestre mente ao alinhamento diplomático do Brasil aos Estados Unidos,
naquela universidade, tentou voltar à Inglaterra, mas sem sucesso inaugurado pela República. Neste ponto divergiu de seu ex-amigo
por ter sido incluído na black list das personalidades impedidas Joaquim Nabuco, então embaixador do Brasil em Washington,
de entrar no país. um sonhador como outros norte-americanistas brasileiros, iludidos
Em julho de 1918 Lima chegou a Buenos Aires a convite do com eventual apoio norte-americano contra “imaginadas absor-
Instituto Popular de Conferências, presidido por Estanisláo Ze- ções europeias” ou “aventuras belicosas dentro do continente” (Cf. e
ballos (Gouvêa, p. 1.311, 1.459). Permaneceu sete meses na Ar- apud Gouvêa, p. 738). Apesar de crítico, neste aspecto concordou
gentina, conhecendo o país e proferindo conferências em várias com Rio Branco, pois este cultivou a amizade norte-americana,
instituições. Em agosto de 1920 embarcou no Avaré, em Recife, em mas com ressalvas e nuances. Lima, coerentemente, aplaudiu o
direção aos Estados Unidos, onde fixaria sua derradeira residência. discurso do Chanceler na abertura da 3ª Conferência Internacio-
Ainda viajaria em 1923 para a Alemanha, para tratamento de saúde, nal Americana (Rio de Janeiro, 1906), na presença do Secretário
e Portugal, onde proferiu conferências, uma delas na Faculdade de de Estado norte-americano Elihu Root, sobretudo pela ênfase na
Letras por ocasião da inauguração da Cadeira de Estudos Brasilei- relevância da Europa para o Brasil, que recebia seus capitais e
ros. De volta a Washington, em 10 de janeiro de 1924 começou a braços para a lavoura.
reger a cadeira de Direito Internacional na Universidade Católica. Oliveira Lima faleceu em Washington em março de 1928,
Oliveira Lima foi adequadamente caracterizado por seu con- sentindo-se, segundo suas próprias palavras, escorraçado de seu
terrâneo Gilberto Freire como nosso Dom Quixote Gordo (Veja- próprio país, que não soubera lhe aproveitar o talento. Doou sua
-se Almeida, 2002, p. 234). Homem de pensamento original que extensa biblioteca (que leva seu nome) à Universidade Católica
não tinha receio de expor e defender suas ideias, mesmo quando das Américas, em Washington, inaugurada em 1924 e organizada,
contrariavam, o que normalmente ocorria, correntes de pensa- conforme sonhara, como centro de estudos brasileiros, portugue-
mento em voga. Destemido e sem fazer concessões, sobretudo ses e hispano-americanos. Atendendo ao que dispôs em seu testa-
em questões de princípio, não raro surpreendia a quem acom- mento, seus restos repousam na capital norte-americana.
panhasse os caminhos do seu pensamento, como, por exemplo,
quando divergiu das posições de Rui Barbosa, a quem admirava, Referências
expostas no discurso, de ampla repercussão, inclusive no exterior, ABRANCHES, Dunshee de. Rio Branco e a política exterior do Brasil (1902-1912). Rio de
que fez em Buenos Aires (14 jul. 1916) favoráveis aos Aliados na Janeiro: Oficinas Gráficas do Jornal do Brasil, 1945, 2 v.
Grande Guerra (1914-18). Fiel ao seu pacifismo, Lima defendeu ALMEIDA, Paulo Roberto de. “O Barão do Rio Branco e Oliveira Lima – vidas paralelas,
itinerários divergentes”. In: CARDIM, Carlos Henrique & ALMINO, João (orgs.).
a neutralidade brasileira. Rio Branco, a América do Sul e a modernização do Brasil. Pref. de Fernando Henrique
Outra polêmica, que acabou lhe custando o posto na diploma- Cardoso. Rio de Janeiro: EMC, 2002, p. 233-278.
cia por conta de seu brio e amor próprio feridos, foi sua manifes- CORRÊA, Luiz Felipe de. “Semblanza biografica del autor”. In: LIMA, Manuel de Oli-
veira. En la Argentina. Buenos Aires: Editorial Centro de Estudios Unión para la
ta simpatia pela monarquia. Apesar de republicano desde moço, Nueva Mayoría, 1998.
interpreta-se que Lima, após sua estada em Caracas à época da FLEIUSS, Max, Conferência no Instituto Histórico e Geográfico a 23 de maio de 1928.
presidência de Cipriano Castro, viu de perto os males que o cau- In: LIMA, Oliveira. Memórias (Estas minhas reminiscências...). Rio de Janeiro: José
Olympio, 1937, p. 263-283.
dilhismo fazia à América Latina, constatação que, somada ao que GOUVÊA, Fernando da Cruz. Oliveira Lima, uma biografia. Pref. de Barbosa Lima So-
observava no seu próprio país, onde políticos da jovem república brinho. Recife: Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, 1976.
lambuzavam-se no poder, provocou-lhe o desencanto com o novo 3 vol.
LIMA, Oliveira. Memórias (Estas minhas reminiscências...). Rio de Janeiro: José Olym-
regime, a partir do que passou a vislumbrar aspectos positivos nos pio, 1937.
regimes monárquicos, destacando que não eram antinômicos à MALATIAN, Tereza. Oliveira Lima e a construção do nacionalismo. Bauru, SP: Edusc;
democracia e se ajustavam bem às correntes socialistas então em São Paulo, SP: Fapesp, 2001.

ascensão na Europa (Malatian, p. 199-202).

Os belgas em Descalvados e na fronteira Oeste do Brasil (1895-1912)


D o m i n g o s Sav i o d a C u n h a G a r c i a

P ara entender a presença belga na fronteira Oeste do Brasil,


na virada do século XIX para o século XX, é preciso entender
o que se passava no mundo naquele momento. Essa perspectiva
lidades que ela poderia abrir para os belgas, principalmente se
considerarmos a exitosa operação na África do Rei Leopoldo II,
que resultou na formação do Estado Independente do Congo,
é necessária para termos a dimensão daquela ação e as possibi- um Estado privado de grandes dimensões, encravado entre colô-

65
parte 2 – relações oficiais e diplomáticas

A empresa agroindustrial de Descalvados foi adquirida em 1895 pela Compagnie des Produits Cibils, constituída em Antuérpia.

nias e protetorados das principais potências europeias da época. da Bolívia, era controlada por estados fracos ou fragilizados, cuja
Concluído o domínio sobre sua colônia africana, Leopoldo presença nessa região era praticamente inexistente. Dessa forma,
II e sua entourage passaram a procurar outra região do mundo poderiam reaparecer ali as condições para que os belgas, liderados
onde pudessem repetir esse feito e alcançar os lucros advindos do por Leopoldo II, pudessem repetir o seu feito africano, se as condi-
comércio com produtos de origem extrativa ou produzidos com ções da geopolítica internacional o permitissem. E os belgas não
matérias-primas não encontradas na Europa. Para isso procura- esperaram surgir essas condições; trabalharam para isso.
vam uma região com características políticas semelhantes àque- A compra da empresa agroindustrial de Descalvados, efetuada
las encontradas na África quando iniciou sua operação naquele em 1895 pela Compagnie des Produits Cibils, constituída em An-
continente: territórios ricos em produtos extrativos com grande tuérpia com o fim último de comprar aquele empreendimento,
procura nos mercados centrais; populações nativas fragilmente não foi, portanto, uma ação isolada. A fábrica foi comprada da fa-
organizadas, tendo como decorrência a inexistência de fronteiras mília de Jaime Cibils Buxaréo, um industrial uruguaio de origem
entre Estados demarcadas e reconhecidas internacionalmente; ter- catalã, que já operava no ramo de produção de derivados de carne
ritórios disputados por potências europeias, a partir dos interesses e havia construído a fábrica no início da década de 1880.
da geopolítica europeia. Descalvados era uma fábrica de extrato de carne estrategica-
Naquele momento, a região Central da América do Sul se mente localizada na fronteira do Brasil com a Bolívia, em pleno
abria para a exploração mercantil, notadamente com o crescente Pantanal, a maior planície alagada do mundo, possuindo uma área
processo de extração de borracha da seringueira, cujo consumo de um milhão de hectares. A Cibils ainda comprou, em 1899, a
aumentava no mercado internacional. O aumento do consumo es- fazenda São José, com área de 500 mil hectares, também locali-
timulava a abertura de novas frentes extrativas, que avançavam para zada no Pantanal e contígua a Descalvados em sua parte sul, per-
regiões até então pouco atraentes para aquela atividade econômica. fazendo uma área total de mais de um milhão e quinhentos mil
A América do Sul, ao longo do século XIX, era reconhecida- hectares ou 15 mil quilômetros quadrados.
mente uma área de influência da Inglaterra. No entanto, na me- Nos campos de Descalvados e da São José havia um rebanho
dida em que se aproximava o fim desse século, vimos desenvolver com cerca de 340 mil cabeças de gado bovino, a matéria-prima
a força econômica, política e militar dos Estados Unidos, que para a fábrica, que produzia principalmente extrato de carne, deri-
assumiram a condição de potência global com a vitoriosa guerra vados de carne em conserva e couros tratados, produtos que eram
contra a Espanha em 1898. remetidos para o mercado europeu, onde eram bastante aprecia-
Portanto, quando os belgas decidiram iniciar a sua nova fren- dos. Possuía máquinas a vapor (produzidas na Bélgica), que acio-
te de atividades no coração da América do Sul, com métodos e navam uma usina de eletricidade, a serraria, bombas de água e
objetivos semelhantes àqueles desenvolvidos na África, o fizeram permitia à fábrica ter a sua própria produção de embalagens de fo-
no momento em que a geopolítica internacional passava por mu- lhas de flandres, para acondicionar seus produtos para exportação.
danças importantes. Os produtos da fábrica de Descalvados, principalmente o ex-
Mas nada estava decidido e a região central da América do trato de carne, eram famosos na Europa, onde ganharam prêmios
Sul, rica em borracha e em campos de criação de gado vacum, de de qualidade e onde eram oferecidos através de propagandas fei-
difícil acesso e longe dos centros de decisão, localizados no lito- tas por postais com imagens do empreendimento localizado na
ral no caso do Brasil, e próximo à Cordilheira dos Andes, no caso fronteira Oeste do Brasil.

66
parte 2 – relações oficiais e diplomáticas

Vista da empresa agroindustrial em Descalvados, a Cibils, em fotografia dos anos 1980.

Durante o período em que pertenceu a empresas belgas, o em- as operações na fronteira Oeste do Brasil: Compagnie des Caout-
preendimento era dirigido por gerentes belgas (o primeiro foi Fran- choucs du Matto Grosso, Syndicate de La Banque Africaine, Mer-
çois Joseph Van Dionant, que chegou a Descalvados em abril de cado, Ballivian & Companhia, La Brésilienne, Société Anonyme
1895) e mantido por mão de obra braçal formada por brasileiros, l’Abunã e a Comptoir Colonial Française Société Anonime. Eram
argentinos, paraguaios e bolivianos, além de um expressivo núme- empresas dedicadas principalmente à extração de borracha em
ro de indígenas dos grupos guató e bororo, que habitavam antigas afluentes da margem direita do Rio Amazonas, próximo à fron-
aldeias existentes na área do empreendimento e que usualmente teira com a Bolívia.
eram utilizados no difícil trabalho de manejo do gado bovino. A partir de 1901, a própria Compagnie des Produits Cibils tam-
Entre 1895 e 1897 a empresa rendeu dividendos aos seus só- bém passou a atuar na extração de borracha no Vale do Guaporé,
cios e se mostrou um investimento lucrativo. No entanto, em 1897 onde adquiriu três concessões do lado brasileiro desse rio que di-
um fato chama a atenção para os objetivos dos belgas na fronteira vide a fronteira do Brasil com a Bolívia. A partir dessas concessões,
Oeste do Brasil: a legação da Bélgica no Rio de Janeiro solicitou a borracha extraída pela Cibils era enviada a Descalvados e, de
do governo brasileiro a instalação de um consulado daquele país lá, para o exterior.
em Descalvados. Tal solicitação não foi atendida; o consulado foi Chama atenção a formação dessas empresas belgas que passa-
instalado em Corumbá e em Descalvados foi instalado um vice- ram a atuar na extração de borracha na fronteira Oeste, se juntan-
-consulado. O administrador do empreendimento, François Van do à Cibils, pois seus principais acionistas eram praticamente os
Dionant, se tornou também o vice-cônsul da Bélgica e uma ban- mesmos, se entrelaçando em diferentes composições acionárias.
deira belga passou a tremular em pleno Pantanal, na fronteira do Para ajudá-las em suas operações, as empresas belgas desloca-
Brasil com a Bolívia. ram para a fronteira Oeste do Brasil um conjunto de funcionários
Em 1898, procurando defender o rebanho bovino do roubo capacitados e experientes, alguns já treinados em operações co-
provocado por constantes investidas de ladrões provenientes da Bo- lonialistas, como Alexandre Delcomune, experiente auxiliar de
lívia, Van Dionant solicitou do governo do Estado de Mato Grosso Leopoldo II no Estado Independente do Congo, e José Cousin,
providências para coibir tais ações. Sem ter meios para atender à um geógrafo também experiente. Esses funcionários mapearam os
solicitação, o governo estadual autorizou os belgas a constituírem recursos naturais, fizeram trabalhos de reconhecimento dos rios e
uma força policial própria para conter esses ladrões, forças que das características físicas da região, sempre procurando atuar de
foram organizadas por antigos integrantes da Force Publique, que maneira discreta e sem chamar a atenção das autoridades locais.
Leopoldo II mantinha no seu Estado Independente do Congo, na O fato que estimulou o ânimo dos belgas na fronteira Oeste do
África. Daí em diante, os belgas passaram a ter em Descalvados Brasil foi a disputa pelo território do Acre entre a Bolívia e serin-
uma representação diplomática e uma força armada, dominando gueiros brasileiros que se instalaram na região, atraídos pela grande
um território de mais de 15 mil quilômetros quadrados. demanda por borracha no mercado internacional e pela grande
A partir de 1898 outras empresas organizadas por belgas na produção que essa região proporcionava, disputa na qual se entre-
Europa vieram se juntar à Compagnie des Produitis Cibils em su- laçaram os interesses de empresários norte-americanos influentes

67
parte 2 – relações oficiais e diplomáticas

e ingleses organizados no Bolivian Syndicate, cujo objetivo era o de fato da América Latina em área de influência exclusiva dos
arrendamento do território em disputa. Estados Unidos.
O eventual desenlace positivo para aquele sindicato poderia Esse novo cenário se combinou ainda com as primeiras no-
reabrir no coração da América do Sul uma corrida colonialista se- tícias sobre as atrocidades cometidas pelos funcionários das em-
melhante àquela ocorrida na África. Nesse caso, os belgas estariam presas ligadas a Leopoldo II no seu Estado privado na África. O
muito bem posicionados para ficarem novamente com a sua parte resultado desse cenário desanimou rapidamente os belgas em su-
na disputa, sempre explorando as debilidades dos Estados locais as operações na fronteira Oeste do Brasil e sua retirada da região
e as disputas entre as grandes potências. Foi com essa perspectiva foi tão rápida como a sua entrada. Em 1906, no setor agrícola e
que Leopoldo II também tentou controlar o Bolivian Syindicate. de extração vegetal praticamente só havia o empreendimento de
Não foi coincidência que justamente no período em que a Descalvados. Em 1911, o empreendimento que havia sido a porta
disputa pelo território do Acre alcançou o seu ápice, entre 1898 de entrada para os belgas na fronteira Oeste do Brasil também foi
e 1903, os belgas tenham se lançado na corrida por concessões a sua porta de saída, sendo vendido ao investidor norte-americano
de terras para extração de borracha na fronteira Oeste do Brasil. Percival Farquhar.
O círculo próximo de Leopoldo II operava combinando a ação
efetiva no território desejado com as articulações políticas que se Domingos Sávio da Cunha Garcia possui Mestrado em História
desenvolviam na Europa e nos Estados Unidos. Essa tática havia Econômica pela Universidade Estadual de Campinas e Doutorado
dado certo no caso africano e poderia dar certo novamente no ca- em Economia Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas.
so da América do Sul. É professor do Departamento de História da Universidade do Estado
No entanto, uma combinação de fatores bloqueou essa pers- de Mato Grosso desde 1995.
pectiva. A ação do governo brasileiro, principalmente após a as-
censão do Barão do Rio Branco ao cargo de Ministro das Relações Referências
Exteriores em fins de 1902, combinada com a ação militar dos GARCIA, Domingos Savio da Cunha. Os belgas na fronteira Oeste do Brasil. Brasília:
próprios seringueiros no Acre e, ainda, a decisiva mudança na po- Funag, 2009.
lítica externa dos Estados Unidos para a América Latina naquele KURGAN-VAN HENTENRYK, Ginette. Leopoldo II e a questão do Acre. In: Cadernos
do Centro de Documentação em História e Documentação Diplomática. Brasília: ano
período, mudaram o cenário da disputa. O seu resultado foi o fim 8, tomo II, vol. 14, p. 477-499, primeiro semestre, 2009.
do Bolivian Syndicate, a compra do território do Acre pelo Bra- STOLS, Eddy. O Brasil se defende da Europa: suas relações com a Bélgica (1830-1914). In:
sil, com a assinatura do Tratado de Petrópolis, e a transformação Boletin de Estúdios Latinoamericanos e del Caribe. Amsterdam: Centro de Estudios y
Documentación Latinoamericanos (CEDCA), n. 18, junio de 1975.

O Rei Alberto I e a música brasileira


Daniel Achedjian

E vocar as inúmeras interações entre os belgas e a música bra-


sileira, erudita ou popular, representa uma matéria apaixo-
nante para músicos, pesquisadores, jornalistas ou, simplesmente,
boê­mia, onde se atravessava a noite, se bebia, se caia na sarjeta e,
claro, se tocava e se escutava música.
O compositor relata que em 1920, para ser bem preciso, um
amantes fervorosos. Porém, que um cidadão do Reino da Bélgica certo “Rei Alberto” veio visitar o Brasil e o Rio de Janeiro – na
– e não se trata de um qualquer – tenha sido o tema de algumas época, capital do País – e pediu insistentemente que lhe fosse mos-
composições é algo que seria imperdoável se negligenciado. trado esse bairro de folia. Este famoso rei “Alberto”, claro, não era
A famosa vinda do Rei Alberto I e de sua esposa Elisabeth da ninguém mais ninguém menos do que o Rei Alberto I da Bélgica
Bélgica ao Brasil, em 1920, seduziu alguns letristas famosos. Es- (1875-1965), vindo em visita oficial em companhia de sua esposa,
tes viram no soberano, de temperamento excepcional e às vezes a muitíssimo amada e célebre Rainha Elisabeth (1876-1965). Eles
insólito, e que ignorava o protocolo, um personagem dotado de visitaram, no final das contas, Rio e Minas Gerais.
um jeitinho belga bem apreciado pelos cariocas. Assim, neste samba, “A Lapa”, Herivelto Martins canta os se-
Encontramos a menção de uma primeira peça musical so- guintes versos:
bre este assunto no DVD “Ensaio, TV Cultura, 1990”, dedicado
a Herivelto Martins (1912-1992), o muito célebre e importante “O bairro de quatro letras
compositor carioca de sambas e de marchinhas do século XX. Em Até um rei conheceu
um trecho do programa, ele evoca o samba “A Lapa”, que havia Onde tanto malandro viveu
composto nos anos 30 com Benedito Lacerda. Herivelto Martins Onde tanto valente morreu.”
fala desse bairro do Rio que, nos anos 20, era o centro da vida

68
parte 2 – relações oficiais e diplomáticas

A atitude do soberano, no momento daquela visita, impres- É um homem de fato


siona a todos. Sua vontade de quebrar certos protocolos durante Não tem orgulho
as cerimônias oficiais perturbava um pouco as altas autoridades Nem espalhafato
brasileiras. O rei decidiu até se engajar em atividades não previs-
tas, como a visita à Lapa, como já mencionado, ou se fazendo Foi a insulta
presente em certas manifestações desportivas. Assim, ele se lança Da mais alta
em um longo e difícil percurso de natação, que saía da praia de Deixar os repórteres
Copacabana em direção à praia do Diabo, situada ao lado das Espiando na esquina
pedras do Arpoador de Ipanema. Uma proeza que deixou os ca-
riocas admirados. Comeu feijoada
Aficionado por escaladas, o Rei também decidiu subir parte E bebeu parati
da colina do Corcovado (sem o Cristo na época). Esta expedição Jogava no bicho
tinha sido planejada, mas quase virou um incidente diplomático. Não saía daqui
Com a preocupação em tornar a expedição mais confortável, os E se ele provasse
cariocas já haviam demarcado o percurso e arrumado, em alguns O angu da baiana
lugares na rocha, degraus para facilitar a subida. O Rei Alberto Então ficava
se sentiu ofendido, se zangou e decidiu passar por um caminho Mais uma semana.”
selvagem que não havia sido preparado.
Nos arquivos musicais da música popular brasileira também Mas, além destes textos espirituosos, bem dentro do espírito
encontramos vestígios da atitude do soberano belga na canção dos sambas e marchinhas da época dourada, encontramos tam-
“Alberto I Rei dos belgas”, de José Napolitanos, “Pro Rei Alberto bém a composição “Saudades e saudades” (aos Reis dos belgas),
ver”, de Lourival de Carvalho, e “O Protocolo”, de B. Silvestre e composta pelo ilustre Ernesto Nazareth (1863-1934), pianista e
Miguel de Azevedo, que relata assim: compositor, navegando entre o clássico e o popular, a quem deve-
mos alguns clássicos do Choro como “Odeon”. “Saudades e sauda-
“O Rei Alberto des”, peça instrumental composta em 1921, um ano após a visita
Ao pisar este solo do casal soberano, toma ares de uma marchinha com cara de valsa.
Mandou às favas Enfim, se tratando da visita real, um outro eminente músico
O protocolo ligado à grande história do Choro, Pixinguinha (1897-1973), se
apresentava com Os Oito Batutas num almoço ao Rei e à Rainha
Conquistou logo dos belgas. Aí estava presente também o maior compositor clássico
Com feliz maestria brasileiro (de inspiração popular), Heitor Villa-Lobos (1887-1959),
Dos brasileiros que apresentou, por sua vez, várias de suas obras. Nessa ocasião, o
A simpatia soberano concedeu a este último a cruz honorária de Santo Leo­
poldo, que o brasileiro recusou sob o pretexto de que ela havia
Assim, Alberto Primeiro também sido dada ao cozinheiro e ao chefe da guarda do palá-
Ao mundo inteiro cio. Pois é, até mesmo os grandes homens conhecem momentos
Deu uma lição de fraqueza e de vaidade, que sejam perdoados de bom grado...!
Mandou a etiqueta
Com pirueta Daniel Achedjian, Doutor em História da Arte, se apaixonou pela
Lamber sabão música e arte popular brasileira; constituiu uma grande coleção em
Bruxelas, onde, como radialista, mantém também o programa “Tro-
O Rei Alberto picalia” na Rádio Judaica.

De rebelde a escritor laureado: Conrad Detrez no Brasil


Peter Daerden

E m 31 de julho de 1962 chegou ao Rio de Janeiro, a bordo do


navio francês Charles Tellier, um jovem belga, algo tímido.
Filho de uma família de açougueiros modestos da região de Liè-
ge, Conrad Detrez tinha 25 anos e acabava de interromper uma
formação de seminarista em Lovaina. Passou primeiro seis meses
na sinistra cidade industrial de Volta Redonda e mudou, depois,

69
parte 2 – relações oficiais e diplomáticas

para o Rio de Janeiro. Lá trabalhou como auxiliar leigo nas favelas, Inspirada pelos Tupamaros do Uruguai, a guerrilha urbana ater-
como na paupérrima Bráz de Pina, mas ao mesmo tempo dava rorizava, no final dos anos de 1960, as grandes cidades brasileiras.
aulas na Universidade Santa Úrsula. Poderia considerar-se Detrez – que provavelmente nunca soltou
Detrez ocupava assim uma posição interessante: entrava em um tiro – como apenas uma nota de rodapé nesta história. Mas,
contato tanto com a cultura popular como com os meios intelec- encarado de maneira mais positiva, ele passa pelo menos por uma
tuais. Esta combinação determinou fortemente sua visão do Brasil, testemunha privilegiada dessa época perturbada. Assim manteve
que era contraditória. Sua atitude era em primeiro lugar de índole uma amizade calorosa com Frei Betto, ainda antes de sua entrada
muito trabalhista. Não gostava nem um pouco da mundana Co- no convento e de tornar-se um influente teólogo da libertação.
pacabana, mesmo esta se passando para a maioria dos estrangeiros Quando Detrez estava, no início dos anos de 1970, na Algéria, co-
como o cartão de visita do Brasil. Não, ele se encantava com a nheceu pessoalmente o exilado Miguel Arraes, um dos próceres da
proletária Zona Norte do Rio. Este bairro era talvez feio, mas tinha resistência brasileira. No tribunal Russell em 1974 – uma conferên-
caráter. Porém, neste olhar romântico sobre as favelas se escondia cia em Roma contra as violações dos direitos humanos no Brasil –,
uma grande contradição, já que Detrez criticaria precisamente, de se encontrou com o excêntrico guerrilheiro Fernando Gabeira. Em
um ponto de vista cada vez mais à esquerda, a pobreza reinante seguida, ambos mantiveram correspondência por pouco tempo.
por lá. Por outro lado, o fascínio de Detrez pela cultura negra e pe- Nos anos de 1970 Detrez continuou seu percurso sinuoso, que
la religião afro-brasileira – que o fez iniciar no candomblé – tinha o levou à Algéria e a Lisboa, onde fazia a reportagem das peripé-
uma forte conotação erótica. No Rio, o ex-seminarista descobriu sua cias da Revolução dos Cravos para a rádio belga. Em matéria polí-
homossexualidade, que projetava quase exclusivamente em negros. tica, se tornou mais reservado e também sua escolha pela literatura
Nada indicava então que Detrez se tornaria mais tarde um era em grande parte ditada pela introspecção. Antes de escrever
escritor laureado. Sem dúvida tinha esta ambição, mas esta se seus romances, Detrez tinha traduzido alguns autores brasileiros
desvaneceu depois do golpe militar de 1964. A partir desse mo- para o francês: Quarup, de Antônio Callado, e Os pastores da noi-
mento, o compromisso com o engajamento político determina- te, de Jorge Amado. Este último manifestou seu agrado em carta.
va sua conduta. Como muitos católicos radicalizados, se tornou Já com Callado, que conhecia pessoalmente, a colaboração ficou
membro da Ação Popular. Já pela sua formação católica, Detrez mais difícil. Literariamente, o Brasil não lhe era tão importante.
nunca sentiu muita estima pelo comunismo, e certamente não por Se relacionava antes com os autores ‘caribenhos’, como o colom-
seus militantes brasileiros. Mesmo assim, se deixou levar de ma- biano García Márquez e o cubano Reinaldo Arenas – ou também,
neira bastante ingênua para a esquerda radical. Isto foi mais uma perto de casa, com o picaresco Charles de Coster.
questão de temperamento do que de compreensão. Nos anos de Estava escrito nas estrelas que o Brasil ocuparia um lugar im-
1960, nutria uma grande admiração por Fidel Castro e Che Gue- portante na sua obra. Depois de dois romances promissores Detrez
vara, que pensava, ou pelo menos esperava, serem os promotores surpreendeu, em 1978, com L’herbe à brûler, um livro que con-
de um marxismo liberal. Também no Brasil tinha que aparecer o tava em boa parte suas aventuras brasileiras numa prosa sensual e
‘Novo Homem’ de Cuba. excitante, sem por isso reincidir nos estereótipos exóticos. Na sua
Em 1967 Detrez foi preso por curto tempo por pretensa subver- narração fortemente autobiográfica, Detrez se revelou um hedo-
são política. Sua detenção não passou desapercebida na imprensa nista puro-sangue, que rejeitava todas as formas de dogmatismo
brasileira. Em manchete, O Globo anunciava: ‘Belga Preso Co- revolucionário. Com isso se aparentava algo com os nouveaux
mo Líder Comunista’. Já o Jornal do Brasil tomou sua defesa: “Os philosophes franceses – se bem que ele mesmo não gostava nem
vizinhos do jovem súdito belga – com trinta anos de idade – têm- um pouco desta comparação.
no como pessoa de hábitos perfeitamente normais e destacam sua L’herbe à brûler foi unanimamente aclamado como uma pe-
cordialidade, seu desejo de servir ao próximo, inclusive pondo-se à quena obra-prima. Com a obtenção do prestigioso prêmio Renau-
disposição dos que lhe pedem pequenos favores, como a redação de dot, o nome de Detrez parecia definitivamente consagrado. A Bél-
cartas pessoais”. gica tinha, depois de Simenon, novamente um autor de impacto
Com a intervenção da diplomacia belga, Detrez pôde, quase internacional. Seguiram-se várias traduções como em neer­landês,
sorrateiramente, deixar o país. Foi morar em Paris, onde partici- português e inglês. A edição inglesa recebeu resenhas relativamen-
pou ativamente da revolução de maio. Mais tarde, em 1968, con- te boas no Time e no The Village Voice. No Brasil, revistas influen-
seguiu fixar-se em São Paulo, onde se tornou jornalista da Folha tes como Veja e IstoÉ foram francamente elogiosas. Nelson Pereira
da Tarde, mas em menos de um ano teve que deixar essa cidade. dos Santos, o padrinho do cinema novo brasileiro, se prontificou
Chegou num ponto em que a repressão ameaçava sua vida. Da a filmar o livro. Infelizmente, este projeto falhou.
França, Detrez queria prestar ainda uma vez uma curta, mas mui- O próprio Detrez regredia. Nunca mais igualou o nível do
to arriscada, contribuição. No maior segredo atravessou o oceano, L’herbe à brûler. No seu romance seguinte, La lutte finale, as fa-
encontrou e entrevistou Carlos Marighella para voltar às pressas. velas do Rio voltaram a formar o cenário. Mas a inspiração ante-
Marighella, chefe da guerrilha brasileira, foi pouco depois execu- rior de Detrez, que era fortemente autobiográfica, minguava de
tado. Detrez resumiu suas ideias num manifesto revolucionário, ano para ano. Interessante foi o ensaio publicado em 1981, Les
Pour la libération du Brésil. noms de la tribu, no qual relatava uma viagem recente ao Brasil.

70
parte 2 – relações oficiais e diplomáticas

Em 1979 Detrez se beneficiou da anistia política oferecida Detrez serviu desde 1982 como diplomata francês na Nicarágua,
pelos governantes de Brasília. Voltou por alguns meses e viu um mas ficou pouco a pouco muito doente. Em 1985 morreu de Aids.
país que se tornou, sob certos aspectos, irreconhecível. Les noms
de la tribu, mais do que um simples diário de viagem, contém Peter Daerden, mestre em História, com passagem pela Universidade
fascinantes considerações sobre o Brasil, a guerrilha dos anos de de São Paulo (USP), juntou em frequentes viagens ao Brasil o mate-
1960 e seu próprio percurso de vida. Esta terminou rápido demais. rial de arquivo e de literatura para uma biografia extensa de Detrez.

Brasil-Europa, via Bruxelas


Antônio Carlos Lessa

D epois de seu retorno ao poder na França, em 1958, o Gene-


ral de Gaulle por diversas ocasiões imprecou contra o forte
componente supranacional que era característico dos Tratados
africana. Com efeito, as produções das colônias e ex-colônias euro-
peias, não apenas de café, mas também de cacau, seriam drama-
ticamente favorecidas pelas medidas de associação comercial que
de Roma, fundadores do processo europeu de integração, que garantiam o acesso em condições privilegiadas, não mais apenas
entraram em vigor justamente naquele ano. Para o líder francês, para a França ou a Bélgica, mas para todos os seis países que então
a Europa das Comunidades e os seus arranjos supranacionais di- fundavam a Europa Comunitária (França, Bélgica, Países Baixos,
minuíam as competências e prerrogativas dos governos dos Esta- Luxemburgo, Itália e República Federal da Alemanha). Entre os
dos-membros e exageravam no limite do absurdo as competências Seis estavam justamente dois dos maiores compradores de café
e a autoridade das burocracias europeias. Desde o início de seu brasileiro, em termos globais, a Alemanha e a Itália.
funcionamento, sediada em Bruxelas, a Comissão Europeia era, Em outra linha de argumentação esboçada pelo governo bra-
na lógica do presidente da França, a tradução perfeita de uma sileiro em sua reação ao Tratado de Roma, se arguia que a inte-
tecnocracia apátrida e irresponsável. gração econômica provocaria uma desvinculação progressiva dos
A evolução da política europeia nos anos seguintes mostrou capitais europeus, atraídos para investimentos na África e em ou-
que o líder francês efetivamente perdeu essa arenga. Ao cabo de tras paragens, enquanto o Brasil, em pleno desenvolvimento in-
mais uns poucos anos encontrou-se uma solução de equilíbrio pa- dustrial, tinha mais do que nunca necessidade da ajuda financeira
ra o desenvolvimento contínuo da integração da Europa, e a sua dos países europeus.
conversão, em pouco mais de 50 anos, em uma grande potência Portanto, os primeiros contatos entre o Brasil e a Europa Co-
econômica e com vocações políticas universais que, de certo mo- munitária foram caracterizados por desconfiança e tensão. De
do, ultrapassam as ambições dos Estados nacionais que tomam pouco, ou quase nada, adiantou o grande esforço diplomático de
parte, hoje, da União Europeia. Mas o que efetivamente não mu- arregimentação levado a cabo pelo governo brasileiro que, tra-
dou foi a permanência de Bruxelas como sede das competências zendo consigo vários outros países latino-americanos, tradicionais
crescentes das Comunidades, ao ponto em que a capital dos bel- exportadores de produtos tropicais, pressionaram contra o Tratado
gas se transformou em metonímia das burocracias que animam e de Roma e, mais especialmente, contra as disposições dos artigos
governam a Europa Comunitária. 131 a 136. Para azar do Brasil e dos seus parceiros latino-ameri-
O Brasil foi o primeiro país latino-americano a estabelecer canos, os dispositivos do Tratado de Roma seriam considerados
relações diplomáticas com a Comunidade Econômica Europeia, legais sob a luz do Acordo-Geral de Tarifas e Comércio-GATT, e
ainda em 1960. Esse gesto se sobrepunha então à reação enérgica não haveria, portanto, via jurídica de recurso acerca da legalidade
que a diplomacia do governo do Presidente Juscelino Kubitschek do ato fundacional da Comunidade Europeia.
esboçou quando do anúncio da assinatura do Tratado de Roma, Esse início pouco auspicioso deu, então, o tom da história
ainda em 1957. Desde então, e praticamente até 1964, o Brasil li- das relações do Brasil com o processo europeu de integração. De
derou a reação dos governos de países latino-americanos, grandes certo modo, a designação do poeta Augusto Frederico Schmidt
exportadores de produtos tropicais, temerosos da perda de espaço como primeiro embaixador brasileiro junto à Comunidade pode
nos mercados europeus diante da associação das colônias e ex-co- ser entendido como um gesto de conciliação com a Europa Co-
lônias europeias à então Europa dos Seis por meio de acordos de munitária nascente ou, no mínimo, como o reconhecimento de
comércio preferencial. que em Bruxelas surgia um respeitável oponente. Schmidt era um
No entender do Itamaraty, a formação do Mercado Comum intelectual e empresário respeitado, do entourage do Presidente
Europeu ensejaria uma diminuição expressiva das exportações de Kubitschek. Atribui-se a ele a paternidade intelectual da Operação
café brasileiro, que se daria mediante a criação de desvios de co- Pan-Americana, e também influência certa sobre vários outros te-
mércio que beneficiariam a produção concorrente, especialmente mas da política externa brasileira daquele momento. Apresentou

71
parte 2 – relações oficiais e diplomáticas

as suas credenciais de Embaixador ao belga Jean Rey, membro da de interesses teve prosseguimento em junho de 1999, com a rea­
Comissão da Comunidade Econômica Europeia. lização da primeira Cúpula de Chefes de Estado e de Governo
Bruxelas entrava, então, de um outro modo e pela segunda da União Europeia e América Latina/Caribe, quando se decidiu
vez, no rol das praças diplomáticas que apresentavam importân- pela formação de um Comitê Birregional de Negociações União
cia central para os interesses internacionais do Brasil, ao lado de Europeia-Mercosul.
Washington, Londres, Paris e Buenos Aires. Funcionando inicial- O início da crise do Mercosul e os alargamentos da União
mente em Paris, a representação do Brasil junto à Comissão foi Europeia, dois processos coincidentes, desfocaram a agenda de
transladada definitivamente para Bruxelas em janeiro de 1961. cooperação inter-regional, enquanto outros temas na dimensão
A missão de Augusto Frederico Schmidt foi breve. Pode-se política e econômica surgiam como prioritários. A partir da década
afirmar que a sua nomeação atendia à necessidade de distender de 2000, o crescimento do perfil internacional do Brasil, com cres-
as relações com a Bruxelas comunitária, e de encetar os difíceis cente protagonismo em diferentes tabuleiros (negociações comer-
processos de negociação que se seguiram ao estabelecimento da ciais, temas ambientais etc.) e com maior visibilidade econômica,
Tarifa Externa Comum, envolvendo tanto o Brasil quanto outros e o crescimento do seu ativismo internacional, levaram a União
países latino-americanos. O Brasil manteve, a partir do estabele- Europeia a reavaliar o conjunto das suas relações com a América
cimento inicial das suas relações com a Europa Comunitária, a Latina. Assim, ao final de 2005, a União Europeia decidiu passar
prática de enviar para a sua representação diplomatas de carreira a privilegiar o Brasil como país-chave da região.
experimentados, somente quebrada com a nomeação de outro O modelo adotado para essa nova estratégia de Bruxelas seguiu
grande intelectual brasileiro, Celso Furtado, que exerceu a chefia o que já estava sendo implementado no manejo das relações da
da Missão entre 1985 e 1986. União Europeia com os seus principais interlocutores – Estados
As relações do Brasil com a Bruxelas comunitária foram, ao Unidos, Canadá, Japão, Rússia, China e Índia –, ou seja, o de
longo de quase cinco décadas, muito tensas. A criação do processo relações de “parceria estratégica”. Ainda que não exista uma de-
europeu de integração teve esse condão: descarregou a pesadíssi- finição clara desde a diplomacia comunitária do que sejam esses
ma agenda contenciosa envolvendo questões comerciais que exis- vínculos, eles têm muito em comum: densas e dinâmicas correntes
tiam com alguns dos seis membros originais (especialmente com de comércio, amplos contatos bilaterais, intensidade de vínculos
a França), mas produziu um grande polo contencioso, justamente políticos e agendas compartilhadas.
a Europa Comunitária. As demandas recorrentes do Brasil, que se O Brasil foi ungido como parceiro estratégico da União Euro-
juntava aos demais países latino-americanos, estiveram ao longo peia em 4 de julho de 2007, por ocasião da primeira Conferência
desse período principalmente circunscritas ao acesso aos merca- de Cúpula Brasil-União Europeia, reunindo a Tróica do Conse-
dos, ao tratamento tarifário conferido aos produtos tropicais e às lho Europeu e o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Trata-se
tentativas de circundar os graves desvios de comércio que se pro- do reconhecimento da singularidade assumida pelo Brasil nas re-
duziram pela associação das antigas colônias europeias. lações internacionais contemporâneas, de certo modo, tradução
A Bruxelas comunitária se convertia, desse modo, em um im- do peso específico que o País tem assumido para a economia e a
portante centro nevrálgico e essencialmente conflituoso das rela- política global.
ções internacionais do Brasil. Esse relacionamento assim perma- Trata-se de uma transformação de vulto no desenvolvimento
neceu praticamente até o início da década de 1990. Nesse longo das relações do Brasil com a Europa Comunitária e oferece uma
momento, não há que se falar em cooperação política, uma vez moldura institucional para a organização do diálogo de alto nível
que a América Latina em geral constituía um ângulo cego das prio- e com pleno potencial para o desenvolvimento de uma agenda
ridades internacionais da Europa comunitária e pode-se afirmar de cooperação bilateral que envolve os desafios da liberalização
que assim seguiu até o estabelecimento do Mercosul, em 1991. comercial, o acesso aos mercados agrícolas, meio ambiente e aque-
O surgimento de um novo processo de integração, em região cimento global, a reforma das organizações internacionais (e o
que foi a periferia das prioridades internacionais da Europa, não papel que o Brasil pode nelas desempenhar) e o reforço da ordem
deixou de ser um motivo de alento para a organização de uma internacional multipolar. Mais do que nunca, o futuro da projeção
nova agenda de cooperação. Com efeito, o bloco sul-americano internacional do Brasil passa por Bruxelas.
surgia como o maior parceiro comercial e principal destino dos
investimentos europeus na região. Em 1992 firmou-se um Acordo Antônio Carlos Lessa é professor do Instituto de Relações Internacio-
de Cooperação Interinstitucional, seguido em dezembro de 1995 nais da Universidade de Brasília e pesquisador do Conselho Nacional
pelo Acordo Marco Inter-regional de Cooperação. A articulação de Desenvolvimento Científico e Tecnológico-CNPq.

72
o comércio

parte 3

Relações Econômicas:
Comércio e Empresas

73
parte 3 – relações econômicas: comércio e empresas

74
o comércio

O Engenho dos Erasmos ou dos Esquetes em São Vicente


Eddy Stols e Silvio Cordeiro

U m dos primeiros engenhos de açúcar no Brasil, o Engenho


do Governador em São Vicente, é também o mais antigo
investimento de mercadores flamengos no Novo Mundo (Stols e
depois da introdução de seu plantio no Brasil por Dom Manuel,
sua produção provinha, na época, principalmente da Madeira e
das Canárias, onde outros mercadores flamengos tinham insta-
Cordeiro). Construído nos anos de 1530 pelo donatário da capi- lado engenhos.
tania, Martim Afonso de Sousa, contava entre seus sócios Johan No intuito de ampliar o abastecimento com a produção brasi-
Van Hilst, aliás João Veniste, nativo de Hasselt, que representa- leira e preocupado em rentabilizar sua nova propriedade, Erasmo
va em Lisboa os interesses de seu tio, Erasmo Schetz. Este, de enviou um servidor flamengo de sua filial de Lisboa a São Vicente
origem alemã, mas nativo de Maastricht e casado com uma rica para fiscalizar a gestão do feitor Pedro Rouzée. Pode ter sido um
herdeira de Antuérpia, Ida van Rechtergem, controlava na re- outro sobrinho seu, Sydrach Schetz, filho bastardo do irmão cô-
gião de ­Aachen a exploração de calamina e cobre e a produção nego em Maastricht, Willem Schetz, que no seu testamento de
de bacias e manilhas de latão, em parte destinadas ao comércio 1527 lhe confiou sua tutoria e uma pensão. O mesmo Sydrach
português na África ocidental. Esquete apareceu, em 1557, na Inquisição de Lisboa como capi-
Assim, granjeava longa experiência comercial em Portugal, on- tão do navio São Jorge, vindo do Brasil e acusado de luteranismo.
de tratava também especiarias, açúcar, trigo, tapeçarias ou mesmo O relatório deste agente, escrito em flamengo e enviado de
cerveja. Gozava da confiança de Dom Manuel e de Dom João III, São Vicente em 13 de maio de 1548 – um dos mais antigos deste
provavelmente para empréstimos de dinheiro. Regressando a Flan- tipo no novo mundo –, prefigura um raro exemplo de auditoria
dres, desenvolveu, sem abandonar o comércio, sua atividade ban- moderna e surpreende por sua fria capacidade de análise capita-
cária na praça de Antuérpia, prestando serviços financeiros tanto lista. Encontra o engenho como uma pequena fortaleza, elevada
ao humanista Erasmo de Roterdã como ao imperador Carlos V. e munida com baluartes para sua defesa contra os índios ou ou-
Bem relacionado no meio mercantil e intelectual desta metrópo- tros invasores. Consta de uma casa grande, bem construída, espa-
le cosmopolita, transformou a casa de seu sogro, Huis van Aken, çosa, com senzala e ferraria e mais duas casas cobertas de telhas.
numa das melhores residências de Antuérpia, onde recebeu, em Apenas a roda d’água do engenho precisa de consertos e deveria
1549, Carlos V e seu filho, Felipe II. Para assegurar o enobreci- ser remontada para cima, a fim de evitar as inundações da ma-
mento de sua estirpe, Erasmo adquiriu em 1545 a senhoria e o ré. Produz 900 arrobas de açúcar, mas apenas 400 exportam-se
castelo de Grobbendonk. Seus filhos continuaram nesta senda a Portugal, porque, por falta de moeda circulante, os serviços e
senhorial, se bem que os descendentes de Gaspar, casado com as mercadorias pagam-se com açúcar. O próprio agente deve no
Catarina van Ursel, adotaram este nome e conhecem-se ainda pagamento de suas mercadorias contentar-se com uma letra de
hoje como duque e condes d’Ursel. câmbio sobre Antonio Becudo em Lisboa. Outro problema sério
A compra por Erasmo, nestes anos de 1540, das outras partes numa terra de muitos degredados e malandros é a ausência de um
do engenho em São Vicente podia corresponder ao anseio de in- aparato judiciário eficiente.
serir-se socialmente entre os outros grandes banqueiros, Fugger e Para aumentar a produção, julga indispensável recuperar as
Welser, que também lançaram empresas coloniais na América. terras cedidas ou ocupadas pelos moradores e comprar novas ro-
Tinha sobretudo a ver com a fulgurante expansão do negócio ças. Rouzée já conseguiu incorporar 32 tarefas a mais. Com mais
açucareiro, do qual Antuérpia, com grandes refinarias e nume- cana própria, dispensar-se-ia de moer aquela dos moradores a custo
rosos confeiteiros, projetava-se como o maior centro da Europa maior. Para alcançar esta autarquia e ao mesmo tempo suprimir
setentrional. Se na entrada do Rio Escalda a tabela do pedágio de os salários da mão de obra livre, dispõe-se de uma numerosa escra-
Iersekeroord mencionou o açúcar ‘Bresilli’ já em 1519, três anos varia, se bem que destes 130 escravos da terra, somente a metade

75
parte 3 – relações econômicas: comércio e empresas

Um dos primeiros engenhos de açúcar no Brasil, o Engenho do Governador em São Vicente, de 1530, é também o mais antigo investimento de mercadores flamengos
no Novo Mundo.

trabalha, o resto sendo velhos ou crianças. O relator aprecia muito sofreram pouco depois dramáticas perdas de vida, de fortuna e
mais os oficiais africanos, sete ou oito escravos negros da Guiné: o de prestígio durante a tormentosa guerra civil subsequente à re-
mestre de açúcar, que fornece um produto de excelente qualidade volta contra Felipe II. Nem por isso deixaram seu engenho num
e vale bem o salário de trinta mil réis, que na Madeira pagaria-se abandono completo e enviaram para lá, por várias vezes, navios
para um semelhante; e mais um purgador e dois caldeireiros, que com abastecimentos e novos empregados, como Jean-Baptiste
também dispensam as quatro arrobas de açúcar, pagas normal- Maglio, Paulo Wernaerts, um jovem cunhado de Van Hilst, e
mente por mês a cada oficial livre. A compra de mais escravos Geronimo Maya.
para fazer carvão e cinzas e plantar mantimentos economizaria Em 1565, Conrart Schetz e seu parente Jehan Vlemincx in-
o dinheiro gasto nas compras aos moradores. Aconselha por fim vestiram pouco mais de 1.300 libras em mercadorias, equipamen-
de reforçar sua dieta de produtos da terra, como a ‘panqueca de tos, ferros e até canhões, despachados num navio português. Em
mandioca’, que vale cem réis e alimenta uma pessoa por três ou 1579, o navio Licorno levou seis fardos pelo valor de mais de mil
quatro dias, com carne, bacalhau ou outros peixes salgados e quei- florins (Laga). Seu conteúdo reflete o cotidiano no engenho, que
jos flamengos e holandeses. misturava uma vida senhorial escravocrata com requinte burguês
Desconhece-se a sequência dada às suas propostas, mas quan- flamengo. Trazia, ao lado de quatro dúzias de camisas e outras tan-
do Erasmo faleceu pouco depois, em 1550, seus filhos e herdeiros tas de pratos de madeira destinados aos escravos, também tecidos
– Gaspar, Baltasar, Melchior e Conrart – formaram uma compa- mais finos, lençóis de cama, guardanapos, utensílios de cozinha,
nhia, que devia também gerenciar o engenho. Este, no período panelas para peixe, pratos de estanho, canecas para vinho e até
conturbado das investidas francesas nas costas brasileiras, tornou- uma batedeira de manteiga. Se vinham caldeirões, tachos de ferro
se um ponto de encontro e refúgio, conhecido como Engenho de e de cobre e material de ferraria, não faltavam uma escrivaninha,
São Jorge dos Erasmos ou dos Esquetes. Por lá deviam ecoar as papel e pena, e para o auxiliar Paulo Wernaerts um clavicórdio.
controvérsias religiosas entre protestantes e católicos como tam- Tocava-se música renascentista no engenho dos Erasmos! Seguia
bém a curiosidade humanística pela natureza e pela cultura dos também uma quantidade surpreendente de pinturas e imagens,
índios. Dois soldados alemães, que passaram pelo engenho, vie- uma parte talvez para ornar a capela do engenho, mas sobretu-
ram na sua volta por Antuérpia contar aos Schetz suas aventuras, do destinadas à catequese dos índios pelos jesuítas. Estes padres,
Ulrich Schmidl em 1554 e Hans Staden em 1555. inclusive o famoso Anchieta, mantinham contatos com Gaspar
O livro deste último sobre sua catividade entre os canibais Schetz, que em Antuérpia lhes tinha vendido a Huis van Aken.
foi traduzido para o flamengo e publicado, em 1558, em Antuér- Vigiavam particularmente o comportamento moral do feitor e de
pia por Christophe Plantin, que lançou simultâneamente uma seus auxiliares em São Vicente.
edição barata do livro de André Thevet sobre as singularidades Estes subalternos apropriaram-se provavelmente de uma boa
brasileiras. Este interesse podia relacionar-se com a propriedade parte dos bens e o rendimento do engenho entrou em crise, ain-
brasileira dos irmãos Schetz. Estes, muito envolvidos na vida fi- da mais durante as incursões em Santos de piratas ingleses e ho-
nanceira, política e cultural de sua cidade e dos Países Baixos, landeses no final do século. Mesmo assim, os netos de Erasmo,

76
o comércio

já completamente integrados na vida nobiliária e militar, não es- souberam aproveitar a dinâmica e ganhar um notável predomínio
queceram seus direitos sobre suas posses brasileiras. Desde 1603 desta rota açucareira. No mercado de Antuérpia o produto brasilei-
tentaram enviar, sempre por intermédio dos jesuítas, um procu- ro aumentou sua cota de aproximadamente 15% por volta de 1570
rador para investigar estas malversações. Finalmente, em 1612, o para mais de 85% no último decênio do século XVI. Sua nova
mercador flamengo Manuel van Dale conseguiu chegar até lá e abundância abriu o consumo do açúcar, antes reservado à medi-
lavrou em Santos, junto com os jesuítas, um protesto para obstruir cina e à aristocracia, a uma clientela mais larga, mesmo popular
a venda, pelo provedor de ausentes, dos bens dos Schetz, dos es- e infantil. Nas pinturas dos Breughel até o camponês rendeiro é
cravos e equipamentos de cobre. De pouco adiantou porque, em presenteado por seu patrão com um pão de açúcar.
1615, na sua volta ao mundo, o pirata Joris Van Spilbergen – por Com a reconquista católica de Antuérpia, em 1585, e o subse-
sinal um antuerpiense passado para o lado dos rebeldes holandeses quente bloqueio do Rio Escalda pelos holandeses, Antuérpia viu
– passou por São Vicente e, não obtendo ajuda nem abastecimen- partir muitos refinadores para Amsterdã e teve que lhe ceder sua
to entre os habitantes, mandou por vingança incendiar o enge- supremacia. Mesmo assim, recebia através de Lisboa suficientes
nho dos seus conterrâneos. Se este desapareceu do horizonte dos caixas de açúcar brasileiro – em média duas mil no período de
Schetz, continuou a produzir açúcar, beneficiado em marmeladas 1609-1621 – para manter uma requintada cultura da doçaria. O
e outras conservas apreciadas na economia regional. que Antuérpia perdia em quantidade compensou em boa parte
Finalmente, o terreno com as ruínas do engenho, localizado pela qualidade de seu açúcar mais fino e pela diversidade de seus
no atual município de Santos e tombado pelo patrimônio históri- confeitos, um luxo representado e celebrado nas naturezas mortas
co, foi doado em 1958 à Universidade de São Paulo (USP). Esta de Osias Beert, Clara Peeters e outros pintores deste estilo antuer-
o valorizou desde 2005 com pesquisas arqueólogicas e projetos piense, como o alemão Georg Flegel.
educacionais e construiu ao lado um centro de estudos com bi-
blioteca e auditório. Do lado belga ou flamengo não percebeu- Silvo Luiz Cordeiro, arquiteto pela Faculdade de Arquitetura e
se ainda o significado e o potencial comemorativo deste monu- Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), Doutor em
mento como elo tanto econômico como cultural entre Flandres, Arqueologia pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da USP (MAE
Portugal e o Brasil. -USP) e documentarista, desenvolve projetos relacionados ao patri-
Se os investimentos brasileiros dos Schetz resultaram onerosos mônio histórico e arqueológico, como um filme sobre o Engenho dos
pela distância e pelo controle difícil e lhes renderam finalmente Erasmos; em 2011 criou a Mostra Audiovisual Internacional em
poucos lucros, foram ao mesmo tempo estimulantes e corretivos Arqueologia (MAIA).
para o desenvolvimento da produção açucareira no Brasil e para
a sua concentração nas capitanias do Nordeste, mais próximas da Referências
Europa. Lá, em Pernambuco ou na Bahia, outros mercadores se- Carl Laga. ‘O Engenho dos Erasmos em São Vicente; Resultado de pesquisas em arquivos
guiram o exemplo dos Schetz e construíram engenhos, como os belgas’. Estudos Históricos, Marília, n. 1, 1963, p. 13-43. Eddy Stols. ‘Um dos primei-
Lins e os Hoelscher, alemães conectados com Antuérpia. Mais ros documentos sobre o Engenho dos Schetz em São Vicente’. Revista de História,
São Paulo, n. 76, 1968, p. 407-419. Eddy Stols. ‘The Expansion of the Sugar Market
jovens flamengos ousaram aventurar-se na compra de açúcares in Western Europe’. Ed. Stuart B. Schwartz, Tropical Babylons, Sugar and the Making
nas costas brasileiras e um deles, Gaspar de Mere, ergueu até seu of the Atlantic World, 1450-1680, University of North Carolina Press, 2004, p. 237-
próprio engenho no Cabo de Santo Agostinho, perto de Recife. 288. Daniel Strum. O Comércio do Açúcar. Brasil, Portugal e Países Baixos (1595-
1630). Rio de Janeiro, 2012.
Sobretudo os cristãos novos portugueses, católicos ou judaizantes,

A Companhia de Ostende e os portos brasileiros


Eddy Stols

N ovas perspectivas de contatos marítimos com o Brasil apa-


receram quando os Países Baixos meridionais passaram, em
1713, do domínio espanhol para o austríaco sob o Imperador
Seus bons lucros com produtos em voga, como o chá, leva-
ram, no final de 1722, à fundação, com patente do imperador, da
Compagnie Générale Impériale et Royale des Indes, mais conhe-
Carlos VI, um soberano benevolente. Já que o Rio Escalda e o cida como Companhia de Ostende. Sua concorrência ameaçou o
porto de Antuérpia continuaram bloqueados pelos holandeses, quase monopólio das poderosas Companhias das Índias orientais
os negociantes flamengos lançaram-se logo no comércio asiático existentes, principalmente a holandesa e a inglesa. Estas hostili-
a partir do porto de Ostende e armaram seus primeiros navios zaram os navios de Ostende, que na rota do regresso fizeram es-
para Mocha, na Arábia, Surate, Malabar e Bengala, na Índia, e cala na colônia do Cabo ou na ilha de Santa Helena à procura de
Cantão, na China. assistência e refrescos.

77
parte 3 – relações econômicas: comércio e empresas

Esboço de Fernando de Noronha por Henri Carlos Gheyselinck realizado para Dois navios, o Marquis de Prié e o Concordia, visitaram, em 4 de maio de 1728,
a Compagnie Générale Impériale et Royale des Indes, mais conhecida como o arquipélago de Fernando de Noronha e examinaram seu potencial como escala
Companhia de Ostende, 1728. para a Companhia.

Em situação de desespero, um primeiro navio de Ostende, o tilha dos marinheiros, ou até com contrabando de ouro nas costas
Sint-Mathieu, entrou em 1716 no Recife e obteve limões e água brasileiras. Além disso, a Companhia enviaria navios menores de
para salvar os tripulantes doentes. Em dezembro de 1720, o Con- aviso rumo a Ostende, Recife e Bahia, levando material náutico
cordia conseguiu no Rio de Janeiro pagar os alimentos frescos com de substituição, como âncoras, e notícias sobre a situação militar
a venda de seis escravos. Entretanto, quatro oficiais foram presos na Europa e a melhor rota para escapar dos inimigos. Pelo menos
nas ruas da cidade sob suspeita de comércio ilícito e somente sol- uma dezena de navios de Ostende entraram assim nos portos do
tos por intermédio do bispo. O navio seguiu para o Recife, onde Rio de Janeiro, da Bahia e do Recife.
vendeu tecidos indianos. Um outro navio de Ostende ancorou na No entanto, apesar das negociações entabuladas com a Corte
Bahia em 1721. de Lisboa, não foram recebidos pelas autoridades portuguesas co-
Com estes precedentes, os diretores da Companhia imagina- mo esperavam. Particularmente o vice-rei na Bahia mostrava-se
ram uma nova rota e logística marítima para recorrer sistema- muito rigoroso. Em maio de 1727, com a chegada de quatro na-
ticamente aos portos brasileiros. Os capitães deviam valer-se de vios, limitou sua permanência, colocou soldados a bordo e confi-
um passaporte do imperador e do parentesco deste com o rei de nou os quatro capitães e seus sobrecargos numa casa com guardas.
Portugal. Poderiam vender uma parte de suas mercadorias para Interditou sob pena de morte qualquer comércio e encarregou
pagar o abastecimento e oferecer presentes de seda, porcelanas seus fiscais da Fazenda do abastecimento. O preço muito alto deste
ou tecidos de até o valor de 800 a 1.000 pistolas. Provavelmente podia encobrir alguma corrupção. Um quinto navio chegou em
especulavam com mais negócios por lá, pelo menos com a paco- julho no Recife, onde os alimentos frescos eram mais baratos e um

78
o comércio

Aquarela de Fernando de Noronha por Henri Carlos Gheyselinck, 1728.

agente pretendia, mediante uma gratificação, garantir no futuro terra, seus doentes de escorbuto sararam em dois dias. Sabiam do
uma recepção mais benevolente. malogro holandês em estabelecer-se por lá por causa dos ratos,
Procurando uma alternativa, a Companhia cogitou criar um mas achavam possível tentar de novo. Bastava introduzir gatos
posto em Fernando de Noronha. Dois navios, o Marquis de Prié para comer os ratos e plantar.
e o Concordia, visitaram, em 4 de maio de 1728, o arquipéla- Não consta que os navios de Ostende voltaram, uma vez que,
go e examinaram seu potencial como escala estratégica para a por pressão dos holandeses e ingleses, a Companhia foi interditada
Companhia. Num levantamento geográfico, Cortmemoriael van em 1731 e finalmente liquidada em 1734.
‘t Eylant Fernando de Noronha, com esboços e uma aquarela por
Henri Carlos Gheyselinck, constataram que, apesar dos abrolhos Referências
e corais, era possível ancorar sem danos. Encontraram boa água, Arquivo Municipal de Antuérpia, Fundo GIC, #5.704, 5.929 e 5.931; Biblioteca Real, Bru-
beldroegas, cabritos, pombas, vacas selvagens e muito bom peixe. xelas, Manuscritos, II-161, Jornal do Concordia; Biblioteca Universidade de Gand,
Em três noites capturaram 14 tartarugas de 500 a 600 libras. Em Fundo Hye-Hoys, Manuscrito 1837. Eddy Stols. ‘A Companhia de Ostende e os Portos
Brasileiros’. Estudos Históricos, Marília, n. 5, 1966, p. 83-95.

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parte 3 – relações econômicas: comércio e empresas

Antuérpia e os diamantes do Brasil


T i j l Va n n e s t e

Q uando nos anos de 1723 e 1724 foram extraídos os primei-


ros diamantes no Rio Jequitinhonha, na região do Serro em
Minas Gerais, Antuérpia já tinha uma longa tradição de comércio
no Brasil a lavra de pedras se liberou do monopólio, importava di-
retamente ou por intermédio de comerciantes franceses. Se a par-
tir de 1867 começaram a predominar as pedras da África do Sul,
e lapidação de diamantes. As pedras brutas eram importadas prin- os diamantes brasileiros continuaram chegando, principalmente
cipalmente da Índia pela Carreira portuguesa e por intermédio de dos novos centros de extração, como Lençóis, na Chapada Dia-
mercadores flamengos ativos em Lisboa nos séculos XVI e XVII. mantina. Capital belga foi investido na formação de companhias
Desde 1582 uma guilda reunia e regulamentava os mestres lapi- francesas, como a Boa Vista. Ainda em 1923 uma parada festiva
dários e polidores, que cravejavam as pedras em alfaias litúrgicas da Antuérpia diamantária celebrava com um carro alegórico sua
para o culto católico e em joias para a nobreza e a rica burguesia. gratidão a essa riqueza brasileira.
Boa parte destinava-se à venda em Paris e na corte francesa, mas A dianteira de Antuérpia se devia sobretudo ao desenvolvimen-
também em Viena, Milão, Constantinopla e Moscou, ou até nas to industrial da lapidação. Já em 1842 Jean-Jacques Bovie insta-
cortes da própria Índia. lou no seu ateliê uma primeira máquina a vapor, que funcionaria
Rapidamente, a abundância dos diamantes brasileiros provo- quase exclusivamente com pedras brasileiras. Com o tempo essa
cou uma queda de preços e o pânico entre os negociantes em indústria diamantária exportava também instrumentos e know-how
Londres, Amsterdam e Antuérpia. Para melhor controlar o mer- para o Brasil. Discos utilizados para lapidar pedras preciosas no
cado, a Coroa portuguesa decidiu, em 1753, aplicar ao comércio final do século XIX vieram da companhia G. J. de Winter & Fi-
diamantário na Europa um sistema semelhante ao monopólio já lho, de Antuérpia. Numa visita a Lençóis, em 1920, o jornalista
operativo na mineração desde 1739. Entre os interessados nesta belga S. Hartveld notou que as máquinas de lapidação eram de
exclusividade se apresentou um rico mercador de Antuérpia, Ja- origem antuerpiana.
mes Dormer, de origem inglesa, mas casado na burguesia local. Entrementes, desde o final do século XIX o potencial indus-
Ele tinha boas conexões com uma firma anglo-judaica de Lon- trial e comercial de Antuérpia se beneficiou bastante com a che-
dres, Francis e Joseph Salvador, muito importante no mundo dos gada de judeus fugitivos dos pogroms na Europa oriental e melhor
diamantes e em contato com os governantes portugueses. Juntos conectados internacionalmente, particularmente com Amsterdã
fizeram uma proposta para comprar a cada ano 25.000 a 30.000 e Paris. Empresários judeus deste circuito fugiram no contexto
quilates de diamantes brasileiros, por um período de três anos. da Segunda Guerra Mundial para o Brasil, alguns com vistos do
Não se concretizou. Ao passo que os Salvador sofreram grandes embaixador brasileiro em Vichy, Souza Dantas, e operaram uma
perdas no terremoto de Lisboa em 1755, o Marquês de Pombal nova transferência tecnológica. Significativa desta interação e da
deu preferência aos mercadores holandeses, que fortaleceram o modernização da joalharia no Brasil foi a atribuição, em 2003, de
predomínio de Amsterdã no comércio diamantário. um Antwerp Diamond Award a um bracelete da designer brasileira
Não obstante, Antuérpia continuou a receber indiretamente Gláucia Silveira.
muitas pedras brasileiras e sua guilda viu subir o número de apren-
dizes em até quase 80 por ano por volta de 1765. Como Amster- Tijl Vanneste, historiador especializado em história global e em his-
dã se reservava as pedras melhores e enviava as pequenas ou de tória da América do Sul nos séculos XVII-XIX, trabalha atualmente
baixa qualidade para Antuérpia, seus lapidários se especializavam na Universidade de Exeter e tem afiliações com a Universidade Paris-
particularmente na talha de roosjes ou diamante-rosa para joias VII e a Universidade Nova de Lisboa.
mais baratas. Entre as mais correntes figuravam os ‘hertekens’ ou
corações, que os filhos ofereciam à sua mãe no dia da Assunção Bibliografia sobre os diamantes
da Virgem, em 15 de agosto, costume consagrado posteriormen- S. Hartveld. Schetsen uit Brazilië, Antuérpia, 1921; Iris Kockelbergh, Eddy Vleeschdrager
te e comemorado até hoje como o dia das mães em Antuérpia. e Jan Walgrave (eds). The Brilliant Story of Antwerp Diamonds, Antuérpia, 1992; Tijl
Durante o século XIX, Antuérpia conseguiu revigorar seu setor Vanneste. Global Trade and Commercial Networks: Eighteenth-Century Diamond
Merchants, Londres, 2011; Nicolaas Verschuur. Brieven uit Brazilië, 1897-1902. Ams-
diamantário. Dependia agora menos de Amsterdã e, uma vez que terdam, 1989.

80
o comércio

A barca de três mastros ‘Dyle’ da Société Maritime Belge, que no 14 de julho de 1846 deixou Antuérpia para o Rio de Janeiro com 162 emigrantes a bordo.

A toda vela para o Brasil, impressões do passado marítimo oitocentista


J a n Po s s e m i e r s

‘A ntuérpia deve o Escalda a Deus e todo o resto ao Escalda’


é voz corrente nesta cidade à margem do Rio Escalda. Es-
te ficou durante mais de dois séculos fechado à navegação, mas
A revolução de 1830

Depois da revolução belga de 1830, dezenas de mercado-


depois de sua reabertura em 1795 o porto recuperou seu caráter res-armadores migraram para Roterdã ou Amsterdã, já que a
internacional. Uma vez que o Brasil, por decreto de 28 de janei- bandeira belga não era bem-vinda nas colônias holandesas. En-
ro de 1808, admitiu navios estrangeiros, não demorou muito o tretanto, Antuérpia conseguiu restabelecer rapidamente os con-
interesse de Antuérpia por este país. No final dos anos de 1820, tatos com a América Latina. Melhor ainda: os portos latino-a-
quando a Bélgica constituía ainda junto com a Holanda o Reino mericanos tornaram-se o principal destino dos veleiros belgas
Unido dos Países Baixos, Antuérpia já recebia uns 15 navios do de longo curso.
Brasil. O armador-negociante Adriaan Saportas era, ao lado de O primeiro navio de bandeira belga a chegar ao porto do Rio
outros, um ativo importador de produtos brasileiros, como café, de Janeiro em 2 de janeiro de 1832 foi o brigue antuerpiense La
açúcar e couros. Figurava também como diretor da Société d’Ar- Paix do armador Joseph Muskeyn. Parece que custou ao capitão J.
mement d’Anvers pour le Brésil, que procurou organizar um ser- Roose sete dias de negociações antes que as autoridades – por in-
viço regular entre Antuérpia e o Rio de Janeiro. tervenção do cônsul da França – reconhecessem o tricolor belga e

81
parte 3 – relações econômicas: comércio e empresas

lhe dessem as boas-vindas com sete tiros de canhão. O Paix entrou por iniciativa dos próprios negociantes-armadores antuerpienses.
no Rio num momento pouco propício porque uma revolta contra Alguns eram muito interessados e ativos na rota do Brasil, outros,
Pedro I perturbava o comércio. Em 12 de agosto o brigue estava apenas esporadicamente. A barca Marie Key, de propriedade do
de volta a Antuérpia, carregado com, entre outros, 340 sacos de armador antuerpiense Jean Key, fez entre 1839 e 1862 um total
café para a firma J. L. Lemmé. Em 1836 chegaram 22 navios do de 35 viagens, das quais nada menos que 21 para o Rio de Janeiro
Brasil ao porto do Escalda, em 1845, 59, e em 1848 já eram 70. (12 vezes em direitura desde Antuérpia e nove vezes de um outro
Os navios estrangeiros procedentes do Brasil em Antuérpia ultra- porto: Cardiff, Cádiz, Lisboa ou Setúbal).
passavam quase sempre em número os belgas, ainda mais porque Outros navios de Key frequentavam menos o Brasil: a barca
a marinha mercante belga continuou de tamanho muito modesto. Jean Key fez entre 1829 e 1855 um total de 39 viagens, das quais
A viagem de Antuérpia ao Rio levava em média 50 dias. A volta somente três para o Rio de Janeiro. Muito ativo na rota do Brasil
à Europa durava pouco mais, cerca de 60 dias, já que os veleiros foi também Egide Van Regemortel, proprietário entre 1830 e 1866
precisavam procurar no Oceano Atlântico setentrional os ventos de uma dezena de veleiros. Sua escuna Octavie partiu, entre 1847
do ocidente. As tempestades e as bravuras do capitão e de seus e 1867, 11 vezes para o Rio, uma vez para a Bahia e 17 vezes pa-
marinheiros fizeram entrar a viagem ao Rio no imaginário popu- ra o Maranhão e o Pará. Ladislas Paridant, casado com uma filha
lar no romance In ‘t schipperskwartier: tafereelen uit het Vlaams- do importante armador Cateaux-Wattel e que negociava no Rio
che volksleven, de Domien Sleeckx (1861). Existia aliás no bairro de Janeiro, expôs suas ideias a este respeito no livro Des lignes de
portuário um café Rio. navigation entre l’Europe et le Brésil (Liège, 1855).
Na ida para o Brasil os veleiros antuerpienses carregavam geral-
Armadores, navios e cargas mente sal, carvão ou mercadorias isoladas. Na falta de uma carga
lucrativa navegavam com lastro. Na volta traziam café, açúcar e
Nos anos de 1840 e 1850 a Société Maritime Belge de Bruxelas couros, que tinham mercado garantido na Europa. Também era
era a principal companhia marítima belga na rota do Brasil. A em- o caso para navios dos quais o primeiro destino era a costa Leste
presa possuía entre 1837 e 1856 um total de 13 veleiros. Em 1841 dos Estados Unidos, mas que, na volta à Europa, procuravam boas
ela fechou com o governo belga, que queria apoiar a marinha mer- cargas em portos latino-americanos: café brasileiro, açúcar cubano
cante e incentivar a exportação de produtos belgas, um contrato ou produtos do Rio de la Plata. Egide Van Regemortel trazia do
de exploração de uma linha direta e regular para o Rio de Janeiro, Maranhão e do Pará para Antuérpia couros, algodão e borracha,
inicialmente continuada até Valparaiso. Em 1842 já se organiza- sob o nome de ‘Gom-Elastic’, além de arroz, cacau, café, bálsamo
ram cinco partidas. Seguiram outros destinos ultramarinos, entre de copaíba, tabaco e salsaparrilha.
os quais Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Sul. Nestas linhas
publicava-se para cada saída uma adjudicação. A Comissão para a Emigrantes
navegação a vela avaliava os candidatos e designava, depois de um
exame técnico dos navios, o preferido. Por princípio somente acei- Um tráfico bem particular envolvia os emigrantes. Muitos mi-
tavam-se veleiros de primeira classe, ataviados de cobre e sob ban- lhares de europeus se dirigiram por meados do século XIX a partir
deira belga. Cada travessia era subsidiada pelo governo da Bélgica. de Antuérpia para a América do Sul. Assim, o Phénomène, uma
Por mais importantes que fossem as linhas de veleiros previs- galera de Egide Van Regemortel, partiu em agosto de 1846 com
tas pelo governo, a maior parte das partidas para o Brasil fazia-se 253 emigrantes para o Rio de Janeiro. Na sua esteira seguiu em

Alexandre Baguet e Urbain Flebus

O antuerpiense Alexandre Baguet (1817-1897) viajou em 1842 para o Rio de Janeiro onde ficaria uns dez anos. Em 1845 começou uma jornada
audaciosa pelo Rio Grande do Sul e Paraguai. De regresso a Antuérpia, Baguet fez fortuna como negociante. Em abril de 1874 foi nomeado vi-
ce-cônsul do Brasil. No mesmo ano publicou seu relato da viagem, Rio-Grande-do-Sul et le Paraguay. Souvenirs de voyage. Baguet escreveu mais
dezenas de artigos sobre o Brasil na revista da Société Royale de Géographie d’Anvers. Milton Costa traduziu e editou sua Viagem ao Rio Grande
do Sul, Santa Cruz do Sul, 1997. • Urbain Flebus (1839-1853) era um sobrinho de Alexandre Baguet e pertencia a uma família antuerpiense de bo-
as posses. Mesmo assim, com apenas 12 anos de idade, Flebus fez em 1851 sua primeira viagem marítima à América do Norte e à Ásia. Em 8 de
setembro de 1852 partiu de novo, esta vez como novice na barca Indépendance, com destino ao Rio de Janeiro, onde chegou em 6 de novembro.
Carregado com 3.200 sacos de café a Indépendance iniciou em 29 de novembro a viagem de volta, mas deixando Urbain Flebus muito doente no
Rio. Faleceu lá, talvez de febre amarela, em 9 de janeiro de 1853, com seus 14 anos ainda não cumpridos. • A Indépendance era propriedade da
Société Maritime Belge. Entre 1839 e 1856 a barca fez 19 viagens para o Brasil. Em julho de 1856 o navio sofreu avarias entre a Bahia e o Rio de la
Plata. Regressada à Bahia a Indépendance foi declarada imprópria em 16 de agosto de 1856 e vendida.

82
o comércio

A marinha belga

Já que os armadores antuerpienses lidavam com uma contínua falta de tripulantes, nos anos de 1830 e 1840 colocavam-se oficiais e marujos da
marinha nacional à disposição da marinha mercante. O governo pagava o ordenado e fornecia os víveres. Assim, partiu o brigue Caroline (capi-
tão Petit) em 24 de junho de 1835 com uma tripulação militar para o Rio. Voltou em janeiro de 1836 a Antuérpia carregado de café para os im-
portadores Lemmé e Nottebohm. Parece que trazia também uma rica coleção de plantas brasileiras e um casal de pássaros exóticos para o Rei
Leopoldo I. • A própria marinha belga chegou a frequentar os portos brasileiros. O brigue de guerra Duc de Brabant passou em 1847 pelas costas
latino-americanas e visitou Santa Catarina e o Rio. No dia 6 de abril de 1855, o brigue ancorou de novo na baía de Santa Catarina, onde os belgas
quiseram visitar seus compatriotas que residiam por lá. No Rio, o Estado Maior do Duc foi recebido pelo hospitaleiro cônsul-geral belga, Edouard
Pecher, e sua esposa, outra filha do armador Cateaux-Wattel. Tenente-do-mar, Émile Sinkel (1823-1876), descreveu em sua Vie de marin, 1872-74,
como o grupo passou um domingo paradisíaco na Ilha de Paquetá, na baía de Guanabara, junto com as famílias dos negociantes alemães, italia-
nos e belgas. O comandante do Duc de Brabant, o primeiro oficial e o próprio Sinkel foram também recebidos pelo casal imperial. Em 1º de maio
continuaram a viagem à Bahia. • Quem de nós não ouviu falar do Rio? Desde que estou no mar, este nome martelava constantemente minhas orelhas,
acompanhado de exclamações da maior admiração. É o mais belo porto do mundo, dizem os marinheiros; é a baía mais magnífica, é o nec plus ultra da
natureza, dizem os viajantes. Portanto eu estava prevenido e minha curiosidade em alerta. Num semelhante estado de espírito, geralmente ressente-se
decepções. Aqui nada disso. (Émile Sinkel)

novembro a Marie Key com 118 emigrantes. No mesmo ano, sete numa viagem, passando por Le Havre, para Bahia, Santos, Rio de
navios belgas levaram 768 emigrantes para o Rio. Um navio saiu Janeiro e o Rio de la Plata. Em 25 de abril de 1872 o steamer vol-
para Santa Catarina, onde uma empresa belga procurava realizar tou no seu porto de registro, carregado em Santos com 265 sacas
um projeto de colonização. Ainda em 1846 partiram oito navios de algodão para a firma Bunge. Também os vapores da companhia
estrangeiros com 878 emigrantes de Antuérpia para o Rio e mais antuerpiana John P. Best & Co. destinavam-se excepcionalmente à
um, com 95 para o Rio Grande. América do Sul. Foi o caso do SS Ferdinand Van der Taelen em ja-
neiro de 1875 saindo de Antuérpia para o Brasil e o Rio de la Plata.
Da vela ao vapor Os meios comerciais de Antuérpia pouco se importavam com
o declínio da marinha mercante belga. Acreditavam tranquila-
A partir dos anos de 1860 diminuiu muito rapidamente o nú- mente que o princípio ‘Trade Follows the Flag’ não se aplicava ao
mero de veleiros belgas. O governo aboliu os subsídios e os arma- seu porto tão bem situado e de fácil acesso. Algumas tentativas
dores familiarizados com os veleiros sofriam a concorrência brutal para estabelecer linhas belgas de vapores para a América do Sul
dos vapores bem maiores e mais rápidos. A exportação de produtos fracassaram. Assim foi fundada, em 1855, por iniciativa da compa-
agrícolas sul-americanos para Antuérpia fazia-se, cada vez mais, nhia de veleiros Spilliaerdt-Caymax, uma Société Belge de Bateaux
com linhas de vapores do exterior, que empalmavam as melhores à Vapeur entre la Belgique et l’Amérique du Sud. A Société Générale
cargas. O capitão Charles Boone, da companhia antuérpiense de de Belgique e o Banque de Rothschild de Paris interessaram-se pelo
veleiros De Decker – Cassiers, informou mais de uma vez ao seu negócio e o governo belga prometeu um subsídio. Encomendaram
armador que nos grandes portos sul-americanos estavam anco- quatro vapores metálicos na Holanda. Um destes, o Rio de Janei-
rados dezenas de veleiros à espera, sem resultado, de uma carga ro (1857), tinha capacidade de carga de quase 600 toneladas para
lucrativa. Em 1874 De Decker – Cassiers o considerou o assunto carvão e de quase 500 toneladas para mercadorias. Além disso,
resolvido. O armador Claeys escutou a mesma história de seu ca- tinha espaço para 220 passageiros, dos quais 40 em primeira clas-
pitão Thomas Zellien. Este relatou, numa carta do Rio Grande se, com cabines com água corrente e banheiros, e uma magnífica
do Sul em 31 de março de 1870, que havia 195 veleiros à espera. cabine para senhoras com piano e canapés. No entanto, por causa
Somente alguns poucos negociantes-armadores antuerpienses de vários problemas financeiros e de organização, a companhia foi
conseguiram adquirir seus próprios vapores. Daniel Steinmann fi- dissolvida no final de 1858. O Rio de Janeiro nunca navegou sob
gurou primeiro como carregador e agente marítimo, mas dispunha bandeira belga e foi vendido no exterior.
desde os anos de 1860 de seus próprios veleiros e vapores. Sob a Por falta de iniciativas belgas o governo decidiu conceder sub-
bandeira da White Cross Line navegavam sobretudo para a América sídios para atrair companhias estrangeiras a Antuérpia. Assim, o
do Norte, mas esporadicamente destinavam-se também ao Brasil e Ministro de Obras Públicas, Auguste Beernaert, concluiu em 1876
ao Rio de la Plata. A companhia T. C. Engels & Co., fundada em um contrato com a companhia britânica Lamport & Holt sobre
1859, comprou tanto veleiros, entre os quais alguns navios de ferro uma linha subsidiada para o Brasil e o Rio de la Plata. Como a
para o transporte dos nitratos chilenos, como também vapores. O companhia tinha que incorporar navios sob bandeira belga, orga-
SS de Ruyter (2.500 toneladas) partiu em 23 de dezembro de 1871 nizou-se uma Société Anonyme de Navigation Royale Belge-Sud-

83
parte 3 – relações econômicas: comércio e empresas

-Américaine. A linha começou em 1878, com oito vapores sob ban- do Brasil – a uma nova artéria aberta no velho bairro portuário,
deira belga e introduziu depois ainda outras unidades, porém sob conhecido como Het Eilandje. Este nome de rua ainda existe e
bandeira britânica. Os subsídios para a Lamport & Holt revelaram- forma um conjunto latino-americano com a Limastraat, a Monte-
se uma sangria para o tesouro. Provocaram a resistência do partido videostraat e a mais afastada Mexicostraat. Novas iniciativas belgas
liberal e foram também bastante criticados nos círculos mercantis exitosas na navegação a vapor avançaram até o século XX, mas isto
de Antuérpia. O contrato terminou em 1908. Na medida em que já é uma outra história.
o número de linhas de vapores em Antuérpia aumentou, os sub-
sídios tornaram-se desnecessários. Com meus agradecimentos particulares ao senhor Luc Van Coolput,
Sem exagero deve-se constatar que Antuérpia tornou-se nos membro da Real Academia Belga da Marinha e autor de diversas pu-
últimos decênios do século XIX um porto mundial sem frota pró- blicações sobre a marinha mercante, que gentilmente colocou muitos
pria. Nos portos brasileiros quase não se viu mais o tricolor belga. dados à minha disposição.
Mesmo assim, Antuérpia e Brasil ficavam conectados mais que
nunca graças à rede mundial de linhas de vapores britânicas e Jan Possemiers, historiador, com tese de licenciatura sobre o bairro
alemãs. Estes embarcavam produtos industriais belgas e sobretudo ecléctico de Zurenborg em Antuérpia, premiada e publicada pela Real
os emigrantes da Europa central e oriental, mas interessavam-se Academia Flamenga da Bélgica, publicou também vários trabalhos
também aos candidatos belgas. Estes eram recrutados com uma sobre a atividade marítima de Antuérpia.
propaganda pouco escrupulosa, denunciada pelo escritor Georges
Eekhoud em seu romance La Nouvelle Carthage, 1893, que trazia Referências
uma descrição naturalista do mundo de negócios antuerpiense. A. De Burbure de Wesembeek. Une anthologie de la marine belge. Antwerpen,1963; Gus-
Neste fervor náutico pelo Brasil, o governo municipal de An- taaf Asaert e. a. Antwerp: a port for all easons. Antwerpen, 1986; J. Vrelust (edit.) An-
tuérpia decidiu, em 1874, dar o nome de Braziliëstraat – Rua twerpen Wereldhaven. Over handel en scheepvaart. Antwerpen, 2012.

Um traficante de escravos na Bahia


Chris Delarivière

D ezembro de 1851. O Rei Kosoko, soberano de Lagos, já era


há tempo uma espinha no olho dos britânicos que controlo-
vam a baía do Benin. Lagos virou o principal pivô do trato dos es-
As cartas

As cartas de Edouard Gantois ao Rei Kosoko constituem do-


cravos na África e o rei recusou teimosamente em ceder às exigên- cumentação singular sobre o estilo mercantil do tráfico de es-
cias dos britânicos de terminar com o tráfico de escravos. Quando, cravos. Em termos práticos e frios descrevem a mercadoria for-
além do mais, o Rei Kosoko rejeitou a amizade da rainha da Ingla- necida. Em nenhuma parte aparece a palavra ‘escravo’ e se fala
terra, os britânicos decidiram parar as negociações diplomáticas e antes de ‘sacas’ ou ‘pacotes’. Oferecem um balanço detalhado da
passar para o método duro. ‘mercadoria’, levando em conta os preços de compra e venda, os
Um dia depois do Natal a Royal Navy começou o ataque a La- gastos médicos e os alimentos, os prêmios de seguro, as comissões
gos. Os navios do West Africa Squadron entraram na desembocadura e a ‘mercadoria’ avariada. A correspondência prova também que
do rio e dirigiram-se para o centro da cidade. Ao fogo cerrado dos Edouard Gantois tinha relações comerciais seguidas com o Rei
sitiados, responderam com salvas dos canhões Howitzer. Rapida- Kosoko. Assim informou o monarca sobre os avanços na cons-
mente uma parte da cidade pegou fogo. Desembarcando com suas trução de um veleiro de dois mastros destinado ao transporte dos
tropas auxiliares africanas, os soldados britânicos encontraram forte escravos do rei africano.
resistência. Mesmo assim, os guerreiros do Rei Kosoko não rechaça- A última carta de Edouard Gantois data de 1850, em pleno
ram as tropas da Royal Navy. O rei fugiu e dos três mil defensores da declínio do tráfico de escravos. Sob o impulso da Grã-Bretanha,
cidade algumas centenas perderam a vida. Os britânicos contaram combatia-se com mais rigor os traficantes e também no Brasil
somente uma dezena de vítimas. A queda de Lagos acabou assim cessou a tolerância de longa data. Em suas cartas ao Rei Kosoko
com o último grande empório de escravos da África ocidental. Nos transpareciam as crescentes dificuldades e as queixas sobre a de-
dias seguintes os conquistadores acharam no palácio do rei um ma- feituosa qualidade da mercadoria. Muitos escravos eram velhos ou
ço de cartas. Tratava-se da correspondência entre o Rei Kosoko e doentes demais e alcançavam preços baixos. Além disso, o risco
seus parceiros de negócios no Brasil. Várias cartas eram provenientes do embargo dos navios aumentava. Numa carta de outubro de
de Gantois & Marback, uma firma comercial com sede em Salva- 1849, Gantois alertou o Rei Kosoko a respeito dessas dificuldades
dor, Bahia, e fundada por Edouard Gantois, originário de Gand. e insistiu para pressionar alguns de seus devedores. Um tal de Pe-

84
o comércio

dro Marques devia ainda fornecer cinco ‘sacas’. Ajau d’Acambi e para comprar e armar navios negreiros. Sobre os transportes por
Agenia estavam ainda em falta na sua conta de três e dez ‘sacas’. conta de Gantois encontram-se ainda alguns dados nos arquivos.
Pelo visto Edouard Gantois não era homem de sentimentos, mas Em 1836, o negreiro Atalaya realizou o Middle Passage em
de trato frio e funcional. 128 dias. No golfo de Benin carregou 284 escravos, dos quais 270
desembarcaram em La Havana. Uma segunda viagem no mesmo
Traficante de escravos e homem de negócios ano teve menos êxito, e uma carga de 121 escravos foi intercep-
tada pela marinha britânica na baía de Biafra. O ano de 1836 foi
Subsistem poucos dados biográficos sobre o traficante belga. turbulento para a firma Gantois, pois tinha também o Esperança
Apesar de sua posição proeminente no meio dos negociantes de na rota. Uma primeira viagem começou na Nigéria com 352 “pe-
Salvador, Edouard Gantois continua uma figura algo obscura. ças” e terminou na Bahia com 325 sobreviventes. Um segundo
Nascido no final do século XVIII, emigrou para o Brasil onde es- transporte com 477 “peças” foi confiscado. Oito anos mais tarde
tabeleceu uma firma comercial em Salvador. Lá ficou ativo entre Edouard Gantois continuava ativo no tráfico. Em abril de 1844
1830 e 1850 principalmente no tráfico de escravos, comércio ile- partiu a escuna A Felicidade, sob o comando do capitão J. J. da
gal mas lucrativo com agência na Rua d’Alfandega, na parte baixa Silva. Dos 589 escravos embarcados na África, depois de 73 dias
da cidade. Gantois era visivelmente um peixe graúdo no tráfico. de viagem para chegar à Bahia, apenas 530 resistiram. No mes-
Junto com seus parceiros, como o francês Guilhaume Pailhet e mo ano a guarda costeira brasileira interceptou outro navio de
o britânico Henry Marbach, dirigia uma empresa próspera, com Gantois. O bergantim A Fortuna tinha carregado em Lagos 630
vários navios. Nesse período de 20 anos fizeram pelo menos 36 escravos, dos quais 610 continuavam vivos. Em 1846 o iate Maria
transportes clandestinos, dos quais somente quatro foram intercep- partiu de Lagos com 178 africanos para a Bahia e chegou com 160
tados. Os barcos partiam de Salvador com tabaco, têxteis, açúcar, sobreviventes, que foram vendidos.
cachaça, armas e pólvora, que trocavam na África ocidental por Por volta de 1850 os negócios começaram a declinar. As autori-
escravos. Sua firma era lucrativa. dades brasileiras agiam com mais severidade e a West-Africa Squa-
Entretanto, o Brasil, seguindo a Grã-Bretanha e outros países, dron da marinha britânica patrulhava mais intensivamente a costa
proclamou em 1831 a ilegalidade do tráfico escravista. Se a escra- da África ocidental para interceptar os navios negreiros. A queda
vidão continuou existindo, o comércio transatlântico de escravos de Lagos foi um golpe definitivo para o tráfico. Em seu relatório
ficou proibido, mas a lei continuou letra morta. As fazendas e as de 24 de março de 1851, G. Jackson, Her Majesty’s Commissioner,
minas estavam tão dependentes da mão de obra escrava que as au- em Luanda, informou a apreensão, pelo West-Africa Squadron, de
toridades fechavam os olhos, ainda mais mediante propinas. Até 54 navios, de março de 1850 a 1851, o que levou à libertação de
1850 a introdução de escravos continuou sem maiores problemas um total de 4.841 escravos. Em decorrência, constatou-se a venda
e oferecia excelentes lucros a Gantois e seus colegas. mais difícil de escravos e a falência dos traficantes.
Em 1845 o cônsul francês, Mauboussin, considerou a chegada
de 5.542 escravos como a principal atividade comercial em Salva- O Terreiro do Gantois
dor. Dava bons lucros, já que, segundo o britânico Lord John Hay,
comprava-se um escravo por 10 dólares e vendia-se por 500 dólares Edouard Gantois deve ter ficado muito preocupado com a
no Brasil. Em seu informe consular, Mauboussin relacionava a notícia sobre a queda de Lagos. Pouco antes havia construído um
companhia belgo-francesa Gantois & Pailhet entre os traficantes navio para o Rei Kosoko e agora não podia mais recuperar seu
estrangeiros, que, aliás, desprezava como contrabandistas de hu- dinheiro gasto. Sem futuro para o tráfico, Gantois procurou ou-
manos. Seus principais portos eram Lagos, na Nigéria, e Ouidah, tras atividades comerciais. Isto transparece no relatório de viagem
no Benin, onde tinham seus agentes e depósitos. do Imperador Pedro II pelo Norte do Brasil em 1859. Aí Gantois
figurou como proprietário de uma fábrica de tabaco. Nove anos
Os navios de Gantois depois da abolição do tráfico reconverteu-se em industrial. Além
disso, investiu seus lucros do tráfico na compra de terras, que o
Uma ida e volta no trato dos viventes entre o Brasil e a África transformaram em latifundiário. Num destes terrenos formou-se
ocidental tomava de três a quatro meses, dependendo das escalas por meados do século XIX uma sociedade de candomblé, fundada
escolhidas e das eventuais paradas. Estima-se que, de 1800 até por mulheres Yoruba, que tinham chegado como escravas.
1860, foram traficados de 2 a 2,5 milhões de escravos africanos Foi o começo do Terreiro do Gantois, um dos templos mais
para o Brasil. A mortalidade nos tumbeiros era alta e em média antigos do culto sincretista afro-brasileiro, situado no atual distrito
de 10% a 20% não chegava ao fim da travessia. Mesmo assim era Federação, onde se localiza o campus da Universidade Federal de
um negócio lucrativo que atraía muitos comerciantes estrangeiros. Salvador. Entre os frequentadores do terreiro encontra-se gente de
Alguns combinavam com a venda de ferramentas e armas, ainda todas as classes sociais, das favelas aos condomínios ou aos meios
mais que lá serviam para a caça e a prisão dos escravos. O gandense artísticos. A cantora Maria Bethania celebrou numa de suas can-
Edouard Gantois era um deles e associou-se com outros traficantes, ções ‘minha mãe Menininha...’, a famosa mãe-de-santo Menininha
como o francês Guilhaume Pailhet e o britânico Henry Marbach, do Gantois, que ganhou prestígio nacional. Parece um destino irô-

85
parte 3 – relações econômicas: comércio e empresas

nico que precisamente nas terras de um traficante floresceu uma Chris Delarivière é jornalista independente em Gand, autor de re-
das mais respeitadas comunidades do candomblé afro-brasileiro. portagens sobre a cultura e música popular brasileira, traduziu para
Em Salvador não se encontram mais rastros de Edouard Gan- o flamengo a História da Província de Santa Cruz, de Pêro de Maga-
tois. Mas, sim de seus parceiros, o comerciante britânico Henry lhães Gandavo, descendente de um flamengo de Gand.
Marback (Marbach), originário de Liverpool, que se tornou, na
segunda metade do século XIX, um dos homens mais ricos da Bibliografia sobre Gantois
Bahia. Com sua fortuna, ganha parcialmente no tráfico, comprou Pierre Victor Mauboussin. Rapport sur la traite de noirs à Bahia en 1846, Ministére des
no bairro do Bonfim uma casa grande com vista para a Bahia de Affaires Etrangères, Correspondance Consulaire et Commerciale, Consulat de Bahia
Todos os Santos. O Solar Marback ainda encontra-se lá, perto da Vol. 5;Transatlantic Slave Trade Database, <http://www.slavevoyages.org> ; Accounts
& Papers: 48 volumes (47 – Part I); Consuls; Slave Trade (Session 1852-1853), Vol.
igreja do Senhor do Bonfim, que protagoniza a maior festa religio- CIII-Part I; Pierre Verger.Flux et reflux de la traite des négres. Paris, 1968; Pedro Vas-
sa de Salvador, a Lavagem do Bonfim, na qual atuam tanto padres concelos. Salvador: transformações e permanências (1549-1999). Ilhéus, 2002.
católicos como mães-de-santo do candomblé.

Esse fuzil de caça de 2 tiros corresponde ao modelo conhecido como “brasileiro”, que era especialmente fabricado em Liège, na segunda metade do século XIX, para
exportação. Tais armas se caracterizavam por seu modo de carragamento pela boca, pelo seu mecanismo de disparo à percussão e pela escultura da coronha. Se trata de
um modelo de luxo, ricamente esculpido, gravado e incrustrado de ouro. A tampa da caixa de munição, situada na coronha, leva o brasão do antigo império do Brasil.
Um agradecimento a Claude Gaier, especialista do comércio de armas e ex-diretor do antigo Museu de Armas de Liège, pelas fotografias.

Os belgas se situaram no século XIX entre os maiores consumidores de café, com até 7
quilos por pessoa. Se o primeiro café brasileiro teria chegado ao porto de Antuérpia via
Lisboa já por volta de 1807, somente a partir de meados do século importaram-se grandes
quantidades. Entretanto, se vendia no varejo como café de Java, de maior reputação. A
origem brasileira começou a valorizar-se depois que, nas Exposições de Antuérpia, em
1885, e de Bruxelas, em 1910, milhares de visitantes puderam prová-lo gratuitamente nos
pavilhões do Brasil. Ganhou fama com a qualidade “Santos”, nome que um negociante
belga incorporou em 1910 na sua “compagnie brésilienne” de torrefação. Esta fornecia os
“Santos Palace”, salões de café, criados em Bruxelas e em cidades praieiras como La Panne.

86
o comércio

A Bélgica se envolveu muito cedo na construção da infraestrutura ferroviária do Brasil com a vinda do capitão Henri Vlemincx, que recebeu licença do exército belga
para dirigir de 1859 a 1865 o Serviço de Tráfego da Estrada de Ferro Dom Pedro II. Esta permissão deveria contribuir para levar encomendas de material ferroviário
para as metalúrgicas belgas. Estas, como as fábricas de Thy-le-Château, Cockerill, Ougrée, Marcinelle e Couillet, forneceram algumas locomotivas, mas principalmente
vagões de carga e trilhos para diversas estradas brasileiras como a Leopoldina, a Sorocabana, a Central da Bahia e a Central de Pernambuco. O equipamento mais
vultoso veio dos Ateliers franco-belges de la Dyle et Bacalan em Lovaina, que construiu o vagão do Imperador, conservado no Museu do Trem do Rio de Janeiro. Esta
empresa franco-belga participou no capital da Compagnie Générale des Chemins de fer brésiliens, que começou a partir de 1879 a realizar a concessão da linha
Curitiba-Paranaguá e abriu uma filial em Curitiba. Em 1888 se mostrou em Lovaina uma exposição de fotografias dos viadutos instalados no Brasil, mas o Álbum feito
para esta ocasião ainda não foi encontrado ou se perdeu. Nesta onda, financistas belgas, principalmente Franz Philippson, cujo nome se deu a uma colônia judaica da
Jewish Relief Association no Rio Grande do Sul, mobilizaram capitais belgas para a construção e exploração de concessões de ferrovias entre São Paulo e o Rio Grande
do Sul e organizaram em 1891 a Compagnie des Chemins de Fer Sud-Ouest Brésiliens e em 1898 a Compagnie Auxiliaire des Chemins de Fer au Brésil. Seu capital
atingiu perto de 75 milhões de francos belgas para construir e gestionar uma rede de quase 2.500 km. O material foi fornecido pelas fábricas de Braine-le-Comte. Seu
diretor, o engenheiro Gustave Vauthier, que teve sua primeira experiência na construção da estrada de ferro Matadi-Léopoldville, no Congo, construiu a Estação e a Vila
Belga de Santa Maria. Os belgas se interessaram desde 1904 pela organização da estrada de ferro Noroeste e forneceram material ferroviário ainda na década de 1920.

87
parte 3 – relações econômicas: comércio e empresas

(Acima, à esquerda) – Inauguração do São Carlos Electric Tramway,


em frente à estação ferroviária da cidade em 27 de
dezembro de 1914.

(Acima, à direita) Projeto dos bondes encomendados pela South


Brazilian Railways a Les Ateliers Metallurgiques de Nivelles,
Bélgica, e que começaram a funcionar em Curitiba, Paraná, em
janeiro de 1913.

(À esquerda) – Bondes comprados em 1925 pela CFLPA dos Ateliers


de Construction Energie Marcinelle, Bélgica, e instalados em Porto
Alegre; notar a circulação à esquerda, no estilo inglês.

Pavilhão Belga na Exposição do Rio de Janeiro em 1922-23. O governo belga, diante da


custosa reconstrução do país devastado pela Primeira Guerra Mundial, hesitou em participar
da Exposição Internacional do Centenário da Independência no Rio de Janeiro em 1922.
Entretanto, foi pressionado pelo Rei Alberto, que, depois de sua visita ao Brasil, queria
restabelecer e desenvolver as relações econômicas entre os países. Assim confiou a organização
da participação belga ao conde Adrien van der Burch, especialista em matéria de exposições
internacionais. Na Avenida das Nações, o arquiteto Arthur Verhelle construiu um pavilhão em
estilo neorrenacentista, o Resurgam, prevalecente em muitas reconstruções nas cidades belgas.
Foi um dos poucos a ficar prontos na inauguração de 7 de setembro. Seu interior mostrava uma
exposição de arte belga. Na Praça Mauá havia mais: uma construção metálica, instalada pelo
arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo, muito ligado aos interesses belgas. Numa
superfície de 7.000 m2 nada menos que 417 expositores belgas apresentavam seus produtos para o
mercado brasileiro. O número de visitantes e as vendas, no entanto, ficaram abaixo do esperado.

88
o comércio

O Copacabana (um cargueiro mixto com BRT – toneladas brutas registradas –


de 7.334 e uma Loa – longitude – de 140,15 m) foi lançado festivamente em 19
de outubro de 1937 nos estaleiros Cockerill, de Antuérpia (Hoboken), e entrou em
serviço em 1938. O navio, bastante luxuoso e mobiliado em art déco, dispunha
de amplas e modernas instalações para transporte de carnes e frutas (nas
imagens, rótulos de laranjas brasileiras). Havia também acomodação para cerca
de 140 passageiros, dos quais 20 em primeira classe. Naquele mesmo ano a CMB
(Compagnie Maritime Belge) armou ainda dois navios idênticos: o Piriapolis
e o Mar del Plata. Os três navios frequentaram os portos de Pernambuco, Rio
de Janeiro, Santos, Montevideu e Buenos Aires. O Copacabana serviu sob a
bandeira da CMB até 1958 e foi também utilizado na rota do Congo. Suas
câmaras frigoríficas permitiam o transporte de frutas, principalmente de laranjas
brasileiras que a empresa Louis Van Parijs de Antuérpia distribuía no mercado
belga. Substituíam a importação das laranjas espanholas, afetada pela guerra
civil na Espanha. Louis Van Parijs foi um dos primeiros a adquirir terras em São
Paulo para desenvolver suas próprias plantações de laranja. No pós-guerra suas
laranjas, com a marca LVP, dominaram durante muitos anos o consumo belga.

O sistema de estacas de concreto armado moldadas e cravadas no solo para sustentar grandes construções foi aperfeiçoado por um engenheiro de Liège, Edgard
Frankignoul e patenteado como ‘estaca Franki’. Para operar na construção pesada pelo mundo inteiro, fundou em 1911 sua Compagnie Internationale des Pieux
Armés Frankignoul. Em 1935 abriu uma filial brasileira no Rio de Janeiro, que interveio na construção de grandes prédios, como a Estação Dom Pedro II e Ministério
da Educação e Saúde, e de obras como o túnel 9 de Julho, em São Paulo. A seguir operou no Brasil inteiro e teve participação importante em obras em Brasília. Desde
1938 contou com a colaboração de engenheiros brasileiros e em janeiro de 1940 se transformou em empresa brasileira, Estacas Franki, com capital de um milhão de
cruzeiros. Criou em 1942 seu próprio Laboratório de Mecânica dos Solos. Dessa forma, constituiu um caso exemplar de empresa estrangeira rapidamente integrada na
tecnologia e na economia nacional.

89
empresas belgas no brasil

A Urucum dos belgas


Fa b i o G u i m a r ã e s R o l i m

D etentora de uma das maiores reservas de manganês e minério


de ferro do mundo e de um Produto Interno Bruto em que
a indústria, liderada pela mineração, até mesmo supera o tradi-
proprietárias de imensas áreas nos dois países, sob retaguarda di-
plomática do governo belga na busca por administração territorial
autônoma e nos moldes de sua experiência colonialista no Congo
cionalíssimo setor pecuário, a cidade sul-matogrossense Corumbá africano. Foi nesse cenário que operou a Compagnie de l’Urucum.
viu a primeira exploração sistemática de seus recursos minerais Entretanto, sua história é hoje pouco conhecida, assim como a
nascer entre 1907 e 1918 pela atividade da belga Compagnie de existência de alguma relação com as demais empresas belgas do
l’Urucum, nas montanhas de mesmo nome. período. Sabe-se que a Compagnie contou com mão de obra vinda
Foram décadas de profundas transformações para Corumbá. do Uruguai e da Bolívia para a abertura de minas nas cotas supe-
Privilegiada por sua condição geográfica de articulação entre o riores do maciço do Urucum e, com o fim da I Guerra Mundial,
interior do continente e as capitais platinas e da zona franca para o minério produzido não foi exportado, a despeito da conclusão
o comércio internacional, a cidade viu explodir o número de habi- de uma via férrea entre as lavras e o Rio Paraguai e de alguma
tantes e a atividade de casas comerciais, bancos e consulados, ma- relação firmada com os proprietários da antiga Fazenda Urucum
nifestos na arquitetura de seu porto e numa diversidade linguística (em cuja área localizavam-se as lavras), que atuava simultanea-
que, segundo os relatos, fazia com que o português fosse apenas mente como entreposto fornecedor de gêneros alimentícios, hos-
uma de suas línguas e a libra a moeda corrente. pital militar e hospedagem.
Paralelamente, no restante da fronteira matogrossense com a É possível, contudo, estabelecer algumas inferências, resultan-
Bolívia desenvolvia-se uma intensa atuação de empresas belgas tes do cruzamento entre as informações já conhecidas. Por exem-

A primeira exploração sistemática de recursos minerais em Corumba se deu entre A Compagnie contou com mão de obra vinda do Uruguai e da Bolívia para a
1907 e 1918 pela atividade da Compagnie de l’Urucum. abertura de minas nas cotas superiores do maciço do Urucum.

90
empresas belgas no brasil

plo, o geólogo Miguel Arrojado Lisboa, que passou pela região no


final de 1907 com a Comissão Schnoor, para o estabelecimento
do traçado da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil-EFNOB, faz
referência a um certo engenheiro “residente”, Delhaye, o qual in-
formou ter trabalhado na medição da altitude máxima do maciço
(1.077 metros) “a partir da fazenda Urucum”. Seria este Delhaye
o geólogo belga Fernard Delhaye (1880-1946), que mais tarde
viria a ser o descobridor da delhayelita na região de Kivu, Zaire
(ex-Congo Belga)? Permite essa suposição a reunião de elementos
comuns como o sobrenome, o período cronológico, a profissão e
a localização da descoberta que lhe eternizou o nome – o Congo
–, remetendo ao contexto colonialista belga na África e ao que se
intentava nas fronteiras do Mato Grosso.
Casos mais concretos são representados por seções de trilhos
encontrados na área da antiga Fazenda Urucum, reforçando as
informações sobre a conexão portuária; por edificações ainda exis-
tentes na fazenda, entre as quais ao menos duas são identificadas
por antigas fotos e cartões postais como sendo da Compagnie – es-
Chalet construído na Fazenda Urucum.
taria aqui a razão de ser do termo “residente” adotado por Arrojado
Lisboa ao se referir ao engenheiro Delhaye? E, por último, mas
não menos importante, a popular “mina dos belgas”, em área atu- geossítios de interesse histórico e mineralógico componentes do
almente sob concessão da Urucum Mineração-Vale do Rio Doce. Geopark Estadual Bodoquena-Pantanal, candidato ao reconhe-
As atividades da Compagnie findaram-se em 1918 e a Fazenda cimento mundial pelo Global Geoparks Network/GGN, sob os
Urucum entrou em abandono após 1960, até ser desapropriada auspícios da Unesco. Felizmente, um cenário propício para o
em 1984. Seus remanescentes localizam-se em área adquirida maior conhecimento deste passado, nem tão remoto, e que per-
pela Vale do Rio Doce em 2007 com o intuito de ampliar sua manece vivo na economia e na paisagem corumbaenses, apto a
estocagem. A ação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artís- emergir novamente à superfície da memória.
tico Nacional/Iphan, no entanto, possibilitou a preservação da
área e a condução de um projeto para um parque histórico-ar- Fabio Guimarães Rolim é arquiteto e urbanista, coordenador-geral
queológico no local. A “mina dos belgas”, por sua vez, é um dos de Patrimônio Natural do Iphan.

A Companhia de Estradas de Ferro Noroeste do


Brasil e suas conexões belgas (1904-1918)
Pa u l o R o b e r t o C i m ó Q u e i r o z

A ferrovia historicamente conhecida como Noroeste do Brasil


(NOB), existente ainda hoje, liga Bauru (SP) a Corumbá
(MS, fronteira com a Bolívia), com um ramal de Campo Grande
a Coxim (MT) – traçado que foi alterado para Bauru-Cuiabá (capi-
tal do então MT) e concedido à Companhia de Estradas de Ferro
Noroeste do Brasil (Cia. EFNOB), fundada em 1904.
(MS) a Ponta-Porã (MS, fronteira com o Paraguai) – traçado que Em 1908, com a construção em andamento, novas mudanças:
indica seu sentido essencialmente político-estratégico. o ponto final foi alterado de Cuiabá para Corumbá e a ferrovia foi
A história da construção da NOB é extremamente movimen- dividida em dois segmentos: a E. F. Bauru-Itapura e a E. F. Itapu-
tada. Suas origens remontam à traumática experiência da Guerra ra-Corumbá (sendo Itapura uma localidade no extremo Oeste do
com o Paraguai (1864-1870), quando o Sul do então Estado de Estado de São Paulo, às margens do Rio Tietê). A concessão da
Mato Grosso (que constitui o atual Mato Grosso do Sul) foi ocu- Cia. EFNOB foi mantida apenas para a Bauru-Itapura, enquanto
pado pelas forças paraguaias. a Itapura-Corumbá foi declarada propriedade da União.
O início de sua construção, em 1905, deu-se pelo “aproveita- Em 1914 foi dado por concluído o trecho entre Bauru e as
mento” de uma antiga concessão, efetuada pelo governo federal margens do Rio Paraguai, em Porto Esperança. Pouco depois, a
em 1890, referente a uma ferrovia que deveria ligar Uberaba (MG) União encampou a Bauru-Itapura, e de sua fusão com a Itapura-

91
parte 3 – relações econômicas: comércio e empresas

des Travaux Dyle et Bacalan. Nos anos seguintes, Teixeira Soares


havia prosseguido em suas estreitas relações com empresas bel-
gas, como a Compagnie des Chemins de Fer Sud-Ouest Brésilien
e a Compagnie Auxiliaire des Chemins de Fer au Brésil, ambas
integrantes de um grupo pertencente à Compagnie Générale des
Chemins de Fer Secondaires, sediado em Bruxelas.
2) O fato de a construção ter sido empreitada à empresa Com-
pagnie Générale de Chemins de Fer et de Travaux Publics, fundada
em Bruxelas, em 1902, inicialmente com vistas a assumir a “em-
preitada da construção e superestrutura da linha” da estrada de ferro
de Vitória (es) a Diamantina (mg). Vale notar que o vice-presiden-
te da NOB, João T. Soares, era também diretor da Cia. Vitória-
-Minas; Louis Malchain, que foi diretor da NOB, era um dos prin-
cipais acionistas da Compagnie Générale, enquanto Ernest Poizat
(membro do Conselho Fiscal da NOB) aparece como pequeno
acionista e membro do Conselho Fiscal da mesma Compagnie.
3) O fato de muitos cidadãos belgas terem certamente se tor-
nado obrigacionistas (debenturistas) da Cia. EFNOB, pois a maior
parte do capital empregado na construção foi levantado na Euro-
pa, e Bruxelas (ao lado de Paris, Amsterdã e, possivelmente, An-
tuérpia) esteve sempre entre os locais onde foram negociadas as
debêntures emitidas pela companhia.
4) O fato de grande parte do material rodante da ferrovia ser
de origem belga. Em 1907, as seis locomotivas de que dispunha
a empresa eram belgas, provenientes dos Ateliers de la Meuse;
dentre os 15 veículos, 12 provinham igualmente da Bélgica (no-
ve vagões para mercadorias e três vagões de lastro). Nos anos
seguintes, a procedência belga se mantém muito forte no con-
cernente aos veículos, embora ceda terreno no que se refere a
locomotivas. Assim, em 1911, todos os 178 veículos da ferrovia
(carros de passageiros, mistos, vagões para bagagens, animais,
Vagão e interior do carro de 1ª classe da Nord Ouest Brazilian Railway, a ferrovia mercadorias etc.) têm como procedência a Bélgica; já, contu-
conhecida como Noroeste do Brasil (NOB), que liga Bauru (SP) a Corumbá (MS). do, no que concerne às 14 locomotivas, apenas quatro (do tipo
Mogul) eram belgas, sendo as demais importadas dos EUA. Esse
-Corumbá resultou, em 1918, a NOB, agora inteiramente estatal. quadro parece, enfim, claramente consolidado em 1916, último
A extensão até Corumbá e o ramal de Ponta-Porã foram construí­ ano para o qual disponho de dados (referentes, no caso, apenas
dos entre 1938 e 1953. à Bauru-Itapura). De um total de 127 veículos, nada menos que
No Oeste do Estado de São Paulo, a construção enfrentou 81 eram belgas; dentre os demais, havia cinco dos Estados Uni-
forte resistência dos antigos habitantes desse território, isto é, os dos (carros para passageiros), e os restantes 41 eram brasileiros.
indígenas kaingang, o que gerou sangrentos confrontos. Além dis- Já com relação às locomotivas, de um total de 20, apenas cinco
so, muitas vidas de operários e engenheiros foram ceifadas pela eram belgas: das demais, 12 eram Baldwin e três inglesas (Sharp
malária que grassava no vale do Rio Tietê. Stewart). Tal tendência confirma, portanto, para a NOB, a ob-
A Cia. EFNOB foi constituída no Rio de Janeiro, em junho de servação de Stols, que, referindo-se às ferrovias belgas no Rio
1904, como uma empresa brasileira, com capital de 10 mil con- Grande do Sul, entre fins do século XIX e início do XX, assinala
tos de réis, e, dentre seus nove acionistas, apenas um trazia um que “le matériel roulant provient de plus en plus des États-Unis
nome estrangeiro: Victor Folletête, citado como “incorporador”. ou d’ateliers brésiliens” (Stols, 2001, p. 132).
Mas a presença de capitais e interesses belgas fica especialmente Mais difícil é a identificação de possíveis personagens belgas
evidenciada por quatro circunstâncias: na Cia. EFNOB. É certo que na primeira diretoria, eleita em
1) As conexões belgas do fundador e principal dirigente da 1904, aparecem vários nomes estrangeiros: Henri Lartigue, “ad-
Cia., engenheiro João Teixeira Soares, cujo elevado prestígio pro- ministrador da Sociedade de Estradas de Ferro Argelianas”, como
fissional derivava, em grande parte, de sua atuação como chefe da presidente; Victor Folletête, como “administrador delegado”, e,
construção da célebre ferrovia de Curitiba a Paranaguá, no início como diretores, Gusty Joris, Louis Malchain (“administrador da
da década de 1880, a serviço da empreiteira belga Société Anonyme Ouro Preto Gold Mine”) e George Moreau, “engenheiro de mi-

92
empresas belgas no brasil

corre para o Oeste: estudo sobre a Noroeste e seu papel no sistema de viação nacio-
nas”. Não me foi possível, até o momento, identificar claramente nal. 2. ed. São Paulo: Melhoramentos [s.d.]. 222 p.; CASTRO, Maria Inês Malta. O
a nacionalidade de nenhum desses personagens, nem de outros preço do progresso: a construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (1905-1914).
Campinas, 1993. 293 f. Dissertação (Mestrado em História) – IFCH/Unicamp; DIAS,
que, ao longo dos anos seguintes, aparecem como dirigentes ou
José Roberto de Souza. Caminhos de ferro do Rio Grande do Sul: uma contribuição ao
acionistas da Cia., como Gaston Hamelin, Jean Jourdan, Parmen- estudo da formação histórica do sistema de transportes ferroviários no Brasil meridio-
tier, J. Bartholomé, George Prévault, Charles Rau, Léon Maître e nal. São Paulo: Ed. Rios, 1986; ENG. João Teixeira Soares. Engenharia, São Paulo:
Instituto de Engenharia, v. 7, n. 74, p. 53-54, out. 1948; Legislação federal brasilei-
Hubert Laroze. Contudo, levando em conta os resultados que ob-
ra (leis e decretos), disponível em: <www.camara.gov.br> e <www.senado.gov.br>;
tive em buscas pela internet, inclino-me a dizer que se tratava, na QUEIROZ, Paulo R. Cimó. As curvas do trem e os meandros do poder: o nascimento
maioria, de cidadãos franceses – o que contribuiria para confirmar da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (1904-1908). Campo Grande: Ed. UFMS,
1997. 163 p.; QUEIROZ, Paulo R. Cimó. Uma ferrovia entre dois mundos: a E. F.
a observação de Fernando de Azevedo, segundo a qual a Cia. EF-
Noroeste do Brasil na primeira metade do século 20. Bauru: Edusc; Campo Grande:
NOB foi formada por “capitais mistos, brasileiro e franco-belga”. Ed. UFMS, 2004; RELATÓRIO da diretoria da Companhia E. F. Noroeste do Brazil
apresentado à assembleia-geral ordinária realizada em 11 de junho de 1906. Rio de
Janeiro: Typ. de Heitor Ribeiro & C., 1906; RELATÓRIO da diretoria da Companhia
Paulo Roberto Cimó Queiroz, Doutor em História pela Universida-
E. F. Noroeste do Brasil apresentado à assembleia-geral ordinária realizada em 14 de
de de São Paulo, com estágio de pós-doutoramento na Universidade agosto de 1907. Rio de Janeiro: Typ. do “Jornal do Commercio”, de Rodrigues & C.,
Federal Fluminense. É Professor Associado da Universidade Federal 1907; RELATÓRIO da diretoria da Companhia de Estradas de Ferro Noroeste do
Brazil apresentado à assembleia-geral ordinária realizada em 16 de outubro de 1911.
da Grande Dourados (Mato Grosso do Sul) como docente e orienta-
Rio de Janeiro: Typ. Leuzinger, 1911; RELATÓRIO da diretoria [da Companhia de
dor nos cursos de graduação e pós-graduação em História (Mestrado Estradas de Ferro Noroeste do Brasil referente ao ano de 1916]. São Paulo: Estab.
e Doutorado). Graphico “Universal”, 1917, 119 p.; STOLS, Eddy. Présences belges et luxembour-
geoises dans la modernisation et l’industrialisation du Brésil (1830-1940). In: DE
PRINS, Bart; STOLS, Eddy; VERBERCKMOES, Johan (ed.). Brasil: cultures and
Referências economies of four continents – cultures et economies de quatre continents. Leuven:
Atas de assembleias e relatórios da diretoria da empresa, publicados no Diário Oficial da Uitjeverij Acco, 2001, p. 121-164; TELLES, Pedro Carlos da Silva. História da enge-
União, disponíveis em: <www.jusbrasil.com.br>; AZEVEDO, Fernando de. Um trem nharia ferroviária no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Notícia & Cia., 2011.

Um lugar belga em Pernambuco: a cidade industrial da


Société Cotonnière Belge-Brésilienne S.A.
Jean Suettinni

A sociedade anônima Société Cotonnière Belge-Brésilienne S.A.


(SCBB) foi fundada na cidade de Anvers (Antuérpia), no nor-
te da Bélgica, em 23 de fevereiro de 1907, pelo Groupe LADM em
A sociedade anônima SCBB instituiu o Conselho de Anvers co-
mo responsável para gerir a construção da cidade industrial belga
em Pernambuco e a administração efetiva do empreendimento,
acordo firmado com as empresas Fry Miers & Co., Nathan & Co. representando todos os acionistas na estrutura jurídico-societária
e com o consorciado delas no Brasil, o industrial pernambucano estabelecida. O Conselho de Anvers nomeou o brasileiro João de
João de Hollanda Vasconcellos. Hollanda Vasconcellos como procurador da sociedade anônima
O Groupe LADM era composto por industriais e financistas SCBB no Brasil para implantar jurídico-administrativamente a
das cidades de Liège, Anvers, Deurne e Malines (Mechelen), que fábrica têxtil belga, atendendo as exigências dos ministérios no
eram proprietários de fábricas do setor têxtil na Bélgica, além de Rio de Janeiro (capital da República na época) e agilizando a im-
serem acionistas de indústrias localizadas em outros países do No- plantação da cidade industrial em Pernambuco.
roeste europeu e na Rússia (Société Cotonnière Belge-Brésilienne, Em 29 de novembro de 1907, a sociedade anônima SCBB
1907, p. 3-11). comprou o engenho de açúcar São Sebastião localizado no vale
A sociedade anônima SCBB foi criada para estabelecer uma do Rio Jaboatão, na região fisiográfica de mata atlântica, a 28 km
cidade industrial com fábrica especializada em tecidos de algo- da cidade do Recife, e, assim, foi iniciada a construção da cidade
dão localizada no Estado de Pernambuco, no Nordeste do Brasil, industrial belga. A propriedade adquirida, originada do sistema
especificamente na área circunvizinha da metrópole de Recife de plantation da cana-de-açúcar, era servida por eficiente sistema
que, em função do porto, constituía a quinta localidade mais viário com a intersecção da rodovia Estrada Real com a estrada de
industrializada do país, possuindo atrativos ambientais, infraes- ferro da Great Western of Brazil Railway Company Limited (que
truturais e econômicos para o investimento do capital industrial possuía uma estação ferroviária). Essas vias ligavam o porto do
europeu. Esse empreendimento desenvolveu-se durante o pro- Recife até o extremo oeste de Pernambuco, atravessando extensa
cesso de urbanização industrial europeia que ocorreu em outros zona rural (Suettinni, 2011, p. 59-64).
continentes. Os engenheiros-arquitetos belgas Fernand Selvais e Pieter

93
parte 3 – relações econômicas: comércio e empresas

94
empresas belgas no brasil

Gruschke foram os responsáveis pelo projeto urbanístico da ci- Entre 1920 e 1933 deu-se a expansão do projeto da cidade
dade industrial da SCBB, com a colaboração administrativa do industrial da SCBB, pois, devido à crescente demanda de operá-
superintendente da sociedade anônima no Brasil, o industrial Wi- rios, uma quantidade significativa de intervenções urbanísticas foi
lhelm Bauer, natural da cidade de Malines, que foi nomeado pelo acrescida à tessitura urbana em benefício da funcionalidade da fá-
Conselho de Anvers. A edificação da cidade belga em um antigo brica têxtil e da reprodução socioespacial. Para isso, uma missão de
engenho de açúcar norteou uma nova lógica socioespacial para a engenheiros e arquitetos belgas, sob a direção de Pieter Gruschke,
localidade, instituindo assim o efetivo aproveitamento da mão de planejou o crescimento urbano da localidade. Foram construídas
obra campesina, ora ociosa (por conta da falência da agroindústria 36 vilas residenciais que triplicaram a oferta de moradia na cidade
do açúcar), que foi especializada para ocupar as funções de oleiro, industrial, com destaque para a Villa Saint-Nicolas-Waes, com 17
pedreiro e posteriormente de operário (Bauer, 1915, p. 5, 18-32). casas em estilo “La Maison Flamande”, em bloco de fileira e com
A implantação da cidade industrial da SCBB foi delineada fachadas em tijolos aparentes. Assim foi expandida a composição
aproveitando-se a espacialidade do engenho São Sebastião quanto das alamedas e dos arruamentos paralelos a partir da linearidade
à infraestrutura de vias (a Estrada Real e a Ferrovia Recife-Vitória da rodovia (Gruschke, 1948, p. 29, 55-73).
de Santo Antão), os recursos naturais (o Rio Jaboatão, as matas Outros edifícios singulares e equipamentos coletivos foram
nativas e o solo) e a situação locacional caracterizada por uma construídos, sendo as principais obras o Mercado Central (1922),
topografia de colinas. Na estrutura espacial do engenho eviden- a Praça das Bandeiras (1923) com morfologia em uma cruz cel-
ciou-se um processo de desmanche com o plantio de 2 milhões de ta, apresentando projeto paisagístico arbóreo de fícus e pinheiros,
mudas de eucalipto (nas áreas de cana-de-açúcar), a reutilização e a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição (1930) com a
dos edifícios singulares (casa-grande, capela, senzala, conjunto do fachada inspirada na L’église Notre-Dame-de-l’Immaculée-Concep-
cemitério e outros prédios rurais) e o aproveitamento do traçado tion de Liège. Quanto à infraestrutura, as principais obras foram a
viário com as novas edificações localizadas às margens da Estrada ampliação do anel ferroviário interno da fábrica têxtil, o calçamen-
Real formando alamedas (apresentando paisagismo arbóreo de to em paralelepípedo de alamedas e ruas e a implantação da rede
flamboyants e castanholas). Assim, o traçado ortogonal do lugar elétrica e do sistema de esgoto que beneficiou todos os operários
belga, com tendência à espontaneidade da topografia íngreme, do lugar belga (Suettinni, op. cit., p. 85, 88-94).
foi delineado por um cinturão verde circundante, com a primei- Desse modo, com a finalização do projeto urbanístico, a cida-
ra secção de floresta de eucaliptos e a segunda de mata atlântica, de industrial da SCBB aumentou a autossuficiência econômico-
demarcando o fim do perímetro urbano em meio a um território -espacial e, paralelamente, passou a ser denominada e reconhecida
entremeado de engenhos de açúcar, canaviais e extensas áreas de por belgas e brasileiros como Nouvelle-Anvers.
vegetação nativa (Suettinni, op. cit., p. 66-72, 74-77). Com o passar dos anos, foi acrescida à tessitura da cidade in-
O projeto urbanístico foi efetivado no platô a partir da centra- dustrial belga a construção de outras vilas operárias, equipamentos
lidade do edifício da fábrica têxtil e localizado estrategicamente coletivos e edifícios singulares, com a manutenção efetiva que a
próximo à estação ferroviária. Nessa área central foram dispostos sociedade anônima realizava no ambiente construído, como no
os prédios de apoio técnico, a termoelétrica, as lojas de comércio e serviço de recolhimento de lixo realizado pela intendência da ci-
serviços, a praça da feira, as 12 vilas operárias, o conjunto de chalés dade industrial.
de diretores e técnicos, uma Villa Belge como casa da superinten- Com a II Guerra Mundial (1939-1945), a sociedade anônima
dência, as duas escolas, o posto de saúde, o campo de futebol, a SCBB perdeu os seus contatos com Anvers, mas manteve-se como
pista de patinação e outros edifícios e logradouros públicos (com- empresa estrangeira no Brasil com os produtos da fábrica têxtil sen-
pondo as alamedas ou formando arruamentos paralelos). A fábrica do exportados para os Estados Unidos e o Canadá, como também
têxtil era circundada por um anel de trilhos que, através de um atendendo ao mercado interno. E em 1950 a sociedade anônima
ramal, estava ligado à estação ferroviária para facilitar a logística conseguiu concluir a edificação e instalação da indústria subsidi-
da cadeia produtiva (Selvais, 1921, p. 19-78). ária da fábrica têxtil, a Tissage Wallonie-Flandre Et Cie. (Société
A primeira fase do projeto da Cidade Industrial da SCBB deu- Cotonnière Belge-Brésilienne, 1966, p. 18, 43-67).
-se entre 1910 e 1915, com a inauguração e o funcionamento efeti- Por conseguinte, a situação do pós-guerra na Europa, mesmo
vo da fábrica têxtil, que abrigou mais de 3.000 operários, oriundos com a salvaguarda do Plano Marshall, e a crise da safra de algo-
da área de entorno de Recife, e de várias localidades do Nordeste dão no Nordeste brasileiro, que afetou o setor da indústria têxtil,
do Brasil, como também 123 executivos e técnicos belgas imigra- afora o incentivo para que a industrialização local fosse centrali-
ram com suas famílias para residir no “Lugar Belga” em Pernam- zada no Sudeste do país, fez com que a sociedade anônima SCBB
buco. Nessa fase, o advento da I Guerra Mundial na Europa im- encerrasse as atividades no Brasil em 1966 e, assim, repassasse as
pediu que o projeto urbanístico final fosse concluído em prol do ações dela para um grupo local, com participação acionária de
efetivo funcionamento da fábrica têxtil da SCBB no Brasil (Jean, dois executivos da SCBB apenas, denominado Brasil-Belgo Union.
op. cit., p. 35-40).
Jean Suettinni é Mestre em Projeto da Cidade e da Arquitetura pelo
Implantação da cidade industrial da SCBB. Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano (MDU)

95
parte 3 – relações econômicas: comércio e empresas

do Departamento de Arquitetura e Urbanismo (Deau) da Universi- BAUER, Wilhelm. Rapport au Conseil  d’Anvers (1907-1917). S.C.B.B.: Pernambouc
dade Federal de Pernambuco (UFPE); Urbanista e historiador (B.Sc.) (Brésil), 1917.
SELVAIS, Fernand. Rapport au Conseil Général du S. C. B. B. (1907-1920). LADM /
pela UFPE; presidente-fundador do Instituto de Estudos Históricos S.C.B.B.: Pernambouc (Brésil), 1921.
Belgo-Brasileiros; organizador/pesquisador e detentor dos Direitos Do- Gruschke, Peter. Rapport au Conseil  d’Anvers (1920-1948) ). LADM / S.C.B.B.: Pernam-
cumentais do Acervo da SCBB/Groupe LADM no Brasil e na Amé- bouc (Brésil), 1949.
SOCIÉTÉ COTONNIÈRE BELGE-BRÉSILIENNE. Rapport de Monsieur Charles De
rica Latina. Vocht au conseil général du S. C. B. B. LADM / S.C.B.B.: Anvers, 1966.
Suettinni, Jean. Um Lugar Belga em Pernambuco: o Núcleo Fabril da Société Coton-
Referências nière Belge-Brésilienne S.A. (1907 – 1966). Tese de Mestrado apresentada ao Progra-
ma de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano (MDU) do Departamento de
SOCIÉTÉ COTONNIÈRE BELGE-BRÉSILIENNE. Statut Général. LADM / S.C.B.B.: Arquitetura e Urbanismo (Deau) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE),
Anvers, 1907. sob a orientação da PhD. Dra. Lúcia Leitão. Recife: MDU/DEAU/UFPE, 2011.

A Solvay chega ao Brasil e abre as portas para a América do Sul

2 013, ano em que comemora seu 150º aniversário de funda-


ção e a apenas três para celebrar os 75 anos de chegada ao
Brasil, o grupo químico internacional belga, denominado Solvay
Também conhecido por Instituto de Física e Química Solvay, esta
entidade possui como atividade central a organização das reuniões
do Conselho e a concessão de apoio às pesquisas realizadas pelos
S.A., reitera sua estratégia de crescimento fortemente baseada cientistas filiados.
nos pilares da sustentabilidade. A empresa encontra-se engaja- Em 1940, a ocupação da Bélgica pelas tropas alemãs durante a
da para enfrentar de forma inovadora, e baseada na excelência Segunda Guerra Mundial foi definitiva para que a Solvay decidis-
operacional, os desafios do presente e aqueles que terão de ser se estabelecer no Brasil os mesmos ideais que já a conduziam em
superados no futuro. solos da Europa, no Leste Europeu. Além de um complexo indus-
Essa linha-mestra de atuação tem origem nos ideais que nor- trial, a Solvay contribuiu também para criar no país uma comuni-
tearam a vida pessoal e profissional de Ernest Solvay, que, em dade de trabalho, prosperidade, solidariedade e respeito mútuos.
conjunto com seu irmão Alfred, fundou a Solvay & Cie em 1863. E foi por intermédio desta linha de atuação cidadã que no
Ernest sempre pautou suas atividades em conformidade com a século passado, entre as décadas de 1930 e 1940, a empreende-
filosofia social progressista. Exemplos desta forma de pensar e dora família contrapôs-se aos contextos de depressão financeira e
agir permearam seus passos, inclusive como empregador. Antes bélica, que dominavam inúmeros países e dizimavam incontáveis
mesmo de ser obrigado por lei, estabeleceu para seus funcioná- empresas e seres humanos, e seguiu em frente com os ideais de seu
rios um sistema de seguro social, implementou plano de apo- patriarca Ernest Solvay. Sem render-se aos obstáculos históricos,
sentadoria em 1878, jornada de 8 horas em 1897 e férias pagas optou por utilizar as temáticas de expansão e hegemonia geográ-
em 1913. Tudo isso no auge do segundo período da Revolução fica de forma positiva e com vistas ao progresso da humanidade.
Industrial, quando as condições de trabalho eram insalubres e A primeira empresa do Grupo Solvay em solo brasileiro foi a
submetiam os empregados às piores situações já experimentadas Indústrias Químicas Eletro Cloro, que, apesar de legalmente cons-
desde a escravidão. tituída em 1941, viu-se obrigada a protelar a construção da fábrica,
Ernest não se restringiu aos muros de seus empreendimentos. e da vila para seus operários, devido às dificuldades causadas pela
Dedicou olhar especial à sociedade, e fundou várias bases científi- guerra para o envio de recursos.
cas, filantrópicas e de caridade, incluindo o Instituto de Fisiologia O local escolhido para a instalação do complexo industrial
(1895) e de Sociologia (1901), bem como a prestigiada Escola de foi o quilômetro 38 da Ferrovia Santos-Jundiaí, no município de
Comércio Solvay (1903). A Biblioteca Solvay e o edifício que a Santo André, região metropolitana de São Paulo. Ali, a Solvay se-
abriga também foram obras financiadas por Ernest Solvay e doada meou tecnologia, aprendeu a ser brasileira e abriu as portas para
à comunidade. O prédio foi originalmente construído para o Insti- sua atuação na América do Sul.
tuto de Sociologia da Universidade Livre de Bruxelas. Cercada pela Mata Atlântica em terreno de 7 milhões de me-
A paixão primordial pela ciência impulsionou Ernest a expres- tros quadrados, cortada pelo Rio Grande, pela estrada de ferro e
sá-la de forma ampla em 1911, ao agregar em Bruxelas a maioria estrategicamente próxima ao Porto de Santos, da Estrada Cami-
dos mundialmente famosos físicos e químicos da época. Entre os nho do Mar e da Via Anchieta – que à época se encontrava em
participantes, Marie Curie, Albert Einstein, Max Planck, Ernest construção –, a Solvay ergueu a Indústrias Químicas Eletro Cloro
Rutherford, Henri Poincaré e Maurice de Broglie. S.A. e a Vila Elclor.
Foi a partir desse encontro que nasceu o Conselho Internacio- Pelo litoral paulista a empresa recebia as matérias-primas sal
nal de Física e Química da Solvay, que ainda se mantém atuante. e energia elétrica para o processo de eletrólise. A eletricidade era

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empresas belgas no brasil

Vista parcial da Solvay Indupa em Santo André. Ao fundo, instalações fabris, 1947.

fornecida pela Light & Power através da usina de Cubatão. E as- Cerimônia na Solvay Indupa em 1948 com a presença do prefeito de Santo
sim garantia-se a produção de cloro e soda cáustica. André, Antonio Flaquer, e comitiva.
Em 1945, a Solvay lançou a pedra fundamental da fábrica e
na sequência iniciou a terraplenagem. O período coincidiu com renomadas universidades e importante polo de pesquisa e ino-
a desativação de vários canteiros de obras de outro grande empre- vação no Brasil.
endimento na mesma região, a construção da Rodovia Anchieta, Esta preocupação de se estabelecer próxima ao setor acadê-
que liga a capital paulista a Santos. mico para a promoção da cultura do saber sempre permeou as re-
Os trabalhadores aos poucos foram migrando para a constru- lações da Solvay com a comunidade. No Brasil não foi diferente.
ção da Indústrias Químicas Eletro Cloro. E os bons ventos sopra- E a Educação merece um capítulo à parte dentro da história do
ram a favor da Solvay, pois essa mão de obra estava habituada ao Grupo no País.
clima úmido e a então hostil região da Mata Atlântica. Desde sua fundação, a Solvay aporta capital expressivo para
A inauguração foi em 16 de julho de 1946, um dia com cli- o desenvolvimento de seus empregados e da comunidade em ge-
ma bastante comum ao local: nublado. A produção inicial era de ral. Faz parte da política de Relações Humanas (RH) do Grupo
cerca de 1 tonelada de cloro por dia. E, não demorou muito para o financiamento parcial de estudos que visem o aprimoramento
que a empresa belga começasse a confiar a brasileiros natos postos profissional dos empregados.
de comando dentro da organização. O primeiro a assumir como Localmente, o primeiro grande projeto educacional nasceu
chefe de produção foi o engenheiro Leonel Luciano, formado junto com a Vila Elclor, por intermédio do estabelecimento legal
pelo Instituto Mackenzie de São Paulo. Ingressou na Eletro Clo- de uma escola de ensino fundamental para os filhos dos funcioná-
ro em 1956 e lá permaneceu até 1991. Durante esse período, fez rios, cujas vagas remanescentes eram disputadas pela comunidade,
especialização no exterior e se destacou em sua área de atuação. devido ao reconhecimento da qualidade do ensino.
A partir do start-up da Eletro Cloro, gradativamente a Solvay Ano após ano, a disputa por uma das bolsas de estudo destinada
passou a desbravar outras fronteiras territoriais e de atuação in- a estagiários de diferentes campos de atuação científica é acirrada.
dustrial dentro do Brasil. Adquiriu o controle acionário da Enisa Por meio dos estágios, a empresa permite que jovens testem na
(Empresa Salineira e de Navegação Igoronhon S.A.), localizada prática supervisionada os ensinamentos teóricos de cursos técni-
em um complexo de ilhas (Caieira, Garça, Beirada Funda, Enfor- cos e superiores, oferecendo-lhes o primeiro contato real com o
cado, Igoronhon e Carrapato) no Estado do Maranhão. Em Minas mundo industrial e corporativo. Em 2013, as bolsas de estágio,
Gerais, comprou a CBCC (Companhia Brasileira de Carbureto formalmente estabelecidas com instituições de ensinos superior
de Cálcio), situada no município de Santos Dumont. e técnico, atenderam a 250 jovens estudantes brasileiros.
Outra empresa agregada foi a Malharia Industrial do Nor- Mundialmente, todas as empresas Solvay também são orien-
deste, no Distrito Industrial de Paulista, cidade a 20 km de Re- tadas a analisar as solicitações de apoios ou patrocínios primei-
cife, Pernambuco. Também fez parte das aquisições a Plavinil, ramente pelo ângulo educacional do projeto, de acordo com o
no bairro de Santo Amaro, em São Paulo, capital. A Peróxidos tripé social do Desenvolvimento Sustentável. Esta regra é válida
do Brasil integrou-se ao rol de negócios no qual a Solvay passou inclusive para os programas sociais próprios, desenvolvidos com as
a atuar; e neste caso com o caráter de joint venture, com a bra- comunidades vizinhas às fábricas. Esta determinação segue em li-
sileira Produtos Químicos Makay. Já o início das atividades no nha com uma das paixões expressas por Ernest Solvay, que ansiava
setor veterinário se deu com a aquisição da Salsbury Laboratórios pela disseminação do conhecimento e de sua disponibilidade no
Ltda., em Campinas, no Estado de São Paulo, cidade dotada de apoio às pesquisas em todos os campos da ciência.

97
parte 3 – relações econômicas: comércio e empresas

Vista aérea da planta industrial da Solvay Indupa de Santo André.

Justamente essa ampla visão voltada à aquisição de conheci- Paulo, que passou a se chamar Solvay Farma. Nessa mesma déca-
mento e de constante aprimoramento de suas competências so- da, o Grupo Solvay forma, no município de Osasco, região me-
ciais e fabris levou a Solvay a ousar na diversificação de portfólio tropolitana de São Paulo, a Dacarto Benvic, no sistema de joint
e de atuação industrial na década de 1980. Já no limiar de 1990, venture (50%-50%) com a Dacarto S.A. Indústrias de Plásticos, para
resolveu rebatizar a Eletro Cloro como parte de sua estratégia de atuar no segmento de compostos de PVC.
reconhecimento à boa acolhida em solo brasileiro. A empresa Desde o início de operação da antiga Eletro Cloro, em 1946, o
passou a denominar-se Solvay do Brasil S.A. Brasil sempre esteve no foco das estratégias de crescimento da Sol-
A Solvay S.A., na Bélgica, realizou vários ajustes e reorientação vay. Esse ponto de vista se fortaleceu em 2011, quando adquiriu
de atuação nos anos 1990. Essas alterações atingiram os negócios 100% da francesa Rhodia. Localmente, foram agregados ao Grupo
locais. Foi a partir do know-how adquirido na fábrica de Santo cinco unidades industriais e um centro de Pesquisa e Desenvolvi-
André que o Grupo resolveu explorar os mercados da América do mento, situados no Estado de São Paulo. Também se integraram
Sul por intermédio da aquisição, em 1996, de 51% das ações da à carteira da Solvay no País os negócios de aroma performance,
Indupa S.A.I.C., na Argentina, pioneira no setor petroquímico da- fibras industriais e têxteis, energia renovável, plásticos de engenha-
quele país. No mesmo ano, ainda em terras argentinas, foi criada ria, poliamida e intermediários, sílica, solventes e a área que atua
a Solvay Automotive Argentina. nos mercados de produtos de alto desempenho para uma ampla
Os anos 2000 também foram bastante férteis para a Solvay. variedade de indústrias, incluindo as de cosméticos, produtos de
Marca sua entrada local no segmento de saúde humana com a limpeza, agroquímicos e óleo, assim como para aplicações indus-
compra dos Laboratórios Sintofarma, em Taboão da Serra, São triais. O Grupo Solvay emprega hoje cerca de 3.000 funcionários.

98
empresas belgas no brasil

Junto com o legado da francesa Rhodia no Brasil, a Solvay nhado à estratégia global, dentro do programa denominado Solvay
recebeu ainda o Instituto de mesmo nome, entidade sem fins lu- Way, fortemente ancorado no incentivo à inovação para o forneci-
crativos que atua em projetos sociais ligados à educação comple- mento de produtos que atendam aos desafios do desenvolvimento
mentar, atendendo adolescentes e jovens de baixa renda, de 12 a sustentável. Esse programa começou a ser implantado em 2013
24 anos, nas comunidades onde a empresa tem atuação industrial em todas as empresas do grupo, e esta abordagem já integra os
e ou comercial. Em reconhecimento à força da marca localmente, planos estratégicos de cada um dos negócios.
o Brasil foi o único país que manteve o nome Rhodia após recente Dessa forma, a Solvay segue rumo aos próximos 150 anos cien-
alinhamento mundial de branding, que incluiu a reestruturação te de seu papel como empregador responsável e uma empresa com
da logomarca do Grupo. atuação cidadã, que enxerga em cada um de seus stakeholders a
As sinergias entre os dois legados são maiores do que as dife- possibilidade de juntos continuarem a construção de um mundo
renças, o que facilita a condução dos negócios em nível mundial. mais igualitário e melhor para todos. Assim como em 1863 já pen-
O futuro do Grupo Solvay no Brasil também já está traçado e ali- sava e agia Ernest Solvay.

Tractebel Energia

O compromisso com a busca do desenvolvimento sustentável


acompanha a Tractebel Energia desde sua criação, em 1998,
data do início de suas atividades no Brasil sob controle da Tracte-
Desta capacidade instalada, aproximadamente 80% é prove-
niente de fontes renováveis: água, vento e biomassa. E praticamen-
te todo o seu parque gerador tem sua gestão certificada segundo
bel, com sede na Bélgica. Acreditando no potencial de crescimen- as normas NBR ISO 9001 (Qualidade), NBR ISO 14001 (Meio
to do Brasil, o grupo GDF SUEZ, atual controlador da empresa, Ambiente) e OHSAS 18001 (Saúde e Segurança do Trabalho).
trouxe sua experiência adquirida em mais de um século de atuação Isso confirma o compromisso da Tractebel Energia de atuar
no desenvolvimento de soluções sustentáveis e inovadoras para os de forma sustentável, equilibrando crescimento econômico com
setores de água, energia e gestão de resíduos. conservação ambiental e avanços sociais. Essa premissa reflete os
Com sede em Florianópolis, Santa Catarina, a Tractebel Ener- valores que a empresa compartilha com o seu controlador, o grupo
gia é a maior geradora privada de energia do Brasil. Empregan- GDF SUEZ, com sede na França, e maior produtor independente
do diretamente pouco mais de mil pessoas, está presente em 12 de energia do mundo, presente em 100 países.
Estados, nas cinco regiões do País, onde opera 22 usinas, entre Alinhada às políticas do grupo GDF SUEZ, a Tractebel Ener-
hidrelétricas, termelétricas e complementares (eólicas, a biomas- gia faz do respeito ao meio ambiente um valor fundamental à
sa e pequenas centrais hidrelétricas). Juntos, em 2012 esses em- conduta dos negócios. Assim, a gestão ambiental realizada pela
preendimentos somavam 8.630 MW de capacidade instalada, o Companhia, tanto nos empreendimentos em operação quanto na-
equivalente a cerca de 7% do total de energia consumida no Brasil. queles em fase de implantação, tem como base a identificação, a

Geração de energia de biomassa; a Tractebel Energia é a maior geradora privada Geração de energia eólica; em 2012 as usinas da Tractebel somavam 8.630
de energia do Brasil, está presente em 12 Estados e opera 22 usinas, entre MW de capacidade instalada, o equivalente a cerca de 7% do total de energia
hidrelétricas, termelétricas e complementares. consumida no Brasil.

99
parte 3 – relações econômicas: comércio e empresas

Geração de energia por hidrelétricas; a Tractebel Energia foi criada em 1998 sob controle da Tractebel, com sede na Bélgica.

prevenção e a mitigação de possíveis impactos causados ao meio nas. A infraestrutura oferecida à comunidade conta com anfiteatro
ambiente em função de suas atividades. Para isso, a Tractebel de- para 150 pessoas, salas para oficinas de inclusão digital, cursos de
senvolve uma série de programas e projetos focados na melhoria capacitação, biblioteca, museu e espaço para exposições. Assim,
ambiental das regiões onde está inserida, o que inclui a prote- propicia o intercâmbio de companhias de dança, teatro, música e
ção de nascentes, a conservação da flora e da fauna, a educação outras manifestações artístico-culturais de diversas regiões do Brasil.
ambiental, o investimento em fontes renováveis e o combate ao Também participa do desenvolvimento cultural das comuni-
aquecimento global, entre outras ações. dades com o apoio a projetos de inciativas locais, contemplando
manifestações tais como cinema, música, teatro, dança e litera-
Parceria com a comunidade tura. Além disso, apoia ações voltadas à inclusão social, geração
de emprego e renda, educação, promoção da saúde e erradica-
Por meio de parcerias com agentes locais, a Companhia bus- ção da miséria.
ca colaborar de forma decisiva com o desenvolvimento humano
das comunidades situadas no entorno de seus empreendimentos, Criação de valor
engajando-se em ações voltadas à qualidade de vida, à valorização
cultural e à conquista da cidadania. A postura empresarial diferenciada em relação à sustentabi-
Exemplo disso são os centros de cultura, uma das ações sociais lidade, somada a boas práticas de governança corporativa, con-
patrocinadas pela Companhia nos últimos anos. Implantados em ferem credibilidade e solidez à Tractebel Energia no mercado.
cidades de pequeno porte, esses centros têm como objetivo criar A Companhia faz parte do Novo Mercado e integra o Índice de
um importante vínculo entre as memórias étnicas e culturais da Sustentabilidade Empresarial (ISE) da BM&F Bovespa desde
comunidade local e a construção de um futuro no qual as pesso- 2005 – ano de criação do ISE. Na última década, a Tractebel
as tenham mais oportunidades de preservar suas tradições e de Energia vem alcançando ótimos resultados, e suas ações regis-
conquistar cidadania por meio do acesso à cultura e à educação. traram valorização ascendente. Uma prova de que a opção pela
O primeiro projeto nesse sentido foi inaugurado em 2011, no sustentabilidade garante o bom desempenho econômico-finan-
município de Entre Rios do Sul, no Rio Grande do Sul, com pou- ceiro de uma organização.
co mais de 3 mil habitantes e localizado na área de influência da E assim, aliando os valores trazidos da França e da Bélgica
Usina Hidrelétrica Passo Fundo. Desde que começou a funcionar, por seus controladores ao potencial local e à cultura brasileira, a
este Centro já recebeu cerca de 20 mil visitantes, tanto para assistir Tractebel Energia mantém seu compromisso com a construção
a espetáculos e exposições quanto para participar de cursos e ofici- de um Brasil cada vez melhor.

100
empresas belgas no brasil

DEME: uma empresa de engenharia marinha


com 150 anos de experiência mundial

A DEME (Dredging, Environmental & Marine Engineering)


foi estabelecida como uma sociedade de participação em
abril de 1991, mas suas raízes remontam ao século 19. As origens
da DEME estão embutidas na Flandres, que tem uma longa com-
petência de engenharia hidráulica na construção de diques, na lu-
ta contra as inundações, no aprofundamento do acesso marítimo
e na construção de portos.
A DEME foi criada como sociedade de participação de duas
empreiteiras de dragagem belgas: Dredging International e Bag-
gerwerken Decloedt. Dois grupos industriais e financeiros atual­
mente controlam o capital de participação: Ackermans & van
Haaren, um grupo de investimento industrial baseado em An-
tuérpia e cotado na bolsa; e a CFE, uma empreiteira civil cota- Drenagem de aprofundamento da seção 5 do canal de acesso ao porto de Itaguaí,
da na bolsa, controlada pelo grupo francês Vinci. A experiência Baía de Sepetiba, Rio de Janeiro.
da DEME no Brasil remonta ao início do século 20, quando a
Ackermans estava envolvida nos trabalhos de extensão no porto localizado na baía de Sepetiba, no Rio de Janeiro (2008-2009); a
do Rio Grande do Sul, em 1908. Mais recentemente, o grupo dragagem para o aprofundamento da seção 5 do canal de acesso
está ativamente presente no mercado brasileiro desde 2006, mo- do porto de Itaguaí, incluindo o aprofundamento do acesso ao
mento em que o mercado de dragagem foi aberto novamente porto da ThyssenKrupp CSA (2010-2011); a dragagem de manu-
para empresas estrangeiras. O Grupo DEME criou uma compa- tenção no terminal de Ponta da Madeira para a Vale, em São Luiz
nhia brasileira local em 2006, a Dragabras Serviços de Dragagem (MA) (2010), e os trabalhos de dragagem de capital no porto de
­Ltda., para todas as suas atividades no Brasil. Tubarão para a Vale (2011). Pequenos trabalhos de dragagem
A DEME esteve envolvida em diferentes projetos de grande de manutenção foram executados nos últimos anos nos portos
escala de dragagem no Brasil, tanto para clientes públicos como do Rio de Janeiro, de Imbituba, Santos e São Francisco do Sul.
para privados: realizou trabalhos de dragagem e de aterro hidráu- Como resultado da descoberta de grandes campos de petróleo,
lico para a construção da Usina Siderúrgica da Thyssen Krupp o governo brasileiro e o setor privado estão investindo enormes
CSA, na baía de Sepetiba, no Rio de Janeiro (2006-2008); a dra- quantias em infraestrutura e nos portos. Isto leva a muitos projetos
gagem de aprofundamento do canal de acesso ao porto de Itaguaí, e diversas oportunidades para os próximos anos.

Grupo Jan De Nul

P essoas e embarcações, essa é a força motriz do grupo belga Jan


De Nul. Graças à dedicação de nossos funcionários e de nossa
frota ultramoderna, o Grupo Jan De Nul se mantém no topo da
ca de tratamento de esgoto da Europa ou a instalação de pedras a
2.000 metros de profundidade.
Desde a abertura do mercado de dragagem no Brasil, em 2007,
indústria de dragagem mundial. a Jan De Nul do Brasil Dragagem Ltda. – empresa 100% controla-
Além da dragagem de manutenção e de aprofundamento, o da pelo Grupo Jan De Nul – tomou a frente do mercado. Planos
grupo possui um departamento de construção civil e uma divisão de investimento sem precedentes vêm sendo elaborados, tanto no
de meio ambiente que dão suporte e possibilitam a ampla gama setor público quanto no setor privado.
de serviços do grupo. Esses são os três pilares que nos permitem Obras de Aprofundamento: Barra do Riacho (Portocel/Pe-
realizar projetos em ampla escala, atendendo as expectativas de trobras – 2007), Rio Grande (SEP/SUPRG – 2009/2012), Salva-
nossos clientes. Sejam esses projetos a Palm Island, em Dubai, o dor/Aratu (SEP/Dias Branco – 2010), Itaguaí (LLX/Odebrecht –
novo conjunto de eclusas no Panamá, a manutenção de rios na 2011/2012), Itajaí (SEP – 2011), Vitória (Vale – 2012) e Paraguaçu
Argentina, novos complexos portuários na Austrália, a maior fábri- (EEP – 2012/2013);

101
parte 3 – relações econômicas: comércio e empresas

Draga de sucção autotransportadora Cristobal Colon, que, com seus 46.000m³, é a maior draga do mundo, adentrando o porto do Rio de Janeiro, 2011.

Obras de Aterro: Açu (LLX – 2011) e Itaguaí (Odebrecht – O Grupo Jan De Nul continua fortalecendo sua atuação no
2011/2012); Brasil, trazendo equipamentos de última geração e treinando fun-
Dragagem de Manutenção: Rio Grande (SUPRG – 2012), São cionários brasileiros para que atinjam alto nível de qualificação.
Luís (Vale – 2012/2015); Assim sendo, o Grupo Jan De Nul continua evoluindo com o Bra-
Aprofundamento e Serviços Ambientais: Santos (Embraport sil, criando o mundo do amanhã.
– 2012/2013).

Katoen Natie: Mais de 15 anos de prestação


de serviços logísticos no Brasil

K atoen Natie foi fundada em 1854 em Antuérpia por quatro


companheiros de trabalho. Sua primeira atividade consistia
no recebimento do algodão. Cada navio descarregado no porto
por comissão para os compradores de mercadorias. A Katoen Na-
tie (Associação Algodoeira), em seus primórdios, trabalhava para
o setor de processamento de algodão e recebia os fardos, além de
por seu capitão e tripulação era assistido por estivadores recru- manejar a armazenagem, pesagem, amostragem e distribuição.
tados localmente. Quando o guindaste colocava as mercadorias Ela rapidamente diversificou seu produto e começou a receber
no cais, estas eram recebidas pelos associados. Estes trabalhavam outras mercadorias: juta, café, ferro, aço, frutas, tomates etc.

102
empresas belgas no brasil

Nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, a orga- São Paulo. Em seguida, outros projetos de engenharia e operações
nização deu início a novas atividades: armazenagem em seus pró- in house foram executados para clientes petroquímicos brasileiros.
prios depósitos, transporte, expedição, declaração aduaneira. Nos O grande crescimento no Brasil foi alcançado com a compra
anos 90, os serviços especializados para o setor automobilístico, de um prestador de serviços logísticos brasileiro, JOB, com sede
químico e petroquímico e de grande distribuição foram agregados. em Camaçari, Salvador (BA). A primeira sede da Katoen Natie
Em 1995, a Katoen Natie investiu pela primeira vez no exte- estava por consequência na Bahia. Katoen Natie cresceu para ser
rior, abrindo uma filial em Sarralbe (França). Depois disso, as ati- o líder do mercado de serviços logísticos para a indústria petro-
vidades se expandiram para todas as partes do mundo. Atualmente, química no Brasil com atividades desde o Rio Grande do Sul até
a Katoen Natie é uma empresa de porto mundial com operações Alagoas, passando por Paraná, São Paulo, Rio do Janeiro e Bahia.
em 27 países distribuídos por Europa, Oriente Médio, América do A Katoen Natie já desenvolveu dois centros próprios de distri-
Norte, América do Sul, Ásia e África. Consiste de 400 unidades buição multimodais no Brasil: um em Paulínia, região de Campi-
operacionais, com 150 terminais e plataformas de logística, com nas (SP) e um em Araucária, região de Curitiba (PR). O primeiro
mais de 10.000 pessoas. foi construído em 2001 e Paulínia foi escolhida como localização
A Katoen Natie atua no mundo inteiro. É uma empresa priva- por ser o ponto de interconexão das maiores empresas concessio-
da e não está listada no mercado de ações, de forma que as deci- nárias ferroviárias, oferecendo as duas bitolas aplicadas no Brasil.
sões são tomadas como parte de uma visão de longo prazo. Opera Esta plataforma logística de mais de 50.000 m² de armazéns e
terminais portuários, centros de distribuição e operações on-site mais de 70 ha de terrenos funciona como Centro de Distribuição
(in house). O grupo também fornece todos os tipos de serviços por clientes brasileiros e internacionais do ramo automotivo, in-
semi-industriais, projeta, desenvolve e administra plataformas de dustrial, de bens de consumo e petroquímico.
logística e cadeias de fornecimento completas. Finalmente, a sede da Katoen Natie do Brasil foi transferida
Em 1997 a Katoen Natie começou operações no Brasil a con- para Paulínia,de onde controla mais de 20 operações empregan-
vite de um de seus clientes mundiais da indústria petroquímica. do mais de 850 pessoas. Com essa estrutura a Katoen Natie está
Um primeiro projeto de engenharia, inclusive de silos, linha de preparada para oferecer uma solução logística para a economia
embalagem e armazém, foi realizado em Santo André, ao lado de brasileira numa fase de forte crescimento.

103
empresas brasileiras na bélgica

A Compagnie Brésilienne des Tramways


Eddy Stols

C andidata à primeira empresa brasileira atuando na Europa


ocidental pode ser a Compagnie Brésilienne des Tramways,
fundada no Rio de Janeiro com um capital de 1.200 contos de réis,
ou seja, algo mais que três milhões de francos belgas, quantia de
dinheiro mais do que respeitável (Cosaert e Delmelle). Represen-
tada em Bruxelas por dois homens de negócios belgas ativos no
Rio de Janeiro, Ladislas Paridant e Louis Laureys, ela comprou em
1874 dos irmãos Becquet duas linhas de bondes existentes com
tração hipomóvel e em dificuldades por causa do alto custo dos
cavalos. Uma servia a Rue de la Loi, uma nova artéria ao lado do
Parlamento belga, e a outra, a Tour du Boulevard, e ligava as duas
estações do Norte e do Midi correndo parcialmente pela avenida
circular. Na parte inclinada deste trajeto precisava-se de quatro
cavalos, o que encarecia muito o preço da passagem.
Sua frota consistia em 30 carros fechados, pintados de ver-
melho. A Brésilienne foi a primeira a introduzir, nos dias de bom
Um carro aberto, com cortinas para proteger da chuva ou do sol, de 16 lugares,
tempo, carros abertos com bancos transversais, e chegou a ter dez da ‘Compagnie brésilienne des tramways’ ou ‘Brésilienne’, fundada no Rio de
desse tipo. Os cinco últimos a entrar em serviço levavam uma cor Janeiro e que passou a operar em Bruxelas em 1874.
marrom, que lhes mereceu na boca do povo, o apelido de tram
chocolat. Este conservou-se por muito tempo, mesmo depois que Referência
a Brésilienne, em dificuldades financeiras, foi absorvida em 1879 É. Cosaert e Joseph Delmelle. Histoire des transports publics à Bruxelles. Bruxelas, 1976,
pelos Tramways Bruxellois. t. 1, p. 83-140.

O Panorama da Baía e da Cidade do Rio de Janeiro


Eddy Stols

U ma das primeiras empresas publicitárias foi a sociedade co-


manditária ‘Meirelles & Langerock’, que os pintores Vítor
Meirelles e Henri Langerock, um paisagista belga ativo no Brasil
nas grandes cidades europeias, onde este tipo de espetáculo pago
se popularizou como diversão pública. Enquadrava-se bem dentro
da ofensiva de propaganda que o Brasil deslanchou nesses anos
desde 1885, registraram no Rio de Janeiro em 25 de junho de 1886 na Europa com publicações subsidiadas e participações nas gran-
com capital de 150 contos de réis e duração de seis anos (Mello des exposições. Mais de 30 proeminentes brasileiros subscreveram
Junior e Coelho). Devia realizar um Panorama da Baía e Cidade cotas tanto para apoiar a promoção de sua pátria quanto na expec-
do Rio de Janeiro para explorá-lo comercialmente em exposições tativa de bons lucros.

104
empresas brasileiras na bélgica

As dificuldades técnicas para trabalhar com uma tela de várias dinheiro, o que provocou uma briga judicial entre os dois artistas.
dezenas de metros de comprimento obrigaram Meirelles e Lan- Langerock queria receber mais do que o estipulado. Já no folheto
gerock a programar a realização do Panorama, a partir de estudos assinado por Meirelles, foi inserida, certamente a pedido do belga,
pintados no Rio de Janeiro, num grande espaço na Europa. Como uma nota esclarecendo que era obra de dois artistas e que ele tinha
Londres não tinha naquele momento uma rotunda disponível, pintado a parte oriental. Langerock saiu da sociedade, ao passo
decidiu-se por um ateliê em Ostende. Na escolha desta cidade que Meirelles levou a obra a Paris para instalá-la numa avenida
belga influíram, além dos vínculos pessoais de Langerock, vários perto da Exposição Universal de 1889. Se ganhou lá boas aprecia-
motivos. Suas confortáveis instalações balneárias podiam facilitar ções e uma medalha de ouro, pelo excesso de outros espetáculos
uma estada longa dos dois pintores por mais de um ano. Por es- e panoramas, não recebeu visitantes suficientes e os resultados
trada de ferro, tinha proximidade com Bruxelas, onde existia uma financeiros não corresponderam às expectativas.
rotunda num boulevard da cidade. A Bélgica parecia uma boa al- Em falta de outras oportunidades na Europa, Meirelles trans-
ternativa para a Inglaterra em vista dos crescentes interesses eco- feriu a obra para o Rio de Janeiro. Numa rotunda construída no
nômicos brasileiros naquele país. O Brasil tinha participado com Largo do Paço Imperial, futura Praça XV, o Panorama foi inaugu-
algum êxito da Exposição Universal de Antuérpia em 1885 e era rado em 3 de janeiro de 1891 e ficou aberto pelo menos por dois
representado naquela época por um dinâmico e bem relacionado anos, se bem que num período muito conturbado. A tentativa de
diplomata, conde de Villeneuve. Meirelles para incluí-lo na Exposição Colombiana de Chicago
Em 4 de abril de 1888 abriu-se sua primeira exibição em Bru- em 1892 malogrou. Como previsto no ato de fundação, a empresa
xelas na presença da rainha belga Marie-Henriette. Um folheto foi dissolvida em 1893 com pagamento de dividendos aos sócios.
de 14 páginas, Panorama de la ville de Rio de Janeiro exhibé en A rotunda parece ter acolhido depois outras telas panorâmicas de
Europe et à Bruxelles pour la première fois, impresso em Bruxelas, Meirelles até que, em 1898, a prefeitura, que não devia apreciar
identificava o espetáculo em todos seus pormenores. Insistia muito muito este pintor do antigo regime imperial, mandou demolí-la.
na modernidade desta grande cidade e ousava comparações com A tela do Panorama do Rio de Janeiro, de boa qualidade artística
a Europa, sem dúvida para impressionar e tranquilizar os investi- segundo os críticos da época, foi doada por Meirelles ao governo
dores e acionistas europeus e os eventuais candidatos a emigração em 1902, mas, abandonada na Quinta da Boa Vista, desgastou-
entre os artesãos e operários. Indicava assim a fumaça das quatro se por completo. Somente os seis estudos preparatórios ficaram
chaminés da fábrica de gás, que acabava de ser adquirida em 1886 preservados no Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro.
por capitais belgas e que assegurava agora a iluminação noturna Quase um século mais tarde apareceram novas empresas bra-
de toda a cidade. Esta, com 400.000 almas, ou 800.000 com os sileiras na Bélgica. Pouco depois da chamativa Brasil Export em
subúrbios incluídos, tinha um intenso tráfico de vapores a cada 15 Bruxelas, em novembro de 1973, a Rio Doce Internacional, sub-
minutos para Niterói, um serviço abundante de bondes com mais sidiária da Cia. Vale do Rio Doce, abriu em 1974 um escritório
de 100.000 passageiros por dia, grandes reservatórios de água, ou em Bruxelas, dirigido por Eliezer Batista até sua volta, em 1979,
seja, setores que podiam suscitar investimentos belgas. à presidência da sede no Brasil. O Banco do Brasil abriu uma
Seu status de capital econômica se evidenciava ainda nos gran- agência em Bruxelas em 1992. Se ambas empresas já deixaram a
des edifícios da Alfândega e dos Correios, na Bolsa em constru- Bélgica, entrementes chegaram novas. Em 1992 a WEG, fabri-
ção e nos bairros de Tijuca, com as residências dos homens de cante de motores e sistemas industriais elétricos, de Jaraguá do
negócios estrangeiros, e de Santa Teresa, acessível com um tren- Sul, SC, estabeleceu-se em Nivelles. A Citrovita da Votorantim
zinho em plano inclinado. A abertura recente da Rua Senador abriu, em 1993, em Antuérpia um terminal para a distribuição
Dantas, onde se podia ver a carroça do Imperador e os planos de suco de laranja, ampliado em 2008 para armazenar também
para arrasar os morros de Santo Antônio, do Castelo e do Senado, outros produtos do grupo, celulose e metais. Sobretudo o porto
anunciavam um urbanismo ambicioso e as obras de saneamento. de Gand viu crescer a presença brasileira para a distribuição de
Destacavam-se as diversões públicas e a vida cultural: a praia de minérios e produtos do agronegócio. Depois da Citrosuco da Fis-
Icaraí, que oferecia banhos de mar tão bons como em Ostende ou cher, a ­Louis Dreyfus abriu seu próprio terminal para o suco de
Blankenberghe; os belos jardins com cascadas de São Cristovão; laranja em 2000. Em 2011 veio a Cia. Brasileira de Logística, de
o Passeio Público, onde se davam concertos nas noites de bom Curitiba, que armazena biodiesel, e em 2013 a JBS para a distri-
tempo; a biblioteca do Gabinete Português de Leitura, em estilo buição de carne. A Duratex instalou um centro de distribuição
manuelino, e o Teatro São Pedro, onde atuara recentemente Sa- em Mechelen (Malines) em 2005.
rah Bernhardt. A subida por trem em 40 minutos ao Corcovado,
muito procurado pelos turistas estrangeiros, já superava a mais Bibliografia sobre o Panorama do Rio de Janeiro
famosa de Righi, na Suíça. Panorama de la ville de Rio de Janeiro exhibé en Europe et à Bruxelles pour la première
Durante seis meses o Panorama atraiu cerca de 50.000 visitan- fois, Bruxelas, 1888; Mário César Coelho, Os panoramas perdidos de Victor Meirelles,
tes, em parte escolares com tarifa reduzida. Pode ter melhorado a Tese de doutorado em história UFSC, Florianópolis, 2007; Donato Mello Junior. O
Panorama da Baía e Cidade do Rio de Janeiro, de Vítor Meireles de Lima. Mensário
imagem do Brasil e influído em diversas novas iniciativas belgas do Arquivo Nacional, XIII, 10, 1982, p. 336-346.
neste país nos anos seguintes. Deve também ter rendido um bom

105
parte 3 – relações econômicas: comércio e empresas

Citrosuco: presente na Bélgica desde 1980

A Citrosuco instalou-se na Bélgica em 1980, no porto de Gand,


quando contratou os serviços da Citrus Coolstore NV para o
serviço de armazenamento e distribuição na Europa do suco con-
centrado e congelado de laranja.
A escolha recaiu sobre Gand devido à sua localização estra-
tégica em relação aos mercados europeus e também porque, já
em 1980, era considerado o porto “brasileiro” mais importante na
Bélgica. Naquela época, Gand movimentava cerca de 3 milhões
de toneladas de mercadorias originárias do Brasil, principalmente
grãos, soja, minério de ferro, produtos metálicos, celulose e sucos
de fruta. Para grande parte desses produtos, o porto de Gand ainda
funciona como centro de distribuição para toda a Europa e mes-
mo para o Oriente Médio. Esse é o caso, por exemplo, do suco de
laranja da Citrosuco.
Para atender o contrato firmado com a Citrosuco, a Citrus
Coolstore NV construiu um armazém frigorífico com capacidade
para 21 mil toneladas de suco a granel e 40 mil tambores. O frigo- O navio ‘Sol do Brasil’ da Citrosuco fornece regularmente suco de laranja à
rífico ficou pronto em novembro de 1982 e com ele a Citrosuco Bélgica, 2012.
assegurou então plena capacidade para garantir o abastecimento
de suco de laranja aos mercados europeus. tomatizados. O cais possui cerca de 200 metros de comprimento,
Estava pronto, assim, o sistema que permitiu à Citrosuco o oferecendo total estrutura para o carregamento e descarregamento
transporte a granel de suco concentrado congelado desde as ­suas dos navios dedicados ao transporte de suco de laranja.
fábricas no Brasil até a Europa. Na viagem inaugural, o navio Em 2010, a Citrosuco, empresa do Grupo Fischer, e a Citro-
“Ouro do Brasil” saiu de Santos no dia 17 de novembro de 1982 vita, empresa do Grupo Votorantim, anunciaram sua fusão e a
com 9 mil toneladas de suco de laranja concentrado congelado. formação de uma joint venture 50/50 de seus negócios, tanto no
Por outro lado, a Citrovita – até então uma empresa do Grupo Brasil como no exterior.
Votorantim e concorrente da Citrosuco – instalou-se também na Em maio de 2011, a fusão Citrosuco/Citrovita foi aprovada pe-
região de Flandres na Bélgica em 1993, mais precisamente na ci- la Comissão Europeia e, em dezembro de 2011, teve a aprovação
dade de Antuérpia, considerado o segundo maior porto da Europa. do Cade, órgão brasileiro regulador.
Na ocasião, a Citrovita operava juntamente com outras em- A partir de 2012, as duas empresas passaram a operar conjun-
presas do Grupo Votorantim, entre elas a Votorantim Celulose e tamente, coordenando as atividades de produção, logística terres-
Papel (VCP). A escolha por Antuérpia levou em conta o fato de tre, terminais, logística marítima e comercialização do suco de
que a região de Flandres era considerada o coração da Europa, laranja no exterior.
e oferecia às empresas toda a infraestrutura, seja rodoviária, fer- Surge, assim, uma nova empresa, que manteve o nome Citro-
roviária ou marítima, interligando os grandes centros europeus. suco, com uma nova marca e posicionamento. A nova Citrosuco
O terminal da Citrovita em Antuérpia possui capacidade para está presente na Bélgica em seus dois principais portos, Gand e
armazenar 33.200 toneladas de suco, em tanques totalmente au- Antuérpia, com dois terminais e cerca de 60 funcionários.

106
astronomia e geologia

parte 4

Colaboração Científica

107
parte 4 – colaboração científica

108
astronomia e geologia

Louis Cruls e o Observatório Astronômico no Rio de Janeiro


Christina Helena Barboza

O engenheiro e astrônomo Louis Ferdinand Cruls nasceu no


dia 21 de janeiro de 1848, em Diest, cidade situada no la-
do flamengo da Bélgica. Filho de Philippe Augustin Guillaume
Cruls e de Anne Elizabeth Jordens, Cruls completou os estudos
superiores na Universidade de Gand, onde travou amizade com
jovens brasileiros, que o incitaram a visitar o Brasil. Foi assim que,
contando com o apoio do pai, Cruls embarcou para o Rio de Janei-
ro em setembro de 1874, interrompendo a carreira de engenheiro
militar na Bélgica.
Graças à rede de amizades estabelecida ainda na Europa, alar-
gada pelo convívio estabelecido com Joaquim Nabuco durante a
travessia do Atlântico, Cruls foi recebido pelo próprio imperador,
D. Pedro II, e pelo então Diretor-Geral do Ministério da Agricul-
tura, Comércio e Obras Públicas, Manuel Buarque de Macedo,
que lhe arrumou trabalho na Comissão de Triangulação do Mu-
nicípio Neutro, ainda no final de 1874.
Nessa oportunidade ele não apenas desenvolveu um estudo
comparativo sobre os métodos empregados na determinação de
posições geográficas por triangulação, publicado em maio de 1875
por uma tipografia de sua cidade natal (Discussion sur les mé-
thodes de répétition et de réitération employées en géodésie pour
la mesure des angles, 1875), como também ganhou a confiança
de Emmanuel Liais, diretor do Imperial Observatório do Rio de
Janeiro, que logo convidou-o a ingressar nessa instituição, em de-
zembro de 1877.
Foi também durante essa etapa inicial de sua carreira no Brasil
que Cruls conheceu Maria Margarida de Oliveira, com quem se
casou em 26 de maio de 1877, e teve seis filhos: Edmée, Stella,
Sylvie, Maria Luísa, Gastão e Henri (este último falecido ainda
criança).
Trabalho de campo da Comissão Cruls no alto dos Pirineus, Goiás, em 8 de
Cruls trabalhou no Observatório do Rio de Janeiro durante agosto de 1892.
cerca de 30 anos, desde 1877 até o ano de sua morte. Mais do
que isso, ele contribuiu decisivamente para a consolidação dessa quanto à sua competência e mesmo sua utilidade, e não faltou
instituição no cenário científico brasileiro. De fato, entre o final quem recomendasse o fechamento da instituição.
da década de 1870 e o final da década de 1880, a despeito do O principal alvo das críticas, Liais acalmou momentanea-
apelo que possuía o ideário cientificista entre as elites políticas e mente a situação no início de 1881, ao afastar-se da direção do
intelectuais brasileiras, o Observatório foi alvo de críticas pesadas Observatório e do país, voltando à França, sua terra natal. Cruls

109
parte 4 – colaboração científica

Integrantes da Comissão Cruls, Goiás, 1892.

era o astrônomo de sua preferência para substituí-lo. Ele assumiu a Repartição Hidrográfica a colaborar com a instituição, e solicitou
interinamente o cargo em 24 de março de 1881, não sem antes ao governo recursos extraordinários, de modo a tornar possível a
naturalizar-se brasileiro, em 12 de fevereiro do mesmo ano, entre organização de pelo menos três expedições com bandeira brasilei-
outras razões para evitar o viés nacionalista embutido nas críticas ra, respectivamente enviadas à ilha de São Tomás, nas Antilhas, a
endereçadas ao Observatório. Olinda e a Punta Arenas, na Patagônia chilena.
Durante o início de sua gestão, ainda no período imperial, Nesta última estação, sob seu comando científico, foi a única
Cruls buscou angariar aliados para o Observatório, como o Im- em que predominou o bom tempo, permitindo que todos os con-
perador D. Pedro II, que não media esforços em demonstrar seu tatos entre Vênus e o Sol fossem cronometrados. Os resultados das
apreço pelas ciências em geral e pela astronomia em particular; observações e cálculos posteriores foram publicados em 1887, nos
Rui Barbosa, que chegou a publicar um folheto em defesa da ins- Anais do Observatório (Annales de l’Observatoire Impérial de Rio
tituição, e Gusmão Lobo, redator do Jornal do Commercio, prin- de Janeiro, t. 3, 1887), em um volume bilíngue organizado por
cipal jornal diário da época, e seu amigo pessoal. Cruls e especialmente dedicado aos trabalhos das diversas expe-
Um dos principais fatores que contribuíram para consolidar o dições brasileiras.
prestígio da instituição entre as elites imperiais brasileiras foi sua Enquanto eram organizadas as expedições visando a obser-
participação em projetos de caráter internacional e grande visibi- vação do trânsito de Vênus, Cruls protagonizou outro momento
lidade, como a observação do trânsito de Vênus pelo disco do Sol, importante simultaneamente na sua carreira e na trajetória do Ob-
em 6 de dezembro de 1882. servatório ao comunicar o aparecimento de um novo cometa no
Para possibilitar a participação do Observatório nos esforços céu austral, visível a partir de 25 de setembro de 1882. A Academia
internacionais de observação do trânsito de Vênus, Cruls convidou de Ciências de Paris reconheceu o seu mérito na descoberta e na

110
astronomia e geologia

análise da constituição química desse cometa concedendo-lhe o nacional. A mais importante delas foi sua nomeação para presidir
Prêmio Valz, em sessão pública realizada em 2 de abril de 1883. a chamada Comissão Exploradora do Planalto Central, que en-
Tendo em vista o prestígio da Academia francesa, o valor sim- tre junho de 1892 e março de 1893 percorreu essa região com o
bólico da premiação recebida por Cruls pode ser considerado objetivo de definir a localização da área de 14.400 km2 que ainda
maior do que o montante em dinheiro, na medida em que con- hoje delimita o Distrito Federal do Brasil, conforme previsto na
tribuiu para a consagração internacional de seu nome, e para o primeira Constituição Republicana, de 1891.
fortalecimento, entre os brasileiros, da instituição onde era diretor. Cruls também chefiou a Comissão de Estudos da Nova Capi-
Foi também ao longo dos anos 1880 que Cruls atingiu o auge tal da União, que voltou à região entre julho de 1894 e dezembro
de sua produção científica, com a publicação de trabalhos de te- de 1895, com o duplo objetivo de escolher a melhor localização
máticas bastante distintas, tais como um método gráfico para a pre- para a futura capital dentro da área previamente demarcada, e de-
visão de ocultações e eclipses (“Occultações e eclipses; processo finir o traçado de uma estrada de ferro interligando duas cidades
graphico para sua predicção”, Revista do Observatório, 1886-1887), próximas, Cuiabá e Catalão.
o projeto de um novo tipo de barômetro destinado à determina- Logo no início do século XX, em janeiro de 1901, Cruls assu-
ção de altitudes (Descripção e Theoria do Barometro Differencial, miu a chefia de outra missão de cunho político-científico: a de-
1888) e um estudo sobre o clima do Rio de Janeiro (O Clima do marcação das nascentes do Rio Javari, início da fronteira do Brasil
Rio de Janeiro, 1892). com a Bolívia. A realização da nova expedição revelou-se uma
Além disso, sob sua direção – desde 1884 em caráter definitivo grande e perigosa aventura, com dias a fio de viagem em canoas,
– o Imperial Observatório expandiu-se de maneira significativa, ad- racionamento de comida e a irrupção de diversas doenças entre os
quirindo instrumentos e contratando pessoal, e começou a divul- membros da comissão, como o próprio Cruls, que teria contraído
gar sua produção, seja através dos Anais, dirigidos à comunidade beribéri e malária. Apesar de todas as dificuldades, a expedição foi
científica, seja através da Revista do Observatório, um periódico bem sucedida, e no dia 22 de agosto de 1901 foi instalado o marco
mensal destinado à “vulgarização científica”. indicativo da nascente principal do Rio Javari.
Em duas viagens aos Estados Unidos e à Europa, em 1887 Cruls nunca se recuperou completamente dessa última via-
e 1889, Cruls garantiu o lugar do Observatório e do Brasil, res- gem a trabalho. A partir dessa data passou a acumular pedidos de
pectivamente, na Conferência Internacional do Meridiano, cujo licença do cargo para tratamento de saúde, a tal ponto que em
objetivo era escolher o meridiano de referência na determinação 1905 o governo nomeou Henrique Morize como seu substituto
das longitudes, e no ambicioso projeto Carta do Céu, iniciativa no Observatório, por prazo indeterminado. Em janeiro de 1908,
francesa cujo objetivo era construir um mapa de toda a abóbada uma nova licença lhe foi concedida pelo período de um ano. Cruls
celeste utilizando a fotografia, através da colaboração entre obser- embarcou então de volta à Europa, junto com a família, em busca
vatórios do mundo inteiro. Finalmente, a partir de março de 1889 de tratamento. Morreu em Paris, em 21 de junho de 1908.
Cruls passou a acumular a direção do Observatório com o cargo
de professor de trigonometria esférica, astronomia e geodesia da Christina Helena da Motta Barboza é pesquisadora no Museu de
Escola Militar do Rio de Janeiro. Astronomia e Ciências Afins, no Rio de Janeiro. É graduada em His-
A instauração do regime republicano no Brasil, a partir de 15 tória pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com
de novembro de 1889, deu ensejo a outras oportunidades de pro- Mestrado em História pela Universidade Federal Fluminense e Dou-
jetar Cruls e o Observatório por ele dirigido no cenário científico torado em História Social pela Universidade de São Paulo.

Um belga à procura de petróleo no Brasil


Pa t r i c k C o l l o n

N o final do século XIX o Brasil, assim como a Rússia, aparecia


frequentemente no roteiro dos engenheiros belgas, que per-
corriam o mundo à procura de minérios para sua indústria meta-
as riquezas mineralógicas do Ural em 1891 e 1892 e a extração do
petróleo em Baku no Cáucaso em 1894.
Entre 1895 e 1897 deixou Liège e foi para o Brasil, na con-
lúrgica. Neste sentido foi bem significativo o percurso de Auguste dição de encarregado de missão do governo belga, para montar
Collon (Mons, 30.04.1869 – Antuérpia, 07.01.1924). Em 1885 um centro de estudos na Fazenda do Brejão, de propriedade de
matriculou-se na Universidade de Liège para estudar Ciências Eduardo Ferreira de Camargo. Em menos de dois anos, realizou
Naturais e obteve, em 1890, com apenas 21 anos, seu doutorado várias explorações mineralógicas e geológicas no Estado de São
com a menção de grande distinção. Nomeado assistente em mi- Paulo, em parte junto com o influente geólogo americano Orville
neralogia, pôde fazer numerosas viagens de estudo, descobrindo A. Derby. Estudou particularmente os terrenos carboníferos desse

111
parte 4 – colaboração científica

Auguste Collon no laboratório do Brejão,


onde realizou pesquisas mineralógicas e
geológicas entre 1895 e 1897.

Estado, as jazidas de minérios de ferro de São João d’Ypanema e ciété Anonyme John Cockerill, em Seraing, chefiando também seus
as rochas betuminosas da região de Botucatu. Serviços de Relações Exteriores. Como tal lidou por volta de 1910
Em Porangaba, montou a primeira estrutura de sondagem pro- com um projeto para vender modernos navios pesqueiros para o
funda, tornando-se o pioneiro da prospecção petrolífera no Brasil, Brasil. Depois de ter conduzido a Cockerill através dos escolhos da
embora sem resultados. Seu profissionalismo foi muito respeitado Grande Guerra, a deixou por motivos pessoais em 1919 e se radi-
e orientou mais tarde novas sondagens. Ele resumiu suas pesqui- cou com sua família em Antuérpia. Lá colaborou com a Casa G.
sas numa memória manuscrita de 80 páginas, Le Pétrole dans les & C. Kreglinger, muito ativa no comércio com a América Latina,
environs du Mont de Bofete et de Porto Martins dans l’État de São como conselheiro e em seguida como procurador. Faleceu com
Paulo; suivi d’une étude chimico-industrielle des grès bitumeux de 54 anos em Antuérpia.
cette région, datada do Brejão, 11.02.1897, atualmente conserva-
da no Instituto Geológico de São Paulo (e editada em facsimile, Patrick Collon, nascido em Bruxelas em 1942, é filho de Alexandre
São Paulo, 1970). Collon e de Petronella Fitzwilliams-Hyde e neto de Auguste Collon,
Entrementes, pouco depois de sua chegada ao Brasil, veio lhe estudou na Inglaterra (Eton College), Áustria (Linz e Sankt-Florian),
fazer companhia sua noiva, Rachel Goron (Kovno, 28.2.1869 – Alemanha (Ludwigsburg), é organeiro em Bruxelas desde 1966.
Bruxelas, 6.8.1951). Nascida na Rússia, acabava de formar-se em
medicina na Universidade de Liège, onde estudavam na época Referências
muitos russos e brasileiros. Casaram-se em São Paulo em 19 de Collon, A. Sur un Cristal de Zircon. Liège (sic) 1892.
dezembro de 1895. A morte neonata de seu primeiro filho no Collon, A. Sur l’Oligiste de Viel-Salm. Liège (sic) 1894.
Collon, A. Manuscrit: Le Pétrole dans les environs du Mont de Bofete et de Porto Martins
Brejão em 10 de janeiro de 1897 precipitou sua volta à Europa. dans l’Etat de Sâo Paulo; suivi d’une Etude Chimico-industrielle des grès bitumineux
Reinstalado na Bélgica, Auguste Collon efetuou, entre 1897 e de cette région; par Auguste Collon, Docteur en Sciences naturelles, Assistant hono-
1904, como engenheiro-conselheiro, diversas missões científicas raire de l’Université de Liége. Brejão. 1897. Reproduction facsimile, commentée.
Sao Paulo 1970.
por conta de empresas como a Société Générale de Belgique e a Domingues, J. M. Porangaba sua História, Relatório de Collon. Porangaba 1998.
Société Métallurgique Russo-Belge, na Rússia, Alemanha, Polônia, Domingues, J. M. Porangaba sua História, O Manuscrito de Collon. Porangaba
Suécia e Espanha. Em 1905 foi nomeado secretário-geral da So­ 2012.

112
botânica e zoologia

O botânico Célestin Alfred Cogniaux e sua relação com o Brasil


Magali Romero Sá e Alda Heizer

O botânico belga Célestin Alfred Cogniaux (1841-1916) foi


um dos maiores colaboradores da Flora Brasiliensis de von
Martius, tendo sido responsável por cinco dos 40 volumes que
separadamente em 1887 (Saldanha da Gama & Cogniaux, 1887).
Foi também através de Saldanha da Gama que Cogniaux foi
indicado ao Imperador do Brasil para atuar como vice-cônsul do
compõem a obra elaborada pelo botânico alemão. Cogniaux foi então recém-criado vice-consulado brasileiro em Verviers (Mat-
responsável pelas monografias das famílias Melastomataceae e Or- toso et al., 1999, p. 237), tendo sido nomeado pelo monarca em
chidaceae tendo colaborado também na elaboração da família 1887 e permanecido no cargo até 1902 (Cogniaux, 2003, p. 5).
Curcubitaceae em um fascículo do volume VI, part. IV da Flora. Seu trabalho sobre a família Melastomataceae foi publicado
Seus escritos sobre a flora brasileira preencheram cerca de na Flora Brasiliensis em dois volumes, com cinco fascículos, entre
3.118 páginas, com mais de 600 ilustrações (Hoehne, 1941, p. 1883 e 1888 (Hoehne, 1941) e, segundo Goldenberg et al. (2012)
50-51). Formado como professor secundário pela École Normale esse estudo ainda representa a monografia mais recente sobre a
de Nivelles, Cogniaux trabalhou como professor de matemática família no Brasil, constituindo a base para subsequentes estudos
e ciências naturais em diferentes cidades e escolas da Bélgica. taxonômicos, tanto para tratamentos de revisão quanto trabalhos
Amante da botânica, adquiriu sua formação na prática e através de cunho florístico.
do convívio com outros botânicos. Em 1893 Cogniaux iniciou a publicação da primeira parte da
Em 1862 o botânico belga iniciou, em parceria com Barthé- obra sobre Orchidaceae na Flora Brasiliensis após intensa nego-
lémy Dumortier, os estudos sobre briófitas indígenas, tendo parti- ciação com o botânico brasileiro João Barbosa Rodrigues. Desde
cipado, nesse mesmo ano, da fundação da Société Royale de Bota- 1868 Rodrigues vinha se dedicando à coleta e descrição das orquí-
nique de Belgique. Dez anos depois, em 1872, foi indicado para o deas brasileiras, tendo em 1870 apresentado à comunidade cientí-
cargo de Conservador do Jardim Botânico do Estado e nomeado fica brasileira uma obra sobre Orchidaceae em três volumes com
naturalista ajudante. Lá, inicia seus estudos sobre a sistemática das descrições em latim e francês e ricamente ilustrada.
fanerógamas e, a convite de August W. Eichler, editor da Flora Rodrigues não obteve apoio do governo para a publicação da
Brasiliensis, dedica-se à família Curcubitaceae. Vale lembrar que sua obra ilustrada. Porém, por iniciativa do Barão de Capanema,
o Jardim Botânico belga havia acabado de receber, no ano ante- um volume de seu trabalho foi enviado para August Eichler na Ale-
rior, em 1871, o herbário brasileiro de Carl von Martius adquirido manha e apresentado a Heinrich Gustav Reichenbach, orquidólo-
pelo governo da Bélgica. go alemão, responsável inicialmente por escrever a parte dedicada
Em 1880, por divergências internas, Cogniaux se desliga do às orquídeas da Flora. Reichenbach, admirado com o trabalho
Jardim Botânico e volta a atuar como professor de ciências natu- do botânico brasileiro, convida-o para levar o seu herbário para
rais, não deixando, porém, seus estudos botânicos, em especial a Europa para que suas novas espécies pudessem ser validadas, e
sobre a flora do Brasil (Alfred Cogniaux – National Botanic Gar- propõe que sejam publicadas em coautoria. Em carta ao botâni-
den of Belgium. Disponível em: <http://www.br.fgov.be/PUBLIC/ co sueco A. Regnell, residente no Brasil, Reichenbach explicou:
GENERAL/HISTORY/cogniaux.php>). “O objetivo de minha carta é falar sobre o sr. Barbosa Rodri-
Sua ligação com os botânicos brasileiros, fortalecida quando gues. Devo admitir que suas pesquisas são muito boas, e que nós
esteve na direção do Jardim Botânico belga, se manteve viva e co- poderíamos ser úteis um ao outro. Se ele publicar suas orquídeas,
laborativa. Com José de Saldanha da Gama, botânico brasileiro, acredito que metade já tenha sido descrita, e ele poderia evitar esta
professor da Escola Politécnica do Rio de Janeiro e cônsul-geral do duplicação trazendo para a Europa os tipos de suas novas desco-
Brasil na Bélgica, Cogniaux realizou estudo sobre Melastomata­ bertas, e assim ninguém poderia contestá-lo. É sabido ser impossível
ceae brasileiras para a Flora Brasiliensis, cujo extrato foi publicado produzir um trabalho perfeito (de taxonomia) fora da Europa... Por

113
parte 4 – colaboração científica

Capa da publicação Uma nova colaboração com botânicos brasileiros se deu em


Mélastomacées
1910 quando foi convidado por Frederico Carlos Hoehne para par-
Brésiliennes, de Alfred
Cogniaux e Saldanha da ticipar da publicação sobre o material botânico coletado durante
Gama, 1887. a expedição da Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas de
Mato Grosso ao Amazonas (Comissão Rondon). Cogniaux ficou
encarregado do estudo das melastomáceas, curcubitáceas e orqui-
dáceas, tendo o resultado de seu trabalho publicado no Brasil em
1912 na parte Botânica das publicações da Comissão.
Cogniaux faleceu em 1916, aos 75 anos, quatro anos após a
sua última contribuição à botânica brasileira. Apesar de nunca ter
visitado o Brasil foi um profundo conhecedor de sua flora.

Magali Romero Sá, bióloga e Ph.D, é Pesquisadora Titular e Coor-


denadora do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências
e da Saúde da Fundação Oswaldo Cruz; Bolsista de Produtividade
em Pesquisa 2 do CNPq.

Alda Heizer, Doutora em Ciências, é Professora de História da Bo-


tânica no Brasil na Escola Nacional de Botânica Tropical/JBRJ e
favor, gostaria de chamar a atenção de seu amigo para esses fatos e Historiadora do Museu do Meio Ambiente e do Instituto de Pesquisas
dizer a ele que eu me ofereço a publicar suas novas descobertas em Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
coautoria... Por favor, informe-me imediatamente de sua decisão e
envie a ele meus respeitos...” (Barbosa Rodrigues, 1877). Referências
Rodrigues não aceitou a oferta e acabou publicando somente Cogniaux, C. A. Botânica III – Melastomáceas, Curcubitáceas, Orquidáceas, vol. 5,
a diagnose de suas espécies em 1877 (Sá, 2001). n. 10, p. 1-15, 1912. In: Hoehne, F. C., Harms, H. A. T.; Cogniaux, Célestin Al-
Reichenbach acabou desistindo de participar da Flora Bra- fred; Sampaio, Alberto José de; Kuhlmann, João Geraldo. Botânica/ Comissão de
Linhas Telegraphicas Estrategicas de Matto Grosso ao Amazonas, vol. 5, 1910-1923.
siliensis e após desencontros vários, até mesmo entre os próprios Cogniaux, Célestin Alfred (1841-1916). Nowellia Bryologica, n. 24, p. 5, 2003. http://
botânicos europeus, Cogniaux finalmente aceitou assumir a tare- www.nowellia.be/download/revue%20nowellia/Binder%2024.pdf
fa. Rodrigues (1882), por seu turno, continuava a receber ofertas Goldenberg, R; Baumgratz, J. F. A.; Souza, M. L. D. R. Taxonomia de Me-
lastomataceae no Brasil: retrospectiva, perspectivas e chave de identificação para os
de outros pesquisadores convidados a escrever a parte de orquídea gêneros. Rodriguésia , vol.63 no.1, p. 145-161, 2012.
da Flora, sem contudo aceitar nenhuma das propostas. Cogniaux, Hoehne, F. C. Notas biobiliográficas de naturalistas botânicos que pretendemos home-
conhecedor do trabalho do botânico brasileiro, igualmente convi- nagear com a denominação de caminhos e picadas no Jardim Botânico e na Estação
Biológica do Alto da Serra. In: O Jardim botânico de São Paulo. São Paulo: Depar-
dou-o a participar da obra de Martius por meio da utilização dos tamento de Botânica do Estado de S. Paulo. 1941.
seus desenhos de orquídeas ainda inéditos e das descrições das es- Mattoso, K. Q., Santos, I. F., Rolland, D. Le Brésil, l’ Europe et les équilibres
pécies novas. Em 1892, Rodrigues finalmente aceitou o convite. internationaux XVI-XX siècles. Université de Paris IV: Paris-Sorbonne. Centre d’Étu-
des sur le Brésil. Presses de l’Université de Paris. Sorbonne. 1999.
No ano seguinte Cogniaux iniciou a publicação das orquidáceas Mori, S. A., Ferreira, F. C. A distinguished Brazilian botanist, João Barbosa Rodrigues
em três partes, compostas por 10 fascículos, tendo o último saído (1842-1909). Brittonia, vol. 39, n. 1, p. 73-85, 1987.
em 1906. Do material cedido por Barbosa Rodrigues ao botânico Sá, M. R. O botânico e o mecenas: João Barbosa Rodrigues e a ciência no Brasil na segun-
da metade do século XIX. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, vol. 8, suppl., p.
belga, foram publicadas 267 cópias das pranchas originais, além de 899-924, 2001.
7 gêneros descritos pelo botânico brasileiro e 538 espécies (Mori Saldanha da Gama, J. de; Cogniaux, A. Bouquet de Mélastomacées brésiliennes
& Ferreira, 78). dédiées a Sa Majesté Dom Pedro II empereur du Brésil. A. Remacle, Verviers. 1887.

Algumas contribuições belgas à bovinotecnia brasileira


Régis De Bel

V ários belgas tentaram se estabelecer no Brasil para desen-


volver a pecuária, tanto para lucrar com a venda de animais
reprodutores como para valorizar o prestígio nacional… nem sem-
legados para o melhoramento do rebanho bovino brasileiro.
Vale mencionar a contribuição do engenheiro agrônomo (Fa-
culdade de Agronomia de Gembloux, 1884) e médico veterinário
pre com sucesso. Porém, podem ser mencionados alguns de seus (Escola de Veterinária de Alfort, 1888) (Birgel, p. 72, 2011) belga

114
botânica e zoologia

Capa do livro A Fazenda Moderna, de Eduardo Cotrim, publicado em Bruxelas


em 1913.

Hector Raquet, mais tarde catedrático do Instituto Agrícola de Foto de Eduardo Cotrim publicada em seu livro A Fazenda Moderna, de 1913.
Gembloux. Em 1906, foi contratado como diretor do Posto Zoo-
técnico Central, criado em 1905 no bairro da Mooca, na cidade Sete capítulos compõem este livro e tratam dos seguintes temas:
de São Paulo, e em 1909 supervisionou os trabalhos de instalação – Estabelecimento e direção de uma fazenda de criar;
do Posto Zootécnico Federal de Pinheiros, na cidade de Pinhei- – Práticas de bovinotecnia;
ral (RJ) e foi seu primeiro diretor – sendo substituído por Nicolau – Alimentação e forragens;
Athanassof, ex-professor da Escola Superior de Agricultura “Luiz – Raças bovinas e escolha das raças;
de Queiroz” (Bhering, 2008, p. 76). Esses postos foram criados – Exploração econômica do gado bovino;
segundo o novo conceito da época – zootecnia –, que separou o – Higiene do gado bovino, e
estudo sobre a agricultura daquele sobre a arte de criar animais pa- – Noções práticas de veterinária.
ra melhorar as suas potencialidades. “Apoio Genética” ressalta os O autor argumenta que, naquela época, a criação bovina no
trabalhos realizados por Hector Raquet, assim como de um outro Brasil sofria com a falta total de métodos: “A indústria não existe
belga, o engenheiro agrônomo Louis Misson, que escolheram os porque o systema adoptado como mais commodo é o da perfeita sel-
animais das primeiras importações para o Brasil. vageria”. Eduardo Cotrim incentiva, porém, o desenvolvimento
Um documento que deve ser posto em destaque é o livro de de meios de proteção para o gado, o melhoramento dos campos
Eduardo Cotrim, figura de destaque na área da pecuária no início com a plantação de forragens e a seleção dos reprodutores para
do século XX, A Fazenda Moderna – Guia do Criador de Gado Bo- dar princípio à criação extensiva.
vino no Brasil –, que foi publicado em português em Bruxelas em No quarto capítulo, além de descrever as raças nacionais, con-
1913. Tal publicação merece mesmo uma observação sobre sua sagra uma parte importante às raças estrangeiras, que poderiam
qualidade, a despeito de seu conteúdo, que aqui é nosso assunto servir para criação de gado no Brasil ou para o melhoramento das
principal: trata-se de uma edição de grande qualidade, com capa raças nacionais através do cruzamento. Além disso, o autor avisa
dura e decorada em baixo-relevo de acordo com a tendência art o leitor das especificidades do clima brasileiro, que apresenta van-
nouveau, em voga na época, espcialmente em países como Bélgica tagens e desvantagens, como, por exemplo, os inúmeros parasitas
e França (precursores dessa linha artística). que perseguem o gado no campo. Em alguns casos, esse tipo de

115
parte 4 – colaboração científica

Fotografia da novilha Flamenga belga da Estância “La Plomer” publicada no Fotografia de “Trowbridge”, campeão flamengo belga na exposição internacional
livro A Fazenda Moderna. de Buenos Aires, em 1910, publicada no livro A Fazenda Moderna.

problema inviabilizava a importação de raças estrangeiras que, dos numa pesquisa realizada de 2002 a 2005, juntamente com a
em campos brasileiros, não apresentavam o rendimento esperado. Université de Liège (ULg), as Facultés Agronomiques de Gembloux
Entre outras, o autor indica que a raça Flamenga belga se re- (FUSAGx – Faculdades Agronômicas de Gembloux) e a Seagri
comenda por sua dupla qualidade leiteira e de açougue: trata-se (Secretaria da Agricultura, Pecuária, Irrigação, Reforma Agrária,
de uma raça mista que vinha sendo melhorada consideravelmen- Pesca e Aquicultura) do Estado de Bahia, foram apresentados du-
te por seleção e que era proveniente das proximidades de Bruges rante o 8º Congresso Mundial de Genética em Belo Horizonte
(Flandria ocidental). Essa raça já fazia sucesso na Argentina e no (Leroy et al., 2006).
Uruguai e iria se difundir também no Brasil, principalmente no
Estado do Rio Grande do Sul. Belos exemplares de vacas e touros Régis De Bel é engenheiro agrônomo, graduado na Universidade
dessa raça também foram levados para os Estados de São Paulo Livre de Bruxelas (ULB, Bélgica) em 2004. Mora atualmente no
(Fazenda de Santa Gertrudes) e Minas Gerais (Cotrim, 1913). Brasil.
Outro legado belga mais recente seria a introdução no Brasil
da raça BBB (Blanc-Bleu Belge). A partir dos anos 1960, ela foi Referências
geneticamente melhorada por seleções sucessivas a fim de desen- Bhering, M. J. Positivismo e Modernização: Políticas e Institutos Científicos de Agricul-
volver de maneira extraordinária a sua musculatura (hipertrofia tura no Brasil (1909-1935). Dissertação de Mestrado, Casa de Oswaldo Cruz – Fio-
muscular hereditária). O BBB é conhecido como o halterofilista cruz, Rio de Janeiro, 2008.
Birgel, E. H. O ensino da Medicina Veterinária no Estado de São Paulo. Revista de
do mundo animal, o superboi. Esta raça foi introduzida no Brasil Educação Continuada em Medicina Veterinária e Zootecnia do CRMV-SP. São Pau-
em 1994, principalmente para cruzamento e obtenção de produ- lo: Conselho Regional de Medicina Veterinária, v. 9, n. 2 (2011), p. 70-79, 2011.
tos de carne mais macia. Boly, H., Lebailly, Ph., Leroy, P. L., Leroy, E. Le Blanc-Bleu Belge en croisement
dans les régions tropicales. Wallonie Elevages, n. 6, juin 2003.
O cruzamento com o zebu de raça Nelore deu resultados inte- Cotrim, E. A Fazenda Moderna, Guia do Criador de Gado Bovino no País. Bruxelas,
ressantes no Estado da Bahia, apresentando melhores rendimentos Belgique, 1913.
em produção de carne, tanto quantitativa como qualitativamente Leroy, P. L., Leroy E., Cassart, R. Growth and carcass performances of Belgian Blue
x Nelore and Bradford Cattel in Bahia State, Belo Horizonte, Brazil, 2006.
(Boly et al., 2003, p. 21). Os resultados desses cruzamentos obti- “Apoio Genética”. Disponível em: <www.apoiogenetica.com.br>. Acesso em: 30 nov. 2013.

Dom Amaro Van Emelen e a apicultura no Brasil


Régis De Bel

D om Amaro Van Emelen, nascido em 1863, foi um padre be-


neditino belga que se tornou professor no Colégio São Bento,
no Rio de Janeiro, considerado como um dos mais tradicionais do
uma escola agrícola em Pernambuco. Foi, em 19 de abril de 1926,
nomeado diretor-geral da Escola Superior de Medicina Veterinária
São Bento de Olinda (Melo et al., 2010), mais tarde integrada à
país, e do qual foi Reitor nos períodos 1905-1906 e 1909-1910. Es- Universidade Federal Rural de Pernambuco. Era irmão do pintor
teve também ligado à tentativa dos beneditinos belgas de implantar e escultor Pierre Van Emelen e aparentado a Louis Cruls.

116
botânica e zoologia

Foto de D. Amaro Van Emelen publicada na edição de sua cartilha, impressa


Capa do livro Cartilha do Apicultor Brasileiro, de Amaro Van Emelen. após o seu falecimento.

Em 1895, Dom Amaro Van Emelen introduziu a abelha italia- 254 gravuras e adotou a forma de ‘perguntas e respostas’, muito
na (Apis mellifera ligustica) em Pernambuco e foi autor de várias didática e agradável para o leitor.
obras sobre apicultura, entre as quais a famosa Cartilha do Api- A empresa editora da Chacaras e Quintaes esgotou os 5.000
cultor Brasileiro, publicada em 1934. exemplares em nove anos, o que levou a uma quarta edição em
Segundo os escritos do editor Amadeu Amadei Barbiellini, 1945, que Van Emelen retocou e enriqueceu ainda mais, e a uma
Van Emelen redigiu uma “verdadeira enciclopédia sobre as abe- quinta edição, em 1952, após o falecimento de seu autor (em 1946).
lhas e as suas indústrias máximas de mel e cera” (5ª edição, 1952).
Certamente, Van Emelen foi uma pessoa-chave na divulgação e Referências
no desenvolvimento das técnicas de apicultura no Brasil no início Amaro Van Emelen, 1915. A Criação das Abelhas. São Paulo, Conde A. A. Bar-
do século XX. biellini, 1915. 70 p. ilus.
Essa Cartilha do Apicultor Brasileiro foi elaborada a partir de Amaro Van Emelen, 1924. Abelhas, Mel e Cêra. São Paulo, Chacaras e Quintaes.
56 p. ilus.
duas edições anteriores. A primeira edição era um simples folheto Amaro Van Emelen. 1934. Cartilha do Apicultor Brasileiro – Abelhas, Mel e Cêra.
com o título de Criação de Abelhas, publicada na revista de Bar- São Paulo, Empreza Editora da Chacaras e Quintaes, 344 p. ilus.
biellini, Chacaras e Quintaes, apresentando 70 páginas ilustradas. Amaro Van Emelen. 1945. Cartilha do Apicultor Brasileiro – Abelhas, Mel e Cêra.
São Paulo, Chacaras e Quintaes, 356 p. ilus.
A segunda edição, de 1924, já era mais desenvolvida, mas sempre Amaro Van Emelen. 1952. Cartilha do Apicultor Brasileiro – Abelhas, Mel e Cêra.
no tamanho e na aparência de um opúsculo, com título de Abe- São Paulo, Chacaras e Quintaes, 356 p. ilus.
lhas, Mel e Cêra. Ela também apareceu na revista mensal de Cha- Melo, Lúcio Esmeraldo Honório de; Magalhães, Francisco de Oliveira; Almeida, Argus
Vasconcelos de; Câmara, Cláudio Augusto Gomes da. De alveitares a veterinários:
caras e Quintaes. A terceira edição, de 1934, a famosa Cartilha do notas históricas sobre a medicina animal e a Escola Superior de Medicina Veterinária
Apicultor Brasileiro – Abelhas, Mel e Cêra apresenta três grandes São Bento de Olinda, Pernambuco (1912-1926). Hist. ciênc. saúde-Manguinhos, vol.
partes – Abelhas, Mel e Cera – com 57 capítulos ilustrados com 17 n.1, Rio de Janeiro Jan./Mar. 2010.

117
parte 4 – colaboração científica

Alphonse Richard Hoge: o especialista em serpentes


Chris Delarivière

A lphonse Richard Hoge foi um herpetólogo belgo-brasileiro


(1912-1982) que, nos anos 50 e 60, era ativo no Instituto Bu-
tantã, fundado em 1901 em São Paulo para remediar as frequentes
Alphonse
Hoge e
auxiliares
na Ilha da
mordidas por serpentes nas fazendas de café. Queimada,
Hoge nasceu em Cacequi, no Estado do Rio Grande do Sul, litoral do
filho de um engenheiro belga. Mais tarde a família voltou para Estado de
Gand, onde o jovem Alphonse Richard foi estudar na universidade São Paulo,
capturando
do Estado. Uma vez diplomado, tornou-se assistente do professor
jararacas
Georges Bobeau e estudou, entre outros, o uso do veneno serpen- ilhoas
tígeno no combate às células cancerígenas. (Bothropóides
Em 1939 decidiu voltar para o Brasil onde encontrou um pos- insularis).
to no Instituto Butantã, que tinha, e ainda tem, fama mundial
pelas pesquisas e pela produção de soros antivenenosos. O Insti-
tuto interveio ainda no salvamento da fauna reptiliana durante a
construção das grandes barragens e no treinamento do pessoal da
inspeção sanitária.
Em São Paulo, o professor Hoge construiu uma reputação de
cientista respeitado, que não recusava pesquisas de campo. Co-
mo tal, apareceu também nos relatos de Marcel Roos como um
professor algo distraído, com senso de aventura.
Alphonse Hoge morreu em 1982, pouco depois de sua aposen-
tadoria. Publicou mais de cem trabalhos e deu seu nome a uma
impressionante coleção herpetológica. Esta, com mais de 70 mil
peças, entre serpentes, aranhas e escorpiões, foi parcialmente des-
truída por um incêndio em 15 de maio de 2010.

Chris Delarivière é jornalista independente em Gand, autor de re- o flamengo a História da Província de Santa Cruz, de Pêro de Maga-
portagens sobre a cultura e música popular brasileira, traduziu para lhães Gandavo, descendente de um flamengo de Gand.

Biotecnologia Vegetal no Brasil: sucesso na cooperação


Dulce Eleonora de Oliveira

A cooperação do Laboratório de Genética da Universidade de


Gand com o Brasil vem de longa data e, de fato, caminha
junto com a história da tecnologia do DNA recombinante.
logia do DNA recombinante e as recomendações para utilizar a
tecnologia com segurança.
Nessa época, Francisco Lara – então professor titular do De-
Desde o início das pesquisas sobre clonagem de genes, no co- partamento de Bioquímica do Instituto de Química da Universida-
meço dos anos 70, a Bélgica teve um papel relevante. Ainda em de de São Paulo – estudava os puffs de DNA de Rhynchosciara. O
1974, Fiers, Schell e Van Montagu organizaram o primeiro sim- professor Lara teve o grande mérito de imediatamente reconhecer
pósio internacional sobre clonagem de genes. Nele comparece- a Biologia Molecular como uma disciplina que revolucionaria as
ram os grandes nomes em sequenciamento e clonagem de DNA, pesquisas na área de ciências naturais.
tais como os laureados com o Prêmio Nobel: Werner Arber, Rich Com o objetivo de trazer esta nova disciplina para o Brasil, La-
Roberts, Fred Sanger e Wally Gilbert. Este simpósio aconteceu ra organizou um simpósio no Instituto Butantã sobre a clonagem
um ano antes da famosa conferência de Assilomar, organizada por de genes em diversos organismos, com a participação de especia-
Paul Berg, para discutir os potenciais riscos biológicos da tecno- listas de renome internacional. Marc Van Montagu foi convidado

118
botânica e zoologia

O professor Marc Van Montagu e seus ex-colaboradores no IV Simpósio Brasileiro de Genética Molecular de Plantas, Bento Gonçalves, abril de 2013.

para falar de sua pesquisa sobre o mecanismo natural de transfe- engenharia genética vegetal no Brasil, no Cenargen, em Brasília.
rência de genes de Agrobacterium tumefaciens. Graças à cooperação de Barreto de Castro com Van Montagu,
A partir desse primeiro encontro, Lara iniciou uma série de vários cientistas do Cenargen foram treinados na empresa Plant
cursos internacionais sobre a tecnologia do DNA recombinante Genetic System (PGS), spin-off do Laboratório de Genética da
na USP/Butantã nos quais Marc Van Montagu era um convidado Universidade de Gand.
cativo. Foi nesse cenário que Marc Van Montagu encantou-se pelo Nessa época, tanto Cenargen como PGS estudavam as pro­
Brasil e decidiu vir para cá com frequência. teínas de reserva de sementes ricas em metionina para melhorar
Entre 1974 e 1983, Van Montagu, Schell e colaboradores fize- o valor nutricional de alimentos básicos. A determinação da se­
ram, em Gand, descobertas e inovações que marcaram o início da quência de aminoácidos das proteínas de reserva ricas em enxo-
era da biologia molecular vegetal. Eles descobriram o plasmídeo fre da castanha do Brasil é um dos resultados dessa cooperação
Ti de A. tumefaciens; elucidaram, junto com grupos de pesquisa (Ampe, Van Damme, Castro, L.A.B., Sampaio, Montagu AND
liderados por Mary-Dell Chilton, nos Estados Unidos, e Robert Vanderkerchove, 1986, p. 597-604). Entretanto, estes projetos não
Schilperoort, na Holanda, o mecanismo bacteriano de infecção foram continuados porque tais proteínas seriam potencialmente
e transferência de genes; desenvolveram a primeira tecnologia de alergênicas. Desde as primeiras tentativas de aplicações da tec-
transferência de genes para plantas e, publicaram, em maio de nologia do DNA recombinante em plantas os cientistas tinham
1983, sobre a primeira planta transgênica. a consciência de que a metodologia de transgenia em si não era
A descoberta e invenção de Van Montagu, Schell e colabora- perigosa, mas que os genes a serem introduzidos deveriam ser ana-
dores deixou uma pegada indelével na área de ciências da vida. lisados criteriosamente para evitar algum dano potencial.
A tecnologia de engenharia genética permitiu pela primeira vez Em 1983, Antonio Paes de Carvalho, então diretor do Instituto
uma análise sistemática e refinada do impacto de genes individu- de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
ais em todos os aspectos da biologia vegetal, do crescimento e de- deu início com alguns colegas – especialmente Affonso do Prado
senvolvimento a resistência a patógenos e estresse abiótico, assim Seabra, Maria Apparecida Esquibel e Antonio Rodrigues Cordeiro
como na forma como as plantas se comunicam com seu ambiente. – ao Programa de Biotecnologia Vegetal da UFRJ. Nesse mesmo
Foi nesse período efervescente da genética molecular vegetal ano, Paes de Carvalho e Seabra montaram a Biomatrix, primeira
que Marc Van Montagu, em uma de suas muitas visitas ao Brasil, empresa brasileira de biotecnologia vegetal.
conheceu Luiz Antonio Barreto de Castro, então professor na Uni- Foi como fundador e presidente da Biomatrix que o professor
versidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Luiz Antonio seria logo Paes de Carvalho conheceu o professor Van Montagu, em um
contratado pela Embrapa para desenvolver a primeira iniciativa de simpósio na França, na vinícola Moet Chandon. Entusiasmado

119
parte 4 – colaboração científica

um projeto de desenvolvimento de batatas transgênicas resistente


a vírus e obteve um importante financiamento do PADCT, que
permitiu equipar o laboratório com o que havia de mais moder-
no na época para conduzir pesquisa em biologia molecular. Em
1990 assumi, como previsto, a direção do LGMV enquanto Ben
retornou à Europa, enriquecido com a experiência como diretor
de laboratório no Brasil, fazendo pesquisa aplicada em biotecno-
logia vegetal. Isto o levou a interessar-se por inovações em biotec-
nologia e a cursar um MBA no INSEAD, França. Atualmente Ben
Timmerman é o fundador e CEO da empresa Enticel, dedicada
a vacinas terapêuticas contra o HPV.
Até a aposentadoria do professor Marc Van Montagu, em no-
vembro de 1999, o LGMV contou com seu apoio incondicional.
Continuamos tendo o suporte da Cooperação ao Desenvolvimen-
to – ABOS. Entre 1990 e 1994, três jovens doutores do Lab de
Placa comemorativa ofertada ao professor Marc Van Montagu no 4º Simpósio Genética-Gand fizeram pós-doutorado no LGMV, todos dentro
Brasileiro de Genética Molecular de Plantas em agradecimento ao seu da política belga de substituir o serviço militar por atividades em
inestimável apoio à Biologia Molecular Vegetal no Brasil, abril de 2013.
países em desenvolvimento. Sobrevivemos ao duro período de
vacas magras para a pesquisa científica no Brasil nos governos
com o potencial da tecnologia do DNA recombinante para o me- Collor, Franco e Cardoso graças aos projetos que pudemos de-
lhoramento de plantas, Paes de Carvalho convidou Van Montagu senvolver em cooperação com a Universidade de Gand. Foram
para uma visita à UFRJ. oito projetos em colaboração, sob a minha gestão (1990-1995)
Foi nessa visita, em 1985, que conheci o trabalho de Marc Van e a gestão da professora Marcia Pinheiro Margis (1996-2000),
Montagu. A conferência que ele proferiu sobre os primeiros resul- financiados por agências internacionais, tais como ABOS, IC-
tados com plantas transgênicas tolerantes a herbicida maravilha- GBE, Fundação Rockefeller e diversos programas de cooperação
ram-me e levaram-me a trocar a genética molecular de leveduras da União Europeia.
pelas plantas. Imediatamente postulei para pós-doutoramento no Ao mesmo tempo, graças a estes projetos, a grande maioria
seu laboratório. Ao mesmo tempo o professor Antonio Cordeiro, dos pesquisadores e alunos de pós-graduação do LGMV tiveram
que iniciava pesquisa em transformação de plantas em seu Labo- a oportunidade de estagiar no Laboratório de Genética da Uni-
ratório de Cultura de Tecidos Vegetais no Instituto de Biologia versidade de Gand. Contamos também com o apoio do consula-
da UFRJ, articulou com Paes de Carvalho e Van Montagu a cria- do belga no Rio de Janeiro, que concordou em enviar pela mala
ção do Laboratório de Genética Molecular Vegetal (LGMV) no diplomática materiais de consumo perecíveis, como enzimas de
Instituto de Biologia. Eu era a candidata natural para liderar esse restrição e kits usados em biologia molecular que dificilmente
laboratório, pois já pertencia ao quadro de docentes da UFRJ. Foi resistiriam à temperatura ambiente durante o longo processo de
estrategicamente decidido que o professor Marc Van Montagu desembaraço na aduana brasileira.
me receberia como pós-doutor na Universidade de Gand e, ao Os frutos deste esforço são expressivos. Entre 1990 e 2000, o
mesmo tempo, enviaria para a UFRJ o jovem doutor Benedikt LGMV formou mais de 50 pesquisadores, entre mestres e douto-
Timmerman para iniciar o laboratório e implantar as primeiras res. Sob a liderança estimulante de Darcy Ribeiro, então Secretá-
linhas de pesquisa. rio de Educação do Estado do Rio de Janeiro, o LGMV participou
Naquela época, a Bélgica permitia e incentivava os jovens bel- da criação da Universidade do Norte Fluminense (Uenf) e do seu
gas que haviam adiado o serviço militar por estar cursando univer- Laboratório de Biotecnologia Vegetal.
sidade a, quando completassem toda a sua formação acadêmica, Marc Van Montagu tem 54 publicações científicas em coau-
substituíssem o serviço militar tradicional na Bélgica por um tra- toria com cientistas brasileiros. Os pesquisadores que o professor
balho científico/humanitário em um país em desenvolvimento. Van Montagu acolheu em seu laboratório, e aqueles formados no
A Cooperação ao Desenvolvimento da Flandria – Algemeen LGMV, estão ativos em diversas instituições de pesquisa no Brasil
Bestuur van Ontwikkelingssamenwerking (ABOS) – financiava o e são uma parte expressiva da liderança brasileira em biotecnologia
projeto de pesquisa do postulante. Assim, em 1986 eu segui para o vegetal, uma área de pesquisa florescente e respeitada tanto nacio-
pós-doutorado na Universidade de Gand e Benedikt Timmerman nal como internacionalmente. Muito disto devemos ao professor
foi para a UFRJ. Paralelamente, entre 1987 e 1996, o professor Van Marc Van Montagu.
Montagu acolheu para doutoramento em seu laboratório vários Marc recebeu, em 1997, o título de Doutor Honoris Causa da
estudantes brasileiros, a maioria ligada ao LGMV. Universidade Federal do Rio de Janeiro por sua inestimável con-
Benedikt Timmerman realizou um excelente trabalho no LG- tribuição para a área de Biotecnologia Vegetal. Seu esforço para
MV. Em três anos montou uma equipe dinâmica em torno de o desenvolvimento das ciências de plantas no Brasil foi reconhe-

120
botânica e zoologia

cido também no 4º Simpósio Brasileiro de Genética Molecular inabalável, contribuindo sempre que solicitado. Recentemente o
de Plantas, em Bento Gonçalves, RS (2013), como cientista ho- professor Van Montagu ajudou a montar a equipe de Ciências de
menageado. Plantas no Instituto Tecnológico Vale, em Belém do Pará.
Entre as contribuições do professor Van Montagu para o setor
privado, destaca-se sua participação como membro do Conselho Dulce Eleonora de Oliveira trabalha no Institute of Plant Biotech-
Científico da empresa Allelix entre 2003 e 2009 e o recente con- nology Outreach, VIB – Ghent University.
vite para o Conselho Consultor do Instituto Tecnológico Vale.
Atualmente no Institute of Plant Biotechnology Outreach, Referências
VIB/UGent, o professor Van Montagu continua sendo um incansá- Ampe, C., Van Damme, J., Castro, L. A. B., Sampaio, M. J. A., Montagu, M.
vel, articulado e influente advogado da transferência da biotecno- V. J. and Vanderkerchove, M. V. J. 1986. The aminoacid sequence of the 2S
logia vegetal para o benefício nutricional, econômico e ambiental sulphur-rich proteins from seeds of Brazil nut (Bertholletiaexcelsa H.B.K.).Eur. J.
Biochem. vol. 159 , p. 597-604.
dos países em desenvolvimento. Sua aliança com o Brasil continua

A cooperação entre a KULeuven e as universidades brasileiras


Beatriz Monge Bonini e Rogelio Lopes Brandão

N a Universidade Católica de Lovaina (KUL), um dos laborató-


rios que tem atraído a atenção de muitos estudantes cientistas
brasileiros é o de biologia celular e molecular no departamen-
brasileiros a Lovaina para trabalhar ou estagiar no Laboratório
do dr. Thevelein.
Mais recentemente, e no âmbito do Programa Ciência sem
to de Biologia da Faculdade de Ciência da KUL, chefiado pelo Fronteiras, foi aprovado um projeto de Pesquisador Visitante es-
professor Johan Thevelein. Este laboratório tem como principal pecial para o dr. Johan Thevelein por um período de três anos, no
tema de investigação fundamental o estudo dos mecanismos de qual o Dr. Thevelein visitará algumas vezes o Brasil. Este projeto
transdução de sinal ativados por nutrientes, mais especificamente tem forte apoio de empresas brasileiras, tais como a Petrobras e a
os mecanismos envolvidos no controle de proteína quinase A em Fermentec, devido ao interesse bilateral no desenvolvimento da
leveduras (Saccharomyces cerevisiae). pesquisa aplicada ao bioetanol.
Na área da pesquisa aplicada, o laboratório tem conquistado Essa colaboração com o professor Brandão também deu iní-
fama internacional pelo uso de uma eficiente metodologia de mo- cio à organização de cursos em biologia molecular de micro-or-
dificação genética de leveduras, com a finalidade de desenvolver ganismos, três dos quais em conjunto com a Ufop, em janeiro de
estirpes de leveduras industriais superiores para a produção de 1994, novembro de 1997 e novembro de 1999, e mais uma vez
bioetanol de primeira e segunda gerações, produção de vinho, na Universidade de Viçosa (MG) em fevereiro de 2005. Nessas
cerveja e fermento. ocasiões, alguns participantes foram convidados a estagiar no la-
A cooperação entre os pesquisadores Rogelio Lopes Brandão boratório em Lovaina; no total, desde 1988, perto de 25 cientistas
e Ieso de Miranda Castro (Laboratório de Biologia Celular e Mo- vindos da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto,
lecular-LBCM do Núcleo de Pesquisas em Ciências Biológicas- Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Universidade
-Nupeb da Universidade Federal de Ouro Preto) e o dr. Johan The- Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal de Minas
velein surgiu em 1987 com intensa troca de “cartas” para tratar Gerais (UFMG) e outras.
da resolução de aspectos do metabolismo de um fungo, Fusarium Da participação de Beatriz Bonini no primeiro curso orga-
oxysporum, na época objeto de estudo do Dr. Rogelio Brandão. nizado em Ouro Preto surgiu a oportunidade de vir como es-
Disto resultou um curto estágio de três meses (dezembro de tudante bolsista da Capes, do programa PDSE-Programa de
1988 a fevereiro de 1989), que possibilitou a elaboração de um Doutorado Sanduíche no Exterior, para trabalhar em pesquisa
projeto de cinco anos (1991-1995). Este viabilizou com recursos fundamental, desenvolvendo projeto na área de metabolismo de
da ABOS (Agência de Cooperação ao Desenvolvimento do gover- trealose e controle da glicólise por trealose-6-fosfato. Esta vinda
no flamengo) a estruturação física do LBCM/Nupeb/Ufop com a como estudante de doutorado proporcionou a possibilidade de
construção financiada pela Ufop (Universidade Federal de Ouro voltar como pós-doutoranda e colaborar com o professor The-
Preto) e a compra de equipamentos e facilidades. velein por mais de dez anos, com várias publicações e um pro-
Em contrapartida, o governo brasileiro, através das agências jeto comum na área de metabolismo de trealose, estabelecido
de fomento Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pesso- com o grupo do professor Héctor Francisco Terenzi da USP de
al de Nível Superior) e CNPq (Conselho Nacional de Desen- Ribeirão Preto.
volvimento Científico e Tecnológico), financiou a ida de vários Outros participantes dos cursos de biologia molecular vieram

121
parte 4 – colaboração científica

Os professores Rogélio Lopes Brandão e Johan Thevelein e demais participantes do curso de Biologia Molecular de Microorganismos, Ouro Preto, Minas Gerais, janeiro
de 1994.

também fazer seu doutorado em Lovaina, como recentemente também se pesquisam genética e fisiologia de leveduras com foco
Thiago Martins Pais, sobre a modificação genética de leveduras na indústria, principalmente de bebidas e combustível.
para a produção de bioetanol, já reincorporado em seu laboratório Além de colaborações com universidades, o laboratório do
de origem no Brasil. professor Thevelein também mantém colaboração em projetos
Atualmente três estudantes brasileiros estão trabalhando em de aplicação industrial com a empresa Fermentec de Piracicaba
seus projetos de doutorado. Um deles, Thiago Pereira de Souza, (SP), fundada pelo dr. Henrique Vianna de Amorim.
Universidade Federal de Lavras (Ufla), Minas Gerais, bolsista Ca-
pes do programa PDSE-Programa de Doutorado Sanduíche no Beatriz Monge Bonini, Doutora em Bioquímica pela USP, traba-
Exterior, desenvolve projeto relacionado com a genética de leve- lhou como pesquisadora no laboratório do professor Thevelein na Uni-
duras com vistas à produção de biocombustível, sob a orientação versidade Católica de Lovaina (KUL).
do professor Eustáquio Souza Dias, na Ufla, e Johan Thevelein,
na KULeuven. Seu interesse pela Bélgica teve início a partir de Rogelio Lopes Brandão, Doutor em Bioquímica e Imunologia e com
conversas com seu orientador, que conhecia o professor Patrick pós-doutoramento na Universidade Católica de Lovaina (KUL), é
Van Dijck, do VIB (Vlaams Instituut voor Biotechnologie), onde professor da Universidade Federal de Ouro Preto.

122
medicina

Marie Rennotte: medicina e emancipação da mulher


Eddy Stols

M arie Rennotte (1852-1942) foi recentemente redescoberta


como uma figura relevante na história da emancipação fe-
minina e da medicina no Brasil. Nascida em Wandre, perto de
Marie Rennotte, nascida em
Wandre e que emigrou ao
Brasil em 1878.

Liège, ganhou, em 1874-1875, em Paris, um diploma de profes-


sora e foi lecionar francês durante três anos na Alemanha, em
Mannheim.
Em 1878 desembarcou no Rio de Janeiro, onde trabalhou
como governanta e deu aulas em colégios particulares, como o
Colégio Werneck. Em 1882 foi convidada para o recém-fundado
Colégio Piracicabano dos metodistas americanos em Piracicaba.
Em suas aulas de Ciências, Rennotte professava ideias avançadas
evolucionistas e positivistas, que destoavam da educação tradicio-
nalista dispensada em escolas como o Patrocínio de Itu, das freiras
francesas. Referindo-se a Rousseau, Pestalozzi, Froebel e Spencer,
ousava polemizar a esse respeito na imprensa local, a Gazeta de
Piracicaba. Assim seu colégio ganhou mais alunas entre as famílias
influentes da cidade, como os irmãos de Barros Moraes.
Entrementes, propugnava a emancipação feminina em artigos organizar, em São Paulo, a diretoria regional da Cruz Vermelha
no jornal A Família. E viajava bastante. Com passaporte belga do e em 1912 tornou-se sua presidente. No mesmo ano propugnou
consulado do Rio, viajou em 1885 para Buenos Aires e em 1886- também a fundação de uma casa do convalescente, que não deu
1887 aos Estados Unidos e à França. certo, e de um hospital para crianças, para diminuir a mortalidade
Provavelmente com o auxílio de Prudente de Moraes, deci- infantil. Este último, construído no bairro de Indianópolis, segun-
diu em 1889 estudar Medicina no Women’s Medical College of do projeto de Francisco de Paula Ramos de Azevedo, foi inaugu-
Pennsylvania, na Philadelphia, onde formou-se em três anos. Em rado finalmente em 1919.
seguida, aperfeiçoou-se em ginecologia, obstetrícia e neonatologia Rennotte foi ainda pioneira na formação de enfermeiras com
como estagiária em Paris no Hôtel-Dieu e Saint-Louis em 1893-95. um curso criado na Santa Casa em 1912, se bem que foi de curta
De volta ao Brasil, revalidou seu diploma em 1895 na Facul- duração. Pelos seus contatos com as tradicionais famílias da socie-
dade de Medicina do Rio de Janeiro com a tese Influência da dade paulista, foi aceita em 1901 como primeiro membro femi-
educação da mulher sobre a medicina social, que insistia muito na nino do Instituto Histórico e Geográfico. Em 1922 participou da
necessidade de uma medicina preventiva. Começou sua primeira campanha a favor do voto feminino. Marie conheceu uma velhice
prática na Maternidade São Paulo, que acolhia mulheres pobres difícil e morreu na pobreza.
e, em 1906, entrou na Clínica Cirúrgica de Mulheres da Santa
Casa de Misericórdia, onde colaborou com o célebre médico Ar- Referências
naldo Vieira de Carvalho. Maria Lúcia Mott. ‘De educadora a médica: trajetória de uma pioneira metodista’. Revista
Ao mesmo tempo era bastante ativa na Sociedade de Medi- do Cogeime, 1999, n. 15, p. 115-126. Idem, ‘Gênero, medicina e filantropia: Maria
Rennotte e as mulheres da nação’. Cadernos Pagu, n. 24, 2005, p. 41-67; Débora Cos-
cina e Cirurgia de São Paulo com propostas inovadoras. Numa ta Ramires. A contribuição de Mlle. Maria Rennotte na construção e implantação do
viagem de estudos pela França e pela Alemanha preparou-se para projeto educacional metodista no Colégio Piracicabano, Piracicaba, Doutorado, 2009.

123
parte 4 – colaboração científica

Lucien Lison e André Jacquemin na Faculdade


de Medicina de Ribeirão Preto
Luciana Pelaes Mascaro

A convite do primeiro diretor da Faculdade de Medicina de


Ribeirão Preto (FFCLRP), Zeferino Vaz (1952-64), Lucien
Alphonse Joseph Lison (1908-1984) veio para o Brasil em 1953
Na área de Psicologia, ressalte-se os fortes laços existentes entre
as universidades de Louvain-La-Neuve e de Lovaina com outras do
Brasil, da qual a FFCLRP é um exemplo. Atualmente, Jacquemin
para fazer parte do quadro dos professores e pesquisadores dessa é referência nacional e internacional para a Psicologia, especial-
instituição, movido, talvez, pelas consequências do pós-guerra mente em técnicas de Avaliação Psicológica.
na Europa.
Nascido em Trazegnies, Bélgica, graduou-se em Medicina pe- Referências
la Universidade Livre de Bruxelas em 1931. Desde 1936 produ- Homenageado: André Jacquemin. Revista Psicologia Ciência e Profissão. Vol. 24
ziu estudos e artigos de grande relevância para a medicina e, em n. 1, Brasília, mar. 2004. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S1414-
1952, publicou um livro sobre histoquímica animal que se tornou 98932004000100014>. Acesso em: 30 nov. 2013.
Lison, Lucien. La Faculte de Philosophie, Sciences et Lettres de RibeirãoPreto. Pai-
um clássico, o que lhe valeu a reputação de pioneiro no assunto. déia (Ribeirão Preto) vol. 15 n. 31, Ribeirão Preto, May/Aug. 2005, Seção Especial.
Foi o primeiro diretor da Faculdade de Filosofia Ciências e Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S0103-863X2005000200002>. Acesso em:
Letras de Ribeirão Preto (SP) que, embora tivesse sido criada em 30 nov. 2013.
ALVES, Zélia Maria Mendes Biasoli. Carta a um mestre. Paidéia (Ribeirão Preto) vol. 16
1959, somente foi autorizada a funcionar em março de 1964. Fi- n. 33, Ribeirão Preto, Jan./Apr. 2006, Seção Especial. Disponível em: <http://dx.doi.
cou no cargo até 1968. Em 1966 convidou seu conterrâneo, o org/10.1590/S0103-863X2006000100002>. Acesso em: 30 nov. 2013.
psicólogo André Jacquemin (1942, Baranzy, Bélgica) – formado Moraes, Maria Augusta de Sant’Ana. Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Uni-
versidade de São Paulo. Disponível em: <http://www.sbhm.org.br/index.asp?p=insti-
pela Universidade de Lovaina La-Neuve em 1965 – para compor tuicoes_view&codigo=7>. Acesso em: 30 nov. 2013.
o corpo docente do Departamento de Psicologia da FFCLRP,
chegando a ser seu diretor de 1988 a 1992.

O diretor brasileiro de um dos mais ativos laboratórios


de pesquisa em diabetes na Bélgica

O professor doutor Decio L. Eizirik é atualmente diretor do


Laboratório de Medicina Experimental da Faculdade de
Medicina da Université Libre de Bruxelles (ULB). Ele começou
Bruxelas devido à intensa colaboração mantida pelo professor Eizi-
rik com as universidades brasileiras Federal do Rio Grande do Sul
(UFRS), Estadual de Campinas (Unicamp) e de São Paulo (USP).
sua carreira estudando medicina na Universidade Federal do Rio O grupo do professor Eizirik fez importantes descobertas na
Grande do Sul (UFRS) e fez doutorado na Universidade de São área de pesquisa em diabetes, incluindo a clarificação de meca-
Paulo (USP). nismos que levam à morte das células beta no diabetes e o papel
Depois de trabalhar dez anos na Universidade de Uppsala, de genes candidatos para a doença nas células beta. Seu trabalho
Suécia, primeiro como pesquisador visitante e depois como Pro- foi recompensado com vários prêmios belgas e internacionais, in-
fessor Associado, foi viver na Bélgica em 1996, inicialmente para cluindo o Prêmio Pharmacia & Upjohn do FWO (Belga), o JDR-
dirigir uma unidade de pesquisa na Vrije Universiteit Brussels, FI Diabetes Care Research Award e, em outubro de 2012, um dos
mas em 2002 foi nomeado diretor do Laboratório de Medicina três mais importantes prêmios da EASD (European Association for
Experimental na ULB. the Study of Diabetes), o Prêmio Albert Renold. A foto na próxi-
Seu grupo conta no momento com quase 30 pesquisadores de ma página mostra os membros do laboratório do professor Eizirik,
diferentes países, incluindo cinco brasileiros que trabalham em incluindo diversos brasileiros.

124
medicina

Integrantes do laboratório do professor Eizirik (3° da esquerda para a direita, na 2a. fila em pé), incluindo diversos pesquisadores brasileiros.

125
antropologia

A melancolia dos belgas: devir antropológico no Brasil


Els Lagrou

E ste artigo é o resultado de uma pequena pesquisa em docu-


mentos disponíveis e de uma consulta por e-mail aos colegas,
antropólogos belgas residentes no Brasil ou que tiveram uma re-
do país, a cor cinza dos longos dias de chuva, os desentendimentos
de seus políticos, que fazem com que os vizinhos se perguntem o
que faz este país perdurar. Não obstante tudo isso, os belgas sabem
lação profissional com o país, que foi decisiva para suas carreiras. que são o coração da Europa, tanto espacial quanto historicamen-
A consulta produziu um material rico e heterogêneo. Optei por te, mas não o dizem...
reproduzir suas palavras tal qual, porque cada pequeno relato evo- Um resultado que aparecerá da comparação das trajetórias dos
cava, melhor do que eu mesma poderia reproduzir, a atmosfera diferentes antropólogos belgas que vieram para o Brasil é que (qua-
particular que permeia a relação de cada um com a questão da se) todos parecem ter vindo para cá como lonely riders em busca
migração da Bélgica para o Brasil. de algo, sem saber muito bem o quê. Se várias narrativas apontam
É curioso notar que num primeiro momento obtive mais in- mediadores ou histórias de família, não parece existir nenhuma
formações sobre os motivos e os acasos que levaram esses belgas política acadêmica sistemática de intercâmbio; as pessoas têm a
e ex-belgas a deixar seu pequeno país no coração da Europa, fa- sensação de ter vindo por conta própria e de, ao chegarem aqui,
zendo-os optar pela vida neste país fascinante, do que informa- ter descoberto um mundo acadêmico poderosíssimo, insuspeito
ções sobre suas carreiras acadêmicas. Esta modéstia mostra que pela academia belga. O contraste com a situação na França, espe-
os migrantes ainda não deixaram totalmente de ser belgas, pois cialmente para o campo da antropologia, salta logo aos olhos. Na
faz parte do estilo belga não ostentar aquilo que não for explici- França se conhece a antropologia brasileira e vice-versa. Veremos
tamente solicitado. que alguns dos nossos entrevistados traçaram sua relação com o
Não pretendo explicar logo no começo a escolha do título des- Brasil por intermédio de antropólogos franceses.
te artigo. Só queria assinalar que ‘a melancolia dos belgas’ nada Grande é, portanto, o contraste da mentalidade belga, ciosa da
tem que ver com pessoas melancólicas, e muito menos com uma solidez de sua formação, mas modesta por natureza, com a men-
nostalgia que sentiriam pelo país de origem. O que se quer sugerir talidade brasileira, orgulhosa pelas dimensões e potencialidades
é que pensar sobre a relação desses belgas com os dois países é que do país, crente na sua diversidade e na sua capacidade de absorção
produz um efeito que poderia ser chamado de melancólico. Dife- das diferenças; país que se considera um país de migrantes, ten-
rentemente de outros países europeus, como a França e até mes- do se tornado um dos maiores blocos monolíngues do planeta. A
mo a Holanda, a Bélgica não tem uma política cultural agressiva. hospitalidade para com o estrangeiro que chega ao país continua
Minha leitura aqui é a de um nativo da vida entre dois mundos. fazendo parte da autoimagem dos brasileiros e da experiência do
Bélgica é um país pequeno, tem duas comunidades linguísticas estrangeiro europeu quando aqui aporta.
majoritárias, a flamenga e a valona, além de uma pequena mi- Passo agora à apresentação dos relatos dos entrevistados so-
noria de fala alemã. As políticas culturais belgas acabaram sendo bre suas próprias trajetórias para depois tirar algumas modestas
regionalizadas de acordo com a fronteira linguística, tornando o conclusões.
país ainda menor do que já era.
Outro fator importante do caráter belga, resultado de sua pe- Belgas no Brasil: Étienne Samain
culiar história e composição, é que cultivar o sentimento nacio-
nalista não é bem visto. Cultivar regionalismos, menos ainda, mas Em filme de Clarice Peixoto, Étienne Samain respondeu às
parece ser mais difícil de conter. Cultiva-se antes certo humor ne- questões sobre sua atividade no Brasil: Formado doutor em Teo-
gro perante outros nacionalismos e a própria história complexa de logia na Université Catholique de Louvain (1965), foi servir por
fronteiras fluidas, a ambivalência de sua identidade, a pequenez algum tempo como sacerdote numa paróquia na zona operária,

126
antropologia

perto de Charleroi. Ele sentia, no entanto, um desejo grande por Dominique Tilkin Gallois
conhecer novos horizontes e foi assim que atendeu ao convite de
amigos brasileiros que conhecera na universidade para um traba- Dominique Gallois, etnóloga de referência na USP, se desta-
lho de cooperação numa diocese brasileira. Em 1971 ele fez sua cou durante toda sua carreira por seu engajamento a longo prazo
primeira viagem, de férias, por Brasil, Argentina e Chile. “Sessen- na pesquisa e na política indigenistas, assim como pela formação
ta e oito é a primavera francesa, quer dizer, uma inquietação na de jovens etnólogos. Desenvolveu pesquisa pioneira sobre o xama-
Europa e o desejo de respirar. Eu gostaria de dizer que na época nismo entre os waiãpis e tem coordenado um grupo de pesquisa
eu sufocava. Esta viagem para o Brasil efetivamente me deu outros sobre as Guianas.
parâmetros para medir a vida humana, algo tinha acontecido. Eu Em suas próprias palavras: “Moro no Brasil desde 1975. É o
descobria uma outra arte de ser gente, uma espontaneidade, um país que escolhi para viver, trabalhar, envelhecer. Mas sou belga,
tipo de beleza, não apenas física, uma beleza moral na época, ou que não nasceu na Bélgica, e lá viveu apenas por 4 anos, no início
talvez eu estivesse romantizando até certo ponto, mas foi decisiva da década de 70, quando morei em Bruxelas, para estudar. Antes,
para mim essa primeira viagem.” morei na Venezuela – onde passei minha infância –, na Itália – on-
Depois, de volta à Bélgica, recebeu o convite de Dom Eugê- de vivi na adolescência. De meu nascimento na China, claro!, não
nio de Araújo Sales, arcebispo do Rio de Janeiro, para lecionar, a recordo nada, pois de lá saí com 18 meses. Acompanhando minha
partir de 1973, um curso de exegese na PUC. Pouco tempo depois família, com pai diplomata, também estive por um curto tempo
de sua chegada, as dúvidas com relação à opção religiosa começa- em São Paulo, em 1967 e 1968. Já querendo ficar. Mas meus pais
ram a se agravar: “Com relação à vocação na minha vida eu sofria me enviaram para Bruxelas, para que eu me conectasse com meu
de uma coisa que nunca ia discernir totalmente... questões de fé, país. Estudei Ciências Sociais, Políticas e Econômicas na Universi-
jogava sobre Deus o que era engajamento humano, questões de dade Livre de Bruxelas. Tínhamos aula de antropologia física com
sexualidade que desconhecia...”. um professor que nos mostrava imagens de pessoas negras, asiáticas
Sob a manifesta decepção do seu mentor brasileiro, Dom Eu- ditas ‘primitivas’, em função do tamanho de sua caixa craniana.
gênio, deixou o sacerdócio e, casando com uma belga em 1975, “Coisas assim me deixavam muito desanimada, pois já tinha
começou a estudar antropologia no Museu Nacional do Rio de lido na adolescência – graças ao estímulo de meu pai – Tristes Tró-
Janeiro. Fez pesquisa de campo, primeiramente entre os índios picos e outros livros de antropologia. A partir do 3º ano, finalmente
Kamayurá (Alto Xingu, Mato Grosso), onde estudou principal- minha formação se consolidou, com as aulas de Luc de Heush,
mente a mitologia e as histórias orais, e depois entre os Urubu que dava aula de Etnologia Africanista, mas também nos intro-
-Kaapor (Maranhão) as músicas xamanísticas e de flauta. Sobre duzia à obra de Lévi-Strauss. Ao lado disso, e de excelentes cursos
os Kamayurá publicou em 1991 Moroneta Kamayurá: Mitos e de Filosofia, professores interessados nas contradições do desen-
Aspectos da Realidade Social dos Índios Kamayurá (Alto Xingu), volvimento em países ditos ‘não desenvolvidos’, acolheram meu
livro ilustrado com muitas fotos. interesse pelos povos indígenas. Acabei realizando uma pesquisa
Étienne Samain, apaixonado pela fotografia desde a infância, sobre a situação dos índios no México no período da revolução
concentrou-se no aprofundamento das linguagens audiovisuais. de 1910. Não podia ir a campo, contentei-me com documentos e
Em 1984 se mudou para a Universidade Estadual de Campinas, com a leitura de romances indianistas. O trabalho defendido em
onde foi convidado a ajudar na implementação de um programa 1974 intitulava-se Les théories indigenistes au Mexique, de 1920
inovador de Pós-Graduação em Multimeios. Desde então seu es- à nos jours.
forço teórico consiste em “fazer da antropologia visual realmente “Em 1975, casei e vim morar no Brasil. Com uma bolsa de
um suporte científico da antropologia, sem descartar a dimensão especialização, válida por um ano, concedida através da ULB no
do verbal, mas trabalhar a relação de ambos”. Trabalhou assim âmbito de um acordo bilateral entre Bélgica e Brasil, pude me
sobre os usos da fotografia em antropologia visual, pesquisa cola- aproximar dos professores de Antropologia da USP e iniciar al-
borativa que resultou na coletânea O fotográfico (1998). gumas disciplinas. Logo, Thekla Hartman e Lux Vidal insistiram
Interessado pela teoria de comunicação de Gregory Bateson, para que me inscrevesse no mestrado. Defendi a dissertação em
publicou em 2005 Os Argonautas do Mangue, em colaboração 1980, conseguindo finalmente realizar pesquisas de campo com
com André Alves, seu orientando, fotógrafo e biólogo de formação. povos indígenas. Inicialmente, desejava continuar na linha de pes-
A primeira parte do livro, escrita por Samain, trata da obra clássica quisa iniciada na Bélgica, estudando os efeitos das políticas indige-
de antropologia visual, de Gregory Bateson e Margereth Mead, nistas. A intenção era pesquisar em alguma região que permitisse
Coming of age in Bali. A segunda parte apresenta os resultados da comparar políticas nacionais, em ambos os lados de uma fronteira.
pesquisa de Alves, com sequências de fotos dos caranguejeiros do Queria trabalhar com os Yanomami, mas um encontro com o an-
mangue de Vitória (Espírito Santo), alternadas com textos, muitas tropólogo escocês Alan Campbell dirigiu meu destino para junto
vezes com interpretações dos próprios caranguejeiros. A intenção dos Wajãpi, no Amapá.
do livro é fazer dialogar estas duas pesquisas, usando a primeira “Contrariamente ao planejado, não iria trabalhar no lado da
como fonte de inspiração para a segunda. Guiana Francesa, diante da acolhida dos Wajãpi no lado brasileiro
e dos desdobramentos que pouco a pouco se impuseram na minha

127
parte 4 – colaboração científica

Jovem kaxinawa.

relação com esse grupo indígena. No entanto, antes de consolidar nas Guianas (2005). Na sequência, coordenei um conjunto de
meus estudos sobre eles no doutorado, experimentei outras áreas pesquisas voltadas à discussão das formas de criação, circulação e
de pesquisa etnográfica entre os Tiriyó, os Karipuna e Galibi do transformação de conhecimentos, engajando um novo conjunto
Oiapoque. Voltei aos Wajãpi no doutorado, após ter tentado, mas de estudantes.
logo abandonado, uma pesquisa de cunho histórico sobre o tra- “Os artigos que publiquei nesse período sobre problemáticas
balho indígena no período colonial, em Marajó. Nesse período, dos saberes ameríndios foram suscitados pelo meu engajamento
meu interesse pelas problemáticas do indigenismo consolidou-se na formação de pesquisadores indígenas no Amapá, entre eles
enquanto participava das campanhas e atividades da Comissão uma turma de 20 pesquisadores Wajãpi, engajados em atividades
Pró-Índio de São Paulo e também graças à oportunidade de tra- do Plano de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial Waiãpi, que in-
balhar durante oito anos na equipe do programa Povos Indígenas cluiu, entre 2000 e 2003, o registro das expressões gráficas e orais
no Brasil, do Centro Ecumênico de Documentação e Informação deste grupo pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Na-
(Cedi), depois incorporado pelo Instituto Socioambiental (ISA). cional (Iphan) e pela UNESCO.
Em 1992, comecei a trabalhar no Centro de Trabalho Indigenista “Paralelamente, apostando na difusão de uma nova imagem
(CTI). Anos depois, fundei com colegas da USP outra ONG, o dos índios, dediquei-me à realização de documentários, especial-
Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepé). mente aqueles produzidos com o projeto de vídeo do Centro de
“Ingressei na USP em 1985, antes de concluir meu doutorado, Trabalho Indigenista, durante a década de 90 (A arca dos Zo´é,
defendido em 1988. Desde então, dedico-me a formar etnólogos Segredos da mata, entre outros). Livros de difusão científica, como
que possam desenvolver alternativas mais éticas de diálogo com Patrimônio cultural imaterial: exemplos do Amapá e norte do Pará
os povos indígenas. Coordenei o Núcleo de História Indígena e (2006), também foram realizados com esse objetivo, de contribuir
do Indigenismo (NHII/USP), engajando vários alunos em pes- com a valorização dos conhecimentos indígenas e, sobretudo, com
quisas na região do Amapá e norte do Pará. Um dos resultados a difusão das experiências políticas e culturais indígenas em curso
dessa pesquisa está na coletânea que coordenei Redes de relações naquela região.

128
antropologia

“Ultimamente, tenho retomado minha pesquisa etnográfica estava sendo privada da nacionalidade belga por ter me naturali-
sobre os índios Zo´e, no norte do Pará. Nessa trajetória, nunca zado francesa em 2006, quando o meu filho nasceu.
mais voltei à ULB, nem mantenho contatos com antropólogos “O que mais posso dizer? Decidi estudar antropologia no úl-
belgas. A não ser com os belgas que, como eu, se dedicaram ao timo ano de colégio, quando descobri Lévi-Strauss em 1992, du-
Brasil. Recentemente, tive a alegria de ser escolhida como orien- rante as aulas de Filosofia de Terminale, no Liceu francês, no
tadora de um jovem belga, com dupla nacionalidade, que tam- Rio de Janeiro. Nesse mesmo ano, trabalhei como voluntária na
bém estudou na ULB. Nicodeme Costia de Renesse concluiu organização da Conferência Mundial dos Povos Indígenas, con-
seu mestrado em 2012 na USP e hoje desenvolve uma pesquisa ferência paralela à reunião das Nações Unidas conhecida como
de doutorado sobre os Surui-Paiter. Trajetórias que se repetem, Rio 92. Essa experiência reforçou minha decisão de virar antro-
sem nunca se repetir”. póloga. Estudei Ciências Sociais na Université Libre de Bruxel-
les, finalizando a graduação em Etnologia já na Universidade de
Oiara Bonilla Paris X-Nanterre em 1996. Na época realizei uma monografia de
conclusão de curso sobre os javaés da Ilha do Bananal, portanto
“Sou belga, mas não pude nascer belga. Nasci em Paris, em já havia feito trabalho de campo no Brasil.
1975, de um pai uruguaio exilado e de uma mãe belga desenhis- “Em 1998, entrei no Mestrado no PPGAS (Programa de Pós-
ta. Mas, por lei, não podia ser nem francesa, nem belga. Só pude -Graduação em Antropologia Social), Museu Nacional, e conti-
me tornar belga bem mais tarde, lá pelos 10-12 anos de idade, nuei minha pesquisa com os javaés e os carajás da Ilha do Bananal,
depois de uma modificação de lei que permitiu que os filhos de sob a orientação de Aparecida Vilaça. Defendi minha dissertação
mães belgas nascidos no exterior tivessem direito a um passaporte. de mestrado em janeiro de 2000. Ainda em 2000, fiz minha pri-
Quando nasci, era legalmente apátrida, até meu pai convencer o meira viagem aos paumaris, no sudoeste do Estado do Amazonas.
cônsul uruguaio a emitir um passaporte para mim. Toda minha fa- Poucos meses depois, já casada, me mudei para a França onde
mília materna é belga e vive em Bruxelas, apesar de ser de origem acabei me inscrevendo no doutorado após tentativas frustradas de
húngara e holandesa. Assim, sou mais uma belga por acidente, fazer uma co-tutela entre o Museu e alguma universidade na Fran-
uruguaia nascida na França e, portanto, também francesa (nacio- ça (na época, as co-tutelas ainda não estavam bem regulamenta-
nalidade também adquirida bem depois). Acho que não preciso das). Entre 2001 e 2002 realizei meu trabalho de campo com os
explicar por que quis ser antropóloga. Paumari, voltando para a França em outubro de 2002. Entre 2003
“Para complicar, vim parar no Brasil (Recife primeiro e Rio e 2005, trabalhei como Leitora de língua portuguesa e civiliza-
de Janeiro mais tarde) aos seis anos de idade e por aqui fiquei até ção brasileira no Departamento de Línguas da Universidade de
a faculdade. Quando terminei o colégio resolvi estudar antropo- Nanterre. Finalmente, defendi minha tese em setembro de 2007,
logia e escolhi ir para Bruxelas cursar ciências sociais na ULB. A voltando ao Brasil em 2009, para realizar um pós-doutorado de
adaptação foi difícil, por várias razões, mas principalmente porque cinco anos, financiado pela Faperj, e desenvolvendo um projeto
fiquei decepcionada, pois já sabia que queria trabalhar na Ama- de pesquisa sobre cosmopolíticas indígenas e políticas públicas.”
zônia e por lá só se falava em África. Foi assim que, ainda no 2º Sob orientação de Philippe Descola, Oiara Bonilla defendeu
ano de faculdade, decidi acompanhar um curso de 4º ano. Era sua tese sobre os paumaris, grupo de língua aruá, na École des
o único oferecido sobre índios na Amazônia. Ali conheci Anne- Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, uma contribuição
-Marie Losonczy, que lecionava essa matéria e rapidamente me original e importante à etnologia ameríndia. Na teoria etnológica
encaminhou para Nanterre para terminar minha graduação com é bem conhecido o fato do discurso guerreiro estar bem presente
a equipe de americanistas de lá. nas sociologias ameríndias, assim como tem sido detectado uma
“Minha experiência belga durou pouco, fiquei apenas dois ontologia que prioriza as relações de predação enquanto contexto
anos por lá, terminando a faculdade em Nanterre e logo voltando no qual se desenvolvem as relações sociais, particularmente com
para o Rio para fazer mestrado no Museu Nacional. Não tenho re- outros seres humanos e não humanos. Neste contexto, os Paumari
lações nem contato com antropólogos da ULB, nem com univer- surgem com um discurso sócio e cosmopolítico particular, enfa-
sitários de lá, apenas com amigos e família. Aliás, poucas pessoas tizando sua posição de vítima e presa numa rede relacional onde
de minha turma se tornaram de fato antropólogos, acho que com precisam dos outros para serem protegidos, tanto no nível das re-
exceção de David Berliner, que é africanista e professor na pró- lações interétnicas quanto na sua concepção de suas relações com
pria ULB. Em 2000, voltei para a França, para fazer o doutorado, outros seres do cosmos. É neste sentido que surge, no contexto das
e lá tive filhos e me naturalizei francesa. Tenho um sentimento relações com os brancos, a figura do ‘bom patrão’.
um pouco melancólico quando penso nesse não vínculo com a
universidade e tenho uma sensação nítida e um pouco triste de Natacha Nicaise
que a Bélgica não apoia, não reconhece seus conterrâneos, nem
valoriza muito aqueles que moram fora. Essa sensação contrasta O texto de Natacha Nicaise é um resumo, editado por mim,
fortemente com a atitude (oposta) dos franceses. Para ilustrar isso, de um memorial que ela escreveu em 2012 para um concurso
fui informada na semana passada (logo após o e-mail da Els) que público e que me cedeu gentilmente. Apresenta aqui a própria

129
parte 4 – colaboração científica

trajetória intelectual que levou a jovem estudante para o Brasil e Econômica (depois União) Europeia e a África. O fio condutor da
a reflexão teórica sobre as diferenças entre os mundos acadêmicos minha investigação foi a política de comunicação oficial em dois
belga e brasileiro, tal como foi experimentado por uma jovem es- momentos: na época da criação da CEE, no final dos anos 1950,
tudante nos anos 1990 e 2000. e entre 2000-2005. Em 2007, fui convidada para integrar uma
Em suas palavras: “Deixei a Bélgica para me instalar no Brasil equipe de pesquisadores brasileiros que participou da criação do
em 2002, após ter ganho uma bolsa do CNPq (Conselho Nacio- Instituto Interuniversitário de Pesquisas e Desenvolvimento (Inu-
nal de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) para realizar red), no Haiti. A partir de então, comecei a pesquisar um universo
o doutorado no PPGAS/Museu Nacional/UFRJ. A decisão de social complexo, marcado pela presença da ONU (e do Brasil, no
continuar minha formação neste país aparece retrospectivamen- exercício do comando militar dos capacetes azuis), de agências in-
te como uma boa lente para colocar em relevo vários elementos ternacionais, de ONGs (algumas brasileiras, como o Viva Rio) e
de minha trajetória pessoal e profissional. Em minha trajetória, de instituições acadêmicas brasileiras, norte-americanas, francesas,
acumulei diversas experiências de pesquisa em vários contextos canadenses, haitianas e de outros países do Caribe.
nacionais (Brasil, Peru, Bélgica, União Europeia, Haiti, Estados “O Haiti e a região do Caribe transformaram-se em um dos
Unidos), tratando de questões como tradições intelectuais, eco- meus centros de interesse. Desenvolvi várias atividades ligadas (1)
nomia popular urbana, política e processos de comunicação, his- à construção institucional – fui responsável pelas relações exterio-
tória e memória institucional, identidades nacionais, políticas de res do Inured entre 2007-2009; (2) à pesquisa – participando do
desenvolvimento e pós-colonialismo. Na Bélgica, como em vários laboratório State, Justice & Public Policy do Inured e da equipe
outros países nos quais as relações coloniais foram estruturantes, coordenada pelo Prof. Federico Neiburg no âmbito do Núcleo de
o passado colonial continua presente na cultura material, na ali- Pesquisas em Cultura e Economia e, a partir de 2009, desenvol-
mentação, na arte, na presença de imigrantes oriundos da África vendo o projeto de pós-doutorado ‘Nações e Cooperação Interna-
e também nas próprias tradições intelectuais e acadêmicas. No cional; a Foreign Assistance norte-americana e o Haiti, 1942-2010’,
mundo acadêmico brasileiro, procurava um distanciamento crí- no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, sob a
tico em relação ao universo cultural que informava minha visão supervisão do Prof. Omar Ribeiro Thomaz (bolsa Fapesp); e (3) à
sobre as relações pós-coloniais. docência – ministrando cursos à distância para alunos da Univer-
“No doutorado, queria estudar as representações sociais das re- sidade do Estado do Haiti.
lações de cooperação para o desenvolvimento da Europa e na Eu- A minha participação no Inured e a colaboração com a ONG
ropa, a partir de um âmbito cultural diferente e de outra tradição brasileira Viva Rio, que atua em Porto Príncipe, tem me permitido
intelectual e, desse modo, tentar me afastar de pressupostos que observar de perto as transformações e as tensões que acompanham
percebia como embutidos na minha ‘condição de belga’, notada- a ‘cooperação internacional’ — por exemplo, situando como ato-
mente um paternalismo difuso na abordagem das relações Norte- res o governo e a “sociedade civil” brasileira e, com isto, abrin-
-Sul. Foram essas indagações — também carregadas, confesso, de do todo um leque de questões a respeito das novas modalidades
rebeldia e irreverência juvenis — que motivaram minha decisão de da presença do Brasil no cenário internacional. Até o momento,
realizar um doutorado fora da Bélgica e, em particular, no Brasil. publiquei dois livros (em formato impresso e digital, em inglês,
“Foi na ocasião da monografia de final de graduação, em 1997, francês, português e creole haitiano) que permitem compreender
que tive o primeiro contato com o país. Graças a um encontro com a relação entre as necessidades e perspectivas da população e as
uma professora alemã, na época diretora do Laboratório de Antro- formas de intervenção da cooperação internacional na área: Lixo,
pologia da Comunicação (LAC) da ULG, a Dra. Tomke Lask, que Estigmatização, Comércio, Política (2010) e A vida social da água
havia feito seu mestrado no PPGAS e mantinha um estreito conta- (2009), ambos em colaboração com Federico Neiburg e editados
to com a academia brasileira, fui recebida como estagiária naquela em parceria entre o NuCEC e o Viva Rio”. 
instituição por um período de três meses, visando desenvolver o
projeto de análise comparativa da abordagem do xamanismo em Peter Beysen
um grupo de índios guaranis na obra dos antropólogos Eduardo
Viveiros de Castro e Pierre Clastres. Esta primeira passagem pelo Peter Beysen foi meu aluno no doutorado e escreveu uma bela
Brasil foi fundamental em minha trajetória; despertou um grande tese sobre a estética corporal ashaninka, grupo arawak que habita
interesse pelo mundo acadêmico brasileiro e marcou o início de a fronteira entre o Brasil (no Acre) e o Peru. Antes de vir para o
uma longa e interessantíssima jornada que me levou a me esta- Brasil cursou História da Arte com especialização em Arte Étnica
belecer no país. Um encontro com a antropologia brasileira era na Universidade de Gand. O relato de Peter é o de um viajante
improvável no contexto acadêmico belga. à procura de outro mundo: “A ideia era, originalmente, ir para a
“Em 2002, iniciei meus estudos de doutorado no PPGAS. Co- Indonésia, o que não aconteceu porque a situação política não
mo orientanda do professor A. C. de Souza Lima, integrei o Laced era muito tranquila, especialmente para falantes do holandês...
(Laboratório de Pesquisas em Etnicidade, Cultura e Desenvolvi- Dois meses de mochila por Java, Bali, Lombok e Sumbawa me
mento). Estudei a transformação das ‘relações coloniais’ em rela- fizeram escolher pelas ‘artes étnicas’ no curso de História da Arte
ções de ‘cooperação para o desenvolvimento’ entre a Comunidade na Universidade de Gand.

130
antropologia

Preparação de pigmentos minerais.

“O Brasil nos parecia uma segunda opção promissora: para Peter Beysen terminou seu doutorado no Programa de Pós-
minha esposa, especialista em estética médica, o lugar era ideal e -Graduação em Sociologia e Antropologia com tese intitulada Ki-
para mim, tinha a floresta amazônica... Fomos parar em Joinville, tarentse. Pessoa, Arte e Estilo de Vida Ashaninka do Oeste Amazô-
por influência da ex-cunhada de um dos clientes de Sonja (esposa nico (2008). Aborda a estética minimalista dos Ashaninka a partir
de Peter). Em Joinville, passava meu tempo no ‘museu arqueológi- dos objetos fabricados e sua relação com desenhos, corpos e temas
co de sambaqui’. O museu possui uma boa biblioteca e num certo míticos que se organizam ao redor dos dois grandes eixos em torno
dia peguei da estante, por acaso, o livro A temática indígena na dos quais gira a cosmovisão Ashaninka: a procura pela imortali-
escola, folheei o livro e parei numa foto dos Kaxinawa. Em cima dade e a fragilidade do amor. O autor argumenta que o belo para
da foto estava impresso o nome Elsje Lagrou. Sorri por causa do os Ashaninka consiste no equilíbrio entre o pensar (seu estilo de
nome inconfundivelmente holandês ou flamengo. Alguém na sala vida é marcado pela observação e pela reflexão) e o fazer, no qual
reparou meu sorriso e me perguntou o que tinha me chamado a a história guerreira sempre funcionou como pano de fundo para o
atenção. Para minha surpresa conheciam Elsje Lagrou, na época modo como se constituiu a pessoa Ashaninka. É a força latente que
professora em Florianópolis, e especializada em antropologia da se acarinha, constituindo esta o ideal da estética da arte corporal.
arte. Els se revelou mais tarde a orientadora ideal para mim... Els Atualmente prepara um catálogo, com fotos de sua esposa fo-
estava naquela época num processo de transferência da UFSC pa- tógrafa, Sonja Ferson, uma exposição e uma coleção etnográfica
ra o IFCS da UFRJ no Rio de Janeiro, sem dúvida a cidade mais sobre os Ashaninka para o Museu do Índio no Rio de Janeiro, onde
interessante do mundo...” possui bolsa temporária de pesquisa pela Unesco.

131
parte 4 – colaboração científica

Lucia Hussak Van Velthem popular, na gaita. Também ouvia ópera seguidamente, sobretudo
as preferidas: La Bohême e Lucia di Lammermoor, o que explica
Lucia Van Velthem pode ser contada hoje entre os seniores meu prenome. Juntamente com o sobrenome, constituem estes
da disciplina antropológica no Brasil que fizeram a diferença, par- os frágeis e tênues laços que me ligam à Bélgica.
ticularmente no campo da antropologia da arte. A obra O belo é “Os laços são frágeis porque antes de me fazer conhecer e
a fera, a estética da produção e da predação entre os Wayana, de amar a Bélgica, meu pai me fez conhecer e amar o Brasil, o lu-
2003, se tornou um clássico no campo por antecipar, através de gar que escolheu para viver e morrer. A minha grande ‘escolha’,
uma etnografia precisa e detalhada das técnicas de produção dos por outro lado, foi ir contra todas as expectativas familiares e me
artefatos e das pessoas wayana, um paradigma que hoje domina graduar em Museologia em 1972. Estavam esperançosos de que
a antropologia: a ideia que pessoas são como artefatos e artefatos seria uma engenheira, após ter-me formado no curso técnico de
são como pessoas. calculista de concreto armado.
A bem dizer, Lucia Van Velthem não é belga, mas descen- “A formação recebida no curso de Museologia não era em
dente de belga, de primeira geração. Entretanto, seu nome e sua absoluto teórica, mas essencialmente prática. Aprendia-se a iden-
aparência, seu modo de ser, parecem mais belgas do que os de tificar estilos, modismos, fases, técnicas de peças de mobiliário e
muitos belgas. Talvez por ser belga de coração! É na atitude aven- muitos outros objetos e artefatos, passíveis de serem encontrados
tureira do pai, que veio para o Brasil para nunca mais voltar, que em museus, não necessariamente brasileiros, pois nos debruçamos
Van Velthem localiza a origem de sua vocação pela antropologia sobre as escritas medievais europeias. Na época, eu não atinava
e é com ternura que ela se volta inicialmente neste texto para a como me seria útil, no futuro, a intimidade visual e tátil adquiri-
memória do pai: das, nesse período, com artefatos tão variados na forma e nos ma-
“Meu pai, Pierre François Van Velthem nasceu em novembro teriais. A Museologia levou-me ao Museu Nacional, no Rio de
de 1906, filho de Maria Beleyn e de François Van Velthem. Este, Janeiro. Desejava tornar-me restauradora de artefatos indígenas
segundo a tradição familiar, era um renomado decorador de vitri- e assim busquei a Seção de Etnografia. Heloisa Fénelon Costa
nes de grandes magazines na Bélgica, França e Alemanha e ela, a desencorajou-me desse intento, mas encaminhou-me para a do-
mimada filha de um próspero negociante de Bruxelas. A família cumentação de coleções. Meus colegas, estagiários e bolsistas, vi-
se muda para Antuérpia e as relações familiares o introduzem no nham das Ciências Sociais e se dedicavam aos estudos dos povos
aprendizado do entalhe de diamantes em um dos muitos negó- indígenas altoxinguanos, assim como a própria professora. Como
cios de joias e pedras preciosas mantidos por judeus nessa cidade. não havia a menor possibilidade de introduzir-me nesse território,
Em 1925 viaja para o Congo Belga, mas logo decide tomar outros busquei uma região distanciada, mas representativa no acervo.
rumos e não permanece na África, seguindo para o Brasil, mais Assim cheguei ao Rio Negro e às coleções de artefatos plumários
precisamente para Salvador. dos índios Tukano.
“Da capital baiana ruma para o Vale do Jequitinhonha, em “Era um trabalho descritivo e algo enfadonho. O divertido fica-
Minas Gerais. Na época era um lugar remotíssimo, com lavras de va com a prosa do museólogo Geraldo Pitaguary e o extraordinário
diamante que remontavam, entretanto, ao século XVIII. Percor- com a descoberta de uma peça aqui, outra ali, no meio de dezenas
re vilas e mais vilas e seus arredores: Datas, Serro, Milho Verde, de outras, nas caixas de metal do antigo ‘Depósito’. Esse período
São João da Chapada, Barão de Cocais, Guinda, Diamantina e foi marcado por encontros e orientações que vieram de muitos
também lugares mais afastados como ‘Cavalo Morto’ onde, nos lados, mas sempre no cenário do Museu Nacional. Uma forte
contou, havia inúmeros refúgios de quilombolas. Nessa região lembrança está ligada à figura de Berta Ribeiro, que me cumu-
construiu a rede de amigos que o acompanharia para o resto da lou de ensinamentos preciosos, e com a qual mantive duradouro
vida, mesmo morando no Rio de Janeiro, onde se casou com uma compartilhamento de livros, cartas e o interesse pelos estudos de
filha de austríacos, e se estabeleceu. artefatos ameríndios.
“Quando eu tinha uns 10 anos, meu pai levou-me ao sertão de “Em meados de 1973 rumei para Belém do Pará, como alter-
Minas em uma longa viagem e, enquanto registrava pessoas, pai- nativa à impossibilidade de me exilar na Europa, para onde fo-
sagens e igrejas em aquarela, ensinou-me a abordar e a conversar ram muitos dos companheiros de militância política. Em Belém,
com todas as pessoas: da mendiga da porta da Igreja do Amparo Eduar­do Galvão, Protásio Frikel e Expedito Arnaud receberam-
ao filho do cartorário, fanático por brigas de galo. Tenho certeza me muito calorosamente no Museu Paraense Emílio Goeldi, en-
de que foi esse aprendizado, repetido em muitas outras viagens, a tão pertencente ao CNPq. Os estudos de plumária dos Tukano
última em 1970, dois anos antes de sua morte, que me conduzi- prosseguiram nas coleções deste museu, sob a batuta de Galvão,
ram à Antropologia e aos índios. de quem fui a última orientanda. Paralelamente dedicava-me,
“Meu pai falava pouco da Bélgica e nunca de forma espon- a pedido de Galvão, a trabalhos propriamente museológicos na
tânea. Jamais esboçou qualquer iniciativa para viajarmos até seu conservação da exposição permanente e foi esta especialidade que
país natal. Não sabemos nada sobre possíveis parentes belgas, os favoreceu minha contratação para o Museu Goeldi em 1975. En-
laços foram completamente rompidos. Recordo que a música era trementes, eu havia descoberto a Etnologia e, sobretudo, a pers-
uma das suas grandes paixões, a clássica interpretava ao violino e a pectiva de realizar trabalho de campo. Assim, rumei com o antro-

132
antropologia

Apresentação de dança indígena no evento Europalia.Brasil, 2011.

pólogo alemão Protásio Frikel para o Rio Cururu e para as aldeias Nadia Farage, Marta Amoroso e as saudosas Vera P. Coelho e Ara-
dos índios Munduruku. Nessa viagem, Frikel desejava repassar o cy L. da Silva.
rigor e a dedicação de um trabalho de campo à maneira dos velhos “As leituras teóricas – sobretudo Lévi-Strauss – requeriam a
mestres germânicos. Assim, não parávamos: levantamentos nas ro- abertura para novas experiências acadêmicas. Paralelamente era
ças, escavações arqueológicas, coleta de mitos, inventários da cul- necessário ser pragmática, e assim encontrar um povo indígena
tura material, dos grafismos e das aldeias que visitávamos e ainda que fosse pouco estudado, mas que pudesse ser acessado com fa-
uma longa viagem – em canoa a remo – até os locais míticos dos cilidade. Cheguei então ao Parque Tumucumaque, frequentado
Munduruku, no alto Rio Cururu. Tudo isso provocava sucessivos semanalmente pelos aviões da Força Aérea Brasileira. A primeira
choques intelectuais e sensoriais que me exauriam. viagem, em 1975, foi precedida da leitura de parte da bibliografia
“Em 1976 eu já estava na Universidade de São Paulo, no cur- etnológica existente sobre os Carib norte-amazônicos – sobretudo
so de pós-graduação da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Daniel Schoepf que me apresentou aos Wayana – para detectar
Ciências Humanas), e tinha como orientadora a professora Lux onde pousar nesse vasto território indígena, contemporâneo do
B. Vidal, que generosamente me transmitiu seus conhecimentos e Parque do Xingu. A porção leste pareceu-me a mais adequada,
sabedoria, e assim se tornou uma pessoa marcante em minha vida. pois não estava marcada, nem por debates teóricos palpitantes,
A USP era, na época, um importante foco de pesquisas sobre índios nem por etnografias exaustivas. Os contatos iniciais com os Wa-
e Lux Vidal reunia um grupo de estudantes interessados nas possí- yana e Aparai foram decisivos. Meus olhos os viram e os veem
veis correlações existentes entre estética e cosmologia, mas tendo como pessoas de aguçado senso estético e de grande sabedoria. O
como ponto de partida os artefatos materiais. Descobri assim a úni- que foi percebido, na ocasião, permitiu-me esboçar o projeto geral
ca via propícia para uma museóloga, e por ela sigo até o presente! da dissertação de mestrado: o estudo de uma categoria artesanal
“O ingresso na USP abriu-me as portas da reflexão teórica, proe­minente, a cestaria.
da história da antropologia e dos estudos sobre os índios do Brasil “Outras viagens ocorreram: umas mais demoradas outras mais
Central, através das aulas de professoras de origem alemã: Lux curtas, quando a malária se manifestava. Fixei-me em uma aldeia
Vidal, Tekla Hartmann e Renate Viertler. Os cursos proporcio- essencialmente wayana - Xuixuimëne, no médio Rio Paru de Les-
naram também o encontro de pessoas que me acompanham até te – onde encontrei pessoas acolhedoras e especialistas dispostas
hoje, umas mais próximas, outras mais distanciadas: Dominique a compartilhar seus saberes. Nesse período não tinha meios de
Gallois, Alba Figueiroa, Regina Muller, Els Lagrou, Silvia Caiuby, avaliar que os estudos da arte e das categorias materiais dos Waya-

133
parte 4 – colaboração científica

na seriam tão fascinantes, tão absorventes e tão demorados, con- na África. Com esta intenção fui duas vezes, entre 1972 e 73, ao
sumindo assim 20 anos, até 1995, ano em que defendi a tese de Museu Real da África Central (Koninklijk Museum voor Midden
doutorado, ainda na USP e ainda sob a entusiasmada orientação -Afrika/Musée Royal de l’Afrique Centrale) de Tervuren (Bruxelas)
de Lux Vidal. Os anos foram longos entre os Wayana porque as para apresentar meus planos. Primeiramente queria ir para o Con-
pesquisas e as publicações se entremearam com os trabalhos de go, depois para a Etiópia. Em ambos os casos me desaconselharam
delimitação da Terra Indígena Rio Paru d’Este, ao norte do Pará. a ir adiante por causa de problemas ou instabilidade políticos.
“Os estudos posteriores ao mestrado continuaram girando em “Durante uma viagem pela Europa encontrei os professores
torno das técnicas e tecnologias da produção material dos Waya- Simone Dreyfus-Gamelon (École des Hautes Études en Scien-
na: cerâmica, entalhe, plumária, arquitetura, culinária, mas não ces Sociales, Paris) e René Fuerst (Genève), que influenciaram
apenas isso, pois a formação adquirida me permitia enveredar por fortemente a escolha do meu campo, pois foi em parte motivado
outros campos de expressão, essencialmente relacionais, e assim por seu entusiasmo que parti em 1974 para os Kayapó do Brasil
contemplavam a pessoa humana – os uaianas – e o resto do uni- Central. Apesar do fato de o grupo escolhido, os Mekrãgnoti, vi-
verso, o que se tornou a pedra fundamental sobre a qual repousa ver naquela época ainda muito afastado, nunca me arrependi de
minha tese de doutorado, intitulada O belo é a fera. A estética da ter feito esta escolha. Entre 1974 e 1981 fiz pesquisa de campo
produção e da predação entre os Wayana. entre os Mekrãgnoti de forma intensiva, aprendi sua língua e me
“Após o doutorado engajei-me na busca de outros horizontes aprofundei nas suas expressões culturais materiais, assim como nas
teóricos, metodológicos e de ação, inclusive entre os Wayana e suas práticas de guerra.
os Aparai, entre os quais permaneço em atividade desde 2005, “Me engajei ativamente para que os Mekrãgnoti pudessem
coordenando projetos de valorização cultural em parceria com obter uma terra significativamente maior do que o previsto ori-
o Iepé e com o Museu do Índio (ProDeCult). Em 1999 tive a ginalmente. Depois da obtenção do doutorado cheguei a pensar
oportunidade de voltar a um antigo cenário: o Rio Negro, mas em ficar no Brasil para neste país viver e trabalhar, mas a sorte o
agora engajada em uma pesquisa multidisciplinar sobre o siste- decidiu de outro modo e em 1990 fui parar finalmente no... Mu-
ma agrícola, no contexto de um projeto de cooperação bilateral seu Real da África Central. Atualmente trabalho nesse museu no
(Pacta). Neste projeto busco decifrar o sistema de objetos relacio- setor de Etnografia, onde me especializei em povos pastores da
nados com o processamento da mandioca. Regressei também ao África Oriental, mais particularmente na região fronteiriça entre
campo museológico. Este retorno à Museologia teve como pon- o Sudão, a Etiópia, o Quênia e Uganda. Os temas principais das
to alto a curadoria do módulo ‘Artes Indígenas’ na monumental minhas pesquisas são a decoração corporal e os conflitos intergru-
Mostra do Redescobrimento em 2000, mas também se exerceu pais onde o gado ocupa um lugar central”.
em outras exposições no Brasil e no exterior, inclusive ‘Índios no No Brasil Gustaaf Verswijver manteve intensas relações de
Brasil’, montada no contexto da Europalia, em Bruxelas, e em troca e colaboração acadêmicas com as professoras antropólogas
parceria com Gustaaf Verswijver! da USP Thekla Hartman, Renate Viertler e Lux Vidal e conhe-
“Entretanto, não me ative exclusivamente aos projetos expo- ceu as colegas de geração Dominique Gallois e Lucia Van Vel-
sitivos, pois assumi a gestão curatorial da Coleção Etnográfica do them. As pesquisas de Verswijver entre os caiapós resultaram em
Museu Goeldi e de um ambicioso projeto de reformulação da várias publicações, a tese em 1992, The Club-Fighters of the Ama-
Reserva Técnica, concluído com algum êxito. A Museologia me zon: Warfare among the Kayapó Indians of Central Brazil (Uni-
possibilitou ainda trabalhar com Lux Vidal no Amapá, em cursos versidade de Gand, Bélgica), a mais detalhada análise do sistema
de capacitação museológica para os técnicos do Museu Kuahi dos guerreiro caiapó até hoje e ainda o catálogo Kaiapó – The Art of
Povos Indígenas do Oiapoque, e de presentemente ser a coorde- Body Decoration –, com fotos da coleção etnográfica dos Kayapó
nadora brasileira do projeto ‘Museus da Amazônia em rede’ que Mekrãgnoti-Mebengokre, montada por Verswijver para o Mu-
une em parceria o citado museu paraense e museus do Suriname seu Real da África Central. Em 1996 publicou ainda Mekranoti
e Guiana Francesa. – Living Among the Painted People of the Amazon, pela Prestel-
“Atualmente trabalho em Brasília, no Ministério da Ciência, Verlag (Munique).
Tecnologia e Inovação. Da Esplanada dos Ministérios, continuo Entre 1997 e 2002, Verswijver passou longos tempos no Brasil,
tecendo uma ampla rede de laços afetivos e profissionais com an- coordenando um projeto com os Kayapó, e organizou dois rituais
tropólogos, museólogos, biólogos, ativistas de muitos lugares e paí- de iniciação para seus filhos (ver os filmes descritos neste livro).
ses e, sobretudo, com os Wayana e Aparai e também com os Baré, Entre 2010 e 2011 Verswijver organizou, em colaboração com
Tukano e Baniwa, junto aos quais desejo envelhecer”. Lucia Van Velthem e com a assessoria acadêmica de Dominique
Gallois, a exposição sobre os Povos Indígenas no Brasil para a Eu-
Belgas antropólogos que voltaram: Gustaaf ropalia na Bélgica em 2011. Juntos editaram o catálogo Índios no
Verswijver Brasil, além de novo livro com fotos suas entre os Kayapó. Ainda
em 2010, editou com Maria Isabel B. Ribeiro um album de fo-
“Originalmente eu queria, evidentemente, como todo belga tos intitulado Diários de viagem: fotografias de Leopold III: 1962-
com aspirações de se tornar antropólogo, fazer pesquisa de campo -1967 com fotos das viagens do Rei Leopold III ao Brasil.

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antropologia

Paramentos utilizados em dança indígena apresentados no evento Europalia.Brasil, 2011.

Arnaud Halloy vínculo com a minha família-de-santo em Recife continua forte.


Vou publicar o meu primeiro livro cujo título é Une anthropo-
Arnaud Halloy, atualmente professor na Universidade de Nice, logie des émotions. L’apprentissage de la possession dans un culte
no sul da França, é um jovem antropólogo belga que fez pesquisa afro-brésilien.
de campo num terreiro de Xangô no Recife, fazendo doutorado
na ULB. Acompanhou também os últimos anos de vida de um De volta ao Brasil: Els Lagrou
terreiro de candomblé caboclo na Bélgica, na pequena cidade de
Carnières (ver seu verbete no capítulo religião). “Guardei minha autoapresentação para o final deste artigo,
Em 2006 publica um artigo surpreendente, “Un anthropolo- misturando a narrativa da minha trajetória pessoal com a profis-
gue en transe. Du corps comme outil d’investigation ethnographi- sional. Diferentemente de alguns, que vieram para o Brasil quase
que” (in Joël Noret e Pierre Petit, eds.). Halloy empreende uma que por acaso, o Brasil estava no horizonte de meus sonhos de
descrição detalhada e reflexiva do processo de aprendizado, pre- infância desde tenra idade. Conta minha mãe que eu dizia aos
paração e vivência do transe, a possessão por um orixá no candom- sete anos que me casaria com um índio, e se naquela época ainda
blé. Não se trata de um relato meramente descritivo ou subjetivo, não era claro se este índio moraria nos Estados Unidos ou na flo-
mas, antes, de mostrar como a etnografia e a vivência produzem resta amazônica, pouco a pouco fui adquirindo uma predileção
um conhecimento especificamente antropológico. pela América Latina. Para tal ajudou a experiência de morar em
Em suas palavras: “A respeito da minha relação com o Brasil, Lovaina, cidade universitária, onde viviam muitos estudantes la-
ela continua muito viva. Eu sou casado há quase 20 anos com tino-americanos, especialmente durante o período das ditaduras
uma brasileira. Então o laço amoroso continua forte! Eu cultivo no Chile, na Argentina e no Brasil. Minha mãe participava do
também uma relação artística com o Brasil. Montei com a minha comitê de recepção dos estudantes estrangeiros da universidade
esposa – Arlene Rocha, ela é bailarina e coreógrafa de danças po- e dessa maneira tivemos, eu e meus irmãos, desde cedo contato
pulares brasileiras – um maracatu (http://maracatumix.blogspot. com estudantes e suas culinárias de todas as partes do mundo. Meu
com) no sul da França e outro em Bruxelas. Além disso, parti- pai também contribuía com a internacionalização do clima em
cipo atualmente da montagem de um projeto de troca artística casa, trazendo para o jantar vários dos seus orientandos latinos,
entre o Brasil e o Benin. Finalmente, continuo trabalhando sobre do México, Peru e Brasil. Assim fomos sendo seduzidos por este
o candomblé, apesar de não conseguir ir ao Brasil todo ano. O jeito caloroso que os latinos têm de se relacionar com os amigos,

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parte 4 – colaboração científica

em contraste com a clássica, porém não por isso menos afetiva, arte do desenho e de toma coletiva da bebida indutora de expe-
reserva flamenga. riência visionária, a ayahuasca, pelos homens que existe entre os
“No final do secundário, já sabia que queria estudar antro- Kaxinawa uma especialização de gênero que gira em torno da
pologia. Na Universidade de Lovaina, no entanto, não existia a complementaridade entre imagens, figuras e grafismos. Os mitos
possibilidade de fazer antropologia na graduação. Deste modo, ensinam que o dono do poder transformador de todas as formas
fui estudar História Contemporânea. Lá tive aula de História do percebidas (ou seja, da fenomenologia kaxinawa) é a anaconda
Brasil com o professor Eddy Stols, que era, já naquela época, um mítica, Yube. Este ser está na origem tanto da arte do grafismo
apaixonado pelo Brasil. Eu namorava então um belga que estava aprendido pelas mulheres quanto da experiência visionária com
se preparando para passar um ano como professor visitante no ayahuasca, também chamada de dami (figuras em transformação,
Brasil. Depois de defendida a dissertação, parti para o Brasil, mais imagens). Mais tarde adicionaria um terceiro termo ao arcabouço
particularmente para Florianópolis. Depois de curto período de nativo da percepção: o conceito yuxin, que também significa ima-
adaptação e aprendizado da língua, fiz a seleção para o mestra- gem, mas imagem enquanto fonte agentiva de outras imagens: a
do em Antropologia na UFSC, em 1987. O ambiente acadêmi- agência que está por trás da transformação de uma imagem em
co que lá encontrei me empolgou muito, especialmente por ter outra. Os yuxin são seres sem corpo que podem mudar de forma
sido esta minha primeira experiência com o modelo de ensino e os yuxibu, superlativo de yuxin, seres que podem transformar
por seminários. as formas dos seres ao seu redor.
“Sob orientação de Jean Langdon, queria estudar a arte, a pin- “Nas pesquisas de campo posteriores, em 1991, e entre 1994 e
tura corporal e o xamanismo de algum grupo amazônico. Resolvi 1995, aprofundei os insights do mestrado através da análise e exe-
perguntar a opinião de Berta Ribeiro, conhecedora das artes in- gese do ritual, dos cantos rituais e dos mitos a eles associados do
dígenas, que me convidou para um encontro em seu apartamen- rito de passagem para meninas e meninos, o nixpupima, ritual de
to no Rio de Janeiro. Berta estava acompanhada de Nietta Lin- enegrecer os dentes das crianças. Este ritual condensa o discurso
denberg Monte, na época coordenadora da comissão pró-índio do e práxis kaxinawa em torno da fabricação dos corpos das crianças
Acre. Foi assim que elas decidiram que eu estudaria os Kaxinawa. e sua preparação para a vida adulta. Foi por intermédio da análise
Saí de lá com uma lista de nomes a procurar até chegar a Rio Bran- do ritual que pude pensar a agência das imagens e dos grafismos,
co. Minha chegada em campo, em 1989, se deu em momento assim como dos artefatos e sua relação com os corpos a partir de
histórico: o Primeiro Encontro dos Povos da Floresta, que visava uma perspectiva nativa. Este material resultou na minha tese de
formalizar e pensar a aliança entre seringueiros e povos indígenas doutorado em 1998.
da região em defesa da floresta. Este encontro aconteceu um ano “Ingressei no doutorado da USP em 1992, sob orientação de
depois da morte de Chico Mendes, o precursor dessa aliança, e Lux Vidal. Morei em São Paulo durante um ano. Lux já tinha se
reunia pesquisadores e militantes do país e do exterior. Foi nessa aposentado das aulas. Mas tive aula com Joanna Overing, Manue-
ocasião que Terri Aquino, histórico aliado dos Kaxinawa, me apre- la Carneiro da Cunha e Roberto Cardoso de Oliveira. Em 1993
sentou a Pancho, chefe da aldeia Recreio e articulador político da fiz um concurso para Professor em Antropologia na UFSC. Passei,
região do Alto Purus. Quando ele e seus familiares regressaram assumi e deste modo interrompi o doutorado por dois anos, porque
à aldeia, fui junto. Fomos acompanhados também por Siã Osair estava ministrando aula. Em 1994 fui liberada para fazer pesquisa
Sales, jovem liderança kaxinawa do Rio Jordão que pretendia via- de campo até meados de 1995.
jar até o Peru para encontrar e filmar seus parentes. Essa viagem “Depois recebi o convite de Joanna Overing para passar um
daria origem a um dos primeiros filmes de vídeo nas aldeias, que ano como Research Assistant na London School of Economics,
Siã editaria mais tarde em São Paulo ao lado de Vincent Carelli. onde ela lecionava. Quando embarquei para a Inglaterra, no en-
“Minha primeira viagem de campo foi iniciática. Permane- tanto, ela já estava de mudança para St. Andrews, onde acabara
ci cinco meses ininterruptos e sem comunicação ou notícias do de ganhar um Professorship. Joanna Overing levou toda sua legião
mundo de fora nas aldeias Recreio e Nova Aliança no Alto Purus. de alunos de Londres consigo para animar a pacata St. Andrews
Essa pesquisa resultou na dissertação de mestrado Entre o cobra na Escócia. Fiz parte dessa primeira geração de etnólogos em
e o Inka: uma etnografia da cultura kaxinawa (1991), na qual as torno de Overing e lá fiquei por dois anos. Por causa desta longa
questões centrais das minhas futuras pesquisas já estavam pre- temporada inglesa/escocesa resolvi fazer um duplo doutorado, re-
figuradas: a relação entre percepção e cognição; o modo como conhecido na Inglaterra e em São Paulo. Mas, já que não existia
determinadas técnicas perceptivas e expressivas dialogam com convênio entre os dois países, tive que defender a tese duas vezes,
uma ontologia específica onde a transformabilidade dos seres traduzindo-a do inglês para o português para defendê-la novamen-
ocupa lugar central (o que veio a ser batizado mais tarde como te, na minha volta ao Brasil, na USP. O período inglês foi para
perspectivismo, Viveiros de Castro, 1996). Na dissertação explo- mim o ponto da virada. Se já sabia que uma volta para a Bélgica
rei a relação entre a existência de dois conceitos distintos para seria difícil, ficar por um tempo na Inglaterra me parecia tenta-
imagem (dami [figura] e kene [grafismo]) e suas relações com a dor. Mas eu já era funcionária pública no Brasil, portanto nada
complementaridade de gênero e o xamanismo. Resumidamen- disso seria fácil. A questão, no entanto, felizmente nem chegou
te, notei através da análise dos rituais femininos de iniciação na a se colocar, pois foi em St. Andrews que conheci meu atual ma-

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antropologia

rido com quem voltei novamente para o Brasil, desta vez com a (Naipe) e os Seminários Ameríndios bimensais do PPGSA, IFCS
certeza absoluta que era para ficar. O problema a enfrentar agora desde 2002. Minhas áreas de interesse atuais englobam a etnolo-
era o de obter a permissão de transferência de Florianópolis para gia ameríndia, seus regimes ontológicos, sociais e estéticos, assim
a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Os colegas cariocas do como a antropologia da arte, da imagem e dos artefatos em geral.
Departamento de Antropologia foram extremamente receptivos. Neste último campo iniciei há alguns anos uma pesquisa sobre a
Foi com o intuito de tornar nossa filha bilíngue, ela tinha dois anos figuração de santos e bichos em Juazeiro do Norte (CE), pesquisa
e começava a falar, que passamos seis meses na Bélgica, entre 2004 esta em colaboração com Marco Antonio Gonçalves e cujos re-
e 2005. Nos apresentamos à Universidade de Lovaina para sermos sultados resultarão em filmes e publicações”.
professores visitantes sem remuneração adicional, pois estávamos
de licença sabática na nossa universidade. Demos algumas pales- Conclusão
tras para os cursos de pós-graduação. Um ano mais tarde, cheguei
a Paris para uma pesquisa com uma bolsa Leg Lelong de quatro Não posso deixar de querer encontrar alguns fios na meada
meses (pelo CNRS). destes relatos de belgas antropólogos tão diferentes entre si. Um
“Para concluir um resumo sobre minhas atividades acadêmi- primeiro elemento que ressalta aos olhos é que muitos se torna-
cas mais recentes: Sou professora do Programa de Pós-Graduação ram etnólogos, estimulados às vezes pela leitura de Lévi-Strauss,
em Sociologia e Antropologia do IFCS, UFRJ, desde 2000. Sobre este gigante das Ciências Humanas do século 20, que fez muito
minha pesquisa entre os caxinauás publiquei em 2007 o livro A para colocar os índios brasileiros no mapa do mundo, às vezes pe-
fluidez da forma: arte, agência e relação numa sociedade ama- la simples vontade de viajar para longe. A vocação pela etnologia
zônica (kaxinawa) (Topbooks). Este retoma os recentes debates ameríndia, que implica em viver numa aldeia na floresta amazô-
teóricos no campo da etnologia e da antropologia da arte, os prin- nica, pode representar este sonho por um mundo diferente, comu-
cipais resultados da minha pesquisa no campo da antropologia mente batizado de atração pelo exótico que caracterizaria o olhar
da percepção. Em 2009 publiquei o livro Arte indígena no Brasil, ocidental sobre o mundo. Para se tornar antropologia, no entanto,
editado pela Com/Arte, um ensaio teórico sobre a questão da arte esta vivência, que pode iniciar por um desejo pelo distante, por
em contextos onde este conceito não existe, estabelecendo um uma experiência de alteridade, precisa ser traduzida em termos
diálogo com as discussões no campo da arte conceitual. Acabo de inteligíveis que eliminam exatamente este aspecto fantasioso do
terminar um livro, em coedição com Carlo Severi (professor da outro idealizado e de incompreensão. Conhecer o outro é, nas pa-
École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris), Quimeras lavras de Michael Taussig, tornar-se parcialmente outro. E é disso
em diálogo: xamanismo, grafismo e figuração, que reúne artigos que se trata na antropologia. Esta experiência vale para qualquer
de especialistas brasileiros e estrangeiros sobre a temática da rela- campo, que seja num terreiro de Xangô, numa aldeia indígena
ção entre mostrar e ocultar nas artes e nos rituais relacionados ao ou no mundo relacional de espelhos invertidos entre agentes de
xamanismo, tanto na Amazônia como na Sibéria e na América do políticas desenvolvimentistas europeias e representantes de países
Norte. O livro é um dos resultados de um convênio de pesquisa em desenvolvimento.
da Capes/Cobecub entre a UFRJ (PPGAS/MN e PPGSA/IFCS), Um elemento que me parece transpassar todos os textos aqui
o Collège de France, EHESS, e o Centro de Pesquisa do Musée reunidos é a dificuldade do movimento de ida e volta. Para todos, o
do Quai Branly entre os anos 2006 e 2010. Atualmente continuo Brasil significou a descoberta de mundos de experiência e de pen-
ligado ao Grupo de Pesquisa Internacional do Quai Branly e sou samento antes insuspeitados. A melancolia deriva do movimento
correspondente de sua revista Gradhiva. de retorno: quando se percebe o quão difícil é invocar o mundo
“Tenho formado meus orientandos de pós-graduação nos cam- de pensamento, reflexão e criação que se conheceu lá fora, mas
pos da antropologia da arte e na etnologia e coordeno desde 2008 que os que ficaram em casa desconhecem. É desta maneira que
um projeto de pesquisa em convênio com o Museu do Índio e a surge uma diferença crucial entre os mundos imaginários belga e
Unesco, “Construindo culturas, documentando tradições” (Pro- francês: o Brasil existe no mapa do imaginário francês, mas existe
docult), assim como um projeto de documentação sobre os usos muito pouco no dos belgas. Mas talvez seja muita presunção que-
e significados da miçanga entre as populações indígenas no Brasil, rer comparar a Bélgica, país tão pequeno e temeroso de ser uma
igualmente em colaboração com o Museu do Índio. Além dis- periferia de vários centros, com o gigante intelectual que continua
so, coordeno o Núcleo de Artes, Imagem e Pesquisa Etnológica sendo a França no mundo.

137
parte 4 – colaboração científica

Quando a selva chama


D a n i e l D e Vo s

D esde minha infância meu irmão mais velho me contava so-


bre os exploradores da África: Livingstone, Stanley, Burton…
Ele também queria ser explorador. Um dia – eu tinha na época
tura. No entanto, em setembro de 1995 a fatalidade bateu à porta
e Simon foi assassinado perto de sua casa em Manaus por dois
meninos de rua. Quinze minutos antes da rixa à facada, Simon e
14 anos – descobri a existência da floresta amazônica, a maior do eu tinhamos nos despedido depois de uma comidinha. Meu me-
mundo. Já que meu irmão iria à África, minha escolha estava fei- lhor amigo, o animado e sempre alegre Simon, não estava mais
ta. A África seria dele, a floresta amazônica seria minha! Informei presente. Seu passamento significou uma perda pessoal extrema-
meus pais, mas estes riram muito de meus planos. mente penosa. Com ele vivi muitas aventuras e minha primeira
Comprei um livrinho O Português sem custo e em janeiro de vivência com os índios amazônicos. A partir daí, algo mudou na
1981, com 21 anos, parti por alguns meses ao Brasil. Eu sabia minha relação com o Brasil. Nunca mais seria a mesma. Simon
pouca coisa sobre a Amazônia. Tinha lido alguns livros do autor nos deixou vários diários de seu trabalho de campo, assim como
holandês Anthony Van Kampen. Seu trabalho com os leprosos na um dicionário Yanomami.
floresta amazônica brasileira me emocionou bastante. Seus livros Depois de Carauari, ainda no ano de 1983, eu queria decidi-
me fizeram, a caminho do interior da Amazônia, passar por Ma- damente subir o Rio Japurá. Tinha a impressão que era um dos
naus. Lá encontrei um padre da Congregação holandesa do Espíri- tantos rios desconhecidos do Estado do Amazonas. Pude acom-
to Santo que me propôs acompanhá-lo até Carauari, no Rio Juruá, panhar um regatão no Rio Japurá e fiz uma reportagem sobre os
para conhecer a população e a selva. Assim dito, assim feito. Lá, ribeirinhos e sua relação com o regatão. Terminei minha jornada
entrei em contato através de outro padre e de uma enfermeira com numa aldeia dos índios Maku-Guariba. Mais tarde visitei, numa
os leprosos. Cada dia participava da ronda da enfermeira pelos segunda viagem de barco pelo Rio Japurá, uma aldeia Kanamari.
bairros de leprosos para tratar suas feridas. Após algum tempo eu No início dos anos 80, percorri principalmente o Estado do
os visitava sozinho. Sua condição dolorosa me deixou comovido Amazonas, às vezes o do Pará. Tinha visto tantos recantos da selva
por muito tempo. Em Carauari toquei um dia no assunto índios, e observado diversas populações, mas em nenhuma parte podia
mas veio pouca ou nenhuma resposta. Dizia-se mesmo: ‘Dentro montar minha tenda.
de dez anos não haverá mais índios no Brasil!’ Isto mudou quando encontrei Pedro Inácio Pinheiro Ngematü-
No final desta primeira viagem topei em Manaus com o fina- cü. Em janeiro de 1984 fui para o Alto Solimões. Fiquei sabendo
do Simon le Fevere de ten Hove. Ele voltava de uma aldeia Ya- que na cidadezinha de Benjamin Constant existia um pequeno
nomami e queria ir de novo na direção do Rio Araçá, um afluente centro de encontro, onde os índios do Alto Solimões (principal-
do Rio Negro. Decidimos nos preparar para uma nova viagem mente os ticuna) se reuniam regularmente. Lá topei com Pedro
às terras dos Yanomamis, com o propósito de realizar um docu- Inácio Pinheiro, na época presidente do CGTT (Conselho-Geral
mentário em 16 mm sobre a vida na Amazônia. Passamos algu- da Tribo Ticuna), ou seja, capitão-geral do povo Ticuna. Contei-
mas semanas numa aldeia Yanomami, seguimos a extração da -lhe minhas andanças pela Amazônia. Ele me convidou para sua
borracha pelos seringueiros e visitamos duas minas de ouro na aldeia Vendaval a fim de conhecer o povo Ticuna e enteirar-me
região de Itaituba (Rio Tapajós), onde se coletava o pó de ouro de sua problemática.
na floresta e no rio. No momento de minha chegada à região Ticuna, a luta para a
Depois de seis meses, em maio de 1982, nosso filme estava demarcação oficial das terras estava em pleno andamento. Patrões
pronto. Recebeu o título de Grito Amazônico. Entretanto, voltei brancos foram expulsos e os índios acabavam de ganhar alguma
a Carauari e fiz um filme e uma reportagem de diapositivos. Na liberdade, uma recuperação de suas raízes despontava, como tam-
Bélgica, consegui recolher algum dinheiro para a construção de bém a conscientização de seus direitos à terra previstos pela cons-
um lar para os leprosos que viviam às margens do Rio Juruá e tituição. Os Ticuna empenhavam-se para fazer valer estes direitos.
que poderiam residir lá, quando precisavam de longos cuidados Junto com Pedro e mais alguns da aldeia de Vendaval partimos de
médicos. canoa às numerosas aldeias Ticuna para convidar os capitães Ti-
Em 1983 Simon e eu partimos de novo por um ano para o cuna (como se chamavam os chefes de aldeia) para uma reunião
Brasil. Mas nossos caminhos se separaram logo. Eu fui a Carauari geral para discutir a estratégia a seguir. Vários chefes e membros
para o lar, cuja administração passou inteiramente para as mãos do Conselho Ticuna me pediram para divulgar fora do Brasil sua
do município. Simon queria fixar-se definitivamente no Brasil e problemática, sobretudo dos direitos à terra. Desde o começo era
ocupava-se com infinita paciência da maçada administrativa, en- evidente que não queriam ser objetos, mas sujeitos.
quanto trabalhava para uma ONG com meninos de rua em Ma- Com estas lutas subiram as tensões entre os diversos grupos de
naus. Somente dois anos mais tarde eu voltaria por um tempo população e interesses na região do Alto Solimões. Atingiram um
mais longo à aldeia dos Yanomami para estudar seu idioma e cul- ponto dramático com o massacre de Capacete, em 28 de março de

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antropologia

A festa da moça nova entre os Ticuna Pedro Inácio Pinheiro Ngematücü, presidente do Conselho Geral da Tribo Ticuna.

1988, quando, num conflito com um madeireiro, 14 índios Ticuna do em Ciências da Família. Meu trabalho final tratou da Educa-
desarmados morreram e 23 outros ficaram feridos. ção entre os povos índigenas Ticuna, Yanomami e Sioux.
Para levar seus problemas a público fora do Brasil não consegui Em 2007-2008 colaborei em duas exposições no Etnografisch
muito mais que algumas entrevistas na imprensa e na rádio. Após Museum de Antuérpia exclusivamente sobre o ritual da “moça no-
o massacre aderi ao recém-fundado grupo flamengo de apoio aos va” entre o povo Ticuna e no Musée International du Carnaval et du
povos indígenas, o KWIA. Escrevi alguns artigos para sua revista Masque (Binche) com uma parte sobre a festa da fertilidade entre
e, em parte porque houve pouco avanço no processo e julgamento os Ticuna. O catálogo da exposição de Binche, Basiques Instincts,
dos culpados e na demarcação oficial de sua área, decidi, em co- leva um artigo meu, Worecü et la démarcation du territoire – La fête
laboração com o KWIA, convidar Pedro para ir à Bélgica. Assim, de la Nouvelle Fille ou la fête de la fertilité chez les Indiens Ticuna,
ele poderia contar pessoalmente sua história à imprensa e buscar que trata da festa e também do papel da festa na luta pela terra.
apoio nas diversas organizações internacionais. Foi a primeira vez No quadro da Europalia.Brasil e da exposição Índios do Brasil
que Pedro veio à Europa. Nessa ocasião escrevi o livrinho Calha (2011) fiz, no Musée Royal d’Art et d’Histoire, duas conferências
Norte e os índios do Norte do Brasil – A problemática dos índios sobre os Ticuna: desde os primeiros contatos com o colonizador,
Yanomami, Tikuna e waimiri-atroari. (Série Inheemse Volkeren os barões da borracha, a luta, a festa… até os acontecimentos e
Vandaag t. 1, 1990, edição KWIA). desafios atuais para o povo Ticuna. O fio da meada nesta história
Em 1991 demarcaram-se oficialmente as duas principais áreas continua sendo o papel-chave de Pedro na luta pela terra e no que
dos Ticuna. Em 1993 fui convidado pelo Tropenmuseum (Museu lhe aconteceu depois da demarcação.
dos Trópicos) de Amsterdã para prepararmos juntos a exposição Ao longo dos 29 anos que trabalho com Pedro, tive desde o
Amazônia, que abriria em 1996. Esse projeto sobre a cultura Ti- início até hoje um vínculo muito íntimo e uma profunda amiza-
cuna focalizaria a festa da fertilidade. O Conselho Ticuna concor- de. Ele foi quem me iniciou e introduziu à vida, ao espírito e à
dou e apreciou a colaboração com o Tropenmuseum. Procurou-se, problemática dos Ticuna. Na medida do possível partilhei com
então, uma coleção representativa da cultura material, junto com ele todas as minhas iniciativas ou lhe comuniquei estas posterior-
a necessária documentação. Para os Ticuna, a mostra de objetos mente. Atualmente preparamos juntos um projeto sobre esculturas
seria uma excelente oportunidade para contar sua vida e luta. No de madeira e frutas.
final de 1996 chega uma delegação Ticuna a Amsterdã e Pedro Seja como for, minha estada no Brasil foi determinante para
abre oficialmente a exposição. o resto da minha vida. Levanto-me e deito literalmente no Brasil!
De repente, feita a demarcação, não havia mais interesses co- Houve momentos em que duvidava, sentia um amor infinito ou
muns ou ameaças. A união, antes tão importante na luta pela terra, uma dor profunda… “o que pelo amor de Deus venho eu ainda
parece perdida. Surgem sérios conflitos e divisões na comunida- fazer aqui?” Mas recebia então um novo encargo ou o chamado
de Ticuna. Até os próprios pesquisadores se separaram contra sua da selva, que se apoderava tanto de mim que simplesmente ia
vontade em dois campos. Reinava a suspeita e tornou-se difícil comprar uma passagem na direção da Amazônia. Não há como
trabalhar nas comunidades Ticuna. escapar à selva! É muito mais do que uma coleção de árvores, um
Porém, não desisti de minha pesquisa de campo. Continuei potencial econômico, turístico ou ecológico. Sobre esta vivência
seguindo os desenvolvimentos e as mudanças políticas dentro da pode-se comunicar com grande facilidade com os índios.
comunidade Ticuna e escrevendo artigos para a revista Inheemse O meu encontro com Pedro não foi uma surpresa para ele,
Volkeren do KWIA. Voltei a estudar e obtive, em 2002, bacharela- na sua juventude já sonhava que iria à Europa. Na minha última

139
parte 4 – colaboração científica

viagem (março de 2013), dizia no primeiro contato: já estou espe- colaborar durante tantos anos e até agora em absoluta confiança
rando um ano por você… Sobretudo é uma honra enorme poder com um dos mais importantes líderes indígenas brasileiros.

As pesquisas sobre o patrimônio linguístico africano


Jacky Maniacky e Jean-Pierre Angenot

O forte impacto cultural do escravismo transatlântico se faz


sentir em grande parte do continente americano e, particu-
larmente, na América Latina, no patrimônio linguístico. O Brasil
dônia e do Museu Real da África Central, que conseguiu em re-
ferência aos bantuísmos estabelecer um banco de dados com hoje
quase 5.000 entradas! Uma das próximas etapas desta colaboração
é de longe a região que oferece o maior número de testemunhos será de afinar as etimologias propostas até agora para o vocábulo
através de numerosos africanismos que participam na sua varieda- brasileiro de origem africana.
de da língua portuguesa. Paralelamente a estas pesquisas, Jacky Maniacky dá cursos de
A Bélgica é implicada em primeiro plano, através de dois lin- linguística africana no programa de mestrado do campus de Gua-
guistas, nas pesquisas sobre estes africanismos e, principalmente, jará-Mirim como professor visitante. Além destes pesquisadores
nos bantuísmos (palavras de origem bantu, um conjunto agru- mencionados e ligados à Bélgica, outros linguistas, brasileiros des-
pando mais de 500 idiomas falados na África Central, Oriental e ta vez, se reuniram a este projeto de estudos africanos, tanto dou-
Austral): Jacky Maniacky, franco-congolês, responsável pelo servi- tores como doutorandos, que lhes oferece pesquisas de terreno em
ço de linguística do Museu Real da África Central (Musée Royal Angola e na Namíbia e visitas de estudos regulares no serviço de
de l’Afrique Centrale) em Tervuren, e Jean-Pierre Angenot, belga linguística de Tervuren. O objetivo a médio prazo é dispor, gra-
naturalizado brasileiro, professor emérito de linguística na Uni- ças à esta colaboração belgo-brasileira, de vários especialistas nos
versidade Federal de Rondônia. idiomas africanos baseados na Universidade Federal de Rondônia
Jacky Maniacky tem, além de suas raízes e infância no Congo- e beneficiados da expertise reconhecida de Tervuren em matéria
-Brazzaville, desenvolvido, desde 1997, em suas pesquisas de DEA de linguística histórico-comparativa africana.
e de doutoramento, uma expertise das línguas faladas nas regiões Quando se fala de patrimônio linguístico africano no Brasil,
de Angola e do Congo, situadas em face do Brasil e fortemente trata-se principalmente de palavras de origem africana que se en-
implicadas no tráfico transatlântico. Aprofundando seus conheci- contram na variedade do português falado no Brasil, seja na lín-
mentos da região nas pesquisas pós-doutorais, surgiu o desejo de gua corrente, na gíria ou ainda em contextos particulares como
investigar o patrimônio legado do lado brasileiro. quilombos e cerimônias religiosas. Por exemplo, caçula, bunda,
Decênios antes (1974), Jean-Pierre Angenot, na época pesqui- moleque, fubá... Trata-se igualmente de influências gramaticais,
sador no Congo (antigo Zaire), levantou já um primeiro repertório ainda que essas sejam mais difíceis de estudar.
dos bantuísmos no Brasil. Sua chegada neste país, há mais de 30 Saber mais sobre os idiomas africanos permite aperfeiçoar os
anos, permitiu a criação de um curso de linguística na Universi- conhecimentos etimológicos do português do Brasil. Várias en-
dade Federal da Bahia. Depois de passar por Florianópolis, abriu tradas dos dicionários de referência como o Aurélio ou o Houaiss
uma fileira de estudos africanos no campus de Guajará-Mirim, ainda estão erradas. Mas estas pesquisas linguísticas contribuem
Universidade Federal de Rondônia, na fronteira com a Bolívia. também para melhorar o conhecimento da história do Brasil, no-
Seu programa de mestrado é até hoje o único na América Latina tadamente em matéria cultural.
dedicado à linguística africana.
Em 2008, uma visita do professor Angenot a Tervuren ofere- Referências
ceu a oportunidade aos dois pesquisadores de se encontrarem e de Jean-Pierre Angenot, Jean-Pierre Jacquemin e Jacques L. Vincke. Répertoire de vocables
unir seus recursos para aprofundar, por um lado, a pesquisa sobre brésiliens d’origine africaine. Lubumbashi, Collection Travaux et Documents du
o patrimônio linguístico bantu no Brasil e, por outro, de iniciar CELTA, 1974.
Jean-Pierre Angenot e Geralda de Lima V. Angenot. Dicionário de bantuísmos brasileiros.
pesquisas sobre os numerosos idiomas bantu ainda não documen- Manuscrito. Porto Velho, Universidade de Rondônia.
tados, notadamente de Angola. Jacky Maniacky. Thèmes régionaux Bantu et africanismes brésiliens. Margarida Petter e
Assim existe, desde 2009, através destes dois pesquisadores, Ronald Beline Mendes (eds.), Proceedings of the Special World Congress of African
Linguistics: Exploring the African Language Connection in the Americas, São Paulo,
uma colaboração intensiva entre a Universidade Federal de Ron- Humanitas, 2009, p. 153-165.

140
ensino e pesquisa

Os belgas nas origens da Escola Superior


de Agricultura “Luiz de Queiroz”
Luciana Pelaes Mascaro

E m 1889 Luiz Vicente de Souza Queiroz arrematou a Fazenda


São João da Montanha, com 319 hectares e distante três qui-
lômetros da cidade de Piracicaba (SP). Alguns anos depois doou
de nível universitário, lá estudaram, entre 1863 e 1914, pelo me-
nos 38 brasileiros, dos quais sete se formaram engenheiros agrôno-
mos. Um deles, José Fortunato de Camargo – formado em agro-
a fazenda ao governo do Estado de São Paulo, como estratégia nomia em Gembloux – e proprietário da Fazenda Aterradinho,
para alcançar seu sonho de ali instalar uma escola agrícola, o que município de Angatuba (SP), “contratou em 1899 os agrônomos Lé-
começou a ser realizado a partir de 1893. on Renaud e Hernan Vande Venne para instalar uma leiteria indus-
A futura escola seria formada com a participação maciça de trial e uma fábrica de margarina [manteiga]” (Stols, 1987, p. 373).
profissionais estrangeiros e vale ressaltar as relações estabelecidas Ainda em 1893, chegava ao Brasil o engenheiro agrônomo
com o Institut Agricole de Gembloux, na Bélgica. Escola superior belga Leon Alphonse Morimont, formado pelo conhecido Ins-

Fachada da Escola Agrícola “Luiz de Queiroz” que se encontra no livro Piracicaba e sua Escola Agrícola, de Mario de Sampaio Ferraz, publicado em Bruxelas, 1911.

141
parte 4 – colaboração científica

Grupo de professores e assistentes da Escola Agrícola “Luiz de Queiroz” em Imagem do salão da Congregação da Escola Agrícola “Luiz de Queiroz”, com o
fotografia no livro Piracicaba e sua Escola Agrícola, 1911. diretor Dr. Clinton Smith e os professores Vincent, Puttemans, Charropin, Arié,
Mendes, Gagezou, Dias, Sanders e Ribeiro, que se encontra no livro Piracicaba e
titut Agricole de Gembloux. Figura de renome na sua profissão, sua Escola Agrícola, 1911.
tinha larga experiência profissional obtida em várias estadias pela
França, Espanha, Itália, por Portugal e África. Foi encarregado de Les progrès de l’élevage dans l’Etat de Sao Paulo (Brésil) (A indús-
elaborar o projeto para a escola idealizada por Luiz de Queiroz. tria pastoril no Estado de São Paulo).
Em dezembro desse mesmo ano, Morimont foi nomeado diretor Jean Baptiste Michel, engenheiro agrícola igualmente vindo
da nascente escola por Jorge Tibiriçá Piratininga, então Secretário de Gembloux, foi professor de Agricultura (antiga 4ª Cadeira) e
da Agricultura, Negócios, Comércio e Obras Públicas do Estado sucedido por Hubert Puttemans, engenheiro agrônomo belga, que
de São Paulo. Permaneceu em seu cargo na Fazenda São João da tinha sido um dos primeiros professores da Escola Politécnica de
Montanha por pouco tempo, apenas até 1896 (Perecin, 2004, p. São Paulo (Perecin, 2004, p. 301 e 349). Publicou em 1915, na
135), devido a divergências políticas com o presidente recém-elei- cidade de Nivelles (Bélgica), o livro Agricultura Geral Especial-
to Campos Sales. Consta que havia se dedicado profundamente ao mente Apropriada ao Brasil.
projeto da escola de Piracicaba e deixou o Brasil muito ressentido Além desses, também foi contratado Nicolau Athanassof,
e doente, tendo morrido no mar, durante seu retorno à Bélgica agrônomo búlgaro que havia estudado no Instituto de Gembloux,
(Perecin, entrevista, 2004). e que assumiu a 5ª Cadeira, mais tarde dividida em zootecnia –
Morimont desempenhou papel especialmente importante na a cargo de Athanassof – e zoologia e higiene. Publicou diversos
elaboração dos moldes da escola que ali surgia. Implantou um mo- livros sobre criação de gado e suínos, dentre os quais se destaca
delo prático-teórico equilibrado, baseado no sistema do Instituto o manual do criador Os Bovinos, publicado em São Paulo, em
de Gembloux, mas que, afinal, “não deixou de ser um produto do 1922, que traz figuras de exemplares Flamengos Vermelhos pre-
academicismo europeu, para atender às necessidades de moderniza- miados em 1911 e 1912 nas exposições de gado em Ipre (Bélgi-
ção do setor primário da economia, a ser testado no Estado de São ca). Depois de sua passagem por Piracicaba, foi contratado como
Paulo” (Perecin, 2004, p. 155-157). diretor do Posto Zootécnico Federal de Pinheiros (RJ), substituin-
Quando Carlos Botelho assumiu a Secretaria da Agricultura, do outro belga, Hector Raquet, na função de diretor. (Ver texto
no início do século XX, continuou a contratação de profissionais “bovinotecnia”)
estrangeiros – não sem algumas reações xenófobas (Perecin, 2004, Em 1911, Mario de Sampaio Ferraz editou em Bruxelas um
p. 301) – para a escola agrícola de Piracicaba, dentre os quais vá- livro muito bem cuidado e intitulado Piracicaba e sua Escola Agrí-
rios de nacionalidade belga ou formados na Bélgica, como o co- cola. Nele consta a relação de professores e de seus assistentes, o
nhecido Arsène Puttemans, arquiteto paisagista, que foi professor período de matrícula, o conteúdo do curso, além de fotos de inte-
de paisagismo e horticultura (ver nota em ‘Arquitetura’), e outros resse: dos professores, assistentes e alunos – em seus laboratórios
abaixo relacionados. e em trabalho de campo – e do famoso prédio central, projeto de
Louis Misson, engenheiro agrônomo formado em Gembloux, José Van Humbeeck, situado em frente ao jardim projetado por
assumiu a 4ª Cadeira, mas foi logo requisitado pela Secretaria da Arsène Puttemans.
Agricultura por seu prestígio como cientista (Perecin, 2004, p. A presença desses técnicos e profissionais demonstram, por
293) e publicou, em Bruxelas, em 1907 e outras edições, o livro um lado, que o período era de renovação para a produção rural

142
ensino e pesquisa

Trabalho de mensuração de um cavalo pela lente do dr. Vincent na Escola Agrícola “Luiz de Queiroz”, fotografia publicada em Piracicaba e sua Escola Agrícola, 1911.

brasileira, especialmente na região paulista que começava a vis- de São Paulo, p. 3.368, 1931). Ocupou as cátedras de Patologia e
lumbrar o possível declínio da produção cafeeira (confirmado a Clínicas Cirúrgica e Obstetrícia, de Patologia e Clínica Médicas,
partir de 1929). Por outro, se evidencia o apelo dos governantes ao Indústria e Inspeção de Produtos de Origem Animal. Consta que
conhecimento estrangeiro do setor, no quadro do qual a Bélgica produziu importante trabalho sobre patologia do aparelho loco-
tinha excelente reputação. Assim, esse país viria a contribuir de motor em equinos e foi um dos maiores cirurgiões veterinários do
forma relevante, ao lado da França e dos Estados Unidos, para a Brasil (Matera, 1963-64).
formação e o desenvolvimento da Escola Superior de Agricultura
“Luiz de Queiroz”. Referências
Em tempo, para complementar a atuação de profissionais bel- D.O. do Estado de São Paulo, Imprensa Official, n. 99, p. 3.368, sexta-feira, 1 de maio
gas no quadro do ensino relativo à agropecuária, é preciso citar de 1931.
René Straunard, formado pela Escola de Medicina Veterinária Matera, Ernesto Antônio. Professor René Straunard. Revista da Faculdade de Medicina
Veterinária de São Paulo, Vol. 7, fasc. 1, 1963-64.
de Cureghem, Bruxelas, que chegou ao Brasil pela primeira vez Misson, Louis. Les progrès de l’élevage dans l’Etat de Sao Paulo (Brésil). Bruxelles: So-
em 1913, tendo ido para Catalão, em Goiás. Voltou ao Brasil em ciété anonyme, M. Weissenbruch, 1912.
1920, quando foi contratado como Inspetor Veterinário da Dire- Perecin, Marly Therezinha Germano. Entrevista à Rádio Educadora de Piracicaba AM
1060 Khertz em 20/11/2004. Disponível em: <http://www.teleresponde.com/PERE-
toria de Indústria Animal e trabalhou no Jóquei Clube de São CIN.HTM>. Acesso em: 30 nov. 2013.
Paulo. A partir de 1931 começou a atuar como professor no Ins- Perecin, Marly Therezinha Germano. Os Passos do Saber: a Escola Agrícola Prática
tituto de Veterinária (criado em 1919 e atual Faculdade de Me- “Luiz de Queiroz”. São Paulo: Edusp, 2004.
Stols, Eddy. Penetração econômica, assistência técnica e “brain drain”: aspectos da emigra-
dicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo), ção belga para a América Latina por volta de 1900. Jahrbuch für Geschichte Lateina-
quando assumiu interinamente o cargo de professor catedrático merikas = Anuario de História de América Latina (JbLA), n. 13, 1976 (Ejemplar dedi-
da Cadeira de Clínica e Obstetrícia do Instituto (D.O. do Estado cado a: Emigración europea a América Latina durante los siglos XIX y XX), p. 361-385.

143
parte 4 – colaboração científica

A cooperação entre o Institut International


de Bibliographie e a Biblioteca Nacional
Jacques Gillen

P ara Paul Otlet (1868-1944) e Henri La Fontaine (1854-1943,


Prêmio Nobel da Paz em 1913), os dois fundadores do Office
International de Bibliographie (OIB) e do Institut International de
A primeira missão do OIB consiste em levantar o Répertoire
Bibliographique Universel (RBU, destinado a reunir as referências
de todas as obras publicadas no mundo e baseado no sistema da
Bibliographie (IIB), a cooperação internacional é primordial. Con- Classification Décimale Universelle (CDU). Desde sua criação em
sideram-na como uma dimensão essencial da missão que assumiram Bruxelas, em 1895, uma cooperação internacional se instala, nota-
de providenciar ao mundo os instrumentos de acesso ao conheci- damente, sob a forma de intercâmbio de publicações e de fichas
mento. Além de oferecer possibilidades para estender seu campo de bibliográficas, em torno das associações científicas, oficinas biblio-
trabalho, ela permite, no seu espírito, favorecer a compreensão inter- gráficas e bibliotecas que participam no desenvolvimento do RBU
nacional. A paz aparece em filigrana do conjunto de seus projetos e da CDU. Na América Latina, o OIB dispõe de um embaixador
e as instituições criadas na sequência do OIB – tais como a Union na pessoa de Federico Birabén (1866-1929), promotor da CDU
des Associations Internationales (UAI) e o Musée International em e dos métodos recomendados pela OIB em seu país, a Argentina.
1910 –, acentuarão a dimensão internacionalista do conjunto que Ele atuou igualmente no Brasil, no Peru e no Chile, onde contri-
formarão a partir de 1920 o Palácio Mundial ou Mundaneum. buiu com a criação de escritórios bibliográficos.

A sala-oficina do catálogo do Mundaneum.

144
ensino e pesquisa

Os primeiros contatos entre o OIB e a Biblioteca Nacional do aproximado de 16 milhões de fichas e a CDU se tornará o padrão
Rio parecem iniciar-se por volta de 1902. A partir dessa época, a em inúmeras bibliotecas do mundo inteiro.
Biblioteca Nacional do Rio envia publicações brasileiras ao OIB. Atualmente, o Mundaneum, instalado em Mons (Bélgica)
Por volta de 1910-1911, seu diretor, Manuel Cícero Peregrino desde 1993, é um centro de arquivos e um espaço de exposições
da Silva (1866-1956), aproveita sua estada em Bruxelas para vi- temporárias. Conserva as coleções reunidas por seus fundadores
sitar o OIB e decide aplicar o sistema da CDU na Biblioteca do e sucessores (publicações, jornais, periódicos, cartazes, fichas, fo-
Rio e de introduzir o RBU, do qual ele encomenda uma cópia tografias, cartões postais…), como também os papeis pessoais de
completa. Trata-se da primeira encomenda tão extensa ao OIB. Paul Otlet e de Henri La Fontaine e os fundos de arquivos tra-
O primeiro volume de 23 mil fichas é despachado em dezembro tando de três temáticas principais: o pacifismo, o anarquismo e o
de 1911 pelo intermediário de Manuel de Oliveira Lima (1867- feminismo.
1928), embaixador do Brasil na Bélgica. A colaboração se pro-
longa até 1914 e leva à criação de uma seção bibliográfica dentro Jacques Gillen, historiador do pacifismo e do movimento anarquista
da Biblioteca Nacional do Rio. Ela comporta várias remessas de na Bélgica, é diretor do Mundaneum em Mons.
fichas e a visita, em 1913, de Britto Galvão, funcionário dessa
mesma biblioteca, que vem a Bruxelas estudar a organização e o Referências
funcionamento do RBU. Le Mundaneum. Les archives de la connaissance. Mons, Impressions Nouvelles, 2008; Paul
Esta cooperação internacional foi decisiva para que primeiro o Otlet, fondateur du Mundaneum (1868-1944). Architecte du savoir, artisan de paix.
Bruxelas, Impressions Nouvelles, 2010; Henri La Fontaine, Prix Nobel de la paix en
OIB e em seguida o Mundaneum pudessem desenvolver o RBU e 1913. Un Belge épris de justice, Bruxelas, Mundaneum-Racine, 2012. Mundaneum,
a CDU de maneira tão considerável: o RBU atingirá um número Papéis pessoais de Paul Otlet, dossier numéroté 504 (PP PO 942).

O Instituto Real do Patrimônio Artístico


de Bruxelas e Barroco Mineiro
E r i k a B e n a t i R a b e l o e M y r i a m S e r c k - D e l wa i d e

O Instituto Real do Patrimônio Artístico de Bruxelas (IRPA),


antigo ACL (Archives Centrales Iconographiques d’Art et le
Laboratoire Central), surgiu oficialmente em 1948, ano em que
aceleraram-se durante o período da Segunda Guerra Mundial.
Estima-se que entre 1941 e 1945 mais de 160 mil fotografias foram
realizadas, e isto levando em conta o racionamento de gasolina,
tornou-se independente em nível administrativo do Museu Real do material fotográfico em geral e dos constantes bombardeios.
de Arte e História de Bruxelas. Entretanto, remontando no tempo, Esse acervo fotográfico foi de grande utilidade uma vez termi-
as atividades do IRPA se iniciaram em 1934, com a chegada de nada a guerra, pois serviu para uma avaliação precisa do estado
Paul Coremans (1908-1965) para os departamentos de documen- de conservação do patrimônio móvel e imóvel e para o desenvol-
tação e do laboratório de pesquisas físico-químicas do Museu Real. vimento de uma estratégia de recuperação. Algumas dessas foto-
Doutor em química, Paul Coremans implementou projetos de grafias são, em casos extremos, o único testemunho de objetos
restauração envolvendo os principais museus belgas. Desejando completamente destruídos pela guerra (Masschelein-Kleiner, p.
que seus departamentos crescessem cientificamente, direcionou 18). Todo esse material fotográfico é, ainda hoje, uma excelente
a conservação de obras de arte segundo uma metodologia cientí- base de informação para restauradores e pesquisadores em geral.
fica, baseada no estudo exaustivo de seus materiais constitutivos. Se por um lado a guerra engendrou a deterioração do patri-
Preocupado com a comunicação, criou uma rede de relações com mônio, por outro, e paradoxalmente, ela promulgou, nos anos se-
universidades da Europa, dos Estados Unidos e demais centros de guintes, o desenvolvimento de teorias relativas à sua recuperação.
conservação. O surgimento do IRPA é contemporâneo de insti- Os anos do pós-guerra foram vividos, em nível mundial, como um
tuições internacionais pioneiras, tais como o Courtauld Institute, período de reflexão, de avaliação e de procura de critérios na área
em Londres (1932), e o Istituto Centrale per il Restauro (ICR), do patrimônio. Sem dúvida, a experiência desse inventário, reali-
de Roma, criado por Cesare Brandi em 1939. zado em tempos difíceis, com uma equipe composta de artistas, de
Como diretor do IRPA, Coremans conciliou duas áreas distin- historiadores de arte e fotógrafos, influenciou o desenvolvimento
tas, mas complementares: a documentação e a análise científica. de uma prática baseada na interdisciplinaridade, pedra angular
Deu início a uma vasta campanha de inventário fotográfico do do trabalho do IRPA.
patrimônio da Bélgica, que, apesar de ser um país pequeno, con- No nível nacional, o IRPA apoiou a criação do Centro Na-
centra uma riqueza excepcional. Essas campanhas de inventário cional de Pesquisas ‘Primitifs flamands’ (1949), cujos objetivos

145
parte 4 – colaboração científica

eram constituir um inventário, um arquivo fotográfico e o estudo


da produção de pintura do século XV nos antigos países baixos
meridionais (atual território belga). No cenário internacional, o
IRPA participou de momentos históricos, como da criação do
International Council of Museums (ICOM) em 1946, do Inter-
national Institute for Conservation of Historic and Artistic Works
(IIC) em 1950, do International Centre for the Study of the Pre-
servation and Restoration of Cultural Property (ICCROM) em
1959 e ainda e do International Council on Monuments and
Sites (ICOMOS) em 1964.
Em 1957, o projeto de interdisciplinaridade idealizado por Co-
remans é oficializado e surge a atual denominação: Institut Royal
du Patrimoine Artistique/Koninklijk Instituut voor het Kunst­
patrimonium. Historiadores de arte, restauradores, químicos, físi-
cos trabalham juntos para o estudo, o inventário e a conservação
do patrimônio artístico. O projeto do edifício independente com
8.700 m2, separando fisicamente cada área de trabalho, foi lança-
do e a pedra fundamental foi posta em 9 de maio de 1959 (Mass-
chelein-Kleiner, p. 25). Em 1963, a química Liliane Masschelein
-Kleiner integra a equipe do laboratório, dedicando-se às análises
dos materiais orgânicos, até então difíceis de serem identificados
pela microscopia e pela microquímica. Os laboratórios adquiri-
ram, a partir da década de 60, um equipamento extremamente
moderno para a realização de exames científicos.
Paul Coremans, Jair Afonso Inácio e Fernando Barreto em Ouro Preto em 1964.
Formação e estágio no IRPA

A partir de 1949, o IRPA começou seu programa de estágio em Antônio Cruz Souza (MG), Marcos Cézar de Sena Hill (RJ), Ka-
seus ateliers de restauração. Coremans, extremamente visionário, thia Berbert Sant’Ana (BA), Beatriz Gonçalves Gaede (MG), Eri-
via sua instituição como um verdadeiro centro de formação. En- ka Benatti Rabelo (MG), Erika Santos (RJ), Karen Barbosa (SP).
quanto conselheiro da United Nations Educational, Scientific and O primeiro estagiário brasileiro (1961-1962) viveu uma época
Cultural Organization (Unesco), visitou vários países e observou importante da história do IRPA, que culminou com a transferên-
que havia urgência em capacitar os recentes centros de conser- cia dos ateliers, dos laboratórios e dos arquivos para o novo pré-
vação surgidos pelo mundo inteiro com funcionários formados dio, inaugurado em dezembro de 1962. Jair Inácio não chegou a
segundo uma metodologia científica adequada. trabalhar nos novos locais, pois seu estágio terminou três meses
Quando o IRPA mudou-se para o novo prédio em outubro de antes. O percurso profissional de Jair é típico de sua época: sem
1962, o estágio tornou-se um curso de pós-graduação em parceria formação acadêmica, ele foi admitido no Sphan (orgão que te-
com universidades belgas (Ceulemans, p. 208), programa que du- ve variações de nome e siglas desde sua criação: Dphan, Sphan,
rou somente três anos, mas que ganhou reputação internacional. IBPC e atualmente Iphan) devido a seu talento como pintor na
Entre 1960 e 1970, 89 estagiários, entre estrangeiros e belgas, pas- cidade de Ouro Preto (MG) e graças ao mecenato da Fundação
saram pelo IRPA. Após o falecimento de Paul Coremans (1965) a Rockefeller, de Nova York, pôde vir estudar na Europa. Nos ar-
pós-graduação voltou a ser um estágio de aperfeiçoamento, mais quivos do IRPA encontram-se cartas de recomendação elogiosas a
modesto, mas mantendo os objetivos iniciais centrado no estudo Jair da parte de Rodrigo Mello Franco Andrade, primeiro diretor
científico das obras de arte. do Sphan e pioneiro incontestável da recuperação patrimonial
no Brasil, e de Edson Motta, restaurador, funcionário do Sphan
Estagiários brasileiros e professor universitário no Rio de Janeiro.
Nessa época, os restauradores eram ainda polivalentes, traba-
Em 64 anos de existência, o IRPA recebeu 14 estagiários do lhavam objetos diversos. Jair Inácio participou da restauração da
Brasil, procedentes dos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio ‘Descida da Cruz’, pintura de Rubens conservada na Catedral de
de Janeiro, Pernambuco e Bahia: Jair Afonso Inácio (MG), Fernan- Antuérpia, sob a direção de Georges Messens. Foi contemporâ-
do Barreto (PE), Regina Costa Pinto Dias Moreira (BA), Frances- neo de Agnes Grafin Ballestrem, formada no Landesmuseum, de
ca Karolyi (SP), Liana Gomes Silveira (BA), Claudina Maria Du- Bonn, Alemanha. Agnes tornaria-se responsável pelo atelier de
tra Moresi (MG), Silvio Luiz Rocha Vianna Oliveira (MG), Luiz restauração de escultura do IRPA, em seguida responsável pelo

146
ensino e pesquisa

Estagiários do Institut Royal du Patrimoine Artistique, 1961-1962.

Landesmuseum e diretora do Centraal Laboratorium voor Onder- em Belas Artes e aprendizado em ateliers europeus. Ou seja, já há
zoek van Voorwerpen van Kunst en Wetenschap, em Amsterdã. uma especialização entre as diferentes áreas. Regina Costa Pinto
Durante seu estágio, Coremans organizou visitas profissionais Dias Moreira, estagiária em 1970/1971 no atelier de pintura, tinha
a fim de que Jair Inácio pudesse usufruir ao máximo de sua expe- formação de três anos no Instituto de Conservación y Restauración
riência europeia. Entre os meses de abril e maio de 1962, o esta- de Bienes Culturales de Madri, criado em 1961 sob o incentivo da
giário visitou o Museé National Suisse de Zurich, os ateliers do Unesco e particularmente de Paul Coremans. Regina tornar-se-ia
Musée du Louvre sob a direção de Madeleine Hours e o Instituto referência na França onde durante mais de duas décadas esteve
para o Exame e Restauro das Obras de Arte de Lisboa. Antes de a cargo de restaurações de obras-primas conservadas no Museu
retornar ao Brasil visitou a Rockefeller Foundation em Nova York. do Louvre. Recentemente colaborou com restaurações no Masp,
Paul Coremans viajou ao Brasil em 1964 como conselheiro da de São Paulo. Francesca Karolyi estagiou no atelier de escultura
Unesco. Visitou o Rio de Janeiro e as cidades históricas de Minas policromada em 1971/1973. Em seguida, trabalhou no IRPA e
Gerais e Pernambuco. Nessa ocasião conheceu Fernando Barreto, na Alemanha (Munique). Liana Gomes Silveira era restauradora
professor da Universidade de Pernambuco e restaurador de pintura do Museu de Arte Sacra de Salvador quando veio estagiar no IR-
do, então, Dphan. Fernando viria ao atelier de pintura do IRPA em PA em 1976/1977. Em seu currículo constava um curso na Real
1964/1965 com uma bolsa concedida pelo governo belga. Academia de Bellas Artes de San Fernando, em Madri. Durante
Na década de 70 o quadro muda um pouco e os estagiários bra- seu estágio no atelier de esculturas policromadas, sob a direção de
sileiros que chegam ao IRPA vêm com uma formação universitária Myriam Serck-Dewaide, dedicou-se ao estudo da substituição da

147
parte 4 – colaboração científica

reintegração à base de pintura a óleo por resinas sintéticas testa- tação dos órgãos nacionais de preservação do patrimônio cultural
das em envelhecimento artificial, bem como a prática de remoção no Brasil e na América Latina.
mecânica de repinturas. Nas décadas seguintes essa relação continua, mas de outra for-
No Brasil dos anos 80 surgem cursos de especialização en con- ma. Ela caracteriza-se por uma troca de conhecimentos. Vemos a
servação e restauração de bens móveis. Em 1980, o Centro de participação de belgas em cursos e congressos no Cecor-UFMG
Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis da Univer- e no Centro de Estudos da Imaginária Brasileira (Ceib), criado
sidade Federal de Minas Gerais (Cecor) e, no mesmo ano, outro pelas professoras Beatriz Ramos de Vasconcelos Coelho, funda-
curso de especialização, na Universidade Federal da Bahia. A es- dora do Cecor-UFMG, e Myriam Ribeiro de Oliveira, doutora-
tagiária Claudina Maria Dutra Moresi, química do Cecor-UFMG da pela Universidade de Louvain-La-Neuve, professora da UFRJ
frequentou o IRPA em 1986/1987, juntamente com seu marido, e pesquisadora do Iphan. Em 1985, acontece o seminário sobre
Silvio Luiz Rocha Vianna Oliveira (atelier de pintura). Claudi- adesivos naturais, vernizes e utilização de solventes em restau-
na desenvolveu um trabalho no Cecor-UFMG baseado em sua ração, ministrado por Liliane Masschelein-Kleiner, do IRPA, e
experiência na Bélgica. Voltou ao IRPA em 1991 para uma pes- coordenado por Beatriz Ramos de Vasconcelos Coelho, no Ce-
quisa específica. Silvio Luiz Rocha Vianna Oliveira foi professor cor-UFMG. Em 1989, realiza-se o seminário Taller de actuali-
da Fundação de Arte de Ouro Preto. Luiz Antônio Cruz Souza, zación para América Latina: escultura policromada, organizado
químico do Cecor-UFMG, esteve no IRPA em 1987/1988 e em pelo Getty, Programme des nations unies pour le développement
seguida estagiou no Getty Conservation Institute, em Los Ange- (PNUD), Unesco e UFMG, também no Cecor. Participaram des-
les, EUA. Luiz Antônio é atualmente professor do Cecor-UFMG te seminário o belga Jean-Albert Glatgny, restaurador autônomo
e representante do Brasil no conselho do Iccrom. Marcos Cézar formado no IRPA, Myriam Serck-Dewaide, Monique Péquignot
de Sena Hill, diplomado do Cecor-UFMG, estagiou no atelier de e Agnes Grafin Ballestrem.
escultura policromada em 1987/1988, sob a direção de Myriam O I Congresso Internacional do Ceib em Mariana (1998),
Serck-Dewaide. Diplomou-se pela Universidade de Louvain-La contou com a participação do professor Ignace Vandevivere (1938-
-Neuve e é professor de História da Arte na Escola de Belas Artes -2004) da Universidade de Louvain-La-Neuve e diretor do Museu
(EBA-UFMG). Kathia Berbert Sant’Ana foi estagiária do atelier de de Louvain-La-Neuve.
pintura do IRPA em 1988/1989, sob direção de Nicole Goetghe- O III congresso do Ceib em São João Del Rei (2003) teve a
beur. Trabalhou no Museu de Arte Sacra de Salvador, na Bahia, participação de Myriam Serck-Dewaide, responsável pelo atelier
e no Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (Ipac). Beatriz de escultura policromada e em seguida diretora do IRPA. Ela tam-
Gonçalves Gaede estagiou no atelier de escultura policromada em bém publicou no Boletim do Ceib Breve história da evolução dos
1990/1991, sob a direção de Myriam Serck-Dewaide. Erika Benati tratamentos das esculturas.
Rabelo, diplomada pelo Cecor-UFMG, estagiou no atelier de es- O IV congresso do Ceib em São João Del Rei (2005) contou
cultura policromada em 1992/1993. Domiciliou-se na Bélgica e com a participação de Michel Lefftz, atual professor da Fundep
colabora com o IRPA desde 1997, onde foi responsável por vários (Facultés Universitaires Notre-Dame de la Paix), de Namur. Sua
projetos de restauração. Realizou pesquisas e publicações sobre a conferência foi publicada na revista do Ceib, Imagem Brasileira,
escultura barroca na Bélgica. Erika Santos estagiou no atelier de com o título “Análises morfológicas dos drapeados na escultura
escultura policramada em 2007/2008. Domiciliou-se na Bélgica portuguesa e brasileira. Método e vocabulário”.
e estudou na Artesis Hogeschool de Antuérpia. E Karen Barbosa,
diplomada pelo Cecor-UFMG, estagiou no atelier de pintura em Myriam Serck-Dewaide, responsável pelo atelier de esculturas poli-
2010/2011. Karen atualmente é coordenadora da área de conser- cromadas do IRPA (1973-1999); Responsável pelo Departamento de
vação e restauração do Museu de Arte de São Paulo (Masp). Conservação do IRPA (1999-2002); Diretora do IRPA (2003-2011);
co-autora de Les techniques utilisées dans l’art baroque religieux des
Considerações finais XVIIème et XVIIIème siècles au Portugal en Espagne et en Belgique, dans
Policromia. A esculptura  policromada religiosa dos séculos XVII e
O relatório de Paul Coremans de sua missão ao Brasil e à XVIII. Actas do Congresso Internacional Policromia em 2002, Lis-
América Latina como conselheiro da Unesco em 1964 é um do- boa, IPCR, 2004, p. 119-157, e autora de ‘Les techniques utilisées
cumento interessante. Além de descrever o que viu no Brasil e dans l’art baroque religieux des XVIIème et XVIIIème siècles au Portugal
sugerir medidas protetoras para os sítios históricos visitados, ele en Espagne et en Belgique’, Policromia. A esculptura  policromada
analisa em profundidade o funcionamento do antigo Dphan. Ha- religiosa dos séculos XVII e XVIII. Actas do Congresso Internacional
via, nos anos 60, uma dependência do Brasil, nos níveis teórico e Policromia em 2002, Lisboa, IPCR, 2004, p. 119-157, e ‘Breve história
financeiro (bolsas de estudo), em relação aos países onde a estru- da evolução dos tratamentos das esculturas’, Boletim do Ceib, Belo
tura patrimonial estava mais organizada. A relação belgo-brasileira Horizonte, vol. 9, n. 31, juillet 2005.
desse período inscreve-se nesse âmbito. Observa-se a dependência
internacional para os assuntos patrimoniais do Brasil. O IRPA e a Erika Benati Rabelo, Master em Conservação Preventiva (Paris I-
Unesco forneceram recursos materiais e humanos para a capaci- -Sorbonne), Restauradora do IRPA em Bruxelas; autora de ‘Les imita-

148
ensino e pesquisa

tions de marbre dans le baroque en Belgique’, Policromia. A Escultura Referências


Policromada Religiosa dos Séculos xvii e xviii. Actas do Congresso Ceulemans, C. Historiek van de stage,  Bulletin de l’Institut royal du Patrimoine artis-
Internacional Policromia em 2002, Lisboa, IPCR, 2004, p. 95-102, tique, 27 (1996/1998), Bruxelles, 2000, p. 208.
e ‘L’Ange Gardien et la Sainte Hélène de Cornelis Vander Veken Masschelein-Kleiner, L. Les cinquante ans de l’IRPA, Bulletin de l’Institut royal
du Patrimoine artistique, 27 (1996/1998), Bruxelles, 2000, p. 18 e 25.
(1666-1740). Analyses stylistique, technique et matérielle, traitement Archives KIK/IRPA – Bruxelas.
de conservation’, Bulletin de l’IRPA, 31, 2004/05 (2006).

A cooperação acadêmica, científica e técnica entre Bélgica e Brasil


Claude Misson

A s relações entre o Reino da Bélgica e a República Federativa


do Brasil sempre foram marcadas pelo respeito, pela amizade
e pela cooperação.
encontros. Esse acordo prevê, além disso, o desenvolvimento da
colaboração nos domínios das biociências, da agroindústria, da
engenharia mecânica, do transporte e da logística e, por último,
Após a Grande Guerra, em que o Brasil, neutro, defendeu a da aeronáutica e da espacial.
nossa integridade territorial, e a visita de Estado dos nossos So- Ainda em 2009, as visitas à Bélgica de representantes da Em-
beranos em 1920, sendo a primeira de um Rei e uma Rainha ao presa Brasileira de Pesquisa Agropecuária-Embrapa e de uma
Brasil republicano, deu-se um impulso que se traduziu por um importante delegação do Foro das Assessorias das Universidades
crescimento considerável dos nossos investimentos e das nossas Brasileiras para Assuntos Internacionais-Faubai ampliaram o co-
trocas comerciais. Se, hoje, estas trocas não correspondem ainda nhecimento mútuo e aceleraram a aproximação entre instituições
inteiramente ao potencial dos nossos dois países, convém observar dos nossos países.
que, de acordo com o Banco Central, a Bélgica situa-se entre os O interesse manifestado pelas duas partes para uma colabo-
mais importantes investidores no Brasil. ração mais intensa induziu as principais universidades belgas a
participar – fato inédito – de uma missão econômica presidida por
A cooperação acadêmica e científica S. A. R., o Príncipe Philippe (2010). Essa “estreia” foi valorizada
pelos encontros e seminários organizados em São Paulo, Rio de
Nestes últimos anos, foram nos domínios acadêmico e cientí- Janeiro, Belo Horizonte e Brasília; além disso, demonstrou a von-
fico que progressos essenciais foram registrados. A Bélgica atribui, tade das nossas universidades de reforçar as relações transatlânti-
com efeito, uma grande importância à cooperação com o Brasil cas. Sobretudo, sublinhou a relação necessária que deveria existir
nestes domínios e diferentes iniciativas foram tomadas para inten- entre a atividade acadêmica, a pesquisa e a economia.
sificar e reforçar as nossas relações. Procedendo de uma mesma lógica, esforços foram envidados
Nesse contexto, foram organizadas as primeiras visitas de tra- para estimular cooperações em setores de alta tecnologia. As pri-
balho dos presidentes do Conselho Nacional de Desenvolvimento meiras visitas à Bélgica do presidente da Agência Espacial Brasi-
Científico e Tecnológico-CNPq e da Coordenação de Aperfeiço- leira-AEB e em seguida do presidente da Comissão Nacional de
amento de Pessoal de Nível Superior-Capes. Os encontros com Energia Nuclear-CNEN permitiram constatar o interesse para
as autoridades belgas permitiram aos parceiros brasileiros desen- colaborações entre cientistas belgas e brasileiros nos domínios da
volver as principais linhas de ação para o futuro e conduziram à pesquisa espacial e da pesquisa nuclear.
assinatura, em 2009, dos acordos de cooperação entre o CNPq, Negociações entre a AEB e o Centre Spatial de Liège e, poste-
por um lado, e os seus homólogos belgas (FWO e FNRS-FRS), por riormente, entre a CNEN e o Centre d’Etudes Nucléaires (SCK-
outro lado. Estes acordos preveem, entre outras formas de colabo- -CEN) conduziram, primeiro, a um acordo sobre um programa
ração, a implementação de projetos comuns de I+D, o intercâm- de cooperação no domínio espacial (2009). Este cobre áreas como
bio de pesquisadores e de cientistas, a organização de seminários educação e formação nas ciências e técnicas espaciais, técnicas de
e outros encontros, assim como publicações científicas conjuntas. observação da Terra, concepção de instrumentos espaciais, testes
Foram seguidos, no mesmo ano, da assinatura de um acor- de instrumentos, cargas úteis e satélites, “nanossatélites estudan-
do entre a Capes e a Wallonie-Bruxelles International, que visa tes”, técnicas ópticas (metrologia, revestimentos ópticos, estrutura-
igualmente o financiamento e a implementação de um progra- ção de superfícies, concentração solar…) e tecnologias específicas
ma conjunto de intercâmbio de professores, de pesquisadores e ligadas ao espacial.
de estudantes entre as instituições de ensino superior e de pes- Em matéria de pesquisa nuclear, os esforços foram coroados
quisa. Para efetivar a cooperação, estão previstos instrumentos pela assinatura de um Memorando de Entendimento na presen-
como bolsas, projetos conjuntos de pesquisa e organização de ça de S. A. R., o Príncipe Philippe, quando de sua passagem por

149
parte 4 – colaboração científica

Brasília (maio de 2010). O texto aprovado estabelece as condições Center-APEC, merecia ser melhor estruturada. A fim de dar-lhe
para um programa de colaboração, a longo prazo, em domínios de um quadro formal e um caráter privilegiado, a Secretaria de Por-
pesquisa, como armazenamento de resíduos radiativos, dosimetria, tos assinava com o APEC – mais uma vez na presença de S. A.
corrosão, qualificação dos combustíveis, educação e formação e ir- R., o Príncipe Philippe – um acordo de cooperação técnica para
radiações. Uma missão anterior dos altos dirigentes do SCK-CEN a formação de pessoal e a troca de informações (maio de 2010).
ao Brasil (2011) detalhava as formas de colaboração nessas áreas. Esse acordo, renovado para um período de dois anos em julho de
A ação da Bélgica insere-se num quadro europeu mais amplo: 2011, permite a dezenas de especialistas familiarizarem-se com as
é neste contexto que deve ser colocada a nossa presença nas fei- técnicas modernas de gestão das operações portuárias mais diver-
ras Euro-Pós (2011) e Estude no Exterior (2012), que tinham por sas. Deveria, além disso, favorecer o desenvolvimento de investi-
objetivo apresentar aos estudantes universitários brasileiros uma mentos belgas no Brasil nesse setor.
larga gama de possibilidades de formação na Europa. À margem da visita oficial do Presidente Luis Inácio Lula
Diante destes sucessivos desenvolvimentos, não é, por conse- da Silva a Bruxelas (2009), os altos dirigentes do Ministério dos
guinte, surpreendente constatar que a Bélgica figure na primeira Transportes do Brasil efetuaram uma visita que lhes permitia
fila dos países parceiros quando do lançamento do ambicioso pro- estudar as técnicas e obras desenvolvidas na Bélgica para assegu-
grama brasileiro Ciência sem Fronteiras, que deve oferecer mais rar eficazmente o transporte de mercadorias por vias navegáveis.
de 100 mil bolsas em quatro anos a estudantes brasileiros que de- Começaram, então, negociações que levaram à conclusão de um
sejem completar sua formação em Ciências Exatas no estrangeiro. Protocolo de Intenções com os Governos regionais flamengo e va-
Este assunto foi abordado com detalhe, por ocasião da visita oficial lão (2011). Contemplava uma interação sobre, designadamente,
que a Presidente Dilma Rousseff realizou à Bélgica na inaugura- o Plano Diretor brasileiro de vias navegáveis, o projeto de canal
ção do festival Europalia Brasil (outubro de 2011). navegável, as construções, operação e manutenção das vias na-
O simpósio Belgium-Brasil Networking in Science, Technolo- vegáveis, os projetos de vias navegáveis ecologicamente corretas,
gy and Innovation for a Better Future, seguido de encontros entre o transporte multimodal. Foram igualmente previstos estágios de
os presidentes do FWO e do FNRS com o presidente do CNPq, formação e aperfeiçoamento de conhecimentos no domínio dos
entre o presidente da Capes e o representante do CNPq com re- transportes por vias navegáveis.
presentantes de todas as universidades belgas e, por último, um Para consolidar essas novas relações, o segundo Seminário Bel-
encontro entre as universidades e centros de investigação belgas go-Brasileiro de Vias Navegáveis foi organizado em Brasília, em
com delegações das associações Andifes e Abruem permitiram às abril de 2012.
duas partes discutir sobre as condições de futuros intercâmbios.
As negociações foram rapidamente iniciadas para tornar pos- Conclusão
sível, no princípio de 2012, a assinatura de acordos para o acolhi-
mento desses bolsistas na Bélgica. A sua progressiva implemen- Esperamos que estas diferentes iniciativas deem frutos e que
tação terá sido facilitada pelas conversações entre os Reitores de o movimento não somente seja mantido, mas também ampliado.
universidades brasileiras membros da Associação Brasileira dos Essas trocas têm um efeito muito importante para o futuro das nos-
Reitores das Universidades Estaduais e Municipais-Abruem e to- sas relações com este grande parceiro que é o Brasil. A esse respei-
dos os homólogos belgas quando da missão dos primeiros na Bél- to, é muito agradável sublinhar que, primeiro, o Presidente Luís
gica (em julho de 2012). Inácio Lula da Silva, quando de sua visita oficial em 2009, e, em
seguida, a Presidente Dilma Rousseff, quando de sua visita oficial
A cooperação técnica em 2011, manifestaram, pessoalmente, o interesse e prometeram
apoio a esta cooperação bilateral acadêmica, científica e técnica.
Note-se que a cooperação bilateral igualmente desenvolveu-se Não há nenhuma dúvida de que esta colaboração deva desenvol-
no domínio técnico. Tendo em conta a importância que represen- ver-se sempre mais, para maior benefício dos nossos dois países.
tam as infraestruturas de transporte nos nossos dois países, e tendo
em conta a experiência adquirida pela Bélgica durante séculos, Claude Misson é embaixador honorário da Bélgica. Jovem diploma-
pareceu útil organizar visitas de responsáveis brasileiros aos nossos ta sucessivamente em Jeddah e Brasilia, foi nomeado embaixador em
portos e infraestruturas fluviais. Abu Dhabi, Lisboa e Madrid; foi diretor geral do Institut Egmont
A formação de especialistas brasileiros em gestão portuária, em Bruxelas antes de encerrar a carreira em Brasília. Vive atualmen-
oferecida há mais de 20 anos por Antwerp/Flanders Port Training te em Madri.

150
parte 5 – influências ideológicas e religiosas

parte 5

Influências Religiosas
e Ideológicas

151
parte 5 – influências religiosas e ideológicas

152
Jesuítas belgas no Brasil colonial
Eddy Stols

‘S e existir um purgatório, deveria ser neste engenho entre tanta


gente ruim’, lançou Antonio Billiet aos companheiros em
Pernambuco por volta de 1590. Com este e outros ditos descrentes
sobre padres, missa, confissão ou imagens de santos, vários jovens
flamengos, marcados pelos questionamentos do humanismo e da
Reforma, desafiavam o catolicismo conformista dos portugueses
(Stols, 1988). Presos nas visitações da Inquisição em Pernambu-
co e na Bahia em 1592 e 1618 e remetidos ao tribunal de Lisboa,
foram lá assistidos por jesuítas conterrâneos seus. Foi apenas um
dos episódios em que se cruzaram os percursos religiosos do Brasil
e dos Países Baixos meridionais ou da atual Bélgica. Estes foram,
depois da tomada de Antuérpia em 1585 pelas tropas espanholas
de Alexandre Farnese, privados da liberdade de culto e reduzi-
dos à ortodoxia católica da Contra-Reforma. Na mesma época, as
vitórias portuguesas sobre os franceses e holandeses procuraram
purgar o Brasil do pluralismo religioso, ensaiado no seu primeiro
século de convivência entre gentios, cristãos, judeus e africanos.
Em ambas as partes, a nova ordem jesuíta tomou as rédeas
desta reconversão. Particularmente, as duas províncias jesuíticas
flandro-belga e galo-belga incentivaram, com novas igrejas bar-
rocas e devoções, o fervor e a ação missionários, que tomariam o
lugar do sonho medieval de cruzada e reconquista, frustrado pelo
avanço otomano com a tomada de Constantinopla.
A evangelização dos índios brasileiros apareceu no seu hori-
zonte, pelo menos desde a publicação em Lovaina em 1566 das
Cartas do jesuíta Manoel da Nóbrega (Cartas). Em Flandres, este
pedia livros que vinham de Lisboa para os estudos em seus colégios.
Sua igreja em Salvador (BA) estava, em 1567, ricamente decora-
da com ‘guademecis e mapas de Flandres’, ao passo que Nóbrega
comparou a paisagem brasileira a um tapiz de verdura flamenga.
O padre Anchieta vigiava a conduta dos feitores dos Schetz no
engenho deles em São Vicente, que, em contrapartida, enviaram
caixas com pinturas, estampas e imagens religiosas (Cartas; Laga).
Já em 1544, Inácio de Loyola enviou nove jesuítas belgas pa-
ra estudar em Coimbra. O primeiro a partir como missionário na
Bahia foi, em 1559, Joannes Dicius, que voltou logo em 1562 para Ilustração colorida do jesuíta Francisco Pinto entre os índios publicada no livro
Coimbra (Leite, I, passim). Em 1577 partiram mais dois, Gedeão de Cornelius Hazart.

153
parte 5 – influências religiosas e ideológicas

de Cristo e outras obras na sacristia da igreja de São Francisco


Xavier em Belém, Pará. Gastavam geralmente bastante tempo
aguardando a licença real, indispensável para padres estrangei-
ros, um barco e também na preparação de mantimentos para a
tripulação. Às vezes decidia-se lá mesmo a partida para a Índia
ou para o Brasil. Assim, Ferdinand Verbiest, o futuro astrônomo
da corte celestial em Pequim, destinou-se primeiro ao Brasil para
finalmente embarcar para a China. Para o Brasil, o rei deu licen-
ça a uma dezena de padres flamengos.
O mais influente deles foi João Felipe Bettendorff, luxembur-
guês e ingressado como noviço na província galo-belga dos jesuí-
tas (Arenz). Permaneceu quase todo o ano de 1658 em Lisboa, no
Colégio de Santo Antão, antes de partir para o Maranhão junto
com outro luxemburguês, Gaspar Misch. Subiu várias vezes pe-
lo Amazonas e passou por ser o fundador de Santarém na foz do
Tapajós. Com um bom olho para o potencial econômico, desco-
briu o uso do guaraná pelos índios, plantou o cacau silvestre e a
laranjeira da China e explorou as salinas.
Como seu confrade Antônio Vieira, Bettendorff disputava com
os moradores portugueses o monopólio da mão de obra indígena,
que os jesuítas pretendiam agrupar em aldeias e preservá-las das
influências maléficas. Bettendorff registrou as desavenças com os
colonos, como também com seus superiores e confrades e com o
próprio bispo do Maranhão, na Crônica da missão dos padres da
Companhia de Jesus no Estado do Maranhão, inédita até 1910.
Expulso em 1684 do Maranhão pelos colonos levantados por Be-
quimão, passou nova temporada em Lisboa, onde publicou em
1687 um Compendio da Doutrina Christam na lingua Portugueza
& Brasilica. Pelo beija-mão e pela oferta de um mapa do Amazo-
nas em repetidas visitas a D. Pedro II e à rainha Sofia Maria de
Neubourg, conseguiu ganhar sua confiança e negociar um novo
Regimento das Missões, que lhe permitiu finalmente voltar para o
Maranhão em 1688. Mais pragmático e disposto a compromissos
que Vieira, mostrou-se também mais cético a respeito do interesse
religioso dos índios.
Estampa colorida do jesuíta José de Anchieta publicada no livro de Cornelius Uma tese sobre a ação missionária, contrária à Vieira, foi de-
Hazart. fendida por outro padre nórdico, Jacobo Rolandus, que, fugido de
sua família protestante na Holanda e ingressado na ordem jesuíta
Lobo e João Baptista. Este último serviu primeiro no colégio de em Antuérpia, julgou a escravidão dos índios como mais segura
Olinda e posteriormente como superior em Ilhéus até 1599. Ja- para sua evangelização. Seu panfleto Apologia pro Paulistis, que
come do Vale, depois de sua entrada em 1594, estudou no Rio de lhe valeu como punição o exílio para a Ilha de São Tomé, o co-
Janeiro, mas deixou a Ordem em 1599. O protestante converso, locou em franca oposição a outro jesuíta flamengo e filho de um
João Baptista, ingressado na Ordem em 1606 em Olinda, foi ativo mercador de Antuérpia, Josse Van Suerck, aliás Mansilla. Este
como pintor, falecendo em 1609. foi em 1629 denunciar em São Paulo e até em Salvador ao go-
Até meados do século XVIII mais algumas dezenas de belgas vernador ‘las crueldades y tiranias de los Portugueses’ dos bandei-
rumaram para o Brasil ou para as reduções fronteiriças do Para- rantes paulistas liderados por Amador Bueno e Raposo Tavares,
guai através de Lisboa, onde a residência dos confrades portugue- que invadiram as reduções jesuíticas na região do Guaíra (Anais
ses era uma espécie de filial da Ordem. Lá mesmo, dois belgas do Museu Paulista; Furlong). Não somente roubaram camisa, al-
entraram na Ordem: em 1619 Remacle Le Gott, aliás Inácio La- mofada, guardanapo e garfo do missionário, mataram em plena
gott, nativo de Marche-en-Famenne, que partiu para o Brasil em quaresma porcos e galinhas, fazendo festa noturna com tambor e
1628, produziu pinturas na Bahia e voltou expulso de Pernam- cornos e zombando dos padres como ‘pobretones’, além de leva-
buco pelos holandeses, e em 1639 o irmão Baltasar de Campos, rem também seus índios evangelizados. Os conflitos dos jesuítas
nativo de ‘s-Hertogenbosch, a quem é atribuído o quadro Vida com os paulistas não cessaram e foram divulgados na Europa pelas

154
parte 5 – influências ideológicas e religiosas

Litterae Annuae, as cartas ânuas destes padres. Na mesma época, três vezes amarrado para ser morto pelos Bárbaros’. A última vez,
fundaram-se novas missões, como Santo Ângelo pelo flamengo já amarrado nu num tronco de árvore, foi salvo pelos neófitos. Es-
Diogo de Haze em 1706. tes ameaçaram os bárbaros com o relâmpago, que os mataria se
Nem todos os jesuítas belgas destinados às missões do Paraguai não desamarrassem o padre. Acreditaram, e vários se converteram.
falaram mal dos portugueses. Um deles, o músico e pintor Louis Este imaginário de índios selvagens e de milagres jesuíticos
Berger, se gabou em janeiro de 1617 da boa recepção em Lisboa, foi manipulado pelos confrades belgas para suscitar um culto a
onde ‘querem bem à Nação flamenga’ e, na escala da Bahia, onde Anchieta com livros como a tradução francesa de sua biografia,
‘os padres ao par de nossa chegada foram ao nosso encontro com um La vie miraculeuse du P. Joseph de la compagnie de Jésus, do pa-
barco’ (Histoire du massacre). Antes tiveram a agradável surpresa dre Pedro Rodrigues, aumentada pelo padre Sébastien Beretaire
que ‘à quase uma légua de distância do porto nosso navio foi cerca- (Douai, 1619), e com as relíquias de seus escritos, conservados
do por uma armada de jangadas, feitas cada uma de três peças de em Antuérpia ainda no final do século XIX (Kieckens). Inspirou
madeira, e algumas de uma peça só escavada como uma selha onde estampas como as de Abraham a Diepenbeke na Kerckelycke His-
comem os cavalos. Em cada barquinho tinha um brasileiro e um toriae van de gheheele wereldt, de Cornelius Hazaert (Antuérpia,
negrinho que pescavam e era coisa admirável como ficavam em pé 1652-1671). A visão de um Brasil perigoso e propício ao enaltecido
sobre estes paus. Fizemos entrar alguns no nosso navio, que saíram martírio se fortaleceu ainda mais com a passagem por Antuérpia
muito contentes com os presentes que lhes fizemos’. No porto, des- dos jesuítas portugueses, presos pelos piratas ingleses ou holande-
carregou-se muita artilharia e Berger foi honrar a sepultura de José ses na Bahia, em 1624, e em Pernambuco, em 1630, e resgatados
de Anchieta: ‘Tinha ouvido falar de sua vida e miráculos, quando pelos confrades flamengos.
eu estava em Tournai. É nada em comparação com as maravilhas O prestígio dos jesuítas deve ter incitado a nova ordem dos
que contam aqui deste santo padre. Tenho uma carta escrita de sua capuchinhos a lançar-se na evangelização do Brasil com uma pri-
própria mão junto com um pedaço de osso, de roupa e camisa que meira participação na expedição colonial dos franceses no Mara-
me deu o padre reitor daqui’. Ouviu lá mais notícias sobre o padre nhão. A província belga dos capuchinhos se deixou seduzir pelas
Francisco Pinto, ‘martirizado pelos Bárbaros, e beijei o bastão com perspectivas na África, mas recorreu para chegar lá às conexões
o qual lhe romperam a cabeça... os Bárbaros não querem devolver entre Lisboa, Recife e Angola, uma ligação triangular recorrente
o corpo, que veneram muito. Quando falta chuva nas suas lavras, nas relações entre a Bélgica e o Brasil. O continente africano con-
rezam para este padre’. Falou ainda ‘com um bom padre, que já foi tinuaria presente em filigrana na evangelização belga do Brasil.

As missões flamengas no Congo e a cultura afro-brasileira


Jeroen Dewulf

A ligação mais conhecida entre a Bélgica e o Brasil no que diz


respeito à cultura negra é, sem dúvida, o Terreiro do Gantois.
Este famoso terreiro do candomblé Gêge-Nagô em Salvador, na
Retrato de
missionário
flamengo no
Congo.
Bahia, deve seu nome ao proprietário belga – oriundo da cidade
de Gand – do terreno onde o templo religioso foi construído em
1849 sob direção da ialorixá Maria Júlia da Conceição Nazaré.
A ligação belgo-brasileira no contexto da cultura negra vai,
porém, muito além deste detalhe curioso. Também as atividades
missionárias flamengas na África Central no século XVII influen-
ciaram de forma indireta a cultura negra no Brasil. Missionários
flamengos contribuíram não só para o desenvolvimento de uma
variante africana do catolicismo mas até causaram o envio da
população inteira de uma aldeia africana como escravos para
o Brasil. Hoje, muitos milhares de brasileiros são descendentes
de um grupo de africanos levados para o outro lado do Oceano
Atlântico devido a uma tragédia que tinha como figura central
um missionário flamengo.
A chegada de missionários flamengos ao Reino do Congo –
que correspondia a um território que hoje se situa junto à frontei-

155
parte 5 – influências religiosas e ideológicas

sua chegada, em 1651, adoeceu e morreu de febre. Van Geel se


manteve com boa saúde, mas rumores sobre o envolvimento de
capuchinhos numa conspiração impediu o início de sua missão.
Van Geel aproveitou o tempo para levar a cabo uma obra que aca-
bou por ter uma importância histórica: a transcrição do primeiro
dicionário da língua bantu, elaborado pelo mulato congolês Ma-
nuel Roboredo, o Vocabularium kongoense, hispanicum et latinum
(1648). Quando sua missão foi finalmente liberada, van Geel foi
mandado para a área de Matari.
A chegada a Matari foi uma desilusão. O capuchinho flamen-
go não podia aceitar que o catolicismo que se tinha desenvolvido
no Congo representasse uma variante africana dessa religião. Para
os congoleses, o catolicismo não funcionava como substituto da(s)
O missionário incendeia a cabana de um feiticeiro em um manuscrito anônimo velha(s) crença(s), mas, antes, como um complemento. O tipo
do início do século XVIII. de religião que van Geel encontrara era, de fato, uma espécie de
catolicismo creolizado. Enquanto a presença de elementos afri-
ra de Angola com a República Democrática do Congo – foi uma canos no catolicismo congolês pouco preocupara aos missionários
consequência direta da política colonial portuguesa que combi- portugueses, para van Geel tal mistura era inaceitável.
nava a expansão militar com a expansão religiosa. A procura de Profundamente influenciado pelo espírito intransigente da
aliados na África subsaariana por parte dos portugueses levara a Contra-Reforma na sua nativa Flandres, van Geel iniciou uma
um pacto com o rei do Congo, ou Manikongo, Nzinga a Nkuwu campanha feroz de purificação do catolicismo congolês, decisão
em 1485 (Vansina). Seu filho Mvemba a Nzinga (c.1456-c.1542) esta que selaria sua sorte. Indignado pelo fato de van Geel ter incen-
foi responsável pela espetacular expansão do catolicismo no Con- diado um local de culto tradicional, a população da aldeia de Ulo-
go. Adotando o nome lusitano de Afonso I, o jovem rei mandou lo espancou o missionário até levá-lo à morte, alguns dias depois.
construir igrejas e capelas, fabricar crucifixos, rosários e estátuas A tentativa por parte dos ololenses de evitar um castigo levan-
de santos, observar festas religiosas e fundar irmandades (Newitt, do o corpo para fora da área foi em vão. O Rei Garcia II, que não
2010). Encorajada por este sucesso surpreendente, a ambição por- queria ver a missão capuchinha comprometida, decidiu impor a
tuguesa de espalhar o cristianismo nos quatro cantos do mundo, punição máxima e condenou a população inteira da aldeia, umas
no contexto de sua política colonizadora, recebeu grande supor- 200 pessoas, à morte. Após a insistência dos capuchinhos, que
te por parte do Vaticano. Isto explica a atribuição ao Reinado de alegavam que van Geel, antes da sua morte, tinha perdoado a po-
Portugal do padroado na África Central por parte do Papa Leão pulação, o rei congolês revisou sua sentença e decidiu vender os
X, em 1514, dando-lhes o direito exclusivo de representar a Igreja habitantes como escravos. Todos eles foram então transportados
Católica nessa parte do mundo (Thornton, 1992). para o Brasil (Hildebrand).
Os reis do Congo rapidamente perceberam que o padroado Não foram estes os únicos missionários flamengos que che­
lhes impunha uma situação de dependência total de Portugal em garam ao Congo no século XVII. Outra missão, desta vez com-
assuntos religiosos e que os portugueses se aproveitavam dessa posta por três franciscanos, foi à África Central a pedido do prín-
situação para, gradualmente, aumentar sua influência na região, cipe de Soyo. Os príncipes de